Universidade Federal de Minas Gerais
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
Programa de Pós-Graduação em Filosofia
ALEX LARA MARTINS
O ANJO E A BESTA – PASCAL, MACHADO DE
ASSIS E A DESCRISTIANIZAÇÃO DO
CETICISMO
Belo Horizonte
2018
Alex Lara Martins
O ANJO E A BESTA – PASCAL, MACHADO DE ASSIS E A
DESCRISTIANIZAÇÃO DO CETICISMO
Tese apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Filosofia do Departamento de
Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da Universidade Federal de Minas
Gerais, como requisito parcial para a obtenção
do título de Doutor em Filosofia
Linha de pesquisa: História da Filosofia
Moderna
Orientador: Prof. Dr. José Raimundo Maia Neto
Belo Horizonte
2018
100
M386a
2018
Martins, Alex Lara
O anjo e a besta [manuscrito] : Pascal, Machado de Assis
e a descristianização do ceticismo / Alex Lara Martins. -
2018.
319 f.
Orientador: José Raimundo Maia Neto.
Tese (doutorado) - Universidade Federal de Minas
Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.
Inclui bibliografia
1.Filosofia – Teses. 2. Ceticismo - Teses. 3.Assis,
Machado de, 1838-1908. 3.Pascal, Blaise, 1623-1662. I.
Maia Neto, José Raimundo, 1959-. II. Universidade Federal
de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas. III. Título.
Agradecimentos
Do projeto de pesquisa até a versão da tese ora submetida à banca, tenho-me
valido da companhia e do suporte de diversos atores, além da constância intelectual de
Machado de Assis.
Ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFMG, que sempre oferece
as melhores condições de pesquisa. Pelo suporte material, agradeço ao Programa de
bolsas de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior,
do qual fui beneficiário entre 2012 e 2015. Ao Instituto Federal do Norte de Minas Gerais
– Campus Almenara, que me concedeu a condição de servidor-estudante por meio do
Programa de Bolsas para Qualificação de Servidores.
Agradeço ao professor e orientador José Raimundo Maia Neto, pelo
incentivo, pela engenhosidade nas reflexões e pela cortesia no trato da orientação. Aos
professores Paulo Margutti e Marcos Rogério Cordeiro, pelas importantes considerações
durante a qualificação para a defesa. Aos professores Ivan Domingues e Vitor Cei, que
apontaram os caminhos para o desfecho da tese.
Aos amigos de sempre... ao Guilherme e ao Stener, ao machadiano Alex
Sander, que também participou da banca avaliadora, aos quase almenarenses Leonardo
Palhares e Alfredo Costa.
A minha mãe, a meu pai e aos meus irmãos.
À Angelina, ao Ezequiel e à Alice.
Resumo
A obra ficcional de Machado de Assis apresenta componentes céticos. De um lado, o
ceticismo está alinhado a uma tradição de pensamento que pretende responder à crise de
pensamento do século XVII sobre os critérios da fé, da verdade e do conhecimento
natural. Este evento pode ser caracterizado pela retomada de argumentos céticos antigos
durante o contexto da Reforma Protestante e de posições agostinianas. De outro lado, o
ceticismo machadiano é mobilizado para explicar a moralidade e as relações sociais de
uma comunidade bem localizada geograficamente. O conhecimento sobre a arte e a
literatura não era obtido separadamente a outros bolsões culturais, como a ciência e a
filosofia. A abertura para os fazeres artísticos, científicos e filosóficos, no caso da geração
de Machado de Assis, ocorria ao redor da imprensa escrita. A tese principal é que a ficção
machadiana apresenta uma alternativa à tradição que “cristianiza o ceticismo”. Percorreu-
se os caminhos desta tradição no Brasil, a partir da recepção do ecletismo de Victor
Cousin e a sua interpretação pirrônica de Pascal. As questões decorrentes do processo
histórico e filosófico da cristianização do ceticismo são redirecionadas pela ficção
machadiana, de sorte que o resultado de sua reflexão seja aquilo que pretendo denominar
de descristianização do ceticismo. Os estudos de fontes filosóficas já apontam Pascal
como a principal influência filosófica de nosso literato. Considerando o contexto
intelectual brasileiro do século XIX, eu pretendo mostrar que as desenvolturas
autorreflexiva e aporética das narrativas têm como finalidade a reconstrução irônica de
uma antropologia tipicamente pascaliana. A “bestialização” do ser humano e a crítica ao
caráter opiniático das relações sociais são alguns dos temas pascalianos que a ficção urge
descristianizar.
Palavras-chave: Machado de Assis. Blaise Pascal. Ceticismo. Descristianização.
Abstract
The fictional work of Machado de Assis exhibits skeptical components. On the one hand,
skepticism is aligned with an intellectual tradition that intends to respond to the 17th
century intellectual crisis related to the criteria of faith, truth and natural knowledge. Such
a philosophical event would be characterized by revitalizing ancient skeptical arguments
in the face of a dispute around the Reformation and the revival of Augustinianism. On the
other hand, Machado’s skepticism is mobilized to explain the morality and social
relations of a well-localized community in which knowledge about art and literature was
not obtained separately from other embodied cultural capital, such as science and
philosophy. Around the written press, Machado de Assis’s generation received and
produced its artistic, scientific and philosophical acts. The main thesis is that Machado’s
fiction presents an alternative to a tradition that Christianizes skepticism. The paths of
this tradition in Brazil were analyzed from the standpoint of the reception of Victor
Cousin’s eclecticism and Pyrrhonian interpretation of Pascal. The questions arising from
the historical and philosophical development of the Christianization of skepticism are
redirected by Machado’s fiction. The main consequence of this reflection is what I called
the dechristianization of skepticism. Studies of Machado’s philosophical sources have
already singled out Pascal as a major influence. Considering the 19th century Brazilian
intellectual background, and its own reception of Pascal’s thought, I intend to show that
the self-reflexive and aporetic developments of the Machadean narratives aimed an ironic
reconstruction of a typically Pascalian anthropology. The “beastliness” of the human
being and the view of the opinionated model of social relations are some of the Pascalian
themes that fiction urges to dechristianize.
Keywords: Machado de Assis. Blaise Pascal. Skepticism. Dechristianization.
Résumé
Les œuvres littéraires de Machado de Assis présentent des éléments sceptiques. D'une
part, le scepticisme s'aligne sur une tradition intellectuelle qui répond à la crise de la
pensée du XVIIe siècle, liée aux critères de la foi, de la vérité et de la connaissance
naturelle. Cet événement serait caractérisé par la revitalisation des arguments sceptiques
dans le contexte de la Réforme protestante et des positions augustiniennes. D'autre part,
le scepticisme de Machado est mobilisé pour expliquer la moralité et les relations sociales
d'une communauté bien localisée géographiquement. La connaissance de l'art et de la
littérature n'était pas obtenue séparément des autres capitaux culturels, telles que la
science et la philosophie. L'ouverture des actes artistiques, scientifiques et
philosophiques, dans le cas de la génération de Machado de Assis, a eu lieu autour de la
presse écrite. La thèse principale est que la fiction de Machado présente une alternative à
la tradition qui « christianise le scepticisme ». Nous sommes allés à travers les sentiers de
cette tradition au Brésil, à la réception de l'éclectisme de Victor Cousin et son
interprétation pyrrhonienne de Pascal. Les questions soulevées par le processus historique
et philosophique de la christianisation du scepticisme sont redirigées par la fiction de
Machado. La conséquence de cette réflexion est ce que je veux appeler la
« déchristianisation du scepticisme ». Les études de sources philosophiques ont déjà
indiqué que Pascal est la principale influence philosophique de Machado de Assis.
Considérant le contexte intellectuel brésilien du XIXe siècle et la réception de la pensée
de Pascal, je compte montrer que les développements auto-réflexifs et aporétiques des
récits visent une reconstruction ironique d'une anthropologie typiquement pascalienne.
« L'abêtissement » de l'être humain et la critique du modèle de société basé sur l'opinion
sont quelques-uns des thèmes pascaliens que la fiction exhorte à déchristianiser.
Mots-clés : Machado de Assis. Blaise Pascal. Scepticisme. Déchristianisation.
Nota bibliográfica e abreviações
Para a obra de Machado de Assis, utilizamos a seguinte referência:
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Obra completa em quatro volumes.
Organização editorial Aluizio Leite, Ana Lima Cecílio, Heloisa Hahn. São Paulo: Nova
Aguilar, 2015. 4v. Para fins de economia textual, ela será referida, no corpo do texto, por
OC, seguida dos números do volume e da página. No caso de publicação em periódicos,
citamos o nome da revista e a data original de publicação, quando esses dados
importarem. Uma vez que essa edição não contempla todos os escritos conhecidos de
Machado de Assis, optamos por utilizar, quando necessário, outras referências
bibliográficas primárias. Para a correspondência: MACHADO DE ASSIS, Joaquim
Maria. Correspondência de Machado de Assis. Coordenação de Sérgio Paulo Rouanet.
Rio de Janeiro: ABL; Biblioteca Nacional, 2008-2015. 5 t. (referido por C, seguido dos
números do tomo e da página). Para as críticas teatrais e pareceres exarados para o
Conservatório Dramático, não recolhidos pela OC, utilizamos FARIA, João Roberto
(Org.). Machado de Assis: do teatro. Textos críticos e escritos diversos. São Paulo:
Perspectiva, 2008 (referido por T, seguido do número da página). Para os textos dispersos
em periódicos e a primeira edição de Crisálidas, consultamos o acervo digital da
Biblioteca Nacional, através dos seguintes endereços: e
. Nestes casos, informou-se a referência em
nota de rodapé. Quando foi preciso transcrever algum trecho dos periódicos ou edições
antigas, fez-se a atualização ortográfica para o português contemporâneo. O mesmo
ocorreu com os títulos das obras e dos periódicos, mantendo-se a grafia original nas
referências de rodapé e na bibliografia.
No caso de Pascal, demos preferência à edição dos Pensamentos, coligida por
Louis Lafuma (La), disponível na seguinte edição brasileira: PASCAL, Blaise.
Pensamentos. Tradução de Mário Laranjeira. Edição Lafuma. São Paulo: Martins Fontes,
2005 (referido por La, seguido pelo número do fragmento, e seu correspondente na edição
Brunschvicg, Br). Consultamos, ainda, a tradução de Olívia Bauduh: PASCAL, Blaise.
Pensamentos. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (Coleção Os Pensadores). Para este e
outros textos de Pascal, demos preferência às Oeuvres completes organizadas e coligidas
por Jean Mesnard (Paris: Descleé de Brouwer, 1965-1970). Em caso de dúvida sobre a
tradução de alguma passagem e para a comparação entre os manuscritos originais e as
edições clássicas dos Pensamentos, recorremos ao trabalho de G. Proust e D. Descotes na
Bibliothèque Nationale de France, que disponibilizaram uma edição eletrônica dos
Pensées no seguinte sítio: .
Por um capricho do autor, demais referências aparecem em notas de rodapé
de maneira completa, na primeira citação, e, nas seguintes, referidas por autor, obra e
página.
Sumário
Introdução .................................................................................................................... 10
CAPÍTULO 1 – FONTES, INFLUÊNCIAS E FORMAÇÃO FILOSÓFICA NA
JUVENTUDE DE MACHADO DE ASSIS ................................................................ 17
1.1 Filosofia em fascículos: as revistas e a transmissão de conhecimento no Brasil
Império ......................................................................................................................... 21
1.2 A ascensão literária e o abismo da política ............................................................ 43
1.3 Os sentidos de Filosofia na obra de Machado de Assis ......................................... 54
CAPÍTULO 2 – PASCAL NO BRASIL: CETICISMO E ESPIRITUALISMO ......... 73
2.1 Quando Pascal foi (relevantemente) recebido no Brasil? ...................................... 74
2.2 Victor Cousin, intérprete de Pascal ........................................................................ 85
2.3 Pascal e Machado de Assis – modos de leitura .................................................... 100
CAPÍTULO 3 – A INFLUÊNCIA DO PASCALIANISMO NA JUVENTUDE DE
MACHADO DE ASSIS ............................................................................................. 115
3.1 A teologia de artista e a teoria do progresso (1855-1860) ................................... 116
3.1.1 A Bíblia do romantismo .................................................................................... 117
3.1.2 A Bíblia do progresso ........................................................................................ 125
3.1.3 A Bíblia do espiritualismo ................................................................................ 134
3.2 A influência do Ecletismo e a polêmica Os cegos ............................................... 146
3.3 Moral de teatro e estudo de caracteres (1861-1864) ............................................ 162
CAPÍTULO 4 – DA DESCRISTIANIZAÇÃO À DESCRENÇA (1865 – 1878) ..... 179
4.1 Religião, religiosidade e descristianização .......................................................... 180
4.2 O debate com A cruz ............................................................................................ 190
4.2.1 A antibíblia de Ernest Renan e a tolerância religiosa ....................................... 200
4.3 A descristianização do amor ................................................................................ 207
4.4 Padres e compadres em Helena e Casa Velha ..................................................... 217
CAPÍTULO 5 – A APOTEOSE DAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS E A
DESCRISTIANIZAÇÃO DO CETICISMO ............................................................. 233
5.1 O anjo e a besta: antropologia pascaliana instaurada (1878) ............................... 235
5.2 O conflito das interpretações e o ponto de vista do narrador cético .................... 246
5.3 A descristianização do ceticismo ......................................................................... 252
5.3.1 A metafísica de Aristóteles ............................................................................... 254
5.3.2 A metafísica de Quincas Borba ......................................................................... 259
5.3.3 A metafísica de Pascal ...................................................................................... 268
CONCLUSÃO – O TESTAMENTO FILOSÓFICO DE MACHADO DE ASSIS .. 283
BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................ 297
10
Introdução
Digamos de início: não há indícios decisivos de que Machado de Assis tenha
sonhado ser filósofo. O escritor brasileiro transitou de relance pelo ensaísmo filosófico, pela
dramaturgia e pela crítica teatral, tomando um caminho mais longo e próspero entre o
romance, a crônica, a poesia e o conto. Em uma estrada paralela, Machado exerceu o
jornalismo e diversas funções públicas, engajou-se em questões sociais e contribuiu para a
consolidação da vida literária, intelectual e política no Brasil. Esse projeto de vida esteve
mais ligado à prática ficcional e à pedagogia de tentativa e erro do que à análise teórica
fundada numa metodologia científica de progressão seriada. Esse projeto de vida deveu mais
à influência obtida dentro de associações e agremiações não governamentais do que à
educação formal regulada pelo Estado.
Após a chegada da Corte Imperial ao Brasil, em 1808, a administração pública
se agigantou. Não havendo um programa sólido para a formação de engenheiros, bacharéis,
militares e outros profissionais especializados, alocou-se em cargos públicos grande parte
dos quinze mil portugueses aderentes à Corte. Ao contrário das colônias espanholas, onde
se permitiu, desde cedo, a implantação de universidades, apenas no século XIX foram
criados cursos superiores no Brasil. Esses cursos lograram, quando muito, suprir as
necessidades da alta administração do Império, conformando a parcela mais abastada a uma
ideologia unificadora e homogênea.1 O mundo do trabalho estava diminuído à medida que a
maior parte da labuta era exercida pelos escravos, o que forçava ainda mais as relações de
dependência entre as classes e os estamentos. Nesse caso, os pobres e agregados, mesmo que
livres, não compunham bem o que hoje se denomina classe média. Para viver e se integrar
ao modo de produção mercantil, que não lhe permitia mobilidade social, o agregado deveria
manifestar uma espécie de inteligência prática, claro, se quisesse dobrar a vontade senhorial
em favor de seus próprios interesses.
Em que pese a falta de cursos superiores específicos de filosofia, a pedagogia
jesuíta, no período colonial, e as faculdades de direito e de medicina, durante o Império,
1 CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: a elite política. Teatro das Sombras: a política
imperial. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 36.
11
disseminaram o conhecimento necessário para uma formação filosófica mais ou menos
sólida. No caso de Machado, mesmo que jamais manifestasse a intenção de produzir uma
obra de filosofia, esta disciplina lhe serviu de instrumento para que pudesse versar as suas
outras habilidades. Isso não afasta a possibilidade de uma interpretação filosófica e não
instrumental da obra machadiana. Além disso, é exagerado dizer que ele praticou sempre o
autodidatismo e que esteve sempre alheio a escolas filosóficas. Certamente a instrução de
nosso literato não é acadêmica nem especializada. A pesquisa biográfica nos revela a
existência de professores informais e conselheiros de quem o aprendiz adquiriu as suas
referências culturais e com as quais pôde estabelecer um projeto de carreira consistente.
Além disso, a imprensa escrita lhe propiciaria os recursos bibliográficos necessários para a
sua formação humanística.
De meados da década de 1850 até o início do século XX, o fio que conduz a
ascensão de Machado, para recuperarmos a força da metáfora, supõe um motor que o leva
da margem para o centro, em busca de uma fórmula narrativa que, se não resolve, coloca às
claras questões artísticas, ideológicas e filosóficas de países centrais quando esses conceitos
e práticas são transpostos a um país periférico. Essa intromissão ascendente, portanto,
dependeu do aprendizado e do manejo de certos conceitos filosóficos, mesmo aqui sendo
semeados em terreno hostil.2 Ele é ainda herdeiro do legado da modernidade, próximo
especialmente de filósofos cujas teses expressam a cristianização do ceticismo, como
Montaigne e Pascal3, e daqueles cujo pensamento se vinculam ao cristianismo, ou dele se
afastam, como Victor Cousin, René Chateaubriand, Monte Alverne, Ernest Renan e Arthur
Schopenhauer. As questões decorrentes desse processo histórico e filosófico são
redirecionadas pela ficção machadiana, de sorte que o resultado de sua reflexão seja uma
alternativa a questões modernas. Essa alternativa corresponde àquilo que pretendo
denominar de descristianização do ceticismo.
A recepção intelectual de Pascal e a descristianização de seu ceticismo não são
circunstâncias suficientes para explicar, isoladamente, a virada teórica implicada a partir das
2 SCHWARZ, Roberto. Machado de Assis: Um mestre na periferia do Capitalismo. 2. ed. Duas Cidades: São
Paulo, 1991, p. 150.
3 MAIA NETO, José Raimundo. “De Montaigne a Pascal: do fideísmo cético à cristianização do ceticismo”.
O que nos faz pensar, n. 8, p. 62-71.
12
Memórias póstumas de Brás Cubas. Tomadas em conjunto com aspectos biográficos e
estéticos, elas são circunstâncias que configuram uma interpretação possível. O gracejo feito
em correspondência ao amigo Joaquim Nabuco sobre ter lido, desde cedo, entre outros
filósofos, Pascal, e tê-lo lido muito e sem distração (C, V, p. 1310), confirma o lugar central
dedicado à filosofia pascaliana e, de resto, ao cristianismo e à história da filosofia no projeto
de trabalho traçado pelo jovem literato. Ingenuidade defender que uma ou mais leituras
sejam suficientes para explicar a virada literária de um escritor como Machado. Apesar disso,
espero que esse recorte da história intelectual seja suficientemente coerente para convertê-
lo numa condição tão necessária para a virada quanto a percepção crítica da realidade social
e a modificação da estrutura narrativa.
Machado tinha um bom conhecimento, relativamente ao possível no Brasil
Imperial, dos clássicos da filosofia, podendo discorrer com alguma desenvoltura sobre temas
de Platão, Agostinho, Erasmo, Montaigne, Maquiavel, Descartes, Locke, Espinoza, Voltaire
e Schopenhauer. A alcunha de literato-filósofo pode significar insuficiência e falta de
autonomia da expressão literária. Entretanto, no caso de Machado, significa uma atitude
investigativa ao espaço constelar da tradição e uma disposição suspensiva aos problemas que
a realidade se lhe apresentava.
A multiplicidade de referências e de conexões metatextuais cresce à medida que
a sua expressão literária adquire personalidade. O método de combinação das obras
predecessoras, por díspares que sejam entre si, permite a nosso autor inscrever-se numa
tradição literária e, ao mesmo tempo, diferenciar-se dela. Estabelecido na linhagem dos
ironistas, cujos traços distintivos são a autorreflexão e a emissão de aporias e dilemas morais,
o nosso literato mobiliza teses filosóficas para lidar ora com questões de identidade nacional
e de originalidade estética, ora com questões de ordem ética sobre a liberdade e a condição
escravista, ora sobre as questões metafísicas relacionadas à impotência da razão, à natureza
opiniática do homem, à mácula das virtudes, à volubilidade do espírito etc.
Nem sempre a citação direta a algum autor implicará concordância doutrinária.
De mais, é notável a mania dos ironistas de esconder ou de deturpar a sua fonte primordial.
Sejam quais forem as metodologias e os resultados apresentados, temos ainda o
inconveniente de utilizar a velha concepção das “influências”, estabelecendo termos de
comparação quase sempre desfavoráveis para quem as sofre. De certa forma, é possível
13
contornar esses problemas alegando que não é a fonte literária ou filosófica que modifica o
espírito literário do influenciado, mas, ao contrário, é este quem passa a modificar e
reinterpretar a literatura ou a filosofia daquela fonte.
Num estudo passado, o biógrafo Jean-Michel Massa afirmou que sem uma
investigação pormenorizada das suas principais fontes de influência seria bastante difícil
remontar a conjuntura espiritual do jovem Machado, além do recurso às personalidades com
quem ele convivia e de quem possa ter aprendido algo, por exemplo, Paula Brito (1809-
1861) e Gonçalves Braga (1836-1860).4 Acrescente-se a essa lista o Padre Silveira Sarmento
(?), que o introduzira no francês e no latim, o jornalista proscrito Charles Ribeyrolles (1812-
1860) e o prefaciador de Crisálidas, Caetano Filgueiras (1830-1882), cada qual a seu modo,
decisivos para a formação e a consolidação da ideologia liberal do Machadinho.
A condição de Massa está hoje parcialmente atendida. Apesar do número
elevado de bons estudos de fontes, poucos se concentram na fase juvenil de nosso autor.
Ainda assim, aqueles que o fazem têm por finalidade justificar, exemplificar e contrastar as
ideias desse período com as ideias que surgem futuramente. Além disso, o estudo das fontes
propriamente filosóficas desse período restringe-se a autores e conceitos estrangeiros, pelo
que se atribuiu pouco significado ao modo pelo qual essas ideias se transformaram e se
adaptaram à realidade local. Nesse caso, para obtermos uma visão panorâmica, podemos nos
beneficiar de novos estudos realizados sobre a história da filosofia no Brasil.
No primeiro capítulo, faremos uma breve digressão sobre as condições materiais
e espirituais da filosofia brasileira no século XIX. Ensaiamos sobre a recepção e o
aprendizado da filosofia durante este século. A coleta de dados históricos e biográficos do
jovem Machado de Assis permite inseri-lo na discussão sobre o surgimento e o
desenvolvimento do ecletismo e a oposição a que lhe faz o positivismo. Além disso,
consideramos, em conjunto, a contraparte literária dessa disputa, a saber, o desenvolvimento
do romantismo e seus conflitos com o naturalismo ou realismo. Na medida em que Pascal
passa a figurar como um dos heróis do espiritualismo francês, sobretudo após a interpretação
cética de Victor Cousin (1792-1867), é positivo perceber que a solução eclética aos
4 MASSA, Jean-Michel. A juventude de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971, p.
119.
14
problemas abordados pela literatura machadiana seja consistente com a perspectiva literária
do ironista, cujo fundo antropológico aparenta ser pascaliano.
A influência da filosofia de Pascal no Brasil ainda é um ponto a ser explorado
por historiadores. Autores de monta da intelectualidade brasileira do século XIX, como
Monte Alverne e Joaquim Nabuco, reconhecem a influência de Pascal, embora a
historiografia filosófica deste período a ignore. Por isso, no segundo capítulo, traçamos as
“linhas hereditárias” entre a geração de Machado e a filosofia pascaliana. O ecletista Victor
Cousin desempenha papel fundamental, pois é ele quem promove a reinterpretação da
filosofia do jansenista a partir de elementos do ceticismo, por meio da qual os brasileiros
reconhecem Pascal. Para nossos ecléticos espiritualistas, o filósofo também é tido por um
moralista especial, já que apresenta uma antropologia robusta e consistente com a vida social
e política da ex-colônia.
Ora, uma vez que os estudos de fontes filosóficas já apontam Pascal como a
principal influência filosófica de nosso literato, há tempo para reavaliar, no fim deste
segundo capítulo, as metodologias e o alcance daquelas interpretações. De um lado, as
interpretações comparatistas tendem a subjugar a literatura à filosofia ao tomar a obra
machadiana como exemplo de algum pensamento europeu. De outro lado, as interpretações
histórico-sociológicas tendem a negar a procedência de qualquer filosofia, seja invocando o
princípio de autonomia da obra de arte, seja diagnosticando certa miopia moralista na visão
de mundo machadiana, seja afirmando que os filosofemas presentes no texto configuram a
desfaçatez e a impostura classista dos próprios narradores. O meu recorte possui a vantagem
de perceber alguma intenção do autor, em seu romance de virada, ao eleger Pascal como
interlocutor privilegiado, não como autoridade de filósofo. De outro modo, essa perspectiva
possível conecta a filosofia pascaliana à gênese e ao desenvolvimento do pensamento
ficcional machadiano.
Se o primeiro capítulo se ocupa de questões relacionadas à filosofia nacional,
identificando as fontes filosóficas relevantes ao contexto brasileiro, o terceiro e o quarto
capítulos reconstroem, de maneira cronológica, os passos de Machado de Assis dentro de
tradições mais amplas, como a ironista e a pascaliana. Daí a necessidade de reavaliar
aspectos da infância literária de Machado. A partir daqui, defendo a tese de que o nosso
ficcionista empreende uma descristianização do ceticismo. Cada capítulo corresponde a uma
15
fase distinta do pensamento do jovem literato. O terceiro capítulo abrange o período entre
1855 e 1864, e o quarto, entre 1865 até 1878. Essa é uma divisão artificial que serve para se
identificar algumas tendências de pensamento. Estes dois grandes períodos são, ainda,
subdivididos de acordo com acontecimentos biográficos ou modificações em aspectos
literários e teóricos relevantes, tais como o seu namoro com o liberalismo, a acomodação
poética ao ecletismo espiritualista, a expressão de uma teologia de artista, a tentativa, nos
contos, de conciliação entre a ética cristã e a moralidade liberal, o engajamento político, a
concepção dramatúrgica e a adesão a princípios da estética moderna, a decepção com o teatro
e a procura por um ponto de vista narrativo reflexivo e cético.
No quarto capítulo, demonstra-se que o desenvolvimento de teses filosóficas
continua a coincidir com a progressão literária de nosso autor, sobretudo no que diz respeito
à religiosidade. O processo de descristianização transcorre a partir de meados da década de
1860 até o final da década seguinte. Entre a perspectiva cristã da possibilidade de redenção
para personagens eticamente transparentes e a adoção de um ponto de vista narrativo
reflexivo e cético, há um espaço de amadurecimento literário preenchido por diversas
tentativas, principalmente nos contos, de compreender e solucionar os dilemas estéticos e
políticos. Alternativas à exegese bíblica, como as de Ernest Renan (1823-1892) e David
Strauss (1808-1874), permitiram àquela geração romper com o ecletismo espiritualista então
vigente, no caso de Machado, sem por isso se vincular ao materialismo histórico ou a
correntes cientificistas. No início deste capítulo, retoma-se a discussão filosófica e teológica
de Machado contra o jornal A Cruz. Em seguida, para evidenciar a mudança de rumo,
contrasta-se a perspectiva ética de dois personagens religiosos: o padre Melchior de Helena
(1876) e o padre-narrador da novela Casa Velha (1885-1886). Entre uma coisa e outra,
revela-se o diálogo oculto que Machado mantém com Pascal, até o final da década de 1870,
nas crônicas, nos contos, nos romances e na poesia. Vez por outra, o jansenista é citado
diretamente.
O último capítulo é dedicado às Memórias póstumas de Brás Cubas, porque esse
é o romance em que Machado faz a apoteose e o ajuste de contas com a antropologia
pascaliana. Aqui o jansenista cético aparece inteiro, mas também despedaçado pela ironia,
oculto nas minudências embora manifesto sarcasticamente no texto e no subtexto. A análise
das estratégias argumentativas desse romance, sobretudo no que diz respeito às
16
desenvolturas autorreflexiva e aporética, permite inserir Machado de Assis na tradição dos
ironistas céticos, sem que se descuide daquilo que está em jogo na ficção, a saber, a
desconstrução de uma antropologia tipicamente pascaliana. A bestialização do ser humano
e a crítica ao caráter opiniático das relações sociais são alguns dos temas pascalianos que a
ficção urge descristianizar.
A simbologia do anjo e da besta constitui-se de camadas sobrepostas em uma
longa tradição hermenêutica. Localizamos a primeira demão em Agostinho, em sua
discussão sobre o lugar dos demônios na taxonomia cristã,5 mas também podemos encontrar
as marcas de Montaigne, quando se exime da definição complexa do homem, “um animal”,
“um mortal” e “um ser dotado de razão”, enfim, “a cabeça de hidra”, e quando, no mesmo
ensaio, fala da loucura de submeter o corpo ao espírito, o que acaba por transformá-los em
bestas.6 Essa metáfora antropológica compreensiva nos permitirá discernir as alternativas de
Pascal e Machado em relação ao drama existencial humano.
A contextualização da recepção das fontes filosóficas realizadas nos primeiros
capítulos permitirá resolver um paradoxo, que não cansa de dar voltas na crítica machadiana,
sobre a remissão de instrumentos de uma tradição filosófica pretensamente universal a
contextos a vivências um tanto impróprios. Desarmarei esse paradoxo ao inserir outro
elemento na relação entre o local e o universal, restaurando o elo perdido, a saber, o modo
pelo qual o ceticismo pascaliano é recebido e modificado por aqui. No fundo, muito menos
importante do que contribuir para o estudo de fontes filosóficas na obra de Machado de
Assis, gostaria mesmo de descobrir se ele foi bastante sincero ao afirmar que lera Pascal com
seriedade.
5 AGOSTINHO. De civ. Dei, IX, 13. [A cidade de Deus. Tradução de J. Dias Pereira. 2. ed. v. 1. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 2000, p. 851-852].
6 MONTAIGNE, Michel de. Os ensaios. São Paulo: Martins Fontes, 2000-2001, v. III, 13, p. 354 e p. 388.
17
CAPÍTULO 1 – FONTES, INFLUÊNCIAS E FORMAÇÃO FILOSÓFICA NA
JUVENTUDE DE MACHADO DE ASSIS
Montaigne afirma que os livros de uma biblioteca particular revelam o espírito
de seu proprietário. 7 Dos mais de 700 volumes catalogados na biblioteca pessoal de
Machado de Assis, quase 100 títulos versam sobre algum tema filosófico, entre história da
filosofia, estética, filosofia política e moral, filosofia da religião, filosofia da ciência e
positivismo. E dos 27 livros mais manuseados da coleção, 8 estão diretamente relacionados
à filosofia. O acervo contém clássicos como Platão, Aristóteles, Sêneca, Cícero, Agostinho,
Maquiavel, Montaigne, Erasmo, Descartes, Pascal, Espinosa, Hegel e Schopenhauer,
diversos moralistas franceses, entre os quais La Bruyere, La Fontaine, La Rochefoucauld e
Chamfort, os iluministas Diderot, Montesquieu, Rousseau e Voltaire, os pascalianos Cousin
e Saint-Beuve, materialistas moderados como Renan e Taine, a geração de positivistas ou
filósofos da ciência, entre os quais se destacam Darwin, Spencer, Huxley e Hartmann,
compêndios de estética, linguística e filologia, uma quantidade razoável de estudos
historiográficos sobre personagens filósofos, como os de Plutarco e Tito Lívio, e de estudos
sobre a própria história da filosofia, especialmente aqueles de cunho ecletista sobre a
filosofia moderna, além de 95 números do periódico quinzenal português Luzes da Razão:
jornal filosófico acadêmico portuense.8
A língua predominante da biblioteca é a francesa, com 383 volumes, somados
títulos originais e traduções. Os livros foram impressos, majoritariamente, entre meados da
década de 1860 e o final da década de 1870. Descontado o período de importação e
comercialização, é provável que Machado tenha adquirido a maior parte de sua coleção a
partir dos anos 70. Quatro fatos e uma fatuidade concorrem para sustentar essa hipótese: em
7 MONTAIGNE. Os ensaios, v. III, 3.
8 Classificar livros de humanidades em estantes é sempre tarefa árdua. A classificação de Jean-Michel Massa
(1961) contém alguns aparentes equívocos sobre a prateleira da Filosofia, por exemplo, o documento 110 é
classificado pelo editor como História da Literatura, embora tratasse de uma tradução francesa do Príncipe
de Maquiavel, sucedido por um ensaio sobre a sua doutrina filosófica. Um pouco menos vaga é a classificação
das Provinciais (509) e dos Pensamentos (510) de Pascal genericamente como Literatura Francesa. Por outro
lado, o editor emprateleirou, na estante da Filosofia, os sete volumes dos discursos parlamentares do chanceler
prussiano Otto von Bismarck (480-486). Esses pequenos equívocos justificam uma revisão mais atenta e
cuidadosa que nos permitirá inferir com maior precisão o conhecimento filosófico do jovem escritor.
18
primeiro lugar, as condições materiais precárias do jovem Machado de Assis, entre as
décadas de 50 e 60, frente ao custo do livro; em segundo lugar, o costume da leitura em
bibliotecas públicas; em terceiro, o fato de os livros circularem entre amigos através de
empréstimos informais; em quarto lugar, a possibilidade do debate e da aquisição de
conhecimento nas próprias associações literárias ou dentro das livrarias; além da presunção
de que se tenha extraviado cerca de trezentos livros de sua biblioteca pessoal, o que reforça
o caráter tateante e indutivo dessa pesquisa de fontes.9
Uma dificuldade adicional para o estudo de fontes do jovem Machado de Assis
se deve ao costume, que alguns autores de sua geração conservavam, da citação bruta. Eles
citavam mais do que liam e inventavam menos do que copiavam, com o propósito de
aparentar conhecimento. A imitação nada mais era do que a prática de adaptar o enredo de
uma história original estrangeira ao cenário e a personagens locais. Uso comum na época –
mas não exclusivo do século XIX –, esse recurso literário também afetou algumas produções
poéticas e dramáticas iniciais de Machado. Que se lembre a primeira comédia escrita, Hoje
Avental, Amanhã Luva, baseada no original La chasse au lion de G. Nadeau e Emile Najac
(C, I, 17 n.5), e a sextilha de “Minha mãe” (OC, III, 697), publicada na Marmota Fluminense,
em setembro de 1856, imitação de “On receipt of my mother’s Picture”, versos de William
Cowper.
Quanto aos dois primeiros fatos apontados anteriormente, quais sejam, as
condições financeiras precárias e a circulação de livros através de empréstimos, pode-se
alegar, por um lado, a frequência assídua do jovem à Biblioteca do Real Gabinete Português
de Leitura, ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e à Biblioteca Nacional. Nesse
último salão de leitura estão conservados os livros de consulta pública e a rubrica de seus
leitores entre 1855 e 1856, biênio em que Machado de Assis frequenta alguns títulos.10
Como assinante do Gabinete Português, ainda que lhe faltassem os meios para
adquirir permanentemente os livros próprios, ele tomava notas do que o interessava,
9 VIANNA, Glória. “Revendo a biblioteca de Machado de Assis”. In: JOBIM, José Luís (Org.). A biblioteca
de Machado de Assis. 2. ed. Rio de Janeiro: ABL/Topbooks, 2008, p. 105.
10 VIANA. “Revendo a biblioteca de Machado de Assis”, p. 110.
19
sobretudo o apuro linguístico de alguns escritores clássicos de Portugal.11 Por outro lado,
deve-se considerar que a primeira vez que ele alude à pretensão de adquirir um volume
impresso remonta à correspondência amorosa pré-nupcial, já em 1869 (C, I, 262).12 Antes
disso, Machado trabalhou na imprensa como crítico literário e como censor teatral em um
órgão do governo, o que lhe franqueava acesso a várias obras. De seu relacionamento pessoal
e do trânsito no círculo imperial, Machado obteve a coleção completa da Revista do Instituto
Histórico e Geográfico,13 além da coletânea do periódico Luzes da Razão e da doação de
pelo menos 37 títulos.14
A quantidade de pistas que componha o quadro filosófico é exígua durante a
primeira juventude de Machado. Uma alternativa exegética seria recorrer a sinais de
manuseio, marcações e anotações de leituras dentro dos próprios livros. O conhecimento
filosófico de Machado poderia ser comprovado apelando, por exemplo, às anotações feitas
no fim do compêndio Philosophie contemporaine, de Amédée Margerie, que trata da
filosofia eclética de Victor Cousin, ou a algumas discordâncias registradas numa tradução
francesa de um estudo sobre a linguagem do filólogo estadunidense W. D. Whitney. Nesses
casos, basta verificar a caligrafia para se atribuir a autoria. Ou talvez se possa inferir das
marcas de manuseio uma leitura mais aprofundada. É o caso do segundo volume de Histoire
Romaine (doc. 66) de Tito Lívio, bastante manuseado a partir da página 544. Contudo, essas
estratégias podem gerar mais equívocos do que esclarecimentos, na medida em que não há
maneira de saber a data exata nem o sentido correto das anotações. Vale dizer que essa
dúvida diminuiria a plausibilidade de se fazer a relação direta entre as leituras realizadas e a
obra do autor. Além disso, como advertiu o inventariante da biblioteca, Jean-Michel Massa,
11 Magalhães Júnior recolhe as notas de leitura do jovem Machado de Assis em Ao redor de Machado de Assis.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1958, p. 265-278.
12 Trata-se de La Famille – la Mère (1865), de E. Pelletan, um livro com ideias progressistas para a época, a
respeito do papel social e político da mulher. Apesar da grande influência do autor de Profession de Foi e
Le monde marche (Lettres à Lamartine) no espírito do jovem Machado, esse título não se encontra no
catálogo do que restou de sua biblioteca.
13 MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. Vida e obra de Machado de Assis. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008,
v. 2, p. 166-170. Ver ainda ROCHA, João Cézar de Castro. “Machado de Assis leitor (autor) da Revista do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro”. A biblioteca de Machado de Assis. José Luis Jobim (org.). 2.
ed. Rio de Janeiro: Topbooks/ABL, 2001, p. 315-334.
14 VIANNA. “Revendo a biblioteca de Machado de Assis, p. 126.
20
Machado anotava pouco ou “não anotava nos livros que lia”,15 o que faz desse caminho
exegético algo acessório e pouco proveitoso.
Diferente variedade interpretativa consiste em atentar para o que liam os
personagens machadianos. O periódico mais lido, quase a preferência indistinta dos
personagens, era o Jornal do Comércio, fundado por Pierre Plancher, que manifestava
editorial moderadamente favorável ao governo central.16 Na seara ficcional, um dos mais
citados é o Saint-Clair da Ilhas, livro que causou impressão no romântico José de Alencar,
mas já esquecido entre nós. É preciso dizer que o incipiente romance francês, que correm
por mãos e olhos de muitos personagens machadianos, estão recheados de jansenismo e
pascalianismo, como o Telêmaco, de Fénelon, A princesa de Clèves, de La Fayette, e Manon
Lescaut, de Abbé Prévost. Quanto aos filósofos, leem-se ainda Platão, Cícero, Agostinho,
Maquiavel, Pascal, Nicole, Voltaire, Hegel, Pelletan, Renan, entre outros. De maneira geral,
as leituras dos personagens revelam o maneirismo de classe e certa notação irônica por parte
do narrador. Ou então Machado arranjava a leitura que melhor cabia a um caractere e a uma
situação.17 De modo que as leituras filosóficas servem para compor o pensamento ficcional
de contos e romances.
Por muitos esforços que se façam para recuperar, em minúcias, as leituras
filosóficas do jovem Machado, mais se compreende avançando o olhar para o contexto de
recepção dessas obras. A minha estratégia dividir-se-á por duas coordenadas: primeiramente,
como complemento ao trabalho de Miguel Reale, tratarei de fazer o levantamento das
citações e alusões filosóficas nas obras publicadas e no epistolário machadiano. Em segundo
lugar, realizarei o cruzamento de dados entre as obras filosóficas presentes na biblioteca
15 MASSA, Jean-Michel. “A biblioteca de Machado de Assis”, In: JOBIM, José Luís (Org.). A biblioteca de
Machado de Assis. 2. ed. Rio de Janeiro: ABL/Topbooks, 2008, p. 25.
16 Consulta disponível em , acesso em 5 out. 2018. Neste endereço eletrônico
estão disponíveis as citações e alusões na ficção de Machado de Assis.
17 MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo. “O que liam os personagens de Machado de Assis”. Ao redor de
Machado de Assis, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1958, p. 143-152. Os personagens de
Machado de Assis leem (potencialmente) muito mais do que a média nacional. Para se ter uma ideia, os
personagens-leitores estão presentes em 63% dos contos (No censo de 1872, apenas 15,7% da população
total do Brasil sabia ler). Neste gênero, a contagem do verbo “ler” e de suas conjugações está próxima do
verbo “amar”. O livro é o bem cultural mais presente na obra de Machado (BREUNIG, Rodrigo de Avelar.
BREUNIG, Rodrigo de Avelar. Vosmecê assim fica cego: o personagem leitor nos contos de Machado de
Assis. 2006. 179f. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira). Programa de Pós-Graduação em Letras
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2006, p, 14.
21
pessoal de Machado de Assis e as referências filosóficas relevantes em publicações de
meados da década de 1850 até o fim dos anos 1870. A relevância das referências será medida
pela influência de certos padrões de pensamento nesse período em contraste com a mudança
da visão de mundo do próprio autor. Daí a importância de se observar alguns aspectos
biográficos e o contexto espiritual do Brasil oitocentista. Essa estratégia se repetirá no
terceiro e no quarto capítulos, com a diferença de que lá os objetivos são menos locais e mais
conformes ao processo de descristianização do ceticismo.
Pretendo, a seguir, identificar as fontes filosóficas do jovem Machado de Assis
e propor um modo de leitura que associe, por um lado, o seu conhecimento filosófico a uma
perspectiva cética e, de outro, o seu plano de carreira literária às modificações formais da
sua ficção. No que segue, corre-se por algumas suposições: em quais condições um brasileiro
no século XIX teria acesso ao acervo filosófico ocidental? Como poderia ocorrer a aquisição
desses bens culturais? Em que medida esses bens culturais filosóficos influenciaram a
juventude brasileira? Como seria possível um brasileiro médio, sem recursos, ter acesso a
esse mesmo acervo? Ou, para os propósitos imediatos dessa tese, quanta influência uma ou
mais filosofias podem exercer sobre o espírito de um literato?
1.1 Filosofia em fascículos: as revistas e a transmissão de conhecimento no Brasil
Império
No Brasil, o contato com a filosofia ocorreu de diversas maneiras durante o
século XIX. Um pretendente a filósofo, no segundo quarto desse século, poderia tomar
conhecimento de humanidades nas aulas régias, matricular-se em disciplina isolada no
Imperial Colégio de Pedro II e nos Liceus Estaduais ou ingressar em alguma ordem religiosa,
por exemplo, no Convento São Francisco de Assis: estabelecido em São Paulo e com
capacidade para 400 internos, desenvolviam-se ali cursos de retórica, teologia e filosofia.
Essas instituições foram criadas para suprir o déficit educacional após a expulsão dos jesuítas
por D. José I.18 No Rio de Janeiro, nas Minas Gerais, na Bahia e em outras províncias do
18 DURAN, Maria Renata da Cruz. Ecos do púlpito: oratória sagrada no tempo de D. João VI. São Paulo:
UNESP, 2010, p. 96-97.
22
Nordeste, alguns dos lentes substitutos e titulares desses cursos isolados de filosofia
adquiriram notoriedade por participar dos principais movimentos de independência. Quanto
à bibliografia das aulas régias, não se podia adotar a Ratio Studiorum dos jesuítas, pois já
era obrigatório o compêndio Intuições lógicas do italiano Antonio Genovesi (1713-1769),
escrito nas linhas do Iluminismo católico e do Absolutismo esclarecido.19 No mesmo limite
bibliográfico, estava disponível, desde o século anterior, o Verdadeiro método de estudar,
do oratoriano Luis Antônio Verney (1713-1792). Para o ensino da Ética, traduziram-se os
Elementos de Filosofia Moral, do alemão Heinecke, e Institutiones Philosophiae Practicae,
do austríaco Eduardo Job. Esse tipo de literatura foi consentido após a Reforma de Estudos
realizada em 1759 pelo Marquês de Pombal, reforma responsável por modificações liberais
na alta administração pública e no modelo pedagógico, que se voltava então para a
metodologia científica. No Brasil, o cientificismo pombalino incentivou a criação da Real
Academia Militar do Rio de Janeiro, em 1810. Era prática comum, nos liceus estaduais, os
professores elaborarem o seu próprio plano de curso, muitas vezes copiado à mão, desde que
fizessem referência àqueles compêndios.20 É preciso salientar o uso corrente, nos seminários
brasileiros, de duas obras de orientação jansenista, ambas condenadas pela Cúria, conhecidas
como Teologia de Lião e Catecismo de Montpellier.
Após a chegada da corte em 1808, o professorado aderiu enfim ao “empirismo
mitigado”, sistema que pretendeu reduzir a filosofia à ciência natural, afeiçoando-se às
reformas pombalinas e aceitando a nova física de caráter puramente operacional, mas com a
finalidade de estabelecer uma sociedade racional. Antes da independência, a imprensa
periódica brasileira se limitava a reproduzir notícias estrangeiras e a defender o sistema
monárquico absolutista. Após a independência, a reação antiescolástica, aproveitando-se do
espaço deixado após a expulsão dos jesuítas, sufocou totalmente a pedagogia deitada sobre
a Ratio Studiorum, regulamento que disciplinava o ensino da ortodoxia tomística desde o
período barroco e que valorizava o “saber da salvação”. Contudo, esse movimento
antiescolástico, conjugado ao empirismo mitigado, estava para ser vencido pela influência
exercida por Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846). Quem acompanhasse os cursos de
19 PAIM, Antônio. História das idéias filosóficas no Brasil. 5. ed. rev. Londrina: UEL, 1997, 319ss.
20 PAIM, Antônio. Bibliografia filosófica brasileira – 1808-1930. Salvador: Centro de Documentação do
Pensamento Brasileiro, 1983.
23
Ferreira, um estrangeirado que veio ao Brasil incumbido de fornecer as bases teóricas da
monarquia constitucional, seria surpreendido com lições atualizadas de filosofia antiga e
moderna.
No período que se segue à Independência, os ensinamentos de Pinheiro Ferreira
lançam as bases do debate que prevalecerá durante o próximo quarto de século,
desfavorecendo a tradição aristotélica da escolástica portuguesa sem aderir, de todo, a teses
radicalmente liberais e cientificistas. Essa mudança de perspectiva filosófica tornou
obsoletos os manuais de filosofia vigentes, quais sejam, tanto a Ratio Studiorum quanto os
compêndios de Genovesi e Verney. Para suprir essa lacuna, Silvestre publicou as Preleções
Filosóficas, um tratado dividido em várias partes com a finalidade de servir como texto-base
para o seu curso de filosofia. Algum tempo depois, ele compendiou o seu Essai sur la
psychologie. Essas obras difundiram por aqui o conhecimento filosófico derivado da querela
entre racionalistas e empiristas, os quais influenciaram, respectivamente, a perspectiva
ecletista e a perspectiva positivista.
As teorias políticas de Silvestre Pinheiro Ferreira encontram-se resumidas no
Manual do cidadão num governo representativo. Elas tiveram grande importância no
período, embora tenham sido implementadas apenas durante o Segundo Reinado. Incumbido
por D. João VI de realizar o trânsito da monarquia absoluta para a constitucional, Ferreira
testemunha o seu projeto liberal e progressista malograr, inicialmente, diante dos anseios
conservadores e antipombalinos da elite no período regencial. Isso ocorreu porque, apesar
de propor um sistema metafísico eclético e conciliatório, a doutrina política de Ferreira se
estabelecia sobre o conceito lockiano de representação, privilegiando, deste modo, o
conjunto de princípios democráticos, liberais e antiabsolutistas. Por outro lado, o projeto
também foi desaprovado pelos liberais radicais porque a representatividade em questão
ocorreria por meio de eleições censitárias, devendo-se observar os interesses de alguns
segmentos sociais, por exemplo, o comércio, a indústria e os serviços públicos.
No modelo político de Silvestre, o monarca reina, mas não governa. Esse
provérbio, utilizado por Adolphe Thiers para analisar as experiências absolutistas da França,
adquire por aqui duplo resguardo. Evita-se o absolutismo, pois o soberano não pode legislar
sem o concurso dos representantes do povo. E se evita a oclocracia, o governo baseado na
vontade cega das multidões, pois as instituições legisladoras comungam de sentimentos e
24
interesses reais. O monarca passaria a exercer a função moderadora entre os diversos poderes
do Estado, quais sejam, o conselho constitucional, o congresso, o executivo e os tribunais.21
Tese semelhante sobre o poder moderador do monarca fora defendida pelo
francês Benjamin Constant (1767-1830). A diferença é que o monarca não representaria
apenas a figura apaziguadora entre os poderes. Na prática, reinar significava ter o poder de
nomear os senadores vitalícios, os ministros do conselho executivo, além das prerrogativas
de dissolver a câmara dos deputados e intervir no judiciário. As propostas de Constant e
Ferreira não alcançaram consenso, a princípio, entre monarquistas conservadores e setores
do liberalismo extremado. Do ponto de vista da história das ideias filosóficas, travaram
verdadeira queda de braço o espiritualismo ecletista, buscando suporte nos liberalismos, e o
tradicionalismo católico, que fazia apologia à hierarquia social orientada pela igreja.
À Independência seguiram-se, então, duas décadas de embates ideológicos sobre
o papel do monarca no governo. O Império esteve à beira da desintegração, devido à falta
de estabilidade política e de um modelo de governança consensual. A situação dramática dos
anos 1830 traz à cena a oposição dos novos interesses regionais e provincianos à antiga
máquina administrativa de caráter centralizador da monarquia.22 O desenrolar do drama teve
alguns acontecimentos marcantes, por exemplo, a dissolução da constituinte em 1823, a
Confederação do Equador em 1824, a malsucedida Guerra da Cisplatina, entre 1825 e 1828,
e os levantes militares de 1831 e 1832, que culminaram com a abdicação de Pedro I. Rei
posto, nem por isso os ânimos se acomodaram, como se percebe das guerras civis no Pará,
na Bahia, no Maranhão e no Sul, em meados da década de 1830.
As disputas políticas intestinas foram arrefecidas pela organização do gabinete
conservador, em março de 1841, diante da conciliação partidária. A ordem do dia passou a
ser o aprimoramento gradual do sistema representativo via negociações e barganhas
partidárias e suprapartidárias. Os moderados chimangos e os exaltados fundaram o Partido
Progressista (depois, Liberal). Os restauradores e monarquistas convictos, denominados
caramurus, criaram o Partido Regressista (depois, Conservador). Mas em ambos os
21 PAIM. História das ideias filosóficas no Brasil, p. 361-370; MARGUTTI PINTO, Paulo Roberto. História
da filosofia do Brasil – o período colonial (1500-1822), São Paulo: Loyola, 2013, p. 341-345.
22 PAIM, Antônio. História do liberalismo brasileiro. São Paulo: Mandarim, 1998, p. 68.
25
segmentos predominaram, dessa época em diante, os quadros moderadores, responsáveis
pela reavaliação positiva das ideias políticas de Constant e Silvestre Pinheiro.23
Os jovens nascidos nesse novo país vivenciaram esse que seria o embate
ideológico mais importante no Brasil do século XIX, entre o ecletismo espiritualista e os
seus antagonistas, primeiro contra o tradicionalismo cristão, depois contra o cientificismo
(positivismo e evolucionismo). A formação filosófica desses jovens poderia seguir por uma
das vertentes: ela poderia ocorrer nos seminários do clero secular, onde era possível
encontrar personalidades eminentes como a do frei Francisco do Monte Alverne (1784-
1858), o “Pregador Imperial”, que iniciou sua carreira docente em São Paulo, transmitindo
as lições jansenistas recebidas por Inácio de Santa Justina, e depois passou a ensinar em São
José, seminário episcopal do Rio de Janeiro.24 Havia, ainda, o seminário de São Joaquim,
denominação anterior do Colégio Pedro II, no qual se desenvolveriam, de acordo com o
próprio Monte Alverne, os talentos do romantismo espiritualista brasileiro.25 A formação
também poderia ocorrer em liceus como o do Rio Grande do Sul e o de São Paulo, onde o
aluno aprenderia vertentes da doutrina de Kant. Alguns professores chegaram a anunciar nos
periódicos a oferta de aulas de filosofia em suas próprias residências. Esse foi o caso de
Paulo da Conceição Moura, contra o qual abriu processo a Junta da Fazenda Mineira, porque
Moura era fisicamente inapto para o serviço.26
O Compêndio de Filosofia, um conjunto de oito apostilas redigidas por Alverne,
foi escrito entre 1829 e 1836, mas publicadas postumamente em 1859. Esse livro não teve
muita repercussão na época, ao contrário da sua obra sermonística, amplamente divulgada e
apreciada. Além disso, pode-se atribuir à autoridade professoral do frei o interesse de seus
jovens alunos pelo ecletismo. Se o pretenso filósofo brasileiro valorizasse a especulação,
então bem lhe serviria esse ecletismo dourado de eloquência e patriotismo. Caso contrário,
ele poderia fazer oposição à filosofia especulativa e queimar sua oferenda no altar positivista,
23 PAIM. História do liberalismo brasileiro, p. 79.
24 BITTENCOURT. R. A. da Câmara. “Introdução aos trabalhos oratórios e literários”. In: ALVERNE, Fr.
Francisco do Monte. Obras Oratórias. Rio de Janeiro: Garnier, s. d., v. 2, p. 436.
25 ALVERNE, Fr. Francisco do Monte. Obras Oratórias. Rio de Janeiro: Garnier, s.d., v. 2, p. 90-91. Veja-se,
ainda, as “Considerações críticas, literárias e filosóficas” de Alverne sobre o poema “Confederação dos
Tamoios”, de Gonçalves de Magalhães (v. 2, p. 461-482).
26 Ver o Ofício da Junta de 11 de abril de 1829 disponível na Hemeroteca Digital em
. Acesso em 03 jun. 2016.
26
mas dificilmente faria ciência de ponta, pois as expedições científicas no Brasil eram
realizadas, salvo raras exceções, por naturalistas europeus. Tome-se, por exemplo, a famosa
expedição de Charles Darwin ao litoral brasileiro.
Aliás, entre a primeira e a segunda décadas desse século, o governo brasileiro
financiou diversos intercâmbios culturais, levando nossos estudantes ao estrangeiro e
trazendo de lá profissionais mais capacitados do que os nossos. Com a intenção de modificar
essa situação, o segundo Imperador atuou como um mecenas junto às elites, apoiando as
artes e as ciências. 27 Isto ajudou na adaptação das classes dominantes às novas
circunstâncias, na urbanização das cidades e na formação da classe média. Foram criados
institutos universitários, predominantemente na área de Direito, em torno dos quais surgiram
associações científicas e literárias. Os currículos dos cursos de Direito foram preenchidos
genericamente por doutrinas jusnaturalistas. Os centros acadêmicos mais importantes
ficaram em São Paulo e em Olinda, cujas ideias tinham alguma ressonância na capital do
Império. A filosofia começava, então, a se estabelecer verdadeiramente como fato cultural.
Nesses lugares era possível debater juízos, formular teorias nacionalistas e divulgar, através
de panfletos, jornais e revistas, o conhecimento adquirido no estrangeiro.28
A consolidação das faculdades de direito e medicina e das escolas estaduais
ensejou o debate sobre a escolha de novos e melhores compêndios de filosofia. Entre os
professores, havia consenso sobre a superioridade dos manuais ecléticos, por exemplo, o
Manual de filosofia ou teses de lógica, metafísica e moral, de Edme Ponelle, compêndio
aprovado pela Academia Francesa, traduzido para o português e rapidamente adotado pela
Academia Jurídica Paulista e pelo padre mestre do liceu baiano Eutíquio Pereira da Rocha.29
É preciso citar, ainda, as Lições elementares de lógica e metafísica, do padre Manuel
Joaquim de Miranda Rego, publicadas em 1839, os compêndios de Filosofia elementar,
Lógica e Metafísica escritos por Salustiano José Pedrosa, o Compêndio de Moral do bispo
do Rio de Janeiro, o Conde de Irajá, de quem Machado pedirá socorro contra os abalos
27 SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998.
28 PAIM. História das ideias filosóficas no Brasil, p. 383 e 397.
29 Ver o artigo “Discurso introdutório ao curso de filosofia”, publicado na revista O Crepúsculo (BA), v. 2 n.
17, 10 abr. 1846, f. 1-4. Disponível em . Acesso em 28 out.
2016.
27
morais da sociedade (C, I, p. 8-13), e ainda os de Morais e Vale, dos tradicionalistas Itaparica
e Moraes Torres, todos publicados a meados do século.30
É possível que a apostila de Moral do Compêndio Alverne tenha sido inspirada
pelo manual de Ponelle.31 Essa obra fora traduzida para o vernáculo por João Cândido de
Deus e Silva, cujos capítulos foram parcialmente publicados no periódico Correio Oficial, a
partir de 1834. No ano seguinte foi aprovado pela Assembleia Legislativa da Bahia um
projeto de lei que instituía a adoção do referido compêndio.32 Este manual é composto por
perguntas, respostas e objeções baseadas, entre outras, nas lições de Maine de Biran sobre a
filosofia de Pascal e a lógica de Port-Royal. Além deste, o distinto pregador, o frei João
Capistrano de Mendonça, professor de Filosofia Racional e Moral em Recife, cita os Ensaios
de Moral, do jansenista Nicole, como fonte bibliográfica de suas aulas.33 Apesar de não
constar no levantamento bibliográfico de Paim (1983), o defensor da moral de Port-Royal
era bem citado nos jornais da época, por exemplo, em polêmica banal entre O Noticiador
Católico e o Diário do Rio de Janeiro sobre o uso de chapéus durante a missa.34 De acordo
com Chacon,
o Jansenismo penetrara fundo na cultura brasileira [...]. A tal ponto que
os próprios missionários protestantes, dinamizadores da propagação da
sua fé no século XIX, à maneira de Daniel P. Kidder, pensaram em
utilizar o Catecismo de Motpellier para ajudar sua infiltração, pois o
Jansenismo fomentava “uma piedade austera, culto das Sagradas
Escrituras e independência com relação a Roma”. Embora seu livre-
exame trouxesse, no bojo, sementes de Liberalismo...35
Tendo condições, o estudante interessado em filosofia poderia seguir
diretamente para a Europa, talvez para Coimbra, mas preferencialmente para as
universidades francesas, trazendo de lá, além do aprendizado teórico, algum volume
30 MACEDO, Ubiratan Borges de. A ideia de liberdade no século XIX: o caso brasileiro. Rio de Janeiro:
Expressão e Cultura, 1997, p. 268-269.
31 Informação recebida do professor Paulo Margutti durante a qualificação desta tese.
32 Correio Official (RJ), tomo IV, n. 104, 11 mai. 1835, f. 120. Disponível em:
. Acesso em 28 out. 2016.
33 VERÇOSA, Élcio (Org.). Intelectuais e processos formativos em Alagoas (séculos XIX-XX). Maceió:
EDUFAL, 2008, p. 43.
34 Diário do Rio de Janeiro, Ano XXIX, n. 8569, 9 dez. 1850, f. 2. Disponível em:
. Acesso em 09 fev. 2017.
35 CHACON, Vamireh. “Jansenismo e galicanismo no Brasil”. Revista Brasileira de Filosofia, v. 23, n. 91,
jul.-set. 1973, p. 276-277.
28
impresso de filosofia. No início da década de 1830, um grupo de jovens brasileiros,
capitaneados por Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882) e Manuel José de
Araújo Porto-Alegre (1806-1879), frequentou os cursos de Theodore Jouffroy (1796-1842),
familiarizando-se com as teses ecletistas de Laromiguière (1756-1837), Royer Collard
(1763-1845), Maine de Biran (1766-1824) e de Victor Cousin. Lá o grupo editou alguns
números do periódico Niterói – Revista brasiliense, revista de fundação do ecletismo
brasileiro, que contou com artigos de Magalhães e Pinheiro Ferreira.36
Em todo caso, o estudante que não fosse familiarizado com o francês nem tivesse
a oportunidade de estudar no exterior poderia encontrar, já durante o Segundo Reinado,
traduções de diversas lições de história da filosofia, como as que foram publicadas pelo
Correio Oficial, por intermédio de João Cândido de Deus. Filósofos brasileiros autodidatas
(sem vínculo com uma instituição de ensino) inexistiam, com a possível exceção de
Feliciano Joaquim de Sousa Nunes.37 Na Bahia, Salustiano José Pedrosa publicou quatro
compêndios distintos de filosofia, entre 1845 e 1857. Também estavam disponíveis
traduções de obras filosóficas inteiras, como o Curso de História da Filosofia, do ecletista
Victor Cousin, trabalho empreendido a partir de 1843 por Antônio Pedro de Figueiredo
(1814-1859). Mulato de origem humilde, Figueiredo obteve a alcunha de “Cousin fusco”.
Esse brasileiro editou a importante revista pernambucana de filosofia O Progresso (1846-
48).38 Morais e Vale já havia traduzido de Cousin a Filosofia Popular. Traduziram-se, ainda,
as obras teológicas de David Strauss, de Ernest Renan e, com a ajuda da maçonaria brasileira,
peças da seara positivista.39 Além disso, estava à mão um vasto acervo literário na Biblioteca
e no Museu Nacional, instalados no Largo do Paço desde o período joanino. A frequência
aos salões de leitura dessa instituição aumentou significativamente quando alguns jornais de
França e de Portugal foram abertos ao público.40
36 MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira: das origens ao romantismo. São Paulo: Cultrix, 2001,
v. 1, p. 328.
37 MARGUTTI PINTO. História da filosofia do Brasil: o período colonial, p. 304.
38 PAIM. História das ideias filosóficas no Brasil, p. 411.
39 DE BONI, Alberto. “A influência da filosofia europeia sobre o pensamento brasileiro”. Educação e
Filosofia, v. 4, jul.-dez. 1989, p. 75-89.
40 DURAN. Ecos do púlpito, p. 65.
29
A partir da terceira década do século, a imprensa passou a ter características
iluministas, assumindo o propósito educacional e moralizante. Tome-se de exemplo O
Carapuceiro, jornal pernambucano de circulação intermitente entre 1832 e 1847, que trazia
como subtítulo: “periódico sempre moral e só per accidens político”.41 Proclamava-se que
os males sociais estavam antes nos indivíduos que na estrutura político-social. Nesse
período, publicaram-se, de inspiração eclética, a revista Íris, editada pelo português José
Feliciano de Castilho, cujos volumes impressos encontram-se na biblioteca de Machado
(documentos 215 a 217), a revista Minerva Brasiliense, com 31 números, as revistas baianas
O Mosaico e O Crepúsculo, além de outras tantas coletâneas de conteúdo filosófico. Além
do mais, Pedro II foi mais generoso do que seu pai quanto ao incentivo a instituições e
práticas científicas, o que propiciou conhecimento dos temas e dos debates que ocorriam na
Europa quase instantaneamente. Abriam-se salões de leitura por toda a cidade, podendo-se
ler jornais de outras nacionalidades. Esses salões se estabeleciam na casa de particulares, em
livrarias, editoras, lojas tipográficas e serralherias, em armazéns e até mesmo em boticas e
hospícios.42 Não entra em dúvida que mais se gastava o tempo em conversações banais do
que em debater seriamente teses filosóficas, o que levou o viajante francês Ferdinand Denis
a designar jocosamente o brasileiro como um “povo de oradores”.
Durante o primeiro quartel do Oitocentos, a sermonística serviu de modelo
pedagógico para o “povo de oradores” ao uniformizar a linguagem, tocar em problemas
cotidianos e acostumar os ouvidos a uma argumentação complexa. A opinião pública,
marcada pela ambiguidade de valores “tradicionalistas e iconoclastas”, formava-se no
interior das igrejas, diante do púlpito.43 Aí se percebe o desenvolvimento de uma “literatura
sem leitores”44, nas palavras de Antonio Candido, ou de uma filosofia sem pensadores,
dispostos a celebrar a pátria e formar a ideia de identidade nacional. Os sermonistas do
Dezenove ostentavam, a um tempo, as figuras do intelectual e do missionário, defensores da
pátria e ministros da santa palavra. 45 A Congregação Oratoriana, que tomara o lugar
pedagógico-religioso após a expulsão dos jesuítas, contribuiu para a consolidação da
41 PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. “A imprensa periódica como uma empresa educativa no século
XIX”. Cadernos de Pesquisa. São Paulo, n. 104, 1998, p. 151.
42 DURAN. Ecos do púlpito, p. 71.
43 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras. 1995, p. 86.
44 CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006, p. 90.
45 DURAN. Ecos do púlpito, p. 104.
30
sermonística moralizante, que tinha por princípios a formação de uma identidade religiosa
própria, o contato direto com a Sagrada Escritura e o fomento a uma piedade austera.
Até o início do século XIX, era uso comum dos donos de biblioteca distribuírem
os livros em “três grandes estantes”, entre o que se considerava ciência sacra, ciência profana
e belas letras. Veja-se, a respeito, a biblioteca do cônego marianense Luís Vieira da Silva,
composta, ainda no século XVIII, por 800 volumes de diverso jaez.46 Machado se refere a
esse costume no conto “Muitos anos depois”, a respeito da biblioteca de um padre “que era
cristão e pagão ao mesmo tempo”:
Numa estavam os livros religiosos, os tratados de teologia, as obras de
moral cristã, os anais da Igreja, os escritos dos Jerônimos, dos Bossuets
e dos Apóstolos. A outra continha os produtos do pensamento pagão,
os poetas e os filósofos das eras mitológicas, as obras de Platão, de
Homero, de Epíteto e Virgílio. Na terceira estante estavam as obras
profanas que não se ligavam essencialmente àquelas duas classes, e
com que ele se deleitava nas horas vagas que lhe deixavam as outras
duas. Na classificação dos seus livros, o padre Flávio viu-se algumas
vezes perplexo; mas resolvera a dificuldade de um modo engenhoso. O
poeta Chénier, em vez de ocupar a terceira estante, foi colocado na
classe do paganismo, entre Homero e Tíbulo. Quanto ao Telêmaco de
Fénelon, resolveu o padre deixá-lo sobre a mesa de trabalho; era um
arcebispo católico que falava do filho de Ulisses; exprimia de algum
modo a feição intelectual do padre Flávio (OC, II, p. 1229).
A feição intelectual do padre Flávio será à semelhança a de outros padres da
ficção machadiana, que estudaremos no quarto capítulo. O padre deste conto iniciou a sua
carreira como pregador. Por isso não se estranha a presença de Bossuet e Fénelon, aliás, dois
oradores cujas obras são as mais frequentes entre as bibliotecas particulares da época. Ambos
assumem a mesma retórica de Pascal ao escrever a apologia do cristianismo por meio da
acusação das fraquezas humanas. 47 Como veremos nos próximos capítulos, a solução
conciliatória para a perplexidade do padre Flávio corresponde à adesão ao que se tem
chamado entre nós de escola eclética.
46 EL FAR, Alessandra. O livro e a leitura no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2006, p. 13.
47 VILLALTA, Luiz Carlos. “Bibliotecas Privadas e Práticas de Leitura no Brasil Colonial”, disponível em:
. Acesso em: 12 jun. 2016.
“Bibliothèques privées et pratiques de lecture au Brésil Colonial”, en MATTOSO; SANTOS ; ROLLAND
(Org.). Naissance du Brésil Moderne, Actes du Colloque “Aux Temps Modernes: Naissance du Brésil”,
Sorbonne, Mars 1997, Paris, Presses de l’Université de Paris – Sorbonne, 1998.
31
A ausência de faculdades de filosofia estimulou, para o bem e para o mal, a
informalidade. Por um lado, o pretenso filósofo estava mais ou menos por si. Ele não contava
com o apoio de uma escola de formação específica em filosofia, o que concorre para explicar
a subserviência a pensadores franceses hoje vistos como pouco significantes. Lia-se pouco
e mal. Isso fez com que os historiadores da filosofia brasileira, por muito tempo,
considerassem a falta de ideias originais e de debate entre os pares como os fatores que
impediram o desenvolvimento intelectual no Brasil. A posição radical, a de Cruz Costa,
defende mesmo a incapacidade de o homem brasileiro filosofar.48 Por outro lado, essas
lacunas incentivaram outro modo de se fazer filosofia, muitas vezes num suporte ficcional e
ensaístico, desde Gregório de Matos e Matias Aires até Cláudio Manuel da Costa e
Gonçalves de Magalhães. Também se fazia filosofia por intermédio do discurso oral,
assentando-se nas regras da eloquência e da retórica, com fulcro na elevação do cristianismo,
cujos principais representantes são Antônio Vieira e Monte Alverne. De todo o modo, o fazer
filosófico esteve vinculado a instituições de ensino e de propagação comunitária de ideias, o
que diminuía a possibilidade do autodidatismo estrito. Com a diferença de que, a partir da
década de 1840, estavam dadas melhores condições materiais e espirituais para a expressão
filosófica. Basta lembrar a Sociedade Epicureia, um grupo acadêmico paulistano revoltoso
contra o establishment universitário. Liderados por Álvares de Azevedo (1831-1852) e
Bernardo Guimarães (1825-1884), inspirados pelo ultrarromantismo byroniano e por teorias
filosóficas hedonistas, os estudantes paulistas criaram diversos projetos filosóficos e
literários em que prevaleciam a liberdade formal, a criatividade e o ecletismo.49 Veja-se, por
exemplo, essa passagem de Noite na taverna:
O ateísmo é a insânia como o idealismo místico de Schelling, o
panteísmo de Spinoza – o judeu – e o crente de Malembranche nos seus
sonhos da visão em Deus. A verdadeira filosofia é o epicurismo. Hume
bem o disse: o fim do homem é o prazer. Daí vede que é o elemento
sensível que o domina. E pois ergamo-nos, nós que amanhecemos nas
noites desbotadas de estudo insano, e vimos que a ciência é falsa e
esquiva, que ela mente e embriaga como um beijo de mulher.50
48 COSTA, Cruz. “A filosofia e a evolução histórica nacional”. A filosofia no Brasil: Ensaios. Porto Alegre:
Livraria do Globo, 1945, p. 15-72.
49 CANDIDO. Literatura e Sociedade, p. 160.
50 AZEVEDO, Álvaresde. Noite na taverna. Rio de Janeiro: Expressão e cultura, 2001, p. 15.
32
Um dos efeitos da alteração no panorama cultural foi o crescimento da
contribuição literária e poética das classes médias e inferiores, compostas
predominantemente por mulatos e negros. O sociólogo francês Roger Bastide apresenta o
contraste entre os quadros da produção poética na colônia e no Império. Antes os poetas
saídos das classes superiores correspondiam a 86,3% da produção total. No segundo
Reinado, os números se invertem e as classes baixa e média contribuem com 63,2% da
produção poética brasileira. 51 Entre esses poetas encontramos Gonçalves Dias, Tobias
Barreto, Machado de Assis, Castro Alves e a vasta gama de intelectuais abolicionistas. O
exilado francês Charles Ribeyrolles, que imprimiria notável influência sobre Machado,
anunciava forçadamente a formação de um “terceiro estado” composto por mulatos livres.
Esses figuravam, aqui e ali, junto à elite cultural e em altos cargos da administração. A
multiplicação de escritores nacionais não implicou, em igual medida, o crescimento do
público leitor. Nas palavras exageradas de José Veríssimo, havia “tantos escritores quanto
leitores, se não mais”. E aqueles, quando ambicionavam a glória ou a nomeada por meio da
literatura de ofício, quase sempre fracassavam.52 Então muitos dos propensos intelectuais
passaram a cultivar grupos que discutiam esse e outros temas políticos através dos jornais.
O capital filosófico não era adquirido separadamente a outros bolsões culturais. Diante dessa
nova configuração social, ser filósofo ou exprimir-se filosoficamente eram ações que
passavam pelo investimento tanto em habilidades formais e poéticas quanto em engajamento
político.
Três questões teóricas gravitavam a geração de Machado, questões de ordem
política, estética e religiosa. Em primeiro lugar, interessava a essa geração o debate acerca
do processo de reestruturação administrativa do recém instituído Império do Brasil. O
período joanino acentuou a distância entre os portugueses – que mantinham junto ao rei o
prestígio que lhes assegurava o poder – e a elite local, para quem o desejo de nobreza não se
concretizava. Maria Renata Duran resume o imbróglio da seguinte forma:
Dessa separação, ver-se-iam configurados dois grupos de interesse: de
um lado, aqueles que entendiam Portugal como a sede intransferível do
poder lusitano e até mesmo, como bradou Antônio Vieira em inúmeros
51 BASTIDE, Roger. A poesia afro-brasileira. São Paulo: Livraria Martins editora, 1943, p. 36.
52 GUIMARÃES, Hélio. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no
século 19. São Paulo: Nankin, EDUSP, 2004, p. 74.
33
sermões, sede do Quinto Império; de outro, um grupo que havia
acumulado riquezas na colônia e que não estava disposto a submeter a
liberdade de mando com que se acostumara aos interesses de
desconhecidos. Somada a ambos, uma terceira vertente que entendia a
urgência por autonomia, tanto quanto as vantagens de uma relação mais
íntima com Portugal e que, ao fim e ao cabo, reuniu maiores poderes
em mãos.53
Retomamos aqui o ponto caracterizado um momento atrás, qual seja, o
predomínio, após duas décadas de agitação política, da solução ecletista e conciliatória entre
os dois polos opostos e radicais no período, o conservadorismo e o reformismo.54 O primeiro
polo defendia a restauração do poder absolutista do monarca, e o segundo, a instauração da
república federalista. Em todo o caso, o principal problema era a adequação do liberalismo
representativo ao que havia restado das velhas instituições portuguesas. A solução para esse
impasse passava pela consolidação da monarquia constitucional, daí a importante missão de
Silvestre Pinheiro Ferreira.
Em segundo lugar, preocupava à geração de Machado a questão de identidade
político-estética dessa novíssima nação, que não poderia ser um ato contínuo lusitano, nem
um arremedo de outra ideologia da Europa Ocidental. Nesse caso, o problema era a
adequação de uma forma de expressão ao sistema espiritualista. A solução rápida consistia
em reduzir a autêntica expressão de nacionalidade à busca interior de certos instintos
primitivos – por exemplo, a ideologia indianista – ou da consciência aguçada de
pertencimento histórico-social.
A última questão, de ordem religiosa, colocava em xeque a autoridade moral e
política da Igreja Católica dentro de uma organização social com instituições pretensamente
livres. O clero nacional, pouco regular, deitava suas raízes em múltiplas ordens,
congregações e paróquias, florescendo uma força política algumas vezes insurreta sobre
Roma e sobre a Coroa. Por um lado, o padroado ou a doutrina regalista – defendida, entre
outros, pelo padre regente Diogo Antônio Feijó (1784-1843) – resguardava as prerrogativas
do Imperador sobre os instrumentos de autoridade cristã. Por outro, retomava-se o
argumento agostiniano das duas espadas, segundo o qual o Estado, por sua característica
53 DURAN. Ecos do púlpito, p. 29.
54 PAIM. História das ideias filosóficas no Brasil, 385.
34
secular, não tinha poderes para intervir na esfera espiritual do ser humano, devendo
submeter-se, em alguma medida, à Igreja. Lembre-se que os jesuítas tomaram para si a tarefa
de impor sobre os homens o monopólio da doutrina. A solução de compromisso
desvinculava os membros do corpo eclesiástico brasileiro dos ditames da Santa Sé. O
regalismo abriu espaço para outras práticas religiosas, algumas racionalistas, como o
galicanismo, a ordem oratoriana e a maçonaria, outras até heréticas, como o próprio
jansenismo.55
O ecletismo caiu como uma luva na mão da realidade local. Essa doutrina parecia
oferecer a resposta adequada para os três problemas ao providenciar uma solução de
compromisso entre os setores políticos radicais, promover o movimento de particularização
cultural via romantismo e estabelecer as regras de conduta moral através das práticas
religiosas adequadas à realidade brasileira.
Em que consistia a doutrina eclética? Primeiramente, tratava-se de um método
de se fazer filosofia. Originalmente, o ecletismo pretendeu articular elementos de diversas
doutrinas filosóficas e científicas, destacando-se pela tentativa de harmonizar teses
materialistas e espiritualistas. O ecletismo surgiu em nome do movimento de restauração
filosófica das verdades fundamentais demolidas pelas correntes criticistas da virada para o
século XIX. De maneira geral, os ecléticos estavam de acordo com a existência de
substâncias imateriais, o caráter espiritual dos fundamentos da ética e a irredutibilidade do
conhecimento intelectual à sensação. Maine de Biran (1766-1824), por exemplo, defendeu
a tese de que o sujeito é ativo em todo ato cognoscitivo. Desse ato voluntário, e da resistência
posta pelo organismo ao intelecto, surge a intuição imediata de si mesmo. O esforço e a
energia despendidos dão ao sujeito, em meio às paixões do corpo, um sentimento de fé que
seria o triunfo sobre a vida animal.
Não há crítica em dizer que os ecléticos são pouco originais, pois o que fazem é
renunciar aos erros de outros sistemas filosóficos, conformando-se àquilo que eles têm de
verdadeiro. Considerado o expoente da doutrina eclética, Victor Cousin a define como um
método compreensivo da história do espírito humano:
55 CHACON. “Jansenismo e galicanismo no Brasil”, p. 283.
35
O ecletismo nos é caro, sem dúvida, porque ele é para nossos olhos a
luz da história da filosofia, mas o foco dessa luz encontra-se alhures. O
ecletismo é uma das aplicações mais importantes e mais úteis da
filosofia que nós professamos, mas não é o princípio. Nossa verdadeira
doutrina, nossa verdadeira bandeira é o espiritualismo.56
Glória Vianna registra o Du vrai na biblioteca de Machado (documento 566).
Tratava-se de pôr em relevo os erros e os acertos das doutrinas filosóficas, de visualizar o
progresso dialético do espírito, através de suas diversas figuras, em direção ao Absoluto,
considerando-se a capacidade humana de adquirir verdades. O desenvolvimento dos ciclos
históricos ocorreria por oposições e superações dialéticas. Ao sensualismo de cada época
opunha-se o idealismo, e ambas as doutrinas eram superadas pela atitude cética, que
desembocava no misticismo. Dava-se início ao próximo ciclo e assim por diante. François-
René de Chateaubriand (1768-1848) e Madame de Staël (1766-1817), importantes que foram
para a geração dos intelectuais de 1850, finalizavam uma das séries como responsáveis por
transpor a filosofia espiritualista para os domínios da arte e da literatura. De outro lado,
Auguste Comte defendia uma religião positivista como o último degrau do progresso
intelectual do ser humano.
Essa espécie de vulgata do texto hegeliano assumiu no Brasil a dupla
importância, filosófica e política, de acertar o passo com um conjunto de ideias estrangeiras.
Ao mesmo tempo, o ecletismo mitigava a força das cláusulas fundamentais do liberalismo
econômico e político, num país ainda sem condições efetivas para realizá-las.57 Mas o
ecletismo foi mais do que um método, ou melhor, deste método derivavam aquelas teses
espiritualistas e posições políticas liberais e mediadoras face, por exemplo, à Revolução
Francesa:
[É] preciso parar a violência revolucionária, construir instituições que
assegurem suas conquistas e impeçam o retorno da reação. São a um
56 COUSIN, Victor. Du vrai, du beau et du bien. 2e ed. Paris: Didier, 1854, p. 15. “L’éclectisme nous est bien
cher, sans doute, car il est à nos yeux la lumière de l’histoire de la philosophie, mais le foyer de cette lumière
est ailleurs. L’éclectisme est une des applications les plus importantes et les plus utiles de la philosophie que
nous professons, mais il n’en est pas le principe. Notre vraie doctrine, notre vrai drapeau est le spiritualisme”.
57 PAIM. História das ideias filosóficas no Brasil, p. 374. Segundo Antônio Paim, essa noção de História da
Filosofia esteve associada durante longo período ao próprio Victor Cousin, uma vez que os cursos
ministrados por Hegel, nos quais se propõe a reversão da História da Filosofia em Filosofia da História,
foram divulgados postumamente a partir de notas tomadas pelos ouvintes, entre os quais figurava o próprio
Cousin. Ver PAIM, Antônio. Estudos complementares à história das idéias filosóficas no Brasil: Escola
Eclética. 2. ed. rev., . v. 4. Londrina: Edições CEFIL, 1999, p. 6.
36
tempo antijacobinos e antiultras. Aqui já apareceu nítido seu programa
eclético, sua política aparece como uma série de conciliações. Por
exemplo, entre a guilhotinomania ou o terror como meio de implantar
o liberalismo e a ausência de autoridade preconizada pelos radicais,
mostram-se favoráveis a uma autoridade moderada e ao estado de
direito.
Entre o absolutismo monárquico e a República preferem a monarquia
constitucional. Entre o sufrágio universal e o repúdio ao sufrágio dos
absolutistas e tradicionalistas, defendem o sufrágio restrito às
capacidades e aos proprietários, os únicos capazes de compreender o
governo e o interesse nacional. Mas sempre se mostraram favoráveis à
liberdade de imprensa e de consciência. Sua atitude para com a religião
não era o ateísmo jacobino e nem a adesão da monarquia; com Constant
e Maine de Biran aderem ao cristianismo, mas o interpretam num
sentido essencial e filosófico, limitador das práticas da Igreja
decimonônica.58
Em meados da década de 1850, quando a filosofia ecletista atingiu o seu auge,
tinham-se em grande conta filósofos franceses depois considerados de segunda ordem, como
de Biran e o próprio Cousin. Essa filosofia repercutiu em conterrâneos nossos como o
“Pregador da Capela Imperial”, Monte Alverne. Dizíamos que, sob a sua tutoria, se formou
uma nova geração de pensadores. Os Sermões, mais do que o Compêndio, dourados de
nacionalismo e do culto ao gênio do porvir, congregam os seus escritos mais influentes. Um
dos alunos de Alverne foi o precursor do romantismo brasileiro, Domingos Gonçalves de
Magalhães. Seu livro Fatos do espírito humano (1858) foi considerado por Tobias Barreto
“toda a biblioteca filosófica do Brasil”,59 pelo que possuísse o caráter didático e abrangente.
Magalhães colocava em revista parte significativa das doutrinas filosóficas, no impulso
ecletista de filtrar as teses que ganhavam a preferência em cada ciclo histórico – da filosofia
antiga à moderna. Sobressaia a ideia biraniana, diga-se, cartesiana de que o espírito forte
deve vencer as paixões do corpo. É possível que o poeta ou o sermonista, em expurgação de
espírito, pudesse comungar das verdades eternas.
Se é certo que poucas obras filosóficas originais fossem produzidas – exceção às
Investigações de Psicologia (1854), de Eduardo Ferreira França –, a expressão exagerada de
58 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 105-106.
59 BARRETO, Tobias. “Estudos de filosofia”. Obras completas. 2. ed. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do
Livro, 1977, p. 90.
37
Tobias Barreto esconde um fator extrafilosófico importante: a falta de condições materiais,
antes do século XIX, para se produzir e distribuir um livro que seja. Até o ano da chegada
da corte ao Brasil eram proibidas quaisquer atividades de imprensa. Em 1829, o Rio de
Janeiro contava com apenas 9 livrarias e 7 estabelecimentos tipográficos. Trinta anos depois
a Capital do Império sediava o dobro de livrarias e quatro vezes mais tipografias.60 Com o
crescimento da manufatura gráfica e do número de livrarias, em meados do século XIX, esse
jovem filósofo era capaz, enfim, de publicar suas ideias por aqui mesmo, em livro se tiver
sorte, como o ex-aluno Jouffroy, Salustiano Pedrosa (179?-1858), ou, o que era mais comum,
de debatê-las com seus pares em algum periódico, como o fizeram Machado de Assis e
Joaquim Serra na polêmica dos cegos.
Revistas e jornais estrangeiros, como a Revue des Deux Mondes e o Journal des
Débats, impulsionavam a imprensa local, pois eram referenciados, traduzidos ou transcritos
nas páginas de nossos próprios jornais. A poesia-imitação de Cowper apresentada no início
deste capítulo, por exemplo, fora recebida de terceira mão, através da transcrição na
Marmota de um artigo de Saint-Beuve, publicado no Le Moniteur, que trazia uma tradução
francesa do poema original.61 Além disso, alguns periódicos de importante circulação eram
redigidos quase totalmente em francês, como o Courrier du Brésil (1855-1862) e o L’Echo
du Brésil (1859-1860). Jean-Michel Massa tenta imaginar a satisfação de Machado ao ver
divulgado, naquele periódico francês, um longo excerto de sua primeira peça teatral.62 Não
há engano: a circulação desses periódicos permitiu alguma interlocução entre os intelectuais
brasileiros e os estrangeiros, interlocução insuficiente, no entanto, para cortar totalmente os
laços de subserviência espiritual.
A revista de cunho filosófico mais importante do período foi a Revue des deux
mondes. Fundada em 1829, ela publicava, de início, “artigos de viagem” e curiosidades sobre
as exóticas sociedades extraeuropeias. Em seus quadros, estavam grandes conhecedores do
60 HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil – sua história. São Paulo: EDUSP, 2. ed., 2005, p. 121 (tabela
3).
61 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 145-146. Devo ao professor Alex Sander Campos a
informação de que as páginas de Le Moniteur eram frequentemente transcritas pela Marmota. A tradução
de Machado (“Minha mãe”) foi realizada, provavelmente, a partir da tradução francesa “Em recevant le
portrait de ma mère”, de mme. Langlais (MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 146).
62 MASSA, Jean-Michel. “A França que nos legou Machado de Assis”. Benedito Antunes e Sérgio Motta
(Orgs.) Machado de Assis e a crítica internacional. São Paulo: UNESP, 2009, p. 243-252.
38
estrangeiro e das américas, como Saint-Hilaire (1779-1853) e Ferdinand Denis (1798-1890),
que, uma vez proibidos de versar sobre a política do Império Francês, falavam sempre do
Império Romano e do Império Brasileiro.63 A partir da década de 1840, os textos se tornam
densos e respeitam um tema editorial, quase um livro de teses, subdivididos em temas, feitos
em brochura e impressos quinzenalmente. Charles de Mazade ficou responsável pela rubrica
“Brasil”.64
Devido a seu caráter enciclopédico e erudito, os propagandistas do Império
brasileiro enxergaram nessa revista o canal por meio do qual poderiam anunciar seu projeto
civilizatório para o país. Ler a Revue significava mais do que conhecer os grandes escritores
da época, pois Chateaubriand, Cousin, Saint-Beuve, Musset, Renan e tantos outros nela
colaboravam, nem significava apenas conhecer o estado de coisas atualizadíssimo, de
política a história, arte e filosofia. Ler a Revue num lugar em que poucos liam, pouquíssimos,
em francês, também significava gozar de prestígio social superior:
Era de bom tom, nas rodas políticas, provar prendas literárias. A Revue
des Deux Mondes tornara-se leitura habitual do imperador e “principal
alimento espiritual dos estadistas brasileiros”. Tinha no Brasil o maior
número de seus assinantes fora da França. Propalava-se que era a única
leitura do conselheiro Saraiva; D. Pedro, sabendo disso, afirmou,
categórico: “É quanto basta”.65
O conselheiro Saraiva representa aqui a galomania que se disseminava pela
intelectualidade brasileira, até mesmo como farsa. Veja-se o episódio de Quincas Borba, em
que a elegante esposa de um senador pergunta a Sofia se ela estava acompanhando o romance
de Feuillet, na Revista dos Dois Mundos. Sofia, que tinha as páginas da revista abertas ao
63 CAMARGO, Kátia. “Le Brésil crée par les publicistes français au XIXe siècle: la Revue des Deux Mondes”.
In: Diana Cooper Richet; Jean-Yves Mollier (Org.). Le commerce transatlantique de librairie, um des
fondaments de la mondialisation culturelle (France, Portugal, Brésil, XVIII-XX siècle). Campinas:
UNICAMP/Publicações IEL, 2012, p. 104. Disponível em:
. Acesso em: 24 abr. 2017.
64 CAMARGO, Kátia. “O Brasil nas páginas do Annuaire des Deux Mondes – uma descrição”. In: Márcia
Abreu e Marisa Midori Deaecto (Orgs.). A circulação transatlântica dos impressos. Campinas:
UNICAMP/IEL/Setor de Publicações, 2014. Disponível em:
. Acesso em: 23 abr. 2017, p.
227.
65 SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil, 4. ed. Rio de Janeiro: MAUAD, 2004, p. 197.
39
acaso, responde malandramente que sim. No dia seguinte, no intuito de participar das
práticas daquela elite airosa, ordena ao marido que lhe assinasse a tal revista (OC, I, 874).
Se o ecletismo, como quer Antônio Paim, “foi uma espécie de filosofia oficial
do Segundo Reinado”, 66 a Revue foi o órgão mediador entre o modelo ecletista de
pensamento e a possibilidade de os intelectuais brasileiros a ele se adaptarem. Mais do que
sinal de subserviência teórica para com os franceses, ou da afetação oratória que essa
filosofia provocava, o ecletismo foi uma doutrina com repercussões morais e políticas.67 As
variantes ecléticas nacionais, a teoria romântica de Gonçalves de Magalhães, a teoria
salvacionista de Monte Alverne e as teorias políticas de Silvestre Pinheiro foram tentativas
de conciliar, respectivamente, a cultura tradicional e o progresso, cânones católicos e a
necessidade de ajustes anticlericais, a unidade nacional e os princípios econômicos liberais
em voga no estrangeiro. No caso de Machado de Assis, veremos nos próximos capítulos que
essa revista teve influência decisiva para a superação dos critérios estéticos de românticos e
de naturalistas.
Produto das associações, que também formavam a plêiade de filósofos
brasileiros, os periódicos nacionais da época expressavam a visão de mundo de seus
associados. Tratava-se de conhecimento semiaberto, pois ele se difundia dentro de diversos
círculos e grupos ideologicamente homogêneos. As associações produziam revistas de
cultura geral, com temáticas tão diversificadas quanto a formação de seus integrantes. Já
comentamos sobre a Sociedade Epicureia, empresa da mocidade paulista, que fundou
diversos jornais. Na capital, destacam-se, a partir da década de 1850, a agremiação ao redor
do editor Paula Brito, a Petalógica, e as reuniões literárias no escritório de Caetano
Filgueiras. Para falar apenas de Machado de Assis, além destas ele também esteve ligado à
Sociedade Retiro Literário Português e à Arcádia Fluminense, onde apresentou poesias e
dramas originais. Associou-se ao Clube Beethoven, esteve junto ao Grêmio de Letras e Artes
e se empenhou em fundar no Brasil uma sede da Sociedade Internacional dos Poetas, tarefa
malograda, mas substituída, de igual espírito, pela Associação dos Homens de Letras do
66 PAIM. História das ideias filosóficas no Brasil, p. 70.
67 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 67.
40
Brasil e, depois, pela própria Academia Brasileira de Letras.68 Isso significa que era possível
ter uma formação cultural, literária ou filosófica consistente prescindindo-se do ambiente
universitário. Portanto, deve ser colocada em perspectiva a tese de que o autodidatismo foi
uma das causas do atraso da filosofia brasileira.69 Em meados desse século, um intelectual
poderia aprender, discutir e publicar seus devaneios por meio dos jornais vinculados a esses
clubes literários, o que configurava a relação de ensino-aprendizagem, de professores e
pupilos. O Marquês de Maricá (Mariano José Pereira da Fonseca), por exemplo, iniciou a
publicação de suas Máximas, Pensamentos e Reflexões no jornal O Patriota, durante a
década de 1830. Logo as suas ideias geraram debate entre O Despertador, que as aproximava
de Espinoza e de uma perspectiva materialista, e o Jornal do Comércio, que localizava os
pensamentos de Maricá na mesma linhagem do moralismo pascaliano.70
Além da Niterói, redigida desde Paris, surgem outras revistas com o editorial
especificamente filosófico, como a Revista Mensal do Ensaio Filosófico Paulistano, que
congregava os estudantes paulistas da Sociedade Epicureia. Fundada por iniciativa de
Álvares de Azevedo, essa importante revista vigorou durante toda a década de 1850. Com
menos relevância, podemos citar os seguintes jornais: O Cético: jornal de instrução e recreio
(1857), cuja profissão de fé é assinada pelo combatente na polêmica dos cegos, Joaquim
Serra, os Anais da Academia Filosófica (1858), o Ensaio Escolástico dos Estudantes do
Ateneu Turvano (1859-1860), recheado de traduções e comentários sobre os filósofos
iluministas, e o Jornal da Sociedade Filomática (1859). Ideias da seara teológica eram
impressas no Noticiador Católico (1848-1860), que contém uma série de artigos contrários
ao ecletismo cristão de Cousin, 71 e A Cruz, folha católica que foi alvo dos ataques e
zombarias de Machado em meados da década de 1860.
Mesmo jornais informativos e de cunho político, como o Correio Mercantil, o
Jornal do Comércio, o Diário do Rio de Janeiro e a Gazeta de Notícias eram ocupados por
68 MAGALHÃES JUNIOR, “O espírito associativo de Machado de Assis”. Machado de Assis desconhecido.
São Paulo: LISA, 1971, p. 275-298.
69 JAIME, Jorge. História da filosofia no Brasil. 2. ed. Editora Vozes: São Paulo/Petrópolis, 1998, v. 1, p. 19-
22.
70 Jornal do Commercio, ano XIV, n. 55, 7 mar. 1839. Rio de Janeiro: Typografia Imperial [J. Villeneuve e
Comp.], f. 1. Disponível em: . Acesso em 19 jun.
2018.
71 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 79.
41
citações, traduções e publicidade de interesse filosófico. Para não falar dos periódicos de
orientação científica, como a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1839-
...), que tinha o Estado como fiador do projeto compreensivo e cultural do país, e a Revista
Guanabara (1850-55), continuada pela Revista Brasileira (1857-1899), ambas divulgadoras
do talento científico nacional, as quais serviram de preparação necessária para a virada
positivista na década de 1870.
Estamos criando suposições sobre como um jovem no século XIX poderia
realizar suas ambições filosóficas. Podemos agora elevar o nível dessa conjectura e imaginar
que esse rapaz fosse alguém como Machado de Assis – para quem a filosofia podia ser um
meio para alcançar objetivos literários e econômicos. Porque não contasse com fartos
recursos financeiros, é provável que o jovem literato tivesse contato com a filosofia por meio
da leitura desses jornais e revistas, podendo debater as ideias nas agremiações de que
participou. Consta nos registros da Biblioteca Nacional a visita do jovem Machado para
consultar, entre outros, a coleção da Marmota Fluminense (junho, julho e agosto de 1855) e
do Jornal do Comércio (agosto, setembro e outubro). Infelizmente o catálogo de consultas
públicas da Biblioteca Nacional não registra o período posterior a 1856. As bibliotecas do
IHGB, a Fluminense e a do Gabinete Português sequer realizavam esse tipo de registro.72
Destas últimas podemos consultar o seu catálogo de livros, em cuja estante filosófica
constam os nomes de Silvestre Pinheiro, Monte Alverne e Gonçalves de Magalhães.73
Com trânsito livre no círculo de proscritos franceses e nas melhores lojas
intelectuais do país, o Machadinho passou a ser uma referência cultural para velhos e jovens.
Segundo Magalhães Junior, o contato com livros e revistas franceses ocorreu, na ocasião,
por meio de empréstimos tomados a Victor Frond, o fotógrafo de O Brasil pitoresco.74 Num
país de maioria iletrada e com pouco acesso à informação, o livro, o romance e o ensaio de
filosofia eram restritos a um público diminuto.75 Consultando a data das edições dos livros
da biblioteca de Machado, verifica-se que a maior parte de seu acervo foi adquirido após a
72 VIANNA. “Revendo a biblioteca de Machado de Assis”, p. 110.
73 MELLO, Manuel de. Catalogo supplementar dos livros do Gabinete portuguez de leitura no Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1868. X, 430 p. Disponível em:
. Acesso em: 29 mar. 2017.
74 MAGALHÃES JUNIOR. Vida e obra de Machado de Assis, v. 1, p. 206.
75 Sobre o público de literatura no século XIX, ver GUIMARÃES. Os leitores de Machado de Assis, p. 46ss.
42
década de 70, quando sua situação financeira melhorou. Ainda assim, Machado fez questão
de recompor a sua biblioteca com livros cujo interesse datava das duas décadas anteriores,
por exemplo, os Études Morales et politiques (doc. 9, 5. ed.1871), do contista e jurisconsulto
Edouard Laboulaye, de quem o jovem provavelmente traduziu o conto “Perlino”. Dele
Machado pode ter copiado a anedota sobre Catão, colando-a no início dos contos “O país
das quimeras” e “Uma excursão milagrosa”. 76 Ao suprir as lacunas de sua trajetória
intelectual, a biblioteca confessa a predileção juvenil pelo ecletismo: os compêndios
Philosophie contemporaine, de Margerie, La philosophie, de Lefèvre; a coletânea dos
periódicos Íris e Luz da razão; os livros dos redatores da Revue des deux mondes, como
Sainte-Beuve; além das obras de Chateaubriand e do líder do movimento eclético, Victor
Cousin. Se fosse o caso de completar a lista, há indícios para justificar a crença de que
Machado tenha consultado as obras filosóficas – pelo menos, a sermonística – de Monte
Alverne, Gonçalves de Magalhães, Eugène Pelletan, escritores da corrente eclética como
Paul Janet (1823-1899) e, quem sabe, até às Preleções Filosóficas de Pinheiro Ferreira.
Porque o livro impresso era um bem cultural elitista, por seu preço e pelo capital social que
se adquiria ao possuí-los, qualquer um com poucos recursos podia tomar esses autores à mão
nas estantes do Gabinete Português de Leitura77 e na Biblioteca Fluminense.78
A imprensa – pensava então Machado – poderia preencher o vazio entre
produção literária ou filosófica e o consumo desses mesmos bens culturais. Vimos que
durante o século XIX os bens das diversas áreas do conhecimento, das artes e da política
eram indissociáveis uns dos outros, indissociação de que o jornal é o melhor exemplo e a
melhor plataforma de expressão. Portanto, quando traçarmos a ascensão de Machado no
jornalismo, na próxima seção deste capítulo, devemos entendê-la como a condição concreta
para a expressão de uma visão de mundo que é ao mesmo tempo política, literária e
filosófica. Isso porque se lançavam os mesmos argumentos para se discutir as questões da
autonomia política, da originalidade literária e das ideologias filosóficas.
76 Diário do Rio de Janeiro, 28 mar. 1860, ed. 4, f. 3. A tradução continua nas edições 7, 9, 11 e 15. Disponível
em: . Acesso em 06 fev. 2017. Essa pode ser uma
descoberta relevante para a bibliografia machadiana.
77 MELLO. Catalogo supplementar dos livros do Gabinete portuguez de leitura no Rio de Janeiro, p. 154.
78 BIBLIOTECA FLUMINENSE. Catalogo dos Livros da Bibliotheca Fluminense. Rio de Janeiro:
Typographia Thevenet, 1866. VII, 312 p. Disponível em:
. Acesso em: 31 mar. 2017.
43
1.2 A ascensão literária e o abismo da política
Ao escrever a biografia paterna, Joaquim Nabuco enuncia o tipo acabado de
homem público, qual seja, aquele que possui qualidades como a oratória, a diplomacia e o
senso histórico para a realização das tarefas nacionais. 79 Esse tipo ideal mobiliza seus
predicados para escalar os diversos cargos do governo, encontrando na política o seu
princípio e o seu destino final. Aqui antecipamos duas diferenças cruciais: embora cultivasse
aquelas características, Machado de Assis nunca vinculou o seu projeto de vida a uma
carreira de Estado, ou melhor, esse projeto esteve mais ligado à prática ficcional do que a
ambições políticas e partidárias. No fim da vida, escrevendo a Lúcio de Mendonça sobre
uma possível imersão na política, Machado objetava:
A lembrança do meu nome, honrosíssima em si, veio de encontro a um
grande obstáculo. Não quero referir-me à representação literária, que a
bondade dos amigos me dá, como um prêmio de assiduidade e
tenacidade no trabalho. Refiro-me à significação política, quando eu
(vou) galgando os sessenta anos, para não dizer a verdade inteira. Meu
querido, não é idade em que comece um papel destes quem não exerceu
nenhum análogo na mocidade (C, IV, p. 1350).
Nenhum dado biográfico, além de uma suposta candidatura, indica que o seu
projeto de vida esteve ligado à carreira política. Ademais, levando-se em conta o conjunto
de sua obra ficcional, a vida pública das personagens é apenas uma extensão de seus
interesses próprios. De maneira geral, não há ingerência da profissão de servidor público, ou
daquilo que ela poderia positivamente significar para o país, dentro da trama das narrativas.80
Isso não significa que o contato com os agentes estatais e a experiência como funcionário
público não tivessem influência sobre a obra literária de Machado. Ao contrário, como
demonstram as teses de John Gledson e Sidney Chalhoub, existe uma relação estreita entre
as experiências do funcionário público, do cidadão e do escritor durante a última metade do
79 NABUCO, Joaquim. Um estadista do Império: Nabuco de Araújo: sua vida, suas opiniões, sua época. Rio
de Janeiro: H. Garnier.1899-1900. 3 v.
80 GUEDES, Paulo; HAZIN, Elizabeth. Machado de Assis e a administração pública federal. Brasília: Senado
Federal, Conselho Editorial, 2006.
44
século XIX,81 como se aquela experiência profissional rendesse matéria para a literatura e
reformasse a consciência política do homem Machado de Assis. Nos romances e nos contos,
desfilam em série os personagens servidores públicos, diplomatas, militares e políticos em
geral. Salvo exceções, a profissão desses personagens e os afazeres do dia são relegados
dentro da trama das narrativas, cujo foco é a apresentação metonímica de alguns índices
sociais ou essenciais ao ser humano: as relações de dependência em torno do favor e da
renda, a burocratização estamental, a ambição e a vaidade encobertas pela sede de nomeada,
etc.
Machado de Assis expõe com humor todos esses índices em “O programa”,
conto publicado no jornal A Estação (dez. 1882 – mar. 1883). Esse conto narra a ideia fixa
do jovem Romualdo em se tornar alguém de renome, um ministro de Estado ou um herói de
Plutarco. Para isso, ele organiza um “programa da vida”, prevendo as seguintes etapas:
começaria pela literatura, depois o bacharelado, a iniciação científica, o casamento e a
nomeada política, no parlamento e no ministério. Ele estreia seu programa com uma poesia
no Correio Mercantil, em 1858.
No fim daquele ano tinha o Romualdo escrito e publicado algumas vinte
composições diversas sobre os mais variados assuntos. Congregou
alguns amigos – da mesma idade, – persuadiu a um tipógrafo, distribuiu
listas de assinaturas, recolheu algumas, e fundou um periódico literário,
o Mosaico, em que fez as suas primeiras armas da prosa. A ideia secreta
do Romualdo era criar alguma coisa semelhante à Revista dos Dois
Mundos, que ele via em casa do advogado, de quem era amanuense.
Não lia nunca a Revista, mas ouvira dizer que era uma das mais
importantes da Europa, e entendeu fazer coisa igual na América (OC,
III, p. 87).
A diferença de nomes confere a medida do pastiche. Os jornais da época que
levavam o nome de O Mosaico, no Rio de Janeiro e em Guaratinguetá (cidade onde se
escondia uma paixão de Romualdo), rapidamente encerraram suas atividades, apesar da
pompa e da variedade de seus programas. Por outro lado, a revista francesa circulava a todo
vapor. O acervo de Machado continha apenas um exemplar – bastante anotado, por sinal –
81 GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. Tradução de Sônia Coutinho. 2. ed. São Paulo: Paz
e Terra, 2003; CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis historiador. São Paulo: Companhia das Letras,
2003.
45
de 1852 da Revue,82 fato irrelevante diante da praxe de lê-la nas bibliotecas. Os principais
representantes do ecletismo escreviam ali. Por aqui, eram muitos os tipos de leitores desta
revista. Mesmo uma cidadezinha interiorana como Valença possuía a coleção completa. Na
Capital do Império, pelo menos a Biblioteca Fluminense e o Gabinete Português de Leitura
contavam coleções inteiras do periódico francês. 83 Segundo Roberto Schwarz, entre os
doutrinários dessa revista estava Charles de Mazade, “um dos modelos retóricos da crônica
machadiana”.84 E é em uma crônica que Machado a descreve:
Vou dar agora uma novidade, a mais de um leitor.
Sabes tu, político ou literato, poeta ou gamenho, sabes que há aí perto,
na cidade de Valença, uma biblioteca municipal, a qual possui uma
coleção da Revue des Deux Mondes, a qual coleção está toda anotada
pela mão de Guizot, a cuja biblioteca pertenceu?
Talvez não saibas: fica sabendo (OC, IV, p. 325).85
Em meados de 1850, conjugava-se imprensa política, científica e literária. As
revistas científicas dessa época traziam como título secundário, muitas vezes, “jornal
científico e literário” ou “jornal de artes, ciências e literatura”. Homens de letras espiavam a
esfera pública e não era raro observar um político ou um cientista metendo-se a fazer versos.
Os cargos de baixo escalão do Estado eram preenchidos, em sua maioria, por profissionais
liberais que não obtinham renda suficiente com o exercício de sua própria profissão. O
primeiro censo realizado no Brasil, em 1872, dá conta de que 15% da população livre e
ocupada pertencia ao funcionalismo. O emprego público se tornou, na expressão exagerada
de Joaquim Nabuco, uma “vocação de todos”. Jovens bacharéis brasileiros da mesma casta
de Machado de Assis, como o poeta abolicionista Castro Alves, o futuro ministro e escritor
Rui Barbosa, além do próprio Nabuco, passaram a militar dentro e fora do governo,
82 VIANNA. “Revendo a biblioteca de Machado de Assis”, p. 271. A periodicidade da Revue era trimestral.
Machado possuía o v. 4 daquele ano, publicado no último trimestre.
83 CAMARGO, Katia. “Leitores e questões identitárias no Brasil oitocentista”. Revista Porto. Rio Grande do
Norte, v. 2, n.. 3, 2013, p. 75.
84 SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance
brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1981, p. 86, nota 5.
85 Publicado originalmente na Ilustração Brasileira, 15 mar. 1877. Machado ainda cita a revista em O Cruzeiro,
na série “Notas Semanais”, 1 set. 1878. François Guizot (1787-1874) foi um sociólogo político e importante
doutrinário do liberalismo. Fez parte do grupo de espiritualistas ecléticos junto de Maine de Biran, Victor
Cousin e Royer-Collard. Exerceu especial influência no liberalismo conservador brasileiro. De acordo com
o professor Alex Sander Campos, editor da Machadiana Eletrônica, Machado fez uma pequena transcrição
da Revue em O Futuro (15 set. 1862). O excerto de texto estará disponível na próxima edição daquela
revista.
46
preferencialmente através dos jornais, conforme a alternância ideológica dos gabinetes
ministeriais. À voz pública, o governo de D. Pedro II tinha o conceito de conferir relativa
liberdade de expressão aos órgãos de imprensa, tolerando antimonarquistas e os desagravos
que repugnavam a sua própria pessoa. Apesar da fama do moderador, não se deve
menosprezar a relação de subserviência econômica e ideológica que desfavorecia esses
órgãos e certamente limitava a tomada de posição contrária ao governo central. Três das
liberdades fundamentais eram restritas ou inexistiam nesse período, a saber, a liberdade
eleitoral, cujo sufrágio censitário permitia ainda algum grau de manipulação, a liberdade do
Estado em relação à Igreja, que só irá vigorar oficialmente durante a República, e, a mais
contraditória e incompreensível, a liberdade de ter direitos, cerceada pelo sistema escravista
a mais de um milhão de membros daquela sociedade dita liberal.86
Visto dentro desse contexto, a política representava, para Machado de Assis,
menos uma vocação pessoal do que a possibilidade de se estabelecer financeiramente, e
menos uma questão de dinheiro do que de laços fraternais que lhe permitissem ascender ao
mundo literário. Não lhe interessava participar da “politicagem” e do espetáculo promovido
pelas paixões partidárias, pela retórica da liberdade, embora lhe importasse, como matéria
recorrente em sua obra, a relação contraditória entre aquela retórica e as práticas a ela
contrárias, o acotovelamento e os afagos entre os homens livres que buscavam exceder aos
outros e alcançar, nas palavras do narrador das Memórias póstumas, “uma supremacia,
qualquer que fosse” (OC, I, p. 617). Conceitos de moralista como a vaidade, o favor, o amor-
próprio, o concubinato e a falsa piedade são consistentes com um gênero de antropologia
cética com a qual Machado passaria a perceber o mundo, a partir de certa idade. A análise
dos contos “O oráculo”, “Valério” e “O programa”, na próxima seção, deve reiterar a
dramatização das tentativas de ascensão social por meio do jornalismo político e do serviço
público.
Voltemos ao conto. Antes de terminar suas fabulações literárias, o Romualdo de
“O Programa” publica o primeiro tomo de Verdades e Quimeras, livro de teoria literária que
tratava de divagar, com o genuíno romantismo, sobre a verdade da poesia. Após o primeiro
sucesso, ele seguiu com o seu projeto de se tornar bacharel, mas... vieram a primeira derrota
86 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 40ss.
47
amorosa, a primeira derrota política, as derrotas jurídicas na imprensa e outras mais. Criou
dívidas e inimigos. Envelheceu. Chegou a concluir que o programa fora a causa de seus
males.
E, então, comparando ainda uma vez os sonhos e a realidade, lembrou-
lhe Schiller, que lera vinte e cinco anos antes, e repetiu com ele:
“Também eu nasci na Arcádia...”. A mulher, não entendendo a frase,
perguntou-lhe se queria alguma coisa. Ele respondeu-lhe: – A tua
alegria e uma xícara de café (OC, III, p. 98).
Ficamos, de início, como a mulher, quase sem entender a menção. Mas então
nos recordamos que aqui o narrador repete, como mote, a epígrafe do conto. A menção a
Schiller faz referência ao primeiro verso do poema “Resignation”, uma espécie de hino para
o romantismo alemão. “Também eu nasci na Arcádia” instiga a nostalgia que deve ter
inspirado Machado de Assis na composição desse conto, publicado em 1883. O nosso
literato-filósofo87 ingressara coincidentemente como revisor de provas, vinte e cinco anos
antes, no mesmo ano e no mesmo jornal que o desafortunado Romualdo. Foi no Correio
Mercantil, jornal moderadamente anticlerical e antiescravista, depois na Marmota
Fluminense, onde experimentara as primeiras poesias. 88 Nesse último jornal, Machado
publicou uma poesia homônima, “Resignação”, em que retomava a ideia de inevitabilidade
da morte e das ilusões diante uma vida repleta “da dor e do martírio” (OC, III, p. 699).
Nessa época, assim como seu personagem, Machado abandonou a sua teologia
de artista de inspiração espiritualista e se tornou, por alguns meses, republicano, democrata
e liberal. Veremos no terceiro capítulo o que significou essa “teologia de artista”. Por ora,
devemos observar que o engajamento político e liberal derivou de seu contato com Eugène
Pelletan, notável no artigo “O passado, o presente e o futuro da literatura”, publicado em O
Paraíba, em abril de 1858. Durante um ano, ele abraçou a profissão de jornalista como se
fosse um “levita”, subordinando a verve artística à missão política de homem da imprensa.89
87 O termo “literato-filósofo” pode realizar certa contradição com o que dizíamos na Introdução sobre não
haver indícios de que o próprio Machado tenha aspirado o título de filósofo. A tese é de que a literatura
machadiana pode ser interpretada contendo componentes filosóficos, ou expressando um “pensamento
ficcional”. Daí considerá-lo “literato-filósofo” e não “filósofo-literato”, no mesmo sentido que Brás Cubas
se considerava “defunto-autor” e não “autor-defunto”.
88 “Ela” (12 jan. 1855) e “A Palmeira” (16 jan. 1855) publicados na Marmota e “O grito do Ipiranga” (09 set.
1856) no importante Correio Mercantil. “À Ilma. Sra. D.P.J.A.” (03 out. 1854), uma poesia anterior, mas
sem tanta repercussão, foi publicada no Periódico dos Pobres.
89 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 217.
48
É de se notar o relativo sentimento de resignação e nostalgia, pois o otimismo que carregava
sobre o futuro das letras nacionais, sobretudo em relação ao teatro, foi sendo, aos poucos,
derrotado.
Em saudosa crônica, Machado de Assis lembra como Quintino Bocaiuva o
convidara a fazer parte da redação do Diário do Rio de Janeiro, em 1860:
Nesse ano entrara eu para a imprensa. Uma noite, como saíssemos do
teatro Ginásio, Quintino Bocaiuva e eu fomos tomar chá. Bocaiuva era
então uma gentil figura de rapaz, delgado, tez macia, fino bigode e
olhos serenos. Já então tinha os gestos lentos de hoje, e um pouco
daquele ar distant que Taine achou em Mérimée. Disseram coisa
análoga de Challemel-Lacour, que alguém ultimamente definia como
très républicain de conviction et très aristocrate de tempérament. O
nosso Bocaiuva era só a segunda parte, mas já então liberal bastante
para dar um republicano convicto. Ao chá, conversamos primeiramente
de letras, e pouco depois de política, matéria introduzida por ele, o que
me espantou bastante, não era usual nas nossas práticas. Nem é exato
dizer que conversamos de política, eu antes respondia às perguntas que
Bocaiuva me ia fazendo, como se quisesse conhecer as minhas
opiniões. Provavelmente não as teria fixas nem determinadas; mas,
quaisquer que fossem, creio que as exprimi na proporção e com a
precisão apenas adequadas ao que ele me ia oferecer. [...] Na manhã
seguinte, achei ali Bocaiuva escrevendo um bilhete. Tratava-se do
Diário do Rio de Janeiro, que ia reaparecer, sob a direção política de
Saldanha Marinho. Vinha dar-me um lugar na redação com ele e
Henrique César Múzio (OC, II, p. 580).
À função de crítico teatral, Machado ainda acumulou a de tradutor e a de
comentarista legislativo. Daí a pouco fora despachado para o Senado Imperial, onde
trabalhou como cronista parlamentar.90 Foi a oportunidade de estudar os tipos, os cacoetes e
as afetações daqueles grandes figurões políticos, cuja sociabilidade, dispersa ao redor da
ambição pela glória, era sistematicamente transferida para a ficção. Tornar-se deputado é um
símbolo de vitória social em quase todos os seus livros.91 No caso de Machado, mesmo que
seja verdadeira sua intenção em candidatar-se a uma cadeira de deputado, o tumulto que se
seguiu deve ter servido apenas para confirmar a sua desilusão com a política. Saldanha
Marinho, o liberal que poderia ser o seu cabo eleitoral, logo foi demitido, declarando-se
90 MAGALHÃES JÚNIOR. Vida e obra de Machado de Assis, v. 1, p. 163.
91 MAGALHÃES JÚNIOR. Machado de Assis desconhecido, p. 82.
49
republicano, junto com vários amigos, mas não Machado. Ele contornara o abismo da
política colocando-se na posição de um fideísta, assentando-se na crença de que a tradicional
instituição monárquica é fundamental para a tranquilidade civil, e desacreditando de
qualquer melhoria em relação a uma eventual mudança no sistema de governo.
Endereçando-se à Opinião pública, chamando-a, como Pascal, de “regina del
mondo” (La 44 Br 82), ele deixa escapar essa confissão:
Quanto às minhas opiniões políticas, tenho duas, uma impossível, outra
realizada. A impossível é a república de Platão. A realizada é o sistema
representativo. É sobretudo como brasileiro que me agrada esta última
opinião, e eu peço aos deuses (também creio nos deuses) que afastem
do Brasil o sistema republicano porque esse dia seria o do nascimento
da mais insolente aristocracia que o sol jamais alumiou.
Não frequento o paço, mas gosto do imperador. Tem as duas qualidades
essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu
país e acha que ele merece todos os sacrifícios (OC, III, p. 1141).
Na verdade, Machado simplifica o passo de Pascal, que falava primeiramente da
imaginação, princípio de erro dos sentidos e do juízo, que se estabelece no homem como
uma segunda natureza. Ambos concordam se tratar de uma força universal. Fruto da
imaginação, a opinião reina sobre todo o mundo e toda a gente, ela está aquém do episódico,
embora provoque diferentes ações episódicas a depender das relações sociais específicas em
que se enquadre. E Machado completa o simplificado: “se a opinião domina os costumes
políticos, a senhora domina os costumes sociais” (OC, III, p. 1143). A senhora, hetaira,
cortesã ou prostituta, imitação da virtude, traz ao caso brasileiro alguma sutileza, por
exemplo, faz as pessoas terem hábitos pios, sem terem o espírito religioso, caminharem à
igreja por vaidade e não por fé. No decorrer da formação filosófica de Machado, a discussão
ético-política sobre a opinião terá o concurso de razões epistemológicas sobre as limitações
humanas de compreender a realidade. Contaremos no quarto capítulo um caso em que a
retomada de argumentos céticos antigos, via tradição agostiniana, interfere na elaboração
ficcional de conceitos como o amor e a dúvida. O exemplo de Machado parece arrematar o
fim do discurso de Pascal no fragmento da aposta (La 418 Br 233), em que o jansenista
recomenda aos descrentes que comecem por fingir piedade e imitar a virtude cristã, o que
“naturalmente” os faria acreditar e os deixaria “abestalhados” (abêtir), isto é, como bestas.
Essa recomendação repugnou o conservadorismo cristão da época. Machado escancarava
50
que o efeito a longo prazo da simulação daquelas virtudes, em teste no caso brasileiro, não
era o reconhecimento da própria baixeza, mas o aumento das paixões e dos vícios.
Apesar do combate, nas críticas teatrais, aos maus sentimentos e à imoralidade,
o que tornou Machado uma figura conhecida no meio conservador, no início dos anos 1860,
foram suas crônicas parlamentares de tom liberal. No Conservatório, ele reverenciava os
bons costumes e o tratamento correto da linguagem. No parlamento, era insubordinado e
provocador:
Eu, mal chegava ao Senado, estava com os anjos. Tumulto, saraivada
grossa, caluniador para cá, caluniador para lá, eis o que pode manter o
interesse de um debate. E que é a vida senão uma troca de cachações?
[...] Réplica, tréplica, agitação, um dia cheio [...] Assim continuei a
intervir nos debates, e a fazer crescer o meu direito político (OC, 4, p.
876).
Os anos de cobertura política, no início da década de 1860, foram suficientes
para arrefecer o pulso liberal do jovem escritor? A investigação biográfica oferece uma
hipótese alternativa curiosa: Machado alimentava em si ambições políticas, tendo
candidatura especulada e fracassada para deputado no segundo distrito de Minas Gerais.92
Ele também teria ficado desgostoso com as mudanças ideológicas do próprio jornal, cada
vez menos enérgico e mais flexível ao conservadorismo.93
O malogro que sentiu se explica por uma inadaptação a esses jogos
sutis, nascida da sua juvenil intransigência. Este insucesso levou-o a
procurar na literatura, menos impura, senão outras satisfações, pelo
menos outro caminho. O teatro, retorno às fontes, foi a primeira delas.94
Assim como o seu personagem, Machado sofreu diversas derrotas, se não
desvios da rota em seu projeto literário inicial. Se a práxis e os joguetes da política
arruinassem a teoria progressista e o projeto edificante, a formação e os conhecimentos
dramatúrgicos ainda poderiam ditar suas posições teóricas. As posições políticas não eram
“nem fixas nem determinadas”, como lembra o cronista de “O velho Senado”. Mesmo que
a nomeada não procedesse de um mandato político, Machado se consagraria na crítica
92 MAGALHÃES JÚNIOR. Vida e obra de Machado de Assis, v. 2, p. 8.
93 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 308.
94 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 304.
51
especializada da nova cena teatral dos anos 1860 como árbitro das preferências estéticas e
do sentido moral.
Nessa época, o governo central adotou várias medidas de estímulo cultural, por
exemplo, mandou construir grandes teatros e passou a financiar companhias inteiras. Os
dramas, pouco a pouco, se afastavam das notações clássicas e arcádicas em busca daquilo
que expressasse romanticamente a alma brasileira. Com o conhecimento atualizado na área
de estética, o nome Machado de Assis é então vinculado à cena teatral. Tanto que é admitido
no Conservatório Dramático, uma instituição paraestatal de inspiração ecletista que
procurava conformar o público à moralidade e à civilidade necessárias para o progresso do
país por meio da censura direta em obras dramáticas contrárias aos bons costumes. Ele atuou
como censor e exarou, pelo menos, trinta e seis pareceres durante dois períodos distintos: de
1862 a 1864 e de 1871 a 1887.95 Deixo aqui a pista que nos levará ao terceiro capítulo, onde
descobriremos as tentativas do esteta Machado de Assis de se colocar, ecleticamente, numa
posição conciliadora, capaz de superar os desvios de cada escola:
As minhas opiniões sobre o teatro são ecléticas em absoluto. Não
subscrevo, em sua totalidade, as máximas da escola realista, nem aceito,
em toda a sua plenitude, a escola das abstrações românticas [...].
Tiro de cada coisa uma parte, e faço o meu ideal de arte, que abraço e
defendo.
Entendo que o belo pode existir mais revelado em uma forma menos
imperfeita, mas não é exclusivo de uma só forma dramática (OC, III, p.
1020).
A tentativa de superar o conflito escolástico pode ser percebida no primeiro
conto, intitulado “Miss Dollar”, de seu primeiro livro de contos, publicado em 1870. Aqui o
narrador joga com os vocabulários realista e romântico, repugnando a ambos. Além disso,
ele se escusa a narrar e concatenar logicamente suas ideias, antes, prefere refletir sobre a
própria circunstância da narração, sobre os seus objetivos e sobre a recepção literária:
Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber
quem era Miss Dollar. Mas por outro lado, sem a apresentação de Miss
Dollar, seria o autor obrigado a longas digressões, que encheriam o
95 A rigor, Machado exarou vinte pareceres, na segunda fase, em 1875, 1886 e 1887. Ele foi readmitido em
1871 e o Conservatório funcionou até 1897. Em seus últimos pareceres, Machado deixa de fazer grandes
reflexões, limitando-se a avaliar a decência das peças. Ver FARIA. “Machado de Assis e o teatro de seu
tempo”, p. 94.
52
papel sem adiantar a ação. [...] A Miss Dollar do romance não é a
menina romântica, nem a mulher robusta, nem a velha literata, nem a
brasileira rica. Falha desta vez a proverbial perspicácia dos leitores;
Miss Dollar é uma cadelinha galga (OC, II, p. 14).
O período anterior à publicação desse conto foi bastante laborioso, marcado por
tentativas sem conta, na crônica, na crítica e na literatura, de refletir sobre os aspectos
nacionais e universais da literatura. Entre um período e outro, Machado torna-se referência
na crítica especializada. Ele ainda não era o romancista que hoje louvamos. Assim mesmo
fora convocado por Alencar, em carta aberta na imprensa, a receber e proteger no Rio de
Janeiro o jovem e promissor poeta Castro Alves, autor de O navio negreiro (C, I, p. 224-
242). Além disso, foi responsável por introduzir, no meio intelectual, o jovem Joaquim
Nabuco (C, I, p. 80-82).
Apesar de franquear o acesso às peças teatrais, a função pública de censor não
era remunerada. A situação financeira de Machado ia a pior, ainda mais quando decidira
constituir família, no final da década de 1860. Ele recorreu a empréstimos para saldar dívidas
e ao favor dos amigos para conseguir um emprego estável. Quintino Bocaiuva lhe ajudou a
pleitear uma posição no funcionalismo junto ao antigo desafeto de Senado, Zacarias de Góis
e Vasconcelos. A 8 de abril de 1867, pouco depois de receber a insígnia de Cavaleiro da
Ordem da Rosa, fora Machado nomeado “ajudante do diretor de publicação do Diário
Oficial”. O prêmio pelo mérito literário e o emprego público vieram como reconhecimento
por suas posições patrióticas durante a Guerra do Paraguai, em favor da tríplice aliança, e,
por ocasião da “Questão Christie”, contra os desagravos cometidos pela Marinha inglesa no
litoral brasileiro.96
Em 1872 obteve o cargo de primeiro oficial da Secretaria de Agricultura,
Comércio e Obras Públicas. De acordo com o decreto n° 5.512 de 31 de dezembro de 1873,
cargos da baixa hierarquia, como os de amanuense e de praticante, deveriam ser preenchidos
através de concurso. Os técnicos concursados teriam a preferência no acesso ao cargo de
oficial. Contudo, Machado mobilizou a sua rede de relacionamentos para conseguir o
emprego, que tinha uma remuneração razoável de quatro contos de reis.97 A estabilidade
96 MAGALHÃES JUNIOR, Raymundo. “Machado de Assis funcionário público”. Revista do Serviço Público.
Brasília v. 56, n. 2, abr.-jun. 2005, p. 239.
97 GUEDES; HAZIN. Machado de Assis e a administração pública federal, p. 49.
53
financeira adquirida a partir daí lhe propiciou as condições de publicar, durante a década de
1870, seus quatro primeiros romances, Ressurreição (1972), A mão e a luva (1874), Helena
(1876) e Iaiá Garcia (1878), ademais de quatro livros de contos. Outrossim, Machado
passou a ter condições econômicas de iniciar o projeto de um acervo bibliográfico próprio.
A doença e o retiro para tratamento de saúde, em 1878, foram os fatos biográficos que lhe
permitiram concentrar os esforços na composição do romance que marca a sua virada
literária, Memórias póstumas de Brás Cubas. Depois de muito refletir sobre o caráter
universal da literatura, é como se Machado de Assis disponibilizasse seu próprio nome para
tornar a literatura brasileira uma literatura autônoma.98
Veremos no último capítulo da tese que a mudança do foco narrativo nos
romances ditos de segunda fase fez com que as contradições sociais fossem narradas do
ponto de vista de um representante da elite. A narração expunha ironicamente a desfaçatez
e a impostura do próprio narrador e do tipo social por ele representado. Segundo Raimundo
Faoro, a ideia de liberdade cumpriu a função ideológica de dar coesão às classes em conflito,
pois o liberto não ficou, de todo, emancipado, mas a depender de outros membros da
pirâmide estamental que o sufoca.99 Ubiratan Macedo é ainda certeiro ao avaliar a ideia de
liberdade como a componente teórica e abstrata que deu coesão política às elites em conflito,
o que decerto repercutiu no plano social concreto. Vide a representação ficcional das ideias
disparatadas do Prudêncio, criado do menino Brás Cubas e alforriado que não repudiava a
escravidão, pelo contrário, após converter-se em homem livre, tornou-se senhor de escravo,
mas ainda assim curva-se diante do vergalho de seu antigo dono (OC, I, p. 669). A inversão
sucessiva de significados, de escravo a liberto, de liberto a escravista e de dono de escravos
novamente a subserviente, desmentia a positividade desse signo iluminista chamado
liberdade, decompondo-o e decifrando seu aspecto mais negativo: não há consciência livre
nem “primeira natureza” que se conservam no jogo de dependências sociais atravessadas
pelo patrimônio e pelo pecúlio.
À diferença da metodologia histórico-sociológica – especialmente as de Faoro e
Schwarz – que partem de uma interpretação da realidade brasileira, e a confrontam com a
98 BAPTISTA, Abel Barros. A formação do nome – duas interrogações sobre Machado de Assis. Campinas:
Editora da Unicamp, 2003.
99 FAORO, Raymundo. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. 3. ed. Rio de Janeiro: Globo, 1988, p. 365.
54
ficção, colhendo como resultado uma visão de mundo estilizada, o caminho de minha
interpretação percorre, na medida do possível, o sentido inverso. Vale dizer que este é um
ensaio de história intelectual que pretende traçar as linhas hereditárias de um gênero de
filosofia sobre o espírito de um ficcionista, ponderando aqui e ali os desvios que informam
uma visão de mundo própria para, então, confrontá-la com a realidade.
1.3 Os sentidos de Filosofia na obra de Machado de Assis
Machado já era o autor festejado dos “Versos a Corina”, quando saiu em defesa
da mocidade acadêmica e liberal paulista. É que o senador capixaba e diretor da escola de
medicina da Corte, José Martins da Cruz Jobim, criticara os “maus costumes acadêmicos de
São Paulo”, decerto referindo-se aos hábitos boêmios e lúgubres adotados pelos seguidores
de Epicuro e Byron:
A mocidade de S. Paulo é a mocidade; alegre, festiva, folgazã; mas tudo
isto, na medida conveniente, sem excitar tão graves receios pelos
costumes públicos. É uma mocidade inteligente, estudiosa, laboriosa:
funda jornais, como a excelente “Imprensa Acadêmica”; funda
associações como o “Tributo às Letras”, “Clube Científico”, “Ateneu
Paulistano”, “Ensaio Filosófico”, “Instituto Científico”, e outras, tendo
a maior parte delas as suas revistas e jornais.
Nessas associações a mocidade estuda, aprende, discute, escreve,
aperfeiçoa-se, estabelece o exemplo, anima os menos laboriosos ou
menos audazes; em suma, cria esses grandes núcleos de que têm saído
tantas e tão vastas inteligências (OC, IV, p. 151).
Bastante conhecido no círculo paulistano, sobretudo por divulgação do amigo
Luís Guimarães Júnior (C, I, p. 32), não é o acaso que fez de Machado o correspondente da
folha paulista Imprensa Acadêmica. Ele adotou, inicialmente, o pseudônimo Sileno, que
representava, na mitologia grega, um sábio beberrão, amigo de farra e tutor de Dioniso.
Depois reapareceu como Glaucus, provavelmente em referência ao deus que habita remotas
regiões do mar, divindade descrita por Platão como uma figura híbrida cuja alma vaga entre
o mundo sensível e o mundo das formas.100 Interessa notar que a adoção desses pseudônimos
100 PLATÃO. República 611d-e.
55
com significado filosófico, mais do que demonstrar falsa modéstia ou proteção perante a
censura, assume uma motivação linguística qualquer.
Em diversos nomes ficcionais, como os de Tito, Félix, Eugênia, Simão
Bacamarte, Bento Santiago, Capitu, Flora e Aires, a assinatura apela a um sentido
camuflado, que não é mero rótulo anedótico, ainda que marque as características de seu
portador. O Félix de Ressurreição é “essencialmente infeliz”, sobretudo após desabar em
um dos “abismos” pascalianos; Tito é o protagonista de um conto – “O país das quimeras”,
reescrito em “Uma excursão milagrosa” – em que se narra uma anedota de Catão, ligando-
se a seu homônimo romano, Tito Lívio, e outros mais. Assim como no caso de Félix, para
compreendermos a ironia – contra o portador do nome presente no desfecho do romance –
devemos recorrer a referências extraliterárias, por exemplo, a referências filosóficas,
sociológicas ou historiográficas, subentendidas ao texto. O trabalho de decifração é o
primeiro movimento desse jogo metaficcional. O esforço do intérprete não implica confirmar
certa “miopia machadiana”, como quer Faoro. Para esse sociólogo, a miopia de Machado,
porque enxergasse as estruturas sociais quase imóveis, lhe infligia a ver o conjunto com
olhos embaçados de um “historiador moralista”, conjunto que apenas o intérprete poderia
enxergar coesão. 101 Neste caso, deveríamos dizer que existe uma realidade verdadeira,
desestilizada e amoralizada, cuja explicação e compreensão são dadas pelo sociólogo e
apenas por ele.102
O significado da decifração não está no encontro do sentido unívoco da
realidade, constituída por uma quantidade fixa de objetos, nem pressupõe uma descrição
completa e verdadeira dessa realidade ou, o que dá no mesmo, toma a verdade como uma
relação direta entre palavras e coisas. Essas pressuposições, que o filósofo Hilary Putnam
denomina Realismo Metafísico103, são dispensáveis no modo como entendemos o trabalho
de decifração. Ao invés disso, o sistema de crenças, a metodologia e os códigos utilizados
para decifrar a imagem dos fatos na obra modificam o modo como o mundo pode ser
construído e apreendido. Se esse não fosse o caso para a obra machadiana, vejamos o que o
101 FAORO. Machado de Assis: pirâmide e o trapézio, p. 154.
102 WAIZBORT, Leopoldo. A passagem do três ao um: crítica literária, sociologia, filologia. São Paulo: Cosac
Naify, 2007, p. 22.
103 PUTNAM, Hilary. Reason, Truth, and history. Cambridge: Cambridge University Press, 1981, p. 49.
56
próprio Machado disse sobre um dos livros ficcionais de Macedo que narra um “fato real,
com personagens vivos”:
[O] fato sobre que ele se baseia já passou ao terreno da ficção; é coisa
própria do autor. Nem podia deixar de ser assim; a simples narração de
um fato não constitui um romance, fará quando muito uma gazetilha; é
a mão do poeta que levanta os acontecimentos da vida e os transfigura
com a varinha mágica da arte [...]. Se a missão do romancista fosse
copiar os fatos, tais quais eles se dão na vida, a arte era uma coisa inútil;
a memória substituiria a imaginação [...]. O poeta daria a demissão e o
cronista tomaria a direção do Parnaso. Demais, o autor podia, sem
alterar os fatos, fazer obra de artista, criar em vez de repetir; é isso que
não encontramos n’O Culto do dever. Dizia acertadamente Pascal que
sentia grande prazer quando no autor de um livro, em vez de um orador,
achava um homem. Debalde se procura o homem n’O Culto do dever;
a pessoa que narra os acontecimentos daquele romance, e que se diz
testemunha dos fatos, será escrupulosa na exposição de todas as
circunstâncias, mas está longe de ter uma alma, e o leitor chega à última
página com o espírito frio e o coração indiferente (OC, III, p. 1086-
1087).
Ao citar duas ordens importantes para Pascal, o coração e o espírito, Machado
chama atenção para a atividade do leitor, das capacidades de interpretar e crer, na relação
mimética.104 O avanço de cada jogador, nesse caso, os leitores, é medido pela capacidade de
compreender os sentidos da sobreposição dos domínios, da história do portador do nome
próprio e daquilo que o nome representa ficcionalmente, seja a representação da própria
trama, suas relações com fatos históricos, seja a representação de um tipo social ou de uma
ideia. Isso vale para o uso do pseudônimo Platão, com o qual Machado assina a série de
críticas elogiosas e idealizantes à atriz Adelaide Ristori.105 Basta reconhecê-lo, o que não é
muito, para saber que essa italiana foi uma atriz completa, perfeita, imortal, “a parte universal
dos sentimentos”, um arquétipo a se imitar, uma luz, um sol etc. Ou podemos simplesmente
reconhecer os indícios relevantes nos textos, por exemplo, que o conto “Ideias de canário”
104 O fragmento mencionado é o seguinte: “Quando se vê o estilo natural, fica-se todo espantado e arrebatado,
pois se esperava ver um autor e se encontra um homem. Ao passo que aqueles que têm bom gosto e que, ao
ver um livro, acreditam encontrar um homem, ficam surpresos de encontrar um autor” (La 675 Br 25).
105 As quatro críticas foram publicadas no Diário do Rio de Janeiro em julho de 1869. Consultamos a versão
digital dessas críticas, disponíveis em . Acesso em 28
out. 2016. De acordo com João Roberto Faria, esses artigos “foram incluídos no livro Homenagem a
Adelaide Ristori, organizado por Antônio Feliciano de Castilho e prefaciado por D. Pedro II” (T, 489 n. 4).
57
(1895) é uma caçoada com os platonistas. Esse é um conto “antiteoria” em que a realidade é
representada pela escuridão no interior de uma loja de topa-tudo, a loucura é a verdadeira
iluminação humana e o conhecimento é todo ele relativo.
Daí a importância de se compreender corretamente as citações filosóficas
diretas, indiretas e escondidas em contos, romances e crônicas. Segundo Miguel Reale, o
recolhimento de tantas citações, por parte de Machado, satisfaz a uma compulsão – a uma
“mania raciocinante” –, que revela os “valores introspectivos do autor”. Seria o caso de
ultrapassar as explicações tipicamente filosóficas apelando ao uso de expressões
simbolizantes, à metáfora, aos argumentos hipotéticos e a aporias, isso é, o caso de “uma
cosmovisão filosófica transfigurada em representação artística”. 106 Eugênio Gomes já
esboçava esse empreendimento ao identificar as relações simbólicas da ficção “com o
esquema imagístico de Schopenhauer”.107 Do mesmo modo, Reale encontra três sentidos de
“filosofia” no texto machadiano: filosofia como chiste, por exemplo, quando Quincas Borba
trinca uma asa de frango com filosófica serenidade; filosofia como forma de compreensão
ou “súmula exegética” de uma obra, como a “filosofia das folhas velhas” e a “filosofia dos
epitáfios”; e filosofia como sinônimo de metafísica, no sentido positivo de estabelecer o
princípio de todas as coisas, como no caso do Humanitismo, ou no sentido negativo do termo,
de metafísica como um discurso oco, mas com ar de profundidade, como a teoria do
Medalhão.
A análise simbolizante proposta por Gomes e Reale não esgota, porém, os
significados filosóficos presentes na ficção machadiana. Não esgota porque nela não se
aprofunda. Em certo sentido, a potência da forma literária resiste ao discurso filosófico
estrangeiro. Por isso ela não é mera exemplificação de uma filosofia. Aliás, o trabalho de
inferir as influências filosóficas consiste em redescrever a luta entre essas duas potências.
Reale pensa as expressões filosóficas como símbolos dentro da ficção. É possível pensar
também o modo pelo qual a ficção aglutina e redireciona o próprio discurso filosófico,
tomando-o não apenas em seu aspecto simbolizante e metafórico, mas, de outro modo, com
uma força teórica própria e com sentido original.
106 REALE, Miguel. “A filosofia na obra de Machado de Assis”. Revista Brasileia. Jul-Set., n. 44, 2005, p. 10.
107 GOMES. Eugênio. “O testamento estético de Machado de Assis”. In: MACHADO DE ASSIS, Joaquim
Maria. Obra Completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, p. 1114.
58
Recolheram-se três contos de décadas distintas em que a filosofia de Maquiavel
aparece como termo de comparação e embate, quais sejam: “O oráculo” (1866), “Valério”
(1874-75) e “Teoria do Medalhão” (1882). Escolheu-se a relação com Maquiavel, em
primeiro lugar, porque ele é uma das fontes filosóficas importantes para o desenvolvimento
do ceticismo machadiano. Em segundo lugar, porque poucos estudos de literatura comparada
se debruçaram sobre essa relação, mas acredito que os mesmos sentidos de filosofia possam
ser notados quando se toma a afinidade entre o texto machadiano e o texto de filósofos como
Pascal, Montaigne, Voltaire e Schopenhauer.
Machado possuía a tradução francesa de O príncipe, precedido de um longo
ensaio de Paul Deltuf.108 Essa edição é posterior à escrita do primeiro conto analisado, fato
irrelevante para avaliarmos a boa leitura realizada. Dos poucos trabalhos específicos sobre
o tema, há que se mencionar os estudos de Alfredo Bosi e Sandra Bagno. O primeiro propõe
as bases para uma nova genealogia do olhar machadiano para além dos episódios históricos
extratextuais que a obra espelharia. É que Maquiavel estaria no início de um desses percursos
ideológicos em comparação ao qual Machado nos oferece uma variante. O outro percurso é
aquele que vai de Pascal até Schopenhauer. As figuras filosóficas são estilizadas e julgadas
“à luz de certos critérios éticos e estéticos que é preciso deslindar. Os juízos de valor
pertencem à história das ideias e mentalidades, uma história de longa duração”.109
A leitura de Sandra Bagno é complementar na medida em que recupera parte
dessa história intelectual, sobretudo no que se refere à política e ao moralismo.110 A relação
entre os autores nos permite ter uma noção de como Machado de Assis lidava com a filosofia
e de como os conceitos filosóficos são absorvidos e redirecionados dentro de seu universo
ficcional. Esse contraste de ideias torna mais claro o entendimento sobre as fontes do
pensamento machadiano, suas preferências políticas, historiográficas e antropológicas.
Publicado no Jornal das Famílias em janeiro de 1866, o primeiro conto
recolhido, “O Oráculo”, narra a velha história de alguém em busca de nomeada. Leonardo
108 VIANNA, “Revendo a biblioteca de Machado de Assis”, p. 168. Trata-se da seguinte edição: DELTUF;
MACHIAVEL. Essai sur les oeuvres et la doctrine de Machiavel, avec la traduction littérale du Prince, et
de quelques fragments historiques et littéraires. Paris, C. Reinwald, 1867.
109 BOSI, Alfredo. Machado de Assis: o enigma do olhar. São Paulo: Ática, 2000, p. 168.
110 BAGNO, Sandra. “Machado de Assis e seus inspiradores italianos”. In: MONTEIRO, Rodrigo Bentes;
BAGNO, Sandra (Org.). Maquiavel no Brasil: dos descobrimentos ao século XXI. Rio de Janeiro: Editora
FGV, 2015, p. 225-252.
59
tenta o jornalismo, o comércio, a política e o dote de um casamento forjado, mas é sempre
preterido numa “sucessão de contratempos e azares”. No fim, o mal-aventurado atira-se ao
mar. Sorte, azar, virtude, fortuna, necessidade e Providência são apenas alguns termos
tomados a Maquiavel. O mote maquiaveliano é dado logo no início do conto: “Conheci
outrora um sujeito que era um exemplo de quanto pode a má fortuna quando se dispõe a
perseguir um pobre mortal” (OC, II, p. 811). Não bastassem todos esses indícios que atestam
a relação intertextual, o narrador, no entanto, tenta esconder sua verdadeira fonte filosófica:
Doíam-lhe os golpes sucessivos, mas uma vez recebidos, ele preparava-
se para tentar de novo a fortuna, fundado neste pensamento que havia
lido, não lembra aonde: “A fortuna é como as mulheres, vence-a a
tenacidade” (OC, II, 812).
O dicionário de Morais e Bluteau já anotava a diferença entre “maquiavelista” e
“maquiavélico” (isto é, “Maquiavel”, no sentido figurado). O mesmo dicionário, utilizado
recorrentemente por Machado, traz tanto o significado positivo de “Fortuna”, como “sorte”,
“ventura”, “sucesso” e “felicidade”, quanto suas acepções negativas, de “desgraça”,
“incerteza” e “risco”.111 Durante o conto, esse termo é utilizado em muitos de seus sentidos.
No trecho anterior, fortuna significa ora “ventura” ou, mais corretamente, “dinheiro”, ora
Providência ou necessidade. Mas é a definição filosófica de fortuna que nos permite acesso
aos meandros morais do conto.
O lastro filosófico desse conceito, como aquilo de que não temos controle algum,
é tanto mais enredado se invocarmos o bordão estoico de uma liberdade enquanto a
consciência da determinação. Dito com outros termos, a ideia estoica de que se pode “tentar
a fortuna” sem dar valor aos bens e aos males que ela possa conceder ou tomar. Apesar disso,
essa atribuição de sentido é pouco plausível para a interpretação do conto, na medida em que
o pensamento de que o narrador não se recorda refere-se mesmo a uma famosa metáfora
utilizada pelo próprio Maquiavel no capítulo XXV de O Príncipe:
Estou certo de que é melhor ser impetuoso do que prudente, porque a
fortuna é mulher e, para ter-lhe o domínio, mister se faz bater e
contrariá-la. E costuma-se reconhecer que a mulher se deixa subjugar
111 SILVA, Antônio de Moraes; BLUTEAU, Rafael. Diccionario da lingua portuguesa. Lisboa: Officina de
Simão Thaddeo Ferreira, 1789, v. 2, p. 40. Consulta disponível em
. Acesso em 18 abr. 2016.
60
mais por estes do que por aqueles que agem de maneira indiferente. A
fortuna, como mulher, é sempre amiga dos jovens, pois são menos
circunspectos, mais impetuosos e com maior audácia a dominam.112
O Secretário discorre aqui sobre o conceito de Fortuna ou Sorte. Na
contabilidade de Maquiavel, a fortuna arbitra metade de todos os eventos e efeitos,
permitindo ao homem “governar a outra metade quase inteira”.113 Pode-se tentar superar as
forças aparentemente necessárias da fortuna através da decisão entre agir no tempo certo e
agir persistentemente. Conclui-se que é melhor insistir e buscar um objetivo, independente
dos meios utilizados para alcançá-lo, do que resignar-se diante das dificuldades encontradas
num contexto específico, pois nesse caso a Providência há de devorar. Os 50% devidos à
Fortuna estão como que a título perdido, mas podem causar ainda mais desassossego caso
não se possa manter à frente dos acontecimentos. Às vezes, os jovens dominam sua parcela
de sorte mesmo quando não refletem demasiado sobre as consequências de suas ações.
Demorar pode significar a perda da oportunidade de se prevenir contra os imperativos da
natureza. Nesse caso, o risco de parecer tolo e inconveniente compensa o risco de ser
espirituoso e hesitar.
A diferença entre as perspectivas, bem como sua evolução na obra de Machado
de Assis é analisada por Maia Neto em O ceticismo na obra de Machado de Assis. Em
resumo, os protagonistas da primeira fase adotam uma perspectiva ingênua pouco ajustada
à vida social, o que os leva a uma performance medíocre quando comparada aos resultados
dos personagens que adotam a perspectiva estratégica, entre os quais a mulher e o tolo. Da
primeira para a segunda fase, a perspectiva reflexiva do protagonista, agora homem de
espírito, varia da estratégica até a cética, entre agir conforme a lógica enganadora da vida
social e afastar-se dela, problematizando-a como fazem os narradores memorialistas da
segunda fase.
Maquiavel se apresenta como uma fonte central para a consideração da
perspectiva estratégica. O tolo-estratégico só fica à frente do tirano na escala de valores
cristãos, cujo “bem supremo é a humildade, o desprezo pelas coisas no mundo [...]. Se nossa
112 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe, São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 146.
113 MAQUIAVEL. O Príncipe, p. 143.
61
religião recomenda hoje que sejamos fortes, é para resistir aos males, e não para incitar-nos
grandes empreendimentos”.114 Em oposição ao tolo, o homem de espírito não está adequado
às exigências da vida pública e pagã, de onde surge outro tipo de moralidade que exige uma
régua de avaliação menos rígida. Portanto, as estratégias de ação do tolo são condenáveis na
perspectiva do homem de espírito.
Essas referências intertextuais são essenciais para o entendimento do conto, uma
vez que a narrativa apresenta um dilema ou uma contradição entre a Fortuna e a capacidade
do protagonista de agir em circunstâncias adversas. O conto marca também uma diferença
em relação ao conceito filosófico original: aqui a acepção de fortuna está mais próxima do
sucesso de um particular na sua missão pelos caminhos da ascensão social. No caso de
Maquiavel, herói do Risorgimento, o interesse pelas organizações políticas coordenava-se
por missões, digamos, menos individualistas. Pouco importam um modelo rígido e um ideal
de ação, desde que se obtenha, como efeito, a emancipação e a unificação de uma pátria.
“A fortuna é uma mulher”, diz Maquiavel. Essa metáfora sintetiza dentro do
domínio da sorte os sentidos de natureza implacável e de feminilidade. Machado sobrepõe
esses mesmos sentidos, entre outros, no conto “O país das quimeras” (1862), no conto “O
último dia de um poeta” (1867), em que a Providência é tida por mãe cruel, e no bem
conhecido delírio de Brás Cubas. Pode-se verificá-la, ainda, no conto “A herança” (1878),
ao qual Magalhães Júnior atribui influência de Sá de Miranda, a partir da composição poética
“Ao amor e a fortuna”. Este poema termina com os versos “Amor é cego menino / Fortuna
é cega mulher”.115 Mas nesses casos não estamos tão certos da relação direta com Maquiavel.
No conto ora analisado, a metáfora assume outras proporções. Aqui a mulher não é uma
figura com ares metafísicos.
A Cecília mais famosa no tempo de Maquiavel ficaria imortalizada num retrato
de Leonardo da Vinci, A Dama com Arminho (1490). Cecilia Gallerani era moça bonita,
virtuosa demais para ser apenas amante do duque de Milão. Pode ser apenas coincidência,
mas a Cecília do conto, pela qual Leonardo tudo arrisca, não era menos espirituosa do que a
italiana. Tanto que engatilha um plano para fugir às tratativas de casamento do pai e do
114 MAQUIAVEL, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. São Paulo: Martins Fontes, 2007,
II, 2, p. 199.
115 MAGALHÃES JÚNIOR. Vida e obra de Machado de Assis, v. 2, p. 298-299.
62
pretendente. Ela arma um estratagema para ganhar tempo. Finge consultar a opinião de um
oráculo, o qual, em verdade, era seu antigo namorado. Eles se casam escondidos. Para
completar a tragédia de Leonardo, o pai da moça, que então o tinha por filho, morre sem
nada lhe deixar.
No conto, a sorte especifica-se num evento fictício: mesmo que a própria mulher
seja insistentemente tomada de assalto, mesmo munindo-se de certa “perspicácia” e de um
plano de conquista ardiloso, isso ainda não garante o sucesso da empresa. O evento fictício
aponta para a ocasião irônica e trágica de um sujeito jovem cujo esforço e audácia não são
recompensados como prescrevia a teoria. Não era o amor que movia Leonardo. Mesmo
agindo estrategicamente, acontece-lhe sempre o pior. A cada esforço e a cada esperança
sobrevém um infortúnio e um desespero ainda maiores que os anteriores: “estava escrito que
a sorte tinha de perseguir o pobre rapaz” (OC, II, p. 815).
Em “Valério”, publicado no Jornal das Famílias entre dezembro de 1874 e
março de 1875, o termo de comparação envolve uma concepção mais refinada da evolução
histórica do conceito de política. Esse conto é um pouco mais trabalhado que o anterior, mas
o enredo é simples e o mesmo: a tentativa de ascensão social em uma situação adversa.
Mortos os pais e com poucas condições, Valério é criado por seu padrinho
loroteiro, mas de boa alma, que lhe manda ensinar as letras e um pouco de latim. Morto o
padrinho, Valério fica por si, “sem mais fortuna do que quando nascera” (OC, II, p. 1258).
Um detalhe quase passa despercebido: Valério nascera em 1831, quando seu pai participava
da revolução que levou à abdicação de Pedro I. Mais do que o sete de setembro, esse evento
marca a ruptura política do Brasil com Portugal. É como se o país também ficasse por si,
devendo resolver as disputas intestinas de poder. Nesse caso, a representação da vida de
Valério encontra-se atrelada à vida política nacional.
Sem conseguir ser o homem de letras que pretendera, o protagonista consegue
trabalho no cartório e na tipografia, como revisor de provas. O desafortunado Valério,
homem de espírito com algum conhecimento de letras, mas pouco dinheiro, conhece o
coronel Borges numa festa. Para esse primo distante dos Borgia, a política era coisa prática,
respeitava a aplicação de leis, a hierarquia e a opinião pública. Nada tinha a ver, portanto,
“com livros de Montesquieu, nem Maquiavel” (OC, II, p. 1265). A política era “o sol do
mundo moral”,
63
começava no subdelegado e acabava no coronel. Uma remoção de
comarca valia para ele um princípio. A Guarda Nacional e a polícia
eram para ele toda a opinião pública. Sorria com desdém quando lhe
falavam de outras coisas que não fossem estas coisas práticas. Escudado
no axioma que diz que a política é uma ciência de aplicação, o coronel
tinha mais respeito a um juiz municipal que a um artigo de lei,
porquanto a lei era o tema e o juiz municipal a imagem da aplicação
(OC, II, p. 1264).
Pode ser que o Borgia brasileiro estivesse dissimulando a tese maquiaveliana de
que a força política pode se conservar a base de um exército próprio, com hierarquia e leis
rígidas, em detrimento do apoio popular:
um príncipe não deve ter outro objetivo ou pensamento, ou manter
qualquer outra coisa como prática, a não ser a guerra, seu regulamento
e sua disciplina, pois essa é a única arte que se espera de quem
comanda.116
Em roda de amigos, o coronel confessa escrever um opúsculo político contra o
governo denominado “Abaixo as máscaras!”, obra que Valério já conhecia por ter revisado
as provas onde se imprimira o folheto. Conversa vem e o coronel se afeiçoa a Valério (ou a
seus elogios). Então eles começam a se frequentar. Munido de dotes literários, o moço ganha
a amizade do velho, auxiliando-o na composição deste folhetim e nas discussões a que lhe
sucedem nos jornais.
Fosse o rapaz mais perspicaz e virtuoso, agindo conforme a ocasião adequada,
poderia ele tirar as vantagens que a relação com o coronel lhe propiciava, inclusive através
de um possível casamento com a sua filha. O escrivão superior a Valério aconselha-o a
cultivar aquela amizade e frequentar aquela roda. E é nesse momento de aconselhamentos
que aparecem as referências explícitas a Maquiavel. O narrador vai ainda mais longe no
maquiavelismo e sugere que o reconhecimento e a amizade dispensados pelo coronel não
bastavam: “era preciso contar também com o medo” (OC, II, 1268), sentimento que, na
taxonomia de Maquiavel, deve ser preferível ao ódio e ao amor para se conquistar e manter
o poder.117
116 MAQUIAVEL. O Príncipe, p. 95.
117 MAQUIAVEL. O Príncipe, p. 66.
64
O contraste entre os caracteres é notável. Valério é uma ovelha de ingenuidade.
O coronel é um falcão. Valério é levado pelos acontecimentos. O coronel tenta domar a sua
própria sorte. A situação é similar ao conto anterior. O protagonista tem a oportunidade de
desposar a filha desse amigo. A diferença é que ele age sem qualquer “tenacidade”. Ao passo
que o Coronel, cuja “maleabilidade atravessou incógnita o parlamento” (OC, II, 1269), age
para se beneficiar do relacionamento amoroso de sua própria filha.
Valério é um “homem de espírito”, que tem repulsa pelas mulheres “sabichonas”
e “estratégicas”. Ele desdenha o pedantismo, mas o suporta “com uma paciência mais estoica
que evangélica, porque não era humilde, senão filósofo” (OC, II, p. 1259). Entenda-se:
conhecer de filosofia e ter dotes literários depõe contra nossos protagonistas. Antes era
necessário saber de política. Qual política? Não a filosofia política, mas a “política de
aplicação”, a política terra a terra da qual Valério “apenas sabia alguma coisa que lia nos
jornais” (OC, II, 1266).
A perspectiva ingênua de um tipo como Valério dificilmente se acomoda às
exigências morais da sociedade. A proposição inicial do conto, segundo a qual ele ficara
“sem mais fortuna do que quando nascera” (OC, II, p. 1258), acompanha-o até o fim. Ele
esteve sempre longe de ter bom emprego, longe do casamento e da real proteção do coronel.
Idealista demais, ele pensava nessas coisas como “tábuas de salvação”. Sem mais
esperanças, abatido pela má fortuna, como o Leonardo de “O oráculo”, ele se atira ao mar.
De acordo com Maia Neto,
a loucura e o suicídio constituem as “alternativas” possíveis para o
personagem divorciado da vida social que não edifica a paz doméstica.
A partir do momento em que Machado passa a descrer dessa alternativa
à vida exterior, alternativas práticas tornam-se inviáveis (a presença do
suicídio e da loucura são sinais dessa impossibilidade). A alternativa
terá de ser, portanto, reflexiva.118
Outro ponto de ligação entre a filosofia de Maquiavel e a literatura de Machado
é o recurso ao contraste entre caráteres de personalidades históricas. Ambos tomam como
modelo os estudos de Plutarco e Tito Lívio. O Valério do conto era sincero, amigo e cumpria
todas as promessas. E o coronel Borges era matreiro, dissimulado e só agia por conveniência.
118 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 74.
65
O Valério de Maquiavel foi um comandante romano que impunha seu poder através do amor.
Ele possuía tanta virtù quanto seu colega de farda, Mânlio Torquato, embora esse
comandasse sua tropa com bastante severidade.
A humanidade de Valério Corvino ou a crueldade de Mânlio Torquato – talvez
a mesma crueldade de um Borgia – ambas se dirigiam para o mesmo objetivo, a saber, a
manutenção da liberdade do Estado. Contudo, o julgamento sobre qual é a melhor virtù não
pode ocorrer apenas abstratamente. Borgia, por exemplo, tido no mais das vezes por cruel,
pacificou a Romanha, sendo, por isso, menos cruel do que muita gente piedosa que consente
a guerra e a destruição. Mais que a pecha da crueldade ou o dote da bondade, importa a
promoção de certos resultados, quais sejam, angariar entre os súditos o vínculo da obrigação
e evitar ser odiado.119
Portanto, é preciso avaliá-los num caso objetivo. Assim, para um cidadão que
viva sob as leis republicanas, segundo Maquiavel,
é mais louvável e menos perigoso o procedimento de Mânlio, porque
esse modo está todo voltado em favor do público e nunca tem em mira
a ambição privada; pois tal modo não consegue conquistar partidários,
por mostrar-se sempre áspero para com todos e por amar apenas o bem
comum; porque quem faz isso não conquista amigos particulares que,
conforme disse acima, são chamados partidários. Por isso, nada pode
ser mais útil nem mais desejável numa república que semelhante modo
de proceder, visto que nele está presente a utilidade pública e não pode
haver nenhuma suspeita de poder pessoal.120
Isso não significa que o mundo político seja de todo amoral. Ao discorrer sobre
qual sentimento a população deve ter para com seu príncipe, Maquiavel cita exemplos de
como ser temido sem ser odiado: tomar os bens alheios é pior do que matar o pai de alguém,
pois disto se esquece mais facilmente do que a perda de um patrimônio! Apesar de tamanha
mordacidade, o florentino reconhece a possibilidade de coexistirem, num mesmo estadista,
eticidade e senso político. Ainda assim, deve haver uma finalidade externa às vontades e ao
119 MAQUIAVEL. O príncipe, p. 108.
120 MAQUIAVEL. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, III, 22, p. 393.
66
caráter do bom estadista. Se a virtù política não está de acordo com a moralidade, então a
ação de Mânlio é um pouco melhor, pois atende à utilidade pública.121
Por outro lado, as ações políticas do coronel, de longe mais adequadas ao
contexto social fluminense, não pressupõem nenhuma finalidade externa. Ao invés disso, os
fins políticos têm como critério certo utilitarismo personalista. É que a política para ele
“tinha outros códigos; a outras leis obedecia. A política do coronel começava no subdelegado
e acabava no coronel” (OC, II, p. 1264). Ele era indiferente à estabilidade do Estado, embora
exigisse eticidade da administração pública. O quiproquó sobre escrever um opúsculo
político de oposição escondia apenas um descontentamento pessoal com o governo, que não
lhe prestara um favor. O abismo que separa a moralidade e o senso político de bem-estar
social cresce absurdamente na ficção machadiana. Aqui todo senso político é aprisionado
pelo interesse pessoal.
A lei de Helvétius parece funcionar bem para muitos heróis da ficção
machadiana. A incapacidade de reconhecer os motivos egoístas dos outros, manejando-os
em favor próprio, é a principal causa da tragédia pessoal. Não é totalmente descabido
enfileirar Maquiavel entre os moralistas se esses expressarem o tipo de filosofia que
desmascara as feições humanas da ambição e do egoísmo. Maquiavel é um moralista no
sentido de compreender a política como uma “luta pela ascensão social”, que se desdobra
“num feixe de meios necessários para alcançar e manter o poder”.122 É claro que, na ficção
machadiana, as coisas às vezes escapam ao nível puramente empírico. Forças quase
metafísicas sucumbem o protagonista de “O oráculo”. É do outro lado da vida onde Brás
Cubas desfiará o homem. E outros exemplos mais.
Maquiavel nos serve de baliza norteadora e nos dirige a referências filosóficas
mais consistentes com a visão de mundo machadiana. Os topoi da literatura moralista estão
onipresentes em “A teoria do medalhão”. Esse conto foi publicado no final de 1881, quando
Machado já havia desenvolvido uma forma narrativa para lidar com questões políticas e
121 Maia Neto, em “O Delito Capitolino” (Aletria, n. 1, v. 23, jan.-abr. 2013, p. 59-71), aproxima os relatos
antigos sobre a vida do pai de Torquato, Marco Mânlio “Capitolino”, ao enredo e aos protagonistas de Dom
Casmurro. Importante notar que os historiadores criticam Marco por sua sede de glória, ao passo que
elogiam Torquato por agir sem “motivação personalista”, tendo, inclusive, sacrificado seu próprio filho
para dar exemplo de disciplina à sua tropa (MAQUIAVEL. Discursos sobre a primeira década de Tito
Lívio, III, 22).
122 FAORO. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, p. 19.
67
filosóficas, isto é, quando os narradores passaram a adotar a perspectiva reflexiva. Essa
modificação formal implicará mudanças nas preferências filosóficas dos narradores, atentos
que se tornam à questão da veracidade de seus próprios enunciados. Retornaremos a esse
ponto quando compararmos, no quarto capítulo, a figura dos padres em Helena e Casa Velha.
Por um lado, a nova fórmula se mostra autoenvenenada, pois o recurso ao plano em primeira
pessoa depõe contra o tipo social representado pelo próprio narrador.123 Por outro lado, a
narrativa autobiográfica consente a uma dimensão reflexiva sobre aspectos da vida social e
permite ao homem de espírito expressar-se numa perspectiva cética, a partir da qual pode
solucionar, ao menos em parte, a problemática do personagem marginalizado das disputas
mundanas.124
Esse “conto-teoria” assume a forma platônica do diálogo de instrução em que o
pai ensina ao filho Janjão a distinta profissão de “medalhão”, modelo de comportamento que
tem em vista o domínio e o poder sobre as situações e as pessoas. Após uma hora de
aconselhamentos, o pai finaliza abruptamente o diálogo: “Rumina bem o que te disse, meu
filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Maquiavel. Vamos
dormir” (OC, II, p. 267).
Claro, a avaliação moral sobre as ações segue-se de um critério utilitarista, cuja
finalidade é alcançar e manter uma projeção social qualquer: “guardadas as proporções”,
entre os conselhos de Maquiavel ao estadista Lourenço de Médici e os conselhos do pai ao
filho, o conto demonstra a moral recorrente da qual se vale um tipo de personagem
estratégico, o “tolo” ou o “medalhão”. Segundo Maia Neto, estes personagens, como a
maioria das personagens femininas,
apresentam um conhecimento intuitivo da lógica das aparências que
regem a vida social [...]. Os personagens que adotam a perspectiva
estratégica manipulam estas aparências visando o sucesso dos seus
projetos (afetivos, sociais, econômicos) e o alcance da celebridade.125
Em proporção numérica, os conselhos a Janjão são menos longos do que as
dezenas de páginas de O Príncipe. Bastam cinco ou seis minutos de conversa (ou uma hora
inteira no tempo ficcional). Três ou quatro páginas são suficientes para adivinharmos as
123 SCHWARZ. Um mestre na periferia do capitalismo, p. 111.
124 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 93.
125 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 25.
68
influências filosóficas relevantes. A partir de certo ponto, Machado se insere,
propositalmente suponho, numa linhagem de escritores em que a sátira e a paródia são mais
significativas que a gravidade e a imitação. A crer na tese de Enylton de Sá Rego, Machado
estaria vinculado à linhagem menipeia da tradição literária luciânica, que teria, entre outros
membros, a participação de Erasmo, Burton e Sterne. As características formais desse tipo
de literatura são a inovação, a mistura de gêneros, a liberdade sobre as exigências de
verossimilhança, a coexistência entre o cômico e o sério, a criação de paradoxos de
autorreferência, a manutenção de aporias e a apresentação de uma visão de mundo a partir
de uma perspectiva distanciada.126
O conto “A teoria do medalhão” é exemplar. As referências autorais e as
paródias indicam as ondulações de humor do texto. No início o pai chama a responsabilidade
do filho, que havia de se tornar “grande e ilustre”, como o político William Pitt, o Novo, e o
imperador Napoleão, “ou pelo menos notável [...] acima da obscuridade comum” (OC, II, p.
262). A mudança de tom descamba para o jocoso quando se introduz o assunto do medalhão.
O conselheiro não pode ser tomado de exemplo. O pai de Janjão instrui sobre uma atividade
que ele mesmo não chegou a dominar. Trata-se de conselhos práticos, de molde moral e
comportamental, oferecidos por quem só sabe da teoria.
Nada mais natural, nesse caso, do que recorrer a um moralista para definir a
compostura do medalhão: “a gravidade é um mistério do corpo”. A citação refere-se à
máxima 257 das Reflexões de La Rochefoucauld. Esse livro constava no catálogo de Massa
(doc. 508), mas não foi encontrado no levantamento realizado por Glória Vianna. A citação
ainda tem por complemento o seguinte: “inventado para esconder os defeitos do espírito”.127
Essa reflexão, em continuidade com a máxima anterior, descreve o que é o medalhão: “Em
todas as profissões, cada um finge uma fisionomia e um exterior para aparentar o que quer
que acreditem. Assim, pode-se dizer que o mundo só é composto de aparências”.128
Entre o jocoso e o sério, o discurso do pai aponta justamente para como não
devem ser os discursos de um medalhão: ilustrado, reflexivo e irônico. Desfilam no texto as
126 SÁ REGO, Enylton de. O calandu e a panacéia: Machado de Assis, a sátira menipéia e a tradição luciânica.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989, p. 46.
127 LA ROCHEFOUCAULD, François de. Reflexões ou sentenças e máximas morais. Tradução de Rosa Freire
D’Aguiar. São Paulo: Penguin Classics; Companhia das Letras, 2014, §255.
128 LA ROCHEFOUCAULD. Reflexões ou sentenças e máximas morais, §256.
69
referências a Charles de Mazade, cronista da Revue des Deux Mondes, a diversas figuras da
mitologia grega, a expressões latinas, à poesia arcádica, à noção hegeliana de filosofia da
história e alusões bíblicas de difícil acesso. Temos aqui uma questão que mexe com o
orgulho do leitor. A luta para entender todas essas referências é parte do próprio expediente
narrativo, por exemplo, quando adivinhamos o sentido daquela primeira referência ao
político britânico William Pitt, filho de outro William, que superou as glórias do pai.129
Na dissertação de mestrado, situei o pensamento ficcional machadiano numa
tradição ainda mais ampla que a luciânica. Defendi que, do ponto de vista formal, a sátira
menipeia é uma derivação dos diálogos platônico-socráticos ditos aporéticos ou irônicos. O
conto “Teoria do medalhão” permite, exemplarmente, conectar e remontar quase toda essa
tradição. Observando de perspectiva estratégica, o conselho final do pai de Janjão é esse:
– Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da
boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência
contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria
dos céticos e desabusados (OC, II, p. 267).
Esse grego da decadência é provavelmente Sócrates, herói dos ironistas céticos.
O fio que costura essa linhagem é retomado no contexto moderno da disputa fideísta.
Veremos no próximo capítulo que filósofos como Montaigne, Pascal e Voltaire recuperam
argumentos céticos antigos adequando-os a uma nova prática retórica, que se caracteriza pela
desenvoltura super-reflexiva do sujeito. Portanto, a fórmula “autoenvenenada” de que nos
fala Roberto Schwarz não faz referência apenas a uma crítica social. Do ponto de vista
epistemológico, os narradores de Machado de Assis passam a tergiversar e omitir o máximo
quanto podem suas verdadeiras intenções. Ainda mais quando revisam seu vocabulário,
chamando, em seu favor, autores os mais diversos. Com isso, devemos duplicar a cautela,
129 Em crônica de 18 de agosto de 1895, comparando a vida dos Pitt e a vida dos Nabuco, Machado escreve o
seguinte: “As vidas dos homens que serviram noutro tempo e são os seus melhores representantes hão de
interessar sempre às gerações que vierem vindo. O interesse, porém, será maior, quando o autor juntar o
talento e a piedade filial, como no presente caso. Dizem que na sepultura de Chatam, se pôs este letreiro:
“O pai do sr. Pitt”. A revolução de 1889 tirou, talvez, ao filho de Nabuco uma consagração análoga” (OC,
IV, p. 1118).
70
pois somos pouco capazes de atribuir um valor de verdade às proposições desses
narradores.130
No conto, a roda gigante dos humores, que partiu do discurso sério e percorreu
diversas passagens jocosas, retorna ao mesmo tom grave do início. Mais
do que um “discurso oco”, esse conto-teoria ou conto filosófico faz pensar. A baliza de
Maquiavel nos direciona à tese de que a excelência moral é um atributo de valor secundário
para avaliarmos o tipo de comportamento sugerido pelo pai de Janjão. Isso deveria
escandalizar, caso não reconhecêssemos que “o verdadeiro medalhão tem outra política”
(OC, II, 265), pois, assim como para o coronel do conto anterior, ela obedece a “outras leis”.
Os efeitos práticos das ações, a capacidade de adaptação às circunstâncias e a luta contra a
fortuna desfavorável, sendo critérios mais importantes, não dependem de traços moralmente
positivos para avaliarmos a correção dos comportamentos.
Já consideramos anteriormente a possibilidade de o jovem contista ter travado
contato com a filosofia de Maquiavel através dos círculos literários a que pertenceu.
Machado mostrou interesse tanto pela cultura e música italianas quanto por sua história
política. Das revoltas ressurgimentais, ainda no tempo de Maquiavel, até a unificação e a
autonomia, já coetâneos ao Segundo Reinado, o cronista acompanha a história política
italiana em tom elogioso, contrastando-a ao processo político descentralizador pelo qual
passava o Brasil.131 Os três contos apresentam estruturas narrativas e índices repisados em
outras obras: o contraste entre as perspectivas estratégica e ingênua do homem de espírito,
da mulher e do medalhão. A chave de leitura maquiaveliana, aceitável pelo uso corrente de
conceitos como fortuna e virtù, demonstra a capacidade de nosso literato de reter categorias
filosóficas em função da crítica a uma estrutura social específica. Fica claro que a ficção
machadiana não é mero aparato de teses ou de símbolos filosóficos. Além disso, os sentidos
de “moralismo” se modificam à medida em se desenvolve uma forma literária mais reflexiva,
130 MARTINS, Alex Lara. O ceticismo aporético nas Memórias póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis.
2010. 149 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2010, p. 103.
131 Veja-se, por exemplo, recente descoberta de uma nota de Machado num jornal italiano em que se expressa
a admiração pela Itália: “O que estava no coração de todo italiano, o que Maquiavel insinuava aos Médicis,
só se pôde fazer neste século, depois que a Itália aprendeu duramente na escola da servidão. A melhor
liberdade é a que mais custa”. Ver RISSATO, “Machado de Assis no jornal Cosmopolita”. Machado de
Assis em Linha. Rio de Janeiro, v. 9, n.18 Maio-Ago. 2016.
71
passando a atuar contra o que representam os narradores. Vide os casos do rentista Brás
Cubas e do padre-narrador de Casa Velha.
Nos três contos analisados, os mecanismos políticos de que se utilizam as
personagens dissimulam as oposições maquiavelianas de caracteres, de modo a revelar qual
é o tipo de virtù necessária para reverter os ditames da fortuna. As circunstâncias exteriores
pesam sobre a estratégia de Leonardo, protagonista de “O Oráculo”. Valério não possui a
ambição necessária para romper os caminhos da nomeada. Até aqui os preceitos de moralista
explicam razoavelmente os eventos narrados. Mas esses preceitos não asseguram de maneira
suficiente o sucesso de Janjão. Isso porque a modificação formal do conto filosófico nos
oferece a julgamento apenas o discurso de metafísica política, proferido por quem detém a
autoridade do diálogo. E o ponto de vista do pai de Janjão, como vimos, refuta a si mesmo,
na medida em que as estratégias que professa, por exemplo, a de reduzir o intelecto ao senso
comum, são contrárias ao modo pelo qual professa, a saber, citando conhecimentos que estão
para lá do senso comum. Eis a força do ceticismo machadiano, cujos argumentos são
mobilizados através de uma forma literária.
Em resumo, esse capítulo promoveu um estudo de fontes filosóficas no tempo
da juventude de Machado de Assis. Registraram-se os dados históricos e biográficos
consistentes com o conjunto de referenciais traçados. Embora esses dados não tenham sido
lançados, ainda, para explicar as mudanças de perspectiva ideológica, eles permitiram
retomar o argumento anterior sobre o jornal, veículo através do qual se manifestavam com
mais clareza as influências filosóficas e literárias. O conhecimento filosófico era transmitido
através de jornais, dentre os quais se destacava a Revue des Deux Mondes. Essa revista foi
responsável por disseminar certo padrão de pensamento ecletista, que concorreu para a
resolução de questões políticas, estéticas e religiosas. Esses três tipos de questão estavam
conjugados à visão filosófica moralista. A escolha de Maquiavel, como termo de
comparação, permitiu perceber as mudanças de perspectiva da ficção machadiana. A
perspectiva ingênua vai se tornando inadequada aos trâmites da vida política e social, opaca
e divorciada de eticidade. De Maquiavel aos moralistas franceses deu-se um passo.
Aconteceu de Machado ir além da visão própria a um moralista. A reflexão sobre a eticidade
do mundo demanda uma antropologia filosófica cética calcada na miséria do homem. Os
sucessivos percalços, na poesia, no teatro e no jornalismo político propiciaram intensa
72
reflexão estética sobre a forma adequada de composição. As referências bibliográficas
variaram de uma literatura eclética e espiritualista vinculada à ética cristã até um tipo de
literatura moralista o mais das vezes vinculada a alguma forma de religiosidade. Essas
referências permitirão reescrever, página a página, a partir do terceiro capítulo, a conversa e
a desconversa entre Machado de Assis e Pascal. No geral, apresentei uma metodologia
interpretativa eficaz para relacionar o discurso ficcional e o pensamento filosófico. Além
disso, reuni até aqui dados históricos, biográficos e bibliográficos relevantes para a
construção de uma biblioteca que revelasse, em amplitude, o espírito de seu proprietário.
73
CAPÍTULO 2 – PASCAL NO BRASIL: CETICISMO E ESPIRITUALISMO
A formação de um corpus literário e filosófico no Brasil esteve a reboque da
recepção e da influência de obras e autores estrangeiros. Aqui a formação do cânone ocorreu
por meio de dependência, identidade, autonomia e diferença em relação às fontes europeias,
a despeito da discussão clássica de gêneros textuais ou de conteúdos filosóficos universais.132
Ao redor das questões da filosofia nacional e da influência sobre Machado de Assis,
discutiremos, na primeira seção desse capítulo, quando e como os textos de Pascal foram
recebidos por aqui. A hipótese geral é que o contato efetivo com a filosofia pascaliana
ocorreu sob a influência da interpretação romântica do espiritualista François Chateaubriand
e da interpretação cética do ecletista Victor Cousin.
Veremos em seguida que o jovem Machado de Assis e a sua geração
consideravam Pascal um moralista especial. A superioridade de Pascal sobre os outros
moralistas é defendida, entre outros, por Chateaubriand. A diferença de escopo da
antropologia pascaliana ultrapassa a pretensão de entretenimento dos demais moralistas, que
tipificam e ridicularizam apenas uma classe de homens numa sociedade particular. Além
disso, a sinceridade de Pascal em relação ao cristianismo não poderia ser colocada em
dúvida. Daí a consideração de superioridade de sua poética, isto é, o método caracterológico
(para análise moral do ser humano) combinado a uma intenção metafísico-teológica.133
Com maior ou menor habilidade, vários comentadores já realçaram a rede de
influências entre Pascal e Machado de Assis. Na terceira seção desse capítulo reavaliamos o
alcance metodológico dessas interpretações à luz das novas informações obtidas pelo estudo
de fontes ora realizado.
Apesar de sua austeridade religiosa, vinculada à vertente cristã agostiniana,
Pascal foi a principal fonte filosófica para a descristianização da obra de Machado de Assis.
Isso porque o jansenista foi um dos principais responsáveis por instrumentalizar o
cristianismo com argumentos céticos. A estratégia utilizada para evitar a contradição entre
132 BARBOSA, João Alexandre. “O cânone na história da literatura brasileira”. Organon. Rio Grande do Sul.
v. 15, n.. 30-31, 2001, p. 17.
133 CHATEAUBRIAND. O gênio do cristianismo, v. 2, p. 37-38.
74
o ceticismo e o cristianismo foi a de evitar a parte apologética do pensamento pascaliano e
rejeitar o aspecto místico da doutrina religiosa. Aqui é fundamental a influência de Ernest
Renan – leitor de Pascal –, a quem dedicaremos uma seção no quarto capítulo. As mudanças
de perspectiva religiosas serão temas dos próximos capítulos, nos quais argumentaremos que
a leitura enviesada de Pascal pode ter servido como treinamento para uma possível filiação
à linhagem dos ironistas céticos, que vai de Sócrates até os moralistas franceses e ingleses.
A indicação desta linhagem foi dada por José Guilherme Merchior e analisada por Enylton
de Sá Rego e Sérgio Paulo Rouanet, no que diz respeito à tradição literária.134 De todas as
influências mencionadas, irei me concentrar, a seguir, na de Pascal.
2.1 Quando Pascal foi (relevantemente) recebido no Brasil?
Do ponto de vista puramente cronológico e comparativo, cujos critérios são a
precedência temporal e a semelhança temática, pode-se reconhecer, ainda no século XVIII,
a presença da filosofia de Pascal no Brasil. Um estudo comparativo pouco exigente
relacionaria a apologia cristã de Pascal ao Compêndio narrativo do peregrino da América
(1728), obra de Nuno Marques Pereira (1652-1728). Esse livro descreve uma peregrinação
fictícia como forma de exortação da fé católica. O protagonista busca pela salvação
repugnando as tentações do mundo e os estragos dos homens nascidos no Brasil. Segundo
José Veríssimo, trata-se de “uma ficção de fim e caráter religioso, obra de devoção e
edificação”, 135 estando mais alinhado ao pensamento barroco-tomístico do que ao que
usualmente chamamos de filosofia moderna.
Um pouco menos imprecisa é a relação entre o pascalianismo e a filosofia de
Matias Aires (1705-1763). Amoroso Lima já percebera em Reflexões sobre a vaidade dos
134 MERQUIOR, José Guilherme. “Machado de Assis e a prosa impressionista”. De Anchieta a Euclides: breve
história da literatura brasileira I. Rio de janeiro: José Olympio, 1977; REGO, Enylton de Sá. O canandu e
a panacéia. Machado de Assis, a sátira menipéia e a tradição luciânica. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1989; ROUANET, Sérgio. P. Riso e Melancolia. São Paulo: Companhia das letras, 2007.
Para uma análise da inserção de Machado na tradição filosófica dos ironistas, ver o cap. 3 de MARTINS,
Alex Lara. Machado de Assis: o filósofo brasileiro. Porto Alegre: Editora Fi, 2017.
135 VERÍSSIMO, José. História da literatura brasileira: de Bento Teixeira (1601) à Machado de Assis (1908).
5. ed. São Paulo: José Olympio, 1969, p. 76.
75
homens (1752) a presença do moralismo francês do Seiscentos.136 É verdade que Aires
conhecia o debate filosófico da época e que algumas bibliotecas locais continham obras
como as de Fénelon, La Rochefoucauld e Voltaire. Portanto, nessa época, Pascal poderia
ser indiretamente conhecido. Apesar dessa percepção genérica, Aires referenda em seu texto,
quase exclusivamente, pensadores e historiadores clássicos, como Tito Lívio e Plutarco. As
discussões filosóficas invocadas ao texto servem de pretexto para justificar a tese principal
de Aires, que ensaia sobre o mote do Eclesiastes: vaidade das vaidades, e tudo é vaidade.
Segundo Aires, tudo produz vaidade ou por ela é produzido: as paixões do corpo e da alma,
os vícios, as virtudes e um tipo de amor, o amor de si, medíocre e vulgar, conservado pelas
belas palavras. Existe outro tipo de amor, porém, o amor sublime e constante, expresso na
contemplação de um mundo criado por Deus.
A suposição de diferentes domínios ou ordens de compreensão da realidade
poderia assegurar a influência de Pascal, pois, de acordo com Aires, é a primeira ordem de
amor, aquela aliada da vaidade, a que nos domina e nos direciona para o mal. Segundo
Alfredo Bosi, predominam nas Reflexões traços jansenistas “laicizados pelo clima
ilustrado”, 137 podendo-se citar, entre os seus antecedentes culturais, Fénelon e La
Rochefoucauld. Lembre-se que, a partir do século XVIII, as bibliotecas locais eram
compostas por obras devocionais e religiosas, embora houvesse algum espaço para obras de
ciência e para os saberes profanos.
Fénelon foi um dos filósofos mais importados para o Brasil durante o baixo
período colonial, com As aventuras de Telêmaco, e Voltaire, o iluminista mais frequente.138
Contudo, o conhecimento superficial do debate filosófico-teológico da época não é
suficiente para se derivar qualquer tipo de jansenismo das posições de antecessores como
Fénelon. As consequências da antropologia de Aires soariam pelagianas para um jansenista,
pois ele sugere que o homem seja capaz (apesar de exigir dele um imenso esforço) de superar
a sua própria natureza corruptível e de encontrar, por si mesmo, num ambiente de
136 AMOROSO LIMA, Alceu. “Introdução”. In: EÇA, Matias Aires da Silva de. Reflexões Sobre a Vaidade
dos Homens. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. XII.
137 BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira, São Paulo: Cultrix, 1994, p.47.
138 VILLALTA, Luiz Carlos. “Bibliotecas Privadas e Práticas de Leitura no Brasil Colonial”, p. 10.
76
permissividade e luxúria, a salvação em Deus. Segundo Paulo Margutti, não há na obra de
Matias Aires
qualquer predomínio do conhecimento científico sobre a visão de
mundo católica [...]. Na verdade, o espírito do texto de Matias revela o
oposto disso, mesmo no Problema de arquitetura civil. A atmosfera que
caracteriza ambas as obras se aproxima muito mais do catolicismo
barroco do que do iluminismo francês.139
O critério histórico-comparatista foi utilizado por diversos historiadores da
literatura e da filosofia como baliza para inserir ou excluir os autores de sua lista. Para Sílvio
Romero e José Veríssimo (ainda no século XIX), nem Nuno Marques Pereira nem Matias
Aires podem ser considerados como filósofos brasileiros. Para ambos, o critério estético
deve se coadunar ao caráter nacional da literatura, que expressa, de uma ou outra maneira,
as vicissitudes de um povo. Nesse sentido, a diferença entre as abordagens de Romero e
Veríssimo se verifica na amplitude concedida à noção de “manifestação literária”. José
Veríssimo pensa que a boa literatura expressa uma reflexão genérica de cultura, ao passo
que Sílvio Romero, vinculado ao naturalismo científico, a entende como uma prática poética
específica, cujos parâmetros são as características fisiológicas, sociológicas e nacionalistas.
É nesses termos exclusivistas que Veríssimo lança a crítica à abordagem romeriana:
Nem se me dá da pseudonovidade germânica que no vocábulo literatura
compreende tudo o que se escreve num país, poesia lírica e economia
política, romance e direito público, teatro e artigos de jornal e até o que
se não escreve, discursos parlamentares, cantigas e histórias populares,
enfim autores e obras de todos os gêneros [...]. [Matias Aires] seria o
melhor dos nossos moralistas se de fato a sua obra não valesse
principalmente ou quase somente como uma curiosidade literária
daqueles tempos, sem tal superioridade de pensamento ou de expressão
que lhe determine a integração nas nossas letras, e menos qualquer
repercussão ou influxo nelas.140
De acordo com Veríssimo, a filosofia de Matias Aires não era brasileira porque
não refletia nem dialogava com a própria cultura brasileira. Portanto, ele não pode ser
enfileirado numa história nacional da literatura ou da filosofia. De acordo com Romero,
Aires não era um “efeito do meio” e, embora tenha nascido na colônia, jamais expressou as
139 MARGUTTI. História da filosofia do Brasil, p. 299.
140 VERÍSSIMO. História da literatura brasileira, p. 77.
77
determinações da raça. Não se deve esquecer que o embate entre essas duas interpretações
canônicas se desdobrou durante todo o século XX, então reforçadas por instrumentos do new
criticism, do formalismo russo e do estruturalismo.
Com efeito, as abordagens de Afrânio Coutinho, Antonio Candido e Haroldo de
Campos, cada uma a seu modo, replicam a disputa em torno desse critério nacionalista da
literatura. Para não fugirmos aos objetivos desse capítulo, basta mencionar que a análise de
Antonio Candido privilegia os aspectos extraliterários determinantes para a consolidação de
uma tradição. O fundamento teórico para excluir aqueles autores de uma história da literatura
ou da filosofia se estabelece no fato de que naquele período não havia condições materiais
para a formação de um sistema literário-filosófico. Em geral, elas são supridas quando
existem obras relevantes, público interessado e uma visão de mundo própria e
compartilhada. No Brasil, tais desiderata só foram satisfeitas com a independência em
relação à matriz europeia, entre o final do século XVIII (com o Arcadismo) e o final do
século XIX (com Machado de Assis), quando se substituiu o modelo da dependência a uma
metrópole pelo modelo francês romântico da originalidade.141
Dizíamos no capítulo anterior que o contato com a filosofia francesa,
especialmente através da obra do ecletista Victor Cousin, a influência exercida por jornais
como a Revue des Deux Mondes, bem como o crescimento da imprensa e de leitores locais
impulsionaram o debate em torno do projeto civilizatório para o país. Dadas essas condições
extrafilosóficas, o ecletismo pôde surgir como a primeira corrente filosófica estruturada por
aqui, sob os auspícios do principal intérprete de Pascal no período, Victor Cousin.
Pode-se, agora, avançar a hipótese de que, para os brasileiros, o contato relevante
com a filosofia pascaliana ocorreu após a Independência. Tenho defendido que a adoção do
sistema ecletista serviu de amparo para a solução de questões estéticas e políticas mais
profundas. Isso não ocorre nos casos de Matias Aires e Nuno Marques Pereira, cujas
reminiscências temáticas com Pascal são apenas superficiais. Nenhum deles cita diretamente
Pascal ou coloca em questão as lutas encarniçadas, nos estrados da teologia e da filosofia,
ocasionadas pelo movimento da Reforma. Este é o evento crucial para a retomada de
141 CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 7. ed. Belo Horizonte:
Itatiaia, 1993. 2 v.
78
argumentos céticos antigos e de grande impacto no mundo intelectual francês da época, mas
de menor relevância no mundo ibérico.142 Além disso, as obras de Pascal passam a circular
por aqui, com maior frequência, apenas após a Independência.
Os Pensamentos estavam traduzidos, pelo menos, desde 1786.143 Nos catálogos
dos livreiros da família Martin, que possuía licença para comercializar livros no Rio de
Janeiro, já encontramos, no início do Oitocentos, este livro.144 E a casa editorial Sousa
Laemert & Comp. anunciava a venda de dois volumes deste livro durante a década de
1820.145 A casa J. J. Dodsworth pretendia leiloar um volume de Pascal, em fevereiro de
1828.146 Além disso, obras de e sobre Pascal estavam nos catálogos das mais importantes
bibliotecas públicas da capital. 147
Vale notar que os primeiros românticos brasileiros pagavam tributo ao também
pascaliano Chateaubriand, um dos preferidos de Monte Alverne.148 Com exceção da Bíblia,
as referências mais constantes na obra sermonística de Alverne são, em primeiro lugar, O
gênio do cristianismo e, depois, os Sermões de Bossuet e O Espírito e as leis, de
Montesquieu; o patrono mais referido é Agostinho. O próprio Alverne fora iniciado na
teologia por Inácio de Santa Justina, um dos Padres do Patrocínio, estes responsáveis pela
adoção de teses e práticas jansenistas por volta de 1817.
142 POPKIN, Richard. História do ceticismo: de Erasmo a Spinoza. Tradução de Danilo Marcondes. Rio de
Janeiro: Francisco Alves, 2000, p. 25-47.
143 Por exemplo, a seguinte edição: PASCAL. Pensamentos de M. Pascal, sobre a Religião, e outras matérias
muito interessantes; traduzidos da língua francesa na portuguesa por J. B. R. P. Lisboa, 1786, 2 vol in-8.
144 NEVES, Lúcia Maria; FERREIRA, Tânia Maria. “Brasil, Portugal e França: a Circulação de idéias Políticas
e Culturais por meio dos que tratam em livros (1808-1830)”. In: Márcia Abreu e Marisa Midori Deaecto
(Orgs.). A circulação transatlântica dos impressos. Campinas: UNICAMP/IEL/Setor de Publicações, 2014,
p. 17. Disponível em: . Acesso
em: 23 abr. 2017.
145 Diário do rio de Janeiro, n. XIV 16 mai. 1828, f. 1. Disponível em:
http://memoria.bn.br/DocReader/094170_01/8898. Acesso em 27 out. 2016.
146 Jornal do Commercio, n. 118, 22 fev. 1828, f. 3. Disponível em:
. Acesso em 19 jun. 2018.
147 Tome-se de exemplo a referência LÉTUT, F. L’amulette de Pascal: pour servir à l’histoire des
hallucinations. Paris: J.-B. Baillière, 1846. Disponível no Real Gabinete Português de Leitura.
148 DURAN. Ecos do púlpito, p. 165. Veja-se, por exemplo, os panegíricos de S. Francisco de Paula (v. 2, p.
30), de Santa Cecília (v. 2, p. 240), e a oração de 25 mar. 1831. Agostinho está presente nos panegíricos de
Santo Antônio (v. 2, p. 40), de Santa Isabel (v. 2, p. 204), de Santa Rosa de Viterbo (v. 2, p. 216), de S.
Pedro de Alcântara (v. 2, p. 408) e no 2º de S. Pedro de Alcântara (v. 2, p. 408-409), no sermão de 12 set.
1813, entre outros.
79
Uma pesquisa simples na hemeroteca da Fundação Biblioteca Nacional retorna
mais de 600 ocorrências para o nome Chateaubriand em periódicos da década de 1850.149
Camilo Castelo Branco iniciou uma tradução de O Gênio do Cristianismo em 1858. Isso
mostra que este livro era bastante difundido nos círculos de leitura do Rio de Janeiro, seja
no original francês, seja na tradução de Camilo, em trechos veiculados nos mais diversos
periódicos, seja em outras traduções, como a de Bento Luis Viana, e em adaptações
portuguesas, como as de Filinto Elisio. Ainda de acordo com o acervo de periódicos dessa
hemeroteca, as ocorrências do nome “Pascal” crescem em curva exponencial durante a
primeira metade do século XIX, conforme gráfico abaixo:
Não se registra, durante a primeira década, ocorrência do jansenista nos três
jornais disponíveis. A segunda década revela a presença de Pascal em 4 dos 15 jornais.
Descontados os casos de homonímia e os sentidos conotativos dos signos cristãos
“pascaliano”, “pascalino” e “pascal”, computaram-se 10 ocorrências. Na década da
independência política, a proporção relativa se mantém com 19 ocorrências em 14 dentre os
118 periódicos. Contudo, durante a década de 1840, quando o ecletismo se torna a filosofia
oficial do Império, sobretudo após a tradução da História da Filosofia, de Cousin, se
149 Consulta disponível em . Acesso em 24 jun. 2018. Mesma fonte
de dados para composição do Gráfico 1.
1810 1820 1830 1840 1850
"Pascal" 10 19 68 305 987
Jornais 15 118 353 363 422
0
200
400
600
800
1000
Gráfico 1. Ocorrências de "Pascal", por década, nos jornais brasileiros na
primeira metade do século XIX. Fonte: Hemeroteca Digital (24 jun. 2018)
80
contabilizam 68 ocorrências do nome espalhadas nos 353 jornais disponíveis. Até esse
período, a distribuição das citações entre os jornais se ajusta a uma linha de tendência linear,
que aumenta a uma taxa fixa, paralelamente ao número total de jornais. Entre 1840 e 1849,
o nome “Pascal” é citado em mais de um quinto dos 363 periódicos, e a quantidade de
ocorrências se aproxima da quantidade total de jornais, totalizando 305 casos. Na década
seguinte, supera-se a marca de 980 referências, cada vez mais distribuídas entre os
periódicos. Entre uma década e outra, a quantidade de jornais indexados é aumentada em
apenas 15%, saltando de 364 a 422, ao passo que a quantidade de citações ao nome do
jansenista francês (e seus cognatos) cresce 310%. Como referencial, outros moralistas
importantes como La Bruyère e La Rochefoucauld são referenciados, respectivamente, 100
e 42 vezes. E o nome “Descartes” figura em 246 registros durante a década de 1840, e em
apenas 360, na década seguinte.
Quase sempre tomado como uma autoridade moral, religiosa, filosófica e
científica, Pascal aparece nos jornais de duas maneiras distintas, mas complementares: por
um lado, ele é tido como um propagandista da ciência, na medida em que adquirira fama por
desenvolver diversos teoremas, inventos e por ter realizado alguns experimentos científicos
famosos. Nesse caso, ele poderia servir de modelo progressista e inspirar o desenvolvimento
científico dessa jovem nação. Por outro lado, Pascal aparece como um herói espiritualista,
na medida em que não se deixou vencer pelo materialismo cientificista. Ao contrário, seus
argumentos indicam a necessidade de outra ordem de demonstração, independente do
esforço analítico racional, esforço o mais das vezes fantasioso, sintoma da precariedade da
condição humana.150
É a história desse Pascal espiritualista e cético, homem da ciência e das letras,
que narra Cousin. A figura de Pascal assume as formas de um eclético avant la lettre. Este é
um passo importante para considerá-lo, como o faz Lucien Goldman, um precursor do
pensamento dialético.151 É claro que uma filosofia que recusa à razão humana a capacidade
de conhecer não é consistente com o ecletismo, cujo fundamento metodológico é exatamente
150 PASCAL, Blaise. Do espírito geométrico e da Arte de Persuadir, e outros escritos de ciência, política e fé.
Tradução de Flávio Fontenelle Loque. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017, p. 35-76.
151 GOLDMAN, Lucien. Le Dieu caché. Etude sur la vision tragique dans les Pensées de Pascal et dans le
théâtre de Racine. Paris : Éditions Gallimard, 1959, p. 15.
81
a crença nesta capacidade. O que estamos dizendo é que Pascal representa o movimento
programático do ecletismo, isto é, as doutrinas opostas em passagem, oposição e superação.
Pascal resume, por assim dizer, o modo como o ecletismo enxerga a história das ideias.
Portanto, contar a história da recepção da filosofia pascaliana no Brasil é também narrar
parte do próprio desenvolvimento do ecletismo. Lembre-se que as ideias do espiritualismo
eclético deram o suporte filosófico, de algum vigor liberal e secular, para a Carta
Constitucional de 1824. O período que se seguiu à emancipação política, e a crescente
secularização social, foi marcado por uma Reação Católica, composta por escolas que
disputavam a preferência moral da população, entre as quais podem ser citados o
tradicionalismo e o neotomismo.
O nome de Reação Católica deve-se a Silvio Romero e é útil pois
designa o caráter de oposição dos católicos à cultura oficial, de início
empirista e liberal e depois espiritualista, mas de um espiritualismo
racionalista senão hostil pelo menos indiferente ao cristianismo. Isto,
além de favorecer o liberalismo religioso com seu regalismo, como
política de uma nação unida à Igreja. Na época, por força de Syllabus,
todos os católicos eram antiliberais, contrários à separação da Igreja e
do Estado, tese cara ao liberalismo. E tinham estes católicos atitude no
mínimo reticente face às “liberdades modernas”, como a liberdade de
consciência, de culto, e de imprensa e edição. Tudo isto os
marginalizava dentro da elite do tempo, com ideário francamente
liberal, e os fazia vincular-se a formas arcaicas da cultura popular.152
Guardadas as proporções, à reforma político-social que vigorou a partir de
Pombal e se intensificou após a Independência sucedeu uma contrarreforma tradicionalista,
repetindo-se aqui os conflitos teológicos dos quais Pascal foi figura central. Há de se
mencionar que o iluminismo português contou com a influência intelectual dos oratorianos,
agostinianos dispostos com o mesmo espírito belicoso dos jansenistas, para derrotar a
Companhia de Jesus, inimigo comum, e tomar-lhe os espaços de ensino. A reforma de
Pombal terminou por incentivar a circulação de livros de ideologia antirromana, que fique
claro, para uma educação igualmente reformadora, protestante e, em certo sentido,
jansenista. 153 Portanto, não é de estranhar a presença de Pascal – ou, pelo menos, do
pascalianismo e do jansenismo – no Brasil já no início do século XIX. De acordo com a
152 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 38.
153 CHACON. “Jansenismo e galicanismo no Brasil”, p. 273.
82
interpretação sociológica de Goldman, o jansenista foi o porta-voz de uma classe de
intelectuais na encruzilhada entre o sistema teocêntrico medieval, em crise, e o sistema
racionalista e experimental dos modernos, por se realizar.154 Trata-se de um fenômeno
análogo ao que se produziu no Brasil, quando se decidia entre o conservadorismo escolástico
português e o projeto espiritualista afrancesado.
O jansenismo, por exemplo, contribuiu para a formação dos Padres do
Patrocínio, uma comunidade de clérigos seculares que se reuniam na Igreja de Nossa
Senhora do Patrocínio de Itu para observarem o ofício cristão e a prática austera de seus
costumes. Entre os membros dessa importante sociedade figuraram o futuro regente do
Império, Padre Diogo Antônio Feijó, e Inácio de Santa Justina, o teólogo mestre de Monte
Alverne. De acordo com o cônego Fernandes Pinheiro, em estudo publicado na década de
1870, os Padres do Patrocínio articularam uma “Port-Royal de Itu”.155
O retorno a Pascal não fazia sentido apenas dos pontos de vista pedagógico e
religioso. Os periódicos brasileiros elogiaram, por diversas vezes, a força de seu espírito
geométrico. Podemos citar a edição de abril de 1813 do jornal fluminense O Patriota, em
que se discute a possibilidade de produzir em larga escala a invenção atribuída a Pascal
denominada “Haquet” ou “Camion”, uma espécie de carroça de duas rodas e dois longos
braços. Também o Jornal de Coimbra, que circulava também por aqui, cujo editorial trazia
um elogio à linguagem e à força do espírito cristão de Pascal, seguido de uma descrição dos
princípios da “prensa hidráulica” inventada pelo francês.156 Em 1829 o jornal O Amigo do
Povo publica “Apologia da Religião”, uma série de dezesseis artigos assinados por Mr. de
Combassarés. Aqui Pascal é glosado de todas as maneiras. Discute-se o seu experimento
sobre o peso do ar (ed. 15), o conceito de justiça (ed. 20), as questões dos milagres (ed. 24),
das aparências e da relatividade moral (ed. 28). A folha Correio Oficial também dedicou
uma seção para os seus comentários filosóficos. A edição de 28 de outubro de 1834, por
154 GOLDMAN. Le Dieu caché, p. 43.
155 PINHEIRO, Joaquim Caetano Fernandes. “Os Padres do Patrocínio ou o Porto Real de Itu”. Revista do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. vol. 33, n. 40, p. 137-148, 1870. Disponível em
. Acesso em 18 out. 2018.
Na biblioteca de Machado, constava esse número da revista (doc. 251).
156 Jornal de Coimbra, n. XLIII, parte 1. Trecho disponível em:
. Acesso em 27 abr. 2016.
83
exemplo, contém uma apreciação crítica das obras do conde Jean-Denis Lanjuinais (1753-
1827), um publicista liberal que escreveu um estudo biográfico e literário sobre os filósofos
de Port-Royal. No mesmo ano, o Diário do Rio de Janeiro publicava parte da tradução do
Panteão Francês, de Constant Taillard, em que aparecia o esboço da filosofia pascaliana.157
Na década seguinte, o Correio Mercantil publicou a tradução completa do verbete “Pascal”,
tomado do Dictionnaire des hommes ilustres, de La Combe.158
As ideias de Pascal não estavam apenas como ventoinhas que giram sem muito
efeito prático. As referências variavam da necessidade de fundamentação teórica para a
análise de algum acontecimento político até a crítica da própria moral que prevalecia na ex-
colônia, passando pelo elogio ao estilo e ao modo de escrita apropriado a um escritor e ao
modo de fala apropriado a um sermonista. Com Pascal se discutiam questões da ordem do
dia, por exemplo, a autoridade dos legisladores após a Independência. Entre março de 1828
e janeiro de 1830, o folhetim Astreia publicou editoriais sobre a relação entre costumes
retrógrados e ideias progressistas, no qual as ideias de Pascal sobre a tirania e a frivolidade
das leis subsidiavam as opiniões dos redatores.159 O argumento era que a submissão dos
homens a uma ordem política não possuía qualquer justificativa racional, ainda mais quando
se tentasse localizar a suposta origem da submissão como argumento para refundar um
sistema baseado na tirania (La 60, Br 294). Um estudo de Christiano Ottoni sobre a
implementação do modal de transporte ferroviário no Brasil teve grande repercussão por
causa de Pascal. É que o engenheiro do Império equivocara-se ao atribuir ao jansenista o
pensamento “os caminhos de ferro voam”160, quando o correto era “os rios são caminhos que
andam” (La 717 Br 17). Este pequeno equívoco bastou para provocar os opositores do
projeto de integração nacional por meio das estradas de ferro. A polêmica ficou conhecida
157 Diário do Rio de Janeiro, n. 17, 21 nov. 1834. Rio de Janeiro: Typographia do Diario, f. 2. Disponível em:
. Acesso em 19 jun. 2018.
158 Correio Mercantil, n. 278, ano V, 11 out. 1848. Rio de Janeiro: Typ. Correio Mercantil, f. 3. Disponível em
. Acesso em 21 jun. 2018.
159 Astréa, n. 254, 4 mar. 1828. Rio de Janeiro: Typographia da Astréa. f. 1056. Disponível em:
. Acesso em 01 jun. 2018. Astréa, n. 518 7 jan. 1830. Rio
de Janeiro: Typographia da Astréa, f. 2488. Disponível em
. Acesso em Acesso em 01 jun. 2018.
160 OTTONI, Christiano. O futuro das estradas de ferro no Brasil. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1959, p. 12.
Disponível em: . Acesso em 21 jun. 2018.
84
como “voo de Pascal”, designação irônica, pois Pascal teria que voar duzentos anos até a
época em que as estradas de ferro tornavam-se comum na Europa.161
O Gráfico 1 indica que o jansenista foi recebido de maneira relevante no Brasil
a partir da segunda década do século XIX, atingindo o seu apogeu na década da formação
da geração de Machado de Assis. A importância desse filósofo cresce na medida em que o
ecletismo se torna a ideologia dominante. Nesse caso, devemos considerar a figura de Pascal
como um modelo para os próprios ecletistas. A flexibilidade ideológica do ecletismo foi
importante para a superação da crise política pós-Independência, pois naturalizava as
contradições institucionais e sociais. Em relação aos dilemas da moral religiosa, das questões
políticas e estéticas, veremos a seguir que a influência da interpretação cética de Pascal
efetuada por Victor Cousin, a partir da década de 1840, pode ter contribuído (i) para a
resolução desta última questão, isto é, sobre a atuação política de artistas, críticos literários
e afins – aqui se faz notar a presença do que Pascal denominava “espírito de fineza”,
resumido nas atitudes de compreensão da realidade e de fazer-se compreendido através de
um modo de expressão ou um estilo estetizado criador de sentido; e (ii) para uma solução de
compromisso que resolvesse de maneira conciliatória as outras duas questões filosóficas que
viemos ressaltando, quanto à defesa de uma sociedade laica, livre e democrática num país
cujas condições materiais eram insuficientes para sustentar qualquer mudança abrupta, e
quanto à questão religiosa, consequência da união entre Estado e Igreja, que privilegiava
uma religião entre outras – para esses casos, podemos relacioná-los com o fideísmo cético,
entendido como a atitude de suspensão da capacidade cognitiva humana ao que é da ordem
sobrenatural, ressaltando a variabilidade e a força do hábito e da tradição.
161 Jornal do Commercio, ano XXXVI, n. 57, 26 fev. 1859. Rio de Janeiro: Typ. J. Villeneuve, f. 1. Disponível
em . Acesso em 21 jun. 2018. Correio Mercantil,
ano XVI, n. 59, 18 fev. 1859. Rio de Janeiro : Typ. Correio Mercantil, f. 2. Disponível em
. Acesso em 21 jun. 2018.
85
2.2 Victor Cousin, intérprete de Pascal
Em 1842, Victor Cousin redigiu um famoso relatório à Academia Francesa sobre
a necessidade de uma nova edição dos Pensamentos de Pascal.162 O relatório foi publicado
originalmente no Journal des Savants. Em 1849 saiu a edição final do texto, revista,
corrigida e acrescida de estudos independentes sobre Pascal. Pareciam-lhe incompletas e
inautênticas as versões anteriores do texto pascaliano, sobretudo as edições clássicas de Port-
Royal (1669, 1670 e 1671) e de Bossut (1779). 163 O estudo de Cousin empreendeu o
cotejamento das edições clássicas com os manuscritos originais.
As três primeiras impressões da edição princeps são idênticas. A quarta
reimpressão, de 1678, apresenta novos fragmentos, e a quinta, de 1687, traz o polêmico
opúsculo “Vida de Blaise Pascal” assinado por sua irmã, Gilberte Périer. As edições do livro
foram publicadas em meio à controvérsia, entre o rigorismo cristão dos jansenistas e a
liberalidade dos jesuítas, sobre a orientação da Igreja em face da reforma. O livro de Jansênio
– Augustinus (1640) – estava no Índice dos Livros Proibidos, e os intelectuais de Port-Royal,
Nicole e Arnauld, ainda sofriam perseguições por causa de suas posições religiosas. É
verdade que esses dois intelectuais simpatizavam com o método cartesiano, que superava,
em certo sentido, as posições céticas dos libertinos e do jansenismo rigoroso. Esses editores
tentaram reequilibrar a balança dialética estabelecida por Pascal, a qual pendia mais para os
pirrônicos do que para os dogmáticos, por exemplo, enxertando trechos críticos aos céticos
onde havia desequilíbrio desfavorável para os dogmáticos. Antony McKenna argumenta que
interessava a Arnauld e Nicole mitigar o anticartesianismo de Pascal.164 É possível ir além e
dizer que esses editores se preocupavam também com a influência do ceticismo de
162 COUSIN, Victor. Des Pensées de Pascal: rapport à l1Académie française sur la nécessité d1une nouvelle
édition de cet ouvrage. Paris: Librairie Philosophique de Ladrange, 1843. Disponível em
. Acesso em 15 jan. 2015.
163 Sobre a história das diversas edições dos Pensamentos, consultamos LOUANDRE, Charles. “Les éditions
des Pensées” (Édition Variorum), Paris: Charpentier, 1854, p. 1-20. Para os objetivos do presente estudo,
darei preferência às interpretações mais contemporâneas à época de Machado de Assis, pois se trata de
vislumbrar como Pascal poderia ser lido no Brasil.
164 MCKENNA, Antony. De Pascal à Voltaire: le rôle de Pensées de Pascal dans l'histoire des idées entre 1670
et 1734. Oxford: The Voltaire Foundation, 1990.
86
Montaigne.165 Em todo o caso, o medo de sofrer novas sanções, o zelo pela “paz da Igreja”
– expressão de Saint-Beuve –, e uma resposta enfática contra o libertinismo podem ser
arroladas entre os motivos da inexatidão literária da edição de Port-Royal.166 É preciso
salientar que a “paz da Igreja” é apenas o motivo aparente. Isso porque, embora a apologética
das Pensées não polemizasse diretamente contra jesuítas e molinistas, os argumentos céticos
utilizados por Pascal para atacar os libertinos e promover a apologia do cristianismo não
pareciam, aos olhos dos editores jansenistas, ser suficientemente desvinculados do que é
próprio ao libertinismo: a adoção do ceticismo como propedêutica à religiosidade e uma
avaliação da moral cristã na medida do que é possível à natureza humana.
A aposta a favor da existência de Deus, por exemplo, valia pela força do
argumento, cujo convencimento pressupunha o sentir a gravidade do problema e a incerteza
da situação precária do homem. A conclusão escandalosa do argumento de Pascal,
habilmente excluída pelos editores de Port-Royal, recomendava arrefecermos nossas paixões
em vez de buscarmos convencimento racional da existência de Deus: dizia para iniciarmos
o caminho fazendo de conta crer, tomando água benta, mandando rezar missas(!). Assim,
naturalmente, isto é, conforme nossa natureza bestializada, chegaríamos à crença
verdadeira.167 Embora a edição de Bossut reconstituísse o texto com maior autenticidade,
registrando até mesmo as menções contrárias à orientação oficial da Igreja Católica, ela
incorria em falsas suposições, por exemplo, ao misturar, inadvertidamente, passagens em
que Pascal exprime o propósito dos Pensamentos aos amigos e parentes com aquilo que seria
o conteúdo mesmo do livro. Segundo Cousin, o texto publicado de Pascal
que até então está possuído de uma admiração religiosa, não é nada mais
que uma infidelidade [aos originais manuscritos] ininterrupta. Com
165 Sobre o enxerto e a combinação de passagens na obra de Pascal, os quais podiam mascarar a influência de
Montaigne, ver MAIA NETO, José Raimundo. “As principais forças dos pirrônicos (La 131) e sua
apropriação por Huet”. Kriterion. Belo Horizonte. v. 47, n.114, dez. 2006.
166 SAINT-BEUVE. “Pensées, fragmens et lettres de Blaise Pascal”. Revue des deux mondes, Juillet 1844
(Première quinzaine), p. 107-115. Disponível em
. Acesso em 19 jan. 2015.
167 O texto excluído do manuscrito original é o seguinte: “C’est en faisant tout comme s’ils croyaient, en prenant
de l’eau bénite, en faisant dire des messes, etc. Naturellement même cela vous fera croire et vous abêtira”
(La 418 Br 233).
87
efeito, o texto possui todas as infidelidades possíveis de se conceber:
omissões, suposições, alterações.168
Entre essas duas edições, a obra fora reimpressa diversas vezes, servindo de
amparo para a disputa religiosa e filosófica da época quanto à possível conciliação entre a
perspectiva cristã e a pirrônica. Ora enfatizavam-se os fragmentos profundamente cristãos,
como as edições do bispo de Montpellier (também autor do Catecismo jansenista adotado
pelos oratorianos em Portugal e no Brasil) e do padre Desmolets, ora deles se esquecia
propositalmente, adaptando os Pensamentos ao gosto profano do ceticismo filosófico, como
preferiam os enciclopedistas Condorcet e Voltaire.
Seja como for, os Pensamentos de Pascal estavam no centro dos debates
filosóficos do século XVII. De acordo com Maia Neto, Pascal se engajou nas grandes
polêmicas de sua época:
A primeira polêmica ocorreu no domínio da filosofia natural: o embate
entre a “nova ciência” e a “velha ciência” peripatética então vigente nas
escolas. A segunda polêmica foi teológica [...]: os debates sobre a graça
e a liberdade travados entre reformadores, jesuítas e jansenistas. A
terceira grande polêmica foi travada no campo da apologética: a reação
da ortodoxia cristã ao crescimento de movimentos heterodoxos, tais
como a libertinagem e o deísmo.169
Os novos pirrônicos do início do século XVII, na esteira de Montaigne e
Charron, haviam mobilizado um arsenal comum de argumentos céticos contra os mesmos
alvos. A disputa religiosa entre os líderes protestantes configurou, de acordo com Richard
Popkin, o contexto da retomada dos argumentos céticos sobre os critérios de fé e de verdade,
o que, posteriormente, se alastrou sobre o conhecimento natural, “levando à crise
pyrrhonienne do início do século XVII”.170 Por um lado, os católicos afirmavam que a
consciência individual, pretensamente assentada sobre a liberdade e o discernimento, não
poderia ser arrogada como padrão de verdade, na medida em que essa consciência
168 “Ce texte, jusqu’ici en possession d’une admiration religieuse, n’est rien moins qu’une infidélité continuelle.
En effet, toutes les infidélités qu’il possible de concevoir s’y rencontrent, omissions, suppositions,
alterations” (COUSIN, Victor. Des Pensées de Pascal, II). Contra a tese da originalidade da investigação
de Cousin, ver DEMOREST, Jean-Jacques. “Victor Cousin et le MS. des Pensées de Pascal”. Modern
Language Notes, v. 66, No. 4 (Apr., 1951), p. 255-259.
169 MAIA NETO, José Raimundo. “Pascal e as grandes questões do seu tempo”. Cadernos de História da
Filosofia da Ciência, Série 3, v. 5, n.1-2, p. 205-220, jan.dez. 1995, p. 206.
170 POPKIN. História do ceticismo de Erasmo a Spinoza, p. 25.
88
expressava apenas uma convicção subjetiva, cuja pretensão racionalista escapava aos limites
religiosos. Por outro lado, os reformistas atacavam a falta de evidência histórica para
justificar a autoridade da Igreja, quanto mais uma instituição que se encontrava tomada por
assuntos e polêmicas de política mundana.
O fato relevante é que católicos e protestantes acusavam uns aos outros de
defender o seu cristianismo a partir de pressupostos céticos. A “máquina de guerra” se
indispunha contra todos os critérios ou regras de fé defensáveis: a tradição da Igreja, os
dogmas, as Escrituras, a persuasão interior e as faculdades do raciocínio. De mais, o
manuseio da máquina trazia o efeito peculiar de “envolver o alvo e o atirador em uma
catástrofe comum”.171 A atitude fideísta, a assunção da ignorância e a adoção de uma moral
provisória desobrigada de exigências sobrenaturais serviram para prevenir essa catástrofe.
Se não pudessem ter a certeza da Graça, que ao menos se preparassem para recebê-la.
Contudo, perdidas as evidências e as justificativas racionais para esse tipo especial de crença,
restavam a questão da sinceridade da fé e a questão de saber se a atitude fideísta era mais
compatível com o cristianismo ou com a libertinagem.172 Maia Neto propõe uma solução a
essa situação paradoxal a partir da posição de Pascal:
[Pascal] estabelece uma nova relação entre ceticismo e a religião cristã
justamente em contraposição a Montaigne, Charron e La Mothe Le
Vayer. Pascal cristianiza o ceticismo destes autores e dos céticos
antigos. Assim, a denominação “ceticismo ou pirronismo cristão” é
infeliz para designar os fideístas céticos na medida em que faz supor
que estes modificam significativamente o ceticismo antigo a partir de
uma perspectiva cristã, o que só acontece, ao meu ver, nos casos de
Pascal e Kierkegaard. Montaigne e os demais são céticos e cristãos, não
apresentando uma versão do ceticismo caracteristicamente cristã, muito
embora se possa detectar influências cristãs na formulação do ceticismo
destes autores.173
Os relatos dos viajantes e missionários sobre os costumes dos povos do novo
mundo trouxeram ainda indícios de outros modos de expressão religiosa que não coincidiam
com o padrão da moral cristã. Mesmo a prática do canibalismo – expressão que horrorizava
os europeus – fora relativizada por Montaigne numa comparação desfavorável às práticas de
171 POPKIN. História do ceticismo de Erasmo a Spinoza, p. 140.
172 POPKIN. História do ceticismo de Erasmo a Spinoza, p. 153ss.
173 MAIA NETO. “De Montaigne a Pascal: do fideísmo cético à cristianização do ceticismo”, p. 64.
89
tortura realizadas na própria Europa “civilizada”. Mais incisivamente, a tese rousseauniana
do bom selvagem apontava a possibilidade de desvincular a boa moral das prescrições de
qualquer doutrina religiosa. Assim, pensavam os libertinos, o desenvolvimento ético passava
ao largo de religiões particulares, pois elas restringiam as expressões autênticas e
espontâneas do homem em favor da superstição, do sectarismo e da carolice.174
Ao contrário dos libertinos, que desacreditavam da superioridade da moral cristã,
os jansenistas verificavam que as Escrituras descreviam a condição de todo homem, suas
necessidades insatisfeitas, a esperança e a perdição, tornando necessária, portanto, uma
doutrina. A queda e a redenção, a instauração da dupla natureza humana, são as alegorias
que bem representariam o homem inteiramente. Essa espécie de “prova pela doutrina” (La
149, 482 Br 430, 289) é obtida quando percebemos a parcialidade das teorias concorrentes
e contrárias entre si, seja no âmbito religioso, entre calvinistas e molinistas, seja no ambiente
propriamente filosófico, entre estoicos e céticos.
A questão desse século foi saber se a verdade revelada, historicamente
localizada, poderia servir como prova para o espírito demonstrativo do geômetra ou para o
espírito metafísico do teísta. Seguiram-se uma questão teórica e outra prática. Questionava-
se, por um lado, se o argumento jansenista era suficiente para comprovar os dogmas
metafísicos da própria doutrina cristã, por exemplo, se os eventos da queda e do pecado
original eram compatíveis com os atributos sublimes de Deus. Por outro lado, questionava-
se se os comandos de uma religião organizada em torno de aspectos místicos, por exemplo,
os milagres, as profecias e os mistérios, eram suficientes para ditar a moral quietista de
preparação da alma para a união graciosa em Deus, exigência tão mais complicada para essa
moral fora de tempo e lugar, desajustada aos compromissos terrenos e mercantis, de
competição e burla.
A resposta a essas questões variava de acordo com o recorte do texto pascaliano,
da deformação efetuada pelo círculo de Port-Royal até os ataques de Voltaire, nas Cartas
Filosóficas (1734), especificamente a carta XXV – “Sobre os pensamentos de Pascal”. Aliás,
Voltaire ainda escreveria dois apêndices à carta. O primeiro foi publicado a partir da edição
174 VERGA. “Libertinos e jansenistas”, p. 125.
90
de 1742 e o segundo, em 1777, motivado pela publicação dos Pensamentos em edição
preparada por Condorcet. Em carta ao Sr. De Formont, Voltaire afirma seu projeto crítico:
Aconselhar-me-ia o senhor a acrescentar pequenas reflexões extraídas
dos Pensamentos de Pascal? Há muito eu quero combater esse gigante.
Não há guerreiro bem armado que não possa ter alguma fissura em sua
armadura; e confesso que se eu puder, apesar de minha fraqueza,
desferir alguns golpes em quem venceu tantos espíritos, e livrá-los do
jugo por ele imposto, ousaria dizer com Lucrécio:
Uma vez esmagada por nossos pés a superstição a vitória nos conduz
aos céus.
De resto, agirei com precaução, e criticarei apenas as passagens pouco
vinculadas a nossa santa religião, pois não se pode rasgar a pele de
Pascal sem fazer sangrar o cristianismo.175
Voltaire emenda cada fragmento com um comentário crítico. De acordo com o
iluminista francês, as contradições humanas não alcançam o patamar metafísico pretendido
por Pascal, senão que exibem o modo regular pelo qual todo animal humano se relaciona
com o mundo. Encarar e reconhecer tais contradições são ações insuficientes para
descobrirmo-nos miseráveis. A diversão e a ocupação fútil, entre outras coisas, são apenas
os procedimentos que tomamos para agradar ao próximo e não padecermos demasiadamente.
Excluídos os mistérios cristãos e a tentativa de interpretar literalmente as Escrituras, o
universo natural do homem se resumiria ao que ele pudesse compreender racionalmente. Ao
crivo da razão historiográfica, a Bíblia deixava de ser o critério de fé e modelo de virtude
para se tornar uma coleção de imagens fantásticas, cuja interpretação pelas instituições
religiosas visaria apenas aos controles social e político.
Pascal representava o “gigante” do século XVII, o inimigo preferencial do
libertino iluminista e dos deístas, em quem cada golpe desferido tomava proporções
igualmente gigantescas. As censuras de Voltaire eram contra o fanatismo intelectual de
175 VOLTAIRE. Lettre à Monsieur de Formont (1 jun. 1733). “Me conseilleriez-vous d’y ajouter quelques
petites réflexions détachées sur les Pensées de Pascal? Il y a déjà longtemps que j’ai envie de combattre ce
géant. Il n’y a guerrier si bien armé qu’on ne puisse percer au défaut de la cuirasse ; et je vous avoue que
si, malgré ma faiblesse, je pouvais porter quelques coups à ce vainqueur de tant d’esprits, et secouer le joug
dont il les a affublés, j’oserais presque dire avec Lucrèce: / Quare superstilio pedibus subjecta vicissira
Obteritur, nos exsequat Victoria cœlo. / Au reste, je m’y prendrai avec précaution, et je ne critiquerai que
les endroits qui ne seront point tellement liés avec notre sainte religion, qu’on ne puisse déchirer la peau de
Pascal sans faire saigner le christianisme”. Disponível na Wikisource em: .
Acesso em: 10 abr. 2015. A citação a Lucrécio está em Liv. I, V. 19.
91
qualquer tipo. Pascal bancava o “sublime misantropo”, um “doente”, que preferia
contemplar um Deus quase indiferente a agir no mundo para reverter sua situação precária.
Para Voltaire, a questão se resolvia no âmbito moral e terreno: a possibilidade da salvação,
os milagres e a religião revelada eram dogmas que levavam à intolerância, à submissão e,
no extremo, até ao quietismo, afastando o homem da moral propriamente religiosa, aquela
que enlaçaria todos os seres ao redor de leis racionalmente estabelecidas. Como
procedimento retórico, Voltaire faz uma leitura parcial de Pascal, exagerando na tinta negra
do pessimismo, esquecendo-se que o outro lado da tela, o homem pascaliano que se
reconciliou, possui cores vibrantes.
De acordo com Saint-Beuve, nenhum clérigo francês defendeu Pascal das
críticas de Voltaire. A defesa “vigorosa e imparcial” veio de um protestante, David Renaud
Boullier (1699-1759).176 Contra a proposta de uma “religião razoável”, Boullier reafirma,
artigo por artigo, que a antropologia cristã de Pascal era uma representação factual e
explicativa da natureza humana. Veremos na seção 4.2 que a aproximação entre o
jansenismo e o protestantismo se desenrolará, no Brasil, no contexto das discussões
regalistas, nas quais Machado de Assis acusará, publicamente, o eminente católico,
Monsenhor Pinto de Campos, de cometer impiedades.
A geração romântica e espiritualista de Chateaubriand e Maine de Biran
provavelmente consultou a edição marcadamente mística de Renouard (1803).177 Contrário
aos argumentos deístas de Voltaire178, o Gênie du christianisme ou beautés de la religion
chrétienne, de Chateaubriand, descreveu e consagrou a superioridade da estética e do
pensamento cristãos sobre as civilizações pagãs antigas e modernas. A música, as artes
plásticas e a arquitetura – a saudosa página dos sinos! –, a matemática, a física e a
astronomia, até a filosofia elevam-se ao firmamento quando imbuídos do espírito cristão.
Pascal é visto por Chateaubriand como o gênio modelo ou a “suite dos moralistas”, sobretudo
176 BOULLIER, David R. “Sur la critique des Pensées de Pascal par M. Voltaire”. Lettres critiques sur les
Lettres Philosophiques de Mr. De Voltaire. Impr. de Fertel: Saint-Omer, 1753. p. 99-2015. Disponível em:
. Acesso em 24 abr. 2015.
177 DESMOREST. “Victor Cousin et le MS. des "Pensées" de Pascal”, p. 257. Desmorest sustenta que Cousin
não foi o primeiro a descobrir Pascal nos manuscritos originais. Ele teria escondido propositalmente esse
fato para aumentar o prestígio de sua filosofia.
178 CHATEAUBRIAND. O gênio do cristianismo, v. 1, p. 198-200. A opinião de Chateaubriand é de que
faltou ao gênio de Voltaire o contrapeso da religião.
92
nos capítulos sobre o homem e quando ele percebe a grandeza do homem com Deus. Outros
como La Bruyère e La Rochefoucauld o imitam, sem igual sucesso, no estilo e na descrição
dos caracteres e dos costumes.179 A geração romântica enxergava em Pascal o espírito forte
do cristianismo e do progresso, senhor das belas artes e da ciência, com todas as vantagens,
ademais, de um devoto incondicional:
Houve um homem que aos doze anos com rectas e curvas criou as
matemáticas; aos dezesseis fez o mais luminoso tratado dos cónicos
que se viu desde a antiguidade; aos dezenove reduziu a máquina uma
ciência [sic] que existe toda o intelecto. Aos vinte e três demonstrou os
fenómenos do peso do ar, e destruiu um dos grandes erros da antiga
física; este homem, na idade em que os outros começam apenas a
nascer, acabando de percorrer o círculo das ciências humanas, conheceu
o seu nada, e voltou para a religião as suas ideias [...] e lançou ao papel
pensamentos que têm um tanto de divino como de humano: este génio
assombroso chamava-se Blaise Pascal.180
Chateaubriand pretendia reabilitar o Pascal cristão das malhas de comentários
como os de Voltaire, que dava à luz um Pascal sofista: “no que viria a parar esse grande
homem, se não fosse cristão?”181. Coube a Cousin, porém, escarafunchar a mitologia em
torno do jansenista e investigar a origem e a fonte das diferentes versões do texto pascaliano.
Ele se dirigiu até a abadia beneditina de Saint-Germain des Prés, em Paris, onde estava
depositado o manuscrito autêntico transmitido por herança ao sobrinho de Pascal, o Abade
Périer. Esse manuscrito fora transferido, durante a revolução francesa, para a Biblioteca
Imperial (hoje Biblioteca Nacional), onde, para a surpresa de Cousin, encontravam-se duas
cópias diferentes dos manuscritos e grande quantidade de material e pertences dos membros
179 CHATEAUBRIAND, Francois-Auguste. Génie du Christianisme, ou Beaute's de la religion chrétienne.
Paris: Chez Migneret, imprimeur, 1802, 5 v. Disponível em:
. Acesso: 24 abr. 2015. Para a discussão sobre Pascal e
os moralistas, ver Genie, v. 3, liv. II, cap. V e VI : « La Bruyère, qui imite volontiers Pascal... ». Os “seis
capítulos acerca do homem” referem-se, na edição de Port-Royal, aos artigos XXI a XXVI. Para uma
avaliação positiva sobre a antropologia pascaliana, ver Génie, v. 1, liv. III, cap. III: « Constituition primitive
de l’homme ». Chateaubriand elogia a composição caracterológica cristã, da qual Pascal foi o mestre: « Le
christianisme est une religion pour ainsi dire double: s’il s’occupe de la nature de l’être intellectuel, il.
s’occupe aussi de notre propre nature: il fait marcher de front les mystères de la Divinité et les mystères du
cœur humain: en dévoilant le véritable Dieu, il dévoile le véritable homme. Une telle religion doit être plus
favorable à la peinture des caractères, qu’un culte qui n’entre point dans le secret des passions » (Génie, v.
2, liv. II, cap. I).
180 CHATEAUBRIAND, René. O gênio do cristianismo. Trad. Camilo Castelo Branco. v. 2. Rio de Janeiro:
Jackson, 1952, p. 45.
181 CHATEAUBRIAND, René. O gênio do cristianismo, v. 2, p. 47.
93
de Port-Royal. Chamava à atenção a deturpação infligida pela edição princeps aos
pensamentos de Pascal e a ordenação inconsequente realizada por Bossut. Ambas as edições
estavam condenadas porque não transmitiam a intenção da verdadeira filosofia pascaliana.
O relatório de Cousin foi dividido em três partes: uma defesa do ecletismo
espiritualista no que se refere ao ensino universitário, um estudo biográfico sobre Pascal e
uma análise científica dos Pensées que o recolocasse na trilha do pensamento ocidental. O
relatório gerou algum debate e renovou os estudos autorais sobre Pascal. Já em 1844 publica-
se a edição Faugère, pretensamente fiel aos manuscritos originais. A partir da comoção
gerada pelo relatório de Cousin, Armand-Prosper Faugère pretendeu reunir toda a obra
póstuma de Pascal, reconquistando, nas palavras de Saint-Beuve, o “primeiro Pascal”.
Publicado com o título de Pensées, fragmens et lettres de Blaise Pascal, publiés pour la
première fois conformément aux manuscrits, a obra reúne, em dois volumes, fragmentos,
cartas, títulos inéditos e famosos, como a Entretien avec Saci sur Epictète et Montaigne, o
Mémorial e o Mystère de Jésus – este último havia escapado a Cousin. Os Pensamentos
foram agrupados por temas, mais ou menos conforme orientações do próprio Pascal no
fragmento Ordre 4 (La 6 Br 60). Na primeira parte, da “miséria do homem sem Deus” (ou
que a natureza está corrompida pela própria natureza), encontram-se temas morais como o
divertimento, a desproporção do homem, a grandeza e a miséria, e o sistemas dos filósofos.
Na segunda parte, sobre a “felicidade do homem com Deus” (ou que há restauração pela
Escritura), há temas religiosos como as características da verdadeira religião, do povo justo,
dos profetas, de Jesus Cristo e da religião cristã.
Nesse ínterim, Cousin apresenta importantes artigos sobre Pascal para a Revue
des deux Mondes, a revista oficial do ecletismo brasileiro: “Discours sur les passions de
l’amour” (1843), um fragmento inédito atribuído a Pascal, e “Du scepticisme de Pascal”
(1844-45), dividido em duas partes:
Nós empreendemos um trabalho literário. Nosso único objetivo foi
reconhecer e mostrar Pascal tal como ele realmente é no que resta de
sua obra derradeira, e ocorreu que ao examiná-la descobrimos a mais
evidente e acentuada marca, o traço mais distinto e dominante do autor
dos Pensamentos. Já em 1828 nós encontramos um Pascal cético,
mesmo em Port-Royal e Bossut. Em 1842 o encontramos ainda mais
cético nos manuscritos autógrafos, e apesar da intensa polêmica que daí
94
se seguiu, nossa convicção não foi abalada por um único momento –
ela se fortaleceu mesmo com os novos estudos.182
O “trabalho literário” de que fala Cousin era aquele necessário para descobrir o
“traço distinto e dominante” da obra, que deveria ser encontrado entre a leitura dos
manuscritos autógrafos, comparados às edições deturpadas, e os seus próprios artigos
dedicados a Pascal. Feito esse esforço, Cousin adquire a convicção, apesar da polêmica
iminente, de se tratar de uma filosofia fundamentalmente cética.183
Por certo não era o ceticismo da dúvida metódica, cuja superação nos conduzia,
como num passe de mágica, à verdade racional inabalável ou a alguma tranquilidade. O
ceticismo sobre as doutrinas filosóficas também não satisfazia uma demanda racional nem
remediava as perturbações sensórias. Cousin defende que o pirronismo de Pascal é um beco
sem saída, o ponto final da história da filosofia enquanto busca racional por princípios. Ele
recorre à afirmação de Pascal de que “o pirronismo é a verdade. Porque depois de tudo, os
homens antes de Jesus Cristo não sabiam onde estavam nem se eram grandes ou pequenos”
(La 691 Br 432). Se a razão nos mobiliza a busca por verdades, seus resultados nunca nos
satisfazem, pois à razão compete definir as coisas, estudar sua figura e seu movimento,
designando-as por sua aparência, sem lhes revelar a essência. O “trabalho penoso” dos
filósofos e cientistas é igualmente inútil. Eles “romanceiam a natureza”, mas o conhecimento
dos princípios é de ordem diversa, depende de um sentimento interno que os intui sem
demonstrá-los.
Humilhar a razão através da razão, eis a motivação paradoxal do pirronismo.
Mas não escapa do beco do pirronismo quem caminha com os pés e com a cabeça, por
intermédio da ordem sensível ou da ordem espiritual. Pascal descobre um motor distinto dos
182 « Nous n’avions entrepris qu’un travail littéraire; notre unique dessein avait été de reconnaître et de montrer
Pascal tel qu’il est réellement dans ce qui subsiste de son dernier ouvrage, et il est arrivé qu’en l’examinant
ainsi, nous avons vu à découvert, plus frappant et mieux marqué, le trait distinctif et dominant de l’auteur
des Pensées. Déjà, en 1829, nous avions trouvé Pascal sceptique, jusque dans Port-Royal et dans Bossut;
en 1842, nous l’avons trouvé plus sceptique encore dans le manuscrit autographe, et malgré la vive
polémique qui s’est élevée à ce sujet, notre conviction n’a pas été un seul moment ébranlée: elle s’est même
fortifiée par des études nouvelles ». COUSIN, Victor. « Du scepticisme de Pascal (première partie) ». Revue
des deux mondes. Dec. 1844, p. 1013. Disponível em:
. Acesso 19 jan. 2015. Esses textos
foram juntados ao prefácio da edição final do Relatório, publicada em 1849.
183 CANTILLON, Alain. «Nous n'avions entrepris qu'un travail littéraire» Victor Cousin et Pascal. Les Cahiers
du Centre de Recherches Historiques, 28-29 – 2002. Disponível em: . Acesso
19 jan. 2015.
95
sentidos e do espírito, um motor que entra em atividade no momento em que humilhássemos
a razão sem, por isso, nos transformarmos totalmente em bestas. O argumento de Pascal
mostrava que o cristianismo esclarecia o campo minado de paradoxos:
Pois afinal que é o homem na natureza? Um nada com relação ao
infinito, um tudo com relação ao nada, um meio entre o nada e o tudo,
infinitamente afastado de compreender os extremos; o fim das coisas e
seus princípios estão para ele invencivelmente escondidos num segredo
impenetrável. Igualmente incapaz de ver o nada de onde foi tirado e o
infinito em que é engolido (La 199 Br 72).
O estudo de Cousin denunciava toda subversão ao escrito pascaliano. Do
fragmento anterior, por exemplo, a edição de Port-Royal anotava o seguinte texto:
Pois afinal que é o homem... um meio entre o nada e o tudo. Ele está
infinitamente afastado dos dois extremos; e seu ser não está menos
distante do nada de onde foi tirado do que do infinito em que é
engolido.184
Port-Royal suprimiu aqui a dramaticidade imposta pelo texto original à natureza
humana, influenciando decisivamente a finalidade prática dos Pensamentos, a saber,
converter os descrentes por força da persuasão. De acordo com Pascal, a desproporção do
homem é tanto maior quanto mais ele se coloca como a régua de medida das coisas. A
máxima de Protágoras, retomada como valor moral pelos renascentistas, atribuía falsamente
ao raciocínio demonstrativo o método adequado para conhecermos os princípios universais.
Segundo Pascal, a máxima era falsa porque tais princípios, sendo de ordem distinta, escapam
à compreensão do espírito geométrico, tão distante do que é justo quanto do que é bom.
Segundo Cousin, essa edição ocultava, num desconcerto irônico, a tese do Dieu
caché. Justamente a tese que transformava inócua qualquer busca racional por princípios. A
rigor, a tese interditava tanto o conhecimento natural quanto a atividade metafísica. Por que
interessava a Port-Royal amenizar as consequências do Deus escondido? Seria apenas um
modo de mitigar as disputas intestinas da Igreja Católica num momento de guerra contra a
insurreição protestante? Seria apenas, palavras de Saint-Beuve, pela “paz da Igreja”?
Cousin ofereceu resposta diversa. A deturpação acobertava o ponto central da
filosofia pascaliana: o ceticismo. Port-Royal temia que o ceticismo filosófico afetasse a parte
184 COUSIN. Des Pensées de Pascal, p. 127. Acréscimos em destaque.
96
apologética dos Pensamentos. Porque a exigência da ética jansenista não parecia
conveniente para qualquer fiel. Afinal era quase impossível integrá-la à vida social e civil
dos séculos XVII e XVIII. Mas a alternativa a essa ética consistia em adaptar alguns valores
pagãos ao próprio cristianismo. O sucesso da apologia implicava em admitir o pirronismo
como o único modo correto de raciocinar. E isso poderia ser interpretado de dois modos:
como a superioridade da verdade revelada, que exigia outra ordem de entendimento, ou
como um motivo para concluir que essa verdade era tão irracional quanto as suas alternativas
religiosas.185
À maquinaria pirrônica deveria seguir a exposição do cristianismo como a
doutrina que esclarecesse a situação do homem. Porém, a exposição e o esclarecimento não
eram suficientes, por si mesmos, para fazer cessar aquela angústia existencial. É que no beco
escuro a que esses raciocínios nos levam podemos esperar e somente esperar: “então as luzes
externas e alguns raios escapam da graça que ilumina, de quando em vez, as trevas do
pirronismo. Mas quando a graça se retira, permanece unicamente o pirronismo”.186
Aos olhos de Port-Royal, a “cristianização do ceticismo”, termo moderno para
designar a ressignificação do ceticismo antigo através de uma perspectiva cristã, poderia ser
tão perigosa quanto a libertinagem. No contexto de Pascal, não era mais viável adotar o
modo de vida fideísta para solucionar o problema do critério da fé. A douta ignorância
apresentava-se como a fiadora de uma nova concepção de homem, liberto das superstições,
alheio às opiniões comuns e mais próximo de virtudes conforme as nossas disposições
naturais. A deturpação do fragmento esconde que somente esse homem naturalizado é
incapaz de compreensão, mas nunca o verdadeiro cristão, dotado daquele sentimento íntimo.
Aliás, o argumento cético de Pascal, descoberto das malhas de Port-Royal, pressupõe, sem
necessidade de demonstrações diretas, a verdade do cristianismo. A doutrina da queda
adquire um patamar transcendental, encerrando o pirronismo nos limites da natureza
humana.187 A interpretação de Cousin possui outra implicação histórica. Port-Royal não
mais existia. Tampouco havia heróis como Pascal e Bossuet. Por um lado, o ceticismo desse
185 VERGA. “Libertinos e jansenistas”, p. 144.
186 “De là des clartés étrangères et quelques rayons échappés de la grace éclairant de loin en loin les ténèbres
du pyrrhonisme. Mais dès que la grace se retire, le pyrrohonisme seul demeure” (COUSIN, « Du
scepticisme de Pascal – première partie », p. 1032).
187 MAIA NETO. “De Montaigne a Pascal”, p. 69.
97
Pascal é estranho aos homens do século XIX, crentes do humanismo mecanicista, otimistas
quanto aos resultados da ciência. Eles julgam desnecessário esperar e assumir uma moral
cristã quando a verdade lhes salta aos olhos em seus experimentos. Por outro lado, o novo
Pascal, subversivo e rigorista, não é bem acolhido no meio religioso. No fundo, o trabalho
filológico de Cousin resumia o projeto romântico de reconduzir a França aos louros do
Grande Século através da releitura dos clássicos e do estudo de seu vocabulário.188 Era
necessário reler Pascal como um modo de ajustar os rumos da própria humanidade.
Todo o debate suscitado pelo “trabalho” de Cousin, considerado então como o
marco inicial da filologia francesa, deve ter sido acompanhado e lido por leitores brasileiros.
A voz da religião dedicou três páginas para repercutir a interpretação de Cousin sobre o
ceticismo pascaliano. 189 O Diário Novo, de Pernambuco, e o Jornal do Comércio
publicavam, em meados de 1848, anúncios de venda do estudo de Cousin sobre Pascal.190 E
o Diário de Pernambuco traduziu o artigo de Cousin, publicado originalmente no Journal
des Débats, sobre a irmã de Pascal e o contexto intelectual de Port-Royal.191 Era como se o
público brasileiro estivesse tendo aulas de filosofia moderna através do debate filosófico em
torno de Pascal: o embate entre a nova e a velha ciência, entre a graça e a liberdade, entre a
ortodoxia cristã e movimentos religiosos heterodoxos sobre o critério da fé e sobre a
retomada do pirronismo na modernidade.
Importante notar que a finalidade do relatório de Cousin era buscar em Pascal a
origem e o modelo de uma cultura civilizada. As cartografias filosóficas de Cousin e dos
românticos ecléticos se sobrepõem em diversos eixos e sentidos. Guardadas as diferenças,
os brasileiros, influenciados pelo pensamento de Cousin, tal como expresso na Revue des
Deux Mondes, também se movimentaram em busca de certos traços de uma cultura
particular. Esse movimento deveria, apesar da especificidade, efetivar-se numa expressão
literária universal, o que poderia garantir o caráter civilizatório de todo o projeto romântico.
188 SAINT-BEUVE. « Pensées, fragmens et lettres de Blaise Pascal », p. 111.
189 A voz da religião, n. 36, 6 set. 1846. Pernambuco: Typ. Santos & Companhia, f. 4-6. Disponível em
. Acesso em 21 jun. 2018.
190 Diário Novo, n. 126, 12 jun. 1846. Pernambuco: Typ. Imp. Rua da Praia, f. 4.. Disponível em
. Acesso em 19 jun. 2018. Jornal do Commercio, ano
XXIII, n. 98, 7 abr. 1848. Rio de Janeiro: Typ. Imp. E Const. De J. Villeneuve e Comp., f. 3. Disponível
em . Acesso em 19 jun. 2018.
191 Diário de Pernambuco, ano XXXIII, n. 143, 25 jun. 1857, f. 2. Pernambuco: Typ. de M. F. de Faria.
Disponível em . Acesso em 19 jun. 2018.
98
Cousin propõe um “retorno a Pascal”, pois o jansenista representava o triunfo de uma
espiritualidade sincera, livre da indiferença libertina que assolou o século XVIII. Ele
reclamava outras faculdades quando descobriu um outro modo de demonstrar as suas
verdades. Exige-se do escritor e do orador certo espírito de fineza, certa conformidade de
expressão, que atinja em cheio o instinto, o coração, a natureza primeira do leitor ou do
ouvinte. Cousin afirma em seu estudo:
não hesitamos em dizer que tudo o que se segue de Pascal, tão
admirável quanto pudera pela energia e magnitude de linguagem, nada
mais é do que uma peça de eloquência.192
Falou-se, no capítulo anterior, da importância política da sermonística para a
consolidação de uma intelectualidade no Brasil do Oitocentos. Alguns textos que
compunham a bibliografia desses sermões eram de Victor Cousin.193 Daí podemos imaginar
por que razão Araújo de Porto-Alegre, discípulo de Monte Alverne, ter afirmado que a sua
geração aprendeu com esse professor “a respeitar o justo, o santo, o consagrado e a ver no
homem aquele homem de Pascal, o elo inteligente e progressivo daquela cadeia
humanitária”.194
As revistas de cultura geral assumiram importante papel na difusão do projeto
político de busca de uma identidade nacional, ao ponto de manter similaridades com o
projeto cousiniano da “redescoberta de Pascal”. Tome-se de exemplo o Courrier du Brésil,
a partir do qual se debatiam as mudanças sociais derivadas do novo paradigma econômico
após a primeira revolução industrial. Nesse jornal, localizava-se o reduto dos franceses
quarante-huitards, esses proscritos hugoanos e antibonapartistas, como Ribeyrolles e
François-Vincent Raspail (1794-1878), que tiveram influência significativa na juventude de
Machado de Assis. É atribuída a Raspail a autoria de uma série de cartas publicadas no
192 « Nous n’hesitons point à le dire, tout ce qui suit dans Pascal, si admirable qu’il puisse être par l’energie et
la magnificence du language, n’est après tout qu’une pièce d’éloquence » (COUSIN. Des Pensées de
Pascal, p. 52)
193 DURAN. Ecos do púlpito, p. 98, n. 15.
194 Apud DURAN. Ecos do púlpito, p. 123.
99
Courrier, no biênio 1856 e 1857, sob o título de “Lettres brésiliennes”.195 Em cada carta
empreendiam-se pequenos estudos culturais comparativos sobre temas variados: política
externa, geografia, independência, moral, disposição de caráter, mulheres, literatura, modo
de pensar etc. A certa altura, Raspail afirma que os intelectuais da imprensa brasileira
adotavam o lema pascaliano segundo o qual cada coisa é “verdadeira em parte, falsa em
parte” (La 905 Br 385).196 Esse fragmento descreve uma das causas da inconstância humana,
a saber, a incapacidade de discernir o bem e o mal, a verdade e a falsidade, a justiça e a
injustiça.
Mostrou-se no capítulo anterior que a Revue des Deux Mondes, como também
era conhecida por aqui, teve grande repercussão durante o Segundo Reinado. Disponível em
bibliotecas públicas e particulares, argumentamos que essa revista adquiriu a função de
transmitir uma autovisão dos brasileiros a partir das imagens que de nós outros os
estrangeiros pintavam. Conhecer e ler a Revista, mesmo que superficialmente, fazia parte
dos rituais de consagração da própria nacionalidade, teoricamente próxima do progresso, da
liberdade e da espiritualidade. Significava alinhar-se com a cultura ocidental. E se os arautos
do progresso, da liberdade e da espiritualidade ali escreviam e difundiam ideias, era de mister
adotar o ecletismo como a doutrina filosófica oficial do Império, mesmo que isso pudesse
significar, de acordo com a percepção de Raspail, a sugestão de um cristianismo
“pirronizado”. Embora Pascal fosse um dos heróis dessa geração romântica e ecletista, de
Chateaubriand, de Biran, de Cousin, de Saint-Beuve e de Renan, todos eles repudiaram o
195 CANELAS, Letícia. Franceses “quarente-huitards” no império dos trópicos (1848-1862), 2007.
Dissertação (Mestrado em História). Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, p. 157. Raspail foi
um importante cientista e líder político de ideias socialistas. Candidatou-se à presidência durante a Segunda
República e participou da insurreição anticonservadora que se seguiu à revolução de 1848, tendo sido preso
e, depois, exilado.
196 “La modestie de la presse brésilienne est en contradiction ouverte avec la marche suivie par le reste des
journaux: il me semble que les journalistes brésiliens s’attachent trop à l’esprit de la pensée de Pascal: si
j’étais à leur place, je ne mettrais pas mon doigt à la bouche, j’imiterais la presse anglaise, et la nord-
américaine et toutes les presses présents et futures. Rien de ce qui peut montrer, tant soit peu, les faiblesses
brésiliennes n’échappe aux journaux des autres pays, – particulièrement d'origene anglaise; – eh! bien,
meschers messieurs de la presse brésilienne, porquoi n'imitez vous pas – on dit que vous aimez à imiter les
choses, et même les modes de l'ancien monde-vos confrères? Vouz avez le même droit qu’ils ont pour
discuter les affaires d’autrui, excepté neanmoins, s’il vous plait, celui de dicter des lois aux autres, car
quoiqu’ils le fassent, je ne leur en reconnais pas le droit” (RASPAIL, François-Vincent. [Ami Constant].
“Lettres brésiliennes”. Courrier du Brésil, n. 45, 9 nov. 1856. Rio de Janeiro: Imp. De N. Viana & Fils, f.
1-2. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=709719&PagFis=495. Acesso
em 24 jun. 2018).
100
seu ceticismo antirracionalista. Até onde posso compreender, a estratégia entre o repúdio e
a glorificação de Pascal consistia em argumentar que ele era tanto mais cristão quanto maior
fosse o seu ceticismo. 197 Ato contínuo, Pascal seria também o herói das gerações de
românticos espiritualistas brasileiros. No próximo capítulo, acompanharemos
cronologicamente o impacto da filosofia pascaliana na obra de Machado de Assis. Antes
disso, vamos tomar notas do que diz a bibliografia secundária sobre a relação Pascal-
Machado.
2.3 Pascal e Machado de Assis – modos de leitura
Algumas referências autorais estão onipresentes na obra romanesca de Machado
de Assis: Dante, Shakespeare, Molière, Goethe, Virgílio, Voltaire, os livros do Eclesiastes e
de Jó, além de assuntos tomados da mitologia greco-romana.198 Se repararmos bem, os
literatos prediletos de Machado de Assis possuem qualquer coisa filosófica. Alguns, como
Voltaire e os Salmos, estão no limite entre uma coisa e outra. Não por acaso, de todos os
textos bíblicos, Machado apresenta predileção para os portadores de sabedoria, aqueles que
oferecem respostas metafísicas ao drama existencial humano, como o Eclesiastes e o livro
de Jó. Os temas míticos do Livro Sagrado servem ainda como chave de interpretação para
as crônicas do dia, seja em referências irônicas, por exemplo, dizendo “como Bossuet: só
Deus é grande, meus irmãos” (OC, IV, 1256),199 seja ressignificando o próprio sentido do
texto, como nessa conversa imaginária com Jesus:
Dizias uma necedade quando afirmavas que contra a tua Igreja não
prevaleceriam as portas do inferno. Estavas em erro, meu divino Cristo.
A força da tua igreja não vem da tua doutrina; vem de alguns
quilômetros de território. O catolicismo em Roma vale tudo; se o
197 Por exemplo, Chateaubriand (O génio do cristianismo, v. 2, p. 47), afirma que o Pascal sofista era inferior
ao Pascal cristão.
198 BRANDÃO, Ruth Silviano; OLIVEIRA, José Marcos Resende. Machado de Assis leitor: uma viagem à
roda de livros. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, p. 115.
199 Machado se refere aqui ao poder espiritual exercido por Antônio Conselheiro, capaz de reunir em torno de
si mais de três mil homens armados, ao passo que as instituições republicanas não conseguiam angariar
número igual de votantes.
101
pusessem em Jerusalém, não valia nada. Verité en deçà, erreur au
delà.200
Em ambos os casos, os sentidos de referência ao Evangelho apontam para o
período de formação intelectual de Machado. Desde então, os filósofos com predominância
literária, ou os que refletem sobre a maneira de escrever, como Chateaubriand, Montaigne,
além de Renan e Schopenhauer terão a preferência de diálogo dentro do seu texto. Deixando
de lado a análise puramente quantitativa, os estudos de fonte disponíveis apontam Pascal
como a principal influência filosófica de Machado de Assis. Conforme se argumentou na
seção anterior, essa influência ocorreu de maneira indireta na primeira juventude de
Machado. Por isso, o estudo de fontes pode se servir do cruzamento de dados, do contexto
intelectual, de dados biográficos, de similaridades eletivas, de referências dispersas e das
repetições, como é o caso da passagem anterior. A citação à passagem favorita e recorrente
na obra de Machado de Assis, verité en deçà, erreur au delà, é um elemento que pode
reforçar a atribuição de autoria dessa crônica. É nesse jornal, escondido por detrás do
pseudônimo, que Machado antecipa, em dez anos, o mesmo argumento que nas Memórias
póstumas aparecerá como uma oposição a Pascal:
Pascal dizia que o homem não era anjo nem besta. Eu peço licença às
suas ilustres cinzas para dizer que é uma e outra coisa. E esta natureza
semiangélica e semibestial é que faz justamente a nossa grandeza,
porque em suma podíamos ser exclusivamente bestas (e o somos às
vezes).201
Retomarei este ponto no último capítulo, quando for relevante o contexto
filosófico das Memórias póstumas. Por enquanto, basta notar que a possibilidade de
reinterpretação da antropologia pascaliana por Machado, ou melhor, pelo Dr. Semana, foi
condicionada pela desobstrução efetuada por Cousin sobre o texto das Pensées. O modo
enviesado pelo qual Pascal fora recebido por Machado e, de resto, pelos intelectuais
brasileiros explica, em boa medida, o número reduzido de citações diretas ao jansenista
200 MACHADO DE ASSIS et al. (Dr. Semana). “Badaladas”. Semana Ilustrada, n. 567, Rio de Janeiro, 22 out.
1871, f. 4500. Disponível em < http://memoria.bn.br/DocReader/702951/4544>. Acesso em 30 out. 2016.
Os bibliógrafos machadianos têm dúvidas sobre a atribuição de autoria da série de crônicas “Badaladas”.
Machado era um dos cronistas que escreviam sobre o pseudônimo Dr. Semana. Por isso, os editores da
Obra completa foram cautelosos ao não recolher esses textos.
201 MACHADO DE ASSIS et al. (Dr. Semana). “Badaladas”. Semana Ilustrada, n. 538, 2 abr. 1871, f. 4298.
Disponível em: . Acesso em 30 out. 2016.
102
francês em comparação aos campeões Shakespeare, Homero, Molière e, claro, a Bíblia. Não
se pode desconsiderar o fato de que os três primeiros sejam autores literários. Para que fique
claro, basta revisitar as Memórias póstumas, romance seminal, para que se assegure do
entrelaçamento entre as visões filosóficas de Pascal e Machado. Diversos comentadores já
se debruçaram sobre o tema. A seguir, reavaliamos a metodologia e o alcance dessas
interpretações tendo em vista as novas informações obtidas pelo presente estudo de fontes.
Afrânio Coutinho realiza o primeiro estudo substancial sobre a relação entre
Machado de Assis e Pascal. Segundo Coutinho, a análise moralizante e a observação
psicológica dos caracteres, marcas do classicismo francês, afetaram profundamente o
espírito de Machado de Assis, especialmente as leituras de Pascal e Montaigne.
A atitude filosófica de Machado, a sua concepção do mundo, da vida e
do homem, formou-se também como resultado da meditação de grandes
obras do pensamento universal, que, ao lado dos seus motivos pessoais,
precedentemente estudados, lhe incutiram uma visão totalmente
pessimista. Essas influências vieram acrescentar-se às tendências
latentes no espírito do homem, geradas pela doença incurável, pela cor
e pela inferioridade de origem, tendências que davam, já de si mesmas,
ao observador perspicaz, uma consciência muito exagerada das
misérias humanas, um gosto muito apurado em pintar o lado mau do
homem, uma visão escurecida da vida social. Deram às tendências
naturais um apoio filosófico, uma interpretação racional, uma
autoridade doutrinária.202
Coutinho divide seu trabalho em duas partes. Na primeira, ele busca penetrar
“no fundo obscuro da consciência” do autor para daí retirar seus motivos criativos. A
“fisionomia espiritual” de Machado revelou “tenebrosos sentimentos íntimos”, resultado de
sua enfermidade, da epilepsia, da gagueira, da cor da pele e da pobreza.
Lúcia Miguel Pereira havia aberto essa trilha quando utilizou a mesma
metodologia para supor a filiação de ideias. Em determinada época de sua vida, Machado
contagiara-se do pessimismo, se bem que rejeitasse o misticismo e a marca do pecado
original. Ele encontrou, na origem divina, apenas mais um mistério, e na fraqueza do homem,
202 COUTINHO, Afrânio. “A filosofia de Machado de Assis” (1940). Machado de Assis na literatura
brasileira. Rio de Janeiro: ABL, 1990, p. 157-158.
103
a relatividade das leis morais.203 É como se o homem de Pascal, pendulando entre a baixeza
e a grandeza, se perdesse na marcha em direção ao mistério. Esse homem perdido é o
narrador humorista e “quase sádico” de Machado de Assis. Aliás, em última instância, esse
homem seria o próprio Machado de Assis. Cansado de lutar contra o mistério pascaliano, de
esperar que a graça divina se lhe revele, ele produziu literatura por vingança, relativizando
todo valor que se possa dizer humano.
A metodologia biogenética de Coutinho e Miguel Pereira já não encontra muitos
defensores, porque se desfez hoje a crença de que o caráter do autor seja suficiente para
explicar totalmente a sua obra. Com alguma frequência, em relação às teses de Coutinho, a
crítica machadiana incorre na falácia do espantalho, que consiste em atacar o argumento
mais fraco, nesse caso a utilização de fatores biográficos e sociais para explicar a obra, com
a finalidade de atenuar a influência de Pascal.204
É na segunda parte do estudo onde o crítico baiano avança a sua hipótese menos
extravagante, fincada numa metodologia mais aceitável: as antropologias de Machado e
Pascal possuiriam grandes afinidades. Coutinho é certeiro ao dizer que ambos tentam
resolver um problema comum, a saber, o “problema da vida cristã no mundo”. Para resolvê-
lo, ambos adotam vocabulários de antropologia semelhantes.
“O homem de Machado é o homem de Pascal”, afirma Coutinho, com a diferença
de que, para o nosso literato, não há redenção e ordem sobrenatural. Também não é possível
esperar e adotar uma moral cristã, pois dentro do homem só há:
abismo, contradição, enigma; tarado, cheio de vícios, incerto,
dubitativo, inconstante, incoerente, contraditório, flutuante, agitado, de
espírito volúvel e inteligência fraca, sem nenhum apoio moral, com
uma tendência imperiosa para o mal e o crime; escravo da sensibilidade
e da imaginação que o extraviam e enganam, de leis arbitrárias, de um
hábito tirano, da opinião; desordenado pelas paixões, cheio de misérias,
vive eternamente atrás de uma quimera [...]. As suas ações, que formam
o tecido da tragicomédia humana, tem sempre no fundo, mesmo as
203 MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. Machado de Assis – Estudo crítico e biográfico. 3. ed. São Paulo; Rio de
Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1946, p. 232 e 260.
204 Veja-se, por exemplo: CEI, Vitor. A voluptuosidade do nada: niilismo e galhofa em Machado de Assis. São
Paulo: Annablume, 2016, p. 33 e 94: “Não se pode exagerar a vinculação do autor brasileiro ao matemático
e teólogo francês”.
104
boas, um motivo secreto, que as explica e origina, ordenado pela
felicidade, interesse, amor-próprio. Sempre o egoísmo, os sentimentos
vis e a concupiscência são os móveis secretos de toda a vida no mundo.
A concupiscência domina o caráter dos personagens machadianos.205
A explicação para o problema da vida cristã no mundo assume contornos
metafísicos. O homem é incapaz de perceber como é verdadeiramente o universo criado,
mantendo-se sob o véu das opiniões e da maldade. Trata-se de uma incapacidade comum a
toda humanidade. A comparação entre os autores, porém, ocorre sempre em desabono para
a literatura machadiana, mero pastiche das teses pascalianas caducas. É como se Machado
de Assis fosse um mau leitor de Pascal. Machado errou ao ter exagerado no pessimismo e se
“conformado apenas com o Pascal sombrio e não ter penetrado com ele nesse mundo do
sobrenatural, ao qual conduziu a sua inquietude formidável”.206
Raymundo Faoro oferece outra resposta ao empreender uma leitura mimética da
obra machadiana à luz de suas teses sobre a formação política e econômica do Brasil Império.
Isso porque questões como a liberdade e a vida cristã no mundo podem adquirir
características diferentes conforme o contexto histórico e social. As personagens e as
situações compõem, reflexivamente, a estrutura arquitetônica da sociedade brasileira. O
quadro sincrônico apresenta a base estamental espalhada como num trapézio. Nessa
sobreposição de figuras fundam-se a burocracia do Estado e o patrimonialismo colonial, com
seus próprios conjuntos de insígnias. O quadro diacrônico mostra as forças modernizantes
tentando ascender verticalmente a estrutura piramidal de classes, ora combinando-se ora
sobrepondo-se ao eixo basilar. A virtude de Machado de Assis foi supor a existência de um
terceiro eixo, o hermenêutico. Mas a posição na qual o escritor se coloca para desvendar essa
figuração social não é bem a mesma do moralista:
A denúncia, o desmascaramento, em Machado de Assis, não mostra, no
fundo das ações, o inconsciente, os interesses de classe e a longa
distorção do tecido histórico. Vai além, na verdade, do nariz de
Cleópatra de seu louvado Pascal, para discernir uma ordem subterrânea,
que ele supõe organizada segundo forças obscuras, empenhadas em se
alhear da presunção humana. Ele sabe que tudo o que se vê, na
superfície da sociedade, não passa de falsificação e mistificação.
205 COUTINHO. “A filosofia de Machado de Assis”, p. 189-190.
206 COUTINHO. “A filosofia de Machado de Assis”, p. 187.
105
Ignora, ou apenas pressente, emancipando-se, sem audácia, dos
moralistas, que as relações entre os homens obedecem a outros
imperativos, talvez falsos e vãos, como os ostensivos.207
É necessária a intervenção exegética do sociólogo sobre esse terceiro eixo, na
medida em que falta ao próprio Machado de Assis o “preparo filosófico”.208 Caberia ao
sociólogo, intérprete da obra, preencher essa lacuna, transformando as possíveis influências
em conteúdo coerente. Com esse auxílio, Machado de Assis é enfileirado ombro a ombro
junto a Marx, Nietzsche e Freud, “mestres da suspeita” – designação de Paul Ricoeur –, da
denúncia e do desmascaramento. As principais questões de seu tempo são colocadas como
enigmas a serem decifrados. Os problemas da moralidade cristã e da liberdade, por exemplo,
dourados por ações generosas e por discursos políticos edificantes, reconfiguram-se não
como sentimento e destino de um indivíduo, mas como trama profunda das instituições, da
sociedade, da história e da economia. Essas instituições comprimem e trituram a vontade
interior e a conduta pessoal:
E o moralista, cegado pela virtude e pelo vício, móveis de toda a
vibração humana, onde está ele? Parece que o sociólogo usurpa o seu
lugar, atento à realidade exterior, fixada na história e na sociedade. O
sociólogo tem a função exclusiva, ao contrário de revelar a sociedade,
de denunciar a presença de uma trama inacessível à vontade humana e
ao protesto. Mostra, sob a aparência de estudioso das instituições
sociais, a impotência para reagir diante do monstro inexorável que
comanda homens e coisas.209
O homem de Machado ainda lembra o homem de Pascal. Muito embora, no caso
de Coutinho, esse homem não possuísse, em sua natureza algo metafísica, nenhuma
aspiração elevada, qualquer ímpeto de grandeza ou ligação com a realidade sobrenatural. No
caso de Faoro, a natureza que fatalmente o esmaga é a pirâmide social. Para um e outro, a
consciência dessa natureza miserável do ser humano e o senso trágico da existência teriam
se formado na maturidade, como contraponto ao romantismo otimista da juventude, após a
suposta epifania com a obra de Pascal nos fins da década de 1870. Para todos os efeitos, o
escritor brasileiro fora incapaz de enxergar, mesmo na maturidade, todas as cores da tela em
207 FAORO. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, p. 361-362.
208 FAORO. Machado de Assis: A pirâmide e o trapézio, p. 360.
209 FAORO. Machado de Assis: A pirâmide e o trapézio, p. 363-364.
106
que pintava, distorcendo, portanto, o verdadeiro ensinamento de Pascal. Daí as censuras de
Coutinho e Faoro.
O senso comum academista se apega ao truísmo de que a visão de mundo de
Machado de Assis, colorida durante a década de 1870, tornou-se pessimista à medida que
que ele desacreditasse do projeto progressista, científico e burguês da modernidade, sem
socorro da alternativa mística ou da ética cristã. Por isso, a aproximação entre Pascal e
Machado de Assis é mitigada por Sérgio Buarque de Holanda e Miguel Reale. Contudo, as
ressalvas mais apontam uma inconsistência na interpretação da filosofia pascaliana –
Coutinho desvaloriza a parte apologética das Pensées – do que reduzem a importância do
jansenista na visão de mundo do nosso literato. Para estes intérpretes, a parcela trágica do
projeto pascaliano não explicaria, de todo, a expressão literária do humour machadiano, pois
sua antropologia não é uma consequência do pecado e da redenção. Não há tragicidade,
portanto, apenas absurdo encoberto pela ironia. De acordo com Sérgio Buarque,
Machado de Assis não parece deliciar-se profundamente em sua própria
descrença. E talvez sentisse como uma inferioridade a inaptidão para
ver os homens de outra forma, para julgá-los dignos de amor. Assim,
sob as aparências de uma zombaria constante, esconde um sentimento
de deficiência. O humour é expressão adequada desse disfarce.210
Sejamos justos, Faoro e Coutinho já haviam ressaltado o humour como a
ferramenta hermenêutica de que Machado dispunha para lidar com o enigma humano e
escapar das conclusões pessimistas schopenhauerianas. Segundo Faoro, a questão da
liberdade, por exemplo, especificada no discurso abolicionista, cumpriu a função ideológica
necessária à coesão entre os estamentos: a liberdade não emancipa o escravo, pois ser livre
é apenas um modo de ascender ao primeiro degrau da pirâmide que ainda o sufoca.
Comentou-se anteriormente o exemplo de Prudêncio, o alforriado tornou-se senhor de
escravo dos mais intransigentes, até ficar novamente diante de seu velho dono. A sucessão
de significados, do escravo, do liberto, do escravista e do subserviente joga contra o projeto
iluminista da liberdade, embora este projeto, por aqui, tenha a função de normalizar situações
disparatadas (OC, I, p. 669).211
210 HOLANDA, Sérgio Buarque de. “A filosofia de Machado de Assis”. In: _____. O espírito e a Letra
I. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 311.
211 FAORO. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, p. 365-370.
107
Até aqui as diversas tentativas de traduzir a literatura machadiana em filosofia
imbuíram-se da crença de que um homem, através de uma obra particular, deva expressar o
espírito de um tempo e de um povo. Nesse caso, interpretar significa apreender
objetivamente o conteúdo dessa obra através de possíveis influências, ou seja, significa
elencar as condições pessoais, históricas e sociais que conferem relevância à obra, num fluxo
que parte de sua forma composicional, passa por um eixo temático e encerra a própria
realidade.
Outra maneira de remeter o pensamento ficcional ao contexto histórico e social
é efetuada por John Gledson e Roberto Schwarz. Comprometidos com o “paradigma do pé
atrás”, corrente interpretativa que tende a desconfiar das asserções das instâncias ficcionais,
esses intérpretes utilizam diferentes estratégias para encontrar vestígios da presença do autor
“real”. O resultado desse tipo de interpretação invariavelmente nega qualquer traço
intencionalmente filosófico presente no texto machadiano.212
A interpretação histórico-sociológica, encabeçada por Roberto Schwarz, capta,
na forma volúvel do romance, a estilização da classe dominante brasileira, que fique claro,
a vivência da contradição entre práticas arcaicas e teorias liberais. Esse padrão formal é o
procedimento empregado por Machado na composição das Memórias póstumas de Brás
Cubas. Ora os eventos apresentam a condição da insuficiência humana, ora a feição pessoal
das personagens e do narrador, ora alguma característica brasileira. Estas perspectivas se
misturam quase sem transição, critério e definição. O particular e o universal se revezam e
se desqualificam, podendo ser usados, dependendo do mau-caratismo do narrador, como
norma ou como transgressão. Assim qualquer filosofia é um filosofema sem conteúdo, pois
retrata apenas a desfaçatez retórica e ideológica das personagens da classe dominante.
Para esta interpretação, não há que se falar em “filosofia” (sistema, discurso
pretensamente verdadeiro), nem em influências filosóficas determinantes, mas tão somente
em mascaramento e desconversa ideológica. O mesmo pode ser dito sobre as possíveis
212 SCHWARZ. Um Mestre na Periferia do Capitalismo: Machado de Assis, 1991. 2. ed. Duas Cidades: São
Paulo, 1991; GLEDSON, John. Machado de Assis: impostura e realismo, uma reinterpretação de Dom
Casmurro. Tradução Fernando Py. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Ao adotar essa estratégia, esses
críticos devem oferecer uma resposta ao problema do realismo em Machado de Assis. Trataremos disso no
último capítulo. Sobre o “paradigma do pé atrás”, ver BAPTISTA, Abel Barros. “O legado Caldwell, ou o
paradigma do pé atrás”. Santa Barbara Portuguese Studies 1 (1994), p. 145-177; KINNEAR, J. C.
"Machado de Assis: To Believe or Not to Believe?", in Modern Language Review, v. 71, Edimburgo, 1976.
108
relações entre a filosofia pascaliana e o texto machadiano. Apesar disso, é possível perceber
sob a forma volúvel vestígios da intenção realista e anti-ideológica do próprio Machado de
Assis.
O exercício da literatura comparada consiste em percorrer e relacionar os
caminhos recorrendo aos textos de diferentes autores. Silviano Santiago, por exemplo, alude
às Provinciais de Pascal, especialmente a crítica à casuística jesuíta, “a doutrina das opiniões
prováveis”. Eis o ponto de referência para o discurso propositalmente ambíguo do narrador
de Dom Casmurro, que se utiliza do verossímil para convencer-nos de que ele é a verdadeira
vítima da trama.213 O expediente casuístico da opinião provável é atacado por Pascal na
Carta XIII de suas Provinciais. Em comum, Pascal e Machado criticaram os jesuítas,
responsáveis, no caso brasileiro, por nossa educação moral e religiosa. Assim, a filosofia de
Machado de Assis não tinha como base o “ressentimento de mulato”, mas a análise dos
desvios da cultura brasileira, “que sempre viveu sobre a proteção dos bacharéis e sob o
beneplácito moral dos jesuítas”.214 O perigo da comparação é o privilégio teórico concedido
a um dos correlata ao se tentar traduzir uma filosofia através da forma literária ou ao se
tentar implicar e descobrir o verdadeiro significado da obra literária.215
As interpretações de Miguel Reale e Otto M. Carpeaux são paradigmáticas deste
método interpretativo. Quando tentam identificar manifestações filosóficas no texto,
constatam que elas não correspondem ao original, utilizando “aspas” ou traduções para dar
conta da diferença. Desse modo, segundo Reale, a literatura machadiana expressa um
“heideggerianismo” avant la lettre; Carpeux cita Leopardi como fonte de “O delírio”,
capítulo central de Memórias póstumas.216
No capítulo anterior, esbocei e retoquei a interpretação de Miguel Reale,
segundo a qual a obra de Machado de Assis apresenta pequenas teorias filosóficas, mas não
213 SANTIAGO, Silviano. “Retórica da verossimilhança”. In: _____. Uma literatura nos trópicos. São Paulo:
Perspectiva, 1978, p. 39-40.
214 SANTIAGO. “Retórica da verossimilhança”, p. 48.
215 Para uma crítica detalhada dos métodos de leitura filosófica da obra de Machado de Assis, ver AZEVEDO,
Silvia. “Machado de Assis e a filosofia: modos de leitura”. In: Mariano, Ana Sales; Oliveira, Maria Rosa
(org.). Recortes Machadianos, São Paulo: Educ, 2003.
216 CARPEAUX, Otto. M. “Uma fonte da filosofia de Machado de Assis”. In: _____. Reflexo e realidade. Rio
de Janeiro: Fontana, 1976.
109
uma grande doutrina consistente. As pequenas teorias se situam no plano, por assim dizer,
metateórico, como se fossem complementos aos tipos e às situações representadas. Essa
“inclinação teorética” – a “mania raciocinante” de que falara Miguel Pereira217 – possui
afinidade com Pascal na medida em que ambos são tomados por um “sentido de procura”
pelo propósito último das coisas, apesar de traçarem caminhos distintos e de alcançarem
resultados incompatíveis entre si.
Se Machado não chegou à fé, não é dito que não a tivesse procurado,
nem que o desacerto do mundo não lhe gerasse no espírito desconsolada
renúncia ao refúgio da crença, [...] reside nesse inconformismo o elo
que o prende a Pascal, por mais diversos que hajam sido os respectivos
caminhos.218
Antes e depois de Pascal, respectivamente, Montaigne e Renan “não
transfundem ceticismo a Machado de Assis, mas o ensinam a dourar de ironia o seu
pessimismo”.219 Mais do que isso, eles ensinariam a dourar de ironia as próprias teorias
filosóficas que o influenciaram – daí o caráter “metatextual” da literatura machadiana. Nesse
caso, qualquer teoria filosófica, inclusive a antropologia pascaliana, seria motivo de mofa e
zombaria.
Além desses sentidos negativos e irônicos da recepção de textos filosóficos, viu-
se, também, que a ficção machadiana maneja conceitos – como fortuna, amor e besta humana
– capazes de compor uma estrutura de pensamento próprio. Este outro modo de realizar o
estudo de fontes através da comparação consiste em observar certa autonomia do discurso
literário. Nesse engenho comparatista, infere-se como o discurso ficcional recepciona as
influências filosóficas ao transformá-las na forma literária. Em vez de atribuir uma
“filosofia” a Machado de Assis, Benedito Nunes, mestre do engenho, afirma que “a ficção
também é um modo de pensamento, capaz de absorver filosofias e de redirecioná-las a uma
intenção diferente da que possuem nos discursos de origem”.220 Nunes reconhece a sátira
menipeia como o modelo literário para o pensamento ficcional machadiano. Nesse caso, a
antropologia de Pascal é subjugada por uma forma narrativa em que prevalecem o tom
217 MIGUEL-PEREIRA. Machado de Assis – Estudo crítico e biográfico, p. 261.
218 REALE, “A filosofia na obra de Machado de Assis”, p. 15.
219 REALE. “A filosofia na obra de Machado de Assis”, p. 19.
220 NUNES, Benedito. “Machado de Assis e a filosofia”. In: _____. No tempo do niilismo e outros ensaios.
São Paulo: Ática, 1993, p. 131.
110
dubitativo e a inversão irônica de significados morais. O correto entendimento das
referências à Pascal, na obra de Machado, dependeria da subversão e da zombaria impostas
pelos narradores. Isso quer dizer que as referências teóricas não explicam os acontecimentos
narrados, mas são questionadas ceticamente pelo modo como os acontecimentos são
apresentados.
Apesar de localizar na sátira menipeia a origem da conjugação entre humorismo
e ceticismo, a estratégia discursiva ostentada pelos narradores foge a qualquer disposição de
escola. Assim, segundo Nunes, o essencial da investigação cética permanece na forma
discursiva e no tom dubitativo e descompromissado com a verdade daquilo que se
representa.
Na composição temática dos enredos ingressam motivos interruptivos
da certeza, que têm força de convicção análoga à dos tropos
relacionados pelos céticos, como razões especiais para a suspensão do
assentimento.221
Maia Neto (2007) identifica a posição cética do narrador machadiano ao
esquema conceitual dos céticos antigos, remodelado e transmitido, principalmente, através
de Montaigne e Pascal. As polêmicas sobre o critério da fé, o otimismo iluminista que
pretende conduzir o homem à verdade e a possibilidade de se vivenciar o ceticismo são
readequadas, progressivamente, à forma literária de romances e contos, de maneira a
problematizar questões de ordem antropológica, ética e epistemológica.
A perspectiva machadiana da vida social e do ser humano traz
elementos essenciais da antropologia pascaliana. Categorias básicas em
Pascal, tais como divertimento e agitação, iluminam o pessimismo
machadiano e estruturam o quadro no qual o homem de espírito
experimenta a crise cética. A solução machadiana para esta crise é,
como indicamos acima, original. Ao invés de, como Pascal e fideístas
do século XVII, executar o “salto da fé”, o personagem machadiano
assume uma atitude estético-cognitiva cética, deste modo alcançando a
tranquilidade pirrônica.222
Para este tipo de leitura, o texto literário não deve expressar apenas uma visão
de mundo (discernimento de temas e motivos), mas uma visão de outros textos e dos
221 NUNES. “Machado de Assis e a filosofia”, p. 139.
222 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 22.
111
procedimentos retóricos que regulam a permanência ou a modificação dos temas e dos
motivos. A metalinguagem é entendida como ampliação das possibilidades significativas da
obra machadiana, dados, por exemplo, em seu intenso diálogo com diversos sistemas
filosóficos.
Sílvia Azevedo propõe uma leitura filosófica estruturada no próprio texto
literário, entendendo que
é a noção de metalinguagem que possibilita compreender de que forma
se efetiva, no caso de Machado de Assis, o diálogo de filosofia com
literatura, a releitura, por sua vez, é o procedimento que capacita o
crítico a apreender o caráter metalinguístico da literatura
machadiana.223
Mais radical ainda é a metodologia adotada por Ivo Barbieri, que julga tais
questionamentos suficientes para revisarmos até aquelas referências originais:
Na leitura sincronizada de Pascal e Machado, não fixo as posições dos
dois autores; deixo-os frente a frente. E ora Pascal serve de fundo
iluminando a leitura do texto machadiano, ora Machado, como fundo
de contraste, ilumina a leitura do texto pascaliano.224
Segundo Barbieri, os narradores machadianos, especialmente Brás Cubas e Dom
Casmurro, distorcem propositalmente Pascal e atribuem, ao jansenista, teses impróprias. O
que era altamente filosófico e sério torna-se ridículo e engraçado quando assume a forma
ficcional. A metáfora da “errata pensante”, utilizada nas Memórias póstumas, por exemplo,
desarticula o dualismo equipolente expresso pela metáfora pascaliana do “caniço pensante”,
ora salientando apenas o aspecto negativo do ser humano, ora corrigindo o próprio dualismo
antropológico do jansenista.
E talvez seja nas urdiduras da fabulação e nas entrelinhas do discurso que a
recepção atue de modo mais persistente e consistente. Se esta hipótese for válida, então a
narrativa e o estilo realizariam de maneira enviesada e com mais eficácia a interlocução que
referências e alusões inscritas no registro da galhofa apenas iriam indicar e distorcer.
223 AZEVEDO. “Machado de Assis e a filosofia: modos de leitura”, p. 69.
224 BARBIERI, Ivo. “Pascal atravessado por um olhar oblíquo: o jeito machadiano de ler um clássico”. In:
MOREIRA, Maria Eunice (org.). Histórias da literatura: teorias, temas e autores. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 2003, p. 312.
112
Convém, por isso, estudar não só a herança filosófica dos Pensamentos que repercutem no
texto ficcional, mas também a produção de sentido decorrente das ações das personagens,
da intriga e articulações discursivas.225
Esse pequeno apanhado da crítica machadiana demonstra a recorrência da
relação entre Pascal e Machado de Assis. A diferença entre as metodologias também é
escolástica. Lúcia Miguel Pereira, Afrânio Coutinho e Miguel Reale fazem literatura
comparada e recorrem a dados biográficos para comprovar a filiação filosófica, ao passo que
Raymundo Faoro e Silviano Santiago recorrem ao contexto histórico-social para discriminar
o alcance da investigação machadiana. Roberto Schwarz e John Gledson buscam os vestígios
formais e textuais para negar qualquer atribuição de filosofia às instâncias ficcionais
machadianas. Benedito Nunes, Ivo Barbieri e Maia Neto adotam aquela precaução
estruturalista de bloquear a inferência direta entre o narrador (ou o sujeito das posições
filosóficas) e o autor do livro, o homem Machado de Assis. Compara-se antes o resultado da
escrita na forma de texto do que as intenções que o escritor tinha ao escrever.
Apesar de metodologias um tanto complexas, restam pouco esclarecidas pela
crítica as impressões da filosofia pascaliana sobre toda a obra de Machado de Assis, já que
a influência é notada a partir (ou tão somente) das Memórias póstumas. Em outro estudo,
argumentei que o conflito entre as interpretações da obra de Machado, em especial sobre
este romance seminal, é um dos modos pelos quais vigora o ceticismo aporético, que foi
desenvolvido, pelo menos, na fase romanesca de nosso autor.226
Alfredo Bosi realiza um esforço que simboliza esse aparente paradoxo ao tentar
recolher algum material que formasse a “genealogia do olhar machadiano”. A coletânea de
Bosi inclui trechos da Bíblia, de Maquiavel, La Rochefoucauld, Padre Bernardes, La
Bruyère, Vauvernagues, Helvétius, Pascal, Adam Smith, Matias Aires, Leopardi e
Schopenhauer. Apesar da aleatoriedade e de carecer de uma justificativa consistente para a
225 BARBIERI. “Pascal atravessado por um olhar oblíquo: o jeito machadiano de ler um clássico”, p 318. Essa
chave de leitura é utilizada por Silvia Azevedo para análise dos contos “A igreja do diabo”, “O sermão do
diabo” e “Adão e Eva”.
226 MARTINS, Alex Lara. Machado de Assis: o filósofo brasileiro. Porto Alegre: Editora Fi, 2017.
113
escolha dos trechos, Bosi afirma apresentar “fragmentos significativos, balizas de um
pensamento de que Machado nos deu uma singular e complexa variante”.227
No início deste capítulo, coletei indícios suficientes para mostrar que a geração
de Machado de Assis foi influenciada por Pascal. A seguir, pretendo demonstrar que a
influência de Pascal ocorreu desde a infância literária de Machado. O próprio contato com o
ecletismo espiritualista é bem anterior à gestação de seus romances capitais, tese essa
confirmada no epistolário. Essa influência não é apenas abstrata. A relação com o
pascalianismo serviu para a resolução de alguns problemas de cunho filosófico recorrentes
e interligados à vida social do século de Machado de Assis, tais como o dever de o artista
atuar politicamente, a possibilidade de se adotar uma moral cristã ao sul do equador, as
relações entre o ator religioso e o proselitismo político, bem como o famoso problema da
viabilidade prática do ceticismo.
Não posso deixar de mencionar que o presente estudo de fontes permite ir além
da comparação e da contagem de citações, alusões e transições de um a outro autor. A
filosofia de Pascal não é instrumental, não serve de fórmula para ornar personagem e
ambiente. Na verdade, são muitos os Pascais afluentes de Machado. Há o Pascal misantropo
de Voltaire. Há o jansenista romantizado por Chateaubriand, possuidor da combinação de
eloquência e progresso, combinação necessária para a teologia de artista. Há o Pascal
originalmente cético e pessimista descoberto por Cousin, cuja moral cristã supera o modo
de vida decadente dos contemporâneos. Há o moralista sutil, árbitro implacável de uma
sociedade viciada e que, apesar disso, possui uma antropologia consistente e universalista.
Talvez haja até o Pascal tardio, o Pascal estetizado do conselheiro Aires. As visadas
machadianas sobre Pascal movimentam-se, e estremecem e retiram o “freio da religião”, que
nas palavras de Chateaubriand, elevavam ao cume a antropologia do jansenista. Machado
retirou este freio ao responder com matizes a pergunta retórica de Chateaubriand: “no que
viria a parar esse grande homem, se não fosse cristão?”228
227 BOSI. Machado de Assis: um enigma do olhar, p. 169.
228 CHATEAUBRIAND. O génio do cristianismo, v. 2, p. 47.
114
Nos dois próximos capítulos pretendo promover, portanto, uma nova genealogia
do olhar machadiano sobre a obra de Pascal, tendo em vista a resolução daquelas questões
filosóficas relevantes.
115
CAPÍTULO 3 – A INFLUÊNCIA DO PASCALIANISMO NA JUVENTUDE DE
MACHADO DE ASSIS
Essa é uma tese de história da filosofia, restrição que nos força a circunscrever
um autor dentro de uma linhagem de pensamento. Porém, quando o objeto de estudo é
esponjoso e diáfano, as barreiras acadêmicas, às vezes, podem ser sutilmente alargadas. O
risco que vale a pena correr é o risco da interdisciplinaridade, a partir da qual se pode
reconstruir maiores fragmentos do objeto de estudo, muito embora a prática da ciência de
fronteiras possa significar, em sua visão em amplitude, a perda do foco descritivo. Também
é preciso considerar o risco de dizer tolices sobre coisas que escapam de nossa formação
acadêmica. Sem querer ser mais machadiano que o Machado, lembramos apenas que ele
mesmo empenhou bastante energia para superar as fronteiras escolásticas. E então passou a
ironizar tanto quem mamava o “leite romântico” quanto quem metia o dente no “rosbife
naturalista” (OC, IV, p. 883).
Até onde posso perceber, antes de encontrar a sua versão aceita e cabal (C, III,
336) e antes de conformar para a sua ficção um ponto de vista ironista consistente com o
ceticismo, Machado percorreu um caminho teórico cujos fios condutores se relacionam com
a filosofia pascaliana. Está claro que esse não é um caminho plano e linear, que o levaria do
pascalianismo na juventude até o antipascalianismo na maturidade. O caminho é irregular e
montanhoso, cujo ápice, o romance de virada Memórias póstumas de Brás Cubas, apresenta,
ao mesmo tempo, aspectos pascalianos e antipascalianos. É claro que esses aspectos podem
ainda ser encontrados em contos e romances posteriores, como demonstrado na interpretação
de Silviano Santiago, que relaciona a narrativa de Dom Casmurro à casuística atacada por
Pascal nas Provinciais.
Talvez a estratégia literária que implicou a modificação formal da perspectiva
do narrador não explique, por si mesma, as motivações teóricas, nem justifique, de todo, as
consequências antropológicas e epistemológicas que sua ficção passa a ensaiar. Por isso, ao
circunscrevê-lo nessa linhagem de pensamento, acabamos por oferecer, de modo colateral,
uma explicação alternativa para a própria virada literária. Sem perder de vista as explicações
sociológicas e formais para aquela virada, acompanhamos a seguir os primeiros passos de
Machado pela via pascaliana. No meio da discussão sobre o ecletismo brasileiro, do qual faz
116
parte a figura de Pascal reestabelecida por Cousin, é possível encontrar um jovem com sede
de nomeada literária, consciente das limitações materiais e espirituais por que passava o país,
mas relativamente otimista do seu futuro.
3.1 A teologia de artista e a teoria do progresso (1855-1860)
Permaneceu dos capítulos iniciais a proposição de que os jovens da geração de
1850 tinham boas condições de adquirir conhecimentos na área da filosofia. A seguir,
veremos que o aporte de capital inicial filosófico em Machado de Assis é bem anterior a
Memórias póstumas de Brás Cubas e não é resultado do simples autodidatismo. Esse capital
filosófico está ligado à tradição pascaliana, especialmente no que diz respeito à atenção ao
modo pelo qual é possível expressar o conteúdo teológico e tocar a sensibilidade do
descrente, mais do que convencê-lo racionalmente da verdade da doutrina.
Sabemos pouquíssimo sobre a primeira infância de Machado e de como lhe
foram transmitidas as letras; menos ainda, do tempo de adolescente, entre os anos 1850-
54.229 Contudo, as suas produções literárias, a partir de 1855, passam a revelar a consistência
das leituras e algumas influências intelectuais. Apesar da dificuldade de se realizar o referido
cruzamento de dados no decênio de 1850, pode-se inferir e conjecturar, tomando por base as
referências diretas e indiretas presentes no próprio texto. A crer na hipótese estabelecida no
primeiro capítulo, o método inferencial, mesmo que impreciso, estende-se aos grupos
literários aos quais o jovem pertenceu e através dos quais ele incorporou simbolicamente os
instrumentos de conhecimento, construindo então a sua visão de mundo.
No capítulo anterior, revelou-se, ainda, o modo pelo qual os intelectuais
brasileiros receberam a filosofia pascaliana. Na obra do Machadinho, até o início da década
de 1860, não há menção ou citação direta ao jansenista. Isso pode parecer decepcionante,
uma vez que esse estudo de fontes está mobilizado para estabelecer a relação entre a filosofia
de Pascal e o desenvolvimento da ficção de Machado. É de 1861 a edição dos Pensamentos
constante em sua biblioteca, e de 1866 a edição anotada por Voltaire presente no Gabinete
229 Ver MAGALHÃES JÚNIOR. Vida e obra de Machado de Assis, v. 1, p. 19-20; MASSA. A juventude de
Machado de Assis, p. 72-80.
117
Português de Leitura. Apesar disso, é improvável que ele não conhecesse, em linhas gerais,
o pensamento de Pascal. Importa lembrar que as obras do ecletismo francês eram a principal
fonte de conhecimento filosófico da época. Assim, a decepção em relação à falta de citações
diretas é mitigada pela transmissão indireta que as grandes obras do ecletismo espiritualista
realizaram da filosofia pascaliana.
O capítulo anterior tocou a concepção trágica da liberdade em Pascal, segundo a
qual foi o próprio homem, gozando de liberdade originária, quem voluntariamente se
corrompeu e se afastou da grandeza e do bem, em direção a seus opostos. O reconhecimento
da situação miserável não é condição suficiente para a libertação, escravos que ficamos das
lembranças do erro e da dignidade perdidas. O tema da liberdade foi exaustivamente
conceitualizado durante o século XIX. Os liberalismos de Constant e outros, levando a
questão para um ambiente político, provocaram a reação à interpretação jansenista-
agostiniana sobre o tema.230 O embate entre essas tradições produziu, de acordo com um
biógrafo, as três Bíblias da juventude de Machado de Assis: O gênio do cristianismo, de
François René de Chateaubriand, O mundo marcha, de Eugène Pelletan e os Sermões de
Monte Alverne.231
3.1.1 A Bíblia do romantismo
Numa crônica tardia, o próprio Machado nos revela parte importante de sua
educação, entre a igreja e a influência de Chateaubriand:
Eu fui criado com sinos, com estes pobres sinos das nossas igrejas.
Quando um dia li o capítulo dos sinos em Chateaubriand, tocaram-me
tanto as palavras daquele grande espírito, que me senti (desculpem-me
a expressão) um Chateaubriand desencarnado e reencarnado (OC, IV,
p. 840).
230 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 25.
231 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 181 e 210ss. Acrescente-se à lista o livro de Lamartine
História da Restauração, do qual foram traduzidos por Machado de Assis alguns capítulos que versam
sobre a filosofia de Chateaubriand. Tradução disponível em MASSA, Jean-Michel. Dispersos de Machado
de Assis. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1965, p. 3746.
118
Essa crônica foi publicada em 3 de julho de 1892 na Gazeta de Notícias. O
capítulo “Dos sinos” de O gênio do cristianismo, a que Machado se refere, revela a
sensibilidade dos cristãos numa época em que o ritmo da vida era compassado pelos sinos
da igreja. A tese geral de Chateaubriand era que o progresso intelectual e material da Europa
fora obra do cristianismo. A defesa da tradição cristã foi providencial contra os ataques que
vinha sofrendo desde antes da Revolução Francesa por intelectuais como Voltaire.
Dever-se-ia, pois, curar e provar que, pelo contrário, de quantas
religiões existentes, a cristã é a mais poética, a mais humana e favorável
à liberdade, às letras, e às artes; que o moderno mundo tudo lhe deve,
desde a agricultura até às ciências abstractas, desde os hospícios de
desgraçados até aos templos edificados por Miguel Ângelo, e
opulentados pelo gênio de Rafael. Dever-se-ia mostrar que a sua moral
é o que há de mais divino; e seus dogmas, doutrina e culto o que há de
mais pomposo e amável. Dever-se-ia dizer que ela instiga o génio,
aperfeiçoa o gosto, germina e desenvolve as paixões honestas, vigoriza
o pensamento, ocorre ao escritor com modelos novos, e com perfeitos
moldes ao artista; que não é vergonhoso crer com Newton e Bossuet,
Pascal e Racine.232
Chateaubriand quer provar a superioridade – quem sabe, a verdade – do
cristianismo recorrendo a sua tradição multicultural. Essa espécie de prova tem lugar na
ideologia tradicionalista, que reduz a discussão de uma razão universal para o âmbito local
das nacionalidades, dando primazia às instituições intermediárias que assentam as relações
entre o Estado e o indivíduo. No caso, a Igreja católica, por sua força social, política e moral
deve estabelecer e proteger as liberdades daquele agrupamento, por exemplo, disseminando
a teologia do pecado original e da concessão divina do livre-arbítrio. 233 O despudor
romântico e ecletista de Chateaubriand o levou a reunir obras díspares sob o rótulo único de
“poética do cristianismo”. Para combater hereges, sofistas e zombeteiros da religião, o
apologista se utilizava do método de exposição pascaliano que não exigia das coisas da
religião a mesma ordem de provas demonstrativas que a ciência exige da razão. O apologista
232 CHATEAUBRIAND. O gênio do cristianismo, p. 12-13. A lembrança do capítulo de Chateaubriand sobre
os sinos é evocada ainda nas crônicas de 6 de novembro 1892, 5 de janeiro de 1896 e de 30 de setembro de
1894. Para este estudo, consultamos também a seguinte edição: CHATEAUBRIAND. Francois-Auguste.
Génie du christianisme, ou Beaute's de la religion chrétienne. Paris: Chez Migneret, imprimeur, 1802.
Disponível em: . Acesso: 24 abr. 2015.
233 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 50ss.
119
deveria sensibilizar o coração que sente a Deus para que o espírito esteja em boas condições
para aceitá-lo. Essas e outras teses de Chateaubriand podem ser encontradas em Pascal.234
Há bastante nostalgia em lembrar do tempo em que as ruas se iluminavam a gás.
Escrevendo já na virada do século, o sentido laico das alusões à cristandade juvenil é apenas
um entre os diversos sentidos de religiosidade. Comparado ao espírita, ao brâmane e ao
pagão, o cristão é colocado como termo de equipolência para o cronista, segundo o qual há
“coisas na vida que é mais acertado crer que desmentir; e quem não puder crer, que se cale”
(OC, IV, p. 841). Assim é que, naquele mesmo periódico, Machado relembra a infância e os
tais sinos: “Nós mamamos ao som dos sinos, e somos desmamados com eles; uma igreja
sem sino é, por assim dizer, uma boca sem fala” (OC, IV, p. 871). Machado adere à tese de
Chateaubriand, segundo a qual “se os sinos estivessem adjuntos a quaisquer monumentos
que não fossem igrejas, teriam perdido a simpatia moral de nossos corações”.235
Católico como seus pais, talvez o menino tivesse exercido a função de coroinha
na igreja de Nossa Senhora da Lampadosa. Certo é que conviveu e recebeu ensinamentos na
sacristia, familiarizando-se com as escrituras. Os seus primeiros poemas apresentam um
conjunto de escrúpulos cristãos, como a criação de um ambiente de agonia, a crença na
existência da alma e do paraíso, o recurso à escatologia, o elogio à cultura cristã, o
pessimismo diante da fraqueza humana numa sociedade devassada moralmente e a constante
ideia da redenção no salvador.
A experiência das mortes da irmã, do pai e, sobretudo, da mãe convulsionaram
a visão de mundo algo byroniana do adolescente. Daí não estranhar a sua insistente posição
de protetor dos jovens poetas paulistas. Os primeiros experimentos artísticos em verso
lembram a ausência da figura da mãe e a vontade de juntar-se a ela no paraíso celestial. São
exemplos as poesias “O meu viver”, “Saudades”, “Lágrimas”, “Um anjo” e “Minha mãe”,
todas composições de 1856. Se essas poesias eram tão malfeitas que não pudessem participar
234 Ver, por exemplo, a carta XI de PASCAL, Blaise. As Provinciais: ou cartas escritas por Louis de Montalte
a um provincial seu amigo e aos reverendos padres jesuítas sobre a moral e a política desses padres.
Tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Filocalia, 2016. Machado também possuía um exemplar das
Lettres écrites à um provincial. Paris: Garnier, 1869. Na Biblioteca, documento 509.
235 CHATEAUBRIAND. O génio do cristianismo, v. 2, p. 120.
120
de seu primeiro livro,236 por outro lado, as poesias de Crisálidas guardavam a antropologia
cristã e o dualismo que culpa os prazeres do corpo pelos desvios da alma:
Pouco antes, a candura, / Co’as brancas asas abertas, / Em um berço de
ventura / A criança acalentava / Na santa paz do Senhor; / Para acordá-
la era cedo, / E a pobre ainda dormia / Naquele mudo segredo / Que só
abre o seio um dia / Para dar entrada a amor. [...]
Criança, verás o engano / E o erro dos sonhos teus; / E dirás, – então já
tarde, – / Que por tais gozos não vale / Deixar os braços de Deus (OC,
III, p. 387-388).
O mundo canta uma melodia da sedução. O cristianismo é verdadeiro, de acordo
com Pascal, pois é a “única religião contrária à natureza, contrária ao senso comum e aos
nossos prazeres” (La 284 Br 605). Dito de outro modo, ela é a única que “nos ensina que há
no homem um grande princípio de grandeza e um grande princípio de miséria” (La 149 Br
430). Dissemos no capítulo anterior que esse dispositivo da exclusividade mereceu os
protestos de Voltaire. Para o iluminista, era Pascal quem escrevia “contra a natureza
humana” e contra os ensinamentos do cristianismo, quais sejam, a “simplicidade, a
humanidade e a caridade”.237 Chateaubriand defendeu Pascal, alçando-o à posição de “gênio
assombroso” da filosofia cristã.238 Por parte de Machado, a franca expressão da religiosidade
culminava no desejo de morte, não uma morte heroica, de outro modo, uma morte cristã e
libertadora.
Chama-se a vida um martírio certo / Em que a alma vive se morrer não
pode, / É crer que há vida p’ra o arbusto seco, / Que as folhas todas para
o chão sacode. [...] / Quero despirme desta vida má, / Quero ir viver
com minha mãe nos céus, / Quero ir cantar os meus amores todos, /
Quero depois em ti pensar, meu Deus! (OC, III, p. 689)
A biblioteca de Machado possui traduções para o português (doc. 69) e francês
(doc. 55) das Confissões e dois livros de Chateaubriand (doc. 562 e doc. 563), incluindo Le
236 O pesquisador Wilton Marques encontrou recentemente anúncios de jornais que mostram a intenção do
Machadinho de publicar um livro de poesias denominado “Livro dos vinte anos”. Os anúncios estão no
Correio Mercantil (20 de agosto de 1858 e 19 de janeiro de 1860) e no Correio da Tarde (20 de fevereiro
de 1860).
237 VOLTAIRE. Lettres philosophiques, Disponível na Wikisource, em: . Acesso em
10 fev. 2017.
238 CHATEAUBRIAND, François René. O gênio do cristianismo. 2 v. Tradução de Camilo Castelo Branco,
Rio de Janeiro: W.M. Jackson, 1952, v. 2, p. 45.
121
Génie. A apologia de Chateaubriand é sabidamente agostiniana, por exemplo, nas discussões
sobre a queda como chave de interpretação do destino do homem, a presença de Deus na
exuberância da natureza e a superioridade da moral cristã. Para o filósofo, os benefícios das
ciências empíricas e a investigação sobre a natureza humana deveriam se associar a uma
finalidade metafísica, que alcançasse a divindade por meio de uma poética específica, o que
estamos denominando de “teologia de artista”.239
Num ensaio de setembro de 1856, Machado confunde a tradição agostiniana com
o mito sebastianista, tão importante no imaginário português e brasileiro dos séculos XVI e
XVII:
Se não tivera de escrever as minhas ideias tão rapidamente, eu evocaria
as veneráveis sombras daqueles mártires da Idade Média, mártires pela
fé, e pelo dogma, cuja história tão sanguinolenta foi cantada pelo
imortal Chateaubriand. Evocaria, porque vou falar de um homem tão
crente, tão resignado, tão virtuoso, como os ilustres batalhadores
cruzados que nas épocas calamitosas da Cristandade deram seu sangue
a prol da religião (OC, III, p. 979).
Os partidários do bem possuem o coração convicto da fé e cheio das virtudes
cristãs. A moralidade regrada por dogmas seria superior ao relativismo pagão, interesseiro e
opiniático. Ao contrário deste, “no mundo religioso, há só um ponto fixo [...] à roda do qual
se volvem todas as ideias; esse ponto é sublime, e se se falar dele com a mais simples
linguagem, isso mesmo será eloquente” (OC, III, p. 980). Essa passagem é fundamental para
assinalar a reviravolta na visão de mundo de Machado nas Memórias Póstumas, onde diz,
citando Montaigne, que não há nada de fixo no mundo como as ideias fixas. No último
capítulo, retomamos o contraste entre as duas passagens para corroborar a tese da
descristianização. Por ora basta notar que a exigência de um ponto fixo é decorrente da
medicina moralista de dissecar o ser humano e encontrar um organismo movediço, que “não
é anjo nem besta”, mas cheio de contrariedades, desde que “quem quer se mostrar anjo se
mostre besta” (La 678 Br 358). Pascal retira essa interpretação contrariedade fundamental
humana dos escritos Montaigne, segundo o qual “as pessoas obcecadas pela ideia de separar
239 CHATEAUBRIAND. O gênio do cristianismo, v. 2, p. 38. O próprio Chateaubriand pretende recuperar o
estilo do século de Luís XIV, do qual Pascal é o principal representante (CHATEAUBRIAND. O gênio do
cristianismo, v. 2, p. 43, n. 9).
122
o corpo do espírito, de se tornarem diferentes e de deixar de ser homens não passam de
loucos; não se transformam em anjos e sim em feras [bestes]; em lugar de se elevarem,
abaixam-se [s’abattent]”.240 O movimento de um barco à deriva só pode ser notado por quem
está imóvel em terra (La 697, 699 Br 382, 383). Do mesmo modo, existe uma perspectiva
correta, nem longe nem perto demais, “um ponto indivisível que é o verdadeiro lugar” (La
22 Br 381) para julgar uma pintura. No âmbito moral, quem indica o ponto fixo é Jesus
Cristo, imagem da condição humana, captada por apologistas como o próprio Pascal,
Bossuet, Chateaubriand e Monte Alverne.
Nessas poesias da juventude, a liberdade está circunscrita ao dogma do pecado
original, que fez padecer de maldade o ser humano, mas cujo remédio depende da Graça. A
religiosidade não se separava do fazer artístico. Isso porque a imagem poética era
considerada a expressão que persuadia o coração, tal como a poesia “Reflexo” anuncia (OC,
III, p. 706).241 Através dessa combinação, o Machadinho talvez alcançasse um modo de
sublimar a angústia e as demais emoções juvenis, como a saudade, sentimento que dá título
a nada menos do que quatro poesias. Mais importante do que uma sensação pessoal, interesse
de biógrafos, a poesia religiosa era uma forma de transcender as disputas humanas e de
comungar uma verdade superior. Tome-se de exemplo o poema “Consummatum est!”,
publicado em março de 1856, com a epígrafe de João de Lemos: “Povos, curvai-vos / A
redenção do mundo consumou-se”. Trata-se de uma exortação a Cristo como forma de
redenção humana:
De Cristo os martírios, a dor tão intensa, / De santa humildade, são
provas fieis, / E as gotas de sangue, as bases da crença, / Da crença que
fala nos povos, nos reis! (OC, III, 693)
Com efeito, diz-nos Pascal, “a fé cristã não visa, principalmente, senão a
estabelecer estas duas coisas: a corrupção da natureza e a redenção de Jesus Cristo” (La 427
Br 194).196 Nesse jogo de contradições e simetrias, a baixeza de Cristo é a prova inconteste
de sua grandeza. O mesmo tema é explorado, sem prejuízo da retórica antitética, nas poesias
“O Profeta”, “Deus em ti” e “A um poeta”, no longo poema “A redenção”, nos versos de
“Fascinação” e “Ícaro”:
240 MONTAIGNE. Os ensaios. v. III, 13, p. 388.
241 Ver, como termo de comparação, o fragmento “O mistério de Jesus” (La 919 Br 553).
123
[...] Aspira para o infinito; / Pede tudo e tudo quer! /
É ambição desmedida? / Prevejo tal pensamento: / A inclinação de um
momento / Não me dá direito a mais. / A chama ainda indecisa / Uma
hora alimentaste, / E agora que recuaste / Quebras os laços fatais. / [...]
Alma de fogo encerrada / Em livre, em audaz cabeça, / Não pode crer
na promessa /Que os olhos, que os olhos dão! / Talvez levada de
orgulho / Com este amor insensato / Quer a verdade do fato / Para dá-
la ao coração.
E sabes o que eu te dera? / Nem tu calculas o preço... / Olha bem se te
mereço / Mais que um só olhar dos teus: / Dera-te todo um futuro /
Quebrado a teus pés, quebrado, / Como um mundo derrocado / Caído
das mãos de Deus! (OC, III, p. 744-745)
Ícaro é a representação do homem pascaliano: as asas o diferenciam dos animais
terrestres, mas elas não são suficientes para equipará-lo aos deuses. Deslumbrado com a
imagem do sol, o homem alado esquece que a sua natureza lhe permite apenas um voo médio,
equidistante das bestas e do firmamento. A ambição desmedida, a concupiscência, o vasto
querer e a aspiração para o infinito também compunham a antropologia negativa de Pascal:
o amor-próprio e a suposição de grandeza devem ser reconhecidos e destruídos em favor da
autonomia do sujeito.
Cristo é a exceção. Voltado para si, considerado em comparação ao que existe,
entre o ínfimo espaço de um átomo e a grandeza do universo, o homem pascaliano vacila
“entre esses dois abismos do infinito e do nada” (La 199 Br 72). O desejo de glória faz o
homem praticar ações miseráveis. Essas mesmas contradições são tema de um poema de
1858:
Dormi ébrio no seio do infinito / Ao fogo da ilusão que me consome; /
A lira tateei na treva... embalde! / Nem uma palma coroou meu nome!
Os meus cantos morrerão no deserto, / Quebrou-me as notas um noturno
vento, / E o nome que eu quisera erguer tão alto / No abismo há de cair
do esquecimento.
Sou bem moço, e talvez uma esperança / Pudesse ainda me despir do
lodo; / E ao sol ardente de um porvir de glórias / Engrandecer, purificar-
me todo.
Talvez, mas esta sede era tamanha! / E agora o desespero entrou-me
n’alma; / A brisa de verão queimou-me passando / A jovem rama da
nascente palma!
124
E esse nome, esse nome que eu quisera / Erguer como um troféu,
tornou-se em cruz; / Não cabe aqui, senhora, em vosso livro. / Pobre
como é de glórias e de luz.
Mas se não tem as palmas que esperava. / Filho da sombra, em jogo de
ilusões./ Vossa bondade, a unção das almas puras, / Há de dar-lhe a
palavra dos perdões! (OC, III, p. 737-738)
As vantagens de se reconhecer a verdade do cristianismo estão para lá de se ter
a imagem mais correta do ser humano. O reflexo da miséria humana, da qual Cristo redime,
é a disposição contrária, a grandeza, que o permite ultrapassar-se infinitamente (La 149 Br
430). Esse era o reflexo humano de luz e de positividade ignorado por Voltaire, redescoberto
por Chateaubriand e conquistado por Machado: o “jogo de ilusões” não é vencido por quem
conquista a glória, mas por quem se liberta das mundanidades, conhece e perdoa a miséria
humana, apesar de tudo.
As diretivas para as ações do verdadeiro cristão no mundo são assim resumidas
por Erich Auerbach:
Por um lado, devia libertar-se dele e, por outro, submeter-se a ele – a
libertação devendo realizar-se num sentido interior, e a submissão, num
sentido exterior. Quem pudesse libertar-se exteriormente, isto é,
entrando para a vida monástica, que o fizesse. Mas aqui, como em todas
as coisas, um cristão deveria seguir a vontade de Deus mais do que a
sua própria [...]. Quanto à submissão, ela consiste em reconhecer as
instituições, particularmente as instituições políticas e sociais deste
mundo, obedecer aos poderes seculares e servi-los de acordo com a
posição de cada um; pois embora o mundo tenha sucumbido à
concupiscentia e seja, portanto, mau, o cristão não tem o direito de
condená-lo, já que ele próprio está no mesmo estado de pecado e que o
mal deste mundo é a justa punição e a justa penitência determinadas por
Deus ao homem caído.242
As diferenças encontradas entre o contexto de disputas teológicas e políticas nas
quais o jansenismo se envolveu, o contexto da libertinagem, do caos revolucionário e da
dessacralização de mundo à época de Chateaubriand e o contexto de esperanças liberais após
a Primavera dos Povos vivenciado por Machado são ilustradas pelo grau de engajamento de
cada um na militância religiosa e política. Pascal viveu a escalada do Absolutismo, do qual
242 AUERBACH, Erich. “O triunfo do mal: ensaio sobre a teoria política de Pascal”. In: _____. Ensaios de
literatura Ocidental. Trad. Samuel Titan Jr. E José Marcos de Macedo. São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34,
2007, p. 173.
125
parecia emanar toda arbitrariedade da lei e da força. “A opinião é a rainha do mundo”, diz
ele, desde que o seu reinado se sustente pela força (La 44 Br 82; La 554 Br 303). A força é
indisputável e amplamente reconhecida. Mas, sozinha, a força é tirânica. A justiça varia
conforme o capricho das leis e do costume. Sozinha, ela é impotente. O melhor dos mundos
reuniria força e justiça (La 103 Br 298). A instituição de Pedro é uma boa candidata. Mas
enquanto o mal triunfasse dentro da igreja, a única posição legítima e justa consistia em dar
um passo atrás e encontrar a razão da efeméride humana – da queda ao sacrifício de Cristo
–, desmascarando toda a arbitrariedade da lei terrena.243
Entre o reino da força material e o reino de Deus era preciso delimitar o reino do
pensamento. Assim o fez Chateaubriand ao descrever as obras do gênio cristão. Que não se
julgasse mal a cruzada, a inquisição e as missões no novo mundo. Nada disso diminuía os
benefícios do cristianismo. Porque se fazia necessário contornar o despotismo e o caos
revolucionário, flagrados no feitio de Napoleão Bonaparte. Num contexto de estabilidade do
cristianismo, o jovem Machado de Assis não cuidou propriamente de defender o catolicismo
nem de atacar as posições a ele contrárias. Diferente de Pascal, que viveu no mundo como
que por nojo (daí a sua situação trágica), e de Chateaubriand, que se satisfez em contemplar
os triunfos de sua religião como que por desdém, Machado alimentará, por um par de anos,
a esperança na militância religiosa como maneira de modificar o mundo.
3.1.2 A Bíblia do progresso
O filósofo de Port-Royal conservou a visão depreciativa da realidade humana,
das instituições sociais, políticas e eclesiásticas. A prescrição trágica do jansenista consistia,
primeiramente, em autoanálise facilitada pelo afastamento do mundo e pela reclusão
espiritual. Em seguida ao reconhecimento da miséria pessoal, o homem deveria vivenciar
outros homens e outras misérias, até que a graça o libertasse. Diferentemente, a visão de
mundo tradicionalista de Chateaubriand percebia força suficiente na instituição religiosa que
243 AUERBACH. “O triunfo do mal: ensaio sobre a teoria política de Pascal”, p. 175. “Se a Deus, o evangelho
é a regra; se a vós mesmos, tomareis o lugar de Deus. Como Deus se acha rodeado de indivíduos cheios de
caridade que lhe pedem os bens da caridade em seu poder, assim... Conhecei-vos, portanto, e tendes ciência
de que não sois senão um rei de concupiscência, e segui os caminhos da concupiscência” (La 796, Br 314).
126
fizesse valer a coesão de um agrupamento social, parcialmente desintegrado por ideias e
práticas iluministas. O ecletismo emergente no Brasil proporcionaria a Machado de Assis
uma alternativa ao “salto da fé” pascaliano e à ideologia conservadora de Chateaubriand. De
modo que se conciliassem o cristianismo e a missão liberal para melhorias e reformas sociais,
institucionais, políticas e culturais.
O engajamento político de Machado apresenta seus sinais a partir de 1858.244
Chama a atenção um poema publicado durante a semana santa deste ano, “A morte no
Calvário”, dedicado ao seu primeiro orientador intelectual, o padre-mestre Antônio José da
Silveira Sarmento, em que se fundem os procedimentos políticos e os anseios religiosos:
[...] sim, é a hora. A humanidade espera / Entre as trevas da morte e a
eterna luz. / Não é a redenção uma quimera, / Ei-la simbolizada nessa
cruz! / [...]
Povos! realizou-se a liberdade, / E toda consumou-se a redenção! /
Curvai-vos ante o sol da Cristandade / E as plantas osculai do novo
Adão! (OC, III, p. 709).
Além do evangelho e de alguma teologia, o padre Sarmento pode ter lhe
ensinado o básico de latim através dos clássicos – Consummatum est! Certo é que a maior
parte de seu conhecimento sobre a literatura latina derivou de traduções para o francês e para
o vernáculo, especialmente as traduções de Odorico Mendes, Filinto e Castilho. Há que se
lembrar a participação de Machado na Arcádia Fluminense, durante a década de 1870, cujos
membros eram arcades omnes, todos árcades. Em versos, é ao censor romano Catão a
primeira citação direta a um personagem do universo latino. Já aos dezesseis anos, Machado
antecipa a profissão de fé liberal da próxima década, pelo que carrega na tinta todo seu
patriotismo, no poema “Minha Musa”: “A musa que inspira meus cantos é livre / Detesta os
preceitos da vil opressão / O ardor, a coragem do herói do Tibre, / Na lira engrandece,
dizendo: – Catão!” (OC, III, p. 691).
Estaria o padre-mestre recomendado a leitura de Plutarco ou lecionando o
vernáculo a partir da edição francesa de Vidas Paralelas? Ou seria a partir de uma edição
latina? Na biblioteca de Machado de Assis há dois volumes da Moralia de Plutarco, em
tradução francesa, além dos dois primeiros volumes de Les vies des hommes illustres,
244 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 204.
127
incluindo aí a biografia comparada de Catão e do grego Aristides. De acordo com o estudo
realizado por Glória Vianna, estes últimos volumes não possuem selo de importação e estão
entre os livros mais manuseados da coleção.245 Isso pode indicar que a fonte mais antiga do
mundo greco-romano fosse o cético acadêmico Plutarco.
Uma referência intelectual importante dessa época é Eugène Pelletan, autor de
Le monde marche (1857), considerado por Machadinho “um livro de ouro, que tornou-se o
Evangelho de uma religião” (OC, III, 991). Segundo Jean-Michel Massa, a revelação de um
Deus do progresso seduziu Machado e lhe abriu novas perspectivas, especialmente no campo
da filosofia das religiões. 246 O livro de Pelletan tratava de conciliar o programa
desenvolvimentista do Século das Luzes, em pleno vigor nas economias mais avançadas,
com os dogmas da tradição cristã. Pascal encabeçou a lista de filósofos que pregavam o
dogma da perfectibilidade humana, seguido por pensadores benquistos entre os ecléticos,
como Chateaubriand e Jouffroy.247 Essa interpretação otimista de Pascal é aceitável na
medida em que ele figurava como um herói da ciência e do progresso.
A tese central do livro de Pelletan é que a história da humanidade acompanha
uma lei divina, a saber, a lei do progresso contínuo:
Cada movimento do ser operado na criação, pela lei da criação, tem seu
polo, seu fim. Este polo, este fim é Deus, é o infinito. A vida universal
[...] tende constantemente a Deus, em virtude de sua inspiração divina,
e constantemente a ele remonta pela infatigável espiral e inesgotável
circunvolução do progresso. [...] Quem diz progresso diz movimento
de Deus.248
245 VIANA. “Revendo a biblioteca de Machado de Assis”, p. 153-154. A referência bibliográfica é:
PLUTARQUE. Les vies d’hommes ilustres, v. I e II. trad. franç. Dominique Ricard. Paris: Adolplhe
Delahays, 1836. Catálogo da Biblioteca: 40 a 43.
246 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 211.
247 PELLETAN, Eugène. Cartas a Lamartine – O mundo marcha. Traduzido por S. P. Nolasco. São Luis: Typ.
B. de Mattos, 1866, p. 7. Sobre Pascal, Pelletan acrescenta o seguinte relato: “Pobre gênio perturbado,
lançado bruscamente à entrada do porvir, ele o experimentou como um sentimento de terror. Guardou toda
a sua vida a majestosa melancolia da aurora de Miguel-Ângelo. A natureza o tinha feito profeta. Afundou
primeiro sua longa vista no mundo do progresso; mas, depois de haver entrevista a luz, reentrou na noite
da idade média, com um grito de desespero. Não importa, não deixou de ser o primeiro a rasgar o véu do
santuário” (p. 110).
248 PELLETAN. Cartas a Lamartine – O mundo marcha, p. 184.
128
A leitura da segunda Bíblia e a descoberta de um Deus do progresso devem ter
ocorrido no final de 1858, quando o escritor-profeta passou a ter a missão gloriosa, cuja
profissão de fé anunciava-se em “Esperança” e “A missão do poeta”. No mesmo ano,
Machado escreveu “O progresso”, com a seguinte dedicatória: “hino da mocidade, ao St. E.
Pelletan, Eppur si muove”.249 A geração de Machado se moveu nesse processo de grandes
transformações culturais, orbitando ao redor do pensamento liberal e do espírito progressista
de sua época: “Fala mais alto, irmãos, a ardente humanidade! / Marchando a realizar uma
missão moral; / pregando uma lei, uma eterna verdade, / Do progresso subir a mágica espiral”
(OC, III, p. 714).
A tese de que o espírito humano tende à perfectibilidade é novamente defendida
no ensaio “O jornal e o livro”. A diferença entre escrever poesia e escrever um artigo de
jornal não é apenas formal. É que a poesia e a política são “duas faces bem distintas da
sociedade civilizada” (OC, III, p. 987). A poesia do Machadinho insinua-se como teologia
de artista, como se lhe fosse determinado recuperar e reviver o mito cristão, desde o
sofrimento até as boas novas:
Mas é tua missão... Do pesadelo / Hás de acordar radiante de alegria! /
Deus pôs na lira do infortúneo o selo, / Mas há de dar-lhe muita glória,
um dia! / É forçoso sofrer... Deus no futuro / Guarda-te a c’roa de uma
glória santa, / Vem sonhar, este céu é calmo e puro! Vem, é tua
missão!... Ergue-te e canta! (OC, III, p. 713)
O substrato religioso é tragado no peito do artista e expelido através de uma
linguagem própria, poética, capaz de decifrar os enigmas do mundo e da vida. Apesar disso,
num mundo sacralizado, o instinto estético está desclassificado pelo saber racional, daí que
a missão do poeta de decifrar o mundo e converter as almas é também a missão política de
compreender as relações de produção e libertar as massas para o progresso. Afinal, a poesia
era um “dom onipotente”. O teatro, nem tanto. O jornal, quase nada. A premissa que restava
escondida, descoberta com a bíblia de Pelletan, era que a missão do jornalista coincidia com
a última volta da roda do progresso. A tarefa do jornal era determinada pelas novas leis de
249 Move-se, no entanto – resposta irônica atribuída a Galileu durante processo no tribunal do Santo Ofício, por
sua defesa herege do heliocentrismo.
129
mercado, segundo o princípio da livre iniciativa, da liberdade de troca e da balança invisível
entre oferta e demanda:
o desenvolvimento do crédito quer o desenvolvimento do jornalismo,
porque o jornalismo não é senão um grande banco intelectual, grande
monetização da ideia, como diz um escritor moderno (OC, III, p.
995).250
A originalidade desse artigo consistiu em testar a hipótese ao caso local. Esse
artigo (jan. 1859) compunha o desenvolvimento de uma tese, juntamente com artigo “A
odisseia econômica do Sr. Ministro da Fazenda” (jun. 1859), a série Aquarelas (set. e out.
1859) e “A reforma pelo jornal” (out. 1859). A questão de fundo era saber se nosso espírito
estava no mesmo compasso do espírito europeu, melhor dissera se estávamos em condições
de compartilhar e usufruir dos resultados da civilização. Antes era preciso responder outra
questão: seria o jornal a manifestação do espírito livre e republicano, superior ao livro?
Tudo se regenera: tudo toma uma nova face. O jornal é um sintoma, um
exemplo desta regeneração. A humanidade, como o vulcão, rebenta
uma nova cratera quando mais fogo lhe ferve no centro. A literatura
tinha acaso nos moldes conhecidos em que preenchesse o fim do
pensamento humano? Não; nenhum era vasto como o jornal, nenhum
liberal, nenhum democrático, como ele. Foi a nova cratera do vulcão
(OC, III, p. 991-992).
O jornal parecia mais perfeito às exigências do pensamento contemporâneo. Ele
era o meio adequado de propagar ideias ao público em geral, pois propiciava a tomada de
consciência das massas populares em relação a sua importância no firmamento do pacto
social. E mais: o jornalismo era imprescindível para formação de uma república das letras,
não mais pautada pelo favor nem pelo mecenato de salão, mas pela liberdade de expressão
e pelo talento individual.
O jornal representava a nova revolução “do espírito humano sobre as fórmulas
existentes do mundo social, do mundo literário e do mundo econômico”. Machado
completava esse raciocínio renegando parte de suas recentes utopias, isto é, “ideias muito
metafísicas e vaporosas em um artigo publicado há tempos” (OC, III, p. 994). A referência
250 Artigo O jornal e o livro II. Publicado originalmente em Correio Mercantil, 12 jan. 1859. É provável que a
referência seja a John Law (1671-1729), economista escocês e teórico do sistema bancário moderno. Alguns
meses depois, em uma polêmica contra o ministro da fazenda, Machado citará Law diretamente.
130
deve ser ao artigo publicado no ano anterior, “O passado, o presente e o futuro da literatura”,
em que se defendia a tese chateaubriandiana do aperfeiçoamento espiritual da sociedade
moderna via moral cristã:
A sociedade atual não é decerto compassiva, não acolhe o talento como
deve fazê-lo. Compreendam-nos! nós não somos inimigos encarniçados
do progresso material. Chateaubriand o disse: “Quando se aperfeiçoar
o vapor, quando unido ao telégrafo tiver feito desaparecer as distâncias,
não hão de ser só as mercadorias que hão de viajar de um lado a outro
do globo, com a rapidez do relâmpago; hão de ser também as ideias”.
Este pensamento daquele restaurador do cristianismo – é justamente o
nosso; – nem é o desenvolvimento material que acusamos e atacamos.
O que nós queremos, o que querem todas as vocações, todos os talentos
da atualidade literária, é que a sociedade não se lance exclusivamente
na realização desse progresso material, magnífico pretexto de
especulação, para certos espíritos positivos que se alentam no fluxo e
refluxo das operações monetárias. O predomínio exclusivo dessa
realeza parva, legitimidade fundada numa letra de câmbio, é fatal, bem
fatal às inteligências; o talento pede e tem também direito aos olhares
piedosos da sociedade moderna: negar-lhos é matar-lhe todas as
aspirações, é nulificar-lhe todos os esforços aplicados na realização das
ideias mais generosas, dos princípios mais salutares, e dos germens
mais fecundos do progresso e da civilização (OC, III, p. 989).
Então militante de oposição, Machado de Assis manifesta seu engajamento em
crônica de junho de 1859. Embora não dispusesse de argumentos técnicos, ele já dominava
a retórica da zombaria ad hominem, mobilizando-a contra um projeto econômico do Ministro
da Fazenda.251 Sales Torres Homem havia sido um publicista do liberalismo, tendo criticado
duramente a política econômica do jovem Pedro II. Convertido ao conservadorismo, o então
ministro adotou medidas de contenção do crédito e dos juros, ferindo a primeira lei da
sociabilidade, qual seja, da “necessidade de troca”, nos termos de John Law, ou a lei da
“necessidade pública”, nos termos do Machadinho.
251 MACHADO DE ASSIS. “Odisseia econômica do Sr. ministro da fazenda”. Publicado originalmente em O
Parahyba. n. 58. Petrópolis, RJ. 26 jun. 1859, fl. 2. Texto não incluído nas Obras Completas. Disponível
em: . Acesso em 01 nov. 2016. Ver MASSA. A juventude
de Machado de Assis, p. 233. De acordo com informação do professor Alex Sander Campos, esse texto só
saiu em livro em 2014: MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Textos inéditos em livro. Org. de Mauro
Rosso. Rio de Janeiro: ABL, 2014. p. 17-19.
131
A guinada progressista no final da década de 1850 teve como eixo a influência
de Charles Ribeyrolles, jornalista proscrito francês, republicano feroz e polemista de
primeira ordem. Ele veio ao Brasil incumbido de escrever o texto francês para o livro
bilíngue do fotógrafo Victor Frond, O Brasil Pitoresco. Machado de Assis foi um dos
tradutores do livro e deve ter acompanhado de perto a estada de Ribeyrolles.252 O breve
contato com o liberal francês foi suficiente para provocar grande euforia no círculo de
amizade de Machado de Assis. Referências como Pelletan foram descobertas, outras, como
Alverne, reavaliadas. O jovem tinha a oportunidade de frequentar o ambiente francófono do
Rio de Janeiro, por exemplo, numa roda de amigos por ocasião do nascimento do filho de
Victor Frond, em janeiro de 1859. Reuniram-se ali diversos estrangeiros, entre os quais o
livreiro Baptiste Garnier. Magalhães Júnior afirma que Machado era o único brasileiro
presente entre esses franceses quarante-huitards, um grupo de resistência ao bonapartismo
que sonhava instaurar uma república democrática de todos os povos europeus. 253 Esse
mesmo grupo fundara a Sociedade Francesa de Socorros Mútuos e estava à frente do
Courrier du Brésil. Em homenagem ao rebento do compatriota Victor Frond, Ribeyrolles
improvisara versos que foram imediatamente traduzidos por Machado e publicados
posteriormente no Courrier: “[É] o beijo das mães, entre nós... o batismo, / Esse amoroso
olhar que nos embala então! / Nós não temos por dogma a fé do barbarismo / E nem numes
fatais de sangue e de opressão. / Batizamo-lo em ti, ó liberdade santa” (OC, III, p. 742).
Nas páginas de O Brasil pitoresco, o jornalista proscrito descreveu as suas
viagens pelo interior do Rio de Janeiro e sua estada na capital. Ribeyrolles defendia um
projeto modernizador para o país por meio de reformas institucionais e políticas. A liberdade
era o seu ideal. Liberdade de imprensa, liberdade de trabalho, liberdade de culto e o incentivo
à livre-iniciativa. O projeto encaminharia o país para a revolução industrial, com as novas
técnicas e a nova organização do trabalho. Fazia-se necessário o rompimento total contra o
legado político português, porque este estava atrasado economicamente e mantinha uma
252 MASSA, A juventude de Machado de Assis, p. 213; MAGALHÃES JUNIOR, Vida e obra de Machado de
Assis, v. 1, p. 107-118.
253 MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e obra de Machado de Assis, v. 1, p. 112. Ver CANELAS, Letícia.
Franceses quarante-huitards no império dos trópicos, p. 132ss.
132
moral religiosa decadente: “Ah! a política feudal e católica pode aqui firmar a sua cruz. Foi
ela quem fez isto em ruínas. E entre as ruínas jazem as sepulturas”.254
Republicano com princípios, Ribeyrolles elogiava a organização política na
América do Norte e faz duras críticas ao monarca francês, Napoleão III. Apesar disso, ele
defendeu, no caso brasileiro, o braço forte do Estado como o interventor da economia e da
sociedade, por exemplo, ao atrair estrangeiros para substituir a mão de obra escravizada,
colonizar, povoar a imensidão de terra e formar um povo com ideais modernos.255 Desde
que o Imperador consentisse à liberdade, que a modernização necessária ao país se realizasse
sob uma monarquia. Eis que se tornavam compatíveis o liberalismo e o sistema de governo
monárquico, posição doravante assumida por Machado. Ribeyrolles foi o João Batista de
Machado de Assis, se bem que realizasse nele um batismo às avessas, um desbatismo ou um
ritual ideológico de desconversão. Após o falecimento do amigo francês, ainda em 1859,
Machado lhe dedicou uma poesia em que confirmava a influência exercida: “Glória a ti,
cujos lábios não cuspiram / Da liberdade no lustral Jordão. / A água desse batismo é-nos
sagrada; / Vergonha ao que na fronte batizada / Selou de proscrição” (OC, III, p. 735).
Esse espírito subversivo ainda se manifestou n’O Espelho, sobretudo em “A
reforma pelo jornal”. A “reforma” anunciada no título deste trabalho referia-se à
democratização do pensamento. A palavra, o “verbo”, manifestou-se historicamente sempre
de maneira monocrática, seja no púlpito ou nos livros. O jornal abria o espaço democrático
para discussões. A liberdade de expressão, essa pequena liberdade de que fala Kant, poderia
promover consensos para uma organização social menos desigual. Segundo o biógrafo Jean-
Michel Massa,
tratava-se de uma reivindicação, que explodiu no país ainda bastante
paternalista que era o Brasil. Por essa profissão de fé democrática,
Machado de Assis confirmava sua solidariedade às classes populares.
Atacou aqueles que se opunham à elevação social dessas classes.
Analisou os receios dos aristocratas diante dos movimentos populares,
diante da ascensão das inteligências proletárias. A imprensa, que
254 RIBEYROLLES, Charles. Brasil Pitoresco: história, descrição, viagens, colonização, instituições; ilustrado
com gravuras etc. por Victor Frond. Trad. Gastão Penalva. 2 vols. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo:
EDUSP, 1980, v. 1, p. 46.
255 RIBEYROLLES. O Brasil Pitoresco, v. 1, p. 154-155; v. 2, p. 123.
133
divulgava a “palavra”, agente e elemento de cultura, dava aos humildes
um verdadeiro surto de progresso.256
Nos artigos da série “Aquarelas”, Machado finalmente coloca o país a teste. A
teoria do livre mercado literário deveria promover os melhores talentos. O primeiro entrave
à regra era o artista que mobiliza suas habilidades para obter “resultado pecuniário”, a quem
Machado denomina Fanqueiro Literário. O outro era o Parasita Literário, que não tinha
talento algum, mas possuía dinheiro e posição suficientes para fundar um jornal ou publicar
livros sem qualquer expressão. Ele adquiria posições na Igreja, na política e na diplomacia,
dominando
imoralmente as massas, os espíritos fracos, as consciências virgens. [...]
O parasita é tão antigo, creio eu, como o mundo, ou pelo menos quase.
Em economia política é um elemento para estacionar o enriquecimento
social; consumidor que não produz, e que faz exatamente a mesma
figura que um zangão na república das abelhas (OC, III, p. 1002-1003).
O Folhetinista era o último animal da zoologia literária liberal. Ele evocava, para
si, grande parte da atenção pública. Essa espécie seria útil à moral se falasse das coisas
nacionais ao invés das estrangeiras, se tomasse “mais cor local, mais feição americana. Faria
assim menos mal à independência do espírito nacional, tão preso a essas imitações, a esses
arremedos, a esse suicídio de originalidade e iniciativa” (OC, III, p. 1007).
A pedagogia de tentativas e erros explica o humor político bipolar do jovem
Machado, variável conforme suas referências intelectuais: de um lado o tradicionalismo
cristão de Chateaubriand, que subsidiava a defesa de uma monarquia constitucional, de
outro, Pelletan e sua máquina divina do progresso, ombreado pelo proscrito Ribeyrolles,
ambos bem afeiçoados a um liberalismo republicano.
Hoje chamaríamos de ingênuo o excesso de entusiasmo aos valores desse novo
sistema econômico. Tanto mais porque o próprio trabalho do jornalista e do artista, ao
contrário do prognóstico daquele jovem, se transformava em mercadoria como outra
qualquer, sem maior deferência e concessão ao talento do indivíduo. Por aqui o liberalismo
teórico esbarrava nas determinações do favor e da clientela. Para que tudo se diga, acrescento
que Machado ignorava que o outro prato da balança comercial, a demanda leitora, era
256 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 265.
134
pequena demais para compor um verdadeiro mercado. O ensaio, a tentativa e o erro
providenciaram algum senso crítico e a precaução de não se concluir verdades enquanto as
premissas forem falsas. Por sorte ou por virtude, esse entusiasmo excessivo pelo capital não
durou mais do que um ano.
3.1.3 A Bíblia do espiritualismo
A bíblia do progresso acompanhou o curto período republicano da vida
intelectual de nosso literato. A tentativa de solucionar os problemas políticos e estéticos
adquiriu maior vulto através do ecletismo espiritualista. Se a práxis poética fora estabelecida
por meio do contato com o poeta Francisco Gonçalves Braga,257 a quem o Machadinho
dedica e imita nas primeiras poesias, comparando-o a Bocage e Virgílio, é através das
indicações de Sarmento que a sua visão poética adquire robustez teórica. 258 Entre o discípulo
e o mestre, encontra-se a filosofia espiritualista do frei Monte Alverne: mais os seus sermões,
é verdade, do que as suas anotações sobre os problemas de metafísica. Machado dedica ao
padre uma poesia escrita por ocasião da morte de Alverne, em 1858. Em nota, explica-se:
[A] dedicatória desta poesia ao padre-mestre Silveira Sarmento é um
justo tributo pago ao talento, e à amizade que sempre me votou este
digno sacerdote. Pareceu-me que não podia fazer nada mais próprio do
que falar-lhe de Monte Alverne, que ele admirava, como eu.
Não há nesta poesia só um tributo de amizade e de admiração: há
igualmente a lembrança de um ano de minha vida. O padre-mestre,
alguns anos mais velho do que eu, fazia-se nesse tempo um modesto
257 O português Francisco Gonçalves Braga (1836-1860), três anos mais velho que Machado, foi, no entanto,
seu primeiro modelo poético. Em 1856, Braga fez publicar suas Tentativas Poéticas. Faleceu quatro anos
depois. Participou, com Machado, da Petalógica e do grupo de Caetano Filgueiras. Segundo Massa,
“Machado de Assis desejava ser o camaleão brasileiro de Braga. Copiou dele a sua atitude poética. Não
somente se valeu dos poemas de Braga para extrair epígrafes de suas próprias obras, como retomou as de
Braga, sublinhando assim seu desejo de identificação com o amigo” (MASSA. A juventude de Machado de
Assis, p. 117).
258 MAGALHÃES JÚNIOR. Vida e obra de Machado de Assis, p. 24-31; MASSA. A juventude de Machado
de Assis, p. 108-119.
135
preceptor e um agradável companheiro. Circunstâncias da vida nos
separaram até hoje.259
Desenvolvida com distinção pelo frei e Pregador Imperial, entre 1816 e 1830, a
influência da sermonística perderia vigor nas duas décadas seguintes devido ao reboliço de
forças nacionalistas do período regencial.260 As ideias do frei retornam à cena na década de
1850, por intermédio de Gonçalves de Magalhães, que passa a considerá-lo o precursor do
romantismo brasileiro e mestre filosófico de toda a sua geração.261 Essa consideração pode
parecer, hoje, despropositada, na medida em que o próprio Magalhães estivesse em melhores
condições de realizar o projeto filosófico espiritualista.
Ao discutir, no Compêndio, a origem das ideias, Alverne afirma numa nota de
rodapé a adoção do ecletismo cousiniano como método filosófico de reconstrução dialética
da verdade: “o sistema sublime de Mr. Cousin apenas é conhecido no Brasil, e por desgraça,
seus trabalhos filosóficos ainda não estão completos, e nem impressos, e conhecidas aqui as
suas obras posteriores”.262 O editor do Compêndio fala da intenção de Alverne, já em 1833,
de continuar o projeto cousiniano. Contudo, não há consenso nessa referência. Segundo
Ubiratan Macedo,
[esta] é a primeira manifestação, no país, de adesão ao espiritualismo,
embora Monte Alverne estivesse mais próximo do sensualismo de
Condillac. O seu compêndio, se excetuarmos a nota citada, parece ter
sido redigido numa etapa anterior à sua descoberta de Cousin, que lhe
foi proporcionada por Gonçalves de Magalhães quando de sua estada
por Paris, e não ao contrário, como se diz muitas vezes, dando o poeta
como discípulo do franciscano. A figura de Silvestre Pinheiro Ferreira,
estudada por Paim como o primeiro dos ecléticos, independe do
259 MACHADO DE ASSIS. Chrysalidas. Rio de Janeiro: Garnier, 1864, p. 171. Disponível em:
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_obrasraras/or60425/or60425.pdf. Acesso em 26 out. 2016.
Machado excluiu esse poema de Crisálidas quando coligiu suas poesias completas, em 1900. Sobre a
relação entre Machado de Assis e Monte Alverne, intermediada por Sarmento, ver MASSA. A juventude
de Machado de Assis, p. 180-186. Na versão do Jornal do Comércio, a dedicatória é: “Ao meu Mestre e
Amigo, Padre Mestre A. J. da Silveira Sarmento”. Na variante de Crisálidas, publicada nas Poesias
Completas de 1904, a dedicatória é mais enxuta: “Ao Padre Mestre A. J. da Silveira Sarmento”.
260 DURAN, Maria Renata da Cruz. “Frei Francisco do Monte Alverne, pregador imperial: roteiro para um
novo estudo”. OPSIS – Revista do NIESC, v. 4, 2004, p. 126.
261 Basta ler as cartas enviadas pelo “discípulo” Gonçalves de Magalhães ao “mestre” Monte Alverne, na
década de 1830. Ver MAGALHÃES, Gonçalves; PORTO ALEGRE, Araújo. Cartas a Monte Alverne.
LOPES, Roberto (org.) São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1964.
262 ALVERNE, Monte. Compêndio de filosofia. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1859.
136
espiritualismo francês. Trata-se de uma meditação análoga de
resultados semelhantes mas autônoma.263
Embora se possa contestar, hoje, a consideração de Alverne como um epígono
do ecletismo espiritualista brasileiro, a impressão de que tinham dele os românticos
espiritualistas, guiados por Magalhães e Porto-Alegre, basta para o alinharmos, desta
perspectiva interna, ao projeto filosófico de conquista teologal das virtudes cristãs. Professor
de filosofia do Colégio São Paulo e do Convento São Francisco de Assis, Alverne defendeu
uma proposta político-filosófica modernizadora, torneando o sistema de Silvestre Pinheiro
Ferreira aos moldes do empirismo mitigado, no Compêndio, e do espiritualismo, nos
Sermões.
Falou-se, no primeiro capítulo, da importância política de Silvestre Pinheiro
Ferreira, um estrangeirado, nome dado em Portugal ao intelectual que percorreu os principais
centros da Europa pela diplomacia, que travou contato, por exemplo, com as ideias de Hegel.
Ele chegou ao Brasil em 1810 na condição de professor de filosofia, cujas lições se
encontram consubstanciadas nas Preleções Filosóficas sobre a Teórica do Discurso e da
Linguagem, a Estética, a Diceósina e a Cosmologia (1813-1820).264
Em termos gerais, a filosofia de Pinheiro Ferreira foi uma tentativa de conjugar
alguns princípios do empirismo, como a origem sensorial das ideias, com princípios do
racionalismo, como a validade do raciocínio dedutivo e a espontaneidade, que é um tipo de
poder inato que elabora criativamente os dados sensoriais. Inspirado no monadismo de
Leibniz, Pinheiro concebeu o universo como um sistema hierarquizado de substâncias
independentes, cuja causa necessária e primeira somente poderia dar-se a conhecer via
revelação mística. Segundo Paulo Margutti,
a tese por ele defendida é a da insuficiência da religião natural e,
portanto, da necessidade de uma religião revelada. Não há contradição
entre razão e fé. Por um lado, a religião e seus argumentos racionais
constituem elemento importante na universalização da religião e na
263 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 69.
264 Ver MARGUTTI PINTO. História da filosofia do Brasil – o período colonial (1500-1822), p. 332-350;
PAIM, História das ideias filosóficas no Brasil, p. 339-372; TEIXEIRA, Antônio Brás. “Um filósofo de
transição: Silvestre Pinheiro Ferreira”. In: DIAS SANTOS, M. S. (Org.). Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-
1846); bibliografia e estudos críticos. Salvador: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, 1982,
p. 87-102.
137
aproximação entre o homem e Deus. Por outro lado, se é verdade que a
razão esclarece, também é verdade que a revelação aprofunda,
confirmando e ampliando o conhecimento dos atributos de Deus
anteriormente apreendidos pela razão natural.265
Parte dessa concepção filosófica é bem ajustada ao espiritualismo, que pretendia
proteger a prática religiosa dos avanços epistemológicos e técnicos da modernidade. O
projeto iluminista, favorável ao progresso do conhecimento humano em bases puramente
empiristas, seria substituído pela possibilidade de transcendência através da prática das
virtudes cristãs. Apesar disso, somente a revelação poderia suprir totalmente as limitações
do entendimento humano. Seria o caso, então, de distinguir ordens autônomas e
complementares de compreensão.
Também se mostrou que o sério debate sobre o liberalismo brasileiro surgiu do
legado das reformas pombalinas no Império português e do conhecimento das experiências
revolucionárias de França, Inglaterra e Estados Unidos. O Correio Brasiliense, fundado por
Hipólito da Costa, contribuiu significativamente para familiarizar a elite com o ideário desse
novo regime. Esse jornal assumiu um caráter doutrinário, por meio do comentário de obras
e fatos históricos e da apresentação de um programa liberal, que incluía a criação de
universidades, liberdade de imprensa, independência do sistema judiciário e eleitoral,
abolição da escravatura, investimento tecnológico, avanço científico etc.266 Além disso,
surgiram, na segunda metade da década de 30, condições materiais para a efetivação do
debate filosófico, como a edição da revista Niterói, a estruturação do Colégio Pedro II e a
criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Do ponto de vista político, o ecletismo foi importante para a superação da crise
institucional pós-Independência, pois o seu exercício incutia, entre os adeptos, a
flexibilidade ideológica e a capacidade criativa agregadora. Pouco a pouco, as ideias
ecléticas “penetraram fundo em amplos setores da elite nacional conservadora em
formação”. 267 O ecletismo serviu para naturalizar e normalizar as contradições
performativas das mais diversas áreas da sociedade brasileira no segundo reinado,
265 MARGUTTI PINTO. História da filosofia do Brasil – o período colonial (1500-1822), p. 346.
266 PAIM. História do liberalismo brasileiro, p. 43-47.
267 PAIM. História das ideias filosóficas no Brasil, p. 373.
138
contradições captadas por Machado de Assis, e transformadas em princípio formal de
composição a partir da década de oitenta.268 Segundo Paim, tais contradições envolvem,
entre outras coisas,
a valorização da experimentação científica num meio que não dispunha
de condições efetivas para realizá-la; adoção dos princípios do
liberalismo econômico quando as atividades produtivas eram realizadas
pelo braço escravo; disposição de praticar o liberalismo político
defrontando-se, ao mesmo tempo, com o imperativo de preservar a
unidade nacional; empenho de dotar o país de instituições modernas
partindo de muito pouco.269
No final da década de 1840, o ecletismo já é a doutrina filosófica oficial do país,
ocupando os principais centros educacionais. A elite intelectual adere a essa doutrina, com
destaque para Gonçalves de Magalhães, que a vincula ao Romantismo, e para Monte
Alverne, que a associa à moral religiosa.
Gonçalves de Magalhães não é apenas a principal figura do movimento
romântico no Brasil e “fundador do teatro brasileiro”. O poeta-modelo de Suspiros e
Saudades buscava casar, como Machado afirma, em fevereiro de 1866, em análise dedicada
ao seu teatro, “o fervor poético à contemplação filosófica” (OC, III, p.1108). Ano e meio
antes, Machado considerava que o êxito da obra de Magalhães é “a união da poesia e da
filosofia” (OC, IV, p. 191). A ideia de casar poesia e filosofia não expressava falsa erudição.
Esse casamento foi o resultado da longa meditação que o filósofo-poeta fizera sobre o
cartesianismo.270
A tendência espiritualista de Magalhães associava-se a uma ética do dever, no
caso, da resistência contra os limites corporais e contra as finalidades utilitaristas. Segundo
Magalhães, a liberdade vincula-se, antes, à boa vontade e à própria moral religiosa, cujas
prescrições encaminham o espírito a buscar um sentimento nacionalista de pertencimento.
A literatura é considerada o “espírito de um povo [...], o desenvolvimento do que ele tem de
268 Ver SCHWARZ. Um mestre na periferia do Capitalismo, 1991.
269 PAIM. História das ideias filosóficas no Brasil, p. 374-375.
270 Ver CERQUEIRA, Luiz Alberto. “Gonçalves de Magalhães como fundador da filosofia brasileira”. In:
MAGALHÃES, Gonçalves de. Fatos do espírito humano. Petrópolis: Vozes/Academia Brasileira de
Letras, 2004, p. 11-43.
139
mais sublime nas ideias, de mais filosófico no pensamento, de mais heroico na moral, e de
mais belo na natureza”.271
O padre “preceptor” de Machado certamente estava a par dessa corrente de
pensamento e pode ter tido sobre o seu pupilo alguma influência. O problema que se
colocava para Machado e para seus pares era o mesmo: como conciliar o liberalismo político
e o conservadorismo cristão? Ou como apanhar as vantagens do progresso ocidental sem
prejuízo do estado de coisas retrógrado, mas ainda assim nacional? Certamente não eram
problemas novos. Numa análise sobre a visão filosófica do período barroco, Paulo Margutti
afirma que
o português transplantado para os trópicos experimenta, assim, na sua
própria consciência uma contradição insuperável entre, de um lado, os
ideais morais europeus, representados pela elevação moral do projeto
jesuítico, e, de outro lado, o comportamento imoral que ele mesmo
compartilha com os demais colonos. Isso gera um tipo especial de
consciência cético-pessimista [...] A solução paradoxal da
contradição por eles vivida compreende a constatação da inutilidade
e da transitoriedade das coisas, com a consequente renúncia aos
prazeres e vaidades deste mundo para obter um contato mais íntimo
e duradouro com a transcendência.272
A solução ecletista foi outra forma de derramar “vinho velho em garrafa nova”,
conforme metáfora recorrente no estudo de Margutti. Digamos que essa nova garrafa trazia
no rótulo a vinícola a que pertencia, o “sistema sublime de M. Cousin”, a variedade da uva,
mescla de “sensualismo e idealismo”, e os efeitos que essa recém-descoberta bebida poderia
causar, a saber, “reconstruir a filosofia, apresentando as verdades, de que espírito humano
esteve sempre de posse”.273
Na cartilha de Cousin, o espiritualismo possuía aplicações estéticas, políticas e
morais. O projeto chateaubriandiano de reconstituição da arte cristã bem o exemplificou. No
caso da política, o espiritualismo “conduziu gradualmente as sociedades humanas para a
verdadeira república, aquele sonho de todas as almas generosas, que hoje na Europa apenas
271 MAGALHÃES. Factos do espírito humano, p. 283.
272 MARGUTTI PINTO. A filosofia brasileira no período colonial (1500-1822), p. 172-173.
273 ALVERNE. Compêndio de filosofia, p. 104-105, n. 1.
140
pode realizar a monarquia constitucional”.274 Esse sistema político de mediações, ordenador
pela hierarquia de sangue, mas amigo das liberdades e das ciências. É através desse prisma
eclético que Alverne e Machado enxergavam a figura do segundo Imperador.275
Indicou-se, no capítulo anterior, que a figura de Pascal era hasteada para
representar a conciliação entre os movimentos do progresso e do cristianismo. A invenção
da primeira máquina aritmética, a Pascaline, revolucionou o modo como pensamos a
interface entre homem e máquina, uma vez que a feitura de cálculos, o raciocínio e a
inferência pareciam ser exclusividades da mente humana. Foi no contexto das discussões
filosóficas modernas que se disseminou a tese de que o corpo humano se assemelha a uma
máquina, pois ambos funcionam segundo regras mecânicas. Os dualistas, discípulos de
Descartes, pensavam que o homem era composto de matéria e espírito. Isso significa dizer
que somos uma espécie de máquina pensante. Essa conclusão foi interpretada de dois modos
distintos: por um lado, tratou-se de pensar, como o filósofo La Mettrie, que o homem se
reduzia à sua mecânica ou, em termos contemporâneos, aos seus aspectos físicos e
neurológicos. Por outro lado, tratou-se de preservar a autonomia e as possibilidades da mente
humana frente às tecnologias mecânicas, afirmando, por exemplo, que o espírito prevalecia
sobre a matéria. Nesse caso, se dizia que o ser humano possui capacidades inatas ou
adquiridas que lhe possibilitam compreender as leis gerais da natureza.
Para Alverne, o homem é uma espécie de máquina animada por uma força
simples e imaterial. Essa força pode ser contemplada indiretamente através de seus efeitos,
isto é, os movimentos do corpo. O cérebro faz a mediação entre a alma, fonte de energia
vital, e os corpos que interagem no ambiente. Alverne refere aqui à tese do influxo físico,
presente nas Lições de Filosofia de Laromiguière.276 Sem ignorar as teses empiristas de sua
época, Alverne retoma as provas racionalistas sobre a existência de Deus: da necessidade de
uma causa primeira e da imaterialidade do criador, cuja origem deve ser qualitativamente
274 COUSIN. Du vrai, du beau et du bien, V. “[Le spiritualisme] conduit peu à peu les sociétés humaines à la
vraie république, ce rêve de toutes les âmes généreuses, que de nos jours en Europe peut seule réaliser la
monarchie constitutionnelle”.
275 Ver, por exemplo, a “Oração recitada na solene ação de graças pelo feliz restabelecimento da saúde de sua
majestade imperial o senhor D. Pedro II” (1833) e o “Segundo panegírico de São Pedro de Alcântara”
(1854).
276 ALVERNE. Compêndio de filosofia, p. 100.
141
distinta daquilo que é por ele criado. Ao mesmo tempo, essa causa primeira deve ser dotada
de uma inteligência ordenadora.
Escrito entre 1829 e 1836, o Compêndio de Monte Alverne foi publicado apenas
em 1859. 277 Um ano antes, naquela poesia dedicada ao padre Sarmento, Machado se
embriagava do vinho alverniano:
Mas lá dentro o espírito fervente / Era como um fanal; / Não, não dormia
nesse régio crânio / A alma gentil do Cícero dos púlpitos, / – Cuidadosa
Vestal! /[...] Pátria, curva o joelho ante esses restos / Do orador imortal!
/ Por esses lábios não falava um homem. / Era uma geração, um século
inteiro, / Grande, monumental!278
No início de setembro de 1856, no folhetim A Marmota (n. 768 e 769), Machado
publica o último artigo de suas “Ideias Vagas”, com o subtítulo “Os Contemporâneos”, sobre
Monte Alverne. Ele afirma, de início, a tese maniqueísta segundo a qual
A humanidade flutua entre dois pontos totalmente opostos: – o bem e o
mal. Os sectários do mal são os inimigos declarados da virtude; são os
viciosos, esses que têm uma crença por necessidade e não por
convicção, para quem o nome de Deus é uma expressão vulgar e à qual
se não deve respeito algum. Os sectários do bem são os adversários do
vício: são os virtuosos, em cujo coração convicto se aninha a fé e a
crença com todo o ardor e pureza, com todo o respeito e entusiasmo
(OC, III, 979).
Pascal e Chateaubriand trataram a questão da liberdade a partir da visada
agostiniana. Pelletan encontrava-se no lado oposto desse espectro filosófico, colorido pela
defesa das liberdades abstratas do arbítrio e do mercado. No meio desse espectro, os sectários
de Cousin tentavam conciliar uma coisa à outra. Porém, Alverne fugia a essa regra, pelo
menos nesse detalhe, ao defender a concepção esotérica de liberdade da indiferença. Para
Alverne,
a liberdade é aquela força da alma, pela qual estando em ordem as
faculdades e ajudada com o auxílio divino, se pode escolher um objeto
277 Segundo Romero, o Compêndio foi o primeiro livro de filosofia, digno do nome, produzido no Brasil. Ele
recebeu o extravagante título de “genuíno representante da filosofia do espírito humano no Brasil”, de uma
sociedade literária, em 1848. Por exagero ou ignorância, estas afirmações estão equivocadas, pois antes da
década de 50 já circulavam outros compêndios de filosofia importantes (ROMERO, Sílvio. A filosofia no
Brasil. In: _____. Obra Filosófica. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1969, p. 1).
278 MACHADO DE ASSIS. Chrysalidas, p. 113-114.
142
com preferência a outro, ou tomar com certeza um, deixando o outro,
cuja raiz na verdade é a amplidão do entendimento e a indiferença do
juízo; a essência, porém, [é] a indiferença da vontade.279
Os atos voluntários da alma – que podem depender de reflexão ou determinação
– são desejos ou deles derivam.280 A liberdade humana possui três condições: que tenhamos
cópias de ideias suficientes e autênticas para podermos deliberar, que raciocinemos
corretamente e que as paixões sejam controladas e moderadas. Ubiratan Macedo afirma que
essa concepção voluntarista e humanista deve ter alguma fonte teológica não jansenista.281
Mas quem se dá o trabalho de estudar a apostila de Ética do Compêndio percebe uma colcha
em que cabem muitos retalhos e emendas, por exemplo, que a própria concepção de
liberdade, como uma atividade da alma de autodeterminação, realiza-se na indiferença entre
opções contrárias, cuja ação deve ser “ajudada com o auxílio divino”, como seja esse auxílio
não sabemos ao certo, mas ele não parece compatível com a interpretação humanista de
Macedo.
Uma concepção diferente e menos retalhada encontra-se nas Obras Oratórias,
cujos sermões foram proferidos desde 1811. Aqui Alverne celebra o “gênio da civilização”
de Chateaubriand como maneira de afugentar nossa “profunda miséria”. Os mártires do
cristianismo deveriam servir de exemplo moral para os “concidadãos, para os acostumar com
a linguagem da virtude, familiarizá-los com as ideias de justiça, e levantar em seu coração
uma barreira contra a sedução das paixões”.282 Num de seus mais famosos panegíricos, o de
S. Pedro de Alcântara, Alverne antecipa a profissão de fé no progresso empunhada, entre
outros, por Pelletan:
Nenhum acontecimento manifesta com mais fulgor a impressão
inofuscável da onipotência, de que as vitórias do Cristianismo.
Vencedora de todos os erros, triunfante de todos os preconceitos, a
Religião do Proscrito restabeleceu a moralidade, fundou a civilização,
reformou o direito público, restaurou as ciências, fomentou as artes e
reuniu em torno de sua bandeira sagrada o Universo espantado de sua
regeneração.283
279 ALVERNE. Compêndio de filosofia, p. 246.
280 ALVERNE. Compêndio de filosofia, p. 240-241.
281 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 89.
282 ALVERNE. Obras Oratórias, v. 1, p. 395-396.
283 ALVERNE. Obras Oratórias, v. 2, p. 173.
143
Repetia-se a ideia de uma “marcha progressiva do gênero humano”.284 Marcha
progressiva, mas em baixa rotação, guiada pela religião e pela força ordenadora do Estado.
A civilização e a emancipação do povo eram questões de tempo.
A liberdade não pode existir sem o espírito público, sem elementos de
justiça e princípios de equidade; mas esses sentimentos elevados, essas
brilhantes qualidades são a consequência de uma educação virtuosa
estabelecida na Religião e na verdadeira filosofia.285
A filosofia como a razão devem se submeter ao crivo da fé, reconhecer que não
podem ir além de si mesmas e penetrar nos mistérios da Criação. Acompanhando Pascal, o
sermonista poderia dizer que o conhecimento metafísico é “inútil e incerto”. O jansenista
lida com a difícil questão da ineficácia da evangelização, pois adota uma versão intransigente
da teoria da graça, segundo a qual a salvação e a fé independem de ato da vontade individual.
Por isso, o apologista não é capaz de conduzir seus leitores à fé nem garantir que ações
caridosas possam redimi-los. A função do apologista – em certa medida, tão pragmática
quanto a do orador e a do poeta – era tirar a sua plateia da indiferença. Mostrando-lhe o
drama de sua existência, preparava-se o espírito e o coração, sem precisar empenhar as
garantias para receber os mistérios. Pascal, Alverne e Machado estavam lidando com a
espinhosa questão da eficácia de seus discursos (a apologia, o sermão e a poesia) no que diz
respeito ao convencimento e à sedução mística. Aqui a noção de liberdade está bem ajustada,
genericamente, ao ecletismo espiritualista e, especificamente, à antropologia jansenista:
Era forçoso, que a nova legislação, projetando libertar o homem do
predomínio de suas más inclinações, baralhasse suas ideias orgulhosas,
desenvolvendo a seus olhos o espetáculo de sua miséria, e o quadro
horrível de sua degradação. Nada é mais capaz de humilhar o homem
do que o sentimento de sua própria fraqueza: só a ideia de suas
desgraças o pode subtrair às seduções da vaidade, e ao encanto dos
sentidos.286
O arbítrio e a inconstância limitam a posição ontológica do ser humano: “Sinto,
diz Pascal, que posso não ter existido [...] não sou um ser necessário. Tampouco sou eterno
e infinito; porém vejo perfeitamente que existe na natureza um ser necessário, eterno e
284 ALVERNE. Obras Oratórias, v. 2, p, 317.
285 ALVERNE. Obras Oratórias, v. 2, p. 342-343.
286 ALVERNE. Obras Oratórias, v. 1, p. 48.
144
infinito” (La 135 Br 469). Sem esse ponto fixo, a própria linguagem, os julgamentos morais
e as teses científicas não fariam qualquer sentido. Mas a partir de um porto seguro da moral,
a cristandade, podemos compreender o homem movendo-se entre os infinitos, como um
barco à deriva, como o hiato de um entre dois equidistantes. Deve-se, pois, utilizar a finura
como parte do juízo, convencendo pela simplicidade e pela doçura:
A eloquência é a arte de falar as coisas de maneira que: 1º aqueles a
quem nos dirigimos as compreendam sem dificuldade e
prazerosamente; 2º essas pessoas se interessem por elas a ponto de ver-
se impelidas com mais facilidade, pelo amor-próprio, a meditar sobre
elas. [...] É necessário, sempre que pudermos, concentrarmo-nos na
naturalidade mais singela; não tornar grande o que é pequeno, nem
pequeno o que é grande (Br 16).287
A eloquência, a arte do bem falar, virtude máxima do frei, é o meio pelo qual se
pode contemplar o divino e convencer os céticos da necessidade de caminhar até o ponto em
que a graça pode lhe ser concedida. Certo, não podemos conhecer racionalmente aquela força
imaterial que nos determina a alma. Por isso, nenhuma ação é garantia para a salvação. O
crédito do apologista não estava, de todo, a título perdido. Quando propõe a necessidade da
aposta no Deus cristão (La 418 Br 233), o filósofo jansenista também está a apostar,
inaugurando o que conhecemos por teoria dos jogos, ao decidir ante o comportamento
racional de outrem. Essa não é uma aposta cega como a outra, porque a sublimidade da
linguagem deveria servir para falar, ao cético e ao ateu, do drama da existência humana, cujo
bom termo, nossa miséria e nossa glória, encontra-se consubstanciado na figura de Jesus (La
189 Br 547). As palavras do apologista
gravam-se na memória de todos; em todos os corações acham um eco,
em todas as consciências plantam uma convicção! É que na tribuna
sagrada aquele apóstolo de Cristo não define sentimentos que não sinta,
não ensina virtudes que não pratica; ele é o exemplo, é a personificação
da crença e da virtude, e por isso sua voz sublimada pela verdade,
cimentada pela filosofia da religião, é um brado das suas convicções, é
287 Sem correspondente na edição Lafuma.
145
a voz do homem eloquente, do homem filósofo, do homem
consciencioso, que todas se fundam no homem crente.288
Segundo a biógrafa Lúcia Miguel Pereira, o pendor religioso e a fé do jovem,
sendo características fugazes, não chegariam à idade adulta. Essa interpretação deve ser
colocada em perspectiva, pois algumas obras literárias da década de 1860 possuem forte
marcação cristã. É verdade que até o final da década de 1850, as produções de Machado
revelam um pietismo mais bem-acabado. A superioridade da fé se manifestaria mediante a
conjunção entre valores cristãos e aquilo que Pascal denominava esprit de finesse, uma
atitude consciente de medir o que não tem medida, quero dizer, de reter na forma de
expressão um tipo de conteúdo totalmente permeável. Parafraseando Vinicius de Moraes, a
poesia deveria ser mesmo uma forma de oração. Até aqui a ordenação estética-cristã de
mundo era a via alternativa para que o entendimento pudesse adquirir alguma certeza.
A crença em uma teologia de artista espalhava-se entre os ecléticos brasileiros.
Na advertência dos Suspiros poéticos, Gonçalves de Magalhães afirmava que a missão do
poeta, baseada na moral cívica cristã, é a de “elevar o pensamento nas asas da harmonia até
as ideias arquétipas”.289 Aventava-se aqui a possibilidade da transcendência através da arte
poética. A faculdade compreensiva e transcendente do poeta prevalecia sobre a
racionalidade, fazendo dele um mensageiro da verdade. O espírito romântico de Machado
também acreditava que o ofício do artista, e somente ele, poderia revelar algum tipo de
verdade. Em “O passado, o presente e o futuro da literatura” (1858), ele defendeu que o
artista poderia construir para o país “um edifício de proporções tão colossais e de um futuro
tão grandioso” (OC, III, p. 991). Ainda avaliando o estado de coisas da literatura nacional,
ele afirmava que os literatos-políticos são a marca distintiva da sociedade civilizada, os
“verdadeiros apóstolos do pensamento e da liberdade [...], novos Cristos da regeneração de
um povo, cuja missão era a união do desinteresse, do patriotismo e das virtudes
humanitárias” (OC, III, p. 987). E alegava que Alverne era o exemplo de homem que, como
Pascal, entendera a natureza contraditória humana, exemplificando-a em sua própria vida:
288 MACHADO DE ASSIS. Ideias Vagas III-IV apud MASSA, Jean-Michel. “Outros textos encontrados de
Machado de Assis. Machado Assis Linha. Rio de Janeiro, v. 6, n. 12, dez. 2013. Publicado originalmente
na Marmota Fluminense, n. 768, 769, 4 e 6 set. 1856. Esses números do jornal não estão disponíveis na
Hemeroteca. Essas duas últimas partes do ensaio não foram publicadas nas Obras completas em quatro
volumes.
289 MAGALHÃES, Gonçalves de. Suspiros poéticos, e saudades. Paris: Dauvin/Fontaine Libraires, 1836, p. 5.
146
Alverne morreu cego, na solidão do claustro. A sua linguagem era simples e, mesmo assim,
eloquente (OC, III, p. 980).
Machado confessa que essa profissão de fé no progresso teve sua origem numa
discussão. Ao deixar o amparo do padre Sarmento, contra quem debatia o jovem? E supondo
que eram múltiplos os temas discutidos, como ocorriam os debates e em quais condições? A
seguir, tentamos responder essas questões recorrendo a uma polêmica protagonizada pelo
jovem Machado de Assis. Devemos lembrar que a tendência associativa é algo que perpassa
toda vida intelectual de Machado. Além de proporcionar as condições de fundação da
Academia Brasileira de Letras, Machado participou, entre outras, da Sociedade Petalógica,
do “grupo dos cinco” na loja liderado por Caetano Filgueiras, dos almoços da “Panelinha de
Prata”, do Clube Português de Leitura, de reuniões periódicas no edifício da Revista
Brasileira e na Livraria Garnier.290 Essa tendência está firmada na premissa de que, apesar
de serem atividades particulares, a poesia, a literatura, a crítica e a filosofia se edificam
solidariamente. Machado escolheu uma vida cercada por livros, e por aquilo que os livros
cercavam na época: tipografias, bibliotecas, sociedades literárias, casas de sarau, livrarias e
redações de jornais.
3.2 A influência do Ecletismo e a polêmica Os cegos
Machado de Assis iniciou a sua vida profissional como ajudante na tipografia de
Paula Brito, tornando-se um precoce revisor de provas ali e no Correio Mercantil, antes de
estrear em versos no jornaleco Periódico dos Pobres.291 O aprendizado e a convivência com
Paula Brito lhe franquearam a participação na Petalógica, sociedade literária composta de
estudantes, poetas, jornalistas e intelectuais de diversas áreas. Machado se refere a essa
sociedade da seguinte forma:
a Petalógica de Paula Brito – o café Procópio de certa época, – onde ia
toda a gente, os políticos, os poetas, os dramaturgos, os artistas, os
viajantes, os simples amadores, amigos e curiosos, – onde se
conversava de tudo – desde a retirada de um ministro até a pirueta da
290 MAGALHÃES JÚNIOR. “O espírito associativo de Machado de Assis”, p. 275-298.
291 MAGALHÃES JÚNIOR. Vida e obra de Machado de Assis, v. 1, p. 21.
147
dançarina da moda; onde se discutia tudo, desde o dó de peito do
Tamberlick até os discursos do marquês de Paraná, verdadeiro campo
neutro onde o estreante das letras se encontrava com o conselheiro,
onde o cantor italiano dialogava com o ex-ministro (OC, IV, p. 219).
Discutia-se tudo. Entre os jovens não era pouca a concorrência por um lugar nas
redações dos jornais ou mesmo um bom contato que lhes publicasse as poesias. Não bastava
domínio técnico do idioma e da literatura. Para ser reconhecido, entre muitos, era necessário
o domínio teórico de conceitos filosóficos. O mentor da Petalógica, Paula Brito, acirrava a
competição agenciando disputas entre os membros do grupo. Essas competições eram
promovidas por meio de enigmas, motes ou quadras poéticas, cuja resolução deveria ser
escrita na forma de ensaio.292
Da famosa polêmica Os cegos participaram Albano Cordeiro, Castelo Branco
Filho, Calasans Peixoto, Antônio Manuel dos Reis, Joaquim Serra (Jq. Sr.) e Machado de
Assis (As), além de duas pessoas identificadas apenas por Alcipe e A, mais um poeta
anônimo.293 A polêmica foi levantada por Paula Brito no número 925 de A Marmota e teve
Machado e Serra como contendores principais. O desafio era produzir um ensaio filosófico
sobre o seguinte mote: “Qual dos dois Cegos mais sente / O penoso estado seu: / O que cegou
por desgraça, / O que cego já nasceu?” (OC, 3, 991-1002)294
292 John Dawson sugere que o próprio gênero Ensaio tenha origem em uma competição anual de poesia em que
se oferecia um refrão a ser “ensaiado”. Ver DAWSON, John. “A Suggestion as to the Source of Montaigne's
Title: "Essais"”. Modern Language Notes, v. 51, No. 4 (Apr., 1936), p. 223-226.
293 MASSA. Dispersos de Machado de Assis. p. 492. O poeta anônimo publicou no número 941, f. 1. Nenhum
dos biógrafos conseguiu desmascarar o pseudônimo Alcipe. A transcrição de Massa traz ainda um equívoco,
dando a entender tratar-se de um homem: “esforçando-me eu (...) em ser lacônico” (p. 47), onde a grafia
correta é “lacônica”. Dou alguma razoabilidade à hipótese da impostura editorial. Alcipe também era o
nome de tratamento utilizado pelos portugueses para se referir à poetisa Leonor de Almeida, Marquesa de
Alorna. Porém, Alcipe publicava suas poesias regularmente no jornal de Paula Brito, como se fosse a musa
do romantismo português, que falecera a 11 de outubro de 1839. O editor da Marmota abusava, assim, da
ignorância de seu público, para conseguir alguma vantagem econômica. No Correio da Tarde,
encontramos, através de pesquisa na Hemeroteca Digital, dez anúncios da Marmota avisando que “as
pessoas que assinam agora recebem grátis 6 números de Dezembro, para terem completa a História Sagrada
em versos rimados pela Exma. Sra. Alcipe, fluminense”. A qualificação da poetisa como “fluminense” bem
poderia servir de álibi caso alguém descobrisse a farsa jornalística.
294 O desafio foi publicado originalmente em A Marmota (Rio de Janeiro: Typographia de Paula Brito, n. 925,
12 fev. 1858). O debate ocorreu entre os números 929 e 951 dessa revista. Machado contribuiu apenas nos
números 931 (05 mar. 1858), 934 (16 mar. 1858) e 937 (26 mar. 1858). Ele assina os ensaios como “As.”,
mesmo pseudônimo utilizado em Ideias Vagas.
148
Provavelmente Paula Brito tinha em mente Monte Alverne quando propôs a
questão. Explica-se: o pregador imperial retornara recentemente ao púlpito, a pedido de Dom
Pedro II, após longo período afastado da cena pública. Alverne sofria de amaurose, doença
que lhe tirara a visão. O sermonista era então uma celebridade que se despedia da vida.
Domingos de Magalhães, José de Alencar e diversas personalidades hoje esquecidas lhe
renderam homenagens. Porto Alegre lhe dedicou algumas palavras, comparando sua
antropologia à de Pascal:
Não é o amigo que fala, é o discípulo encanecido; o discípulo que
aprendeu, desta voz emudecida, o amor de Deus, a reconhecer na
criação a ideia do Criador, o seu pensamento corporificado, vivido
procriador e admirável pelas leis eternas que o regulam. Ele não nos
colocou diante da estátua de Condillac, e nem consorciou a nossa alma
com a matéria organizada; não clausurou o espírito nos domínios da
sensação, não; dele aprendemos a respeitar o justo, o santo, o
consagrado e a ver no homem aquele homem de Pascal, o elo inteligente
e progressivo daquela cadeia humanitária.295
Machado dedicou-lhe uma espécie de canção fúnebre, no final de 1856, em que
antecipa sua posição na questão dos cegos: “É um inspirado de Deus: Mas infeliz! Em vão
seus olhos procuram ver a luz do sol; estão fechados para sempre!” (OC, III, p. 980).
Seguindo a sugestão de Porto Alegre, Machado considerava que a caracterização pascaliana
do ser humano fazia-se carne em Alverne: uma mistura de sofrimento e santidade, de
abatimento e brilhantismo, de sombra e de luz, de besta e de anjo.
O mote de Paula Brito trazia à tona o debate moderno entre as doutrinas
empirista e racionalista, cuja conciliação fora prevista pelos sistemas ecléticos de Cousin, de
Biran e Alverne, muito embora, como vimos na seção anterior, o brasileiro oferecesse uma
versão esotérica do espiritualismo, pelo menos no Compêndio, mais alinhada ao empirismo
mitigado de Genovese e Storchenau.296 A questão era uma variante da discussão filosófica
levantada por William Molyneux, e que interessou, entre outros, a Locke, Leibniz, Berkeley,
Voltaire, La Mettrie, Buffon e Diderot. Molineux coloca o problema nos seguintes termos:
295 PORTO ALEGRE, 1858 Apud DURAN. Ecos do púlpito, p. 123.
296 Devo esta e outras observações sobre o espiritualismo de Alverne ao professor Paulo Margutti, em sua
arguição à defesa da tese.
149
realizemos um experimento em um cego de nascença que tenha acabado de adquirir a visão.
Se colocarmos diante de seus olhos diferentes objetos geométricos sólidos, o recém-vidente
poderá imediatamente discernir, por exemplo, um cubo de uma esfera apenas com a sua
visão?297
Empiristas como Locke, Berkeley e o próprio Molineux tendem a dizer que o
homem não os distinguiria, pois a experiência de que derivou o conhecimento – e, por
conseguinte, a capacidade de discernimento – sobre cubos e esferas corresponde a uma
afecção ou impressão tátil e não visual. O experimento sugere que o conhecimento adquirido
e acumulado através de um sentido não é, imediatamente, transferido a outro sentido. O que
os olhos nunca viram, não o sentem prontamente as mãos, e vice-versa. São sentidos distintos
operando sobre qualidades igualmente distintas. A versão brasileira adicionava ao problema
uma propriedade moral, pois se perguntava quem era mais infeliz: aquele que nasceu cego
ou aquele que ficou cego ao longo da vida?
Joaquim Serra argumentou pela segunda alternativa. Ele propôs uma “resolução
filosófica à Demócrito”,298 isto é, de maneira jocosa, pois se dizia do atomista grego que ele
sempre se apresentava em público com um sorriso no rosto.299 Serra se considerava “amigo
de galhofar, e pouco acostumado a manejar silogismos e espertezas da lógica”, mas resolveu
entrar naquele debate porque, caso “discutisse rindo-me, ainda o fazia filosoficamente, pois
297 MOLYNEUX, Willian. “Letter to John Locke, 2 March 1693”. In: LOCKE, John. Familiar Letters Between
Mr. John Locke, and Several of His Friends. 4. ed. London: F. Noble, 1742, p. 3132. Disponível em:
. Acesso em 01 nov. 2016.
298 SERRA, Joaquim. “Os cegos”, A Marmota, n. 929, 26 fev. 1858, f. 1. Consultamos a versão digitalizada do
jornal disponibilizada pela Fundação Biblioteca Nacional, em .
Acesso em 02 jun. 2018. É improvável que Machado de Assis soubesse quem era o seu adversário. Primeiro
porque ele se oculta atrás do pseudônimo Jq. Sr. Segundo porque a amizade entre eles, que acompanha a
vida progressa de Serra, tem início apenas em 1864, por ocasião de um artigo publicado por Machado de
Assis sobre a morte do poeta e tradutor Odorico Mendes. Ver MAGALHÃES JÚNIOR. Vida e obra de
Machado de Assis, v. 1, p. 75.
299 Ver SÊNECA. On Anger. Translated by Robert A. Kaster. Chicago: The University of Chicago Press, 2010,
II-10, p. 41. É possível que Serra conhecesse a estória contada por Cícero (Tusculanes, 5.39); Plutarco (De
curiositate, 12 p. 521D); Tertuliano (Apologia, 46) entre outros, segundo a qual Demócrito cegou-se
propositalmente pois desejava livrar-se dos obstáculos do corpo, que lhe infligia desprazer, de maneira a se
aproximar do conhecimento puro e espiritual. Essa lenda se sustenta pelos seguintes fragmentos de
Demócrito: DK.B72, 125 e 187. Ver CHITWOOD, Ava. Death by philosophy: The Biographical Tradition
in the Life and Death of the Archaic Philosophers Empedocles, Heraclitus, and Democritus. Ann Arbor:
University of Michigan Press, 2004, p. 119. A exibição desses “detalhes” comprova certa instrução
filosófica do adversário de Machado e um suposto conhecimento de fundo compartilhado. (Ver Jornal O
Sceptico, dirigido por Serra).
150
o riso já foi característico de uma escola de pensadores”.300 Durante a sua argumentação, ele
quase faz um “sermão de lágrimas”, mentindo a seu próprio programa, mas arremata o artigo
com um chiste.
Segundo Serra, aquele que nasceu cego não tem do que se queixar, pois nunca
soube ao certo o que poderia reivindicar para si. Nada ele perdeu, porque nada ele teve. Já o
homem que se tornou cego durante a vida chegou a experimentar as delícias proporcionadas
pela visão. De todos os sentidos, este nos deixaria perceber o melhor da existência. Ele sofreu
uma “subtração na sua força vital”, isto é, a força alverniana que se transmite através do
cérebro. Assim, a impossibilidade de tornar a ver passa a ser uma severa tormenta para a
alma. Um pode até desejar ver as cores e a luz, das quais nunca terá qualquer noção. Para o
outro, a lamúria é o saldo negativo de seu castigo. Além disso, o cego congênito pode
idealizar para si um mundo de cores e formas, como quando um paisagista ou um artista
imagina uma paisagem ou uma obra de arte. Ele não tem a saudade do que perdera, mas
apenas o desejo de enxergar, desejo um tanto vago, é verdade, pois o cego de nascença nunca
soube nem saberá o que de fato é enxergar.
A referência inicial a Demócrito diz respeito apenas ao modo de tratamento da
questão, pois os argumentos não são, de todo, coerentes com a posição filosófica de
Demócrito, cujo ato desesperado de se cegar deriva da compreensão das experiências
deletérias que a visão lhe proporcionara. Ao contrário do que pensava Serra, a visão nos
deixa perceber o pior da existência. Portanto, a justificativa democratiana para concluir pela
menor infelicidade do cego congênito deriva do fato de ele jamais ter sido exposto aos erros
da visão, ao passo que o que se tornou cego fora obrigado a remediar este problema com
uma ação radical, após anos de exposição aos erros oriundos da visão, até que a idade
filosófica lhe mostrasse a melhor condição do cego. Embora as conclusões sejam
semelhantes, a justificativa de Serra contraria esta linha racionalista de ataque aos sentidos.
Na verdade, como bom discípulo do ecletismo, os seus argumentos conciliavam uma razão
empirista (o cego congênito é feliz porque não sabe o que significa enxergar) com uma
conclusão racionalista (o cego congênito é feliz porque é capaz de idealizar um mundo).
300 SERRA. “Os cegos”, 26 fev. 1858, f. 1.
151
A tese defendida por Serra foi corroborada pelos outros ensaiadores do mote
(Alcipe e A.), que não pareciam levar a questão filosófica muito a sério. Importante lembrar
que a Petalógica (“peta” significa mentira ou fraude) foi uma sociedade inicialmente
zombeteira, destinada a satirizar os mentirosos, inventando histórias cada vez mais
inverídicas. Contudo, os petalógicos passaram a empreender debates sérios. Machado se
refere à sociedade assim:
Cuidavam muitos que, por ser petalógica, a sociedade nada podia
empreender que fosse sério; mas enganaram-se; a Petalógica tinha
sempre dois semblantes; um jovial, para as práticas íntimas e familiares;
outro sisudo, para os casos que demandassem gravidade (OC, IV, 171).
E esse assunto demandava gravidade. De acordo com Jean-Michel Massa, o
Machadinho encontrou nesse debate o pretexto para se promover no grupo e se tornar mais
respeitado.301 Ultrapassado o teste da “retórica poética”, faltava-lhe o diploma da “retórica
raciocinante”. Ele teve um mês para refletir solitariamente, “na sombra, sem a ninguém
comunicar nossas intenções, os nossos pensamentos” (OC, III, p. 981).
Contrariando amigos e adversários, Machado defendeu que o cego desde o
nascimento é mais infeliz que o outro por três razões: em primeiro lugar, por um critério
quantitativo, esse cego tem menos condições sensíveis de explorar o mundo em comparação
ao outro, cuja tábula mental fora preenchida parcialmente antes de perder a visão. Em
hipótese, um sentido a menos, desde o início, significa menos dados percebidos e menos
conhecimento adquirido. Guardadas as proporções, entre a ética e a epistemologia, um
sentido a menos também poderia significar menos felicidade.
O segundo argumento estabelece suas bases num critério qualitativo. O fato de
estarmos privados de uma grande quantidade de ideias simples empobrece a representação
mental de ideias complexas, que dependem da combinação de ideias simples recebidas pelas
sensações. Nesse caso, o cego de nascença sequer pode relacionar e combinar tais ideias, de
maneira a impossibilitar a criação, através das faculdades da imaginação ou da razão, tal
como propunha seu rival, de um mundo visual. Isso ocorre porque “estas duas faculdades
301 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 197ss.
152
desenvolvem-se no centro das ideias; as ideias são adquiridas pelos sentidos” (OC, III, p.
981).
O terceiro argumento de Machado é decorrente de uma espécie de cosmologia.
Se o nosso conhecimento do mundo deriva parcialmente do ato de enxergar, e se o
considerarmos como um efeito ou manifestação da existência de Deus, então não podemos
formar uma ideia exata da divindade, pelo menos não tão exata quanto a ideia de alguém que
possuiu, um dia, todos os cinco sentidos.
Machado de Assis constrói sua argumentação em bases epistemológicas e
filosóficas. Nesse primeiro ensaio, a avaliação moral sobre a questão é uma consequência
lógica de premissas epistêmicas empiristas. Os argumentos de Joaquim Serra, por outro lado,
possuem fundamentação moral: cegar-se durante a vida é um castigo terrível, ao passo que
nascer cego é apenas uma privação causada pelo destino. Além disso, Machado aponta uma
dificuldade na solução conciliatória de Serra: entre ser capaz de idealizar um mundo visual
e desconhecer o significado da visão. A falta de embasamento epistemológico fez com que
Joaquim Serra “não chegasse a qualquer conclusão, a uma consequência exata que fosse a
base de sua opinião” (OC, III, p. 981). Por isso, ele argumenta recorrendo à autoridade,
aludindo a diversos médicos.
Machado também recolhe a opinião de cientistas da época, como o anatomista
Bichat, o químico Stahl e o astrônomo Lalande. Apesar disso, os seus argumentos se apoiam
mais em doutrinas filosóficas. Dizer que um cego pode fantasiar ou imaginar um mundo
visual constitui um “erro psicológico”, porque não é assim que devem funcionar, do ponto
de vista teórico, as faculdades humanas. A imaginação e o raciocínio são faculdades
presentes numa teoria das ideias empirista em que as ideias são adquiridas da experiência
sensorial. “Ora, sendo o cego de nascença estranho ao mundo físico, não pode receber ideias
para povoar o seu mundo pela ausência do importante órgão da percepção visual” (OC, III,
p. 981). O cego pelo destino, ao contrário, pode recriar um mundo visual a partir de suas
recordações.
Os cegos por desgraça conservam na memória as impressões recebidas pela
visão, que agora estão disponíveis a operações mentais. No cego de nascença, o desejo de
ver o mundo é tão nocivo quanto a saudade da visão é nociva para o outro cego, porque o
testemunho sobre as coisas belas do mundo visual transformam o desejo em curiosidade
153
desesperada. Aquele que nasce cego perde a noção dessas coisas belas, harmônicas,
ordenadas e criadas por um demiurgo. Sem o contato direto com o mundo, perde-se aquela
força ou sentimento interno dos ecléticos espiritualistas que orientava o corpo para as boas
ações. No limite, perde-se a própria possibilidade de uma ação livre, pois, conforme a teoria
ecletista de um Magalhães, a ação moral e livre se relaciona à quantidade de resistência que
o corpo pode oferecer ao mundo. Em alguma medida, o cego congênito perde a noção e não
reconhece o próprio “Ente Supremo”:
A inteligência humana reconhece este desabrochar de flores, este
reverdecer de campos, este suceder contínuo de estações, dias e noites,
este existir de átomos, de insetos, que escapam à vista, e que nascem,
vivem, movem-se, agitam-se, para o que é necessário haver músculos,
pois sem músculos não há movimento, enfim este mundo grande e
infinitamente pequeno, que se manifesta no trovão e no imperceptível
caminhar dos átomos, este mundo harmônico – orgânico, majestoso,
admirável; tudo isto, dizíamos nós, reconhece a inteligência humana
que deve ter uma origem, que não pode estar em si, porque seria um
absurdo, que não pode ser obra do acaso que nada produz, mas que deve
nascer de um Ente Supremo, infinito, eterno. Este reconhecimento que
importa um dos pontos capitais da filosofia, e a base da religião não
pode ser operado senão pelas ideias recebidas pelos sentidos. Pode o
cego de nascença sem uma noção só do mundo físico, essa grande
manifestação da existência de Deus, fazer ideia exata da Divindade?
Não o cremos (OC, III, p. 982, grifos nossos).
Machado estava a resumir as provas tradicionais da existência de Deus, cuja
ideia não pode ter origem na inteligência humana. Um ser cujas perfeições excedem o
entendimento, até mais quando as ideias recebidas são limitadas por uma deficiência física.
Em suma, o argumento teleológico que prova, por contradição ou por absurdo, a causa da
beleza e da complexidade do mundo. Porém, o mundo filosófico de Machado já não era um
mundo qualquer, pois era semelhante ao de Pascal:
O mundo visível todo não é senão um traço imperceptível no amplo seio
da natureza. Ideia alguma se aproxima dela, por mais que expandamos
as nossas concepções para além dos espaços imagináveis, não geramos
senão átomos em comparação com a realidade das coisas. É uma esfera
infinita cujo centro está por toda a parte, a circunferência em parte
alguma. Enfim, é a maior característica sensível da onipotência de Deus
que a nossa imaginação se perca nesse pensamento (La 199, Br 72).
154
Estabelecido o mérito das teses de Machado, restava ao Serra golpear os seus
fundamentos epistemológicos. A terminologia da discussão é tipicamente lockiana: a
experiência (sensação ou reflexão) é a única fonte das ideias. Quanto ao primeiro e ao
segundo argumentos, Serra responde que, despossuído de sentido visual, as ideias de
reflexão que porventura surgissem, por exemplo, as operações mentais relacionadas ao
“querer” e ao “duvidar”, apareceriam apenas quando estivesse “acostumado com essa noite
eterna, ele não sabe o tesouro que perdeu, porque nasceu e criou-se sem conhecer esse
tesouro; porque, enfim, não fez as comparações”.302
A terceira razão elencada por Machado parecia ocultar alguma coisa
incompatível com as outras duas razões. De acordo com o argumento cartesiano, nossas
ideias podem se originar de nós mesmos ou a partir da interação com coisas externas a nós.
Um racionalista estrito deveria se manifestar pela primeira opção, uma vez que as ideias que
temos de Deus (infinidade, perfeição etc.) não podem ser produzidas na interação entre o
homem e o mundo. Ora, uma vez que o efeito não pode ter mais realidade do que sua causa,
o racionalista deduz a existência de Deus como causa da ideia de que dele fazemos. O
argumento de Machado deduzia, segundo Serra, a existência de Deus de seus efeitos, quais
sejam, as interações do corpo humano com o mundo exterior, ao invés de admiti-la como
uma ideia inata. A premissa parecia esconder um tipo de panteísmo sensual e imanentista,
segundo o qual Deus é identificado com a própria natureza, diluindo o misticismo e a
presença divina na nossa percepção do mundo exterior. Porém, não é preciso ir tão longe,
pois era comum, a partir da filosofia espiritualista de Laromiguière, a concepção inatista
sobre a capacidade da alma de formar e operar ideias. Nesse caso, quem nasce cego é mais
infeliz porque lhe é tolhida parte da capacidade deste princípio interior, de modo que ele
tenha menos acesso ou participe menos daquela natureza divina, corruptível como, de resto,
é toda a natureza ao nosso redor. Mas se o mundo ainda é pascaliano, este mundo grande e
infinitamente pequeno, o mesmo não se pode dizer da concepção de homem, pois as teses
ecletistas eram mais otimistas quanto à capacidade humana de compreender o princípio das
coisas.
302 SERRA, Joaquim. “Réplica ao Sr. As.” A Marmota, n. 932, 9 mar. 1858, f. 2.
155
As aproximações eletivas com a antropologia pascaliana sofreriam menos tensão
caso Machado de Assis e Joaquim Serra demonstrassem conhecer diretamente os
Pensamentos de Pascal. A metáfora do rei deposto bem representaria o que a natureza
humana pode implicar em termos de moralidade:
[Q]uem se acha infeliz por não ser rei, senão um rei deposto? Acaso
achavam que Paulo Emílio era infeliz por não ser cônsul? Pelo
contrário, toda a gente o julgava feliz por tê-lo sido, pois sua condição
não era de sê-lo sempre. Mas achavam Perseu tão infeliz por não ser
mais rei; é porque a sua condição era de sê-lo sempre que achavam
estranho que ele suportasse a vida. Quem se acha infeliz por não ter
senão uma boca e quem não se acharia infeliz por só ter um olho?
Talvez a gente nunca tenha pensado em afligir-se por não ter três olhos,
mas fica-se inconsolável se não se tiver nenhum (La 117 Br 409).
O rei deposto é como o homem decaído, cuja natureza foi rebaixada à condição
animal. O homem havia gozado da verdade e da felicidade no estado prelapsário. Os
resquícios dessa condição fazem agora com que o homem não se contente com uma vida
sem verdade e sem felicidade. Um argumento semelhante é mobilizado por um dos
ensaiadores do mote de Paula Brito:
Não seria Adão mais feliz se nunca tivesse vivido no Paraíso, do que
depois de ter gozado desse Éden ver-se privado dele? Pois assim
acontece ao cego de nascença: vindo ao mundo com os seus olhos
fechados para a luz, acostumando-se a viver na escuridão, habitua-se a
isso, ama por fim a noite dos seus olhos [...]; mas o cego por desgraça
viu e apreciou o mundo, e vendo-se depois cego, amaldiçoa esse véu
negro que lhe encobre a vista, aborrece essa escuridão que o
circunda.303
O argumento de Pascal considera a sutil diferença entre uma situação
contingente de privação da verdade e uma situação em que o acesso à verdade está totalmente
impedido. A incapacidade humana de alcançar a verdade e o bem é uma privação e não mera
negação, como querem os céticos. Do mesmo modo, é infeliz quem se encontra privado de
um olho, quando a natureza lhe oferece dois. Na polêmica dos cegos, a posição de Joaquim
Serra está mais próxima da perspectiva pascaliana. É preciso lembrar que Serra foi o
principal redator de O Cético, jornal publicado um ano antes da polêmica:
303 A (pseudônimo). A Marmota, n. 933, 12 mar. 1858, f. 2.
156
[N]ão creias que como Berkeley compreendemos o ceticismo, não!
Nem tão bem o experimentamos provisoriamente como recomenda
Descartes; nós o imaginamos, e o sentimos como pintamos: descrença-
parcial do mundo material, dos prejuízos admitidos, da impiedade-
idolatrada. Nós bem conhecemos o perigo dessa crença assim
sistematicamente, mas felizmente, apesar de Cousin, ainda não
rejeitamos o homem no misticismo, nem temos sofrido a consequência
que vaticina a quem assim descrê, absoluta inação, completa
ignorância, e profunda imoralidade. Tu crês que não crês, me dirás
como quem diz a verdade; cremos sim, cremos tão bem em mais alguma
coisa, por exemplo que por mais dogmático que sejas não nos arredarás
da convicção que dos homens fazemos.304
O “sectário de Pirro” é mobilizado a imputar ao homem responsabilidade por
tudo aquilo de que se priva, a saber, a verdade, o bem e o belo, para encontrar, após a
descrença radical, um bálsamo que servirá de “lenitivo para sanar essa ferida, que tão
necessária te foi experimentar”.305 Serra posiciona-se filosoficamente ao lado de Demócrito.
Mas o seu ceticismo aproxima-se muito mais do ceticismo cartesiano, uma vez que admite
apenas uma metodologia cuja fonte de conhecimento e de verdade não seja os sentidos:
Quanto ao vosso sistema sobre as ideias serem exclusivamente
adquiridas pelos sentidos, e que apresentais como uma razão de
impossibilidade para o cego de nascença criar um mundo ideal; só vos
responderemos que a teoria das ideias inatas é altamente filosófica, e
que neste caso a sua aplicação é muito sensata.306
Outros debatedores discursaram a favor da tese de Joaquim Serra. Após Albano
Cordeiro fazer uma longa digressão sobre o assunto, Machado retoma a pena no número de
16 de março de 1858. Albano falou em dividir a questão em três espécies de cegos: “os que
nunca viram, os que cegaram nos primeiros anos da vida, e os que cegaram depois de ter
gozado a vista por muitos anos”.307 Essa distinção relativizava a tese de Machado, segundo
a qual os cegos de nascença são sempre infelizes. Na verdade, eles são infelizes apenas após
a época em que o pensamento “funciona com a força do raciocínio” (OC, III, p. 983), isto é,
após o desejo de ver se associar ao testemunho de outrem sobre as imagens vistas. Ora, se é
304 SERRA, Joaquim. “Chronica”. O Sceptico, v. 1, 1º jan. 1857, f. 3. Rio de Janeiro: Typ. Americana de José
Soares de Pinho. Disponível em . Acesso em: 22 out. 2018.
305 SERRA. “Chronica”, f. 3.
306 SERRA. “Resposta ao Sr. As.”, f. 2.
307 CORDEIRO, Albano. “A conversa VI” A Marmota, n. 934, 16 mar. 1858, f. 1.
157
certo que o argumento de Serra estava mais próximo da distinção pascaliana entre privação
e negação, é Machado quem faz uso das reflexões de Pascal sobre o costume, a lei e a
natureza:
É verdade que S.S. [Joaquim Serra] pode dizer, para comprovar a sua
asserção: o costume faz lei; mas nós lhe responderemos, que não há lei
possível no caso atual: a natureza é sempre natureza: exigente e terrível
quando se trata das suas atribuições. Negar isto, é negar todas as
verdades palpáveis, todos os princípios evidentes (OC, III, p. 984).
Não pode ser ignorada a referência a essa primeira lei natural, contrária à lei
assentada sobre os costumes (La 126 Br 93). Além do costume, dos sentidos, da imaginação
e da diafonia entre as opiniões, Pascal cita as doenças como fonte de erro e infelicidade:
Elas estragam em nós o juízo e o senso. E se as grandes o alteram
sensivelmente, não duvido de que as pequenas também deixem aí a sua
impressão na devida proporção.
Nosso interesse próprio é também um maravilhoso instrumento para
nos furar os olhos de maneira agradável (La 44 Br 82).
A cegueira está certamente entre as grandes doenças. Mesmo que o cego se
acostumasse com a sua condição, transformando-a em lei, a primeira natureza, negando-lhe
a visão, ainda havia de lhe punir. Em seguida, Machado se abstém da hermenêutica sobre o
conceito de ideias inatas a partir de Descartes, porém não as admite: “concordamos que
hajam princípios e sentimentos inatos – ideias, nunca!” (OC, III, p. 984). Ora, a diferença
entre falar de princípios ou sentimentos e falar de ideias é que os primeiros são apenas as
faculdades que nos possibilitam a aquisição das últimas. Ademais, a admissão de que Deus
seja uma ideia inata não altera a avaliação da questão de Paula Brito. Quer dizer, mesmo que
tal ideia inata fosse a causa do mundo fantasiado e imaginado pelo cego congênito, isso não
o tornaria menos infeliz.
O argumento de Machado remonta à teoria das ideias de John Locke,
reclassificadas pelo espiritualismo de Laromiguière e Monte Alverne. Segundo o filósofo
inglês, as ideias simples ou complexas de nossa mente derivam de impressões sensíveis que
nos afetam os sentidos em uma experiência. Portanto, não há princípio nem ideia inata na
mente que sejam anteriores à experiência, seja da experiência sensível de objetos externos,
seja da experiência da observação das próprias operações mentais. Apenas a capacidade da
158
mente em conhecer verdades é inata, não o próprio conhecimento adquirido. 308 Locke
também aceita a demonstração da existência de Deus (demiurgo imaterial) enquanto origem
causativa de nossas próprias capacidades cognitivas.309 Além disso, Machado encaminha a
mesma resposta dada por Locke ao problema formulado por Molyneux:
Para fantasiá-lo e colori-lo [o mundo], é necessária a presença de ideias
sensíveis, de imagens de corpos. Ora, o cego de nascença se bem que
tenha ideias sensíveis do mundo tangível, não tem todavia, pela falta de
órgão visual, os corpos e as imagens necessárias para a criação de seu
mundo imaginário, logo não se dá no cego de nascença a idealização de
um tal mundo (OC, III, p. 984).
Apesar da semelhança entre as posições, é improvável que Machado tenha
tomado os argumentos diretamente de Locke. Isso porque a maior parte do conhecimento
que se dispunha na época sobre o empirismo inglês era transmitido através dos livros de
tendência eclética, os mesmos que tentavam combinar argumentos epistemológicos
empiristas (ou materialistas) e elementos do racionalismo (ou espiritualismo). A influência
francesa no Brasil explica a preferência dos autores pelo “sensualismo” de Condillac, em
detrimento do empirismo canônico inglês. Lembre-se dos diversos manuais de filosofia
disponíveis à época, especialmente a tradução para o português do Curso de história da
filosofia moderna de Victor Cousin. Os estudos de psicologia estavam à moda do tempo. Os
compêndios de Moraes e Vale, Gonçalves de Magalhães, Monte Alverne e Ferreira França
discorriam sobre as faculdades da alma, suas determinações internas, orgânicas e ambientais.
De um modo ou de outro, eles assumam o pressuposto de que a alma se compõe de uma
força primitiva e inata de vontade, que não se reduzia ao puramente empírico.
Na Carta sobre os Cegos, Diderot considera uma resposta não empirista ao
problema de Molyneux, derivada da habilidade intelectual do sujeito em manejar conceitos
matemáticos e geométricos.310 Apesar disso, Diderot narra o diálogo sobre a existência de
308 LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. Trad. Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 1999,
I. 1. 3-4, p. 57-58. Não consta da biblioteca de Machado de Assis qualquer empirista dos séculos XVII e
XVIII.
309 LOCKE. Ensaio acerca do entendimento humano, IV. 10. 1-6, p. 267-268.
310 “É evidente que a geometria, caso [o cego congênito] fosse nela instruído, lhe forneceria um meio infalível
de certificar-se se o testemunho dos dois sentidos são contraditórios ou não”. DIDEROT, Denis. Carta
sobre os Cegos para o uso dos que veem. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Nova Cultural, 1979 (Coleção Os
Pensadores), p. 28.
159
Deus entre o matemático Nicholas Saunderson, nascido cego, mas à beira da morte, e um
ministro:
– [...] Se quereis que eu creia em Deus, cumpre que me façais tocá-lo.
– Senhor, recomeçou habilmente o ministro, levai as mãos sobre vós
mesmo, e reencontrareis a divindade no admirável mecanismo de
vossos órgãos.311
Não possuindo visão, o filósofo tampouco poderia compreender o argumento de
que Deus se apresenta nas coisas e que, através delas, sua existência é verificada. A questão
de Molyneux é vista aqui a partir do ângulo moral. Saunderson apresenta uma resposta
angustiante ao problema, pois basta nos faltar qualquer órgão para perdermos, de modo
definitivo, qualquer conhecimento sobre Deus. No limite, deveríamos reconhecer a
inferioridade moral do cego congênito, sua infelicidade perpétua. Ele seria apenas a besta
pascaliana, sem qualquer possibilidade transcendente. Lembremos que essa era a premissa
escondida que Joaquim Serra atribuía à argumentação de seu opositor.
Machado de Assis é, então, acusado de materialista, ou seja, de admitir e
reconhecer a existência de Deus somente nas suas obras. Ele oferece uma resposta
estritamente filosófica e antimetafísica, desvinculada de “uma veneração fanática pelas
doutrinas espiritualistas”, mas que restituísse ao cego congênito alguma capacidade
transcendente. Isso porque o mundo físico era apenas uma das provas da existência de Deus.
Não causa surpresa Machado concluir seu artigo evidenciando sua preferência filosófica:
[N]ão somos nem espiritualista puro, nem materialista; harmonizamos
as doutrinas de ambas as escolas e seguimos assim em ecletismo com o
qual nos damos às mil maravilhas.
Quanto ao reconhecimento de Deus em suas obras, repetimo-lo, o cego
de nascença não pode conceber uma ideia exata, clara, perfeita da
divindade; isto não quer, porém, dizer que ele não possa ter dela ideia
alguma, pois, como dissemos acima, equilibramos com mais perfeita
harmonia o espiritualismo e o materialismo (OC, III, p. 984).
O quadro do combate dispunha os lutadores em posições antagônicas, embora
nenhum deles aceitasse de bom grado o seu espaço determinado: Machado argumentava pelo
empirismo, e não aceitava que lhe chamassem materialista. Serra argumentava pelo
311 DIDEROT. Carta sobre os cegos, p. 18.
160
racionalismo, e não aceitava ser tratado como espiritualista puro. Na última rodada, ambos
se viram impelidos ao centro do tablado argumentativo, e sabiam que esse movimento só se
realizava empurrando o adversário para o outro extremo. Machado levara a disputa filosófica
a sério, triunfando sobre seu adversário. Serra recuou em sua tréplica, reafirmando a intenção
humorística de seu primeiro ensaio. Somadas as papeletas, Machado venceu por alguma
vantagem. Preparou-se para a peleja, adotando uma retórica de contra-ataques, esquivou-se
bem quando lhe acusaram de ser materialista. Evitou entrar no problemático terreno da
discussão sobre as ideias inatas a partir de Descartes. Cansou o adversário até que ele cedesse
a guarda. Por fim, autoproclamou-se vencedor.
Estava em julgamento qual das posições estava no centro do tablado, ou melhor,
qual dos argumentos era mais consistente com a posição do chefe do ecletismo. Apesar de
vencer a batalha pelo melhor argumento, não foi apenas Machado quem declarou a sua fé no
ecletismo de Cousin. Ambos se utilizaram do mesmo acervo de argumentos ecléticos. Esse
debate não deixa dúvidas da competência do jovem Machado de Assis em manejar conceitos
filosóficos. Jean Michel-Massa é lacônico, e sugere que Machado adotava
mais ou menos a teoria de Chateaubriand em Le Génie du
Christianisme, tantas vezes retomada e desenvolvida por Monte
Alverne [...] o sistema proposto por Machado de Assis não era pessoal
nem original, mas a filosofia tradicional do tempo, a que o ecletismo de
Victor Cousin, passavelmente idealizado e espiritualizado ao sabor das
ideias da época, acrescentou alguma contribuição.312
Massa refere-se, provavelmente, à obra sermonística de Alverne, que pretende
continuar a visada histórica de Chateaubriand sobre o gênio cristão. Nessa época, Machado
não dispunha do manual de Gonçalves de Magalhães, publicado alguns meses após a
polêmica. As teses de Chateaubriand e Pelletan não eram abrangentes o suficiente para
responder à versão tupiniquim da questão de Molyneux. A referência ao médico anatomista
Bichat, ao químico Stahl e ao astrônomo Lalande, no início do primeiro artigo,
caracterizavam a confiança do jovem em relação à ciência experimental. Qualquer que seja
a fonte, propagava-se o mesmo ensinamento de Cousin, segundo o qual a verdade é algo
312 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 195.
161
espiritual e incompreensível sem Deus.313 A razão é um atributo divino que nos permite
alcançar verdades, limitada, por exemplo, pela incapacidade humana de compreender
totalmente a natureza.314 Daí o receio de ser tachado de materialista. Daí se compreende os
porquês da teologia de artista.
Massa afirma que o jovem saiu engrandecido do debate, quanto mais porque não
fosse treinado em alguma universidade. Contudo, o biógrafo ainda é reticente em relação ao
modo pelo qual Machado adquirira essa “retórica raciocinante”.315 Se este estudo de fontes
está correto, a competência filosófica de nosso autor decorre, por um lado, da ascendência
intelectual do Padre Sarmento, que o colocou em contato com a tradição ecletista de Victor
Cousin e Monte Alverne. Cousin deu novo significado à imagem de Pascal, e Monte
Alverne, talvez por causa de sua formação jansenista junto aos Padres do Patrocínio,
expressa a mesma antropologia agostiniana nos Sermões.316 Por outro lado, o grupo de
estudos capitaneado por Paula Brito cumpriu a função de preencher algumas lacunas da visão
filosófica do garoto, por exemplo, com as teorias cristãs de Chateaubriand e Pelletan. É com
ferramentas teóricas à mão que Machado de Assis inicia a construção do seu projeto literário
da década seguinte.
313 “La vérité est incompréhensible sans Dieu, comme Dieu nous serait incompréhensible sans la vérité. La
vérité est placée entre l'intelligence humaine et la suprême intelligence, comme une sorte de médiatrice”
(COUSIN. Du vrai, du beau et du bien. p. 101).
314 “Mais dont il lui est interdit à jamais de pénétrer et de comprendre la nature. Le sentiment accompagne et
vivifie les intuitions sublimes de la raison, mais il ne faut pas confondre ces deux ordres de faits, encore
bien moins étouffer la raison dans le sentiment. Entre un être fini tel que l'homme, et Dieu, substance
absolue et infinie, il y a le double intermédiaire et de ce magnifique univers livré à nos regards, et de ces
vérités merveilleuses que la raison conçoit mais qu'elle n'a point faites pas plus que l'œil ne fait les beautés
qu'il aperçoit” (COUSIN. Du vrai, du beau et du bien, p. 132).
315 MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 198.
316 Tome-se de exemplo o trecho do “Segundo panegírico de S. Pedro de Alcântara”, que dá ensejo à miséria
de muitos personagens de Machado: “abramos este livro admirável, que tem escapado aos mais temerosos
cataclismos, e sobrevivido às revoluções do globo; consideremos esta alegoria magnífica, de que o escritor
hebreu serviu-se tão habilmente para derivar do pensamento primordial do homem primitivo as tendências
da nossa natureza; e seremos forçados a concordar com o mais sábio dos doutores, que o cristianismo deu
começo à sua existência protegendo o homem no instante mesmo da sua queda: que o seguiu na sua infância
envolto na sombra do mistério, e manifestou-se em toda a sua irradiação, logo que a sociedade assumiu as
proporções mais gigantescas. A mulher, tipo do devaneio e da fatuidade, é subjugada pelo prestígio do
maravilhoso; e aventura-se aos resultados da mais fatal desobediência enganada pela serpente, símbolo da
fascinação e do encantamento. O homem escuta sua esposa, deixa-se dobrar de suas carícias; quebranta um
preceito, que contraria sua vaidade; esquece promessas, que ele não compreende, afagado por deleites, que
ele conhece, que ele experimenta, que ele sente cada dia; e arrasta sua posteridade nos horrores da
desventura” (ALVERNE, Obras oratórias, v. 2, p. 408).
162
3.3 Moral de teatro e estudo de caracteres (1861-1864)
Abram-se as cortinas para um público curioso sobre o destino de seu herói. O
cenário imita o cárcere do Santo Ofício. O prisioneiro está deitado sobre palhas, acorrentado,
aguardando a promessa de morte. Ouve-se ruído de ferrolho e um homem encapuzado e com
dois buracos diante dos olhos quase invisíveis aconchega-se para a última oração.
Assim tem início o último ato do primeiro drama brasileiro. A encenação de
Antônio José ou o poeta e a inquisição, do ecletista romântico Gonçalves de Magalhães,
estreou com grande impacto a 13 de março de 1838. Essa tragédia serviu como propaganda
nacionalista para o movimento romântico. Nascido no Rio de Janeiro, o teatrólogo Antônio
José da Silva (1705-1739), conhecido por “O Judeu”, foi torturado e condenado pela
Inquisição por supostas heresias. Aos 21 anos assinara o termo de arrependimento
prometendo nunca blasfemar do catolicismo. Promessa falsa, pois ele ainda dedicaria um
tanto de sua obra teatral ao combate às práticas do Santo Ofício contra os cristãos-novos. No
auge de sua carreira, fora recolhido novamente pela Inquisição, degolado e queimado em
praça pública. Assim o Judeu tornou-se uma espécie de herói político e literário daquela
geração. Machado de Assis presta-lhe homenagem numa sextilha homônima bastante
melancólica:
Antônio, a sapiência da Escritura / Clama que há para a humana criatura
/ Tempo de rir e tempo de chorar; / Como há um sol no ocaso, outro na
aurora. / Tu, sangue de Efraim e de Issacar, / Pois que já riste, chora
(OC, III, 562).317
Dizíamos anteriormente que os intelectuais brasileiros se defrontaram com
questões de ordem política, estética, religiosa e filosófica. Liberto de Portugal, a ex-colônia
teve de se preocupar com a construção de um conjunto de costumes e crenças que a
distinguiam enquanto grupo social. Do ponto de vista filosófico, o conjunto de conceitos e
317 Publicado originalmente em Ocidentais (1901), junto com a edição das poesias completas organizada pelo
próprio autor. Há que se observar aqui a comparação entre a vida/morte trágica do comediógrafo e a
referência bíblica, provavelmente ao Eclesiastes: nada de novo há sob o sol, a transitoriedade das coisas
contrárias, tempo de rir e de chorar, de glória e ignomínia etc. A sabedoria do Eclesiastes é uma das
principais influências filosóficas do último romance de Machado de Assis, o Memorial de Aires, publicado
em 1908.
163
teses sobre o que é ser brasileiro leva-os a expressão de uma nova literatura, com temas e
gêneros textuais adequados àquela geografia. Isso porque valia a tese segundo a qual “a
literatura de um povo é o desenvolvimento do que ele tem de mais sublime nas ideias, de
mais filosófico no pensamento, de mais heroico na moral, e de mais belo na natureza”.318
Era a justificativa que faltava para que nossas obras literárias pudessem expressar legítimas
e originais intuições filosóficas.
As escolas do drama ofereceram dois encaminhamentos para a tese de
Magalhães. Para dar exemplos efetivos, o teatro de Martins Pena (1815-1848) introduziu a
“comédia de costumes”, uma espécie de sátira social sobre a realidade das classes baixas. E
Gonçalves Dias (1823-1864) manteve o gosto pela cor local e pelo pitoresco, estudando o
índio por aquilo que ele pretensamente possuía de original.
Apesar desses dois caminhos distintos, o desvio em relação a uma possível
influência da cultura lusitana, dominante até então, direcionava os românticos à adoção de
padrões estéticos franceses, num período em que, paradoxalmente, os próprios franceses
desconfiavam dos novos e dos velhos padrões. Os românticos brasileiros nutriam uma
francofilia caduca, posto que a nova geração de intelectuais franceses, amparados pela
influente Revue des deux mondes, se não abraçavam as doutrinas do romantismo, tampouco
expressavam totais boas-vindas ao realismo teatral. As críticas da escola realista àquele
movimento consistiam em dizer que ele era pouco natural na expressão, escolhia o verso e a
paráfrase em detrimento da oralidade e da locução direta, idealizava a realidade ao invés de
descrevê-la tal e qual.
É verdade que, naquele curto espaço de tempo em que Machado se entusiasmara
com a leitura de Pelletan, durante o ano de 1859, a idealização romântica da realidade
pareceu pouco adequada às ideias políticas progressistas. Por isso, em seu primeiro folhetim,
escrito para O Espelho, ele afirmava possuir a “bossa do filosofismo” e pertencer a escola
realista, “mais sensata, mais natural, e de mais iniciativa moralizadora e civilizadora” (T, p.
318 MAGALHÃES. Factos do espírito humano, p. 283.
164
116).319 Mais do que entretenimento e menos que pura idealização filosófica, o teatro deveria
copiar a civilização e corrigir os desvios da “sociedade em sua marcha de progresso
ascendente” (OC, III, p. 1011). Era o teatro ou o jornalismo. Ambos tinham a função
civilizadora. Mas o folhetim ficou sendo a plataforma para se comunicar com o público (as
massas?), ao passo que o conteúdo político fosse substituído por algo mais puro, do quilate
da arte dramática, para colocar em debate as questões sociais.
A “bossa” ou a disposição ao filosofismo trouxeram-lhe mais resultados
positivos do que suas primeiras obras teatrais, Desencantos (1861), Hoje avental, amanhã
luva (1860), O caminho da porta (1863), Protocolo (1863), Quase ministro (1863), Os
deuses da casaca (1865) e As forças caudinas.320
Machado de Assis foi desde cedo um teórico do teatro brasileiro. Vendo-se
diante daquela encruzilhada, vivenciando o conflito escolástico, ele pôde seguir o método
da conciliação eclética e sugerir uma saída por portas espiritualistas, ou seja, pensar o teatro
mais do que escolher e realizar um teatro. Por isso o jovem Machado acompanhou de perto
as inovações do drama realista brasileiro, trazido à cena pelo Teatro Ginásio Dramático, a
partir de 1855. No repertório, peças de Dumas Filho, Émile Augier e Octave Feuillet. Esses
dramaturgos se autodenominavam realistas porque pretendiam descrever com rigor a nova
sociabilidade burguesa. Com a verve moralista, suas peças estabeleciam enredo que
discriminava bons e maus costumes através do conjunto de valores como o trabalho, a
família, o casamento, o dinheiro, a livre iniciativa, a necessidade de preservação do capital,
a honestidade etc. Tratava-se de uma dramaturgia inovadora em relação ao teatro de João
319 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria [M-as]. “Revista de teatros”. O Espelho, n. 2. 11 set. 1859, f. 8.
Disponível em < http://memoria.bn.br/DocReader/700037/14> Acesso em 28 fev. 2017. A série de críticas
teatrais não foi coletada pelas Obras Completas em quatro volumes. Para as críticas teatrais não incluídas
na OC, consultamos a coletânea de João Roberto Faria (Machado de Assis: do teatro. São Paulo:
Perspectiva, 2008).
320 Forças caudinas é uma comédia em dois atos descoberta por Eugênio Gomes (1953) e publicada por
Magalhães Júnior na coleção Contos sem data (1956). Há uma cópia autógrafa dessa peça, provavelmente
de 1863. Ela serve de base para o conto Linha reta, linha curva, publicado originalmente no Jornal das
Famílias e, em seguida, reunido nos Contos Fluminenses (1870). Encenada pelo Teatro Ateneu Dramático,
Caminho da porta foi a primeira peça original de Machado, uma vez que Hoje avental, amanhã luva é uma
imitação e Desencantos foi publicada apenas em livro. Deuses da casaca e Quase ministro foram
representadas apenas em saraus literários. Ver FARIA, João Roberto. “Machado de Assis e o teatro”.
Revista Brasileira. Rio de Janeiro, v. 55, p. 153-184, 2008.
165
Caetano dos Santos, 321 com seus dramas românticos, suas tragédias neoclássicas e a
concessão que este fazia ao público quando interpretava melodramas de sucesso ao invés de
investir seriamente no teatro nacional:
Aprecio o Sr. João Caetano, conheço a sua posição brilhante na galeria
dramática de nossa terra. Artista dotado de um raro talento escreveu
muitas das mais belas páginas da arte. Havia nele vigorosa iniciativa a
esperar. Desejo, como desejaram os que protestaram contra a velha
religião da arte, que debaixo de sua mão poderosa a plateia de seu teatro
se eduque e tome uma outra face, uma nova direção; ela se converteria
decerto às suas ideias e não oscilaria entre as composições-múmias que
desfilam simultâneas em procissão pelo seu tablado (T, p. 145).322
Esse pequeno trecho resume toda a queixa de Machado de Assis: João Caetano,
bom ator e empresário, poderia tomar a frente do projeto edificante para o público, caso
aderisse aos preceitos da nova escola realista. Caberia ao governo regular as produções
teatrais, reduzindo o número de traduções, apoiando e financiando a nova dramaturgia.
Assim o teatro nacional deixaria de ser “um mito, uma quimera”:
A sociedade, Deus louvado! é uma mina a explorar, é um mundo
caprichoso, onde o talento pode descobrir, copiar, analisar, uma aluvião
de tipos e caracteres de todas as categorias. Estudem-na: eis o que
aconselhamos às vocações da época! (OC, III, p. 990).
Foi o Ginásio Dramático, criado pelo empresário Joaquim Heleodoro dos Santos,
que trouxe à cena a comédia de costumes da alta classe, peças sérias interpretadas com o
máximo de naturalidade, fazendo prevalecer o bom senso burguês “para que o palco se
transforme em uma tribuna, um espaço para o debate de ideias sobre a vida em família e em
sociedade. O objetivo desse debate: regenerar, moralizar e educar o espectador”.323 O crítico
321 Ator, dramaturgo e teórico do teatro, João Caetano dos Santos (1808-1863) foi ainda o responsável por
organizar a primeira companhia de teatro brasileira.
322 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria [M-as]. “Revista de teatros”. O Espelho, n. 6. 9 out. 1859, f. 10-
11. Disponível em Acesso em 28 fev. 2017. Outros
intelectuais cobraram João Caetano pelo mesmo motivo. José de Alencar, por exemplo: “Se João Caetano
compreender quanto é nobre e digna de seu talento esta grande missão, que outros, antes de mim, já lhe
apontaram; se corrigindo pelo estudo alguns pequenos defeitos, fundar uma escola dramática que conserve
os exemplos e as boas lições de seu talento e a sua experiência, verá abrir-se para ele uma nova época”
(ALENCAR, José. Ao correr da pena, p. 109).
323 FARIA. “Machado de Assis e o teatro”, p. 155.
166
reformador deveria assumir as tarefas do Conservatório Dramático Brasileiro, instituição de
censura ligada ao governo que se
limitava a apontar os pontos descarnados do corpo que a decência
manda cobrir: nunca as ofensas feitas às leis do país, e à religião... do
Estado [...] organizado desta maneira era inútil reunir os homens da
literatura nesse tribunal; um grupo de vestais bastava (OC, III, p. 1015).
O Conservatório ombreava com o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em
sua tarefa de forjar os recursos culturais do país. Eram instituições de governo ecletistas,
conservadoras em relação à arrumação social, progressistas em relação à garantia e ao
estimulo das liberdades fundamentais do homem. E quando uma coisa aparentemente
negasse a outra, era preciso dizer que a liberdade era coisa nova, cujo excesso deveria ser
contido sob o risco da desorganização e da anarquia.324 Mas o desequilíbrio em favor da
coerção lançava perigo ao desenvolvimento cultural do público, razão pela qual aquelas
instituições foram idealizadas. Machado percebe o delicado equilíbrio entre ordem e
anarquia, poder e autonomia, moralismo e liberdade. Daí a importância de instituições
balanceadas, nos termos ecletistas de Machado, de um “Conservatório ilustrado”:
A literatura dramática tem, como o povo constituído, um corpo policial,
que lhe serve de censura e corretivo: é o Conservatório.
Dois são, ou devem ser os fins desta instituição; o moral e o intelectual.
Preenche o primeiro na correção das feições menos decentes das
concepções dramáticas; atinge ao segundo analisando e decidindo sobre
o mérito literário – dessas mesmas concepções.
Com estes alvos um Conservatório dramático é mais que útil, é
necessário. A crítica oficial, tribunal sem apelação, garantida pelo
governo, sustentada pela opinião pública, é a mais fecunda das críticas,
quando pautada pela razão, e despida das estratégias surdas (OC, III, p.
1014).
Para Machado, o Conservatório apenas fazia bem a censura moral. Após quase
vinte anos de funcionamento, desbalanceara, tornando-se mero aparato de polícia. Viciado
em sua própria burocracia, ele quase não podia exercer a “função civilizadora” e praticar a
“emancipação do espírito”. Ficou sem inteligência para julgar a própria inteligência, “o
324 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 107.
167
mérito puramente literário, no pensamento criador, na construção cênica, no desenho dos
caracteres, na disposição das figuras, no jogo da língua” (OC, III, p. 1015).
Ora, superada a teologia de artista, em que a verdade assumia a condição de
epifania poética, e longe de apregoar a boa nova liberal estimulada pelo trabalho
parlamentar, restou ao jovem crítico julgar o teatro pelo critério da utilidade, ou seja, por seu
alcance moral e por seu mérito literário. Na prática, fazer censura ilustrada, repressão
libertadora e moderação progressista não eram ações contraditórias.
Com a pena na mão, Machado elogiou dramas que condenavam a escravidão e
possuíam algum “sentimento democrático” e liberal, peças com “iniciativa” e “contra a velha
religião da arte”. Apesar da novidade formal, a proposta dramatúrgica dos autores realistas
era pouco ou nada progressista. Numa interpretação puramente sociológica, a prescrição de
valores da burguesia emergente seria o que importamos e julgamos ter de moderno, embora
as ideias liberais devessem se retratar ao que impunha a circunstância histórica, mais ou
menos àquilo que Roberto Schwarz denominou “travejamento contraditório da
experiência”.325 Mas uma análise detida sobre a história das ideias revela que o liberalismo
e a prescrição moral da alta classe francesa para uma plateia que infringia a regra, por
exemplo, no modo de produção escravista, não eram coisas contraditórias, mas
complementares sob a perspectiva do ecletismo, como se viu nos capítulos anteriores.
Alguém pode alegar que a própria perspectiva eclética foi uma ideologia que mascarava uma
contradição real entre este modo de produção e o esclarecido. Seja como for, o que levou
Machado de Assis a desacreditar da tese realista forte foram questões teóricas não resolvidas,
cuja solução se desenhará das Memórias póstumas, em que o narrador assume a perspectiva
cética, zombando e fazendo equipolência tanto da norma quanto da infração.
Dois articulistas da Revue são as principais referências de Machado de Assis
para a mudança de pensamento em direção a uma concepção elevada do teatro: Gustave
Planche (1808-1857) e Émile Montégut (1825-1895). Até mesmo o título de sua coluna
sobre a cena teatral no jornal O Espelho é copiado de Montégut, redator da “Revue des
Theatres”. Discutiam-se quais eram os objetivos do teatro. A arte dramática não fora
concebida com o propósito de corrigir os costumes nem servir de entretenimento. Antes de
325 SCHWARZ. Um mestre na periferia do capitalismo, p. 40.
168
tudo, o teatro deveria se preocupar com a beleza e a verdade. De acordo com Planche, as
construções dos caracteres das peças modernas apareciam estranhas para a vida comum e
para o entendimento do crítico. Além disso, a formação de caráter do público era um objetivo
secundário da arte:
O que há de mais lastimável no estado atual da literatura dramática é
que o público não leva o teatro a sério. Quero dizer que ele o assiste por
mero divertimento, não atribuindo às obras dramáticas a importância
literária [...]. É um fato lamentavelmente comprovado que devemos
constatar: enquanto a produção dramática for o que é hoje, não
podemos esperar que o gosto do público se eleve ou se apure.326
Montégut é tido por crítico “bem severo”, mas, de acordo com Machado, “são
cabidas as suas censuras ao nosso país, em cujo teatro se legitimam as versões espúrias e
mal alinhavadas” (T, p. 265). O crítico brasileiro se refere a uma tradução malfeita de uma
peça de Augier que já desagradara em França. A severidade de Montégut nas páginas da
Revue é provavelmente derivada de sua reprovação ao movimento realista, responsável pela
crise do bom gosto do público:
Eu sei que o sistema de realismo dramático tem um mérito
incontestável, o qual eu certamente não poderei contestar: o de
dispensar o autor de imaginação, de invenção e de pensamento.327
Planche era o “mais ilustre crítico da escola clássica”, possuía um “alto critério”
e servia “verdadeira causa da arte” (T, p. 390). Com o conhecimento atualizado, em que pese
a ondulação teórica, o nome Machado de Assis foi então vinculado à cena teatral. Tanto que
é admitido no Conservatório Dramático, o mesmo que criticara dois anos antes, propondo-
lhe novas funções. De 1862 a 1864, Machado atuou como censor e emitiu diversos pareceres,
resmungando, vez por outra, dos limites que a própria instituição repressora lhe impunha.328
326 “Ce qu'il y a de plus fâcheux dans l'etat présent de la littérature dramatique, c'est que le public ne
prend pas le théâtre au sérieux. (...) Je veux dire qu'il le prend pour un simple divertissement, n'attache pas
aux ouvres dramatiques une importance littéraire. C'est un fait malheureusement avéré, que nous devons
constater: tant que la production dramatique sera ce qu'elle est aujourd'hui, nous ne pouvons guère espérer
que le goût public s'élève ou s'épure” (PLANCHE, Gustave. « Les drames et les comédies du temps ».
Revue des deux mondes, 2e période, tome 6, première quinzaine dec. 1856, p. 700-701).
327 “Je sais bien que le système du réalisme dramatique a un mérite incontestable, et que je me permettrai
certaiment pas de contester: celui de dispenser l'auteur d'imagination, d'invention et de pensée”
(MONTÉGUT, Émile. « Le Théâtre et la nouvelle Littérature dramatique » (Un Père prodigue, de M.
Alexandre Dumas fils). Revue des Deux Mondes, 2e période, tome 24, 1859, p. 970.
328 Ver MASSA. A juventude de Machado de Assis, p. 330-339.
169
O cargo no conservatório serviu de contrapeso ao realismo estrito, de modo que ele pudesse,
então, se colocar numa posição conciliadora entre os movimentos literários e as doutrinas
filosóficas em conflito:
As minhas opiniões sobre o teatro são ecléticas em absoluto. Não
subscrevo, em sua totalidade, as máximas da escola realista, nem aceito,
em toda a sua plenitude, a escola das abstrações românticas; admito e
aplaudo o drama como a forma absoluta do teatro, mas nem por isso
condeno as cenas admiráveis de Corneille e Racine [...]. Tiro de cada
coisa uma parte, e faço o meu ideal de arte, que abraço e defendo.
Entendo que o belo pode existir mais revelado em uma forma menos
imperfeita, mas não é exclusivo de uma só forma dramática. Encontro-
o no verso valente da tragédia, como na frase ligeira e fácil com que a
comédia nos fala ao espírito. Com estas máximas em mão – entro no
teatro (OC, III, p. 1020).
Franqueza, dever de verdade e liberdade de consciência eram alguns ideais do
folhetinista tomados aos articulistas da Revue ou, se quisermos, ao próprio Cousin em Du
vrai. Esses ideais não faziam sentido se fossem tomados abstratamente. Daí a função de
instituições ecléticas, como o Conservatório, que pudessem garantir a “liberdade possível,
isto é, a maior soma de liberdades que se possa outorgar dadas as condições locais, sem pôr
em risco o poder dispensador, ou melhor, garantidor das mesmas”.329 A coexistência dessas
duas visões de mundo, ainda que antagônicas para um europeu finissecular, aqui era uma
característica comum à nova inteligência. Machado de Assis julgava normal assumir
atividades tão contraditórias como a de censor e a de liberal. Registre-se: a princípio,
ninguém o recriminou. Apenas na segunda fase do Conservatório, nos idos de 1878, a reação
liberal publicará uma charge na Semana Ilustrada, em que Machado aparece ajudando a
decapitar os dramaturgos com uma tesoura. Àquela época não era incomum o intelectual
aderir, sem mais, ao ecletismo. Bem o vimos durante a polêmica dos cegos, quando nutriu a
crença de que o ecletismo o levaria à independência intelectual. O ecletismo também evitaria
a acusação de sectarismo. Além do quê, permitiu-lhe caminhar pelos corredores do senado
sem qualquer sombra de proselitismo. Sob o ecletismo harmonizavam-se o critério estético,
a busca do belo na forma puramente artística, e o critério moral, a percepção do teatro como
a “escola de costumes” e a “pedra de toque da civilização”:
329 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 110.
170
Não é o teatro uma escola de moral? Não é o palco um púlpito? Diz
Victor Hugo no prefácio da Lucrécia Borgia: “O teatro é uma tribuna,
o teatro é um púlpito. O drama, sem sair dos limites imparciais da arte,
tem uma missão nacional, uma missão social e uma missão humana.
Também o poeta tem cargos d’almas. Cumpre que o povo não saia do
teatro sem levar consigo alguma moralidade austera e profunda. A arte
só, a arte pura, a arte propriamente dita não exige tudo isso do poeta;
mas no teatro não basta preencher as condições da arte” (OC, IV, p. 40).
Desde essa época, Machado de Assis manteve uma concepção filosófica e moral
do teatro. Extintos o Conservatório e as garantias oferecidas pelo governo, então toda a
estrutura haveria de ser desmontada. Ele julgava a questão “na sua concepção mais abstrata”.
Isso justifica teoricamente o rápido desencanto de Machado com o jornalismo político –
mero produto do liberalismo econômico – e a sua preferência pela crítica teatral. A citação
a Victor Hugo vem a calhar para a resistência contra a mercantilização da arte,
especificamente contra a tese defendida por Macedo Soares, segundo a qual o drama não
deveria se submeter aos cuidados do governo, mas à doutrina liberal da concorrência, pois o
teatro é “uma escola de moral [...]. É desconhecer a natureza da arte e os limites que a
distinguem e a separam da filosofia e da moral”. Macedo continuava nos seguintes termos:
O teatro é uma indústria, e a lei primordial do desenvolvimento das
indústrias, qualquer que ela seja, é a liberdade, é a concorrência. No
regime de concorrência, um teatro fiscaliza o outro e estimula-o a mais
e melhor agradar ao público. Este será o juiz soberano de todos eles, e
nessa luta incessante da competência multiplicam-se os esforços [...]. É
desse modo que os próprios teatros contribuirão para aperfeiçoar ou
retificar o gosto do público.330
As discussões sobre o problema do teatro nacional foram protagonizadas pelo
ministro Sousa Ramos, conselheiro do império, que instituiu uma comissão formada por
Machado de Assis, Cardoso de Meneses e Sousa, José de Alencar e Joaquim de Macedo
Soares. Apesar de citar Victor Hugo, cuja dramaturgia se mostrava popular junto às massas,
a concepção de Machado ainda variava entre tratar o teatro, por um lado, como uma arte
sem objetivos, como expressão do que é belo e verdadeiro, e, por outro, como escola moral,
330 SOARES, Antônio Joaquim de Macedo. “O teatro, a concorrência e o governo”. Publicado originalmente
em 14 dez. 1861 no Diário Mercantil, n. 330. Rio de Janeiro, f. 1-2. Disponível em
. Acesso em 31 jan. 2015. Ver o capítulo
“Sem tédio à controvérsia” em MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. Vida e obra de Machado de Assis, v.
1, p. 196-203.
171
com o objetivo específico de formar bons cidadãos. Não era apenas a defesa adolescente da
teologia de artista nem apenas a defesa do realismo ingênuo. A questão se colocava, naquele
instante, sobre qual deveria ser a forma estética adequada para expressar aquele conteúdo
moral.
O adolescente se comprometeu, num primeiro momento, com o realismo e a
moral burguesa, mas logo aderiu a uma tese menos exclusiva, admitindo que o conteúdo
artístico deveria seguir critérios gerais e abstratos. Apesar dessas turbulências teóricas, algo
se manteve durante todo o período de amadurecimento crítico. Digamos que o mérito
literário sempre se resumiu à harmonia da seguinte tríade: dramaturgia, atuação e recepção
do público. O crítico teatral tornou-se um equilibrista de três diferentes peças: o primeiro
malabar que ele empunhava era “a construção dos caracteres”, que deveria nortear o
lançamento do segundo malabar, a própria interpretação do ator. Por último, o crítico
verificava se à mimese seguia a estese ou a capacidade do público de apreender e
compartilhar as expressões o artista.
O centro de gravidade da crítica se localizaria, portanto, no trabalho do ator,
intermediário do ideal artístico e da sensibilidade do auditório. Machado de Assis tanto
admirava as interpretações de Gabriela da Cunha que o biógrafo Magalhães Junior supôs, da
parte daquele, uma paixonite oculta.331 Diz Machado: foi ela “a primeira que nos revelou os
belos trabalhos do teatro moderno francês” (OC, IV, p. 37). Se lhe dessem um papel
defeituoso, caberia ao bom ator corrigi-lo e aperfeiçoá-lo. Foi esse o caso das atrizes
Ludovina da Costa e Emília das Neves. A atuação da primeira compensava os “desvarios da
velha escola” romântica com seu drama inverossímil e inconsequente (T, p. 193). Emília das
Neves, atriz com qualidades que empregava os efeitos das cenas “com a discrição necessária
para não cair das alturas da natureza e da arte. Sombria ou radiante, irada ou terna, amorosa
ou odienta, ela sabe que, em cada uma dessas fases do sentimento, a arte exige um toque
ideal” (OC, IV, p. 177). A tríade dramática se harmonizava entre a concepção autoral
comprometida com a arte, a avaliação de propriedade de ordem estética do censor, mais o
trabalho de representação do ator, vetor da concepção e do conteúdo moral da obra. Quando
essas coisas se conjugavam, seja qual fosse a escola, a obra poderia expressar universalmente
331 MAGALHÃES JUNIOR. Vida e obra de Machado de Assis, v. 1, p. 137-152.
172
os sentimentos humanos. Ao estudar a personalidade e o estilo de Ristori, dirá o crítico, em
tom montaigniano, que “o estilo é a fisionomia do pensamento [...]. Podem variar os vasos;
a essência é a mesma. A casaca substituiu a clâmide, mas o coração humano não variou. O
que se deve estudar em Ristori é a parte universal dos sentimentos” (T, p. 498-499).
Nas páginas da Revue, Montégut também defendia a dramaturgia de caracteres
ou, pelo menos, utilizava a caracterologia como critério de avaliação estético. Para o crítico
francês, o fazer artístico funcionava como um efeito ou ilusão de realidade. Os artistas eram
tanto melhores quanto mais alcançassem o equilíbrio entre o real e o ideal. Ao examinar, por
exemplo, uma obra de É. Augier, Montégut o parabeniza por perceber que a arte do drama
consiste em “conceber as partes, distribuir as cenas e combinar seus efeitos”,332 por meio de
“certo ecletismo, uma certa tentativa de conciliação e de fusão dos diversos sistemas que
reinaram exclusivamente, cada qual a seu turno”.333
Estava lançada a pedra fundamental do edifício literário de Machado de Assis.
Ao crítico cumpria verificar se aos preceitos da escola concordavam a definição dos tipos, a
construção de uma psicologia verossímil aos acontecimentos e o esboço contrastivo dos
caracteres. É com esses critérios extraescolares que Machado de Assis avalia positivamente
o drama “A mãe”, de José de Alencar, e “As leoas pobres”, tradução de Augier e Foussier.
Nesse último caso, apesar da relevância moral “contra as pinturas contemporâneas do vício
da cena”, exigência da escola realista moderna, importava mais a “verdade nos caracteres e
naturalidade nas situações” (T, p. 276). Quer dizer, pouco importavam a escola, o estilo e a
nacionalidade do drama, desde que se apresentasse algo da essência humana.
No Conservatório e nas críticas teatrais, Machado passava a agir como se fosse
um “orientador literário” ou um esteta que construísse seu próprio critério de julgamento. O
aperfeiçoamento de um método analítico lhe parecerá uma fixação, tal como o “programa”
de Romualdo, imposto desde as próprias composições dramáticas até os primeiros romances.
Porém, a independência teórica em relação às escolas literárias o forçou a caminhar
332 MONTÉGUT, Émile. «Un beau mariage, de Augier et Foussier». Revue des deux mondes. Avril 1859
(Première quinzaine), p. 748.
333 “Si on me demandait quel sera le caractère de la nouvelle période qui va s'ouvrir, je répondrais: un certain
éclectisme, une certaine tentative de conciliation et de fusion des divers systèmes qui ont régné
exclusivement tour à tour” (MONTÉGUT, Émile. «Rédemption, de M. O. Feuillet». Revue des deux
mondes. Novembre 1860, première quinzaine, p. 252)
173
solitariamente e abandonar progressivamente as sociedades de que participara. Essa época
em diante será de muito trabalho e pouca recompensa. O descaso com os amigos é percebido,
por exemplo, nas cartas recebidas de Faustino Xavier de Novais (29 jan. 1866 e 23 nov.
1866), Ferreira de Meneses (5 nov. 1866) e Joaquim Serra (16 nov. 1866 e 30 mai. 1867). A
reprovação de amigos e conhecidos pela falta de atenção coincide com o esforço do crítico
em aplicar aquele método literário à sua própria obra. Machado passou ao largo dos “dramas
de atualidade”, aproximando-se, desde o início, do teatro de caracteres, movimento iniciado
pelos moralistas franceses, que decerto estavam sob a égide do pascalianismo.
É preciso dizer que o século XVII celebrou o compêndio de ditos e máximas de
La Bruyère, recolhidos em Caracteres ou costumes deste século. Esse livro retrata
criticamente os tipos sociais da alta corte francesa, satirizando seu comportamento vaidoso,
hipócrita e cheio de superficialidades. Comum nos salões dessa época, ao drama e ao estudo
de caracteres acrescentava-se a forma proverbial. Os personagens discorriam sobre um tema,
uma charada ou um provérbio popular de tal modo que o espectador pudesse compreendê-
lo ou decifrá-lo. Veremos que um método semelhante de composição é adotado em
Ressurreição, onde o autor nos adverte em prefácio que a
ideia ao escrever este livro foi pôr em ação aquele pensamento de
Shakespeare: Our doubts are traitors, And make us lose the good we oft
might win, By fearing to attempt. Não quis fazer romance de costumes;
tentei o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres (OC, I,
p. 233).
Na seção sobre os sentidos da filosofia na obra de Machado de Assis, destacou-
se o método usual utilizado pelo autor para ensaiar narrativas a partir de um dilema
filosófico. Naquela ocasião, reconheceram-se, no núcleo de três contos, os motes
maquiavelianos da fortuna e da virtù. Em geral, o dilema filosófico será representado a partir
da situação inicial e do contraste entre os caracteres. A origem deste método de composição
tem rastros no laboratório da crítica teatral. Descontando a poesia, a primeira menção à
filosofia pascaliana encontra-se já na estreia de Machado na “Revista de Teatros”. De início,
estabelece-se um mote filosófico para julgar o drama O Asno Morto, adaptação do romance
de Jules Janin:
A vida, li não sei onde, é uma ponte lançada entre duas margens de um
rio; de um lado e do outro a eternidade.
174
Se essa eternidade é de vida real e contemplativa, ou do nada obscuro,
não reza a crônica, nem me quero eu aprofundar nisso. Mas uma ponte
lançada entre duas margens não se pode negar, é uma figura perfeita. É
doloroso o atravessar dessa ponte. Velha e a desabar, há seis mil anos
têm por ela passado reis e povos numa procissão de fantasmas ébrios,
na qual uns vão colhendo as flores aquáticas que reverdecem à altura
da ponte, e outros afastados das bordas vão tropeçando a cada passo
nessa via dolorosa. Afinal tudo isso desaparece como fumo que o vento
leva em seus caprichos, e o homem, à semelhança de um charuto, desfaz
a sua última cinza, quia pulvis est [sic] (T, p. 115-116).
A metáfora da vida como um atravessar a ponte entre dois infinitos possui
afinidade com diversos fragmentos dos Pensamentos, especialmente nos papeis classificados
na seção “Contrariedades”. Aqui Pascal dramatiza a via dolorosa, isto é, a precariedade da
condição humana em ignorar a sua própria natureza, após o pecado cometido há
seis mil anos [...]. Nada por certo nos choca mais rudemente do que essa
doutrina. E no entanto, sem esse mistério, o mais incompreensível de
todos, somos incompreensíveis a nós mesmos. O enredamento de nossa
condição assume as implicações e formas nesse abismo (La 131 Br
434).
Apesar de tentar uma dramaturgia incomum para a época, baseada no estudo de
uma situação e na contrariedade de caracteres, as primeiras peças de Machado de Assis
foram alvos de críticas de escola. Situados na alta classe fluminense, elas colocavam em
cena as intempéries de um triângulo amoroso. Por um lado, dizia-se que as peças
funcionavam para mero entretenimento intelectual. Apesar de representarem ironicamente o
bom gosto e o estilo de vida burgueses, elas não cumpriam o vaticínio realista de elevação
moral da plateia. Por outro lado, as peças eram construídas através de longos diálogos,
enfraquecendo a dramaticidade própria da arte. Dizia-se, então, que o drama de Machado
não primava pela forma artística, apesar de primar pela poeticidade e pelo alcance
psicológico.
Em dezembro de 1862, Machado de Assis escreve uma carta para Quintino
Bocaiuva, pelo que solicitava avaliação de suas primeiras peças representadas, O protocolo
e O caminho da porta:
Tenho o teatro por coisa mais séria e as minhas forças por coisa muito
insuficiente; penso que as qualidades necessárias ao autor dramático
desenvolvem-se e apuram-se com o trabalho: cuido que é melhor tatear
175
para achar; é o que procurei e procuro fazer [...] O que nos honra, a mim
e a ti, é que a tua imparcialidade e a minha submissão ficam salvas da
mínima suspeita. Serás justo e eu dócil; terás ainda por isso o meu
reconhecimento; e eu escapo a esta terrível sentença de um escritor: Les
amitiés, qui ne résistent pas à la franchise, valent-elles un regret? (C,
I, p. 20).334
A referência ao arauto da Revue des deux mondes, Gustave Planche, demonstra
o esforço de Machado de Assis em ensaiar sobre seus próprios critérios estéticos, ainda que
estes fizessem referência ao método ecletista:
As minhas opiniões sobre o teatro são ecléticas em absoluto. Não
subscrevo, em sua totalidade, as máximas da escola realista, nem aceito,
em sua plenitude, a escola das abstrações românticas; admito e aplaudo
o drama como forma absoluta do teatro, mas nem por isso condeno as
cenas admiráveis de Corneille e de Racine.
Tiro de cada coisa uma parte, e faço o meu ideal de arte, que abraço e
defendo (OC, III, p. 1020).
Para Bocaiuva, adepto da escola realista, as comédias de Machado não
inspiravam civilidade, elas “são para serem lidas e não representadas”, os caracteres se
revelavam nos diálogos e não nas ações, fazendo do drama incompleto e frívolo. E continua:
falta a ideia, falta-lhes a base. São belas, porque são bem escritas. São
valiosas, como artefatos literários, mas até onde a minha vaidosa
presunção crítica pode ser tolerada, devo declarar-te que elas são frias
e insensíveis, como todo o sujeito sem alma (C, I, p. 22).
Machado ainda escreveu outras comédias proverbiais, mas as críticas de
Bocaiuva foram definitivas para a avaliação negativa do teatro machadiano. À derrota
artística se seguiu outra de caráter político e ideológico: a defesa pela subvenção estatal do
teatro foi em vão. Nos anos que seguem o governo pouco ou nada investiu na formação de
atores e na cena artística nacional. Joaquim Nabuco, José de Alencar e outros divulgadores
do teatro denunciaram o seu estado indigente. A decepção com o teatro nacional foi ainda
maior porque o exagero quanto aos preceitos das escolas, agora ultrarromânticas e
ultrarrealistas, deteriorava a arte e o gosto do público, servindo apenas para “desenfastiar o
espírito, nos dias de maior aborrecimento” (OC, III, p. 1102). Estava novamente a um passo
334 A citação é de PLANCHE, Gustave. Portraits litteraires II, Paris, Charpentier, 1848, p. 219 : “As amizades
que não resistem à franqueza valem um lamento?”
176
da antropologia de Pascal, que pensava nos produtos de cultura como necessários para
distrair o homem de sua própria condição miserável (La 132-139). Naquelas circunstâncias,
nenhum dos três elementos do drama estava adequado: não havia autores bem formados,
nem o interesse do público, nem companhias de teatro comprometidas com a descrição de
uma essência humana, nem quem as financiasse.
Mais adiante, em seu famoso artigo “Notícia da atual literatura brasileira –
instinto de nacionalidade” (1873), Machado reduzirá o teatro a uma “linha de reticência”:
Não há atualmente teatro brasileiro, nenhuma peça nacional se escreve,
raríssima peça nacional se representa. As cenas teatrais deste país
viveram sempre de traduções, o que não quer dizer que não admitissem
alguma obra nacional quando aparecia. Hoje, que o gosto público tocou
o último grau da decadência e perversão, nenhuma esperança teria
quem se sentisse com vocação para compor obras severas de arte. Quem
lhas receberia, se o que domina é a cantiga burlesca ou obscena, o
cancã, a mágica aparatosa, tudo o que fala aos sentidos e aos instintos
inferiores? (OC, III, p. 1183)
O objetivo pregresso de Machado era transformar e reformar a moral através de
objetos artísticos e culturais. Porém, esse projeto civilizatório estava indo de mal a pior:
primeiro o fracasso da poesia e a desilusão com a metafísica de poeta, depois a esperança na
democratização dos folhetins, agora a dramaturgia e seu castelo de areia... A ascensão do
teatro musicado foi o golpe de misericórdia para a dramaturgia nacional, que passou a ter
maior concorrência estrangeira, distanciando-se do teatro de teses. Por um lado, o fato de o
teatro se separar da literatura afastou os literatos da militância teatral. Por outro lado, esses
mesmos literatos puderam se beneficiar da experiência como críticos para produzir arte
noutros suportes, desobrigado então das doutrinas de escola.
O aprendizado por tentativas e erros pode ser descrita de outro modo: as
diversidades de gênero e de ação são como receituários de um laboratório. Testam-se as
diferentes combinações até as proporções agradarem. Assim, o itinerário de errâncias é
menos o do derrotado do que o do persistente. Aliás, o epíteto Bruxo, celebrado no poema
de Drummond, corresponde a essa imagem de um escritor-ensaísta. Com o teatro, o Bruxo
pôde ensaiar em laboratório a transformação da tríade dramatúrgica em aspecto formal para
a literatura, não mais mimetizada por atores e público, mas por narradores e leitores.
177
Para resumir esse itinerário de errâncias, podemos dizer que a perspectiva cristã,
progressista e liberal, foi a tendência majoritária nos anos 1850. Até meados da década
seguinte, Machado de Assis vacilou entre a perspectiva moralista e a busca por um critério
genuinamente artístico. A partir de 1865, contudo, percebe-se uma mudança significativa no
pensamento crítico de Machado. É preciso repetir que essa sequência de datas não
corresponde a evolução linear do pensamento desse ficcionista. Alguns escritos da
maturidade ainda ressoam teses juvenis, e algumas delas são até redescritas posteriormente.
Uma obra artística, pensa Machado, não cumpre seu desígnio moral retratando
os valores éticos de uma classe, mas “uma obra é moral [...] se a impressão que se recebe é
favorável ao aperfeiçoamento da alma humana... A moralidade de uma obra consiste nos
sentimentos que ela inspira” (T, p. 388). Em 1869, ele é ainda mais incisivo do que essa
citação à Mme. Staël. Ao escrever sobre a atriz italiana Adelaide Ristori, Machado decreta
lançando mão de um paradoxo: “Eu não creio nos intuitos moralizadores do teatro, nem
penso que Tartufo matasse a hipocrisia” (T, p. 497-498). É que não basta desmascarar o
personagem de Molière, o típico falso devoto que viola a moral cristã para benefício próprio,
para que se elimine a corrupção e a hipocrisia, uma vez que esses vícios de comportamento
são, no melhor dos casos, elementos da estrutura social e, no pior, características
indispensavelmente humanas. Esse paradoxo estava tão presente que o dramaturgo brasileiro
começou a escrever uma peça denominada “O casamento de Tartufo”, cujos originais
encontram-se perdidos (C, I, p. 25). A representação ficcional, reprodução de práticas sociais
pelos personagens, não revelava apenas indivíduos em seus arredores. A intenção realista
passava a testar se alguém justificava a manutenção daquelas regras morais. Quando
ninguém sobrevive ao teste, então é o caso de considerar, para além de qualquer realidade
local, se não haverá um “instinto secreto”, como diz Pascal, “que os faz buscar o
divertimento e a ocupação exterior, que vem do sentimento de suas misérias contínuas” (La
136 Br 139).
A dialética entre o local e o universal estava prestes a ser ultrapassada. Segundo
João Roberto Faria, a partir de 1869, Machado de Assis “valorizará cada vez mais em seus
textos críticos os dramaturgos que trazem ao palco temas universais. Não por acaso,
178
Shakespeare se tornará cada vez mais presente em seu pensamento”.335 O processo de
relativização da moral cristã é bastante conturbado nesse período. Alguns contos apresentam
uma solução ao “paradoxo” de Tartufo, vinculando, por um lado, a verdade e a moralidade
ao ambiente doméstico, mantendo, por outro, a “vaidade”, o “ruído” e a “agitação exterior”
no estrato social da vida.336 Por isso, teremos de lidar com os escritos cristãos de meados da
década de 60. E o faremos sem perder de vistas a influência de Pascal e do ceticismo, esses
indispensáveis para as mudanças de rumo do pensamento ficcional do nosso escritor.
335 FARIA. “Machado de Assis e o teatro”, p. 165.
336 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 37-53
179
CAPÍTULO 4 – DA DESCRISTIANIZAÇÃO À DESCRENÇA (1865 – 1878)
Dez anos após os primeiros versos, Machado inicia nova guinada de pensamento.
Pouco a pouco, a crítica teatral se renderá à crítica literária, sendo esta subsumida pela
própria ficção. Antes comprometido com a representação de valores cristãos, no que se refere
à formação cívica de uma classe, a partir de então esses valores são colocados em
perspectiva. O laboratório do drama havia produzido uma vacina contra a concepção
puramente moralizadora da arte, até porque não existia artistas de monta, nem projeto
institucional ou econômico viável, tampouco público que se impressionasse. Desacreditar
dos “intuitos moralizadores do teatro” e falar dos sentimentos universais que a obra pudesse
inspirar foram consequências quase silogísticas da investigação sobre as causas da
decadência do gosto público. Restara do teatro o divertido hábito de se reunir em plateia
(OC, IV, p. 1102). O que a ficção machadiana estava por desconfiar, daí a identificação
secreta com Pascal, é que este e outros hábitos poderiam ser explicados por uma teoria
genérica sobre o ser humano.
Ao que parece, Machado convencera-se de que o valor de uma obra artística não
dependia do suporte de gênero, ainda que ela refletisse “uma certa parte dos hábitos externos,
e das condições e usos peculiares da sociedade em que nasce”. Com essa ressalva, evitava-
se aquilo que o filósofo Ortega y Gasset denominaria “desumanização da arte”, isto é, a
transformação do ofício do artista numa espécie de prestidigitação ou, pela marca do
contexto, de bruxaria. Ele deveria observar “a uma ordem de ideias mais elevadas” (OC, III,
p. 1112), quer dizer, buscar uma forma estética parcialmente liberta do compromisso com a
realidade, lançando mão de personagens com personalidade e de enredo descomplicado e
coerente.
A modificação sutil em seu critério artístico o colocava de ombros com os
intelectuais da Revue des Deux Mondes, a perscrutar de cima uma concepção universalista
da arte e do homem. A biblioteca pessoal nos revela esse interesse: dos 31 livros de autores
franceses do século XIX, 23 escreveram pelo menos um artigo para a Revue. Nessas
prateleiras encontramos ainda as obras completas de Shakespeare, no original e em tradução
francesa. Mais ou menos da mesma época são as edições francesas das obras de Goethe e
das Lettres à un provincial (1869), de Pascal. Além dessas referências literárias e filosóficas,
180
Machado mostrava predileção por livros de teologia, especialmente por histórias das
religiões, tais como as de Ernest Renan.
Este capítulo objetiva acompanhar as direções dessa guinada de pensamento,
sem perder de vista o seu referencial teórico. Em sua obra ficcional, Machado abandonou a
teologia de poeta e a tendência em considerar o cristianismo a tábua de salvação da
civilização. Isso não significou o abandono à contemplação estética e à dramatização da
condição humana, mas essas coisas desenvolveram-se tendo como contraponto o ceticismo
cristianizado de Pascal. A descristianização é um processo perceptível a partir da ficção.
Suas relações causais com a vida empírica do autor não são muito claras. Na primeira seção,
busco elucidar os sentidos dos termos “religião”, “religiosidade” e “descristianização”, de
modo a evitar incorrer em falácias biografistas.
No desenrolar da década de 1860, concorrem para a descristianização o
engajamento político e liberal, a reflexão sobre o teatro e sobre a moral dramática, e a
influência do naturalismo religioso de Ernest Renan. As diversas polêmicas contra a folha
católica A Cruz, incluindo a celeuma sobre um livro de Renan, serão tema da seção seguinte.
Nas últimas seções, a análise dos primeiros romances permitirá perceber a transformação
formal dos princípios do drama para o romance, exemplarmente manifesta em Ressurreição.
Recuperarei a mesma metodologia utilizada para aproximar a ficção machadiana da filosofia
de Maquiavel. Naquele caso, os conceitos de fortuna e virtù foram apropriados ao contexto
e ao modo de narrar específicos. Neste caso, mostrarei como a ficção machadiana
ressignifica o conceito filosófico (agostiniano e jansenista) de “amor”, cruzando-o com o
tema gerador da mobilidade dos personagens pela ascensão social. Darão o tom de contraste
as figuras do padre, aprisionado pelas lógicas do compadrio e do apadrinhamento, tais como
elas se apresentam em Helena e Casa Velha.
4.1 Religião, religiosidade e descristianização
A religiosidade de Machado de Assis é um tema cheio de folclore. De seu
anedotário apanhamos diversas passagens controversas: que ele teria sido sacristão na
infância; que teria se tornado ateu após uma severa crise que lhe prejudicou a saúde e o
181
espírito, crise, aliás, parcialmente responsável pelo aparecimento das Memórias póstumas
de Brás Cubas; que ele gesticulava às escondidas o sinal da cruz quando atravessava alguma
Igreja; que, ao final da vida, por ocasião da morte de sua esposa, teria se reconciliado com a
fé; que teria recusado a presença de um padre para (re)convertê-lo ao catolicismo e receber
o sacramento da extrema-unção; e que, mesmo com todo o pessimismo e com todo o
ceticismo, teria balbuciado “a vida é boa” antes de partir.
Podemos nos surpreender e não encontrar alguém por trás do anedotário. O
homem religioso parece mais um personagem do outro, do mestre da palavra que cria e
inventa de pintar a si mesmo. O que de resto há entre a tinta e o artista, entre a paródia e a
caricatura? Esse é um ponto de apuro do estudo biográfico, que Raymundo Faoro soube
perceber:
[O] Machado de Assis situado no tempo, nascido em 1839 e falecido a
29 de setembro de 1908, homem de sangue e de ódios, é apenas a
sombra do outro Machado de Assis, o verdadeiro, o que vive no papel
impresso, espírito que flutua sobre o absurdo da terra. [...] O Machado
de Assis que evoca Carolina do reino das sombras, o missivista que
zomba do esperanto do outro mundo, é apenas uma personagem do
outro, do autêntico. Entre a máscara de rugas e o cerne de vento, só este
dá o sentido, o calor, a chama ao velho alquebrado e tartamudo. A
sombra que vaga na Rua do Ouvidor, ou, refugiada nas suas
lembranças, no Cosme Velho, será a caricatura, não raro infiel, da
imagem do fazedor de palavras.337
Do vulto de coroinha até o de ateu convicto vai um abismo. A maioria dos
comentadores considera que a descristianização ocorreu em algum momento de sua vida,
possivelmente durante a década de 1870, após o profundo impacto que lhe provocara no
espírito a parte negativa da filosofia de... Pascal. 338 Estou tentando mostrar mais os
equívocos do que os acertos dessa tese. Em primeiro lugar, há um equívoco temporal. Deve-
se lembrar que o processo de descristianização tem início na década anterior, quando a
influência do jansenista é diluída pela leitura de outros tantos moralistas. Além disso, Pascal
figura como um modelo do movimento da dialética ecletista para Victor Cousin e,
presumivelmente, para o jovem de 1850 e 1860. A interpretação de Cousin demonstrava
337 FAORO. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, p. 440.
338 Veja-se, por exemplo: MEYER, Augusto. Machado de Assis: 1935-1958. Rio de Janeiro: Livraria São José,
1958. p. 161-162; COUTINHO. “A filosofia de Machado de Assis”, p. 158-174.
182
certo equívoco do próprio ceticismo, quando tomado em exagero – este teria sido o erro de
Pascal No entanto, a estória da experiência trágica de um cristão radicalmente cético adquiriu
potencial suficiente para impactar a geração romântica brasileira. Como vimos no segundo
capítulo, a figuração heroica de Pascal contribuiu para a reflexão sobre as problemáticas
religiosas e políticas dessa geração.
O segundo equívoco consiste em fomentar a mitologia do escritor. Caminhar
sobre o anedotário e dele extrair rápida conclusão pode significar, além da falácia erística,
pois a hipótese é inverossímil, a própria inconsistência do argumento biográfico, tornando-
o inutilizável. É claro que podemos considerar tais representações anedóticas como material
denotativo de estudo. Afinal de contas, são as próprias fontes que vinculam o nome Machado
de Assis à religiosidade do homem Machado de Assis. Quando ainda hoje pensamos em
“Machado de Assis”, vem-nos à mente, quase imediatamente, a figura zombeteira do
incrédulo Brás Cubas. Contudo, essa imagem desvanece feito fumaça após as primeiras
leituras, quando pegamos intimidade ao jovem cristão, seguidor dos pascalianos
Chateaubriand e Alverne, sobre quem ele escreve um ensaio e uma poesia. Entre a figuração
e o autor real ou suposto vai alguma diferença formativa de tempo e de modo, cujas
instâncias real e ficcional parecem irredutíveis uma a outra, pelo óbvio do processo distinto
das formações.339 Por isso, não estranha encontrar narrativas de apelo cristão quando o
processo de descristianização há tempos se instalara, como é o caso de Helena e das
rememorações de semana santa pelo velho cronista. Também não é difícil encontrar lastros
de ateísmo e descrença na primeira juventude, como estamos vendo e continuamos a ver.
A propósito dessa dificuldade, vale o esforço de Tobias Barreto, num ensaio
publicado no mesmo ano das Memórias póstumas, para dizer que a nossa religiosidade é um
capítulo da estética nacional, próprio à encenação, à emulação e, quando muito, à
teorização.340 Nesse caso, o significado denotativo da religiosidade não é buscado “no papel
impresso”, mas nos modos de construção e de interpretação das narrativas. Assim, onde o
cronista afirma guardar os domingos para ler as Escrituras (OC, III, p. 1140) ou sentir o
339 Ver BAPTISTA. A formação do nome: duas interrogações sobre Machado de Assis, 2003.
340 BARRETO, Tobias. “Uns ligeiros traços sobre a vida religiosa no Brasil”. Estudos de Filosofia. 2. ed. São
Paulo: Editora Grijalbo, 1977, p. 435.
183
Evangelho tocando-lhe o coração (OC, IV, p. 1086), deve-se, antes, observar as estratégias
retóricas e o contexto literário das asserções.
O último equívoco dos críticos diz respeito à semântica dos termos. Tem-se visto
que a religiosidade é uma característica importante para a formação filosófica de Machado
de Assis na década de 1850, sobretudo a sua recepção da tese ecletista de Alverne e da tese
romântica de Magalhães sobre a arte poética (eloquência) e a capacidade artística da
transmissão de verdades. Essas eram teses filosóficas que se dirigiam ao espaço público.
Nesse caso, quando dizemos que Machado de Assis foi religioso não nos reportamos a sua
frequência na liturgia e nos dogmas cristãos, mas que essas coisas se prendiam à forma
artística de expressão. Ora, na medida em que aquelas teses filosóficas perdem seu status
quo, a religiosidade de Machado retorna ao lugar próprio, a intimidade pessoal, de onde
quase nada se pode extrair com exatidão. Aliás, a oratória de Monte Alverne foi, por algum
tempo, a chave para a compreensão das coisas do mundo. Agora a oratória é um discurso
vazio:
O púlpito vive sobretudo da sombra luminosa dos Sampaios e
Mont’Alvernes. Fecharam-se as bocas de ouro e abriram-se as bocas
de latão.
E neste ponto a palavra representa o corpo. O clero é medíocre, a
eloquência sagrada abateu-se até o nível do clero. Para ser orador
sagrado basta hoje uma cousa única: abrir a boca e soltar um discurso
(OC, IV, p. 249).
Criticar o clero não significa, necessariamente, revogar a religiosidade. Então o
que o teria levado a modificar seu pensamento em relação à religião? Essa pergunta, algo
retórica e provocativa, serve para ilustrar o caso. Até esta época, percebemos grande
incidência de referências e textos bíblicos na obra de Machado de Assis, seja em suas
instâncias poéticas, ficcionais ou teóricas. Maria Eli de Queiroz realiza o levantamento das
referências cristãs na obra poética de Machado de Assis, lugar privilegiado do tema religioso.
Termos como alma, céu, anjo, fé, Senhor, Deus, altar, Cristo, Cruz, oração, Criador e Igreja
são utilizados mais de sessenta vezes em Crisálidas. Nos outros livros de poesia, Falenas,
184
Americanas e Ocidentais as referências vão desaparecendo progressivamente, ao ponto de
termos, no último, apenas uma referência a Deus, ainda assim num contexto pagão.341
Apesar da presença massiva de referências bíblicas, especialmente os livros de
sabedoria, além da referência a pensadores cristãos, em O aspecto religioso da obra de
Machado de Assis, Hugo Bressane aponta as “falhas” e o desconhecimento do ateu, Machado
de Assis, em relação ao evangelho e aos procedimentos litúrgicos da Igreja. Segundo
Bressane, Machado fazia uma leitura seletiva da Bíblia, na maioria das vezes, lendo-a de
modo dessacralizado, como se lê um livro de história ou de literatura amena. Bressane se
impressiona com o mundo de vícios descoberto com as Memórias póstumas, diminuindo a
importância, por exemplo, da fase em que o poeta recebera a influência do padre Sarmento
e de Monte Alverne, bem como de Chateaubriand e Gonçalves de Magalhães.
De uma só vez, o crítico comete os três equívocos citados anteriormente, ao
julgar o escritor pela figura que se fez de um de seus narradores. Mencionamos
anteriormente, quando tratamos dos modos de leitura filosófica na obra de nosso ficcionista,
que a estratégia de reduzir uma instância (narrativa) a outra (real) é consequência da adoção
do que ficou conhecido como “paradigma do pé atrás”. Outro equívoco diz respeito a tomar
o andamento e o conteúdo da ficção como casos e convicções de um sujeito imóvel. No caso
da religiosidade, Bressane de Araújo adota esse pressuposto ao afirmar coisas como
“revelam as obras de Machado de Assis sua deficiente formação religiosa” e “sem o lume
da fé, a obra de Machado de Assis, profundamente humana, não é cristã”.342
Encaminhamos resposta diversa à questão da mudança de perspectiva religiosa.
Apesar de seu caráter pessoalíssimo, a religião era um fato social que conferia identidade a
certas representações coletivas. As irmandades e confrarias religiosas mantinham alguma
autonomia sobre a mão do estado, embora elas ainda o auxiliassem em demandas sociais.
Essas irmandades utilizavam-se da estrutura eclesiástica para fundir sincreticamente práticas
religiosas de diversos grupos étnicos. As procissões, por exemplo, eram como nosso carnaval
341 QUEIROZ, Maria Eli de. Machado de Assis e a religião: considerações acerca da alma machadiana. São
Paulo: Ideias e Letras, 2008, p. 51. Em “A Artur De Oliveira, enfermo”, lê-se que o poeta “Ouve a Tupã e
escuta a Momo,/ Sem controvérsia, / E tanto ama o trabalho, como / Adora a inércia; / Ora do fuste, ora da
ogiva, / Sair parece; / Ora o Deus do ocidente esquece / Pelo deus Siva”.
342 ARAÚJO, Dom Hugo Bressane de. O aspecto religioso na obra de Machado de Assis. Rio de Janeiro:
Cruzada da Boa Imprensa, 1939, p. 33 e 39.
185
moderno. Os cortejos dividiam-se em alas conforme a classe social. Uma grande mistura de
cores tomava as ruas. Homens e mulheres ornavam-se vestidos especialmente para a ocasião.
O passo era ritmado pelo enredo, que ali se interpretava, em homenagem às diversas Nossas
Senhoras, aos benfeitores ou à chuva que assistia a colheita. Qualquer fosse o tema, o público
se comovia e julgava qual agremiação compunha a melhor apresentação. Aqui não há
psicologia da mascarada porque ela esconde exatamente o contrassenso entre o que deveria
ser o culto e como de fato ele era. E se o dever do culto era também indício de piedade
sincera, a falta desse dever era acompanhada pela falta de fé. O que existe aqui são
resquícios, pistas e evidências para uma sociologia da mascarada, que exibisse, ainda
alegoricamente, um traço importante da estética nacional. O lugar da moral tradicionalmente
cristã deslocava-se para o gueto da anormalidade e da exceção, o que, em outros contextos,
seria avaliado como duplamente pecaminoso: falsa piedade, duplo pecado, diria Pascal, mas
a sua regra não se aplicava onde bem se aceita a publicação de impiedades.
A independência política no início do século XIX aumentou a distância entre as
normas pontificais de Roma e a prática do padroado régio no Brasil. Mais ainda quando
Roma passou a condenar movimentos republicanos, preparando um novo Concílio – o
Vaticano I, ocorrido em 1869-1870 – que reordenasse e romanizasse as ações do poder
eclesiástico sobre os cleros dissidentes. A solução encontrada por Silvestre Pinheiro
apaziguou os ânimos radicais por algum tempo. O espiritualismo brasileiro foi uma forma
exógena de conciliar os dois movimentos políticos em conflito.
Entre as décadas de 1850 e 1860, o papa Pio IX fez publicar diversos
documentos. Especial importância teve a encíclica Quanta Cura (e seus apêndices) contendo
o catálogo de 80 erros do liberalismo (naturalismo) e do socialismo, entre os quais a suposta
necessidade de laicização do poder Estatal, tendo em vista a sua capacidade independente
de resolver as questões da sociedade civil.343 A diferença entre o catolicismo romano e o
catolicismo brasileiro era exemplificada no modo distinto como a Sé do Império Brasileiro
e a Sé de Roma percebiam o conjunto de atribuições do Imperador. Para o clero nacional, a
343 DENZINGER, Heirich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. Trad. José Marino
e Johan Konigs. Sâo Paulo: Paulinas/Ed. Loyola, 2007, p. 630-641.
186
função pontifícia era uma prerrogativa do poder absoluto de Dom Pedro. Para Roma, esse
poder era uma concessão papal.
Voltemos por um momento à difícil conjuntura que se levantava diante da
geração de Machado de Assis: por um lado, ser fiel ao sumo pontífice significava romper
com o esquema de regalias e favores perpetuado entre o Imperador, tido como chefe nacional
da Igreja, e o clero, submisso e tolerante com algumas práticas religiosas não ortodoxas.
Lembre-se que o Padre Diogo Antônio Feijó, que na mocidade participou assiduamente da
sociedade eclesiástica denominada de Port-Royal de Itu, tornou-se regente do Império de
1835 a 1837, e defendeu a criação de uma Igreja autônoma que suprimisse, por exemplo, o
celibatarismo.344 Por outro lado, romper com a prática do padroado régio significava uma
tomada de posição política, no caso, favorável ao liberalismo.
Machado de Assis não se furtou a mais uma polêmica. Para ele, a encíclica era a
“condenação dos princípios fundamentais da nossa organização política. [...] O velho débil
[Pio IX] não se assusta; toma friamente a pena e lança contra o espírito moderno a mais
peremptória condenação” (OC, IV, p. 234). Em meio ao reboliço entre as forças religiosas
tradicionais e a demanda político-social pela tolerância religiosa, a Igreja e o seu aparelho
midiático promoviam “turbas à guerra religiosa” (OC, IV, p. 211). Em sua última crônica
para a revista O Futuro (jul. 1863), Machado chegou a defender a separação entre as ordens
sagrada e natural, de modo a restringir a função e o público do clero brasileiro:
Em um país novo, cuja maioria se divide em dois campos, a indiferença
e a carolice, a missão dos ministros do altar era outra, era a missão
apostólica, tolerante, elevada, a fim de convencer os incrédulos, e trazer
os fanáticos ao conhecimento dos verdadeiros princípios da Igreja (OC,
IV, p. 106).
Um homem de espírito como Machado de Assis ocuparia o assento de
equipolência acima dos incrédulos indiferentes e dos fanáticos carolas. Ele poderia agir de
modo anticlerical (sem parecer incrédulo) e, ao mesmo tempo, incorporar a virtude teologal
da fé a sua conduta social (sem se tornar carola). Ele frequentava casualmente a igreja,
mandava rezar missa, mostrava alguma devoção num bate-papo entre amigos ou
344 Feijó escreveu, em 1827, um folheto intitulado “Demonstração da necessidade da abolição clerical pela
Assembleia Geral do Brasil, e da sua verdadeira e legítima competência nesta matéria”.
187
publicamente no jornal. Ele poderia até ornar um cômodo da casa com algum símbolo
católico, expor uma bíblia pomposa sobre a mesa da sala de visitas, importar um catálogo
inteiro de obras sacras. Do ponto de vista das práticas sociais, diferente do que se exigia a
um europeu médio, todos esses ornamentos, símbolos fetichizantes do mercantilismo em que
adentrávamos, não eram próprios para medir uma piedade sincera, embora regulassem uma
piedade possível.
Lembre-se do culto religioso que ele mandou realizar, juntamente com Saldanha
Marinho, eminente anticlerical da década de 1870, ao amigo de Petalógica Manuel Antônio
de Almeida. Essa prática se repetiu algumas vezes na vida de Machado. Em 1864 fez celebrar
missa pela alma de seu falecido pai Francisco José, feito publicado no Diário do Rio de
Janeiro. Através do jornal, convidou os seus para a missa de sétimo dia de sua esposa. Meses
antes (21 jan. 1904) escreveu uma carta a José Veríssimo dizendo ter comparecido à missa
e acompanhado uma procissão. Veríssimo respondeu desacreditado, prometendo
jocosamente espalhar entre os amigos que Machado estaria “se fazendo de carola” (C, IV, p.
XX).
Consoante ao duplo pecado pascaliano, fazer-se carola possui registro ambíguo:
quando um homem de espírito age dessa forma tudo soa a caçoada; o mesmo não vale para
a plebe, cuja imoralidade deveria ser repreendida. É do que se queixa o “ainda” cristão
Machado de Assis, em carta destinada ao autor do importante Compêndio de Moral, o Conde
do Irajá, então bispo do Rio de Janeiro, em 1862. Queixava-se contra as procissões da
semana santa, cheias de impropriedades consideradas pagãs à época. Referindo-se às
“excrescências da nossa igreja católica, à prostituição do culto entre nós” (C, I, p. 11), cujas
consequências seriam aparentes:
[A]os espíritos menos cultos, a ideia religiosa, despida do que tem mais
elevado e místico, apresenta-se com fórmulas mais materiais e
mundanas. Aos que, menos rústicos, não tiveram, entretanto, bastante
188
filosofia cristã para opor a esses espetáculos, a esses entibia-se a fé, e o
ceticismo invade o coração (C, I, p. 9)345
O motivo da Paixão de Cristo e os demais símbolos católicos transformaram-se
em pretexto para a ostentação dos correligionários, “a materialização grotesca das coisas
divinas” (C, I, p. 11), que passavam em desfile diante de um público pouco culto e mal
provido do necessário. Temos visto que Machado foi, sim, sensível àquele “élan religioso”
mencionado por Miguel Pereira e Coutinho, pelo menos por três ou quatro anos. Numa
composição poética tardia, o autor de “Soneto de Natal” dizia tentar “relembrar os dias de
pequeno”, embora não lhe saísse nada além do pequeno verso: “Mudaria o Natal ou mudei
eu?” (OC, III, p. 568). Mudaram ambos. Machado de Assis desacreditava do salto da fé. E
o cristianismo à Pascal (refiro-me à parte apologética do projeto das Pensées) se revelava
impraticável na Corte Imperial. O terreno das consciências individuais fechava-se ao
verdadeiro Evangelho. O Natal havia mudado, porque a instituição que deveria representa-
lo estava longe de exercer a função edificante necessária ao país. Ao mesmo tempo, não
parecia fazer sentido a distância – infinita, para um jansenista – entre a piedade e a
mundanidade, pois ele percebe que as motivações ocultas não estão engrenadas a uma polis
divina, mas estão nos corpos e nas vontades dos próprios homens.
Neste caso, mudaria também o jovem, que começava a lançar rasgos liberais em
suas composições. O mesmo jornal que reprovava a igreja trazia em seu editorial uma defesa
dos interesses populares, inclusive a separação total entre o poder eclesiástico e o poder
público:
O edifício social ameaça ruína, porque a descrença minou-o pela base.
[...] Mas por que se apagará a fé deste século? [...] Porque Caim tomou
as chaves de Pedro e tornou delas instrumento de morte; porque o Papa
assassina em Roma; [...] porque o corpo do crucificado sai pelas ruas
públicas como ostensor de vaidades; porque a miséria sobe de ponto, e
os reis do mundo, em face dos reis, mandam dizer ao povo que no maior
dia da igreja dignam-se a baixar os templos para assistir os mistérios
sagrados (C, I, p. 13 n.2).
345 O conde do Irajá deve ter exercido alguma influência no espírito cristão do jovem Machado. Na mesma
carta, ele afirma estar “afeito desde a infância a ouvir as virtudes e os profundos conhecimentos (...) estes
verifiquei-os mais tarde pela leitura das obras”. E numa crônica de 1878, reafirma seu débito intelectual:
“Monsenhor Reis era um dos sacerdotes mais populares, entre nós; ele, o Mont'Alverne, Monsenhor
Marinho, Frei Antônio, o franciscano, foram os nomes que a nossa infância ouviu pronunciar com mais
frequência e veneração, sem esquecer o bispo, o excelso Conde de Irajá”. (OC, IV, p. 436).
189
Não é de surpreender Machado de Assis considerar-se, na conversa com o bispo,
daqueles que possuem “bastante filosofia cristã”, podendo compreender a “verdadeira ideia
religiosa”, qual seja, que “a religião é uma grande força, não só social, senão também
humana” (C, I, p. 10). O catolicismo deveria ser, para os rústicos e os incultos, o modelo
prático de virtudes, e não servir como exposição ostentatória das vaidades do clero. Para os
fanáticos e carolas, tratava-se de amansar o espírito, insuflando-lhe caridade e tolerância.
Para os outros, os homens de espírito que compreenderam os dilemas da
religiosidade, a questão se resolvia no plano político. Para os quadros liberais mais exaltados,
como Quintino Bocaiuva e Saldanha Marinho, não havia outra opção senão a defesa da
república laica e democrática. Lembre-se que Ribeyrolles abrira a um novo caminho, em que
era possível o poder moderador imperial, quando percebera que as condições materiais do
país não eram suficientes para sustentar qualquer mudança abrupta.
Avançando até a época de composição das Memórias póstumas, o quadro de
Pascal que Machado guardava para si era bastante nítido, embora tivesse lá as suas
imperfeições. Segundo Afrânio Coutinho, o erro de Machado foi se ter conformado apenas
com o Pascal sombrio e não ter penetrado com ele nesse mundo do sobrenatural, ao qual o
conduziu a sua inquietude. Ele teria corrigido esse aspecto da filosofia de Pascal com a
influência do naturalismo e do ceticismo de Montaigne:
É o caso de se perguntar mesmo, se houve essa influência tão grande de
Pascal sobre ele, porque teria permanecido insensível ao estupendo élan
religioso que se desprende das Pensées? [...] De fato, a inspiração cristã,
a intenção apologética, o sentimento religioso das Pensées, não o
tocaram, o que é realmente espantoso.346
Trata-se, adiante, de considerar o homem sem o recurso sobrenatural e sem a
possibilidade de redenção via escritura. Porque, para viabilizar esse recurso e essa
possibilidade, o culto deveria ser o efeito do sentimento interior que traz a divindade na
consciência, mas o mundo do século XIX era transformado e as consciências individuais, no
mais das vezes, eram alheadas de qualquer divindade exceto aquela do acionista, do dinheiro.
Segundo Raymundo Faoro, a literatura machadiana representa o último momento, posto em
atraso com relação à Europa, da decomposição da fé:
346 COUTINHO. “A filosofia de Machado de Assis”, p. 187
190
Na hora da despedida, procura, revivendo o drama jansenista,
reconstruir o mundo dilacerado, no grande mergulho na natureza [...].
A comunidade desaparece da consciência do homem, queimada pelas
grandes crises do Renascimento, até que dela, individualizada, não reste
senão a sombra do homo economicus347
Vale repetir que o ato religioso era um ato sem ânimo interno, no melhor dos
casos, um “pedaço de estética nacional” animado na epiderme aparente. Podemos imaginar
duas saídas radicais para o problema: de um lado, a laicização de mundo justificava as
relações em aparência. Além disso, o giro da moral burguesa sobre a ética cristã era tão mais
visível quando a própria instituição eclesiástica se deixasse vencer pela imoralidade. Por
outro lado, o simples fato das instituições eclesiásticas não corresponderem ao ideal cristão
(tipicamente pascaliano) não é razão para a rejeição da fé (tipicamente pascaliana), pelo
contrário, as amostras de quanto o homem é decaído, e de quanto pode o cético moralista
contra as boas intenções – refiro-me à busca por desvendar as verdadeiras e pérfidas
intenções –, provam ainda outra vez a verdade da religião cristã, aquela que, segundo Pascal,
reconhece as contradições essenciais do ser humano.
4.2 O debate com A cruz
Machado de Assis e o nome “Machado de Assis” participaram de diversas
polêmicas, algumas filosóficas, outras literárias e até políticas. Dizemos que o nome se
envolveu em polêmicas porque, na maior delas, contra Sílvio Romero, Machado não tomou
partido publicamente. Como afirma Faoro, muitas coisas se atribuem à fábula que se criou
em torno do autor. Curiosamente, na polêmica que lhe rendeu mais páginas – os entreveros
com o jornal A Cruz –, o seu nome esteve escondido atrás de suas iniciais. “Muito Abelhudo”
e “Muito Amável” eram as qualidades que o folhetinista se atribuía. Abelhudo porque se
intrometia em assuntos diversos. Amável, por força da ironia, porque as picadas que investia
não causavam grande dano. Dito utilizando-se de igual recurso antitético: “O folhetim é
como os gatos: acaricia arranhando” (OC, IV, p. 167).
347 FAORO. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, p. 433-434.
191
Machado investiu picadas e arranhões contra a folha católica em nada menos do
que 19 das 42 crônicas da série Ao Acaso, entre 1864 e 1865, no periódico Diário do Rio de
Janeiro. Ele polemizou sobre temas os mais diversos, como o Império do México, a
intolerância religiosa, a questão Kelly, o cataclismo de um cometa, a pena de morte, a
caridade sincera, a função do clero, a encíclica de Pio IX, o Index e um livro de Ernest
Renan.348
A Cruz – jornal religioso, literário, histórico e filosófico (1861-1864) fora
empresa do prelado da Candelária, sob a liderança do Monsenhor Joaquim Pinto de Campos,
um eclesiástico e político ultraconservador que representou bem os princípios do
pensamento tradicionalista, tendo atuado em polêmicas contra o casamento civil e as ideias
socialistas, e a favor do Regresso (político e religioso) e da encíclica de Pio IX.349 Esse
periódico lançava editorial pela “necessidade absoluta da educação religiosa”, de modo a
promover a restauração da boa moral e da ordem, malbaratados pelo “filosofismo moderno
[que] tem invadido tudo com suas falsas e perniciosas doutrinas”. 350 O conteúdo do
periódico distribuía-se em comentários ao Evangelho, discursos e polêmicas religiosas
escritos pelo próprio Monsenhor Pinto de Campos, fortes críticas à doutrina protestante e a
jornais como o Correio Mercantil e o Diário do Rio de Janeiro, tidos, respectivamente por
“católico protestante” e “jornalismo de maçom”. A partir de outubro de 1864, A Cruz é
continuada pelo Cruzeiro do Brasil (1864-1865).
A primeira ferroada acometeu a folha católica por ocasião da invasão
napoleônica e do golpe de Estado no México. A situação política mexicana após a
independência teve por ponto de estabilidade, como no Brasil, os quadros moderados, que
348 As referências explícitas ao jornal A Cruz (Cruzeiro do Brasil) ocorrem em 20 jun., 10 jul., 17 jul., 25 jul.,
7 ago., 22 ago., 28 ago., 11 set., 19 set., 3 out., 10 out., 17 out., 1º nov., 8 nov., 22 nov. de 1864, 31 jan. e
7 fev. de 1865. Consultamos as edições deste jornal na Hemeroteca Digital.
349 SODRÉ. História da imprensa no Brasil, p. 155. Após a publicação de O casamento Civil (1858), o
monsenhor Pinto de Campos obteve o título de prelado referenciado e doméstico de sua santidade Pio IX
(BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario bibliographico brazileiro, tomo IV. Rio de
Janeiro : Typographia Nacional, 1883, p. 224-226). A oposição entre os regressistas e progressistas, isto é,
entre liberais e conservadores foi delineada nos capítulos anteriores. O movimento intelectual chamado de
Regresso foi importante para consolidar as instituições de estado, quando se opuseram aos movimentos
separatistas após o Primeiro Reinado. Os ideais regressistas foram continuados pelos conservadores.
350 A Cruz (RJ), n. 1. Typ. De Quirino & Irmão. 18 ago. 1861, f. 1. Disponível em:
. Acesso em: 17 abr. 2017.
192
buscaram conciliar interesses liberais e conservadores. Não possuindo uma liderança
religiosa-constitucional como D. Pedro II, o clero daquele país instigou a Guerra da Reforma
(1857-1861). Vendo-se derrotado pelos liberais republicanos, como consequência da guerra,
o prelado fora expulso e os seus bens, confiscados. O presidente propôs ao congresso a
suspensão do pagamento da dívida externa, causando forte reação de seu credor, o Segundo
Império Francês, que liderou uma coalisão com a Espanha e a Inglaterra para invadir
militarmente o México e fundar a sede de um império católico nas Américas, que fizesse
vulto aos Estados Unidos.351 Com as bênçãos do clero e do conservadorismo, a invasão
garantiu a instauração de uma monarquia mais ou menos nos moldes da que vigia no Brasil,
pois o imperador Maximiliano, escolhido por Napoleão III, defendia o sufrágio para as
cadeiras do congresso, pretendendo manter-se numa posição moderadora entre os interesses
partidários.352
Machado já havia se manifestado contra a invasão.353 Em 20 de junho de 1864,
logo após a coroação de Maximiliano, o folhetinista rebateu o discurso parlamentar de Lopes
Neto. O deputado por Sergipe glorificava a invasão do México, tomando-o por igual ao
Império brasileiro. O cronista ofereceu oito razões contrárias, terminando pelo seguinte:
Diria acaso o Sr. Lopes Neto a mesma coisa, se qualquer governo
estrangeiro mandasse uma esquadra às nossas águas, rasgasse as nossas
instituições, dissolvesse os poderes constitucionais, derribasse o trono,
e plantasse... o que? – a melhor utopia de governo possível?
Não diria, de certo; e é isto o que eu deploro; é esta alteração dos
princípios segundo as regiões, que faz dizer com Pascal: Plaisante
justice, qu'une rivière ou une montagne borne! Verité au deçà des
Pyrénées, erreur au delà! (OC, IV, p. 119)
Um pequeno parêntesis. Salvo engano, essa é a primeira citação direta a Pascal
(La 60 Br 294). Note-se que Machado está utilizando a edição preparada por Port-Royal, em
351 VASCONCELOS, José. Breve Historia de México. Ciudad de México: Compañia Editorial Continental,
1978, p. 365.
352 VASCONCELOS. Breve Historia de México, p. 377.
353 MAGALHÃES JÚNIOR. Vida e obra de Machado de Assis, v. 1, p. 295-297.
193
que consta o acréscimo “ou une montagne” não verificado nos manuscritos originais.354
Utilizar da autoridade de Pascal veio a calhar porque o verdadeiro alvo não era o deputado,
mero bode expiatório, mas o Monsenhor e o jornal católico A Cruz, que viam “com bons
olhos a expedição francesa” (OC, IV, p. 120). Essa folha noticiara com agrado a eucaristia
do Imperador Maximiliano – que lhe custara, aliás, 40 mil francos – junto ao Sumo Pontífice
Pio IX:
Eis o cordeiro de Deus, que apaga os pecados do mundo. É por ele que
reinam e governam os reis; é por ele que os reis distribuem a justiça; e
se algumas vezes é permitido que os reis sejam experimentados, é ainda
por ele que se exerce todo o poder.355
Machado retornava, com Pascal, à discussão sobre a força e a justiça, para repelir
qualquer sorte de tirania. A reflexão pascaliana sobre esse tema já fora evocada por Machado
no capítulo sobre Chateaubriand, quando se discutiu a legitimidade das forças (material,
eclesiástica, pensamento). A ideia do fragmento preferido de nosso escritor é melhor
compreendida quando em complemento ao conhecido método pascaliano das “razões dos
efeitos”, que consiste em “suceder as opiniões a favor ou contra conforme a luz que se tem”
(La 90 Br 337). Trata-se de uma epistemologia das múltiplas perspectivas, utilizada por
Machado na ocasião ao elencar oito razões de diversos ângulos, contra a visão única de
Lopes Neto. Isso sugere que Machado consultava regularmente a edição que tinha disponível
de Pascal, levava de cor aquele fragmento, como também conhecia alguns dos seus
argumentos acessórios.
Em nova investida contra as ideias do jornal cristão, por ocasião de uma visita
diplomática do Império do México ao Brasil, em janeiro de 1865, Machado complementa:
O império napoleônico, sob responsabilidade legal de Maximiliano, foi
puramente imposto ao povo mexicano em nome da força, le droit du
plus fort. [...]. Sabemos todos que o imperador Maximiliano, no
discurso de entrada na sua nova pátria, indicou as suas intenções de
354 Ver a comparação das edições do fragmento em: . DESCOTES, Dominique; PROUST, Gilles. L’édition électronique des Pensées de Blaise
Pascal. Centre Régional des Ressources Informatiques (CRRI) – PRES Clermont Université (France).
Acesso em 17 abr. 2017. Esse fragmento é inspirado diretamente da Apologia de Raymond Sebond, de
Montaigne (talvez por serem palavras cognatas, e por estarem cientes da influência, os editores tenham
glosado), assim como o La 44, sobre a imaginação e a vaidade humanas.
355 A Cruz (RJ), n. 149. Typ. De Quirino & Irmão. 19 jun, 1864, f. 4. Disponível em: <
http://memoria.bn.br/DocReader/717185/592>. Acesso em: 17 abr. 2017.
194
adiar o remate do edifício, à semelhança de Napoleão III. A mania dos
tutores dos povos é distribuir a liberdade, como caldo à portaria do
convento; e a desgraça dos povos tutelados é receber a caldeirada como
um favor dos amos, augustos e não augustos (OC, IV, p. 227).
O “direito do mais forte” foi tema recorrente entre moralistas e jusnaturalistas.
La Boetie, La Fontaine, Hobbes, Maquiavel e Rousseau trataram-no à exaustão. No capítulo
III – “Do direito do mais forte”, do primeiro livro de O Contrato Social, Rousseau ironizava
o princípio do direito do mais forte, o qual não teria poder e força legítimos. A partir dessas
considerações teóricas, o cronista analisou a difícil situação do imperador brasileiro. Primo
em segundo grau do mexicano, nosso Imperador teve de reconhecer a monarquia de lá. A
jogada de Pedro II foi reconhecer o “direito da espada” (La 85 e 86; Br 878 e 297), como
que seguindo a regra de Pascal, segundo a qual “não podendo fazer com que o justo fosse
forte, fez-se com o que é forte fosse justo” (La 103 Br 298). Nessa passada, Machado tomava
o desvio que o aproximou novamente de Pascal, fazendo elipse de sua passagem favorita:
Plaisante justice... Verité au deçá, erreur au delà (OC, IV, p. 233).
A imagem de Pascal nas Memórias póstumas é bastante nítida. Até então, nos
textos de formação, víamos apenas a penumbra impressionista de um jansenista em
contornos grosseiros. Nos capítulos iniciais, o Machadinho poeta discorrera sobre temas em
comum. Descobriu-se, ainda, que o Pascal eclético e abrasileirado era também um espírito
forte do progresso e da espiritualidade. Olhando de perto, o Pascal de Machado é aquele da
primeira parte dos Pensamentos, o apologista cético e pessimista redescoberto por Cousin.
Essa nova referência a Pascal parece uma resposta direta ao Cruzeiro do Brasil, que dois
dias antes criticara o “racionalismo progressista”:
O progressista recusa às doutrinas religiosas, filosóficas ou sociais, um
valor universal e permanente. Toda a religião lhe parece uma
preparação para uma religião mais perfeita que virá infalivelmente
destronizá-la um dia. Verdade aquém dos Pirineus, erro além, dizia
Pascal; verdade hoje, erro amanhã, diz por sua vez o progressista.
Porém, se nada é absolutamente verdadeiro, nem absolutamente falso,
a consequência rigorosa é que nada existe de certo. A verdade é eterna,
ou não é; uma verdade móbil e temporária é um contrassenso.356
356 Cruzeiro do Brasil (RJ), n. 19. Typ. De Quirino & Irmão. 5 fev. 1865, f. 2. Disponível em:
. Acesso em: 5 mai. 2017.
195
Dizemos que Machado parece se referir a este jornal porque ele afirma não ter
lido este número até o momento em que escrevia a sua crônica, embora notificasse, num
post-scriptum de flagrante impostura, que “o Cruzeiro do Brasil não diz uma palavra da
encíclica. Tu quoque, Brutus?” (OC, IV, p. 235). A polêmica religiosa continuava a girar em
torno das 80 proposições promulgadas como “Sílabo dos Erros”, uma espécie de apêndice à
Quanta Cura, que esclarecia os sentidos pervertidos de outros documentos eclesiásticos,
dando encaminhamentos sobre a relação entre os poderes da Igreja e do Estado Civil.
De acordo com o documento, a administração civil deveria estar subordinada à
autoridade da Igreja. No conflito entre as leis civis e espirituais, prevaleceria o direito
eclesiástico. E mais: os ministros sagrados da Igreja e o próprio pontífice poderiam se
imiscuir na política e na administração das coisas temporais, desde que o fizessem em
contrariedade aos vícios da civilização moderna, ancorada nos princípios do liberalismo.
Qual não era a intenção de Machado senão constranger o monsenhor Pinto de Campos, então
deputado-geral por Pernambuco, portanto, beneficiário de um tipo de organização política
condenada pelo próprio Sílabo? Bastou a provocação para a folha católica publicar, nas
edições seguintes, o documento episcopal na íntegra. Acrescentava o redator o erro dos
órgãos de imprensa liberais que acusavam o Papa de proclamar o absolutismo.357
Pode-se resumir a saia justa da seguinte forma: Roma argumentava que a
representação política do prelado poderia permitir a intervenção nas leis civis, corrigindo-as
diretamente quando elas estivessem em desacordo com as leis eclesiásticas. Contudo, esse
tipo de ação política era quase irrealizável no Brasil, pois vigia o regime do Padroado, que
dava a Pedro II a autonomia para legislar sobre questões religiosas, até mesmo contrariando
as bulas papais. O próprio Imperador assegurava as liberdades religiosas (condenadas pelo
Sílabo). A Constituição falava de uma religião oficial católica, como também da permissão
ao culto em locais privados e da liberdade de consciência religiosa. Sendo assim, a
publicação do documento papal poderia ser entendida como um afrontamento ao governo,
357 Cruzeiro do Brasil (RJ), n. 20. Typ. De Quirino & Irmão. 12 fev. 1865, f. 3. Disponível em:
. Acesso em: 5 mai. 2017. Pelo que eu pude apurar, o que
aconteceu foi o seguinte: O Sílabo foi publicado pelo Papa (em latim) no fim de 1864 (8 dez.). Em janeiro
do ano seguinte ele já era conhecido pelos brasileiros, pois já existem relatos dele nos jornais. Machado foi
quem estranhou o fato de A Cruz não ter publicado, nem falado nada sobre esse importante documento.
Após essa intervenção, na edição de 5 de fevereiro, o jornal católico inicia a sua publicação na íntegra.
196
de quem o clero brasileiro dependia para existir. Essa contradição entre o poder secular e o
poder sagrado era mitigada pelo fato de os costumes religiosos serem pouco ortodoxos e
rígidos. Como se disse anteriormente, a piedade fazia parte da estética nacional. O exemplo
de Feijó, que se considerava católico, mas propunha o fim do celibato eclesiástico, tornando-
se, inclusive, maçom posteriormente, diz muito sobre a frouxidão das práticas religiosas no
Brasil.358 Ao que parece, havia uma crença deísta genérica, que permitia e normalizava
práticas religiosas que seriam condenáveis à luz do catolicismo oficial. O auge da crise da
divisão entre esses poderes ocorrerá durante a década de 1870, na polêmica da Questão
Religiosa, ocasião em que a opinião de Machado se manterá a mesma.
A Cruz estava no mesmo balaio conservador do parisiense Le Monde, do lisboeta
Nação e do londrino Universe (OC, IV, p. 131). Treinado na retórica raciocinante, Machado
compunha o todo pelas partes, atacando o jornal brasileiro pela opinião, emitida pelo jornal
francês, favorável à pena de morte “cristianizada”:
A Cruz de Paris entende que é impiedade matar com a guilhotina; quer
é que se mate mais catolicamente, mais piedosamente, com um
instrumento das tradições clericais, e não com um instrumento das
tradições revolucionárias. Para ela a questão é simplesmente de forma;
o fundo deve ficar mantido e respeitado.
Se os meus leitores disserem que estas pretensões da folha parisiense
são ímpias e ridículas, fiquem certos de que não escaparão das iras dos
piedosos defensores, e que, com duas ou três penadas, serão riscados
do grêmio católico.
Qualquer dia destes hei de fazer um elogio dos canibais, raça ignorante
e rude, que não conhece as delícias da nossa cozinha civilizada e limita-
se a satisfazer os seus instintos bárbaros (OC, IV, p. 131).
A situação era esquizofrênica. Da parte do deputado, homem público que
dividira com Machado a redação da revista O Futuro, tendo aí escrito uma série de artigos
elogiosos sobre o Imperador D. Pedro II, o estadista que conduziria o país ao “formoso porto
do progresso”359, uma saia justa como essa poderia ter graves implicações políticas. Da parte
358 Vale notar que a trajetória teológica de Feijó se inicia com uma formação rigorista, mas não ortodoxas,
com os Padres do Patrocínio, e termina com uma declaração que revogava e desdizia as suas posições
pregressas. Ver PINHEIRO. “Os Padres do Patrocínio ou o Porto Real de Itu”, p. 147.
359 PINTO DE CAMPOS, Joaquim. “O Senhor D. Pedro II, Imperador do Brasil”. O Futuro, n. 8, 1º jan. 1863,
f. 15. Disponível em: Acesso em: 10 mai. 2017.
197
do monsenhor, líder religioso e arquétipo de comportamento moral, havia um meio de se
livrar da dificuldade, qual seja, recolhendo exemplos de piedade no grêmio católico.
“Eis um verdadeiro Bispo”360, anunciava A Cruz, referindo-se ao arcebispo de
Dublin, que censurou, em tom pouco episcopal, o entusiasmo com que Giuseppe Garibaldi
fora recebido em terras inglesas. O condottieri moderno ganhou notoriedade por suas
façanhas na América do Sul, tendo regressado à Itália com os propósitos de derrotar Roma
e de libertar o seu país do poder papal. Machado articulou, então, uma análise linguística das
minúcias do texto, evidenciando o contraste entre a intenção católica e a expressão pagã:
A piedade episcopal é de uma doçura admirável: Garibaldi, no
mandamento em questão, teve “uma carreira de roubo, de perfídia, de
violência e de revolução” – os fidalgos e as mulheres de Inglaterra
“aviltaram-se dando-lhe honras quase divinas”; Garibaldi só ganhou
vitórias; “quando os seus antagonistas foram comprados para se
submeterem a ele” etc., etc., etc.
Deixo de parte as expressões piedosas do arcebispo de Dublin
relativamente a Garibaldi. Outro tanto não posso fazer a respeito do
resto. Honras divinas a Garibaldi! Ora, eis aqui uma ideia de divindade
que não se havia descoberto no seio de uma sociedade cristã. O sr.
arcebispo de Dublin falou como um cidadão romano falaria de César,
na qualidade de adversário político.
Então as festas, os jantares, as flores, as aclamações da cidade de
Londres são coisas que se aproximam do culto da divindade?
Que mais? Garibaldi só venceu quando os seus antagonistas foram
comprados, e os seus antagonistas, isto é, os que são “amigos do papa
e do sacerdócio católico”; os que não tinham carreira “de perfídia”,
esses deixaram-se comprar, traíram a causa pontifícia, fizeram uma
carreira “de perfídia”.
Pode ser que esta linguagem dê a medida de um bispo modelo; mas,
com certeza, não dá a ideia de um cristão piedoso, e menos de um bispo
lógico, e menos de um bispo reconhecido, e segundo me parece, não é
dado, nem mesmo a um bispo, divorciar-se da lógica e da gratidão (OC,
IV, 134-135).
Na edição seguinte, A Cruz continuava a eleger os seus modelos. Desta vez o
“bom católico” era o bispo de Argel, que administrou a absolvição, a comunhão e os últimos
360 A Cruz (RJ), n. 153. Typ. De Quirino & Irmão. 17 jul, 1864, f. 4. Disponível em:
. Acesso em: 10 mai. 2017.
198
sacramentos ao marechal Aimable Pélissier.361 Machado reproduziu a notícia do jornal
católico, não sem lhe aferroar pelo fato de o ilustre general, então moribundo, não ter podido
escolher se queria mesmo os sacramentos do bispo católico. A ironia fina, de ferro, alfinetava
ainda ao comentar a serventia daquela gazeta: “A Cruz é realmente cruz: serve para
experimentar a fé dos católicos; se, no fim de um mês de leitura, o católico não tem perdido
a fé em que vive, está livre de tornar-se herege” (OC, IV, p. 141).
O Cruzeiro do Brasil não durou muito, mas serviu de modelo a diversos jornais
católicos, como O Apóstolo (1866-1901). Os editores deste jornal foram alvo dos ataques e
zombarias da Semana Ilustrada, que contava com Machado entre outros cronistas. Falavam
que o clero estava em desvio de função, pouco preocupado em converter os incrédulos,
menos ainda em servir de modelo teologal para os carolas. Nas polêmicas religiosas,
Machado estava de ombros com Pascal. E não estavam sozinhos. Basta dizer que o
jansenismo brasileiro, além de fomentar a piedade sincera, teve a importância política de
defender a independência em relação à Roma. De outro modo, preocupava à “Santa Pecúnia”
angariar “alguns contos de réis para as gravíssimas necessidades do pontífice”,362 quais
sejam, o seu reinado de prazeres, perfumes, ouro e hipocrisia. Atacavam a linguagem
virulenta e pouco paciente de jornais como A Cruz e O Apóstolo, a conversão da penitência
em dinheiro, as interpretações viciosas da escritura. E defendiam-se com este tipo de
argumento:
Quem poderá argumentar com estes senhores? Pascal mencionou nas
suas famosas cartas dois fatos ridículos e de ordem humana: o contrato
Mohatra e a história do criado João d’Alba. Que hão de dizer os
jesuítas? Que Pascal mofava das coisas santas.
Peguem-lhes com um trapo quente.363
As dezoito cartas ficcionalmente remetidas ao Provincial, isto é, ao jesuíta que
dirigia uma das províncias da ordem, tornaram-se célebres contra-ataques jansenistas à
361 A Cruz (RJ), n. 154. Typ. De Quirino & Irmão. 24 jul, 1864, f. 4. Disponível em:
. Acesso em: 10 mai. 2017.
362 DR. SEMANA. “Badaladas”. In: Semana Ilustrada (RJ), n. 474, 9 jan. 1870, f. 3 (3787). Disponível em:
. Acesso em 26 mai. 2017. Magalhães Júnior, em Contos
e Crônicas (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1958), atribui essa crônica a Machado de Assis.
363 DR. SEMANA. “Badaladas”. In: Semana Ilustrada (RJ), n. 472, 26 dez. 1869, f. 6 (3774). Disponível em:
. Acesso em 26 mai. 2017.
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moral e à doutrina da Companhia de Jesus.364 O emissor das cartas é um personagem
tipicamente socrático que se faz de ignorante em assuntos teológicos para tomar as instruções
de um Padre jesuíta, entre outras coisas, sobre a sua “moral casuísta”, mais adequada do que
o rigorismo cristão aos diversos contextos da pregação, e sobre a sua “doutrina das opiniões
prováveis”, cujo fundamento e critério de validade é a autoridade de um homem que seja
erudito e piedoso.365 A partir da quarta Carta, Pascal ironiza a política de evangelização dos
Jesuítas, que não teria correspondência nas Escrituras, nem nos doutrinadores da Igreja,
tampouco nos Concílios e no Papa, mas somente nos atuais Padres, que pretensamente
compreendiam melhor a sociabilidade de seu tempo. A doutrina é relativizada pelas opiniões
prováveis de maneira a afrouxar os limites da orientação cristã severa, contemplando as
garantias cristãs a todo o tipo de gente e de ação, por exemplo, perdoando o pecado
involuntário (Quarta Carta), obrigando o confessor a absolver os penitentes (Quinta Carta),
beneficiando o Clero (Sexta Carta), flexibilizando a interpretação dos termos, etc. O contrato
Mohatra é uma forma antiga de agiotagem, pela qual o comerciante vende um produto caro
e a crédito, e o recompra de imediato, com dinheiro vivo, a um preço mais barato. À primeira
vista, pratica-se usura, pois os lucros auferidos são abusivos. Porém, os “métodos sutis” dos
Padres jesuítas permitem tornar lícito esse expediente.366 A história de João d’Alba é um
contraexemplo à máxima que autoriza o roubo na situação em que o empregado estiver
descontente com seus salários. Preso, João d’Alba ofereceu em juízo essa razão aprendida
aos Padres da Companhia, que foi prontamente censurada pelo juiz, pois “continham
doutrina ilícita, perniciosa e contrária a todas as leis naturais”. As opiniões prováveis
colocavam quem as seguisse
em segurança com relação a Deus e à consciência; pois, pelo que Você
diz, as pessoas estão em segurança desse lado, ao seguirem um doutor
grave. Vocês também as colocaram em segurança no que se refere aos
juízes, de modo que elas se veem expostas ao chicote e à forca, ao
seguirem as suas probabilidades: e este é um defeito capital.367
364 PASCAL. As Provinciais, 2016. Escritas sob o pseudônimo de Louis de Montalte, e com a colaboração dos
Senhores de Port-Royal, as Provinciais tinham como finalidade imediata defender o jansenista Arnauld em
um debate teológico, na Universidade de Sorbonne, sobre a graça e a liberdade humana.
365 PASCAL. As Provinciais, p. 61 e 66.
366 PASCAL. As Provinciais, p. 105-106.
367 PASCAL. As provinciais, p. 84-85.
200
As relações entre as Cartas Provinciais e a literatura machadiana, especialmente
o romance Dom Casmurro, foram sugeridas por Silviano Santiago. Basta mencionar as
justificativas de Bentinho para protelar o cumprimento de suas promessas, e os nomes dos
personagens Escobar e Sancha, corruptelas de grandes nomes da casuística. Além dessas,
veremos no último capítulo que a retórica de Quincas Borba, utilizada para inverter valores
morais como a miséria e a guerra, possuem lastro na retórica jesuíta desmascarada por
Pascal. A levar a sério essas relações intertextuais, Machado antecipava o seu projeto
pascaliano de ironizar o poder político-religioso dos jesuítas, não com a finalidade de
estabelecer, em seu lugar, outra doutrina positiva e impositiva. Observamos que nada do
ataque à moral laxista seja estranho ao que se pode ler em contos e crônicas como a “Missa
do galo”, “Na arca”, “A Igreja do Diabo”, “O sermão do Diabo” e “Manuscrito de um
sacristão”, nos quais há sempre procura, ironia, deformação e inversão de sentido das
doutrinas episcopais. Contudo, ao invés de percorrer o labirinto dos contos, falaremos de
uma importante influência intelectual para o processo de descristianização.
4.2.1 A antibíblia de Ernest Renan e a tolerância religiosa
Conservador nos costumes e liberal na política: pode estranhar a contradição. À
primeira vista, essa é a impressão que fica do cronista, por causa da dificuldade de se
compreender a imaginação estética e histórica de um intelectual no século XIX. Talvez seja
preciso recuar novamente o olhar, desta vez para o círculo intelectual desses homens,
tomando conjuntamente caracteres tão díspares como Joaquim Nabuco e Sílvio Romero.
Nabuco foi um correspondente contumaz de Machado. Também pudera, desde
que se dispôs como protetor de Nabuco, em 1865, até o fim de sua vida, nunca deixaram de
201
se comunicar.368 Nabuco contatara Ernest Renan, por ocasião de sua primeira viagem à
Europa. Com ele aprendeu o memorialista que o republicanismo francês era
demagogicamente igualitário, em verdade intolerante, ao passo que o liberalismo estava
compatível com a monarquia e com uma situação de espírito cosmopolita.369 Dizia ser
renanista em literatura, política, religião e filosofia. Além disso, Nabuco dedicou um capítulo
inteiro de sua biografia intelectual à influência de Renan, que recebera e comentara, com
entusiasmo fingido, um livro de poesias filosóficas do brasileiro. No fim deste capítulo,
Nabuco compara a nobreza de caráter do francês ao espírito do “mestre” Machado de Assis.
Bem compreendidas as semelhanças, não é absurda a comparação. Do ponto de vista de
Nabuco, Machado, dez anos mais velho, era o modelo de intelectual possível e disponível,
poeta com aspirações filosóficas, crítico literário e dramatúrgico de vanguarda, com uma
“estética política” igualmente liberal, progressista e monarquista.370
Sílvio Romero foi outro a pagar seus tributos à filosofia renaniana. Antes de
rumar para o caminho do cientificismo, Romero e os outros de Recife foram também
fisgados pela roupagem sistemática de sua exegese bíblica. A sedução de Renan é
compreensível se levarmos em conta o seu projeto de secularização historicista de elementos
teológicos, que não perdia em estilo:
A condição essencial das criações da arte é formar um sistema vivo
cujas partes se combinem e dirijam todas. Nas histórias como esta, o
grande sinal de laborar a verdade, é ter chegado a combinar os textos
de uma maneira que constitua uma narração lógica, verossímil, em que
nada destoe. As leis intimas da vida, da marcha dos produtos orgânicos
e do afrouxamento gradual das cores, devem ser a cada passo
consultadas; porque o que se trata de achar aqui, não é a circunstância
368 É preciso mencionar uma curiosidade biográfica: Machado era muito amigo de Sizenando Nabuco, irmão
mais velho de Joaquim. Machado frequentou a casa dos Nabuco – o pai foi eminente político, senador etc.
– por intermédio da amizade com Sizenando. Na correspondência, Machado havia sido designado por José
Alencar para proteger o poeta Castro Alves. Supõe-se que o mesmo tenha ocorrido com Nabuco. Em 31 de
janeiro de 1865, Machado comenta em sua coluna no Diário do RJ a sua estreia nos versos. Nabuco tinha
apenas 15 anos (Machado, 24). Este responde agradecido e faz alusão às simpatias do irmão. É interessante
também que essa resposta foi enviada para a Semana Ilustrada, jornal que Machado publicava com
pseudônimo coletivo Dr. Semana.
369 NABUCO, Joaquim. Minha formação. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p. 52-53. Nabuco escrevera uma
carta a Renan tentando angariar algum apoio intelectual. Ver Le droit au meurtre: lettre a M. Ernest Renan
sur l’homme-femme. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872. Disponível em:
. Acesso em 30 mai. 2017.
370 NABUCO. Minha formação, p. 78.
202
material, de verificação impossível, é mesmo a alma da história; o que
cumpre procurar, não é a apoucada certeza das minuciosidades, é a
exatidão do sentimento geral, a verdade do colorido. Cada passagem
que sabe das regras da narração clássica deve agrilhoar a atenção,
porque o fato que se trata de contar foi vivo, natural, harmonioso. Quem
não chegar a apresenta-lo assim pela narrativa, é porque sem dúvida
não pode alcançá-lo bem.371
A metade do século separou o auge e a queda da filosofia ecletista no Brasil. Por
um flanco, o cristianismo de Cousin foi atacado pela ala tradicionalista da Igreja. Ubiratan
Macedo escreve uma lista de opúsculos, revistas e compêndios de filosofia dedicados a
depauperar Cousin e seus discípulos: “a repulsa ao ecletismo, que estes indícios mostram,
parece ser oriunda da fé católica, não tematizada por um sistema teórico. Para a práxis da fé,
o ecletismo parecia ser algo protestante com sua valorização da dúvida e da razão
individual”.372
Pelo outro flanco, o sistema eclético foi atacado por empiristas sensualistas, que
não viam ali qualquer sorte de rigor científico e evidências que pudessem comprovar as suas
teses metafísicas. Segundo Silvio Romero, Cousin “foi um espírito desnorteado, um literato
que errara o seu caminho”373, opinião compartilhada por E. Renan nos Essais de morale et
de critique. Ao fim, venceu a opinião planfetária de Taine, em Les Philosophes Classiques
du XIXe Siècle en France, de que o ecletismo espiritualista era uma colcha teórica de
retalhos, com uma oratória vazia e um estilo fora de moda.374 Essa crítica à filosofia de
Cousin aplica-se também à Chateaubriand, Alverne e os demais ecletistas brasileiros. Faltava
a esses o programa hermenêutico que se desenvolvia na Alemanha e frutificara na Vida de
Jesus (1835) de David Strauss. A exegese moderna lhe fornecia instrumentos para julgar a
autenticidade do texto sagrado por seu valor histórico (proximidade da fonte, coerência com
outros relatos e acontecimentos, nexo causal etc.). A verdade do colorido era alcançada por
indução. Visto que os milagres e os feitos sobrenaturais não pudessem ser repetidos
experimentalmente, Renan os reduzia a “lendas maravilhosas”, para com as quais o “dever
371 RENAN, Ernest. A vida de Jesus. Porto: Lello & Irmão, 1926, p. LV.
372 MACEDO. A ideia de liberdade no século XIX, p. 81.
373 ROMERO. Obra filosófica, p. 8. Ver ainda o elogio de Romero a Renan no prefácio ao livro de Tito Lívio
de Castro, Questões e Problemas (ROMERO. Obra filosófica, p. 208-213).
374 MACEDO. A ideia de Liberdade no séulo XIX, p. 59.
203
do historiador é interpretá-la e averiguar qual é a parte verdadeira, e qual a parte de erro que
ela pode conter”. 375 Ora, esta primeira regra do método renaniano visava sobretudo
contornar o pirronismo pascaliano segundo o qual “cada coisa é verdadeira em parte, falsa
em parte” (La 905 Br 385).
As linhas hereditárias entre Renan e Pascal estão bem traçadas. Exagerando,
pode-se até dizer que Renan é um antípoda de Pascal. Enquanto o jansenista vivenciou uma
experiência místico-religiosa por volta dos 20 anos, o seu conterrâneo, com igual idade,
sofreu uma crise religiosa, de fé e de vocação sacerdotal. A reconversão de Pascal (que já
era católico, mas vivia o seu “período mundano” de busca pela fama através da ciência) e a
desconversão, por assim dizer, de Renan dão o tom de suas respectivas obras do amanhã.
Defensores da separação entre ciência e teologia, razão e fé, ambos refletiram sobre como
essas duas ordens poderiam se ajudar ou se excluir. De acordo com Pascal, os modelos
científicos não forneciam instrumentos para uma interpretação fidedigna das escrituras, cujas
narrativas sobrenaturais dependiam de uma força igualmente sobrenatural, que estava para
além da razão natural. 376 Sabendo-se da diferença de escopo das duas ordens, Renan
ressalva-lhe a seguinte condição:
Para escrever a história de uma religião cumpre, em primeiro lugar, ter
crido nela (caso contrário, ninguém poderia compreender porque é que
ela encantou e satisfez a consciência humana); em segundo lugar, não
crer de um modo absoluto, porque a fé absoluta é incompatível com a
história sincera. Mas o amor pode existir sem a fé. [...] Profundamente
desiguais, e tanto mais divinas quanto maiores e mais espontâneas são,
as manifestações do Deus oculto no fundo da consciência humana são
todas da mesma ordem. Portanto Jesus não poderia pertencer
unicamente aos que se apelidam seus discípulos. É a honra comum a
todos os que têm coração de homem. A sua glória não consiste em estar
retirado da história; presta-se-lhe mais verdadeiro culto mostrando que
toda a história é incompreensível sem ele.377
375 RENAN. Vida de Jesus, p. LII.
376 Ver PASCAL, Blaise. Prefácio ao Tratado sobre o Vácuo. In:_____. Do espírito geométrico e da Arte de
Persuadir, e outros escritos de ciência, política e fé. Tradução de Flávio Fontenelle Loque. Belo Horizonte:
Autêntica Editora, 2017, p. 101-112.
377 RENAN. Vida de Jesus, p. LVIII.
204
Nenhum pensador, afirma Vamireh Chacon, “alcançou tanta repercussão no
Brasil, na segunda metade do século passado, quanto Ernest Renan”.378 A Vida de Jesus
somou treze edições entre 1863 e 1864. Ele foi condecorado, anos depois, por sugestão do
próprio Imperador dom Pedro II e à revelia do clero brasileiro, com a Ordem Imperial da
Rosa, mesma honraria recebida por Machado de Assis. Presente nas estantes de toda a elite
intelectual brasileira, o historiador francês ainda foi referenciado no debate sobre o que
deveria ser a nação e qual povo ou raça deveria constituí-la. Qualquer fosse o abismo que
separasse o jansenismo de Pascal e o materialismo de Renan, para os intelectuais brasileiros
eles representavam as figuras ambivalentes do sábio e do artista, do homem de espírito e do
naturalista. Se houve um Pascal brésilien, conforme o apresentamos no segundo capítulo,
ele era Renan. O seu nome esteve relacionado a “múltiplos debates ‘brasileiros’, dentre os
quais: as tensões entre religião e política, a origem dos nativos brasileiros, a escravidão, a
constituição de uma nação e as regras para a escrita da história do e no Brasil”.379
É curioso o Catálogo Suplementar do Gabinete Português do Rio de Janeiro
inscrever a Vida de Jesus na seção “Teologia Heterodoxa” e elaborar um memorando
contendo as “refutações” a essa obra.380 O responsável pela sede recifense do Gabinete
Português foi mais prudente e consultou o Monsenhor Pinto de Campos antes de adquirir o
livro. Em carta aberta publicada no Diário de Pernambuco, o padre-deputado opinou
negativamente, dizendo que “a obra de Renan é um grito de impiedade contra a natureza
divina de Jesus Cristo, e por conseguinte contra a origem espiritual e celeste da religião, que
19 séculos têm professado, como a única verdadeira”.381 O livro teria erros graves porque
admitia a existência de Jesus, mas não a existência de seus feitos sobrenaturais. No fim da
carta, Pinto de Campos sugeria que se fizesse como Napoleão I, que, aborrecido com um
opúsculo que o ultrajava, atirou-o às chamas. Foi o bastante para provocar o folhetinista de
Ao acaso:
378 CHACON, Vamireh. “Machado de Assis e Renan”. Revista Brasileira de Filosofia, v. XX, n. 78, abr.-jun.
1970, p. 147.
379 RUDI, Thiago. “Ernest Renan brésilien: dos papéis que um historiador francês teve no Brasil”. Dimensões,
v. 37, jul.-dez. 2016, p. 195.
380 MELLO. Catalogo supplementar dos livros do Gabinete portuguez de leitura no Rio de Janeiro, p. 382-
384. Disponível em: . Acesso em 30 mai. 2017.
381 PINTO DE CAMPOS, Joaquim. “Revista Diária”. Diário de Pernambuco. Ano XL, n. 244, 24 out. 1864,
f. 1 Disponível em: . Acesso em: 4 jun. 2017.
205
Que teme por esse livro monsenhor Pinto de Campos? Ele mesmo
declara que é um livro absurdo, onde a impiedade não raciocina com a
lógica da impiedade de Strauss; o que provaria antes a necessidade de
exiliar o livro de Strauss e não o de Renan.
Eu de mim digo que li a Vida de Jesus sem perder a mínima parte das
minhas crenças; mas não fui queimá-lo depois da leitura, nem adiro,
como o Diário de Pernambuco, às doutrinas de monsenhor Pinto de
Campos.
Estou plenamente convencido de que as iras do clero, as injúrias dos
livros e dos púlpitos tiveram grande parte no sucesso obtido pela obra
de Renan. Neste ponto é impossível deixar de reconhecer que os
refutadores foram de uma inépcia sem nome. Toda a gente quis ler o
livro do Anticristo, e as edições foram sucessivamente esgotadas.
Todos sabem o que são essas injúrias e doestos, em completa oposição
com a brandura evangélica. É coisa velha, e eu receio repetir uma
observação de cabelos brancos.
“Começai, diz Pascal, por lastimar os incrédulos, que são muito
infelizes; só se poderia injuriá-los no caso de que isso lhes servisse;
mas, pelo contrário, faz-lhes mal” (OC, IV, p. 202).
Machado estava se referindo à advertência pascaliana de que é inútil insultar e
ridicularizar os ateus (La 162, 156 Br 189, 190). Mas não era apenas isso. O velho Pascal, o
avô espiritual deste Machado, estava a dar conselhos sobre a arte de persuadir, isto é, sobre
como as verdades, em suas diferentes ordens e suportes, podem ser recebidas e aceitas por
diferentes ouvintes e leitores. Pode-se persuadir o entendimento com demonstrações ou se
pode persuadir a vontade, utilizando-se, neste caso, de recursos estéticos que agradem o
público:
Só há três tipos de pessoas: umas que servem a Deus, tendo-o
encontrado; outras que, não o tendo encontrado, se empenham em
procurá-lo; outras que vivem sem procurá-lo nem tê-lo encontrado. Os
primeiros são razoáveis e felizes, os últimos são loucos e infelizes. Os
do meio são infelizes e razoáveis. (La 160 Br 257)
Este pensamento é desenvolvido num fragmento intitulado pelo editor de Port-
Royal de “Contre l’indifférence des athées”, no qual Pascal esclarece que aqueles que
negligenciam a questão da imortalidade da alma são tão pouco razoáveis que a oposição que
fazem à religião não é perigosa, servindo, ao contrário, para o estabelecimento da própria
verdade expressa pela religião.
206
Porque a fé cristã quase não vai além de estabelecer estas duas coisas:
a corrupção da natureza e a redenção de Jesus Cristo. Ora, sustento que,
se eles não servem para mostrar a verdade da redenção pela santidade
de seus costumes, servem pelo menos admiravelmente para mostrar a
corrupção da natureza, por sentimentos tão desnaturados. (La 427 Br
194)
Machado publicava a carta do Monsenhor na íntegra, no fim de sua
argumentação, como maneira de opor e comparar uma coisa à outra. O folhetinista dizia que
ele mesmo e seus leitores estavam na última classe de homens, preguiçosos e indolentes, que
não se esforçavam pela salvação, quando o verso de um poeta lhes ofereceu a absolvição: la
paresse est un don qui vient des immortels. Os deuses os absolviam em sua linguagem
própria, isto é, através do verso e da poesia dos oráculos modernos. Isso quer dizer que o
nosso escritor, na esteira de Pascal-Chateaubriand-Renan, ainda advogava a teologia de
artista? Não mais, porque a interpretação estética de mundo, nesse caso, nada tinha de
absenteísmo e transcendência. Machado lidava com uma questão de ordem prática, tentando
equilibrar uma posição conservadora, segundo a qual o vulgo deve ser persuadido a agir
como um bom cristão, e uma posição liberal, pelas garantias constitucionais da liberdade
religiosa e de qualquer sorte de proselitismo.
Negando Renan, à luz íntima do “espírito católico”, Machado acabava por
aceitá-lo, iluminado pela razão pública. A solução ecletista para o problema da existência de
Deus e a confiança numa divindade do progresso eram substituídas pela indeterminação
agnóstica. De Renan, Machado aprendeu que não há nada divino e maravilhoso, que as
Escrituras são metade mitologia, metade estória sobre homens comuns. O “livro dos livros”
continha a “obra universal, desde a história, a poesia épica, a tragédia e a filosofia, até o
idílio, a poesia lírica, e a elegia”. Ela deveria figurar, ao fim, “entre Milton e Homero” (OC,
IV, p. 259). A influência de Ernest Renan foi suficiente para relativizar a interpretação
dogmática da Bíblia. A experiência da cultura deu um alento à experiência pessoal. E se a
tese relativista valesse para as religiões, qualquer poderia ser verdadeira. Tratava-se de uma
tese indisputável, muito embora se admitisse, como questão de costume, apenas uma religião
oficial. Apesar disso, a sociedade civilizada, melhor dissera liberal, deveria sempre
pressupor, como direito fundamental, pensava Machado de Assis, a liberdade de expressão
e de culto.
207
4.3 A descristianização do amor
Os conceitos de amor e dúvida possuem lastro na história da filosofia. No que se
refere à tradição considerada por este estudo, as suas tramas revelam as arestas a partir da
discussão de Agostinho contra os céticos sobre a possibilidade de termos crenças verdadeiras
justificadas.382
Para o pirrônico, as crenças eram fontes de perturbação, devendo ser eliminadas
ou, pelo menos, mitigadas. Uma crítica corrente ao pirrônico diz respeito à impossibilidade
humana de se eliminar toda sorte de crenças, seja porque isso acarreta uma autocontradição
performativa (Diógenes Laércio), seja por uma propensão inevitável, para a natureza
humana, de se realizar inferências causais (Hume), seja porque é impossível separar entre
aquele que tem experiências perceptuais, aquele que possui um estado de crenças e aquele
que dá o seu assentimento (Burnyeat).383 Tornar a vida humana sem crenças (adoxástos)
viável e significativa foi uma das principais dificuldades deste filósofo, cujas atitudes e
comportamentos, quando não dispunham de uma vida intelectual assertiva, assemelhavam-
se às de um animal não humano, que se deixa guiar por aparências e por anseios naturais.
Na tentativa de resgatar a dignidade do ser racional, do sábio ou do homem de espírito, os
céticos acadêmicos defenderam que a atitude mais razoável era a de não dar o assentimento
precipitado a impressões, argumentos e crenças. Esta norma epistemológica também valia
para os assuntos antropológicos, morais e, supostamente, também para os teológicos. Via de
regra, o sábio era aquele que evitava a tempestade de crenças abrigando-se sob o valor da
integridade do sujeito racional. Como não devesse asserir a crenças não justificadas
382 Para uma argumentação mais precisa sobre essa discussão, tomo como referência principal o artigo de
MAIA NETO, José Raimundo. “Ceticismo, Erro, Verdade”, publicado em A. Novaes (ed.), Mutações. A
Invenção das Crenças. São Paulo: SESC, 2001, p. 227-247.
383 As referências antigas, modernas e contemporâneas são, respectivamente, LAÉRCIO, Diógenes. Vida e
doutrinas de filósofos ilustres. 2. ed. Trad. Mário da Gama Kury. Brasília: Editora UNB, 2008. (Livro IX,
104); HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. Trad. José Oscar de Almeida Marques.
São Paulo: Ed. Unesp, 2004, §XII; e BURNYEAT, Myles. “Can the Sceptic Live His Scepticism?”, in
Schofield, M; Burneat, M. and Barnes, J (eds.), Doubt and Dogmatism: studies in Hellenistic
Epistemology. Oxford: OUP, 1986, p. 20-53.
208
racionalmente, sentia-se emancipado da vala comum a que os dogmáticos estavam
determinados.
O projeto agostiniano de fundamentação da crença cristã estabeleceu-se
margeando o princípio acadêmico da integridade intelectual. Com ele, e munido do arsenal
cético, Agostinho realizou a equipolência entre a perspectiva maniqueísta e a doutrina
católica, mas dele se afastou quando percebeu que a conversão ao cristianismo, cuja doutrina
baseava-se na crença em livros e em eventos históricos, prescindia da fundamentação
demonstrativa adequada ao sábio acadêmico. De acordo com Maia Neto, Agostinho supera
essa dificuldade realizando uma “promoção filosófica das crenças”:
O fundamento da crença não é mais o indivíduo autônomo racional,
capaz ou de bem usar sua razão preservando-se da opinião na suspensão
do juízo ou de mal usá-la, precipitando-se na ilusão de ter alcançado
racionalmente uma verdade que é, de fato, incerta. Nem cético nem
dogmático, Agostinho torna-se cristão. Agostinho elabora
filosoficamente uma noção de crença, alternativa tanto à opinião (doxa)
como ao conhecimento (episteme), capaz de fazer a mediação entre a
filosofia e a religião. A crença é o assentimento dado a algo que não se
compreende racionalmente mas que não constitui opinião
(precipitação) porque, em primeiro lugar trata-se de algo (a história)
que não pode por sua própria natureza ser objeto de conhecimento
demonstrativo. Em segundo lugar, diferentemente da opinião, a crença
tem fundamento, não na razão como o conhecimento, mas na
autoridade dos testemunhos históricos.384
O pirrônico rebaixa-se ao estado da besta. O acadêmico sobe ao pedestal dos
anjos. Entre um e outro, desenrolam-se as questões humanas, cuja natureza é bem
compreendida pelos relatos históricos do cristianismo. A confiança nos testemunhos torna-
se o critério de desempate, pois refletem uma ordenação importante ao ser humano, qual
seja, aquela fundada na confiança, no coração ou na boa fé. O comportamento cotidiano é
regido por diversas crenças tidas subjetivamente como certas, tais como a identidade de
meus pais, que o Sol nascerá amanhã, que minha noiva me ama, subirá ao altar e dirá “sim,
eu aceito” etc., crenças não demonstradas pela razão e sem as quais a vida poderia se tornar
inviável.
384 MAIA NETO. “Ceticismo, Erro, Verdade”, p. 234-235.
209
A perspectiva de Agostinho sobre o sábio acadêmico é exemplificada a partir de
um pensamento shakespeariano, dramatizado por Machado de Assis no romance
Ressurreição, segundo o qual nossas dúvidas são traiçoeiras, e nos fazem “perder o bem pelo
receio de o buscar” (OC, I, p. 307). Assim, o princípio acadêmico da integridade intelectual
é duplamente arrogante. Por um lado, arrisca-se a perder o bem infinito que a crença nas
autoridades bíblicas poderia oferecer, por outro, supõe-se capaz de superar as limitações
humanas apenas com a razão.
Na “Advertência” à primeira edição desse romance, Machado traduz os versos
shakespearianos e explica que o propósito do livro é escrever uma espécie de ensaio
dramatizado sobre a dúvida. “É um ensaio”, diz o autor, que repete: “vou apresentar-lhe um
ensaio em gênero novo” (OC, I, p. 232). Dirce Cortes Riedel percebera que Machado
“escreveu romances intelectuais, tipos de romances-ensaios”.385 Este projeto estrutural tem
a ver com o sistema caracterológico adquirido com as suas reflexões sobre o teatro e sobre
o moralismo francês. Mas não apenas isso. O mais importante é que a coordenação do
contraste amoroso de caracteres a uma situação de dúvida requer que se façam e se
recuperem as reflexões filosoficamente bem localizadas sobre o amor e a dúvida. Essa
técnica do romance psicológico tivera como protótipo a novela A princesa de Clèves, obra
coletiva de simpatizantes da estratégia jansenista de ataque à moral, como Mme. Sevigné e
La Rochefoucauld, mas assinada por Mme. de la Fayette.386
Como o romance, o gênero ensaístico-psicológico promete uma investigação
atenta não apenas a seu objeto, como também ao modo pelo qual a narrativa coleciona e dá
sentido a seus fragmentos, incluindo a sua relação de parentesco com obras anteriores. Deste
modo, se Shakespeare oferece a súmula exegética com que o narrador ensaiará a sua situação
dramática, ninguém se espantará de descobrir que o recurso à autorreflexão, tão próprio a
gêneros modernos como o romance e o ensaio, levará a ficção machadiana ao encontro das
385 RIEDEL, Dirce Cortes. Tempo e metáfora em Machado de Assis. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2008, p. 239.
386 A edição princeps desta obra apareceu anônima em 1678. A assinatura de La Fayette passou a constar na
capa do livro a partir de 1780, em parte porque o seu romance tinha traços autobiográficos, aludindo ao
suposto caso extraconjugal que manteve com La Rochefoucauld. La Fayette manteve contato com o Grande
Arnauld e Racine, além de ser uma leitora fervorosa de Pascal. Mathieu defende a tese de que o conceito
pascaliano de divertimento foi dramatizado em La Princesse de Clèves (MATHIEU, Francis. “Mme de
Lafayette et la condition humaine: Lecture pascalienne de La Princesse de Clèves’. Cahiers du dix-
septième: An Interdisciplinary Journal. n. XII, 1 (2008), p. 61–85).
210
meditações de Agostinho e do círculo literário jansenista sobre e crença, a dúvida e as
paixões do amor.
A “filosofia cristã”, termo que designa a síntese realizada por Agostinho entre
as regras morais e narrativas do Novo Testamento com as doutrinas filosóficas helenistas,
tinha como núcleo o valor dado à Ressurreição, isto é, a crença no efeito da graça divina,
que redime o ser humano do pecado adâmico e lhe oferece alguma sorte de beatitude. Tanto
na Cidade de Deus quanto no Diálogo sobre a felicidade, Agostinho adere à tese teleológica
segundo a qual a busca pela felicidade é característica irremediável da natureza humana,
embora os filósofos discordem sobre como é possível alcança-la, se através do raciocínio,
das satisfações corpóreas, da contemplação ascética, etc.387 Sem encontrar o ponto fixo ou o
porto seguro da felicidade, o homem afigura, conforme a recorrente imagem cética, um
marinheiro que navegasse ao léu.388
Esse é um quadro teórico possível com o qual Machado elabora o seu
Ressurreição. O título do romance já é um indicativo irônico de que o drama andará de par
com o agostinismo. Após se iludir e desiludir da vida e dos outros, da “sociedade platônica,
em que a fraternidade era a lei universal, e o amor a lei comum” (OC, I, p. 270), o
protagonista, Félix, adota como regra de vida certo ceticismo “desdenhoso ou hipócrita”, em
que as relações amorosas, índice de felicidade, não durassem além de seis meses. Além do
viço da juventude, Félix perdera a “primeira condição da paz interior”: a confiança no
testemunho de outrem. A desconfiança, a dúvida e a mobilidade do espírito tornaram-se
carcaça para a “debilidade do coração”. A regra moral foi, portanto, um instrumento de livre-
arbítrio desse espírito vacilante contra a necessidade de buscar a felicidade da paz doméstica:
Eu tenho a infelicidade de não compreender a felicidade. Sou um
coração defeituoso, um espírito vesgo, uma alma insípida, capaz de
fidelidade, incapaz de constância. O amor para mim é o idílio de um
semestre, um curto episódio sem chamas nem lágrimas (OC, I, p. 238).
Este projeto de vida cético da manutenção da integridade intelectual cai por terra
quando Félix e Lívia se apaixonam verdadeiramente. O capítulo VIII, intitulado “Queda”,
demonstra que a “lógica da natureza” recusa à razão o controle das verdades essenciais e
387 AGOSTINHO. De civ. Dei, II, 6, p. 723-724.
388 AGOSTINHO. De beat. vita, I, 1. [Sobre a felicidade. Tradução de Mário A. Santiago de Carvalho. Lisboa:
Edições 70, 2014, p. 14-15].
211
impinge a necessidade de outra ordem de compreensão, qual seja, a ordem do coração, que
faz crer mesmo na falta de evidências demonstrativas. Levado por essa “singular loucura”,
o ciúme doentio, Félix se reconhece envolto em águas turbulentas, afastado do porto seguro
da felicidade. Apesar da loucura, ele conservava a consciência de que a situação o levaria a
tormentas ainda maiores:
O desenlace dessa situação desigual entre um homem frio e uma mulher
apaixonada, parece que devera ser a queda da mulher, foi a queda do
homem [...].
Quando Félix chegou a encarar-lhe o coração, sentiu a fascinação do
abismo, e caiu nele (OC, I, p. 258).
A referência ao abismo pascaliano não passa despercebido, pois ele é a medida
que separa as ordens de grandeza humana, a intelectiva e a cordial, com as quais se pode
reconhecer a própria miséria, as ilusões da concupiscência e os limites do amor-próprio. A
dialética entre a grandeza e a baixeza dão o tom da visão pascaliana de um homem suspenso
entre “os dois abismos do infinito e do nada” (La 199 Br 72). Este também é o sentido da
queda do protagonista de Machado. O abismo pelo qual Félix sentiu tanta fascinação é o
próprio mistério. Ele internaliza a contradição entre a dimensão racional, que busca
compreender e domar a realidade, e a dimensão mística, que marca os limites irrealizáveis
desta tentativa. A própria razão depara-se com aquilo que a ultrapassa: o amor era-lhe já uma
necessidade, “uma força invencível”. Até mesmo para um homem de espírito, o fascínio pelo
abismo é uma necessidade. “É preciso apostar”, dirá Pascal, sob pena de pecar contra o
princípio de integridade intelectual, cujo objetivo principal é a própria felicidade (La 418 Br
233).
Quando jovem – e pobre, não se pode esquecer –, o ingênuo Félix ignorava o
que era pecar. Agia “sem cálculo nem arrependimento”, desconhecendo a diferença entre o
bem e o mal. Após embolsar vultosa herança, o nosso protagonista passa a viver outro
mundo, no tumulto da vida social, vacilando aqui e ali, conforme aquela regra moral
engenhosamente estabelecida. O coração somente lhe produzia “atribulação e cansaço [...],
da fadiga passou à exasperação, da exasperação ao tédio” (OC, I, p. 269). A consciência das
contrariedades humanas não é suficiente, no entanto, para que Félix fugisse ao seu destino
trágico. A “missão piedosa” de Lívia promoveu certa “transformação moral do médico”:
212
– É certo que me ressuscitaste – continuou o médico -; e se o futuro me
guarda ainda alguns dias de felicidade sem mescla, a ti só os deverei,
minha boa Lívia; tu só haverás feito o milagre. Mas...
– Mas? – repetiu a moça com impaciência.
– A obra não está completa – continuou Félix –; metade apenas. Fizeste
brotar dentre as ruínas uma flor solitária, mas bela; única neste árido
terreno do meu coração. Não basta; é preciso agora um raio que a anime
e lhe conserve o perpétuo viço; essa é a confiança, não de uma hora,
mas a de todos os dias, a que não falece nunca e nos restitui a serenidade
dos primeiros tempos. Sem ela, o meu amor será um largo e inútil
martírio (OC, I, p. 270).
Entre os capítulos “Queda” (VIII) e “Renovação” (XVIII), Félix percorre a sua
via dolorosa, um paralelo que faz pastiche da mitologia cristã. Trata-se, na teodiceia, da
Felix culpa, a feliz queda, um conceito paradoxal que exprime as consequências positivas (a
renovação) de uma desgraça (a queda). Por isso, é preciso compreender o sentido histórico
do cristianismo. As figuras cristãs, de acordo com Pascal, são apresentadas em linguagem a
ser decifrada, ao mesmo tempo revelam e ocultam. O Éden, a queda, as profecias, o
sacrifício, a ressurreição e a graça são, ao mesmo tempo, conteúdos de fé e figuras que nos
permitem compreender a nossa própria natureza. Esse aspecto de contrariedade perante a
razão, internalizado, por exemplo, na figura de Cristo, é superado quando a contemplamos
de coração aberto (La 260, 265 Br 678, 677).
Não há superação no romance. A árvore do conhecimento arraigara em Félix
raízes profundas. De início, planejou restituir sua liberdade original ausentando-se de Lívia,
a milagreira. A ausência pareceria ingratidão, não fosse a hipótese de Maquiavel, referido
pelo narrador como “um moralista cético” (OC, I, p. 259), segundo a qual um príncipe deve
ser ingrato ao general que lhe deu uma vitória de guerra com o objetivo de se manter
independente. 389 A utilização da metáfora maquiaveliana do amor pelo combate fora
tematizada no fim do primeiro capítulo desta tese. Agora a alegoria está junto a outros
códigos, como a dúvida e o catecismo.
Para o leitor, o amor de Lívia era certo. E ela mesma aceitava apostar em algo
que superasse a razão, pois a “certeza de ser amada é uma grande compensação. O purgatório
não é uma porta que abre para o céu?” (OC, I, p. 259). A “luta” (título do capítulo seguinte
389 MAQUIAVEL. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, I, 27-29.
213
à queda) de Félix foi contra ele próprio, à revelia da imaginação, essa faculdade do engano
que sobrepuja até mesmo a inteligência (La 44 Br 82):
O amor de Félix era um gosto amargo, travado de dúvidas e suspeitas.
Melindroso lhe chamara ela, e com razão; a mais leve folha de rosa o
magoava. Um sorriso, um olhar, um gesto, qualquer cousa bastava para
lhe turbar o espírito. O próprio pensamento da moça não escapava às
suas suspeitas: se alguma vez lhe descobria no olhar a atonia da
reflexão, entrava a conjeturar as causas dela, recordava um gesto da
véspera, um olhar mal explicado, uma frase obscura e ambígua, e tudo
isto se amalgamava no ânimo do pobre namorado, e de tudo isto
brotava, autêntica e luminosa, a perfídia da moça (OC, I, p. 260).
Entremeado de “felicidade e amargura”, ora tomado por suspeitas, ora por
credibilidade a via-crúcis do protagonista quase termina em redenção. A jovem Raquel sofre
de uma enfermidade terrível, ficando desenganada pela medicina, que podia demonstrar a
situação com “argumentos cabais e irrefutáveis”. Félix, no entanto, opta por modificar
tratamento dispensado à moça, salvando-a. As ações que se seguem nos capítulos
“Sacrifício” (cap. XVII) e “Renovação” (cap. XVIII) são de abnegação pura. Raquel, que a
esse tempo amava Félix, sacrifica-se pelos namorados, como estivesse a salvar dois
pecadores: “Pela memória de sua mãe, não seja cruel! Lívia ama-o muito. Não a faça morrer,
que seria um pecado!” (OC, I, p. 287). A ação terna de Raquel renova o coração do homem,
preparando-o enfim para o casamento. Ele estava à “porta do céu” (cap. XIX), no entanto,
quando recebe uma carta anônima, que acusa Lívia de ter traído o ex-marido, causando-lhe
o desgosto fatal. Na verdade, a carta era parte do estratagema montado por Luís Batista para
plantar a dúvida no espírito do rival e separar os amantes.
A dúvida era já bastante para justificar o que fiz. Não foi só o receio do
futuro que me impeliu, foi principalmente a lembrança do passado. A
traição dela, se a houve, não deve doer nada ao marido que se foi; mas,
ao marido que vem, a ideia da perfídia anterior destrói pela base toda a
confiança, que é a condição da felicidade (OC, I, p. 302).
Essa passagem é fundamental para compreendermos o desenlace “filosófico” do
romance, pois ela referencia e contrapõe a sabedoria do cético acadêmico à filosofia cristã
agostiniana. As negativas de Félix estão respaldadas pela dúvida, nada mais, ao passo que,
no matrimônio seguinte, o próximo da fila terá de lidar com a questão da confiança, condição
da felicidade. A ação do protagonista possui uma lógica que se assemelha à do cético
214
acadêmico diante da bestialização pirronista: ela deve resguardar a integridade do homem
racional, mesmo que isso revele certo grau de impostura e desdém diante dos outros e da
própria possibilidade de ser feliz. A semelhança temática entre essa justificativa teórica e o
recorte histórico das noções filosóficas de amor e dúvida ganha conformidade quando
reconhecemos a passagem do argumento acadêmico ao contra-argumento agostiniano. Por
um lado, a suposta traição de Lívia era irrelevante para o ex-marido, um não vivente que, tal
como o pirrônico, não pode mais dar o seu assentimento a isso ou àquilo, portanto, nada lhe
dói. Por outro lado, o salto no escuro e a confiança irrestrita em outrem, detentor de sua
felicidade, transformam-se em ônus de sofrimento irresolúveis pela razão, pois a ideia da
perfídia é o que destrói o sentimento de confiança.
Calculados os danos e os benefícios que a vida ao lado de um espírito vacilante
lhe propiciaria, Lívia decide “isolar-se na sociedade”, imaginando, pelo resto dos dias, como
seria a felicidade não realizada. Por sua vez, “dispondo de todos os meios que o podiam fazer
venturoso, segundo a sociedade, Félix é essencialmente infeliz” (OC, I, p. 307). Entenda-se
por meios a fortuna adquirida por herança e os dispositivos patriarcais de poder, além, é
claro, das disposições de ânimo favoráveis, indubitavelmente, à felicidade do casal. Por isso,
caso não se compreenda a ironia final, o julgamento do narrador parecerá bastante rigoroso.
Ao contrário da simbologia cristã, em que a queda representa a saída voluntária
do homem dos estados de inocência e de glória, dados pelo contato direto com Deus, a queda
de Félix ocorre num momento, por assim dizer, desencantado, em que o orgulho e o cálculo
levam-no a buscar por si próprio a glória. Ele foge do tédio divertindo-se com as mulheres,
quando a possibilidade de um amor verdadeiro lhe abre sob os pés um abismo. Em algum
sentido, essa queda indica a possibilidade da saída involuntária do homem dos estados de
pecado e de amor-próprio. Essa inversão lógica do significado da alegoria cristã repercute
no restante do romance.
A carta de Paulo à igreja de Corinto referia ao amor como a fonte do
conhecimento inteiro, ao passo que à razão competia conhecer parcialmente as verdades. Só
o amor poderia dissipar as dúvidas irresolvíveis da razão, sendo meio necessário para a
felicidade plena. Esse amor sobre-humano, arquétipo ideal animado por um ser sobrenatural,
é a pedra de toque da epistemologia cristã. O narrador do romance se abstém, aparentemente,
da hermenêutica do conceito de amor, deixando para os “doutores da Escritura” a decisão
215
sobre “qual destes dois amores é melhor, se o que vem de golpe, se o que invade a passo
lento o coração” (OC, I, p. 258). Ora, se a dúvida é o princípio formal do romance de
Machado de Assis, o amor é, por assim dizer, o seu par dialético. Lembre-se de que, antes
de cair no mundo, Félix criara “um mundo seu, uma sociedade platônica, – em que a
fraternidade era a língua universal, e o amor, a lei comum” (OC, I, p. 270). A autoridade dos
doutores da Escritura – suponhamos um Agostinho ou um Tomás de Aquino – é apenas
mencionada, sem qualquer adesão por parte do narrador: “eu por mim não sei decidir, ambos
são amores, ambos têm suas energias” (OC, I, p. 252). Isso porque o amor do qual padece o
protagonista não parece ser da mesma espécie que o amor cristão, interpretado pelos
doutores como aquilo capaz de dobrar a natureza ou auxiliá-la contra o apetite concupiscível.
Aquele era um amor patológico que fazia errar e adoecer.
Então o decorrer deste romance passa a ensaiar sobre a história transviada do
conceito de amor. Para uns, o amor “é um idílio de um semestre, um curto episódio sem
chamas nem lágrimas” (OC, I, p. 238). Para outros, o amor é a esperança da felicidade. Entre
ambos, discute-se, ainda, “qual dos amores é o mais forte”, o amor de primeira idade que
arrebata como um “êxtase divino” ou o amor tardio e moderado, “sem asas, sem ilusões”
(OC, I, p. 268). Para um espírito vacilante como o de Félix, temos visto que amar é padecer
no purgatório, à “porta do céu”, do “lar doméstico” ou “da cidade da paz e da concórdia”
(OC, I, p. 292).
A referência filosófica é outra vez truncada. Tudo indica tratar-se da cidade de
Deus agostiniana, que pode se denominar cidade celeste, cidade do alto ou cidade suprema,
cujos cidadãos acreditam no testemunho da Escritura e vivem movidos pelo amor que o seu
fundador neles infundiu.390 De outra forma, os cidadãos da cidade terrena são cativos do
vício. Dentre eles podemos contar o irmão de Lívia, Viana, sujeito prático cujo “reino era
todo deste mundo” (OC, I, p. 251). O julgamento do narrador para caracterizar os pares de
opostos retoma, neste caso, ao versículo de João (18: 36) em que Jesus respondia a Pilatos
dizendo que o seu reino não era deste mundo. Entre o mundo de Viana, que enxergava apenas
as vantagens pecuniárias do casamento, e o “mundo superior” de Lívia, o médico era “uma
espécie de mediador plástico. Não pertencia à esfera de nenhum deles, mas sabia a maneira
390 AGOSTINHO. De civ. Dei, XI, 1, p 987-988.
216
de os conciliar” (OC, I, p. 252). O medo de projetar-se para além da esfera racional deriva
parcialmente da incapacidade de averiguar antecipadamente as intenções alheias, o que
dificulta essa conciliação, isto é, a passagem de uma cidade a outra. Lendo a historieta de
Félix, um agostiniano poderia dizer que o protagonista perdeu a felicidade porque julgasse
encontrá-la apenas com as resoluções do espírito, pelo que concedesse, a si mesmo, a
liberdade da conquista. Félix sequer amava verdadeiramente, pois para ele, como para o
cético acadêmico, o apego à integridade intelectual o levava a manter a dúvida ou, no
máximo, a confiar no que lhe parecesse mais provável:
Quando de todo se lhe calou o coração, Félix confessou ingenuamente
a si próprio que o desenlace de seus amores, por mais que o mortificasse
outrora, foi ainda assim a solução mais razoável. O amor do médico
teve dúvidas póstumas. A veracidade da carta que impedira o
casamento, com o andar dos anos, não só lhe pareceu possível, mas até
provável. Meneses disse-lhe um dia ter a prova cabal de que Luís
Batista fora o autor da carta; Félix não recusou o testemunho nem lhe
pediu a prova. O que ele interiormente pensava era que, suprimida a
vilania de Luís Batista, não estava excluída a verossimilhança do fato,
e bastava ela para lhe dar razão (OC, I, p. 307).
O mais surpreendente é que a insuficiência de Félix, a sua tragédia final, não
serve como contraexemplo definitivo do próprio ceticismo. No máximo, o romance
apresenta um ceticismo mal-acabado, em que as dúvidas do personagem são dissolvidas pela
capacidade do narrador de discernir a verdade das aparências.391 Em seu próprio linguajar,
o narrador derrama as justificativas que Félix utiliza para assegurar a sua dúvida, que logo
se transforma em possibilidade. À revelia dos fatos, da possibilidade remota surge a forte
probabilidade. Com um truque a mais, a crença se assemelhará ao verdadeiro e será tomada
como tal. Essa espécie de retórica da verossimilhança392 serve para encarar o dilema da
felicidade entre, de um lado, o livre-arbítrio, a razão e o não querer ser enganado, de outro,
o casamento, o amor e a necessidade de confiar. No romance de Machado, a apresentação
das figuras cristãs não leva à experiência transcendente da verdade. O conceito de amor
cristão deve ser ressignificado, pois as suas causas e os seus efeitos indicam a loucura e a
vaidade (La 413 Br 162). A ignorância do bem e do mal, o livre-arbítrio, a ação da mulher
391 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 64-65.
392 SANTIAGO. “Retórica da verossimilhança”, p. 34.
217
(Lívia), a queda, o sacrifício (Raquel), a redenção e a felicidade eterna são todas figuras
pervertidas pela dúvida. Trata-se, portanto, de um cristianismo totalmente pirronizado.
4.4 Padres e compadres em Helena e Casa Velha
Uma grande jornada de dez anos correu entre o primeiro (Ressureição) e o mais
escandaloso dos romances de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. Entre
outros assuntos, neste período a pena do artista rabiscou diversos modos do triângulo
amoroso, desenhando-os nas formas da fidelidade e do adultério, da virtude e da necessidade
social. A prática social do amor cristão, possível pelo que Machado produziu até meados da
década de 1860, sobretudo em sua poesia metafísica, ocorria à porta da Igreja. Essa prática
era especialmente ungida com a instituição do casamento, garantia de castidade (“Virginius”,
1864), fidelidade (“Confissões de uma viúva moça”, 1865) e paz (“Felicidade pelo
casamento”, 1866). A felicidade pós-nupcial, resultado do amor correspondido, foi o sonho
de muitos personagens crédulos dessa fase. De outro lado, como num crescente, o ímpeto
pela escalada da pirâmide social em que personagens se acotovelam transforma o sonho da
eticidade em pesadelo da corrupção. Vimos que o poeta ascético da década de 1850 sucumbe
diante esse estado de coisas. Então o ficcionista passa a ironiza-lo, e a ironizar-se. Esse é o
caso do Romualdo, cuja tragédia acompanhamos no primeiro capítulo. Em outras
proporções, esse também é o caso de Tito, o poeta que protagoniza os contos “O país das
quimeras” (1862) e “Uma excursão milagrosa” (1866). Esse tipo ingênuo parte numa viagem
e recebe lições sobre a situação miserável do homem. Ao retornar, o seu moralismo, isto é,
a inclinação para desmascarar a vaidade humana, o leva à loucura e à pobreza.
No adiantamento dessa jornada, o personagem do padre recobre o último refúgio
da filosofia cristã, uma espécie de portador das chaves que permitem a passagem de um
mundo corruptível a outro incorruptível. No entanto, como já alertaram Machado de Assis,
em sua crítica ao padroado brasileiro, e Raymundo Faoro, em sua análise sobre a ficção
machadiana, esses padres não possuem “a essência do sacerdócio”.393 Pode-se justificar essa
393 FAORO. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, p. 484.
218
indução com os exemplos dos padres de Helena e Casa Velha, os quais não possuem nem o
carisma para salvar, nem a disposição para o sacrifício.
Helena foi o terceiro romance escrito por Machado de Assis. Publicado em 1876,
esse relato de ficção melodramática e sentimental serve mais para desmentir os pressupostos
do romance naturalista do que para validar as teses românticas. O narrador distanciado e
autoconsciente concebe uma situação problemática a ser decifrada a conta gotas. Deste modo
o leitor de novela aguarda por um desenlace feliz em que o amor prevaleça sobre os ditames
da economia, da moral e da religião. Temos ali uma situação de disparidade social (rico-
pobre) e outra de disparidade moral (verdade-mentira), cujos polos se alternam de acordo
com as implicações do pecado (incesto), reveladas, aos poucos, pelo narrador.
O romance inicia com a morte do abastado conselheiro Vale, um pater famílias
cujo círculo caseiro era composto por um filho, Estácio, e uma irmã, d. Úrsula. No círculo
mediano, entre a família central e os demais, estavam o dr. Camargo, sujeito pragmático com
ares de tolo, e o padre Melchior, que se lhe opunha por temperamento. No círculo quase à
margem encontram-se Eugênia, a filha que Camargo pretende casar com Estácio, e o amigo
deste, o galhofeiro Luís Mendonça. A coexistência desses círculos cria um jogo de forças,
cujo objetivo é adquirir os meios necessários para se manter ou chegar ao centro. A
hierarquia não é rígida, mas os personagens a respeitam. Movem-nos a ambição e as paixões
individuais.394
A morte do conselheiro foi o golpe da fortuna que possibilitou a movimentação
dos personagens dentro deste painel social. Essa situação problemática precipita a abertura
do testamento em que o conselheiro reconhece Helena a sua filha natural, declarando-a
herdeira e determinando a sua inserção no círculo da família. Ao longo do romance, caso
nos atenhamos apenas às ações exteriores, percebemos toda a maquiavelice de Helena. Ela
não era filha legítima do conselheiro. Seu verdadeiro pai a convenceu da necessidade do
prestígio, embora ela parecesse repudiar “a cumplicidade e o lucro de uma usurpação” (OC,
I, p. 479). Conhecido este jogo de aparências, dominadas as frivolidades da alta sociedade
oitocentista, o piano, o desenho, a língua francesa mais que a inglesa e a italiana, a costura e
o bordado, então Helena foi preparada, durante os anos que antecederam o golpe da fortuna,
394 FAORO. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, p. 18-19.
219
para dobrar os afetos daquela família. É preciso reconhecer que o acesso privilegiado do
narrador à psicologia dos personagens pode desfazer essa impressão. Por isso, apenas um
leitor de segunda ou terceira leitura pode acusar esse projeto de Capitu:
Helena tinha os predicados próprios a captar a confiança e a afeição da
família. Era dócil, afável, inteligente. Não eram estes, contudo, nem
ainda a beleza, os seus dotes por excelência eficazes. O que a tornava
superior e lhe dava probabilidade de triunfo era a arte de acomodar-se
às circunstâncias do momento e a toda a casta de espíritos, arte preciosa,
que faz hábeis os homens e estimáveis as mulheres (OC, I, p. 391).
Primeiro dobrou o espírito da matriarca. Depois, para contornar a saudade de seu
verdadeiro pai, escondeu de Estácio a verdadeira razão por que, sabendo montar a cavalo,
pediu-lhe as lições equestres. Disse apenas que não sabia montar por “simples travessura,
um capricho... ou antes um cálculo” (OC, I, p. 400). Contando apenas as razões externas do
cálculo, isto é, as marchas e contramarchas que levariam Helena para o epicentro do poder,
pressentimos que só uma mão ainda mais maquiavélica lhe tomaria a glória. A arte de
acomodar-se às circunstâncias e aos outros também era conhecida pelo dr. Camargo, mais
um adepto da política como ciência prática:
Naquele homem cético, moderado e taciturno, havia uma paixão
verdadeira, exclusiva e ardente: era a filha. Camargo adorava Eugênia:
era a sua religião. Concentrara esforços e pensamentos em fazê-la feliz,
e para o alcançar não duvidaria empregar, se necessário fosse, a
violência, a perfídia e a dissimulação. [...] Mas esse mesmo amor, aliás
violento, escravo e cego, era uma maneira que o pai tinha de amar-se a
si próprio (OC, I, p. 430).
Apenas desconfia da influência de Helena sobre o espírito e o afeto de Estácio,
Camargo ameaça publicar o segredo dela. Essa chantagem velada é o estopim para a cadeia
de causa e efeito que aproximará Eugênia do altar e conduzirá Helena até a doença e a morte.
Temos visto que a teoria maquiavelista explica razoavelmente bem as relações externas de
poder entre os personagens. Contudo, o pensamento da ficção machadiana, porque se
estrutura num estudo de caracteres, resiste ao simplificado desta doutrina. A análise
psicológica, moralizante ou não, tem como razão de ser mais os critérios da visão de mundo
pascaliana do que a visão maquiavelizada. Não fosse esse o caso, julgaríamos as ações de
Helena tão vis quanto as de Camargo. Reconhecidos o contraste psicológico entre os
caracteres e um quinhão das boas intenções, podemos até desculpá-la, pois existem razões
220
internas, relativas à essência ambivalente da natureza humana, que são responsáveis pela
tragédia da moça.
Por sorte, neste romance a figura do padre está no centro de uma visão
antropológica pascaliana. Assim, toda a psicologia terá seu ponto de fuga ou de contraste na
personalidade ficta do sacerdote. Logo nas primeiras linhas o narrador opõe a figura do
doutor Camargo, que não pôde empregar os recursos científicos, à do padre Melchior, que
não pôde administrar o último sacramento ao patriarca. Para o médico, o testamento continha
um erro, um “excesso”, porque “a sensibilidade não pode usurpar o que pertence à razão”
(OC, I, p. 385). No oposto desse espectro encontra-se Estácio, que “aceita as coisas
filosoficamente”, isto é, conforme a sua disposição “indiferente ao ruído exterior”, que
desconhece “as corrupções do espírito” e “as influências deletérias da ociosidade”,
“igualmente distante da frivolidade e do tédio” (OC, I, p. 386).
O jogo de caracteres contraditórios matiza novamente a forma literária em vários
graus de jansenismo. Avalia-se aqui uma explicação para a condição contraditória da
natureza humana. Em confidência a Helena, Estácio se considerava monge ao mesmo tempo
que déspota, “um Cromwell com tendências de frade [...], um Lutero... muito inferior”.
Quando sozinho, queria saber do tumulto:
Conta-me a tua vida o mais miudamente que puderes. Conta-me a vida
de todos. Não me escondas nada; se, por exemplo, ao abrir um livro ou
tocar uma tecla do piano, pensares em mim, escreve isso mesmo,
marcando o dia e até a hora, se puder ser. E depois dou-te o direito de
perguntar onde ficou a minha gravidade, e responderei que há uma
puerilidade séria, e que os extremos se tocam (OC, I, p. 435).
A imagem do protagonista é a mesma de Pascal, quando afirma que o ser humano
encontra-se entre dois infinitos contraditórios, a saber, o infinito do nada, o qual pode o
homem ultrapassá-lo e o infinito do todo, que se esconde à percepção humana. Ambos
cristãos, acreditam que “esses extremos se tocam e se encontram à força de estarem afastados
e se reencontram em Deus, e em Deus somente” (La 199 Br 72). Criado sob a batuta do
padre, Estácio chega a repreender as vaidades de Eugênia, que se deixava levar pelas
aparências do mundo exterior, pelo que, “se tivesse algum pedaço de latim, era o mesmo que
estar ouvindo o padre Melchior” (OC, I, p. 395). Estácio adere à visão filosófica do padre,
considerado um “ministro de uma religião que condena o orgulho” (OC, I, p. 452):
221
De compostura quieta e grave, austero sem formalismo, sociável sem
mundanidade, tolerante sem fraqueza, era o verdadeiro varão
apostólico, homem de sua Igreja e de seu Deus, íntegro na fé, constante
na esperança, ardente na caridade (OC, I, p. 392)
É exagerado dizer que a caridade do padre é sem embargo. Ele não está pelos
desfavorecidos e marginais. O seu cristianismo serve, quando mais não seja, para justificar
e perdoar as ações e as relações pecaminosas da família. Assim foi com as aventuras
extraconjungais do conselheiro. Assim será com a relação incestuosa entre os irmãos.
Guardião dos segredos da família, ele a aconselha em qualquer situação, a partir dos critérios
deontológicos da moral cristã: como Helena deve ser aceita pela família, se Estácio deve
entrar para a política, quando ele deve se casar com Eugênia, se é justo Helena se casar com
Luís Mendonça, o que fazer com a revelação de que Helena não é filha do conselheiro etc.
O descompasso entre os critérios normativos e o emprego utilitarista da fé irradia
dentro dos protagonistas. Estácio morde a maçã da ambição política, sentindo até uma
“pontazinha de vaidade”. O custo deste benefício era casar-se com um caráter frívolo como
o de Eugênia, quando os sentimentos e as ideias filosóficas de Helena, companheira nas
“vadiações do espírito”, lhe eram mais compatíveis. Para resolver a questão, os irmãos
recorrem a imagens cristãs, condensadas nos ensinamentos do padre:
– [...] Ao marido cabe a tarefa de fixar essa impressão passageira... O
casamento não é uma solução, penso eu; é um ponto de partida. O
marido fará a mulher. Convenho que Eugênia não tem todas as
qualidades que você desejaria; mas, não se pode exigir tudo: alguma
cousa é preciso sacrificar, e do sacrifício recíproco é que nasce a
felicidade doméstica.
As reflexões eram exatas; por isso mesmo Estácio as interrompeu. O
filho do conselheiro achava-se numa posição difícil. Caminhara para o
casamento com os olhos fechados; ao abri-los, viu-se à beira de uma
cousa que lhe pareceu abismo, e era simplesmente um fosso estreito.
De um pulo poderia transpô-lo; mas, se não era irresoluto nem débil,
tinha ele acaso vontade de dar esse salto?
O sentido cristão do sacrifício é o que redimiria a humanidade dos pecados.
Contudo, a moeda do sacrifício perde valor quando o beneficiário se amesquinha e a
finalidade egoísta perverte a boa intenção. Estácio nada perde, antes o contrário, com o
matrimônio e a carreira política. O verdadeiro sacrifício, que exige dos falsos irmãos um
salto no abismo, é o de reprimir o amor incestuoso que nutrem um pelo outro. Esse é o
222
segredo indizível, cujas consequências sociais o padre se empenha em evitar, não por uma
questão de dever, mas pelos resultados da ação: “daria azo às vozes estranhas e seus
comentários” (OC, I, p. 463). Mesmo a par da verdadeira origem da moça, por força de ser
o confessor da família, o padre não transige com a publicação deste pequeno desvio da
natureza. Para lidar com as contradições essenciais dessa antropologia, o narrador e os
personagens retocam a doutrina pascaliana e os argumentos filosóficos adequados. Se não,
vejamos.
Consciente de seus sentimentos e de sua situação precária, Helena confessa a
Estácio a existência misteriosa de “uma paixão violenta”, “um amor único e forte”, pelo que
o moço, intuitivamente, passa a ter dificuldades em aceitar o pretendente de Helena. Ambos
passam a conjecturar sobre as possibilidades da felicidade humana, passo a passo com o
argumento pascaliano da aposta:
– Ouve – continuou Estácio – Esse sentimento, se vier a extinguir-se e
se for substituído pela afeição que criares a teu marido, não te fará
desventurosa; mas supõe que não morre esse amor, qual será a tua
situação? [...] Há dois caminhos para a felicidade, além de Mendonça.
– Não os vejo.
– Esse amor misterioso será realmente sem esperança? Nada há
definitivo no mundo, nem o infortúnio nem a prosperidade. O que a tua
imaginação supõe estar perdido, acha-se apenas transviado ou oculto...
– Adivinho o segundo caminho – atalhou Helena -; não casando agora,
posso vir a amar um dia, mais do que a Mendonça, algum homem tão
digno como ele.
Helena apostava pela sua felicidade. Os termos deste jogo de azar eram os
seguintes: se Helena se casasse com Mendonça e passasse a amá-lo, então ela receberia a
paz doméstica provisória. Se se casasse com Mendonça sem nunca o amar, então ela estaria
fadada à eterna infelicidade. Por outro lado, se ela não se casasse com Mendonça, então
estaria livre para a eterna felicidade. Num caso, essa felicidade estaria agora “transviada ou
oculta” pela “imaginação”, o que exigia um salto no abismo com ganhos possivelmente
infinitos. No outro caso, a depender da fortuna, ela poderia “amar mais do que a Mendonça”,
isto é, mais do que nada. O argumento não lhe parece absurdo, mas assume a forma de
loteria, na qual é necessário apostar:
– [...]. É uma loteria: perco um bem certo por outro duvidoso. O jogador
não faz cálculo diferente. Essa felicidade pode não vir; eu contento-me
223
com a que me cabe agora. Mendonça ama-me deveras; senti-o desde
algum tempo. O padre Melchior abriu-me os olhos; aceito o destino que
os dois me oferecem. Esta é a razão e a realidade; o mais é ilusão e
fantasia.
As proporções matemáticas entre o que está determinado e o acaso deveriam ser
suficientes para a escolha. Mas Helena não arrisca. Ao contrário do arremate argumentativo
de Pascal (La 418, Br 233), a incerteza do ganho infinito, para a moça, não paga a certeza
de um bem certo, porém finito. A deliberação de Helena não decorre do mesmo ceticismo
mal-acabado de Ressurreição, cujo protagonista se abstém da aposta para salvaguardar a sua
integridade intelectual. Ela teve o suporte do padre Melchior, para quem “isso a que os
incrédulos chamam acaso é a deliberação da vontade divina” (OC, I, p. 438). Foi ele quem
antes “analisava as circunstâncias do momento e pesava a responsabilidade que lhe podia vir
de qualquer resolução que adotasse” (OC, I, p. 440).
Na loteria de Estácio, os números da felicidade não eram iguais. Ao espiar a
verdade sobre a falsa irmã, ele dava início a uma nova crise, cuja resolução deveria passar
pelo escrutínio do padre, que
pôde vencer-se e conservar a razão clara, fria e penetrante. Entre os dois
corações ulcerados e sem força, compreendeu Melchior que lhe cabia a
principal ação, e não recuou ante a responsabilidade que daí poderia
deduzir. Viu de um lance a extensão possível do mal, a desunião da
família, os desesperos da ocasião, os ódios do dia seguinte, as
amarguras indeléveis, e, talvez, as indeléveis saudades; mas nem este
quadro o aterrou, nem ele o aceitou sem exame. Melchior não
condenava nem absolvia; esperava. Ele pertencia ao número dessas
virtudes singelas para as quais o vício é uma rara exceção; natureza
sincera e franca, era-lhe difícil crer na hipocrisia (OC, I, p. 462).
Neste ponto, a descrição do narrador soa inverossímil. Para perdoar a ação
pecaminosa, o padre Melchior se utiliza da estratégia jesuíta, recriminada por Pascal nas
Provinciais, de afrouxar a severidade da religião para que a impiedade se acomode à
fraqueza humana. O método de dirigir a intenção consiste, segundo Pascal,
em propor como fim das próprias ações um objeto permitido. Não que,
na medida do possível, não afastemos os homens das coisas proibidas;
mas, quando não podemos impedir a ação, purificamos, pelo menos, a
intenção; e assim corrigimos o vício do meio pela pureza do fim. [...]
Vocês [os jesuítas] concedem aos homens o efeito exterior e material
224
da ação, e dão a Deus esse movimento interior e espiritual da intenção;
e com essa divisão equitativa, aliam as leis humanas às divinas.395
O padre Melchior dirigia a intenção dizendo que Estácio transgredia “a lei
humana, como a lei divina, sem o saber” (OC, I, p. 464). O coração de Estácio seria um
grande inconsciente. Porque não houvesse dolo, nem maus instintos, nenhuma
responsabilidade lhe poderia ser atribuída, o que desculpava totalmente o delito: “Digo-te,
não que pecaste, mas que ficaste à beira do pecado, e estendo-te a mão para que recues do
abismo” (OC, I, p. 465). Para salvaguardar o segredo, seguiram-se os atos da tragédia.
Primeiro, o pai de Helena sacrifica-se sumindo no mundo. Assombrada, ela pensa em
suicídio. Daí a pouco encontra-se com Estácio, ocasião em que o amor de ambos se revela
tacitamente, com um olhar e um aperto de mãos. No fim, ela quase enlouquece, crava o olhar
na água, “fascinada e absorta”; em seguida, adoece e morre. O amor impossível para
sociedade, mas necessário para a felicidade plena, teve de ser abafado em família, com a
anuência do padre Melchior.
Em Casa Velha, também existe a figura do padre doméstico, isto é, do agregado
cuja função é amansar as más consciências e reverter as más intenções. Contudo, a técnica
utilizada nos romances da década de 1870 que consistia na análise direta do conflito de
caracteres, majorado pela tendência moralizante de suprimir o pecado, é substituída pela
figura de um narrador-padre memorialista que se vê enredado na trama de situações espúrias
e pouco transparentes, se as medirmos com a régua da moral cristã.
Esse romance remonta o cenário bucólico do período regencial, quando o
cônego-narrador tinha trinta e dois anos. O proêmio do texto marca a diferença entre os
níveis narrativos: “aqui está o que contava, há muitos anos, um velho cônego da Capela
Imperial” (OC, III, p. 184), ao que se seguem dois pontos e a própria narrativa, em primeira
pessoa, a do padre. Desejando escrever a história do primeiro reinado, ele é recomendado à
casa de um falecido ex-Ministro de Dom Pedro I que juntara bastantes documentos. A casa
velha tinha hábitos de outros tempos e cheiro de vida clássica. Era chefiada pela viúva d.
Antônia, ao redor da qual gravita seu filho único, Félix. Na camada adiante desse pequeno
núcleo ligam-se um pároco familiar e Lalau, filha de uma agregada falecida. Não demora
395 PASCAL. Provinciais, p. 89.
225
para inferirmos a trama de Romeu e Julieta. O padre-narrador se envolve no romance,
primeiro defendendo o casamento entre Félix e Lalau, membros de camadas sociais
diferentes, depois, dissuadido pela hipótese de se tratar de uma aliança incestuosa, condena
a relação. No fim, o padre encontra um bilhete que revela a verdade: a filha que o Ministro
teve fora do casamento não era Lalau, mas a sua irmã, falecida aos quatro anos. Contando
com essa injúria familiar, a moça declina o casamento com Félix, após o que o narrador
arremata: “Se ele e Lalau foram felizes, não sei; mas foram honestos, e basta” (OC, III, p.
224).
O significado simbólico que relaciona este pequeno romance à história política
do Brasil396 nos importa muito pouco, a não ser o seguinte detalhe: o tipo do padre-narrador,
não nomeado no romance, representa um daqueles padres intelectuais que compunham a
inteligência nacional. Sabemos que o narrador da história é um velho cônego da Capela
Imperial, local litúrgico de importantes sermonistas e oradores sacros, como Monte Alverne
e Luis Gonçalves dos Santos, o padre Perereca. Este importante presbítero carioca vivenciou
a passagem para o primeiro reinado, registrando positivamente os eventos em Memórias
para Servir à História do Reino do Brasil: divididas em três épocas da felicidade, honra e
glória. O objetivo do padre Perereca
era de facilitar aos futuros Historiadores os meios de compor a História
deste nascente Império, achando já coligidos, e formando um só corpo,
os factos, que por ora andarão dispersos, em parte desfigurados e
alheios da verdade, ou que ainda se não escreverão.397
Interessa notar que tanto o narrador de Casa Velha quanto o de Dom Casmurro
opõem o trabalho historiográfico que pretendem escrever à obra de Luís Gonçalves dos
Santos, considerada “medíocre” pelo padre-narrador de Casa Velha, e “seca” por Dom
Casmurro. Explicamos anteriormente que a idade dos padres teóricos atingiu o auge no
tempo de D. João VI, mas as mudanças político-sociais das décadas seguintes empurraram
a atividade do púlpito para o ostracismo. As teses conservadoras do padroado chegaram à
396 A esse respeito, ver o capítulo de John Gledson sobre Casa Velha em Machado de Assis: ficção e história,
p. 37-71.
397 SANTOS, Luis Gonçanves dos. Memorias para servir a historia do reino do Brazil: divididas em tres
epocas da felicidade, honra, e gloria, escriptas na Corte do Rio de Janeiro no anno de 1821, e offerecidas à
S. Magestade El Rey Nosso Senhor o Senhor D. João VI pelo P. Luiz Gonçalves dos Sanctos. Lisboa:
Impressão Regia, 1825, p. VII. Disponível em: .
Acesso em 10 out. 2017.
226
década de 1860 até como motivo para caçoadas, como aquelas de Machado contra o
Monsenhor Pinto de Campos. Porém, nem Dom Casmurro nem o cônego levaram o seu
projeto intelectual adiante, preferindo publicar uma história comezinha de amor. Os embates
sobre a história e a teologia permanecem, portanto, implicados nas tramas da narrativa.
A vida clássica que qualifica a casa de d. Antônia tem sua razão de ser na
biblioteca. Ali o padre-narrador busca papeis antigos. Apesar disso, a sua averiguação mais
importante é sobre os segredos da família. Os fundamentos teóricos dessa averiguação são
obtidos dentro da biblioteca, seja no contato com as referências bibliográficas aí disponíveis,
seja nos colóquios com os interessados na questão, seja, ainda, observando e interpretando,
de uma janela lateral aos aposentos, os gestos e as intenções das personagens. Em tudo isso,
a linguagem sacerdotal, de que são provas os livros prediletos que o padre retira da estante
para leitura e comentário, é o meio de que se utiliza o narrador para dizer sobre si, sobre os
outros e sobre o mundo, por exemplo, sobre uma conversa entre Félix e Lalau, acompanhada
de longe:
Não se podia ouvir-lhes nada, mas era claro que falavam de si mesmos.
Às vezes a boca interrompia os salmos, que ia dizendo, para deixar a
antífona aos olhos; logo depois recitava o cântico. Era a eterna aleluia
dos namorados. (OC, III, p. 204).
Mais do que o recurso ao contraste de caracteres, predominante nos romances
anteriores, o memorialista se desdobra no personagem, acusando a sua fonte e a sua medida
de interpretação. Em visita à biblioteca, junto a Félix, o padre repara que os livros eram,
“pela maior parte, antigos, e muitos in-fólio: livros de história, de política, de teologia, alguns
de letras e filosofia, não raros em latim e italiano” (OC, III, p 188). Chamam a atenção as
fontes do domínio italiano. Aqui o exemplo não é o recorrente Maquiavel, mas o historiador
Benedetto Varchi (1503-1565), cuja Storia Fiorentina Machado de Assis pôde consultar em
sua biblioteca particular.398 Esse dado biográfico é relevante porque a passagem citada trata
de um detalhe pouco banal, qual seja, de uma acusação de estupro cometido pelo filho do
398 VIANNA. “Revendo a biblioteca de Machado de Assis”, p. 186. Documento 109: VARCHI, Benedetto.
Opere di Benedetto Varchi: ora per la prima volta raccolte. Volume Primo [Storia fiorentina; Lettere].
Trieste: Dalla Sezione Letterario-Artistica del LLoyd austríaco, 1858. A consulta à mesma edição está
disponível em . Acesso em 20 out. 2017.
227
Papa Paulo III contra o jovem bispo de Fano. Ao adentrar pela primeira vez a biblioteca da
casa velha, ombro a ombro com o jovem Félix, o padre repara os livros e comenta:
Eu via-os, tirava e abria um ou outro, dizia alguma palavra, que o Félix,
que ia comigo, ouvia com muito prazer, porque as minhas reflexões
redundavam em elogio do pai, ao mesmo tempo que lhe davam de mim
maior ideia. Esta ideia cresceu ainda, quando casualmente dei com os
olhos na Storia fiorentina de Varchi, edição de 1721. Confesso que
nunca tinha lido esse livro, nem mesmo o li mais tarde; mas um padre
italiano, que eu visitara no Hospício de Jerusalém, na antiga rua dos
Barbonos, possuía a obra e falara-me da última página, que, em alguns
exemplares faltava, e tratava do modo descomunalmente sacrílego e
brutal com que um dos Farneses tratara o bispo de Fano. [...] É o
capítulo 16 do livro XVI. Uma cousa indigna: In quest'anno medesimo
nacque un caso... Não vale a pena ler; é imundo (OC, III, p. 188).
John Gledson interpreta a passagem como uma sugestão metafórica de violação,
não dos corpos, mas das vidas de Félix e Lalau.399 A consulta à edição que Machado possuía
nos oferece uma pista extra. O historiador italiano completa a frase dizendo que o caso do
qual ele não recorda ter ouvido nem lido, nem entre os antigos, nem entre os modernos, nem
entre os historiadores, nem entre os poetas foi algo tão abominável que sentia horror só de
pensar, mais ainda, de dizê-lo a quem não tenha alguma vez ouvido falar em estupro e
sacrilégio, mas, sem transição, ele narra a história nos seus detalhes.400 O narrador de Casa
Velha mimetiza a preterição de Varchi, fazendo-se de rogado, dizendo que nada tinha com
aquilo, e que a culpa por saber da repugnância era do capuchino que vivia num hospício
(nome antigo para o templo dos frades). Assim, sem querer reconhecê-lo, ou reconhecendo
a contrapelo, o padre-narrador utiliza a meia história contada por Varchi para explicar a sua
relação de predomínio sobre Félix:
399 GLEDSON. Machado de Assis: ficção e história, p. 43.
400 “In quest'anno medesimo nacque un caso, del quale io non mi recordo aver udito nè letto, nè tra gli antichi
nè tra' moderni, nè nelle verità degli storici, nè nelle favoli del poeti il piu esecrabili, e degno di maggiore
non solamente biasimo, ma punizione, il quale fu così orrendo, ch'io per me non pur mi vergogno, ma mi
raccapriccio a pensarlo, non che a raccontarlo: né so con quale onestà o disonestà di parole io o possa o
debba, o coprire o scoprire la turpitudine e scelleratezza di così empio e nefando, e forse, anzi senza forse,
mai più udito stupro e sacrilegio; il quale io narrerò, ben che con gravissima nausea e indignazione d' animo,
per mostrar due cose principalmente: l'una, che questo nostro misero e infelice secolo ha anch' egli i suoi
Tantali avuto ed i suoi Tiesti ; l'altra, che la morte del commettitore di esso, ancor che crudelissima e
ignominiosissima, fu però minore de' meriti, anzi demeriti suoi, e mostrò, che ancora in questa vita
patiscono alcuna volta le pene delle lor ribalderie gli uomini scellerati” (VARCHI. Storia fiorentina, p.
1537).
228
Pus o livro no lugar. Sem olhar para o Félix, senti-o subjugado. Nem
confesso este incidente, que me envergonha, senão porque, além da
resolução de dizer tudo, importa explicar o poder que desde logo exerci
naquela casa, e especialmente no espírito do moço. Creram-me
naturalmente um sábio, tanto mais digno de admiração, quanto que
contava apenas trinta e dois anos. A verdade é que era tão somente um
homem lido e curioso. Entretanto, como era também discreto, deixei de
manifestar um reparo que fiz comigo acerca de promiscuidade de coisas
religiosas e incrédulas, alguns padres de Igreja não longe de Voltaire e
Rousseau, e aqui não havia afetar nada, porque os conhecia, não
integralmente, mas no principal que eles deixaram (OC, III, p. 188).
Eclesiásticos conservadores como o Monsenhor Campos e o padre Perereca
deviam se horrorizar com as concepções naturalistas de Rousseau e Voltaire sobre a religião,
pois esses filósofos enxergavam na instituição eclesiástica uma anomalia para a saúde social.
Ambos defendiam uma religião civil, subordinada às leis do Estado, em que a boa
moralidade seja uma decisão racional entre os homens, à luz de preceitos cristãos genéricos
como a tolerância e o amor ao próximo. De semelhante perplexidade sofreu o padre Flávio,
do conto “Muitos anos depois”, que classificava os livros cristãos e pagãos conforme a sua
conveniência e o seu ecletismo. Quais padres da igreja se aproximavam de teses
semelhantes? O que representa a solicitação a esses autores? A crer na tese da
descristianização do ceticismo, que ainda não se completara, tratava-se de chamar a atenção
para o deslocamento da moralidade cristã genuína, perdida no contexto da dissidência do
clero. Machado entrara na disputa religiosa desde que publicara, em O Futuro, críticas à
carolice e à confiança exacerbada nas instituições da Igreja, que deveriam seguir a ordenação
civil pautada pela tolerância. Duas décadas à frente, se bem que de modo mais extravagante,
estamos diante de um complexo ficcional em que o narrador-padre, que nunca enuncia o seu
próprio nome, confessa as suas dívidas como que por autossabotagem.
Não é necessária uma implicatura para se acusar o dano ao tipo representado
pelo personagem de ficção. Basta salvar as fontes disponíveis no próprio texto ficcional. Por
exemplo, ao recorrer a Santo Agostinho, “o meu grande Santo Agostinho”, o narrador
procura justificar suas intenções pérfidas. Para isso ele distorce e arremeda as palavras de
Agostinho:
Amor non improbatur, escreveu o meu grande Santo Agostinho. A
questão para ele, como para mim, é que as criaturas sejam amadas e
229
amem em Deus. Assim, quando desconfiei, por aquele gesto, que esta
moça e Félix eram namorados, não os condenei por isso, e, para dizer
tudo, confesso que tive um grande contentamento. Não sei bem explicá-
lo; mas é certo que, sendo ali estranho, e vendo esta moça pela primeira
vez, a impressão que recebi foi como se tratasse de amigos velhos. Pode
ser que a simpatia da minha natureza explique tudo; pode ser também
que esta moça, assim como fascinara o Félix para o amor, acabasse de
fascinar-me para a amizade. Uma ou outra cousa, à escolha, a verdade
é que fiquei satisfeito e os aprovei comigo (OC, III, p. 194).
Amor non improbatur está no caput do Capítulo 12 do livro 4 das Confissões. O
amor, em suas formas variáveis, não é reprovável. Agostinho escreve isso ao recordar o
tempo em que vivia sob a influência do maniqueísmo, pelas estradas do erro e das
experiências concupiscentes. Se essa autoridade não reprova a forma sensível do amor,
relacionada ao deleite dos corpos, então o padre é capaz de justificar suas relações amorosas
com Félix e Lalau.
A leitura do cônego é razoável. A premissa de Agostinho é de que apenas o amor
em Deus é fixo, estável e imperecível. Se nos agrada amar os corpos ou as inteligências,
estas perecíveis e instáveis, e se quisermos que esse amor perdure, então devemos firmá-lo
em Deus. A essa conclusão, o padre-narrador acrescenta que apenas o sacristão é capaz de
interpretar se o amor está em Deus, sacramentando-o por meio do matrimônio. Neste ponto,
o padre-narrador desmente a sua aspiração inicial de escrever um livro de história. Refletindo
no ajuste daquelas duas almas, ao mesmo tempo em que mexe em documentos políticos, ele
sentencia: “nem a alma de um homem é tão estreita que não caibam nela cousas contrárias,
nem eu era tão historiador como presumira. Não escrevi a história que esperava; a que de lá
trouxe é esta” (OC, III, p. 194). O amor não correspondido pareceu-lhe “uma violação da
lei divina”, e contra tal violação o padre passa a atuar, confessando certa “vaidade” por estar
entre os dois amantes.
Apresentando as coisas em ordem cronológica, escondendo o amor que de fato
sentia, o padre se desculpa de sua paixão por Lalau. O recurso à máxima agostiniana é
providencial, pois abrange qualquer tipo de amor, o dele e o de Félix. O argumento de
Agostinho segue o percurso da necessidade de reconhecermos a caridade cristã, isto é, que
reconheçamos o sincronismo entre o ciclo instável de nossas vidas, feito de descidas e
230
ascensões, e as imagens cristãs da queda e da redenção.401 Importa mencionar que embora o
padre tivesse narrado as suas memórias em cronologia, é como se o estado atual do narrador,
a consciência do que ocorreu no todo, não prevalecesse sobre os episódios em sequência.
Assim, pode parecer estranho, para um leitor atento, o padre dizer que Lalau lhe fascinou
para a amizade, quando em verdade sabemos, por conhecermos o todo, que Lalau lhe
provocara a paixão de namorado. Se for assim, o padre-narrador estava se desculpando de
um ato ainda não escrito e, portanto, não reconhecível ao nível diegético da narrativa.
Na sequência, o padre sugere a d. Antônia que Félix se case com Lalau. A
“imperatriz da Casa Velha” suspeita de conspiração, diz que não pode ser, acusa o cônego
de recuperar as lembranças do padre Feijó, um “achaque de padres” (OC, III, p. 205), e
arremata dizendo que a moça parecia tê-lo “enfeitiçado”. Ora, comentávamos anteriormente
que a defesa do padre regente Feijó pela doutrina regalista e pelo fim do celibato clerical
repugnava o conservadorismo cristão, que adentrava no mundo da política com a missão de
corrigir as leis civis quando estas estivessem em desacordo com as leis eclesiásticas. A
polêmica Questão Religiosa sobreviveu até o fim da década de 1870. Roma preconizava
aquele tipo de ação política, mas ela não era possível no Brasil, pois vigia o regime do
Padroado, que dava ao príncipe regente a autonomia para legislar sobre questões religiosas,
por exemplo, ao defender uma constituição que garantia a diversidade e a liberdade religiosa.
Sendo assim, a publicação do Sílabo e de outros regulamentos papais poderia ser
interpretada, do ponto de vista político, como afronta ao governo.
Num colóquio com o Monsenhor Queirós, um mestre espiritual, o cônego de
Casa Velha expõe o seu projeto literário-político de escrever uma história do Primeiro
Reinado. A ideia é desaprovada sem muita insistência: “Contanto que você não prejudique
sua mãe, que é a Igreja. O Estado é um padrasto” (OC, III, p. 189). Essa contradição entre o
poder civil e o poder sagrado era mitigada pelo fato de os costumes religiosos serem pouco
ortodoxos e rígidos. Como eu disse anteriormente, a piedade era parte da estética nacional.
O exemplo de Feijó, que se considerava bom católico, mas estava nas fileiras da maçonaria,
401 Helen Caldwell já notara a boa leitura que Machado fazia da obra de Agostinho (CALDWELL, Helen. O
Otelo brasileiro de Machado de Assis: um estudo de Dom Casmurro. Tradução de Fábio Fonseca de Melo.
Cotia: Ateliê Editorial, 2008, p. 200). Na biblioteca de Machado encontram-se as traduções para o francês
e para o português das Confissões.
231
diz muito sobre a frouxidão das práticas religiosas no Brasil. Ao que parece, havia uma
crença deísta genérica, que permitia e normalizava práticas religiosas que seriam
condenáveis à luz do catolicismo oficial.
O narrador da história continua o seu libelo acusatório ao aproximar, no mesmo
período, o achaque do regente e o encantamento comum dos padres pelas garotas. Já
desconfiávamos disso. Páginas atrás, ele confessara a “simpatia” e a “veneração” pela
“explosão de sensibilidade” de Lalau. Mais do que isso, o padre sentia ciúme, evidentemente
desdito, na forma proverbial de “incômodo”:
Criatura espiritual e neutra, cabia-me tão somente alegrar-me com a
declaração da moça, aprová-la, e santificá-la ante Deus e os homens.
Que incômodo era então esse? Que sentimento espúrio vinha mesclar-
se à minha caridade? Que contradição? Que mistério? (OC, III, p. 203).
O padre emendava a antropologia pascaliana reconhecendo a ambivalência da
natureza humana: “Que espécie de quimera é então o homem? Que novidade, que monstro,
que caos, que fonte de contradições, que prodígio?” (La 131, Br 434). Sozinho, o padre
entende apenas que é um monstro que combina a baixeza e a grandeza, “o mais fraco da
natureza” e, no entanto, o único capaz de se compreender (La 200, Br 347). O “segredo de
consciência”, descoberto então por d. Antônia, era que a intenção do Padre em se meter nos
“negócios particulares” da família estava coberta por pulsões sexuais. Para resolvê-las, em
autoanálise, o narrador engenha o seguinte raciocínio:
Entre a verdade daquele conceito [os negócios particulares] e o impulso
do meu próprio coração, introduzi um princípio religioso, e disse a mim
mesmo que era a caridade que me obrigava, que no Evangelho acharia
um motivo anterior e superior a todas as convenções humanas. Esta
dissimulação de mim para mim, podia calá-la agora, que os
acontecimentos lá vão, mas não daria uma parte da história que estou
narrando, nem a explicaria bem.
Lalau não me saía da cabeça [...]. (OC, III, p. 199)
Como o padre insistisse na sugestão do casamento, que poderia remediar o
pecado da concupiscência no celibato, a viúva dissimulou uma situação, dando a entender
que os enamorados tinham laços consanguíneos, que eram irmãos:
Contava comigo ao lado dela, desde que soubesse a verdade... mas que
a apoiasse já... depois... então...
– A verdade? – repeti eu – Que verdade?
232
– Vamos embora.
Diga-me tudo, a ocasião é única, estamos perto de Deus (OC, III, p.
208).
A verdade estava dissimulada. Nem mesmo a eficácia do confessionário poderia
restituí-la, perdida estava entre a verossimilhança e a imaginação. Estamos bem próximos
do ceticismo devastador de Dom Casmurro, com a diferença de que, no final, a integridade
dos caráteres de Lalau e Félix parece superar o amor próprio. Essa é uma aparência
incômoda, pois ambos tinham razões insidiosas para não se casarem. Ele estava confortável
com o namoro, não sendo de seu interesse associar-se com uma figura de camada social
inferior. Ela buscava vingança contra os abusos passados do pai de Félix à sua mãe. Daí até,
pelo menos, a perspectiva do Conselheiro Aires, o amor não existirá “como um sentimento
puro e nobre, mas como um ato indigno, praticado sem a aprovação da moral, em geral
contra as leis sociais”.402
Juntando as coisas, o padre-narrador deixa implícito um libelo contra si mesmo
ou, pelo menos, contra o que representa o tipo do eclesiástico teórico: a sugestão de estupro,
o acobertamento de um casamento consanguíneo e a inobservância da castidade no celibato.
Uma crítica cética estilisticamente ironista à moral eclesiástica é um passo para estar com
Pascal. As diversas referências à antropologia pascaliana, às alegorias do abismo, dos
infinitos que se tocam, da aposta e do argumento contrário à direção da intenção ganham
ainda mais relevo quando a figura do padre está no centro da trama. Mas é preciso outro
passo, de recuo, que afaste o ficcionista do jansenista, permitindo-lhe elevar a potência cética
do filósofo de Port-Royal contra si mesma.
402 COUTINHO. “A filosofia de Machado de Assis”, p. 198.
233
CAPÍTULO 5 – A APOTEOSE DAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS E A
DESCRISTIANIZAÇÃO DO CETICISMO
O jansenismo estendeu o pano de fundo teórico para o romance de caracteres
francês. As estórias de Mme. de Lafayette (La Princesse de Clèves) e Abbé Prévost (Manon
Lescaut) trataram de escrutinar a condição humana utilizando-se do léxico conceitual
pascaliano: o divertimento, o tédio, a miséria e a grandeza, a necessidade da aposta, as
contradições humanas, a queda e a redenção.403 De tal sorte que Ressurreição e Helena
podem ser lidos, respectivamente, à luz daqueles romances inaugurais. É claro que essa
linhagem do romance moderno tem os seus concorrentes. Ian Watt, por exemplo, traça um
paralelo entre a tradição do pensamento realista e as inovações formais deste gênero,
encarando-as como manifestações de uma mudança mais ampla, em que o cartesianismo,
isto é, a busca individual pela verdade, reorienta e renova a forma literária. Deste modo, o
romance relata experiências individuais, subordina o enredo à memória autobiográfica,
individualiza os personagens e os remete a um ambiente realista, rompendo o pacto da
verossimilhança, isto é, a crença na realidade literal da narrativa. Neste caso, a dimensão
temporal dará sentido e constituirá a identidade das personagens que se modificarão em
função de novas experiências. De maneira geral, a tese de Watt é que o realismo formal foi
o método narrativo pelo qual o romance incorporou uma visão circunscrita e contextual da
vida, constituindo embora um relato completo e autêntico da experiência humana.404
Essa pode ser uma tese adequada para a linhagem do romance inglês a que se
dedica Watt. No caso do Machado das Memórias Póstumas, mesmo que seja correta a
atribuição das influências, por exemplo, de Swift e Sterne, elas atingem mais o aspecto da
organização narrativa, com seus avanços, retrocessos e atropelos, do que o pensamento
ficcional ali expresso e as concepções de homem e de mundo. Dizer isso talvez soe
inconsistente, já que o entendimento da forma pela qual se constrói a narrativa é condição
para se compreender os caracteres e o que pode implicar a sua visão ficcional de mundo.
Uma consequência velada deste capítulo consiste em retificar a relação de importância da
403 MATHIEU, Francis. «Mme de Lafayette et la condition humaine: Lecture pascalienne de La Princesse de
Clèves», p. 61-85. Machado possuía o romance Manon Lescaut (doc. 529).
404 WATT, Ian. A ascensão do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
234
implicação das condições artísticas (tradicionalmente, a direção da implicação é da forma
para o conteúdo), mostrando que forma e conteúdo possuem implicações e correspondências
biunívocas. Assim, a reconstituição dos juízos de valor, da história das ideias e das
mentalidades também pode fornecer pistas para os critérios estéticos da obra. Dito com
outras palavras,
para reconstruir esse modo de olhar seria preciso entender os encontros
e os desencontros do moralismo clássico e jansenista (severo até o
limite do pessimismo) e a concepção liberal-capitalista da natureza
humana, que tentou, pela voz dos precursores da Economia Política,
conciliar o cinismo do interesse individual com a hipocrisia da
burguesia que celebrava como progresso do gênero humano a
prosperidade de sua classe.405
Ao puxar a linha desta trama, descobrimos até aqui que Machado de Assis – e
parte dos intelectuais de sua geração – seguiu a recomendação de Cousin para o retorno aos
clássicos, especialmente a Pascal e a sua ideia universalista, mas conflitante, de homem. Este
descarrilamento de rota era parte do plano dos intelectuais da Revue des Deux Mondes, que
se opunham às estéticas do homem terra-terra realista e do homem fantasiado do
romantismo. A superação eclética pressupunha o retorno à antropologia clássica de Pascal,
da qual ele mesmo era o modelo: o místico e o cientista resumiam o conflito eterno entre a
vontade e o intelecto.
A primeira seção deste capítulo revelará o fim do processo que levou Machado
a apropriar-se da antropologia pascaliana, que já circulava como fato social adaptado ao caso
brasileiro. O recorte deste processo formativo incide sobre o conjunto de crônicas “Notas
Semanais”, escritas para o jornal O Cruzeiro, em 1878. Aqui Machado antecipa alguns
pressupostos do que conhecemos por literatura fantástica, dando vida a seres inertes,
compilando uma espécie de bestiário, descrevendo espetáculos com animais fabulosos e
monstruosidades humanas. O leitor e a plateia, que se divertem e contemplam o espetáculo,
se rebaixam e se transformam, igualmente, em bestas. Saiba-se que a falência do projeto
romanesco de caracteres e a recusa das doutrinas literárias realistas são alguns dos motivos
que forçaram Machado a reinventar a forma narrativa. Do mesmo modo, os pressupostos da
405 BOSI, Alfredo. O enigma do olhar. São Paulo: Ática, 2000, p. 168.
235
antropologia pascaliana – como a intenção apologética e exortativa – são redirecionados para
uma investigação cética e até grotesca da realidade.
A partir de então, iniciamos a análise do romance Memórias póstumas de Brás
Cubas, reafirmando a perspectiva metodológica até aqui adotada, especialmente no primeiro
e no quarto capítulos, diante do conflito entre as interpretações possíveis da obra-prima
machadiana. Este conflito possui um caráter eminentemente aporético, à primeira vista, sem
resolução, configurado na oposição dialética entre a crítica e o texto literário. O próprio livro
de Brás Cubas contém respostas filosóficas a diferentes perspectivas de interpretação. Por
isso, será necessário dar atenção aos dispositivos literários capazes de captar e dramatizar
essas oposições. Ao analisarmos as estratégias argumentativas do narrador, percebemos a
tendência cética de descredenciar as opiniões de filósofos como Aristóteles, Erasmo, Kant,
Voltaire e Comte. Além destes, o ceticismo literário se voltará contra as doutrinas de Quincas
Borba, personagem filósofo e dogmático que concilia teses filosóficas de toda sorte,
especialmente as estoicas e as positivistas. O tema da descristianização do ceticismo deve
ser compreendido no interior de uma tradição que também pode reconfigurar as questões dos
céticos antigos, como também o fizeram Agostinho e Pascal. A viabilidade de uma vida
conforme os pressupostos do ceticismo, a possibilidade de haver crenças que referem,
significativamente, ao mundo, a incapacidade humana de transcender as opiniões e a
natureza paradoxal do ser humano são os tópicos principais da filosofia brascubiana, com os
quais encerramos a tese.
5.1 O anjo e a besta: antropologia pascaliana instaurada (1878)
Objetiva esta seção analisar o conjunto de crônicas “Notas Semanais”, de 1878,
em que Machado concebe o ser humano, ao mesmo tempo, como besta, que busca
irrefletidamente nutrir a sua “porção sensual” e como anjo, que tem a capacidade intelectual
para compreender a sua miséria. Na realização dessa inspeção antropológica, o cronista
reflete sobre a sua própria atividade literária, alcançando “certa altura” de olhar, que lhe
permite compor a dualidade entre a escrita e a vida. Nisso, as crônicas dessa série funcionam
como um laboratório de escrita para que Machado desenvolva a forma narrativa empregada
236
nas Memórias póstuma de Brás Cubas, de cujo ponto de vista o narrador tem a pretensão de
interpretar fidedignamente a realidade.
John Gledson e Lúcia Granja afirmam que a “frase central para a compreensão
de toda a série” é “poeira nos olhos é a regra máxima de um tempo que vive menos da
realidade que da opinião” (OC, IV, p. 430). 406 Machado estava refletindo sobre o uso
intencional do embuste e da velhacaria para a sobrevivência do indivíduo no grupo. Aqui,
mais importante do que a teoria cética das opiniões humanas, que esboçaremos ao fim deste
capítulo, é a identificação do cronista com a figura do misantropo, o único capaz de conhecer
a verdade, qual seja, que as relações humanas se fundamentam no engano mútuo, em
“amável formalidade”, se quisermos antecipar a metáfora compreensiva das Memórias
póstumas. Mas para dizer isso, sem embolsar a contradição dos termos, ele se esforça para
construir uma perspectiva adequada, que imite a vida, mas mantenha dela certa distância:
Verdade é que, assim como a vida é entremeada de reflexões e pilhérias,
também o folhetim pode, uma vez ou outra, sacudir a sua tosse
parlamentar e deitar ao mundo uma ou duas observações de calibre
sessenta (OC, IV, p. 432).
Isso significa duas coisas. Primeiro que é possível construir um forte de
fidedignidade que cerque os juízos emitidos da vala comum opiniática, fortificação a partir
do qual o emissor deva ser capaz de superar até os pressupostos de um relativista moral. Ou
seja, os critérios científicos do cronista consistem em reinterpretar os fatos importantes da
semana, oferecendo hipóteses mais razoáveis do que as explicações convencionais, e em
combinar características e questões nacionais com definições generalizantes de homem e de
sociedade. Veja-se a quinta crônica da série, em que se tira a conclusão de que “o homem é
um animal eternamente brigão” (OC, IV, p. 395), quando se estava a falar do novíssimo
costume carioca de apostar em corridas e saltos. A imagem que o investigador cético idealiza
para si, de alguém capaz de alhear-se às perturbações, é reinterpretada na autoimagem que o
cronista possui, de alguém capaz de
fumar quietamente o cachimbo do seu fatalismo. O cronista não tem
cargo-d’almas, não evangeliza, não adverte, não endireita os tortos do
mundo; é um mero espectador, as mais das vezes pacato, cuja bonomia
406 GLEDSON, John; GRANJA, Lúcia. “Introdução”. In: Notas Semanais [Machado de Assis]. John Gledson
e Lúcia Granja [org.]. Campinas, Editora da UNICAMP, 2008, p. 47.
237
tem o passo tardo dos senhores do harém. Debruça-se, cada domingo,
à janela deste palacete, e contempla as águas de Bósforo, a ver os
caíques que se cruzam, a acompanhar de longe a labutação dos outros
(OC, IV, p. 427).407
Em segundo lugar, a passagem anterior nos faz pensar que o andamento da vida,
misto grotesco de “reflexões e pilhérias”, pode ser copiado pelo gênero literário, misturando
o cômico e o sério ou, para antecipar novamente as Memórias póstumas, a galhofa e a
melancolia. O mesmo pode ser pensado, no início da sexta crônica, onde se diz que “o
folhetim requer um ar brincão e galhofeiro, ainda tratando de coisas sérias” (OC, IV, p. 397).
O argumento de Machado segue mais ou menos a lógica da “prova pela doutrina”, de Pascal:
As grandezas e as misérias do homem são tão visíveis que é
absolutamente necessário que a verdadeira religião nos ensine tanto que
existe algum grande princípio de grandeza no homem como também
que há ele um grande princípio de miséria. É também necessário que
ela nos explique a razão dessas espantosas contrariedades [...]. Não
acho que devais submeter vosso crédito a mim sem razão, nem pretendo
submeter-vos de modo tirânico. Não pretendo tampouco mostrar-vos as
razões de todas as coisas. E para conciliar essas contrariedades tenho a
intenção de fazer-vos ver claramente, mediante provas convincentes,
marcas divinas em mim, que vos convençam do que eu sou e conseguir
para mim autoridade mediante maravilhas e provas que não possuais
recusar e que em seguida creiais nas coisas que vos ensino quando nelas
não encontrardes outro motivo de recusa senão que não podeis por vós
mesmos conhecer se elas são ou não (La 149 Br 430).
A semelhança dos argumentos está na intenção de fazer crer mediante uma
sequência narrativa que explique a vida humana. Além disso, a própria forma de emissão do
argumento, para se tornar efetivamente persuasivo, deve ser compatível com o conteúdo da
explicação. De acordo com Pascal, essas condições são cumpridas pela doutrina cristã, cuja
sequência narrativa, da queda à redenção, exprime adequadamente – em comparação tanto
com as demais religiões quanto com a filosofia – a natureza humana, não totalmente racional
nem sobrenatural (La 173 Br 273). Conforme o cenário que montamos, contudo, os acessos
ao conhecimento da glória com Deus e ao desespero da miséria sem Deus encontram-se
407 Machado refere-se aqui às consequências do tratado de Berlim para o Império Otomano (Turquia), em que
se chocavam os interesses políticos de países ocidentais (Grã-Bretanha, Áustria-Hungria) e orientais
(Rússia), representados pelo estreito de Bósforo, que corta a península turca.
238
fechados. Que o digam os padres de Helena e Casa Velha. Para o cronista, a forma do
argumento ainda parece válida, desde que se substitua a instância religiosa pela ficcional.
O cronista pretende que a sua lógica de explicação de mundo esteja mais
adequada que a de seus concorrentes, quais sejam, a do cientista e a do divulgador de boatos.
É preciso reconhecer as artimanhas do silogismo machadiano. O cronista constrói pequenas
teorias, com suposições e premissas manifestamente falsas, além de raciocínios
condicionais, para combater e superar as notícias pretensamente verdadeiras contadas por
outros jornalistas. Machado não está apenas relembrando os tempos da Petalógica, em que
se competia pela maior mentira, senão que estivesse a desconfiar da relação entre as opiniões
midiáticas e a realidade. Este método heurístico é utilizado em mais da metade das crônicas,
surgindo logo na primeira, por ocasião do incêndio em um prédio municipal, cuja explicação
corrente era a de combustão espontânea, “a mais verossímil de todas”. Então, o cronista dá
início a uma série de condicionais. Se for “combustão espontânea”, isso quer dizer que a
edificação era um ser com vontade própria. A conclusão, portanto, é que
[o] mau costume que têm todos os paços municipais de dormirem com
luz, e lerem até alta madrugada. O de Macacu parece que até fumava
na cama. Imprudência que se não combina com a madureza própria de
um paço municipal (OC, IV, p. 378).
A pilhéria é seguida pela consideração grave de que a história do município se
perdia com a destruição dos documentos. Nada mau se pensarmos que a história – a ciência
histórica – loureira e disposta a qualquer narrativa, é dispensável: “para isso a maior fortuna
seria aplicar o niilismo aos documentos. Entreguemos os sábios vindouros ao simples
recurso da conjectura; aplicação higiênica, algo fantástica, e sobretudo pacífica” (OC, IV, p.
378). Na semana seguinte, o cronista retoma o “recurso da conjectura”. A nova suposição
era a de que o edifício ardeu devido a “oculto propósito” partidário. Machado a desacredita,
oferecendo outras condicionais: supôs o incêndio porque não encontraram o prédio no lugar
de costume. Se bem que fosse másculo na aparência, o paço dissimulava ser uma “bela
sexagenária” que passou a vida revezando entre os partidos que ali habitaram. Ela
engravidou e, como a vila fosse a recatada de bons costumes, por medo de uma execração
universal, ela fugiu para a rua do Ouvidor, local em que se descomplicavam a primeira e a
segunda natureza, o instinto e o costume:
239
O incêndio era, pois, uma calúnia, um aleive, uma inverdade, se me é
lícito usar este barbarismo. Era uma maneira de julgar pelas aparências;
era mais alguma coisa. Se delato o erro da infeliz, é porque há fortes
esperanças de o santificar pelo matrimônio. Assim, não prejudico a
situação profundamente municipal do paço, e arredo de sobre a cabeça
dos partidos a suspeita de terem traduzido em macacuense as doutrinas
da comuna. As fraquezas do coração, pode absorvê-las a igreja; a
história é que não tem bênçãos para o erro político. Sabia-o Macacu;
saiba-o o universo inteiro (OC, IV, p. 381).
Machado poderia estar manejando intuitivamente os recursos do conectivo
lógico se-então. Numa implicação material, sempre que o antecedente for verdadeiro, o
consequente também o será, ou melhor, não é o caso de o antecedente ser verdadeiro e o
consequente, falso. Se a combustão é espontânea, então o prédio possui vida própria, e se
ele possui vida, então pode passear por aí. É claro que a sequência de transmissão de verdade
está baseada na ambiguidade, em linguagem natural, do termo “espontânea”, que pode
significar involuntariamente, isto é, sem a intervenção humana, ou voluntariamente, isto é,
que se manifesta por si mesmo. Mas o que pode espantar é que não temos informações
suficientes para saber o valor de verdade do consequente numa situação em que o
antecedente é falso ou apresenta premissas inconsistentes. E o que faz o cronista senão
certificar a inconsistência das premissas? Assim, a segunda hipótese para o caso, a de um
incêndio com propósitos partidários, transforma-se num apólogo burlesco de um edifício que
é uma solteirona grávida. Apesar disso, não precisamos ir tão longe a ponto de defender que
a intuição de Machado captura os pressupostos da lógica formal.408 Basta dizer que ele
aprendeu com Pascal a força argumentativa da hipótese e da modalidade alética, cujas
operações podem se valer de premissas absurdas, ambíguas ou fantásticas para se concluir
algo que não pode ser contestado racionalmente. Por exemplo, diz Pascal, para se conhecer
a vaidade dos homens, basta conhecer as causas e os efeitos do amor: “o nariz de Cleópatra,
se tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado” (La 413 Br 162). Ele faz notar
408 A aproximação entre a ficção machadiana e a tradição dita analítica da filosofia não é uma inovação. Ver
DIXON, Paul. A auto-referência e o paradoxo em Dom Casmurro. Brasil/Brazil, v. 1, p. 30-40, 1988.
DIXON, P. Teoria da mente, Machado de Assis, e a escola realista. Machado de Assis em Linha, v. 2, p.
84-93, 2008. PRATT, Mary Louise. Toward a Speech Act Theory of Literary Discourse. Bloomington:
Indiana University Press, 1977. MAIA NETO, J. R. Machado de Assis: skepticism and literature. Latin
American Literary Review, v. 18, n.36, p. 26-35, 1990. MARGUTTI PINTO, Paulo. Richard Rorty and
Machado de Assis: Two Different Ways of Coping with Ironism. Cognitio, São Paulo, v. 8, n. 1, p. 115-
139, jan./jun. 2007.
240
que a vaidade humana é tão frívola que um elemento insignificante, como o tamanho de um
nariz ou de um capuz pode produzir um efeito de escala planetária (La 18 Br 955). O inverso
também é o caso, isto é, coisas de extrema importância, como saber se a própria sentença foi
pronunciada (La 163 Br 200) ou conquistar um reino (La 750 Br 176), são preteridas por
divertimentos e situações insignificantes. Pascal joga com os termos “impossível”, “infinito”
e “absurdo” para convencer de situações possíveis, finitas e reais.
O “efeito Cleópatra” está suposto na proposta de Brás Cubas a respeito do
tamanho da barretina da Guarda Nacional. De demonstrações a citações históricas e a razões
científicas, Brás realiza um discurso eloquente, em que emprega a forma “literária e
filosófica” (OC, I, p. 718) para convencer os deputados da grandeza daquela mudança
ínfima. Também o cronista faz coro ao “efeito Cleópatra” ao tecer comentários sobre a dupla
natureza humana, misto de feiura e beleza, ignorância e sabedoria:
Tão normal era a beleza humana, que Sócrates, ao passo que nos
transmitiu as suas ideias, transmitiu-nos também o seu nariz, aquele
nariz que tinha tanto de grego, como o de Cleópatra tinha de
escandinavo: um nariz que, se hoje não incorre em nenhuma
incapacidade eleitoral ou social, naquele tempo devia ser bem triste de
admitir-se entre os olhos de um cidadão. Pois esse nariz veio até nós, –
como um exemplo de exceção na regularidade nasal dos gregos. Feliz
Hélade, onde os olhos encontravam na figura humana a simples, a
adorável elegância da linha dórica, e a graça da ornamentação coríntia;
onde quase que era preciso inventar o monstro (OC, IV, p. 390).
Sócrates e Cleópatra são os modelos clássicos, respectivamente, de virtude e de
beleza. Porque fosse o mais sábio de todos, Sócrates nos transmitiu, além da sabedoria (em
parte vinculada à ignorância), as condições do feio e do grosseiro representadas em seu nariz.
Ele se tornava, assim, grego e antigrego, divino e animal. Daqui até as Memórias póstumas,
a bestialização será um dos processos preferidos de Machado. O corpo humano será
fustigado e barbarizado de diversos modos. Para ficarmos com os personagens do romance,
o escravizado Prudêncio será agrilhoado feito uma “besta” pelo “brejeiro” Brás Cubas. O
rosto de Marcela deteriorar-se-á da sífilis. Eugênia mancará. O Cotrim mandará escravos ao
calabouço, fazendo correr o seu sangue. Quincas Borba sofrerá demência e o próprio Brás
Cubas terá alucinações com animais e se misturará a eles enquanto sofrem mutações.
241
Para descrever o processo de maneira precisa, o narrador e o cronista recorrem
à figura do oximoro (ou paradoxismo), que consiste em formar conceitos por meio da
combinação de palavras com sentidos opostos. O Brasinho foi o “menino diabo” (OC, I, p.
612). Eugênia era bonita e coxa. E assim por diante. Lúcia Granja afirma que
o horripilante, aqui recortado a partir do abuso do corpo humano e
animal em relações que envolvem várias manifestações do poder, é
incorporado à ficção machadiana como paródia da naturalização de
certos discursos e práticas das sociedades em geral. Melhor dizendo, na
ficção, a legitimação da violência pelos procedimentos da criação e,
sobretudo, pelo relato quase desumanizado dos narradores, revela a
matéria inverossímil do viver: da escravidão tardia, dos abusos
cometidos pela ciência experimental em busca de explicações, ou,
ainda, da “deturpação” do gosto estético.409
Deste modo, a pretensão do narrador em representar fidedignamente a realidade
sofre uma espécie de torção, na medida em que o mundo da vida é recheado de paradoxos e
contradições. Por isso, o ponto de vista do narrador – um morto que fala sobre a vida – se
constitui de modo aporético. Em relação ao cronista de 1878, a estratégia retórica é
semelhante, com a sutileza de que a lógica de construção de hipóteses ficcionais é apenas
opcional, já que a crônica tem por finalidade revisar os discursos e os acontecimentos
semanais. Contudo, em vez do apego à realidade, que não raro se desfaz, ele realiza a sua
revisão tendo em vista discursos e acontecimentos de ordem cultural:
[O] aleijão é necessário à harmonia das coisas; o monstro é o
complemento da beleza. Os antigos, que entendiam do riscado, casaram
Vênus e Vulcano; e a lenda cristã reuniu a beleza física à fealdade
moral, na pessoa do anjo réprobo (OC, IV, p. 388).
A complementaridade dos opostos é o principal argumento utilizado pelo
cronista para explicar a natureza humana. O “homem-peixe”, cujo espetáculo era recheado
por acrobacias debaixo d’água, possuía “uma e outra natureza”, tal como o morcego, que é
pássaro no ar e rato em terra. Este benefício da dualidade – a “virtude de ser duas coisas” –
fora concedido ao indivíduo, que recebe o aplauso e a estima de outros iguais. O bestiário
409 GRANJA, Lúcia. “Machado de Assis, esse escritor monstruoso (entre aberrações e espetáculos)”. Olho
d’água, São José do Rio Preto, 9 (1), Jan.–Jun. 2017, p. 143.
242
humano completa-se, nas crônicas, com a “ondina” (versão feminina do homem-peixe), o
levantador de pesos, os lutadores e os corredores, que lutam e correm feito animais.
A amplitude de vistas, o “olhar as coisas de certa altura” (OC, IV, p 433), é uma
das condições para o cronista relativizar, inclusive, os valores da nova racionalidade
positivista, um “retalho de ciência, [...] uma luz melindrosa, que resiste muita vez ao
vendaval de um século, e se apaga ao sopro de um livro” (OC, IV, p. 380). A pena do cronista
“não tem cargos d’alma, não evangeliza, não adverte, não endireita os tortos do mundo”.
Antes o contrário, ela dá atenção ao que já é torto e degradante nos corpos e nos costumes,
não por querer convertê-los, mas por rigor analítico.
O que é e o que faz a natureza humana? – pergunta-nos o cronista. O homem é
um animal belicoso, consigo e contra os outros, porque a natureza o fez assim. Natureza quer
dizer, pascalianamente, tanto a primeira, de ordem instintiva e de origem divina, quanto a
segunda, vinculada ao costume e à civilização. Pode até ser que esta tenha destruído aquela
outra: “temo muito que essa mesma natureza não venha a ser um primeiro costume, como o
costume é uma segunda natureza” (La 126, Br 93). Machado repetirá Pascal, sem
acanhamento: “o costume é tudo” (OC, IV, p. 404) ou “o costume, leitor amigo, é metade da
natureza” (OC, IV, p. 406). Sendo casual e artificial, o hábito é o princípio que denota as
variações humanas, variação geográfica (aquém e além dos Pirineus), variação estética (o
nariz de Cleópatra), variação histórica (o poder dos reis, em La 25 26, Br 308 330), e outras
mais. Esta segunda natureza é considerada conforme a multiplicidade da experiência,
tornando o ser humano “abjeto”, “vil” e “em disputa” (La 127 Br 415).
Ora, a liberdade com que Pascal utiliza a modalidade alética – por exemplo, o
argumento da aposta ou quando supõe que a segunda natureza tenha suprimido a primeira –
decorre da intenção exortativa dos Pensamentos de persuadir, por meio da razão, aqueles
que não foram tocados pela fé, mostrando-lhes a debilidade humana sem Deus. Trata-se, é
claro, mais de uma exortação que objetiva interferir nas escolhas do leitor do que de uma
argumentação que vise produzir crenças epistemicamente justificadas. A intenção do
cronista, por outro lado, não tem nada de apologética, embora o seu vocabulário seja
tipicamente pascaliano. Ele não tem cargos d’alma para evangelizar as causas da degradação
243
moral410 e, ao mesmo tempo, mantem alguma expectativa em relação à porção virtuosa e
espiritual do homem:
Talvez o leitor lastime não ver em toda essa enfiada de recreios públicos
alguma coisa que entenda com a mentalidade humana. [...] Danças,
vistas, tramoias, tudo o que pode nutrir a porção sensual do homem,
nada que lhe fale a essa outra porção mais pura; nenhum ou raro desses
produtos do engenho, frutos da arte que deu à humanidade o mais
profundo dos seus indivíduos.
Pobre espírito! Quem pensa em ti, nessa dança macabra de coisas
sólidas? Quem oferece alguma coisa ao paladar dos delicados, não
corrompido pelo angu do vulgo? Ninguém; tu és, não digo o réprobo, –
seria supor que existes, pobre espírito! – tu és como que uma velha
figura de retórica, um velho par de sapatos... Talvez lastimes isso, leitor,
mas tens o meio de o lastimar, sem nada perder ou pouco. Recolhe-te,
de quando em quando, fecha a tua porta, abre a tua despensa intelectual,
e saboreia sozinho o manjar dos deuses. Agora, sobretudo, nestas noites
de chuva ou de frio, é uma deliciosa volúpia (OC, IV, p. 435).
Pode ser que “o mais profundo dos seus indivíduos” fosse Pascal, pois a
dualidade antropológica está aí descrita em metáforas: o espírito e a sensação, o delicado e
o vulgo, a reflexão e a volúpia. Cada termo não existe sem o seu contrário – o “réprobo” é
característica do “anjo”. E mesmo a reflexão sobre as contrariedades é “deliciosa volúpia”.
O “perpétuo bailado dos espíritos” no Brasil, analisara Machado em crônica anterior, matiza
“a uniformidade da vida” (OC, IV, p. 417), isto é, os processos de simplificação estética e
de consumo de produtos culturais massificam a sensibilidade e o intelecto, o gosto e as
opiniões.
O espetáculo com animais – por exemplo as touradas e as corridas com cavalos
– divertia a população, alienando-a das questões graves da política, da arte e de si mesma. O
alheamento humano é fartamente documentado nessa série de crônicas. Espectadores e
“artistas” digladiavam no palco junto aos animais, correndo, saltando e contendo chifres
410 Eis aqui uma divergência fundamental em relação aos escritos de teatro. Lembro um importante trecho já
citado: “Não é o teatro uma escola de moral? Não é o palco um púlpito? Diz Victor Hugo no prefácio da
Lucrécia Borgia: ‘O teatro é uma tribuna, o teatro é um púlpito. O drama, sem sair dos limites imparciais
da arte, tem uma missão nacional, uma missão social e uma missão humana. Também o poeta tem cargos
d’almas. Cumpre que o povo não saia do teatro sem levar consigo alguma moralidade austera e profunda.
A arte só, a arte pura, a arte propriamente dita não exige tudo isso do poeta; mas no teatro não basta
preencher as condições da arte’” (OC, IV, p. 40).
244
pelas mãos. Ao prazer em assistir touros batalhando pela vida conformava-se “a brandura
dos nossos costumes e a graça das nossas maneiras” (OC, IV, p. 386). Ao ver o costume
crescer, o cronista pode analisa-lo filosoficamente: ele nunca participou de touradas, e até as
reprova, mas um amigo de fino espírito411 as adora e frequenta:
[S]empre me há de lembrar Santo Agostinho. Conta o grande bispo que
o seu amigo Alípio, seduzido a voltar ao anfiteatro, ali foi de olhos
fechados, resoluto a não os abrir; mas o clamor das turbas e a
curiosidade os abriram de novo e de uma vez, tão certo é que esses
espetáculos de sangue alguma coisa têm que fascinam e arrastam o
homem [...]. No tempo em que uma vã teoria regulava as coisas do
espírito, estes nomes de artista e de arte tinham restrito emprego:
exprimiam certa aplicação de certas faculdades. Mas as línguas e os
costumes modificam-se com as instituições. (OC, IV, p. 386-387).
Machado repete o juízo negativo de Agostinho sobre o caso. O que interessa é
“alguma coisa” que fascina e arrasta o homem e transforma o seu comportamento, por mais
horripilante, em costume aceitável. Alípio fora curado de sua paixão por jogos fúteis após a
intervenção de Agostinho, que lhe convencera de que este costume viciava. 412 Apenas
chegou a Roma, Alípio sofreu atração irresistível por espetáculos com gladiadores, lançando
para si uma solução de compromisso entre a sua virtude e a sua vontade: prometeu triunfar
intelectualmente sobre o espetáculo mantendo os olhos fechados. Recorda Agostinho:
Quando chegaram, ocuparam os lugares que puderam, pois todo o
anfiteatro já fervia nas paixões mais selvagens. Alípio, fechando a porta
dos olhos, proibiu que sua alma se envolvesse em tal crueldade. E oxalá
também tivesse tapado os ouvidos! Porque, em um lance da luta, foi tão
grande o clamor da multidão que, vencido pela curiosidade, e julgando-
se preparado para desprezar e vencer a cena, fosse o que fosse, abriu os
olhos. Foi logo ferido na alma mais profundamente do que a ferida
física do gladiador a quem desejou contemplar e caiu. Sua queda foi
mais miserável que a do gladiador, causa de tantos gritos. Estes,
411 Uma história semelhante é narrada pelo cronista da série “História de quinze dias”, em 15 mar. 1877:
“Conversava eu há dias com um amigo, grande amador de touradas, e homem de espírito, s’il en fut. (...).
No fundo de cada amador de tourada inocente, há um amador de tourada espanhola. Começa-se por gostar
de ver irritar o touro, e acaba-se gostando de o ver matar” (OC, IV, p. 324). A expressão francesa marca o
juízo suspensivo e hipotético do cronista em relação à existência de homens de espírito puros, do mesmo
modo que Pascal a utiliza, por exemplo, em “Le nez de Cléopâtre s’il eût été plus court (...)”. A história de
Alípio ilustra, ainda, uma passagem de Quincas Borba em que o Rubião hesita em assistir ao enforcamento
de “dois pretos”.
412 AGOSTINHO. Confissões, VI, 7.
245
entrando-lhe pelos ouvidos, abriram-lhe os olhos, para ferir e abater sua
alma, mais temerária do que forte, e tanto mais fraca por apoiar-se em
si mesma, em lugar de se apoiar em ti. Logo que viu sangue, bebeu
junto a crueldade, e não se afastou do espetáculo; pelo contrário,
prestou mais atenção. Assim, sem o saber, absorvia o furor popular e se
deleitava naquela luta criminosa, inebriado de sangrento prazer.413
A contradição entre a repugnância do espetáculo e a fineza de espírito é comum
aos amigos de Agostinho e do cronista de Machado. Contudo, a hipótese deste para explicar
e justificar o estado de coisas não é a mesma. Para pensadores como Agostinho e Pascal, a
causa da miséria de Alípio ajusta-se à antropologia cristã, segundo a qual a salvação está
além da vontade do indivíduo. O próprio Agostinho quem primeiro explicitou a
contrariedade fundamental:
[o] homem é intermédio entre o anjo e o bruto: como o bruto e um ser
vivo irracional e mortal e como o anjo é racional e imortal – o homem
encontra-se no meio, inferior aos anjos e superior aos brutos
[pecoribus], pois tem, como os brutos, a mortalidade e, com o os anjos,
a razão; é um ser vivente, racional e mortal.414
Sendo o homem necessariamente infeliz, por causa de sua mortalidade, apenas a
misericórdia divina poderia auxiliá-lo. Eles combatiam toda forma de pelagianismo. Para
Machado, a causa da miséria – entendida como hipótese verossímil ou como o antecedente
do argumento – é variada: a miséria pode ser resultado da “meninice social” ou da “infância
constitucional” brasileira, como quer a interpretação histórico-sociológica de John
Gledson415 , o que significa que as insuperadas contradições sociais produziam sujeitos
abalroados. Neste caso, o cronista deveria estudar “os elementos da luta cotidiana”, que pode
ser generalizada recolhendo-se exemplos locais: não existe diferença entre os partidos
opostos (crônicas 10, I e 12, II). Contudo, Machado não descarta a dedução. A política, por
exemplo, também é obra científica, “[em] que os fenômenos sociais sejam sujeitos a regras
certas e complexas” (OC, IV, p. 415). Por isso, a miséria também pode ser consequência de
um não sei o quê metafísico que borbulha no sangue humano e que pode ser descrito de
maneira ficcional. Cada descrição fantástica confirmará a regra geral. O escrutínio de
413 AGOSTINHO. Confissões, VI, 8.
414 AGOSTINHO. De civ. Dei, IX, 13, p. 851-852.
415 GLEDSON, John; GRANJA, Lúcia. “Introdução”. In: Notas Semanais [Machado de Assis]. John Gledson
e Lúcia Granja [org.]. Campinas, Editora da UNICAMP, 2008, p. 61.
246
Paquetá, por exemplo, em que conservadores e liberais alternavam os seus votos a despeito
de suas respectivas ideologias, e depois invertiam o resultado, gerando protestos de ambos
os lados, cada qual declarando a vitória do outro. Sem acordo, o mesário anulou o trabalho
e propôs votarem em candidatos que não residissem em Paquetá, vencendo personagens
como Barba-Roxa, João Sem Terra e Nostradamus (crônica 11, I). Essa narrativa fantástica
tinha o objetivo de repreender o subdelegado que agira em interesse próprio mandando
retirar a força policial que ordenaria a eleição. Essa é apenas a conclusão de uma dedução
cujas premissas são condicionais inverossímeis ou fantásticas.
Nessas crônicas, a antropologia tipicamente pascaliana se estabelece, com um
acréscimo de ficcionalidade. Para Pascal, era necessário que a religião verdadeira explicasse
as “espantosas contraditoriedades”. O cronista sugere que essa é apenas uma explicação
possível. O argumento condicional pode se referir tanto ao local quanto ao universal. As
perspectivas se alternam, a depender do olhar do intérprete. Por isso, na próxima seção
buscamos um instrumento hermenêutico apropriado ao movimento nos termos da ficção
machadiana.
5.2 O conflito das interpretações e o ponto de vista do narrador cético
Se repararmos na cronologia temporal da publicação de crônicas por Machado,
conheceremos que, entre a última crônica da série “Notas Semanais” (1º de setembro de
1878) e a primeira da série “Balas de Estalo” (2 de julho de 1883), nem antes nem depois
existiu maior hiato no trabalho do cronista. Isso pode parecer pouco, caso não levemos em
consideração que as Memórias póstumas de Brás Cubas foram produzidas neste intervalo.
É que, por razões diversas, o romance de 1880-81 possui privilégio enquanto objeto das
interpretações, pois marca a revolução de aspectos literários e formais sobre as obras
anteriores. A divergência entre os intérpretes repousa sobre o que faz e o quanto faz as
Memórias póstumas serem revolucionárias. A desorientação provocada nos primeiros
leitores do livro, especialmente Capistrano de Abreu e Urbano Duarte, os leva a enxergar ali
menos um romance do que uma peça de filosofia:
247
As Memórias póstumas de Brás Cubas serão um romance? Em todo o
caso são mais alguma coisa. O romance aqui é simples acidente. O que
é fundamental e orgânico é a discrição dos costumes, a filosofia social
que está implícita. Essa filosofia define-se facilmente evocando-se os
dois nomes de La Rochefoucauld e Sancho Pança.416
As Memórias póstumas de Brás Cubas são um livro de filosofia
mundana, sob forma de romance. Para romance falta-lhe entrecho e o
leitor vulgar pouco pasto achará para sua imaginação e curiosidades
banais. O livro poder-se-ia intitular, sem muita falta de propriedade, –
o Elogio do Egoísmo – tal é a amarga filosofia que distila, aliás muito
contestável, se bem que temperada por um humorismo de bom gosto.417
A pergunta retórica de Capistrano e a crítica de Urbano revelam a dificuldade de
inserir o novo romance de Machado em tradição literária única, nele reconhecendo, no
entanto, algo que ultrapassa a figura costumeira do literato engajado em determinada
corrente. Ainda mais difícil formar uma ideia exata desta revolução literária e filosófica
quando o mau hábito de professores secundaristas e o simplificado dos livros didáticos
tenham contribuído para a crença ordinária de que nosso literato evoluiu de uma escola
romântica até uma realista. É verdade que a atribuição de epítetos e a evolução em fases
encontram amparo na autovisão de Machado. Olhando apenas para superfície, pode-se dizer
que o missivista do crítico José Veríssimo aceita ambas as coisas, ter escrito na juventude
sob as determinações de escola e ter evoluído de uma posição romântica a uma posição mais
adequada a seu espírito:
Aqui vai ele, pela crítica do meu velho livro e pelo mais que disse do
velho autor dele. O que Você chama a minha segunda maneira
naturalmente me é mais aceita e cabal que a anterior, mas é doce achar
quem se lembre desta, quem a penetre e desculpe, e até chegue a catar
nela algumas raízes dos meus arbustos de hoje (C, III, p. 336).418
O velho livro era Iaiá Garcia; seu velho autor era alguém que procurava superar
as escolas literárias. Machado escrevia a Veríssimo por ocasião da publicação de um artigo
na Revista Brasileira sobre a nova edição do romance que antecedeu, em apenas dois anos,
416 ABREU, Capistrano. “Livros e Lettras”. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 30 jan. 1881, f. 2. Disponível
em . Acesso em 30 out. 2016. A fortuna crítica
contemporânea dos romances de Machado está recolhida em GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores
de Machado de Assis, p. 291ss.
417 DUARTE, Urbano. “Bibliographia”. Gazetinha, Rio de Janeiro, 2 fev.1881.
418 Carta a José Veríssimo datada de 15 de dezembro de 1898.
248
o aparecimento das Memórias póstumas na imprensa. Iaiá Garcia é visto por Veríssimo
como um romance de passagem, em que se encontram as raízes do que seria a segunda e
definitiva versão do romancista. Essas raízes mostravam-se ainda mais na série de crônicas
analisadas anteriormente.
Por parte de Machado não há registro de que a sua versão aceita e cabal
correspondesse a qualquer tipo de realismo, seja aquele naturalismo de tese idealizado por
Zola, seja o naturalismo que pretendia descrever cientificamente a realidade. Olhando a obra
com profundidade, os epítetos desaparecem. Ter porventura escrito sob determinações de
escolas e evoluído a uma posição mais adequada ao espírito são premissas das quais não se
conclui que Machado fora adepto do romantismo, tampouco que tenha avançado em direção
ao realismo. Diante de si mesmo, o realismo nunca foi a posição mais adequada. Gustavo
Bernardo faz notar, num pequeno livro, o estranho de se atribuir realismos a esse autor, quer
seja o realismo dos livros didáticos, quer sejam os diversos realismos inventados pela crítica
literária: realismo enganador, realismo fenomenológico, realismo de sondagem moral,
microrrealismo psicológico, realismo shandiano, pós-realismo etc.419
O que os dois primeiros críticos reconhecem em Machado é a possibilidade de
que a maneira aceita e cabal do romancista tenha uma origem filosófica. Motivados em
tornar a sua interpretação coerente com essa possibilidade, vimos, no primeiro capítulo, os
machadianos de ontem e de hoje tentando fazer sentido o vínculo entre a suposta instrução
filosófica de nosso autor e a efetiva inovação literária. Não custa relembrar que o tipo mais
longevo de interpretação procura identificar, no próprio Machado, traços psicológicos e
atribulações biográficas que o tornaram capaz de escrever este livro de aspiração filosófica.
A leitura de Afrânio Coutinho é paradigmática. Argumenta-se que o leitor de filosofia,
Machado de Assis, deixou transparecer essas influências em sua literatura, cabendo ao
crítico comparar e enumerar os fatores psicológicos e sociais que explicam a visão do autor
à época da composição literária. Por exemplo, o seu primeiro professor, Montaigne,
ensinara-lhe o estilo mordaz contra as atitudes humanas, além de certo naturalismo cético.
Com Pascal, o romancista aprenderia a acentuar o trágico da condição humana, contraditória
419 BERNARDO, Gustavo. O problema do realismo de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. Os
tipos de realismos são atribuídos a Machado, respectivamente, por John Gledson, Patrick Pessoa, Alfredo
Bosi, Eugênio Gomes, Sérgio Paulo Rouanet e Roberto Schwarz.
249
e em conflito consigo mesma. Privado do consolo da religião, que talvez vacinasse contra a
epidemia moral propagada por parasitas sociais que dominavam o país, Machado desesperou
da existência humana e selou, a partir das Memórias Póstumas, o parentesco com o
pessimismo schopenhaueriano.420
Augusto Meyer fala ainda de uma “conversão às avessas”, uma conversão à
descrença em Deus e nos homens, descrença que implicava, todavia, em outra forma de
crença,
a da força criadora do seu gênio, que então esfrega os olhos, acorda,
sacode as ruminações de uma longa apatia, o torpor do medíocre
Machadinho, tão comedido e bem comportado até então, verdadeiro
prêmio de virtude. Naqueles seis meses, precipitou-se uma conversão à
ironia livre; Machado de Assis, de si para si, chegou decerto à
convicção de que, para criar em verdade e vida, devia obedecer sem
restrições ao imperativo da expansão plena que dentro dele reclamava
mais desafogados direitos de ousadia.421
No capítulo sobre a religiosidade, notamos que o sentido íntimo de
transcendência esteve inerente à poesia metafísica do Machadinho. A apatia, o torpor e o
comedimento, se os houve, não tiveram como resultado o se deixar, feito cordeiro, no
rebanho da igreja. Desmentem-no os debates de que participou e as reuniões na Petalógica.
A ironia livre, a expansão e a ousadia pouco tiveram a ver com a demonstração de ateísmo.
O estetismo, por outro lado, foi o altar em que Machado queimou ofertas desde a primeira
juventude. Na verdade, tratou-se de longo processo reflexivo que demandou, temos visto,
muito mais do que seis meses.
A interpretação mais comum, a partir da década de 1980, avaliou a capacidade
crítica do olhar machadiano ou de seus narradores diante da estrutura social. A influência de
Pascal ou qualquer outro deixaria de fazer sentido absoluto, na medida em que a análise do
contexto e do cotidiano do Oitocentos servissem como parâmetros inequívocos. Machado
colocaria em exame, antes de qualquer discussão filosófica profunda, uma contradição
420 COUTINHO, Afrânio. “A filosofia de Machado de Assis (1940)”. Machado de Assis na literatura
brasileira. Rio de Janeiro: Coleção ABL, 1990.
421 MEYER. Machado de Assis (1935-1958), p. 162. O período de conversão teria ocorrido entre outubro de
1878 e março de 1879, quando Machado se afasta da cena pública para se tratar de uma doença que lhe
afligia a visão.
250
básica da vida familiar brasileira entre as perspectivas do paternalismo escravista e das ideias
liberais, sendo estas tomadas por inoportunas. Segundo Roberto Schwarz, a viravolta
expressa a partir das Memórias póstumas se deveu, principalmente, à revelação de uma ou
mais camadas ideológicas escondidas nas contradições que cercavam a sociabilidade
carioca. A interpretação de Schwarz é que a forma volúvel das Memórias Póstumas captou
a vivência da contradição entre práticas arcaicas e teorias liberais. Assim qualquer ideologia
tem pouco ou nenhum conteúdo, que dirá autêntica filosofia, pois o que se retratou foi a
desfaçatez retórica e ideológica das personagens da classe dominante mais as concordâncias
de seus dependentes. O ceticismo poderia ser a autêntica filosofia de Brás Cubas caso a outra
metade desse homem, bem menos versada na alta filosofia e bem mais atolada nas relações
de clientela e dominação, não o desmentisse no ato. A crítica que se pode fazer a essa
interpretação consiste em dizer que ela desconsidera a possibilidade de se adotar
consistentemente uma perspectiva filosófica cética. Afinal, os valores sociais também estão
no escopo do ceticismo. Uma interpretação sociológica não deveria excluir, de início, a
atribuição de influências genuínas, desde que tomemos a cautela de relacionar corretamente
as ideias e o contexto literário do autor.
A interpretação pirronista recorre a Pascal e Montaigne como sendo os veículos
através dos quais Machado teve contato com a tradição cética pirrônica e aos modos de
argumento por ela sistematizados. Ao realizar uma distinção menos dogmática entre as
perspectivas do personagem ativo, do narrador distanciado e do autor real implicado, Maia
Neto compreende que a viravolta da ficção machadiana não acontece apenas com a
modificação do ponto de vista da narrativa, mas quando esta mudança confere ao narrador o
privilégio epistemológico da posição cética. Nessa posição privilegiada, o novo
memorialista pode suspender a prerrogativa de objetividade da narrativa, implicando o
próprio leitor no processo de constituição de uma narrativa cética.
Machado lida com problemas epistemológicos ao longo de toda a sua ficção e
desenvolve uma solução cética para eles. A perspectiva restrita, condicionada e subjetiva
dos narradores é uma afirmação dos limites cognitivos que ocorrem no mundo. Muitas das
frequentemente mencionadas “aberturas” que o leitor encontra na segunda fase machadiana
251
podem somente ser “preenchidas” pelo crítico se este desconsidera o ceticismo de
Machado.422
De nossa parte, a novidade consiste em ilustrar um quadro menos impreciso da
formação de um jovem artista e de seus heróis filósofos. Revelou-se, nos capítulos
anteriores, o caminho da tradição pascaliana no Brasil. As interpretações comparatistas e
sociológicas inferem da modificação formal da perspectiva do narrador alguma motivação
teórica, além de suas consequências antropológicas e epistemológicas. Elas perdem de vista
a linha de Ariadne que permite remontar o caminho filosófico percorrido, passando ao largo
de compreender as influências filosóficas pretéritas de Machado, por exemplo, ao se ignorar
a cláusula “muito cedo” na admissão de que nosso autor teria desde muito cedo frequentado
Pascal. Do ponto de vista desta história das ideias, Machado promoveu o que considero ser
a descristianização do ceticismo. O jansenismo de Pascal trabalha como o eixo de virada e
de autonomia da ficção machadiana, pois ele é uma figura central para a inserção do
ceticismo antigo na modernidade.
A desenvoltura super-reflexiva do novo narrador machadiano lhe permite tecer
comentários sobre como a narrativa se efetua, inclusive sobre o trabalho do leitor e de suas
possíveis interpretações. O prólogo é dirigido “ao leitor”, metaforicamente ao verme que
primeiro roer as carnes-folhas do cadáver-livro. Os significados intencionalmente
polissêmicos com os quais o narrador busca explicar a realidade, lançando mão, como vimos,
da estratégia do condicional, envolvem o leitor e o crítico literário numa infindável corrida
pela fixação de sentidos. Ora, sabendo-se que esta é uma característica de toda obra artística,
o que faz Brás Cubas senão elevá-la ao cubo? O seu livro pretende-se mais complexo que os
de Sterne e Xavier de Maistre, mais original que o Pentateuco, de modo que poucos leitores
(em comparação com o número de leitores de Stendhal) irão compreendê-lo. Se bem que o
narrador intente construir uma posição privilegiada em relação ao sentido de sua narrativa,
a dificuldade em reproduzi-la alcança e enreda os interlocutores na mesma trama aporética.
O autor defunto deseja expor a sua vida, rememorar algo que já não é, desabrochar uma
opinião mais veraz do que a opinião pública, etc. A esse respeito, defendi na dissertação de
422 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 31.
252
mestrado que a relação paradoxal entre o narrador e o leitor pode ser descrita da seguinte
maneira:
a) o narrador oferece em seu texto uma posição polissêmica no mínimo
trivalente que obscurece para o leitor aquilo que ele estaria buscando
como constituindo o “verdadeiro sentido” ou “sentido unívoco” do
texto; b) o tom de galhofa com que o narrador faz isso cria uma situação
irônica em que, através da polissemia apresentada, a noção de
“verdadeiro sentido” se torna problemática; c) confrontado com essa
situação irônica, o leitor, frustrado em sua busca por um sentido
unívoco no texto do narrador, só tem como opção aceitar a
indeterminação do sentido. A galhofa é uma das reações possíveis para
o leitor. De maneira geral, a reação pode ser caracterizada como uma
reflexão irônica sobre a ironia (relação entre sentidos opostos).423
A polissemia constitutiva do ponto de vista do narrador também produz o
conflito entre as interpretações da obra. No caso da recepção contemporânea ao romance, o
narrador antevê ironicamente as reações de Urbano Duarte e Capistrano de Abreu: “a gente
grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não
achará nele o seu romance usual” (OC, I, p. 569). No caso da crítica moderna, citou-se
anteriormente o conflito entre as perspectivas sociológica, a comparatista e a pirronista. Uma
visada coerente com as Memórias póstumas deveria suspeitar da primazia que as
interpretações conferem a um dos termos em contradição (a galhofa ou a melancolia, a
sinceridade ou a insinceridade, a aparência e a realidade), pois se explicita ali a construção
de pequenas teorias fundadas na contradição dos termos com a finalidade de compreender
tanto a natureza humana quanto as regras do jogo literário. Essa é a paridade que se
configurou no conjunto de crônicas que precedeu este romance. Resta dizer que o narrador
cético parece exigir, em espécie de duplicata socrática, um leitor igualmente cético.
5.3 A descristianização do ceticismo
423 MARTINS, Alex Lara. O ceticismo aporético nas Memórias póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis,
p. 93.
253
Se quisermos manter a diferença entre as instâncias narrativas – autor, narrador
e personagem –, devemos considerar o seguinte despropósito: o início do romance de
Machado narra a causa do óbito e o enterro do personagem, a despeito do título do capítulo
anunciar o “óbito do autor”. Assim, o prólogo original do romance, que noticiava o “jeito
obscuro e truncado” de explicar filosoficamente a vida e o mundo, e o prólogo da quarta
edição, assinado pelo autor M. de A., que realizava uma avaliação das primeiras impressões
do romance, ambos concorrem, temos visto, para a formação de uma trama com variações
aporéticas.
As referências teóricas no primeiro capítulo estão à vista: o Pentateuco,
fundamento do cristianismo, e o Hamlet, modelo ficcional do espetáculo trágico da vida
humana. Para desvendar o aparente paradoxo acerca do obituário, o narrador se compara a
Moisés, que escolheu narrar a sua morte no quinto livro do Pentateuco, imitando a vida
humana e deixando a impressão final do sepulcro. O que pretende o narrador do romance
senão inverter essa lógica natural, criando precedentes ao fazer nascer o autor no exato
momento em que morre o personagem? Essa espécie de ressurreição, uma outra opção à
morte comum, é o expediente fictício utilizado por Brás contra a incrível situação do autor
do Pentateuco, com vistas a dar credibilidade a seu próprio argumento condicional,
instaurado em forma de paradoxo. Nada muito diferente do que fora experimentado nas
crônicas de 1878. O defunto-autor não é apenas mais verossímil e original do que o autor-
defunto. A condição de morto confere à vida revivida graus de pretensa validade e
universalidade.
Não se deve esquecer que essa primeira referência teórica possui uma
componente cristã irredutível, a partir e contra a qual o narrador construirá a sua visão de
mundo cética, opondo versões de um mesmo fato e deixando-se estar entre eles. Do mesmo
modo, ele situará a personagem entre a figura negativa que Lucrécia Bórgia adquiriu com o
Camões ou a sua reabilitação por Gregorovius, ou entre as opiniões políticas do seu tio
militar e as do cônego (cap. IV). Retornando ao Moisés e ao contexto bíblico, o narrador os
imita a forma genealógica pela qual instituem uma linha hereditária consagrada. Lido à
contrapelo, percebe-se que a linha tem algo de pervertida: Moises é adotado pela família de
faraós, foge e retorna para cumprir as profecias de Abraão sobre a terra prometida. Brás
Cubas, igualmente, possui a linhagem indigna, sob a ótica do capital, dos lavradores, dos
254
tanoeiros e dos pacholas. Moisés redime-se e conduz o povo de Israel até a redenção,
libertando-o do pecado. O fim de sua trajetória coincide com a expedição das segundas leis
(Deuteronômio). Não seria muito compará-la à trajetória de Brás, cuja morte coincide com
a ideia fixa do emplasto – “divino emplasto [...] genuína e direta inspiração do céu” –, um
remédio que lhe apareceu às ideias em formato de enigma, e que também se destinava “a
livrar a nossa melancólica humanidade” por meio de um produto “verdadeiramente cristão”
(OC, I, p. 601).
O fracasso em dar vida e comercializar o produto é diminuído pela composição
e expedição do livro ao mundo dos vivos. É neste capítulo sobre a ideia fixa fracassada que
o narrador define os desígnios de sua própria narrativa:
importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de
um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente
filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona,
cousa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia
mais do que passatempo e menos do que apostolado (OC, I, p. 603)
O narrador cético arroga estar em melhores condições epistemológicas –
relativas à parcialidade, à perturbabilidade e à sinceridade – de descrever o mundo e as
relações humanas do que os ícones da filosofia, da religião e do apostolado teológico. Daí
que as reflexões e as pequenas teorias construídas por Brás Cubas possam ironizar, desdizer
e, eventualmente, complementar uma doutrina qualquer. O método de análise continuará
cruzando estes dados com as fontes disponíveis e o contexto intelectual do século XIX. Por
isso, cabe às próximas subseções apresentar as principais referências filosóficas do livro.
5.3.1 A metafísica de Aristóteles
O que é a metafísica? A pergunta que preocupou filósofos de Aristóteles até
Heidegger e de Ockham até Strawson possui respostas variadas, em geral genéricas e
conceitualmente intrincadas, que muitas vezes simbolizam, para o senso comum, a confusão
mental e a dispersão de palavreado do filósofo. As definições do ser enquanto tal, das
categorias ontológicas, das primeiras causas, da substância, do uno e do múltiplo, do espaço
e do tempo, da causação, da liberdade e do determinismo, das relações entre o físico e o
255
mental, todas elas podem parecer esdrúxulas para um sujeito não iniciado. Muito mais
quando a forma de exposição das doutrinas metafísicas possui aquela aridez germânica. Seja
como for, o romance de Machado também possui os seus rasgos metafísicos, ainda que
irônicos e romanceados, em que se pretende uma descrição genérica dos princípios que
cercam a vida humana.
Um desses princípios é a solidariedade do aborrecimento humano, definido
como a transmissão de energia que move as pessoas nos encontros, desencontros e
reencontros, de maneira a estabelecer influências emocionais recíprocas que entediam,
perturbam e aborrecem. Este princípio metafísico é descrito no capítulo intitulado “Que
escapou à Aristóteles”, por meio da metáfora de um jogo de bilhar:
Outra coisa que também me parece metafísica é isto: Dá-se movimento
a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o
impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou.
Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela – é uma simples
suposição; a segunda, Brás Cubas; a terceira, Virgília. Temos que
Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás
Cubas, o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até
esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí
como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos
sociais, e se estabelece uma coisa que poderemos chamar solidariedade
do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a
Aristóteles? (OC, I, p. 646).
A metáfora referia-se aos capítulos anteriores, nos quais Brás Cubas reencontra
Marcela, então bexiguenta, antes de encontrar-se com a sua noiva Virgília. A transmissão
de energia humana entre os encontros explica o estado desdenhoso de Virgília, cujo impulso
a levará até o Lobo Neves, que arrebatará de Brás a noiva e a candidatura à câmara. Nessa
espécie de sinuca moral, a sociedade é o carpete em que os indivíduos se debatem com vistas
à nomeada.
A referência à Aristóteles está truncada e merece algum esclarecimento. O
narrador está falando de metafísica, mas não se trata da discussão sobre as primeiras causas.
Tampouco ela gira em torno do estudo das relações causais, da mudança e dos componentes
físicos da natureza, embora a metáfora do jogo de bilhar dê o entendimento de se tratar de
uma explicação do movimento por meio de categorias aristotélicas: se algo move, deve haver
256
uma causa eficiente, algo que seja movido, o tempo, o “de onde” e o “para onde” se mover.424
Vale notar que a metáfora estabelece a relação entre a “transmissão de uma força” e “os
extremos sociais”, transportando os significados para a dimensão da ética e da moralidade.
Machado possuía, em sua biblioteca, as traduções francesas dos escritos morais
e políticas de Aristóteles.425 De acordo com o filósofo, as ações e atividades visam a um bem
qualquer, no caso da política, a honra e o bem comum, e no caso do indivíduo, o bem viver
e a felicidade, esta última considerada como o sumo bem, pois ninguém a escolhe tendo em
vista alguma outra virtude.426 Por meio do exercício ativo da razão, o homem pode discernir
as atividades virtuosas das viciosas, permanecendo feliz aquele que se empenha na ação ou
na contemplação do que está conformado à virtude. De acordo com Aristóteles, as virtudes
éticas são orientadas à boa ação, cuja finalidade é a ordenança do Estado, tendo origem no
costume e sendo transmitida por tendência e influência, por exemplo, as virtudes da justiça
e da amizade. As disposições de espírito louváveis também podem ter origem intelectual,
como a sabedoria e a prudência.
Uma vez que as virtudes morais são adquiridas e alteradas pelo hábito, entendido
genericamente como a transmissão de valores entre indivíduos, se nada que existe por
natureza é alterado pelo hábito, então, conclui Aristóteles, nenhuma das virtudes morais
surge em nós por natureza, embora esta nos forneça a capacidade de recebe-las, a saber,
aplicando o princípio racional da regra justa, dirigindo ações e paixões até o ponto mediano
entre a deficiência e o excesso.427 No caso das amizades e das relações amorosas, aquelas
que se fundamentam no interesse são acidentais, pois tem como fim não o bem da pessoa
amiga ou amada, mas a utilidade egoísta. Neste caso, as alianças são quebradas quando
cessam as vantagens.428 A reflexão brascubiana sobre o contato entre os extremos sociais
possui guarida na teoria aristotélica:
424 ARISTÓTELES. Física. 224b-227b.
425 ARISTOTE. La morale et la politique d'Aristote. Traduites du grec par M. Thurot. Paris: Firmin Didot,
1883-1884. 2 v. Consulta disponível em e
. Acesso em 15 mar. 2018. Entre as obras escolhidas pelo
editor estão a Ética Nicomaqueia (tomo 1) e a Política (tomo 2).
426 ARISTÓTELES. Ética Nicomaqueia. 1094a-1097b.
427 ARISTÓTELES. Ética Nicomaqueia, 1103a.
428 ARISTÓTELES. Ética Nicomaqueia. 1156a-1156b
257
as amizades úteis ou agradáveis são mais duradouras, ou melhor, duram
enquanto os amigos proporcionam prazeres ou vantagens uns aos
outros. A amizade que visa à utilidade parece ser a que mais facilmente
se forma entre contrários (por exemplo, entre pobre e rico, entre
ignorante e culto), pois as pessoas, de fato, ambicionam aquilo que lhes
falta e dão algo em troca.429
Aristóteles concedia demasiada importância à racionalidade na deliberação
sobre o verdadeiro e o falso, o justo e o injusto, a melhor e a pior atividade. Mesmo o costume
vil poderia ser redirecionado para ações boas. A repetição de atividades e o desenvolvimento
de algumas capacidades poderia ser orientada pela razão, que calcula, em situações
concretas, as condições mais favoráveis entre dois extremos morais.
Pode até parecer despropositada a referência do narrador à filosofia de
Aristóteles, ainda que estivesse declarada a intenção de suprir as suas lacunas. No esquema
da física aristotélica, a causa eficiente do primeiro movimento é o contato de Marcela com
Brás, cujo movimento pode ser compreendido como a aquisição de um vício. Brás se move
de Marcela até Virgília, num período de tempo, por assim dizer, corrompido. Assim como
ocorre com Eugênia, cujo defeito congênito o narrador satiriza indiretamente, aludindo à
“coxa de Diana”, ao “caminho de Damasco”, a descidas e subidas, a pés e pernas430, com
Marcela a sátira gira em torno do domínio metafórico temporal. Marcela amara-o durante
quinze meses e alguns contos, agora falava-lhe “longamente de si, da vida que levara [...]
das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a moléstia, adiantando-
lhe a decadência” (OC, I, p. 643). O mais cruel é que Brás encontrou Marcela por acaso,
supondo entrar numa casa de relojoeiro que consertasse o seu relógio quebrado.
O capítulo seguinte ao do encontro, mas anterior ao que descreve a situação em
que a teoria aristotélica poderia ser aplicada, intitula-se “A alucinação” (cap. XLI), e nada
tem a ver com o uso deliberativo da razão. Brás Cubas chegara a casa de Virgília após ter
encontrado, ao acaso, a sua paixão juvenil, Marcela, que o amou durante os onze contos de
réis. Agora com o rosto estigmado, a imaginação de Brás transfere o estigma para o rosto de
sua nova paixão, Virgília, sem o auxílio da razão e sem poder discernir o vício da virtude.
Talvez fosse o caso de admitir que o narrador estivesse ironizando a tese filosófica que
429 ARISTÓTELES. Ética Nicomaqueia. 1159b.
430 SCHWARZ. Um mestre na periferia do capitalismo, p. 59ss.
258
prescreve a busca pela felicidade individual e pelo bem comum através da contemplação das
virtudes. Ou talvez a ironia estivesse ligada ao fato de Aristóteles se importar mais com a
transmissão das virtudes do que com os vícios. Ironias à parte, ambos concordam que a
racionalidade pode ser mobilizada para a felicidade do indivíduo. No caso dos narradores de
Machado, no entanto, a racionalidade possui um sentido meramente instrumental. Quase
sempre ela é extraviada pelos desejos egoístas de conquistar a glória.
Por que Marcela é a primeira bola a rolar? A resposta simples é que ela
representa a primeira negativa de Cubas. A separação forçada significa a primeira vez que
lhe negam a vontade desmedida. Depois dessa primeira derrota, seguem-se outras: a morte
da mãe, a rejeição de Virgília, a morte do pai, o mandato interrompido, a folha política, o
filho abortado, o malfadado emplasto e outras desilusões, até o derradeiro capítulo das
negativas, em que Brás afirma não ter transmitido “a nenhuma criatura o legado da nossa
miséria” (OC, I, p. 733). Ledo engano. Embora não tivesse filhos, isto é, não ter transmitido
o seu legado, e apesar do malogro do emplasto ter deixado a humanidade “eternamente
hipocondríaca”, o próprio livro em que se narram as negativas é, paradoxalmente, o seu
único crédito. Isso pode explicar a paranoia do narrador em dar destaque à composição do
livro. Apesar dessa ânsia metódica, o domínio da razão não foi capaz de perscrutar
totalmente as razões metafísicas do vício. Daí o narrador pretender uma explicação em
termos “físicos”: a batida das bolas e a ilusão visual.
A lacuna da ética de Aristóteles, na visão brascubiana, reside no fato de que o
humano se extraviou, não sendo possível à razão identificar, repetir e se habituar a qualquer
ação puramente virtuosa. O que indica a intenção viciosa de Virgília – de abandonar o
noivado pela promessa de se tornar marquesa ao lado de outro homem – é a alucinação de
Brás, que faz formigar o rosto da moça, transmitindo vício ao vício: a doença de Marcela à
traição de Virgília. De acordo com Patrick Pessoa, o processo de interiorização da finitude
e da corrupção do tempo acaba por condenar Brás à inação: o “cavalo que empacara”, o
“olhar para os próprios pés” e a “alucinação”. A seleção destes momentos e experiências
antirracionais são esclarecedoras da finitude humana e orientam a posição filosófica do
narrador.431
431 PESSOA. A segunda vida de Brás Cubas, p. 141.
259
5.3.2 A metafísica de Quincas Borba
Os limites da razão e da lucidez são encurtados pela perspectiva do defunto-
autor, gerando uma espécie de pessimismo antropológico, tal como ocorre com as
perspectivas céticas de pensadores cristãos. O encurtamento das possibilidades da razão de
oferecer justificativas, para a ação ética ou para o extravio moral, provoca a condição
aporética do narrador, seja a paralisia ou o estado de insensibilidade mental (apathia), tal
como ocorre no capítulo anterior à alucinação, no caminho entre os encontros com Marcela
e com Virgília, seja a estupefação de não poder falar palavra (aphasia), estado em que Brás
contempla o rosto da noiva, seja a impossibilidade de se manter senhor das próprias ações
(apraxia), quando ele sentiu uma aparente imobilidade durante o percurso. O Humanitismo
faz o contraponto a esse estado aporético – a “filosofia do choramingas”, como lhe chama
Quincas Borba. Antes de passarmos a esta relação, devemos considerar que o capítulo “A
Alucinação” forma o trio antirracionalista com “O delírio” (cap. VII) e “A semidemência”
(cap. CLIX), e que este último é o remate do desmonte filosófico do Humanitismo.
O delírio do protagonista é o acontecimento anterior à transição formal em que
o narrador passa a encadear a sua biografia de maneira mais ou menos seriada. Portanto,
trata-se do último acontecimento filosoficamente significativo antes do óbito do personagem
e do nascimento do narrador cético. Maia Neto destaca quatro aspectos pascalianos da
passagem à dimensão reflexiva em que o narrador adota a perspectiva cética: a impotência
da razão diante de questões metafísicas, especialmente sobre o significado da condição
humana; a atribuição de opacidade e de incompreensão à figura feminina (Pandora), que
motiva a perplexidade do observador; a consciência da fragilidade opiniática é
universalizada e passa a figurar como característica da condição humana. Deste modo, o
orgulho, a vaidade e o egoísmo humanos são abatidos pela consciência de si, o que demanda
a “reinterpretação defunta” da vida; essa reinterpretação ocorre por meio da análise de
260
doutrinas filosóficas dogmáticas, de inspiração estoica e salvacionista, tais como as filosofias
positivistas encarnadas no Humanitismo.432
Há relativo consenso na crítica machadiana, seja a de vertente histórico-
sociológica, seja a comparatista, pela atribuição satírica de aspectos do Humanitismo ao
“bando de novas ideias” cientificistas que aportaram no Brasil durante a década de 1870 e
inspiraram o ideário “positivo” republicano, associando-se as imagens do progresso e da
modernização à noção de república.433 Neste caso, pode-se tratar o Humanitismo como uma
caricatura da classe intelectual a que Quincas e o próprio Brás pertencem, já que a teoria
fornece justificativas filosóficas para as práticas antiéticas da sociedade escravista, negando
a existência da dor – “a dor é uma ilusão” – e louvando o triunfo dos mais fortes – “ao
vencedor, as batatas”.434
Apesar da aplicação realista, o discurso de Quincas Borba está no campo
semântico dos estudos sobre a evolução das espécies e das civilizações, cujos destinos são
determinados e podem ser compreendidos pela racionalidade científica. Por isso, não é difícil
parear o catecismo positivista de Comte e o darwinismo social de Spencer435 às teses de
Borba em, pelo menos, três aspectos:
(1) A unidade metodológica: as pretensões de que exista e de que se empregue
um método único para conhecer os diferentes fenômenos naturais, sociais e humanos. Assim,
toda ciência e todo ser vivo podem ser estudados a partir de duas óticas fundamentais: “a
estática e a dinâmica, isto é, como apto a agir e como agindo efetivamente”.436 Do primeiro
ponto de vista, devem ser estudados os sistemas teóricos e as determinações anatômicas e
fisiológicas do ser humano. Do segundo ponto de vista, devem ser estudados os fatos lógicos
que levaram a humanidade a construir as teorias científicas, explicando os seus momentos
432 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 101-106.
433 SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras,
2015, p. 316.
434 SCHWARZ. Um mestre na periferia do Capitalismo, p. 46. FACIOLI. Um defunto estrambótico, p. 137.
435 Destaque-se na biblioteca de Machado os livros de Darwin (La descendence de l’homme et la sélection
sexuelle, em dois volumes, e L’origene des espèces) e de Spencer (L’individu contre l’état, Principes de
Sociologie e Principes de Biologie, estes últimos em dois volumes).
436 COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positivista. Trad. José Arthur Giannotti. São Paulo: Abril Cultural,
1978, p. 12. Os termos estática e dinâmica são referências à teoria newtoniana da mecânica dos materiais.
261
de mudança. Neste caso, Comte se volta contra o método psicológico, que consiste em
observar a si mesmo e analisar a própria moralidade:
É perceptível que, por uma necessidade invencível, o espírito humano
pode observar diretamente todos os fenômenos, exceto os seus próprios.
Pois quem faria a observação? [...] Ainda que cada um tivesse a ocasião
de fazer sobre si tais observações, estas, evidentemente, nunca
poderiam ter grande importância científica.437
A razão de Comte era a impossibilidade de o indivíduo pensante dividir-se em
dois: o que raciocina e o que se vê raciocinando. Em comparação com a metafísica, a
filosofia positivista julgava superadas discussões conceituais como a existência do mundo
exterior e a estrutura íntima da natureza. Embora não se possa reduzir a uma lei única a
explicação de todos os fenômenos, a matemática, a astrologia, a física, a química, a fisiologia
(biologia) e a física social (sociologia) são estudos cada vez mais complexos da realidade,
que se estabelecem pela “unidade do método”438. O estudo da sociedade é o modo pelo qual
se compreende os laços orgânicos entre os seres humanos. Nesse caso, as ciências especiais
se aproximam, mas nunca compreendem a realidade totalmente, uma vez que não se tenha
certeza, enquanto sujeito empírico a fazer ciência, de que os critérios que justificam as
crenças são os mais adequados.
Brás Cubas configura o seu método cético como exceção à regra de Comte.
Trata-se da observação e da avaliação moral da própria vida, sem a “clareza da exposição, a
lógica dos princípios, o rigor das consequências” (OC, I, p. 706) das teorias de Comte e de
Quincas:
Que isto de método, sendo, como é, uma cousa indispensável, todavia
é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e
à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do inspetor
de quarteirão. É como a eloquência, que há uma genuína e vibrante, de
uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e chocha (OC, I, p.
610).
Ao contrário do que pensava Comte, o relato de si, especialmente o relato do
delírio – “a contemplação destes fenômenos mentais” (OC, I, p. 606) – possui importância
científica. Em alguma medida porque a posição do defunto-autor é construída de modo que
437 COMTE. Curso de Filosofia Positiva, p. 13.
438 COMTE. Curso de Filosofia Positiva, p. 19.
262
o narrador seja capaz de falar de si e do mundo em que viveu sem que as suas asserções se
contaminem com aspectos subjetivos do personagem. O problema é que, no âmbito das
ciências humanas, as construções subjetivas subordinam o método e os materiais objetivos.
No caso das Memórias póstumas, diríamos que as distinções entre objetivo e subjetivo, entre
a sinceridade e a insinceridade, são irrealizáveis tendo em vista o que se disse, nas primeiras
seções deste capítulo, sobre a constituição aporética do romance. Quando o narrador for
capaz de manter uma visão puramente objetiva dos acontecimentos – com o “desdém dos
finados” (OC, I, p. 631) – então ele pode selecionar aspectos imorais da vida social e coloca-
los no centro do estudo sobre a substância da vida. Isso não significa que o próprio narrador
esteja em posição objetiva, neutra, veraz e amoral, pois o seu método de composição é tão
variado quanto as subjetividades:
Meu caro crítico,
Algumas páginas atrás, dizendo eu que tinha cinquenta anos,
acrescentei: "Já se vai sentindo que o meu estilo não é tão lesto como
nos primeiros dias". Talvez aches esta frase incompreensível, sabendo-
se o meu atual estado; mas eu chamo a tua atenção para a subtileza
daquele pensamento. O que eu quero dizer não é que esteja agora mais
velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero
dizer, sim, que em cada fase da narração da minha vida experimento a
sensação correspondente. Valha-me Deus! É preciso explicar tudo (OC,
I, p. 719).
(2) A reforma intelectual do ser humano: habituando-se com o pensamento
científico, justificado pela evolução da história das ideias, este novo ilustrado reformará as
instituições e será capaz de estabelecer uma visão de mundo comum, em que prevalecem a
solidariedade e a estabilidade do grupo social. O objetivo do método positivo é “formar um
bom sistema de hábitos intelectuais”.439 A “divisão do trabalho intelectual” é a pedra de
toque do empreendimento humano, em que se domina a natureza, legando o estado de
presciência, encaminhando-se linearmente para o progresso e para a harmonia social.
Segundo Comte, a averiguação histórica do espírito humano e de cada ramo do
conhecimento indica três fases distintas. E cada fase movimenta-se em diferentes etapas: a
fase teológica, em que as explicações correntes recorrem a entidades sobrenaturais; a fase
metafísica, que substitui a visão de mundo monoteísta pela perspectiva do conhecimento
439 COMTE. Curso de Filosofia Positiva, p. 14.
263
abstrato e se imiscui da investigação das causas gerais do universo; e a fase positivista, em
que a imaginação sobrenatural e a argumentação teórica são substituídas pela observação e
classificação de fenômenos e pela busca metódica por leis da natureza:
Daí três sortes de filosofia, ou de sistemas gerais de concepções sobre
o conjunto de fenômenos, que se excluem mutuamente: a primeira é o
ponto de partida necessário da inteligência humana; a terceira, seu
estado fixo e definitivo; a segunda, unicamente destinada a servir de
transição. [...] O ponto de partida sendo necessariamente o mesmo para
a educação do indivíduo e para a da espécie, as diversas fases principais
da primeira devem representar as épocas fundamentais da segunda. Ora,
cada um de nós, contemplando sua própria história, não se lembra de
que foi sucessivamente, no que concerne às noções mais importantes,
teólogo em sua infância, metafísico em sua juventude e físico em sua
virilidade? Hoje é fácil esta verificação para todos os homens que estão
ao nível de seu século.440
A luta entre as teorias é apenas o aspecto dinâmico do estabelecimento da
espécie. A filosofia positiva está destinada a prevalecer pelas lógicas do progresso e do
acúmulo de conhecimento, tal como o intelectual positivista prevalecerá sobre os não
reformados. A norma epistemológica do positivismo é fincada em uma porção da integridade
intelectual, qual seja, na esperança de que os cientistas liderem a fila de cegos da
humanidade, servindo como critério de emancipação e cura. A tentativa de reduzir o
comportamento humano a leis da física ou a descrições da biologia foi levada adiante por
Herbert Spencer, um adepto de teses darwinianas como a “sobrevivência do mais apto”. Os
métodos do capitalismo imitavam as leis da evolução, calcadas na imagem de um mercado
livre e competitivo.
No capítulo intitulado “O humanitismo”, Quincas expõe o seu sistema de
filosofia, como a positivista, “destinada a arruinar todos os demais sistemas”:
– Humanitas – dizia ele –, o princípio das cousas, não é outro senão o
mesmo homem repartido por todos os homens. Conta três fases
Humanitas: a estática, anterior a toda a criação; a expansiva, começo
das cousas; a dispersiva, aparecimento do homem; e contará mais uma,
a contrativa, absorção do homem e das coisas. A expansão, iniciando o
universo, sugeriu a Humanitas o desejo de o gozar, e daí a dispersão,
440 COMTE. Curso de Filosofia Positiva, p. 4-5.
264
que não é mais do que a multiplicação personificada da substância
original (OC, I, p. 705).
Estão aí reunidas as teses comtianas da divisão de fases e a identificação entre o
homem e o espírito do progresso. Como a descrição merecia explicações, Quincas afirma a
lei do mais forte e a necessidade de transmitir as propriedades da espécie aos indivíduos.
Assim, a inveja, a guerra, a fome e outros “sentimentos belicosos” excitam o princípio de
Humanitas, na medida em que promovem a luta, a separação entre o apto e o inepto, o forte
e o fraco, para benefício e felicidade do primeiro. O outro vive numa ilusão, como “quando
a criança é ameaçada por um pau, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme”
(OC, I, p. 706). Bastaria entender que o sacrifício, a dor e os flagelos têm como objetivo o
progresso humano, para que cada indivíduo achasse “a maior delícia do mundo em
sacrificar-se ao princípio de que descende” (OC, I, p. 708).
Nesse contexto teórico, o capítulo “O delírio” representa uma inversão ao
pensamento progressista. Ao invés do progresso retilíneo, a narrativa engata a marcha a ré
espiralada do espírito humano. Após se transformar em um barbeiro chinês e sentir-se
transformado na Suma Teológica de Tomás de Aquino, um defunto metafísico, Brás restitui
à forma humana e monta no lombo de um hipopótamo, que o leva à “origem dos séculos”.
Alcançaram a era de gelo, passaram pelo Éden, retornaram à tenda de Abraão, até aparecer
uma imensa figura de mulher, Pandora, mãe e inimiga, vida e morte. Essas contradições não
são coisas para o entendimento humano. O que Pandora ensina, como a deusa do caminho
de Parmênides, capaz de conduzir o entendimento humano para além das coisas do
entendimento, é que o espetáculo da vida, feito de lutas e sentimentos ruins, não possui o
sentido positivo que o Humanitismo lhe atribui. Aliás, apenas os “olhos do delírio” eram
capazes de revelar a “substância da vida”. A própria contradição era o que resumia e dava
unidade ao ser humano, mas este não podia compreender-se sem afirmar a própria miséria:
A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não
podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais
lenta e a imaginação, mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a
condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso
fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não
obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que
passava diante de mim – flagelos e delícias -, desde essa coisa que se
chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor
265
multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí
vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e
a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a
melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um
chocalho, até destruí-lo, como um farrapo [...]. Então o homem,
flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma
figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável,
outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário,
com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera
da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela
fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio,
e sumia-se, como uma ilusão (OC, I, p. 608).
Neste caso, como no de Parmênides, o ser sobrenatural de aparência feminina é
quem enuncia a “essência inabalável da verdade”.441 O deus ex machina do pré-socrático é
um dispositivo metateórico que explica como uma criatura que vive de engano e de
aparências pode acessar objetivamente a unidade do ser: a razão pura é o único caminho. A
diferença é que as únicas manifestações da razão, durante o delírio, foram no sentido de
fragilizar a própria razão: “reflexões de cérebro enfermo”, “curiosidade de delírio”,
“concepção de alienado”.
3) A religião da Humanidade: as reformas político-sociais promovidas pelo
homem ilustrado deveriam ter o objetivo específico de abrandar o ímpeto da classe burguesa,
sensibilizando-a de seu papel humanitário em relação à classe operária. A mulher e o
sacerdote seriam as duas forças capazes de reabilitar as virtudes éticas. A religião seria
necessária para “regular cada natureza individual e em congregar todas as
individualidades”.442 A moralização do capital e o abrandamento do egoísmo não seriam
obras originadas da crença no Deus cristão, mas da fé na Humanidade. A marcha do espírito
e a ideia de uma divindade do progresso não eram novidades para a geração que, durante a
década de 1850, glorificava Chateaubriand, Pelletan e Alverne. Mas a solução espiritualista
para a velha questão dos critérios de justificativa para o conhecimento passava, em larga
medida, pelo que denominamos, no terceiro capítulo, de “teologia de artista”. Embora
441 PARMÊNIDES. Sobre a natureza (DK 28 B1-9). In: Pré-Socráticos. Trad. José Cavalcanti de Souza et al.
São Paulo: Editora Nova Cultural, 2000 (Coleção Os Pensadores).
442 COMTE, Auguste. Catecismo Positivista. Trad. Miguel Lemos. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 138. E
ainda: “a própria composição deste catecismo logo indica a principal concepção do positivismo: o homem
pensando sob a inspiração da mulher, para fazer sempre concorrer a síntese com a simpatia, a fim de
regularizar a sinergia” (COMTE. Catecismo Positivista, p. 127).
266
espiritualistas e positivistas formassem grupos intelectuais distintos, o líder destes, Auguste
Comte, substituiu o misticismo estético pelo misticismo científico. Ele fundou a sua própria
religião como forma de apaziguar o caos social, de concorrer e superar as demais doutrinas.
Vale lembrar que ambas as formas de misticismo valorizavam os feitos
artísticos, culturais e científicos da tradição católica, incluindo na “biblioteca positivista”
títulos como A cidade de Deus e Confissões de Agostinho, O catecismo de Montpelier,
Pensamentos de Pascal, além das obras literárias de Lafayette e Chateaubriand. Em sua fase
mística, Comte publicou a Política Positiva ou Tratado de Sociologia Instituindo a Religião
da Humanidade (1851-1854) e o Catecismo Positivista ou Exposição Sumária da Religião
Universal (1852), nas quais pretendeu levar ao homem a boa nova positivista, isto é, uma
nova maneira de pensar comprometida com a “santa coligação social”.443
A tese da perfectibilidade humana possui inspiração em Condorcet, o iluminista
que traçou o esboço do progresso evolutivo da humanidade a partir de suas conquistas
técnico-científicas. Condorcet era para Auguste Comte o “precursor essencial”.444 Foi ele
quem adaptou, juto com Voltaire, os Pensamentos de Pascal, e ajudou a colorir a aura
científica do jansenista para as gerações de intelectuais do século XIX. Como Quincas
Borba, o líder positivista considerava Pascal uma espécie de “avô espiritual”:
Evidentemente a marcha contínua dos conhecimentos positivos
inspirou, há dois séculos, na célebre fórmula filosófica de Pascal, a
primeira noção racional de progresso humano, necessariamente
estranha a toda a filosofia antiga. Estendida em seguida à evolução
industrial e mesmo estética, mas permanecendo ainda muito confusa no
domínio do movimento social, tende hoje vagamente para uma
sistematização decisiva, que só pode emanar do espírito positivo, que
por fim se generalizou convenientemente [...]. [E]sse aperfeiçoamento
consiste essencialmente, tanto para o indivíduo como para a espécie,
em fazer predominar de modo progressivo os eminentes atributos que
distinguem a mais nobre humanidade da simples animalidade, a saber,
443 COMTE. Catecismo Positivista, p. 127. É curioso notar que, sem citar Cousin uma única vez, Augusto
Comte repete, ao fim da introdução ao Catecismo, o lema do líder ecletista (du vrai, du beau et du bien):
“Eis aí como a religião positiva abraça ao mesmo tempo as nossas três grandes construções contínuas, a
poesia, a filosofia e a política. A moral, porém, aí domina sempre, quer o surto de nossos sentimentos, quer
o desenvolvimento de nossos conhecimentos, quer o curso de nossas ações, de modo a dirigir sem cessar
nossa tríplice pesquisa do belo, do verdadeiro e do bom” (COMTE. Catecismo Positivista, p. 147).
444 COMTE. Catecismo Positivista, p. 120.
267
de uma parte, a inteligência, de outra, a sociabilidade, faculdades
naturalmente solidárias que mutuamente se servem de meio e de fim.445
Para se compreender a linha hereditária pascaliana assumida por Quincas Borba
é preciso reavivar a imagem do Pascal brasileiro, cientista e religioso. Essa imagem não foi
desfigurada pelos intelectuais antielitistas, mas adaptada à versão religiosa do positivismo
de Comte. As ideias positivistas já estavam vinculadas em algumas instituições brasileiras
de ensino desde a década de 1850, por exemplo, no curso de engenharia da Escola Militar
do Rio de Janeiro, renomeada Escola Politécnica em meados da década de 1870, numa clara
inspiração à instituição em que Comte se formou. No Brasil, Miguel Lemos e Teixeira
Mendes conheceram-se nesta escola, fundaram a Sociedade Positivista do Brasil e, um ano
após a publicação encadernada das Memórias póstumas, inauguraram a Igreja Positivista.
Quincas concebe o Humanitismo como uma “igreja nova” em que o amor “é um
sacerdócio, a reprodução, um ritual. [...] A transmissão da vida, longe de ser uma ocasião de
galanteio, é a hora suprema da missa espiritual” (OC, I, p. 705-706). Sacerdócio e amor eram
também os grandes atributos do ministério positivista. Ambos concebem a sua filosofia, ao
final da vida, como “a verdadeira religião do futuro” (OC, I, p. 732). Para Comte, o sexo
deve ser “abstraído de toda sensualidade”, de modo que a união conjugal vise a transmissão
da vida aperfeiçoada. O catolicismo inspira o positivismo em aspectos exteriores, como os
ritos, os santos e as liturgias, e em aspectos morais, como a consideração da reprodução
como uma missão a ser realizada com o mínimo prazer. A concupiscência e a comunicação
de qualidades inferiores seriam os pecados capitais. 446 A conversão de Comte, a sua
“regeneração moral”, deveu-se à sua devoção por Clotilde de Vaux, que se tornou a Virgem-
mãe do positivismo religioso. Quincas também relaciona aspectos da figura feminina – a
gestação, o altruísmo, a honestidade, a capacidade de procriar e amansar o espírito, por meio
da categoria do amor – à possibilidade de congraçamento dos seres humanos. Mas o filósofo
de Machado retorce os sentidos daqueles atributos, argumentando nas formas do absurdo e
da petição de princípio. O hiperracionalismo de Comte é feito de pastiche pela teoria de
Quincas. A maior desgraça da religião humanitista é “não nascer”, porque o ingênito não
participa de humanitas, não luta e não vence. E fora da luta não há transmissão do princípio
445 COMTE. Curso de filosofia positiva, p. 69-70.
446 COMTE. Catecismo Positivista, p. 271.
268
de humanitas. Neste caso, o rito sexual serve apenas para evitar a desgraça da esterilidade e
o pecado da paz social, não tendo nada a ver com o aperfeiçoamento moral de uma raça.
Retornando ao delírio encontramos Pandora a afirmar que a vida é um flagelo,
uma desgraça. O ensandecido Brás Cubas responde-lhe – como talvez o fariam Comte e
Quincas – estranhando o fato de a Natureza não ser apenas a mãe, que cuida, congrega e
concede a vida, mas a inimiga, que tortura, digere e mortifica. Embora a ética humanitista
também justificasse o flagelo, o egoísmo e a vaidade como formas de conservação do mais
forte, Pandora retira-lhe qualquer sentido evolutivo positivo ao mostrar a história da miséria
humana, do passado remoto até o último dos séculos. Tomando Brás pelas mãos, Pandora
pôde mostrar-lhe a redução dos séculos e o caminho da verdade. O dispositivo retórico
parmenídico, no entanto, não serve ao propósito de apreender racionalmente o absoluto, mas
de certificar que a humanidade é incompetente e incapaz de conhece-lo: “que diacho há de
absoluto nesse mundo?” (OC, I, p. 723). A consequência prática deste tipo de
antirracionalismo é uma visão melancólica do mundo:
Tempora mutantur. Compreende que este turbilhão é assim mesmo,
leva as folhas do mato e os farrapos do caminho, sem exceção nem
piedade; e se tiver um pouco de filosofia, não inveja, mas lastima as
que lhe tomaram o carro, porque também elas hão de ser apeadas pelo
estribeiro OBLIVION. Espetáculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno,
que anda muito aborrecido (OC, I, p. 717).
Segue-se a inação, a apraxia, e o “torpor moral e mental”. O narrador escreve
um capítulo inútil e o personagem passa a lastimar, como Heráclito, “o curso incessante das
águas” (OC, I, p. 718). A “lucidez” de Quincas atua pela última vez na vida de Brás,
motivando-o para o ministério de estado. A derrota política leva o narrador a encadear dois
acontecimentos ao final do livro: a “semidemência” do filósofo, cuja ironia é saber-se louco
e continuar propagando razão ao Humanitismo, e o saldo da vida de Cubas, cuja ironia é não
ter tempo para difundir o emplasto que salvaria a humanidade. Ainda assim, ele teve a graça
de não ter filhos, isto é, não transmitir a sua miserável condição.
5.3.3 A metafísica de Pascal
269
Sabemos que as Memórias póstumas têm o propósito metafísico de descrever a
“substância da vida” (OC, I, p. 628). Daí se dizer que o romance é filosófico, pelo menos
quanto à organização e à seleção da matéria, composta por “fatos que revelam a precariedade
humana”.447 O livro de Tomás de Aquino e o gato metafísico – que no romance Quincas
Borba será o animal metafísico que nunca leu Kant – completam as referências aos astros da
filosofia que Brás Cubas pretende superar. A metafísica de Aristóteles não veio ao acaso. A
doutrina de Quincas Borba, tampouco. Mas Pascal ainda é a mais óbvia referência filosófica
do romance.
Estão vinculadas ao pascalianismo outras três as duas concepções filosóficas em
combate no romance Memórias póstumas, quais sejam, o dogmatismo (expressos
diferentemente no positivismo Comte e no Humanitismo de Quincas) e o ceticismo do
defunto autor. Há pouco reconhecemos a importância do pascalianismo para a conversão do
positivismo científico ao positivismo religioso. Comte segue a tendência que renovou os
estudos sobre o jansenista durante o século XIX, considerando-o, ao mesmo tempo, um
mártir do progresso e do cristianismo. Quincas também reconhece a ascendência teórica de
Pascal, se bem que julgasse superar as consequências dramáticas de se ter consciência da
própria miséria.
O que faz o ceticismo do narrador senão supor a tolice de Quincas ao pintar-se
como um discípulo desastrado? A maneira zetética de jogar doutrina contra doutrina
configura-se, no romance de Machado, em um jogo de dogmas (positivismo, estoicismo,
salvacionismo) contra uma sátira a si (Humanitismo). Mas quando a própria sátira filosófica
é desacreditada e ridicularizada por eventos selecionados a dedo, não estamos mais em
posição de reconsiderar a verdade daquelas doutrinas. Em grande medida, o
descredenciamento da filosofia de Quincas potencializa-se quando se percebe que a
conversão mística é, no fundo, uma confusão entre os princípios da fé e da razão. Daí a
estranheza de se imaginar qualquer misticismo racionalista.
É claro que Quincas estava a subverter tanto os valores morais do senso comum
quanto os objetivos da reforma intelectual positivista. A sua estratégia argumentativa
consistia em “dirigir a intenção” de Brás, orientando-o para ações belicosas contra outros
447 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 93.
270
homens: “funda um jornal [...] desmancha toda essa igrejinha” (OC, I, p. 721). A ruína de
Brás não traz somente implicações teóricas como a suspenção do juízo e a perspectiva
melancólica de mundo. Na prática, as seguidas derrotas do discípulo atingem de morte a
própria posição que um rentista poderia ocupar nas relações sociais de trabalho. Nisso se
baseiam as interpretações histórico-sociológicas. A consciência de Brás era dirigida para que
se perdoassem os sentimentos imorais de um homem cuja existência foi marcada pela
exploração a outrem. Do mesmo modo, a miséria, a fome, as doenças e o domínio do ser
humano pelo próprio ser humano continuavam a ser vícios sociais, mesmo que
filosoficamente justificados pelo Humanitismo. Esta conclusão constituía-se um non
sequitur da tese de Comte, segundo a qual os seres humanos que contribuíram para o
progresso devem ser louvados de qualquer modo, para que se continue a cadeia do progresso
civilizatório: “os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos
mortos: tal é a lei fundamental da ordem humana”.448 As hipóteses de Quincas eram adições
projetadas para salvar a lei do progresso humano. Lançando mão de uma linguagem absurda
e disparatada, o máximo que o humanitista consegue, no entanto, é dar atenção aos efeitos
colaterais deste sistema, por exemplo, ao justificar as ações imorais de Brás e, pior, ao
fortalecer uma visão de mundo contrária à dele.
A posição contrária é a da antropologia pascaliana, segundo a qual os
divertimentos, as vaidades e toda sorte de baixeza são modos de ocultar nosso acesso à
condição em que estava o homem antes da queda adâmica. De acordo com Pascal, a
consciência das misérias é uma condição necessária, mas não suficiente para aceder ao único
meio redentor, a Bíblia. O que é paradoxal “é que o mistério mais distante do nosso
conhecimento, que é o da transmissão do pecado, seja algo sem o que não podemos ter
nenhum conhecimento de nós mesmos” (La 131 Br 434). A retórica dos termos contrários é
invocada pelo jansenista para justificar a razoabilidade da aposta, embora o meio redentor
estivesse além da ordem da razão (La 418 Br 233). Discorremos, nas seções 1.2, 2.2 e 4.3,
sobre uma das repercussões deste argumento, a saber, que a bestialização – a crença fingida
– é o caminho natural para a crença verdadeira, é a ponte para que o salto da fé tenha uma
passagem mais ou menos segura. Este argumento, descoberto por Victor Cousin e referido
448 COMTE. Catecismo Positivista, p. 152.
271
como “a última palavra da sabedoria humana”449, escandalizava o conservadorismo cristão,
como vimos nas seções citadas, como também contrariava o senso comum e o seu apego a
critérios sobre-humanos para as ações justas.450
Em que pesem os pressupostos teóricos diferentes, Quincas também defendia
que a bestialização e o reconhecimento da miserabilidade eram processos necessários ao ser
humano. Bestializar-se significa “prolongar o estado consciente” (OC, I, p. 722). A diferença
fundamental está na maneira ambígua com que concebem a transmissão do pecado. No caso
de Pascal, o pecado original é um dogma teológico que explica por que os seres humanos
são corrompidos e corrompem-se – pois a transmissão é continuada – uns aos outros. Comte
interpelou dizendo que a transmissão de moralidade é edificante quando se anulam os
aspectos concupiscentes do sexo. Para Quincas, a transmissão do pecado não tinha fonte
teológica nem orgânica. Ele estava mais próximo de uma interpretação ultraliberal daquela
passagem bíblica. O estado de inocência perdido implicava a necessidade do trabalho,
entendido como uma modificação intencional da natureza para supressão de uma
necessidade. O egoísmo, a competição e a luta fazem girar uma roda muito maior que o
indivíduo, como a grande colmeia da fábula das abelhas, de Mandeville. A liberdade que
paira sobre os homens, sem que ninguém a possa respirar, é a de aceitar a própria condição,
no mais das vezes, servil diante da roda da fortuna capitalista.
O amor fati revela, contudo, uma consequência inusitada. O procedimento
racionalista de autocompreensão implica, paradoxalmente, em sacrificar-se por algo que
supera o indivíduo, aceitando que essa é a melhor condição possível. Quincas repete que
Pangloss não era tão tolo como supôs e pintou Voltaire (OC, I, p. 707 e 732).451 Veja-se o
fragmento que narra um passeio pelo Engenho Velho, em que o filósofo incutia em seu
discípulo a ideia filosófica da luta. Apenas avistou uma briga de cães, Quincas ficou em
êxtase, arraigado ao chão, como se participasse da rinha. Ele argumenta, então, que em
449 COUSIN. Des Pensées de Pascal, II, p. 187.
450 COUSIN. Des Pensées de Pascal, II, p. 188.
451 Em seu obituário, publicado no início do romance Quincas Borba, lê-se: “Faleceu ontem o Sr. Joaquim
Borba dos Santos, tendo suportado a moléstia com singular filosofia. Era homem de muito saber, e cansava-
se em batalhar contra esse pessimismo amarelo e enfezado que ainda nos há de chegar aqui um dia; é a
moléstia do século. A última palavra dele foi que a dor era uma ilusão, e que Pangloss não era tão tolo como
o inculcou Voltaire... Já então delirava. Deixa muitos bens. O testamento está em Barbacena” (OC, I, p.
746).
272
alguns lugares do mundo os seres humanos disputam a vida com os animais, bestializando-
se. É como se nestes corpos prevalecesse somente a primeira natureza, sem a âncora do
pensamento e a roupa do costume. Apenas a ação da inteligência pode superar essa condição,
“com todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos” (OC, I, p. 721). A inteligência
calcula as debilidades humanas, mesmo sem resolvê-las. Após a ressalva, Quincas afirma:
– Vais compreender que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus
avôs espirituais; e, conquanto a minha filosofia valha mais que a dele,
não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz ele nesta
página? – E, chapéu na cabeça, bengala sobraçada, apontava o lugar
com o dedo. – Que diz ele? Diz que o homem tem “uma grande
vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o
universo ignora-o absolutamente”. Vês? Logo, o homem que disputa o
osso a um cão tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome;
e é isto que torna grandiosa a luta, como eu dizia. "Sabe que morre" é
uma expressão profunda; creio todavia que é mais profunda a minha
expressão: sabe que tem fome. Porquanto, o fato da morte limita, por
assim dizer, o entendimento humano; a consciência da extinção dura
um breve instante e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a
vantagem de voltar, de prolongar o estado consciente. Parece-me (se
não vai nisso alguma imodéstia) que a fórmula de Pascal é inferior à
minha, sem todavia deixar de ser um grande pensamento, e Pascal, um
grande homem (OC, I, p. 722).
Pode causar estranheza Quincas dizer que Pascal é o seu “avô espiritual”, dado
o otimismo de um e o pessimismo de outro em relação às capacidades racionais humanos.
Como nos lembra Vitor Cei, o pessimismo cristão de Pascal e a perspectiva galhofeira de
Machado rejeitam tanto a divinização quanto a nadificação do ser humano.452 O fragmento
citado apresenta o homem como um “caniço pensante”, em cujo pensamento repousa toda a
sua dignidade (La 113, 200 Br 348, 347). Quincas está reinterpretando esta tese, talvez de
modo enviesado, no sentido de que esta dignidade fosse capaz de restaurar o ser humano de
sua brutalidade. Saber que tem fome é a vantagem da inteligência sobre o estômago, que
dura enquanto houver fome, seja a fome de um indivíduo, seja a de uma sociedade à margem
do capitalismo. Neste caso, a fome é reveladora de uma teleologia que possui como critério
de seleção a divisão social do trabalho. Aquela é uma vantagem, por assim dizer, meramente
quantitativa. Entendida à contrapelo, diríamos que o tamanho da dignidade do pensamento
452 CEI. A voluptuosidade do nada, p. 201.
273
sobre a fome é proporcional à quantidade de barrigas famintas. É preciso deixar clara a
confusão intencional de Quincas sobre um ponto importante da consciência de si: a fome
como fato do mundo não extingue o pensamento, no entanto este só se torna legítimo quando
está diante da consciência da mortalidade, da qual a fome é apenas um aspecto.453 Este modo
enviesado de se apropriar da metáfora existencial resulta em expressões filosóficas com
sentidos radicalmente distintos: uma aponta a causa (hipotética) da finitude humana, que se
instancia na vida de Brás; a outra transforma a miséria em grandeza, corrigindo os efeitos
devastadores do pessimismo apenas ao divinizar o homem. No primeiro caso, o sentido
dedutivo parte da miséria de toda a humanidade para concluir-se que cada indivíduo é
miserável, não importa o que faça. No segundo, o sentido é relativo a um homem, que pode
ou não representar toda a humanidade, para o qual convergem os resultados de todas os
conflitos.
Machado instaurara em sua prosa a antropologia pascaliana desde as Notas
Semanais. A diversão de Alípio era um modo de consolar a miséria. A fascinação com que
observa os espetáculos de sangue transforma-o, sem que ele o soubesse, em besta humana.
Metamorfose semelhante à de Quincas Borba, quando este, na passagem citada das
Memórias póstumas, porta-se como um cachorro, antes e depois de refletir sobre a sua
condição. Este personagem revela o paroxismo da condição humana, que se constituiu,
teoricamente, desde a alegação consciente da ignorância socrática até os retoques finais com
a antropologia pascaliana. Aliás, a tradição cínica, enraizada em Diógenes de Sínope e
Luciano de Samósata, pode ser entendida como uma das referências para a construção desse
personagem filósofo. As palavras Quincas e Cínico possuem disposição fonética
semelhantes. Além disso, ambas têm significados que remetem ao animal canino: Κυνικός
significa “como um cão”, isto é, uma vida mais de acordo com os instintos naturais do que
com a superfluidade das convenções sociais e morais.454 A transformação do homem em cão
se completa no romance posterior, em que o filósofo e o cão compartilham o nome. A
453 BARBIERI. “Pascal atravessado por um olhar oblíquo”, p. 316.
454 Para a filiação do romance Quincas Borba ao cinismo literário, ver OLIVEIRA, Marcelo Fonseca Ribeiro
de. “A Filosofia em Machado de Assis: Diógenes de Sínope e Quincas Borba”. Machado Assis Linha. v. 9
n. 17. São Paulo, abr. 2016.
274
identificação com Agostinho aparece aí em carta enviada ao verdadeiro protagonista do
livro:
Quem sou eu, Rubião? Sou santo Agostinho. Sei que há de sorrir,
porque você é um ignaro, Rubião; a nossa intimidade permitia-me dizer
palavra mais crua, mas faço-lhe esta concessão, que é a última. Ignaro!
Ouça, ignaro. Sou santo Agostinho; descobri isto anteontem: ouça e
cale-se. Tudo coincide nas nossas vidas. O santo e eu passamos uma
parte do tempo nos deleites e na heresia, porque eu considero heresia
tudo o que não é a minha doutrina de Humanitas; ambos furtamos, ele,
em pequeno, umas peras de Cartago, eu, já rapaz, um relógio do meu
amigo Brás Cubas. (OC, I, p. 744)
A “consciência da extinção” ou a “consciência da morte” é um passo importante
da argumentação, respectivamente, de Quincas e de Pascal. Para ambos, o religamento ao
sobrenatural exige a renúncia a si mesmo, como na imagem “rei deposto”. A diferença é que,
distanciar-se de si e do mundo, para o jansenista, significava estar próximo de Deus, ao passo
que, para o humanitista, significava a alienação, corruptela da loucura. Não se trata apenas
de um sujeito cindido – o que daria asas à crítica ao sujeito autônomo da modernidade, que
domaria a natureza e guiaria a história –, mas de um espectador que percebe dentro de si um
outro desconhecido ou, em termos cristãos, os próprios demônios.455 Alienar-se significa
deixar de ser quem se é para fazer parte de uma massa amorfa de vontades, no caso brasileiro,
submetida aos ditames do capital. A semelhança entre as visões pode provocar enganos. Para
o Humanitismo, a renúncia a si não era um ato de caridade e altruísmo, mas de egoísmo
máximo. Essa renúncia era implicada pela compreensão racional das relações de
subordinação e de luta a que os indivíduos se submetiam metafisicamente. Aqui vai uma
grande diferença para os cínicos antigos, cuja forma de filosofar circunscrevia-se à ação no
mundo. O cinismo de Quincas assume um aparato metafísico e não apenas prático. Porém,
se negarmos as palavras professadas por Quincas e darmos atenção ao modo como ele é
representado, como um “homem louco”, um mendigo enricado que renega as convenções
sociais. Pascal: miséria humana tem como colateralidade o divertimento (fuga de si, tal como
o a transformação do próprio Quincas em Κυνικός – primeiro, rebaixado –, fisicamente –
455 MONTEIRO, Pedro. "Machado de Assis e Pascal: um contraponto. In: Marta de Senna e Hélio de Seixas
Guimarães (orgs.) Machado de Assis e o outro: diálogos possíveis. Rio de Janeiro: Móbile, 2012, p. 59-60.
275
numa briga de cães descrita nas Memórias póstumas, depois rebaixado – metaforicamente –
no próprio animal personagem de Quincas Borba.
O aspecto pascaliano do delírio de Brás revela a impossibilidade racional de se
aceder a verdades metafísicas, o que se opõe à doutrina humanitista. Por consequência,
sugerem-se outros caminhos: a desrazão ou a própria morte. “A contemplação desses
fenômenos mentais”, as “reflexões de cérebro enfermo”, a “concepção de alienado” e a “lei
de transtorno cerebral” são as fórmulas de que se vale o narrador para criar a sua antítese de
acesso às verdades pela fé. Supõe-se, inclusive, que a própria ciência agradecerá o relato
(OC, I, p. 606). O caso de Quincas ilustra, contudo, que o caminho da revelação pela loucura
também tem problemas.
Neste novo jogo de doutrinas, Pascal poderia denunciar a semidemência de
Quincas Borba, que é consciente da sua loucura, como próprio da condição humana.
Resumindo o Elogio da Loucura de Erasmo, dizia Pascal que “os homens são tão
necessariamente loucos que seria louco, de um outro jeito de loucura, não ser louco” (La 412
Br 414). Essa é a chave de leitura para o conto “O alienista”, publicado na mesma época que
Memórias póstumas. Neste conto, o médico alienista, obstinado em averiguar
cientificamente as condições mentais da população de uma pequena cidade, acaba
percebendo que apenas ele próprio não era louco. Portanto, afetado por “outro jeito de
loucura”, o médico trancou-se no hospício, após experimentar as “duas sensações contrárias”
de um cérebro enfermo e desequilibrado (OC, II, p. 260).
No outro lado da balança da equipolência, Quincas lutava pela integridade
intelectual, como maneira de sobreviver e integrar-se ao todo. Esta era uma luta interna que
não teria vencedores caso um terceiro ente não intervisse:
Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que estava louco, e esse
resto de consciência, como uma frouxa lamparina no meio das trevas,
complicava muito o horror da situação. Sabia-o, e não se irritava contra
o mal; ao contrário, dizia-me que era ainda uma prova de Humanitas,
que assim brincava consigo mesmo. Recitava-me longos capítulos do
livro, e antífonas, e litanias espirituais; chegou até a reproduzir uma
dança sacra que inventara para as cerimônias do Humanitismo. A graça
lúgubre com que ele levantava e sacudia as pernas era singularmente
fantástica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os olhos fitos no
276
ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um raio persistente
da razão, triste como uma lágrima...
Morreu pouco tempo depois [...]. (OC, I, p. 732).
Victor Cousin utilizara a mesma metáfora da luz e das sombras para referir ao
ceticismo cristão de Pascal.456 O que faz o jansenista após descrever as contrariedades
humanas é estabelecer uma relação de simetria entre elas e as figuras bíblicas. Machado
parece divergir desta última hipótese. Na verdade, ela pode explicar e até justificar o atual
estado de degradação moral. Porém, a transmissão do pecado e a genealogia que leva esse
mistério ao da ressurreição são, ainda, hipóteses inverossímeis ou antecedentes esotéricos
que não fazem par com a racionalidade estrita. Não se trata de uma crítica racionalista aos
artigos da fé. Como vimos, Machado estava com Pascal em relação à presunção da
racionalidade científica. Trata-se, todavia, de uma divergência formal, de chamar a atenção
para o caráter ficcional da própria hipótese pascaliana, mesmo que se lhe reconheça a
validade do condicional e a generalidade do escopo do argumento. Chateaubriand dizia que
apenas um cristão sincero era capaz de produzir uma antropologia de tal monta, que o Pascal
sofista era inferior ao Pascal cristão, e que os capítulos sobre a queda “não existiriam se
Pascal fosse incrédulo”. Perguntava-se, ainda, em que viria se tornar esse grande homem,
se não fosse cristão?457 Machado contornava a pergunta retórica de Chateaubriand, que
implicava o falso dilema, buscando outro modo de interpretar aquela antropologia.
Essa discordância fora maturada desde o contato com a antibíblia de Ernest
Renan e adensada durante a década de 1870. Curiosamente, uma alternativa à explicação
sobrenatural da natureza humana, que se configurava como crítica à Pascal, é mencionada
em duas crônicas de épocas distintas. A primeira, de abril de 1871, fora concebida sob o
pseudônimo Dr. Semana. A segunda, de julho de 1896, fora publicada na Gazeta de Notícias
e faz parte de “A semana”, a última série de crônicas de Machado de Assis:
[...] se a fizermos perpétua [a prosa], se atarmos a alma para que se não
arroje aí por esses céus infinitos, a contemplar as auroras que nunca
anoitecem, as estrelas que nunca se apagam, a prosa deixa de ser um
contrapeso constitucional, perde o seu caráter de poder moderador, fica
sendo um poder discricionário, um cárcere, uma algema, uma
condenação.
456 COUSIN. Du scepticisme de Pascal: première partie, p. 1032.
457 CHATEAUBRIAND. O gênio do cristianismo, v. II, p. 46-47.
277
Pascal dizia que o homem não era anjo nem besta. Eu peço licença às
suas ilustres cinzas para dizer que é uma e outra coisa. E esta natureza
semi-angélica e semi-bestial é que faz justamente a nossa grandeza,
porque em suma podíamos ser exclusivamente bestas (e o somos às
vezes).458
Este que aqui vedes jantou duas vezes fora de casa esta semana. A
primeira foi com a Revista Brasileira, o jantar mensal e modesto, o
qual, se não faltam iguarias para o estômago, menos ainda as faltam
para o espírito. Aquilo de Pascal, que o homem não é anjo nem besta, e
que quando quer ser anjo é que fica besta, não cabe na comunhão da
Revista. Podemos dizer sem desdouro nem orgulho que o homem ali é
ambas as coisas, ainda que se entenda o anjo como diabo e bom diabo.
Sabe-se que este era um anjo antes da rebelião do céu. Nós que já
estamos muito para cá da rebelião, não temos a perversidade de Lúcifer.
Enquanto a besta come, o anjo conversa e diz coisas cheias de
galanteria. Basta notar que, apesar de lá estar um financeiro, não se
tratou de finanças. Quando muito, falou-se de insetos e um tudo-nada
de divórcio (OC, IV, p. 1211).
A metáfora antropológica a que Machado se refere aparece, entre outros, nos
fragmentos La 121, 410, 430, 522 e 678 (Br 418, 413, 431, 140 e 358). No primeiro e no
terceiro fragmentos, Pascal defende a tese de que é perigoso representar o homem apenas
como animal ou como anjo, sendo vantajoso que ele conheça equilibradamente ambas as
condições, a depender da situação em que se encontra. No segundo fragmento, Pascal alude
à guerra interior de se querer renunciar às paixões ou à razão, tornando-se, respectivamente,
deus ou animal bruto. Ele repercutia o trecho de Montaigne sobre a loucura de querer-se
apenas inteligência, dissociando-se de qualquer sentimento corporal: ao invés de anjo, a
pretensão o transforma em besta.459 Os últimos fragmentos fortalecem a contradição, ao
afirmar a infelicidade de quem se mostra animal quando quer se mostrar anjo, e ao julgar
este ser “nascido para conhecer o universo”, mas ocupado com tarefas fúteis como apanhar
uma lebre. Essa metáfora compreensiva é sintetizada por outras, a do “caniço pensante”, da
qual já nos inteiramos, e a do “espírito coxo”, segundo a qual pessoas não conseguem
reconhecer as suas próprias limitações cognitivas naturais (La 98, 99, Br 80, 356).
458 MACHADO DE ASSIS et al. (Dr. Semana). “Badaladas”. Semana Ilustrada, n. 538, 2 abr. 1871, f. 4298.
Disponível em: . Acesso em 30 out. 2016.
459 MONTAIGNE. Ensaios, v. III, 13, p. 388.
278
Quisemos demonstrar que essa dualidade fundamental é um dos princípios de
composição dos personagens romanescos de Machado, o qual se desdobra em princípio
formal nas Memórias póstumas. As figuras femininas deste romance são todas ambíguas,
inclusive Eulália (Nhã-loló), acanhada e deselegante, mas nem tanto. Ela tinha
suavidade etérea casada ao polido das formas terrenas: expressão vaga,
e condigna de um capítulo em que tudo há de ser vago. Realmente, não
sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça, trajando
garridamente um vestido fino, um vestido que me dava cócegas de
Tartufo. Ao contemplá-lo, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi
que eu fiz uma descoberta subtil, a saber, que a natureza previu a
vestidura humana, condição necessária ao desenvolvimento da nossa
espécie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e dos
cuidados do indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os
sexos, ao passo que o vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai
as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a
civilização. [...] Ao pé da graciosa donzela, parecia-me tomado de uma
sensação dupla e indefinível. Ela exprimia inteiramente a dualidade de
Pascal, l'ange et la bête, com a diferença que o jansenista não admitia
a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que elas aí estavam bem
juntinhas – l'ange, que dizia algumas cousas do céu – e la bête, que...
Não; decididamente suprimo este capítulo (OC, I, p. 693).
Brás repete o argumento pascaliano acerca da supressão da primeira pela
segunda natureza. Há princípios naturais, contudo, que não se apagam diante do costume, e
vice-versa (La 125 Br 92). A indefinição do que seja vinculado a uma e a outra natureza
concede à condicional machadiana uma verossimilhança não sentida nos exemplos de
Pascal. A inversão das naturezas – neste caso, o tapa-sexo – é o princípio civilizacional, que
permite a reprodução e o povoamento. Daí em diante o narrador de Machado de Assis
intervém contra Pascal na mesma toada dos cronistas de 71 e 96. As duas naturezas são
simultâneas. Nua e coberta, Nhã-loló é anjo e besta. Ao pé da letra, o texto pascaliano define
o ser humano por meio de uma conjunção aditiva, que ressalta os aspectos de exclusão e de
negação: “não é anjo nem besta” (La 523 e 678 Br 145 e 358).
Brás Cubas e Machado de Assis estariam deturpando o pensamento de Pascal,
como pensa Ivo Barbieri na sequência de Roberto Schwarz e John Gledson? Considerando
a visada antropológica de Pascal como um todo, percebe-se a tendência de compatibilizar as
contrariedades fundamentais. A crítica de Machado tinha uma fundamentação lógica: para
279
se santificar, segundo a sua interpretação de Pascal, era necessário se bestificar. Eram tempos
lógicos diferentes nos quais o ser humano possuía tal ou qual característica, mas não ambas
no mesmo momento. Assim, o homem é tão miserável quanto mais se considera grande, e
reciprocamente, como num ciclo sem fim (La 122 Br 416). Apenas quem desconsidere todo
o movimento do ciclo pode dizer que ora ele é uma coisa, ora outra, e que, em cada momento,
ele está em apenas um dos extremos. Parece-me que Machado não estava deturpando a
mensagem de Pascal, ainda que a letra tomada pelo pé dê a entender outra coisa. A primeira
referência à natureza “semiangélica” e “semibestial” deixa claro que somos, às vezes, apenas
bestas. Machado discorda do espírito da mensagem, isto é, dos objetivos aos quais o
movimento do argumento induz. A intenção de Pascal é despertar no leitor algum sentimento
de admiração diante do espetáculo incompreensível e contraditório da natureza humana,
primeiro desarmando-o de qualquer tentativa de compreendê-la, depois provocando-o a
transferir a possibilidade de compreensão à Deus. Dizer simplesmente que o ser humano é
anjo e besta imobiliza a passagem de uma coisa à outra, embora continue a despertar “uma
sensação dupla e indefinível” no reprodutor da mensagem e, mais ainda, em seu receptor.
Deste modo, os movimentos que induzem as contrariedades são peças retóricas
cujos critérios de emissão são devidos às desvantagens e aos perigos da representação (La
121 Br 418). As desvantagens têm a ver com o conhecimento da própria natureza, que não
se encerra no primeiro ciclo de contrariedades. Os perigos dizem respeito ao extravio da
verdadeira religião, quando o ciclo é rompido por um dos contrários. A referência do Dr.
Semana já reconhecia o valor da instituição retórica da “prosa” para a exposição da natureza
humana, ou seja, um ponto de vista “moderador” capaz de conhecer e superar o ciclo de
contrariedades. Machado percebe que a representação das contrariedades está mais adequada
à ficção do que à apologia. Mas não qualquer tipo de ficção. Era necessário arquitetar um
ponto de vista para o narrador que não fosse perturbado pelas agitações e os divertimentos
da vida mundana. Esta era a maneira de descristianizar o ceticismo. De acordo com Maia
Neto,
Brás Cubas desfaz a reconstrução pascaliana do pirronismo. Pascal
percebe o caráter anti-cristão da busca pirrônica pela indiferença e
tranquilidade e busca mostrar que os humanos precisam ficar
intensamente interessados na sua própria salvação. Dada a não
disponibilidade desta opção religiosa, Brás Cubas retorna aos fins
280
práticos pirrônicos. A posição de Brás Cubas, embora contrária à de
Pascal, é igualmente radical: uma indiferença e um distanciamento
absolutos representados pela sua condição defunta.460
Pascal poderia dizer que alguém na situação de tédio absoluto só pode pensar
em sua precariedade fundamental: a condição da mortalidade. A posição narrativa de Brás
Cubas constrói-se como hipótese alternativa inversa ao drama pascaliano. Melhor seria dizer
que o ponto de vista de quem passa à condição de homem morto é adequado para se
contemplar as precariedades fundamentais do ser humano. A sensação de tédio derivada
desta contemplação é inicialmente dolorosa. Porém, quando se percebe o fracasso
incontinenti das ações, a renúncia à ação e às escolhas significa remediar as dores da vida,
que nos inflige escolher. Como alguém que toma os remédios para a cefaleia antes mesmo
dos sintomas aparecerem, o hipocondríaco é aquele que antecipa compulsivamente a gênese
de qualquer indício de doença, criando a cadeia de causa e efeito entre o ínfimo e o inevitável
da morte. A função terapêutica do tédio curaria o homem de suas pretensões
epistemológicas, corrigindo-o, quer dizer, tratando-o preventivamente. Ao antecipar a morte
– a precariedade fundamental – e colocar-se em permanente autoexame, o ceticismo
brascubiano se torna uma alternativa às teses da integridade intelectual acadêmica e da
fundamentação das crenças agostiniana.
Na esteira do positivismo, a doutrina de Quincas apregoava a divinização
humana, por meio da ostentação linguística cientificista, como forma de se abrigar da
tempestade das crenças. Embora o indivíduo, sozinho, não pudesse compreender a
totalidade, o que se pregava, em seguida, era que as lutas entre os discursos e entre os
produtores de riqueza eram manifestações de um ente globalizante, para o qual a derrota, a
pobreza, a fome e a morte constituíam-se como crenças e impressões não passíveis de
assentimento. Como vimos no capítulo anterior, o projeto Agostiniano de reabilitação das
crenças – de assentir a algo que não se compreende racionalmente – está ligado à reflexão
existencial sobre o perecimento e a morte. A angústia, o desespero e o tédio podem se seguir
à consciência da finitude, como demonstra repetidamente a vida de Brás Cubas.461 A outra
saída – para Agostinho uma saída necessária – era entregar-se irresistivelmente ao
460 MAIA NETO. O ceticismo na obra de Machado de Assis, p. 125.
461 AGOSTINHO. Confissões. IV, 4-6, p. 104-106.
281
transcendente, interpretando-o a partir do receituário cristão impresso na Bíblia. 462 A
antropologia pascaliana assinala a possibilidade de existirem verdades inacessíveis ao ser
bestializado. Segue-se a necessidade da aposta e a verossimilhança da doutrina cristã. A
rejeição do defunto autor quanto à virtualização dos aspectos bestializantes do ser humano
não o leva à adoção da perspectiva cristã. Pelo contrário, eu pretendi mostrar que a
descristianização do ceticismo tem início, nas Memórias póstumas de Brás Cubas, como
uma oposição ao discurso bíblico e ao receituário cristão. A aposta não é necessária porque
o próprio argumento pela doutrina compõe-se de artifícios retóricos que beiram à
condicionalidade, recorrem ao absurdo e ao contrafactual, tais como as peças de ficção.
Em síntese, o jogo de doutrina contra doutrina tem como turno inicial a
antropologia cética e cristã de Pascal, cujo movimento remete à glória em Deus. Em seu
combate, apresenta-se a versão religiosa do positivismo (Comte), que faz girar a glória em
direção aos Homens. O terceiro movimento deste jogo assenta-se sobre o tablado ficcional,
onde se faz o pastiche ao positivismo (Quincas Borba). Esta jogada reproduz, colateralmente,
uma das consequências da antropologia pascaliana, qual seja, a miséria do homem sem Deus,
pois a glorificação da razão também é sinal da loucura. No turno derradeiro, a jogada de
mestre do defunto autor estrutura uma narrativa que ironiza os posicionamentos das três
doutrinas anteriores (cristianismo, positivismo e cinismo). Nesse sentido, a descristianização
do ceticismo pascaliano apresenta semelhanças com o cinismo moderno ou, como o
apresenta Vitor Cei, com a galhofa ao niilismo, “problematizando-o e tornando-o matéria de
ficção”.463
A metafísica particular de Brás Cubas elucida o processo de formação de
crenças, fincado na impossibilidade de as justificarmos racionalmente. O narrador constrói
uma teoria da opiniática humana, que se associa ao embate moderno sobre o ceticismo antigo
que tracei no capítulo anterior, mas pode ter repercussões muito mais abrangentes. O caráter
vacilante da razão, explícita nas metáforas do anjo-besta e do espírito coxo, é abstraído pelo
livro e, em seguida, para o leitor. O “coxo” de Pascal quer metaforizar o homem decaído do
cristianismo. O híbrido de anjo e besta resolve-se, em hipótese, apenas no registro
sobrenatural. Por isso é razoável aplicar a fórmula conjuntiva negativa. O “coxo” de
462 AGOSTINHO. Confissões. IX, 12-14, p. 224-253.
463 CEI. A voluptuosidade do nada, p. 204.
282
Machado significa ora uma feição pessoal (Eugênia), ora uma característica social
(brasileira), ora a própria condição de insuficiência humana. Como os ébrios, “guinando à
esquerda e à direita” (OC, I, p. 671), o estilo do narrador se adapta à volubilidade e à
deformidade natural dos personagens, e busca preencher as lacunas com ditos da
imaginação, joguetes espirituosos e hipóteses verossímeis. Como tudo indica, essa
volubilidade essencial é o que permite a consideração filosófica da obra de Machado de
Assis, a despeito, quer dizer, ainda mais quando ela é expressa num aparato ficcional. Neste
caso, a intenção teórica de tornar-se artista, e não filósofo, é subtraída pela recepção e pelo
impacto da obra sobre nós, humanos.
283
CONCLUSÃO – O TESTAMENTO FILOSÓFICO DE MACHADO DE ASSIS
Machado de Assis faleceu aos vinte e nove dias de setembro de 1908 sem deixar
descendentes. O seu segundo testamento contava doze apólices de dívida pública, algum
dinheiro depositado em caderneta, além de móveis, objetos, livros, tudo legado a sua herdeira
universal, a sobrinha-neta Laura. Deixou-nos, todavia, uma grande obra escrita, imaterial,
para a qual não forneceu maior orientação de destino além de mencionar que ela pertenceria
a seu editor.464 É difícil saber o que ele escreveria se vivesse bem, mais uma ou duas décadas.
Eugênio Gomes chega a esquematizar o seu testamento estético, em que a teoria metafísica
do homem apresentava um maneirismo alegórico e mítico, o que permitiu à narrativa dar
universalidade às ações e transcender as limitações do tempo histórico.465 De maneira geral,
a crítica localizou as Memórias póstumas como o momento inicial desta perspectiva
filosófico-literária de mundo. Contudo, se considerarmos o itinerário de errâncias teóricas
da primeira juventude de Machado de Assis, como a adoção das perspectivas cristã,
progressista e liberal no fim dos anos 1850 e a perspectiva ecletista do início dos anos 1860,
notaremos que o desenvolvimento do seu pensamento ficcional esteve ligado à reflexão
sobre a poesia, a política, à moral do drama e o estudo de caracteres, tornando a elaboração
das Memórias póstumas uma circunstância tardia em seu plano teórico.
O testamento estético, como quer Eugênio Gomes, está relacionado a uma
concepção sui generis de homem e de mundo, expressa de maneira bastante adequada em
uma plataforma ficcional. No mesmo sentido, é possível falar de um testamento filosófico
de Machado de Assis. Considera-se como testamento a percepção e a transmissão do
significado da própria obra, no caso de Machado, vale dizer, os tais significados comportam
uma tradição de pensamento que responde a questões filosóficas específicas, daí qualifica-
lo como “filosófico”. Resta dizer que o testamento é uma declaração voluntária e
pessoalíssima, que nomeia os objetos de transmissão em consideração a um destinatário. O
portador dos significados de uma obra imaterial não é a editora nem alguém que detém, por
464 Os testamentos de Machado de Assis podem ser consultados em FRANCO, Gustavo (Org.). A economia
em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 247-253.
465 GOMES, Eugênio. “O testamento estético de Machado de Assis”. In: MACHADO DE ASSIS, Joaquim
Maria. Obra Completa. v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, p. 1097-1120.
284
direitos civis, a autoridade circunstancial. Neste caso, os destinatários são os leitores e os
intérpretes, de quem se espera a reconfiguração dos indícios textuais, biográficos e
conjunturais do defunto, de modo a prover-lhe novas vidas cultivadas, agora, no domínio da
interpretação.
De Machado temos a sorte de encontrar, em sua correspondência tardia,
indicações precisas com as quais e, principalmente, contra as quais ele pôde construir uma
visão filosófico-literária de mundo. Ele publicou o seu testamento em 1896, retificando-o
em maio de 1906. Três meses depois, ele escreveu a Joaquim Nabuco uma longa carta, em
que se pode reconhecer um verdadeiro testamento intelectual.
[Rio de Janeiro], 19 de agosto de 1906
Meu querido Nabuco,
Quero agradecer-lhe a impressão que me deixaram estas suas páginas
de pensamentos e recordações. Vão aparecer justamente quando Você
cuida de tarefas práticas de ordem política. Um professor de Douai,
referindo-se à influência relativa do pensador e do homem público,
perguntava uma vez (assim o conta Dietrich) se haveria grande
progresso em colocar Aristides acima de Platão, e Pitt acima de Locke.
Concluía pela negativa. Você nos dá juntos o homem público e o
pensador. Esta obra, não feita agora, mas agora publicada, vem mostrar
que em meio dos graves trabalhos que o Estado lhe confiou, não repudia
as faculdades de artista que primeiro exerceu e tão brilhantemente lhe
criaram a carreira literária.
Erro é dizer, como Você diz em uma destas páginas, que “nada há mais
cansativo que ler pensamentos”. Só o tédio cansa, meu amigo [...] Tam-
bém não é acertado crer que “se alguns espíritos os leem, é só por
distração, e são raros”. Quando fosse verdade, eu seria desses raros.
Desde cedo, li muito Pascal, para não citar mais que este, e afirmo-lhe
que não foi por distração. Ainda hoje, quando torno a tais leituras, e me
consolo no desconsolo do Eclesiastes, acho-lhes o mesmo sabor de
outrora. Se alguma vez me sucede discordar do que leio, sempre
agradeço a maneira por que acho expresso o desacordo [...]
Confessando e definindo a influência de Renan em seu espírito,
confessa V. ao mesmo que “o diletantismo dele o transviou”. Toda essa
exposição é sincera, e no introito exata. Efetivamente, ainda me lembra
o tempo em que um gesto seu, de pura fascinação, me mostrou todo o
alcance da influência que Chateaubriand exercia então em seu espírito.
O estudo do contraste destes dois homens é altamente fino e cheio de
interesse. Um e outro lá vão, e a prova melhor da veracidade da
confissão aqui feita é a equidade do juízo, a franqueza da crítica, o
285
modo por que afirma que, apesar da religiosidade do exegeta, não se
pôde contentar com a filosofia dele (C, V, p. 121-124).
Embora Machado dedicasse essa longa carta a uma apreciação da obra de
Joaquim Nabuco – qual seja, Pensées détachées et souvenirs, contendo os Pensamentos,
Massangana: souvenir d’enfance e L’influence de Renan –, o seu conteúdo recriava as
memorabilia em comum, já que Machado fora uma espécie de preceptor de Nabuco.
Recebendo-o dentro das associações e dos meios intelectuais durante a década de 1860,
provavelmente indicou ao pupilo o que julgasse filosoficamente adequado para a sua
formação. Em artigo publicado no Diário do Rio de Janeiro, em de 1865, o jovem crítico de
25 anos sugeriu ao menino poeta de 15 que o estudo da língua e dos modelos deveria
aperfeiçoar a obra vindoura, como que estivesse a indicar certas leituras. Quintino Bocaiúva
e Machado de Assis eram, na visão de Nabuco, “o Castor e Pólux dos meus quatorze
anos”466, isto é, guias intelectuais. Em carta aberta à imprensa, Nabuco não admitia o título
de poeta, pois pretendia mesmo alistar-se “nas fileiras dos mais medíocres apóstolos do
positivismo” (C, I, p. 81). Não foi uma coisa nem outra: seguira a vocação do pai e
deslumbrou-se com outras influências: primeiro Chateaubriand, Lamartine, Pelletan — mais
lidos pela geração de Machado — e Ernest Renan, coetâneo da geração de Nabuco; depois
Pitt, Spencer e Bagehot, o grande constitucionalista inglês. 467 Aliás, o próprio Nabuco
aproximou as figuras de Renan e Machado em sua biografia intelectual.468 Além de Pascal e
Renan, a carta-testamento apresentava outras referências, como o Eclesiastes, Platão, Locke
e Schopenhauer.
Ao reconstituir as referências intelectuais de Machado, durante os primeiros
capítulos, encontrou-se um eixo comum ao redor do qual as questões filosóficas ganhavam
inteligibilidade. A minha tese é que este eixo teórico é a filosofia pascaliana, que faz girar
as outras engrenagens de pensamento (individual e coletivo). Adaptada ao contexto
brasileiro, a filosofia– ou a figura – de Pascal foi importante para a solução ecletista a
466 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria; NABUCO, Joaquim. Correspondência entre Machado de Assis e
Joaquim Nabuco. ARANHA, Graça (Org.). Brasília, Ed. UNB, 2014, p. 119. Segundo a mitologia grega,
Castor e Pólux eram gêmeos de Leda. O pai de Castor era o humano Tíndaro e o de Pólux, Zeus. Após a
morte do irmão, Pólux pediu a Zeus que oferecesse a ele o dom da imortalidade, pelo que foram os irmãos
transformados na constelação de Gêmeos, uma das referências para os navegadores.
467 NABUCO. Minha formação, p. 25ss.
468 NABUCO. Minha formação, p. 71.
286
desafios de ordem política, religiosa, econômica e estética, como podemos notar de maneira
mais aproximada na biografia de Nabuco.
Deslumbrados com a interpretação cética realizada por Cousin, que casava no
jansenista o movimento conciliatório entre o progresso científico e o cristianismo, Monte
Alverne (sobretudo nos Sermões) e Gonçalves de Magalhães, por exemplo, puderam propor
as teorias salvacionista e romântica que conciliassem a cultura originária e a civilização
ocidental, cânones católicos e ajustes anticlericais. O Pascal de Cousin sintetizava o próprio
movimento das teorias filosóficas em passagem – o materialismo, o racionalismo, o
ceticismo e o misticismo – que o método ecletista descrevia tirando de cada um aquilo que
julgasse de melhor proveito. Machado esteve imbuído de igual espírito, ainda mais após as
leituras de suas três Bíblias da mocidade: Chateaubriand, Pelletan e o próprio Alverne, que
figurava como uma espécie de patrono nacional do romantismo filosófico, tendo sido
aclamado, em 1848, pela associação do Ensaio Filosófico, o “mais genuíno representante da
filosofia do Brasil”.469 As principais polêmicas da juventude – a filosófica, contra Joaquim
Serra; a religiosa, contra o monsenhor Pinto de Campos; a literária, contra Joaquim Macedo
– foram tentativas de harmonizar, ecleticamente, aqueles princípios e outros. Essas
polêmicas permitem responder à questão de como a geração de Machado de Assis teve
contato com a filosofia pascaliana.
A primeira polêmica foi induzida por Paula Brito no jornal A Marmota, em 1858,
por meio de um desafio: produzir um ensaio filosófico sobre uma versão do problema de
Molyneux, qual seja, se um cego congênito, após conquistar a visão, poderia discernir as
formas dos objetos utilizando apenas este sentido. O mote adicionava um elemento moral:
se o cego congênito era mais feliz do que alguém que perdera a visão. A referência imediata
da disputa teórica é Monte Alverne, que acabara de retornar ao púlpito, cego pela amaurose,
um “inspirado por Deus”, nas palavras do próprio Machado, “mas infeliz” (OC, III, p. 980).
Gonçalves de Magalhães o considerava o epígono do romantismo; Sílvio Romero, o primeiro
filósofo brasileiro digno do nome; e Porto Alegre via nele “o justo, o santo, o consagrado
(...), o homem de Pascal, o elo inteligente e progressivo daquela cadeia humanitária”.470
469 BITTENCOURT. “Introdução aos trabalhos oratórios e literários”, p. 438.
470 PORTO ALEGRE Apud DURAN, Ecos do púlpito, p. 123.
287
Alverne era tido como o introdutor do ecletismo espiritualista no Brasil, embora
a historiografia contemporânea tenha dados para desmentir essa hipótese. Inspirado por esta
corrente de pensamento, Machado ensaiou sobre a tese de que o cego congênito é mais infeliz
por três motivos: em primeiro lugar, porque ele não pode explorar totalmente o mundo, ou
seja, porque percebe menos dados, também adquire menos conhecimento. Mutatis mutandis,
da epistemologia até a ética, um sentido a menos significa menos felicidade. Em segundo
lugar, a privação de grande parte das ideias simples originadas do órgão visual empobrece a
representação mental de ideias complexas, que podem ser combinadas pelas faculdades da
imaginação e da razão. Portanto, do ponto de vista qualitativo, um sentido a menos significa
a impossibilidade de se contentar com as belezas do mundo. Em terceiro lugar, se
considerarmos este mundo um efeito ou manifestação da existência de Deus, então não
podemos formar uma ideia exata da divindade, pelo menos não em comparação com alguém
que possuiu, um dia, todos os sentidos.
Embora a discussão ocorresse em termos tipicamente lockianos, é mais razoável
imaginar que Machado consultasse os compêndios de filosofia acessíveis durante a década
de 1850, especialmente aqueles de inspiração ecletista, largamente divulgados nos
periódicos, como as Lições de Filosofia de Laromiguière, o Manual de filosofia de Ponelle
(ambos arremedados pelo Compêndio de Filosofia de Alverne), e o próprio Curso de
História da Filosofia de Cousin, disponível em tradução de Antônio Pedro de Figueiredo, o
“Cousin fusco”. Portanto, não estranha Machado considerar-se, já na polêmica dos cegos,
um ecletista espiritualista, capaz de manejar e conjugar conceitos e escolas filosóficas
díspares, por exemplo, as tentativas de provar a existência de Deus a partir da realidade física
e de conciliar a tese racionalista das ideias inatas e a tese empirista da aquisição das ideias
pelos sentidos:
[N]ão somos nem espiritualista puro, nem materialista; harmonizamos
as doutrinas de ambas as escolas e seguimos assim em ecletismo com o
qual nos damos às mil maravilhas.
Quanto ao reconhecimento de Deus em suas obras, repetimo-lo, o cego
de nascença não pode conceber uma ideia exata, clara, perfeita da
divindade; isto não quer, porém, dizer que ele não possa ter dela ideia
alguma, pois, como dissemos acima, equilibramos com mais perfeita
harmonia o espiritualismo e o materialismo (OC, III, p. 984).
288
A segunda polêmica esteve relacionada a uma tentativa de conciliar uma
perspectiva literária sobre a religiosidade e uma perspectiva liberal sobre a política. Machado
investiu contra a folha católica A Cruz, entre 1864 e 1865, polemizando diversos temas
religiosos com o monsenhor Pinto de Campos, um tradicionalista ultraconservador.
Machado acusava a impiedade do clero brasileiro, ironizando, à maneira de Pascal, a moral
casuísta e as suas relações pouco ortodoxas com o poder secular. E mais: chegou a defender
a “antibíblia” de Ernest Renan contra a decisão do Gabinete Português de Leitura, que
seguira a sugestão de Pinto de Campos de censurar a obra, o que levou Machado a recorrer
à Pascal:
Estou plenamente convencido de que as iras do clero, as injúrias dos
livros e dos púlpitos tiveram grande parte no sucesso obtido pela obra
de Renan. Neste ponto é impossível deixar de reconhecer que os
refutadores foram de uma inépcia sem nome. Toda a gente quis ler o
livro do Anticristo, e as edições foram sucessivamente esgotadas.
Todos sabem o que são essas injúrias e doestos, em completa oposição
com a brandura evangélica. É coisa velha, e eu receio repetir uma
observação de cabelos brancos.
“Começai, diz Pascal, por lastimar os incrédulos, que são muito
infelizes; só se poderia injuriá-los no caso de que isso lhes servisse;
mas, pelo contrário, faz-lhes mal” (OC, II, p. 202)
A terceira polêmica encerrou uma motivação estética igualmente conciliatória:
Machado estava a buscar, junto aos teóricos da Revue des deux mondes, reduto dos ecléticos
espiritualistas, um princípio formal com o qual pudesse julgar as obras dramáticas de
românticos e realistas independentemente dos critérios de escola. Machado pensava o teatro
tanto como plataforma edificante para o público como quanto um gênero artístico autônomo
em relação à filosofia política e à moral. A polêmica foi contra a posição de Macedo Soares,
segundo a qual o drama era produto do liberalismo econômico, sendo a competição entre
escolas a medida que alavancaria a qualidade das produções artísticas e, por conseguinte,
aperfeiçoaria ou retificaria o gosto e a moral do público.471 Para Machado, membro do
Conservatório Dramático, a medida deveria ser a própria crítica teatral, alinhada à estética
contemporânea, isto é, aos teóricos da Revue, que defendiam uma dramaturgia de caracteres
como critério de avaliação estético. Neste caso, julgava-se verificando a concordância entre
471 SOARES. “O teatro, a concorrência e o governo”. f. 1-2.
289
os preceitos da escola, qualquer que ela fosse, a definição contrastiva dos tipos e a construção
de uma psicologia verossímil aos acontecimentos, de modo a se perscrutar algo da própria
natureza humana, finalidade última do fazer artístico.
As minhas opiniões sobre o teatro são ecléticas em absoluto. Não
subscrevo, em sua totalidade, as máximas da escola realista, nem aceito,
em sua plenitude, a escola das abstrações românticas; admito e aplaudo
o drama como forma absoluta do teatro, mas nem por isso condeno as
cenas admiráveis de Corneille e de Racine.
Tiro de cada coisa uma parte, e faço o meu ideal de arte, que abraço e
defendo (OC, III, p. 1020)
O estudo de caracteres e a busca por uma linguagem que explicasse e
dramatizasse a natureza humana foram assunções típicas do moralismo francês. Em todo
caso, os textos ficcionais e não ficcionais de Machado passaram a adotar o vocabulário
universalista pascaliano: o tédio, divertimento e a distração, tais como ocorrem na carta-
testamento, os infinitos que se tocam, o abismo e as alternativas ao salto da fé, a reclusão e
a vivência do pecado, a graça e a desgraça humanas, a antropologia do anjo e da besta. A
confissão de que “desde cedo” lera Pascal deve ser ligada ao complemento da discordância
– “alguma vez me sucede discordar do que leio” –, que dá sentido ao testamento filosófico
enquanto legado de uma visão de mundo pessoalíssima. Por isso, além de tentar responder
como Machado e sua geração tiveram contato com a filosofia pascaliana, as questões que
nortearam este trabalho foram as seguintes: (1) Na carta-testamento, o adjunto adverbial
“desde cedo” refere-se, mais ou menos, a quando? (2) Qual é a relação entre o pascalianismo
e o desenvolvimento da ficção machadiana?
A primeira questão possui um caráter biográfico, tendo sido respondida de
maneira imprecisa. Supõe-se certo cristianismo agostiniano nas poesias da década de 1850,
o ensaio atribuído por Cousin a Pascal472 pode ter sido uma das fontes para os protagonistas
ingênuos dos primeiros contos, embora a primeira citação direta, salvo engano, tenha
ocorrido em 1863, nas páginas de O Futuro: “Os extremos tocam-se, dizem. Eu, de mim,
acho que é uma verdade...” (OC, III, p. 98). Essa é uma referência a um importante fragmento
de Pascal em que se descreve a desproporção humana diante dois infinitos (La 199 Br 72).
472 PASCAL, Blaise. “Discours sur les passions de l’amour”. In: MESNARD, Jean (Org.). Oeuvres complètes.
T. IV. Paris: Descleé de Brouwer, 1970, p. 1629-1688.
290
Ela será retomada, como vimos, pelo protagonista de Helena, em sua formação cristã. A
primeira menção a Pascal ocorre no ano seguinte, no Diário do Rio de Janeiro: “é isto o que
eu deploro; é esta alteração dos princípios segundo as regiões, que faz dizer com Pascal:
Plaisante justice, qu'une rivière ou une montagne borne! Verité au deçà des Pyrénées, erreur
au delà!” (OC, III, p. 119). É nessa época que Machado abandona a crítica teatral, desiludido,
mas com os saldos de uma concepção literária vinculada ao moralismo francês e de uma
concepção universalista e negativa do ser humano.
A segunda questão foi a mais desafiadora e preencheu a maior parte da tese.
Estabeleceu-se um caminho lógico de pensamento, com fases distintas, que revelou o
processo de descristianização. A distinção proposta de datas não é tão rígida quanto
gostaríamos. Por isso, ela foi entendida como um modo didático de lidar com algumas
tendências de pensamento. Os recortes temporais representaram acontecimentos ou aspectos
literários e biográficos relevantes. Foram inflexões, mais do que uma progressão linear, que
ocorreram antes em função do processo de amadurecimento intelectual do que de uma
reviravolta radical em sua visão de mundo. Para tanto, foi positivo recorrer aos diversos
gêneros textuais nos quais tocou a pena machadiana, de sorte a enfatizar as preferências e os
expedientes de cada época. Por isso, não se colocou tanto em relevo a questão da estrutura
ou a forma da obra de arte. Apesar da intenção genérica, não se deve exigir de um rapaz com
pretensões literárias a coerência de um grande sistema filosófico. Porque não foi a sua
intenção formular um sistema filosófico consistente. E porque não se pode julgar o jovem
rapaz pelos feitos do homem maduro. Além do mais, o fato de Machado nunca ter sonhado
ser filósofo não deve desabonar uma tese que parece dizer o oposto, isto é, que a sua ficção
apresenta traços intencionalmente filosóficos. Aqui valeu o rigor acadêmico, a busca por
uma bibliografia idônea e a força da imaginação, que, se não nos abriu a porta da verdade,
ao menos nos deixou próximos da verossimilhança.
O primeiro período foi compreendido entre 1855, ano das primeiras produções
poéticas, e 1864, quando arrefeceu o pulso liberal do jovem escritor. Até o final da década
de 1850, ele se acomodou ao ecletismo espiritualista, conferindo ao artista a condição
transcendental da aquisição de verdades. Neste período, a maior parte de sua produção
artística concentrou-se naquilo que denominei “teologia de artista” expressa em forma de
poesia religiosa, isto é, um gênero poético em que o artista, e apenas ele, acessava as
291
verdades metafísicas, as quais, por meio de algum tipo de inspiração divina, seriam
transmitidas em forma de versos. Algo semelhante ocorrera com a sermonística e a
apologética cristãs, das quais as principais figuras, segundo Chateaubriand, foram Bossuet e
Pascal. Por aqui, tivemos o Monte Alverne, mas o púlpito já não comunicava o efeito da
transcendência a seu público. Para essa geração de poetas metafísicos, valia a tese
tradicionalista de Chateaubriand e de Magalhães, segundo a qual este tipo de ação era
possível para o gênio poético cristão. A moral religiosa, quando atravessada pela inspiração
poético-literária realizaria o “espírito de um povo (...), o desenvolvimento do que ele tem de
mais sublime nas ideias, de mais filosófico no pensamento, de mais heroico na moral, e de
mais belo na natureza”.473
Os dilemas políticos e religiosos foram os fatores relevantes dessa fase. Se o
artista estava numa posição privilegiada quanto à aquisição de verdades, como e a quem ele
devia transmiti-las? A resposta nesse momento dirigiu-se para a conciliação entre a ética
cristã católica e a moralidade liberal. É gradual o processo que o leva a oferecer outra
resposta aos limites e à tarefa do artista, até meados da década de 1860. A polêmica religiosa
mostrava a discordância contra o cristianismo conservador (Chateaubriand) e o avanço para
o cristianismo progressista (Pelletan) e desmistificado (Renan). Os eventos mais
significativos do final desse primeiro período são o engajamento no jornalismo político,
decorrência natural dos relacionamentos então adquiridos, e a participação ativa na cena
dramática da época, quando Machado tomou contato com o repertório francês e se alinhou
a pressupostos teóricos da estética moderna, por exemplo, o estudo de caracteres e a relação
trifásica entre a autoria do drama, a performance dos atores e a recepção do público. Esses
pressupostos teóricos foram então mobilizados para que se interpretasse, compreendesse e
modificasse as práticas político-sociais. Ao perceber que a ética cristã e a vivência liberal
eram inconciliáveis, Machado abandonou, pouco a pouco, a primeira em favor de valores
progressistas e burgueses estranhos ao ambiente sagrado.
Importou-nos entender como ocorreu a inflexão do pensamento machadiano no
seu contexto intelectual. Em qualquer época encontramos vestígios liberais no texto. Mas a
solução eclética alverniana abafava parcialmente o ideal liberalista de conceder à razão
473 MAGALHÃES. Fatos do espírito humano, p. 283.
292
humana total controle na esfera política e social. De lá para cá, as doutrinas metafísico-
teológicas, quaisquer que fossem, passavam a ser alijadas do espaço público de debate,
embora pudessem ser conservadas, ainda uma vez, na intimidade. Com essa ressalva,
Machado entende que o papel social do escritor deve ser laico, porque é público. A mudança
de avaliação sobre a vida intelectual do país segue a mesma medida. Os textos de 1858 e
1859 ainda apresentam resquícios da doutrina eclética, sobretudo aquela erigida por Victor
Cousin e remodelada por Gonçalves de Magalhães. Ali Machado qualifica os literatos
políticos de “apóstolos do pensamento e da liberdade [...], novos Cristos da regeneração de
um povo” (OC, III, p. 987). Na década seguinte, essa qualificação perde, pouco a pouco, o
sentido de ser, primeiro nas crônicas e nas críticas, em seguida, na própria ficção.
A conversão ideológica junto a Ribeyrolles e Pelletan foi o primeiro fator
relevante que concorreu para a descristianização. Do liberalismo Machado recolheu a tese
da inadequação entre a pessoalidade do ato religioso e a publicidade pressuposta nas
obrigações políticas. Então a fé passou a se restringir ao ambiente doméstico, dissociando-
se da função social do artista. Esse deveria submeter-se ao escrutínio público através da
crítica edificante. O sentido de “originalidade” exigido do artista não é tanto aquele dos
românticos, que apontasse para a busca heroica da identidade nacional num passado remoto.
A originalidade exigida apontava para a direção oposta, para o futuro, para o que é novo e
não é imitação. A crítica se estabeleceu, pois, como a mediadora entre o trabalho do artista
e o público.
Ao misturar, em política, monarquismo e liberalismo, o pietismo cristão do
jovem literato foi gradualmente substituído por uma visão sóbria do espaço ficcional, onde
os personagens também deviam cumprir alguns requisitos da literatura moderna. O
envolvimento de Machado de Assis na cena dramática foi, portanto, o segundo fator
relevante para o processo de descristianização. Ele ocupou todas as posições possíveis
relacionadas ao teatro, de leitor de folhetins até censor no Conservatório Dramático. O
contato com o repertório teatral francês fomentou a sua preferência pela moral burguesa em
ascensão. Em sua maior parte, os contos foram estruturados em triângulos amorosos cujos
vértices têm suas personalidades contrastadas. O narrador machadiano costuma empreender
um estudo crítico de caracteres a partir de um dilema moral, estratégia literária comum aos
chamados moralistas. A solução a esses dilemas passou de uma avaliação positiva da
293
realidade social e da possibilidade de atitudes éticas e da consciência de uma vida justa, na
primeira fase, para uma perspectiva cada vez mais suspensiva e negativa da vida social,
como se os próprios dilemas vencessem as suas possíveis soluções, fazendo emergir daí uma
espécie de ceticismo aporético.
Para existirem, os pobres e os agregados buscavam conciliar, por meio do
cálculo, a faculdade de influência e autoridade dos ricos e o interesse egoísta pela ascensão
social. O progresso e a civilidade seriam projetos mundanos. Artista e crítico estavam
desincumbidos da formação do público em geral. Para Machado de Assis, o caráter
edificante de seu projeto artístico se manterá, pelo menos, até o final da década de 1860, com
prejuízo do aspecto místico da doutrina alverniana. A moralidade cristã, presente em contos,
críticas e poesias até meados da década de 1860, se submete agora à nova moralidade
burguesa. Com efeito, o volume dos textos em prosa ultrapassava e deixava na poeira o
volume de textos poéticos. E ambos abandonavam, pouco a pouco, a doutrina cristã, muito
em função de leituras como Ernest Renan, que realizava uma exegese bíblica secularizada.
O segundo período da juventude é o mais desafiador para os machadianos que
buscam compreender, na linha hermenêutica de Silviano Santiago, “a obra de Machado de
Assis como um todo coerentemente organizado, percebendo que certas estruturas primárias
e primeiras se desarticulam e se rearticulam sob forma de estruturas diferentes, mais
complexas e mais sofisticadas, à medida que seus textos se sucedem cronologicamente”.474
A alternativa a esse procedimento exegético consiste em se dar por satisfeito com a divisão
radical da obra em duas fases, cujo marco de virada é o romance Memórias póstumas de
Brás Cubas.
Os romances de Machado surgem no ponto zero em que uma filosofia desfalece
e a outra ainda não se estabeleceu. A passagem é sentida a posteriori. Daí o equívoco de se
buscar o pensamento filosófico da ficção machadiana apenas a partir das Memórias
póstumas. O mote supercético “Dúvidas sobre dúvidas” já havia sido utilizado por Machado
para a composição de seu primeiro romance, no início da década de 1870. E ele será
lapidado, pelo menos, até Dom Casmurro, quando os indícios que fundamentam as crenças
do narrador e, por consequência, as crenças do leitor, são colocados em equipolência.
474 SANTIAGO. “Retórica da verossimilhança”, p. 27.
294
O quadro teórico de referência inescapável é agostiniano: a crença no efeito da
graça divina, que redime o ser humano do pecado adâmico e lhe oferece alguma sorte de
felicidade. A vida do protagonista é a de um desiludido da “sociedade platônica”, que adotou
um “ceticismo desdenhoso” nos relacionamentos, pois perdeu a condição da “paz interior”,
isto é, a confiança nos outros. Para ele e para o cético acadêmico, a regra moral é não se
comprometer, não assentir, mantendo a integridade intelectual, mas perdendo a infinita
felicidade prometida. Esta sequela dramática do ceticismo é reinterpretada por Pascal dentro
da arena da apologética cristã. Machado percebe, contudo, que a dramatização dos dilemas
humanos é um recurso mais próprio à ficção do que à apologia religiosa. A famosa metáfora
de Dom Casmurro, segundo a qual “a vida é uma ópera” (OC, I, p. 913) cuja poesia foi
composta por Deus e cuja música foi composta por Satanás talvez expresse mais
acuradamente as semelhanças e as diferenças entre Machado de Pascal. Na ópera como na
vida, segundo o personagem do romancista, existem as lutas internas aos caracteres e as lutas
entre os caracteres, que podem ser explicadas recorrendo-se ao mito que narra a luta entre
Deus e Satanás pelos direitos de autor da obra. O narrador aceita a teoria, declara que “é
demasiada metafísica para um só tenor” e repete a expressão jansenista de Boileau de que a
“verossimilhança é muita vez toda a verdade” (OC, I, p. 915).
Há quem diga que o Pascal de Machado já não seria o mesmo de Port-Royal. A
figuração de Chateaubriand – de um Pascal impossivelmente descristianizado – expressa
bem o que queremos dizer. A minha tese é de que Machado de Assis a deforma provocando
uma descristianização de seu ceticismo. Nesse caso, essa figura sofre mais uma deformação
com propósitos específicos. Os Pensamentos experimentaram de toda sorte de adultério,
como demonstrara Cousin em seu relatório, segundo o qual Pascal cristianizara o ceticismo.
A cristianização do ceticismo designa a retomada do arsenal de argumentos céticos, pela
modernidade – pelo menos a partir de Montaigne – para fazer valer uma perspectiva cristã.
Foi Pascal quem melhor conseguiu realizar a transformação do ceticismo antigo (ceticismo
prático, como uma forma de vida, um ethos) para o ceticismo epistemológico (relacionado
às faltas de evidências para se justificar uma crença), e, em seguida, transformar este
ceticismo epistemológico, não apenas como uma propedêutica para a fé, como atestam as
posições fideístas de um Montaigne, mas em regra para uma doutrina antipelagiana,
antilibertina e consistente com as doutrinas essenciais do cristianismo.
295
Para Pascal, o ceticismo – por exemplo, o argumento da limitação cognitiva
humana – não é uma propedêutica do cristianismo. É a doutrina cristã que é a causa das
nossas limitações cognitivas. Mas como esse tipo de causa é inacessível, pode-se mover o
interlocutor a admitir a adequação ou a não contradição entre os efeitos diversos relacionados
à miséria do homem no mundo e um mistério específico, sem o qual nós seríamos
incompreensíveis a nós mesmos. Para ligar uma coisa à outra, isto é, os efeitos à razão,
Pascal recorre a uma forma de composição que lhe parece adequada, qual seja, a
dramatização da condição humana a partir da hipótese (pressuposição de verdade) da
doutrina da queda. Essa foi a interpretação de Victor Cousin, o expoente do ecletismo, o qual
disseminou, entre nós, o conhecimento sobre as questões filosóficas modernas.
De qualquer modo, Machado e Pascal são iguais na desconfiança generalizada
sobre o homem. A diferença passa a ser sentida quando Machado começa a “discordar do
que lê” e “expressar o desacordo”, tal como indiquei nas referências ao anjo e à besta, mas,
sobretudo, ao reconhecer o caráter ficcional da descrição antropológica cristã. O que eu
quero dizer com a tese de que Machado de Assis promoveu a descristianização do ceticismo,
é que ele expressa o desacordo com Pascal quando conclui que a dramatização da miséria
humana e de suas contrariedades fundamentais — isto é, os efeitos de uma causa suposta —
possui um componente ficcional irredutível e de contornos aporéticos, irresolvíveis. O que
é necessário na doutrina cristã, de acordo com Pascal é à imagem humana, daí o seu caráter
de exclusividade, daí a restrição de acesso à razão. Mas se esse é o caso, pensa Machado,
existe um espaço e uma plataforma, mais adequadas do que a apologia ou a poesia
metafísica, capazes de fornecer alternativas que expliquem, em caráter hipotético e
provisório, o estado de coisas atual. Esse espaço e essa plataforma é a própria ficção, cujo
contrato entre autor, narrador, personagem e leitor é celebrado sem o auxílio exclusivo da
razão. É a forma ficcional, e não um mistério religioso, o componente transcendental, que
descreve e redescreve, sempre de modo paradoxal e irônico, a condição humana.
Então podemos perceber que o desenvolvimento do pensamento ficcional
machadiano não sofreu grandes rupturas nem inflexões de genialidade. Procurei explicitar
as ligações entre a teologia de artista e o ecletismo espiritualista. O passo seguinte foi mostrar
como Machado transformou, por meio de um novo tipo de ceticismo, a tese da contemplação
296
da verdade como epifania poética do artista, característica da primeira juventude, em uma
contemplação estética da condição paradoxal do ser humano, contemplação possível quando
se instauram o primado ficcional da ironia e do paradoxo, características do período do
ceticismo descristianizado.475
Ao completar uma genealogia do olhar machadiano sobre as teses de Pascal,
encontrei uma antropologia cética que recorre a hipóteses ficcionais – algumas até
metafísicas – para explicar a moralidade e as relações sociais. A descristianização do
ceticismo pascaliano ocorre em função de influências secularizantes do Iluminismo
(Voltaire), do cientificismo do século XIX (Comte) e de interpretações histórico-cientificas
do cristianismo (Renan). A retomada do esquema conceitual cético em uma arena
radicalmente cristã, em que a regra deveria ser o dogma, provocou crises e revolucionou o
pensamento moderno tanto quanto a Reforma protestante e o Renascimento cultural. O gênio
cético e literário de Machado de Assis provocou pequenas revoluções dentro da revolução,
contornando o dilema do fideísta, que colocava a fé em lugar da razão. Machado continuou
a suspeitar, desta vez do lugar privilegiado da fé, subtraindo apenas as suas possibilidades
ficcionais. A revolução definitiva deita dilemas e aporias sobre os escombros do
cristianismo.
475 Devo, mais uma vez, ao professor Paulo Margutti essas observações sobre o desenvolvimento do
pensamento ficcional de Machado de Assis.
297
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