Ravi Shankar Magno Viana Domingues Análise de parâmetros acústicos e psicoacústicos da sonoridade do oboé associados aos diferentes estilos de raspados de palheta Belo Horizonte 2018 Ravi Shankar Magno Viana Domingues Análise de parâmetros acústicos e psicoacústicos da sonoridade do oboé associados aos diferentes estilos de raspados de palheta Tese apresentada ao Programa de Pós- Gra- duação em Música da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Música. (Linha de pesquisa: Performance Musical). Universidade Federal de Minas Gerais Escola de Música Programa de Pós-Graduação Orientador: Dr. Maurício Freire Garcia Coorientador: Dr. Davi Mota Belo Horizonte 2018 D671a Domingues, Ravi Shankar Magno Viana Análise de parâmetros acústicos e psicoacústicos da sonoridade do oboé associados aos diferentes estilos de raspados de palheta [manuscrito]. / Ravi Shankar Magno Viana Domingues. - 2018. 212 f., enc.; il. + 1 DVD Orientador: Maurício Freire Garcia. Coorientador: Davi Mota Linha de pesquisa: Performance Musical. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Música. Inclui bibliografia. 1. Música - Teses. 2. Música – Acústica e física. 3. Oboé. I. Garcia, Maurício Freire. II. Mota, Davi Alves. III. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Música. IV. Título. CDD: 780.15 Ravi Shankar Magno Viana Domingues Análise de parâmetros acústicos e psicoacústicos da sonoridade do oboé associados aos diferentes estilos de raspados de palheta Tese apresentada ao Programa de Pós- Gra- duação em Música da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Música. (Linha de pesquisa: Performance Musical). Trabalho aprovado. Belo Horizonte, 22 de março de 2018: Dr. Maurício Freire Garcia Orientador Dr. Davi Alves Mota Co-orientador Dr. Mauricio Alves Loureiro UFMG Dr. Maurílio Nunes Vieira UFMG Dr. Leonardo Fuks UFRJ Dr. Arcadio Minczuk UNESP Aos meus avós, Adenor José Viana e Antonia Ferreira Lopes. Agradecimentos Não posso afirmar categoricamente que “ninguém faz nada sozinho”, no entanto o processo de elaboração dessa tese me permite afirmar que eu jamais a teria realizado sozinho. Embora as limitações, omissões e as possíveis confusões sejam de minha autoria e responsabilidade, foram tantas as pessoas que colaboraram no desenvolvimento deste trabalho que é imprescindível para mim tentar agradecer a todos. A Toinha, avó querida, por sua força e amor inspiradores. A minha esposa e filho, Guta e Gabriel, pela paciência e pelo amor incondicional diário. Aos meus amados familiares, irmãos, primos, tios, que mesmo distantes me incenti- vam continuamente. Ao Prof. Maurício Freire por entender a “loucura” dos oboístas com suas palhetas e por incentivar um projeto que buscasse entender um pouco essa complexa relação. Ao Dr. Davi Mota pelos valiosos ensinamentos e pela indispensável ajuda durante todo processo e principalmente na coleta de dados. A querida Luciana Noda e ao Rafael Sakamoto e Uaná Barreto pela indispensável colaboração durante a coleta de dados. A todos os oboístas que participaram da pesquisa por doarem um pouco da sua música e conhecimentos. Aos ouvintes que participaram do teste subjetivo de percepção pela paciência e boa vontade. A todos os companheiros do Centro de Estudos do Gesto Musical e Expressão - CEGeME da UFMG pela paciência e disposição em contribuir nas diversas etapas dessa pesquisa. Aos amigos Romeu Rabelo, Alexandre Pereira, Rodrigo Miranda, Aluizio Neto, Lucas Bojikian, Costinha e Teinha pelo prazer em tocar com vocês. Ao Prof. Paulo Nakamura, pelos valiosos ensinamentos estatísticos. Aos queridos Geralda e Alan pelo trabalho impecável na secretaria do Programa de Pós-Graduação em Música da Escola de Música da UFMG. Neste momento, com os olhos já marejados de lágrimas, a única palavra que tenho a dizer a todos como expressão da profunda gratidão que sinto é muito obrigado. “Apenas a perspectiva do outro é capaz de ver o que não é acessível a minha visão do lugar situado que ocupo e conferir-me um acabamento” Mikhail Mikhailovich Bakhtin Resumo A presente tese trata da análise de parâmetros acústicos e psicoacústicos associados aos dois principais modelos de raspagem de palhetas de oboé: o raspado curto (relativo às palhetas alemãs, ou de raspado europeu) e o raspado longo (correspondente à palheta americana). Os materiais e procedimentos utilizados na produção das palhetas de oboé e os conceitos estéticos relacionados às tipologias de raspado são apresentados na introdução e contextualização, assim como o desenvolvimento histórico do oboé e da sua palheta, os raspados majoritariamente utilizados no Brasil e a importância da palheta na performance musical do oboísta. Realizou-se um estudo descritivo do tipo transversal entre setembro e dezembro de 2017, cuja coleta de dados foi dividida em duas etapas: aplicação de um questionário, semi-estruturado, a 21 oboístas profissionais, brasileiros e estrangeiros, que gravaram dois excertos musicais contrastantes e a realização de um teste subjetivo de percepção em 73 músicos, docentes e discentes de três universidades brasileiras. As gravações foram analisadas segundo descritores acústicos e posterior tratamento estatístico. Contrapôs-se os dados acústicos, extraídos através dos descritores, com os dados coletados no questionário e no teste subjetivo de percepção. Nota-se que os parâmetros físicos dos diferentes raspados das palhetas podem influenciar a sonoridade e articulação dos oboístas, entretanto as referências e as demandas do seu contexto musical direcionam a maneira como os parâmetros acústicos serão manipulados, influenciando o processo de produção e os ajustes das palhetas de oboé. Palavras-chaves: Oboé. Diferentes raspagens de palheta. Timbre. Performance musical. Descritores acústicos. Abstract The present thesis deals with the analysis of acoustic and psychoacoustic parameters related to the two main models of oboe reeds: short scraping and long scraping. The materials and procedures used in the production of the oboe reeds and several aesthetic concepts allied to the typology of scraping are presented in the introduction, as well as the historical development of the oboe and its reed, the scrapes mostly used in Brazil and the importance of the reed in the musical performance of the oboist. A descriptive cross - sectional study was carried out between September and December 2017 in the states of Paraíba and Rio Grande do Norte. Data collection was performed in two stages: recording two contrasting excerpts performed by 21 Brazilian and foreign professional oboists, whose data were collected through a semi-structured questionnaire, and the application of a subjective aural test to 73 musicians, faculties and students of of three universities. The recordings were analyzed according to acoustic descriptors and subsequent statistical treatment. The acoustic data, extracted through the descriptors, were contrasted with the data collected in the questionnaire and in the subjective aural test. It can be observed that the physical parameters of the different scrapes of the reeds may influence the sonority and articulation of oboe players, however the references and demands of their musical context will direct the way that the acoustic parameters will be manipulated, influencing the production process and adjustment of the oboe reeds. Key-words: Keywords: Oboe. Different Scrapes of Reed. Timbre. Acoustic Descriptors. Lista de ilustrações Figura 1 – Arundo Donax . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29 Figura 2 – Tubos de Arundo Donax pré-selecionados e um modelo de máquina de goivar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 Figura 3 – Micrômetro e testador de dureza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 Figura 4 – Canas goivadas e processo de moldagem manual . . . . . . . . . . . . . 31 Figura 5 – Pontos de medida do molde para palheta de oboé e a cana moldada . . 32 Figura 6 – Partes da palheta de oboé e modelo de tubo para palheta de oboé . . . 32 Figura 7 – Diagrama da palheta de raspado curto e da palheta de raspado longo . 33 Figura 8 – Palhetas de oboé de diferentes raspados. . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 Figura 9 – Máquina de raspar palhetas de oboé . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 Figura 10 – Zurna. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 Figura 11 – Charamela. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 Figura 12 – Oboé barroco, oboé clássico, oboé do período romântico, oboé do início do Século XX e oboé moderno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42 Figura 13 – Palhetas de oboé barroco, oboé clássico, oboé do período romântico, oboé do início do Século XX e oboé moderno . . . . . . . . . . . . . . 43 Figura 14 – Tendências da posição da palheta de oboé do estilo americano e do estilo alemão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 Figura 15 – Diagrama da palheta de raspado curto e da palheta de raspado longo com suas respectivas áreas de raspagem . . . . . . . . . . . . . . . . . 51 Figura 16 – Mapa da distribuição dos oboístas pelo tipo de raspado da palheta nas principais orquestras brasileiras. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52 Figura 17 – Mapa da distribuição dos professores de oboé pelo tipo de raspado da palheta nas Instituições de Ensino Superior no Brasil. . . . . . . . . . . 53 Figura 18 – Palhetas de material sintético . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54 Figura 19 – Espetrogramas do “crow” de uma palheta de material sintético e de uma palheta de Arundo Donax. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 Figura 20 – Ilustração do sistema de funcionamento do oboé. . . . . . . . . . . . . 56 Figura 21 – Ilustração da ação do fluxo de ar sobre a palheta dupla e visualização estroboscópica do movimento da palheta de oboé. . . . . . . . . . . . . 57 Figura 22 – Exemplo de segmentação do envelope sonoro . . . . . . . . . . . . . . . 63 Figura 23 – Análise do espectro de seis notas do oboé . . . . . . . . . . . . . . . . . 64 Figura 24 – Duração de transientes de alguns instrumentos da família das Madeiras. 65 Figura 25 – Nota Dó em três oitavas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 Figura 26 – Espectrograma da nota Dó em três oitavas (PC) . . . . . . . . . . . . . 70 Figura 27 – Espectrograma da nota Dó em três oitavas (PL) . . . . . . . . . . . . . 71 Figura 28 – Escala de Dó maior em staccato . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72 Figura 29 – Espectrograma da escala de Dó maior em staccato (PC) . . . . . . . . 73 Figura 30 – Espectrograma da escala de Dó maior em staccato (PL) . . . . . . . . . 73 Figura 31 – Excerto do Concerto em Ré maior para violino e orquestra de J. Brahms 74 Figura 32 – Espectrograma do excerto do Concerto em Ré maior para violino e orquestra de J. Brahms (PC) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74 Figura 33 – Espectrograma do excerto do Concerto em Ré maior para violino e orquestra de J. Brahms (PL) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75 Figura 34 – Adaptação do Batuque de L. Fernandez . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76 Figura 35 – Set up de gravação da coleta de dados. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 Figura 36 – Excerto do Concerto em Ré maior para violino e orquestra de J. Brahms 82 Figura 37 – Excerto do Batuque de L. Fernandez . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83 Figura 38 – Mensuração do tamanho total e do raspado da palheta de oboé. . . . . 84 Figura 39 – Formação instrumental dos ouvintes que participaram do TSP . . . . . 85 Figura 40 – Perfil profissional dos ouvintes que participaram do TSP . . . . . . . . 86 Figura 41 – Aplicação do TSP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87 Figura 42 – Cálculo do índice de legato para a transição entre duas duas notas. . . 92 Figura 43 – Representação do cálculo do Índice de Articulação para a transição entre duas notas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 Figura 44 – Médias do centroide espectral das palhetas boas (PC) e (PL) - C1 . . . 97 Figura 45 – Médias do achatamento espectral das palhetas boas (PC) e (PL) - C1 . 98 Figura 46 – Médias da irregularidade espectral das palhetas boas (PC) e (PL) - C1 98 Figura 47 – Médias da duração do ataque das palhetas boas (PC) e (PL) - C1 . . . 99 Figura 48 – Médias dos índices de legato das palhetas boas (PC) e (PL) - C1 . . . 99 Figura 49 – Médias de duração do ataque das palhetas boas (PC) e (PL) - C2 . . . 100 Figura 50 – Médias dos índices de articulação das palhetas boas (PC) e (PL) - C2 . 101 Figura 51 – Intervalos de confiança para desvio-padrão de irregularidade espectral (PC) e (PL) - C2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102 Figura 52 – Médias do centroide espectral das (PB) e (PR) - C1 . . . . . . . . . . . 103 Figura 53 – Médias da irregularidade espectral das (PB) e (PR) - C1 . . . . . . . . 104 Figura 54 – Médias do achatamento espectral das (PB) e (PR) - C1 . . . . . . . . . 104 Figura 55 – PC - Médias da duração do ataque das (PB) e (PR) - C2 . . . . . . . . 105 Figura 56 – PL - Médias da duração do ataque das (PB) e (PR) - C2 . . . . . . . . 106 Figura 57 – PC - Médias dos índices de articulação das (PB) e (PR) - C2 . . . . . . 107 Figura 58 – PL - Médias dos índices de articulação das (PB) e (PR) - C2 . . . . . . 108 Figura 59 – S13 - Duração do ataque (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 Figura 60 – S20 - Duração do ataque (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 Figura 61 – S21 - Duração do ataque (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . 110 Figura 62 – S13 - Centroide espectral (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . 110 Figura 63 – S20 - Centroide espectral (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . 111 Figura 64 – S21 - Centroide espectral (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . 111 Figura 65 – S13 - Irregularidade espectral (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . 112 Figura 66 – S20 - Irregularidade espectral (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . 112 Figura 67 – S21 - Irregularidade espectral (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . 113 Figura 68 – S13 - Achatamento espectral (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . 113 Figura 69 – S20 - Achatamento espectral (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . 114 Figura 70 – S21 - Achatamento espectral (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . 114 Figura 71 – S13 - Índices de legato (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115 Figura 72 – S20 - Índices de legato (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115 Figura 73 – S21 - Índices de legato (PC e PL) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116 Figura 74 – S13 - Duração do ataque (PC e PL) - C2 . . . . . . . . . . . . . . . . . 117 Figura 75 – S20 - Duração do ataque (PC e PL) - C2 . . . . . . . . . . . . . . . . . 118 Figura 76 – S21 - Duração do ataque (PC e PL) - C2 . . . . . . . . . . . . . . . . . 119 Figura 77 – S13 - Índices de articulação (PC e PL) - C2 . . . . . . . . . . . . . . . 120 Figura 78 – S20 - Índices de articulação (PC e PL) - C2 . . . . . . . . . . . . . . . 121 Figura 79 – S21 - Índices de articulação (PC e PL) - C2 . . . . . . . . . . . . . . . 122 Figura 80 – S18 - Duração do ataque (PC e PS) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 Figura 81 – S18 - Centroide espectral (PC e PS) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 Figura 82 – S18 - Achatamento espectral (PC e PS) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . 124 Figura 83 – S18 - Irregularidade espectral (PC e PS) - C1 . . . . . . . . . . . . . . 124 Figura 84 – S18 - Índices de legato (PC e PS) - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 Figura 85 – S18 - Duração do ataque (PC e PS) - C2 . . . . . . . . . . . . . . . . . 126 Figura 86 – S18 - Índices de articulação (PC e PS) - C2 . . . . . . . . . . . . . . . 127 Figura 87 – S20L e S21L - Centroide espectral - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . 128 Figura 88 – S20L e S21L - Achatamento espectral - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . 128 Figura 89 – S20L e S21L - Irregularidade - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 Figura 90 – S20L e S21L - Duração do ataque - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130 Figura 91 – S20L e S21L - Duração do ataque - C2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131 Figura 92 – S20L e S21L - Índices de legato - C1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132 Figura 93 – S20L e S21L - Índices de articulação - C2 . . . . . . . . . . . . . . . . 132 Figura 94 – Diagrama da palheta de raspado curto e da palheta de raspado longo com suas respectivas áreas de raspagem . . . . . . . . . . . . . . . . . 136 Figura 95 – Diferencial de adjetivos - (PC) e (PL) . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139 Figura 96 – S13 - Diferencial de adjetivos - (PC) e (PL) . . . . . . . . . . . . . . . 141 Figura 97 – S18 - Diferencial de adjetivos - (PC) e (PS) . . . . . . . . . . . . . . . 141 Figura 98 – S20 - Diferencial de adjetivos - (PC) e (PL) . . . . . . . . . . . . . . . 142 Figura 99 – S21 - Diferencial de adjetivos - (PC) e (PL) . . . . . . . . . . . . . . . 142 Figura 100 –S20L e S21L - Diferencial de adjetivos . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 Figura 101 –Centroide espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos claro e escuro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146 Figura 102 – Irregularidade espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos claro e escuro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147 Figura 103 –Achatamento espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos claro e escuro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147 Figura 104 –Achatamento espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos redondo e estridente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148 Figura 105 –Centroide espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos redondo e estridente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148 Figura 106 – Irregularidade espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos redondo e estridente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149 Figura 107 – Índices de legato dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos brilhante e opaco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 150 Figura 108 – Índices de legato dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos redondo e estridente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 150 Figura 109 –Centroide espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos brilhante e opaco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151 Figura 110 – Irregularidade espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos brilhante e opaco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151 Figura 111 –Centroide espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos brilhante e opaco - classificação dos ouvintes oboístas . . . . . 152 Figura 112 – Irregularidade espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos brilhante e opaco - classificação dos ouvintes oboístas . . 152 Figura 113 –Diagrama da relação entre a caracterização por adjetivos, da sonoridade e da articulação, com os dados dos descritores acústicos obtidos com a (PC) e a (PL) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157 Figura 114 –Dados dos sujeitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 189 Figura 115 –Dados da palhetas utilizadas no Experimento II. . . . . . . . . . . . . . 189 Figura 116 –Dados do CE das PB - C1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194 Figura 117 –Dados do IL das PB - C1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194 Figura 118 –Dados do AE das PB - C1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194 Figura 119 –Dados da DA das PB - C2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195 Figura 120 –Dados do IA das PB - C2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196 Figura 121 –Dados do IAR das PB - C2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 197 Figura 122 –Dados das PB e PR (SX) - C1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198 Figura 123 –Dados das PB e PR (S1) - C1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198 Figura 124 –Dados das PB e PR (S2) - C1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198 Figura 125 –Dados das PB e PR (S3) - C1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 199 Figura 126 –Dados das PB e PR (S4) - C1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 199 Figura 127 –Dados das PB e PR (S5/RC) - C1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 Figura 128 –Dados das PB e PR (S5/RC) - C1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 Figura 129 –Dados das PB e PR (SX) - C2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201 Figura 130 –Dados das PB e PR (S1) - C2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 202 Figura 131 –Dados das PB e PR (S2) - C2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 203 Figura 132 –Dados das PB e PR (S3) - C2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204 Figura 133 –Dados das PB e PR (S4) - C2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205 Figura 134 –Dados das PB e PR (S5/RC) - C2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 206 Figura 135 –Dados das PB e PR (S5/RL) - C2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 207 Lista de tabelas Tabela 1 – Número de parciais da nota Dó em três oitavas (PC e PL). . . . . . . . 71 Tabela 2 – Adjetivos utilizados no TSP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87 Tabela 3 – Relação dos sujeitos participantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95 Tabela 4 – Resultado do teste subjetivo de percepção com a variação percentual da classificação da sonoridade e da articulação realizada por ouvintes oboístas e demais músicos. Legenda: C - Curto; L - Longo; PC - palheta de raspado curto; PL - palheta de raspado longo. . . . . . . . . . . . . 138 Lista de abreviaturas e siglas PC Palheta(s) de raspado curto PL Palheta(s) de raspado longo PS Palheta de material sintético S Sujeito C Curto L Longo PB Palheta boa PR Palheta ruim CE Centroide espectral IL Índice de legato stebam AE Achatamento espectral IE Irregularidade espectral DA Duração do ataque IA Índice de articulação RI Resposta inconclusiva NI Não informado C1 Condição de Performance 1 C2 Condição de Performance 2 TSP Teste Subjetivo de Percepção Sumário Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29 I CONTEXTUALIZAÇÃO 37 1 A PALHETA DO OBOÉ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 1.1 O desenvolvimento da palheta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 1.2 Estilos de raspado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 1.2.1 O estilo francês . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44 1.2.2 O estilo inglês . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44 1.2.3 O estilo holandês . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 1.2.4 O estilo vienense . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 1.2.5 O estilo americano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 1.2.6 O estilo alemão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 1.2.7 Delimitação dos estilos de raspado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47 1.3 Os estilos de raspado de palhetas de oboé predominantes no Brasil 48 1.4 Palheta de material sintético . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54 1.5 A importância da palheta na performance musical . . . . . . . . . . 56 2 PARÂMETROS MUSICAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 2.1 A sonoridade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62 2.2 Articulação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65 II METODOLOGIA 67 3 ESTUDO PILOTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68 3.1 Experimento I . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69 3.1.1 Análises espectrais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69 3.2 Experimento II . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76 3.2.0.1 Teste subjetivo de percepção (TSP) - Piloto . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 4 ESTUDO PRINCIPAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 4.1 Gravação dos áudios e aplicação do questionário . . . . . . . . . . . 81 4.1.1 Questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83 4.2 Teste subjetivo de percepção . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84 5 PROCEDIMENTOS ANALÍTICOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 5.1 Segmentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 5.2 Descritores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 5.3 Análise estatística . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 III ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS 94 6 ANÁLISE DOS DADOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95 6.1 Palhetas boas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97 6.1.1 Condição 1 - transições ligadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97 6.1.2 Condição 2 - transições articuladas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 6.2 Palhetas boas e ruins . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102 6.2.1 Condição 1 - transições ligadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102 6.2.2 Condição 2 - transições articuladas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105 6.3 Sujeitos 13, 20 e 21: palhetas boas - raspado curto (PC) e raspado longo (PL) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108 6.4 Sujeito 18: palheta de raspado curto (PC) e palheta sintética (PS) 122 6.5 Sujeitos 20 e 21: palheta de raspado longo (PL) . . . . . . . . . . . 127 6.6 Respostas ao questionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133 6.7 Teste subjetivo de percepção . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 7 DISCUSSÃO DOS DADOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145 Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156 REFERÊNCIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163 APÊNDICE A – DISTRIBUIÇÃO DOS OBOÍSTAS PELO TIPO DE RASPADO DA PALHETA NAS PRINCIPAIS ORQUESTRAS BRASILEIRAS. . . . . . . . . . . 171 APÊNDICE B – DISTRIBUIÇÃO DOS PROFESSORES DE OBOÉ PELO TIPO DE RASPADO DA PALHETA NAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR DO BRA- SIL. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 172 APÊNDICE C – PROTOCOLO DE GRAVAÇÃO . . . . . . . . . . . 173 APÊNDICE D – QUESTIONÁRIO DO ESTUDO PRINCIPAL . . . 175 APÊNDICE E – DADOS DAS PALHETAS UTILIZADAS . . . . . 176 APÊNDICE F – RESPOSTAS AO QUESTIONÁRIO . . . . . . . . 177 APÊNDICE G – TESTE SUBJETIVO DE PERCEPÇÃO . . . . . . 178 APÊNDICE H – DADOS DO TESTE SUBJETIVO DE PERCEP- ÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184 APÊNDICE I – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ES- CLARECIDO PARA COLETA DE DADOS . . . . 185 APÊNDICE J – LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS DOS EX- PERIMENTOS I E II . . . . . . . . . . . . . . . . 186 APÊNDICE K – PROTOCOLO DO EXPERIMENTO II . . . . . . 187 APÊNDICE L – QUESTIONÁRIO DO EXPERIMENTO II (PILOTO)188 APÊNDICE M –DADOS DO QUESTIONÁRIO PILOTO . . . . . . 189 APÊNDICE N – DADOS DOS DESCRITORES ACÚSTICOS DO EXPERIMENTO II (PB) . . . . . . . . . . . . . . 194 APÊNDICE O – DADOS DOS DESCRITORES ACÚSTICOS DO EXPERIMENTO II (PB - PR) . . . . . . . . . . . 198 APÊNDICE P – TESTE SUBJETIVO DE PERCEPÇÃO (PILOTO) 208 APÊNDICE Q – DADOS DO TESTE SUBJETIVO DE PERCEP- ÇÃO (PILOTO) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209 APÊNDICE R – PROGRAMA DO RECITAL DE DOUTORADO . 210 29 Introdução O oboé, assim como todo instrumento de palheta dupla, tem a produção sonora realizada pela “vibração de duas lâminas flexíveis que se contrapõem e formam um canal de passagem para o ar, possibilitando o ingresso de uma corrente de ar modulada pela sua própria vibração” (FUKS, 2017, p.35). Normalmente utiliza-se para a produção das palhetas de oboé o caule da Arundo Donax, um tipo de bambu nativo do Rio Nilo. Embora seja comum em climas subtropicais, a maioria dos músicos utiliza canas cultivadas na região do Var, na França (Fig. 1). Esse bambu, frequentemente chamado de cana, possui estrutura única entre os vegetais fornecendo matéria prima ideal para fabricação das fontes sonoras dos instrumentos da família das madeiras graças à sua resiliência e capacidade de responder às manipulações realizadas pelos instrumentistas (SMITH, 1992). Figura 1 – Arundo Donax em processo de secagem. Fonte: Sarl (2017) A aprendizagem do processo de produção da palheta é fundamental na formação 30 Introdução do oboísta, pois seu estilo de tocar, sua técnica, relaciona-se diretamente com o material utilizado e o tipo de raspado da sua palheta, na mesma medida em que sua cultura sonora1 e suas habilidades técnicas irão influenciar a produção das suas palhetas. Assim como os fagotistas, grande parte dos oboístas costumam fazer suas própias palhetas, sendo responsáveis em alguns casos por quase todas as etapas da produção destas. São inúmeras as etapas de manufatura de uma palheta, indo desde a seleção da cana por diâmetro, retitude e cor passando pela goivagem, mensuração da espessura e densidade através do micrômetro e do testador de dureza, moldagem, amarração e concluindo com a raspagem e ajustes finais. Todo esse processo afeta muitos parâmetros musicais, tais como a sonoridade, a afinação, a articulação, a flexibilidade e também a resistência muscular do instrumentista. Atualmente muitos oboístas não realizam algumas das etapas de produção da palheta optando inclusive, por comprar suas palhetas prontas. Segundo (HAYNES, 1984), desde o Séc. XVIII já existiam fabricantes de palhetas atendendo às demandas de instru- mentistas profissionais e amadores. Após o tubo de cana ser selecionado e cortado de acordo com seu diâmetro e retitude, a próxima etapa é retirar o excesso de material da parte interna da cana através da máquina de goiva (Fig. 2). A expressão goiva refere-se também à medida da espessura da cana. Essa espessura, bem como as proporções relativas entre o centro e os lados da cana, afetam a qualidade do som da palheta variando principalmente entre os diferentes tipos de raspados. Os oboístas utilizam também um testador de dureza para selecionar as canas, encontrando a densidade que melhor se adeque à sua tipologia da palheta (Fig. 3). Figura 2 – Tubos de Arundo Donax pré-selecionados (painel da esquerda) e um modelo de máquina de goivar (painel da direita). Fonte: Heng (2018a) 1 Tendência sonora associada a tradições estéticas e interpetativas de diferentes contextos geográficos, cronológicos e culturais (FABIAN, 2014; MILSOM; COSTA, 2014). 31 Figura 3 – Micrômetro (painel da esquerda) e testador de dureza (painel da direita) para seleção das canas. Fonte: Heng (2018b) Moldar consiste em dar uma forma à cana delineando-se suas laterais através de um molde cônico, conforme ilustrado na figura 4. Figura 4 – Canas goivadas (painel da esquerda) e processo de moldagem manual (painel da direita). Fonte: Reed (2018) As diferentes medidas do molde, ilustradas na figura 5, influenciam diretamente as características da palheta. Assim, a escolha do modelo do molde está fundamentalmente relacionada aos diferentes estilos de raspado e às características do instrumento utilizado pelo oboísta. 32 Introdução Figura 5 – Pontos de medida do molde para palheta de oboé (painel da esquerda) e cana moldada (painel da direita). Fonte: Heng (2018c) Após moldada, a cana é amarrada, com uma linha de fibra sintética, a um tubo que funciona como uma extensão do furo do oboé. Geralmente é feito de metal (latão ou prata) e coberto parcialmente por uma cortiça possibilitando que o tubo se encaixe vedando a abertura superior do oboé2 (Fig.6). Figura 6 – Partes da palheta de oboé (painel da esquerda) e modelo de tubo para palheta de oboé (painel da direita). Fonte: AMAC (2017) O raspado consiste em retirar o verniz, ou parte exterior, da cana em diferentes pontos e níveis para que a palheta vibre com o ar expirado pelo instrumentista. O raspado da palheta é divido em diferentes partes e o equilíbrio entre entre as quantidades de 2 Existem também modelos de tubo que são totalmente de metal ou madeira. 33 material em cada parte, será ajustado de acordo com as necessidades de cada oboísta (Fig. 7 e 8). Figura 7 – Diagrama da palheta de raspado curto (painel da esquerda) e da palheta de raspado longo (painel da direita) com suas respectivas áreas de raspagem. Fonte: Gisiger (2017) Figura 8 – Palhetas de oboé de diferentes raspados. Fonte: Heng (2018d), Marshak (2018) 34 Introdução H Figura 9 – Máquina de raspar palhetas de oboé. Fonte: Arquivo pessoal do autor. Atualmente muitos oboístas utilizam máquinas que realizam praticamente quase todo trabalho de raspagem da palheta, cabendo ao instrumentista efetuar exclusivamente os ajustes necessários para adequação da palheta às suas necessidades musicais. Além dos diferentes modelos de raspados disponíveis no mercado, é possível ao oboísta enviar uma palheta boa como referência para elaboração do seu próprio molde de raspado (Fig. 9). Definição do problema A diferença no tamanho e nos inúmeros detalhes dos diferentes estilos de palheta, geram uma série de desdobramentos que influenciam desde a escolha dos materiais para construção da palheta e seu processo de elaboração, até a realização de alguns ajustes técnicos (embocadura, posicionamento da palheta, dentre outros) que podem ser específicos para execução com os diferentes tipos de raspado e de acordo com as características fisiológicas do instrumentista. Hipóteses Os principais aspectos que devemos observar e fomentar para um bom desenvol- vimento das habilidades técnicas no oboé são: postura, respiração, sonoridade (vibrato, afinação, homogeneidade), digitação (relacionada à habilidade motora), articulação, dinâ- mica e fraseado entre outros (ROTHWELL, 1962). No processo de aprendizagem deve-se 35 considerar a estreita relação existente entre todos os aspectos técnicos, porém na prática diária a atenção do instrumentista é concentrada em um aspecto de cada vez permitindo o refinamento do trabalho muscular diretamente envolvido na execução deste. O estudo de sonoridade, por exemplo, engloba o controle da qualidade sonora do timbre (afinação, homogeneidade, flexibilidade). Quais seriam as diferenças acústicas e perceptivas entre palhetas de raspados distintos? Quão importante é a palheta para a performance musical do oboísta? Justificativa Além de aspectos técnicos, aspectos expressivos são desenvolvidos ao longo da trajetória musical do instrumentista. Esse desenvolvimento artístico será moldado pelo seu contexto cultural, social e econômico onde um diversificado vocabulário de palavras e imagens como heurísticas são apresentados e desenvolvidos. Se por um lado esse vo- cabulário heurístico facilita o agrupamento de muitos hábitos técnicos e interativos em conceitos, essas reduções podem levar a conclusões tendenciosas a respeito, por exemplo, de um determinado estilo interpretativo, levando o oboísta a justificar suas escolhas nos preconceitos estabelecidos que influenciarão consequentemente a construção da sua palheta, tendo em vista sua estreita relação com todos os aspectos que envolvem sua performance. Durante o processo de aprendizagem e aperfeiçoamento musical é importante que o instrumentista tenha diversas fontes de feedback que possam auxiliá-lo no desenvolvi- mento das suas habilidades. Frequentemente, nossas fontes de feedback são professores, colegas, público e, já há algum tempo, algumas ferramentas como afinadores, metrônomos, gravadores de áudio e câmeras de vídeo. Esse processo cognitivo nos ajuda a desenvolver nossa capacidade metacognitiva que é “estar consciente do nosso pensamento enquanto realizamos tarefas específicas”(MARZANO et al., 1988, p.9). Apesar do desenvolvimento de novos recursos tecnológicos aplicáveis à música e do crescimento da pesquisa sistemática sobre a performance, ainda é escassa a literatura objetiva focada em músicos e pouco conhecimento se tem sobre a influência das variáveis, como marcas e modelos de instrumentos, os diferentes estilos de palheta e as variadas concepções da técnica de execução do instrumento, no resultado sonoro alcançado por oboístas. Deste modo, apresentamos algumas reflexões sobre abordagens para caracterização da sonoridade dos oboístas buscando compreender a relação entre os diferentes raspados utilizados em suas palhetas e o resultado sonoro final, refletindo sobre as crenças e a percepção do timbre do instrumento. 36 Introdução Estrutura da tese O presente trabalho encontra-se divido em três partes: I) contextualização; II) metodologia; e III) análise e discussão dos dados. Apesar de não termos a pretensão de realizar um levantamento minucioso da história do oboé e da sua palheta, na contextuali- zação discorre-se sobre o desenvolvimento histórico do oboé e da sua palheta, destacando as transformações ocorridas nos materias e medidas utilizadas. Em seguida, apresentam-se os diferentes estilos de raspado de palhetas de oboé utilizando-se a catalogação realizada por Ledet (1981) destacando os raspados majoritariamente utilizados no Brasil e sua dis- tribuição nas principais orquestras e instuicões de ensino superior brasileiras. Elaborou-se uma breve apresentação da um tipo de palheta de material sintético, tendo em vista que ela é atualmente uma opção de palheta utilizada por oboístas, graças ao bom desempenho alcaçado. Na última seção da contextualização, discute-se a importância da palheta na performance musical do oboísta. Na segunda parte, apresentamos a metodologia utilizada descrevendo, primeira- mente, os experimentos conduzidos para o desenvolvimento do estudo realizado. A coleta de dados foi dividida em duas etapas: 1o) gravação de dois excertos musicais contrastantes executados por 21 oboístas profissionais brasileiros e estrangeiros; 2o) aplicação de um teste subjetivo de percepção em 73 músicos, docentes e discentes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Universidade Federal da Paraíba. Durante as gravações, aplicou-se um questionário semi-estruturado, através do qual coletaram-se dados referentes ao material utilizado pelos oboístas (marca e modelo do instrumento, cana, molde etc.) e a suas concepções a respeito da palheta e da sonoridade do oboé. A última seção da metodologia discorre sobre o processo de segmentação, a escolha dos descritores acústicos e os procedimentos estatísticos utilizados para análise dos dados. Na terceira parte da tese, apresenta-se a análise e a discussão dos dados, onde procurou-se contrapor os dados acústicos, extraídos através dos descritores, com os dados coletados no questionário e no teste subjetivo de percepção. Esse cruzamento de dados nos possibilitou a observação da relação entre os diferentes raspados de palheta e a sonoridade dos oboístas sob diferentes perspectivas, pois tivemos a concepção dos oboístas, as informações acústicas extraídas das performances e as impressões dos ouvintes através dos adjetivos para a categorização da sonoridade e da articulação dos instrumentistas. Conclui-se a tese com a discussão sobre a relação entre a cultura sonora e o desenvolvimento da palheta do oboísta. O estudo investiga essa relação, pois as diferenças no raspado das palhetas influenciam a sonoridade e a articulação dos oboístas, assim como sua técnica de execução, demandas do contexto musical e sua própria anatomia, podem influir no resultado sonoro e, consequentemente, na construção das suas palhetas. Parte I Contextualização 1 A palheta do oboé 1.1 O desenvolvimento da palheta A produção sonora no oboé e no fagote depende diretamente de uma boa palheta: isto é, se é feita de uma cana de boa safra e qualidade, se esta possui concavidade apropriada, não sendo nem muito larga nem muito estreita, nem muito longa ou muito curta e se, quando raspada, a palheta não fique demasiada espessa nem muito fina. Se a raspagem da palheta é muito larga e comprida, as notas agudas terão afinação baixa em relação às notas da região médio-grave do instrumento, entretanto se a raspagem for muito estreita e curta, as notas terão afinação mais alta (QUANTZ, 1752). Os instrumentos predecessores ao oboé (instrumentos cônicos de palheta dupla), como aulos e a tíbia remontam à História Antiga. As primeiras imagens em cerâmica que descrevem esses instrumentos de palheta dupla são da Mesopotâmia de cerca de 3.000 aC(HAYNES, 1988). Os aulos deram origem em Roma à tíbia e ela deu origem a toda uma família de instrumentos de palheta dupla que se espalharam pela Europa durante a Idade Média. Existem várias teorias a respeito da chegada desses instrumentos à Europa e do início de sua participação na música ocidental. A teoria mais aceita a respeito da inserção desses instrumentos na cultura europeia é a de que teriam sido levados pelos povos árabes à época da invasão da Península Ibérica no final do século XIII (PEROTTO, 2013)hourani2006historia. Entre esses instrumentos estava a zurna (Fig. 10), feita de madeira com seis ou sete furos, e com uma campana semelhante à do trompete. Seu tamanho, afinação e nome variam de acordo com sua origem etnológica 1. O som variava bastante também, dependendo de como o instrumento soprado e do material utilizado para a fabricação da palheta. Em geral, o material utilizado para a fabricação da palheta era talo ou folha de milho, palha, pastagens e folha de palmeira. A palheta era tão maleável que, se os lábios entrassem em contato com ela, sua vibração cessava. Para tocá-la era então necessário a pirueta, disco de metal ou madeira com um furo no meio contra o qual o instrumentista colocava os lábios e soprava, ou seja, a palheta estava encapsulada e não havia possibilidade de controle labial algum (LEDET, 1981). 1 Turquia - Zurna; Balcans - Zurla; Tunísia - Zukra; Irã - Sorna; India - Shenai; China - Suona e Persia - Sorna (FOUNDATION, 2017) 1.1. O desenvolvimento da palheta 39 Figura 10 – Zurna. Fonte: MM (2017) Durante os Séculos XII e XIII, a zurna tornou-se maior e sua a palheta mais longa, mais estreita e resistente, levando ao surgimento das primeiras charamelas - shawm ou chalemie - (Fig. 11). As charamelas também possuem a pirueta, no entanto, esta localiza- se mais próxima à palheta, permitindo que os lábios toquem sua base, possibilitando um controle parcial e consequentemente uma execução mais fácil da oitava superior do instrumento. Assim como a zurna, o timbre, dinâmica e a afinação eram praticamente incontroláveis, sendo a única possibilidade de algum controle era variando a pressão de ar (LEDET, 1981). Figura 11 – Charamela. Fonte: Ennes (2017) Entre a metade do Século XIII e a metade do Século XVII, o uso das charamelas predominou em toda Europa, mas por volta de 1660, novas demandas musicais impulsio- 40 Capítulo 1. A palheta do oboé naram a transformação da charamela no “Hautbois”2. Músicos da corte francesa como Jacques Hotteterre e Michel Philidor II influenciaram o surgimento deste novo instrumento, de sonoridade mais suave, mais controlável e apropriado para a música executada em ambientes fechados (PEROTTO, 2013). A transformação dos instrumentos antecessores no oboé foi mais um processo de seleção entre os vários tipos de charamela do que a invenção de um novo instrumento (JOPPIG, 1988). Em geral, os instrumentos de sopro que ofereciam poucas nuances sonoras tornaram-se obsoletos e, gradativamente, os construtores de instrumento e os instrumentistas, que passaram a se especializar no período barroco, realizaram mudanças na fabricação do instrumento, dentre as quais a mais significativa foi o desuso da pirueta, permitindo o controle da palheta através da embocadura3 do instrumentista, o que por sua vez, afetou diretamente a elaboração da palheta (HAYNES, 2001). No século XVII, a palheta do oboé era mais larga e comprida do que atualmente. A palheta de oboé mais antiga que se tem registro media 9,5 mm na extremidade superior e possuía um cumprimento total de 98 mm4, o que confere ao oboé barroco uma sonoridade com menos harmônicos de frequência alta (BAINES; BOULT, 1967). O novo instrumento tornou-se popular e se espalhou para outros países como Inglaterra e Alemanha. O oboé barroco era um dos poucos instrumentos de sopro utilizado nos contextos militar, na música de câmara, na ópera, na orquestra e na música sacra. Na orquestra, os oboés foram inicialmente usados para dobrar os violinos (colla parte), com o intuito de se produzir uma cor sonora distinta e uma articulação mais definida. Com o desenvolvimento das possibilidades do instrumento e o surgimento de virtuoses como Sammartino, Fischer e Besozzi, passaram a assumir funções próprias já no final do período barroco (DAHLQVIST, 1973). Durante o século XVIII, o oboé passou por melhorias contínuas na sua construção e, consequentemente, desenvolvimento da sonoridade e, à época de Mozart, as palhetas para o oboé clássico tinham entre 8 mm de largura na extremidade superior e seu comprimento era de 70 mm. Podemos perceber que, gradativamente, a palheta passou a ser menor e seu molde mais estreito o que, aliado à diminuição do calibre interno do furo do instrumento, possibilitou uma aumento da sua tessitura. É provavel que as palhetas nesse período fossem mais raspadas para favorecer a execução das notas mais agudas que ainda eram produzidas sem a ajuda de uma chave de oitava, o que nos permite inferir que a adição dessa chave no século seguinte certamente deve ter influenciado algumas transformações na concepção das palhetas, como o seu gradual estreitamento (HAYNES, 1984). 2 Expressão relacionada a madeira “alta”, relacionado a agudo, forte, proeminente ou principal. 3 Para o oboísta, a embocadura consiste no posicionamento dos lábios sobre os dentes para segurar a palheta e manipular sua vibração (GOOSSENS; ROXBURGH, 1977). 4 Guardadas as diferenças dos estilos de palhetas, atualmente a palheta de oboé possui em média 7 mm de largura na extremidade superior e 70 mm de comprimento total. 1.1. O desenvolvimento da palheta 41 Devido à crescente necessidade de aperfeiçoamento técnico no novo instrumento, no princípio do século XVIII, surgiram os primeiros métodos sistematizando o ensino do oboé, de autores como F. Poncein, J.M. Hotteterre, Eisel, entre outros. As possibilidades composicionais para o instrumento foram se expandindo, não somente com o desenvolvi- mento do instrumento, mas também com o domínio técnico que os instrumentistas foram adquirindo sobre o oboé e a produção da sua palheta (HAYNES, 1988). Grande parte dos métodos escritos para oboé no século XIX, Vogt (1816), Salviani (1848), Barret (1857), dentre outros, abordam os procedimentos para produção da palheta, mas apenas Brod (1830) procurou catalogar os diferentes estilos de palhetas predominantes na época (italianos, alemães e franceses) e estabelecer uma relacão entre o raspado e a sonoridade do oboísta (HOWE, 2001). No século XIX, surgiram duas vertentes de construção de oboés, a alemã e a francesa, que não estavam somente relacionadas às tradições da manufatura do instrumento, mas refletiam diretamente os ideais estéticos e expressivos de cada tipo de oboé. O modelo francês, que prevalecia nos países de língua românica, possuía um tubo mais estreito com paredes mais delgadas e utilizavam palhetas mais brandas, propiciando maior virtuosidade técnica. Já o modelo alemão, utilizado na Alemanha e Áustria, onde qualidades expressivas e sonoras são mais importantes, possuía um tubo de furação com maior diâmetro e com paredes espessas, um aro de contração na campana e tendiam a ter mais chaves do que o oboé francês, além do uso de palhetas mais resistentes (HOWE, 2001). Alguns relatos que sobreviveram sobre a sonoridade dos instrumentos do século XIX e dos estilos de interpretação em instrumentos antigos, apontam um certo concenso de que o oboé francês possuía uma sonoridade mais brilhante e era nitidamente audível na orquestra, enquanto o oboé alemão manteve o timbre mais “escuro” da era clássica que favorecia uma maior fusão com outros timbres (HAYNES, 2001). De modo geral, o desenvolvimento do oboé ocorreu através do estreitamento do calibre interno do tubo, permitindo o uso de palhetas menores e mais estreitas que podiam contar com o controle labial do instrumentista, tornando a sonoridade mais adequada às demandas musicais de cada contexto. Mais chaves foram adicionadas para facilitar a técnica e a afinação do instrumento foi aperfeiçoada. Passou-se a utilizar madeiras mais densas (ébano, grenadilha) para a fabricação do instrumento e, atualmente, além das madeiras-de-lei, outros materiais vêm sendo utilizados para a fabricação do oboé (resinas plásticas diversas como acrílico, ebonite etc.). Seu tamanho estabilizou-se entre 57-59 centímetros, possui de 16 a 20 orifícios, seis deles diretamente fechados sob os dedos do oboísta e o resto controlado por um complexo mecanismo de 45 chaves e alavancas. Após a Segunda Guerra Mundial, o modelo “conservatório” desenvolvido na França 42 Capítulo 1. A palheta do oboé por Charles Triébert e implantando primeiramente por George Gillet no Conservatório de Paris no final do século XIX, tornou-se quase o padrão internacional utilizado por todos os oboístas, com exceção do oboé vienense, utilizado principalmente na Filarmônica de Viena. Figura 12 – Da esquerda para direita: oboé barroco, oboé clássico, oboé do período ro- mântico (modelo alemão), oboé do início do Século XX (desenvolvido por Triébert) e oboé moderno. Fonte: Dalton (2018) Paralelamente ao avanço alcançado pelos fabricantes de instrumentos, houve uma sofisticação no processo de elaboração da palheta de oboé, indo desde o cultivo da Arundo Donax, voltado para o fornecimento de matéria prima para palhetas de oboé, fagote, clarineta e saxofone, até o desenvolvimento e a criação de acessórios para a produção da palheta (micrômetro, testador de dureza, máquina de goiva, molde de mesa, máquina para raspagem etc.). 1.2. Estilos de raspado 43 Figura 13 – Palhetas de oboé (da esquerda para direita): oboé barroco, oboé clássico, oboé do período romântico (modelo alemão), oboé do início do Século XX e oboé moderno. Fonte: Dalton (2018) Observa-se que o desenvolvimento na construção do oboé (Fig. 12), as diferentes demandas dos estilos e das obras musicais nos diferentes períodos da história da música erudita ocidental, bem como o surgimento de instrumentistas que desenvolveram novas possibilidades técnicas para o oboé, influenciaram diretamente as transformações ocorridas na construção e na organização dos diferentes estilos de palhetas de oboé (Fig. 13). 1.2 Estilos de raspado David Ledet, professor da Universidade da Georgia – EUA catalogou e fotografou em seu livro Oboe Reed Styles. Theory and Practice, 168 palhetas de 81 oboístas de 14 nacionalidades (Alemanha, Austrália, Áustria, Dinamarca, Estados Unidos, França, Finlândia, Holanda, Inglaterra, Itália, Nova Zelândia, República Checa, Rússia e Suíça). Ledet percebeu que, apesar das muitas divergências na concepção e montagem das palhetas, existem certas características comuns tanto nos materiais utilizados quanto na raspagem adotada. O agrupamento foi feito a partir da medição do tamanho total da palheta, da 44 Capítulo 1. A palheta do oboé espessura da cana, das dimensões dos moldes utilizados e de semelhanças visuais nos desenhos das palhetas, bem como o tamanho, o formato do raspado e o desenho da ponta. A princípio, podemos agrupar os estilos de raspagem das palhetas de oboé em dois grandes grupos: o raspado curto e o longo. Conforme a sugestão de Ledet, esses dois grupos podem ser subdivididos por suas características, em seis diferentes estilos: francês, inglês, holandês, vienense, americano e o alemão, que à época, havia sido categorizado como um estilo de “fronteira”. Esses estilos não se encontram limitados às suas fronteiras geográficas e, atualmente, a profusão de estilos existentes dentro de cada uma dessas maneiras de construir e raspar a palheta de oboé sobrepujam essas nomenclaturas de origem nacional. Ledet (1981) assume, já na introdução do seu livro, a insuficiência das palavras utilizadas ao descrever o timbre dos oboístas e das palhetas catalogadas, consciente de que a subjetividade das expressões deveriam ser complementadas pela escuta de gravações dos sujeitos de sua pesquisa para que pudéssemos ter uma melhor noção dos diferentes estilos em que ele agrupou os raspados de palhetas de oboé. 1.2.1 O estilo francês Provavelmente nenhum outro estilo de palheta teve mais influência sobre outros tipos de raspagem na história do oboé, como o estilo francês. Todos os exemplos de palhetas de oboé de outros períodos históricos que Ledet registrou confirmam esse fato. Essa influência deve-se em parte, à própria história do instrumento e à importância do Conservatório de Paris na formação de oboístas, desde de sua fundação em 1793 até os dias de hoje (JOPPIG, 1988). Construída para vibrar bastante, a palheta do estilo francês é leve e bastante fechada5 tendo, em média, um comprimento de 72 mm, uma raspagem pequena e uniforme de aproximadamente 9 mm e uma ponta fina e relativamente grande para o tamanho do raspado. Associa-se a este estilo de raspagem uma sonoridade mas “leve”, “brilhante” e “nasalada” (VOGEL, 1978; LEDET, 1981). 1.2.2 O estilo inglês Muito semelhante à raspagem da palheta francesa, o estilo inglês caracteriza-se por palhetas leves e de fácil emissão. O raspado mede em geral 9 mm e possui uma ponta ainda mais fina que a utilizada em palhetas do estilo francês (LEDET, 1981). A articulação incisiva e o uso constante do vibrato tornaram-se características proeminentes do estilo inglês, identificado mais próximo do francês do que do alemão (BURGESS; HAYNES, 2004). 5 Refere-se à abertura da extremidade para passagem do ar. 1.2. Estilos de raspado 45 1.2.3 O estilo holandês As palhetas de estilo holandês são, de modo geral, mais curtas, com 64-68mm de comprimento, para compensar sua tendência a uma afinação mais baixa, consequência da espessura da cana que é mais grossa, da sua ponta longa, do molde utilizado, que em geral é mais largo, e do seu raspado que varia entre 12 e 16 mm. Apesar de não especificar as alterações necessárias, Ledet (1981) afirma que o estilo de palheta holandesa requer um tipo distinto de embocadura devido às características do raspado, pois soavam sob pequena pressão, apresentando pouca resistência para a coluna de ar. 1.2.4 O estilo vienense Para esse estilo de palheta utilizam-se moldes mais largos e bem afunilados, desen- volvidos especificamente para o estilo vienense e tubos pequenos (37-38 mm) que possuem a abertura superior redonda, ao invés da oval, comumente utilizada nos outros estilos. Assim como algumas palhetas do estilo holândes, seu raspado pode ser considerado como intermediário entre o raspado curto e o longo (15 mm), possuindo uma ponta longa. É uma palheta que apresenta uma emissão fácil, sendo considerado por Ledet (1981) como o estilo que mais se assemelha à palheta barroca, por sua sonoridade agradável e refinada. Esse estilo de palheta é feito para ser tocado especificamente no oboé vienense, que possui uma furação interna maior que a do oboé estilo conservatório. Mesmo na Áustria o uso do oboé vienense está diminuindo, o que limita geograficamente o uso desse estilo de palheta a algumas poucas orquestras em que esse tipo de oboé ainda é utilizado, como a Filarmônica de Viena (JOPPIG, 1988). 1.2.5 O estilo americano A história da palheta americana está diretamente ligada à trajetória do oboísta francês Marcel Tabuteau, radicado nos EUA no início do século passado. Esse estilo de raspado desenvolveu-se para atender às demandas do seu contexto profissional, resultando em uma modificação da sonoridade associada ao estilo francês, através da qual buscou-se uma maior variedade e amplitude das nuances sonoras no oboé. O resultado alcançado por Tabeteau não resultou apenas em uma variação do estilo original. Sua adaptação resultou em um estilo novo e único de fazer palhetas (ROSE, 2017). A principal característica do estilo americano é seu raspado longo, que possui entre 18 e 22 mm. Para evitar o decaimento na afinação, decorrente da maior área de raspagem e do tipo de embocadura necessária para utilização da palheta americana, utilizam-se canas goivadas com espessura mais grossas, moldes mais estreitos e o tamanho final da palheta 46 Capítulo 1. A palheta do oboé tende a ser menor, quando comparado às palhetas de outros estilos, medindo geralmente entre 68 e 70 mm. O estilo americano apresenta algumas particularidades quanto à produção sonora. A primeira, observada em alguns instrumentistas, é o ângulo do oboé que tem implicações signficativas para a embocadura. No estilo americano, o oboé é abaixado, diminuindo a angulação entre a palheta e o queixo do instrumentista, passando o lábio inferior a desempenhar uma função primordial para a emissão sonora (Fig.14). A embocadura também precisa ser mais flexível e deve atuar de duas maneiras distintas: verticalmente (“mordendo”) e horizontalmente (variando a quantidade de cobertura labial sobre a palheta), o que em geral regula os níveis de dinâmica (VOGEL, 1978). Figura 14 – Comparação das tendências da posição da palheta de oboé do estilo americano (esquerda) e do estilo alemão (direita). Fonte: Ledet (1981) De acordo com Burgess e Haynes (2004, p.204) “o som redondo de Tabuteau, a artiulação branda e o uso modesto do vibrato tornaram-se marcas do estilo americano”6 1.2.6 O estilo alemão O estilo alemão tornou-se conhecido por sua sonoridade “escura” e menos flexível que os estilos frances e inglês (BURGESS; HAYNES, 2004), sendo recorrente escutarmos expressões como som “rico”, “doce”, “palheta dura’, relacionados ao som e à sensação de se tocar na palheta alemã (VOGEL, 1978). Para produção de palhetas alemãs, geralmente utiliza-se um molde mais largo e uma cana goivada com espessura mais fina que a americana. De maneira geral, o tamanho final da palheta está entre 71 e 73 mm, o raspado mede de 10,0 a 10,5 mm de comprimento e a ponta geralmente é curta e mais grossa que a utilizada no estilo francês. 6 Tabuteau’s round tone, subdued tonguing and modest use of vibrato become hallmarks of the American style (tradução nossa). 1.2. Estilos de raspado 47 No estilo alemão, o oboé é mantido de forma bastante direta, ângulo de aproxima- damente 70 graus entre a palheta e o queixo do instrumentista, permitindo que ambos os lábios possam pressionar a palheta, divergindo bastante do estilo americano. Atualmente, o raspado alemão está presente não somente na Alemanha, como em diversos países da Europa, na América do Sul e na Ásia. Sua influência deve-se em parte ao grande número de oboístas de diversas partes do mundo, dentre eles brasileiros, que se especializaram nas Escolas Superiores de Música alemãs e à excelência das orquestras alemãs, reconhecidas internacionalmente e que serviram de modelo para diversas instituições musicais. 1.2.7 Delimitação dos estilos de raspado O delineamento do estilo do raspado da palheta do oboé está relacionado à cultura sonora do instrumentista, que é moldada de acordo com os parâmetros do seu contexto de formação musical. Oboístas com conceitos técnicos de embocadura, respiração, articulação e sonoridade semelhantes tenderão a procurar utilizar instrumentos de mesma marca, ou de características parecidas, estabelecendo procedimentos congêneres para a manufatura de palhetas (seleção da cana pela cor e diâmetro, mensuração da espessura e densidade da cana, moldagem, amarração, raspagem e ajustes). Dentro de um mesmo estilo de raspagem observaremos palhetas com medidas, desenhos e com certas peculiaridades que são pessoais, pois cada oboísta adapta o estilo da palheta utilizada às suas características físicas, suas necessidades técnicas e ao repertório a ser interpretado, bem como às condições acústicas e climáticas da sala de concerto. Fonseca (2004) afirma que uma escola interpretativa é reconhecida quando instru- mentistas, geralmente de um determinado período ou lugar, apresentam uma similaridade na qualidade do som (timbre), e o estilo de tocar pode ser relacionado com princípios norteadores e métodos que eles, consciente ou inconscientemente, empregam. Assim sendo, oboístas pertencentes a uma determinada escola, incorporam ao longo dos anos conceitos estéticos que influenciarão sua concepção de fraseados, articulação, sonoridade e também sua técnica (embocadura, postura, respiração etc.) influenciando sua escolha de instrumento e no desenvolvimento do seu estilo de raspado da palheta. Os estilos de raspado de palheta de oboé e suas concepções sonoras se transformaram desde a catalogação realizada por Ledet (1981). Atualmente, é recorrente observarmos entre os oboístas e na literatura voltada à produção de palhetas, a utilização das expressões “palheta americana” e “palheta alemã” ou “palheta europeia” para delimitação dos estilos. O agrupamento dos diferentes estilos de palheta não deve gerar uma segregação entre os instrumentistas. Ao contrário, ele deve incentivar o aumento do diálogo entre os pontos de vista, visto que, para estabelecermos um contínuo desenvolvimento das nossas 48 Capítulo 1. A palheta do oboé habilidades, muitas vezes é necessária a perspectiva do outro, apontando o que não é acessível à nossa própria percepção. O processo de internacionalização das orquestras brasileiras apontado por Minczuk et al. (2015) e o lento processo de abertura, de algumas orquestras e instituições de ensino musical no mundo às diferentes concepções estéticas de execução do oboé aponta a possibilidade de ruptura de alguns paradigmas relacionados aos diferentes estilos de raspado. A recente contratação do oboísta Ramon Ortega Quero7, para ocupar a vaga de oboé principal na Orquestra Filarmônica de Los Angeles e de professor do Colburn Conservatory of Music em Los Angeles desencadeou um entusiasmado debate nas redes socias (LEBRECHT, 2017). Ele será o primeiro oboísta utilizando uma palheta de estilo europeu (raspado alemão) a assumir a posição de oboé principal em uma das grandes orquestras dos Estados Unidos, desde a criação da escola americana no início do século XX. O oboísta brasileiro Washington Barella, professor de oboé na Universität der Kunst em Berlin e ex-oboísta solista da SWR Sinfonieorchester Baden-Baden und Freiburg, na Alemanha, posição que ocupou por 20 anos, utiliza palhetas de raspado americano. A grande diferença observada entre os dois casos está na formação dos dois oboístas. Washington Barella, apesar de ter atuado profissionalmente e estudado também nos Estados Unidos, teve sua formação oboística diretamente ligada ao estilo europeu desde sua iniciação no Brasil até seu processo de especialização na Alemanha (BERLIN, 2017). Considerando os dois casos acima, duas questões centrais foram levantadas quanto às delimitações dos estilos de raspado e sua relação com a cultura sonora do oboísta: • É possível adaptar o raspado e/ou a concepção sonora para articular-se com os outros oboístas de uma orquestra que utilizam um estilo de raspado diferente? • Quais serão as implicações na cultura sonora do oboé nos Estados Unidos, tendo um oboísta de cultura sonora europeia como oboísta principal em uma das principais orquestras norte americanas e professor em uma instituição formal de ensino musical? A observação do desenvolvimento dos estilos de raspado de palhetas de oboé no Brasil poderá elucidar algumas das perspectivas do panorama do oboé contemporâneo. 1.3 Os estilos de raspado de palhetas de oboé predominantes no Brasil “O bom gosto geral, no entanto, não é exclusivo de uma única nação, como, de fato, as pessoas reivindicam com orgulho. Antes, ele requer um 7 Ramon Ortega Quero, oboísta espanhol de carreira internacional. 1.3. Os estilos de raspado de palhetas de oboé predominantes no Brasil 49 processo de construção e formação através da mistura, da escolha sensata das boas ideias e das boas formas de execução existentes nas diversas nações. Cada nação traz em seu pensamento musical algo de agradável, de valioso (útil, apropriado, adequado, pertinente) como também de repugnante. Quem sabe selecionar o que há de melhor, não optará pelo comum, vulgar e ruim”(tradução nossa)8(QUANTZ, 1752, p.333). Presume-se que o oboé chegou ao Brasil no Século XVIII com os conjuntos musicais que vieram acompanhando a corte portuguesa e depois com o estabelecimento da família real no Brasil em 1808, quando criou-se a Capela Real (BERNARDES, 2001). As primeiras referências de uma orquestra com dois oboés no Brasil data de 1786, na celebração da posse do Visconde de Barbacena e posteriormente, no ano de 1795, na festividade pelo nascimento do Príncipe D. Antônio (FONSECA, 1989). No entanto, o ensino oficial do oboé no Brasil iniciou-se em 1857 com a nomeação de Francisco Mota como professor de fagote, flauta e corne inglês no Imperial Conservatório de Música do Rio de Janeiro (SILVA, 2007). Nos primeiros relatos sobre a presença do oboé no Brasil não há informações específicas quanto ao modelo de instrumento e palheta utilizados. Dada a predileção pelo oboé francês na Europa latina no século XIX, apontada por Howe (2001), presume-se que o estilo francês tenha sido nossa primeira referência de sonoridade e raspado de palheta, mas não há referências quanto a expertise dos primeiros oboístas, tanto no que concerne à técnica do instrumento quanto ao processo de elaboração da palheta utilizada. Segundo Freire (2003), a busca por padrões internacionais explica a presença de instrumentistas estrangeiros no início das instituições musicais no Brasil, tendo em vista que, para a maioria dos instrumentos, não haviam músicos com as habilidades necessárias para comporem tais conjuntos. No Brasil, os estilos de raspagem de palheta que foram mais difundidos foram o americano e o alemão. Essa predominânia deve-se à vinda de oboístas europeus e americanos durante o surgimento das orquestras brasileiras; da marcante presença de professores oriundos da Alemanha e EUA nos festivais de música brasileiros a partir dos anos 70; e em consequência da especialização musical realizada pelos oboístas que hoje atuam nas principais instituições musicais brasileiras (DOMINGUES; FREIRE, 2006). Os oboístas Henry Schuman, Benito Sanches, Salvador Masano e Walter Bianchi, referências da escola americana, foram importantes no cenário musical brasileiro, mais especificamente em São Paulo, tendo contribuído significativamente na formação de muitos 8 Der allgemeine gute Geschmack aber ist nicht bein einer einzelnen Nation, wie zwar jede es sich desselben schmeichelt, anzutreffen, man muss ihn viel mehr duchr die Vermischung, und einer vernünftige Wahl guter Gedanken, und guter Arten zu spielen, von verschiedenen Nationen zusammen tragen, und bilden. Jede Nation hat in ihrer musikalichen Denkart sowohl etwas angenehmes, und gefälliges, als auch widerwärtiges. Wer nun das Beste zu wählen weiss, den wird das Gemeine, Niedrige und Schlechte nicht ihre machen. 50 Capítulo 1. A palheta do oboé músicos no estado. Bianchi foi o primeiro oboísta brasileiro a estudar no exterior, na Filadélfia, Estados Unidos, onde realizou cursos de aperfeiçoamento em oboé e interpretação musical no Curtis Institute of Music, com o fundador da escola americana, Marcel Tabuteau (BERNARDO, 2002). A manutenção e o desenvolvimento do estilo americano no Brasil teve significativa influência da participação regular do oboísta americano Humbert Lucarelli nos festivais de música de Itu e de Fortaleza e da similaridade entre a estrutura das pós-graduações americanas e brasileiras, que facilita a revalidação dos títulos no Brasil, incentivando oboístas brasileiros a se especializarem nos Estados Unidos. Apesar da existência dos dois estilos de raspados, Mota (2017b) afirma que a cultura sonora predominante entre os oboístas brasileiros preza pelo “som alemão” ou ‘som europeu”, possivelmente pela maior presença de músicos europeus no início das orquestras brasileiras e pela presença contínua de oboístas alemães, como George Meerwein, Ingo Goristky e Manfred Klement nos festivais de música, motivando e possibilitando a especialização dos oboístas brasileiros na Alemanha. Não há como afirmar, por enquanto, que exista um consenso quanto à caracterização da sonoridade dos oboístas brasileiros. No entanto observa-se uma marcante influência da cultura sonora predominante sobre a elaboração das palhetas de raspado americano, sobre- tudo na necessidade de adaptar as características do raspado às preferências timbrísticas do contexto musical no Brasil, conforme destacado por Mota (2017b, p.107): A palheta americana aqui também, é diferente, ela é muito diferente da palheta dos Estados Unidos. A única semelhança eu acho que tem [é] um certo projeto de raspagem que é semelhante, raspado longo, mas ela sofreu [...] alguns ajustes e adaptações assim pro som que o brasileiro, que o pessoal busca, não só os oboístas, mas todo mundo busca aqui no Brasil; então é um som mais europeu, de estilo alemão, que o pessoal tem predileção aqui pelo som um pouco mais escuro, mais encorpado. No presente trabalho, optamos por utilizar a nomenclatura de raspado curto e raspado longo, visto que os termos palheta alemã e palheta americana não representam de forma objetiva os principais estilos de raspagem presentes no Brasil, dada à frequente associação realizada com conceitos subjetivos de sonoridade, que muitas vezes não refletem o contexto nacional. Denominaremos palheta de raspado curto as palhetas cujo raspado ocupe até 45% do total de cana disponível para raspagem, ou seja, do final da amarração até a ponta da palheta. Por outro lado, palhetas de raspado longo, as que ocupem acima de 45% dessa superfície. Essas proporções foram recorrentes em métodos de produção de palheta (LEDET, 1981; LIGHT, 1983; HENTSCHEL, 1995; WEBER; CAPPS; WEBER, 1990; WERNER, 2014) e nas palhetas utilizadas pelos oboístas que participaram do presente estudo (Fig. 15). 1.3. Os estilos de raspado de palhetas de oboé predominantes no Brasil 51 Figura 15 – Diagrama da palheta de raspado curto (esquerda) e raspado longo (direita) com suas respectivas áreas de raspagem: A - lateral da ponta; B - centro da ponta; C - região lateral do coração; D - região central do coração; E - canaleta próxima à coluna lateral; F - canaleta próxima à coluna lateral; G - canaleta região traseira lateral; H - canaleta região traseira central; I - região traseira lateral; J - região traseira central; K - coluna lateral próxima ao coração; L - coluna lateral próxima às canaletas; M - ponta do coração; N - transição entre ponta e o corpo da palheta; P - arame a 1 mm do tubo; Q - arame a 3 mm ou 5 mm do tubo; X - ponta como um todo; Y - canaleta como um todo e Z - coluna central. Fonte: Gisiger (2017) 52 Capítulo 1. A palheta do oboé Observa-se na figura 16 que a ditribuição dos raspados nas orquestras brasileiras é bastante homogênea. A maioria das orquestras possuem músicos que utilizam palhetas de raspados distintos. Essa convivência deve-se à semelhança dos objetivos que são inerentes à tipologia do raspado utilizado: sonoridade agradável, dentro do âmbito da cultura sonora dos oboístas no Brasil, aliada à flexibilidade (GISIGER, 2017) Nordeste Sudeste Sul Norte Centro-Oeste RASPADO LONGO DISTRIBUIÇÃO DE OBOÍSTAS PELA TIPOLOGIA DO RASPADO DA PALHETA 0 - 5 6 -10 11 - 30 31 - 50 RASPADO CURTO 0 - 5 6 -10 11 - 30 31 - 50 Figura 16 – Mapa da distribuição dos oboístas pelo tipo de raspado da palheta nas principais orquestras brasileiras. Fonte: o autor (2018)9 Nas instituições de ensino superior no Brasil (IES) que contemplam a formação 1.3. Os estilos de raspado de palhetas de oboé predominantes no Brasil 53 em oboé, seja em cursos de bacharelado, licenciatura ou pós-graduação, os dois tipos de raspados estão bem distribuídos (Fig. 17). Mota (2017b) aponta para uma flexibilização quanto ao ensino dos diferentes estilos de raspado. Muitos professores conseguem preterir suas escolhas pessoais para atender às necessidades e expectativas dos alunos, buscando em alguns casos, conhecer ambos os raspados. DISTRIBUIÇÃO DE OBOÍSTAS PELA TIPOLOGIA DO RASPADO DA PALHETA Nordeste Sudeste Sul Norte Centro-Oeste RASPADO LONGO 0 - 5 6 -10 11 - 30 31 - 50 RASPADO CURTO 0 - 5 6 -10 11 - 30 31 - 50 Figura 17 – Mapa da distribuição dos professores de oboé pelo tipo de raspado da palheta nas Instituições de Ensino Superior no Brasil. Fonte: o autor (2018)10 54 Capítulo 1. A palheta do oboé 1.4 Palheta de material sintético Há muito vem se pesquisando materiais sintéticos para fabricação de palhetas para oboé que possuam maior durabilidade e constância no resultado sonoro, ou seja, materiais menos suscetíveis à “ação de fatores do meio-ambiente que interagem com as fibras da cana como umidade do ar, a temperatura ambiente, a pressão barométrica” e que afetam consequentemente a performance musical do oboísta (GISIGER, 2017). A tecnologia atual vem permitindo que novos materiais sejam testados para subs- tituição da Arundo Donax. Em junho de 2016, a empresa canadense Légère iniciou a comercialização de palhetas sintéticas para oboé. Apesar de não ser a primeira tentativa na produção de palhetas sintéticas para oboé (SMITH, 1992), “a palheta da empresa Légère é a primeira realmente tocável e com boa sonoridade”11 (WERNER, 2018). A palheta é feita de um polímero, o polipropileno12. Atualmente, a palheta Légère está disponível somente no modelo de raspado curto, com 70 mm de comprimento e 10,5 mm de raspado (Fig. 18). O raspado longo está sendo desenvolvido pela empresa, mas ainda não há previsão de lançamento no mercado (LéGèRE, 2018). Figura 18 – Palhetas de material sintético de raspado curto. Fonte: Légère (2018) Werner (2018), comparou o espectrograma da gravação do “crow”13 de uma palheta 11 Das Oboenrohr der Firma Légère ist das erste wirklich spielbare Mundstück aus Kunststoff, was auch einen guten Klang produziert (tradução nossa). 12 Polipropileno é um produto livre de Bisfenol A, um composto tóxico utilizado para fabricar o poli- carbonato que está relacionado com muitas doenças, algumas do sistema endócrino. (TRASANDE; ATTINA; BLUSTEIN, 2012) 13 A expressão “crow” refere-se ao som obtido soprando-se através da palheta sem o instrumento. A palheta deve ficar posicionada dentro da cavidade bucal, sem contato com os lábios. O som gerado é um parâmetro utilizado pelos oboístas para checar a vibração da palheta (PRODAN, 1976). 1.4. Palheta de material sintético 55 de material sintético com o de uma palheta de raspado curto feita de Arundo Donax (Fig. 19). Figura 19 – Comparação dos espetrogramas do “crow” de uma palheta de material sintético de raspado curto (painel da esquerda) e de uma palheta de Arundo Donax de raspado curto (painel da direita). Fonte: Werner (2018) Na imagem do espectrograma, cada uma das linhas representa um parcial ou harmônico presentes no som, com indicação da intensidade de cada uma delas. No gráfico, a amplitude relativa do som em decibel (dB) é representada através da variação de cores, indo do azul para o vermelho, indicando respectivamente a intensidade de forma crescente estando localizada à direita. Na lateral esquerda do gráfico, encontram-se indicadas as frequências em hertz (Hz). Observa-se que a distribuição espectral da palheta de material sintético apresenta uma menor intensidade nas frequências até 5 kHz. O espectro da palheta feita de Arundo Donax apresentou mais parciais e com mais energia (dB). Quanto a sensação ao tocar, Werner (2018) relata que: “O som é cálido, escuro e agradável. Ela não vibra tão bem quanto uma palheta de cana, o que gera um pouco mais de resitência ao ar. Todas as notas podem ser tocadas no oboé, embora o grave seja difícil. O registro agudo é mais fácil de tocar graças à restência ao sopro”14. Na coleta de dados, um dos sujeitos (S18) utilizou-se de uma palheta de material sintético. Apesar de somente um sujeito ter à disposição uma palheta desse tipo durante a coleta de dados, acreditamos que a observação dos valores dos descritores acústicos e os resultados do teste subjetivo de percepção poderão colaborar para uma melhor compreensão de algumas das possibilidades musicais com esse tipo de palheta. 14 Der Klang ist warm, dunkel und angenehm. Es schwingt nicht ganz so gut wie ein Holzrohr und hat dadurch etwas mehr Blaswiderstand[...] Es können alle Töne auf der Oboe gespielt werden, allerdings geht die Tiefe schwer.[...] Die hohe Lage ist aufgrund des Blaswiderstandes etwas leichter zu spielen (tradução nossa). 56 Capítulo 1. A palheta do oboé 1.5 A importância da palheta na performance musical O campo da acústica musical é bastante complexo e tem sido estudado há séculos. Relevantes contribuições teóricas foram realizadas por Helmholtz, Benade, Fletcher e outros sobre o comportamento acústico dos instrumentos musicais (COGAN; ESCOT, 2013). O funcionamento do oboé, bem como dos instrumentos de sopro, pode ser descrito por um sistema modular de três partes: o trato vocal do instrumentista - o excitador - e a cavidade do instrumento ou ressonador (Fig. 20). Estas partes interagem através da pressão e do fluxo do volume de ar. No caso dos instrumentos de palheta, o excitador é uma palheta de cana, que modula e controla o fluxo do volume de ar que entra para o instrumento pela sua própria vibração. Figura 20 – Ilustração do sistema de funcionamento do oboé. Fonte: (LEDET, 1981) A vibração da palheta do oboé pode ser compreendida pelo Princípio de Bernoulli segundo o qual, à medida que a velocidade do ar aumenta, a pressão diminui, e vice-versa. Assim, o ar expirado pelo instrumentista flui através do interior da palheta reduzindo a pressão entre as lâminas, fazendo com que a pressão na cavidade bucal consiga comprimi- las, reduzindo a abertura da palheta e consequentemente a passagem para o fluxo de ar. Com a redução do fluxo de ar, a pressão interna entre as duas lâminas da palheta aumenta permitindo que essa retorne à sua posição original (Fig. 21). Esse ciclo de eventos é repetido na frequência de ressonância do sistema, ou seja, ao tocar um Dó 3 (262Hz), esse ciclo se repetirá 262 vezes por segundo (BLAIS, 2011). 1.5. A importância da palheta na performance musical 57 Figura 21 – Ilustração da ação do fluxo de ar sobre a palheta dupla (painel superior) e visualização estroboscópica do movimento da palheta de oboé (painel inferior). Fonte: Almeida et al. (2002) No contexto do oboé e do fagote, a coluna de ar, aproximadamente cônica, é determinada pela digitação e pela furação do sistema mecânico do instrumento e interage com os parâmetros do trato vocal do instrumentista e da palheta. Assim, a pressão de sopro, a temperatura e composição do ar introduzido, os ajustes da embocadura, a elasticidade da palheta, o fluxo de ar estabelecido e a ressonância que eventualmente ocorra entre as 58 Capítulo 1. A palheta do oboé vibrações da coluna de ar e o trato vocal etc., definem o som do instrumento (FUKS, 2017). O principio básico de vibração da palheta não varia de acordo com o raspado, mas o modo de vibração total da palheta e de suas partes, isto é, os padrões de onda que resultam no número relativo e na distribuição dos parciais, irão variar de acordo com o raspado da palheta (geometria e propriedades mecânicas da palheta) (LEDET, 1981). Ainda hoje, existem poucos estudos sobre as propriedades mecânicas da palheta, que dialoguem com o processo de produção sistematizado empiricamente pelos oboístas e fagotistas, colaborando na verificação de hipóteses e contribuindo para uma maior satisfação das necessidades musicais dos instrumentistas. No processo de produção das palhetas, as lâminas são raspadas com muita precisão buscando-se obter maior igualdade entre elas. Desta forma, as lâminas das palhetas vibrariam simetricamente, propiciando resultados mais satisfatórios para a execução instrumental. A compreensão das propriedades mecânicas da palheta (rigidez, visco- plasticidade, visco elasticidade e vida útil da cana), são de extrema importância para os oboístas, já que a palheta é o componente fundamental para produção sonora do oboé e dela depente grande parte das possibilidades expressivas do instrumentista. Há muito tempo se observa a influência da palheta na performance musical do oboísta. Desde do desenvolvimento e sistematização do ensino do oboé no século XVIII, inúmeras narrativas ressaltam empiricamente essa relação (HAYNES, 1984). Brod (1830) já afirmava que a qualidade do som do oboísta depende da palheta, especialmente da escolha da cana. Saber fazer a própria palheta é uma das habilidades primordias de grande parte dos oboístas profissionais. Por essa razão, a produção da palheta, bem como seu processo de aprendizagem, ocupa grande parte da práxis do oboísta, sendo um aspecto fundamental no seu processo de formação. Durante sua formação, o oboísta desenvolverá uma série de habilidades cognitivas e metacognitivas 15 que envolvem desde o manuseio das inúmeras ferramentas utilizadas para a produção da palheta até a adequação da palheta às necessidades específicas dos diferentes contextos musicias em que está inserido, passando, inevitavelmente, pela construção e sedimentação de um estilo de raspado que estará ligado diretamente à sua cultura sonora. Ferrillo (2006) ressalta a importância do oboísta conhecer as tendências do material utilizado para a produção da sua palheta e seu comportamento em diversas situações. O instrumentista deve saber, por exemplo, se elas encharcam-se rapidamente; se tendem a ser muito sensíveis a mudanças de altitude ou temperatura. O autor recomenda também, a 15 Habilidades cognitivas podem ser compreendidas como as diversas habilidades que possuímos e que vamos aprendendo no decorrer do nosso desenvolvimento em todas as áreas da nossa vida. A metacognição, por sua vez, está ligada à nossa capacidade de refletir e desenvolver estratégias para a solução dos mais diversos problemas (NETO et al., 2016). 1.5. A importância da palheta na performance musical 59 utilização de palhetas com características específicas para trechos musicais distintos e para situações de performance diferentes como, por exemplo, um concerto com orquestra, de música de câmara ou em uma audição para ingresso em orquestras ou outras instituições musicais. Para tanto, o oboísta deverá desenvolver a sensibilidade de perceber e a capacidade de reagir às adversidades e às demandas que se apresentem nos ensaios e concertos, ajustando sua palheta às necessidades específicas de cada situação e contexto. Segundo Ledet (1981), o estilo interpretativo de um oboísta e a realização da sua sonoridade ideal são determinados em grande parte pela palheta escolhida, que afetará diretamente sua articulação, respiração, flexibilidade e afinação. Obviamente a qualidade do instrumento tem uma influência decisiva também, mas não tanto quanto a palheta (GOOSSENS; ROXBURGH, 1977). Dada sua importância na produção sonora do oboé, a palheta tem o potencial de influenciar em diversos aspectos da performance musical do oboísta como a habilidade física (respiração, postura, embocadura etc.), competência técnica e musical (articulação, timbre, flexibilidade etc.), e aspectos mentais e emocionais (ansiedade, concentração, autoconfiança etc.), podendo ser um estressor ou um facilitador da expressão musical do oboísta. A execução do oboé requer um controle respiratório específico, principalmente no que concerne à expiração do ar restante, pois possui um orifício extremamente pequeno para vazão do ar na palheta. Durante sua formação o oboísta automatiza esse controle tornando-o eficiente para a realização da sua performance musical através de práticas regulares para o desenvolvimento tanto do processo de inspiração quanto de expiração (HEWITT; MAQUARRE, 1995). Assim sendo, o raspado da palheta não deve tornar-se um obstáculo ainda maior para o fluxo do ar do oboísta. Ao contrário, precisa responder eficientemente, permitindo que o ar flua da maneira mais orgânica possível. O raspado da palheta influencia significativamente a configuração da embocadura do oboísta, já que os lábios cobrem, de maneiras variadas, a superfície vibratória da palheta para manipulação de parâmetros acústicos, podendo variar, portanto, entre os diferentes estilos de raspado. De modo geral, tocar com maior quantidade da palheta na cavidade bucal, ou seja, com os lábios tocando na parte de trás e dura da palheta, diminui a possibilidade de domínio, porque o raspado da palheta vibra livremente sem os lábios para cobrí-lo e controlá-lo, técnica recorrente na execução dos instrumentos antecessores do oboé (zurna e charamela) (LEDET, 1981). Segundo SHALITA (2015), para se obter uma embocadura o mais relaxada possível a palheta deve proporcionar ao oboísta um ataque preciso em toda extensão do instrumento e em todas as dinâmicas, realizar as ligaduras com muito pouco ou nenhum ajuste dos lábios e permitir alcançar a afinação desejada das notas sem que seja necessário apertá-la. A palheta inadequada pode tornar-se um fator estressante para a performance 60 Capítulo 1. A palheta do oboé do oboísta, gerando uma série de reações psicofisiológicas indesejadas no indivíduo, que precisará se adaptar às exigências internas e externas durante a performance musical (LIPP, 2003). Geralmente, palhetas muito resistentes e abertas comprometem a respiração do oboísta, pela maior dificuldade para passagem do fluxo do ar exigindo maior esforço da musculatura do sistema respiratório envolvida. Para a emissão sonora, o instrumentista tende a exercer uma maior pressão dos lábios contra às lâminas da palheta afetando os músculos da garganta e da embocadura, prejudicando a movimentação da língua e, conse- quentemente, a articulação. Essa tensão gerada irradia-se para os dedos, comprometendo também a digitação. Por outro lado, uma palheta muito leve e fechada, pode prejudicar a emissão sonora, resultando em uma sonoridade “opaca”, devido em parte, à pouca energia nos harmônicos de frequências mais altas, dificultando a execução dos diferentes tipos de articulações e limitando a extensão dos níveis de dinâmica. Embora a relação entre a elaboração da palheta e a performance do oboísta seja em grande parte pessoal e subjetiva, parece-nos imprescindível a conscientização de que o desenvolvimento de palhetas que permitam ao intérprete expressar-se adequadamente é mais importante do que emoldurar-se a um determinado estilo de raspado predominante no contexto musical em que se está inserido. Assim como a busca por um constante aprimoramento musical permeia o percurso da maioria dos músicos, as pesquisas para o aperfeiçoamento das palhetas acompanha o oboísta durante toda sua trajetória, estimulando-o a buscar atualização constante, seja através de publicações impressas ou disponíveis na internet, seja através da troca de ideias com outros oboístas ou pesquisadores de várias áreas, como físicos e engenheiros. 61 2 Parâmetros musicais Estudos empíricos como os de Barten (1998) e Woody (2002) entremostram o papel fundamental das metáforas na compreensão musical dos artistas, professores e alunos, especialmente em relação à expressão musical. Garcia (2005), entretanto, aponta que uma das grandes dificuldades enfrentadas na didática dos diversos instrumentos musicais, refere-se ao uso de terminologias subjetivas relativas, por exemplo, à qualidade sonora. No contexto do oboísta, observa-se que, aliada à diversidade de raspados da palheta de oboé existentes, está uma gama de expressões e conceitos sonoros subjetivos. É recorrente escutarmos expressões como som “opaco”, “escuro”, “macio”, “palheta dura”, relacionados às palhetas de raspado curto e expressões “palheta mole”, som “claro”, “estridente”, “brilhante” relacionado às palhetas de raspado longo. Em geral, o oboísta deseja uma “boa” sonoridade, ou seja, uma sonoridade aceitável ao seus ouvidos, do público e de outros indivíduos que compõem seu ambiente musical e que estão condicionados, em grande parte, por sua cultura sonora. O meio musical nos Estados Unidos desenvolveu-se consentindo um tipo de sonoridade de oboé, produzida com palhetas de raspado longo, no qual, provavelmente, um oboísta de sonoridade marcadamente francesa, inglesa ou vienense, encontraria sucesso limitado, por soar de maneira distinta (LEDET, 1981). Desse modo, para que o oboísta alcance uma sonoridade individualmente e socialmente aceitável, o estilo de palheta é ajustado à maneira de se produzir o som, às características acústicas do oboé e à concepção sonora do contexto musical no qual o instrumentista está inserido. A construção de um paradigma sonoro de um determinado instrumento perpassa por sua utilização/função em uma obra musical. Em seu tratado de 1873, Korsakov faz algumas considerações sobre o timbre do oboé. Classificou-o entre os instrumentos com timbre “nasal” e de ressonância grave. Ele recomendava que o instrumento fosse utilizado em passagens mais melódicas, deixando os excertos rápidos para flauta e a clarineta; ressaltou também, a característica penetrante do seus staccatos. Do ponto de vista psicológico, como ele mesmo categorizou, o timbre do registro médio do oboé “é inocente e alegre nas tonalidades maiores e patético e triste em tonalidades menores”. Nos registros extremos, chamou de “selvagem” no grave e “duro” e “seco” no super agudo. Ao longo do seu “Grande Tratado de Instrumentação e Orquestração Moderna”, Berlioz utiliza palavras como “melancólico”, “sonhador”, “pastoral” ao tratar do timbre do oboé e do corne- inglês, contribuindo para a construção do caráter timbrístico desses instrumentos dentro do contexto da orquestra sinfônica. Respeitado por suas qualidades como orquestrador, seu “Grand Traité” influenciaria inúmeros compositores como Pyotr 62 Capítulo 2. Parâmetros musicais Ilych Tchaikovsky, Gustav Mahler, Richard Strauss e Richard Wagner, perpetuando os conceitos relacionados ao timbre da família do oboé (PEROTTO, 2013). Se por um lado tais conceitos são fundamentais para a transmissão de uma deter- minada cultura sonora, o uso descontextualizado de tais expressões, pouco contribui para o processo de desenvolvimento de uma boa palheta e das habilidades técnicas dos oboístas, pois limitam a experimentação de novas possibilidades que otimizem a expressão musical do instrumentista e da utilização do oboé em diferentes contextos musicais. Segundo (POLI, 2004; GABRIELSSON, 2003) músicos realizam variações sutis em parâmetros musicais, tais como articulação, intensidade e timbre para comunicar aspectos expressivos da música que interpretam. Considerando-se que o oboísta realiza grande parte da manipulação de tais parâmetros através da palheta, exploraremos a relação entre a tipologia da palheta e dois parâmetros musicais: a sonoridade e a articulação. 2.1 A sonoridade Segundo Ruiz (2017), a sonoridade é uma das características mais peculiares e que melhor diferencia um intérprete. McADAMS (2013, p.72) afirma que: timbre é uma palavra enganosa, simples e excessivamente vaga que abrange um conjunto muito complexo de atributos auditivos, bem como uma infinidade de questões psicológicas e musicais intrincadas. Abrange muitos parâmetros de percepção que não são determinados pela afinação, loudness, posição espacial, duração ou mesmo por várias características ambientais, como a reverberação da sala (tradução nossa) 1. Segundo Krumhansl (1989), há séculos, compreender o timbre é, provavelmente, um dos maiores desafios da comunidade musical, incitando psicólogos, físicos, engenheiros, músicos e outros pesquisadores a explorar as inúmeras possibilidades desse fenômeno acústico e psicoacústico. A teoria da cor do som, de 1863 de Helmholtz, foi o marco inicial dessa investigação, propondo que as “diferenças de cor sonora surgem principalmente da combinação de diferentes parciais com intensidades distintas” (HELMHOLTZ, 2013, p.422); ou seja, a variação do número e da intensidade dos parciais origina diferentes cores a partir de uma mesma fundamental. Cada parcial adicional, e a mudança de sua intensidade relativa, confere uma nova nuance à cor fundamental (COGAN; ESCOT, 2013). 1 Timbre is a misleadingly simple and exceedingly vague word encompassing a very complex set of auditory attributes, as well as a plethora of intricate psychological and musical issues. It covers many parameters of perception that are not accounted for by pitch, loudness, spatial position, duration, or even by various environmental characteristics such as room reverberation. 2.1. A sonoridade 63 Entretanto, inúmeros estudos realizados posteriormente ((MILLER, 1916; SE- ASHORE, 1936; FLETCHER; BLACKHAM; STRATTON, 1962; SCHAEFFER et al., 1967)) observaram a relação de outros componentes acústicos na percepção do timbre, constituindo o envelope sonoro de sinais musicais monofônicos: • Ataque: conjunto de vibrações sonoras (transientes, ruído etc) que ocorrem no intervalo de tempo entre o início da nota (onset) e a estabilização da frequência fundamental e da distribuição espectral da nota; • Sustentação: período de estabilização do espectro sonoro compreendido entre o final do ataque e o início do decaimento. Varia de acordo com a intensidade e o registro do instrumento em que a nota está sendo executada; • Decaimento: variação do conteúdo espectral no intervalo entre os instantes de início do decaimento e o final da nota (offset), ou seja, diminuição da intensidade sonora até desaparecer completamente. 2.4 2.5 2.6 2.7 2.8 2.9 −0.15 −0.1 −0.05 0 0.05 0.1 0.15 Tempo (s) Am pl itu de d o sin al e En er gi a R M S + + Sinal de áudio Energia RMS Início de nota Final de nota Final de ataque Início de decaimento + Figura 22 – Exemplo de segmentação do envelope sonoro de sinais musicais monofônicos em instantes temporais. Fonte: Loureiro et al. (2012) Sobre o timbre do oboé Cogan e Escot (2013, p.452) observam que: 64 Capítulo 2. Parâmetros musicais Há duas regiões de formantes2 forte, uma em 1kHz-1,5kHz e outra em 3kHz-4kHz. A ressonância intensa nessas regiões realça os parciais mais elevados e enfraquecem a fundamental. Consequentemente, os sons harmônicos são muito muito fortes do segundo ao quinto parcial. Por isso, o oboé frequentemente parece soar em um registro mais agudo do que aquele em que realmente está e pode literalmente sobressair-se em uma textura intrumental densa. Os espectros do oboé alcançam regiões mais agudas do que qualquer outro instrumento de sopro. Figura 23 – Análise do espectro de seis notas do oboé em duas dinâmicas: pp e forte mostrando o número de parciais e o percentual de energia de cada parcial em função da energia de todo o espectro. Fonte: Seashore (1936) apud Cogan e Escot (2013) Para Ledet (1981), a palheta exerce considerável influencia na articulação e no timbre do oboé, considerando-se que o tubo do instrumento ressoa e amplifica, sobretudo, a vibração nele introduzida pela palheta. Assim, dentro de suas possibilidades, o raspado da palheta e os ajustes, são realizados para produzir ou modificar um determinado timbre, propiciando a variação das características acústicas relacionadas à percepção da sonoridade do oboísta e a maior eficiência para a execução de diferentes articulações. 2 “Os formantes são um elemento importante na caracterização do timbre de certos instrumentos, funcionando como uma espécie de assinatura de uma determinada fonte sonora. Podem ser definidos como picos de energia em uma região do espectro sonoro. Desse modo, os harmônicos que se encontram nessa região de ressonância serão realçados” (IAZZETTA, 2010, p.27). 2.2. Articulação 65 2.2 Articulação O ataque nos instrumentos de sopro de palheta dupla distingue-se por sua precisão e clareza singulares. A explicação para isso está nos transientes iniciais extraordinariamente curtos, onde os parciais individuais atingem um desenvolvimento de amplitude quase exponencial, e pela ausência de sons inarmônicos e ruído. Segundo Meyer (2009), os oboés são especialmente apropriados para execução de articulações curtas e precisas, podendo dificultar o entrosamento musical com outros instrumentos que não possuem a mesma clareza na articulação. Figura 24 – Duração de transientes de alguns instrumentos da família das Madeiras. Fonte: Iazzetta (2010) Segundo (GOOSSENS; ROXBURGH, 1977), para os instrumentistas de sopro, o termo articulação designa a ação requerida para separar ou conectar uma nota, ou uma sequência de notas, usando uma consoante de acordo com os diferentes tipos de articulação requeridos no excerto musical. No oboé, as diferentes consoantes como um D suave ou um T mais incisivo, por exemplo, alteram o posicionamento da língua em relação à palheta, variando a forma de articulação de acordo com o fraseado e o estilo da obra. A precisão e regularidade da articulação dependem de vários fatores que se inter- relacionam, como: o controle da pressão labial sobre a palheta; o controle do volume e velocidade de ar utilizado (se a pressão do ar permanecer estável tanto no legato quanto no staccato o timbre e a articulação permanecerão mais uniformes); a coordenação entre a movimentação da língua e dos dedos. Todos esses elementos dependem, em maior ou menor grau, da dureza e tamanho da abertura da palheta. Palhetas muito duras tendem a prejudicar a emissão sonora através da maior resistência ao fluxo do ar, tornando a 66 Capítulo 2. Parâmetros musicais musculatura envolvida tensa e comprometendo o sincronismo entre o movimento da língua e a digitação, produzindo uma articulação imprecisa. Assim, a palheta deve possuir apenas a resistência necessária e uma boa abertura para o fluxo de ar, possibilitando ao oboísta uma boa emissão sonora3 e maior facilidade para a realização dos diferentes tipos de articulação. Dependendo da maneira como o oboísta utiliza a língua e da sua técnica de respiração, ele precisará modificar seu estilo de palheta, ajustando seu tamanho, resitência, molde, abertura e o tamanho da ponta (LEDET, 1981). Com o acelerado desenvolvimento da tecnologia no início do século XX e o cres- cimento da pesquisa sistemática sobre a performance, novas possibilidades de feedback começam a surgir, como ferramentas que podem oferecer, em tempo real, detalhes adicio- nais capazes de evidenciar parâmetros de expressividade em um nível de detalhamento onde a percepção ganha uma dimensão mais aprofundada da utilização dos recursos expressivos pelo músico durante a execução musical (LOUREIRO; MAGALHÃES et al., 2008). Na prática musical e didática, essas ferramentas têm potencial de contribuir para o refinamento da percepção, da consciência e do controle de recursos expressivos (tais como variação de andamento, articulação e legato, por exemplo) para a construção de uma interpretação musical, ou mesmo na formação de um estilo interpretativo (NETO et al., 2016). Nesse contexto, o presente trabalho propõe, a exploração de alguns parâmetros acústicos e psicoacústicos relacionados à sonoridade e à articulação de oboístas que utilizam palhetas de raspado curto e longo, correlacionando-as com os conceitos subjetivos utilizados para descrição desses parâmetros musicais. 3 A qualidade da emissão sonora está relacionada ao instante inicial da nota e depende do balanço apropriado entre a pressão do ar e o correto uso da língua, antes mesmo do som iniciar. Parte II Metodologia 3 Estudo Piloto O presente trabalho trata-se de um estudo observacional descritivo do tipo transver- sal (TRIOLA, 2014) realizado entre setembro e dezembro de 2017 nos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Dois experimentos pilotos foram conduzidos anteriormente, explorando oito hipóteses baseadas em algumas ideias recorrentes entre os oboístas sobre as palhetas de raspados curto e longo e a utilização da palheta sintética 1: 1. A sonoridade dos oboístas que utilizam palhetas de raspado longo é mais “clara” do que a dos oboístas que utilizam palhetas de raspado curto; 2. O legato é mais facilmente executado com palhetas de raspado longo; 3. A emissão sonora na palheta curta é mais difícil do que na palheta de raspado longo; 4. Palhetas de raspado curto proporcionam um staccato mais preciso e ágil do que as palhetas de raspado longo; 5. As palhetas “ruins” têm o som mais “claro” e “estridente” do que as palhetas “boas”; 6. A emissão sonora é mais difícil com palhetas “ruins” tornando o ataque mais “duro”; 7. Palhetas de raspados curto e longo são dois universos completamente diferentes; 8. Palhetas de material sintético não são tão eficientes quanto as palhetas de Arundo Donax. O teste de hipóteses sempre envolve confirmação (consistência entre a hipótese e a observação) ou desconfirmação (inconsistência entre a hipótese e a observação) (TWENEY; DOHERTY; MYNATT, 1981). Através dos estudos experimentais, procuramos observar o comportamento das variáveis presentes na performance musical buscando determinar os efeitos de variáveis independentes selecionadas, que podem ser manipuladas (diferentes raspados de palhetas para oboé), sobre variáveis dependentes selecionadas, ou seja, aquelas observadas para ver se são afetadas pela manipulação (timbre e articulação), para elabora- ção de procedimentos metodológicos que nos permitam verificar as ideias assumidas pelos oboístas de maneira objetiva. 1 No presente, trabalho denominaremos palheta de raspado curto, as palhetas cujo raspado utilizem até 45% do total de cana disponível para raspagem e palhetas de raspado longo, as que utilizarem acima de 45% dessa superfície. 3.1. Experimento I 69 3.1 Experimento I Buscando explorar a possível existência de diferenças significativas na sonoridade de oboístas que utilizam palhetas diferentes, foram realizadas gravações de dois oboístas profissionais, um utilizando palheta de raspado curto e outro palheta de raspado longo, executando os seguintes trechos musicais: • Nota Dó em três oitavas (Dó3 - 262 Hz, Dó4 - 524 Hz e Dó5 - 1048 Hz); • Escala de Dó maior em staccato, duas oitavas a partir do Dó3; • As oito primeiras notas do solo do segundo movimento do Concerto para Violino em Ré maior op.77 de J. Brahms. As amostras foram registradas com o gravador ZOOM Q3HD na Sala Minas Gerais. O gravador foi colocado em uma estante musical a um metro de altura do solo e a um metro de distância do instrumentista. Os áudios foram analisados através do programa SpectraPlus gerando os espectrogramas utilizados para as análises. 3.1.1 Análises espectrais Segundo (HELMHOLTZ, 2013) apud (COGAN; ESCOT, 2013, p.553), “a sensação de uma nota musical é composta por sensações de várias notas individuais”, ou seja, quando um objeto vibra em partes iguais produz uma série de frequências denominada série harmônica ou série de parciais, as quais percebemos como uma única altura. Fre- quentemente, quando chamamos a uma altura, Lá3, por exemplo, nos referimos à sua fundamental, mas deve-se ter em mente que nessa nota estarão presentes harmônicos, cuja variação da quantidade e intensidade contribuirão para nossa percepção do timbre (COGAN; ESCOT, 2013). Um espectrograma é uma representação visual do chamado espectro de frequências de um som, obtido a partir da decomposição deste som em múltiplas frequências. Esta representação permite a visualização da distribuição de intensidades do som original nas diferentes frequências contidas dentro dos limiares da audição humana, que varia entre 20 Hz e 20 kHz (COGAN; ESCOT, 2013). No gráfico, a amplitude relativa de cada frequência é representada em decibels (dB) através da variação de cores, indo do azul para o vermelho. Na imagem do espectrograma, regiões do espectro de frequência que possuem maior intensidade aparecem destacadas em relação às outras. Portanto, os chamados harmônicos, múltiplos da frequência fundamental do som, e os parciais, tendem a aparecer como linhas, cujas frequências em hertz (Hz) encontram-se indicadas na lateral esquerda do espectrograma. 70 Capítulo 3. Estudo Piloto Com o objetivo de verificar possíveis similaridades e/ou diferenças no envelope sonoro de cada um dos instrumentistas, utilizando palhetas de raspado distintos, foi feita uma análise visual dos espectrogramas das gravações realizadas. Para essa análise consideramos harmônicos as parciais múltiplas de f0 com amplitude relativa de até -45 dB em relação ao máximo de energia do sinal. Nota Dó em três oitavas Figura 25 – Nota Dó em três oitavas. À primeira vista, parece haver mais energia em um número maior de harmônicos na palheta de raspado curto no trecho analisado, pois o espectrograma (Fig. 26) apresenta-se mais denso quando comparado ao da palheta de raspado longo (Fig. 27), onde parece haver mais “espaços vazios” no espectro. Figura 26 – Espectrograma da nota Dó em três oitavas - palheta de raspado curto (PC). Tal observação pode ser realizada também ao compararmos os valores dispostos na tabela 1, a qual contém o número de parciais visíveis no espectrogram em cada nota executada pelos oboístas utilizando palhetas de raspados distintos. 3.1. Experimento I 71 Tabela 1 – Número de parciais da nota Dó em três oitavas executadas com palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL). Nota Raspado Curto(no de parciais) Raspado Longo (no de parciais) Dó 3 (262 Hz) 21 (17 mais proeminentes) 18 (12 proeminentes) Dó 4 (524 Hz) 10 10 Dó 5 (1048 Hz) 6 5 Dó 4 (524 Hz) 10 10 Dó 3 (262 HZ) 19 11 No espectrograma, obtido através da análise da gravação dos Dós com a palheta de raspado curto (Fig. 26), os parciais chegaram a mais de 6 kHz, alcançando no Dó5 e no ataque do primeiro Dó3, os 8 kHz. Em geral, todos os harmônicos são mais intensos que suas fundamentais, destacando o harmônico 3 em todas as notas do trecho. No ataque do primeiro Dó3, podemos ver claramente a predominância dos harmônicos em relação à fundamental. A energia na fundamental encontra-se entre -45 e -35 dB, enquanto a intensidade dos harmônicos chegam a ultrapassar os -15dB. Esse mesmo comportamento é observado em todo o trecho, onde as fundamentais estão abaixo dos -45 dB e os harmônicos, entre -35 e -25 dB. Figura 27 – Espectrograma da nota Dó em três oitavas - palheta de raspado longo (PL). Na palheta de raspado longo (Fig. 27), os parciais em todo o trecho ficaram em torno de 4 a 6 kHz, notando-se durante o ataque do primeiro Dó3 atividade no envelope sonoro na região dos 8 kHz. Assim como na palheta de raspado curto, houve uma diminuição na palheta de raspado longo no número de parciais presentes no som no segundo Dó3 em relação ao primeiro. 72 Capítulo 3. Estudo Piloto Observa-se nos espectrogramas obtidos com a palheta de raspado longo (Fig. 27) que, em geral, as intensidades das fundamentais apresentaram-se próximas às dos primeiros harmônicos, entre -45 e -35 dB. No primeiro Dó3, percebeu-se uma maior intensidade da fundamental (-15 dB) e do harmônico 5. Interessante notarmos que no segundo Dó3, houve uma perda de energia da fundamental, provavelmente, decorrente da diferença na técnica para realização dos ataques. O segundo ataque foi menos incisivo, graças ao fluxo de ar já estabelecido pelo instrumentista para realização das notas anteriores. Com exceção do Dó 3, todas as outras fundamentais estavam entre -35 e -25 dB e foram mais intensas que seus harmônicos. Escala de Dó maior em staccato (duas oitavas) Figura 28 – Escala de Dó maior em staccato (duas oitavas). No espectrograma da palheta de raspado curto (Fig. 29), os harmônicos em todas as notas estiveram em torno de 6 kHz, chegando a 7kHz (Lá4 e Sí4) e 8kHz (Mi4). Percebeu-se uma pequena diminuição no número de parciais no Dó3 (19) e Dó4 (5), em relação ao espectro do Dó em três oitavas. Visualmente, as finalizações de cada nota parecem mais curtas no espectrograma da palheta de raspado curto (Fig. 29), em relação à palheta de raspado longo (Fig. 30), podendo indicar uma maior habilidade para realização da articulação proposta para escala: staccato com a palheta de raspado curto. Na figura 29, os harmônicos estiveram mais intensos, cerca de -20 dB, que as fundamentais que estiveram em torno dos -35 dB. Na primeira oitava da escala, os harmônicos mais presentes foram o 4 e o 5. A partir da mudança de registro, a partir do Ré4, as fundamentais passaram a ficar um pouco mais intensas, mas sempre cerca de 5 db abaixo do harmônico 2. Apesar do decaimento nas notas mais agudas, os harmônicos permaneceram presentes em todo o trecho e de maneira consideravelmente homogênea. 3.1. Experimento I 73 Figura 29 – Espectrograma da escala de Dó maior em staccato (duas oitavas) - palheta de raspado curto (PC). Na palheta de raspado longo (Fig. 30), observa-se a presença dos harmônicos até 6 kHz em toda a escala. Na nota Mi4 e Sol4 pode-se visualizar frequências no espectro até 7 kHz. O decaimento de cada nota é visualmente um pouco mais alongado do que na palheta de raspado curto (Fig. 29). Não foram percebidas mudanças na quantidade de harmônicos em relação ao trecho do Dó em três oitavas. De modo geral a fundamental de cada nota foi mais intensa permanecendo entre -20 e -15 dB com algumas exceções: Ré3 (fundamental, cerca de -35 dB e harmônicos 3 e 4 cerca de -15 dB), Mi3 e Fá3, (fundamental cerca de -20 dB e harmônico 4 aproximadamente -10 dB). O mesmo fenômeno foi percebido uma oitava acima nas notas Mi4 e Fá4. Destaca-se aqui o harmônico 2 da nota Mi4 que chegou a cerca de -5 dB. Figura 30 – Espectrograma da escala de Dó maior em staccato (duas oitavas) - palheta de raspado longo (PL). 74 Capítulo 3. Estudo Piloto Solo do segundo movimento do Concerto em Ré maior para violino e orquestra, op.77 de J. Brahms. Figura 31 – Excerto do solo para oboé do 2o movimento do Concerto em Ré maior para violino e orquestra, op.77 de J. Brahms. No espectrograma da palheta de raspado curto (Fig. 32), continuamos a perceber uma predominância do harmônico 2 em relação à fundamental, mas podemos notar que, na primeira nota (Lá4) e nos dois primeiros Fás do excerto, as fundamentais estiveram em equilíbrio com o harmônico 2 quanto à intensidade. A atividade no envelope sonoro chegou aos 7 kHz. Notou-se que o número de harmônicos das notas Dó4 permaneceu próximo ao observado nos dois excertos anteriores, de 10 a 11 parciais (Fig. 26 e 29). Figura 32 – Espectrograma do excerto do Concerto em Ré maior para violino e orquestra, op.77 de J. Brahms - palheta de raspado curto (PC). Na palheta de raspado longo (Fig. 33), também foi possível notar atividade em 3.1. Experimento I 75 parciais até 7 kHz. Curiosamente, o harmônico 2 permaneceu preponderante em todo o trecho, e na maioria das notas, acima dos -15 dB, com algumas exceções onde, a fundamental e o harmônico estiveram com intensidade bem próximas. Apenas na primeira nota do excerto a fundamental foi mais intensa que o harmônico 2. O Dó4 permaneceu como nos outros exemplos com 10 parciais (Fig. 27 e 30). Figura 33 – Espectrograma do excerto do Concerto em Ré maior para violino e orquestra, op.77 de J. Brahms - palheta de raspado longo (PL). Foi possível observar, através da análise visual dos espectrogramas, que o som do oboé apresenta grande quantidade de parciais. De modo geral, com ambos os estilos de raspado, observou-se frequências acima dos 4 kHz, chegando em diversos momentos, aos 8 kHz. No segundo registro do instrumento, os espectrogramas, com palhetas de diferentes raspados, apresentaram maior similaridade. Uma característica frequentemente relacionada à origem do nome do instrumento hautbois (madeira alta), é a preponderância do segundo harmônico em relação à própria fundamental. Essa característica foi mais observada com o instrumentista que utilizou a palheta de raspado curto, onde os harmônicos 2 e 3 foram mais intensos. Já na palheta de raspado longo, houve uma maior predominância da fundamental em relação aos seus harmônicos. Nos espectrogramas analisados, a palheta de raspado curto apresentou um maior número de harmônicos, principalmente na nota Dó3. Esse fenômeno pode estar relacionado à maior resistência para passagem de ar, associada frequentemente à esse tipo de raspado, tendo em vista que observou-se também a influência do ataque no número e na intensidade dos parciais. Quanto mais incisivo o ataque mais parciais estiveram presentes no som. Apesar do pequeno número de exemplos analisados, o primeiro experimento foi 76 Capítulo 3. Estudo Piloto importante para explorarmos algumas crenças à respeito dos resultados musicais possíveis com palhetas de diferentes estilos. A análise visual dos espectrogramas, apontam uma possível relação entre as características da sonoridade dos oboístas e às particularidades dos parâmetros físicos das palhetas de raspado curto e raspado longo. Com o intuito de investigar tais observações, fez-se necessário a elaboração de um segundo experimento que explorasse não só a análise dos áudios gravados, mas também obtivesse uma ideia de como essas gravações eram percebidas pelo público. 3.2 Experimento II O segundo experimento foi divido em duas etapas: 1a) coleta e análise das gravações dos oboístas; e 2a) aplicação de um teste subjetivo de percepção. Foram gravados seis oboístas profissionais membros da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e da Orquestra Sinfônica de Minas que aceitaram o convite de participar do experimento. Conseguimos uma distribuição igual de sujeitos, três que tocam com palhetas de raspado curto e três com palheta de raspado longo. O sujeito 5, apesar de usar profissionalmente palhetas de raspado longo, aceitou realizar a gravação dos excertos com os dois tipos de raspagem para que pudéssemos verificar possíveis diferenças entre os dois raspados sem a variação do sujeito e do instrumento. Os instrumentistas interpretaram dois excertos musicais: os dois primeiros compas- sos do solo para oboé do Concerto para Violino em Ré maior op.77 de J. Brahms (Fig. 32) e uma adaptação do tema do Batuque de Lorenzo Fernandez em três oitavas (Fig. 35). No experimento, optamos por gravar excertos de obras musicais e não notas isoladas, buscando compreender o comportamento dos paramâmetros musicais em um ambiente que se aproxime ao máximo das condições de uma performance musical. Figura 34 – Adaptação do Batuque de Lorenzo Fernandez (adaptação nossa). 3.2. Experimento II 77 Os sujeitos X, 1 e 52 foram gravados no Laboratório do Centro de Estudos do Gesto Musical e Expressão da Escola de Música da UFMG com um microfone cardioide. Os sujeitos 3 e 4 foram gravados no mesmo laboratório, mas foi utilizado o aparelho Zoom Q3 HD. O sujeito 2, residente em São Paulo, foi gravado em seu apartamento com um aparelho Zoom Q2 HD. Os áudios foram capturados com taxa de amostragem de 44.100 Hz. Desenvolvemos um protocolo (apêndice K) para a coleta de dados que serviu de piloto para o protocolo da coleta de dados final3. Após as gravações, foram recolhidos dados sobre os materiais utilizados pelos sujeitos, como marca e modelo do instrumento; marca, modelo e material do tubo; tipo de raspado; medidas da palheta etc., e aplicou-se também um questionário semi-estruturado (apêndice L) para melhor compreensão da relação contratual do oboísta com a palheta, direcionado especificamente à sua compreensão do timbre. 3.2.0.1 Teste subjetivo de percepção (TSP) - Piloto Para verificar a eficácia da aplicação e estrutura do teste subjetivo de percepção, realizou-se um teste-piloto, com 23 indivíduos, membros do corpo docente e discente da Universidade Federal da Paraíba e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, convidados a participar da pesquisa. O local de realização dos testes variou de acordo com as possibilidades logísticas de cada uma das instituições e teve como fonte para reprodução os alto-faltantes de um Macbook pro. Para realização do teste subjetivo de percepção utilizamos os mesmos áudios gravados para a análise experimental realizada através dos descritores acústicos do segundo experimento. Combinaram-se duas versões de cada excerto, comparando os instrumentistas que utilizaram palhetas de diferentes raspados. No apêndice Q, encontra-se disponível a sequência de áudios utilizados no teste subjetivo de percepção piloto, tanto para o excerto do op.77 de Johannes Brahms, quanto para o excerto da adaptação do tema do Batuque de Lorenzo Fernandez. Não realizamos a comparação entre as palhetas classificadas como boas e ruins de um mesmo sujeito, primeiramente porque entendemos que essa classificação refere-se à sensação do instrumentista em relação à sua percepção acerca da eficiência da palheta para uma performance musical e, segundo, porque o objetivo da pesquisa é compreender a relação dos diferentes raspados da palheta de oboé e o resultado sonoro obtido, correlacionando os dados extraídos através dos descritores acústicos, com os adjetivos utilizados para caracterizar a sonoridade e a articulação dos oboístas. Como o S5 gravou com palhetas de ambos os raspados, podemos realizar a com- 2 A lista de abreviaturas e siglas utilizadas nos experimento II encontra-se disponível no apêndice J 3 O protocolo de gravação é descrito em detalhe no cápitulo 4 78 Capítulo 3. Estudo Piloto paração dos resultados obtidos por um mesmo instrumentista com palhetas diferentes. Foi feito também um teste cego utilizando-se os áudios do S5 com a mesma palheta para verificarmos se a percepção dos sujeitos foi induzida de alguma forma a relatar uma diferença inexistente. Os testes foram aplicados em sessões de aproximadamente 15 minutos. Para alcance de um número maior de participantes, aplicou-se o teste em mais de um participante a cada sessão. A cada grupo de participantes explicou-se os objetivos da pesquisa e como o teste seria aplicado, abrindo espaço para dúvidas acerca dos procedimentos. Os participantes receberam um teste piloto (apêndice P), com perguntas semi- estruturadas a serem respondidas após a escuta de duas versões do excerto musical. Sempre que solicitado, os áudios foram repetidos para melhor apreciação. Buscou-se, através do teste, averiguar se os participantes conseguiam perceber diferença no timbre e na articulação nas duas versões do excerto escutado. Em caso positivo, o entrevistado era convidado a responder as questões seguintes correlacionando alguns adjetivos com os áudios. Em caso negativo, o participante deveria aguardar até a execução do próximo áudio. Após os adjetivos disponíveis para cada trecho, disponibilizou-se um espaço em branco para o acréscimo de outras expressões para caracterização do timbre/articulação do oboísta ou para outras observações pertinentes, caso o entrevistado demonstrasse interesse espontâneo para preenchê-lo. Após a coleta de dados realizou-se uma análise exploratória dos dados através de seis descritores acústicos: centroide espectral, índice de legato, achatamento espectral, duração do ataque, índice de articulação e inclinação do ataque. Os descritores utilizados foram estimados a partir de informação extraída do sinal de áudio da gravação dos dois excertos musicais interpretados pelos oboístas através da interface EXPAN (CAMPOLINA; LOUREIRO; MOTA, 2009) 4. Os dados obtidos através dos descritores acústicos foram então confrontados com os resultados do teste subjetivo de percepção, levando às seguintes observações: • Instrumentistas que utilizaram palhetas de raspado curto obtiveram maiores valores de centroide espectral; • O índice de legato não apresentou variação significativa entre os diferentes tipos de raspagem; • Os maiores índices de achatamento espectral foram obtidos em instrumentistas que utilizaram palhetas de raspado curto; 4 Os descritores serão abordados detalhadamente nos capítulos seguintes na descrição dos procedimentos analíticos utilizados no estudo principal do presente trabalho. 3.2. Experimento II 79 • A duração do ataque foi maior em instrumentistas que utilizaram palhetas de raspado curto ; • O índice de articulação foi superior em instrumentistas que utilizaram palhetas de raspado curto; • Os valores de inclinação do ataque foram superiores em instrumentistas que utilizaram palhetas de raspado curto. Ao compararmos as palhetas boas com as palhetas ruins percebemos as seguintes características: • O centroide espectral foi maior nas palhetas ruins; • As palhetas boas apresentaram índice de legato igual ou superior às palhetas ruins; • Os valores de achatamento espectral foram superiores nas palhetas ruins; • A duração do ataque foi superior nas palhetas boas; • O índice de articulação foi superior em palhetas ruins; • A inclinação do ataque é muito maior nas palhetas boas. De modo geral, os resultados do teste subjetivo de percepção corroboraram com os indícios apontados pelos descritores acústicos. A sonoridade dos oboístas que utilizaram palhetas de raspado curto foi classificada majoritariamente como clara e a articulação descrita como dura; enquanto os oboístas com palhetas de raspado longo tiveram a sonoridade descrita como escura e a articulação mole5. Após a análise dos dados do experimento II, percebeu-se que algumas alterações seriam necessárias para obtermos mais informações e controle das amostras: • Realizar as gravações no mesmo local; • Utilizar o mesmo equipamento de gravação em toda coleta de dados; • Marcar a disposição e distância do microfone, para que se obtenha a captação do som mais semelhante possível para todos os sujeitos; • Sugerir uma indicação de tempo e disponibilizar um metrônomo durante a gravação para padronizar o pulso nos dois excertos, pois nas gravações do excerto da adaptação do tema do Batuque de Lorenzo Fernandez no experimento II, a diferença de andamentos pode ter comprometido a percepção e consequentemente caracterização da articulação dos sujeitos; 5 Os dados do Experimento II estão disponíveis em detalhe nos apêndices M, N, O e Q. 80 Capítulo 3. Estudo Piloto • Reestruturar o teste subjetivo de percepção ampliando número de adjetivos para classificação da sonoridade e da articulação dos oboístas; • Utilizar uma fonte mais adequada para reprodução dos áudios do teste subjetivo de percepção afim de minimizar a interferência sonora externa. 81 4 Estudo Principal Após algumas considerações sobre os dois primeiros experimentos, a coleta de dados do estudo principal foi planejada em duas etapas: gravação dos áudios e aplicação do teste subjetivo de percepção. 4.1 Gravação dos áudios e aplicação do questionário As gravações foram realizadas no estúdio do Centro de Comunicação Turismo e Artes (CCTA) da Universidade Federal da Paraíba - UFPB. Os áudios foram capturados com um gravador Zoom Q3 HD, com frequência de amostragem de 44.100Hz. Cada oboísta utilizou seu próprio instrumento e suas palhetas. Todos os oboístas tocaram sentados com o microfone posicionado a 60 cm da campana do oboé. Na estante, foram disponibilizadas a partitura dos excertos a serem executados e um metrônomo para que os oboístas obtivessem um referencial para o tempo de cada obra. Foram utilizadas marcas na mesa e no chão do estúdio como referências para padronizar o posicionamento de todos os instrumentistas (Fig. 35). Figura 35 – Set up de gravação da coleta de dados. Foram gravados 21 oboístas profissionais de todo Brasil (14), Uruguai (1), EUA (2), Canadá (1) e Europa (3), durante o I Encontro Internacional da Associação Brasileira de Palhetas Duplas. Alguns sujeitos participaram posteriormente, dada a incompatibilidade 82 Capítulo 4. Estudo Principal do cronograma planejado com a agenda de atividades do Encontro de Palhetas Duplas. Todos os participantes foram contactados anteriormente por e-mail sobre a colaboração na pesquisa e assinaram antes da gravação o termo de consentimento (apêndice I) concordando em participar deste estudo. A partir das observações realizadas nos dois primeiros experimentos, escolheram-se dois excertos musicais contrastantes para proporcionar condições de performance onde pudéssemos observar o comportamento das variáveis dependentes (parâmetros acústicos) em relação à manipulação das variáveis independentes (parâmetros físicos das palhetas de raspado curto e longo: medidas e materiais utilizados na produção). Desse modo, foram definidas duas condições de performance: condição 1 - transições em legato, onde a manipulação timbrística é mais proeminente; e condição 2 - transições articuladas. Para a Condição 1 (transições em legato), onde investigou-se principalmente a relação do raspado da palheta com a sonoridade do oboísta, consolidamos a utilização dos primeiros compassos do solo para oboé do Concerto para Violino em Ré maior op.77 de Johannes Brahms. Este é, provavelmente, um dos solos mais recorrentes na bibliografia de excertos orquestrais para oboé e um dos mais solicitados em audições (FERRILLO, 2006). O excerto apresenta uma série de desafios para oboísta, sendo o principal a sustentação da linha em legato, inclusive nas semicolcheias em semi-legato (notas 7 e 8), onde o som deve ser mantido e pontuado apenas ligeiramente e gentilmente com a língua (GOOSSENS; ROXBURGH, 1977). Segundo Ferrillo (2006), esse excerto exige que o oboísta tenha à disposição uma excelente palheta para que as relações intervalares soem afinadas e obtenha-se uma sonoridade homogênea que permita a construção do fraseado adequado ao caráter musical do solo. Figura 36 – Excerto do solo para oboé do 2o movimento do Concerto em Ré maior para violino e orquestra, op.77 de J. Brahms. A adaptação do Batuque de Lorenzo Fernandez foi proposta na Condição 2 (tran- sições articuladas) para que pudéssemos ter informações quanto às características dos diferentes tipos de raspados de palheta, no que diz respeito à articulação, especificamente 4.1. Gravação dos áudios e aplicação do questionário 83 o staccato, nos três registros do instrumento. Figura 37 – Excerto do Batuque de Lorenzo Fernandez (adaptação nossa). Foi solicitado ao oboísta que escolhesse três de suas palhetas disponíveis, as quais foram numeradas para a identificação posterior. Solicitamos ao oboísta a permissão para cobrir a região da amarração da palheta com fita veda rosca para diminuir a eficiência da identificação da palheta utilizada pela cor da linha utilizada para amarração (Fig. 38). Após a preparação (explicação dos procedimentos, montagem do instrumento e umidificação da palheta), os instrumentistas executaram três vezes consecutivas o excerto da C1 (transições ligadas) e, em seguida, o da C2 (transições articuladas). Foi permitido a todos os participantes a possibilidade repetir a execução de qualquer um dos excertos musicais. 4.1.1 Questionário Após a gravação, foi solicitado a todos os sujeitos que preenchessem um questionário com questões abertas (apêndice D) para coleta dos dados sobre os instrumentos (marca e modelo) e as palhetas utilizadas na gravação (marca, modelo, material e tamanho do tubo; marca, diâmetro, espessura e densidade da cana; molde utilizado). Foi solicitado aos instrumentistas que medissem o tamanho total e o raspado das suas palhetas para o mapeamento das medidas utilizadas pelos participantes. 84 Capítulo 4. Estudo Principal Figura 38 – Mensuração do tamanho total (painel da esquerda) e do raspado (painel da direita) da palheta de oboé. Elaborou-se um questionário que permitisse-nos investigar a concepção dos sujeitos sobre a relação entre os parâmetros físicos das palhetas utilizadas pelos oboístas e os parâmetros musicais (sonoridade e articulação), através do mapeamento das seguintes informações: • As características de uma boa palheta para os participantes; • A importância atribuida à palheta para performance musical; • Os conceitos utilizados para caracterizar a sonoridade do oboé ou as características do timbre de uma palheta; • Os ajustes realizados para adequação do timbre da palheta às espectativas do oboísta; • As referências de outros oboístas quanto à sonoridade. 4.2 Teste subjetivo de percepção A música é notoriamente difícil de discutir: o som tem um pequeno vocabulário descritivo próprio, sendo todo o resto emprestado de ou- tros domínios, logo quase toda fala em contextos musicais é metafórica (LEECH-WILKINSON; PRIOR, 2014, p.34). A psicologia da música (ou psicomusicologia), há décadas, vem investigando respos- tas humanas à música de maneira empírica e teórica (WILLIAMS; CARLSEN; DOWLING, 1981). Um aspecto fundamental dessas pesquisas é o desenvolvimento de métodos de avali- ação para medição dessas respostas. Entre as várias metodologias utilizadas, o Teste de Diferencial Semântico proposto por Osgood, SUd e Tannenbaum (1976), cujo objetivo é 4.2. Teste subjetivo de percepção 85 sistematizar a reação de indivíduos sobre objetos, eventos e conceitos medindo a semântica ou significado de palavras, particularmente adjetivos e seus conceitos, apresentou profícuas perspectivas de análise para o presente estudo. Baseado em Osgood, Suci e Tannenbaum (1964), o teste subjetivo de percepção foi aplicado em 73 indivíduos, discentes e docentes do curso de música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Universidade Federal da Paraíba (UFPB). No que tange à formação instrumental (Fig. 39) e ao perfil profissional (Fig. 40) dos ouvintes, procurou-se aplicar o teste em uma população especializada e heterogênea do ponto de vista instrumental, com o intuito de obtermos além da opinião de oboístas, uma perspectiva mais ampla de diversos músicos sobre a sonoridade e a articulação do oboé obtida através de palhetas de raspado curto e longo. Figura 39 – Formação instrumental dos ouvintes que participaram do teste subjetivo de percepção. 86 Capítulo 4. Estudo Principal Figura 40 – Perfil profissional dos ouvintes que participaram do teste subjetivo de percep- ção. Após a análise das observações feitas pelos ouvintes e das informações coletadas durante o teste subjetivo de percepção piloto e dos questionários aplicados1, elaborou- se o teste subjetivo de percepção do estudo principal2. Organizou-se 25 agrupamentos3 compostos pela gravação dos dois excertos musicais (os primeiros compassos do solo do Concerto para Violino em Ré maior op.77 de Johannes Brahms e a adaptação do Batuque de Lorenzo Fernandez) executadas pelos oboístas que participaram da coleta de dados do estudo principal. Cada agrupamento foi reproduzido duas vezes seguidas e de maneira independente para os ouvintes. A duração total da aplicação do teste foi de aproximadamente 20 minutos. Foi proposta uma lista com 6 eixos bipolares (Tab. 2) - 12 adjetivos antagônicos4 - os quais o ouvinte poderia ou não relacionar com os parâmetros musicais investigados (timbre e articulação), após a escuta dos agrupamentos das gravações5. 1 Apêndices Q e M. 2 Apêndice G. 3 Ao todo, 21 oboístas participaram da gravação, mas três sujeitos (S13, S20 e S21) tocaram tanto com palhetas de raspados curto, quanto com palhetas de raspado longo. Um sujeito (S18) utilizou além de palhetas de raspado curto de Arundo Donax, uma palheta de material sintético. 4 Os adjetivos foram extraídos das respostas dos oboístas ao questionário aplicado após a gravação dos dois excertos musicais. 5 Optamos pela não utilização de gradações entre os adjetivos com o intuito de estabelecer uma relação mais direta entre os resultados do teste subjetivo de percepção com os valores obtidos através dos 4.2. Teste subjetivo de percepção 87 Tabela 2 – Adjetivos utilizados no teste subjetivo de percepção. Timbre Articulação Claro Escuro Preciso Impreciso Brilhante Opaco Duro Mole Redondo Estridente Pesado Leve A aplicação do teste foi feita individualmente e em grupos, dependendo da disponi- bilidade dos ouvintes (Fig. 41). Para reprodução dos agrupamentos, utilizou-se uma caixa de som bluetooth portátil JBL CHARGE 3 com resposta de frequência do sistema de 65 Hz a 20 kHz. O volume foi ajustado às necessidades acústicas da sala e do número de participantes, buscando uma disposição em que os ouvintes estivessem o mais próximo possível da fonte sonora. Figura 41 – Aplicação do teste subjetivo de percepção. Os ouvintes utilizaram as folhas de respostas próprias (apêndice G), onde consta uma breve descrição dos objetivos da pesquisa, os procedimentos e os comandos para descritores acústicos. Estudos futuros poderão ser feitos replicando e ampliando a abrangência da metodologia utilizada. 88 Capítulo 4. Estudo Principal realização do teste. Além do espaço destinado à marcação das múltiplas escolhas, havia local para comentários adicionais para cada agrupamento (verbalização livre). No comando do teste subjetivo de percepção foi informado aos ouvintes que não era obrigatória a utilização de qualquer um dos adjetivos sugeridos para a classificação da sonoridade e da articulação dos oboístas, enfatizando-se ainda que o ouvintes deveriam ater-se fielmente às suas impressões. A avaliação subjetiva é um método fácil e direto, mas apresenta alguns problemas, como definição imprecisa, indeterminação da escala de opinião e o viés da resposta ao verdadeiro sentimento (WANG; WANG, 2010). O uso de descritores acústicos, por exemplo, pode contribuir para a redução desses problemas, complementando com dados objetivos o desenvolvimento de uma maior estabilidade semântica, uma vez que os adjetivos assumem diferentes significados a cada novo contexto. 89 5 Procedimentos Analíticos 5.1 Segmentação Após a gravação realizamos a segmentação das faixas de áudio, etapa fundamental para o processamento dos dados, tendo em vista que sua precisão e robustez é imprescindível para a definição e estimação adequada dos descritores de expressividade (LOUREIRO; MAGALHÃES et al., 2008). Diversos autores abordam diferentes métodos de segmentação e sua aplicabilidade a diferentes contextos de pesquisa (BELLO et al., 2005); (POLI, 2004); (TIMMERS et al., 2000). Para o presente trabalho, utilizamos um sistema híbrido de detecção de instantes temporais que agrega parâmetros espectrais e temporais do sinal de áudio (LOUREIRO et al., 2009b). Assim como Mota (2017a), segmentamos automaticamente as faixas de áudio no nível de notas, a partir da detecção dos instantes de início da nota (onset), final de ataque (attack), início de decaimento (release) e final da nota (offset). 5.2 Descritores A procura por descritores que sejam adequados à compreensão mais objetiva do timbre é ainda um grande desafio, gerando nas últimas décadas diversos estudos sobre a variedade de parâmetros derivados da distribuição espectral que permitam descrever mais precisamente esse atributo do som. McADAMS (2013) apresenta alguns dos estudos realizados nos últimos 40 anos relacionados à compreensão da percepção do timbre, abordando uma ampla gama de questões que abrangem desde a determinação das propriedades dos objetos vibratórios e das ondas acústicas que deles emanam, até a compreensão do papel expressivo que o timbre pode desempenhar na percepção de padrões e formas musicais. Algumas das pesquisas descritas, buscam relacionar parâmetros acústicos extraídos dos sons dos instrumentos musicais com a dimensão perceptiva de tais parâmetros através do uso de descritores de áudio. Dentre os trabalhos apresentados, destacam-se os descritores desenvolvidos no IRCAM (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/ Musique), a Timbre Toolbox, que contém um conjunto de 54 descritores que capturam propriedades temporais e espectrais de eventos acústicos como ataque, decaimento, duração da nota, frequência e amplitude de modulação na energia do envelope espectral, centroide espectral, curtose, fluxo espectral, 90 Capítulo 5. Procedimentos Analíticos harmonicidade, dentre outros. Com base nos experimentos piloto e nas hipóteses apresentadas, optamos por utilizar quatro descritores da interface EXPAN (CAMPOLINA; LOUREIRO; MOTA, 2009) para análise da Condição de Performance 1 (transições em legato) e três para a Condição de Performance 2 (transições articuladas), todos relacionados às três dimensões perceptivas do timbre: brilho, velocidade do ataque e fluxo espectral (KRIMPHOFF; MCADAMS; WINSBERG, 1994). Apresentamos a seguir os descritores empregados na análise das gravações. Centroide Espectral “Esse parâmetro relaciona-se diretamente com o “brilho” do som e é calculado como o “centro de gravidade” do espectro de amplitude das componentes de frequência do sinal” (LOUREIRO; MAGALHÃES et al., 2008). No presente estudo, nos concentramos em observar as médias do centroide espectral de cada uma das notas da C1 (transições ligadas), verificando as possíveis diferenças existentes na dimensão “brilho” da sonoridade dos instrumentista que utilizam palhetas de raspado curto, palhetas de raspado longo e a palheta de material sintético. O centroide espectral é definido como (PARK, 2009): CE = ∑N−1 k=1 ·Xd[k]∑N−1 k=1 X d[k] (5.1) Onde Xd[k] é a magnitude correspondente ao bin k, N é o tamanho da janela da FFT. Achatamento espectral Parâmetro que estima a razão entre a média geométrica e aritmética das amplitudes das frequências. Em sinais mais senoidais, o índice se aproxima a zero. Já em sinais mais "achatados"e menos correlacionados, se aproximam de 1. É definido como (PARK, 2009): AS = Mg Ma = ( ∏k=N−1 k=0 X d(k)) 1N 1 N ∑N−1 k=0 X d(k) (5.2) O descritor pode estar relacionado com a percepção de timbre mais ruidoso, ou seja, sonoridade percebida como menos senoidal, espectro mais achatado, que se aproximam de ruído (LOUREIRO; MAGALHÃES et al., 2008). Irregularidade Espectral Pode ser medido para cada quadro, ou a partir das amplitudes médias ao longo de um período determinado. “A irregularidade espectral está inversamente associada à 5.2. Descritores 91 suavidade espectral, a qual promove integração dos parciais a uma mesma fonte. Portanto, uma única parcial de grande intensidade tende a ser percebida como um som independente, contribuindo para um maior valor desse índice” (LOUREIRO; MAGALHÃES et al., 2008). Tanto o achatamento quanto a irregularidade espectral podem nos ajudar a verificar a eficácia dos diferentes tipos de raspado de palhetas para oboé quanto à variação do espectro, observando se há alguma tendência nos valores desses descritores relacionada aos diferentes raspados e nos três registros do instrumento. Duração do ataque “É o intervalo de tempo entre o início da nota e o final do ataque, que corresponde aos instantes de início e fim de uma estabilização da variação da frequência fundamental e do fluxo espectral” (LOUREIRO; PAULA, 2006). Definido como a diferença entre o início do ataque Ti e o final do ataque Tf (PARK, 2009): DA = (Tf − Ti) (5.3) Segundo McAdams et al. (1995), a utilização desse descritor é adequada quando o foco da descrição é a variação de timbre, podendo assim, nos auxiliar a compreender as diferenças existentes na emissão sonora com diferentes raspados de palhetas de oboé e sua influência na percepção do timbre do instrumentista. Índice de legato “Esse descritor refere-se à qualidade das transições entre as notas executadas com a intenção de serem ligadas, estando mais relacionado às habilidades do músico e ao tempo de reverberação do ambiente de execução” (NETO et al., 2016, p.253). Segundo Maestre e Gómez (2005) apud Loureiro et al. (2008, p.149), o índice de legato “ é definido a partir de um legato ideal entre duas notas (índice = 1) sem qualquer redução de energia, representado pela reta definida pelos instantes de início de decaimento de uma nota e fim de ataque da nota seguinte”. O índice é estimado pela razão entre a área A1, compreendida entre esta reta e a curva de energia na região de transição entre as notas e a área total abaixo desta reta, A1 + A2 (PARK, 2009): IL(i) = 1− [ A1 A1 + A2 ] = 1−  fa(i+1)∑ t=id(i) L(t)−RMS(t) fa(i+1)∑ t=id L(t)  (5.4) 92 Capítulo 5. Procedimentos Analíticos onde id é o início do decaimento e fa o final do ataque. Figura 42 – Cálculo do índice de legato para a transição entre duas duas notas. Fonte: Mota (2012) Através do índice de legato, pode-se investigar a qualidade das transições entre as notas executadas com intenção de legato, contribuindo para a análise das possíveis diferenças existentes entre os resultados interpretativos alcançados pelos oboístas com palhetas de raspados distintos. Índice de articulação Segundo Loureiro et al. (2009a, p.583): Alguns aspectos da qualidade das transições entre nota estão relacionadas à manipulação intencional de articulação pelo intérprete, através do controle preciso das durações e da qualidade dos ataques, que ele detém. A articulação está, portanto, estreitamente relacionada com as intenções expressivas e de inteligibilidade do intérprete. Para Mota (2012, p.17): Este índice é apropriado para descrever as transições entre notas des- tacadas, normalmente produzidas no [oboé] com interrupções do fluxo de ar através de golpes da língua na palheta, com os quais o intérprete controla a qualidade dos ataques e a duração de cada nota. Vale ressaltar que a habilidade do intérprete em controlar a duração das notas depende muito das condições de reverberação do ambiente. Segundo Park (2009) o índice de articulação é definido como : AI(i) = 1− DR(i) IOI(i) (5.5) 5.3. Análise estatística 93 Figura 43 – Representação do cálculo do Índice de Articulação para a transição entre duas notas. Fonte: Mota (2012) O índice de articulação, por sua vez, pode nos auxiliar na observação da articulação do instrumentista nos três registros do oboé, C2 (transições articuladas), permitindo a comparação dos resultados obtidos pelos oboístas e sua relação com o tipo da palheta utilizada1. 5.3 Análise estatística Após a organização dos dados extraídos por meio dos descritores acústicos, do questionário e do teste subjetivo de percepção, realizou-se a análise descritiva que incluiu o cálculo de frequências, medidas de tendência central e de dispersão. Para a verificação da distribuição das variáveis quantitativas foi aplicado o teste de Kolmogorov-Smirnov (KS), sendo os resultados apresentados como média ± desvio padrão para as variáveis com distribuição normal e mediana para aquelas não-paramétricas (FIELD, 2009). Previamente à análise da influência dos diferentes raspados de palhetas na sono- ridade dos oboístas, realizou-se a comparação dos valores dos descritores acústicos nas categorias palhetas de raspado curto, palhetas de raspado longo e palheta Légerè através dos testes t de Student simples e Mann-Whitney para comparação de médias e medianas, respectivamente. Foi adotado o valor de significância de 5% (0,05) para verificação das hipóteses. Se probalidade de significância for de 5%, ou seja, p>0,05, não se pode rejeitar a hipótese nula, mas se p<0,05, rejeita-se a hipótese nula e aceita-se a hipótese alternativa (WILLIAM, 2001)2. 1 Para detalhes sobre implementação dos descritores veja (MOTA, 2012); (CAMPOLINA; LOUREIRO; MOTA, 2009). 2 Hipótese nula: fixada usualmente como a inexistência de diferença entre os dois tratamentos comparados. Hipótese alternativa: inexistência de igualdade entre os tratamentos. Parte III Análise e discussão dos dados 95 6 Análise dos dados Dos 21 oboístas que participaram da coleta de dados, 10 utilizam profissionalmente palhetas de raspado curto e 11 utilizam palhetas de raspado longo. Os sujeitos 13, 18, 20 e 21 se dispuseram a executar os dois excertos com palhetas distintas. O S18 possuía uma palheta da marca Légère e os sujeitos 13, 20 e 21 se consideraram aptos para tocar com estilos de raspados de palhetas distintos. O S13, por sua formação musical, produz e utiliza palhetas dos dois tipos de raspados tendo optado por tocar com somente uma palheta de cada tipo para a gravação dos excertos. O S20 utiliza regularmente palhetas de raspado longo e o S21, palhetas de raspado curto. Ambos concordaram em tocar com a mesma palheta de raspado longo o que nos permitiu observar a resposta de uma mesma palheta com intérpretes diferentes. Tabela 3 – Relação dos sujeitos que participaram das gravações dos excertos e a tipologia do raspado das palhetas utilizadas. Sujeitos Tipologia do raspado S1C curto S2C curto S3L longo S4C curto S5L longo S6C curto S7C curto S8C curto S9L longo S10L longo S11L longo S12L longo S13C curto S13L longo S14C curto S15L longo S16L longo S17L longo S18C curto S18S curto (material sintético) S19C curto S20C curto S20L longo S21C curto S21L longo 96 Capítulo 6. Análise dos dados Primeiramente, comparamos os dados das palhetas escolhidas como boas pelos oboístas com diferentes raspados. Em um segundo momento, comparamos as palheta boas e ruins dos sujeitos com o mesmo tipo de raspado, buscando indícios nos descritores acústicos que possam caracterizar as diferenças descritas pelos instrumentistas para escolha da palheta. Foi possível também comparar os resultados dos instrumentistas que tocaram com diferentes estilos de palhetas, S13, S20 e S21 - palhetas de raspado longo e palhetas de raspado curto e S18 - palhetas de raspado curto e palheta de material sintético. Os sujeitos 20 e 21 possibilitaram a investigação dos resultados obtidos por dois sujeitos tocando uma mesma palheta de raspado longo. Na maioria das análises comparativas realizadas com os valores dos descritores utilizados para observação do timbre (centroide espectral, achatamento espectral e irre- gularidade espectral) apresentaram diferença significativa entre as médias. No entanto, entre os descritores utilizados para o estudo da articulação (duração de ataque, índice de legato e índice de articulação) não houve diferença estatística entre as médias (p>0,05 para 99% das notas). Verificaram-se os mesmos resultados para as notas cujos valores não apresentaram distribuição normal através do Mann-Whitney Test. As diferenças encontradas entre as médias dos descritores de articulação não foram suficientes para assegurar a existência das diferenças, ou ainda, não foram significativas1 e uma das razões que contribuíram para este resultado é o número reduzido de observações, ou seja, o tamanho da amostra. Apesar da ausência de significância apresentada pelos testes estatísticos realizados para caracterização da articulação, Teste t de Student e Mann Withney, foi possível elaborar uma análise exploratória, a partir dos dados coletados (HEALY, 1983; BEHRENS; YU, 2003). Portanto, não se descartou a análise dos dados extraídos através dos descritores acústicos empregados para observação da articulação dos oboístas, utilizando as palhetas de raspado curto, longo e a palheta de material sintético. Optamos por analisar o take 3 de cada uma das condições, tanto com a palheta considerada boa quanto com a palheta ruim2, pois foi o take onde, na maioria dos casos, não ocorreram problemas na performance musical do oboísta que comprometessem a análise dos dados. 1 Em alguns estudos é comum fixar em 1% (p<0,01) o nível de significância. Em outros, quando encontram um p<0,10 (ou 10%), considera-se esse resultado como “minimamente significativo”(FIELD, 2009). 2 Escolha realizada e justificada, pelos oboístas, no questionário aplicado após a gravação (apêndice F), tendo como critério a eficiência das palhetas das palhetas utilizadas para a execução dos excertos musicais. 6.1. Palhetas boas 97 6.1 Palhetas boas 6.1.1 Condição 1 - transições ligadas A análise realizada com as médias de centroide espectral, achatamento espectral e irregularidade espectral dos sujeitos revelou diferença estatística em todas as categorias de análise e em quase todas as notas. Figura 44 – Médias do centroide espectral das palhetas boas dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Os oboístas que utilizaram palhetas de raspado curto apresentaram médias de centroide espectral superiores aos que utilizaram palhetas de raspado longo em 62,5% das notas da C1 (transições ligadas) (Fig. 44), assim como as médias do achatamento espectral também foram maiores em 66,6% das notas nas palhetas de raspado curto (Fig. 45). 98 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 45 – Médias do achatamento espectral das palhetas boas dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Houve diferença estatística entre as médias de irregularidade espectral em quase todas as notas da C1 (transições ligadas), com exceção da nota 1. No entanto não observou- se predominância entre os dois grupos de oboístas (palhetas de raspado curto e longo) quanto aos valores desse descritor (Fig. 46). Figura 46 – Médias da irregularidade espectral das palhetas boas dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). As médias de duração de ataque dos oboístas que utilizaram palhetas de raspado longo foram superiores em 55,5% das notas da C1 (transições ligadas) em relação aos sujeitos que utilizaram palhetas de raspado curto (Fig. 47). 6.1. Palhetas boas 99 Figura 47 – Médias da duração do ataque das palhetas boas dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). As médias dos índices de legato (Fig. 48) dos instrumentistas que utilizaram palhetas de raspado longo foram superiores em 62% das notas. Ao observarmos as transições que estão em legato na C1 (1, 2, 3 e 8) percebemos um maior equilíbrio entre esses índices para os diferentes raspados. Os oboístas que utilizam a palheta de raspado curto obtiveram índices superiores na 2a e na 8a transição onde ocorrem as únicas mudanças de registro descendente do excerto, Fá4 - Dó4 e Sol4 - Dó4 respectivamente. Figura 48 – Médias dos índices de legato das palhetas boas dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). 100 Capítulo 6. Análise dos dados 6.1.2 Condição 2 - transições articuladas Realizou-se a análise somente das notas Ré, Mi, Fá e Sol do excerto musical da C2 (transições articuladas), pois estas foram executadas nos três registros do instrumento, razão pela qual, há um salto entre as notas 7 e 16 e entre as notas 22 e 31. Quanto às médias de duração de ataque (Fig. 49), podemos observar que das 21 notas analisadas da C2 (transições articuladas), as palheta de raspado longo obtiveram valores maiores 62%, reiterando o que observamos na C1 (transições ligadas). Figura 49 – Médias de duração do ataque das palhetas boas dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C2 (transições articuladas). As médias dos índices de articulação dos instrumentistas que utilizam as palhetas de raspado curto foram superiores em aproximadamente 85% das notas na C2 (transições articuladas) que as palhetas de raspado longo (Fig. 50). 6.1. Palhetas boas 101 Figura 50 – Médias dos índices de articulação das palhetas boas dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C2 (transições articuladas). Novamente as palhetas de raspado longo apresentaram médias maiores de irregulari- dade espectral em mais de 90% das notas coincidindo com os resultados observados na C1. Ao compararmos os intervalos de confiança para o desvio-padrão da irregularidade espectral (Fig. 51), observou-se que, na palheta de raspado longo, houve diferença significativa entre a variação da irregularidade espectral entre as três oitavas e nas palhetas de raspado curto somente entre a segunda e terceira oitava, ou seja, a irregularidade espectral varia de maneira semelhante nas duas primeiras oitavas nos instrumentistas que utilizam palhetas de raspado curto. Em ambos os raspados percebe-se maior variação de irregularidade espectral na terceira oitava. 102 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 51 – Intervalos de confiança para desvio-padrão de irregularidade espectral das palhetas boas dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC - painel superior) e palheta de raspado longo (PL - painel inferior) - C2 (transições articuladas). 6.2 Palhetas boas e ruins 6.2.1 Condição 1 - transições ligadas Comparando as médias do centroide espectral das palhetas boas com as palhetas ruins3 (Fig. 52), tanto para os instrumentistas que utilizaram palhetas de raspado curto quando para os que utilizaram palhetas de raspado longo, verificou-se diferença significativa 3 Escolha realizada e justificada, pelos oboístas, no questionário aplicado após a gravação (apêndice F), tendo como critério a eficiência das palhetas das palhetas utilizadas para a execução dos excertos musicais. 6.2. Palhetas boas e ruins 103 entre as médias, com excessão das notas 7 e 8 (raspado curto) e nota 6 (raspado longo). O centroide espectral das palhetas consideradas ruins pelos oboístas que utilizaram palhetas de raspado curto foi superior em 85,7% das notas. No entanto, essa tendência não foi observada entre as palhetas boas e ruins dos sujeitos que tocaram com palhetas de raspado longo4. Figura 52 – Médias do centroide espectral das palhetas boas (PB) e ruins (PR) dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC - painel da esquerda) e palheta de raspado longo (PL - painel da direita) - C1 (transições ligadas). Quanto à irregularidade espectral (Fig. 53), houve diferença estatística entre as palhetas boas e ruins em 67% das notas dos sujeitos que utilizam palhetas de raspado longo. Dentre essas, os índices foram superiores em 67% das notas nas palhetas boas. Entre as palhetas boas e ruins dos sujeitos que utilizam o raspado curto, houve diferença signficativa em apenas 3 notas da C1, prevalecendo maiores índices nas palhetas boas - notas 4 (PB), 5 (PR) e 8 (PB). 4 PB - palhetas boas; PR - palhetas ruins; PC - palheta(s) de raspado curto; PL - palheta(s) de raspado longo. 104 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 53 – Médias da irregularidade espectral das palhetas boas (PB) e ruins (PR) dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC - painel da esquerda) e palheta de raspado longo (PL - painel da direita) - C1 (transições ligadas). Nos dados obtidos através do descritor de achatamento espectral (Fig. 54), observou- se diferença significativa entre quase todas as notas, com excessão da nota 4 na palheta de raspado curto. Na palheta de raspado longo, as médias de achatamento espectral foram maiores em 77,7% das notas nas palhetas ruins, ao passo que a proporcão entre os valores dos oboístas que utilizam raspado curto foi de 50% para cada categoria. Figura 54 – Médias do achatamento espectral das palhetas boas (PB) e ruins (PR) dos dois grupos de oboístas - palhetas de raspado curto (PC - painel da esquerda) e palheta de raspado longo (PL - painel da direita) - C1 (transições ligadas). 6.2. Palhetas boas e ruins 105 6.2.2 Condição 2 - transições articuladas Ao compararmos as palhetas boas e as palhetas ruins na C2 (transições articuladas), percebemos que as médias de duração de ataque (Fig. 55) dos sujeitos com palhetas de raspado curto foram maiores em 62% com as palhetas boas, enquanto que nas palhetas de raspado longo (Fig. 56), os valores de médias de duração de ataque foram maiores com as palhetas ruins5 (62%). Figura 55 – Médias da duração do ataque das palhetas boas (PB) e ruins (PR) dos oboístas que utilizaram palhetas de raspado curto - C2 (transições articuladas). 5 PB - palhetas boas; PR - palhetas ruins; PC - palheta(s) de raspado curto; PL - palheta(s) de raspado longo. 106 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 56 – Médias da duração do ataque das palhetas boas (PB) e ruins (PR) dos oboístas que utilizaram palhetas de raspado longo - C2 (transições articuladas). As médias dos índices de articulação foram maiores nas palhetas boas tanto para os instrumentistas que utilizaram palhetas de raspado curto (90%) (Fig. 57), quanto para os que utilizaram palhetas de raspado longo (65%) (Fig. 58). 6.2. Palhetas boas e ruins 107 Figura 57 – Médias dos índices de articulação das palhetas boas (PB) e ruins (PR) dos oboístas que utilizaram palhetas de raspado curto - C2 (transições articuladas). 108 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 58 – Médias dos índices de articulação das palhetas boas (PB) e ruins (PR) dos oboístas que utilizaram palhetas de raspado longo - C2 (transições articuladas). 6.3 Sujeitos 13, 20 e 21: palhetas boas - raspado curto (PC) e raspado longo (PL) Primeiramente, analisaremos os sujeitos que utilizaram as palhetas de raspado curto e longos para verificarmos os valores dos descritores dos três sujeitos. A figura 59 mostra diferenças consideráveis nas durações de ataque do S13 com palhetas distintas na C1 (transições ligadas), cujos valores foram superiores em 66% das notas com a palheta de raspado curto. 6.3. Sujeitos 13, 20 e 21: palhetas boas - raspado curto (PC) e raspado longo (PL) 109 Figura 59 – Duração do ataque do S13 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Ao analisarmos os dados dos sujeitos 20 e 21 (Fig. 60 e 61), observamos que as durações de ataque foram menores quando o sujeito executou o excerto do op.77 de Johannes Brahms com a palheta que utiliza frequentemente, S20 palheta de raspado longo e S21 palheta de raspado curto. Figura 60 – Duração do ataque do S20 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). 110 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 61 – Duração do ataque do S21 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Houve diferença estatística significante entre os valores de centroide espectral para quase todas as notas dos sujeitos utilizando raspados distintos, com exceção das notas 8 (S20) e nota 4 (S21). O S13 (Fig. 62) obteve valores maiores de centroide espectral ao tocar com a palheta de raspado curto (77,7% das notas da C1). Figura 62 – Centroide espectral do S13 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Nos sujeitos 20 e 21, essas diferenças percentuais entre os diferentes raspados foram menores, S21 (Fig. 64) com 55,5% dos valores de centroide maiores com palhetas de raspado curto e o S20 (Fig. 63) com equilíbrio entre os raspados (44% para cada). 6.3. Sujeitos 13, 20 e 21: palhetas boas - raspado curto (PC) e raspado longo (PL) 111 Figura 63 – Centroide espectral do S20 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Figura 64 – Centroide espectral do S21 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Quanto à irregularidade espectral, as médias do S13 (Fig. 65) só não apresentaram diferença estatística na nota 8, no restante das notas os valores foram superiores em 62,5% das notas com a palheta de raspado curto. 112 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 65 – Irregularidade espectral do S13 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Como apresentado na figura 66 e 67, não houve diferença estatística em duas notas para ambos os sujeitos 20 (notas 6 e 7) e 21 (notas 1 e 5). Nas notas em que houve diferença os valores foram maiores com a palheta de raspado longo em 85% das notas do S20 e 100% das notas do S21. Figura 66 – Irregularidade espectral do S20 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). 6.3. Sujeitos 13, 20 e 21: palhetas boas - raspado curto (PC) e raspado longo (PL) 113 Figura 67 – Irregularidade espectral do S21 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Com exceção das notas 1, 2 e 6 do S13 (Fig. 68) e das notas 1 e 6 do S21 (Fig. 70), foram observadas diferenças significativas entre os valores de achatamento espectral. No entanto, os percentuais foram bastante equilibrados entre os dois raspados. Os S20 e S21 (Fig. 69 e 70) obtiveram maiores valores de achatamento espectral em 55,5% das notas quando tocaram com a palheta de raspado curto e o S13 obteve o mesmo percentual, mas com a palheta de raspado longo (Fig. 68). Figura 68 – Achatamento espectral do S13 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). 114 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 69 – Achatamento espectral do S20 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Figura 70 – Achatamento espectral do S21 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Os dados da figura 71 sugerem que o S13 realizou melhor o legato, proposto na C1, com a palheta de raspado curto, pois ao compararmos os índices de legato obtidos pelo instrumentista ao utilizar palhetas de diferentes raspados, ele obteve índices de legato superiores em 75% das transições do excerto ao utilizar a palheta de raspado curto. 6.3. Sujeitos 13, 20 e 21: palhetas boas - raspado curto (PC) e raspado longo (PL) 115 Figura 71 – Índices de legato do S13 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Os valores dos índices de legato foram equilibrados na análise dos S20 e S21 (Fig. 72 e 73) ao utilizarem palhetas de raspado curto e longo. Entre as transições com mudança de registro descendente em legato da C1, verificou-se que os oboístas obtiveram índices de legato maiores na 2a transição (Fá - Dó) ao utilizarem a palheta de raspado curto e na 8a transição (Sol - Dó) com a palheta de raspado longo. Figura 72 – Índices de legato do S20 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). 116 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 73 – Índices de legato do S21 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Na C2 (transições articuladas) os valores de duração do ataque obtidos apontaram diferenças pequenas entre os diferentes tipos de raspado. No S13 (Fig. 74) houve uma leve predominância de valores superiores para a palheta de raspado curto (47%) tendo obtido valores iguais nas notas 19 e 33. 6.3. Sujeitos 13, 20 e 21: palhetas boas - raspado curto (PC) e raspado longo (PL) 117 Figura 74 – Duração do ataque do S13 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C2 (transições articuladas). O S20 apresentou maior consistência interpretativa, pois cinco notas da C2 (17, 21, 22, 31 e 35) tiveram duração do ataque iguais, sem apresentar predominância nos valores para um determinado raspado, como podemos observar na figura 75. 118 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 75 – Duração do ataque do S20 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C2 (transições articuladas). O S21 (Fig. 76) obteve valores superiores com a palheta de raspado longo em 52% das notas e valores iguais para a nota 6. 6.3. Sujeitos 13, 20 e 21: palhetas boas - raspado curto (PC) e raspado longo (PL) 119 Figura 76 – Duração do ataque do S21 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C2 (transições articuladas). Quanto ao índice de articulação, somente o S20 (Fig. 78) obteve resultados distintos com os dois tipos de raspado, apresentando maiores índices com a palheta de raspado longo (65% das notas). Os resultados obtidos pelos S13 (Fig. 77) e S21 (Fig. 79) foram mais equilibrados entre os dois tipos de raspado. No S21 os maiores índices foram obtidos em 50% das notas com ambos os raspados. Entre os sujeitos que utilizaram os dois tipos de raspado, o S13 (Fig. 77) apresentou os menores índices de articulação, sendo que os valores foram superiores com a palheta de raspado curto em 55% das notas. 120 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 77 – Índices de articulação do S13 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C2 (transições articuladas). 6.3. Sujeitos 13, 20 e 21: palhetas boas - raspado curto (PC) e raspado longo (PL) 121 Figura 78 – Índices de articulação do S20 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C2 (transições articuladas). 122 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 79 – Índices de articulação do S21 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL) - C2 (transições articuladas). 6.4 Sujeito 18: palheta de raspado curto (PC) e palheta sintética (PS) O S18 obteve valores de duração do ataque menores com a palheta de material sintético do que com a palheta de raspado curto (Fig. 80). Observou-se uma regularidade na emissão das notas da C1 (transições ligadas), pela proximidade dos valores analisados. Ao compararmos os valores de médias de duração de ataque com as médias das palhetas de raspado curto e das palhetas de raspado longo, a palheta de material sintético apresentou valores menores para 55,5% e 77,7% das notas, respectivamente. 6.4. Sujeito 18: palheta de raspado curto (PC) e palheta sintética (PS) 123 Figura 80 – Duração do ataque do S18 utilizando palheta de raspado curto (PC) e a palheta sintética (PS) - C1 (transições ligadas). O valores de centroide espectral (Fig. 81) e achatamento espectral (Fig. 82) foram ligeiramente maiores com a palheta de material sintético, em 55% das notas da C1 para ambos os descritores. Ao compararmos o centroide espectral das notas do S18 ao utilizar a palheta de material sintético com as médias dos outros oboístas, verificamos que os valores foram maiores em 66% das notas em relação às palhetas de raspado curto e 90% das notas de palhetas de raspado longo. O achatamento espectral também foi superior em 77,7% das notas executadas por oboístas com as palhetas de raspado curto e 88,8% das notas dos sujeitos com as palhetas de raspado longo. Figura 81 – Centroide espectral do S18 utilizando palheta de raspado curto (PC) e a palheta sintética (PS) - C1 (transições ligadas). 124 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 82 – Achatamento espectral do S18 utilizando palheta de raspado curto (PC) e a palheta sintética (PS) - C1 (transições ligadas). As médias da irregularidade espectral obtidas com a palheta de material sintético foram superiores às médias obtidas com palhetas de raspado longo e palhetas de raspado curto em 66% das notas na C1 (transições ligadas). Quando observamos os resultados obtidos pelo S18 com os dois tipos de palheta, a palheta sintética obteve médias de irregularidade espectral superior em 88% das notas (Fig. 83). Figura 83 – Irregularidade espectral do S18 utilizando palheta de raspado curto (PC) e a palheta sintética (PS) - C1 (transições ligadas). Na figura 84 pode-se observar que das 8 transições que compõem a C1 (transições ligadas), os índices de legato do S18 ao utilizar a palheta de material sintético, foram 6.4. Sujeito 18: palheta de raspado curto (PC) e palheta sintética (PS) 125 superiores em 5 (62%) com comparação aos índices obtidos com a palheta de raspado curto de Arundo Donax. Figura 84 – Índices de legato do S18 utilizando palheta de raspado curto (PC) e a palheta sintética (PS) - C1 (transições ligadas). Na C2 (transições articuladas) a duração do ataque foi superior com a palheta de raspado curto em 52,3% das notas (Fig. 85) e os índices de articulação obtidos com a palheta de material sintético foram menores em 55% das transições (Fig. 86). Ao compararmos os índices de articulação do S18, utilizando a palheta de material sintético, com as médias dos índices de articulação dos outros sujeitos, as diferenças são bem mais expressivas. As médias dos sujeitos que utilizaram palhetas de raspado curto foi superior em 95% das notas, e os sujeitos que utilizaram as palhetas de raspado longo obtiveram valores maiores em 90% das notas. 126 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 85 – Duração do ataque do S18 utilizando palheta de raspado curto (PC) e a palheta sintética (PS) - C2 (transições articuladas). 6.5. Sujeitos 20 e 21: palheta de raspado longo (PL) 127 Figura 86 – Índices de articulação do S18 utilizando palheta de raspado curto (PC) e a palheta sintética (PS) - C2 (transições articuladas). 6.5 Sujeitos 20 e 21: palheta de raspado longo (PL) Os sujeitos 20 e 21 se prontificaram a tocar com a mesma palheta de raspado longo. Apesar dos sujeitos terem utilizado oboés de marcas e modelos distintos, considerou-se importante a observação dos dados obtidos para que pudéssemos observar a influência do mesmo excitador, cujos parâmetros físicos não variaram (raspado, molde, tubo, etc.), nos parâmetros acústicos. De modo geral, a análise comparativa dos S20L e S21L apresentou diferença estatística significativa no centroide, achatamento e irregularidade espectral. No centroide espectral (Fig. 87), observou-se diferença significativa em 55% das notas. No achatamento espectral (Fig. 88), houve diferença em 66% das notas e na irregularidade espectral (Fig. 89), o percentual foi maior, com diferença em 88% das notas do excerto. 128 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 87 – Centroide espectral dos S20L e S21L utilizando a mesma palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Figura 88 – Achatamento espectral dos S20L e S21L utilizando a mesma palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). 6.5. Sujeitos 20 e 21: palheta de raspado longo (PL) 129 Figura 89 – Irregularidade dos S20L e S21L utilizando a mesma palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Os valores de duração do ataque foram discretamente maiores com S21, tanto na C1 (transições ligadas) (Fig. 90), quanto na C2 (transições articuladas) (Fig. 91), em 55% e 52% das notas respectivamente. Nas duas condições, os sujeitos tiveram uma nota com duração de ataque idênticas - nota 6 na C1 (transições ligadas) e nota 5 na C2 (transições articuladas). A análise apresentou valores consideravelmente distintos nas notas 5 e 9 da C1 e nas notas 2 e 34 da C2. 130 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 90 – Duração do ataque dos S20L e S21L utilizando a mesma palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). 6.5. Sujeitos 20 e 21: palheta de raspado longo (PL) 131 Figura 91 – Duração do ataque dos S20L e S21L utilizando a mesma palheta de raspado longo (PL) - C2 (transições articuladas). Percebeu-se similaridade no índice de legato somente na primeira transição do excerto do op.77 de Johannes Brahms. Nas outras transições observou-se diferenças significativas entre os índices. O S21 obteve índices de legato superiores em 75% das transições, porém nas transições em legato observou-se maior equilíbrio entre os índices dos dois sujeitos (Fig. 92). 132 Capítulo 6. Análise dos dados Figura 92 – Índices de legato dos S20L e S21L utilizando a mesma palheta de raspado longo (PL) - C1 (transições ligadas). Pode-se destacar através dos valores do índice de articulação (Fig. 93), a habilidade do S20 em executar o staccato, tendo em vista que os valores obtidos pelo intérprete foram maiores em 90% das notas na C2 (transições articuladas). Figura 93 – Índices de articulação dos S20L e S21L utilizando a mesma palheta de raspado longo (PL) - C2 (transições articuladas). 6.6. Respostas ao questionário 133 6.6 Respostas ao questionário Segundo Leech-Wilkinson e Prior (2014), pode-se aprender muito sobre as questões que envolvem a performance musical através da maneira como os instrumentistas falam sobre ela. Para que pudéssemos investigar as relações existentes entre os elementos que compõem a performance do oboísta e a construção da palheta, obteve-se, através do questionário, informações sobre: • Os materiais utilizados pelos oboístas participantes da pesquisa (instrumento, tubo, cana); • As medidas do tamanho total e da área de raspados das palhetas boas e ruins; • A cultura sonora dos oboístas. Dada a flexibilidade de três dos oboístas participantes, obtivemos o número equi- valente de 12 oboístas para cada tipo de raspado. Quanto ao instrumento utilizado, percebeu-se uma preferência entre os sujeitos por instrumentos franceses: 42% dos oboístas tocam com oboés da marca Lorée (francês), 23% com oboés da marca Marigaux (francês) e os outros 35% utilizam oboés de diferentes marcas como Ludwig Frank (alemão), Mönnig (alemão), Rigoutat (francês), Bulgheroni (italiano), Patricola (italiano) e Howarth (inglês). Quanto ao tubo, 64% dos sujeitos utilizam o tubo Chiarugi 2 de latão com variações no revestimento. De acordo com os dados coletados (apêndice E), a cana da marca Rigotti é a mais utilizada, mas foi possível notar que oboístas utilizam mais de uma marca de cana para construção das palhetas, a exemplo do número de canas listadas pelos sujeitos: Marca, Reed’snstuff, Alliaud, Silvacane, Glotin, Lavoro, Lorée, Marion. Independentemente do raspado, todos os participantes utilizaram canas com diâ- metro entre 10 - 10,5 mm e de dureza média (entre 10 e 12 pontos no medidor de dureza). A média de espessura da cana é de 0,57 mm para os oboístas que tocam com palhetas de raspado curto e 0,59 mm para os oboístas que tocam com palhetas de raspado longo. Não houve nos dados coletados uma predominância entre os sujeitos no que diz respeito aos moldes utilizados. Houve uma variação considerável entre os tamanhos das palhetas boas dos sujeitos que utilizam palhetas de raspado curto, variando de 68 mm a 73 mm. Já as palhetas de raspado longo apresentaram menor variação, entre 68 e 70 mm. Nas palhetas de raspado longo ruins o intervalo permaneceu o mesmo, (diferença de 2 mm), mas o tamanho final da palheta foi, em geral, 1 mm maior do que as palhetas boas (69 mm a 71 mm). Entre as palhetas ruins de raspado curto o tamanho final da palheta variou entre 69,5 mm e 73 mm. 134 Capítulo 6. Análise dos dados A média de tamanho do raspado entre os sujeitos que utilizam o raspado curto foi de 10,3 mm, tanto para as palhetas boas quanto para as palhetas ruins, enquanto que entre os sujeitos que utilizam as palhetas de raspado longo, observamos uma variação de 0,5mm no raspado, 18,55 mm para as palhetas boas e 19 mm para as ruins. Ao compararmos o tamanho dos raspados das duas lâminas da palheta, verificou-se que as raspagens foram mais simétricas em 62% das palhetas boas, o que pode ter influenciado seu melhor desempenho e, consequentemente, a escolha do instrumentista. A maioria (95%) dos oboístas atribuíram um percentual igual ou maior que 50% para a importância da palheta em sua performance musical. Destacamos a reflexão do S11L: “uma boa palheta te dá 100% de possibilidade de ter sucesso no concerto. A gente sabe das dificuldades do instrumento por ser cônico, não é fácil. Então uma palheta 100% ajuda muito. Uma palheta ruim acaba com seu concerto”. Quanto à escolha da palheta boa, tanto os instrumentistas que utilizam palhetas de raspado curto quanto os que utilizam palhetas de raspado longo, destacaram como característica mais importante para uma boa palheta sua emissão, ou seja, a resposta de uma palheta para produção de uma nota, que está diretamente relacionada à sua resistência ao ar expirado pelo instrumentista. Em contrapartida a palheta rejeitada foi aquela que estava mais “dura”, com a emissão difícil e com a afinação instável, exigindo do instrumentista maior controle e esforço para realização musical. S6C - “Mais dura e aberta”. S10L - “Não respondeu no registro superior como esperado. Tinha muita resistência” Ainda sobre a escolha da palheta boa, o quesito timbre e afinação foram mencionados mais vezes entre os oboístas que utilizam palheta de raspado longo. Para os oboístas adeptos à palheta de raspado curto, a flexibilidade para realização dos contrastes dinâmicos e o conforto oferecido pela palheta foram recorrentes entre os discursos dos oboístas S11L - “Melhor sonoridade e afinação”. S21C - “Não era o melhor som, mas estava mais confortável”. De maneira geral, os oboístas apontaram quatro características básicas de uma palheta boa: 1. Boa emissão em todos os registros (grave, médio e agudo); 6.6. Respostas ao questionário 135 2. Afinação estável, ou seja, equilibrada permitindo ao instrumentista tocar nos diferentes registros do instrumento com a mesma facilidade, sem precisar fazer grandes ajustes na embocadura ou no fluxo de ar; 3. Flexibilidade, a palheta deve possibilitar ao oboísta realizar muitas nuances de dinâmica (pp - FF). No que se refere à qualidade descrita como boa sonoridade, apesar de ser reincidente no discurso dos oboístas, percebe-se que há uma distinção muito grande quanto ao julgamento desse critério entre os indivíduos. O S18 descreveu a sensação ao tocar a palheta de material sintético, como bastante confortável, citando ainda outras qualidades: “A sonoridade é boa/ bonita. Os agudos tendem a ser baixos e um pouco estreitos e a articulação é boa. Se as comparamos diretamente, ainda preferimos uma palheta de cana que funcione bem, mas se houver evolução teremos mais tempo para nos dedicar à outras atividades, além de fazer palhetas” 6. Observou-se entre os oboístas a utilização de conceitos recorrentes para classifi- car/categorizar a sonoridade de uma palheta ou de um determinado intérprete. Os mais presentes foram claro, escuro, brilhante, duro, mole, aveludado, ardido, aberto, cálido, débil, fino, estridente, redondo, encorpado e penetrante. Interessante que, ao descrever o que seria um som claro, alguns sujeitos definiram como o som com predominância dos harmônicos agudos “aqueles brilhantes” e o som escuro o com predominância de “harmônicos graves”. Talvez as referências de sonoridade dos oboístas possam exemplificar melhor tais conceitos. Quanto às referências de sonoridade “escura” e “clara”, foi possível notar algumas divergências nas concepções entre os oboístas que utilizam raspados distintos. Referências que representam um sonoridade “escura” para alguns instrumentistas que utilizam palhetas de raspado longo, foram consideradas por muitos oboístas que utilizam palhetas de curto como tendo uma sonoridade clara. O oboísta Heinz Holliger foi o maior consenso entre os oboístas quanto à referência de sonoridade clara no oboé (72%). Entretanto, aliadas às considerações acerca da sonoridade do oboísta, surgem as ressalvas de que as características do seu timbre não comprometem a integridade e a excelência da suas performances, o que nos chama a atenção para a observação feita pelo S9L: “Entre os oboístas, o som “claro” geralmente é considerado como uma qualidade negativa, mas às vezes pode ser justificado musicalmente, se a música precisa ser mais “leve”. A reflexão sobre as colocações acima podem nos conduzir a um contínuo desen- volvimento, evitando que nos tornemos um “sumário leitor de notas, aquele que tem um 6 Entrevista semi-estruturada informal realizada por email no dia 16.01.2018. 136 Capítulo 6. Análise dos dados som disposto a cobrir a orquestra, mas sem se preocupar com as dinâmicas e articulações propostas pelo compositor” (GISIGER, 2017, p.86). A maioria dos oboístas, independente do raspado, relatou os seguintes ajustes para7: • “Escurecer” o som: ponta não deve ser muito longa (X); se necessário, deve-se cortar a ponta; fazer o desenho da ponta mais arredondado (N); raspar as laterais (K e L) e raspar na intercessão lateral (N) das regiões A e K. • “Clarear” o som: aumentar e/ou tornar a ponta mais fina (X); fazer o desenho da ponta mais reto (N); raspar o coração (C, D e M) e raspar a área de raspado da palheta como um todo, em especial as canaletas (Y) e a coluna central (Z). Figura 94 – Diagrama da palheta de raspado curto (esquerda) e da palheta de raspado longo (direita) com suas respectivas áreas de raspagem: A - lateral da ponta; B - centro da ponta; C - região lateral do coração; D - região central do coração; E - canaleta próxima à coluna lateral; F - canaleta próxima à coluna lateral; G - canaleta região traseira lateral; H - canaleta região traseira central; I - região traseira lateral; J - região traseira central; K - coluna lateral próxima ao coração; L - coluna lateral próxima às canaletas; M - ponta do coração; N - transição entre ponta e o corpo da palheta; P - arame a 1 mm do tubo; Q - arame a 3 mm ou 5 mm do tubo; X - ponta como um todo; Y - canaleta como um todo e Z - coluna central. Fonte: Gisiger (2017) 7 As letras correspondem às áreas de raspado da palheta do oboé (Fig. 94) 6.7. Teste subjetivo de percepção 137 Os resultados encontrados no presente estudo quanto aos ajustes das palhetas corroboram com as observações feitas por Gisiger (2017), de que embora os raspados curto e longo sejam tão diferentes em suas concepções, os ajustes nas palhetas se assemelham consideravelmente, existindo muitos pontos em comum nos procedimentos adotados entre os oboístas. 6.7 Teste subjetivo de percepção Os dados coletados foram processados por meio de dupla digitação no programa Numbers 4.3.1 e em um formulário criado no Google Drive. Efetuou-se análise de con- sistência a partir da planilha de comparação para verificação dos valores obtidos com os formulários respondidos8. No início do teste, alguns ouvintes pareciam inseguros quanto à sua capacidade de apreciação dos áudios, acreditando não ter referênciais suficientes para realizar a atividade proposta. Deixou-se claro que o objetivo da pesquisa é descobrir como os pessoas percebem o som do oboé e, portanto, o ouvinte deverá avaliar a maneira como ele percebe, utilizando suas primeiras impressões e não buscando encontrar a “resposta certa’ ou a resposta que faz mais sentido. A tabela 1 apresenta os dados obtidos no teste subjetivo de percepção, destacando a classificação realizada pelos ouvintes, oboístas e demais músicos, através dos pares antagônicos de adjetivos sugeridos9. Os adjetivos mais recorrentes nas classificações de um oboísta ou grupo de oboístas que utilizam o mesmo tipo de raspado de palheta, assim como os sujeitos ou grupo de sujeitos mais representativos de cada adjetivo, estão devidamente descritos nas comparações realizadas em cada um dos retângulos. As porcentagens entre parênteses correspondem às variações percentuais, que no presente estudo, expressam a diferença entre duas quantidades na forma de uma porcentagem relativa ao menor valor (V 2−V 1)/V 1×100, onde V2 corresponde ao número de vezes que um adjetivo, sujeito ou grupo de sujeitos foi majoritariamente escolhido pelos ouvintes no teste subjetivo de percepção e V1 ao número de vezes que o adjetivo, sujeito ou grupo de sujeitos opostos foram selecionados (BRAULE, 2013). Valores iguais a zero indicam que não houve variação percentual entre o número de vezes que o adjetivo foi escolhido pelos ouvintes e os valores sem o sinal de porcentagem (%) indicam que o adjetivo foi a única opção escolhida para a classificação da sonoridade ou da articulação dos oboístas. 8 A tabela com todos os dados do teste subjetivo de percepção encontra-se disponível no apêndice H. 9 Os ouvintes tinham autonomia para utilizar, ou não, qualquer um dos adjetivos para classificação da sonoridade e da articulação dos oboístas. 138 Capítulo 6. Análise dos dados Tabela 4 – Resultado do teste subjetivo de percepção com a variação percentual da classi- ficação da sonoridade e da articulação realizada por ouvintes oboístas e demais músicos. Legenda: C - Curto; L - Longo; PC - palheta de raspado curto; PL - palheta de raspado longo. Comparações das classificações do TSP claro escuro brilhante opaco redondo estridente preciso impreciso duro mole leve pesado PC e PL - Classificação e variação percentual (todos os ouvintes) Claro (70%) Opaco (11%) Redondo (76,5%) Preciso (32%) Duro (0,75%) Leve (1,2%) PC e PL - Classificação e variação percentual (ouvintes oboístas) Claro (101%) Brilhante (21%) Redondo (32%) Preciso (58%) Duro (26%) Pesado (53%) Sujeitos mais representativos de cada adjetivo (todos os ouvintes) S19C S17L S5L S15L S17L S12L S6C S16L S19C S16L S6C S16L Sujeitos mais representativos de cada adjetivo (ouvintes oboístas) S12L, 16L, 18LG, S20C S6C e S15L S16L S15L S17L S12L S17L S16L S5L S21C S6C S9L e S14C PC - Classificação e variação percentual (todos os ouvintes) Claro (113%) Opaco (1,6%) Redondo (153%) Preciso (37%) Duro (9,7%) Leve (9,2%) PC - Classificação e variação percentual (ouvintes oboístas) Claro (140%) Brilhante (32%) Redondo (47%) Preciso (51%) Duro (40%) Pesado (3,7%) PL - Classificação e variação percentual (todos os ouvintes) Claro (31%) Opaco (27%) Redondo (27%) Preciso (11%) Mole (20%) Pesado (12%) PL - Classificação e variação percentual (ouvintes oboístas) Claro (60%) Brilhante (2,8%) Redondo (20%) Preciso (44%) Duro (6%) Pesado (111%) Variação Percentual por adjetivo entre as PC e PL (todos os ouvintes) (PC) 24% (PL) 31% (PL) 1,7% (PL) 21,3% (PC) 32,5% (PL) 50,5% (PC) 14% (PL) 8% (PC) 18% (PL) 12% (PC) 4,5% (PL) 18% Variação Percentual por adjetivo entre as PC e PL (ouvintes oboístas) (PC) 4% (PL) 45% (PC) 2,7% (PL) 25% (PL) 5,8% (PL) 30% (PL) 5% (PL) 10% (PC) 20% (PL) 10% (PC) 50% (PL) 36% Variação Percentual por adjetivo entre os S13C e S13L (todos os ouvintes) (PC) 59% (PL) 70% (PL) 30,8 (PL) 23% (PC) 158% (PL) 360% (PC) 5% (PL) 9% 0 (PC) 80% (PL) 37,5% (PC) 100% Variação Percentual por adjetivo entre os S13C e S13L (ouvintes oboístas) (PC) 50% (PL) 100% (PL) 100% (PC) 100% (PC) 33% (PL) 100% (PL) 75% (PL) 50% (PL) 33% (PC) 150% 0 (PL) 1 Variação Percentual por adjetivo entre os S18C e S18LG (todos os ouvintes) (PLG) 40% (PLG) 8,3% (PLG) 9% (PC) 14% (PLG) 90% (PC) 108% (PLG) 6,5% (PC) 75% (PLG) 43% (PC) 67% (PC) 21,7% (PLG) 42,9% Variação Percentual por adjetivo entre os S18C e S18LG (ouvintes oboístas) (PLG) 75% (PLG) 1 (PLG) 25% (PC) 200% (PLG) 200% (PC) 100% 0 (PC) 1 (PLG) 66% (PC) 50% (PC) 2 (PLG) 3 Variação Percentual por adjetivo entre os S20C e S20L (todos os ouvintes) (PL) 26% (PL) 45% (PC) 150% (PL) 13,6% (PL) 70% (PC) 200% (PL) 15% (PC) 19% (PC) 35% 0 0 (PC) 33,4% Variação Percentual por adjetivo entre os S20C e S20L (ouvintes oboístas) (PC) 16% 0 0 (PL) 150% (PL) 3 (PC) 100% (PL) 66% 0 (PL) 100% (PC) 100% (PC) 1 0 Variação Percentual por adjetivo entre os S21C e S21L (todos os ouvintes) (PC) 12% (PL) 34% (PC) 23,5 -54,5 (PC) 20% -67% (PC) 28,5% (PL) 8,6% 0 (PL) 8% (PC) 37,5% (PL) 100% Variação Percentual por adjetivo entre os S21C e S21L (ouvintes oboístas) (PC) 4 (PL) 66% (PL) 25% (PL) 100% 0 (PL) 100% (PC) 20% (PL) 66% 0 (PC) 40% (PC) 100% (PL) 3 Variação Percentual por adjetivo entre os S20L e S21L (todos os ouvintes) (S20) 16% (S21) 25% (S21) 183% (S20) 47% (S21) 29% (S21) 25% (S20) 64% (S21) 80% (S20) 150% (S21) 12% (S21) 166% (S20) 162% Variação Percentual por adjetivo entre os S20L e S21L (ouvintes oboístas) (S21) 6 (S21) 400% (S21) 400% (S20) 25% 0 (S21) 50% 0 0 (S20) 300% (S21) 150% (S21) 2 (S20) 34% 6.7. Teste subjetivo de percepção 139 De maneira geral, o som do oboé foi relacionado quanto ao timbre com os adjetivos claro, opaco e redondo e preciso, duro e leve quanto à articulação. Ao observarmos a tabela 1, nos dados relativos a todos os ouvintes, percebe-se que as maiores variações percentuais entre os pares antagônicos foram observadas nos adjetivos claro (70%), redondo (76,5%) e preciso (32%). Analisando a classificação feita pelos ouvintes oboístas, houve divergência dos resultados obtidos com os demais ouvintes apenas na relação da sonoridade dos sujeitos como brilhante ao invés de opaca, e a articulação pesada ao invés de leve. Pode-se observar, através das variações percentuais da tabela 1 e da figura 95, que os oboístas que utilizam palhetas de raspado curto tiveram a sonoridade e articulação predominantemente classificadas como clara, brilhante, redonda, precisa, dura e leve e os oboístas que utilizaram palhetas de raspado longo como escura, opaca, estridente, imprecisa, mole e pesada. Apesar das pequenas diferenças percentuais entre a classificação relacionada aos adjetivos brilhante, leve e impreciso, os seus pares opostos contribuíram para distribuição da classificação, apontando uma maior dificuldade dos ouvintes para relacionar tais conceitos às gravações escutadas. Figura 95 – Diferencial de adjetivos dos sujeitos que utilizaram palhetas de raspado curto (PC) e dos sujeitos que utilizaram palhetas de raspado longo (PL). Ao observarmos os sujeitos que foram mais relacionados a um determinado adjetivo 140 Capítulo 6. Análise dos dados obtemos a seguinte relação: Claro (S19C ), Escuro (S17L), Brilhante (S5L), Opaco (S15L), Estridente (12L), Redondo (S17L), Preciso (S6C), Impreciso (S16L), Duro (S19C), Mole (S16L), Pesado (S16L) e Leve (S6C). Percebe-se bastante consistência entre os adjetivos relacionados aos diferentes tipos de raspado de palheta com os resultados dos sujeitos mais relacionados com um determinado adjetivo, com exceção para brilhante e redondo. No entanto, ao observarmos os resultados individuais das classificações (Tab. 1), verifica-se que tanto o S17L (redondo) quanto o S5L (brilhante) são exceções na relação adjetivo-raspado, pois os dois adjetivos foram mais relacionados com palhetas de raspado curto. Entre os ouvintes oboístas, quatro sujeitos foram classificados mais vezes com o adjetivo claro: S12L, S16L, S18S e S20C. A sonoridade escura foi atribuída mais vezes aos S6C e S15L. O S16L foi descrito como o mais brilhante o S15L como o mais opaco. O S17L foi considerado o mais redondo e o S12L como o mais estridente. Quanto à articulação, o S17L foi escolhido como o mais preciso e o S16L como o mais impreciso. Os S5L e S21C como os mais duros e moles, respectivamente, e os S6C e os S9L e S14C como os mais leves e pesados, respectivamente. A partir da figura 96, pode-se observar a diferença na classificação dos sujeitos que utilizaram palhetas de raspado ou materiais distintos (palheta de Arundo Donax ou de material sintético) no teste subjetivo de percepção. O S13 (Fig. 96), por exemplo, foi classificado como claro e redondo, utilizando palhetas de raspado curto; e escuro, brilhante e estridente, com a palheta de raspado longo. Quanto à articulação, o S13 foi qualificado com os mesmos adjetivos para os dois tipos de raspados (preciso, mole e leve). O S18 (Fig. 97), ao utilizar a palheta de Arundo Donax, foi classificado como opaco, estridente, mole e leve. No entanto, com a palheta de material sintético, a classificação da sua sonoridade e articulação foi predominantemente relacionada aos adjetivos claro, redondo, duro e pesado. 6.7. Teste subjetivo de percepção 141 Figura 96 – Diferencial de adjetivos do S13 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL). Figura 97 – Diferencial de adjetivos do S18 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de material sintético (PS). Os ouvintes consideraram o S20 (Fig. 98) como mais escuro, redondo e pesado, com a palheta de raspado longo; e mais brilhante e estridente com a palheta de raspado curto. O S21 (Fig. 99) foi considerado mais leve com a palheta de raspado curto e mais 142 Capítulo 6. Análise dos dados pesado com a palheta de raspado longo. As diferenças nos outros adjetivos foram menos expressivas. Figura 98 – Diferencial de adjetivos do S20 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL). Figura 99 – Diferencial de adjetivos do S21 utilizando palheta de raspado curto (PC) e palheta de raspado longo (PL). 6.7. Teste subjetivo de percepção 143 Os sujeitos 20L e 21L, que utilizaram a mesma palheta (Fig. 100), foram predo- minantemente classificados quanto ao timbre como claro, opaco e redondo e, quanto à articulação, como impreciso, mole e leve. Apesar das similaridades quanto à classificação dos parâmetros musicais pelos ouvintes, observou-se considerável variação percentual dos adjetivos utilizados para cada um dos sujeitos. Figura 100 – Diferencial de adjetivos dos S20 e S21 utilizando a mesma palheta de raspado longo (PL). A classificação da sonoridade e da articulação obtidas com os diferentes raspados realizada pelos ouvintes oboístas foi bastante semelhante às dos demais músicos. Nota-se, no entanto, uma maior habilidade na diferenciação dos pares de adjetivos relacionados à articulação, onde se observou maior variação percentual entre os adjetivos e divergência entre as classificações. Para os oboístas, as palhetas de raspado curto e longo foram relacionadas aos adjetivos pesado e duro, respectivamente, enquanto que os demais músicos as relacionaram aos adjetivos leve e mole. Outro aspecto divergente entre as classificações está relacionada ao par brilhante/opaco. Para ambos os raspados, os oboístas relacionaram o adjetivo brilhante, oposto à classificação realizada pelos demais músicos. No que se refere à apuração dos sujeitos mais representativos de cada adjetivo, observou-se similaridade em mais de 50% dos adjetivos. Entretanto, houve divergência entre a classificação realizada por ouvintes oboístas e os demais músicos, quanto ao uso do adjetivo claro. Por parte dos oboístas, esse adjetivo esteve relacionado a dois sujeitos que utilizaram palhetas de raspado longo, S12L e S16L, um sujeito utilizando palheta de raspado curto S20C10, e o S18, ao utilizar a palheta de material sintético. Para a 10 O S20 utilizou especificamente para coleta de dados uma palheta de raspado curto, mas profissionalmente produz e utiliza palhetas de raspado longo 144 Capítulo 6. Análise dos dados classificação da sonoridade com o adjetivo escuro, foram escolhidos o S6C e o S15L. Constatou-se similaridade nos sujeitos mais representativos dos adjetivos redondo e estridente (S17L e S12L) e dos adjetivos relacionados à articulação impreciso e leve (respectivamente S16L e S6C). O S6 e S17L foram os dois sujeitos mais relacionados ao adjetivo preciso, tanto na classificação geral quanto entre os oboístas, apontando uma coerência entre percepção dos oboístas e dos demais músicos. A percepção dos sujeitos que utilizaram o dois tipos de palheta e a mesma palheta de raspado longo foi bastante semelhante entre os ouvintes oboístas e os demais músicos (Tab. 1). 145 7 Discussão dos dados Na discussão dos dados, procurou-se verificar a relação entre a caracterização das gravações dos instrumentistas através dos adjetivos utilizados pelos ouvintes no teste subjetivo de percepção com os dados extraídos através dos descritores acústicos, para melhor compreendermos não somente as maneiras como parâmetros musicais são descritos em linguagem metafórica, mas também como o ouvinte pode perceber tais parâmetros metaforicamente (SPITZER, 2004). Desse modo, procurou-se representar graficamente a comparação da classificação da sonoridade e da articulação dos sujeitos, bem como os valores dos descritores acústicos dos sujeitos mais representativos de cada par de adjetivos antagônicos. Como descrito na seção 6.1 da análise de dados, os oboístas que utilizaram palhetas de raspado curto apresentaram médias de centroide espectral superiores aos que utilizaram palhetas de raspado longo. Isto indica maior brilho no timbre desses instrumentistas, contrariando o consenso existente entre os oboístas, que relaciona a sonoridade escura com à palheta alemã (palheta de raspado curto); e a sonoridade clara, à palheta americana (palheta de raspado longo) (MOTA, 2017b). Os dados do teste subjetivo de percepção corroboraram com tais resultados, já que a sonoridade dos instrumentistas de raspado curto foi mais vezes classificada como clara e brilhante. A comparação das médias de centroide espectral das palhetas boas e ruins das palhetas de raspado curto e longo, na seção 6.2 da análise de dados, sugerem uma tendência já observada por Gisiger (2017, p.105) de que oboístas da “escola alemã (palheta de raspado curto) tendem a pensar mais na sonoridade” como prioridade na escolha da palheta ideal para performance musical, considerando-se que houve menor diferença estatítisca entre as médias de centroide espectral das pallhetas boas e ruins dos oboístas que utilizam palhetas de raspado longo. Entre os sujeitos que utilizaram palhetas dos dois tipos de raspado, notaram-se valores de centroide espectral maiores quando esses utilizaram palhetas de raspado curto, excessão do S13 que apresentou valores maiores com a palheta de raspado longo. Esses sujeitos tiveram o timbre mais relacionado ao adjetivo escuro com palhetas de raspado longo, inclusive o S13. O valores de achatamento espectral foram maiores nas palhetas de raspado curto, indicando que os sons obtidos com esse tipo de raspado tendem a possuir a amplitude dos harmônicos mais homogênea. O mesmo comportamento foi verificado nos valores de achatamento espectral dos S20 e S21 ao utilizarem palhetas de raspado curto. Entretanto, os dados do S13 apresentaram um comportamento distinto, tendo em 146 Capítulo 7. Discussão dos dados vista que seus valores de achatamento espectral foram maiores com a palheta de raspado longo. Os oboístas que utilizaram palhetas de raspado longo consideraram as palhetas com maiores valores de achatamento espectral como ruins, indicando que para eles, a palheta boa deve possuir uma maior variação na amplitude dos harmônicos resultando em um espectro menos achatado. As médias de irregularidade espectral foram maiores nas palhetas de raspado longo e observou-se comportamento análogo nos valores do S20 ao utilizar esse tipo de raspado. Na escolha da palheta boa, houve diferença estatística somente para os sujeitos que utilizam palhetas de raspado longo, cujos valores de irregularidade foram menores para as palhetas ruins. Ao observamos os descritores dos S19C e S17L, cujas sonoridades foram respec- tivamente classificadas mais vezes clara e escura, os valores de centroide (Fig. 101) e irregularidade espectral (Fig. 102) e achatamento espectral (Fig. 103) foram maiores com o S19C, reiterando a relação dos adjetivos e os descritores utilizados. Os valores desses descritores também foram maiores na análise do S12L, o mais estridente, quando comparamos seus dados com o S17L, considerado o mais redondo (Fig. 104, 105 e 106). Figura 101 – Centroide espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adje- tivos claro (S19C) e escuro (S17L). 147 Figura 102 – Irregularidade espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos claro (S19C) e escuro (S17L). Figura 103 – Achatamento espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos claro (S19C) e escuro (S17L). 148 Capítulo 7. Discussão dos dados Figura 104 – Achatamento espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos redondo (S17L) e estridente (12L). Figura 105 – Centroide espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adje- tivos redondo (S17L) e estridente (12L). 149 Figura 106 – Irregularidade espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos redondo (S17L) e estridente (12L). Quanto ao índice de legato, observa-se uma tendência de que as palhetas de raspado longo facilitem a execução desse tipo de articulação, pois as médias desse descritor foram maiores para os sujeitos que utilizaram esse tipo de raspado. Entretanto, os dados do S13 demonstram que ele realizou melhor o legato com a palheta de raspado curto, pois seus índices de articulação foram superiores em 75% das notas (seção 6.1). Apesar de não relacionarmos diretamente o índice de legato com os adjetivos sugeridos no teste subjetivo de percepção, esse descritor apresentou maior diferença entre os sujeitos relacionados às expressões brilhante (S5L), opaco (S15L), redondo (17L) e estridente (12L). É possível observar na figura 107, que o S15L obteve índices de legato ligeiramente menores que o S5L, mas estes foram mais constantes entre as transições. 150 Capítulo 7. Discussão dos dados Figura 107 – Índices de legato dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos brilhante (S1C e S5L) e opaco (S15L). Já os índices de legato do S17L foram maiores que os do S12 em quase todas as transições, com exceção da segunda (Fig. 108). Figura 108 – Índices de legato dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos redondo (17L) e estridente (12L). 151 Na comparação dos descritores dos sujeitos mais representativos do par de adjetivos brilhante/opaco, optou-se por utilizar os dois sujeitos de sonoridade mais brilhante (S5L e S1C), tendo em vista que, dentre os sujeitos de sonoridade mais relacionados a esse adjetivo, somente o S5 utiliza palheta de raspado longo. Figura 109 – Centroide espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adje- tivos brilhante (S1C e S5L) e opaco (S15L). Figura 110 – Irregularidade espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos brilhante (S1C e S5L) e opaco (S15L). 152 Capítulo 7. Discussão dos dados Os valores de centroide espectral (Fig. 109) e irregularidade espectral (Fig. 110) foram menores no S15L, cuja sonoridade foi considerada mais opaca. Assim como observado no índice de legato do S15L (Fig. 107), os valores dos descritores espectrais apresentaram valores mais contínuos, para algumas notas, o que pode ter contribuído para a classificação dos ouvintes no teste subjetivo de percepção. Figura 111 – Centroide espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adje- tivos brilhante (S16L) e opaco (S15L) - classificação dos ouvintes oboístas. Figura 112 – Irregularidade espectral dos sujeitos de sonoridade mais representativa dos adjetivos brilhante (S16L) e opaco (S15L) - classificação dos ouvintes oboístas. Entre os ouvintes oboístas, o S15L manteve-se como o mais opaco, mas o S16L foi escolhido como mais brilhante. Pode-se observar nas figuras 111 e 112, que os valores de 153 centroide e irregularidade espectral foram superiores e mais irregulares para a maioria das notas do S16L. Tanto na C1 (transições em legato) quanto na C2 (transições articuladas), a duração do ataque foi superior nas palhetas de raspado longo. Tal diferença nos permite refletir sobre alguns paradigmas recorrentes entre os oboístas de que a emissão sonora da palhetas de raspado longo seria mais ágil devido a sua maior área de raspagem e ponta maior, favorecendo um menor tempo de organização da vibração das palhetas do início da nota ao final do ataque (ROSE, 2017). Os dados do S13 mostram que entre as duas palhetas com as quais ele tocou, a emissão da palheta de raspado longo estava mais fácil, tendo em vista que os valores de duração de ataque obtidos com a palheta de raspado curto foram superiores em 66% das notas, contrariando o observado nas comparações das médias de duração de ataque. No entanto, para os S20 e S21, a facilidade na emissão parece estar relacionada ao hábito e não ao tipo de raspado, pois as durações de ataque foram menores com as palhetas que utilizam no cotidiano. Embora os valores de médias de duração de ataque serem menores nas palhetas de raspado curto, como descrito anteriormente, observarmos um certo antagonismo entre os oboístas no critério de seleção da palheta boa. Os oboístas que tocam palhetas de raspado longo escolheram palhetas com emissão sonora mais eficiente e os oboístas que tocam com palhetas de raspado curto consideraram as palhetas boas, aquelas cuja duração do ataque foram maiores. Com ambos os raspados, as palhetas boas tiveram médias de duração de ataque maiores na 3a oitava do oboé (notas 31 a 37). Tal comportamento pode ser compreendido, pois para execução das notas nessa região do instrumento é necessária maior velocidade do ar e um pouco mais de pressão labial sobre a palheta, exigindo uma palheta que possua um pouco mais de resistência para suster-se em tais condições, corroborando com o discurso dos oboístas quanto à escolha da palheta boa. As médias do índice de articulação dos oboístas que utilizam palhetas de raspado curto foram maiores em quase todas as análises realizadas no presente estudo, com exceção somente na comparação entre os valores obtidos com palhetas de raspado curto, do S20, cujos índices foram maiores com a palheta de raspado longo em 65% das notas. Entre as palhetas boas e ruins, observou-se que tanto os oboístas que utilizam palhetas de raspado curto quanto os que utilizam palhetas de raspado longo obtiveram índices de articulação maiores com as palhetas boas, sugerindo mais um critério de seleção para as palhetas, ou seja, a eficiência para execução de articulações curtas como o staccato. Essa coerência nas escolhas da palheta boa pode ter influenciado a percepção dos ouvintes que classificaram de maneira geral a articulação dos oboístas como leve. 154 Capítulo 7. Discussão dos dados No geral, os oboístas que utilizam palhetas de raspado curto foram categorizados mais vezes como precisos e duros, tendo sido o S6C considerado o mais preciso e leve, enquanto o S19C foi o mais duro entre os oboístas ao passo que o S16L foi classificado como o mais impreciso, mole e pesado. Ao analisarmos os descritores desses sujeitos, verificou-se que geralmente, a duração de ataque e o índice de articulação dos S6C e S19C foram um pouco maiores nos registros grave e médio do oboé e menores no registro agudo. Apesar dos descritores de duração do ataque e índice de articulação dos S6C e S16L não apresentarem diferenças significativas, suas classificações foram bastante antagônicas. O S6C foi classificado pelos ouvintes 55 vezes como preciso e 41 vezes como leve enquanto que o S16L foi relacionado 61 vezes com o adjetivo impreciso e 38 vezes com o pesado, o que nos leva a inferir que as impressões tenham sido causadas por outros motivos que interferem na regularidade e precisão da articulação, como a falta de coordenação entre golpe da língua e a movimentação dos dedos. Apesar de não verificarmos uma relação direta entre o descritor de irregularidade espectral e a percepção dos ouvintes quanto à articulação, observaram-se valores de irregularidade espectral superiores no S16L (impreciso/pesado), ao compararmos com os S6C (preciso/leve) e S19C (duro). Como descrito na sessão 6.3 da análise de dados, um dos sujeitos, S18, utilizou uma palheta feita de material sintético, descrita em detalhe na sessão 1.4 da contextualização. Ao comparamos os resultados obtidos pelo sujeito S18 utilizando a palheta de material sintético e utilizando uma palheta de raspado curto, observou-se mais agilidade na realização do ataque na palheta de material sintético, tendo em vista que os valores de duração do ataque foram menores quando comparados aos valores alcançados com a palheta de raspado curto no excerto do op.77 de Johannes Brahms. Já na C2 (transições separadas), excerto do Batuque de Lorenzo Fernandez, a duração de ataque foi menor com a palheta de raspado curto e os índices de articulação menores com a palheta de material sintético, indicando, possivelmente, uma menor eficiência da palheta para realização de articulações em staccato. Comportamento similar foi observado ao compararmos os dados da palheta de material sintético com as médias dos valores de duração de ataque e dos índices de articulação dos sujeitos que utilizaram palhetas de raspado curto e longo, cujos índices de articulação foram respectivamente superiores em 95% e 90% das notas. Tais características parecem não ter afetado a percepção dos ouvintes, pois a classificação do S18 quanto à articulação foi bastante similar com os dois tipos de palheta, com uma pequena tendência para classificação da articulação como mais precisa, dura e pesada, com a palheta de material sintético. Os valores de centroide, achatamento e irregularidade espectral foram superiores na palheta de material sintético, tanto comparando com os valores obtidos pelo S18 com a palheta de raspado curto, quanto com as médias desses descritores de todos os sujeitos que 155 utilizaram palhetas de raspado curto e longo. Essa comparação pode parecer inadequada, tendo em vista que estamos comparando as médias de vários sujeitos com a média do S18 com a palheta Légère, mas a intenção é termos uma visão geral dos parâmetros acústicos desse tipo de palheta, ainda pouco utilizada por oboístas profissionais, em relação aos obtidos com os diferentes tipos de palhetas feitas de Arundo Donax. Quanto ao legato, observou-se que a palheta de material sintético foi mais eficiente para a execução do excerto da C1 (transições ligadas), considerando-se que os índices de legato do S18 foram superiores aos obtidos com a palheta de raspado curto em 62,7% das transições do excerto. Entretanto, as mudanças de registro descendentes (transições 2 e 8) foram melhor executadas com a palheta de raspado curto. Apesar dos dados apresentados acima não corroborarem com o experimento rea- lizado por Blasco-Yepes e Payri (2010), em que concluiu-se que o estilo de raspado de palheta tem um impacto mínimo na modelagem global do timbre, os dados dos S20L e S21L, que utilizaram a mesma palheta, indicam que o tipo de ataque ou a técnica do instrumentista são elementos que influenciam consistentemente a percepção da sonoridade do oboé por músicos profissionais e oboístas. Nesse contexto, destacou-se, através do índice de articulação, a habilidade do intérprete em executar o staccato, tendo em vista que os valores obtidos pelo S20L foram maiores em 90% das notas na C2 (transições articuladas) em relação ao S21L. Nos outros descritores, como centroide e achatamento espectral e duração do ataque, as diferenças foram menores, o que pode indicar a influência da palheta nos resultados obtidos, tendo em vista que os oboístas utilizam técnicas de execução do instrumento distintas e utilizaram instrumentos de marcas e modelos diferentes. Conclusão Há séculos, oboístas observam os resultados obtidos a partir do uso de determinados tipos de cana, atentando à sua curvatura e coloração, buscando pré-selecionar o material utilizado a fim de obter boas palhetas (SMITH, 1992). Esses são alguns dos procedimentos que exemplificam como o nível de refinamento na seleção do material e, inclusive, na escolha do raspado que irá utilizar, apresenta um importante papel na formação técnica e musical do oboísta. Conforme o nível de expertise do instrumentista aumenta, ele passa a eliminar variáveis que possam vir a comprometer sua performance musical, estabelecendo uma múltipla combinação entre tipo de cana, raspado, molde, tubo e instrumento que utilizará como base para o contínuo desenvolvimento dos seus recursos expressivos. Rothwell (1962) argumenta que, apesar do domínio técnico não ser um fim em si mesmo na arte, o seu desenvolvimento é fundamental no processo de expressão do artista. No contexto específico do oboísta, esse aprimoramento técnico e musical possui uma estreita relação com sua busca por um aperfeiçoamento contínuo das suas palhetas, acompanhando-o durante toda sua trajetória. Para conseguirmos compreender o papel da palheta no resultado sonoro final do oboísta, procurou-se observar a execução musical desses instrumentistas através de uma metologia experimental, em que foram obtidas informações sobre o processo de produção e ajuste das palhetas, através de um questionário semi-estruturado, dados acústicos extraídos da gravação de dois excertos musicais contrastantes e a percepção de músicos sobre os áudios analisados através do teste subjetivo de percepção. Ao testarmos as hipóteses, apresentadas na primeira parte do trabalho, por meio da observação da relação entre os descritores acústicos com as expressões utilizadas para classificar a sonoridade e a articulação dos oboístas, observou-se que, de maneira geral: • Os oboístas que utilizaram palhetas de raspado curto tiveram sua sonoridade classifi- cada como clara, brilhante e redonda e a articulação classificada como precisa, dura e leve, com valores de centroide espectral e índices de articulação maiores e menor duração de ataque que o instrumentistas que utilizaram palhetas de raspado longo. • A sonoridade dos oboístas que utilizaram a palheta de raspado longo foi classificada com escura, opaca e redonda e a articulação como precisa, mole e pesada, obtendo valores de irregularidade espectral e índices de legato maiores do que os oboístas que utilizaram palhetas de raspado curto. 157 Os adjetivos claro e brilhante foram relacionados aos maiores valores de centroide espectral. O adjetivo opaco esteve relacionado a valores de centroide espectral, duração de ataque menores e índice de articulação maiores. A espressão redondo e escuro estiveram relacionadas com valores menores de duração do ataque, centroide, achatamento e irregularidade espectral, bem como com índices de legato maiores. Já a estridência na sonoridade de alguns oboístas esteve relacionada a valores maiores de achatamento e irregularidade espectral e com uma menor linearidade entre os valores. Apesar da relação entre os descritores acústicos e as expressões utilizadas para classificar a articulação ter sido menos conclusiva do que as expressões utilizadas para classificar a sonoridade, observou-se que as expressões precisa e leve estiveram relacionadas a menores valores de duração do ataque e maiores índices de articulação. Figura 113 – Diagrama da relação entre a caracterização por adjetivos, da sonoridade e da articulação, com os dados dos descritores acústicos obtidos com a palheta de raspado curto (PC) e a palheta de rasapdo longo (PL). 158 Conclusão Verificou-se a similaridade entre a percepção dos oboístas e demais músicos, tendo em vista que os resultados do teste subjetivo de percepção foram em sua maioria semelhan- tes. No entanto, a maior variação percentual dos adjetivos, observada entre os oboístas, apontam uma maior capacidade desse grupo de ouvintes em perceber níveis mais sutis de nuances na sonoridade e articulação, permitindo-lhes uma maior diferenciação entre os sujeitos. Todos os sujeitos que participaram do presente estudo consideram a palheta como sendo um dos fatores mais relevantes na performance musical. Conclusões semelhantes foram obtidas por Romero, Alba e Ramis (2006), em que a palheta foi apontada como mais importante do que o próprio instrumento. Apesar de as palhetas de raspados curto e longo apresentarem parâmetros físicos e acústicos bastante específicos, observou-se algumas similaridades entre elas, principalmente no que diz respeito às áreas de ajuste, escolha do diâmetro e dureza da cana utilizada. Verificou-se também que, independentemente do raspado, os oboístas buscam uma palheta que lhes permita alcançar mais naturalmente seus objetivos musicais. A escolha da boa palheta é feita através de um conjunto de critérios testados e consolidados ao longo da trajetória do oboísta, que relacionam-se diretamente com as sensações físicas percebidas pelo instrumentista quanto à eficiência da palheta utilizada. Dentro das qualidades apontadas pelos oboístas, existe uma série de nuances que cada instrumentista prioriza na elaboração das suas palhetas, adequando muitas vezes às suas necessidades e às demandas do contexto musical em que estiver inserido, mas de modo geral, observamos no presente estudo três condições principais já observadas por SHALITA (2015) para uma boa palheta: boa emissão, afinação estável e flexibilidade. Segundo Prodan (1976), a afinação está relacionada principalmente à combinação instrumento/tubo/ molde que o instrumentista utiliza e a estabilidade da sonoridade às características da cana e do equilíbrio no raspado, tendo apresentado relação com os descritores acústicos de centroide, irregularidade e achatamento espectral. As palhetas boas apresentaram valores menores para esses descritores, com exceção dos valores de achatamento espectral das palhetas boas de raspado longo, que foram maiores. A partir das respostas do questionário dos oboístas participantes do experimento, observou-se que a prioridade da escolha da palheta é a facilidade para realização das suas intenções musicais, estando essa habilidade diretamente relacionada a uma boa resposta ao fluxo de ar do instrumentista e ao comportamento estável nos diferentes registros do instrumento. Essas características puderam ser observadas através dos valores de duração do ataque e dos índices de articulação, em que palhetas sem uma determinada resistência ao fluxo de ar do instrumentista também não foram consideradas como boas (menores valores de duração do ataque), comprometendo a capacidade de articulação do oboísta 159 (menores índices de articulação). A precisão para realização dos diferentes tipos de articulação conjuga o trabalho da coluna de ar, língua e dedos para obtenção de uma articulação regular e que permita a realização das intenções do intérprete frente às indicações do compositor. Através dos valores dos índices de legato das análises realizadas, a palheta de raspado longo apresentou melhor desempenho para realização do legato, mas os valores de duração do ataque entremostram que a emissão nas palhetas de raspado curto foi mais eficiente e consequentemente mais precisa, fato percebido também pelos ouvintes. Notou-se ainda, que palhetas cujo timbre produzido apresentaram maior irregularidade espectral foram associados à imprecisão, moleza e peso na articulação. Experimentos futuros poderão observar mais detalhadamente a influência dos diferentes formatos e tamanhos do raspado e da ponta na emissão e articulação do oboísta. A palheta de material sintético apresentou bom desempenho para realização do legato, possui uma emissão eficiente e a sonoridade obtida com ela foi classificada como redonda. No entanto, o S18 obteve valores superiores de centroide, irregularidade e achatamento espectral e duração de ataque no excerto do Batuque de Lorenzo Fernandez, apresentando ainda índices de articulação inferiores comparados à palheta de raspado curto. Sua sonoridade foi classificada como mais clara e brilhante (características muitas vezes preteridas pelos oboístas), e a articulação como dura e pesada, apesar de precisa. Atualmente, a palheta de material sintético é uma boa opção às palhetas de Arundo Donax, principalmente por não variar seu desempenho sob as diferentes condições ambientais e possuir maior durabilidade. Entretanto, ainda necessita de melhorias para que de fato possa ser integrada ao cotidiano dos oboístas. Os descritores nos permitem algumas reflexões sobre o resultado sonoro possível de se extrair com os diferentes raspados, mas não podemos ignorar a resposta do instrumentista frente ao material utilizado. Considerando a palheta como ummeio para expressão do artista através da música, pressupõe-se que o oboísta utilizará recursos técnicos para conseguir transmitir suas ideias musicais. Sendo assim, estaríamos discutindo então a sonoridade do oboísta e sua relação com a palheta ou a própria expressividade do instrumentista e suas habilidades técnicas? Para Ledet (1981), a quantidade de lábio utilizada na cobertura da palheta afetará a sonoridade do oboísta, permitindo a presença de mais ou menos parciais na composição do som. Normalmente, se a palheta for mais coberta pelas lábios, a sonoridade tende a possuir menos harmônicos logo, se o instrumentista desejar uma sonoridade com mais harmônicos, poderá diminuir a cobertura dos lábios sobre a palheta. Compete a cada oboísta encontrar a quantidade ideal de cobertura labial e o posicionamento da palheta que seja compatível com o material utilizado (instrumento, molde, tipo de raspado etc), considerando suas características físicas. 160 Conclusão Os resultados observados com os sujeitos que utilizaram a mesma palheta de raspado longo (S20 e S21) sugerem que palhetas cujos parâmetros físicos são iguais ou semelhantes podem contribuir para a similaridade dos parâmetros acústicos entre diferentes oboístas, o que corrobora com nossa hipótese. No entanto, outras variáveis como a marca e o modelo dos instrumentos podem também influenciar o resultado. Replicações do experimento com condições mais controladas (utilização do mesmo instrumento; de uma mesma palheta de raspado curto e/ou de uma mesma palheta de material sintético) são necessárias para uma possível confirmação da hipótese. Contudo, deve-se ter em conta que, se por um lado, submeter os instrumentistas a tocarem com instrumentos e palhetas diferentes das quais eles estão habituados a utilizar proporciona um experimento mais controlado, por outro, perde-se na naturalidade da performance, já que o oboísta estará habituado ao instrumento ou à palheta. Cada instrumentista acaba por desenvolver seu modo de construir e raspar a palheta, que vai se transformando ao longo da sua trajetória. Desenvolvendo um sistema próprio de construção de palhetas, que passa pela escolha dos materiais e sua enorme variedade (seleção da cana, tubo, diferentes tipos de moldes), passando pelas formas de amarração, tempo de espera e de raspagem da palheta, chegando aos diferentes tipos de raspado. Esse sistema ajuda o instrumentista a ter referências mas, ao mesmo tempo, cria barreiras de pré-conceitos que o impedem de observar o que de positivo existe em outros modos de construção da palheta, o que acaba muitas vezes limitando e/ou estagnando seu desenvolvimento. A influência do contexto musical parece ser significativa e norteia as referências de sonoridade dos instrumentistas ou cultura sonora. O timbre de um determinado oboísta pode ser percebido como claro, brilhante e estridente em um determinado cenário musical e ser percebido de maneira oposta em outro. Aí reside um desafio ao oboísta de encontrar uma palheta, ou um determinado estilo de produção da palheta, que lhe permita adaptar-se aos diferentes contextos musicais, inclusive às demandas expressivas de cada repertório. Dificilmente, uma mesma palheta será adequada para interpretar, por exemplo, uma sonata barroca, as “Romances” de Schumann, a “Sequenza VII” de L. Berio, um “Chorinho” de Pixinguinha e uma “Sinfonia” de Mahler. É bem provável que o oboísta selecione dentre suas palhetas boas, as palhetas que apresentem as características mais adequadas para expressar-se eficientemente dentro de cada contexto. Deve-se ter em mente que os contextos musicais são dinâmicos, variando signficati- vamente em virtude de diferentes concepções estéticas e interpretativas que são construídas e se transforam ao longo do tempo, ou seja, uma cultura sonora predominante pode vir a ser substituída, exigindo talvez, que o oboísta se adapte às novas tendências. Percebeu-se, no transcorrer da pesquisa, a importância da interdisciplinaridade na análise e no desenvolvimento da expressividade na performance musical. Sem a integração 161 e comunicação entre as diferentes abordagens da pesquisa sistemática em música, a compreensão desse fenômeno em sua totalidade fica compromentida. Essa comunicação contruibui também para que o conhecimento gerado nas pesquisas em música e áreas afins possa ser mais aplicável à realidade dos instrumentistas, como por exemplo, através do uso de ferramentas de análise empírica para o desenvolvimento da performance musical. A análise dos dados apresentados na pesquisa aponta muitas possibilidades para a combinação entre os conhecimentos presentes em guias de produção e ajustes de palheta e o uso de descritores acústicos como método para o desenvolvimento das palhetas e da sonoridade do oboísta. Estudos futuros poderão observar de maneira sistemática quais são os resultados acústicos obtidos ao se realizar nas palhetas os ajustes recomendados pelos oboístas e qual a resposta dos ouvintes a essas alterações. Do ponto de vista didático, o uso das ferramentas de análise computacional pode agregar uma perspectiva mais ampla para a formação dos alunos de oboé, que poderá ser mais objetiva, tanto nos aspectos técnicos da performance musical, quanto no desenvolvi- mento da palheta, incentivando o aluno a experimentar mais as possibilidades de raspados, extraindo as melhores características de acordo com suas demandas musicais. Outra aplicação de tais ferramentas é a verificação da correspondência entre as manipulações dos parâmetros acústicos, que são feitas em performances musicais com as intenções expressivas dos músicos, e qual o resultado sobre os ouvintes, possibilitando um constante aperfeiçoamento da capacidade de expressão do instrumentista. Apesar de o timbre ser um dos pontos centrais do presente trabalho, ele é apenas um dos parâmetros que compõem a interpretação musical do oboísta e não deveria ser considerado como um fim em si mesmo, sacrificando por exemplo, outros elementos como articulação, fraseado e dinâmica. Embora a percepção e a concepção sonora sejam contextuais, individuais e carrega- das de subjetividade (MELLO, 2005), acreditamos que uma gradativa sistematização dos conceitos subjetivos de caracterização do som não só possibilita uma melhor compreensão de seu atributo multidimensional, o timbre, como auxilia no processo de refinamento da percepção dos instrumentistas que começam a identificar nuances até então despercebidas, conseguindo ajustar sua palheta mais objetivamente às suas necessidades musicais através de uma avaliação auditiva aumentada (GUALDA, 2012). Assim como apontado por Leech-Wilkinson e Prior (2014), a chave no processo heurístico da performance do oboísta são as metáforas, que através de anos de prática e experiência, consolida-se para que o instrumentista possa codificar as informações essenciais para a realização de efeitos particulares no som, um processo que passa a ser “natural” para ele, influenciando, entre outros aspectos, o desenvolvimento da sua palheta. Esse é um processo importante, cujas causas multimodais ainda precisam ser desvendadas. 162 Conclusão No entanto, é evidente que a compreensão dos processos que conduzem essa cadeia de traduções da ideia (conceitos subjetivos) ao efeito (parâmetros acústicos e psicoacústicos) podem contribuir para sistematização e desenvolvimento da atuação do oboísta em seus diversos contextos (performance, ensino, pesquisa etc). Esperamos que o presente trabalho, na sua tentativa de compreender e sistematizar a relação entre os diferentes raspados da palheta do oboé e a sua influência na sonoridade e articulação dos oboístas, possa inspirar outros pesquisadores a se debruçar sobre as especificidades do fazer musical. Por mais sofisticadas as técnicas e metodologias de análises que tenhamos ao nosso dispor, é provável que jamais possamos compreender inteiramente os elementos que envolvem a performance musical, o que nos motiva a continuar pesquisando. 163 Referências ALMEIDA, A. et al. Physical study of double-reed instruments for application to sound-synthesis. In: International Symposium in Musical Acoustics. [S.l.: s.n.], 2002. p. 1–1. Citado na página 57. AMAC. Academia Musical dos Amigos das Crianças. 2017. Accessado em: 14 jun. 2017. Disponível em: . Citado na página 32. BAINES, A.; BOULT, A. Woodwind instruments and their history. [S.l.]: Courier Corporation, 1967. Citado na página 40. BARRET, A. M.-R. 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Região Orquestras Raspado Curto Raspado Longo Sudeste Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo 2 3 Orquestra Sinfônica Brasileira 2 1 Orquestra Filarmônica de Minas Gerais 4 Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo 3 2 Orquestra Sinfônica de Minas Gerais 1 2 Orquestra Petrobras Sinfônica 2 Orquestra Sinfonica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro 3 Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto 1 Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense 2 1 Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro 2 2 Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas 1 2 Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Minas Gerais 1 Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo 1 1 Orquestra Sinfônica do Espirito Santo 1 2 Orquestra do Theatro São Pedro 2 Orquestra Sinfônica de Santo André 2 1 Total 23 24 Nordeste Orquestra Sinfônica da Paraíba 2 Orquestra Sinfônica Municipal de João Pessoa 1 1 Orquestra Sinfônica de Sergipe 1 2 Orquestra Sinfônica da UFBA 1 Orquestra Sinfônica da Bahia 1 2 Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte 1 1 Orquestra Sinfônica de Recife 3 1 Total 7 10 Sul Orquestra Sinfonica de Porto Alegre 1 4 Orquestra Sinfônica do Paraná 3 Total 4 4 Centro - Oeste Orquestra Sinfonica do Teatro Nacional Cláudio Santoro 1 2 Orquestra Filarmônica de Goiás 1 1 Orquestra Sinfônica de Goiânia 2 1 Total 4 4 Norte Amazonas Filarmônica 4 Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz 3 Total 4 3 TOTAL 42 45 APÊNDICE B – Distribuição dos professores de oboé pelo tipo de raspado da palheta nas Instituições de Ensino Superior do Brasil. Região Instituições de ensino superior Raspado Curto Raspado Longo Sudeste Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 1 Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) 1 Universidade de São Paulo (USP) 1 Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) 1 Faculdade de Música do Espirito Santo (FAMES) 1 Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) 1 Total 5 1 Nordeste Universidade Federal da Paraíba (UFPB) 1 Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) 1 Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) 1 Universidade Federal da Bahia (UFBA) 1 Total 2 2 Sul Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) 1 Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP) 1 Total 2 1 Centro - Oeste Universidade de Brasília (UnB) 1 Instituto Federal de Goiás (IFGO) 1 Total 2 Norte Universidade Federal do Pará (UFPA) 1 Instituto Estadual Carlos Gomes 1 Total 2 Total 9 8 173 APÊNDICE C – Protocolo de Gravação 1. O microfone deverá estar posicionado a 60 cm da campana oboé. 2. Solicitar ao o oboísta que escolha três de suas palhetas. Deve-se enumerá-las para que possa ser feita a identificação posterior das palhetas como ilustrado na (Fig. 1). 3. Solicitar ao oboísta a permissão para cobrir a região da linha de amarração da palheta com fita veda rosca para evitar a identificação da palheta utilizada conforme (Fig. 1). Figura 1: Exemplo dos procedimentos realizados com as palhetas utilizadas pelos sujeitos (palheta com fita veda rosca, numerada e medida) 4. Os instrumentistas deverão executar, com as palhetas selecionadas, três vezes consecutivas os seguintes excertos: A) Os dois primeiros compassos do solo para oboé do início do concerto para Violino de J. Brahms op.77 Figura 2: Excerto do solo para oboé do 2º movimento do concerto para violino de Johannes Brahms, op. 77. 174 APÊNDICE C. Protocolo de Gravação B) Adaptação do tema do Batuque de Lorenzo Fernandez em 3 oitavas. Figura 3: Adaptação do Batuque de Lorenzo Fernandez. 5) Antes de cada take o pesquisador deverá identificar a palheta e o take que está sendo gravado através da seguinte frase: “Palheta 1 take 1”, “Palheta 1 take 2”, etc. 6) Após a gravação o pesquisador deverá solicitar aos participantes o preenchimento do questionário elaborado para a coleta de dados. 175 APÊNDICE D – Questionário do estudo principal 1. Entre as 3 palhetas utilizadas, qual foi sua preferida para realização dos excertos gravados? Por quê? 2. Qual foi a que você menos gostou? Por quê? 3. Quais as características de uma boa palheta para você? 4. Quão importante você considera a palheta para sua Performance Musical? 5. Que conceitos/adjetivos você utiliza para caracterizar a sonoridade de um oboísta ou as características timbrísitca de uma palheta? 6. Como você ajustaria sua palheta para “escurecer” a sonoridade? (Utilize a figura abaixo) 7. Como você ajustaria para deixá-la com a sonoridade mais “clara”? (Utilize a figura abaixo) 8. Cite alguns oboistas cuja sonoridade você considere “clara”. 9. Cite alguns oboistas cuja sonoridade você considere “escura”. Muito obrigado! Nome: Tipologia da raspagem: Marca do Instrumento: Modelo: Marca do Tubo: Tamanho: Material: Tipologia do Molde : Cana - Marca: Diâmetro: Espessura: Densidade: Palheta Tamanho Total Tamanho raspado /Ponta lado 1 Tamanho raspado/Ponta lado 2 1 2 3 APÊNDICE E – Dados das palhetas utilizadas Sujeitos Tipologia da raspagem Instrumento (marca) Instrumento (modelo) Tubo (marca) Tubo (mm) Tubo (material) Molde Cana (marca) Cana (diâmetro) Cana (espessura) Cana (densidade) PB - Tamanho Total (mm) PB - Tamanho do Raspado (mm) PR - Tamanho Total (mm) PR - Tamanho do Raspado (mm) S1C curta T. W. Howarth LXV/parte superior de ebonite Chiarugi +2 47 Latão Reedsnstuff -2 NI 10,5-11 0.57 11 — 13 73 11 - 11.8 73 11.1 - 11.1 S2C curta Marigaux 901 Chiarugi 2 47 Latão Kunibert 730 Silvacane 10,5 0.58 10 72 10 - 10.1 71,9 10,1 - 10,2 S3L longa Lorée Tabeteau Glotin 47 Prata e latão Gilbert -1 NI 10 - 10,5 0.59 média-dura 70.03 19.9 - 20.5 70.07 20.05 - 20.5 S4C curta Lorée Etoile Guercio AM 45/46 Latão Koje Reeds NI NI NI NI 71,5 10,2 - 10,2 70.09 10,3 - 10.3 S5L longa Mönnig AM Chiarugi 2 47 Latão Lucarelli Marca 10 - 10,5 0.60 Macia 70 19.5 - 19.5 69.7 18.3 - 18.3 S6C curta Rigoutat J Chiarugi 2 47 Latão H39 Alliaud 10,5 0.58 - 0.59 10 73.4 10.6 - 10.6 73.4 11.9 - 11.8 S7C curta Lorée 125 Chiarugi 2 47 Latão AM/LM3 Lorée 10,5 0.58 - 0.60 9 - 11 74.4 11.5 - 11.5 73.8 10.3 - 11.8 S8C curta Lorée Royal Chiarugi 2 47 Latão Gilbert 2 Alliaud 10 - 10,5 0.57 - 0.58 NI 71 9,5 - 9,5 72 9,6 - 9,6 S9L longa Marigaux M2 Chiarugi 2 47 Prata Lucarelli (PB) Caleb -1 (PR) Rigotti 10.5 - 10.7 0.58 - 0.59 10 - 12 70 19.1 - 19.5 69.5 19.3 - 19.3 S10L longa Lorée 125 Lorée 47 Prata Gilbert -1 NI NI NI NI 69.9 19.4 - 20.03 69.4 19.4 - 19.7 S11L longa Ludwig Frank Brilhante Lorée 46 Latão Chiarugi -2 Rigotti 10.5 0.60 NI 68 18 - 18 69 17 - 17 S12L longa Lorée Dupin Chiarugi 2 47 Latão Pfeifermae NI 10 - 10,5 0.58 - 0.60 variável 70.9 20,2 - 19.8 70 20 - 20.5 S13L S13C longa Lorée AK (pé em lá) Chiarugi 2 46PC 44 PL Latão com cortiça (PC) Latão com anéis de borracha (PL) Coelho NI NI NI NI 68.4 71 22.45 - 22.53 11 - 11 RI RI S14C curta Marigaux 901 Chiarugi 2 47 Latão NI Glotin 10.5 0.58 11 70 NI 71 NI S15L longa Lorée Royal 125 Chiarugi 2 46 - PB 47 - PR Latão Caleb -1 Marion 10 - 10,5 0.57,5 NI 69.5 20 - 19 70.4 20 - 20 S16L longa Lorée 125 - QW18 Lorée - prata Chiarugi 2 - latão 47 Prata e latão Lucarelli Reed’snstuff 10 - 10,5 0.58 - 0.60 NI 70 16 - 16 71 17 - 16,5 S17L longa Marigaux M2 Chudnow Chiarugi 2 46 Latão e prata Mack Pfeifer Rigotti 10 - 10,5 0.59 12 69 20 - 20 70 21 - 20 S18C S18LG curta Marigaux M2 Chiarugi +2 45 Latão RC13 RC 10.5 - 10.75 0.58 - 0.57 PB - 10 PR - 8 71 10 - 10 71 11 - 11 S19C curta Ludwig Frank Brilhante - De sol PB - Chiarugi 2 PR - Klöpferkopie PB - 45 PR - 46 Latão PB - H17 PR - “Manu” Rigotti e Lavoro 10 0.57 10 70 10,5 - 10,5 70 10,5 - 10,5 S20L longa Patricola S4 PB - Lorée PR - Chiarugi 2 PB - 46 PR- 47 Latão Chiarugi -2 Rigotti, Vic 10 - 10,5 0.60 Média 69 18,5 - 18,5 70,5 20 - 19 S20C curta idem idem Chiarugi 2 44 Latão Reedsnstuff - DD Vic 10 - 10,5 0.56 12 68 10,5 - 10,5 RI RI S21C curta Bulgheroni 590 Chiarugi 2 45 PB - Latão com anéis de borracha !1 PR- Latão com cortiça Reedsnstuff - RO Vic 10 - 10,5 0.56 - 0.58 Média 70 10,5 - 10,5 69.5 10,5 - 10,5 S21L longa idem idem Lorée 46 Latão Chiarugi -2 Rigotti 10 - 10,5 0.60 Média 69 18,5 - 18,5 RI RI 177 APÊNDICE F – Respostas ao questionário Sujeitos Palheta boa Justificativa Palheta ruim Justificativa Palheta boa Características Importância da Palheta na Performance Musical Conceitos para timbre Regiões para escurecer som Regiões para clarear som Referências sonoridade escura Referências sonoridade clara S1C Mais fácil e precisa Um pouco dura Fácil de tocar. Som redondo e cálido. Muito importante, mas o parte mais importante na técnica de um oboísta é ter habilidade para tocar bem com um palheta que não é a ideal. O sujeito não compreendeu bem a pergunta, mas fez observações interessantes. Oboista: centro do som, uso do vibrato e cores. O ataque do som também influencia o timbre. Palheta: tamanho do raspado, formato e tamanho da ponta, qualidade da cana e o centro ou coração do raspado. Possível cortar a ponta (A, B e X), raspara a ponta da ponta (A, B e X) e raspar as laterais (L e K). A meia lua da palheta seria em formato de V. Raspar o coração (M) e N, na intercessão entre AB e CD . Lothar Koch e Schellenberger Heinz Hollliger, porém ele toca lindamente. S2C Fácil emissão Mais difícil de controlar afinação Fácil emissão, boa ressonância e boa afinação Bastante importante. Até mais do que o próprio oboé Escuro/claro. Com ressonância/sem ressonância Cortaria a ponta Raspar o coração (M) e a ponta (ABX) Ramon Ortega, François Leleux Holliger, Alex Klein S3L Estava clara/leve o suficiente para articular claramente o 2o excerto e emitir o Sol 5. Não respondia/reagia. Está relacionada a emissão da palheta (nota do autor). 1) reação/resposta/emissão 2) estabilidade da afinação 3) sonoridade Muito importante. Especialmente a emissão e estabilidade! Profundidade, uniformidade em todos os registros Tornar o formato da ponta em forma mais arredondado. Raspar nas laterais de N e em I. Rapar ABX. John Mack, Eugene Izotov , Alex Klein, John Ferrillo Pierre Pierlot Heinz Holliger Nicolas Daniel S4C Melhor para 3a oitava Problemas para emissão na 3a oitava Flexibilidade e boa afinação O mais importante para se sentir livre durante a perfomance O mais importante para mim é a afinação, a cor (timbre) de uma palheta está em segundo lugar. A qualidade do som é caracterizado como som redondo, concreto, direto, harmônicos agudos, harmônicos graves. Deixar mais cana no centro da palheta (área acizentada do diagrama da palheta) e a ponta (A, B e X) não muito longa. Ponta redonda. Menos cana em M e Z e a ponta em formato de V. Albrecht Mayer Schellenberger e oboistas da antiga escola alemã com palhetas muito pesadas. Heinz Holliger e oboistas da escola francesa antiga, com palhetas bem leves S5L Melhor emissão, resposta no ataque e resultado sonoro Mais mole, o ataque ficou comprometido, assim como o resultado sonoro. Ter boa emissão sonora que traga conforto na pronuncia do som e tranquilidade para fazer as nuances de dinâmica. 90% do resultado da minha performance musical depende de uma boa palheta, portanto tem uma influencia direta e determinante para mim, inclusive no meu psicológico na hora de tocar. O nível de vibração grave, médio e agudo da palheta. No meu entender deve haver um equilíbrio entre ambos. Raspar nas laterais de N. Raspar nos corredores (Y). Arcadio Minczuk Heinz Holliger Malcolm Wessiter Roberto Carlos di Léo S6C Emissão, grave e agudo mais fácil Mais dura e aberta. Emissão fácil, comoda na boca. Boa afinação. Que possa fazer muitas matizes (pp. FF, etc). Boa cor sonora. 30, 40% de importância. Possibilidades de matizes e cores. Raspar em A e B, na linha da meia lua e das laterais (K e L) bem como na parte central de N. Raspar nos corredores (Y) e raspar a região central (área cinza). Christoph Hartmann, Sebastien Giot Holliger, Pierlot, Alex Klein S7C Palheta mais adequada para o oboé Chiado no Brahms Equilíbrio de som, ou seja, a mesma sonoridade nas duas primeiras oitavas, estabilidade na afinação e staccato. Palheta é absolutamente fundamental. Sem boa palheta meu humor, auto- estima se reduzem drasticamente. Difícil dizer, mais o conceito de claro/escuro. A concepção de frase, se busca uma grande, ou frases mais curtas. assim caracterizo alemães e americanos respectivamente. Raspar nas laterais da ponta (A) e na parte posterior (J). Raspar M. Albrecht Mayer, Schellenberger, W. Barella Holliger, Jaques Tys, Pierre Pierlot e Nicolas Daniel S8C Foi a mais flexível e estável. Foi mais difícil atingir a terceira oitava para execução do trecho do Batuque. Precisa granas nas regiões médio, grave e aguda e vibrar afina em dó. É importante ter uma palheta que funcione em todas as regiões que a performance exija, que tenha boa afinação e não exige grande esforço da embocadura para que se consiga essas características. Mas não gosto de ficar preocupada em busca de uma sonoridade perfeita e sim tentar que a palhetas dê o máximo que ela possa. Flexibilidade em dinâmicas e articulação ou com mais foco nos harmônicos, considerando palhetas com som grande, cheio ou com som pequeno e mais suave. Raspar as laterais na intercessão das regiões A e K (sobre N). Depois na interseção entre B e D. Por fim suavizo as colunas laterais (K e L) e central (área marca em cinza). Costumo desgastar a área cinza central e a ponta (ABX). Lothar Koch, Ingo Goritzki Heinz Holliger, Lucarelli, Jonathan Kelly, François Leleux S9L Foi a palheta mais fácil, boa emissão. O timbre também foi mais cálido e com mais profundidade. Palheta menos estável. E o timbre foi o menos cálida entre as outras duas. Uma palheta que é livre para soprar para criar uma faixa de dinâmica mais ampla, mas ao mesmo tempo estável em termos de dinâmica e claro precisa ter uma som cálido. É a coisa mais importante depois do apoio. Sempre ouço se o timbre é focado e bem apoiado. Se o som for focado, existe um veludo natural no timbre. Raspar em N na intercessão lateral entre as regiões A e K. Fazer uma ponta com maior angulo. Talvez raspar na parte posterior (I e J). Tornar claro o timbre, significa melhorar emissão. Afinar a ponta (ABX) seria a primeira coisa a se fazer, mas geralmente checar se os dois lados da da palheta estão iguais (balanceados) remediaria a situação. A maioria dos oboistas americanos. Entre os oboistas alemães: Celine Moinet. Não mencionou nenhum nome. Som claro geralmente é considerado como uma qualidade negativa do som, mas as vezes por ser justificado musicalmente, se a musica precisa ser mais leve, mais rápida. S10L Foi mais fácil para conduzir meu ar como eu queria. Não respondeu no registro superior como esperado. Tinha muita resistência. Procuro algo em que eu consiga soprar livremente e que tenha uma ligeira resistência para o ar. Muito importante Eu ouço o veludo e o brilho do som. Um palheta pode soar fino (débil) ou cálido, ou brilhante. Raspar em N na intercessão lateral entre as regiões A e K. Talvez raspar na parte posterior (I e J). Afinar a ponta (ABX) e na parte anterior da (IJ). John Ferillo, Humbert Lucarelli Alan Vogel, John De Lancie S11L Melhor sonoridade e afinação Pior sonoridade e afinação Tem que estar bem estável, afinação boa e vibrando muito. 100%. Uma boa palheta te dá 100% de possibilidade de ter sucesso no concerto. Agente sabe das dificuldades do instrumento por ser cônico, não é fácil. Então uma palheta 100% ajuda muito. Uma palheta ruim acaba com seu concerto Menor volgal (ô) seria escuro e abafado. Raspar em N na intercessão lateral entre as regiões A e K. Raspar M. Ravi Shankar , Arcadio Minczuk Alex Klein, Lucarelli S12L Mais confortável, apesar de que a terceira está com o som melhor e afinação mais estável, mas está muito aberta e é difícil tocar muito tempo nela. Está com a afinação muito alta e sem corpo, difícil fazer vibrato, um pouco instável no dó médio. Corpo, facilidade no ataque, estabilidade na afinação, sonoridade aveludada que permita grande variação de dinâmica. Muito. Pode ser uma pedra no caminho ou uma “musa inspiradora” presença ou não corpo - principalmente para dinâmica. som aberto ou fechado, redondo, claro, escuro, fino, brilhante, som leve ou pesado - principalmente para ataques. Raspar em A, logo N e na parte posterior (I e J). Raspar na parte central da ponta da ponta (ABX) e na parte posterior de Z. Alexandre Ficarelli, Arcadio Minczuk Holliger, Alex Klein e Schellenberger S13L /C O sujeito informou utilizar os dois tipos de palhetas, mas não elegeu nenhuma como melhor. São boas, tocar é que é difícil. Flexibilidade, ataque, ligadura. De 0 a 10, 8 ou 9 às vezes 7. Depende do repertório. Há músicas que não exigem o extremo da técnica, então a palheta não precisa ser das melhores. Não costumo associar o som com palavras. O balanço geral da palheta é que minimiza o "claro" da palheta. Basta desequilibrar O oboé barroco tende a ser mais “escuro" do que o moderno. O corne-inglês. Depende do repertório. Há algumas notas que são mais “claras"no oboé. Talvez essa diferença corrobora para parecer mais “clara"ou mais “escura”. S14C A principio, a primeira seria a melhor. Na hora da gravação achei que a afinação ficou mais baixa do que o esperado. Na gravação do L. Fernandes, a parte aguda tive muita dificuldade para sair. Na verdade, acho que todas não foram adequadas. Emissão precisa ser fácil. Ter resistência para ter uma articulação. Afinação - equilíbrio nos intervalos. Já imaginei que um oboista precisa se adequar e tocar bem em qualquer palheta. No entanto, acho que isso não procede, tornando a execução penosa e insatisfatória. Se tem mais harmônicos., som mais escuro. Tirar menos cana da ponta (A, B e X), ponta curta. Aumentar a ponta (ABX) e raspar um pouco mais do corpo (todas as outras regiões). François Leleux e Thomas Indermühle Holliger, Alex Klein S15L Mais controle de afinação. Sonoridade e variação de dinâmicas (término de frase) A palheta estava muito aberta e curta, dificultando o controle dos aspetos citados na palheta boa. Uma sonoridade estável (em todos os registros), afinação estável e seja construída pra que haja facilidade de controle de dinâmica e articulação. Extremamente importante. Uma palheta “não ideal” para performance musical dificulta a expressão ou expressividade além de outras qualidades mencionadas anteriormente. Normalmente associo as características sonoras à cores, paladar. Raspar as laterais de A e X, a parte central da região cinza e a parte central de Y, dependendo da proporção de raspagem da palheta. Raspar a parte central entre B e X da e em I e J. Lothar Koch, Alexandre Barros, Ravi Shankar, Gregor Witt Anthony Camden, Pierlot S16L Parecia mais estável, com articulação melhor. Nem dura nem mole. Muito mole. Fácil emissão, que tenha um ataque fácil, seja confortável na boca, se ajuste bem ao lábio e estável. 90% do fazer musical do oboísta, no tocar. Muito importante. Um conceito bem subjetivo. Som claro ou escuro, encorpado. Gasguito, quando tem som de pato. Raspar no centro de Z. Raspar em B, na intercessão entre AB e CD e na região Y. Na verdade, atualmente, os timbres dos oboistas tem muitas semelhanças, não consigo diferenciar muito. Atualmente, um dos oboistdas que considero com sonoridade mais escura seria Arcadio Minczuk e Alexandre Barros Holliger, Alex Klein, W. Barella, Justi, A. Mayer, José Medeiros, dentre outros possuem uma sonoridade clara que tem variantes singulares entre cada um. S17L Respondeu melhor aos meus objetivos. Respondeu mais rapidamente ao meu controle em vários momentos. Um pouco pesada, apesar da sonoridade parecer mais encorpada e equilibrada. Sonoridade escura, porém não opaca (com certo brilho. Equilíbrio entre os harmônicos grave e agudo. Reposta rápida, com leves porém com a vibração controlada. Equilíbrio do timbre nos vários registros. Resposta rápida também para o staccato e demais articulações. Muito importante ! Claro x escuro, brilhante x opaco, equilibrado ( nos diversos registros, ou seja, com corpo nas três regiões (grave, média e aguda). Centrado ( com a composição equilibrada de harmônicos em cada nota). Rasparia especialmente nas regiões L e K e na parte mediana de Y. Faria a ponta reta (ABX) sem o desenho de “telhado”. Rasparia mais na parte central da ponta (entre B e X) e M. Alexandre Barros, Natan Albuquerque Jr. H. Holliger, P. Pierlot e A. Mayer. Isaac Duarte - S18C/LG Teve o som mais redondo. Estava quase leve de mais. Foi a mais velha. Uma palheta que tem uma boa afinação, boa emissão e claro um som prelo de harmônico. Importância central! Plenitude Harmônica. Raspar em N na intercessão lateral entre as regiões A e K. Rasparia de maneira geral da região central do raspado (Z) até a ponta (ABX). Lothar Koch e Klaus Becker Holliger, Lucarelli e Pierlot S19C Sensação de maior controle nas questões interpretativas; de sonoridade, de afinação, de legado e articulação. Maior "plasticidade , flexibilidade”. Não ofereceu plasticidade, flexibilidade. É aquela que oferece as condições ideais para o controle de sonoridade, dinâmica, timbre, afinação, articulação e flexibilidade. 80% do trabalho de um oboísta, quiça mais. Sem uma palheta que ofereça condições ideais para as questões interpretativas, fica quase impossível o trabalho do oboísta. Timbre claro , escuro, som aberto, pequeno, ardido, opaco, duro. Raspar em N na intercessão lateral entre as regiões A e K, e em I e J, se for raspado longo. Raspar na região J. François Leleux, Philippe tondre, Cristina Gomez. H. Holliger, M. Bourgue, Frantizeck Hemteck , P. Pierlot, M. Tabeteau. S20L/C NI Tem menos harmônicos. Que seja confortável, com timbre que agrade/som mais cheio, com uma afinação regular e que tanto os graves quanto os agudos saiam sem esforços maiores. Muito importante. Diria que a palheta é a alma do instrumento, se ela não estiver como gostaria, o desenvolvimento torna-se difícil. Conceituo a partir das referencias que tenho, comparando as diferenças que ouço. Com uma ponta fina e longa eu cortaria. Tiraria um pouco nos lados do coração (M), bem pouco. Tiraria um pouco da coluna (parte cinza central) e um pouco do corpo todo (Y). Isaac Duarte, Ravi Shankar e Albrecht Mayer Holliger S21C/L Não era o melhor som, mas estava mais confortável. Muito aberta. Muito esforço para articular. Fácil emissão, boa articulação e oitavas afinadas. Uma boa palheta corresponde a 50% da PM, então é muito importante. Gosto da multiplicidade de cores de uma palheta (de um oboísta). Se o timbre não for muito penetrante (incômodo) o resto para mim é construção de uma boa frase. Deixaria mais material nas canaletas (Y) e no coração (M) próximo a ponta (A, B e X). Faria o inverso do procedimento para escurecer. Uma palheta mais raspada. Arcadio Minczuk, Joel Gisiger e Dominik Wollenweber H. Schellenberger Alex Klein A. Mayer APÊNDICE G – Teste Subjetivo de Percepção Nome: ___________________________________________________________________ Escolaridade: ( ) graduando ( ) graduado ( ) especialista ( ) mestre ( ) doutor Família do seu instrumento principal: ( ) cordas ( ) madeiras ( ) metais ( ) percussão ( ) canto ( ) violão ( ) composição Oboísta? ( ) sim ( ) não Prezado(a) participante: Sou estudante do curso de Pós-graduação/Doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais. Estou realizando uma pesquisa sob supervisão do professor Dr. Maurício Freire Garcia, cujo objetivo é compreender e caracterizar os conceitos subjetivos relacionados ao timbre dos oboistas e sua relação com os tipos de raspados utilizados ( curto e longo) através de ferramentas computacionais de análise de dados acústicos. A participação nesse estudo é voluntária e se você decidir não participar ou quiser desistir de continuar em qualquer momento, tem absoluta liberdade de fazê-lo. Na publicação dos resultados desta pesquisa, sua identidade será mantida no mais rigoroso sigilo. Serão omitidas todas as informações que permitam identificá-lo(a). Mesmo não tendo benefícios diretos em participar, indiretamente você estará contribuindo para a compreensão do fenômeno estudado e para a produção de conhecimento científico. Sua participação envolve a audição de dois excertos executados ao oboé : 1. dois compassos do solo para oboé do concerto para Violino de J. Brahms op.77. 2. transcrição para oboé do tema do Batuque de Lorenzo Fernandes em 3 oitavas. Você escutará diferentes versões do mesmo excerto. Para um bom aproveitamento de sua participação na pesquisa, é necessário que todas as versões sejam escutadas com atenção. Em cada etapa, você deverá classificar as versões de acordo com os conceitos subjetivos recorrentes entre oboistas e outros músicos. Procure sempre responder da melhor forma possível, atendo-se fielmente às suas impressões. As questões são de múltipla escolha, mas sempre há espaço para comentários adicionais e acréscimos de outros conceitos. Sinta-se livre para utilizar esse espaço sempre que julgar necessário. Seu nome não será citado ou utilizado em nenhum momento ao longo da pesquisa e está sendo solicitado apenas para controle interno. Assinale os adjetivos que você utilizaria para caracterizar o timbre no excerto 1 e a articulação no excerto 2. 179 1) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 2) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 3) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 4) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 5) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 180 APÊNDICE G. Teste Subjetivo de Percepção 6) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 7) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 8) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 9) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 10) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 181 11) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 12) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 13) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 14) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 15) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 182 APÊNDICE G. Teste Subjetivo de Percepção 16) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 17) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 18) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 19) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 20) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 183 21) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 22) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 23) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 24) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ 25) Excerto I ( ) claro ( ) escuro ( ) brilhante ( ) opaco ( ) redondo ( ) estridente ( ) outros _____________________________________________________________________________ Excerto II ( ) p r e c i s o ( ) i m p r e c i s o ( ) d u r o ( ) m o l e ( ) l e v e ( ) p e s a d o ( ) o u t r o s _____________________________________________________________________________ Registre aqui qualquer observação sobre o teste: _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ Muito Obrigado!! APÊNDICE H – Dados do Teste Subjetivo de Percepção Sujeitos claro escuro brilhante opaco redondo estridente preciso impreciso duro mole leve pesado outros 1) S1C 38 7 24 11 32 6 46 2 21 13 15 13 TIMBRE: DURO, MUITO HARMÔNICO AGUDO,INCONSTANTE/PRECISO NO TEMPO NÃO NAS ARTICULAÇÕES; ARTICULAÇÃO:UM POUCO FORA DE FOCO, ABERTO DE MAIS. 2) S2C 27 11 14 13 31 2 47 2 12 9 26 9 ARTICULAÇÃO: STACCATO BOM, NÃO MUITO OA 3) S3L 12 17 14 25 18 11 27 12 7 19 19 18 TIMBRE: CHIADO; ARTICULAÇÃO: UM POUCOO GRITADO NO AGUDO 4) S4C 21 16 7 16 20 4 16 29 18 19 5 17 TIMBRE: AVELUDADO, ABAFADO 5) S5L 24 8 30 12 11 17 12 24 27 13 6 31 TIMBRE: DURO MAS COM BOM SOM; ARTICULAÇÃO: POUCO PESADO, DIFICULTOSO 6) S6C 28 21 6 15 38 3 55 0 5 7 41 5 TIMBRE: EXPRESSIVO, PLANO, SEM GRAÇA; ARTICULAÇÃO: EXCELENTE ARTICULAÇÃO, AFINADO,SUAVE, OPACO 7) S7C 27 11 11 13 2 32 10 38 14 12 15 16 TIMBRE: DESFOCALIZADO, DESAFINADO, SOM PATO; ARTICULAÇÃO: AGUDO GRITADO, BRILHANTE, RUIM, ESTRIDENTE 8) S8C 21 17 9 20 25 6 17 33 25 8 7 19 TIMBRE: CHIADO, EXPRESSIVO, LENTO, ARRASTADO, CHIADO; ARTICULAÇÃO: ARTICULAÇÃO CHEIA, AGRESSIVO 9) S9L 33 19 15 11 19 10 27 7 17 24 12 25 TIMBRE: SOM CHEIO DE HARMONICO AGUDO, BAIXO ARTICULAÇÃO: DESAFINADO - ARTICULAÇÃO: LENTO NO ATAQUE 10) S10L 25 12 16 24 12 11 17 35 7 15 23 13 TIMBRE: DESAFINADO, VELADO, NASAL 11) S11L 25 15 20 20 22 5 48 7 22 3 17 13 TIMBRE: DESAFINADO; ARTICULAÇÃO: IMPRECISO NOS AGUDOS 12) S12L 15 6 10 20 1 50 13 42 16 18 10 23 TIMBRE: PESADO, PALHETA RUIM ,CHIADO, RASPADO, PATO; ARTICULAÇÃO: SOM FEIO 13) S13C 27 10 13 13 31 5 36 11 9 27 24 14 TIMBRE: LEVE, UM POUCO MAGRO, CHEIO DE HARMÔNICO AGUDO, BOM; ARTICULAÇÃO: NÃO MUITO BOA 14) S13L 17 17 17 16 12 23 34 12 9 15 33 7 TIMBRE: ABAIXO DO CENTRO DA NOTA; ARTICULAÇÃO: ACIMA DO CENTRO DA NOTA 15) S14C 22 8 21 17 19 10 4 46 27 20 5 33 TIMBRE: MAGRO, SOM MJITO FINO, MEDROSO, IMPRECISO; ARTICULAÇÃO: ESCURO 16) S15L 14 30 4 28 24 4 37 5 18 10 19 21 TIMBRE: PESADO, LIMPO, FECHADO, SOM COM CHIADO; ARTICULAÇÃO: CLARO 17) S16L 23 8 21 16 8 25 0 61 15 28 1 38 TIMBRE: DESAFINADO, MURCHO, FORA DO CENTRO DA NOTA, AFINAÇÃO COMPROMETIDA; ARTUCULAÇÃO: INICIANTE, AUSÊNCIA DE CLAREZA 18) S17L 19 31 11 16 44 2 46 3 11 11 31 12 TIMBRE: LEVE, SOM COM MUITO HARMÔNICO GRAVE, 19) S18C 23 12 22 16 10 25 46 7 14 10 28 7 TIMBRE: CHIADO, QUADRADO, INDECISO, NASAL; ARTICULAÇÃO: IMPRECISO NA AFINAÇÃO 20) S18LG 32 13 24 14 19 12 49 4 20 6 23 10 TIMBRE: CHEIO DE AR No 1º LÁ 21) S19C 39 13 15 14 34 3 25 19 32 11 5 30 22) S20C 23 11 15 22 10 12 20 25 20 24 9 28 TIMBRE: POUCA VIDA; ARTICULAÇÃO:POUCA CLAREZA 23) S20L 29 16 6 25 17 4 23 21 17 24 9 21 24) S21C 28 15 21 11 29 3 18 35 6 25 33 4 25) S21L 25 20 17 17 24 5 14 38 6 27 24 8 TIMBRE: POUCO DESAFINADO, QUANTIDADE BOA DE HARMÔNICOS. Escolaridade dos ouvintes graduando: 22 graduado: 12 especialista:10 mestre: 20 doutor: 9 Família do instrumento príncipal oboístas: 12 madeiras: 22 cordas:18 metais: 5 percussão: 0 piano: 12 regente: 2 compositor: 1 canto: 1 185 APÊNDICE I – Termo de consentimento livre e esclarecido para coleta de dados Prezado(a) participante: Sou estudante do curso de Pós-graduação/Doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais. Estou realizando uma pesquisa sob supervisão do professor Dr. Maurício Freire Garcia, cujo objetivo é compreender e caracterizar os conceitos subjetivos relacio- nados ao timbre dos oboistas e sua relação com os tipos de raspados utilizados (curto e longo)atravésde ferramentas computacionais de análise de dados acústicos. Sua participação envolve a gravação dos excertos musicais em anexo e responder um questionário. O tempo estimado pararealização destas atividades é de 30 minutos. A participação nesse estudo é voluntária e se você decidir não participar ou quiser desistir de continuar em qualquer momento, tem absoluta liberdade de fazê-lo. Na publicação dos resultados desta pesquisa, sua identidade será mantida no mais rigoroso sigilo. Serão omitidas todas as informações que permitam identificá-lo(a). Mesmo não tendo benefícios diretos em participar, indiretamente você estará contribuindo para a compreensão do fenômeno estudado e para a produção de conhecimento científico. Quaisquer dúvidas relativas à pesquisa poderão ser esclarecidas pelo pesquisador fone (83) 982043615 . Atenciosamente, Ravi Shankar Magno Viana Domingues Consinto em participar deste estudo e declaro ter recebido uma cópia deste termo de consentimento. Data e Local: Participante APÊNDICE J – Lista de abreviaturas e siglas dos Experimentos I e II PRC - palheta(s) de raspado curto PRL - palheta(s) de raspado longo PB - palheta boa PR - palheta ruim CE - centroide espectral IL - índice de legato stebam AE - achatamento espectral DA - duração do ataque IAR - índice de articulação IA - inclinação do ataque TSP - teste subjetivo de percepção C - claro E - escuro D - duro M - mole NI - não informado RI - resposta inadequada (quando a resposta não pode ser compreendida pelo pesquisador) 187 APÊNDICE K – Protocolo do Experimento II 1. O microfone deverá estar posicionado a um metro da campana oboé. 2. Solicitar ao o oboísta que escolha três de suas palhetas. Deve-se enumerá-las para que possa ser feita a identificação posterior das palhetas como ilustrado na figura 1. 3. Solicitar ao oboísta a permissão para cobrir a região da linha de amarração da palheta com fita veda rosca para evitar a identificação da palheta utilizada (fig. 18). Muitas vezes o instrumentista procura identificar sua palheta pela cor da linha que amarra sua palheta. Figura 1: Exemplo dos procedimentos realizados com as palhetas utilizadas pelos sujeitos (palheta com fita veda rosca, numerada e medida) 4. Os instrumentistas deverão executar, com as palhetas selecionadas, três vezes consecutivas os excertos; 5. Antes de cada take o pesquisador deverá identificar a palheta e o take que está sendo gravado através da seguinte frase: “Palheta 1 take 1”, “Palheta 1 take 2”, etc. A. Os dois primeiros compassos do solo para oboé do início do concerto para Violino de J. Brahms op.77, que chamaremos de condição 1 (C1); Figura 2: Partitura do excerto de J. Brahms B. Adaptação do tema do Batuque de Lorenzo Fernandez em 3 oitavas, condição 2 ( C2). Figura 3: Partitura do excerto de L. Fernandez APÊNDICE L – Questionário do Experimento II (Piloto) Figura 1: Dados do oboísta e do instrumento Figura 2: Dados da palheta utilizada 1. Entre as 3 palhetas utilizadas, qual foi sua preferida para realização dos excertos gravados? Por quê? 2. Qual foi a que você menos gostou? Por quê? 3. Quais as características de uma boa palheta pra você? 4. Quão importante você considera a palheta nas suas atividades musicais? 5. Que conceitos você utiliza para caracterizar a sonoridade de um determinado oboísta ou as características timbrísitcas de uma palheta? 6. Como você ajustaria para “escurecer”? (Utilize a figura abaixo) Figura 1: Diagrama de raspados e suas partes 
 1. ponta 2. coração/coluna 3. corredores 4. marca da raspagem (“U” “W”) 5. área não raspada 7. Como você ajustaria para deixá-lo mais “claro”? (Utilize a figura abaixo) Figura 2: Diagrama de raspados e suas partes 
 1. ponta 2. coração/coluna 3. corredores 4. marca da raspagem (“U” “W”) 5. área não raspada 8. Cite alguns oboistas cuja sonoridade você considere “clara”. 9. Cite alguns oboistas cuja sonoridade você considere “escura”. 
 Nome Tipologia da raspagem: Marca do Instrumento: Modelo: Marca do Tubo: Tamanho: Material: Tipologia do Molde : Cana - Marca: Diametro: Espessura: Densidade: Palheta Tamanho Total Tamanho raspado lado 1 Tamanho raspado lado 2 1 2 3 189 APÊNDICE M – Dados do questionário piloto Figura 114 – Dados dos sujeitos Figura 115 – Dados da palhetas utilizadas no Experimento II. Sujeito X 1. Palheta foi escolhida por estar mais flexível e com emissão mais fácil. 2. A palheta foi rejeitada, pois exigia maior esforço para controlar afinação e conseguir um timbre mais doce. Palheta estava dura. 3. De fácil emissão. Sem necessidade de apertar para controlar o timbre e a afinação. 4. A palheta não é tudo, mas uma boa palheta permite o oboista fazer musica de maneira mais efetiva. Diria que ela é 55% porcento responsável pela sucesso de uma performance de um oboista. 5. Som claro, escuro, aveludado, estridente. Ataque e/ou palheta dura ou mole. 6. Rasparia nos cantos na transição entre a região 1 e 3 da palheta. 7. Rasparia na ponta do coração. Região de transição entre a ponta e o coração. 8. Pierre Pierlot, H. Holliger, Lucarelli, Alex Klein, W. Barella. 190 APÊNDICE M. Dados do questionário piloto 9. F. Leleux, G. Witt, R. Ortega, Lotar Koch. Sujeito 1 1. Favorece as notas ligadas e o staccato não fica duro. Soa o staccato, mas fica mais elegante. Ajuda na velocidade do staccato. Se o staccato da palheta é pesado, a língua fica pesada e não é possível executar o staccato com velocidade. E o timbre é o que gosto. 2. A palheta 1 foi considerada ruim pois estava “ inflexível, dura, inflexível e não conecta bem as notas. O staccato as notas saem do foco. Tanto no staccato quanto no legato os harmônicos saem do foco. E por ela estar mais dura acaba dificultando para fazer dinâmica. 3. Boa resistência, que mantenha a afinação e vibração suficiente para boa flexibili- dade. 4. 70% Palheta, 20% oboista e 10% oboé 5. Utilizo o conceito da voz humana cantada. Ex. Uma soprano preciso escrever e clarear certas notas devido a flexão de vogais e consoantes em diferentes idiomas. Procuro soar utilizando esta comparação. 6. Rasparia na ponta da região 1 e nas interseções laterais entre a ponta (região 1) e o coração (região 2). 7. Deixaria a ponta da região 1 menos raspada e degraus entre ponta, coração e janela. 8. Katerine Needleman, H. Holliger. 9. John Mack, Eugene Izotov. Sujeito 2 Raspa suas palhetas na máquina. Dividiu as palhetas em duas categorias PC 2 e 4 mais escuras PC 1 e 3 mais claras. 1. Nr. 4. Controle mais fácil e cor do som melhor. 2. Nr.3. Estava muito fechada ( abertura frontal da palheta) Controle fácil no sentido da afinação e timbre; mesma resistência em todos os registros e flexibilidade de dinâmica. 3. 55% 4 . claro - com predominância dos harmônicos, aqueles brilhantes. Muita ressonância; . escuro - com predominância de harmônicos graves; . muita resistência/presa; . pouca resistência/livre (o sujeito informou que gosta do intermediário); . cana mole . cana dura; . boa resposta - articulação fácil; 191 6. Na palheta nr 3 rasparia proximo da ponta. 7. Na palheta 2 da metade para ponta. 8. H. Holliger, Lajos Lances, A. Klein, W. Barella 9. Ramon Ortega, François Leleux. Sujeito 3 1. A nr. 1 porque já estava amaciada e já deia as finalizações. Eu sabia o que espera dela quando tocar. Ataque confiável. 2. A nr 3 porque estava muito dura e ainda não tinha finalizado. Não tocaria. Está imprevisível. Não sabe o que vai sair. 3. Afinação confortável. Ataque bom e sonoridade não muito metálica. 4. 50% nem sempre toco com palhetas boas, mas quando elas são confortáveis meu esforço acaba sendo menor para realização da música. 5. som metálico/sem projeção/ som brilhante/sem ataque/som caído. 6. Transição entre região 1 e 3 (cantos) e diminuiria o tamanho. 7. Região 1 e 3. 8. Holliger 9. Alexandre Barros, Arcádio, Joel Sujeito 4 1. PC1 - escolhida por causa do som. Mais equilibrada. 2. PC 3 - não tocaria. Tem de controlar o som. 3. Tenha primeiro um bom colorido, timbre. Boa ataque se comporte equilibrada nas três regiões do instrumento. 4. Ela é o primeiro contato com o instrumento. É a passagem do ar e o início da vibração. ë o inicio do resultado que vc procura. Quanto melhor for o início, te deixa mais vontade para fazer seu trabalho com mais tranquilidade. A palheta seria responsável por 50% da performance os outros 50% seria o instrumento e a técnica. 5. Aveludado, redondo, escuro(uma palavra muito utilizada). Hj em dia seria uma escola, uma tendência. Claro, aberto. 6. Transição entre região 1 e 3 (cantos). 7. Estreitaria e afinaria (deixar delgado) o coração (região 2). 8. André Lardrot. 9. Lajos Lances, Joseph Robinson. 192 APÊNDICE M. Dados do questionário piloto Sujeito 5 RL 1. RL2 Mais fácil. Vibrando mais. Mais ou menos velha, aproximadamente uma semana de uso. 2. RL3 Velha. RC 1. RC2 Mais fácil. Mais usada. 2. RC1 Nova. Dura. 3. Uma palheta que me de conforto pra tocar, ou seja que ela vibre bastante e tenha os agudos equilibrados e os graves também, que não seja uma palheta nem muito fechada nem muito aberta eu falo o diâmetro dela, a "boca"dela. É claro que pra mim depende do repertório, porque as vezes você tem obras que usam fffff e ppppp , como a 3a de Mahler que foi um grande desafio pra mim de palheta, até pelo instrumento que eu estava na época que era um Mönnig, um instrumento mais duro e eu precisa de uma palheta bem fechadinha para eu poder tocar o suficiente, soprar a vontade e o som poder sair sem o risco de ficar falhando nota. No geral uma palheta confortável e que tenho o som mais grave, que não toque exatamente a nota Dó, toque um Síb, seria a palheta ideal pra mim. 4. 100%! Uma boa palheta te dá 100% de possibilidade de ter sucesso no concerto. Agente sabe das dificuldades do instrumento por ser cônico, não é fácil. Então uma palheta 100% ajuda muito. Uma palheta ruim acaba com seu concerto. 5. É muito pessoal. Palheta não tenha muito "chiado", não tenha o som “fino”, agente percebe isso muito no agudo, e não tenho um som muito "ardido". Mas eu não consigo definir o que é ardido exatamente. Uma palheta que tenha o som mais “centradinho"“focadinho” isso implica em tanta coisa, até no vibrado do oboista, mas pra mim é isso. . . uma palheta que não seja muito “gritante"que não incomode os meus ouvidos e que o agudo não seja muito aberto. 6. No canto da região de interceção das regiões 1 e 3. Quanto mais você raspa ali, mais o som fica escuros. E isso acho que vale para a palheta toda. Se você tira mais na coluna no centro da palheta ela vai ficar com o som mais aberto mais desequilibrado e quanto mais você puxa no cantinho ali, mais ela fica com o som escuro. Tem tem também a ponta da Região 1 dos ladinhos também quanto mais você raspa as laterais da ponta, vai andando a escurecer, mas o que mais escurece são os cantinhos na interceção das regiões 1 e 3. 7. O meio da palheta se você raspar mais e tentar fazer com que palheta fique mais reto, mais claro fica o som. 193 8. Alex Klein 9. Hansjörg Schellenberger, Arcádio Minckzuk APÊNDICE N – Dados dos descritores acústicos do Experimento II (PB) Figura 116 – Dados do CE das PB - C1. Figura 117 – Dados do IL das PB - C1. Figura 118 – Dados do AE das PB - C1. 195 Figura 119 – Dados da DA das PB - C2. 196 APÊNDICE N. Dados dos descritores acústicos do Experimento II (PB) Figura 120 – Dados do IA das PB - C2. 197 Figura 121 – Dados do IAR das PB - C2. APÊNDICE O – Dados dos descritores acústicos do Experimento II (PB - PR) Figura 122 – Dados das PB e PR (SX) - C1. Figura 123 – Dados das PB e PR (S1) - C1. Figura 124 – Dados das PB e PR (S2) - C1. 199 Figura 125 – Dados das PB e PR (S3) - C1. Figura 126 – Dados das PB e PR (S4) - C1. 200 APÊNDICE O. Dados dos descritores acústicos do Experimento II (PB - PR) Figura 127 – Dados das PB e PR (S5/RC) - C1. Figura 128 – Dados das PB e PR (S5/RC) - C1. 201 Figura 129 – Dados das PB e PR (SX) - C2. 202 APÊNDICE O. Dados dos descritores acústicos do Experimento II (PB - PR) Figura 130 – Dados das PB e PR (S1) - C2. 203 Figura 131 – Dados das PB e PR (S2) - C2. 204 APÊNDICE O. Dados dos descritores acústicos do Experimento II (PB - PR) Figura 132 – Dados das PB e PR (S3) - C2. 205 Figura 133 – Dados das PB e PR (S4) - C2. 206 APÊNDICE O. Dados dos descritores acústicos do Experimento II (PB - PR) Figura 134 – Dados das PB e PR (S5/RC) - C2. 207 Figura 135 – Dados das PB e PR (S5/RL) - C2. APÊNDICE P – Teste Subjetivo de Percepção (Piloto) Nome: Desde já agradeço sua participação na pesquisa. Esse teste consistirá na audição de dois excertos executados ao oboé: 1. dois compassos do solo para oboé do concerto para Violino de J. Brahms op.77. 2. transcrição para oboé do tema do Batuque de Lorenzo Fernandez em 3 oitavas. Você escutará a cada etapa duas versões do excerto. Para um bom aproveitamento de sua participação na pesquisa, é necessário que todos os trechos sejam escutados com atenção. Em cada etapa, você deverá responder a algumas perguntas sobre sua percepção do timbre das duas versões. Procure sempre responder da melhor forma possível, atendo-se fielmente às suas impressões. As questões são de múltipla escolha, mas sempre há espaço para comentários adicionais. Sinta-se livre para utilizar esse espaço sempre que julgar necessário. Seu nome não será citado ou utilizado em nenhum momento ao longo da pesquisa e está sendo solicitado apenas para controle interno. Após escutar as duas versões de cada excerto, responda às seguintes perguntas: I) Você notou diferença no timbre nos dois exemplos? ( ) sim ( ) não Em caso positivo, responda às questões abaixo. Em caso negativo, siga para a seguinte etapa. II) Como você descreveria essa diferença? Correlacione os adjetivos abaixo utilizando a letra A para o timbre da primeira versão e B para o da segunda versão. Se desejar poderá escrever outros adjetivos para qualificá-los no espaço indicado. Excerto I (18 combinações) I) ( ) sim ( ) não ( ) claro ( ) escuro Excerto II (18 combinações) II) ( ) sim ( ) não ( ) duro ( ) mole 209 APÊNDICE Q – Dados do Teste Subjetivo de Percepção (PILOTO) As expressões utilizadas no questionário foram abreviadas para melhor organização dos dados: TSP - teste subjetivo de percepção; C - claro; E - escuro; D - duro; M - mole; ND - não houve diferença; RI - resposta inadequada (quando a resposta não pode ser compreendida). Sequência dos áudios C1 C2 1 X 5L C/E - 20 E/C - 1 ND - 1 RI - 1 Alguns sujeitos relataram que a diferença estava na distribuição dos harmônicos. No primeiros mais harmônicos agudos e no segundo mais harmônicos graves. 5L mais aveludado, limpo, fosco D/M - 14 M/D - 4 ND - 4 RI - 1 X - curto 2 1 3 C/E - 17 E/C - 6 1 - mais brilhante, pontudo, chapado, focado 3 - desafinado D/M - 12 M/D - 5 M/M - 4 ND - 2 3 5L 1 C/E -1 E/C -16 C/C - 1 ND-4 RI - 1 1- potente, mais harmônicos D/M - 6 M/D - 4 ND - 9 M/M- 2 D/D - 2 1 - pesado 4 4 X C/E - 2 E/C -16 C/C - 3 ND - 1 RI - 1 4 - esganiçado, preso D/M - 6 M/D - 15 D/D - 1 RI - 1 4 - pesado x - leve, massa 5 X 3 C/E - 20 E/C-1 ND- 2 X - Duro 3 - entubado, redondo, menos qualidade, opaco D/M - 16 M/D - 6 ND - 1 X - leve 6 2 1 C/E - 18 C/C-1 ND - 4 1- abafado, suave, doce 2- irritante, brilhante, maior potencia D/M - 13 M/D - 4 M/M - 1 ND - 5 7 5L 5L C/E - 2 E/C - 1 ND-19 RI - 1 Ambos escuros D/M - 3 M/D - 3 MM - 1 ND - 16 8 3 2 C/E - 4 E/C - 16 C/C - 1 RI - 2 3 - preso, nasal, aberto 2 - gritado, sonoro, estridente D/M - 1 M/D - 19 D/D - 1 ND - 2 3 - mais pesado 9 X 1 C/E - 5 E/C - 2 C/C - 2 ND - 12 RI - 2 X - sussurrado, sonoridade raza 1 - limpo, preso, nasal D/M - 11 M/D - 4 ND - 8 X - leve 1 - pesado 10 2 4 C/E - 18 E/C - 1 C/C - 1 ND - 3 2 - brilhante, presente 4 - sussurrado D/M - 16 M/D - 2 ND - 4 RI - 1 2 - preciso, mole 4 - pesado 11 2 x C/E - 18 E/C - 2 ND - 2 RI - 1 D/M - 13 M/D - 5 ND - 4 RI - 1 12 5C 5L C/E - 3 E/C - 3 ND - 17 D/M - 1 M/D - 8 ND - 13 RI - 1 L - pesado, mole 13 2 5L C/E - 19 C/C - 1 ND - 2 RI - 1 2 - embocadura rigida 5L - embocadura relaxada D/M - 10 M/D - 5 ND - 6 RI - 2 2 - agressivo, pato 5L - redondo, menos pato 14 5L 4 C/E - 5 E/C - 8 E/E - 4 ND - 6 4 -duro, fino D/M - 13 M/D - 8 MM - 1 ND - 1 5 - leve 4 - pesado 15 3 5L C/E - 5 E/C - 6 C/C - 1 ND - 11 3 - Mais profundidade D/M - 5 M/D - 11 ND - 6 RI - 1 Ambos mole 16 5C 5C E/C - 2 ND - 21 Ambos escuros D/M - 3 M/D - 6 ND - 12 D/D - 1 RI - 1 nítido 17 4 3 C/E - 8 E/C - 11 E/E - 1 ND - 2 RI - 1 3 - redondo 4 - entubado D/M - 13 M/D - 5 ND - 3 RI - 2 Ambos pesados 18 1 4 C/E - 17 E/C - 4 ND - 1 RI - 1 1 - sonoro, mais harmônicos 4 - bonito D/M - 14 M/D - 7 RI - 2 4 - pesado APÊNDICE R – Programa do recital de Doutorado Universidade Federal de Minas Gerais Programa de Pós-Graduação em Música Recital – Doutorado Performance Musical - Oboé Aluno – Ravi Shankar Orientador – Prof. Dr. Mauricio Freire Coorientador: Dr. Davi Mota 21 de março 2018 Quarta-feira, 21h Auditório da Escola de Música da UFMG Campus Pampulha - Av. Antônio Carlos, 6627 Músicos Ravi Shankar - oboé Rodrigo Miranda - piano Alexandre Pereira - clarinete Romeu Rabelo - fagote Aluizio Neto - bateria e projeções Valdir Claudino - contrabaixo Programa J. S. Bach (1685 - 1750) Sonata em Mi menor para oboé e piano, BWV 1034 I. Adagio ma non tanto II. Allegro III. Andante IIII. Allegro A. Pasculli (1842 - 1924) Fantasia sobre a ópera Poliuto de Donizetti para oboé e piano C. Schumann (1819 - 1896) Três Romances para oboé e piano, op.22 I. Andante molto II. Allegretto III. Leidenschaftlich schnell L. Berio (1925 - 2003) Sequenza VII para oboé solo A. Mehmari (1977) Variações Villa-Lobos sobre temas do prelúdio das Bachianas nº7 para oboé, clarineta, fagote e piano. J. Agrell (1948) Blues for DD