5 INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como objeto de análise as práticas de contação de história das professoras em turmas de três á quatro anos no Cemei Mundo Maior. Busca, nesse sentido, analisar como as professoras percebem essa prática e atuam na educação infantil. Trabalho na Rede Municipal de Contagem, no cargo efetivo de Agente de Educação infantil 1 , no Cemei Mundo Maior desde fevereiro de 2007. Porém iniciei a minha carreira na Educação bem antes, em 1993, após ter feito magistério. Trabalhei em duas creches conveniadas, com a prefeitura de Contagem e a prefeitura de Belo Horizonte. Ingressei no curso de Pedagogia no ano 2008, me formei em 2012, pela Universidade Presidente Antônio Carlos UNIPAC. Dentro da minha trajetória profissional como professora ao longo de 18 anos na Educação Infantil, sempre gostei de contar histórias para as crianças, algumas histórias eu leio, outras eu invento e outras eu conto sem o objeto livro. De acordo com Coelho (1999): se a história não nos desperta a sensibilidade, emoção, não iremos contá- la com sucesso. Primeiro, é preciso gostar dela, compreendê-la, para transmitir tudo isso ao ouvinte (COELHO, 1999, p.14). As análises aqui apresentadas derivam de um plano de ação construído a partir da minha reflexão sobre a minha prática pedagógica, tendo como suporte uma revisão bibliográfica na área. Os/as autores/as que fundamentam o estudo são: ABRAMOVICH (1997), COELHO (1999), BUSATTO (2008 e 2011) e SISTO (2012). A pesquisa teve como objetivo geral analisar as práticas de contação de história das professoras em turmas de três á quatro anos no Cemei Mundo Maior, tendo como objetivos específicos: identificar as concepções das profissionais do Cemei acerca da contação de história; conhecer as práticas da contação de histórias, em turmas de três anos, buscando analisar o envolvimento das crianças e a relação que estabelecem com essa atividade; elaborar e programar um plano de ação sobre contação de histórias. Estes objetivos nortearão um processo de construção de algumas reflexões sobre as especificidades do trabalho com crianças pequenas. Além disso, a realização do estudo proporcionou alguns apontamentos que orientam o trabalho com a contação de histórias na Educação Infantil. A origem desta pesquisa se deu através de alguns questionamentos e reflexões feitos por mim sobre a importância dessa prática cultural na formação das crianças como pequenas 1 Nome que se da aos profissionais que atuam com crianças dezero á três anos na rede municipal de ensino de Contagem 6 leitoras e a pouca utilização da contação de história como recurso pedagógico no trabalho das Agentes de Educação Infantil do Cemei Mundo Maior. A escolha dos alunos de três anos para a realização desta pesquisa se deu pelo fato de ser professora das duas turmas de três anos no período da manhã no Cemei Mundo Maior. O trabalho realizado na escola é feito na organização de trio, sendo três Agentes de Educação Infantil para cada duas salas. Visando a importância da contação de histórias na Educação Infantil propus fazer essa pesquisa na busca de responder algumas indagações: Como poderei identificar as concepções das profissionais do CEMEI acerca da prática da contação de história? Que estratégias utilizarei para conhecer as práticas de contação de história utilizadas pelas professoras em turmas de três anos? Como possibilitar a reflexão e o debate entre as professoras contribuindo para a ampliação dessa prática pedagógica no cotidiano da instituição? A contação de histórias, se bem trabalhada na educação infantil, auxiliará a criança na construção do hábito e gosto pela leitura; na assimilação e compreensão dos acontecimentos do cotidiano; no crescimento emocional cognitivo, a percepção de diferentes resoluções de problema; no desenvolvimento da criatividade, conforme sugere Abramovich (1997), para quem: “O ouvir histórias pode estimular o desenhar, o musicar, o sair, o ficar, o pensar, o teatrar, o imaginar, o brincar, ver o livro, o escrever, o querer ouvir de novo (a mesma história ou outra). Afinal, tudo pode nascer dum texto! No princípio não era o verbo? Então.” (. ABRAMOVICH, 1997p. 23) Este trabalho teve com foco as várias formas e momentos de contar histórias em sala de aula e no espaço coletivo da escola, reconhecendo a sua importância na Educação Infantil, possibilitando às crianças a construção do conhecimento. Esta monografia está organizada em quatro capítulos. No primeiro, apresenta um breve panorama atual da Educação Infantil no Brasil e no Município Contagem. O segundo capítulo destaca o referencial metodológico – Crianças e Infâncias, a Contação de História como arte milenar, a sua contribuição na Educação Infantil e a sua realização no interior do Cemei Mundo Maior. O Terceiro capítulo apresenta a análise e discussão dos dados obtidos como: as entrevistas das Agentes de Educação Infantil, as sessões de contação de história e as observações feitas das crianças em suas interações nos momentos de contação da história e a mediação da pesquisadora. Foram agrupados em três categorias: As concepções das professoras a cerca da contação de história, em suas práticas e a ampliação da prática 7 pedagógica no cotidiano da instituição. O quarto capítulo apresenta as considerações finais do trabalho. 1. O PANORAMA ATUAL DA EDUCAÇÃO INFANTIL NO BRASIL A expansão da Educação Infantil no Brasil tem ocorrido de forma crescente nas últimas décadas, acompanhando a intensificação da urbanização, a participação da mulher ao mercado de trabalho e as mudanças na organização e estrutura das famílias. De acordo com Kramer (2006). As conquistas em prol da educação infantil no Brasil vieram de um período de luta e reedificações por uma Educação Infantil de qualidade. A Constituição de 1988 trouxe a questão da educação como direito da criança, dever do estado e opção da família. Reafirmando essas mudanças, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, lei nº. 9.394, promulgada em dezembro de 1996, estabelece de forma incisiva o vínculo entre o atendimento às crianças de zero a seis anos e a educação. Aparecem ao longo do texto, diversas referências específicas á educação infantil: Art.4ª O dever do estado com a educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de: [...];IV- atendimento gratuito em creches e pré-escolas ás crianças de zero a cinco anos de idade. (BRASIL, 1996). De acordo com Luz (2008) na seção específica da LDB que trata da educação infantil foi definida sua finalidade, sua oferta e a sua forma de avaliação: Art29. A Educação Infantil primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectual e social, complementando ação da família e da comunidade. Art30. A educação Infantil será oferecida em: I - Creches, ou entidades equivalentes, para as crianças de até três anos de idade. II- Pré- escola, par as crianças de quatro a seis anos de idade. Art. 31 Na Educação Infantil a avaliação fara-se mediante acompanhamento e registro do seu desenvolvimento, sem objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental (BRASIL, 1996). A LDBEN n.9.394/96, em seu art.11 determinou que cada instituição de ensino elaborasse e executasse sua proposta pedagógica (PPP). Diante desta definição, as Diretrizes Curriculares nacionais da Educação Infantil (DCNEIs) estabelecem novas exigências para as instituições quanto aos processos de elaboração de suas propostas pedagógicas. Essas propostas pedagógicas firmam os princípios éticos, políticos e estéticos que devem fundamentar tais propostas. Ressaltando o papel das Instituições de Educação Infantil de promover “práticas de educação e cuidados que possibilite a integração entre os aspectos 8 físicos, emocionais, afetivos, cognitivos, lingüísticos e sociais das crianças, entendendo-a como ser completo total e indivisível” (BRASIL, 1999). As diretrizes da educação passaram por outra reformulação, tornando-se mais completo no que diz respeito às brincadeiras e as interações. As novas Diretrizes Curriculares Nacionais-DCNEI/2009 Apontam experiências fundamentais que devem ser garantidas ás crianças, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social. De acordo com as DCNEI/2009, essa etapa educacional é ofertada em Instituições de Educação Infantil: [...] as quais se caracterizam como espaços institucionais que constituem estabelecimentos educacionais públicos ou privados que educam e cuidam de crianças de 0 a 5anos de idade no período diurno, em jornada integral ou parcial, regulados e supervisionados por órgão competente do sistema de ensino e submetidos a controle social (BRASIL, 2009e, p.01). Com a Educação Infantil sendo a primeira etapa da Educação Básica, fez com que a valorização dos profissionais que atuam de zero a seis anos fosse reconhecidos, na qual se exige uma formação específica para atuar com as crianças pequenas. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996) estabelece que a formação específica para atuar na Educação Infantil será feita em nível médio ou superior. Kramer (2006) aponta que existe na prática um grande percentual de profissionais com níveis de escolaridades diferentes atuando na Educação Infantil, principalmente em creches comunitárias. De acordo com essa autora: “[...] essa realidade se impõe de forma conducente, pois profissionais não habilitados legalmente se dedicam ao atendimento de uma parcela significativa da população de 0 a 6 anos [...]” (KRAMER, 2006 p.805). Sendo assim é necessário que o profissional que atua na Educação Infantil seja polivalente e tenha formação adequada. 1.1.O PANORAMA ATUAL DA EDUCAÇÃO INFANTIL EM CONTAGEM Pensar a Educação Infantil em Contagem, uma cidade que tem atualmente uma população estimada de 603.376 habitantes, é colocá-la neste contexto mais amplo que assinala a necessidade de investimento e a constituição de uma política educacional que tenha foco na criança de zero até seis anos de idade. Segundo Costa (2010) o município tem setenta e duas instituições públicas/conveniadas que ofertam Educação Infantil para as crianças de zero até seis anos de idade. Dessas, quarenta e uma são públicas e trinta e uma são comunitárias, filantrópicas ou confessionais que mantém convênio com a prefeitura. O total de crianças nas creches é de 5.836 e na pré-escola é de 11.522. Contagem tem um Sistema Municipal de 9 Ensino criado por meio da lei nº 4.203 de 18 de dezembro de 2008, mas anteriormente já existia um Conselho Municipal atuante. De acordo com Costa (2010) este Conselho se organizou por meio da Resolução nº11 de 04/07/2002, esta Resolução veio alterar a anterior a Resolução nº10/1999. No dia16/11/2010 foi publicado a Resolução 16, que estabelece normas para o atendimento da Educação Infantil no Sistema de Ensino de Contagem. As Instâncias responsáveis pela a Educação infantil em Contagem são: O poder Público, Conselho Municipal de Educação e Secretaria de Educação e Cultura de Contagem. As ações para o acompanhamento da rede conveniada são:  Monitoramento das instituições, no mínimo duas vezes ao ano, realizando o levantamento de freqüência das crianças;  Análise estrutural e orientações para adequação e melhor utilização dos tempos e espaços;  Realização de formação continuada para as/os coordenadores pedagógicos;  Revisão anual do plano de trabalho com previsão de atendimento;  Orientação para elaboração de calendário e processo de inscrição e matrícula, entre outros. O atendimento de crianças de zero á três anos é feito em CEMEI e Anexos, e o atendimento de quatro e cinco anos é feito também no CEMEI, Anexos e turmas em escola de ensino fundamental. Os parâmetros para a organização de grupos de crianças na proporção de 01 professor (a) para cada grupo de crianças: Até 06 crianças de 0 a 01 ano de idade; Até 10 crianças de 01 a02 anos de idade; Até 16 crianças de03 de idade; Até20 crianças de 04 anos de idade; Até 24 crianças de 05 anos de idade. A formação dos (as) profissionais que atuam na Educação Infantil com crianças de 4 a 5 anos é feita em nível superior, sendo estabelecido um percentual de 1.5 professores por turma. E para trabalhar com crianças de zero á três anos de idade a formação é em nível médio, em qualquer modalidade. As formações continuadas para os profissionais são: Grupo de trabalho (GT Rede conveniada, GT de pedagogas e GT de professoras), formação oferecida pela escola e Cursos oferecidos pelo SEDUC em horário de trabalho, pós-graduação: Práticas Educativas para a 10 Inclusão, Programa de Gestão Educacional e DOCEI (Especialização em Docência na Educação Infantil). O lançamento da coleção Currículo da Educação Infantil de Contagem: experiências, saberes e conhecimentos em 2012 vêm suceder o Caderno da Educação Infantil: Discutindo o Projeto Político-pedagógico de contagem, de 2007. O objetivo dessa coleção Currículo da Educação Infantil de Contagem: Experiências, Saberes e Conhecimentos; é possibilitar a construção de um currículo que respeite as diferenças e os direitos da criança, contribuindo para que tenham uma formação mais rica e mais plural. Assim, as instituições de Educação infantil de Município de Contagem propõem ás crianças experiências, saberes e conhecimentos que possibilitarão o seu desenvolvimento integral. De acordo com o caderno A criança e a Linguagem Oral, Contagem (2012) Cabe ás Instituições de Educação Infantil, proporcionarem momentos distintos de uso da fala e escuta, nos quais as crianças possam participar efetivamente, como ouvir, contar e recontar histórias; folhear livros e revistas; fazer relatos de suas vivências, brincar de faz de conta, dizer uma palavra que rima com a outra, dar um recado, explicar uma regra, ouvir uma orientação para o desenvolvimento de uma atividade, participar de uma peça de teatro, cantar uma música, dentre outras. (CONTAGEM, 2012, p.27). Mas o que entendemos por contação de histórias? Esse e outros conceitos serão esclarecidos no capítulo a seguir. 11 2.REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 CRIANÇAS E INFÂNCIA A concepção de criança é uma noção historicamente construída e conseqüentemente vem mudando ao longo dos anos. De acordo com Gouvêa (2006) a criança ocupa um lugar na nossa sociedade construído bem diferente da sociedade medieval européia, onde a criança nem era percebida, ela não tinha um universo próprio, seu universo se confundia com do adulto. Ela participava de toda atividade social, exercendo o seu aprendizado, posteriormente para a vida adulta. A autora ressalta da mesma forma que antigamente as crianças eram inseridas nas atividades como: jogos, brincadeiras, trabalho, vivências, e histórias que faziam parte do repertório cultural de uma sociedade. A criança de hoje, vive a sua experiência de infância no interior de uma cultura. Segundo Gouvêa (2006), dentro dessa cultura a criança irá apreender seus valores, saberes e conhecimentos de uma forma única. Goulart (2007) afirma; que a criança consegue reconstruir o mundo ao agir. Por intermédio de sua curiosidade, criatividade e a capacidade que ela tem de reinventar o mundo a sua própria maneira, apropriando internamente das ações, do mundo social que está inserida. De acordo com Gouvêa (2006). A criança é um sujeito social que dialogo com o mundo, tendo o seu pertencimento dentro de uma cultura em uma lógica diferenciada que é a lógica infantil. A autora ainda ressalta que a cultura infantil que foi criada progressivamente, mantendo um lugar diferenciado do adulto. E essas produções culturais se exprimem na forma de jogos, brincadeiras, música, história, dentre outros; demonstrando a especificidade do mundo infantil, no qual a criança aprende e apreendem ensinamentos, conhecimentos, valores que são advindos de uma geração a outra geração pela excelência do brincar. A criança por meio das brincadeiras, constrói , reconstrói e se apropria de conhecimentos experimentados pelas brincadeiras. Derbortoli (2006) afirma: O brincar é experenciado pela criança por meio de vivências lúdicas: ela brinca com seu corpo com a linguagem, com o outro, com objetos diversos e com materiais da natureza que ela transforma em brinquedos, com brinquedos industrializados, com brincadeiras cantadas, corporais, com jogos de regra, com jogos de imaginação, com jogos de papeis, incorporando personagens de seu mundo social e criando cenários e tramas diversas. Enfim, são experiências variadas que têm em comum a marca da “ludicidade”. Esse termo tem sua origem no latim, na palavra ludere, que significa “iludir”. Assim, o lúdico pode ser compreendido como possibilidade humana de transformar uma coisa em outra, como “capacidade de se brincar com a realidade, de inventar novos sentidos e significados”. (DEBORTOLI, 2006, p.83). 12 Dentro dessa ludicidade, a brincadeira na Educação Infantil se constituiu como uma das formas privilegiadas da criança se expressar e interagir com o mundo. “Nessa perspectiva, a instituição de Educação Infantil – IEI – deve se constituir em espaço educativo que promove essa aprendizagem, resgatando brincadeiras historicamente construídas na cultura, além de socializar novas brincadeiras produzidas e vivenciadas na atualidade” (CONTAGEM, 2012, p.8). Para Gouvêa (2002) A criança ao brincar traz elementos muito importantes do universo infantil como: a imitação, a repetição, construção do belo e a brincadeira (realizada no grupo de pares). Esses elementos são primordiais para a vida da criança, pois através deles a criança descobre o prazer que as brincadeiras proporcionam. 2.2 CONTAÇÃO DE HISTÓRIA: UMA ARTE MILENAR A contação de histórias é um dos meios mais antigos de preservação da memória e da cultura de um povo, usada por meio da linguagem oral para transmitir conhecimentos, crenças e valores. Os contadores retiravam de suas experiências e vivências delas obtidos o que contar. “Quanto maior a naturalidade com que o narrador renuncia ás sutilezas psicológicas, mais facilmente a história se gravará na memória do ouvinte, mais completamente ela se assimilará á sua própria experiência e mais irresistivelmente ele cederá á inclinação de reconta-la um dia.” (BENJAMIM 1994,P.204). Ao narrar uma história, o narrador traz elementos existenciais de sua cultura, apropriando com sabedoria do fato narrado. Para Benjamim (1994): O narrador é a figura de conselheiro que, com a sua sabedoria conduzia os seus ouvintes dando conselhos [...] figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não alguns casos, como o proverbio, mas para muitos casos, como sábio, pode recorrer ao acervo de toda uma vida. [...] Seu dom é poder contar sua vida: sua dignidade é contá-la inteira. O narrador é o homem que poderia deixar a luz tênue de sua narração consumir a mecha de sua vida. (BENJAMIM, 1994, P.221). A literatura oral é uma produção cultural de um povo onde seus medos, desejos e anseios são manifestos. Para Tahan (1966), o ato de contar história perpetua desde os tempos mais remotos até os dias atuais, sendo um do meio de conservação de suas tradições, ou difusão de novas idéias. Contar histórias é deslumbrar-se com as palavras, fazer da oralidade uma arte de comunicação, onde as palavras e gestos se unem dentro do contador. Ele por sua vez empresta a sua fala para ser tomada de sentimentos e emoções. Busatto (2008, p.18).Afirma que o contador de histórias é um artista com as palavras, ele provoca efeitos diversos nas pessoas que os ouvem, cada indivíduo vai internalizar a 13 história a sua maneira, fazendo da narrativa um conto único, rompendo com as barreiras do tempo e transpondo em uma nova dimensão da imaginação. A contação de história possibilita o encontro com o lúdico, a imaginação e o fascínio, conduzindo os ouvintes para o mundo de fantasia, onde tudo é permitido. Segundo Busatto (2008, p.67) “Contar histórias é lançar um fio de prata do plexo solar que vai envolvendo o narrador á plateia, criando uma teia mágica, onde ambos se perdem de boa vontade, pelas tênues tramas da narração”. De acordo com Matos (2008), contar é uma arte, e como toda arte há confrontação experiencial do homem com a matéria. Ele precisa mergulhar dentro de si, buscando os elementos primordiais com os quais darão forma a sua expressão, através do texto construído na cena da oralidade. Benjamim também afirma que: Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a história Quando mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido. Quando o ritmo do trabalho se apodera dele, ele escuta as histórias de tal maneira que adquire espontaneamente o dom de narrá-las (BENJAMIN, 1994, p.205). Contar histórias é uma arte que envolve técnicas, o contador precisa saber o que está fazendo, para aprimorar a sua arte. Sisto (2012) ressalta que um bom contador precisa ter expressividade, conhecer a beleza do texto que está sendo narrado. É o fazer artístico da literatura em uma transposição para uma nova linguagem que é de contar histórias. Atualmente os contadores de histórias são considerados agentes de cultura, eles são os verdadeiros condutores da tradição e da modernidade. Segundo Busatto (2008 p.29) “O contador atua num regime de oralidade segundaria, ou seja, encontra-se inserido no contexto de uma cultura letrada, se apropria da escrita, da impressão e das novas tecnologias”.Essas novas tecnologias (imprensa escrita, rádio, TV, telefone e internet), contribuíram para o trabalho do contador de histórias. Houve o aparecimento do contador contemporâneo, dando mais visibilidade a contação de histórias. Para Sisto (2012) O contador contemporâneo prepara a sua apresentação, tem agenda, se caracteriza conforme o personagem da história, sua presença é vista em bibliotecas públicas, feiras de livro, livrarias e escolas. Busatto traz a dimensão do contador contemporâneo e a sua relação amorosa com a contação de história. Ao contar histórias atingimos não apenas o plano prático, mas também o nível do pensamento, e, sobretudo, as dimensões do mítico-simbólico e do mistério. Assim conto histórias para formar leitores; pra fazer da diversidade cultural um fato; valorizar as etnias; manter a história viva; para sentir vivo; pra encantar e sensibilizar o ouvinte; para estimular o imaginário; articular o sensível; tocar o 14 coração; alimentar o espirito; resgatar significados para a nossa existência e reativar o sagrado (BUSATTO, 2008, p.45). Diante desse quadro, cabe problematizarmos qual a importância da contação de histórias no âmbito das instituições de educação infantil? Tratarei esta questão a seguir. 2.3 A IMPORTÂNCIA DA CONTAÇÃO DE HISTÓRIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL O ato de contar histórias é mágico, pois proporciona para as crianças um prazer indescritível, levando-as a imaginar cada personagem, cada ação do fato narrado. Segundo Abramovich (1997) o primeiro contato da criança com um texto é feito oralmente, desde a mais tenra idade as crianças ouvem histórias contadas pela mãe, familiares ou pelo professor, são histórias que emocionam, instruem ou divertem. Os acalantos, as canções de ninar, as cantigas de roda, mais tarde vão dando lugar as narrativas curtas sobre o ambiente familiar, os animais ou a natureza. Os contos de fada, fábulas, aventuras, lendas ou histórias inventadas têm um poder enorme de persuasão na vida das crianças e a cada momento elas são fascinantes, fazendo a imaginação florar a cada história contada ou lida. Quando se conta para as crianças às histórias que as interessam, é certo que, após a escuta, devido ao prazer e ao encantamento que sentiram, não só desejarão lê-las, como também sentirão vontade de irem à busca de outras semelhantes. Para Sandroni e Machado (1986) ao ouvirem histórias: As crianças, além devotarem uma enorme atenção á história (e o professor sabe o quanto isso significa em termos de audição reflexiva, estímulo á imaginação e a organização do pensamento!), sentem-se estimuladas a ler livros por si mesmos ou a buscar outros sobre o mesmo assunto. (SANDRONI E MACHADO 1986, p.25). A contação de história é um rico potencializador que vai permitir o contato da criança com a literatura infantil. Sisto (2012) afirma que a contação de história dentro do ambiente escolar é um recurso que o professor dispõe para aproximar as crianças do mundo da leitura. A formação da criança como leitora, perpassa pelo prazer de conhecer o livro, de toca- lo, manuseando cada folha como a arte da descoberta, por isso o professor deve proporcionar as crianças o contato com o livro diariamente, tornando-o indispensável dentro da sala de aula. É necessário organizar canto com livros onde as crianças terão acesso, manuseando-os á vontade sempre que os desejarem. É preciso que o professor aproxime os livros da realidade da criança. O trabalho com a contação de história tem que ser conciso e planejado evitando improvisações e utilizando-se das mais variadas situações, para que a criança possa manifestar livremente a compreensão e 15 os questionamentos que faz a partir das histórias que ouvem. Dada à importância do planejamento, o professor terá êxito no seu trabalho, conseqüentemente estará contribuindo com a formação leitora das crianças. Segundo Coelho (1999.p.26) “Quem se propõe a contar uma história, e a estuda tendo maior confiança, familiariza-se com os personagens, vivencia emoções que poderá transmitir, fazendo as adaptações convenientes e trabalhando cada elemento com devida técnica.”. A criança pequena está desenvolvendo sua capacidade de abstração, nesse sentido, é interessante para o contador/professor lançar mão de recursos da voz, do corpo, do movimento, de objetos, etc. Possibilitando o enriquecimento da narrativa. Para Sisto (2012) O professor antes de contar bem uma história, deve-se pensar nos requisitos como: dominar o texto de acordo com a faixa etária, fazer suas escolhas, se preparar com antecedência a história, usando a sua voz, a memoria, a emoção e o seu corpo de maneira adequada. Com essas atitudes o professor vai ser capaz de estimular a imaginação das crianças. Os recursos que o professor tem para contar histórias são inúmeros e podem ser escolhido ou confeccionado de acordo com a história a ser contada. Tendo sempre em mente o seu objetivo em atingir o público alvo. Coelho (1999) menciona o segredo que o narrador deve ter: É preciso saber tirar a essência da história, ter consciência de que o que é mais importante é a história, o narrador só empresta sua vivacidade á narrativa sem ficar presa a limitação imposta pela leitura. É fundamental encontrar a história á faixa etária, e que ela possa atender aos interesses dos ouvintes e o objetivo específico da escolha (COELHO, 1999.p.11). Abramovich (1997) afirma que a formação da criança enquanto leitora está ligada na importância de ouvir histórias. Para que isso ocorra é necessário que o professor selecione histórias interessantes que estimulem a linguagem oral, as rimas e o lúdico encontrados nos livros de literatura infantil. Este trabalho com a literatura infantil vai permitir que a criança seja protagonista do seu próprio conhecimento. Segundo Coelho (1999) Se as crianças escutam histórias desde pequenas, elas vão desenvolver o gosto pelos os livros, descobrindo que as histórias que ouvem e gostam estão guardadas no livro, esperando para ser lidas. De acordo com o caderno: A criança e a Linguagem Escrita (2012): A criança, ao observar pessoas leitoras, apreende e significa, por exemplo, o modo se pega o livro, como suas páginas são passadas, a postura diante dele, a forma de ler, a entonação. Quando teatralizamos a leitura, fazendo alterações em nossas vozes e associando a isso expressões faciais, gestos e /ou outros elementos como fantoches, aventais para a contação de história, elas ficam fascinadas, deslumbram- 16 se. Diante da capa, do título anunciado, das imagens do livro, imaginam o conteúdo da história, fazendo antecipações da mesma forma que um leitor fluente. Diante da narrativa que descortina, elas fazem inferências. Além de mobilizar estratégias, as crianças percebem a lógica das narrativas, suas estruturas e, com o tempo, ampliam sua visão sobre a linguagem que encontrarão nos livros de histórias. (CONTAGEM2012, p.17). Através da contação de histórias as crianças poderão ampliar o conhecimento social, ideias, valores e sentimentos que governa a vida de cada indivíduo. Segundo Abramovich: É ouvindo histórias que se pode sentir (também) emoções importantes, como a tristeza, a raiva, a irritação, o bem estar, o medo, a alegria, o pavor, a insegurança, a tranqüilidade, e tantas outras mais, e viver profundamente tudo o que as narrativas provocam em quem as ouve – com toda a amplitude, significância e verdade que cada uma delas fez (ou não) brotar...Pois é ouvir, sentir e enxergar com os olhos de imaginário !(ABRAMOVICH, 1997, p.17). Quando as crianças ouvem histórias, passam a visualizar de forma mais clara, sentimentos, que tem relação ao mundo. As histórias trabalham problemas existenciais típicos da infância, como medos, sentimentos de inveja e de carinho, curiosidade, dor, perda, além de ensinarem infinitos assuntos. Os contos de fada ajudam as crianças na elaboração do real, organizando as estruturas sociais e comportamentais que auxiliam as crianças a entenderem o mundo dos adultos. Enquanto diverte a criança, o conto de fadas esclarece sobre si mesmo, e favorece o desenvolvimento de sua personalidade. Oferece significado em tantos níveis diferentes, e enriquece a existência da criança de tantos modos que nenhum livro pode fazer justiça á multidão e diversidade de contribuições para que esses contos dêem á vida da criança.(BETTELHEIM, 1992, p.20). O grande potencial dos contos de fadas é a sua capacidade de falar metaforicamente, sobre o cotidiano do ser humano, como os conflitos familiares, conflitos psíquicos que retratam o medo da morte, da separação e o conceito de belo e feio. Estas histórias têm situações que desencadeia os nossos conflitos inconscientes que são típicos da vida do ser humano como: enfrentar situações de medo, alegria, frustrações e sentimentos de amor, amizade, coragem e fé. Segundo ABRAMOVICH (1997, p.120.)... “Isso ocorre porque os contos de fada estão envolvidos no maravilhoso, um universo que denota a fantasia, partindo sempre duma situação real, concreta, lidando com emoções que qualquer criança já viveu”. O professor ao contar uma história para as crianças, está permitindo que elas sonhem, fantasiam, dando lugar para o imaginário, um mundo de faz de conta. Sendo assim, o ato de 17 contar e ouvir histórias devem estar presentes na instituição de Educação Infantil. As histórias de diversos gêneros favorecem o pensamento lógico, a imaginação e a criatividade, as crianças gostam de ouvir histórias. Elas se colocam no lugar do personagem, dando vazão para a imaginação. A atração de “Era uma vez”... Torna-se irresistível. Para Coelho (1999.p.59) “A história não acaba quando chega ao fim. Ela permanece na mente da criança, que incorpora como um alimento de sua imaginação criadora”. A contação de histórias oferece as crianças momentos prazerosos com a literatura infantil, sua tarefa é conduzir as crianças para a trilha da magia e do envolvimento com história. Acreditamos que os momentos da contação de histórias devem ser diários no trabalho docente. Além de contar histórias, devemos ler para as crianças, possibilitando que elas recontem a história que foi lida. Jorge (2003) afirma: É fundamental que a criança passe a vivenciar a palavra e a escuta em todas as suas possibilidades explorando diferentes linguagens. Capturando-as e aproximando-se do mundo que a cerca, para que este se desvele diante dela e se torne fonte de interesse vivo e permanente, fonte de curiosidade, de espanto de desejos e descobertas, numa dinâmica em que ela se socialize e se manifeste de forma ativa, cri (ativa), particip (ativa) em qualquer situação, não apenas “recebendo” passivamente, mas produzindo e (re) produzindo cultura. (JORGE, 2003, p.97). De acordo com Jorge (2003) a narrativa compartilhada entre professores e crianças convidará para o prazer de ler, ouvir e contar histórias. Cabe o professor criar situações de aprendizagem que possibilita a comunicação da criança com o ato de contar, ler e ouvir histórias. O trabalho com a literatura infantil deve ser feito num ambiente prazeroso e aconchegante, com livros de diversos gêneros para as crianças manusearem. Dentro da seleção de livro do professor não podem faltar os contos de fadas tradicionais. Por lidarem com o mágico, o maravilhoso e o fantástico. Esses contos são ideais para as crianças que estão na faixa etária do pré-escolar. Nesta fase a criança é suscetível á fantasia. A contação de história sem o apoio do livro possibilita a criança a criar imagens e cenas de acordo com suas vivências e com a maneira que a narração é feita. Busatto (2008) aborda a diferente atuação do narrador quando a leitura e a contação de histórias, pois na leitura é possível parar o texto dialogar, dar opinião ou sugestões, enquanto na contação a participação é subjetiva, somente nos momentos pré ou pós contação que pode acrescentar algo ou até mesmo recontar a história., pois ao narrar o conto, nos remetemos ao um universo todo imaginário, que só existe na nossa imaginação, onde tudo é permitido, animais falarem, 18 objetos criarem vida, pessoas transformarem em bichos e princesas serem acordadas com um beijo do príncipe depois de longos anos adormecidas. A arte de contar histórias desperta no ouvinte à imaginação, a emoção e o fascínio pela leitura. Contar histórias em sala de aula é um elo que une o aluno ao livro, é através da narração que podemos fazer florescer o desejo de ouvir, ler e descobrir um mundo repleto de histórias extraordinárias. 19 3 ASPECTOS METODOLÓGICOS 3.1 ABORDAGEM DA PESQUISA Levando-se em conta a importância da contação de história na Educação Infantil, propomos fazer uma pesquisa qualitativa etnográfica, devido às reações das crianças perante as sessões de contação de história. Conforme Ludke e André (1986, p.45) “analisar os dados qualitativos significa trabalhar todo o material obtido durante a pesquisa”. Por isso essa pesquisa envolve o registro de campo, entrevistas, análises de documento, fotografias e gravações. A observação realizada foi participante, tendo o envolvimento da pesquisadora nas atividades propostas da pesquisa, nas quais foram feitas sessões de contação de história. Lüdke e André (1986) comentam que: Tanto quanto a entrevista, a observação ocupa um lugar privilegiado nas novas abordagens de pesquisa educacional. Usada como principal método der investigação ou associada a outras técnicas de coleta, a observação possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado, o que apresenta uma serie de vantagens. (LÜDKE e ANDRÉ, 1986, P.26). Os procedimentos de coleta de dados foram efetuados em dois momentos distintos. Na primeira etapa foi estabelecido o contato com a direção, as professoras e os demais funcionários da escola, informando sobre a pesquisa e a realização da mesma na escola, foi solicitada para os pais ou responsáveis, autorizações para a participação das crianças no estudo em questão. Na segunda etapa, foi o momento de intervenção. A pesquisa/intervenção teve como objetivo analisar como a contação de histórias se realiza dentro de uma instituição pública de Contagem com crianças de três á quatro anos. Foi feita uma pesquisa bibliográfica sobre a Educação Infantil e a importância da contação de história na Educação Infantil. O projeto de intervenção foi realizado junto às crianças de três á quatro anos, das turmas da Lagoa e Chuva do turno da manhã e as Agentes de Educação Infantil no CEMEI Mundo Maior em Contagem. As atividades propostas para a realização da pesquisa foram feitas da seguinte forma: seleção das histórias a serem contadas; entrevistas com as Agentes de Educação Infantil e a realização das contações de histórias sendo:  Os Cabritões  A Bonequinha Preta (Alaíde Lisboa)  O Mundo Encantado das Fadas (história inventada pela pesquisadora) 20  Chapeuzinho Vermelho Após as contações de histórias, foram realizadas as entrevistas com as professoras referentes à contação de história. O objetivo da entrevista com as Agentes de Educação infantil foi para analisar a contação de história por meio da prática das professoras em turmas de três a quatro anos. De acordo com Alves e Silva (1992) apud Cannel e Kahn (1974) as entrevistas realizadas foram feitas no formato de semi-estruturadas, onde foi estabelecido um roteiro previamente selecionado com perguntas a serem respondidas por todas as entrevistadas. As entrevistas aconteceram dentro da sala de aula ás 9h30min e 11h30min no horário de tempo pedagógico das Agentes de Educação Infantil. Cada entrevista teve duração de aproximadamente 6 minutos com questões previamente elaboradas. Foi feito a utilização do celular da marca “Samsung” para gravar as entrevistas Os principais pontos abordados durante a entrevista foram: a existência da contação de história dentro da sala de aula, a relevância do tema na educação infantil, de que forma a contação de história acontece dentro da prática pedagógica, a freqüência no qual este momento é proporcionado para as crianças, o acesso das crianças ao livro e a contribuição da contação de histórias para a formação de pequenos leitores. Para evitar a identificação das entrevistadas, substituímos os nomes por nome fictício 2 ,os nomes fictícios foram escolhidos por elas. Entrevistadas: Marcela, Bruna, Ana Clara, Letícia e Sol. As professoras Marcela Bruna e Ana Clara são professoras das turmas do Orvalho e da Nuvem. A Letícia é professora da turma da Gotinha e a Sol professora da turma da Girafa. 3.2 APRESENTAÇÃO DO CAMPO DE PESQUISA A pesquisa foi realizada no CEMEI Mundo Maior localizado no bairro Tijuca, na região da Ressaca, limítrofe de Contagem, próximo ao Jardim Zoológico, Parque Ecológico de Belo Horizonte. Antes de ser municipalizada era denominada “Creche Comunitária Bezerra de Menezes” atendia a comunidade a mais de 20 anos. De acordo com o PPP (2013) A creche comunitária fechou em julho de 2004 atendia 54 crianças que foram resgatadas para a Rede Municipal de Contagem. Em 2005 o CEMEI Mundo Maior passou atender 174 crianças de 02 a 06 anos, uma parte dela em regime integral. Em 2008 passou 2 Os nomes usados são fictícios, resguardando a identidade das entrevistadas. 21 Figura 2- Refeitório (arquivo pessoal) Figura 1- Fachada do prédio (arquivo pessoal) atender 231 crianças em idade de 0 a 5 anos e 9 meses, sendo que as crianças de 0 a 02 e 9 meses ficavam na escola em horário integral. Atualmente o CEMEI Mundo Maior atende 257crianças diariamente, com idade de dois a cinco anos. São crianças que moram no entorno do CEMEI. O prédio é cedido pela Fraternidade Espírita Bezerra de Menezes. Segundo o PPP (2013) o CEMEI atende famílias de baixa renda, pouco mais da metade das crianças habitam em residência própria e percebe-se que a outra metade de crianças reside em habitações cedidas e alugadas. As famílias das crianças matriculadas no CEMEI, pouco mais da metade recebem de 1 a 2 salários mínimos, e que aproximadamente ¼ das famílias recebem até 1 salário mínimo. Pouco menos de ¼ recebem de 2 a 5 salários mínimos. De acordo com o PPP (2013) para atender as crianças o CEMEI conta com um grupo de 16 Agentes de Educação Infantil, 12 professoras (PEB1), 2 pedagogas,1 diretora, 1 secretário, 2 vigias, 7 auxiliares de serviços gerais e 3 cantineiras que são terceirizadas pela empresa Nutri Plus 3 . 3 Empresa responsável no preparo e na distribuição da merenda escolar na escola. 22 O CEMEI Mundo Maior oferece o regime de tempo integra para as crianças de 2 anos durante todo o ano letivo e o regime parcial para as crianças de 3 á 5 anos cumprindo um calendário letivo de 200 dias e 800 horas de atividades anuais. O cotidiano do trabalho se faz com as atividades coletivas, tempos pedagógicose tempos para planejamento dos trios. O CEMEI dispõe dos seguintes espaços para o uso das crianças:  Internos 14 (quatorze) salas; 1 (um) pátio; 1 (uma) biblioteca; 1 (um) Salão de festas; 1 (um) refeitório; - 7 (sete) banheiros; Figura 06 – Pátio (arquivo pessoal) Figur05 – Corredor Salas (arquivo pessoal) Figura 04– Biblioteca (arquivo pessoal) Figura 03– Salão (arquivo pessoal) 23 De acordo com o PPP (2013) a escola também possui estes espaços: Espaço alternativo: onde as crianças têm oportunidade de escolher com que ou como brincar, exercitando e desenvolvendo a autonomia, tendo opções de vendinha, casinha de bonecas, oficina mecânica, escritório, faz-de-conta, salão de beleza e banho das bonecas. Vídeo: atividade que possibilita a interação, a convivência, o respeito mútuo do espaço coletivo. Culinária: é uma cozinha pedagógica onde se desenvolvem receitas simples, oportunizando a manipulação de materiais e a observação das transformações químicas, além da degustação dos alimentos produzidos. No CEMEI Mundo Maior o PPP da escola está de acordo com as especificidades do desenvolvimento da criança, por isso todo o trabalho do CEMEI é baseado nos eixos de cada campo de experiência: mundo natural, música e linguagem musical, cuidado e relações, matemática, linguagem escrita, arte e linguagem plástica e visual, brincar e brincadeiras, mundo social, corpo e linguagem corporal e linguagem oral. Figura10- Secretaria e Entrada (arquivo pessoal) Figura 09– Cozinha Pedagógica (arquivo pessoal) Figura08 – Espaço alternativo (arquivo pessoal) Figura 07 – Parquinho(arquivo pessoal) 24 3. 3 APRESENTAÇÃO DOS SUJEITOS PARTICIPANTES O trabalho foi desenvolvido nas turmas de Educação Infantil, com crianças de três anos á quatro anos, da sala da Lagoa e da Chuva, na qual sou referência e desenvolvo um trabalho com a contação de história. A turma da Lagoa e da Chuva é composta por 32 crianças, sendo treze meninos e dezenove meninas de três anos á quatro anos do turno da manhã. As sessões de contação de história foram muito significativas, as crianças tiveram a oportunidade de interagir com as histórias, demonstrando entendimento e vivências em relação às histórias trabalhadas em cada sessão. Além das crianças que participaram das seções de contação de histórias, o estudo contou com a participação de cinco professoras da instituição, conforme percebemos no quadro a seguir: Nome Idade Formação Turno que trabalha Turma que trabalha Marcela 38 6º em curso de Assistência Social Manhã Orvalho e Nuvem - Crianças de dois anos a três anos Bruna 22 Ensino Médio Manhã Orvalho e Nuvem - Crianças de dois anos a três anos Ana Clara 50 Pedagogia Manhã Orvalho e Nuvem - Crianças de dois anos a três anos Letícia 48 Magistério Tarde Gotinha - Crianças de dois anos a três anos Sol 54 Magistério Tarde Girafa - Crianças de três anos a quatro anos A seguir, apresento a análise e discussão dos dados, obtidos no encontro com esses sujeitos. Figura 11 - Turma da Lagoa e da Chuva (arquivo pessoal) 25 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS 4.1 A contação de história no CEMEI mundo maior No CEMEI Mundo Maior as crianças, ouvem histórias de fábulas, contos de fada, histórias dos livros infantis e histórias inventadas. Elas amam este momento, vivencia a fala dos personagens, seus medos e as suas descobertas. A partir dessas histórias as crianças reconhecem e interpretam as suas experiências da vida real, isto é presenciado nos momentos coletivos com as professoras e os seus pares, nas rodas de conversa e nas interações das brincadeiras. Para Abramovich (1997, p 24) “Ouvir histórias é viver um momento de gostosura, de prazer, de divertimento dos melhores.”. As professoras contam histórias para as crianças em diferentes momentos do planejamento pedagógico, incentivam as crianças a recontar a história que foi lida ou ouvida, permitem que elas reproduzam através dos seus desenhos a história contada. Busatto (2008, p.38) afirma que: “A partir de um conto narrado é possível fazer novas leituras desde mesmo conto e traduzi-lo através de diversas linguagens, como texto teatral, poema, desenhos, danças, entre outras”. As crianças têm acesso à biblioteca, elas escolhem os livros de sua preferência, troca informações com seus colegas, elas lêem os livros, conta a história, reconta com um prazer indescritível. A direção da escola oportuniza o trabalho com a contação de história, comprando livros infantis, aventais de contação de história, fantoches e entre outros. Apesar de ter todas as condições propícias para realizar um bom trabalho com a contação de história, ainda falta um engajamento por parte de todos. Com isso, fez-se necessário a intervenção. A atividade com a contação de história teve início no dia 27 de agosto, as 08h30min, quando convidei a turma da Chuva e a da Lagoa para irem ao espaço alternativo juntamente com todas as crianças do turno da manhã. Seria apresentado ás crianças uma grande surpresa, já que o espaço estava fechado algum tempo para a reforma. Todas as crianças estavam com grande expectativa, esperando a grande revelação. Cheguei vestida de fada, as crianças ficaram maravilhadas com a minha roupa. Falei para elas que eu era uma fada e o meu reino era o Mundo Encantado das Fadas e que eu estava ali para ver juntamente com elas como o espaço alternativo tinha ficado lindo. 26 Logo as crianças começaram a falar: sua roupa está parecendo com a madrasta da Branca de Neve! (Tatiane da turma da Lagoa 4 ), fada tem roupa rosa (Débora da turma do Riachinho). As crianças estavam com a razão, pois a minha roupa era roxa com preto. Contei para as crianças que no reino das fadas os brinquedos eram bem cuidados, brincávamos sem quebrar os brinquedos, conservando-os cada um no seu lugar. As crianças estavam bem concentradas, comecei chamando-lhes a atenção para a importância dos cantinhos e que cada brinquedo só poderia brincar no seu devido lugar: vendinha, casinha de bonecas, oficina mecânica, escritório, faz-de-conta, salão de beleza e banho das bonecas. Em seguida perguntei se as crianças gostaram do novo espaço e se elas iriam cuidar dele. Todas eufóricas falaram que sim! (Jéssica turma da Chuva) foi logo dizendo cadê o seu sapato de salto alto, fada usa sapato de salto alto! Neste momento fiquei um pouco sem jeito, pois eu estava de tênis, mas falei para ela que eu tive que emprestar o meu salto alto para a Cinderela, ela havia perdido um dos seus sapatinhos e para não ver ela só com um sapatinho eu emprestei o meu. Ao término da atividade da contação de história 09h00minhs, muitas crianças perguntavam se era eu. Você parece com a nossa professora Andréia! (Marcelo turma da Chuva), era você sim Andreia! Eu vi o seu tênis Isabelle (turma da Lagoa) Este dia foi muito gratificante, e por alguns dias algumas crianças da escola e até da minha sala comentavam que eu era a fadinha. Figura 12 - Turma da Lagoa eda Chuva (arquivo pessoal) 4 Nomesfictíciospara identificar as crianças 27 Figura 13 - Professora pesquisadora(arquivo pessoal) A contação de história permite as crianças vivenciarem o mundo encantado dos contos de fadas, onde tudo é permitido. Fadas transportarem em um segundo para outros lugares, bichos falarem, entre outros. Este mundo de imaginação povoa na mente da criança, possibilitando que ela adentre pela porta do faz-de-conta. Segundo Busatto (2008) Ao contar histórias para as crianças, estamos levando-as a remeter em um universo todo imaginário, que só existe na nossa imaginação. Percebe-se que as crianças gostam de ouvir as histórias, pois elas interagiram o tempo todo com a história, Segundo Sisto (2012). Com a Contação de história a criança traz elementos do seu cotidiano seja no ambiente familiar, na escola, com seus amiguinhos, por meio da oralidade. (Bruna- turma da Chuva) Cadê o seu sapato de salto, fada usa sapato de salto alto! Para Abramovich (1997) ouvir histórias: É uma possibilidade de descobrir o mundo imenso de conflitos, dos impasses, das soluções que todos vivemos e atravessamos_ dum jeito ou de outro_ através dos problemas que vão sendo defrontados, enfrentados (ou não), resolvidos (ou não) pelas personagens de cada história (cada um a seu modo)... É a cada vez ir se identificando com outra personagem (cada qual no seu momento que corresponde àquele que está sendo vivido pela criança)... e, assim, esclarecer melhor as próprias dificuldades ou encontrar um caminho para a resolução delas... (ABRAMOVICH 1997, p.17) No dia 11/10/2013 ás 08h30m foi feita uma contação de história em comemoração a semana das crianças. Contei para todas as crianças da escola, a história da Bonequinha Preta da autora Alaíde Lisboa. As crianças estavam sentadas no salão da escola. Quando entrei caracterizada de Mariazinha e com uma boneca preta nas mãos, notei a empolgação das 28 crianças e o sorriso em cada rostinho. Contei a história para as crianças e pedi para elas participarem da história. As crianças estavam admiradas a me ver com roupa de menina e com uma boneca preta com duas trancinhas, os olhos bem redondos e uma boca vermelha como a história descrevem. A cada momento da história as crianças imitavam a bonequinha preta dando pulinho, o gato miando na calçada e o verdureiro gritando pelas as ruas “alface fresquinhas”. Houve por parte das crianças com professora pesquisadora uma interação muito significativa com a história. A contação de história terminou ás 09h00minhs, depois da contação da história as crianças queriam abraçar a Mariazinha, pegar a Bonequinha Preta no colo e Outras diziam “É a Andréia que era a Mariazinha” (Renata da turma da Lagoa) Cadê a Bonequinha Preta para onde ela foi? Cristian (turma da Chuva) Andréia! Depois você conta a história de novo? Rafaela (turma da Lagoa). Figura14-Pesquisadora contando história Figura 15 A Bonequinha Preta A escolha da história a Bonequinha Preta foi por fazer parte do repertório das histórias que as crianças gostam e pedem com freqüência para contar. Percebeu-se que as crianças tiveram uma interação muito significativa com a história. Elas apropriam de elementos da história, trazendo para o seu cotidiano. Como por exemplo, quando uma das crianças diz “Eu também tenho uma bonequinha preta lá na minha casa”. (Cláudia turma da Chuva), “Eu não gosto de alface, gosto de batata frita” (fala do Henrique, referindo-se ao cesto do verdureiro que estava cheio de alfaces. Segundo Coelho (1999) a história proporciona um prazer inefável, levando a criança não somente a diversão, mas também ao pensar e no assimilar. Nossa Andréia! Você conta muitas histórias legais, a minha não gosta de contar história, ela diz que não tem tempo e precisa arrumar a casa (Stefany, turma da lagoa). É 29 importante ressaltar que a maioria das crianças das turmas da Lagoa e Chuva, não tem contato com a contação de histórias em suas casas ao relatarem que as suas mães trabalham fora e quando chega precisa arrumar a casa e não tem tempo para contar histórias 5·. Portanto cabe ao professor oportunizar momentos de contação de histórias dentro da sua prática docente, despertando nas crianças o interesse e o gosto pela leitura. Para Sisto (2012) quem conta uma história, abre a boca diante das possibilidades de se construir um mundo melhor- povoado de histórias! No dia 22/10/2013 ás 09h: 00hs, contei para as crianças das turmas da Lagoa e Chuva história dos Cabritões, a escolha desta história se deu pelo fato das crianças conhecerem ela em outra versão. Quis mostrar que a nova versão em vez de lobo mau, tinha um gigante muito maldoso, que estava pronto para comer os cabritões. A história conta de três cabritões que queriam comer graminha verdinha e beber água fresquinha, mas para comer a grama e beber a água eles teriam que passar na ponte. E do outro lado da ponte morava um gigante que não deixava ninguém passar por ali. O cabrito pequeno foi primeiro, quando ele estava quase „atravessando a ponte o gigante apareceu, o cabrito sabendo da fama do gigante foi logo falando. Senhor gigante! Não me coma, espere um pouco o meu irmão é mais forte e mais gordo do que eu, e ele está vindo. O que? Você tem um irmão maior que você? Ah! Então seu cabrito pode ir embora vou esperar o seu irmão. E o cabrito pequeno que não era bobo, sai correndo. Em seguida veio o cabrito médio, querendo tomar água e comer a grama, quando ele estava na metade da ponte o gigante foi logo gritando! Quem está passando na minha ponte? O cabrito médio logo estremeceu de medo e falou sou eu o cabrito médio. O gigante falou vou comer você! E o cabrito médio tremendo de medo falou: espere só mais um pouco, o cabritão grande está vindo e logo ele vai chegar, ele é mais forte do que eu e mais gordo. O gigante que estava com um fome enorme falou: Ah! Seu cabrito eu não quero te comer mais vou esperar o seu irmão. Quando o cabritão chegou o gigante não quis, nenhuma conversa e foi para cima do cabritão para comê-lo. O cabritão que era mais esperto do que o gigante, deu- lhe um chifrada que ele caiu de cima da ponte. Agora quem toda vez que os cabritões passam na ponte sai correndo é o gigante. Um, dois, três quem quiser que conte outra vez. As crianças interagiram muito com a história, pelo fato delas já saberem a outra versão. Ao término da contação de histórias, algumas crianças foram logo dizendo. 5 Na roda de conversa as crianças relataram que as suas mães não contam histórias, devido à falta de tempo. 30 “Eu não gostei dessa história, eu prefiro a história que tem o lobo mau” (Pablo turma da Lagoa) “Eu gosto é da outra história, que tem o lobo mau, igual à história do Chapeuzinho Vermelho”. Diante dos relatos das crianças em relação à história contada, podemos analisar que as crianças têm um fascínio pelos clássicos, principalmente aquelas que têm a figura do lobo na trama e elas sempre pedem para contar a mesma história quase todos os dias. Coelho (1999) afirma: Convém repetir uma mesma história durante alguns dias e de vez em quando voltar a fazê-lo. As crianças o exigem por uma forte razão: da primeira vez, desconhecendo o que irá suceder, a expectativa é muito forte. Nas seguintes, conhecendo o enredo, já identificadas com algum personagem, apreciam melhor a trama, podem antecipar as emoções e torná-las mais ricas, mais duradouras. Sem dúvida, um renovado prazer. (COELHO, 1999, p.55). Figura 16-O livro os Cabritões Figura 17 Reconto da história através do desenho (fonte da pesquisadora) No dia posterior da contação de história do livro Cabritos e Cabritões, fizemos um reconto da história com a atividade paralela de desenhar a história. No dia 04/11/2013 ás 8:00 horas contei a história de Chapeuzinho Vermelho este momento foi realizado na área externa da escola, onde são feitas as cantorias, todas as crianças da escola estavam sentadas, esperando a contação de história. Vesti uma capa vermelha “improvisada”, peguei um cesto na sala das professoras e comecei a contar a história de Chapeuzinho Vermelho, todas as crianças estavam concentradas e envolvidas com a história. A escolha desta história foi feita por mim por julgar que ela faz parte do repertório de histórias contadas pelas professoras e as crianças gostam muito. Convidei as crianças para participarem da história, elas iriam cantar a música do Chapeuzinho Vermelho, imitar a voz 31 do lobo mau, fazer o barulho como se estivesse batendo na porta da casa da vovó. Essa contação foi uma das melhores em termos de participação das crianças, pois elas interagiram o tempo todo com a história. Figura 18- Pesquisadora contando história de Chapeuzinho Vermelho (fonte da pesquisadora) Bettelheim (1992) ressalta a importância dos contos de fada na vida das crianças, eles trazem a presença do bem e do mal, e apontam caminhos na resolução de problemas e dialoga com o inconsciente da criança. Os contos apresentam narrativas cheias de heróis e heroínas, aventuras, muitas mágica dos ouvintes. Para Abramovich (1997) É importante contar histórias para as crianças, pois elas passam acreditar em mundo irreal e fantástico. Para Coelho (1999, p.55) apud Bettelheim (1996) “Só escutando repetidamente um conto de fadas e sendo dado tempo e oportunidade para demorar-se nele, uma criança é capaz de aproveitar integralmente o que a história tem a lhe oferecer com respeito á compreensão de si mesma e de sua experiência de mundo”. 4.2 As professoras do Cemei Mundo Maior e as suas concepções sobre contação história. As professoras do Cemei Mundo Maior estão tendo uma visão mais ampla sobre a contação de história e a sua importância na Educação Infantil a partir da intervenção realizada. Ao serem perguntadas se gostam de contar histórias, apenas uma professora apontou não gostar de contar histórias para as crianças com as quais trabalha: Marcela- Gosto de contar histórias quando as crianças estão bem agitadas, ensino para ela que há momentos para ficarem calmos, ouvindoa história e momentos para elas correrem, pularem. 32 Bruna- Gosto de ver o interesse das crianças pela a história, elas dialogam com a história, tem algumas crianças que não tem contato com a história em casa, por isso é importante ter momentos de contação dentro da sala de aula. Ana Clara- Gosto de contar para as crianças, percebo que elas interagem com a história, fazendo os sons e os gestos dos personagens da história. Letícia- Gosto, antes eu ficava com vergonha, mas agora não! Consigo contar histórias para as crianças. É muito importante estimular nas crianças o gosto pela a leitura. Primeiro eu tenho que sentir a vontade para contar a história, se eu não gosto de contar eu não vou conseguir influenciar as crianças a gostarem de ouvir história. Sol- Gosto muito! Eles adoram! E a hora que eles ficam mais quietinhos prestando atenção na história. Quando eu termino de contar a história para as crianças, logo pergunto sobre a história e parte que eles mais gostaram. Por isso eu acho que se elas estiverem conversando durante a história, elas não estão interagindo com a história e mem. vivenciando-a. As entrevistadas foram unânimes em falar que a contação de história é importante na vida das crianças, pois elas despertam o lúdico e o gosto pela leitura. A entrevistada Letícia coloca-se muito bem ao dizer se ela não gosta de contar história, mas, não fica claro se ela não gosta de fazê-lo por falta de técnica ou falta de relação com essa prática cultural. Segundo Coelho (1999, p.9). “A arte de contar história pode ser desenvolvida e cultivada, desde que se goste de crianças e se reconheça a importância da história para elas”. No momento da entrevista, quando perguntadas sobre a freqüência com que contam histórias para as crianças, as professoras apontaram que o fazem com o auxilio de livros: Marcela- Sim! Olha! Tem histórias que usamos os livros do kit literário, conforme a idade deles. E tem história que contamos para elas do dia-a-dia, do cotidiano. Bruna- Sim! Eu conto história do kit literário que a pedagoga entregou para a nossa sala. Neste kit tem vários livros como: Vai Embora Monstro Verde, A Casa Sonolenta, Não Estou com Sono, entre outros. Ana Clara- Sim! Olha! Elas gostam mais histórias clássicas como: Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, Três porquinhos, entre outras. Letícia- Sim! Nós temos vários livros dentro da sala, às crianças vão até o cantinho da leitura e pega os livros que eles querem que contem a história. Tem um livro que chama Eu Não Estou com Sono, toda vez elas pedem para contar esta história, tem outra que elas gostam muito que é a Vaca que põe Ovo. É através do ato de contar história que vamos incentivar as crianças a tomarem o gosto pela leitura. Sol- Sim com certeza! Já contei Três Porquinhos, Chapeuzinho Vermelho, geralmente eu conto os clássicos para elas, mas já contei outras histórias, costumo pegar algum livro na biblioteca, conto para elas e mostro as gravuras as deixando usarem a imaginação. Ficou evidente na primeira pergunta que as entrevistadas, acham que contar história é simplesmente ler a história para as crianças, elas fizeram associações o tempo todo com os livros e as histórias lidas. Nota-se a falta de planejamento da entrevista quando se refere “costumo pegar algum livro na biblioteca”, a autora Abramovich (1997, p.18) afirma: 33 “Daí que quando se vai ler uma história- seja qual for-para a criança, não pode fazer isso de qualquer maneira, pegando o primeiro volume que vê na estante”. Para Sisto (2012) Não pode fazer concessões em contar a história é preciso contar com bons textos, contar tendo a história já preparada. As professoras apontam que a contação de histórias possibilita o desenvolvimento da imaginação e da capacidade criadora das crianças, conforme percebemos na fala das docentes: Marcela-Imaginação, cores, o conhecimento prévio das crianças. Dando um exemplo quando você fala a palavra peixe, as maiorias das crianças vão saber o que é, mas ao mesmo tempo se você falar estrela do mar a minoria vai saber falar o que é. Por isso que ao contar a história para as crianças devemos respeitar o seu grau de conhecimento. Bruna- Eu procuro estimular a criatividade, o som de cada animal, de cada objeto, eu estimulo eles perderem o medo. Temos um livro que tem uma história que se chama Vai Embora Monstro Verde, gosto de contar está história para as crianças perceberem que podemos mandar o medo ir embora, pois tem criança que tem medo do escuro, de dormir sozinha e com está história elas se sentem encorajadas. Ana Clara- A imaginação, a oralidade, pois ao contar a história, eu pergunto para elas qual a parte da história que elas mais gostaram e sobre os personagens. Letícia- A criatividade, imaginação, gosto pela leitura, pois quando lemos para as crianças, mesmo que seja a mesma história podemos acrescentar um detalhe que elas vão gostar de ouvir a história, através deste incentivo elas poderão no futurogostar de ler. Sol- Procuro estimular a imaginação mesmo! Fazendo-as entrarem na história, vivenciando cada ação dos personagens, observar os bichinhos, a mata, a cor, o tempo, se está de dia, se está à noite. Na contação de história da para você encaixar muitas coisas o tempo, lugar. Segundo as entrevistadas a contação de história possibilita o contato com o imaginário, com o mundo cheio de descobertas e possibilidades, que permitem que as crianças vivenciem o que elas querem ser na história, com isso elas desenvolvem a sua oralidade, a criatividade e os conhecimentos prévios que elas carregam dentro de si. Segundo Busatto (2008, p.12) “Ao contar uma história para ela estaremos lhe oferecendo um alimento raro, pois iremos colaborar para que o seu universo se amplie e seja mais rico”. Entretanto, mesmo apontando a relevância da contação de histórias no desenvolvimento da capacidade criadora das crianças inseridas na instituição de educação infantil, as professoras apresentam uma contradição. Mesmo apontando a importância dessa prática cultural para o desenvolvimento das crianças, quando perguntadas sobre quantas vezes elas contam histórias para as crianças, elas alegam faze-lo muito pouco: Marcela - Uma vez por semana. Bruna - Duas vezes por semana. Ana clara- Duas vezes por semana. Letícia - Duas vezes por semana. Sol - Duas vezes por semana. 34 As entrevistadas são claras em dizer que a contação de história dentro da sala de aula é feita duas vezes por semana, foi demonstrado com isso a pouca utilização da contação de história no trabalho pedagógico. Percebe-se que a contação de história serve apenas como distração, não havendo nenhuma preparação para este momento, apesar de toda a importância no contexto escolar. Elas estão trabalhando mais com a contação de história, a partir da intervenção da pesquisadora, a curiosidade em conhecer outras histórias e quere-las contar tem aumentado muito na instituição. As professoras estão se sentindo mais estimuladas e querem trabalhar com a contação de história. Algumas ainda estão tímidas para realizar a contação de história, mas elas têm trazido os seus alunos para ouvir e participar da contação de história realizada pela pesquisadora. No dia 18/11/2013 as professoras Marcela e Bruna contarama história dos Três Porquinhos para as crianças da turma da Lagoa e Chuva, as crianças gostaram muito, elas participaram o tempo todo da história. Para Busatto (2008, p.55) “O conto tem características marcantes, pois o seu texto é constituído por imagens que estimulam o imaginário, o que vai construindo todo um contexto, a partir das formas, cores, sons e sensações presentes no seu corpo”. Figura 19--professoras contando historia para a turma da Lagoa e Chuva (arquivo pessoal) 35 CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante da pesquisa realizada, acredita-se que a Contação de História na Educação Infantil é relevante, pois ela possibilita a interação da criança com o mundo imaginário através das histórias lidas, ouvidas e contadas. Portanto a prática de contação de histórias dentro do planejamento docente contribuirá para o desenvolvimento intelectual, cognitivo e afetivo das crianças, ampliando, transformando e enriquecendo assuas experiências. Falar da prática da contação de história no interior do Cemei Mundo Maior é falar de avanços que até pouco tempo não existia. Diante do trabalho que é feito pela professora pesquisadora, nota-se a importância que ele representa para a escola. Através deste olhar reflexivo de enxergar a contação de história como uma das possibilidades que a criança tem de interação com o imaginário, foi possível desenvolver junto com as professoras, pedagoga e direção um trabalho mais voltado para conscientização da importância da contação de história na prática docente. Com isso houve algumas ações foram primordiais para o primeiro passo em relação a contação história com qualidade: -teatro com fantoches; -participação da professora pesquisadora no turno vespertino para contar história; - turmas dos alunos maiores contanto história para os menores, entre outros. Contar história é sentir a emoção de uma criança pronta a te ouvir, pelo simples prazer de escutar uma boa história, aquela que nos emociona, nos arrepia, fazendo-nos sentirmos o próprio personagem da história. Isso que é contar história, contar com a alma, pois como Bussatto (2008, p.41) relata: “Para inspirar e insuflar o espírito, como um afago ao coração, um alento aos sentidos, pois o que é apreendido por estas vias não se perde jamais”. Desta forma, defende-se que a contação de história no contexto escolar deve servir não somente como meio didático para distração ou para quietar as crianças, mas também como recurso de conduzir as crianças ao prazer de escutar uma boa história. O professor deve planejar organizar, construir e se necessário reconstruir suas práticas. Assim, o professor, ao fazer o uso da contação de história, deve estar atento se a idade da criança é compatível com a história, se o ambiente está organizado adequadamente, perceber o interesse das crianças pela história escolhida e também utilizar recursos durante a contação de história que desperta o interesse e a imaginação das crianças. 36 Por fim, a contação de história quando bem trabalhada na Educação Infantil, propicia sentimentos, emoções e aprendizagens, fazendo com que as crianças vivenciem um mundo imaginário e fantástico. 37 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ABRAMOVICH, Fany. Literatura infantil: gostosuras e bobices/Fany Abramovich. São Paulo: Scipione, 1997. A Criança e a Linguagem Escrita/ Prefeitura Municipal de Contagem-Contagem: Prefeitura Municipal de Contagem, 2012. BUSATTO, Cléo. Contar e encantar: Pequenos segredos da narrativa. 5ª. ed. Petrópolis,RJ:Vozes,2008. BUSATTO, Cléo. A arte de contar histórias no SÉCULOXXI. 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