UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO ANA MARIA MILAGRES BELO FRANCISCO A AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA DAS DIFICULDADES ESCOLARES (1929-1973) ─ PRELEÇÕES DE HELENA ANTIPOFF BELO HORIZONTE 2018 ANA MARIA MILAGRES BELO FRANCISCO A AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA DAS DIFICULDADES ESCOLARES (1929-1973) ─ PRELEÇÕES DE HELENA ANTIPOFF Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhe- cimento e Inclusão Social da Faculdade de Educação da UFMG, como requisito parcial à obtenção do título de Doutora em Educação. Linha de pesquisa: Psicologia, Psicanálise e Educação. Orientadora: Professora Doutora Regina Helena de Freitas Campos BELO HORIZONTE 2018 B452a T Belo, Ana Maria M., 1949- A avaliação diagnóstica das dificuldades escolares (1929-1973) [manuscrito] : preleções de Helena Antipoff / Ana Maria M. Belo. - Belo Horizonte, 2018. 164 f., enc, il. Tese - (Doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação. Orientadora: Regina Helena de Freitas Campos. Bibliografia: f. 152-164. 1. Antipoff, Helena, 1892-1974 -- Teses. 2. Educação -- Teses. 3. Educação -- História -- Teses. 4. Educação especial -- Teses. 5. Educação especial -- História -- Teses. 6. Distúrbios da aprendizagem -- Diagnóstico -- Teses. 7. Crianças deficientes -- Educação -- Teses. 8. Psicologia clinica infantil -- História -- Teses. 9. Psicodiagnostico -- Teses. 10. Testes psicologicos -- Teses. 11. Psicologia da aprendizagem -- Teses. 12. Testes e medidas educacionais -- Teses. 13. Testes psicologicos para crianças -- Teses. 14. Capacidade de aprendizagem -- Teses. I. Título. II. Campos, Regina Helena de Freitas, 1950-. III. Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação. CDD- 371.9 Catalogação da Fonte: Biblioteca da FaE/UFMG UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO Tese intitulada A AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA DAS DIFICULDADES ESCO- LARES (1929-1973) ─ PRELEÇÕES DE HELENA ANTIPOFF, de autoria de Ana Maria Mi- lagres Belo Francisco, aprovada pela banca examinadora constituída pelos seguintes professo- res: Belo Horizonte, 25 de abril de 2018 A meus familiares, em especial aos netos Vitória, Vítor, Arthur e Pedro. AGRADECIMENTOS “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,3). Momento ímpar... de gratidão, de proclamação da glória, celebração da vitória, ainda que se reconheçam as limitações deste trabalho. Primeiramente, agradeço a Deus por tudo e também às pessoas aqui citadas, sem as quais jamais seria possível concluí-lo. A meu pai, que tudo me ensina, por meio do exemplo. À minha mãe, in memoriam, que nos dizia sempre que o saber “não ocupa lugar”. A meu marido, filhos, noras, genro e netos, que souberam compreender a minha ausência nos diversos momentos familiares. À professora Regina Helena de Freitas Campos, minha orientadora, a quem sou grata pela orien- tação segura, pela confiança, sabedoria e respeito no trabalho compartilhado. Aos professores do Programa de Pós-graduação em Educação da Faculdade de Educação da Uni- versidade Federal de Minas Gerias, por sua atenção e exemplo, em especial: a professora Maria de Fátima Cardoso Gomes (carinhosamente, Mafá), ao professor Sérgio Dias Cirino, professor Luiz Alberto Gonçalves e Maria Isabel Antunes Rocha. Às professoras Zoia Ribeiro Prestes, Adriana Araújo Borges e Adriana Cláudia Drumond pela valiosa contribuição na banca de qualificação. À professora Raquel Martins de Assis por exercer a suplência, tanto na qualificação quanto na banca desta tese. Aos professores Carlos Roberto da Silva Monarcha, Érika Lourenço, Adriana Drumond, Eliza- beth Munaier por acolherem o convite para compor esta banca. Reitero a minha gratidão à professora Adriana Cláudia Drumond, pela sua generosidade para comigo, desde sempre. Às professoras e amigas Mara Lúcia Rodrigues Costa e Telma Jannuzzi que, por vezes, debruça- ram-se nas leituras e discussões, para minimizar as possíveis obscuridades deste trabalho. Às zelosas “meninas” do Memorial Helena Antipoff, em Ibirité, Carla, Doralice e Miriam. À professora Rosemara que, com olhos de lince, revisou criteriosamente este trabalho. Ao Gardênio Puiatti Rodrigues pelo suporte técnico na área de informática. À Léa, que, nesse período, desdobrou-se para manter minha casa em ordem. À CAPES pelo apoio à realização desta pesquisa. “Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza. E temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferença e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.” (Boaventura de Sousa Santos) RESUMO Esta pesquisa teve como objetivo conhecer e analisar a avaliação diagnóstica realizada por He- lena Antipoff e seus colaboradores, na identificação das dificuldades escolares dos alunos das classes especiais de Belo Horizonte no período de 1929 a 1973. Esse recorte temporal se justi- fica pela sua chegada em Belo Horizonte (1929) e a criação do Centro Nacional de Educação Especial ─ CENESP (1973), Órgão Central de Direção Superior, com a finalidade de promover em todo o território nacional, a expansão e melhoria do atendimento aos Excepcionais. Utilizou- se pesquisa histórica baseada em fontes documentais primárias e secundárias, preservadas na Fundação Helena Antipoff, em Ibirité, e no Centro de Documentação e Pesquisa Helena Anti- poff (CDPHA), situado na Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os dados coletados foram organizados e analisados por meio da técnica de análise de conteúdo, tendo como referência a obra de Laurence Bardin. Procurou-se trazer para o campo de estudo da psicologia e da educação, especificamente para a educação especial, os questiona- mentos sobre o diagnóstico como processo de tomada de decisão que busca nas intervenções pedagógicas apropriadas o pleno desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem. Evi- denciou-se que a finalidade classificatória da avaliação era a preconizada à época. No entanto, foram constatados indícios de que Helena Antipoff se mostrava crítica quanto à utilização dos testes psicológicos padronizados como instrumento de avaliação. Cunhou o conceito de inteli- gência civilizada, a partir de suas experiências com crianças e adolescentes russos, sustentava a ideia de que a inteligência natural era um conceito irreal e confusamente artificial. Quanto à educação das crianças anormais, considerava o diagnóstico como procedimento balizador para a escolha adequada dos métodos e técnicas de ensino, assim como um dispositivo pedagógico para atender às diferenças individuais. Verificou-se que o uso da avaliação diagnóstica na prá- tica de Helena Antipoff mostrou-se eficaz como instrumento de identificação das dificuldades escolares além de favorecer a construção de atividades curriculares individualizadas. Palavras-chave: Educação Especial. Avaliação Diagnóstica. Helena Antipoff. Dificuldades Es- colares. ABSTRACT This research aimed to know and analyze the diagnostic evaluation performed by Helena Anti- poff,and her collaborators in the identification of school difficulties of the students in special classes in Belo Horizonte from 1929 a 1973.These temporal records are justified by their arrival at Belo Horizonte(1929),and the creation of National Center of Special Education(CE- NESP),(1929),Central Organ of Superior Direction,with the purpose of promoting,throughout the national territory,expansion and improvement of attendance to Exceptionals.It was used historical research based on primary and secondary documentary sources preserved at Helena Antipoff Foundation in Ibirité, and at Helena Antipoff Documentation and Research Cen- ter(CDPHA),located in Central Library of Federal University of Minas Gerais(UFMG).The analyzed data through the technique of content analysis,with reference to the work of Laurence Bardin.It was tried to bring to the field of studying psychology and education,specifically for special education.The questions about the diagnosis as a decision -making process that seeks in pedagogical intervention,appropriate the total development of teaching and learning pro- cess,it was evidenced that the classification purpose of evaluation was the recommendation to that time. However, there were indications that Helena Antipoff was critical about the use of standardized psychological tests,as an instrument of evaluation.She was acquainted with kno- wledge of civilized intelligence from her experiences with Russian children and adolescents and held the idea that natural intelligence was an unreal and confusedly artificial concept.As for education of abnormal children ,she considered the adequate choice of teaching methods and tecniques, as well as pedagogical device to atend to individual differences. It was verified that the use of the diagnostic evaluation in practice of Helena Antipoff proved to be effective as an instrument to identified the school difficulties, besides favoring the construction of individua- lized curricular activities. Keywords: Special Education. Diagnostic Evaluation. Helena Antipoff. School Difficulties. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Quadro 1 Teses selecionadas a partir dos descritores: avaliação diagnóstica, dificuldades esco- lares, classes especiais e Helena Antipoff, no banco de teses e dissertações da CAPES........56 Quadro 2 Dissertações selecionadas a partir dos mesmos descritores no banco de teses e disser- tações da CAPES......................................................................................................................57 Quadro 3 Teses selecionadas a partir dos descritores: avaliação diagnóstica, dificuldades esco- lares, classes especiais e Helena Antipoff, no banco de teses e dissertações da BDTD..........58 Quadro 4 Dissertações selecionadas a partir dos mesmos descritores chaves, no banco de teses e dissertações da BDTD............................................................................................................59 Figura 1 Registro da pesquisa relativa a marcha das crianças na Escola, realizada em 1930 ...83 Figura 2 Ficha de Registro observação para as crianças das classes de 1º ano........................ 98 Figura 3 Ficha-envelope individual para as crianças das Escolas Primárias............................102 Quadro 5 Organização das classes de 1º ano das crianças menores, novatas, de acordo com Helena Antipoff, Belo Horizonte, 1930.................................................................................. 106 Quadro 6 Organização das classes de 1° ano das crianças mais velhas, novatas, de acordo com Helena Antipoff, Belo Horizonte, 1930...................................................................................106 Quadro 7 Organização das classes de 1º ano das crianças repetentes, de acordo com Helena Antipoff, Belo Horizonte, 1930...............................................................................................107 Quadro 8 Conteúdo programático com ênfase no trabalho, para atendimento aos Excepcionais, de acordo com Helena Antipoff (SPB, 1955) ..........................................................................124 Figura 4 Sarah Couto César, psicóloga e primeira Diretora Geral do Centro Nacional de Edu- cação Especial – CENESP/MEC, 1973...................................................................................133 Figura 5 Certificação do 1º Curso para Professores de Alunos Especiais – MEC-CADEME/ SEE-MG/ABAE. Período de realização: 31/01/1971 a 13/02/1971. Carga/horária: 100 h/a ...134 Figura 6 Certificação do Curso de Iniciação à Logopedia – IPCEP/ABAE, data de realização: 30/10/1973 a 03/11/1973 (40 horas) .......................................................................................136 Figura 7 Certificação do 1° Curso de Especialização para Educação Especial na Área de Comunicação e Expressão para professores de Alunos com Deficiência de Aprendizagem – CENESP/FUPAC/ABAE. Carga horária: 420 horas/a ............................................................137 Figura 8 Painel sobre Diagnósticos e Orientação Terapêutica Precoce nos Deficientes de Audição – CENESP/FUPAC/ABAE .....................................................................................138 Figura 9 Proposta Curricular para Deficientes Mentais Educáveis, v. II, MEC/CENESP.....139 Figura 10 Proposta Curricular para Deficientes Mentais Educáveis – Manual do Professor, v. IV, MEC/CENESP.................................................................................................................140 Figura 11 Proposta Curricular para Deficientes Visuais, v. I, MEC/CENESP......................141 LISTA DE TABELA Tabela 1 Artigos selecionados a partir dos descritores: avaliação diagnóstica, dificuldades es- colares, classes especiais e Helena Antipoff, nos periódicos da área de Psicologia e ou Educação no período de 2008 a 2015......................................................................................................52 LISTA DE ABREVIATURAS AAMR – Associação Americana de Retardo Mental AAMD – Associação Americana de Deficiência Mental ABAE – Associação Barbacenense de Assistência aos Excepcionais ABE – Associação Brasileira de Educação APAE – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais BDTD – Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações CADEME – Campanha Nacional de Educação e Reabilitação do Deficiente Mental CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CENESP – Centro Nacional de Educação Especial COJ – Centro de Orientação Juvenil FUNABEM – Fundação Nacional do Bem Estar do Menor FUPAC – Fundação Presidente Antônio Carlos ISOP – Instituto de Seleção e Orientação Profissional IPCEP – Instituto de Psicologia Clínica, Educacional e Profissional LDBEN – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC – Ministério da Educação e Cultura P.A.C – Progress Assessment Chart SRMs – Salas Recursos Multifuncionais SECADI – Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão SEESP – Secretaria de Educação Especial SPMG – Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais SPB – Sociedade Pestalozzi do Brasil SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO...................................................................................................... 16 1.1 O objeto: a avaliação diagnóstica na perspectiva de Helena Antipoff ....................... 24 1.2 A justificativa ......................................................................................................... 25 1.3 Algumas Considerações Conceituais ........................................................................ 28 1.4 Objetivos da pesquisa .............................................................................................. 30 1.5 Questões de estudo................................................................................................... 31 2 PROBLEMATIZANDO A EDUCAÇÃO ESPECIAL ......................................... 32 2.1 A Evolução Histórica da Educação Especial: da Segregação Institucional à Inclusão Edu- cacional ................................................................................................................... 32 2.2 A Deficiência no Desenvolvimento Histórico da Sociedade ..................................... 33 2.3 A Trajetória da Educação Especial no Brasil ............................................................ 41 3 EDUCAÇÃO DOS EXCEPCIONAIS E A INFLUÊNCIA DE HELENA ANTIPOFF: UMA REVISÃO DE LITERATURA .............................................. 50 3.1 A Avaliação Diagnóstica, a Identificação das Dificuldades Escolares e as Classes Especiais: o que as pesquisas revelam? ................................................................... 50 3.1.1 Revisão Bibliográfica em Periódicos ........................................................................ 50 3.1.2 Revisão Bibliográfica nos Bancos de Teses e Dissertações ...................................... 56 4 O MÉTODO ........................................................................................................... 71 4.1 Fontes ...................................................................................................................... 72 4.2 Procedimentos ......................................................................................................... 73 4.3 Quadro Teórico-Metodológico ................................................................................. 73 5 HELENA ANTIPOFF E O DIAGNÓSTICO DAS DIFICULDADES ESCOLARES: CONCEPÇÕES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS ............... ...75 5.1 Helena Antipoff e sua ação na Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico de Belo Horizonte ......................................................................................................... ...76 5.2 A instalação do Museu da Criança como recurso pedagógico ................................... ...77 5.3 As bases teóricas das formulações de Helena Antipoff ............................................. ...84 6 HELENA ANTIPOFF: DA ORGANIZAÇÃO DAS CLASSES ESCOLARES NO ENSINO PÚBLICO DE BELO HORIZONTE À CRIAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES DE ATENDIMENTO A CRIANÇAS EXCEPCIONAIS.........................................93 6.1 A homogeneização das Classes Escolares: critérios de seleção.....................................94 6.1.1 Ficha de observação........................................................................................................97 6.1.2 Ficha-envelope individual para as crianças das Escolas Primárias.................................99 6.1.3 Arquivos pedológicos de Belo Horizonte.................................................................... 104 6.2 Organização das classes do l◦ ano............................................................................... 105 6.3 O ensino nas Classes Especiais................................................................................... 110 6.3.1 A Ortopedia Mental.................................................................................................... 113 6.4 Helena Antipoff e a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais....................................... 115 6.5 Helena Antipoff: o Centro de Orientação Juvenil (COJ) e a Sociedade Pestalozzi do Bra- sil...................................................................................................................................121 6.5.1 Os cursos da Sociedade Pestalozzi do Brasil.................................................................127 6.6 Uma valiosa experiência................................................................................................129 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................................142 CRONOLOGIA ....................................................................................................................147 REFERÊNCIA ..................................................................................................................... .152 16 1 INTRODUÇÃO Esta pesquisa tem como objetivo conhecer e analisar a avaliação diagnóstica reali- zada por Helena Antipoff e seus colaboradores, para a identificação das dificuldades escolares dos alunos das classes especiais de Belo Horizonte, no período de 1929 a 1973. Esse recorte temporal se justifica pela sua chegada ao país (1929), especificamente em Belo Horizonte e, a criação do Centro Nacional de Educação Especial ─ CENESP (1973), Órgão Central de Direção Superior, com a finalidade de promover em todo o território nacional, a expansão e melhoria do atendimento aos Excepcionais. A investigação proposta traduz meu anseio pessoal e profissional e teve origem na inquietação acerca das diferentes práticas pedagógicas com que me deparei ao longo da minha atuação profissional. Iniciei a minha trajetória como professora/alfabetizadora, em Instituição Especializada, onde a turma que me foi conferida era composta de alunos oriundos de encami- nhamentos das escolas comuns, sob a queixa de alunos-problema. Para fundamentar esse tra- balho e subsidiar a minha prática participei de Cursos de Formação de Professores Especializa- dos no Atendimento aos Excepcionais (1971-1975). O termo “Excepcional”, usado por Helena Antipoff, deveria ser interpretado de maneira a incluir crianças e adolescentes que se desviavam acentuadamente para cima ou para baixo da norma de seu grupo em relação a uma ou várias características mentais, físicas ou sociais, ou quaisquer dessas, de forma a criar um problema essencial com referência à sua edu- cação, desenvolvimento e ajustamento ao meio social (ANTIPOFF, 1930/1992c, p.271). Os cursos a que me refiro eram promovidos pela Associação Barbacenense de As- sistência aos Excepcionais (ABAE)1 – Barbacena, sob a chancela do Ministério da Educação e Cultura, por intermédio da CADEME2 que, uma vez estabelecida, contou com a primeira co- missão diretora composta por Fernando Luiz Duque Estrada (diretor executivo), Denis Malta 1 Fundada em 1962, com a denominação de Associação Barbacenense de Assistência aos Excepcionais, por um grupo de pais interessados na assistência e escolarização das pessoas com deficiência. Sua Razão Social foi alterada para Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE, em 23 de setembro de 1999, por força de reforma estatutária, nos padrões da Federação Nacional das APAES para melhor se adequar às nor- mas de filiação da Entidade. Deixa de ser congênere e se integra ao movimento APAEANO. (DRUMOND, 2015, p. 105). 2 Campanha Nacional de Educação e Reabilitação de Deficientes Mentais – CADEME. Entidade criada por influência de movimentos liderados pela Sociedade Pestalozzi e Associação de Pais e Amigos dos Excepci- onais, ambas do Rio de Janeiro. Durante o governo do Presidente da República Dr. Juscelino Kubitschek de 17 Ferraz e Helena Antipoff. Foi extinta em 1973 e substituída pelo Centro Nacional de Educação Especial (CENESP)3, instituído como o primeiro órgão central responsável pelo atendimento aos excepcionais no Brasil, por meio de ato presidencial do então Presidente Emílio Garrastazu Médici (1969–1974). Diversos outros cursos surgiram por iniciativa das Instituições Especializadas, den- tre estas, a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais e do Brasil, Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais, por meio de convênios com o Ministério da Educação e Cultura, Secretaria de Estado da Educação e Faculdades federais, estaduais e particulares. Geralmente, organizados em módulos, em períodos de férias escolares e em Instituição-polo, previamente estabelecida. Participei de curso realizado na Fazenda do Rosário – Ibirité, sob orientação da educadora e psicóloga Helena Antipoff, que, por vezes, utilizava de suas preleções antes da realização das atividades diárias. A finalidade era a formação de professores para implantação da proposta curricular, para a Educação Especial, preconizada pelo CENESP- MEC, que acabara de ser criado. Ao longo da minha vida profissional atuei em diversos espaços que, embora dife- rentes, suscitaram-me questionamentos semelhantes, no que diz respeito à prática pedagógica do professor e os discursos que a permeiam. De um modo geral, os educadores justificam o “não aprender” de crianças para as quais não há diagnóstico que comprove as suas dificuldades com base em conhecimentos do senso comum. Reclamam da falta de condição de trabalho, não se sentem preparados para atuarem e buscam no discurso médico elementos para justificar o insucesso das crianças que, muitas vezes, trazem questões de outra ordem que dificultam a aprendizagem, mas não a impedem. Dessa forma, o aluno é responsabilizado por não aprender, e muitas vezes subjugado na sua capacidade e potencialidade. Assim, compreendemos que os Oliveira, com o apoio do então Ministro da Educação e Cultura, Pedro Paulo Penido, por meio do Decreto n◦ 48.961, de 22 de setembro de 1960 – publicado no Diário Oficial da União de 23 de setembro de 1960, foi instituída, junto ao Gabinete do Ministro da Educação e Cultura (MAZZOTTA, 2005, p.51). Tinha como finalidade promover em todo o território nacional a educação, treinamento, reabilitação e assis- tência educacional das crianças retardadas e outros deficientes mentais de qualquer idade e sexo (SPMG, 1965 p.14). 3 CENESP - Criado pelo Decreto n◦72.425 em 03 de julho de 1973 (MAZZOTTA, 2005, p.55). Órgão ligado ao Ministério da Educação para regular, disseminar, fomentar e acompanhar a Educação Espe- cial no Brasil. Atualmente, esse papel cabe à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão – SECADI/MEC. 18 educadores, ao diagnosticarem os alunos sem uma fundamentação consistente, reforçam as es- truturas excludentes dos processos e procedimentos escolares. Observa-se que esse processo se repete e sempre pautado nos fatores orgânicos. Segundo Gomes (2005 p. 44), a abordagem organicista foi, historicamente, a pri- meira formulação elaborada para explicar as dificuldades escolares de estudantes, na França, no final do século XIX e início do século XX, a partir de casos clínicos de médicos psiquiatras. Essa explicação surgiu naquele país, em 1881, quando a escolaridade se tornou obrigatória, e os filhos de trabalhadores da camada mais pobre da população começaram a frequentar as es- colas públicas. Para Gomes (2005), da mesma forma, os trabalhos técnicos da medicina, ao propiciar estudos específicos na área da neurologia, favoreceram o surgimento e o fortaleci- mento de teorias médicas para explicar os problemas de aprendizagem. Gomes (2005) nos mostra que os educadores utilizam, ainda nos dias atuais, vários termos como distúrbios de aprendizagem, disfunção cerebral mínima, hiperatividade, dislexia, imaturidade, que são originários de áreas do conhecimento como a medicina e a psicologia. O uso desses termos serviu historicamente ─ e continua servindo ─ mais para classificar os alunos que não correspondem às expectativas das escolas quanto ao desempenho na aprendizagem do que para explicar ou avaliar o desempenho escolar propriamente dito. Já para Santiago (2011, p.93), houve um tempo em que os impasses das crianças na escola eram considerados efeitos de desordem no plano social, para os quais a própria educação era a solução. Nesse caso, o atendimento sugerido era a educação moral e a disciplina. Posteri- ormente, o que se apresentava como solução para esses impasses era o tratamento médico-psi- cológico dos alunos. Isso se deveu à introdução do discurso da ciência, no ambiente escolar, em que as dificuldades das crianças passaram a ser nomeadas como disfunções referidas ao desenvolvimento neuropsicomotor. Essa nomeação trouxe como consequência a produção da patologização e a medicalização dos problemas escolares. Marcondes4 (2005) também compartilha sua experiência como psicóloga durante sua atuação em instituição educativa, no que concerne às práticas relacionadas àqueles consi- derados fora da normalidade, segundo padrões diagnósticos ou de acordo com as expectativas 4 MARCONDES, Adriana M – Psicóloga, trabalhou no Serviço de Psicologia Escolar do Instituto de Psico- logia da USP, nas funções de atendimento à comunidade (no caso, instituições educativas públicas) e de formação. (Coordenadora e supervisora do trabalho de estagiários do curso de graduação em Psicologia). Conselheira do CFP. 19 que se tem em relação ao seu desenvolvimento ou as suas atitudes: Grande número dos encaminhamentos que chegam às clínicas-escolas e aos postos de saúde é de crianças com problemas na escola ─ as queixas escolares. É uma epidemia. É conhecida a história de que os “mal-educados” ─ os que não aprendem direito, os que agem de forma indisciplinada, vão para a Saúde. Quem está mal na educação torna-se um problema de saúde, de especialistas da área da saúde. Muitas vezes os profissionais da saúde trabalham da mesma maneira que a escola ─ olhando o sujeito como o filtro do que ele deveria ser e não é, como se a forma de agir das crianças fosse produzida por questões intrínsecas apenas. (MARCONDES, 2005, p. 72). Historicamente, a avaliação pedagógica tem sido utilizada como aferição, como jul- gamento do aluno, atribuindo-se “valores” que, supostamente “medem” o que ele aprendeu, e com frequência utilizada para fixar estereótipo pelo que não aprendeu. Nessa perspectiva tradi- cional, de cunho classificatório, busca-se uma hierarquização dos estudantes, mediante o resul- tado de seus rendimentos, que são quantificados em relação a um padrão preestabelecido de desempenho acadêmico e comportamental. Essa ótica avaliatória aloca unicamente no aluno a responsabilidade pelos resultados do processo educacional, bastando, ao professor, utilizar didáticas e metodologias fi- xas e padronizadas ─ o sucesso ou fracasso da relação pedagógica dependerá, no caso em questão, da capacidade e do mérito de cada aluno. (MINAS GERAIS/SEE, 2006, p. 99). Ao analisar essa concepção tradicional de avaliação, fica evidente a influência de base epistemológica ora de cunho racionalista, ora empirista. No primeiro caso, parte-se da premissa de que a aprendizagem está vinculada a uma capacidade intelectual inata. Tende a fixar condições pela estigmatização dos estudantes ─ que são considerados bons ou ruins. Con- sequentemente diminui-se a expectativa educacional da escola em relação ao aluno tido como de baixo rendimento. A prática pedagógica não é originada de circunstâncias contextualizadas e não considera os fatores condicionantes da aprendizagem, principalmente a natureza e a qua- lidade da intervenção pedagógica. Caracteriza-se temporalmente a aprendizagem, já que esta é avaliada em períodos determinados, fixos e também descontextualizados, desconsidera os seus aspectos processuais, as condições orgânicos, afetivas, sociais e culturais dos processos de aqui- sição do conhecimento, priorizando somente o cognitivo. 20 No segundo caso ─ de modo empirista ─ defende-se que a aprendizagem decorre da relação estímulo-resposta. O principal objetivo educacional é a aquisição de novos compor- tamentos “desejáveis” dos alunos, ou a modificação daqueles já existentes que não se enqua- drem nos demandados pela sociedade, família e escola. Nessa abordagem, o papel da avaliação é de mensurar o comportamento dos alunos, de acordo com os padrões estabelecidos por essas demandas. A avaliação classificatória tem como substrato concepções e práticas pedagógicas ba- seadas na compartimentação dos saberes e do trabalho pedagógico no interior das es- colas, na tentativa de enquadramento da diversidade a padrões dominantes, na exclu- são dos não adaptáveis, na crença de que a aplicação de instrumentos educacionais apropriados vai redundar em resultados comportamentais desejáveis e na “ mística” da competência exclusiva em torno do especialista, uma vez que é ele quem está au- torizado a conhecer e a aplicar adequadamente tais instrumentos (MINAS GE- RAIS/SEE, 2006, p. 100). Desse modo, o sistema educacional está organizado para excluir os que não têm a possibilidade de atingir o que foi estabelecido. A padronização é uma forma de afirmação da “normalidade” e negação da diversidade. Para Tunes e Bartholo (2006), a escola cria um mo- delo de aluno por meio de um currículo padronizado, seriado, baseado em pré-requisitos e line- armente organizado. Elabora mecanismos de avaliação a qual emerge a ideia de patologias do desenvolvimento intelectual como um desvio da norma que a escola impôs. Diante disso, a avaliação que deveria ser processual e contínua, com o objetivo de identificar as possíveis de- fasagens ou entraves no processo de ensino e aprendizagem, serve apenas para mensurar o quanto de conteúdo o estudante memorizou e se foi bem ou mal sucedido por ocasião da prova. Com essa concepção de avaliação, classificatória e somativa, entende-se que a aprendizagem pode ser medida e quantificada, como se o professor tivesse a capacidade de controlar o apren- der de seus alunos. Para ampliar essa discussão, abriu-se o diálogo com Tunes e Pedroza (2011, p. 24), “[...] a escola tem a prerrogativa de certificar quem está apto e o poder de identificar quem é inepto. Assim é formado o enorme contingente de crianças e jovens que recebem o rótulo de possuidores de dificuldades de aprendizagem e, nos casos mais graves, diagnosticados como deficientes mentais”. As autoras afirmam que, de um modo geral, existe um velado sentimento de rejeição contra tudo que é diferente, defeituoso e causador de mal-estar por parte da socie- dade. 21 Antes de dar prosseguimento a quaisquer considerações, é importante explicitar o significado atribuído aos termos educação e escolarização, e como são engendrados os meca- nismos de ação que podem alcançar as práticas pedagógicas que contemplem a diversidade dos processos de aprendizagem. Para Libâneo (1994, p. 22), “[...] Educação é um conceito amplo que se refere ao processo de desenvolvimento onilateral da personalidade, envolvendo a formação de qualidades humanas ─ físicas, morais, intelectuais, estéticas ─ tendo em vista a ori- entação da atividade humana na sua relação com o meio social, num determinado contexto de relações sociais. A educação corresponde, pois, a toda modalidade de in- fluência e inter-relações que convergem para a formação de traços de personalidade social e do caráter, implicando uma concepção de mundo, ideais, valores, modos de agir, que se traduzem em convicções reais e desafios da vida prática. Nesse sentido, educação é instituição social que se ordena no sistema educacional de um país, num determinado momento histórico; é um produto, significando os resultados obtidos da ação educativa conforme propósitos sociais e políticos pretendidos; é processo por consistir de transformações sucessivas tanto no sentido histórico quanto no de desen- volvimento da personalidade”. Portanto a atividade educativa acontece nas mais variadas esferas da vida social ─ nas famílias, nos grupos sociais, nas instituições educacionais ou assistenciais, nas associações profissionais, sindicais e comunitárias; nas igrejas, nas empresas, nos meios de comunicação de massa ─ e assume diferentes formas de organização. Diz respeito ao desenvolvimento hu- mano, em suas trajetórias de vida, ou seja, um processo contínuo, que nunca para. Refere-se às múltiplas formas de organização social, que possibilitam as transformações da pessoa, a fim de que ela possa atingir graus mais elevados de realização pessoal e bem-estar social. Por outro lado, Mello (1987, p. 22) “[...] afirma que a escolarização constitui instru- mento indispensável à construção da sociedade democrática, porque tem como função a sistematização do saber que estabelece o indispensável à formação e ao exercício da cidadania. Ao levar em conta, a função social da escola, pressupõe-se que não é nem redentora dos injustiçados nem reprodutora das desigualdades sociais e, sim, uma das mediações pelas quais mudanças sociais podem ocorrer”. Entende-se, logo, que a concepção sobre o papel da educação estabelece como ob- jetivo maior da política educacional a efetiva universalização de uma escola básica unitária, de caráter nacional. Dessa forma, será democrática uma vez que garantirá a todos, independente- mente da região em que vivam, da classe a que pertençam, do credo político ou religioso que professem, uma base comum de conhecimentos e habilidades. Sabe-se, entretanto, que a escola 22 sempre teve dificuldade de lidar com a pluralidade e a diferença. Tende a silenciá-las e neutra- lizá-las, pois sente-se mais confortável com a homogeneização e a padronização. Sendo assim, abrir espaços para a diversidade, a diferença e para o cruzamento de culturas constitui o grande desafio para o qual está chamada a enfrentar (MOREIRA; CANDAU, 2007, p. 35). Nesse contexto político-educacional, a identificação das dificuldades escolares torna-se elemento fundamental para subsidiar a aprendizagem e assegurar o acompanhamento da escolarização nas classes comuns, por meio de ofertas de recursos necessários para viabilizar o sucesso educacional dos alunos. Diante disso, torna-se imperioso rever os conceitos e as práticas diagnósticas tradi- cionais, normativas, padronizadas e classificatórias em uso nos sistemas educacionais, substi- tuindo-as por outras mais voltadas para a dimensão política e social da avaliação (HO- FFMANN, 2001). Especificamente, no caso dos alunos que necessitam de atendimento educa- cional especializado, o diagnóstico deve estar a serviço da implementação dos apoios necessá- rios ao progresso e ao sucesso de todos eles, e da melhoria das respostas educativas oferecidas no contexto educacional escolar e, se possível, no familiar. Percebemos ser de igual importância a necessidade de ressignificar os procedimentos e instrumentos de avaliação da aprendizagem em geral e os fins a que se destinam. Destacamos, ainda, a importância de contextualizar os procedimentos avaliativos incluindo outras variáveis de análise, além daquelas que se referem apenas aos alunos. Com a democratização da educação nas escolas públicas do Brasil, por meio do processo de universalização do acesso à escola, principalmente nas décadas de 1960 e 1970, houve um aumento considerável do número de alunos, o que demandou o seu ingresso na escola pública. Ao receber educandos de outros segmentos e com outros referenciais, estabeleceram- se, no interior da escola, as mesmas tensões e contradições presentes na sociedade (conflitos culturais, de classe, de gênero, éticos, estéticos, de orientação sexual, entre outros). Dessa forma, evidenciou-se a incapacidade dessas escolas de dar respostas pedagógicas efetivas às necessi- dades educacionais de um público historicamente alijado em seu direito à educação formal e não familiarizado com a cultura escolar dominante. Tal incapacidade ficou manifesta nos ele- vados índices de reprovação, fracasso e evasão escolar. As concepções conteudista, disciplinar, descontextualizada, burocrática, tecnicista e reducionista da pedagogia tradicional precisavam ser superadas para construir uma visão mais ampla das realidades que a procuravam. Nesse 23 sentido, a diferença não deveria ser mais vista como desvio do padrão preestabelecido ou como ameaça à organização e às práticas pedagógicas já sedimentadas. É importante ressaltar que esse fenômeno reproduzido no interior da escola, mar- cado pelo fracasso escolar, não foi algo peculiar do Brasil, tampouco das décadas de 1960 e 70, pois na França, no final do século XIX, após o governo promulgar a obrigatoriedade de ensino até os 12 anos, observou-se o aparecimento de diferentes percursos escolares apresentados pelos alunos de classes sociais distintas (CORDIÉ, 1996). Surgem, exatamente nessa época, as crian- ças caracterizadas como anormais ─ aquelas que não apresentavam o mesmo ritmo de apren- dizagem das demais, de mesma turma, e acabavam sendo encaminhadas às clínicas psiquiátri- cas. As dificuldades escolares eram consideradas como patologia, doença, para as quais se ten- tava encontrar anormalidades orgânicas que as justificassem. No início do século 20, pesquisas realizadas na Europa indicavam a preocupação com os estudantes que frequentavam a educação pública, mas não logravam êxito em seus re- sultados escolares. Segundo Campos (2010), a primeira versão da famosa escala métrica de inteligência de Binet5 (1857-1911), em colaboração com o médico Théodore Simon6 (1873- 1960), denominada “Escala Binet-Simon”, publicada em 1905, tinha a pretensão de auxiliar as escolas primárias da França, na identificação de problemas de aprendizagem nas chamadas sa- las especiais, o que parecia fornecer base científica tanto para a psicologia quanto para a peda- gogia. “A ideia é que seria possível identificar, através de comparações, as crianças com dificuldades na escolarização e que necessitavam de atendimento especializado” (CAMPOS, 2010, p. 96). O trabalho empírico de validação desses testes demandava a participação de di- versos colaboradores. Helena Antipoff participou desse trabalho logo após a morte de Binet (1857-1911), e estagiou junto ao Dr. Simon na aplicação e análise dos resultados dos testes, iniciando assim sua formação em psicologia, associada a um crescente interesse pela pedagogia. Nesse contexto, acreditava-se que a separação de alunos “normais” e “anormais” traria benefício para todos no processo educativo. Monarcha (2007) informa que, no Brasil, tal 5 Alfred Binet (1857–1911), Psicólogo francês, Doutor em Ciências pela Universidade de Paris (Sorbonne), construiu estratégias metodológicas de investigação psicológica que resultaram na elaboração de um conjunto de instrumentos de avaliação e medida da inteligência (CAMPOS, 2010). 6 Théodore Simon (1873-1960) era francês, formado em Medicina e colaborador de Alfred Binet na constru- ção da primeira escala de medida de inteligência – 1905 (CAMPOS, 2010). 24 escala foi aplicada sob a orientação de Clemente Quaglio7 (1872-1948), em São Paulo, tendo sido a primeira aplicação coletiva desse instrumento, no país, cujos resultados foram publicados na obra: A Solução do Problema Pedagógico Social da Educação da Infância Anormal de In- teligência no Brasil, em 1913. Com base nos dados de cerca de 150 crianças de escolas públicas, Quaglio concluiu que 13% delas eram anormais da inteligência (MENDES, 2010, p. 96). Em 1929, Helena Antipoff (1892-1974), psicóloga e educadora russa, pesquisadora do Instituto Jean Jacques Rousseau, chegou ao Brasil, a convite do governo do estado de Minas Gerais para assumir a direção e docência na recém-criada Escola de Aperfeiçoamento de Pro- fessores de Minas Gerais. Dentre as inúmeras atividades assumidas, responsabilizou-se pela tradução e padronização de alguns testes de inteligência que passaram a ser utilizados na Escola de Aperfeiçoamento (CAMPOS, 2003). Seu trabalho inicial foi uma proposta de organização da educação primária na rede comum de ensino, nas escolas regulares de Belo Horizonte, ba- seado na composição de classes homogêneas. Foi também responsável pela criação de serviços de diagnósticos, classes e escolas especiais. Em 1932, com o intento de atender à chamada infância anormal criou a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais, a qual, em 1935, criou uma das primeiras escolas de educação especial do Brasil, o Instituto Pestalozzi. Este, por meio do consultório médico-pedagógico, prestava um atendimento interdisciplinar, configurando-se como um dos primeiros serviços assim estruturados no Brasil (BORGES, 2014, p.32). 1.1 O Objeto: a avaliação diagnóstica na perspectiva de Helena Antipoff Considerando-se a possibilidade de eleger a avaliação diagnóstica como objeto cen- tral desta tese, o enfoque será dado à análise do trabalho realizado por Helena Antipoff e seus colaboradores na organização das classes especiais dos grupos escolares de Belo Horizonte. 7 Clemente Quaglio (1872-1948), nasceu em 7 de junho de 1872, emVilla d’Adige, província de Rovigo, Itália, e faleceu em 16 de maio 1948, em São Paulo, Brasil. Ao chegar ao nosso país, em 1888, fixou-se na cidade de Serra Negra, em São Paulo. Em 1891aceitou a grande naturalização instituída pelo Governo Provisório da República, liderado por Deodoro da Fonseca. Intelectual autodidata, Quaglio não dispôs de títulos acadêmicos de qualquer espécie. Foi nomeado, em 1895, Professor Primário após exames de ingresso no magistério público, sendo indi- cado para uma escola isolada, na cidade de Serra Negra. Na sequência, foi nomeado professor-adjunto do Grupo Escolar Luiz Leite, fixando-se, por fim, no Grupo Escolar Rangel Pestana, no município de Amparo, São Paulo. (MONARCHA, 2007). 25 A escolha por essa delimitação se deve pela sua contribuição à pesquisa em psico- logia e educação no Brasil; em especial, sua postura crítica em relação ao diagnóstico e à inter- pretação dos resultados de testes psicológicos aplicados no ambiente escolar e, a ênfase na de- terminação sociocultural dos resultados obtidos pelas crianças nesses testes (ANTUNES, 2003). Antipoff se opunha a práticas deterministas que, a partir de postulados teóricos preesta- belecidos, viriam como uma resposta pronta desconsiderando as variações do meio. 1.2 A justificativa No Brasil, a prática da avaliação sempre foi considerada necessária no campo da educação especial, pois ela era utilizada como instrumento de identificação das condições par- ticulares dos alunos, o que resultava nos encaminhamentos para as estruturas separadas, como a classe e escola especial (NUNES, et al, 1998). Dessa forma o atendimento educacional das pessoas com deficiência foi separado da educação oferecida à população que não apresentava características de “anormalidade”. Consequentemente a educação especial estabeleceu-se como um campo de ação específico, porém, muitas vezes, sem interlocução com a educação comum. Essa separação resultou, portanto, na criação de um sistema paralelo de ensino, de modo que o atendimento educacional das crianças com deficiência ocorreu em locais separados dos outros alunos. Observa-se que esta não foi uma prática apenas da educação especial brasileira, mas comum em países da Europa e da América em geral. (KASSAR, 2011, p. 62). Segundo os estudos de Veltrone (2011), os critérios adotados na elegibilidade dos alunos aos serviços de Educação Especial, principalmente para as classes especiais, eram arbi- trários, o que resultava em encaminhamentos indevidos e, quase sempre, o aluno era o único responsabilizado pelo seu fracasso escolar e pela consequente seleção aos serviços educacionais segregados. Não se questionava o papel da instituição escolar nem da sociedade, apesar de ser alto o número de alunos identificados para esse atendimento educacional. Estudos realizados por Mendes, Nunes e Ferreira (2002) apontam que, em Educa- ção Especial, os procedimentos de diagnóstico sempre foram realizados em função de dois ob- jetivos: o primeiro, que visa à identificação para classificar ou não o indivíduo numa determi- nada categoria, o que implica o encaminhamento para o ensino especial. O segundo, referente 26 a um outro conjunto de procedimentos, consiste em avaliações que permitam originar planeja- mentos educacionais, ou seja, identificar os fins ou objetivos de ensino, selecionar técnicas instrucionais, monitorar o desempenho do aluno e avaliar programas. As autoras consideraram, ainda, que havia uma relação estreita entre os termos identificação, diagnóstico e caracteriza- ção, portanto decidiram agrupá-los para fins de estudo. Ainda na problematização do conceito e das finalidades da avaliação, Perrenoud (1999) refere-se a esta colocando-a entre duas lógicas ─ uma a serviço da seleção e a outra a serviço das aprendizagens. Aquela estabelece hierarquias de excelência (resultantes das medi- das de rendimento) e estas subsidiam o processo decisório em favor de pedagogias de interven- ção apropriada, que valorizem o apoio de que alunos e professores necessitem. A seleção refere- se a normas ou a critérios e a aprendizagem, a caráter eminentemente formativo. Assim descrito, parece haver certo consenso entre as enunciações deste autor, com as formuladas por Mendes; Nunes e Ferreira (2002). Portanto, no contexto da escola, a avaliação integra o conjunto de ações educacio- nais. A seleção de metodologia e estratégias de ensino e aprendizagem devem ser apresentadas como um dispositivo importante não só para apreciação e análise do desempenho dos alunos, mas sobretudo para desencadear ações com vistas ao planejamento pedagógico. Contudo é sem- pre importante enfatizar que o processo de avaliação envolve necessariamente a atuação do professor, sua interação com os alunos, o ambiente físico da sala de aula, os recursos instruci- onais e metodologias disponíveis, as relações que se estabelecem no contexto escolar, a política educacional vigente, além da família dos alunos e eles próprios como sujeitos do processo. Igualmente significativa é a ideia de avaliação como processo contínuo e perma- nente e não como instrumento a ser usado em momentos de crise. Muito menos restringir-se à aferição ou mensuração de conteúdos acadêmicos apreendidos pelos alunos. Nem sempre para avaliar são indicados testes ou provas formalmente organizados, embora para algumas situações sejam necessários. Portanto não se pode prescindir de um conjunto de indicadores que garantam a objetividade de avaliação, evitando-se subjetivismo que geralmente conduz a conclusões equi- vocadas. Tais indicadores podem ser de natureza qualitativa ou quantitativa como por exem- plo o interesse da criança ou a nota que obteve nos exames escolares respectivamente. Ainda 27 que se trabalha sobre os resultados obtidos pelo uso de indicadores quantitativos, não se deve prescindir do significado qualitativo que eles traduzem. Desse modo, um aluno que obtenha notas abaixo da média, tanto pode sinalizar dificuldades específicas na sua aprendizagem quanto estar sob efeito de fatores pluricausais que prejudicam seu rendimento. Ao se considerarem apenas os valores quantitativos, excluem-se da análise os aspectos emocionais bem como a competência do professor em avaliá-lo; esses indicadores são qualitativos. A partir dessas observações, conclui-se que os professores devem organizar instru- mentos de avaliação com indicadores qualitativos e quantitativos, usando-os sistematicamente. Após a análise dos dados, preferencialmente com a equipe pedagógica da escola, recomenda- se planejar o programa de atendimento e, se for o caso, encaminhar o aluno para a avaliação diagnóstica. Nesse caso, prudência é a palavra de ordem para evitar a indicação de classe ou serviços especiais apenas porque o aluno apresenta dificuldades de aprendizagem ou manifes- tações de comportamentos que interferem em sua adaptação escolar. Para tanto, o olhar criteri- oso do professor é indispensável para possíveis encaminhamentos que o caso requeira. Às ve- zes, a forma como o aluno se mostra em relação ao seu desenvolvimento, a priori, preocupa o professor, mas pode ser transitória e se reorganiza e reordena ao longo do processo de interven- ção. Por isso, recomenda-se cautela antes de se levantarem hipóteses diagnósticas ou de provi- denciar encaminhamentos para tratamento clínico. Compreendemos que o processo diagnóstico é fundamental para embasar decisões a serem tomadas sobre alunos com deficiência que apresentam necessidades educacionais es- peciais8. É tão importante o levantamento de suas potencialidades, quanto a identificação de barreiras que possam impedir ou dificultar o processo educativo em suas múltiplas dimensões. Para acolher esses alunos e proporcionar-lhes uma educação de qualidade, com vistas ao pla- nejamento educacional e às práticas curriculares, a escola precisa conhecê-los. Sendo assim, a 8 O conceito de Necessidades Educativas Especiais engloba não só pessoas com deficiências, mas todos aqueles que, ao longo do seu percurso escolar, possam apresentar dificuldades específicas de aprendizagem (WARNOCK, 1978, p.36); está associado, portanto, a dificuldades de aprendizagem e não necessariamente vinculado a deficiên- cia(s). Preferimos, especificamente nesta tese, utilizar a expressão necessidades educacionais especiais, adotando a proposta de Mazzotta (1998), de substituir “educativa” por “educacional”. 28 Educação Especial rompe com a concepção de um sistema paralelo de ensino e se constitui como um conjunto de medidas que a escola comum coloca a serviço de uma resposta adequada às especificidades de cada aluno. Se nos reportarmos às preleções de Helena Antipoff, é possível depreender suas concepções relativas ao estudo do conhecimento dos alunos, por parte das instituições escola- res: Toda pedagogia avançada se baseia teoricamente no conhecimento da criança em ge- ral e da criança indivíduo. Sem esses conhecimentos não é possível a “escola sob me- dida”. Supérfluo é defender tais asserções pois estas já são comumente admitidas por todos que proclamam a nova educação (ANTIPOFF, 1927/1992a, p. 29). Antipoff afirmava que a realidade não acompanha de muito perto esta regra funda- mental. “[...] Se o professor possui boa intenção, se sua memória é fiel, se seu poder de análise e de síntese é bem grande, ele conhecerá seus alunos. Mas tais aptidões são dons bem raros e, dessa maneira, tudo que o professor sabe, em geral, sobre seus alunos, pode ser muitas vezes completamente inexato. Não se possui, assim, conhecimentos, mas impressões vagas” (ANTI- POFF, p. 29). 1.3 Algumas considerações conceituais O processo avaliativo é de crucial importância em todos os âmbitos do processo educacional para nortear as decisões pedagógicas e retroalimentá-las, exercendo um papel es- sencial tanto nas adequações curriculares ou nas construções curriculares individualizadas. Na tentativa de cunhar alguns conceitos que nortearão a investigação proposta nesta tese e com base em referenciais de literatura pesquisada relativa à área, compreende-se a ava- liação pedagógica, como processo que permite conhecer os alunos individualmente sem negli- genciar os aspectos sociais. Tem como finalidade uma tomada de posição que direcione as pro- vidências para a remoção das barreiras identificadas, sejam as que dizem respeito à aprendiza- gem e/ou à participação dos educandos, sejam as que dizem respeito a outras variáveis extrín- secas a eles e que possam interferir em seu desenvolvimento global (BRASIL, 2006, p. 19). Essa avaliação deverá levar em consideração todas as variáveis: as que incidem na aprendizagem; as de cunho individual; as que incidem no ensino ─ como as condições da escola 29 e da prática docente ─ as que inspiram diretrizes gerais da educação, bem como as relações que se estabelecem entre elas. Sob esse enfoque, ao contrário do modelo clínico, tradicional e classificatório, a ênfase deverá recair no desenvolvimento e na aprendizagem do aluno, bem como na melhoria da instituição escolar, onde a avaliação é entendida como processo permanente de análise das variáveis que interferem no processo de ensino e aprendizagem, para identificar, sobretudo, as potencialidades do aluno e suas necessidades educacionais e, da mesma forma, as condições da escola para responder a essas necessidades. Esse processo deverá ser realizado no âmbito da própria escola sob a responsabili- dade de uma equipe de avaliação, com a participação de todos os profissionais que acompanham o aluno: Quando os recursos existentes na própria escola mostrarem-se insuficientes para me- lhor compreender as necessidades educacionais dos alunos e identificar os apoios in- dispensáveis, a escola poderá recorrer a uma equipe multiprofissional. A partir dessa avaliação e das observações feitas pela equipe escolar, legitima-se a criação dos ser- viços de apoio pedagógico especializado para atendimento às necessidades educacio- nais especiais dos alunos, ocasião em que o especial se manifesta (BRASIL, 2002, p. 39). A avaliação diagnóstica, considerada como o segundo conceito balizador dessa discussão, é um processo que, a partir de sinais e sintomas que devam ser rigorosamente obser- vados e analisados, permite classificar os dados segundo quadros que já se acham descritos. O termo diagnóstico tem uma conotação clínica de uso predominantemente da área da saúde. Na escola o diagnóstico clínico não é uma rotina. Usuais devem ser os procedimen- tos de avaliação pedagógica que, segundo a natureza da situação do aluno, evoluem ou não para a avaliação diagnóstica. Portanto, entende-se por avaliação diagnóstica, todo um processo de construção que tem uma dinâmica própria e que conduz à indicação deste ou daquele atendimento para o aluno. Nesse processo estão envolvidos a criança ou adolescente, os pais, professores, psicólo- gos e diversos profissionais da área da saúde ─ médicos, fonoaudiólogos, psicomotricistas, te- rapeutas educacionais e outros. Todos deverão estar atentos, dentre outros aspectos, aos sinais e necessidades que se manifestam no desenvolvimento do aluno e que são indispensáveis ao estabelecimento de um diagnóstico em seus desdobramentos (BRASIL, 2002, p. 40). 30 Tal processo parte da elaboração de hipóteses diagnósticas e que irão referendar uma proposta de intervenção a partir de ampla e profunda discussão do caso. Esta deve também possibilitar a criação das condições para a requisição de exames complementares, se necessário, e para o encaminhamento a outros profissionais que porventura possam intervir no processo. Consequentemente, nas áreas de educação e saúde, proceder a avaliação que per- mita chegar a um diagnóstico fiel não é uma tarefa fácil, já que várias questões se acham im- bricadas. Uma delas refere-se ao estabelecimento precoce do diagnóstico, embora a pertinência ou não deste só poderá ser confirmada após um certo tempo de atendimento. A avaliação diag- nóstica implica necessariamente um olhar para aquela criança que sofre com seus sintomas. Ela deseja nos transmitir algo que se traduz num pedido de ajuda. Sob esse “olhar” é que se constrói todo o processo como uma oportunidade de escuta que progressivamente vai norteando o ca- minho a ser percorrido (BRASIL, 2002, p.41). O resultado da avaliação diagnóstica não pode ser usado como uma etiqueta a ser afixada no corpo de uma criança porque induziria a atitudes segregacionistas, decorrentes de preconceitos. 1.4 Objetivos da pesquisa O objetivo central desta tese é conhecer e analisar a avaliação diagnóstica realizada por Helena Antipoff e seus colaboradores, na identificação das dificuldades escolares dos alu- nos das chamadas classes especiais de Belo Horizonte, no período entre 1929 a 1973. Constituem-se como objetivos específicos que devem responder aos anseios da pes- quisa, assim como o caráter de precisão neles expressos, por meio das seguintes ações:  Identificar as concepções teóricas que fundamentaram a perspectiva de Helena Antipoff em relação à educação especial;  Analisar as práticas diagnósticas utilizadas por Helena Antipoff tendo em vista aqueles alunos que por suas especificidades requeriam intervenções pedagógicas apropriadas;  Analisar a organização das classes especiais nos grupos escolares de Belo Hori- zonte, bem como os critérios de seleção das crianças em classes homogêneas. 31 1.5 Questões de estudo Tendo em vista os aspectos abordados, esta pesquisa se apresenta potencialmente relevante para as questões científicas da Educação Especial. A hipótese que pode nos guiar para a realização deste estudo é que o diagnóstico proposto por Helena Antipoff e seus colaboradores, para identificação das dificuldades escolares das crianças das instituições de ensino de Belo Horizonte, teria se constituído como um dispositivo de cunho psicopedagógico de ação educa- tiva, a serviço de teorias de aprendizagem psicológicas que exerceram forte influência no sis- tema de ensino tanto da educação geral quanto a especial. É nessa perspectiva que esta pesquisa se estabelece entendendo o diagnóstico, como processo de tomada de decisão, para fundamentar as respostas educativas. Quais as concepções teóricas e metodológicas adotadas por Helena Antipoff e seus colaboradores, na identificação das dificuldades escolares dos alunos das classes especiais de Belo Horizonte? Quais as ações pedagógicas decorrentes dessas concepções? Em que medida o diagnóstico proposto por Helena Antipoff teria se constituído como instrumento de tomada de decisão para subsidiar o processo de ensino e aprendizagem dos alunos tidos como excepcionais? 32 2 PROBLEMATIZANDO A EDUCAÇÃO ESPECIAL “O mais importante e bonito do mundo é isso: as pessoas não são sempre iguais Não foram terminadas... Mas estão sempre mudando... Afinam...ou desafinam verdade maior que a vida nos ensinou”. (João Guimarães Rosa) 2.1 A Evolução Histórica da Educação Especial: da Segregação Institucional à Inclusão Educacional Neste capítulo buscamos analisar o modo como se deu o desenvolvimento histórico da educação especial e como foram construídas as condições de existência das pessoas com deficiência em determinado contexto. Evidenciou-se o período que compreende a evolução his- tórica da Educação Especial desde a antiguidade até os dias atuais, com destaque para os para- digmas: da Institucionalização ─ período em que a sociedade acreditava que os deficientes deveriam ficar segregados, internados em instituições; de serviços ─ período em que a institu- cionalização total foi questionada, repensando-se o papel da instituição como local para prepa- rar o deficiente para a vida em sociedade; e de suporte ─ as diferenças são consideradas ecoló- gicas, ou seja, provenientes do meio sociocultural. Todas as pessoas possuem necessidades es- peciais e cabe à sociedade se estruturar para oferecer-lhes os meios necessários para que todos tenham acesso aos bens culturalmente produzidos. Os indivíduos com deficiência9, vistos como doentes crônicos e incapazes, sempre estiveram em situação de desvantagem, ocupando no imaginário coletivo a posição de alvo de caridade e assistencialismo por parte da sociedade, e não de sujeitos de direitos sociais, entre os quais se inclui o direito à educação (BRASIL, 2001, p.19). As raízes históricas e culturais acerca do fenômeno deficiência, sempre foram marcadas por forte rejeição, discriminação e preconceito. Para uma maior compreensão desse processo histórico é importante conhecer os 9 “O termo deficiência é genericamente empregado, recebendo denominações várias nos diversos períodos estudados, pois a palavra é o suporte de um sistema de normas e de valores e, mais geralmente, de interpre- tações simbólicas do todo que uma sociedade faz de sua ordenação e de seus próprios conflitos” (BISSERET, 1971, citado por JANUZZI, 2012, p. 5). 33 vários caminhos já trilhados pelo homem ocidental, em sua relação com a parcela da população constituída pelas pessoas com necessidades educacionais especiais10. No decorrer da história, foram se diversificando a visão e a compreensão que as diferentes sociedades tinham sobre a deficiência. A forma de pensar e agir com relação a ela como fenômeno, e à pessoa com necessidades educacionais especiais como ser modificou-se no decorrer do tempo e das condições sócio-históricas. Aranha (2005) convida-nos a trilhar esse caminho procurando focalizar a relação entre sociedade e deficiência no contexto da organização econômica e sócio-política vigentes e dos conceitos de homem, de educação e de deficiência que constituíam o pensar de cada época. A economia de Roma e Grécia antigas se fundamentava nas atividades de produção, comércio agrícola, pecuário e artesanato. Já a organização sócio-política se baseava no poder absoluto de uma minoria, associada à exclusão dos demais, sem a prerrogativa de participação dos proces- sos decisórios e administrativos da sociedade. 2.2 A Deficiência no Desenvolvimento Histórico da Sociedade Nas sociedades de cultura primitiva, os povos eram nômades, sobreviviam da caça e da pesca, e estavam sujeitos às intempéries e aos animais selvagens. Tudo isso dificultava a aceitação de pessoas que destoavam do ritmo da tribo, as que se mostravam dependentes e incapazes para autogestão. Uma vez que a deficiência inexistia como problema, com as crianças que apresentavam anormalidades imediatamente detectáveis, a atitude adotada era a de integrá- las nas atividades do cotidiano; quando não o conseguiam, eram abandonadas ao relento, até a morte (ARANHA, 1979; PESSOTTI, 1984). Em Esparta e Atenas crianças com deficiência física, sensorial e cognitiva eram consideradas subumanas, o que legitimava sua eliminação e abandono. Com o advento do Cris- tianismo, influenciou-se o desenvolvimento da visão abstrata de Homem, que passou a ser visto 10 Ver definição: rodapé p. 26. 34 como ser racional, criação e manifestação de Deus. Em função da disseminação das ideias cris- tãs, o diferente ─ não produtivo (deficiente) ─ adquiriu “status” humano, também possuidor de uma alma; sendo assim, não mais se fazia aceitável sua exterminação. Devido ao Humanismo da época clássica e ou moderna, no início do século XVI, o ponto de vista religioso acerca do homem e da sociedade sofreu mudanças, o que trouxe consigo também uma alteração no sistema econômico: o capitalismo mercantil, o qual resultou em uma nova divisão social do trabalho ─ de um lado os donos dos meios de produção e do outro os operários. Consequentemente, surgiu a burguesia, uma nova classe constituída por pequenos comerciantes. A partir de então, a visão sobre o homem, que até aquele momento, era abstrata, metafísica, sofreu uma relevante transformação e tornou-se mais concreta. Assim, surgiram novas ideias quanto à natureza da deficiência e, pela primeira vez, uma autoridade da medicina, Philipus Aureolus Paracelsus11, considerou como de natureza médica um problema que sempre fora situado dentro da teologia e da moral. Ainda no século XVI, a deficiência passou então a ser vista como produto de infor- túnios naturais e um atributo do indivíduo. O deficiente era considerado improdutivo, do ponto de vista econômico, e era tratado pelos métodos tradicionais da medicina disponíveis na época. Foi também nesse período que surgiu o primeiro hospital psiquiátrico que, como asilos e con- ventos, servia para confinar pessoas que apresentavam comportamentos fora do padrão da so- ciedade (ARANHA, 2005). No século XVII, uma vez consolidada no poder, a burguesia passou a defender a concepção de que os indivíduos não eram essencialmente iguais, portanto havia a necessidade de se respeitarem as diferenças, embora a intenção fosse legitimar a desigualdade social. A educação deixou de funcionar segundo o padrão de ensino tradicional assumido pela Igreja, e passou a ser oferecida também pelo Estado, porém com objetivos óbvios de preparar a mão de obra que se mostrava necessária ao novo modo de produção. Nesse período, novas concepções foram sendo produzidas, tanto na área da medicina como na filosofia e na educação. Entretanto, 11 Philipus Aureolus Paracelsus (1493-1541) - médico e alquimista, cujo verdadeiro nome era Theophrastus Von Hohenheim. É de sua autoria a obra “Sobre as doenças que privam os homens da razão”. É nela que, ao que parece pela primeira vez uma autoridade da medicina, reconhecida por numerosas universidades, considerou médico um problema que até então fora teológico e moral. A referida obra foi publicada em edição póstuma em 1567, embora tenha sido escrita em 1526 (PESSOTI, 1984, p. 15). 35 em relação à deficiência, continuou o predomínio da postura de buscar nas causas orgânicas a explicação para a deficiência (PESSOTTI, 1984). Mendes (2010), por sua vez, afirma que, até o século XVIII, a exclusão acontecia amplamente, ou seja, pessoas com necessidades especiais eram alijadas da sociedade para qual- quer tipo de atividade, pois eram consideradas inválidas, sem utilidade e incapazes para o tra- balho e a aprendizagem acadêmica, características que eram normalmente atribuídas indistin- tamente a todos que tivessem alguma deficiência. Por isso, naquela fase, nenhuma atenção edu- cacional era promovida. Gradativamente, a custódia e cuidado dos deficientes passaram a ser assumidos pela família e a igreja, embora não haja evidência de esforços específicos e organizados de acolhi- mento, proteção, educação ou tratamento. Conventos e asilos, assim como os hospitais psiqui- átricos, constituíram-se em locais de confinamento de pessoas que apresentavam comportamen- tos fora do padrão da sociedade, em vez de atendimento das pessoas com deficiência (ARA- NHA, 2005). Na realidade, tais instituições eram ─ e muitas vezes ainda o são ─ pouco mais do que prisões, desde que consideremos que o aspecto característico de prisões pode ser encon- trado em instituições cujos participantes não se comportaram de forma ilegal (GOFFMAN, 1961 p.11). Somente no século XIX, por meio do trabalho do médico Jean Itard12 ─ considerado o primeiro teórico de Educação Especial ─ as pessoas com deficiência cognitiva passaram a ser consideradas passíveis de serem educadas. O seu primeiro grande desafio foi o trabalho com o menino Victor de Aveyron, que fora diagnosticado pelo psiquiatra francês Philippe Pinel13 como sendo um idiota, sem qualquer esperança de possibilidades de educação. No entanto, a convicção de Itard de que o homem não nasce como homem, mas é construído como tal, fez com que ele se opusesse ao diagnóstico dado por Pinel. Isso se explicava pelo fato de que Itard via a deficiência cognitiva ou o desenvolvimento bem sucedido como um processo cumulativo, 12 Jean Marc Gaspard Itard (1774-1838) – Em 1800, Itard que até então trabalhava no Hospital Militar de Soliers, passa a ocupar o cargo de médico-chefe no Instituto Imperial de Surdos-Mudos na Rua Saint-Jacques. Ocupa-se da tarefa de educar o menino selvagem de Aveyron. A quem Itard daria o nome de Victór. Tratava- se de uma criança, aparentando ter de 12 a 15 anos, que não se comunicava, com hábitos selvagens, que fora capturado na floresta de La Caune. Esse caso é considerado como a primeira tentativa de atendimento médico- pedagógico que se tem notícia. (PESSOTI, 1933 p. 36; GALVÃO, 2000). 13 Philippe Pinel (1745-1826) – Conhecido como representante da “psiquiatria esclarecida” por ter libertado das correntes os alienados e os internos de Bicêtre, Pinel foi mestre de Itard (GALVÃO, 2000). 36 no qual há fases ou estádios hierárquicos, como se o desenvolvimento fosse uma contínua gê- nese de operações e desempenhos mais complexos e refinados. Baseado nesses princípios pas- sou a dedicar-se à educação de Victor. Sua metodologia obteve avanços significativos, os quais constituíram os fundamentos da avaliação e da didática na área da deficiência cognitiva (PES- SOTTI, 1984). Por sua vez, Édouard Séguin14, discípulo de Itard, foi o primeiro a propor uma teoria psicogenética da deficiência intelectual e a criticar a prevalência da visão médica de incurabi- lidade. Propunha um método de estimulação cerebral, por meio de atividades físicas e sensoriais e, seu trabalho foi influenciado por Pestalozzi e Fröebel cujos estudos e atividades eram direci- onados para a educação de pessoas com deficiência intelectual. Ele categorizou a idiotia, imbe- cilidade e debilidade como quadros diferentes e com etiologias também diferentes, conside- rando, além das causas orgânicas (hereditárias ou não), as ambientais ou psicológicas. O seu trabalho foi considerado decisivo, pois além dos estudos teóricos e do método educacional, dedicou-se ao desenvolvimento de serviços; em 1837, criou a primeira escola para deficientes cognitivos. Também foi o primeiro presidente de uma organização de pesquisa dirigida a estu- dos sobre a deficiência, fundada em 1876, a Associação Americana de Retardo Mental (AAMR), atualmente conhecida como Associação Americana de Deficiência Intelectual e Desenvolvi- mento (GARGHETTI; MEDEIROS; NUERNBERG, 2013, p.108). A partir dessa evolução histórica, e entendendo-se por paradigma o conjunto de ideias, valores e ações que contextualizam as relações sociais, Aranha (2005) considerou o pri- meiro paradigma formal a caracterizar a relação da sociedade com a parcela da população cons- tituída pelas pessoas com deficiência: o Paradigma da Institucionalização, caracterizado pela retirada das pessoas com deficiência de suas comunidades de origem e pela sua manutenção em instituições residenciais segregadas ou escolas especiais, frequentemente situadas em localida- des distantes. Excluídas da sociedade e da família, muitas passavam toda a sua vida dentro de instituições ou hospitais psiquiátricos, resultando em ruptura dos vínculos com perda ou anula- ção de sua identidade, integridade física, social e psicológica. 14 Édouard Séguin (1812-1880) foi assistente do psiquiatra Jean Itard (1774-1838) na tentativa de reeducação do “selvagem de Aveyron”. Quando Itard desistiu, Séguin prosseguiu no trabalho, confiando que não era perda de tempo e que era possível conseguir resultados. Depois disso, continuou cuidando de crianças retar- dadas em geral, e foi diretor do primeiro estabelecimento para débeis mentais do mundo, fundado em Paris, em 1846. Seu trabalho se baseava na crença de que era possível melhorar o desempenho dos anormais através da estimulação intensiva dos sentidos (método fisiológico) (CAMPOS, 2012, p. 317). 37 Entretanto, esse paradigma permaneceu em vigor por mais de 500 anos, sendo, ainda hoje, encontrado em diferentes países, inclusive no Brasil. Somente no século XX, por volta de 1960, é que o paradigma da Institucionalização começou a ser criticamente examinado. Em 1961, Erving Goffman publicou o livro Asylums15 trabalho que se tornou uma obra clássica de análise das características e efeitos da institucionalização para o indivíduo. Sua definição de Instituição Total é amplamente aceita, até os dias atuais: “[...] um lugar de resi- dência e de trabalho onde um grande número de pessoas, excluídas da sociedade mais ampla, por um longo período de tempo, levam juntas uma vida enclausurada e formalmente adminis- trada.” (GOFFMAN, 1961). Com o declínio do paradigma tradicional de institucionalização, ainda na década de 1960, iniciou-se, no mundo ocidental, o movimento pela desinstitucionalização. Baseado na ideologia da normalização criou-se o conceito de integração, que se referia à pretensão de mo- dificar a pessoa com necessidades educacionais especiais de forma que esta pudesse vir a asse- melhar-se, o mais possível, aos demais cidadãos, para então poder ser inserida, integrada, ao convívio em sociedade. A esse modelo de atenção à pessoa com deficiência denominou-se Pa- radigma de Serviços, que se caracterizou pela oferta de serviços, geralmente organizada em três etapas: a primeira, de avaliação por meio de uma equipe de profissionais, com o objetivo de identificar seus déficits e necessidades, procurando modificar a sua natureza e sua vida, de forma a torná-la o mais normal possível; a segunda, de intervenção, na qual a equipe oferecia à pessoa com deficiência atendimento formal e sistematizado, norteado pelos resultados obtidos na fase anterior; e a terceira, de encaminhamento (ou reencaminhamento) da pessoa com defi- ciência para a vida na comunidade. A manifestação educacional desse paradigma efetivou-se, desde o início, nas esco- las especiais, nas entidades assistenciais e nos centros de reabilitação. Contudo, ao contrário do Paradigma da Institucionalização, que se manteve sem contestações por vários séculos, o Para- digma de Serviços, iniciado na década de 1960, logo começou a enfrentar críticas por parte dos cientistas e das próprias pessoas com deficiência, já organizadas em associações. 15 Tradução do Título em português: Manicômios, Prisões e Conventos. Trad. Dante Moreira. Publicado em São Paulo, 1974. Direitos para língua portuguesa, reservados à Editora Perspectiva S.A, São Paulo. 38 Parte dessas críticas se deve às dificuldades encontradas no processo de busca de “normalização” da pessoa com deficiência. “Porém as diferenças existentes não se apagam, mas sim, são administradas na convivência social” (ARANHA, 2005, p. 19). Outro motivo de crítica referia-se à expectativa de que a pessoa com deficiência se assemelhasse ao não deficiente, como se fosse possível ao homem “ser igual,” e como se ser diferente fosse razão para decretar sua menor valia como ser humano e ser social. (ARANHA, 2005 p. 19). Em função de tal debate, a ideia da normalização não se sustentou, e houve a am- pliação da discussão sobre o fato de a pessoa com deficiência ser um cidadão detentor dos mesmos direitos, com capacidade de decisão e de uso das oportunidades disponíveis na socie- dade, independentemente do tipo de deficiência e do grau de comprometimento que apresen- tasse. Pautado nesse modelo de construção gradativa dos sistemas educacionais, que le- vassem em conta a vasta diversidade escolar e a reorganização da sociedade de forma a garantir o acesso de todos os cidadãos, inclusive aqueles que apresentassem necessidades educacionais especiais, que surgiu o terceiro paradigma, denominado Paradigma de Suporte. Este era carac- terizado pelo pressuposto de que a pessoa com deficiência tinha direito à convivência não se- gregada e ao acesso imediato e contínuo aos recursos disponíveis aos demais cidadãos. Foi nessa busca, segundo Aranha (2005), que se desenvolveu o processo de dispo- nibilização de suportes, ou seja, instrumentos que garantiam à pessoa com necessidades educa- cionais especiais o acesso imediato a todo e qualquer recurso da comunidade. Os suportes po- diam ser de diferentes tipos: social, econômico, físico e instrumental e tinham como função favorecer a construção de um processo que se passou a denominar Inclusão Social. Portanto pressupunha intervenções decisivas e afirmativas, em ambos os lados da equação: tanto no pro- cesso de desenvolvimento do sujeito, quanto no processo de ajuste da realidade social. Na verdade, até os dias atuais, o conceito de inclusão envolve o mesmo pressuposto que sustenta o da integração: o direito da pessoa com necessidades educacionais especiais à igualdade de acesso ao espaço comum da vida em sociedade. Diferem, entretanto, no fato de que a integração consiste no investimento de mudanças no indivíduo para normalizá-lo, tendo em vista a sua adaptação à sociedade. Por outro lado, processo de inclusão pressupõe a adapta- ção da sociedade à pessoa com necessidades educacionais especiais. 39 Na realidade, todos podem se adaptar, se tiverem consciência dos suportes que a vida lhes proporciona, que muitas vezes não são percebidos nem postos em prática, mesmo sendo a favor dos indivíduos; no entanto eles existem e é Martuccelli (2007) que alerta sobre o efeito que eles causam na vida das pessoas e como podem auxiliar-lhes. Segundo Danilo Martuccelli (2007), em Gramáticas del Individuo16, existem várias formas de perceber o indivíduo no mundo contemporâneo. O autor utiliza intencionalmente o termo “Gramáticas” no título da obra exatamente para expressar as muitas possibilidades de análise e estabelece cinco dimensões para os fins de seu estudo: Suporte, papel, respeito, iden- tidade e subjetividade. Embora ele as desenvolva separadamente no texto, afirma que elas ocor- rem articuladas e de forma simultânea. Na tentativa de analisar esse contexto histórico e estabelecer algumas conexões en- tre a pessoa com deficiência e as dimensões do indivíduo, destacadas por Martuccelli (2007), podemos inferir que a relação da pessoa com deficiência com os diversos suportes citados por ele é amplamente negligenciada. E por extensão, negligenciadas estão as demais dimensões defendidas pelo referido autor, ou seja, a do papel, do respeito, da identidade e da subjetividade. Justifica-se, portanto esta discussão, tendo em vista que há lacunas no que diz respeito às pro- postas de políticas públicas preconizadas e as práticas reais voltadas para o atendimento educa- cional especializado para esta população. O autor assevera ainda que o indivíduo existe somente na medida em que é susten- tado por um conjunto de suportes como: trabalho, família, círculos sociais, que são materiais ou simbólicos, conscientes ou inconscientes, ativamente estruturados ou passivamente sofridos, mas sempre reais em seus efeitos, e sem os quais o indivíduo praticamente não subsistiria. Ele menciona diversos suportes, e um deles, talvez o que mais se destaque nos tem- pos atuais, é o das redes, que trata dos círculos e vínculos (convívio social) uma vez que as relações do indivíduo estão em torno da sua sociabilidade. Vale lembrar que é da localização de um indivíduo dentro de uma rede, da natureza de sua articulação com ela e sua forma que provém a compreensão última do social, principalmente, considerando que ele (indivíduo) não se efetiva sozinho, mas por meio da articulação entre os suportes. 16 Até o presente momento, não existe tradução, em língua portuguesa, da obra de Danilo Martuccelli; para este trabalho, a tradução foi feita pela autora. 40 Comprovadamente, nos dias atuais, as redes são o eixo da ação do mundo contem- porâneo, e talvez seja o suporte mais utilizado. Para Martuccelli (2007), cada indivíduo se encontra assim no centro e em meio a uma série de redes cuja extensão e natureza permitem compreender uma dimensão importante do universo social; acrescenta que nessas inserções existem figuras contraditórias que podem ser desestabilizantes. Redes de naturezas diferentes que reforçam valores e práticas por vezes incompatíveis com a vida coletiva. Contudo, o suporte considerado mais assertivo para quem tem qualquer deficiência seja ela grave ou menos grave é a família e a escola, pois é por meio destas que o indivíduo constrói sua identidade. Martuccelli (2007) considera que a condição moderna da sociologia está diretamente ligada a dois grandes processos da vida humana que moldam a identidade, isto é, a identidade pode garantir a continuidade dos indivíduos no tempo pela autocompreensão, e pelo processo de vinculação da vida humana com elementos socioculturais. Pois segundo o autor a identidade emerge da complexa articulação entre uma história pessoal e de uma tradição social e cultural. Ela combina as propriedades comuns a um grupo de atores (exemplo: gênero, classe, raça, ideologia, tradições familiares, locais e nacionais) e as propriedades mais indivi- duais como a percepção, significado e atribuição de sentido ao mundo. Pode-se inclusive registrar, pelo que concerne à família, segundo Glat (1966, p. 111) que quanto mais integrada em sua família uma pessoa com deficiência for, mais aquela vai tender a tratá-la de maneira natural ou “normal”, deixando-a, na medida de suas possibilidades, participar e usufruir dos recursos e serviços gerais de sua comunidade; consequentemente mais integrada na vida social esta pessoa será. Este será com certeza, o suporte no qual a pessoa com necessidades educacionais especiais mais se apoiará, pois permitirá que possa considerar-se uma pessoa com uma vida normal, apesar de suas particularidades e especificidades. A escola é o outro suporte que pode transformar a pessoa com necessidades educa- cionais especiais, no entanto vale ressaltar que, apesar das Diretrizes Nacionais da Educação Especial na Educação Básica (BRASIL, 2001) estabelecer como prioridade a formação de: [...] recursos humanos com capacidade de oferecer o atendimento aos educandos es- peciais nas creches, pré-escolas, centro de educação infantil, escolas regulares de en- sino fundamental, médio e superior, bem como em instituições especializadas e outras instituições (BRASIL, 2001). 41 esse quadro não se reverteu desde a publicação desse documento, tampouco o cumprimento efetivo do art. 59, item III, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, vigente, que preconiza professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para aten- dimento educacional especializado, bem como professores do ensino regular comum capacita- dos para a inserção desses educandos nas classes comuns. 2.3 A Trajetória da Educação Especial no Brasil Jannuzzi (2004), ao traçar uma breve síntese sobre os ecos do passado, supõe que, no Brasil-Colônia, século XVI, muitos deficientes não eram percebidos como tal; desempenha- vam atividades pouco complexas, uma vez que a sociedade se organizava com base em uma agricultura rudimentar, trabalhos manuais simples e o letramento ainda não se fazia presente. Ao analisar esse período, a autora concluiu que prevaleceu o descaso do Poder Pú- blico, não apenas em relação à educação das pessoas com deficiência, mas também quanto à educação popular de um modo geral. As poucas instituições existentes, possivelmente, foram criadas para o atendimento dos casos mais graves e de maior visibilidade, e as orientações di- recionadas a essa população eram embasadas nos pressupostos médicos. Nesse contexto da história da educação especial no Brasil, Jannuzzi (2004) consi- derava três concepções do modo de pensar a educação especial no país. A manifestação orgâ- nica da deficiência, que são separadas em duas vertentes que ela denominou como médico- pedagógica e psicopedagógica. A primeira era subordinada ao médico, não só no que se referia ao diagnóstico, mas também no âmbito das práticas escolares; já a segunda, com um enfoque aos princípios psicológicos, sem necessariamente, depender do médico. As que estabeleciam conexão entre a deficiência e o contexto: uma que enfatizava o contexto para o qual a educação era preparada, e a outra em que a educação era redentora, portanto responsável pela transformação contextual. Por fim, a que considerava a complexidade do indivíduo num momento histórico específico e pensava a educação como momento interme- diário, condicionada pelo contexto socioeconômico-político-cultural, mas com autonomia rela- tiva capaz de atuar na transformação desse contexto. 42 O marco histórico da educação especial no Brasil estabeleceu-se no final do século XIX, com a criação de duas instituições públicas para atendimento de pessoas deficientes: O Imperial Instituto dos Meninos Cegos, criado pelo Imperador D. Pedro II, por meio do decreto n◦ 1428, de 12/09/1854, atual Instituto Benjamim Constant – IBC, Rio de Janeiro, sob a direção de Benjamin Constant, e o Instituto dos Surdos-Mudos, também criado no Rio de Janeiro e oficialmente instalado em 26/09/1857, atual Instituto Nacional da Educação de Surdos - INES sob a direção do mestre francês Edouard Huet (JANNUZZI, 2012; MAZZOTTA, 2005). A criação desses dois institutos pode ser considerada um ato isolado no que se refere à preocupação com a educação das pessoas com deficiência, pois naquele momento não havia nenhuma legislação educacional de âmbito geral, principalmente no que se referia à Educação Especial. Em 1874, foi criado o Asilo São João de Deus, na Bahia, em 1933, renomeado Hos- pital Juliano Moreira, o qual deu início à assistência médica aos indivíduos com deficiência intelectual. Em 1887, no Rio de Janeiro, a Escola México para atendimento de pessoas com deficiências físicas e intelectuais (JANNUZZI, 2012; MAZZOTA, 2005). As instituições, gra- dativamente, assumiram uma natureza de asilos, destinadas ao acolhimento de pessoas inválidas. A educação especial brasileira constituiu-se dentro de um contexto de pouca aten- ção à educação pública em geral. Verificamos nos estudos de Kassar (2011 p. 63), que o recen- seamento do ano de 1872 registrava 84% da população brasileira como analfabeta, sendo atri- buída a vários fatores essa restrita atenção em relação à educação: a desvalorização da alfabe- tização e da instrução da massa trabalhadora na organização econômica do Brasil Colônia e Imperial; grande parcela da população vivia na zona rural; a economia baseava-se inicialmente, na exploração de bens naturais e, posteriormente, na produção de monoculturas em grandes latifúndios. Havia pouca atenção à educação também por parte de nossos colonizadores, pois registros de Portugal apontam que, naquele país, no século XIX, grande parte da população não tinha acesso à instrução e era analfabeta. Apesar de a educação ser prevista a “todos os cida- dãos” (na primeira Constituição Brasileira de 1824), a massa de trabalhadores era composta de maioria escrava. Com a República, a preocupação com a instrução tornou-se mais evidente, embora tímida, de modo que a taxa de matrícula da população brasileira, na escolarização, foi crescendo gradativamente nos centros urbanos durante o século XX. 43 A Constituição Republicana de 1891, consolidou na área educacional, a dualidade de sistemas estabelecida pelo Ato Adicional de 183417, em que o poder central se limitou a desenvolver a educação de nível superior e a educação primária e secundária ficaram sob res- ponsabilidade das Províncias, que muito pouco fizeram para fomentar esses níveis de educação, sob a justificativa da falta de recursos (RAFANTE; LOPES, 2013 p. 332). Portanto, a Consti- tuição de 1891 delegou a educação secundária e superior para a União e a educação primária ficou a cargo dos Estados. De acordo com Mendes (2010), os médicos foram os primeiros a se interessarem pelo estudo das crianças com prejuízos mais graves e criaram instituições para esse atendimento junto a sanatórios psiquiátricos. A medicina evoluiu, produziu e sistematizou novos conhecimentos; outras áreas do conhecimento também se delinearam, em busca de fundamentação acerca das deficiências, de sua etiologia, características e tratamento. Em 1900, durante o “4◦ Congresso Brasileiro de Me- dicina e Cirurgia”, no Rio de Janeiro, Carlos Eiras apresentou sua monografia intitulada: “A Educação e Tratamento Médico-Pedagógico dos Idiotas18”, que versava sobre a necessidade pedagógica dos deficientes intelectuais. Ainda nos mostra Mendes (2010) que esse interesse dos médicos pelas pessoas com deficiência teria maior repercussão após a criação dos serviços de higiene mental e saúde pú- blica, que em alguns estados deu origem ao serviço de Inspeção Médico-Escolar e à preocupa- ção com a identificação e educação dos estados anormais de inteligência. Mazzotta (2005) registra as publicações dos primeiros trabalhos datados de 1915, sobre a educação de pessoas com deficiência, como: A Educação da Infância Anormal da Inte- ligência no Brasil, de Clemente Quaglio19; Tratamento e Educação das Crianças Anormais da inteligência e A Educação da Infância Anormal e das Crianças Mentalmente Atrasadas na 17 Medida legislativa tomada durante a Regência Trina Permanente, contemplando os interesses dos grupos liberais. O Ato Adicional alterava a Constituição de 1824 e foi uma tentativa de conter os conflitos entre liberais e conservadores nas disputas pelo poder político central. 18 Termo utilizado à época para designar pessoas com deficiência cognitiva. 19 Ver nota de rodapé n◦ (7) p. 23. 44 América Latina, de Basílio de Magalhães20; e, na década de vinte, foi lançado o livro intitulado Infância Retardatária, de Norberto de Souza Pinto21. No final dos anos vinte, Minas Gerais, ao lado de São Paulo e Rio de Janeiro, era um dos estados mais importantes da federação brasileira, em termos econômicos e políticos. Em 1924, sob a liderança de um grupo de educadores progressistas, comprometidos com a ex- pansão e modernização do sistema de educação no país, foi fundada a Associação Brasileira de Educação. Muitos desses educadores foram responsáveis pelas reformas do sistema educacio- nal, ocorridas nos diversos estados brasileiros, como: Sampaio Dória22, São Paulo, 1920; Lou- renço Filho23, Ceará, em 1922; Carneiro Leão24, Rio de Janeiro (então Distrito Federal) em 20 Basílio de Magalhães – Professor da Academia de Altos Estudos do Rio de Janeiro; catedrático do Ginásio do Estado de São Paulo, em Campinas. Docente da Escola Normal do Distrito Federal; da Academia Paulista de Letras, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas; do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro; da Sociedade de Geografia de Lisboa e da International Con- federation Prohibition de Londres (IMPRENSA NACIONAL, RJ, 1917). 21Norberto de Souza Pinto – natural de Campinas, São Paulo, nasceu em 6 de junho de 1895, filho de Emydio de Souza Pinto e Angélica do Amaral Pinto. Foi diretor-fundador e professor da primeira Escola para a In- fância Retardatária, no Estado de São Paulo (iniciativa particular – 1917). Professor do Liceu Salesiano, Colégio Ateneu Paulista e Escola de Comércio “Bento Quirino”. Ortofreniata e organizador do ensino técnico para crianças anormais no Hospital de Juqueri, 1929 (cargo que ocupou a convite do Diretor do Hospital, Dr. A. Carlos Pacheco e Silva). Foi o primeiro professor especializado em ortofrenia nomeado por decreto-lei n◦ 2.393, de 26 de dezembro de 1929 e assinado pelo Presidente do Estado, para a 1ª classe diferencial para débeis mentais, anexa à Inspetoria Médico Escolar, no Largo do Arouche, em São Paulo, sob assistência médica de Dr. Durval Marcondes. Assistente técnico do Instituto Médico Pedagógico sob a direção dos Drs. Joaquim Penido e Nilton Campos, em São Paulo em 1930. Técnico-pedagógico da 1ª Classe diferencial para crianças retardadas, no Grupo Escolar do Belenzinho, sob a direção administrativa do Professor Bonilha e da assistência médica de Dr. Paiva Ramalho, em 1930. Professor de Pedagogia Experimental e de Psicologia Geral e Educacional do Instituto de Educação Carlos Gomes em Campinas (PINTO, N.S.1954, p. 6). 22Antônio Sampaio Dória (1883-1964) natural de Alagoas, político, jurista, catedrático de Psicologia, Peda- gogia e Educação Cívica da Escola Normal Secundária de São Paulo. Destacou-se por suas concepções de uma pedagogia social, voltada para o desenvolvimento político e cultural da nação brasileira. Nomeado dire- tor-geral de Instrução Pública de São Paulo, em 1920, coordenou reforma progressista da educação paulista, iniciando o ciclo de modernização da educação que se disseminou por vários estados (CAMPOS, 2012, p. 193). 23 Manuel Bergstrom Lourenço Filho (1897-1970), natural de Porto Ferreira, São Paulo, formou-se na Escola Normal de São Paulo e na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco(1929). Realizou reforma educa- cional no Ceará, em 1922-1923, a convite do governo local, e foi catedrático de psicologia na Escola Normal de São Paulo, além de diretor do Laboratório de Psicologia nela implantado anteriormente pelo colega e amigo Sampaio Dória. Em 1930, assumiu a Diretoria Geral de Ensino do Estado de São Paulo, tendo criado o Instituo Pedagógico e a cadeira de Psicologia da Educação nesta escola de nível superior. Signatário do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, foi também catedrático de psicologia na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, e primeiro diretor do INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos), em 1938. Autor de numerosas publicações em psicologia e um dos principais artífices desta profissão no Brasil . Foi grande admirador da obra de Antipoff (CAMPOS, 2001). 24 Antônio de Arruda Carneiro Leão (1887-1966), natural de Pernambuco, educador, poeta, jornalista, advo- gado, professor de Sociologia, Educação Comparada e Administração Escolar. Foi diretor -geral de Instrução Pública no Rio de Janeiro (então Distrito Federal) entre 1922 e 1926, quando realizou reforma de ensino de acordo com princípios modernizantes. Em 1928, realizou reforma similar em Pernambuco. Suas obras em educação tiveram intensa repercussão nacional e internacional. Tornou-se membro da Academia Brasileira 45 1920-1926; Francisco Campos25 e Mário Casasanta26, Minas Gerais em 1927; e Carneiro Leão, Pernambuco, em 1928 (CAMPOS, Regina H. F, 2012 p. 193). Dentre os partidários da escola nova que promoveram reformas estaduais, destaca-se Francisco Campos, em Minas Gerais, que buscou referência do Instituto Jean Jacques Rousseau, na Suíça, como solução para as questões educacionais de seu estado. Entre os profissionais vindos da Europa estava Helena Antipoff (1892-1974), que se radicou no Brasil (1929), e influenciou o panorama nacional da educação especial. Ela se tornou uma das principais lideranças do movimento da Escola Nova no Brasil devido ao seu trabalho na direção do Laboratório de Psicologia, vinculado à Escola de Aperfei- çoamento de Professores de Belo Horizonte (1929), criada, por força da reforma do ensino conhecida como Reforma Francisco Campos/Mário Casassanta (1927-1928), (CAMPOS, 2012). Vale ressaltar que essa escola de aperfeiçoamento foi uma das primeiras experiên- cias, feitas no Brasil, de implantação de instituição de ensino superior na área da Educação ─ inclusive à Especial ─ funcionou por duas décadas e tornou-se instituição modelo na formação de educadores no país. Em 1948, ainda por iniciativa de Helena Antipoff, foi fundada, no então Distrito Federal, a Sociedade Pestalozzi do Rio de Janeiro, com a denominação de Sociedade Pestalozzi do Brasil-SPB, assentada nas bases de suas propostas psicopedagógicas (MAZZOTTA, 2005, p.43). Em 1954, participou ativamente do movimento que culminou na implantação da Associ- ação de Pais e Amigos dos Excepcionais-APAE, no Rio de Janeiro. Rafante & Lopes (2013, p. 332) analisaram o percurso histórico da educação dos “excepcionais”, principalmente, a partir da década de 1930, com a atuação de Helena Antipoff, primeiro em Minas Gerais, depois diretamente no Rio de Janeiro e indiretamente em diferentes de Letras em 1945. Era contrário à miscigenação racial no Brasil, baseado em princípios eugênicos (CAM- POS, 2012 p.193). 25 Francisco Luís da Silva Campos (1891-1967), natural de Minas Gerais, jurista, político, constitucionalista. Realizou reforma do ensino em Minas Gerais de acordo com princípios escolanovistas. Valorizava especial- mente a psicologia como base científica para a pedagogia e foi responsável pela criação da Escola de Aper- feiçoamento de Professores de Belo Horizonte, onde Helena Antipoff trabalhou durante os anos 1930. (CAM- POS, 2012). 26 Mário Casassanta (1898-1963), professor, escritor, advogado e político mineiro. Foi inspetor-geral de Ins- trução Pública do estado de Minas Gerais entre 1920 e 1931, período em que colaborou com Francisco Cam- pos na realização da reforma da educação. Foi titular de direito constitucional na Faculdade de Minas Gerais duas vezes reitor da mesma universidade (1930-1931 e 1941-1944). (CAMPOS, 2012). 46 partes do país, que culminou, na década de 1950, com os Seminários sobre Infância Excepcional. As autoras inferiram que esse conjunto de acontecimentos contribuiu para que a educação es- pecial passasse a compor oficialmente à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A educação dos excepcionais, que vinha se constituindo independentemente dos poderes públicos e de legislação específica, por meio de instituições não governamentais, foi incorporada na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, n◦ 4024/1961 estabelecida nos seguintes termos: Art. 88. A educação de excepcionais deve, no que fôr possível, enquadrar-se no sis- tema geral de educação, a fim de integrá-los na comunidade. Art. 89. Tôda iniciativa privada considerada eficiente pelos Conselhos Estaduais de Educação, e relativa à educação de excepcionais, receberá dos poderes públicos trata- mento especial mediante bôlsas de estudo, empréstimos e subvenções. (BRASIL, 1961)27. A partir da década de 1960, o Brasil foi palco do surgimento de centros de reabili- tação para todos os tipos de deficiência, no Paradigma de Serviços, voltados para os objetivos de integração da pessoa com deficiência na sociedade e nas suas diversas instâncias. A Lei nº 5.692/71, que alterou a LDBEN (4.024 de 1961), ao definir tratamento especial para os alunos com deficiência física, mental e os que se encontravam em atraso con- siderável quanto à idade regular de matrícula, além dos superdotados, não promovia a organi- zação de um sistema de ensino capaz de atender às necessidades educacionais especiais dessa população e acabou por reforçar o encaminhamento dos alunos para as classes e escolas espe- ciais. Em 1973, o MEC criou o Centro Nacional de Educação Especial – CENESP, responsável pela gestão da educação especial no Brasil, que, sob a égide integracionista, impulsionou ações educacionais voltadas às pessoas com deficiência e às pessoas com su- perdotação, mas ainda configuradas por campanhas assistenciais e iniciativas isoladas do Estado. 27 Nessa citação manteve-se a grafia encontrada no documento pesquisado. 47 Naquele período, não se efetivava ainda uma política pública de acesso universal à educação e permaneceu a de “políticas especiais” para tratar da educação de pessoas com defi- ciência. No que se referia aos superdotados, apesar do acesso ao ensino regular, não foi organi- zado um atendimento especializado que considerasse as suas singularidades de aprendizagem. A Constituição Federal de 1988 teve como um dos seus objetivos fundamentais a promoção do bem comum, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art.3º, inciso IV). Define, no artigo 205, a educação como um direito de todos, garantindo o pleno desenvolvimento da pessoa, o exercício da cidadania e a qualifi- cação para o trabalho. No seu artigo 206, inciso I, estabelece a “igualdade de condições de acesso e permanência na escola” como um dos princípios para o ensino e garante como dever do Estado, a oferta do atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regu- lar de ensino (art. 208). Embora o Ministério da Educação defendesse a inclusão como política social e edu- cacional, existia uma situação contraditória, pois, desde a década de 90, sempre manteve uma Secretaria de Educação Especial, reafirmando, a permanência dos serviços educacionais relaci- onados a ela. Isso é antagônico à política da inclusão uma vez que a própria legislação argu- menta que a inclusão escolar seria uma política que perpassaria todas as modalidades de aten- dimento educacional existentes: educação indígena, educação de jovens e adultos, educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, ensino superior, e até mesmo a educação especial. Portanto não haveria necessidade de uma secretaria separada somente para a educação especial já que os outros segmentos também compõem a educação inclusiva. A atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394/96, no artigo 59, preconiza que os sistemas de ensino devem assegurar aos alunos currículo, métodos, recur- sos e organização específicos para atender às suas necessidades; assegura atendimento educa- cional especializado em virtude de suas deficiências; e assegura a aceleração de estudos aos superdotados para conclusão do programa escolar. Também define, dentre as normas para a organização da educação básica, a “possibilidade de avanço nos cursos e nas séries mediante verificação do aprendizado” (art. 24, inciso V) e [...] oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames (art. 37). 48 Mendes (2006) se coloca crítica quanto às propostas oficiais dos últimos anos, par- ticularmente às tentativas governamentais de impor uma única concepção de política de inclu- são quando não há consenso entre os estudiosos da área. Isso porque existe uma corrente que defende a inclusão total, na qual a escola comum deve acolher toda a diversidade, independen- temente das limitações apresentadas pelos alunos, ou seja, todas as necessidades destes podem ser resolvidas por ela; subentende-se, portanto, que esteja apta a oferecer um trabalho multipro- fissional, que envolve os serviços das áreas de Saúde, Trabalho e Assistência Social. Por outro lado, há os defensores da inclusão escolar parcial, que consiste também em atender a todos, nas suas especificidades, porém os casos especiais e que requeiram atenção individualizada, nas atividades da vida autônoma e social, recursos alternativos, ajudas e apoios intensos e contínuos, bem como adaptações curriculares tão significativas que a escola comum não tenha conseguido prover, devem ser atendidos em caráter extraordinário, sempre que ne- cessário e de maneira articulada, por equipe multiprofissional, por meio de intervenções apro- priadas. Desse modo, a análise do processo histórico aponta que, atualmente, ainda se en- contram resquícios da antiguidade referentes à exclusão social. No entanto, é importante dizer que a inclusão, produto da mudança de paradigmas sociais (institucionalização, de serviços e de suporte), representa um avanço no tratamento dispensado ao deficiente e consiste em um grande desafio para a educação, pois implica uma reestruturação da organização escolar atual que vai muito além da adaptação física ou mesmo curricular; necessita-se, portanto, que se modifique a razão de existir da instituição escolar, criada inicialmente para legitimar a educação de uma minoria, que hoje possui a tarefa de acolher em seus bancos todo e qualquer indivíduo, independentemente de suas características pessoais. De um modo geral, em se tratando de “educação inclusiva”, há uma tendência de tomá-la como sinônimo da “educação especial”. Consideramos que a proposta da educação inclusiva é mais ampla do que a da educação especial e a engloba, na medida em que propõe a construção de um modelo de escola que seja capaz de acolher e educar a todas as pessoas, independentemente de qualquer característica pessoal ou social que elas apresentem. Portanto, a inclusão postula uma reestruturação do sistema educacional, isto é, uma mudança estrutural no ensino regular comum, com o objetivo de fazer com que a escola se torne 49 inclusiva, sendo assim definida, pelas Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Edu- cação Básica: O conceito de escola inclusiva implica uma nova postura da escola comum, que pro- põe no projeto pedagógico ─ no currículo, na metodologia de ensino, na avaliação e na atitude dos educadores ─ ações que favoreçam a interação social e sua opção por práticas heterogêneas. A escola capacita seus professores, prepara-se, organiza-se e adapta-se para oferecer educação de qualidade para todos, inclusive para os educandos que apresentam necessidades especiais. Inclusão, portanto, não significa simples- mente matricular todos os educandos com necessidades educacionais especiais na classe comum, ignorando suas necessidades específicas, mas significa dar ao profes- sor e à escola o suporte necessário a sua ação pedagógica. (BRASIL, 2001, p. 40). O pensamento de que a educação inclusiva possa prescindir da Educação Especial consiste em um equívoco, pois são vários os estudos que mostram a relevância e a necessidade do trabalho colaborativo entre ambas (MENDES, 2006; PLETSCH, 2009). O grande desafio é que a inclusão ainda é vista como uma responsabilidade “compartimentalizada” da Educação Especial, ou seja, como se esta fosse a única a responsabilizar-se pela inclusão, e não como uma construção coletiva do sistema de ensino como um todo, de maneira interdisciplinar, que deve- ria ser adotada para efetivar tal proposta. Além disso, embora haja equívocos em relação aos conceitos, a diferença entre os termos integração e inclusão está no fato de que, no primeiro, procura-se investir na adaptação e desenvolvimento do sujeito para a vida na comunidade, quase um processo de normalização. Acelera-se, dessa forma, a exclusão, pois as diferenças existem não são respeitadas; uma vez que isso acontece, o indivíduo fica à margem, pois na tentativa de se tornar normal, diante da impossibilidade, há a desistência e, assim aumenta o índice de evasão escolar. Além de provocar sentimento de frustração e de menos valia, diante de uma sociedade considerada normal. Isso é comum não somente com as pessoas com deficiência, mas também com aquelas que apresentam dificuldades de aprendizagem ou desadaptação escolar. 50 3 EDUCAÇÃO DOS EXCEPCIONAIS E A INFLUÊNCIA DE HELENA ANTIPOFF: UMA REVISÃO DE LITERATURA “Jamais a educação se tornará a cura que dela espera a sociedade e os governos para dimi- nuir, num futuro mais ou menos próximo, o rebotalho humano miserável, que enche os hospi- tais, os manicômios, as prisões, se ela não abandonar o mais depressa possível seu diletan- tismo superficial e não se transformar numa arte precisa aplicada ao melhoramento da espé- cie humana e munida dos meios que lhe forja a ciência, que nunca se cansa de as aperfei- çoar.” (ANTIPOFF, H. 1992a, p.49). 3.1 A Avaliação Diagnóstica, a Identificação das Dificuldades Escolares e as Classes Es- peciais: o que as pesquisas revelam? Neste capítulo, apresenta-se um levantamento da produção científica na área de Educação, especificamente em Educação Especial, realizado em periódicos e em bancos de teses e dissertações, no período compreendido entre 2008 a 2015. Nosso propósito é trazer à baila os resultados de trabalhos mais recentes proporcionando ao leitor um Estado do Conheci- mento sobre o tema, além de favorecer tanto a leitura da realidade do que está sendo discutido na comunidade acadêmica quanto ao delineamento de possibilidades de organização do estudo. É relevante ressaltar que, no entendimento de Morosini (2014, p. 155), Estado do Conhecimento consiste na identificação, registro e categorização que levem à reflexão e síntese sobre a produção científica de uma determinada área, em um determinado espaço de tempo, congregando periódicos, teses, dissertações e livros sobre uma temática específica. Decidimos por estender a abrangência do período de busca para ampliar o corpus de análise da pesquisa, uma vez que as produções científicas encontradas, relativas aos últimos cinco anos, caracterizavam-se por uma abordagem muito ampla, e por si só não favoreciam os aspectos inerentes ao nosso objeto de estudo. 3.1.1 Revisão Bibliográfica em Periódicos A pesquisa foi realizada a partir dos descritores: avaliação diagnóstica, dificulda- des escolares, classes especiais e Helena Antipoff ligados pelo conectivo “ou” nos campos “Tí- tulo”, “Resumo”, “Assunto” e “Palavras-chave”, nos periódicos nacionais, da área de Psicolo- gia e ou Educação, classificados como A1 na área de Educação, no sistema Qualis-CAPES. Com essa configuração de busca, encontramos um total de 40 trabalhos, sendo 33 na Revista 51 Brasileira de Educação Especial, 04 na Revista Educação e Pesquisa, sendo que na Revista Brasileira de História da Educação, na Revista Educação & Realidade e em Educar em Revista consta um trabalho em cada uma respectivamente. Durante essa realização de busca em sites especializados, encontramos, no portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia, o relato intitulado Diagnóstico e Caracterização de Indivíduos com Necessidades Educacionais Especiais: produção científica nacional entre 1981 e 199828, de Mendes (Universidade Federal de São Carlos), Nunes (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e Ferreira (Universidade Metodista de Piracicaba). O referido trabalho, embora não esteja em conformidade com o período temporal estabelecido, foi-nos de grande relevância para as nossas conclusões de base. Trata-se da apresentação de um total de 356 estudos anali- sados sobre indivíduos com necessidades educacionais especiais, 55 dissertações e teses sobre os temas “identificação”, “diagnóstico” e “caracterização” produzidas entre 1981 e 1998 por alunos de 21 cursos de pós-graduação em Educação situados em diversos estados do país. Os resultados indicaram que predominaram estudos categoriais, sendo a deficiência mental a con- dição mais estudada, que, embora relevante, não é o objeto de estudos desta pesquisa. A questão da identificação e diagnóstico para o ingresso no ensino especial foi a mais frequente, seguida pela descrição e caracterização das especificidades da pessoa com de- ficiência, basicamente para caracterizar seu desempenho e desenvolvimento. Os termos “iden- tificação”, “caracterização” e “diagnóstico” estão relacionados aos aspectos essenciais de deli- mitação do próprio objeto de estudo das consideradas necessidades educacionais especiais. A importância desse estudo está justificada por esses pesquisadores, considerando-se a necessi- dade de um melhor equacionamento do planejamento dos serviços educacionais em nosso país, de aperfeiçoar o processo de diagnóstico e colocação seletiva dos alunos tidos como especiais nas modalidades educacionais e de aprimoramento da formação dos profissionais envolvidos. Além de apontar lacunas do conhecimento produzido sobre esse tema e identificar outros e ou áreas prioritárias de investigação. 28 Trabalho apresentado no Seminário: A produção discente da Pós-Graduação em Educação e áreas afins: análise crítica de teses e dissertações sobre Educação Especial. XXX Reunião Anual de Psicologia da Soci- edade Brasileira de Psicologia. (Brasília, DF, 2002). 52 Tabela1 Artigos selecionados a partir dos descritores: avaliação diagnóstica, dificuldades es- colares, classes especiais e Helena Antipoff, nos periódicos da área de Psicologia e ou Educação no período de 2008 a 2015. Periódicos 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 Total Revista Brasileira de Ed. Espe- cial 02 01 10 06 07 01 04 02 33 Revista Educação e Pesquisa 04 04 Educar em Revista 01 01 Revista Bras. Hist. da Educação 01 01 Educação & Realidade 01 01 Total 02 01 10 07 07 05 06 02 40 Fonte: Portal de Periódicos CAPES. A segunda etapa deste levantamento consistiu em selecionar, pela leitura dos resu- mos dos 40 artigos, aqueles que, por sua natureza, mostravam-se compatíveis com as questões relacionadas ao objeto de estudo em tese, ou seja, a avaliação diagnóstica das dificuldades es- colares na perspectiva de Helena Antipoff. Desse modo, passaram a ser descritos na seção sub- sequente. Iniciamos com o trabalho de Kassar (2011), intitulado Educação Especial na Pers- pectiva da Educação Inclusiva: desafios da implantação de uma política nacional, que propôs analisar os desafios da oferta de uma educação especial dentro da atual política de educação inclusiva do Governo Federal. Com essa finalidade, apresentou um breve histórico a respeito das diretrizes educacionais baseadas na separação de alunos, que sustentaram a educação espe- cial no Brasil desde sua implantação até à adoção de uma política de matrículas para todas as crianças com ou sem deficiência nas escolas públicas. Segundo a autora, a preocupação em identificar as crianças normais e anormais foi difundida na ciência médico-pedagógica de vá- rios países, resultando na organização de classes escolares homogêneas. Sob a supervisão de organismos públicos de inspeção sanitária, a organização das classes especiais públicas e o encaminhamento para instituições especializadas ocorreram a partir da justificativa científica de separação dos alunos normais e anormais. O Brasil passava por um processo de transformação econômica com a instalação de seu parque industrial e o início de crescimento das cidades. A população que vivia anteriormente no campo buscou afluir 53 para os espaços urbanos formados naquele momento; a consequência disso foi o aumento pro- gressivo do número de matrículas nas escolas brasileiras. A frequência da população pobre nas escolas públicas já se fazia presente e a legislação da época demonstrava preocupação com o seu modo de ser. De acordo com Kassar (2011), a inquietação científica de identificação e tratamento dos anormais também estava presente na formação de Helena Antipoff (1892-1974), que a par- tir dos anos 30, marcou a educação especial brasileira. De origem russa, chegou ao Brasil, a convite do governo de Minas Gerais e aplicou os conhecimentos adquiridos na Universidade de Genebra, na Suíça, com o pedagogo Edouard Claparède. A autora fez referência à criação do Instituto Pestalozzi de Minas Gerais, em 1935, por Helena Antipoff, assim como à influência desse Instituto nas ações ligadas à educação em todo o país. Desse modo, descreveu os critérios adotados por ela tanto para a organização de classes homogêneas das escolas públicas quanto para a formação das classes especiais: a individualização do ensino, por meio de agrupamento dos alunos, tendo em vista o ritmo de desenvolvimento mental; a seleção das crianças e sua concentração em classes homogêneas de valor forte, médio e fraco, organizadas em escalas de idades mentais; os testes de inteligência global, de aplicação individual e coletiva, destinados às crianças em idade escolar e o critério do Quociente Intelectual superior ao simples critério da idade mental para a formação de classes homogêneas29. Borges (2015) também nos oferece uma base de sustentação para o nosso objeto de pesquisa em seu artigo ─ As Classes Especiais e Helena Antipoff: Uma Contribuição à História da Educação Especial no Brasil, no qual buscou verificar como as classes especiais foram sis- tematizadas no contexto brasileiro, a partir das orientações de Helena Antipoff. Segundo a autora, a homogeneização das classes escolares de Belo Horizonte, já estava prevista no Regulamento do Ensino Primário de Minas Gerais, de 1927. Mas sua im- plantação só ocorreu com a chegada da psicóloga Helena Antipoff àquela cidade, em 1929. A autora nos informa que ao proceder à referida homogeneização das classes dos grupos escolares, estabeleceram-se as classes especiais sob modelo existente na Europa desde o final do século XIX. Essa modalidade de ensino pareceu adequada, na época, por adotar um procedimento pedagógico de adaptação dos métodos às aptidões da criança e homogeneizar as classes. As conclusões desse trabalho indicaram que, em Genebra, Claparède já havia trabalhado com esse 29 Boletim n◦ 14, publicação da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, 1934. Apud Antipoff, 1974, p.56 (KASSAR, 2011). 54 modelo de ensino, por isso era o que parecia ser o mais apropriado. O acesso à educação era restrito mesmo com a obrigatoriedade do ensino. A matrícula e a permanência das crianças anormais à escola estavam sempre ameaçadas. Antipoff acreditava na modalidade de classe especial com salas de número reduzido de alunos, professores capacitados, aulas diferenciadas e ensino individualizado. Sua crença era de que o ensino diferenciado poderia promover o desenvolvimento das crianças anormais. Sendo assim a classificação das crianças deveria servir para homogeneizar as classes e promo- ver o ensino individualizado. A entrada da criança na classe especial se dava por meio da rea- lização de testes. No entanto ela negava o caráter absoluto de seu uso, pois seus resultados não eram uma sentença na vida da criança. Helena Antipoff ampliou o conceito de inteligência ─ considerava que crianças pro- vindas de um meio desfavorável, sem acesso aos bens culturais e sem os estímulos apresenta- riam déficits nos testes, embora tivessem a inteligência natural, ou seja, não apresentavam de- ficiência mental; simplesmente não tinham tido contato com os códigos, os instrumentos que lhes permitissem apresentar um bom desempenho, seja nos testes, seja no ambiente escolar, que houvesse códigos próprios de conduta. As classes especiais foram criadas a partir da possibilidade de oferta a um ensino individualizado, portanto deveriam acolher crianças com déficits verdadeiros. O trabalho pro- posto deveria partir do ideário da escola nova. A metodologia da escola ativa priorizava a “edu- cação sob medida”30, procurava estimular a criança, partindo das funções mentais básicas. Esse ensino pretendia que a criança avançasse, mas respeitando os seus limites. Outro aspecto rele- vante citado por Borges, é que antes da sistematização das classes especiais, as crianças consi- deradas anormais eram internadas em asilos psiquiátricos ou mantidas enclausuradas em casa. A autora assevera que as classes especiais mineiras foram uma proposta inovadora na época, pois além de propiciarem o atendimento às diferenças individuais por meio de metodologia especializada, acreditavam na educação de crianças consideradas irrecuperáveis. Da mesma forma, as autoras Campos; Gouvea & Guimarães (2014) apresentam, por meio do trabalho ─ A recepção da obra de Binet e dos testes psicométricos no Brasil: 30 “Uma escola adaptada à mentalidade de cada um, uma escola que se acomode tão perfeitamente aos espí- ritos, quanto uma roupa ou um calçado sob medida o fazem para o corpo ou para o pé”. (CLAPARÈDE, 1920/1959). 55 contrafaces de uma história, uma análise sobre a recepção da obra de Alfred Binet e a introdu- ção dos testes de inteligência no Brasil, nas primeiras décadas do século XX. Evidenciaram autores que, no diálogo com a obra do psicólogo francês, produziram críticas à interpretação das medidas da inteligência no sistema educacional, ou enfrentaram resistências para o uso dos testes nas escolas. Três deles foram destacados pelas pesquisadoras: Manoel Bomfim, Maria Lacerda de Moura e Helena Antipoff. Manuel Bomfim, diretor do Pedagogium/ RJ, responsável pela introdução da obra de Binet no Brasil, em 1906. Teria ele demonstrado em sua trajetória, progressivo distancia- mento crítico do uso dos testes e da perspectiva desenvolvida por Binet. Publicou, em 1915, o livro didático em que organizava o conhecimento psicológico contemporâneo, de forma a sus- tentar o ensino da disciplina de Psicologia na Escola Normal31. Em 1923, publicou ainda, o livro autoral, no qual consideraria o fenômeno psicológico como eminentemente histórico-so- cial, constituído nas relações entre consciências, mediatizadas pela linguagem, compreendida como produto e meio da socialização (CAMPOS; GOUVEA; GUIMARÃES, 2014 p. 226). Maria Lacerda de Moura, que vivenciou, em Minas Gerais, a primeira tentativa (frustrada) de uso dos testes em ambiente escolar, em 1919, quando professora da Escola Nor- mal de Barbacena e posteriormente líder feminista e anarquista. Por fim, a atuação da psicóloga russa Helena Antipoff, na Escola de Aperfeiçoa- mento de Professores de Belo Horizonte, nos anos de 1930, na formação do conceito de “inte- ligência civilizada”, a partir da adaptação e aplicação dos testes psicométricos em escolares e da observação dos efeitos do contexto sociocultural dos sujeitos nos resultados obtidos. Nesse contexto, as autoras buscaram, por um lado, conferir visibilidade às tensões no uso dos testes nas escolas brasileiras por parte de gestores, educadores e médicos, questão em que se fez presente especialmente com Maria Lacerda de Moura. Por outro, analisar como, na reelaboração e utilização dos testes, Manoel Bomfim e Helena Antipoff ressignificaram os instrumentos de medida no diálogo com a realidade social e escolar do país. 31 Contendo 400 páginas, a obra apresentava uma visão geral de temas e conceitos do campo psicológico e estava dividida em 5 partes: condições da vida psíquica (sistema nervoso e funções sensoriais); inteligência (percepção, conhecimento, ideias, imaginação, e pensamento); afetos, volição e síntese psíquica (consciência, caráter e personalidade). Na segunda edição, foram incluídos mais dois capítulos sobre crianças anormais e análise da fadiga (BONFIM, 1917). 56 A partir dos artigos estudados, foi possível identificar que a história da educação especial no Brasil tem assinalado períodos mais ou menos distintos uns dos outros que deter- minaram mudanças na concepção de deficiência. Começaram a surgir ideias relativas à sua natureza orgânica e iniciaram-se tentativas de compreender a sua natureza e de tratá-la con- forme as possibilidades da ciência. Ao analisar esse processo histórico, percebemos que a soci- edade, de tempos em tempos, muda seus valores, percepções e práticas, que resultam em outras posturas ideológicas com relação às pessoas com deficiência. 3.1.2 Revisão Bibliográfica nos Bancos de Teses e Dissertações Dando continuidade ao trabalho proposto, partimos para a pesquisa dos resumos indexados no banco de teses e dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES e no banco de dados da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações – BDTD, empregando-se os mesmos descritores da pesquisa feita nos periódicos e utilizando o conectivo “ou” nos campos “Título”, “Resumo” e “Assunto”. No levantamento do banco de teses e dissertações da CAPES, retornaram 113 tra- balhos. A partir da leitura dos títulos, selecionamos 09 teses e 13 dissertações da área de Edu- cação Especial e ou Educação Inclusiva que foram categorizadas nos Quadros 1 e 2. Quadro 1 Teses selecionadas a partir dos descritores: avaliação diagnóstica, dificuldades esco- lares, classes especiais e Helena Antipoff, no banco de teses e dissertações da CAPES. (Continua) N◦/ Teses Título Instituição Autor (a) Ano 0l Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Barbacena e o Atendimento às Pessoas com Síndrome de Down (1962-1976): diálogos com Pestalozzianos. UFMG Adriana Cláudia Dru- mond 2015 02 Inclusão Escolar da Criança Pequena com Neces- sidades Especiais: concepções de mães, de educa- doras da Educação Infantil e de Professoras do Atendimento Educacional Especializado. UFPR Nelly Narcizo de Souza 2013 03 Salas de Recursos Multifuncionais e Plano de Ações Articuladas em Campo Grande – MS: aná- lise dos indicadores. UFMS Nesdete Mesquita Corrêa 2012 04 Gestão Maria Angélica de Castro: apropriação das Ideias sobre a Escola Nova no Território Federal do Acre (1946-1951) UFMG Cleyde Oliveira de Castro 2011 Fonte: Banco de Teses & Dissertações da CAPES. 57 Quadro 1 Teses selecionadas a partir dos descritores: avaliação diagnóstica, dificuldades esco- lares, classes especiais e Helena Antipoff, no banco de teses e dissertações da CAPES. (Conclusão) N◦/ Teses Título Instituição Autor(a) Ano 05 Inclusão Escolar do Aluno com Deficiência Inte- lectual no Estado de São Paulo: identificação e ca- racterização. UFSCAR Aline A. Veltrone 2011 06 Helena Antipoff, as Sociedades Pestalozzi e a Edu- cação Especial no Brasil. UFSCAR Heulalia Charalo Ra- fante 2011 07 A dialética da Inclusão em Educação: uma possi- bilidade em um cenário de contradições. UERJ Bianca Fátima Cor- deiro dos Santos Fo- gli 2010 08 Educação Especial em Sergipe do Século XIX ao início do Século XX: cuidar e educar para civilizar. UFBA Rita de Cácia Santos Souza 2009 09 Repensando a inclusão escolar de pessoas com deficiência mental: diretrizes políticas, currículo e práticas pedagógicas. UERJ Márcia Denise Pletsch 2009 Fonte: Banco de Teses & Dissertações da CAPES. Quadro 2 Dissertações selecionadas a partir dos mesmos descritores no banco de teses e disser- tações da CAPES. (Continua) N◦/ Disser- tações Título Instituição Autor(a) Ano 01 A Ortopedia Mental: contribuições de Helena An- tipoff para a Educação Especial. UFMG Laênia Martins Peter- sen 2016 02 Avaliação, Diagnóstico e Encaminhamento de Crianças com Necessidades Educacionais Especi- ais no Sistema Municipal de Ensino de Londrina. UF de LON- DRINA Thaiza de Carvalho Corrêa 2013 03 A Organização do Ensino para o Aluno com Defi- ciência Intelectual em Diferentes Espaços Educa- cionais. CUML Ribeirão Preto Renata Andrea Fer- nandes Fantacini 2013 04 A Mudança da APAE de Maranguape-CE Frente ao Processo de Inclusão Escolar dos Alunos Pú- blico Alvo da Educação Especial. UFC Francélio Ângelo de Oliveira 2012 05 Políticas Públicas Nacionais em Educação entre 1930-1945: a Inspetoria Municipal de Educação de Rio Grande – RS UNISINOS Ester Rosa Ribeiro 2012 06 Organização e Funcionamento das Salas de Re- cursos Multifuncionais em um Município Pau- lista. UFSCAR Josiane Beltrame Mi- lanesi 2012 Fonte: Banco de Teses & Dissertações da CAPES. 58 Quadro 2 Dissertações selecionadas a partir dos mesmos descritores no banco de teses e disse- ções da CAPES. (Conclusão) N◦/ Disser- tações Título Instituição Autor(a) Ano 07 A Educação de Pessoas com Deficiência Visual: inclusão escolar e preconceito. USP Diana Villac Oliva 2011 08 Políticas Públicas para a Educação Inclusiva: Análise das Diretrizes Curriculares no Município de Curitiba UTP Beatriz Micaloski Kowalski 2010 09 Educação Especial no Piauí – 1968 a 1998: refle- xões sobre História e Memória UFPI Rosa Maria B. Q. Rosado 2010 10 Atendimento Educacional Especializado Comple- mentar e a Deficiência Intelectual: considerações sobre a efetivação do direito à educação. FEUSP Marília Costas Dias 2010 11 Desempenho Funcional das Atividades de Rotina Escolar de Alunos com Necessidades Educacio- nais Especiais na perspectiva do Professor. UNESP Patrícia Bettiol Abe 2009 12 O Direito à Educação: um estudo sobre as políti- cas de educação especial no Brasil (1974-2008). PUCSP Ricardo Schers de Góes 2009 13 A Inclusão Escolar Sob o Olhar dos Alunos com Deficiência Mental. UFSCAR Aline Aparecida Vel- trone 2008 Fonte: Banco de Teses & Dissertações da CAPES. No levantamento do banco de dados BDTD ─ Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações ─ retornaram 98 trabalhos. Foi utilizado o mesmo procedimento de busca e se- leção do banco de teses e dissertações da CAPES; encontramos 9 teses e 12 dissertações da área de Educação Especial e ou Educação Inclusiva, que foram categorizadas nos Quadros 3 e 4, respectivamente. Quadro 3 Teses selecionadas a partir dos descritores: avaliação diagnóstica, dificuldades esco- lares, classes especiais e Helena Antipoff, no banco de teses e dissertações da BDTD. (Continua) N◦/ Teses Título Instituição Autor(a) Ano 01 A Medicalização na Escola: uma crítica ao Diag- nóstico do Suposto Transtorno de Déficit de Aten- ção e Hiperatividade (TDAH). UFBA Maria Izabel Souza Ribeiro 2015 02 O Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiço- amento de Professores de Belo Horizonte: diálogos entre Psicologia e Educação (929-1946). UFMG Rodrigo Lopes Mi- randa 2014 03 Entre Tratar e Educar os Excepcionais: Helena Anti- poff e a Psicologia na Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais UFMG Adriana Araújo Pe- reira Borges 2014 59 Quadro 3 Teses selecionadas a partir dos descritores: avaliação diagnóstica, dificuldades esco- lares, classes especiais e Helena Antipoff, no banco de teses e dissertações da BDTD. (Conclusão) N◦/ Teses Título Instituição Autor(a) Ano 04 Inclusão Escolar e Planejamento Educacional Indi- vidualizado: avaliação de um programa de forma- ção continuada de professores UFSCAR Gabriela Tannús Valadão 2013 05 A Inclusão de Alunos com Deficiência na UEPB: uma avaliação do Programa de Tutoria Especial. UERJ Maria Noalda Ra- malho 2012 06 Higienizar, Reabilitar e Normalizar: a construção de escola especial. UFG Cristiane de Qua- dros 2011 07 Itinerários da Psicologia na Educação Especial IPUSP Jane Teresinha D. Cotrin 2010 08 Educação Especial e Ação Docente: da medicina à educação. UFRGS Mauren Lúcia Tezzari 2009 09 O Psicólogo e o seu Fazer na Educação: contando uma outra história. UFMG Rita de Cássia Vi- eira 2008 Fonte: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD/ Instituto Brasileiro de Informação em Ciên- cia e Tecnologia – IBICT. Quadro 4 Dissertações selecionadas a partir dos mesmos descritores-chave, no banco de teses e dissertações da BDTD. (Continua) N◦/ Disserta- ções Título Instituição Autor(a) Ano 01 As Meninas de Helena: deficiência intelectual, in- clusão e mercado de trabalho em São Luís. UFMA Gilsene Daura da Silva Barros 2013 02 O Atendimento Educacional Especializado em Sala de Recursos Multifuncionais em um Municí- pio de Interior Paulista. UFSCAR Cícera A. Lima Ma- lheiro 2013 03 O Ensino da Arte em Minas Gerais (1940-1960): diálogos e colaborações entre a arte e a educação nova. UFMG Marilene Oliveira Almeida 2013 04 Educação Especial no Estado de São Paulo: aná- lise documental do período de 1989 a 2010. UFSCAR Larissa de Souza Martins 2012 05 O Conceito de Excepcional na Obra de Helena Antipoff: diagnóstico, intervenções e suas rela- ções com a educação inclusiva. UFMG Sérgio Domingues 2011 06 Diagnóstico de Dificuldade de Aprendizagem: construção, concepções e expectativas. FE-UnB Kátia Regina do Carmo Pereira 2011 Fonte: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD/ Instituto Brasileiro de Informação em Ciên- cia e Tecnologia –IBICT. 60 Quadro 4 Dissertações selecionadas a partir dos mesmos descritores-chave, no banco de teses e dissertações da BDTD. (Conclusão) N◦/ Disserta- ções Título Instituição Autor(a) Ano 07 Identificação e Caracterização dos Alunos com Deficiência, Transtornos Globais do Desenvolvi- mento e Altas Habilidades/Superdotação, Matri- culados nas Classes Comuns do Ensino Regular, na Rede Pública Estadual, em Município do Inte- rior Paulista. DP-USP Patrícia Moreira de Souza 2011 08 Políticas de Inclusão Escolar de Pessoas com Ne- cessidades Educacionais Especiais no Ensino Su- perior e as Universidades Federais Mineiras UFMG Nirvânia Maria Melo Reis 2010 09 Uma Proposta Original na Educação de Bem-Do- tados: ADAV – Associação Milton Campos para Desenvolvimento e Assistência de Vocações de Bem Dotados em sua primeira década de funcio- namento: 1973-1983. UFMG Cecília Andrade Antipoff 2010 10 Laboratórios de Análise do Comportamento no Brasil: percursos na UFMG na década de 1970. UFMG Rodrigo Lopes Mi- randa 2010 11 Planejamento Educacional Individualizado na Educação Especial: propostas oficiais da Itália, França, Estados Unidos e Espanha. UFSCAR Gabriela Tannús Valadão 2010 12 A Constituição da Educação Especial Destinada aos Excepcionais no Sistema Público de Ensino do Estado de Minas Gerais na Década de 1930. UFMG Andréa Morato 2008 Fonte: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD/ Instituto Brasileiro de Informação em Ciên- cia e Tecnologia –IBICT. A partir dos resultados encontrados (Quadros 1, 2, 3, 4), passamos à leitura dos resumos, que, por sua natureza sucinta e objetiva de apresentação das pesquisas a que se refe- riam, muitas vezes nos impeliam para o prosseguimento da leitura, no intento de facilitar a sua análise e compreensão. Nesse conjunto foram selecionadas três teses e duas dissertações relati- vas à CAPES (Quadros 1 e 2), bem como uma tese e três dissertações relativas à BDTD (Qua- dros 3, 4), que passam a ser descritas a posteriori. Nesta seção, apresentamos a tese de Heulalia Charalo Rafante32 (2011) sob o título Helena Antipoff, as Sociedades Pestalozzi e a Educação Especial no Brasil, na qual a autora analisou a trajetória de Helena Antipoff, já que objetivava compreender sua participação, assim 32 Tese indexada no banco de teses e dissertações da CAPES, mas não disponível on-line. Consulta realizada no Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff - CDPHA. Sala Helena Antipoff, n◦ 403. Biblioteca Central da UFMG/Belo Horizonte. 61 como as instituições criadas por ela, na constituição da Educação Especial no país. Para tanto, descreveu a trajetória da psicóloga e pedagoga russa, desde a sua mudança da Rússia para a França, em 1909, até sua chegada e percurso no Brasil. Segundo relato de Rafante (2011), An- tipoff participou da padronização dos testes de nível intelectual das crianças, elaborada por Alfred Binet e Théodore Simon, realizada no Laboratório de Psicologia da Universidade de Paris (1911). Nessa época conheceu Edouard Claparède, que a convidou para prosseguir seus estudos no Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, Suíça. Entre 1912 e 1914, concluiu o curso de quatro semestres da École des Sciences de L’Education. Sua experiência profissional teve início na Maison des Petits, escola anexa ao referido Instituto. Ao retornar à Rússia em 1916, trabalhou em instituições para crianças órfãs, vítimas da Primeira Guerra e, posterior- mente, da Revolução Russa. Em 1926, retornou a Genebra, trabalhou como assistente de Claparède, no Labora- tório de Psicologia, do Instituto Jean-Jacques Rousseau e assumiu o cargo de professora de Psicologia da Criança, além de desenvolver pesquisas científicas na área, quando recebeu o convite do governo de Minas Gerais para auxiliar na Reforma de Ensino mineiro, implantada por Francisco Campos (1927). A autora pontua a chegada de Antipoff ao Brasil, em 1929, quando assumiu o cargo de professora de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento, em Belo Horizonte – MG. Suas aulas consistiam em teoria e prática para a realização de pesquisas nos grupos escolares. Du- rante sua atuação no ensino mineiro, Antipoff percebeu que a escola não atendia às necessidades das crianças, por não incorporar os princípios científicos preconizados pela Pedagogia Experi- mental33. Formulou, então, estratégias no sentido de criar instituições para atender as crianças consideradas “excepcionais”. Em 1932, criou a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais, onde passou a exercer a presidência, por meio da qual viabilizou outras instituições em Belo Hori- zonte: o Pavilhão de Natal (1934), o Instituto Pestalozzi e a Fazenda do Rosário (1940). Como o objetivo de Rafante (2011) era compreender qual a participação de Anti- poff e das Sociedades Pestalozzi na constituição da Educação Especial no Brasil, analisou a 33 Pedagogia Experimental – teria como fundamento estudar empiricamente os processos de ensino em situ- ações concretas, visando ao desenvolvimento da ciência da educação, e assim romper com a tradição que considerava a capacidade de educar como um dom ou uma intuição inata independentes de estudo e desen- volvimento (CLAPARÈDE, 1956). 62 função desempenhada pela educadora, elucidando suas referências teóricas e suas práticas de- senvolvidas no Brasil, e ainda investigou sua relação com a sociedade brasileira do século XX. Identificou o contexto que tornou possível a sua vinda e sua permanência no país, as instituições em que ela atuou, a metodologia de trabalho adotada para atendimento aos excepcionais e os meios utilizados na circulação dessas informações. A autora confirma a sua hipótese de que as ações de Helena Antipoff e das Socie- dades Pestalozzi foram fundamentais para a constituição do campo da Educação Especial no Brasil, e essa participação condicionou a permanência dos princípios antipoffianos na realidade educacional brasileira. Veltrone (2011), em sua tese Inclusão Escolar do Aluno com Deficiência Intelectual no Estado de São Paulo: identificação e caracterização, apontou que a literatura científica da educação especial brasileira sempre evidenciou dificuldade nos procedimentos da avaliação para identificação de alunos com deficiência intelectual. Isso se deve, ainda hoje, à dificuldade em relação a definições, critérios e procedimentos. Essa indefinição é reforçada pela falta de consenso sobre se há ou não necessidade de identificar e rotular alunos nessa condição. No entanto o atendimento do aluno com deficiência, em escola regular do ensino comum, na pers- pectiva da educação inclusiva pressupõe que se faça a identificação para caracterizar a elegibi- lidade ao atendimento educacional especializado (AEE). A autora tinha como objetivo descrever o processo de avaliação para identificação dos alunos com deficiência intelectual no estado de São Paulo. O estudo teve início com uma análise da documentação oficial exigida para o processo de avaliação e identificação do aluno com necessidade educacional especial, no país e no referido estado. Constatou-se que não havia diretrizes comuns no processo de avaliação para identificação, pois o número e formação dos profissionais envolvidos variavam entre os diferentes locais, ou seja, nas instâncias estadual, municipal e escolas especiais. Para Veltrone (2011), o conceito de deficiência intelectual era subjetivo, os critérios e procedimentos apontados pela literatura da área não eram seguidos e cada equipe desenvolvia seus próprios procedimentos para julgamento. Discute-se, portanto, a necessidade de se padronizar o processo de avaliação para identificação de alunos com defici- ência intelectual para que se evitem a arbitrariedade e subjetividade que permeiam todo esse processo, inclusive nos dias atuais. 63 A seleção dessa tese no contexto deste trabalho, faz-se pertinente, pois, embora a autora não tenha se ocupado do descritor referente à Helena Antipoff, afirma que a questão da avaliação, diagnóstico e identificação dos alunos com deficiência ainda são obscuros e não fa- vorecem as tomadas de decisões, frente aos currículos escolares. Pletsch (2009), em sua pesquisa Repensando a Inclusão Escolar de Pessoas com Deficiência Mental: diretrizes políticas, currículo e práticas pedagógicas, analisou as práticas curriculares para o processo de ensino e aprendizagem, de quatro alunos com deficiência mental, matriculados em duas escolas públicas municipais do Rio de Janeiro. Utilizou-se a pesquisa qualitativa de cunho etnográfico, e a perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano de Vigotski foi adotada como referencial teórico. O estudo revelou não só as contradições, mas também a complexidade do processo de inclusão vivido nas e pelas escolas, principalmente no que diz respeito às práticas curriculares dirigidas para o processo de ensino e aprendizagem daqueles alunos. A autora descreveu sua participação em um grupo de pesquisa Educação Inclusiva ─ Ciência e Cultura da Inclusão Escolar (2007), registrado no CNPq, sob a coordenação da professora Rosana Glat, cujo projeto era uma parceria entre o Programa de graduação e pós- graduação da Faculdade de Educação da UERJ e o Instituto Helena Antipoff (IHA) ─ órgão da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-RJ), responsável pelo acompanha- mento e orientação do trabalho com os alunos com necessidades educacionais especiais na rede municipal daquele estado. Os dados relativos a essa etapa evidenciaram a necessidade de uma análise mais detalhada sobre o encaminhamento e a avaliação diagnóstica dos alunos com ne- cessidades educacionais especiais, bem como o papel desempenhado pela Agente de Educação Especial34. Pletsch (2009), ao se referir a retrospectiva histórica educacional, destacou que a universalização da educação e a organização das incumbências do Estado e das unidades da federação somente aconteceram de fato, na década de sessenta, com a primeira Lei de Diretrizes e Bases ─ Lei n◦ 4024 de 1961. No que concerne à Educação Especial, com a promulgação da 34 A figura da Agente de Educação Especial foi criada na Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro em 1996. Sua origem, segundo informações coletadas em entrevistas realizadas pela autora, vinculava-se à ne- cessidade de um profissional de educação que articulasse a política pública de inclusão de alunos com neces- sidades educacionais especiais nas escolas municipais (PLETSCH, 2009 p. 8). 64 referida LDB de l961, surgiu pela primeira vez a preocupação com o atendimento das pessoas com deficiência, que deveria ocorrer, na medida do possível, na educação regular (art. 88). Em seu art. 89 “[...] toda iniciativa privada considerada eficiente pelos conselhos estaduais de educação e relativa à educação de excepcionais receberá dos poderes públicos tra- tamento especial mediante bolsas de estudo, empréstimos e subvenção [...]” (Lei 4024 de 1961). No entanto, o Estado não assumiu a educação dessas pessoas, o que impulsionou sobremaneira o crescimento das instituições especializadas filantrópicas e assistenciais. Para o reconhecimento da Educação Especial foram lançadas campanhas dirigidas a categorias específicas como ─ a campanha nacional da educação do surdo brasileiro (1957) e a campanha nacional do deficiente mental (1960). Ainda foram criadas, naquele período, diver- sas associações congêneres à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE35 no Rio de Janeiro (1954), que, rapidamente, expandiram-se por todo o Brasil, dando origem à Federa- ção Nacional das Associações dos Pais e Amigos dos Excepcionais (1963) e a Federação Na- cional da Sociedade Pestalozzi (1971). Segundo a autora, várias dessas iniciativas ocorreram sob a influência de Helena Antipoff e exerceram papel decisivo na constituição da Educação Especial no Brasil. Nesta seção, apresentamos a dissertação de Corrêa (2013), que tinha por objetivo analisar a avaliação, o diagnóstico e o encaminhamento de crianças com necessidades educaci- onais especiais, na Rede Municipal de Ensino de Londrina-PR, após o fechamento das classes especiais e da reestruturação da equipe psicopedagógica. Para tal, foram realizadas entrevistas recorrentes com a coordenadora responsável, três psicólogas, quatro psicopedagogas e três pro- fessoras da sala de recurso, bem como a análise de laudos de encaminhamentos de crianças com necessidades educacionais especiais e seus critérios para tais avaliações e diagnósticos. Para essas análises, a autora utilizou os pressupostos da Análise de Discurso. Os resultados apontaram que o papel da avaliação e do encaminhamento ficou a cargo da professora da sala de recurso, com a função de realizar todo o processo avaliativo com o aluno. Já a equipe psicopedagógica assumiu o monitoramento das salas de recursos multifun- cionais e das classes especiais, além do acompanhamento do professor, dos aspectos burocráti- cos, dos relatórios semestrais, capacitações, aplicação de testes formais (atividade exclusiva do 35 Criada sob modelo da Associação de Assistência às Crianças Excepcionais, dos Estados Unidos ─ National Association for Retarded Children (PLETSCH, 2009 p. 49). 65 psicólogo), e avaliação, quando necessário. Em relação ao diagnóstico, a ênfase foi dada às questões do indivíduo em detrimento do pedagógico, ou seja, o processo mais voltado ao fun- cionamento subjetivo do aluno do que suas relações estabelecidas com o meio de aprendizagem. Para os encaminhamentos, os procedimentos adotados foram predominantemente os tradicionais instrumentos de avaliação psicológica ─ os testes psicométricos ─ que avaliam a queixa escolar, com o diagnóstico das prováveis deficiências. Corrêa (2013) afirma que em- bora, tenham ocorrido mudanças, a Educação Especial permanece como um sistema paralelo de ensino e não como uma modalidade da educação básica que perpassa todas as modalidades Milanesi (2012), em sua dissertação sob o título Organização e Funcionamento das Salas Recursos Multifuncionais em um Município Paulista, preocupou-se em descrever e ana- lisar, juntamente com os profissionais da educação, os serviços das Salas de Recursos multi- funcionais (SRMs), além de buscar respostas tangíveis para as seguintes questões: como se organizava os sistemas de ensino para atender os dispositivos legais sobre a implementação das SRMs, no que diz respeito ao funcionamento dessas salas, a formação de professores e a avali- ação dos alunos para indicar a deficiência e identificar as necessidades educacionais especiais? Como eram avaliados esses serviços pelos profissionais envolvidos nesse contexto? Qual dire- cionamento pós-identificação e possível encaminhamento para sala de recursos multifuncionais? O estudo foi realizado no sistema municipal público de ensino do município de Rio Claro-SP, envolvendo 23 professoras de SRMs e/ ou professoras de turmas de ensino comum, as quais tivessem alunos atendidos em SRMs, além de profissionais da área de gestão. Essa pesquisa se caracterizou, do ponto de vista metodológico, como de caráter qualitativo de cunho colaborativo, a qual utilizou estudo documental para caracterização da política de inclusão es- colar e, posteriormente, um ciclo de dez encontros com professores, nos quais aplicou-se a téc- nica de grupos focais. Os resultados revelaram que o município tem se esforçado para responder, de forma satisfatória, a atual política de inclusão escolar. Contudo, várias dificuldades foram encontradas para o atendimento às normativas indicadas pelo MEC, relativas à organização do trabalho pe- dagógico das SRMs, aos requisitos de formação do professor especializado e do ensino comum, assim como a avaliação para identificação do aluno, o planejamento das ações pedagógicas e o desenvolvimento da aprendizagem. 66 Prosseguindo ao trabalho analítico de teses e dissertações, apresentamos, nesta se- ção, as pesquisas relativas aos quadros 3 e 4, indexadas no banco de dados da BDTD. Cotrin (2010), em tese designada Itinerários da psicologia na educação especial: uma leitura histórico-crítica em Psicologia Escolar tinha como objetivo compreender como se deu a inserção da Psicologia como área de estudo e atuação profissional, na educação da criança com deficiência mental no Brasil, nas décadas de 1900 a 1930. Embora haja uma tendência mundial à substituição do termo “deficiência mental” por “deficiência intelectual”, principalmente após a Declaração de Montreal36, a autora utiliza a expressão “deficiência mental” por compreender que seu uso não é incorreto, uma vez que se trata de uma pesquisa de cunho histórico e por ser este um termo que já faz parte da cultura brasileira, além de acreditar que ainda não há discussões científicas suficientes que permitam a utilização clara do termo substitutivo. Segundo a autora, as primeiras escolas de Educação Especial para deficientes men- tais surgiram, no Brasil, no final do século XIX, anexas a hospitais psiquiátricos, por iniciativa de médicos que ali atuavam. No início do século XX, com as reformas educacionais associadas ao avanço da Psicologia como campo de conhecimento científico, as práticas em Educação e Educação Especial passaram a ser fundamentadas nessa Psicologia que começara a constituir- se. Para maior operacionalidade do trabalho Cotrin (2010) dividiu o estudo em três etapas. Na primeira, propôs-se a construir alguns itinerários históricos de uma Psicologia na Educação Especial e, para isso, utilizou bibliografia específica da história da Educação Especial e da his- tória da Psicologia no Brasil. Essa construção histórica revelou personagens que contribuíram decisivamente para as práticas psicológicas na área, como Helena Antipoff. Na segunda etapa, a autora apresentou as ideias, percursos e propostas de Helena Antipoff na área da deficiência mental, bem como uma pesquisa de campo realizada no Instituto Pestalozzi de Belo Horizonte ─ instituição criada por Antipoff em 1935 ─ o qual se constituiu como síntese das ideias de uma Psicologia na Educação Especial vigente no país. A terceira etapa ressaltou uma análise histórico-crítica do que foram os primeiros passos da Psicologia na Educação Especial. A história revelou que as principais práticas da Psicologia com crianças 36 A Declaração de Montreal é um documento que resguarda os direitos das pessoas com deficiência e enfatiza a necessidade de sua participação social. Tal documento, que foi assinado por todos os países participantes da Organização das Nações Unidas, dentre eles, o Brasil, foi concebido durante a Conferência de Montreal, no Canadá, em 2004, ocasião em que pais, pessoas com deficiência e profissionais da área se reuniram para discuti-lo e redigi-lo (COTRIN, 2010, p. 13). 67 consideradas deficientes mentais se baseavam na psicometria e na psicomotricidade. A primeira teve a função de reconhecer (identificar) as crianças com deficiência mental no universo escolar e, por essa causa a Educação Especial confundiu-se com políticas para a redução do fracasso escolar, do qual a escola pública era vítima. A psicomotricidade, por sua vez, foi amplamente utilizada para “tratamento” da criança anormal, visto que se considerava que a maturidade física e mental precedia a aprendizagem e o desenvolvimento intelectual. Desse modo a autora inferiu que a Psicologia acabou por reproduzir a ideologia liberal que sustentava o pensamento educacional brasileiro, constituindo práticas que atual- mente são consideradas segregadoras e que atingiram amplamente as crianças das classes po- pulares, as quais foram encaminhadas para o atendimento educacional especializado. Na sequência, apresentamos a dissertação de Pereira (2011) ─ Diagnóstico de di- ficuldade de Aprendizagem: construção, concepções e expectativas ─ que traz reflexões a res- peito da complexidade que permeia a educação das pessoas que, por condições adversas, aca- bam por vivenciar problemas escolares inerentes a cada situação de ensino e aprendizagem. A autora assevera que, embora ainda não haja consenso ou clareza sobre a definição do termo “dificuldade de aprendizagem”, ele tem se tornado recorrente no ambiente escolar e tem sido o maior desencadeador de encaminhamentos de alunos ao Serviço Especializado de Apoio à Aprendizagem. Ela se propôs a investigar o processo de construção do diagnóstico de dificuldade de aprendizagem, realizado pelo Serviço Especializado de Apoio à aprendizagem da Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal, a fim de perceber que concepções o permeiam e quais expectativas o envolvem. A condução da pesquisa se deu por meio da orien- tação da Epistemologia Qualitativa que referenda o modelo construtivo-interpretativo do co- nhecimento. As análises conduziram ao entendimento de que o diagnóstico de dificuldade de aprendizagem passa por um processo de construção centrado em aplicações de testes e provas padronizadas. Além disso encontra-se pautado em concepções ainda biologizantes, culpabili- zadoras e limitadoras sobre o sujeito. Percebeu-se que, para a adoção de uma nova metodologia, faz-se necessária a cria- ção de um espaço dialógico e reflexivo sobre a prática entre os sujeitos que compõem esse serviço de apoio, assim como uma fundamentação teórica que possa convergir para a mudança 68 de concepções e o favorecimento da compreensão do aluno avaliado como um sujeito de pos- sibilidades, algo para além das dificuldades que demonstra. Souza (2011), em seu trabalho, objetivou identificar e caracterizar os alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, matricu- lados nas classes comuns do ensino regular, na rede pública estadual, em município do interior paulista. Para tanto, consultaram-se documentos oficiais ─ registros escolares ─ disponibiliza- dos pela Diretoria Regional de Ensino e do MEC. Os dados coletados foram analisados com base na perspectiva da Rede de Significações. Os resultados indicaram que, nos anos 2005 e 2006, foram matriculados 907 alunos. Já em 2008 e 2009, ocorreram 1.416 matrículas nas clas- ses comuns. A maioria dos alunos foi identificada com deficiência mental, com o predomínio do sexo masculino na faixa etária entre seis e dez anos. Em segundo lugar prevaleceram os alunos identificados com transtorno global do desenvolvimento. Ainda foram identificados dez alunos com altas habilidades/superdotação. Quanto às etapas da educação básica, a maioria frequentava as séries iniciais do Ensino Fundamental. A análise dos dados revelou que, apesar do aumento das matrículas no ensino público regular, esse número se mostra inexpressivo. Ela ainda afirma que a rede pública estadual estudada, apesar de ter promovido o acesso, não tinha garantido os serviços educacionais especializados necessários, comprometendo assim o atendi- mento educacional e a permanência dos alunos na escola. A autora referenciou o trabalho de Helena Antipoff quanto à criação da Sociedade Pestalozzi de Belo Horizonte, em 1932, para deficientes mentais e, da mesma forma, em 1945, a Sociedade Pestalozzi do Brasil, no Rio de Janeiro, os quais tiveram uma significativa contri- buição à Educação Especial em todo país. E por fim, apresentamos a dissertação de Morato (2008) ─ A constituição da Edu- cação Especial destinada aos excepcionais no sistema público de ensino do Estado de Minas Gerais na década de 1930, com o objetivo de analisar as relações entre o processo de democra- tização da escola pública, a implantação do programa da Escola Nova e a constituição da Edu- cação Especial para os excepcionais em Minas Gerais, na década de 1930, como sistema de ensino paralelo ao da educação comum. Do ponto de vista metodológico, a autora fez uso da pesquisa bibliográfica dividida em duas etapas: análise teórica, na qual utilizou os conceitos de hegemonia e transformismo ou 69 revolução passiva; e análise empírica, na qual analisou a difusão do programa da escola nova no Brasil e em Minas Gerais. Inicialmente, estabeleceu-se um percurso de estudos que evidenciou o processo his- tórico de ampliação do Estado, quando a escola passou a ser a principal agência, na sociedade civil, de difusão de diferentes projetos visando à obtenção da hegemonia política de uma classe social. No que se refere à chegada das ideias da Escola Nova no Brasil, Morato (2008) se valeu da análise esclarecedora de Dore Soares (2003), ao mostrar a relevância do conceito de transformismo como categoria de análise das contradições do programa da Escola Nova. É a ausência da adoção dessa categoria, segundo esta autora, que conduz a conclusões unilaterais sobre o papel da Escola Nova no Brasil. A dificuldade de examinar o transformismo como um programa contraditório, que tem aspectos progressistas e conservadores ao mesmo tempo, re- sulta justamente da ausência de uma análise que leve em conta a sua categoria ou revolução passiva, formulada por Gramsci. De acordo com o pensador italiano, o transformismo se refere à estratégia que foi formulada pela burguesia, a partir de 1870, para controlar, na teoria e na prática, a força de seus antagonistas no processo de mudança. Em relação à difusão do programa da Escola Nova em Minas Gerais, o então go- vernador do estado, Antônio Carlos de Andrada e o Secretário do Interior, Francisco Campos, no período de 1926-1930, pretendiam fazer da educação primária o “mais importante instru- mento de formação e socialização das futuras gerações, no sentido de torná-las elementos ur- banos, ordeiros, racionais e produtivos” (PRATES, 2000, citada por MORATO, 2008, p. 124). Como estratégia de ação para o efetivo desenvolvimento desse programa, Francisco Campos, tendo como referência o movimento da Escola Nova, empreendeu a Reforma do Ensino Mi- neiro, a publicação da Revista do Ensino e a criação de uma Escola de Aperfeiçoamento. De acordo com Morato (2008), os estudos práticos feitos no Laboratório de Psico- logia Experimental da referida Escola de Aperfeiçoamento, coordenados por Helena Antipoff, deram origem a um extenso programa de pesquisa sobre o desenvolvimento mental das crianças e tinham por objetivo subsidiar a introdução dos testes de inteligência nas escolas primárias. O trabalho coordenado por Antipoff trouxe avanços aos estudos sobre a inteligência. Ao aplicar os testes nas escolas primárias, ela não se limitou a selecionar os alunos considerando apenas o discurso das aptidões naturais, mas introduziu o conceito de inteligência civilizada, no 70 qual considerou os fatores sociais, econômicos e culturais que interferiam nos resultados dos testes, e ainda mostrou a possibilidade de alteração desses resultados a partir de uma ação edu- cacional efetiva. Desse modo, ao estabelecer interlocução com o debate teórico a partir dos conceitos e teorias utilizados pelos autores revisitados dessa seção, depreendemos que a atenção educa- cional aos alunos com dificuldades escolares associadas ou não a deficiência tem se modificado ao longo de processos históricos de transformação social. Embora a preocupação com o atendimento a essas pessoas sempre tenha existido, a história evidencia porém fases distintas e por vezes contraditórias quanto à natureza e intensi- dade do atendimento prestado. Neste aspecto, vale ressaltar, que a “educação especial” como campo de atendimento educacional a um público-alvo específico, nem sempre esteve necessa- riamente ligada à educação, mas muitas vezes à reabilitação e à psicologia, ou seja, ao campo da saúde. Anteriormente, as pessoas com deficiência eram percebidas como doentes e como tal, merecedoras de cuidados médicos e a abordagem utilizada se restringia aos aspectos clínicos. Com o advento de produções científicas voltadas para a diversidade instituiu-se o atendimento educacional especializado, numa abordagem de caráter biopsicossocial, com o propósito de atender as especificidades de cada educando. 71 4 MÉTODO A presente pesquisa se apresenta como histórica, já que foi baseada em fontes do- cumentais (primárias e secundárias), de cunho qualitativo e caracterizada por intenso trabalho bibliográfico. Procurou trazer para o campo de estudo da psicologia e da educação, especifica- mente para a educação especial, questionamentos sobre o diagnóstico realizado por Helena An- tipoff, na identificação das dificuldades escolares dos alunos das chamadas classes especiais de Belo Horizonte, no período entre 1929 a 1973. Assim como Lourenço (2001, p.8), buscou-se nas fontes primárias a obtenção de dados que traduzissem o pensamento e as propostas de Helena Antipoff em psicologia e edu- cação. Essas fontes são compostas por publicações realizadas pela autora ao longo de sua car- reira e documentos inéditos por ela deixados. As fontes secundárias são utilizadas para a compreensão dos contextos científicos e sociais nos quais Helena Antipoff esteve inserida. Esses documentos se encontram preserva- dos na Fundação Helena Antipoff, em Ibirité, e no Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA) situado na sala 403, da Biblioteca Central da Universidade Federal de Mi- nas Gerais. Os dados coletados foram organizados e analisados por meio da técnica de análise de conteúdo tomando como referência a obra de Laurence Bardin (2006, 2009 e 2011), a qual as organiza em três fases ─ 1) pré-análise; 2) exploração do material; 3) tratamento dos resul- tados: inferência e interpretação. A pré-análise é a fase em que se organiza o material a ser analisado com o objetivo de torná-lo operacional, sistematizando as ideias iniciais. Trata-se da organização propriamente dita por meio de quatro etapas: (a) leitura flutuante, que é o estabelecimento de contato com os documentos da coleta de dados, momento em que se começa a conhecer o texto; (b) escolha dos documentos, que consiste na demarcação do que será analisado; (c) formulação das hipó- teses e dos objetivos; (d) referenciação dos índices e elaboração de indicadores, que envolve a determinação de indicadores por meio de recortes de texto nos documentos de análise (BAR- DIN, 2006). 72 A exploração do material constitui a segunda fase, que consiste na definição de categorias. Esta é uma etapa importante, porque vai possibilitar ou não a riqueza das interpre- tações e inferências. É a fase da descrição analítica, a qual diz respeito ao corpus (qualquer material textual coletado) submetido a um estudo aprofundado, orientado pelas hipóteses e re- ferenciais teóricos. Dessa forma, a codificação, a classificação e a categorização são básicas neste estágio (BARDIN, 2006). A terceira fase diz respeito ao tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Esta etapa é destinada ao tratamento dos resultados, quando ocorre a condensação e o destaque das informações para análise e culmina com as interpretações inferenciais; é o momento da intuição, da análise reflexiva e crítica (BARDIN, 2006). 4.1 Fontes Trata-se de um variado material de pesquisa em que foi possível destacar ─ a Re- vista do Ensino, periódico do governo mineiro editado no período entre 1925 e 1971: Revista do Ensino, n◦ 50, 51 e 52, 1930; Estatutos da Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais (MINAS GERAIS, 1933, 1939, 1961); e da Sociedade Pestalozzi do Brasil (SOCIEDADE PESTA- LOZZI DO BRASIL, 1945); os Boletins, publicações da Secretaria de Educação e Saúde Pú- blica de Minas Gerais; a Revista Infância Excepcional, publicação semestral da Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais ( SOCIEDADE PESTALOZZI DE MINAS GERAIS 1963-1968); o Mensageiro Rural, boletim da Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais – Estudo, Educação e Assistência ao Excepcional, Fazenda do Rosário, Ibirité 1953-1955, 1965-1981; completam esse aparato documental as Coletâneas de Obras Escritas de Helena Antipoff, organizadas pelo CDPHA, em comemoração ao centenário de nascimento da educadora, composta por cinco volumes, publicados em 1992, e agrupados sob as temáticas assim nomeadas: Psicologia Ex- perimental (volume. I), Fundamentos da Educação (volume II), Educação do Excepcional (vo- lume III), Educação Rural (volume IV) e Educação do Superdotado (volume V), dos quais fo- ram utilizados quatro volumes. É importante comentar que, diante desse vasto material coletado, optou-se por não estabelecer, a priori, a nomeação do estudo de determinado documento. Foi feito um processo 73 de “garimpagem”37 de caráter peculiar, organizado e interpretado segundo os objetivos da in- vestigação proposta utilizando os mesmos descritores adotados no capítulo 2 da revisão de li- teratura: avaliação diagnóstica, dificuldades escolares, classes especiais e Helena Antipoff. Um recorte oportuno foi necessário a partir da categorização do material. 4.2 Procedimento Nessa fase do estudo, buscou-se fazer uma primeira organização do material cole- tado, mostrando-se indispensável um tratamento analítico para o conjunto de documentos, de forma a torná-lo inteligível, de acordo com os objetivos propostos para a pesquisa. Nesse sen- tido, organizar o material significou processar a leitura segundo critérios da análise de conteúdo, de forma a permitir o uso de técnicas específicas; leitura flutuante consistiu no levantamento quantitativo e qualitativo de termos e assuntos recorrentes; elaboração de um índice organizado em indicadores, para facilitar o controle e manuseio do material coletado. 4.3 Quadro teórico-metodológico O termo historiografia como método de pesquisa pode ser definido, de modo geral, como uma forma de, a partir de relatos de eventos passados, fazer uma (re)construção daquilo que aconteceu para posteriormente analisar e interpretar tais relatos (BROŽEK e MASSIMI, 1998; CAMPOS, 1998). Como extensão dessa definição, pode-se considerar que a historiogra- fia não deve se limitar em descrever e interpretar as relações apresentadas pelas suas fontes de pesquisa, mas explicar o fenômeno que se propõe estudar. Woodward (1998 p. 61), por sua vez, define que a historiografia refere-se ao ato de escrever a história, aos métodos de coletar provas e de organizá-las dentro de um padrão objetivo e significativo. 37 Segundo o dicionário Aurélio, seria a prática de garimpo, o exercício do ofício de garimpeiro ou pro- curar como que em garimpo. Reportando-se ao texto ─ O Método da Análise Documental: seu uso numa pesquisa historiográfica, a autora Pimentel (2001) cita Mitsuko Antunes, como pesquisadora, que bem denomina a “garimpagem” como um processo de busca, descoberta e extração. Busca de categorias de análise que dependem dos documentos, que por sua vez, precisam ser encontrados, extraídos das prate- leiras. Receber um tratamento que, orientado pelo problema proposto pela pesquisa, estabeleça a monta- gem das peças, como num quebra-cabeça. (PIMENTEL, A. 2001 p. 180). 74 Barbosa (2012), assegura que a História existe independentemente de qualquer es- crita. Contudo, quando entra no campo da historiografia, é importante compreender que uma história pode ser narrada de diversas formas, cientes que não se trata da História propriamente dita nem a única forma de contá-la. A História (com h maiúsculo), ou conjunto de produções ou transformações empre- endidas pela humanidade ao longo do tempo, pode ser descortinada a partir desses recortes que os historiadores fazem. Nesse sentido, o que se produz a partir desses recortes são várias histórias (com h minúsculo) que nos fazem compreender fragmen- tos da realidade por meio dos referenciais escolhidos pelo pesquisador (BARBOSA, 2012, p. 106). De modo geral, para delimitar esse pensamento, utilizam-se recursos como os re- cortes temporais, de espaço, de tema e ou de fontes a serem utilizadas. Além desses aspectos, há também a opção quanto ao modo de apresentação dos dados historiográficos, que podem ser analíticos, descritivos, descritivos-analíticos e tantas outras formas de historiografia, que pas- sam pela escolha do pesquisador. Portanto, no estudo e na pesquisa em questão, utilizou-se o recorte temporal de 1929 a 1973. Como recorte temático, a prioridade foi dada à Educação Especial, no tocante a avaliação diagnóstica das dificuldades escolares, adotada por Antipoff, e, as fontes selecionadas a partir da fase exploratória proposta por Bardin (2006; 2009) que foram descritas e analisadas ao longo da pesquisa. 75 5 HELENA ANTIPOFF E O DIAGNÓSTICO DAS DIFICULDADES ESCOLARES: CONCEPÇÕES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS “Começai por estudar melhor os vossos alunos, pois é absolutamente certo que os não conheceis”. (J. J. Rousseau). Antes de discutirmos as concepções teóricas e metodológicas que fundamentaram o trabalho de Helena Antipoff em relação à educação especial, principalmente, nos aspectos relativos à avaliação diagnóstica, com o propósito de identificar dificuldades escolares dos alu- nos das classes especiais de Belo Horizonte, é necessário contextualizar o momento histórico em que esta ação estava sendo desenvolvida, bem como explicitar as ideias que dominavam o meio científico daquela época. O surgimento da educação especial esteve vinculado ao discurso social posto em circulação na modernidade para dar conta das crianças que não se adaptavam aos contornos da escola. Foi a partir desse lugar de “criança não escolarizável” que as deficiências foram orga- nizadas em um amplo espectro de diagnósticos, recortadas e classificadas com o apoio do saber médico. A partir daí, a educação especial baseou-se em uma concepção de reeducação por meio de métodos comportamentais, supondo que bastariam técnicas de estimulação especiais para as crianças alcançarem um nível “normal” de desenvolvimento. O desenvolvimento histórico da educação especial no Brasil iniciou-se no século XIX, quando os serviços dedicados a esse segmento da população, inspirados por experiências norte-americanas e europeias, foram trazidos por alguns brasileiros que se dispunham a orga- nizar e a implementar ações isoladas e particulares para atender a pessoas com deficiências físicas, mentais e sensoriais. Essas iniciativas não estavam vinculadas a nenhum programa de política pública de educação, o que demandou um período de, aproximadamente, um século para que a educação especial se tornasse um dos componentes do sistema educacional brasileiro. Essa modalidade de ensino só se instituiu oficialmente no início dos anos 60, com a denomina- ção de “Educação dos Excepcionais”, pela primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Na- cional – LDB n◦ 4.024 de 20 de dezembro de 1961. 76 No começo do século XX, assinalaram-se importantes indicadores do interesse da sociedade para com a educação das pessoas com deficiência. Registraram-se, sensíveis inicia- tivas de publicações de trabalhos técnico-científicos, com notoriedade da obra do Professor Norberto de Souza Pinto38, de Campinas/São Paulo, na década de 1920, intitulada Infância Re- tardatária. 5.1 Helena Antipoff e Sua Ação na Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico de Belo Hori- zonte.39 A Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte (1929-1946), foi uma instituição criada durante o governo de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, como parte integrante de um projeto de reforma do ensino mineiro, conhecida como Reforma Francisco Campos/Mário Ca- sassanta (1927-1928) e tinha como referência as propostas do movimento da Escola Nova40. O principal foco dessa reforma foi a ampliação do sistema de ensino primário e secundário e a incorporação dos novos conhecimentos das ciências da educação. A Escola de Aperfeiçoamento tinha como objetivo promover a formação de docentes, em nível superior, com sólida base científica, além da formação na área de administração escolar para orientar e avaliar a implantação da Reforma nas escolas (CAMPOS, 2010, p. 149). 38 Ver nota de rodapé n◦ (21) p. 42. 39 Para os leitores interessados em aprofundar os conhecimentos sobre a Escola de Aperfeiçoamento Pedagó- gico de Belo Horizonte (1929-1946), sugerimos a leitura de CAMPOS, Regina H.F. ─ Helena Antipoff: psicóloga e educadora – uma biografia intelectual. Fundação Miguel de Cervantes, RJ. 2012. (Coleção Me- mória do Saber. CNPq). 40 A Escola Nova representa o mais vigoroso movimento de renovação da educação depois da criação da escola pública burguesa. A ideia de fundamentar o ato pedagógico na ação, na atividade da criança, já vinha se formando desde a “Escola Alegre” de VITORINO DE FELTRE (1378-1446), seguindo pela pedagogia romântica e naturalista de Rousseau. Mas foi só no início do século XX que tomou forma concreta e teve consequências importantes sobre os sistemas educacionais e a mentalidade dos professores. A teoria e a prá- tica escolanovistas se disseminaram em muitas partes do mundo, fruto certamente de uma renovação geral que valorizava a autoformação e a atividade espontânea da criança. A teoria da Escola Nova propunha que a educação fosse instigadora da mudança social e, ao mesmo tempo, se transformasse porque a sociedade estava em mudança. O desenvolvimento da sociologia da educação e da psicologia educacional também contribuiu para essa renovação da escola. Um dos pioneiros da Escola Nova é certamente ADOLPHE FERRIÈRE (1878- 1960). Educador, escritor e conferencista suíço. Adolphe Ferrière lecionou no Instituto Jean-Jacques Rous- seau, de Genebra. Foi talvez o mais ardente divulgador da escola ativa e da educação nova na Europa. Suas ideias se basearam inicialmente em concepções biológicas, transformando-se depois numa filosofia espiritu- alista (GADOTTI, 2005, p.142). 77 Helena Antipoff formalizou o contrato com o governo de Minas Gerais por dois anos e, em agosto de 1929, assumiu as aulas de Psicologia e Pedologia e responsabilizou-se pela organização e direção, do Laboratório de Psicologia Experimental, vinculado à escola. Suas alunas eram normalistas que já atuavam em escolas primárias por todo o estado de Minas Gerais, licenciadas para frequentarem o curso de Aperfeiçoamento com duração de dois anos. O Laboratório de Psicologia se tornou um centro de pesquisas educacionais. O pro- jeto idealizado era dar ao ensino de psicologia uma dimensão experimental, ou seja, os proces- sos psicológicos estudados deveriam ser testados na prática, por meio de investigações empíri- cas. O programa deveria incluir aulas expositivas, discussões em grupo e exercícios de aplica- ção dos conteúdos, de forma que as alunas tivessem oportunidade de observar empiricamente os fenômenos psíquicos estudados na teoria (ANTIPOFF, 1930). A estrutura curricular dos cursos de aperfeiçoamento para professores, constituía- se das disciplinas: Pedologia; Psicologia Experimental e Educacional; Metodologia de Ensino; Desenho e Modelagem; Legislação Escolar; Noções de Direito Constitucional e Educação Fí- sica (CAMPOS, 2010, p.150). Junto da Escola foram instaladas as classes anexas, destinadas à experimentação com os novos métodos e procedimentos educacionais. A configuração inicial do departamento de psicologia incluía o Laboratório, identi- ficado como um conjunto de aparelhos organizados numa sala; o Museu da Criança que seria uma espécie de base de dados levantados pelas alunas/pesquisadoras e disponibilizados para outros pesquisadores, e a sala de testes, cujos propósitos eram complementares (FAZZI, et al. 2011 p. 61). 5.2 A Instalação do Museu da Criança como Recurso Pedagógico O Museu da Criança, foi criado por Helena Antipoff em outubro de 1929, como um “centro de pesquisa relativo à criança ─ um centro pedagógico” (ANTIPOFF, 1930-1982, p.63). Tratava-se de um ambiente constituído das principais pesquisas disponíveis sobre a criança brasileira, para subsidiar estudos sobre a antropometria, a puericultura e a natureza da criança em seus diferentes aspectos da vida mental: inteligência, linguagem, atenção e memória, traba- lho mental, interesses, senso moral e social. O Museu teria a função de armazenamento das 78 informações acerca da criança brasileira, que serviriam de base para os trabalhos do Laborató- rio. Por outro lado, os resultados de tais trabalhos realizados no Laboratório seriam coligidos no Museu. Além de possibilitarem o cotejamento das pesquisas realizadas com outros países, proporcionariam uma imagem comparativa e útil. Preocupada em dar um caráter pedagógico às atividades adotadas pelo Museu, An- tipoff (1930/1992c, p. 2) insistia na realização de estratégias, a partir de coleções de desenhos infantis autênticos, brinquedos fabricados pelas próprias crianças, criações literárias que forma- riam “cantos encantadores” do Museu, que a nosso ver, era uma metodologia inspirada nos “Centros de Interesse”41 ─ estratégia criada pelo médico e educador belga Ovíde Decroly42, conhecido pelos seus estudos sobre a psicologia infantil, principalmente sobre o desenvolvi- mento da criança e a preservação da sua liberdade. A discussão central do método de Decroly é a dos “centros de interesse” como eixos estruturantes do currículo, que permitem a expressão da motivação espontânea da criança e, ao mesmo tempo, abrem caminhos para a aquisição de novos conhecimentos (ARANTES, 2015). Também subsidiam a noção de ensino multidiscipli- nar, sem, contudo, haver compartimentalização de disciplinas. Os temas dos chamados Centros de Interesse surgiram, imprescindivelmente, das necessidades vitais da criança, definidas por Decroly, no início do século XX. Essa ideia nos remete à concepção de globalização do ensino ou ensino globalizado. 41 Os Centros de Interesse constituem-se numa estratégia pedagógica, que pode ser desenvolvida, especial- mente, nas classes multisseriadas, tendo em vista o caráter de versatilidade e possibilidade de adequação, sob todos os aspectos, aos diferentes níveis de adiantamento numa classe desse tipo (AMATO, 1971). 42 Jean-Ovide Decroly (1871-1932), foi médico, psicólogo e educador. Nasceu em Rennaix, na Bélgica, filho de Jean-Baptista Etienne Decroly, um industrial, e de Justine Aimée Louise Soret, professora de música. Formou-se em medicina e estudou neurologia na Bélgica e na Alemanha. Sua atenção voltou-se desde o início para as crianças deficientes mentais. Esse interesse o levou a fazer a transição da medicina para a educação. Por essa época criou uma disciplina, a "pedotecnia", dirigida ao estudo das atividades pedagógicas coordenadas ao conhecimento da evolução física e mental das crianças. Decroly postulou o interesse como pressuposto básico para a aprendizagem. Para ele, esse estado desperto da criança estaria na base de toda atividade, incitando-a a observar, associar, expres- sar. Acreditava que aprendizagens ocorreriam de maneira espontânea pelo contato com o meio, de onde provinham estímulos que para onde as crianças direcionavam suas questões. Em 1901, fundou em Bruxelas, uma escola para crianças deficientes. Em 1907, fundou na mesma cidade, a École de l’Ermitage, para crianças consideradas “nor- mais”. A escola que se tornou célebre em toda a Europa, serviu de espaço de experimentação para o próprio De- croly. A partir de então, viajou pela Europa e pela América, fazendo contatos com diversos educadores, entre eles o norte-americano John Dewey (1859-1952). Decroly escreveu centenas de trabalhos sobre educação, produziu um sem-número de estudos psicogenéticos e pedagógicos a respeito do desenvolvimento da criança, mas nunca sistematizou seu método por escrito, por julgá-lo em construção permanente. Morreu em 1932, em Uccle, na região de Bruxelas (DUBREUCQ, 2010). 79 Exatamente, nesse momento histórico, as ideias de Decroly foram apropriadas, di- fundidas e transformadas no Brasil. As traduções de seus livros foram realizadas entre 1928 e 1930, ainda em plena atividade de sua vida, em uma época na qual ocorreram no país várias reformas educacionais, que buscavam a inovação pedagógica. Para o processo, denominado “Movimento das Escolas Novas”, a metodologia dos centros de interesse, adaptada conforme as condições da sociedade brasileira, forneceu impor- tante aporte teórico e orientação prática. O principal laboratório dessa experimentação pedagó- gica foi propiciado pela reforma educacional do Rio de Janeiro em 1928, com importante apoio de Fernando de Azevedo, na época diretor do Departamento de Instrução Pública do então Dis- trito Federal. É importante sublinhar que a ideia de “centros de interesse” teve grande difusão e aplicação, em programas de ensino, não só no Rio de Janeiro como também em Minas Gerais. Artigos, livros e manuais para professores foram publicados. Conferências, seminários e cursos foram oferecidos. O público-alvo era de professores do ensino primário e responsáveis pela modalidade, denominada atualmente, de educação infantil. (ARCE HAI, 2015)43 citada por ARANTES (2015). Após novos estudos por diferentes teóricos da educação, na tentativa de encontrar formas mais eficazes de realizar a tarefa educativa, essa estratégia sofreu uma revisão à luz de novos conhecimentos e teorias, pois visava a uma maior adequação aos princípios e às técnicas da didática atual. Para Amato (1971), Centros de Interesse são agrupamentos de conteúdos e atividades educativas realizadas em torno de temas centrais de grande significação para a cri- ança. Retomando a exposição de motivos apresentada por Antipoff (1930/1992c) sobre o Museu da Criança, percebemos que, no seu entender, este seria uma autêntica instituição para alavancar tantos outros projetos, em diversas outras dimensões, a partir de aspectos da formação integral da criança, assim como aspectos curriculares e organizacionais relativos à escola: 43 O artigo Translating Ovide Decroly’s ideas to Brazilian teachers (DOI: 10.1080/00309230.2015.1021361), de Alessandra Arce Hai e outros, pode ser lido por assinantes da Paedagogica Historica em www.tandfon- line.com/eprint/Htj99UQuAsRfiTDVNTu/full. Resenhado por José Tadeu Arantes/ Agência FAPESP (2015). 80 O Museu terá influência sobre a escola. Analisar os diferentes métodos de ensino, mostrar o caráter das diferentes instituições pedagógicas, analisar os programas esco- lares, os horários, mostrar, ainda que por meio de fotografias e de planos, vários tipos de construções escolares, mobiliário, expor os manuais de leitura, de história, fazer prevalecer os melhores e mostrar os defeitos dos maus ─ são outras tantas obrigações úteis e atraentes, que não permitirão equívoco, nem sobre uma carteira antigiênica, nem sobre a impressão de um primeiro livro de leitura arrancarão os olhos do jovem escolar (ANTIPOFF, idem, p. 12). Inspirada nos princípios da Escola Nova ─ quanto à necessidade de conhecer a na- tureza da criança ─ e interessada em constituir uma pedagogia científica, Antipoff não hesitava em dar ao pedagogo um preparo teórico suficiente em matéria de psicologia. Era necessário iniciá-lo no método da psicologia experimental, familiarizá-lo com a técnica psicológica, para despertar-lhe o espírito de investigação científica, e torná-lo apto a colaborar nas pesquisas pedológicas (ANTIPOFF, 1930/1992b, p. 15). No empenho de cumprir as demandas colocadas pelo governo de Minas Gerais ao Laboratório de Psicologia e de reunir informações detalhadas sobre a criança brasileira, espe- cificamente a criança mineira, Antipoff (1930/1992b) conclamou as professoras/alunas da Es- cola de Aperfeiçoamento a colaborarem, como membros ativos, na organização do Museu. Para tanto deveriam coletar material pedológico, registrar as observações feitas durante as atividades práticas na escola, realizar entrevista e reunir os resultados das experiências e de testes, pois seria com esse material que se elaborariam os conhecimentos sobre a criança brasileira ─ “[...] Com esses dados é que procuraremos estabelecer normas e padrões quanto ao desenvolvimento físico e mental das crianças mineiras” (ANTIPOFF, 1930/1992b, p.16). As primeiras pesquisas iniciadas no curso de psicologia educacional, pelas alu- nas/professoras da Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte, coordenadas por Helena An- tipoff, resultaram na elaboração de trabalhos que faziam parte de um estudo psicopedagógico experimental, ao qual ela deu o nome de Escolologia ─ ciência da escola e pedagogia experi- mental. Para Antipoff, esse neologismo mostrava que seu objeto de estudo era a escola e tudo que com ela se relacionava: a administração, espaço físico, higiene, material e métodos didáti- cos, regime escolar, organização das classes, característica do ensino, as diversas instituições auxiliares, e, finalmente, mas não menos importante ─ o aluno, seu meio econômico e social; seu estado físico (saúde e desenvolvimento corporal); seu nível de desenvolvimento mental; seus interesses e aspirações; suas diversas aptidões psíquicas; e enfim, seus conhecimentos e sua formação escolar. 81 Com a pretensão de realizar estudos detalhados sobre as classes escolares de Belo Horizonte, Antipoff (1930/1992b) deu seguimento às pesquisas Escolológicas, com suas alu- nas/professoras do segundo ano. Para tal, 32 classes primárias de seis estabelecimentos públicos foram visitadas semanalmente, entre fevereiro e agosto de 1930. Essas visitas eram fundamen- tadas por plano previamente determinado, o que resultou em coleta de dados necessários, seja pela observação, seja por aplicação de diversas pesquisas, medidas de testes pedológicos e es- colares. No final desse estágio, as alunas organizaram os resultados de suas investigações, sob a forma de monografias gerais, que tinham como objetivo conhecer os seis grupos escolares da cidade de Belo Horizonte, em que elas trabalharam: o perímetro de abrangência relativo ao atendimento; seu ambiente físico, social e econômico; a construção, o espaço destinado aos estudos, recreação e jogos; a higiene escolar; o mobiliário e as carteiras em particular; material didático, sua qualidade e quantidade; regime escolar geral, organização das classes, instituições auxiliares (bibliotecas, caixas escolares, museus, clubes, ligas); o corpo de professores; o orça- mento e os métodos pedagógicos empregados. Esses estudos caracterizavam-se como verda- deiros instrumentos de diagnóstico do contexto sociocultural e dos aspectos organizacionais de onde estavam inseridas as crianças. Na sequência, as alunas/professoras apresentaram as monografias relativas às 32 classes pesquisadas, por meio de estudo minucioso, tendo sido analisadas as condições físicas e a composição das classes; os perfis pedológicos individuais e o perfil pedológico geral da classe em seu conjunto; o meio ambiente da escola e a origem social de seus alunos; o meio social, econômico e moral das crianças; o seu estado físico e o nível mental; o trabalho peda- gógico e seu característico psicológico; o perfil da professora da classe e sua conduta profissi- onal (1930, p. 148-174). Além disso apresentavam relatórios escritos, com a síntese de seus conhecimentos sobre as classes estudadas e os resultados pedagógicos alcançados. Para o esta- belecimento dos perfis pedológicos individuais e o perfil pedológico geral da classe, Antipoff assinalava que, ao lado de medidas antropométricas e testes de inteligência geral, as crianças eram submetidas, ainda, a uma série de testes psicológicos e escolares; os primeiros, colocavam em ação a atenção, a memória, a observação e o testemunho; os segundos, referiam-se às dife- rentes técnicas e conhecimentos escolares: leitura, escrita, ortografia, composição e cálculo. Com base nesses trabalhos monográficos, as alunas realizavam estudos comparativos entre as classes e os grupos escolares, inferiam sobre os fatores positivos e negativos advindos dos casos 82 estudados. Os excertos extraídos dessas pesquisas foram publicados na Revista do Ensino ─ Órgão Oficial da Inspetoria Geral da Instrução de 1930 ─ tendo sido o texto final elaborado por Antipoff, como sendo um estudo psicopedagógico experimental. Movidas por certas questões instigadoras, Antipoff e suas alunas/colaboradoras buscavam compreender o fato de haver, no primeiro ano, alunos de idade tão avançada. Seria porque entravam muito tarde para a escola ou repetiam muitos anos na mesma série? A propó- sito, o resultado das pesquisas nos Grupos Escolares da capital indicava uma queda considerá- vel do número de crianças de primeiro ao segundo ano escolar, ou seja, os alunos que deveriam naturalmente ser promovidos do primeiro para o segundo ano acabavam sendo retidos, por duas, três ou mais vezes consecutivas, chegando a 48,9%. Tal fato demandou uma maior investiga- ção, pois era necessário pontuar as possíveis causas dessa irregularidade ao longo de todo per- curso escolar dos alunos, comumente observada em um grau bastante elevado. Com esse intuito, as professoras das referidas classes eram orientadas a registrar, para cada criança em particular, os motivos pelos quais ela foi levada à repetência escolar. Ademais havia um interesse em de- tectar essas causas a fim de verificar quais delas atuavam de maneira mais funesta e frequente para, assim, minorá-las. Diante desse quadro, Antipoff (1930, p. 157) analisou os resultados de dez classes escolares do primeiro ano, de um dos grupos pesquisados, e constatou que muitas crianças ti- nham idade irregular, com discrepância para mais ou para menos, sendo que apenas 36,2% apresentavam-se na idade/série compatível (sete anos a sete anos e onze meses). Por meio de levantamentos realizados, a educadora percebeu que tal generalização se expandia por todos os grupos escolares de Minas Gerais. Ao avaliar a relação entre novatos e repetentes, constatou-se que a repetência no primeiro ano, respondia por si só a sua questão inicial ─ tanto a idade avançada das crianças, quanto a queda na quantidade de alunos nos anos consecutivos. Antipoff (1930, p. 158) apresentou juntamente com suas alunas/colaboradoras, como exemplo ─ elaborado por uma professora das classes pesquisadas ─ o registro da marcha das crianças por meio da escola e os indicadores sobre as condições exteriores e ou interiores que levaram à sua repetência, no período entre 1923 a 1930 (ver Figura 1). Ela acreditava que um olhar criterioso sobre essas questões certamente trariam proficientes resultados. Porém, pela escassez de tempo, seria esse um campo de pesquisa a ser posteriormente retomado, uma vez que o material coletado demandava extenso estudo para indicação das reais causas de tais irre- gularidades. 83 Figura 1 Registro da pesquisa relativa a marcha das crianças na Escola, realizada em 1930. Fonte: Revista do Ensino ─ Orgão Oficial da Inspetoria Geral da Instrução. Ano V, n. 50,51 e 52, out., nov. e dezembro de 1930, p. 159 (CDPHA – Ibirité/MG). 84 Pode-se perceber, pela análise da Figura 1, que o descompasso no percurso escolar dos alunos era atribuído a fatores pluricausais relacionados às condições intrínsecas da criança, como a entrada em idade precoce, antes dos 6 anos; o desenvolvimento mental insuficiente para frequentar a escola; dificuldades escolares; problemas de saúde; deficiência visual ou, ainda, a fenômenos extrínsecos, tais como: infrequência às aulas; escola distante da residência; transfe- rência de escola; trocas e faltas contínuas de professora. Antipoff concluiu também que o meio social exercia grande influência nesse resultado. [...] a tudo isso é preciso acrescentar dois motivos prováveis que as professoras não indicaram, para não humilhar suas colegas: irregularidade na frequência das profes- soras, do que resultava perder a classe a direção normal, e, em segundo lugar a com- petência insuficiente das professoras que não possuem, às vezes, nem saber nem ap- tidões necessárias para assegurar o progresso normal das crianças (ANTIPOFF, 1930, p. 158). 5.3 As bases teóricas das formulações de Helena Antipoff Helena Wladimirna Antipoff nasceu em 25 de março de 1892, em Grodno, na Rús- sia, filha de Wladimir Vassilevitch Antipoff, capitão do Exército russo, e de Sofia Constanti- novna, com formação em pedagogia, em Lodz. Em 1901, o casal e as filhas foram morar em São Petersburgo, capital do império czarista e a cidade russa mais próxima da Europa Ocidental, onde cursou o nível secundário e o curso Complementar Normal. Em1909, em companhia da mãe e suas irmãs, mudaram-se para Paris, na França, matriculou-se na Sorbonne, em 1911, com o propósito de cursar medicina. Na condição de aluna da Universidade, Helena Antipoff tinha acesso às aulas e seminários no Collège de France, destacava-se especialmente nas conferências de Pierre Janet44 (1859-1947), por sua abordagem funcional do comportamento humano e Henri Bergson45 (1859-1941), por sua abordagem fenomenológica no estudo da consciência, o que despertou o seu interesse pela área da psicologia (CAMPOS, 2010, p. 15; CAMPOS, 2012 p. 395). 44 Pierre Janet (1859-1947) era psiquiatra, discípulo de Charcot, professor de psicologia do Collège de France e diretor do Laboratório de Psicologia do Hospital de Salpetrière (LOURENÇO, 2001, p. 35). 45 Henri Bergson (1859-1941) foi eminente filósofo francês, ganhador do Nobel de literatura em 1927, pro- fessor na École Normale Supérieure e no Collège de France. Nessa instituição Antipoff assistira alguns de seus seminários (DOMINGUES, 2011, p. 17). 85 Durante seu percurso na Universidade de Sorbonne, estagiou no Laboratório de Pe- dagogia Experimental, fundado por Alfred Binet46 (1857-1911), em uma Escola Primária situ- ada na rua Grange – aux – Belles, em Paris. Teria ele sido designado, em 1904, pelo ministro francês da instrução pública para compor uma comissão de estudos que auxiliasse as escolas primárias na identificação das dificuldades na escolarização, nas chamadas classes especiais, e que necessitavam de atendimento especializado (LOURENÇO, 2001, p. 36). Nessa época, Bi- net empreendia estudos sobre a psicologia infantil, especialmente o desenvolvimento das fun- ções psicológicas superiores ─ memória, imaginação, atenção, compreensão (CAMPOS, 2010, p.16). A partir desses estudos ele se associou ao médico psiquiatra Théodore Simon (1873- 1960), na elaboração da primeira escala para medida da inteligência, denominada Escala Binet- Simon. Helena Antipoff participou desse trabalho logo após a morte de Binet, em 1911, como estagiária de Dr. Simon na aplicação e análise dos resultados dos testes. Foi exatamente nesse Laboratório de Psicologia da Sorbonne que Antipoff teve o primeiro contato com Édouard Claparède47 (1873-1940), médico, psicólogo, educador e cien- tista suíço. Era detentor de vasta e expressiva obra, em torno de diferentes temas e preocupações do universo psicológico infantil, a partir de um enfoque interacionista (HAMELINE, 2010, p. 31). Em 1901, lançou a expressão ─ “Escola sob medida” ─ por meio da qual defendia uma escola que se adaptasse às peculiaridades do educando. Entendia que a principal função da educação era estar em harmonia com o funcionalismo da espécie. Segundo Hameline (2010), era um defensor da Educação Nova, pois acreditava ser o aluno o centro do processo educativo e via a criança como responsável por sua aprendizagem. Foi contemporâneo do educador norte- americano John Dewey (1859-1952), com quem também compartilhava a ideia de uma escola ativa, em que a aprendizagem ocorre por meio da resolução de problemas. 46 Ver nota de rodapé n◦ (5) p. 22. 47 Édouard–Jean Alfred Claparède – Nasceu em 1873, em Champel, Genebra. Em 1892, frequentou o pri- meiro semestre do curso de medicina, em Lípsia, transferiu-se depois para Genebra, onde concluiu seu dou- toramento. Em 1937, foi acometido por grande aborrecimento com a morte de seu filho Jean -Louis, vítima de um ataque cardíaco. As insatisfações causadas pelo ambiente europeu antes da segunda guerra mundial e, consequentemente, a luta armada, com todas as suas mazelas, acrescidas pela perda do filho, culminou na diminuição das forças do Educador, encaminhando-o para a morte. Claparède trabalhava na Universidade e, no Instituto Jean Jacques Rosseau, escrevia para os Archives de Psychologie. Em 1939, colaborou com o artigo “De l’ intelligence animale à l’intelligence humaine” que fez parte do livro: Le mystère animal. Em 1940, o educador ainda escreveu para os jornais e revistas genebrinos. Aos 29 de setembro de 1940, após muito contribuir para a Educação e a Psicologia, faleceu aos 67 anos de idade (ARCE A.; SIMÃO, R. 2007, p. 40). 86 Em 1904, assumiu a direção do Laboratório de Psicologia da Universidade de Ge- nebra e destacou-se como um estudioso da psicologia da criança na Europa; foi importante ícone da pedagogia moderna e rigoroso crítico da escola tradicional. Desde 1903, mantinha na Universidade um curso de psicologia da criança, inspirado nos novos métodos; e em 1906 or- ganizou no laboratório sob sua direção, um importante seminário sobre Psicologia Pedagógica, destinado às pessoas que se preparavam para o magistério. Esforçou-se por dar continuidade ao evento sob a chancela da Universidade, porém, vários foram os obstáculos que o levaram à decisão de criar uma escola livre. Em outubro de 1912, com o apoio de pesquisadores e estudi- osos da época, em Genebra, criou o Instituto Jean Jacques Rousseau – IJJR, assim denominado, em comemoração ao bicentenário de nascimento de Rousseau, sendo seu primeiro diretor Pierre Bovet48. O objetivo desse Instituto era iniciar as pessoas que se destinavam à carreira pedagó- gica uma formação em ciências da Educação (CLAPARÈDE, 1956, p.100). Logo após a criação do Instituto, Claparède visitou instituições de ensino dos países vizinhos com o intuito de difundir os trabalhos ali realizados. O Laboratório de Psicologia da Sorbonne fez parte desse roteiro; as estagiárias de Dr. Simon ─ Helena Antipoff e Aline Giroud ─ foram convidadas para se integrarem como alunas do IJJR. Antipoff transferiu-se para Ge- nebra, matriculou-se no Instituto Rousseau, onde se diplomou em 1914 (CAMPOS, 2010, p. 17). Durante o tempo em que foi aluna do referido Instituto, ela frequentou um curso sobre as propostas Montessorianas, em 1913, ministrado por Teresina Bontempi e Jeanne Barrère, duas das primeiras discípulas de Montessori49 (1870-1952). A metodologia adotada pelas professo- 48 Pierre Bovet (1878-1965) – foi, junto com Claparède, fundador do Instituto Jean Jacques Rousseau. Filó- sofo de formação, Bovet foi um pesquisador experimental. Tinha muitos interesses como a psicanálise e o escotismo. Foi o primeiro diretor do Bureau International de l’Éducation (BIE) (BORGES, 2014, p. 26). 49 Maria Montessori nasceu em 1870, em Chiaravalle, próximo à Ancone, na Itália, e morreu em 1952, em Nordwjik, na Holanda. Em 1896, é a primeira mulher italiana a concluir medicina, com um estudo sobre neuropatologia. Em seguida, trabalha durante dois anos como assistente na clínica psiquiátrica da Universi- dade de Roma, onde é principalmente encarregada de estudar o comportamento de um grupo de jovens com retardos mentais. É nessa época que descobre as obras dos médicos franceses Bourneville, Itard, Séguin e Pereira, espanhol que viveu em Paris e conheceu Rousseau e Diderot. Ela adquire um interesse particular pelos estudos de Itard – que tentou civilizar a criança selvagem encontrada nas florestas de Aveyron, por meio de estímulos e do desenvolvimento dos seus sentidos – e de Édouard Séguin, aluno de Itard. Decidiu se dedicar aos problemas educativos e pedagógicos. Após ter estudado pedagogia, ocupou-se da modernização de um bairro pobre de Roma, San Lorenzo, encarregando-se da educação das crianças. Para atender às suas necessidades, ela fundou uma casa das crianças – Casa dei Bambini onde estas podiam aprender a conhecer o mundo e a desenvolver sua aptidão para organizar a própria existência. Maria Montessori foi uma das figuras autênticas da Educação Nova enquanto movimento internacional. O conceito fundamental que sus- tenta sua obra pedagógica é que as crianças necessitam de um ambiente apropriado onde possam viver e aprender (RÖHRS, 2010, p. 12-14). 87 ras na realização desse curso se fundamentava na ação exemplar da mestra, que sempre se des- tacou por conjugar teoria e prática. Lourenço (2001, p. 41 cita Hameline (1996), o qual des- creve, de forma pontual, a metodologia desenvolvida durante a elaboração do curso: pela ma- nhã, os alunos ─ um grupo heterogêneo de crianças com idade entre três e oito anos─ assistiam às aulas conduzidas por Bontempi e Barrère, nas dependências do IJJR. À tarde, as professoras prosseguiam em discussão acerca dos procedimentos adotados no decorrer das aulas matinais e a apresentação das ideias e teorias nas quais a prática se fundamentara. Após a realização do curso, ainda em 1913, Helena Antipoff colaborou na instala- ção da escola anexa ao IJJR, a Maison des Petits, que segundo Claparède (1956), era “[...] um meio educativo onde se pudesse fazer a verificação prática das melhorias e reformas sugeridas por um conhecimento mais aprofundado da psicologia infantil [...]”. Além disso, Antipoff res- ponsabilizou-se pela educação das crianças de quatro anos sob a supervisão de Audemars50 e Lafendel51, trabalho que foi fundamentado nos métodos de Montessori (1870-1952), Froebel52 (1782-1852) e Decroly (1871-1932), e ainda, na concepção funcionalista instituída pelos estu- dos de Claparède ((1873-1940). Campos (2010, p. 105) nos esclarece que, pelos relatos de Claparède, as atividades educativas propostas na escola Maison des Petits eram, de início, inspiradas nas ideias da mé- dica e educadora italiana Maria Montessori, que havia revolucionado os métodos educacionais destinados às crianças deficientes. Posteriormente os utilizou na educação das crianças que não apresentavam qualquer dificuldade, em escolas populares na Itália, com grande sucesso. Cla- parède, no entanto, considerava que as técnicas de ensino preconizadas por Montessori contra- diziam, de certa forma, os princípios libertários para a formação de seres humanos independen- tes e livres, uma vez que se baseavam no associacionismo, ao propor uma espécie de adestra- mento mecânico por meio de estímulos pré-estabelecidos na realização das atividades. A equipe 50 Mina Audemars (1882-1971) – Professora do IJJR, dirigiu, desde 1913, a escola de aplicação desse Insti- tuto, a Maison des Petits (BORGES, 2014, P. 26). 51 Louise Lafendel (1872-1971) educadora genebrina, a qual também foi confiada à direção da escola Maison des Petits. Tinha experiência na Escola Malagnou, em Genebra, inspirada em Froebel. (CAMPOS, 2010, p. 22). 52 Friedrich Froebel (1782-1852), pedagogo alemão, conhecido como fundador dos Kindergarten (jardins da infância), atuou efetivamente como educador prático. Formulou também uma filosofia da educação que en- fatizava o respeito à atividade espontânea da criança. (CAMPOS, 2010, p.107). 88 do Instituto Jean-Jacques Rousseau percebera um excessivo artificialismo na proposta montes- soriana que poderia trazer prejuízo à criatividade das crianças. Desta forma, Claparède não he- sitou em apresentar sua crítica ao sistema de Montessori: “[...] Diretamente inspirado pela educação dos anormais, aos quais é preciso estimu- lar, guiar e exercitar de maneira constante, precisamente porque lhes faltam os impul- sos naturais à vida do espírito, o sistema Montessori desconhece demasiado que a criança normal se desenvolve, no fundo, completamente só, e que o que é preciso, antes de tudo, é colocá-la em um meio adequado à satisfação de seus interesses, de seus apetites de curiosidade e de movimento, em um meio afinal que apresente à sua pequena inteligência problemas de ação ou de pensamento (CLAPARÈDE, 1956, p. 537). Para Campos (2010, p.103), a trajetória de Antipoff no IJJR se constituiu de forma a lhe garantir uma formação mais abrangente sobre a abordagem funcional à psicologia da in- teligência e sobre os métodos ativos em pedagogia. Além de decisivo, seu contato com Cla- parède, na construção da sua visão sobre as relações entre desenvolvimento humano, inteligên- cia e educação. Em 1917, ao retornar à Rússia, onde permaneceu até 1924, Antipoff trabalhou com as crianças órfãs, vítimas da Primeira Guerra e da Revolução Russa. Em São Petersburgo fora convidada, juntamente com outros pedagogos, psicólogos e médicos, para estudar centenas de crianças, abandonadas nos Centros-Médicos Pedagógicos, subjugadas a condições adversas (ANTIPOFF H., 1927/1992a, p.38). Sua função era fazer o exame psicológico das crianças, com o propósito de encaminhá-las de acordo com seu caráter, para as 150 instituições pedagó- gicas, médicas e jurídicas existentes. Para a avaliação psicológica, adotou os testes que já lhe eram conhecidos, como a escala de medida da inteligência proposta por Alfred Binet e Théo- dore Simon (CAMPOS, 2010, p.24). Para o estudo da personalidade infantil, Antipoff utilizou o método desenvolvido pelo psicólogo russo Alexandre Lazurski53, denominado “experimen- tação natural”, cujos princípios foram expostos por ele, em 1911, no Congresso de Pedagogia Experimental de São Petersburgo. Antipoff assinalava que a “experimentação natural” se cons- tituía tanto na observação simples como na experiência psicológica. Tinha a grande vantagem 53 Alexander Fiódorivich Lazursky (1874-1917) ─ psiquiatra e psicólogo russo ─ foi um estudioso da psico- logia das diferenças individuais e detinha um vasto e erudito conhecimento da evolução da psicologia cien- tífica de sua época. Foi um dos primeiros psicólogos russos a trabalhar com os testes psicológicos no Instituto Psiconeurológico de São Petersburgo. A técnica da experimentação natural se configurava numa crítica ao uso isolado desses testes, e foi elaborada pelo autor como alternativa de estudo, evidenciando mais aspectos qualitativos e naturalistas da personalidade. Defendia firmemente a posição favorável à psicologia científica, baseada na pesquisa empírica, compatível com a teoria materialista. Faleceu em 1917; não teve, portanto, a oportunidade de presenciar as inovações da revolução comunista (CAMPOS, 2010, p. 118). 89 de estudar a personalidade em seu meio habitual, sem transferir a criança para condições artifi- ciais de laboratório, além de garantir o estudo na sua totalidade sem o fracionar em elementos isolados, uma vez que a personalidade é um todo funcional e não uma soma mecânica das fun- ções psíquicas. De acordo com o que nos apresenta Helena Antipoff (1927/1992a p. 30), Lazurski dedicou grande parte de sua trajetória ao estudo psicológico da personalidade; aplicou todos os processos até então conhecidos de investigação individual e chegou à conclusão de que era necessário procurar uma abordagem mais precisa ─ um método cujo princípio fosse mais con- sonante ao objeto de estudo. Trabalhou com vários colaboradores, psicólogos e pedagogos, os quais examinaram e observaram crianças de uma escola e registraram suas condutas. Mediante esse estudo, Lazurski fez a primeira descoberta: “[...] segundo o gênero de ocupações escolares, o comportamento da criança revelava determinados aspectos de sua personalidade. Cada ocu- pação determinada suscitava na criança reações de categorias particulares” (ANTIPOFF, 1927/1992a, p. 31). Antipoff (1930/1992c, p.165) destacou que Lazursky elaborou seu método de ob- servação, no ambiente escolar, por meio das atividades curriculares comuns e em colaboração com os professores das classes experimentais, estudou minuciosamente todas as disciplinas re- lativas ao curso primário (atualmente denominado Ensino Fundamental). A proposta consistia em uma observação metódica e dirigida das crianças em ocupações escolares específicas. La- zursky observou que, de acordo com cada ocupação executada, certos aspectos da personali- dade seriam manifestados ─ durante as lições de cálculo e na resolução de problemas de mate- mática, poderia ser observada a capacidade de compreender rapidamente o enunciado, de rela- cionar as operações fundamentais e de estabelecer nas lições experimentais da língua materna ─ nas quais se estuda a memória, a imaginação e a aptidão linguística ─ seriam apresentados o domínio de leitura, a produção oral e escrita e a análise gramatical e de conteúdo de um texto. A história natural, por sua vez, revelaria, sobretudo, o poder de observação, assim como, o desenho, a ginástica e os jogos livres descobririam as funções psicomotrizes, as tendências afe- tivas e volitivas (ANTIPOFF, 1927/1992a, p.31). Antipoff (1930/1992c, p. 168) reporta-se, ainda, às suas experiências realizadas na Maison des Petits, em Genebra, em colaboração com dois alunos do Instituto J. J. Rousseau, cujo estudo referia-se ao método de experimentação natural utilizado com crianças entre seis e oito anos, observadas durante a execução de trabalhos manuais comuns, que de acordo com 90 Antipoff (idem, p. 168) ofereciam preciosos meios para ampla revelação da personalidade dos pequenos trabalhadores, cujos variados aspectos podiam ser estudados com bastante exatidão e objetividade. As atividades se constituíam, na prática, das seguintes modalidades de trabalho: tecelagem, marcenaria, modelagem, costura e bordados, desenho nos cadernos e pintura. Lazursky publicou monografias pormenorizadas e psicologicamente analisadas da maneira indicada para as aulas de Língua Pátria, Aritmética, História Natural, ginástica e jogos, desenho e trabalhos manuais. Em cada uma destas, foram salientados os exercícios mais signi- ficativos do ponto de vista psicológico, a partir dos quais foi estabelecida a seguinte série de nove exercícios: memorização de um poema; composição (atualmente produção de texto) sobre três palavras dadas; descrição de um objeto; solução de um problema de aritmética; análise de uma pequena experiência de física; desenho de um modelo, colocado sob a vista da criança e para o qual ela deve imaginar um ambiente conveniente; leitura e análise do conteúdo de um texto; alguns exercícios de ginástica e jogos ao ar livre, além da confecção de um quadro de papelão (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 166). Esse material criteriosamente selecionado dentre as ocupações habituais da classe e preparado como se prepara uma experiência científica permitiu a Lazursky examinar as cri- anças sob diferentes pontos de vista da personalidade: movimento, sentimento, imaginação, percepção e memória, pensamento e vontade. Com base nesse quadro de lições planejadas com antecedência e a partir da observação sistemática da criança, colocada em ação em seu ambiente natural, buscava-se interpretar estas manifestações para a compreensão das tendências da per- sonalidade individual. Não se tratava, portanto, de uma observação fortuita, mas de uma técnica dirigida, intencional e metódica, que se relacionava às reações das crianças à investigação mais concreta de suas caraterísticas (ANTIPOFF, 1927/1992a, p. 32). Esses registros produziam per- fis em formato de estrela, nos quais os pontos fortes e fracos de cada criança poderiam ser identificados. Importa ressaltar, a atuação de Antipoff como colaboradora científica no Labo- ratório de Psicologia Experimental, em Petrogrado54, em 1921, fundado por Alexander Netcha- jeff55, onde empreendeu um exame de nível mental das crianças entre quatro e nove anos. O 54 A cidade de São Petersburgo, fundada por Pedro, o Grande, em 1703, tornou-se capital da Rússia em 1712. Palco principal da Revolução Comunista de 1917, teve o nome mudado para Petrogrado, até 1924, e Lenin- grado, de 1924 a 1991, em homenagem ao líder revolucionário Vladimir llitch Ulianov (Lênin). Em 1991, com a queda do regime comunista, voltou à antiga denominação, São Petersburgo (CAMPOS, 2010, p. 23). 55 Alexandre Netchajeff - nasceu em São Petersburgo em 1870. Estudou em um seminário e depois em uma Faculdade de Letras. Em seguida cursou a Faculdade de Ciências por dois anos. Em 1897, obteve o título de professor na Universidade de São Petersburgo e trabalhou na área da Psicologia Experimental aplicada aos 91 propósito era verificar se a época extraordinária da guerra, da revolução, da fome e do terror podia influenciar sobre o desenvolvimento mental infantil (ANTIPOFF, 1927/1992a, p. 9). Ainda nessa época, assumiu a função de educadora-residente no Reformatório de menores de Petrogrado, instalado em um casarão antigo da época dos czares. Era responsável, em colabo- ração com outros assistentes, pela educação de cerca de 150 adolescentes, com os quais a edu- cadora realizou um trabalho de investigação psicopedagógica: “[...] realiza um trabalho completo de investigação psicopedagógica dos menores in- ternados. Separa-os em grupos mais homogêneos, prevendo para uns, além de assis- tência pedagógica, um reforço também de tratamento medicamentoso e alimentar. Para outros, em regime de semivigilância e de menor exigência intelectual, preconiza atividades práticas, desenvolvidas preferencialmente em áreas rurais e profissionais. Para um terceiro grupo, de meninos menores, sugere que os mesmos sejam distribuí- dos entre pequenas famílias, num regime provável de adoção” (ANTIPOFF, Daniel, 1996, p. 76). Em 1922, Helena Antipoff transferiu-se para Viatka, cidade localizada entre a Rús- sia ocidental e a oriental, com o propósito de trabalhar na Estação médico-pedagógica ─ “[...] em uma escola residencial, espécie de patronato para adolescentes difíceis, onde dezenas de jovens eram mantidos sob os cuidados do governo” (ANTIPOFF, Daniel, 1996, p. 81). Foi contratada como psicóloga, com a função de organizar o sistema de atividades educacionais e escolares, para atender aos anseios do novo regime, que tinha interesse em se mostrar atento ao problema dos jovens delinquentes. Em Viatka, a educadora organizou um laboratório de psicologia que, com a ajuda de algumas pessoas interessadas, [...] “examinam as crianças, fazendo de cada uma ampla des- crição pormenorizada quanto a características e aptidões” (ANTIPOFF, D., 1996). Os resulta- dos apresentados por meio de gráficos demonstraram de forma nítida os progressos ocorridos nas crianças após regime alimentar adequado e intervenções pedagógicas apropriadas. Com base nesse registro, pode-se inferir que Antipoff e seus colaboradores, ao examinarem as crian- ças, lançavam mão de um instrumento de avaliação qualitativa-descritiva para verificar a aqui- sição do processo de desenvolvimento e aprendizagem das crianças, o que se remete a uma avaliação especificamente pedagógica. problemas da educação. Organizou o primeiro curso de pedologia na Rússia e o primeiro Congresso de Psi- cologia Pedagógica, dentre outras realizações (ANTIPOFF, 1913-1914, citada por BORGES, 2014, p.27). Nota-se uma divergência relacionada ao seu nome. Borges, A.A.P. (2014, p. 28) grafa Alexandre Netchajeff, com base em fonte de Antipoff (1913-1914); Campos, R.H.F. (2012, p. 397; 2010, p. 32): Alexander Petro- vich Nechaev; Netschaieff; Lourenço, E. (2001, p. 50): Alexander Petrovich Nechaev; Antipoff, Daniel. (1996, p.82), por sua vez, escreve apenas o sobrenome Netschaieff. 92 Segundo relato de Daniel Antipoff (1996, p. 83), as atividades desenvolvidas pela educadora na Rússia Soviética foram interrompidas em 1924, quando mudou-se para Berlim, na Alemanha, onde o jornalista Vitor Iretzky, seu marido, encontrava-se exilado. Ainda nessa época, Helena Antipoff publicou dois artigos em Petrogrado ─ Plano e técnica para o exame psicológico de crianças e O desenvolvimento mental de crianças pré-escolares. Esse último estudo teria sido os resultados da pesquisa realizada por ela, sob a orientação de Nechaev, no Laboratório de Psicologia de Petrogrado, que investigava se a vivência da situação de guerra e revolução traria impacto sobre o desenvolvimento mental infantil ─ trabalho esse citado ante- riormente. Os referidos resultados evidenciaram que os filhos de intelectuais e nobres eram mais capazes do que os filhos de proletários. Essa conclusão deu origem a tal estado de tensão por parte das autoridades soviéticas ao ponto de Helena Antipoff sofrer ameaças de denúncia como partidarista e elemento prejudicial ao regime. Ainda, de acordo com Daniel Antipoff (1996, p. 85), após a tentativa de trabalho em escolas alemãs, Helena Antipoff percebeu sua dificuldade em adaptar-se à mentalidade ger- mânica, o que a levou à criação de uma escola infantil particular, destinada aos filhos dos russos expatriados residentes em Berlim. Em 1926, foi convidada por Claparède a retornar a Genebra, onde se tornou professora de psicologia no Instituto Jean-Jacques Rousseau e assistente de Cla- parède no Laboratório de Psicologia da Universidade de Genebra. Nesse período, desenvolveu intensa produção científica, com repercussão para além das fronteiras dos países de língua fran- cesa. Foi convidada pelo governo de Minas Gerais para subsidiar na implantação da Reforma de Ensino iniciada em 1927. No entanto o convite somente foi aceito em 1929. 93 6 HELENA ANTIPOFF: DA ORGANIZAÇÃO DAS CLASSES ESCOLARES NO EN- SINO PÚBLICO DE BELO HORIZONTE À CRIAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES DE ATENDIMENTO A CRIANÇAS EXCEPCIONAIS. “A tarefa do mestre é de tal complexidade que ele se sente completamente desorientado quando, ao deixar a es- cola comum e os alunos normais, vem, usando seus métodos rotineiros, agir no meio destes seres excepcionais. Como ensinar as matérias escolares quando as crianças não sabem ouvir, nem olhar, nem falar, nem compreen- der as coisas mais elementares, nem trabalhar, nem reagir aos estímulos comuns da vida infantil? Como desper- tar nelas os interesses naturais da idade? Como sublimar as tendências que, em algumas, são dirigidas para objetivos ilícitos? E como captar suas energias para fins construtivos? Devemos confessar que o problema é um verdadeiro quebra-cabeças, e que somente um trabalho experimental de longa duração e de uma dedicação infi- nita poderá trazer esclarecimentos suficientes para não se andar às escuras e não se tatear sem direção”. (HELENA ANTIPOFF,1970, SPB). Neste capítulo, busca-se compreender a organização das classes e o controle de sua homogeneidade realizados nas escolas primárias de Belo Horizonte, segundo o desenvolvi- mento mental das crianças. Para uma maior percepção desse processo, faz-se necessário voltar aos fatos históricos que o antecederam. Durante a década de 1920, reformas educacionais foram promovidas em vários es- tados do Brasil. Em 1924, com a fundação da Associação Brasileira de Educação - ABE, sob a liderança de um grupo de educadores progressistas ─ Lourenço Filho, Sampaio Dória, Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Noemi da Silveira, entre outros, começaram um movimento em prol dessas reformas. Dentre os partidários da escola nova que promoveram reformas estaduais, destacou- se Francisco Campos, em Minas Gerais, que buscou referência do Instituto Jean Jacques Rous- seau, na Suíça. Entre os profissionais que compunham a comissão designada, estava Helena Antipoff (1892-1974), que recebera o convite para assumir os trabalhos do Laboratório de Psi- cologia da Escola de Aperfeiçoamento de Professores de Belo Horizonte, assim como, desen- volver em Minas Gerais atividades relacionadas à recente ciência psicológica e suas aplicações à educação. O Regulamento do Ensino Primário, elaborado por Francisco Campos, em 1927, preconizava a organização de classes homogêneas, a partir do nível intelectual de cada criança e prescrevia o estabelecimento de classes especiais para aquelas consideradas “retardadas”56 (1927/1992a, p.157). Entretanto tal medida somente começou a ser efetivada, em 1929, por 56 Expressão utilizada à época para designar pessoas com deficiência cognitiva. 94 Théodore Simon ─ colaborador de Alfred Binet na elaboração dos testes de inteligência ─ a partir do primeiro experimento de homogeneização das classes, realizado em dois grupos esco- lares de Belo Horizonte (FAZZI et al., 2011). 6.1 A homogeneização das Classes Escolares: critérios de seleção Inicia-se em 1931, sob orientação de Helena Antipoff, a aplicação dos testes em larga escala, de forma sistemática, nas escolas primárias da capital mineira, bem como em al- gumas cidades do interior, por meio do trabalho das professoras recém-formadas na Escola de Aperfeiçoamento (ANTIPOFF,1927/1992a, p. 157). Sua função no sistema de homogeneização das classes, consistia em preparar as professoras para proceder a avaliação diagnóstica das cri- anças a partir da aplicação de testes de inteligência. Para Antipoff, a tentativa de agrupar as crianças em classes seletivas, segundo seu desenvolvimento mental, era uma forma de facilitar a racionalização do trabalho pedagógico (1927/1992a p. 261). A educadora concordava com essa organização por ser compatível com a ideia da escola sob medida, defendida por Claparède (CAMPOS, 2010, p. 49). Essa enturmação considerava as diferenças individuais, o ritmo e as capacidades de aprendizagem. Os critérios sugeridos para a distribuição das crianças em classes homogêneas seriam ─ a idade, os resultados escolares e o nível de desenvolvimento mental. Também eram consideradas as diferenças biológicas e psicológicas, sua personalidade, seus interesses e aptidões, suas atividades e energias, suas faculdades intelectuais e seus conheci- mentos. Diante dessa multiplicidade de tendência e capacidade, caberia a escolha adequada dos métodos mais eficazes para educá-las, de forma a não agregá-las uniformemente em um único feixe de ação pedagógica (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 31). Por outro lado, Antipoff questionava os efeitos dessa medida empregada isolada- mente, pois, segundo ela, não era a homogeneidade dos alunos que determinava o seu sucesso, mas sim, o ensino compatível ao desenvolvimento das crianças. “[...] Há muito tempo a peda- gogia reclama o ensino individualizado, a educação sob medida, o trabalho escolar correspon- dendo às necessidades de cada idade, aos interesses de cada meio, ao desenvolvimento de cada indivíduo” (1930/1992c, p. 27). 95 Por ocasião da IV Conferência Nacional de Educação, promovida pela Associação Brasileira de Educação – ABE, em dezembro de 1931, Antipoff, em colaboração com sua aluna Naytres Rezende, publicou estudos sobre os exercícios de “ortopedia mental” para as classes especiais, assim como relatório que tratava da seleção das crianças em classes homogêneas. Ao discorrer sobre os critérios para esse fim e de suas vantagens, elas consideraram a criança como um ser em estado de evolução, em que a marcha evolutiva por ela alcançada seria talvez o melhor critério para tal seleção: As crianças, nascidas mais ou menos na mesma época, tendo todas partido de um mesmo ponto, crescendo e tendendo ao estado adulto, realizam essa trajetória com ritmos diferentes; umas caminham rapidamente; outras, com lentidão; umas serão as primeiras a chegar; outras chegarão por último. É fato digno de nota que, enquanto umas, a maioria, atingem o fim, percorrendo etapas sucessivas, outras, em minoria, jamais o atingem. Essas nunca se tornarão adultas no sentido bio-psicológico da pala- vra, seja porque tenham iniciado a vida com uma reserva de força insuficiente para perfazer o caminho total, seja pelo fato de sobreviverem acidentes em meio do cami- nho. Destacam-se, assim, em uma das extremidades da escala, crianças precoces, e em outra, lerdas e retardadas, deixando ver na parte central um conjunto bastante denso de crianças cujo desenvolvimento se faz no ritmo médio (ANTIPOFF; RE- ZENDE, 1934, p. 11-12). Antipoff afirmava que, ao lado das diferenças na evolução biomental, havia um grande número de outros caracteres distintos entre si, e que deveriam ser levados em conside- ração para distinguir ─ “[...] os robustos e fracos, os bem dotados e os medíocres ou desprovidos de todas as aptidões especiais; as naturezas completas e plenas de seiva e, ao lado, os seres incompletos e pobres em vitalidade física e mental, as naturezas organizadas e harmoniosas e, as desorganizadas e sem equilíbrio”. (ANTIPOFF; REZENDE, 1934, p. 12). Nessa linha de pensamento, as autoras mostravam a necessidade de se ater às diferenças individuais e a exis- tência de crianças em condições particulares entre as normais e as “excepcionais”, superdotadas ou infradotadas e, para cada um desses perfis, deveria ser construído um currículo, com métodos de ensino e intervenções pedagógicas compatíveis ao seu ritmo. Para Antipoff (1930/1992c, p. 32), a primeira iniciativa para efetivar a individuali- zação do ensino era agrupar as crianças segundo o ritmo do desenvolvimento mental. O pro- cesso mais utilizado, à época, era a seleção das crianças e sua enturmação em classes homogê- neas de valor forte, médio e fraco, a partir dos resultados dos testes de inteligência geral, orga- nizados em escalas de idades mentais. Sabia-se que os resultados dessas provas eram expressos 96 em termos de quocientes intelectuais, os quais revelavam a relação entre a idade mental forne- cida pelo teste e a idade real, vital da criança. Portanto conhecer a idade cronológica era fator determinante para o processo de diagnóstico da criança. Contudo os critérios administrativos vigentes para o ingresso das crianças à escola não consideravam a faixa etária dos estudantes, uma vez que não se exigia o registro de nasci- mento para fins de matrícula escolar. Pesquisas empreendidas pelo Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento revelaram que a maioria das idades dos alunos estava incorreta, motivo pelo qual muitas investigações iniciadas em 1929 foram anuladas, o que levou à exi- gência de dispositivo legal para coibir tal negligência. Em 1932, o então governador de Minas, Dr. Olegário Maciel, e seus auxiliares na pasta da Educação instituíram o decreto n◦ 10.133, para equacionar as consequências funestas advindas desse ato; tornou-se, a partir de então, obri- gatória a apresentação da certidão de nascimento no momento da matrícula nos grupos escolares de Belo Horizonte. Os benefícios trazidos por essa medida de importância social possibilitaram uma ação mais efetiva de Helena Antipoff na classificação da idade mental das crianças, uma vez que a idade cronológica estava na base da medida da inteligência. Antipoff era cautelosa quanto ao uso e resultados dos testes mentais, pois argumen- tava não serem inteiramente exatos e precisos para diagnosticar o desenvolvimento espiritual da criança “[...] o mais perfeito teste psicológico é impotente para chegar ao conhecimento de todos os seus meandros que influem na conduta e no progresso escolar” (1930/1992c, p. 34). Do ponto de vista da educadora, os testes psicológicos deveriam ser utilizados apenas para classificação provisória dos alunos, na formação inicial das classes homogêneas. Contudo li- mitar-se a essa primeira classificação, seria atribuir à psicologia um papel por demais escasso. Era necessário acompanhamento criterioso dos estudantes, por parte dos professores, com a finalidade de individualizar o ensino e atender às especificidades de cada criança. Assinalou, fundamentada na sua experiência no Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento, que os testes de inteligência, ainda que muito bem estalonados, se aplicados à criança no mesmo dia, ou com pequeno intervalo de tempo, nunca davam para todas as crianças idade mental e quociente intelectual absolutamente idênticos. Porém, com base em Claparède, Antipoff acen- tuou que, apesar dos resultados incertos, os testes valeriam pelo coeficiente de probabilidade que revelavam e evitariam juízos arbitrários, sujeitos, muitas vezes, aos caprichos do acaso. 97 6.1.1 A ficha de observação A fim de se corrigirem possíveis distorções provocadas pelos testes e colocar a cri- ança em condições mais apropriadas à sua natureza, Antipoff recomendava associar a aplicação dos testes à prática da observação metódica nas atividades cotidianas da própria sala de aula, sobre cada criança que a constituía. Ressaltava que os testes se aperfeiçoavam e adquiriam caracteres mais psicológicos, mas o diagnóstico formulado no início de escolarização da criança nunca poderia sozinho, determinar a priori, o lugar que cada aluno ocuparia no contexto das suas relações de aprendizagem (ANTIPOFF, 1930/1992c p. 34). Da mesma forma, era neces- sário preparar os professores para a arte de observar e compreender a personalidade humana. Com o intuito de guiá-los nessa tarefa árida e sutil, a educadora propôs um formulário para facilitar o processo de observação dos alunos, em todos os grupos escolares de Belo Horizonte, cujo preenchimento deveria ficar a cargo dos professores. Tratava-se de uma ficha de observação individual, de caráter processual a ser atua- lizada de três em três meses, que deveria evidenciar as modificações notadas na conduta da criança, ou seja, identificar as dificuldades e ou as potencialidades, no que dizia respeito, à aprendizagem e ao desenvolvimento global do aluno. 98 Figura 2 Ficha de Registro de Observação para as Crianças das Classes de 1◦ ano. Fonte: Antipoff, Helena (1930/1992c, p. 37-38). Versão extraída de: Fundação Estadual de Educa- ção Rural Helena Antipoff ─ FEER (s/d). 99 Como princípio norteador de sua ação, Antipoff era incansável na busca de instru- mentos fidedignos que fundamentassem suas investigações; essa ficha (ver figura 2) era mais um recurso com o objetivo de conhecer a criança para melhor educá-la. Criou vários testes psicológicos com o propósito de instituir o diagnóstico psicopedagógico, de forma a garantir o desenvolvimento da ação educativa da escola e o estudo da criança, baseado em sua personali- dade, aptidões e interesses. 6.l.2 Ficha-envelope individual para as crianças das Escolas Primárias Outro instrumento elaborado pelo Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfei- çoamento, sob orientação de Helena Antipoff, foi a ficha-envelope individual, que permitia re- colher para uma mesma criança as informações relevantes tomadas durante todo o seu percurso na Escola Primária. Quanto maior o conhecimento acerca dos alunos e de sua infância nas di- ferentes idades, por parte do professor, maior seria a eficácia da ciência e da arte pedagógica; quanto melhor estabelecer as condições biopsicossociais dos escolares, melhor poderiam ser acompanhados ─ e mais seguros seriam os dados necessários aos legisladores do Ensino Pú- blico para que este fosse reformado e melhorado (MINAS GERAIS, 1932, p. 13). Essas fichas individuais referentes às crianças de um mesmo grupo ─ ou para os alunos de todos os grupos escolares de um município ou de Belo Horizonte ─ após organizadas, registradas e guardadas, constituíam o Arquivo Pedológico Escolar daquele grupo, município ou da capital mineira. A ficha individual preenchida e consultada com critério formava uma fonte importante de documentação pedológica que constituía o material necessário a uma infi- nidade de situações de ordem psicológica, social e pedagógica como: informações acerca de casos particulares da criança, sua classificação em relação a classe por ocasião de troca de sala ou de transferência para outra escola; dispositivo de gestão pedagógica na elaboração de planos de ação compatíveis com as particularidades de cada aluno; registro sobre a relação entre a idade mental ou o quociente intelectual e a aptidão para aprender a ler, escrever, contar e cal- cular. Esse instrumento servia ainda como apoio para o planejamento de intervenções pedagó- gicas apropriadas para crianças anormais e crianças bem dotadas (MINAS GERAIS, 1932, p. 13). 100 A ficha-envelope era também útil para monitorar os efeitos dos métodos pedagógi- cos, os processos didáticos adotados e a influência do trabalho do professor com os alunos atendidos por um tempo relativamente longo. Além disso, favoreciam o acompanhamento de orientação profissional dos alunos que terminavam o curso primário ─ atualmente denominado ensino fundamental I ─ sem perspectiva de continuidade dos estudos acadêmicos. Um conselho escolar especial, de posse das respectivas fichas, poderia orientá-los, tendo em vista seu desen- volvimento intelectual, suas tendências e aptidões registradas durante vários anos. Como esse instrumento servia para vários fins e era frequentemente consultado, deveria ser feito com papel resistente, medindo 25 cm de comprimento e 19 de largura, com uma abertura na parte superior, assemelhando-se a um saco de papel. No sentido do compri- mento e em um dos lados do envelope, faziam-se constar todas as informações necessárias para a identificação da criança ─ nome completo, sexo, data de nascimento ─ e, em seguida, infor- mações sobre os pais ─ nome, naturalidade, profissão. Todo o restante do espaço era reservado para anotações sobre o processo de escolarização da criança, desde sua entrada para a escola primária ou desde à educação infantil, se assim fosse o caso. Os dados da escola eram registra- dos: o ano escolar (I, II, III, IV) correspondente ao aluno, o tipo de classe a que pertencia (A) forte, (B) média, (C) fraca, (D) classe dos retardados e a (E) para crianças indisciplinadas e de caráter difícil. Registravam-se ainda o nome da professora, a frequência do aluno durante o período letivo, as notas referentes aos conteúdos curriculares de Língua Pátria e Aritmética assim como as notas de comportamento. Com o propósito de facilitar as informações sobre o percurso escolar das crianças e acompanhar-lhes o desenvolvimento educacional ano a ano, dividia-se esse espaço do envelope em colunas, nas quais eram registrados os dados essenciais relativos a cada período. Todas as ocorrências na vida escolar e familiar do aluno eram criteri- osamente anotadas no espaço da observação ─ mudança de classe ou de turno na mesma escola; transferência para outra escola; troca de professora; insucesso na aprendizagem; possibilidade de desenvolvimento; mudança de residência. O verso do envelope era reservado aos resultados dos testes, aos quais as crianças eram submetidas durante sua vida escolar ─ testes de inteligência, de aptidão e escolares. Esse lado achava-se igualmente dividido em colunas correspondentes aos anos sucessivos, o que permitia a verificação rápida de data de aplicação, o nome e natureza do teste, o resultado em idade mental, quociente intelectual ou percentil. Vale ainda ressaltar que nenhuma indicação de caráter confidencial deveria ficar exposta no instrumento apresentado, mas sim acondicionada 101 de forma criteriosa no interior do envelope. O conteúdo deste se constituía de documentação importante relativa à criança ─ cópia de certidão de nascimento, resultados dos testes aplicados, avaliações de rendimento escolar semestrais e anuais, avaliações da escrita, desenhos, suas pro- duções de textos, como também as observações recolhidas sobre sua conduta e caráter. Quanto mais a personalidade da criança exigisse meios educativos eficientes, mais essa documentação seria ampliada; logo tanto as crianças anormais, retardadas, com anomalias de toda espécie, como também as crianças bem dotadas deveriam ser prioritariamente estudadas (MINAS GE- RAIS, 1932, p. 18). É importante ressaltar que a responsabilidade pelo preenchimento das referidas fi- chas ficava a cargo das professoras/técnicas diplomadas pela Escola de Aperfeiçoamento, uma vez que tinham como atribuição o agrupamento das crianças em classes homogêneas e a apli- cação de testes para sua classificação. Dessa forma, era evidente que a tarefa de anotar, registrar e conservar as fichas também estivesse compreendida nas obrigações de tais professoras, pois a finalidade imediata das fichas-envelopes consistia em garantir o melhor conhecimento dos alunos. Uma classificação eficaz só se daria por meio de consulta dos resultados dos testes psicológicos e escolares e das observações sobre a conduta dos alunos. Logo, pode-se inferir que o trabalho de observação, experimentação e o arquivo de documentos de tais categorias estivessem sob a responsabilidade das mesmas pessoas. Pretendia-se que cada aluno tivesse sua ficha nos grupos escolares onde trabalhava uma professora diplomada pela Escola de Aperfeiçoamento. O preenchimento das fichas inici- ava-se com as crianças novatas; depois, o primeiro ano repetente; em seguida, o segundo ano; posteriormente, as demais, com especial atenção para as crianças das classes que estavam sob a orientação direta das professoras/técnicas. Essas fichas eram registradas em livro específico para esse fim, cada uma com seu número, o qual era anotado na frente do envelope. Eram guardadas em caixas-fichário e dispostas conforme a ordem dos números registrados. Para se ter acesso à ficha de determinada criança, utilizava-se um caderno alfabético no qual constavam seus nomes e respectivos números. No caso de transferência de uma criança para outra escola, sua ficha a acompanharia; não devia, no entanto, ser entregue a ela. A professora/técnica que a recebia requisitava a ficha-envelope à escola de origem, e o documento era anexado ao fichário do novo estabelecimento com a indicação de transferência que acabara de se realizar. 102 Figura 3 Ficha-envelope individual para as crianças das Escolas Primárias Fonte: Revista do Ensino – Órgão Oficial da Inspetoria Geral da Instrução - MG. Ano 6 nº 68, 69, e 70. Abril, Maio e Junho, 1932, p. 15. 103 Fonte: Revista do Ensino – Órgão Oficial da Inspetoria Geral da Instrução – MG Ano 6 nº 68, 69, e 70. Abril, Maio e Junho, 1932, p. 16 104 6.1.3 Arquivos Pedológicos de Belo Horizonte Com a finalidade de difundir o uso das fichas-envelopes individuais nos diferentes estudos de ordem pedológica e escolar, o Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoa- mento teve a iniciativa de incorporá-las ao Museu da Criança e, para isso, duplicava-se cada ficha das crianças dos grupos escolares de Belo Horizonte. Quando os meios permitiam, dupli- cavam-se também as fichas de todas as crianças das classes especiais, bem como as das classes dos bem-dotados do interior, a fim de expandir esse campo de ação para favorecer investigações e estudos sobre elas, em todo o estado de Minas Gerais ─ nos estabelecimentos de ensino, onde trabalhavam professoras diplomadas pela Escola de Aperfeiçoamento (MINAS GERAIS,1932, p.20). Para facilitar esse processo de duplicação, as professoras técnicas dos grupos esco- lares de Belo Horizonte encaminhavam ao Laboratório as fichas-envelopes à medida que eram preenchidas, cujas cópias eram entregues em reuniões periódicas organizadas para esse fim. Para que as fichas arquivadas no Laboratório fossem mantidas atualizadas, era necessário mu- nir-se gradativamente de todas as ocorrências. Essa tarefa estaria sob a imediata observação do Laboratório de Psicologia e de um auxiliar especificamente designado para essa função. Ao defrontar-se com as últimas instruções registradas sobre a ficha-envelope, pode- se depreender que não era melhor que tantas outras fichas excelentes elaboradas e aconselhadas para o uso das escolas. “[...] Uma cousa é certa, sem dúvida ─ que toda ficha, cuja função se limita a ser preenchida e guardada em bonitos fichários, e nunca utilizada, nada mais é que tempo e material gastos inutilmente, e, nessas condições, a melhor ficha do mundo pode não passar da cousa mais inútil e pedante que se possa imaginar” (MINAS GERAIS, 1932, p. 21). Não se tratava, portanto, de colocá-la em execução sem que se compreendesse a sua importância como meio de conhecer melhor a criança e traçar os caminhos para melhor educá- la. Ao utilizar o mais frequentemente possível essa nova ficha, mais vida ganharia esse fichário, e o professor o consideraria como seu auxiliar no trabalho pedagógico. Quanto ao benefício prestado à pedologia-escolar, era esperado que o Laboratório de Psicologia da Escola de Aper- feiçoamento pudesse mostrá-lo, por meio dos estudos que empreendera, graças a essa docu- mentação cuidadosamente arquivada sobre a criança mineira. 105 6.2 Organização das classes do 1◦ ano Ao discutir os aspectos a serem considerados para se proceder à organização das classes, de modo a constituir-se de forma profícua, Antipoff procurou classificar os alunos de forma a atender, primeiramente, a duas categorias distintas ─ os novatos e repetentes. Ao ana- lisar essa questão, lembrava a educadora, “[...] o quanto deve ser humilhante para um aluno, que repete o mesmo ano, pensar que seus companheiros de ontem estão hoje em situação supe- rior” (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 39). Lembrava ainda “[...] o quanto deve ser insípido para a criança que frequentou a escola, um ou mais anos, refazer o mesmo programa, os mesmos exer- cícios preliminares que se tornam monótonos pela repetição, ao lado de colegas que executam esse mesmo trabalho com um espírito novo e muito mais interesse” (idem, p. 39). Assegurava, que o aluno repetente, sob o ponto de vista psicológico e pedagógico, nunca é semelhante ao novato. Aquele, se não progrediu a ponto de ser promovido, achava-se contudo, em relação a este, com um grau progressivamente superior ao currículo escolar a ser realizado. Na realidade, ele não tinha necessidade de recomeçar sua instrução mas de continuá-la, e deveria portanto, ser inserido, de acordo com seus conhecimentos e desenvolvimento mental, entre as crianças que se encontravam em condições análogas às suas. O segundo fator a ser considerado na constituição das classes do 1◦ ano era a idade cronológica da criança. As escolas públicas de Minas Gerais tinham como critério a idade de sete anos para se efetuar a matrícula das crianças novatas, embora houvesse um determinado grau de tolerância ─ a partir de seis anos e nove meses já seria legítimo o seu ingresso no 1◦ano. Entretanto muitos alunos, por circunstâncias diversas, só aos oito/nove anos, e outros aos dez/doze anos apresentavam-se à matrícula. Destarte os alunos da mesma idade tendiam a apre- sentar certa sintonia, conforme o desenvolvimento corporal, às experiências adquiridas, os in- teresses e aspirações. Esse grupo era, em razão disso, muito heterogêneo para ser formado em uma única turma, e levar em consideração apenas a diferença dos quocientes intelectuais. “[...] Há, pelo contrário, toda vantagem em selecioná-las, desde logo, segundo o índice da idade real, formando classes de crianças mais novas e mais velhas” (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 40). Uma vez estabelecida a classificação, segundo a idade cronológica, podia-se distinguir, a partir de então, os alunos segundo a precocidade do desenvolvimento mental e a inteligência geral (ver quadro 5 e 6). 106 Quadro 5 Organização das classes de 1° ano das crianças menores, novatas, de acordo com Helena Antipoff, Belo Horizonte, 1930. Classe Faixa etária Desenvolvimento mental ge- ral e idade real A (n) 6 anos e 9 meses a 7 anos e 11 meses Forte B (n) 6 anos e 9 meses a 7 anos e 11 meses Média C (n) 6 anos e 9 meses a 7 anos e 11 meses Fraca Fonte: Antipoff, Helena (1930/1992c, p. 41). Quadro 6 Organização das classes de 1º ano das crianças mais velhas, novatas, de acordo com Helena Antipoff, Belo Horizonte, 1930. Classe Faixa etária Desenvolvimento mental ge- ral e idade real AB (n) 8 anos ou mais Superior BC (n) 8 anos ou mais Inferior Fonte: Antipoff, Helena (1930/1992c, p. 41). Quanto aos repetentes, Antipoff ressaltava que havia um número considerável de alunos nessa condição nas escolas públicas mineiras. Dois critérios seriam adotados para o agrupamento dessas turmas ─ o rendimento escolar e a idade mental, ficando assim const ituí- das: 107 Quadro 7 Organização das classes de 1º ano das crianças repetentes, de acordo com Helena Antipoff, Belo Horizonte, 1930. Classe Subgrupos Rendimento escolar e desenvolvimento mental B (r) Crianças repetentes, alfabetizadas. Prognóstico de promoção ao 2◦ano no decorrer do ano letivo. C (r) Crianças repetentes, caracterizadas por lentidão no processo de ensino e apren- dizagem e de inteligência tardia. Prognóstico de possíveis avanços no rendimento escolar, no final do ano le- tivo. D (r) Crianças repetentes, “retardadas propria- mente ditas. Os anormais de toda espécie e com deficiências biopsíquicas diver- sas”. Inteligência débil. Fonte: Antipoff, Helena (1930/1992c, p. 41). Após a realização desse criterioso trabalho, Antipoff sentiu necessidade da criação da classe E, que seria tomada como de educação individual, na qual se atendessem as crianças particularmente difíceis de educar ─ “[...] os agitados, os neuróticos, os antissociais, as crianças moralmente defeituosas” (ANTIPOFF, 1930/1992c p. 42) ─ e cuja presença na classe comum só prejudicaria seus múltiplos e a si mesmas, já que não poderiam obter a necessária melhoria. As classes D e E foram denominadas Classes Especiais e deveriam ser assim orga- nizadas em classes D: para crianças débeis mentais e com anomalias de visão e audição; débeis mentais com perturbações de motricidade e de linguagem; débeis mentais com perturbações nervosas diversas; sua distribuição seria feita por meio de um entendimento entre vários grupos escolares vizinhos; estes acordavam entre si qual deles se encarregaria de cada uma dessas ca- tegorias. Já as classes do tipo E se ocupariam dos alunos com desvios de comportamento sem deficiência intelectual. Esse último grupo de crianças seria ainda subdividido em dois outros, a saber ─ crianças com distúrbios de conduta associados a condições patológicas; e aquelas cujos problemas fossem apenas o reflexo das influências negativas do meio social. 108 Como Antipoff acreditava que a inteligência seria construída no processo de inte- ração do sujeito com o meio social e cultural no qual estava inserido (CAMPOS, 2010, p. 52), ela asseverava que os testes ditos de inteligência mediam precisamente a inteligência civilizada, isto é ─ a capacidade de conhecimento lapidada pela ação da sociedade: Há muito tempo já, sustentamos a ideia de que a inteligência natural para a grande maioria das crianças, tirante as excepcionais dotadas e as excepcionalmente despro- vidas sob esse aspecto, é um conceito irreal e confusamente artificial. Já alhures es- crevemos que a capacidade de resolver a maior parte dos testes chamados de inteli- gência geral, é menos uma inteligência natural do que uma inteligência civilizada. Mostramos que os testes de inteligência geral atuais diferenciam de um modo consi- derável as influências de ordem social ─ o meio, o ambiente e a educação ─ a que foram as crianças submetidas, desde o berço, durante a sua vida pré-escolar (ANTI- POFF, 1930/1992c, p. 43). Para confirmação dessa máxima, um estudo empreendido pela educadora, no La- boratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte, sobre a inteligência das crianças e suas relações com o meio social foi muito concludente: efetivou-se a aplicação do teste de Inteligência e o de Vocabulário, do Dr. Simon, em mais de mil crianças com sete anos. Em seguida, os resultados obtidos foram confrontados com as profissões de seus pais, agrupadas em categorias ─ desde aquelas constituídas por médicos, engenheiros, advogados, industriais e capitalistas até os operários não qualificados, os trabalhadores manuais, lavadeiras, soldados, inclusive mendigos e os assistidos por instituições filantrópicas. Os resultados apon- tavam que as crianças que atingiram 120 de QI provinham de meio familiar privilegiado cujos pais possuíam nível superior; aquelas com 100 de QI, pertenciam a categoria mais numerosa, cujos pais eram operários qualificados e artífices; as crianças que obtiveram 90 de QI, perten- ciam a categoria de pais com profissões não qualificadas. Desse modo, Antipoff inferiu que as crianças das classes desfavorecidas eram constantemente diagnosticadas como de inteligência tardia e que as influências significativas das questões sociais eram determinantes nos resultados dos testes psicológicos. Portanto, reconhecia incontestavelmente, que essa não era a inteligên- cia natural da criança. Para Antipoff (1930/1992c, p. 44), “[...] essa dispersão mediana dos QI dá, para as crianças de 7 anos, uma diferença de mais de três anos de idade mental, o que repre- senta uma variação verdadeiramente considerável, submergindo, por assim dizer, to- das as variações de que se serve a psicologia experimental para especificar quer o índice de desenvolvimento, quer o de aptidão”. 109 Embora a educadora reconhecesse que os testes psicológicos selecionavam as cri- anças não a partir da inteligência natural, mas por uma inteligência lapidada pelas ações sociais, definida por ela de inteligência civilizada, sustentava o uso dos testes, pois “[...] essas diferen- ças intelectuais dependentes do meio tendem mais e mais a nivelar-se no decurso dos anos escolares” (ANTIPOFF, 1930/1992c. p.44). Ademais, era defensora da organização de baterias de testes psicológicos e escolares apropriados, com aplicação periódica, de forma a acompanhar a melhoria progressiva do trabalho educativo, coletivo e individual. Do ponto de vista de Antipoff, a seleção dos professores para cada tipo de classe, deveria se basear na máxima the right man in the right place57. Para os professores das classes das crianças bem-dotadas, a competência profissional e a inteligência seriam relevantes para o desempenho de suas funções. Para a designação dos professores das classes dos “retardados e instáveis”, seria considerada a competência pedagógica associada às virtudes de caráter como ─ a afeição às crianças, o espírito altruísta, abnegação e paciência. Como essa escolha encerrava certas dificuldades para os diretores das escolas, uma vez que tratava-se de adequar o perfil dos professores às características das diferentes classes, a educadora propunha que se recorresse aos critérios dos próprios docentes. Convicta de seus princípios de gestão democrática, recomen- dava reuniões administrativas, com a participação do corpo docente, para decisão conjunta quanto a indicação dos candidatos para as respectivas classes. Finalmente, proceder-se-ia às eleições, nas quais o diretor e ou assistente técnico teriam papel decisivo. “[...] Parece-nos que este estado de coisas só tenderá a elevar a responsabilidade dos professores no trabalho das classes que lhes forem confiadas por determinação do conselho escolar” (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 54). Uma vez organizadas as classes escolares e selecionados os respectivos docentes, estabeleciam-se o programa curricular, métodos e processos de ensino apropriados para cada turma. Segundo Antipoff, era fundamental considerar a possibilidade de flexibilização do tempo escolar, de modo a atender as características próprias de desenvolvimento e aprendiza- gem das classes fortes, médias e fracas em relação ao mesmo programa de ensino, ou seja ─ se para as classes A um ano seria suficiente para a aquisição das competências de leitura, escrita e cálculo, já as B precisariam de um ano e meio, em média. Por sua vez, as classes C, prova- velmente atingissem o mesmo nível somente após dois ou mais anos de estudo. 57 O homem certo no lugar certo (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 54). 110 A educadora fazia uma ressalva quanto a atitude dos diretores das escolas e das secretarias de instrução, em face dos resultados finais do ano, pois, habitualmente, julgavam a competência dos professores pelo percentual das promoções dos alunos. Sensível às queixas de algumas professoras das classes C e D das escolas de Belo Horizonte, Antipoff afirmava não ser possível exigir o mesmo ritmo de aprendizagem dos alunos, tampouco, esperar a mesma proporção de aprovados entre os alunos das classes A e os da classe D; ela entendia tal exigência uniformizadora e, portanto injusta. 6.3 O ensino nas Classes Especiais A criação das classes especiais nos grupos escolares de Belo Horizonte visava à regularização do fluxo escolar, de forma a possibilitar o progresso dos alunos normais e asse- gurar o direito educacional das crianças anormais, garantindo-lhes currículos alternativos com- patíveis com seu desenvolvimento intelectual e ritmo de aprendizagem escolar. Para Antipoff, não bastava assegurar as condições melhores para prevenir as difi- culdades escolares, mas era necessário ainda intervir ativamente, com medidas precisas, cor- respondentes ao diagnóstico exato e amenizar as limitações: A educação das crianças débeis e anormais não pode ter êxito senão depois de estabe- lecido o respectivo diagnóstico. Cumpre encarar cada criança como um problema par- ticular a resolver. A criança não prova bem [sic]. Por que não prova bem? Para res- ponder a essa pergunta, comecemos a conhecê-la, tratemos de no-la representar sob seus diversos aspectos: físicos, intelectuais, afetivos, sociais. Comparemo-la com as crianças de sua idade; vejamos em que, sobretudo, a criança difere do cânon comum; descubramos as suas misérias; procuremos as suas compensações. E só depois de uma observação atenta e metódica da conduta dessas crianças, de acordo com exames do médico e do psicólogo, depois de profunda reflexão acerca de todos esses dados, das observações e dos exames, é que o professor terá conhecido e compreendido os seus alunos e resolvido o complexo problema da personalidade (ANTIPOFF, 1927/1992a, p. 159). No estudo formulado por Antipoff (1930/1992c p. 61), ela levanta um questiona- mento sobre qual deve ser o ensino das classes especiais. Na busca de respostas para suas inda- gações, recorreu à opinião abalizada de uma autoridade no assunto Mlle Alice Descoeudres58, a qual propunha diretrizes constituídas de cinco princípios diretores para o ensino especial: 58 Nascida na Suíça francesa, exerceu desde cedo, no seu país, a função de mestra-de-escola. Em 1909, acei- tou a direção de uma classe de “retardados”, num grupo escolar de Genebra, que se criava nessa época, sob 111  O princípio da atividade própria ─ agir por si mesmo e encontrar-se por si mesmo. Trata-se da educação pela liberdade. As crianças teriam independência para ir e vir, deslocar-se para interagir com os colegas e utilizar novos espaços para a realização das aulas. Além disso seriam livres para a escolha dos companheiros de atividades grupais e para inventar tarefas diferentes daquelas que estavam prescritas. Caberia ao professor, por sua vez, investir-se de autoridade, de forma a conduzi-las com respeito e afeição: conduta indispensável a um regime de liberdade.  Educação sensorial e o ensino intuitivo ─ a esse princípio se deve atribuir impor- tância particular. As crianças das classes especiais deveriam ser estimuladas “[...] não sabem nem olhar nem escutar ou, então, se olham não vêem, se escutam não ouvem covenientemente” (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 62). Quanto aos exercícios de intuição, eles formam a base das percepções para analisar, perscrutar e aprimorar a expressão e as representações verbais das crianças, acometidas muitas vezes, de vocabulário empobrecido e de palavras vazias de sentido “[...] os débeis reagem fracamente às excitações exteriores, armazenando poucas imagens, e não têm poder de atenção suficiente para criar imagens nítidas: o único remédio será um ensino intuitivo intenso, dirigindo-se a todos os sentidos [...]” (DESCOEUDRES, A. 1968, p. 53).  Concentração ─ Descoeudres (1968, p. 53) denominava-o de o princípio da união estreita com a vida, ou seja, a escola precisava trazer a vida para dentro de suas paredes. Esclarecia a autora que não havia um consenso entre os educadores da época quanto a essa união com a vida. Na Bélgica, pensava-se conseguir tais obje- tivos pelos métodos dos “Centros de interesse”; ademais pesquisava-se intensiva- mente sobre as necessidades da criança, em diferentes domínios, e todas as aquisi- ções do saber estavam agrupadas em torno desses fenômenos. A forma como a au- tora apresenta esse princípio leva a inferir que a ação pedagógica condizente com ele deveria se constituir de unidades temáticas sugestivas e concretas, ao alcance do interesse das crianças. Do mesmo modo, outros pedagogos renomados também pes- quisaram diferentes metodologias menos sistemáticas, que consistiam em utilizar a influência não pequena de Edouard Claparède, famoso psicólogo suíço (ANTIPOFF, 1968 - em prefácio do livro A Educação das Crianças Retardadas de Alice Descoeudres, 4 ed. Original/1 ed. brasileira. SPMG). 112 todas as ocasiões para aproximar-se da vida, por meio da história natural das plantas e animais, do homem e, sobretudo, da criança.  Individualização do ensino ─ o quarto princípio do ensino especial consiste em orientar o ensino de modo que atenda às necessidades de cada criança, considerando as suas especificidades físicas e mentais. Isso não significa que o professor consagre a cada aluno atendimento individual, mas sim que ministre um ensino tal, que ao dirigir-se a todos os alunos ─ ou a um grupo destes ─ considere as necessidades de cada mentalidade. (DESCOUEDRES, 1968, p.55).  Caráter utilitário do ensino ─ é um princípio tanto social como pedagógico; visa à preparação da criança para a vida de forma prática e autônoma. Antipoff afirmava que os princípios preconizados para o ensino especial não dife- riam dos da escola moderna direcionados para o ensino das crianças normais. As atividades livres e variadas, o ensino sob medida, os centros de interesse e a preparação para a vida faziam parte das bases de estudo inerentes à pedagogia geral. Os professores deveriam se inspirar nos princípios da escola ativa para conduzir o processo educativo das crianças normais ou de classes especiais, em conformidade com as diretrizes essenciais para a organização geral do seu traba- lho. Porém, com as crianças que apresentavam déficits acentuados, não seria possível realizar um trabalho pedagógico formalizado antes que estivessem aptas a recebê-los: Fazemos mal em caminhar demasiado depressa com as crianças débeis e desequili- bradas. Seu espírito é ainda tão primitivo, os instintos são, em grande número delas, ainda tão selvagens, a predominância dos interesses orgânicos e egoísticos é ainda tão em desacordo com as exigências intelectuais e sociais impostas pela escola, as facul- dades mentais são a tal ponto anquilosadas ou caóticas, e a insuficiência sensorial e motriz, como a insuficiência da atenção e do esforço voluntário são tão flagrantes na maioria delas, que é pecar contra o bom senso querer a todo o custo fazer inculcar- lhes a sabedoria escolar antes de ajudá-las a desenvolver, uma por uma, suas faculda- des e educar o próprio caráter. (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 64). A educadora ressaltava que não tinha o propósito de estabelecer discussões quanto a todos os processos pedagógicos em uso nas classes de ensino especial, portanto se ocuparia somente de um gênero pouco conhecido em Minas Gerais: os exercícios de ortopedia mental recomendados pelo Regulamento da Instrução Primária Oficial (art. 380), em vigência à época. 113 6.3.1 A Ortopedia Mental O conceito de Ortopedia Mental foi cunhado pelo psicólogo Alfred Binet e Armand Belot, no início do século XX, precisamente em 1910. Como a ortopedia era definida como a arte de corrigir as deformidades do corpo e assim assegurar o funcionamento normal do orga- nismo “[...] Alfred Binet não hesitou em estender a analogia a certos exercícios, cujo fim é endireitar, adestrar e fortificar as faculdades mentais. Ele deu a esse sistema de exercícios o nome de ortopedia mental” (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 67). Em Minas Gerais, com a aprovação do Regulamento Oficial do Ensino Primário ─ Decreto n◦ 7.970-A de 15 de outubro de 1927, Parte XI, Das escolas especiais para débeis orgânicos e para retardados pedagógicos, Capítulos I e II, Art. 380, a ortopedia mental cons- tituía-se como componente curricular obrigatório dessa modalidade de ensino: Art. 380 – Os programmas constarão de uma parte relativa à instrucção, comprehen- dendo linguagem escripta e oral, cálculo e desenho e outra, especial, relativa à educa- ção, comprehendendo trabalhos manuais, jogos, exercícios physicos correctivos e os exercícios de orthopedia mental, recomendados por Binet (MINAS GERAIS, 1928, p. 1241-1244).59 Para Antipoff, a ortopedia mental se estabelecia como um programa de ginástica psicológica cujos exercícios, dinâmicos e repetidos, tinha como objetivo pôr em forma as fa- culdades mentais, pois representava um meio de adestrar o mecanismo psico-senso-motor; por isso auxiliava a criança a tornar todas as suas faculdades mais disponíveis, mais prontas a pôr- se em jogo; visava, ainda, à atividade do pensamento e da vontade, tornando-as mais robustas e mais bem governadas (1927/1992a, p. 170). Da mesma forma que Binet, a educadora acredi- tava que os exercícios em si não modificariam a estrutura psicológica, contudo poderiam me- lhorar a capacidade funcional do uso das habilidades mentais, promovendo um maior desem- penho da criança: As crianças retardadas são seres inadaptados antes de tudo. Os sentidos, a motricidade, a afetividade, o pensamento, a vontade se desencadeiam sem direção e sem ordem, de um modo caótico em umas, e inibido em outras. E é obrigação do educador ajudá-las, estimulando-as e organizando nelas os mecanismos psíquicos adequados aos fins (ANTIPOFF, 1927/1992a, p.166). 59 Nessa citação manteve-se a grafia encontrada no documento pesquisado. 114 Nessa perspectiva, o professor, ao administrar os exercícios de ortopedia mental, deveria se munir de conhecimento técnico, prever todas as condições de realização para evitar imprevistos ─ a falta de material, de local e outros, o que levaria a execução ao fracasso ─ com procura de meios que deveriam ter sido planejados de antemão. Além disso, o professor deveria exercer monitoramento sobre a criança, fazer-se ouvir e disciplinar-se prontamente. Doutro modo, os exercícios de ortopedia mental perderiam todo valor educativo e se declinariam em um passatempo antipedagógico. Antipoff insistia no posicionamento ativo tanto do aluno ao executar a tarefa, quanto do professor ao conduzi-la. Em sua opinião, o professor que utilizava a ortopedia mental deveria assumir a atitude do psicólogo quando administrava um teste cole- tivo. “[...] preparar o espírito das crianças, suscitar o interesse, tonificar a atenção, estabelecer a disciplina mais estrita, e só depois poderá aplicar o seu teste. Do contrário, o valor do teste é nulo e o psicólogo terá perdido o seu tempo inutilmente” (ANTIPOFF, 1927/1992a, p. 167). Antipoff relatava sua longa experiência com as crianças de toda espécie: normais e retardadas, delinquentes e nervosas; mostrava que era sempre possível obter delas uma atenção para os testes psicológicos, quando bem preparadas. Os exercícios deveriam ser agradáveis e estimulantes, de curta duração, gradativos em sua aplicação ─ iniciar com sequência de fácil execução ao alcance das crianças; do mais simples ao mais complexo; dosar a dificuldade e não avançar os degraus posteriores, senão depois que as crianças tivessem atingido a superação. Dessa forma, seria dada, por esse meio, a oportunidade de se saírem sempre melhor, e assegu- raria a possibilidade do progresso. Para que esse percurso fosse evidente e se constituísse em fonte para estimular os esforços cada vez maiores por parte das crianças, o professor deveria registrar os resultados obtidos, transcrevendo-os em um gráfico de fácil compreensão das cri- anças. Antipoff ressaltava que alguns exercícios desse repertório eram técnicas conhecidas daqueles que estavam familiarizados com a psicologia experimental. Outros, foram tomados de Binet, do seu capítulo sobre a educação da inteligência do livro Les idées modernes sur les enfants. Tomaram-se também muitos exercícios de Mlle Descoeudres da sua já citada obra: Education des enfants anormaux; outros, ainda, foram sugeridos pelo método de Maria Mon- tessori; alguns, enfim, foram introduzidos pela própria educadora (ANTIPOFF, 1927/1992a, p.171). 115 6.4 Helena Antipoff e a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais Antipoff, em palestra proferida em 26 de novembro de 1934, na reunião realizada pela Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais – SPMG e a Associação Auxiliar do Escotismo, sob o título: Assistência aos Menores Desamparados, Trabalhadores da Rua, fez veemente apelo à sociedade de Belo Horizonte, para que se cumprisse a legislação em vigência. Citou o decreto 7.680 de 1927, como instrumento normativo de amparo ao menor, que criou em particular o Conselho de Assistência e Proteção aos Menores, do qual faziam parte: diretores da Secretaria de Segurança e Assistência Pública, do Instituto João Pinheiro, da Escola de Reforma, do Ins- tituto São Raphael, do Gymnasio Mineiro, da Escola Normal Modelo, do Abrigo de Menores, provedores e diretores dos hospitais da capital, diretores de Grupos Escolares, um representante da Prefeitura, um representante do Arcebispado, presidentes de conferências de São Vicente de Paula, diretor da Instrução Pública, diretor da Liga Católica e Juiz de Menores (ANTIPOFF, 1930/1992b, p. 148). As leis brasileiras concretizadas num código especial ─ dão relativamente ao menor, uma orientação bem segura, mesmo nos seus pormenores. Bem obedecidas, satisfa- riam plenamente os requisitos biopsíquicos da infância. Respeitadas, a criança brasi- leira teria tudo aquilo de que necessita no seu período de crescimento e formação moral (ANTIPOFF (1934), 1930/1992b, p. 149). Em Minas Gerais, o atendimento à infância desfavorecida foi oficializado por meio do Decreto n◦ 7.680, de 3 de junho de 1927, o qual aprovou o Regulamento da Assistência e Proteção a Menores Abandonados e Delinquentes. Essa legislação previa quatro tipos diferen- tes de estabelecimentos destinados à assistência e à educação desse público-alvo. “[...] Art. 84. As escolas destinadas ao recolhimento de menores privados de assistência e proteção serão: abrigos de menores; escolas de preservação; escolas de reforma e escolas para anormais” (CAR- VALHO, 2012, p. 74). Cada estabelecimento tinha uma missão específica adequada à índole de cada menor. Este seria encaminhado a partir de categorias distintas: abandonado, pervertido, anormal e delinquente. O abrigo de menores destinava-se a recolher menores de ambos os sexos com mais de sete anos e menos de dezoito que se encontrassem em estado de abandono. Eram previstas uma repartição masculina e outra feminina, que deveriam comportar até 100 alunos cada uma. As atividades planejadas para os menores do sexo masculino eram constituídas de trabalhos de 116 jardinagem e horticultura e frequência ao ensino primário60. Já as menores seriam conduzidas ao serviço doméstico e à classe de primeiras letras. A permanência do menor no abrigo deveria ser transitória, pois o objetivo era aguardar decisão judicial sobre seu destino. Além disso, re- colher menores delinquentes era proibido. Já as escolas de preservação destinavam-se a “[...] recolher e cuidar dos menores desprovidos de assistência, para tratá-los preventivamente, dando-lhes educação moral, religi- osa, physica, intellectual e profissional”. “[...] A instrução ministrada no estabelecimento será a indispensável à integração do menor na vida social” (MINAS GERAIS, 1928, v.1 p. 581)61. Tinham como objetivo receber menores com mais de oito anos e menos de dezoito, desprovidos de assistência, principalmente aqueles carentes de recursos, que estivessem em consonância com os demais requisitos para a internação: avaliação médica, certidão de vacina, que não so- fressem de moléstia infectocontagiosa e não apresentassem deficiência orgânica que os impos- sibilitassem do serviço do campo ou dos trabalhos nas oficinas. Também era proibido o reco- lhimento de menores pervertidos ou delinquentes. Outra forma de atendimento previsto à infância desfavorecida, regulamentado por esse decreto eram as escolas de reformas, constituídas de dois tipos ─ para menores pervertidos e para menores delinquentes. As primeiras deveriam “[...] recolher os menores vadios, mendi- gos ou libertinos, de oito a dezoito anos, para tratá-los regenerativamente” (MINAS GERAIS, 1928, v. 1, p. 581), por encaminhamento judicial. Já a segunda receberia menores que cometes- sem ações consideradas criminosas ou subversivas. Aparentemente, haveria um regime prisio- nal, contendo celas de isolamento, regime de penas e recompensas, embora fosse proibido pelo Regulamento qualquer tipo de punição física nos estabelecimentos de assistência (CARVA- LHO, 2012, p.75). Por fim, as escolas e asilos para menores anormais as quais seriam destinadas ao internamento de loucos, epiléticos, cegos, surdos e mudos, desprovidos de assistência natural, que seriam classificados de acordo com a deficiência e encaminhados a instituições específicas: 60 Não foi possível evidenciar se o ensino primário era estendido também às meninas. 61 Regulamento da Assistência e Proteção a Menores Abandonados e Delinquentes, aprovado pelo Decreto 7.680 de 03 de junho de 1927. 117 Art. 217. Ficam destinados pavilhões especiaes no Instituto “Raul Soares”, na Assis- tencia e na Colonia de Alienados para os epilepticos, os loucos e etc, que ahi receberão tratamento adequado. § 1◦ Os cegos, surdos, mudos, desprovidos de assistência natural, serão recolhidos no Instituto “São Rafael”. § 2◦ Neste estabelecimento receberão os menores educação physica, moral, cívica, intellectual, artística e profissional (MINAS GERAIS, 1928, v.1, p.602)62. O Regulamento apresentava descritivamente a classificação que o menor abando- nado ou delinquente recebia de acordo com suas características físicas, sociais, morais, mentais, intelectuais e econômicas. “[...] Art. 1◦ - O menor, de qualquer sexo, abandonado ou delin- quente, será submetido pela auctoridade competente às medidas de assistência e protecção ins- tituídas neste regulamento” (MINAS GERAIS, 1928, v. 1, p. 554). Para esse fim, eram considerados abandonados os menores de dezoito anos, de am- bos os sexos, que não possuíam referência certa de moradia, nem meios de subsistência, seja por indigência, enfermidade, ausência ou prisão dos pais, tutor ou pessoa que tivesse a guarda do menor; aqueles cujo pai, mãe ou tutor fosse considerado incapaz de cumprir seus deveres para com os menores; aqueles que estivessem em companhia de pai, mãe, tutor ou pessoa que praticasse atos contrários à moral e aos bons costumes; aqueles que se encontrassem em estado de vadiagem, mendicidade, ou libertinagem; aqueles que fossem vítimas de maus tratos físicos; aqueles privados de alimentos e cuidados e aqueles empregados em profissões proibidas, con- trárias à moral e aos bons costumes ou que causassem riscos à vida e à saúde (CARVALHO, 2012, p. 69). Vale ressaltar que, em Belo Horizonte, assim como no restante do país, o trabalho infantil era permitido. Em 1927, com o Código de Menores, essa atividade foi regulamentada. Os menores pervertidos recebiam três classificações ─ vadios, mendigos ou liber- tinos. Eram considerados vadios aqueles menores que mesmo em companhia dos pais ou pessoa responsável se negavam a receber instrução ou dedicar-se ao trabalho, perambulavam pelas ruas e logradouros públicos. Eram definidos como mendigos aqueles que pedissem esmolas para si ou para outros, mesmo que fossem para os pais ou familiares. Os libertinos, para esse Regula- mento, seriam aqueles que se encontrassem em via pública perseguiam ou levavam os compa- nheiros à prática de atos obscenos e exerciam a prática da prostituição. Eram considerados de- linquentes os menores com mais de quatorze anos de idade, que fossem indiciados como autores ou cúmplices de fato qualificado pela lei como crime ou contravenção. 62 Nessa citação manteve-se a grafia encontrada no documento pesquisado. 118 Ainda nesse Regulamento eram considerados anormais todas as crianças que, por uma razão qualquer, estivessem em condições de inferioridade e não pudessem se adaptar ao meio social em que foram destinadas a viver. Estavam previstos assistência e tratamento espe- cial para “[...] os anormaes por deficit physico; os anormaes por deficit sensorial; os anormaes por deficit intellectual; os anormaes por deficit das faculdades afectivas” (MINAS GERAIS, 1928, v. 1, p. 557). Para Antipoff, “[...] a anormalidade mental, como certas formas de alienação men- tal, não são conceitos absolutos e sim, relativos. O que torna o indivíduo anormal é, por mais das vezes, que ele não se ajeita às condições de sua família, de sua escola, do seu emprego, enfim da sociedade em que está vivendo” (SPB, 1955, p. 29). Percebe-se que tanto no Brasil quanto em outros países, a classificação das crianças anormais não era bem definida. Pode-se ampliar esse conceito por meio do diálogo com Norberto de Souza Pinto, que do seu ponto de vista considerava: Crianças anormais são todas aquelas que se encontram inadaptáveis ao meio social no qual devem viver. Esta inadaptação acha-se ligada a várias causas. De um lado, pode-se apontar a existência de uma incapacidade de adaptação, motivada por uma enfermidade física, lesões orgânicas ou enfermidades de qualquer natureza que impe- dem a criança de se tornar capaz de viver em harmonia com o meio (PINTO, 1954, p. 61). Helena Antipoff (1892-1974) via-se em meio a uma diversidade sem limites. Em Minas Gerais eram tímidas as iniciativas quanto à assistência aos excepcionais63. Segundo Al- vim (1958, p.3) o Instituto Raul Soares, bem como os Hospitais-Colônias de Barbacena e Oli- veira, recebiam ocasionalmente alguns menores, os quais, por falta de acomodações adequadas, misturavam-se aos demais pacientes, caracterizados como doentes mentais, de modo geral, adultos. Em 1931, iniciou-se a assistência pedagógica, sob a direção de Antipoff. “[...] Até então as crianças difíceis eram confinadas em salas impróprias, escuras e mal ventiladas, nos porões dos estabelecimentos escolares. As professoras não dispunham de material pedagógico nem de conhecimentos adequados ao ensino especializado” (ALVIM, 1958, p. 4). 63 Denominação usada por Helena Antipoff, referindo-se às pessoas com diferenças físicas, sociais ou de desen- volvimento cognitivo, com resultados escolares acima ou abaixo da média de seu grupo, incluindo-se aí os indiví- duos infra e os superdotados intelectualmente; para atenuar os termos utilizados à época tais como: crianças anor- mais, imbecis, idiotas. 119 De acordo com Antipoff, as crianças indisciplinadas, desequilibradas, que apresen- tavam perturbações de caráter, as antissociais e as crianças em perigo moral não constituíam raras exceções nos grupos escolares de Belo Horizonte ou do interior (1930/1992b, p.56). “[...] É mister mais alguma coisa além de uma classe ordinária para essas crianças ‘em perigo moral’. Essas classes devem transformar-se em verdadeiros focos educativos, em que as crianças pos- sam passar todo o seu dia e, à falta de internato, não voltar senão à noite para junto da família” (ANTIPOFF, 1930/1992b, p. 57). Antipoff não hesitava em questionar acerca de quando aque- las demandas seriam atendidas e em que momento as casas de regeneração para os corruptos seriam verdadeiras instituições pedagógicas. Auxiliada por um grupo de médicos, educadores e religiosos imbuídos pelo propó- sito de cooperar nessa causa, a educadora fundou a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais – SPMG, com o objetivo de socorrer tais crianças e difundir os conhecimentos indispensáveis ao seu tratamento. Inicialmente, os fins da SPMG visavam apenas à proteção à infância anormal e à preservação da sociedade contra as influências nocivas da anormalidade mental. A SPMG passou, em seguida, a dedicar-se à assistência à criança e ao adolescente subnormais como também aos supernormais, designando-os sob o termo Excepcionais. A Sociedade Pestalozzi, associação civil, sem fins lucrativos, de duração ilimitada, foi fundada em 10 de novembro de 1932, com aquisição da personalidade jurídica em 4 de março de 1933. Estatutos revistos em 1◦ de junho de 1933, registrados sob n◦ 308, passou a denominar-se SOCIEDADE PESTALOZZI DE MINAS GERAIS, com sede e foro na Cidade de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, e regendo-se pelos Estatutos aprovados pela Assembleia Geral desta Sociedade, em 16-XI-1961, em 21 de dezembro de 1961 [sic]. Registro Jero Oliva n◦ 2.890 ─ Folha 18 ─ Livro A-4 (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 271). Em 1933, uma equipe constituída de médicos, professoras e enfermeira da SPMG iniciou o funcionamento de um consultório médico-psicopedagógico com atendimento multi- disciplinar às crianças dos Grupos Escolares. A função de psicóloga era exercida por Helena Antipoff. Esses serviços eram estendidos aos alunos de escolas mais afastadas e que contavam com o deslocamento da equipe para a realização do trabalho. Semanalmente, reuniam-se no Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico, juntamente com profes- sores dos Grupos Escolares interessados na educação das crianças anormais. Eram estudados os casos mais difíceis apresentados pelos professores, os quais, após ouvidos, discutidos e di- agnosticados, realizavam-se orientações sobre o processo de escolarização das crianças. 120 Por influência da SPMG, foi criado, em 5 de abril de 1935, o Instituto Pestalozzi de Belo Horizonte, órgão oficial da Secretaria da Educação, sendo titular dessa pasta o Dr. Noral- dino Lima (ANTIPOFF, Ottília,1974, p.35). De acordo com o projeto inicial, o Instituto, desti- nava-se “[...] a centralizar, executar e orientar os trabalhos relativos às crianças mentalmente deficientes, domiciliadas no Estado de Minas Gerais” (SPMG, 1934, p.9). O acompanhamento psicológico e educacional das crianças e adolescentes era feito em classes especiais, nas quais eram agrupadas conforme suas capacidades. Além dos serviços de reeducação psicopedagógica contava também com orientação vocacional para os adolescentes. O Instituto funcionava tam- bém como centro de formação de professores para o ensino especial e como centro de pesquisa sobre a anormalidade mental (CAMPOS, 2010, p. 69). O corpo docente era constituído por estagiárias das classes especiais e professoras diplomadas na Escola de Aperfeiçoamento, incluindo a diretora, Esther Assumpção ─ formada em sua primeira turma. Os cursos promovidos pelo Instituto tinham como finalidade preparar profissionais para atuarem com crianças anormais (ou excepcionais – como denominava Anti- poff) nas instituições educacionais e assistenciais como: classes especiais, o abrigo de menores, as escolas de preservação, as escolas de reforma e os orfanatos. As classes especiais do Instituto eram destinadas às crianças educáveis. Os métodos utilizados eram inspirados nos sistemas educativos de Montessori, Decroly e Descoeudres e nos princípios da escola ativa, que se mos- trou apropriada aos deficientes mentais. A matrícula era realizada a partir da demanda do Con- sultório Médico Pedagógico (BORGES, 2014, p. 222)64. Ainda conforme Borges (2014), os profissionais em formação nesses cursos pode- riam se especializar no ensino dos deficientes mentais em classes especiais, serviço social de assistência às crianças em perigo moral, educação das crianças nervosas e delinquentes, ensino dos surdos-mudos65 e tratamento dos defeitos da linguagem, leitura e escrita. Tendo em vista a integralidade dos estudantes ao concluir o ensino primário do Instituto Pestalozzi e a possibilidade de exercer alguma atividade remunerada ao deixarem a 64 Os leitores interessados em aprofundar os estudos sobre a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais (1932) e o Instituto Pestalozzi de Minas Gerais (1935) devem ler: BORGES, A. A. P. Entre tratar e educar os excep- cionais: Helena Antipoff e a psicologia na Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais (1932-1942). Tese de Dou- torado, FAE/UFMG, 2014. 65 Expressão utilizada à época para designar pessoas com deficiência auditiva. 121 instituição, Antipoff percebia que nem todos logravam tal intento e, mesmo aqueles que o con- seguiam, tinham dificuldades em alcançar um ajustamento social que lhes garantisse certa in- dependência da família e do Estado (1930/1992c, p. 274). Como consequência, permaneciam no estabelecimento, por longo tempo, até alcançarem uma idade avançada. Foi exatamente para atender essas pessoas que a SPMG abriu uma nova frente de assistência aos excepcionais. Por considerar o campo o meio mais adequado para a educação desse segmento, decidiu-se levantar um fundo monetário para aquisição de uma propriedade rural. Minas Gerais e outros estados do Brasil atenderam à campanha promovida pelos Diários Associados, cujo diretor, Assis Chateaubriand, veio a Belo Horizonte e estabeleceu negociação com representan- tes da referida Sociedade. Com os primeiros 80 contos de réis arrecadados, foram adquiridos 45 alqueires de terra a 26 Km de Belo Horizonte, no Distrito de Ibirité. Na ocasião da escritura, em dezembro de 1939, o sítio pertencente à Fazenda do Pantana e do Sumidouro passou a ser denominado Fazenda do Rosário. Em janeiro de 1940, chegaram seis meninos do Abrigo de Menores e do Instituto Pestalozzi, acompanhados de duas professoras, Yolanda Barbosa e Cora Duarte Faria ─ estava constituído o primeiro núcleo do internato da Fazenda do Rosário (AN- TIPOFF, 1930/1992c p.274). Essa sequência histórica, da criação de Instituições para o atendimento das crianças e adolescentes excepcionais, deixa entrever a importância que Antipoff dava aos serviços edu- cacionais conectados, de forma que todos os profissionais envolvidos nesse processo tivessem pleno conhecimento da rede de articulação existente e quais serviços a compunham, além de ser necessário o apoio da sociedade, da família e principalmente do Estado. “[...] Escolas para excepcionais não são simples escolas. São estabelecimentos privilegiados onde se educam as crianças, onde se estudam problemas e processos de educação e de tratamento e onde se formam educadores e demais auxiliares” (ANTIPOFF, 1930/1992c, p. 291). 6.5 Helena Antipoff: o Centro de Orientação Juvenil (COJ) e a Sociedade Pestalozzi do Brasil Segundo Campos (2010, p. 75), no final da década de 30, Antipoff se mostrava desencorajada com os rumos do sistema de ensino público, em relação ao atendimento à diver- sidade, principalmente na ação dispensada às crianças excepcionais. Em conferência realizada 122 por ocasião do reinício das aulas na Escola de Aperfeiçoamento, em 1939, ela pontuou que as escolas brasileiras não estavam mais bem adaptadas às crianças que acolhiam. Outro aspecto dificultador foi o golpe de estado de 1937. Este instituiu o regime do “Estado Novo” (1937-1945), que trouxe como consequência um caráter mais autoritário e cer- ceador, de forma que muitos educadores progressistas perderam seus empregos. O governo de Minas Gerais negou a Antipoff a renovação de seu contrato de trabalho na Escola de Aperfei- çoamento, no início dos anos 40. A convite do médico e amigo Gustavo Lessa66, a educadora mudou-se para o Rio de Janeiro (Distrito Federal), em 1944, para integrar-se à equipe de traba- lho do Ministério da Saúde (CAMPOS, 2010). Nessa ocasião, fundou o Centro de Orientação Juvenil ─ COJ, instituição destinada ao acompanhamento psicológico de adolescentes e jovens, por meio de equipe interdisciplinar, do mesmo modo que prestava orientação aos profissionais que atuavam nesse serviço. Como a proposta do COJ não preconizava o atendimento a pacientes com graves distúrbios psicopatológicos, estabeleceu-se um trabalho de cooperação institucional com serviços especializados. Para os casos que, porventura, requeriam a orientação profissio- nal, encaminhava-se o interessado ao Instituto de Seleção e Orientação Profissional ─ ISOP, dirigido por Mira y López na Fundação Getúlio Vargas. Em 1945, para atender ao apelo de mães que desejavam uma educação especial para seus filhos, a professora Helena Antipoff, em um movimento similar ao de Minas Gerais quando da fundação da Sociedade Pestalozzi, reuniu um grupo de pessoas interessadas na causa e fundou a Sociedade Pestalozzi do Brasil – SPB, com sede na Guanabara, Rio de Janeiro. Seu primeiro estatuto foi aprovado em Assembleia Geral de 20/06/1945, tendo sido a entidade de- vidamente registrada em 30 de agosto do mesmo ano, sob número de ordem 2.226. Foi consi- derada de utilidade pública pela Lei 2.162 de 1º de junho de 1957, devido aos serviços prestados à comunidade. Pelo mesmo diploma legal, foi autorizada a desapropriação e a doação à entidade do prédio por ela ocupado desde a sua fundação, à rua Gustavo Sampaio, 29. Em 1965, a SPB adquiriu o imóvel situado à rua Real Grandeza, 264, onde funcionavam as Classes Especiais (SPB, 1972, p. 3). Em conformidade com o seu estatuto, a entidade tinha como objetivo promover o estudo, o tratamento, a educação e o ajustamento social de crianças e adolescentes que, por seu 66 Mineiro de Diamantina. Cursou medicina no Rio de Janeiro e, em 1918, iniciou sua carreira pública na função de inspetor sanitarista no quadro da Saúde Pública do então Distrito Federal (RAFANTE, 2011, p. 175). 123 desenvolvimento mental, aptidões ou caráter excepcionais necessitavam de uma assistência in- dividual, dentro de um ambiente médico-pedagógico especialmente orientado. Para garantir a efetividade de suas ações, a SPB iniciou suas atividades com a criação do Centro Médico Psi- copedagógico que acatava as orientações indicadas por sua fundadora: A educação da criança excepcional não poderia surtir efeito duradouro e a assistência a diversas categorias de jovens desajustados seria ilusório se não houvesse à sua dis- posição um centro pedagógico capaz de promover uma série de medidas visando, de um lado, à formação de educadores e, de outro, à criação de obras e serviços médico- pedagógicos e sociais, recursos indispensáveis, de caráter preventivo e emendativo, a uma só vez, de comunidade (ANTIPOFF, 1972, p. 3). Na fase inicial das atividades da SPB, Helena Antipoff proferiu uma palestra sob o título Educação dos Excepcionais. Discutiu a anormalidade mental como um conceito não ab- soluto, mas relativo. No seu ponto de vista, o que tornava o indivíduo anormal era a sua desa- daptação às condições familiares, escolares, laborais e sociais. “[...] A educação será uma ten- tativa de oferecer aos excepcionais, indivíduos taxados de débeis, nervosos, impulsivos, com tendência à delinquência, um ambiente, um regime de vida, um trabalho que torne a sua anor- malidade inoperante” (ANTIPOFF, 1955, p. 29). A finalidade maior dessa modalidade seria a formação do caráter de seus alunos e a educação pelo e para o trabalho, os quais deveriam ser o fio condutor dessa ação, uma vez que, para a educadora, “[...] o trabalho bem escolhido é um estímulo forte para o desenvolvimento mental e o reajustamento social” (ANTIPOFF, 1955, p. 30). Para Antipoff, o local mais indicado para as atividades educativas do excepcional seria o campo, onde os espaços mais largos permitiam movimentos mais amplos. Os conteúdos de ensino seriam pautados nos princípios éticos, políticos e estéticos e desenvolvidos em con- sonância com o trabalho intelectual e manual. Dessa sua ação voltada para o trabalho resultou a organização das Oficinas Pedagógicas, inauguradas em janeiro de 1946, dirigidas por três educadores recém-formados no primeiro curso de Orientação Psicopedagógica ministrado pela SPB (SPB, 1955, p.24). Tais oficinas eram destinadas aos adolescentes, na faixa etária de 14- 18 anos que, devido ao seu desenvolvimento mental ou ao seu caráter, não estavam preparados para a frequência aos cursos regulares, às oficinas protegidas ou as atividades laborais indepen- dentes. Tratava-se de um estágio intermediário sui-generis entre as atividades escolares e o trabalho produtivo; sua finalidade era sobretudo educativa. 124 Quadro 8 Conteúdo programático com ênfase no trabalho, para atendimento aos Excepcionais, de acordo com Helena Antipoff (SPB, 1955) Disciplinas Atividades Serviços domésticos Cultura agrícola Hortaliças, frutas e flores. Cultivo de viveiros de mu- das, de plantas decorativas, arvoredos. Criação de animais Aves, suínos, bovinos, peixes, abelhas, chinchila, coe- lho. Trabalhos de consertos (manutenção) Carpintaria e marcenaria; Mecânica e eletricidade; Alfaiataria e sapataria. Serviço de escritório Contabilidade. Correspondência comercial. Datilografia (atualmente digitação). Serviços comerciais Em lojas; Em representação de produtos da casa. Indústrias Visam principalmente lucros para a manutenção da es- cola e seu desenvolvimento, serão determinadas pelas condições regionais e suas necessidades. Como não poderão ser senão indústrias modestas, tanto pela qua- lidade como pela quantidade, procurarão dar-lhe um cunho original, evitando assim a concorrência com as indústrias da região. Temos a impressão que as indús- trias mais adequadas para tais estabelecimentos serão as que cultivarem as “artes regionais”. Fonte: Antipoff, Helena (SPB,1955, p. 31). Antipoff (1955, p.32) assinalava que as artes regionais, tão desenvolvidas em al- guns países europeus e em certas colônias, possibilitavam, sem grande aparelhamento, a pro- dução de artefatos originais apreciáveis, como a indústria de tapetes, rendas, brinquedos infan- tis, trabalhos de madeira e de couro, de metal, cerâmica, objetos decorativos, ou de uso, mas de cunho sempre estético. Antipoff ressaltava ainda que, ao adaptar à índole e às aptidões de cada aprendiz os diferentes tipos de trabalho, ter-se-ia a tríplice intenção: o exercício de aptidões, as pesquisas no campo vocacional e, enfim, aprendizagem em vista de ocupações lucrativas para o indivíduo e a coletividade da qual fazia parte (idem, p. 30). 125 Segundo Pereira (1970 p. 19), era pensamento da professora Helena Antipoff estu- dar em caráter mais científico todas as experiências levadas a efeito na SPB. Principalmente aquelas relativas as Oficinas Pedagógicas, que já apresentavam na comunidade brasileira um grande acervo de experiências de várias naturezas que podiam ser avaliadas por meio de seus resultados nos diferentes campos da educação do jovem excepcional. A primeira pesquisa foi realizada com a aplicação da escala de desenvolvimento social denominada P.A.C (Progress Assessment Chart)67 formas I e II de autoria de Dr. H. Gun- zburg, com direitos autorais para a Sociedade Pestalozzi do Brasil, sob a responsabilidade da psicóloga Olivia da Silva Pereira em colaboração com a professora Luzia Maria Rocha da Sil- veira (PEREIRA, 1970, p. 19). O P.A.C, reconhecido como um instrumento de avaliação constituído de quatro áreas essenciais ─ autossuficiência pessoal, comunicação, socialização e ocupação ─ era or- ganizado com a finalidade de medir o desenvolvimento social do excepcional com retardo men- tal e desenvolver um programa pedagógico de estimulação das áreas discrepantes visando ao alcance do maior índice de competência social. A referida pesquisa recebeu a colaboração de estagiários de psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universi- dade Católica. Na primeira etapa do trabalho, o levantamento dos resultados da prova ficou a cargo da estagiária da UFRJ, Suely Duek. Cerca de 5.000 exemplares do P.A.C foram adquiri- dos por diversas instituições para que, no futuro, os pesquisadores pudessem ter uma visão global do desenvolvimento social dos excepcionais brasileiros. A segunda pesquisa sobre o autoconceito dos deficientes mentais, sugerida por He- lena Antipoff, estava baseada nas mais recentes correntes psicológicas da época e suscitava aspectos importantes sobre a afetividade nos problemas de orientação psicopedagógica dos de- ficientes mentais. Tratava-se de um questionário contendo as seguintes perguntas: A deficiência mental inibe as possibilidades de o deficiente sentir que ele é diferente dos outros em muitas áreas de rendimento e desenvolvi- mento? A maneira como os que vivem ao seu redor o tratam e o aceitam reper- cute de forma favorável ou desfavorável em sua conduta? 67 Gráfico de avaliação do progresso 126 O retardo é capaz de desenvolver reações de baixa autoestima e qual a influência desse fator na orientação de seu ajustamento, de sua educa- ção? Em 1955, sob orientação de Helena Antipoff, organizou-se um questionário cujas respostas atestavam a importância do autoconceito. Foram incluídas as seguintes perguntas, dessa vez, direcionadas aos aprendizes: Você gosta do trabalho que faz aqui? Você aprendeu muita coisa nas Oficinas Pedagógicas? Você acha que já pode trabalhar fora? Você sente dificuldade em aprender alguma coisa ou alguma tarefa nas Oficinas Pedagógicas? Que pretende fazer quando sair das Oficinas? O questionário poderia ser acrescido de outras perguntas, dependendo dos aspectos e fatos que se quisesse atribuir. Em 1969-1970, introduziu-se o questionário de autoconceitua- ção, elaborado por Dr. Henry Coob, da Universidade de Dakota do Sul, o qual, fundamentava a importância da atitude do excepcional em face de si mesmo. O autor era crítico quanto à preocupação que, geralmente, os profissionais tinham em estudar o impacto causado na família pela presença do excepcional, sem levar em consideração as influências que ele próprio expe- rimentava em seu meio, uma vez que “ser diferente” requer muita habilidade e, não raramente, ocasiona sofrimento (PEREIRA, 1970, p. 21). A aplicação dos questionários do Dr. Coob, complementados pelos de Helena An- tipoff, ficou a cargo da estagiária da Pontifícia Universidade Católica/RJ, Solange Severo, e os estudos, supervisionados pela Coordenadora. Os primeiros resultados da pesquisa, confirma- vam as teses e hipóteses levantadas em torno do problema (PEREIRA, 1970, p.21). A terceira pesquisa sobre a avaliação da capacidade vocacional dos excepcionais revelava-se de grande importância, como instrumento avaliativo para deficientes mentais no campo da habilitação e reabilitação vocacional. A partir desse trabalho, a equipe das oficinas Pedagógicas estendeu sua área de estudos na procura de instrumentos que permitissem a veri- ficação, com maior grau de segurança, do potencial vocacional dos jovens aprendizes em trei- namento em Centros Ocupacionais. Essa escala empregava a classificação AAMD (Associação 127 Americana de Deficiência Mental, aprovada pela OMS), definida no Manual of Terminology and Classification in Mental Retardation (PEREIRA, 1970, p.22). Diante do distanciamento dessa discussão e o objeto de estudo desta tese, optou-se por não aprofundar nos aspectos da capacidade vocacional dos excepcionais em Centros Ocupacionais. 6.5.1 Os cursos da Sociedade Pestalozzi do Brasil A formação de pessoal especializado, bem como a possibilidade de estágios em escolas nacionais e internacionais sempre foi a tônica do programa da SPB desde a sua fundação em 1945. Iniciava-se, em setembro de 1945, o primeiro Curso de Orientação Psicopedagógica juntamente com outras atividades relevantes como o Consultório e o Círculo de Mães. Ao tér- mino dos primeiros cinco anos de atividades, sua fundadora e Diretora Técnica, professora He- lena Antipoff, registrava em seu relatório: Dos cursos bem planejados e seguidos dependerá o desenvolvimento das obras em prol da infância excepcional. Em matéria de educação, até hoje poucos se preocupam com a orientação de mestres e pais de excepcionais, deixando muito por conta da ins- tituição e de experiências individuais. Assim, a SPB, desde seu primeiro ano de fun- cionamento, procurou sanar a falha, instituindo com o Departamento Nacional da Cri- ança, sob a bênção feliz do Dr. Olinto de Oliveira, o seu primeiro Curso de Orientação Psicopedagógica de três meses (ANTIPOFF,1950, citada por CARNEIRO, 1970, p.51). Para atender os dispositivos legais na criação dos cursos de formação de professo- res, tornou-se indispensável um campo de observação e estágio e, para esta finalidade, foram utilizadas as Classes Especiais e as Oficinas Pedagógicas recém-criadas. Desse modo, inaugu- rou-se no então Distrito Federal, o primeiro Centro Médico Psicopedagógico responsável pela formação de equipes especializadas no estudo dos problemas, processos de educação e trata- mento da criança e do jovem excepcional. Após 5 anos de existência, sua fundadora ─ Helena Antipoff ─ sentiu necessidade de dar ao estudo e ao ajustamento da infância excepcional uma solução no plano nacional; organizou, então, uma série de Seminários no período de 1951 a 1955 congregando vários segmentos da sociedade. O boletim n◦28, de 1956, da Sociedade Pestalozzi do Brasil/RJ, destinou-se à pu- blicação do IV Seminário sobre a Infância Excepcional e do Resumo das Conclusões dos Se- 128 minários anteriores. Foram quatro Seminários realizados pelas Sociedades Pestalozzi ─ do Bra- sil (então Distrito Federal), Belo Horizonte, São Paulo e do Rio de Janeiro ─ com o objetivo de congregar os esforços das instituições assistenciais particulares ou oficiais e das pessoas que se dedicavam à educação da infância desajustada em nosso país, com o fito de uma ação coorde- nada no estudo desse problema (CARNEIRO, H. D., 1956, p.9). Em 1951, o temário elaborado pela Professora Helena Antipoff compreendeu os seguintes assuntos: I – Tipo de crianças e adolescentes excepcionais; II – Tipos de estabelecimentos; III – Consultórios Médicos-Pedagógicos; IV – Especialização e Seleção do Pessoal para Instituições de Assistência aos Excep- cionais; V – Programa dos Egressos de Instituições para Assistência aos Excepcionais; VI – Colaboração da Família na Assistência aos Excepcionais; VII – Colaboração do Governo na Obra de Assistência aos Excepcionais (SPB, 1956). O primeiro Seminário ocorreu no Rio de Janeiro, em 1951 e tinha como objetivo discutir a composição dos quadros de profissionais necessários à educação especializada e a respectiva formação, apontando as relações entre a medicina, a psicologia e a pedagogia. Na sequência, em Belo Horizonte, em 1952, discutiu-se o regime de vida nas instituições especia- lizadas ─ internato, semi-internato ou externato ─ e os métodos educativos e assistenciais con- siderados mais adequados. O terceiro Seminário, em 1953, sediado em São Paulo, com a abor- dagem do tema: programa dos egressos de instituições para assistência aos excepcionais. Por último, em 1955, a Sociedade Pestalozzi do Brasil e a do Rio de Janeiro foram as anfitriãs do quarto seminário, para discutir a colaboração da família na assistência aos excepcionais. Muitas instituições se fizeram representar por médicos, assistentes sociais, educadores, psicólogos e pais sendo grande o número de contribuições recebidas. Alguns desses trabalhos e os Anais do primeiro e segundo Seminários foram publicados nos Boletins da SPB n◦24 e 25. Já os do ter- ceiro Seminário foram editados pela Sociedade Pestalozzi de São Paulo em setembro de 1953 (CARNEIRO, 1956 p. 10). Segundo Carneiro (1970, p. 52), durante a realização intensiva desses Seminários, a SPB em convênio com a Faculdade Nacional de Filosofia e o Instituto de Psiquiatria da Uni- versidade do Brasil, realizaram um curso de três anos (1950-1952), com maior aprofundamento 129 na formação profissional. Simultaneamente, aconteciam também, desde 1946, Cursos de Re- creação nos períodos de férias, sempre com o objetivo de dar aos professores/alunos a consci- ência de que o educador deveria conhecer e respeitar a evolução natural da criança, de modo a proporcionar-lhe atividades livres e criadoras dentro de um ambiente harmonioso (idem, 1970, p. 52). A partir de 1964, os cursos tornaram-se mais especializados e passaram a receber auxílio financeiro da Fundação Nacional do Bem Estar do Menor - FUNABEM68 e da Campa- nha Nacional de Educação e Reabilitação de Deficientes Mentais – CADEME69. Foram reali- zados dois Cursos sobre Terapia da Linguagem, cinco cursos para Educadores de Oficinas Pedagógicas e dois cursos em convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre Problemas de Conduta e Deficiência Mental. Em 1967, reiniciou-se uma série de Cursos de Teatro de Bonecos e de Atividades Musicais. A partir de 1970, todos os cursos ministrados pela Sociedade Pestalozzi do Brasil deveriam ser reestruturados de acordo com as normas exigidas pelos Conselhos Federal e Estadual da Educação, a fim de se obterem os registros em seus certificados ou diplomas nos órgãos oficiais competentes. 6.6 Uma valiosa experiência Na confluência dos trabalhos articulados pelas instituições criadas por Helena An- tipoff, principalmente a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais, do Brasil e do Rio de Janeiro, juntamente com as Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAEs, que se efetiva- ram gradativamente as políticas públicas para o atendimento aos alunos deficientes. Alvim 68 Fundação Nacional do Bem Estar do Menor – FUNABEM: órgão normativo criado em 1° de dezembro de 1964, com a finalidade de implantar e implementar a política nacional de bem-estar do menor, através da elaboração de diretrizes políticas e técnicas (SPB, 1970 p. 52). 69 Campanha Nacional de Educação e Reabilitação de Deficientes Mentais – CADEME: Entidade criada por influência de movimentos liderados pela Sociedade Pestalozzi e Associação de Pais e Amigos dos Excepci- onais, ambas do Rio de Janeiro. Durante o governo do Presidente da República Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira, com o apoio do então Ministro da Educação e Cultura, Pedro Paulo Penido, por meio do Decreto n◦ 48.961, de 22 de setembro de 1960 – publicado no Diário Oficial da União de 23 de setembro de 1960, foi instituída, junto ao Gabinete do Ministro da Educação e Cultura (MAZZOTTA, 2005, p.51). Tinha como finalidade promover em todo o território nacional a educação, treinamento, reabilitação e assis- tência educacional das crianças retardadas e outros deficientes mentais de qualquer idade e sexo (SPMG, 1965 p.14). 130 (1958) comentava que os Seminários sobre a Infância Excepcional, ação liderada pela educa- dora, teria sido um dos meios mais eficazes para a difusão da Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais e o entrosamento com as demais congêneres do país, no desenvolvimento de um plano racional de assistência à infância irregular. A SPMG tinha muita experiência na promoção des- ses seminários, pois já os havia realizado com êxito em diversas localidades do Brasil. A partir do terceiro seminário, sediado em São Paulo, desencadearam-se iniciativas conjuntas, com mo- vimentos de forte repercussão nacional. Em 1961, a mobilização das instituições particulares existentes, como as Socieda- des Pestalozzi, passou a fomentar a participação dos órgãos governamentais no atendimento às crianças e adolescentes da educação especial. Buscou-se diálogo com as autoridades federais, estaduais e municipais o que resultou na inserção da Educação Especial na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: a Lei 4.024/1961. Em 1970, Sarah Couto César, per- tencente ao quadro de profissionais da Sociedade Pestalozzi do Brasil, colaboradora de Helena Antipoff, assumiu a direção da CADEME a convite do então Ministro da Educação, Jarbas Passarinho (BRASIL/MEC/CENESP, 1974). Helena Antipoff era uma das colaboradoras desse órgão na elaboração dos projetos e programas desenvolvidos. Em 1971, com a reforma dos ensinos primário e secundário por meio da Lei 5692/7170, na qual a meta do governo federal consistia em universalizar o ensino para a faixa etária de 7 a 14 anos, a Educação Especial foi considerada prioridade educacional. Em 1973, foi criado o Centro Nacional de Educação Espe- cial - CENESP, com autonomia administrativa e financeira, sob a supervisão da Secretaria Ge- ral do Ministério da Educação e Cultura, responsável pela educação dos deficientes visuais, auditivos, mentais, físicos, educandos com problemas de conduta, com deficiências múltiplas e os superdotados (BRASIL/MEC/CENESP, 1974, p.71). Nessa conjuntura, a Educação dos “Ex- cepcionais” foi oficializada, tanto na legislação, quanto na criação do órgão nacional para sua organização. Vale ressaltar que o artigo 9º da Lei 5692/71 estava explícito: Os alunos que apresentam deficiências físicas ou mentais, os que se encontrem em atraso considerável quanto à idade regular de matrícula e os superdotados deverão receber tratamento especial, de acordo com as normas fixadas pelos competentes Con- selhos de Educação (BRASIL/MEC, 1971). 70 No contexto da Lei 5692/71, engendrou-se a reforma dos ensinos primário e secundário, o que levou à junção do primário (do 1º ao 4º ano) com o ginasial, para criar o ensino de primeiro grau de oito anos e o ensino secundário, de três anos, submetido à profissionalização compulsória (BRASIL, 1971). 131 Como linha de ação para o seu funcionamento, o CENESP, cuja primeira Diretora Geral foi a psicóloga Sarah Couto César (ver figura 4), advinda da CADEME, contemplou três projetos principais ─ capacitação de recursos humanos, assistência técnica a instituições públi- cas e particulares e reformulação de currículos para à Educação Especial. Foi exatamente nesse cenário, conforme já explicitado na introdução deste trabalho, que eu estive presente como uma das peças dessa engrenagem, na função de professora-alfabe- tizadora de uma turma de alunos com idade entre 8 a 12 anos, oriundos de encaminhamentos das escolas comuns, caracterizados como alunos-problema. Essa minha atuação se deu no Ins- tituto da Criança Excepcional Maria do Rosário, escola estadual anexa à Associação Barbace- nense de Assistência aos Excepcionais, posteriormente Associação de Pais e Amigos dos Ex- cepcionais-APAE/Barbacena. De acordo com as normas estabelecidas pelo sistema de ensino estadual, o professor-regente da Educação Especial deveria estar inscrito e frequente em curso de capacitação ou especialização, compatível com sua área de ensino. Com o objetivo de promover, em todo o território nacional, a melhoria do atendi- mento aos excepcionais (terminologia utilizada à época), foi elaborado um grande Programa de Capacitação de Recursos Humanos para o período de 1971-1979, de início sob a égide da CA- DEME e posteriormente assumido pelo CENESP. Indicada pela Coordenadora Pedagógica da Escola, Professora Léa Dias Abrantes, então delegada regional de ensino, participei do primeiro curso para professores de alunos com deficiência mental, com carga horária de 100 horas, conforme certificação da figura 5. No verso do documento, encontra-se a estrutura curricular e carga horária correspondente. Na garimpa- gem feita nos arquivos da escola extinta, na Superintendência Regional de Ensino 71 e na APAE/Barbacena, não foi possível encontrar os planos de ensino das referidas disciplinas. Contudo, encontrou-se um ofício nos arquivos da APAE, enviado pela Secretaria de Estado da Educação, com orientações sobre a celebração do convênio entre o MEC/CADEME, SEE-MG E ABAE, sob à coordenação do primeiro. Inferiu-se que a documentação desse curso deveria estar sob a responsabilidade do órgão executor. 71 Denominada à época Delegacia Regional de Ensino. 132 Da mesma forma, (ver figura 6), participei do curso de Iniciação à Logopedia, com carga horária de 40 horas, realizado em 1973, direcionado aos professores de alunos com difi- culdades de aprendizagem, promovido pela ABAE, em parceria com o Instituto de Psicologia Clínica, Educacional e Profissional – IPCEP, do Rio de Janeiro, cujo diretor era Dr. Heraldo Antônio Faria Cidade. Vale ressaltar, que o referido diretor, constituiu-se como membro da diretoria da SPB, no biênio 1957-1959 e secretário-geral da Comissão Organizadora do IV Se- minário sobre a Infância Excepcional, em 1955, coordenado pela SPB/RJ. Outro curso de relevância, do qual participei, realizado com a mesma dinâmica de celebração de convênio, efetivado entre o CENESP, ABAE e a Fundação Presidente Antônio Carlos, por meio da Faculdade de Medicina de Barbacena, foi o curso de especialização para educação especial na área de comunicação e expressão para professores de alunos com dificul- dades de aprendizagem. Tratava-se de um curso com atividades teórico-práticas ─ estudo de casos, observação sistemática, estágio supervisionado, pedagogia reabilitadora e diagnóstico com carga horária total de 420 horas (ver figura 7). Esse programa de capacitação de recursos humanos apresentado pelo CENESP, visava fortalecer a política de formação de professores, em diferentes níveis de atuação, além de garantir a ação educativa em bases curriculares. Dando ênfase ao projeto prioritário de reformulação de currículos para a Educação Especial, o CENESP sob a supervisão da Secretaria Geral do Ministério da Educação e Cultura viabilizou a implantação da Proposta Curricular para Deficientes Mentais Educáveis, Visuais e Auditivos, elaborada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, em convênio com CENESP/PREMEN com o apoio financeiro do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Edu- cacionais – INEP (figuras 9, 10 e 11). 133 Figura 4 Sarah Couto César, psicóloga e primeira Diretora Geral do Centro Nacional de Edu- cação Especial – CENESP/MEC (1973). Fonte: Catálogo Geral. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – 1972-1974. 134 Figura 5 Certificação do 1º Curso para Professores de Alunos Especiais – MEC-CADEME/ SEE-MG/ABAE. Período de realização: 31/01/1971 a 13/02/1971. Carga/horária: 100 h/a. (Frente do doc.) Fonte: Arquivo pessoal 135 (Verso do doc.) Fonte: Arquivo pessoal 136 Figura 6 Certificação do Curso de Iniciação à Logopedia – IPCEP/ABAE, data de realização: 30/10/1973 a 03/11/1973 (40 horas). Fonte: Arquivo pessoal. 137 Figura 7 Certificação do 1° Curso de Especialização para Educação Especial na Área de Comunicação e Expressão para professores de Alunos com Deficiência de Aprendizagem – CENESP/FUPAC/ABAE. Carga horária: 420 horas/a. (frente do doc.) Fonte: Arquivo pessoal. 138 Figura 8 Painel sobre Diagnósticos e Orientação Terapêutica Precoce nos Deficientes de Audição – CENESP/FUPAC/ABAE. Fonte: Arquivo pessoal. 139 Figura 9 Proposta Curricular para Deficientes Mentais Educáveis, v. II, MEC/CENESP. Fonte: Arquivo pessoal. Documento adquirido durante o Curso de Especialização para professora alfabetizadora da Educação Especial. 140 Figura 10 Proposta Curricular para Deficientes Mentais Educáveis – Manual do Professor, v. IV, MEC/CENESP. Fonte: Arquivo pessoal. Documento adquirido durante o Curso de Especialização para professora alfabetizadora da Educação Especial. 141 Figura 11 Proposta Curricular para Deficientes Visuais, v. I, MEC/CENESP. Fonte: Arquivo pessoal. Documento adquirido durante o Curso de Especialização para professora alfabetizadora da Educação Especial. 142 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta pesquisa desenvolveu a tese de que o diagnóstico proposto por Helena Antipoff e seus colaboradores para identificar as dificuldades escolares das crianças matriculadas nas instituições de ensino de Belo Horizonte teria se constituído como um dispositivo de cunho psicopedagógico de ação educativa a serviço de teorias de aprendizagem psicológicas que exer- ceram forte influência no sistema de ensino tanto da educação geral quanto a especial. As questões de estudo iniciais que levaram a este trabalho são: quais as concepções teóricas e metodológicas adotadas por Helena Antipoff e seus colaboradores, na identificação das dificuldades escolares dos alunos das classes especiais de Belo Horizonte; quais as ações pedagógicas decorrentes dessas concepções e em que medida o diagnóstico proposto por He- lena Antipoff teria se constituído como instrumento de tomada de decisão para subsidiar o pro- cesso de ensino e aprendizagem dos alunos tidos como excepcionais. Antipoff (1892-1974), psicóloga e educadora, pesquisadora do Instituto Jean Jac- ques Rousseau, com formação na Universidade de Genebra, na Suíça, sob a orientação de Edouard Claparède, viria a se tornar sua principal referência nas áreas da psicologia e da teoria da educação. De origem russa, radicada no Brasil a partir de 1929, época em que foi convidada pelo governo de Minas Gerais para assumir a direção e docência na recém-instalada Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico de Belo Horizonte (1929-1946). Essa instituição foi criada du- rante o governo de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, como parte integrante de um projeto de reforma do ensino mineiro, conhecida como Reforma Francisco Campos/Mário Casassanta (1927-1928) e tinha como referência as propostas do movimento da Escola Nova. A Escola de Aperfeiçoamento tinha como objetivo promover a formação de docentes, em nível superior, com sólida base científica, além de formação na área de administração escolar para orientar e avaliar a implantação da Reforma nas escolas mineiras. Após a formalização de seu contrato com o governo de Minas Gerais, em agosto de 1929, Antipoff ministrou as aulas de Psicologia e Pedologia e responsabilizou-se pela organi- zação e direção do Laboratório de Psicologia Experimental, vinculado à escola. Suas alunas eram professoras atuantes em escolas primárias estaduais, licenciadas para a realização do curso de aperfeiçoamento com duração de dois anos, cuja estrutura curricular constituía-se das disci- plinas ─ Pedologia; Psicologia Experimental e Educacional; Metodologia de Ensino; Desenho e Modelagem; Legislação Escolar; Noções de Direito Constitucional e Educação Física. 143 O plano de ensino proposto para a disciplina Psicologia Experimental e Educacio- nal, ministrada por Antipoff, pretendia dar ao ensino de psicologia uma dimensão experimental, de forma que as alunas/professoras pudessem verificar empiricamente os fenômenos psíquicos estudados na teoria e promover pesquisas sobre as crianças em idade escolar, para conduzir de maneira apropriada as ações dos educadores e orientar familiares quanto a crianças com pro- blemas educacionais. Para esse fim, vislumbrou-se a instalação de classes junto da Escola de Aperfeiçoamento, destinadas à observação e experimentação de novos métodos e procedimen- tos educacionais. Outro empreendimento de Antipoff foi a criação do Museu da Criança, em 1929, como um centro de pesquisa relativo à criança, caracterizado como um centro pedagógico, para subsidiar estudos sobre a antropometria, a puericultura e a natureza da criança em seus diferen- tes aspectos da vida mental. Esse seria um ambiente com a função de armazenar as informações acerca da criança brasileira, que serviria de base para os trabalhos do Laboratório, além de possibilitar o cotejamento das pesquisas realizadas com outros países. Com a pretensão de rea- lizar estudos detalhados sobre as classes escolares de Belo Horizonte, Antipoff (1930) coorde- nou as primeiras pesquisas iniciadas pelas alunas/professoras da Escola de Aperfeiçoamento, em extensão ao Curso de Psicologia Educacional. Esses trabalhos criteriosamente elaborados pelas pesquisadoras, faziam parte de um estudo psicopedagógico experimental, ao qual a edu- cadora deu o nome de Escolologia: ciência da escola e pedagogia experimental. Com base nesses trabalhos monográficos as alunas/pesquisadoras analisavam as condições físicas das classes e a composição das turmas; o perfil pedológico individual e o geral das turmas, em seu conjunto; o meio ambiente da escola e a origem social de seus alunos; o meio social, econômico e moral das crianças; o seu estado físico e o nível mental; o trabalho pedagógico e seu caracte- rístico psicológico; o perfil da professora da classe e sua conduta profissional. Além de apre- sentarem relatórios circunstanciados, com a síntese de seus conhecimentos sobre as classes es- tudadas e os resultados pedagógicos alcançados. Os excertos extraídos dessas pesquisas foram publicados na Revista do Ensino ─ Órgão Oficial da Inspetoria Geral da Instrução de 1930. Antipoff trazia em sua formação as influências soviéticas, francesas e genebrinas; podia ser considerada como uma referência híbrida. Russa de nascimento, concluiu o curso secundário e Complementar Normal em São Petersburgo (1909) ─ matriculou-se no curso de medicina na Université de Paris, Sorbonne; frequentou os Seminários do Collège de France; estagiou no Laboratório de Psicologia da Sorbonne, dirigido pelo médico psiquiatra Théodore 144 Simon, após a morte de Alfred Binet (1911) ─ obteve a habilitação de nível superior, como educadora no Instituto Jean-Jaques Rousseau, em Genebra, sob a orientação de Édouard Cla- parède (1914) ─ retornou à Rússia, em São Petersburgo estudou centenas de crianças, abando- nadas nos Centros Médicos-Pedagógicos, subjugadas a condições adversas, pelos efeitos da Guerra e da Revolução Russa (1917) ─ atuou como colaboradora científica no Laboratório de Psicologia Experimental fundado por Alexander Netchajeff ; responsabilizou-se pela educação de cerca de 150 adolescentes, com os quais realizou um trabalho de investigação psicopedagó- gica (1921) ─ transferiu-se para Viatka, trabalhou na Estação médico-pedagógica; organizou um Laboratório de Psicologia, onde examinava as crianças, traçando para cada uma ampla des- crição pormenorizada quanto a características e aptidões (1922). Antipoff, com base no movimento escolanovista, asseverava a necessidade de co- nhecer a criança para educá-la, considerava o diagnóstico como um processo que possibilitava a identificação de dificuldades particulares, para melhor orientar a aprendizagem. Nas suas ex- periências realizadas na Rússia, ao fazer o exame psicológico das crianças, Antipoff utilizava a escala de medida da inteligência proposta por Binet/Simon e, para o estudo da personalidade infantil associava ao método desenvolvido pelo psicólogo russo Alexandre Lazurski, denomi- nado experimentação natural, cujos princípios foram expostos pelo autor, em 1911, no Con- gresso de Pedagogia Experimental de São Petersburgo. Em 1931, sob a supervisão de Antipoff, iniciou-se a aplicação dos testes de inteli- gência, nos grupos escolares de Belo Horizonte, pelas professoras recém-formadas na Escola de Aperfeiçoamento, com o intuito de homogeneização das classes. Os critérios adotados para a distribuição das crianças em classes homogêneas levavam em conta a idade, os resultados escolares e o nível de desenvolvimento mental. Os principais axiomas apresentados por Antipoff consolidaram a lógica dos princí- pios da aprendizagem. Um exemplo a ser citado foi a sua maneira incisiva em afirmar que não era a homogeneidade das classes escolares que determinava o sucesso na ação educativa, mas sim o ensino compatível com o desenvolvimento dos alunos. Ao verificar a limitação dos re- sultados apresentados pelos testes e a pouca eficácia pedagógica nas classes homogêneas, pas- sou a questionar esse processo quando empregado isoladamente. Outro aspecto que merece destaque era o seu posicionamento quanto ao uso e re- sultado dos testes mentais, pois argumentava não serem inteiramente exatos e precisos para 145 diagnosticar o desenvolvimento espiritual da criança. Contudo, apoiada em Claparède, Antipoff acentuava que, apesar dos resultados incertos, os testes valeriam pelo coeficiente de probabili- dade que revelavam e evitariam juízos arbitrários, sujeitos, muitas vezes, aos caprichos do acaso. Um terceiro aspecto trata-se das asserções de Antipoff quanto à ideia de que a inte- ligência seria o resultado da combinação entre as disposições inatas, as condições de vida, a cultura e a educação. Esse processo seria construído pela interação do sujeito com o meio social e cultural no qual estava inserido. Com base na sua atuação e estudos com crianças e adoles- centes russos, Antipoff desenvolveu o conceito de inteligência civilizada, uma de suas maiores contribuições ao estudo da inteligência humana, pois ela não considerava que os resultados dos testes mediam a inteligência inata, mas sim aquela que era favorecida de alguma forma, pela ação da sociedade em que vivia e se desenvolvia, em função da experiência adquirida com o tempo. Essa premissa alterou, consideravelmente, os meandros da avaliação diagnóstica como processo de tomada de decisão para acompanhamento das ações psicopedagógicas. Outra discussão não menos importante refere-se à forma como Antipoff constituiu o diagnóstico, fez uso dos testes de inteligência quando do processo de homogeneização das classes escolares e investiu também na observação sistemática por meio da experimentação natural de Alexander Lazursky. Para ela, os métodos experimentais seriam os melhores instru- mentos de se conhecerem as crianças. Constata-se, porém, que a educadora não se restringiu ao uso do diagnóstico apenas ao levantamento de dificuldades escolares ─ lançou também mão de instrumentos na modalidade de educação profissional, com o propósito de levantar a compe- tência social dos aprendizes que integravam as Oficinas Pedagógicas da SPB. Um dos recursos para esse fim foi a pesquisa realizada com a aplicação da escala de desenvolvimento social denominada P.A.C ─ Progress Assessment Chart72, reconhecido como instrumento de avaliação constituído de quatro áreas essenciais: autossuficiência pessoal, comunicação, socialização e ocupação, cuja finalidade era medir o desenvolvimento social do aprendiz excepcional e de elaborar programa pedagógico de estimulação das áreas discrepantes para alcançar o maior índice de competência social. Esse trabalho recebeu a colaboração de 72 Gráfico de Avaliação do Progresso. 146 estagiários de psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universi- dade Católica. A segunda pesquisa, sobre o autoconceito dos deficientes mentais, sugerida e ori- entada por Helena Antipoff, suscitava aspectos importantes sobre a afetividade e a orientação psicopedagógica dos excepcionais. Constituía-se de um questionário elaborado por Dr. Henry Coob, da Universidade de Dakota do Sul, o qual foi complementado por Antipoff e aplicado sob a responsabilidade da estagiária Solange Severo, da PUC/RJ. Os primeiros resultados, con- firmavam as teses e hipóteses levantadas em torno do problema. Como parte de um programa extensivo de formação de pessoal especializado em prol da infância excepcional, iniciou-se em 1945 o primeiro Curso de Orientação Psicopedagó- gica da SPB. Na sequência, inaugurou-se o primeiro Centro Médico Psicopedagógico com a responsabilidade de formar equipes especializadas nos assuntos de pesquisa, processos de edu- cação e tratamento da criança e adolescente excepcional. Antipoff organizou uma série de Se- minários, no período de 1951 a 1955, para ampliar as discussões em caráter nacional. Confirma-se a hipótese de que o diagnóstico formulado por Helena Antipoff não somente se constituía em um enfoque psicopedagógico para a identificação das dificuldades escolares dos alunos dos grupos escolares, mas também para levantar possibilidades de inter- venções apropriadas para tomada de decisões educacionais. Por meio deste trabalho foi possível detectar lacunas quanto a aspectos da reformulação de currículos da educação especial depois da criação do CENESP, o que parece ser uma área prioritária de investigação para futuras pes- quisas. 147 CRONOLOGIA Antecedentes: inquietações de Helena Antipoff com o diagnóstico das crianças e adoles- centes com dificuldades escolares 1892 | Helena Antipoff nasce em Grodno, na Rússia, em 25 de março, e vive até 1908 em São Petersburgo. Filha de um capitão do exército, formado pela Academia de Estado-Maior de São Petersburgo e de mãe pedagoga. Ainda em tenra idade, aprende a falar o francês, o alemão e o inglês. Durante o curso secundário, participa ativamente da vida cultural da cidade. 1909 | Termina o curso secundário e o curso Complementar Normal em São Petersburgo. Muda- se para a França, em companhia de sua mãe e irmãs. Em Paris, presta exames do final do curso secundário com o objetivo de continuar os estudos no nível superior. 1911 | Matricula-se no curso de medicina na Université de Paris ─ Sorbone, e se envolve em debates intelectuais no Collège de France. Decide fazer um estágio no laboratório de psicologia da Sorbonne dirigido por Alfred Binet (1857-1911). Participa dos ensaios de padronização dos testes de nível mental, elaborados por Binet e Simon. Desiste do curso de medicina e começa sua formação em psicologia associada a um crescente interesse pela pedagogia. Conhece o mé- dico e psicólogo suíço Édouard Claparède (1873-1940). Integra-se como aluna do Instituto de Ciências da Educação ─ Instituto Jean Jacques Rousseau. 1912 | Faz várias viagens e, dentre essas, para a Inglaterra, onde se interessa por conhecer uma organização educacional – Saint Helen’s School, para “meninos difíceis”, com problemas nos estudos e comprometimentos neurológicos, onde realiza um estágio com o objetivo de pesquisar como a medicina ou outra ciência poderia fazer algo por essas crianças. Ao voltar da Inglaterra, retoma os estudos no Instituto Jean-Jacques Rousseau-IJJR, em Genebra, sob a orientação de Claparède. 148 1913 | Como aluna do IJJR, frequenta um curso sobre as propostas Montessorianas, ministrado por Teresina Bontempi e Jeanne Barrère, duas das primeiras discípulas de Montessori (1870- 1952). Colabora na instalação da escola anexa ao IJJR, a Maison des Petits, na qual se respon- sabiliza pela educação das crianças de quatro anos sob a supervisão de Audemars e Lafendel. 1914 | Obtém a habilitação de nível superior, como educadora. 1917-1918 | Retorna à Rússia para cuidar do pai, ferido em combate na Primeira Guerra Mun- dial. Em São Petersburgo estuda centenas de crianças, abandonadas nos Centros Médicos-Pe- dagógicos, subjugadas a condições adversas, pelos efeitos da Guerra e da Revolução Russa. 1921 | Atua como colaboradora científica no Laboratório de Psicologia Experimental fundado por Alexander Netchajeff, em Petrogrado. Assume a função de educadora-residente no Refor- matório de menores de Petrogrado. Responsabiliza-se pela educação de cerca de 150 adoles- centes, com os quais realiza um trabalho de investigação psicopedagógica. 1922 | Transfere-se para Viatka; trabalha na estação médico-pedagógica em uma escola resi- dencial; é contratada como psicóloga, com a função de organizar o sistema de atividades edu- cacionais e escolares e organiza um laboratório de psicologia. 1924 | Muda-se para Berlim, na Alemanha, onde o jornalista Vitor Iretzky, seu marido, se en- contra exilado. Deixa publicado, em Petrogrado, dois artigos ─ Plano e técnica para o exame psicológico de crianças e O desenvolvimento mental de crianças pré-escolares. Esse último estudo teria sido os resultados da pesquisa realizada por ela, sob a orientação de Alexander Netchajeff, no Laboratório de Psicologia de Petrogrado. 1925 | Não se adapta ao trabalho em escolas alemãs e à mentalidade germânica. Busca como alternativa a criação de uma escola infantil particular, destinada aos filhos dos russos expatria- dos, residentes em Berlim. 149 1926-1927 | Retorna à Genebra, torna-se assistente de Claparède no Laboratório de Psicologia da Universidade e professora de psicologia no Instituto Jean-Jacques Rousseau. Desenvolve intensa produção científica e difunde suas pesquisas internacionalmente. 1929 | Recebe o convite do governo de Minas Gerais para auxiliar na Reforma do Ensino mi- neiro, implantada por Francisco Campos em 1927. Assume o cargo de professora de Psicologia Educacional e a direção do Laboratório de Psicologia na Escola de Aperfeiçoamento Pedagó- gico de Belo Horizonte. Cria o Museu da Criança, como um recurso pedagógico com a função de conservar as informações acerca das crianças mineiras, que serviriam de base para os traba- lhos do Laboratório. 1930 | Coordena pesquisas iniciadas no curso de Psicologia Educacional, da Escola de Aperfei- çoamento, ao qual deu o nome de Escolologia ─ ciência da escola e pedagogia experimental. Os excertos extraídos dessas pesquisas e o texto final foram publicados na Revista do Ensino ─ Órgão Oficial da Inspetoria Geral da Instrução de 1930. 1931 | Inicia-se, sob sua supervisão, a aplicação dos testes de inteligência das crianças nos gru- pos escolares de Belo Horizonte e, em algumas cidades do interior. 1932 | Apoiada por médicos, educadores e religiosos, cria a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais, com o objetivo de prestar atendimento especializado às crianças anormais e difundir os conhecimentos indispensáveis ao seu tratamento. 1933 | Por iniciativa da SPMG, instalam-se os serviços do consultório médico-psicopedagógico, com atendimento multidisciplinar às crianças dos Grupos Escolares de Belo Horizonte. Anti- poff atua como psicóloga dessa equipe formada por médico, enfermeira e professoras, para levantamento de diagnóstico e acompanhamento da escolarização das crianças. 150 1935 | Inaugura-se o Instituto Pestalozzi de Belo Horizonte, fomentado pela SPMG, para aten- dimento escolar aos meninos do Abrigo Afonso de Moraes e às crianças anormais, advindas das escolas da capital e de encaminhamentos do Consultório Médico-Psicopedagógico. Institui- se, dessa forma, uma das primeiras escolas públicas de educação especial do Brasil. 1939 | Adquire, por intermédio da SPMG, uma propriedade rural em Ibirité, MG, a 26 km de Belo Horizonte, onde inicia a construção do complexo educacional da Fazenda do Rosário, com a finalidade de promover a educação e profissionalização de crianças e adolescentes excepcio- nais e abandonados. A origem do nome da fazenda, se deve, ao mês em que foi adquirida ─ outubro ─ mês de Nossa Senhora do Rosário. 1940 | Constitui-se o primeiro núcleo do Internato da Fazenda do Rosário, com seis adolescen- tes do Abrigo de Menores e do Instituto Pestalozzi de Belo Horizonte, acompanhados de duas professoras: Yolanda Barbosa e Cora Duarte Faria. Nesse ano, o governo de Minas Gerais nega a Antipoff a renovação de seu contrato de trabalho na Escola de Aperfeiçoamento. 1944 | A convite do médico e amigo Gustavo Lessa, a educadora muda-se para o Rio de Janeiro, para integrar-se à equipe de trabalho do Ministério da Saúde. Nessa ocasião, funda-se o Centro de Orientação Juvenil ─ COJ, destinado ao acompanhamento psicológico de adolescentes e jovens com dificuldades de conduta, além de prestar orientação aos profissionais que atuavam nesse serviço. Esse Centro foi uma das primeiras instituições especializadas no atendimento clínico e orientação psicológica fundada no Brasil. 1945 Edifica a Sociedade Pestalozzi do Brasil ─ SPB, no Rio de Janeiro. Inicia-se o primeiro Curso de Orientação Psicopedagógica da SPB e inaugura o primeiro Centro Médico Psicope- dagógico, no então Distrito Federal. 1946 | Organiza as Oficinas Pedagógicas da SPB, no Rio de Janeiro. Formula instrumentos de avaliação, para levantamento diagnóstico das áreas essenciais do desenvolvimento social do aprendiz. 151 1950 | Volta definitivamente para Belo Horizonte, porém continua com a centralidade de sua liderança na SPB. 1951-1955 | Organiza uma série de Seminários sobre a Infância Excepcional realizada pelas Sociedades Pestalozzi ─ do Brasil. 1960 | Compõe a comissão de coordenação da CADEME e elabora uma minuta de lei propondo a criação do Centro Nacional de Educação Especial – CENESP. 1964 | Os cursos promovidos pela SPB tornam-se mais refinados e com auxílio financeiro da Fundação Nacional do Bem Estar do Menor ─ FUNABEM e da Campanha Nacional de Edu- cação e Reabilitação de Deficientes Mentais ─ CADEME. 1967 | Reinicia, por meio da SPB, uma série de Cursos de Teatro de Bonecos e de Atividades Musicais. 1970 | Os cursos ministrados pela SPB foram reestruturados, em consonância com as normas exigidas pelos Órgãos oficiais responsáveis: Conselho Federal e Estadual de Educação, a fim de obterem os registros em seus certificados ou diplomas. 1971-1973 | Participa ativamente da inserção da Educação Especial, como modalidade de en- sino, no I Plano Setorial de Educação, por meio do Projeto Prioritário nº 35 cujo conceito de deficiência mental foi de sua autoria. 1974 | Falece, a 9 de agosto, em Belo Horizonte. 152 REFERÊNCIAS ALVIM, C. de F. 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