Momade Amisse Ali
Bibliotecas Públicas e Construção da Cidadania:
Desafios no âmbito da Sociedade da Informação em
Moçambique
Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Ciência da Informação
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
Belo Horizonte (MG)
fevereiro de 2011
Momade Amisse Ali
Bibliotecas públicas e Construção da Cidadania:
Desafios no âmbito da Sociedade da Informação em
Moçambique
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Ciência da Informação da Escola
de Ciência da Informação, Universidade Federal
de Minas Gerais, como requisito obrigatório para
obtenção do grau de Mestre em Ciência da
Informação.
Linha de Pesquisa: Informação, Cultura e Sociedade
Orientadora: Profa. Dra. Maria Guiomar da Cunha Frota
Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Ciência da Informação
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
Belo Horizonte (MG)
fevereiro de 2011
Ali, Momade Amisse.
A398b Bibliotecas públicas e construção da cidadania [manuscrito] : desafios
no âmbito da sociedade da informação em Moçambique / Momade
Amisse Ali. – 2011.
241 f. il. : enc.
Orientadora: Maria Guiomar da Cunha Frota.
Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais,
Escola de Ciência da Informação.
Bibliografia: f. 158-174.
Inclui apêndice e anexo.
1. Ciência da Informação – Teses. 2. Sociedade da Informação –
Teses. 3. Bibliotecas públicas – Teses. 4. Cidadania – Teses. 5.
Moçambique – Teses. I. Título. II. Frota, Maria Guiomar da Cunha. III.
Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Ciência da Informação.
CDU: 027.4(679)
Ficha catalográfica: Biblioteca Profª Etelvina Lima, Escola de Ciência da Informação da UFMG
DEDICATÓRIA
À memória da minha mãe, Gueda Machude; meus avós, Ali Amisse e Zainabo Ali
Faque; meu tio, Vulai; e dos meus irmãos, Fátima e Saíde (Didinho). Que Deus os
tenha em Paz!
À Gueda e ao Muqtad, meus filhos queridos, minha fonte de inspiração.
À Juvenália “Nelly” Laquene Ali, minha esposa querida e companheira, pela
paciência e constante encorajamento.
Aos meus ex-alunos, pelo constante encorajamento.
AGRADECIMENTOS
À Deus, pela vida e pelas oportunidades.
À minha família, minha esposa Nelly, e meus filhos Gueda e Muqtad, por terem se
permitido o sacrifício, a privação do calor merecido.
Ao meu pai, Amisse Ali, pelo constante encorajamento.
À Profa. Dra. Maria Guiomar da Cunha Frota, quem me alertou sobre a possibilidade
de vir estudar no Brasil, e orientou com muita dedicação a presente pesquisa.
Ao Ministério da Ciência e Tecnologia de Moçambique (MCT), por todo o apoio.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico do Brasil
(CNPq), pelo financiamento.
À Profa. Dra. Maria Aparecida Moura, como coordenadora, pela calorosa recepção
no Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Escola de Ciência da
Informação (PPGCI/ECI/UFMG), e pela constante colaboração ao longo do
mestrado.
À Profa. Dra. Alcenir Soares dos Reis, pela constante colaboração.
Ao coletivo de professores e funcionários do PPGCI/ECI/UFMG, pelos valiosos
conhecimentos e experiências transmitidas ao longo da minha formação.
Ao Prof. Dr. José de Souza Miguel Lopes, pela constante colaboração, desde a
qualificação do projeto de pesquisa até a defesa da presente dissertação. Agradeço
a honra e o privilégio de ter compartilhado com ele, um conterrâneo na diáspora, o
presente trabalho.
Ao Prof. Dr. Manuel Valente Mangue, pelos ensinamentos e constante colaboração,
quer a nível acadêmico, quer profissional.
À Dra. Wanda do Amaral, pela carta de recomendação e pelo encorajamento.
Aos Prof. Dr. Arlindo Chilundo e Prof. Dr. David Hedges, pelas cartas de
recomendação e pelo encorajamento.
Ao Prof. Dr. Jorge Ferrão, Magnífico Reitor da Universidade Lúrio, por ter autorizado
a licença para continuação dos meus estudos e pelo constante encorajamento.
Ao Prof. Dr. Abdulcarimo Ismael, por todo apoio e constante encorajamento.
Ao Prof. Dr. Camilo Cuna, pelo constante encorajamento.
Ao Adélio Dias, pela experiência e ensinamentos transmitidos.
Ao senhor Boaventura Mucage, diretor da Biblioteca Pública Provincial de Nampula,
pela disponibilidade e colaraboração na coleta de dados para a presente pesquisa.
À Janeth Tapiua, amiga incansável e fundamental no processo de coleta de dados
para esta pesquisa. Muito obrigado!
Ao Evélio Banze, por todo apoio e constante encorajamento.
Ao Emerson Porfírio, por todo apoio e constante encorajamento.
Ao Darik Júlio Setimane, meu colega, com quem muito aprendi profissionalmente.
À todos os colegas da Universidade Lúrio (Moçambique), pelas experiências
partilhadas.
Ao Serafim Adriano Alberto, “achimwene”, pela calorosa recepção e
encaminhamento em Belo Horizonte (MG). Um exemplo de pessoa acolhedora!
Ao Zeca Ali, meu amigo, meu irmão postiço. Quisera Deus que fosse de sangue.
Agradeço todo apoio e encorajamento!
Aos demais amigos e colegas, especialmente João Mangue, Leonel Simango, Inês
Sumbana, António Cipriano, João Sixpence, Alessandra Alves, Ana Márcia, Adolfo
Porto, Virgínia Macaba, Dário Nhabetse, Olinda Muguande, Rogério Paiva, Taibo
Abibo, Vanilo Chitsontso, Carmen Vontade, Munga Chemba Meque, Alessandra
Rodrigues, Esperança Guimarães, e Deivid Ramos, pelas experiências e convívios.
À dona Maria Goreti, pela acolhida e a pronta dispobilidade para ajudar. Fez, muitas
vezes, a vez de uma mãe que muito cedo Deus levou de mim.
A todos, que direta ou indiretamente apoiaram este projeto. À Deus, sempre!
Se o meio for generoso e oferecer oportunidades, o individuo poderá,
com a educação formal [e informal], as leituras e demais fontes de
informação, ter mais autonomia para pensar e agir (Milanesi, 2002,
p.35).
RESUMO
Analisa o papel e os desafios da biblioteca pública provincial na construção e
desenvolvimento da cidadania em Moçambique. A biblioteca pública provincial é pensada como uma
instituição com grande potencial para propiciar condições adequadas de acesso e uso da informação
e das novas TIC, e, por conseguinte, capaz de contribuir para a participação e reforço da cidadania
no âmbito da sociedade da informação em Moçambique. Por outro lado, longe de consagrar a mera
adoção das novas TIC, a construção da sociedade da informação em Moçambique é pensada na
perspectiva da integração e valorização dos aspectos socioculturais e políticos da informação aos
econômicos e tecnológicos predominantes na sua prescrição em Moçambique. Em termos
metodológicos, adotou-se uma abordagem qualitativa, que envolveu uma pesquisa bibliográfica e um
estudo de caso exploratório-descritivo. A biblioteca pública provincial de Nampula foi escolhida como
estudo de caso. Os dados da pesquisa empírica foram coletados através da observação não
estruturada do ambiente da biblioteca, e uma entrevista em profundidade com o diretor da mesma.
Foram realizadas, igualmente, entrevistas simples com dirigentes de algumas instituições
domiciliadas na província de Nampula, onde se buscou identificar relações institucionais com nosso
objeto empírico de pesquisa. A coleta de dados foi feita preliminarmente entre janeiro e fevereiro de
2010, e foi sendo aprofundada através de correspondências por e-mail para questões de
esclarecimento. Os resultados da pesquisa bibliográfica-documental apontaram para a prevalência
de critérios tecnológico e econômico no processo de implementação da sociedade da informação em
Moçambique. Os resultados do estudo de caso revelaram que a biblioteca pública provincial de
Nampula privilegia, em larga medida, as atividades de (i) apoio aos processos de ensino-
aprendizagem e investigação; (ii) promoção do livro e do hábito de leitura; e (iii) disseminação da
informação jornalística. Assim, os principais desafios colocados a essa biblioteca no âmbito da
sociedade da informação em Moçambique referem-se ao alargamento do escopo de seus usuários
(envolvendo os usuários potenciais), e à dinamização de outras suas atribuições, mormente
contribuir para a disseminação da informação de domínio público e organizar palestras e debates
sobre temas relevantes para a cidadania nesse contexto.
Palavras-chave: Sociedade da Informação – Bibliotecas Públicas – Cidadania – Moçambique.
ABSTRACT
Examines the role and challenges of provincial public libraries in the building and development
of citizenship in Mozambique. Provincial public library are intended as institution with great potential
for providing adequate conditions of access and use of information and new ICT, and thus able to
contribute to the strengthening of citizenship and participation in the information society in
Mozambique. Moreover, far from devoting a mere adoption of new ICTs, building the information
society in Mozambique is thought from the perspective of integration and optimization of the
sociocultural and political aspects of information to economic and technological predominate in their
prescription in Mozambique. In terms of methodology, was adopted a qualitative approach, which
involved a literature search and a case study exploratory and descriptive. The Nampula provincial
public library was chosen as a case study. Empirical research data were collected through
unstructured observation of the environment of library, and an in-depth interview with the director of
that. Equally were performed simple interviews with leaders of some institutions domiciled in Nampula
province, to identify institutional relationships with our empirical object of research. Data was
preliminarily collected between January and February 2010, and was being further developed through
correspondence by e-mail to questions of clarification. The results of bibliographic and documentary
search pointed to the prevalence of technological and economic criteria in the process of
implementation of the information society in Mozambique. The results of the case study revealed that
the Nampula provincial public library privileges in a large extent, the activities of (i) supporting the
processes of teaching-learning and research, (ii) promoting books and reading habits, and (iii)
dissemination of journalistic information. Thus, the main challenges to this library within the
Information Society in Mozambique refer to extending the scope of its users (involving potential users),
and boosting their other duties, mainly contribute to the dissemination of public domain information
and organize lectures and discussions on topics relevant to citizenship in this context.
Keywords: Information Society – Public Libraries – Citizenship – Mozambique.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Antigo edifício da biblioteca pública provincial de Nampula:
Balcão de atendimento e depósito do acervo..........................................................137
Figura 2: Antigo edifício da biblioteca pública provincial de Nampula:
Sala de leituras........................................................................................................137
Figura 3: Novo edifício da biblioteca pública provincial de Nampula:
Vista frontal..............................................................................................................138
Figura 4: Novo edifício da biblioteca pública provincial de Nampula:
Sala de leitura...........................................................................................................138
LISTA DE TABELAS, QUADROS E GRÁFICOS
Tabela 1: Distribuição da população moçambicana por regiões e províncias,
segundo sexo e áreas de residência, Censo 2007....................................................80
Tabela 2: Indicadores socioeconômicos básicos de Moçambique, 2007.................91
Tabela 3: Indicadores socioeconômicos selecionados por região...........................92
Tabela 4: Evolução do PIB por regiões e províncias, 2001-2006.............................93
Tabela 5: Evolução da população nas principais cidades de Moçambique..............95
Tabela 6: Alguns indicadores básicos de desenvolvimento socioeconômico
Rural e Urbano...........................................................................................................96
Tabela 7: Taxa de analfabetismo por sexo, segundo área de residência e provícia.97
Tabela 8: Acesso aos meios de comunicação de massa pela população
moçambicana (mulheres) (%)..................................................................................102
Tabela 9: Acesso aos meios de comunicação de massa pela população
moçambicana (homens) (%)....................................................................................103
Tabela 10: Nível de utilização de TIC pelos moçambicanos (2002/03)..................115
Tabela 11: Evolução do BIP na província de Nampula...........................................130
Quadro 1: Divisão Administrativa da cidade de Nampula………………..................149
Gráfico 1: Evolução da pobreza em Moçambique, 1996-2003................92
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS
AISI – African Information Society Initiative
AGP – Acordo Geral de Paz
ALA – American Library Association
ATAC – African Technical Advisory Committee
AWEPA – Parlamentares Europeus para África
BM – Banco Mundial
BNM – Biblioteca Nacional de Moçambique
BPP – Biblioteca Pública Provincial
BPPN – Biblioteca Pública Provincial de Nampula
CEDEAO – Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental
CHRI – Commonwealth Human Rights Initiative
CI – Ciência da Informação
CIDOC – Instituto Médio de Ciências Documentais
CIP – Centro de Integridade Pública
CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
CPRD – Centro Provincial de Recursos Digitais
ECA – Comissão Econômica para África
ECI – Escola de Ciência da Informação
FMI – Fundo Monetário Internacional
FRELIMO – Frente de Libertação de Moçambique
IDH – Indice de Desenvolvimento Humano
ICANN – Internet Corporation for Assigned Names and Numbers
IFLA – Federação Internacional das Associações e Instituições Bibliotecárias
INDE – Instituto Nacional de Desenvolvimento da Educação
INE – Instituto Nacional de Estatística
ITU – International Telecommunication Union
LDH – Liga dos Direitos Humanos (Moçambique)
MUSET – Museu Nacional de Etnologia
NICI – National Information and Communication Infrastructure
TIC – Tecnologias da Informação e Comunicação
ONU – Organização das Nações Unidas
OSISA – Open Society Initiative for Southern Africa
OUA – Organização da Unidade Africa
PARPA – Programa de Acção para Redução da Pobreza Absoluta
PEA – Programa de Ajustamento Estrutural
PIB – Produto Interno Bruto
PICTA – Partnership on Information and Communication Technologies in Africa
PNB – Produto Nacional Bruto
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvmento
PPGCI – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
PRE – Programa de Reabilitação Econômica
PRES – Programa de Reabilitação Econômica e Social
Renamo – Resistência Nacional de Moçambique
RM – Rádio Moçambique
SADC – Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral
SNE – Sistema Nacional de Educação
SOICO – Sociedade Independente de Comunicação
TVM – Televisão de Moçambique
UA – União Africana
UCM – Universidade Católica de Moçambique
UEM – Universidade Eduardo Mondlane (Moçambique)
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil)
UMTIC – Unidade Móvel de Tecnologias de Informação e Comunicação
UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
UniLúrio – Universidade Lúrio
UP – Universidade Pedagógica
USD – Dólar norte-americano
UTICT – Unidade Técnica de Implementação da Política de Informática
MT – Meticais
WIPO – World Intellectual Property Organization
WSIS – World Summit on the Information Society
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO..........................................................................................................17
CAPÍTULO I
BIBLIOTECA PÚBLICA: UMA ABORDAGEM SÓCIO-HISTÓRICA
1.1 Conceitos e trajetória histórica da Biblioteca Pública..........................................23
1.2 A Biblioteca Pública segundo o Manifesto da UNESCO.....................................29
CAPÍTULO II
BIBLIOTECA PÚBLICA, INFORMAÇÃO E CIDADANIA
2.1 O Conceito de cidadania.....................................................................................35
2.2 A informação como fator para a cidadania..........................................................39
2.3 A Biblioteca Pública como um espaço público de informação............................43
CAPÍTULO III
A BIBLIOTECA PÚBLICA NO CONTEXTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇAO
3.1 Abordagem histórico-conceitual da sociedade da informação.............................49
3.2 A Cúpula Mundial sobre a sociedade da informação...........................................58
3.3 A sociedade da informação na África: dilemas e paradoxos................................63
3.4 A Biblioteca Pública no contexto da sociedade da informação............................71
CAPÍTULO IV
A CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO EM MOÇAMBIQUE
4.1 Contextualização da República de Moçambique.................................................78
4.1.1 Transição democrática e extensão dos direitos de cidadania..........................87
4.1.2 Pobreza, analfabetismo e desigualdades sociais.............................................89
4.1.3 Espaços públicos, acesso à informação e participação cidadã........................98
4.2 A Construção da sociedade da informação em Moçambique............................105
4.2.1 Política de Informática e sua estratégia de implementação............................105
4.2.2 Críticas ao determinismo tecnológico.............................................................111
CAPÍTULO V
POLÍTICAS GOVERNAMENTAIS E BIBLIOTECAS PÚBLICAS EM MOÇAMBIQUE:
UM ESTUDO DE CASO DA BIBLIOTECA PÚBLICA PROVINCIAL DE NAMPULA
5.1 Políticas Governamentais e Bibliotecas Públicas em Moçambique...................119
5.2 Impactos do Decreto 46/2007............................................................................125
5.2.1 A ampliação das funções das Bibliotecas Públicas Provinciais......................125
5.2.2 A Biblioteca Pública Provincial de Nampula à luz do Decreto 46/2007...........127
5.2.2.1 Contexto sócio-político, econômico e cultural da província de Nampula.....127
5.2.2.2 A Biblioteca Pública Pronvincial de Nampula: atuação e desafios..............134
5.2.2.2.1 Estrutural organizacional, recursos humanos e materiais da BPPN.........134
5.2.2.2.2 Atuação informacional da BPPN: um desafio no contexto da sociedade da
informação em Moçambique....................................................................................143
CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................................152
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................159
ANEXOS E APÊNDICES
17
INTRODUÇÃO
Considerando o atual contexto de construção da sociedade da
informação em Moçambique, a presente dissertação analisa o papel e os
desafios da biblioteca pública provincial na construção e desenvolvimento da
cidadania nesse contexto.
Aprovada em 2000, pelo Conselho de Ministros, a Política de
Informática é o instrumento através do qual o Governo moçambicano se
propõe a implementar os preceitos da sociedade da informação no país. A
referida política, que tem como eixo central o amplo acesso e uso das novas
tecnologias da informação e comunicação (TIC) como variável imprescindível
para o desenvolvimento científico, tecnológico e sócio-econômico nacional foi
estabelecida com objetivos de i) proporcionar a todos os cidadãos
moçambicanos o acesso universal à informação e os benefícios das novas
TIC; ii) reforçar a participação dos cidadãos no exercício democrático; e iii)
elevar a eficácia e eficiência das instituições do Estado e de utilidade pública
na prestação dos seus serviços.
Uma das condições previstas para a persecução e aplicação dos
referidos objetivos, segundo o Governo moçambicano é a ativa participação de
todos os interessados e potenciais beneficiários da mesma, ou seja, os órgãos
do Estado e/ou governamentais, as instituições de ensino, de pesquisa e
culturais, o setor privado, as Organizações não governamentais (ONG),
Organizações da Sociedade Civil (OSC), em geral, de todos os cidadãos.
Paradoxalmente, a estratégia de implementação da Política de
Informática, aprovada em 2002, foi estabelecida com uma abordagem
considerada tecnologica determinista1, ou seja, a referida estratégia limita o
quadro institucional para a construção da sociedade da informação em
Moçambique apenas a uma dimensão tecnológica (Centros Provinciais de
Recursos Digitais - CPRDs, extensão da infraestrutura tecnológica e um
conjunto de aplicações para a governança eletrônica); exclui de suas
prioridades espaços públicos de acesso informação, entre eles, a biblioteca
1
Sobre o determinismo tecnológico veja-se, por exemplo, Werthein (2000); Webster (2006);
Mangue (2007).
18
pública provincial marginalizando, assim, os aspectos socio-políticos e culturais
da informação.
Essa abordagem e/ou estratégia de implementação da sociedade da
informação em Moçambique tem sido alvo de inúmeras críticas de autores que
relacionam as condições institucionais de acesso público à informação com o
exercício da cidadania no país2, e consideram a fraca estrutura e cobertura
institucional de unidades de informação como um fator que limita os processos
de inclusão sócio-política, e a possibibidade dos moçambicanos exercerem
seus direitos e deveres de cidadania.
Em relação ao acesso à informação, um relatório do Banco Mundial3,
apresentado em 2005, indicava que em Moçambique de cada 1.000 habitantes
apenas três (3) tinham acesso a jornais; 14 tinham aparelhos de televisão; e 44
tinham rádio. Relativamente à dimensão institucional do acesso à informação,
em 2009, foi publicado um artigo que denunciava a fragilidade de recursos,
práticas e estruturas de informação, e a concepção excludente de políticas
públicas de informação, bem como a concepção de unidades de informação
apenas na sua dimensão de instituições culturais4.
Não obstante, existe no país a instituição biblioteca pública provincial,
que configura o espaço público de acesso à informação com a mais ampla
cobertura institucional no país, ou seja, praticamente todas as provinciais de
Moçambique possuem uma biblioteca pública.
Assim, considerando a informação como um instrumento de impreiscindível
para a inserção sôcio-política dos sujeitos enquanto cidadãos, e a biblioteca
pública como um espaço público de informação indispensável para o
desenvolvimento da cidadania, a presente dissertação propôs as seguintes
questões:
Que papel a biblioteca pública provincial desempenha no campo da
informação e cidadania em Moçambique?
Quais são os desafios da atuação dessa instituição no contexto da
construção da sociedade da informação no país?
2
Ver, por exemplo, os trabalhos de Mattes e Shenga (2005), Nharreluga (2006; 2009).
3
(apud Mattes; Shenga, 2007, p.2).
4
Nharreluga (2009, p.35).
19
A opção pela biblioteca pública provincial como objeto de investigação
empírica surgiu da constatação da falta e/ou escassez de estudos sobre essa
unidade de informação em Moçambique, não obstante constituir o mais amplo
espaço público de acesso à informação ao nível das provincias do país. Por
outro lado, pela importância e papel que a literatura e os organismos
internacionais como a UNESCO lhes atribuem enquanto instituição social
capaz de garantir o acesso público à informação e apoiar na formação de
sujeitos cidadãos: tanto pela amplitude do seu campo de ação (educativa,
cultural, recreativa e de lazer, e informacional) como pela diversificação de
seus usuários5.
Em termos da ação política governamental sobre a biblioteca pública
provincial em Moçambique, a dissertação considerou especialmente a
aprovação do Decreto no. 46/2007, de 10 de outubro –, um instrumento que
estabelece o quadro legal, ou seja, as regras organizacionais de
funcionamento de que careciam essas instituições –, e incorpora no quadro
dos objetivos e atribuições das mesmas a missão de contribuir para
disseminação da informação.
Desse modo, considerado o exposto acima, a presente dissertação teve
como objetivo geral analisar e discutir o papel e os desafios da biblioteca
pública provincial no campo da informação e construção da cidadania em
Moçambique. Em termos específicos, a pesquisa visou:
Analisar e discutir as dimensões política e institucional da construção da
sociedade da informação em Moçambique;
Analisar e discutir a política e a atuação da biblioteca pública provincial em
Moçambique;
Descrever e analisar as relações e/ou articulações entre a biblioteca pública
províncial e outras instituições relevantes no campo da inclusão
informacional e da cidadania em Moçambique; e
Contribuir para uma reflexão sobre a biblioteca pública provincial enquanto
espaço público de informação e desenvolvimento da cidadania em
Moçambique;
5
Veja-se: UNESCO (1994); Suaiden (1995, p.20-21; 2000); Milanesi (1986; 2002); Almeida
Jr. (2003); IFLA (2009)
20
A biblioteca pública provincial é pensada na presente pesquisa como
uma instituição com grande potencial para propiciar condições adequadas de
acesso e uso da informação e das novas TIC, e, nesse sentido, capaz de
contribuir para a participação e reforço da cidadania no contexto da sociedade
da informação em Moçambique.
A construção da sociedade da informação é pensada e discutida numa
perspectiva de valorização dos aspectos sócioculturais e políticos da
informação e da sua integração aos aspectos econômicos e tecnológicos
usualmente associados à sua prescrição. Na prática, busca-se partilhar da
visão assente na necessidade de “colocar à disposição do cidadão caminhos
para uma participação ativa” no processo de construção e o/ou implementação
da sociedade da informação (Werthein, 2000, p.71).
Os pressupostos acima justificam, assim, a relevância dos objetivos
propostos. Em termos metodológicos, foi adotada uma abordagem qualitativa,
que envolveu uma pesquisa bibliográfica e um estudo de caso exploratório-
descritivo. A pesquisa bibliográfica, pela sua natureza, constituiu a primeira
etapa do estudo, onde foi mobilizada e analisada a bibliografia pertinente
(livros, artigos de periódicos, dissertações e teses e outros documentos em
formato convencional e eletrónico) sobre o tema proposto, o que serviu para a
compreensão e apropriação de alguns conceitos inerentes ao mesmo
(biblioteca pública, informação e cidadania), e sua articulação com o contexto
da sociedade da informação em Moçambique.
Como estudo de caso foi eleita a biblioteca pública provincial de
Nampula, uma realidade já conhecida pelo autor da pesquisa, tanto como sua
província de origem, quanto como usuário da referida biblioteca. Outras
especificidades que tornaram o caso da biblioteca pública provincial ainda mais
relevante para a pesquisa referem-se ao fato de Nampula ser a província mais
populosa de Moçambique, e ser objeto de vários projetos-pilotos inseridos
mesmo no âmbito da construção da sociedade da informação, mormente
relacionados com a implementação do Governo eletrónico no país.
Os dados sobre a biblioteca pública provincial de Nampula foram
coletados através da observação não estruturada do ambiente da biblioteca;
uma entrevista em profundidade com o diretor, e outras simples com o
responsável da sala de atendimento dessa biblioteca.
21
A coleta de dados foi feita preliminarmente entre janeiro e fevereiro de
2010, e foi sendo aprofundada através de correspondências por e-mail para
questões de esclarecimento. Durante a pesquisa de campo, nos meses de
janeiro e feveiro foram feitas, igualmente, entrevistas simples com os diretores
do Museu Nacional de Etnologia (MUSET) e do CPRD, instituições que se
julgava terem, no âmbito da construção da sociedade da informação em
Moçambique, relações com a biblioteca pública provincial de Nampula6.
Após a coleta, análise e a interpretação dos dados, a dissertação ficou
estruturada em cinco (5) capítulos. No primeiro capítulo busca-se a
compreensão do substrato teórico que evidencia a influência de fatores sócio-
culturais, políticos e econômicos na criação e desenvolvimento de bibliotecas
públicas. Apresenta-se, nesse sentido, um breve histórico dessas instituições
buscando apreender sua evolução ao longo do tempo. Na segunda parte do
capítulo, a biblioteca pública é abordada segundo o Manifesto da UNESO, um
documento referenciado por praticamente toda a literatura consultada sobre a
biblioteca pública.
O segundo capítulo apresenta a discussão em torno do papel da
biblioteca pública nos processos de inclusão informacional e construção da
cidadania. A informação é compreendida e analisada como um fator para a
cidadania, e a biblioteca pública é pensada como um espaço público de
informação, propício para o desenvolvimento de sujeitos cidadãos. O terceiro
capítulo trata da biblioteca pública no contexto da sociedade da informação.
Composto por quatro partes, o capítulo aborda, num primeiro momento, a
sociedade da informação numa perspectiva histórico-conceitual, apresentando
alguns critérios de definição e histórico da mesma. Na segunda parte do
capítulo, são apresentados os princípios e diretrizes da Cúpula Mundial para a
sociedade da informação, de Geneva (2003) e Tunis (2005), respectivamente.
Na terceira parte do capítulo três, a sociedade da informação é discutida
especificamente na perspectiva dos países africanos, onde são apontados
alguns dilemas e paradoxos desses países nos esforços para a implementação
6
Neste sentido, também estava prevista uma entrevista com o Delegado (a) Provincial da Liga
dos Direitos Humanos de Nampula, fato que não foi concretizado por razões alheias a presente
pesquisa.
22
da sociedade da informação. Finalmente, a quarta parte do capítulo três,
aborda-se a biblioteca pública no contexto da sociedade da informação, sendo
partilhada a literatura que considera essa instituição indispensável e de vital
importância nos processos de disseminação, inclusão e mediação
informacionais nesse contexto.
Em conjunto, os três capítulos acima mencionados constituem o corpo
da discussão teórica sobre o nosso objeto de estudo. Nos capítulos IV e V,
trata-se especificamente da contextualização, análise e apresentação dos
dados da pesquisa empírica. O capítulo IV discute o processo da
implementação da sociedade da informação em Moçambique, nesse contexto,
os dados sobre a situação sócio-política, econômica e cultural desse país,
mormente da ampliação dos direitos da cidadania, a pobreza, a exclusão e as
desigualdades socio-econômicas, os espaços públicos de informação e as
possibildades de participação cidadã. Especificamente, o capítulo IV tece
críticas em relação a visão tecnologicamente determinista que subjaz o
processo de implementação sociedade da informação em Moçambique.
O capítulo V apresenta os resuldados do estudo do caso da biblioteca
pública provincial de Nampula. Este capítulo foi dividido em duas partes. Na
primeira parte, analisa-se a concepção das bibliotecas públicas provinciais no
âmbito das políticas governamentais. Além da Política de Informática e sua
estratégia de implementação, foram identificadas e discutidas (i) a Política
Cultural e sua Estratégia de implementação; e (ii) a Política e Estratégia de
Informação.
Na segunda parte, do capítulo V, é demonstrada a situação empirica
das bibliotecas públicas provínciais e seus desafios no contexto da sociedade
da informação em Moçambique, a partir dos resultados do estudo de caso da
biblioteca pública provincial de Nampula. A atuação da biblioteca pública
provincial de Nampula foi analisada à luz do Decreto 46/2007 – de 10 de
outubro.
23
CAPÍTULO I
BIBLIOTECA PÚBLICA: UMA ABORDAGEM SOCIOHISTÓRICA
A compreensão do substrato teórico que evidencia a influencia de
fatores sócio-culturais, políticos e econômicos na criação e desenvolvimento
das bibliotecas públicas é um ponto de partida importante para estimar o papel
e a relevância dessa instituição na sociedade (Gomes, 1982). Esse é o
objectivo perseguido no presente capítulo.
O capítulo está subdivido em duas partes: a primeira apresenta algumas
definições de biblioteca pública e uma breve trejetória sócio-histórica dessa
instituição. Na segunda parte, a biblioteca pública é analisada à luz do
Manifesto da UNESCO (1994), instrumento que define as funções e diretrizes
da biblioteca pública contemporânea.
1.1 Conceitos e trajetória histórica da biblioteca pública
A biblioteca pública é definida na literatura consultada como um
instrumento de comunicação, mantedor e facilitador do acesso à informação,
ao conhecimento e à cultura; um espaço de preservação e disseminação de
conhecimentos gerados pela humanidade e, portanto, indispensável para a
sociedade (Gomes, 1982; Reith, 1984; e Mueller, 1990).
É uma instituição com caracteristicas sócio-culturais únicas em qualquer
sociedade, afirma Reith (1984, p.6-7) argumentando que,
apesar de museus, galerias e os meios de comunicação de
massa - jornais, rádio e televisão - também servirem a
função de comunicação, a biblioteca [pública] sozinha entre
essas instituições serve ambas funções de forma holística e
histórica. [...] Atende a todas as instituições da sociedade
e, portanto, pode ser reconhecida como uma força essencial
de integração (tadução livre).
Não obstante, assim como Murison (1971, p.222), Gomes (1982, p.18),
Araújo e Oliveira (2005, p.42), e Tello (2005), o autor citado acima partilha da
compreensão de que o papel social da biblioteca pública é moldado e
condicionado pela estrutura, valores e aspirações sócio-culturais e intelectuais
da sociedade que a cria, conserva e à qual seus serviços são dirigidos.
24
Uma sociedade que tenha alcançado um alto nível de desenvolvimento
sócio-cultural e intelectual, com uma estrutura política e econômica bem
definida, segundo Gomes (1982, p.19), criará bibliotecas públicas com
organização bem mais extensa, que sirva de instrumento de comunicação das
suas experiências. Nesse sentido, a criação e o desenvolvimento das
bibliotecas públicas dependem da forma como se denvolvem os fatores que
atuam no processo sócio-cultural, político, econômica e intelectual de uma
sociedade.
As condições econômicas (excedentes de riqueza e de recursos
econômicos), por exemplo, segundo Araújo e Oliviera (2005, p.31-32), jogam
um papel muito importante por influenciarem na produção de conhecimentos,
produção cultural e de unidades de informação, incluindo as bibliotecas.
Relativamente às condições sociais, essas autoras destacam: (i) o
aparecimento de grandes centros urbanos que, em suas atividades cada vez
mais complexas produzem inúmeros registros e requerem sofisticados
sistemas de informação; e (ii) o sistema formal de educação, que necessita
tanto de registros de conhecimentos e sua conservação quanto de bibliotecas
para participar e dar apoio ao processo de ensino-aprendizagem.
As condições políticas também são expostas em dois níveis: o primeiro
diz respeito ao clima de tranqüilidade política e social de uma sociedade, que
pode propiciar e ampliar o crescimento de bibliotecas, ao contrário de
ambientes de conflitos e crises políticas que as destroem e/ou destroem seus
acervos7 . Em outro nível, as bibliotecas, assim como toda a produção de
conhecimentos, necessitam de políticas governamentais para seu estímulo e
crescimento (ibidem).
Ballard8 (apud Garcia, 1957, p.12) também destaca como fatores para
o surgimento da bibliotecas públicas contemporâneas, os excedentes de
riqueza, o desenvolvimento e expansão das idéias políticas, o
desenvolvimento da educação pública, incluindo nesses fatores, o aumento
do tempo livre dos trabalhadores, e a utilidade dessas instituições para a
educação de adultos.
7
Veja-se, em Báez (2006), um interessante estudo sobre a história da destruição de livros
e/ou bibliotecas.
8
BALLARD, Llyod Bernor. Public library. Chicago: ALA, 1937.
25
Na prática, o percurso histórico da humanidade testemunha a influencia
desses fatores na criação e manutenção das bibliotecas públicas. Por exemplo,
“as grandes bibliotecas da Antigüidade clássica de que se tem memória eram
formadas por grandes conquistadores ou se localizavam em cidades que
exerciam poder econômico e/ou político”. Dessa época, podemos citar, por
exemplo,
a Biblioteca de Nipur, na Babilônia, descoberta em um templo, com
registros em tábuas de argila e em escrita cuneiforme. Em 1987 foram
encontradas restos de outras duas conhecidas bibliotecas do império
babilônico, em Shaduppum e Sippar. Segundo Báez (2006, p.37), a
biblioteca de Sippar, hoje Abu Habba, foi o achado mais importante; a
biblioteca foi descoberta no templo do deus solar de Sippar, construído
no tempo de Nabucodonosor II;
a Biblioteca de Assurbanipal, rei da Assíria, que viveu no século VII a.C.
Essa biblioteca situava-se no palácio do rei na cidade de Nínive e
contava com milhares de tabletes de argila com transcrições e textos
sobre os mais variados assuntos, coletados sistematicamente pelo rei
em outros templos do seu reino;
a Biblioteca de Alexandria, no Egito, considerada a maior e a mais
famosa biblioteca da Antigüidade. Foi criada pelo rei Ptolomeu Sóter,
que “dera ordens ao encarregado dos edifícios para deixar no recinto
real espaço conveninente para um centro cultural com uma Biblioteca e
um Museu, nos quais os estudiosos pudessem ser inspirados pelas
musas”. A fundação da cidade de Alexandria é atribuida a Alenxandre
Magno (1479-1925), que invadiu o Egito nos anos de 1279-1212 a.C. A
Demétrio Falereu, um homem de letras e anfitrião do rei Ptolomeu
Sóter I, é-lhe atribuída a resposabilidade pela organização inicial da
Biblioteca de Alexandria. E, possívelmente, foi a nostalgia pelo tempo
que passara no Liceu ou pela década em que conseguira se cercar dos
principais filósofos, poetas e oradores de seu tempo que o levou a
sugerir ao rei a criação de um centro de cultura e pesquisa em
Alexandria que rivalizaria com os de Atenas, Pérgamo e Cirene, e
transformaria a cidade no epicentro da erudição. O resultado foi a
formação do que se tornaria a primeira grande biblioteca e centro de
26
pesquisa internacional (Flower, 1999, p.9-10; Batlles, 2003, p.23-26;
Araújo; Oliveira, 2005, p.32).
Entretanto, como nos esclarece Batlles (op.cit),
a idéia de uma biblioteca pública parecida com as nossas foi invenção
de [Júlio César, Imperador Romano], que havia planejado construir
uma pouco antes de ser assassinado [em 44 a.C.]. Depois da morte
de César, um de seus partidários, Asínio Pólio, e o escritor Varrão [...]
levaram a causa adiante, construindo no Fórum a primeira biblioteca
pública de Roma, em XXXIX a.C. Em consonância com o desejo de
César, dotaram a biblioteca de dois salões de leitura, um para livros
em latim, outro para livros em grego [...]. O padrão iria repetir-se em
todas as bibliotecas de Roma construídas a partir de então, desde os
grandes repositórios imperiais de Augusto e de Trajano até as
bibliotecas públicas mais modestas e as pequenas coleções das
cidades provincianas. Isso significava um desvio marcante no modelo
grego, cujo protótipo era Alexandria, que não dispunha propriamente
de salas de leitura. O bilingüismo das bibliotecas romanas expressava
a herança mediterrânea reclamada por Roma, enquanto a ênfase na
experiência na experiência do leitor dá provas de suas origens
republicanas (p.52).
Contudo, a invasão e destruição de Roma, levaram consigo as grandes
bibliotecas conhecidas da cidade, com a de Palatinao e a de Ulpiano. Após a
queda da capital (476 d.C), afirma Batlles (op.cit.), o papa Agapeto fundaria
uma importante biblioteca e academia privada, transferindo o papel político e
institucional sobre as bibliotecas para a Igreja (p.64).
Conseqüentemente, ao longo da Idade Média, as igrejas e mosteiros
passaram a ser guardiões de enormes acervos das antigas bibliotecas, e a
Igreja Católica passou a exercer um grande poder científico e econômico. Não
só produzia, como também legitimava os conhecimentos. Silveira (2008, p.8)
detalha o poder da Igreja Católica sobre as bibliotecas nos seguintes termos,
[...] durante toda a Idade Média, somente os monges designados como
bibliotecários transitavam livremente entre os volumes e mistérios de
uma biblioteca. Somente eles decidiam como e se outros monges
poderiam acessá-los. Isto porque, até aquele momento, e como
recurso para se manter a soberania sobre certos conhecimentos, as
bibliotecas eram encobertas por uma aura mística e obscura, onde
alguns homens devotados trabalharam durante séculos seguindo
férreas regras.
27
Cassiodoro é um dos homens a quem é atribuido a responsabilidade
pelo estabelecimento das tendências medievais não apenas no campo das
bibliotecas mas também em tudo que diz respeito à vida monástica. “O paraíso
de Casiodoro era chamado de Vivarium”, afirma Batlles (op.cit.), onde “foi
desenvolvido um projeto de confecção de manuscritos que seria de
fundamental importância para o cristianismo durante toda Idade Média”, e que
transformou as bibliotecas europeias durante esse período, em “lugares
bastante conservadores cujo interesse estava exclusivamente concentrado
num conjunto exíguo de textos veneráveis” (p.63-64).
No Oriente, à mesma época, as bibliotecas também floresceriam com a
ascensão do Islão. Quando, no século VII, os exércitos de Maomé varreram os
territórios ao norte da Península Arábica, como narra Battles (op.cit.),
conquistaram uma Pérsia que ainda retinha o esplendor de sua cultura
milenar. Ao longo de séculos de conflito com a Grécia, as bibliotecas
persas haviam ficado repletas de toda a filosofia e ciência do mundo
helênico. Agora, com a conquista árabe, esses tesouros foram postos
à disposição de tradutores. Sob as mãos dos califas, a ciência grega,
juntamente com a poesia persa, foi transportada para a língua árabe.
Assim começou um período de construção de bibliotecas muçulmanas
[...]. Em todas as regiões sob o domínio muçulmano foram criadas
grandes bibliotecas (p.66-70).
Entretanto, afirma Battles (op.cit.), a grande efervescência de livros,
cultura e de bibliotecas no mundo muçulmano teria um final abrupto. Em
meados do século XIII, já no final da Idade Média, “o Oriente muçulmano
estava praticamente destruído pelas invasões dos mongóis. Quando o
imperador Carlos V, dos Habsburgo, tomou Túnis em 1536, ele ordenou que
todos os livros escritos em árabe fosse queimados” (p.70).
De todo modo, voltando especificamente para o histórico das bibliotecas
públicas, Batlles afirma que, depois da trama de Roma, “foi em Florença que a
biblioteca pública renasceu ”. Segundo esse autor,
o título de primeira biblioteca „pública‟ moderna talvez seja mais
freqüentemente dado à biblioteca pública de São Marcos, fundada por
Cosimo Médici em 1444. Na Florença do século XV, porém, o termo
„público‟ referia-se não à universalidade de acesso, mas ao palco
sobre o qual a Igreja, a nobreza e as poderosas famílias mercantis
desempenhavam seus papéis e exerciam sua autoridade. A biblioteca
28
de São Marcos era pública porque o trabalho dos estudiosos que a
usavam beneficiaria a sociedade de um modo novo e importante, mas
também era pública, porque ao construir a biblioteca e escolher os
livros de sua coleção, os Médici tinham a oportunidade de exibir-se
publicamente na qualidade de peritos, patronos, intelectuais e
príncipes (p.72).
A aquisição privada de livros importantes por uma família poderosa
significava, por si só, segundo Battles (op.cit.), o exercício de uma autoridade
intelectual. Ao transformarem aquela coleção numa biblioteca, “os Médici
faziam com que suas ações transcendessem o âmbito doméstico das exibições
públicas medievais e se traduzissem numa tentativa de promover e influenciar
uma „esfera pública‟, na acepção moderna do termo” (p.74).
No século XVII, na Inglaterra e nos Estados Unidos, o movimento das
bibliotecas públicas recebe uma influência também da ética cristã, agora, e
particularmente na Inglaterra, do puritanismo. Nessa época, argumenta Allred
(1972, p.15-16) o puritanismo significava liberdade de pensamento e sua
ligação natural com as bibliotecas nas cidades inglesas é bastante clara na
reflexão de Hill9 (apud Allred, 1978, p.16). O puritanismo inicia assim, um
movimento de bibliotecas públicas fundado no princípio da universalidade, que
viria a se replicar até aos nossos dias, sendo esse um dos princípios
subjacente no Manifesto da UNESCO (1994).
No século XVIII, será a Revolução Francesa (1789-1799) a variável
impulsionadora do desenvolvimento das bibliotecas públicas, devido ao seu
lema de liberdade e igualdade entre todos os indivíduos, e servindo de suporte
para o surgimento dos movimentos de massa, cuja luta passou a ter por
objetivo a democratização da educação. Arruda (2000, p.6) argumenta que a
Revolução francesa, propiciou a gratuidade da Instrução Elementar, como um
direito de cada cidadão e as bibliotecas particulares passaram a ser repudiadas.
Nessa época, na França, foi instituida a Bibliothèque Nationale, cuja coleção,
ao final do século XVIII, tinha crescido para além dos 300 mil volumes, “graças
à apreensão de bibliotecas da aristocracia e do clero em conseqüência da
Revolução de 1793” (Batlles, op.cit., p.125).
No século XIX, uma das palavras de ordem do movimento por
bibliotecas públicas que vigorou na Europa Ocidental e nos Estados Unidos,
9
HILL, C. Society and puritanism in pre-revolutionary England. [s/l]: Panther, 1969.
29
era “um livro para cada pessoa”. Na prática, o mote anunciava a
responsabilidade da biblioteca pública no apóio ao sistema educacional e
aperfeiçoamento dos trabalhadores que já estavam fora do ensino formal. Num
contexto mais amplo, essa responsabilidade seria o corolário da demanda por
mão-de-obra qualificada provocada pelo desenvolvimento industrial (Almeida
Jr., 2003, p.66-67).
No século XX, com a crise econômica dos anos de 1930 e da Segunda
Guerra Mundial, “a imagem da biblioteca pública incorpora o conceito de atuar
como instrumento para a paz e a democracia e identifica-se com a classe
média e a população estudantil, cada vez mais numerosa” (Brasil, 2000). Será
nesse contexto, que um dos organismos das Nações Unidas, a Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), criada
em 16 de novembro de 1945, vai formular seu Manifesto em relação à
biblioteca pública. O Manifesto da UNESCO, sobretudo o último, de 1994, é um
documento que expressa o objetivo geral que a biblioteca pública deve seguir e
os serviços que deve desenvolver para a comunidade.
No subitem seguinte, a biblioteca pública é tratada à luz do Manifesto da
UNESCO, que é o ponto de partida da literatura que trata do papel dessa
instituição na sociedade contemporânea.
1.2 A biblioteca pública segundo o Manifesto da UNESCO
A primeira versão do Manifesto da UNESCO10 sobre a biblioteca pública
foi publicada em 1949, dando ênfase, principalmente a função educativa dessa
instituição, e caracterizando-a como “centro de educação popular”. Como
resultado desse Manifesto, “houve, em várias partes do Mundo, um grande
movimento para [a sua criação e/ou] seu desenvolvimento” (Brasil, 2000; Vieira,
2003, p.24).
10
O Manifesto da UNESCO foi elaborado com a colaboração da Federação Internacional de
Bibliotecas e Instituições (IFLA). A IFLA foi fundada em Edimburgo (Escócia), em 1927, e
constitui o principal organismo internacional dedicado às bibliotecas e serviços de
informação, seus profissionas e usuários. Está sediada em Haia, na Biblioteca Nacional
dos Países Baixos - Royal Library, e conta atualmente com cerca de 1600 membros em
aproximadamente 150 países de todo o mundo (Tradução livre). Para mais detalhes
consultar: .
30
Em Moçambique, segundo o Diretório dos Arquivos, Bibliotecas e
Centros de Documentação e Informação existentes no país, publicado em 2003,
pelo Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa (FBLP) as primeira bibliotecas
públicas foram criada em 1965, nas províncias de Sofala e Inhambane. Poucos
anos antes, em 1961, teria sido criada a Biblioteca Nacional de Moçambique,
através do Diploma Legislativo no. 2116, de 28 de agosto. Portanto, como será
referido com maiores detalhes no capítulo V, em Moçambique as bibliotecas
públicas remontam do período colonial, e estiveram sempre vinculadas às
atividades educativa e cultural (FBLP, 2003, p.27; 99).
Em 1972, entretanto, foi publicada a segunda versão do Manifesto do
UNESCO, no qual são sintetizados, pela primeira vez, as funções educativa,
cultural, lazer e informacional. É no quadro dessas funções que a literatura
especializada tem analisado e discutido o papel da biblioteca pública ao longo
do século XX. Almeida Junior (2003, p.69-76) detalha e discuti essas funções
nos seguintes termos:
1) função educacional - presente desde o surgimento da biblioteca
pública moderna, no século XIX. Entendida, em seus primórdios como
suporte, complemento e apoio, a biblioteca pública orientou essa sua
função primeira para o âmbito da educação formal. Contudo, segundo
Almeida Junior, a biblioteca pública deve nortear-se para a educação
informal, continuada. Mas, continua esse autor, “por ser obrigada a fazer
às vezes da biblioteca escolar, não sobra tempo e interesse para ações
no âmbito da educação continuada”. A falta de preparo pedagógico dos
profissionais e de uma política da biblioteca nesse sentido também
contribui para essa situação;
2) função cultural, surgida no início do século XX, foi agregada à função
educacional. Desde sua inclusão entre as funções exercidas pela
biblioteca pública, afirma Almeida Junior, a função cultural foi entendida
“como sinônimo de erudição”: propiciar à população materiais, em
especial o livro, levar as pessoas à leitura dos “„bons‟” livros, entendidos
esses a partir de conceitos dos próprios bibliotecários e de análises
mais ou menos sedimentadas e consensuais de critérios da literatura;
3) função de lazer (ou recreacional), entende a biblioteca pública como
um espaço que deve oferecer entretenimento através da leitura,
31
promovendo-a e intensificando o empréstimo de livros. “Ao lado do
atendimento a alunos”, essa é, de acordo com Almeida Junior, “a função
mais conhecida da biblioteca pública”; e
4) função informacional - foi acrescida no final dos 60 e início 70 do
século XX. Para Almeida Junior, essa função, na verdade, é fruto não
de um estudo de usuário que tenha detectado a necessidade da
população por informações para atender e fazer face de problemas
cotidianos, mas de um interesse da própria biblioteca: “lutar por uma
fatia maior do orçamento destinado aos equipamentos culturais”.
Contudo, “a partir da introdução da função informacional, e
conseqüentemente dos serviços de informação utilitária 11 , torna-se
propício o desenvolvimento e implantação de propostas alternativas á
atuação da Biblioteca pública tradicional”.
A atuação alternativa da biblioteca pública seria a de um espaço público
informacional, que atua de maneira diversa da biblioteca pública tradicional,
advogando e defendendo novas posturas e concepções de mediação da
informação 12 . As Bibliotecas públicas tradicionais, apesar de afirmarem
categoricamente que sua atuação visa à democratização da informação, ou
seja, oferecer e possibilitar o acesso de todos a qualquer tipo de informação
que necessitem na prática esse objetivo não é alcançado. Pois, como
argumenta Almeida Júnior (2003, p.77),
já a partir da formação da coleção, chegando até o
atendimento, percebe-se que o trabalho e a preocupação dos
profissionais [que atuam nas bibliotecas públicas tradicionais]
estão voltados para uma „média de interesse e necessidade
dos usuários‟, levantada a partir de uma idealização do
público, uma pré-concepção dos usuários. Não são feitos
estudos de usuários ou de comunidade para definir o
perfil daqueles que utilizarão a biblioteca (grifo nosso).
11
Por informação utilitária entende-se toda informação que auxilia na solução de problemas
que aparecem no cotidiano das pessoas, desde os mais simples aos mais complexos.
Aquela informação que abrange, por exemplo, assuntos ligados à educação, emprego,
legislação, direitos humanos, saúde, segurança, e outros (Campello, 1998, p.35).
12
Por mediação da informação entende-se um processo de interface entre instituições,
profissionais e sujeitos sociais (usuários) na identificação de necessidades, fontes,
seleção, busca e uso da informação em um contexto sócioeconômico, político e cultural
adequado à realidade de determinado sujeito individual (cidadão) ou coletivo (comunidade),
a partir de experiências e do momento históricos (Suaiden apud Takase, 2007, p.29).
32
As bibliotecas públicas alternativas, conforme afirma Almeida Júnior
(op.cit.), por trabalharem e determinarem o público que servirão, podem focar
suas ações especificamente para eles, inclusive introduzindo serviços
diferenciados e direcionados para esses usuários. Estas distinções mostram
uma perspectiva do desenvolvimento das bibliotecas públicas.
Em 1994, a UNESCO atualizou seu manifesto sobre a biblioteca pública,
constituindo a terceira e última versão do mesmo. São contidos nele novas
atribuições para as bibliotecas públicas, sendo consagrada a dimensão de um
espaço público para cidadania, assente nos princípio de igualdade e
universalidade, e incorporando as novas TIC no quadro da missão e objetivos a
serem persseguidos por essas instituições (Vieira, 2003, p.25; Correia, 2005,
p.12-13).
Assim, a biblioteca pública é, de acordo com o Manifesto da UNESCO
(1994), o centro local de informação, que deve tornar prontamente acessíveis
aos seus utilizadores o conhecimento e a informação de todos os gêneros.
Seus serviços devem ser oferecidos com base na igualdade de acesso para
todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou
condição social.
Dentre as missões atribuídas à biblioteca pública, destacam-se as seguintes:
Promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas
artes e pelas realizações e inovações científicas;
Fomentar o diálogo intercultural e, em especial, a diversidade cultural;
Assegurar o acesso dos cidadãos a informação;
Facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilização das novas TIC;
e
Apoiar, participar e, se necessário, criar programas e atividades de
alfabetização para os diferentes grupos etários.
O Manifesto da UNESCO (1994) estabelece ainda, que a criação da
biblioteca pública é da responsabilidade das autoridades locais e estatais.
Deve ser objeto de uma legislação específica e financiada pelos governos
nacionais e locais. Tem de ser uma componente essencial de qualquer
estratégia em longo prazo para a cultura, o acesso à informação, a literacia e a
educação (UNESCO, 1994).
33
Nessa perspectiva, de acordo com Milanesi (1986, p.97-99) é impossível
pensar a biblioteca pública hoje sem se considerar a liberdade de acesso à
informação como um direito humano, uma das condições básicas para o
exercício da cidadania. Contudo, como acautela Milanesi (op.cit.), a biblioteca
pública não é o consumo fácil da informação, pois, exige de seu público uma
participação mais reflexiva, transformando-o num agente ativo no acesso à
essa informação. A biblioteca pública é, por outro lado, segundo Milanesi uma
alternativa a todas as formas impositivas de saber, inclusive a escola, os
mídias de massa, etc. quando assim eles se manifestam (p.97-99).
Essa dimensão da biblioteca pública só será efetiva na medida em que,
segundo Milanesi (op.cit.) forem atendidos dois requisitos básicos: (1) a não
existência de qualquer forma de censura; e (2) a possibilidade de recursos
para se organizar um serviço compatível com as expectativas da coletividade
para a qual ela se destina. Em muitos casos, constata Milanesi, a falta de
recursos materiais e de pessoal funciona como uma mal disfarçada forma de
censura. E, talvez esteja aí um dos motivos que levam a biblioteca pública a
situação de precariedade material e humana extremada.
Dessa forma, “o esforço deverá ser no sentido de incrementar a
biblioteca, transformando-a efetivamente num centro onde não apenas se tem
acesso à produção cultural, [do conhecimento] da humanidade, mas onde
também se produz a cultura [e conhecimento]”. Assim, a biblioteca pública
deve ter a participação forte da coletividade, ainda que o Estado deva estar
presente, dando apoio quer na parte material, quer na coordenação (p.100)
Seja economicamente rica ou pobre, rural ou urbana, afirma Suaiden
(1995, p.20), a biblioteca pública terá de ser uma só em sua finalidade e em
sua concepção, e tanto mais democrática quanto mais estenda seus serviços a
todos seus potenciais usuários. Deve constituir-se, cada vez mais, em um
centro convergente das aspirações comunitárias, ou seja, deve ter uma
identificação muito grande com sua comunidade e contribuir para resolver os
problemas que são próprios à mesma comunidade. E,
[...] à medida que a biblioteca pública se vincular
adequadamente com a comunidade, ela passará a ser o
caminho que possibilitará a participação efetiva na sociedade
da informação. Isso é de extraordinária importância em um
34
país onde a desinformação atinge altas proporções, e, sem
essa oportunidade, milhares de pessoas jamais terão
oportunidade de entender e de ter noção dos seus direitos e
deveres em uma sociedade globalizada, pois o acesso à
informação, nos novos tempos, significa o investimento
adequado para diminuir as desigualdades sociais e [novas]
formas de dominação [...] (Suaiden, 2000, p.60).
Cabe, assim, à biblioteca pública, transferir informação útil e
adequada aos diferentes segmentos de usuários, para que esse recurso se
transforme em conhecimento capaz de conduzir às mudanças que
necessitam o indivíduo, as organizações e a sociedade como um todo
(Cunha e Santos, 2005, p.2). Daí, como frisam essas autoras, a necessidade
da sociedade envolver essa instituição em ações sóciopolíticas, econômicas
e culturais que lhe assegurem condições de oferta de produtos e serviços
informacionais de qualidade e de exercer um papel social na formação e
desenvolvimento da cidadania.
No capítulo seguinte, a biblioteca pública é analisada na perspectiva
exposta por Milanesi (1986), Suiaden (1995; 2000) e Cunha e Santos
(2005), ou seja, como um espaço público de informação, propício para o
desenvolvimento de sujeitos cidadãos. É dentro dessa perspectiva que se
concebe essa instituição na presente dissertação.
35
CAPÍTULO II
BIBLIOTECA PÚBLICA, INFORMAÇÃO E CIDADANIA
2.1 O conceito de cidadania
No seu ensaio intitulado Cidadania, classe social e status, T. H. Marshall
(1967) apresenta um conceito de cidadania que se tornou o ponto de partida
para muitos estudos sobre o assunto na contemporaneidade. A cidadania é,
assim, segundo Marshall (op.cit.) “um status concedido àqueles que são
membros integrais de uma comunidade”. Aqueles que possuem o status,
argumenta Marshall, são iguais com respeito aos direitos e obrigações
pertinentes ao status. Para esse autor, não há nenhum princípio universal que
determine o que esses direitos e obrigações são13, mas as sociedades nas
quais a cidadania é uma instituição em desenvolvimento criam uma imagem da
cidadania ideal em relação à qual o sucesso pode ser medido e em relação à
qual a aspiração pode ser dirigida. “A insistência em seguir o caminho assim
determinado equivale a uma insistência por uma medida efetiva de igualdade,
um enriquecimento da matéria-prima do status e um aumento do número
daqueles a quem é conferido o status” (p.76)14.
Marshall divide o conceito de cidadania em três partes ou elementos,
quais sejam:
i) o elemento civil, composto pelos direitos necessários à liberdade
individual – liberdade de ir e vir, liberdade de imprensa, pensamento e fé,
o direito à justiça. Este último é o direito de defender e afirmar todos os
direitos em termos de igualdade com outros e pelo devido
encaminhamento processual. E, “as instituições mais intimamente
associadas com os direitos civis são os tribunais de justiça”;
ii) o elemento político, que diz respeito ao direito de participar no exercício
do poder político, como um membro de um organismo investido de
autoridade política ou como um eleitor dos membros de tal organismo.
13
O que torna o conceito de cidadania problemático, nunca univocal no tratamento lhe é
dado em diferentes tradições (Steenbergen, 1994, p.1),
14
Veja-se também: Marshall (1965, p.92).
36
“As instituições correspondentes [a este elemento] são o parlamento e
conselhos do Governo local”; e
iii) o elemento social, que se refere a tudo o que vai desde o direito a um
mínimo de bem-estar econômico e segurança ao direito de participar,
por exemplo, na herança social e levar a vida social de acordo os
padrões prevalecentes numa sociedade. “As instituições mais
intimamente ligadas [a este elemento] são o sistema educacional e os
serviços sociais” (p.63-64).
Esses direitos (elementos) de cidadania, emergiram, segundo Marshall
(op.cit), em uma seqüência histórica da evolução da humanidade, numa ordem
específica em sua conquista e desenvolvimento. Assim, seriam os direitos civis,
conquistados no século XVIII, os direitos políticos, alcançados no século XIX –
ambos chamados de direitos de primeira geração – e os direitos sociais,
conquistados no século XX – chamados direitos de segunda geração (Marshall
op.cit, p.63; Vieira, 2001, p.34).
Contudo, apesar de ser referência para muitos autores, a concepção de
cidadania de Marshall não está isenta de críticas e/ou reformulações. Alguns
autores excluem os direitos sociais nela contidos, por entenderem que os
mesmos não são direitos naturais e sim históricos. Outros não aceitam a idéia
de os direitos sociais fecharem o cíclo de conquista e desenvolvimento dos
direitos de cidadania, em virtude de novas demandas, mormente ligadas aos
direitos culturais, ecológicos, de minoriais étnicas, raciais, sexuais, entre outros.
Há, ainda, os que classificam a cidadania em passiva, a partir de cima, via
Estado, e ativa, a partir de baixo, de instituições locais autônomas (Cranston15,
1983; Turner16, 1990 apud Viera, 2005, p.23; Steenbergen, 1994, p.3; Demo,
1995).
Para Cranston (1983) os direitos naturais não estão vinculados a
coletividades nacionais, devendo, portanto, desvinculá-los da cidadania da
nação, da comunidade. Os direitos naturais, segundo esse autor, seriam
limitados à liberdade, segurança e à dignidade, ou seja, os direitos humanos
que escapariam à regulamentação positiva por constituírem princípios
universais. “Os direitos sociais, assim, não seriam considerados naturais, como
15
16
37
entendeu a ONU ao incluí-los no elenco de direitos humanos” (Cranston, 1983
apud Viera, 2005, p.24).
Por seu turno, Turner (1990) acusa Marshall de evolucionista e
etnocentrista. Discorda da leitura de Marshall do caso inglês e refuta a
colocação dos direitos civis no começo: “o Bill of Rigths seria fruto de um
processo político, de uma política pelas liberdades individuais”. Define, por
outro lado, diferentes tradições de cidadania de acordo com dois eixos
analíticos: o primeiro, indicando a direção do movimento que produz a
cidadania: de baixo para cima (ativa) ou de cima para baixo (passiva).
Exemplos de cidadania construída de baixo para cima são as
experiências históricas marcadas pela luta por direitos civis e políticos, afinal
conquistados ao Estado absolutista. Exemplos de movimento na direção
oposta são os países em que o Estado manteve a iniciativa da mudança e foi
incorporando aos poucos os cidadãos à medida que ia abrindo o “guarda-
chuva” de direitos.
O segundo eixo proposto por Turner tem a ver com a dicotomia público-
privado. Nessa perspectiva, a cidadania pode ser adquirida dentro do espaço
público, mediante a conquista do Estado, ou dentro do espaço privado,
mediante a afirmação dos direitos individuais, em parte sustentados por
organizações voluntárias que constituem barreiras à ação do Estado.
Os dois eixos de Turner dão lugar a quatro tipos de cidadania. No
primeiro, em que a cidadania é conquistada de baixo para cima dentro do
espaço público, seria representado pela trajetória francesa. A cidadania seria
aí fruto da ação revolucionária (por exemplo, a Revolução Francesa de 1789-
1799) e se efetivaria mediante a transformação do Estado em nação. No
segundo, a cidadania seria também obtida de baixo para cima, mas dentro do
espaço privado. O exemplo seria o caso norte-americano, 1776-1783.
O terceiro tipo refere-se a casos de cidadania conquistada mediante a
universalização de direitos individuais (espaço público), mas com base em
concepção do cidadão como súdito. Corresponderia ao caso inglês após o
acordo de 1688 que restaurou a monarquia. Finalmente, o quarto tipo refere-se
a uma cidadania construída de cima para baixo dentro de espaço privado
poderia ser encontrada na Alemanha. Neste último caso, ser cidadão seria
38
quase sinônimo de ser leal ao Estado. O cidadão alemão teria sido criado pelo
Estado e não teria a energia associativa do cidadão norte-americano (Turner
1990 apud Carvalho, 1996, p.1-2; Vieira, 2005, p.23).
Em Moçambique, contexto empírico do presente estudo, a conquista
dos direitos de cidadania não seguiu a seqüência (direitos civis, políticos e
sociais, respectivamnte) apresentada por Marshall (op.cit). E, a forma de
acesso a esses direitos, se considerarmos que a independência nacional foi
corolário de uma luta armada, enquadra-se, num primeiro momento, no eixo
analítico de Turner adstrito à cidadania ativa, aquela que é conquistada de
baixo para cima. Assim, a luta armada de libertação nacional, mobilizou, no
início, e ao mesmo tempo os direitos civis e políticos, reivindicados sob a
liderança da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), então
movimento unificado de luta contra a colonização portuguesa.
Com a independência nacional, em 1975, a FRELIMO transformou-se,
em 1977, num partido-único, de orientação socialista marxista-leninista,
afirmando-se como o “representante único e legítimo [do povo moçambicano],
aglutinador de todas as aspirações e vontades, enfim, o único veículo para
obtenção da cidadania” (Faite, 2003, p.4). Com efeito, o eixo de conquista dos
direitos de cidadania inverteu-se, e passou a ser produzida num movimento de
cima para baixo (cidadania passiva), sendo acessíveis e usufruídos pelo povo
moçambicano apenas os direitos sociais. Como será referido no capítulo IV,
alguns moçambicanos insurgiram-se com essa nova situação criada pelo
Governo da Frelimo, “revoltaram-se e formaram a Renamo, que desencadeou
uma guerra civil que durou dezasseis anos (1976-1992)”.
A guerra civil significou, segundo Faite (op.cit), uma ruptura com o
sentido de cidadania que havia despontado no período pós-colonial. Assim,
continua a autora, passaram existir cidadãos dentro do horizonte da Frelimo e
outros que sendo moçambicanos reivindicavam sua cidadania pela força das
armas. “Os moçambicanos que se encontravam dentro do território controlado
pela Frelimo, sentiam-se cidadãos de acordo com os ideais da Frelimo e, a
outra parte constituía uma espécie de não-cidadãos [para o Governo desse
partido]” (p.5).
As conseqüências sócio-políticas e econômicas da guerra civil, assim
como a extensão dos direitos de cidadania em Moçambique serão
39
apresentadas no capítulo IV. Retomamos, a seguir, a nossa discussão teórica,
definindo o conceito de cidadania adotado na presente dissertação, e refletindo
sobre a informação como fator para o exercício da mesma.
2.2 A informação como fator para a cidadania
Considerando toda a discussão anterior sobre o conceito e as formas de
acesso aos direitos de cidadania, entendemos a mesma, na perspectiva do
presente trabalho, como uma “competência humana de fazer-se sujeito, para
fazer história própria e coletivamente organizada” (Demo, 1995, p.1). Para o
processo de formação dessa competência, de acordo com Demo (op.cit.),
“alguns componentes são cruciais como educação, organização política,
identidade cultural, informação e comunicação”, destacando-se, acima de tudo,
o processo emancipatório (bolde nosso).
Na presente dissertação, sem desconsiderar os outros componentes
apresentados acima, é analisada a informação como fator para a cidadania.
Nesse sentido, de acordo com Ferreira (200?), a informação17 é considerada
17
Em seu artigo intitulado information as thing Buckland (1991) apresenta três significados
diferentes da palavra informação: “informação como processo”; “informação como
conhecimento” e; “informação como coisa”: (i) a “informação como processo” se refere ao ato
de informar; comunicação do conhecimento; estar informado. “Quando alguém é informado, o
que sabe é modificado”; (ii) a “informação como conhecimento” denota o que também é
percebido em “informação como processo”: o conhecimento comunicado sobre algum fato
particular, assunto ou evento. “A noção de informação que reduz a incerteza poderia ser visto
como um caso especial de „informação como conhecimento‟”, mas às vezes a informação
também aumenta a incerteza; (iii) a “informação como coisa”: o termo “informação” é utilizado
também em referência a objetos, tais como dados e documentos, que são referidos como
“informação” porque são considerados como sendo informativos, como tendo a qualidade da
transmissão de conhecimentos ou comunicação de informações; instrutivo (Buckland, 1991,
p.351, tradução livre). Uma característica fundamental da “informação como conhecimento”,
conforme Buckland (1991) é a sua intangibilidade: não se pode tocá-lo ou mensurá-lo de
qualquer forma direta. “Conhecimento, crença e opinião é pessoal, subjetivo e conceitual”. Para
comunicá-los, eles têm de ser expressos, descritos ou representados de alguma forma física
de comunicação, como um sinal, texto. (ibidem).Le Coadic (2004) tem uma visão semelhante
da exposta acima. Define informação como um conhecimento inscrito (registrado) em forma
escrita (impressa ou digital), oral ou audiovisual, em um suporte. Ela (a informação) comporta
um elemento de sentido, é um significado transmitido a um ser consciente por meio de uma
mensagem inscrita em um suporte espacial-temporal: impresso, sinal elétrico, onda sonora, etc.
Essa inscrição é feita graças a um sistema de signos (a linguagem); o signo é um elemento da
linguagem que associa um significante a um significado: signo alfabético, palavra, sinal de
pontuação. Le Coadic (2004) refere que, de uma forma geral, o objetivo da informação é a
apreensão de sentidos ou seres em sua significação, isto é, o conhecimento; e o meio é a
transmissão do suporte, da estrutura
17
. Para este autor, um conhecimento (um saber) é o
resultado do ato de conhecer, ato pelo qual o espírito apreende um objeto. Conhecer é ser
capaz de formar a idéia de alguma coisa; é tê-la presente no espírito. Isso pode ir da simples
identificação (conhecimento comum) à compreensão exata e completa dos objetos
(conhecimento científico). O saber designa um conjunto articulado e organizado de
40
um bem social e um direito humano tão importante quanto o direito à saúde, à
educação, à justiça, etc; seu acesso e uso constitui condição fundamental para
a conquista e exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais, em suma,
para a cidadania.
Reis (1999) define a informação como
um substrato da vida social, fundamental à compreensão dos
fenômenos, requerendo daquele que a recebe submetê-la a um
processo de análise, crítica e reflexão, para que, inserindo-o na
historicidade dos processos sociais possa ser incorporada como
conhecimento, norteando a ação (Reis, 1999, p.155).
A informação é, assim, um instrumento importante para a transformação
da realidade política, socioeconômica e cultural dos sujeitos; um instrumento
capaz de potencializar transformações tanto na esfera da liberdade individual
(civil) quanto coletiva (social)18. Para tanto, de acordo com Reis (op.cit), torna-
se necessário o desvelamento das articulações de poder bem como uma visão
histórica da sociedade e das relações sociais que nela se engendram. Trata-se
em outras palavras, de adotar uma postura crítica e não linear da compreensão
da informação como instrumento fundamental para o exercício da cidadania.
Trata-se, como afirma Reis, da necessidade de um questionamento de caráter
ideológico 19 no sentido de se contrapor à postura dominante que vem
atribuindo um “caráter messiânico à informação”.
Portanto, de acordo com a autora citada acima, a informação se constitui
em instrumento chave para a internalização e compreensão da realidade, e
para o exercício da cidadania desde que pensada além de sua proliferação,
entendendo-a como “instrumento de aproximação do real, que exige de quem a
recebe um processo de crítica e reflexão, transformando-a em conhecimento”.
conhecimentos uma ciência – um sistema de relações formais e experimentais – poderá
originar-se (Le Coadic, 2004, p.4-5; Capurro; Hjorland, 2007, p.149).
18
Veja-se também Araújo (1999, p.155); Cepik (2000, p.7); Silva (2005, p.43);
Commonwealth Human Right Iniciative (CRHI, 2007).
19
Segundo Mannheim, ideologia é um conjunto de concepções, idéias, representações,
teorias, que se orientam para a estabilização, legitimação ou reprodução de uma ordem
estabelecida. (Manheim apud Lowy, 2006, p.13). Lowy (2006) propõe o conceito de visão
social de mundo no lugar de ideologia. Nesse sentido, visão social de mundo seria todo o
conjuntos estruturado de valores, representações, idéias e orientações cognitivas
unificados por uma perspectiva determinada, por um ponto de vista social, de classes
sociais determinadas. A visão social de mundo ideológica serviria para legitimar, justificar,
defender ou manter a ordem social do mundo (p.13-14).
41
Apenas a disponibilidade da informação não é suficiente. É preciso garantir que
os sujeitos possam confrontar as diferentes informações obtidas e divulgadas,
com vistas a produzir uma síntese que os mergulhem na historicidade dos
processos sociais.
Para Rojas (2005), a informação resulta de uma síntese, apresentada
por esse autor na perspectiva kantiana de união de dois extremos opostos.
Nesse sentido, seria a informação resultado de uma ação do sujeito de unir
elementos objetivos (dados e estímulos sensoriais) aos subjetivos (estruturas
interpretativas do sujeito), sendo estes últimos pertinentes para o
processamento, organização, estruturação, e para dar forma aos dados que
permitem extrair qualidades secundárias presentes potencialmente em
símbolos, isto é, interpretá-los, enraizando-os com seu referente e sentidos
ideais. Na prática, essa proposta converge na etimologia da palavra
“informação”, que provém de informar, em latim informare, que significa
literalmente “dar forma”, isto é, estabelecer limites à matéria, dotá-la de
estrutura e organização.
Rojas (op.cit.) acautela, entretanto, para a questão da objetividade da
informação, já que a mesma resulta, também, de uma atividade do sujeito. Ao
mesmo tempo, esse autor afirma que se trata de uma questão pacífica, por um
lado, pelo fato da informação ter origem em dados, que existem
independentemente do sujeito e; por outro lado, porque as estruturas que se
utilizam para organizar e dar significado aos dados empíricos também têm seu
valor objetivo. Quer dizer,
as estruturas mencionadas são objetivas porque elas são o resultado
de um processo psico-genético que tem sua base na natureza
biológica e psicológica dos seres humanos, mas ao mesmo tempo,
esse processo está inserido em contextos sócio-histórico-culturais.
Assim, cada sociedade estabelece seus regimes de interpretação de
símbolos, com base nas relações humanas no processo de produção
material, espiritual e biológica (Rojas, 2005, p.53, tradução
livre).
Rojas (2005) vai mais além, trata igualmente da produção de
conhecimento, afirmando, nesse sentido, que a mesma depende não só da
estruturação e interpretação de símbolos, mas também de outras atividades
mais complexas, quais sejam, a decodificação dos símbolos; a memorização;
42
a análise, que permite identificar os elementos constituintes do que se está
conhecendo e suas relações como partes de um todo; a síntese, na qual se
devem reunir o todo com as partes; uma visão dialética, que permita descobrir
a interconexão da informação nova com outras informações e conhecimentos
do sujeito cognoscente; elaborar inferências de vários tipos, dedutivas,
indutivas, adotivas e hermenêuticas; aplicar as novas idéias e visões de
mundo obtidas, avaliar todo o processo e assimilar o construto cognoscitivo
obtido. Em todo este processo é indispensável, afirma o autor, a utilização das
capacidades intelectuais puras, imaginação e criatividade (Rojas, 2005, p.53-
54, tradução livre; o itálico é nosso).
Destacando o papel social da informação, Simões (1996, p.83) sugere
algumas categorias para a compreensão da informação enquanto
conhecimento instituído no social e instituinte socializador. Em sua reflexão,
essa autora parte de dois pressupostos epistemológicos básicos: (1) o
conhecimento é gerado na prática, nas relações sociais concretas e (2) a
realidade está constantemente em movimento e, portanto, construindo-se. De
acordo com Simões (op.cit.),
a constatação de que a realidade está em movimento e o fato desse
movimento conter muitas direções leva ao questionamento do alcance
ou pertinência do raciocínio fundado na lógica da determinação, na
lógica da causa e efeito, quando se procura compreender essa
realidade em movimentos de múltiplas direções.
Portanto, como sugere Simões (1996), é necessário considerar as
categorias de veracidade, universalidade, historicidade e totalidade com vistas
à compreensão e apreensão do processo de produção de conhecimento.
A categoria de veracidade prevê que todo o conhecimento é verdadeiro,
porque é adequado a uma prática social da qual decorreu; a categoria de
universalidade decorre da veracidade: o conhecimento de classes com práticas
distintas impossibilita o consenso de conhecimentos, impossibilita o universal,
ou a verdade absoluta; a historicidade aponta que o conhecimento decorre de
uma prática que se dá em um determinado contexto sócio-histórico, logo, “é
preciso compreender cada conhecimento a partir da realidade sócio-histórica
na qual ele foi construído”; por fim, a categoria de totalidade nos aponta para a
43
necessidade de analisar os fenômenos sociais em suas relações uns com os
outros. Entretanto, “a busca da totalidade não passa pela soma das partes,
mas pela relação entre o particular e o geral” (Simões, 1996, p.83-84)20.
Cardoso (1994) acrescenta nas categorias acima expostas, a categoria
de tensionalidade, que está presente na sociedade, determinando, segundo
essa autora, as relações e a produção de sentido sobre tais relações, entre os
diversos grupos, segmentos e classes sociais culturais (valores, crenças,
práticas, informação/conhecimento).
Na perspectiva da presente dissertação, a informação é pensada no
âmbito da sociedade da informação (sobre a qual falaremos no capítulo III),
considerando-se decisivo para o desenvolvimento da cidadania nesse âmbito,
um ambiente cultural, informacional e comunicativo aberto, crítico e criativo, no
qual “se promovem sujeitos sempre atualizados com o conhecimento e
capazes de [agir individual e coletivamente]” (Demo e Olvieira, 1995, p.31).
Assim, a biblioteca pública é pensada no presente trabalho como um
espaço com potencialidade para se posicionar no centro desse ambiente
cultural, informacional e comunicativo aberto e crítico de formação de sujeitos
cidadãos.
2.3 A Biblioteca Pública como um espaço público da informação
Se o meio for generoso e oferecer oportunidades, o individuo
poderá, com a educação formal [e informal], as leituras e
demais fontes de informação, ter mais autonomia para pensar
e agir (Milanesi, 2002, p.35).
Como espaço público a biblioteca pública é entendida como o lócus
onde temas, idéias, informações se apresentam ao conhecimento geral; um
domínio discursivo e de interação social aberto a todos, sem distinção de
credos, ideologias e condições sôcio-políticas e econômicas. Esta
compreensão resulta, também, do Manifesto da UNESCO (1994) sobre essa
instituição.
20
Veja-se também: Cardoso (1994, p.111-112).
44
De acordo com Correia (2005, p.12-13), ao proclamar que “os serviços
da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na igualdade de acesso
para todos, sem distinção de raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou
condição social”, a UNESCO “realça precisamente as caracteristicas que [...]
conferem [essa instituição] a dimensão de espaço público: a acessibilidade, a
universalidade e a neutralidade”.
Nesse sentido, é possível incorporar a biblioteca pública no âmbito das
instituições e/ou espaços públicos que se vinculam a um projeto de legitimação
da práxis democrática 21 , através da disseminação, inclusão e mediação
informacionais, processos através dos quais cidadãos conscientes, críticos,
solidários e participativos são capazes de exercer e se apropriar dos seus
direitos, incluindo o direito à informação22.
A idéia da biblioteca pública como espaço público traduz, assim, como
nos faz perceber Webster (2006, p.163-164), a representação do papel da
informação em uma sociedade democrática, onde recursos informacionais
confiáveis são disponibilizados a todos os cidadãos, em processos abertos e
acessíveis. A informação é um elemento central do espaço público,
instrumento através do qual, os cidadãos expõem suas visões, representações
de interesses pessoais do bem comum ao público.
O termo “público” , segundo Habermas (1984), se refere espaços e
eventos que, em contraposição aos fechados e tratados reservadamente, são
acessíveis a qualquer um – casas públicas, “poder público”, “coisa pública”, etc.
O emprego mais freqüente desse termo, conforme Habermas (1984), assume
o sentido de opinião pública, de uma esfera pública, significados correlatos a
público, publicidade, publicar. “O sujeito dessa esfera pública é o público
enquanto portador da opinião pública”; à sua função crítica é que se refere a
“„publicidade‟” como, por exemplo, o caráter dos debates políticos, judiciais, etc.
21
A práxis democrática é entendida aqui, do ponto de vista marxiano, segundo o qual as
mudanças sociais só podem ser realizadas através da união da teoria à prática, da conjugação
da compreensão teórica e da atividade sócio-política prática, o que exige a integração ao
estudo das transformações históricas possíveis ou iminentes e um programa de ação prática
que possa contribuir para a realização dessa transformação (Marx, 1984, p.27; Eagleton, 1999,
p.7; Giddens, 2005, p.51).
22
Veja-se: Viera (2001, p.64);
Eisenberg e Cepik (2002, p.308); Avritzer e Costa (2006, p.63-
93).
45
“„Público‟” e “„esfera pública‟” são categorias e/ou espaços encontrados
nas antigas cidades-estado da Grécia. Aí, segundo Habermas (op.cit) a esfera
da polis que é comum aos cidadãos livres (koiné) é rigorosamente separada do
oikos23, que é particular a cada indivíduo (idia). O caráter público da vida
constitui-se na conversação, que também pode assumir a forma de conselho e
de tribunal, bem como a de práxis comunitária (práxis). Na conversação dos
cidadãos entre si é que as coisas se verbalizam e se configuram; na disputa
dos pares entre si, os melhores se destacam e conquistam a sua essência: a
imortalidade da fama. Na esfera pública as virtudes encontram reconhecimento.
A esfera pública assume uma expressão de liberdade e da continuidade, ao
mesmo tempo da discriminação (economia escravista em forma patrimonial)
(Habermas, 1984, p.15-16).
Ao longo de toda a Idade Média, as categorias de público e de privado
passam a ter uma aplicação jurídica com o surgimento do Estado moderno e
suas instituições burocráticas. O Estado de impostos (a administração
financeira é o cerne de sua administração) e a esfera da sociedade civil
separada dele: servem para a evidência política, bem como para a
institucionalização jurídica, em sentido especifico, de uma esfera pública
burguesa (Habermas, 1984, p.17), que discuti e defende seus interesses no
âmbito daquele, do Estado.
No contexto do Estado liberal burgês, segundo Habermas (op.cit), a
esfera pública burguesa passa a ser entendida inicialmente como a esfera das
pessoas privadas reunidas em um público, reivindicando a regulamentação do
público pela autoridade, discutindo com ela (a autoridade), as leis gerais da
troca na esfera fundamentalmente privada, mas publicamente relevante -, as
leis de intercâmbio de mercadorias e do trabalho social.
Nessa perspectiva, afirma Lubenow (2007, p.44-45),
[...] a esfera pública surgiu como um espaço de discussão e
exercício da crítica, independente da (ou que não segue
puramente a) lógica do mercado e do Estado, e que foi capaz
de impulsionar, a partir de sua eficácia política, os
desdobramentos necessários para a democratização [...] das
formas pré-burguesas de dominação, racionalizando o poder
23
“casa” em grego.
46
[e] vinculando a dissolução da dominação à visão de uma
“publicidade”, baseada no discurso crítico e racional.
Em sua origem, entretanto, a esfera pública burguesa encontra-se
vinculada à sociedade aristocrática, sendo que o “„grande‟” público que se
constituía em teatros, museus e concertos (instituições da esfera pública) é um
público burguês em sua origem social. Não obstante às diferenças no tamanho
e na composição de seu público, no estilo de seu comportamento, no clima de
raciocínio e na orientação temática, o espaço público/esfera pública, segundo
Habermas (op.cit), tende sempre a organizar a discussão permanente entre
pessoas privadas, dispondo para isso uma série de critérios institucionais em
comum:
Em primeiro lugar, é exigida uma espécie de sociabilidade que
pressupõe algo como a igualdade de status. “A paridade cuja base é tão
somente que a autoridade do argumento pode afirmar-se contra a hierarquia
social e, até se impor, para o espírito vigente à época, significa a igualdade do
simplesmente „meramente humano‟”;
Em segundo lugar, a problematização de setores que até então não
eram considerados questionáveis. À medida que as obras filosóficas e
literárias, as obras de arte em geral são produzidas para o mercado e
intermediadas por ele, como mercadorias tornam-se acessíveis a todos – já
não constituem o monopólio de interpretações de autoridades eclesiásticas e
governamentais. “As pessoas privadas, às quais a obra se torna acessível
enquanto mercadoria [...] conversam sobre ela e, assim, precisam verbalizar o
que, até então, exatamente não tinham podido, desenvolver a sua autoridade”;
Em terceiro lugar, o não-fechamento do público: “todas as pessoas
privadas que, como leitores, ouvintes [...], podiam, através do mercado,
apropriar-se dos objetos em discussão”. As questões discutíveis tornam-se
“„gerais‟” não só no sentido de sua relevância, mas também de sua
acessibilidade: todos devem poder participar. Onde o público se estabelece
como grupo fixo de interlocutores, ele não se coloca como equivalente ao
grande público, mas reivindica aparecer de algum modo como seu porta-voz,
talvez até como seu educador. Aparecer em seu nome e até mesmo
47
representá-lo – eis a nova configuração da representação burguesa
(Habermas, 1984, p.51-53);
Além de Habermas (1984), Hannah Arendt (1995) também tratou da
evolução histórica da esfera pública desde a Grécia antiga até a modernidade.
Para essa autora, o termo “público” denota dois fenômenos intimamente
correlatos, embora não perfeitamente idênticos. Significa, por um lado, que
tudo o que vem a público pode ser visto e ouvido por todos e tem maior
divulgação possível (sentimentos, paixões, pensamentos da mente, os deleites
dos sentidos transformados, desprivatizados e individualizados, de modo a se
tornarem adequados à aparição pública), através da narração de histórias e,
da transposição artística de experiências individuais (Arendt, 1995, p.59-60).
Para Arendt (op.cit), uma vez que a nossa percepção da realidade
depende totalmente da aparência, e, portanto da existência de uma esfera
pública na qual as coisas possam emergir da treva da existência resguardada,
até mesmo a meia-luz que ilumina a nossa vida privada e íntima deriva, em
última análise, da luz muito mais intensa da esfera pública (p.61).
O outro significado do termo “público” proposto por Arendt (1995), diz
respeito ao próprio mundo, na medida em que é comum a todos e diferente do
lugar que nos cabe dentro dele. Este mundo tem a ver com o artefato humano,
com produto de mãos humanas, com os negócios realizados entre os que,
juntos, habitam o mundo feito pelo homem. Para Arendt (op.cit), “a esfera
pública, enquanto mundo comum reúne-nos na companhia uns dos outros e,
contudo, evita que colidamos uns com os outros”. A este respeito, a autora
refere que somente quando as coisas podem ser vistas por muitas pessoas,
numa variedade de aspectos, sem mudar de identidade, de sorte que os que
estão à sua volta sabem que vêem o mesmo na mais completa diversidade,
pode a realidade do mundo manifestar-se de maneira real e fidedigna (p.62).
As abordagens e conceitos de espaço público/esfera pública de
Habermas e Arendt, não obstante as críticas e reformulações24 assumem uma
posição central na literatura que trata de espaços públicos como arenas de
formação da vontade, reforço da consciência coletiva e da cidadania.
24
Veja-se, por exemplo, Avritzer (2000); Webster (2006). Sobre a crítica a Arendt, veja-se
Viera (2001)
48
Viera (2001, p.59), partindo do modelo discursivo de espaço público de
Habermas, afirma que “comparado a Hannah Arendt, [Habermas] não restringe
o acesso ao espaço público nem determina a agenda do debate [...]”. Nessa
perspectiva, afirma Viera, o modelo discursivo é o único compatível com as
inclinações sociais gerais da sociedade contemporânea e com as aspirações
da cidadania. Segundo este autor, espaço público é visto democraticamente,
como a criação de procedimentos pelos quais todos os afetados por normas
sociais gerais e decisões políticas coletivas possam participar de sua
formulação e adoção.
De qualquer forma, na perspecitva da presente dissertação, como se fez
referência no início deste subcapítulo, a biblioteca pública como espaço
público é entendida como um lócus onde temas, idéias e informações se
apresentam ao conhecimento geral; como um domínio discursivo, de debate e
interação social aberto a todos, sem distinção de credos religiosos, ideológicos
e condições sócio-políticas e econômicas; e, nesse sentido, uma instituição
social relevante para a formação e desenvolvimento dos sujeitos enquanto
cidadãos.
No capítulo III, a seguir, será discutida a biblioteca pública no contexto
da sociedade da informação, sendo, igualmente, pensada como uma
instituição central para os processos disseminação, inclusão e mediação
informacionais nesse contexto. A sociedade da informação é pensada, na
perspectiva da presente dissertação, especialmente em relação aos países
africanos, onde, de acordo com Suaiden (2000, p.56), apesar das promessas
de compartilhamento e inclusão sócio-informacional e digital, o acesso público
à informação e às novas TICs continua muito abaixo, e os elevados índices de
pobreza e baixos níveis de renda per capita refletem-se em altas taxas de
analfabetismo, baixo acesso à educação formal, à informação, e aos direitos
de cidadania. São estes aspetos que trataremos detalhadamente no capítulo
IV, quando formos a discutir o processo de construção da sociedade da
informação em Moçambique, contexto empírico do presente estudo.
49
CAPÍTULO III
A BIBLIOTECA PÚBLICA NO CONTEXTO DA SOCIEDADE DA
INFORMAÇÃO
Como foi referido anteriormente, neste capítulo será discutida a
biblioteca pública no contexto da sociedade da informação, pensando a mesma
como uma instituição central para os processos disseminação, inclusão e
mediação informacionais nesse contexto. No subcapítulo 3.1, entretanto, a
sociedade da informação é tratada numa perspectiva histórico-conceitual, onde
serão apresentados alguns critérios de definição e breve histórico dessa
sociedade. No subcapítulo seguinte, apresentam-se os princípios e diretrizes
definidos na Cúpula Mundial para a Sociedade da Informação (WSIS, 2003;
WSIS, 2005).
No subcapítulo 3.3, a sociedade da informação é discutida,
especificamente, na perspectiva dos países africanos, onde serão abordados
os dilemas e paradoxos com que se deparam esses países nos seus esforços
de construção dessa sociedade. Por fim, no subcapítulo 3.4, discuti-se o papel
da biblioteca pública no contexto da sociedade da informação, considerado-a
instituição vital nos processos de disseminação, inclusão e mediação
informacionais nesse contexto.
3.1 Abordagem histórico-conceitual da Sociedade da Informação
A literatura sobre a sociedade da informação cresceu muito desde os
finais do século XX. O meio acadêmico vem efetivando e consubstanciado os
discursos relacionados a essa sociedade em pesquisas, seminários,
conferências e outras formas de comunicação científica. Ao mesmo tempo,
governos de muitos países, no mundo inteiro, consignam orçamentos e
constroem políticas públicas, ou seja, instrumentos de planejamento e
intervenção em torno da sua implementação25.
25
Webster (2006); Aparício (2006). Sobre políticas públicas e/ou instrumentos de
planejamento e intervenção em torno da implementação da sociedade da informação veja-
se, por exemplo, “Sociedade da informação no Brasil – Livro Verde”, organizado por
Takahashi (2000); “Políitca de Informática”, instrumento que trata da implementação da
sociedade da informação em Moçambique. Sobre esta última política falaremos no capítulo
IV, quando formos a tratar especificamente, da construção da sociedade da informação
nesse país
50
Webster (2006) alerta, entretanto, para a necessidade de se prestar
atenção às definições que são postas em jogo pelos participantes nessas
discussões sobre a sociedade da informação. É especialmente útil, afirma
Webster, analisar o que aqueles que se referem a uma sociedade da
informação querem dizer quando evocam esse termo.
Na verdade, como constata Webster (op.cit), se por um lado, a literatura
opera com definições parciais e/ou incompletas da sociedade da informação;
por outro lado, evidencia distinções que expressam a divisão entre os teóricos
dessa sociedade, especialmente na concepção do fenômeno que perpassa
toda a discussão em torno do papel da informação no mundo contemporâneo.
Assim, segundo Webster, é possível distinguir cinco (5) definições de
sociedade da informação, que não sendo mutuamente exclusivas enfatizam um
ou outro critério de alterações que tornam a informação um elemento
qualitativamente novo de sistema social. Como afirma o autor citado acima,
“essas definições compartilham a convicção de que as alterações quantitativas
da informação estão trazendo um tipo qualitativamente novo de sistema social,
a sociedade da informação ” (tradução livre, p.9).
As cinco definições de sociedade da informação que Webster (op.cit)
distinguiu têem os seguintes critérios: 1) tecnológico; 2) económico; 3)
ocupaconal; 4) espacial; e 5) cultural. O critério tecnológico, de acordo com
Webster, centra-se em uma série de inovações tecnológicas surgidas na
segunda metade do século XX. Tais inovações, que incluem as novas TICs
(computadores, telefones celulares, TV a cabo e via satélite, serviços de
informação em rede, processadores de textos, etc), tornaram-se “um dos
indicadores mais visíveis dos novos tempos e, conseqüentemente, são
freqüentemente tomadas para sinalizar [e caracterizar] a chegada de uma
sociedade da informação” (ibidem).
Entretanto, acautela Webster, o problema de medição da TIC (quanta
TIC é necessária para se identificar uma sociedade da informação?), e as
dificuldades associadas de estipular um ponto na escala tecnológica em que
uma sociedade é julgada ter entrado em uma era da informação, “é certamente
fundamental para qualquer definição aceitável de um novo e distinto tipo de
sociedade”. Webster apresenta, também, objeção a visão tecnologicamente
determinista das mudanças sociais contemporrâneas, uma visão que relega a
51
uma divisão completamente distinta as dimensões social, econômica e política
da inovação tecnológica. Nessa visão, a tecnologia “vem de fora da sociedade
como um elemento invasor, sem contato com o social no seu desenvolvimento,
ainda que tenha enormes conseqüências sociais quando impacta na
sociedade”, fato que demonstra que a tecnologia não é alheia ao domínio
social, pelo contrário, é parte integrante do mesmo (tradução livre, p.11-12).
O critério econômico de definição da sociedade da informação sustenta-
se no “crescimento do valor económico das atividades informacionais”;
aumento da proporção do produto nacional bruto (PNB) contabilizado pelo
setor de informação. Uma vez que a maior parte da atividade econômica é
ocupada por serviços de informação (ao invés da agricultura e da indústria),
afirma Jonscher 26 (apud Webster, 2006, p.12), podemos falar de uma
sociedade da informação. Machlup27 (apud Webster, op.cit.) é considerado o
autor do trabalho pioneiro de identificação das indústrias da informação como a
educação, direito, publicações, mídia e produção de computadores, e de uma
tentativa de estimar seu valor económico na sociedade contemporânea. Um
trabalho que, segundo Webster (op.cit.), foi aperfeiçoado por Porat (1977b)28.
Neste critério encontramos, também, objeções. A principal delas,
segundo Webster (op.cit.), é que atrás das tabelas de peso estatístico “há uma
grande dose de interpretação e juízo de valor na construção de categorias e os
elementos a incluir e excluir do sector da informação”. Tanto Machlup como
Porat, afirma Webster, criaram categorias do setor de informações que
exageram o seu valor económico. Machlup, por exemplo, inclui na sua
„indústria de conhecimento‟ a „construção de edifícios de informação‟ na base
de que, presumivelmente, a construção de uma universidade ou biblioteca é
diferente de um edifício destinado a armazenagem de chá ou café. Webster
questiona, entretanto, a alocação daqueles edifício construídos para um
propósito, mas que servem para outro. Um exemplo interessante nesse sentido,
é que, como bem constata Webster, “muitos departamentos de universidades
26
JONSCHER, Charles. Wired Life. New York: Bantam, 1999.
27
MACHLUP, Fritz.The Production and Distribution of Knowledge in the United States.
Princeton, NJ: Princeton University Press, 1962.
28
PORAT, Marc Uri. The Information Economy: Sources and Methods for Measuring the
Primary Information Sector (Detailed Industry Reports). OT Special Publication 77–12
(2). Washington, DC: US Department of Commerce, Office of Telecommunications, 1977b
52
estão localizadas em antigas casas domésticas, e algumas salas de aula estão
em um armazém convertido” (p.13).
Outra objeção e/ou dificuldade do critério económico de definição da
sociedade da informação diz respeito ao fato de os dados agregados,
inevitavelmente, homogeneizarem diferentes actividades económicas. Em
conjunto, é possível dizer que o crescimento no valor económico da publicidade
e da televisão é indicativo de uma sociedade da informação mas, assevera
Webster, fica-se com o desejo de distinguir entre as actividades de informação
elementos qualitativos. “O entusiasmo dos economistas da informação de
colocar um preço em tudo, tem a infeliz conseqüência de não deixar conhecer-
se a real dimensão do setor da informação”. E, “essa busca da diferenciação
entre os índices quantitativos e qualitativos de uma sociedade da informação
não é perseguida por Machlup e Porat” (p.14).
Nesse sentido, sugere Webster, podemos ter uma sociedade na qual,
como medido pelo PIB, a atividade de informação é de grande peso, mas em
termos de fonte da vida econômica, social e política é de pouca importância
(ibidem).
O critério ocupacional (profissional) de definição da sociedade da
informação, segundo Webster, é mais favorecido pelos sociólogos. É
intimamente associado ao trabalho de Daniel Bell (1973) 29 , considerado o
teórico mais importante da "sociedade pós-industrial", termo que o próprio Bell
prefiria usar para se referir à sociedade da informação. A “sociedade pós-
industrial”, segundo Bell (apud Aparício, 2006, p.60), caracteriza-se por cinco
dimensões ou componentes, entre eles:
1) a mudança de uma economia de produção de bens para uma de
serviços;
2) preeminência da classe profissional e técnica do setor da informação;
3) a centralidade do conhecimento teórico como fonte de inovação e de
formulação de políticas para a sociedade;
4) controle da tecnologia e a distribuição tecnológica; e
5) a criação de uma nova „tecnologia intelectual‟.
29
BELL, Daniel. The Coming of Post-Industrial Society: A Venture in Social Forecasting.
Harmondsworth: Penguin, 1973.
53
Neste critério, entretanto, a sociedade da informação emerge em função
dos padrões de mundaça observados na estutura ocupacional. A idéia é que
alcançamos uma sociedade da informação à medida que a preponderância das
ocupações profissionais é adstrita ao trabalho com a informação. “O declínio do
trabalho industrial e o seu aumento no setor de serviços é interpretado como a
perda de postos de trabalho manual e sua substituição pelo trabalho [com a
informação ou intelectual]” (Webster, op.cit. p.14). A informação, e não as TICs,
seria, assim, o agente transformador e de subordinação da natureza (mundo
material) a favor do homem, da sociedade e seus propósitos de sobrevivência
nos novos tempos.
Em Living on Thin Air, Leadbeater30 (apud Webster, op.cit) proclama
que „o pensamento inteligente'; a capacidade de invenção e/ou inovação; de
desenvolver e explorar „redes‟ sociais é a chave para a nova economia, uma
vez que a produção da riqueza vem, não do esforço físico, mas a partir de
„idéias, conhecimentos, habilidades, talento e criatividade‟.
Essa visão é partilhada por outros teóricos influentes da sociedade da
informação entre eles Robert Reich31, Peter Drucker32 (apud Webster, 2006) e
Manuel Castells (2007), que sugerem que a economia e sociedade hoje são
liderados e energizados por pessoas cuja principal característica é a
capacidade de manipular a informação. “Termos preferidos variam, de
„analistas simbólicos‟, para „especialistas do conhecimento‟, a „trabalhadores
da informação‟, mas uma mensagem é constante: os „motores‟ de hoje são
aqueles cujo trabalho envolve a criação e uso de informações.
A crítica a este critério de classificação da sociedade da informação diz
respeito, igualmente, a diferenciação dos dados qualitativos e quantitavos nas
ocupações profissionais. Como afirma Webster, trata-se, muitas vezes, “da
falta de identificação das mais estrategicamente importantes profissões da
informação”. Não obstante a possibilidade de a metodologia fornecer uma
imagem do crescimento que o trabalho com a informação está tendo, a mesma
“não oferece nenhuma forma de diferenciar as dimensões mais importantes
desse trabalho” (Webster, op.cit, p.15-16, tradução livre).
30
LEADBEATER, Charles. Living on Thin Air: The New Economy. [s/l]: Viking, 1999.
31
REICH, Robert B. The Future of Success. [s/l]: Heinemann, 2001.
32
DRUCKER, Peter F. Post-Capitalist Society. New York: HarperCollins, 1993.
54
O quarto critério de definição da sociedade informação apresentado por
Webster é o espacial. Neste critério, segundo esse autor, a ênfase está nas
redes de informação que conectam vários locais e, conseqüêntemente podem
ter efeitos profundos na organização do tempo e do espaço. As redes de
informação tornaram-se características importantes da organização social
contemporânea, e são um dos critérios mais populares de classificação da
sociedade da informação. Atualmente, as conexões em redes de informação
assumem uma posição de centralidade, lingando, em tempo real, diferentes
locais a partir e/ou entre uma casa, um escritório, uma cidade, uma região, um
continente – um mundo inteiro (p.17).
Barron e Curnow33 (apud Webster, op.cit.) comparam a permeabilidade
das redes de informação na sociedade atual com uma rede elétrica, afirmando
que tal como esta última percorre um país inteiro, permitindo o usufruto dos
cidadãos em conexões apropriadas, a primeira permite uma „sociedade
conectada‟ a nível nacional, internacional e mundial, proporcionando um „anel
de informações‟ para cada casa, loja, escritório, ou universidade – até mesmo
para aparelhos móveis como celulares e modem em laptops. De acordo com
Webster (op.cit), muitos autores consideram estas mudanças e possibilidades
de conexões em rede de informações, o anúncio de uma grande
transformação social, que permite categorizar a sociedade atual como uma
sociedade da informação.
A crítica de Webster sobre este critério de definição da sociedade da
informação refere-se ao que o autor chama de imprecisão de definições do
termo “rede”. E questiona: quando é que uma rede é rede? Quando duas
pessoas falam ao celular ou um sistema de transmissão de dados por
computadores através de uma comutação de pacotes de intercâmbio?
Para esse autor, a questão do que realmente constitui uma rede é séria
e coloca problemas não só sobre como distinguir entre os diferentes níveis da
rede, mas também sobre como estimar um nível e/ou ponto para afirmar que
entramos em uma "sociedade da informação e/ou em rede ". Coloca-se
também a questão de saber se está se falando de uma definição da sociedade
33
BARRON, Iann; CURNOW, Ray.The Future with Microelectronics: Forecasting the
Effects of Information Technology. [s/l] Pinter, 1979.
55
da informação, ou seja, se as redes são definidas como sistemas tecnológicos,
fluxos de informação ou sociais (p.18).
Ainda sobre este critério, Webster (op.cit.) afirma que pode-se
argumentar que as redes de informação existem há bastante tempo, pelo
menos desde os primeiros dias do serviço postal, através de redes de
telegrama e telefone, e sempre foram indispensáveis na vida econômica,
política e social portanto, não podem ser usados para anunciar a novidade da
sociedade da informação. Castells (2007, p.64-65), autor que prefere usar a
expressão “sociedade informacional”, também justifica a distinção analítica
entre “sociedade da informação” e “sociedade informacional”, no fato da
informação, como comunicação de conhecimentos, ter sido crucial a todas as
sociedades: tribal, antiga, medieval, moderna. Braman (2006, p.41-54)
assegura, também, que as práticas que se inserem no domínio da informação
na sociedade contemporânea existem em todas as sociedades humanas, e
aparecem, segundo essa autora, em formas que se assemelham à lei, às
práticas institucionais de governança, ou de hábitos culturais da
governabilidade. Em síntese, a informação sempre foi crucial à sociedade
humana.
Entretanto, a importância da informação tal como é reconhecida
atualmente, origina-se junto com o Estado moderno (século XV) e suas formas
tornaram-se cada vez mais articuladas ao longo do tempo. Segundo Giddens34
(apud Cepik, 2007, p.8), o poder administrativo instituido com o Estado-nação35
na Europa Ocidental não seria exeqüível sem uma base de informações que
desse sentido à sua própria auto-regulação reflexiva. No século XVII, com a
aplicação do saber científico às técnicas de produção e o conseqüente
34
GIDDENS, Anthony. Nation-state and violence. Berkeley-CA: University of California
Press, 1987.
35
O conceito de “„Estado‟” refere-se a uma forma de organização político-administrativa que
se desenvolveu na Europa ocidental a partir do século XIII até o início do século XIX. O
elemento nuclear do Estado moderno é a centralização do poder, do âmbito das relações
políticas e económicas; e a soberania territorial, que se caracteriza pela unidade do
mandato, a territorialidade e o exercício da soberania por intermédio do aparelho
burocrático e pelo princípio normativo do direito formal. Por “‟nação‟”, entende-se uma
comunidade marcada por uma raiz comum, com uma linguagem, uma cultura e uma
história comuns, e a vontade de seus componentes de se configurarem como nação. A
nação aparece como uma comunidade natural em que se nasce, como o conjunto de
pessoas unidas pelo vínculo de conterraneidade, que une maior número de membros, que
compartilham costumes, língua, o território, por natureza e não por coação (Bendix, 1996,
p.109-110; Cortina, 2005, p.46-47).
56
desenvolvimento da tecnologia, aumentam o valor e a importância da
informação.
A partir da segunda metade do século XX, a informação e as novas TICs
penetram e ganham forma na vida diária da sociedade consitituindo-se, assim,
em indicadores do desenvolvimento da chamanda sociedade da informação.
Grande parte das tentativas de caracterização da sociedade contemporânea,
veiculadas inclusive no campo da Ciência da Informação (CI,) fundam-se
exatamente na idéia de que a informação, o conhecimento e as novas TICs
constituem-se em elementos fundamentais para o desenvolvimento econômico,
político e socio-cultural dos países sendo, portanto, “variáveis” imprescindíveis
para o cidadão neste novo tempo (Saracevic, 1999, p.1053; Capurro; Hjorland,
2007, p.149).
O último critério de definição da sociedade da informação, apresentado
por Webster (op.cit.), é o cultural. Diz respeito exatamente ao “modus vivendi”
na sociedade contemporânea, caracterizado por um extraordinário e
exponencial aumento da informação em circulação. É, em reconhecimento
dessa explosão informacional, carregada de simbolismos próprios, que muitos
teóricos concebem a entrada na sociedade da informação.
O desenvolvimento e a expansão da televisão e de outras formas de
mídia, que passam a incorporar as novas tecnologias de vídeo e canais a cabo
e satélite; a expansão do acesso e uso da Internet; as mudanças nos meios e
formas de comunicação social; e o acesso cada vez mais rápido e amplo da
produção artistíca, cultural e intelectual representada em livros, músicas, obras
de arte, poesia no formato digital, parecem atestar a idéia de que estamos
vivendo em uma sociedade da informação, uma nova e dinâmica cultura socio-
informacional. A sociedade contemporânea, atesta Webster, “é manifestamente
mais carregada de informação que as antecessoras” (Webster, op.cit.p.20).
De qualquer forma, este critério de definição da sociedade da
informação é, também, alvo de algumas objeções apresentadas por Webster
(op.cit.). Para esse autor, muitos teóricos se apegam apenas ao ambiente de
alta saturação da mídia e das novas TICs, da enorme mediatização do mundo
da vida (do eu e do outro) e do processo comunicativo, para inferir que
estamos vivendo uma sociedade da informação, e “raramente avaliam essa
transição em termos quantitativos”. Paradoxalmente, continua Webster, talvez
57
seja essa explosão informacional que leva alguns autores a anunciar, por
assim dizer, “a perca do sentido”. Ou seja, como afirma Baudrillard36 (apud
Webster, op.cit.), “há cada vez mais informação, e cada vez menos sentido”. A
artificialidade e a encenação da informação na mídia e na política são alguns
dos fatores relacionados com a perca do sentido da sociedade da informação
(p.20-21).
Para Morin (1989, p.36-39), "os progressos no sistema de informação –
justamente nos mídia – [...] permitem e suscitam um formidável progresso na
encenação da vida social e política”. Suscitam, igualmente, a fabricação de
falsas informações para legitimá-las aos olhos dos incrédulos. Portanto,
adverte o autor, “nao podemos ser totalmente receptivos a informação” (p.47).
De qualquer modo, e como afirmamos no início deste subítem,
atualmente os discursos da sociedade da informação já se efetivam e se
consubstânciam quer ao nível da comunidade científica, quer em políticas
governamentais de diversos países e organismos internacionais. Nesse
processo, algumas inicitivas e políticas privilegiam as questões tecnológicas;
outras, as regiões desprovidas de infra-estrutura de comunicação e serviços de
informação (Suaiden, 2000). Os organismos internacionais têem contribuido
com diretrizes e orientações relacionadas com a partilha da infra-estrutura
tecnológica, democratização do acesso à informação e às novas TICs, e com a
inclusão socio-informacional37.
Algumas das organizações que tratam mais diretamente de temas
relacionados com a sociedade da informação no cenário internacional são, de
acordo com Sathler (2005, p.1), a International Telecommunication Union (ITU);
a World Intellectual Property Organization (WIPO); a United Nations
36
Baudrillard, Jean. In the Shadow of the Silent Majorities; or, The End of the Social and Other
Essays. Translated by Paul Foss, John Johnson and Paul Patton. New York: Semiotext(e),
1983a.
37
Na perspectiva da presente dissertação, o termo inclusão socio-informacional substitui e
agrega o que a literatura denomina de inclusão digital. Evita-se, ao máximo, o uso do termo
inclusão digital por se entender que o mesmo evoca e/ou está adistro a uma dimensão
exclusivamente tecnológica da sociedade da informação, de acesso ao computador, rádio,
celular, televisão e outras TICs, e não necessariamente à informação como um recurso e
fator para a cidadania. Trata-se, em outras palavras, de reafirmar a nossa oposição à visão
determinista da tecnologia, por entendermos que a simples adoção ou expansão das
ferramentas tecnológicas não é suficiente para superar as lacunas relacionadas com os
processos de democratização, acesso e uso dos serviços de informação. Veja-se também:
Werthein (2000); Mangue (2007); Winocur (2007); Massensini; Reis (2010).
58
Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO); e a Internet
Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN).
Todavia, o evento mais importante do envolvimento da comunidade
internacional no processo de construção da sociedade da informação foi a
Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (CMSI), em inglês, World
Summit on the Information Society (WSIS), que consistiu em dois (2) encontros
convocados e/ou patrocinados pela Organização das Nações (ONU), sob a
assistência técnica e logística da ITU para, segundo Sathler (op.cit.), “atender
aos pedidos de várias nações, incomodadas com as perspectivas de aumento
de concentração do poder nas mãos daqueles países que dominam os meios
de produção, armazenamento, disseminação e uso da informação”.38
No subítem seguinte serão apresentados os resultados dos encontros da
WSIS (2003; 2005) em termos de princípios e diretrizes globais adotados para
a construção da sociedade informação.
3.2 A Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação
O primeiro encontro da WSIS foi realizado em dezembro de 2003, em
Genebra, e, pela primeira vez na história da ONU “foi introduzida uma
abordagem com múltiplos atores, através da inclusão de todos os interessados,
tanto do setor privado quanto da sociedade civil”, não obstante a suprema
“ingerência” dos interesses políticos e econômicos nas discussões temáticas
propostas por atores fundamentais (governos, setor privado, organizações da
sociedade civil) convocados para esse encontro (Betancourt, 2004, p.31)39.
Por exemplo, como afirma Selaimen (2004, p.22), “a discussão sobre os
Direitos Humanos ao longo de todo o processo preparatório para a CMSI foi
conturbada”, gerando, segundo essa autora, diversas manifestações por parte
do caucus de Direitos Humanos (muito comuns em processos preparatórios
para as conferências da ONU, são grupos de produção de consensos
38
Veja-se também: BETANCOURT Valeria. A Cúpula Mundial sobre a Sociedade aa
Informação: processo e temas debatidos. In: SELAIMEN, Graciela; LIMA, Paulo Henrique.
Cúpula Mundial da Sociedade da Informação: um tema de tod@s. Rio de Janeiro: Rits, 2004.
pp.29-41. Disponível em: .
Acesso em: 18.maio.2009.
39
Veja-se também: Fatheuer; Füks; Drossou (2004, p.1-8).
59
estratégicos, em constantes trocas e diálogo com as delegações dos governos
e com as instâncias organizadoras das conferências) que expressavam
preocupação com o modo como o tema estava sendo tratado nos esboços dos
documentos oficiais – a Declaração de Princípios e o Plano de Ação. Até as
vésperas da Cúpula, continua a autora, “havia dúvida sobre a inserção de
menções aos compromissos firmados na Declaração Universal de Direitos
Humanos e outros documentos relevantes”.
Outras várias divergências nas negociações multilaterais caracterizaram
o primeiro encontro da WSIS. Segundo Lima (2004, p.9), o Fundo de
solidariedade digital, privacidade e liberdade nas rede de informação, e gestão
da Internet foram as principais dessas divergências. Os países ricos, afirma
Lima (op.cit.), “negaram-se a aceitar compromissos financeiros que pudessem
permitir a criação de um Fundo de solidariedade digital”, uma proposta dos
países africanos. Foi, igualmente, manifestada a preocupação com o controle
que exercem sobre a Internet muitos Estados não democráticos e, a partir do
11 de setembro de 2001, sob o pretexto da luta contra o terrorismo, a
intromissão na vida privada dos cidadãos através da vigilância de sua atividade
na Internet em muitos países democráticos, entre eles os Estados Unidos
(EUA).
A terceira questão capital debatida durante o primeiro encontro da WSIS,
segundo Lima (op.cit.), foi o modo de governança e gestão da Internet. Vale
lembrar, a propósito, que desde sua criação, na segunda metade do século XX
até ao momento, quem decide todo e qualquer problema nesse campo são os
EUA. Assim, no primeiro encontro da CMSI foram apresentadas propostas para
a inversão dessa situação que atribui e/ou reforça supremacia aos EUA, se
considerarmos a importância da Internet no mundo contemporâneo. Entretanto,
segundo o autor citado acima, O G840 negou todas as propostas apresentadas
no encontro, entre elas as propostas das Organizações da Sociedade Civil
(OCS) referente a necessidade de uma gestão multilateral da Internet,
transparente e democrática, com a plena participação dos governos, do setor
privado e da sociedade civil; e a de muitos Estados presentes no encontro,
40
Grupo dos oito países mais ricos do mundo, constituido pela França, os EUA, o Reino
Unido, a Alemanha, a Itália, o Japão, o Canadá e a Rússia.
60
relativa a transferência da responsabilidade da governança da Internet a uma
instância especial das Nações Unidas ou para a ITU (p.10).
Não obstante as divergências, algumas das quais pendentes (por
exemplo, a questão da governança da Internet e do Fundo de solidariedade
digital) no encontro, “a adoção por parte dos países membros da ONU de uma
Declaração de Princípios e um Plano de Ação”, segundo Betencourt (op.cit.),
“era o principal resultado que se esperava da primeira fase da Cúpula”.
A Declaração de Princípios41, de acordo com essa autora, expressou a
vontade política dos governos para estabelecer condições que conduzam a
sociedades inclusivas e eqüitativas e esboçar políticas para a coordenação
global das TIC. O Plano de Ação 42 constitui uma série de propostas
operacionais e medidas concretas para a materialização dos princípios e
objectivos expressados na Declaração. Vale destacar, nesse sentido, o fato de,
em seu primeiro parágrafo, a Declaração de Princípios afirmar o compromisso
dos países signatários para com o respeito à Declaração Universal dos Direitos
Humanos e sua defesa plena como princípio fundamental para a construção da
Sociedade da Informação centrada no ser humano.
A visão partilhada na presente dissertação assenta, exatamente na idéia
segundo a qual a criação de uma sociedade da informação significa abrir
espaço para a presença e o acesso dos sujeitos à informação, ao meio digital
(Internet) e outros meios tradicionais de informação e comunicação (TV, rádio,
jornal etc.), como cidadãos ativos, emissores de idéias e valores, produtores de
conteúdo, e não apenas como consumidores” (Selaimen, op.cit. p.23).
Nesse sentido, a Cúpula declarou no encontro de 2003, que
a capacidade universal de aceder e contribuir com informações, idéias
e conhecimento é essencial em uma Sociedade da Informação
inclusiva. É possível promover o intercâmbio e o fortalecimento do
conhecimento global em favor do desenvolvimento, eliminando as
barreiras ao acesso eqüitativo à informação para as atividades
económicas, sociais, políticas, sanitárias, culturais, educacionais e
41
Veja-se: WORLD SUMMIT ON THE INFORMATION SOCIETY (WSIS). Declaration of
Principles: building the Information Society: a global challenge in the new Millennium. Geneva,
2003 (WSIS, 2003/GENEVA/DOC/9-E, 12 December 2003). Disponível em:
. Acesso
em: 16.out.2010.
42
WORLD SUMMIT ON THE INFORMATION SOCIETY (WSIS). Plan of Action. (WSIS-
03/GENEVA/DOC/5-E, 12 December 2003). Disponível em: . Acesso em: 16.out.2010.
61
científicas, e facilitando o acesso à informação de domínio público
43
.
Um domínio público rico é um essencial para o crescimento da
Sociedade da Informação, e cria vários benefícios como um público
educado, novos empregos, inovação, oportunidades de negócios, e o
avanço das ciências. A informação do domínio público deve estar
facilmente acessível para dar suporte à Sociedade da Informação, e
deve ser protegida da apropriação indébita. Instituições públicas, como
bibliotecas e arquivos, museus, coleções culturais e outros pontos de
acesso baseados na comunidade devem ser reforçadas de forma a
promover a preservação dos registros documentais e o acesso livre e
eqüitativo à informação (WSIS, 2003, p.4, tradução livre).
Apesar da primeira fase da WSIS ter sido avaliada por diversas
organizações e membros da sociedade civil como um fracasso da intenção de
gerar mecanismos concretos para a inclusão socio-informacional, como afirma
Segundo Betencourt (op.cit.), a mesma se constituiu numa plataforma valiosa
para a discussão e reflexão dos aspectos mais importantes que dão forma à
Sociedade da Informação, integrando distintas regiões, ideologias e setores.
Nesse sentido, afirma Betencourt,
foi tomada como uma oportunidade para contribuir para a formação de
Sociedades da Informação baseadas nos direitos humanos, na justiça
social e no desenvolvimento. O intenso e comprometido trabalho da
sociedade civil se viu refletido na inclusão de alguns de seus temas
prioritários no texto final da Declaração. As referências à Declaração
Universal de Direitos Humanos, à eqüidade de gênero e ao software
livre são exemplos a ressaltar (p.40).
A segunda fase da WSIS foi realizada em Tunis, capital da Tunísia, entre
16 a 18 de 2005. Esteve dirigida para temas de desenvolvimento, e constitui
uma ocasião para se reiterar o compromisso com a Declaração de Princípios
de Genebra (2003), e para se avaliar os avanços da implementação do Plano
de Ação adota nessa mesma ocasião, isto é, na primeira fase da WSIS.
Assim, a Cúpula reafirmou o seu compromisso e desejo de construir
uma sociedade da informação inclusiva, baseada nas pessoas e orientada para
o desenvolvimento. Uma sociedade da informação, segundo o compromisso de
43
Por informação de domínio público entende-se aquela “informação publicamente acessível,
cuja utilização não infringe qualquer direito legal, ou qualquer obrigação de confidencialidade”.
Refere-se a “dados públicos e informações oficiais produzidas e voluntariamente
disponibilizadas por governos ou organizações internacionais” (Unesco, 2003, p.6-7). Segundo
Uhlir (2006, p.24) a “informação de domínio público” pode ser definida como aquela que é
deixada de fora do escopo de qualquer forma de proteção estatutária, inclusive os direitos de
propriedade intelectual, a proteção da segurança nacional ou da ordem pública, leis de
privacidade e obrigações de confidencialidade.
62
Tunis, assente nos propósitos da Carta das Nações Unidas, do Direito
Internacional e Multilateralismo, e no respeito a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, de modo que todas as pessoas possam criar, acessar,
utilizar e compartilhar informações e conhecimento, com vistas ao
desenvolvimento do seu pleno potencial e ao alcance dos objectivos e metas
internacionalmente acordadas, incluindo os Objectivos de Desenvolvimento do
Milênio (ODM)44 (WSIS, 2005a).
A Cúpula reafirmou, igualmente, o reconhecimento de que o livre fluxo
de informações, idéias e conhecimento entre os sujeitos cidadãos é um
componente essencial e intrínseco à sociedade da informação e benéfico ao
desenvolvimento sócio-político, econômico e cultural nesse contexto. Para
tanto, a Cúpula recomendou que os governos, o setor privado, as OSC, as
Nações Unidas e outras organizações internacionais trabalhem conjuntamente
para não somente melhorar as condições de acesso e partilha da informação e
conhecimento, mas tamém na provisão da infra-estrutura das TICs, promoção
de competências e princípios éticos, de respeito a diversidade, inclusão e
segurança necessários (ibidem).
Reconhecendo a necessidade de se levar em conta o nível de
desenvolvimento social e econômico de cada continente, região ou país na
aplicação dos princípios, compromissos e decisões tomadas pela Cúpula em
Genebra (2003) e em Tunis (2005), e conforme descrito na Agenda de Túnis
44
Os ODM foram formulados durante a Cimeira do Milénio, realizada em Nova Iorque, entre os
dias 6 e 8 de Setembro de 2000, e consolidados através do “Roteiro rumo à implementação da
Declaração do Milénio das Nações Unidas: Relatório do Secretário Geral à Assembleia Geral”
em 2001. A Declaração do Milénio reflecte as preocupações de 147 Chefes de Estado e de
Governo – incluindo de Moçambique – e de 191 países, que participaram na maior reunião de
sempre de dirigentes mundiais. a Declaração do Milénio consagrou oito ODM, entre eles: 1)
erradicar a pobreza absoluta e a fome; 2) Alcançar o ensino básico universal; 3) Promover a
igualdade do género e empoderamento da mulher; 4) Reduzir a mortalidade infantil; 5) Melhoria
da saúde materna; 6) Combater o VIH/Aids, malária e outras doenças; 7) Garantir a
sustentabilidade ambiental; e 8) Desenvolver de uma parceria global para o desenvolvimento.
Para medir o progresso rumo ao alcance de cada ODM, especialistas do Secretariado da ONU,
do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Organização da Cooperação e Desenvolvimento
Económico (OCDE) e do Banco Mundial, estabeleceram consensualmente um quadro de 18
metas e 48 indicadores. Estes indicadores são instrumentos essencias de orientação de
Governos e Estados, do sector privado e de Organizações da Sociedade Civil (OCS) no
processo de defnição de estratégias e planos de acção nacionais visando erradicar a pobreza e
promover o crescimento económico. Moçambique tem declarado activamente a sua adesão e
cometimento, quer a estes princípios políticos, quer aos ODM, através do PARPA, do Plano
Quinquenal do Governo e da Agenda 2025 (PNUD, 2006, ii-iv).
63
para a Sociedade da Informação45, a análise da situação do continente africano
nesse processo parece-nos relevante. Trata-se da necessidade de se ter uma
compreensão mais ampla das iniciativas do continente africano rumo à
sociedade global da informação, considerando que contexto empírico do
presente estudo (Moçambique) situa-se nesse continente.
3.3 A Sociedade da Informação na África: dilemas e paradoxos
O continente africano iniciou as discussões sobre a sociedade da global
da informação em maio de 1995, quando a Conferência dos ministros da
Comissão Econômica para África (ECA) adotou a resolução no. 795,
denominada “„Building Africa’s Information Highway‟ para estabelecer uma
agenda para a sociedade da informação” no continente (Aparício, 2006, p.100).
No ano seguinte, em 1996, a ECA lançou o Africa Information Society Initiative
(AISI), considerada a primeira iniciativa para priorizar as questões das TICs na
agenda de desenvolvimento socio-econômico africano. A inicitativa foi
aprovada no mesmo ano (1996) na Cimeira dos chefes de Estado e Governo
da então Organização da Unidade Africana (OUA) criada em Addis Abeba,
capital da Etiopia, em 25 de maio 1963, e substituida em 9 de julho de 2002,
pela União Africana (UA).
No âmbito dessa iniciativa, foram criados grupos de trabalho e apoio
como o African Technical Advisory Committee (ATAC), com funções de prestar
assistência e suporte técnico aos membros do AISI, assim como lidar com
obstáculos na implementação dos planos ao nível de cada país; e o
Partnership on Information and Communication Technologies in Africa (PICTA),
um grupo orientado para encontros e discussões periódicas sobre o diversos
aspectos do processo de desenvolvimento das TIC em África e seu impacto
socio-econômico e cultural (Aparício, op.cit.).
Como se pode ver, no âmbito da AISI a ênfase é dada especialmente
para as TIC, consideradas uma prioridade e critério “para levar [a] África rumo
à sociedade da informação e acelerar o seu desenvolvimento socio-
econômico”. (ibidem). Na verdade, considerando os critérios tecnológicos e
45
Veja-se: WORLD SUMMIT ON THE INFORMATION SOCIETY (WSIS). Tunis Agenda for the
Information Society. Tunis, 2005b (WSIS-05/TUNIS/DOC/6(Rev.1)-E 18 November 2005).
Disponível em: . Acesso em: 16.out.2010.
64
econômicos de definição da sociedade da informação, conforme apresentado
por Webster (op.cit), é compreensível que os países africanos priorizem as TIC
e seu domínio, haja vista o papel e a crença nas mesmas como fator crucial de
geração de conhecimento, riqueza e poder na contemporaneidade.
Por outro lado, de acordo com Castells (2007b, p.109),
não só cabe a África o título de região menos [informada] e
informatizada do mundo como também o de continente privado das
infra-estruturas mínimas necessárias à utilização [das TIC], tornando
infrutíferos muitos dos esforços em fornecer equipamentos electrónicos
a diferentes países e organizações. Com efeito, antes de entrar na Era
[da informação], África necessita, em primeiro lugar, de uma rede
eléctrica fiável: entre os anos de 1971 e 1993, a utilização comercial de
energia aumentou de apenas 251 Kw para 288 kW per capita,
enquanto nos países em desenvolvimento no seu conjunto o consumo
foi o dobro do qe se registou no início do período, de 255kW para
536kW [...]. Além disso, o principal aspecto da utilização dos
computadores na Era da Informação é a sua capacidade de formar
redes que, por sua vez, dependem das infra-estruturas das
telecomunicações e do nível de conectividade. Comparadas com os
padrões mundiais da actualidade, as telecomunicações, em África, são
incipientes. Há mais linhas telefónicas em Manhattan ou Tóquio do que
em toda a África subsaariana
46
. Em 1991, havia uma linha telefónica
para cada 100 pessoas no continente africano, contra os países em
desenvolvimento
47
e 37,2 para os países industrializados. Em 1994,
contava com apenas 2% das linhas telefónicas existentes no planeta.
Em 2002, “a presença e o benefício do acesso na África, na América
Latina e no Caribe e na Oceania, somados, não chegava a 10% dos usuários
da Internet”, considerando que, cerca de 12% da população mundial vive em
46
A África subsaariana corresponde à região do continente africano a sul do Deserto do Saara,
ou seja, aos países que não fazem parte do Norte de África. O continente africano tem hoje
cerca de 889 milhões de habitantes, dos quais 500 milhões (56,2%) vivem na África
subsariana. Essa população tem um crescimento populacional na ordem dos 2,5% ao ano.
Fazem parte da África subsaariana os seguintes países: África do Sul; Angola; Benin;
Botswana; Burkina Faso; Burundi; Cabo Verde; Camarões; Chade; Comores; Congo; Costa do
Marfim; Djibouti; Eritreia; Etiópia; Gabão; Gâmbia; Gana; Guiné; Guiné Equatorial; Guiné-
Bissau; Lesoto; Libéria; Madagáscar; Malawi; Mali; Maurícia; Moçambique; Namíbia; Níger;
Nigéria; Quênia; República Centro-Africana; República Democrática do Congo; Ruanda; São
Tomé e Príncipe; Senegal; Serra Leoa; Seychelles; Somália; Suazilândia; Sudão; Tanzânia;
Togo; Uganda; Zâmbia; Zimbabwe. Disponível em:
;. Acesso em: 17.out.2010.
47
Do ponto de vista da contextualização global e econômica padronizada, fazem parte dos
países em desenvolviemto os que, apesar de diferenças em algumas características como
a dependência externa, desenvolvimento científico-tecnológico (comparativamente aos dos
países desenvolvidos), se deparam com consideráveis índices de analfabetismo,
mortandade infantil, pobreza e desigualdade social interna. Países com uma fraca
participação no comércio internacional e com elevadas carências em termos de capacidade
produtiva, tecnológica, etc. São países, em sua maioria, situados nos continentes africano,
asiático e América Latina. Veja-se: (Mangue, 2007, p.23-25).
65
África e apenas 1% é usuária da Internet (Lima, 2004, p.13-15; Aparício, 2006,
p.100). Esses são, portanto, alguns dos obstáculos, dilemas e paradoxos com
que o continente africano se depara nos esforços para a sua integração na
sociedade global da informação: fraca infraestrutura necessária à utilização das
TIC; fraca conectividade e formação de redes de informação; além dos
problemas sócio-políticos, econômicos e financeiros estruturais, quais sejam, a
a corrupção, pobreza, desigualdades sociais e econômicas, exclusão socio-
política, a ausência de políticas e estruturais de acesso público à informação,
entre outros.
Einsenberg e Cepik (2002, p.308) analisam exatamente essas
ambigüidades e contradições que as novas TIC trazem para os países
periféricos da economia global, na sua maioria situados no continente africano,
“onde a integração à sociedade da informação coexiste com o
subdesenvolvimento econômico e com enorme desigualdade social”.
Nesse contexto, os referidos autores constataram, igualmente, um
déficit das instituições políticas no que respeita, por exemplo, às questões
associadas a efetivação da democracia, questões que exigem um esforço
permanente das instituições políticas para tornar mais participativos os
processos de elaboração e implementação de políticas públicas
(empowerment). Esse déficit de empowerment resulta, de acordo com estes
autores, normalmente do fato dos cidadãos não disporem de informação e/ou
canais abertos de participação nas tomadas de decisão, para exercer, desse
modo, seu poder de construção e/legitimação da democracia48.
O número de pessoas incapazes de tomar certas decisões e/ou exercer
seus direitos e deveres de cidadania devido à falta de acesso à informação, ao
conhecimento, e, atualmente, às TIC é muito grande no continente africano.
Apenas em áreas urbanas, certa elite, pessoas com poder aquisitivo e algumas
ONGs nacionais e internacionais que funcionam nesses países tem a
48
A democracia é entedida aqui como um regime de governo que inclui, de acordo com
Dahl (2001, p.99-100), a liberdade de expressão; fontes de informação diversificadas; e
cidadania inclusiva. Aos cidadãos deve-se reservar o direito de se expressar sem o risco
de punições em questões políticas amplamente definidas, incluindo o governo, o regime, a
ordem socioeconômica e a ideologia prevalecente; o direito de buscar fontes de informação
diversificadas, jornais, revistas, livros, etc. A cidadania inclusiva, segundo Dahl (op.cit.)
refere-se ao tratamento igualitário dos sujeitos relativamente ao conjunto de direitos de
cidadania, que incluem o direito a ter acesso a fontes de informação necessárias a
participação nas “instituições políticas da democracia em grande escala”.
66
possibiblidade de acessar e fazer uso da informação e das TIC (Internet),
pagando altos taxas por essas tecnologias, bem como o equipamento
necessário para o seu funcionamento e as conexões a provedores
excessivamente caras. Quanto mais se desloca para as áreas rurais adentro,
menor se torna a possibilidade de se ter acesso à informação de domínio
público e às TICs (Aparício, op.cit. p.98-99)49.
Vale lembrar, entretanto, retomando a análise das iniciativas do
continente africano rumo à sociedade global da informação, que no âmbito da
implementação da AISI, a ECA, através do ATAC, é o órgão responsável pelo
suporte técnico e apoio na formulação de políticas e planos estratégicos
nacionais de implementação da sociedade da informação. Apoia os países
africanos na criação do que se convencionou chamar de Plano Nacional de
Infraestruturas em Informação e Comunicação (National Information and
Communication Infrastructure - NICI), considerando o nível de desenvolvimento
e as prioridades de cada país. Encoraja a cooperação entre os países
africanos, a troca de experiências e suportar o desenvolvimento continental no
contexto das TICs. (op.cit. p.104).
Desde que a ECA começou a apoiar os países membros na formulação
e implementação dessas políticas e iniciativas para a sociedade da informação,
segundo Aparício (op.cit), o número de países com políticas de tecnologia
aumentou de 13 em 2000 para 16 em 2002; o de países em processo de
desenvolver essas políticas passou de 10 em 2000 para 21 em 2002, fazendo
com que o número de países sem política ou plano passassem de 30 para 16.
Esse progresso, segundo a autora, deve-se muito ao aumento da consciência
dos políticos africanos e dos participantes interessados sobre a importância
das TICs, tendo resultado na sua integração em planos e programas a nível
nacional e internacional (p.107).
Falando especificamente de Moçambique, e como veremos no capítulo
IV, o Conselho de Ministros aprovou em 2000, a chamada Política de
Informática, que é o instrumento através do qual o Governo está a implementar
e/ou a construir uma sociedade da informação no país. Os detalhes dessa
política, como já foi dito, serão apresentados no capítulo IV.
49
Veja-se também: Lima (op.cit.).
67
Entretanto, segundo Aparício (op.cit.), o NICI, acima referido, pode ser
considerado a base da sociedade da informação em África, pois “visa preparar
os países para o uso das TIC, considerando as especificadades africanas
como as línguas nacionais, a cultura, a saúde, a educação, questões de
probreza, emprego, saneamento básico, criação de infraestruturas, assim como
o uso das TIC em outras áreas que se considerem importantes em África”
(p.106).
Na sua maioria, essas propostas não passam de uma miragem e
retórica dos Governos nacionais, haja vista que, de acordo com Suiaden
(op.cit), enquanto há um crescimento de promessas de compartilhamento, de
inclusão sócio-informacional na sociedade da informação, assumidas até na
Declaração de Princípios da WSIS (2003), não há o mais importante, o
crescimento do acesso público à informação e às novas TICs, principalmente
em países economicante pobres, que são, em sua maioria, africanos, e onde
os baixos níveis de renda per capita refletem-se em alta taxa de analfabetismo,
baixo acesso à educação formal e à informação (p.59). Onde, paradoxalmente,
a idéia da construção da sociedade da informação se traduz, como temos
estado a demonstrar, estritamente numa visão ingênua de determinismo
tecnológico50, segundo o qual as transformações em direção à essa sociedade
resultam da tecnologia, “seguem uma lógica técnica e, portanto, neutra e estão
fora da interferência de fatores sociais e políticos [da informação]” (Werthein,
2000, p.72).
A Conferência Regional Preparatória Áfricana para a Cúpula Mundial
sobre a Sociedade da Informação, realizada entre 28 a 30 maio de 2002, no
Palais des Congrès, em Bamako, capital da República do Mali, teve
exatamente essa tónica.
Participaram da conferência representantes de 51 países africanos,
ONGs africanas e internacionais, setor privado e OSCs. Alpha Oumar Konaré,
então presidente da República do Mali, e Abdoulaye Wade, presidente da
República do Senegal e ex-presidente da Comunidade Econômica dos Estados
da África Ocidental (CEDEAO) 51 , fizeram os discursos de abertura da
50
Vejam-se, por exemplo, a Política e Estratégia de implementação da Sociedade da
Informação em Moçambique ( Moçambique, 2000; 2002).
51
CEDEAO é a organização de integração regional que engloba quinze países da África
Ocidental, entre eles o Benin, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana,
68
conferência.Yoshio Utsumi, então secretário- geral da ITU e Abdul Waheed
Khan, diretor-adjunto da UNESCO para Comunicação e Informação também
estiveram presentes na conferência, e fizeram discursos de abertura. O Mali foi
eleito para presidir o evento, juntamente com um gabinete composto por cinco
funcionários de Governos de alguns dos países africanos que estiveram
presentes na conferência, nomeadamente o Senegal, Tunísia, Camarões,
África do Sul e Ruanda; três representantes das OSC; dois representantes do
setor privado; e um relator geral da ECA (WSIS, 2002).
Entre os dias 25, 26 e 27 de maio, foram organizados 14 workshops pré-
conferência, e praticamente todos abordando questões ligadas quase que
exclusivamente às TIC, com exceção de alguns poucos, sobre comunidades e
línguas locais (africanas), diversidade cultural e apropriação do conhecimento,
iniciativas da NICI e participação dos países africanos na WSIS, mas sempre
relacionados com a idéia de desenvolvimento estritamente tecnológico (ibidem).
Na Conferência Regional Africana propriamente dita, foram realizadas
quatro oficinais sobre os benefícios, as contrapartidas e a visão do continente
africano em relação a sociedade da informação. A mesa redonda discutiu o
problema da exclusão digital e da imagem do continente africano na mídia.
Com base nos resultados dessas atividades (a pré-conferência, as quatro
oficinas e a mesa redonda), a Conferência Preparatória Regional Africana para
a WSIS adotou uma declaração52. A declacração expressou, essencialmente a
vontade e a esperança de integração e participação do continente africano no
Guiné Conacri, Guiné Bissau, Libéria, Mali, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa, e Togo. A
organização foi estabelecida pelo Tratado de Lagos, assinado em maio de 1975, com objetivos
de promover o comério, a cooperação e desenvolvimento ao nível regional. O tratado da
CEDEAO foi revisto e assinado em julho de 1993, de forma a acelerar a integração econômica
e aumentar a cooperação na esfera política, incluindo o estabelecimento dum parlamento
oeste-africano, um conselho econômico e social e um novo tribunal para assegurar a execução
das decisões da Comunidade. Este novo tratado dá formalmente à Comunidade a
responsabilidade de evitar e resolver conflitos na região. Sete países desta região formaram
uma união econômica e monetária chamada de União Econômica e Monetária do Oeste
Africano (UEMOA) sob o compartilhamento do franco CFA, a moeda comum desses países. A
UEMOA foi criada por um tratado assinado em Dakar, Senegal, a 10 de janeiro de 1994 pelos
Chefes de Estado e de Governo do Benim, Burkina Faso, Costa do Marfim, Mali, Níger,
Senegal e Togo. A 2 de maio de 1997, a Guiné-Bissau tornou-se o oitavo estado membro da
União. Disponível: ;
; . Acesso em: 17.out.2010.
52
Veja-se: WORLD SUMMIT ON THE INFORMATION SOCIETY (WSIS). Report of the African
Regional Conference for WSIS. Bamako, 28-30 May 2002 (WSIS/PC-2/DOC/4-E 15 January
2003). Disponível em: . Acesso em: 16.out.2010.
69
contexto global da sociedade da informação. Os presentes a conferência
manifestaram, na declaração, o desejo de ver os interesses de todas as nações,
mas particularmente os países em desenvolvimento atendidos; a necessidade
de se mobilizar recursos a nível regional e global indispensáveis para garantir
que os benefícios das TIC sejam partilhados por toda a humanidade; a
necessidade do envolvimento de todos os interessados, setor público, privado
e OSC de nível nacional, regional e internacional na construção da sociedade
da informação (ibidem).
Por outro lado, alguns dos princípios sustentados na declaração da
Conferência Regional Africana afirmam a necesidade de, no âmbito da
sociedade da informação, os países assegurarem que todos os cidadãos
disponham de meios necessários para a utilizar as redes de TIC como um
serviço público; usufruam do direito e liberdade de acesso à informação de
domínio público ao nível nacional, regional e global como parte de um direito
humano. Os países devem, ainda, desenvolver bases de dados sobre
experiências relativas à introdução de novas TIC, que atendam às
necessidades das zonas rurais e sua capacidade de pagamento; e implementar
estratégias de investimento e financiamento destinadas a favorecer a criação
de conteúdos e a democratização do acesso às novas TIC, com particular
ênfase nas mulheres e jovens. (ibidem).
Há, por um lado, como se pode observar, uma predominância da visão
tecnológica de sociedade da informação na África. E, por outro lado, na prática,
como será demonstrado no capítulo IV, sobre Moçambique, os princípios de
democratização do acesso a tais TIC como um serviço público e direito dos
cidadãos; de atendimento às necessidades dos estratos sociais desprovidos de
condições mínimas de acesso à informação e às novas TIC não são levados
em consideração nas políticas que visam a implementação da sociedade da
informação nesses países. Excluem-se das prioridades espaços públicos de
informação como bibliotecas públicas, arquivos, centros de informação e
documentação públicos.
Entretanto, uma reflexão crítica que permita compreender as presentes
transformações sociais e avaliar suas implicações com base em critérios éticos
bem definidos, deverá permitir a integração e valorização de aspectos sócio-
culturais aos econômicos, políticos e tecnológicos usualmente associados à
70
prescrição da sociedade da informação e, dessa forma, “colocar à disposição
do cidadão caminhos para uma participação ativa na construção [dessa
sociedade]” (Werthein (2000, p.71).
O determinismo tecnológico nesse processo, apenas produz e/ou
reproduz a info-exclusão, marginalização e manipulação info-tecnológica. Em
outras palvaras, a prevalência da abordagem tecnológica, ao ignorar o contexto
e as dimensões socio-culturais de onde é feita a inserção dessa tecnologia,
exacerba, de forma sucessiva, a importância dela (da tecnologia), ao mesmo
tempo em que distorce o sentido, a compreensão e a envergadura da
sociedade da informação (Mangue, 2007, p.61). O apego exacerbado à
tecnologia, por sua vez, continua Mangue (op.cit.), “leva à sua consagração,
transformando-a em instrumento de hegemonia e de alienação53”.
Longe da mera adoção e/ou subscrição de produtos e serviços
tecnológicos, é necessário que o continente africano reforce seu empenho em
transpor obstáculos e desafios estruturais com que se depara. Trata-se, antes
de tudo, de dar prioridade à busca de soluções para os problemas sócio-
políticos, econômicos e financeiros estruturais como a corrupção, pobreza, as
desigualdades sociais e econômicas, a exclusão sócio-política, e no caso
específico da construção da sociedade da informação, a ausência de políticas
e estruturais institucionais de acesso público à informação em muitos países do
continente.
Em outras palavras, de acordo com Aparício (op.cit.), as iniciativas e
programas para a sociedade da informação nos países africanos devem, antes
de tudo, criar políticas públicas de informação54, sistemas de infra-estruturas e
serviços públicos de informação, formação de recursos humanos qualificados e
com competências necessárias aos processos de disseminação, mediação e
53
Marx usou o termo alienação para descrever as condições da classe trabalhadora na
sociedade capitalista, na qual o operário se transformou em mercadoria e artigo de
comércio, não tendo controle da distribuição daquilo que produz; e quanto mais produz,
menos ele tem para consumir, quanto maior é o valor que cria, menos valioso ele se torna
(Marx, 1984, 24; Giddens, 2005, p.40). Segundo Claude Lefort (apud Santos, 1982, p.32), a
alienação é a própria realidade que o capitalismo cria e desenvolve, é indissociável dela. O
capitalismo seria, então, um modo de produção que é o modo de produção da alienação,
tornando assim impossível a separação entre o real e suas expressões imagináveis.
54
Por política pública de informação entende-se o estabelecimento de prioridades e condições
que garantam uma infra-estrutura capaz de dar acesso e garantir a efetivação do direito à
informação aos cidadãos (por exemplo, centros comunitários, bibliotecas públicas, rádios,
jornais, televisão, internet, etc.) (Ferreira, 2000, p.5).
71
inclusão informacionais, capazes de dar sustento a criação e implementação
desses programas (p.99).
É necessário, ao mesmo tempo, que os Governos africanos, em
conjunto com o setor privado e as OSC mobilizem ações com vistas a eliminar
a exclusão socio-informacioal a que muitos africanos ainda se encontra
mergulhada. Ações que passam pela criação e/ou ampliação de espaços
públicos de acesso à informação, conhecimento e às TIC para todos. E, nesse
processo, a biblioteca pública é considerada uma instituição de vital
importância. No subcapítulo seguinte, será discutido o papel dessa instituição
no contexto da sociedade da informação.
3.4 A Biblioteca Pública no contexto da Sociedade da Informação
A Seção de Bibliotecas Públicas da IFLA publicou, em 2009,
recomendações que complementam o Manifesto da UNESCO de 1994,
relacionadas especialmente com a missão-chave da biblioteca pública de
“facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação e a
informática”. Com o título 10 ways to make a public library work / Update your
libraries, o documento contendo tais recomendações aponta os caminhos para
colocar os serviços da biblioteca pública no século XXI, “através do recurso às
novas tecnologias”.
Assinala, assim, o importante papel da biblioteca pública no universo
digital em constante mudança, sublinhando a necessidade da mesma “criar
uma sabedoria global – World Wide Wisdom –, conhecimento e entendimento
capazes de transpor barreiras ao diálogo entre diferentes culturas”, e fazer da
biblioteca pública “um espaço de encontro da comunidade, no qual coexistam
os papéis de biblioteca, arquivo, museu e centro de cultura, criando a
„biblioteca combinada‟ “ (IFLA/UNESCO, 2009, p.1-2, tradução livre).
Embora rarefeita, a literatura que aborda a biblioteca pública no
contexto da sociedade da informação também partilha dessa visão, ou seja,
realça as novas TIC como um recurso imprescindível para a atuação dessa
instituição na contemporaneidade. Em geral, as novas TIC são consideradas
um recurso capaz de propiciar a criação e/ou o desenvolvimento de novos
serviços e formas de relacionamento da biblioteca com a comunidade.
72
Com o advento das novas TIC, afirma Milanesi (1997, p.107-109),
muda-se a configuração da biblioteca pública, ao mesmo tempo, “cria-se a
possibilidade de organizar redes ou sistemas de bibliotecas, integrando-as
numa ampla base de informação, “incorporando várias modalidades de registro
do conhecimento, oferencendo serviços variados – sempre com o objetivo
facilitar o acesso à informação”, haja vista que as carências informativas ainda
são muitas no seio da população55.
Por outro lado, há aqueles autores que entendem que no atual contexto
da sociedade da informação, a biblioteca pública enquanto espaço físico de
acesso à informação, isto é, “a biblioteca tradicional” pode ser substituída pela
Internet, pelos Telecentros e/ou Centros múltimídia, um facto que evidencia,
portanto, uma visão estritamente tecnológica da informação e ignora o
importante papel dessa instituição na sociedade contemporânea. Sem dúvida,
aponta Webster (op.cit), esses “são entusiastas da Wikipedia [ou do Google]
que argumentam que as bibliotecas públicas não têm necessidade de estocar
enciclopédias uma vez que hoje essas fontes alternativas de informação são
livremente disponíveis online” (p.181, tradução livre)56.
Os entusiastas das TIC continua Vieira (2003, p.41-42), pensando que
os problemas do acesso à informação serão resolvidos de “uma penada com
recurso à vontade exclusiva do mercado das TIC”, entendem que deixa de
fazer sentido falar em biblioteca pública enquanto instituição e/ou espaço de
acesso, mediação e uso da informação. Reservam-lhe, assim, segundo Vieira
(op.cit), o simples “papel de guardar e disponibilizar livros [e enciclopédias],
existindo apenas como uma curiosidade intelectual num mundo em que a
informação circula electronicamente”.
Entretanto, contrariando essa visão tecnologicamente determinista, há
outros autores e/ou mesmo países que no âmbito da sociedade da informação,
atribuem à biblioteca pública a missão especial de assegurar a democratização
do acesso à informação quer em formato de texto impresso, quer eletrónico; a
oferta de produtos e serviços informacionais que contribuem para diminuir as
desigualdades sociais e estimulam os usuários a utilizar a Internet como
55
Veja-se também: Cunha (2003); Vieira (2003)
56
Veja-se também: Dartnton (2001).
73
instrumento de ampliação de conhecimento e convivência (Suaiden, 2000;
Cunha, 2003, p.72; Barreto; Paradella; Assis, 2008).
Portanto, não se trata de substituir a biblioteca pública pela Internet,
centros e/ou produtos multimídia. Pelo contrário, trata-se de ajustar a
organização e os serviços dessa instituição secular a novas demandas
propriciadas pelas novas TIC. Pois, as TIC são, antes de tudo, um recurso que
serve para acelerar “o processamento, o armazenamento e a comunicação”
do “permanente objeto de trabalho” da biblioteca pública, a informação (Cunha,
2003, p.74).
O que se espera da biblioteca pública nestes novos tempos, de acordo
com Cunha (op.cit.), é o reforço do seu importante papel de disseminação,
mediação e inclusão informacionais, considerando as novas TIC,
especialmente os serviços de informação em rede e a Internet, numa
perspectiva que “reconheça sua importância como ferramenta para a
ampliação do universo do conhecimento mas que não assuma um caráter
hegemônico”. Uma perspectiva que reconheça, igualmente a utilização da
Internet como um instrumento importante de democratização da informação, e
que assegure a universalização do acesso, buscando a redução dos excluídos
do acesso à informação e às TIC.
E, nesse sentido, à medida que a biblioteca pública se vincular
adequadamente com a comunidade, afirma Suaiden (2000, p.60),
ela passará a ser o caminho que possibilitará a participação
efetiva na sociedade da informação. Isso é de extraordinária
importância em um país onde a [falta de acesso à informação
e às TIC] atinge altas proporções, e, sem essa oportunidade,
milhares de pessoas jamais terão oportunidade de entender e
de ter noção dos seus direitos e deveres em uma sociedade
globalizada, pois o acesso à informação, nos novos tempos,
significa o investimento adequado para diminuir as
desigualdades sociais e as formas de dominação que foram
dominantes na história contemporânea
A Filândia, um país desenvolvido, cujo poder aquisitivo dos cidadãos é
bastante elevado, destaca-se, mesmo assim, no que se refere ao papel
atribuído às bibliotecas públicas no âmbito da sociedade da informação, um
74
processo em que essas instituições são consideradas pioneras. Segundo Uusi-
Videnoja (2004, 1-6),
[...] a biblioteca pública é o serviço cultural mais usado na Finlândia:
aproximadamente 80 por cento da população utilizam estes serviços.
Todas as bibliotecas finlandesas estão totalmente informatizadas.
Oferecem conexões gratuitas de Internet e têm suas próprias „páginas
web. Utilizando o serviço „Pergunte ao bibliotecário‟, os usuários de
Internet podem enviar perguntas para as bibliotecas e obter uma
resposta especializada em poucas horas ou dias. Na biblioteca pública
da era da informação, serviços físicos e virtuais apóiam e reforçam
um ao outro. A tradicional missão cultural e de ensino da biblioteca
não desaparecerá, mas, vai surgir com serviços modernos de
informação [...] (bolde nosso).
Paradoxalmente, em Moçambique, como veremos nos capítulo IV e V,
não obstante o fraco poder aquisitivo e de acesso à informação no seio da
população, a biblioteca pública (instituição presente em todas as provincias do
país) não faz parte das prioridades no âmbito da sociedade da informação em
construção. E, quando se faz referência a ela, é no sentido de uma instituição
estritamente cultural, cuja participação no processo de construção da
sociedade da informação passa, apenas, pelo incentivo à “constituição de
redes eletrónicas”. Ignora-se, portanto, outras funções tradicionais da
biblioteca pública, especialmente a educacional e a informacional; funções de
vital importância para a cidadania, principalmente num país como Moçambique.
Essa é uma discussão que será desenvolvida nos capítulos IV (sobre a
sociedade da informação em Moçambique) e V (sobre o papel e os desafios da
biblioteca pública nesse contexto).
Voltando a análise do papel da biblioteca pública no contexto da
sociedade da informação, Cunha (op.cit.) faz-nos entende que não obstante as
TIC constituirem um instrumento fundamental para a atuação dessa instituição
nesse contexto, é a existência de profissionais qualificados, “que assegura
uma recuperação e disseminação de informação adequada à demanda do
usuário” nesse contexto.
75
A biblioteca pública contemporânea, de acordo com Cunha (op.cit.),
plena de perspectivas e desafios, necessita de um profissional da informação57
com “formação adequada, sólida cultura geral e domínio do uso das atuais
tecnologias de informação. Um profissional com perfil adequado à natureza da
instituição e dos produtos e serviços que precisa oferecer” (p.73). Portanto,
como afirma Silveira (2008, p.3), além das funções tradicionais ligadas à
biblioteca, espera-se dos profissionais da informação um crescente
envolvimento com as novas TIC e com os diversos procedimentos que
permeiam sua produção, disseminação e usos.
Com o desenvolvimento tecnológico, e com ela todas as transformações
no processo produtivo, armazenamento, disseminação e acesso da informação,
o profissional da informação, especialmente o bibliotecário “deixa de ser
encarado como um erudito que deve saber todos os segredos contidos nos
vários acervos com que trabalha, [uma característica típica do bibliotecário da
Idade Média], para se tornar um facilitador do acesso à informação” (p.10). Em
outras palavras, ainda de acordo com Silveira (op.cit.), se antes as ações
práticas e intelectuais do bibliotecário limitavam-se ao espaço físico de uma
biblioteca,
os novos usos das tecnologias da informação fazem com que os
serviços informacionais transponham os limites físicos e institucionais
que cerceavam seu ofício. Mais do que nunca a globalização acena
para crescentes níveis de competitividade local e global, valorizando e
reestruturando as formas de acesso à informação, bem como a busca
por se prover recursos humanos altamente qualificados para responder
aos desafios que ora emergem.
58
Essas mudanças implicam, por um lado, que as instituições de ensino,
especialmente aquelas que oferecem formação no campo da informação,
incorporem em seus curricula novas dimensões e/ou conteúdos estruturais que
demarcam o contexto atual, tendo-se em vista atender suas especificidades e
criar cenários favoráveis para a satisfação das demandas sócio-informacionais
(ibidem).
57
Além dos bibliotecários, considaram-se profissionais da informação os documentalistas,
arquivistas, museólogos, cientistas da informação, arquitetos, analistas e gestores de
sistemas de recuperação da informação, consultores da informação, dentre outros.
58
Veja-se também: Suaiden (2000, p.57).
76
E, por outro lado, como bem aponta Mangue (2007) em sua tese sobre o
processo de informatização de bibliotecas universitárias no Brasil, África do sul
e Moçambique, que no âmbito da adoção das TIC, as bibliotecas considerem a
importância da qualificação de recursos humanos capazes de operar, gerir e
mediar o uso dessas tecnologias. Em que pese a relativa autonomia dos
usuários da informação nos novos tempos, proporcionada pelas TIC e/ou
sistemas de recuperação automâtica da informação, sistemas de informação
em rede, especialmente a Internet “o olhar humano, feito por profissionais da
informação, ainda é imprescindível para promover o acesso à informação de
uma ampla gama de usuários” (Moura, 2008b, p.3).
Isso se deve, de acordo com Moura (op.cit), ao fato desses profissionais
concentrarem seus esforços em todo o processo tentando compatibilizar, em
termos de recuperação da informação, interesses altamente especializados e
sofisticados com os interesses informacionais considerados, de certa forma,
ainda pueris. Nesse contexto, acredita-se que, “é preciso garantir o livre acesso
à informação em todas as etapas de amadurecimento intelectual do sujeito. E
isso só pode ser feito com a participação permanente de profissionais
especializados no apoio a condução de tais processos” (p.4).
O profissional da informação vinculado às bibliotecas públicas, em
especial, é considerado na perspectiva da presente dissertação, como aquele
que trabalha como disseminador e mediador da informação e novas TIC,
elementos chave para a conquista e exercício da cidadania na sociedade
contemporânea. É, ao mesmo tempo, de acordo com Morigi, Vanz e Galdino
(2002), um educador, pois a biblioteca é um locus privilegiado de acesso e uso
da informação, do debate, uma instituição e/ou espaço público privilegiado para
a democratização da informação.
Em Moçambique, entretanto, a falta de profissionais da informação é um
fator que interfere significativamente tanto nos processos de disseminação,
inclusão e medição informacionais, quanto no de adoção e gestão das TIC
(informatização) em bibliotecas. As bibliotecas, sejam elas públicas ou
universitárias são, de acordo com Mangue (op.cit.), “forçadas” a contratar
pessoal sem formação específica devido à escassez da mão-de-obra
especializada nas áreas tanto de biblioteconomia e/ou ciência da informação,
quanto de informática e outras relevantes para os processos acima referidos.
77
Como veremos no capítulo V, existem poucos profissionais da
informação com formação técnica média e/ou superior nas áreas
biblioteconomia, arquivos ou ciência da informação em Moçambique. A
formação profissional de nível médio nessa área é dada apenas na capital do
país (cidade de Maputo), pelo Instituto Médio de Ciências Documentais
(CIDOC), uma instituição que funciona desde 1998, vocacionada na formação
de “documentalistas”.
Parte significativa de profissionais, de acordo com Mangue (op.cit), cerca
de 30, com formação superior nessa área fizeram seus cursos fora do país:
Botswana, Espanha, e, com maior destaque, Brasil (de onde vem a maior parte
dos profissionais, não só formados em Biblioteconomia, mas também em
Arquivologia), sendo que parte significativa deles são funcionários da
Universidade Eduardo Mondlane (UEM).
Em 2009, entretanto, como corolário de um projeto levado a cabo
conjuntamente por professores e pesquisadores brasileiros e moçambicanos
no âmbito do Projeto Pró-África, com o financiamento do Conselho Nacional de
Desenvolvimento e Tecnológico (CNPq) inciou, em Moçamibique, um curso
superior na área de Ciência da Informação. O referido curso funciona na Escola
de Comunicação e Artes (ECA) da UEM, também na cidade de Maputo.
Essa é uma discussão que será retomada com detalhes no capítulo V,
onde abordaremos os desafios da atuação informacional das bibliotecas
públicas provinciais no âmbito da sociedade da informação em Moçambique.
Entretanto, no capítulo IV, seguinte, é discutimos o processo de construção da
sociedade da informação nesse país, com um enfoque para o determinismo
tecnológico que caracteriza o mesmo.
78
CAPÍTULO IV
A CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO EM
MOÇAMBIQUE
4.1 Contextualização da República de Moçambique
Moçambique é um país situado na costa oriental do continente africano.
Possui uma superfície de 799.380 km2, e faz fronteira com a Tanzânia (a norte),
Malawi, Zâmbia, Zimbábue e a África do sul (a ocidente) e a Suazilândia e
África do Sul (a sul). É banhado (a este do território) pelo Oceano Índico, numa
extensão costeira de 2.515 km.
Em termos de divisão administrativa, o país está disposto em onze (11)
províncias, distribuidas em três (3) regiões (norte, centro e sul): no norte estão
as províncias do Niassa (a mais extensa), Nampula (a mais populosa), e de
Cabo Delgado; no centro estão localizadas as províncias da Zambézia, Sofala,
Manica e Tete; e no sul, as províncias de Inhambane, Gaza, Maputo provincia
e Maputo cidade (a capital do país).
Nos escalões administrativos seguintes, Moçambique é composto por
128 distritos, 394 postos administrativos e 1.042 localidades. O país possui,
igualmente, 43 municípios cujos órgãos (presidentes dos conselhos municipais
e membros das respectivas assembleias), diferentemente dos governadores
provinciais, são diretamente eleitos pela população local.
Os resultados definitivos do 3º. Recenseamento Geral da População,
Censo 2007, indicam que o número total da população moçambicana é de
20.252.223 habitantes, dos quais 14.100.249 (69.62%) residem nas zonas
rurais, e 6.151.974 (30,38%) nas zonas urbanas. Na tabela 1, abaixo,
apresentam-se os dados sobre a distribuição da população moçambicana por
regiões e provincías, segundo o sexo e áreas de residência.
Figura 1: Mapa de Moçambique
79
Tabela 1: Distribuição da população moçambicana por regiões e províncias, segundo sexo e
área de residência, Censo 2007.
Região/Provín
cia
População (em milhares)
Total Homens Mulheres Rural Urbana
Norte
Niassa
Cabo Delgado
Nampula
6.762.964
1,170,783
1,606,568
3,985,613
3.319.921
575,280
777,755
1,966,886
3.443.043
595,503
828,813
2,018,727
5.020.643
902,766
1.271.715
2.846.162
1.742.321
268,017
334.853
1.139.451
Centro
Zambézia
Tete
Manica
Sofala
8.688.590
3,849,455
1,783,967
1,412,248
1,642,920
4.203.926
1,858,370
868,282
677,523
799,751
4.484.664
1,991,085
915,685
734,725
843,169
6.787.114
3.177.812
1,540,093
1.055.042
1.014.167
1.901.296
671.643
243,874
357.206
628.573
Sul
Inhambane
Gaza
Maputo
província
Maputo cidade
4.800.669
1,271,818
1,228,514
1,205,709
1,094,628
2.222.843
565,484
548,777
576,012
532,570
2.577.826
706,334
679,737
629,697
562,058
2.292.522
989.747
916.003
386.742
N/D
2.508.123
282.071
312.511
818.967
1,094,628
Total 20.252.223 9.746.690 10.505.533 14.100.249 6.151.974
Fonte: INE, 2010.
A região centro é a mais populosa, com um total de 8.688.590 de
habitantes, seguida da região norte, que possui 6.762.964 habitantes. As
províncias de Nampula e Zambézia, que ocupam ¼ da superifície territorial de
Moçambique, possuem cerca de 39% da população total. Verifica-se, nos
dados apresentados acima, que a província de Maputo cidade (a capital do
país) possui o maior número da população urbana, e como veremos mais
adiante, esta província dispõe, igualmente, dos melhores indicadores de
desenvolvimento sócio-econômico a nível nacional. A população feminina
representa 52% da população total em Moçambique, correspondendo a uma
razão de sexos de 92 homens para cada 100 mulheres.
Devido às boas condições de habitabilidade existentes e a localização
dos maiores centros urbanos, a maioria da população moçambicana está
Fonte: de Estatística (INE), 2010.
80
concentrada ao longo da costa. Igualmente, os principais fluxos de migração
interna vão de oeste para leste, isto é, do interior para a costa, e do norte para
o sul, neste caso, também “devido aos altos níveis de desenvolvimento social e
econômico existentes na região sul”, principalmente nas províncias de Maputo
e Maputo cidade, onde as taxas de imigração atingem cerca de 50 e 60% da
população, respectivamente (Muanamoha, 199559 apud Arnaldo, 2007, p.33).
A estrutura etária da população moçambicana é bastante jovem, “com
maior destaque para a população de 0 a 4 anos”. Em 2007, a população jovem
menor de 15 anos representava 46,9% da população total do país. Outros
50,1% da população eram constituídos por adultos com idades entre 15 e 64
anos e apenas 3,1% da população situava-se na faixa etária de 65 anos e mais
(Alberto, 2010, p.26; Moçambique, 2010).
Do ponto de vista sócio-cultural, a diversidade etno-lingüistica é uma
das principais caracteristicas de Moçambique. Segundo Boléo60 (1971 apud
Lopes, 2004, p.647-648), o quadro étnico de Moçambique pode considerar-
se dividido em quatro (4) grandes grupos, os quais, partindo de Sul para
Norte do país são: (i) o grupo dos tongas, ocupando em especial o Sul do
Save, com ramificações no distrito de Tete. Os seus principais subgrupos
são os changans, chopes, tsuas e rongas; (ii) o grupo dos caranga, situado
entre os rios Save e Zambeze; (iii) o grupo nhanja, que cobre o noroeste da
província de Niassa e parte importante do vale do Zambeze, com subgrupos
ajana, senga, maganja, anguro, vanhúnguès e atande; e (iv) o grupo macua,
situado nas províncias de Nampula e Cabo Delgado e parte da província da
Zambézia, tendo como subgrupos principais os lómuès, chacas, medos,
macondes, podzos e achirimas.
Ainda segundo o autor citado acima, podem-se considerar os
seguintes agrupamentos lingüísticos principais de Moçambique, do Norte a
Sul:
(i) o grupo swahili, língua franca da costa oriental africana, desde o
norte de Moçambique até Somália, com o Catanga, bacia do lago
Tana, etc. É falado principalmente na costa nordeste, tendo como
59
MUANAMOHA, Ramos Cardoso. Tendências históricas da distribuição espacial da
população em Moçambique. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte: Cedeplar/UFMG,
1995.
60
BOLÉO, Oliveira. Monografia de Moçambique. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1971.
81
subgrupo o muani e como dialetos o m‟vita, lamu, amuane, mavia
e unguja;
(ii) o grupo maconde, que cobre as áreas de Palma, Macomia e
Mocímboa da Praia (Cabo Delgado), tendo como subgrupo
andonde e os dialetos konde e muera;
(iii) o grupo macua, que cobre as regiões de Niassa, Nampula, Cabo
Delgado e até parte da Zambézia. Tem como subgrupos macua-
litoral (nahara), macua-macuana, macua-meto, macua-lómuè e
macua-niassa, e os dialetos maganja e chirima;
(iv) o grupo chuabo, que cobre a área de Quelimane, Chinde, Pebane
e Namacurra na Zambézia, sobressaindo o subgrupo maindo ou
carundo;
(v) o grupo nianja ou maniamba, que cobre parte de Amaramba,
Mopeia, Morrumbala (Niassa), sul de Mangaja da Costa
(Zambézia), Angónia e Macanga (Tete). Possui os subgrupos
manaja e mazarro e os dialetos peta e chena;
(vi) o grupo sena ou nesenga, que cobre parte da Mopeia, Tete,
Marávia, Máguè, Mutarara, Zumbo e o Vale do Baixo Zambe
(Chema, Cheringoma, Gorongosa, Marromeu e Sena). Pertencem-
lhe os subgrupos chicunda e xi-sena, e os dialetos podzo e
nhúnguè;
(vii) o grupo tanara, cobrindo parte do Zumbo, Marávia e Macanga, no
Chimoio, Manica Mossurize e Sofala. Seu subgrupo é o manico, a-
teve ou mateve e bárué e os dialetos nhassa, tumbua, hkonde,
henga e camanga;
(viii) o grupo shona, que abrange largas áreas dos distritos de Vila
Pery, Beira e sul de Tete, podendo considerar-se os subgrupos
shona-ocidental, setentrional e oriental, karanga-ocidental e
oriental e zezuro. Entre os muitos dialétos evidenciam-se o rozi,
calanga, peri, shangue, tande, hera, nobua, zimba, tsenga,
hungue, iena, ngava, ndua, danda, etc;
82
(ix) o grupo tsua (ou mutsua), cobre as áreas de Govuro, Homoíne,
Massinga, Morrumbene e Vilanculos, salientando-se os dialetos
dzibi, macuácua, lengue e dzonga;
(x) o grupo thonga ou xi-thonga, que cobre Gaza, Bilene, Chibuto,
parte de Magude, Inharrime, bila, guambé e halangunu;
(xi) o grupo ronga, xironga ou jonga que cobre arredores da cidade de
Maputo (ex-Lourenço Marques), Manhiça, Marracuene e província
de Maputo, salientando-se os dialetos nonduana, pfumo, calanga,
nyissa e putio;
(xii) o grupo chope, que cobre o conselho de Muchopes (Gaza), Zavala
e Inharrime (Inhambane);
(xiii) o grupo bitonga ou tonga, que cobre certas áreas do Bilene,
Chibuto, Guijá, Limpopo, Inhambane e Homoíne, salientando-se o
subgrup changane; e finalmente,
(xiv) o grupo suazi, que cobre a fronteira sul (Namaacha e Maputo),
com o subgrupo anguni e o dialeto sibaha.
Contudo, a língua oficial de Moçambique é o português, falado por
quase 40% da população, e utilizado diariamente por apenas 8.8%. O portugês
é o idioma utilizado na relação entre as instituições da administração pública e
a sociedade civil, no sistema educacional61 e nos meios de comunicação social.
Das diversas línguas de origem bantu (africanas) faladas no país, as que
cobrem um índice mais elevado de populações enquanto línguas utilizadas na
comunicação diária são: emakhua (26.1% da população), xichangana (11.3%
da população), e elómwè (7.6%). Estas línguas se restringem apenas aos
domínios das relações domésticas famíliares, à vida social tradicional, rituais
religiosos, entre outros. Assim, de acordo com Buendía Gómez62 (apud Dias,
2007, p.35), o contexto sociocultural de Moçambique é polarizado por uma
língua (o português) veiculadora da lógica e valores da modernidade e por
línguas bantu, que expressam a lógica, a cosmovisão e os valores da
sociedade tradicional (africana).
61
No sistema educacional são também utilizadas, como disciplinas, as línguas inglesa e
francesa. No seu conjunto, as línguas portuguesa, inglesa e francesa constituem o veículo
de transmissão do conhecimento científico e técnico e da cultura escrita.
62
BUENDÍA GÓMEZ, Miguel. Educação moçambicana: história de um processo: 1962-1984.
Maputo, Livraria Universitária, 1999.
83
De acordo com Lopes (2004, p.234), o poder saído da indepedência
nacional de Moçambique adotou a língua portuguesa como língua de unidade
nacional, procurando fazer dela „um instrumento de libertação‟. Bogaert63 (1985
apud DIAS, 2007, p.31-32) argumenta, dividindo em dois os fatores que
estiveram na origem da escolha do português como língua oficial de
Moçambique:
(i) Fator político: perante a situação multilingüística em que se vivia na
época da luta de Libertação Nacional, havia necessidade de escolher
uma língua que não criasse conflitos e divisões no seio do povo. É
neste sentido que se deve interpretar a expressão “o português é
uma língua de unidade nacional”;
(ii) Fator pragmático: a língua portuguesa estava minimamente
divulgada em todo país; facilita (va) a comunicação com o exterior (é
uma língua internacionalmente conhecida); as línguas africanas de
Moçambique ainda não possuíam a terminologia técnico-científica e
político-ideológica indispensável a uma sociedade que se estava a
construir; os únicos quadros e os únicos materiais didáticos (manuais,
dicionários, etc.) disponíveis, na altura, no país, eram os que tinham
sido preparados para divulgação e ensino do português.
Para Lopes (op.cit), se é pacífico aceitar como correto esse argumento,
dado que nenhuma das línguas autóctones tem uma cobertura territorial tão
avassaladora que pudesse instituir-se como língua nacional, a política
lingüística adotada para as línguas nativas foi controversa. “Com o argumento
da falta de quadros e da incipiente codificação das línguas autóctones, o poder
político acabou, por outras vias, dando continuidade à política lingüística
colonial“, ou seja, ignorando e hostilizando as línguas autóctones “em nome da
coesão nacional que era preciso criar e desenvolver” (p.235).
Entretanto, nota-se, atualmente, uma maior consciência e sensibilidade
em relação à diversidade cultural da sociedade moçambicana, que se
manifesta não somente pela valorização da sua pluralidade lingüística, mas
também da diversidade social e religiosa. A introdução das línguas autóctenes
63
In: texto de apoio de Didática de Línguas. [s/l; 1985].
84
no sistema educacional de nível primário tem sido citada como um exemplo
dessa relativa consideração das línguas nativas (Dias, 2007, p.34-35)
Com o apoio do governo moçambicano, do Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e do Banco Mundial (BM), o Instituto
Nacional de Desenvolvimento da Educação (INDE) começou a desenvolver,
desde 1993, um currículo bilíngüe para crianças não falantes do português à
altura do ingresso na escola. A medida, conforme afirmam muitos autores,
concorre para o reforço do „estatuto de cidadania‟ dos falantes das diversas
línguas nacionais. “Um caminho é aberto para uma prática lingüística mais
democrática e à necessária preservação e desenvolvimento de um importante
património cultural do país” (PNUD, 2000, p.53; Lopes, 2004, p.460).
No que diz respeito à diversidade religiosa, destacam-se as seguintes
religiões professadas em Moçambique: Católica, cobrindo mais de 1/3 (31.9%)
do total de crentes no país; Islâmica (24%); Siao/Zione (24%) (Moçambique,
2005, p.8).
Como Estado independente e soberano, Moçambique é um país muito
novo. Ex-colónia de Portugal, o país alcançou a independência em 25 de Junho
de 1975, após uma guerra de libertação nacional que durou de 1964 a 1974.
Pouco tempo depois, em 1976, o país viu-se mergulhado numa guerra civil que
durou 16 anos (1976-1992). A guerra civil foi movida pelo então Movimento de
Resistência Nacional (MNR, hoje Resiência Nacional de Moçambique,
Renamo), que se opunha ao governo socialista marxista-leninista da Frelimo
(Frente de Libertação de Moçambique). Entretanto, as reais causas dessa
guerra são ainda controvérsas.
Por um lado, ela (a guerra civil) é vista como tendo resultado das
contradições político-ideológicas decorrentes da Guerra Fria (1974-1990) que
se repercurtiram na África Austral. Ou seja, “a guerra veio do exterior”, a
Renamo surgiu ou foi criada por procuração e iniciativa externas, envolvendo a
ex-colónia (Portugal), a Rodésia do sul (hoje Zimbabwe) de Ian Smith, e a
África do sul do Apartheid (Minter, 1998, p.369) 64.
Outros autores atribuem aos fatores internos, a causa principal da guerra
civil em Moçambique. Na esteira dessa tese, a negação étnica, a imposição de
64
Veja-se também: Hanlon (1991); Hanlon e Smart (2008).
85
um centro de poder identificado como partido-Estado (a Frelimo), sem inserção
sócio-cultural nos múltiplos espaços étnicos 65 , e a adoção de um modelo
tecnocrático de desenvolvimento “foram as causas mais importantes da guerra
civil moçambicana”. Porém, se exclui deste argumento, a possibilidade da
guerra civil no país ter sido uma guerra inter-étnica, não obstante a Renamo ter
se aproveitado dos conflitos e da marginalização das autoridades tradicionais e
de certas elites étnicas do centro do poder do Estado pós-colonial (Cahen,
1996, p.33).
Abrahamsson e Nilsson (1998, p.29) têm um posicionamento
relativamente neutro sobre as causas do conflito armado em Moçambique.
Segundo esses autores, as raízes da guerra civil não se encontram dentro da
lógica dos fatores externos, nem da lógica dos fatores internos, mas, sim, no
ponto de encontro entre os diferentes atores. Sem matéria prima local (a
pobreza absoluta e a marginalização sócioeconômica das comunidades rurais),
afirmam esses autores, o instrumento externo nunca podia ter sido introduzido
nas comunidades locais; e, sem a intervenção ativa das forças inimigas
externas (regimes inimigos na região e a Guerra Fria), as contradições locais e
nacionais nunca se teriam desenvolvido até ao ponto de erupção violenta e
generalizada em todo o país. Portanto, foi da conjugação dessas duas forças
(externa e interna), que irrompeu o conflito armado no país, atingindo uma
“extensão devastadora”.
E importante salientar, entretanto, que o custo do conflito armado foi, do
ponto de vista sócio-econômico, bastante enorme para o país. Apesar de esta
ter terminado em 1992, com a assinatura do Acordo Geral de Paz, os seus
efeitos ainda são visíveis, sobretudo nas zonas rurais e peri-urbanas.
Segundo dados apresentados por Hanlon (1991, p.20) e Smart (2008,
p.28), de uma população de 13-15 milhões em meados da década de 1980, um
milhão de pessoas morreu (7% da população) e cinco (5) milhões foram
deslocados ou fizeram-se refugiados em países vizinhos (1/3 da população).
Um número considerável de escolas, lojas e postos de saúde foram destruidos,
65
Segundo Lopes (2010, p.75), “as mais de vinte etnias, com suas culturas e suas línguas,
foram sistematicamente ignoradas em nome do discurso da unidade nacional”. Segundo
esse autor, o receio da FRELIMO quanto à possibilidade de se vir a fracionar o país,
constituindo-se comunidades étnicas totalmente desvinculadas do poder central, “levou-a a
reforçar continuamente seu discurso face ao fenómeno do tribalismo”.
86
as zonas rurais ficaram seriamente afetadas pelas minas anti-pessoais. Os
prejuízos econômicos do conflito são calculados em 20 bilhões de dólares
americanos. Em contrapartida, o total da ajuda do pós-guerra foi de apenas 11
bilhões de dólares americanos.
Portanto, com a destruição de bens econômicos e sociais como lojas,
estradas, ferrovias, escolas e hospitais, a guerra civil em Moçambique deixou
um legado de pobreza e dependência da ajuda externa. Em relação a questão
da ajuda, importa mencionar que “na década passada, o país recebeu de ajuda
externa valores avaliados na ordem de US$ 65.6 per capita por ano, o
correspondente a cerca de 40% da renda nacional”. Em 2009, a dependência
do Orçamento do Estado (estimado em 104.326 milhões de Meticais) na ajuda
externa, foi de 55% (Arndt; Jones; Tarp, 2006, p.3; Nipassa, 2009).
Somam-se às conseqüências socioeconômicas da guerra civil, as
resultantes da introdução, em 1987, do Programa de Reabilitação Econômica
(PRE), que em 1989 passou a Programa de Reabilitação Económica e Social
(PRES) 66 , e cujo objetivo era a mobilização de recursos externos para o
financiamento da produção nacional, distribuição dos rendimentos, a expansão
do emprego e a estabilidade do salário real. Entretanto, como afirma Mole
(1994, p.158-159), “a severidade do [PRE] nas camadas sociais de baixo
rendimento, aliada aos efeitos da guerra e das calamidades naturais, aumentou
a desigualdade social e a pobreza”. Para este autor, o PRES, ou seja, a
integração da componente social no programa de ajustamento estrutural
66
Na realidade, esses programas constituiram-se em versões moçambicanas de
ajustamento estrutural. Os Programas de Ajustamento Estrutural (PAEs) foram introduzidos
ou, para alguns autores impostos em países africanos na década de 1980. Tinham em
vistas a amortização da dívida desses países em relação aos diversos bancos
estrangeiros, e constituiam uma condição para o acesso a financiamentos das instituições
de Bretton Woods, nomeadamente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco
Mundial. O núcleo central dos PAEs consistiu na eliminação do controlo de preços de
produtos de exportação e a liberalização comercial, a remoção dos subsídios do Estado em
setores como a agricultura (então fator de desenvolvimento de muitos países africanos,
especialmente, de Moçambique), privatização de empresas e indústrias estatais, e
consenqüente, a redução de funcionários públicos. De uma maneira geral, a
implementação dessas reformas teve um impacto social negativo no nível de vida da
maioria das populações, já que a pressão e rigorosidade da sua implementação
caracterizaram-se pela redução dos serviços sociais que eram da responsabilidade do
Estado e, praticamente gratuitos, quais sejam, a saúde e a educação. Outro aspecto foi a
aumento do desemprego, sobretudo no sector público. Veja-se: Wellmer (1999, p.40);
Gentili (1999, p.381); Pavia (2000, p.50); Hanlon (2008, p.29).
87
resultou do reconhecimento dos seus efeitos negativos sobre as várias
camadas sociais.
Mole (op.cit) afirma ainda, que antes da introdução do PRE a repartição
da renda e o acesso aos serviços sociais eram relativamente igualitários, por
causa da política social do governo praticada por intermédio da política fiscal
(por exemplo, subsídios aos preços) e da despesa do Estado na saúde,
educação e outros serviços de interesse público. Mas as medidas do PRE e a
liberalização dos preços, o corte dos subsídios e da despesa social, o
agravamento do impostos indiretos, agravaram o grau das desigualdades, da
pobreza e exclusão sociais.
4.1.1 Transição democrática e extensão dos direitos de cidadania
Ao consagrar os princípios universais de igualdade de direitos e
liberdades dos cidadãos, o pluralismo político-partidário, poderes, instituições e
os valores de um Estado Democrático de Direito em Moçambique, a
Constituição da República de 1990 pôs formalmente termo ao regime
socialista-marxista de partido único até então vigente.
Em outubro de 1992, foi assinado o Acordo Geral de Paz (AGP), tendo
se concretizado com a realização das primeiras eleições gerais e
multipartidárias de 1994 (03 e 04 de outubro). De acordo com Tollenaere (2002,
p.227), “as eleições de 1994 foram, ao mesmo tempo, o evento supremo da
coroação do processo de paz e a fundação do processo de democratização”.
As eleições de 1994 constituiram um grande marco da história de Moçambique,
pois, foi a partir desse momento que se assumiu no cenário político nacional,
“a importância das instituições democráticas como reguladoras da expressão
de liberdade e igualdade de cada cidadão”. A partir daí, Moçambique passou a
receber elogios da comunidade internacional, como uma história de sucesso
de reconstrução pós-guerra, “estabilidade política” e da „recuperação
económica” em África (Mbilana, 2006, p.21).
Em 2004, foi aprovada uma nova Constituição da República, que
continua consagrando os princípios universais de igualdade de direitos e
liberdades dos cidadãos, o pluralismo político-partidários e a valorização das
instituições democráticas. O artigo 35 dessa Constituição estabelece que
88
“todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e
estão sujeitos aos mesmos deveres, independentemente da cor, raça, sexo,
origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social,
estado civil dos pais, profissão ou opção política” (Moçambique, 2004, p.11).
Em 2009, o país realizou a quarta eleição geral e multipartidária, e, pela
primeira vez, eleição para as assembleias provinciais. Para as Nações Unidas
(Moçambique), essas eleições, “pacíficas e democráticas”, expressam e
reafirmam o compromisso do país com a “estabilidade política, governação
democratica e reconcialiação nacional” (Nações Unidas, 2010).
Entretanto, a participação política dos cidadãos nos momentos eleitorais
(de votação) é expressamente decrescente, desde as primeiras eleições gerais
de 1994. Segundo dados apresentados por Sitoe (2006, p.155), nas eleições
de 1994 a abstenção situou-se em 13%; nas eleições autárquicas de 1998, a
abstenção esteve na ordem de 8.5%. Já nas segundas eleições gerais, de
1999, a abstenção subiu para 30.49%; nas eleições gerais realizadas em
dezembro de 2004, a abstenção situou-se nos 63.58%. Nas eleições gerais de
2009, segundo o boletim do Centro de Integridade Pública (CIP) e
Parlamentares Europeus para África (AWEPA) (2009, p.14), o nível de
abstenções foi de 45%, praticamente igual ao de 2004. Há várias explicações
para esta tendência decrescente de participação política dos moçambicanos,
entre elas, a pobreza, o analfabetismo e o fraco acesso à informação, sobre os
quais faleremos mais adiante.
De qualquer modo, Moçambique tem sido, também, considerado um dos
países africanos que maiores êxitos logram no crescimento económico, desde
finais da década 1990. Se em 1994, o país enfrentava um dos mais graves
problemas de pobreza absoluta, caracterizando-se por uma economia
maioritariamente de subsistência, devastada pela guerra civil, ausência de
serviços públicos básicos, e um aumento crescente da dívida, no período de
1997-2003, o país registrou um crescimento econômico inenterrupto na ordem
de 6 a 8% ao ano, fato que tem sido confirmado, principalmente, pelos
relatórios do Banco Mundial e do FMI, para além do próprio Governo.
Segundo alguns estudos e relatórios, “[esse] período de grande
crescimento económico teve um efeito impressionante na redução do nível de
pobreza absoluta, que passou de 69% da população em 1996-97 para 54% em
89
2002-2003” (Batley; Bjørnestad; Cumbi, 2006, p.7; Moçambique, 2006, p.57;
Hanlon; Smart, 2008, p.131).
O Relatório Nacional de Desenvolvimento Humano de 2008, refere que a
redução da pobreza em Moçambique testemunha não só para a dinâmica da
economia nacional, mas também para o impacto do investimento contínuo que
tem sido realizado nos últimos 10 anos, em educação, saúde e acesso a
serviços básicos. Na educação, por exemplo, a taxa de analfabetismo caiu de
60,5% em 1997 para 53,6% em 2003, e estima-se que diminuiu para 52% em
2006. No mesmo período, a privação de uma condição de vida decente para os
moçambicanos, medida pela proporção da população sem acesso ao ensino e
serviços básicos (água potável e cuidados de saúde) e pela percentagem de
crianças menores de cinco anos de idade com baixo peso caiu
consideravelmente, de 62,3% em 1997 para 50,6% em 2003 (PNUD, 2008,
p.18, tradução livre).
4.1.2 Pobreza, analfabetismo e desigualdades sociais
Não obstante o sucesso no processo de transição democrática e de
crescimento econômico, os enormes recursos que o país dispõe, e os “elogios”
da comunidade internacional, a pobreza, o analfabetismo, as desigualdades e
exclusão sociais continuam sendo, de acordo com um Relatório publicado em
2009, pelo AfriMAP em colaboração com a Open Society Initiative for Southern
Africa (OSISA), “as principais barreiras ao exercício da cidadania em
Moçambique”.
Moçambique continua sendo considerado um dos países mais pobres do
mundo, vivendo em um contexto de elevados índices de pobreza e
desigualdades sociais. A maioria da população, sobretudo nas zonas rurais,
continua tendo como atividade principal a prática da agricultura de subsistência,
e, em menor escala, atividades como a pesca, o turismo, comércio, exploração
mineira, pequena indústria, transportes e comunicações, e a construção
(Mazula, 2002; Valá, 2007; Hanlon, 2008).
Na tabela 2, abaixo, apresentam-se alguns indicadores básicos de
desenvolvimento socioeconômico do país.
90
Tabela 2: Indicadores socioeconômicos de Moçambique, 2007.
Indicadores Situação
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) (2005) 0,384
172ª posição internacional
Esperança de vida à nasecença 47,1 anos (INE)
42,8 anos (PNUD)
Taxa de mortalidade infantil (por 1000) 107,9
Taxa de Alfabetização de Adultos (15 anos e mais)
(1995-2005)
38,7%
Taxa de escolarização bruta combinada dos
ensinos primário, secundário e superior (2005)
52,9%
Produto Interno Bruto (PIB) per capita (Dólares
PPC) (2005)
USD
1,242
335
Índice de Pobreza Humana (2005) 50,6%
Pobreza Urbana 51%
Pobreza Rural 55%
Taxa de Urbanização 29.8 %
Desemprego, IFTRAB, 2004/2005 19%
Ajuda pública ao desenvolvimento, desembolsos
líquidos, USD per capita
$65
19,4% PIB
Fontes: PNUD (2007, p.234); Francisco et al (2007, p.17).
Segundo Paulo, Rosário e Tvedten (2007) e o PNUD (2007),
Moçambique é o país com a mais larga proporção de pobreza urbana (51%)
comparada com a pobreza rural (55%) a nível da África Subsaariana, e o país
menos desenvolvido da África Austral. “Não obstante ter havido uma redução
substancial na pobreza rural, de 71 para 55% entre 1996/7 e 2002/3, a pobreza
urbana em Moçambique teve uma redução mais limitada de 62 para 51%”. Ao
mesmo tempo em que na capital, cidade de Maputo, a taxa de pobreza subiu
de 47 para 53%. A figura 1, abaixo, apresenta a evolução da incidência da
pobreza nas zonas rural e urbano, no período de 1997 a 2003.
91
Para além das diferenças entre as zonas rurais e urbanas, nos níveis de
desenvolvimento socioeconômico, existem também, em Moçambique, enormes
diferenças regionais, destacando-se a região sul como a mais desenvolvida, e
a norte, a mais pobre. Dados citados por Arnaldo (2007, p.25), indicam que em
1998, por exemplo, o IDH das Nações Unidas e do PIB per capita na região sul
era duas vezes mais alto em relação aos das regiões centro e norte, enquanto
que o IDH era pelo menos 20% abaixo do da região sul. Menos de 25% da
população das regiões norte e centro tinha acesso a serviços básicos de saúde
comparado com 50% da população. Na tabela 3, abaixo, são apresentados
alguns indicadores de desenvolvimento sócioeconômicos regionais pré-
selecionados, de 1998.
Tabela 3: Indicadores sócioeconômicos selecionados por região, Moçambique, 1998.
Região IDH (1998) Índice de Pobreza
Humana (IPH,
1997)
PIB real per
capita (1998)
% sem acesso
aos serviços
de saúde
Norte 0.212 64.3 159 77.6
Centro 0.266 60.0 185 81.0
Sul 0.427 39.8 460 53.6
Moçambique 0.282 56.8 237 76.2
Fonte: Moçambique, 1999
67
apud Arnaldo (2007, p.26).
67
MOÇAMBIQUE. Relatório Nacional de Desenvolvimento Humano, 1999. Maputo: PNUD,
1999.
Gráfico 1: Evolução da Pobreza Absoluta em Moçambique,
1996/2003
0
20
40
60
80
100
120
Nacional Urbana Rural
Fonte: Chiconela ( 2004, p.8).
P
e
rc
e
n
ta
g
e
m
1996-97
2002-03
92
O Relatório Nacional de Desenvolvimento Humano apresentado pelo
PNUD, em 2008, revelou tendências de crescimento do PIB a nível das três (3)
regiões do país (norte, centro e sul), incluindo as respectivas províncias, no
período de 2001 a 2006, conforme mostra a tabela 6, abaixo.
Tabela 4: Evolução do PIB por regiões e províncias, Moçambique, 2001-2006
Regiões/Províncias Taxas de crescimento em volume (%)
2001 2002 2003 2004 2005 2006
Norte 8.7 10.1 9.0 7.0 8.6 9.4
Niassa 11.2 11.7 7.9 16.7 10.0 9.7
Cabo Delgado 10.3 10.4 9.7 7.1 7.8 10.9
Nampula 7.6 9.7 9.0 4.9 8.5 8.7
Centro 10.7 9.2 6.9 5.4 8.6 7.9
Zambézia 10.4 9.9 6.0 1.9 9.6 7.0
Tete 10.1 11.0 8.6 11.3 11.5 11.0
Manica 11.5 9.1 7.4 4.3 6.1 7.8
Sofala 11.0 7.7 6.5 6.6 7.0 7.1
Sul 15.3 8.8 5.0 10.2 8.2 8.5
Inhambane 6.0 12.1 5.9 16.5 13.0 13.2
Gaza 7.8 6.9 6.7 5.6 5.1 7.6
Maputo província 30.2 12.3 4.6 13.5 3.3 8.0
Maputo cidade 10.3 5.9 4.6 7.0 11.4 7.6
Moçambique 12.3 9.2 6.5 7.9 8.4 8.5
Fonte: PNUD (2008, p.13).
As regiões norte e sul tiveram taxas de crescimento (9,4% e 8,5%,
respectivamente) superiores à média nacional, em 2006. Cabo Delgado
(10,9%), no norte, Tete (11,0%), no centro, e Inhambane (13,2%), no sul são as
províncias que se destacaram nesse ano. O crescimento econômico tem sido
atribuido a um crescimento da produção agricola, a base da economia nacional,
ao crescimento do investimento estrangeiro, entre outros.
93
Entretanto, em termos de PIB real per capita, Moçambique continua a
ser um dos países com o menor renda per capita do mundo, calculado em UDS
$335, e apresentando-se com significativas diferenças regionais e provinciais.
Segundo dados apresentados pelo PNUD (2008, p.14), a cidade de Maputo, no
sul do país, continua assumindo uma posição de liderança com um PIB per
capita três vezes superior ao nacional média. A cidade de Maputo tem,
igualmente, um PIB per capita cinco vezes maior que PIB per capita de Niassa,
Cabo Delgado, Zambézia e Manica combinados, quatro vezes que o PIB real
per capita das províncias de Nampula, Tete e Inhambane, e duas vezes que o
PIB per capita da província de Sofala (PNUD, 2008, p.14).
Em parte, explica Arnaldo (op.cit), a diferença nos indicadores de
desenvolvimento regionais e provinciais, além da concentração de grandes
volumes de investimentos, pode estar relacionado com o desenvolvimento
econômico dos países adjacentes às diferentes regiões e províncias do país.
Por exemplo, enquanto a região sul está próxima da África do Sul, que é o país
mais desenvolvido da África Austral, as regiões norte e centro estão próximas
de países relativamente pobres: Malawi, Zâmbia, Zimbabwe e Tanzânia (p.25).
De todo modo, as desigualdades e desequilíbrios regionais, de acordo
com a AfriMAP e Open Society Inniciative (2009, p.7) proporcionam vantagens
a certas regiões e respectivos grupos, “podendo ainda fomentar preconceitos e,
inclusive, práticas discriminatórias contra moçambicanos de certas regiões e
classes sociais”. Por outro lado, alguns autores tem apontado para a pobreza,
em geral, como um dos fatores que explicam a fraca participação política dos
cidadãos no país. Sitoe (2006, p.157), por exemplo, valendo-se dos pré-
requisitos da democracia postulados por Huntington68, Lipset69, entre outros
autores, afirma que
[...] na sociedade moçambicana estão claramente ausentes as
condições de pendor econômico [para o desenvolvimento da
democracia], dados os níveis de pobreza prevalecentes [...] e as fortes
desigualdades entre os poucos moçambicanos que têm alguns
recursos e a maioria que vive abaixo da linha de pobreza [...]
68
HUNTINGTON, Samuel P. Will more countries become democratic, Political Science
Quarterly, v.99, n.2, pp.193-218, 1984.
69
Lipset, Seymour M. Some social requisites of democracy: economic development and
political legitimacy, The American Political Science Review, v.53, p.69-105, 1959; Lipset,
Seymour M. The social requisites of democracy revisited: 1993 Presidential Adress,
American Sociological Review, v.59, pp.1-22, 1994.
94
Em face dessa realidade, o governo moçambicano tem estado a
implementar, desde 2001, o Plano de Acção para Redução da Pobreza
Absoluta (PARPA), cuja segunda fase (PARPA II, 2006-2009) visava alcançar o
objectivo de “diminuir a incidência da pobreza de 54% em 2003 para 45% em
2009”. O PARPA é apresentado através de três pilares temáticos –
governação, desenvolvimento económico e capital humano – e assuntos
tranversais que incluem Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento Rural,
Segurança Alimentar e Nutricional, Género e HIV/SIDA. O elemento comum
dos três pilares, segundo o governo, “é a construção da Nação
Moçambicana, consolidando a unidade nacional, desenvolvendo o potencial
humano de cada cidadão e um sistema institucional funcional, fazendo também
crescer a capacidade de criar riqueza nacional” (Moçambique, 2006, p.1-3, o
bolde é do original).
Entretanto, as intervenções do governo no âmbito do PARPA orientam-
se, quase que exclusivamente para as zonas rurais, ao mesmo tempo em que
há indicações de uma rápida taxa de urbanização e, conseqüêntemente, um
aumento considerável da pobreza nas zonas urbanas do país. Se as
estatísticas oficias (INE, 2004) apresentam uma taxa de urbanização de 29.8%,
“as Nações Unidas operam com uma taxa de população urbana de 34,5% e
estimam que 50% da população Moçambicana viverá em 2025, em áreas
urbanas”, o que concorre, caso não sejam tomadas medidas concretas de
planificação e desenvolvimento territoriais, para uma crescente urbanização da
pobreza no país, já que a tendência de redução desta é muito limitada nas
zonas urbanas (Paulo, Rosário e Tvedten, 2007, p.1-2). A tabela 4, abaixo,
apresenta a evolução da população nas principais cidades de Moçambique, de
1997 a 2007.
Tabela 5: Evolução da população nas principais cidades de Moçambique, 1997-2007
Cidade População, 1997 População estimada, 2007
Maputo 989.386 1,094,628
Matola 440.927 579.469
Beira 412.588 542.226
Nampula 314.965 413.929
Chimoio 177.668 233.492
95
Nacala-porto 164.309 215.936
Quelimane 153.187 201.319
Mocuba 127.200 167.167
Tete 104.832 137.771
Xai-xai 103.251 135.693
Fonte: INE, 2004
70
apud Paulo, Rosário e Tvedten (2007, p.10).
A crescente urbanização no país tem sido considerada como “o
resultado combinado do aumento natural [da população], da reclassificação das
áreas rurais e urbanas e da migração”. Os fluxos de migração para zonas
urbanas, isto é, do interior para a costa, como fizemos referência acima, deve-
se ao facto destas terem características mais positivas do que as áreas rurais,
em termos de níveis de educação, saúde, acesso a oportunidades de emprego,
infra-estruturas, serviços, etc, o que é confirmado por alguns indicadores de
desenvolvimento sócioeconômicos apresentados na tabela 5, abaixo.
Tabela 6: Alguns indicadores básicos de desenvolvimento sócioeconômico rural e urbano
Indicador Nacional Rural Urbano
Educação
Taxa de analfabetismo (15 anos ou
mais) (%)
53,6 65,7 30,3
Escola primária ou acima (%) 27,9 14,6 53,2
Saúde
Esperança de vida (anos) 47,1 45,7 50,8
Mortalidade abaixo dos 5 anos (por
1.000)
178 192 143
Rendimento e Consumo
Rendimento mensal per capita (MT
000)
324 246 490
Despesa mensal per capita (MT
000)
324 231 523
Fonte: INE, 2004; Banco Mundial, 2007
71
apud Paulo, Rosário e Tvedten (2007, p.13).
70
INE. Inquérito Nacional aos Agregados Familiares sobre Orçamento Familiar 2002/03.
Relatório Final. Maputo: Instituto Nacional de Estatística, 2004.
71
BANCO MUNDIAL. Beating The Odds: Sustaining Inclusion in a Growing Economy. A
Mozambique Poverty, Gender and Social Assessment Washington D.C.: Banco Mundial, 2007.
96
A educação é considerada um fator fundamental para a redução da
pobreza, promoção do bem-estar social e para a cidadania. Entretanto, de
acordo com Mário e Nandja (2006, p.7), Moçambique se depara com uma das
mais baixas taxas de escolarização do Mundo, e, em particular, com as taxas
mais baixas da África Subsaariana. Conforme apresentado na tabela 4, acima,
a taxa média de analfabetismo entre a população adulta do país situa-se à
volta de 53.6%, sendo mais elevada nas zonas rurais (65.7%) do que urbanas
(30.3%). As taxas mostram ainda, que as mulheres são mais analfabetas (68%)
do que os homens (36.7%).
Na tabela 6, abaixo, apresentam-se as taxas de analfabetismo por sexo
segundo área de residência e províncias, de 1997 e 2002/03.
Tabela 7: Taxa de analfabetismo por sexo, segundo área de residência e províncias,
Moçambique, de 1997 e 2002/03.
Áreas de
residência e
Províncias
Taxas de Analfabetismo (%)
1997 2002/03
Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres
Total 60.5 44.
6
74.1 53.6 36.7 68.0
Área de
residência
Urbana
Rural
33.0
72.2
19.4
56.4
46.2
85.1
30.3
65.7
18.1
47.2
41.7
80.8
Províncias
Niassa 69.0 52.2 84.2 64.4 50.1 78.3
Cabo Delgado 75.0 60.0 88.5 68.4 52.4 83.0
Nampula 71.7 56.7 85.9 65.1 48.7 81.4
Zambézia 70.3 53.2 85.2 61.4 40.4 80.6
Tete 66.8 50.0 81.0 59.2 42.0 76.1
Manica 57.7 38.5 73.9 45.4 24.2 64.5
Sofala 56.2 35.9 74.8 52.7 28.4 72.2
Inhambane 54.2 35.1 66.4 46.5 27.0 57.9
Gaza 52.7 35.8 63.0 47.4 31.1 55.9
97
Maputo 34.3 20.2 45.9 28.6 16.6 38.0
Maputo Cidade 15.0 7.1 22.6 15.1 7.5 22.0
Fonte: INE (2004, p.66).
Há diferenças relativamente acentuadas entre províncias no que diz
respeito às taxas de analfabetismo, sendo a província de Cabo Delgado, a
norte do país, a que apresenta taxas de analfabetismos mais elevadas, tanto
em 1997 (75.0%) como em 2002/03 (68.4%), enquanto que Maputo Cidade tem
as menores taxas, 15.0% em 1997, e 15.1% em 2002/3. Por outro lado, ao
contrário das restantes províncias, e conforme os dados acima, Maputo Cidade
registrou um ligeiro aumento da taxa de analfabetismo de 1997 a 2002/3.
Estas diferenças educacionais tem sido apontadas, também, como tendo
sérias implicações na participação política e/ou cidadã72 em Moçambique. De
facto, e de acordo com a AfriMAP e a Open Society Innitiative for Southern
Africa (2009, p.48), “sem educação formal, indivíduos têm mais dificuldades
para informarem-se acerca dos assuntos que afectam o país, assim como para
apresentarem suas posições às autoridades políticas e administrativas”.
Constata-se que, apesar das garantias de direitos civis, políticos, sociais
e económicos constantes na Constituição da República, o contexto de pobreza,
de desigualidades de distribuição da renda e riqueza e de baixos níveis de
penetração do sistema de educação formal, se constitui num obstáculo a
efetiva participação e exercício de direitos de cidadania de grande parcela da
população moçambicana (op.cit, p.6).
72
Por participação cidadã entende-se, de acordo com Teixeira (2001, p.30-32), um
processo social com demandas específicas de sujeitos e grupos sociais, e que contempla
dois elementos‟: o primeiro, o „fazer ou tomar parte‟, no processo político-social, por
indivíduos, grupos, organizações que expressam interesses, identidades, valores que
poderiam se situar no campo do „particular‟, mas atuando num espaço de heterogeneidade,
diversidade, pluralidade; o segundo elemento, a „cidadania‟, no sentido „cívico‟, enfatizando
as dimensões de universalidade, generalidade, igualdade de direitos, deveres e
responsabilidades. A participação cidadã implica “o controle social do Estado e do
mercado, segundo parâmetros definidos e negociados nos espaços públicos pelos diversos
atores sociais e políticos”.
98
4.1.3 Espaços públicos, acesso à informação e participação cidadã
Não obstante a garantia do direito à informação pelo artigo 48 da
Constituição da República, o fraco acesso a esse recurso no seio da população
moçambicana constitui, igualmente, um obstáculo para a democracia e o
excercício efetivo da cidadania no país. Entretanto, o Governo reconhece que
[...] o direito à informação constitui um dos elementos fundamentais
para o exercício da cidadania e participação na construção de um
Estado Democrático. Uma vez que governação democrática envolve o
debate público e tomada de decisões abertas [aos cidadãos e] às
organizações de grupos de interesses e a livre circulação de idéias e
opiniões, a informação objectiva e isenta é crucial. De modo que, o
Governo considera [...] o acesso à informação, por exemplo,
sobre as contas públicas, [planos e programas de governo] bem
como o diálogo regular com os Governos locais e a Sociedade Civil,
estimulam a transparência e reforçam a Boa Governação. Esta
estratégia de actuação será consolidada em contextos onde já foram
dados passos significativos como, por exemplo, as instituições
participativas locais [...], e encorajada onde permanecem ausentes.
(Moçambique, 2006, p.84-85, grifo nosso).
De acordo com a Commonwealth Human Rights Initiative (CHRI) (2007,
p.14), o acesso à informação assume um duplo benefício sobre a cidadania.
Primeiro, ele estabelece as bases de um direito de conhecer toda uma gama
de políticas governamentais, decisões e atividades do Estado e do Governo.
Segundo, capacita as pessoas para se posicionarem e participarem do diálogo
sócio-político num Estado Democrático de Direito, como é o caso de
Moçambique.
A garantia do acesso à informação se traduz, assim, numa ação de
empoderamento aos cidadãos, transparência dos atos governamentais, e de
respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais. Implica, por outro
lado, na formulação e implementação de políticas públicas de informação,
constituição de espaços públicos e/ou estruturas e recursos institucionais
capazes tornar efetivos o acesso e uso da informação.
Entretanto, Moçambique ainda se depara com alguns limites nessa
matéria. A questão da informação é “omissa” e “parcial” em termos de sua
extensão e conteúdo, tanto na Constituição da República quanto em diferentes
políticas e programas governamentais. Dito de outro modo,
99
os [...] textos constitucionais e programas governamentais têm sido
omissos na questão da informação e quando a ela se referem – como
no caso das últimas Constituições, 1990 e [2004] – apenas resgatam a
dimensão da comunicação [social] inscrita no âmbito dos preceitos da
liberdade de imprensa e eximem-se da questão inerente à [sua] gestão
e disseminação [...], bem como do acesso do cidadão à informação.
Assim o têm se manifestado também os principais programas
governamentais desde a conquista da independência [nacional] em
1975, entre eles, o Plano Prospectivo Indicativo (PPI), o Programa de
Reabilitação Econômica (PRE), o Programa de Reabilitação
Econômica e Social (PRES), o Plano para a Reforma do Sector
Público (PRSP), incluindo o governo eletrônico, bem como a agenda
2025 que se apresenta como de caráter não governamental
(Nharreluga, 2006, p.164).
No caso da última Constituição da República (2004), por exemplo, o já
mencionado artigo 48, que consagra as liberdades de expressão e informação,
estabelece que “todos os cidadãos têm direito à liberdade de expressão, à
liberdade de imprensa, bem como o direito à informação”. Porém, o mesmo
artigo, em seus números 1 e 2, esclarece sobre o exercício da liberdade de
expressão, que compreende “a faculdade de divulgar o próprio pensamento por
todos os meios legais, e o exercício do direito à informação [...]”; da liberdade
de imprensa, que compreende “a liberdade de expressão e de criação dos
jornalistas, o acesso às fontes de informação, a protecção da independência e
do sigilo profissional e o direito de criar jornais, publicações e outros meios de
difusão”; mas, omite o conteúdo e a extensão do “direito à informação”
(Moçambique, 2004, p.14)
Com a mesma limitação se definiu a chamada Política e Estratégia de
Informação, aprovada pelo Conselho de Ministros, através da Resolução nº
3/97, de 18 de Fevereiro, como “um conjunto de medidas ou actividades,
baseadas no programa do Governo, visando impulsionar o desenvolvimento da
Comunicação Social”. Com esse conjunto de medidas, o Governo se propõs a
promover e facilitar o desenvolvimento dos órgãos de comunicação social, com
vista a “materialização das liberdades de expressão e de imprensa, assim
como o direito do povo à informação, para a consolidação da unidade nacional,
o aprofundamento da democracia e a promoção do desenvolvimento sócio-
económico do País”. Um dos princípios gerais dessa política, segundo o
Governo, é a “necessidade de se alcançar uma ampla cobertura do País pelos
órgãos de comunicação social e para que os destinatários da informação dela
100
se sirvam, no interesse da estabilidade e progresso harmonioso da Nação
moçambicana” (Moçambique, 1997).
Assim, como corolário também da aprovação da Lei de Imprensa de
1991, Lei no. 18/91, de 10 de Agosto, que dentre outros aspectos, abriu campo
para a existência de novos tipos de propriedade (privada, pública, mista) de
meios de comunicação no país, nas duas últimas décadas tem se assistido a
um crescimento exponencial de órgãos de comunicação social (Rádio, Jornal e
Televisão), sobretudo privados e comunitários.
Segundo dados apresentados por Namburete (2003, p.32), existem no
país 230 órgãos de imprensa escrita (dos quais 27 jornais e 16 revistas se
encontram em circulação), foram licenciadas 43 estações rádio (das quais 28
estão em atividade) e 20 estações de televisão, 10 das quais estão em
operação.
Não obstante este crescimento de órgãos de comunicação social, a
população moçambicana ainda se depara com “níveis extremamente baixos de
acesso à informação pública”, facto que aliado aos altos níveis de
analfabetismo e pobreza prevalecentes, compromete a participação cidadã no
processo de desenvolvimento sócio-político, econômico e cultural do país
(Mattes; Shenga, 2007, p.2).
Nas tabela 7 e 8, abaixo, são apresentados os resultados do Inquérito
Demográfico e de Saúde (IDS, 2003) no qual constam dados da exposição e
acesso da população moçambicana aos meios de comunicação de massa
(jornal, televisão, rádio).
101
Tabela 8: Acesso aos meios de comunicação de massa pelo menos uma vez por semana pela
população moçambicana (mulheres), IDS, 2003 (%).
Caracteristicas Jornal Televisão Rádio Todos Nenhum Número
total de
Inqueridos
Idade
15-19
20-24
25-29
30-34
35-39
40-44
45-49
6.2
4.2
3.7
3.1
3.1
2.7
1.8
24.3
15.0
14.0
10.9
11.8
10.9
7.9
52.8
45.2
48.3
43.9
44.8
42.4
40.3
4.1
2.8
2.4
1.8
2.4
2.0
1.2
42.2
51.6
48.6
53.3
53.1
55.1
57.1
2.454
2.456
2.224
1.792
1.411
1.126
954
Área de residência
Rural
Urbana
0.4
9.9
1.9
37.0
36.9
62.8
0.1
6.9
62.6
29.2
7.870
4.548
Províncias
Niassa
Cabo Delgado
Nampula
Zambézia
Tete
Manica
Sofala
Inhambane
Gaza
Maputo
Maputo cidade
3.4
1.3
2.8
0.6
1.0
2.6
3.1
3.4
1.9
8.4
17.0
6.6
7.8
9.2
2.6
6.3
10.0
10.2
14.9
7.1
35.3
59.8
53.9
44.4
46.8
18.9
44.7
51.9
54.6
47.2
50.7
64.9
62.6
2.1
0.8
1.5
0.5
0.6
1.6
2.2
2.0
0.9
6.2
12.2
45.1
52.6
51.6
80.8
54.2
47.0
43.1
50.6
48.1
30.2
19.0
476
1.071
2.403
1.906
1.025
809
865
1.088
666
1.050
1.059
Fonte: Adaptado de INE (2005, p.36).
102
Tabela 9: Acesso aos meios de comunicação de massa pelo menos uma vez por semana pela
população moçambicana (homens), IDS, 2003 (%).
Caracteristicas Jornal Televisão Rádio Todos Nenhum Número total
de Inqueridos
Idade
15-19
20-24
25-29
30-34
35-39
40-44
45-49
13.1
19.8
9.5
11.2
10.8
8.2
3.6
35.8
29.6
21.0
15.5
15.1
21.7
13.7
77.9
76.5
72.7
78.1
75.1
76.3
72.9
8.8
11.5
5.8
7.3
5.3
9.1
5.9
17.0
19.3
23.7
21.1
21.5
22.6
29.3
673
404
378
329
265
221
221
Área de residência
Rural
Urbana
2.2
24.8
3.1
50.1
68.1
84.9
0.4
17.1
31.2
9.0
1.705
1.195
Províncias
Niassa
Cabo Delgado
Nampula
Zambézia
Tete
Manica
Sofala
Inhambane
Gaza
Maputo
Maputo cidade
14.2
2.3
11.7
3.9
2.6
14.1
4.8
12.2
3.4
22.1
38.6
10.5
11.8
15.8
5.2
8.6
17.2
30.7
19.4
13.0
50.1
80.3
73.1
65.3
74.4
71.5
80.7
90.3
75.0
51.5
59.2
88.4
88.1
7.5
1.8
7.0
1.2
1.6
6.4
3.3
8.0
2.3
12.3
30.8
25.6
34.1
22.8
26.7
17.9
9.0
22.0
44.6
40.3
5.1
3.0
116
274
693
463
222
192
226
164
90
197
261
Fonte: Adaptado de INE (2005, p.37).
Segundo os dados acima, o rádio é o meio de comunicação mais
predominante em Moçambique, tanto a nível das regiões (rural e urbana)
quanto das pronvincias. As mulheres são as menos expostas a qualquer um
dos três meios de comunicação considerados nas tabelas 6 e 7. As mulheres
rurais são duas vezes menos expostas aos meios de comunicação do que as
urbanas. A concentração dos meios de comunicação social na capital do país
(Maputo cidade) explica, em parte, a elevada percentagem de acesso a
informação no seio da sua população (em ambos sexos), relativamente as
outras províncias.
103
Esta situação, segundo Namburete (2003, p.33), também justifica a
priorização dos assuntos da cidade e província de Maputo, em detrimento dos
assuntos das províncias nas coberturas jornalísticas, “dando a idéia de que
Moçambique é uma extensão da realidade de Maputo”. Entretanto, de acordo
com esse autor, existe um esforço assinalável da Rádio Moçambique (RM), da
Televisão de Moçambique (TVM) e do Instituto de Comunicação Social (ICS),
de expandir o raio das suas coberturas para as províncias e distritos (zonas
rurais), estes últimos considerados pelo Governo como pólos de
desenvolvimento nacional.
No quadro dos órgãos de comunicação existentes em Moçambique, a
RM é o órgão que “mais e melhor cobre virtualmente todo o território nacional”,
a TVM, “recorrendo à incorporação da tecnologia digital atinge quase todas as
capitais provinciais e alguns distritos”. Embora sem grande representação nas
províncias, os jornais impressos também procuram, através da criação de uma
rede de correspondentes, incluir nas suas produções a informação sobre as
províncias (ibiden).
Ao nível da imprensa escrita, o órgão de comunicação de maior
circulação no país é o Jornal Notícias, baseado em Maputo, com uma tiragem
média, em Maio de 2008, de 16.000 exemplares, representando para o
tamanho da população moçambicana nesse ano, um rácio de um exemplar de
jornal para cada 1.250 habitantes. O Diário de Moçambique, que é editado na
cidade da Beira, capital da província de Sofala, tem uma tiragem de cinco mil
exemplares. Até em 2008, os Jornais Notícias e Diário de Moçambique eram os
dois únicos jornais a circular diariamente em nível nacional. Porém, em finais
de 2008, um dos semanários em circulação, nomeadamente o jornal O País, do
grupo SOICO (Sociedade Independente de Comunicação), tornou-se um jornal
diário (AfriMAP; OSISA, 2009, p.61-62).
Entretanto, de acordo com Namburete (2003, p.33-34), apesar da
liberalização e aumento dos meios de comunicação social, muito pouco se
observou em termos de abertura de espaço para a manifestação de ideias do
público, para a questão da cidadania e participação cidadã. Pelo contrário,
afirma esse autor, “os meios de comunicação nacionais são percebidos como
um espaço privilegiado da classe política”. As questões nacionais, “não são
debatidas na perspectiva do público, mas sim, na dos partidos políticos”.
104
Assim, segundo Namburete (2002, p.87), a forma como atuam os órgãos de
comunicação social em Moçambique,
[...] propicia a criação de uma pseudo-esfera pública que distrai os
leigos da acção política, criando uma esfera de relações públicas,
passiva contemplação, no lugar de ser geradora de genuíno debate
público. A televisão, a rádio e os jornais restringem este espaço de
debate quando apresentam, quase que permanentemente, os mesmo
articulistas das questões políticas, econômicas e outras, no intuíto de
estarem a representar as aspirações e preocupações do cidadão
comum que não sabe ler nem escrever em português. O cidadão
comum não participa neste jogo apenas por não saber falar, ler nem
escrever na [língua portuguesa].
É importante salientar, que o fato de praticamente todos órgãos de
comunicação social moçambicanos, principalmente os da imprensa escrita,
utilizarem exclusivamente a língua portuguesa, reduz o acesso do público a
esses meios, já que somente 8% da população utiliza essa língua na
comunicação diária, para além das altas taxas de analfabetismo prevalecentes
no país. As emissoras provinciais da RM e as rádios comunitárias do ICS e
outras rádios provinciais são os órgãos de comunicação que usam algumas
línguas nacionais. Por outro lado, algumas pesquisas registraram uma
precariedade de circulação dos jornais impressos, “por exemplo, em Nampula,
uma das principais cidades ao norte do país, o Notícias chega somente ao final
da tarde, ou, por vezes, no dia seguinte ao da sua publicação” (Namburete,
2003, p.35; AfriMAP; Open Society Innitiative for Southern Africa, 2009, p.61-
62).
Nestas condições, os pressupostos para o exercício da cidadania e
participação cidadã ficam comprometidos em Moçambique. Pois, soma-se ao
quadro de fraco nível de exposição e acesso à informação no seio da
população, sobretudo nas zonas rurais, a fragilidade e marginalização
institucional dos espaços públicos de informação, quais sejam, arquivos,
bibliotecas, centro de documentação e informação. O que ressalta, de acordo
com Nharreluga (2006, p.168), a ausência de uma visão clara e abragente
sobre o direito à informação e respectivas políticas e estruturas institucionais
de nível nacional e setorial, com vistas à materialização desse direito no país.
Ressalta, ao mesmo tempo, a desvalorização do papel da informação e seus
múltiplos usos e aplicações como um recurso fundamental para o
105
desenvolvimento sócio-econômico, político e cultural nos tempos atuais, bem
como para a compreensão, expressão e defesa dos direitos e deveres dos
cidadãos diante do Estado e/ou Governo.
E, com esses limites, entretanto, o Governo moçambicano está a
implementar, desde 2002, a sua proposta de construção da Chamada
Sociedade da Informação no país. Uma proposta que, como veremos mais
adiante, reproduz o quadro de desprevilégio e marginalização política e
institucional de espaços capazes de viabilizar o acesso público à informação,
bem como a ausência de políticas públicas e diretrizes coerentes com o quadro
constitucional e político sobre o direito dos cidadãos à informação em
Moçambque
.
4.2 A construção da sociedade da informação em Moçambique
4.2.1 Política de Informática e sua estratégia de implementação
A Política de Informática foi aprovada pelo Conselho de Ministros
através da Resolução 28/2000, de 12 de Dezembro, e constitui o instrumento
através do qual Moçambique apresentou a sua proposta para integração na
chamada Sociedade Global da Informação – uma sociedade cuja caracteristica
principal assenta na idéia de que o acesso e uso da informação,
consubstanciada pelas respectivas tecnologias, são variáveis imprescidíveis
para os processos de desenvolvimento econômico, socio-político, científico e
cultural, e para afirmação da cidadania nos tempos atuais.
Assim, a referida política estabelece o quadro de princípios e objetivos
que permitirão que as TIC sejam o motor impulsionador dos vários aspectos do
desenvolvimento nacional; da participação dos cidadãos na Sociedade Global
da Informação; da melhoria da governação e aprofundamento da democracia;
e da participação do país na economia mundial cada vez mais “assente na
informação e no conhecimento” (Moçambique, 2000).
Especificamente, no âmbito da Política de Informática o Governo
pretende:
a) Elevar a consciência nacional sobre o papel e o potencial das novas TIC
no desenvolvimento sustentável de Moçambique;
106
b) Proporcionar acesso universal à informação a todos os cidadãos para
melhorar o seu nível e desempenho na educação, ciência e tecnologia,
saúde, cultura, entre outra atividades;
c) Contribuir para aumentar a eficiência e eficácia dos setores público e
privado
d) Criar um clima favorável à indústria, negócios e investimentos na área
das TIC;
e) Assegurar que os planos e projetos de desenvolvimento em todo os
setores possuam uma componente de TIC; e
f) Potenciar e facilitar a integração do país na economia mundial e na
Sociedade Global da Informação.
Para tanto, o Governo identificou seis (6) áreas prioritárias que incluem,
nomeadamente, a educação; o desenvolvimento de recursos humanos; saúde;
acesso universal; Infra-estrutura Nacional de Suporte às TIC; e a Governação.
Vamos detalhar, a seguir, os objetivos estabelecidos para as áreas da
educação, acesso universal e Infra-estrutura Nacional de Suporte às TIC.
Na área da educação, a Política de Informática propõe (i) incentivar e
desenvolver o ensino da informática nos vários níveis do Sistema Nacional de
Educação (SNE); (ii) generalizar o uso da Internet nas escolas; (iii) dotar as
escolas do país com o equipamento indispensável ao acesso e domínio das
TIC; entre outros. Na área de acesso universal, reconhecendo o direito do
cidadão de ter acesso à informação, ao conhecimento e às novas TIC, a
Política de Informática visa: (i) promover o acesso universal no contexto da
Sociedade Global da Informação; (ii) criar incentivos para provedores de
serviços de telecomunicações em zonas desfavorecidas; (iii) incentivar o
acesso à Internet e aos novos serviços da Sociedade Global da Informação;
(iv) Apoiar a criação de uma rede nacional de pontos de acesso público às TIC
e a preços comportáveis para pessoas de baixos rendimentos; (v) estabelecer
uma tarifa comunitária para os serviços de electricidade e telecomunicações
que sejam fornecidos aos pontos de acesso universal; entre outros.
Na área de Infra-estrutura Nacional de Suporte às TIC, a Política de
Informática foi estabelecida com objetivos de: (i) desenhar uma arquitectura
moderna para a espinha dorsal da infra-estrutura nacional de
107
telecomunicações, que assegure o transporte e disponibilização de serviços
avançados de telecomunicações; (ii) modernizar a infra-estrutura nacional de
energia, para assegurar energia de qualidade tanto nas zonas rurais como nos
centros urbanos; (iii) criar uma rede viária que contribua para os programas de
desenvolvimento comunitario, particularmente nas zonas rurais; (iv) promover e
expandir a utilização de rádio e televisão digitais; entre outros.
Outras áreas mencionadas na Política de Informática são: (a) Agricultura
e Recursos naturais; (b) Meio Ambiente e Turismo; (c) Protecção do Público;
(d) Comércio Electrónico e Protecção do Negócio; (e) Rede Nacional de
Instituições Acadêmicas e de Pesquisa; (f) Mulher e Juventude; (g) Cultura e
Arte; (h) Comunicação Social. Na área de Rede Nacional de Instituições
Acadêmicas e de Pesquisa, a Política de Informática prevê: (a) promover a
informatização das bibliotecas públicas e privadas e a sua ligação online; (b)
incentivar o desenvolvimento de bibliotecas e arquivos virtuais; entre outros. Na
área da Cultura e Arte, prevê-se: (a) incentivar a constituição de redes
electrônicas de instituições culturais como museus, bibliotecas, arquivos,
galerias de arte e artesanato, casas de cultura e outras; (b) proporcionar o
acesso dos cidadãos, via Internet, aos acervos bilio-documentais do país e do
estrangeiro.
Como pressuposto para o sucesso na implementação desses objetivos,
foram estabelecidos papéis e responsabilidades específicas para o Governo e
para os seus principais parceiros no âmbito da Política de Informática,
nomeadamente, o setor privado, as instituições de ensino superior e de
pesquisa, as organizações da sociedade civil (OSC), e agências de cooperação
para o desenvolvimento. Nesse sentido, lê-se no documento que,
[...] o sucesso na aplicação da Política de Informática não será
possível sem a activa participação de todos os interessados e
potenciais beneficiários da mesma; os órgãos do Estado, os sectores
público e privado, as instituições de ensino e pesquisa, as
organizações não-governamentais e sócio-profissionais, os cidadaos e
a comunidade em geral. Todos e cada um devem inscrever as
tecnologias de informação e comunicação como uma componente
indispensável dos seus pIanos e programas de desenvolvimento.
Trata-se de um desafio ingente para um país nas condições de
Moçambique: com limitados recursos, com inadequadas redes de
telecomunicações e de energia, e ainda com elevado índice de
analfabetismo. Mas [...] trata-se acima de tudo, de uma aposta que não
pode ser adiada e em que não se pode falhar. Se é elevado o custo da
108
implementação de um programa de [promoção do acesso à informação
e conhecimento] e informatização, mais elevado ainda será o custo da
inacção (MOÇAMBIQUE, 2000).
Em 2002, foi aprovada a Estrategia de implementação da Política de
Informática, que constitui o quadro operacional de projetos a curto, médio e
longo prazos nas seis áreas prioritárias da Política de Informática, que têm
como suporte a utilização das TIC. Tais projetos foram inseridos num
“Programa Integrado de Acção”, visando, segundo o Governo, responder às
necessidades de criação da capacidade humana, desenvolver e modernizar a
infraestrutura, produzir conteúdos e aplicações, elevar a eficácia na
governação e criar um ambiente legal propício ao desenvolvimento
empresarial.
Na área de Infraestrutura, por exemplo, incluem-se projetos de (i) Rede
Nacional de Transmissão (longo prazo); (ii) Modernização e Expansão das
Centrais Telefónicas Digitais de Trânsito e Locais (Regiões Sul, Centro e Norte)
(curto prazo); (iii) Modernização da Rede de Transmissão de Maputo e
Arredores (médio prazo); (iv) Redes de Comunicações Very Small Aperture
Terminal (VSAT)73 (curto prazo); (v) Telecentros (curto prazo); (vi) Agências
Digitais (curto prazo); (vii) Estações VSAT (curto prazo); (viii) Correio
Electrónico de Baixo Custo (curto prazo); e (ix) TeleMOZ: Projeto de
Telecomunicações visando o estabelecimento de gateways, Redes dos
Governos Provinciais e Acesso à Internet (médio prazo). No âmbito da Política
de Informática, os telecentros foram eleitos como a infra-estrutura de
referência, “capaz de providenciar acesso às [TIC] ao maior número de
pessoas” (Moçambique, 2002, p.3)
Na área de Conteúdos e Aplicações constam os projetos de (i) Sistema
de Informação sobre HIV/SIDA (médio prazo); (ii) Sistema de Informação
Científica (médio prazo); (iii) Ensino à distância (longo prazo); (iv) Observatório
de TICs (curto prazo); e (v) Rede de Ciência e Tecnologia. Na área de
Governação, destacam-se projetos de (i) Rede Electrónica do Governo
(GovNet) (longo prazo); (ii) Portal de Desenvolvimento do País (curto prazo);
73
Terminal de pequena dimensão para a recepção de sinais de comunicação via satélite.
109
(iii) Levantamento sobre o Estado das TICs nas Instituições Públicas (curto
prazo).
Consta, ainda, do quadro resumo dos projetos propostos no âmbito da
Estatégia de implementação da Política de Informática, um item relativo ao
desenvolvimento das TICs nas províncias no qual se destacam dois projetos a
curto prazo, nomeadamente, (i) Centros Provinciais de Recursos Digitais
(CPRDs); e (ii) Unidades Móveis de TICs. Os CPRDs configuram no quadro
das iniciativas nucleares da Estratégia de implementação da Política de
Informática em Moçambique, e “são estabelecidos nas províncias pela Unidade
Técnica de Implementação da Política de Informática (UTICT), em
coordenação com os governos das respectivas províncias, a quem cabe a
responsabilidade da sua gestão [...]” 74 . São concebidos como um meio
importante de prestação de serviços para as seis áreas prioritárias e para o
estimulo da actividade de [TIC] em todo o país. No âmbito da Política de
Informática, cabe aos CPRDs “desenvolver capacidades, conteúdos e
aplicações, apoiar serviços de e-government e o desenvolvimento de pequenas
empresas” (Moçambique, p.9).
Prevê-se que em todas as provincias tenha um CPRD, entretanto, até
em 2009, sete províncias (Cabo Delgado, Nampula, Zambêzia, Sofala, Tete,
Inhambane e Gaza) dispunham desse tipo de instituição. Os CPRDs de Tete e
Inhambane foram inaugurados em 2004; os de Cabo Delgado, Nampula,
Zambêzia, Sofala e Gaza, em 2007; e o de Manica estava em implementação
até ano passado (2009), e tal como o CPRD de Maputo, sua inauguração
estava prevista para 2010. Apesar de ter estatuto de pronvíncia, não se sabe
se Maputo cidade terá um CPRD, uma vez que não consta das previsões75.
Em nossa proposta de pesquisa, os CPRDs constavam da lista
instituições que se supunha terem relações e/ou articularem com as bibliotecas
públicas provinciais, objeto empírico do presente trabalho, no âmbito da
implementação da sociedade da informação em Moçambique. Entretanto,
numa entrevista que tivemos com um funcionário ligado ao CPRD de Nampula,
constatamos que não havia nenhuma relação nesse âmbito, entre o CPRD e a
biblioteca pública dessa província, não obstante ambas serem instituições
74
Disponível em: . Acessado em: 06.jan.2010.
75
Disponível em: . Acessado em: 06.jan.2010.
110
públicas, e serem objetivos gerais dos CPRDs (i) apoiar o Governo na
materialização da Política de Informática e respectiva Estratégia de
Implementação, e (ii) fomentar o desenvolvimento de redes e conexões
tecnológicas que apoiem as diversas organizações públicas, privadas, cívicas e
comunitárias no desenvolvimento das suas actividades, de forma autónoma e
através da disponibilização de serviços com aplicações sectoriais e da
realização dos objectivos de desenvolvimento local76.
Se em alguns dos seus objetivos específicos os CPRDs se propõem a
promover “o acesso amplo da comunidade à infraestrutura de TICs e à
Internet”; e “a troca de informação entre os Governos Provinciais e as
Administrações Distritais, escolas, centros de saúde, organizações da
sociedade civil, sector privado e cidadãos”, na prática esses centros
persseguem objetivos de mercado, o que se reflete nas atividades comerciais
de serviços e aplicações de TIC que os mesmos oferecem entre as quais
constam (i) formação em informática; (b) manutenção de computadores; (d)
acesso à Internet; (e) desenho de páginas web; (f) produção de conteúdos e
aplicações sectoriais e multi-funcionais; (g) abertura de contas para correio
electrónico (e-mail e webmail); entre outros77.
Adstritas aos CPRDs estão as Unidades Móveis de TICs (UMTIC), que
também fazem parte dos projetos visando o desenvolvimento das TICs nas
províncias, no âmbito da política da sociedade da Informação em Moçambique.
As UMTICs consistem em veículos incorporando um contentor transformado
em sala de formação móvel, equipado com computadores ligados à Internet,
via satélite. Segundo a UTICT, os computadores destinam-se à formação
básica e intermédia em informática, assim como comunicação via correio
electrónico e pesquisa de informação para estudantes, funcionários, membros
dos Conselhos Consultivos Distritais, entre outros interessados.
Para o Governo, as UMTICs são o meio através do qual se pretende
promover a inclusão digital, “fazendo das novas tecnologias uma alavanca para
a materialização das recomendações da Cimeira Mundial sobre a Sociedade
76
Disponível em: . Acessado em: 06.jan.2010.
77
Disponível em: . Acessado em: 06.jan.2010.
111
de Informação e para o alcance dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio
[ODM]”78.
Entretanto, a constatação de que tanto os serviços oferecidos pelos
CPRDs como pelas UMTICS são comerciais (informação coletada na pesquisa
de campo em Nampula), e a ausência de um domínio verdadeiramente público
no âmbito da Política de Informática e sua Estratégia de implementação,
também colocam em dúvida o discurso do Governo sobre a inclusão digital.
Por outro lado, o discurso da inclusão digital apenas corrobora a crítica
que tem sido feita à Política de Informática e sua respectiva Estratégica de
implementação, por confinarem o debate rumo à Sociedade Global da
Informação às questões da infraestrutura tecnológica e comercial, deixando de
lado a discussão de componentes relevantes para a inclusão socio-
informacional e cidadania. Ressalta esse facto, a exclusão dos espaços
públicos de informação (bibliotecas, arquivos, centros de informação e
documentação) das prioridades da sociedade da informação em Moçambique.
Ainda que seja feita alguma menção dos referidos espaços no âmbito da
implementação da sociedade da informação em Moçambique, os mesmos são
confinados, por um lado, à lista de áreas não prioritárias, atreladas a cultura e
arte, e por outro lado, é-lhes dado um enfoque estritamente tecnológico.
4.2.2 Críticas ao determinismo tecnológico
É consensual a compreensão de que o desenvolvimento da
infraestrutura física e/ou de suporte às TIC (redes elétrica e de
telecomunicações) constitui uma das condições essenciais para a integração
no contexto da Sociedade Global da informação (Castells, 2007b).
Paradoxalmente, nesse aspecto, as condições de Moçambique são precárias,
fato que justifica, em parte, as prioridades definidas pelo Governo no âmbito da
Política de Informática e respectiva Estratégia de implementação, aprovados,
respectivamente, em 2000 e 2002.
Em 2000, ano da aprovação da Política de Informática, Moçambique era
considerado o país com um dos mais baixos índices de penetração telefónica a
78
Disponível em: . Acessado em:
06.jan.2010.
112
nível dos países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC),
com cerca de 80.000 linhas telefónicas e uma teledensidade estimada em
somente 0.46%. Na seqüência do 1º Inquérito Nacional sobre a Capacidade
de Informática, realizado também em 2000, foram recolhidos dados sobre os
indicadores das TIC em uma amostra de 1.155 instituições e empresas no país,
tendo os resultados revelado que 8.201 (71%) dos 11.516 computadores
existentes nas instituições inquiridas se encontravam na cidade de Maputo
enquanto que Cabo Delgado contava apenas com 65 (0.6%) (Moçambique,
2000).
Portanto, a presença de infra-estruturas das TICs, equipamentos e
serviços informáticos era não apenas reduzida, em 2000, como também
apresentava uma distribuição desigual quer a nível das zonas urbanas e rurais
como das províncias do país. As linhas telefónicas, por exemplo, serviam em
98% a população das zonas urbanas e, somente 2% da população rural era
beneficiada por esses serviços (Moçambique, 2000).
Hanlon e Smart (op.cit) revelam que em 1996, sobretudo devido à guerra
civil, “metade da rede de estradas [no país] foi considerada estar em más
condições ou completamente instransitável”. E, em 2001, o governo admitiu
que só conseguia manter a outra metade da rede de estradas em boas
condições. E, apesar da rede de eletricidade estar a registrar uma rápida
expansão nas cidades e vilas, através da ligação à hidroelétrica de Cahora
Bassa, em 2006, esta só cobria 59 das 128 capitais distritais. Portanto, em
geral, a infraestrutura física de suporte às TIC continuava a ser “uma questão
crítica”, sobretudo nas vilas e sedes distritais (p.176).
Num estudo publicado em 2009, entretanto, Gaster et al apontaram para
alguns avanços nessa área. Segundo esses autores, há uma grande evolução
da infraestrutura de suporte às TIC em Moçambique desde 2000,
consubstanciada por alguns exemplos de inovações tais como a convergência
de tecnologias; a instalação de redes de fibra ótica; perspectivas para
conectividade de banda larga; Internet e inúmeras opções para a produção e
partilha de informação, comunicação e gestão de conhecimento.
Por exemplo, a Rede Nacional de Transmissão das Telecomunicações
de Moçambique (TDM) “está paulatinamente a cobrir o país com uma
infraestrutura de banda larga, usando um cabo subterrâneo ou submarino de
113
fibra óptica para criar uma espinha dorsal”. Até maio de 2009, todas as capitais
provinciais tinham sido conectadas. A extensão da rede está a registar-se de
forma progressiva e prevê-se que até 2011 todos os 128 distritos do País
estejam cobertos. Trata-se de um avanço enorme, pois, “a tecnologia de banda
larga via fibra óptica permite dar acesso qualitativamente mais rápida à
Internet, com maior fiabilidade e a um preço bem inferior às opções actuais,
substituindo as ligações via circuito alugado ou VSAT” (Gaster et al, 2009,
p.18).
No âmbito da Política de Informática e sua respectiva Estratégia de
implementação, especificamente, a principal iniciativa na área de Infraestrutura
de suporte às TIC tem estado voltada para arquitetura da Rede Electrónica do
Governo (GovNet), que funciona como plataforma privativa de comunicação do
Governo, visando garantir serviços electónicos (correio electrónico e da
hospedagem das páginas e aplicações) fundamentais para a administração
pública. Trata-se de “uma plataforma física de comunicação de dados, que visa
conectar os órgãos do sector público entre si, a nível nacional, a fim de garantir
a circulação de informação e o acesso a documentos partilhados, de forma
segura e fiável e a custos menores” (UTICT, 2008, p.5)
De qualquer modo, em que pese a importância do investimento em
infraestruturas de suporte às TIC, em particular a Rede Electrónica do Governo
(GovNet), entende-se que as transformações rumo à Sociedade Global da
Informação devem permitir, também, a integração de critérios de
democratização do acesso à informação aos tecnológicos e econômicos
usualmente associados à sua prescrição e, desta forma, “colocar à disposição
do cidadão caminhos para uma participação ativa na construção [da mesma]”.
(Werthein, 2000, p.71; Winocur, 2007).
O determinismo tecnológico, ou seja, a visão segundo a qual as
transformações em direção à Sociedade Global da Informação resultam da
tecnologia e/ou seguem uma lógica e técnica e, portanto, fora da interferência
de fatores sócio-culturais da informação, de mecanismos de universalização do
acesso à informação e de participação (Werthein, 2000, p.72) manifesta na
Política de Informática e sua Estratégia de implementação em Moçambique,
incorre no risco de criar e/ou acenturar uma situação de info-exclusão,
marginalização e manipulação info-tecnológica no país.
114
Ao mesmo tempo, de acordo com Mangue (2007, p.61), a centralidade
da abordagem tecnológica na construção da sociedade da informação em
Moçambique exacerba, de forma sucessiva, a importância do progresso
tecnológico, leva à consagração das TIC no seio da sociedade, transformando-
as em instrumentos de “hegemonia e de alienação”. Incorre-se, assim, no risco
de manuntenção e/ou agravamento das desigualdades socioeconômicas
prevalecentes no contexto nacional, evidenciadas também, no nível de
utilização das TIC, conforme os dados do Observatório das TICs79 referentes
aos anos de 2002/03 (tabela 10), que mostram diferenças entre as zonas
urbanas e rurais:
Tabela 10: Nivel de Utilização das TIC pelos moçambicanos, 2002/03.
1. Acesso em Casa
Total Urbano Rural
Percentagem de Famílias com Rádio 45.50 % 54.90 % 41.50 %
Percentagem de Famílias com Televisão 6.30 % 19.50 % 0.70 %
Percentagem de Famílias com Telefone
Celular
3.60 % 10.90 % 0.50 %
Percentagem de Famílias com Computador 0.30 % 1.10 % 0.00 %
Percentagem de Familias com telefone Fixo 1.70 % 5.50 % 0.10 %
2. Acesso Público e Comunitário
80
Tipo de
Ponto de
Acesso
No. de Pontos
de acesso
% de Distritos
com Centros
de acesso
%População
com acesso
aos Centros
% de
centros c/
acesso a
Rádio
% de
centros
c/
acesso a
TV
% de centros
c/ acesso a
Computadores
% de
centros
c/
acesso a
Intrenet
% de
centros c/
acesso a
Telefone
Acesso
Comunitário
49 N/A N/A 94.00 29.00 29.00 16.00 24.00
Fonte: .
79
O Observatório das TICs foi implantado pela UTICT, com o apoio do PNUD. Trata-se de
uma base de dados dinâmica de indicadores de TIC), disponível ao público, através da
Internet, desde 31 de Maio de 2006. O objectivo principal do Observatório é o de
proporcionar ao Governo, ao sector privado, aos parceiros de cooperação e à sociedade
em geral o conhecimento da situação das TICs em Moçambique (UTICT, 2004, p.6).
80
Ponto de Acesso Público – Local público onde o cidadão pode aceder aos serviços de
ICTs (telefone, Internet e/ou serviços de informática) em moldes comerciais; Ponto de
Acesso Comunitário – Local dentro das comunidades onde o cidadão pode aceder às TIC
(telefone, rádio, televisão, Internet e/ou serviços de informática). Segundo o Observatório
das TIC, é uma prestação de serviços sem fins lucrativos, sendo que o valor cobrado visa
apenas garantir a sustentabilidade do empreendimento. Disponível em:
. Acessado em:
20.ago.2009.
115
Segundo os dados da tabela 10, acima, o rádio é a TIC mais acessível ao
cidadão moçambicano, tanto em nível doméstico (acesso em casa, 45.5%) como
em público (acesso público e comunitário, 94%). A Televisão é a segunda TIC
mais acessível cobrindo, respectivamente, 6.30% usuários domésticos (acesso
em casa) e 29.00% no espaço público e comunitário. O Computador e a Internet
são TIC mais acessíveis em espaços público e/ou comunitário, cobrindo,
respectivamente, 29.00 e 16.00%. Vale lembrar, entretanto, que neste caso
referem-se aos espaços públicos que oferecem serviços em moldes comerciais,
embora com a justificativa de manutenção e sustentabilidade do
empreendimento81.
Com efeito, o quadro de distribuição das TIC no contexto moçambicano
sinaliza como afirmamos anteriormente, um risco de manutenção das
desigualdades e de exclusão de estratos sociais mais carentes e que não podem
pagar para se beneficiar das TIC. No seio desse risco, de acordo com
Nharreluga (2006, p.161), reside o ímpeto da exclusão informacional no contexto
da sociedade da informação em Moçambique, um fato evidente já a partir da não
inclusão dos espaços públicos de informação no quadro das prioridades da
Política de Informática e sua Estratégia de implementação, instrumentos através
dos quais o país se propõe a integrar na Sociedade Global da Informação.
Da mesma forma, os planos e relatórios de atividades da UTICT, desde
2002, têem ignorado o papel dos espaços públicos de informação como canais
para a participação e inclusão social dos cidadãos no âmbito da construção da
sociedade da informação no país. O Governo moçambicano contraria, assim,
através da UTICT, os Princípios da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da
Informação (WSIS, 2003; 2005) referentes ao acesso à informação, ao
conhecimento e à inclusão nesse contexto. Vale reafirmar, entretanto, que
a capacidade universal de aceder e contribuir com informações, idéias
e conhecimento é essencial em uma Sociedade da Informação
inclusiva. É possível promover o intercâmbio e o fortalecimento do
conhecimento global em favor do desenvolvimento, eliminando as
barreiras ao acesso eqüitativo à informação para as atividades
económicas, sociais, políticas, sanitárias, culturais, educacionais e
científicas e facilitando o acesso à informação de domínio público. Um
domínio público rico é um essencial para o crescimento da Sociedade
da Informação, e cria vários benefícios como um público educado,
novos empregos, inovação, oportunidades de negócios, e o avanço
das ciências. A informação do domínio público deve estar facilmente
81
Disponível em: .
116
acessível para dar suporte à Sociedade da Informação, e deve ser
protegida da apropriação indébita. Instituições públicas, como
bibliotecas e arquivos, museus, coleções culturais e outros pontos de
acesso baseados na comunidade devem ser reforçadas de forma a
promover a preservação dos registros documentais e o acesso livre e
eqüitativo à informação (WSIS, 2003, p.4, tradução livre)
Um dos maiores valores associados à disseminação da informação
governamental de domínio público, de acordo com Uhlir (2006, p.30) é a
„transparência‟ da governança e a promoção dos ideais democráticos:
igualdade, democracia e abertura. “Quanto maior for a quantidade de
informação disponível abertamente pelo governo e sobre o governo, menor
será a possibilidade de este governo conseguir ocultar atos ilegais, corrupção e
má administração”. Nesse sentido, a UNESCO encoraja os Estados Membros a
reconhecerem o direito ao acesso às informações de domínio público como um
direito relevante para a cidadania. Os Estados-Membros, afirma a Unesco,
devem identificar e promover os repositórios de informações e conhecimentos
no domínio público e torná-los acessíveis a todos, formando assim ambientes
de aprendizagem favoráveis ao desenvolvimento da criatividade e do público.
Assim, um financiamento adequado deve ser fornecido para a preservação e
digitalização da informação de domínio público (UNESCO, 2003, p.4, tradução
livre).
“Há muitos benefícios sociais que podem advir de uma população mais
informada”, afirma Uhlir (op.cit.). E, de acordo com esse autor, uma das
manifestações do reconhecimento desses benefícios é “o financiamento
público de bibliotecas, arquivos, museus, entidades educacionais e institutos de
pesquisa [...]”.
Paradoxalmente, apesar de ser um Estado membro da UNESCO desde
1976, e de ter participado da WSIS de 2005, Moçambique tem atuado de
forma contrária à Declaração de Princípios da WSIS e à visão da Unesco
relativamente à informação de domínio público. Este fato é evidenciado nos
planos e relatórios de actividades inerentes ao processo de construção da
sociedade da informação no país, que dão enfoque apenas à infraestrutura
tecnológica e aos benefícios econômicos como condições para a integração na
Sociedade Global da Informação, ignorando, por conseguinte, as ações ligadas
ao acesso públco à informação e à participação cidadã nesse processo.
117
Há uma desvalorização e/ou marginalização de espaços púlbicos de
acesso à informação como bibliotecas, arquivos, e centros de documentação e
informação no âmbito da política e estratégia de implementação da sociedade
da informação em Moçambique. A ausência desses espaços evidencia, por seu
turno, os limites do objetivo da Política de Informática em “assegurar o acesso
dos cidadãos aos benefícios do saber mundial”, porquanto não são valorizados,
no quadro dessa política, os mecanismos e estruturas institucionais voltados
para a materialização do referido objetivo.
No capítulo a seguir, será feita uma descrição do caráter exclusivo das
políticas nacionais que definem e influenciam, particularmente, a ação das
bibliotecas públicas provinciais em Moçambique, objeto empírico da presente
dissertação. Para além da Política de Informática e sua estratégia de
implementação, foram identificadas e discutidas (i) a Política Cultural e sua
Estratégia de implementação; e (ii) a Política e Estratégia de Informação. A
situação das bibliotecas públicas provínciais e seus desafios no contexto da
sociedade da informação em Moçambique são demonstrados a partir do estudo
de caso da biblioteca pública provincial de Nampula.
118
CAPÍTULO V
POLÍTICAS GOVERNAMENTAIS E BIBLIOTECA PÚBLICA EM
MOÇAMBIQUE:
um estudo de caso da biblioteca pública provincial de Nampula
Um dos objetivos propostos nesta pesquisa foi analisar e discutir a
política da biblioteca pública provinciaL em Moçambique. Assim, o presente
capítulo descreve o caráter exclusivo de algumas políticas nacionais que
definem e influenciam a ação da bibliotecas pública no país. Identifica e discuti
a concepção e a função atribuída a essa instituição na (i) Política Cultural e sua
Estratégia de implementação; (ii) Política e Estratégia de Informação; e na (iii)
Política de Informática. Esta última, considerada o quadro de referência para o
“desenvolvimento harmonioso e sustentável da Sociedade de Informação em
Moçambique”.
No segundo momento, para mostrar a situação da biblioteca pública
provincial em Moçambique, o capítulo apresenta os resultados do estudo do
caso da biblioteca pública provincial de Nampula. O referido estudo de caso
serviu para nos proporcionar melhor familiaridade com a situação dessa
biblioteca, seus serviços, estrutura e condições institucionais. Serviu,
particularmente, para apreender no campo empírico as mudanças operadas no
quadro das atividades da biblioteca após a aprovação do Decreto no 46/2007,
de 10 de outubro – que cria as Bibliotecas Públicas Provinciais (BPPs), e
aprova o seu Estatuto.
A partir dos dados do estudo do caso da biblioteca pública provincial de
Nampula (BPPN) este capítulo visualiza, também, alguns desafios a serem
enfrentados por essa instituição, por forma a se posicionar no centro dos
processos de mediação, inclusão e democratização informacionais e, quiçá,
enquadrar a província num verdadeiro processo de integração à sociedade da
informação. Trata-se, na verdade, de uma contribuição da pesquisa para a
reflexão da BPP enquanto espaço público de informação, promoção da
inclusão informacional e cidadania no país.
119
5.1 Políticas Governamentais e Biblioteca Públicas em Moçambique
O início da década de 1990 é considerado um marco da entrada da
biblioteca pública na agenda das políticas governamentais de Moçambique pós
colonial. Não significa, entretanto, que antes desse período essa instituição não
jogava um papel social importante no país. Pelo contrário, a contribuição dela
desde a independência nacional tem sido de extrema importância, sobretudo
no processo educativo, servindo de fonte de informação para a comunidade
estudantil e promovendo o gosto pela leitura.
Contudo, como reconheceu o Governo ao aprovar o Diploma Ministerial
no. 103/92, de 22 de julho – que define o Estatuto Orgânico da Biblioteca
Nacional de Moçambique (BNM),
a actividade das bibliotecas no nosso país após a independência
nacional não tem merecido o devido apoio, apesar da importância que
é reconhecida a estas unidades sociais na elevação de conhecimentos
gerais, técnicos e científicos de toda a sociedade. [...] Já se faz sentir a
necessidade de se criar um Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas
como forma de garantir aqueles objectivos. A Biblioteca Nacional de
Moçambique, criada pelo Diploma Legislativo n
o
. 2116, de 26 de
agosto de 1961, vem cumprindo com a sua função social sem possuir
um estatuto específico que defina as suas competências, o que não
lhe permite assumir com plenitude a função de coordenação do
Sistema de Bibliotecas Públicas que se deseja implantar
(Moçambique, 1992).
Assim, o referido Diploma Ministerial se constituiu na primeira ação
política de reconhecimento da atividade das bibliotecas públicas após a
indepedência nacional. Com efeito, define-se a BNM como uma “instituição de
cultura e investigação” subordinada ao Ministério da Cultura, com as seguintes
atribuições principais: a) adquirir, tratar, conservar e difundir a documentação
produzida em Moçambique e sobre Moçambique, bem como a considerada de
interesse para a cultura e investigação moçambicana independentemente do
suporte utilizado; b) superintender os trabalhos do Serviço Nacional de
Biblioteca; c) funcionar como biblioteca normativa para as bibliotecas públicas e
dar apoio técnico às mesmas.
A definição da BNM como uma “instituição de cultura e investigação”
passou, assim, a moldar a função atribuida à biblioteca pública provincial em
120
outras políticas nacionais relevantes. Cita-se o caso, por exmplo, da Resolução
no. 12/97, de 10 de junho – que aprova a Política Cultural e Estratégia de sua
implementação –, atribuindo à biblioteca pública a função de “[...] pesquisa,
aquisição, tratamento e difusão de material bibliográfico, cinematográfico,
iconográfico e fonográfico para a consulta pelos interessados para fins de
estudo e deleite” (Moçambique, 1997, grifo nosso).
Portanto, nessa política também, a biblioteca pública é concebida como
uma instituição cultural, sendo-lhe atribuída a função exclusiva de difusão de
livros e de outros materiais de “estudo e deleite”, e servindo, principalmente, a
comunidade estudantil. O componente informacional não integra no quadro das
suas atribuíções, ou seja, do ponto de vista político, não se atribui à biblioteca
pública provincial uma dimensão de espaço público de disseminação,
mediação e inclusão informacionais e, portanto, de apoio ao desenvolvimento
da cidadania.
Essa concepção política da biblioteca pública tem gerado críticas de
alguns autores moçambicanos. Nharreluga (2006; 2009), por exemplo,
corrobora a visão segundo a qual a exclusão da componente informacional no
quadro das funções não só da biblioteca pública provincial como também de
outras unidades de informação (arquivos, centros de documentação e
informação, etc) revela “uma forma institucionalizada de controle estatal”, de
manutenção das assimetrias de acesso aos recursos informacionais entre o
Estado e a sociedade civil, pois, a concepção dessas unidades apenas em sua
dimensão cultural não viabiliza uma ação de espaços de acesso à informação
de domínio público, e, por consegüinte, de condições institucionais básicas
para o desenvolvimento e participação sóciopolítica dos sujeitos enquanto
cidadãos.
Do ponto de vista de políticas públicas de informação82, a situação das
unidades de informação em Moçambique, incluindo da biblioteca pública
82
Por política pública de informação entende-se aqui, o estabelecimento de programas e
condições pelo poder público que garantam uma infra-estrutura capaz de dar acesso
eassegurar a efetivação do direito à informação dos cidadãos (por exemplo, centros
comunitários, bibliotecas e arquivos públicos, centros de informação e documentação, etc.). As
políticas púlbicas de informação devem estabelecer-se como instrumentos de planejamento e
intervenção social do Estado, com impacto no âmbito do atual discurso da sociedade da
informação, refletindo uma preocupação com as estruturas institucionais e processos técnicos
em torno da produção, processamento, acesso e uso da informação (Ferreira, 2000, p.5;
Rowlands, Eisenschitz, Bawden, 2002, p.32-34; Aun, 2001, p.6-8; Nharregula, 2006, p.38).
121
provincial denuncia a perspectiva conceitual e institucional restrita ao âmbito da
comunicação social e de liberdade de imprensa com que foi estabelecida, por
exemplo, a chamada “Política e Estratégia de Informação”. Portanto,
desvaloriza-se a ação informacional dos arquivos, bibliotecas, centros de
documentação e informação, etc. e os direitos inerentes ao uso da informação
de domínio públio pelo cidadão comum, sendo vinculados apenas aos orgãos
de comunicação social e imprensa.
Se por um lado, a chamada Política e Estratégia de Informação –
aprovada pelo Conselho de Ministros através da Resolução nº 3/97 de 18 de
fevereiro – exclui e ignora completamente o papel dessas unidades de
informação, porquanto seu escopo se restringe apenas ao âmbito da liberdade
de imprensa e dos órgãos de comunicação social. Por outro lado, a Política de
Informática e sua Estratégia de implementação, aprovadas, respectivamente
em 2000 e 2002 –, e consideradas instrumentos através dos quais o Governo
moçambicano pretende integrar o país na Sociedade Global da Informação –,
reproduzem a concepção cultural dessas unidades, vinculando-as ao âmbito
das áreas artística e cultural, portanto, segundo esses documentos, não
prioritárias no processo de construção da sociedade da informação em
Moçambique.
Da mesma forma, se estabelecem o grosso das políticas e programas
governameitais em relação a dimensão institucional da informação: de um lado,
as unidades de informação, incluindo a biblioteca pública, são visualizadas
como instituições/agências de âmbito cultural, de outro, o acesso à informação
de domínío público constitui prerrogativa apenas dos órgãos de comunicação
social, apontando para uma situação em que o direito à informação
estabelecido na Constituição da República é exercido apenas por intermédio
dos meios de comunicação social (Nharreluga, 2006, p.194).
Este fato denota, portanto, a falta de uma visão política abrangente em
relação às estruturas e processos informacionais como mecanismos de
democratização da informação, de ampliação da esfera pública e de
empoderamento dos cidadãos. Aliás, os órgãos e/ou meios de comunicação
social, conforme os dados apresentados no subitem 4.1.3, abragem apenas
uma pequena parcela da população, e beneficiam, sobretudo, as zonas
122
urbanas. Os orgãos de comunicação de maior cobertura, principalmente os
estatais, de acordo com Namburete (op.cit) e Nharreluga (op.cit) acabam sendo
“reféns” do poder do Estado e dos partidos políticos, portanto, sem
independência para suprir as necessidades informacionais dos cidadãos, como
resultado de sua atuação, muitas vezes restrita a linhas editoriais que
beneficiam interesses políticos83.
Era suposto, por exemplo, que a Política e respectiva Estratégia de
implementação da sociedade da informação em Moçambique promovessem e
articulassem uma iniciativa de institucionalização de estutruras e espaços
públicos de informação no país. Entretanto, paradoxalmente, acabam
ignorando, de forma sucessiva, a dimensão sóciopolítica da informação e suas
“precárias” e “desarticuladas” estruturas institucionais (Nharreluga, 2006,
p.201-202). As bibliotecas, os arquivos e os centros de documentação e
informação permanecem, desse modo, desvinculados dos processos de
mediação e inclusão informacionais, processos estes que, aliás, estão
completamente ausentes e/ou não são valorizados no contexto de
desenvolvimento sóciopolítico, econômico e cultural do país.
No entanto, de acordo com Milanesi (1986, p.13),
torna-se difícil entender o desenvolvimento econômico-social sem que
sejam afiados os instrumentos educativos. Não será uma nação
desenvolvida que aprimorará o seu sistema educacional, mas a
prioridade ao ensino, à circulação de informações, à pesquisa é que
propiciará alcançar novos estágios de desenvolvimento. Nesse
investimento [...], as bibliotecas deverão ter o incrimento compatível ao
seu papel. Qualquer projeto na área só chegará ao seu objetivo se
tiver uma política de informação que permita o acesso a ela sem
restrições.
Portanto, a omissão da componente informacional no quadro das
funções que são atribuídas especificamente à biblioteca pública provincial em
Moçambique, evidencia, ao mesmo tempo, (i) uma desconsideração do
Manifesto da UNESCO (1994) sobre essa instituição, e (ii) uma a falta de
conhecimento do seu importante papel enquanto espaço público vinculado aos
processos de disseminação, mediação e inclusão informacionais, e
desenvolvimento de sujeitos cidadãos.
83
Ver: Namburete (2002; 2003).
123
De acordo com o Manifesto da UNESCO (1994), a liberdade, a
prosperidade e o desenvolvimento da sociedade e dos indivíduos são valores
humanos fundamentais que serão atingidos “quando os cidadãos estiverem na
posse da informação que lhes permita exercer os seus direitos democráticos e
ter um papel ativo na sociedade”. A “participação construtiva e o
desenvolvimento da democracia dependem tanto de uma educação satisfatória,
como de um acesso livre e sem limites ao conhecimento, ao pensamento, à
cultura e à informação”.
Nesse sentido, a UNESCO deposita confiança na biblioteca pública,
enquanto “força viva para a educação, a cultura e a informação; e “porta de
acesso local ao conhecimento – [que] fornece as condições básicas para uma
aprendizagem contínua, para uma tomada de decisão independente e para o
desenvolvimento cultural dos indivíduos e dos grupos sociais”. Ao mesmo
tempo, ao proclamar que “os serviços da biblioteca pública devem ser
oferecidos com base na igualdade de acesso para todos, sem distinção de
idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou condição social”, a
UNESCO realça precisamente as caracteristicas que conferem a essa
instituição a dimensão de espaço público: a acessibilidade, a universalidade e a
neutralidade (IFLA/UNESCO, 1994; Correia, 2005, p.12-13).
Assim, ao excluir a função informacional no quadro das atribuições das
bibliotecas públicas em Moçambique, a Resolução no. 12/97, de 10 de junho,
desconsidera o importante papel atribuido a essa instituição pela UNESCO –,
no sentido de espaço público vinculado aos mecanismos institucionais de
materialização do direito à informação como um direito humano e como uma
condição básica para o exercício da cidadania e participação no processo
democrático.
Se é compreensível a concepção da biblioteca pública na Resolução
citada acima, porquanto tratar-se de um instrumento que aprova a “Política
Cultural e Estratégia de sua implementação”, o mesmo não se pode dizer
relativamente as Resoluções 3/97, de 18 de fevereiro e 28/2000, de 12 de
dezembro – que aprovam, respectivamente, a “Política e Estratégia de
Informação” e a “Política de Informática”.
Em conjunto, as duas últimas políticas denunciam uma “visão deficiente”
do Governo moçambicano relativamente aos quadros conceitual e institucional
124
da “informação”: se por um lado, a visão de informação do Governo
moçambicano é, equivocadamente limitada apenas aos âmbitos de liberdade
de imprensa e/ou jornalística, sendo a estrutura institucional da informação em
Moçambique vinculado aos respectivos órgãos de comunicação social. Por
outro lado, o Governo entende que a integração à chamada Sociedade Global
da Informação resulta e segue apenas a lógica vinculada às TIC e à respectiva
Infraestrutura, e, dessa forma, exclui espaços/instituições como a biblioteca
pública de suas prioriadades. Ignora, assim, a potencialidade dessa instituição
em possibilitar o acesso livre à informação, “favorecendo a autonomia dos
indivíduos e a participação [cidadã]” (UNESCO, 1994; Milanesi, 1986 e Correia,
2005, p.2, Moçambique, 2005).
A retórica do Governo moçambicano tem apregoado o aumento da
transparência e a inclusão sóciopolítica, o direito de acesso à informação e a
ampliação dos espaços de participação dos cidadãos no processo democrático
(Moçambique, 2005). Entretanto, tais espaços na realidade não existem ou não
são concebidos com essa finalidade. Exceptuando os órgãos de comunicação
social, conhecidos pelas suas “linhas editoriais favoráveis ao governo”, pode se
afirmar que, em Moçambique, as estruturas e práticas institucionais públicas
vinculadas aos processos de efetivação do direito de acesso à informação são
uma miragem, facto que compromete as possibilidades de participação dos
cidadãos no processo democrático em voga no país.
De qualquer modo, ao aprovar o Decreto no. 46/2007, de 10 de outubro,
o Governo moçambicano deu um passo gigantesco no sentido de vincular a
biblioteca pública provincial aos processos acima referidos. Trata-se de um
instrumento legal que, como veremos a seguir, “cria” a biblioteca pública
provinciai e aprova o respectivo Estatuto institucional em Moçambique. A
presente pesquisa elegeu, assim, a biblioteca pública provincial de Nampula
como objeto de observação empírica dos impactos do referido Decreto sobre
as atividades dessa instituição, sobretudo em sua dimensão informacional.
125
5.2 Impactos do Decreto 46/2007
5.2.1 A ampliação das funções das bibliotecas públicas provinciais
Não obstante a manutenção da concepção da bibliotecas pública como
instituição pública de caráter cultural, que tem por objetivo proporcionar ao
cidadão leitura para apoio à investigação, ao processo de ensino-
aprendizagem e auto-formação, o Decreto no. 46/2007, de 10 de outubro – que
“cria as Bibliotecas Públicas Províncias (BPP) e aprova o respectivo Estatuto”
em Moçambique –, já incorpora a dimensão informacional no quadro de
objetivos e funções a serem persseguidos por essa instituição no país. O
referido Decreto, aprovado pelo Conselho de Ministros, estabelece que as BPP
é uma instituição subordinada ao órgão provincial que superintende o sector da
Cultura, a quem cabe as seguintes atribuições:
a) Adquirir, tratar e difundir monografias (livros e brochuras), seriados
(jornais, revistas, boletins, publicações periódicas) e outros
documentos gráficos e audiovisuais;
b) Funcionar como biblioteca normativa para as bibliotecas ao nível da
província e proporcionar apoio técnico das mesmas;
c) Organizar exposições, palestras e debates sobre temas diversos;
d) Dar assistência técnica-profissional aos bibliotecários na respectiva
província;
e) Promover acções que contribuam para a criação do gosto e hábito de
leitura (Moçambique, 2007, grifo nosso).
Cabe, também, à BPP a persecução dos seguintes objetivos:
a) Promover o hábito da leitura e contribuir para a disseminação da
informação;
b) Apoiar o processo de investigação, ensino-aprendizagem e auto-
formação;
c) Coordenar e dinamizar acções conducentes à implantação e expansão
de uma rede de bibliotecas na respectiva província;
d) Proporcionar leitura de lazer (Ibidem, grifo nosso).
No Artigo 3 do Estatuto da BPP em Moçambique, se estabelece que:
1. A BPP goza de autonomia administrativa e subordina-se ao órgão
provincial que superintende o sector da Cultura;
2. A BPP recebe orientações técnicas e metodológicas da Biblioteca
Nacional de Moçambique (BNM);
3. No exercicio das suas atribuiçes, quando necessário, a BPP articula e
coordena as suas actividades corn os órgâos de autarquias locais e
126
com outras pessoas colectivas públicas e privadas sediadas ou näo na
respectiva província (Ibidem).
Na prática, vale ressaltar, o Decreto no. 46/2007 não cria a BPP, mas
sim, estabelece o seu quadro legal e/ou normativo, ou seja, a existência legal e
as regras de funcionamento dessa instituição. Pois, algumas das BPP existem
desde o período colonial, como são os casos das BPP de Inhambane e de
Sofala, ambas criadas em 1965, e, praticamente em todas as provincias já
funcionava uma biblioteca com a designação de BPP, mesmo antes da
aprovação do referido Decreto84.
Entretanto, ao incorporar a dessiminação da informação e a
organização de exposições, palestras e debates sobre temas diversos no
quadro das atribuições e objetivos da BPP, o Decreto 46/2006 estabelece e/ou
abri perspectivas para a atuação informacional dessa instituição, no sentido de
se constituir não apenas em servidora da comuidade estudantil, quer dizer,
promotora de “ações que contribuam para a criação do gosto e hábito de
leitura”, ações estas que são importantes, mas também como disseminadora
da informação de domínio público.
Nesse sentido, para mostrar a situação da BPP nessa última
perspectiva de atuação, a presente pesquisa elegeu a biblioteca pública
provincial de Nampula (BPPN) como um estudo de caso. São descritas, a
seguir, as atividades desenvolvidas pela biblioteca pública provincial de
Nampula (BPPN) considerando os impactos do Decreto 46/2006 e o contexto
atual da construção da sociedade da informação em Moçambique.
5.2.2 A Biblioteca Pública Provincial de Nampula à luz do Decreto 46/2007
5.2.2.1 Contexto sôciopolítico, econômico e cultural da Província de
Nampula
A província de Nampula situa-se na região norte de Moçambique. Possui
uma área de 81.600 km² e cerca de 3.985.613 habitantes, com uma densidade
populacional de 48 habitantes por Km². Faz fronteira com as províncias de
Cabo Delgado e Niassa, ao norte, das quais está separada pelo rio Lúrio; com
84
Veja-se o Diretório de Unidades Documentais publicado em 2003, pelo Fundo
Bibliográfico de Língua Portuguesa (FBPL).
127
a província da Zambézia a sudoeste, separada pelo rio Ligonha; e com o
Oceano Índico a este. Em termos administrativos, a província de Nampula
consiste em 21 Distritos e 6 Municípios. Configuram a lista dos municípios as
cidades de Nampula (capital provincial), Nacala-Porto, Angoche e Ilha de
Moçambique, e as vilas de Monapo e Ribáue.
Com base nos resultados do 3º Recenseamento Geral da População e
Habitação (Censo de 2007), Nampula é considerada a província mais populosa
de Moçambique, com 3.985.613 habitantes (ver tabela 1, na página 79). Um
pouco mais da metade (52,6%) dos habitantes da província são considerados
pobres. Cerca 73% (2.846.162 habitantes) da população vive em áreas rurais e
27% (1.139.451) em áreas urbanas. A estrutura etária da população é bastante
jovem, sendo que 802.214 (20.12%) dos habitantes da provincia está na faixa
de 0 a 4 anos de idade. A taxa de crescimento da população da província de
Nampula registrou uma subida de 1.3% (1997) para 2.6% (2007) (INE, 2010).
À semelhança de todo o territorio nacional, a província de Nampula é
caraterizada por uma heterogeneidade sócio-linguística e cultural: é
representada em cerca de 90.2% por uma população falante da língua
emakhua; 5.6% de falantes da língua portuguesa; 1.9% de falantes da língua
ekoti; 0.4% de falantes da língua elomwe; e 1.8% de restantes línguas. Cerca
de 39% da população é praticante da religião islâmica; 27.3% católica; 10.8%
cristã indeterminada; 1.9% Protestante/Evangélica; 1.3% Sião/Zione; 21.7%
outras religiões.
Essa configuração sócio-cultural, lingüística e religiosa da província de
Nampula é, de acordo com Newitt85 (apud Tvedten; Paulo; Tuominen, 2009,
p.8) corolário de várias influências externas, entre elas, além do grupo etno-
linguístico dominante, de origem Bantu, Macua-Lomué; da chegada dos
comerciantes Árabes e Swahili, com a sua fé Islâmica, a partir de 400 depois
de Cristo (d.C); e a chegada dos colonizadores Portugueses a partir de 1500
d.C (Moçambique, 2009, Nampula, 2009, Araújo, 2005, p.211).
Relativamente a atividade econômica, refere-se que o grosso da
população de Nampula tem como atividade principal a prática a agricultura de
subsistência, e, em pequena escala, a produção de culturas de rendimento
85
NEWITT, Malyn. A History of Mozambique. Indiana: Imprensa Universitária de Indiana,
1995.
128
como algodão, cajú e tabaco, estas últimas culturas são produzidas, sobretudo
nos distritos de Meconta, Monapo, Malema, Ribáue, Mogovolas. Na região
costeira, onde os solos agrícolas são pobres e arenosos, as fontes de
rendimentos são provenientes da pesca e das plantações de coqueiros, é o
caso, por exemplo, das regiões que abrangem os distritos de Nacala-Porto,
Nacala-à-Velha, Angoche, Moma, e Ilha de Moçambique.
Há poucas indústrias formais na província de Nampula, excetuando
algumas fábricas de processamento agricola (cajú e amendoim) de pequeno
porte, e fábricas de refrigerantes e bebidas alcóolicas (cerveja e outros tipos de
bebidas). Destaca-se, igualmente, a exploração de áreas ricas em pedras
preciosas e semipreciosas, nos distritos de Moma, Nacaroa, Monapo, Mecuburi
e Nacala-a-Velha, a produção de berilo industrial e a crescente exploração de
calcário, no distrito de Nacala-Porto. Em princípios de 2007, entrou em
funcionamento a Fábrica de Areias Pesadas de Moma (a Kenmare), tendo,
segundo o relatório citado pela Agência de Informação de Moçambique (AIM),
produzido, no mesmo ano, 23 mil toneladas de Ilminite, contra as 254 mil
toneladas de concentrado de Ilminite, Rutilo e Zircão, em 200886.
Por outro lado, as atividades econômicas informais têm crescido
consideravelmente na província, sobretudo nos setores da pequena indústria e
do comércio. Têm crescido, também, na província de Nampula, muitos grupos
e pequenas associações locais de ajuda mútua entre camponeses, carpinteiros,
pescadores, e outros que têm recebido apoio técnico e/ou financeiro do
Governo provincial e de ONG nacionais e internacionais que operam na
província (Hanlon; Smart, 2008, p.68-69; Tvedten; Paulo; Tuominen, 2009,
p.10).
Entretanto, a infraestrutura de comunicações da província é bastante
fraca, o que compromete, de acordo com alguns autores, a possibilidade de
escoamento da produção agrícola para os mercados de comercialização
(centros urbanos). Para além de uma rede de estradas, totalmente precária
fora das estradas nacionais principais, o porto de Nacala e o caminho de ferro
de Nacala até ao Malawi constituem os mais importantes meios de
comunicação na província. Hanlon e Smart (2008, p.183), tomando o exemplo
86
Disponível em:
. Acessado em: 20.jun.2010.
129
do distrito de Ribáuè, ilustram bem a situação das vias de comunicação na
província de Nampula: “Ribáuè está apenas a 138 kms [da cidade] de
Nampula, mas de automóvel são quatro horas para lá chegar. Esta é a principal
estrada leste-oeste no norte de Moçambique, mas é estreita e esburacada”.
De qualquer modo, vale frisar que, do ponto de vista de desempenho
econômico, a província de Nampula tem se destacado, para além da região
norte, da média de crescimento econômico nacional, conforme se pode ver na
tabela abaixo, com dados referentes, por exemplo, aos anos de 2001-2006.
Tabela 11: Evolução do PIB da província de Nampula, 2001-2006.
Província/País
/Região
Taxas de Crescimento de Volume (%)
2001 2002 2003 2004 2005 2006
Moçambique 12.3 9.2 6.5 7.9 8.4 8.5
Norte 8.7 10.1 9.0 7.0 8.6 9.4
Nampula 7.6 9.7 9.0 4.9 8.5 8.7
Fonte: Adaptado de PNUD, 2006, p.17.
No período em referência (2000-2004), a província de Nampula foi,
igualmente, a maior contribuiente para o PIB da região norte, com uma
contribuição média de 12.8%, sendo que as restantes províncias contribuiram
com entre 2.9% (Niassa) a 4.4% (Cabo Delgado) (PNUD, 2006, p.17-18).
Os dados apresentados pelo INE (2010), referentes aos anos de 1997 e
2007, revelaram uma evolução da província de Nampula em termos de alguns
indicadores de desenvolvimento humano. Por exemplo, nesse perído, a
esperança de vida da população passou de 40 anos (1997) para 53 (2007); a
taxa de analfabetismo baixou de 71.7% (1997) para 62.3% (2007); taxa de
mortalidade infantil (por mil) caiu de 154 (1997) para 98.2 (2007).
Segundo a então Direção Provincial de Educação e Cultural (DPEC)87,
em 2007, os dados da província de Nampula nesse setor (educação) eram os
seguintes: 1.583 Escolas Primárias do Primeiro Grau (EP1); 236 Escolas
Primárias do Segundo Grau (EP2); 28 Escolas Secundárias Gerais do Primeiro
Grau (ESG1); e 10 Escolas do Secundárias Gerais do Segundo Grau (ESG2).
O número de alunos era, respectivamente, 684.864, 87.015, 38.732 e 5.176.
Por outro lado, o efetivo de professores era de, respectivamente, 14.144,
87
Hoje Direção Provincial de Educação (DPE).
130
2.462, 1.361, e 239. Em 2007, ainda, o rácio aluno/turma era seguinte: 55.9
para o EP1; 53.9 para EP2; 69.8 (ESG1); e 62.7 para o ESG2 (Nampula, 2008,
p.38).
Ao nível do Ensino Superior, a província de Nampula conta, sobretudo
na cidade capital, com seis (5) universidades, nomeadamente as universidades
Pedagógica (UP), Lúrio (UniLúrio), A Politécnica, Mussa Bin Bique; uma (1)
academica, a Academica Militar Marechal Samora Moisés Machel; e um (1)
instituto superior, o Instituto Superior de Contabilidade e Gestão (Nacala-Porto),
perfazendo, no total, sete (7) instituições de ensino superior.
Politicamente, vale destacar que com a introdução do Estado
democrático de Direito em Moçambique, a província de Nampula revelou a
particularidade, pelo menos relativamente a muitas outras províncias do país,
de se fazer representar (no parlamento), majoritariamente, tanto pelos
deputados do maior partido da oposição assim como os do partido no poder88.
Por exemplo, nas primeiras eleições multipartidárias de 1994, bem assim
nas de 1999, a Renamo, maior partido da oposição, ganhou uma forte posição
política em termos de assentos parlamentares em Nampula. Nas eleições
legislativas de 1999, a Renamo obteve 26 assentos contra os 24 da Frelimo89.
O partido Renamo boicotou e não participou das primeiras eleições
autárquicas, de 1998, mas participou e elegeu presidentes nas eleições
88
Alguns autores sugerem que “a relativa equitatividade em Nampula entre os principais
partidos (Frelimo e Renamo) traduz uma alegada ausência
das elites locais da província de
[...] nos diversos níveis de decisão desses mesmos partidos. De qualquer modo, segundo
atesta o professor Luis Filipe Pereira (200?), a particularidade política da província de
Nampula inicia mesmo com a penetração colonial portuguesa: a ocupação colonial efetiva
de Nampula não foi fácil para os Portugueses. As primeiras tentativas fracassaram porque
os grandes mwene macuas, os chefes de linhagem Mocutu-Munu, Komalu, Kuphula,
Mukapera e os Xeiques da costa articularam-se contra o exército colonial. Os Namarrais no
Mossuril ofereceram grande resistência às tropas de Mouzinho de Albuquerque. Todos
esses líderes estavam decididos a defender o seu território e os seus interesses,
conheciam o terreno e possuiam armas que tinham sido trocadas por outros produtos pelos
comerciantes portugueses, franceses e indianos. “A resistência e a ocupação colonial
oferecida pelos islamizados do litoral, potentados e reinos swahili e macua manteve-se
praticamente até aos principios do séc.XX”. Só em 1907, os portugues conseguiram
dominar o território da atual província de Nampula. Igualmente, não foi fácil a adesão dos
macua de Nampula ao processo da luta armada de libertação nacional nem as ações
militares desse processo tiveram lugar na província, não obstante a cidade capital de
Nampula ter sido concebida/fundada com “fins de controlo militar, “para servir de centro
militar colonial para todo o norte de Moçambique”. (Mucheia, 200?; Pereira, 200?; Araújo,
2005, p.210).
89
Veja-se também: Mucanheia, F. (200?). Participação no Processo de Tomada de Decisões
em Nampula. Disponível em:
.
131
autárquicas de 2003, em todos os municípios costeiros, quais sejam Nacala-
Porto, Angoche e Ilha de Moçambique.
Na seqüência das eleições gerais (legislativas e presidenciais) de 2004,
entretanto, a posição política da Renamo em Nampula inverteu-se, tendo a
Frelimo (partido no poder) ganho 27 dos 50 assentos da província nas eleições
parlamentares e, Armando Gebuza, candidato da Frelimo à presidência obteve
50% dos votos contra 44% do candidato da oposição, Afonso Dhlakama.
Os resultados das eleições de 2009 fortaleceram a posição da Frelimo
na província de Nampula, que obteve 32 dos 50 lugares no parlamento e 67 %
de votos (386.375) para o candidato presidencial da Frelimo, Armando
Guebuza – embora com uma participação invulgarmente baixa de 39% e um
número extraordinariamente elevado de votos inválidos (15,7%). A Frelimo e os
seus respectivos candidatos venceram as eleções em todos os seis (6)
municípios da província (Monapo, Nacala-Porto, Ilha de Moçambique, Nampula,
Ribáuè e Angoche), bem assim as primeiras eleições para a assembleia
provincial. Vale referir, que para estas últimas eleições (2009) o número total
de eleitores inscritos na província de Nampula era de 1.801.249, o que fez
dessa província o maior círculo/colégio eleitoral do país, seguida da província
da Zambézia, com 1.770.910 eleitores (CIP/AWEPA, 2009).
A outra particularidade política de Nampula diz respeito ao papel que
essa província tem assumido nos processos de reforma, descentralização e
modernização do Estado em curso em Moçambique 90 . Nesse sentido, a
província de Nampula foi eleita para o início, em 1998 (ano das primeiras
eleições municipais), de um projeto piloto do Governo para a descentralização
e planificação nos distritos. Em 2005, o presidente da república Armando
Guebuza, que acabava de ser eleito, definiu o distrito como a base do
desenvolvimento e “deu todo o aval à descentralização ao estilo de Nampula,
estendendo-o a todo o país” (Hanlon e Smart, 2008, p.185; Tvedten; Paulo;
Tuominen, 2009, p.10).
No âmbito da Estratégia do Governo Eletrónico, a província de Nampula
foi selecionada para a implementação da fase piloto do Projecto de Integração
Horizontal dos Governos Locais, que inclui o desenho de páginas webs locais,
90
Sobre a reforma do Estado em Moçambique, ver: Weimer (2002); Cruz (2003).
132
promoção do uso do correio electrónico, repositório comum de documentos
para acesso partilhado, padronização dos fluxogramas, prestação de serviços
usando as novas tecnologias e formação de funcionários públicos91.
Portanto, é importante abordar e/ou entender a questão do acesso
público à informação na província de Nampula, não somente pela importância
sôciodemográfica (a mais populosa de Moçambique) dessa província, mas,
também, pelo seu papel político (maior círculo/colégio eleitoral; objeto de
vários projetos inerentes aos processos de reforma e modernização do Estado).
Os dados estatísticos sobre o acesso público à informação na província
de Nampula estão incluidos nas tabelas 7 e 8, apresentadas no subitem 4.1.3.
À semelhança do território nacional, o rádio é o meio de informação e
comunicação mais predominante na província de Nampula. Das 2.403
mulheres inqueridas pelo INE, em 2003, 46.8% tinham acesso ao rádio, 9.2%
tinham acesso à televisão, e apenas 2.8% tinham acesso ao jornal. Por sua
vez, dos 693 homens inquiridos no mesmo ano, 74.4% tinham acesso ao rádio,
15.8% tinham acesso à televisão, e 11.7% tinham acesso ao jornal. Assim,
pode-se inferir que as mulheres são as menos expostas aos meios de
informação e comunicação (INE, 2005, p.36-37).
Relativamente aos espaços e/ou órgãos de informação e comunicação
existentes ou com cobertura na província de Nampula, destacam-se, para além
da biblioteca pública provincial, nosso objeto estudo, as Rádios Moçambique e
Encontro, os Jornais Notícias, Diário de Moçambique, O País, Zambeze,
Wamphula Fax, Savana e Desafio, e as Televisões de Moçambique (TVM) e
Soico Televisão (STV). A província de Nampula dispõe, igualmente, de uma
Casa Provincial de Cultura, e domicilia o Museu Nacional de Etnologia
(MUSET).
O MUSET é uma instituição pública de âmbito nacional, sem fins
lucrativos, de caráter cultural e científico. Inaugurado em 23 de agosto de 1956,
encerrado durante muitos anos, e reaberto em 25 de junho de 1993, o MUSET
tem a sua sede na cidade de Nampula e exerce funções de coordenação
científica e orientação metodológica para a pesquisa, preservação e divulgação
91
Disponível em: . Acesso em 20.ago.2010.
133
de testemunhos da cultura material e espiritual do povo moçambicano, inserida
no contexto africano e universal.
O MUSET possui uma exposição permanente que retrata o processo de
evolução da sociedade desde o homem primitivo aos dias de hoje. A exposição
inclui artefatos usados no dia-a-dia pelo Homem, apresentados em sequência
num ambiente de vitrinas de estilo artístico. O MUSET possui, ainda, uma
exposição de trajes e adornos usados pelos grupos étnicos da cultura
Maconde, da província moçambicana de Cabo Delgado. Possui uma sala de
vídeos que atrai muitos visitantes, entre adultos e crianças, e goza de uma
larga participação das escolas locais nas suas atividades (Kulyumba, 2006;
Issak, 2006, p.3).
A província de Nampula dispõe, também, de um CPRD. Inaugurado abril
de 2007, o CPRD simboliza e/ou materializa a “participação” da província de
Nampula no processo de construção da sociedade de informação em
Moçambique, e à semelhaça dos existentes em outras províncias, foi
concebido com objetivos de “dinamizar as iniciativas de implementação da
Política de Informática e da Estratégia do Govenro Electrónico na província”.
No quadro das suas atividades, destaca-se o desenvolvimento das redes
internas de computadores ao nível do Governo provincial, desenvolvimento do
Portal do Governo da província, a conectividade das Direcções provinciais com
o Balcão Único de Atendiemnto, e a análise funcional dos processos do balcão
único e dos perfís dos distritos em coordenação com o Governo provincial92.
Paradoxalmente, as páginas na Web tanto do Governo provincial como do
próprio CPRD-Nampula estão inoperacionais e/ou com conteúdos
desatualizados.
Na prática, conforme as informações coletadas na pesquisa de campo, o
CPRD perssegue atividades comerciais de formação em informática,
designadamente, os cursos de MS Windows e Office, Windows Profissional,
MS Word 2003, Excel 2003, Power point 2003, Internet e E-mail. Por esses
cursos, o CPRD cobra MZ 1150 (mil cento e cinquenta meticais, o equivalente
a cerca cinquenta e sete reais e cinco centavos, ao câmbio de 7 de dezembro
de 2010) para estudants e MZ 1850 (mil oitocentos e cinquenta meticais, cerca
92
Disponível em: . Acesso em 20.ago.2010.
134
de noventa e dois reais e cinco centavos, ao câmbio de 7 de dezembro de
2010). O centro presta ainda serviços comerciais nas áreas de Hardware,
Software e redes informáticas ao custo de MZ 7500 (sete mil quinhentos
meticais, o equivalente a cerca de trezentos e setenta e cinco reais, ao câmbio
de 7 de dezembro de 2010).
5.2.2.2 A Biblioteca Pública Provincial de Nampula: atuação e desafios
5.2.2.2.1 Estrutura organizacional, recursos humanos e materiais da BPPN
À luz do Decreto 46/2007, de 10 de outubro, uma BPP compreende a
seguinte estrutura organizacional: a) Direção; b) Departamento técnico; c)
Repartição de Administração e Finanças.
O diretor da BPP é nomeado pelo Governador sob proposta do diretor
provincial que superintende a área da cultural. São da competência do diretor
da BPP: (i) promover medidas necessárias a prossecução das atribuições da
BPP; (ii) dirigir as atividades, os serviços e projetos da BPP; (iii) emitir e
aprovar instruções e regulamentos necessários a administração e
funcionamento da BPP da provincia; (iv) propor ao órgão provincial que
superintende o setor da cultura para aprovaçao de pIanos de atividade e
orçamentos anuais da BPP; e (v) gerir recursos humanos, financeiros,
patrimoniais e materiais da BPP.
Por sua vez, ao chefe de departamento técnico competem, entre outras,
as seguintes funções: (i) propor a aquisicão de documentos para o
enriquecimento do acervo da BPP; (ii) garantir o processamento técnico de
documentos em diferentes suportes; (iii) manter em funcionarnento um serviço
de utentes que garanta o acesso do público à documentação sob a guarda da
BPP; (iv) promover atividades concorrentes para incutir no cidadão, sobretudo
na camada juvenil, o hábito e gosto pela leitura; (v) proporcionar o apoio
técnico as bibliotecas ao nível da provincia; e (vi) proceder ao levantamento e
diagnóstico permanente do estado das coleções e garantir a gestão e
manutenção do acervo.
Em nossa pesquisa de campo em Nampula, entre os meses de janeiro e
fevereiro de 2010, conduzimos uma entrevista em profundidade com o senhor
Boaventura Mucage, técnico profissional da cultura, diretor da BPPN e
135
funcionário dessa instituição há 21 anos, que de ora em diante, será designado
apenas por nosso entrevistado.
Para além do Gabinete do diretor, do Departamento técnico e a
Repartição de Administração e Finanças, conforme estabelecido pelo Decreto
46/2007 – citado acima –, a estrutura orgância da BPPN apresentada pelo
nosso entrevistado compreende um déposito do acervo da biblioteca, uma
secretaria, uma sala de atendimento ao público, duas salas de leitura (geral e
infantil), uma sala de informática, e uma cantina.
Na prática, essa estrutura orgânica traduz uma mudança qualitativa das
condições institucionais em que a BPPN vinha prestando seus serviços, pelo
menos até 2007, ano da aprovação do Decreto 46/2007. Nesse ano, teve inicio,
igualmente, a construção de um edifíco de raiz, mais espaçoso e com
condições mínimas recomendáveis para o atendimento dos usuários. O
referido edifício, cujas obras foram avaliadas em MZ 5.700.000 Mt (cinco
milhões e setecentos mil meticais, cerca de duzentos e oitenta e cinco mil
reais93, ao câmbio de 7 de dezembro de 2010) e fincanciadas totalmente pelo
Orçamento Geral do Estado (OE), foi inaugurado a 17 de junho de 2010, pelo
Ministro da Cultura, o escritor e ex-presidente da Associação Escritores
Moçambicanos (AEMO), Armando Artur.
Na seqüência da inauguração do seu novo edifíco, a BPPN foi “batizada”
com o nome de Marcelino dos Santos, ou Kalungano. Marcelino dos Santos é
um conhecido político e poeta moçambicano. Usa o nome de Kulungano como
um dos seus pseudónimos. É membro fundador da Frelimo (partido no poder
em Moçambique), da qual já foi vice-presidente. Nasceu em Lumbo, província
de Nampula, aos 20 de maio de 1929. Algumas fontes referem que a atribuição
do nome de Marcelino dos Santos (Kalungano) à biblioteca provincial de
Nampula é um “reconhecimento da sua dedicação incansável à causa do povo
moçambicano, como um dos fundadores da Frelimo e poeta de projecção
“universal”94.
93
Em virtude deste trabalho ser desenvolvido em território brasileiro, há a necessidade de
estabelecer a equivalência da moeda moçambicana (metical) com a desse país, o real.
94
Disponível em: . Acessado em: 20.ago.2010. Sobre a
inaguração do novo edifício da BPPN, veja-se também o jornal WAMPHULA FAX de 17 de
junho de 2010 (apud MOÇAMBIQUE PARA TODOS, 17 de junho de 2010). Disponível em:
136
De qualquer modo, as figuras abaixo mostram o antigo e o atual edifíco
da BPPN95.
Figura 1: Antigo edifício da BPPN – balcão de atendimento e depósito.
Figura 2: Antigo edifício da BPPN – Sala de leituras.
. Acesso em: 20.set.2010.
95
As imagens foram captadas pelo autor do presente trabalho, em janeiro de 2010, quando
já tinha sido encerrado, oficialmente, o antigo edifíco (que passou a albergar a
representação da AEMO em Nampula), e antes da inauguração do atual.
137
Figura 3: Novo edifício da BPPN: vista frontal.
Figura 4: Novo edifício da BPPN: sala de leitura geral.
Como se pode ver na figura 3, o antigo edifício dispunha apenas de um
“alependre” que servia de sala de leitura comum, com capacidade de cerca de
20 a 30 leitores. Estima-se que a atual sala de leitura geral da BPPN tenha
uma capacidade para 150 leitores simultâneos. Além desta sala, existe uma
outra, mais restrita, denominada “sala de investigação”, que deve suportar
cerca de 20 leitores/”investigadores” simultaneamente. A sala de leitura infantil
tem a capacidade de mais ou menos 50 leitores, em simultâneo. As salas de
leitura infantil, de informática, incluindo a “sala de investigação” constituem,
entretanto, as grandes novidades da nova infraestrutura da BPPN. Estima-se
que a sala de informática tenha a capacidade de 25 computadores. Contudo,
durante a nossa pesquisa de campo, talvez porque a BPPN não tinha sido
138
inaugurada ainda, a sala de informática não tinha sido equipada e estava
fechada. E, segundo o nosso entrevistado, essa sala seria equipada com o
apoio da empresa moçambicana de telefonia móvel, Moçambique Celular
(mcel) 96, sem certeza, no entanto, se seria a mesma instituição a garantir a
assistência técnica e manutenção do equipamento e treinamento dos
profissionais da BPPN para o seu manuseio.
A BPPN tem um total de 32 funcionários, cujo perfil, em termos de
escolarida é o seguinte: 3 técnicos superiores N1 (graduados) em Ciências de
Educação; 3 técnicos superiores N2 (bacharéis), sendo 1 formado em Inglês e
outro em História; 2 técnicos profissionais formados no Instituto Médio de
Ciências Documentais (CIDOC); 3 técnicos adminstrativos; 15 técnicos; e sete
7 serventes/auxiliares. Nestes termos, podemos afirmar que apenas 2
funcionários da BPPN são “realmente” bibliotecários, porquanto têem uma
formação na área pelo CIDOC.
Os restantes funcionários da BPPN não têm uma formação específica
nas áreas de bilioteconomica e/ou ciênca da inforamção e documentação.
Apenas têm se beneficiado de cursos báscios e/ou seminários de curta
duração sobre técincas documentais ministrados ou pela Biblioteca Nacional de
Moçambique (BNM), pelo Fundo Bibliográfico para Língua Portuguesa (FBLP)
e/ou mesmo pelo CIDOC. O CIDOC é uma instituição subsidiária do FBLP,
vocacionada a formação de documentalistas de nível técnico médio, que
funciona desde o ano lectivo de 1998/9997. O curso de formação no CIDOC
tem a duração de 3 anos. Em 2003, o FBLP iniciou um programa denominado
Convergindo, que consiste na “realização de encontros entre os trabalhadores
de unidades de documentação e informação como os arquivos, as bibliotecas,
os centros de documentação e informação e os museus”. O intervalo de tempo
para a realização desses encontros é de 5 anos.
96
A Moçambique Celular (mcel) é a primeira empresa de telefonia móvel criada em
Moçambique. Fundada em Novembro de 1997, a mcel é a única operadora que assegura a
cobertura de Norte a Sul de Moçambique, através de mais de 750 antenas. Em meados do
mês de março de 2010, a mcel possuia mais de 3 milhões de clientes em todo o País,
representando uma quota de mercado estimada em 70%. Disponível em: <
http://www.mcel.co.mz/content/view/560/666/lang,pt_PT/>. Acesso em: 20.nov.2010. Para
além da mcel
97
Disponível em: . Acesso em:
12.out.2010.
139
Assim, o primeiro encontro foi realizado em 2003, em Maputo, e “serviu
de catalisador para o estabelecimento do que hoje se chama o programa
Convergindo”; recomendou-se, entre outras ações, a sua extensão às outras
províncias do país. O segundo Convergindo, entretanto, realizado em 2008,
também ocorreu em Maputo, e teve como lema “A Construção da Sociedade
da Informação em Moçambique”. Por outro lado, em 2004, o FBLP iniciou o
Convergindo Regional, composto por dois momentos que se completam: o
Curso Básico de Técnicas Documentais, administrado pelo CIDOC, com a
duração de sete dias, e um encontro de dois dias em que se debatem
diferentes questões que preocupam os profissionais das unidades
documentais.
Em 2009, teve início na cidade de Pemba, o segundo cíclo de
Convergindo Regional, cobrindo a região norte de Moçambique (Cabo Delgado,
Nampula e Niassa), onde teve lugar o 4º Curso Básico de Técnicas
Documentais e o 1º Encontro Regional de Bibliotecas Públicas e Escolares e,
em Chimoio, em Setembro de 2010, o 5º Curso e o 2º Encontro Regional, com
a participação de trabalhadores das bibliotecas das províncias de Manica,
Sofala, Zambézia e Tete (região centro) (Issak; Mola, 2010).
Não obstante, a grande maioria dos funcionários vinculados às unidades
de informação e documentação em Moçambique, incluindo as bibliotecas
públicas provinciais, continua sem formação específica para trabalhar na área.
Concorrem, pelo menos, duas razões esse fato: a primeira, é que até em 2009,
ano que teve início o curso superior de Ciência da Informação, na Escola de
Comunicação e Artes, da Universidade Eduardo Mondlane98, o CIDOC era a
única instituição de formação, em nível técnico médio, nessa área. A segunda
razão refere-se ao fato de tanto o curso do CIDOC (médio) quanto o da UEM
(superior) estarem localizados/concentrados na capital do país, cidade de
Maputo, compromentendo, assim, as possibilidades de acesso dos
profissionais de outras províncias, incluindo os da BPPN.
Entretanto, a BNM, órgão a quem compete orientar técnica e
metodologicamente às BPP, promoveu, em setembro de 2010, um seminário
nacional com diretores, profissionais e gestores de bibliotecas públicas
98
Sobre o curso superior de Ciência da Informação da Universidade Eduardo Mondlane,
ver: Moura e Silveira (2008b).
140
provinciais e distritais que teve lugar na cidade de Angoche, província de
Nampula, com o objetivo de discutir “formas para a melhoria da qualidade dos
serviços prestados ao cidadão e do ensino na aquisição da Ciência e Técnica” .
Um dos assuntos colocados em pauta no referido seminário, e que se
mostrou de consenso entre os presentes, foi o fato de haver em Moçambique
produção e circulação de muita informação e material bibliográfico que não
passa pelas bibliotecas públicas. Por isso, na mesma ocasião, foram exortadas
a sociedade civil, empresas editoras, e outras instituições públicas e privadas a
“ofertarem livros às bibliotecas públicas” (Notícias, 14/09/2010)99.
Segundo Roque Félix, diretor da BNM citado pelo Jornal Notícias
(op.cit.), a explosão de estabelecimentos de ensino no país, nos diversos
níveis, deve ser acompanhada por uma assistência técnica e por uma
regulação do funcionamento das bibliotecas públicas provinciais e distritais, o
que passa igualmente pelo respectivo apetrechamento em livros e obras
literárias nessas instituições. Entretanto, a afirmação desse dirigente, evidencia
uma visão de desenvolvimento do acervo das BPP restrito apenas aos livros
escolares e/ou obras literárias, em detrimento da informação de domínio
público e/ou orgânica –, relevante para a cidadania, como por exemplo, a
Constituição de República de Moçambique; os programas e estratégias de
desenvolvimento do governo (PARPA, Planos Quinquenais do Governo e
Programas e Orçamento Anuais dos Governos central e provinciais) e da
sociedade civil (a Estratégia 2025).
O acervo da BPPN, que se estima em mais de 10 mil
exemplares/registros, é, na sua grande maioria, composto por livros didáticos e
enciclopédicos que cobrem as áreas de política, econômia, sociedade, Direito,
Meio Ambiente, Saúde Reprodutiva e HIV/Aids e de cultura geral. Também
fazem parte do acervo da BPPN, também, exemplares de edições de
praticamente todos os jornais (diários e semanais) de circulação na província e
cidade de Nampula, entre eles, o Notícias, Diário de Moçambique, Desafio,
Wampula Fax, Zambeze, Savana, e O País. São escassos, entretanto,
documentos orgânicos e reguladores das instituições públicas nacionais/locais,
sobre direitos e deveres dos cidadãos.
99
Disponível em:
.
Acessado em: 14.set.2010.
141
Segundo o nosso entrevistado, o acervo da BPPN provêm da compra e
doações. A compra é suportada por fundos do Estado e as doações são feitas
por algumas ONGs que trabalham na província. Apesar de ter se referido que o
acervo da BPPN abarcava um pouco de todas áreas, o nosso entrevistado
lamentou a falta de informações atualizadas e o moroso processo de aquisição
de material com que aquela biblioteca tem se deparado. Em geral, o material
bibliográfico da BPPN é adquirido anualmente, excetuando as doações das
referidas ONGs e outras instituições, sobretudo estrangeiras.
A Helpo e a Agência das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) foram
referidas como instituições que têm doado material bibliográfico para a BPPN.
A Helpo é uma ONG para o desenvolvimento, sem fins lucrativos, de Direito
Português, fundada a 26 de novembro de 2004. Em Moçambique a Helpo está
presente nas províncias de Nampula e Cabo Delgado100 . E, dentre outras
formas de intervenção na província de Nampula, a Helpo fornece apoio em
equipamento não especificado e material bibliografico infanto-juvenil a BPPN.
Em 2010, a HELPO equipou, com mais de 350 livros e cerca de 20 caixas de
jogos, a sala infantil da BPPN101.
O apoio que a BPPN recebe do UNICEF não foi especificado pelo nosso
entrevistado. Sabe-se, entretanto, que o Programa de Cooperação do UNICEF
com o Governo de Moçambique baseia-se em quatro prioridades:
sobrevivência da criança, educação básica com foco na
rapariga, resposta ao HIV/SIDA e protecção da criança (grifo nosso)102.
Assim, na área da educação o UNICEF trabalha com o ministério de tutela em
Moçambique e outras organizações nacionais moçambicanas na provisão de
materiais de ensino-aprendizagem, incluindo material didático, carteiras,
cadeiras e reabilitação de salas de aula, “para assegurar que todas as crianças
em Moçambique tenham acesso à uma educação básica de qualidade”. É,
provalvemente, dentro desse quadro de ações que a UNICEF presta apoio a
BPPN.
Das instituições nacionais, para além da mcel, a BPPN recebe apoio
e/ou mantém relações com os Ministérios da Educação (MINED), através da
100
Disponível em: . Acessado em: 12.out.2010.
101
Jornal Wamphula Fax, 30.dez.2010.
102
Disponível em: . Acesso em:
12.out.2010.
142
Direção Provincial de Educação de Nampula (DPEN), do qual recebe apoio
técnico e material didático/bibliográfico (que constitui a grande parte do acervo
da BPPN); e o da Ciência e Tecnologia (MCT), do qual recebe apoio em
equipamento informático e formação. Mantém, também relações com outras
bibliotecas públicas provincias como são os casos das BPPs de Sofala (Centro),
Cabo Delgado e Niassa (Norte), com as quais estabelece troca de experiências
técnicas e de apoio em material bibliográfico.
Vale lembrar, que ao nível províncial o MCT, através da UTICT, tem os
CPRDs como unidades implementadoras da política da sociedade da
informação em Moçambique. Entretanto, o Gestor do CPRD em Nampula
referiu, numa entrevista com o autor do presente trabalho, que não havia
nenhuma relação institucional entre aquele centro e a BPPN. Pode ser que o
apoio que a BPPN recebe do MCT seja canalizado diretamente à biblioteca e
não por intermédio do CPRD.
Igualmente, a BPPN não mantém relações com algumas instituições
domiciliadas e/ou representadas na província de Nampula, que no âmbito desta
pesquisa foram consideradas relevantes e/ou potenciais nos campos da
inclusão informacional e da cidadania. São os casos das delegações
provinciais da Liga de Direitos Humanos (LDH) de Moçambique e da
Associação Moçambicana de Promoção da Cidadania (AMOPROC). A
AMOPROC é uma ONG nacional, sem fins lucrativos, constituída juridicamente
em 2003, por docentes, estudantes e membros das comunidades locais.
“Posiciona-se como uma organização que visa consolidar a Democracia e
promover a Justiça Social com envolvimento de um maior número possível de
cidadãos, usando ferramentas participativas e de Advocacia Social no contexto
Local, Nacional e Regional” 103.
O estabelecimento de relações com essas instituições, quiçá, amplia as
possibilidades daquela biblioteca na mediação e inclusão informacionais, uma
vez que tais instituições, sobretudo a LDH, produzem e dispõe de informações
relevantes (Constituição da República, Convenção dos Direitos da Criança,
Convenção dos Direitos dos Jovens; Convenção sobre a Corrupção;
Declaração Universal dos Direitos Humanos, esta última em emakhua, entre
outros) para a cidadania em Moçambique.
103
Disponível em: . Acessado em: 08.maio.2009.
143
5.2.2.2.2 Atuação informacional da BPPN: um desafio no contexto da
sociedade da informação em Moçambique
Para estimar a importância das bibliotecas públicas, afirma Murison
(1971, p.222) em seu livro The Public Library, é necessário analisar o que
essas instituições estão fazendo para obter da sociedade níveis ou padrões de
aceitação, e para impulsionar condições sociais, políticas, culturais e
intelectuais da comunidade onde elas estão inseridas. É necessário considerar,
de acordo com Murison, como os fins dessas instituições podem ser ajustados
aos seus objetivos e, se necessário, atender aos novos desafios e
circunstâncias.
A BPPN, objeto empírico do presente estudo, é uma biblioteca normativa
das restantes bibliotecas públicas ao nível da província, ou seja, assiste e é
referência de uma rede de 80 bibliotecas distribuídas pelos diversos distritos e
postos administrativos da província de Nampula. Desse número, entretanto, 60
(75% da rede) foram transformadas em bibliotecas escolares, para dar apoio
ao processo de ensino-aprendizagem nos distritos, e apenas 20 (25% da rede)
continuam servindo a comunidade em geral, estando atreladas, principalmente,
a instituições de caridade (igrejas). Dos 21 distritos existentes na província de
Nampula, apenas cinco (5) distritos possuem bibliotecas distritais, entre eles,
Angoche, Ilha de Moçambique, Monapo, Eráti, e Nacala Porto, portanto, uma
cobertura de apenas 1.05% do total dos distritos.
O presente trabalho, apesar de considerar, em alguns momentos, a
atribuição da BPPN como biblioteca normativa para as restantes bibliotecas
públicas ao nivel da província, analisou apenas os serviços dessa institituição
na cidade de Nampula (cidade capital), considerando a sua atuação
informacional, sem, no entanto, desconsiderar outros serviços desenvolvidos
pela instituição.
Considerando o quadro dos objetivos e atribuições da BPPN, conforme
estabelecido pelo Decreto 46/2007 – de 10 de outubro –, a pesquisa de campo
constatou que para além de questões técnico-administrativas pertinentes –,
essa biblioteca tem privilegiado, em larga medida as atividades de (i) apoio aos
processos de ensino-aprendizagem e investigação; (ii) promoção do livro e do
hábito de leitura; e (iii) disseminação da informação jornalística.
144
Há uma predominância de atividades voltadas ao atendimento, quase
que exclusivamente, das necessidades informacionais de alunos dos ensinos
secundário e/ou universitário. Dados confirmados pela BPPN revelam, inclusive,
que alunos de diversos níveis de ensino e a camada juvenil (na faixa dos 15 a
35 anos) constituem os principais usuários daquela biblioteca. Com a
inauguração da sala de leitura infantil, frequentam, também, crianças, que são
normalmente acompanhadas pelos mais velhos. Segundo o nosso
entrevistado, a sala de leitura infantil é frequentada por 50 crianças, em média
diária.
Igualmente, os estudos sobre necessidades informacionais de usuários
da BPPN, feitos por essa mesma instituição, têm sido geralmente dirigidos às
escolas, faculdades e outros estabelecimentos de ensino existentes na cidade
de Nampula, e não a todos os potenciais usuários da biblioteca (para além das
crianças e jovens que não freqüêntam a biblioteca, os adultos, trabalhadores,
desempregados, donas de casa, entre outros), o que implica na parcialidade da
biblioteca pública enquanto espaço público –, ou seja, no conceito de biblioteca
pública baseado na igualdade de acesso à informação e conhecimento,
independentemente do grau de escolaridade, status social, idade, raça, sexo,
preferência política ou religiosa, etc.
Vale ressaltar, igualmente, as chamadas “tardes culturais”, promovidas
anualmente pela BPPN, e que consistem na exposição do material literário
existente nas bibliotecas (provincial e distritais), e na declamação de poemas
em forma de concurso. Contudo, desde seu início, as referidas “tardes
culturais” foram realizadas apenas na cidade de Nampula, e nos distritos de
Angoche e Monapo, perfazendo, portanto, um alcance de apenas 0.63%, dos
21 distritos existentes na província de Nampula.
De qualquer modo, entende-se que a prioridade de atividades vinculadas
ao processo educativo na BPPN reflete, por um lado, a carência de material
bibliográfico nas bibliotecas escolares existentes, e, por outro lado, a
concepção que se tem das bibliotecas públicas em países como Moçambique.
Em outras palavras, de acordo Martins104 (2002 apud Dias, 2007, p.129), se
nos países ocidentais mais desenvolvidos (Inglaterra, Alemanha, Dinamarca,
104
MARTINS, Wilson. A palavra escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca. São
Paulo: Editora Afiliada, 2002.
145
Holanda, França, incluindo Estados Unidos da América do Norte, por exemplo),
as bibliotecas se tornaram públicas no sentido pleno da palavra, “na África
negra, ao contrário, o papel primordial da biblioteca pública é o de
contribuir para o esforço nacional de educação” (grifo nosso).
Nos países mais desenvolvidos, reforça Milanesi (1997, p.107), as
bibliotecas públicas evoluíram ao desenvolvimento da sociedade como um
todo. Porém, nos países menos desenvolvidos, como Moçambique, essas
instituições “estancaram em sua definição ao pé da letra: um acervo literário.
Só”. Nos países africanos, entretanto, essa situação é corolário da herança de
analfabetismo e iliteracia no seio da sua população no período a seguir às
independências nacionais; e das altas taxas de analfabetismo que ainda
prevalecem em muitos países do continente. No caso específico de
Moçambique, basta lembrar, conforme os dados apresentados no subitem
4.1.2, que apenas 38.7% da população adulta (15 anos e mais) é alfabetizada.
Assim, a predominância de atividades educativas (apoio ao processo de
ensino-aprendizagem e promoção do hábito de leitura) na BPPN pode ser
justificada em função dos fatores expostos acima e, especialmente, em função
dos esforços do Governo moçambicano em alcançar os ODM, mormente “o
ensino básico universal” (ODM 2). Em torno desse objetivo, alguns dos
desafios que prevalecem em Moçambique dizem respeito a falta de
professores qualificados, escassez de vagas, falta de salas de aulas e
biliotecas melhoradas nas escolas públicas, elevados índices de reprovações e
a falta de eqüidade de género (em conseqüência do abandono da escola pela
rapariga).
Um relatório sobre os ODM em Moçambique, apesentado pelo PNUD
em 2006, refere que as meninas continuam sendo as que mais reprovam,
repetem e desistem da escola no país. Esse fato foi reconhecido no Programa
Quinquenal do Governo (2005-2009), que apontou para a importância e
urgência de, entre outros, se “promover maior efectividade e eficiência dos
serviços da educação e se elevar a sua qualidade, reduzir as desistências e
repetências e assegurar a redução das disparidades de género” (apud PNUD,
2006, p.47).
Não obstante, em 2010, ao nível da província de Nampula,
particularmente, o ano letivo escolar arrancou com um déficit de cerca de cem
146
(100) professores, sendo que o número de vagas criadas pelo setor de
educação na província nesse ano letivo ultrapassou os 1.140 mil para o ensino
básico, secundário geral e técnico profissional. Apesar de se ter registrado um
crescimento do corpo docente na ordem de 16%, que passou de 14.085 mil em
2009 para 16.272 mil em 2010, o déficit de 100 professores acima referido
sinalizou o comprometimento das promessas do Governo provincial em
melhorar a qualidade de ensino105.
Quanto as salas de aulas, do total de 9. 495 mil unidades existentes
nesse ano, cerca de 5.333 mil foram edificadas com base em material não
convencial, isto é, à base de paus, estacas e com cobertura de capim. Em
termos de material bibliográfico, em 2010, foram distribuídos gratuitamente nas
escolas de Nampula, 2.180.577 mil livros contra o planificado de 2.447.380 mil,
o que representa 89% do nível de execução do plano da província (ibiden).
Nesse quadro, e retomando a nossa análise sobre a atuação BPPN,
podemos afirmar que para além da visão e prioridades dos respectivos
dirigentes (que priorizam material escolar e/ou literário) sobre o
desenvolvimento de acervo, os esforços em prol do alcance dos ODM, o déficit
de material bibliográfico e de bibliotecas escolares, explicam, em parte, a
predominância de atividades voltadas para fins educacionas, de apoio aos
processos de ensino-aprendizagem e de promoção do hábito de leitura na
BPPN. Nesse sentido, portanto, é grande a utilidade da BPPN para a
população estudantil local, em todos os níveis (primário, secundário, pré-
universitário e universitário).
A utilidade da BPPN foi, também, observada em termos de acesso
público à informação jornalística. Nesse setindo, localmente, a BPPN é
considerada um espaço privilegiado de acesso público à informação. A
população estudantil, pesquisadores, jovens e alguns adultos são os principais
usuários desse tipo de informação na BPPN. Segundo o nosso entrevistado, os
primeiros (estudantes e pesquisadores) demandam por informações sobre os
seus trabalhos escolares e/ou de pesquisa; e os segundos, sobretudo jovens e
105
Jornal @verdade, segunda-feira, 18 de janeiro de 2010. Disponível em: <
http://www.verdade.co.mz/nacional/7991-nampula-longe-da-qualidade-de-ensino>. Acesso
em 22.nov.2010.
147
adultos desempregados demandam por informação utilitária106 sobre vagas
e/ou concursos para emprego, publicações oficiais/legais (Boletins da
República), cultura e lazer.
Entretanto, considerando o contexto de construção da sociedade da
informação no país, observou-se que a atuação informacional da BPPN, ou
seja, a sua configuração em um espaço público de disseminação, mediação e
inclusão informacionais constitui ainda um desafio a enfrentar. Trata-se de um
desafio que passa por considerar e reforçar, respectivamente, as
potencialidades e o papel da BPPN como um espaço privilegiado de acesso
público à informação e sua contribuição no processo de construção e
desenvolvimento da cidadania.
Para além do contexto mais amplo de construção da sociedade da
informação em Moçambique, as particularidades sociodemográfica e política da
província de Nampula, referidas no subitem 5.2.2.1, – e, mais especificamente,
as mudanças institucionais que a BPPN registrou após a aprovação do Decreto
46/2007 – de 10 de outubro –, reforçam a necessidade de se abranger novos
perfis de usuários, de se criar e/ou retomarem serviços e ações capazes de
estreitar os vínculos dessa a biblioteca com a comunidade local.
Por exemplo, o nosso entrevistado fez referência a um serviço de
extensão que a BPPN desenvolveu durante a década de 1990, que consistia
nas chamadas “bicicletas-biblioteca”, e que por esse meio (bicicleta) a
biblioteca divulgava e aproximava seus serviços a todos os Postos
Administrativos da cidade de Nampula. Trata-se, portanto, de uma experiência
de aproximação entre a BPPN e/ou seus serviços com a comunidade local,
uma experiência que essa biblioteca pode e deve retomar. Na realidade atual,
quiçá não somente com recurso a bicicletas, mas também com recurso a
carros-biblioteca.
Cabe ressaltar, que a cidade de Nampula, que desde 1998 constitui um
município, é a capital da província mais populosa de Moçambique. Com uma
população estimada em 413.929 (Censo de 2007), ocupando uma área de 404
106
Por informação utilitária entende-se toda informação que auxilia na solução de
problemas que aparecem no cotidiano das pessoas, desde os mais simples aos mais
complexos. Aquela informação que abrange, por exemplo, assuntos ligados à educação,
emprego, legislação, direitos humanos, saúde, segurança, e outros (Campello, 1998,
p.35).
148
km2, é formada por seis (6) postos administrativos que englobam e dezoito (18)
bairros. O quadro 1, abaixo, mostra, com alguns detalhes, a divisão
administrativa da cidade de Nampula.
Quadro 1: Divisão Administrativa da cidade de Nampula
Postos Administrativos urbanos Bairros
Central Bombeiros; 25 de Setembro; 1 de Maio;
Limoeiros; Liberdade; Militar
Muatala Muatala; Mutauanha
Muhala Muhala; Namutequeliua; Muahivire
Namicopo Namicopo; Mutava-Rex
Napipine Napipine; Carrupeia
Natikiri Natikiri; Murrapaniua; Marrere
Fonte: Araújo (2005, p.213).
A BPPN está localizada na fronteira entre os bairros de Muhala (Posto
Administrativo urbano de Muhala) e Bombeiros (Posto Administrativo urbano
Central). De acordo com Araújo (op.cit), o Posto Administrativo urbano Central
constitui o centro geográfico, econômico, administrativo e urbano da cidade de
Nampula, e corresponde a „cidade de cimento„, onde se situam as principais
infraestruturas econômicas, sociais e administrativas. O Posto Administrativo
urbano de Muhala, localizado a sudeste da cidade de Nampula, engloba os
dois bairros mais populares e conhecidos da cidade, nomeadamente, Muahivire
e Namutequeliua. E, juntamente com os restantes Postos Administrativos
urbanos (Namicopo, Napipine, e Natikiri) cerca o Posto Administrativo urbano
Central e constitui a „cidade caniço‟, atualmente em plena transformação e
expansão.
Uma das características importantes da cidade de Nampula, de acordo
com o autor citado acima, é o crescimento rápido da sua população. Por
exemplo, de 1970 (cinco anos antes da independência nacional) a 1997, a
cidade sextuplicou a sua população. Ou seja, se em 1970, a população da
cidade de Nampula era apenas de 23.072 residentes; em 1980, já viviam na
urbe 1445.722 habitantes, correspondendo a 6.5% da população da província,
e a uma taxa de crescimento de 20.2%. Em 1991, a cidade de Nampula tinha
149
232.167 habitantes. Em 1997, os resultados do II Recenseamento Geral da
População (Censo 1997) indicaram uma população de 303.346 habitantes na
cidade Nampula, representando 10.2% da população residente na província.
Atualmente, segundo os resultados do Censo 2007, residem na cidade de
Nampula, 413.929 habitantes, o equivalente a 16.5% da população total da
província (INE, 2010; Araújo, 2005, p.214).
Aliada a essa característica, a posição sócio-política peculiar da
província de Nampula reforça a necessidade de uma atuação informacional
mais abragente e dinâmica da BPPN; uma atuação capaz de posicionar essa
instituição no centro dos processos de mediação e inclusão informacionais,
contribuindo, assim, para a participação dos cidadãos no processo de
construção da sociedade da informação no país. Em outras palavras, e
contextualizando a fala de Suaiden (2000, p.60) supõe-se, nesse sentindo, que
[...] à medida que a biblioteca pública se vincular
adequadamente com a comunidade, ela passará a ser o
caminho que possibilitará a participação efetiva na sociedade
da informação. Isso é de extraordinária importância em um
país onde a desinformação atinge altas proporções, e, sem
essa oportunidade, milhares de pessoas jamais terão
oportunidade de entender e de ter noção dos seus direitos e
deveres em uma sociedade globalizada, pois o acesso à
informação, nos novos tempos, significa o investimento
adequado para diminuir as desigualdades sociais e [novas]
formas de dominação [...].
Como vimos acima, a província de Nampula (à semelhança do país
como um todo) não escapa da categoria de província com alto nível de
desinformação, sem uma cultura sólida de leitura e informação,
conseqüentemente, com um nível extremamente baixo de exercício de
cidadania no seio da população107.
A BPPN, como já foi mencionado, é um espaço privilegiado de acesso
público à informação ao nível da cidade de Nampula, para além de constituir a
biblioteca de referência e normativa das restantes bibliotecas na província.
Entretanto, ao restringir a sua atuação ao âmbito de uma biblioteca escolar,
privilegiando apenas atividades de promoção da leitura e apoio ao processo de
ensino aprendizagem, exime-se de dar a sua contribuição como veículo para a
participação da população na construção da sociedade da informação no país.
107
Veja-se Mattes e Shenga (Op. cit.).
150
Assim, será necessário que a BPPN considere e dinamize seus
objetivos e atribuições, mormente contribuir para a disseminação da
informação e organizar palestras e debates sobre temas diversos
(Moçambique, 2007) se posicionando, como fizemos menção acima, no centro
dos processos de inclusão e mediação informacionais, processos de promoção
da participação dos cidadãos nesse contexto
Para tanto, é imprescindível que a BPPN atue de forma conjunta e
coordenada com outras instituições, públicas e privadas, ONGs e
Organizações da Sociedade Civil (OSCs) relevantes nos campos da
informação e cidadania. É imprescindível, recorrendo às palavras de Carvalho
e Kaniski (2000, 37), o compartilhamento de recursos informacionais, o
trabalho em rede108, entre a BPPN e outras instituições relevantes no campo
da inclusão informacional e cidadania, minimizando pontos deficitários e
eliminando barreiras. Nesse sentido, as TIC representam a possibilidade mais
concreta para expandir a cooperação interinstitucional e com isso ampliar e
diversificar os pontos de acesso à informação. Portanto, para assumir a
posição de provedora de acesso à informação, a BPPN precisa rever seus
processos, repensando a dimensão dos serviços e produtos desenvolvidos.
Por exemplo, urge a necessidade de a BPPN, em cumprimento das
diretrizes da IFLA e considerando o contexto de construção da sociedade da
informação em Moçambique, se fazer presente na web. Trata-se, segundo a
IFLA, de um caminho para colocar os serviços da biblioteca pública no século
XXI, através do recurso às novas TICs. A IFLA sublinha a necessidade de as
bibliotecas públicas criarem uma sabedoria global – World Wide Wisdom –,
conhecimento e entendimento capazes de transpor barreiras ao diálogo entre
diferentes culturas. De fazer da biblioteca pública um espaço de encontro da
comunidade, no qual coexistam os papéis de biblioteca, arquivo, museu e
centro de cultura, criando a “biblioteca combinada” (IFLA/UNESCO, 2009, p.1-
2).
108
O uso da metodologia de análise de redes sociais para a compreensão do fenômeno do
acesso à informação e sua importância para o desenvolvimento sócio-político, econômico e
cultural de comunidades, grupos sociais e instituições vem se difundindo rapidamente, nos
últimos anos, trazendo contribuições significativas, inclusive, para a Ciência da Informação. As
As redes são entendidas aqui como sistemas compostos por “nós” e conexões entre eles que,
nas ciências sociais, são representados por sujeitos sociais (indivíduos, grupos, organizações
etc.) conectados por algum tipo de relação (Marteleto; Silva, 2004). Ver também:
151
Nesse sentido, se faz necessário o estreitamento das relações entre a
BPPN e o CPRD, pois, este último, como já foi referido, tem por objetivos
promover o acesso amplo à infraestrutura das TICs e à Internet, e à informação
entre os Governos provinciais e Administrações distritais, organizações
públicas, privadas, cívicas e comunitárias, e os cidadãos em geral. Em se
tratando de um espaço privilegiado de acesso público à informação ao nível
local, a BPPN deverá buscar se munir da infraestrutura da TICs e Internet,
permitindo, assim, que os cidadãos tenham acesso a essas infraestruturas e
suas vantagens no contexto da sociedade da informação.
É imperioso, também, que recursos humanos da BPPN estejam
preparados para este desafio e tenham ciência do seu importante papel na
formação de sujeitos cidadãos, através da disseminação, inclusão e mediação
informacionais. Nesse sentido, há que se ultrapassar a visão de que a
informação a ser disseminada pela BPPN é a que é produzida apenas pelos
órgãos de comunicação social (jornais), enciclopédica, literatura e material
escolar. Deve-se assumir, portanto, o desafio de disseminar, igualmente, a
informação de domínio público e/ou orgânica, aquela informação produzida
pelo Legislativo (Boletins da República), pelos Governos central, provincial,
distrital e municipal (programas quinquenais, planos e orçamentos anuais,
entre outros). É essa informação, que de acordo com Uhlir (op.cit) concorre
para a “„transparência‟ da governança e a promoção dos ideais democráticos:
igualdade, democracia e abertura”, portanto para a promoção e
desenvolvimento da cidadania.
152
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando o contexto de construção da sociedade da informação
em Moçambique, a presente dissertação buscou analisar o papel e os desafios
da biblioteca pública provincial nos campos da informação e cidadania nesse
contexto.
Iniciado em 2000, com a aprovação da Política de Informática, o
processo de construção da sociedade da informação em Moçambique assumiu
caracteristicas de determinismo tecnológico ao atribuir prioridade, em sua
estratégia de implementação, aprovada em 2002, a projetos vinculados
apenas a utilização das TIC: Centros Provinciais de Recursos Digitais – CPRD,
extensão da infra-estrutura tecnológica e, particularmente um conjunto de
aplicações voltado para a arquitetura da Rede Electrónica do Governo
(GovNet).
Assim, formalmente, os aspectos sóciopolíticos e culturais da
informação, considerados nesta pesquisa como sendo relevantes para a
materialização e/ou desenvolvimento dos direitos e deveres de cidadania não
fazem parte das prioridades no âmbito da construção da sociedade da
informação em Moçambique.
Os relatórios da Unidade Técnica de Implementação da Política de
Informática (UTICT) focalizam apenas questões inerentes à infraestrutura
tecnológica, mais especificamente, à Rede Electrónica do Governo. Os CPRD,
estabelecidos pela UTICT em coordenação com os governos provinciais para
implementar programas e projetos no âmbito das seis (6) áreas prioritárias da
Política de Informática (educação; desenvolvimento de recursos humanos;
saúde; acesso universal; infra-estrutura nacional de suporte às TIC;
Governação) persseguem atividades comerciais de formação em informática,
designadamente, os cursos de MS Windows e Office, Windows Profissional,
MS Word 2003, Excel 2003, Power point 2003, Internet e E-mail; e de
arquitetura de redes e programas informáticos (Hardware e Software) para
empresas, cobrando valores que vão de 1150 MT (mil cento e cinquenta
meticais, o equivalente a cerca de cinquenta e sete reais e cinco centavos, ao
câmbio de 7 de dezembro de 2010) a 7500 MT (sete mil quinhentos meticais, o
equivalente a cerca de trezentos e setenta e cinco reais, ao câmbio de 7 de
dezembro de 2010).
153
Portanto, trata-se de uma situação que denuncia a prevalência de
critérios tecnológico e econômico no processo de implementação dessa
sociedade em Moçambique.
Em face da ausência de um domínio público de acesso à informação e
às TIC no âmbito da política e estratégia de implementação da sociedade da
informação em Moçambique, a presente pesquisa considerou a biblioteca
pública provincial como institução com grande pontecial para propiciar
condições adequadas de acesso e uso da informação e das novas TIC, e,
desse modo, capaz de contribuir para a participação e reforço da cidadania
nesse contexto.
Assim, buscou analisar e discutir a política e atuação informacional
dessa instituição. Nesse sentido, foi discutido o caráter exclusivo de algumas
políticas nacionais que definem e/ou influênciam a ação da bibliotecas pública
provincial. Trata-se da (i) Política Cultural e sua Estratégia de implementação;
(ii) Política e Estratégia de Informação; e da (iii) Política de Informática. Esta
última, como foi referido acima, considerada o quadro de referência para o
“desenvolvimento [...] da sociedade de informação em Moçambique”.
A análise revelou, por um lado, que a Política e Estratégia de Informação
– aprovada pelo Conselho de Ministros através da Resolução nº 3/97 de 18 de
fevereiro –, exclui e ignora completamente o papel da biblioteca pública
provincial, porquanto seu escopo se restringe apenas ao âmbito da liberdade
de imprensa e dos órgãos de comunicação social. Por outro lado, a Política de
Informática e sua estratégia de implementação, aprovadas, respectivamente
em 2000 e 2002, reproduzem a concepção cultural da biblioteca pública
provincial vigente na Resolução no. 12/97, de 10 de junho – que aprova a
Política Cultural e Estratégia de sua implementação.
Assim, considerou-se que no âmbito das políticas citadas acima a
biblioteca pública provincial desempenha a função exclusiva de difusão de
livros e de outros materiais de “estudo e deleite”. Não é atribuída a essa
instituição a função informacional, ou seja, a dimensão de um espaço público
de disseminação, mediação e inclusão informacionais e, dessa forma, de apoio
ao desenvolvimento da cidadania.
154
Essa concepção política da biblioteca pública tem gerado críticas de
autores como Nharreluga (2006; 2009), que corrobora a visão segundo a qual a
exclusão da componente informacional no quadro das funções não só das
biblioteca pública provincial como também de outras unidades de informação
(arquivos, centros de documentação e informação, etc) revela “uma forma
institucionalizada de controle estatal”, de manutenção das assimetrias de
acesso aos recursos informacionais entre o Estado e a sociedade civil, já que a
concepção dessas unidades apenas em sua dimensão cultural não viabiliza
uma ação de espaços de acesso à informação de domínio público, e, por
consegüinte, potencialidades e condições básicas para o desenvolvimento e
participação sócio-política dos sujeitos enquanto cidadãos.
Do ponto de vista de políticas públicas de informação, a situação das
unidades de informação em Moçambique, incluindo da biblioteca pública
provincial denuncia a perspectiva conceitual e institucional restrita ao âmbito da
comunicação social e de liberdade de imprensa com que foi estabelecida, por
exemplo, a chamada “Política e Estratégia de Informação”. Portanto,
desvaloriza-se a ação informacional dos arquivos, bibliotecas, centros de
documentação e informação, etc. e os direitos inerentes ao uso da informação
de domínio públio pelo cidadão comum, estes últimos vinculados apenas aos
orgãos de comunicação social e imprensa.
A política e estratégia de implementação da sociedade da informação
em Moçambique ignoram, também, de forma sucessiva, a dimensão sócio-
política da informação e suas “precárias” e “desarticuladas” estruturas
institucionais. Em face disso, e considerando a aprovação, em 2007, do
Decreto no. 46/2007, de 10 de outubro – que cria as Bibliotecas Públicas
Províncias (BPP) e aprova o respectivo Estatuto em Moçambique –, a pesquisa
elegeu a biblioteca pública provincial de Nampula para um estudo de caso.
Não obstante a manutenção da concepção das bibliotecas públicas
como “instituições públicas de caráter cultural, que tem por objetivo
proporcionar ao cidadão leitura para apoio à investigação, ao processo de
ensino-aprendizagem e auto-formação”, o referido Decreto incorpora a
dimensão informacional no quadro de objetivos e funções a serem
persseguidos por essas instituições no país. É precisamente nessa dimensão
que foi analisada a atuação da biblioteca pública provincial de Nampula.
155
A pesquisa de campo constatou que para além de questões técnico-
administrativas pertinentes –, a biblioteca pública provincial de Nampula
privilegia, em larga medida, as atividades de (i) apoio aos processos de ensino-
aprendizagem e investigação; (ii) promoção do livro e do hábito de leitura; e (iii)
disseminação da informação jornalística.
Ao mesmo tempo, há uma predominância de atividades voltadas para o
atendimento, quase que exclusivamente das necessidades informacionais de
alunos dos ensinos secundário e/ou universitário. Dados confirmados pela
biblioteca pública provincial de Nampula revelam, inclusive, que alunos de
diversos níveis de ensino e a camada juvenil (na faixa dos 15 a 35 anos)
constituem os principais usuários daquela biblioteca. Com a inauguração da
sala de leitura infantil, frequentam, também, crianças, que são normalmente
acompanhadas pelos mais velhos. A sala de leitura infantil é frequentada por
50 crianças, em média diária.
Os estudos sobre as necessidades informacionais de usuários da
biblioteca pública provincial de Nampula, feitos por essa instituição têem sido
geralmente dirigidos às escolas, faculdades e outros estabelecimentos de
ensino existentes na cidade de Nampula, e não à todos os potenciais usuários
da biblioteca (os adultos, trabalhadores, desempregados, donas de casa, entre
outros), o que implica na parcialidade da biblioteca pública enquanto espaço
público –, ou seja, no conceito de biblioteca pública baseado na universalidade,
igualdade de acesso à informação e conhecimento, independentemente do
grau de escolaridade, status social, idade, raça, sexo, preferência política ou
religiosa, etc.
De qualquer modo, a pesquisa revelou uma grande importância da
biblioteca pública provincial de Nampula como um espaço de acesso público à
informação jornalística. Nesse setindo, essa biblioteca é considerada um
espaço local privilegiado de acesso público à informação. A população
estudantil, pesquisadores, jovens e alguns adultos são os principais usuários
desse tipo de informação. Os primeiros (estudantes e pesquisadores)
demandam por informações sobre os seus trabalhos escolares e/ou de
pesquisa; e os segundos, sobretudo jovens e adultos desempregados
demandam por informação utilitária, sobre vagas e/ou concursos para
emprego.
156
Entretanto, considerando o atual contexto de construção da sociedade
da informação no país, será necessário que a biblioteca pública provincial de
Nampula considere e dinamize, também, outros dos seus objectivos e
atribuições, mormente a contribuição para a disseminação da informação de
domínio público e a organização palestras e debates sobre temas relevantes
para a cidadania nesse contexto.
Para tanto, a biblioteca pública provincial deverá ultrapassar a visão
segundo a qual a informação a ser disseminada por ela é restrita apenas
àquela que é produzida pelos órgãos de comunicação social (jornais) e/ou para
fins escolares (material didâtico, enciclopédias, literatura etc.). Deve, portanto,
assumir o desafio de disseminar, igualmente, a informação de domínio público
e/ou orgânica, aquela informação produzida pelo Legislativo (Boletins da
República), Governos central, provincial, distrital e municipal (programas
quinquenais de governo, planos e orçamentos anuais de governos a diversos
níveis, etc). Essa informação concorre para a transparência da governança e a
promoção dos ideais democráticos: igualdade, democracia e abertura, por
conseguinte, para a promoção e desenvolvimento da cidadania.
Apesar das mudanças institucionais observadas na biblioteca pública
provincial de Nampula, mormente a construção de um novo edifício para o seu
funcionamento, os resultados da pesquisa de campo relevaram que a mesma
não mantém relações com algumas instituições domiciliadas e/ou
representadas na província de Nampula, e que no âmbito desta pesquisa foram
consideradas relevantes e/ou potenciais nos campos da inclusão informacional
e da cidadania. São os casos, por exemplo, das delegações provinciais da Liga
de Direitos Humanos (LDH) de Moçambique e da Associação Moçambicana de
Promoção da Cidadania (AMOPROC).
O estabelecimento de relações com essas instituições, quiçá amplia as
possibilidades daquela biblioteca de disseminação, mediação e inclusão
informacionais, uma vez que tais instituições, sobretudo a LDH, produzem e
dispõe de informações relevantes (Constituição da República, Convenção dos
Direitos da Criança, Convenção dos Direitos dos Jovens; Convenção sobre a
Corrupção; Declaração Universal dos Direitos Humanos, esta última em
emakhua, entre outros) para a cidadania em Moçambique, nem sempre
disponível no acervo da biblioteca.
157
Por outro lado, para que a biblioteca pública provincial de Nampula
desenvolva produtos e serviços informacionais relevantes para a cidadania,
será necessário que o Governo, o setor privado, e as Organizações da
Sociedade Civil locais envolvam essa instituição em ações sociopolíticas e
culturais que lhe assegurem condições de oferta desses produtos e
serviços. É possível, como julga a literatura que trata da biblioteca pública
no contexto da sociedade da informação, que à medida que a mesma se
vincular adequadamente com a sociedade, se torne o caminho para a
participação cidadã nesse contexto.
Finalmente, podemos considerar que a presente pesquisa proporcionou
uma compreensão maior das atividades desenvolvidas pela biblioteca pública
provincial de Nampula, seu papel e desafios nos campos da informação e da
cidadania. No entanto, não podemos deixar de reconhecer a necessidade de
futuras pesquisas, capazes de ampliar essa compreensão.
Um dos procedimentos metodológicos propostos na presente pesquisa,
mas que ficou em aberto, referia-se a aplicação de um questionário aos
usuários reais da biblioteca pública provincial de Nampula. O ponto de vista do
usuário, quiçá ampliaria a compreensão do papel e importância socio-
informacional atribuída essa biblioteca. Um estudo futuro deverá, entretanto,
não apenas considerar o ponto de vista do usuário real, mas também o
potencial, com vistas a alargar o universo da avaliação e/ou da importância
atribuida aos serviços oferecidos pela biblioteca. Será interessante, igualmente,
que futuras pesquisas abranjam bibliotecas públicas de outras províncias e/ou
regiões de Moçambique.
158
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175
Apêndice A
ROTEIRO DA ENTREVISTA COM DIRETOR DA BIBLIOTECA PÚBLICA
PROVINCIAL DE NAMPULA
FINALIDADE DA ENTREVISTA: PESQUISA ACADÊMICA
PERFIL DO ENTREVISTADO
Nome (opcional): ___________________
Sexo: M ___ F___
Unidade orgânica
(Departamento/Serviço):__________________________________________
Tempo de trabalho na instituição:
Profissão/Cargo:
Categoria:
Técnico Superior N1 Técnico
Técnico Superior N2 Auxiliar
Técnico-Profissional Servente
Técnico-Administrativo Operário
DADOS SOBRE A INSTITUIÇÃO: BIBLIOTECA PÚBLICA PROVINCIAL
1. Pode nos falar da estrutura da biblioteca pública provincial de Nampula
(BPPN) em termos setoriais?
2. Quantos funcionários trabalham na Biblioteca?
3. Qual é o perfil acadêmico dos funcionários da BPPN? Quantos Técnico
Superior N1/N2? Técnicos-Profissionais? Tecnico-Administrativos? Técnicos?
Auxiliares? Serventes? Operários? Quais são as áreas de formação? Quantos
funcionários tem formação em Técnicas Documentais ou Biblioteconomia?
176
4. Quais são as principas atividades da biblioteca?
5. Que assuntos fazem parte do acervo bibliográfico da biblioteca?
6. Qual é a forma de aquisição (compra, doação, permuta) do material
bibliografico da biblioteca? Se for compra, quem cobre as dispesas (Estado,
instituições financeiras privadas – ONGs, e outros)?
7. Qual é a periodicidade de aquisição do material (livros, jornais, vídeos,
etc.) da Biblioteca?
Diária ___________
Semana__________
Mensal__________
Anual___________
8. Quais são os títulos de jornais que a BPPN recebe? Com que
periodicidade?
9. Do conjunto de material bibliográfico que faz parte do acevo da BPPN,
qual é mais demandado pelos utentes: Jornal? Livros didáticos? Outros?
Quais:____________
10. Em algum momento da história da BPPN o senhor falou de uma rede de
bibliotecas nos distritos, inclusive nas aldeias, que eram assistidas pela BPPN.
Essa rede ainda existe? No momento quantas bibliotecas são assistidas pela
BPPN? Em que distritos? Quais são os serviços desenvolvidos no âmbito
dessa assistência: formação técnica? Difusão de livros? Promoção do hábito
de leitura?
11. A BPPN mantém relações com bibliotecas congêneres, isto é, de outras
províncias do país? Quais? Quais são as atividades desenvolvidas no âmbito
dessa relação?
12. A Biblioteca promove palestras e debates? Com que periodicidade?
Quais são as temáticas potencializadas: saúde, política, educação, cultura,
direitos humanos e cidadania, emprego, etc? Qual é a abrangência dos temas:
locais (%), nacionais (%) e internacionais (%)? Existe algum critério de seleção
das temáticas?
13. A Biblioteca já promoveu alguma palestra sobre o direito à informação
em Moçambique? E sobre a relação entre acesso e uso da informação e
direitos humanos em Moçambique? Qual foi a última palestra promovida na
BPPN? Em que data?
177
14. Qual é o perfil dos usuários da bibliotecas: alunos/estudantes?
Funcionários? Pesquisadores? Como tem sido a relação com os usuários? Em
qual período tem havido maior demanda deles (dos usuários)? Pode descrever
a principal característica (perfil) dos usuários da Biblioteca?
15. Em sua opinião, a Biblioteca tem conseguido satisfazer as necessidades
informacionais dos usuários?
16. A Biblioteca tem feito estudos sobre as necessidades informacionais dos
usuários? E estudos estatísticos de uso de materiais da Biblioteca? Quais são
os resultados do estudo?
17. Que tipo de informações a Biblioteca dissemina: jornalística?
Educacional? Sobre órgãos do Estado (Constituição da República e
Funcionamento da Admistração Pública). Qual destas informações é mais
demandada pelos utentes da biblioteca?
18. A Biblioteca dissemina informações sobre instituições e/ou organismos
oficiais (Constituição, Presidência, Procuradoria e Assembléia da República,
Ministérios, Governos Provinciais, Distritais e Municipais, etc.)? Biografias de
personalidades nacionais e internacionais (políticos, artistas, pintores,
escritores, escultores, músicos, etc.)? Informações educativas (onde estudar,
bolsas de estudo, universidades, institutos técnicos e científicos, etc.)?
Calendários de eventos (congressos, espetáculos, jogos, etc.)? Atividades
culturais (museus, bibliotecas, galerias de arte, centros de exposições,
monumentos históricos, teatros, televisão, cinema, etc.)? Assistência jurídica
(tribunais, centros de assistência jurídica gratuitos, prisões, etc.)? Assistência
social (assistência a menores, ao idoso, a pessoas com deficiência, à mulher,
etc.)?
19. Existe algum meio de divulgação do acervo bibliográfico da biblioteca?
Quais são?
20. Para além da língua portuguesa (língua nacional), que outras línguas
são utilizadas na Biblioteca para a divulgação dos materiais e atividades
(palestras, debates, promoção do hábito de leitura, etc.)?.
21. A Biblioteca tem parcerias e/ou contactos de trabalho com outras
instituições? Quais instituições? Como tem sido essas parcerias: apoio técnico
profissional ou formação? Oferta de materiais?
22. Já ouviu falar da política de implementação da Sociedade da Informação
em Moçambique (Política de Informática)? Como a Biblioteca Pública Provincial
178
de Nampula, enquanto instituição pública e social que trabalha com a
informação, tem se posicionado nesse contexto? Existem programas, planos e
parcerias de inclusão informacional/digital sendo desenvolvidos pela Biblioteca
nesse contexto? Pode falar sobre eles?
23. Há alguma questão que gostaria de acrescentar?
Muito obrigado pela colaboração!
179
Anexos
180
Anexo 1
181
182
183
184
185
186
187
188
189
Anexo 2
190
191
192
193
194
195
196
197
198
199
200
201
202
203
204
205
206
207
208
209
210
211
Anexo 3
212
213
214
215
216
Anexo 4
217
218
Anexo 5
219
220
221
222
223
224
225
226
227
228
229
230
231
232
Anexo 6
233
234
235
236
237
238
239
Anexo 7
240