UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA Caroline Maria Ferreira Drummond Exílio, literatura, intelectuais e política em Mariel – Revista de Literatura y Arte (1983-1985) Belo Horizonte 2018 Caroline Maria Ferreira Drummond Exílio, literatura, intelectuais e política em Mariel – Revista de Literatura y Arte (1983-1985) Dissertação apresentada ao Programa de Pós- graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito para a obtenção do título de Mestre em História. Área de Concentração: História, Tradição e Modernidade Linha de Pesquisa: História e Culturas Políticas Orientadora: Prof.ª Dr.ª Adriane Vidal Costa Belo Horizonte Dezembro de 2018 972.91064 D795e 2018 Drummond, Caroline Maria Ferreira Exílio, literatura, intelectuais e política em "Mariel - Revista de Literatura y Arte" (1983-1985) [manuscrito] / Caroline Maria Ferreira Drummond. - 2018. 203 f. Orientadora: Adriane Aparecida Vidal Costa. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Inclui bibliografia. 1.História – Teses. 2. Cuba – Exílio – Teses. 3.Marie : Revista de Literatura y Arte. l. 4.Intelectuais - Teses. I. Costa, Adriane Aparecida Vidal . II. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título. Resumo Mariel – Revista de Literatura y Arte foi fundada em 1983, em Miami, por escritores cubanos exilados nos Estados Unidos durante o exílio massivo de Mariel (1980), e circulou até 1985 nos Estados Unidos, América Latina e Europa. Seu Conselho de Direção foi composto pelos escritores Reinaldo Arenas, Reinaldo García Ramos, e pelo artista plástico e escritor Juan Abreu. Como revista literária, um de seus principais objetivos foi divulgar a literatura e a arte cubanas, principalmente a produzida por escritores da autodenominada “geração de Mariel”, colocando-se como elo identitário entre esses artistas. A publicação congregou também dissidentes que deixaram a ilha nas décadas de 1960 e 1970, como a reconhecida antropóloga cubana Lydia Cabrera e participantes do projeto editorial El Puente. O projeto editorial coletivo era oposicionista ao regime revolucionário cubano, e declarava-se anticomunista, antitotalitário, defensor da democracia e das liberdades individuais, possuindo pujante caráter de denúncia. Em nosso estudo, analisamos como os intelectuais que colaboraram com a revista debateram o exílio, a função do intelectual e da literatura, o regime revolucionário cubano e a identidade nacional. Nossa proposta central é compreender a trajetória do projeto editorial coletivo e como esse constituiu uma oposição política ao governo revolucionário cubano durante o exílio nos Estados Unidos. Dessa forma, reconstituímos as formas de financiamento da revista, as redes de sociabilidade estabelecidas e como seus colaboradores dialogaram com o editorialismo programático do projeto. Palavras-chave: Revolução Cubana; exílio; Revista Mariel; intelectuais. Abstract Mariel – Revista de Literatura y Arte was founded in 1983 in Miami by Cuban writers exiled in the United States after the massive exile of Mariel (1980), and circulated until 1985 in the United States, Latin America and Europe. Its Board of Directors was composed by the writers Reinaldo Arenas, Reinaldo García Ramos, and by the plastic artist and writer Juan Abreu. As a literary magazine, one of its main objectives was to divulge Cuban literature and art, especially the one produced by writers of the self- proclaimed Mariel generation, placing itself as an identity link between these artists. The publication also brought together dissidents who left the island in the 1960s and 1970s, such as the renowned Cuban anthropologist Lydia Cabrera and participants in the El Puente editorial project. The collective editorial project was opposed to the Cuban revolutionary regime, and declared itself anti-communist, anti-totalitarian, defender of democracy and individual liberties, possessing strong character of denunciation. In our study, we aimed to analyze how the intellectuals that colaborated in the magazine debated the exile, the function of the intelectual and literature, the Cuban revolutionary regime and the national identity. Our central proposal is to understand the trajectory of the collective editorial project and how it constituted a political opposition to the Cuban revolutionary government during exile in the United States. In this way, we reconstituted the funding forms of the magazine, the sociability networks established and how its collaborators dialogued with the programmatic editorialism of the project. Keywords: Cuban Revolution; exile; Mariel magazine; intellectuals. Agradecimentos A conclusão deste trabalho só foi possível devido à colaboração e ao auxílio de várias pessoas. Agradeço à minha orientadora, Adriane Vidal Costa, pelas ótimas aulas, sugestões, críticas e imensas generosidade e paciência. Aos meus pais, Maria do Carmo e José Marcos, pelo apoio e carinho. Aos queridos e queridas Caio Souza, Francisco Ferreira, Gis Vilas Boas, Kayane Zanini, Lara Sousa e Rafael Magalhães. Obrigada pelo bom humor, leveza e lucidez. À minha sobrinha, Clarinha, pelos maravilhosos diálogos e momentos de descontração em meio ao caos. Aos colegas da UFMG, do grupo de pesquisa “Dimensões culturais e políticas do exílio latino-americano” e do Núcleo de Pesquisa em História das Américas (NUPHA) pelos debates e trocas de ideias. Em especial, a Thiago Henrique Oliveira Prates, que me ajudou a acessar parte das fontes documentais para esta pesquisa. Aos professores Giliard Prado e Kátia Gerab Baggio pelas valiosas colaborações ao meu trabalho durante a banca de qualificação. Ao professor Jesús J. Barquet pelas indicações bibliográficas e disponibilidade em colaborar com a minha pesquisa. À Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa concedida. Por fim, agradeço à minha avó Clarice, a quem dedico este trabalho. Sumário Introdução........................................................................................................................1 Capítulo 1: O exílio e a criação da revista Mariel.........................................................19 1.1 – O exílio cubano: das guerras de Independência no século XIX à invasão da Embaixada do Peru em 1980......................................................................................19 1.2 - A criação de Mariel – Revista de Literatura y Arte...................................................34 1.3 – As críticas ao regime revolucionário cubano...........................................................56 Capítulo 2: Exílio, intelectuais e dissidência política...................................................78 2.1 – Condição exílica e fragmentação da identidade.....................................................78 2.2 – A ressignificação do exílio massivo de Mariel.........................................................88 2.3 – Os debates sobre a função do intelectual e da literatura..........................................113 Capítulo 3: Confluencias: o “contra-cânone” da literatura cubana.........................134 3 – Confluencias: memórias e identidade nacional em disputa.......................................134 3.1 – José Martí e a literatura do século XIX..................................................................138 3.2 – José Lezama Lima,Virgilio Piñera e o “insílio” cubano.........................................151 3.2.1 – Lezama Lima e a autenticidade intelectual.........................................................152 3.2.2 – Virgilio Piñera: o anti-herói tropical...................................................................160 3.3 – “Esquecidos” pela Revolução: Gastón Baquero e Carlos Montenegro..................168 3.3.1 – Carlos Montenegro e a “literatura da marginalidade”.........................................169 3.3.2 – A “cubanía criolla” de Gastón Baquero .............................................................175 Considerações finais....................................................................................................186 Anexos...........................................................................................................................188 Referências documentais e bibliográficas..................................................................189 1 Introdução Em janeiro de 2017, a administração Barack Obama, durante o processo de aproximação entre Cuba e os Estados Unidos, revogou a política de “pés secos e pés molhados”. Adotada em 1995, durante a crise dos balseros, a política concedia asilo automático a todos os cubanos que, não sendo encontrados em alto-mar, alcançassem terras norte-americanas. A revogação foi um passo importante em direção ao arrefecimento da imigração ilegal cubana através do estreito da Flórida. Desde a década de 1960, as políticas migratórias dos Estados Unidos em relação à Cuba foram marcadas pelo viés anticomunista, de modo a conceder asilo político, indiscriminadamente, a todos aqueles que o requeriam. Por sua vez, o regime revolucionário cubano, ao longo dos anos, utilizou-se dos exílios massivos1 como válvulas de escape para os insatisfeitos com o governo. Entre abril e setembro de 1980, cerca de 125.000 cubanos deixaram a ilha rumo aos Estados Unidos, durante o exílio massivo de Mariel, entre os quais havia jovens escritores, artistas plásticos e poetas que não se enquadravam na restritiva política cultural adotada pela Revolução durante a década de 1970. O objetivo deste trabalho é investigar como esses intelectuais - autodenominados geração de Mariel - constituíram uma oposição política ao governo revolucionário cubano por meio de um projeto editorial coletivo no exílio nos Estados Unidos: Mariel – Revista de Literatura y Arte. Investigamos os discursos construídos sobre a experiência exílica, os debates acerca da função do intelectual e da identidade nacional, e as principais críticas tecidas ao regime revolucionário cubano na revista. Mariel – Revista de Literatura y Arte foi fundada em 1983, em Miami, e circulou até 1985 nos Estados Unidos, América Latina e Europa. Seu Conselho de Direção era composto pelos escritores Reinaldo Arenas, Reinaldo García Ramos, e pelo artista plástico e escritor Juan Abreu. Já o Conselho Editorial, além dos escritores supracitados, era formado também pelos cubanos Carlos Victoria, Roberto Valero, René Cifuentes e Luis de La Paz. As atividades administrativas ficavam a cargo da escritora Marcia 1 Camarioca (1965); Mariel (1980); Balseros (1994). 2 Morgado2, e a reconhecida antropóloga cubana Lydia Cabrera3, exilada em Miami ainda nos primeiros anos da Revolução Cubana, atuou como assessora da publicação, somando significativo capital cultural à revista. Analisamos os 8 números da primeira fase4 da revista Mariel não somente como fonte, mas sim como objeto de nossa investigação, visando compreender o projeto editorial representado pela publicação de maneira ampla. Nosso recorte temporal é de 1983 a 1985 e se justifica por ser o período de publicação da revista. Além da revista Mariel, utilizamos também a documentação do arquivo da revista, doada por Reinaldo García Ramos, um dos diretores da publicação, para a Cuban Heritage Collection da University of Miami. Esse arquivo é composto por correspondências recebidas e enviadas, textos internos, manuscritos não publicados, mailing list, lista de assinantes, pedidos de financiamento, regras e contatos para publicação de anúncios na publicação, documentos administrativos, contatos institucionais, recortes de jornais, conteúdo de uma exposição sobre o exílio massivo de Mariel, e registros bancários. Como suporte para as fontes principais, utilizamos entrevistas, correspondências do acervo da Cuban Heritage Collection, obras literárias, ensaios e memórias dos diretores da revista, em especial Antes que anoiteça e Necesidad de libertad, de Reinaldo Arenas; A la sombra del mar e Debajo de la mesa, de Juan Abreu; e Una medida inexacta, de Reinaldo García Ramos. Como revista de cultura, um dos principais objetivos de Mariel foi divulgar a literatura e a arte cubanas, principalmente a produzida por marielitos5, colocando-se como elo identitário entre os intelectuais dessa geração, e conformando um ambiente de sociabilidade intelectual que congregou também dissidentes que deixaram a ilha nas décadas de 1960 e 1970, especialmente escritores relevantes da Primeira República 2 De acordo com Juan Abreu, a presença de Marcia Morgado, a única escritora educada e crescida nos Estados Unidos, foi essencial para o êxito da revista. "Sin ella Mariel nunca hubiese sido lo que fue". ABREU, Juan. A la sombra del Mar: jornadas cubanas con Reinaldo Arenas. Editorial Casiopea, 1998, p. 16. 3 “Lydia Cabrera foi uma espécie de fada madrinha da revista”. Tradução nossa. ABREU, Juan. A la sombra del Mar: jornadas cubanas con Reinaldo Arenas. Editorial Casiopea, 1998, p. 17. 4 Devido a problemas financeiros e divergências internas, a revista Mariel deixou de ser publicada em 1985. Entretanto, em 1986, Marcia Morgado, Juan Abreu e Reinaldo Arenas relançaram a publicação, agora bilíngue, com o nome de Mariel Magazine. A nova revista foi publicada até 1988. Não trabalharemos com a segunda fase da revista, pois não conseguimos digitalizar essas fontes, localizadas em acervos de universidades dos Estados Unidos. 5 “Marielito” é um termo criado nos Estados Unidos, na década de 1980, para se referir àqueles que chegaram de Cuba pela ponte marítima Mariel-Cayo Hueso. Na época, o termo era utilizado de forma pejorativa. Neste trabalho, utilizaremos “marielito” para nos referirmos àqueles que integraram o exílio massivo e “marielista” para nos referirmos aos envolvidos na revista Mariel, pois consideramos que a revista não era representativa de todo o exílio massivo. 3 cubana, como Lydia Cabrera, Carlos Montenegro, Enrique Labrador Ruiz e Gastón Baquero, e participantes do projeto editorial El Puente6, como Isel Rivero e Ana María Simo. Acadêmicos de instituições estadunidenses, principalmente professores e estudantes dos departamentos de língua espanhola e literatura ibero-americana, como Enrico Mario Santí e Carlos Rippoll, também compuseram a rede intelectual conformada ao redor de Mariel, assim como artistas plásticos e curadores de arte. A publicação era claramente oposicionista ao regime revolucionário cubano, e declarava-se anticomunista, antitotalitária, defensora da democracia e das liberdades individuais, possuindo pujante caráter de denúncia. A revista constituiu-se fundamentalmente como espaço de crítica ao governo revolucionário cubano, tendo a denúncia das perseguições vividas em Cuba, das violações aos direitos humanos e da falta de liberdades individuais na ilha como uma característica marcante de sua linha editorial. O Conselho de Direção da revista era formado por Juan Abreu (Havana, 1952), Reinaldo Arenas (Holguín, 1943-1990) e Reinaldo García Ramos (Cienfuegos, 1944). Reinaldo Arenas foi um escritor de poesias, novelas e teatro, e é considerado por muitos como um dos maiores ícones de sua geração, tendo influenciado vários outros escritores. Em meados da década de 1960, vivia em Havana e trabalhava na Biblioteca Nacional José Martí, onde convivia com vários outros escritores, como Eliseo Diego, José Lezama Lima, Cintio Vitier, Virgílio Piñera e Fina García Marruz, que o apoiavam em sua criação literária.7 Tornou-se um escritor conhecido no meio literário, mas não entre a maioria da população cubana.8 Em 1965, foi premiado com o segundo lugar no concurso da Unión Nacional de Escritores y Artistas Cubanos (Uneac), com seu romance Celestino antes del alba, publicado em 1967. Apesar de inicialmente ter apoiado a Revolução Cubana, 6 El Puente surgiu por iniciativa do escritor José Mario, em 1961, ao buscar um espaço independente para publicações inéditas de jovens, em sua maioria, nascidos na década de 1940. Muitos dos autores da casa editorial eram negros, mulheres, homossexuais e/ou de origem social humilde, apontando para o caráter aberto e polêmico da editora, que buscava dar voz a setores tradicionalmente esquecidos da população cubana. El Puente funcionou de maneira independente das casas editorais estatais controladas por funcionários do governo cubano até 1965, quando foi fechada por decisão do regime revolucionário. Publicaram um total de 37 obras literárias: 25 livros de poesia, 8 de contos e 4 de teatro. MISKULIN, Silvia. Las Ediciones El Puente y la nueva promoción de poetas cubanos. In: BARQUET, Jesús. Ediciones El Puente en La Habana de los años 60. Chihuahua: Ediciones del Azar, 2011, p. 17. Sobre as Ediciones El Puente, ver: MISKULIN, Sílvia Cezar. Os intelectuais cubanos e a política cultural da Revolução (1961- 1975). São Paulo: Alameda, 2009. 7 Cf. MISKULIN, Silvia. Outro olhar sobre a Revolução Cubana: a trajetória e obra de Reinaldo Arenas na revista Vuelta. Revista Brasileira do Caribe, Brasília, Vol. X, nº19. Jul-Dez 2009, p. 191-208. 8 Cf. Ibid. 4 tornou-se dissidente e grande crítico do regime revolucionário, principalmente a partir de fins da década de 1960. Na época, conseguiu contrabandear alguns de seus manuscritos para fora do país, como El Mundo Alucinante, publicado no México em 1968. A obra, censurada e não publicada na ilha por suas passagens homoeróticas, teve grande repercussão internacional. Na França, recebeu o prêmio Médicis de melhor livro estrangeiro em 1968. O reconhecimento internacional, porém, fez com que Arenas fosse ainda mais perseguido pela polícia cubana, que tentava descobrir como suas obras eram enviadas para o exterior. O escritor precisou esconder seus manuscritos ou pedir a amigos que o fizessem. Recebeu vários convites do exterior, tanto da Europa como dos Estados Unidos, para dar palestras sobre sua obra, mas o governo nunca autorizou a sua saída. Sofreu perseguições pelo governo cubano também por ser homossexual assumido9. Em 1974, foi preso, acusado de “escândalo público” e comportamento imoral. Vários de seus manuscritos foram confiscados pelo governo10. Quando saiu da prisão, em janeiro de 1976, não tinha onde viver nem onde trabalhar. Ficou sem lugar fixo durante um ano, até que, em 1977, um amigo o abrigou em sua casa, onde viveu até 1980.11 Após o exílio, rechaçou o clima da comunidade de exilados de Miami e se estabeleceu em Nova York. Durante a década de 1980, ministrou cursos e palestras em universidades, como na Universidade Internacional da Flórida, e viajou para a Venezuela, Suécia, Dinamarca, Espanha, França e Portugal. Em 1988, juntamente com Jorge Camacho, pintor cubano exilado em Paris, escreveu uma carta aberta a Fidel Castro, que contou com 163 assinaturas de artistas, escritores e atores, solicitando-lhe um plebiscito na ilha para determinar a continuidade ou não do regime. Foi diagnosticado como HIV positivo no final daquela década e cometeu suicídio em 1990. Em sua carta de despedida, afirmou que escrevia para lutar contra o regime cubano: Queridos amigos: debido al estado precario de mi salud y a la terrible depresión sentimental que siento al no poder seguir escribiendo y luchando por la libertad de Cuba, pongo fin a mi vida. Les dejo pues como legado todos mis terrores, pero también la esperanza de que pronto Cuba será libre. Me siento satisfecho 9 A homossexualidade era considerada um “desvio”, uma “atividade de caráter antissocial” e um “resquício do passado capitalista e burguês”. A política de perseguição homofóbica efetivou-se, por exemplo, com prisões e internamentos de homossexuais nas Unidades Militares de Ayuda a la Producción (UMAPs), que funcionaram como campos de trabalho forçado e “reeducação” para os “desviados” ideológicos e sexuais de 1965 a 1968. Cf. MISKULIN, Sílvia Cezar. Os intelectuais cubanos e a política cultural da Revolução (1961- 1975). São Paulo: Alameda, 2009. 10 Cf. MISKULIN, Silvia. Outro olhar sobre a Revolução Cubana: a trajetória e obra de Reinaldo Arenas na revista Vuelta. Revista Brasileira do Caribe, Brasília, Vol. X, nº19, p. 191-208, Jul-Dez 2009. 11 Cf. Ibid. 5 con haber podido contribuir aunque modestamente al triunfo de esa libertad. [...] Ninguna de las personas que me rodean están comprometidas en esta decisión. Sólo hay un responsable: Fidel Castro.12 Reinaldo García Ramos, poeta e escritor licenciado em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Havana, integrou o projeto editorial independente El Puente na Havana da década de 1960, juntamente com os escritores José Mario, Ana María Simo, Isel Rivero, Nancy Morejón e Belkis Cuza Malé. Seu primeiro poemário, Acta, foi publicado em El Puente em 1962. Com o encerramento das edições por iniciativa do regime revolucionário cubano, em 1965, seu próximo livro só seria publicado 25 anos mais tarde, já no exílio nos Estados Unidos. Entre 1965 e 1980, escreveu cinco poemários: Urí-Urá (1966), Los Viajeros (1969-1974), Personajes que pasan (1972-1974), El ánimo animal (1975) e Lugar Sitiado (1976), porém não os apresentou a nenhuma editora ou periódico, pois não possuía esperança que fossem publicado. A maioria dos manuscritos originais foram extraviados em Havana, porém conseguiu recuperar alguns textos, que incluiu no livro El Buen Peligro, publicado em Madri, em 1987, e que recolhe também seus primeiros poemas escritos no exílio. Em 2006, recebeu o XI Premio Internacional de Poesía Luys Santamarina Ciudad de Cieza por seu livro Obra del fugitivo. Atualmente vive em Miami e escreve para periódicos online de oposição ao regime revolucionário cubano, como Diario de Cuba13. Sobre a relevância de Mariel para os escritores cubanos recém-chegados aos Estados Unidos em 1980, afirmou em entrevista de 2012: La revista Mariel, publicada en Nueva York y Miami entre 1983 y 1985, fue también como un bote de rescate para los escritores y artistas que habíamos llegado en 1980. Nos salvó de otro naufragio terrible: el causado por la hostilidad, los prejuicios y la indiferencia con que ciertos medios culturales y cierta prensa de EEUU, tanto en español como en inglés, recibieron a los integrantes del éxodo. Muchos de esos medios cayeron así en la trampa que les había tendido el Gobierno castrista cuando decidió meter en los barcos de Mariel a cientos de delincuentes comunes y enfermos mentales. Por eso a los escritores y artistas de Mariel nos resultó difícil dar a conocer nuestra obra en los primeros años, después de salir de Cuba. Reinaldo Arenas fue el primero que comprendió que los "marielitos" necesitábamos un medio propio e independiente para difundir nuestras obras y nuestro mensaje. Él fue quien nos aglutinó en torno al proyecto de la revista y me siento orgulloso de que me haya invitado a participar.14 12 ARENAS, Reinaldo. Antes que anoiteça. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009, p. 377. 13 www.diariodecuba.com 14 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. In: GÁLVEZ, JOAQUÍN. Reinaldo García Ramos: He tratado de leer con la mayor inocencia posible. Diario de Cuba, Miami, 7 jul. 2012. Disponível em: . Acesso em: 2 fev. 2018. 6 Juan Abreu, escritor e artista plástico, convivia na Havana da década de 1970 com Arenas e outros escritores que posteriormente vieram a escrever ou compor o Conselho de Editores de Mariel, como seus irmãos Nicolás Abreu e José Abreu Felippe, e Luiz de La Paz. Os jovens reuniam-se no Parque Lênin no início dos anos 70 para realizar tertúlias, e fundaram a revista literária clandestina Ah, la marea, datilografada de forma rudimentar e distribuída de mão em mão. A publicação, que representava um espaço para publicarem e se expressarem livremente, sobreviveu somente por dois números, com tiragem de três exemplares cada. Nessa época, dois escritores representavam a dignidade e a integridade intelectual para os marielistas: José Lezama Lima e Virgílio Piñera. Outro, após sua retratação forçada na UNEAC15, passou a ser considerado um traidor por Juan Abreu: Heberto Padilla. Abreu também não esperava nada em termos de exemplo ético de escritores como Alejo Carpentier ou Nicolás Guillén.16 De acordo com relatos dos irmãos Abreu e de Arenas, Ah, la marea seria a semente que, uma década depois e já no exílio nos Estados Unidos, daria origem ao nosso objeto de pesquisa: Al regresar a Miami [...] fundamos la Revista Mariel de Arte y Literatura. La concebimos pensando en nuestra Ah, la marea, del Parque Lenin. Sentados junto a un turbio canal, en un pequeño parque de la ciudad de Hialeah, retomamos el sueño. Le pusimos Mariel porque nos pareció un nombre hermoso, redondo y sonoro, y porque para nosotros simbolizava la puerta por la que escapamos a la libertad. También porque llamándola así tal vez ayudáramos a cambiar algo la temible imagen de los marielitos. El nombre fue un obstáculo para conseguir dinero: nos decían que una revista llamada de esa forma sería asociada con delincuentes. [...] Todos los editores y directores poníamos cien dólares o lo que tuviésemos. De más está decir que resultaba una cantidad considerable para cualquiera de nosotros. Algunos amigos generosos también ayudaron. Muchos publicábamos por primera vez y la revista constituyó una oportunidad extraordinaria y una aventura estimulante. Nos proponíamos, y lo conseguimos en parte, ser un vehículo para todos los escritores cubanos, independientemente del momento en que salieron de la isla.17 Como transparece nas memórias de Abreu, Mariel ultrapassou em muito a proposta de Ah, la marea, afinal, a experiência do exílio proporcionou à revista e a seus editores outras possibilidades e fomentou novos objetivos, como a congregação de escritores cubanos exilados de outras gerações em suas páginas, a crítica à intelectualidade simpática à Revolução, a denúncia do autoritarismo do regime durante o 15 Durante o caso Padilla, que abordaremos posteriormente. 16 ABREU, Juan. A la sombra del Mar: jornadas cubanas con Reinaldo Arenas. Editorial Casiopea, 1998, p. 11. 17 Ibid, p. 16. 7 quinquenio gris18, das violações aos direitos humanos e das práticas homofóbicas19 em Cuba. Segundo as memórias de Reinaldo Arenas: Deveria ser uma revista de causar impacto entre os próprios exilados e, é claro, surpreender Fidel Castro. Irreverente, a revista se metia com todo mundo, rendia homenagens aos grandes escritores, desmascarava os hipócritas, combatia a moral burguesa dominante em Miami. Dedicamos um número ao homossexualismo em Cuba, incluindo entrevistas com pessoas que eram vítimas de preconceito de sociedades conservadoras e reacionárias, como as de Miami e de grande parte dos Estados Unidos. A revista não foi bem-recebida, exceto por um pequeno grupo de intelectuais liberais. Logicamente, não podia ser bem-recebida pela esquerda festiva dos Estados Unidos, pelos hipócritas dessa esquerda, nem pelos comunistas, nem pelos agentes cubanos espalhados em todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos, nem pelas “poetisas” de Miami. Todos que já se haviam estabelecido no país viam-nos como estranhos, mas a revista continuou a ser publicada durante anos.20 Percebemos, assim, o caráter polêmico da publicação, que se pretendia fundamentalmente crítica, e seu intuito de intervir na esfera pública21 e difundir ideias próprias. Ressaltamos que o exílio em massa de Mariel foi marcado, ainda na ilha, por dura difamação por parte dos discursos oficiais, e que se construiu uma narrativa de “limpeza social” para o fenômeno migratório. Aqueles que saíam da ilha naquele momento eram considerados, oficialmente, a escória da população cubana, incapazes de se adequarem à sociedade revolucionária, pautada pelas ideias do “homem novo”22 e por 18 Sobre o quinquenio gris, ver página 9. Abordaremos o período mais detalhadamente no capítulo 2. 19 O termo “homofobia” foi cunhado por George Weinberg em 1967. De acordo com Gregory M. Herek, porém, foi em 1965, enquanto preparava uma conferência, que Weinberg concebeu o neologismo. Com essa palavra, o autor pretendeu descrever o “medo de estar demasiadamente perto de homossexuais”, associado ao “medo de contágio, a reduzir as coisas pelas quais se lutou, como lar e família”. Os primeiros a utilizarem o termo em uma publicação foram Jack Nichols e Lige Clarke, em coluna veiculada na revista Screw, em 1969. O novo termo constituiu um verdadeiro marco político, pois permitiu relocalizar o problema da discriminação em relação à (homo) sexualidade, identificando a homofobia como um problema dos heterossexuais, “intolerantes a gays e lésbicas”. Ainda em 1971, Kenneth T. Smith utilizou o termo para referir-se à “resposta negativa ou temerosa à homossexualidade”, em uma tentativa de traçar uma metodologia capaz de permitir o estabelecimento de um perfil do indivíduo homofóbico. A consagração definitiva da palavra veio quando Weinberg a popularizou na obra Society and the Healthy Homosexual, de 1972. Desde então, sua pertinência como conceito já foi questionada por diversas frentes, inclusive por posições comprometidas com o ativismo LGBT. Jodi O’Brien, por exemplo, questiona sua utilidade como conceito analítico e como discurso estratégico de resistência contra a opressão. GAMBOA, César Aires. Homofobia: el limite de la razón y la falsa promessa igualitária. Santiago: Iskander, 2015, p. 9-12. 20 ARENAS, Reinaldo. Antes que anoiteça. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009, p. 354-355. 21 Entendemos por esfera pública um espaço no qual assuntos de interesse geral são expostos e debatidos, formando-se avaliações, julgamentos ou consensos. A esfera pública pode influenciar o poder decisório de Estados sobre políticas públicas. Cf. HABERMAS, Jurgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003. 22 No caso cubano, o conceito foi desenvolvido e simbolizado, principalmente, por Ernesto Che Guevara, e se referia ao homem consciente que não só seria originado pela Revolução, mas que ajudaria a construir e perpetuar a nova sociedade socialista. O homem novo seria desprovido de individualismo, e lutaria diariamente, mediante o trabalho e a educação, contra os velhos valores e condutas morais, se comprometendo integralmente com o coletivo e a nova sociedade. Cf. 8 diretrizes culturais bem delimitadas. Foram caracterizados como gusanos, afeminados, escoria, marginales, criminales, entre outros. Em charges de periódicos cubanos da época, frequentemente foram desumanizados e representados como ratos.23 Como afirmou Fidel Castro em discurso de 1980: “quien no tenga genes revolucionários; quien no tenga sangre revolucionária; quien no tenga una mente que se adapte a la idea de una revolución; quien no tenga un corazón que se adapte al esfuerzo y al heroísmo de una revolución, no los queremos, no los necesitamos”24. Convém destacar ainda que as organizações de massa do regime revolucionário cubano, apoiadas pelo aparato repressivo do Estado, organizaram e promoveram atos de repúdio por toda a ilha direcionados àqueles que optaram pelo exílio, resultando em episódios de violência e linchamentos públicos. Já nos Estados Unidos, os exilados foram rejeitados tanto por parcela da opinião pública norte-americana, convencida pelos discursos oficiais cubanos de que os marielitos não passavam de delinquentes e criminosos; quanto por parte da comunidade de exilados cubanos de Miami e seus setores conservadores, constituídos pelas classes alta e média da ilha.25 O contingente de exilados em 1980 abarcava jovens formados pela revolução, profissionais menos qualificados, negros, indivíduos de classes sociais menos favorecidas, homossexuais, escritores, artistas, pacientes psiquiátricos e ex-presos políticos e comuns (em sua maioria, por crimes pequenos), que não foram bem recebidos e integrados socialmente pela comunidade cubana de Miami em um primeiro momento. Além disso, os escritores que saíram da ilha nesse momento chegaram aos Estados Unidos com discursos fortemente anticomunistas e de denúncia do autoritarismo e das violações de direitos humanos praticadas pela Revolução, e se depararam com um ambiente intelectual e acadêmico majoritariamente de esquerda e pouco propenso a tecer críticas tão duras ao regime que constituía um dos símbolos da vitória socialista nas Américas. Suas obras também não tinham espaço na política cultural oficial do regime revolucionário cubano de então, marcada pelo cerceamento da produção e da vida 23 CABRERA, Isabel Ibarra; MARQUES, Rickley Leandro. Representações do Mariel nos textos e charges da revista Bohemia e Revolución y Cultura (1980). Revista eletrônica da ANPHLAC, n. 8, 2009. 24 CASTRO, Fidel. Discurso pronunciado en el Acto Conmemorativo del Primero de Mayo, efectuado en la Plaza de la Revolucion "Jose Marti", el 1ro de Mayo de 1980. Disponível em: http://www.cuba.cu/gobierno/discursos/1980/esp/f010580e.html 25 MARQUES, Rickley. A Condição Mariel: memórias subterrâneas da Revolução Cubana.Goiânia: EDUFMA, 2012, p. Tese (doutorado). Universidade de Brasília, 2009, p. 215-235. 9 intelectual, com acentuada influência da União Soviética na organização da economia e da cultura, período que ficou conhecido como quinquenio gris. Como apontam Mariana Villaça26 e Sílvia Miskulin27, a Revolução Cubana foi marcada pela conformação de políticas culturais, que exigiam o compromisso do artista e do escritor com a nova sociedade que se formava após a vitória revolucionária. A produção cultural era vista como forma de reformular a cultura e a identidade cubanas segundo as matrizes revolucionárias. Ao mesmo tempo que se iniciou um período de intensa produção cultural, com a criação de revistas, editoras, instituições e concursos literários, como o Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos (ICAIC) e a Casa de las Américas, estabeleceu-se também diretrizes culturais. Em 1961, Fidel Castro já apontava para uma radicalização da política cultural do regime e para um direcionamento da produção intelectual, em seu discurso Palabras a los intelectuales, no qual afirmava que “Dentro da Revolução, tudo, fora da revolução, nada”28. A liberdade de expressão dos escritores cubanos passou a ser limitada por parâmetros que exigiam o compromisso com a Revolução. Principalmente a partir do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura, em 1971, Cuba foi marcada por um período de endurecimento no meio cultural e acentuaram-se o controle estatal sobre o meio intelectual e a censura. Os escritores marielitos, em grande parte jovens e homossexuais, como Arenas, García Ramos, Abreu, Victoria, Cifuentes e Barquet, também não se adequavam aos modelos de comportamento estabelecidos para a juventude, que visavam a construção do homem novo e que foram reforçadas pelo Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura de 1971. Muitos foram presos ou reprimidos por “conduta imprópria” ou “posse de literatura contrarrevolucionária”, expulsos de universidades, tiveram suas obras silenciadas e impedidas de serem publicadas. Considerando que esses escritores foram formados pela revolução e sofreram uma rejeição social tripla, na ilha e ao chegarem aos Estados Unidos, por norte-americanos e cubanos, quais eram seus discursos acerca da experiência exílica? Quais eram os seus projetos para o futuro da ilha? O que entendiam sobre a função do intelectual e da produção cultural, e como isso se relacionava com um projeto político de oposição política no exílio? 26 VILLAÇA, Mariana Martins. Cinema cubano: revolução e política cultural. São Paulo: Alameda, 2010. 27 MISKULIN, Sílvia Cezar. Os intelectuais cubanos e a política cultural da Revolução (1961- 1975). São Paulo: Alameda, 2009. 28 CASTRO, Fidel. Palabras a los intelectuales. Disponível em Acesso em: 26 ago. 2014. 10 Entendemos também que os discursos desses escritores exilados interpenetravam a narração da identidade pessoal e da identidade nacional, do individual e do coletivo29, em um esforço de reconstrução não só dos acontecimentos, mas também das identidades pessoais e do ethos cubano, após a perda do universo de referências familiares, dos personagens que representavam, e da exclusão política e dos discursos de nação. Como essa reconstrução de identidades é realizada pelas narrativas dos escritores de Mariel? Quais as identidades cubanas construídas por esses indivíduos, e seu conteúdo político perante o regime revolucionário cubano? São questões que responderemos ao longo do trabalho. De acordo com Giliard Prado, com o triunfo revolucionário e o surgimento de manifestações oposicionistas, a necessidade de garantir a legitimidade do novo regime tornou-se maior, de modo que o governo cubano investiu na propaganda do regime e passou a desenvolver os delineamentos principais das políticas de memória da Revolução.30 A construção de uma memória oficial ocorreu em Cuba por meio de uma multiplicidade de veículos de propaganda, como órgãos oficiais de imprensa, a literatura, o sistema educacional e o rádio. Nesse sentido, ainda segundo Prado, a Revolução elegeu datas, figuras e acontecimentos a serem comemorados, estabelecendo quais seriam dignos de lembrança e os meios utilizados para representá-los: Fez ploriferar, assim, os lugares de memória – topográficos, monumentais, simbólicos e funcionais – do processo revolucionário, dentre os quais constam: os nomes de eventos e de líderes políticos atribuídos a lugares públicos, as mais diversas produções textuais e imagéticas; a instituição de um calendário revolucionário a apropriação das figuras de heróis da nação cubana para a formação de uma espécie de panteão cívico; e os discursos das comemorações das efemérides da Revolução.31 Segundo Rickley Leandro Marques, as narrativas dos escritores marielistas constituem “memórias subterrâneas” da Revolução Cubana, que, como partes integrantes de culturas minoritárias no regime revolucionário, opõem-se à “memória oficial”, no caso, à memória nacional, disputando as histórias de suas juventudes durante o exílio.32 De acordo com Michael Pollak, a memória coletiva e das interpretações do passado se 29ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010. 30 PRADO, Gilliard. A construção da memória da Revolução Cubana: a legitimação do poder nas tribunas políticas e nos tribunais revolucionários. Curitiba: Appris, 2018, p. 25. 31 Ibid, p. 26. 32 MARQUES, Rickley Leandro, op. cit., p. 215-236. 11 integram em tentativas mais ou menos conscientes de se “definir e de se reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades, de forma a manter a coesão dos grupos e das instituições que compõem uma sociedade, definir seus lugares, defender fronteiras e manter uma coesão interna”.33 Trata-se de um processo de “enquadramento da memória”, de modo que a hegemonia alcançada pela Revolução se deu através da supressão de divergências políticas e construção de uma memória oficial que fosse capaz de legitimar a nova ordem social e política. Em torno dos guerrilheiros, construiu-se uma narrativa decorrente de um processo de “enquadramento”, de modo a estruturar uma memória comum com base em um quadro de referências e pontos de referências de um grupo, à custa de muitos esquecimentos.34 O exílio nos Estados Unidos permitiu a emergência na esfera pública de certas lembranças “subterrâneas” de um grupo até então marginalizado na sociedade cubana35: Conforme as circunstâncias, ocorre a emergência de certas lembranças, a ênfase é dada a um ou outro aspecto. Sobretudo a lembrança de [...] grandes convulsões internas remete sempre ao presente, deformando e reinterpretando o passado. Assim também, há uma permanente interação entre o vivido e o aprendido, o vivido e o transmitido.36 De acordo com Joel Candau, simultaneamente, a memória é geradora de identidade, no sentido que participa de sua construção; essa identidade, por outro lado, molda predisposições que vão levar os indivíduos a "incorporar" certos aspectos particulares do passado, a fazer escolhas memoriais, que dependem da representação que eles fazem de sua própria identidade, construída "no interior de uma lembrança". No quadro de estratégias identitárias, os indivíduos operam escolhas no interior de um repertório flexível e aberto a diferentes meios: representações37, "mito-histórias", crenças, ritos, saberes, heranças, etc, ou seja, no interior de um registro memorial.38 33 POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15. 34 Ibid. 35 MARQUES, Rickley Leandro. op. cit., p. 215-236. 36 POLLAK, MICHAEL. op. cit., p. 8-9. 37 Entendemos aqui como representação “um conjunto que inclui ideologia, linguagem, memória, imaginário e iconografia, mobiliz[ando], portanto, mitos, símbolos, discursos, vocabulários e uma rica cultura visual”. MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Desafios e possibilidades na apropriação de cultura política pela historiografia. In: MOTTA, Rodrigo Patto Sá (org). Culturas Políticas na História: novos estudos. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2009, p. 21-22 38 CANDAU, Joel. Memória e identidade. São Paulo: Editora Contexto, 2012, p. 16-21. 12 Como apontou Rickley Leandro Marques, os marielistas buscam reescrever e reivindicar as histórias de suas próprias juventudes e de seu país, em disputa com os discursos e narrativas oficiais do regime revolucionário cubano. Reinaldo Arenas, por exemplo, valorizava seus testemunhos e experiências na ilha como forma de oposição política e luta: Con el tempo, si hemos vivido (si hemos sufrido), uno compreende que, más que dueños de una verdad absoluta, somos dueños o testigos de algunas experiencias, desde luego siniestras. Yo, por haber sido siempre un personaje insignificante, tengo como testigo una posición privilegiada. Campesino, obrero de uma fábrica, becado del gobierno revolucionário, joven comunista, estudiante universitario, escritor marginado, prófugo y presidiário; pocas calamidades se me escaparon. Y soy ahora una sombra casi feliz, porque puedo diluirme por estas calles del mundo, sabiendo que mi terror, mi furia, mi amor no son ya registrados minuciosamente, al menos por la policía del país por donde transite, que desde Cuba estaré siempre bajo vigilancia y amenaza...Grito, luego existo. Pues si, por encima de todo, alguna condición define al ser humano es su necesidad de libertad [...] Una vez más le toca a los pueblos, y a los intelectuales que son sus voceros, sufrir y denunciar la torpeza o la barbárie de sus governantes.39 Dessa forma, entendemos que a memória foi um cerne do projeto editorial coletivo Mariel, imbricando-se ao exílio e à identidade na constituição de obras literárias e de uma oposição política ao regime cubano. A seção de abertura da revista, dedicada, majoritariamente, às obras dos marielistas, era permeada por textos que retomavam o passado na ilha. Experiencias dedicava-se a reunir “crónicas, memorias o materiales autobiográficos”. Outra seção, Confluencias, resgatava escritores cubanos “esquecidos ou deturpados” pela Revolução e orientava sua “apreciação correta”. Os conceitos de memória e identidade, portanto, serão essenciais ao longo deste trabalho. Revistas latino-americanas e exílio como objetos de investigação Segundo Guillermo Cabrera Infante, “divisar la ínsula desde lejos es uno de los ejes históricos de la cultura en Cuba”.40 O exílio é experiência recorrente em Cuba, desde o século XVIII até o XXI, constituindo-se como local privilegiado de conformação de oposição política e produção intelectual. Entre os intelectuais da ilha, é local comum referir-se a essa experiência como uma tradição nacional ou como uma condição da cultura cubana. O exílio faz parte do repertório de estratégias à disposição dos que disputam os jogos de poder em Cuba – ou seja, ele integra a cultura política do país –, e 39 ARENAS, Reinaldo. Necesidad de Libertad. Sevilla: Editorial Point de Lunette, 2012, p. 26-27. 40 CABRERA INFANTE, Guillermo. Mea Cuba. México: Editorial Vuelta, 1993, p. 375. 13 como há larga tradição e vários exemplos bem-sucedidos, muitos intelectuais escolheram esse caminho a fim de construírem projetos políticos e culturais.41 Luis Roniger e Mario Sznajder apontam que o exílio é, fundamentalmente, um mecanismo de exclusão institucional por meio do qual indivíduos envolvidos na política e na vida pública são forçados ou pressionados a abandonar seus países de origem, impossibilitados de regressar até que se tenham alterado as circunstâncias políticas. Essa definição abarcaria tanto quem sofreu perseguição direta das autoridades e de outros atores políticos violentos, como aqueles que optam pelo desterro por sentirem-se ameaçados ou por atravessarem problemas existenciais que se originaram no político.42 Compreendemos que o exílio político tem sido um dos mecanismos centrais de dominação e de exclusão forjados pelas elites políticas latino-americanas a fim de se manterem no poder e para eliminar a dissidência política. Sob distintas formas, desde o deslocamento forçado e o desterro à expatriação e à migração voluntária, o exílio tem desempenhado papel vital na configuração de moldes e de estilos da política latino- americana.43 Entretanto, uma vez deslocados do território original, os exilados passaram a participar de um jogo transnacional em que seus próprios projetos de retorno “interagiam com os interesses do governo do país receptor em lograr uma hegemonia regional pelo uso das redes de exilados, e isso diante de uma das motivações daqueles que provocavam o exílio, ou seja, a intenção de manter a oposição afastada do território nacional”.44 A presença dos exilados foi então tolerada e até mesmo promovida como ferramenta política a ser utilizada pelo país anfitrião em relação ao cenário político do país de origem dos desterrados. A partir de meados do século XX, porém, essa estrutura triangular sofreu alterações a partir da atuação das redes transnacionais como quarto fator detentor de crescente peso. Tratou-se de um reposicionamento dos exilados na “esfera pública mundial”, o que resultou cada vez mais significativo dentro da equação exílica, já que os exilados e as redes de solidariedade internacional se converteram em um dos fatores de maior visibilidade do processo de ampliação do alcance do direito internacional 41 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar. Rio de Janeiro: Zahar, 2014, p. 14-15. 42 SZNAJDER, Mario; RONIGER, Luis. La política del destierro y el exilio en América Latina. México: Fondo de Cultura Económica, 2013, p. 31. 43 RONIGER, Luis. Exílio massivo, inclusão e exclusão política no século XX. Revista de Ciências Sociais [en linea] 2010, 53 (Sin mes): [Fecha de consulta: 14 de octubre de 2018] Disponible en: ISSN 0011-5258. 44 Ibid., p. 94. 14 humanitário e da proteção dos direitos humanos a nível global. Assim, a esfera pública internacional se tornou um aspecto crucial adicional no jogo de forças entre os exilados políticos, os países de asilo e os intentos de repressão promovidos pelos países expulsores.45 Ainda segundo Sznajder e Roniger, o século XX trouxe outras transformações para a experiência exílica, como sua massificação. Os exilados incluíam agora tanto membros da elite política, quanto uma ampla gama de intelectuais, estudantes, ativistas políticos e até mesmo pessoas desconectadas de qualquer atividade pública ou participação política. A nova lógica de desmobilização afetava, então, indivíduos de todos os segmentos sociais. Nesse contexto, o exílio chegou a ser conceituado como um mecanismo para a exclusão total daqueles que eram retratados como “inimigos”.46 Ainda que concordemos com os autores supracitados, entendemos que o exílio massivo de Mariel possui algumas especificidades, especialmente uma complexa e ambígua relação entre exílio e migração econômica – ainda que essa não se aplique aos escritores aqui estudados. A liberdade de expressão proporcionada pelo exílio nos Estados Unidos possibilitou que a revista Mariel se constituísse, essencialmente, como espaço de crítica e oposição ao regime revolucionário cubano e aos intelectuais que o apoiavam, dentro ou fora da ilha, por vezes se radicalizando e tendendo a uma “patrulha ideológica” do meio intelectual latino-americano e estadunidense. O professor universitário Carlos Ripoll, ainda no início do empreendimento editorial, recorreu a José Martí47 para aconselhar os membros de Mariel a serem “duro en el pecado y blando con el pecador”48, alertando que suas lutas e divisões dentro do exílio, muitas vezes, os aproximavam do passado que rechaçavam. Além disso, possuíam um projeto de luta pelas memórias de suas próprias juventudes – e, portanto, pela memória da Revolução -, e de disputa pelo significado do exílio massivo de 1980, e a revista serviu como meio de consecução. 45 Ibid., p. 95. 46 Ibid., p. 101. 47 Mártir da independência cubana, fundador do Partido Revolucionário Cubano, organizador da Guerra de 1895, poeta, ensaísta e um dos pensadores da identidade e da união latino-americana, através de seu ensaio Nuestra América. Suas obras foram apropriadas, relidas e ressignificadas por intelectuais e políticos de diferentes propostas estéticas e ideológicas ao longo da história cubana. O pensamento martiano, especialmente no que tange ao anti-imperialismo, constitui uma das bases ideológicas da Revolução Cubana de 1959. 48 RIPOLL, Carlos. La generación del Mariel. Mariel, n. 2, 1983, p. 30. 15 Ressaltamos que revistas culturais e políticas, como a que pesquisamos, destacam- se por seu diálogo com o tempo presente, por sua intencionalidade de intervir na esfera pública, por seu afã de questionar a hegemonia, formar e alterar a opinião pública e modificar a sociedade, como apontam Regina Crespo49, Pablo Rocca50 e Beatriz Sarlo51. Segundo Crespo, por se associarem ao transitório, as revistas estabelecem um compromisso mais incisivo com sua própria conjuntura, o que, em certo sentido, oferece- lhes a possibilidade de atuar sobre as circunstâncias imediatas, fazendo com que, frequentemente, adquiram caráter combativo52. Alexandra Pita González aponta, ainda, que essas publicações periódicas servem de meio para que os intelectuais assumam seus posicionamentos e definam suas participações nos debates intelectuais de sua época, em relação a outros grupos de poder (econômicos, políticos, sociais), encontrando um espaço que legitime a posição que desejam alcançar.53 Entendemos que Mariel, além de possuir os objetivos de intervir na esfera pública e de conformar uma oposição política, também funcionou como instrumento de inserção e disputa dos escritores marielistas no meio intelectual da comunidade exilada. Como atores sociais envolvidos nas empresas editoriais, eles buscavam expressar suas inquietudes através desse meio de comunicação e, simultaneamente, encontrar um espaço que legitimasse a posição que desejavam alcançar na sociedade estadunidense e dentro da própria comunidade de exilados cubanos.54 O conceito de “editorialismo programático” de Fernanda Beigel nos auxiliou a identificar, na publicação, as intenções e os objetivos dos intelectuais envolvidos em sua produção. Beigel aponta que o editorialismo programático das revistas culturais do século XX produzia um espaço de articulação entre política e literatura, promovendo um editorialismo militante: “las publicaciones y los vínculos intelectuales que promovía este tipo de editorialismo militante actuaban muchas veces como terreno exploratorio y en 49CRESPO, Regina. Las revistas y suplementos culturales como objetos de investigación. In: Coloquio Internacional de Historia y Ciencias Sociales. Colima: Universidad de Colima, 2010, p. 2 50 ROCCA, Pablo. Por qué, para qué una revista (Sobre su naturaleza y su función en el campo cultural latinoamericano). Hispamerica, año XXXIII, n. 99, diciembre de 2004, p. 3. 51 SARLO, Beatriz. Intelectuales y revistas: razones de una práctica. America, Cahiers du CRICCAL. Paris, Sorbonne la Nouvelle, n. 9-10, 1992, p. 9-15. 52 CRESPO, op. cit. 53 PITA GONZÁLEZ, Alexandra. Las revistas culturales como fuente para el estudio de redes intelectuales. In: PALÁCIO MONTIEL, Celia del; MARTÍNEZ MENDOZA, Sarelly (coord.). Voces en papel. La prensa en Iberoamérica de 1792 a 1970. México, Universidad Autónoma de Chiapas, 2008, p. 4. 54 Ibid, p. 6. 16 otras oportunidades, como actividad preparatoria de una acción política concertada”55. Nessas publicações, projetos políticos-culturais e estéticos foram difundidos e debatidos, em uma estreita relação entre difusão cultural e objetivos políticos. Dessa maneira, as publicações periódicas, como textos coletivos, nos conectam não só com as principais discussões do meio intelectual de uma época, mas também com os modos de legitimação de novas práticas políticas e culturais. A partir da análise dos textos programáticos da revista, identificamos três eixos principais no editorialismo programático da publicação: ressignificação do exílio massivo de Mariel e divulgação das produções dos artistas marielitos e cubanos exilados; anticomunismo e conformação de oposição ao regime revolucionário cubano através da denúncia das violações aos direitos humanos, das práticas homofóbicas e da política cultural restritiva, bem como por meio do debate sobre a função do intelectual e a disputa pela construção do cânone literário cubano e, simultaneamente, da própria identidade nacional. Apesar de apresentar um posicionamento combativo em relação ao regime revolucionário cubano e defender um processo de democratização na ilha e os direitos da comunidade homossexual, não havia a definição de um projeto político claro para o futuro de Cuba.56 A publicação declarava-se contra qualquer tipo de preconceito e de opressão, que os editores haviam sofrido “em carne própria”. Rechaçava o crime, a mentira e o dogma em qualquer terreno: político ou religioso, estético ou histórico, moral ou econômico.57 Pretendiam construir uma sociedade cubana “sem obscurantismo, miséria, tristeza, onde fosse possível viver livremente”. A revista dialogou com atores sociais de localizações diversas do espectro político norte-americano e latino-americano. Entendemos que se aproximou do pensamento liberal, com militância fortemente 55BEIGEL, Fernanda. Las revistas culturales como documentos de la historia latinoamericana. Utopía y Praxis Latinoamericana, enero-marzo 2003, p. 108. 56 Posteriormente, em 1988, como já apontamos, Reinaldo Arenas e Jorge Camacho escreveram uma carta aberta dirigida a Fidel Castro, solicitando a realização de um plebiscito na ilha para determinar a continuidade ou não do regime revolucionário. No caso da vitória do “não”, exigia-se um processo de abertura democrática e a convocação de eleições. Reivindicava-se, ainda, o retorno dos exilados e da oposição a Cuba para participar da campanha política do plebiscito; a libertação de presos políticos; a suspensão de leis que impedissem a liberdade de expressão; e a legalização de comitês de direitos humanos em Cuba. A carta contou com assinatura de diversos intelectuais e foi publicada em vários periódicos europeus, latino-americanos e norte-americanos. Cf. ARENAS, Reinaldo; CAMACHO; Jorge. Un plebiscito a Fidel Castro. Madrid: Editorial Betania, 1990. 57 Editorial. Más que un Episódio. Mariel, n. 5, 1984, p. 2. 17 anticomunista, aliando-se a setores neoconservadores da política norte-americana e a parcela do movimento por direitos dos homossexuais. Dessa forma, entendemos que o ator social se encontra relacionado dentro de um complexo sistema de interações, de modo que para compreender a opinião de um indivíduo é indispensável entender seu contexto relacional. Através da conformação de redes, grupos de intelectuais, como os marielistas, promoveram a realização de atividades de difusão de seus trabalhos, criação de revistas e instituições, e defesa de seus interesses e posicionamentos. Assim, esses contatos profissionais representavam uma busca política e ideológica para legitimarem seus pontos de vista frente a quem detinha o poder efetivo, sendo necessário que houvesse um paradigma compartido, como o anticastrismo, a partir do qual elaboraram-se estratégias de ação que puderam se consolidar e ser transmitidas em diversos meios.58 No capítulo 1, abordamos o exílio na história cubana, a fim de uma melhor compreensão do exílio massivo de Mariel, do desterro como repertório político em Cuba, bem como suas imbricações com a produção cultural insular. Ainda nesse capítulo, discutimos a autodenominação geração de Mariel e apresentamos nossa revista. Analisamos sua materialidade, seu contexto de criação no exílio nos Estados Unidos e as redes de sociabilidade intelectual59 que integrou. Analisamos, então, as principais críticas tecidas ao regime revolucionário cubano na publicação, que se concentravam, principalmente, na política cultural e educacional do quinquenio gris, no autoritarismo e nas violações aos direitos humanos de homossexuais e presos políticos. O intuito do capítulo é uma apresentação do tema do exílio em Cuba e do nosso objeto de estudo. No capítulo 2, aprofundamos os debates realizados em Mariel acerca do exílio, da função do intelectual e da literatura. Abordamos as disputas pelo significado da ponte marítima Mariel-Cayo Hueso e algumas polêmicas das quais a revista participou, bem como investigamos o que a publicação entendia como a função do intelectual e da 58 PITA GONZÁLEZ, Alexandra. Las revistas culturales como fuente para el estudio de redes intelectuales. In: PALÁCIO MONTIEL, Celia del; MARTÍNEZ MENDOZA, Sarelly (coord.). Voces en papel. La prensa en Iberoamérica de 1792 a 1970. México, Universidad Autónoma de Chiapas, 2008, p. 4 59 Entendemos por rede de sociabilidade intelectual, um conjunto de intelectuais que se comunicam devido às suas atividades profissionais, sejam eles escritores, professores, artistas, políticos, etc., podendo se organizar em revistas ou instituições. De acordo com Jean-François Sirinelli, todo grupo de intelectuais organiza-se também em torno de uma sensibilidade ideológica ou cultural comum no caso, anticomunismo e anticastrismo. Cf. SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais. In: Rémond, René (org.) Por uma história política. Rio de Janeiro: FGV, 2003, p. 248. 18 literatura naquele contexto. Nesse capítulo, voltaremos a algumas discussões teóricas sobre exílio, identidade, autobiografia e suas inter-relações. Por fim, no capítulo 3, investigamos a seção Confluencias, que divulgava e analisava as obras da cultura cubana que os marielistas entendiam que haviam sido esquecidas ou deturpadas pelo regime revolucionário cubano. Compreendemos que se realizava uma releitura do passado cubano a partir de uma seleção da produção literária nacional. Dessa forma, inseriam-se em uma disputa pela memória da Revolução e construíam um “contra-cânone” da literatura cubana a partir do exílio. Analisamos as leituras e os usos do passado na revista em relação a José Martí, Lezama Lima, Virgilio Piñera, Carlos Montenegro e Gastón Baquero. Investigamos como eles inseriram sua geração nessa “tradição”, bem como os debates acerca da identidade nacional. 19 Capítulo 1: O exílio e a criação da revista Mariel 1.1: O exílio cubano: das guerras de Independência no século XIX à invasão da Embaixada do Peru em 1980 As disputas políticas e a produção intelectual cubana, desde o século XIX, têm sido marcadas pela conformação de redes de sociabilidade60, discussão de projetos nacionais, fortalecimento de lideranças políticas e intensa produção artística fora do território insular. O exílio se estabeleceu como local privilegiado de oposição aos poderes oficiais ao longo da história cubana, bem como de produção de obras e de sensibilidades nacionais diversas. Segundo Rafael Rojas, a experiência exílica, que tem sido recorrente na ilha desde finais do século XVIII até princípios do século XXI, converteu-se em uma “práctica sostenida y, de algún modo, en una condición de la cultura cubana a partir de 1959”61, manifestando-se de distintos modos e motivando um sem número de poemas, dramas, memórias, novelas, testemunhos e formas de ação política concretas. De acordo com Lisandro Pérez, o exílio cubano sempre esteve relacionado aos eventos políticos e econômicos da ilha. Anteriormente à Independência cubana e à intervenção norte-americana, os Estados Unidos já exerciam considerável influência política e econômica em Cuba. O crescimento dessa influência ao longo dos séculos XIX e XX fez com que o vizinho do norte se tornasse o principal destino, ainda que não o único, de muitos daqueles que saíam de Cuba, vários dos quais figuras proeminentes dos círculos intelectuais, políticos e financeiros da ilha, bem como trabalhadores da indústria do tabaco. Desse modo, ainda que os exílios após 1959 em muito se diferenciem daqueles dos períodos anteriores, essa prática já era bem estabelecida entre as elites cubanas desde o século XIX.62 As redes de sociabilidade entre intelectuais, militares e demais cubanos a favor da causa independentista, estabelecidas no exílio nos Estados Unidos, desempenharam papel decisivo na articulação, financiamento e estabelecimento das ideias das guerras de Independência cubana. A Guerra dos Dez Anos (1868-1878), liderada por Antonio Maceo e Máximo Gomez, contou com o apoio de partidários exilados nos Estados Unidos, responsáveis pelo envio de dinheiro e armas, que foram essenciais no financiamento das 60 Sobre o conceito de redes de sociabilidade, ver introdução. 61 ROJAS, Rafael. Tumbas sin sosiego. Revolución, disidencia y exilio del intelectual cubano. Barcelona: Editorial Anagrama, 2006, p. 24 62 PÉREZ, Lisandro. Cubans in the United States. The Annals of the American Academy of Political and Social Science, Vol. 487, Immigration and American Public Policy (Sep., 1986), p. 126-137. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/104605. Acesso em: 17 nov. 2015. 20 campanhas. Posteriormente, com a derrota das guerras anticoloniais e o exílio dos generais, os anseios de independência cubana ressurgiram no desterro com a importante atuação do escritor, poeta e ensaísta José Martí. Exilado também na Espanha e no México, Martí viveu em Nova Iorque por 15 anos, durante os quais trabalhou com outros exilados cubanos e grupos independentistas com base nos Estados Unidos, como o Comitê Revolucionário Cubano, fundado por Calixto García, para relançar a guerra de independência. Os debates acerca do caráter do movimento independentista, das questões racial e anexionista63, as disputas e lutas internas, bem como as produções intelectuais acerca do tema ocorreram no tempo e espaço do exílio nos Estados Unidos. Em 1892, foi fundado O Partido Revolucionário Cubano, movimento independentista de base ampla e precursor da independência de 1898.64 O estabelecimento do desterro como oportunidade de oposição à ordem e ao poder colonial no século XIX e de discussão e análise da realidade nacional ocorreu também na esfera cultural e na produção literária e artística.65 Além de Martí, que afirmava que a ilha unia os cubanos em solo estrangeiro, diversos escritores produziram suas obras fora da ilha e refletiram sobre e a partir da experiência exílica, como Gertrudis Gómez de Avellaneda66, reconhecida pelas temáticas do desterro e pelo romance abolicionista Sab (1841); José María Heredía, precursor do movimento Romântico na América Latina; Cirilo Villaverde, ativista independentista e autor de Cecilia Valdés o la loma del Ángel (1839), considerada uma das obras fulcrais da literatura cubana; entre muitos outros. A construção de uma “literatura nacional cubana” no século XIX esteve vinculada, em grande medida, ao exílio: 63 A ideia da anexação de Cuba aos Estados Unidos foi formulada no início do século XIX e se manteve forte até a década de 1850. Os interesses econômicos de um setor da elite criolla e a política expansionista estadunidense se combinaram no surgimento dessa corrente. O imperialismo norte-americano considerava de grande interesse a incorporação de Cuba, devido à sua localização estratégica. Já para os anexionistas cubanos, a incorporação aos Estados Unidos era positiva economicamente, visto que assegurava a manutenção da escravidão, ameaçada pela Inglaterra e pela Revolução de 1848 na França. Alguns anexionistas eram favoráveis a ideias abolicionistas, porém defendiam a necessidade de um período de tempo para indenização aos proprietários, modernização das relações de trabalho e das condições de produção, e imigração de população branca para a ilha. CRUZ-TAURA, Graciella. Annexation and National Identity: Cuba's Mid-Nineteenth-Century Debate. Cuban Studies, vol. 27, 1998, p. 90–109. Disponível em: www.jstor.org/stable/24487818. 64 GOTT, Richard. Cuba: Uma nova História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, p. 89-108. 65 Ver ROJAS, Rafael. Isla sin fin. Miami: Ediciones Universal, 1998, p. 167-188. 66 Sobre a obra de Avellaneda e suas relações ambíguas com a identidade nacional, ver: FRANCO, Stella Maris Scatena. Gertrudis Gómez de Avellaneda entre Cuba e Espanha: relatos de viagem e ambivalências em torno da questão da identidade nacional. Varia Historia. Belo Horizonte. vol. 23, n. 38, p. 315-333, Jul/Dez 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/vh/v23n38/v23n38a05.pdf. Acesso em: 03 jun. 2017. 21 Si consideramos el surgimiento de la literatura nacional cubana en el siglo XIX, advertimos en seguida que ella también se debe al movimiento; esto es, no se formó a partir de un único espacio. Los textos fundacionales del poeta José María Heredia no habrían sido posibles sin el espacio de tensión entre la isla y el exilio, entre la Cuba colonial y el México independiente; lo mismo vale para Cecilia Valdés o La Loma del Ángel de Cirilo Villaverde, que se inscribió en el espacio de tensión entre Cuba y los Estados Unidos, como la verdadera novela fundacional de una literatura nacional cubana, así como en su función de puente entre los años 30 y 70 del siglo XIX. También la gran poetisa del romanticismo de lengua española, Gertrudis Gómez de Avellaneda, indispensable en la historia literaria tanto de España como de Cuba, sin duda se situó con sus poemas y textos narrativos en el interior de una red de relaciones geoculturales, que en su caso también estaba estructurada de manera bipolar —aunque sin la condición del exilio, como en Heredia o Villaverde— en la relación entre la patria madre española y su patria cubana.67 Na perspectiva do crítico literário Enrico Mario Santí, parcela significativa dos intelectuais cubanos do século XIX viveu a experiência do exílio e contribuíram para forjar uma identidade cubana a partir do estrangeiro: “Cuba se inventó a si misma en el siglo XIX, pero lo hizo pagando un legado de exilio”.68 Segundo Stella Maris Scatena, ao analisar as obras de intelectuais cubanos do século XIX, Santí evidenciou, desde inícios deste século, a presença, na literatura insular, de "una identidade cubana consciente de sí misma" a partir do exílio, como o demonstram as trajetórias de Félix Varela, José María Heredia, José Antonio Saco, José Martí, entre muitos outros.69 O repertório oitocentista de oposição, articulação política e produção intelectual fora do território nacional foi apropriado por muitos cubanos ao longo do século XX, principalmente por opositores dos governos de Gerardo Machado (1925-1933), Grau San Martín (1944-1948) e Fulgencio Batista (1952-1959). Especialmente a partir da vitória do Movimento Revolucionário 26 de Julho70 em 1959 - ele próprio organizado fora do território nacional -, o exílio tornou-se caminho recorrente para os dissidentes e insatisfeitos com o governo da ilha, e consolidou-se como uma das principais comunidades oposicionistas ao regime socialista cubano, aliando-se e sendo amparado por instituições, agências de comunicação e de inteligência, e políticas imigratórias do 67 ETTE, Ottmar. Una literatura sin residencia fija. Insularidad, historia y dinámica sociocultural en la Cuba del siglo XX. Revista de Indias, 2005, vol. LXV, núm. 235, p. 734. Disponível em: http://revistadeindias.revistas.csic.es/index.php/revistadeindias/article/download/388/457. Acesso em: 12 fev. 2017. 68 SANTÍ, Enrico Mario. Nación inventada. In: Bienes del siglo: sobre cultura cubana. México: Fondo de Cultura Económica, 2002, p.33. Citado por: FRANCO, Stella Maris Scatena. Gertrudis Gómez de Avellaneda entre Cuba e Espanha: relatos de viagem e ambivalências em torno da questão da identidade nacional. Varia Historia. Belo Horizonte. vol. 23, n. 38, p. 318. 69 Id. 70 Nomeado em referência ao assalto ao Quartel de Moncada, ocorrido em 26 de julho de 1953, em Santiago de Cuba, o Movimento Revolucionário 26 de Julho encabeçou a luta armada contra a ditadura de Fulgêncio Batista. Seus quadros internos se dividiam, principalmente, entre o Exército Rebelde, focado na guerrilha rural, e os setores urbanos, chamados de "Llano". 22 governo norte-americano em diversos momentos. No âmbito cultural, diversas gerações de intelectuais produziram suas obras fora do território nacional, em desacordo com as políticas culturais do regime revolucionário e como forma de crítica ao governo, ao mesmo tempo em que tentavam processar o “trauma” da experiência exílica: Parcelas da população cubana estavam acostumadas há séculos com o exílio, um fenômeno alimentado por tradições de pobreza, opressão e desavença política com qualquer regime que estivesse no poder. Opositores de clase média ao domínio colonial espanhol ao longo do século XIX encontraram refúgio na Europa e nos Estados Unidos; naqueles anos, milhares de trabalhadores - notadamente da indústria do tabaco - mudaram-se para a Flórida e lá estabeleceram comunidades prósperas, que permaneceram cubanas nos pontos de vista e nas aspirações. [...] As guerras de independência foram orquestradas e financiadas pelos cubanos no exílio, como foi a guerra contra Batista. O êxodo de Cuba durante a era de Castro criou modos de vida no estrangeiro semelhantes àqueles experimentados por gerações anteriores.71 No momento imediatamente após a vitória do Movimento Revolucionário 26 de Julho, a evasão de beneficiários e partidários do governo de Fulgencio Batista, os quais não eram bem-vindos na nova sociedade e tentavam escapar da justiça revolucionária, foi intensa. Grande parte da base financeira e social da contrarrevolução foi exportada, o que colaborou para o enfraquecimento da oposição interna e favoreceu a estabilidade política da Revolução. Durante os dois primeiros anos de governo revolucionário, mais de 40 mil pessoas deixaram a ilha.72 Além dos aliados de Batista, os setores da classe média alta cubana e da classe média liberal, mais afetados pelas mudanças estruturais prestes a ocorrer na sociedade e pela guinada à esquerda da Revolução, que se declarou marxista-leninista em 1961, estavam preponderantemente representados nos contingentes populacionais que abandonaram a ilha no início da década de 1960. Em sua maioria católicos, detentores de considerável poder aquisitivo e contrários à adoção das ideias socialistas, cerca de 150 mil partiram para Miami entre 1961 e 1962.73 Entre os cubanos que chegaram aos EUA nos primeiros anos da década de 1960, 37% dos chefes de família eram proprietários, gerentes ou profissionais qualificados. No censo cubano de 1953, menos de 10% da força de trabalho era classificada nessas categorias. Entre os exilados de 1960-1962, 12,5% haviam completado quatro ou mais anos de faculdade, nível atingido em 1953 por aproximadamente 1% da população 71 GOTT, Richard. Cuba: uma nova História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, p. 241. 72 Ibid., p. 241-242. 73 Ibid., p. 242. 23 cubana.74 Esse quadro é indicativo de um reordenamento dos atores políticos e econômicos nos primeiros anos revolucionários, que se efetivou através da reforma agrária de 1959, a redução dos preços dos alugueis de imóveis, bem como através da nacionalização de empresas e propriedades norte-americanas.75 A política imigratória norte-americana, visando desacreditar o regime de Havana, fornecia tratamento diferenciado aos emigrantes cubanos, através da concessão do status de refugiado político, indiscriminadamente, a todos aqueles que deixavam a ilha. Em 1961, criou-se o Cuban Refugee Program, financiado com fartos recursos federais até 1973, que promovia assistência social aos recém-chegados, os auxiliando em instalação, emprego, serviços de saúde, educação e alimentação: Cuba pasa a integrar el contenido de una política que se desarrolla desde la década de los 50, para beneficiar bajo la condicionante de "refugiados" a los migrantes de los países del entoncens campo socialista. De esta forma, se aplican políticas de recepción, estímulo y restricción selectiva de los cubanos, acordes a diferentes etapas de la relación antagónica entre los dos países, a la situación interna de la sociedad cubana y a las tendencias y prioridades de la política inmigratoria norteamericana.76 Através das facilidades proporcionadas pela política imigratória norte-americana e o Cuban Refugee Program, estimulados pela Igreja Católica, e convencidos de que logo estariam de volta e de que a Revolução não perduraria, entre 1961 e 1962 organizou-se uma ponte aérea que ficou conhecida como “Operación Pedro Pan”. Cerca de 14 mil crianças foram enviadas desacompanhadas para os Estados Unidos através da isenção de vistos e com o auxílio da Igreja Católica e do governo norte-americano.77 O intuito de seus pais era livrar seus filhos daquilo que entendiam como doutrinação comunista e proporcionar uma educação de melhor qualidade nos Estados Unidos sob a tutela de instituições religiosas. Entretanto, a separação familiar, inicialmente vista como breve, muitas vezes durou uma vida inteira.78 74 PÉREZ, Lisandro. Cubans in the United States. The Annals of the American Academy of Political and Social Science, Vol. 487, Immigration and American Public Policy (Sep., 1986), p. 129. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/104605. Acesso em: 17 de novembro de 2015 75 BRISMAT MARINA, Nivia. La política migratoria cubana: génesis, evolución y efectos en el proceso migratorio insular.In: BERNAL, Beatriz (org.). Cuba hoy ¿perspectivas de cambio? IIJ-UNAM, México, 2011, p. 151. Disponível em: https://archivos.juridicas.unam.mx/www/bjv/libros/6/2960/9.pdf. Acesso em: 12 de fevereiro de 2018. 76 AJA DÍAZ, Antonio. La emigración cubana. Balance en el siglo XX. CEMI, Centro de Estudios de Migraciones Internacionales, La Habana, Cuba. Enero, 2002. Disponível em: bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/cuba/cemi/emig.pdf. Acesso em: 12 de fevereiro de 2018. 77 GARCIA, Maria Cristina. Havana USA: Cuban Exiles and Cuban Americans in South Florida, 1959- 1994 (Locais do Kindle 356-391). Edição do Kindle. 78 GOTT, Richard. Cuba: Uma nova História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, p. 242. 24 A Crise dos Mísseis de 1962 aprofundou a deterioração das relações entre Cuba e os Estados Unidos e resultou, entre outros aspectos, na suspensão dos vôos entre a ilha e o continente. Tendo em vista os frequentes acidentes entre aqueles que optavam por deixar a ilha em pequenas embarcações e visando articular uma “válvula de escape” para os insatisfeitos com o regime, em 1965 o governo revolucionário decidiu declarar que o apoio à Revolução era estritamente voluntário e permitiu o exílio massivo de Camarioca. O porto de Camarioca, na província de Matanzas, foi colocado à disposição para que embarcações de exilados cubanos pudessem buscar seus parentes se o desejassem. Todos aqueles que quisessem partir rumo aos Estados Unidos estavam livres para fazê-lo, contanto que possuíssem parentes no país vizinho e cedessem suas casas e propriedades para o governo cubano. De 30 de setembro a 30 de novembro, cerca de 2866 pessoas deixaram a ilha.79 Entretanto, devido aos perigos envolvidos no transporte por mar e à decisão da administração Lyndon Johnson em aceitar um contigente ainda maior de exilados cubanos, iniciou-se novo processo de negociação. Em outubro de 1965, o presidente norte-americano assinou uma nova lei de imigração, conhecida como Lei de Ajuste Cubano, que determinava residência automática aos cubanos que entravam em solo norte- americano, o que constituía privilégio perante os demais imigrantes latino-americanos. A decisão foi fortemente influenciada por políticas anticomunistas e pelo contexto da Guerra Fria.80 O presidente dos Estados Unidos declarou, ainda, que “aqueles que buscarem refúgio aqui na América o encontrarão. Nossa tradição de asilar os oprimidos será mantida”. A prioridade foi dada àqueles que possuíam pais, filhos e cônjuges já estabelecidos nos Estados Unidos e a perseguidos por motivos políticos. Dessa maneira, instituiu-se uma ponte aérea, duas vezes por dia, entre Cuba e os Estados Unidos, conhecida como “Vôos da Liberdade”, que transportava entre 3000 e 4000 cubanos por mês. Os vôos foram suspensos permanentemente pelo governo Nixon em 1973, mas até esse ano cerca de 3048 vôos haviam transportado aproximadamente 297 318 exilados para os Estados Unidos.81 A segunda onda de exilados cubanos se diferenciava da primeira de diversas maneiras. Tanto os Estados Unidos quanto Cuba conseguiram exercer maior controle 79 GARCIA, Maria Cristina. Op. Cit., locais 554-567. 80 Ibid. 81 Ibid. 25 sobre a segunda onda do exílio. Os Estados Unidos limitaram o exílio àqueles que já possuíam família em seu território, enquanto o governo cubano protegeu seus interesses a partir da proibição da saída de indivíduos considerados úteis ao regime, como homens em idade de serviço militar. Além disso, havia diferenças socioeconômicas entre as duas ondas de exilados. Durante o exílio massivo de Camarioca, 31% dos exilados eram profissionais qualificados ou administradores; em 1970, somente 12% da segunda onda pertencia a esse grupo de profissionais, e 57% eram mão-de-obra não qualificada, pertencentes ao setor de serviços ou de trabalho agrícola. Como homens jovens, muito frequentemente, não tinham sua saída autorizada pelo governo cubano, mulheres e idosos estavam super-representados nessa onda de exilados.82 O fim dos Vôos da Liberdade não interrompeu completamente a evasão de cubanos da ilha. O exílio continuou através da imigração clandestina, via pequenas embarcações pelo Estreito da Flórida, ou através do pedido de asilo a embaixadas durante viagens ao estrangeiro. Até setembro de 1977, só nos Estados Unidos, o número de cubanos que entraram no país desde 1959 chegava a cerca de 665 043. Oficialmente, porém, a política de saída dos dissidentes havia sido interrompida, o que aumentou a pressão interna dos insatisfeitos com o regime.83 No meio intelectual, o período de meados da década de 1960 até o início da década de 1970 marcou a ruptura e o afastamento de importantes intelectuais anteriormente apoiadores – em maior ou menor medida - do regime revolucionário. Devido a divergências internas, escritores como Carlos Franqui, Guillermo Cabrera Infante, Mario Parajón e Lorenzo García Vega partiram para o exílio. Outros, como José Lezama Lima e Virgílio Piñera, optaram pelo silenciamento – sempre relativo – dentro da ilha, e padeceram o “insílio” ou exílio interior. O “caso Padilla”84, a partir de 1968, ainda marcou a ruptura de relevantes intelectuais estrangeiros com o regime, como foram os casos de Simone de Beauvoir, Italo Calvino, Jean-Paul Sartre e muitos outros. O início da década de 1970 foi marcado, ainda, pela realização do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura, o qual iniciou um período de endurecimento no campo cultural, acentuado controle estatal sobre o meio intelectual e censura. Determinou-se que a produção intelectual deveria ser voltada para o povo, baseada nas tradições nacionais, possuindo um definido critério político. As obras de arte deveriam 82 Ibid. 83 Ibid. 84Abordaremos o caso Padilla mais detalhadamente no tópico 1.3 deste capítulo. 26 estar em consonância com os interesses da sociedade socialista e colaborar na formação do “homem novo”85, funcionando também como forma de combater posições ideológicas contrárias ao socialismo.86 Condenou-se a produção crítica que abordava os aspectos negativos da sociedade e se incentivou as intervenções não críticas ou mesmo de apologia ao regime. O papel do intelectual, assim, foi bem delimitado, perdendo sua autonomia e sua função de crítica pública: “a visão do intelectual como ‘consciência crítica da sociedade’ foi descartada, uma vez que esse papel caberia ao próprio povo e à classe operária”87. Estabeleceram-se regras para a conduta e a formação da juventude, acordes com os preceitos que guiavam a formação do “homem novo”. Determinou-se, ainda, que homossexuais não deveriam participar de atividades ligadas à cultura e à educação, a fim de evitar sua “influência negativa” sobre os jovens, e a prática da santeria foi conectada ao desenvolvimento da “delinquência” entre a juventude. Nesse contexto, emergiu entre a juventude formas de marginalidade cultural que estabeleceram uma rachadura entre a Revolução e parcela daqueles que ela pretendia formar, constituindo um desafio à ordem revolucionária, a partir de um local alheio aos discursos oficiais de nação.88 O escritor Carlos Victoria, a partir da ficção, narrou esse momento da vida de Havana: Pero los grupos de genuína onda eran los que abundaban, dispersos en los jardines de la heladería. Se concentraban en bandas, casi siempre alrededor de un capitán: Pedro el Bueno, um mulato de imponente afro, dirigía ‘Los chicos de la flor’; Raúl Egusquiza, com su guitarra a cuestas, era el líder de ‘Los sicodélicos del Cerro’; Marcelo el avestruz era el jefe de ‘Los pastilleros’, famosos por su consumo de anfetaminas; Tadeo, más conocido por Abracadabra, era el integrante más destacado de ‘Los duendes’, de los que se rumoreaba que mantenían atividades subversivas, como romper teléfonos en el barrio de Marianao; un tal Arturo, al que apodaban Lord Byron, que además de ser cojo se parecia al poeta, presidia ‘Los morbosos’. Estos últimos eran la vanguardia pensante de aquel remolino juvenil: sus miembros hablaban de cine y poesia, leían a Marcuse y Ortega y Gasset, citaban a Kafka y a Baudelaire [...]También circulaban por el lugar personajes aislados, como Amelia Gutiérrez, gañadora de um premio nacional de poesia por un libro que nunca llegó a publicarse; José Manuel el Científico, expulsado de la carrera de Física por poner en duda la eficácia de la enseñanza em la Universidad de la Habana; el pintor Aguirre y su mujer Berta Torres, ambos de una fealdade pasmosa, que en su afán de imitar a Sonny and Cher recorrían a una ropa estrafalaria que les había ganado el título de “La Pareja Asesina”; el negro Gerardo, que escribía cuentos surrealistas, y que una vez recorrió descalzo el Malecón, de una punta a la otra, con una enorme cruz de madera al hombro, lo que le costó seis meses 85 Sobre o “homem novo”, ver nota 22. 86 MISKULIN, Silvia. Os intelectuais cubanos e a política cultural da Revolução (1961-1975). São Paulo: Alameda, 2009, p. 232 87 Ibid, p. 232 88 ROJAS, Rafael. Tumbas sin sosiego. Revolución, disidencia y exilio del intelectual cubano. Editorial Anagrama, 2006, p. 421-423. 27 en la prisión del Morro por escándalo público; Tony el Mexicano, con su pelo lácio y flerte que le llegaba a la cintura, pero que él recogía sabiamente bajo um sombrero para evitar un mal rato con la policía; Victor Armadillo, que había dirigido documentales revolucionários sobre la siembra de caña y la cosecha de café, pero que luego había caído en desgracia por posesión ilegal de dólares; Terencio Pelo Viejo; que alardeaba de haber introducido la Dianética en Cuba, y que en los últimos tiempos se había convertido em asiduo cliente del Hospital Psiquiátrico de Mazorra; Pablito el Toro, al que muchos consideraban un policía disfrazado de hippie; Ana Rosa la India, mujer enigmática que se acostaba todas las noches con un joven diferente; un afeminado alto y silencioso, de facciones agraciadas, a quien llamaban La Punzó, pues su ropa habitual era una guayabera teñida de rojo y un pantalón del mismo color [...]Todo este exhibicionismo sin sentido [...] era una resistencia passiva; como lo eran también las lecturas secretas de manuscritos literários, y el pasarse de mano em mano libros, revistas y discos prohibidos [...]Pero adónde conduciría esta efervescência, era algo que nadie podia prever.89 Essas formas de contestação e expressão da juventude eram consideradas hedonistas e representativas de vestígios do passado capitalista pela Revolução. A década de 1970 em Cuba foi marcada, ainda, por dificuldades econômicas e pelo fracasso da safra de 10 milhões de toneladas de açúcar90, frustrando os planos do regime de alcançar maior autonomia e diversificar sua produção. A ilha se aproximou dos modelos de organização econômica soviéticos, com amplo apoio de técnicos russos, e passou a integrar o Conselho para Assistência Econômica Mútua (COMECON)91. Visando uma normalização das relações diplomáticas com os Estados Unidos e uma possível suspensão do embargo econômico norte-americano, a comunidade de exilados foi convidada a dialogar com o governo a partir de 1978 para discutir temas de importância para ambos, como o destino de prisioneiros políticos e o estabelecimento de programas de reunificação familiar. Um dos resultados do diálogo, que abordaremos mais detalhadamente adiante, foi a permissão de que exilados retornassem a Cuba para visitar seus familiares. As visitas 89 VICTORIA, Carlos. La travessia secreta. Universal, Miami, 1994, p. 293-295. 90 Ao redor de 1970, as limitações do processo revolucionário se fizeram visíveis. O plano de desenvolvimento econômico acelerado do país apelou à maior capacidade de produção que possuía e investiu todos os esforços na produção massiva de açúcar para obter recursos e nivelar o comércio exterior, mobilizando toda a população da ilha. Uma safra de 10 milhões de toneladas foi o objetivo do país, número que jamais havia sido alcançando. O governo investiu enorme propaganda na campanha, e toda a população foi mobilizada para atingir a meta – sindicatos, estudantes, militares, burocratas, o Partido. A colheita se deu entre novembro de 1969 e julho de 1970. Entretanto, a grande safra alcançou somente 8,5 dos dez milhões de toneladas projetadas, e o esforço deslocou e esgotou a economia nacional. GOTT, Richard, op. cit. 91 O COMECON foi criado pela URSS, em 1959, com o objetivo de formar uma união econômica com a Tchecoslováquia, Hungria, Polônia, Romênia, Bulgária e, posteriormente, República Democrática Alemã e Albânia. O COMECON garantiu a Cuba o acesso a empréstimos adicionais, intensificação do comércio com os países do Leste Europeu, e a União Soviética passou a pagar preços mais elevados do que aqueles praticados no mercado mundial pelo açúcar e pelo níquel cubanos. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, p. 595 e 596 28 tiveram grande impacto, reforçaram laços familiares e tornaram evidentes a grande diferença no acesso a bens de consumo entre as duas sociedades. Em maio de 1979, em meio a dificuldades econômicas, o endurecimento da vida cultural, a suspensão dos Vôos da Liberdade em 1973 e o estabelecimento da “política do diálogo” pelo governo revolucionário, alguns cubanos começaram a adentrar embaixadas latino-americanas em Cuba a fim de solicitar asilo político. As embaixadas peruana e venezuelana eram as mais escolhidas, o que gerou acirradas discussões diplomáticas entre Cuba e esses dos países. Até março de 1980, aproximadamente 30 cubanos já haviam utilizado essa estratégia para deixar a ilha. No final daquele mês, seis cubanos roubaram um ônibus e derrubaram os portões da embaixada peruana em Havana. Os guardas cubanos responsáveis pela segurança do local atiraram no veículo, ainda que os passageiros não estivessem armados. No meio do fogo cruzado, um dos guardas foi atingido e morto. O embaixador peruano se recusou a entregar os passageiros do ônibus para acusação criminal. Em 4 de abril, Fidel Castro retirou todos os guardas da embaixada e anunciou que seu governo “não arriscaria mais a vida de seus soldados para proteger criminosos”.92 Em 48 horas, aproximadamente 10.800 homens, mulheres e crianças haviam se refugiado na embaixada peruana. O contingente de pessoas representava nichos diversos da sociedade cubana: obreros, estudantes, donas de casa, burocratas e escritores, como Juan Abreu, Nicolás Abreu, Lázaro Gómez Carrilles e Roberto Valero. Com a aproximação do aniversário de dezenove anos da invasão da Baía dos Porcos, o governo cubano comparou a crise da embaixada peruana com a de 1961, e previu que, mais uma vez, Cuba triunfaria perante o “exército de delinquentes”, assim como tinha ocorrido em relação às forças do imperialismo.93 A embaixada peruana se converteu em um símbolo de todos os problemas do país, e os refugiados sofreram violência física e verbal por parte de seus compatriotas. Os aparatos de segurança e repressão do Estado cubano e as organizações de massa participaram do assédio contra aqueles que decidiam pelo exílio, com o emprego de violência policial e atos de repúdio organizados pelos Comitês de Defesa da Revolução (CDR’s).94 92 GARCIA, Maria Cristina. Op. cit., locais 786-809. 93 Ibid. 94 MARQUES, Rickley. A Condição Mariel: memórias subterrâneas da Revolução Cubana. Goiânia: EDUFMA, 2012, p. 200-201 29 O acordo negociado entre Cuba e Peru envolvia a colaboração de outros países da região na realocação dos exilados da embaixada, como os Estados Unidos, Costa Rica, Espanha, França, Equador e Canadá, dada a impossibilidade de o país andino receber todo o contingente populacional que requeria asilo. A ponte aérea negociada foi iniciada em 16 de abril, em direção à Costa Rica, onde os exilados seriam redirecionados a seus destinos finais. Entretanto, o governo cubano suspendeu a ponte aérea 4 dias após seu início, alegando que os Estados Unidos e o Peru estavam usando a ocasião para fins propagandísticos de difamação da Revolução, devido à cobertura midiática dada às manifestações contrárias ao regime organizadas pelos exilados na Costa Rica. Em 20 de abril, o governo revolucionário anunciou que permitiria a saída de todos os cubanos que desejassem, e que o porto de Mariel seria o novo local para receber as embarcações de familiares vindas dos Estados Unidos.95 Até setembro daquele ano, 125.000 pessoas deixaram a ilha pelo porto, entre eles, os escritores fundadores da revista Mariel. O fenômeno migratório de Mariel marcou uma mudança significativa no perfil daqueles que optavam por sair da ilha. Proporcionalmente, a quantidade de profissionais qualificados era bastante similar à presente nos Vôos da Liberdade até o início da década de 1970 (11%). Em 1980, entretanto, 40% do contingente era composto por negros e 70% pertencia à classe trabalhadora. Os profissionais semi-qualificados e não-qualificados compunham 45% do exílio massivo, com forte presença das áreas de construção e transporte. A maioria dos emigrantes eram homens jovens, entre os 20 e os 34 anos.96 Esses jovens atingiram a maioridade muito após o início da luta revolucionária, quando o combate às grandes desigualdades sociais demandava sacrifícios coletivos mas mantinha a lealdade de muitos. Quase metade dos emigrantes atingiu a maioridade durante fins da década de 1960 ou na década de 1970, tempos marcados pelo “caso Padilla” e pelo predomínio dos debates acerca da liberdade de expressão. "Desvios" sociais, como a homossexualidade, foram condenados, e novas instituições políticas e sociais foram criadas. Além disso, a década de 1970 foi marcada pelo internacionalismo militar e pelo apoio às lutas de libertação nacional na África.97 95 GARCIA, Maria Cristina. Op. cit., locais 825-858. 96 PEDRAZA-BAILEY, Silvia. Cuba's Exiles: Portrait of a Refugee Migration. The International Migration Review. Vol. 19, No. 1 (Spring, 1985), p. 4-34. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/2545654. Acesso em: 12 fev. 2018. 97PEDRAZA-BAILEY, Silvia. Op. cit., p. 27. 30 A presença de uma comunidade cubana bem estabelecida nos Estados Unidos, proveniente de setores privilegiados, e que, com o apoio de políticas do governo norte- americano, apresentava níveis de êxito econômico superiores aos de outras comunidades de origem latino-americana também constituía fator de atração para novos emigrantes.98 Juan Abreu, um dos diretores de Mariel, escreveu sobre o clima de agitação que tomou conta da ilha no início da ponte marítima e sua saída de Cuba de forma otimista e crítica ao regime: Una noche de marzo de 1980, al llegar a casa, la encontré sacudida por una enorme conmoción. Mi hermano Nicolás y su esposa habían saltado la cerca de la Embajada del Perú. Castro, en medio de una pataleta por un tiroteo en dicha sede cuando algunos cubanos entraron buscando asilo, ordenó quitar las postas a la Embajada. El embajador peruano, como es lógico, se había negado a entregar a los refugiados. Lo que sucedió después es bien conocido: por aquel agujero que parecía conducir a la libertad intentó escapar el 10% de la población de la isla, según datos estimados de la propia dictadura. [...] Las entrañas de la sociedad empezaban a retorcerse y se respiraba en las calles de La Habana un extraño aire de irrespetuosidad y rebeldía. También de esperanza. Que por desgracia fueron infundadas. Castro logró salir airoso de la situación gracias a su innegable capacidad para maniobrar en momentos de crisis. Se estableció, como es sabido, una forma más o menos ordenada de sacar a los refugiados y el gobierno cubano convirtió el problema en uno más entre Cuba y Estados Unidos, fórmula que nunca le ha fallado. Así, mandó a sus agentes a organizar en Miami un puente marítimo para buscar familiares. Los exiliados cubanos no dudaron un segundo en violar las leyes norteamericanas de inmigración y en pocos días estaba en marcha lo que luego pasó a la historia como el Éxodo Mariel-Cayo Hueso. Castro aprovechó para vaciar las cárceles y establecer que todo el que quisiera irse de su finca-paraíso era un delincuente. Esto, gracias a la corrupción del sistema, hizo posible la huida de muchos intelectuales y artistas. Algunos porque efectivamente habían estado en las cárceles por homosexuales o por causas políticas, otros porque se las arreglaron para comprar documentos que certificaban que eran expresidiarios. [...] El primer paso era ir a uno de los «Centros de Tramitación» establecidos en diferentes zonas de la capital. Allí nos confeccionaban un pasaporte y entregaban un documento que aseguraba oficialmente que todos habíamos estado asilados en la embajada peruana. Luego nos trasladaban al Mosquito, una especie de campo de concentración militarizado, y de allí al puerto del Mariel. A las embarcaciones que aguardaban para sacarnos del infierno. A mí me tocó un camionero de Fort Lauderdale. Cuando lo abordé tuve la sensación de estar una Barca de Caronte al revés, es decir, un Caronte que en vez de conducirnos al país de las sombras y los muertos nos llevaba a tierras de luz y de vida”.99 Apesar do tom otimista de Abreu acerca da chegada em solo norte-americano, essa onda do exílio massivo cubano não teve a mesma recepção que as anteriores nos Estados Unidos. Ainda que o presidente Jimmy Carter tivesse declarado que “tendremos 98 AJA DÍAZ, Antonio. La emigración cubana hacia Estados Unidos a la luz de su política inmigratoria. CEMI, Centro de Estudios de Migraciones Internacionales, La Habana, Cuba, 2000. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/cuba/cemi/laemig.pdf. Acesso em: 25 set. 2018. 99 ABREU, Juan. A la sombra del Mar: jornadas cubanas con Reinaldo Arenas. Editorial Casiopea, 1998, p.12. 31 el corazón y los brazos abiertos a los refugiados que buscan la libertad de la dominación comunista y las privaciones económicas a causa de Fidel Castro y su gobierno”100, a administração Carter negou aos emigrantes o status legal de refugiados a partir do Refugee Act de 1980101. Poucos marielitos foram definidos como refugiados políticos ou asilados. Em vez disso, foram emitidas “condicionais”, e uma nova categoria foi criada para eles: “Cuban- Haitian entrant (status pending) ”. Esse status ambíguo permitiu a entrada física, mas não legal, no país, e serviu de base para a negação de direitos aos cubanos marielitos. Além disso, diferentemente dos exilados anteriores, que foram recepcionados pelo Cuban Refugee Program, os marielitos experenciaram o Serviço de Imigração e Naturalização, encontrando maior dificuldade nos procedimentos de imigração e menor disponibilidade de serviços de assistência social que as gerações anteriores de exilados.102 Sua chegada coincidiu com um momento de recessão, inflação e desemprego na economia norte-americana, e de crescentes sentimentos anti-imigração em parcela da população.103 A cobertura midiática do fenômeno migratório contribuiu ainda mais para que grande parte da opinião pública norte-americana olhasse os marielitos com desconfiança. A imprensa enfatizava a presença de criminosos, pacientes psiquiátricos e 100 CARTER, Jimmy. Miami Herald, Miami, 2 de mayo de 1980, sección 30-a. Citado por: BRISMAT MARINA, Nivia. Op. Cit.. 101 Em março de 1980, um mês antes da abertura do porto de Mariel, o presidente Carter assinou o Refugee Act de 1980. O Ato alterou a definição de “refugiado” para eliminar as restrições geográficas e ideológicas da lei anterior. O ato descartou o que o Congresso percebia como um fator da política imigratória norte- americana que favorecia estrangeiros provindos de regimes comunistas, mesmo em relação àqueles que saíam de ditaduras e regimes autoritários de direita. Os Estados Unidos adotaram a definição de refugiado estabelecida pela comunidade internacional, particularmente a proposta em 1951 pela Convenção das Nações Unidas Relacionada ao Status dos Refugiados e seu sucessor, de 1967, o Protocolo Relacionado ao Status dos Refugiados. A nova lei definiu “refugiado” como um indivíduo “escapando de perseguição devido à raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um grupo social particular, ou opinião política”, em um esforço de remover a retórica anticomunista da guerra fria que dominava as antigas políticas. O exílio massivo de Mariel, entretanto, demonstrou que a Guerra Fria e os embates ideológicos contra o comunismo estavam longe de acabar. O exílio massivo testou o recém-aprovado Ato e ajudou a reverter as políticas de refugiados e asilados políticos dos Estados Unidos de volta aos termos da guerra fria. A administração Carter decidiu que o Ato não permitiria a designação dos marielitos como refugiados e que esses seriam julgados caso a caso. Entretanto, devido à pressão a qual a administração estava sujeita, principalmente devido ao fato de que o presidente publicamente deu as boas vindas aos cubanos ao país com o “coração e braços abertos”, foi criada uma classificação especial para facilitar a admissão dos marielitos nos Estados Unidos: “Cuban-Haitian entrant (status pending)”. Posteriormente, a administração Reagan encontrou maneiras de dar continuidade a essa política externa anticomunista, privilegiando refugiados de países comunistas dentro das limitações do Refugee Act de 1980. MORRONE, Priscila. A Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA) na política externa dos Estados Unidos para Cuba. Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais UNESP/UNICAMP/PUC-SP. São Paulo, 2008. 102 CAPÓ JR., Julio. Queering Mariel: Mediating Cold War Foreign Policy and U.S. Citizenship among Cuba’s Homosexual Exile Community, 1978–1994. Journal of American Ethnic History, Summer 2010, Volume 29, Number 4. 103 PEDRAZA-BAILEY, Silvia. Op. cit., p. 28. 32 homossexuais na ponte migratória, os quais constituíam uma minoria, e alguns acusavam Fidel Castro de esvaziar seus presídios e hospitais.104 De acordo com as estimativas do Serviço de Imigração e Naturalização dos Estados Unidos, 19,21% dos marielitos (23.970) haviam passado por presídios cubanos. Entre esses, 22,89% eram prisioneiros políticos e 69,71% foram presos por crimes pequenos ou por atos que não eram considerados ilegais nos Estados Unidos. Somente 7.4% (1.774) daqueles que possuíam antecedentes criminais haviam cometido crimes graves. Estimou-se, provavelmente por autodeclaração, que havia aproximadamente 600 pacientes psiquiátricos e 1.500 homossexuais na ponte marítima.105 O levantamento do SNI contrasta com investigações realizadas em Cuba pelo Departamento de América del Norte en el CEA. Segundo pesquisas de Rafael Hernánez e Redi Gomis106, 45,25% das pessoas que abandonaram Cuba durante o exílio massivo possuíam antecedentes delitivos. Dentre esses, 40,1% haviam cometido delitos contra o direito patrimonial (furto, roubo); 16,4% haviam sido enquadrados pela legislação de Estado Peligroso; 10,8% condenados por delitos contra el Normal Desarrollo de las Relaciones Sexuales y Contra la Familia, la Infancia y la Juventud; 5,5% por tráfico ou porte de drogas tóxicas; 5,2% por delitos contra a segurança do Estado (propaganda clandestina, rebelião, sedição, sabotagem, etc); entre outros. Conforme muitos relatos, parcela da população cubana que desejava deixar a ilha forjou antecedentes criminais. Essa pode ser uma das explicações possíveis para o contraste nos dados entre o levantamento do SNI e o realizado pelo CEA. Não foi uma onda do exílio massivo cubano tão desejada nem constituída pelas mesmas classes sociais, e se converteu em um elemento de heterogeneidade social e de classe dentro da comunidade de exilados cubanos. Além disso, os “marielitos” mantinham vínculos mais estreitos com a sociedade cubana, e suas prioridades políticas 104 Sobre a cobertura midiática norte-americana do fenômeno migratório, ver: CAFENDER, Gray; HUFKER, Brian. From Freedom Flotilla to America's Burden: The Social Construction of the Mariel Immigrants. The Sociological Quarterly, Vol. 31, No. 2 (Summer, 1990), p. 321-335. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/412066. Acesso em: setembro de 2015. Sobre a cobertura da imprensa cubana, ver: CABRERA, Isabel Ibarra; MARQUES, Rickley Leandro. Representações do Mariel nos textos e charges da revista Bohemia e Revolución y Cultura (1980). Revista eletrônica da ANPHLAC, n. 8, 2009. Disponível em: http://revistas.fflch.usp.br/anphlac/article/view/1388. Acesso em: 03 out. 2016. 105 PEDRAZA-BAILEY, Silvia. Op. cit., p. 26. 106 GOMIS, Redi; HERNÁNDEZ, Rafael. Retrato del Mariel: el ángulo socioeconómico. Cuadernos de Nuestra América, vol. 3, n. 5, 1986, p. 124-151. 33 e motivações também os diferenciavam de seus antecessores.107 De maneira geral, foi uma onda do exílio mais representativa da sociedade cubana. O governo federal norte-americano estabeleceu abrigos temporários para registrar e abrigar os recém-chegados. Aqueles que não possuíam familiares ou amigos nos Estados Unidos ficaram detidos por longos períodos de tempo em busca de auxílio. Aproximadamente metade daqueles que chegaram pela ponte marítima aguardaram pelo apoio de indivíduos ou instituições nos centros de processamento Fort Chaffee (Arkansas), Fort Indiantown Gap (Pennsylvania) e Fort McCoy (Wisconsin). Alguns permaneceram por dias nesses centros, outros por mais de um ano.108 Manifestações de descontentamento nos centros devido a demoras na integração dos marielitos na sociedade norte-americana também não favoreceram sua imagem perante parte da opinião pública. Parcela da imprensa estadunidense e membros do Partido Republicano criticaram a administração Carter pela forma como o exílio massivo foi manejado, o que prejudicou a imagem do democrata e recrudesceu o debate acerca das políticas migratórias norte- americanas e das relações entre Cuba e os Estados Unidos. Ainda em 1980, iniciou-se um conjunto de reuniões entre representantes cubanos e norte-americanos para discutir a ponte marítima Mariel-Cayo Hueso e a entrada massiva de cubanos nos Estados Unidos em poucos meses. Somente em 1984, porém, durante a administração Reagan, firmou-se novo acordo de Normalização de Relações Migratórias entre Estados Unidos e Cuba. O governo cubano estava particularmente interessado na adoção de medidas que evitassem a migração ilegal, mas esse avanço só ocorreria anos depois. Determinou-se que seriam concedidos 20 mil vistos anualmente a cubanos, priorizando os presos políticos e seus familiares, bem como aqueles que tivessem familiares com cidadania norte-americana. Cuba se comprometia a receber 2746 marielitos que foram classificados como “excludables” pelos Estados Unidos e que permaneciam em presídios norte-americanos desde sua chegada no país-anfitrião.109 Ainda em 1984, a administração Reagan decidiu estender a Lei de Ajuste Cubano àqueles que ingressaram no país durante o fenômeno 107 AJA DÍAZ, Antonio. La emigración cubana hacia Estados Unidos a la luz de su política inmigratoria. CEMI, Centro de Estudios de Migraciones Internacionales, La Habana, Cuba, 2000. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/cuba/cemi/laemig.pdf. Acesso em: 25 set. 2018. 108 GARCIA, Maria Cristina. Op. cit., locais 907-910. 109 RODRÍGUEZ, Miriam. Las relaciones Cuba-Estados Unidos: migración y conflicto. CEMI, Centro de Estudios de Migraciones Internacionales, La Habana, Cuba. Agosto, 2003, p. 8. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/cuba/cemi/cuba_eeuu.pdf. Acesso em: 12 fev. 2018. 34 migratório de Mariel, de modo que, quatro anos após sua chegada, os marielitos puderam requerer residência nos Estados Unidos. Durante os anos seguintes da década de 1980, entretanto, as relações migratórias entre Cuba e Estados Unidos permaneceram instáveis, principalmente devido à adoção de uma política externa agressiva dos Estados Unidos em relação à ilha, o que fez com que o governo cubano recuasse nos acordos. O estabelecimento da emissora Radio Martí110 e do programa Exodo111, da Cuban American National Foundation112, implementados com o apoio do governo norte-americano, foram os principais motivos para que os acordos regredissem.113 1.2 - A criação de Mariel – Revista de Literatura y Arte Entre os 125.000 dissidentes que saíram da ilha pela ponte marítima Mariel-Key West em 1980, havia vários escritores e artistas que se conheciam desde Cuba. A tentativa de expressarem suas ideias no exílio e de se organizarem como grupo levou à colaboração em projetos editoriais já existentes e à criação de várias revistas em diferentes cidades dos Estados Unidos. A revista Guángara Libertaria, publicação de corte socialista libertário/anarquista direcionada ao exílio cubano, fundada em 1980 em Miami, e vinculada ao Movimiento Libertario Cubano (MLC), foi renovada pela leva de artistas recém-chegados à Flórida. Muitos escritores que chegaram pelo exílio massivo passaram a colaborar na publicação com artigos, poemas e testemunhos, e alguns se incorporaram 110 Estação de rádio com base em Miami, fundada em 1983 e financiada pelo governo dos Estados Unidos através da Broadcasting Board of Governors (BBG). Visa “oferecer um meio alternativo de informações à população cubana” e “apoiar a liberdade e a democracia”. O projeto de lei foi aprovado no Congresso norte- americano com o apoio da administração Reagan, da Cuban American National Foundation e de seu fundador Jorge Mas Canosa, nomeado por Reagan como membro da Comissão de Transmissão para Cuba. Em 1990, adicionou-se a TV Martí ao projeto. A estação adentra o espaço rádio-eletrônico de Cuba e veicula mensagens que visam desestabilizar o regime. 111 Acordo da Cuban American National Foundation com o Departamento de Estado e o Serviço de Imigração e Naturalização dos Estados Unidos. O programa Exodo patrocinava a entrada nos Estados Unidos de cubanos que residiam em outros países e tinham sua entrada nos EUA pendente, sem custo para o governo norte-americano. O programa funcionou entre 1988 e 1992 e levou mais de 8.500 cubanos para os Estados Unidos. 112 Um dos grupos mais efetivos de lobbying em Washington, pressionando o Congresso em assuntos cubanos. Foi fundado, em 1981, por exilados cubanos de classe média alta, entre eles, Jorge Mas Canosa, reconhecido líder da comunidade cubana conservadora de Miami. Sua formação foi estimulada pela administração Reagan. Sua atuação foi fundamental para que o Congresso norte-americano aprovasse legislações que endureciam o embargo econômico e as relações exteriores com Cuba. Fortemente anticastrista, declara-se “a favor da liberdade, da democracia e dos direitos humanos”. Abordaremos os objetivos da FNCA mais detalhadamente no capítulo 2. Sobre a Fundação, ver: MORRONE, Priscila. A Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA) na política externa dos Estados Unidos para Cuba. 2008. 136 f. Dissertação (mestrado) – UNESP/UNICAMP/PUC-SP, Programa San Tiago Dantas, 2008. 113 RODRÍGUEZ, Miriam.Op. cit., p. 8. 35 ao coletivo, como Benjamín Ferrera, Miguel A. Sánchez, Enrique G. Morato, Benito García, Ricardo Pareja, Sergio Magarolas e Esteban Luis Cardenas. Os artigos da revista passaram a ser mais polêmicos e a abarcar temas mais diversos, como história, economia e literatura. Escritores como Carlos M. Luis, Miguel Correa, Roberto Valero e Reinaldo Arenas veicularam seus ensaios e poemas nas páginas dessa publicação.114 Arenas, ao enviar um número da revista para a professora e amiga francesa Liliane Hasson, manifestou sua simpatia pelas ideias anarquistas: "Te mando Guángara, pus es la única revista anarquista que se edita en el exilio, yo simpatizo con esta idea y la revista es de calidad".115 Entretanto, a partir de 1982 – e após alguns anos de adaptação em seu país- anfitrião –, vários escritores exilados no início daquela década sentiram a necessidade de fundar novos projetos editoriais coletivos, em busca de espaços próprios para difusão de ideias, de posicionamentos políticos, de suas obras literárias e da cultura cubana. Reinaldo García Ramos, um dos diretores de Mariel, afirma em suas memórias que, se a necessidade de espaços próprios para a difusão de ideias já existia em Cuba, reapareceu com as novas circunstâncias do exílio para muitos daqueles escritores: Ya Reinaldo Arenas y varios de sus amigos que con él habían llegado por Mariel traían perfilada desde Cuba, desde los años 70, la necesidad de una publicación periódica que les sirviera de instrumento para escapar a la censura oficial; en el exilio, cada uno de los demás artistas y escritores que habíamos llegado en el éxodo habíamos sentido también esa necesidad que ahora, en un medio distinto y ante otras dificuldades inmediatas, cobraba nuevo vigor.116 Os novos projetos constituíam, em muitos casos, formas de se oporem ao passado e de combaterem o regime da ilha. De maneira geral, os recém-chegados careciam de experiência editorial. Essas revistas mantiveram um vínculo estreito entre elas. Intercambiavam artigos e divulgavam umas às outras. Desse modo, um editorial da revista Término apontava: El asilo masivo en la Embajada del Perú en la primavera de 1980 (las primaveras no suelen ser propicias al totalitarismo) y el subsecuente éxodo por el Mariel vinieron a ser la mala hora de la jerarquía cubana. La aparición de las revistas Linden Lane (New Jersey), Término (Ohio), Unveiling Cuba (New York), La oveja negra (California) y Mariel (Florida) son evidencia irrefutable de un marginalismo cultural que ha sobrevivido (y aún sobrevive) en la isla a las consecutivas oleadas represivas. Todas comienzan a aparecer alrededor de 1982, todas dirigidas por intelectuales emigrados después de enero de 1980, todas con sus características distintivas y su sello peculiar, con sus páginas 114 FERNÁNDEZ, Frank. Memorias de Guángara Libertaria. Encuentro de la Cultura Cubana, n. 40, 2006. 115 Citado por HASSON, Liliane. Mariel, una revista (casi) desconocida en Francia. Mariel. Edición especial de aniversario, 2003, p. 33. 116 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. La gran esperanza. Mariel. Edición especial de aniversario, 2003, p. 3. 36 abiertas no sólo a lo mejor de la literatura cubana, sino también a lo mejor de Latinoamerica y los Estados Unidos.117 Unveiling Cuba (1982-1986), publicação bilíngue, foi dirigida pelo escritor Ismael Lorenzo, em Cincinatti. Término (1982-1984), igualmente bilíngue, foi dirigida pelos escritores Roberto Madrigal e Manuel Ballagas, em Nova York; e Linden Lane Magazine (1982 – atualmente) foi dirigida por Belkis Cuza Malé e Heberto Padilla, em New Jersey. Reinaldo Arenas integrou o Conselho de Editores de Unveiling Cuba e de Linden Lane Magazine – dessa última até 1983, quando divergências internas o afastaram da publicação. Reinaldo Arenas apresentava divergências com Linden Lane Magazine devido à “linea tanto politica como literária que a veces sigue la publicación”. As versões sobre a ruptura do escritor com a revista são conflituosas. O escritor declarou, em tom de renúncia, que “Arenas se separa de Linden Lane Magazine” e que “amistosamente, me quiero retirar”. Entretanto, a escritora Belkis Cuza Malé, diretora da publicação, declarou que “Reinaldo Arenas no ha renunciado. Yo lo he botado a patadas” e que Arenas “se enteró de que no estaba en la revista cuando recibió el último número” da publicação, na qual não constava seu nome como consulting editor.118 De acordo com Arenas, Cuza Malé preferiu aceitar que ele não aparecesse a partir daquele número da publicação, visto que a polêmica entre o escritor e Linden Lane havia começado meses antes: Lo que Belkis no dice es que ya habíamos discutido hace tres meses, desde el numero pasado. Yo le mandé una carta. Ella sabia que de no aparecer en este numero unos materiales que yo le habia enviado, yo iba a renunciar. Entonces no publicó los trabajos y no me puso en la revista [...] Esto no constituye ninguna declaración de guerra, pero hay cosas con las que no estoy de acuerdo, [como] materiales sin calidad, cuestiones de diseño y algunas cosas de caracter ideológico.119 O escritor se incomodava com as seleções dos materiais publicados (e não publicados) na revista: “Por que no se publican? Porque critican un mundo academico al que Padilla pertenece...y con el que no quiere tener rencillas”. Arenas desejava que a 117 ECAY, Roberto Madrigal; BALLAGAR, Manuel F. Editorial, Término, Primavera-Spring, 1983, Ohio, p. 3. Citado por: MARQUES, Rickley. Op. cit., p. 219. 118 Cf. Pugna entre 3 escritores en el exilio. El Nuevo Herald, Miami, April 10, 1983, section: frente, p. 1.; e Linden Lane Magazine, tres décadas del empeño de Belkis Cuza Malé, 2012. Disponível em: https://www.martinoticias.com/a/sale_numero_extraordinario_de_revista_con_autores_cubanos_exiliados /11075.html. Acesso em: 12 fev. 2018. 119 Ibid. 37 revista publicasse dois artigos, de Reinaldo García Ramos e de Ismael Lorenzo, os quais foram recusados por Linden Lane120: [...] un importante trabajo critico realizado por Reinaldo García Ramos sobre el libro Literatura Cubana de la Revolución, del professor Seymor Menton, quien hacia una apologia a los escritores castristas [...] Un trabajo de Ismael Lorenzo donde critica al profesor Angel Rama por haber confeccionado um numero de la revista Review, del Center for Interamerican Relations dedicada al exilio, donde los cubanos no figuran. Como si todo esto fuera poco, Padilla publicó un anuncio em su magazine Linden Lane de la revista Review”121. Cuza Malé, frente às críticas de Arenas, respondeu que “Yo quiero que la revista sea amplia. Pero quiero que tenga un mínimo de calidad”. Em sua nota, o escritor condenava, ainda, uma suposta comercialização da revista: "en el ultimo numero figuran desde el anuncio de una panaderia hasta una marca de frijoles en conserva". Em entrevista sobre o aniversário de 30 anos da revista, em 2012, Cuza Malé declarou possuir uma concepção distinta acerca da literatura e da arte: “[...] siempre he concebido a la literatura y el arte ligados a la vida, a sus pequeños y grandes detalles. Para mí, una revista literaria debería llevar anuncios de toda clase de negocios y comercios, reflejar la realidad a la que pertenece. Nada de torre de marfil”. Além disso, a escritora discorreu acerca das dificuldades de se fazer uma revista e trabalhar de maneira coletiva122: Yo no tengo equipo editorial ni nada por el estilo. Suelo parodiar a Flaubert y decir: Linden Lane Magazine soy yo. Porque siempre he hecho yo sola la revista: desde el emplane, el diseño, a la parte administrativa y la espantosamente dura tarea de dejar los magazines listos para que el correo los despachase. [...] En realidad, lo confieso, no me gusta compartir ese trabajo con nadie. Considero que la sobreviviencia de LLM se debe precisamente a eso: a que la he hecho yo solita, sin otros metiendo la cuchareta y diciéndome lo que tengo o no tengo que hacer...ja.123 Apesar das dificuldades inerentes a projetos editoriais coletivos, a ploriferação de revistas após o exílio massivo de Mariel fez com que alguns escritores ventilassem a ideia de união entre os editores, a fim de analisar questões de interesse comum acerca da produção intelectual e da liberdade de criação e para fortalecer seus propósitos políticos de oposição ao regime revolucionário cubano, como indica carta do escritor Enrique Guillerme Morató, colaborar de Guángara Libertaria, a Reinaldo García Ramos, em 1984: Yo creo que sería altamente positivo para nosotros, editores de revistas, producir una reunión en la que se analizarían una serie de cuestiones que nos interesan y posteriormente, a la terminación de dicha reunión, publicar un 120 Ibid. 121 Ibid. 122 Ibid. 123 Ibid. 38 manifiesto o comunicado donde se abordarían fenómenos como estos: la libertad del intelectual o del creador en las sociedades contemporáneas, la represión en los países totalitarios, la necesidad de la acción común ante la represión, etc. En fin, en dicho manifiesto se plantearían nuestras concepciones acerca de los fenómenos más negativos que tocan hoy día a casi todos los seres humanos. Este documento sería publicado por todas las revistas o periódicos que participen en la reunión. Creo que a nosotros nos daría una mayor fuerza en la cruzada emprendida porque el ser humano sea tratado como tal. Varias publicaciones: Guángara, Mariel, Unveiling Cuba, Término, Linden Lane y otras podrían participar en el proyecto. Creo que, apesar de que pueden haver diferencias sustanciales entre cada una de ellas, el resultado final podría ser aceptable, firmable y publicable para todas.124 Ainda que a ideia de articulação proposta por Morató não tenha se concretizado, as publicações mantiveram contato e intercâmbios. Mariel, Término e Unveiling Cuba possuíam vínculos ainda mais estreitos, pois tinham a aspiração comum de desempenhar um papel na “luta antitotalitária”. As metas de Término eram “la discusión y la polémica honestas, la observación aguda y el libre discurrir del pensamento [...] entiéndase bien, bajo el precepto del pensamento antitotalitario”125. Já Unveiling Cuba afirmava que “nuestro propósito es la lucha antitotalitaria y la preservación de la cultura cubana en el exilio”126. Os escritores se identificavam como “marielistas” e intercambiavam colaborações entre as revistas, como indica carta de Roberto Madrigal a Reinaldo García Ramos em 1984: Gracias por la invitación a colaborar en Mariel [...] es curioso como a mi apartado postal llegan muchas cartas y notificaciones de prensas con el sobre dirigido a "Término-Mariel". Nuestras publicaciones son complementarias y por supuesto, no sólo Término es editada por marielistas puro, sino que desde el principio dedica gran espacio a los escritores y artistas del Mariel, López- Alonso, Boza, Correa, Eduardo Gómez, Balmaseda, Valero, Carlos Victoria, Lorenzo, Bordao, Espino, Reglo Guerrero, Victor Manuel, y por supuesto Arenas y todo nuestro Consejo Editorial.127 Apesar das estreitas colaborações entre as publicações identificadas como marielistas, o “editorialismo programático” de Mariel, fortemente focado na reconstrução do significado político e social do exílio massivo de Mariel, e a figura de Reinaldo Arenas, reconhecido internacionalmente, foram fundamentais para que este se estabelecesse como o principal projeto editorial coletivo no exílio dessa geração, no que tange à sua visibilidade como grupo, como aponta o marielista Jesús Barquet: La revista Mariel tuvo también, como propósito particular, la intención de contrarrestar la versión castrista y de cierta prensa occidental sobre la 124 MORATÓ, Enrique Guillermo [Carta] 26 fev. 1984, Miami [para] GARCÍA RAMOS, Reinaldo, Nova York. 2f. Mariel (Revista) Papers. 125 Editorial, Término, n.1, otoño de 1982. 126 Unveiling Cuba, n.2, enero de 1983. 127 MADRIGAL, Roberto. [Carta] 27 jan. 1984, Cincinnati [para] GARCÍA RAMOS, Reinaldo, Nova York. 1f. Mariel (Revista) Papers. 39 naturaleza supuestamente “antissocial” y “criminal” del éxodo del Mariel. La revista se proponía (y logró) demostrar que ese exilio incluía literatos, artistas, músicos, pintores, teatristas, profesores, editores, críticos y profesionales de todo tipo que huían de Cuba, no por sus antecedentes criminales ni por perseguir ciegamente fáciles esquemas de bienestar económico, sino por la asfixia existencial del régimen. Se trataba de creadores que sólo buscaban realizar su obra en libertad y en un espacio que consideraban más propicio para la creación.128 A revista representava para os escritores um meio no qual podiam se expressar com absoluta liberdade, em contraposição ao passado em Cuba, como afirma o marielista Roberto Madrigal: "Todos habíamos sufrido el peso del poder de la cultura oficial, la que no admitía la existencia de ninguna otra que no fuera la que propagaban las instituciones y publicaciones culturales del castrismo, la cultura cómplice"129. Os escritores sentiam a necessidade de expressar o que o marielista René Cifuentes chamou de "una furia por desenmascarar aquel lugar donde todos habíamos sufrido tanto y por expresar la alegría de estar en otro lugar donde podíamos publicar lo que nos daba la gana”130, o que se fazia possível através dos projetos editoriais coletivos. Mariel era impressa em formato tablóide, em papel jornal: o mais barato e o único que os editores conseguiam arcar com os custos, já que não tinham apoio institucional. Cada número possuía 32 páginas, alguns se estendendo a 40, e, mesmo se apresentando também como uma revista de arte e publicando obras de vários artistas plásticos cubanos exilados, era impressa em preto e branco. González e Grillo131 apontam que uma revista impressa em papel de jornal, além de apontar para falta de recursos, comunica algo a respeito de como esta se concebe em termos de duração, dando-lhe um certo “carácter ancilar o de servicio”. Sua periodicidade era trimestral, e cada exemplar era vendido por US$2,50. A assinatura anual era de US$10,00 para particulares e US$15,00 para instituições. Assinantes de fora dos Estados Unidos, tanto indivíduos como instituições, pagavam US$20,00 por ano. Havia, ainda, um sistema de “assinantes de honra”, que incluía indivíduos ou instituições que colaborassem com, no mínimo, US$50,00 por ano. As duas maiores contribuições monetárias institucionais destinadas à revista foram realizadas pela 128 BARQUET, Jesús. Citado por: PANICHELLI-BATALLA, Stephanie. La generación del silencio (II). Disponível em: https://www.cubaencuentro.com/cuba/mariel/la-generacion-del-silencio-ii-5180 129 MADRIGAL, Roberto. Citado por: PANICHELLI-BATALLA, Stephanie. Op. cit. 130 CIFUENTES, RENÉ. Citado por: PANICHELLI-BATALLA, Stephanie, Op. cit. 131 Ibid, p. 9. 40 Cuban American National Foundation (CANF),132 em nome de Frank Calzón, seu então diretor, no valor de US$100,00 cada - quantia bastante modesta para as dimensões da instituição, mas muito acima da média (US$37,00) das contribuições normalmente recebidas pela publicação. Dentre as instituições que assinavam a revista, encontravam- se, majoritariamente, bibliotecas universitárias e municipais, as únicas exceções sendo a Radio Martí133 e a Ibero American Chamber of Commerce134. No início de 1985, a revista possuía entre 400 e 600 assinantes, nos Estados Unidos e na Europa, em sua maioria acadêmicos e exilados cubanos. Além do sistema de assinaturas, sua distribuição era realizada em bibliotecas, livrarias, centros culturais, universidades, e através de mailing lists. A mailing list, que entendemos como o público leitor desejado pela revista, visto que a publicação era enviada diretamente pela administração da revista a esses indivíduos, sem custo para os destinatários, era composta por professores universitários de espanhol e literatura latino-americana de instituições estadunidenses e latino-americanas, incluindo o argentino Jorge Schwartz; editores; organizações de direitos humanos e de exilados e ex-presos políticos cubanos; instituições do governo norte-americano, como o Departamento de Estado e as Forças Armadas; arquidioceses; associação de advogados cubanos; organizações de militância política anticastrista e grupos de lobbying, como a Fundação Nacional Cubano Americana (FNCA) e a Cuba Independiente y Democrática135 (CID); bibliotecas; periódicos; 132Um dos grupos mais efetivos de lobbying em Washington, pressionando o Congresso em assuntos cubanos. Foi fundado, em 1981, por exilados cubanos da burguesia de classe média alta, entre eles, Jorge Mas Canosa, reconhecido líder da comunidade cubana conservadora de Miami. Sua formação foi estimulada pela administração Reagan. Sua atuação foi fundamental para que o Congresso norte-americano aprovasse e mantivesse legislações que endureciam o embargo econômico e as relações exteriores com Cuba. Fortemente anticastrista, declara-se “a favor da liberdade, da democracia e dos direitos humanos”. Abordaremos os objetivos da FNCA mais detalhadamente no capítulo 2. 133Estação de rádio com base em Miami, fundada em 1983 e financiada pelo governo dos Estados Unidos através da Broadcasting Board of Governors (BBG), agência independente do governo norte-americano, que visa “oferecer um meio alternativo de informações à população cubana” e “apoiar a liberdade e a democracia”. O projeto de lei foi aprovado no Congresso norte-americano com o apoio da administração Reagan, da Cuban American National Foundation e de seu fundador Jorge Mas Canosa, nomeado por Reagan como membro da Comissão de Transmissão para Cuba. Em 1990, adicionou-se a TV Martí ao projeto. A estação adentra o espaço rádio-eletrônico de Cuba e veicula mensagens desestabilizadoras. 134Estabelecida em 1976, buscava unir, representar, facilitar, aconselhar e assistir a constituição e desenvolvimento de empresas e negócios integrados pela América Latina e a Península Ibérica. Atualmente denominada The Greater Washington Hispanic Chamber of Commerce. 135Fundada em 1980, na Venezuela, com o apoio de socialdemocratas e democrata-cristãos, e sediada em Miami. O cargo de secretário geral era ocupado, então, por Huber Matos, ex-comandante do Exército Rebelde condenado por traição em tribunal revolucionário após desavenças ideológicas, que cumpriu 20 anos de prisão em Cuba e tornou-se destacado líder da oposição anticastrista em Miami. CID luta até hoje pelo estabelecimento da “liberdade, democracia, soberania e dignidade humana” na ilha. Huber Matos foi acusado pela televisão cubana de planejar um atentado terrorista contra Fidel Castro em 1981. Mantinha relações de amizade com escritores de Mariel, como Roberto Valero. Sobre Huber Matos e os tribunais 41 intelectuais cubanos exilados na Espanha; e intelectuais latino-americanos, como o mexicano Octavio Paz e o chileno Jorge Edwards. Em 1984, a Internacional Democrata Cristã (CDI) financiou 250 assinaturas de um ano da revista para a Bélgica, Brasil, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Espanha, Peru, Argentina, Venezuela, Uruguai e Chile.136 A maioria dessas assinaturas foram voltadas a periódicos, senadores e deputados espanhóis de localizações variadas no espectro político – do Partido Socialista Operário Espanhol à Alianza Popular. Alguns poucos deputados argentinos e brasileiros tiveram assinaturas da revista enviadas através da CID, dos partidos Justicialista e MDB, respectivamente. O preço da revista era acima da média das outras publicações realizadas por marielistas na época. As assinaturas anuais de Unveiling Cuba, dirigida por Ismael Lorenzo, e de Término, dirigida por Roberto Madrigal e Manuel Ballagas, ambas de periodicidade também trimestral, custavam US$6,00 (US$8,00 para assinantes de fora dos EUA). Em compensação, se comparada a outras revistas literárias, como Linden Lane Magazine, dirigida por Heberto Padilla e Belkis Cuza Male, Mariel ficava na mesma faixa de preço.137 Foram publicados 8 números de Mariel, entre a primavera de 1983 e o inverno de 1985, de maneira regular e acorde com a periodicidade estipulada. Até o número 3, a revista era editada em Nova York e impressa em Miami. Os editores orientavam os leitores para que enviassem as correspondências relativas a assinaturas e questões administrativas para Miami, enquanto as relativas a colaborações, material para publicação e literário em geral deveriam ser encaminhadas para Nova York. Essa situação se devia à distribuição geográfica dos editores: Arenas, García Ramos e Cifuentes residiam em Nova York; Abreu, Victoria, Morgado e Luis de la Paz, em Miami; Valero, em Washington. Somente em 1984, a partir do número 4 da revista, edição e impressão são unificadas em Nova York. Com essa unificação, a partir do número 5, houve alterações no Conselho Editorial, no desenho gráfico, na administração, na distribuição e na tipografia, alterando- revolucionários, ver: PRADO, Gilliard. A construção da memória da Revolução Cubana: a legitimação do poder nas tribunas políticas e nos tribunais revolucionários. Curitiba: Appris, 2018. 136 CHC5170 Mariel (Revista Papers). Box 1. Folder 4. Mailing list. Cuban Heritage Collection. University of Miami. 137 A assinatura anual de Linden Lane Magazine, assim como a de Mariel, era de US$10,00 nos EUA e US$20,00 no exterior. 42 se também o logotipo da publicação.138 Marcia Morgado deixou a posição de Editora Administrativa e passou a compor o Conselho Editorial; René Cifuentes se encarregou da distribuição e relações públicas juntamente a Giulio V. Blanc; Scott Houser assumiu a administração. O desenho gráfico e a diagramação de Mariel eram claros e abundavam fotografias e obras de artistas plásticos – nem sempre favorecidas pela impressão em preto e branco em papel de baixa qualidade. Contudo, eram frequentes nos primeiros números colunas com textos desalinhados e a publicação de erratas. De maneira geral, a diagramação e o desenho gráfico da revista melhoram e os erros de impressão diminuíram a partir do número 4. Quanto aos aspectos de conteúdo da revista, esta era dividida em cinco seções principais: uma sem título, que reunia contos, poemas e trechos de romances de escritores marielitos; Confluencias, na qual republicou-se obras de escritores cubanos de gerações anteriores que os editores consideravam que haviam sido silenciadas ou deturpadas pelo regime da ilha, sendo eles José Lezama Lima, Virgílio Piñera, Enrique Labrador Ruiz, Carlos Montenegro, José Manuel Poveda, Gastón Baquero, José Martí e outros poetas majoritariamente dos movimentos romântico e modernista do século XIX; Experiencias, que reunia crônicas, memórias e materiais autobiográficos que revelassem “hechos notables de la vida diaria cubana o de cubanos en cualquier época, pero preferiblemente vivencias sufridas bajo la dominación de Fidel Castro o experiencias que esclarezcan la evolución de nuestra cultura”; Urgencias, que publicava “comentários, críticas, ironías o cóleras que los acontecimientos más recientes y heterodoxos despierten en nuestros editores”, normalmente relacionados ao governo cubano e ao meio intelectual cubano e estadunidense; e Libros, constituída por resenhas e críticas de livros e exposições relacionadas à cultura cubana no exílio. Na fundação de Mariel, em 1983, matérias do Miami Herald questionavam a autodenominação geração de Mariel e estabeleciam essa revista como a mais sintomática de uma possível sensibilidade comum entre os escritores exilados pela ponte marítima Mariel-Cayo Hueso: Radica en poder conocerlos así a traves de esta revista (que aunque no sea la primera donde publican muchos escritores llegados por el Mariel, pues lo han hecho ya y lo siguen haciendo muchos de ellos en publicaciones como Linden 138 Imagens em Anexos. 43 Lane o Término, parecería esta tener el proposito de ser la más especificamente dirigida a ellos), y poder enterarnos poco a poco de si esa generación tiene distintivos estilísticos de algun género, mundos particulares, o si constituyen un grupo de artistas diversos unidos por una historia con parecidos accidentes. Y puede que conozcamos tambien, si es ese su proposito, visiones y expresiones de una epoca cubana ignorada de muchos como vivencia directa.139 Esse questionamento acerca dos elementos aglutinadores do grupo partiu, inclusive, de seus próprios membros. Jesús Barquet, por exemplo, ressalta que em termos estritamente literários, a denominação geração de Mariel resulta problemática, visto que se refere a fatores extraliterários. Não há nenhuma orientação estética ou estilística que seja comum a todos os escritores, que, como grupo, são caracterizados pela heterogeneidade. Apesar de no terreno semântico os unirem uma abordagem crítica da realidade cubana sob o regime revolucionário, as formas literárias escolhidas por cada autor para expressar seu descontentamento foram marcadas pelo ecletismo, coincidindo também o tom de angústia e fúria, e as imagens de liberdade e opressão que são frequentes em seus textos140: El término “generación del Mariel” es un comodín demasiado superficial que muchos escritores de esa migración adoptaron como un desafío frente a otros estamentos del exilio cubano y como una afirmación de su propia existencia histórica, que no es la misma de los cubanos que les antecedieron en el destierro pero que, en su sentido literario, resulta demasiado precaria, embotellando, bajo una misma etiqueta, a elementos muy diversos que exigen un mejor estudio y una reagrupación más racional y formal. El Mariel fue un accidente histórico...pero no una epifanía literaria. El mosaico de escritores que lo representa tendrá que ser reagrupado por la crítica de una manera más orgánica, en tendencias y generaciones.141 Autores como Iván de la Nuez acrescentam, ainda, que a geração de Mariel, se compreendida como o conjunto de intelectuais que deixaram a ilha ao redor de 1980, abarcou não somente a literatura, mas as artes plásticas, a música, o teatro, o ensino universitário e o jornalismo, conformando um grupo bastante heterogêneo não só em suas formas de expressão artística, mas também ideologicamente.142 Aqueles intelectuais que se identificaram mais fortemente como “marielistas” e construíram uma identidade para o grupo se congregaram, principalmente, ao redor das revistas Mariel, Término e 139 Arte y literatura bajo un comun denominador. El Nuevo Herald, Miami. May 8, 1983. Section: galeria, p. 14. 140 BARQUET, Jesús J. La generación del Mariel. Encuentro de la Cultura Cubana, n. 8/9, primavera/verano 1998, p. 110. 141 ECHERRI, Vicente. En torno a la generación del Mariel. RAFULS, Pedro R. Monge (ed.) Lo que no se ha dicho. Jackson Heights, NY: Ollantay, 1994. 271-279, p. 274. Citado por: BARQUET, Jesús. La generación del Mariel. Encuentro de la Cultura Cubana. Madrid, n. 8/9, 1998, p. 114. 142 NUEZ, Iván de la. Mariel en el extremo de la cultura. Encuentro de la Cultura Cubana, n. 8/9, primavera/verano 1998, p.106. 44 Unveiling Cuba, comprometidas com a “luta antitotalitária”. Em sua maioria, eram jovens criados pela Revolução, refratários ao ideário do “homem novo”, criadores de obras consideradas “marginais” ou “contrarrevolucionárias” pela política cultural restritiva da década de 1970. Muitos dos que se identificavam como marielistas já se conheciam na ilha e frequentavam os mesmos locais, como a noite de La Rampa, A Cinemateca de La Habana e a praia de Guanabo. Salvo raras exceções, não haviam publicado nada na ilha e vários se identificavam como homossexuais. Além do compromisso com a “luta antitotalitária”, a maior parte dos elementos de coesão do grupo encontram-se na esfera extraliterária, no que tange às experiências em comum vivenciadas por esses intelectuais: “la ‘generación del Mariel’ es la generación de exiliados cubanos que ha padecido veinte años de ditadura”143, defendia Reinaldo Arenas. A experiência comum serviria, assim, de denominador comum à geração. O escritor Miguel Correa escreveu sobre as experiências em comum do grupo na ilha, em termos bastante negativos ao governo cubano: La misma palabra ‘Mariel’ explica nuestra procedencia: escapados de Cuba. Los artistas que integran esta generación son los que, de una forma u otra, ‘formó’ la dictadura comunista de Fidel Castro en veintitantos años de histeria y represión. Creo que no ha existido un grupo generacional con un marco histórico tan extremadamente uniforme, tan idéntico, como el nuestro. Las mismas rejas que estrenó René Ariza, las conocieron Valero y Arenas. La misma represión sin salida, el mismo ciclo de persecuciones y arrestos, los mismos interrogatorios infernales. Las purgas y los trabajos forzados los conocimos todos en el mismo país y casi hasta a la misma hora. Las mismas amenazas, el chantaje comunista (el más cruel de los tiempos modernos) y el acoso físico los sufrimos todos a la vez. Es que hasta nuestros sufrimientos, nuestros sueños y alegrías son tan similares que talmente parece que salimos todos de la misma madre. Y es eso realmente. Salimos todos de la madre (mejor dicho, del coño de la madre) de la opresión y del dominio absoluto de un hombre.144 Na perspectiva dos marielistas, haveria entre eles o denominador comum da experiência histórica da repressão oficial, a qual pretendiam denunciar e combater no exílio através da realização de suas obras. As restrições às liberdades individuais e de expressão durante o quinquenio gris marcaram a vivência dos escritores que se identificaram como marielistas, que haviam iniciado sua vida literária durante o período revolucionário. Reinaldo Arenas enviou seus manuscritos para serem publicados fora de Cuba, após seu conto La Vieja Rosa ser censurado pela UNEAC; seus manuscritos de 143 ARENAS, Reinaldo. La generación del Mariel. Noticias de arte, n 11, 1981, p. 2. 144 CORREA, Miguel. Generación del Mariel. Festival de las artes / 3º aniversario del Mariel. Cuba: Pintores y escritores en el exilio, 1983, p. 30-31. Citado por: BARQUET, Jesús J. Op. cit., p.112. 45 Otra vez el mar foram apreendidos pela polícia política; e o escritor cumpriu tempo na cadeia entre 1974 e 1976, acusado de “escândalo público”, após ter seus pertences furtados na praia de Guanabo.145 Carlos Victoria foi detido pelo Departamento de Segurança do Estado em 1978, e seus manuscritos confiscados; no mesmo ano foi preso em Vila Marista, acusado de posse de literatura contrarrevolucionária.146 René Cifuentes foi condenado a três anos de prisão em 1972, após tentar sair da ilha ilegalmente.147 Miguel Correa foi expulso da Universidade de Havana, segundo ele por “haber expresado su admiración por Aleksandr Solzhenitsyn”.148 Daniel Fernández foi condenado a quatro anos de prisão, em 1978, pela obra La vida secreta de Truca Pérez, e foi indultado em 1979.149 René Ariza foi condenado a oito anos de prisão em 1974 por tentar enviar manuscritos para fora da ilha, e foi indultado em 1979.150 Esteban Luis Cárdenas foi expulso da Univerdade de Havana em 1966 por “diversionismo ideológico” e, em 1978, condenado a quinze anos de prisão por tentar conseguir asilo na Embaixada Argentina de Havana. Foi indultado no ano seguinte.151 Nesse sentido, concordamos com Karl Manheim152 quando afirma que pertencem à mesma geração todos aqueles que viveram as mesmas experiências coletivas e sofreram os seus efeitos, adquirindo uma visão de mundo similar. Jean-François Sirinelli afirma, ainda, que é necessário levar em consideração os efeitos de idade e os fenômenos de geração, devido aos processos de transmissão cultural e ao seu papel explicativo em tomadas de posição.153Segundo Jesús J. Barquet, a geração de Mariel é resultado dos mesmos mecanismos que geraram uma “geração do silêncio” na década de 1960 em Cuba. Manuel Ballagas localiza a origem da “geração do silêncio” na repressão engendrada pela burocracia cultural e pela segurança do estado castrista contra os 145 Cf. MISKULIN, Sílvia. Outro olhar sobre a Revolução Cubana: a trajetória e obra de Reinaldo Arenas na revista Vuelta. Revista Brasileira do Caribe, vol. X, núm. 19, julio-diciembre, 2009, pp. 191-208. Disponível em: http://www.redalyc.org/pdf/1591/159113063008.pdf. Acesso em: 21 nov. 2018. 146 ERTZOGUE, Marina Haizenreder. O ressentimento insular em La estrella fugaz de Carlos Victoria. Caligrama, v.18, n.1, 2013, p.31-47. 147 Mariel, n. 1, 1983, p. 31. 148 Mariel, n. 2, 1983, p. 11. 149 Mariel, n. 7, 1984, p. 9. 150 RUBIN, Don; SOLÓRZANO, Carlos. The World Encyclopedia of Contemporary Theatre. The Americas. Vol. 2. Routledge, 2001, p. 412. 151 Homenaje al poeta y narrador cubano Esteban Luis Cárdenas. Disponível em: https://www.cubaencuentro.com/cartelera/agenda/homenaje-al-poeta-y-narrador-cubano-esteban-luis- cardenas-276214. Acesso em: 21 nov. 2018. 152 Citado por SILVA, Helenice Rodrigues da. A História Intelectual em questão. In: LOPES, Marcos Antônio (org). Grandes nomes da história intelectual. São Paulo: Editora Contexto, 2003, p. 22-23. 153 SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais. In: Rémond, René (org.) Por uma história política. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996, p. 254-256. 46 intelectuais a partir de 1965. Essa repressão, por razões ideológicas, estéticas e sexuais, afetou, fundamentalmente, aos escritores da primeira geração pós-revolucionária, também conhecida como geração El Puente, a qual pertenceram Reinaldo García Ramos - um dos diretores de Mariel -, Isel Rivero e Ana María Simo, que colaboraram nas páginas da revista. Essa repressão afetou também os jovens autores da década seguinte. Barquet defende, então, que o conceito de “geração do silêncio” pode ser ampliado para incluir a todos esses jovens escritores que, posteriormente, realizaram obras à margem da política cultural da Revolução, abandonaram a ilha e começaram a tecer críticas a partir do exílio.154 De maneira similar, Rickley Leandro Marques defende que a “geração de Mariel” existia anteriormente ao próprio fenômeno migratório de Mariel, na forma de resistência, ainda que sem esta denominação e com objetivos diferenciados, ou pelo menos não delimitados. Contudo, a resistência de seus futuros integrantes a adaptar-se ao modelo proposto pelos revolucionários cubanos, e a facilidade com que se reuniram nos Estados Unidos da América, mostram a existência de oposição interna à Revolução dentro da intelectualidade cubana, principalmente junto àqueles que foram afastados da UNEAC por razões políticas ou morais (especialmente por homossexualidade).155 De acordo com Lilian Bertot, como grupo, representavam uma rachadura na Revolução Cubana, muito antes do colapso do bloco soviético, visto que seu distanciamento do que se esperava do “homem novo” idealizado pela Revolução esteve marcado pelos sentimentos de frustração, fúria, desolação e rechaço radical da realidade cubana.156 Os questionamentos acerca do significado e da validade da utilização do termo “geração” para designá-los foram veiculados pela própria Mariel, em artigo do professor e escritor cubano Carlos Ripoll, convidado para apresentá-los no evento de lançamento da revista, em 1983: Qué es una generación? Quien primero lo definió en términos modernos fue François Mentré, en 1920, al decir que el fenómeno surge por la "mentalidad particular" de unos indivíduos que se sienten ligados por una "comunidad de puntos de partida, de creencias y deseos". Con estas observaciones se podría intentar una análisis de ciclo que ahora comienza, y ver cuales pueden ser sus características. Lo primero a que debe sentirse obligada una generación es a conservar su identidad, a dejarse llevar por lo más genuino de quienes la forman. Esta de 1983, los que llegan más o menos alrededor del éxodo del 154 BARQUET, Jesús J. Op. cit., p. 112. 155 MARQUES, Rickley Leandro. Op. cit., p. 220. 156 BERTOT, Lillian. La imaginación literaria de la generación del Mariel. Miami: Fondo de Estudios Cubanos. J.M.C. Freedom Foundation, 2000. 47 Mariel, por haberse desarrollado en un medio que les imponía un programa estético y de conducta en el que no intervinieron sus miembros, esa particularmente necesita de esa honradez. [...] Se ha de producir lo permanente porque el oficio de una generación es seleccionar e insistir en los contornos únicos de su imagen del mundo. Solamente el tiempo podrá darle el nombre definitivo a la generación de 1983, pero ahora no me parece un error llamarla del Mariel.157 Já o escritor marielista Jesús J. Barquet, em carta enviada à revista em 1984, admitiu que a autodenominação podia ser precipitada, mas que possuía uma relevante função de coesão, oposição política e combate a uma falsa imagem, mais que teórica: Tempranamente asimismo hemos ido reconociéndonos los del Mariel como un grupo homogéneo, marcado por similares experiencias, guiado por comunes derroteros. Una vez en el destierro detectamos nuestra esencia "distinta en el Cosmos". Pero nuestra distintividad no es en modo alguno excluyente. [...] Es probable sí que un poco precipitadamente hayamos corrido a autodefinirmos, a recortar esa imagen virtual que tenemos de nosotros mismos pero ha sido para ganar en coherencia, en perspectiva coral, en destino literario, en resistencia contra el tiempo y el enemigo común, quien prefiere vernos dispersos, separados, inclasificables y por tanto desnaturalizados para más facilmente derrotarnos. Porque nuestra autodenominación no fue nunca un proyecto teórico-especulativo sino una forma concreta de combatir una falsa imagen. La generación del Mariel aunque aun en ciernes su "peculiar perfil", muestra ya orgullosa su "unidad" y sus 'irradiaciones históricas".158 Entendemos o objetivo de combater uma falsa imagem como o intuito de ressignificar o exílio massivo de Mariel, tanto em relação aos discursos oficiais do governo revolucionário cubano, como em relação à cobertura midiática norte-americana. Rickley Leandro Marques afirma que a geração de Mariel ganha, nesse sentido, caráter de luta social, considerando que "trata-se do processo prático no qual experiências individuais de desrespeito são interpretadas como experiências cruciais típicas de um grupo inteiro, de forma que elas podem influir, como motivos diretores da ação, na exigência coletiva por relações ampliadas de reconhecimento".159 O fato de que na história cubana revistas serviram como meio para que escritores definissem suas participações nos debates intelectuais e em relação a outros grupos de poder (econômicos, políticos, sociais), e conformaram um espaço que legitimava suas posições160, desempenhou um papel na decisão de criação de Mariel, como sugere o marielista Jesús J. Barquet em 1984: 157 RIPOLL, Carlos. La generación del Mariel, Mariel, n. 2, verano de 1983, p. 29-30. 158 BARQUET, Jesús J. Sección Cartas, Mariel, n. 4, p.25. 159 HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Ed.34, 2003, p. 257. Citado por: MARQUES, Rickley Leandro. Op. cit., p. 223. 160 PITA GONZÁLEZ, Alexandra. Las revistas culturales como fuente para el estudio de redes intelectuales. PALÁCIO MONTIEL, Celia del; MARTÍNEZ MENDOZA, Sarelly (coord.). Voces en papel. La prensa en Iberoamérica de 1792 a 1970. México, Universidad Autónoma de Chiapas, 2008, p. 4. 48 Otro gran cubano, José Lezama Lima (con cuya generación la nuestra lanza ese puente de afinidad que muchos generacionistas perciben entre una generación y la segunda que la antecede), en su momento, también reconoció la necesidad de una presencia coral para resistir, en aquel entonces frente a la indiferencia. De ahí que insistiera tanto en la creación de revistas y en autodefinir su generación como la generación de Espuela de Plata (más tarde Orígenes). Así nos dice en la década del 60 que ‘la necesidad casi fanática que teníamos de hacer revistas tenia dos motivaciones esenciales. La necesidad de publicar, pues a veces los periódicos y las revistas establecidas se niegan a aceptar las creaciones de los más jóvenes. El hecho de necesitar también el constituirnos en una exigencia histórica y generacional. Ya a estas alturas se puede afirmar que si denodada y heroicamente no se hubieran ofrecido esas revistas, lo que después se llamó la generación de Orígenes no hubiera mostrado su unidad, su peculiar perfil y sus irradiaciones históricas.161 Assim, os escritores marielitos pretendiam promover suas obras e conquistar um espaço próprio, e se vinculavam a Orígenes162 com fins de legitimação e para disputar as memórias da Revolução, como abordaremos no capítulo 3. Mariel, como grupo, geração e projeto editorial, não foi aceita pela política cultural cubana, e foi pouco aceita por parte da esquerda estadunidense. Há fenômenos que ajudam a explicar a espécie de não-lugar dos membros do grupo no exílio, entre a esquerda e a direita. Quando ocorreu o exílio massivo, havia uma política de aproximação entre o governo cubano e a parcela progressista da comunidade do exílio, designada pejorativamente de “dialogueros” A partir de 1978, o governo cubano convidou a comunidade de exilados para dialogar com Cuba e discutir assuntos de importância para ambos, incluindo o destino de prisioneiros políticos e um possível programa de reunificação familiar. A política do diálogo gerou uma aguda polarização na comunidade de cubanos exilados em Miami, resultando em episódios de rechaço, boicote e violência aos “dialogueros” por parte da parcela mais radical do exílio.163 Através do diálogo, o regime revolucionário pretendia manter as linhas de comunicação abertas para as negociações com o governo dos Estados Unidos em direção a relações diplomáticas e à suspensão do embargo econômico, que haviam chegado a um impasse devido a oposição norte-americana à presença cubana em Angola. Apelando à comunidade de exilados, o regime cubano pretendia influenciar o segmento da sociedade americana mais contundentemente contrário à renovação das relações diplomáticas entre os dois países. Almejava-se, também, melhorar a imagem cubana e amenizar a perda de 161 BARQUET, Jesús J. Sección Cartas, Mariel, n. 4, p.25. 162 Importante revista cultural publicada entre 1944 e 1956. Dirigida por José Lezama Lima e José Rodríguez Feo, congregou parte da intelectualidade vinculada ao republicanismo católico da ilha. Abordaremos a geração de Orígenes mais detalhadamente no capítulo 3. 163 GARCÍA, María Cristina. Havana USA: Cuban Exiles and Cuban Americans in South Florida, 1959- 1994 (Locais do Kindle 677-738). Edição do Kindle. 49 apoio internacional ocorrida na década de 1970, sobretudo entre a intelectualidade europeia, questão que abordaremos posteriormente.164 Formou-se, assim, um comitê de exilados, conhecido como “Comite de los 75”. Encabeçado pelo banqueiro de Miami, Bernardo Benes, o comitê foi constituído por jornalistas, professores universitários e homens de negócios dos Estados Unidos, Porto Rico, Espanha, Venezuela e México, líderes de suas comunidades e aprovados pelo governo cubano, que viajaram a Havana para o primeiro diálogo em novembro de 1978. Em 1980, o número de presos políticos soltos chegava a quatro mil, superando o acordo inicial estabelecido entre o governo cubano e os “dialogueros”. Outra consequência do diálogo foi a abertura da ilha para que exilados retornassem, visitassem familiares e testemunhassem as conquistas da sociedade revolucionária. Parcela dos que se propuseram a dialogar com a Revolução possuíam vínculos com a brigada Antonio Maceo e com a revista Areíto.165 Revista publicada por exilados cubanos, em sua maioria estudantes de pós- graduação e professores universitários, em New Jersey, entre 1974 e 1992, Areíto procurava compreender a Revolução Cubana para além dos discursos da comunidade “tradicional” de exilados cubanos nos Estados Unidos. Simpáticos a ideias de esquerda, os colaboradores defenderam a Revolução Cubana, criticaram o exílio cubano conservador e tentaram forjar uma identidade cubana dentro dos Estados Unidos.166 Em 1978, vários dos integrantes do Grupo Areíto contaram suas formações políticas e pessoais na antologia Contra viento y marea, que foi publicada e premiada pela Casa de las Américas. Seus posicionamentos editoriais encontraram bastante hostilidade na Flórida, inclusive no meio universitário. O conselho editorial sofreu ataques a bombas por parte de militantes extremistas da comunidade cubana de Miami. Em 1980, quando Areíto criticou aqueles que deixaram a ilha pela ponte marítima Mariel-Cayo Hueso, Reinaldo Arenas chamou a revista de "o órgão oficial da polícia política cubana em Nova York".167 A Brigada Antonio Maceo, por sua vez, foi fundada em 1977 e patrocinava viagens a Cuba para jovens cubano-americanos e exilados que haviam deixado a ilha 164 Ibid. 165 Ibid. 166 PRATES, Thiago Henrique Oliveira. "O mundo não acaba no Malecón": exílio, intelectuais e dissidência política nas revistas Encuentro de la Cultura Cubana e Revista Hispano-Cubana (1996-2002). 2015. Dissertação (mestrado) - Fafich, UFMG, Belo Horizonte. 167 GARCÍA, Maria Cristina. op. cit., locais 2801-2811. Edição do Kindle. 50 ainda quando crianças. Nessas viagens, visitavam familiares e amigos, percorriam a ilha e avaliavam o sucesso da Revolução com seus próprios olhos. Esperava-se que a Brigada contribuisse para o processo revolucionário e de defesa da Revolução. Os estudantes e jovens profissionais auxiliavam em projetos de construção em Cuba e muitos se engajaram em críticas às políticas externas agressivas dos Estados Unidos em relação à ilha. O primeiro grupo da Brigada foi constituído, majoritariamente, por membros de Areíto. As críticas por parte da comunidade cubana de Miami se radicalizaram ao ponto de um brigadista e participante do diálogo de 1978, Carlos Muñíz Varela, ser assassinado por militantes extremistas, em 1979. O fenômeno migratório de Mariel e os testemunhos dos escritores que deixaram a ilha em 1980, contradiziam e desvirtuavam os esforços do diálogo168: De pronto, esos 125.000 prófugos no encajan en la distensión de las relaciones gobierno cubano-exilio ni en el discurso de mejoramiento de la imagen pública del régimen cubano que los representantes del diálogo intentaban por esas fechas. Como quiera que se mirara, los marielitos desvirtuaban los postulados del diálogo: si Cuba tenía los éxitos en educación, justicia social e integración ciudadana que le reconocía esta fracción del exilio al proyecto de la Revolución, entonces, ¿cómo es posible que produjera esa enorme cantidad de escoria social, dispuesta a todo por salir del paraíso comunista? O al contrario, si todo lo que viajó en el éxodo no fue la lacra social, sino que allí iban intelectuales, profesionales, trabajadores, estudiantes, ¿cómo explicar que tanta gente ‘normal’ desertara del citado paraíso? La llegada del grupo y las posteriores declaraciones de sus integrantes, sobre todo de Arenas, trajo como consecuencia una agria polémica entre los sectores de izquierda en el exilio y los miembros más radicales de Mariel.169 O fenômeno Mariel representou também um contraste em relação à comunidade “tradicional” de exilados de Miami, especialmente em relação à sua parcela branca, conservadora, católica e proveniente das classes média e média-alta cubanas. O contingente de sujeitos chegados pela ponte marítima Mariel-Cayo Hueso colocava essa comunidade diante de outra realidade, de uma Cuba popular, negra, homossexual. Reinaldo Arenas, em sua novela El Portero, narra da seguinte maneira o desacordo no encontro de um marielito recém-chegado a Miami e a comunidade do exílio: Desde que chegou lhe demos ajuda material (mais de duzentos dólares) e lhe conseguimos rapidamente o Social Security para que pudesse pagar impostos e, quase imediatamente, lhe conseguimos um emprego. Claro que não poderia ser um desses empregos que nós conseguimos, depois de vinte ou trinta anos trabalhando muito. Conseguimos um emprego na construção, ao ar livre, naturalmente. [...] Que queriam vocês? Que lhe oferecêssemos nossas piscinas? Que assim, por sua linda cara [...] lhe abríssemos as portas de nossas residências em Coral Gables, que lhe entregássemos nosso carro do ano para que conquistasse nossas filhas, que com tanto esmero educamos, e que o 168 Ibid, locais 677-738. Edição do Kindle. 169 NUEZ, Iván de la. Op. cit., p.106. 51 deixássemos, enfim, viver a doce vida sem antes conhecer o preço que neste mundo se tem que pagar por cada lufada de ar? Isso sim que não.170 O escritor marielito Guillermo Rosales na obra A casa dos náufragos, repleta de elementos autobiográficos, produz uma narrativa bastante similar à de Arenas acerca do encontro do narrador recém-chegado a Miami com sua família: [...] saí de Cuba e cheguei ao grande país americano. Aqui me esperavam uns parentes que não sabiam nada da minha vida e que depois de vinte anos de separação já nem me conheciam. Acreditaram que chegaria um futuro vencedor, um futuro comerciante, um futuro playboy; um futuro pai de família que teria uma futura casa cheia de filhos e que iria nos fins de semana à praia e dirigiria carros bons e vestiria roupas de grife Jean Marc e Pierre Cardin; e o que apareceu no aeroporto no dia da minha chegada foi um tipo enlouquecido quase sem dentes, magro e assustado, que tiveram de internar naquele mesmo dia num asilo psiquiátrico porque olhava com receio para toda a família e em vez de abraça-los e beijá-los os insultou. Sei que foi uma grande decepção para todos. Especialmente para minha tia que esperava uma grande coisa. E o que chegou fui eu. Uma vergonha. Uma mancha terrível nesta boa família de pequenos-burgueses cubanos [...]171 Apesar do desacordo material, de classe e de valores que os marielitos enfrentaram no processo de integração na comunidade de exilados de Miami, entendemos que vários escritores e artistas dessa onda migratória estabeleceram contatos frutíferos com o exílio estabelecido anteriormente nos Estados Unidos, inclusive com sua parcela economicamente próspera e próxima aos círculos de poder do Partido Republicano e da administração Reagan. Mariel, em grande parte mantida com os recursos investidos por seus editores, doações de outros intelectuais cubanos, assinaturas e publicação de anúncios, recebeu doações do grupo de lobbying Cuban American National Foundation (CANF) em duas ocasiões, no valor de 100 dólares cada, transformando a instituição em assinante de honra da revista. Representantes da Internacional Democrata Cristã (CDI) tomaram conhecimento da publicação através da classe média de Miami e financiaram 250 assinaturas de um ano da revista para senadores, deputados e periódicos ao redor da América Latina e Europa, entre 1984 e 1985, somando 5000 dólares à conta da revista.172 A Cintas Foundation, fundada em Miami pelo magnata Oscar Benjamin Cintas y Rodriguez em 1957, e comprometida com o apoio à produção artística cubana no exílio, concedeu bolsas voltadas ao fomento da literatura e da arte a vários marielitos, como Reinaldo Arenas (1981-1982, 1986-1987), Jesús J. Barquet (1991-1992), Miguel Correa (1984-1985), Belkis Cuza Malé (1981-1982), Carlos A. Díaz (1986-1987), Ismael 170 ARENAS, Reinaldo. O porteiro. Rio de Janeiro: Record, 1995, p. 13-14. 171 ROSALES, Guillermo. A casa dos náufragos. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 10-11. 172 Mariel (Revista) Papers. Correspondence received. Box 1. CHC5170. (Cuban Heritage Collection, University of Miami). 52 Lorenzo (1985-1986), Roberto Valero (1982-1983), Carlos Victoria (1993-1994), Juan Abreu (1993-1994), Carlos Alfonzo (1983-1984), Eduardo Conde (1990-1991), Manuel Revuelta (1987-1988) e Gilberto Ruiz (1982-1983).173 Escritores e artistas marielistas participaram, ainda, do Comite de Intelectuales por la Libertad de Cuba (CILC), constituído no final da década de 1970 por escritores cubanos exilados, com base em Nova York, que patrocinava congressos dissidentes para a discussão de questões políticas e econômicas da ilha, e para protestar contra violações de direitos humanos em Cuba. Seu objetivo era a democratização do regime cubano e, a longo prazo, a deposição de Fidel Castro. O primeiro congresso ocorreu em Paris, em 1979, e outros ocorreram em Nova York (1980) – ocasião na qual se realizou um jantar em homenagem a Reinaldo Arenas –, Washington (1982), Madri (1986) e Caracas (1987). No terceiro congresso do Comite, em Washington, participaram da programação do evento os escritores Reinaldo Arenas e Guillermo Cabrera Infante, os senadores republicanos Jesse Helms174 e John East, extremamente conservadores, bem como veteranos da invasão da Baía dos Porcos e representantes de abastadas famílias exiladas no início da década de 1960.175 Dessa forma, o deslocamento do grupo de escritores e artistas da autodenominada geração de Mariel no meio intelectual norte-americano é explicado também pelas formas extremas que muitas vezes seus discursos e articulações políticas assumiram. Muitos desses intelectuais eram fortemente anticomunistas e anticastristas, e seus discursos muitas vezes apresentavam características da retórica do exílio anterior que não integrava 173 Disponível em: cintasfoundation.org 174 Um dos líderes do conservadorismo no Senado americano entre 1973 e 2003. Helms se posicionou contrariamente à Lei de Direitos Civis de 1964, e se opunha a ações afirmativas, ao movimento feminista e ao movimento gay. Em 1976, declarou ao The New York Times que “Nothing positive happened to Sodom and Gomorrah and nothing positive is likely to happen to America if our people succumb to the drumbeats of support for the homosexual lifestyle”. Em 1983, Helms foi um dos líderes do movimento no Senado americano em oposição ao estabelecimento de um feriado nacional em homenagem a Martin Luther King Jr. Em 1995, foi um dos autores da lei Helms-Burton (Lei para a Liberdade e a Solidariedade Democrática Cubana), aprovada em 1996. A legislação endurecia o embargo econômico à ilha e a Lei de Torricelli, de 1992, e visava afugentar investidores estrangeiros da ilha. Seu elemento mais polêmico, entretanto, dizia respeito à imposição da democracia. A nova legislação reafirmava o direitos dos EUA definirem a natureza da democracia de Cuba. Cláusulas específicas declaravam que Fidel Castro não poderia participar de nenhum governo futuro, e que os norte-americanos e cubano-americanos cujas propriedades foram expropriadas deveriam ser indenizados. Cf. GOTT, Richard. Op. cit., p. 340-341. 175 Cf. Program book, "Global Terrorism", Third Congress of Cuban Dissident Intellectuals, Washington, D.C., February, 1982. Citado por: ARGUELLES, Lourdes; RICH, Ruby B. Homosexuality, Homophobia, and Revolution: Notes toward an Understanding of the Cuban Lesbian and Gay Male Esperience, Part II. Signs, Vol. 11, No. 1 (Autumn, 1985), pp. 120-136. University of Chicago Press. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/3174290. Acesso em: 17 nov. 2015. 53 todas as suas pautas – como a homossexual -, e que os marielitos categorizavam como “burguesia” e “elite”.176 No contexto da Guerra Fria nos Estados Unidos e da articulação entre grupos de lobbying anticastrista e a administração Reagan, algumas das redes de sociabilidade que integravam eram compostas também por setores reacionários da sociedade estadunidense, com os quais se comunicavam devido às ideias anticomunistas e anticastristas em comum. Afinal de contas, o anticomunismo muitas vezes serviu de guarda-chuva para abrigar frentes integradas por grupos heterogêneos.177 Além disso, a maioria dos artistas e escritores que se identificaram como pertencentes à geração de Mariel não atuou como intelectuais orgânicos178 do regime cubano durante as décadas de 1960 e 1970.179 Faziam parte de uma “cultura marginal” e grande parte nunca havia publicado nada na ilha, de modo que tiveram que se organizar e estabelecer contatos em um meio, em algumas ocasiões, polarizado, considerando-se a parcela da intelectualidade esquerda simpática ao regime de Havana. Segundo Rickley Leandro Marques, um de seus principais objetivos foi a disputa pela memória de suas próprias juventudes em Cuba, confrontando suas memórias individuais com as versões oficiais do governo cubano e, assim, reivindicando sua versão do passado recente da ilha e construindo “memórias subterrâneas” em resistência à memória oficial. Nesse processo, rediscutiram suas próprias identidades, diferenciando- se dos revolucionários de 1959 e da comunidade anterior radicada em Miami, e aglutinaram-se ao redor, principalmente, de Mariel – Revista de Literatura y Arte. A memória foi o campo de batalha em que o grupo decidiu enfrentar o estigma e os traumas proporcionados pelas experiências vivenciadas na ilha e no exílio. Na luta para reorganizar a memória subterrânea e transformá-la em uma memória coletiva e para combater tanto a memória oficial cubana como a da comunidade cubana de Miami, a geração de Mariel também construiu uma nova identidade compartilhada pelo sentimento de experiências e expectativas comuns.180 176 NUEZ, Iván de la. Op. cit., p. 108. 177 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Anticomunismo e antipetismo na atual onda direitista. Disponível em: https://www.academia.edu/37518793/ANTICOMUNISMO_E_ANTIPETISMO_NA_ATUAL_ONDA_ DIREITISTA?auto=download. Acesso em: 21 out. 2018. 178 Segundo Antonio Gramsci, intelectuais ligados a classes ou empresas, que os utilizam para organizar interesses, conquistar mais poder, obter mais controle. Cf. GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968. 179 Ibid, p.109. 180 MARQUES, Rickley Leandro. Op. cit., p. 218. 54 Não por acaso, o testemunho e a autoficção foram os gêneros literários mais escolhidos por esses escritores ao realizarem suas obras. Um de seus propósitos era relatar o que haviam vivido sob o regime revolucionário e dar a conhecer suas versões dos acontecimentos, como demonstram Al Norte del infierno (1984), de Miguel Correa; Este viento de cuaresma (1994), de Roberto Valero; Desertores del paraíso (1987), de Lázaro Gómez Carrilles; Al borde de la cerca: los 10 días que estremecieron a Cuba (1987), de Nicolás Abreu; Cuerpos al borde de una isla: mi salida de Cuba por Mariel (2010), de Reinaldo García Ramos; Cronicas del Mariel (1992), de Fernando Villaverde; La travesía secreta (1994), de Carlos Victoria; Debajo de la mesa (2018), de Juan Abreu; a pentagonia de Reinaldo Arenas, entre outras. Na perspectiva do escritor marielista Ismael Lorenzo, esse seria um traço característico de toda obra de arte séria: "Creo que toda obra literaria hecha con seriedad, aunque sea humorística, siempre es un testimonio de alguna forma. Sí, mi obra es un testimonio, y aunque no sea realista no es menos real, de mi vida en la isla infernal y mi vida posterior"181. Roberto Madrigal explica essa constante nas obras dos escritores marielistas a partir do silêncio ao qual estiveram submetidos na ilha: "Sí, mi obra tiene mucho de testimonio, porque a nosotros se nos trató de pasar desapercibidos mientras vivíamos en la Isla, se hacía ver que no existíamos, por lo que tenemos una necesidad de documentar esa realidad que se ignoró"182. Dessa forma, as obras dos escritores marielistas representam uma reação concreta ao regime revolucionário cubano, local para se discutir, acusar e processar o regime, articular, elaborar e manter a memória, convertendo o rechaço ao governo cubano em experiência artística.183 As obras desses escritores são constantemente atravessadas pelos temas da liberdade individual, de opinião, de expressão, de criação e de sexualidade. Identificavam-se como opositores da opressão política: En los textos del Mariel la realidade se capta desde muchas perspectivas. [...] La realidad se transforma, se moldea, se cambia. Las leyes de la verosimilitud se distienden com la hipérbole y la metamorfoses, [...] las caras se convierten en máscaras y las máscaras se convierten en caras. Los textos del Mariel, sin embargo, hablan con una sola voz. Lo que parece ser su propósito, su raison 181 LORENZO, Ismael. Citado por: PANICHELLI-BATALLA, Stephanie. Op. cit. 182 MADRIGAL, Roberto. Citado por: PANICHELLI-BATALLA, Stephanie. Op. cit. 183 INGENSCHAY, Dieter. Exilio, insilio y diáspora. La literatura cubana en la época de las literaturas sin residencia fija, 2010. Ángulo Recto. Revista de estudios sobre la ciudad como espacio plural, vol. 2, núm. 1. Disponível em: http://www.ucm.es/info/angulo/volumen/Volumen02-1/articulos02.htm. Acesso em 20 ago. 2014. 55 d’être, es denunciar la opresión que subyace a cualquier guisa o subterfugio: la madre, el estado, la sociedad [...]184 Ressaltamos que a denúncia da opressão política, do autoritarismo e de violações de direitos humanos esteve centrada, na imensa maioria das vezes, nos regimes cubano e soviético e nos espectros políticos à esquerda. Dificilmente se dedicavam à crítica da opressão em regimes de direita, como as ditaduras civis-militares que se encontravam no poder em vários países da América Latina na época, apoiadas por seu país-anfitrião. Os marielistas se incubiam de difundir ideias anticomunistas e anticastristas, e priorizavam os conflitos leste-oeste, em detrimento dos norte-sul, em sua compreensão da vida política e social. Alguns, como Reinaldo García Ramos, afirmavam possuir uma sensibilidade compatível à dos exilados do leste europeu: En cuanto a nosotros, los "marielitos", y no marielitos; pero salidos de Cuba más o menos en la misma fecha, tuvimos que luchar tan duro en todos los órdenes para sobrevivir, y fue tan agónica esa lucha por la elemental supervivencia, la que nos permitiera conservar el aliento con la esperanza de poder lograr algún dia abandonar el "infierno castrosovietico", que nos ha permitido comprender y desarrolar una sensibilidad compatible, como dice García Ramos, con la de los exiliados de los países de Europa Este, de los polacos en particular o allá en el Asia, en Afganistán. - El peso de la brutalidad comunista es progenitora, entre los pisoteados por ella, de la más profunda comprensión y la más férrea unidad. - Ese es el mejor mensaje y ejemplo que los "marielitos" podemos dar en el exilio.185 Diferentemente de gerações de exilados anteriores, as memórias dos artistas marielitos não são ofuscadas por sentimentos nostálgicos e saudosistas, ainda que esses estejam presentes, predominando uma atmosfera de amargura e crítica tenaz em relação ao passado na ilha e ao regime revolucionário cubano. A organização dessa geração nos Estados Unidos ocorreu devido às relações que seus integrantes mantinham ainda em Cuba e às experiências e expectativas frustradas na ilha e no exílio. A criação de Mariel – Revista de Literatura y Arte se deu a partir do desencontro dos marielistas não só com os discursos oficiais da Revolução, mas também com a parcela progressista do exílio cubano, como os membros de Areíto e da brigada Antonio Maceo. Da mesma forma, parte da esquerda estadunidense discordava do endurecimento da política externa em relação à ilha praticada pela administração Reagan (e defendida por Mariel). Simultaneamente, havia desencontros à direita do espectro político. Ainda que recebesse financiamento da CANF e do chamado “exílio tradicional” – majoritariamente 184 BERTOT, Lillian. La imaginación literaria de la generación del Mariel. Miami: Fondo de Estudios Cubanos. J.M.C. Freedom Foundation, 2000, p. 66. 185 Assinatura ilegível [Carta] 10 set. 1983, Miami [para] GARCÍA RAMOS, Reinaldo, Nova York, 3f. Mariel (Revista) Papers. 56 católico -, e seus interesses anticomunistas convergissem, Mariel não era conservadora nos costumes. Esses desencontros são visíveis, também, em suas narrativas e produções artísticas: De hecho, es un grupo que no forma parte de la cultura oficial del stalinismo de los 70, es expulsado del país, no consigue formar parte de las nuevas tendencias de los años 80 y, para rematar, no se implica en la cultura oficial del exilio tradicional. De ahí que en varios miembros de la Generación Mariel muchas veces se mezclen contenidos iconoclastas con formas convencionales de producir la pintura, la novela o la poesía. Como si el estrecho del Golfo mediara entre las tramas narradas y las formas de significarlas. Si tomamos un género como el ensayo, que suele ser reducido en cualquier época, vemos que la Generación Mariel construye ciertos discursos de gran transgresión sobre los que reflexiona, sin embargo, de manera convencional.186 Dessa forma, Iván De la Nuez propõe que a geração de Mariel seja lida como um movimento cultural de “baixa intensidade”, ou seja, como modos e discursos culturais que deixaram uma marca na cultura contemporânea, mas que não chegaram a tornar-se dominantes, seu efeito sendo notado várias décadas depois.187 Já em termos de conteúdo de seu principal projeto coletivo, Mariel, marcada pela oposição ácida e radical ao regime revolucionário cubano e ao comunismo e pela defesa de liberdades individuais, liberdade de expressão, de imprensa, religiosa, justiça social e direitos dos homossexuais conseguia dialogar, a princípio, com conservadores e liberais. Lillian Bertot, doutora em linguística e poeta que colaborou em Mariel, defende em obra publicada pela J.M.C. Freedom Foundation, em 1995, que “el socialismo es contrario al progreso de la civilización humana. Los textos de Mariel demostraron que F.A. Hayek tenía razón”.188Ainda que a revista não se posicione em relação à política econômica seguida por Reagan, considerando as redes de sociabilidade que integrou, entendemos que, com exceção do movimento gay e apesar de criticarem o american way of life, no exílio os marielistas estabeleceram conexões com segmentos e linhas de pensamento bem posicionadas nos círculos de poder econômico e político estadunidenses da época, demonstrando as dinâmicas entre o exílio cubano e seu país-anfitrião. 1.3 – As críticas ao regime revolucionário cubano 186 Ibid, p. 108. 187 Ibid, p. 107. 188 BERTOT, Lillian. Op. cit., p. 106. 57 Segundo Arturo Arango189, Ambrosio Fornet190, Fernando Martínez Heredia191, Silvia Miskulin192 e Emilio J. Gallardo Saborido193, a década de 1970 em Cuba foi uma etapa de profunda dogmatização ideológica, endurecimento e fechamento no campo cultural, acentuando-se o controle estatal sobre o meio intelectual. A existência de uma arte não comprometida politicamente e caracterizada por um discurso analítico e crítico sobre a sociedade cubana foi descartada pela política cultural, valorizando-se produções próximas ao realismo socialista. O Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura, realizado em 1971, foi um marco no estabelecimento da ideia de uma “unidade monolítica”, contrária a uma unidade abarcadora da pluralidade de tendências e opiniões que conviviam no interior da Revolução. Determinou-se que a arte e a literatura deveriam exercer um papel educativo em relação às massas, ajudando a eliminar os resquícios da sociedade capitalista, em detrimento da análise crítica da realidade. Em fins da década de 1960, o regime cubano já dava sinais de que haveria um período de acirramento das relações entre o governo e a intelectualidade da ilha. As contradições e as disputas existentes no interior da cultura cubana exacerbaram-se com a premiação de Fuera del juego, de Heberto Padilla, e Los siete contra Tebas, de Antón Arrufat, no IV Concurso Literario de la Unión Nacional de Escritores y Artistas de Cuba (UNEAC). Em reunião de outubro de 1968 entre o comitê de diretores da UNEAC e os jurados estrangeiros e cubanos da premiação, determinou-se que as obras premiadas seriam publicadas, porém em ambas as edições seriam veiculadas uma nota da União de Escritores expressando seu desacordo com a decisão dos jurados, visto que as obras foram consideradas ideologicamente contrárias à Revolução.194 189 ARANGO, Arturo. Con tantos palos que te dio la vida: poesía, censura y persistencia. Conferencia leída por su autor, el 15 de mayo de 2007, en el Instituto Superior de Arte (La Habana), como parte del ciclo La política cultural del período revolucionario: Memoria y reflexión, organizado por el Centro Teórico- Cultural Criterios. 190 FORNET, Ambrosio. El Quinquenio Gris: revisitando el término. Conferencia leída por su autor, el 30 de enero de 2007, en la Casa de las Américas (La Habana), como parte del ciclo La política cultural del período revolucionario: Memoria y reflexión, organizado por el Centro Teórico-Cultural Criterios. 191 HEREDIA, Fernando Martínez. Pensamiento social y política de la Revolución. Palabras leídas por su autor, el 3 de julio de 2007, en el Instituto Superior de Arte (La Habana), como parte del Ciclo La política cultural del período revolucionario: memoria y reflexión, organizado por el Centro Teórico-Cultural Criterios. 192 MISKULIN, Sílvia Cezar, Op. cit. 193 SABORIDO, Emilio J. Gallardo. (Super)vivencias grises: escritores y política cultural cubana durante la década de 1970. GARCÍA, Jesús Raúl Navarro; PALOMO, José Jesús Hernández; OYOLA, Ángel Luis Vélez; COLLAZO, Rafael Luis Cabrera (coords.) El Caribe y sus relaciones con España: políticas y sociedades en transformación (siglos XIX-XX). Universidad Interamericana de Puerto Rico, 2013, p.213- 239. 194 FORNET, Ambrosio, Op. cit., p. 8-9. 58 Fuera del juego foi caracterizada como “criticista”, “antihistórica” e defensora do individualismo, em detrimento das necessidades sociais e coletivas.195 Padilla simbolizava um conjunto de escritores cujas obras e posições pessoais contradiziam os parâmetros que alguns setores que operavam na política cultural cubana queriam impor como modelo de intelectual revolucionário. A UNEAC considerava que correntes de ideias, posições e atitudes que se nutriam da sociedade abolida pela revolução estavam crescendo, surgindo um clima de “liberalismo sin orillas”.196 Por sua postura crítica perante os códigos de conduta e o processo revolucionário, os escritos de Padilla obtiveram ressonância em parte da juventude.197 De acordo com Reinaldo Arenas, “Padilla era então considerado como o ‘herói’ da nossa geração”.198 Em março de 1971, Heberto Padilla foi preso com sua esposa, a escritora Belkis Cuza Malé, sob acusações de atividades contrarrevolucionárias. Após passar um mês incomunicável e perante a insatisfação da intelectualidade internacional com os rumos da revolução, a UNEAC preparou uma cerimônia na qual o escritor fazia uma autocrítica pública por Fuera del juego e por sua “ingratidão” com a Revolução. O escritor também acusava e delatava outros intelectuais por suas atitudes “injustas” e “derrotistas” perante a Revolução, como José Lezama Lima, Norberto Fuentes, Cézar Lopes e Manuel Díaz Martínez.199 Alguns escritores nunca o perdoaram pela autocrítica e passaram a considera-lo um traidor, como foi o caso de Juan Abreu.200 O “caso Padilla” representou uma mudança significativa nas relações do regime revolucionário com a intelectualidade, e foi lembrado com indignação por Reinaldo García Ramos no exílio: “Desde las Palabras a los intelectuales y la clausura de Lunes de Revolución, se hace un recuento bastante ilustrativo de los altibajos en la correlación gobierno-intelectuales, hasta desembocar en el caso de Padilla, que es el momento en que el aparato dictatorial les pierde por completo el respeto a los escritores para siempre”201. 195 ARANGO, Arturo, Op. cit., p. 10. 196 Comité director de la Unión de Escritores y Artistas de Cuba. Declaración de la UNEAC acerca de los premios otorgados a Heberto Padilla en poesía y Antón Arrufat en teatro, La Habana, 15 de noviembre de 1968. Disponível em: http://rialta-ed.com/declaracion-de-la-uneac/. Acesso em: 2 set. 2018. 197 MARQUES, Rickley Leandro. Op. cit., p. 137. 198 ARENAS, Reinaldo. Antes que Anoiteça. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2009, p. 162. 199 PADILLA, Heberto. Intervención en la Unión de Escritores y Artistas de Cuba. Disponível em: http://rialta-ed.com/padilla-intervencion-en-la-union-de-escritores-y-artistas-de-cuba/. Acesso em: 2 set. 2018. 200 ABREU, Juan. A la sombra del Mar: jornadas cubanas con Reinaldo Arenas. Editorial Casiopea, 1998, p. 11. 201 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Los narradores perseguidos. Mariel, n.2, 1983, p. 28. 59 A criação do Ministerio da Cultura em 1976, à cargo de Amando Hart, iniciou um lento processo de maior diálogo com os artistas e reaceitação do debate de ideias divergentes dentro da Revolução, porém em um clima de desconfiança e ressentimento.202 Como demonstra o posicionamento de García Ramos, para muitos escritores, como os marielistas, o “caso Padilla” marcou o rompimento com a Revolução. Ainda no início da década de 1970 e anteriormente à prisão de Heberto Padilla, Lenguaje de mudos, de Delfín Prats, premiado em 1968 no Premio David e impresso, foi destruído fisicamente. Segundo as memórias do autor, que frequentava as regiões boêmias de Havana juntamente com Reinaldo Arenas: “la publicación del libro coincidió con un momento muy difícil dentro del proceso literario cubano como fue el momento del caso Padilla. El libro mío fue como que arrojado por el agujero de la memoria. Es decir, no circuló, no llegó a venderse, no llegó a presentarse, no se habló de él para nada”.203 Percebe-se, assim, o processo de endurecimento no meio cultural, que foi intensificado pela organização do Primeiro Congresso de Educação e Cultura, em 1971. A discussão de temas relativos à cultura ocorreu em reação às Primeira e Segunda Carta de los intelectuales europeos y latino-americanos a Fidel Castro, as quais marcaram a ruptura de muitos intelectuais estrangeiros com o regime cubano, como foi o caso de Simone de Beauvoir, Italo Calvino, Mario Vargas Llosa, Jean Paul-Sartre, Susan Sontag e muitos outros. O Congresso representou um marco para a definição da política cultural cubana da década de 1970 e na aproximação do regime a linhas de pensamento predominantes na União Soviética. Considerava-se que os dois setores mais propícios a cometer atos de “diversionismo ideológico” eram os jovens e os intelectuais. Determinou-se que “los medios culturales no pueden servir de marco a la proliferación de falsos intelectuales que pretenden convertir el esnobismo, la extravagancia, el homosexualismo y demás aberraciones sociales en expresión del arte revolucionário” e que “la selección de los trabajadores de las instituciones supraestructurales, tales como universidades, medios masivos de comunicación, 202 ARANGO, Arturo. Op. cit., p. 29. 203 PRATS, Delfín. Citado por: Ibid, p. 16. 60 instituciones literarias y artísticas, etc., se tomen en cuenta sus condiciones políticas e ideológicas”.204 O Congresso fixou um conjunto de deveres para a arte e a literatura, limitando suas funções ao uso político e educativo. A arte foi considerada “uma arma da Revolução” e um “instrumento contra a penetração do inimigo”. A produção cultural devia ser um meio para “la formación de la juventud dentro de la moral revolucionaria, que excluye el egoísmo y las aberraciones típicas de la cultura burguesa”, contribuindo para a luta dos povos pela libertação nacional, para a construção do socialismo e de uma consciência coletivista. Negou-se, ainda, a função dos intelectuais como consciência crítica da sociedade, visto que esta seria exercida pela classe trabalhadora, preparada por sua experiência histórica para julgar os atos da Revolução com mais lucidez que os outros setores.205 Decidiu-se pelo afastamento de homossexuais de cargos educacionais ou culturais nos quais pudessem exercer influência sobre a juventude. A homossexualidade foi abordada a partir de uma linguagem médica e sanitarista, e considerou-se que possuía caráter “antissocial” e “patológico”, de modo que não deveria ser admitida. O comportamento da juventude foi alvo de normatização, visando eliminar manifestações de “extravagância”, “exibicionismo” e “aberrações” que se contrapunham a “unidade ideológica do povo cubano” e revelavam “assimilações acríticas de atitudes de grupos estrangeiros”. Deliberou-se uma separação absoluta entre Igreja e Estado e entre escola e Igreja, e as religiões afrocubanas foram criticadas por constituírem um dos elementos que levaria a juventude à delinquência juvenil. No discurso de encerramento do Congresso, Fidel Castro admitia, ainda, a necessidade da censura: “Por cuestión de principio, hay algunos libros de los cuales no se debe publicar ni un ejemplar, ni un capítulo, ni una página, ni una letra!”.206 As Resoluções do Congresso levaram à marginalização e ao castigo de grupos de intelectuais de tendências e manifestações artísticas diversas. Além do afastamento de cargos, diversos escritores não publicaram durante a década de 1970, e editar livros fora 204 Declaración del Primer Congreso Nacional de Educación y Cultura (fragmentos). Disponível em: http://rialta-ed.com/declaracion-del-primer-congreso-nacional-de-educacion-y-cultura/. Acesso em: 2 set. 2018. 205 Ibid. 206 MISKULIN, Silvia. Op. cit., p. 89-103, 223-252. 61 de Cuba podia ser considerado um ato de diversionismo ideológico.207 Foi um período de empobrecimento editorial e do debate de ideias, levando à denominação de quinquenio gris. A aproximação da política cultural cubana a linhas de pensamento predominantes na União Soviética foi acompanhada também por um aumento na subordinação ao sistema econômico dos países do leste europeu, após o ingresso da ilha no Conselho para Assistência Econômica Mútua (COMECON), em 1972. O período foi marcado, ainda, pelo apoio do governo cubano à repressão soviética na Tchecoslováquia durante a Primavera de Praga, em 1968. De maneira geral, após a morte de Che Guevara na Bolívia, em 1967, e o fracasso da safra de dez milhões de toneladas de açúcar, em 1970, as limitações do processo revolucionário cubano começavam a ficar mais visíveis208, e o governo cubano teve inviabilizados os seus anseios de autonomia, aproximando-se dos moldes soviéticos. A revista Mariel considerava que esse foi um período fulcral no processo revolucionário cubano por exacerbar as insatisfações internas, acentuadas pela suspensão dos Vôos da Liberdade por Nixon em 1973, o que dificultou a possibilidade de evasão dos descontentes. Reinaldo García Ramos enfatizava o fechamento do regime em termos políticos e artísticos: “Durante la década de 70 habíamos sentido una asfixiante sensación de encierro y de opresión en nuestro país, no sólo en términos políticos, sino artísticos: las salidas del país estaban cerradas desde 1971 y la censura cultural había llegado a su máximo grado”209. O cerceamento do meio intelectual foi decisivo no rompimento dos marielistas com o regime, mas dificilmente pode ser definido como principal motivador da saída massiva de 125.000 pessoas da ilha, em sua maioria pertencentes à classe trabalhadora e para os quais os baixos padrões de consumo e a existência de uma comunidade de cubanos já bem estabelecida nos Estados Unidos podem ter exercido maior influência. Os marielistas não possuíam liberdade para produzir suas obras ou refletir criticamente sobre a realidade cubana e socialista, e, naquele momento, a produção cultural estava comprometida em Cuba devido às limitações estabelecidas à imaginação e à discordância. Reinaldo García Ramos avaliava que a mudança na política cultural e o acirramento dos aparatos de censura “estuvo determinado principalmente por la necesidad 207 ARANGO, Arturo. Op. cit., p. 23. 208 HEREDIA, Fernando Martínez. Op. cit., p.17. 209 GÁRCIA RAMOS, Reinaldo. Una medida inexacta (Ensayos y comentários). Madrid: Editorial Verbum, 2017, p. 121. 62 de reprimir tentativas de rebeldía expresiva, una masa de cosas por decir que necesariamente eran críticas a los errores y a la demagogia del poder”210. A “rebeldia” intelectual e o anticonformismo mencionados pelo escritor eram compreendidos pelo regime revolucionário, naquela época, como uma atitude reacionária, visto que partiria de um transplante mecânico da atitude do intelectual liberal dentro do capitalismo para uma circunstância de desenvolvimento revolucionário.211 Mariel compreendia que o “burocratismo” da arte produzida nos países socialistas e a “transformação do artista em um funcionário do sistema”, a partir de sua função orgânica, ameaçavam a “verdadeira obra de arte”, caracterizada pela livre experimentação, o desenfado, a crítica e a imaginação. A função educativa e o caráter coletivista da produção artística estabelecidos pelo governo cubano, aspectos que Fidel Castro sublinhou enfaticamente em seu discurso no encerramento do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura, eram interpretados como uma propaganda superficial controlada pelo Partido Comunista de Cuba: [...] hay una superficialidad y sabor a propaganda. Estas imágenes recuerdan un realismo socialista que posiblemente todavia esté de moda em Albania y otros dos o tres países marxistas. El arte puede salir de la cultura popular, pero no se reduce a la cultura popular y mucho menos a la versión de ésta que es aprobada por el Partido Comunista de Cuba. Dónde están aqui esos elementos de la vida diária que son el racionamento, los comités de barrio, los presos políticos, los dissidentes, los miles que se han ido, la censura? Como las fachada de Potemkin, esta “família” es una falsa imagen que Cuba exporta para que el mundo piense que la realidad en la isla es la de un paraíso terrestre en donde hay flores, café y retratos de Fidel en cada sala.212 Ainda que o realismo socialista tenha sido fortemente defendido como proposta estética em Cuba na década de 1970, pautando-se que o foco das obras de arte deveria estar em questões de interesse geral, a partir de uma perspectiva otimista nas possibilidades de superação do gênero humano, nesse período também foram publicadas e gestadas obras como Concierto Barroco, de Alejo Carpentier, e El pan dormido, de Soler Puig.213 Os marielitos descreveram um clima ditatorial de “asfixia existencial”, “silenciamento”, “dogmatismo”, “controle estatal”, “vigilância”, “repressão” e “burocratização cultural” que os levou à desilusão e ao rechaço do processo 210 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Los narradores perseguidos. Mariel, n.2, 1983, p. 28. 211 Comité director de la Unión de Escritores y Artistas de Cuba. Declaración de la UNEAC acerca de los premios otorgados a Heberto Padilla en poesía y Antón Arrufat en teatro, La Habana, 15 de noviembre de 1968. Disponível em: http://rialta-ed.com/declaracion-de-la-uneac/. Acesso em: 2 set. 2018. 212 BLANC, Giulio V. Cuba en la bienal de Venecia. Mariel, n. 6, 1984, p. 33. 213 FORNET, Ambrosio. Op. cit., p. 19. 63 revolucionário cubano. Assim como grande parte da comunidade cubana exilada, defendia-se que um aparato totalitário havia sido institucionalizado na ilha na década de 1970, nos moldes soviéticos, através da promulgação de códigos e leis antidemocráticas, da disposição de parâmetros repressivos ao meio intelectual, da repressão a determinados grupos sociais, como homossexuais, testemunhas de Jeová e adeptos das religiões afrocubanas, e do controle da vida privada dos cidadãos a partir das associações de massa. Ainda que indubitavelmente tenha se tratado de um período autoritário e repressor, compreendemos que a caracterização do regime cubano como totalitário é polêmica, visto que isso implicaria a união absoluta entre massas nacionais e Estado, conformando um conceito de aplicabilidade pontual.214 Entendemos que, apesar da publicação e os escritores que nela colaboraram, na maioria das vezes, empregarem o termo “totalitário” tomando como referência os regimes stalinista e nazifascista, eventualmente, o termo foi veiculado em Mariel em um sentido próximo ao de “autoritário”, “violento”, “intolerante” e “repressor”, como transparece no seguinte trecho de Juan Goytisolo: No hay que olvidar que en la época en que España se transforma con los Reyes católicos en un estado totalitario, el primer estado totalitario de los tiempos modernos, cuando se expulsa a los judios, se expulsa a los moriscos y a los gitanos, se prohibe la importación de libros, se condena igualmente a la hoguera a los bígamos y a los sodomitas.215 Desse modo, entendemos que os escritores partiam de outra compreensão do termo. O estabelecimento de relações de continuidade entre a administração colonial espanhola nas Américas e o regime revolucionário cubano, entretanto, foi frequente na revista, e aparece também em ensaios de escritores como Reinaldo Arenas e Carlos Franqui, especialmente no que tange à centralização da economia na monocultura açucareira, à supressão de liberdades individuais e de pensamento, e à presença de um líder de personalidade carismática e associado a forças militares, remetendo ao caudilho. A fragilidade da democracia e a recorrência de regimes ditatoriais foram entendidas como uma tradição cubana e latino-americana. O paralelo com a situação colonial foi realizado, ainda, através da crítica à dependência econômica da ilha em relação aos países da COMECON e à influência cultural soviética em Cuba. A economia cubana foi fortemente criticada como geradora de “miséria física”, e ressaltava-se o racionamento de alimentos e bens de consumo e as longas filas de espera. O jornalista e integrante do Movimento 214 ROMANO, Roberto. O conceito de totalitarismo na América Latina: algumas considerações. América Latina contemporânea: desafios e perspectivas. São Paulo: Edusp, Expressão e Cultura, 1996. 215 GOYTISOLO, Juan. Piñera y los antecedentes. Mariel, n.5, 1984, p. 11. 64 Revolucionário 26 de Julho, Carlos Franqui, socialista, anticomunista e crítico da aproximação entre o M-26-7 e o PSP desde o início da década de 1960, que também foi para o exílio, defendia que: Del matrimonio entre el militarismo caudillista y monocultor latinoamericano y el modelo soviético, de partido-estado-patron propietario de hombres, vidas, riquezas, leyes, cultura, ha nacido el monstruo castrista. Cuba, la más fiel de las provincias soviéticas, es una factoría de azúcar; gigantesco latifundio estatal, dependientes de la URSS.216 A economia cubana passou por fases distintas em relação à produção do açúcar ao longo do período revolucionário. Inicialmente, o predomínio das ideias nacionalistas levou a projetos de crescimento industrial e diversificação da economia, com a diminuição dos investimentos na produção açucareira, o que provocou efeitos negativos. A meta de 10 milhões de toneladas de açúcar para a safra de 1970, que visava recursos para aquecimento de outras áreas da economia, não se concretizou e desorganizou outras atividades econômicas. Amparada pelos financiamentos soviéticos e pela entrada no COMECON, em 1972, Cuba terminou por exercer o papel de país agroexportador do bloco socialista, e planificou sua economia nos moldes soviéticos, com amplo suporte de técnicos russos.217 Na década de 1980, Cuba produzia mais de 7 milhões de toneladas de açúcar por ano, dos quais a União Soviética comprava mais de 4 milhões a preços superfaturados.218 Ainda assim, a ilha passava por dificuldades econômicas, em cenário de alta de juros e queda do preço do açúcar. Em 1982/1983, as dívidas somavam US$2 bilhões de dólares, que cresciam com a crise da década, o que levou, no mesmo ano, à intensificação da política de contrato de joint ventures com empresas estrangeiras, incentivada desde 1977. Assim, iniciava-se um período de gradativas transformações no sistema econômico da ilha, com a elaboração de um código de investimentos que concedia aos capitais estrangeiros isenção de impostos sobre o uso da terra e materiais importados, repatriação dos lucros e possibilidade de compra de até 49% das empresas locais.219 216 FRANQUI, Carlos. Matriusca cubensis. Mariel, n .2, 1983, p. 24. 217 TOURAINE, Alain. Palavra e Sangue: Política e sociedade na América Latina. São Paulo: Trajetória Cultural; Campinas: Editora da Unicamp, 1989 p. 395-403. 218 ALMENDRA, Carlos César. A situação econômica cubana diante da queda do Leste Europeu. COGGIOLA, Osvaldo (org). Revolução Cubana: história e problemas atuais. São Paulo: Editora Xamã, 1998, p. 141 219 ALMENDRA, Carlos César. Op. cit.p. 135-154. 65 Mariel, ao enfatizar a dependência econômica cubana tanto da economia açucareira, como da URSS, questionava a retórica revolucionária de que a vitória do Movimento 26 de Julho, em 1959, seria uma continuação das lutas de independência do século XIX, embasadas no anticolonialismo, no anseio de soberania nacional e no anti- imperialismo. Apesar das dificuldades econômicas da ilha, a taxa anual de crescimento econômico entre 1970 e 1988 foi de 4,1%, com um aumento significativo no começo da década de 1980. O número comparável para a América Latina foi de 1,2%. O estabelecimento de relações comerciais de inegável dependência com o leste-europeu proveu fundos e houve aumento do padrão de vida e uma disponibilidade mais generalizada de bens de consumo.220 Abrindo o país ao capital estrangeiro ou retornando à monocultura, o trabalho voluntário era fundamental nas plantações de cana e de alimentos durante as décadas de 1970 e 1980. O governo necessitava de grandes safras para movimentar a economia e, principalmente após o embargo norte-americano, o racionamento de alimentos era constante. O voluntarismo no trabalho, defendido por Ernesto Che Guevara, constituía característica essencial do “homem novo” cubano. O trabalho voluntário se tornou um dos principais projetos da Revolução e uma forma de desenvolver a consciência revolucionária, voltada para o bem coletivo e o altruísmo em detrimento do individualismo.221Essa era uma maneira de construir o socialismo por meio do aproveitamento da mão-de-obra do país e do aumento da produtividade, além de servir de instrumento para a elevação da consciência dos trabalhadores e construção da nova sociedade em termos morais.222 O trabalho intelectual deveria ser conciliado com o trabalho manual e os estudantes eram incentivados a realizar trabalhos no campo. Os textos veiculados em Mariel conectavam o trabalho voluntário e o modelo de homem novo ao sistema colonial e escravista, de forma que, juntamente às críticas à dependência econômica e à monocultura, conectavam o regime revolucionário cubano ao atraso, à opressão e à exploração. Juan abreu, em resenha do poema El Central, de Reinaldo Arenas, inspirado nas experiências do escritor durante os trabalhos voluntários 220 GOTT, Richard, Op. cit., p. 277. 221 CASTAÑEDA, Op. cit. 222 PERICÁS, Luiz Bernardo. Che Guevara e o Homem Novo. COGGIOLA, Osvaldo (org). Revolução Cubana: história e problemas atuais. São Paulo: Editora Xamã, 1998, p. 107. 66 nas plantações de cana-de-açúcar, defende que a situação daqueles jovens era semelhante à dos indígenas cubanos e negros escravizados no século XIX: El que hace tantos siglos nos acosa, el que han intentado vanamente disfrazar de mil maneras, ése, que hemos sufrido siempre inalterablemente, es el mismo horror; no hay diferencias básicas entre el que conocieron los indios cubanos, los negros esclavos y el que padécen nuestros jóvenes que marchan bajo el sol implacable voceando consignas estúpidas. No es otro, no nos dejemos engañar, ése, no es más que el mismo horror. [...] Desde los campos de Cuba, en este excelente poema, el clamor de millones de niños esclavizados acallará sus chillidos lastimosos.223 Ainda que seja uma analogia extremamente problemática, o trabalho voluntário, além de função ideológica, desempenhava uma função econômica muito importante, pois seria “uma ligação concreta entre o trabalho intelectual e o trabalho manual, deveria ser cumprido com prazer, e significaria uma participação consciente, voluntária dos trabalhadores, afastando-os da alienação e acelerando a transição ao socialismo”.224A escola era um importante aparelho ideológico do Estado e a juventude era incentivada a exercer trabalhos no campo. Foram criadas, ainda, as Escuelas Secundarias Básicas en el Campo (ESBEC), que integravam o estudo ao trabalho manual. Juntamente com as grandes conquistas da Revolução, como 98% de taxa de alfabetização e a grande permanência das crianças nas escolas, estabeleceram-se diretrizes educacionais, como ensino obrigatório de marxismo-leninismo em todos os cursos do ensino superior225. Mariel compreendia o sistema educacional cubano da época, assertivamente, como doutrinação comunista. Se muitos aspectos da sociedade cubana da década de 1970 foram abordados pela revista, consideramos que há um silêncio significativo acerca do processo revolucionário cubano da época, quando foram instituídos os Órgãos de Poder Popular. A partir da compreensão de que as exigências daquela etapa da construção do socialismo tornavam necessários ajustes nas instituições estatais, executou-se um processo de institucionalização do Estado com o auxílio de conselheiros russos, em aproximação aos modelos soviéticos. Uma nova Constituição foi redigida e desenvolveu-se um sistema de participação popular no governo. Formou-se uma comissão para preparar a nova Constituição, a qual foi enviada para discussão pública tanto nas células do Partido quanto nas fábricas e fazendas. Ao mesmo tempo que buscava codificar a estrutura de um novo 223 ABREU, Juan. El central – una aspiración suicida. Mariel, n. 1, 1983, p. 24. 224 PERICÁS, Luiz Bernardo. Op. cit., p.107. 225 BANDEIRA, Antonio Rangel. Sombras no paraíso. Rio de Janeiro: Record, 1994, p. 310-340. 67 sistema legal, a Constituição detalhava novos arranjos para uma forma democrática de tomada de decisão. O Poder Popular divisava um sistema em três segmentos, de assembléias municipais, provinciais e nacional.226 A Revolução partiu do princípio da necessidade imprescindível do Partido, da máxima autoridade do Partido e, ao mesmo tempo, da necessidade do Estado para levar adiante, como instrumento dos revolucionários, o processo rumo ao socialismo e ao comunismo.227 A nova Constituição foi promulgada em 1976, quando se realizou o primeiro encontro da Assembléia Nacional, desde então responsável pelas funções constituintes e legislativas, anteriormente exercidas pelo Conselho de Ministros. As contradições da “democracia popular” cubana e as violações aos direitos humanos ocorridas na ilha, em contrapartida, foram amplamente denunciadas nas páginas de Mariel, que considerava ser essa a incumbência mais urgente de um cubano no exílio, particularmente em relação aos presos políticos: “nada puede ser más urgente para un cubano en el exilio que la denuncia de los abusos cometidos por el gobierno de Fidel Castro contra los derechos humanos, en particular en el caso de los presos políticos que permanecen en las cárceles de la isla”228. Reinaldo Arenas defendia que qualquer sucesso ou mérito da revolução perdia seu valor devido à situação dos presos políticos: Quizás allá afuera alguien haya aprendido a leer (aunque, naturalmente, sólo podrá leer las publicaciones oficiales), quizás alguien ahora tenga un empleo que antes no tuvo (aunque, naturalmente, lo mantendrá mientras sea fiel al sistema), quizás algunos niños hayan sido vacunados contra ciertos virus (porque, naturalmente, lo que se desea es que estén aptos para servir al sistema). Pero todo eso, aún si fuese cierto, aún si fuese llevado a cabo con buenas intenciones, pierde validez y nobleza porque hay un hombre tapiado en una celda desde hace 22 años, y esa celda, esas miles de celdas, manchan y contaminan la isla, y la vida, todas las vidas, y todos los gestos patéticos o grandiosos, mínimos o espetaculares, que allí hagamos. [...] está en su celda silenciado, bien tapiado, y que a nadie se le vaya a ocurrir pensar, mucho menos preguntar, cuál fue, cuál es su crimen, dónde están realmente las pruebas del supuesto delito! Afuera siguen atronando los himnos. Se habla de una libertad jamás antes conocida. Se habla de ‘un manantial de libertad donde todos los pueblos vendrán a beber’. En tanto, por todos los sitios, adentro y afuera, pasa el tiempo.229 O trecho supracitado pertence a El poema de Armando Valladares (1983), escrito em homenagem ao escritor e publicado em Mariel. Valladares foi preso em 1960, acusado de compactuar com atividades terroristas na ilha, e internado na prisão Isla de Pinos. 226 GOTT, Richard. Op. cit., p. 276-277. 227 Documentos de Cuba: Órgãos de Poder Popular. A experiência de Matanzas. Lisboa: Ulmeiro, p. 61. 228 Urgencias, Mariel, n.4, 1984, p.31. 229 ARENAS, Reinaldo. El poema de Armando Valladares. Mariel, n.3, 1983, p. 21. 68 Organizações internacionais de direitos humanos informavam que seu encarceramento teria ocorrido por divergências ideológicas e religiosas com a revolução, levando a Anistia Internacional a considerá-lo um prisioneiro de consciência. Seus poemas foram contrabandeados para fora da prisão. From My Wheelchair, no qual denunciava os abusos sofridos nas prisões cubanas, foi publicado em 1974 e recebeu o Freedom Prize do PEN Club francês. Após cumprir quase 22 anos de uma sentença de 30 anos, foi posto em liberdade em 1982, mediante intervenção do então presidente da França, François Mitterrand. Durante seu tempo na prisão, fez greve de fome várias vezes. A mais longa durou 49 dias. Desenvolveu polineurite enquanto estava preso, o que impediu sua locomoção durante algum tempo. A Anistia Internacional recolheu informações de que no curso de seu julgamento não foram apresentadas provas conclusivas para sua condenação. Um tratamento intensivo de fisioterapia na prisão o ajudou a recuperar a capacidade de caminhar. O escritor relatou que em várias ocasiões o tratamento médico foi suspenso devido à publicação de seus livros no exterior. Em 1983, Ronald Reagan o nomeou como Embaixador dos Estados Unidos na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. A revista veiculou também informes da Anistia Internacional acerca da situação de vários presos políticos em Cuba, como o próprio Valladares e Ángel Cuadra: La reclusión prolongada de unos 38 presos políticos que ya habían cumplido sus condenas; el aumento de las ejecuciones judiciales por presuntos delitos de tipo político y la dilatada reclusión sin formulación de cargos bajo custodia de la policía de seguridad estatal de personas sospechosas de haber desarrollado actividades políticas, acapararon la atención de Amnistía Internacional.230 De acordo com a revista, a organização possuía informações acerca de detenções prolongadas em condições de incomunicação, falta de informações aos familiares e uso de ameaças e outros métodos intimidatórios visando à obtenção de declarações auto- incriminatórias. Apesar de vários dos processos dos prisioneiros terem sido conduzidos por tribunais revolucionários no início dos anos 1960, os quais nem sempre se ajustavam às normas aceitas internacionalmente, não houve revisão dos casos.231 O advogado Ángel Cuadra, também considerado preso de consciência pela Anistia Internacional, foi detido em 1967 por “atividades políticas subversivas” contra o regime e condenado a 15 anos de prisão. Em 1980, foi nomeado membro de honra do PEN Club 230 Informe de Amnistía Internacional sobre Cuba. Mariel, n.4, 1984, p. 31. 231 Ibid. 69 da Suécia. Foi solto em abril de 1982, após cumprimento da pena, e estava há meses aguardando autorização para sair do país. Em 1982, a organização investigava também os casos de Juan del Río Vargas, Luis Felipe Santos e Felipe Hérnández Martínez, detidos e condenados a oito anos de prisão por suas atividades religiosas como testemunhas de Jeová. De acordo com a revista, durante esse ano, a Anistia Internacional teve notícias sobre um possível aumento do número de sentenças de morte e execuções, a partir de informações fornecidas por ex-presos232: Un ex-preso en una celda de castigo en la prisión de Combinado del Este informó que en abril de 1981 había 67 presos condenados a muerte en esta ala de la prisión. Según este mismo preso, en agosto de 1981, 54 habían sido ya ejecutados. Se dijo que algunos eran presos políticos. Entre los ejecutados estaban: Abilio González, de 28 anos y Rodolfo Alonso Rache, de 21, según se dijo por intentar quemar un autobús; Emilio Reloba Cardulis, presuntamente por incendiar una refinería de azúcar; tres hermanos de apellido García Marín, presuntamente por haber tomado rehenes en una embajada. Raudel Rodríguez Rodriguez y Eduardo Delgado que habían sido condenados a muerte en diciembre de 1980 por desarmar y herir a un policia, no fueron ejecutados. Al parecer sus condenas fueron conmutadas por el consejo de Estado que posee autoridad final para conmútar las penas de muerte. El 10 de octubre de 1982 se supo que fueron ejecutados 29 cubanos acusados de intentar asesinar al presidente Fidel Castro. Entre ellos estaban Ramón Toledo, de 40 anos, y Armando Hernández González, de 29. Las noticias indicaban que fueron ejecutados en la prisión de La Cabaña.233 A revista publicou poemas, relatos e resenhas de obras de vários presos políticos e escritores que cumpriram pena em cárceres cubanos, como Nelson Rodríguez, Néstor Díaz de Villegas, Jorge Valls, Eduardo Lolo, Ernesto Díaz Rodríguez e Lázara Ana Rodríguez. Ernesto Díaz Rodríguez, um dos fundadores da Alpha 66, grupo terrorista anticastrista, foi capturado na ilha em 1968 e condenado a quinze anos de prisão por atividades contra o regime. Em 1974, sua sentença foi aumentada para 40 anos por um tribunal militar devido ao seu comportamento na prisão. Conseguiu contrabandear o manuscrito de seu libro La campana del alba para fora do cárcere, o qual foi publicado pela Fundação Nacional Cubano Americana (FNCA), em 1985, em edição fac-símile. A estudante de medicina Lázara Ana Rodríguez foi detida em 1961 por atividades contra o regime revolucionário. O grupo de prisioneiras que integrava ficou conhecido como Las Plantadas, por se recusarem a colaborar com os carcerários e realizarem greves de fome. Foi solta em 1979 e se exilou nos Estados Unidos, onde produziu testemunhos sobre suas experiências nas prisões cubanas, “infestadas por baratas e ratos”, os trabalhos 232 Ibid 233 Ibid. 70 agrícolas forçados e a tortura física e psicológica através de golpes, isolamento, quarto frio e sons ininteligíveis. Em 1995, publicou o livro Diary of a Survivor. O escritor Nelson Rodríguez (1943-1971), voluntário nas campanhas de alfabetização na Sierra Maestra e autor do livro de contos El regalo (1964), publicado pelas Ediciones R., dirigidas por Virgílio Piñera, foi internado em uma Unidade Militar de Ajuda a Produção (UMAPs) em 1965. Em 1971, tentou desviar um avião cubano em direção à Flórida e foi condenado à pena de morte por fuzilamento. Além da revista veicular alguns de seus contos, Reinaldo Arenas lhe rendeu uma homenagem com o poema Si te llamaras Nelson, no qual aborda a experiência de Rodríguez nas UMAPs: Si te llamaras Nelson de la misma plaza donde gritas o te diviertes serías conducido a un campo de trabajo forzado te levantarías al alba y contarías las horas sólo por la llegada del camión custodiado que te llevará al bárracón [...]234 Os campos de trabalho forçado, como ficaram conhecidas as Unidades Militares de Ajuda a Produção, funcionaram de 1965 a 1968. Os indivíduos considerados “desviados ideológicos e sexuais” pelo regime revolucionário, como homossexuais; católicos; santeros; testemunhas de Jeová; estudantes depurados da universidade; “antissociais” com antecedentes penais; camponeses jovens que se recusavam a integrar as cooperativas e hippies, eram excluídos da participação no Serviço Militar Obrigatório, instituído em 1963. Dessa maneira, eram internados em unidades de trabalho obrigatório para reeducação e desenvolvimento de disciplina através do trabalho agrícola. O governo não queria dar treinamento militar aos jovens considerados “desafetos ideológicos”. A proposta também pretendia influenciar no comportamento dos jovens, ao coibir a liberdade sexual e religiosa.235 A estrutura de organização dos campos de trabalho era militar, com divisões em pelotões, companhias, batalhões e agrupamentos militares regionais, que ditavam as ordens de produção de trabalho e de comportamento. As metas deveriam ser cumpridas pelos jovens e eram muito frequentes os castigos e as intimidações feitas pelos policiais.236 A revista Mariel denunciou que “Cuba es el único país de América Latina que ha creado campos de concentración para los homesexuales, para los intelectuales 234 ARENAS, Reinaldo. Homenaje a Nelson Rodríguez, Mariel, n. 5, 1984, p. 6. 235 MISKULIN, Silvia. Op. cit., p. 93-99. 236 Ibid. 71 dissidentes, para los hombres con ideas religiosas y hasta para los funcionarios que desobedecen a Fidel Castro. Alli el trabajo forzado se ha oficializado”237. A denominação das UMAPs como campos de concentração foi realizada também por outros intelectuais, como José Mario, diretor das Ediciones El Puente na década de 1960, que passou nove meses em uma unidade de trabalho. Concordamos com Silvia Miskulin quando afirma que essa definição é polêmica.238 A revista considerava que a homofobia em Cuba era um tema pertinente aos Direitos Humanos, e que era necessário refletir sobre suas características sob o regime revolucionário cubano e no seio da comunidade de exilados: “creemos que este es un modo de comenzar a ventilar entre nosotros aspectos de nuestra mentalidad y de nuestra cultura que deben evolucionar, para que nuestro inalienable mensaje político en contra del sistema castro-soviético gane en madurez y en amplitud”239. O manifesto Fin a la persecución de homosexuales en Cuba, veiculado na publicação, convidava a uma marcha em Nova York em conjunto com organizações de militância gay estadunidenses, e exigia que o “preconceituoso e conservador exílio cubano” reconhecesse a luta e a perseguição dos homossexuais em Cuba, uma pauta de direitos civis e humanos essencial para se pensar soluções e alternativas políticas para a ilha. Mariel organizou uma seção especial (n. 5, 1984) dedicada à análise da relação dos cubanos com a homossexualidade, cujos debates abordaremos mais detalhadamente no capítulo 2. A revista veiculou testemunhos de homossexuais sobre a vivência no regime revolucionário cubano; uma entrevista com um militante cubano da Gay and Lesbian Youth Alliance – movimento criado em Miami –, na qual se abordava como era ser homossexual na comunidade latina dos Estados Unidos; e a compilação Leyes cubanas contra el homosexualismo. Foi o número de maior repercussão da revista, cuja administração recebeu vários pedidos da edição e correspondências a respeito da seção especial. A publicação acusava o regime revolucionário cubano de promover a institucionalização da homofobia a partir das Resoluções do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura, de 1971, e da promulgação de uma série de leis durante 237 Comitê de editores da revista Mariel, Comunicado. Mariel, n.1, 1983, p. 30. 238 Segundo pesquisa de Anne Applebaum, o termo “campo de concentração” referia-se a “campos constituídos para encarcerar pessoas não pelo que elas fizeram, mas pelo que elas eram”. APPLEBAUM, Anne. Gulag: uma história dos campos de prisioneiros soviéticos. Ediouro, 2004, p. 33. 239 Nota, Mariel, n.5, 1984, p. 8. 72 a década de 1970. O marielista René Cifuentes realizou a seguinte distinção do tratamento dado à homossexualidade a partir dos anos gris: Si bien nuestra tradición católica y machista nos convierte en un terreno fácil a la fertilización de actitudes antihomosexuales, nunca un presidente había tomado una actítud oficial al respecto. Así la cultura recibía, producto del machismo de sus dirigentes, su golpe de gracia. Hasta ese momento una cierta tolerancia nos habia permitido publicar libros como Paradiso de José Lezama Lima o Celestino antes del alba de Reinaldo Arenas, donde el tema homosexual es tratado como una expresión más de libertad: después de 1971 se prohibirian hasta las minimas alusiones al tema, es decir, quedaba prohibida oficialmente la homosexualidad.240 Os delegados reunidos no Congresso, a partir da compreensão de que a influência de homossexuais seria danosa à Revolução, recomendaram políticas de exclusão e expurgos nos organismos culturais. A homossexualidade foi definida como uma “patologia social” e suas “manifestações” foram rechaçadas em todas as formas.241Nas resoluções finais do Congresso, afirmou-se que: [...] não se pode permitir que por seus “méritos artísticos”, reconhecidos homossexuais influenciem a formação de nossa juventude. Como conseqüência, é necessário analisar como se deverá encarar a presença de homossexuais nos diversos organismos da frente cultural. Sugeriu-se o estudo de medidas que permitam o encaminhamento para outros organismos daqueles que, sendo homossexuais, não devam ter participação direta na formação de nossa juventude a partir de atividades artísticas ou culturais. Deve-se evitar que nosso país seja representado artisticamente por pessoas cuja moral não corresponda ao prestígio de nossa Revolução.242 Em cumprimento da Resolución número 3 (1972) do Conselho Nacional de Cultura, que seguia as propostas homofóbicas do Congresso de 1971, vários trabalhadores da dramaturgia (diretores, atores, dramaturgos, coreógrafos, assessores), por exemplo, foram retirados de seus postos e realocados em ocupações das mais diversas. O fator sexual foi determinante em expurgos que visavam eliminar o que se considerava um resquício do passado capitalista e fator debilitante da cultura revolucionária. As dinâmicas de exclusão e solidariedade entre os criadores afastados e as instituições e dirigentes culturais foram regidas por fatores como a existência ou não de um acúmulo de causas para a marginalização (homossexualidade, “problemas ideológicos”, defesa de tendências 240 CIFUENTES, René. Los parametros del paraíso. Mariel, n. 5, 1984, p. 12. 241 Declaración del Primer Congreso Nacional de Educación y Cultura (Fragmento). In: Casa de las Américas, año XI, n. 65-66, marzo-junio, 1971, pp. 4-19. Disponível em: https://www.annaillustration.com/archivodeconnie/wp-content/uploads/2007/08/Casal-doc.15.pdf. Acesso em: 2 set. 2018. 242 RESOLUÇÕES do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura de Cuba. São Paulo: Livramento, 1980, p. 29. 73 estéticas marginais), bem como a existência ou não de “madrinhas” ou “padrinhos” que respaldassem os escritores.243 Já a Ley 1249 de 1973, que modificou o Código de Defensa Social de 1938, incluiu uma série de delitos contra o Normal Desarrollo de las Relaciones Sexuales y Contra la Familia, la Infancia y la Juventud. A versão da lei publicada na Gaceta Oficial em 1 de março de 1979, que endurecia a legislação de 1973244, criminalizava, no artigo 359 da seção quarta, sob denominação de Escándalo Público, a “ostentación pública de la homosexualidad” com penas de três a nove anos de prisão ou multa de até 270 cotas ou ambas: Se sanciona con privación de libertad de tres a nueve años o multa de hasta doscientas setenta cuotas o ambas al que: (a) haga pública ostentación de su condición de homosexual o importune o solicite con sus requerimientos a otro; (b) realice actos homosexuales en sitio público o en sitio privado pero expuestos a ser vistos involuntariamente por otras personas [itálicos nossos].245 Percebe-se, dessa maneira, que as resoluções do Congresso de 1971 e do Código Penal se referiam a categorias nebulosas, como “ostentação pública” da homossexualidade e “influência negativa” sobre a formação da juventude. As medidas visavam reprimir a homossexualidade, invadindo inclusive o espaço privado desse grupo social, e indicavam que a homossexualidade não deveria estar presente na esfera e no espaço públicos. Por sua vez, a Ley de Peligrosidad, incluída no Código Penal, estabeleceu a figura delitiva do “estado peligroso”, que abria espaço para que homossexuais fossem enquadrados como “antissociais”, levando em consideração as Resoluções do Congresso de 1971: Se considera estado peligroso la especial proclividad en que se halla una persona para cometer delitos, demostrada por la conducta que observa en contradicción manifiesta con las normas de la moral socialista. [...] El estado peligroso se aprecia cuando en el sujeto concurre alguno de los Indices de peligrosidad siguientes: (a) la embriaguez habitual y la dipsomanía; (b) la narcomanía; (c) el proxenetismo; (ch) el ejercício de la prostitución; (d) la explotación o el ejercicio de ‘vicios socialmente reprobables’"; (e) la vagância habitual [...]; (f) la conducta antisocial. Se considera en estado peligroso por 243SABORIDO, Emilio J. Gallardo. Op. cit., p. 16. 244 Na versão publicada em 23 de junho de 1973 na Gaceta Oficial de Cuba, sancionava-se com privação de liberdade de três meses a um ano, ou multa de 100 a 300 cotas, ou ambas, “1) el que, con grave escándalo, se dedique a la práctica de actos homosexuales, o haga pública ostentación de esa conducta, o importune o solicite con sus requerimientos a otro; [...]”Cf. Gaceta Oficial de la Republica de Cuba, La Habana, sabado 23 de junio de 1973, año LXXI, p. 49. 245 Gaceta Oficial de La Republica de Cuba. La Habana, jueves 1 de marzo de 1979, año LXXVII, p. 98. 74 conducta antisocial al que habitualmente mediante actos de violencia, o frases, o gestos, o por otros medios provocadores o amenazantes o por su comportamiento en general quebranta o pone en peligro las reglas de la convivencia socialista o burla derechos de los demás o perturba con frecuencia el orden de la comunidad. [...]246 A veiculação na revista das leis contra a homossexualidade em vigor em Cuba na década de 1970 fomentou a crítica ao regime revolucionário cubano por ativistas do movimento gay de outros países e deu maior visibilidade às práticas homofóbicas da ilha. O antropólogo, poeta e anarquista argentino Néstor Perlongher, um dos iniciadores do movimento pelos direitos dos homossexuais na Argentina, e exilado no Brasil em 1982, escreveu em correspondência para a revista, em 1984, que, durante visita de Roberto Fernández Retamar a São Paulo, “fuimos un grupillo a increparle la conferencia que dio, donde dijo que el ‘gulag gay’ había sido un error de la revolución, pero le leímos las leyes publicadas en Mariel que la falaz dijo desconocer”247. Perlongher foi um dos fundadores da Frente de Liberación Homosexual (FLH) na Argentina durante a década de 1970. A Frente politizou a questão sexual e defendia que "machismo igual fascismo".248 Para alguns, a denúncia da homofobia em Cuba e a luta contra o comunismo estavam diretamente relacionadas, como indica correspondência do mexicano José Rafael Calva a Reinaldo García Ramos em 1984: Me impresionó la calidad alta y uniforme de los textos, así como la sección sobre la homosexualidad en Cuba, fundamental, pues se denuncian objetivamente el sistema cubano, su totalitarismo y homofobia. Por cierto, yo sabía de eso pero no más por "me dijeron", etc. Con todo, sólo dos mexicanos hemos denunciado ese hecho, José Antonio Alcaraz y un servidor. Cuando lo mencioné en una semana de Orgullo Gay organizada por el Grupo Lambda de Liberación Homosexual, la reacción fue de sorpresa, pues estos activistas dizque comunistas y dizque trotskistas, no lo sabían. Lo volví a decir en una entrevista que se publicó en sábado de uno más uno pero aún no me envían copia. Tambien lo dije, por cierto, en un programa de televisión que tuvo difusión nacional en México, una entrevista de una hora sobre homosexualidad; hablé de la persecución de los homosexuales en Cuba y la URSS. Con todo, por primera vez leí documentos de primera mano sobre la persecuciín en Cuba en el no. 5 de Mariel y muy pronto te mandaré comprar cuatro ejemplares que enviaré a México a grupos gays y activistas. Esto es muy importante, pues la propaganda cubana tiene mucho impacto en México [...]249 Parcela da esquerda mais alinhada à Revolução Cubana via as denúncias das práticas homofóbicas realizadas pelos marielistas com desconfiança. Em 1983, Ruby Rich, cineasta norte-americana vinculada ao movimento feminista, e Lourdes Arguelles, 246 Gaceta Oficial de La Republica de Cuba. La Habana, jueves 1 de marzo de 1979, año LXXVII, p. 62. 247 PERLONGHER, Néstor. Cartas de los lectores. Mariel, n.7, 1984, p. 38. 248 Reportaje a Nestor Perlongher. Vamos a andar, n. 11, Noviembre 1988, Disponível em: http://americalee.cedinci.org/wp-content/uploads/2018/07/VamosAAndarCHA_n11.pdf. Acesso em: 20 nov. 2018. 249 CALVA, José Rafael [Carta] 3 agosto 1984, Washington, D.C. [para] GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Nova York. 1f. Mariel (Revista) Papers. 75 membro do comitê de redação da revista Areíto250, publicaram o artigo The Easy Convenience of Cuban Homophobia251 na publicação gay New York Native. Tratava-se de um número sobre os “Gay Latin” e seus problemas específicos, no qual Reinaldo Arenas e René Cifuentes, editores de Mariel, publicaram textos denunciando a discriminação sofrida pelos homossexuais sob o regime revolucionário cubano. Segundo as autoras, a Geração de Mariel, composta por intelectuais de direita, estaria mobilizando a questão da homofobia cubana como munição na Guerra Fria. A escritora Ana María Símo, exilada desde fins da década de 1960, escreveu a Reinaldo Arenas e Reinaldo García Ramos, após a veiculação do artigo, sobre a suspeita acerca das motivações políticas dos homossexuais cubanos nos meios de esquerda dos Estados Unidos e da França, e alertou sobre a necessidade de comprovarem suas intenções em relação à pauta homossexual para ganharem aliados nos meios militantes. A escritora sugeriu que a homofobia fosse abordada também entre a comunidade de exilados de Miami, como ocorreu no número 5 de Mariel: Te escribo para decirte que me parece crucial que leamos este artículo no ya para indignarmos, como de costumbre [...] sino, por encima de eso, para algo más importante: para recoger el desafío que nos lanza: el de probar de una vez por todas que no somos una camarilla derechista manipulada por no se sabe qué poderes obscuros, cuyo único objetivo en mencionar la persecución de la homosexualidad en Cuba es utilizar eso como "munición en la guerra fría". [...] Quizás te preguntarás el por qué tenemos que probar nuestras intenciones. Quizás no compartas mi sentimiento de urgencia, de emergencia. Yo llevo 15 años en los medios militantes feministas y gay aquí y en Francia y te garantizo que la sospecha sobre nuestras motivaciones políticas y hasta humanas es enorme entre quienes deberían ser nuestros mejores aliados, y que esa sospecha en parte se ha nutrido de nuestras omisiones y silencios.252 Ainda que a discriminação aos homossexuais tenha se tornado mais evidente a partir de 1970, através do sistema penal, esta já se fazia notar desde o início da década de 1960 e antes do estabelecimento das UMAPs, quando a escritora compunha o editorial El Puente. Durante o Primeiro Encontro Nacional de Poetas em Camaguey, no verão de 1960, o general Alberto Bayo, que representava Fidel Castro no Encontro, acusou os homossexuais de serem “pervertidos”, “corruptores da Revolução” e sem lugar em Cuba. A escritora puntera Isel Rivero, que colaborou em Mariel posteriormente, estava presente 250 Ver nota 127. 251 The New York Native, número 74, outubro 10-23, 1983, p. 34. 252 SIMO, Ana María [Carta] 8 out. 1983, Nova York [para] ARENAS, Reinaldo. Nova York, com cópia para GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Nova York. 2f. Mariel (Revista) Papers. 76 no Encontro e o discurso de Bayo foi um dos motivos que a levou ao exílio. O discurso do general foi rebatido pelo poeta Nicolas Guillén e pela escultora Loló de Soldevilha.253 No ano seguinte, em 1961, foi montada uma operação pela polícia no centro de Havana para prender prostitutas e possíveis homossexuais, em 1º de outubro, noite que ficou conhecida como La noche de las tres P (prostitutas, pederastas e proxenetas). Virgílio Piñera foi preso no dia seguinte, encarcerado no presídio de El Príncipe. Acusado de crimes políticos e morais, foi solto graças à intervenção de alguns intelectuais, como Carlos Franqui e Edith García Bucacha. Posteriormente, alguns escritores que participaram de El Puente foram presos e impedidos de publicarem seus trabalhos.254 Juan Goytisolo afirma que um encontro com Virgílio Piñera em fins da década de 1960 o fez questionar seriamente os rumos da Revolução Cubana: Virgílio me contó entonces todo lo que pasaba. Me habló de la existencia de la UMAP, me dijo que había más de sesenta mil homosexuales encerrados en esos campos, que él mismo vivia bajo el terror de ser denunciado por el Comité de Defensa de la Revolucion y ser arrestado. Me di cuenta de que tenía mucho miedo porque no quiso que habláramos en el cuarto del hotel ni en el hall. Él queria que camináramos por el jardin, pues así estaríamos más seguros. Virgílio me dio una impresión tál de soledad, de alguien acorralado...Cuando lo vi partir tan frágil, envejecido, marcado por la experiencia, verdaderámente fue algo que me trastornó, que me hizo pensar·seriamente en la evolución de la Revolución y a tener dudas sobre ella.255 Em Mariel, além de se denunciar a homofobia presente na sociedade cubana e na comunidade de exilados cubanos, veiculou-se poesias, contos, resenhas e trechos de obras produzidas por escritores homossexuais ou que haviam abordado temáticas gay ou homoeróticas, como vários dos próprios marielistas, e também dos cubanos Virgílio Piñera, Severo Sarduy, José Lezama Lima, José Mario, Gaston Baquero, Isel Rivero, Lilliam Moro, Nelson Rodríguez, Juan Goytisolo, Ana María Simo, Calvert Casey, José Manuel Poveda, Carlos Montenegro, do argentino Néstor Perlongher e do mexicano José Rafael Calva. A publicação era comercializada por algumas livrarias dedicadas a autores homossexuais e ventilou-se, a convite das editoras Gay Books Bulletin e Gay Sunshine, a possibilidade de organizar uma antologia de escritores marielistas homossexuais. Contudo, de acordo com Reinaldo García Ramos, Mariel “não era uma revista exclusivamente gay”256. 253 MISKULIN, Silvia. Op. cit., p. 91-92. 254 Ibid. 255 GOYTISOLO, Juan. Piñera y los antecedentes. Mariel, n.5, 1984, p. 11. 256 GARCÍA RAMOS, Reinaldo [Carta] 6 abril 1984, Nova York [para] FOSTER, Stephen, Coral Gables. 1f. Mariel (Revista) Papers. 77 O projeto editorial elaborado pela geração de Mariel, a partir de ideias anticomunistas, anticastristas e liberais, construiu um discurso crítico ao regime revolucionário cubano, caracterizando-o como monolítico, totalitário, atrasado, dependente, miserável e homofóbico, e vinculando-o, frequentemente, ao sistema escravocrata, à dominação colonial e a figuras maniqueístas como o diabo e o inferno. A revista confrontou as memórias oficiais da Revolução Cubana, e seus esquecimentos, e deu visibilidade às perseguições aos dissidentes, às violações de direitos humanos e às prisões políticas, que eram ignoradas por muitos. O pujante caráter de denúncia da publicação visava conformar uma oposição política à Revolução a partir do exílio, por meio da intervenção na esfera pública e da deslegitimação das retóricas oficiais. 78 Capítulo 2: Exílio, intelectuais e dissidência política 2.1 – Condição exílica e fragmentação da identidade De acordo com Edward Said, o exílio é uma condição secular e histórica criada para negar a dignidade e a identidade ao indivíduo, inserindo-o em uma zona de exclusão moral e social.257 Segundo Denise Rollemberg, sua função, historicamente, é afastar/excluir/eliminar grupos ou indivíduos que, manifestando opiniões contrárias ao status quo, lutam para alterá-lo. O exilado é motivado pelas questões do país, envolve-se em conflitos sociais e políticos, diz não a uma realidade.258 A experiência do desterro não significa um corte total ou isolamento em relação ao local de origem. Para a maioria dos exilados, a dificuldade não consiste somente em ser forçado a viver longe de casa, mas também em ter que conviver constantemente com o fato de estar exilado. O desterrado mantém um contato permanente com seu lugar de origem e vive num estado intermediário, nem de todo integrado ao novo lugar, nem totalmente liberto do antigo. O exílio é, ainda, o desenraizamento do universo de referências familiares. O estranhamento em relação a outros países e culturas, as dificuldades de adaptação às novas sociedades e o não-reconhecimento nos novos papéis disponíveis alteram a imagem que o exilado tem de si mesmo, podendo desencadear crises de identidade259, como ocorreu com os escritores marielistas. Rossana Cassigoli acrescenta que orfandade, isolamento e desalento vital fazem parte da difusa “abstracción de un mal du pays provocado por todas las menudencias imaginables, que quizá podría compararse mejor con esse fuerte dolor fantasma en miembros que han sido amputados”260. A experiência do exílio, entretanto, não se resume ao padecimento, havendo a possibilidade de ocorrer a supervalorização do nacionalismo, o desafio de superar a solidão “sem cair na linguagem abarcadora e arrebatadora do orgulho nacional, dos sentimentos coletivos e das paixões de grupos"261, e, ainda, a possibilidade de pulverização do estranhamento em um cosmopolitismo reparador.262. 257 SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 258 ROLLEMBERG, Denise. Exílio: entre raízes e radares. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 25. 259 Ibid, p. 132. 260 SEBALD, Pútrida Pátria, 204. Citado por CASSIGOLI, Rossana. El exilio como sintoma: literatura y fuentes. Santiago: Ediciones Metales Pesados, 2016, p. 16. 261 SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 262 Claudio Guillén. Citado por: ROJAS, Rafael. Tumbas sin sosiego. Revolución, disidencia y exilio del intelectual cubano. Editorial Anagrama, 2006, p. 26. 79 Assim, o exílio não deve ser compreendido somente como uma categoria política, pois afeta a sensibilidade e as paixões dos indivíduos, a maneira como estes se relacionam com o mundo e com si mesmos, podendo deixar sequelas de estranhamento, alienação e marginalização. O exílio é uma experiência de desenraizamento. Nesse sentido, a psicanálise constitui um campo teórico frutífero para compreensão da experiência do desterro. Prado de Oliveira defende que a psicanálise é uma teoria fundada, entre outros, no exilado, no refugiado, no migrante. O universo do estrangeiro está em sua base (o inconsciente, aquilo que não podemos reconhecer em nós mesmos), e a psicanálise encontra de maneira exacerbada no exilado o que encontra nos outros homens.263De forma similar, diversos estudos apresentam o exílio como um paradigma da condição humana.264 O termo desenraizamento, frequentemente utilizado para se referir ao exílio, diz respeito à perda das raízes, assim como desterro, que remete à perda da terra, ou seja, daquilo que fornece sustentação e base. A perda, na psicanálise, aparece fundamentalmente como a morte da mãe, objeto de desejo primordial, e desencadeia processo de luto, no qual a perda expressa-se como excesso de presença do objeto ausente, e de reconstrução de identidades, devido à ausência do olhar do Outro que fundamentou a construção do sujeito265: “o sujeito se constrói a partir do exílio, devido à perda do objeto primordial, que está perdido desde a gênese de sua constituição”266. As crises de identidade provocadas durante o exílio, assim, têm relação com o afastamento do ambiente no qual o homem construiu seus projetos e ilusões, permanentemente renovados no convívio com os outros, e no rompimento das relações nas quais o homem é reconhecido.267 É devido à identificação com a imagem dos outros sobre nós que conseguimos ter uma imagem de nós mesmos. Ocorre, assim, uma ruptura narcísica, causando a despersonalização e o anonimato. Lacan denomina de “fase do espelho” a relação da criança com os sistemas simbólicos, à conquista de uma imagem que estrutura o ego, o eu e a história do sujeito.268 Esse processo de constituição do sujeito 263 ROLLEMBERG, Denise. Exílio: entre raízes e radares. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 32. 264 RONIGER, Luis. Reflexões sobre o exílio como tema de investigação: avanços teóricos e desafios. Caminhos cruzados: história e memória dos exílios latino-americanos no século XX. Org. Samantha Viz Quadrat. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2011, p. 34. 265 ROLLEMBER, op. cit., p. 25-26. 266 VIÑAR, Maren; VIÑAR, Marcelo. Exílio e tortura. São Paulo: Escuta, 1992, p. 131. 267 ROLLEMBERG, op.cit, p. 26. 268 DUTRA, Eliana de Freitas. O ardil totalitário: imaginário político no Brasil dos anos de 1930. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012, p. 27. 80 fragmentado como unidade se inicia no momento de sua entrada nos sistemas de representação simbólica, incluindo a cultura, a língua, a diferença sexual, e só é possível pelo olhar do outro269: Os sentimentos contraditórios e não-resolvidos que acompanham essa difícil entrada (o sentimento dividido entre amor e ódio pelo pai, o conflito entre o desejo de agradar e o impulso para rejeitar a mãe, a divisão do eu entre suas partes “boa” e “má”, a negação de sua parte masculina ou feminina, e assim por diante), que são aspectos-chave da formação inconsciente do sujeito e que deixam o sujeito “dividido”, permanecem com a pessoa por toda a vida.270 Apesar da fragmentação do sujeito, sua identidade é vivenciada como unificada devido à fantasia construída na fase do espelho. Em muitos casos, o exílio faz com que os sentimentos contraditórios que acompanham o indivíduo durante a fase do espelho, e que permanecem com ele durante toda sua existência, retornem de maneira exacerbada.271 A fragmentação do sujeito e os conflitos de identidade, que, no caso, relacionam- se com a percepção deste sobre o exílio, vivenciado ora de maneira angustiante, ora de forma libertadora, é evidente nas narrativas veiculadas em Mariel. Gustavo Pérez Firmat utiliza a metáfora do câncer para referir-se ao processo de adaptação nos Estados Unidos, associando o exílio a um movimento simultâneo de destruição/morte e construção/vida em um novo ambiente cultural e social. O tumor simboliza o estrangeiro que habita o sujeito e se refere à reconstrução da identidade, cujo caráter fragmentado e múltiplo emerge: Morirse de câncer en el exilio es ser invadido y conquistado por la sustancia misma de la separación el cuerpo extraño -foreign body- nos corroe con su extranjeridad. Cada célula maligna se aloja en el útero o en un pulmón como un pedacito de alguien que no soy yo, alguien que hable inglés y detesta el café con leche, y a cuyas costumbres -irremesiblemente- terminaré por convertirme.272 Segundo Maren e Marcelo Viñar: 269 PEREIRA, Stefane Soares. Exílio: locus identitário, p. 6. Disponível em: Acesso em: 10 out. 2017 270 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2007, p. 38. 271 PEREIRA, op.cit, p. 12. 272 PÉREZ FIRMAT, Gustavo. Mínima Elegía Bilingue, Mariel, n. 3, 1983, p. 4. 81 Para o exilado, a ruptura da ancoragem narcísica se faz em um conflito violento [...]. Perde o espelho múltiplo a partir do qual criava e nutria sua própria imagem, seu personagem. No exílio, ninguém o conhece, ninguém o reconhece. Aquele que eu era não existe mais. O personagem está morto, o cenário não é mais o mesmo, os atores tampouco. E nos encontramos ali, sem olhar, sem palavra: comoção e crise radical da identidade. O homem está nu.273 Esse processo de ruptura da ancoragem narcísica, anonimato e suspensão dos papéis sociais nos quais o sujeito se reconhece é narrado da seguinte maneira por Reinaldo Arenas: Pero no estás vestido como estás, no te tomas ese refresco que allá abajo nunca te pudiste tomar, no oyes esa grabadora que ahora suena, porque no existes, quienes te rodean no dan prueba de tu existencia, no te identifican ni saben quién eres, ni les interesa saberlo; tu no formas parte de todo esto y da lo mismo que salgas vestido con esos andariveles o envuelto en un saco de yute. Bastaba verte los ojos para saber que así pensabas, y no podía decirte que también yo pensaba así, que yo también me sentira así; así no, mucho peor; al menos tú tenías a alguien, a mí, que intentaba consolarte […]¿Cómo va a sobrevivir una persona cuando el sitio donde más sufrió y ya no existe es el único que aún lo sostiene?274 Final de un cuento, publicado no primeiro número de Mariel, ao qual pertence o trecho supracitado, constrói-se, ainda, a partir da divisão do sujeito e da oposição entre um narrador-sobrevivente e um narratório-vencido.275 O escritor nos apresenta a dois amantes cubanos que conversam sobre suas vivências nos Estados Unidos. Ainda que o conto passe, inicialmente, a impressão de um diálogo entre dois personagens, trata-se de um monólogo interior, já que um dos amantes nunca intervém na conversa. Todo o conto é constituído pelo fluxo de consciência de um único sujeito, fragmentado. O narrador havia viajado a Cayo Hueso para jogar as cinzas de seu amante no mar, após suicídio provocado pela experiência do exílio, marcada pela nostalgia, inadaptação na sociedade estadunidense, crises de identidade e melancolia. O narrador entende a sobrevivência no exílio como uma vingança pessoal ao regime revolucionário cubano, exaltando as vantagens materiais e as liberdades individuais da vida na sociedade estadunidense e, principalmente, a importância do ódio às circunstâncias que levaram ao desterro na superação da nostalgia e da vontade de regressar à ilha. Cada um dos amantes padece da nostalgia provocada pelo exílio de maneiras distintas. Dessa forma, a narrativa construída por Arenas sobre o exílio, assim como as de outros intelectuais de Mariel, a retrata como, essencialmente, conflituosa para o sujeito desterrado, dividido entre 273 VIÑAR, Maren; VIÑAR, Marcelo. Exílio e tortura. São Paulo: Escuta, 1992, p. 71. 274 ARENAS, Reinaldo. Final de un cuento. Mariel, n. 1, p. 3. 275 Citado por PANICHELLI-BATALLA, Stéphanie. La nostalgia y el exilio: comparación entre “Final de un cuento” de Reinaldo Arenas y “Paso a nível” de Manuel Díaz Martínez. In: PINEY, Grace; PANCRAZIO, James (org.). Cuba: Arte y literatura en exilio. Valencia: Legua Editorial, 2011, p. 47. 82 extremos como o amor e o ódio à terra natal, as vantagens e as desvantagens do exílio, sobreviver e padecer, vencer e perder, apontando para os processos de adaptação, bem como de reconstrução do sujeito. Em seu primeiro editorial, a revista se refere ao exílio massivo de Mariel como um dos episódios mais arbitrários e infernais do pós-revolução, ataca os meios de comunicação cubanos e estadunidenses por identificarem os exilados de maneira negativa, “contamina(ndo) con esa etiqueta de peligrosidad a los [...] refugiados”, e aponta para as dificuldades econômicas enfrentadas pelos exilados no competitivo sistema capitalista. No mesmo editorial, exalta-se “el privilegio de hallarse en Estados Unidos, un país que les permite expresarse y luchar”, e as oportunidades de resistência, denúncia e realização de obras literárias possibilitadas por maior liberdade de expressão. O binômio inferno/privilégio anunciado no texto de apresentação perpassa toda a publicação no que tange aos discursos sobre a experiência exílica, e pode ser destrinchado, principalmente, em fuga/liberdade e nostalgia/novos horizontes. Apesar dos males do exílio, dos conflitos de identidade e das campanhas difamatórias em relação aos marielitos veiculadas pelos discursos oficiais cubanos e pela mídia estadunidense, o exílio proporcionou a esses escritores a possibilidade de realizarem suas obras, após anos de cerceamento intelectual em Cuba. Mariel valoriza o exílio como uma experiência de liberdade de expressão e de consecução de projetos profissionais para toda uma geração de escritores cubanos, além de permitir a denúncia e a luta contra o regime revolucionário a partir de seus relatos, obras e projetos. Os marielistas entendiam, ainda, que a vivência em uma sociedade democrática como a estadunidense era frutífera para o desenvolvimento de habilidades úteis à sua formação e à nação cubana como um todo, como o debate de ideias e o convívio com ideologias e ideias divergentes. O exílio propiciaria uma nova forma de olhar para a realidade nacional: Las personas que salimos del infierno castrista en años recientes tenemos varias cosas importantes que aprender, si queremos estar aptos para disfrutar a plenitud de las posibilidades de realización que ofrece al individuo una sociedad abierta y permeable como la del mundo occidental no comunista. En primer lugar, tenemos que aprender que en la colectividad en la cual ahora vivimos, disención no quiere decir exclusión; ni irreverencia equivale a condena. Una de las cosas que los regímenes totalitarios se proponen arrebatarle al ser humano y casi todos los logran en cierto porcentaje de la población es la capacidad para ser tolerantes, para dialogar sosegadamente con un antagonista, para intercambiar con honestidad puntos de vista y llegar, gracias a ese intercambio, a una verdad más completa y en definitiva más interesante. [...] El exilio es una experiencia que por definición genera 83 circunstancias dolorosas e inclinaciones que podrían resultar desmoralizantes: la soledad, la desconfianza desproporcionada, la separación de los seres queridos y de los lugares que nutrieron nuestra felicidad pasada y nutren nuestros sueños presentes. Pero el exilio, asumido con sensatez y generosidad, es una experiencia que estimula también fuerzas muy sólidas y positivas: la decantanción de verdades, tanto individuales como colectivas, la apreciación objetiva de nuestras propias limitaciones y capacidades, al movernos en sociedades competitivas y violentas, que plantean opciones auténticas y concretas.276 Mariel compreendia que toda revista literária deveria abrir suas páginas à polêmica, à dissenção e à crítica aberta, que constituiriam alguns dos princípios básicos da democracia em vigor nos Estados Unidos, país anfitrião dos escritores.277De maneira contraditória, a revista era pouco plural e não publicava escritores que não estivessem alinhados ao anticastrismo. As liberdades individuais proporcionadas pela vida nos Estados Unidos configuravam o exílio como um movimento de libertação de um passado autoritário e de “asfixia existencial”. Diferentemente do exílio de militantes de esquerda após o estabelecimento de ditaduras civis-militares no cone-sul, quando em alguns casos o exílio representou uma derrota de projetos políticos, para os marielistas significava uma oportunidade de publicação de suas obras, denúncia do regime cubano e conformação de oposição política. Exílio e escritos autobiográficos A orientação política dos exilados cubanos nos Estados Unidos não é uma novidade na história das relações entre ambos os países. Grupos como o Segundo Frente del Escambray, que lutaram para derrubar o governo revolucionário, ainda em 1959, e mantiveram oposição e campanhas de violência nas áreas rural e urbana da ilha, possuíam representantes de seus interesses em Miami, onde procuravam apoio para sua causa. Esses grupos receberam armamentos e alimentos de expatriados, que voavam clandestinamente sobre a serra do Escambray com suprimentos ou os contrabandeavam via marítima. Com a deterioração das relações entre Estados Unidos e Cuba, em 1960, e a aproximação da ilha ao bloco soviético, ideologicamente e economicamente, a administração Eisenhower começou a explorar maneiras de utilizar os “contrarrevolucionários” na luta contra o “problema cubano” no contexto da Guerra Fria na América Latina. Em 1960, Eisenhower aprovou os planos da CIA de recrutar e treinar um exército de exilados cubanos para invadir a ilha e derrubar o governo revolucionário. 276 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Contra la broncomania. Mariel, n.2, 1983, p. 31. 277 Mariel, n.3, 1983, p. 23. 84 A CIA estabeleceu locais de recrutamento no sul da Flórida, mais reconhecidamente na University of Miami, e os voluntários foram enviados para campos de treinamento na Guatemala, Nicarágua e outros pontos do Caribe para se prepararem para a invasão, que ocorreu em abril de 1961 e ficou conhecida como Invasão da Baía dos Porcos. Sua derrota pelo governo revolucionário cubano não marcou o fim da oposição contra Castro por parte da comunidade de exilados com o apoio do governo dos Estados Unidos, mas seu fortalecimento, principalmente a partir de meios institucionais.278 Essa cultura de orientação política no exílio – presente também na literatura, visto que parcela importante da produção intelectual cubana foi produzida enquanto seus autores contemplavam a ilha à distância -, foi retomada pelos marielistas para significar o desterro como uma tradição cubana de liberdade e luta. Assim como autores cubanos como Louis Pérez279, os marielistas valorizavam a experiência do desterro como uma das maneiras através das quais os cubanos moldaram sua nacionalidade:“el éxodo de Mariel confirma y enriquece esa tradición de la cultura cubana: la de ser una cultura de la resistencia y del exilio. Precisamente las intenciones de la actual ditadura castrista son las de despojarnos también de nuestra tradición, adulterando, distorsionando y desprestigiando al exilio”.280Dessa forma, legitimavam suas obras e sua luta, criticavam o regime cubano e disputavam concepções de nação através do recurso à “tradição do exílio cubano”.281 Segundo o primeiro editorial da publicação, “No hemos venido al exilio con esquemas de bienestar, o a detenernos en anécdotas pueriles o en chismorreos de salón; hemos venido a realizar nuestra obra”282, o que faria com que suas “verdades” acerca do regime cubano chegassem à esfera pública. Já no editorial de comemoração de um ano de existência da revista, afirmou-se que esta aspirava a converter-se, fundamentalmente, em um veículo de criação artística tanto para exilados cubanos quanto para qualquer criador que sentisse que sua obra corresse perigo de ser silenciada, mutilada ou deformada: 278 GARCÍA, María Cristina. Havana-USA: Cuban exiles and Cuban Americans in South Florida (1959- 1994). Berkeley: University of California Press, 1996. Edição do Kindle. Posição 1678-1724, Tradução nossa. 279 Pérez, Louis A., Jr. On Becoming Cuban: Identity, Nationality and Culture. The University of North Carolina Press, Chapel Hill, 1999, p. 36-37. Citado por: PANCRAZIO, James J. In: Cuba: Arte y Literatura en exilio. Valencia: Legua Editorial, 2011, p. 16. 280 ARENAS, Reinaldo. Necesidad de Libertad. Sevilla: Editorial Point de Lunette, 2012, p. 42. 281 Analisaremos o recurso à tradição mais detalhadamente no capítulo 3. 282 Editoral, Mariel, n. 1, p. 2. 85 Si hace cuatro años el éxodo del Mariel nos hizo ver en el nombre de esse puerto la plasmación em un solo vocablo de todas nuestras esperanzas de supervivência, queremos ahora que el nombre de nuestra revista retenga para otros su vibración liberadora. Mariel para nosotros fue un episodio decisivo en el desprestigio del castrismo; hoy tiene que ser incluso más que eso. Por eso queremos que los escritores y artistas em general (sean cubanos, latinoamericanos, españoles o de cualquier parte) vean em nuestra revista un amparo seguro contra la estupidez y la intolerância, un sinonimo inequívoco de amplitud de miras, de entereza de espiritu, de experimentación, de entusiasmo creador y de imaginación. Estaremos siempre a favor del futuro, pero en contra de las vilezas del passado disfrazadas de futuros “luminosos”; estaremos en contra de cualquier tipo de prejuicio o de opresión. Como los sufrimos em carne propia, no podemos aceptar ni el crimen, ni la mentira ni el dogma, sea cual sea el terreno en que se manifiesten: político o religioso, estético o histórico, moral o económico. Si deseamos que algún día en nuestras tierras sea dable construir sociedades sin oscurantismos, sin miseria y sin tristeza, tenemos que aprender a pensar y a vivir librementer desde hoy mismo.283 Dessa forma, a revista se propunha a funcionar como espaço de oposição a medidas autoritárias em relação à produção intelectual. A maior parte dos elementos que forneciam coesão ao grupo, afinal, eram extraliterários, sobretudo a vivência comum de seus integrantes sob o regime revolucionário cubano durante o quinquenio gris. É frequente que tais elementos autobiográficos sejam incorporados às obras fictícias dessa geração, tanto em romances, como nos contos, poemas e excertos de obras publicados em Mariel, aproximando-se, muitas vezes, da autoficção. Escritos autobiográficos, testemunhos e relatos também são comuns nas seções da revista, especialmente em Experiencias. Paul de Man afirma que a autobiografia é a prosopopeia da voz e do nome. Retomando escritores românticos como Goethe e Schlegel, afirma que, a partir desse movimento, almejava-se que a máscara do eu estivesse vinculada à pele do ator, e que arte e vida fossem uma só coisa. Porém, ainda que soldada, a máscara cobre uma superfície à qual não se assemelha. Fendas e crateras do oculto, que não se acoplam à máscara, criam câmaras de ar, imposturas, as quais constituem o espaço autobiográfico: “el lugar donde um yo, prisioneiro de sí mismo, obsessivo [...] o mentiroso, proclama, para poder narrar su historia, que él (o ella) fue aquello que hoy escribe. Postula, en sínteses, una relación de semejanza”284 A prosopopeia, por sua vez, consiste em pôr em cena os ausentes, os mortos, os inanimados. Em fazê-los falar, atuar e responder, tomá-los como testemunhas, 283 Editorial, Más que um episodio, Mariel, n.5, p. 2. 284 CATELLI, Nora. En la era de la intimidad: seguido de el espacio autobiográfico. Rosario: Beatriz Vitervo Editora, 2007, p 219. 86 acusadores, vingadores, juízes. É uma figura da retórica clássica: há sempre um jogo entre dois tempos, dois espaços, duas entidades, animadas ou inanimadas, pertencentes a duas classes distintas de seres. Insiste-se, assim, que o autobiográfico revela o sujeito somente como retórica, como uma figura, uma necessidade e urgência de postulação de identidade entre dois sujeitos: um autor que é uma assinatura e que se declara (como narrador e segundo sujeito) objeto de sua própria compreensão. Assim, o sentido de narrar a própria história, segundo De Man, provém da necessidade de atribuir um eu, mediante o relato, àquele que previamente carece de eu. O eu, portanto, não é o ponto de partida da narrativa, mas resulta da construção do relato sobre a própria vida, do mesmo modo que durante uma representação teatral a máscara oculta algo que não pertence à cena. No movimento autobiográfico, dessa maneira, o autor sofre uma desfiguração, e surgem dois sujeitos, um que ocupa o lugar do informante, e outro que ocupa a posição da máscara que desfigura.285 Logo, é um gênero de narrativa fortemente conectado à construção de uma identidade. Nesse contexto, a autobiografia é considerada como a mise en scène de um fracasso: “es imposible dar vida a los muertos; es imposible establecer lazos confiables entre pensamiento y linguaje; es finalmente imposible que el relato de la propia vida se evada de esa dialéctica entre lo informe y la máscara, en cuyo juego queda presa la estrategia del discurso del yo”.286 A alegoria seria, então, o substrato retórico oculto do exercício autobiográfico, pois ela encarna de especial maneira um fracasso, a falha exemplar na intenção de fundar uma estratégia para a construção do eu. Esse fracasso se deve, necessariamente, ao fato da alegoria ser figura de figuras, entre elas, da prosopopeia, cuja essência é, para De Man, o desacordo entre a máscara e o vazio.287 Abilio Estévez, por exemplo, descreve a autobiografia de Arenas como exagerada e mentirosa, mas acrescenta que o escritor e o personagem que ele escolheu para si mesmo estavam ali de corpo inteiro: ¿Qué importancia tiene, por ejemplo, que al narrar el sepelio de Virgilio Piñera hable de que ‘una multitud de personas e incluso de muchachos jóvenes, montados en patines y bicicletas, persiguió el cadáver’? No hubo tal multitud en patines o bicicletas: estuve en el sepelio. Pero al personaje Piñera podía seguirlo una multitud de personajes en patines o bicicletas, como salidos de su cuento Concilio y discurso. No hubo tal multitud: en patines o bicicletas debió haberla. El hecho tuvo lugar, en efecto, gracias a la literatura. En este sentido, revela a un autor fiel a su obsesión. Si en libros anteriores lo veíamos sacar de 285 Ibid. 286 Ibid, p 232. 287 Ibid. 87 sí a sus personajes, aquí lo vemos elaborándose a partir de ellos, creando su persona a partir de la ficción.288 Nessa perspectiva, entendemos que a presença contundente de elementos autobiográficos nas narrativas dos marielitos não é aleatória, mas exerce função cara a esses sujeitos, não somente a fim de criticar e denunciar o regime revolucionário cubano, mas também na construção de um eu em meio às crises de identidade e à suspensão do universo de referências familiares do exílio abordadas. No caso desses intelectuais, essa questão é reforçada pelas rejeições e desencontros que enfrentaram, tanto dentro da ilha, como entre a comunidade de exilados cubanos estabelecidos anteriormente em Miami, e por parcela da sociedade e da mídia estadunidense. A reconstrução das identidades individuais relaciona-se também a um esforço mais amplo de releitura da memória da Revolução e do cânone literário oficial, conformando, na publicação, um ethos cubano diferente daquele propagandeado pelo regime cubano e pelos postulados do “homem novo”. O marielista Miguel Correa, no poema Receta para la fabricación del hombre nuevo, faz a seguinte releitura do ideal pensado para a juventude socialista: RECETA PARA LA FABRlCACIÓN DEL HOMBRE NUEVO Ingredientes: 1 hombre joven entero 2 libretas de abastecimiento 1 pantalón caqui al año 1 par de zapatos plásticos (al año) 1/4 de pan (al día) 1 ley de peligrosidad y/o de vagancia y/o de extravagancia mítines relámpagos 1 CDR organizaciones de masas el periódico Granma películas rusas (búlgaras o checas) trabajo voluntario 1 servicio militar obligatorio 1 líder máximo 1 radio VEF actitud crítica y autocrítica asistencia a los plenos políticos 1 bote289 O poema supracitado é um bom exemplo dos temas que discutimos até o momento e bastante representativo de várias ideias de Mariel acerca do regime cubano. A revista compreendia que o regime tentava formar uma juventude monolítica e massificada. Criticava os postulados de “homem novo” idealizados pelo governo cubano, bem como 288 ESTÉVEZ, Abílio. Autobiografía de un desesperado. In: Encuentro de la Cultura Cubana, n.8/9,primavera/verano 1998, p. 131. 289 CORREA, Miguel. Receta para la fabricación del hombre nuevo. Mariel, n. 3, p. 4. 88 a economia, a política cultural, o autoritarismo, o militarismo e as organizações de massa do regime. Através do escrito autobiográfico, transforma-se o sentido de “homem novo” para o de exilado crítico ao regime. Além da função alegórica desses escritos, defendida por De Man, concordamos com Rossana Cassigoli290 quando pontua que o próprio exílio pode exercer, também, essa mesma função, permitindo falar de si ou de algo através do outro, e vice-versa. Segundo a autora, a convergência em uma linguagem de sofrimento humano permitiria socializar as repercussões da experiência singular, a fim de compreendê-la e de se fazer compreendido. Nesse contexto, o exílio assume função alegórica, constituindo-se como imã aglutinador de uma multiplicidade de temas. Através da experiência comum do desterro e da linguagem do sofrimento, forja- se não somente redes e identidades comuns entre os intelectuais que saem da ilha no início da década de 1980, como constrói-se conexões e relações de continuidade e identificação com respeitados escritores de outras gerações, conferindo, através de estratégias retóricas, legitimidade ao grupo, classificado como “escória” pelo regime revolucionário cubano, ao mesmo tempo que se realiza um movimento de reescrita, disputa e ressignificação do cânone literário cubano e da história de suas próprias juventudes, como abordaremos no capítulo 3. As relações de continuidade e as conexões estabelecidas com intelectuais cubanos do século XIX e da Primeira República cubana através da linguagem comum do sofrimento e do desterro, permitem, ainda, a evocação de uma série de temas na produção discursiva dos exilados marielistas, conformando uma oposição política que insere o regime revolucionário cubano em um continuum da história da ilha. Dessa maneira, a oposição e a crítica ao regime revolucionário não se limitam a argumentos anticomunistas, fortemente presentes na publicação, mas, através da identificação de continuidades históricas, vinculam o regime socialista à mesma lógica que regia o poder colonial e as disputas caudilhistas. Nessa perspectiva, a função alegórica, tanto dos escritos autobiográficos como do exílio, representa uma estratégia retórica na construção de um discurso de oposição política. 2.2 – A ressignificação do exílio massivo de Mariel 290 CASSIGOLI, Rossana. El exilio como sintoma: literatura y fuentes. Santiago: Ediciones Metales Pesados, 2016. 89 Em discurso comemorativo ao primeiro de maio, em 1980, Fidel Castro afirmou que aqueles que procuravam asilo na embaixada peruana em Havana não sabiam o que significava dissidência, de modo a esvaziar qualquer significado político do fenômeno migratório: Y algo extraño que no pasaba en ninguna otra embajada, venían elementos maleantes, delincuentes, lumpen, que si iban a pedir allí la visa no se la daban ni locos. No les daban la visa. Cuando penetraban por la violencia, lanzando un camión o lanzando un ómnibus sobre la cerca, ah, entonces los recibían con todos los honores, los amparaban, los asilaban, les pagaban el pasaje y los recibían como héroes. Eso no podía traer otras consecuencias que estimular al lumpen a realizar esas actividades, no podía tener otro resultado. [...] Inmediatamente el imperialismo aprovechó este problema, toda la prensa burguesa y derechista del hemisferio y del mundo, para lanzar un diluvio de calumnias y de propaganda contra Cuba. Nosotros lo esperábamos. Pero esta batalla se gana, se está ganando y se va a ganar completa, porque desafiamos no solo las amenazas militares yankis; desafiamos los monopolios de la información imperialista; [...] Pero ellos desataron la campaña internacional basándola en la idea de que el pueblo quería irse, de que había muchos disidentes, sobre todo esta idea: disidentes. Hay lumpen ahí, en esa embajada — como ustedes lo pudieron ver en el documental de cine —, que no saben ni lo que es la palabra disidencia (RISAS). [...] Entonces orquestaron su campaña alrededor de esto y, por supuesto, en primer lugar la prensa imperialista, y como es de imaginar la prensa reaccionaria y derechista del hemisferio y del mundo dirigida contra el socialismo, contra el comunismo, contra la Revolución Cubana. [...]291 Explicava a insatisfação de parcela da população com o regime a partir da atuação permissiva e enviesada de embaixadas como a venezuelana e a peruana. Segundo Castro, a dissidência seria uma criação da propaganda internacional contrária ao socialismo, visto que aqueles que desejavam deixar o país não passavam de lumpen, sem nenhuma utilidade ou consciência social. O discurso oficial procurou depreciar social, moral e intelectualmente os que emigravam, os chamando de lumpenproletariado, a escória da sociedade cubana. Fidel Castro, em discurso de junho de 1980, comparou o exílio massivo de 1980 a uma cirurgia plástica, que eliminava os que não tinham consciência revolucionária ou função social292: Esto no quiere decir que de ninguna forma podamos aflojar la lucha contra la delincuencia ni la lucha contra el lumpen; no podemos, menos ahora que más o menos lumpen y contrarrevolución se van asimilando uno a otro. [...] La flota de Mariel fue perdiendo capacidad de transportación y no podemos hacernos ilusiones, a pesar de que la limpieza ha sido considerable, como ustedes los 291 CASTRO, Fidel. Discurso pronunciado en el Acto Conmemorativo del Primero de Mayo, efectuado en la Plaza de la Revolucion "Jose Marti", el 1ro de Mayo de 1980. Disponível em: . Acesso em: 12 set. 2018. 292 A mesma comparação foi realizada por Castro em editorial da revista Bohemia, em julho daquele ano. Cf. MARQUES, Rickley Leandro. Op. cit., p. 185. 90 tuneros lo saben perfectamente bien, no creo que ignoren nada de eso. Antes nos llevaban médicos, ingenieros, profesores, personal muy calificado. Ahora les tocó llevarse el lumpen. Esa es la realidad, a esos que les han llenado la cabeza de ilusiones.Sí, somos un país subdesarrollado, un país pequeño; no somos el país industrializado, el país rico; tenemos que enfrentarnos a la mayor potencia imperialista del mundo, el país con más recursos industriales y técnicos del mundo capitalista y hemos aceptado el reto siempre, lo hemos aceptado.[...] De modo que no hay que preocuparse de que perdamos un poco de partes blandas. Nos quedamos con los músculos y con el hueso del pueblo. Con eso nos quedamos, con las partes duras. Son las partes duras de un pueblo las que son capaces de cualquier cosa. Y a esas partes duras, que son muchas, hay que respetarlas, porque tienen una fuerza impresionante, como se demostró en las batallas de masas de abril y de mayo. Nos quedamos, además, con el cerebro y con el corazón, y los pies bien puestos sobre la tierra. Con las partes blandas, cirugía plástica.293 Aqueles que deixavam a ilha, nos discursos oficiais, eram pessoas pouco qualificadas, deslumbradas com a falsa promessa do “sonho americano” e sem consciência revolucionária. Portanto, não representavam uma perda para Cuba - diferentemente do passado, quando médicos, engenheiros e professores partiam rumo ao exílio. Segundo Castro, o fenômeno migratório de 1980 era uma questão de limpeza social, não de dissidência. A estigmatização daqueles que saíam da ilha foi amplamente realizada na imprensa cubana, que representou o exílio como uma questão de higienização em notícias, charges294 e mensagens diárias de Fidel Castro. Os Comitês de Defesa da Revolução (CDR’s) organizaram, ainda, manifestações nas praças. As Marchas do Povo Combatente serviram para mostrar a autoimagem coesa do povo revolucionário a defender a pátria contra os “inimigos da revolução”. Durante a ponte marítima, multidões organizadas pelos CDR’s e pela imprensa oficial protestavam, proferiam palavras de ordem e constrangiam aqueles que saíam de Cuba pelo porto de Mariel. Segundo vários relatos, havia manifestantes que também os atacavam fisicamente. Segundo Rickley 293 CASTRO, Fidel. Discurso pronunciado por Fidel Castro Ruiz, Presidente de la República de Cuba, en la inauguración del Complejo de la Salud "Ernesto Che Guevara", en la provincia de Las Tunas, el 14 de junio de 1980, "año del segundo congreso". Disponível em: . Acesso em: 12 set. 2018. 294 Ver CABRERA, Isabel Ibarra; MARQUES, Rickley Leandro. Representações do Mariel nos textos e charges da revista Bohemia e Revolución y Cultura (1980). Revista eletrônica da ANPHLAC, n.8, 2009. 91 Leandro Marques, aqueles que saíam da ilha haviam se tornado um grupo outsider295 ao não respeitar as normas da ilha revolucionária.296 O exílio massivo foi explicado em Cuba – através da rede estatal de TV, em revistas e jornais -, como uma migração econômica resultante das relações com os Estados Unidos e do embargo imposto à ilha. O governo não admitia que o fenômeno migratório fosse caracterizado como político297: O bloqueio imperialista em Cuba gera lúmpen e, portanto, emigração. A hostilidade sistemática mantida pelos Estados Unidos contra Cuba dificultando nosso desenvolvimento econômico e social gera lumpen e, portanto, emigração. A política de terror imperialista contra Cuba gera terror, dificuldades, lumpen e, portanto, emigração. A exploração de Cuba durante quase 60 anos pelos monopólios imperialistas gerou pobreza e subdesenvolvimento e, portanto, lumpen e emigração. A política contrarrevolucionária inaque contra Cuba estimula o lumpen e, portanto, sua emigração para os Estados Unidos.298 Em discurso proferido, em setembro de 1980, Fidel Castro localizava o problema, ainda, em agressões e provocações externas de inimigos da Revolução, como a Venezuela e o Peru, que vinham protegendo “elementos antissociais, delinquentes e lumpen” em suas embaixadas: ¿Qué justificación puede tener esta provocación contra nuestro país? Y no es la única, ni es nueva, porque, como todos sabemos, los problemas en las embajadas: la protección a elementos antisociales y delincuentes y a lumpens empezó por la embajada de Venezuela, incluso mucho antes que la de Perú. Ocurrió, sin embargo, que en la embajada de Perú tuvo lugar el accidente en que pierde la vida un combatiente nuestro. Pero estos problemas empezaron por la embajada de Venezuela. Y hay allí 21 elementos antisociales, de los que han penetrado por la fuerza en esa embajada.299 Dessa forma, Castro defendia, ainda, que a politização desse fenômeno migratório – composto por lumpen – tratava-se de uma invenção de inimigos do socialismo e da 295 “Os outsiders são vistos como anômicos. O contato mais íntimo com eles, portanto, é sentido como desagradável. Eles põem em risco as defesas profundamente arraigadas do grupo estabelecido contra o desrespeito às normas e tabus coletivos, de cuja observância dependem o status de cada um dos seus semelhantes no grupo estabelecido e seu respeito próprio, seu orgulho e sua identidade como membro do grupo superior. Entre os já estabelecidos, cerrar fileiras certamente tem a função social de preservar a superioridade de poder do grupo”. ELIAS, Nobert; SCOTSON, John L. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000, p. 26. 296 MARQUES, Rickley Leandro. Op. cit., p. 186-202. 297 MARQUES, Rickley Leandro. Op. cit., p. 184. 298 CASTRO, Fidel. Cuando la política de um Estado poderoso carece de princípios y sus governos carecen de moral. Bohemia, año 72, n. 17, 25 de abril de 1980, p. 43-44. Citado por: MARQUES, Rickley Leandro. Op. cit., p. 184. 299 CASTRO, Fidel. Discurso pronunciado por Fidel Castro Ruz, Presidente de la República de Cuba, en el Acto Central Nacional por el Bigesimo Aniversario de la constitución de los Comites de Defensa de la Revolucion, celebrado en la Plaza de la Revolución, el 27 de septiembre de 1980, "Año del Segundo Congreso". Disponível em: . Acesso em: 12 set. 2018. 92 Revolução. No início dos anos 1970, o fluxo migratório cubano passou a incluir, progressivamente, maior representação de membros de níveis socioeconômicos mais baixos da sociedade socialista. O exílio massivo de Mariel, até certo ponto, representou uma culminação dessa tendência. Aqueles que desejavam deixar a ilha durante as décadas de 1960 e 1970, na perspectiva revolucionária, eram gusanos, membros da burguesia decadente, representantes de um passado capitalista, ou seja, não eram um produto do regime revolucionário cubano. O exílio massivo de Mariel, entretanto, era formado por sujeitos que construíram sua consciência política e social após 1959. De acordo com a retórica revolucionária, eram os filhos da revolução, “homens novos”. A saída de Cuba era um ataque simbólico significativo à credibilidade da revolução e aos ideais socialistas.300 A estigmatização dos “marielitos” realizada na ilha teve ressonâncias em parcela da imprensa estadunidense e da cultura popular, como no filme Scarface (1983), de Brian de Palma, no qual um marielito se torna chefe do tráfico de drogas da Flórida. Em novembro de 1981, a revista Time veiculou uma famosa capa sobre Miami,“South Florida: Paradise Lost?”. A matéria principal dessa edição abordava a onda de crimes relacionados ao tráfico de drogas que ocorria na região turística e a chegada de milhares de cubanos e haitianos à Flórida: "An epidemic of violent crime, a plague of illicit drugs and a tidal wave of refugees have slammed into South Florida with the destructive power of a hurricane”.301 Entre as visões preconceituosas acerca dos recém-chegados publicadas pela revista, um proprietário cubano de Miami havia comunicado a seus funcionários que: "if a black comes here asking for money, give it to him. If an Anglo comes to rob us, give it to him. But if a Marielito comes here, kill him. I will pay for everything”.302 De acordo com Brian Hufker e Gray Cafender303, que pesquisaram a cobertura midiática do exílio massivo de Mariel nos jornais Times e Post entre abril de 1980 e dezembro de 1981, a cobertura midiática, inicialmente positiva e referente a “refugiados políticos”, mudou à medida que milhares de cubanos chegavam diariamente, mediante 300 MISKULIN, Silvia. Op. cit. 301 South Florida: Trouble in Paradise. Time, november 23, 1981. Citado por: CAPÓ JR., Julio. It's not queer to be gay: Miami and the emergence of the gay rights movement (1945-1995). 2011. Tese (doutorado) - College of Arts and Sciences, Florida International University, Miami, p. 197. 302 Ibid, p. 178. 303 CAFENDER, Gray; HUFKER, Brian. From Freedom Flotilla to America's Burden: The Social Construction of the Mariel Immigrants. The Sociological Quarterly, Vol. 31, No. 2 (Summer, 1990), p. 321-335. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/412066. Acesso em: 14 abril 2015. 93 especulações de que o regime cubano estaria usando a ponte marítima para realizar uma limpeza da sociedade cubana e de seus indesejáveis. A descrição dos marielitos passou de “refugiados políticos” para “indesejáveis sociais”. As histórias negativas citavam Castro, que repetidamente havia classificado o grupo como “criminosos comuns, vagabundos e elementos antissociais, delinquentes, homossexuais, gangsters, desocupados e parasitas” (Times, 6 de abril, 1980; 8 de abril, 1980). Alguns dos cubanos foram caracterizados como criminosos, homossexuais ou mentalmente doentes. Algumas pesquisas indicam que estes constituíam menos de 5% dos imigrantes, porém a atenção focada nesse grupo eventualmente estigmatizou os marielitos de maneira geral.304 A revista Mariel possuía a intenção de intervir na esfera pública e disputar o significado do exílio massivo de Mariel, o que constituía um dos pilares de seu editorialismo programático. A partir de suas experiências na ilha e na ponte marítima Mariel – Cayo Hueso, os marielistas colocavam-se como porta-vozes da “verdade” sobre o fenômeno. Entendiam que o significado político e social do exílio massivo havia sido deformado pelos interesses políticos e sociais do regime revolucionário cubano, bem como pela cobertura midiática estadunidense. A revista e a autodenominação geração de Mariel representavam uma forma de luta contra essas deformações do conteúdo do exílio de 1980: [...] el régimen de La Habana asignó gruesas sumas de dinero y más demagogia que la habitual para desplegar una campaña internacional con el fin de deformar tanto el contenido social como la significación política del éxodo. El diabólico engendro no sólo tomó desprevenidos a los gobiernos de vários países democráticos, sino que fue golosamente consumido por la prensa mundial, parte de la cual no hizo sino explotar los aspectos más sensacionales os irrelevantes de los hechos. Durante meses, no pocos reporteros y comentaristas de las naciones occidentales le dieron a Mariel interpretaciones muy similares a las que Fidel Castro había concebido para el ingenuo raciocinio de ciertos médios massivos de comunicación. [...] Buena parte de esta injusta valoración está aún vigente en la mentalidade de amplios sectores de la opinión pública. No han sido suficientes tres años para que toda la verdad de Mariel salga a la luz, pero han bastado para permitir que un grupo de creadores que abandonamos Cuba en aquella ocasión hayamos consagrado nuestros esfuerzos y escasos ahorros a la creación de esta revista. Si toda la verdad de Mariel, como parte de la más minuciosa y mutilante pesadilla del castrismo, tomará largo tempo en hacerse palpable en todos sus detalles, ya es hora de que comencemos a lanzar sobre la inteligencia y la sensibilidade de los hombres libres las piezas más abrumadoras de esa verdad: la literatura y el arte de quienes tienen ahora el privilegio de hallarse en Estados Unidos, un país que les permite expresarse y luchar.305 304Ver STEPICK, Alex; PORTES, Alejandro. Unwelcome Immigrants: The Labor Market Experiences of 1980 (Mariel) Cuban and Haitian Refugees in South Florida. American Sociological Review, vol. 50 (Aug. 1985), n. 4, p. 493-514. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/2095435. Acesso em: 17 nov. 2015. 305 Editoral, Mariel, n. 1, 1983, p. 2. 94 O primeiro editorial da revista dava o tom do projeto. Pretendia-se disputar o significado do exílio massivo de Mariel, enfocando seu caráter político e cultural, e alterar a imagem que havia sido construída acerca dos marielitos, que saíram de Cuba e chegaram a Miami na condição de escória. Ao mesmo tempo, conformavam uma oposição política à Revolução a partir do desterro, colocando-se no lugar de dissidentes políticos. A revista se propunha a combater os discursos oficiais do regime cubano, muitas vezes de maneira radical, o associando a representações como o inferno e o diabo. Dessa maneira, a publicação possuía um “olhar bifocal”, pois se construía e intervinha no tempo presente, porém tendo em vista perspectivas futuras306. Rickley Leandro Marques entende esse objetivo, em uma perspectiva mais ampla, como o projeto identitário da Geração de Mariel, e afirma que a revista funcionou como um “front de batalha” para alcançá-lo. Suas produções giravam em torno da construção de uma memória e de uma identidade diferentes daquelas propagadas pelo discurso oficial do governo cubano, em um processo de luta pelo próprio reconhecimento social e intelectual dentro e fora da ilha.307 Entendemos, portanto, que a construção de uma identidade a partir da autodenominação de geração de Mariel e da revista deve ser compreendida levando-se em consideração não somente as experiências em comum desses intelectuais na ilha, mas ponderando também os objetivos desse projeto coletivo. Nesse sentido, concordamos com Jesús J. Barquet quando afirma que essa denominação cumpriu uma função fundamentalmente tática, mais do que teórico-científica, servindo como uma forma concreta de combater uma imagem, conformando uma barricada e uma trincheira coletiva que reunia escritores de estilos e ideias próprias.308Entendemos, ainda, que a disputa com os discursos oficiais constituía uma forma de oposição política a partir do exílio, que visava deslegitimar o regime cubano a partir da desconstrução de suas retóricas. Mariel questiona as representações construídas acerca daqueles que se exilaram pela ponte marítima Mariel-Cayo Hueso. Os envolvidos na revista removem o enfoque dado pela cobertura midiática norte-americana e pelos discursos oficiais cubanos aos “criminosos”, “indesejáveis”, ao “lumpen” e à questão da “limpeza social”, e concentram- 306 ROCCA, Pablo. Por qué, para qué uma revista (sobre su naturaliza y su función en el campo cultural latino-americano). In: Hispanoamérica, año 33, n. 99 (Dec. 2004), pp. 3-19, p. 7. 307 MARQUES, Rickley. op. cit. 308 BARQUET, Jesús. La generación del Mariel. Encuentro de la Cultura Cubana. Madrid, n. 8/9, 1998, p. 115. 95 se nos intelectuais e na produção cultural da geração de Mariel, com o intuito de estabelecer o fenômeno do exílio massivo como um marco importante para a nova geração de artistas e escritores cubanos. A questão da criminalidade, quando abordada, é vista como responsabilidade do próprio regime de Fidel Castro, que teria produzido a delinquência com seu sistema, e infiltrado agentes subversivos no fluxo migratório. A Casa Branca havia denunciado, em junho de 1980, que o governo cubano tinha exportado criminosos comuns retirados das prisões e enviados diretamente para os EUA, o que Castro negava. Sobre essas questões, um editorial da revista afirma: El hecho, por ejemplo, de que entre los refugiados Castro hubiese incluído a cientos de criminales y dementes no llevó a esos medios a indagar los motivos de esa criminalidade y esa demencia en un país que insiste em presentarse como um paraíso, sino a contaminar con esa etiqueta de peligrosidad a los demás refugiados. También el hecho de que en la masa de disidentes que huían Castro hubiese infiltrado agentes subversivos, probablemente cientos de ellos que resultaba indeseable para cualquier país. [...] La revista Mariel [...] tendrá en primero lugar la finalidade de servir de vehículo a los escritores y artistas de la generación de Mariel. Si alguno de nosotros es elegido por el ódio de Castro para desaparecer, se sabrá de donde ha partido la orden y cuál há sido la causa, pero a nadie le queda duda de que la revista seguirá apareciendo.309 O projeto editorial coletivo articulava reconstrução de identidades e espaço de denúncia ao regime da ilha. Além de vincular o nome “Mariel” à produção literária e artística da ilha, veiculando produções de intelectuais exilados durante a pontes marítima Mariel-Cayo Hueso, a publicação congregou ao seu redor uma rede de sociabilidade com reconhecidos intelectuais cubanos de outras gerações, como a antropóloga Lydia Cabrera e o cineasta Néstor Almendros. O evento de lançamento do periódico, por sua vez, contou com a presença dos acadêmicos cubanos Carlos Ripoll, de Queens College, e Enrico Mario Santí, de Cornell University. Ao entrevistarem o saxofonista cubano Paquito D’Rivera, exilado na Espanha em 1980, e cujo álbum lançado em 1982 intitula-se Mariel, vinculou-se o músico à geração de Mariel. Essa proposta ultrapassou as páginas da revista e se expressou, por exemplo, na organização do Festival de las Artes de Miami, de 1983, em celebração do aniversário de 3 anos do exílio massivo, com o apoio da Facts About Cuban Exile (FACE). Emigração ou exílio? Ao redor de 1970, as limitações do processo revolucionário se fizeram visíveis. O plano de desenvolvimento econômico acelerado do país apelou à maior capacidade de 309 Editorial, Mariel, n.1, p.2 96 produção que possuía e investiu todos os esforços na produção massiva de açúcar para obter recursos e nivelar o comércio exterior, mobilizando toda a população da ilha para atingir uma safra de 10 milhões de toneladas. Entretanto, a grande safra alcançou somente 8,5 milhões de toneladas, e o esforço deslocou e esgotou a economia nacional. Ao mesmo tempo, até o início da década de 1970, não havia vitórias revolucionárias na América Latina, mas a perda de Che Guevara, em 1967, nem espaço para alianças com países que fossem realmente soberanos e autônomos frente aos Estados Unidos.310 Iniciou-se um período de aproximação à URSS e de reorganização econômica. O retorno ao açúcar como produto central na economia cubana e o redirecionamento do comércio açucareiro de Cuba dos Estados Unidos para a União Soviética, ao qual seguiu- se a reestruturação e o estabelecimento de instituições de planejamento econômico, rendeu crescimento econômico de 4,1% para a Revolução entre 1975 e 1985.311 Entretanto, a aproximação à ortodoxia soviética, inclusive no âmbito cultural e político, e a relação de dependência econômica estabelecida, foram rechaçadas por uma parte dos jovens, intelectuais e economistas. Acossada por uma conjuntura muito desfavorável, a Revolução iniciou mudanças profundas em numerosos aspectos, e seu projeto foi recortado. Nesse momento, o pensamento social foi submetido a mudanças que provocaram a detenção de seu desenvolvimento e um grande empobrecimento e dogmatização. As necessidades do Estado foram priorizadas, em detrimento dos critérios ideológicos ou teóricos. Em 1971, depois de reuniões e discussões entre os revolucionários, encerrou-se a revista Pensamiento Crítico e as atividades do Departamento de Filosofia da Universidade de Havana, e organizou-se o Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura. Havia uma percepção da necessidade de conservar a unidade política em uma situação difícil, perante a possibilidade de divergências entre revolucionários por ideias radicais que formavam parte do acervo da própria revolução.312 A dogmatização do pensamento social e da produção intelectual se agravou e se consolidou durante a década de 1970, e as mudanças positivas no campo cultural, como 310 HEREDIA, Fernando Martínez. Pensamiento social y política de la Revolución. Palabras leídas por su autor, el 3 de julio de 2007, en el Instituto Superior de Arte (La Habana), como parte del Ciclo «La política cultural del período revolucionario: memoria y reflexión», organizado por el Centro Teórico-Cultural Criterios. 311 GOTT, Richard. Cuba: Uma nova História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, p. 275. 312 Ibid. 97 a fundação do Ministério da Cultura, não alteraram a situação. Reinaldo García Ramos, um dos diretores de Mariel, defende que a década de 1972-1982 foi definitiva na evolução do caso cubano, culminando no exílio massivo de Mariel: “Durante esos años se demostró claramente la institucionalización del aparato totalitario, mediante la promulgación de los códigos y leyes antidemocráticos de sobra conocidos, y quedó patentizado el menosprecio absoluto del gobierno por su pueblo, en el caso extremo de los 125.000 exiliados de Mariel”313. A revista explora as Resoluções do Primeiro Congresso de Educação e Cultura de Cuba de 1971, principalmente no que tange ao cerceamento da produção cultural e a homossexualidade; o estabelecimento das Unidades Militares de Ayuda a la Producción (UMAP’s), ainda na década de 1960; as leis de Extravagancia, Peligrosidad, Diversionismo Ideológico, Predelincuencia, e del Normal Desarrollo Sexual de la Juventud y de la Família; o controle estatal sobre a produção intelectual; as prisões políticas; e o espaço reduzido naquele momento para a crítica e as individualidades que não se ajustassem à ordem revolucionária, denunciando a realidade da Revolução durante o quinquenio gris. Segundo Reinaldo Arenas, o autoritarismo seria o grande problema do regime revolucionário cubano: Es doblemente lamentable, patético y hasta criminal que una revolución que contaba con el apoyo de casi todo el Pueblo, y con el beneplácito del mundo en general, haya degenerado en lo que es hoy: una prisión para forzados donde el mismo Pueblo, despavorido, se lanza al mar en cualquier artefacto flotante, perecendo muchas vezes ahogado o ametrallado.314 Em Mariel, portanto, o exílio massivo de 1980 não é explicado por fatores econômicos – como o faz os discursos oficiais -, mas sim por questões políticas. O exílio massivo de Mariel teria se conformado a partir do autoritarismo e do endurecimento do meio cultural e intelectual que marcaram a década de 1970 em Cuba, assim como pela tentativa de homogeneização da juventude e do estabelecimento de regras rígidas de conduta para a formação do “homem novo” e da sociedade socialista. Apesar disso, são frequentes na revista críticas à economia da ilha e às privações sofridas pela população cubana. Logo no primeiro número da revista, defende-se em comunicado assinado pelo conselho de editores que “el gobierno de Fidel Castro mantiene a la población cubana en una situación de hambre, a tal punto que las estadísticas 313 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Los Narradores Perseguidos. Mariel, n. 2, 1983, p. 27. 314 ARENAS, Reinaldo. Necesidad de Libertad. Sevilla: Editorial Point de Lunette, 2012, p. 322. 98 demuestran que la cueta que recibía un esclavo cubano en el siglo XVIII era el triple que la que recibe un obrero cubano actualmente”.315Convidava-se organizações humanitárias, como a ONU e a UNESCO, a conferirem os números das “libretas de racionamento”, mas não se apresentava as referências das estatísticas. A estratégia de conexão do regime revolucionário cubano ao período colonial e escravocrata é recorrente na publicação, bem como nos ensaios de Reinaldo Arenas316, que considerava que a Revolução Cubana havia se tornado um sistema “dogmático- inquisitorial”, sujeitando o povo cubano a um sistema policial de estrutura medieval, tanto em seu aparato repressivo inquisitorial, como na dogmática rigidez moral e na adoração incondicional de um só Senhor: “quien debe avergonzarse es el inquisidor, no el confesso; el amo, no el esclavo”.317 Dessa maneira, questionavam a retórica revolucionária de que a Revolução seria uma continuação das guerras de Independência cubana do século XIX e que o regime socialista significava a verdadeira liberdade de Cuba perante às potências externas. Em contos publicados na revista, críticas às condições de acesso da população a alimentos e bens de consumo se fazem presentes. Em Ana vuelve a Concordia, de Carlos Victoria, o escritor conta a história de uma exilada que retorna à ilha para visitar sua família. Durante sua estadia em Cuba, Ana enfrenta a hostilidade de seus compatriotas – pois é vista como gusana –, e dos funcionários da alfândega, que tentam impedí-la de entrar no país com sabonetes, detergentes, roupas e sapatos, com os quais pretendia presentear seus familiares. No caminho até sua casa de infância, Ana é interceptada por uma recepção intimidatória do governo e parte de seus pertences são furtados no ônibus. Ao chegar na casa de sua mãe, depara-se com uma Cuba pauperizada: ¡Y la casa! El piso de la cocina estaba desbaratado, y la capa de tizne que cubría las ollas no hubiera sido posible quitarla ni con un detergente americano de marca. El techo amenazaba con caerse, y la miseria se dejaba sentir hasta en el último rincón. La mesa coja, la fiambrera con los cristales rotos, el baño tupido, las sábanas remendadas, el juego de sala de mamá a punto de hacerse pedazos, y el balance de mamá...vacío.318 315 Editores, Comunicado, Mariel, n.1, p. 30. 316 Os discursos oficiais cubanos também estabelecem conexão entre a revolução de 1959 e o passado colonial, porém colocando o processo revolucionário do século XX como a finalização das lutas de independência iniciadas no século XIX (1868-1898). 317 ARENAS, Reinaldo. Necesidad de Libertad. Sevilla: Editorial Point de Lunette, 2012, p. 290 318 VICTORIA, Carlos. Ana vuelve a Concordia. Mariel, n. 1, 1983, p. 11. 99 A denúncia da diferença no acesso a bens de consumo na sociedade norte- americana e na cubana perpassa todo o conto. Os familiares de Ana a recepcionam como uma convidada de honra e, ao mesmo tempo, como uma forasteira - Anden, muchachitas, a fregar. El polvo de lavar se acabó, así que cojan ceniza del fogón. -Yo traje jabón y también detergente. Me parece que eso no me lo quitaron. - No, déjalos para tu ropa. Con ceniza y arena nos estamos arreglando todos los fines de mes, y ya mañana primero llegan los mandados a la tienda [...] Así que dejemos de discusiones, y hazme el favor de comerte el postre. Estos casquitos son los mejores que he hecho en no sé que tiempo. Fíjate que les eché la cuota de azúcar del mes.319 Apesar disso, em Mariel, o exílio massivo não é representado como uma emigração, ainda que ambas as dimensões estejam interconectadas, possuam relações ambíguas e não possam ser analisadas separadamente. Os discursos oficiais, assim como os intelectuais aos quais a revista se opõe, enfatizavam os aspectos econômicos e referentes às relações externas com os Estados Unidos que ajudavam a explicá-lo. Em 1984, a cineasta Ruby Rich escreveu uma contundente crítica ao filme Conducta Impropia, de Néstor Almendros, que foi rechaçada por Mariel. Em “Bay of Pix”320, Rich acusava o documentário de retirar os testemunhos dos exilados de contexto. Apontava que, por exemplo, a suspensão das cotas de imigração realizada pela administração Nixon, em 1973, era um dos fatores que havia motivado o exílio massivo. Já em Homosexuality, Homophobia, and Revolution: Notes toward an Understanding of the Cuban Lesbian and Gay Male Experience, publicado pela revista Signs, em 1985, Rich e Lourdes Arguelles, que compunha o comitê de redação da revista Areíto321, defendiam o papel das relações capitalistas no desenvolvimento de fluxos migratórios de países subdesenvolvidos para aqueles com economias mais prósperas. The more structuralist explanations for international population movements, which stress the role of capital and of capitalist states in organizing migratory flows from less developed to more developed economies, have yet to be invoked in the interpretation of gay migration from Cuba. [...] Cuban "refugee" testimony, for example, becomes its main source for evaluation of Cuban gay life, despite knowledge of the pressures on emigres to testify to political persecution in their country of origin in order to attain the legal and economic advantages of refugee status in their new country. [...] The visits [de exilados cubanos à ilha em 1979] also provided a context in which Cuban lesbians and gay men could hear of the more open and affluent gay life-styles available in the United States as a benefit of consumer capitalism. Other common reasons 319 Ibid. 320 RICH, Ruby B. Bay of Pix. American Film 9.9 (1984), p. 57–59. 321 Ver capítulo 1. 100 for wanting to emigrate included the lack of career mobility in a still underdeveloped economy [...]322 As autoras explicavam o exílio, fundamentalmente, a partir de questões econômicas e das relações entre Cuba e os Estados Unidos. Entendiam, ainda, que as visitas de exilados cubanos à ilha em 1979 teriam evidenciado a diferença no acesso a bens de consumo entre ambas as populações, estimulando o fluxo migratório. Dessa maneira, tratavam o fenômeno migratório predominantemente como econômico, em detrimento de dissidências e motivações políticas. As disputas pelo significado político ou econômico do exílio massivo logo começariam a abordar outros temas, como a homossexualidade. Juan Abreu, diretor de Mariel, compreendia que o trabalho de Rich constituía uma defesa dos interesses e dos argumentos da Revolução: el trabajo de la señora Rich tiene como propósito no sólo ejercer la libertad de expresión a la que tiene naturalmente absoluto derecho (aquí, no en la tierra de sus pasiones a 90 millas) sino además servir a los intereses de la dictadura de La Habana. Porque, curiosamente, los argumentos esgrimidos por Ruby Rich coinciden exactamente con los de los voceros del partido comunista cubano. [...] Que hace cuatro años más de 120 000 seres desesperados se lanzaran a un éxodo suicida (que le costó la vida a muchos) y que gran cantidad de ellos se disfrazara o se hiciera pasar por homosexuales y lesbianas para poder alcanzar la libertad ejemplifica claramente la opinión y el comportamento de las autoridades cubanas respecto a dichas minorias em la Cuba de hoy.323 Muitos relatos indicam que, como a homossexualidade era considerada indesejada pelo governo cubano, várias pessoas que queriam deixar a ilha assumiram sua orientação sexual perante os agentes de controle de emigração ou, até mesmo, fizeram-se passar por homossexuais para conseguir a autorização de saída. Segundo o escritor Carlos Victoria: Lembro as tragicomédias de mulherengos passando-se por homossexuais, de mães de família simulando ser lésbicas ou prostitutas, de pessoas honradas que apresentavam à polícia papéis falsos onde constavam atos insólitos de delinquência, histórias abjetas, ruindades. Isto também é Cuba. A violência misturada com a farsa.324 Na obra Al norte del infierno, o escritor Miguel Correa ficcionalizou esse momento do exílio massivo na ilha: Sí, sí, teniente, anótelo como se lo estoy diciendo. En nuestra familia todos somos homosexuales. ¡Lo homosexual que todos somos! Yo misma soy una 322 ARGUELLES, Lourdes; RICH; Ruby B. Homosexuality, Homophobia, and Revolution: Notes toward an Understanding of the Cuban Lesbian and Gay Male Experience, Part I. Signs, Vol. 9, No. 4, The Lesbian Issue (Summer, 1984), pp. 683-699, p. 684. 323 ABREU, Juan. La pasión de Ruby Rich. Mariel, 1984, p. 34. 324 VICTORIA, Carlos. Fragmentos del Mariel. Encuentro de la cultura cubana. Madrid, No. 8/9, primavera/verano de 1998, p. 133-135. 101 tortillera empedernida. Pero de las cosas que yo soy, teniente, tortillera es la más leve. He ejercido la prostitución ya por dos décadas. Y soy proxeneta. [...] He estado presa ya en varias ocasiones, y siempre por el mismo delito: me masturbo por las noches en la Plaza de la Catedral frente a un retrato de Vilma Espín. [...] Y mi esposo es un caso lastimoso. Estamos casados por cubrir nuestra verdadera identidad, pero en el fondo lo que somos es eso, basura, basura homosexual. Lo mejor que Ud. hace es deshacerse de nosotros.325 O fluxo de homossexuais durante o exílio massivo de Mariel foi debatido na revista e gerou polêmicas entre a publicação e autoras como Lourdes Arguelles e Ruby Rich. A partir do fenômeno migratório de 1980, as práticas homofóbicas realizadas em Cuba foram discutidas e o regime cubano foi duramente criticado por violação de direitos humanos. A homossexualidade foi amplamente mobilizada em Mariel a fim de se discutir os acontecimentos de 1980 e como forma de oposição política à Revolução. Homossexualidade e exílio massivo de Mariel De acordo com Susana Peña326, a homossexualidade estabeleceu desafios e paradoxos às políticas imigratórias estadunidenses, que eram ambíguas e contraditórias. Desde o início da Guerra Fria e o estabelecimento da Lei de Ajuste Cubano, em 1966, os Estados Unidos haviam oferecido aos imigrantes cubanos uma recepção melhor que aos de outras nações latino-americanas, e explorava o desejo de deixar a ilha como uma prova tangível do fracasso do sistema comunista. Essa política enviesada por ideias anticomunistas começara a ser alterada pela administração Carter com o Refugee Act de 1980, que alterava o entendimento de “refugiado político”.327 Por outro lado, os Estados Unidos possuíam uma longa banição seletiva contra imigrantes homossexuais. Essas duas políticas colidiram sobre os homossexuais cubanos, de modo que não era claro se os cubanos que entravam no país durante o exílio massivo de Mariel teriam o mesmo tratamento preferencial que os exilados anteriores. De fato, poucos marielitos foram definidos como refugiados políticos ou asilados. Em vez disso, foram emitidas “condicionais”, e uma nova categoria foi criada para eles: “Cuban-Haitian entrant (status pending) ”. Os marielitos homossexuais enfrentaram um obstáculo adicional, porque, precisamente quando estavam entrando nos Estados Unidos, 325 CORREA, Miguel. Al norte del infierno. Mariel, n. 2, 1983, p. 10. 326 PEÑA, Susana. "Obvious Gays" and the State Gaze: Cuban Gay Visibility and U.S. Immigration Policy during the 1980 Mariel Boatlift. Journal of the History of Sexuality, Vol. 16, No. 3, Latin American Sexualities (Sep., 2007), p. 482-514. University of Texas Press. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/30114194. Acesso em: 2 set. 2018. 327 Ver capítulo 1. 102 o Serviço de Imigração e Naturalização (INS) estava redefinindo sua política de exclusão aos homossexuais.328 Ainda segundo Peña, homossexuais haviam sido formalmente excluídos de entrarem nos Estados Unidos desde o início da década de 1950. A partir de 1952, pessoas identificadas como homossexuais foram classificadas como exclusão médica classe A, porque considerava-se que possuíam uma “personalidade psicopática”. Entre 1965 e 1979, homossexuais foram reclassificados como “desviados sexuais”, e ainda eram sujeitos à exclusão da classe A. Em 1979, seis anos após a Associação Americana de Psicologia decidir retirar a homossexualidade como doença de seu Manual de Diagnóstico e Estatística de Desordens Mentais, o Serviço de Saúde Pública parou de atribuir exclusões médicas classe A automaticamente a homossexuais, removendo do INS um mecanismo burocrático que facilitasse a exclusão automática desses sujeitos nos trâmites de imigração. O INS ainda tinha que reagir formalmente a essa nova diretriz quando, de abril a setembro de 1980, uma população considerável de homossexuais (mais de mil, segundo Julio Capó Jr.; 1.500, segundo Pedraza-Bailey) partiu de Cuba em direção aos Estados Unidos.329 Somente em setembro de 1980, quase ao final da ponte marítima, o INS estabeleceu uma nova política em relação à exclusão de homossexuais, mais provavelmente a fim de esclarecer sua política, devido à intensa cobertura midiática. De acordo com a nova política, os estrangeiros não seriam questionados sobre suas “preferências sexuais” durante as inspeções primárias. Entretanto, se um estrangeiro fizesse uma admissão não-solicitada, inequívoca, oral ou escrita, de sua homossexualidade, ou se um terceiro que se apresentasse para inspeção voluntariamente declarasse, sem questionamento anterior, que um estrangeiro que chegou aos Estados Unidos ao mesmo tempo e estava sendo processado para admissão era homossexual, então seguiria uma segunda inspeção privada e profissional de determinado sujeito. Durante essa segunda inspeção, o estrangeiro seria questionado somente se ele ou ela era homossexual. Se a resposta fosse não, a pessoa não seria detida para “exames posteriores” relativos a essa questão. Se a resposta fosse sim, seria requerido que assinasse uma declaração e o estrangeiro seria direcionado a um juiz da imigração para um procedimento de exclusão. Essa nova política foi recebida como uma vitória parcial pelos ativistas da 328 Ibid. 329 Ibid. 103 comunidade gay norte-americana, que vinham lutando contra as políticas de exclusão a gays e lésbicas do Serviço de Imigração e Naturalização. Um comunicado de imprensa da National Gay Task Force chamou essa alteração na política do INS de uma “vitória imigratória para os gays”, pois com a nova regra “estrangeiros gays não mais seriam sujeitos a sondagens e interrogatórios acerca de suas vidas privadas e sexuais pelas autoridades da imigração”.330 A estratégia de evitar a identificação como homossexual nos Estados Unidos pode não ter parecido óbvia para aqueles cuja identificação como gays e lésbicas acabara de facilitar suas saídas de Cuba. A nova política continuou a excluir homossexuais que fizessem declarações não-solicitadas e inequívocas a inspetores do INS. Os novos procedimentos, entretanto, tornavam mais difícil essa identificação e abriam espaço para a negação sem questionamento da orientação sexual. De qualquer maneira, essa nova política indicava que, apesar da exclusão dos homossexuais ser desejada, naquele contexto se via confrontada com imperativos como o caráter anticomunista que permeava as políticas de imigração em relação à Cuba, e o fato de que os sujeitos excluídos pelo governo norte-americano não poderiam ser devolvidos para a ilha. Canais de informação do movimento gay instruíram os recém-chegados acerca das disposições de imigração vigentes nos Estados Unidos, porém muitos dos que admitiram ser homossexuais permaneceram nos campos de reassentamento, pois tiveram maior dificuldade em conseguir sponsors, de modo que foram auxiliados pelas organizações de direitos gay estadunidenses.331 Os escritores envolvidos em Mariel, muitos deles jovens ou homossexuais, foram acossados na ilha pelas leis de Extravagancia e Diversionismo Ideológico, sendo acusados de “perturbação da ordem pública”, às vezes por utilizarem, segundo seus relatos, calças justas, manterem os cabelos compridos, ou pelo desejo de “ter aventuras eróticas”332, como foi o caso de Arenas: Diante da parede do meu quarto tinham colocado um cartaz dizendo: “Que os homossexuais vão embora. Que a escória vá embora” [...] A melhor maneira de se conseguir permissão de saída era arranjar alguma prova documental da condição de homossexual. Eu não possuía nada que provasse meu comportamento, mas tinha a carteira de identidade, onde constava que fora preso por perturbação da ordem pública; achei que isso representava uma 330 Ibid. 331 Ibid. Sobre a homossexualidade nos campos de reassentamento, ver: PEÑA, Susana. From the Mariel Boatlift to Gay Cuban Miami. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2013. 332 ARENAS, Reinaldo. Antes que anoiteça. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009, p. 118 104 excelente prova e me dirigi à polícia. Na delegacia perguntaram se eu era homossexual e respondi que sim; perguntaram então se era ativo ou passivo, e tomei todo o cuidado em dizer que era passivo. [...] Mandaram que eu caminhasse na frente delas para provar se era bicha ou não.333 René Cifuentes, um dos editores da revista, estudava na Escuela Nacional de Instructores de Arte em 1971, quando se celebrou em Havana o Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura. Segundo seu relato, naquela ocasião o escritor compreendeu que “aquella ‘igualdad’ que tan bien aprendida tenía de los libros de marxismo que debía estudiar en la escuela no existía para un homosexual, que una actitud de ‘rechazo’ ante nuestra condición ‘patológica’ se avecinaba y que por supuesto mi expulsión del centro de estudios era inminente”334. Ao sentir que lhe era negado o “paraíso socialista”, o escritor tentou sair ilegalmente de Cuba, o que, segundo Mariel, acarretou sua prisão durante três anos. Em 1980, abandonou a ilha pelo porto de Mariel: Era mi última expulsión por no querer renunciar a algo que no me hace más grande ni más chico, pero que soy yo. Era el fin de un ciclo de rechazo que había comenzado a los diecisiete años. Cualquier dictadura es mala, y todas rechazan a los homosexuales: Lorca estaría a estas horas caminando con un triángulo rosado en el mundo que estos senores fabrican, pero la muerte lo salvó. En la burocrática "dictadura del proletariado" de Fidel Castro se ha oficializado ese "rechazo".335 A revista entendia a homofobia como parte estrutural e inseparável do regime revolucionário cubano. Interpretava que, apesar da homofobia como fenômeno cultural preceder a revolução, remetendo à herança espanhola e católica, sua institucionalização seria própria da Revolução. Dessa maneira, realizava-se uma distinção entre a homofobia cubana e aquela presente em outros países. As práticas homofóbicas cometidas pela Revolução são compreendidas na publicação a partir de um paralelo com a situação dos judeus na Alemanha nazista, no que tange à criação da figura de um inimigo que ameaça a pátria e os projetos de nação. A revista defendia que o caráter repressivo e homogeneizador da sociedade revolucionária não tolerava a dissensão na vida social, e que a repressão aos homossexuais ajudava o regime a manter sua coesão identitária: Mientras que en Estados Unidos puede decirse que el rechazo a los homosexuales tiene sus raíces en la homofobia de sectores determinados, en Cuba la persecución de homosexuales no sólo tiene sus raíces en la homofobia sino en consideraciones políticas generales. Ambos factores, lo irracional y lo político, están íntimamente vinculados y no es posible decir que uno pese más que el outro. Sería como pretender averiguar si el antisemitismo en la Alemania de Hitler pesó más en los nazis como fenómeno de odio irracional que como conveniente politica para apropiarse de las finanzas judias y crear 333 Ibid, p. 333-334. 334 CIFUENTES, René. Parametros del paraiso. Mariel – Revista de Literatura y Arte, n.5, p. 12. 335 Ibid., p. 12. 105 un chivo expiatorio colectivo, que permitiese afianzar la ideologia y el régimen nacional-socialista. [...] ¿Cuáles "consideraciones politicas generales" convierten a un rasgo cultural endémico en politica de Estado?336 A publicação criticava a militarização da sociedade cubana a partir de 1959, o que teria estabelecido um desprezo institucional, diferente do desprezo social, em relação ao “feminino” - associado ao homem homossexual. Dessa forma, o machismo337 teria se fortalecido na ilha e impulsionado parcela da comunidade homossexual para o exílio. Até então, aos olhos do regime revolucionário, a homossexualidade representava uma cultura sexual que se expressava em indivíduos hedonistas e indulgentes, associados à burguesia, ao capitalismo e ao “lumpen”, que não poderia contribuir apropriadamente para a Revolução, visto que não representava o “homem novo” altruísta, diligente e viril. Além disso, a “moralidade revolucionária” se apoiava em expressões da sexualidade e de gênero heteronormativas, como a masculinidade masculina.338 Representações de gênero não-normativas ameaçavam os ideais da revolução de 1959. Fidel Castro, em discurso de maio de 1980, reiterou o compromisso do governo em emitir salvo-condutos e passaportes a todo o “lumpen” que solicitasse, e afirmou que aqueles que mais produziam irritação eram os “flojitos, como dijo alguien, algún descarado que estaba tapadito. Ustedes lo saben, los Comités saben eso bien, mejor que nadie, saben que alguna gente de esa se coló también”339. De acordo com Julio Capó Jr., a condenação pública dos homossexuais em Cuba como inimigos da Revolução e potenciais riscos ao Estado representa um paralelo interessante com os Estados Unidos antes da revolta de Stonewall340. O expurgo de 336 Consejo de Dirección, Hablemos Claro, Mariel, n. 5, 1984, p. 9. 337 Segundo Giselle Cristina dos Anjos Santos, a Revolução de 1959 possibilitou ganhos às mulheres. Porém, as concepções de gênero da Federación de Mujeres Cubanas (FMC) e do Estado socialista “estiveram pautadas em figuras ambíguas, postuladas a partir de um discurso igualitarista, que visava estar de acordo com o projeto socialista, mas que simultaneamente interagia com discursos baseados em representações de gênero hierárquicas que compreendiam a superioridade masculina.” Além disso, o esforço do governo pela igualdade entre homens e mulheres esteve motivado, em grande medida, por interesses econômicos e políticos. Cf. SANTOS, Giselle Cristina dos Santos. A revolução cubana e as representações sociais de gênero. Revista Eletrônica da ANPHLAC, n.14, p. 265-286, jan./jun.2013. 338 CAPÓ JR., Julio. Queering Mariel: Mediating Cold War Foreign Policy and U.S. Citizenship among Cuba’s Homosexual Exile Community, 1978–1994. Journal of American Ethnic History, Summer 2010, Volume 29, Number 4, p. 84. 339 CASTRO, Fidel. Discurso pronunciado en el Acto Conmemorativo del Primero de Mayo, efectuado en la Plaza de la Revolucion "Jose Marti", el 1ro de Mayo de 1980. Disponível em: http://www.cuba.cu/gobierno/discursos/1980/esp/f010580e.html. Acesso em: 20 nov. 2018. 340 A revolta de Stonewall, ocorrida em 1969, em Nova York, consistiu em uma série de motins e manifestações violentas e espontâneas da comunidade gay perante uma batida policial no bar Stonewall Inn., ponto de encontro de homossexuais, travestis, drag queens e transexuais. O confronto entre a polícia, os frequentadores do bar e os moradores homossexuais de Greenwich Village irromperam em vários protestos nas noites posteriores, e foram organizados grupos de ativistas que reivindicavam o 106 homossexuais do governo federal em 1950, por exemplo, devido a receios de que seriam frágeis moralmente à influência soviética e à chantagem, constituindo um risco ao Estado, demonstra outro contexto no qual um Estado tentou regular a sexualidade para avançar em sua agenda política e ideológica. Da mesma forma, os aspectos antirrevolucionários que, em Cuba, eram representados pelos homossexuais podem ser considerados subprodutos das dinâmicas entre gênero e políticas sexuais, e suas relações com o Estado.341 Algumas das principais polêmicas intelectuais veiculadas na revista se referem ao significado da ponte marítima de 1980, e a questão da homossexualidade na ilha e das perseguições de caráter homofóbico foram mobilizadas pelos intelectuais de Mariel e por aqueles que debateram com a revista para discutir o exílio massivo. Essas polêmicas ocorreram, principalmente, entre Mariel, Ruby Rich – cineasta norte-americana vinculada ao movimento feminista –, e Lourdes Arguelles, membro do comitê de redação da revista Areíto.342 Em 1983, a publicação gay de Nova Iorque, New York Native, organizou um número sobre os “Gay Latin” e seus problemas específicos. Reinaldo Arenas e René Cifuentes, editores de Mariel, publicaram textos denunciando as práticas homofóbicas do regime revolucionário cubano. Os textos foram precedidos por The Easy Convenience of Cuban Homophobia (The New York Native, número 74, outubro 10-23, 1983, p. 34), de Ruby Rich e Lourdes Arguelles. O artigo de Rich e Arguelles gerou uma onda de cartas de protesto dirigidas à redação do Native, provenientes de intelectuais cubanos e de ativistas do movimento gay norte-americano, entre eles o marielista Reinaldo García Ramos, Ana María Simo, anteriormente envolvida no editorial El Puente, Allen Young e Scott Tucker. Segundo as autoras, a geração de Mariel, “composta por intelectuais de direita”, estava “mobilizando a questão da homofobia cubana como munição na Guerra Fria”. As autoras entendiam que encontrava-se em curso uma “manipulação sem precedentes da questão gay por aqueles engajados na guerra financiada pelos EUA contra a Revolução estabelecimento de locais que a comunidade pudesse frequentar sem medo de batidas policiais. Os motins funcionaram como catalisadores para o surgimento de novas gerações e grupos de ativismo. Cf. https://www.britannica.com/event/Stonewall-riots. Acesso em: 20 nov. 2018. 341 CAPÓ JR., Julio. Queering Mariel: Mediating Cold War Foreign Policy and U.S. Citizenship among Cuba’s Homosexual Exile Community, 1978–1994. Journal of American Ethnic History, Summer 2010, Volume 29, Number 4. 342 Ver capítulo 1. 107 Cubana”. Afirmavam que uma nova fórmula havia sido criada para atacar o regime revolucionário cubano, a qual se baseava em vincular, inextricavelmente, o socialismo à homofobia: This strategy seemed to be designed especially for U.S. gay and liberal consumption. [...] Given the virulent homophobia of the Cuban enclaves and the right wing in the United States, it is clear that the construction of an anti- Castro campaign predicated on Cuba's repression of homosexual rights is a remarkable achievement.343 Rich e Arguelles partiam da compreensão que estavam em jogo interesses que transcendiam a questão homossexual, e que esta estava sendo utilizada como forma de atacar o regime socialista inclusive por setores homofóbicos da sociedade norte- americana, com os quais os marielistas mantinham contatos profissionais. Mariel rechaçou a terminologia new cuban right, utilizada pelas autoras para se referir a eles, e defendeu que tinham o direito de conformar uma oposição política ao regime cubano e que a questão das práticas homofóbicas em Cuba era pertinente ao tema dos direitos humanos: Si, nos estamos movilizando: no como marionetas ingenuas en una guerra fria de superpotencias, sino (muy a sabiendas) contra una dictadura que ha permanecido en el poder durante 25 años, contra un sistema represivo que conocemos mejor que cualquier visitante que vaya a la isla protegido por las autoridades y con una ideologia predispuesta a creer lo que le digan. Creemos además que el tema de la persecución de los homosexuales es un tema lícito de derechos humanos en el caso de Cuba, de la misma manera que en Sudáfrica lo es el de los negros, en Irán el de los bahai o en Nicaragua el de los miskitos. Tenemos derecho a esgrimirlo y a elucidarlo, y no serán personajes como Rich/Arguelles quienes nos lo impidan. 344 A revista deslegitimava o lugar de fala de Rich e Arguelles, consideradas meras turistas do sistema socialista, e legitimava seus posicionamentos e críticas a partir das vivências dos marielistas na ilha. Nesse sentido, entendemos que o apoio financeiro recebido pela revista pela Cuban American National Foundation (CANF)345 é relevante para compreendermos a 343 ARGUELLES, Lourdes; RICH; Ruby B. Homosexuality, Homophobia, and Revolution: Notes toward an Understanding of the Cuban Lesbian and Gay Male Experience, Part II. Signs, Vol. 11, No. 1, (Autumn, 1985), p. 132-134. 344 Consejo de Dirección, Hablemos Claro, Mariel, n. 5, 1984, p. 9. 345 Segundo Salim Lamrani, os militantes da FNCA "tiveram vínculos muito estreitos com a ditadura de Batista, a maioria tinha uma situação econômica privilegiada antes da Revolução e são brancos. Quase todos participaram de ataques terroristas contra Cuba seja financiando-os, seja participando diretamente. Alguns chegaram a ser agentes da CIA", e "os militantes e simpatizantes da Fundação, diferentemente dos simples membros, são quase todos brancos [...] e provêm da mais alta burguesia cubano-americana. [...] Vivem muito longe das esperanças da maioria dos cubano-americanos cuja principal preocupação é o bem- estar econômico de suas respectivas famílias que ficaram na ilha”. El Lobby Cubano en Estados Unidos de 108 realpolitik da publicação e da própria fundação. A fim de valer-se do clima conservador que imperava nos Estados Unidos no início daquela década, em 1981, um grupo de empresários de classe alta de Miami fundou a CANF, uma organização sem fins lucrativos, cujo principal objetivo era ajudar a administração Reagan a formular uma política externa mais agressiva em relação à Cuba. A organização, que ajudou a financiar a revista Mariel com uma quantia modesta, concentrava-se, principalmente, em influenciar a opinião pública, os governos e os congressistas norte-americanos através de seu comitê de ação política, o Free Cuba PAC. Modelado de acordo com os grupos de lobbying judeus que influenciaram a política norte-americana em relação a Israel, a Free Cuba PAC recompensava senadores e congressistas que apoiavam políticas mais duras em relação à ilha com doações significativas para suas campanhas de reeleição.346 Mariel representava uma nova perspectiva de costumes frente à parcela conservadora e católica da comunidade cubana de Miami. Segundo Susana Peña, o fluxo de marielitos forjou uma nova visibilidade gay em Miami, fortemente concentrada em Miami Beach e partes de Southwest Miami, e transformou a paisagem de sexualidade e de gênero da região.347 Além disso, a publicação tecia críticas ao american way of life, principalmente nas obras literárias veiculadas em suas páginas.348 Entretanto, encontrava- se de acordo quanto à política externa da administração Reagan em relação à Cuba, a qual mantinha o status quo da mesma classe média que criticava. A publicação rechaçava a administração Carter, que considerava pouco combativa frente ao governo de Fidel Castro. De acordo com Néstor Suárez Feliú, os objetivos da FNCA no início da década de 1980 eram: 1. Obter para o exílio, como representante do povo cubano, a voz, o respeito e a influência necessários ante a opinião pública deste país, o Congresso e a Casa Branca, que permita impedir que em Washington se tomem decisões nocivas aos verdadeiros interesses do povo cubano, como foi a traição da Bahia dos Porcos ou o levantamento parcial do embargo durante a administração Carter; 2. Propor o isolamento internacional, político e econômico do regime castrista, impedindo que este obtenha os recursos exteriores necessários para continuar alimentando seu aparato repressivo e consolidar assim seu 1959 Hasta Nuestros Días, s/d. Disponivel em www.rebelion.org/libros/lobby_cubano.pdf. Acesso em: fevereiro, 2006. Citado e traduzido por: MORRONE, Priscila. A Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA) na política externa dos Estados Unidos para Cuba. Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais UNESP/UNICAMP/PUC-SP. São Paulo, 2008, p. 67. 346 Cf. GARCÍA, Maria Cristina. Op. cit., locais 2020-2023. (Edição do Kindle). 347 PEÑA, Susana. Visibility and Silence: Mariel and Cuban American Gay Male Experience and Representation. In: CANTII, Lionel; LUIBHEID, Eithne (ed.) Queer Migrations: Sexuality, U.S. Citizenship, and Border Crossings, p.125-145. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2005. 348 Ver capítulo 1. 109 controle sobre o povo e a economia cubana; 3. Auspiciar o desenvolvimento da oposição interna mediante a propagação mundial de suas denúncias sobre as violações de direitos humanos e os crimes que diariamente se comete no regime castrista e incrementar os vínculos entre os opositores do regime, dentro e fora da ilha, tornando possível o desenvolvimento de uma estratégia de luta cujo objetivo fundamental seria a erradicação total do sistema castro- comunista.349 Esses intuitos estavam em consonância com os propósitos da publicação, que dialogava e utilizava do financiamento da comunidade anterior de exilados de Miami ao mesmo tempo que a criticava em suas obras literárias. De modo similar, o apoio à publicação estava de acordo com os propósitos da Fundação de desenvolver a oposição interna e dar visibilidade às denúncias sobre as violações de direitos humanos praticadas pelo regime revolucionário cubano a fim de influenciar a opinião pública. Logo, o anticomunismo e o anticastrismo foram os fatores decisivos na conformação de uma oposição pragmática e heterogênea no exílio, com o apoio da administração Reagan. O apoio popular à Revolução Durante o exílio massivo de Mariel, as ações promovidas pelas organizações de massa do regime cubano e pela imprensa estatal, como a Marcha do Povo Combatente e os Atos de Repúdio, exerceram a importante função de construir a autoimagem de uma sociedade coesa. Os eventos tiveram grande adesão popular e visavam demonstrar a força do regime e do socialismo perante a crise interna e a parcela da população insatisfeita com os rumos do país. Os discursos oficiais diziam que se tratava de uma limpeza social que eliminaria as partes moles e nocivas da sociedade, de modo a fortalecer a Revolução.350 Em discurso proferido em junho daquele ano, Fidel Castro afirmou que a partida de um flojo para os Estados Unidos era positiva, visto que esse seria incapaz de combater pelo Serviço Militar do país e cumprir uma missão internacionalista: Si tenemos a un apátrida, a un flojo que está ocupando un puesto de trabajo y se quiere ir para el "paraíso" yanki, que le vaya bien, que le vaya bien, porque entonces nosotros ponemos a un desmovilizado ahí. ¿Un apátrida de estos, que si invaden a este país va a ser quinta columna? Bueno, no va a combatir, ni sabe tirar una piedra. Preferimos a un desmovilizado del Servicio Militar, a un combatiente, a un soldado, a un cubano capaz de cumplir una misión internacionalista, capaz de defender su patria hasta la última gota de sangre, 349 FELIÚ, Néstor Suárez. El rescate de una Nación. Washington, D.C.:Fondo de Estudios Cubanoamericanos de la Fundación Nacional Cubano Americana, 2007. Citado e traduzido por: MORRONE, op. cit., p. 71. 350 Cf. MARQUES, Rickley Leandro. op. cit. 110 que sabe combatir, sabe trabajar, que tiene otra mentalidad. Es preferible tener ese hombre en ese puesto.351 Em sintonia com as associações de massa do governo, Castro defendia que a ponte marítima fortalecia Cuba e o socialismo, já que aqueles que optavam pela partida não seriam úteis ao regime. No mesmo discurso, exaltava os médicos revolucionários e o grande número de profissionais dessa categoria em Cuba: Trabajamos con revolucionarios; nos interesan médicos revolucionarios, es lo que nos interessa. Ese es el médico que prefiere el pueblo y que quiere el pueblo. Y afortunadamente tenemos muchos médicos revolucionarios y tenemos miles de médicos internacionalistas. La situación de ahora es mejor que nunca en ese terreno.352 Os 125.00 que deixavam a ilha não representavam uma perda para a saúde cubana, defendia Castro, de maneira a afirmar a segurança do povo e a força do regime. Demonstrar sua força e que ainda tinha amplo apoio popular na ilha foi uma grande preocupação do governo cubano, como demonstraram os atos de repúdio incentivados pelos Comités de Defensa de la Revolución (CDR’s) e os discursos de Fidel Castro de 1980. O forte rechaço àqueles que optavam por emigrar utilizou-se do imaginário revolucionário do inimigo como objeto de rejeição que ameaça o objeto ideal, no caso, a pátria, a Revolução, a sociedade socialista e o “homem novo”: En estos días se ha estado librando una batalla de masas como jamás se había estado librando en la historia de la Revolución, tanto por su volumen como por su profundidad. [...] Y esta imagen que vemos aquí es la que soñaban destruir: la imagen de lo que es el pueblo, ¡el verdadero pueblo revolucionario, el pueblo proletario, el pueblo trabajador, el pueblo campesino, el pueblo combatiente, el pueblo estudiante! Creyeron a lo mejor que la Revolución se había debilitado y vean ustedes qué "débil" revolución han descubierto, vean ustedes qué clase de revolución se han encontrado. Por eso hacía falta librar esta batalla. [...] ¡Ese es nuestro pueblo! Este pueblo que está aquí, este pueblo de trabajadores, de soldados; el pueblo internacionalista, el pueblo de los gloriosos combatientes de Angola y de Etiopía [... ¡Ese, ese es este pueblo, no los lumpens que quieren presentar como imagen del mismo, no la escoria que se alojó en la embajada de Perú! Eso fue lo que más ofendió al pueblo. [...] Aquellos polvos, ¡y otros polvos!, trajeron estos Iodos, y aquellos vientecitos trajeron estas tempestades. [...] Ese día se planteó cuál ha sido, es y será la política de la Revolución, una idea esencial nuestra, y es que la obra de una revolución y la construcción del socialismo es tarea de hombres y mujeres absolutamente libres y absolutamente voluntarios. Quien no tenga genes revolucionarios, quien no tenga sangre revolucionaria, quien no tenga una mente que se adapte a la idea de una revolución, quien no tenga un corazón que se adapte al esfuerzo y al heroísmo de una revolución, no lo necesitamos en nuestro país y son en definitiva una parte insignificante del pueblo; porque lo que quieren ocultar los imperialistas, lo que les duele reconocer son algunas verdades; por ejemplo, 351 CASTRO, Fidel. Discurso pronunciado por Fidel Castro Ruz, Presidente de la República de Cuba, en la inauguración del Complejo de la Salud "Ernesto Che Guevara", en la provincia de Las Tunas, el 14 de junio de 1980, "Año del Segundo Congreso" 352 Ibid. 111 que no hay revolución que tenga la fuerza de masas militantes que tiene la Revolución Cubana. Es decir, nuestra Revolución... no es bueno hacer comparaciones con alguien, no es agradable nunca, pero ciertamente la fuerza de masas, la fuerza moral, la fuerza política, la fuerza ideológica que tiene la Revolución es tremenda, y cuando se le pone a prueba vean los resultados, la marcha del 19 de abril, vean esta concentración de hoy; pero no solo por el número, sino fundamentalmente la calidad y el espíritu del pueblo. 353 Defendia-se, dessa forma, a própria identidade da Revolução, representada pelos trabalhadores assíduos, pelos voluntários nas campanhas de libertação nacional na África, pelos militantes das organizações de massa, enfim, pelo “homem novo” comprometido com a perpetuação da sociedade socialista e com os ideais internacionalistas. Aqueles que invadiram a Embaixada do Peru e optavam pelo exílio eram excluídos da identidade nacional, e a saída da ilha suprimida de qualquer significado político. A ideia da dissidência e da insatisfação social, dessa maneira, é substituída pela presença do “lumpenproletariado”, da “delinquência” e da “escória”, dispensáveis a uma sociedade revolucionária funcional e saudável. A publicação que pesquisamos, por sua vez, interpretava o exílio massivo como expressão clara de enfraquecimento e perda de apoio popular do regime. Defendia que a Revolução só não havia enfrentado o colapso e uma guerra civil após a invasão da embaixada peruana devido à conivência do governo Carter, que optou por aceitar o fluxo migratório. O exílio massivo era lido como uma prova do fracasso do governo cubano, ainda que a revista especulasse que o evento foi manejado pela Revolução visando negociações com os Estados Unidos. A invasão da embaixada peruana em Havana é interpretada como um movimento de resistência da população contra a Revolução. Reinaldo García Ramos, diretor de Mariel, descreve o acontecimento como um movimento de massas que podia ameaçar a ordem interna do regime: En suma, las calles de Miramar fueran escenario de un verdadeiro “movimento de masas”, pero muy distinto al que tanto pregonaba la propaganda oficial. A diferencia de aquel, este sí tenía un carácter monolítico y espontâneo, y un propósito comum: abandonar el país a toda costa, como fuera y cuanto antes mejor. [...] El acto mágico de saltar aquella verja igualaba de repente al representante del poder y a los desclasados que habían renunciado a que esse poder los siguiera oprimiendo. [...] Como quiera que haya sido, diez mil personas hacinadas em uma embajada eran ya um acontecimento monumental, que en cualquier momento podia dejar de ser controlable en términos de orden 353 CASTRO, Fidel. Discurso pronunciado en el Acto Conmemorativo del Primero de Mayo, efectuado en la Plaza de la Revolucion "Jose Marti", el 1ro de Mayo de 1980. Disponível em: http://www.cuba.cu/gobierno/discursos/1980/esp/f010580e.html. Acesso em: 20 nov. 2018. 112 interno, o que de hecho estaba a punto de convertirse en algo muy peligroso para ese orden, pero además constituía una carta muy contundente de negociación.354 A preocupação com a memória da invasão da embaixada também é notável na coleção de recortes de jornais sobre o evento que compõe o arquivo da revista. A construção do exílio massivo de Mariel como uma ruptura singular dentro do regime foi realizada, também, por outros dissidentes do regime, como o crítico de arte Iván de la Nuez: “En 1980 la revolución fue menos revolución que nunca y el exilio estuvo menos lejos que nunca. En Mariel se comenzó a quebrar, verdaderamente, el muro que cada cubano ha construído, soportado y transgredido en los últimos cuarenta años”.355 A revista centralizou as memórias da partida da ilha ao redor da violência policial e dos atos de repúdio conduzidos e incentivados pelos CDR’s. Enrique Guillermo Morató, no conto Tovarich, escreveu a respeito dos atos de repúdio: En la calle 23 hay una casa sitiada, como en los poemas homéricos, en cuya puerta se ha colocado un nauseabundo letrero: "AQUI VIVE UN TRAIDOR y UN TARRÚ." A continuación, un listado consigna los nombres de los presuntos amantes de la mujer. ¿Dónde se vio tanta infamia? Cerca de mi casa, un músico de un conjunto famoso es repudiado varias veces al día por centenares de manifestantes. La casa de Marlene Díaz y Willy Leiva, actores de la televisión, es bombardeada a huevazos junto con sus duenos. No lejos de la embajada de España, un niño de dos anos es derribado de una pedrada en la frente. Familias enteras se esconden en sus viviendas con el agua, la luz, el teléfono y los abastecimientos cortados por las hordas fascistas. En sangriento episodio un hombre corre al rescate de sus seres queridos, atropella a una vociferante vieja del Comité de Defensa con su automóvil y la mata. En el mismo sitio es ultimado a balazos. Las camisas negras están en las calles y lo dominan todo. El terror se ha aduenado de la ciudad. Ni siquiera en nuestras casas nos marginábamos del horror. Las telenovelas se interrumpían para gritar: "Que se vaya la escoria." Este constante estribillo, com música de guaracha, marcha militar o guaguancó, de acuerdo con quienes lo cantaban, ha devenido nuestro himno nacional. Sin embargo, a nuestro centro de trabajo no ha llegado la sangre: somos intelectuales, estudiantes o graduados universitarios, narradores, ensayistas, disenadores, poetas, seres civilizados, inteligentes. Pero una tarde se reciben las órdenes: hay que repudiar a los traidores, a los agentes de la CIA, a los homosexuales, a los apátridas, a la escoria y toda la incapacidad de veinte años, la frustración, la envidia, el odio y la ignorancia se vuelcan sobre una persona. Gladys Pérez es convocada a la asemblea por su jefa, Zoila Gómez, quien hasta hace poco ha militado fervorosamente en una Iglesia protestante y debe limpiar ese lastre religioso. 356 354 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Cuerpos al borde de una isla: mi salida de Cuba por Mariel. Miami: Editorial Silueta, 2016, p. 18-20. 355 NUEZ, Iván de la. Mariel en el extremo de la cultura. Encuentro de la cultura cubana. n. 8/9, 1998, p. 109. 356 MORATÓ, Enrique Guillermo. Tovarich. Mariel, n. 4, p. 22. 113 Em sintonia com o editorialismo programático de Mariel, Morató representa os atos como parte de uma cultura política fascista e totalitária. A respeito dos atos de repúdio, durante os quais os dissidentes eram agredidos verbalmente e fisicamente, e seus familiares e amigos eram constrangidos, Rickley Leandro Marques357 defende que simbolizavam o perigo que os marielitos passaram a representar ao romper com a revolução. Eles haviam se tornado um grupo outsider ao desrespeitar as regras revolucionárias e enfrentavam a coerção do governo cubano e da sociedade que o apoiava. Rejeitá-los tinha a função social de preservar a superioridade de poder do grupo estabelecido. Nas memórias de Reinaldo Arenas, as imagens de violência exacerbada se repetem: As multidões organizadas pela Segurança do Estado ficavam esperando do lado de fora da embaixada, e várias vezes tiravam os documentos das pessoas que tinham conseguido sair [da embaixada do Peru]; assim, perdiam sua condição de asilados, e ainda apanhavam. As pessoas eram agredidas não só por terem ficado na embaixada do Peru, mas também por telegrafarem pedindo que seus parentes em Miami fossem busca-las em Mariel. Vi um rapaz apanhar até ficar completamente inconsciente, jogado na rua, pelo fato de ter saído do correio após mandar um telegrama. Essas cenas se repetiam diariamente, por toda parte, durante os meses de abril e maio de 1980. [...] As casas dos que aguardavam permissão para sair do país eram cercadas pela multidão e apedrejadas; no Vedado, houve várias pessoas assassinadas. Todo o terror pelo qual tínhamos passado durante vinte anos alcançava agora seu auge. 358 As narrativas dos marielistas alternavam terror e violência durante os atos de repúdio com a construção da memória de uma resistência e oposição internas ao regime através da invasão e ocupação da embaixada do Peru em Havana. A intenção de denunciar a violência social e estatal contra aqueles que optaram pelo exílio em 1980 e o forte rechaço aos marielitos na ilha entra em conflito com a narrativa de que o governo socialista não tinha mais apoio popular. Se a grande adesão aos atos de repúdio demonstraram que a Revolução ainda contava com amplo respaldo na ilha, o exílio massivo indicava que uma parcela considerável da população não estava satisfeita com o regime. 2.3 – Os debates sobre a função do intelectual e da literatura A partir da década de 1970 e do “caso Padilla”, as oportunidades para críticas políticas à Revolução Cubana cresceram paulatinamente. Muitos intelectuais europeus e latino-americanos que, anteriormente, apoiavam a Revolução, publicamente romperam 357 MARQUES, Rickley Leandro. op. cit. 358 ARENAS, Reinaldo. Antes que anoiteça. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009, p. 333. 114 com o regime, como foi o caso de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, nas Primeira e Segunda Carta dos Intelectuais Europeus e Latino-americanos a Fidel Castro, ambas de 1971. Críticas ao regime revolucionário cubano tornaram-se mais comuns, e as audiências mais receptivas. José Mario, ex-diretor da Editorial El Puente, denunciou as Unidades Militares de Ajuda a Produção (UMAP’s). Guillermo Cabrera Infante condenou a censura na produção cultural e jornalística que o forçou ao exílio ainda na década de 1960. Carlos Franqui, ex-diretor da Rádio Rebelde e editor de Lunes de la Revolución, publicou Retrato de família con Fidel (1981). Os diretores Néstor Almendros, Jorge Ulla e Orlando Jiménez-Leal receberam financiamento e reconhecimento da crítica pelos documentários Conducta Impropia (1984) e Nadie Escuchaba (1988), que denunciavam as violações aos direitos humanos na ilha. Heberto Padilla recontou suas experiências, incluindo sua prisão e autocrítica forçada, nas novelas semi-autobriográfica e autobiográfica En mi jardin pastan los heroes (1981) e La mala memoria (1989). As memórias dos ex-prisioneiros políticos Jorge Valls, Armando Valladares e Ángel Cuadra, libertados no início da década de 1980, viraram best-sellers.359 A revista Mariel foi fundada nessa mesma época e todos esses artistas publicaram em suas páginas e/ou integraram a rede de sociabilidade que foi conformada ao redor da publicação. Juan Abreu, ao relatar a fundação da revista em suas memórias, faz menção especial ao cineasta Néstor Almendros, “que siempre estuvo a nuestro lado”.360Da mesma forma, diversos escritores que colaboraram em Mariel, como o próprio Abreu, Reinaldo Arenas, Ana María Simo, René Ariza, José Mario, Jorge Ronet, Guillermo Cabrera Infante, Carlos Franqui, Juan Goytisolo e Armando Valladares, colaboraram com relatos no documentário Conducta Impropia (1984). O documentário apresentava testemunhos de diversos ex-presos políticos cubanos, de homossexuais internados nas UMAPs na década de 1960 e de artistas e escritores que foram presos por “diversionismo ideológico” e “conduta imprópria”. Abordava-se, também, o exílio massivo de Mariel e, a partir dos testemunhos dos marielistas, contribuía-se para a ressignificação do fenômeno. Uma das jovens entrevistadas no documentário afirma: Quando aquelas pessoas se refugiaram na Embaixada do Peru, por exemplo, quando as pessoas se exilaram ali, o regime começou a misturar criminosos comuns para passar a impressão que os que saíam de Cuba eram delinquentes 359 Maria Cristina Garcia. Havana USA: Cuban Exiles and Cuban Americans in South Florida, 1959-1994 (Locais do Kindle 2659-2672). Edição do Kindle. 360 ABREU, Juan. A la sombra del Mar: jornadas cubanas con Reinaldo Arenas. Editorial Casiopea, 1998, p. 16. 115 e drogados. E quiseram mudar a ideia de que todo mundo queria ir embora. Tentaram desmoralizar a todos que tentaram sair do país. Diziam que eram prostitutas, homossexuais, diziam que era aquilo, o que dava vontade diziam, e você tinha que calar a boca e aceitar. E Juan Abreu complementa: Se em um país, após 20 anos de revolução, de políticas exemplares, de "defesa do homem", de "cultura", de "moral", depois de 20 anos de um regime como esse, se você abre uma pequena abertura e por aí sai 100 000 pessoas em poucos meses. E vamos supor que essas 100 000 pessoas sejam delinquentes. Bom, a culpa é sua, senhor. Você os converteu em delinquentes. Eu tenho a idade da revolução, um pouco mais. Eu nasci no início da Revolução. Quem nos fez delinquentes, se somos delinquentes? É um sistema que cria delinquentes. Filmado em Paris, Nova York, Miami, Londres, Roma e Madri, o filme constituiu uma denúncia contundente ao regime revolucionário cubano. O documentário foi exibido em festivais na Europa, Estados Unidos e na América Latina e, em 1984, recebeu o Grand Prix no XII International Human Rights Festival de Strasbourg. Foi tão bem recebido pela crítica que, em 1988, Almendros e Ulla produziram Nadie escuchaba, que abordava as violações de direitos humanos na ilha nas últimas três décadas e a indiferença da comunidade mundial. Segundo Reinaldo Arenas: “O filme preocupou tanto o governo cubano que se formou um grupo de homossexuais, quase todos do Ministério do Interior, com o fim de percorrer o mundo dando conferências e declarando que em Cuba os gays não eram perseguidos”.361 Acreditamos que o documentário Conducta Impropia (1983) desempenhou papel importante no logro dos objetivos da revista de ressignificar o exílio massivo e denunciar as práticas homofóbicas na ilha. De acordo com Arenas, o filme foi um grande sucesso.362 Pretendia-se a intervenção na esfera pública, sendo que as redes de sociabilidade intelectual estabelecidas foram essenciais para a consecução do projeto. Almendros, ainda segundo Arenas, ajudou os marielistas363, como transparece também em carta para Abreu, de 1983: A propósito de Ariza, acabo de hacerle otro gran favor: poner a Néstor Almendros en contacto con él para que lo filme actuando en su teatro. Él ha aceptado encantado. Así que tengo otro favor hecho a alguien que, naturalmente, jamás me lo perdonará...Yo te avisaré de la llegada de Almendros a Miami pues creo que Marcia podría hacerle una entrevista para Mariel y tomarle algunas fotos. Él es una persona encantadora y muy 361 ARENAS, Reinaldo. Antes que anoiteça. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009, p. 356. 362 Ibid, p. 356. 363 Ibid. 116 inteligente. Está haciendo ahora una película sobre los campos de la UMAP, eso sería un buen tema para la entrevista.364 Ainda no final da década de 1970, foi constituído também o Comite de Intelectuales por la Libertad de Cuba (CILC), organização fundada por escritores cubanos exilados, com base em Nova York, que patrocinava congressos dissidentes para a discussão de questões políticas e econômicas da ilha, e para protestar contra violações de direitos humanos em Cuba. Seu objetivo era a democratização do regime cubano e, a longo prazo, a deposição de Fidel Castro. O primeiro congresso, organizado pelo dramaturgo Eduardo Manet, ocorreu em Paris, em 1979, e outros ocorreram em Nova Iorque (1980) - ocasião na qual realizou-se um jantar em homenagem a Reinaldo Arenas -, Washington (1982), Madri (1986) e Caracas (1987). O envolvimento de escritores da geração de Mariel com a organização gerou o artigo de Marifeli Pérez-Stable, El CILC e la ‘generación de Mariel’, publicado no número 29 (1981) da revista Areíto, o qual foi respondido por Reinaldo García Ramos em Mariel, que não era simpática às ideias dos “dialogueros” e criticava duramente a Brigada Antonio Maceo365: [...] El hecho de que un miembro del Consejo de Dirección de esa revista se haya puesto a hablar sobre el tema Mariel me obliga a señalar desde ahora algunas limitaciones de su enfoque. Primero: Identificar al CILC con Mariel es un craso error, que demuestra poca capacidad para los matices y mucha, en cambio, para las apreciaciones sumarias y burdamente condenatorias. La generación de Mariel no tiene nada que ver con el ClLC orgánicamente, aunque nuestros intereses como artistas caigan por momentos dentro de la gama de demandas que el CILC abarca. El ClLC es una agrupación de intelectuales cubanos en general, de todas las generaciones y de todas las ramas, que se han fijado como objetivo común la denuncia del castrismo en muchas de sus manifestaciones. Los escritores y artistas que integramos la generación Mariel tenemos entre nuestras obsesiones creativas la denuncia del castrismo, pero ésa no es la única obsesión, y además esa denuncia vendrá dada principalmente a través de nuestras obras de artistas, no de manera exclusiva a través de actividades socio-culturales o políticas.366 Apesar de não se identificarem como intelectuais orgânicos em relação ao CILC, assim como essa organização, os escritores marielitos se esforçaram para intervir na esfera pública e engajar intelectuais da Europa e da América Latina na causa anticastrista e anticomunista, assim como líderes de governo, e de organizações internacionais, como a Anistia Internacional e o PEN Club. Essa proposta se expressou, por exemplo, na 364 ABREU, Juan. A la sombra del Mar: jornadas cubanas con Reinaldo Arenas. Editorial Casiopea, 1998, p 185. A entrevista em questão foi publicada no número 2 de Mariel, em 1983. 365 Sobre Areíto e a Brigada Antonio Maceo, ver capítulo 1. 366 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Mariel en tres mentes. Mariel, n. 1, 1983, p. 27. 117 organização de festivais de arte que colocavam o fenômeno Mariel sob novas perspectivas, como foi o caso do Festival de las Artes en Miami de 1983, que comemorou o aniversário de 3 anos da ponte marítima Mariel-Key West; na organização de exposições de arte e de teatro; e no envio da publicação para intelectuais, organizações de direitos humanos, de ex-presos políticos, de exilados cubanos e de lobbying. A atuação de Reinaldo Arenas, diretor da revista com maior reconhecimento e visibilidade pública, também foi de grande importância. Arenas ministrou cursos e conferências em universidades dos Estados Unidos e da Europa e concedeu entrevistas a diversos periódicos.367 Em 1984, por exemplo, foi convidado pelo PEN Club para realizar uma conferência no Departamento de Línguas Hispanas da Universidade de Estocolmo, na qual foi recebido, segundo seu relato, com protestos e boicotes. No mesmo período, realizou uma conferência e concedeu entrevistas ao Centro Gay de Estocolmo, que meses antes havia redigido um manifesto exigindo igualdade de direitos para os homossexuais em Cuba.368 Foi convidado, também, pelo Partido Liberal sueco para fornecer seus relatos acerca do regime revolucionário cubano no Parlamento sueco: Eso fue muy importante, porque ésas son las gentes que tienen hasta cierto punto el poder allí, o por lo menos lo comparten, porque hasta ahora hay una democracia. El Partido Liberal, que afortunadamente es contrario a los socialdemócratas (el partido de Palmer), fue el que me invitó a hablar allí dos veces, y les brindé una información lo más amplia posible sobre la situación en Cuba. Yo siempre fue con todos mis Granmas, con todas las leyes cubanas; y allí mismo se fotocopiaron y pasaron a los archivos del Parlamento. Así que ya por lo menos ellos tienen todo eso...369 Essa forma de oposição política reflete uma tendência da comunidade de exilados cubanos que, a partir de fins da década de 1970, substituiu o uso de estratégias violentas pela participação nas instituições políticas estadunidenses a fim de propiciar mudanças no regime político cubano. A luta contra Castro e o comunismo tomou novos rumos dentro da comunidade de exilados na década de 1980, e a eleição de Ronald Reagan facilitou esse redirecionamento. A chegada do republicano à Casa Branca agradou aos 367 Sobre a trajetória de Arenas na revista mexicana Vuelta, dirigida por Octavio Paz, ver: MISKULIN, Sílvia. Outro olhar sobre a Revolução Cubana: a trajetória e obra de Reinaldo Arenas na revista Vuelta. Revista Brasileira do Caribe, vol. X, núm. 19, julio-diciembre, 2009, pp. 191-208. Disponível em: http://www.redalyc.org/pdf/1591/159113063008.pdf. Acesso em: 21 nov. 2018. 368 No início da década de 1980, entrevistas com Arenas também foram publicadas em Lampião da Esquina, primeiro jornal direcionado ao público homossexual fundado no Brasil. Na mesma época, seus contos foram publicados em coletâneas da Gay Sunshine Press, uma das primeiras casas editoriais voltadas ao público homossexual dos Estados Unidos. 369ARENAS, Reinaldo. Reinaldo Arenas azota a Europa: uma entrevista exclusiva con Reinaldo Arenas. Mariel, n.4, 1984, p. 7. 118 mais conservadores e, pela primeira vez em muitos anos, um presidente cujas visões acerca do comunismo e de Cuba eram compatíveis com aquelas da maior parte da comunidade de exilados. As reaproximações diplomáticas e o diálogo proposto durante a administração Carter pareciam pouco prováveis, e os exilados começaram a pressionar por políticas mais punitivas direcionadas ao regime revolucionário cubano. Em 1980 e 1984, 90% da comunidade de cubanos de Miami votou em Reagan. Inclusive fora da Flórida - em comunidades nas quais as atitudes políticas dos cubanos eram mais influenciadas pelo contato com grupos mais liberais -, os exilados, majoritariamente, votaram no Partido Republicano (65% em Nova Iorque, 68% em Chicago).370 Apesar do clima conservador do país, eram comuns na publicação queixas em relação a um meio intelectual e acadêmico predominantemente de esquerda e pouco receptivo a críticas tão duras à Revolução Cubana e sua política cultural. Em 1984, foi publicado em Mariel um manifesto de sete estudantes da pós-graduação da Universidade de Gainesville, na Flórida, entre eles Alícia Rodriguez e Carlos Díez, que publicaram na revista em outras ocasiões. O manifesto protestava contra Emilio Bejel, professor de literatura hispano-americana e membro do Conselho de Direção da revista Areíto. Dois anos antes, Bejel havia participado do Terceiro Congresso da UNEAC em Havana, quando publicou no jornal Granma uma exortação aos editores de todo o mundo”: [...] estén alertas ante uma campaña en los Estados Unidos a fin de desprestigiar la obra de Juan Marinello, Alejo Carpentier, Nicolás Guillén, José A. Portuondo, Eliseo Diego y Cintio Vitier. [...] Al mismo tiempo, hay quienes pretenden hacer de José Lezama Lima, póstumamente, un escritor 'disidente' o desafecto a la Revolución Cubana. [...] Esa campaña se ha recrudecido en los últimos meses...el principal sostén de quienes la animan es la extrema derecha que está en el poder. Las acusaciones ya conocidas son que en Cuba se coacciona la libertad del artista, que la política cultural limita las posibilidades de los creadores, etc. [...] Es irónico el hecho de que algunos voceros de esta campaña contra Cuba sean precisamente, escritores que hicieron su obra y se dieron a conocer gracias a la Revolución Cubana [...] se han politizado, pero a favor de los enemigos de la Revolución, han pasado a ser voceros de la parte más reaccionaria de los Estados Unidos.371 Bejel situava o recrudescimento dessas campanhas após o exílio massivo de Mariel. Na época do congresso da UNEAC, Alina Franco, que trabalhava na Universidade da Flórida, avisou Arenas sobre as críticas tecidas, e acrescentou que, ainda que não mencionasse seu nome, o professor se referia a ele e a todos aqueles que “un poco a cada 370 GARCÍA, María Cristina. op. cit.,Edição do Kindle. Posição 2013-2027, Tradução nossa. 371 La batalla de Gainesville y el caballo de Troya, Mariel, n. 5, 1984, p. 31. 119 día destruyen el mito de la revolución en que todavia estos burgueses acomodatícios tratan de mantenerla”.372 Os estudantes viajaram até a cidade de Tallahassee, capital do estado, para protestar diante da Junta de Regentes do sistema universitário contra o projeto de conceder inamovibilidade, que garantia o direito à liberdade acadêmica, ao professor. Segundo os abaixo-assinados do manifesto, o curso ministrado por Bejel, “Literatura y Cultura del Caribe” incluía, raras exceções, somente escritores afiliados ao governo e à Revolução Cubana, não sendo representativo da realidade cubana e dos escritores dissidentes, que também compunham a cultura da ilha e que eram acusados, oficialmente, de “diversionismo ideológico”. Entendia-se que se excluía, sistematicamente, das listas de leituras e estudos, os escritores que estivessem localizados fora do “processo revolucionário”, constituindo uma “censura sutil” que “se le escaparia al estudiante que no estuviera al tanto de la política oficial del gobierno cubano con respecto a la cultura y a la literatura”: Cuatro de los seis candidatos al titulo de doctorado en el Departamento de lenguas Romances y Literatura de esta universidad estudian obras de escritores cubanos, y cuando uno de ellos le sugirió al profesor Bejel que incluyera una novela de Guillermo Cabrera Infante, el profesor Bejel rechazó la sugerencia alegando que el libro era "demasiado grueso". En su campaña para desinformar a los estudiantes que se especializan en literatura hispanoamericana, el profesor Bejel también mencionó que José Triana no había escrito nada más, porque "estaba quémado". Sobre la obra de Lydia Cabrera expresó su disgusto, al mencionar que las introducciones a sus obras eran "políticas". Con respecto a la obra de los escritores jóvenes criados fuera de Cuba dijo que "no serían nunca grandes escritores en español", ya que nadie podía escribir en una lengua que no se nutría directamente de la evolución del lenguaje dentro del país en que se habla.373 Os relatos da revista acerca da politização do meio acadêmico norte-americano durante a década de 1980 contrastam, por exemplo, com a percepção de Ángel Rama, que lecionou na Universidade de Maryland, de 1980 a 1982, e em Princeton, como professor visitante, em 1980. Segundo Pedro Demenech, no campus estadunidense, Rama indagava “¿por qué [os professores] se dedican a literatura y al arte, si nada tienen que ver orgánicamente, con ellos?”.374 Em seu Diario, enfatizava a sensação de estar em um 372 Citado por: LÓPEZ, María Encarnación. Reinaldo Arenas: The Spokesman of the Invisible Community.In: FONT, Mauricio; TINAJERO, Araceli. Handbook on Cuban History, Literature, and the Arts: New perspectives on the historical and contemporary social change. New York: Routledge, 2016, p. 146. 373 La batalla de Gainesville y el caballo de Troya, Mariel, n. 5, p. 31. 374 RAMA, Ángel. Diario: 1974-1983. Montevideo: Trilce, 2008 p. 188-189. Citado por: DEMENECH, Pedro. A traição do falcão: Ángel Rama nos Estados Unidos. Revista Eletrônica da ANPHLAC, ISSN 1679- 120 “pueblecito insignificante en torno al campus universitario y del círculo de profesores encerrados y como perdidos del mundo en un ghetto intelectual”.375 Dessa maneira, ao olhar de Rama, a instituição universitária estadunidense – e o modelo de scholar – apresentava-se cada vez mais despolitizada e fechada em si mesma.376 Essas diferenças de percepção entre a revista Mariel e Rama são indicativos, entre outros, de divergências acerca da função do intelectual – tema que abordaremos mais adiante. Já acerca do livro Narrativa de la revolución cubana, do professor norte- americano Seymour Mentan, catedrático da Universidade da Califórnia - reeditado em 1982 pela editora mexicana Plaza y Janés -, entendia-se que deformava o conceito do exílio cubano e ignorava a burocracia cultural repressiva estabelecida na ilha. O livro analisava obras editadas tanto em Cuba, como no exílio, porém, segundo Reinado García Ramos, aquelas realizadas dentro da ilha eram quantitativamente priorizadas. Essa abordagem reforçaria o pensamento de que as novelas consonantes com o regime revolucionário cubano eram a “tendência nacional” no período, reservando aos escritores do exílio um local ilhado, alheios à grande maioria constituída pelas obras publicadas na em Cuba. Além disso, a obra realizaria uma divisão entre os escritores do exílio explicitamente anticastristas e aqueles com mensagens mais implícitas; vincularia os escritores do exílio a romances da extrema-direita católica, caracterizados como “diatribes anticomunistas con escasso mérito literário”, e não incluiria escritores como Guillermo Cabrera Infante, Severo Sarduy e Juan Arocha. Segundo García Ramos, todos os escritores cubanos exilados expressaram de maneira inequívoca o anticastrismo ao deixarem a ilha e se negarem a viver sob o regime revolucionário. Mariel defendia que a quase totalidade dos mais importantes escritores cubanos encontrava-se no exílio: [...] basta con repasar los nombres: de los que lo considera los novelistas, más importantes, sólo uno (Carpentier) proclamó su sumisión a Fidel Castro, aunque desde París; de los otros tres, dos están en el exilio (Sarduy y Cabrera Infante), y otro, el mayor, Lezama Lima, pasó los últimos diez o quince años de su vida en lo que todos sabemos fue un exilio interior, por negarse a bajar la cabeza o callarse. De los que Mentan presenta como mejores cuentistas, uno murió en el exilio (Casey); otro está censurado en Cuba (Arenal) y otro, 1061, Nº. 24, p. 189-218, Jan./Jun., 2018. Disponível em: http://revistas.fflch.usp.br/anphlac/article/view/2898/2536. Acesso em: 13 set. 2018. 375 RAMA, Ángel. Op. cit., p. 201. Citado por: DEMENECH, Pedro, op. cit. 376 DEMENECH, Pedro, op. cit. 121 Benítez, hace dos años vive en Estados Unidos; obedientes quedan sólo dos: Jesús Díaz y Norberto Fuentes.377 De acordo com García Ramos, a deturpação do exílio cubano por parte de Mentan se daria, também, com a utilização do termo “antirrevolucionário” para referir-se aos escritores que não viviam na ilha. O marielista utiliza outro significado de “revolução”, o desvinculando da Revolução Cubana, e caracteriza os escritores exilados como partidários das “verdadeiras” mudanças, revoluções e renovações: Y los escritores cubanos del exilio, por la sencilla razón de que muchos, muchísimos de ellos son verdaderos creadores de una alta sensibilidad, serán siempre partidarios de los cambios, de las renovaciones, de las revoluciones verdaderas y enriquecedoras del ser humano en su definición más universal. ¿Por qué no decir, sencillamente, que estos escritores son "no castristas", o si se quiere, "anticastristas"? Me niego a aceptar que Fidel Castro posea los derechos exclusivos sobre la palabra "revolución", y que esa revolución suya posea los derechos exclusivos sobre la palabra "narrativa". (De lo cual se desprende que rechazo, no sólo la portada de este libro - que pretende venderlo como un manual para hacer cocteles Molotov -, sino también su título; debería llamarse: "Narradores cubanos sometidos y no sometidos al castrismo.") 378 O diretor de Mariel rechaçava as táticas guerrilheiras e que o regime revolucionário pudesse constituir a identidade cubana, defendendo a diferenciação entre a Revolução e a “cubanidad”. No ano seguinte, em 1984, os marielistas Reinaldo Arenas, Reinaldo García Ramos, Juan Abreu, Juan Boza, Manuel Ballagas, René Cifuentes, Ismael Lorenzo e Luis de La Paz, e outros intelectuais como Néstor Almendros, Lydia Cabrera, Jorge Camacho, Guillermo Cabrera Infante, Orlando Jiménez-Leal, Armando Valladares, Carlos Franqui, Enrique Labrador Ruiz, entre outros, escreveram uma carta aberta a Joseph Papp, produtor teatral e organizador do Festival Latino en Nova Iorque, realizado em agosto daquele ano. A ação dos artistas, que também realizaram uma reunião com o produtor, foi noticiada em periódicos como The New York Times, The Wall Street Journal, The New York Post, The Village Voice, El Miami Herald, El Universal, El Clarín, etc. O festival não havia convidado nenhum artista cubano do exílio para sua programação de atividades, que contava com um grupo musical, uma exposição de pintura e uma de cinema patrocinadas pelo governo cubano. Grupos de teatro de exilados uruguaios no México e chilenos na França estavam presentes na programação. Considerava-se que parte importante da comunidade hispano-americana havia sido 377 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Los narradores perseguidos. Mariel, n. 2, p. 27. 378 Ibid. 122 excluída do festival, e que esse utilizava a cultura hispana com viés ideológico, e construía sua imagem de forma parcial e deformada: Tal parece que los únicos cubanos invitados a este Festival son aquéllos oficialmente patrocinados por el gobierno cubano o partidarios del mismo. Acaso tenemos los cubano-americanos que pasar una prueba de "pureza ideológica" a fin de ser admitidos a este Festival? Consideramos que el Festival ha introducido en su proceso de selección un peligroso elemento de censura partidista, el cual, a la postre, perjudicará a todos los artistas participantes, independientemente de su opinión política.379 Os intelectuais reivindicavam o local do exílio cubano dentro da cultura da ilha e acusavam o festival de censura ideológica. Reinaldo Arenas, principal diretor da revista, considerava que “señoritos intelectuales de ‘izquierda’”, “turistas dos países socialistas”, ocupavam quase todas as posições intelectuais nas democracias ocidentais, e que tentavam silenciar os intelectuais anticomunistas, como os marielistas. Dessa forma, argumentava que o intelectual cubano exilado estava condenado ao silêncio e ao desaparecimento duas vezes, dentro e fora da ilha: Por eso, para esos señores de las “izquierdas” occidentales, lo mejor es condenar al silencio a esos intelectuales anticomunistas que (oh, qué mal gusto) aborrecen los campos de concentración, la farsa monolítica y las consabidas retractaciones. No sabían ustedes que a una escritora como Lydia Cabrera nunca se le otorgó una beca em EEUU? Una de esas tantas becas que pululan por las universidades de este mundo; a pesar de que en un tiempo la solicitó. No sabían ustedes que a autores como Carlos Montenegro, Labrador Ruiz, Lino Novás Calvo y a la misma Lydia Cabrera, de querer publicar sus obras, tendrían ellos que costearlas?...Así, el intelectual cubano en el exílio está condenado a desaparecer dos vezes: primero, el Estado cubano lo borra del mapa literario de su país; luego, las izquierdas galopantes y preponderantes, instaladas naturalmente en los países capitalistas, lo condenan al silencio. Para esos señores de las izquierdas occidentales, turistas de los países socialistas, ser anticomunista es de malo gusto; pero no es de malo gusto cobrar el dinero capitalista, vivir bajo el confort y la seguridad de las democracias capitalistas. 380 Arenas, em muitos casos, realizava generalizações acerca da intelectualidade de esquerda da época. Além disso, Ángel Rama afirmou ter recomendado o marielista para uma bolsa Guggenheim em 1981.381 Entretanto, em carta de julho de 1981, Guillermo Schavelzon, agente literário mexicano da Editorial Nueva Imagen, escreveu a Reinaldo Arenas que sua publicação poderia acarretar problemas ao editor: Yo estoy dispuesto (y esto también es una declaración de principios), a publicar a Reinaldo Arenas y enfrentar los problemas que me pueda traer. He 379 Carta aberta a Joseph Papp, Mariel, n. 6, 1984, p. 35. 380 ARENAS, Reinaldo. Necesidad de Libertad. Sevilla: Editorial Point de Lunette, 2012, p. 54-55. 381 RAMA, Ángel [Carta] 20 março 1981, Washington [para] ARENAS, Reinaldo, Nova York. 1f. Ángel Rama: explorador de la cultura. Exposición realizada en 2010, organizada por el Centro Cultural de España. 123 simpatizado con la revolución cubana desde el primer momento, y recien en los últimos dos o tres años comencé a cuestionarme mi simpatia, a preguntarme qué pasa. Si los amigos de alli no entienden esto (que seguramente no lo entenderán), mala suerte.382 Segundo as memórias do marielista em Antes que anoiteça, após o início das denúncias da Revolução, seus editores haviam “se convertido, secretamente, em seus próprios inimigos”, iniciando uma “guerra contra os intelectuais” mais velada que aquela em curso na ilha, mas nem por isso menos terrível, no “sórdido e mercantilista” sistema capitalista: Emmanuel Carballo, que publicara mais de cinco edições de El mundo alucinante (no México) e nunca me pagara um centavo sequer, escreveu uma carta indignada, dizendo que em momento algum eu deveria ter abandonado Cuba, enquanto, ao mesmo tempo, recusava-se a me pagar. Sempre fizera mil promessas, mas o dinheiro nunca chegou: aquela era uma maneira muito rentável de praticar sua militância comunista. A mesma coisa aconteceu com Ángel Rama, que publicara no Uruguai um livro meu de contos. Em vez de mandar uma carta cumprimentando-me por ter conseguido sair de Cuba (estava a par de minha situação, pois nos encontramos em Cuba no ano de 1969), publicou um longo artigo no El Universal de Caracas, intitulado “Reinaldo Arenas a caminho do ostracismo”, onde dizia que eu não deveria ter saído de Cuba, que fora um erro, pois o problema todo era simplesmente burocrático, e agora eu estava condenado ao ostracismo [...] 383 No início do exílio e anteriormente à produção desse relato em sua autobiografia, Arenas enviara cartas a Emmanuel Carballo, o editor das edições mexicanas de El mundo alucinante, cobrando o pagamento pelas publicações. Carballo respondera que suas atividades como editor, bem como a relação editor-escritor com Arenas, não se baseavam nas normas da ética livreira tradicional, mas que pretendia prestar um ato de serviço cultural e político, colaborando para a circulação de escritores desconhecidos: Desde el punto de vista financiero soy un editor pirata ya que publico a los grandes escritores (Benedetti, Nicolás, tú) para editar con sus ganancias a autores desconocidos como Edmundo de los Ríos, Parménides García Saldaña y Lizandro Chávez Alfaro. No pago derechos de autor y autorizo a cualquier editor que lo desee apropiarse, sin formalismos, de mis libros: son de todos. Tan no pienso en el negocio que invertí mi herencia materna (no despreciable) en una aventura sin futuro halagüeño. Con que, querido Reinaldo, olvida tus ahora justas pretensiones de derechos de autor y deséame suerte, como yo te la deseo a ti.384 O editor complementou posteriormente, após a publicação da autobiografia de Arenas, acerca das pequenas editoras de esquerda nas décadas de sessenta e setenta, e o 382 Citado por: ENCARNACIÓN LÓPEZ, María. op. cit., 2016, p. 146. 383 ARENAS, Reinaldo. op. cit., 2009, p. 341-342. 384 CARBALLO, Emmanuel. Arenas en Cuba y fuera de Cuba. Revista de la Universidad de México. Disponível em: http://www.revistadelauniversidad.unam.mx/articulo.php?publicacion=778&art=16190&sec=Homenaje% 20a%20Emmanuel%20Carballo. Acesso em: 16 abril 2016. 124 financiamento de obras de filiação marxista e guerrilheira através de suas atividades de editor pirata: En lo que a mí me toca la réplica de Reinaldo no da en el blanco, ni en lo económico ni en lo político. [...] En los años sesenta y setenta las pequeñas editoriales de izquierda no se hacían grandes ilusiones: trabajaban al día. En cualquier momento podría caer sobre ellas la cuchilla de la guillotina económica y cortarles la cabeza. El mundo alucinante ayudó financieramente a que Diógenes existiera, cuando mucho, dos quincenas más sin quebrantos económicos. Mi piratería obtuvo mejores resultados con los libros políticos, económicos y sociales, todos de filiación marxista y guerrillera: fui el editor oficioso de los libros que exponían los problemas y logros de Cuba, Chile, Uruguay, Brasil y Nicaragua. Lo que otras casas no se atrevían a publicar lo editábamos nosotros. De esta manera ayudamos a que se consolidara una generación de muchachos, a escala del idioma, de una izquierda más amplia y menos fundamentalista.385 Editor e escritor debatiam, assim, sobre a função da produção cultural e do intelectual, tal discussão sendo matizada por vieses ideológicos. Carballo partia da compreensão da função social e formativa da produção intelectual. Por sua vez, Arenas, bem como Mariel, rechaçavam a vinculação do intelectual a interesses orgânicos. Os debates sobre a função do intelectual Em 1959, pela primeira vez, os intelectuais latino-americanos tinham a oportunidade de assistir ao processo de construção do socialismo em um país do continente. A Revolução significou uma mudança radical e permanente, que se havia iniciado em Cuba, mas poderia continuar em toda a América Latina. A Revolução Cubana, de certo modo, colocou em prática o compromisso político do intelectual.386 Em “Gabriel García Márquez, ¿esbirro o es burro?”, Reinaldo Arenas se refere ao colombiano como um “propagandista sem escrúpulos” do “totalitarismo” que, “amparado nas garantias dos países capitalistas democráticos”, se dedicava a minar a liberdade (na acepção liberal): No cesa el señor García Márquez de entonar incessantes loas a favor de la dictadura castrosoviética. [...] Esse amor de García Márquez hacia Fidel Castro y su finca (la isla de Cuba) es sin embargo un amor a distancia. García Márquez va a Cuba sólo de turista (donde es tratado como tal); reside em México y naturalmente em París; y allí, en compañía del ciudadano francês monsieur Julio Cortázar, funge como cortesano y orientador cultural del nuevo presidente.387 385 Ibid. 386 COSTA, Adriane Vidal. Intelectuais, política e literatura na América Latina – O debate sobre revolução e socialismo em Cortázar, García Márquez e Vargas Llosa. São Paulo: Alameda, 2013. 387 ARENAS, Reinaldo. Op. Cit., 2012, p. 89. 125 García Márquez e Cortázar – sobre quem o marielista escreveu “Cortázar, ¿senil o pueril? - eram considerados exemplos da intelectualidade de esquerda engajada na defesa da Revolução Cubana. Além disso, eram intelectuais internacionalmente reconhecidos que representavam o intelectual orgânico388 defendido pelo regime revolucionário, ainda que o tenham criticado em ocasiões como o “caso Padilla” (1968- 1971).389 Segundo Claudia Gilman, nessa época, em 1969, a revista Casa de las Américas estabeleceu uma mudança de perspectiva frente à atividade cultural. Motivado pela perda de Che Guevara, em 1967, o Comité de Colaboración da revista afirmou a necessidade de que os intelectuais revolucionários participassem da ação direta por uma nova vanguarda latino-americana. Devido às mudanças nas conjunturas cubanas, a revista insistia na urgência de se revitalizar a missão dos intelectuais revolucionários: participar, elaborar e difundir um pensamento capaz de incorporar as grandes massas populares à tarefas da Revolução; criar obras que arrancassem das classes dominantes o privilégio da beleza.390 O Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura (1971) marcou a abolição da definição de intelectual como consciência crítica da sociedade durante a década de 1970.391 Em uma sociedade imersa na revolução e em conjunturas políticas e econômicas desfavoráveis, as produções, políticas ou intervenções se converteram, dicotomicamente, em “revolucionárias” ou “contrarrevolucionárias”. A sociedade revolucionária cubana era, por definição, não criticável. A alternativa entre revolucionário e burguês, lógica desde o ponto de vista do contexto cubano, se expandiu para fora da ilha. Dessa conjuntura derivou um anti-intelectualismo com pretensões universalizantes – ou, ao menos, de validade terceiro-mundista. O desenvolvimento dessas tendências resultou em episódios de marginalização e ostracismo na ilha, como foi o caso dos artistas marielistas.392 388 Segundo Antonio Gramsci, intelectuais ligados a classes ou empresas, que os utilizam para organizar interesses, conquistar mais poder, obter mais controle. GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968, p. 8-12. 389 Ver COSTA, Adriane Vidal. Op. cit. 390 GILMAN, Claudia. Entre la pluma y el fusil. Debates y dilemas del escritor revolucionario en América Latina. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina, 2003, p. 220-221. 391 Ver capítulo 1. 392 Ibid, p. 227-228. 126 Mariel defendia que a atuação do intelectual fosse, essencialmente, crítica, livre, e rechaçava a intelectualidade orgânica de forma contumaz. Criticava aqueles que representavam os interesses da Revolução Cubana na América Latina, Estados Unidos e Europa, principalmente os que integravam as instituições culturais do governo cubano e os escritores do “boom”. Em 1987, ao ser questionado por Jacobo Machover sobre qual seria o papel do escritor cubano no exílio, nos âmbitos literário e político, Reinaldo Arenas respondeu: El papel fundamental del escritor en cualquier lugar es escribir, tratar de hacer una obra, y es en la medida en que esa obra perdure que habrá cumplido con su papel. Realmente, si es que tiene algún papel histórico en la sociedade, es sencillamente el de permanenecer, el de hacer que aquel mundo que quizás solamente existe en su imaginación no se pierda completamente porque ha sido recuperado a través de la creación. La labor de un escritor en el exilio es tal vez la labor de todo artista, es recobrar un tiempo que tal vez exista solamente en su propia memoria. Tal vez sea la labor de Proust, ir en busca del tiempo perdido y convertirlo en tiempo recobrado. Ése es el papel que uno tiene que tener. No creo que una dictadura se tumbe con una novela ni creo que las novelas se puedan hacer para tumbar una dictadura. La condición fundamental de un intelectual, de un escritor, es ser honesto, y si eres honesto, en cualquier obra que uno escriba, de alguna manera u otra, cualquier manifestación de opresión va a ser condenada. No que creo que la literatura, como ningún arte, puedan parar el crimen. Porque todo arte no es más que una manifestación de libertad. Y por lo tanto es enemigo indiscutible de todo sistema opresivo. [...] Una obra imaginativa, una obra de ficción, puede ser hasta cierto punto más conflictiva para el régimen que un panfleto, puesto que el panfleto puede tener una perdurabilidad momentánea. La obra de arte puede a la vez tener ese sentido de denuncia intrínsecamente implícito, pero puede tener la trascendencia de la palabra y de la imaginación, que es realmente en lo que yo confío. Yo no me considero nunca un escritor político. Soy un escritor, más nada.393 O marielista entendia que a preservação da memória era uma das principais funções do escritor cubano no exílio. Entretanto, demonstrava-se cético quanto ao engajamento político da literatura e questionava obras que considerava “de circunstância”. Defendia a primazia de obras com temas universais e de longa durabilidade, ainda que a denúncia de contextos específicos estivesse presente. De maneira geral, Mariel, bem como seu diretor mais conhecido, considerava que a intelectualidade orgânica do regime era produtora de propaganda política. Reivindicavam a ideia de uma literatura universal, através da menção de obras e artistas como Ilíada, de Homero; a bíblia; William Shakespeare, Arthur Rimbaud, William 393 MACHOVER, Jacobo. La memoria frente al poder: escritores cubanos del exilio: Guillermo Cabrera Infante, Severo Sarduy, Reinaldo Arenas. Universitat de València, 2001. Edição do Kindle. Local 6718- 6726. 127 Faulkner, Fiódor Dostoiévski, Walt Whitman, Julian del Casal, José Martí, Alfonso Reyes, Jorge Luis Borges, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Juan Rulfo, entre outros. O crítico e curador de arte cubano Giulio V. Blanc, exilado nos Estados Unidos, defendeu em artigo veiculado na publicação que os artistas do exílio e que padeceram o “insílio” davam um valor universal à “cubanidad”. No futuro, esses seriam os representantes da cultura cubana, enquanto os intelectuais orgânicos seriam “limpos” da história da ilha: Lo que une a todos estos artistas es la calidad y el éxito que han tenido en darle a su cubanidad un valor universal, valor que ha sido apreciado en su país adoptivo y en muchos otros países. Pero si bien son ciudadanos del mundo, siguen siendo cubanos. Me parece que Gina Pellón habla para todos cuando dice que, algún día, Cuba quedará limpia como una camisa cubierta de fango que se echa a lavar; el fanga desaparece y la camisa sale reluciente.394 A revista compreendia, ainda, que as obras produzidas na ilha com o apoio dos órgãos de cultura da Revolução distorciam a “verdade”. A preservação da memória e da “realidade cubana” seria uma função a ser exercida pelo intelectual cubano no exílio. Em resenha da obra El Central, de Reinaldo Arenas, Juan Abreu – um dos diretores de Mariel -, afirmou que o poema acerca das experiências nas plantações de açúcar era imprescindível para a cultura cubana: La segunda, una oportunidad de agradecimiento; porque esta obra, además de responder a una realidad (la del autor) tiene el privilegio de ser algo absolutamente imprescindible. ¿Qué quedaría de la realidad cubana, distorsionada a diario, tergiversada a diario, sin éste poema, sin los otros que andan por ahí, que se escriben, que se escribirán? No quedaría nada. Así que además del mérito que emana de su excelencia artística, El Central, tiene asimismo el que le confiere su participación en la verdad, en el enriquecimiento de la realidad cubana (siniestramente empobrecida) y su contribución a la libertad de cada uno de nosotros.395 De maneira similar a Abreu, o crítico literário e professor cubano Enrico Mario Santí, exilado nos Estados Unidos, afirmou que Otra vez el mar, de Reinaldo Arenas, representava o socialismo mais genuíno. Sem distorcer a realidade cubana, a obra do marielista seria uma representante da “verdade” e da “liberdade transcendente”: Otra vez el mar es la tercera parte de una pentagonía de carácter autobiográfico que Arenas viene escribiendo desde el inicio de su carrera cómo escritor. Representa este libro no un "realismo antisocialista" como observara un astuto por anónimo periodista español, sino acaso el socialismo más genuino - aquél en que se hacen desaparecer todas las máscaras y en el que la búsqueda de la libertad trasciende, aunque no ignora, toda lucha ideológica. [...] Así, Otra vez el mar, como toda gran obra literaria, nos recuerda una vez más lo que todo 394 BLANC, Giulio V. Los cubanos de París. Mariel, n. 5, 1984, p. 29. 395 ABREU, Juan. El Central - una aspiración suicida. Mariel, n. 1, 1983, p. 24. 128 escritor sabe instintivamente y a veces los críticos olvidamos: que el problema con la literatura es que todo lo que nos dice es verdad.396 Arenas, por sua vez, considerava que Arquipélago Gulag (1973), de Alexander Soljenítsin, representava o “verdadeiro realismo socialista”. A preservação da memória, entendida como verdade absoluta, seria essencial na atuação intelectual naquele contexto. A antropóloga Lydia Cabrera, assessora de Mariel, é frequentemente elogiada na revista pela preservação de épocas passadas. Um dos editores da publicação, Carlos Victoria, acerca da obra Itinerarios del Insomnio/Trinidad de Cuba (1977), escreveu que Cabrera realizava um “fiel repasso de las cosas vividas”: El insomnio trae consigo un fiel repaso de las cosas vividas, donde pocas veces aparece el ingrediente de la fantasía. Es confrontación a secas con la historia individual, exploración mental subrayada por el paso lento de las horas, evocación de imágenes condenadas a no repetirse, y regreso a la vida que ha dejado de serlo para convertirse en memoria. [...] En la memoria hay también trascendencia, parece decirnos, y cada viaje nocturno al pasado es una preparación para la muerte, porque la satisfacción de haber vivido nos reconcilia en parte con la terrible perspectiva de dejar de vivir.397 A revista não questionava a construção da memória ou dos escritos autobiográficos. Além de suprir uma nostalgia pela ilha durante o exílio, essas obras funcionavam como forma de denúncia e crítica da Revolução Cubana. Por meio desses escritos, a legitimidade dos discursos oficiais sobre o socialismo, a nação e a identidade cubanas foram questionados na publicação e nas obras dos marielistas. No primeiro editorial da revista, afirmou-se: Que sepan definitivamente los voceros del castrismo, ocasionales o persistentes, que cada una de sus infamias, por elaboradas o disimuladas que sean, hallarán en nuestras obras la respuesta mejor y más perdurable de todas: la del artista, que por el hecho de serlo está incapacitado para mentir.398 A “verdade” defendida pela publicação funcionou como forma de oposição ao regime revolucionário cubano, ainda que esses escritores não se considerassem criadores de obras políticas. Reinaldo Arenas considerava que os intelectuais eram a voz do povo, e que lhes cabia denunciar a barbárie dos governantes.399 O tom de denúncia se faz presente em toda a publicação. Roberto Valero, editor da revista, defendeu em carta aberta que o intelectual cubano exilado possuía duas opções: calar-se ou denunciar. Na ocasião, 396 RIPOLL, Carlos; MARIO SANTÍ, Enrico. Mariel de sur a norte. Mariel, n. 2, p. 29-30. 397 VICTORIA, Carlos. Invitación al insomnio. Mariel, n. 1, 1983, p. 22. 398 Editorial, Mariel, n. 1, 1983, p. 2. 399 ARENAS, Reinaldo. Necesidad de libertad, Sevilla: Editorial Point de Lunette, 2012, p. 27. 129 o escritor acusava o governo cubano de ameaçar e intimidar seus familiares na ilha durante interrogatórios. O escritor fez denúncias e abriu casos na OEA e na ONU: Un artista que sale de un país totalitário tiene dos opciones: o callarse, o denunciar. Cuando uno se calla, el gobierno no permite que los familiares salgan, porque ya sabe cómo mantener en silencio al que puede hablar; cuando hablamos, los familiares no salen, por que de esta forma realizan sus bajas venganzas. Yo he optado y optaré por la denuncia hasta que mis famliares salgan de la Isla.400 A revista considerava que a maior prioridade para um cubano no exílio era a denúncia de violações de direitos humanos na ilha. Em resenha sobre a obra do ex-preso político Armando Valladares, Reinaldo Arenas afirmou que a arte era uma forma de luta, e recorreu a José Martí para legitimar sua ideia: Ha descubierto no solamente la manera de contar (y cantar) su horror, sino también una forma mágica de derrotarlo e trascenderlo. [...] Hay hombres - escribió Martí - que no se cansan de luchar cuando parece que los pueblos se cansan. En esos hombres van miles de hombres va un pueblo entero, va la dignidad humana. Porque tal parece que la historia de la dignidad humana (ese poema incesante y terrible) es también como un fuego sagrado que, a través de la eternidad, se traslada de uno a otro hombre - de uno a otro elegido para que jamás se extinga y ennoblecer y justificar así la existencia toda del género humano.401 De maneira similar, o marielista Jesús J. Barquet defendeu que a autodenominação geração de Mariel era uma forma de “resistência contra o inimigo comum”. Reinaldo García Ramos, um dos diretores da publicação, esclareceu a ideia do colega no artigo Contra la broncomanía. Após as polêmicas entre Reinaldo Arenas, Belkis Cuza Malé e Heberto Padilla402, García Ramos condenou a intransigência entre os intelectuais exilados cubanos, e aconselhou que as fúrias fossem reservadas aos “verdadeiros inimigos”: Las furias, la intransigencia, la habilidad para eslabonar frases venenosas, la imaginación para inventar enredos desconcertantes, utilicémoslas en la lucha contra los verdaderos enemigos: los meticulosos y bien armados seres que se proponen convertir la vida de todo el planeta en un engranaje represivo al modo soviético.403 A relação amigo/inimigo, presente nos discursos oficiais cubanos para se referir às posições políticas daqueles que lhes são favoráveis ou contrários404, fazem-se presentes na publicação. Essa diferenciação marca o extremo grau de intensidade com que se 400 VALERO, Roberto. Carta Abierta. Mariel, n. 3, 1983, p. 31. 401 ARENAS, Reinaldo. El poema de Armando Valladares. Mariel, n. 3, 1983, p. 21-22. 402 Sobre as divergências de Arenas com Linden Lane Magazine, ver capítulo 1. Contra la broncomanía, de García Ramos, foi respondido por Arenas por meio de Elogío de las fúrias, ambos publicados no número 2 de Mariel, 1983. 403 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Contra la broncomanía. Mariel, n. 2, 1983, p. 31. 404 Ver PRADO, Giliard. Op. cit. 130 estabelecem os antagonismos decorrentes da adesão ou oposição a um determinado projeto político.405 No caso de Mariel, os principais inimigos eram a Revolução Cubana, a União Soviética e a intelectualidade de esquerda engajada. As relações dicotômicas permaneceram na publicação no que tange às discussões acerca da atividade artística. Segundo a publicação, na década de 1980, a arte estaria dividida entre burocrática, nos países socialistas, e mercantil, nos países capitalistas. Juan Abreu, um dos diretores de Mariel, criticou o que chamava de “intelectuais da moda”. Nos Estados Unidos, esses controlariam as universidades e as redes de contatos para publicações e bolsas de fomento: [...] y ya se titulan gente importante. IMPORTANTÍSIMA. ¿Y quién les dice algo con el dinero que tienen? y ya te cogen por el cuello, ya te cercan desde las relucientes páginas de las revistas de arte (ayudados por la tropa de críticos bien pagados que de paso te hacen una insinuación a cambio de un articulo favorable), y te pasean frente a sus mamarrachos y tienes que asentir porque si no todos té miran como a un bicho raro. Y además estás perdido, ¿Por qué quién te expone?, hay que seguir la línea de moda; el estilo de moda ¡la onda!, ¿por qué si no quién te publica? PERO...el jueguito no funciona siempre. Hay quien no hace negocios de este tipo, porque se les parecen demasiado a otras formas de extorsión muy conocidas. Porque el arte es URGENCIA, y a ella nos atendremos sin traicionarla, ni por fama (¿a quién le interesa esa comida de idiotas?) ni por dinero, (tenemos una escuela que nos permite sobrevivir en pleno desierto), ni por cosa alguna. Así pues, urgentemente, decía, a Ustedes señores "artistas", están dirigidas estas palavras.406 Ainda que Abreu generalizasse, considerando o apoio que marielistas receberam de críticos literários e historiadores, como os cubanos Enrico Mario Santí e Carlos Ripoll, nos interessa aqui a dicotomia arte mercantil/burocrática. Mariel apresentava-se como contrária a qualquer teoria que limitasse a experimentação artística, a imaginação e a crítica, rechaçando tanto o que denominava de “arte doutrinal” ou “burocrática”, quanto a “arte mercantil”: Rechazamos cualquier teoría política o literaria que pueda cortar la libre experimentación, el desenfado, la crítica y la imaginación, requisitos fundamentales para toda obra de arte. Un arte doctrinal es lo opuesto a la verdadera creación. Tanto la ficción como el ensayo han de ser - ya lo dicen sus nombres - experimentos profundos y no meros engendros académicos atestados de la jerga en boga y de teorías preconcebidas. No existe un arte mercantil, como no hay un arte doctrinario. La literatura no es siquiera un oficio; es un sacrificio y una fatalidad, un placer y una maldición. Toda obra de arte es un desafío, y por lo tanto, implícita o explícitamente, es una manifestación - y un canto - de libertad.407 405 SCHMITT, Carl. El concepto de lo político. Madrid: Alianza, 1998. 406 ABREU, Juan. Los artistas. Mariel, n. 1, 1983, p. 31. 407 Editorial, Mariel, n. 1, 1983, p. 2. 131 Se em Cuba realizava-se uma distinção entre a arte socialista (revolucionária) e a burguesa (contrarrevolucionária), a mesma dicotomia (socialista-burocrática/burguesa- mercantil) se faz presente em Mariel, somente alterando-se os sentindos atribuídos a ambos. Na publicação pesquisada, a arte socialista era uma propaganda que limitava a criação artística. Já a arte mercantil, visava somente o lucro e o status. Se Cuba propôs um anti-intelectualismo terceiro-mundista e universalista durante a década de 1970408, Mariel propôs um universalismo transcendental, fatalista e sacrificial. Para a publicação, o “verdadeiro intelectual” cubano é representado pelo intelectual exilado e dissidente, visto que o exílio proporcionaria a liberdade necessária à atuação crítica do artista e à resistência, além de remeter a uma longa “tradição” cubana, representada por escritores como José Martí: José Martí teve de fugir para o exílio e mesmo lá foi perseguido e acossado por grande parte dos próprios exilados. Voltou a Cuba não apenas para lutar, mas para morrer. O próprio Félix Varela, uma das figuras mais importantes do século XIX cubano, teve de viver no exílio o resto da sua vida. Cirilo Villaverde foi condenado à morte em Cuba e teve de fugir da cadeia para salvar-se; no exílio, tentou reconstruir a vida com seu romance Cecilia Valdés. Heredia também foi exilado e faleceu com 36 anos, moralmente destruído, depois de solicitar uma licença especial ao ditador para poder visitar a ilha. Lezama e Piñera morreram também de uma forma estranha e reprimidos pela mais absoluta censura. Sim, sempre temos sido vítima de um ditador, e talvez isso represente parte da tradição cubana e também da tradição latino- americana, isto é: da herança hispânica que nos coube padecer.409 Contrapõe-se, assim, ao discurso oficial de que os escritores exilados seriam gusanos e contrarrevolucionários, dando um significado positivo à produção de exílio. A publicação determinava que a atuação do intelectual cubano, naquele momento, deveria estar necessariamente vinculada ao pensamento anticomunista e anticastrista. Reinaldo Arenas, por exemplo, compreendia que comunismo e ditadura estavam inextricavelmente conectados e que, portanto, o comunismo não podia fazer parte da democracia. Esse posicionamento gerou discussões com Isel Rivero, integrante do editorial El Puente na década de 1960, que veiculou textos em Mariel e manteve vínculos profissionais com os editores da revista: Por último, decir que en las democracias el poder oscila desde los "conservadores hasta los comunistas" es algo verdaderamente candoroso. Sencillamente porque una vez que los comunistas tengan - como pretenden por todos los médios - el poder, ese poder no oscilará nunca más o por lo menos 408 Cf. GILMAN, Claudia. Op. cit. 409 ARENAS, Reinaldo, op. Cit., p. 120. 132 mientras ellos lo manipulen. Los ejemplos sobran...Una actitud antidogmática del mundo es aquella que no transige con el dogma.410 O marielista defendia que as democracias ocidentais não estavam preparadas para enfrentar o “totalitarismo” e entendia que os Estados Unidos deveriam exercer um papel estratégico nos países subdesenvolvidos, visando à democratização e ao desenvolvimento econômico. En gran medida los Estados Unidos han sido responsables del avance del totalitarismo comunista em América Latina, al apoyar invariablemente las diversas y sucessivas dictaduras llamadas de “derecha” que han padecido y padecen muchos pueblos latino-americanos. [...] Una democratización y un desarrollo económico dentro de los países latinoamericanos, que ha de incluir reformar agrarias, educación gratuita, ayuda y desarrollo a los pequeños propietarios y produtores, y control de los mayores, son indispensables para el avance y subsistência de esos pueblos como estados independientes y libres. El totalitarismo triunfa allí donde no hay libertad ni esperanzas. La Unión Soviética [...] no va a desperdiciar [...] ese inmenso filón propicio para ser penetrado y engullido, que se llama América Latina, administrada por caudillos matones, militares prepotentes y empresas multinacionales ávidas y sagaces en el oficio de hacer millones, pero de una torpeza y ceguera sin limites para conservarlos...411 O projeto reformista de Arenas para a economia latino-americana, entretanto, não foi enfocado na revista, que se declarava somente defensora da justiça social. O caráter fortemente anticomunista da publicação gerou uma deficiência ao olhar para o restante da América Latina e várias de suas ditaduras civis-militares de direita, embasadas nas Doutrinas de Segurança Nacional e na luta contra a “ameaça vermelha”. De maneira geral, no contexto da Guerra Fria, Mariel focou a luta contra o autoritarismo nos espectros políticos à esquerda e na Revolução Cubana, e poucas vezes mencionou o restante do continente. Mariel, nesse aspecto, funcionou como veículo para se rediscutir a função do intelectual, e defendia que sua atuação fosse necessariamente independente, crítica e comprometida com a verdade. Aparentemente, o discurso defendido pela revista poderia soar como próximo ao intelectual independente e crítico proposto por autores como Edward Said e C. Wright Mills. Segundo Said, o intelectual seria um sujeito cuja função é levantar publicamente questões embaraçosas, confrontar ortodoxias e dogmas; isto é, alguém que não pode ser facilmente cooptado por governos ou corporações, e cuja raison d’être é representar todas as pessoas e todos os problemas que são sistematicamente esquecidos ou varridos para debaixo do tapete. Ele agiria com base em princípios 410 ARENAS, Reinaldo. Carta de los lectores. Mariel, n. 5, 1984, p. 28. 411 ARENAS, Reinaldo, op. Cit., p. 60-61. 133 universais: que todos os seres humanos têm direito de contar com padrões de comportamento decentes quanto à liberdade e à justiça da parte dos poderes ou nações do mundo, e que as violações deliberadas ou inadvertidas desses padrões têm de ser denunciadas e combatidas. Mills acrescenta que o intelectual independente luta contra os estereótipos e desmascara continuamente as comunicações modernas de massa.412Apesar disso, muitos dos editores da publicação possuíam maior compromisso com o combate ao regime revolucionário cubano e ao comunismo do que com o modelo de intelectual que defendiam, muitas vezes construindo discursos problemáticos. 412 SAID, Edward W. Representações do intelectual: as Conferências Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 26-34. 134 Capítulo 3 - Confluencias: o “contra-cânone” da literatura cubana 3 – Confluencias: memórias e identidade nacional em disputa Segundo Rafael Rojas, com a vitória do Movimento 26 de Julho, em 1959, três gerações de intelectuais apoiaram o novo governo: a geração dos anos 1930, conformada por comunistas e reformistas, que foi delineada desde os tempos da revista de avance e compreendeu a Revolução como desenlace político do movimento cultural vanguardista que havia protagonizado décadas antes; a dos anos 1940, cujo projeto cultural mais significativo foi a revista Orígenes, e que congregou parte do pensamento republicano católico da ilha; e a dos anos 1950, associada às plataformas estéticas renovadoras das revistas Sociedad Nuestro Tiempo e Ciclón, e composta por intelectuais nacionalistas que posteriormente integrariam projetos como Lunes de Revolución e El Caimán Barbudo.413 Aqueles intelectuais próximos às vertentes liberais, católicas ou republicanas dos anos 1940, paulatinamente, foram marginalizados do grande debate cultural da década de 1960. Vários partiram para o exílio ainda no início da Revolução, como Lydia Cabrera – assessora de Mariel – e Gastón Baquero, enquanto que aqueles que permaneceram na ilha não obtiveram grande reconhecimento entre os meios oficiais naquele momento, como José Lezama Lima, Eliseo Diego e Cintio Vitier. Especialmente a partir de 1961, quando as autoridades revolucionárias declaram o caráter socialista da Revolução Cubana, a cena cultural foi marcada pelo debate entre os intelectuais comunistas, advindos da geração de 1930, e os intelectuais nacionalistas, próximos à geração de 1950. Estes dois grupos debateram entre si o caráter da Revolução Cubana e do socialismo, assim como disputaram a definição da arte e do intelectual revolucionário.414 Porém, se a Revolução elogiava os intelectuais que buscavam criar uma arte comprometida com a construção da nova sociedade, pouco tolerou seus opositores declarados. Desde seu início, a Revolução foi marcada pela prisão, julgamento, execução e exílio de grande parte de seus adversários. Essa situação se estendeu para o meio intelectual, e logo editoras e jornais de oposição ao governo foram censurados e fechados, como foi o caso de El Diario de la Marina, até então o jornal mais antigo de Cuba e conhecido por posicionamentos conservadores.415 413 ROJAS, Rafael. Anatomia do entusiasmo: cultura e Revolução em Cuba (1959-19710). Tempo Social, Revista de Sociologia da USP; v. 19, n. 1, 2007, p. 83. 414 PRATES, Thiago Henrique Oliveira. "O mundo não acaba no Malecón": exílio, intelectuais e dissidência política nas revistas Encuentro de la Cultura Cubana e Revista Hispano-Cubana (1996-2002). 2015. Dissertação (mestrado) - Fafich, UFMG, Belo Horizonte, p. 141. 415 Ibid, p. 143. 135 Os conflitos entre o regime e os intelectuais que aderiram à Revolução, por sua vez, tornaram-se evidentes com a proibição, em maio de 1961, do documentário P.M., pela comissão revisora do Icaic, responsável pela autorização de exibição dos filmes. O curta, filmado por Sabá Cabrera Infante e Orlando Jiménez-Leal, foi considerado obsceno e contrarrevolucionário. Inspirado no free cinema inglês, o documentário percorria os bares e o porto de Havana, mostrando seus frequentadores, sua música e dança.416 Após grande repercussão, reuniões foram convocadas na Biblioteca Nacional José Martí para resolver a situação em junho de 1961. No fechamento do encontro, Fidel Castro efetuou o discurso Palavras aos intelectuais, no qual apontava diretrizes para a produção cultural da Revolução e os deveres dos intelectuais. A principal preocupação do intelectual revolucionário seria garantir a sobrevivência e o avanço da revolução. Os intelectuais poderiam criar livremente, desde que dentro e a favor da Revolução.417 O regime se concedia o direito de controlar a produção cultural, o que abria um espaço para a censura. Em 1965, por sua vez, a Ediciones El Puente foi fechada pelo regime. A editora possuía autonomia para publicar seus livros e suas obras nem sempre possuíam um compromisso explícito com a Revolução, o que entrava em conflito com a política cultural estabelecida na ilha.418 Além disso, havia forte presença de homossexuais em El Puente, na época considerados vestígios do passado capitalista e hedonista. Ainda assim, havia um rico debate cultural na ilha e era possível, segundo Rafael Rojas, sonhar com uma cultura crítica, refinada, que partilhasse os valores socialistas da Revolução e, ao mesmo tempo, recusasse os impulsos autoritários da nova elite do poder.419 A partir do “caso Padilla”, em 1968, e do Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura, em 1971420, entretanto, houve um endurecimento no meio cultural e empobrecimento editorial. Durante a década de 1970, muitos artistas vinculados ao pensamento católico ou considerados demasiadamente “liberais” não foram publicados na ilha. Exigia-se, mais do que em outros momentos, o compromisso do intelectual com a construção e defesa da Revolução. 416 MISKULIN, Silvia Cezar. A política cultural no início da Revolução Cubana: o caso do suplemento cultural Lunes de Revolución. Outubro (São Paulo), São Paulo, v. 06, p. 77-90, 2002, p. 83. 417 PRATES, Thiago Henrique Oliveira, op. cit., p. 144. 418 MISKULIN, Silvia Cezar. Op. cit., p. 89-90. 419 ROJAS, Rafael. Anatomia do entusiasmo: cultura e Revolução em Cuba (1959-19710). Tempo Social, Revista de Sociologia da USP; v. 19, n. 1, 2007, p. 83. 420 Ver capítulo 2. 136 Segundo Rickley Leandro Marques421, as narrativas dos marielistas constituem “memórias subterrâneas” da Revolução Cubana, que, como partes integrantes de culturas minoritárias no regime revolucionário, opõem-se à “memória oficial”, no caso, à memória nacional, disputando as histórias de suas juventudes na ilha durante o exílio. O desterro nos Estados Unidos permitiu a emergência na esfera pública de certas lembranças “subterrâneas” de um grupo até então marginalizado na sociedade cubana422. A publicação que pesquisamos possuía uma seção permanente dedicada a homenagear escritores cubanos que os marielistas entendiam que haviam sido esquecidos ou deturpados pelo regime revolucionário cubano, denominada Confluencias: En esta sección, nos esforzamos por rescatar obras poco conocidas de nuestra cultura, o que hayan sido deformadas o silenciadas por la burocracia del castrismo. Si los artistas que las crearon has dejado de existir, sus obras confluyen hacia nosotros, para que nos iluminemos con su esplendor. Cada obra será seguida de un ensayo, que intentará contribuir a su correcta apreciación.423 Compreendemos que, através de suas obras, realizava-se uma releitura do passado e de concepções da identidade cubanas, a partir de uma seleção da produção literária nacional. Concordamos, ainda, com Ottmar Ette, quando afirma que tal seleção conformava um “contra-cânone” da literatura cubana, concebendo outra noção da cultura nacional que possuía um caráter combativo: Es evidente que el canon de autores así establecido sirve como base de una concepción de la cultura cubana para los escritores de la (autollamada) generación de Mariel, tanto la inclusión como la exclusión u omisión de autores tiene una significación paradigmática para el grupo. En este sentido, y considerando los ensayos y las presentaciones de la seccion "Confluencias", que continuamente se refieren a la visión de o al silencio en torno a ciertos escritores en la isla, se puede hablar de un verdadero contra-canon de la literatura cubana, de un carácter combativo fundamental.424 Além de disputarem a memória de uma série de autores ao selecioná-los e proporem a “apreciação correta” de suas obras, os marielistas consideravam-se, ainda, como herdeiros das obras e escritores que “confluíam” até eles. Entendemos que inventavam uma tradição que teria sido formada por esses escritores e na qual a revista se inseriria. Segundo Joel Candau, a tradição deve estar de acordo com o presente de onde obtém sua significação. Ela “será autêntica, quer dizer que terá sua força – a de conferir 421 MARQUES, Rickley Leandro. op. cit., p. 215-236. 422 Ibid. 423 Mariel, n. 1, 1983, p. 16. 424 ETTE, OTTMAR. La revista Mariel (1983-1985): acerca del campo literario y político cubano. Mariel (Revista) Papers. 137 aos membros de um grupo o sentimento de compartilhamento de sua própria perpetuação enquanto tal – de sua autoridade, aquela de uma transmissão efetiva e aceita”.425 A tradição corresponde a um “universo de significações coletivas no qual as experiências cotidianas que inscrevem os indivíduos e os grupos no caos são reportadas a uma ordem imutável, necessária e preexistente aos indivíduos e aos grupos”. O que a define, principalmente, é que confere ao passado uma autoridade transcendente. Sua justificativa se encontra não apenas em assegurar uma continuidade fictícia ou real entre o passado e o presente, mas também em satisfazer uma lógica identificadora no interior do grupo.426 Nesse processo de identificação, o exílio, o “insílio”, o passado colonial, as lutas de independência do século XIX, o grupo Orígenes e a homossexualidade exerceram funções importantes, como abordaremos neste capítulo. Ainda de acordo com Candau: O ato de memória que se manifesta no apelo à tradição consiste em expor, inventando se necessário, "um pedaço de passado moldado às medidas do presente", de tal maneira que possa se tornar uma peça do jogo identitário. Porque a tradição se remete a um passado atualizado do presente, ela incorpora sempre uma parte do imaginário.427 A base do imaginário, no caso, é a ideia de representação: “o imaginário é sempre um sistema de representações do mundo, que se coloca no lugar da realidade, sem com ela se confundir, mas tendo nela o seu referente”428. Entendemos aqui como representação “um conjunto que inclui ideologia, linguagem, memória, imaginário e iconografia, mobiliz[ando], portanto, mitos, símbolos, discursos, vocabulários e uma rica cultura visual”429. Entendemos, portanto, que o contra-cânone construído em Mariel pode nos fornecer indícios importantes sobre como a revista pensou e disputou a cultura cubana, a identidade nacional e a pauta homossexual. A revista homenageou escritores dos movimentos Romântico e Modernista do século XIX, sendo eles José María Heredía, Juan Clemente Zenea, Gertrudis Gómez de Avellaneda, Luisa Pérez de Zambrana, Julián del Casal e José Martí; e, os escritores do século XX, José Manuel Poveda, Enrique Labrador Ruiz, Carlos Montenegro, Gastón Baquero, José Lezama Lima e Virgilio Piñera. 425 CANDAU, Joel. op. cit, p. 121-122. 426 Ibid. 427 Ibid, p. 122. 428 PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e literatura: uma velha-nova história, Nuevo Mundo Mundos Nuevos, Debates, 2006, p. 2. Disponível em: http://nuevomundo.revues.org/document1560.html. Acesso em 11 ago. 2014. 429 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Desafios e possibilidades na apropriação de cultura política pela historiografia. In: MOTTA, Rodrigo Patto Sá (org). Culturas Políticas na História: novos estudos. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2009, p. 21-22. 138 Neste capítulo, nos focaremos nos intelectuais cujas memórias foram disputadas com o regime revolucionário cubano: José Martí, José Lezama Lima e Virgilio Piñera – cujas obras e biografias a revista considerava que a Revolução havia deturpado - , Carlos Montenegro e Gastón Baquero – os quais a publicação compreendia que haviam sido esquecidos pelo regime. A seleção realizada pelos editores da revista deixa claro o caráter anticastrista do editorialismo programático da publicação, visto que excluía todos os intelectuais que apoiavam a Revolução, como Alejo Carpentier, Nicolas Guillén, Miguel Barnet, Roberto Fernández Retamar, Fina García Marruz, entre outros. Partia de uma compreensão cultural fraturada da ilha430 que se “resumia” ao exílio e ao “insílio”, constituindo o que compreendemos como um contra-discurso. Compreendemos, ainda, que figuras da história cubana foram retomadas em Mariel a fim de abordar a pauta homossexual. José Manuel Poveda (1888-1926), por exemplo, foi um dos homenageados pela revista que, em sua época, transgrediu normas de gênero e sexualidade e, simultaneamente, de nação. Manuel Poveda escreveu várias de suas obras por meio de seu heterônimo feminino, Alma Rubens. Algumas continham sugestões de atos homossexuais, como Extravío, nos quais Alma representava papéis de gênero e a sexualidade feminina de formas consideradas, convencionalmente, masculinas.431 Neste capítulo, essas questões serão abordadas, principalmente, por meio das leituras realizadas pelos marielistas das obras de Virgilio Piñera e Carlos Montenegro. 3.1 - José Martí e a literatura do século XIX Durante o século XX, a cultura e a política em Cuba, dentro e fora da ilha, foi, em grande medida, construída a partir da influência de José Martí. Os regimes autoritários de Gerardo Machado (1925-1933) e Fulgencio Batista (1952-1959); a derrubada de Machado em 1933432; o assalto ao quartel de Moncada em 1953; a Revolução de 1959; 430 ETTE, OTTMAR. La revista Mariel (1983-1985): acerca del campo literario y político cubano. Mariel (Revista) Papers. 431 Ver THEUMER, Kathrin. The Case of Alma Rubens or the Trans-Gendered Imagination in José Manuel Poveda. Rocky Mountain Review, vol. 67, no. 1, 2013, p. 27–40. Disponível em: www.jstor.org/stable/23609963. Acesso em: 10 nov. 2018. 432 O governo de Machado enfrentava enorme resistência por parte da opinião pública, sob impacto de crise econômica. A partir de 1930, vários motins e distúrbios ocorreram, e uma grevera geral eclodira, atendendo a uma convocação da Confederación Nacional Obrera de Cuba (CNOC). A oposição crescia e muitos especulavam que Machado não concluiria seu mandato – prorrogado por seis anos pelo Congresso – em 1935. Tentativas insurrecionais e sublevações perduraram, bem como a repressão governamental. Entretanto, em 1933, uma greve geral dos transportes, convocada pela CNOC e pelo Partido Comunista, estendeu-se por todo o país. O Exército, a Marinha, o Corpo de Aviação rebelaram-se, exigindo-lhe a 139 as Constituições de 1940 e 1976; entre outros, invocaram a figura e as ideias martianas. Desde as primeiras décadas do século XX, Martí se converteu em uma figura de adoração e culto para a sociedade cubana. Esse culto começou como uma mostra de nostalgia entre os amigos do poeta e uma prática da cultura popular da emigração repatriada após a independência. Na década de 1920, entretanto, a veneração a José Martí se transformou em uma “liturgia de la religión civil cubana”, à qual apelavam políticos e intelectuais de todas as orientações ideológicas. A partir de então, uma quantidade significativa de políticos e intelectuais cubanos utilizaram da vinculação às ideias martianas a fim de construir uma credibilidade nacionalista433: Machado, Grau, Prío, Chibás y Castro; Mella, Lizaso, Marinello, Mañach y Lezama; Guillén, Carpentier, Baquero, Piñera y Vitier...Todos fueron martianos, a su manera; es decir, fueron martianos aunque el Martí de cada uno fuera distinto. Justo en esa diversa y, a la vez, unánime profesión de fé reside el mistério de la fuerza del mito fundacional de José Martí en Cuba.434 Segundo Rafael Rojas, o pensamento martiano é marcado pela ideia clássica de cidadania, republicanismo, ideia moderna da sociedade, americanismo, compreensão múltipla dos direitos públicos, entusiasmo moral e política anti-intelectual.435 Todas as evocações e guerras pela memória tecidas em nome de Martí e executadas por movimentos intelectuais de elite ou de massas, partiram da denúncia de um esquecimento ou de uma falsificação anterior.436 A revista Mariel iniciou seu último número, dedicado a uma homenagem ao mártir da independência cubana, com o seguinte poema do ex-preso político Armando Valladares: ¡Escúchame Señor que todo puedes! los antihistoriadores están aquí buscando examinan archivos fe de bautismos antiguos documentos... Yo sé bien lo que buscan - yo lo sé - y tengo miedo Señor y estoy inquieto, No permitas ahora que ellos "descubran" que el tercer nombre de Martí era Popov e que nuestro Apóstol también era soviético renúncia, como também o fez o embaixador dos Estados Unidos, Sumner Welles. Em tais circunstâncias, Machado abandonou o poder. Cf. MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. Op. cit., p. 88-90. 433 ROJAS, Rafael. Motivos de Anteo. Pátria y nación en la historia intelectual de Cuba. Madrid: Editorial Colibri, 2008, p. 146. 434Ibid., p. 146. 435Ibid., p. 164. 436 Ibid., p. 151. 140 No lo permitas Señor...Amén!437 Partia-se, portanto, do pressuposto de uma deturpação das ideias de José Martí e da própria história por parte do regime revolucionário cubano, pois, após 1961, a Revolução passou a associar as ideias martianas à defesa do socialismo. A partir da década de 1960, o regime cubano articulou ideias socialistas, nacionalistas e anti- imperialistas – reivindicando as ideias martianas. A obra de Martí foi uma das principais inspirações político-ideológicas para o Movimento 26 de Julho e a Revolução Cubana de 1959. Os manifestos políticos e poemas do poeta foram amplamente utilizados por Fidel Castro, que postulou para si e para os que participaram do ataque ao Moncada o título de “geração do centenário”, em alusão ao centenário do nascimento desse herói da independência cubana, filiando-se aos ideais martianos.438 Quando, após a fracassada tentativa de assalto ao quartel Moncada em 1953, Fidel Castro foi preso e interrogado sobre quem havia sido o autor intelectual daquela ação, recorreu a Martí. Em La historia me absolverá (1953), Castro retomou essa ideia, filiando-se aos ideais de liberdade martianos: De igual modo se prohibió que llegaran a mis manos los libros de Martí; parece que la censura de la prisión los consideró demasiado subversivos. ¿O será porque yo dije que Martí era el autor intelectual del 26 de Julio? Se impidió, además, que trajese a este juicio ninguna obra de consulta sobre cualquier otra materia. ¡No importa en absoluto! Traigo en el corazón las doctrinas del Maestro y en el pensamiento las nobles ideas de todos los hombres que han defendido la libertad de los pueblos.439 Após a vitória do M-26-7, em 1959, a referência às ideias de Martí esteve presente em alguns dos principais documentos do país: Primeira Declaração de Havana (1960), Segunda Declaração de Havana (1962) e na Constituição da República de Cuba (1976). Os principais aspectos de seu pensamento retomados pelos revolucionários são o anti- imperialismo e o americanismo. O anti-imperialismo e a ideia dos Estados Unidos como inimigo externo são elementos essenciais no nacionalismo cubano após 1959 e na retórica de sustentação do governo revolucionário. Na Primeira Declaração de Havana, de 1960, afirmou-se: La Asamblea General Nacional del Pueblo rechaza asimismo el intento de preservar la doctrina de Monroe, utilizada hasta ahora, como lo previera José Martí, para extender el dominio en América de los imperialistas voraces, para 437 VALLADARES, Armando. Oración. Mariel, n.8, 1985, p. 3. 438 SADER, Emir. A revolução cubana. 2. Ed. São Paulo: Moderna, 1986, p. 22. 439 CASTRO, Fidel. La historia me absolverá. 1953. Disponível em: http://bureau.comandantina.com/archivos/La%20Historia%20me%20absolvera.pdf 141 inyectar mejor el veneno también denunciado a tiempo por José Martí, el veneno de los empréstitos de los canales, de los ferrocarriles...440 Ao longo dos anos, as ideias martianas foram, paulatinamente, sendo associadas pelo regime revolucionário às ideias socialistas, principalmente a partir de 1961. Dessa maneira, ainda em 1960, Che Guevara utilizou o pensamento martiano para defender a construção de uma nova ordem social: “‘Con los pobres de la tierra quiero yo mi suerte echar’, decía Martí...y así mismo, interpretando sus palabras, lo hicimos nosotros. Hemos venido puestos por el pueblo y dispuestos a seguir aquí hasta que el pueblo lo quiera, a destruir todas las injusticias y a implantar un nuevo orden social.”441 Fidel Castro, em suas conversações com Frei Betto de 10 a 26 de maio de 1985, afirmou: “Antes de ser marxista, fui un gran admirador de la historia de nuestro país y de Martí, fui martiano. [...] Porque estoy absolutamente convencido de que si Martí hubiera vivido en el medio en que vivió Marx, habría tenido las mismas ideas, más o menos la misma actuación”.442Anos mais tarde, em 1991, quando se iniciava em Cuba o Período Especial em Tempos de Paz443, decorrente da queda da União Soviética, Fidel novamente recorreu à Marti para fazer a defesa do socialismo e inseriu a revolução de 1959 dentro do processo de independência cubano iniciado em 1868: Si el imperialismo pudiera poner de rodillas a Cuba, si pudiera de nuevo implantar el capitalismo en nuestro país, ¿qué quedaría de todo lo que hemos hecho a lo largo de 123 años?¿Convertirnos en un Puerto Rico, que todavía no ha podido, ni siquiera, izar aquella bandera tan parecida a la nuestra, que Martí quiso que nos acompañara en nuestra gesta heroica por la libertad? ¿Convertirnos en un Miami, con toda la repugnante podredumbre de esa sociedad? [...]¡Socialismo o Muerte!¡Patria o Muerte!444 440 Primera Declaración de la Habana. Disponível em: http://www.cubadebate.cu/especiales/2017/09/02/primera-declaracion-de-la-habana-el-derecho-a-la- libertad/#.W_Jv6-hKjIU. Acesso em: 18 jun. 2015. 441GUEVARA, Che. Discurso en la conmemoración del natalicio de José Martí. Disponível em: http://www.cubadebate.cu/especiales/2015/05/19/che-guevara-en-discurso-por-aniversario-de-marti-a- los-heroes-no-se-les-puede-convertir-en-estatuas/#.W_JunuhKjIU. Acesso em: 18 jun. 2015. 442 CASTRO, Fidel. Fidel y la Religión: conversaciones con Frei Betto. Siglo XXI Editores, 1998, p. 159. 443 Em 1990, a Revolução deparou-se com o fim dos Estados socialistas da Europa oriental, o fim dos subsídios de petróleo fornecidos pela URSS e a queda na importação de víveres pelos seus aliados comerciais. A ilha se encontrava em grave crise econômica e, para que o regime não perecesse, foi necessária a realização da abertura econômica do país, por meio de uma estratégia gradualista com forte condução do Estado. Algumas das consequências do período foram o acirramento do racionamento de energia, de água e de alimentos, a legalização do dólar e do trabalho autônomo, assim como a abertura a investimentos estrangeiros e ao turismo. Cf. GOTT, Richard. Op. cit., p. 321-334. 444 CASTRO, Fidel. Discurso pronunciado en la inauguración del IV Congreso del Partido Comunista de Cuba, efectuada en el teatro Heredia, Santiago de Cuba, el dia 10 de octubre de 1991. Disponível em: http://www.fidelcastro.cu/es/discursos/pronuncia-discurso-en-la-inauguracion-del-iv-congreso-del- partido-comunista-de-cuba. Acesso em: 18 jun. 2015. 142 Ainda hoje, o nacionalismo cubano do regime revolucionário é indissociável de uma postura anti-imperialista, vinculada pelos discursos oficiais às ideias de Martí. A apropriação que o regime da ilha fez do pensamento martiano encontra-se fortemente presente no imaginário político dos apoiadores do governo da ilha. É interessante que o “apóstolo” apareça em reflexões feitas dentro da ilha em 2015, após os acordos entre Cuba e Estados Unidos em direção à retomada de relações diplomáticas, durante a administração Barack Obama. Em artigo de Alina Martínez, publicado no órgão da Central de Trabalhadores de Cuba (CTC), comemorou-se a aproximação entre os dois países como uma vitória da resistência da ilha contra o imperialismo norte-americano. Adverteu-se, porém, que não se podia esquecer que os EUA tentariam de todas as maneiras impôr seu projeto de supremacia cultural e alterar o regime socialista. Recorreu-se, mais uma vez, à Martí: “Hoy más que nunca es válida aquella advertencia del Maestro sobre los hombres y pueblos que van por el mundo hundiendo el dedo en la carne ajena a ver si es blanda o si resiste: ‘Hay que poner la carne dura, de modo que eche afuera los dedos atrevidos’”445 Como afirmou Armando Hart, "el marxismo en cada país se entronca con un pensamiento"446; no caso cubano, com o pensamento martiano, que foi relido e apropriado no processo de construção de ideias originais que mesclam, entre outros, a obra do filósofo alemão com a do “apóstolo”. A construção de uma continuidade entre os objetivos e as ideias do herói nacional da ilha e a revolução de 1959, no caso, insere o regime revolucionário em uma “tradição” nacional de luta por soberania e liberdade, legitimando o mesmo através do recurso ao passado e à história. Mariel rechaçava a leitura de Martí realizada pelo governo revolucionário e, principalmente, a vinculação do martianismo ao socialismo. A Revolução se apresentava como perpetuadora do projeto martiano de soberania nacional e independência. De acordo com os discursos oficiais, a Revolução de 1959 seria continuação da Guerra dos Dez Anos 445 MARTÍNEZ, Alina. Martí: “...hay que vivir de sí y sudar la calentura”. Disponível em: http://www.trabajadores.cu/20150518/marti-hay-que-vivir-de-si-y-sudar-la-calentura/. Acesso em: 16 jun. 2015. 446 HART, Armando. La lección humana y trascendente de José Martí. Anuario del Centro de Estudios Martianos, n. 7, 1984. Citado por: CAÑIZARES CÁRDENAS, José Luis. José Martí y el marxismo: una reflexión necesaria. IV Conferencia Internacional "La obra de Carlos Marx y los desafíos del siglo XXI". Disponível em: https://www.nodo50.org/cubasigloXXI/congreso08/conf4_canizaresc.pdf. Acesso em: 18 jun. 2015. 143 (1868)447 e teria concluído, de fato, o processo de independência cubano iniciado no século XIX e pelo qual Martí morreu lutando. Mais do que criticar a leitura do pensamento martiano realizada pelo regime revolucionário, ataca-se diretamente a memória oficial construída e respaldada pelo mesmo, classificada por Valladares como “antihistória” no poema de abertura do número 8 da revista. A perspectiva da memória coletiva oficial e da própria historiografia cubana como construção duvidosa está fortemente presente em vários dos escritos publicados na edição. Carlos Victoria, no artigo Nota sobre una estrella que ilumina y mata, afirma que “no se puede confiar en la autencidad de las láminas. Los deseos trastornan las imagenes: las dotan de matices de claridad o sombra que en la realidad nunca tuvieron”448. Rosie M. Henken, em artigo que aborda a obra de Carlos Ripoll, historiador cubano exilado nos Estados Unidos, cita um trecho do livro José Martí, The United States and the Marxist Interpretation of Cuban History: In 1984 Orwell's character O'Brien explains a slogan of "The Party" on control of the past: "Who controls the past controls the future; who controls the present controls the past". Underlying the slogan is the conviction that history exists to be manipulated for party ends. In the case of Cuba, once in control of the present, the Castro regime took control of the past, and it has used that control, where Martí is concerned, to make him seem an advocate of its policies.449 Ripoll apontava para a manipulação da memória e da história por meio do poder político. Além de deslegitimar as leituras do passado realizadas pelo governo cubano e por aqueles que aderiram à Revolução, o historiador associava o regime a uma distopia totalitária, como forma de crítica ao governo cubano. Segundo Jacques Le Goff: [...] a memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. Tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da memória coletiva. [...] A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia. Mas a memória coletiva não é somente uma conquista, é também um instrumento e um objeto de poder. 450 447 Guerra civil comandada por Carlos Manuel de Céspedes, Manuel de Quesada, Antonio Maceo e Máximo Gómez, cujo propósito era romper com a dominação espanhola. A guerra de independência durou dez anos, até que foi derrotada pelos espanhóis. Anos depois, os propósitos independentistas foram retomados por José Martí e o Partido Revolucionário Cubano. 448 VICTORIA, Carlos. Nota sobre una estrella que ilumina y mata. Mariel, n. 8, 1985, p. 7. 449 RIPOLL, Carlos. Citado por HENKEN, Rosie. Ripoll y el Martí “marxista”. Mariel, n. 8, 1985, p. 38. 450 LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2003, p. 419-476. Disponível em: 144 Ao questionar as memórias da Revolução e sua identidade, Mariel se opõe e ataca, portanto, os discursos que a legitimam, se inserindo na disputa política a partir das figuras da cultura cubana que reivindica e resgata. Esse é o fio condutor de toda a seção Confluencias , porém se torna mais evidente, devido às menções diretas à memória e à história, na homenagem a José Martí. Já em artigo do professor cubano Oscar Fernández de la Vega, a vinculação do martianismo ao marxismo é entendida como “profanação”, atribuindo caráter sagrado a Martí, “mentira”, “engano” e “distorção feita pelos inimigos da liberdade”: Un régimen marxista puede apoyarse, total o parcialmente, en las teorias del citado judío alemán o de sus continuadores Engels y Lenin como de cualquiera de los revisionistas posteriores. Pero no en Martí. Un régimen económico- político-social marxista del todo o marxista a medias que pretenda justificarse y lance al mundo como plataforma fundamental el martismo, es un engano. [...] El martismo es una cosa y el marxismo es otra. Sigan los marxistas luchando por lo suyo, con escrúpulos o sin ellos, com diplomacia o con violencia, con pacifismo o com guerrillas...pero no con martismo, porque eso es uma profanación y una mentira. Martí fue un "revolucionário sin odio" (recuérdese un ensayo, con ese titulo, de Francisco Ichaso), que creyó en revoluciones com sentido positivo y constructivo cuando la evolución se detiene en estancamiento.Martí, pués, no fue un materialista frío de los que ven en cada hombre una tuerca o un poste; sino un ser de carne y hueso pero con un alma: afirmó haber "visto" el alma dos veces. Martí fue un demócrata que supo entender la afirmación que los Estados Unidos de América trajeron al mundo y también les cantó las cuarenta, y hasta las ochenta, cuando mensuró las fallas de la Democracia porque aquellos contemporáneos suyos se apartaban de las doctrinas que habían implantado Washington, Jefferson, Franklin, Lincoln y los demás...Martí no combatió sólo um imperialismo, que ya crecía muy amenazante sobre los pueblos de Hispano-América; Martí atacó a todos Ios imperialismos, lo mismo al que se anexaba territorios tan grandes con Tejas o Texas, que al que levantaba un território de intrusión en las tierras de Hidalgo, Morelos y Juárezo [...] A pesar del enemigo que nos odia y del incomprensivo que nos detesta, somos únicamente martistas. iCon t, no con equis! Siempre martistas...En Martí está todo lo que nos enaltece ("honrar, honra") y todo lo capaz de sublimarnos. Lo que nos libera y, nos redime, en fin.Todavía podemos salvarnos: con Martí. Martí siempre. ¡Siempre Martí!451 Assim como Fernández de la Vega, Mariel rechaçava o marxismo, compreendido como perpetuador da violência e do autoritarismo, entendia o bloco socialista como imperialista, e compreendia as ideias de José Martí como vinculadas à cultura política democrática, na qual a publicação se inseriria. A estratégia de utilizar ideias do “apóstolo” para ratificar as ideias da revista é frequente no número 8, bem como foi utilizada por todos aqueles que se consideraram martianos devido ao seu capital simbólico: http://ftp.editora.ufrn.br/bitstream/123456789/863/1/MEM%C3%93RIA.%20Hist%C3%B3ria%20e%20 mem%C3%B3ria.%20LE%20GOFF%2C%20Jacques.%202008.pdf. Acesso em: 19 out. 2018. 451 FERNÁNDEZ DE LA VEGA, Oscar. Siempre Martí. Mariel, n. 8, 1985, p. 19. 145 [...] los principales actores culturales y políticos de la historia cubana justificarán sus prácticas com exégesis del texto martiano y adornarán sus poderes com el ícono apostólico. Pierre Bourdieu lo afirma claramente em sus Meditaciones pascalianas: la principal inversión para cualquier poder es un buen capital simbólico. Martí há sido eso: el símbolo nacional más mercantilizado de la política cubana em el siglo XX, la moneda de cambio más activa en la guerra de los emblemas.452 Nessa guerra de emblemas, muitos dos textos publicados na revista abordaram Martí e sua obra de modo a enfocar os elementos presentes em seu pensamento que entravam em choque com a realidade política da ilha, como a defesa das liberdades políticas e individuais. Além de textos que refletem sobre o pensamento martiano, foram publicados poemas e trechos de obras do próprio “apóstolo”. Juntamente a uma seleção de poemas, veiculou-se fragmentos dos artigos de Martí El presidio político en Cuba, Carta al Director de El Partido Liberal - acrescida do título “La libertad política” pela revista -, e De Cabo Haitiano a Dos Ríos, trecho do diário de Martí durante a guerra de independência cubana. As ideias republicanas e as noções de cidadania do mártir da independência cubana foram frequentemente associadas à democracia norte-americana, como na crônica El gozoso gentio, de Luis Felipe Roca. Roca inseriu citações de obras do “apóstolo” em seu texto, conferindo legitimidade às suas ideias, e exaltou seu país-anfitrião como o mais livre na face da terra: Me ha dado vergüenza nombrarte mientras atravieso la Avenida Michigan, ahora oscura a pesar del mediodía. Siento culpabilidad al recordar tu vida y heroico suicidio, si puedo llamarlo así, rechazando la hondura y profundidad del hecho. Lo que renace en esta mañana es el hielo, no el fango: "Del fango de la calle quisiera hacerse, el miserable que vive sin libertad, la vestidura que le asienta. Los que no te tienen no deben hablar de tí, sino coquistarte”. ¡Conquistarte ! No, no quiero este sentimiento de culpa; deseo, aquí y ahora, destejer mi pasado, irme a la otra acera a disfrutar del gozoso gentío. [...] Un policía montado detiene el paso; observo los rostros de estos operadores de trenes, limpiacalles, camareros, banqueros, campesinos, profesionales, madres que empujan los coches de sus pequeños, recién nacidos; la juventud, de zapatos blancos o botas, gorra o pañuelos en los cabellos - la juventud de todas las razas del universo -, corre desenfrenadamente ante la nueva señal del policía, e invade el "Stadium Soldier-Field" para presenciar un partido de foot- ball. Sofocados llegamos, y ellos, con su gigantesca energía nerviosa, desaparecen en las puertas numeradas. Adentro, en otro plano, como una enfermedad colectiva, el grito humano nos da una manifestación catártica. No hay en la faz de la tierra un pueblo más libre que éste. Es terrible. "Terrible es, libertad, hablar de ti para el que no te tiene."453 452 ROJAS, Rafael. Op. cit., p. 151. 453 ROCA, Luis Felipe. El gozoso gentio. Mariel, n. 8, 1985, p. 11. 146 Discordava-se, portanto, dos discursos oficiais cubanos, fortemente centrados nos EUA como ameaça externa e na retórica anti-imperialista. De forma similar, em resenha do livro José Martí, The United States and the Marxist Interpretation of Cuban History, do historiador cubano exilado Carlos Ripoll, ressaltava-se a relevância do pensamento de Martí para as Américas. Criticava-se os “historiadores marxistas” e afirmava-se que a publicação da obra de Ripoll havia influenciado o presidente Reagan a citar o poeta como defensor dos princípios democráticos, ao colocar o nome de Radio Martí454 na emissora fundada em 1983. Ressaltamos que a atuação dos grupos de lobbying cubanos pode ter exercido maior influência na escolha do nome da emissora. A resenha citava a embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, entre 1981 e 1985, Jeane J. Kirkpatrick455, que também incluía Martí na “tradição democrática” e acusava o governo cubano de distorcer suas ideias para que o “apóstolo” se assemelhasse a um defensor do socialismo: Antes de la revolución cubana, pocos norteamericanos sabiamos de Martí, pero el régimen de Castro, con la ayuda de sus amigos en este país, inició una campana pará presentar a Martí como un antiimperialista y como un precursor de la ideología comunista. Al presentar en inglés los pensamientos de Martí, y al denunciar las tergiversaciones del marxismo leninismo, Carlos Ripoll le ha hecho un gran servicio a los Estados Unidos. Después de la publicación de su libro José Martí: Thoughts/Pensamientos - a Bilingual Anthology, importantes figuras de la presente administración, incluyendo al propio presidente Reagan, empezaron a citar a Martí como un defensor de los principios democráticos y luego, cuando se decidió trasmitir noticias a Cuba, se le puso a la radioemisora el nombre de "Radio Martí". El nuevo libro del profesor Ripoll, José Martí, The United States and the Marxist Interpretation of Cuban History (New Brunswick, U.S.A. and London, U.K.; Transaction Books, 1984) analiza con el mayor acierto los temas mencionados en el título: las ideas de Martí, sus juicios sobre la democracia norteamericana y las manipulaciones de los historiadores marxistas. La embajadora Jeane J. Kirkpatrick ha dicho con justicia sobre este libro: “Professor Ripoll's book is a valiant and well documented defense of Jose Martí, a champion of democracy and liberty in this hemisphere. Jose Marti's aspirations for a just and progressive society are often distorted by enemies of freedom to make him appear a forerunner of ideologies alien to human values and rights. Carlos Ripoll's book clarifies the issues; illuminates Martí’s commitments and places him squarely in the democratic tradition, the only tradition to which he belongs”456 454 Estação de rádio com base em Miami, fundada em 1983 e financiada pelo governo dos Estados Unidos através da Broadcasting Board of Governors (BBG). Visa “oferecer um meio alternativo de informações à população cubana” e “apoiar a liberdade e a democracia”. O projeto de lei foi aprovado no Congresso norte- americano com o apoio da administração Reagan, da Cuban American National Foundation e de seu fundador Jorge Mas Canosa, nomeado por Reagan como membro da Comissão de Transmissão para Cuba. Em 1990, adicionou-se a TV Martí ao projeto. A estação adentra o espaço rádio-eletrônico de Cuba e veicula mensagens desestabilizadoras. 455 Conselheira de políticas externas durante a administração Reagan e primeira mulher estadunidense a servir como embaixadora nas Nações Unidas. Conhecida por posturas neoconservadoras, anticomunistas e por sua tolerância com regimes autoritários. Cf. Encyclopædia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Jeane-Kirkpatrick. Acesso em: 11 nov. 2018. 456 HENKEN, Rosie. Ripoll y el Martí “marxista”. Mariel, n. 8, 1985. p. 38. 147 A revista, desse modo, interpretou Martí como um defensor dos princípios democráticos, o associando ao seu país-anfitrião e à acepção liberal de liberdade. É importante ressaltar que o Martí de Mariel é, fundamentalmente, o Martí exilado. A experiência exílica e os “males da ausência” provocados pelo desterro, como conflitos e crises de identidade, deslocamento e inadequação, nostalgia, tristeza e ressentimento são temas caros nas narrativas dos marielistas e também estão presentes nas obras do herói nacional cubano, que, em 1871, exilou-se na Espanha e, posteriormente, nos Estados Unidos. Dessa maneira, recorre-se, frequentemente, à Martí para se refletir sobre essa experiência. Segundo Reinaldo Arenas: Los cubanos, en nuestro quisquilloso afán contradictorio, nos hemos inventado toda una galería de innumerables "Marties". Así, contamos naturalmente con un Martí Apóstol, con un Martí romántico, con un Martí modernista, con un Martí idealista, con un Martí realista, con un Martí antiimperialista, con un Martí casto y con un Martí erótico, con un Martí ateo, con un Martí católico, tenemos hasta un Martí "autor intelectual del asalto al Cuartel Moncada", y hasta un Martí marxista, precursos nada menos que del Partido Comunista de Cuba...Ante tal variedad, casi se sienten deseos de rogar al público que pase y escoja el ejemplar que mejor le convenga. Y de esta manera todos quedaríamos satisfechos...En realidad pocos personajes de nuestra historia (quizás ningún otro) han sido interpretados, para el provecho de cada cual, de tan distinta y contradictoria forma. Sin embargo, no muchos se han detenido a estudiar (comprender) el Martí desgarrado, el Martí hombre solitario y escéptico, espiritualmente desesperado, a un paso del suicidio, autor de su obra más cercana a nosotros: Martí, poeta en el exilio, en un paisaje geográfica y espiritualmente extraño. [...] En la poesía cubana del siglo XIX Martí representa su culminación. Su vida en soledad, destierro y lucha, representan también la culminación de un desgarramiento, de una fatalidad, de un dolor nacional e íntimo que sólo encuentra en el aullido desesperado del poema consuelo para seguir aullando.457 Aqueles que se exilaram após a Revolução de 1959 foram amplamente representados pelo regime cubano como traidores da pátria, sem compromisso social e político com Cuba. As divisões entre os “de dentro” e os “de fora” da ilha ocorreram em Cuba e em parcela da comunidade de exilados. Muitos dos que deixaram Cuba foram excluídos dos cânones literários oficiais. Em relação aos marielistas, como já mencionado, a rejeição e a campanha de estigmatização foram ainda mais intensas. Dessa maneira, enfatizar o exílio do maior herói nacional de Cuba era, também, uma forma de legitimar os discursos e o lugar social e político dos “de fora” da ilha e da própria geração de Mariel. Como abordado, o reconhecimento social e intelectual dos marielistas era um dos objetivos principais do projeto identitário da geração de Mariel, e entendemos que a figura de Martí é apropriada na revista, também, com essa finalidade. De acordo com 457 ARENAS, Reinaldo. Desgarramiento y fatalidad en la poesia cubana. Mariel, n. 6, 1984, p. 23. 148 Julio Ramos, as narrativas de exílio de Martí projetam constantemente uma narrativa nacionalista: Resto, simulacro, descontinuidade. Sobre a experiência do fluxo migratório, a escrita martiana impõe uma economia do sujeito, hierarquizando os lugares – o aqui e o lá – numa espécie de topografia simbólica que torna possível a identificação do sujeito. Nessa topografia, o itinerário da viagem registra o processo de uma perda, de uma desintegração. O que parte perde e corre o risco de, em contato com a terra alheia, de se converter em eco, em resto, em simulacro ou insignificante. O emigrante é um portador de vestígios. Como a outra face da insistente perda da qual o poema trata, no outro lado do mar se constrói a plenitude, a prioridade, a estabilidade da “minha terra”; ou seja, a essência extraviada pelo sujeito migrante. Ligada inelutavelmente a uma imaginação telúrica e territorializadora, essa essência aparece como o próprio centro da identidade, constituindo a região capital, digamos, tanto dos valores que regulam as posições e a circulação do sentido no texto, como do mapa simbólico que fixa seu centro e sua periferia, o interior, as fronteiras e o outro lado do território nacional. O discurso sobre a viagem, como perda e desarraigo, projeta insistentemente a articulação de uma retórica nacionalista, que, por outro lado, não cessa de registrar a espessura se sua aporia.458 O exílio e o sofrimento, assim, eram fatores que conferiam unidade e continuidade entre o herói nacional e a geração de Mariel, como defende Arenas em Martí ante el bosque encantado, no número oito da revista: Al parecer el hombre no ha nacido para aceptar la realidad, o por lo menos la realidad, o las realidades más evidentes, que son casi siempre las más siniestras. En el caso de José Martí, cuya trascendencia e imagen supera lo puramenté literario, siendo ya para casi todos los cubanos un mito y una obsesión, esa realidad evidente y terrible fue el destierro y por lo tanto su anhelo de regreso a una patria redimida. De ahí la contemporaneidad de este hombre para todos los cubanos: él es símbolo y fe de lo más sublime - la necesidad de libertad - y espejo de lo más terrible - el destierro -. El es la pasión y la contradicción, la acción y el éxtasis, la soledad y el amor, el escepticismo y la fe, el sucidio y la vida. El es - y ahí radica la clave de que nos resulte imprescindible - nosotros mismos. A partir del destierro Martí deja – dejamos - lo que nos (le) es más imprescindible y jamás podremos trasladar: la complicidad de una circunstancia que es nuestra propia vida. [...] nosotros, aquéllos, ahora acá, ahora éstos, también somos criaturas exclusivas, es decir álgo irrepetible, como todo ser humano, formado de una memoria y de una nostalgia. Y esa memoria y esa nostalgía no es solamente de lugares y gentes con quienes convivimos: esa nostalgia es por eso que quedó allá y somos nosotros mismos. […] En Mártí - en nosotros -, al principio esa llamada del bosque encantado, esas voces, se manifiestan leves, sutiles, casi imperceptibles. Es como una enfermedad que, por atroz, necesitase de uma taimada y lenta incubación. Se invoca entonces, casi con furia, una prisión; luego, un arroyo, una playa, un hijo. Así, lentamente, al paso del tiempo, el bosque sigue exhalando sus ineludibles vaharadas. Ahora ya son palmares, um carro de hojas verdes, mares espumosos, inaccesibles montanas; todo aún más desesperadamente amado, porque sabemos que el tirano mancilla y se apodera 458 RAMOS, Julio. Desencontros da modernidade na América Latina. Literatura e política no século 19. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 291. 149 de nuestro paisaje no solamente destruyéndolo, sino también impidiéndonos regresar.459 Através do jogo de palavras que alterna a terceira pessoa do singular com a primeira do plural, forja-se uma conexão entre Martí e a geração de Mariel a partir do exílio e do nacionalismo. O exílio é compreendido como forma “tradicional” de oposição a uma sociedade autoritária e como tema pertinente a todos os cubanos. Utilizando-se do jogo de pronomes, Arenas inclui Martí como crítico do governo revolucionário, personificado na figura do tirano. O escritor cubano exilado, Cesar Leante utiliza-se da mesma figura da tirania para criticar o regime revolucionário cubano a partir das ideias de Martí, de forma que não só rechaça o autoritarismo do regime, como questiona sua legitimidade e estabelece relações de continuidade entre a Revolução de 1959 e a administração colonial: No hay ensañamiento antiespañol en el independentismo cubano, sino airado levantamiento contra la tiranía, que en el concepto martiano "es una misma en sus varias formas; aun cuando se vista en algunas de ellas de nombres hermosos y de hechos grandes". Por eso “Estimo a quien de un revés Echa por tierra. a un tirano; Lo estimo, si es un cubano; Lo estimo, si aragonés.”460 Além de questionar a retórica antiimperialista do regime revolucionário cubano frente aos Estados Unidos e os discursos oficiais que reivindicavam para si a herança independentista de Martí, Leante, como vários intelectuais que publicaram nessa edição da revista, legitima suas ideias com citações do próprio “apóstolo”. No contexto das relações entre a administração Reagan e Cuba, podemos interpretar o texto de Leante como uma defesa do endurecimento das políticas externas estadunidenses em relação à ilha, influenciadas por grupos de lobbying como a Cuban American National Foundation. Ressaltamos que parcela da produção intelectual cubana do século XIX - poemas sobre o exílio de José Maria Heredía, Gertrudis Gómez de Avellaneda, Luisa Pérez de Zambrana e do próprio Martí - já havia sido retomada na seção Confluencias no número seis da revista, sob o título de Desgarramiento y fatalidad en la poesía cubana. Essa produção foi lida como contribuinte da construção de um sentido e consciência de nacionalidade: 459 ARENAS, Reinaldo. Martí ante el bosque encantado. Mariel, n. 8, 1985, p. 4. Itálicos nossos e grifos do autor. 460 LEANTE, Cesar. Martí en España. Mariel, n. 8, 1985, p. 16. 150 Poesía es lo que trasciende, lo que nos agrupa, identifica y señala en forma permanente. Más que en los voluminosos libros de texto, la verdadera historia del hombre, de los pueblos, de la humanidad, la recoge y resume en forma estricta el poema. Un pueblo, un país, no existe como tal en tanto que carezca de poetas que lo definan. La poesía es la profundidad, la secreta conciencia, el alma de un pueblo. Podemos afirmar que los pueblos que hayan logrado desarrollar el lenguaje de la poesía, que es lenguaje de la belleza y el desgarramiento, no el del ditirambo y el canto circunstancial, han logrado un sitio en la eternidad; pues han alcanzado la dicha (la fatalidad) de perdurar, de quedar como espíritu, como conciencia, como sentido de nacionalidad, aun cuando momentáneamente o indefinidamente parezca a veces que dichos pueblos han sucumbido...Ese aliento superior que es el poema, secreta e incesantemente nos nutre, exalta - y engrandece, alentándonos, dignificándonos, reconstruyéndonos. El poema es lo que nos da una dimensión de futuro, lo que justifica que hayamos tenido un pasado. Poema es lo que queda después del derrumbe, más allá del incendio; resistencia al golpe, reto al horror, triunfo de la pasión, la magia y la memoria, por encima y a pesar del estruendo, del cacareo, de la propaganda y sus estímulos, del avance de las hordas en (o desen) capuchadas.461 Desse modo, entendemos que os discursos sobre o exílio, a literatura do século XIX e a figura de José Martí exerceram uma função cara em Mariel para a construção de uma retórica nacionalista, que legitimou os intelectuais da revista e os inseriram dentro de discursos sobre a nação cubana. Através da projeção do presente no passado, localizava-se visões muito semelhantes às da revista acerca do autoritarismo e da função da literatura nos poetas românticos do século XIX: Nuestra tradición encuentra en estos poetas románticos de primera magnitud una vía de expresión adecuada. [...] Qué es en fin para un romántico el sentido de la poesía? La trascendencia absoluta; fuego abrasador ante el cual sólo se encuentra consulo y fin. Búsqueda de una plenitud donde el poeta, oficiando de pequeño dios o ángel caído, logra finalmente expresarse; es decir, ser; encontrarse. A través, por y para la poesía, vivirá el hombre romántico. [...] Para el romántico la poesía es la máxima (y la única) posibilidad de sobervivirse. Lo único, en última instancia, que cubre de prestigio, que imanta con un sentido superior la vida. Siendo así, viviendo por y para esa ansia de fundirse, de interpretar lo trascendente, para el romántico, los trabajos que el vivir cotidiano impone son un fastidio, y la opresión algo intolerable, por ser lógicamente lo opuesto por esencia a búsqueda de libertad: a especulación o a creación. [...]462 Em Mariel, a tradição cubana é de sofrimento, fatalidade, autoritarismo, exílio e busca por liberdade. A linguagem do sofrimento exerceu um papel fundamental no estabelecimento de relações com o século XIX, ao mesmo tempo que funcionou como forma de crítica ao regime revolucionário cubano e às suas experiências na ilha. Partindo da compreensão da invenção das tradições, como proposto por Eric Hobsbawm463, 461 ARENAS, Reinaldo. Desgarramiento y fatalidad en la poesia cubana. Mariel, n. 6, 1984, p. 22. 462 Ibid, p. 22. Itálicos nossos. 463 HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org). A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, p. 9. 151 entendemos que além de estabelecer uma continuidade com o passado, os marielistas apreciavam valores como o individualismo e a autenticidade, em contraposição às ideias de “homem novo”. 3.2 – José Lezama Lima, Virgilio Piñera e o “insílio” cubano Ainda em 1961, José Lezama Lima afirmou que “no es lo mismo estar fuera de Cuba, que la conducta que uno se ve obligado a seguir cuando estamos aquí, metidos en el horno. Existen los cubanos que sufren fuera, y los que sufren igualmente, quizás más, estando dentro de la quemazón y la pavorosa inquietud de un destino incierto”464. As situações de isolamento e exclusão vividas por intelectuais que permaneceram em Cuba produzindo obras que não se adequavam às diretrizes culturais do regime revolucionário sugerem que aqueles que não foram para o exílio experenciaram ostracismo e deslocamento dentro do território insular. O insílio, ou exílio interior, marcou a trajetória intelectual daqueles que optaram pelo silenciamento (sempre relativo), em relação ao exílio (sempre total).465 Principalmente entre 1971 e 1976, durante o auge do quinquenio gris, diversos poetas não tiveram nenhuma obra publicada, como Antón Arrufat, Miguel Barnet, Félix Contreras, Belkis Cuza Malé, Manuel Díaz Martínez, Fina García Marruz, José Lezama Lima, Nancy Morejón, Carilda Oliver Labra, Heberto Padilla, Delfín Prats, Virgilio Piñera, Cintio Vitier, entre muitos outros. Em sua maioria, também lhes foi vetada a publicação em revistas culturais cubanas. Além disso, a publicação de livros ou textos fora da ilha podia ser considerada um ato de diversionismo ideológico.466 Dentre esses, José Lezama Lima e Virgilio Piñera foram os mais homenageados, referenciados e admirados por Mariel, que os considerava exemplos de integridade intelectual durante o insílio. De acordo com Reinaldo Arenas: Virgilio e Lezama tinham muitas coisas diferentes, mas havia algo que os unia: era sua honestidade intelectual. Nenhum dos dois era capaz de dar preferência a um livro por oportunismo político ou por covardia, e sempre se negaram a fazer propaganda do regime; foram, principalmente, honestos com sua obra, honestos com eles mesmos. 464 Citado por CABRERA INFANTE, Guillermo. Mea Cuba. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 480. 465 INGENSCHAY, Dieter. Exilio, insilio y diáspora. La literatura cubana en la época de las literaturas sin residencia fija, 2010. Ángulo Recto. Revista de estudios sobre la ciudad como espacio plural, vol. 2, núm. 1. Disponível em: http://www.ucm.es/info/angulo/volumen/Volumen02-1/articulos02.htm. Acesso em 20 ago. 2014 466 ARANGO, Arturo. Op. cit., p. 23. 152 Lezama Lima e Piñera integraram diversos órgãos culturais do regime cubano. Foram escritores de trajetórias intelectuais ambíguas em sua relação com a Revolução, cujas biografias e memórias foram alvos de muitas polêmicas e disputas – especialmente o primeiro. De acordo com Mariel, ambos, na ilha, nunca teriam deixado de “contribuir a la cultura cubana, mientras otros la desprestigiaban con su oportunismo y mediocridad”467. A publicação rechaçava a intelectualidade orgânica do regime, pois a considerava pouco crítica ao governo cubano. Para a revista, Lezama e Piñera representavam resistências internas contra o autoritarismo do regime, como demonstra o seguinte trecho da autobiografia de Arenas: Nossa história é uma história de traições, alistamentos, deserções, conspirações, motins, golpes de Estado; tudo dominado pela infinita ambição, abuso, desespero, orgulho e inveja. Até Cristóvão Colombo, em sua terceira viagem, depois de descobrir toda a América, voltou para a Espanha acorrentado. Duas atitudes, duas personalidades parecem sempre estar em conflito na nossa história: a dos rebeldes constantes, amantes da liberdade e, portanto, da criação e da experiência, e a dos oportunistas e demagogos, amantes do poder e, portanto, praticantes do dogma, do crime e das ambições mais mesquinhas. Essas atitudes têm se repetido ao longo do tempo: o general Tacão contra Heredia, Martínez Campos contra José Martí, Fidel Castro contra Lezama Lima ou Virgilio Pinera; sempre a mesma retórica, sempre os mesmos discursos, sempre o estrondo e o aparato militar asfixiando o ritmo da poesia ou da vida.468 Arenas compreendia a história das Américas a partir da dicotomia liberdade/opressão. Localizava Lezama Lima e Piñera como representantes da criação e da transgressão frente ao autoritarismo e, portanto, como representantes de toda a história do continente. Ainda que não possamos afirmar que a compreensão de Arenas fosse compartilhada por todos os editores de Mariel, a revista atribuía um lugar de relevância para as contribuições desses intelectuais para a cultura cubana. A publicação disputou as memórias dos escritores, reivindicou suas obras para discutir a identidade nacional, criticar o regime revolucionário cubano e para se legitimar intelectualmente, como abordaremos mais adiante. Além disso, ambos os escritores eram considerados pela publicação como representantes de uma “sensibilidade homossexual” na cultura cubana, juntamente com outros artistas. 3.2.1 – José Lezama Lima e a autenticidade intelectual José Lezama Lima era considerado um dos maiores intelectuais cubanos por Mariel. A publicação o interpretava como um grande poeta e professor que, na história 467 BLANC, Giulio V. Los cubanos de Paris. Mariel, n. 5, 1984, p. 29. 468 ARENAS, Reinaldo. op. cit., p. 120. 153 insular, era comparável somente ao caso de José Martí. Lezama era considerado um dos “profetas da cubanidad”. Segundo Juan Abreu, diretor da revista: “Lezama, el más grande escritor cubano (junto a Martí) de todos los tiempos, sus contemporáneos lo catalogaban de ‘gordo maricón’. Para mí esto es incomprensible. Es como si la gente no soportara la grandeza, como si no la resistieran”469. De acordo com a publicação, um dos principais motivos para a grandeza do poeta, além de não ter comprometido sua obra durante o “insílio”, era sua autenticidade, exemplo de conduta intelectual para muitos dos marielistas: Pero, ¿cómo expresarse? ¿De qué manera y en qué oportunidade? [...] Y sobre toda, ¿cómo hacer que nuestra expresión perdure, como lograr expresar nuestra verdadera autenticidad? [...] ¿Cómo inventarnos un verdadeiro camino que nos conduzca al verdadero sitio? [...] El caso de José Lezama Lima, en Cuba, también sirve para contestar esas interrogaciones. Y otras más. Pues en Lezama tenemos a uno de nuestros más auténticos ejemplos de áudacia y heroísmo intelectuales. Y este último detalle es, quizá, el primero que debe señalársele a un creador de su dimensión y de su situación geográfica. El heroismo intelectual se ha manifestado aquí yendo en contra de todos los engranajes asfixiantes y de los que dirigen esos engranajes, de los encapuchadas de siempre que siempre rechazarán toda innovación creadora. La actitud de Lezama ante la vida y el arte (que es siempre una misma cosa) solicita, imperiosamente, para definirla, del sobrecogedor versiculo biblico: voz que clama en el desierto.470 O poeta representava o intelectual que produzia uma obra universal, de longa durabilidade, apesar das circunstâncias sociais e políticas. Suas propostas estéticas eram consideradas originais, imanadas de sua individualidade, de modo que não estabeleciam vínculo com nenhuma vertente ligada a conjunturas imediatas. Para os marielistas, Lezama representava uma resistência às diretrizes culturais do regime revolucionário cubano, especialmente na década de 1970, quando se demandava do artista um compromisso com a realidade social e política da ilha e as necessidades da Revolução, favorecendo-se obras do realismo socialista. Na perspectiva de Reinaldo Arenas, o trabalho do poeta seria realizar uma obra apesar de sua época: Y por eso su obra es el mejor reconocimiento a su actitud. intelectual: contra la modorra de los débiles que tratan de justificar sus esterilidades apoyándose en las miserias de su época, está la obra del poeta, del creador, que escribe, sencillamente, por una necesidad inapresable, que escribe, sencillamente, por un llamado imperioso e inexcusable. En eso ha consistido siempre la labor del poeta: hacer una obra perdurable a pesar de su época. Los otros, los que tienen que esperar el cambio social, o el relevo de las tribunas, bien pueden seguir esperando, nadie espera por ellos.471 469 MORGADO, Marcia. Encuesta: El pintor en el exilio. Mariel, n. 6, 1984, p. 27. 470 ARENAS, Reinaldo. El reino de la imagen. Mariel, n. 1, 1983, p. 20. 471 Ibid, p. 20. 154 Em correspondência do colaborador de Mariel, Jesús J. Barquet, para Lezama, em agosto de 1975, nota-se o tom de admiração de seus pupilos e a novidade que o lançamento de sua obra Paradiso representou para esses jovens: Ahora será más correcta la voz cuando le llame Maestro. Ahora, a pleno capítulo VI de Paradiso, el término de Maestro ya me está revelando su plenitud, su necesario concebir a Virgilio mostrando uno a uno los círculos del Infierno. Quizás a la larga - cuando acabe esta primera lectura de Paradiso -, esta sea la sensación que me quede y que me resuma un tanto el título de Paradiso: de su mano sigo descubriendo nuevos y viejos círculos que, gracias a usted, los intuyo concéntricos alrededor de mí. [...] Como esos objetos que se fijan cual derroteros en medio de espacios infinitos (faros, boyas), o como esos momentos que por su significación se transforman en puntos imprescindibles de referencia (antes de Cristo, después de Cristo), así Paradiso - creo - se va a insertar en mi vida. [...] J. Barquet. agosto 75. Año de la Primera Lectura de Paradiso.472 Escrito entre as décadas de 1940 e 1960, a obra de estética barroca conta a história de José Cemí, da infância à vida adulta: a habilidade com a poesia, a infância escolar e as descobertas sexuais – marcadas por passagens homoeróticas. A publicação de Paradiso, em 1966, foi um marco nas disputas do que o crítico literário Enrico Mario Santí chamou de "a invenção de Lezama Lima"473 e sua institucionalização como "O Poeta" da literatura cubana. Segundo Francy Moreno474, um dos textos mais conhecidos dessas disputas é Para llegar a Lezama, que Julio Cortázar escreveu em fins da década de 1960. O argentino ressaltava os erros na escrita do cubano e afirmava que era incontroverso o fato de que "Lezama parezca decidido a no escribir jamás correctamente un nombre propio inglés, francés o ruso, y de que sus citas en idiomas extranjeros estén consteladas de fantasías ortográficas".475 O discurso erudito da obra, porém nutrido de citações equivocadas, erros gramaticais e até ortográficos fez com que existissem várias “versões” de Paradiso. Tanto Cintio Vitier como Julio Cortázar quiseram editar suas próprias versões "corrigidas" do livro. Em 1968, Carlos Monsivais e Julio Cortázar lançaram uma "edição revisada" no México, editada pela Biblioteca Era, na qual se basearam muitas das traduções e reproduções da obra. Posteriormente, com a organização do Fondo Lezama Lima na Biblioteca José Martí de La Habana e o descobrimento de manuscritos da obra, Cintio 472 El espacio gnóstico americano: archivo de José Lezama Lima. Transcripción, selección, prólogo y notas de Iván González Cruz. Universidad Politécnica de Valencia, p. 282-288. 473 "La invención de Lezama Lima", artigo publicado na revista Vuelta, num. 12, mayo, 1985, p. 45-52. 474 MORENO, Francy. La invención de una cultura literaria: Sur y Orígenes. Dos revistas latinoamericanas del siglo XX. 2009. Dissertação (mestrado) - Facultad de Filosofía y Letras, Universidad Nacional Autonoma de Mexico (UNAM), Mexico, 2009, p. 50. 475 CORTÁZAR, Julio. La vuelta al día en ochenta mundos. México: Siglo XXI Editores, 2005, p. 50. 155 Vitier lançou sua edição crítica do texto.476 Críticos literários como Enrico Mario Santí afirmaram que esses erros tentaram dar forma a uma visão particular da tradição europeia, reivindicando uma posição marginal na cultura ocidental.477 Reinaldo Arenas compreendia a publicação da obra como um “acontecimento heroico do ponto de vista literário”: “Acho que nunca se publicou em Cuba um romance tão violentamente homossexual, tão extraordinariamente complexo e rico em imagens, tão cubano, tão latino-americano, crioula e, ao mesmo tempo tão estranho”.478 Assim como Arenas, muitos dos escritores que colaboraram em Mariel entendiam que as narrativas de Lezama Lima continham as essências da cultura cubana. Se a homossexualidade havia sido excluída dos discursos oficiais sobre a nação cubana, suas obras o contradiziam. Segundo Francy Moreno, o poeta foi um intelectual que visou intervir diretamente no espaço público, de maneira independente dos poderes oficiais. Sua escrita foi, diversas vezes, classificada como obscura e hermética, tecida ao redor da ideia de que “só o difícil é estimulante”. A partir do estabelecimento de relações de analogia e recorrendo constantemente a alegorias, o escritor manifestou sua intenção de, por meio de projetos editoriais, constituir bases simbólicas para um continente no qual, em sua perspectiva, não haviam condições favoráveis para o desenvolvimento das artes e da literatura. As revistas Verbum, Nadie Parecía, Espuela de Plata e Orígenes pretenderam organizar, de acordo com a tradição humanista renascentista, o “caos da condição cubana”.479 Nessa estética do difícil, que buscava criar algo mais profundo, incidiu a intenção de inventar um espaço poético e o converter em “imagem”, em “origem”, em “centro de irradiações” que resguardasse da decomposição do meio político cubano da época e do sentimento de frustração compartilhado pelos intelectuais dos anos 1930 e 1940. Visava, igualmente, defender a “cidade letrada” das mudanças nas funções do intelectual e do escritor, que reduziam a “aura” que rodeara a escrita literária e a cultura de elite durante o século XIX e início do XX.480 476 MORENO, Francy. La invención de una cultura literaria: Sur y Orígenes. Dos revistas latinoamericanas del siglo XX. 2009. Dissertação (mestrado) - Facultad de Filosofía y Letras, Universidad Nacional Autonoma de Mexico (UNAM), Mexico, 2009. 477 Ver: MARIO SANTÍ, Enrico. Parridiso. MNL, vol. 94, n. 2, Hispanic Issue, marzo, 1979. Disponível em: www.jstor.org/stable/2906750. Acesso em: 14 ago. 2015. 478 ARENAS, Reinaldo. op. cit., 2009, p. 113. 479 MORENO, Francy. Op. cit. 480 Ibid. 156 A obra de Lezama pretendia recriar uma “tradição, construir o “nacional” a partir do simbólico. O eixo de sua aposta estética era a concatenação de imagens que sugeriam um sentido ao invés de explicitá-lo, articulando os conceitos de “imagem” e metáfora. O escritor nutria suas imagens de fontes circunscritas que, em sua concepção, eram as raízes da “condição cubana”, como autores e artistas do humanismo renascentista, as tradições hispânica e cristã, e uma série de releituras do simbolismo francês e seus herdeiros.481 Seu estilo, em autenticidade, é compreendido pela revista a partir de um paralelo com José Martí, considerado precursor do modernismo hispano-americano: Hay una enorme diferencia entre los poetas y escritores que "se hacen de un estilo" y aquellos que sencillamente poseen un estilo. Estos, en los que su estilo es un modo de pensar y ser, de interpretar y descubrir, son muy raros hoy en día, y, sin embargo, son los únicos que todo cuanto hagan ¡resalta inmediatamente por su autenticidad. Los otros logran a veces párrafos brillantes, pero en algún momento se descubren las costuras, aparecen los remiendos propios del que no posee tela suficiente y toma de la ajena. En la literatura cubana, en este siglo, el caso de José Lezama Lima como estilista es solamente comparable al caso de José Martí en el siglo XIX. En los dos, el sello, de la autenticidad, de lo personal-universal, de la visión propia y transcendental, impregna todos sus escritos. [...] Profundidad - originalidad deslumbrante - es lo que aparece en los párrafos citados. Desde luego, muchos puntos pueden ser tratados partiendo de esta obra: la interpretacion de una 'sociedad determinada, la visión de una época, pero hay que decir que esta obra, independientemente de esos valores, es hermosa y fundamental, y uno puede leerla 'y disfrutarla sin necesidad de replegarse a los mezquinos cánones a los que el tiempo siempre quiere someternos, confundiéndonos. [...] Vivimos en una época donde son muchos los fabricantes, pero pocos los creadores. Cuando la obra de un creador cae em manos de un manufacturero, éste trata enseguida de someterla a las leyes de su construcción; y si no se ajusta a esas leyes, la ataca o la rechaza, la evade o trata de reducirla a su baja dimensión interpretativa. Lo que aparece en Paradiso aparece, sencillamente, porque también está en la vida. No hay una intención moralizante a través de un pensamento religioso; no hay una crítica deliberada a la corrupción de una época. La corrupción o la moral, para un poeta, no creo que tengan mucha relación con la cópula establecida entre dos cuerpos que se desean. "Para mi, com la mayor sencillez", nos ha dicho Lezama, "el cuerpo humano es una de las más hermosas formas logradas. La cópula es el más apasionado de los diálogos y, desde luego; una forma, un hecho irrecusable. La cópula no es más que el apoyo de la fuerza frente al horror vacui". Entonces surgen las muletillas que se esconden trás las palabras conocidas: hermetismo, oscuridad, o la mezquina teoría de que en la novelística cubana predomina un solo personaje, la palabra. Argumentos manejados por manufactureros y traficantes que no tienen la molestia o la dignidad de callarse ante lo que no entienden y seguir fabricando, según el formulario, sus fugaces engendros.482 Dessa maneira, Mariel insere Lezama Lima em uma tradição nacionalista cubana, a partir da referência a José Martí. A revista valorizava a individualidade e a originalidade na produção intelectual, e rechaçava a utilização de termos como “obscuro” e “hermético” 481 Ibid. 482 ARENAS, Reinaldo. El reino de la imagen. Mariel, n. 1, 1983, p. 21. 157 para caracterizar as obras do escritor, bem como a condenação ou “interpretação equivocada” das passagens homoeróticas de sua obra. Se todos aqueles intelectuais homenageados pela publicação “confluíam” até os marielistas, Lezama se destacava, visto que foi o escritor que escreveu o ensaio intitulado Confluencias, que dá nome à seção da revista, e no qual o poeta narrava seu primeiro encontro com a “imagem”: De niño esperaba siempre la noche con innegable terror. Lo era, desde luego, para mí, el cuarto que no se abre, el baúl con la llave perdida, el espejo donde alguien se sitúa a nuestro lado, una forma de tentación. No era la provocación para una aventura, ni la fascinación en la línea del horizonte. No iba a horcajadas sobre la noche cuando se retiraba, ni tenía que reconstruir para el otro sueño diurno, los fragmentos míos que la piel de la noche había dejado incomunicados sobre la cama. La inmensa piel de la noche me dejaba innumerables sentidos para innumerables comprobaciones. [...] La noche se ha reducido a un punto, que va creciendo de nuevo hasta volver a ser la noche. La reducción - que compruebo - es una mano. La situación de la mano dentro de la noche, me da un tiempo. El tiempo donde eso puede ocurrir. La noche era para mí el territorio donde se podía reconocer la mano. Yo me decía, no puede estar como en espera la mano, no necesita de mi comprobación. Y una voz débil, que debía estar muy alejada de unos pequeños dientes de zorrito, me decía: estira tu mano y verás como allí está la noche y su mano desconocida. Desconocida porque nunca veía un cuerpo detrás de ella. [...] Un miedo escondido dentro de otro. Miedo porque está la mano y posible miedo por su ausencia. Ahí estaba ya el devenir y el arquetipo, la vida y la literatura, el río heraclitano y la unidad parmenídea. [...] ¿Qué es la sobrenaturaleza? La penetración de la imagen en la naturaleza engendra la sobrenaturaleza. En esa dimensión no me canso en repetir la frase de Pascal que fue una revelación para mí, "como la verdadera naturaleza se ha perdido, todo puede ser naturaleza"; la terrible fuerza afirmativa de esa frase, me decidió a colocar la imagen en el sitio de la naturaleza perdida de esa manera frente al determinismo de la naturaleza, el hombre responde con el total arbitrio de la imagen. Y frente al pesimismo de la naturaleza perdida, la invencible alegría en el hombre de la imagen reconstruida. [...] El horror vacui es el miedo a quedarse sin imágenes, en las épocas en que predominaba la finitud combinatoria y pesimitas de corpúsculos sobre la ruptura espiraloide del demiurgo. En numerosas leyendas medioevales aparece el espejo que no devuelve, la imagen del cuerpo dañada o demoníaca, ya que cuando el espejo no habla el demonio enseña su lengua saburrosa. [...] Dichosos los efímeros que podemos contemplar el movimiento como imagen de la eternidad y seguir absortos la parábola de la flecha hasta su enterramiento en la línea del horizonte.483 Dessa maneira, os marielistas reivindicavam as ideias lezamianas e utilizavam de seu capital simbólico. Para um dos diretores da publicação, Reinaldo Arenas, as ideias do poeta seriam contrárias e perigosas a qualquer ditadura: Em 1969, Lezama leu na Biblioteca Nacional um dos ensaios mais extraordinários da literatura cubana, intitulado Confluências. Reafirmava a tarefa criadora, o amor à palavra, a luta pela imagem contra todos os que se opunham a ela. A própria beleza é perigosa em si, conflitiva para toda ditadura, porque implica um âmbito que vai além dos limites em que essa ditadura submete os seres humanos; é um território que escapa ao controle da polícia política e onde, portanto, não pode reinar. Por isso mesmo, irrita todos os 483 LEZAMA LIMA, José. Confluencias. Mariel, n. 1, 1983, p. 17-20. 158 ditadores, que querem destruí-la de qualquer maneira. A beleza sob um sistema ditatorial é sempre dissidente, porque toda ditadura é por si mesma antiestética, grotesca; praticá-la representa, para o ditador e seus agentes, uma atitude escapista ou reacionária. Por essa razão, tanto Lezama quanto Virgilio acabaram sua vida no mais completo ostracismo [...]484 A partir dessa leitura de Lezama, Mariel criticava a Revolução e suas diretrizes culturais, e deixava implícito que obras de intelectuais orgânicos seriam “antiestéticas”, de modo que a dissidência seria necessária para a atividade artística. Ao mesmo tempo que Lezama ocupou postos relevantes como o de vice-presidente da União de Escritores e Artistas de Cuba, Assessor do Centro de Investigações Literárias, Assessor Literário da Casa de las Américas, e escreveu artigos para a oficialidade cultural da ilha, enviava cartas às suas irmãs exiladas acerca das vicissitudes do cotidiano, inicialmente, e, a partir de 1971, acerca da asfixia a qual foi submetido.485 As correspondências para sua irmã Eloísa Lezama Lima foram publicadas em Madrid em 1979, após a morte do escritor. Enrico Mario Santí, por exemplo, afirma que a publicação na ilha, em 1981, da coleção de ensaios lezamianos Imagen y posibilidad foi um “esfuerzo oficial por contrarrestar el efecto de las Cartas (1979) [...], que contienen múltiples confidencias de Lezama que son dañinas a la imagen exterior de la política cultural cubana". O crítico atribui o que chama de “reabilitação oficial de Lezama Lima”, desde os anos setenta, à um exercício deliberado de leituras forçadas que pudessem redimir não tanto sua obra, mas sim os múltiplos erros cometidos pela Revolução contra um autor que havia alcançado ressonância e prestígio internacionais.486 Desse modo, a Revolução Cubana reinventou José Lezama Lima, convertendo-o em uma instituição cultural. Claro, isso não teria sido possível não fosse sua participação nos organismos culturais do governo revolucionário e o fato de nunca ter se manifestado publicamente contra o novo Estado. A inscrição de sua memória nos cânones revolucionários, entretanto, não ocorreu sem disputas. A abordagem dada ao autor pelo Diccionario de la literatura cubana487, 1980, Letras Cubanas, por exemplo, foi duramente criticada em Mariel. Organizado pelo Instituto de Literatura e Linguística da Academia de Ciencias de Cuba, o Dicionário é uma obra importante para as letras insulares, e contém as fichas biográficas dos escritores cubanos mais relevantes até o 484 ARENAS, Reinaldo. op. cit., 2009, p. 117. 485 MATAIX, Remedios. La escritura de lo posible. El sistema poético de José Lezama Lima. Edicions de la Universitat de Lleida, 2000. 486 Ibid, p. 184. 487 Disponível em: http://bib.cervantesvirtual.com/FichaObra.html?Ref=254 159 momento de sua publicação. Mariel acusava a publicação de veicular uma biografia falsa de Lezama e de silenciar seus desacordos com a Revolução e as restrições às quais foi submetido: Decíamos al principio que el diccionario pecaba no sólo por omisiones, sino también por inclusiones. La más dolorosa es la de José Lezama Lima. En la página 492 aparecen su foto, muchos datos biográficos y una extensa bibliografía. El diccionario nos da una imagen totalmente falsa de este gigante del barroco. Se dice que viajó a México (1949) y a Jamaica (1950) pero se omite que aunque recibió innumerables invitaciones de las universidades más prestigiosas del mundo, el gobierno castrista NUNCA LO DEJÓ SALIR DE CUBA. Se omite que fue perseguido, censurado, espiado, interceptado su teléfono por la Seguridad del Estado, que padeció hambre, que no tuvo ni siquiera las medicinas que su enfermedad reclamaba urgentemente, que apenas si pudo ver las ediciones de sus libros editados fuera de Cuba, que murió sin atención médica, y que la prensa cubana en su sección "¿Qué hay de nuevo?" le dedicó cuatro renglones a su desaparición física...Esa es la verdadera biografía de quien es considerado por muchos críticos el escritor barroco más importante del idioma despues de Luis de Góngora y Argote y cuya novela, Paradiso, es considerada como la segunda en toda la literatura española. Le recomiendo al lector honesto, a los intelectuales verdaderos, que investiguen por qué desde 1959 hasta 1976, casi no aparecen títulos de Lezama en Cuba, y su bibliografía pasiva es escasa. Los que vimos al maestro de nuestra literatura viviendo en el acoso y la miseria "dentro de la quemazón" mientras que las mediocridades oficializadas disfrutaban de autos, viajes, residencias, no podemos perdonar esa infamia. la mayor miseria de este diccionario (tan pródigo de ellas) es el vampirismo que con el cadáver de Lezama el gobierno cubano intenta realizar, monstrándonos a un Lezama que nunca existió. No podemos aceptar tal versión.488 Mariel defendia a memória de um Lezama dissidente, crítico, perseguido e vitimado pela Revolução. As participações do escritor nos organismos culturais da Revolução, as correspondências às suas irmãs e a sociabilidade de Lezama Lima durante o período revolucionário apontam para uma relação ambivalente com a Revolução, marcada por decepções e estratégias de acomodação. Críticos literários como Remedios Mataix afirmaram categoricamente que Lezama nunca foi um dissidente, e, por isso, aceitou cargos oficiais, os quais havia recusado durante o regime anterior, “aunque sí censuró sin medias tintas los excesos políticos de una revolución que cada vez más se desviaba de la ilusión humanista y se acercaba peligrosamente a una nueva concentración personal de poder"489. Compreendemos que suas correspondências são documentos fundamentais que apontam para o exílio interior do escritor e possíveis estratégias de acomodação no regime, principalmente a partir do endurecimento das políticas culturais que marcou a década de 1970. Em setembro de 1974, por exemplo, queixou-se à irmã: “Ahora bien, fíjate bien en esto: la casa A. dice vagamente que por la edición de Paradiso 488 VALERO, Roberto. La media vuelta, la vuelta entera. Mariel, n. 1, 1983, p. 23. 489 MATAIX, Remedios. Op. cit., p. 186. 160 me pagarían una estancia en Barcelona. Otra picardía más, pues de sobra saben ellos que aquí no se autoriza la salida. A mí, como tú sabes, me han invitado como seis veces y no he logrado nunca la autorización para el viaje”.490 Entendemos que a eliminação das estratégias de acomodação de Lezama e sua participação dos organismos culturais do governo na memória construída pela revista ocorre pela radicalização resultante da disputa pelo legado simbólico do escritor com os aparatos culturais da Revolução. Além disso, resulta útil, visto que a revista não só reivindica as ideias lezamianas, como insere o poeta na geração de Mariel e na dissidência do exílio massivo de 1980, como demonstra o seguinte trecho de artigo do editor Roberto Valero: En 1980 Cuba atravesó el momento más doloroso de su historia; los acontecimientos en la Embajada del Perú en La Habana, y el Mariel desataron toda la irritación y el odio de los alféreces; todo se convirtió en delito político. [...] Tuvimos que ver hombres colgados de los puentes, niños apaleados en las calles de La Habana, mujeres y viejos mordidos por los perros azuzados por las tropas militares. Todo un pueblo, perseguido, insultado y golpeado, pero con La Isla en Peso· dentro de su corazón lanzandose al mar. ¡No!, infame "Diccionario de la literatura cubana", Lezama Lima también se escapó por el Mariel, porque él lo dijo: "El hombre es un ser imprevisible". Y está aquí, junto a nosotros.491 De modo similar, Jesús J. Barquet sugere uma relação de “via de mão dupla” entre a geração de Lezama Lima e a geração de Mariel, através da metáfora da ponte: “Otro gran cubano, José Lezama Lima (con cuya generación la nuestra lanza ese puente de afinidad que muchos generacionistas perciben entre una generación y la segunda que la antecede) [...]”.492 Assim, Mariel e os pupilos de Lezama Lima não só reivindicavam suas ideias, congregando capital simbólico à publicação, como construíam e disputavam sua memória no exílio493. Desse modo, o complexo exílio interior do escritor, marcado por ambivalências, críticas, silêncios e acomodações é construído como um período no qual o poeta “negou-se a baixar a cabeça e se calar”, convertendo-se o insílio em exílio. 3.2.2 – Virgilio Piñera: o anti-herói tropical 490 LEZAMA LIMA, José: Cartas (1939-1976), Madrid, Editorial Orígenes, 1979, p. 261. Citado por: SABORIDO, Emilio J. Gallardo. Op. cit, p. 234. 491 VALERO, Roberto. La media vuelta, la vuelta entera. Mariel, n. 1, 1983, p. 23. 492 BARQUET, Jesús J. Sección Cartas, Mariel, n. 4, p. 25. 493 Como abordado no Capítulo 2, uma das críticas do professor Emilio Bejel durante o Terceiro Congresso da UNEAC, em Havana, em 1982, foi que “hay quienes pretenden hacer de José Lezama Lima, póstumamente, un escritor 'disidente' o desafecto a la Revolución Cubana”. Ver: p. 124. 161 Não há vidas mais diferentes (e ao mesmo tempo mais parecidas) do que as de José Lezama Lima e Virgilio Piñera, afirmava Guillermo Cabrera Infante.494 Mariel concordava com o ex-diretor de Lunes de Revolución. Apesar de suas divergências intelectuais, ambos os escritores eram considerados criadores de obras-chave para se pensar a nacionalidade cubana, e como exemplos de intelectuais críticos, silenciados pela Revolução, e representantes de uma “sensibilidade homossexual” na cultura da ilha. Suas memórias foram disputadas com os órgãos culturais do regime revolucionário cubano. Segundo Reinaldo Arenas, Piñera teria sido assassinado cinco vezes pela Revolução. A primeira morte do escritor foi associada aos eventos do “caso Padilla” e o Primeiro Congresso de Educação e Cultura, que marcaram a marginalização de artistas que não se adequavam às parametrizações e ao endurecimento do campo cultural cubano. Assim como outros escritores, suas obras não foram publicadas em Cuba entre 1971 e 1976, e a Lei de propriedade intelectual exigia consentimento da Revolução para publicação fora da ilha. Durante a década de 1970, Piñera passou a exercer trabalhos relacionados a tradução ou edição na Academia de Ciencias, juntamente a Heberto Padilla, César López, Pablo Armando Fernández e Roberto Blanco.495 Assumidamente homossexual, Piñera ainda sofreu os agravantes das determinações homofóbicas que marcaram o Congresso supracitado.496 O controle das relações sociais do escritor o obrigou a deixar de frequentar a casa dos Ibáñez Gómez, onde, em tertúlias semanais, lia seus escritos e apresentava conferências. De acordo com Ibáñez Gómez: Su amistad con nosotros tuvo que terminar por “causas mayores”: al cabo de algún tiempo de estar celebrando aquellas tertulias, todos los que participábamos en ellas, excepto mamá y mis hermanas, fuimos citados por el Ministerio del Interior a Villa Marista y nos notificaron que aquellas reuniones tenían que suspenderse. Con Virgilio fueron más duros: le dijeron que su influencia era perniciosa para los jóvenes y que, por lo tanto, le prohibían tener contacto con estos. Para él fue un golpe del cual nunca se pudo recuperar, y hasta su muerte vivió en un permanente estado de terror.497 Segundo Reinaldo Arenas, essa teria sido a “segunda morte” do escritor: 494 CABRERA INFANTE, Guillermo. op. cit., p. 317. 495 SABORIDO, Emilio J. Gallardo. Op. cit, p. 231. 496 Sobre Piñera e a homossexualidade, ver: MISKULIN, Silvia. História, literatura e homossexualidade em Cuba: o caso de Virgilio Piñera. COSTA, Adriane Vidal; BARBO, Daniel (orgs.). História, literatura e homossexualidade. Belo Horizonte: Fino Traço, 2013. 497 ESPINOSA, Carlos: Virgilio Piñera en persona, La Habana, Unión, 2003, p. 332. Citado por: SABORIDO, Emilio J. Gallardo. Op. cit, p. 231. 162 La segunda muerte de Piñera ocurre entre 1976 y 1978, cuando la Seguridad del Estado lo somete a un riguroso interrogatorio, lo amenaza con años de cárcel, le confisca gran parte de sus manuscritos y le prohibe terminantemente leer en lo adelante sus obras entre amigos íntimos, quienes eventualmente se. reunían con otro pequeño grupo de amigos para escuchar a Virgilio.498 Jesús J. Barquet e Abilio Estévez, que mantinham vínculos estreitos com Piñera e Lezama Lima, compartilhavam o sentimento de medo que, em algum momento, lhes produziu a relação com seus “mestres” literários. Barquet afirmou ter interrompido as visitas às tertúlias por três meses devido ao receio de ser expulso da universidade na qual estudava.499 Estévez, por sua vez, afirmou sobre Piñera que: “Yo, lo confieso, tuve miedo de conocerlo. […] Entonces me inquietaron los problemas que en el orden social él podía acarrearme”500. Segundo Reinaldo Arenas, o cerceamento ao escritor, entretanto, teria começado ainda na primeira metade da década de 1960 - quando Piñera trabalhava nas Ediciones R. –, através da censura do conto El muñeco, da obra Cuentos Fríos: En 1964, por ejemplo, Piñera publica en Cuba sus Cuentos (bolsilibros, UNIÓN) y vemos que aúnque en el índice del libro aparecen sus Cuentos frios (publicados en 1956 por Losada, Argentina), uno de los cuentos más importantes de esta colección, El muñeco, con el que cierra el libro, es suprimido. ¿Razones? las críticas que al Partido Comunista y a sus miembros le hace ahí.501 Em Mariel, o escritor é um criador de obras satíricas à Revolução e ao socialismo, enfatizando-se suas obras críticas ao regime. Após a vitória do Movimento 26 de Julho, Piñera, assim como Lezama, escreveu textos apoiando a Revolução, indicando decepções com o passar dos anos. Em março de 1959, Virgilio dirigiu uma mensagem pública a Fidel Castro, na qual afirmava: [...] Nosotros, los escritores cubanos, somos ‘la última carta de la baraja’, es decir, nada significamos en lo económico, lo social y hasta en el campo mismo de las letras. Queremos cooperar con hombro con la Revolución, mas para ello es preciso que se nos saque del estado miserable en que nos debatimos.502 No conto citado por Arenas, entretanto, encontramos trechos críticos à propaganda do Partido Comunista no leste europeu ainda na década de 1950: 498 ARENAS, Reinaldo. La isla en peso con todas sus cucarachas. Mariel, n. 2, 1983, p. 23. 499 BARQUET, Jesús: “Del cotidiano arte de escapar: José Lezama Lima”, Mayor Marsán, Maricel (ed.): José Lezama Lima y la mitifi cación barroca, Ediciones Baquiana, Miami, 2007, p. 28. Citado por: SABORIDO, Emilio J. GALLARDO. Op. cit., p. 231. 500 ESTÉVEZ, Abilio. Primeras confidencias. Encuentro de la Cultura Cubana, n. 14, otoño, 1999, p. 28. 501 ARENAS, Reinaldo. La isla en peso con todas sus cucarachas. Mariel, n.2, 1983, p. 23. 502 PIÑERA, Virgilio. Al señor Fidel Castro. Diario libre. Sección Arte y Literatura (La Habana), 14 de marzo de 1959, p. 2. (Se reproduce en Viaje a los frutos, selección de Ana Cairo, La Habana, Biblioteca Nacional José Martí, 2006, p. 58.) Citado por: FORNET, Ambrosio, Op. cit., p. 4. 163 Ouviram-se alguns aplausos de parte do público que lotava a sala de projeção. Perto de mim percebi um comentário de algum opositor do governo, dois sujeitos riram com risos bufos [...] Eu, ao contrário, senti uma piedade infinita pelo Presidente. Acreditei haver presenciado uma refinada sessão de tortura. Claro que não era a primeira vez que via o Presidente na tela (na vida real acabava sendo muito difícil vê-lo). Não fazia ainda uma semana que minha namorada e eu o havíamos visto doando quinhentos gramas de seu próprio sangue para o Banco de Plasma Sanguíneo Pró-Ajuda Sanguínea à Europa. [...] O mesmo noticiário “apresentou” mais quatro vezes o Presidente. Abrindo a torneira de um oleoduto, fechando a caixa ad hoc que levará um quilo de terra do país ao túmulo do soldado desconhecido, cortando com uma tesoura de ouro a fita que o separa dos touros Hareford, admirando um grupo escultórico no flamante Museu de Belas Artes. A angústia sufocava-me. Cinco vezes! Cinco vezes nosso digno presidente! [...] Tomei voando um táxi. Cinco vezes! A persistente lembrança do Presidente não me abandonava. Ao passar por uma esquina, um cartaz que o mostrava como o primeiro trabalhador da nação fez- me prorromper em fortes soluços. [...] O presidente não me deixa um só instante. É preciso pensar em alguma coisa que poupe o Presidente de tão sucessivas e perigosas aparições. Mas como? [...] Pus-me a planejar a salvação do Presidente.503 Sua obra mais retomada pelos marielistas, porém, foi La isla en peso (1943), considerado pela revista um dos poemas-chave para se pensar a cultura cubana. De acordo com Reinaldo Arenas: “No sé de otro poema más perfecto y totalizador, más magistralmente resuelto en toda la literatura cubana, tan rica en buenos poemas. Si el mismo es básico para la comprensión de la obra de Virgilio Piñera, lo es también para la interpretación cabal de nuestra isla”.504 A obra foi escrita em meio a lutas pela hegemonia de distintas concepções sobre o dever da cultura e foi contemporânea da fundação de projetos editoriais coletivos como Orígenes. Predominavam sentimentos de frustração e instabilidade devido ao fracasso dos projetos nacionais e à crise econômica. Nesse período, a preocupação central era a construção simbólica do nacional dentro dos processos de inserção na modernidade. Em Havana, os movimentos sociais, o desprestígio institucional e a forte interveção norte- americana fizeram com que as tensões se dessem com relação ao étnico-nacional, com fortes bases no liberalismo republicano, na vanguarda estética e no pensamento de esquerda.505 Segundo Francy Moreno, Piñera explorava sua identidade como cubano, mas o fazia de uma forma particular. Sua elaboração poética da atmosfera insular se afastava de qualquer exaltação da nação ou do território. Imagens do cotidiano cubano se intercalavam com digressões sobre o passado de devastação. Ambas prescindiam de 503 PIÑERA, Virgilio. Contos frios. São Paulo: Iluminuras, 1989, p. 142-143. 504ARENAS, Reinaldo. La isla en peso con todas sus cucarachas. Mariel, n. 2, 1983, p. 22. 505 MORENO, Francy. op. cit. 164 eufemismos e não ocultavam a amargura. Encontram-se ali cenas de miséria, morte e sensualidade através de uma narrativa que transmite a sensação de asfixia e impotência, com marcado tom de ironia506: La maldita circunstancia del agua por todas partes/ me obliga a sentarme en la mesa del café./ Si no pensara que el agua me rodea como un cáncer hubiera podido dormir a pierna suelta./ Mientras los muchachos se despojaban de sus ropas para nadar/ doce personas morían en un cuarto por compresión./ Cuando a la madrugada la pordiosera resbala en el agua / en el preciso momento en que se lava uno de sus pezones, / me acostumbro al hedor del puerto, / me acostumbro a la misma mujer que invariablemente masturba, / noche a noche, al soldado de guardia en medio del sueño de los peces. / Una taza de café no puede alejar mi idea fija, / en otro tiempo yo vivía adánicamente. / ¿Qué trajo la metamorfosis?507 Ainda segundo Moreno, o motivo principal do poema é a vida em uma ilha que contém a desmesura e se debate entre o sexo e a morte.508 Cintio Vitier, em Lo cubano en la poesía (1958), afirmou que o poema como testemunho da cubanía "está falseado", pois ali o leitor encontra "resentimiento cultural" e puro "acto sexual", mas não algum tipo de "conocimiento".509 Mariel, entretanto, defendeu que Isla en Peso resumia o drama da perseguição e da asfixia de todo um povo, e que abordava a história do país e a “tradição” cubana: Esa sublevación contra todo aquello que nos reduce encuentra en La isla en peso (1943) de Virgilio Piñerauna culminación; culminación que es a la vez cimiento y justificación para toda su obra futura. Ya que este poema es la base de toda la obra piñeriana; él nutre y fundamenta lo mejor de su creación, dándonos las claves para su compresión global. El mismo es el drama de la intemperie y la persecución, la desesperación, el vacío y las asfixias de todo unpueblo. Inspiración y documento, imagen y ritmo, furor y lucidez; se trata de una suerte de frenética espiral donde entre vertiginosas dentelladas se habla ala vez de nuestra tradición y de nuestra historia, se explica y se replica, se maldice e invoca. Obra totalizadora, resume a través de la indignada, amorosa y conmovida memoria del poeta la historia de nuestro país. Comenzando por la fatalidad insular, "la maldita circunstancia del agua por todas partes", retoma nuestras calamidades y tradiciones más variadas, invasiones, esclavitud, explotaciones, catequizaciones, hipocresías, concepto del pecado original, 506 MORENO, Francy. Cartografía cultural de Ciclón (La Habana 1955-1957/1959). 2015. Tese (doutorado). Facultad de Filosofía y Letras, Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), México, p. 61-63. 507 PIÑERA, Virgilio. La isla en peso. Mariel, n. 2, 1983, p. 16-19. 508 MORENO, Francy. op. cit., p. 63. 509 Leituras mais recentes tendem a modificar essas opiniões pejorativas, vendo com um valor positivo o tom pessimista e as críticas que aparecem ao longo dos versos. Thomas F. Anderson, por exemplo, opina que as imagens de miséria, frustração e racismo levam a uma condenação implícita do imperialismo, ao mesmo tempo que servem para remover o mistério que pudesse acompanhar imagens estereotipadas do paraíso tropical - tradicionalmente associadas a paisagem antilhana. Duanel Diaz, por sua parte, enfatiza o caráter agônico do texto que apresenta o poeta em tensão constante com um meio opressivo. Já Rafael Rojas destaca o particular humor absurdo que caracteriza o modo como Piñera se refere aos corpos nessa obra e sua intenção de apontar lugares comuns que serviam para cimentar mitos nacionais. Cf. MORENO, Francy. Op. Cit., p. 65. 165 angustia existencial; la frustración de un pueblo sucessivamente castrado en sus esencias y siempre recuperándolas o al menos intentándolo.510 Dessa forma, novamente contrói-se na publicação uma tradição cubana de fatalidade, sofrimento, opressão, exploração, violência e autoritarismo, bem como de resistência e luta. As obras de Piñera eram consideradas essenciais para se pensar essas questões, visto que, na perspectiva da publicação, o drama de Virgilio era igual ao de todo homem tropical e insular, constituído pelo absurdo, o patético e o desenraizamento: Así la luz, duplicadora implacable, no sólo muestra, sino demuestra que si se le obedece paraliza, si se le contradice mata. El drama de Piñera es pues el drama intrínseco del hombre tropical e insular, el drama de la intemperie y las sucesivas estafas, el drama de la desnudez y el desamparo ante la vasta chatadura de un paisaje que sucumbe perpetuamente ante invasiones sucesivas. Ese hombre ofendido, desposeído y sin dioses, contando solo con su desarraigo, es una figura grotesca, patética y absurda que en medio del resplador se bate y rebate entre una explanada y un muro dominados por un foco aún más descomunal. Nuestro héroe (o antihéroe) contemporáneo al asumir la tragicidad, el resplandor, la verdad insularantillana, y muy especificamente cubana, se contempla bañado (o anegado) por una claridad que lo refleja y obsede, condenándolo a perecer si se rebela y a desaparecer si acepta. Por distintos caminos llegamos a aquella luz de la que nos hablara Martí, la que ilumina y mata.511 A partir das análises sobre Piñera, a revista chega às obras de José Martí, estabelecendo relações com o nacionalismo cubano. Assim como em Martí, o sentido do povo cubano poderia ser localizado nas obras piñerianas, sendo esse a perseguição, a resistência e a sobrevivência, reunidos na figura da barata kafkiana: En realidad, los protagonistas de los mejores cuentos de Piñera y de sus tres novelas publicadas son cucarachas. Condición que no deben confundirse, como superficialmente se ha hecho, con la aventura kafkiana en la cual el sufrido insecto tiene más bien um carácter simbólico relacionado - eso dicen los críticos con la alienación social, el mundo superindustrial y la discriminación judaica. Nuestras cucarachas - o nuestras cucarachitas - piñerianas no están emparentadas con esa superestrella de los insetos modernos llamado Gregorio Samsa. Nuestra cucaracha ha sufrido y sufre la persecución sobrevida. Sabe que la luz, ese resplandor infernal, esa conminación avasalladora, ese fuego, es el simbolo de la muerte y corre en cualquier dirección pero hacia lo oscuro y húmedo: intersticio, hueco promisorio, sótano. Sobrevivir es para nosotros - cucarachas - esconderse, pasar inadvertidos, desaparecer del radio (o radar) implacable que ilumina el reflector al caer sobre la explanada o sobre el mar. Esa resistencia, esa intuición, ese pánico a la luz infernal - tropical vuelve otra vez en las narraciones de Piñera a ofrecernos no sólo la clave de su obra total, sino el sentido de sobrevida de un pueblo, maestro en el arte de desaparecer, esconderse, correr, burlar al perseguidor y sobrevivir.512 510ARENAS, Reinaldo. La isla en peso con todas sus cucarachas. Mariel, n. 2, 1983, p. 22. 511 Ibid, p. 20. 512 Ibid, p. 20. 166 O estado natural de medo piñeriano, entretanto, possuía uma especificidade: a vivência em uma sociedade de tradição católica, preconceituosa e machista. Ser homossexual assumido lhe trouxe grandes problemas, principalmente a partir da década de 1970 e o endurecimento de políticas homofóbicas. De acordo com Silvia Miskulin, em sua autobiografia póstuma513, o escritor relatou o momento em que percebeu que era pobre, homossexual e gostava de arte, e deixou claro que a descoberta dessa trindade e o sentimento de culpa nunca mais o abandonaram, pois eram “três coisas sujas o bastantes para não se poder lavar jamais delas”. Piñera também relatou que teve que esconder seu desejo homossexual durante um tempo, pois logo percebeu que esse comportamento era considerado doentio e repugnante pela sociedade que predominava em Cuba.514 Segundo artigo publicado em Mariel: El miedo es para Virgílio Piñera su estado natural. "Tendré que decirlo de una vez, mi torcedor es el miedo", escribe en su cuento El enemigo, y seguidamente agrega: "miedo que tiene origen en um sentimiento de culpa". Y aquí resulta inevitable traer a colación la manifiesta condición homosexual de Piñera en una sociedad eminentemente máchista donde los prejuicios son leyes amparadas además por la tradición católica y hebrea. [...] Unamos a ese prejuicio judaico-cristiano, a esa "abnegada" madre, y a esa sociedád de machos sentimentales y "mujeres pulpos" la institucionalización de todo ello mediante una dictadura monolítica y militar que no vacila en emitir incesantes leyes que condenan com prisión, trabajos forzados o fusilamiento cualquier desviación sexual, y por lo tanto "moral", y tendremos delineado perfectamente el cuerpo total del miedo piñeriano. Tendremos, para decirlo con sus propias palabras en Dos viejos pánicos: "carne con miedo, mi amor, carne con miedo". La vida es para este hombre que marcha a contracorriente un mundo de 1eyes implacables [...] Un mundo de polícias que emergen de todos los sitios, a veces no precisamente uniformados como tales, para conducirnos a la celda o a la plantación... A partir de 1960 Virgilio Piñera fue arrestado en su casa en la playa de Guanabo y conducido a presidio común, es fichado y vigilado no sólo por lo que escribe, sino por lo que no escribe, por su falta de cooperación, por su manera de andar o de manifestarse, por alguna conversación o reunión íntima en casa de algún amigo. La luz antillana- cubana, nuestra traidora e implacable luz, há llegado ahora a su cénit: ese foco descomunal que nos alumbra de golpe el rostro ante el oficial que nos interroga... Para sobrevivir en un medio semejante se impone la transmutación, la máscara, el doble, o el descenso apresurado a lo oscuro, antes de que seamos aplastados. Se sobrevive sólo para - y gracias - al miedo y finalmente se es aniquilado - como el mismo Piñera escribe en su cuento El enemigo- "por las manos del miedo".515 [itálicos do autor] Dessa maneira, além de denunciar o autoritarismo e a homofobia do regime cubano, Mariel insere o medo, a homossexualidade e diferentes estratégias de 513 PIÑERA, Virgilio. Autobiografia. El Público, Espanha, p. 108 – 115, maio/junho de 1990. 514MISKULIN, Silvia. História, literatura e homossexualidade em Cuba: o caso de Virgilio Piñera. COSTA, Adriane Vidal; BARBO, Daniel (orgs.). História, literatura e homossexualidade. Belo Horizonte: Fino Traço, 2013, p. 135. 515ARENAS, Reinaldo. La isla en peso con todas sus cucarachas. Mariel, n. 2, 1983, p. 21. 167 acomodação durante o exílio interior dentro de discursos sobre a identidade cubana e, portanto, dos próprios marielistas, reforçando a identidade simultânea como cubanos e como homossexuais. Assim como no caso de Lezama Lima, a memória do escritor foi disputada com o regime revolucionário, principalmente porque a partir da segunda metade da década de 1970 e, com mais intensidade, durante os anos 1980, apareceram de novo livros e peças de teatro de autores considerados “problemáticos” anteriormente. Além disso, a crítica começou a ocupar-se abertamente da obra desses escritores e lhes chamou para tarefas como partipação em concursos como jurados e eventos culturais como a Feria del Libro. No caso de Virgilio Piñera, falecido em 1979, suas obras voltaram a ser encenadas nas décadas de 1980 e 1990, tanto as já conhecidas quanto aquelas até então inéditas.516 De acordo com Mariel, em 1983, essa seria mais uma forma de “assassinar a verdadeira imagem do escritor”, “apagando suas contradições com o sistema” na tentativa de construção de uma relação mais positiva do regime com os intelectuais após o “quinquenio gris”: Pero ese terror, ese pánico, se apodera también del gobierno cubano que atemorizado de la sombra negativa que pueda proyectar para la dictadura la imagen de Piñera muerto en pleno ostracismo, ahora que ya el cadáver es inofensivo, trata nada menos que de rehabilitar/o. Su foto ha aparecido hasta en el Granma (órgano oficial del Comité Central del Partido Comunista de Cuba) y hasta han llevado a escena una de sus obras teatrales, Aire frío, que tiene lugar en la Cuba precastrista...De todos los asesinatos o muertes que ha padecido Piñera, el quinto, el de la rehabilitación póstuma es el más infame y cínico; no se conformaron con asesinar su cuerpo, con asesinar su obra escrita y por escribir, con asesinar su vida, proihibiéndole hasta el habla, sino que ahora se asesina su imagen verdadera y se nos brinda un Virgilio Piñera antiséptico y purificacjo que ni siquiera estuvo en contradicción con el sistema, un muerto útil, un cadáver disponible - y sin reclamo - del cual podemos utilizar la parte que mejor nos convenga y desechar el resto. En su quinta muerte Virgilio desaparece y es sustituído por el muñeco.517 516 O que não quer dizer que cessaram as críticas ao escritor dentro da ilha. Em 1987, Eliades Acosta Matos publicou um texto sobre Un fogonazo, livro de contos póstumo de Piñera, no qual questionava: “¿Por qué tenemos que aceptar tácitamente, como algo normal y lógico, que un escritor cubano, genial y bien preparado como lo fue indudablemente Piñera, viviendo hasta su muerte inmerso en la inmensa marea de un hecho histórico y cultural sin precedentes en la historia de su país, como lo es la Revolución Cubana, haya hecho cuentos tan asépticos y descontextualizados como los de Un fogonazo? ¿En nombre de qué supuesta libertad de expresión o de creación puede un intelectual aislarse de un mundo en ebullición que diariamente golpea a su punta [sic] clamando también por su aporte en su eterna lucha por la perfección? ¿Puede aceptarse como lógica la autocondena de Piñera al ostracismo, el autoexilio al mundo de la fabulación, suponiendo incluso que no hayan podido ser aceptadas sus propuestas estéticas, en una coyuntura política muy concreta y por todos conocida?” Cf. SABORIDO, Emilio J. GALLARDO. Op. cit., p. 237; e Perfil de Santiago, tabloide cultural del periódico Sierra Maestra, Santiago de Cuba, año 2, n. 31, 16 de abril de 1988, p. 8. Citado por: ARANGO, Arturo. Op. cit., p. 9 517 ARENAS, Reinaldo. La isla en peso con todas sus cucarachas. Mariel, n. 2, 1983, p. 23. 168 Reivindicava-se, assim, o Piñera crítico e vitimado em seu exílio interior. Arenas considerava um ato heroico a apresentação da obra Dos viejos pánicos – crítica à burocracia e ao autoritarismo do regime cubano - para o Concurso Casa de las Américas, em 1968. Em outros trechos da revista, Reinaldo Arenas chega a acusar a Seguridad del Estado de, literalmente, ter assassinado o escritor, levantando questionamentos sobre as circunstâncias do ataque cardíaco que levaram à morte de Piñera e reforçando sua posição de vítima dentro do regime. Como já apontamos, o Diccionario de la literatura cubana, publicação importante para as letras insulares, publicado em 1980, também foi questionado pela revista. Uma série de autores foram incluídos para uma “reabilitação” da marginalização à qual haviam sido submetidos. Além de Piñera e Lezama, Antón Arrufat, Eduardo Heras León, Heberto Padilla, Manuel Díaz Martínez, César López, Pablo Armando Fernández, José Triana, José Lorenzo Fuentes, Abelardo Estorino, Reinaldo Arenas, entre outros, foram incluídos. Acerca do verbete sobre Piñera, Reinaldo García Ramos, diretor de Mariel, afirmou que a publicação silenciou informações a seu respeito, como seu exílio interior, o cerceamento às suas publicações, bem como sua homossexualidade, ocasionando uma deturpação no verbete: En el caso de Vírgilio, Menton comete uno de sus aislados aciertos y quizás la más notable de sus numerosas omisiones. En la página 180, reconoce que este autor "ocupa un sito entre los primeros autores del mundo que cultivan la literatura del absurdo" (lo cual es justo pero inmediatamente afirma que "ha publicado muy pocos cuentos nuevos desde 1959" (p. 182-183). Dicho así, es como si Piñera hubiera escogido no publicar cuentos. Pero tal afirmación en realidad ignora el hecho bien conociclo de que Piñera fue silenciado casi totalmente a partir de 1964 por su condición de homosexual y por su espíritu crítico ante lo que estaba sucediendo en su país, y que el grueso de su obra inédita - muy voluminosa, claro, y en la que seguramente había no pocos cuentos - fue secuestrado por la Seguridad del Estado a raíz de la muerte del escritor.518 No mesmo ano, a revista participou da organização do Festival de las Artes en Miami, em comemoração aos três anos do exílio massivo de Mariel, no qual peças do escritor estiveram em cartaz. As disputas pela memória com o Diccionario de la literatura cubana, entretanto, continuariam em outros números da publicação, como abordaremos adiante. 3.3 – “Esquecidos” pela Revolução: Gastón Baquero e Carlos Montenegro 518 GARCÍA RAMOS, Reinaldo. Los narradores perseguidos. Mariel, n. 2, 1983, p. 27-28. 169 Se uma série de escritores foram “reabilitados” através da inclusão no Dicionário preparado pelo Instituto de Literatura y Linguística, em 1980, outros nomes mais “problemáticos” foram excluídos, como os de alguns opositores declarados e intelectuais que romperam com a Revolução, como Gastón Baquero, Guillermo Cabrera Infante, Calvert Casey, José Mario, Carlos Montenegro, Lino Novás Calvo, Severo Sarduy, entre outros. Ainda que trechos de obras, poemas e textos de todos os supracitados tenham sido veiculados em Mariel, somente dois foram homenageados pela revista. Gastón Baquero, então exilado em Madrid, e Carlos Montenegro, em Miami, encontravam-se entre aqueles que a revista considerava que haviam sido injustamente esquecidos pelo regime revolucionário cubano. Ambos conjugavam a atividade literária com a jornalística e, anteriormente à vitória do Movimento 26 de Julho, haviam ocupado os cargos de chefes de redação de Diario de la Marina – conhecido por posicionamentos conservadores e fechado pela Revolução no início da década de 1960 - e Hoy – órgão do Partido Socialista Popular –, respectivamente.519 Segundo Joel Candau, o esquecimento pode ser o êxito de uma censura indispensável à estabilidade e à coerência da representação que um indivíduo ou os membros de um grupo fazem de si próprios, de modo que exerce um papel no jogo identitário. Consiste em apagar das memórias os elementos do passado considerados como perigosos para a sociedade ou cidade. Entretanto, o esquecimento sempre é relativo: há coisas que resistem ao esquecimento e a amnésia jamais é absoluta e definitiva.520 3.3.1 – Carlos Montenegro e a “literatura da marginalidade” O exílio gerou muitas vicissitudes nas vidas dos marielistas, mas também permitiu que convivessem com escritores exilados na década de 1960, principalmente Lydia Cabrera, Enrique Labrador Ruiz e Carlos Montenegro. Esses intelectuais os auxiliaram em seus projetos e lhes forneceram relatos da Havana da década de 1940, que não tinham conhecido e que muitos cubanos republicanos liberais idealizavam como a década de ouro da produção cultural cubana. Mais do que isso, nas narrativas dos marielistas, esses escritores representavam o intelectual cubano não só dissidente como esquecido pela comunidade de exilados de Miami, apesar da relevância de sua obra, e que, vitimado, 519 CABRERA INFANTE, Guillermo. op. cit., p. 346-351;351-357. 520 CANDAU, Joel. Op. cit., p. 127-128. 170 sobrevivia graças a seus próprios esforços e dedicação à atividade artística. Segundo as memórias de Reinaldo Arenas: A sabedoria de Lydia fazia com que me sentisse novamente perto de Lezama. Dedicava-se à tarefa de reconstruir a Ilha, palavra por palavra, e lá estava, num pequeno apartamento em Miami, escrevendo sem parar, sofrendo uma série de problemas econômicos, com uma enorme quantidade de livros inéditos e tendo que arcar sozinha com os custos de todos aqueles publicados em Miami. Havia outros escritores vivendo em condições ainda mais penosas; era o caso de Labrador Ruíz, um dos grandes da novela contemporânea; vivia, e continua vivendo, graças à previdência social. Escrevera suas memórias, mas não encontrara um único editor. Era um verdadeiro paradoxo: aqueles grandes escritores saíram de Cuba em busca de liberdade, e agora se encontravam impossibilitados de publicar suas obras aqui. Era também o caso de Carlos Montenegro, novelista e contista de primeira qualidade, que vivia igualmente da previdência social, num pequeno quarto de um bairro pobre de Miami; este era o preço que tinha de pagar por manter a dignidade. Na verdade, a literatura não interessava muito aos exilados cubanos; o escritor é visto como alguém estranho, alguém anormal. Ao chegar a Miami, encontrei-me com pessoas ricas, donos de bancos e comerciantes, e propus que se criasse uma editora para publicar os melhores escritores da literatura cubana, a maioria dos quais já vivendo no exílio. A resposta de todos aqueles senhores, multimilionários, foi categórica: literatura não dá dinheiro [...] Montenegro faleceu no ano seguinte num hospital público, no mais absoluto esquecimento. Labrador está agonizando num quartinho de Miami. Quanto a Lydia, completamente cega, continua escrevendo e publicando sozinha seus livros, em edições modestíssimas que quase não circulam fora de Miami.521 Guillermo Cabrera Infante, por sua vez, afirmou em suas memórias que Carlos Montenegro, antes de morrer, em 1981, já não se lembrava nada de sua vida nem de seus livros e que morreu solitário em Miami.522 No caso de Montenegro, a temática do esquecimento se faz constantemente presente na construção do escritor por seus conterrâneos exilados. Desterrado ainda no início da década de 1960, o autor fora considerado “problemático” em Cuba e excluído das memórias oficiais da literatura insular. Em entrevista com Labrador Ruiz, publicada na homenagem de Mariel a Montenegro, esse afirmava que a atividade artística garantia pouca segurança de êxito, e que esse não era medido por sucesso econômico ou complacências, mas pela autenticidade, que garantiria a permanência: Haber hecho algo con lo cual sólo se ha ganado dinero parece empresa de nuestro tiempo, en literatura sobre todo. Pero quien piensa así sabrá que incurre en un error central. Las letras están destinadas a suficiente empresa y no será echando plata a la bolsa que se gane el triunfo verdadero. Lo útil del trabajo elaborado a fondo, sin complacencias ni peticiones de óleo sacro, es elevar un perfil bien diferenciado de los perfiles cotidianos: un artista emprende esta conquista con pocas seguridades de éxito, pero el buen éxito está detrás de estos farallones que se llaman olvido y desdén. ¿ Cuántos que tuvieron en un minuto a Dios cogido por la barba ni siquiera aguantaron el tiempo de su 521 ARENAS, Reinaldo. op. cit., 2009, p. 344. 522 CABRERA INFANTE, Guillermo, op. cit., p. 356. 171 tiempo para desvanecer en copos tristes los copiosos y suculentos tronchos atrapados por un azar de la circunstancia u otra parecida martingala? Una cierta destreza para enderezar el aire de aventura del arte que cultivamos es posible siempre. El destinado por su genio a ser creador y no simple imitador verá sus puños alcanzando metas elevadas. Su esfuerzo, ni vano ni conducido con arrogancia, pondrá una flor en la solapa de la vida.523 Novamente, recorria-se à autenticidade intelectual na defesa da atividade artística nas páginas da revista. Nascido na Galícia, Montenegro emigrou aos sete anos para Cuba. Aos treze embarcou num navio de cabotagem, viveu um ano na Argentina, foi mineiro e trabalhou numa fábrica de armas nos Estados Unidos. Aos dezoito anos, assassinou um homem na região do cais de Havana, segundo seu relato, por ter sido acossado sexualmente. Foi condenado a prisão perpétua e cumpriu quinze anos no presídio del Príncipe. Começou a escrever na prisão e, em 1928, ganhou um concurso de contos patrocinado pela revista Carteles, na época a mais importante de Cuba.524 Sua vida mudou quando ele ganhou o prêmio e os intelectuais de Havana ficaram sabendo que o autor do conto El renuevo estava preso por algo que a moral corrente considerava a defesa da honra. No mesmo ano foi organizada uma homenagem ao escritor e, no ano seguinte, seu primeiro livro de relatos foi publicado, El renuevo y otros cuentos (1930). Organizou-se, ainda, uma comissão, um protesto e, finalmente, um pedido de indulto, que foi deferido em 1931.525 De 1933 a 1944, militou no Partido Comunista; colaborou na revista Mediodía na década de 1930; e na década de 1940 ocupou o cargo de chefe de redação de Hoy, órgão do Partido Socialista Popular (PSP). Em 1938, o escritor publicou a obra Hombres sin mujer, aclamado por parte da crítica, mas mal recebida na ilha e na América Latina por questões morais. Publicada primeiro no México e, depois, em Paris, a obra, segundo Emilio Bejel, causou um “escândalo” em Cuba quando alguns fragmentos foram veiculados em revistas nacionais. Quatro membros do júri de um prêmio cubano de literatura renunciaram aos cargos porque, segundo o relato de Montenegro, “el lenguaje usado por mí la hacía impropia de un concurso oficial”526: Por puro accidente, me encontré con tres de los cuatro membros...Antes de que 523 LABRADOR RUIZ, Enrique. Montenegro y su obra: tres comentarios. Mariel, n. 4, 1984, p. 21. 524 CABRERA INFANTE, Guillermo. op. cit., p. 351-357. 525 Ibid. 526 ENCARNACIÓN LÓPEZ, María. Homosexuality and insivibility in revolutionary Cuba: Reinaldo Arenas and Tomás Gutiérrez Alea. 2011. Tese (doutorado). Department of Spanish and Latin American Studies, University College London, London, p.72. 172 yo aludiera el asunto de la renuncia, uno de ellos, al parecer hablando por los otros me dijo: ‘— Pero por Dios, Montenegro, ¿no sabes que por algo se ha inventado el eufemismo?’ Yo no me caracterizo por la oportunidad de la réplica, pero en aquel momento, mi mucho saber de lo que se trataba me iluminó: ‘— Sí, lo sé, y en presidio, aunque ustedes lo ignoren se usa mucho, por ejemplo, al pene se le llama ‘la paradoja’.527 De acordo com Jesús Jambrina, Montenegro foi preso por algumas horas por publicar um fragmento da obra na revista Mediodía.528 Lázaro Sarmiento afirmou que os responsáveis pela publicação foram acusados de pornografia e propaganda subversiva.529 Mariel enfatizou os traços autobiográficos da obra, devido à experiência carcerária do autor; a temática homossexual; a crítica social a uma sociedade machista e ao sistema carcerário; bem como seu “caráter precursor”: Su novela Hombres sin mujer, reflejo de la vida carcelaria y homosexual en un ambiente tipicamente machista y siniestro, es también un magnifico ejemplo de lo que cuarenta anos más tarde explotarían escritores de la talla de José Donoso o Manuel Puig [...] anticipándose a Arguedas, Donoso y Puig, trata el tema carcelario y homosexual en todo su horror y crudeza.530 De forma similar, Reinaldo Arenas, no ensaio Homenajes (1980), ressaltou os temas da opressão e do machismo nas obras do autor, os quais considerava relevantes para se pensar a realidade cubana: Montenegro desarrolla con insólita maestria y desenfado la tragédia y el horror del homossexual “activo” y “passivo”, en um ambiente asfixiante y carcelario donde lo cotidiano es la barbárie; cárcel que es espejo de uma sociedade machista y corrompida, donde lo “moral” o “inmoral” se condiciona acorde com nuestros desesos y prejuicios sexuales.531 A obra conta a história de dois prisioneiros em Havana: Pascasio e Andresito. Um dos protagonistas, Pascasio, assume sua homossexualidade com entusiasmo. O desejo homoerótico sobrevive às circunstâncias adversas da prisão, que condicionam o comportamento, interesses e aparência externa de Pascasio. Pela primeira vez na literatura cubana, existe um registro de uma série de arquétipos de personagens homossexuais. O leitor encontra a loca, que entende sua homossexualidade como um símbolo de auto- aceitação mesmo em um ambiente de repressão. Outro personagem, Manuel Chiquito, representa o que se chama bugarrón em Cuba, o sujeito mais ativo na relação homossexual e que geralmente prefere homens novos.532 527 Ibid. 528 Ibid, p. 71. 529 MONTENEGRO, Carlos. Hombres sin mujer. Buenos Aires: Editorial Lectorum. Edición Smashwords, 2008, Prólogo de Luis Zapata, p. 8. 530 Mariel, n. 4, 1984, p. 20. 531 ARENAS, Reinaldo. op. cit., 2012, p. 197. 532 ENCARNACIÓN LÓPEZ, María. Op. cit., p. 71. 173 Segundo Luis Zapata, na obra Montenegro também desenvolve a "tese" de que a ausência de mulheres seria a causa das práticas homossexuais. Desde o primeiro capítulo, o escritor menciona esse "vicio, nacido de la abstinencia y de promiscuidad"; "el monstruo de la abstinencia"; e que "la abstinencia atrofia la naturaleza y los instintos"; entre outros. Em outros momentos, entretanto, o escritor parece se contradizer, e o que é contra a natureza se converte em algo novo e natural533: Dudó un momento pero decidiéndose se acercó a Pascasio y obligándolo a inclinarse le dijo, uniendo casi sus labios a los del ranchero: — Estás loco pero... No pudo terminar la frase; el brazo de Pascasio lo había envuelto y atraído hacia sí, confundiendo las dos bocas. Andrés no opuso resistencia alguna; cerró los ojos abandonándose, hasta que Pascasio asombrado de lo que hacía, lo soltó. Entonces el muchacho repitió lo que había comenzado a decirle: — Estás loco pero eres un hombre.534 Os personagens parecem, em alguns momentos, contradizer a “tese” do autor, quando relativizam a importância das práticas homossexuais, revestem-nas de humor ou as resistem na prisão e "caem na tentação" fora dela. Ao longo da obra, o sexo na prisão vai se convertendo de uma "aberração" em uma representação da vida e da alegria, e ploriferam-se os termos e expressões para referir-se aos homossexuais e suas práticas, de modo que realiza-se uma sistematização das variações linguísticas desse grupo.535 Apesar do final triste da história, com a morte de Pascasio, o autor deixa claro que o desejo homossexual sobrevive a circunstâncias adversas.536 Autores como Armando Valdés consideram Montenegro e sua obra representantes da “literatura da marginalidade” cubana.537 Segundo Luis Zapata, foi a primeira novela em língua espanhola que abordou o tema do desejo homossexual e, de acordo com pesquisa de María Encarnación López, o autor representa o que José Piedra denomina de “homossexual moderno”, ou seja, um indivíduo que se moveu além das margens de “invisibilidade” em sua tentativa de redefinir as abordagens retóricas à homossexualidade cubana e, portanto, à identidade nacional. Assim como Piñera e Lezama, Montenegro e os próprios marielistas indicam a presença de uma comunidade de intelectuais que articulavam discursos homoeróticos e homossexuais que resistiam aos valores 533 MONTENEGRO, Carlos. Op. Cit., p. 3-15. 534 Ibid, p. 245. 535 Ibid, p. 3-15. 536 ENCARNACIÓN LÓPEZ, María. Op. cit., p. 71. 537 VALDÉS, Armando. Mordidas de serpiente. Encuentro de la cultura cubana, n.8/9, 1998, p. 262. 174 heteronormativos em Cuba.538 Apesar da recepção negativa de Hombres sin mujer em Cuba na época, Mariel constrói uma memória positiva do evento, de modo a valorizar a obra do autor a partir de um ponto de vista autorizado: “Su novela, Hombres sin mujer, aparece en 1937, creando una gran conmoción entre el público y generando un gran respeto por parte de los conocedores”539. Mariel veiculou dois contos inéditos de Montenegro e, através do escritor, a função do intelectual também foi discutida na publicação, visto que a revista considerava a função de sua obra dentro da literatura cubana e latino-americana como de denúncia de faltas morais e sociais, através do relato das experiências que havia vivido. Dessa forma, as obras de Montenegro e a de boa parte dos marielistas convergiam tanto nas funções como nas estratégias utilizadas. Entendemos que os temas autobiografia, cárcere, violência, machismo e homossexualidade eram caros para vários marielistas, considerando suas obras, posicionamentos e experiências de vida. Entretanto, em Mariel, é também a alienação do exílio e os desafios que esse proporciona à atividade da escrita que conferem unidade entre a publicação e Montenegro: El exilio lo trató como a todos, según las Circunstancias. Un escritor no tiene más que su propio idioma por versátil que sea; un pintor, un escultor no. Estos se expresan en un lenguaje que suena lo mismo en todas las latitudes. ¿Pero qué tiene que hacer el constante obrero de su lengua madre entre gentes que no lo entienden? Vivimos en ajeno, enajenados; y todos conocen las palabras del maestro: “Todo exilio enloquece, el último mata.” Ovidio vivió once.540 A linguagem do sofrimento, dessa forma, funcionou como ímã aglutinador para se discutir uma variedade de temas na publicação e como forma de se estabelecer relações de identificação e continuidade com o passado e com outras gerações de intelectuais. No contexto do exílio nos Estados Unidos, Montenegro era um representante do meio intelectual da Cuba anterior à Revolução, como aponta Reinaldo Arenas em um de seus ensaios: Carlos Montenegro realizo también en los años cuarenta lo que em los años sessenta muchos narradores cubanos han tentado hacer: la épica de la guerra, la épica de la Historia [...] no es acaso lo que autores recientes, como un Norberto Fuentes o Jesús Díaz han intentado hacer en la Cuba actual? Pero lo que entonces logró Montenegro no lo han podido llevar a cabo los narradores 538 Sobre a permanência de discursos articulados pela comunidade homossexual em Cuba, apesar de tentativas institucionais de silenciá-la, ver: ENCARNACIÓN LÓPEZ, María. Homosexuality and insivibility in revolutionary Cuba: Reinaldo Arenas and Tomás Gutiérrez Alea. 2011. Tese (doutorado). Department of Spanish and Latin American Studies, University College London, London. 539 MORGADO, Marcia. No muy lejos del mar - Mini biografia do autor. Mariel, n. 4, 1984, p. 20-21. 540 LABRADOR RUIZ, Enrique. Montenegro y su obra: tres comentarios. Mariel, n. 4, 1984, p. 21. 175 cubanos del momento. Há faltado, además del talento excepcional del cuentista [...], ha faltado, por encima de todo, eso que muchas veces tuvo el narrador republicano: la indiferencia oficial – gran privilegio – que no conminaba al autor a escribir según el dogma ministerial o postulado realista-socialista expuesto bajo la mirado condenatória o laudatória (premio-prisión) del Gran Hermano; [...]541 Arenas realizava uma generalização do ambiente cultural da Cuba revolucionária, focando-se na ortodoxia do quinquenio gris, e realizava uma defesa do período da história cubana anterior à Revolução de 1959, o qual muitos revolucionários chamavam de “pseudo república”. Lydia Cabrera, assessora de Mariel, compunha a intelectualidade republicana liberal das décadas de 1930 e 1940 e partiu rumo aos Estados Unidos ainda em 1961. Esse debate, entretanto, ficará mais evidente por meio da homenagem da revista a Gastón Baquero. 3.3.2 – A “cubanía criolla” de Gastón Baquero Gastón Baquero (1914-1997) é uma figura relevante da poesia cubana da segunda metade do século XX. Negro, pobre e homossexual, atingiu sucesso intelectual na Havana da década de 1940. Em 1942, publicou Poemas y Saúl sobre su espada. A partir de 1945, ocupou o cargo de redator chefe no Diario de la Marina, mais antigo periódico cubano durante o período colonial e a Primeira República. Chegou a atingir um status social muito elevado e adentrou a vida política, passando a desempenhar intensa atividade na vida cultural de Havana.542 Assim como Eliseo Diego, Cintio Vitier, Fina García Marruz, Lorenzo García Vega e Virgilio Piñera, pertenceu ao grupo Orígenes, reunido ao redor de Lezama Lima. Apesar de suas divergências dentro do grupo, a relativa autonomia da poesia e a tentativa de pensar a identidade nacional e a insularidade durante as décadas de 1930 e 1940 os congregava. O poeta publicou o poema Canta la alondra en las puerta del cielo no primeiro número de Orígenes (primavera de 1944), mas, posteriormente, afastou-se do grupo e de seu núcleo mais ortodoxo. Nos primeiros meses de 1959, abandonou Cuba e se estabeleceu em Madrid, onde trabalhou simultaneamente no Instituto de Cultura Hispânica e na Radio Exterior de España, bem como retomou sua atividade literária.543 541 ARENAS, Reinaldo. op. cit., 2012, p. 198. 542 RODRIGUEZ SANTANA, Efraín. Gastón Baquero: La invención de una identidad. Revista Brasileira do Caribe [en linea] 2006, VII (Julio-Diciembre). Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=159113678004. Acesso em: 10 nov. 2018. 543 Ibid. 176 Em El verso debe caer del ojo como uma resina, artigo do poeta publicado no número de Mariel em sua homenagem544, Baquero aborda a obra poética de Lezama Lima, sua relação com o escritor, e refere-se à revista Espuela de plata. Vincula-se, assim, à geração de Orígenes, bem como o faz a maioria dos textos publicados em sua homenagem nesse número da revista. Em Mi encuentro español com Gastón Baquero, de Francisco Brines, Orígenes é descrito como grupo poético mais valioso produzido em Cuba durante o século XX: Algo después, confundido con muchos en el anaquel de una librería, sobrevendría el feliz hallazgo de un libro inesperado, aunque ya codiciado: la antología qué, con piel editorial de Orígenes, preparaba Cintio Vintíer, con el titulo de Diez poetas cubanos. Se trata de uno de esos libros qúe, con el tiempo, llegan a alcanzar una incontestable importância histórica. [...] presumo que, en los predios de la poesía cubana, la Antología de Vitier irá acompanada de análogo nimbo, pues en ella se fija el grupo sin duda más valioso que, en este siglo, ha producido poeticamente Cuba.545 A construção extremamente positiva de Orígenes, que perpassa toda a homenagem a Baquero, contrasta com a construção do poeta sobre o grupo em entrevistas a Felipe Lázaro em 1987: En rigor, no hay tal generación de Orígenes. Usted no puede hallar nada más heterogéneo, más dispar, menos unifcado, que el desfile de la obra de cada uno de los presuntos miembros de la generación. Siempre he tenido la impresión de que Lezama, que era una personalidad muy fuerte, que tenía un concepto exigentísimo para la selección y publicación de un material en “su” revista, aceptó a muchos de nosotros a regañadientes, porque no tenía a mano a nadie más. Creo que literalmente no nos estimaba en lo más mínimo. Lo que cada uno de nosotros hacía estaba tan lejos, a tantos kilómetros de distancia, de lo que él hacía, que la incompatibilidad era no sólo obvia, sino escandalosa. En lo personal mismo nos llevábamos bastante mal. Pero esto es propio del ambiente literario, o de los literatos de todos los tiempos. Mi veneración y mi respeto por la obra de Lezama y por su actitud ante la cultura, no me impidieron nunca reconocer que su carácter era muy fuerte, intransigente, con rigor excesivo para enjuiciar personas y obras. Casi siempre estábamos, como los niñitos en el colegio, “peleados”. No nos reuníamos en grupo jamás, porque no existía tal grupo, sencillamente. [...] Esto no quiere decir que desconozca o niegue el valor de la revista Orígenes. Una cosa es la revista y otra es lanzarse, por comodidad y por obediencia al lugar común, a hablar de “la generación de Orígenes”. La revista fue la expresión de unas tendencias literarias actuales (actuales en aquel momento, por supuesto), pero no fue sino una expresión más del amor sempiterno de los cubanos por la literatura y por la publicación de buenas revistas. Es explicable que los extraños hablen de Orígenes como si si se tratara de algo único, insólito y excepcional en Cuba. Dejando a un lado la cuestión de la calidad, que es, en defnitiva, cuestión de preferencias y de gustos, ¿cómo desconocer la importancia de revista como la de la Universidad de La Habana, como la Revista Cubana, como la Bimestre, como la del Lyceum, como la de la Biblioteca Nacional, como la de los arquitectos, etcétera?546 544Número 7, outono, 1984. 545 BRINES, Francisco. Mi encuentro español con Gastón Baquero. Mariel, n. 7, 1984, p. 29-30. 546 LÁZARO, Felipe. Conversaciones con Gastón Baquero. Madrid: Editorial Betania, 2012, p. 37-38. 177 A invenção de Orígenes, entretanto, poderia ser objeto de outro estudo. Em Mariel, Baquero e sua obra representavam, além de Orígenes – na perspectiva da publicação, o maior marco da poesia cubana no século XX -, uma realidade artística única e, ao mesmo tempo, universal, remetendo a épocas passadas que deveriam ser preservadas, como afirma Edith Llerena no artigo El príncipe de La Habana: El conjura a las décadas y hace regurgitar al tiempo las piedras preciosas de nuestra historia, para que no muera lo que no debe morir, según vaya apuntando la proa el rumbo elegido por la nave veleidosa de la conversación en grupo. [...] En los sedimentos que yacen bajo el alma, y que son la sustancia de lo que ha valido la pena proteger de la erosión del tiempo, está la figura venerable y querida de un poeta [...]547 Segundo Rafael Rojas, Baquero mobilizou cenas da história e da literatura universais em suas obras. Interessavam ao autor o que Stefan Zweig denominou “momentos estelares da humanidade”: a primeira conversa de Júlio César e Cleópatra, o enterro de Pascal, os bailes de Luis XIV, a derrota de Napoleão em Waterloo. Baquero chamava esses momentos de “subidas y bajadas en las escaleras del tiempo”, percorrendo o devir da humanidade.548 A proposta de Baquero, dessa forma, dialogava com a proposta de “arte universal” desvinculada de interesses imediatos defendida por Mariel.549 O escritor mantinha vínculos estreitos de amizade com Lydia Cabrera, assessora da revista. Nas correspondências trocadas entre ambos, percebemos que suas preocupações com a preservação da memória também tangiam aos ideais liberais republicanos em Cuba: La República, la Idea de la República del 20 de mayo, no ha muerto, ni puede morir. Quienes, ciegos ante la historia y ante la verdad de esa República, han creído posible borrar las fechas, anular la manera martiana y pura de la convivencia, destruir todo el edificio de la República (dicen ellos que por tener grietas aquí y allá, goteras y defectos en la cumbrera exterior del tejado), no han podido hacer otra coisa que encadenar a Cuba a otra manera de colonia, cien veces más atroz que la anterior. No celebran el 20 de mayo, ni el 10 de Octubre, ni el 24 de Febrero, ni el 7 de Diciembre, porque se han quedado sin raíces y sin libertad - !el bien de los bienes, hasta para las bestias! - y pretenden que su patria está en Moscú y que su Céspedes es Lenin, su Martí Fidel, y su Maceo el Ché. Decian "patria o muerte", y la gente aplaudía; aplaudía hasta que descubrió que lo que querian decir estos cabritos era "patria muerta". Decian traer la libertad, la paz y el bienestar para todos, y los que trajeron fue la M del marxismo-leninismo, que en el vientre trae unicamente, y siembra en cuanto se apodera de un país, las cuatro emes terribles: muerte, miseria, maltratos y mierda. Y si al horror del marxismo-leninismo le agregas a Castrico y su morralla, "quiquiribú mandinga! Frente a los que intentan borrar de la conciencia de los cubanos, hallese dentro o fuera de Cuba, y sea cual sea la 547 LLERENA, Edith. El príncipe de La Habana. Mariel, n. 7, 1984, p. 29. 548 ROJAS, Rafael. Gastón Baquero sube y baja las escaleras del tiempo. Disponível em: http://www.crearensalamanca.com/gaston-baquero-sube-y-baja-las-escaleras-del-tiempo-ensayo-del- cubano-rafael-rojas/. Acesso em: 15 nov. 2018. 549 Ver capítulo 2. 178 edad de cada uno, la noción verdadera de patria, de la cubanía, de la criolledad (noción excluyente de la esclavitud, de la crueldad, de los pilares del comunismo [...].550 Percebe-se, portanto, que o poeta, além de anti-comunista, era crítico contumaz das políticas de memória do regime revolucionário cubano, compreendidas como uma forma de morte da identidade cubana, e que inventava a identidade da ilha e da “cubanía” a partir da reivindicação das raízes criollas, dos heróis da independência e, principalmente, do republicanismo. Da estátua comemorativa ao 20 de maio erguida em Vedado, restaram a imagem de uma deusa grega coroada de louros. O monumento a Estrada Palma, primeiro presidente eleito da República de Cuba independente, foi destruído em 1959 por uma turba revolucionária.551 Estrada foi considerado por muitos um traidor da nação por ter aceitado exigências das forças de ocupação dos Estados Unidos, como a inclusão da Emenda Platt na Constituição Cubana. Historiadores fidelistas descreveram a nova República cubana, formalmente proclamada em 20 de maio de 1902, como “pseudo-república”. O período de quase 60 anos foi marcado por violência incessante, corrupção, revoltas militares, gangsterismo e intervenção esporádica dos Estados Unidos, bem como por crescimento econômico e enorme prosperidade para uma pequena parcela da sociedade.552 Baquero, assim como Lydia Cabrera, eram intelectuais liberais, contrários ao socialismo, e que reivindicavam as ideias republicanas. Partiram para o exílio ainda no início da Revolução – o primeiro, em abril de 1959; a segunda, em 1960. Na Despedida de los lectores que o poeta publicou, em 1959, no Diario de la Marina – fechado pela Revolução pouco depois -, comemorou a “caída de una dictadura que cometió tan terribles errores y realizó tantos horrores”, mas apontou para seu ceticismo em relação a revoluções e sua lealdade à Primeira República cubana: Siempre se fijan tareas que requerirían la asistencia de grandes genios, la milagrosa autoridad de ángeles y santos para cambiar de la noche a la mañana la naturaleza humana. Las revoluciones quieren hacer por decreto que en un instante se precipite el progreso, y nazca el hombre nuevo y surja por encanto la ciudad soñada. Su gran paradoja consiste en que no quiere dar al tiempo lo que es del tiempo, ni al hombre lo que es del hombre […] Provocan sufrimientos y conmociones que alteran a fondo y por mucho tiempo el desarrollo normal y seguro, el avance lógico y humano hacia el mejoramiento constante de las formas de vida. [...] Lo que no quiere decir que permanezca indiferente ante los males y renuncie a la superación de éstos por medios que 550 BAQUERO, Gastón [Carta] sem data, Madrid. [para] CABRERA, Lydia. Miami. 8f. Disponível em: Lydia Cabrera Papers. Cuban Heritage Collection, University of Miami, Digital Collection. 551 GOTT, Richard. Op. cit., p. 134. 552 Ibid. 179 le parecen menos dañinos y más duraderos. [...] El miedo a defender las ideas que van contra la corriente o que son estigmatizadas como nocivas es la mayor de las cobardías. Vale más morir junto a una idea vencida, en la cual se cree todavía, que unirse al carro victorioso que pasa, renunciando a tener ideas, a defender una ideología, a proclamar la visión propia y sincera que se tiene de los hombres y del mundo.553 Em outra carta à amiga, escrita em 1978, o escritor afirmava, referindo-se à obra Consagración de la Primavera, de Alejo Carpentier: "[...] es la habitual difamación de Cuba precastrista, donde segun estos monstruos todo era malo. Solo pintan la parte negativa, para complacer a los comunistas y a todos los hijitos de la Gran Bretaña [...], que no perdonan a Cuba libre ser lo que era."554 A revista Mariel abriu suas páginas para a discussão do período anterior à Revolução. Em seu primeiro número (1983), publicou um artigo de Lydia Cabrera, no qual a antropóloga relembrava sua relação com a pintora franco-russa Aleksandra Ekster e a Cuba da época de Gerardo Machado: “Era otro país. La caída del Presidente Machado, el hombre que soñó convertirla en un país industrializado, economicamente libre, marca también en esta baja de valores morales”555. Já em entrevista com a pintora cubana Zilia Sánchez, exilada em Porto Rico desde 1961, exaltava-se a produção e o clima intelectual em Cuba durante a década de 1950, considerada una “isla con plena libertad personal e intelectual”.556 No ensaio Cuba, um “manjar” inaceptable (1982), Reinaldo Arenas retomou a ideia da Primeira República como um período da história cubana “menos pior” para os intelectuais, se comparado ao revolucionário: Durante las passadas y desde luego deleznables dictaduras (causantes de la que ahora padecemos), a Lezama Lima no se le grabaron a mansalva sus conversaciones privadas por membros de la policía secreta, como tantas veces se le hizo durante el régimen de Fidel Castro y como consta en el affaire Padilla, ni se censuró su obra como se hizo en los diez últimos años de su vida...Durante las passadas, y desde luego aborrecibles tiranias, aún hubo una margen para que hicieran sus obras autores como Lino Novás Calvo, Labrador Ruiz, Lydia Cabrera, Fernando Ortiz y hasta el mismo Alejo Carpentier a quien su militante obediencia a Fidel Castro (pero desde París y bien remunerada) le reportó literariamente un gran desbalance...[...] Entre ese antes lamentable y 553 BAQUERO, Gastón. Ensayos selectos. Madrid: Verbum. Citado por: Gastón Baquero cumple cien años, o no. Disponível em: https://cuadernoshispanoamericanos.com/gaston-baquero-cumple-cien-anos-o-no/2/. Acesso em: 15 de novembro de 2018. 554 BAQUERO, Gastón [Carta], 1978, Madrid. [para] CABRERA, Lydia. Miami. 2f. Disponível em: Lydia Cabrera Papers. Cuban Heritage Collection, University of Miami, Digital Collection. 555 CABRERA, Lydia. De mis recuerdos – Alexandra Exter. Mariel, n. 1, 1983, p. 26. 556 BLANC, Giulio V. Conversación con Zilia Sánchez. Mariel, n. 7, 1984, p. 37. 180 este ahora intolerable, se extraviaron las rendijas, el margen, el mínimo de libertad, que todo autor necessita.557 Outro diretor da revista, Juan Abreu, em seu livro de memórias publicado anos depois, em 2016, também retomou a ideia da Primeira República cubana defendida por Baquero e Cabrera, de modo que entendemos que é possível que essa ideia seja compartilhada por outros escritores que produziram a publicação e que esses intelectuais republicanos liberais tenham formado discípulos: Qué fuimos? Uma aspiración al progresso, la democracia, la decencia, la nobleza, a uma artística desmesura? Cierto, una aspiración. Eso fue todo. Pero esa aspiración, abortada por nuestra irresponsabilidad, nuestra cobardia y nuestra indolência, fue un verdadeiro paraíso de logros y possibilidades comparado con el fanático endiosamento de la vulgaridade, la delación y la intolerância de esta perene grosería llamada Revolución. Tuvimos una oportunidade en la deficiente República, pero la desperdiciamos.558 Ainda assim, compreendemos que os intelectuais mais jovens que integraram Mariel – marielistas e ex-integrantes das Ediciones El Puente – eram mais críticos em relação ao período de 1902 a 1959 da história cubana. Ana María Símo – integrante de El Puente na década de 1960 -, em resenha à obra Cuba: claves para una conciencia en crisis, de Carlos Alberto Montaner, defendeu que nunca houve uma “idade de ouro” republicana: En defensa de la república, Montaner alega que no es conveniente confundir a los hombres corruptos con las instituciones republicanas y denostar tambien a éstas. Los castristas lo han hecho, agrega, porque quieren quedar solos en la história, que es la meta de todo caudillo. Observación aguda, aunque incompleta. Sin embargo, no convence la sutileza talmúdica de separar hombres de instituciones en un país en el que no hubo tiempo para que tal separación se efectuase históricamente: no hubo en Cuba una edad de oro en qué las instituciones republicanas gozasen de credibilidad, si se exceptúan las tímidas esperanzas del primer período de Estrada Palma.559 Disputava-se, portanto, a memória do período anterior à 1959 com o regime revolucionário cubano. Além disso, como percebemos nas correspondências de Baquero, a “cubanía” proposta pelo escritor era incompatível com o marxismo-leninismo, associado à escravidão e à violência, bem como à administração colonial – discursos frequentes em Mariel560. A recuperação imaginária do antigo regime é recorrente em discursos nacionalistas cubanos, de direita ou de esquerda, desde a década de 1930561, 557 ARENAS, Reinaldo. op. cit., 2012, p. 262-263. 558 ABREU, Juan. Debajo de la mesa. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Editores Argentinos, 2018, p. 322-323. 559 SIMO, Ana María. Un moralista cubano. Mariel, n. 3, 1983, p. 26. 560 Ver Capítulo 1. 561 ROJAS, Rafael. Motivos de Anteo. Pátria y nación en la historia intelectual de Cuba. Madrid: Editorial Colibri, 2008, p. 32. 181 além de operar como contra-discurso em relação à retórica revolucionária de que 1959 marcaria uma continuidade em relação às guerras de independência iniciadas por Martí e seus contemporâneos. A temática identitária no poeta se estende à relação de Cuba com o exílio. Parcela relevante da produção intelectual cubana tem sido marcada pela nostalgia e pela relação entre dois espaços, entre a ilha e o exílio.562 Baquero morreu na Espanha após viver trinta e oito anos fora de seu país natal. Na década de 1990, ao ser questionado pelo jornalista cubano Carlos Espinosa se havia conseguido escrever fora de sua casa, o escritor respondeu que levava a ilha dentro de si: ¡Pobre de mí si no pudiera escribir fuera de mi casa! Yo salí de mi casa en 1959, así que figúrate, no hubiera podido escribir casi nada. Yo escribo en cualquier sitio porque mi casa la llevo conmigo. Mi país yo lo llevo conmigo, en mi castillo interior [...] Yo vivo y produzco dentro de mí [...] Allí tengo mi Isla, mi familia, mi sol.563 O poeta partia da compreensão de que Cuba possuía uma geografia plural, que abarcava a parte de dentro e de fora da ilha. Em artigo de Edith Llerena publicado em Mariel, entendia-se que essa perspectiva era acalentadora para a comunidade de exilados: Su sabiduría, su caballerosidad y la elegância sencilla de sus gestos nos reafirman en la idea de que lejos de la tierra natal se puede sostener, apesar de los avatares, la propia idiosincrasia; poso del ser, espejo fidelísimo del entorno en que crecimos y nos forjó. El cuerpo y su sombra son inseparables, el uno no puede existir sin la otra, o viceversa, del mismo modo que el individuo no puede prescindir de su entorno. Se complementan y nutren, se aman, se desafían o se alejan, pero siempre inseparables. Yo no quiero morir, ciudad, yo soy tu sombra...564 Em suas correspondências, notamos que o exílio se converteu em uma identidade para o escritor, que o vinculava às experiências de seus conterrâneos do século XIX, legimitando sua experiência com o legado simbólico da independência e, claro, da “criolledad”: [...] vivimos hoy como vivieron los mejores cubanos del siglo pasado, sin patria, pero sin amo. Por muchas que sean las repeticiones escritas de estos sentimientos guajiros, criollos de raiz, sembrados por Lidia en las almas de los cubanos-cubanos, siempre serán pocas en comparación con lo que te debemos. Lo escrito queda, y puede ser perenne, hasta donde cabe aspirar a perennidad para las acciones humanas. Lo que escribamos de ti, lo escribimos e imprimimos de la cubanía perfecta. [...] tú y yo sabemos a cuanta maravilla sabe la palabra República, la República. Lo que eso quiere decir para los 562 Ver Capítulo 1. 563 ESPINOSA DOMÍNGUEZ, Carlos. La poesía es magia e invención. Entrevistas a Gastón Baquero. Madrid: Editorial Betania, 1998, p. 42. Citado por: RODRIGUEZ SANTANA, Efraín, op. cit. 564 LLERENA, Edith. El príncipe de La Habana. Mariel, n. 7, 1984, p. 29. 182 cubanos con un poquitico de raíces criollas intactas, es dificil contarlo a los extraños. Ahora andan sueltos por ahí y por aquí, y por todas partes, algunos cubanitos comemierdas que dicen no sentir la patria, ni importarles nada su destrucción y su pena. Yo creo que adoptan esta pose, no por la cursilería de hacerse los europeos o los norteamericanos, sino porque les falta el valor de amar a Cuba, de querer a la patria, y estar lejos de ella. Para no sufrir, fingen no amar, no sentir nostalgia, ni echar de menos las raízes. Han hecho de la expatriación una despatriación, para que no les duela la diáspora, por que su egoismo, su frivolidad y su hedonismo de quincallería les exige quitarse del corazón todo lo que pueda llevarlos al santo insomnio de Cuba.565 Logo, ainda que o poeta pensasse a identidade cubana a partir de uma perspectiva diferente daquela da publicação que pesquisamos, percebemos a preponderância, em ambos, da independência cubana como legado simbólico e do exílio como elemento constitutivo de identidade e legitimação, tendo em vista a apropriação das experiências nacionais do século XIX. A linguagem do sofrimento, dessa maneira, serviu como elemento aglutinador para a discussão de uma multiplicidade de temas e como forma de crítica ao regime revolucionário cubano. Em El romanticismo y el hecho americano, José Lezama Lima percorre os itinerários de uma série de figuras do século XIX da história americana, como Fray Servando, Simón Bolívar e José Martí, a fim de pensar o continente. Nesse ensaio, o escritor defende que o romântico americano se “ve obligado por la imagen de la lejanía, a reconstruir um hecho”, e inventa uma tradição de calabouços, ausências e morte: [...] Pero esa gran tradición romântica del siglo XIX, la del calabozo, la ausencia, la imagen y la muerte, logra crear el hecho americano, cuyo destino está más hecho de ausencias posibles que de presencias imposibles. La tradición de las ausencias posibles ha sido la gran tradición americana y donde se sitúa el hecho histórico que se há logrado. José Martí representa, en uma gran navidad verbal, la plenitud de la ausencia posible. [...] Sus Diarios son el descubrimiento táctil del desembarcado, del recién venido, del duermevela, del entrevisto. Preside dos grandes momentos de la expresión americana. Aquel que crea un hecho por el espejo de la imagen.566 Reinaldo Arenas, em El mundo alucinante (1967), já havia se inspirado nos ensaios de Lezama para ficcionalizar a vida de Fray Servando. A revista Mariel, a partir dos ensaios de Lezama Lima e da obra vanguardista e existencialista de Virgilio Piñera, construiu uma tradição cubana de desterro, opressão e resistência, que resumiu na figura da barata kafkaniana. 565 BAQUERO, Gastón [Carta] sem data, Madrid. [para] CABRERA, Lydia. Miami. 8f. Disponível em: Lydia Cabrera Papers. Cuban Heritage Collection, University of Miami, Digital Collection. 566 LEZAMA LIMA, José. La expresión americana. La Habana: Editorial Letras Cubanas, 1993, p. 78- 79. 183 Um dos diretores da publicação, Reinaldo Arenas, partia da compreensão cíclica da temporalidade na história cubana. Na década de 1980, afirmou sobre seu poema El Central: Yo me dí cuenta que la historia, en el caso de Cuba, era una especia de horror circular y que no estábamos viviendo más que las mismas escenas que habíamos vivido en los siglos XVIII o XIX. Yo lo que traté de hacer [...] era una visión circular de nuestra realidad con tres tiempos: la esclavitud de los indios, de los negros y la esclavitud actual em Cuba. Y era más o menos igual.567 De maneira similar, a revista Mariel construiu uma identidade cubana tomando por base as continuidades históricas de experiências autoritárias na ilha, em detrimento das rupturas. Em suas disputas pelas memórias com a Revolução, a revista privilegiou os intelectuais vinculados ao republicanismo católico, ao republicanismo liberal e ao nacionalismo de vanguarda. O grupo Orígenes, cuja posição no cânone cubano havia sido questionada pelos jovens vanguardistas da geração de 1950, foi retomado com vigor pela publicação. Durante a década de 1960, em Cuba, os debates dos republicanos católicos de Orígenes foram considerados à margem dos debates sobre a modernidade cubana. Além disso, uma parcela mais ortodoxa da intelectualidade considerava as obras do grupo herméticas, pouco acessíveis à população e sem compromisso social e político com a realidade da ilha. A revista Mariel retomou o grupo e seu principal líder – Lezama Lima – como parte transcendente e autêntica da cultura insular. Em meio à reabilitação póstuma de Lezama, em curso na ilha a partir de fins da década de 1970, a revista disputou seu exílio interior com os discursos oficiais, e o exaltou como crítico do regime, silenciando suas estratégias de acomodação e colaborações nos órgãos culturais do governo. Colocavam-se, assim, como herdeiros de Lezama e sua obra. O nacionalismo de vanguarda de Ciclón é, igualmente, reivindicado pela revista, principalmente por meio da figura de Virgilio Piñera. A publicação conjugou a obra lezamiana e o existencialismo absurdo piñeriano no debate acerca de identidade cubana. No caso de Piñera, as discussões acerca da homossexualidade foram centrais e, por meio do autor, a publicação inseriu a homossexualidade dentro de discursos sobre a identidade cubanas e sua “tradição” de opressão e resistência. Por meio da obra do escritor Carlos Montenegro, excluído do Diccionario de la literatura cubana, de 1980, a revista também 567 MACHOVER, Jacobo. La memoria frente al poder: escritores cubanos del exilio: Guillermo Cabrera Infante, Severo Sarduy, Reinaldo Arenas. Universitat de València, 2001. Edição do Kindle. Local 6329. 184 conjugou discussões acerca da homossexualidade, machismo e autoritarismo na história cubana. Entendemos que, dessa forma, discutiu-se a própria nação cubana, visto que, desde o século XIX, homossexuais foram simbolizados como entraves à existência nacional, visando uma “nación-sexualidad imaginada, construida y subyacente en la concepción de la Nación misma, que garantice a través de un conjunto de relaciones y representaciones simbólicas su estabilidad y su reproducción social”.568 Afinal, a identidade nacional constitui um mecanismo de controle social, e “la construcción de la sexualidad empieza a ser utilizada para definir y regular las nociones de nacionalidad, capas, estamentos y clases sociales”.569 Além disso, os desenhos das sociedades latino- americanas do século XIX, como a cubana, foram pensados em termos essencialmente masculinos.570 Ainda que a Revolução de 1959 tenha marcado o início de um novo momento nacionalista, como abordamos no capítulo 2, o "homem novo", simbolizado por Che Guevara, continha muitos traços de uma masculinidade viril e heteronormativa, e o regime revolucionário se apropriou simbolicamente das experiências nacionalistas do século XIX. Na construção de um discurso nacionalista e, simultaneamente, homossexual, o resgate da literatura do século XIX e do capital simbólico de José Martí foram essenciais na revista. Ao mesmo tempo, as leituras das obras do “apóstolo” realizadas pela Revolução foram rechaçadas e condenou-se sua vinculação às ideias socialistas. Mariel interpretou Martí como um representante da cultura política democrática, da liberdade (na acepção liberal) e da “tradição” de sofrimento e de exílio cubana. A intelectualidade vinculada ao republicanismo liberal, que partiu rumo ao exílio ainda nos primórdios da Revolução, também foi retomada na publicação, principalmente, devido às redes de sociabilidade estabelecidas nos Estados Unidos. Por meio de figuras como Lydia Cabrera – assessora da revista –, Carlos Montenegro e Gastón Baquero, Mariel resgatou a Cuba anterior à Revolução e disputou a República cubana com o regime revolucionário. Ao longo de toda a seção da revista, a linguagem de sofrimento do exílio funcionou como elemento constitutivo de identidade e imã aglutinador para uma 568 MADERO, Abel Sierra. Sexualidades disidentes en el siglo XIX en Cuba. E.I.A.L., Vol. 16 – No 1, 2005, p. 69. 569 Ibid, p. 69. 570 Ibid, p. 72. 185 multiplicidade de temas da realidade nacional e de concepções da identidade cubana, de modo que os discursos sobre a “tradição cubana de exílio” exerceram função primordial na construção de um discurso de oposição política a partir da cultura. 186 Considerações finais Neste estudo, buscou-se compreender a trajetória da revista Mariel no exílio, seu editorialismo programático e as estratégias de legitimação estabelecidas. Focamos nos debates acerca do regime revolucionário cubano, da função do intelectual, da literatura e das concepções acerca da identidade nacional. O exílio massivo de 1980 desafiou as retóricas revolucionárias, apontou novas direções para os acordos migratórios entre Cuba e os Estados Unidos e possibilitou a emergência de novos atores na esfera pública. Apesar de terem padecido os “males do exílio”, como fragmentação da identidade e melancolia, os marielistas participaram ativamente do debate público de sua época e estabeleceram contatos frutíferos no meio intelectual e político, evidenciando as dinâmicas entre o exílio cubano, os Estados Unidos e Cuba. Tratou-se de uma publicação anticomunista e liberal pragmática, que congregou intelectuais cubanos de diferentes gerações, bem como dialogou com atores de diferentes espectros políticos dos Estados Unidos, da América Latina e da Europa – desde parcela do movimento gay e grupos de lobbying cubanos até organizações de direitos humanos e setores neoconservadores norte-americanos. Pudemos perceber o caráter heterogêneo dos grupos que se reúnem sob a bandeira anticomunista e a multiplicidade de ideias e interesses abarcadas por essa diretriz. A revista dialogou com o conceito de “intelectual orgânico” – em voga nos meios de esquerda e em Cuba, principalmente, durante as décadas de 1960 e 1970 -, a fim de debater a função do intelectual. Rechaçava a vinculação entre atividade artística e engajamento político e social, posicionando-se a favor de um intelectual crítico e independente. O editorialismo programático da publicação, entretanto, mostrou-se profundamente politizado, possuindo claramente uma pauta anticastrista e anticomunista, e forte caráter combativo – que, através das redes de sociabilidade estabelecidas e vice- versa, extrapolou as páginas da revista e atingiu festivais de arte, universidades, a televisão, o cinema, a política institucional e o movimento gay. Alguns membros da revista manifestaram simpatia por ideias anarquistas, feministas, antimilitaristas, e outros reivindicaram o legado da Primeira República cubana. As disputas pela memória ocuparam posição de destaque no projeto editorial, e diversas figuras da intelectualidade cubana foram mobilizadas com esse fim, de modo que se conformou um “contra-cânone” fragmentado da cultura da ilha, constituído por 187 figuras do exílio e do “insílio”. Sua concepção da identidade insular foi construída a partir de uma linguagem de sofrimento e asfixia existencial, e da retomada de um passado e de uma “tradição” de opressão, violência, autoritarismo e administração colonial, em clara alusão às suas experiências na ilha e em forma de crítica à Revolução. As imbricações e a dinâmica triangular entre exílio, identidade e memória foram notáveis ao longo de todo o trabalho. Ainda que não tenha sido o objeto principal de nosso estudo, entendemos, ainda, que a questão da homossexualidade foi imprescindível para compreensão do projeto editorial coletivo analisado. Compreendemos que a revista se inseriu como agente insular no movimento por direitos da comunidade homossexual, e utilizou-se da intelectualidade cubana para discutir essa questão e as próprias concepções de nação. Por fim, ressaltamos o momento no qual este trabalho foi escrito, marcado pelo recrudescimento de discursos e práticas homofóbicas, machistas e transfóbicas no Brasil, e pela discussão sobre a revogação do reconhecimento oficial da transexualidade nos Estados Unidos. Em julho de 2018, a Assembleia Nacional de Cuba debateu um artigo de sua futura reforma constitucional que abre caminho para o reconhecimento do casamento homossexual na ilha. O anteprojeto, que redefine casamento como a “união entre duas pessoas” – uma das reivindicações de ativistas independentes do movimento LGBT cubano571 -, foi aprovado pelos parlamentares e será submetido a consulta popular. Entretanto, ainda há muito caminho a percorrer dentro da ilha. Se, por exemplo, a Ley 116 do Código de Trabajo de 2014 reconheceu o direito a igualdade de pessoas com orientações sexuais diversas, não incluiu identidade de gênero, o que expõe pessoas transexuais à discriminação. Além disso, o país continua sendo bastante homofóbico, machista e transfóbico, e muitas pessoas da comunidade LGBT encontram preconceito nas ruas, em casa e em seus ambientes de trabalho, como em grande parte dos países latino-americanos. 571 Informe elaborado em 2017 pela Alianza Manos, conformada por organizações LGBT independentes de Cuba que dialogam com o Centro Nacional de Educación Sexual (CENESEX). 188 Anexos Capa da revista antes (número 2, 1983) e depois (número 5, 1984) da unificação da impressão e da edição em Nova Iorque. 189 Referências documentais e bibliográficas a) Documentais Mariel – Revista de Literatura y Arte, números 1 (1983) ao 8 (1984). Mariel. Edición especial de aniversario, 2003. Mariel (Revista Papers). Box 1 e 2. Cuban Heritage Collection. Autobiografias e ensaios: ABREU, Juan. A la sombra del mar: jornadas cubanas con Reinaldo Arenas. Editorial Casiopea, 1998. ABREU, Juan. Debajo de la mesa. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Editores Argentinos, 2018. 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