0 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS CENTRO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISAS EM ADMINISTRAÇÃO SANDRO ALVES DE MEDEIROS EXISTÊNCIA, SIGNIFICADO E IDENTIDADE: A VIAGEM COMO EXPERIÊNCIA ONTOLÓGICA TESE DE DOUTORADO BELO HORIZONTE 2018 1 SANDRO ALVES DE MEDEIROS EXISTÊNCIA, SIGNIFICADO E IDENTIDADE: A VIAGEM COMO EXPERIÊNCIA ONTOLÓGICA TESE DE DOUTORADO Tese de Doutorado submetida ao Programa de Doutorado do Centro de Pós-graduação e Pesquisas em Administração – CEPEAD – da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – como exigência parcial à obtenção do grau de Doutor em Administração. Área de concentração: Marketing, Administração Estratégica e Operações Orientador: Prof. Márcio Augusto Gonçalves, PhD Coorientador: Prof. Dr. Ricardo Teixeira Veiga Belo Horizonte 2018 2 3 4 Ao meu pai, James Magalhães de Medeiros (in memorian). Gostaria muito que pudesse ter testemunhado a conclusão do trabalho. 5 AGRADECIMENTOS A realização de uma jornada com tantos percalços não seria possível sem a colaboração de pessoas ao longo do caminho. Mesmo correndo o risco de omissões, alguns nomes precisam ser aqui mencionados. Primeiramente agradeço à Universidade Federal de Alagoas pela oportunidade da bolsa de desenvolvimento de pessoal que possibilitou meu custeio durante os anos em Belo Horizonte. Tudo o que aprendi e as competências de pesquisa que desenvolvi serão colocados à disposição da Instituição, especialmente ao curso e à Unidade a qual pertenço. Agradeço aos Professores do CEPEAD com quem mantive contato e com quem cursei disciplinas, Professores Carlos Alberto Gonçalves, Alexandre Carrieri, Sabina Maura, Reynaldo Maia Muniz e Noel Torres. Agradecimento especial à Professora Marlusa Gosling, pelo apoio durante os primeiros anos do doutorado e pelos laços de amizade. À Professora Juliana Magalhães, pelas orientações durante o ensaio teórico. Aos meus orientadores, Professores Márcio Augusto Gonçalves e Ricardo Teixeira Veiga pela confiança em mim depositada e pela amizade construída. Os colegas do CEPEAD são muitos e o risco de omissões é ainda maior, mas faço menção especial à amiga Luciana Rodas Vera, pela ajuda na análise dos dados qualitativos, mas, principalmente, pelo companheirismo e, especialmente, por sua amizade e pelo apoio nos momentos de desespero. Agradecimento aos amigos e colegas de turma, Roberto, Juliane, Getúlio, Marina, Márcia, Elis, Dimitri, Daniel, Carolina Magda, Juliana, Naldeir, Renata, Everton, Silvana, Eliana, Rebecca, Mariana, Débora e Reginaldo. Aos colegas Bruno, Rui, Daniella, Gisele, Luiz Godinho, Tiago, Carolina Pantuza, Rodrigo Séra e tantos outros com quem tive a grata oportunidade de partilhar discussões acadêmicas e trabalhar durante atividades em diferentes disciplinas. Aprendi muito com cada um. Agradeço ao amigo Antônio Fernando pela experiência compartilhada no primeiro ano em BH e pela parceria acadêmica na UFMG. Agradeço ao pessoal da Secretaria do CEPEAD, Érika, Luciana, Ana Paula e Vera, pela prestatividade, pela eficiência e pela paciência. Agradeço aos amigos Edson Mario de Alcântara Jr., Adilson Santos, Sérgio Acioly, Lucas Muniz, Toni Oliveira, Orlando Ramos, Carol Beltrão e Eugênio Gomes por abrirem as portas de suas respectivas Instituições de modo a viabilizar a coleta de dados. 6 Agradeço às pessoas do então gabinete no Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas que viabilizaram minha ida para BH, Renilde, Nilo, Leonardo e Carla. O caminho pelo mundo da academia precisa ser guiado durante os primeiros passos e alguns poucos iluminados são responsáveis por me apresentarem ao fascinante mundo da pesquisa científica e me inspirarem a nele explorar. Devo isso aos professores e amigos Antônio Geremias, Edson Mario de Alcântara e Anderson de Barros Dantas. De alguma forma os ensinamentos recebidos estão nas linhas deste trabalho. Agradeço à minha família, irmãos, Leandro e Juline, meus filhos, Pauline, Kevin, Camila e Vitória, pela torcida e incentivo. Agradeço especialmente ao Paulo Gil, pela tabulação dos dados. Agradeço à Marcelita, pelo apoio e compreensão e pela companhia quando mais precisei em BH. Um agradecimento especial à Giovana, pela indispensável ajuda na formatação dos quadros, figuras e tabelas e nas sugestões para o texto, mas também pela paciência, pelo incentivo e, principalmente, pela companhia nos instantes finais da jornada. Por fim, agradeço à minha mãe, Maria de Fátima, pelo apoio incondicional e pelo suporte para que a viabilização da conclusão do trabalho fosse possível. Mesmo sem ter ideia do que eu estava a realizar, em seu íntimo ela sabia que era algo de muito importante e significativo para mim. A ela e ao meu pai eu dedico este trabalho. 7 RESUMO Este trabalho parte das contribuições fornecidas pelos teóricos do campo do turismo que defendem as experiências de viagem como uma fonte de reconstrução das identidades individuais dos turistas-viajantes e como potenciais processos de transformação pessoal. O trabalho discute a possibilidade de se estudar esse fenômeno sob a perspectiva do campo teórico da psicologia do desenvolvimento, com os conceitos provenientes dos estudos sobre a formação da identidade. O estudo se dividiu em duas partes, sendo a primeira teórica e uma segunda empírica. Na primeira parte, por meio de incursões em quatro diferentes campos teóricos – psicologia humanista-existencial e positiva, sociologia da modernidade, filosofia existencialista e turismo –, o estudo buscou linhas conceituais convergentes, encontrando na ideia da busca do significado para a própria existência e no processo de desenvolvimento do senso de autoidentidade, ou seja, a busca de segurança ontológica, o campo de interseção conceitual dessas tradições teóricas. A partir da revisão da literatura nesses campos e da adoção do conceito de eudaimonia, o estudo identificou 15 possíveis dimensões de experiência eudaimônica. Na segunda etapa, duas pesquisas foram empreendidas, uma de caráter qualitativo e outra de natureza quantitativa. A pesquisa qualitativa teve como objetivo entender como as dimensões de experiência eudaimônica identificadas na literatura se manifestavam no discurso de indivíduos que assumidamente reconheciam terem passado por uma experiência de viagem que mudou de alguma forma suas vidas, seja na maneira de ser ou de perceber o mundo. Com exceção de uma dimensão (Excelência), todas as demais puderam ser identificadas nos depoimentos dos 9 entrevistados. A segunda pesquisa consistiu em um survey no qual se buscou validar as dimensões da experiência turística e correlacioná-las com medidas que aproximavam o conceito de identidade – Autoidentidade e Identidade social – segundo a linha teórica neoeriksoniana do desenvolvimento da identidade. As dimensões da experiência turística também foram correlacionadas com os constructos Ansiedade existencial e Personalidade agêntica. Seis dimensões de experiência turística eudaimônica foram confirmadas – Abertura ao novo, Amadurecimento, Autonomia, Eudaimonia, Intimidade e Pertencimento, e Perspectiva ampliada. Por meio de modelagem de equações estruturais com a abordagem partial least squares – PLS-SEM –, testou-se a relação entre a Ansiedade existencial e cada uma das dimensões de experiência turística confirmadas, como também a relação dessas dimensões com o Propósito na vida, a Autoidentidade e a Identidade social. De todas as relações teorizadas, os resultados mostraram a dimensão Eudaimonia da experiência turística e o constructo Propósito na vida como os principais responsáveis por explicar a variação do constructo Autoidentidade. O Propósito na vida também explicou a Identidade social, e foi explicado principalmente pela dimensão Intimidade e Pertencimento. Contrariando pesquisas de abordagem qualitativa no turismo, a Ansiedade existencial não se provou antecedente de nenhuma das dimensões da experiência turística eudaimônica, embora os entrevistados que demonstraram níveis mais profundos de transformação pessoal na fase qualitativa do estudo tenham apresentado sinais de ansiedade existencial antes de viajarem, atribuindo ao desconforto com suas vidas, a motivação para viajarem. As relações empiricamente verificadas corroboram a ideia da viagem como possível vetor para experiências de autodescoberta e reconstruções do senso de autoidentidade, favorecendo o sentimento de segurança ontológica para os indivíduos. O estudo contribui para as pesquisas no campo do turismo ao demonstrar a possibilidade de se levar para este campo os conceitos consolidados da psicologia do desenvolvimento na mais tradicional linha de pesquisa sobre a identidade, a vertente neoeriksoniana. Palavras-chave: Experiência turística. Identidade. Eudaimonia. Segurança ontológica. Modelagem de equações estruturais por mínimos quadrados parciais. 8 ABSTRACT This work is based on the contributions provided by tourism theorists who defend travel experiences as a source of reconstruction of the individual identities of tourists and travelers and also as potential processes of personal transformation. The work discusses the possibility of studying this phenomenon from the perspective of the the theoretical field of developmental psychology, with the concepts derived from identity formation studies. The study was divided into two parts, one theoretical, and other empirical. In the first part, forays in four different theoretical fields – positive and existential-humanistic psychology, sociology of modernity, existentialist philosophy and tourism – aimed to seek conceptual convergent lines, finding in the idea of the search for meaning for the very existence and the process of developing the sense of self-identity, that is, the search for ontological security, the field of conceptual intersection of these theoretical traditions. From the literature review in these fields and the adoption of the concept of eudaimonia, the study identified 15 possible dimensions of eudaimonic experience. In the second stage, two researches were undertaken, one qualitative and the other quantitative. The qualitative inquiry aimed to understand how the dimensions of eudaimonic experience identified in the literature would be manifested in the discourse of individuals who admittedly had experienced some kind of personal transformation during a travel, be it in the way of being or perceiving the world. With the exception of one dimension (Excellence), all the others were identified in the statements of the 9 interviewees. The second research consisted of a survey that aimed to validate the dimensions of tourism experience and to correlate them with measures that assessed the concept of identity – Self Identity and Social Identity – according to the neo- Eriksonian theoretical line of identity development. The dimensions of tourism experience were also correlated with the Existential anxiety and Agentic personality constructs. Six dimensions of eudaimonic tourist experience were confirmed – Opening to new, Maturation, Autonomy, Eudaimonia, Intimacy and Belonging, and Opening perspective. Structural equations modeling with the partial least squares approach – PLS-SEM – tested the relationship between Existential anxiety and each of the confirmed dimensions of tourism experience, as well as the relation of these dimensions with Purpose in life, Self-Identity and Social Identity. Of all the theorized relationships, the results showed the dimension Eudaimonia of the tourist experience and the construct Purpose in life as the two main predictors of Self-identity. Purpose in life also predicted Social Identity, and, in turn, it was primarily predicted by the dimension Intimacy and Belonging. Contrary to previous qualitative research in tourism, Existential anxiety has not proved antecedent to any of the dimensions of the eudaimonic tourist experience, although interviewees who demonstrated deeper levels of personal transformation in the qualitative phase of the study showed signs of existential anxiety before traveling, attributing to the discomfort with their lives, the motivation to travel. Empirically verified relationships corroborate the idea of travel as a possible vector for experiences of self-discovery and reconstruction of the sense of self-identity, favoring the feeling of ontological security for individuals. The study contributes to research in the field of tourism by demonstrating the possibility of taking to this field the consolidated concepts of developmental psychology in the the neo-Eriksonian line of research on identity, the most traditional one. Keywords: Tourist experience. Identity. Eudaimonia. Ontological security. Structural equations modeling with partial least squares. 9 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Congruência conceitual dos campos do existencialismo, Sociologiaa (modernidade tardia), Psicologias Humanista-Existencial e Positiva e Turismo em torno da questão ontológica do ser e da construção da autoidentidade ............................. 111 Figura 2 Dimensões da Ansiedade Existencial do Existential Concerns Questionnaire (ECQ) .............................................................................................................................. 118 Figura 3 Modelo teórico de relações entre os constructos Ansiedade Existencial, Experiência Turística Eudaimônica, Resolução de Identidade, Personalidade Agêntica e Bem-estar subjetivo ...................................................................................................... 131 Figura 4 Desenho da pesquisa ....................................................................................... 160 Figura 5 Modelo estrutural re-especificado após a avaliação do modelo de mensuração 242 Figura 6 Modelo estrutural com coeficientes de caminho e coeficientes de determinação dos constructos dependentes ..................................................................... 247 10 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 Distribuição da amostra quanto ao gênero (frequência relativa válida) .......... 204 Gráfico 2 Distribuição da amostra quanto ao status marital (frequência relativa válida) 205 Gráfico 3 Distribuição da amostra quanto à educação formal (frequência relativa válida) ............................................................................................................................. 206 Gráfico 4 Distribuição da amostra quanto à faixa etária ................................................. 207 Gráfico 5 Distribuição das motivações de viagem na amostra ....................................... 209 Gráfico 6 Tempo em que a viagem foi realizada em relação ao dia da resposta ao questionário ..................................................................................................................... 210 Gráfico 7 Tempo de permanência/estadia dos sujeitos no(s) destino(s) ......................... 211 11 LISTA DE QUADROS Quadro 1 Dimensões teorizadas da Experiência Turística Eudaimônica ........................ 114 Quadro 2 Tarefas de formação da identidade durante a transição para a fase adulta ...... 129 Quadro 3 Paradigmas de pesquisa nas Ciências Sociais e seus pressupostos básicos .... 138 Quadro 4 Classificação dos métodos multivariados ....................................................... 146 Quadro 5 Subescalas do Multimeasure Agentic Personality Scale (MAPS20) ............... 151 Quadro 6 Escalas de mensuração dos itens de cada dimensão do MAPS20 .................... 152 Quadro 7 Subescalas adaptadas do Existential Concerns Questionnaire (ECQ) ............ 153 Quadro 8 Subescalas adaptadas do Identity Issues Inventory (I3) ................................... 154 Quadro 9 Subescalas de Bem-estar Subjetivo ................................................................. 156 Quadro 10 Itens da Escala de Experiência Turística Eudaimônica ................................. 157 Quadro 11 Perfil sociodemográfico dos entrevistados ................................................... 161 Quadro 12 Citações relacionadas à categoria Significado e Propósito na vida .............. 163 Quadro 13 Citações relacionadas à categoria Autodesenvolvimento e Crescimento pessoal ............................................................................................................................. 167 Quadro 14 Citações relacionadas à categoria Autoconhecimento e Autoaceitação ........ 170 Quadro 15 Citações relacionadas à categoria Autoexpressividade ................................. 173 Quadro 16 Citações relacionadas à categoria Intimidade / Relacionamento ................... 176 Quadro 17 Citações relacionadas à categoria Autenticidade e Espontaneidade .............. 179 Quadro 18 Citações relacionadas à categoria Autonomia ............................................... 181 Quadro 19 Citações relacionadas à categoria Competência ........................................... 184 Quadro 20 Citações relacionadas à categoria Empatia ................................................... 186 Quadro 21 Citações relacionadas à categoria Tolerância ............................................... 189 Quadro 22 Citações relacionadas à categoria Perspectiva ampliada ............................... 192 Quadro 23 Citações relacionadas à categoria Benevolência ........................................... 194 Quadro 24 Citações relacionadas à categoria Abertura ao novo ..................................... 197 12 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Distribuição da amostra quanto ao gênero ........................................................ 204 Tabela 2 Distribuição da amostra quanto ao status marital ............................................. 205 Tabela 3 Distribuição da amostra quanto à educação formal .......................................... 206 Tabela 4 Estatísticas-resumo relacionadas à idade dos sujeitos da amostra .................... 207 Tabela 5 Distribuição das motivações de viagem na amostra ......................................... 208 Tabela 6 Tempo em que a viagem foi realizada em relação ao dia da resposta ao questionário ..................................................................................................................... 209 Tabela 7 Tempo de permanência/estadia dos sujeitos no(s) destino(s) ........................... 210 Tabela 8 Solução fatorial do constructo Personalidade Agêntica .................................... 213 Tabela 9 Solução fatorial do constructo Ansiedade Existencial .................................... 214 Tabela 10 Solução fatorial do constructo Bem-estar Subjetivo ....................................... 216 Tabela 11 Solução fatorial da subescala Integração ........................................................ 218 Tabela 12 Solução fatorial da subescala Diferenciação .................................................. 220 Tabela 13 Solução fatorial da subescala Papéis de Trabalho ........................................... 222 Tabela 14 Solução fatorial da subescala Visão de Mundo ............................................... 224 Tabela 15 Solução fatorial do constructo Experiência Turística Eudaimônica – ETE ... 226 Tabela 16 Validação do modelo de mensuração: cargas externas, confiabilidade simples e composta e variância média extraída (AVE) .................................................... 236 Tabela 17 Validade discriminante: Critério de Fornell-Larcker .................................... 238 Tabela 18 Validade discriminante: Critério das cargas cruzadas ................................... 239 Tabela 19 Validade discriminante: Razão Heterotrait-Monotrait (HTMT) ................... 240 Tabela 20 Valores originais, médias amostrais e intervalos de confiança ajustados dos valores da razão Heterotrait-Monotrait (HTMT) ............................................................. 241 Tabela 21 Valores VIF internos ..................................................................................... 244 Tabela 22 Valores, significância (estatística t e valor p) e intervalos de confiança de 95% (ajustados) dos coeficientes de caminho .................................................................. 244 Tabela 23 Valores, significância (estatística t e valor p) e intervalos de confiança (ajustados) dos coeficientes de determinação (R²) ........................................................... 246 Tabela 24 Valores, significância (estatística t e valor p) e intervalos de confiança de 95% (ajustados) do tamanho do efeito (f²) ....................................................................... 248 Tabela 25 Valores, significância (estatística t e valor p) e intervalos de confiança de 95% (ajustados) dos efeitos totais .................................................................................... 249 Tabela 26 Validação cruzada da redundância do constructo .......................................... 251 Tabela 27 Resultados dos testes das hipóteses do modelo (relações entre os constructos) ..................................................................................................................... 251 13 SUMÁRIO 1 Introdução .................................................................................................................. 15 2 Marco teórico ............................................................................................................. 30 2.1 Identidade ................................................................................................................ 30 2.1.1 A teoria do desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson: A epigênese da identidade ........................................................................................................................ 36 2.1.2 O paradigma do status de identidade ...................................................................... 40 2.1.2.1 Os estilos de identidade ....................................................................................... 46 2.1.2.2 O processo de exploração da identidade ............................................................. 48 2.1.2.3 Teoria do controle de identidade ......................................................................... 49 2.1.2.4 Teoria da expressividade pessoal ........................................................................ 51 2.1.2.5 Modelos de ciclo duplo e de certeza-incerteza .................................................... 53 2.1.2.6 A perspectiva coconstrutivista da identidade ....................................................... 55 2.1.2.7 O desenvolvimento sociopsicológico da identidade ............................................ 57 2.1.2.8 O modelo capital de identidade ........................................................................... 59 2.2 Identidade e agência ................................................................................................. 66 2.3 Psicologia humanista: Autorrealização e Funcionamento pleno ........................... 69 2.4 Psicologia positiva .................................................................................................... 70 2.4.1 Teoria da autodeterminação [self-determination theory – SDT] ............................ 71 2.4.2 Florescimento e Bem-estar ..................................................................................... 73 2.4.2.1 Bem-estar subjetivo ............................................................................................. 73 2.4.2.2 Bem-estar psicológico ......................................................................................... 75 2.4.2.3 Bem-estar eudaimônico ....................................................................................... 80 2.5 Ansiedade existencial ............................................................................................... 88 2.5.1 Teoria da gestão do terror [terror management theory – TMT] ............................. 90 2.6 Experiência turística eudaimônica .......................................................................... 93 2.7 Experiência turística transformadora ..................................................................... 96 2.8 Modernidade, existência e experiência autêntica ................................................ 101 3. Modelagem teórica e hipóteses de pesquisa ............................................................. 112 3.1 Experiência transformadora e experiência eudaimônica ........................................... 112 3.2 Ansiedade existencial ................................................................................................ 116 3.3 Experiência Turística Eudaimônica, identidade e bem-estar .................................... 118 3.3.1 Resolução de identidade para além da adolescência – As tarefas de identidade e o Identity Issues Inventory ............................................................................................... 123 3.4 Modelo teórico .......................................................................................................... 130 4 Metodologia ................................................................................................................ 133 4.1 Enquadramento ontoepistemológico ......................................................................... 133 4.2 Abordagem de Métodos Mistos ................................................................................. 140 4.2.1 Fase qualitativa ....................................................................................................... 142 4.2.1.1 Coleta de dados ................................................................................................... 142 4.2.1.2 Registro e armazenamento dos dados ................................................................. 143 4.2.1.3 Análise dos dados ................................................................................................ 143 4.2.2 Fase quantitativa ..................................................................................................... 144 4.2.2.1 Modelagem de equações estruturais .................................................................... 144 4.2.2.2 Modelagem por Equações Estruturais com Mínimos Quadrados Parciais [Partial Least Squares Path Model – PLS-SEM] ............................................................ 148 14 4.2.2.3 Mensuração dos constructos ................................................................................ 151 4.2.2.4 Interpretação dos dados qualitativos e quantitativos ........................................... 160 5 Análise e Discussão dos Resultados .......................................................................... 161 5.1 Pesquisa Qualitativa ................................................................................................. 161 5.1.1 Análise das categorias ............................................................................................ 161 5.1.1.1 Significado e Propósito na vida ........................................................................... 162 5.1.1.2 Autodesenvolvimento e Crescimento pessoal ..................................................... 164 5.1.1.3 Autoconhecimento e Autoaceitação .................................................................... 168 5.1.1.4 Autoexpressividade ............................................................................................. 172 5.1.1.5 Intimidade / Relacionamento ............................................................................... 174 5.1.1.6 Autenticidade e Espontaneidade .......................................................................... 178 5.1.1.7 Autonomia ........................................................................................................... 179 5.1.1.8 Competência ........................................................................................................ 183 5.1.1.9 Empatia ............................................................................................................... 185 5.1.1.10 Tolerância .......................................................................................................... 188 5.1.1.11 Perspectiva ampliada ......................................................................................... 190 5.1.1.12 Benevolência ..................................................................................................... 193 5.1.1.13 Abertura ao novo ............................................................................................... 196 5.2 Pesquisa Quantitativa ............................................................................................... 199 5.2.1 Preparação dos dados ........................................................................................... 200 5.2.1.1 Diagnóstico e tratamento de dados ausentes ....................................................... 200 5.2.1.2 Diagnóstico de outliers ........................................................................................ 202 5.2.1.2.1 Outliers univariados ......................................................................................... 202 5.2.1.2.2 Outliers multivariados ...................................................................................... 202 5.2.1.3 Diagnóstico de normalidade das variáveis .......................................................... 203 5.2.2 Perfil da amostra .................................................................................................. 203 5.2.2.1 Gênero ................................................................................................................. 204 5.2.2.2 Status marital ....................................................................................................... 204 5.2.2.3 Educação formal .................................................................................................. 205 5.2.2.4 Idade .................................................................................................................... 207 5.2.3 Motivações de viagem ........................................................................................... 208 5.2.4 Tempo em que a viagem foi realizada e tempo de duração (estadia) da viagem 209 5.2.5 Análise da dimensionalidade dos constructos .................................................... 212 5.2.5.1 Análise Fatorial Exploratória do constructo Personalidade Agêntica ................. 212 5.2.5.2 Análise Fatorial Exploratória do constructo Ansiedade Existencial ................... 214 5.2.5.3 Análise Fatorial Exploratória do constructo Bem-estar Subjetivo ...................... 216 5.2.5.4 Análise Fatorial Exploratória das subescalas do Identity Issues Inventory .......... 217 5.2.5.4.1 Análise Fatorial Exploratória da subescala Integração .................................. 218 5.2.5.4.2 Análise Fatorial Exploratória da subescala Diferenciação ............................ 220 5.2.5.4.3 Análise Fatorial Exploratória da subescala Papéis de Trabalho .................... 222 5.2.5.4.4 Análise Fatorial Exploratória da subescala Visão de Mundo .......................... 224 5.2.5.5 Análise Fatorial Exploratória do constructo Experiência Turística Eudaimônica 225 5.2.6 Modelagem de Equações Estruturais – Teste do modelo teórico ...................... 231 5.2.6.1 Modelo de mensuração ....................................................................................... 231 5.2.6.1.1 Consistência interna e validade convergente .................................................... 232 5.2.6.1.2 Validade discriminante ..................................................................................... 238 5.2.6.2 Modelo estrutural ............................................................................................... 243 5.2.6.2.1 Diagnóstico de multicolinearidade ................................................................... 243 5.2.6.2.2 Significância e relevância das relações entre os constructos (coeficientes estruturais) ....................................................................................................................... 244 15 5.2.6.2.3 Magnitude dos coeficientes de determinação (R²) ........................................... 245 5.2.6.2.4 Avaliação do tamanho do efeito (f²) ................................................................. 248 5.2.6.2.5 Avaliação da relevância preditiva (Q²) ............................................................. 250 5.3 Discussão integrada ................................................................................................. 252 6 Considerações finais ................................................................................................... 261 Referências bibliográficas ............................................................................................ 267 Apêndice I – Roteiro de entrevista (experiência transformadora) .................................... 298 Apêndice II – Formulário de coleta de dados (Questionário) ........................................... 300 Anexo I – Itens originais do Identity Issues Inventory ..................................................... 315 Anexo II – Itens originais do Multimeasure Agentic Personality Scale – MAPS20 ........ 317 Anexo III – Itens originais do The Existential Concerns Questionnaire .......................... 318 15 1 INTRODUÇÃO O ato de viajar sempre inspirou a imaginação humana, e tem sido eternizado em grandes clássicos da literatura universal que contam as aventuras mitológicas de homens intrépidos e destemidos. A epopeia de Gilgamesh, A Odisseia, As viagens de Marco Polo ou as aventuras imaginadas de Dom Quixote são histórias de personagens que partem em missões heroicas por terras desconhecidas, deixando para trás tudo o que possuem, levando consigo apenas o sonho da descoberta de novos mundos, lugares pitorescos e povos misteriosos. A fantasia da aventura em grandes viagens permeou o imaginário de nossa civilização por milênios e ajudou a impulsionar o próprio desenvolvimento da humanidade (BOORSTIN, 1992). Desde nossa pré-história, os deslocamentos de hominídeos de regiões que hoje pertencem à África para outras regiões do globo foram responsáveis pela formação de diferentes povos e culturas (LEAN; STAIFF; WATERTON, 2014). A mobilidade física permitiu que esses grupos sociais se movessem e interagissem de várias maneiras ao redor do mundo – em diferentes graus de distância, através de diferentes modos de viajar e com intenções divergentes – explorando, “salvando”, “resgatando”, invadindo, saqueando, explorando, recrutando, colonizando, convertendo, formando alianças, estudando, aprendendo, educando, reeducando, esclarecendo, disseminando doenças, linguagens, crenças, flora, fauna, genes, culturas, práticas, objetos [...] em todos os continentes e entre eles, em processos que foram inegavelmente transformadores para “visitantes” e “visitados” (LEAN; STAIFF; WATERTON, 2014, p. 11). Assim, a busca por lugares diferentes, muitas vezes longe do lugar de origem, apresentou-se para a humanidade como uma necessidade por melhores condições de vida e até mesmo de sobrevivência, quando, num primeiro momento, mais e melhores recursos eram buscados e, em diferentes intervalos, a fuga de guerras, perseguições e doenças levaram o homem a se deslocar para além de suas fronteiras (BOORSTIN, 1992). Assim, seja por necessidade de sobrevivência, pelo ímpeto da conquista, pelo fascínio da descoberta por riquezas e novos mundos, seja pelo simples prazer da aventura ou por mero capricho, o ato de 16 viajar acompanhou a humanidade, propiciando melhores condições de vida e impulsionando seu desenvolvimento. Sobre isso, Jeffrey A. Kottler corrobora na abertura do seu livro, Viajar como experiência transformadora, ao dizer que: Estamos destinados a nos mover. Nossos ancestrais foram nômades, caçadores e coletores. Seguiam as pistas das manadas e das fontes de água. Eles se mudavam continuamente dependendo do tempo e das estações do ano. Nossa própria sobrevivência dependia, então, de nossa capacidade de nos movermos. Em cada continente as comunidades tribais se mudavam para onde podiam encontrar as melhores oportunidades. Era mudar ou morrer. Hoje em dia levamos essa herança em nossos genes, propagada ao longo de milênios (KOTTLER, 1998, p. 15). Kottler (1998) argumenta que hoje em dia as viagens a turismo dão a possibilidade para que as pessoas vivenciem grandes transformações em suas vidas. Segundo o autor, em geral, a viagem produz um momento em que a pessoa busca um “Santo Graal” pessoal, ou seja, busca realizar algo ou enfrentar alguma dificuldade íntima para a qual ainda não encontrou uma solução. Sob a metáfora do “herói”, as histórias dos grandes aventureiros, Kottler conclui: A viagem do herói é uma história sobre uma viagem transformadora que substitui o presente e o passado por um futuro diferente. Novos modelos e novas possibilidades emergem. Muitas de suas crenças mais estranhas sobre a vida e o seu papel único nela são questionados. Quando a viagem chega ao fim, na verdade ela está apenas começando. Deve-se considerar com exatidão até onde se está indo e se, de fato, é para lá que se quer ir. Está-se em um ponto decisivo, um ponto a partir do qual novos caminhos passam a ser conhecidos (KOTTLER, 1998, p. 24-25). Lean, Staiff e Waterton (2014) afirmam que a experiência de viagem provoca sensações fisiológicas e psicológicas suscitadas por performances alteradas que se afastam da familiaridade e pelos efeitos da multiplicidade de acontecimentos aleatórios que podem se desenrolar em diferentes graus, culminando na transformação de espaços, lugares, paisagens, pessoas e objetos em momentos únicos no tempo. Os autores argumentam que qualquer pessoa pode ser transformada durante viagens, um fenômeno influenciado por uma complexa gama de processos que ocorrem antes, durante e depois de qualquer experiência física de viagem. 17 Tal argumento vem contrapor a posição pessimista de Boorstin (1992) quanto ao turismo, atividade que, segundo ele, transformou a viagem em uma mera mercadoria, uma commodity, subtraindo-lhe toda a significação e substituindo a figura do aventureiro viajante pela do turista. Enquanto o viajante seria um realizador de sonhos, um aventureiro que se arrisca na busca por novos mundos, mergulhando no desconhecido, o turista seria uma figura indolente, passiva e insensível, um consumidor negligente de quinquilharias e de cenários turísticos planejados, descaracterizados de sua real significação histórico-cultural (BOORSTIN, 1992), por vezes percebido como um idiota (URBAIN, 1991). Segundo essa perspectiva, o turista não parece predisposto a “ser transformado”, mas espera que as coisas sejam transformadas para que ele possa delas usufruir durante o curto período de sua visita. Contudo, embora consistente com muitos processos perniciosos do turismo de massa, tal posição não reflete a complexidade psicossocial do fenômeno do turismo. Desde os primórdios dos estudos sobre a experiência turística com o debate sobre a autenticidade (PEARCE; MOSCARDO, 1986; REDFOOT, 1984; COHEN, 1979; MacCANNEL, 1973), o potencial transformador que a viagem possui sobre o turista-viajante tem sido apontado. O ato de viajar para buscar algum conforto longe dos problemas do cotidiano, de “limpar a mente” ou “recarregar as baterias” é uma prática bem estabelecida no mundo contemporâneo (NEUMANN, 1992; MANNEL; ISO-AHOLA, 1987; COHEN, 1979), e não é raro uma viagem de férias ser recomendada por médicos ou aconselhadores terapêuticos como momentos de lazer para que seus pacientes encontrem algum alívio do stress que lhes perturba. Muitas vezes a própria pessoa percebe tal necessidade e ela mesma providencia tal descanso. Referindo-se às atividades de lazer de uma forma geral, Lefebvre (1971) afirma que elas devem ser uma pausa da rotina diária, não apenas do trabalho, mas da vida familiar também, de modo a garantir a libertação momentânea de preocupações e necessidades. Já Graburn (1989) conclui que o turismo é uma forma especial de diversão, um “afastar-se de tudo” (trabalho e casa), proporcionando relaxamento de tensões, e, para alguns, a oportunidade de se tornar temporariamente alguém que não existe [nonentity] (GRABURN, 1989, p. 22). Mas as pessoas também podem se envolver em experiências mais profundas em viagens, mesmo aquelas inicialmente planejadas para um mero descanso; experiências que as fazem enxergar suas vidas com outros olhos, momentos de reflexão e de encontro consigo mesmas, uma viagem que acaba se transformando numa jornada de autoconhecimento, uma busca pela autoidentidade e por um sentido para a vida (JOAQUIM, 2015; WEARING; 18 STEVENSON; YOUNG, 2010; NOY, 2004; DESFORGES, 2000; WANG, 1999; NEUMANN, 1992; MANNEL; ISO-AHOLA, 1987). Wearing, Stevenson e Young (2010, p. 36), por exemplo, entendem o turismo como um “processo de interação social estendida, no qual a autoidentidade tem o potencial de expansão e crescimento por meio do engajamento do turista com outros ambientes, povos, sociedades e culturas”. Desforges (2000) sustenta que as viagens possibilitam a reflexão e podem fornecer uma série de respostas a perguntas sobre a autoidentidade. Para Neumann (1992, p.179), “as viagens proporcionam a oportunidade de adquirir experiências que se tornam a base para a produção de identidade e são reveladas através das narrativas que emergem de experiências de viagem”. O autor esclarece: As viagens muitas vezes fornecem situações e contextos onde as pessoas enfrentam possibilidades alternativas para pertencer ao mundo e outros que diferem da vida cotidiana. Na verdade, parte da promessa de viagem é viver e conhecer o eu de outras maneiras. Muitas vezes, as histórias pessoais de viagens sugerem momentos de transformação ou transcendência, testemunhando um momento em que a estrutura, a rotina e a expectativa da vida cotidiana desmoronam. Em tais rupturas, as pessoas descobrem algo de si que revela formas alternativas de identidade (NEUMANN, 1992, p. 183). A capacidade transformadora do turismo tem sido apontada e crescentemente defendida na literatura (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; KIRILLOVA; LEHTO, 2015; LEAN; STAIFF; WATERTON, 2014; REISINGER, 2013; SAUNDERS; LAING; WEILER, 2013; KOTTLER, 1998), com muitos estudos demonstrando a relação do turismo com diferentes graus e níveis de processos de transformação que potencialmente provoca nas pessoas, em praticamente todas as modalidades em que a atividade é apresentada e em diferentes segmentos populacionais. Pritchard e Morgan (2013) concordam que muitas formas de turismo oferecem o potencial de transformar seres humanos e criar mundos melhores, citando como exemplo, o turismo educacional, voluntário, comunitário, mochilão [backpacking], social, rural, religioso, de peregrinação, bem-estar, espiritual e de justiça. Os autores afirmam que “estas e outras formas de turismo podem permitir às pessoas desenvolver novas competências, adquirir novos conhecimentos, desenvolver novas expectativas e experiências, (re)descobrir[se] e transformar-se” (PRITCHARD; MORGAN, 2013, p. 4). 19 Por outro lado, sobrevém na literatura um grande corpo de estudos sobre a experiência turística que tem buscado identificar antecedentes supostamente responsáveis por respostas atitudinais, afetivas e comportamentais dos turistas, relacionando a avaliação que os turistas fazem acerca da qualidade da experiência, ao nível de satisfação e às consequentes intenções de repetirem e/ou recomendarem a experiência turística vivenciada ou o destino turístico visitado (DINH PHI; PHAN THANH; NGUYEN VIET, 2018; KHUONG; PHUONG, 2017; ALIMAN et al., 2014; MENDES et al., 2010; CHEN; CHEN, 2010; JENNINGS et al., 2009; CHI; QU, 2008; Del BOSQUE; San MARTIN, 2008; GALLARZA; SAURA, 2006; LEE; LEE, 2005; BAKER; CROMPTON, 2000). Nessa direção, além dos aspectos cognitivos (avaliativos), grande ênfase tem sido dada às dimensões emocionais (MEDEIROS; GOSLING; VERA, 2015; HOSANY et al., 2014; MA et al., 2013; HOSANY, 2012; SÁNCHEZ-GARCÍA; CURRÁS-PÉREZ, 2011; TRONVOLL, 2011; HOSANY; GILBERT, 2010; DESMET; CAICEDO; van HOUT, 2009; BIGNÉ; ANDREU; GNOTH., 2005; BIGNÉ; ANDREU, 2004) e às características extraordinárias da experiência turística (GOOLAUP; MOSSBERG, 2016; LINDBERG; EIDE, 2016; LINDBERG; ØSTERGAARD, 2015; JEFFERIES; LEPP, 2012; FARBER; HALL, 2007; HANEFORS; MOSSBERG, 2003; ARNOULD; PRICE, 1993), responsáveis por sua memorabilidade e as consequentes respostas positivas futuras (Lo BUONO et al., 2016; CAMPOS et al., 2016; CAMPOS, 2016; ADONGO; ANUGA; DAYOUR, 2015; QUADRI-FELITTI; FIORE, 2013; KIM; RITCHIE, 2013; CHANDRALAL; VALENZUELA, 2013; KIM; RITCHIE; McCORMICK, 2012; KIM, 2009). A grande maioria desses estudos são justificados por motivos relacionados à competitividade de destinos turísticos ou de organizações prestadoras de diferentes tipos de serviços, como hotéis, restaurantes, agências de turismo, transportes, cruzeiros, parques, etc. Claramente esses estudos se inserem no subcampo do turismo como negócio, ou, conforme a análise de Tribe (1997), The Business of Tourism, em contraste ao subcampo das Ciências Sociais, e guardam estreita relação com os campos do comportamento do consumidor e do marketing, que carregam consigo uma forte orientação estrutural-funcionalista, muitas vezes reduzindo o valor do empreendimento investigativo a questões meramente “gerenciais”, como as intenções futuras dos turistas de retornar ao destino ou repetir a experiência e/ou recomendá- la positivamente. A despeito do valor dessas pesquisas para gestores privados e públicos, não parece razoável supor que dentre tantas possibilidades de novas e mais experiências em outros lugares e culturas do mundo, o indivíduo opte por retornar aos mesmos lugares já visitados, ainda que 20 isso lhe seja uma alternativa viável. Contudo, um problema mais grave inerente às pesquisas de cunho “gerencialista” no campo do turismo consiste na não explicitação das origens primordiais das motivações dos turistas/consumidores, ou seja, tais estudos partem de pressupostos motivacionais sem lhes atribuir um fundamento teórico. As motivações ou intenções dos turistas/consumidores são simplesmente “dadas”, não existindo uma explicação de ordem psicológica, sociológica ou filosófica para elas. Por exemplo, muitas das pesquisas que tratam da experiência turística nessa linha de investigação partem de “premissas” fornecidas por teóricos ligados à gestão de negócios. Dos mais citados desses teóricos, Schmitt (2000), preconizador do marketing experimental, afirma que, além de seres racionais, os consumidores querem “entretenimento, estímulo, emoções e desafios criativos” (SCHMITT, 2000, p. 44). Outra justificativa para alguns desses estudos (RADDER; HAN, 2015; MANTHIOU et al, 2014; QUADRI-FELITTI; FIORE, 2012; MEHMETOGLU; EGEN, 2011; HOSANY; WITHAM, 2010; OH; FIORE; JEOUNG, 2007) é a chamada “economia da experiência” (PINE II; GILMORE, 1999), na qual os consumidores buscam experiências únicas e memoráveis nas quais mantêm algum nível de envolvimento. Mas, questiona-se: por que os consumidores desejam essas experiências? Infelizmente, os porquês desses supostos desejos por entretenimento, estímulo, emoções ou pela busca por experiências únicas e memoráveis não são explicados. Uma consequência desse tipo de viés é o desconhecimento das causas mais profundas dos comportamentos dos turistas (e dos consumidores), correndo-se o risco de atribuí-las a instâncias mentais mediadoras mais superficiais, como, as emoções e a memória. Com relação a esta última, o desenvolvimento do constructo Experiência Turística Memorável (KIM; RITCHIE; McCORMICK, 2012; KIM, 2009) é justificado por seus autores pela necessidade de se incluir a memória nos estudos sobre a experiência turística, com base no fundamento de que a memória é mediadora de intenções comportamentais. Sustentados pela literatura das áreas do marketing e do comportamento do consumidor, os autores argumentam que a memória medeia o comportamento do consumidor ao influenciar no processamento das escolhas do indivíduo (KIM, 2009). Nesse sentido, experiências de consumo anteriores são recuperadas, aumentando o nível de envolvimento e motivação do indivíduo, orientando suas escolhas futuras na direção de repetir experiências positivas anteriores (HOCH; DEIGHTON, 1989). No caso da experiência turística, os autores sustentam que as experiências passadas são fortes preditores do desejo de repetir a experiência (LARSEN, 2007; LEHTO; O´LEARY; MORRISON, 2004; WIRTZ et al., 2003; KOZAK, 2001). 21 A Experiência Turística Memorável é então modelada como sendo composta por sete dimensões – hedonismo, novidade, cultura local, renovação (descanso/revigoramento) [refreshment], significância, envolvimento e conhecimento. Apesar de se apresentar como “ferramenta gerencial” útil na identificação de “dimensões experienciais” positivamente associadas à lembrança de uma experiência turística particular, o modelo não explica o porquê de tais dimensões serem “memoráveis”. Além disso, algumas dimensões do constructo podem ser tomadas como precedentes da memorização em si, sugerindo outros antecedentes da experiência memorável, como demonstrou o estudo de Campos (2016), ao verificar que, em conjunto com a atenção, o envolvimento se apresentou como mediador entre o processo de co- criação da experiência e a sua memorabilidade, destacando a primeira como preditor da última. Knoblock, Robertson e Aitken (2016) reforçam o argumento da ausência de explicações sobre as razões de uma experiência turística ser memorável ou não em grande parte dos estudos sobre a Experiência Turística Memorável. Segundo os autores, as pesquisas nessa linha de investigação têm dado mais ênfase aos fatores que supostamente contribuem para as experiências percebidas como positivas pelos turistas – tais como cenários selvagens, os aspectos de novidade, o elemento-surpresa nas visitas a espaços turísticos, relações sociais melhoradas, desenvolvimento intelectual e pessoal, cultura local, o profissionalismo da equipe de guias, etc. – deixando de abordar os sentimentos mais profundos dos turistas nessas experiências (como se sentem durante as experiências), bem como de indicarem como os turistas avaliam os diferentes aspectos da experiência. Knoblock, Robertson e Aitken (2016, p. 7) observam que “os elementos que contribuem para a experiência memorável variam e são dependentes do contexto de consumo em que ocorrem”. Assim, esclarecem os autores, uma experiência de rafting, por exemplo, passa a ser uma experiência memorável por razões diferentes daquelas relacionadas à atividade de observar baleias. Dessa forma, concluem eles, os resultados e respostas de uma atividade não podem ser predeterminadas, pois são dependentes de como o indivíduo interage com o evento, de suas motivações e do significado que ele atribui à experiência. Como já destacado, embora o conhecimento produzido por essas pesquisas possua seu valor, fornecendo parâmetros para orientações gerenciais e de políticas para a melhoria da competitividade turística, ele pouco contribui para o entendimento das experiências de viagem como processos transformativos, capazes de auxiliar e, por vezes, catalisar o desenvolvimento do turista como ser humano. Essa relação da experiência turística com aspectos pessoais mais profundos, conectados à construção da própria identidade, que levam a reflexões sobre 22 verdadeiras questões existenciais, acaba por chegar mais próximo das motivações que estariam no cerne dos comportamentos estudados pelos pesquisadores do turista-consumidor. A “experiência memorável” poderia ser explicada, por exemplo, pelo sentido mais profundo que a vivência em si proporcionou ao viajante, pelos processos de reflexão que foram disparados – sobre a vida e o lugar do indivíduo no mundo, suas prioridades e objetivos, seus valores, sua relação com as outras pessoas, etc. Grande parte da experiência turística acontece durante as interações da pessoa com o ambiente, com outras pessoas, com a história e a cultura locais. Nesse processo, o self é ampliado, expandido, desafiado, renovado e reforçado (WEARING, 2001), tornando a experiência um processo contínuo, que se estende para além da visita em si (WEARING; McGEHEE, 2013). Nesse sentido, o processo de formação e consolidação da autoidentidade parece ser o epicentro dos processos transformativos evocados por muitas experiências turísticas, derivando daí as dimensões motivacionais mais profundas das escolhas dos turistas e os antecedentes primordiais de suas percepções, o que pode fornecer explicações mais completas acerca de seus comportamentos e atitudes. Nessa direção, a busca de um significado para a própria existência e as escolhas feitas pelo indivíduo, que lhe tragam um sentido de identidade, apresentam-se como questões relevantes para se entender os comportamentos e as motivações a eles subjacentes. O marco teórico que coloca o problema da identidade como característica do mundo moderno se dá com a elaboração, por Erik Erikson, do conceito de identidade do ego (WEIGERT; TEITGE; TEITGE, 1986). Erikson (1976, 1972) é o principal articulador de uma teoria que tenta explicar o processo de formação da identidade como parte do próprio processo de desenvolvimento da pessoa, ao longo de toda a sua vida e em interação mútua com o sistema social vigente, reconhecendo as dimensões psicológicas, sociológicas e pessoais do processo de formação da identidade (CÔTÉ; LEVINE, 2002). Para Erikson (1976, 1972), embora os parâmetros que definem as qualidades da identidade de uma pessoa possam variar de cultura para cultura, o processo de desenvolvimento da identidade, em si, possui elementos comuns. A acumulação progressiva de um senso íntimo de si mesmo, a identidade do ego, é resultante de sucessivas sínteses psicológicas que o indivíduo realiza entre a infância e a idade adulta ao enfrentar oito conflitos (chamados de “crises” por Erikson) decorrentes de seu ajustamento ao meio sociocultural a que pertence, cada um em uma etapa diferente de sua vida. A cada enfrentamento o indivíduo deve experimentar os lados positivo (sintônico) e negativo (distônico) da respectiva crise, a fim de encontrar uma 23 síntese superior para elas. Se o conflito for elaborado de forma construtiva e satisfatória, a qualidade sintônica se torna a parte mais dominante do ego e melhora o desenvolvimento saudável através dos estágios subsequentes (MUUSS; PORTON; VELDER, 1996). Todavia, se o conflito persistir após o seu período ou é resolvido de forma insatisfatória, a qualidade distônica é incorporada à estrutura de personalidade do indivíduo, interferindo nas fases posteriores do desenvolvimento, podendo gerar problemas relacionados à identidade e ao ajustamento social (MUUSS; PORTON; VELDER, 1996). Para Erikson (1976, 1972), a identidade nunca é totalmente estabelecida ou realizada, mas está sempre sendo reavaliada pelo indivíduo de acordo com sua realidade social. Erikson considera a adolescência como a fase crucial para a formação da identidade do ego, quando o indivíduo experimenta uma “revolução fisiológica” do seu corpo e a ansiedade proveniente das expectativas da sociedade quanto ao seu próprio futuro. Depois da longa fase de latência do período escolar, os conflitos edipianos voltam à tona e o indivíduo precisa resolvê-los, mas não mais como quando era uma criança; ele precisa aprender a deslocar seus impulsos sexuais pelo pai ou mãe (o que for do sexo oposto) para outra(s) pessoa(s). A “missão” dessa fase é desvincular-se da figura do pai, com cuja imagem havia anteriormente se identificado, e assumir uma identidade que seja sua. Tal tarefa não é fácil, demandando certo tempo para que o adolescente amadureça, experimentando diferentes alternativas de identidade, o que muitas vezes caracteriza essa fase da vida como de incertezas e insegurança. A esse período Erikson (1976, 1972) chamou de moratória, “um compasso de espera nos compromissos adultos [...] um período que se caracteriza por uma tolerância seletiva por parte da sociedade e uma atividade lúdica por parte do jovem” (ERIKSON, 1972, p. 157). Sobre esse período, esclarece Erikson: Cada sociedade e cada cultura institucionalizam uma certa moratória para a maioria dos seus jovens. Na sua maior parte, essas moratórias coincidem com aprendizados e aventuras que se harmonizam com os valores da sociedade. A moratória pode ser um período para roubar cavalos ou para devaneios da imaginação, um período para Wanderschaft ou trabalhar “no Oeste” ou nos antípodas, um período para “juventude perdida” ou vida acadêmica, um período para abnegação ou extravagâncias [...] (ERIKSON, 1972, p. 157). Embora a crise da identidade seja mais pronunciada durante a adolescência, o processo de desenvolvimento da identidade do ego perdura por toda a vida do indivíduo. 24 Conforme atestam Muuss, Porton e Velder (1996), redefinições da identidade do ego emergem, por exemplo, quando ocorrem mudanças importantes na vida do indivíduo, como quando o jovem adulto precisa assumir compromissos profissionais e tomar suas próprias decisões depois da graduação, ou quando muda de cidade para um novo trabalho, ou passa a viver uma relação com outra pessoa, como no casamento, ou quando a pessoa experimenta a parentalidade, ou ainda quando perde os pais, se separa, fica desempregado, ou enfrenta uma doença grave e perde seu companheiro, ou ainda, entra na fase de aposentadoria e precisa encontrar novas atividades com as quais se engajar. A capacidade de lidar com essas situações posteriores tem o potencial de alterar muitos dos aspectos incorporados à identidade do ego no período mais característico de sua síntese, quando o indivíduo emerge do enfrentamento da crise de identidade na adolescência (MUUSS; PORTON; VELDER, 1996). No entanto, transformações que têm modificado a base da economia em fins do século XX, aliada a outras mudanças de hábitos, valores e crenças em vários domínios da vida têm levado ao alargamento do tempo necessário para as resoluções de identidade dos jovens em início da fase adulta (SCHWARTZ et al., 2013). Segundo Côté (2000), a economia de base tecnológica e o retardo para a entrada na universidade têm levado a um maior tempo entre o término do ensino médio e o início da vida profissional, bem como a assunção de compromissos tradicionalmente esperados pelos jovens adultos, incluindo a independência financeira e a saída da casa dos pais. Assim, os jovens adultos têm permanecido mais tempo vivendo “entre” a adolescência e a vida adulta (ARNETT, 2007). Como consequência, o período para a exploração de alternativas de identidade e o compromisso com as alternativas escolhidas pelo indivíduo, antes atribuído à adolescência, passa a ser estendida para a vida adulta emergente [emerging adulthood] (CÔTÉ; CÔTÉ; ARNETT, 2005). Marcia (1993) chega a afirmar que o período de moratória, tal como preconizado por Erikson, seria praticamente inexistente na sociedade tecnológica ocidental nos tempos atuais, onde o imperativo da sobrevivência diária acaba impossibilitando o “luxo” de um tempo limite para que os jovens “se encontrem”. Para Marcia (1993), “[...] a duração dessas moratórias institucionalizadas parece aumentar em proporção à complexidade da demanda tecnológica e à riqueza da sociedade, estendendo-se em muitos casos desde a puberdade até a idade adulta jovem (25 a 30 anos) [...]” (MARCIA, 1993, p. 19-20). Assim, a transição para a idade adulta tem se tornado cada vez mais prolongada nas sociedades desenvolvidas ao longo do último meio século, estendendo-se até o início dos 20 anos para a maioria dos jovens, e até 25 mais além para muitas pessoas (MECA et al., 2015; ROBERTS & CÔTÉ, 2014; CÔTÉ et al., 2013; LUYCKX; GOOSSENS; SOENENS, 2006). As raízes dessas transformações se encontram no processo de modernização da sociedade, atualmente em seu estágio mais avançado, a modernidade tardia, segundo Anthony Giddens (2002), caracterizada pela reflexividade e pela profunda influência das tecnologias de informação e comunicação nas esferas mais íntimas da vida dos indivíduos. Para Giddens (2002, p. 9), “as instituições modernas diferem de todas as formas anteriores de ordem social no que se refere ao seu dinamismo, ao grau em que interferem com hábitos e costumes tradicionais, e a seu impacto global, alterando radicalmente a natureza da vida social cotidiana e interferindo nos aspectos mais pessoais de nossa existência”. Ainda segundo o autor, “A modernidade [...] rompe o referencial protetor da pequena comunidade e da tradição, substituindo-a por organizações muito maiores e impessoais. O indivíduo se sente privado, sozinho, abandonado num mundo em que lhe falta o apoio psicológico e o sentido de segurança oferecidos em ambientes mais tradicionais” (GIDDENS, 2002, p. 38). Côté e Levine (2002) se referem à modernidade tardia ao tipo de sociedade capitalista-industrial que evoluiu na segunda metade do século XX, distinguindo-se da sociedade moderna em seu estágio inicial em vários sentidos: (a) uma mudança da produção para o consumo de bens e serviços como característica definidora das relações sociais e da identidade, fazendo emergir uma sociedade cujo lema pode ser resumido em: “Eu sou o que eu consumir hoje” (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 126); (b) a ascensão das tecnologias da informação e informáticas que suplantaram o trabalho e alteraram as bases das relações sociais; (c) a transformação e, em alguns casos, a desintegração, de certas instituições que antes forneciam uma base estável para as relações sociais; e (d) uma sociedade em que uma grande proporção da população experimenta a vida cotidiana em ambientes urbanos impessoais, com alto grau de contato casual com “estranhos”, pessoas com quem não existem vínculos emocionais duradouros (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 125-6). Como consequência dessas mudanças, as estruturas normativas e comunitárias tradicionais têm sido abaladas, levando a um declínio geral das normas sociais acordadas e tornando o curso de vida das pessoas mais individualizado (CÔTÉ, 2016). Devido a isso, o processo de amadurecimento normativo nas sociedades contemporâneas obriga as pessoas a se desenvolverem como indivíduos autodeterminados e independentes, especialmente em termos de negociação de seus próprios cursos de vida (CÔTÉ, 2016). Dessa forma, embora no contexto da modernidade tardia o processo de desenvolvimento da identidade do ego possa sugerir a 26 ideia de “autodescoberta”, na qual o indivíduo descobre continuamente diferentes identidades, cada uma orientada por uma imagem considerada apropriada pelos outros para um determinado momento, essa “descoberta” não corresponde a um “eu verdadeiro” interior, mas a um “eu situacional” (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 129). Assim, por serem baseadas numa imagem projetada e não na substância por traz dela, as identidades adquiridas geralmente são instáveis e efêmeras (CÔTÉ; LEVINE, 2002). Diferentemente da premissa eriksoniana de que a própria sociedade forneceria modelos e suporte institucional para o desenvolvimento e o ajustamento do indivíduo, na modernidade tardia os suportes institucionais para as transições no desenvolvimento individual são deficientes, deixando os indivíduos à sua própria sorte (CÔTÉ, 1997). Assim, em contextos sociais marcados por afrouxamentos normativos institucionais, por um modo de vida crescentemente individualizado, com presença massiva de meios de comunicação, do consumismo e de um estilo de vida em que encontros sociais acontecem cada vez mais de forma esporádica e superficial, a construção da autoidentidade se revela um grande desafio e sujeita a constantes revisões e mudanças de curso (CÔTÉ, 2016; CÔTÉ; LEVINE, 2002; GIDDENS, 2002). Nesse contexto, a ideia de moratória psicossocial de Erikson precisa ser repensada, no sentido de ter seu escopo ampliado, pois pode ser necessário mais tempo para que os indivíduos consigam resolver os conflitos inerentes ao processo de desenvolvimento, para explorarem diferentes alternativas de identidade, ou, na hipótese de reavaliações de compromissos já assumidos, um novo tempo de moratória poderá ser requerido. Nesse sentido, períodos de distanciamento dos compromissos da vida cotidiana têm sido cada vez mais necessários à medida que os afrouxamentos institucionais da sociedade moderno-tardia impõem aos indivíduos um desenvolvimento pessoal autodeterminado (CÔTÉ, 2016). O turismo pode então ser interpretado como uma possibilidade para essa moratória, dadas suas características liminares, ao viabilizar a pausa da rotina da vida cotidiana, por oportunizar o silêncio para a reflexão individual (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; CANAVAN, 2017; KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2016a, 2016b; KIRILLOVA; LEHTO, 2015; SHEPHERD, 2015; BROWN, 2013; WANG, 1999; COHEN, 1979). O gap year, o ano de retiro em que os jovens ingleses costumam fazer uso antes de ingressarem em definitivo na universidade assim que conluem o high school, é um exemplo de moratória psicossocial nos padrões eriksonianos. Conforme afirmam Hirschorn e Hefferon (2013), nesse período de até um ano, os jovens ingleses decidem sair para um intercâmbio 27 cultural e “exploram o mundo” antes de assumirem compromissos relacionados à sua carreira profissional, uma prática frequentemente aceita como um rito de passagem para a juventude inglesa. No entanto, as pesquisadoras constatam que o gap year tem emergido como um forte nicho de mercado, sendo demandado progressivamente por pessoas entre 30 e 55 anos, que sacrificam carreiras já estabelecidas, recompensas financeiras e mesmo relacionamentos de longo prazo em busca da realização pessoal e do encontro consigo. Com base em dados secundários, Hirschorn e Hefferon (2013) afirmam que esse segmento tem representado mais que o dobro do segmento tradicionalmente esperado para o gap year (os jovens entre 18 e 24 anos). Esse fenômeno pode ser interpretado como um exemplo da moratória psicossocial preconizada por Erikson, mas agora com escopo mais amplo. Levando em consideração que, na pesquisa conduzida por Hirschorn e Hefferon (2013), os participantes descreveram uma sequência de experiências que começavam pela ansiedade existencial para explorar o potencial de suas vidas e terminavam com a experiência de crescimento pessoal e autenticidade, que os levava a querer “largar tudo para trás” e enfrentar um novo começo para suas vidas, a ideia de um tempo para refletir sobre os rumos da própria vida em um espaço não familiar reforça a premissa da moratória ampliada. No estudo de Hirschorn e Hefferon (2013), o que havia se iniciado como um intercâmbio cultural acabara se transformando em um desafio que colocava à prova a coragem para lutar por uma vida autêntica. A formação da identidade resulta de dois “processos”, o da descoberta e o da criação (WATERMAN, 1984). No primeiro, algo que preexiste ao indivíduo, seu eu verdadeiro, precisa ser “descoberto”. No segundo, o indivíduo nasce sem um “eu verdadeiro”, mas sua identidade vai sendo construída a partir do nada, num processo contínuo de escolhas feitas pelo próprio indivíduo, dentre as ilimitadas possibilidades que se lhes apresentam. A metáfora da descoberta baseia-se principalmente nos filósofos da antiga Grécia. A famosa frase atribuída a Sócrates – Conhece-te a ti mesmo –, mas correspondente à uma inscrição apócrifa do templo de Apolo em Delphos, resume o fundamento desse paradigma. Por outro lado, a metáfora da criação alicerça-se principalmente na filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre (WATERMAN, 1984). Waterman (2004, 1993b, 1990; WATERMAN; SCHWARTZ; CONTI, 2008) sugere que o desenvolvimento da identidade terá maiores chances de prosseguir com sucesso quando o indivíduo puder identificar seus melhores potenciais e se envolver em atividades que o leve a realizá-los. O autor afirma que esse reconhecimento das próprias potencialidades 28 acontece durante experiências que possibilitem ao indivíduo sentimentos de expressividade pessoal, as quais ele chamou de experiências eudaimônicas, resgatando um termo [eudaimonia] da Grécia antiga associado a Aristóteles, que o relaciona ao sentido do eu verdadeiro. A ideia de experiência eudaimônica tem inspirado muitos estudos no campo do turismo nos últimos anos (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; KNOBLOCK; ROBERTSON; AITKEN, 2016; KIRILLOVA; LEHTO, 2015; MATTEUCCI; FILEP, 2015; FILEP; PEARCE, 2013; FILEP, 2012; FILEP; DEERY, 2010). Essas pesquisas utilizam os conceitos e teorias do emergente campo da psicologia positiva para estudar a experiência turística como facilitadora do crescimento interior e da construção de sua autoidentidade, relacionando positivamente esses conceitos com o bem-estar. Nesses estudos, a experiência turística é vista como uma experiência eudaimônica. No entanto, apesar de vários estudiosos apontarem a capacidade transformadora do turismo (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; LEAN; STAIFF; WATERTON, 2014; REISINGER, 2013; SAUNDERS; LAING; WEILER, 2013; KOTTLER, 1998), servindo como catalisador da autenticidade existencial (KIRILLOVA; LEHTO, 2015; SHEPHERD, 2015; BROWN, 2013) e possibilitando o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da autoidentidade (KONTOGEORGOPOULOS, 2017; JOAQUIM, 2015; WEARING; STEVENSON; YOUNG, 2010; NOY, 2004; HOM CARY, 2004; DESFORGES, 2000; WANG, 1999; NEUMANN, 1992), o diálogo com a teoria e a pesquisa sobre a formação da identidade, especialmente em seu ramo mais influente, que se baseia nos princípios preconizados por Erik Erikson, permanece omisso. Este trabalho parte dessa lacuna na literatura e busca construir uma ponte entre os campos do turismo e do desenvolvimento da identidade a partir dos fundamentos teóricos eriksonianos e neoeriksonianos do desenvolvimento da identidade. O estudo toma emprestado conceitos das psicologias humanista-existencial e positiva para alicerçar o referencial que orienta a investigação empírica concebida para responder a, basicamente, duas questões: 1) Que aspectos do desenvolvimento pessoal são percebidos por pessoas em viagens que são consideradas importantes para suas vidas e para si próprias? 2) Esses aspectos possuem alguma influência na definição de quem a pessoa é, seu senso de autoidentidade? 29 Este estudo busca levar os conceitos já consolidados na pesquisa sobre o desenvolvimento da identidade para a pesquisa sobre a experiência turística, buscando entender como a experiência turística se relaciona com a autoidentidade. Dessa forma, os seguintes objetivos são colocados: 1. Identificar os fatores constituintes da experiência turística eudaimônica (ou transformadora); 2. Verificar a influência da experiência turística eudaimônica nas tarefas de formação da autoidentidade; 3. Verificar a influência da experiência turística nas características agênticas de personalidade; 4. Verificar a influência da experiência turística e da autoidentidade no bem-estar. O presente trabalho está estruturado em seis capítulos, incluindo esta introdução. O segundo capítulo sintetiza o marco teórico que fundamenta as hipóteses e o modelo teorizado. O terceiro capítulo estabelece as hipóteses de pesquisa com base no referencial teórico apresentado; o quarto capítulo trata da metodologia, discutindo as premissas ontológicas e epistemológicas do estudo, justificando a abordagem de métodos mistos adotada, bem como descrevendo as fases qualitativa e quantitativa do estudo e os respectivos procedimentos de coleta e análise dos dados. O quinto capítulo apresenta e discute os resultados da pesquisa, tanto a qualitativa, quanto a quantitativa, integrando os achados segundo uma perspectiva de projeto convergente. O sexto capítulo encerra o trabalho com as principais conclusões e considerações finais. 30 2 MARCO TEÓRICO 2.1 Identidade O conceito de identidade está dentre os mais importantes das ciências sociais (NORIEGA; MEDINA, 2012; VIGNOLES; SCHWARTZ; LUYCKX, 2011; BRUBAKER; COOPER, 2000) e tem ganhado cada vez mais espaço na academia à medida que as transformações institucionais da alta modernidade se intensificam e penetram no cotidiano de todos os indivíduos ao redor do mundo (CÔTÉ, 2006; CÔTÉ; LEVINE, 2002). Abordagens à identidade são estudadas na Antropologia, Sociologia, Ciência Política, História e Psicologia (HAMMACK, 2015), bem como em campos que demandam a interseção dessas diferentes áreas, como nos estudos sobre feminismo, gênero, raça, sexualidade, imigração e nacionalidade, consumo, ambientalismo, trabalho, etc. Dadas suas matizes teóricas e as origens das diferentes tradições de estudo, distintas abordagens de pesquisa sobre a identidade se desenvolveram de forma independente, quase que separadas uma das outras, constituindo-se em paradigmas distintos de investigação, com suas próprias premissas, hipóteses e teoria (McLEAN; SYED, 2015). Apesar da dificuldade, algumas linhas de investigação podem ser reconhecidas, bem como seus fundamentos originais. Estudiosos têm rastreado as raízes históricas e filosóficas da ideia de identidade, ou o sentido de Eu. Burkitt (2011), por exemplo, afirma que o sentido de identidade ocidental moderno tem sua origem na cultura Greco-Romana da antiguidade. Segundo o autor: [...] o Ocidente contemporâneo herdou tradições culturais que enfatizam a importância da personalidade pública de uma pessoa – em termos de status, classificação, classe ou reputação – ao lado de uma crescente crença de que também podemos ser identificados por algo exclusivamente pessoal; um eu que é interno ao nosso ser, ao qual temos acesso único, e isso só pode ser visto por outros se escolhermos revelá-lo (BURKITT, 2011, p. 268). Outros estudiosos identificam a relação da ideia de identidade com o sentido de missão vocacional nos textos filosófico-religiosos da Idade Média. Nessa linha de interpretação, enquanto Taylor (1989) destaca a individualidade e a identidade na obra Confissões, de Santo Agostinho, Baumeister (1986) aponta a relação das ideias de 31 personalidade e de agência com o sentido de vocação na Reforma Protestante (HAMMACK, 2015). Na mesma linha de interpretação histórica, mas partindo de textos literários, especialmente obras de poetas Anglo-Saxões do início da Idade Média, Harbus (2002) identifica a grande ênfase desses artistas na questão relativa ao self e sua interação psicológica dinâmica com a mente. Segundo a estudiosa, as narrativas contidas nas elegias dos poetas “[...] demonstram a crença local na possível deslocação do eu e da mente, mas também o ideal imaginado de sua coincidência” (HARBUS, 2002, p. 92). A pesquisadora conclui que os poemas codificam a compreensão contemporânea do self como a identidade individual predominantemente reflexiva e privada, não social, em constante conflito e turbulência. Apesar da dificuldade de se traçar uma genealogia para os estudos sobre a identidade, alguns fundamentos teórico-metodológicos podem ser identificados e, a partir deles, grandes eixos ou linhas de investigação podem ser rastreados, o que, de certa forma, ajuda na compreensão da linha evolutiva desses estudos. Uma tentativa de síntese evolutiva dos estudos sobre a identidade é fornecida por Hammack (2015), que coloca as respectivas origens das duas grandes abordagens à identidade nas ideias de dois influentes filósofos e estudiosos do comportamento humano, William James (1890) e George Herbert Mead (1972). Por quase 300 anos, desde os filósofos iluministas, como René Descartes, passando por empiristas como John Locke e David Hume a idealistas como Immanuel Kant, como também na transição da filosofia para a psicologia, como as abordagens de Wilhelm Dilthey, as ênfases na memória, no significado, na relação e na percepção de semelhança ou diferença dominaram, em diferentes momentos, a concepção de identidade (HAMMACK, 2015). “Essas ênfases conceituais continuariam a influenciar sobremaneira as teorias de William James e George Herbert Mead, teóricos fundadores cujas ideias continuam a formar o núcleo das abordagens teóricas contemporâneas” (HAMMACK, 2015, p. 13). Segundo Hammack (2015), a abordagem dada por William James (1890) seria consistente com as perspectivas filosóficas que enfatizavam a cognição individual e a autorreflexão, traduzida na definição que James dá à identidade, “a consciência da identidade pessoal” (JAMES, 1890, p. 331). Ainda segundo o autor, a visão de James enfatiza a percepção de continuidade e unidade em mente, bem como um senso somático de “calor”, proporcionando uma sensação fisiológica positiva. Com isso, James procurou integrar cognição, emoção e resposta fisiológica na sua perspectiva sobre a identidade (HAMMACK, 2015). 32 Hammack (2015) argumenta que a psicologia e a sociologia emergiram como campos distintos de investigação nas ciências sociais e que, à medida que essa separação se tornava mais forte, os fundamentos teóricos da identidade passaram de uma perspectiva, em grande parte privada e interior, para uma visão em que o privado e o público eram considerados em conjunto. Estudiosos como William James (1890) e Charles Horton Cooley (1902) reconheciam o caráter social da identidade. Este último cunhou o termo “self refletido” [looking-glass self] para se referir ao self construído nas reflexões proporcionadas pela interação social (HAMMACK, 2015). Contudo, é com George Herbert Mead (1972) que a ideia do self socialmente construído recebe os primeiros tratamentos sistemáticos (HAMMACK, 2015). Mead (1972, p. 135) afirma que “o self é algo que tem um desenvolvimento; não está inicialmente lá, no nascimento, mas surge no processo de experiência e atividade social, ou seja, se desenvolve no indivíduo como resultado de suas relações com esse processo como um todo e com outros indivíduos dentro desse processo”. Hammack (2015) sustenta que Mead (1972) funda os alicerces da perspectiva teórica na sociologia conhecida como interacionismo simbólico (BLUMER, 1986), argumentando por uma forma precoce e radical de construção social em que a mente, o self e a sociedade emergem a partir de interações sociais em pequena escala. Dessa forma, acrescenta Hammack (2015), a sensação de semelhança e diferença subjacente às “identidades” surge quando participamos do que Mead (1972) chamou de “conversa de gestos” [conversation of gestures]. Por isso, conclui Hammack (2015), “só podemos compreender ideias e conceitos através do nosso compromisso com o simbólico – o gesto, a palavra, a representação” (HAMMACK, 2015, p. 14). Cada um à sua maneira, James e Mead fazem uma distinção entre Eu e Me [me/ mine]. Para James (1890), o Me representa o self empírico, ou o self como objeto, a identidade aparente e visível que suscita uma resposta nos outros, enquanto que o Eu representa o senso privado e interior do self. James (1890) esclarece que a palavra Me é usada por ele para indicar a pessoa empírica, enquanto o termo Eu expressa o pensamento de julgamento. Em outras palavras, se o Me é o objeto empírico, o Eu é o processo cognitivo que o constrói, como possuindo significado e unidade na percepção (HAMMACK, 2015; McADAMS, 2013; McADAMS; COX, 2010). Segundo Hammack (2015), enquanto a diferenciação que James faz entre Eu e Me implica um mundo social em que a identidade é negociada na cognição individual, a distinção que Mead (1972) empreende é mais explícita no que se refere ao significado da comunidade na autopercepção e na autoconstrução. Nas palavras de Mead (1972): “O Eu é a resposta do 33 organismo às atitudes dos outros; O Me é o conjunto organizado das atitudes dos outros que alguém assume” (MEAD, 1972, p. 175). Para Mead (1972), o Me incorpora o “outro generalizado” – “A comunidade organizada ou o grupo social que dá ao indivíduo a sua unidade do self [...]. A atitude do outro generalizado é a atitude de toda a comunidade” (MEAD, 1972, p. 154). Nesse sentido, o Me é a versão autoidentificável para uma comunidade maior de significado compartilhado (HAMMACK, 2015, p. 14). Por outro lado, o Eu representa uma agência individual que opera dentro dessa comunidade para defender ou desafiar seu sistema de significado simbólico (HAMMACK, 2015, p. 14). Assim, a versão de Mead do Eu retém a liberdade interpretativa de James, mas diverge desta no grau em que teoriza explicitamente um vínculo entre cognição e ação social (HAMMACK, 2015). Dessa forma, ao traduzirem para a pesquisa nas ciências sociais as mais fundamentais concepções filosóficas sobre a identidade, William James e George H. Mead mantiveram a centralidade dos processos psicológicos internos que buscam a unidade e a coerência do indivíduo (HAMMACK, 2015). No entanto, suas respectivas abordagens divergiram na ênfase dada ao mundo privado do pensamento interior – no caso de James – ou ao mundo público de significados simbólicos – no caso de Mead – levando a dois caminhos distintos para o estudo da identidade na psicologia e na sociologia ao longo do século XX (HAMMACK, 2015). Nesse sentido, o foco de Mead no desenvolvimento do self a partir das interações sociais inspirou perspectivas teóricas que deram mais atenção ao mundo público e exterior, e menos ênfase à cognição e à agência individuais, centrando-se mais nas restrições do contexto social (HAMMACK, 2015). Nessa abordagem teórica podem ser mencionadas a teoria do stigma de Goffman (1963), o modelo de papel-identidade de McCall e Simmons’s (1966), a teoria da identidade de Stryker (1968) e a teoria da identidade social de Tajfel e Turner (1986, 1979). Com relação a James (1890), segundo Hammack (2015), sua ênfase no senso de autoidentidade, continuidade e autoconfiança no processo de autopercepção constitui o fundamento teórico de muitos trabalhos contemporâneos na psicologia do desenvolvimento e da personalidade (McADAMS, 2013), bem como nas versões da psicologia social e cultural que enfatizam a narrativa (HAMMACK, 2008). A perspectiva teórica de James inspirou a teoria do desenvolvimento de Erikson (1976, 1972) e os vários paradigmas que se seguiram a ela (HAMMACK, 2015). Além de Erikson, enquadram-se nessa abordagem de interpretação da 34 identidade, a teoria do status de identidade de Marcia (1966), as teorias do desenvolvimento da identidade racial e étnica – como a teoria do desenvolvimento da identidade negra de Cross (1971), a teoria da identidade étnica de Phinney (1989), o Modelo Multidimensional de Identidade Racial (MMIR) de Sellers (SELLERS et al., 1998; SELLERS et al., 1997) e a teoria do desenvolvimento da identidade racial branca de Helms (HELMS, 1995; HELMS; CARTER, 1990) – e as teorias do desenvolvimento da identidade a partir de narrativas, notadamente a de Cohler (COHLER, 2008, 2007,1982; COHLER; HAMMACK, 2006; COHLER; HOSTETLER, 2003) e a de McAdams (McADAMS; COX, 2010; McADAMS; PALS, 2006; McADAMS, 2001, 1997, 1996, 1995, 1990, 1988). Hammack (2015) chama atenção ainda para uma segunda linha de entendimento dentro da abordagem teórica da narrativa, que possui ênfase mais explícita na base coconstitutiva ou social da narrativa, fundamentando-se mais na abordagem teórica de Mead (1972) acerca da co-construção do self e da sociedade. Diferentemente da linha de entendimento das narrativas autobiográficas inteiras, as “grandes histórias”, tal como as teorias de Cohler e McAdams, essa segunda linha da abordagem da narrativa está mais preocupada com as “pequenas histórias” e com a narrativa como um processo situado no desenvolvimento da identidade (HAMMACK, 2015, p. 22). Nesse sentido, argumentam McLean, Pasupathi e Pals (2007) que a narrativa é fundamental para o autodesenvolvimento e que as histórias situadas têm um impacto recíproco no desenvolvimento do autoconceito e na história de vida. Entre os teóricos dessa linha de entendimento, encontram-se Thorne (THORNE; NAM, 2009, 2007; THORNE, 2000), que vê o desenvolvimento da personalidade através da lente do processo pessoal de leitura de memória, Pasupathi (2015), que assume que as memórias autobiográficas são socialmente construídas, e Bamberg (2011, 2004) que argumenta que as narrativas se desenvolvem a partir das interações sociais de pequena escala, na medida em que os interlocutores constróem o significado coletivamente (HAMMACK, 2015). Hammack (2015) também aponta uma terceira linha teórica dentro da abordagem da narrativa, também alinhada à perspectiva socioconstrucionista de Mead (1972), mas enfatizando a situação cultural e política da memória autobiográfica e da narrativa pessoal. Nessa linha, os teóricos reconhecem a natureza socialmente construída da identidade, sugerindo que os indivíduos possuem temas culturais apropriados e também são limitados pelo sistema recebido de categorias sociais e versão da memória coletiva (HAMMACK, 2015, p. 23). Segundo Hammack (2015), a ênfase dada pelos estudiosos nessa linha de interpretação reside no desenvolvimento da identidade narrativa como um processo cultural fortemente influenciado 35 pelo valor relativo da própria identidade social e na negociação entre narrativas, dominantes e de resistência, em interação. Encontram-se nessa categoria de investigação, Fivush (2010), Hammack (2011, 2010, 2008) e Nelson (2003). Côté e Levine (2002) também atribuem a William James e George H. Mead, além de Charles Horton Cooley, os fundamentos que sustentam os estudos pioneiros sobre identidade no campo que eles denominam de psicologia do self. Mais especificamente, as distinções feitas por James e Mead entre Eu e Me, segundo Côté e Levine (2002), têm servido de fonte para muitos dos constructos relacionados ao self, tais como reflexividade e autoconceito. No que se refere à contribuição de Cooley, afirmam Côté e Levine (2003) que seu conceito de self refletido tem gerado investigações sobre autoestima e avaliação refletida (BROWN, 1993), bem como suas relações com as estratégias de autoapresentação (BAUMEISTER; TICE; HUTTON, 1989). Contudo, Côté e Levine (2002) preferem categorizar os estudos sobre identidade usando dois grandes campos das ciências sociais, a psicologia e a sociologia, argumentando que, apesar de suas raízes comuns, os estudos sobre a identidade na psicologia e na sociologia tomaram rumos diferentes, constituindo frameworks independentes e gerando literaturas separadas, com pouca referência entre elas. Os autores resumem o enfoque psicológico do estudo da identidade nos processos mentais e as ações individuais a eles relacionadas, enquanto que o enfoque sociológico se atém às relações entre as estruturas sociais e o comportamento individual. Côté e Levine (2002) ainda dividem os estudos no campo da psicologia em dois ramos: um que enfatiza a formação da identidade durante a transição para a vida adulta, inserido dentro do reino da psicologia do desenvolvimento, e um segundo que se concentra nos processos de manutenção do self, a psicologia do self, reconhecida como uma disciplina do sub- campo da Psicologia Social Psicológica. No ramo inserido na psicologia do desenvolvimento, responsável por estudar a formação da identidade durante a transição para a vida adulta, Erik Erikson se apresenta como a figura mais influente. Além de servir de fundamento para a linha investigativa mais tradicional no estudo da identidade, o paradigma do status de identidade, elaborado por James Marcia (1966), os trabalhos de Erikson também inspiraram sociólogos que estudam a identidade em cinco diferentes tradições teóricas: o interacionismo simbólico – processual e estrutural – a sociologia do conhecimento, o estrutural-funcionalismo e a teoria crítica (WEIGERT; TEITGE; TEITGE, 1986). 36 Segundo Weigert, Teitge e Teitge (1986), ao transcender fronteiras linguísticas, geográficas e, especialmente, de paradigmas intelectuais, notadamente nos campos da antropologia, psicanálise e sociologia, Erikson formula o conceito de identidade do ego e articula o problema da identidade como característica do mundo moderno. Para Weigert, Teitge e Teitge (1986), os trabalhos de Erikson são responsáveis por colocar o termo identidade em evidência no mundo acadêmico a partir dos anos 60, ganhando corpo nos anos 70 e se consolidando como “ferramenta conceitual” (WEIGERT; TEITGE; TEITGE, 1986, p. 2) na sociologia e na psicologia social a partir dos anos 80. A seguir, as principais contribuições para o estudo da identidade dentro do campo da psicologia do desenvolvimento serão resumidas. As contribuições de Erik Erikson ocuparão o primeiro espaço, uma vez que sua teoria do desenvolvimento da identidade ao longo do ciclo de vida do indivíduo influenciou praticamente todos os estudos subqsequentes sobre o tema. Dentro do mesmo campo que trata da formação da identidade, a teoria do status de identidade de James Marcia (1966) também será brevemente apresentada, bem como algumas de suas derivações. Erikson (1976, 1972) é apontado como o principal articulador de uma teoria que tenta explicar o processo de formação da identidade como parte do próprio processo de desenvolvimento da pessoa, ao longo de toda a vida e em interação mútua com o sistema social vigente, reconhecendo as dimensões psicológica, sociológica e pessoal do processo de formação da identidade, dando um importante e decisivo passo rumo a uma teorização multidimensional acerca da identidade (CÔTÉ; LEVINE, 2002). 2.1.1 A teoria do desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson: A epigênese da identidade Conforme já colocado, a perspectiva da identidade de William James enfatiza o senso de autoidentidade, continuidade e autoconfiança, resultante de um processo cognitivo de “negociação” entre os mundos social e individual, integrando cognição, emoção e resposta fisiológica (HAMMACK, 2015). Em parte, essa perspectiva pode ser encontrada nos trabalhos de Erik Erikson, embora seu ponto de partida sejam os escritos de autores que dão prosseguimento à abordagem psicanalítica do ego. Nesse sentido, a partir dos fundamentos psicanalíticos sobre o id e o ego (FREUD, 1998, 1997) e das subsequentes elaborações acerca dos mecanismos de defesa do ego (FREUD, 2006) e seu processo de adaptação (HARTMANN, 37 1968), Erikson constrói uma teoria que busca explicar o desenvolvimento psicossocial do ser humano ao longo da vida. Para Erikson, a existência de um ser humano depende, em todos os momentos, de três processos de organização que se complementam: (1) o processo biológico – a organização hierárquica dos sistemas de órgãos que constituem o corpo (soma); (2) o processo psíquico, que organiza a experiência individual através da síntese do ego (psique) e; (3) o processo comunal da organização cultural de interdependência das pessoas (etos) (ERIKSON, 1998). Erikson inspira-se na embriologia para fundamentar sua teoria, a partir de uma perspectiva epigenética, segundo a qual os órgãos se desenvolvem sequencialmente, seguindo uma hierarquia na qual cada um surge no seu devido tempo. Nesse sentido, em um processo normal de desenvolvimento, ao obedecer à hierarquia epigenética, a ascensão precisa de cada órgão acaba por permitir o desenvolvimento dos demais órgãos em seus respectivos espaços. Assim, “o resultado do desenvolvimento normal [...] é o relacionamento adequado de tamanho e função entre todos os órgãos corporais: o fígado ajustado em tamanho ao estômago e intestino; o coração e os pulmões adequadamente equilibrados e a capacidade do sistema vascular acuradamente proporcional ao corpo como um todo” (ERIKSON, 1998, p. 29). Dessa forma, o princípio epigenético estabelece que “tudo o que cresce tem um plano básico e é a partir desse plano básico que se erguem as partes ou peças componentes, tendo cada uma delas o seu tempo de ascensão especial, até que todas tenham sido levantadas para formar então um todo em funcionamento” (ERIKSON, 1972, p. 91). Porém, o desenvolvimento do pequeno ser não cessa após seu nascimento; ele continua por toda a sua vida. Segundo Erikson (1972), ao nascer, o bebê abandona a permuta química do ventre materno e passa a realizar as permutas sociais de sua sociedade, encontrando oportunidades e restrições culturais para o desenvolvimento de suas capacidades físico- motoras, cognitivas e sociais em pleno crescimento. Dessa forma, o organismo em maturação continua a se desdobrar e a crescer de forma planejada, desenvolvendo-se segundo uma sequência prescrita de aquisição de capacidades físicas, cognitivas e sociais (ERIKSON, 1998). Como já mencionado, Erikson parte das elaborações psicanalíticas sobre o desenvolvimento da personalidade, notadamente durante os primeiros anos da infância, mas expande essas explicações para todo o ciclo de vida do indivíduo, acrescentando novas interpretações acerca do desenvolvimento individual em sociedade. Dessa forma, Erikson concentra-se na busca de entendimento de todo o processo de desenvolvimento psicossocial. Seguindo o princípio epigenético no qual baseia sua interpretação acerca do desenvolvimento 38 da personalidade, Erikson constrói a premissa de sua teoria, da qual parte para explicar o processo natural de crescimento e adaptação da criança ao mundo social e seu consequente desenvolvimento: [...] na sequência de suas experiências mais pessoais, pode-se confiar em que a criança saudável, dado um montante razoável de orientação adequada, obedecerá às leis internas do desenvolvimento, leis essas que criam uma sucessão de potencialidades para a interação significativa com aquelas pessoas que a abordam e lhe respondem e aquelas instituições que estão a postos para ela. Conquanto essa interação varie de cultura para cultura, ela deve manter-se no ‘ritmo apropriado e na sequência adequada’ que governa toda a epigênese. Portanto, pode-se dizer que a personalidade se desenvolve de acordo com uma escala predeterminada na prontidão do organismo humano para ser impelido na direção de um círculo cada vez mais amplo de indivíduos e instituições significantes, ao mesmo tempo que está cônscio da existência desse círculo e pronto para a interação com ele (ERIKSON, 1972, p. 92). Referindo-se a Freud, Erikson (1972, p. 90) explica que “o conflito neurótico não é muito diferente, no conteúdo, dos conflitos ‘normativos’ por que todas as crianças têm que passar em sua infância e cujos resíduos todos os adultos conservam nos recessos de suas personalidades”. Dessa forma, explica Erikson, a fim de manter-se psicologicamente “vivo”, o ser humano “re-resolve” constantemente esses conflitos. Erikson então apresenta uma perspectiva do crescimento humano a partir dos conflitos internos e externos com os quais os indivíduos se deparam e precisam enfrentar em diferentes etapas de sua vida. A hipótese central de sua teoria é a de que, após o enfrentamento de cada uma das crises, a personalidade individual ressurge com um sentimento maior de unidade interior, com aumento do bom juízo e da capacidade de agir de forma melhor, ou “agir bem”, em suas palavras, segundo os parâmetros socioculturais aos quais o indivíduo pertence (ERIKSON, 1972, p. 91). A palavra crise é usada por Erikson não para indicar uma ameaça de catástrofe, mas no sentido de desenvolvimento, para designar um ponto decisivo na vida da pessoa, um período crucial de crescente vulnerabilidade e potencial (ERIKSON, 1972, p. 96). Para definir o que chama de uma personalidade adulta saudável, Erikson busca uma descrição que incorpora tanto o desenvolvimento cognitivo quanto o social, assumindo a descrição fornecida por Jahoda (1958), que afirma que “[...] uma personalidade saudável 39 domina ativamente o seu meio, demonstra possuir uma certa unidade de personalidade e é capaz de perceber corretamente o mundo e ela própria” (ERIKSON, 1972, p. 91). A partir da premissa epigenética e dos princípios psicanalíticos do desenvolvimento psíquico, Erikson estabelece um ponto de partida para explicar o processo de desenvolvimento infantil em seus primeiros anos. O conceito psicanalítico de pré-genitalidade assume que a sexualidade somente atinge a primazia genital na puberdade e que, durante a infância, o desenvolvimento sexual passa por três fases, cada uma das quais assinalando uma forte libidinização de uma zona vital do organismo, normalmente referidas como as fases oral, anal e fálica (ERIKSON, 1998). Segundo Erikson (1998), essas fases estariam epigeneticamente relacionadas, uma vez que, por exemplo, a analidade (segunda fase) existiria já durante a fase oral (primeiro estágio) e precisaria tomar seu lugar durante o terceiro estágio, o fálico, após sua crise normativa (durante o próprio estágio anal). De forma a integrar o uso de todos os sistemas orgânicos sensoriais, musculares e locomotores na relação entre as zonas e os períodos erotogênicos, Erikson redefine as três fases em três estágios: (1) estágio oral-respiratório e sensório, (2) estágio anal-uretral e muscular, e (3) estágio infantil-genital e locomotor. Para Erikson, ao longo do desenvolvimento da criança, em sua crescente interação com o seu meio, cada estágio do desenvolvimento, com suas respectivas manifestações físicas, recebe forte influência do sistema social vigente: Ao tratar da questão de como estes sistemas de órgãos também “adquirem” importância psicossocial, precisamos primeiro lembrar que os estágios da prolongada infância humana (com toda a sua variabilidade instintual) e a estrutura de comunidades humanas (em toda a sua variação cultural) são parte de um desenvolvimento evolutivo e devem ter um potencial inato para servir um ao outro. Podemos esperar, a princípio, que as instituições comunais apóiem os potenciais desenvolvimentais dos sistemas de órgãos, mesmo que, simultaneamente, insistam em dar à função de cada parte (e também à infância como um todo) conotações específicas que podem apoiar normas culturais, estilos comunais e a visão de mundo dominante e, ao mesmo tempo, provocar conflito não-ecológico (ERIKSON, 1998, p. 31- 4). Rapaport (1958, apud KROGER; MARCIA, 2011) explica a mútua relação entre indivíduo e sociedade, em contínua regulação, na perspectiva de Erik Erikson: 40 Na concepção de Erikson, nem o indivíduo se adapta à sociedade nem a sociedade o molda (sic!) em seu padrão; em vez disso, a sociedade e o indivíduo formam uma unidade dentro da qual ocorre uma regulação mútua. As instituições sociais são pré- condições de desenvolvimento individual, e o comportamento do indivíduo em desenvolvimento, por sua vez, provoca ajuda que a sociedade oferece através de seus membros adultos dirigidos por suas instituições e tradições. A sociedade não é meramente um proibidor ou provedor; é a matriz necessária do desenvolvimento de todos os comportamentos (RAPAPORT, 1958, apud KROGER; MARCIA, 2011, p. 32). Em síntese, a abordagem eriksoniana ao desenvolvimento humano estabelece que, em etapas pré-estabelecidas do ciclo da vida, o indivíduo se defronta com conflitos internos e externos – os primeiros advindos de sua condição biológica, enquanto os últimos de sua estrutura cultural – cujas crises decorrentes o indivíduo precisa resolver, ou seja, encontrar uma elaboração psíquica de significação para eles e, a partir da qual, acrescentará algo de fundamental para a sua personalidade e para o seu próprio desenvolvimento. Cada etapa e sua respectiva crise possui uma relação especial com um elemento básico da sociedade, devido ao fato de tanto o ciclo da vida quanto as instituições humanas terem evoluído conjuntamente (ERIKSON, 1976). Para Erikson, a relação entre as etapas do ciclo da vida e a respectiva organização social é dupla: “o homem traz para essas instituições os resíduos de sua mentalidade infantil e de seu fervor juvenil, e recebe delas, desde que consigam conservar sua realidade, um reforço para suas aquisições infantis” (ERIKSON, 1976, p. 230). 2.1.2 O paradigma do status de identidade Erikson vê o final da adolescência como um momento de crescente compromisso ocupacional e ideológico, donde dois desfechos da crise psicossocial dessa fase do ciclo de vida são possíveis: a realização da identidade do ego (síntese de identidade) ou a difusão de identidade (KROGER; MARCIA, 2011). Diante das tarefas e papéis iminentes da vida adulta, tais como conseguir um emprego, tornar-se cidadão, formar uma família, etc., o indivíduo é forçado a sintetizar as identificações da infância, abandonar a posição de recebedor e se preparar para se tornar um doador, de tal forma que possa estabelecer uma relação recíproca com sua sociedade, mantendo um sentimento de continuidade dentro de si mesmo (KROGER; 41 MARCIA, 2011; MARCIA, 1966). Nesse processo, a tarefa psicossocial do desenvolvimento da identidade do ego é essencialmente a de integração (KROGER; MARCIA, 2011). A premissa básica da teoria do status de identidade é a de que a formação do papel social e dos compromissos ideológicos na juventude e na adolescência tardia é melhor realizada com base na escolha individual (CÔTÉ; LEVINE, 2002). Para escolher uma ocupação e elaborar uma ideologia que seja pessoal e socialmente relevante, o indivíduo precisa considerar alguns critérios descritos por Erikson como definidores da formação da identidade – (1) a integração de dados constitucionais, (2) de necessidades libidinais idiossincráticas, (3) de capacidades favorecidas, (4) de identificações significativas, (5) de sublimações bem-sucedidas e (6) de papéis consistentes (KROGER; MARCIA, 2011). Embora as defesas efetivas não estejam especificamente inseridas nas áreas da ocupação e da ideologia, aparecem a elas relacionadas quando ocorrem mudanças no conteúdo dessas duas áreas como resultado de crises de identidade (KROGER; MARCIA, 2011). Assim, os compromissos nas áreas da ocupação e da ideologia são acompanhados por um período de reflexão e exploração (tentativa e erro), em que padrões passados são examinados; alguns são descartados, enquanto outros são integrados a uma nova configuração de identidade (KROGER; MARCIA, 2011). A fim de avaliar o estado corrente de desenvolvimento do ego, o modelo proposto pela teoria do status de identidade considera dois processos observáveis da formação da identidade, tendo como referência as ideias de Erikson: a exploração de alternativas de identidade pelo indivíduo e seu comprometimento com as direções escolhidas. O processo de exploração implica refletir, repensar, experimentar e classificar vários papéis e planos de vida futuros, com base em identificações e valores anteriores (CARLSSON, 2015; KROGER; MARCIA, 2011). A exploração é um processo ativo (MARCIA et al., 1993), um período em que o adolescente está ativamente envolvido na escolha entre alternativas significativas a fim de assumir compromissos que definirão sua identidade (KROGER; MARCIA, 2011). Por sua vez, o comprometimento se refere ao grau de investimento pessoal que o indivíduo expressa em um curso de ação ou crença, descrevendo como as pessoas tomam decisões definidoras de identidade em vários contextos de vida (CARLSSON, 2015; KROGER; MARCIA, 2011). As duas áreas da vida em que a exploração e o comprometimento são avaliados correspondem à ocupação e à ideologia, sendo esta última composta de posições religiosas e políticas (KROGER; MARCIA, 2011). Com base nos processos de exploração e comprometimento, o modelo de status de identidade descreve o estado atual do desenvolvimento da identidade de uma pessoa como um 42 de quatro status de identidade: realização de identidade [identity achievement], encerramento [foreclosure], moratória [moratorium] e difusão de identidade [identity diffusion]. Os dois primeiros estados são caracterizados por possuírem elevados graus de comprometimento, mas diferenciam-se pelo modo como chegaram a esses compromissos. No caso da realização de identidade, os compromissos foram assumidos por meio de intenso processo de exploração. Já com o estado de encerramento/foreclosure, os compromissos diziam respeito àqueles de grande significado para outras pessoas pelas quais o indivíduo possui grande admiração e/ou respeito, e foram assumidos com pouca ou nenhuma exploração (KROGER; MARCIA, 2011). Nesse sentido, enquanto a realização de identidade possa ser interpretada como resultado de um processo de “construção”, o estado de encerramento é melhor entendido como se as respectivas identidades tivessem sido “atribuídas” ou “outorgadas” aos indivíduos, como se tivessem sido herdeiros de uma identidade legada, em vez de terem eles próprios formulado suas identidades por meio de um processo de exploração (KROGER; MARCIA, 2011, p. 34). Os outros dois estados são caracterizados por um baixo grau de comprometimento. Enquanto que, no estado de moratória, os indivíduos estão engajados num período de exploração, lutando para alcançar compromissos, na difusão de identidade os indivíduos nem estão comprometidos, nem engajados numa exploração significativa (KROGER; MARCIA, 2011). Os dois estados divergem quanto ao sentido de interesse e direção. Na moratória, os indivíduos estão tentando formar uma identidade, mas encontram-se divididos entre diferentes alternativas, enquanto que na difusão de identidade, os indivíduos nem estão interessados ou preocupados com sua falta de comprometimento, nem possuem uma direção a seguir, sendo facilmente levados a aderir a qualquer influência externa (KROGER; MARCIA, 2011). Segundo a teoria do status de identidade, o desenvolvimento da identidade acontece no sentido da difusão de identidade ou da moratória para o senso de identidade realizada (CARLSSON, 2015). A progressão teórica sugerida parte (1) da difusão de identidade para a sua realização, passando antes pelo encerramento/foreclosure, (2) da moratória para a realização de identidade, (3) da difusão de identidade para a sua realização, via moratória, ou ainda, (4) do encerramento/foreclosure para a realização de identidade, passando pela moratória (WATERMAN, 1993, 1982). A pesquisa empírica tem suportado em parte essas hipóteses, mostrando que movimentos regressivos acontecem significativamente em menor número que as progressões hipotetizadas e sugerindo que, uma vez que os compromissos de identidade são estabelecidos (realização de identidade e foreclosure), mudanças no status de identidade são 43 menos comuns do que antes de esses compromissos terem sido feitos (moratória ou difusão de identidade) (KROGER; MARTINUSSEN; MARCIA, 2010). A teoria do status de identidade produziu o corpo mais coerente de pesquisa empírica sobre a formação da identidade, tanto na psicologia quanto na sociologia (CÔTÉ; LEVINE, 2002), fazendo emergir o paradigma do status de identidade nesse campo de estudo. Extensivas revisões sobre a pesquisa no paradigma do status de identidade têm identificado quatro principais questões abordadas pelos pesquisadores: (1) características de personalidade associadas aos diferentes estados de identidade, enfatizando a internalização dos processos de autorregulação; (2) aspectos relacionados ao desenvolvimento; (3) diferenças de gênero e papéis sexuais; e (4) estudos interculturais (MARCIA, 1993). No entanto, a teoria do status de identidade tem sido criticada por seu caráter “estático” na abordagem ao desenvolvimento da identidade, uma vez que os sujeitos investigados são categorizados em um dos quatro status de identidade, captando-se apenas um momento específico da formação da identidade, em detrimento do real processo de formação e manutenção do senso de identidade (SCHWARTZ et al., 2013; CÔTÉ; LEVINE, 2002, 1988; SCHWARTZ, 2001; BOSMA; KUNNEM, 2001; van HOOF, 1999; WATERMAN, 1999, 1988). A fim de contornar o problema da “instantaneidade” do modelo do status de identidade quando da categorização estática dos sujeitos, os pesquisadores passaram a enfatizar mais diretamente os processos de exploração e comprometimento, observando as flutuações longitudinais nesses processos (CARLSSON, 2015; SCHWARTZ et al., 2013; CROCETTI; RUBINI; MEEUS, 2008; LUYCKX et al., 2008; MEEUS, 1996). Além do questionamento acerca da viabilidade do modelo de status de identidade como uma teoria do desenvolvimento (SCHWARTZ, 2001; MEEUS et al., 1999; CÔTÉ; LEVINE, 1988), outra crítica feita ao modelo argumenta que ele não representa com precisão o conceito original de identidade pessoal de Erikson, particularmente em relação a muitas das dimensões sugeridas, além de sua validade transcultural (CÔTÉ; LEVINE, 2002, 1988; SCHWARTZ, 2001; van HOOF, 1999). Nesse sentido, Côté e Levine (2002), por exemplo, argumentam que a “[...] noção de que a ‘identidade’ é ou deve ser ‘realizada’ para que o estágio de identidade seja resolvido é problemática não apenas nos contextos ocidentais [...] mas especialmente em outros contextos culturais, onde quase não há esse tipo de resolução” (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 20). De acordo com esses autores, pelos critérios originais do modelo do status de identidade, resoluções adequadas na maioria das sociedades seriam classificadas como “encerramento” [foreclusure], o que seria inadequado para as sociedades modernas ocidentais. 44 Dessa forma, uma vez que domínios culturalmente apropriados passem a ser considerados, muito provavelmente a realização de identidade poderia ser encontrada dentro do status de encerramento (CÔTÉ; LEVINE, 2002). Ao adotar uma lógica individualista, a teoria do status de identidade, segundo Coté e Levine (2002), alinha-se mais à análise de Erikson sobre a identidade norteamericana do que sua abordagem psicanalítica do ego. Marcia (1993) advoga em favor de seu modelo argumentando que sua teoria representa uma tentativa de investigar uma parte da teoria do desenvolvimento do ego de Erikson, enfocando precisamente a validação empírica do constructo identidade, motivo pelo qual sua abordagem diverge de estudos que enfatizam o desenvolvimento (especialmente na adolescência), que tradicionalmente têm dado preferência a métodos ligados à psicanálise ou adotado a abordagem longitudinal em profundidade. Marcia (1993) reconhece que os rótulos usados em seu modelo não são de Erikson, tampouco o influente psicanalista defendera ou aprovara uma abordagem baseada em “status”, mas argumenta que os nomes foram retirados de escritos de Erikson que descreviam as características da formação de identidade mencionadas por ele, mas que, não necessariamente, tenha enfatizado ou usado os rótulos da mesma maneira que Erikson (MARCIA, 1993, p. 19- 20). O exemplo fornececido pelo autor explica o uso do termo “moratória”, que em Erikson se refere a um período de tempo disponibilizado pela sociedade para que os jovens se sintam livres das “demandas de produção” (MARCIA, 1993, p. 20), de modo a buscarem a integração de suas identidades. No entanto, Marcia (1993) questiona essa proposição eriksoniana, argumentando que esse suposto período de concessão tanto pode variar de sociedade para sociedade, como pode ser praticamente inexistente nas sociedades modernas. Em suas palavras: Este período varia muito em diferentes sociedades, sendo quase inexistente naquelas em que a sobrevivência diária impossibilita o luxo de um tempo limite para que os jovens “se encontrem” para nossa sociedade tecnológica ocidental, onde a duração dessas moratórias institucionalizadas parece aumentar em proporção à complexidade da demanda tecnológica e à riqueza da sociedade, estendendo-se em muitos casos desde a puberdade até a idade adulta jovem (25 a 30 anos) – e, para alguns acadêmicos, para toda a vida (MARCIA, 1993, p. 19-20). Dessa forma, Marcia (1993) justifica o uso que prefere fazer do termo moratória, referindo-se ao indivíduo que está ativamente explorando, cognitiva e/ou comportamentalmente, aspectos de si mesmo e do mundo, a fim de realizar alguma integração 45 à sua identidade em construção. Marcia também explica o uso que faz dos termos foreclosure (encerramento) e realização de identidade. O estudioso argumenta que Erikson usa o termo “encerramento” para descrever um período de moratória encurtado, mas se concentrando no aspecto do comprometimento na formação da identidade, não diferenciando com clareza as características de uma identidade formada com ausência do período de exploração, daquela formada após o indivíduo ter passado pelo período exploratório. Marcia (1993) então defende que esses dois tipos de identidade apresentam padrões distintos, o que implica diferentes aspectos constituintes do desenvolvimento, optando por rotular de encerramento a identidade comprometida relativamente não examinada, e de realização, a identidade comprometida autoconstruída. Todavia, as inconsistências apontadas pela crítica ao modelo do status de identidade levaram ao desenvolvimento de modelos alternativos que buscaram maior aproximação aos pressupostos eriksonianos originais a partir da segunda metade dos anos 80, emergindo de tradições filosóficas tão diversas quanto o socioconstrutivismo, o humanismo, o pragmatismo e o interacionismo simbólico (SCHWARTZ, 2001). Por partirem de alguma forma do modelo de Marcia, as novas propostas teóricas ainda se inserem dentro do paradigma do status de identidade, seja como extensões, seja como expansões. Os modelos de extensão complementam a teoria do status de identidade em vez de divergirem ou de tentarem reconceptualizá-la, examinando uma faceta específica ou adicionando um componente singular à estrutura de status (SCHWARTZ, 2001). Já os modelos de expansão podem incluir a teoria do status de identidade como um componente, mas vão além de seu escopo e cobertura, sendo mais fiéis aos fundamentos eriksonianos, incorporando mais de seus elementos conceituais acerca da identidade e abordando a formação de identidade como um constructo multidimensional em vez de simplesmente tratá-lo como uma interseção entre exploração e comprometimento (SCHWARTZ, 2001). Entre os modelos de extensão, aqueles que acrescentam algum elemento à teoria do status de identidade, encontram-se o modelo dos estilos de identidade de Berzonsky (1989), a concepção de Grotevant (1987) acerca do processo de exploração na formação da identidade, e sua respectiva extensão, a teoria do controle de identidade de Kerpelman, Pittman e Lamke (1997), a teoria da autoexpressividade de Waterman (1993, 1992, 1990) e os modelos de ciclo duplo (LUYCKX et al., 2008; LUYCKX et al., 2006) e de certeza-incerteza (MEEUS et al., 2010; KLIMSTRA et al., 2010; CROCETTI; RUBINI; MEEUS, 2008). Por sua vez, dentre os modelos de expansão, que divergem da abordagem do status de identidade e se aproximam mais 46 conceitualmente dos escritos de Erikson, destacam-se a perspectiva co-construtivista de Kurtines (KURTINES et al., 1995; KURTINES; AZMITIA; ALVAREZ, 1992), a abordagem contextual do desenvolvimento de Adams (ADAMS; MARSHALL, 1996; ADAMS; DYK; BENNION, 1987) e o modelo capital de identidade de Côté (CÔTÉ, 2016, 1997, 1996; CÔTÉ; LEVINE, 2002). 2.1.2.1 Os estilos de identidade Berzonsky (1989) formulou um modelo para descrever o processo de desenvolvimento da identidade pessoal, de modo a contornar o caráter estático dos status de identidade de Marcia. Partindo da teoria da construção pessoal de Kelly (1991), Berzonsky (1990) afirma que a identidade pessoal é construída por meio de interações sociais e postula três estilos de identidade distintos – o informativo, o normativo e o difuso-evasivo [diffuse- avoidant] (SCHWARTZ, 2001). Um estilo de identidade representa uma estratégia de resolução de problemas ou um mecanismo de enfrentamento (SCHWARTZ, 2001). Além disso, enquanto as atribuições de status de identidade são baseadas em ações passadas, as classificações de estilo de identidade se concentram no método atual de tratamento de situações diárias (SCHWARTZ, 2001). Os estilos de identidade de Berzonsky indicam as formas como os indivíduos abordam o processo de tomada de decisão, especialmente em relação às decisões que têm um impacto significativo em suas identidades pessoais e caminhos de vida (SCHWARTZ, 2001). As pessoas são vistas como cientistas que elaboram modelos teóricos acerca do mundo que as rodeia e são capazes de escolher aquele que melhor se presta a atendê-las (SCHWARTZ, 2001; BERZONSKY, 1993a). Assim, todos os indivíduos psicologicamente saudáveis são capazes de utilizar qualquer um dos três estilos durante a adolescência e a idade adulta (BERZONSKY, 1990). Contudo, a orientação de estilo adotado tende a ser estável e resistente à mudança, passando a representar uma característica individual, e não uma habilidade, ou seja, o estilo exibido passa a ser uma preferência escolhida, em vez de uma competência adquirida (SCHWARTZ, 2001, p. 22). Conforme sintetiza Schwartz (2001, p. 23), o estilo informativo é o mais flexível, incorporando a busca de informações e o enfrentamento [copying] com foco no problema (BERZONSKY, 1992), a exploração ativa (SCHWARTZ, 1996), o compromisso flexível (BERZONSKY; NEIMEYER, 1994), a necessidade de cognição (BERZONSKY, 1993b) e 47 altos níveis de autoestima (NURMI et al., 1997). Devido à sua ênfase na exploração, o estilo informativo parece estar associado à moratória e ao status de realização de identidade (SCHWARTZ, 2001; BERZONSKY, 1989). O estilo normativo, por sua vez, representa estratégias de imitação e conformidade (SCHWARTZ, 2001), envolvendo uma abordagem rígida (BERZONSKY, 1993b), compromisso inflexível e dogmático (BERZONSKY; NEIMEYER, 1994), autoconcepções estáveis (NURMI et al., 1997) e a supressão da exploração (SCHWARTZ 1996, apud SCHWARTZ, 2001). Devido à sua abordagem inflexível, de “mente fechada” e rigidez, o estilo normativo corresponde mais ao status de encerramento, embora também possa estar associado à realização (SCHWARTZ, 2001; BERZONSKY, 1989). Schwartz (2001) esclarece que, quando confrontados com decisões importantes, os indivíduos normativos tendem a buscar o conselho de figuras de autoridade e outras pessoas que lhe sejam significativas – muitas vezes, as mesmas pessoas em cujos padrões o indivíduo normativo baseou suas próprias concepções. Dessa forma, indivíduos que utilizam o estilo normativo podem evitar ter que lidar com informações que estão em conflito com suas autoconcepções, resistindo a mudanças o maior tempo possível (SCHWARTZ, 2001, p. 23). Por fim, o estilo difuso-evasivo simboliza procrastinação e fuga, sendo melhor caracterizado como uma abordagem ad-hoc para a vida, envolvendo uma estratégia de enfrentamento centrada na emoção (SCHWARTZ, 2001; BERZONSKY, 1992, 1993a). Indivíduos difuso-evasivos em geral prestam pouco atenção ao seu futuro ou às consequências a longo prazo de suas escolhas e tendem a não se comprometer com alternativas de identidade, escolhendo um caminho apenas quando levados por circunstâncias externas (SCHWARTZ, 2001; SCHWARTZ; MULLIS; DUNHAM, 1998; BERZONSKY, 1993a). Além disso, quando se envolvem em alguma forma de exploração, o fazem de formam desorganizada e aleatória (BERMAN et al., 2001). O estilo difuso-evasivo parece constituir a base do status de difusão de identidade do modelo de Marcia (SCHWARTZ, 2001; BERZONSKY, 1989) e está associado a baixos níveis de compromisso (BERZONSKY, 1993b; BERZONSKY; NEIMEYER, 1994), baixa autoestima e autoconcepções instáveis (NURMI et al., 1997). O uso combinado do status de identidade e abordagens de estilo de identidade (BERZONSKY, 1990) revela três padrões de tomada de decisão e resolução de problemas (BERZONSKY; ADAMS, 1999). Nesse sentido, o estilo informativo representaria uma estratégia de decisão no status de realização ou de moratória, na qual várias alternativas são cuidadosamente exploradas e examinadas antes que se assuma um compromisso com qualquer 48 das alternativas consideradas, além do fato de os compromissos assumidos serem flexíveis e sujeitos a revisões (SCHWARTZ, 2001). Por sua vez, o estilo normativo parece representar uma forma de tomada de decisão do status encerramento [foreclosure], na qual a ambiguidade não é tolerada e os compromissos são assumidos tão rapidamente quanto possível (SCHWARTZ, 2001; BERZONSKY; SULLIVAN, 1992). Finalmente, o estilo difuso-evasivo implica uma maneira difusa e desorganizada de tomar decisões e fazer escolhas para a vida (SCHWARTZ, 2001; BERZONSKY, 1993a). Dessa forma, os três estilos de identidade adicionam um componente de processo à estrutura de status de identidade de Marcia (SCHWARTZ, 2001; BERZONSKY; ADAMS, 1999; BERZONSKY, 1990), concebendo a formação da identidade como um processo dinâmico de construção e revisão do senso de si mesmo, mais condizente com os preceitos eriksonianos, em vez de tratá-la como um evento estático e único, tal como o modelo do status parece sugerir (SCHWARTZ, 2001). 2.1.2.2 O processo de exploração na formação da identidade Grotevant (1987) concebeu a exploração como o processo responsável pelo desenvolvimento da identidade, identificando seus componentes e antecedentes. Como componentes principais da exploração, Grotevant (1987) identificou as habilidades (ou capacidades) e as orientações (SCHWARTZ, 2001). Dentre as habilidades, destacam-se, o pensamento crítico, a resolução de problemas e a tomada de perspectiva, entre outros. As orientações se referem a fatores atitudinais, por exemplo, rigidez e procrastinação, que afetariam a disposição para se envolver no processo de exploração, levando em consideração as incertezas e os estressores que acompanham o processo (SCHWARTZ, 2001). Na concepção de Grotevant (1987), habilidades e orientações são componentes independentes uma da outra no processo de exploração, ou seja, a presença ou ausência relativa de uma não determina a presença relativa ou a ausência da outra, embora ambas sejam necessárias para que a exploração ocorra (SCHWARTZ, 2001). Como antecedentes da exploração, Grotevant (1987) identificou: (a) a tendência de busca de informação; (b) a presença ou ausência de forças concorrentes na vida da pessoa; (c) a satisfação (ou insatisfação) com a identidade atual; (d) as expectativas quanto ao processo de exploração; e (e) a disposição para explorar (SCHWARTZ, 2001). Segundo Grotevant (1987), cada um desses antecedentes contribui em algum grau para o nível de exploração de identidade 49 e, em conjunto, podem prever o grau de exploração realizada por um indivíduo (SCHWARTZ, 2001). Schwartz (2001) observa que, uma vez iniciada a exploração, os fatores antecedentes continuam a orientar e intervir no processo, podendo até mesmo interrompê-lo (KERPELMAN; PITTMAN; LAMKE, 1997b). Schwartz (2001) esclarece que, após um período inicial de exploração, os indivíduos muitas vezes param para refletir sobre suas vidas e, nesse processo, podem decidir como prosseguir ou se precisam prosseguir. Uma pessoa satisfeita com a sua identidade, por exemplo, pode cessar o processo de exploração, ao passo que a insatisfação com a atual identidade pode levar à continuidade do processo de exploração, na busca por mais elementos para a formação da identidade (GROTEVANT, 1992). Segundo Grotevant (1987), essas reavaliações são cruciais para o processo de exploração, por representarem atualizações e mudanças no curso da exploração, conforme exigido por mudanças situacionais, por demandas do próprio crescimento individual ou por outra informação não antes considerada (SCHWARTZ, 2001). 2.1.2.3 Teoria do controle de identidade Embora o modelo de Grotevant (1987) especifique os elementos que compõem e orientam o processo de exploração e antecipam as sucessivas reavaliações desse processo, ele não especifica as causas proximais para a exploração contínua (KERPELMAN; PITTMAN; LAMKE, 1997). Além disso, o modelo de Grotevant aponta os critérios para reavaliações periódicas da exploração e da identidade atual, mas desconsidera as ocorrências particulares que impulsionam ou inibem a exploração numa base semanal, diária ou mesmo horária (SCHWARTZ, 2001). Dessa forma, pontua Schwartz (2001), a fim de estudar os microprocessos que impulsionam o desenvolvimento da exploração e da identidade (como as interações interpessoais particulares e suas consequências intrapsíquicas), a teoria do controle, com ênfase na causalidade recíproca e na influência mútua, foi introduzida na literatura da identidade (KERPELMAN; LAMKE, 1997; KERPELMAN; PITTMAN; LAMKE, 1997a, 1997b; KERPELMAN; SMITH, 1999). De forma mais específica, esclarece Schwartz (2001), as interações constantes entre a identidade em desenvolvimento do adolescente e seu ambiente social, e, mais particularmente, a congruência ou incongruência entre o ego, a identidade pessoal ou social e o feedback que se recebe em relação a esses aspectos da identidade podem 50 orientar ou inibir o processo de exploração. Nesse sentido, uma vez que a percepção que uma pessoa possui de si mesma é consistente com o feedback que ela recebe, é improvável que a exploração venha a ocorrer, mas se, por outro lado, o feedback recebido de pessoas importantes não for compatível com a identidade que essa pessoa apresenta, então, provavelmente, a revisão dessa identidade (exploração) deverá ocorrer (SCHWARTZ, 2001, p. 28). A teoria do controle de identidade é proposta no contexto das relações interpessoais (KERPELMAN; SMITH, 1999; KERPELMAN; LAMKE, 1997), embora as identidades às quais o feedback se refere possam pertencer a qualquer domínio de conteúdo (ego-pessoal, pessoal-social, social-estrutural ou todos eles), podendo ser fornecido pelos pais, amigos próximos, parceiros, entre outras pessoas importantes para o indivíduo (SCHWARTZ, 2001). Schwartz (2001) explica que, nos casos em que o feedback é incongruente com a identidade em questão (na escolha ocupacional, por exemplo), a importância da identidade é um determinante significativo para que o feedback fornecido seja aceito ou rejeitado. Ou seja, o feedback discrepante será aceito muito mais facilmente se alguém não estiver fortemente investido na identidade que está sendo desafiada (SCHWARTZ, 2001). Dessa forma, os indivíduos resistirão mais fortemente aos comentários discrepantes sobre elementos de identidade aos quais eles são altamente comprometidos (SCHWARTZ, 2001). Numa versão revisada do modelo, Kerpelman, Pittman e Lamke (1997a) incorporaram a componente de diferenças individuais do modelo de Berzonsky (1997), postulando que: (a) indivíduos informativos deveriam estar mais abertos ao feedback não consistente com suas identidades; (b) indivíduos normativos seriam mais resistentes a esse tipo de feedback e procurariam apenas comentários que fossem congruentes com suas identidades (NURMI et al., 1997); e (c) indivíduos difuso-evasivos seriam desatentos para qualquer tipo de feedback fornecido (SCHWARTZ, 2001, p. 28). No entanto, críticas à teoria têm questionado sua abordagem à identidade, especialmente por ter se afastado dos pressupostos eriksonianos. Nesse sentido, Adams (1997) aponta a natureza mutuamente vinculativa da teoria, na qual é sugerida uma perspectiva mecanicista-contextualista do desenvolvimento humano, uma visão de mundo que seria teórica e filosoficamente incompatível com a orientação baseada na escolha individual da tradição eriksoniana (SCHWARTZ, 2001). Além disso, o estudiodo afirma que os proponentes da teoria do controle de identidade não deram explicação acerca das origens da identidade inicial dos indivíduos (ADAMS, 1997). 51 Em resposta à crítica sobre as origens da identidade inicial, Kerpelman, Pittman e Lamke (1997a) explicam que a identidade inicial seria obtida por meio de processos de internalização parental e mecanismos de identificação (La VOIE, 1994) ou, utilizando a teoria da conexão [attachment-theory], o self inicial seria formado por meio de espelhamento parental [parental mirroring] (BOWLBY, 1980), ou ainda ambos, e que essa identidade seria gradualmente substituída a partir de interações e comentários de outras pessoas significativas durante a adolescência e a idade adulta jovem (SCHWARTZ, 2001). Com relação à segunda crítica, embora Kerpelman, Pittman e Lamke (1997a) a contestem, eles não refutam seu caráter determinista (SCHWARTZ, 2001). 2.1.2.4 Teoria da expressividade pessoal Waterman (2008, 2004, 1993b, 1990) sugere que o desenvolvimento da identidade terá maiores chances de prosseguir com sucesso quando o indivíduo puder identificar seus melhores potenciais e se envolver em atividades que o levem a realizá-los. O autor afirma que esse reconhecimento das próprias potencialidades acontece durante experiências que possibilitem ao indivíduo sentimentos de expressividade pessoal. Waterman (1990) verificou que indivíduos classificados no mesmo status de identidade apresentavam diferenças quanto à qualidade do processo de exploração com os quais haviam se engajado, como também aos compromissos assumidos. Particularmente no caso de indivíduos classificados no status de realização de identidade, duas subcategorias emergiram: (1) a primeira formada por indivíduos que atribuíram elevado grau de significado pessoal às alternativas de identidade as quais haviam explorado e com as quais haviam se comprometido, e (2) uma segunda categoria que incluía indivíduos cujos objetivos, valores e crenças pareciam estar mais externamente relacionados (não intrinsecamente motivados), ainda que esses indivíduos tenham se envolvido com várias alternativas de identidade e selecionado uma ou mais com as quais se comprometeram (WATERMAN, 1992, 1993b). Além disso, o grau de significância pessoal apresentado pelos indivíduos classificados nos status de encerramento e moratória estava bem abaixo dos níveis apresentados pelos indivíduos do status de realização, levando Waterman a especular como possíveis causas para isso: (1) o restrito número de alternativas exploradas por indivíduos no status de encerramento e (2) a incompletude da identidade pessoal inerente ao status de moratória (SCHWARTZ, 2001). No que se refere ao status de difusão de identidade, uma vez 52 que indivíduos nesse status não se engajaram no processo de exploração nem estiveram comprometidos com uma alternativa de identidade, a dimensão de significância pessoal parecia não se aplicar a eles (SCHWARTZ, 2001). A essa dimensão de significância pessoal Waterman (1990) chamou de expressividade pessoal, e, com base na verificação de algum grau de sua presença nos status de realização, encerramento e moratória, Waterman (1992) argumentou que ela poderia ser considerada uma terceira dimensão do desenvolvimento da identidade, juntamente com a exploração e o comprometimento. Waterman (1990) igualou a expressividade pessoal ao conceito de eudaimonia, originário da ética Aristotélica, segundo a qual as pessoas devem descobrir o seu eu verdadeiro [daimon] e viver de acordo com ele (WATERMAN, 1992). Nesse sentido, eudaimonia seria um estado alcançado a partir do esforço para se viver de acordo com o daimon, entendido como um ideal de excelência e perfeição que dá sentido e direção à vida. Essa busca se daria por meio da realização das próprias potencialidades e capacidades, bem como daquelas compartilhadas por todos os seres humanos (WATERMAN, 1993b, 1992, 1990). Dessa forma, a expressividade pessoal é definida como os sentimentos de experiência ótima que acompanham a descoberta do daimon, o conjunto das potencialidades individuais, como também o engajamento em atividades que refletem o daimon (SCHWARTZ, 2001), proporcionando um intenso sentido de propósito, direção e realização na vida (WATERMAN, 1995, 1993b). A tese da expressividade pessoal, fundamentada na ideia do daimon, parece se aproximar da instância da identidade do ego, preconizada por Erikson (SCHWARTZ, 2001). Nesse sentido, da mesma forma que, para Erikson (1976), a identidade do ego representa o núcleo do self, sendo o aspecto mais inconsciente e menos frequente da identidade, o daimon representaria também esse núcleo, a dimensão mais profunda da identidade individual, que permaneceria inconsciente e inexplorada até que fosse descoberta no decorrer do envolvimento do indivíduo em atividades que a evocassem (WATERMAN, 1993a, 1993b, 1992, 1990). Essa ideia já fora abordada, por exemplo, na psicologia analítica, quando Jung (2000) descreveu a individuação como o processo de “tornar-se si-mesmo” ou “o realizar-se do si-mesmo” (JUNG, 2000, p. 49), sendo o “si mesmo” [self], exatamente o daimon, a “totalidade absoluta da psique” (von FRANZ, 1997). A busca interior pela descoberta das potencialidades inatas que podem acompanhar a escolha e o compromisso com alternativas de identidade apresentadas externamente parece ser a principal contribuição da filosofia eudaimonista para o entendimento da formação da identidade (SCHWARTZ, 2001). Nesse sentido, ter alguma ideia das possíveis potencialidades 53 pessoais deveria ser condição para que se possa identificar alternativas de identidade pessoalmente expressivas (WATERMAN, 1992), ou seja, uma pessoa não pode saber quais atividades e escolhas de identidade combinam com seus melhores potenciais únicos até que tenha explorado e descoberto quais são esses potenciais (SCHWARTZ, 2001, p. 32). 2.1.2.5 Modelos de ciclo duplo e de certeza-incerteza Devido às críticas ao modelo do status de identidade, especialmente quanto ao seu caráter “estático”, estudos recentes têm aprofundado e ampliado as dimensões exploração e comprometimento relacionadas à formação da identidade, de modo a melhor representar a dinâmica rumo ao processo de resolução de identidade, tal como preconizada por Erikson. Particularmente, as pesquisas mais recentes têm procurado uma melhor solução para o problema da “classificação de indivíduos em categorias” (SCHWARTZ et al., 2013b, p. 342) gerado pelos estudos que se basearam na teoria de Marcia (1966), negligenciando o exame da tensão dinâmica entre síntese e confusão de identidade teorizada por Erikson (SCHWARTZ et al., 2013b). Dentre as inconsistências teóricas entre os preceitos eriksonianos e a teoria do status de identidade, bem como as pesquisas que seguiram seu modelo, o não esclarecimento de como os status de encerramento [foreclosure] e de moratória [moratorium] se encaixam na teoria de Erikson é um ponto de destaque. Duas propostas que enfatizam o caráter processual das dimensões exploração e comprometimento na formação da identidade, minimizando os “efeitos de categorização” da teoria do status de identidade, são resumidas a seguir. O modelo de ciclo duplo (LUYCKX et al., 2006) desdobra o processo de exploração de identidade em dois processos separados – exploração ampla [exploration in breadth], a dimensão original teorizada por Marcia (1966), definida como o grau em que os adolescentes buscam diferentes alternativas em relação aos seus objetivos, valores e crenças antes de assumirem compromissos (LUYCKX et al., 2008) e exploração em profundidade [exploration in depth], referente às avaliações e (re)considerações cuidadosas e aprofundadas dos compromissos já realizados (SCHWARTZ et al., 2013b) e das escolhas existentes, a fim de se determinar o grau em que esses compromissos se assemelham aos padrões internos sustentados pelo indivíduo (SCHWARTZ et al., 2013a; LUYCKX et al., 2008; MEEUS; IEDEMA; MAASSEN, 2002; KERPELMAN; PITTMAN; LAMKE, 1997). Em seu modelo, Luyckx et al. (2006) também desmembram o processo de comprometimento em dois outros processos separados – comprometimento [commitment making], correspondente à dimensão 54 original do modelo de Marcia (1966), significando o ato de se comprometer com um conjunto de objetivos, valores e crenças, ou seja, tomar uma decisão sobre a direção a seguir (SCHWARTZ et al., 2013a; LUYCKX et al., 2008), e identificação com compromisso [identification with commitment], representando o ato de abraçar e aceitar os compromissos (objetivos, valores e crenças) e de integrá-los à própria identidade, derivando deles autoestima (SCHWARTZ et al., 2013a). Posteriormente, Luyckx et al. (2008) adicionaram um terceiro processo de exploração, a exploração ruminativa [ruminative exploration], referindo-se à preocupação obsessiva em se fazer a escolha “correta”, de modo que a pessoa muitas vezes não consegue fazer nenhuma escolha, ficando “presa” no processo de exploração (SCHWARTZ et al., 2013b). Essa dificuldade no processo de desenvolvimento da identidade se deve, em parte, a expectativas irrealistas, desajustamento, um perfeccionismo extremado e insegurança em arriscar (SCHWARTZ et al., 2013a; LUYCKX et al., 2008). Luyckx et al. (2008) demonstraram a associação de diferentes processos de exploração com a ansiedade e a abertura a novas experiências. Especificamente, os processos de exploração ampla e em profundidade estavam associados à abertura a novas experiências, enquanto que a exploração ruminativa estava relacionada com ansiedade. A exploração ampla e o comprometimento representam a formação dos compromissos, enquanto que a exploração em profundidade e a identificação com compromisso representam a avaliação dos compromissos (SCHWARTZ et al., 2013a). Compromissos julgados inadequados quando explorados em profundidade provavelmente não serão “identificados”, o que dá início a uma outra rodada de exploração ampla, e mesmo compromissos que já passaram a fazer parte da identidade do indivíduo podem, eventualmente, ser explorados em profundidade, em circunstâncias específicas em sua vida – casamento, divórcio, mudança ou perda de emprego, retrocesso inesperado (LUYCKX et al., 2011) – reiniciando o ciclo. Dessa forma, ao reconhecer a exploração e o comprometimento como processos e estabelecer múltiplas dimensões para cada um, o modelo de ciclo duplo assume a formação da identidade como um processo fluido e dinâmico, mais coerente com a conceptualização eriksoniana (SCHWARTZ et al., 2013a). Outra proposta que expande o modelo do status de identidade enfatizando o caráter processual da formação da identidade é apresentada por Crocetti e Meeus (MEEUS et al., 2010; KLIMSTRA et al., 2010; CROCETTI; RUBINI; MEEUS, 2008), chamado de modelo de “certeza e incerteza” (SCHWARTZ et al., 2013a). O modelo considera três processos: (1) comprometimento [commitment], semelhante à dimensão de Marcia (1966), e combinando as 55 dimensões comprometimento e identificação com compromisso de Luyckx et al. (2006) (SCHWARTZ et al., 2013a); (2) exploração em profundidade [exploration in depth], semelhante à dimensão de Luyckx et al. (2006); e (3) reconsideração de compromisso [reconsideration of commitment], indicando a insatisfação com os compromissos atuais e o desejo de mudá-los (SCHWARTZ et al., 2013b). A não inclusão da exploração ampla no modelo foi justificada com um argumento proveniente dos escritos de Erik Erikson (1976), de que os indivíduos entram na adolescência com um conjunto de compromissos internalizados de seus pais e que esses compromissos podem ser reconsiderados como parte do processo de desenvolvimento da identidade. No entanto, na abordagem de Meeus (MEEUS et al., 2010; KLIMSTRA et al., 2010), a reconsideração de compromisso se assemelha à exploração ampla, mas decorre de um conjunto diferente de premissas; enquanto a exploração ampla pode ocorrer quando a pessoa mantém poucos ou nenhum compromisso, a reconsideração de compromisso assume que a pessoa já possui compromissos, que podem, ou não, ser substituídos (SCHWARTZ et al., 2013a). Tanto a reconsideração de compromisso como a exploração ampla têm sido associadas a sintomas de ansiedade e depressão (SCHWARTZ et al., 2013b; CROCETTI; RUBINI; MEEUS, 2008). No modelo de Crocetti e Meeus, o comprometimento representa certeza, enquanto a reconsideração de compromisso representa incerteza no processo de desenvolvimento da identidade (SCHWARTZ et al., 2013a). Dessa forma, comprometimento está relacionado à segurança emocional e a um senso coerente de si mesmo, enquanto que a reconsideração de compromisso está associada a sintomas de internalização e a um senso fragmentado de si mesmo (SCHWARTZ et al., 2013a; SCHWARTZ et al., 2011; CROCETTI; RUBINI; MEEUS, 2008). 2.1.2.6 A perspectiva coconstrutivista da identidade Kurtines (KURTINES et al., 1995; KURTINES; AZMITIA; ALVAREZ, 1992) assume uma perspectiva a partir da qual o indivíduo é visto como um agente ativo e autodirigido, que escolhe alternativas disponíveis de identidade e é responsável pelas consequências dessas escolhas. Com forte influência da filosofia existencialista, sua abordagem conceitua a identidade a partir do desenvolvimento moral, enfatizando a escolha, o autocontrole, a responsabilidade e a integridade do caráter (SCHWARTZ, 2001). 56 Na abordagem coconstrutivista, o desenvolvimento é assumido como um processo compartilhado entre os indivíduos e seus ambientes sociais e culturais (ADAMS; MARSHALL, 1996; CÔTÉ, 1996b, 1993). Nesse sentido, a sociedade oferece aos indivíduos oportunidades para o desenvolvimento de competências cognitivas e psicossociais (habilidades sociais, credenciais educacionais, etc.), enquanto que os indivíduos são responsáveis por promover o crescimento e a evolução dessa sociedade (SCHWARTZ, 2001). Na perspectiva de Kurtines (KURTINES et al., 1995), algumas habilidades seriam requeridas, de modo a capacitar o indivíduo para fazer escolhas de vida de forma efetiva. Habilidades tais como a criatividade, a suspensão de julgamento e a avaliação crítica possibilitam ao indivíduo tomar decisões de forma racional, imparcial e desapaixonada, levando em conta informações objetivas no processo de avaliação das alternativas de identidade disponíveis (SCHWARTZ, 2001). O uso dessas habilidades no contexto de escolhas de vida mostrou aumentar a satisfação e reduzir o sofrimento em relação ao sentido de si próprio (FERRER-WREDER et al., 2002; ARRUFAT, 1997). A criatividade diz respeito à capacidade de gerar tantas soluções alternativas quanto possíveis quando se é confrontado com escolhas de vida. A suspensão do julgamento é a capacidade de evitar tendenciosidades em relação a qualquer alternativa que o indivíduo tenha gerado. A avaliação crítica, por sua vez, denota a capacidade de se avaliar os argumentos a favor e contra a cada alternativa e escolher aquela que apresenta o argumento objetivo mais favorável. Uma habilidade adicional se refere à discussão crítica, que representa o uso das três primeiras habilidades em um contexto interpessoal, no qual o indivíduo coloca suas alternativas sob o julgamento de outras pessoas que lhe sejam importantes. Uma identidade crítica seria aquela cujo senso de si mesmo foi coconstruído e revisado por meio de discussão e resolução crítica de problemas (SCHWARTZ, 2001). Todo indivíduo saudável é capaz de estabelecer uma identidade crítica ao final da adolescência se conseguir dominar e fazer uso das habilidades críticas necessárias. A responsabilidade de promover essas habilidades reside nas instituições sociais, como a escola, a família, governo, etc. (SCHWARTZ, 2001). Se as instituições sociais possuem a responsabilidade de fomentar as habilidades críticas de resolução de problemas nos indivíduos, por sua vez, os indivíduos devem demonstrar integridade de caráter, ou seja, a capacidade para assumir o controle de suas escolhas e saber encarar as consequências delas decorrentes (WATERMAN, 1992). Quando essa relação recíproca está em pleno vigor, um ambiente favorável ao desenvolvimento individual e à evolução social é criado, juntamente com as oportunidades para o desenvolvimento de um 57 sentido de identidade viável (SCHWARTZ, 2001). Essa mútua influência entre indivíduo e sociedade está em consonância com os preceitos eriksonianos. Por outro lado, se qualquer das partes nesta relação não cumprir seu papel, os indivíduos podem se tornar marginalizados das instituições sociais que normalmente promovem as habilidades críticas (CÔTÉ; ALLAHAR, 1996) e, de maneira similar, quando as pessoas sentem que a sociedade as decepcionou, elas são menos propensas a demonstrar a integridade do caráter que contribui para sistemas sociais mais saudáveis (SCHWARTZ, 2001). Ao colocar o desenvolvimento da identidade na interface entre indivíduo e sociedade, na relação recíproca entre a pessoa e as instituições sociais de seu contexto social, Kurtines (KURTINES et al., 1995; KURTINES; AZMITIA; ALVAREZ, 1992) resgata um fundamento essencial da teoria de Erik Erikson. Além disso, a abordagem co-construtivista introduz um conjunto de competências individuais que podem tornar o processo de desenvolvimento mais eficiente, ao possibilitar que as escolhas que o indivíduo precisa fazer aconteçam de forma bem pensada, menos sujeitas a vieses de ordem pessoal. 2.1.2.7 O desenvolvimento sociopsicológico da identidade Adams (ADAMS; MARSHALL, 1996; ADAMS; DYK; BENNION, 1987) divide o contexto social no qual a identidade se desenvolve em dois níveis: micro e macro. O contexto micro refere-se aos intercâmbios e relações interpessoais em que a identidade pessoal é diretamente influenciada por meio do diálogo e outras formas de contato direto, enquanto o contexto macro diz respeito aos ambientes social e cultural, mais abrangentes, nos quais a identidade social é moldada pela invocação de normas, práticas e crenças culturais (SCHWARTZ, 2001). Os efeitos do contexto macro são implementados por meio de contextos micro (SCHWARTZ, 2001). Na concepção de Adams (ADAMS; MARSHALL, 1996), o desenvolvimento da identidade se dá na relação recíproca entre a estrutura psíquica e os processos socioinstitucionais (CÔTÉ; LEVINE, 2002; CÔTÉ, 1997, 1996b, 1993), mediada pelo contexto micro, responsável pela transmissão das normas sociais e padrões institucionais aos indivíduos, como também pela promoção de pensamentos e ideias individuais para as instituições sociais (ADAMS; MARSHALL, 1996). As regras e os padrões sociais e institucionais são ensinados interpessoalmente por pais e professores, por exemplo, e, de forma recíproca, os indivíduos têm oportunidades para expressar ideias próprias e contribuir com seu meio social, influenciando 58 práticas socioinstitucionais, por exemplo, começando um novo negócio ou escrevendo um livro (SCHWARTZ, 2001). O desenvolvimento da identidade acontece na interseção de dois processos opostos, porém complementares: a diferenciação e a integração (SCHWARTZ, 2001). O primeiro diz respeito à dinâmica individual, o processo de se afirmar como um indivíduo único, com características apenas suas; o último se refere à dinâmica social, o processo de se tornar parte de um grupo maior, conectado a outras pessoas, ajustando-se às normas familiares, sociais e culturais. Enquanto a diferenciação representa o processo de individuação e o desenvolvimento da identidade pessoal, a integração reflete a convencionalidade e o desenvolvimento da identidade social (SCHWARTZ, 2001). A identidade saudável emerge da interação e do equilíbrio entre os dois processos na vida do indivíduo (SCHWARTZ, 2001; ADAMS; MARSHALL, 1996; JOSSELSON, 1988). Dessa forma, níveis elevados de diferenciação podem levar à rejeição e à estigmatização, enquanto baixos níveis de integração podem resultar em marginalização no meio socioinstitucional (KROGER, 2005; SCHWARTZ, 2001; KURTINES et al., 1995; CÔTÉ; ALLAHAR, 1996; KEGAN, 1982). Adams (ADAMS; MARSHALL, 1996) concebe a identidade como permeável, ou seja, passível de mudanças por meio de influências externas (SCHWARTZ, 2001). O equilíbrio entre os processos de diferenciação e integração regula essa permeabilidade. Assim, se por um lado a diferenciação inibe a permeabilidade, fortalecendo o sentimento de identidade pessoal e não permitindo a absorção de influências externas, por outro, a integração promove a permeabilidade, quando uma identidade pessoal ou social baseada em normas sociais passa a ser facilmente influenciada por forças sociais através das quais essa identidade foi criada (SCHWARTZ, 2001). Dessa forma, seguindo os preceitos eriksonianos, Adams (ADAMS; MARSHALL, 1996) distingue dois aspectos da identidade, um relacionado à distinção individual, no qual características individuais são autocriadas, gerando diferenciação e separando o indivíduo dos demais – a identidade pessoal – e um segundo aspecto relacionado a características que foram assimiladas do sistema social, identificando o indivíduo com seu grupo e o integrando à sua cultura – a identidade coletiva (SCHWARTZ, 2001). Além disso, a identidade é composta por dois tipos de elementos, (1) aqueles integrados por meio de processos de imitação e identificação, chamados de elementos atribuídos [assigned identity elements], e (2) aqueles adicionados à identidade via processos de autoconstrução, especificamente por meio de busca de informação e outros processos 59 exploratórios (SCHWARTZ, 2001; KURTINES et al., 1995; BERZONSKY, 1993a, 1989), nomeados de elementos escolhidos [chosen identity elements]. Os elementos atribuídos são absorvidos diretamente dos ambientes social e cultural e integrados à identidade com pouca ou nenhuma modificação, ao passo que os elementos escolhidos decorrem de escolhas conscientes e o esforço pessoal para que sejam integrados. Estes últimos se equivalem às características da identidade agêntica, enfatizada no modelo capital de identidade, a ser visto na seção seguinte. A perspectiva do desenvolvimento sociopsicológico da identidade incorpora elementos da abordagem socioconstrucionista, ao considerar a influência recíproca entre o indivíduo e seu meio social, como também a dimensão intrapessoal nas escolhas que o indivíduo realiza. Juntamente com a abordagem socioconstrucionista, a perspectiva do desenvolvimento sociopsicológico da identidade resgata e fortalece os fundamentos básicos da abordagem Eriksoniana ao desenvolvimento humano a partir do processo dual da construção da identidade, estabelecido nas interações da pessoa com seu meio social e cultural, ao longo de toda a sua vida. Uma última teoria que se encaixa na categoria de modelo expansionista, segundo a classificação de Schwartz (2001), refere-se ao modelo de capital de identidade (CÔTÉ, 2016, 1997, 1996b; CÔTÉ; LEVINE, 2002), que é fundamental para o presente estudo. 2.1.2.8 O modelo capital de identidade A teoria do capital de identidade assume que as mudanças econômicas e políticas globais têm abalado as tradicionais estruturas normativas e comunitárias nas sociedades contemporâneas modernas, levando a um declínio geral nas normas sociais estabelecidas, e, como consequência dessas mudanças, a vida das pessoas nessas sociedades tornou-se mais individualizada, envolvendo o desenvolvimento de estilos de vida e estratégias de orientação de valor baseadas em preferências e escolhas pessoais (CÔTÉ, 2016, 2005, 2000; CÔTÉ; LEVINE, 2002). Côté (2016) explica que, em resposta a essas rupturas, as culturas passam por um processo de reorganização, o que faz com que as antigas normas se tornem ambíguas ou mesmo obsoletas, deixando as pessoas sem parâmetros seguros para guiarem suas vidas, contando apenas com os próprios recursos para tomarem decisões importantes da vida, incluindo encontrar comunidades dentro das quais estabelecerá vínculos integrativos. Uma consequência direta para as pessoas nesse contexto de modernidade tardia é o processo de amadurecimento normativo, demandando que as pessoas se desenvolvam como indivíduos 60 autodeterminados e independentes, especialmente em termos de negociação de seus próprios cursos de vida, ou seja, definindo seus objetivos e agindo para realizá-los (CÔTÉ, 2016). Côté e Levine (2002) se referem à modernidade tardia ao tipo de sociedade capitalista-industrial que evoluiu na segunda metade do século XX, distinguindo-se da sociedade moderna em seu estágio inicial em vários sentidos: (a) uma mudança da produção para o consumo de bens e serviços, como característica definidora das relações sociais e da identidade, fazendo emergir uma sociedade cujo lema pode ser resumido em: “Eu sou o que eu consumir hoje” (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 126); (b) a ascensão das tecnologias da informação e informáticas que suplantaram o trabalho e alteraram as bases das relações sociais; (c) a transformação e, em alguns casos, a desintegração, de certas instituições que antes forneciam uma base estável para as relações sociais; e (d) uma sociedade em que uma grande proporção da população experimenta a vida cotidiana em ambientes urbanos impessoais, com alto grau de contato casual com “estranhos”, pessoas com quem não existem vínculos emocionais duradouros (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 125-6). Neste contexto, afirmam Côté e Levine (2002), o processo de formação da identidade social difere daqueles inerentes aos estágios anteriores da sociedade. Nesse sentido, enquanto nas sociedades pré-modernas a identidade era “atribuída”, no sentido de ser “herdada”, ou seja, determinada principalmente por características ou atributos da pessoa (etnia, gênero, status social dos pais, etc.), e, nos estágios iniciais das sociedades modernas, a identidade passou a ser “realizada”, construída com base nas habilidades e no esforço da própria pessoa para incorporar competências cada vez mais demandadas pelo mundo do trabalho, na sociedade contemporânea da alta modernidade, a identidade social tem sido estrategicamente gerenciada, de modo a se adequar reflexivamente a uma comunidade de “estranhos”, com o objetivo de obter sua aceitação e de se legitimar por meio da apresentação das “impressões certas” (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 126). Assim, concluem Côté e Levine (2002), a fim de encontrarem seu lugar ou lugares no mundo social contemporâneo, os indivíduos precisam gerenciar repetidas vezes suas ações e a forma como se mostram e se apresentam, durante todo o curso de suas vidas, uma vez que sua legitimidade estará sempre colocada à prova. Os autores esclarecem ainda mais a complexidade do contexto da modernidade tardia para a construção da legitimidade individual nas relações sociais: Na modernidade tardia, portanto, as identidades pessoais podem ser ainda mais precárias porque os padrões de comportamento aceitável mudam continuamente. Como resultado, as pessoas experimentam várias maneiras de se apresentar, e mudam 61 suas aparências regularmente [...]. Muitas das interações do dia-a-dia acontecem com estranhos [...] que não conhecem a biografia do outro (e podem não se importar com isso), e que não sabem ou se importam se, alguma outra vez, se verão novamente. O que importa é como o presente é construído, e isso é feito mais facilmente por meio de experiências pessoais e conversas apropriadas. Consequentemente, o que muitas vezes conta é a imagem que se projeta, em vez da substância do que está por trás da imagem. Isto, é claro, tem sido um padrão entre as gerações mais jovens (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 127). Em se tratando do componente estrutural da identidade do ego, dentro do paradigma do status de identidade, Côté e Levine (2002) sugerem que o tipo foreclosure parece predominar em sociedades pré-modernas, uma vez que os compromissos assumidos são “escolhidos” por outras pessoas, enquanto que o status de realização parece constitur a estrutura prototípica das sociedades modernas, devido ao fato de que os compromissos são assumidos com base em escolha pessoal. Já nas sociedades contemporâneas da modernidade tardia, devido à falta de compromissos estáveis e de longo prazo, os status de moratória e difusão de identidade parecem emergir como estrutura predominante. No que se refere ao componente processual da formação de identidade, Côté e Levine (2002) afirmam que a sociedade pré-moderna exige que seus membros adotem suas identidades já no início da vida, enquanto que, nos estágios iniciais da sociedade moderna, espera-se que as pessoas construam suas identidades à medida que envelheçam. Por sua vez, na sociedade moderna tardia, as pessoas são encorajadas a, continuamente, descobrirem suas identidades por meio do consumo e do atendimento das expectativas das outras pessoas. Côté e Levine (2002) demonstram preocupação com o quadro que enxergam. Segundo eles, embora no contexto da modernidade tardia o processo de identidade do ego passe a ser uma “descoberta”, na qual o indivíduo descobre continuamente diferentes identidades, cada uma orientada por uma imagem considerada apropriada pelos outros para um determinado momento, essa “descoberta” não é a de um “eu verdadeiro” interior, como a ideia de um daimon, mas a de um “eu situacional” externo (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 129). Assim, por serem baseadas numa imagem projetada, e não na substância por trás dela, ou seja, na sua real essência, as identidades adquiridas geralmente são instáveis e efêmeras, muitas vezes referenciadas com base em “padrões de consumo com datas de expiração incorporadas” (moda, música e outros “sabores da semana”) (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 129). 62 Além disso, em sociedades modernas tardias, a natureza da passagem da vida é multidimensional e determinada por instituições pouco regulamentadas e inadequadamente relacionadas, em conjunto com a influência de persistentes diferenças de status baseadas em classe, raça, gênero e idade, além da discriminação que essas diferenciações podem produzir (CÔTÉ; LEVINE, 2002). Os autores expressam o quadro em retrospectiva e percebem sua expansão para o mundo não-ocidental, apontando também seu aprofundamento no contexto das vidas das pessoas em seus dramas por uma resolução de uma identidade que lhes defina: O impacto sobre a vida individual provavelmente se acentuou cada vez mais com cada coorte ou geração sucessiva ao longo do Século XX, de modo que muitos desses que agora tentam formular uma identidade adulta têm pouca ideia sobre como suas vidas se desenvolverão. Confrontados com um longo período de juventude [...] e esperando para projetar seus próprios projetos de vida, aqueles em coortes atuais estão experimentando um desacoplamento sem precedentes de eventos do curso de vida à medida que as formas tradicionais da idade adulta progressivamente vêm se desestruturando. Esta situação prevalece na maioria dos países ocidentais e parece ser cada vez mais o caso de muitos países não-ocidentais (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 129). Nesse contexto, Côté (2000, 1997, 1996) observa como acontecem as posições que podem ser tomadas em direção a um curso de vida individualizado e verifica que eles podem variar de uma individualização padrão [default individualization] a uma individualização desenvolvida [developmental individualization] (CÔTÉ, 2016, 2000; CÔTÉ; LEVINE, 2002). No primeiro caso, a individualização segue caminhos de menor resistência e esforço, em que as pessoas assumem uma atitude passiva, como se “permitissem” que as escolhas e decisões de sua vida fossem feitas por “terceiros”, cabendo a elas apenas seguir o caminho que lhes foi “determinado”. Como resultado possível dessa passividade e falta de esforço, a formação de sua identidade adulta pode ser prejudicada, levando mais tempo para ser elaborada, como também pode levar à síntese de um sujeito passivo, uma personalidade que não consegue tomar decisões e assumir o rumo de sua própria vida. Essa resposta passiva é a mais comum na sociedade capitalista contemporânea, caracterizada pelo consumo e pela supremacia das corporações e envolve simplesmente a aceitação da manipulação da identidade (CÔTÉ, 2016, 1997; CÔTÉ; LEVINE, 2002; CÔTÉ; ALLAHAR, 1996). Em contraste, a individualização desenvolvida se refere a abordagens proativas e estratégicas para um projeto de vida, levando o indivíduo a encontrar um nicho em uma 63 comunidade adulta (CÔTÉ, 2016). Com essa postura proativa, os indivíduos estariam engajados em seu próprio crescimento pessoal, assumindo tarefas e padrões de realização social e ocupacional mais desafiadores, especialmente durante a adolescência e a idade adulta jovem (CÔTÉ, 1997). Em contextos de vazios normativos orientadores, adaptações ativas mais bem sucedidas envolvem a capacidade de agência, possibilitando que os indivíduos explorem seus potenciais, desenvolvam forças pessoais e sustentem algum senso de direção e significado (CÔTÉ, 1997). A partir dessa postura agêntica do indivíduo, Côté propõe o modelo capital de identidade, fornecendo uma perspectiva para se entender como as pessoas podem gerenciar estrategicamente os vários elementos de suas vidas subjetivas, interacionais e sociais. Segundo o pesquisador, essa “gestão estratégica” envolve o desenvolvimento, a organização e a execução de um “portfólio” de recursos baseados em identidade que são adequados a vários contextos institucionais (como os sistemas educacionais e a força de trabalho) e, em geral, são adaptáveis a uma idade adulta funcional em determinada sociedade. Côté (2016) defende que, ao considerar explicitamente o fator agência, sua abordagem supera as perspectivas sociológicas que enfatizam a supremacia da estrutura sobre o sujeito, sem levar em consideração sua capacidade de escolha e ação, ou seja, sua capacidade de agência, especialmente em contextos de vazios normativos, além do fato de que aquelas abordagens sociológicas desconsideram as interações pessoa-contexto que podem ocorrer nessas estruturas. Côté (2016) reconhece que, embora as ambiguidades e os vazios normativos nas sociedades modernas tardias possam proporcionar mais liberdade às restrições normativas tradicionais (por exemplo, afrouxamento e ruptura das normas restritivas em relação à orientação sexual), em geral pouco fazem para ajudar as pessoas a superarem muitos dos obstáculos associados às relações sociais de classe e outras barreiras estruturais tradicionais, como raça e gênero, por exemplo. Nesse sentido, a abordagem proposta por Côté (2016) se baseia no pressuposto tardio-modernista de que a individualização envolve a libertação das restrições normativas e de algumas identidades atribuídas ou estigmatizadas no passado, mas, ao mesmo tempo, mantém restrições para o exercício de atividades que são independentes de barreiras sistêmicas, como as provenientes de classe social ou de discriminação racial e de gênero, o que coloca muitas dessas pessoas em condição de desvantagem. Dessa forma, no contexto moderno-tardio, torna-se crucial para os indivíduos a consideração do conjunto de recursos pessoais que eles podem acumular ao lidarem tanto com a falta de estrutura normativa quanto com os encargos residuais das barreiras estruturais mais 64 tradicionais. Segundo o autor, alguns recursos internos adquiridos em um determinado ponto do desenvolvimento do indivíduo permitem o subsequente domínio autônomo de tarefas posteriores, conforme exigido por contextos moderno-tardios. Como exemplos, Côté (2016) menciona que, níveis mais elevados de força do ego [ego strength] associados ao domínio de tarefas iniciais, podem ajudar a pessoa a assumir tarefas mais desafiadoras, o que, por sua vez, pode levar a benefícios futuros; além disso, um maior senso de propósito na vida [sense of purpose in life] associado ao domínio de tarefas pode facilitar o planejamento de longo prazo, aumentando a probabilidade para a realização de objetivos pessoais e profissionais de ordem superior. Côté (CÔTÉ, 2005; CÔTÉ; LEVINE, 2002) argumenta que muitos estudiosos têm feito uso do conceito econômico de capital na tentativa de explicar como alguns indivíduos conseguem proativamente compensar “buracos” no tecido social. Exemplos desse esforço teórico são os conceitos de capital humano, capital social e capital cultural que alguns sociólogos usam para explicar como a mobilidade e a reprodução de classe são realizadas com base em recursos educacionais e econômicos transferidos pelos pais para seus filhos. No entanto, o pesquisador defende que tais conceitos são limitados para explicar os requisitos e os processos inerentes às transições institucionais da modernidade tardia, abrangendo apenas contextos mais restritos, como as habilidades necessárias à força de trabalho no mundo capitalista industrial. Para dar conta de tamanha abrangência, Côté sugere o conceito de capital de identidade, referindo-se a contextos mais gerais, muitos dos quais fora do local de trabalho, em que a negociação e a manutenção da identidade são primordiais. O estudioso ilustra seu argumento da seguinte forma: [...] ao realizar o processo de individualização, as pessoas são confrontadas com a tarefa de planejar seus próprios cursos de vida, o que inclui a determinação de seus próprios valores e crenças (religiosas, políticas, seculares e similares), afiliações grupais, atividades de lazer, bem como preferências intelectuais e estéticas. Essas são agora principalmente tarefas de identidade, que podem ou não estar relacionadas com a tarefa associada ao capital humano, ou seja, formar uma identidade ocupacional (CÔTÉ, 2005, p. 225). Dessa forma, o processo de aquisição de capital de identidade descreve como o indivíduo investe, ao longo de sua vida, em uma determinada identidade (ou identidades) e se envolve em uma série de intercâmbios com outros indivíduos, em vários contextos 65 socioinstitucionais. Devido ao déficit ou mesmo inexistência de estruturas normativas no atual momento da sociedade, participar de intercâmbios recíprocos em meios sociais individualistas exige certas habilidades sociais e atributos psicológicos (CÔTÉ, 2005). O capital de identidade representaria então os atributos associados ao conjunto dessas habilidades psicossociais (em grande parte de natureza cognitiva) que dariam às pessoas condições de poderem elaborar estratégias e tomarem decisões que afetariam os cursos de suas vidas, de forma mais eficaz (CÔTÉ, 2005). Fazendo uso do mesmo jargão da economia que os teóricos do capital humano e do capital social já haviam feito, Côté (CÔTÉ, 2016, 2005, 2000, 1997, 1996; CÔTÉ; LEVINE, 2002) apresenta alguns conceitos e definições que compõem sua teoria. A primeira definição é a de recurso, “[...] um ativo que as pessoas usam para ‘fazer dinheiro’, literal ou metaforicamente” (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 143). Os recursos de capital de identidade variam em termos de “tangibilidade”, sendo compostos por dois tipos de ativos, os tangíveis e os intangíveis. Os ativos tangíveis são aqueles “socialmente visíveis” (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 144), tais como patrimônio físico e financeiro, participação em associações, clubes e similares, credenciais educacionais (capital acadêmico), competências socialmente recompensadas, como força física, padrões de fala e status social dos pais (capital cultural) (SCHWARTZ, 2001). Esses recursos funcionam como “passaportes” para determinadas esferas sociais e institucionais (CÔTÉ; LEVINE, 2002; CÔTÉ, 1997). Por sua vez, os ativos intangíveis denotam atributos de personalidade que aumentam a capacidade de troca de ativos sociais com outros indivíduos e com instituições sociais, como escolas, clubes ou corporações (SCHWARTZ, 2001). Os atributos intangíveis envolvem a capacidade de agência, dentre as quais se destacam a força do ego [ego strength], locus interno de controle, autoestima, sentido de propósito na vida, pensamento crítico, capacidade de autorrealização, bem como habilidades ou talentos únicos da pessoa (CÔTÉ, 2005; CÔTÉ; LEVINE, 2002; SCHWARTZ, 2001). Essas forças de personalidade permitem que as pessoas possam compreender cognitivamente (habilidades sintéticas do ego) e negociar comportamentalmente (habilidades executivas do ego) os vários obstáculos e oportunidades sociais, profissionais e pessoais que poderão encontrar ao longo de um curso de vida individualizado no contexto moderno-tardio (CÔTÉ, 2005; CÔTÉ; LEVINE, 2002). Numa síntese, o capital de identidade se refere então aos “investimentos” que os indivíduos fazem em “quem eles são” (CÔTÉ; LEVINE, 2002), representando, num determinado momento, o conjunto de ativos de identidade do indivíduo ou seu patrimônio de 66 identidade (CÔTÉ, 1997). As negociações de identidade que ocorrem nas dinâmicas interacionais de contextos específicos se dão de forma pragmática, simbólica ou emocional. Quando a interação é bem sucedida, o indivíduo acumula capital de identidade, pois o conjunto de recursos utilizados naquela situação específica resultou em sua aceitação, seja por parte de outro indivíduo, de um grupo informal, de uma comunidade ou de uma organização. Com a acumulação de capital de identidade, há o acréscimo ou reforço de algum aspecto particular da identidade pessoal (CÔTÉ; LEVINE, 2002). O conceito de capital de identidade ajuda a entender como as pessoas conseguem ascender em contextos sociais e institucionais moderno-tardios, acessando diversos grupos com interesses diferentes e participando de várias redes, bem como utilizando o conjunto de recursos cognitivos e emocionais que compõem sua personalidade agêntica, com a capacidade de adaptá- los de forma combinada a diferentes contextos, conforme as exigências da situação (CÔTÉ, 2005; CÔTÉ; LEVINE, 2002). Além disso, o modelo de capital de identidade incorpora conceitos anteriormente utilizados por outros estudiosos, como capital humano, social e cultural, alcançando escopo mais amplo na explicação dos fenômenos relacionados à mobilidade social. De modo mais particular, os recursos os quais as pessoas lançam mão para enfrentar os desafios de sua individualização no mundo contemporâneo podem incluir ativos definidos como capital humano (habilidades ocupacionais), capital social (redes recíprocas) e capital cultural (gostos e preferências), que podem ser implantados a partir do portfólio de uma pessoa à medida que surgem oportunidades para expandir ou se engajar em novas comunidades (CÔTÉ, 2005). 2.2 Identidade e agência Para Erikson (1976, 1972), o desenvolvimento da identidade se dá, em grande parte, de forma autodirigida, ou seja, a pessoa deve transacionar com o ambiente social (atuar intencionalmente dentro das restrições socioinstitucionais), a fim de integrar e sintetizar sua identidade, que deve ser, ao mesmo tempo, forte e flexível, de modo a responder à natureza extremamente mutável, dinâmica e ambígua da sociedade moderna, sendo-lhe requisitado para isso, o senso de agência (SCHWARTZ et al., 2013b). Do ponto de vista sociológico, Emirbayer e Mische (1998) identificam três dimensões da agência: (1) o elemento iteracional, definido como a reativação seletiva de padrões passados de pensamento e ação, rotineiramente incorporados à atividade prática, possibilitando estabilidade e ordem aos universos sociais e ajudando a sustentar identidades, 67 interações e instituições ao longo do tempo; (2) o elemento projetivo, significando a capacidade de geração imaginativa de possíveis trajetórias de ação futuras, nas quais as estruturas recebidas de pensamento e ação podem ser reconfiguradas criativamente em relação às esperanças, medos e desejos dos atores para o futuro; e (3) o elemento prático-avaliativo, consistindo na capacidade para fazer julgamentos práticos e normativos entre possíveis trajetórias alternativas de ação, em resposta às demandas emergentes e aos dilemas e ambiguidades de situações em evolução. A partir desses elementos constituintes, os autores definem agência como: [...] o engajamento construído temporariamente por atores de diferentes ambientes estruturais – os contextos de ação temporal-relacional – que, por meio da interação do hábito, da imaginação e do julgamento, reproduzem e transformam essas estruturas em resposta interativa aos problemas colocados por situações históricas em processo de mudança (EMIRBAYER; MISCHE, 1998, p. 970). Contudo, a perspectiva sociológica da agência não consegue explicar o que faz com que uma pessoa aja de maneira independente e conscientemente autodeterminada para “fazer uma diferença” em seu mundo, ou seja, não esclarece o que define um ator humano como agente. Estudiosos da psicologia social como Albert Bandura (1989) desenvolveram teorias para explicar o comportamento e a personalidade agêntica, possibilitando uma compreensão dos mecanismos cognitivos, motivacionais e emocionais envolvidos nos processos de agência humana. Duas propostas conceituais que sintetizam diferentes contribuições teóricas são fornecidas por Côté (2016, 2000, 1997; CÔTÉ; LEVINE, 2002), que apresenta um conjunto de características de personalidade consistentes com a agência, e Lerner (GELDHOF et al., 2014; GESTSDÓTTIR; LERNER, 2007; LERNER et al., 2001), que sugere uma série de etapas seguidas pelos jovens como parte do exercício da agência. A partir de contribuições teóricas anteriores, como os conceitos de autoeficácia (BANDURA, 1977), locus de controle (ROTTER, 1966), autoestima (JOHNSON et al., 1983), propósito na vida (SCHULENBERG; SCHNRTZER; BUCHANAN, 2010; MELTON; SCHULENBERG. 2008; MARTIN; MARTIN, 1977), autorrealização (SHOSTRUM, 1964), força do ego (BERNARD et al., 1996) e comprometimento ideológico (ADAMS, 1998), Côté (2016, 1997) identifica quatro características que definiriam a personalidade agêntica: autoestima, propósito na vida, locus interno de controle e força do ego (paciência e resiliência), compondo seu modelo capital de identidade. 68 Por sua vez, Lerner et al. (2001) partem de um modelo de autorregulação adulta (BALTES; BALTES, 1993) para explicar a agência como uma série de três etapas: (1) seleção – escolha de oportunidades que correspondem aos próprios talentos, potencialidades ou senso de si mesmo; (2) otimização – refinamento das próprias habilidades para que se possa ser mais bem sucedido na busca da oportunidade em questão; e (3) compensação – capacidade de “mudar de curso” em caso de bloqueio, inviabilidade ou indisponibilidade dos planos ou desejos originais (SCHWARTZ et al., 2013b). Dessa forma, a seleção baseada em perda [loss-based selection] (GESTSDÓTTIR et al., 2010) se refere à escolha de um outro objetivo quando a opção original não está mais disponível (SCHWARTZ et al., 2013b). Gestsdóttir e Lerner (2007) e Gestsdóttir et al. (2009) demonstraram que a seleção, a otimização e a compensação são preditores da autoestima, da competência e do propósito, indicando consistência com a ideia de que os processos de autorregulação adaptativa subjacentes à agência são mais prováveis de serem exibidos por indivíduos que possuem uma personalidade orientada para a agência (SCHWARTZ et al., 2013b), conforme as características apresentadas por Côté (2016, 1997). Schwartz et al. (2013b) acrescentam que tais resultados sugerem que o status de realização de identidade representa a melhor resolução do estágio de identidade na teoria de Erikson, e que, embora o status de encerramento [foreclosure] tenha sido associado à satisfação com a vida e com a autoestima, os resultados que correlacionam mais fortemente o status de realização com índices de propósito, direção, agência e descoberta (SCHWARTZ et al., 2011) indicam que indivíduos que assumiram o controle do processo de desenvolvimento da própria identidade conseguem responder de forma mais apropriada às rápidas e inesperadas circunstâncias sociais (SCHWARTZ et al., 2013b). Essa capacidade de resiliência é crucial no contexto da atual sociedade pós-industrial. Em acordo com Erikson (1972), uma orientação autêntica, caracterizada pela abertura, autodireção e flexibilidade, é fundamental para o desenvolvimento de uma identidade capaz de resistir às pressões, decisões e mudanças da idade adulta nas sociedades ocidentais (SCHWARTZ et al., 2013b; CÔTÉ; LEVINE, 2002; CÔTÉ, 1993). Por reconhecer tanto as dificuldades que os vazios normativos nas sociedades moderno-tardias impõem ao desenvolvimento da identidade como também a capacidade de agência e autodeterminação, como recursos imprescindíveis ao indivíduo nesse contexto, o quadro analítico fornecido pelo modelo capital de identidade se mostra adequado para se 69 entender a busca de resoluções de identidade efetivas, aquelas que possibilitem ao indivíduo um espaço em uma comunidade adulta. 2.3 Psicologia humanista: Autorrealização e Funcionamento pleno Os representantes da psicologia humanista também advogam a existência de um self a ser descoberto em cada pessoa. Para Maslow (1993, p. 44), “existe um eu” que deve ser permitido emergir, ouvindo-se “as vozes dos impulsos” interiores. Aqui, o processo de tornar- se si mesmo é descrito de forma semelhante à individuação, na psicologia analítica, definida como “o processo de realização de potenciais, capacidades e talentos, como realização plena de missão [...], como um conhecimento mais completo e a aceitação da própria natureza intrínseca da pessoa, como uma tendência incessante para a unidade, a integração ou sinergia, dentro da própria pessoa” (MASLOW, s. d., p. 44). Emergida no pós-Segunda Guerra Mundial nos Estados Unidos, em reação ao behaviorismo e à psicanálise, que tratavam o ser humano como reativo e determinado por impulsos biológicos inconscientes, não levando em consideração o indivíduo em sua totalidade e sua capacidade de trilhar seu próprio caminho (BEZERRA; BEZERRA, 2012; CASTAÑON, 2007), a psicologia humanista passou a olhar o indivíduo como um ser responsável pelo próprio desenvolvimento, dotado de livre-arbítrio, que busca a autorrealização e atualiza constantemente suas potencialidades, num processo contínuo de crescimento interior e amadurecimento do self (ROGERS, 2009; MASLOW, 1993). Para os humanistas, em seu pleno funcionamento, a pessoa é “proativa, autônoma, orientada por escolhas, adaptável e mutável, em suma, é um ser num processo de contínua transformação” (CASTAÑON, 2007, p. 111). Dois princípios são fundamentais na abordagem humanista; o primeiro se refere à condição inata ao ser humano para o crescimento e bem-estar, “[...] uma vontade ativa em relação à saúde, um impulso para o crescimento, ou para a realização das potencialidades humanas” (MASLOW, 1993, p. 24). O impulso para o crescimento seria um drive de ordem superior, um processo que moveria o ser humano para objetivos que o levassem a desenvolver todas as suas potencialidades, diferentemente dos impulsos mais básicos, mesmo biológicos, responsáveis pela redução da tensão e da manutenção do equilíbrio homeostático. O segundo princípio seria exatamente o da autorrealização, o tornar-se si mesmo por meio da realização dos próprios talentos, potenciais e capacidades, da aceitação da própria natureza, e em direção à integração e unidade interior (MASLOW, s. d.). 70 Uma outra contribuição importante da psicologia humanista é o princípio do funcionamento pleno, sintetizado por Carl Rogers (ROGERS, 2009). Segundo esse princípio, o indivíduo plenamente funcional está aberto às experiências proporcionadas pela vida, seja objetiva ou subjetivamente, o que traz consigo uma série de atitudes relacionadas, como tolerância à ambiguidade e a tendência de perceber eventos com neutralidade, sem distorcê-los defensivamente ou censurá-los da consciência (KERNIS; GOLDMAN, 2006). Indivíduos plenamente funcionais também vivem o momento em sua plenitude, são flexíveis e experimentam a si próprios de forma fluida, não estática e rígida, além de serem autoconfiantes, guiando-se sem receio por suas “intuições”, uma vez que confiam em suas experiências subjetivas (KERNIS; GOLDMAN, 2006). Uma característica marcante inerente a essas atitudes é a de como o indivíduo experimenta a liberdade e, por sua vez, como encara as experiências. Por exemplo, mesmo que o meio ambiente seja imobilizador, para o indivíduo ainda haverá a escolha de como responder e sentir sobre essa limitação (KERNIS; GOLDMAN, 2006). Por fim, como resultado da autoconfiança e da sua atitude de flexibilidade e liberdade, o indivíduo plenamente funcional é criativo em sua abordagem de viver, recusando-se a recuar para modos de comportamento que se tornam desnecessariamente restritivos (KERNIS; GOLDMAN, 2006). 2.4 Psicologia positiva O estudo do desenvolvimento das capacidades humanas a partir da realização íntegra do “eu interior” tem sido alavancado com as pesquisas no campo denominado de psicologia positiva. No rastro da psicologia humanista, a psicologia positiva abandona o “modelo de doença” e segue na orientação da prevenção da doença mental (SELIGMAN, 2002), interessando-se pela descoberta do que funciona bem no ser humano comum, entendendo suas forças e virtudes e estudando o que é desenvolvido e aprimorado na pessoa. A partir dessa perspectiva, a psicologia positiva tenta estabelecer um olhar mais apreciativo e uma postura mais aberta acerca das potencialidades, motivos e capacidades humanas (SHELDOM; KING, 2001). De forma geral, assim como na psicologia humanista, a psicologia positiva pode ser entendida como o estudo dos processos e condições que contribuem para o florescimento ou funcionamento ótimo das pessoas, grupos e instituições, por meio da inversão paradigmática do pensamento patologizante, adotando a ênfase nas potencialidades e possibilitando uma compreensão mais holística do funcionamento humano (GABLE; HAIDT, 2005). 71 A psicologia positiva se baseia fortemente nos princípios da psicologia humanista, mas procura dar aos conceitos provenientes de sua predecessora e de ideias mais antigas da filosofia, como a de felicidade ou “bem viver”, um caráter mais científico, tentando desenvolver constructos empiricamente verificáveis. Muitos conceitos e teorias que hoje são colocados no campo da psicologia positiva foram desenvolvidos antes de seu “batismo” no fim dos anos 90 e início da década de 2000, como a teoria da autodeterminação (RYAN; DECI, 2017, 2000; DECI; RYAN, 1985), o desenvolvimento do constructo bem-estar subjetivo (DIENER, 1984), a teoria da expressividade pessoal (WATERMAN, 2006, 2004, 1993, 1990) e a teoria do fluxo (CSIKSZENTMIHALYI, 1997, 1990). O conceito que mais tem sintetizado os estudos nesse campo é exatamente o de eudaimonia, com vários constructos desenvolvidos para aproximar essa ideia. Bem-estar subjetivo (BES) [subjetive well-being] (DIENER, 2009; DIENER; RYAN, 2009; DIENER; LUCAS; OISHI, 2002; DIENER, 1984), bem-estar psicológico (BEP) [psychological wellbeing] (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; SINGER, 1998; RYFF; KEYES, 1995) e bem-estar eudaimônico (BEE) [eudaimonic wellbeing] (WATERMAN et al., 2010; WATERMAN, 2008; WATERMAN; SCHWARTZ; CONTI, 2006) são os principais conceitos nessa perspectiva. Além desses, a teoria da felicidade autêntica (SELIGMAN, 2002), mais recentemente ampliada para a chamada teoria do florescimento (SELIGMAN, 2011), tenta incorporar todos os elementos e princípios provenientes de contribuições anteriores numa única abordagem. 2.4.1 Teoria da autodeterminação [Self-determination theory – SDT] A teoria da autodeterminação (SDT) é uma metateoria da motivação humana, do desenvolvimento, da personalidade e do bem-estar que estuda especialmente o comportamento volitivo ou autodeterminado, motivado intrinsecamente, e as condições sociais e culturais que o promovem (RYAN, 2009). A teoria assume que o ser humano é um organismo ativo e que funciona em interação contínua com o seu ambiente para satisfazer suas necessidades básicas, mas evoluiu para ser inerentemente curioso, fisicamente ativo e profundamente social (RYAN; DECI, 2017; RYAN; DECI, 2000; DECI; RYAN, 1985). A SDT postula então que, como consequência desse processo evolutivo, três necessidades psicológicas são essenciais para o funcionamento vital e saudável do ser humano, independentemente da cultura ou do estágio de desenvolvimento; são elas as necessidades de autonomia, competência e relacionamento [relatedness] (RYAN, 2009). 72 Em alinhamento com abordagens eriksonianas ao desenvolvimento humano, Ryan e Deci (2017) afirmam que o desenvolvimento individual é caracterizado pelo engajamento proativo, pela assimilação de informações e por regulações comportamentais, e age na busca de integração a grupos sociais. Os autores esclarecem que desde a infância as pessoas manifestam tendências intrínsecas que as levam a se interessar, a querer aprender profundamente e adquirir domínio em relação ao seu mundo externo e ao seu próprio mundo interior. Tais inclinações incluem as propensões inerentes para explorar, manipular e compreender, associadas à motivação intrínseca, como também a propensão para assimilar as normas e regulações sociais por meio da internalização e da integração ativas. Segundo Ryan e Deci (2017), a SDT se preocupa em entender as circunstâncias sob as quais esses dois processos de desenvolvimento profundamente arraigados prosseguem de forma ótima, bem como a forma como diferentes contextos podem neles interferir positivamente ou, de outro modo, comprometê-los. Dessa forma, embora as tendências de crescimento subjacentes à motivação intrínseca e aos processos de internalização e integração sejam evolucionárias, portanto, “naturais”, isso não significa que elas operem de forma robusta em todas as condições, demandando suporte e nutrientes do ambiente social, que, na SDT, são concebidos como necessidades psicológicas básicas, definidas como os suportes e satisfações essenciais e necessários para o crescimento psicológico, a integridade e o bem-estar; tais “ingredientes” são exatamente as necessidades de autonomia, de relacionamento e de competência (RYAN, 2009; RYAN et al., 2006). Quando essas três necessidades são satisfeitas e encontram suporte dentro de um contexto social, as pessoas se mostram mais intrinsecamente motivadas e experimentam mais vitalidade e bem-estar, enquanto que o impedimento ou a frustração dessas necessidades leva à diminuição do comportamento automotivado e à elevação do mal-estar, quando não contribui para diferentes formas de psicopatologias (RYAN, 2009; RYAN et al., 2006). Ryan e Deci (2017) sintetizam sua abordagem teórica afirmando que a SDT examina como as condições biológicas, sociais e culturais melhoram ou prejudicam as capacidades humanas inatas para o crescimento psicológico, o engajamento e o bem-estar, tanto de maneira geral quanto em relação a domínios e empreendimentos específicos. Nesse sentido, a pesquisa na SDT investiga criticamente os fatores, tanto intrínsecos ao desenvolvimento individual quanto em contextos sociais, que facilitam a vitalidade, a motivação, a integração social e o bem-estar, e, alternativamente, aqueles que contribuem para a depleção, fragmentação, comportamentos antissociais e para a infelicidade (RYAN; DECI, 2017). 73 2.4.2 Florescimento e Bem-estar Em busca de uma conceituação mais precisa para a ideia de felicidade, tratada de forma tão ampla e valorada em várias correntes filosóficas em diferentes épocas da História, a psicologia da segunda metade do século XX começa a tentar entender as razões para as pessoas se sentirem satisfeitas com suas vidas e os possíveis fatores que proporcionam o funcionamento mental sadio (VÁZQUEZ, 2009). O conceito de bem-estar tem sido então proposto e seu sucessivo desenvolvimento tem incorporado várias abordagens da psicologia e da filosofia, numa tentativa de incluir um número suficiente de dimensões relativas ao desenvolvimento psicossocial e cognitivo do ser humano, de maneira a possibilitar uma melhor compreensão do funcionamento humano sadio. Conforme afirma Seligman (2011) ao explicar as razões para mudar sua concepção teórica: Eu achava que o tema da psicologia positiva era a felicidade, que o principal critério para a mensuração da felicidade era a satisfação com a vida e que o objetivo da psicologia positiva era aumentar essa satisfação com a vida. Hoje penso que o tema da psicologia positiva é o bem-estar, que o principal critério para a mensuração do bem-estar é o florescimento, e que o objetivo da psicologia positiva é aumentar esse florescimento (SELIGMAN, 2011, p. 23). Conceber o bem-estar a partir da ideia de eudaimonia (HUTA, 2016; WATERMAN et al., 2010; RYAN; HUTA, 2009; KASHDAN; BISWAS-DIENER; KING, 2008; RYAN; DECI, 2001; WATERMAN, 2008, 1993, 1990) em vez de apenas o “sentir-se bem hedônico” ou como a “satisfação com a vida” (DIENER, 1984), tem permitido um entendimento mais completo acerca dos fatores psicológicos que facilitam o desenvolvimento das potencialidades inatas individuais, contribuem para a autorrealização e proporcionam o florescimento (GALLAGHER; LOPEZ; PREACHER, 2009). Três concepções de bem-estar têm sido propostas: bem-estar subjetivo, bem-estar psicológico e bem-estar eudaimônico. 2.4.2.1 Bem-estar subjetivo O constructo bem-estar subjetivo (BES) [subjetive wellbeing] resultou de uma profunda revisão acerca dos estudos provenientes da psicologia, em diferentes subcampos, como a psicologia humanista, social, cognitiva e os estudos psiquiátricos sobre a saúde mental, 74 como também da sociologia, voltados para a compreensão das características – estrutura e componentes – de uma vida percebida como de qualidade, ou “boa”, “feliz”, ou, de forma mais específica, como alguém se sente satisfeito com sua vida (DIENER; OISHI; LUCAS, 2003). Devido ao fato de o bem-estar subjetivo abranger diversos fenômenos cognitivo-afetivos que cobrem aspectos específicos e diferentes, mas apresentam substancial correlação entre si, os pesquisadores preferem definir o bem-estar subjetivo como uma área de interesse científico em vez de reduzi-lo a um constructo (PAVOT, 2008; DIENER; OISHI; LUCAS, 2003; DIENER et al., 1999). O campo de estudo sobre o bem-estar subjetivo consiste então de uma perspectiva científica para perguntas tais como o que faz uma vida ser percebida como desejável? Quais os condicionantes para uma boa qualidade de vida? O que faz uma pessoa ser feliz? (DIENER, 2009). Respostas a essas questões só podem ser fornecidas por quem está avaliando a própria vida e sente ou percebe que ela é boa ou desejável, independentemente de como os outros a vejam (DIENER, 2009). Bem-estar subjetivo é exatamente esse fenômeno, ou seja, as crenças subjetivas de uma pessoa acerca da sua vida, o quanto ela é boa, agradável e desejável (DIENER, 2009). Após extensa revisão do estado da arte relativo ao bem-estar, ou à satisfação com a vida, ou, em termos mais gerais, ao estado de felicidade, Diener (1984) conclui que o bem-estar possui três características bem definidas: (1) reside na experiência do indivíduo (CAMPBELL, 1976), ou seja, é subjetivo; (2) o bem-estar inclui, necessariamente, medidas positivas, e não apenas a ausência de fatores negativos; e (3) as medidas relativas ao bem-estar subjetivo incluem uma avaliação global sobre os aspectos da vida de uma pessoa. Embora o afeto ou a satisfação dentro de um determinado domínio possam ser avaliados, a ênfase é geralmente colocada em um julgamento global da vida da pessoa (DIENER, 1984). No que se refere à estrutura, o bem-estar subjetivo é composto por uma componente afetiva e uma cognitiva (SCHIMMACK, 2008; DIENER; OISHI; LUCAS, 2003; DIENER et al., 1999; DIENER, 1984). A componente afetiva reflete os sentimentos agradáveis e desagradáveis que as pessoas experimentam em suas vidas, possuindo duas categorias ou subcomponentes: os afetos positivos – alegria, exaltação/entusiasmo, contentamento, orgulho, simpatia/afeição, felicidade, êxtase [joy, elation, contentment, pride, affection, happiness, ecstasy] – e os afetos negativos – culpa e vergonha, tristeza, ansiedade e preocupação, raiva, estresse/tensão, depressão, inveja [guilt and shame, sadness, anxiety and worry, anger, stress, depression, envy]. Por sua vez, a componente cognitiva consiste na avaliação pessoal (atitudes) 75 sobre a própria vida, a satisfação com a vida [life satisfaction] – desejo de mudar a vida, satisfação com a vida atual, satisfação com o passado, satisfação com o futuro e opinião de pessoas de importância significativa para o indivíduo sobre sua vida [desire to change life, satisfaction with current life, satisfaction with past, satisfaction with future, significant others' views of one's life] – e, alternativamente, a atitude em relação a domínios de vida específicos – trabalho, família, lazer, saúde, finanças e si mesmo [work, family, leisure, health, finances, self] (DIENER et al., 1999). Dada a relativa independência das subcomponentes afetivas (PAVOT, 2008; LUCAS; DIENER; SUH, 1996; DIENER; EMMONS, 1984; DIENER, 1984; BRADBURN; CAPLOVITZ, 1965), o constructo bem-estar subjetivo tem sido melhor definido como sendo composto por três dimensões (PAVOT, 2008), duas relativas às componentes afetivas e uma à componente cognitiva, estrutura esta com forte suporte empírico (ARTHAUD-DAY et al., 2005; LUCAS; DIENER; SUH, 1996). 2.4.2.2 Bem-estar psicológico Apesar do grande esforço dos pesquisadores do bem-estar subjetivo em sintetizar o conhecimento produzido pela literatura em torno de um constructo estável que conseguisse avaliar em boa medida a experiência interior individual em relação à própria vida, outros estudiosos apresentaram abordagens alternativas ao bem-estar subjetivo, argumentando que esta perspectiva não consegue traduzir com afinidade o conceito original de eudaimonia, mais relacionado ao desenvolvimento pessoal, à autorrealização e ao significado da vida (RYFF; SINGER, 2008; RYAN, R. M.; DECI, 2001; WATERMAN, 1993; RYFF, 1989), concentrando-se exatamente nos aspectos mais hedônicos do bem viver, como as experiências de satisfação, prazer, contentamento, alegria e felicidade (MACHADO; BANDEIRA, 2012). Sob a orientação do significado de eudaimonia, de que o objetivo final da vida é o esforço pessoal para realizar o próprio e verdadeiro potencial, vivendo uma vida virtuosa, que dá preferência à temperança em vez dos excessos, e o conhecimento acumulado nos campos da psicologia do desenvolvimento, humanista, existencial e clínica, além de concepções utilitaristas acerca da felicidade, Carol Ryff (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989) sintetizou as convergências conceituais dessa imensa literatura em seis dimensões que buscam traduzir o funcionamento humano pleno: 76 Autoaceitação: diz respeito à percepção dos aspectos positivos e negativos de si próprio, portanto à autoconsciência, mas, ao mesmo tempo, uma atitude positiva em relação a essas características, reconhecendo as próprias limitações e orientando-se na direção de superar aquelas que são passíveis de modificação e que não se mostraram eficazes no enfrentamento dos desafios da vida (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995). Erikson (1976) chama de integridade do ego a síntese resolvida de todos os triunfos e fracassos que a pessoa vivenciou em sua vida, alcançada por meio da autoavaliação honesta e resignada da própria história. A pessoa está ciente de suas falhas e limitações pessoais, mas se aceita e abraça a si mesmo como é (HIDALGO et al., 2010). Pontuações elevadas neste fator são indicadores de pessoas com uma atitude positiva em relação a si próprias, que reconhecem e aceitam os múltiplos aspectos de seu self, incluindo as boas e as más qualidades, e vêem seu passado com sentimentos positivos (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). Escores baixos neste fator aparecem em pessoas que estão em grande parte insatisfeitas e desapontadas consigo mesmas, mostram-se desconfortáveis com o que aconteceu em sua vida passada, estão preocupadas com algumas de suas qualidades pessoais e querem mudar, desejam ser uma pessoa diferente do que são no momento (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). Relações positivas com os outros: reflete a vida harmoniosa em comunhão com outras pessoas e a capacidade de amar e de sentir empatia. Praticamente todas as abordagens teóricas e clínicas acerca do desenvolvimento humano sadio incluem o domínio interpessoal como crucial para uma vida bem vivida (RYFF; SINGER, 2008). Erikson (1998, 1976, 1972), por exemplo, destaca a intimidade como fundamental no período da vida do jovem adulto e o cuidar e orientar, a generatividade, como sequência natural da vida adulta. Relações calorosas com outras pessoas é uma característica da maturidade, e pessoas classificadas como autorrealizadas apresentam fortes sentimentos de empatia e carinho para com todos os seres humanos, sendo capazes de amar de forma mais honesta, de construir amizades mais verdadeiras e de se identificar mais completamente com os outros (RYFF, 1989). Pontuações elevadas nessa dimensão indicam pessoas que vivem relações calorosas, satisfatórias e confiantes com outras, estão preocupadas com o bem-estar de outras pessoas, sentem forte empatia, são profundamente capazes de oferecer afeto, carinho e intimidade, e compreendem o “dar e receber” nas relações humanas (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). 77 Escores baixos indicam pessoas com poucas relações íntimas e confiantes com outras, que apresentam dificuldades em serem calorosas e abertas e de se preocuparem com o bem-estar dos outros. Essas pessoas se sentem isoladas e frustradas com suas relações sociais e não estão dispostas a assumirem um compromisso importante com os outros (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). Autonomia: refere-se à capacidade de pensar e agir de forma independente, de ter ideias e convicções próprias, mesmo que vão contra o “dogma” aceito ou a sabedoria convencional (HIDALGO et al., 2010). Ryff e Singer (2008, 1996) afirmam que existe um grande número de abordagens teóricas que destacam qualidades tais como a autodeterminação, a independência e a regulação do próprio comportamento. Referindo-se à Maslow, por exemplo, os autores mencionam que pessoas autorrealizadas são descritas como possuindo funcionamento autônomo e são resistentes à aculturação. Outra evidência citada diz respeito à pessoa plenamente funcional descrita por Rogers, que possui um locus interno de avaliação, não necessitando da aprovação de terceiros para tomar suas decisões e agir, guiando-se apenas por meio de seus próprios padrões pessoais. No processo de individuação descrito por Jung, a pessoa vivencia a “libertação da convenção”, na qual já não mais pertence às crenças coletivas, aos medos e às leis das massas (RYFF; SINGER, 2008). A ideia de viver na “má fé” de Sartre também é lembrada pelos autores para exemplificar a importância da autodeterminação na escolha por uma vida autêntica, em vez de se seguir os ditames dos outros e permanecer na inautenticidade. O processo de “voltar-se para dentro” [turning inward], vivenciado por pessoas em estágios mais avançados da maturidade, descrito por abordagens teóricas e clínicas ao desenvolvimento humano ao longo da vida, como as de Erikson, Neugarten e Jung, enfatiza a necessidade de libertação das normas que governam a vida cotidiana (RYFF; SINGER, 2008). Ryff e Singer (2003) resumem a autonomia como a capacidade de estar sozinho, se necessário, e viver de forma independente e acrescentam que este aspecto do bem-estar é, sem dúvida, o mais ocidental de todas as dimensões (RYFF; SINGER, 2008). Pontuações elevadas neste fator caracterizam pessoas autodeterminadas e independentes, capazes de resistir à pressão social para pensarem e agirem de determinada forma; são pessoas que conseguem regular seu comportamento a partir de convicções e quadros de referência individuais e avaliam a si próprias de acordo com padrões pessoais de referência (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). Escores baixos indicam pessoas preocupadas com as expectativas e avaliações dos outros, que dependem dos julgamentos de outras pessoas para tomarem decisões importantes, 78 e seus pensamentos, opiniões e ações estão sempre em conformidade com a “opinião geral” ou “da maioria”, sendo, portanto, fortemente influenciadas pelas pressões sociais (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). Domínio ambiental: é a capacidade do indivíduo de escolher ou criar e sustentar ambientes adequados às suas condições psíquicas (RYFF; SINGER, 2003; RYFF, 1989). Esta condição é definida por Jahoda (1958) como fundamental para a saúde mental. Abordagens ao desenvolvimento também enfatizam a importância da capacidade de domínio ambiental, de manipular e controlar ambientes complexos, particularmente na meia-idade, e de como essa capacidade pode fazer diferença no mundo, quando o indivíduo transforma seu ambiente de maneira criativa, atuando positiva e proativamente no mundo por meio de atividades mentais e físicas e, com isso, contribuindo para o avanço e melhoria da sociedade (RYFF; SINGER, 2008, 1996; RYFF, 1989). Ryff e Singer (2008) lembram que Allport inclui a capacidade de expansão do eu como critério para a maturidade, quando o indivíduo se sente exigido a participar de esferas de empreendimento significativas que vão além da própria pessoa. Para os autores, no conjunto, essas perspectivas teóricas sugerem a participação ativa e o domínio do meio ambiente como ingredientes importantes para o funcionamento psicológico positivo. Por fim, observam Ryff e Singer (2008) que, embora esta dimensão do bem-estar pareça ter paralelos com outros constructos psicológicos, como o senso de controle e a autoeficácia, a ênfase em encontrar ou criar um contexto circundante que se adapte às necessidades e capacidades pessoais seria exclusiva do domínio ambiental. Pontuações elevadas neste fator são obtidas por pessoas com um senso de domínio e competência de seu ambiente ou espaço de vida, que conseguem controlar uma variedade complexa de atividades externas, fazem uso efetivo das oportunidades que surgem e podem escolher ou criar contextos adequados às suas necessidades e valores pessoais (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). Escores baixos indicam inabilidade em gerenciar assuntos do cotidiano, ou dificuldades para mudar ou melhorar seu meio ambiente (espaço de vida) e de perceber e aproveitar as oportunidades que surgem, além da evidente falta de controle sobre o mundo que o cerca (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). Propósito de vida: esta é a capacidade de se encontrar um significado e uma direção nas próprias experiências e de se propor e definir metas para a própria vida (RYFF; SINGER, 2003). Ryff e Singer (2008) esclarecem que esta dimensão é fortemente baseada nas abordagens existencialistas, especialmente a perspectiva da busca de sentido de Frankl, e o 79 sentido de direção e a criação de significado na busca pela vida autêntica, a escolha pela “boa fé” de Sartre. Ambas as abordagens enfatizam a necessidade de um propósito para a existência que dê significado a uma vida que, em si, é caótica, absurda e, por vezes, terrível (RYFF; SINGER, 2008). Na definição de saúde mental, Jahoda (1958) dá ênfase explícita à importância das crenças que dão um sentido de propósito e significado para a vida (RYFF; SINGER, 2008; RYFF, 1989). Por sua vez, ao definir a maturidade, Allport enfatiza a clara compreensão do propósito da vida, incluindo o sentido de direcionamento e intencionalidade (RYFF; SINGER, 2008; RYFF, 1989). Finalmente, as abordagens teóricas ao desenvolvimento ao longo da vida se referem a uma variedade de propósitos ou objetivos que caracterizam diferentes estágios da vida de uma pessoa, como ser produtivo e criativo na meia-idade ou se voltar para a integração emocional na vida adulta (RYFF; SINGER, 2008; RYFF, 1989). Uma pessoa que funciona positivamente possui metas, intenções e um senso de direção, o que contribui para dar significado à vida (RYFF; SINGER, 1996; RYFF, 1989). Avaliações elevadas neste fator aparecem em pessoas que possuem objetivos na vida e um senso de direção; essas pessoas acreditam que tanto o passado quanto o presente de suas vidas têm um significado e que por isso devem seguir com elas; em outras palavras, essas pessoas mantêm crenças que dão às suas vidas um senso de propósito, possuem objetivos a serem alcançados e, dessa forma, razões para viver (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). Escores baixos são característica de pessoas que sentem que suas vidas não possuem significado, não possuem objetivos nem sentido de direção; em geral essas pessoas não conseguem perceber nenhum propósito ou sentido em suas experiências passadas e não possuem perspectivas ou crenças que deem sentido à suas vidas (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). Crescimento pessoal: diz respeito à capacidade de uma pessoa realizar seu próprio potencial e talento e desenvolver novos recursos (HIDALGO et al., 2010). O funcionamento psicológico ideal exige não só que a pessoa alcance as características anteriores, mas também que continue a desenvolver seu potencial, que cresça e consiga expandir-se como pessoa (RYFF, 1989). Nesse sentido, o funcionamento positivo é dinâmico, envolvendo um processo contínuo de desenvolvimento das potencialidades de uma pessoa (RYFF; SINGER, 2008). De todos os aspectos do bem-estar, o crescimento pessoal é o que mais se aproxima do conceito de eudaimonia de Aristóteles, voltado para a autorrealização (RYFF; SINGER, 2008; RYFF, 1989). Ryff e Singer (2008) asseveram que essa orientação está bem desenvolvida nas 80 perspectivas teóricas de Maslow (1993) e Norton (1976), preocupadas com a realização do potencial pessoal, bem como na concepção positiva de saúde mental de Jahoda (1958). A dimensão do crescimento pessoal também está associada à abertura a novas experiências, característica-chave do funcionamento pleno (RYFF; SINGER, 2008; RYFF, 1989). Os autores salientam as formulações de Rogers (2009) sobre a pessoa plenamente funcional, sempre aberta a experimentações e em contínuo desenvolvimento, um permanente “vir a ser”, em vez de um estado fixo em que todos os problemas estão postos e resolvidos (RYFF; SINGER, 2008; RYFF, 1989). Esta dimensão também considera o enfrentamento das adversidades inerentes aos fatos da vida, quando a pessoa precisa mergulhar profundamente em seu interior e encontrar forças que a ajudem a superar essas adversidades (RYFF; SINGER, 2003). Segundo Ryff e Singer (2008, 2003), abordagens teóricas ao desenvolvimento, como as de Erikson, Buhler, Neugarten e Jung, enfatizam essa característica de “força interior” frente às “provações da vida” e o crescimento interior que a superação desses episódios provoca, com impactos diretos na personalidade e no senso de identidade. Além disso, essas abordagens destacam a importância de se continuar a crescer e enfrentar novas tarefas ou desafios em diferentes etapas da vida (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; SINGER, 2003; RYFF, 1989). Avaliações altas neste fator indicam pessoas que querem continuar a se desenvolver, que se consideram em contínuo processo de aprendizado e crescimento, sempre expandindo seus potenciais e evoluindo como pessoa; são indivíduos abertos a novas experiências, com um forte senso de realização de seu potencial e que acreditam que podem melhorar a si próprias ao longo do tempo, de modo a alcançarem mais conhecimento sobre si próprias (autoconhecimento) e aprimorarem sua eficácia (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). Baixas pontuações nesta dimensão aparecem em pessoas com a sensação de estagnação pessoal, que sentem que não têm melhorado ou crescido durante certo período de tempo, que parecem aborrecidas ou entediadas, sem interesse aparente na vida e se sentem incapazes de desenvolver novas atitudes ou comportamentos (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). 2.4.2.3 Bem-estar eudaimônico Preocupados com possíveis desvios de interpretação acerca do verdadeiro significado filosófico do termo eudaimonia por parte de pesquisadores que desenvolveram 81 constructos psicológicos para aproximar os princípios eudaimônicos, Waterman et al. (2010) empreendem uma revisão acerca da filosofia eudaimonista, recorrendo tanto a filósofos clássicos, em especial, Aristóteles, como a filósofos contemporâneos, dentre os quais, David Norton (1976) e Richard Kraut (1979), além da literatura relativa a diferentes interpretações acerca das filosofias hedonista e eudaimonista na pesquisa sobre o bem-estar; dentre os estudiosos mais destacados, podem ser citados: Kashdan, Biswas-Diener e King (2008), Waterman (2008, 2005, 1993, 1990; WATERMAN, SCHWARTZ; CONTI, 2008; WATERMAN et al., 2003), Ryff (RYFF; SINGER, 2008, 1998; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989), Ryan e Deci (RYAN; HUTA; DECI, 2008; RYAN; DECI, 2001) e Diener (DIENER; LUCAS; SCOLLON, 2006; DIENER, 2000; DIENER et al., 1999; DIENER; SAPYTA; SUH, 1998). Waterman et al. (2010) constatam na literatura que, ao se conceituar eudaimonia em termos de suas qualidades subjetivas, conforme a prática dos pesquisadores do bem-estar, torna-se imprescindível reconhecer a distinção relacionada ao valor da experiência subjetiva dentro das estruturas dos conceitos de bem-estar subjetivo e bem-estar eudaimônico. Nesse aspecto, afirmam os autores, na concepção do bem-estar subjetivo, a felicidade (hedonia) é vista como um fim em si mesmo, ou seja, é o objetivo final buscado. Em contrapartida, na abordagem eudaimonista ao bem-estar, as experiências subjetivas relacionadas aos sentimentos de expressividade (eudaimonia) são subproduto do envolvimento em atividades consistentes com o desenvolvimento e a expressão dos melhores potenciais e com o alcance de objetivos intrínsecos. Segundo Waterman et al. (2010), tais experiências subjetivas servem como indicadores valiosos quando esses potenciais estiverem sendo promovidos, porém, destacam os autores, esses potenciais não estão sendo procurados como um objetivo em si mesmo; o motivo da atividade eudaimônica é o valor da própria atividade, e não as experiências subjetivas que a acompanham (WATERMAN et al., 2010). Waterman et al. (2010) afirmam que, tal como o conceito filosófico de eudaimonia, que contempla tanto elementos subjetivos, quanto objetivos, o constructo bem-estar eudaimônico, comparável ao bem-estar subjetivo em relação à qualidade de vida, também pode considerar dois tipos de referentes: (1) elementos subjetivos relacionados ao que os indivíduos experimentam quando se dedicam à excelência na realização de potenciais pessoais e (2) elementos objetivos pertencentes a comportamentos que promovam ou estejam associados à busca de objetivos eudaimônicos. No entanto, observam os autores, muitos estudiosos contemporâneos, sejam eles filósofos ou pesquisadores da psicologia, escolheram priorizar um 82 aspecto em detrimento do outro, quando assumiram determinada interpretação acerca do significado de eudaimonia. Nesse sentido, enquanto aqueles que empregam uma abordagem subjetiva ao bem-estar são seguidores de uma longa tradição em se entender e traduzir eudaimonia como sinônimo de felicidade, os que adotam uma compreensão objetiva para o bem-estar têm assumido o conceito de eudaimonia como significando a ideia de florescimento (KEYES; HAIDT, 2003). Waterman et al. (2010) defendem que ambas as abordagens precisam ser levadas em consideração para uma definição mais completa de bem-estar eudaimônico, de modo a refletir com mais precisão o significado filosófico de eudaimonia. Os pesquisadores fazem então uma crítica ao modelo de bem-estar psicológico proposto por Carol Ryff (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989). O argumento é que, se por um lado o modelo enfatiza a importância da busca de objetivos, como prioritária em relação às experiências subjetivas de hedonia e ainda que as dimensões do modelo se apresentem como ótimos indicadores dos aspectos que caracterizam a saúde mental e o funcionamento pleno, o que serviria como uma conceituação viável para o florescimento, por outro, as qualidades descritas pelas dimensões não parecem refletir a ideia de florescimento tal como reconhecida por Aristóteles e empregada por filósofos contemporâneos que trabalham com a tradição eudaimônica. A fim de se chegar a uma conceituação mais completa de bem-estar, que traduzisse com mais fidedignidade o significado filosófico de eudaimonia, Waterman et al. (2010) propõem que o constructo bem-estar eudaimônico passe a incorporar tanto os elementos subjetivos – experiências de eudaimonia e sentimentos de expressividade pessoal – quanto os objetivos – comportamentos envolvidos na busca de objetivos eudaimônicos, como a autorrealização, que implica a identificação e desenvolvimento de potenciais pessoais e sua utilização, de maneira a trazer propósito e significado à vida. Os estudiosos defendem que a pesquisa sobre o bem-estar avançará na medida em que sejam desenvolvidos instrumentos que reflitam com precisão os entendimentos filosóficos sobre eudaimonia e, com isso, possam ajudar na compreensão sobre a qualidade de vida para além do que já tem sido explicado por constructos já amplamente estudados. Com esse intuito, os pesquisadores empreendem um estudo empírico que avalia as propriedades de um novo instrumento, o Questionário para o Bem-estar Eudaimônico [The Questionnaire for Eudaimonic Well-Being – QEWB], projetado para avaliar o bem-estar eudaimônico em termos dos elementos associados à eudaimonia, tal como retratado nas análises filosóficas eudaimonistas contemporâneas (WATERMAN et al., 2010). 83 No desenvolvimento do questionário, foi dada prioridade à criação de itens estreitamente fundamentados em entendimentos filosóficos sobre o funcionamento eudaimônico, incluindo-se itens que refletiam qualidades específicas, descritivas do funcionamento eudaimônico na literatura filosófica (por exemplo, busca da excelência e autorrealização), bem como itens que abrangiam as experiências subjetivas de eudaimonia (sentimentos que reflitiam a expressividade pessoal das atividades as quais se está engajado, por exemplo) (WATERMAN et al., 2010). A fim de manter o instrumento consistente com outros instrumentos que avaliam constructos relacionados ao bem-estar como variáveis no nível do sujeito, os itens do novo instrumento foram redigidos de modo a se referirem ao nível geral de funcionamento eudaimônico de uma pessoa, em vez de experiências associadas a atividades específicas (WATERMAN et al., 2010). No que se refere aos fundamentos teóricos para o instrumento, a teoria da identidade eudaimônica (WATERMAN, 2007a, 2004, 1993a, 1992), já sintetizada aqui na seção sobre as teorias de identidade, serviu de referência para o desenvolvimento de itens que operacionalizassem de forma mais fidedigna os conceitos abstratos relacionados à eudaimonia. A teoria relaciona a filosofia eudaimonista com o estudo do funcionamento psicológico, tendo sido desenvolvida na busca de respostas para duas questões: (1) Existem elementos potenciais de identidade que representem “melhores” resoluções para uma crise de identidade? e (2) Em caso afirmativo, como essas “melhores” escolhas poderiam ser reconhecidas? Tendo por base as concepções filosóficas sobre eudaimonia, como a ideia de daimon, o “eu verdadeiro”, a autorrealização, a busca da excelência e a própria ideia de eudaimonia (como forma de experiência subjetiva), a teoria da identidade eudaimônica integra aspectos da perspectiva psicossocial da formação da identidade com a teoria da autodeterminação da motivação intrínseca (WATERMAN et al., 2010). A teoria sustenta que as resoluções mais bem-sucedidas para as questões de identidade são aquelas por meio das quais os indivíduos podem identificar e desenvolver os talentos e as habilidades que representam seus melhores potenciais e cujos objetivos são percebidos como atribuindo propósito e significado à vida (WATERMAN et al., 2010). Uma forma de reconhecer as “melhores” escolhas de identidade, aquelas que podem servir de base para compromissos pessoalmente significativos, seria por meio da identificação das atividades que dão origem a sentimentos de expressividade pessoal (eudaimonia) (WATERMAN et al., 2010). Waterman et al. (2010) estabelecem como premissa o argumento de que, uma vez que sentimentos de expressividade pessoal – experiências intimamente ligadas à motivação 84 intrínseca – são percebidos concomitantemente com o desenvolvimento dos melhores potenciais, bem como com o uso desses potenciais na persecução de objetivos de vida pessoalmente significativos, levar em conta esses potenciais para fundamentar as decisões de identidade constitui-se potente fonte sustentável de bem-estar (WATERMAN et al., 2010, 2008; WATERMAN, 1993a, 1992). A partir desses fundamentos, o conjunto de itens iniciais para o QEWB foi dividido em seis categorias construídas sobre forte alicerce teórico proveniente da filosofia eudaimonista e da pesquisa sobre o bem-estar: Autodescoberta: Waterman et al. (2010) afirmam que dois princípios da filosofia eudaimonista identificados por Norton (1976) nos textos helênicos clássicos são: (1) conhece- te (a inscrição no templo de Apolo em Delphos) e (2) escolhe-te a ti mesmo, que, nas palavras de Pindar são sintetizados como torna-te quem tu és (WATERMAN et al., 2010). O eudaimonismo, como uma teoria ética, convida cada pessoa a reconhecer e a viver de acordo com o seu daimon, ou seja, esforçar-se para realizar-se a si mesmo. No entanto, antes de qualquer progresso notável em direção à autorrealização, torna-se imprescindível ter reconhecido e decidido que tipo de pessoa já se é. Isso torna o processo de autodescoberta central para o funcionamento eudaimônico. Também serve para vincular o bem-estar eudaimônico ao sucesso no processo de formação da identidade (WATERMAN, 2004, 1993a, 1992). Um exemplo de um item relacionado à autodescoberta no QEWB é: “Eu acredito que descobri quem eu realmente sou” (WATERMAN et al., 2010). Desenvolvimento percebido dos melhores potenciais: Ainda sob as orientações de Norton (1976), Waterman et al. (2010) confirmam que, do ponto de vista eudaimônico, um dos elementos mais importantes para aprender sobre si mesmo diz respeito aos potenciais únicos que representam o melhor que uma pessoa pode se tornar. Não basta identificar esses potenciais, mas é preciso também se esforçar para atuar proativamente sobre eles de modo a serem plenamente desenvolvidos (WATERMAN et al., 2010). Um item do QEWB que acessa este aspecto é: “Eu acredito que conheço quais são meus melhores potenciais e eu tento desenvolvê-los sempre que possível” (WATERMAN et al., 2010). Senso de propósito e significado na vida: Segundo Waterman et al. (2010), uma coisa é ter identificado os melhores talentos e habilidades, outra coisa é decidir para onde direcionar os objetivos de vida relacionados a esses talentos e habilidades. Para experienciarem bem-estar eudaimônico, os indivíduos devem encontrar maneiras de usar suas habilidades e talentos na busca de objetivos pessoalmente significativos (WATERMAN et al., 2010). Um 85 item do QEWB projetado para avaliar esta componente é: “Eu posso afirmar que encontrei meu propósito na vida” (WATERMAN et al., 2010). Investimento de esforços significativos na busca da excelência: Citando Spinoza, que afirma que “todas as coisas excelentes são tão difíceis quanto raras”, Waterman et al. (2010) destacam a importância e a necessidade do esforço excepcional na busca da excelência. Os autores justificam isso com o argumento de que as experiências do bem-estar eudaimônico se baseiam na autorrealização por meio do pleno uso das habilidades e talentos em atividades pessoalmente significativas, e que, por isso, o nível de esforço investido em tais atividades será consideravelmente maior do que em outras atividades nas quais a pessoa se envolve. Essa associação positiva entre eudaimonia e o nível de esforço investido em atividades já havia sido verificada por Waterman (2005). Um exemplo de item que mensura esse aspecto no QEWB é: “Eu me sinto melhor quando estou fazendo algo que vale a pena investir muito esforço”. Envolvimento intenso em atividades: Quando os indivíduos estão envolvidos em atividades pessoalmente significativas em que fazem pleno uso de suas habilidades e talentos, a intensidade de seu envolvimento nessas atividades deve ser consideravelmente maior do que quando se envolve em outras atividades mais rotineiras (WATERMAN et al., 2010). Os autores recorrem à teoria do fluxo, desenvolvida por Csikszentmihalyi (1997, 1990), para sustentarem esse aspecto do bem-estar eudaimônico. No estado de fluxo as pessoas estão intensamente envolvidas na atividade em que se engajaram e isso está associado ao equilíbrio entre os desafios e as habilidades durante a realização dessas atividades. Waterman (WATERMAN et al., 2008, 2003; WATERMAN, 1993b) havia verificado que os sentimentos de expressividade pessoal estavam positivamente correlacionados tanto com um equilíbrio entre desafios e habilidades quanto com experiências subjetivas de fluxo. Dessa forma, Waterman et al. (2010) defendem que a experiência de bem-estar eudaimônico deve contemplar a frequência do envolvimento intenso nas atividades nas quais a pessoa se engaja. Um item do QEWB que mensura este aspecto é: “Eu acho que eu estou intensamente envolvido em muitas das coisas que faço todos os dias” (WATERMAN et al., 2010). Prazer em atividades pessoalmente expressivas: De acordo com Waterman et al. (2010), um dos aspectos mais evidentes e essenciais do bem-estar eudaimônico é a experiência direta de felicidade na forma de eudaimonia. Pessoas que experimentam altos índices de bem- estar eudaimônico costumam informar que aquilo que estão realizando em suas vidas corresponde exatamente a quem elas são, ou seja, aquilo que fazem expressa pessoalmente suas identidades. Um item do QEWB projetado para avaliar este aspecto do bem-estar eudaimônico 86 inclui: “Para mim é mais importante que eu goste do que eu faço do que me importar se os outros estão impressionados por isso” (WATERMAN et al., 2010). A estrutura encontrada para o bem-estar eudaimônico na validação final do questionário foi unidimensional, com suporte para as validades convergente, de constructo, discriminante e incremental. O bem-estar eudaimônico medido pelo QEWB correlacionou-se positivamente com o bem-estar subjetivo e o bem-estar psicológico, com medidas de comprometimento de identidade, com traços positivos de personalidade (amabilidade/simpatia, conscienciosidade, extroversão e abertura – imaginação) e com medidas de funcionamento psicológico positivo (autoestima e locus interno de controle), e correlacionou-se negativamente com medidas de funcionamento psicológico negativo (ansiedade geral, ansiedade social e depressão) e com o traço de neuroticismo. Posteriormente, Schutte, Wissing e Khumalo (2013) revisaram a estrutura unidimensional do QEWB, sob o argumento de que Waterman et al. (2010) fizeram uso inadequado de alguns procedimentos estatísticos de validação, como também deixaram de realizar a análise fatorial confirmatória como critério de verificação para a solução unifatorial encontrada. Em seu estudo, os pesquisadores encontraram duas soluções multidimensionais viáveis que diferem sobremaneira da estrutura encontrada por Waterman et al. (2010), fornecendo suporte para a hipótese de que uma estrutura multidimensional poderia explicar os dados de forma mais fidedigna. A primeira solução com três fatores explicou 41,99% da variância, enquanto a segunda solução, com quatro dimensões, explicou 47,60% da variância total. As quatro dimensões estão resumidas a seguir: Senso de Propósito [Sense of Purpose]: Os itens neste fator refletiam a preocupação com o autoconhecimento e com o sentido de propósito na vida, especificamente, os itens das categorias autodescoberta e sentido de propósito e significado na vida de Waterman et al. (2010). Um item relacionado à categoria de envolvimento intenso em atividades também foi carregado neste fator. Schutte, Wissing e Khumalo (2013) afirmam que um sentido de significado e propósito na vida é muitas vezes considerado parte integrante do bem-estar na literatura sobre bem-estar eudaimônico e citam estudos anteriores que corroboram essa dimensão, como o constructo presença de sentido na vida de Steger et al. (2006), que envolve o sentido subjetivo de que se vive uma vida significativa, o constructo propósito na vida de Ryff (RYFF; SINGER, 2008; RYFF; KEYES, 1995; RYFF, 1989), que tem a ver com a compreensão de que a vida possui um propósito, orientação de objetivo e intencionalidade, e a orientação centrada no sentido de Wong (2010, 2011) para terapia e bem-estar. 87 Expressividade Pessoal Significativa [Purposeful Personal Expressiveness]: Itens que carregaram neste fator referiam-se ao engajamento pleno e ativo em atividades que o indivíduo considera significativas. Itens relacionados às categorias de Waterman et al. (2010) de envolvimento intenso em atividades, prazer em atividades pessoalmente expressivas, desenvolvimento percebido dos melhores potenciais e investimento de esforços significativos em busca da excelência contribuíram para esta dimensão. Segundo Schutte, Wissing e Khumalo (2013), o conteúdo deste fator ressoa as ideias de Fowers (2012a, 2012b) sobre uma perspectiva da ética da virtude baseada na eudaimonia e no florescimento como participação contínua em assuntos caracteristicamente humanos, como o conhecimento e o sentimento de pertencimento, por meio de atividades virtuosas. Os autores argumentam ainda que o fator também está relacionado às noções de motivação intrínseca, que envolve a busca de uma atividade motivada pelo seu interesse inerente e autonomia, implicando que a pessoa abraça reflexivamente atividades percebidas como próprias (RYAN; HUTA; DECI, 2008). Na solução com quatro dimensões, este fator foi dividido em dois: (1) Engajamento em atividades recompensadoras [Engagement in Rewarding Activities], indicando o valor que o indivíduo atribui a atividades que considera recompensadoras, gratificantes e pessoalmente expressivas, refletindo fortemente o constructo da expressividade pessoal de Waterman (1993b); e (2) Viver a partir das Crenças [Living from Beliefs], que traduz a importância de se viver a partir das convicções que se têm, podendo estar vinculadas à perspectiva da ética da virtude de Fowers (2012a, 2012b), como também à noção de autonomia na teoria da autodeterminação (RYAN; HUTA; DECI, 2008). Envolvimento Engajado [Effortful Engagement]: Os autores chamam atenção para o fato de que este fator foi formado por itens reversos, que obtiveram cargas elevadas no fator. Os pesquisadores levantam a questão da razão para tal fenômeno, se, como seria de se esperar, devido à semelhança conceitual ou se por razões de escolhas metodológicas, o que caracterizaria um viés, sendo a dimensão mais um artefato que propriamente um constructo teoricamente consistente. Conceitualmente, o fator pareceu representar uma disposição para investir um esforço extra em assuntos e questões de certa forma difíceis, e assumir a responsabilidade pela direção da vida. As categorias de Waterman et al. (2010) aqui representadas foram a do investimento de esforços significativos na busca da excelência, envolvimento intenso em atividades e autodescoberta. Para Schutte, Wissing e Khumalo (2013), o conteúdo deste fator ressoa ideias relacionadas à experiência ótima ou de fluxo (NAKAMURA; CSIKSZENTMIHALYI, 2009; DELLE FAVE; MASSIMINI, 2005), na qual 88 prevalece a sensação de completa absorção no momento presente e a atenção é totalmente investida na tarefa que está sendo realizada, culminando num estado de envolvimento e concentração profundos, em que os desafios percebidos encontram amparo nas habilidades pessoais (SCHUTTE; WISSING; KHUMALO, 2013). 2.5 Ansiedade Existencial Filósofos existencialistas postularam acerca do medo, terror ou desespero experienciados pelo ser humano diante da consciência de sua condição de finitude, da sensação de ausência de ordem e significado na vida e do sentimento de que o viver é inautêntico e sem sentido. A partir das ideias desses filósofos, outros estudiosos aprofundaram o entendimento do significado da ansiedade existencial. Giddens (2002), como May (1980) e Yalom (1980), sintetizam o conhecimento acumulado acerca da ansiedade e concluem que ela difere do medo na medida em que o medo seria uma resposta emocional a uma ameaça específica, ou seja, existe um objeto, alvo do medo, ao passo que a ansiedade caracterizar-se-ia exatamente pela ausência de um objeto específico. A experiência da ansiedade, diferentemente do medo, é difusa, e suas causas são em geral inconscientes ou não claramente definidas para o indivíduo. Além disso, enquanto o medo dispara uma série de reações fisiológicas que preparam o indivíduo para uma ação diante de uma situação de perigo percebida, a ansiedade o paralisa. Na explicação de Tillich (2000), essa paralisia se expressa [...] na perda de direção, reações inadequadas, falta de “intencionalidade” (o fato de estar relacionado a conteúdos significativos de conhecimento ou vontade). O motivo desse comportamento às vezes impressionante é a falta de um objeto em que o sujeito (no estado de ansiedade) possa se concentrar. O único objeto é a própria ameaça, mas não a fonte da ameaça, porque a fonte da ameaça é “o nada” (TILLICH, 2000, p. 37). Segundo May (1980, p. 199-200), “as características especiais da ansiedade são os sentimentos de incerteza e impotência em face ao perigo. A natureza da ansiedade pode ser entendida quando indagamos o que é ameaçado na experiência que produz ansiedade”. Nas palavras de Giddens (2002, p. 47), “a ansiedade é essencialmente o medo que perdeu seu objeto pelas tensões emocionais inconscientemente formadas que expressam ‘perigos internos’ e não 89 ameaças externalizadas. Devemos entendê-la essencialmente como um estado de medo inconscientemente organizado”. May (1980) distingue a ansiedade neurótica da ansiedade normal ou existencial, na medida em que esta última seria uma reação em que (1) não é proporcional à ameaça objetiva, (2) não envolve repressão ou outros mecanismos de conflito intrapsíquico e, portanto, (3) não requer mecanismos de defesa neurótica para seu controle, e, (4) pode ser enfrentada de maneira conscientemente construtiva. Giddens (2002) afirma que a ansiedade se refere a ameaças à integridade do sistema de segurança ontológica do indivíduo, aquele conjunto de comportamentos, traços e reações emocionais reflexivamente acumulados ao longo de sua história de vida e que lhe deram um sentido de eu. May (1980, p. 202) complementa ao afirmar que “[...] a natureza sem objeto da ansiedade decorre do fato de a base de segurança do indivíduo estar ameaçada; e, como é em função dessa segurança que o indivíduo está apto a se experienciar como um eu em relação a objetos, a distinção entre sujeito e objeto também se desfaz”. A ansiedade tem, pois, uma origem ontológica, quando o indivíduo se depara com a verdade intransponível do ser que traz consigo o seu não-ser (TILLICH, 2000). Para Yalom (1980), as causas da ansiedade normal derivam do enfrentamento inescapável de quatro “questões últimas” ou “dados da existência”: (1) a morte, o ser humano deseja viver indefinidamente mas percebe que a morte é o seu destino certo; (2) a liberdade, o ser humano sente necessidade de segurança, ordem e estrutura para a sua vida, mas se dá conta de que não existe um projeto ou plano universal para a vida humana além daquele que os próprios seres humanos criam, o que o faz perceber que ele é o único responsável pela criação da própria vida e do mundo em que vive; (3) o isolamento (ou solidão existencial), apesar do desejo de estar junto, de comunhão com os outros e da necessidade de se sentir parte de algo maior, o ser humano se defronta com a inconveniente verdade de que, de fato, nasceu sozinho e de que morrerá sozinho; e (4) a ausência de sentido, todas essas verdades levam o ser humano a se dar conta de que não existe qualquer significado na vida, não há uma “ordem divina” ou uma “lógica universal” que dá sentido à existência, ou seja, o ser humano é um mero acaso. Tillich (2000) sugere três tipos de ansiedade com base em três formas de ameaça do não-ser ao ser. Para Tillich (2000), o não-ser ameaça: (1) a autoafirmação ôntica do homem, relativamente em termos do destino e absolutamente em termos da morte; (2) a autoafirmação espiritual do homem, relativamente em termos de vazio e absolutamente em termos de ausência de sentido; e (3) a autoafirmação moral do homem, relativamente em termos de culpa e absolutamente em termos de condenação. A consciência dessas ameaças dá 90 origem à ansiedade em suas três formas: (1) a do destino e da morte (ansiedade da morte) ou ansiedade ontológica, derivada da consciência da finitude física; (2) a do vazio e perda de sentido (ansiedade da falta de sentido) ou ansiedade espiritual, proveniente da sensação de vazio pela falta de significado na vida; e (3) a da culpa e condenação (ansiedade de condenação) ou ansiedade moral, que emerge na forma dos sentimentos de culpa e condenação, quando os indivíduos ficam aquém de sua autoafirmação e não conseguem cumprir seu verdadeiro potencial. 2.5.1 Teoria da Gestão do Terror [Terror Management Theory – TMT] O desconforto psíquico que a consciência dessas questões existenciais traz para o indivíduo, a ansiedade existencial, pode ser uma fonte de motivação para muitos comportamentos que visam à amenização dessa ansiedade. Uma abordagem que procura explicar o papel que a consciência da inevitabilidade da morte desempenha em diversos aspectos da vida humana é a teoria da gestão do terror [Terror Management Theory – TMT] (GREENBERG; PYSZCZYNSKY; SOLOMON, 1986). Segundo Kesebir e Pyszczynsky (2012), o princípio fundamental da TMT é de que o desejo de transcender a fragilidade da existência humana, por meio da participação pessoal valiosa para um mundo significativo, está na raiz de um vasto conjunto de motivações humanas. A autoconsciência é uma característica que apenas a espécie humana conseguiu desenvolver ao longo de seu processo evolutivo. Embora algumas espécies sejam capazes de uma forma rudimentar de autorreconhecimento, diferentemente da espécie huamana, elas não possuem habilidades linguísticas para conceber um eu abstrato, um self, a partir do qual possam estruturar suas experiências (MITCHELL, 2003). A autoconsciência é um tipo distinto de consciência que permite que o ser humano se torne um objeto de si próprio, o que lhe permite retroceder, refletir sobre as circunstâncias que lhe cercam, ponderar acerca de várias alternativas para atender suas necessidades, bem como sopesar as chances de cada uma delas e selecionar aquela que acredita ser a mais viável para atingir seu objetivo (KESEBIR; PYSZCZYNSKY, 2012). Portanto, a autoconsciência expande sobremaneira as possibilidades de como dirigir o comportamento e provê ao self maior controle executivo sobre suas ações. Aliada a outras capacidades exclusivamente humanas, como a linguagem, o pensamento simbólico, o raciocínio causal e a imaginação, a autoconsciência reflexiva tem sido fundamental para a 91 formação da sociedade e da cultura humanas com o grau de complexidade que lhes é característico (KESEBIR; PYSZCZYNSKY, 2012). No entanto, conforme observam Kesebir e Pyszczynsky (2012), se por um lado a autoconsciência aumentou a capacidade humana para a liberdade e para o comportamento voluntário e autodeterminado, ou seja, potencializou sua capacidade de agência, por outro, trouxe à tona algumas verdades e, com elas, questões e dilemas, como o reconhecimento dos próprios limites físicos e a certeza da mortalidade, que provocaram profundo desconforto para o espírito humano, abalando sua autoestima. Uma das premissas básicas da TMT é a de que a autoconsciência é o principal desencadeador, tanto da ansiedade, quanto dos comportamentos que buscam mitigá-la. O terror (desespero) é o medo potencial decorrente da consciência da terrível verdade de que “[...] nós, seres humanos, somos meramente animais transientes tentando sobreviver em um universo sem sentido, destinados apenas a morrer e a decair” (PYSZCZYNSKY et al., 2004, p. 436). A autoestima serviria como um escudo projetado para controlar esse potencial terror, protegendo as pessoas de uma ansiedade inerente à condição humana e profundamente enraizada, decorrente do medo da morte (PYSZCZYNSKY et al., 2004). A TMT postula que a consciência da inevitabilidade da morte é uma poderosa força motivadora que influencia a necessidade humana de sentido (perceber que a vida possui um significado maior que o mero sobreviver), autoestima e relacionamentos íntimos (KESEBIR; PYSZCZYNSKY, 2012). Os precursores dessas motivações teriam evoluído por se apresentarem inicialmente como respostas eficientes a diferentes problemas práticos da vida, aumentando as chances de sobrevivência de nossos antepassados, garantindo-lhes a transmissão de seus genes, conquistando a precedência do acasalamento e o cuidado de seus descendentes (KESEBIR; PYSZCZYNSKY, 2012). Pyszczynsky et al. (2004) explicam que o impulso de vida biologicamente enraizado e a consciência da inevitabilidade da morte (resultante da evolução de habilidades cognitivas sofisticadas, exclusivas à espécie humana) viabilizam os mecanismos psíquicos de paralisação do terror. Segundo os autores, a espécie humana “resolveu” o problema posto pela perspectiva do terror existencial fazendo uso das mesmas capacidades cognitivas sofisticadas que deram origem à consciência da morte e, com elas, criou visões culturais de mundo, ou seja, desenvolveu-se aquilo a que chamamos de cultura: concepções simbólicas da realidade, humanamente construídas e compartilhadas, que dão significado, ordem e permanência à existência, fornecem um conjunto de padrões sobre o que é valioso e significativo, e 92 possibilitam alguma forma de imortalidade, literal ou simbólica, para aqueles que acreditam na cosmovisão cultural e estão à altura dos seus padrões de valor. A imortalidade literal seria concedida pelos aspectos explicitamente religiosos das visões culturais de mundo que abordam diretamente o problema da morte e prometem o céu, a reencarnação ou outras formas de vida após a morte aos fiéis que vivem segundo os padrões e ensinamentos dessa visão, enquanto que a imortalidade simbólica seria conferida por instituições culturais que permitem que as pessoas se sintam parte de algo maior, mais significativo e mais eterno que suas próprias vidas individuais através de conexões e contribuições para suas famílias, nações, profissões e ideologias (PYSZCZYNSKY et al., 2004). A autoestima seria então obtida por meio da convicção em uma visão cultural de mundo e do cumprimento pessoal (ou a superação) dos padrões de valor associados ao papel social que se desempenha dentro dessa visão de mundo (KESEBIR; PYSZCZYNSKY, 2012; PYSZCZYNSKY et al., 2004; SOLOMON; GREENBERG; PYSZCZYNSKY, 1991). A autoestima refere-se às avaliações que as pessoas fazem sobre si próprias e, de acordo com a TMT, é atingida por meio da satisfação ou da superação dos padrões de valor que fazem parte da visão cultural de mundo à qual a pessoa pertence (KESEBIR; PYSZCZYNSKY, 2012). Embora os padrões segundo os quais a autoestima seja contingente variem entre culturas e indivíduos, a necessidade subjacente de autoestima é universal (KESEBIR; PYSZCZYNSKY, 2012; PYSZCZYNSKY et al., 2004; SOLOMON; GREENBERG; PYSZCZYNSKY, 1991). Dessa forma, a autoestima consiste no sentimento de que se é um importante colaborador e contribuidor valoroso para um mundo significativo – o sentido de que a própria vida tem significado e valor (PYSZCZYNSKY et al., 2004). Nas palavras de Ernest Becker (1995): Não importa se o sistema de heroísmo de uma cultura é francamente mágico, religioso e primitivo, ou secular, científico e civilizado. É, mesmo assim, um sistema de heróis míticos, no qual as pessoas se esforçam por adquirir um sentimento básico de valor, de serem especiais no cosmo, de utilidade máxima para a criação, de significado inabalável. Elas adquirem esse sentimento escavando um lugar na natureza, construindo uma edificação que reflita o valor do homem: um templo, uma catedral, um totem, um arranha-céu, uma família que se estenda por três gerações. A esperança e a fé estão em que as coisas que o homem cria em sociedade tenham um valor e um significado duradouros, que sobrevivam ou se sobreponham à morte e à decadência, que o homem e seus produtos tenham importância (BECKER, 1995, p. 19). 93 Assim, para a TMT, a autoestima é, em última instância, uma construção cultural, que consiste em se encarar contingências de valor derivadas da cultura, mas integradas em uma única visão de mundo individualizada por cada pessoa (PYSZCZYNSKY et al., 2004). A partir desse quadro, quando a autoestima é elevada, a ansiedade evocada pela consciência da própria finitude é atenuada e a pessoa consegue dar prosseguimento aos seus assuntos diários e agir de forma eficaz no mundo (PYSZCZYNSKY et al., 2004). Em contraste, quando a autoestima é baixa ou é desafiada, um potencial “vazamento” da ansiedade existencial ameaça o bem-estar do indivíduo, o que dispara várias formas de comportamento defensivo que visam reforçar qualquer um dos aspectos da visão de mundo que o indivíduo compartilha ou ajustar a autoavaliação que está sob ameaça, em geral, reforçando os aspectos positivos e mobilizando- os para esforços compensatórios (PYSZCZYNSKY et al., 2004). Por fim, esclarecem Pyszczynsky et al. (2004) que, além de postular que a autoestima e as visões de mundo protegem as pessoas contra a ameaça da ansiedade existencial, a TMT também estabelece que as pessoas se esforçam continuamente para reforçar essas duas entidades psicológicas (autoestima e visões de mundo). Nesse sentido, as pessoas buscam autoestima não só para escapar da ansiedade que estão experimentando no momento, mas também para evitar a ansiedade que é inerente ao conhecimento de sua mortalidade. Mesmo quando as pessoas não estão conscientemente pensando sobre a morte e os eventos externos não estão chamando a atenção para este problema, a busca da autoestima e a fé na visão de mundo são esforços contínuos que funcionam para protegê-las do conhecimento implícito de seu destino final (PYSZCZYNSKY et al., 2004). Revisões posteriores da teoria acrescentaram a necessidade de relacionamentos próximos como mais um componente que traz conforto ao ser humano contra a ansiedade existencial. Relacionamentos pessoais próximos – sejam eles com membros da família, parceiros românticos ou amigos – trabalham em conjunto com a fé na visão de mundo e com a autoestima, em um sistema dinâmico e inter-relacionado, para prover proteção contra a ansiedade existencial (KESEBIR; PYSZCZYNSKY, 2012). 2.6 Experiência turística eudaimônica Nos últimos anos os conceitos provenientes da psicologia positiva, tomados emprestados de abordagens psicológicas precedentes, como a existencial-humanista (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; BRETHERTON, 2015; ROGERS, 2009; MASLOW, 94 1993), tem inspirado muitos estudos no campo do turismo (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; KNOBLOCK; ROBERTSON; AITKEN, 2016; KIRILLOVA; LEHTO, 2015; MATTEUCCI; FILEP, 2015; FILEP; PEARCE, 2013; SAUNDERS; LAING; WEILER, 2013; FILEP, 2012; FILEP; DEERY, 2010; FILEP, 2009). Essa linha de pesquisa tem enfatizado a experiência turística como facilitadora do crescimento interior, seja por meio do desenvolvimento de suas potencialidades, da construção de sua autoidentidade, como também provedora do seu bem- estar. A ideia central desses estudos gira em torno do conceito de eudaimonia, que já foi tratado aqui na seção referente à teoria da expressividade pessoal de Waterman (WATERMAN et al. 2010; WATERMAN; SCHWARTZ; CONTI, 2008; WATERMAN, 2007a; 2004, 1993a, 1992, 1990) e na seção que resume os constructos mais conhecidos para se avaliar o bem-estar (bem- estar subjetivo, bem-estar psicológico e bem-estar eudaimônico). Nesses estudos, a experiência turística é vista como uma experiência eudaimônica. Em Ética à Nicômaco, Aristóteles preconiza que a boa vida seria aquela vivida em consonância com o daimon (WATERMAN, 1993b), sendo, portanto, eudaimonia o tipo de vida que se pensa melhor, ou mais valiosa, ou mais desejável (WATERMAN, 1990). Segundo David Norton (1976), daimon seria um espírito que as pessoas recebem quando nascem. Contudo, o entendimento mais aceito de daimon é o significado de “eu verdadeiro”, o self ou o “[...] conjunto de características inatas com as quais cada pessoa nasce e deve descobrir dentro de si mesmo” (SCHLEGEL; HICKS; CHRISTY, 2016, p. 205). Dessa forma, eudaimonia seria um estado alcançado a partir do esforço para se viver de acordo com o daimon, entendido como um ideal de excelência e perfeição que dá sentido e direção à vida. Essa busca se dá por meio da realização das próprias capacidades e daquelas compartilhadas por todos os seres humanos (WATERMAN, 1993b). O estado eudaimônico tem sido traduzido como o equivalente à felicidade, alcançada com a realização plena da verdadeira natureza humana, por meio do exercício de virtudes pessoais e potenciais em busca de um bem comum (DELLE FAVE et al., 2011). Aristóteles afirma que “[...] todo conhecimento e todo trabalho visa a algum bem [...]” (ARISTÓTELES, 2015, p. 29) e que “[...] tanto o vulgo como os homens de cultura superior dizem ser esse fim a felicidade e identificam o bem viver e o bem agir como o ser feliz” (ARISTÓTELES, 2015, p. 30). Tomado como o processo de autodesenvolvimento a partir da realização íntegra do “eu interior”, o estado eudaimônico (ou eudaimonia) é conceituado por diferentes correntes da psicologia, como na psicologia analítica. Jung (2000) chama de individuação o processo de 95 “[...] tornar-se um ser único, na medida em que por ‘individualidade’ entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo” (JUNG, 2000, p. 49). Jung iguala a individuação ao processo de “tornar-se si-mesmo” ou “o realizar-se do si-mesmo” (JUNG, 2000, p. 49), entendido o “si- mesmo” literalmente como o self, a totalidade absoluta da psique, equivalente ao daimon dos gregos antigos (von FRANZ, 1997). A individuação significa “[...] um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; [...] é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é” (JUNG, 2000, p 50). Na psicologia humanista, isso também é descrito, conforme colocado em seção anterior, quando os conceitos de crescimento pessoal, autorrealização e funcionamento pleno foram apresentados. Contudo, segundo Ryan e Martela (2016), o conceito de eudaimonia tem sido mal interpretado quando concebido unicamente como o equivalente à felicidade ou como uma experiência subjetiva que se assemelha ao prazer ou ao engajamento. Para os autores, eudaimonia deve ser entendida como um modo de vida que prioriza a virtude e a plenitude, cujos ingredientes contribuem para a felicidade e a prosperidade. Nesse sentido, os autores propõem que um modo de vida eudaimônico é caracterizado por objetivos intrínsecos, autonomia, atenção plena e benevolência, fatores que podem levar à melhoria do bem-estar. O termo eudaimonia tem sido melhor entendido como florescimento [flourishing] (PADILLA-WALKER; NELSON, 2017; KEYES, 2007, 2002; HUPPERT; SO, 2013; SELIGMAN, 2011; HUPPERT, 2009; RYFF; SINGER, 2008, 1998; RYFF; KEYES, 1995; KEYES; HAIDT, 2003; RYFF, 1989) e tem sido esse o enfoque dado pelos estudos no novel campo da psicologia positiva. A relação da experiência turística com o estado eudaimônico é expressa por Alain de Botton (2012) em sua obra, A arte de viajar: Se as nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio – com toda a sua empolgação e seus paradoxos – quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobreviência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir – embora a arte de viajar pareça evocar naturalmente uma série de questionamentos nem tão simples ou triviais, cuja análise poderia contribuir, de forma modesta, para uma compreensão daquilo que os filósofos 96 gregos chamavam lindamente de eudaimonia, ou desabrochar humano (de BOTTON, 2012, p. 17). Com base no referencial teórico apresentado, a experiência turística eudaimônica pode ser definida como o conjunto percebido de benefícios relacionados ao crescimento pessoal e à autorrealização proporcionados pelo engajamento em atividades pessoalmente expressivas experimentadas em um ambiente turístico. 2.7 Experiência turística transformadora Kirillova, Lehto e Cai (2017) afirmam que as experiências transformadoras são eventos especialmente extraordinários que não apenas desencadeiam respostas emocionais intensas, mas também conduzem à autoexploração, servem como veículo para mudanças intrapessoais profundas e proporcionam o funcionamento humano ótimo. Bestrom (2009) esclarece que, ao se colocar fora do domínio da familiaridade, em um mundo onde ele, o viajante (ou turista) é o estrangeiro, o outro, o estranho, uma perspectiva diferente lhe é posta, quando então passa a ter uma visão valiosa do significado da diferença e da identidade em nosso mundo, como também encontra um espaço para considerar e se envolver com esses assuntos. Reisinger (2013) define a transformação como uma mudança irreversível em relação ao crescimento pessoal por meio de um processo de ruptura fundamental com as práticas passadas ou atuais, requerendo novos conhecimentos para implementação bem-sucedida. Kottler (2002) explica que, ao viajar e se expor à diversidade, a pessoas e a lugares não familiares, o indivíduo pode ser levado a um processo de mudança de perspectiva, com impacto duradouro para a sua própria vida, mudando o curso do conhecimento, dos valores, das atitudes e do próprio comportamento. Em suas palavras: Parece que, uma vez que estamos longe do nosso ambiente normal, separados da família, amigos e colegas do trabalho, isolados das influências usuais, somos livres para pensar, sentir e nos comportarmos de maneira que normalmente não consideramos. Muitas vezes enfrentamos situações em que estamos exaustos, desorientados, confusos, apreensivos – um conjunto intenso de estimulações e ativações emocionais que nos leva a mudanças. O que geralmente fazemos para que nossas necessidades sejam atendidas não funciona mais; somos forçados a desenvolver novas maneiras de nos comunicarmos, de nos transportar, de encontrar algum sentido em um mundo que não segue as regras segundo as quais estamos 97 acostumados. Se este for realmente um episódio transformador, podemos levar as lições conosco de volta às nossas casas e nossos escritórios. Podemos aproveitar essas experiências de uma forma que nos permita ser mais flexíveis, criativos e poderosos no futuro. (KOTTLER, 2002, p. 208). Kottler (2002, 1998) afirma que, muitas vezes, em terras estrangeiras (que podem estar dentro do próprio país) a pessoa sofre uma mudança irrevogável e permanente como resultado do que encontrou e do que aprendeu. Segundo o estudioso, em geral, tais experiências de viagem resultam de seis possíveis situações que podem atuar de forma combinada: (1) a pessoa se vê obrigada a resolver problemas de maneira nova, uma vez que em lugares com culturas diferentes da sua, o indivíduo precisa atender suas necessidades de uma forma que não está acostumado a fazer. Assim, alimentação, costumes, hábitos, meios de transporte e linguagem obrigam a pessoa a mostrar um grau de flexibilidade que, de outra forma, não poderia demonstrar; (2) quando a pessoa se encontra em um novo ambiente e se defronta com novos e diferentes estímulos; cenários diferentes, sons, cheiros e sensações tornam a pessoa hipersensível ao seu ambiente; (3) quando a pessoa se vê perdida ou enfrenta adversidades, mas consegue sobreviver de uma maneira que a torna mais resiliente; muitas viagens transformadoras acontecem quando as estruturas da vida diária, como o horário e a rotina, se desmoronam, quando o indivíduo se sente “perdido”, desorientado e com medo; (4) quando a pessoa desenvolve novos relacionamentos ou aumenta os níveis de intimidade em um relacionamento atual; as pessoas muitas vezes retornam de suas viagens dizendo que gostam mais de um país que de outro, mas o que elas, de fato, querem dizer é que conheceram pessoas interessantes e acolhedoras e desenvolveram relacionamentos próximos com elas, ou se aproximaram ainda mais de pessoas com quem estavam acompanhadas; (5) quando a pessoa desenvolve uma perspectiva diferente sobre a vida, passando a enxergá-la através dos olhos de uma cultura diferente; e (6) quando as crenças centrais do indivíduo são abaladas até o ponto em que a pessoa é levada a grandes mudanças em seu retorno; as experiências de viagens em uma cultura diferente desafiam as crenças e a visão de mundo que se têm, muitas vezes exigindo que se examinem os próprios pressupostos mais apreciados sobre si mesmo e sobre o mundo. Ao identificarem uma lacuna na literatura que trata das experiências turísticas, Kirillova, Lehto e Cai (2017b) propõem uma perspectiva para se entender o que faz as experiências transformadoras acontecerem, ou seja, quais os possíveis gatilhos para as experiências de transformação individual ocorrerem, algo ainda não explorado na pesquisa 98 documentada sobre o turismo. Os autores recorrem à literatura sobre experiências “de pico” [‘peak’ experiences] (MASLOW, 1993, 1959; PRIVETTE, 1983), experiências extraordinárias (JEFFERIES; LEPP, 2012; ARNOULD; PRICE, 1993; ABRAHAMS, 1986) e experiências transcendentes (TSAUR; YEN; HSIAO, 2013; LEVIN; STEELE, 2005; WILLIAMS; HARVEY, 2001) na busca de padrões relacionados a experiências que se aproximariam de uma experiência transformadora. Das descrições analisadas nesta literatura, os pesquisadores concluem que, do ponto de vista conceitual, esses três tipos de experiências são parecidas e discutidas de maneira semelhante, mas que a experiência transformadora parece ser uma função das outras, uma vez que nem todas as experiências “de pico” ou extraordinárias ou transcendentes conseguem provocar transformações profundas e, principalmente, duradouras. Kirillova, Lehto e Cai (2017) também sintetizam dessa literatura os gatilhos que proporcionam essas experiências, identificando sete categorias de possíveis desencadeadores das experiências “de pico”, extraordinárias ou transcendentes – (1) introspecção, (2) unidade com a natureza, (3) unidade com os outros, (4) espontaneidade e novidade, (5) experiência estética e (6) autodesenvolvimento – com destaque para a espontaneidade e a novidade, que, segundo os autores, parecem ser os fatores de desencadeamento mais poderosos e frequentemente encontrados nessas experiências. Os pesquisadores explicam que, ao apresentar configurações não familiares, que diferem daquelas que os turistas conhecem, várias formas de turismo podem representar um maior potencial para oferecer uma sensação de novidade e espontaneidade, devido à sua natureza liminar e libertadora. Em seu estudo empírico – realizado com material proveniente de entrevistas feitas com dez indivíduos que passaram por uma experiência de mudança intrapessoal profunda, com impactos decisivos em suas vidas, ocorrida durante uma viagem que haviam feito –, os pesquisadores demonstraram que os episódios que deram origem às experiências de transformação tenderam a ocorrer de forma inesperada e mais perto do final da viagem, quando os participantes começavam a colocar em dúvida a autenticidade do seu ser. A receptividade a essa tomada de consciência sobre si mesmo, com tolerância ao desconforto (KOTTLER, 2014), seria proporcionada pelas condições de liminaridade do espaço turístico e pelas sensações de espontaneidade e liberdade daí derivadas, que coloca o indivíduo em sintonia com suas sensações, disposições naturais, desejos e emoções (WANG, 1999). Entre os fatores que facilitaram a ocorrência de episódios desencadeadores de experiências transformadoras, os pesquisadores identificaram (1) as paisagens inspiradoras, (2) o contato com uma cultura diferente, (3) o aspecto de novidade e (4) a conexão significativa 99 com outras pessoas. Em estudo anterior (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2016a) os mesmos estudiosos já haviam constatado a prevalência dos dois primeiros fatores (paisagens inspiradoras e cultura diferente) em experiências de autenticidade existencial durante viagens a turismo. No que se refere à novidade, os autores afirmam que a perplexidade (ou admiração, do inglês awe), pode encorajar os indivíduos a descobrirem e apreciarem o senso de si mesmo, bem como promover a capacidade de autorreflexão e autoconsciência, conforme opinião de Leitner (2007) no campo da psicoterapia, a qual os autores recorrem. Quanto à conexão significativa com outras pessoas, sejam outros turistas, acompanhantes, companheiros ou residentes do destino, Kirillova, Lehto e Cai (2017) observam que, apesar de ser um fator citado na literatura como essencial em experiências que proporcionam crescimento pessoal (ARNOULD; PRICE, 1993), em sua pesquisa, ainda que saliente, esse fator se apresentou apenas como elemento circunstancial. Dois tipos de conexão significativa com outras pessoas foram identificados pelos autores: (1) as que, em condições de liminalidade, evocavam um senso de comunidade, reproduzindo o conceito de communitas (TURNER, 2013), e (2) as que resultavam de encontros com membros da comunidade local. Além disso, para os participantes que viajaram na companhia de amigos ou familiares, a relação com essas pessoas parece ter sido componente central no processo de construção de significado (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017). Os pesquisadores verificaram ainda que os episódios disparadores das experiências transformadoras são acompanhados por emoções intensas, tanto positivas quanto negativas, corroborando a literatura anterior. Segundo os autores, apesar de intensas, essas emoções não ofuscaram a capacidade dos entrevistados em acessar cognitivamente seus respectivos gatilhos, mas, de forma oposta, estimularam a conscientização da experiência, conforme explicado pelo conceito de cognição-B [B-cognition = Being-cognition] de Maslow (1993, 1959), a condição psíquica que implica a percepção ampliada durante uma experiência “de pico”, facilitando a subsequente criação de significado por parte da pessoa (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017). A conclusão dos autores é a de que, dadas as semelhanças entre os fatores que desencadeiam as experiências “de pico” e as experiências transformadoras, não seria a natureza desses gatilhos ou as configurações ambientais por si só que explicariam o potencial transformador de uma experiência, mas, conforme os dados provenientes das entrevistas apontaram, a forma como os turistas interpretam esses momentos ocorridos de maneira inesperada, totalmente ao acaso. Em outras palavras, as experiências transformadoras acontecem quando determinado gatilho, em condições ambientais adequadas, não apenas é 100 experienciado, mas também, produz um significado que é interpretado pelo turista como possuindo sentido para a sua vida (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017). Assim, os autores argumentam que uma experiência transformadora é uma versão ampliada e aprimorada de uma experiência “de pico”, sendo que ambas são contextualizadas em um ambiente turístico similar, com episódios desencadeantes de natureza comparável, mas uma experiência “de pico” só pode se tornar transformadora se os episódios que a disparam dão um sentido pessoalmente significativo para o turista (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017). Um aspecto fundamental na pesquisa de Kirillova, Lehto e Cai (2017) é a interpretação dos processos transformativos dos sujeitos entrevistados à luz dos conceitos da filosofia existencialista e da psicologia humanista-existencial. Dessa forma, reafirmando conclusões de estudos anteriores realizados pelos próprios autores, tanto de natureza teórica (KIRILLOVA; LEHTO, 2015) quanto empírica (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2016a, 2016b), os pesquisadores sustentam que, no espaço liminal do ambiente turístico, o turista é tomado pela admiração, pelo encantamento, pelo espanto e pela perplexidade evocados pelo ambiente estranho. Sujeitos a acontecimentos que podem disparar experiências extraordinárias e “de pico”, reflexões sobre a vida, sobre os próprios valores e crenças e sobre a sua forma de ser podem ser provocados, o que dá início a um processo progressivo de experiência de autenticidade existencial, na qual também se fazem presentes sentimentos negativos. Nesse sentido, a prevalência de emoções negativas nas experiências transformadoras narradas pelos entrevistados é referida pelos autores como tendo um sentido existencial, uma vez que estariam relacionadas à ansiedade existencial, que, na opinião dos autores, constitui um companheiro necessário da autenticidade existencial (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2016a, 2016b; KIRILLOVA; LEHTO, 2015; BROWN, 2013). Em suma, a literatura do turismo tem evidenciado de maneira contundente a capacidade transformadora que as viagens a turismo possuem (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; COGHLAN; WEILER, 2015; LEAN; STAIFF; WATERTON, 2014; REISINGER, 2013; SAUNDERS; LAING; WEILER, 2013; LEAN, 2012; VOIGT; BROWN; HOWAT, 2011; BESTROM, 2009; KOTTLER, 1998). Dentre os processos transformativos estudados pelos pesquisadores, aqueles relacionados ao desenvolvimento do self, ou o aperfeiçoamento da autoidentidade, são uma dos mais bem documentados (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2016a; KIRILLOVA; LEHTO, 2015; COGHLAN; WEILER, 2015; JOAQUIM, 2015; LEAN; STAIFF; WATERTON, 2014; HIBBERT, 2013; WEARING; STEVENSON; YOUNG, 2010; ANDREWS, 2009; BESTROM, 2009; NOY, 2004; HOM CARY, 2004; DESFORGES, 2000; 101 WANG, 1999; NEUMANN, 1992). Esse tipo de transformação seria proporcionado pelas características de liminaridade do espaço turístico, associadas a acontecimentos esporádicos, que proporcionariam experiências extraordinárias e deflagrariam a ansiedade existencial (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; CANAVAN, 2017; KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2016a; 2016b; KIRILLOVA; LEHTO, 2015; BROWN, 2013). Por sua vez, a ansiedade existencial desencadearia processos de reflexão interior profunda e construção de sentido (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017), levando a uma crescente experiência do estado mental (Di BETTA, 2014) de autenticidade existencial (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; CANAVAN, 2017; KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2016a; KIRILLOVA; LEHTO, 2015; SHEPHERD, 2015; XUE; MANUEL-NAVARRETE; BUZINDE, 2014; BROWN, 2013, 2009; RICKLY-BOYD, 2012; KIM; JAMAL, 2007; STEINER; REISINGER, 2006; WANG, 1999). 2.8 Modernidade, existência e experiência autêntica Um “pano de fundo” que pode explicar o contexto mais amplo em que as escolhas, as motivações e as ações conscientes dos indivíduos se dão, sejam as mais efêmeras, sejam as mais profundas, pode ser fornecido pelas análises feitas por filósofos e cientistas sociais sobre os contornos da modernidade e seus impactos nas mais diversas esferas e instâncias do mundo social. Um desses estudiosos é Anthony Giddens (2002), para quem “as instituições modernas diferem de todas as formas anteriores de ordem social quanto a seu dinamismo, ao grau em que interferem com hábitos e costumes tradicionais, e a seu impacto global” (GIDDENS, 2002, p. 9), alterando radicalmente a natureza da vida social cotidiana e interferindo nos aspectos mais pessoais de nossa existência. Giddens (2002) atribui o extremo dinamismo da modernidade a três fatores: (1) a separação de tempo e espaço, (2) os mecanismos de desencaixe (fichas simbólicas e sistemas peritos) e (3) a reflexividade institucional, que, no conjunto, trazem consequências profundas para o indivíduo, afetando o âmago de sua segurança ontológica, o “sentido de continuidade e ordem nos eventos, inclusive daqueles que não estão dentro do ambiente perceptual imediato do indivíduo” (GIDDENS, 2002, p. 223). Segundo Giddens, “a modernidade [...] rompe o referencial protetor da pequena comunidade e da tradição, substituindo-a por organizações muito maiores e impessoais. O indivíduo se sente privado, sozinho, abandonado num mundo em que lhe falta o apoio psicológico e o sentido de segurança oferecidos em ambientes mais tradicionais” (GIDDENS, 2002, p. 38). 102 Giddens sustenta que as instituições da modernidade constituem novos mecanismos de autoidentidade e que a característica reflexiva da modernidade (BECK, 2010, 1997; LASH, 1997) se estende ao núcleo do eu, ou seja, “no contexto de uma ordem pós-tradicional, o eu se torna um projeto reflexivo” (GIDDENS, 2002, p. 37), ou, na explicação de Côté e Levine (2002), torna-se um plano autoconsciente de autodesenvolvimento e de trajetória do curso de vida, também aplicável a interpretações retrospectivas do curso de vida anterior e do autodesenvolvimento (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 223). Segundo Giddens (2002), o mundo tornou-se um lugar onde a informação está amplamente disponível, porém, sem a certeza racional absoluta, o que acaba confrontando o indivíduo com uma complexa variedade de escolhas, mas ao mesmo tempo, oferecendo pouca ajuda sobre as opções a serem selecionadas. O próprio indivíduo é quem deve escolher, continuamente, durante toda a sua vida e em interação com outras pessoas e situações, num processo reflexivo contínuo em que, por várias vezes, defrontar-se-á com a necessidade de novos “recomeços” e, a partir deles, reaprender a seguir em frente. Chaffee (2011) sintetiza bem a perspectiva da reflexividade na formação da identidade no contexto da modernidade tardia: Os indivíduos monitoram o mundo ao seu redor e mudam seu comportamento à luz das informações recebidas. Reflexividade não é tanto um componente da identidade, mas um processo que guia sua formação e manutenção no nível mais básico. Devido às forças inquietantes da globalização, ao aumento da informação e, por conseguinte, à potencialização da mediação, a reflexividade passou a desempenhar um papel radical ou radicalizado na construção da identidade, especificamente como uma renegociação da inter-relação dos indivíduos com instituições e estruturas sociais mais amplas (CHAFFEE, 2011, p. 100). Para Giddens (2002), o pano de fundo é o terreno existencial da vida moderna tardia. Nas suas palavras, “Num universo social pós-tradicional, organizado reflexivamente, permeado por sistemas abstratos, e no qual o re-ordenamento do tempo e do espaço realinha o local com o global, o eu sofre mudança maciça. [...] No nível do eu, um componente fundamental da atividade do dia a dia é simplesmente o da escolha” (GIDDENS, 2002, p. 79). Nesse projeto reflexivo, as narrativas que o sujeito cria para se sentir mais seguro passam a integrar sua autoidentidade, que precisa estar continuamente aberta a revisões. No entanto, esse processo é acompanhado por ansiedade, provocada pela falta de sentido. 103 A falta de sentido pessoal – a sensação de que a vida não tem nada a oferecer – torna- se um problema psíquico fundamental na modernidade tardia. Devemos entender esse fenômeno em termos de uma repressão de questões morais que a vida cotidiana coloca, mas as quais nega respostas. “Isolamento existencial” não é tanto uma separação do indivíduo dos outros, mas uma separação dos recursos morais necessários para viver uma existência plena e satisfatória. O projeto reflexivo do eu gera programas de realização e controle. Mas, enquanto essas possibilidades forem entendidas como um problema da extensão dos sistemas de controle da modernidade ao eu, falta-lhes sentido moral [...] (GIDDENS, 2002, p. 16). Rollo May (1996) reverbera a “sensação de vazio” sentida pelo ser humano na modernidade. Segundo o autor, A sensação de vazio provém, em geral, da ideia de incapacidade para fazer algo de eficaz a respeito da própria vida e do mundo em que vivemos. O vácuo interior é o resultado acumulado, a longo prazo, da convicção pessoal de ser incapaz de agir como uma entidade, de dirigir a própria vida, modificar a atitude das pessoas em relação a si mesmo, ou exercer influência sobre o mundo que nos rodeia (MAY, 1996, p. 22). No contexto da alta modernidade, em que a tradição não mais é fonte de segurança ontológica para os indivíduos e os riscos inerentes ao cotidiano de suas vidas lhes invadem a consciência (impondo-lhes uma “fé” nos sistemas de conhecimento e tecnologias disponíveis, que se sabe serem falhos e passíveis de revisões), a busca incessante por um sentido para a vida e de uma identidade que lhe preencha o vazio existencial passa a ser o grande desafio da experiência de estar no mundo. Acerca da perda do referencial da tradição para as pessoas no mundo contemporâneo e o consequente vazio existencial que lhes invade, afirma Viktor Frankl (2016, p. 131): “As tradições que serviam de apoio para seu comportamento atualmente vêm diminuindo com grande rapidez. Nenhum instinto lhe diz o que deve fazer e não há tradição que lhe diga o que ele deveria fazer; às vezes ele não sabe sequer o que deseja fazer”. Nesse momento é que o indivíduo precisa da principal força que move o ser humano, a busca por um sentido na vida (FRANKL, 2016, 2015). Giddens (2002, p, 49) argumenta que “ser ontologicamente seguro é ter, no nível do inconsciente e da consciência prática, ‘respostas’ para questões existenciais fundamentais que toda vida humana de certa maneira coloca”. Segundo o sociólogo, as principais questões 104 existenciais com as quais o indivíduo se depara durante sua vida e com as quais precisa lidar são as relacionadas com (1) a existência e o ser – a natureza da existência, a identidade dos objetos e dos eventos; (2) a finitude e a vida humana – a contradição existencial por meio da qual os seres humanos são parte da natureza, mas postos à parte como criaturas que sentem e refletem; (3) a experiência dos outros – como os indivíduos interpretam os traços e ações de outros indivíduos; e com (4) a continuidade da autoidentidade – a persistência de sentimentos de pessoidade num eu e num corpo contínuos (GIDDENS, 2002, p, 56). Contudo, ao se deparar com tais questões, o indivíduo é invadido por sentimentos de ansiedade, angústia e até desespero. As raízes dessas questões são encontradas em filósofos como Kierkergaard (2009, 1979), Heidegger (2012) e Sartre (2015), posteriormente seguidos por estudiosos como Irving Yalom (1980), Rollo May (1980), Paul Tillich (2000), Charles Taylor (2011) e Lionel Trilling (2014), entre outros, que refletiram profundamente sobre os sentimentos vivenciados pelo indivíduo ao longo de sua busca pela compreensão de quem é e de quem quer (ou pode) ser. O ponto comum entre esses pensadores, no qual gravita o eixo da discussão acerca da existência, consiste na escolha de ser o ser que se é, ou seja, coloca-se a questão do ser autêntico, de se estar em contato com o eu interior, conhecer-se, ter um senso de identidade própria e viver de acordo com o senso de si mesmo (KIERKERGAARD, 1979), o dilema existencial da escolha em prol de uma vida ética, em vez de estética (KIERKERGAARD, 2009). Heidegger (2012) inicia sua obra Ser e Tempo afirmando a necessidade de se “refazer a pergunta pelo sentido de ser” (HEIDEGGER, 2012, p. 31) e anunciando o objetivo do seu tratado como sendo exatamente a elaboração concreta dessa pergunta. Para Heidegger, a filosofia deve reencontrar seu lugar no mundo a partir da recolocação do seu problema fundamental, a do caminhar reflexivo sobre a questão sobre o ser (GILES, 1989), que só pode se tornar compreensível “[...] a partir de uma análise fenomenológica do ser do homem, único existente a quem foi confiado o pensamento e guarda do Ser (sic!)” (GILES, 1989, p. 83). Esta entidade que compreende o ser (e que cada indivíduo é em cada caso), Heidegger chama de Dasein (ser-aí) [Da = aí; Sein = ser] e nós – as pessoas – somos essa entidade (HAUGELAND, 2013). Se o Dasein é a entidade (ou o ente), ou seja, algo que existe, a existência é o modo de ser dessa entidade (HAUGELAND, 2013). Em síntese, Dasein é a possibilidade de ser e a entidade que, em seu ser, tem este próprio ser como um problema (TURNER; MANNING, 1988). 105 Heidegger (2012) explica que as pessoas vivem em uma constante estranheza acerca da própria vida e, ao se darem conta da finitude de sua existência, passam a viver o medo e a ansiedade. Sartre (2015) vai ainda mais longe, afirmando que o próprio existir é um absurdo, e que as pessoas vivem a angústia devido à consciência de tal verdade. Então, para Heidegger, a fim de “fugirem” da verdade acerca da inevitabilidade da morte, as pessoas se entregam a uma existência inautêntica, vivendo o cotidiano ordinário e conformista (BROWN, 2013). Dessa forma, a rotina diária funciona como um anestésico para a dor de se saber finito, da consciência de que o não-ser é parte do próprio ser (TILLICH, 2000). Mas ao fazerem a escolha pela “cotidianidade média” (TURNER; MANNING, 1988, p. 137), as pessoas deixam de ser elas próprias, distanciando-se do seu eu verdadeiro. Na visão de Sartre (2015), essa é uma escolha negativa, uma opção por viver na má-fé [mauvaise foi], esquivando-se da responsabilidade pelos próprios atos, atribuindo-a a alguma influência externa. Contudo, tanto Heidegger (2012) quanto Sartre (2015) sustentam que cabe ao indivíduo a decisão de escolher entre todas as possibilidades que se lhes apresentam. Assim, as pessoas podem optar por viver autenticamente ou, na boa fé [bonne foi], mesmo em uma situação de opressão (BROWN, 2013). Segundo Turner e Manning (1988), viver autenticamente só é possível quando o mundo tido como certo e a segurança que oferece são questionados, o que leva à ansiedade e à revelação da ausência de fundamento da existência humana; nesse momento, a pessoa não mais pode habitar a familiaridade tranquilizadora. Porém, viver na boa fé significa adotar uma atitude autêntica que envolve confrontar as verdades das quais as pessoas tentam fugir (SARTRE, 2015). Não há como escapar do fato de que a vida é caótica e sem sentido e de que a morte é uma certeza. Assim, ao escolher pelo ser autêntico, pela vida ética, por viver na boa fé, o indivíduo apenas reconhece a verdade da ausência de fundamento de sua existência, pois não pode resolvê-la, apenas aceitá-la. Ao fazer essa escolha, o indivíduo torna-se resoluto, ou seja, passa a viver um “modo de ser-com-outros que evita a cotidianidade, e que implica uma escolha não ditada pelos outros” (TURNER; MANNING, 1988, p. 137). Por outro lado, enfrentar a morte liberta o indivíduo da alienação, abrindo-se-lhe novas possibilidades de vida, antes ocultadas (BROWN, 2013). Essa fundamentação existencialista sustenta a posição de Giddens (2002) anteriormente referida, de que a escolha é o componente fundamental da atividade do dia a dia para a construção da identidade do indivíduo e a manutenção de sua segurança ontológica. 106 Brown (2013) defende a tese de que o tempo e o espaço fornecidos pelo turismo possibilitam uma pausa da rotina, oportunizando o silêncio e a reflexão individual. O autor desenvolve um paralelo com o conceito Heideggeriano de Speilraum (espaço livre), no qual é permitida uma espécie de êxtase – um movimento fora da estase – que possibilita o afastamento da vida cotidiana e a reflexão sobre a existência. No Speilraum, o foco é removido do mundo cotidiano, oportunizando vislumbres sobre o futuro. Nessa introspecção, por alguma razão, o indivíduo pode concluir que sua vida lhe é satisfatória. Porém, vislumbres incômodos acerca de aspectos inautênticos de sua vida também podem ocorrer, permitindo que ele pondere sobre a vida que leva e sobre as transformações que podem ser realizadas. MacCannel (1976) talvez tenha sido o primeiro teórico a abordar a viagem turística como uma busca por sentido, a partir do momento que indivíduos percebem a frivolidade e a inautenticidade de suas vidas e saem à procura de experiências verdadeiras que lhes preencham o vazio de suas vidas. Em suas palavras, “quanto mais o indivíduo se afunda em seu cotidiano, mais ele é lembrado da realidade e da autenticidade de outro lugar” (MacCANNEL, 1976, p. 160). Cohen (1979) fornece uma estrutura analítica mais consistente para essa tese, descrevendo mais de um tipo de experiência turística, incluindo aquelas de significado cada vez mais profundo para os indivíduos que não mais se adéquam aos valores de sua sociedade. Para Cohen (1979), quando o indivíduo não mais percebe sentido nas atividades de sua vida cotidiana ou finalmente é despertado de seu sono alienante, passa a buscar lugares em que sinta uma conexão espiritual, seja em sentido religioso, cívico, histórico ou de herança ancestral. Esse lugar é então escolhido como um novo “centro”, para onde o indivíduo parte periodicamente em peregrinação a fim de conseguir sustentação espiritual. O ponto comum nessas e em outras contribuições subsequentes é a noção de que o mundo contemporâneo promove uma vida alienante, na qual o indivíduo se esquece de quem realmente é, perdendo-se cada vez mais no círculo vicioso do trabalho e do consumo fugaz (MAY, 1996). As atividades relacionadas ao trabalho, as expectativas sociais quanto aos diversos papéis sociais assumidos e as distrações do cotidiano acabam não fornecendo o tempo necessário à reflexão do indivíduo para as questões existenciais que precisa responder. Dessa forma, os intervalos de tempo durante viagens, em que o indivíduo se despe momentaneamente das vestes de seus papéis institucionais e entra em contato com culturas, histórias, pessoas e ambientes diferentes dos seus, proporciona uma oportunidade para que ele reflita sobre sua vida e sobre si próprio. O autossequestro da rotina, longe das amarras sociais e dos padrões e exigências institucionais, possibilita a liberdade reflexiva para a escolha do eu. Assim, livre das 107 obrigações de sua rotina, os turistas se permitem atuar segundo sua própria agência em vez de seguirem a ordem social prescrita pela sociedade (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017). Uma referência para explicar o “estado de suspensão” por que passam os turistas em suas experiências de viagem tem sido o estudo sobre o processo ritual de Turner (2013). Turner (2013) utiliza o conceito de liminaridade, desenvolvido antes por van Gannep (2011) ao explicar as fases dos ritos de passagem. A primeira dessas fases seria a separação, na qual o indivíduo é afastado de um grupo, “quer de um ponto fixo anterior na estrutura social, quer de um conjunto de condições culturais (ou ‘estado’), ou ainda ambos” (TURNER, 2013, p. 97). Na etapa intermediária, a fase liminar (ou limiar), o indivíduo vivencia sua transição. A ambiguidade é a marca fundamental desta fase. Nas palavras de Turner (2013, p. 98): “As entidades liminares não se situam aqui nem lá; estão no meio e entre as posições atribuídas e ordenadas pela lei, pelos costumes, convenções e cerimonial. [...] a liminaridade frequentemente é comparada à morte, ao estar no útero, à invisibilidade, à escuridão, à bissexualidade, às regiões selvagens e a um eclipse do sol e da lua”. Turner (2013) ainda completa que, em tais circunstâncias, assiste-se a um “momento situado dentro e fora do tempo, dentro e fora da estrutura social profana que revela, embora efemeramente, certo reconhecimento (no símbolo, quando não mesmo na linguagem) de um vínculo social generalizado que deixou de existir [...]” (TURNER, 2013, p. 98). Indivíduos em estado de liminaridade experimentam uma fase intermediária na qual estão distanciados de qualquer condição social (BELHASSEN; CATON; STEWART, 2008). Com base no argumento de que características liminares se encaixam em muitas formas de experiência turística (GRABURN, 1983), a hipótese do turismo como possibilidade de uma busca pelo si-mesmo é reforçada, quando o indivíduo se vê afastado de suas obrigações cotidianas e livre das amarras sociais que lhe cerceiam a espontaneidade. Em um espaço diferente, cujo contexto social rompe com os padrões de sua cultura, a reflexão para as questões existenciais que o indivíduo precisa responder acaba sendo viabilizada. Essa abordagem não é nova e tem sido apontada por vários teóricos do turismo, como Cohen (1979), Wang (1999), Steiner e Reisinger (2006), Kim e Jamal (2007), Brown (2013) Kirillova e Lehto (2015) e Kirillova, Lehto e Cai (2016a, 2016b), quando descrevem a experiência turística em termos da autenticidade existencial. Segundo Wang (1999, p. 352), “autenticidade existencial é um potencial estado existencial de ser que deve ser ativado pelas atividades turísticas”. Ainda de acordo com Wang (1999): 108 A autenticidade existencial envolve sentimentos pessoais ou intersubjetivos ativados pelo processo liminar da atividade turística. Em uma experiência tão liminar, as pessoas sentem que elas mesmas são muito mais autênticas e mais autoexpressadas que na vida cotidiana, não porque acham que os objetos visitados são autênticos, mas simplesmente porque estão envolvidas em atividades não ordinárias, livres das restrições da cotidianidade (WANG, 1999, p. 351-352). Kim e Jamal (2007) argumentam que a autenticidade existencial está intimamente relacionada às características liminares da experiência turística. Os autores afirmam que os turistas se veem livres das restrições da vida diária, o que lhes permite comportar-se de uma maneira em que não obedecem a normas sociais convencionais e regulamentos que estruturam a vida cotidiana, possibilitando, assim, que desenvolvam novos mundos e experiências sociais que os conduzem a um autêntico senso de si mesmo ao invés de se perderem em papéis públicos. Os pesquisadores concluem que o relaxamento das normas ou a ausência de controle de comportamentos leva os participantes a agirem de forma mais espontânea e a perceberem que estão sendo verdadeiros consigo mesmos. Esse estado, segundo o entendimento dos autores, é o de autenticidade existencial, que é viabilizado pelo espaço “liminal” proporcionado pela experiência turística (no caso específico, um festival temático, o Texas Renaissance Festival). Sobre a liminaridade na experiência turística, explicam os pesquisadores: A liminaridade como característica espaço-temporal do turismo [...] é um conceito importante para a compreensão da realização da autenticidade autônoma e da experiência intersubjetiva não mediada. Dentro de um espaço turístico liminar, as normas e regulamentos sociais convencionais são muitas vezes temporariamente suspensos, pois os turistas aproveitam o anonimato relativo e a ausência do escrutínio da comunidade (KIM; JAMAL, 2007, p. 184). Kirillova e Lehto (2015) propõem uma perspectiva mais psicológica para o conceito de autenticidade existencial, tratando-o como um fenômeno multidimensional e dinâmico. Os autores assumem a experiência turística como parte da condição humana e sua busca existencial por sentido ante à consciência de sua finitude, e sustentam que a saída para uma viagem a turismo pode ser descrita como um ciclo, no qual a pessoa vivencia, de forma alternada, a autenticidade existencial e a ansiedade normal. No período que antecede a viagem, a pessoa está ainda imersa no mundo cotidiano que lhe aliena do real significado de sua vida. Nessa fase as pessoas substituem a busca existencial por sentido pelo envolvimento em tarefas rotineiras, 109 confundindo o sentido da vida e da existência com o senso de cumprimento [accomplishment], por exemplo, quando realizam de forma produtiva um dia de trabalho. Nesse intervalo prevalece o sentimento de ansiedade proveniente da sensação generalizada, difusa e não consciente de insegurança ontológica (GIDDENS, 2002) e de ausência de sentido na vida (MAY, 1980). Na fase de ascendência [ascent], já no espaço turístico para onde se dirigiu, o turista entra na “zona liminal” e é tomado pela admiração, pelo encantamento, pelo espanto e pela perplexidade evocados pelo ambiente estranho. Reflexões sobre a vida em sua complexidade e finitude, os próprios valores e crenças começam a emergir, levando a um processo progressivo da sensação de autenticidade existencial e diminuição da ansiedade. Na fase de “pico” [peak] acontece uma catarse, quando a pessoa passa a encarar e aceitar os dilemas existenciais que lhe são impostos. Transformações importantes podem decorrer dessas reflexões, com algumas pessoas optando por um estilo de vida que lhe seja mais significativo e represente melhor o seu eu verdadeiro, ou mesmo se sentindo mais à vontade naquele destino turístico, considerando que aquela sociedade está mais alinhada aos seus valores. Uma vez que os níveis de ansiedade são baixos, a pessoa passa a desfrutar do sentimento de existência em sua forma mais pura, sem a necessidade de mascarar suas emoções ou de temer se mostrar em essência. Na fase de “pico”, o indivíduo contempla o significado da vida e tenta construir os sentidos para a sua existência. Essa experiência permite que os indivíduos comecem a enxergar o mundo de uma forma diferente, em geral, compreendendo a multiplicidade de possibilidades de existência e aceitando mais resolutamente as diferenças, e, ao alcançarem um senso maior de autoidentidade, os indivíduos se tornam capazes de estabelecer relacionamentos mais sinceros com outras pessoas. A última fase, a descendente, coincide com o retorno para casa, quando a pessoa precisa confrontar sua vida cotidiana com as normas culturais e sociais que lhe são características e reassumir seus papéis sociais, mas agora com uma perspectiva diferente sobre si próprio e sobre o mundo. A busca pela manutenção da segurança ontológica no contexto da modernidade tardia, nos termos de Anthony Giddens (2002), pode então fornecer um arcabouço psicossociológico para a explicação dos comportamentos individuais em diferentes possibilidades de experiência turística. Os fundamentos filosóficos para esse contexto teórico encontram-se no chamado existencialismo, que tem seu desenvolvimento proeminente em Jean- Paul Sartre, para quem o homem, primeiramente, existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só depois se define (SARTRE, 2009). Embora para Sartre (2015) o mundo seja desprovido de significado, nas circunstâncias da alta modernidade o ser humano possui necessidade de algum 110 sentido para a vida, conforme defende Frankl (2016, 2015). Dessa forma, em se tratando de experiências transformadoras de uma maneira geral, a busca por um significado para a própria existência passa a ser o principal direcionador [drive] das escolhas que o indivíduo faz. Nesse processo, a construção da autoidentidade acaba se revelando como o maior desafio para o indivíduo, uma vez que precisa enfrentar as questões existenciais inevitáveis da vida humana em meio à infinidade de possibilidades que o mundo lhe apresenta, porém, sem o suporte infalível do conhecimento, da tecnologia e das instituições sociais, condição essa imposta pela modernidade tardia. Aqui reside o ponto inicial do projeto reflexivo do eu. Nas circunstâncias da alta modernidade, em que o indivíduo é confrontado com a pluralidade de escolhas, lembra Giddens (2002, p. 81) que “agir num mundo de escolhas plurais, envolver-se com ele, é optar por alternativas, tendo em vista que os sinais estabelecidos pela tradição estão agora em branco”. Nesse cenário, a liberdade passa a ser o ponto fundamental para a construção do eu autêntico, representando a capacidade para o indivíduo realizar-se a si mesmo de forma plena (FROMM, 1983). Neste ponto, o indivíduo precisa ter a coragem para ser (TILLICH, 2000). Dessa forma, partindo da premissa de que o turismo possibilita a pausa da rotina da vida cotidiana e oportuniza o silêncio e a reflexão individual, a experiência da viagem assume a função do que Brown (2013) chama de catalisadora da autenticidade existencial. Neste ponto, a “plataforma de ser, significado e identidade” (HOLLINSHEAD, 2004, p. 63), passa a configurar a experiência turística, colocando o turista-viajante diante de algumas das questões existenciais fundamentais para o ser humano, relacionadas à própria vida ao modo de ser pessoal. Aqui, o indivíduo terá que fazer sua escolha, adotando uma nova postura diante do mundo e da vida, uma posição de se assumir responsável não só pelos rumos de sua vida, como também pela vida dos outros com quem interage, ou permanecer na inautenticidade de sua existência. Essa postura é expressa pelo que Sartre (2009) chama de boa fé. Nesse sentido, o filósofo afirma que o homem é responsável por aquilo que é, mas que isso significa, também, que ele é responsável por todos os homens. Em suas palavras: Quando afirmamos que o homem se escolhe a si mesmo, entendemos que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que, escolhendo-se, ele escolhe todos os homens. De fato, não há um só de nossos atos que, criando o homem que queremos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem tal como estimamos que ele deva ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor daquilo que nós escolhemos, pois não podemos nunca escolher o mal; aquilo que escolhemos é 111 sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem sê-lo para todos. Se, por outro lado, a existência precede a essência e se nós queremos existir, ao mesmo tempo que moldamos nossa imagem, essa imagem é válida para todos e para toda nossa época. Assim, nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, pois ela engaja a humanidade inteira (SARTRE, 2009, p. 620–621). A figura 1 a seguir sintetiza a congruência conceitual dos campos da sociologia, filosofia, psicologia e turismo aqui discutida, que leva ao núcleo da questão ontológica do Ser, que, por sua vez, revela a busca da autoidentidade (ou a formação da identidade) como a força motriz da própria existência. Figura 1: Congruência conceitual dos campos do existencialismo, Sociologia (modernidade tardia), Psicologias Humanista-Existencial e Positiva e Turismo em torno da questão ontológica do ser e da construção da autoidentidade Fonte: Elaborado pelo autor 112 3 MODELAGEM TEÓRICA E HIPÓTESES DE PESQUISA A análise da literatura sobre identidade, seja no seu campo de origem, a psicologia do desenvolvimento, seja nos campos da psicologia humanista e da psicologia positiva, além dos estudos no campo do turismo que tratam da experiência transformadora, sugere a convergência teórica para o entendimento do crescimento e desenvolvimento do ser humano ao longo de sua vida, sua “aventura existencial” em busca de sentido e de uma definição para si mesmo. Na abordagem filosófica do existencialismo essa busca se dá a partir da consciência da finitude da própria vida e da angústia que essa ideia provoca no indivíduo, quando se vê diante dos dilemas existenciais que emergem ao se defrontar com tal verdade, sendo obrigado a fazer uma escolha decisiva, de aprender a viver com essa verdade de maneira resoluta. Nas concepções humanista e positiva da psicologia, o indivíduo possui uma necessidade inata de autorrealização e crescimento, buscando desenvolver suas melhores capacidades e aprimorar- se como ser humano. Na psicologia do desenvolvimento, a abordagem eriksonoana ao estudo da identidade assume a formação da identidade como um processo contínuo, mas com etapas marcantes durante a vida do indivíduo. Esse processo é dialético, de confrontações internas e sínteses sucessivas, onde sempre há espaço para questionamentos, novas confrontações e novas sínteses. 3.1 Experiência transformadora e experiência eudaimônica Conforme colocado, a literatura não esclarece a diferença entre essas duas prováveis categorias de experiência turística, muitas vezes tratando-as de forma indistinta, como se a experiência eudaimônica também fosse transformadora. Mais recentemente alguns pesquisadores têm argumentado acerca das possíveis características da experiência transformadora e apresentado algumas hipóteses para distingui-la das demais. Uma das hipóteses a esse respeito é a de que a experiência transformadora consiste em um estágio mais avançado de experiência “de pico” ou extraordinária, caracterizando-se especialmente pelo sentido pessoalmente significativo que a experiência proporcionou ao turista (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017). Além disso, muitas das características das experiências “de pico” e de fluxo se assemelham às experiências eudaimônicas, segundo a 113 concepção de autoexpressividade de Waterman (2001, 1995, 1993, 1992, 1990), o que leva à teorização de que a experiência transformadora seria uma categoria mais ampla que conteria as experiências eudaimônica e “de pico”. As definições estabelecidas para experiência turística eudaimônica e experiência turística transformadora com base nos fundamentos teóricos previamente apresentados são reproduzidas a seguir: Experiência turística eudaimônica: conjunto percebido de benefícios relacionados ao crescimento pessoal e à autorrealização proporcionados pelo engajamento em atividades pessoalmente expressivas experimentadas em um ambiente turístico, podendo envolver o autoconhecimento e o consequente aperfeiçoamento do self, o desenvolvimento de potenciais individuais e o senso de propósito na vida. Experiência turística transformadora: conjunto percebido de transformações positivas e duradouras no modo de ser de uma pessoa e na maneira de perceber o mundo, a vida e as outras pessoas – mudanças de crenças, valores, atitudes e comportamentos – decorrentes de processos de reflexão sobre si mesmo e sobre a própria vida e dos significados que consegue elaborar a partir dessas reflexões, disparadas (1) pelo distanciamento dos compromissos do cotidiano (liminaridade), (2) por momentos vividos em um outro lugar, quando o indivíduo está sujeito aos estímulos provenientes de um ambiente natural, histórico, cultural e social diferentes do seu, e (3) pela crescente experiência de autenticidade existencial resultante. Tomadas em conjunto com a literatura sobre eudaimonia no campo da Psicologia Positiva e as pesquisas sobre experiência turística que aplicam esse corpo conceitual, a partir da literatura acessada, as seguintes dimensões podem ser teorizadas como componentes da experiência turística eudaimônica: 114 Quadro 1: Dimensões teorizadas da Experiência Turística Eudaimônica (continua) Dimensão Definição Fonte Significado e Propósito na vida O sentido e o significado atribuído à natureza do ser e da própria existência (STEGER et al., 2006); objetivos e intenções que dão um sentido de orientação e contribuem para dar significado à vida. Kirillova, Lehto e Cai, 2017; Huta, 2016; Frankl, 2016, 2015; Waterman et al., 2010; Schutte, Wissing e Khumalo, 2013; Seligman, 2011; Waterman et al., 2010; Ryff e Singer, 2008, 2003, 1996; Steger et al., 2006; Huta e Ryan, 2010; Ryan e Deci, 2001; Erikson, 1998, 1976, 1972; Ryff, 1989; Jahoda, 1958 Autodesenvolvimento e Crescimento pessoal Percepção de que, com o passar do tempo, a pessoa se desenvolveu como alguém com personalidade e características próprias e evoluiu como ser humano; desejo, vontade e disposição para continuar se desenvolvendo com a realização dos melhores potenciais e capacidades, aquisição de conhecimento e habilidades, e a convicção de que se está em um contínuo processo de aperfeiçoamento; coragem no enfrentamento e superação das adversidades e provações da vida a partir da própria força interior. Huta, 2016; Waterman et al., 2010; Rogers, 2009; Ryff e Singer, 2008, 2003, 1996; Ryff, 1989 Autoconhecimento e Autoaceitação Disposição para conhecer a si próprio, reconhecendo as características positivas e negativas, com imparcialidade e resignação; Consciência dos aspectos positivos e negativos de si próprio, mas com uma atitude positiva em relação a eles, reconhecendo as próprias limitações e orientando-se na direção da superação das características que são passíveis de modificação e que não se mostraram eficazes no enfrentamento dos desafios da vida (RYFF; KEYES, 2008, 1995). Schlege, Hicks e Christy, 2016; Matteucci e Filep, 2015; Waterman et al., 2010; Rogers, 2009; Ryff e Singer, 2008, 2003, 1996; Kernis e Goldman, 2006; Waterman, 2007a; 2004, 1993a, 1992, 1984; Ryff, 1989 Autoexpressividade Envolvimento intenso em atividades que fazem pleno uso das melhores habilidades e talentos e que são a exata tradução de quem a pessoa é; atividades pessoalmente significativas, que vêm acompanhadas de sentimentos de autorrealização e experiência ótima que dão sentido e direção à vida. Waterman et al., 2010; Waterman et al., 2008; Waterman, 2007a; 2004, 1993a, 1992, 1990 Pertencimento (Communitas) Senso de pertencimento a uma comunidade ou grupo de pessoas com as quais se compartilha uma mesma experiência ou situação; relações desprovidas de status provenientes de papéis sociais e hierarquia; sentimento de igualdade e “conexão”. Kirillova, Lehto e Cai, 2017; Wang, 1999; Arnould e Price, 1993 Intimidade / Relacionamento Relação harmoniosa e confiante com outras pessoas; sinceridade e abertura junto a pessoas próximas e preocupação com o seu bem-estar e felicidade; reciprocidade e empatia; dar e receber amor, carinho, afeto, aconchego e apoio. Kirillova, Lehto e Cai, 2017; Wang, 1999; Ryff e Singer, 2008, 2003, 1996; Kernis e Goldman, 2006; Kottler, 2002, 1998; Erikson, 1998, 1976, 1972; Ryff, 1989 115 Quadro 1: Dimensões teorizadas da Experiência Turística Eudaimônica (conclusão) Dimensão Definição Fonte Autenticidade e Espontaneidade Ser quem verdadeiramente se é; agir de acordo com o verdadeiro “eu” e em conformidade com os próprios valores, necessidades e convicções; apresentar-se de forma que reflita a própria essência e relacionar-se de maneira honesta e verdadeira com as outras pessoas. Kirillova, Lehto e Cai, 2017; Canavan, 2017; Kirillova, Lehto e Cai, 2016; Huta, 2016; Kirillova e Lehto, 2015; Shepherd, 2015; Xue, Manuel-Navarrete e Buzinde, 2014; Brown, 2013, Rickly-Boyd, 2012; Kim e Jamal, 2007; Seligman, 2011; Wood et al., 2008; Kernis e Goldman, 2006; Peterson e Seligman, 2004; Wang, 1999 Autonomia Capacidade de pensar e agir de forma independente, de ter ideias e convicções próprias, mesmo que vão contra o “dogma” aceito ou a sabedoria convencional (HIDALGO et al., 2010). Ryan e Deci, 2017; 2000; Ryan et al., 2006; Ryff e Singer, 2008, 2003, 1996; Erikson, 1998, 1976, 1972; Ryff, 1989; Deci e Ryan, 1985; Jahoda, 1958 Competência Sentimento de que se é capaz de realizar alguma atividade ou empreendimento. Ryan e Deci, 2017; 2000; Ryan et al., 2006; Deci e Ryan, 1985; Peterson e Seligman, 2004; Erikson, 1998, 1976, 1972 Excelência Esforço extra para alcançar padrões elevados de desempenho, comportamento e ética. Huta, 2016; Huta e Ryan, 2010; Waterman et al., 2010; Peterson e Seligman, 2004 Empatia Capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, tentando entender sua perspectiva da situação. Bestrom, 2009; Ryff e Singer, 2008, 2003, 1996; Kottler, 2002, 1998; Ryff, 1989 Tolerância Capacidade de aceitar as diferenças; saber conviver com pessoas que possuem ideias, crenças, modos de vida e valores diferentes dos da própria pessoa. Bestrom, 2009; Kottler, 2002, 1998 Perspectiva ampliada Senso desenvolvido de percepção que considera diferentes pontos de vista e entendimentos sobre um mesmo fenômeno, proporcionando uma compreensão mais lúcida acerca dos fatos da vida. Bestrom, 2009; Peterson e Seligman, 2004; Roberson, 1999; Kottler, 2002, 1998; Maslow, 1959 Benevolência Capacidade de oferecer ajuda, cuidado e generosidade de forma espontânea e desinteressada; ter compaixão e amor altruísta. Ryan e Martela, 2016; Seligman, 2011; Peterson e Seligman, 2004 Abertura ao novo Disposição para novas experiências; mente aberta a novas ideias, modos de vida e possibilidades. Seligman, 2011; Rogers, 2009; Ryff e Singer, 2008, 2003, 1996; Peterson e Seligman, 2004; Ryff, 1989 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da literatura consultada 116 3.2 Ansiedade Existencial A definição seguinte de Ansiedade Existencial está fundamentada no referencial teórico apresentado no capítulo anterior. A operacionalização do conceito acompanha as mais recentes abordagens, com a adoção de uma recente conceptualização que teve confirmação em verificação empírica e sugere uma boa aproximação do conceito, em si, complexo e profundo. Ansiedade existencial consiste na experiência subjetiva de apreensão causada pela ameaça à segurança ontológica do indivíduo, quando algo que possui significado fundamental para a sua existência como pessoa – um ser que possui personalidade, um “eu” – é abalado. Essas ameaças se originam do medo da morte, da apreensão pela responsabilidade pelo próprio destino e pela ausência de sentido da própria vida. “É o estado subjetivo da conscientização por parte do indivíduo de que sua existência pode ser destruída, de que ele pode perder o próprio ser e seu mundo, que pode transformar-se em ‘nada’” (MAY, 1988, p. 120-1). Refere-se ao medo potencial decorrente da consciência de que “[...] nós, seres humanos, somos meramente animais transientes tentando sobreviver em um universo sem sentido, destinados apenas a morrer e a decair” (PYSZCZYNSKY et al., 2004, p. 436). Em relação à operacionalização desse conceito, certo esforço tem sido feito para sintetizar as ideias provenientes da filosofia e da literatura clínica, de modo a permitir a verificação empírica do constructo. Em uma revisão sistemática de instrumentos existentes para avaliar a presença de alguns dos aspectos da ansiedade existencial, van Bruggen et al. (2015) identificaram cinco escalas que cobriam de forma abrangente a ansiedade existencial: (1) Existential Study (THORNE, 1973; THORNE; PISHKIN, 1973), (2) Existential Anxiety Scale (EAS) (GOOD; GOOD, 1974), (3) Existential Anxiety Scale (BYLSKI; WESTMAN, 1991), (4) Fear Scale (WALTERS, 2000) e (5) Existential Anxiety Questionnaire (EAQ) (BERMAN; WEEMS; STICKLE, 2006; WEEMS et al., 2004). Na avaliação empreendida, van Bruggen et al. (2015) concluíram que, “[...] em um período de quatro décadas, apenas cinco instrumentos com ampla perspectiva sobre AE [Ansiedade Existencial] foram publicados, e cada um deles foi usado em apenas alguns estudos. Isso pode estar relacionado ao caráter altamente abstrato e talvez também normativo do conceito de AE” (van BRUGGEN et al., 2015, p. 193). Além disso, os autores consideraram quatro desses instrumentos inapropriados, seja (1) pela ausência de consistência teórica, ao partirem de uma definição não muito clara de ansiedade existencial, (2) seja pela fraca validade de conteúdo, ou ainda (3) pela falta de uma criteriosa validação de constructo, o que torna esses instrumentos pouco confiáveis. 117 Dos cinco instrumentos avaliados por van Bruggen et al. (2015), apenas o Existential Anxiety Questionnaire (EAQ) (WEEMS et al., 2004) apresentou resultados satisfatórios quanto a confiabilidade e validade. O EAQ possui 13 itens que abrangem a ansiedade em relação à morte, à culpa e à falta de sentido. O instrumento foi desenvolvido com o objetivo de verificação empírica preliminar da teoria existencial de Paul Tillich (2000), embora seus autores tenham sugerido que o conteúdo dos itens poderia ser expandido (van BRUGGEN et al., 2017). Com o objetivo de desenvolver uma medida para a ansiedade existencial passível de ser usada tanto em pesquisa empírica quanto na prática clínica, van Bruggen et al. (2017) partem das dimensões do Existential Anxiety Questionnaire (EAQ) (WEEMS et al., 2004), mas, além de Tillich (2000), também se baseiam no framework conceitual de Glas (2003), Yalom (1980) e da Teoria da Gestão do Terror (KOOLE et al., 2006), de modo a abranger cinco diferentes preocupações existenciais: (1) Morte, abordada em dois aspectos distintos: (a) o fato de que a própria vida acabará em algum momento desconhecido; e (b) a ameaça do mundo como um lugar inseguro, no qual, a qualquer momento, algo potencialmente ameaçador para a vida pode vir a acontecer; (2) Falta de significado, a experiência de que os sistemas de significado são relativos, pois existem muitos deles, e que as próprias ideias sobre o significado do mundo não são suficientes para convencer as outras pessoas; (3) Culpa; por ser um conceito diferenciado e complexo em si, os autores escolhem enfatizar a experiência de não se poder satisfazer as próprias expectativas sobre a vida; (4) Isolamento social, a experiência de não se estar conectado a outras pessoas e não se conseguir compartilhar plenamente a perspectiva de outra pessoa; e (5) Identidade, não possuir o pleno conhecimento sobre si mesmo, juntamente com as inconsistências da experiência sobre si mesmo e o mundo. O instrumento resultante, o Existential Concerns Questionnaire (ECQ), evidenciou a inter-relação da maioria das cinco questões existenciais teorizadas pelos autores, com exceção da questão relacionada à morte, sugerindo a ansiedade da morte, tomada em sentido estrito, ou seja, a ansiedade provocada pela finitude da vida, pode ter um lugar relativamente distinto na construção da ansiedade existencial. O mesmo raciocínio é válido para um terceiro fator emergido dos dados, nomeado pelos autores de evitação [avoidance], que foi constituído por itens que refletiam uma reação de evitação em relação a preocupações existenciais. Os itens que representavam as quatro questões existenciais teorizadas – ansiedade relacionada à falta de sentido, culpa, isolamento e identidade – foram carregados num único fator, o que, na conclusão dos autores, reforça sua tese de que uma conceituação de ansiedade existencial que vai além da ansiedade relacionada à morte faz sentido. O instrumento apresentou 118 boas propriedades psicométricas (consistência interna, confiabilidade teste-reteste, validades de constructo e incremental). A figura a seguir sintetiza o constructo, tal como verificado no estudo de van Bruggen et al. (2017): Figura 2: Dimensões da Ansiedade Existencial do Existential Concerns Questionnaire (ECQ) Fonte: van Bruggen et al. (2017, p. 8). 3.3 Experiência Turística Eudaimônica, identidade e bem-estar Pesquisas que mostram a experiência turística como uma jornada de autodescoberta ou um processo de autoconhecimento e os impactos que as reflexões suscitadas em condições de liminaridade provocam nas concepções que os indivíduos possuem sobre si próprios são abundantes na literatura (KONTOGEORGOPOULOS, 2017; KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017, 2016a; KIRILLOVA; LEHTO, 2015; COGHLAN; WEILER, 2015; JOAQUIM, 2015; LEAN; STAIFF; WATERTON, 2014; SAUNDERS; LAING; WEILER, 2013; HIBBERT, 2013; HIRSCHORN; HEFFERON, 2013; WEARING; STEVENSON; YOUNG, 2010; ANDREWS, 2009; NOY, 2004; HOM CARY, 2004; DESFORGES, 2000; WANG, 1999; ROBERSON, 1999; NEUMANN, 1992). Nesses estudos, a experiência turística é assumida 119 como um processo que deflagra transformações pessoais, levando a redefinições na autoidentidade. Em essência, essa literatura é a principal preconizadora da experiência turística como um “processo transformativo” que é iniciado no próprio indivíduo, o turista-viajante. A partir das reconceptualizações e ressignificações resultantes das reflexões por que passou no espaço liminal, o turista passa a ser um potencial agente de mudanças no meio em que interage. Nesse sentido, alterações na perspectiva do turista em relação ao mundo, à vida e às pessoas podem levar a mudanças de atitude em relação à comunidade local, à mudança de comportamento, com a adoção de práticas mais responsáveis ligadas ao turismo sustentável, ao voluntarismo social e ambiental, e até mesmo a um ativismo mais engajado. Independentemente das atitudes e comportamentos adotados, o que deve ser entendido do processo transformativo proporcionado pela experiência turística é que sua natureza é ontológica, alcançando o centro definidor da identidade individual, razão pela qual as transformações experienciadas são tão profundas, levando a reorganizações no modo de ser do indivíduo, conforme as pesquisas no campo do turismo acima referenciadas têm demonstrado. Esses estudos mostram como os indivíduos são levados a reconsiderar concepções de mundo, crenças, valores e atitudes, e a repensar seus modos de vida, passando a adotar novos “modos de ser”, mais condizentes com a nova realidade descoberta e as novas possibilidades vislumbradas de vida, questionando e por vezes rompendo com a perspectiva de mundo que possuíam, dando um novo significado para suas vidas. A fim de acessarem as experiências, os processos de transformação, as reflexões e as construções de sentido por parte dos sujeitos, essas pesquisas fazem uso de narrativas de viagens (JOAQUIM, 2015; HIBBERT, 2013; NOY, 2004; NEUMANN, 1992), entrevistas em profundidade (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017, 2016a; SAUNDERS; LAING; WEILER, 2013; HIRSCHORN; HEFFERON, 2013; ROBERSON, 1999) e, mais recentemente, a netnografia (CANAVAN, 2017), adotando uma abordagem fenomenológica, contextualista e construcionista para estudarem como os turistas apresentam o self e em que sentido o modificam. Contudo, se por um lado tais pesquisas oferecem importantes elementos para o entendimento do processo de transformação em experiências de viagem, fornecendo uma leitura muito aproximada dos sentimentos vivenciados pelos sujeitos a partir de suas recordações acerca da experiência, por outro, devido a essa mesma abordagem, o “quadro geral” acaba sendo perdido, dificultando generalizações sobre o fenômeno e a comparabilidade entre 120 estudos. A justificativa para essa limitação reside no fato de se tentar construir teorias explicativas partindo do uso exclusivo de abordagens êmicas de investigação, aquelas que consideram a perspectiva das pessoas que estão sendo estudadas, penetrando seus quadros de significado (SNAPE; SPENCER, 2003), requerendo para isso o uso exclusivo de métodos qualitativos de coleta e análise dos dados. Exemplo disso é a recente pesquisa realizada por Kirillova, Lehto e Cai (2017) sintetizada anteriormente. Os autores fazem um primoroso trabalho ao analisarem as entrevistas de 10 sujeitos que vivenciaram importantes transformações em suas respectivas experiências de viagem. Em sua investigação, os autores discutem seis aspectos dos episódios transformadores – tempo, valência e intensidade das respostas emocionais, cognição ampliada, transitoriedade e delimitação e, conexão a algo “maior” – e destacam o papel circunstancial do ambiente turístico (paisagens naturais, estranheza cultural e conexões sociais significativas), concluindo acerca das similaridades e distinções entre as experiências “de pico” e transformadora. Kirillova, Lehto e Cai (2017) afirmam que seu estudo traz contribuições teóricas para a pesquisa sobre o turismo transformador ao analisar de perto [zooming in] os momentos que disparam as experiências transformadoras e por trazer à tona as suas características fundamentais. De fato, a contribuição dos autores é notável, mas a explicação que dão para o fenômeno investigado permanece uma especulação teórica construída à luz da abordagem filosófica existencialista e da psicologia humanista-existencial. Ainda que o estudo lance alguma luz no caminho rumo ao entendimento das experiências turísticas transformadoras, estudos subsequentes que adotarem a mesma abordagem não conseguirão fazer avançar o conhecimento a um ponto que amplie a perspectiva sobre o tema ou o aprofunde com propriedade, como também não conseguirão construir teorias explicativas sobre o fenômeno. Os estudos sobre as experiências turísticas podem adotar também uma abordagem que, além de conservar o pressuposto ontológico da natureza das experiências turísticas transformadoras, ou seja, que mantenham o enfoque nos processos de transformação evocados no âmago do ser, também permitam (por esta mesma razão) a análise de sua influência no processo de construção da identidade do ego, “a agência de personalidade responsável pelo controle comportamental, cognitivo e emocional” (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 94) do indivíduo. Kirillova, Lehto e Cai (2017) afirmam que uma das características fundamentais e distintivas das experiências turísticas transformadoras é o sentimento evocado de ansiedade existencial. Isso reforça ainda mais o caráter ontológico das experiências turísticas. A ansiedade existencial ameaça a segurança ontológica do indivíduo, quando suas crenças são colocadas em 121 dúvida ou quando algo que possui significado essencial para a sua existência como ser individual único, uma pessoa, é abalado (GIDDENS, 2009, 2002; MAY, 1988, 1980). Essa relação entre ansiedade existencial e transformações pessoais proporcionadas pela experiência turística pode ser estabelecida empiricamente? Como estrutura psicológica, a identidade é um sistema de autorregulação que funciona no direcionamento da atenção, na filtragem ou processamento de informações, no gerenciamento de impressões e na seleção de comportamentos apropriados (ADAMS, 1998), o que evidencia sua centralidade no funcionamento psíquico e sociointeracional do indivíduo. Neste sentido, a identidade do ego constitui o núcleo da personalidade; quanto maior o senso de identidade do ego, maior a unidade da personalidade, e quanto mais unificada a personalidade, maior a integração da vida da pessoa com o mundo social (CÔTÉ; LEVINE, 2002). Segundo a concepção eriksoniana, a formação da identidade do ego sintetiza o próprio desenvolvimento psicossocial do indivíduo e é inerente à condição humana. As teorias psicológicas sobre a formação da identidade procuram fornecer explicações acerca do longo processo de desenvolvimento do senso de si mesmo no indivíduo – sua identidade – à medida que ele lida com os conflitos e desafios de seu ajustamento ao meio sociocultural em que está inserido. Como já discutido, em contextos sociais marcados por afrouxamentos normativos institucionais, por um modo de vida crescentemente individualizado, com presença massiva de meios de comunicação, do consumo como “necessidade” e de um estilo de vida em que encontros sociais se dão cada vez mais esporádica e superficialmente, a construção da identidade passa a ser um projeto reflexivo, sujeita a constantes revisões e mudanças de curso (CÔTÉ, 2016; CÔTÉ; LEVINE, 2002; GIDDENS, 2002). Em consonância com essa discussão, no atual contexto da sociedade moderna tardia, o processo de construção de um senso de autoidentidade constitui um grande desafio, uma vez que suportes institucionais para as transições no desenvolvimento individual são deficientes, situação esta que deixa os indivíduos à sua própria sorte, especialmente em termos de definição e realização de objetivos de vida (CÔTÉ, 2016, 1997). William James (1890) propôs que o senso de si mesmo deriva da percepção de continuidade e unidade em mente, experienciada como um sentimento de “intimidade” e uma sensação de “calor”, proporcionando uma sensação fisiológica geral positiva. Erikson (1972) postulou que um sentimento ótimo de identidade é experimentado como uma sensação de bem- estar psicossocial, um “sentimento de ‘estar em casa’ em nosso próprio corpo, [...] de ‘saber 122 para onde se vai’ e uma certeza íntima de reconhecimento antecipado por parte daqueles que contam” [pessoas que são importantes para o indivíduo] (ERIKSON, 1972, p. 166). Jahoda (1958) reforça essa premissa afirmando que “uma pessoa saudável sabe quem ela é, e não possui dúvidas básicas sobre sua identidade interior” (JAHODA, 1958, p. 29). A esse respeito, Côté (2016) afirma que, na teoria de Erikson, a relação entre formas positivas de formação da identidade e outras formas de desenvolvimento ótimo, associada também a uma melhor saúde mental, constitui um axioma, que se baseia no pressuposto de que, à medida que as pessoas adquirem um senso mais seguro de identidade do ego (ou seja, continuidade espaço-temporal) durante o seu progresso pelos sucessivos estágios da formação da identidade, o funcionamento mental geral melhora (CÔTÉ, 2016, p. 28). Como consequência, indivíduos com um senso mais forte de quem são e para onde suas vidas estão dirigidas teriam maior probabilidade de se engajar em relacionamentos interpessoais maduros e assumir papéis adultos (SCHWARTZ, 2013). Essa relação entre identidade, funcionamento mental ótimo e bem-estar tem sido verificada empiricamente em vários estudos (MECA et al., 2015; PILARSKA, 2014; LEE et al., 2014; RITCHIE et al., 2013; WATERMAN, 2007a). Além disso, várias pesquisas têm relacionado os diferentes status de identidade a conjuntos distintos de personalidade, ao ajustamento social e a variáveis cognitivas (RUIZ ALFONSO, 2014; SCHWARTZ et al., 2013a, 2013b; KROGER; MARCIA, 2011): o status de realização de identidade [achievement] tem sido associado ao pensamento equilibrado [balanced thinking] (KRETTENAUER, 2005) e a relações interpessoais maduras (BEYERS; SEIFFGE-KRENKE, 2010); já o status de moratória tem sido relacionado não apenas à abertura à experiência [openness to experience] (LUYCKX et al., 2005), como também à ansiedade, depressão e baixa autoestima (SCHWARTZ et al., 2009; MEEUS et al., 1999); no status de “encerramento” [foreclusure], a rigidez de pensamento [rigidity] e o autoritarismo foram características verificadas (MARCIA, 1967), porém, com elevados graus de autoestima, satisfação com a vida e bem-estar psicológico (SCHWARTZ et al., 2011); por fim, o satus de difusão de identidade tem sido associado a um funcionamento psicossocial pouco efetivo, incluindo ausência de significado e direção na vida (WATERMAN, 2007a), a comportamentos de risco, como o abuso de drogas e álcool (BISHOP et al., 2005) e ao desajustamento [maladjustment] social e acadêmico (LUYCKX et al., 2005). Os estudos relatados aqui mostram como as condições de liminaridade, combinadas com acontecimentos inesperados em ambientes estranhos ao indivíduo, mas que proporcionam experiência estética (natureza, arte, história) e de intercâmbio cultural e social, podem provocar 123 transformações profundas em sua maneira de ver o mundo e a si mesmo, num processo de crescente experimentação da autenticidade existencial. Conforme discussão feita na seção anterior, independentemente de uma experiência turística ser transformadora, ela também é tratada na literatura recente como uma experiência eudaimônica e promotora do seu bem-estar. 3.3.1 Resolução de identidade para além da adolescência – As tarefas de identidade e o Identity Issues Inventory Partindo da premissa de que tem havido um crescente prolongamento do tempo para que os jovens consigam resolver as questões relativas à identidade e desenvolvam-se como indivíduos adultos no contexto das sociedades ocidentais na modernidade tardia, e de que poucos estudos foram empreendidos para avaliar empiricamente as consequências dessa transição estendida para a vida adulta, no sentido de que uma identidade adulta funcional seja alcançada (CÔTÉ, 2006a), Roberts e Côté (2014) desenvolveram o Identity Issues Inventory como uma medida objetiva de avaliação do estágio de resolução da identidade que contempla questões-chave para a formação da identidade nas gerações pós anos 1970. Os autores alegam que o conteúdo dos instrumentos desenvolvidos até então enfatiza questões que não são mais relevantes para as coortes atuais. As formas de engajamento em questões relacionadas, por exemplo, com o posicionamento político, religião e ideologia da juventude da segunda metade dos anos 90 e 2000 tem sido drasticamente diferente daquelas das gerações dos anos 70 e 80, seja pelo baixo nível de envolvimento, seja pelo oposto, com um engajamento mais radicalizado. De forma mais específica, conforme explicam os autores, embora muitos desses jovens se interessem por instituições tradicionais ligadas à política e à religião, seu envolvimento tende a ser mais individualizado, como em um modelo “self- service”, escolhendo entre vários elementos que eles consideram atraentes pessoalmente, ou um estilo de “cafeteria”, como coloca Côté (2000): Claramente afetados pelo processo de individualização, as pessoas agora são mais propensas a “escolher e pegar” [“pick and choose”] seu estilo de cafeteria de crenças religiosas, como evidenciado pelo fato de que a maioria das pessoas ainda acredita em um Deus, mas eles desenvolveram suas próprias maneiras de mostrá-lo (CÔTÉ, 2000, p. 163). 124 O instrumento desenvolvido pelos autores leva em consideração as teorias e pesquisas mais recentes sobre a formação de identidade, seguindo a linha neoeriksoniana de investigação. Dessa forma, o modelo teórico proposto por Roberts e Côté (2014) atualiza as formulações originais de Erik Erikson a fim de explicar a formação da identidade para além da adolescência, em termos de questões-chave relacionadas à identidade encontradas no início da idade adulta nas sociedades ocidentais modernas. Segundo os autores, duas questões são primordiais para se determinar se um novo modelo teórico e sua respectiva operacionalização contribuem para o campo dos estudos da identidade: o conteúdo das medidas, conforme mencionado, e sua adequação à idade. No que se refere à idade, Roberts e Côté (2014) afirmam que não está claro até que ponto as medidas já estabelecidas são adequadas para avaliar formas prolongadas de desenvolvimento da identidade. As questões que os jovens de 20 anos enfrentam são muitas vezes diferentes daquelas que enfrentaram na adolescência, uma vez que experimentam uma maior independência dos pais e sentem a necessidade de encontrar emprego e conseguir alguma independência financeira. Os autores acrescentam que aqueles na casa dos 30 anos enfrentam problemas adicionais ainda distintos, e assim por diante durante o curso da vida. Dessa forma, o Identity Issues Inventory fundamenta-se nos escritos de Erik Erikson sobre a formação da identidade psicossocial, abordando as áreas (1) da autoidentidade (a identidade do ego, na concepção eriksoniana), em conjunto com algumas elaborações recentes que desenvolvem e atualizam seus conceitos, especialmente no que se refere à integração e diferenciação do self, e (2) da identidade social, representada pelos papéis de trabalho assumidos e pela aceitação de uma visão funcional de mundo (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). O instrumento adota a abordagem contínua para a mensuração da formação da identidade, assumindo que os mesmos processos estão potencialmente em ação para todos os indivíduos, mas que as diferenças individuais existem em termos de como as questões subjacentes a esses processos são enfrentadas, incluindo o quão progressivamente essas questões são resolvidas (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Além disso, o instrumento também operacionaliza os aspectos positivos e negativos da formação da identidade, o que Erikson chamou de elementos de identidade sintônica e distônica do ego, algo ainda não considerado nas medidas de avaliação da identidade já estabelecidas (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Para a construção das dimensões constituintes do instrumento, os autores partem do framework analítico proposto por Côté e Levine (2002), que identifica três dimensões ou níveis de identidade interrelacionados: (1) o sentido subjetivo/experiencial das atividades mentais 125 (identidade do ego), (2) o reino das atividades interpessoais do dia a dia, na interação com outras pessoas (identidade pessoal) e (3) os papéis sociais que uma pessoa desempenha em uma sociedade e o status relativo desses papéis (identidade social). Esta abordagem pressupõe que determinadas questões ou desafios precisam ser encarados pela pessoa em desenvolvimento para cada tarefa relacionada à identidade em cada um desses três níveis. Esses níveis estão inter- relacionados e se apóiam mutuamente (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Ao mesmo tempo, cada uma dessas dimensões, conforme teoriza Erik Erikson (1972), possui os aspectos sintônicos e distônicos que precisam encontrar algum tipo de equilíbrio para um funcionamento efetivo em termos de domínio das tarefas de formação de identidade (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Uma vez que esses níveis estão inter-relacionados conceitualmente, eles são tratados como diferentes aspectos do constructo, que, por sua vez, é representado pela tarefa relacionada à identidade (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Consequentemente, os três níveis de identidade são teorizados como constituintes de fatores únicos dentro de cada uma das tarefas, identificadas pelos autores num total de quatro: integração [integration], diferenciação [differentiation], papéis de trabalho [work roles] e visão de mundo [worldview]. Integração A integração geralmente se refere ao senso de totalidade [wholeness], onde as várias esferas da experiência são reunidas de maneira unificada. Aplicada à autoidentidade, esse senso de unidade pode ser encontrado de maneira variada no mundo mental interno da pessoa, no mundo imediato do comportamento do dia a dia e na arena mais abstrata do funcionamento social em comunidades (concretas, remotas e imaginadas), de acordo com os três níveis de análise, respectivamente (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Dessa forma, a ausência desse senso de unidade – a experiência distônica – consiste em se sentir (a) mentalmente confuso em termos de continuidade temporal e espacial, (b) fragmentado em termos de atividades e relacionamentos do cotidiano, e (c) alienado dos envolvimentos organizados da comunidade (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). 126 Diferenciação O processo de diferenciação começa com o processo de individuação da infância, onde a criança desenvolve um senso de si mesmo [self], como alguém distinto daqueles que cuidam dela [caregivers] e daqueles que lhe são importantes [significant others] (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). O processo de individuação agora se transforma gradualmente em um processo de individualização durante a transição para a idade adulta em sociedades secularizadas, na medida em que os jovens precisam fazer escolhas e tomar decisões independentemente das normas sociais e da orientação de pessoas importantes (ou seja, ele se individualizam), particularmente em termos de seu repertório comportamental (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Ao mesmo tempo, as sociedades ocidentais contemporâneas também exigem um “individualismo econômico”, ou seja, espera-se que os cidadãos adultos funcionem como unidades econômicas autossuficientes, ou parceiros em seus papéis sociais, conforme expõe Côté (2000): Com a ideologia do individualismo, então, a pessoa tem a obrigação de ser instrumentalmente autodirigida em relação ao sistema econômico (capitalista). Em suma, o individualismo econômico é o padrão do comportamento “racional” ao qual as pessoas são mantidas (CÔTÉ, 2000, p. 33). Dessa forma, em termos sintônicos, no nível subjetivo, (a) pessoas individualizadas experimentam a sensação de serem elas próprias, no sentido de, em suas vidas, diferenciarem- se das outras pessoas; (b) no nível comportamental, pessoas individualizadas sentem que suas vidas são únicas porque isso é resultado de uma escolha que fizeram; e (c) no nível do papel social, indivíduos autossuficientes sentem que encontraram um nicho único e autossustentável em sua comunidade (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Por outro lado, a ausência dessas experiências subjetivas de diferenciação consiste nos reveses distônicos da diferenciação: (a) um esmagador engolfamento por parte de determinadas pessoas na vida imediata do indivíduo; (b) a falta de controle comportamental e singularidade da vida; e (c) a excessiva sensação de dependência da família, da comunidade ou da sociedade (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). 127 Papéis de trabalho A “tarefa de trabalho” [work task] da transição para a idade adulta implica um investimento pessoal na aquisição e no exercício de habilidades que possibilitem a participação em atividades produtivas que contribuam de alguma forma para uma comunidade mais ampla (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Nos termos de Erikson, o senso de competência das pessoas [sense of industry] (fase quatro do processo de desenvolvimento da identidade) se funde com seu senso de identidade (a fase cinco), de tal forma que eles se definem, em parte, em termos de suas contribuições produtivas (que podem incluir papéis parentais e domésticos) (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Em termos de elementos distônicos, aqueles que não conseguiram realizar essa tarefa (a) não experimentarão um senso de competência associado a habilidades produtivas, (b) não se sentirão reconhecidos por outros como detentores de habilidades de trabalho significativas, e, consequentemente, (c) não terão papéis de trabalho produtivos em sua sociedade (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Visão de mundo O desenvolvimento de uma visão de mundo é uma tarefa central da formação da identidade, segundo preconizado por Erikson (1968). Uma visão de mundo fornece às pessoas uma fonte a partir da qual elas podem extrair um senso de significado e propósito na vida, em termos de “algo maior” que eles próprios. Este “algo maior” pode ser uma religião, um partido político ou uma ideologia mais ampla, como o humanismo, o tecnologismo ou o cientificismo (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Em termos distônicos, a pessoa desprovida de uma visão de mundo (a) não possui um senso de propósito fundamentado em um sistema de crenças, (b) não possui posições articuladas acerca de questões relevantes para a vida e (c) não adere a um sistema de crença, formal ou informal, relacionado a religião, política, ciência, humanismo e similares (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). 128 O quadro 2 a seguir sintetiza o modelo teorizado por Roberts e Côté (2014) e traz um exemplo de item que operacionaliza cada uma das tarefas de identidade do modelo. 129 129 Quadro 2: Tarefas de formação de identidade durante a transição para a idade adulta Nível de análise Tarefas de autoidentidade Tarefas de identidade social Integração Diferenciação Papéis de trabalho Visão de mundo (A) Experiência subjetiva: Identidade do ego Continuidade temporal- espacial (Sinto que cresci como uma pessoa “completa”) Fronteiras de identidade (self) e individuação (Sinto-me como se tivesse desenvolvido plenamente como a pessoa que realmente sou) Senso de competência no trabalho ou função (Tenho certas habilidades que me permitem ser eficaz no trabalho que eu escolher realizar). Senso de significado e propósito (Minhas crenças e valores se relacionam com algo que é muito mais importante do que as minhas necessidades individuais) (B) Repertório comportamental: Identidade pessoal Estabilidade comportamental nas relações interpessoais (Meus amigos pensam que eu me comporto de forma madura) Estilo individualizado nas apresentações pessoais (Na maioria das vezes, me visto e ajo de maneira que reflete o tipo de pessoa que eu realmente sou) Implementação reconhecida de conjuntos de habilidades ou talentos (As pessoas do meu convívio pensam que possuo alguns talentos ou habilidades que são úteis) Posição publicamente articulada sobre crenças (Muitas vezes falo sobre o que acredito) (C) Funções e status sociais: Identidade social Nicho validado e lugar em uma comunidade (Pertenço a uma comunidade de pessoas de mentalidade semelhante à minha com quem me sinto feliz em me asssociar por tempo indeterminado) Nicho ou lugar especial / exclusivo em uma comunidade (Encontrei meu nicho – lugar único ao qual perntenço – na vida) Credenciais adquiridas e / ou status de trabalho / função (Possuo o nível de educação formal que sempre almejei obter) Comprometimento socialmente reconhecidas (Vivo minha vida de maneira consistente com um conjunto firme de valores e crenças – religiosas, políticas, seculares ou não – que são seguidos por uma associação estruturada de pessoas) Fonte: Roberts e Côté (2014, p. 229) 130 3.4 Modelo teórico Com base na discussão teórica precedente e no exposto nas últimas duas seções, teoriza-se aqui que as experiências turísticas têm o potencial de proporcionar resoluções de identidade mais efetivas em contextos moderno-tardios. A explicação para isso reside na natureza eudaimônica dessas experiências, que possibilita o autoconhecimento, o desenvolvimento das melhores capacidades e o crescimento interior. Além disso, o espaço liminal do ambiente turístico, aliado à experiência estética provocada pelo contato com os ambientes natural, histórico e social, além do intercâmbio com uma outra cultura, viabilizam os processos de reflexão e, com isso, abrem acesso à experiência progressiva da ansiedade e da autenticidade existenciais, levando o indivíduo ao entendimento e ao encontro com o seu eu verdadeiro, o daimon. Muitas das dimensões teorizadas da experiência turística eudaimônica estão relacionadas com recursos intangíveis do capital de identidade. Dessa forma, especula-se aqui a hipótese de que as possíveis dimensões da experiência turística percebidas como determinantes de mudanças no jeito de ser e enxergar o mundo e a vida relacionam-se positivamente com características da personalidade agêntica (locus de controle, propósito na vida, autoestima e força do ego). Na concepção de Erikson (1972), a relação entre formas positivas de formação da identidade e a saúde mental constitui um axioma, fundamentado no pressuposto de que, à medida que as pessoas adquirem um senso mais seguro de identidade, o funcionamento mental geral melhora (CÔTÉ, 2016). Segundo Erikson (1972), o desenvolvimento de um senso de identidade forte e estável, ou seja, um conjunto coerente de objetivos, valores e compromissos que definem quem a pessoa é, constitui condição necessária e de importância fundamental para o bem-estar (BEYERS; LUYCKX, 2016). Em alinhamento com esses fundamentos, a relação positiva entre identidade e bem-estar é aqui teorizada. Com base na tese defendida por Kirillova, Lehto e Cai (2017) de que as experiências turísticas transformadoras são precedidas pelo sentimento de ansiedade existencial, tal relação é aqui proposta em um modelo estrutural a fim de se testá-la. A figura a seguir sintetiza as hipóteses aqui descritas. 131 Figura 3: Modelo teórico de relações entre os constructos Ansiedade Existencial, Experiência Turística Eudaimônica, Resolução de Identidade, Personalidade Agêntica e Bem-estar subjetivo Fonte: Elaborado pelo autor 131 132 Hipóteses do modelo: H1: Ansiedade Existencial é positivamente correlacionada com Experiência Turística Eudaimônica. H2: Experiência Turística Eudaimônica é positivamente correlacionada com Resolução de Identidade. H3: Experiência Turística Eudaimônica é positivamente correlacionada com Personalidade Agêntica. H4: Personalidade Agêntica é positivamente correlacionada com Resolução de Identidade. .H5: Resolução de Identidade é positivamente correlacionada com Bem-estar subjetivo. H6: Experiência Turística Eudaimônica é positivamente correlacionada com Bem- estar subjetivo. H7: Personalidade Agêntica é positivamente correlacionada com Bem-estar subjetivo. 133 4 METODOLOGIA 4.1 Enquadramento ontoepistemológico Em uma investigação científica, as escolhas relacionadas aos procedimentos metodológicos – o método e as técnicas a serem utilizados – estão intrinsecamente vinculadas às concepções que o pesquisador possui acerca da natureza da realidade (ontologia) e do conhecimento acerca do fenômeno estudado (epistemologia), sejam essas concepções conscientes ou não (MERTENS, 2010). Assim, conforme sugerem Guba e Lincoln (1994), antes que uma abordagem de investigação possa ser decidida, questões relativas ao paradigma científico subjacente precisam ser respondidas, opinião que é compartilhada por Hunt (2015): [...] quando os estudiosos se envolvem em um projeto de pesquisa, sempre há pressupostos subjacentes quanto à existência das entidades (ou seja, pressupostos ontológicos), quais projetos de pesquisa são apropriados para gerar novos conhecimentos (ou seja, pressupostos metodológicos) e quais os critérios apropriados para se avaliar reivindicações de conhecimento (ou seja, pressupostos epistemológicos). Portanto, embora os fundamentos filosóficos de uma pesquisa possam ser explícitos ou implícitos, eles não podem ser evitados. As opções estão disponíveis; as escolhas devem ser feitas por razões sólidas (HUNT, 2015, p. 225). Os pressupostos básicos que definem um paradigma de pesquisa podem ser resumidos pelas respostas dadas a três questões fundamentais, de tal forma interconectadas que a resposta dada a uma pergunta, qualquer que seja a ordem, restringe a forma como as demais perguntas podem ser respondidas (GUBA; LINCOLN, 1994): 1. A questão ontológica. Qual é a forma e a natureza da realidade e, portanto, o que há que pode ser conhecido sobre isso? Por exemplo, se um mundo “real” é assumido, então o que se sabe sobre isso é “como as coisas realmente são” e “como as coisas realmente funcionam”. Então, apenas as questões que se relacionam com questões de existência “real” e ação “real” são admissíveis; outras questões, como as relativas a questões estéticas ou morais, estão fora do domínio da investigação científica legítima. 134 2. A questão epistemológica. Qual é a natureza da relação entre o conhecedor ou o potencial conhecedor e o que pode ser conhecido? A resposta que pode ser dada a esta questão é limitada pela resposta já dada à questão ontológica; ou seja, não apenas qualquer relacionamento pode ser postulado. Então, se, por exemplo, uma realidade “real” for assumida, a postura do conhecedor deve ser um desapego objetivo ou liberdade de valor para poder descobrir “como as coisas realmente são” e “como as coisas realmente funcionam”. (Inversamente, a hipótese de uma postura objetivista implica a existência de um mundo “real” para ser objetivo.) 3. A questão metodológica. Como o pesquisador (potencial conhecedor) pode saber se o que ele acredita pode ser conhecido? Mais uma vez, a resposta que pode ser dada a esta questão é limitada pelas respostas já dadas às duas primeiras questões; isto é, não apenas qualquer metodologia é apropriada. Por exemplo, uma realidade “real” perseguida por um investigador “objetivo” exige o controle de possíveis fatores de perturbação, sejam eles qualitativos (digamos, observacionais) ou quantitativos (por exemplo, análise de covariância). (Por outro lado, a seleção de uma metodologia de manipulação – o experimento, digamos – implica a capacidade de ser objetivo e de um mundo real para ser objetivo.) A questão metodológica não pode ser reduzida a uma questão de métodos; os métodos devem ser adaptados a uma metodologia predeterminada. (GUBA; LINCOLN, 1994, p. 108). Em síntese, o pressuposto ontológico se relaciona com a natureza da realidade, ou seja, questiona sobre como a realidade existe. O pressuposto epistemológico diz respeito à natureza do conhecimento, questionando acerca de como é possível se certificar de que o que se conhece sobre algo é, de fato, “verdadeiro” (MERTENS, 2005), mas também colocando a questão acerca da neutralidade e do dilema entre objetividade e subjetividade; enquanto que a metodologia é o pressuposto que relaciona os métodos mais adequados para que a realidade seja apreendida e que o problema a ser estudado seja melhor abordado (MERTENS, 2005). No entanto, um quarto pressuposto, o axiológico, que lida com questões éticas na investigação científica, questionando sobre as condutas moralmente corretas do pesquisador e da pesquisa em si (MERTENS, 2010), também faz parte do framework paradigmático para as Ciências Sociais proposto por Guba e Lincoln (1994). Após incorporarem as contribuições de diferentes estudiosos, Guba e Lincoln (2005) atualizam sua discussão e apresentam uma classificação dos paradigmas científicos. De maneira resumida, Guba e Lincoln (2005) trazem duas “classes” de paradigmas científicos nas ciências sociais; uma cujos fundamentos ontológico e epistemológico são, respectivamente, realistas e objetivistas – os paradigmas positivista e pós-positivista – e a outra de base interpretativista-subjetivista, os paradigmas crítico, construcionista e participativo. As 135 características dos pressupostos de cada um desses paradigmas estão resumidamente descritas no quadro 3 a seguir. A presente proposta de investigação científica assume que a realidade existe independentemente das percepções humanas, mas sua complexidade inviabiliza sua plena apreensão, sendo apenas possível compreendê-la em termos aproximados. De acordo com o quadro acima, o realismo crítico parace ser o paradigma de pesquisa que melhor descreve os pressupostos ontoepistemológicos desta investigação. Segundo Guba e Lincoln (1994), no realismo crítico, “[...] a realidade é assumida como existindo, mas é imperfeitamente apreensível devido à falibilidade dos mecanismos intelectuais humanos e à natureza fundamentalmente inacessível dos fenômenos” (GUBA; LINCOLN, 1994, p. 110). A dualidade entre o pesquisador e o objeto a ser estudado, diferentemente do realismo clássico ou ingênuo, é abandonada, mas a objetividade é mantida (GUBA; LINCOLN, 1994). Ao tentar esclarecer o realismo crítico, Sayer (1992), um dos fundadores dessa corrente epistemológica, observa que, embora existam similaridades e diferenças marcantes entre as posições filosóficas alternativas com as já existentes, algumas características podem delimitar pontos importantes que separam o realismo crítico das demais epistemologias. Sayer (1992) afirma que seu propósito não é o de realizar um tratado filosófico, mas discutir o método nas ciências sociais, em conjunto com a consideração da teoria social e da filosofia da ciência. Dessa forma, o autor estabelece as seguintes premissas do realismo crítico: 1. O mundo existe independentemente do nosso conhecimento. 2. Nosso conhecimento sobre o mundo é falível e carregado de teorias. Conceitos de verdade e falsidade não proporcionam uma visão coerente da relação entre conhecimento e seu objeto. No entanto, o conhecimento não é imune à verificação empírica, e sua efetividade em informar e explicar práticas materiais bem sucedidas não é um mero acidente. 3. O conhecimento não se desenvolve inteiramente de forma contínua, como a acumulação constante de fatos dentro de uma estrutura conceitual estável, nem totalmente descontínua, por meio de mudanças simultâneas e universais nos conceitos. 4. Há necessidade no mundo; os objetos – sejam eles naturais ou sociais – necessitam necessariamente de poderes causais particulares ou formas de atuação e susceptibilidades particulares. 5. O mundo é diferenciado e estratificado, consistindo não só de eventos, mas também de objetos, incluindo estruturas, que possuem poderes e responsabilidades capazes de 136 gerar eventos. Essas estruturas podem estar presentes mesmo quando, como no mundo social e em grande parte do mundo natural, não geram padrões regulares de eventos. 6. Os fenômenos sociais, como ações, textos e instituições, são dependentes de conceito. Portanto, não só devemos apenas explicar sua produção e seus efeitos materiais, mas também entendê-las, ler ou interpretar o que elas significam. Embora elas tenham que ser interpretadas com base nos próprios quadros de significados do pesquisador, em geral, elas existem independentemente de suas interpretações. Uma versão qualificada de 1, portanto, ainda se aplica ao mundo social. Em vista de 4-6, os métodos de ciências sociais e das ciências naturais possuem diferenças e semelhanças. 7. A ciência ou a produção de qualquer outro tipo de conhecimento é uma prática social. Para o melhor ou pior (não apenas pior), as condições e as relações sociais da produção do conhecimento influenciam seu conteúdo. O conhecimento também é amplamente – embora não exclusivamente – linguístico, e a natureza do idioma e a forma como nos comunicamos não são acessórias ao que é conhecido e comunicado. A consciência dessas relações é vital na avaliação do conhecimento. 8. A ciência social deve ser crítica de seu objeto. Para poder explicar e compreender fenômenos sociais, temos que avaliá-los criticamente (SAYER, 1992, p. 5-6). Uma vez que a presente pesquisa verifica estruturas que compõem constructos hipotéticos (experiência eudaimônica, experiência transformadora, bem-estar, etc.), bem como correlações entre esses constructos (não é possível assumir causalidade ou causação a partir de dados coletados em um só momento no tempo), a abordagem do realismo crítico proporciona fundamentos ontoepistemológicos consistentes com esses objetivos. Além disso, o realismo crítico não limita a investigação ao uso de métodos puramente quantitativos, admitindo a combinação de métodos, inclusive qualitativos, de modo a tornar o fenômeno investigado mais “aparente” e a realidade mais “apreensível”. O fenômeno das experiências subjetivas é, em si, complexo e, à primeira vista, pode levar a uma conclusão apressada acerca da exequibilidade de sua apreensão, sugerindo exclusivamente abordagens fenomenológico-hermenêuticas como única e melhor forma de acessá-la. Contudo, a pesquisa psicológica já forneceu bastante evidência que demonstra a viabilidade de estudo das experiências subjetivas, como as experiências afetivas (emoções e atitudes) e o bem-estar. Muitas das pesquisas no campo do turismo que estudam experiências subjetivas assumem, explícita ou implicitamente, os pressupostos do realismo crítico. Experiência Turística Memorável (KIM; RITCHIE, 2013; KIM; RITCHIE; McCORMICK, 2012; KIM, 2009), Experiências Emocionais (HOSANY et al., 2014; HOSANY, 2012; 137 HOSANY; GILBERT, 2010) e Experiência Transformadora (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017, 2016a) são exemplos. Conforme esclarecem Guba e Lincoln (1994), as escolhas relativas ao método “[...] são secundárias a questões de paradigma” (GUBA; LINCOLN, 1994, p. 105), e, seja qual for o ponto de vista paradigmático acerca da realidade, o pesquisador é encorajado hoje em dia a usar métodos quantitativos e qualitativos conjuntamente (HOLLINSHEAD, 2004). A combinação de métodos qualitativos e quantitativos é verificada, por exemplo, no emergente paradigma transformativo (MERTENS, 2010, 2007), mas vem sendo proclamada e praticada desde os anos 1960, ganhando popularidade e adesão da comunidade científica (LEECH; ONWUEGBUZIE, 2009), seja sob o rótulo de triangulação (FLICK, 2009, 2008; DENZIN, 1978), pesquisa multimétodo (SEAWRIGHT, 2016), pesquisa integrada ou combinada (STECKLER et al., 1992) ou pesquisa com métodos mistos [mixed methods] (CRESWELL; PLANO CLARK, 2013; LEECH; ONWUEGBUZIE, 2009). Em suma, a presente investigação assume uma perspectiva que integra “[...] uma ontologia realista (um mundo real existe independentemente de nossas percepções, teorias e construções) com uma epistemologia construtivista (nossa compreensão deste mundo é inevitavelmente uma construção de nossas próprias perspectivas e pontos de vista, e não há possibilidade de alcançar um ‘ponto de vista de Deus’ que seja independente de qualquer ponto de vista particular)” (MAXWELL; MITTAPALLI, 2010, p. 146), e adota uma abordagem de métodos mistos para as questões de pesquisa colocadas, com vistas a acessar as experiências subjetivas dos sujeitos. 138 Quadro 3: Paradigmas de pesquisa nas Ciências Sociais e seus pressupostos básicos (continua) Questão Positivismo Pós-positivismo Teoria Crítica Construcionismo Participativo Ontologia (Natureza do ser e da realidade) Realismo ingênuo – realidade "real", mas apreensiva. REALISTA: A realidade existe independentemente das percepções do observador e opera de acordo com leis naturais imutáveis que muitas vezes tomam a forma causa / efeito. A VERDADE é definida como um conjunto de declarações que descrevem com precisão a realidade. Realismo crítico – realidade "real", mas apenas imperfeita e probabilisticamente apreensiva. Realismo histórico – realidade virtual moldada por valores sociais, políticos, culturais, econômicos, étnicos e de gênero; cristalizado ao longo do tempo. Relativismo – realidades locais e específicas de co- construção. RELATIVISTA: Existem múltiplas realidades socialmente construídas, não governadas por leis naturais – causais ou não. A VERDADE é definida como a construção do consenso da quantidade e qualidade combinada da informação que forneceu o entendimento mais poderoso que leva à ação. Realidade participativa – realidade subjetivo- objetiva, co-criada pela mente e pelo cosmos. Epistemologia (Natureza do conhecimento, seus pressupostos, fundamentos, extensão e validade) Dualista / objetivista (O conhecimento é um fenômeno que existe externo ao observador, o observador mantém uma distância e estuda o fenômeno (às vezes referido como empirismo), os achados são verdadeiros. Dualista / objetivista (modificado); tradição crítica / comunidade. As conclusões provavelmente são verdadeiras. Transacional-subjetivista (o conhecimento é criado por meio da interação dinâmica com os sujeitos e o contexto sócio- histórico, saber e ser coincidem); Resultados mediados por valores. Transacional-subjetivista; Achados construídos coletivamente. Subjetividade crítica na transação participativa com o cosmos; epistemologia prolongada do conhecimento experiencial, proposicional e prático; descobertas construídas coletivamente. 138 139 Quadro 3: Paradigmas de pesquisa nas Ciências Sociais e seus pressupostos básicos (conclusão) Questão Positivismo Pós-positivismo Teoria Crítica Construcionismo Participativo Metodologia Experimental / Manipulativo. Verificação de hipóteses; principalmente métodos quantitativos. Experimental- manipulativo (modificado); multiplicidade crítica; falseamento de hipóteses. Pode incluir métodos qualitativos. Dialógica / dialética Hermenêutica / dialética HERMENÊUTICA (interpretação): procura uma dialética (um diálogo entre diferentes pontos de vista) que cria um processo contínuo de iteração / análise / crítica / reiteração / reanálise, etc., que leva a uma construção conjunta de um caso. O objetivo é a compreensão. Participação política na pesquisa-ação participante; primazia da prática; uso de linguagem fundamentada em contexto de experiência compartilhada. Axiologia VALORES: Excluídos - influência negada. ÉTICA: Extrínseca – inclinação para a decepção. O saber proposicional sobre o mundo é um fim em si mesmo e intrinsecamente válido. VALORES: Incluído – formativo ÉTICA: Intrínseca - inclinação moral para a revelação. ÉTICA: Intrínseca - inclinação moral para a revelação. ÉTICA: Intrínseca - inclinação moral para a revelação. O conhecimento prático sobre como prosperar em equilíbrio com a autonomia, a cooperação e a hierarquia em uma cultura é um fim em si mesmo e intrinsecamente válido. O conhecimento proposicional e transacional é instrumentalmente válido como meio para a emancipação social, esta, um fim em si mesma, intrinsecamente válida. Fonte: Adaptado de Guba e Lincoln (2005) 139 140 4.2 Abordagem de Métodos Mistos Conhecido como o “terceiro movimento metodológico” (TASHAKKORI; TEDDLIE, 2010) ou o “terceiro paradigma de pesquisa” (JOHNSON; ONWUEGBUZIE, 2004), a pesquisa com métodos mistos (ou de métodos mistos) [mixed methods research] representa a sistematização de uma tendência de investigação nas Ciências Sociais que remonta os fins dos anos 1950 e toda a década de 1960, quando o uso combinado de abordagens qualitativas e quantitativas era defendido com a justificativa da necessidade de se minimizar os vieses decorrentes de preconceitos pessoais que derivam do uso exclusivo de metodologias únicas (DENZIN, 1978), bem como de abordar de forma mais completa problemas que necessitam de diferentes fontes e natureza de dados (qualitativos e quantitativos) para serem melhor compreendidos (CRESWELL; PLANO CLARK, 2013). Johnson, Onwuegbuzie e Turner (2007) definem a pesquisa de métodos mistos como: [...] o tipo de pesquisa em que um pesquisador ou equipe de pesquisadores combina elementos de abordagens de pesquisa qualitativa e quantitativa (por exemplo, uso de pontos de vista qualitativos e quantitativos, coleta de dados, análise, técnicas de inferência) para amplos propósitos de ampliação e aprofundamento de compreensão e corroboração (JOHNSON; ONWUEGBUZIE; TURNER, 2007, p. 123). Apesar de algum consenso em torno do termo métodos mistos, ainda existem algumas restrições quanto à sua abrangência quando se considera o termo original em inglês – mixed methods. Ao comentar o uso do termo triangulação de métodos, como alternativa à métodos mistos, Bergman (2011) argumenta que o termo (triangulação) seria inadequado, uma vez que implicaria apenas estudos em que resultados provenientes de fontes qualitativas e quantitativas convergem ou se confirmam mutuamente. O autor reconhece que, em certas circunstâncias, esse é um objetivo pretendido numa investigação, mas existiriam outras possibilidades de se combinar métodos que não estariam relacionados à triangulação. Como alternativa, o estudioso sugere termos como “combinar” [combining], “sintetizar” [synthe- sizing], “misturar” (no sentindo de homogeneizar) [blending] ou “fundir” [merging] em alternativa à mix/mixed, argumentando que, em termos estritos, “métodos qualitativos e quantitativos não são misturados, mas combinados de diferentes maneiras e para diferentes fins” (BERGMAN, 2011, p. 1586). 141 Além disso, Bergman (2011) faz observações em relação a outra nomenclatura relacionada ao uso combinado de metodologias, a abordagem multimétodo ou projeto multimétodo [multimethod design], que, segundo o autor, seria um rótulo dado a projetos de pesquisa que combinam pelo menos dois métodos quantitativos e dois métodos qualitativos diferentes. Consequentemente, um projeto quantitativo multimétodo consistiria de pelo menos dois componentes quantitativos distintos, enquanto que, em um projeto multimétodo qualitativo, haveria a combinação de componentes qualitativos distintos no mesmo estudo. Por sua vez, um projeto de pesquisa com métodos mistos descreveria uma investigação que combinasse componentes quantitativos e qualitativos em todas as fases do processo de pesquisa, de forma interconectada e com as linhas demarcatórias entre as componentes qualitativa e quantitativa quase indistinguíveis (BERGMAN, 2011, p. 1586). Dentre as razões fornecidas por Creswell e Plano Clark (2013) para se utilizar uma abordagem de métodos mistos em um projeto de pesquisa, as seguintes se encaixam no escopo desta investigação: 1. Apenas uma fonte de dados é insuficiente. Dados de natureza qualitativa possibilitam a compreensão do fenômeno com mais profundidade e o aproxima do seu contexto, enquanto que os dados quantitativos permitem que sejam estabelecidas relações entre variáveis e constructos, dando uma visão mais ampla acerca do fenômeno e facilitando a compreensão de seus aspectos “estruturais”. 2. Necessidade de generalização de achados exploratórios. Como um corolário da justificativa anterior, dados oriundos de uma pesquisa qualitativa, com poucos sujeitos, como entrevistas em profundidade, por exemplo, permitem uma primeira aproximação ao fenômeno e possibilita a elicitação de alguns aspectos de ordem afetiva ou contextual que podem ainda não ter sido alvo de especulação teórica. Por sua vez, uma pesquisa quantitativa, com uma ampla amostra, permite a indução estatística de seus resultados, portanto, sua generalização (dentro dos limites de segurança estatística calculados), o que pode ajudar na verificação e generalização daqueles aspectos detectados nas entrevistas em profundidade realizadas previamente. 3. Necessidade de melhorar um estudo. Como consequência de (1) e (2), esta terceira justificativa para o uso da abordagem de métodos mistos cobre exatamente os objetivos 142 do presente estudo, uma vez que busca verificar empiricamente algumas hipóteses relacionadas às experiências turísticas trazidas por estudos anteriores que fizeram uso exclusivo de metodologia qualitativa. Com base nessas justificativas, a presente proposta de investigação é concebida como uma abordagem de métodos mistos em duas etapas: uma qualitativa, que fez uso de entrevistas em profundidade, e uma segunda quantitativa, com o uso do método survey. 4.2.1 Fase qualitativa Nesta fase, o uso de entrevistas em profundidade com pessoas que tenham passado por experiências transformadoras em viagens oportunizou o “primeiro contato” com o fenômeno investigado (experiências eudaimônicas e transformadoras em viagens). A entrevista em profundidade em sua versão semiestruturada permite flexibilidade tanto para o entrevistador quanto para o entrevistado, além de manter o foco no tópico abordado. 4.2.1.1 Coleta de dados A escolha dos sujeitos se deu por contato direto e por indicação dos participantes que já foram entrevistados e de pessoas do conhecimento do pesquisador. O critério para a elegibilidade foi a convicção do potencial participante acerca da seguinte questão: Em algum momento da sua vida, em alguma viagem que você fez, você sentiu que cresceu como pessoa ou que a experiência da viagem tenha mexido com você de tal forma que lhe fez enxergar o mundo com outros olhos ou você mesmo passou a se sentir como se fosse uma outra pessoa, vendo e agindo no mundo de uma maneira diferente de como agia antes, percebendo a vida e as outras pessoas também de uma forma diferente? Essa questão sintetiza o sentimento de transformação pessoal proporcionado pela experiência de viagem apontado pela literatura do turismo e a confirmação por parte do potencial entrevistado evidenciou sua convicção acerca da viagem como experiência transformadora para a sua vida e/ou jeito de ser. Essa forma de questionamento para selecionar participantes já foi utilizada em algumas pesquisas, como na versão utilizada por Kirillova, Lehto e Cai (2017) para recrutar pessoas para sua investigação: Você já esteve em uma viagem que transformou a forma como você vê o mundo ou o levou a uma decisão que mudou sua vida? 143 [Have you ever been on a trip that transformed how you view the world or led to life-changing decision?]. Roberson (1999) incluiu questões relacionadas ao significado pessoal da viagem e a transformação por ela proporcionada em seu roteiro de entrevista para sua pesquisa com pessoas com mais de 55 anos: Qual foi a viagem que teve um significado especial para você? [What was it about this trip that had a special meaning for you?]; Você sente alguma mudança por causa dessa viagem? [Do you sense any change because of this trip?]; Algo mais nessa viagem o afetou? [Is there anything else about the trip that impacted you?]; O que está diferente agora por causa dessa viagem? [What is different now because of your trip?]. Dada a estratégia de seleção dos sujeitos, a amostra para esta fase da pesquisa pode ser classificada como intencional, baseada em critério (RITCHIE; LEWIS; ELAM, 2003). A decisão do número final de sujeitos foi definida segundo o critério da saturação, quando a inclusão de mais entrevistados não acompanha o acréscimo de mais informação, sugerindo que as categorias identificadas foram “saturadas”. Tendo por base a literatura pesquisada e os objetivos desta investigação, um roteiro de entrevista (apêndice I) foi elaborado de modo a orientar as seções de entrevista. 4.2.1.2 Registro e armazenamento dos dados As entrevistas foram realizadas face a face por meio de mídia eletrônica (Skype®, FaceTime® e WhatsApp®), sob a conveniência do entrevistado. O registro das seções foi feito com equipamento de áudio digital (Sony®, modelo ICD-PX440). O armazenamento foi feito imediatamente após a conclusão de cada entrevista, com os dados sendo transferidos para uma pasta específica no computador do pesquisador, para a sua unidade externa de armazenamento (HD externo) e para pastas em serviços de armazenamento “em nuvem”, especificamente, GoogleDrive® e Dropbox®. 4.2.1.3 Análise dos dados Os dados passaram por processo de transcrição, assumindo formato de texto, quando então empregou-se a metodologia de análise de conteúdo, com auxílio do software Atlas TI®. A interpretação dos dados foi guiada pelas categorias previamente estabelecidas na literatura. 144 4.2.2 Fase quantitativa A metodologia survey foi utilizada junto a uma amostra de sujeitos, com o objetivo de (1) mensurar os constructos teorizados e verificar relações de interdependência entre variáveis, com a possibilidade de extração de variáveis latentes, como também de (2) testar as hipóteses de dependência entre constructos, anunciadas no capítulo anterior. No primeiro caso, a análise fatorial exploratória (AFE) é a técnica estatística multivariada apropriada, enquanto que, no segundo, a modelagem por equações estruturais (ou de equações estruturais) é a abordagem analítica multivariada mais indicada (de segunda geração) por suplantar as limitações das técnicas analíticas de primeira geração, que examinam apenas uma relação por vez (HAIR et al, 2014a), como a regressão linear. Dentre as abordagens conhecidas, aquela baseada em estruturas de variância, conhecida como “PLS-SEM” [Partial Least Squares Structural Equation Modeling], traz vantagens em relação à abordagem baseada em estruturas de covariância – CB-SEM [Covariance-based Structural Equation Modeling] –, e, devido a essas vantagens (discutidas a seguir), foi usada para fundamentar as análises feitas na etapa quantitativa da pesquisa. 4.2.2.1 Modelagem de equações estruturais A modelagem de equações estruturais [Structural Equation Modeling – SEM] consiste em um conjunto de métodos estatísticos que descrevem relações causais entre variáveis observadas e não observadas (HOYLE, 2012), examinando simultaneamente uma série de relações de dependência (HAIR et al., 2005). A SEM tem sido amplamente adotada em diversos campos do conhecimento, incluindo educação, psicologia, sociologia, administração, saúde, demografia, comportamento organizacional, biologia e genética e também marketing, comportamento do consumidor e turismo. As razões para o interesse e uso da técnica por pesquisadores de diversas áreas seriam, segundo Hair et al. (2005), basicamente duas: (1) a modelagem de equações estruturais fornece um método direto para lidar com múltiplas relações simultaneamente, enquanto garante eficiência estatística, e (2) sua habilidade para avaliar as relações em âmbito geral e fornecer uma transição da análise exploratória para a análise confirmatória. Implícita a essas duas razões está a importância dada à validade e à confiabilidade das medidas utilizadas para as variáveis e ao poder preditivo dos modelos em pesquisa 145 acadêmica e de mercado. Schumacker e Lomax (2010) ampliam as razões para o uso da modelagem de equações estruturais, incluindo o reconhecimento da relevância dada à validade e à confiabilidade de valores relacionados a variáveis observadas em instrumentos de pesquisa. Especificamente, segundo os autores, o erro de mensuração tem se tornado uma das questões mais importantes em muitas disciplinas, mas tratado separadamente da análise estatística dos dados, problema este que a modelagem de equações estruturais tem resolvido, ao levar em conta o erro de mensuração na análise estatística dos dados (SCHUMACKER; LOMAX, 2010). Uma outra razão para a preferência pela técnica diz respeito ao reconhecimento por parte dos pesquisadores de que fenômenos complexos podem ser melhor compreendidos quando múltiplas variáveis são simultaneamente analisadas e as relações entre constructos de uma dada teoria podem ser testados com suficiente significância estatística (SCHUMACKER; LOMAX, 2010). Apesar de existir há mais de 40 anos e de possuir suporte informático desde então, a popularização da técnica se deu pari passu ao desenvolvimento de plataformas mais amigáveis de softwares, especialmente com o módulo AMOS do software SPSS® e, mais recentemente, com o projeto SMART-PLS®. Esse desenvolvimento se verifica na análise estatística de maneira geral, com a expansão dramática das aplicações dos métodos estatísticos após o advento de softwares e hardwares com interfaces mais amigáveis (HAIR et al., 2014a). Hair et al. (2014a) classificam os métodos multivariados em técnicas de primeira e de segunda geração. No primeiro grupo estariam técnicas que serviriam tanto para confirmar teorias previamente estabelecidas, ocasião em que agiriam como métodos confirmatórios, como também para identificar padrões e relacionamentos entre variáveis, oportunidade que funcionariam como métodos exploratórios. Nesse grupo estariam técnicas tais como abordagens de regressão (regressão múltipla e logística), análise de variância, análise fatorial exploratória, análise de clusters e escalonamento multidimensional, entre outras. Apesar de fornecerem poderosas ferramentas e proporcionarem análises relevantes, essas técnicas compartilham uma limitação: elas só conseguem examinar uma relação por vez (HAIR et al., 2005). As técnicas de segunda geração viriam exatamente para suplantar essa limitação, incorporando variáveis não observadas diretamente e mensuradas indiretamente por meio de variáveis indicadoras (HAIR et al., 2014a). Nesse grupo estariam os métodos de modelagem de equações estruturais. O quadro 4 a seguir traz a síntese dessa classificação. 146 Quadro 4: Classificação dos métodos multivariados Métodos exploratórios Métodos confirmatórios Técnicas de primeira geração Análise de clusters Análise fatorial exploratória Escalonamento multidimensional Análise de variância Regressão múltipla Regressão logística Técnicas de segunda geração Modelagem de equações estruturais com mínimos quadrados parciais (PLS-SEM) Modelagem de equações estruturais com estruturas de covariância (CB-SEM) Fonte: Hair et al (2014a, p. 2) Em comparação com as abordagens baseadas em regressão, que analisam apenas uma camada de ligações entre as variáveis dependentes e independentes ao mesmo tempo, a modelagem de equações estruturais permite a modelagem simultânea de relações entre os vários constructos independentes e dependentes, não mais diferenciando essas variáveis dessa forma, mas distinguindo-as entre variáveis exógenas e endógenas latentes (HAENLEIN; KAPLAN, 2004), sendo as primeiras as que não são explicadas pelo modelo postulado (ou seja, agem sempre como variáveis independentes) e as últimas aquelas que são explicadas pelas relações contidas no modelo (DIAMANTOPOULOS, 1994). Além disso, a modelagem de equações estruturais permite ao pesquisador a construção de variáveis não observáveis, medidas por indicadores (também chamados de itens, variáveis manifestas ou medidas observadas), bem como a explicitação do erro do modelo de mensuração para as variáveis observadas (CHIN; MARCOLIN; NEWSTED, 2003). A modelagem de equações estruturais incorpora a regressão linear e a análise fatorial para poder descrever o fenômeno estudado, portanto, ela só se tornou viável após o desenvolvimento desses métodos. Dessa forma, pode-se dizer que, para os fins de suas aplicações, a modelagem de equações estruturais é o ápice da evolução desses métodos, e todas as etapas que possibilitaram o desenvolvimento desses métodos também fazem parte do histórico da modelagem de equações estruturais. A regressão linear foi desenvolvida após a formulação matemática de Karl Pearson que possibilitou correlacionar duas variáveis em 1896 (SCHUMACKER; LOMAX, 2010). Posteriormente, em 1904, Charles Spearman utilizou a correlação para determinar quais itens variavam juntos, propondo um modelo fatorial, no qual sugeria que a variação conjunta dos itens poderia ser explicada por um “fator”, uma variável latente, não observada diretamente, um conceito ou constructo. Esse modelo é aplicado até hoje no desenvolvimento de instrumentos padronizados para levantamento de atitudes, diagnóstico de personalidade, inteligência, entre outros. Nesse tipo de aplicação, várias questões são administradas a uma amostra de respondentes, e depois 147 os escores resultantes dos itens (variáveis) são correlacionados, possibilitando a inferência de constructos que explicariam cada conjunto de variáveis correlacionadas. A esse tipo de aplicação do modelo fatorial se convencionou chamar de análise fatorial exploratória (SCHUMACKER; LOMAX, 2010). Uma representação imprescindível para que a modelagem de equações estruturais pudesse ser formulada da maneira como é hoje conhecida se refere à análise de caminhos, desenvolvida por Sewell Wright no campo da genética em 1918 (SCHUMACKER; LOMAX, 2010). Na análise de caminhos os coeficientes de correlação e a análise de regressão são usados para modelar relacionamentos mais complexos entre as variáveis observadas. A inventividade do método se resume na representação gráfica das relações causais entre as variáveis, ligadas por flechas de pontas únicas para indicar efeitos diretos e flechas de pontas duplas para indicar correlações entre as variáveis (MATSUEDA, 2012). Apesar do potencial analítico na descrição de fenômenos complexos que relacionam variáveis observadas, a análise de caminhos só passou a ser prestigiada cerca de 30 anos após seu desenvolvimento, quando economistas reconheceram seu poder analítico. Uma explicação para que a técnica fosse ignorada em seu tempo é o fato de ela conter elementos “censuráveis”, segundo os paradigmas de duas escolas dominantes da Ciência Estatística à época (SHIPLEY, 2000). Primeiramente, a escola fenomenalista, liderada por Pearson, não admitia a noção de que se pudesse distinguir uma causa, a partir de uma correlação. Já a escola realista, capitaneada por Fischer, não apoiava a noção de que se poderia estudar uma causa, olhando-se para a correlação (SHIPLEY, 2000). Quando economistas passaram a adotar a análise de caminhos na década de 1950, como uma forma de modelagem de equações simultâneas, o reconhecimento merecido da técnica chamou a atenção de sociólogos na década seguinte (SCHUMACKER; LOMAX, 2010; MATSUEDA, 2012). Em muitos aspectos, a análise de caminhos envolve a solução de um conjunto de equações de regressão simultâneas, que estabelecem a relação entre as variáveis observadas (SCHUMACKER; LOMAX, 2010). Dois textos clássicos que popularizaram a técnica na sociologia e depois na ciência política são Path Analysis: Sociological Examples, de Otis Dudley Duncan (DUNCAN, 1966), e The American Occupational Structure (1967), de Duncan e Peter Blau (MATSUEDA, 2012). O passo seguinte da evolução rumo à modelagem de equações estruturais acontece com o salto para a análise fatorial confirmatória, originando-se dos trabalhos seminais de Howe, em 1955, Anderson e Rubin, em 1956, e Lawley, em 1958, mas refinada por Karl Jöreskog 148 (1969) na década seguinte, quando usada para testar (confirmar) se um conjunto de itens (variáveis) definia um constructo conhecido (SCHUMACKER; LOMAX, 2010). Após todo esse desenvolvimento, as primeiras propostas de modelagem de equações estruturais resultaram dos esforços de Karl Jöreskog, Ward Kessling e David Wiley, e por isso foi inicialmente chamada de modelo “JKW”, mas logo depois renomeada para LISREL [LInear Structural RELation model] (SCHUMACKER; LOMAX, 2010), como ficou conhecido. Este nome também batizou o primeiro software desenvolvido para processar o algoritmo que realizava os cálculos para a modelagem estrutural. Esse empreendimento é exatamente a abordagem baseada em estruturas de covariância, o CB-SEM. O método de Jöreskog calcula os coeficientes do sistema de equações ajustando a matriz de covariância, ou seja, buscando o melhor ajuste da matriz de covariância teórica, deduzida a partir do modelo, e a matriz de covariância empírica inicial, fazendo uso da estimação por máxima verossimilhança [maximum likelihood]. Contudo, este modelo exige severas condições de normalidade multivariada, requerendo grandes amostras para que essa condição seja atendida. Uma alternativa a essa abordagem é o PLS-SEM, que estima os coeficientes do sistema de equações utilizando o método dos mínimos quadrados parciais, evitando assim as restrições de distribuição dos dados e tamanho da amostra. 4.2.2.2 Modelagem por Equações Estruturais com Mínimos Quadrados Parciais [Partial Least Squares Path Model – PLS-SEM] O desenvolvimento da abordagem PLS-SEM remonta as contribuições de Herman Wold na segunda metade da década de 1950, ao propor um método alternativo de estimação para sistemas de equações simultâneas em modelos econométricos, preterindo o uso da máxima verossimilhança (NOONAN, 2017; MATEOS-APARICIO, 2011). Wold estudou diferentes técnicas de estimação usando procedimentos iterativos, a partir dos quais desenvolveu um método especial chamado de algoritmo de ponto fixo, que usava mínimos quadrados ordinários para estimar os coeficientes de um sistema de equações simultâneas (NOONAN, 2017; MATEOS-APARICIO, 2011). Posteriormente ele modificou o algoritmo para estendê-lo para o cálculo das componentes principais e das correlações canônicas (MATEOS-APARICIO, 2011; DIJKSTRA, 2010), levando-o a propor no início dos anos 70 um algoritmo que calculava as componentes principais e as correlações canônicas a partir de uma sequência iterativa de regressões simples, com o método dos mínimos quadrados ordinários (OLS) (NOONAN, 2017; 149 MATEOS-APARICIO, 2011). Wold batizou esse algoritmo de NIPALS [Nonlinear Iterative Partial Least Squares], que foi depois aperfeiçoado, cedendo lugar, em 1977, ao algoritmo PLS, que serviu de parâmetro para os desenvolvimentos posteriores (MATEOS-APARICIO, 2011). Segundo Hair et al. (2018), três procedimentos evoluíram a partir do algoritmo PLS proposto por Wold: (1) a regressão das componentes principais; (2) a regressão por mínimos quadrados parciais [partial least squares regression – PLS-R]; e (3) a modelagem de caminho com mínimos quadrados parciais [partial least squares path modeling], que ficou conhecido como PLS-SEM. O primeiro procedimento realiza uma análise das componentes principais sobre as variáveis independentes, que passam a ser usadas (as componentes principais) como variáveis preditoras ou explicativas da variável dependente. Neste procedimento, a regressão das componentes reduz as dimensões das variáveis independentes sem levar em consideração as relações entre as variáveis independentes e dependentes. O segundo procedimento, a regressão por mínimos quadrados parciais, foi originalmente desenvolvido com o objetivo de minimizar o problema da multicolinearidade comum em modelos de regressão. O procedimento foi desenvolvido por Svante Wold, filho de Herman Wold, ao buscar adaptar o algoritmo NIPALS para analizar dados químicos (HAIR et al., 2018), encontrando uma solução para um problema que surge em surveys, quando se têm mais variáveis que respondentes. O procedimento reduz as dimensões das variáveis independentes, removendo, com isso, a multicolinearidade das variáveis preditoras, ao mesmo tempo que otimiza a variância extraída das variáveis independentes, e, simultaneamente, maximizando a variância explicada das variáveis dependentes (HAIR et al., 2018). O procedimento se fundamenta (1) na análise das componentes principais, que extrai combinações lineares das variáveis independentes, e seus respectivos escores, e (2) na redução da dimensionalidade dessas variáveis, levando em consideração a relação entre variáveis independentes e dependentes, maximizando a explicação da variância na variável dependente (HAIR et al., 2018). Isso permite a estimação de modelos com um número de variáveis independentes maior que o número de observações na base de dados (HAIR et al., 2018). O terceiro procedimento, a modelagem de caminho com mínimos quadrados parciais (PLS-SEM), determina os parâmetros de um conjunto de equações em um modelo de caminho, combinando a análise das componentes principais para avaliar os modelos de mensuração, com a análise de caminho para estimar as relações entre variáveis latentes (HAIR et al., 2018). Ao estimar os parâmetros do modelo pelo método dos mínimos quadrados parciais, a abordagem do PLS-SEM evita restrições sobre a distribuição de dados e sobre o tamanho da 150 amostra (MATEOS-APARICIO, 2011; HAENLEIN; KAPLAN, 2004). Além disso, o PLS- SEM não faz exigências quanto à escala de medição das variáveis, funcionando com a ausência de hipóteses de distribuição e com variáveis medidas em níveis nominal, ordinal ou intervalar (HAENLEIN; KAPLAN, 2004). Diferentemente da abordagem CB-SEM, o PLS-SEM não possui como objetivo reproduzir a matriz de covariância da amostra (VINZI; TRINCHERA; AMATO, 2010), considerado como uma abordagem de modelagem “soft”, na qual não são assumidas hipóteses severas em relação às distribuições, ao tamanho da amostra e às escalas de medição (VINZI; TRINCHERA; AMATO, 2010). O PLS-SEM é um método de estimação baseado em componentes cujo algoritmo resolve separadamente os blocos do modelo de mensuração e, numa segunda etapa, as estimativas dos coeficientes de caminho no modelo estrutural. Para isso, o PLS-SEM busca explicar a variância residual das variáveis latentes e, potencialmente, também das variáveis manifestas em qualquer execução de regressão no modelo. Devido a essas características, a abordagem do PLS-SEM é adequada para otimização de predições, servindo como abordagem exploratória de análise na construção de teorias (HAIR et al, 2018, 2014a; VINZI; TRINCHERA; AMATO, 2010; CHIN, 1998). A abordagem PLS-SEM busca maximizar a variância explicada dos construtos dependentes, estabelecer a significância dos caminhos e avaliar a qualidade do modelo de mensuração (HAIR et al., 2012; HAIR; RINGLE; SARSTEDT, 2011; CHIN, 2010). Em suma, a abordagem do PLS-SEM apresenta vantagens em relação a abordagens com base em covariância (CB-SEM), principalmente em relação aos seguintes aspectos: (1) possibilidade de mensuração de constructos latentes a partir de proxies medidas por um ou vários indicadores (variáveis manifestas); (2) não fazer exigências severas quanto ao tamanho da amostra, conseguindo estimar parâmetros com poucas observações; (3) possibilitar a estimação de modelos muito complexos, com muitas variáveis latentes e manifestas; (4) fazer imposições menos rigorosas a respeito da distribuição das variáveis e os termos de erro, comparada a abordagens que utilizam, por exemplo, estimação por máxima verossimilhança; e (5) conseguir lidar com modelos de mensuração tanto reflexivos quanto formativos (HENSELER; RINGLE; SINKOVICS, 2009). 151 4.2.2.3 Mensuração dos constructos Para acessar os conceitos teorizados neste estudo, três escalas já existentes foram utilizadas. O constructo Personalidade agêntica foi mensurado por meio da Multimeasure Agentic Personality Scale desenvolvida por Côté (1997), mas, em sua versão reduzida, a MAPS20 (CÔTÉ, 2016). Originalmente, quatro subescalas compõem a MAPS20 – Locus de controle, Propósito na vida, Autoestima e Força do ego –, cada uma com 5 itens. Contudo, um item da subescala de Locus de controle que fazia menção à condição de estudante do respondente foi retirado. Tal procedimento se explica pela abrangência com que o inquérito foi aplicado, não se restringindo a estudantes universitários. O quadro 5 abaixo mostra as subescalas que compõem o MAPS20 e os respectivos itens utilizados no estudo, com o nome correspondente da variável. Quadro 5: Subescalas do Multimeasure Agentic Personality Scale com 20 itens (MAPS20) Subescalas Itens Locus de Controle (4 itens) LC_001_Tornar-se uma pessoa bem sucedida é uma questão de trabalho árduo; não tem nada a ver com “sorte”. LC_002_Quando planejo alguma coisa ou estabeleço objetivos, eu tenho certeza de que vou realizá-los. LC_003_Não consigo aceitar ou acreditar que “sorte” ou “chance” possa ter algum papel importante na minha vida. LC_004_O que acontece comigo é consequência do que eu faço. Propósito na vida (5 itens) PV_001_No meu normal, eu me encontro quase sempre ... PV_002_Para mim, a vida é quase sempre ... PV_003_Para mim, os dias são sempre ... PV_004_Minha vida é ... PV_005_No que se refere aos rumos da minha vida, sou uma pessoa Autoestima (5 itens) AU_001_Estar em minha companhia é muito divertido. AU_002_Sou popular entre as pessoas da minha idade. AU_003_As pessoas geralmente seguem minhas ideias e opiniões. AU_004R_Não sou tão legal como a maioria das pessoas. (R) AU_005R_A maioria das pessoas é melhor que eu. (R) Força do Ego (5 itens) FE_001_Gostar de situações difíceis e desafiadoras. FE_002_Persistência e força de vontade para concluir atividades iniciadas. FE_003_Em condições de distração, conseguir manter a concentração em relação à maioria das pessoas. FE_004_Suportar melhor o desconforto físico em relação à maioria das pessoas. FE_005_Não se distrair facilmente na execução de uma atividade. Fonte: Elaborado pelo autor a partir da escala MAPAS20 de Côté (2016) Com exceção da dimensão Propósito na vida, todas as outras dimensões do constructo foram mensuradas por meio de escalas intervalares de 10 pontos, conforme quadro 6 a seguir: 152 Quadro 6: Escalas de mensuração dos itens de cada dimensão do MAPS20 Subescalas Escala de mensuração Locus de Controle Todos os itens: 1 = Discordo totalmente / 10 = Concordo totalmente Propósito na vida PV_001: 1 = desanimado / 10 = empolgado PV_002: 1 = desanimada e entediante / 10 = excitante e emocionante PV_003: 1 = iguais e sem novidade alguma / 10 = diferentes e cheios de novidade PV_004: 1 = desanimado / 10 = empolgado PV_005: 1 = irresponsável / 10 = responsável Autoestima Todos os itens: 1 = Nada a ver comigo / 10 = Tudo a ver comigo Força do Ego Todos os itens: 1 = Nada a ver comigo / 10 = Tudo a ver comigo Fonte: Elaborado pelo autor O constructo ansiedade existencial foi acessado por meio dos 22 itens adaptados da escala Existential Concerns Questionnaire (ECQ) (van BRUGGEN et al., 2017), formada por três subescalas – Ansiedade existencial ampla, Ansiedade em relação à morte e Evitação. A modificação nos itens se deu em seu fraseamento, adaptando-os para refletirem o lapso temporal referente às possíveis lembranças de reflexões pelas quais os respondentes tenham passado em suas respectivas experiências de viagem. Então, por exemplo, o item 1 da escala – O fato de saber se a vida tem algum significado me deixa ansioso [The question of whether life has meaning makes me anxious] – foi modificado para o seguinte fraseamento: Ansiedade com a ideia do significado que a vida poderia ter. Os itens foram mensurados por meio de uma escala intervalar de 10 pontos (1 = Nada a ver com minhas reflexões e sentimentos / 10 = Tudo a ver com minhas reflexões e sentimentos). Os 22 itens estão descritos no quadro 7 a seguir: 153 Quadro 7: Subescalas adaptadas do Existential Concerns Questionnaire (ECQ) Subescalas Itens Ansiedade Existencial Ampla (12 itens) EC_001_Ansiedade com a ideia do significado que a vida poderia ter. EC_002_Assustado com o tanto de opções oferecidas pela vida. EC_003_Preocupação por “não me sentir em casa no mundo”, como se eu não pertencesse a esse mundo. EC_006_Preocupação com o significado da vida. EC_008_Ansiedade por perder o contato comigo mesmo, meu eu verdadeiro. EC_009_Incômodo com a ideia de eu estar, de fato, sozinho nessa vida. EC_012_Preocupação em não viver a vida que eu poderia estar vivendo. EC_013_Medo em saber que as pessoas nunca me conhecerão profundamente. EC_016_Preocupação pelo fato de que as coisas que eu considerava importantes um dia me parecessem agora sem sentido. EC_017_Medo de morrer sem ter vivido o melhor da vida. EC_019_Ansiedade por sentir que existe uma distância entre mim e as outras pessoas. EC_022_Receio por não conseguir me conhecer em um nível mais profundo. Ansiedade em relação à morte (6 itens) EC_004_Sensação de ameaça pelo simples fato de existir, como se, a qualquer momento, algo terrível fosse acontecer comigo. EC_005_Medo por saber que a qualquer momento eu poderia morrer. EC_010_Ansiedade pelo fato de minha vida estar passando. EC_014_Preocupação pelo fato de que, de repente, algo terrível poderia acontecer comigo. EC_020_Ansiedade ou preocupação por perceber o quão vulnerável meu corpo é aos perigos da vida. EC_021_Ansiedade ou preocupação por ter que deixar tudo quando chegar o momento de morrer. Evitação (4 itens) EC_007_Tentar esquecer o fato de que todas as minhas escolhas têm consequências. EC_011_Tentar pensar rapidamente em outra coisa quando me viesse à mente a ideia do significado que a vida possui. EC_015_Afastar os pensamentos de que a vida acabará. EC_018_Evitar pensar em quem realmente sou. Fonte: Elaborado pelo autor a partir da escala de van BRUGGEN et al. (2017) A resolução de identidade foi acessada por meio do Identity Issues Inventory (I3), desenvolvido por Roberts e Côté (2014). Os itens do inventário foram traduzidos e depois submetidos à avaliação de três especialistas fluentes em inglês e português, que sugeriram individualmente modificações em alguns itens. Os itens modificados passaram por um pré-teste e alguns precisaram sofrer ainda algumas alterações de modo a se adequarem ao português falado no Brasil. Os itens foram mensurados por meio de uma escala intervalar de 10 pontos (1 = Nada a ver comigo / Tudo a ver comigo). Os 48 itens que compõem as quatro subescalas do Identity Issues Inventory estão descritos no quadro 8 a seguir. 154 Quadro 8: Subescalas adaptadas do Identity Issues Inventory (I3) (continua) Subescalas Itens Integração (12 itens) IN_001_Sinto que me tornei uma pessoa completa. IN_002_Aconteça o que acontecer, ainda me sinto seguro acerca de quem eu realmente sou. IN_003R_Muitas vezes me sinto confuso a respeito de quem eu realmente sou. (R) IN_004R_Dentro de mim existe um conflito acerca de quem eu realmente sou. (R) IN_005_Na opinião dos meus amigos eu me comporto de forma madura. IN_006_Meus amigos e familiares me consideram uma pessoa responsável. IN_007R_Eu me comporto de maneira diferente dependendo da situação social. (R) IN_008R_Pessoas que me conhecem bem frequentemente me tratam como uma pessoa imatura. (R) IN_009_Sinto que pertenço a um grupo de pessoas que pensam como eu, com quem me sinto feliz e com quem pretendo me relacionar estreitamente por um bom tempo. IN_010_Sou reconhecido como uma pessoa adulta que pertence a um grupo social estabelecido. IN_011R_Não tenho conseguido encontrar um grupo significativo de pessoas que pensem como eu e com quem eu possa me associar de maneira mais ou menos permanente. (R) IN_012R_Não tenho conseguido me tornar membro de uma comunidade que me aceite e me apoie por quem eu sou. (R) Diferenciação (12 itens) DI_001_Sinto que amadureci completamente como uma pessoa com personalidade própria. DI_002_Tenho o controle sobre minhas emoções. DI_003R_Tenho dificuldade de pensar e agir de forma decisiva. (R) DI_004R_Às vezes as pessoas acham que eu dependo demais delas emocionalmente. (R) DI_005_Na maioria das vezes eu me visto e ajo de uma forma que reflete o tipo de pessoa que eu realmente sou. DI_006_Meu comportamento é coerente em qualquer situação. DI_007R_Continuamente modifico a maneira como me apresento para as outras pessoas de modo a conseguir o melhor resultado da situação em que me encontro. (R) DI_008R_Se eu percebo que alguém tende a não me aprovar, finjo possuir características que, na verdade, não possuo. (R) DI_009_Acredito que encontrei meu lugar no mundo, o cantinho ao qual pertenço. DI_010_As pessoas poderiam me reconhecer como um adulto autossuficiente. DI_011R_Não tenho conseguido alcançar o tipo de autossuficiência esperada de uma pessoa adulta. (R) DI_012R_Ainda não tenho certeza de onde me encaixo na sociedade adulta. (R) Papéis de Trabalho (12 itens) WR_001_Possuo certas habilidades que me permitem ser eficaz no trabalho que escolho realizar. WR_002_Eu me considero uma pessoa competente que contribui produtivamente para a sociedade. WR_003R_Não estou certo se possuo os talentos e requisitos adequados para me manter em um bom emprego. (R) WR_004R_Eu acho que não possuo as habilidades necessárias para conseguir ou manter o tipo de trabalho que eu gostaria realmente de ter. (R) WR_005_As pessoas com quem convivo acham que possuo alguns talentos e habilidades úteis. WR_006_Possuo certas habilidades ou talentos que me são úteis na vida. 155 Quadro 8: Subescalas adaptadas do Identity Issues Inventory (I3) (conclusão) Subescalas Itens Papéis de Trabalho (12 itens) WR_007_As pessoas me reconhecem por alguns dos meus talentos e habilidades. WR_008R_Quando as pessoas pensam em mim, não me associam a talentos ou habilidades específicas. (R) WR_009_O nível de educação formal que possuo é justamente aquele que eu sempre quis alcançar. WR_010_Possuo um trabalho (ou papel na família) com o qual me sinto feliz e no qual pretendo permanecer por um bom tempo. WR_011R_Eu ainda não possuo os requisitos educacionais necessários para obter o tipo de trabalho que eu gostaria de ter definitivamente. (R) WR_012R_Ainda tenho que encontrar um trabalho (ou papel na família) no qual eu consiga o respeito que mereço. (R) Visão de Mundo (12 itens) WV_001_Minhas crenças e valores estão relacionados a algo maior e mais importante que minhas próprias necessidades individuais. WV_002_Minhas crenças e valores me proporcionam um propósito na vida. WV_003R_Minhas crenças e valores estão principalmente voltados para satisfazer minhas próprias necessidades imediatas. (R) WV_004R_O meu senso de propósito na vida se refere principalmente à satisfação de minhas necessidades imediatas e pessoais. (R) WV_005_Frequentemente eu me posiciono e exponho sobre o que acredito. WV_006_As pessoas com quem convivo me conhecem como alguém que possui convicções e valores fortemente estabelecidos. WV_007_Eu tomo o cuidado para garantir que meu comportamento diário reflita de modo coerente minhas crenças e valores fundamentais. WV_008R_As pessoas do meu convívio não me conhecem como alguém que possui crenças ou valores consistentes. (R) WV_009_Eu vivo de acordo com um conjunto consistente de valores e crenças (sejam políticas, religiosas, científicas, etc.) ligados a um ou mais grupos ou associações. WV_010_As pessoas me conhecem como um membro de um grupo social que defende valores e crenças fortes. WV_011R_Não vivo minha vida com base em crenças religiosas ou políticas amplamente aceitas. (R) WV_012R_De uma maneira geral as pessoas não me veem ou me reconhecem como alguém que se engaja na defesa de alguma causa ou se compromete com algum sistema organizado de crenças. (R) Fonte: Elaborado pelo autor a partir da escala de Robets e Côté (2014) Para o constructo bem-estar subjetivo, 18 itens da escala desenvolvida por Albuquerque e Tróccoli (2004) foram utilizados, sendo 6 itens para cada uma das componentes do constructo – afetos positivos, afetos negativos e avaliações sobre a satisfação com a vida. Os itens relacionados aos afetos foram escolhidos da lista de Albuquerque e Tróccoli (2004) dentre aqueles de maior relevância em seu estudo. Para as duas componentes de afetos, os itens foram mensurados por meio de uma escala intervalar de 10 pontos (1 = Nunca, de forma alguma / 10 = Sempre, o tempo todo). Já para a componente cognitiva, a escala intervalar de 10 pontos usada para mensurar seus itens variava de 1 = “Nada a ver comigo” a 10 = “Tudo a ver comigo”. Os itens da escala adaptada de bem-estar subjetivo estão descritos no quadro 9 a seguir: 156 Quadro 9: Subescalas de Bem-estar Subjetivo Subescalas Itens Afetos Positivos (6 itens) BES_01_Disposto BES_04_Decidido BES_05_Inspirado BES_06_Contente BES_08_Seguro BES_10_Animado Afetos Negativos (6 itens) BES_02_Preocupado BES_03_Inseguro BES_07_Desanimado BES_09_Deprimido BES_11_Angustiado BES_12_Triste Avaliação sobra a satisfação com a vida (6 itens) BES_13R_Tenho mais momentos de tristeza do que de alegria na minha vida. (R) BES_14_ A minha vida está de acordo com o que desejo para mim. BES_15R_Estou insatisfeito com minha vida. (R) BES_16_ Considero-me uma pessoa feliz. BES_17_ Tenho aproveitado as oportunidades da vida. BES_18_ Estou satisfeito com minha vida. Fonte: Elaborado pelo autor a partir da escala de Albuquerque e Tróccoli (2004) Para acessar o constructo experiência turística eudaimônica (ETE) foi necessário desenvolver os itens de cada uma das 15 dimensões teorizadas a partir da revisão da literatura, 14 delas também verificadas na análise de conteúdo dos relatos dos nove entrevistados na fase qualitativa. Os itens foram desenvolvidos de modo a refletirem algum aspecto da dimensão que representavam, de acordo com a definição da dimensão. Assim, a partir de (1) escalas já existentes que acessavam alguma das dimensões teorizadas, (2) de estudos empíricos no campo do turismo que traziam os relatos de experiências de viagens descritas pelos sujeitos investigados, relacionando-se a algumas das dimensões teorizadas, e (3) dos discursos dos nove entrevistados na fase qualitativa da pesquisa, itens que buscavam acessar o estado mental e a experiência subjetiva representada por cada dimensão teorizada para o constructo experiência turística transformadora foram elaborados. Os indicadores foram mensurados segundo uma escala intervalar de 10 pontos (1 = Nada a ver comigo / 10 = Tudo a ver comigo). O quadro 10 a seguir descreve os itens desenvolvidos para cada dimensão teorizada. 157 Quadro 10: Itens da Escala de Experiência Turística Eudaimônica – ETE (continua) Dimensão teorizada Itens Significado e Propósito na vida (7 itens) ED_001_Compreendi o real significado da vida. ED_021_Descobri um sentido para a minha existência. ED_040_Aquilo em que acredito e que faz minha vida ter um sentido foi fortalecido. ED_078_Consegui estabelecer objetivos claros e um propósito para a minha vida. ED_002_As ideias que tenho sobre qual o propósito da minha vida foram fortalecidas. ED_022_Tive a certeza de quais objetivos e metas deveria realizar na vida. ED_059R_ Não consegui encontrar um propósito para a minha vida. (R) Autodesenvolvimento e Crescimento pessoal (13 itens) ED_041_Percebi que preciso crescer muito como pessoa e que ainda há muito o que desenvolver em mim. ED_060_Entendi que era preciso encarar com coragem as situações que colocavam à prova habilidades e potencialidades pessoais que ainda não tinha pleno conhecimento e domínio. ED_079_Compreendi que nem sempre a vida é um “mar de rosas” e que as adversidades e dificuldades fazem parte dela. ED_003_Entendi que precisamos enfrentar com coragem e resignação as adversidades da vida, buscando superá-las. ED_023_Refleti muito sobre o que penso sobre mim mesmo, sobre a vida e o mundo em que vivo. ED_042_Entendi que para qualquer ser humano, independente da idade, o ato de viver é um processo de aprendizado e amadurecimento. ED_061_Compreendi que as pessoas estão continuamente se desenvolvendo. ED_080_Descobri talentos e habilidades que eu não sabia que possuía. ED_004_Percebi que muito do que eu pensava antes e as opiniões que tinha a respeito de várias coisas mudaram. ED_062_Percebi que precisamos aprender com as lições que a vida nos dá e que enfrentar as dificuldades nos torna mais fortes como seres humanos. ED_005R_Compreendi que as dificuldades que a vida nos impõe impedem nosso desenvolvimento e atrapalham nossa evolução como seres humanos. (R) ED_024R_ Mantive inalteradas as ideias e opiniões que já possuía a respeito de várias coisas. (R) ED_081_ Entendi que encarar as dificuldades da vida nos torna mais resolvidos como pessoa e mais seguros de quem somos. Autoconhecimento e Autoaceitação (7 itens) ED_025_Descobri mais sobre quem eu sou. ED_044_Consegui resolver muitas das minhas questões interiores. ED_063_Tomei consciência de quem eu realmente sou, tanto no que diz respeito aos pontos positivos quanto aos negativos. ED_082_Procurei descobrir as características boas e ruins sobre mim mesmo. ED_006_Busquei me aprofundar no conhecimento dos aspectos positivos e negativos do meu caráter. ED_026_Tentei entender o porquê de eu agir da maneira que eu ajo. ED_045_Passei a ter consciência de quando estou agindo da maneira que eu realmente sou. Autoexpressividade (5 itens) ED_064_Estive envolvido em atividades que me fizeram sentir vivo de verdade. ED_083_Desenvolvi atividades as quais me envolveram num nível intimamente significativo. ED_007_Participei de atividades que me fizeram sentir quem eu realmente sou. ED_027_Estive engajado em atividades que me deram uma certeza do que eu deveria fazer na minha vida. ED_046_Eu me senti realizado, numa sensação de “plenitude”, quando estive engajado em atividades nas quais participei ou desenvolvi. 158 Quadro 10: Itens da Escala de Experiência Turística Eudaimônica – ETE (continua) Dimensão teorizada Itens Pertencimento (Communitas) (6 itens) ED_065_Eu me senti profundamente conectado a um grupo de pessoas. ED_084_Eu me senti parte de uma comunidade. ED_008_Estive entre pessoas iguais a mim e juntos compartilhamos experiências únicas. ED_028_Eu era uma pessoa comum, sem “papéis” a representar, simplesmente sendo eu mesmo. ED_047_Senti que pertencia a uma irmandade ou fraternidade. ED_066_Senti uma sensação de confiança mútua com quem compartilhei aqueles momentos, que estávamos juntos sem interesse, totalmente desapegados de nossos papéis e funções da vida normal. Intimidade / Relacionamento (11 itens) ED_085_Eu me aproximei mais das pessoas que me são importantes. ED_009_Senti mais harmonia e satisfação entre os que me acompanhavam. ED_029_As relações de amizade eram mais sinceras e honestas. ED_048_Havia uma atmosfera amistosa, na qual me senti à vontade com as pessoas. ED_067_Eu me tornei mais íntimo dos que me acompanhavam. ED_086_As pessoas pareciam se importar comigo. ED_010_As pessoas se preocupavam com meu bem-estar. ED_030_As pessoas se importavam com o que poderia estar me preocupando ou tirando minha paz. ED_049_Havia solidariedade e harmonia entre as pessoas com quem me relacionava. ED_068_Eu procurava fazer com que o grupo se sentisse tão bem quanto eu me sentia. ED_087_As horas com que eu passava com as outras pessoas eram prazerosas e desprovidas de interesse. Autenticidade e Espontaneidade (8 itens) ED_011_Vivi a experiência de ser realmente eu mesmo. ED_031_Pude expressar minhas ideias e visão de mundo sem me preocupar com o que as pessoas poderiam pensar a meu respeito. ED_050_Não precisei fingir ou mentir sobre o que pensava ou sentia a respeito de algo, apenas para agradar as outras pessoas. ED_069_Eu me comportei e agi de acordo com o que acredito e de modo consistente com meus valores. ED_088_Eu me senti livre e despreocupado com o meu corpo. ED_012_Eu me senti tão à vontade em relação ao meu corpo que alcancei um nível de desprendimento e um grau de relaxamento que dificilmente conseguira antes. ED_032_Eu me senti plenamente revigorado, física e mentalmente. ED_051_Vivenciei uma sensação plena de viver. Autonomia (5 itens) ED_070_Fiquei mais confiante para expressar minhas opiniões, mesmo quando elas eram contrárias às opiniões da maioria das pessoas. ED_089_Passei a me sentir mais confiante para decidir sobre minha vida. ED_013_Eu me senti livre para expressar minhas ideias e opiniões. ED_033_Fiquei mais seguro para ser e agir do jeito que eu sou, sem me preocupar com o que as pessoas poderiam pensar de mim. ED_052_ Fortaleci aquilo que pensava e acreditava, sem que fosse necessário ganhar a aprovação das outras pessoas. Competência (5 itens) ED_071_Tive a oportunidade de mostrar para mim mesmo que sou capaz de fazer coisas que antes não pensava que era capaz. ED_090_Provei para mim mesmo que sou capaz de lidar com situações novas e diferentes da minha vida normal. ED_014_Desenvolvi novas habilidades e capacidades. ED_034_Consegui me sair bem em situações novas que normalmente não enfrento na minha vida normal. ED_053_Quando penso nessa viagem, tenho um sentimento de “realização” e de “missão cumprida”. 159 Quadro 10: Itens da Escala de Experiência Turística Eudaimônica – ETE (conclusão) Dimensão teorizada Itens Excelência (4 itens) ED_072_Penso que foi uma oportunidade para eu melhorar ainda mais minhas capacidades e habilidades profissionais e pessoais. ED_091_Busquei aperfeiçoar a maneira como me comporto no dia-a- dia. ED_015_Aprendi novos padrões sociais de comportamento e convivência. ED_035_Melhorei minha noção sobre o que é certo e errado. Empatia (4 itens) ED_054_Aprendi a me colocar no lugar da outra pessoa antes de agir ou fazer qualquer tipo de julgamento em uma situação específica. ED_073_Desenvolvi o senso de empatia para com o outro. ED_092_Passei a ficar mais interessado e sensibilizado com os problemas das pessoas. ED_016_Fiquei mais sensível às situações ou às condições que outra pessoa possa estar vivendo. Tolerância (4 itens) ED_036_Entendi que não se deve julgar as pessoas por suas características gerais. ED_055_Aprendi que não se deve julgar as pessoas com base em ideias que já tínhamos antes de conhecê-las de fato. ED_074_Entendi que antes de qualquer julgamento ou ação precisamos buscar compreender as razões e a situação que a outra pessoa está vivendo. ED_093_Percebi que não existe apenas uma verdade e que cada pessoa possui suas razões e motivos para acreditar no que acredita e viver do jeito que vive. Perspectiva ampliada (7 itens) ED_017_Compreendi que sou apenas “uma gota no oceano”, que o mundo e a vida possuem problemas muito mais profundos e maiores que as minhas preocupações pessoais. ED_037_Percebi que a verdade sobre a vida, sobre o mundo e as pessoas só pode ser conhecida quando vivenciamos na pele a realidade. ED_056_Compreendi que a realidade que eu acreditava que conhecia era apenas uma dentre as diversas versões dos fatos. ED_075_Percebi que a realidade é bem diferente daquela que costumamos conhecer quando a vivenciamos de perto. ED_094_Compreendi que sempre existe uma “outra versão” para os fatos e que se deve buscar conhecer todas as versões possíveis para que se tenha uma ideia mais próxima da verdade. ED_018_Entendi que não possuo todas as respostas nem sou o dono da verdade. ED_043R_ Minha percepção sobre o mundo e a realidade não passou por qualquer tipo de mudança. (R) Benevolência (3 itens) ED_038_Desenvolvi a necessidade de ajudar a quem eu vejo que precisa de ajuda. ED_057_Passei a não me omitir ante às necessidades e dificuldades das pessoas. ED_076_Passei a me preocupar mais com as condições em que as pessoas vivem e procurar a ajudá-las como eu posso. Abertura ao novo (7 itens) ED_095_O gosto pela exploração de coisas novas me foi despertado. ED_019_Minha mente ficou mais aberta ao que antes me era estranho. ED_039_Fiquei mais receptivo à diversidade e ao novo. ED_058_Passei a gostar de explorar o desconhecido. ED_077_Compreendi que o modo como vivo a minha vida é apenas um dentre tantos outros modos de vida diferentes e igualmente possíveis. ED_096_Aprendi a experimentar novas possibilidades. ED_020_Aprendi a apreciar modos de vida diferentes e até mesmo exóticos. Fonte: Desenvolvido pelo autor 160 4.2.2.4 Interpretação dos dados qualitativos e quantitativos Dentre as diferentes formas de projeto de investigação com a abordagem dos métodos mistos, a mais conhecida é o chamado projeto convergente paralelo, quando o pesquisador coleta e analisa tanto dados quantitativos quanto qualitativos durante o processo de pesquisa e interpreta os resultados conjuntamente (CRESWELL; PLANO CLARK, 2013). O propósito do projeto convergente é a complementação dos resultados obtidos, reunindo o que os métodos quantitativos e qualitativos oferecem de melhor para a compreensão do fenômeno estudado (CRESWELL; PLANO CLARK, 2013). O projeto convergente é apropriado quando a pesquisa possui restrição de tempo e quando tanto os dados quantitativos quanto os qualitativos têm igual importância para o estudo (CRESWELL; PLANO CLARK, 2013). O esquema da figura 4 a seguir sintetiza o desenho da presente pesquisa. Figura 4: Desenho da pesquisa Fonte: Elaborado pelo autor 161 5 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 5.1 Pesquisa Qualitativa No período compreendido entre 01/09/2016 a 20/01/2017, 9 pessoas foram contactadas para participarem de uma entrevista, na qual falariam de uma experiência de viagem que tivesse sido significativa em suas vidas e que tenha, de alguma forma, lhes transformado intimamente, seja na sua maneira de ser, seja na forma como passaram a perceber a realidade e a entender a vida que levavam. Essas pessoas foram localizadas por meio de contato pessoal ou por indicação dos primeiros entrevistados, de outras pessoas que afirmavam conhecer e que sabiam que haviam passado por uma experiência semelhante. O quadro 11 a seguir mostra o perfil sociodemográfico dos 9 entrevistados. Quadro 11: Perfil sociodemográfico dos entrevistados Entrevistados Idade Gênero Estado Civil Grau de Escolaridade Entrevistada 1 (A. L.) 45 F Separada Mestrado Entrevistada 2 (A. M.) 23 F Solteira Superior incompleto Entrevistado 3 (A. K.) 28 M Solteiro Mestrado Entrevistada 4 (G. A.) 34 F Casada Mestrado Entrevistada 5 (I. M. F.) 35 F Solteira Mestrado Entrevistado 6 (R. L. O.) 28 M Solteiro Superior completo Entrevistada 7 (S. L.) 20 F Solteira Superior incompleto Entrevistado 8 (L. D.) 35 M Casado Doutorado Entrevistado 9 (G. G.) 24 M Solteiro Superior incompleto Fonte: Dados da pesquisa (2018) 5.1.1 Análise das categorias Após transcritas, procedeu-se a análise de conteúdo das 9 entrevistas com o auxílio do software ATLAS TI®. As categorias relacionadas à experiência eudaimônica ou transformadora de viagem foram definidas aprioristicamente a partir da literatura investigada. 162 De uma maneira geral, com exceção da categoria Excelência, todas as demais foram identificadas em maior ou menor grau nos discursos dos entrevistados. As categorias analisadas foram: (1) Significado e propósito na vida, (2) Autodesenvolvimento e crescimento pessoal, (3) Autoconhecimento/autoconsciência/autodescoberta/autoaceitação, (4) Autoexpressividade, (5) Pertencimento [Communitas], (6) Intimidade/Relacionamento, (7) Autenticidade e Espontaneidade, (8) Autonomia, (9) Competência, (10) Empatia, (11) Tolerância, (12) Perspectiva ampliada, (13) Benevolência, e (14) Abertura ao novo. 5.1.1.1 Significado e Propósito na vida A categoria Significado e Propósito na vida se refere ao sentido e ao significado atribuído à natureza do ser e da própria existência (STEGER et al., 2006), e corresponde aos objetivos e intenções que dão um sentido de orientação e contribuem para dar significado à vida (WATERMAN et al., 2010; SCHUTTE; WISSING; KHUMALO, 2013; SELIGMAN, 2011; WATERMAN et al., 2010; RYFF; SINGER, 2008, 2003, 1996; HUTA; RYAN, 2010; RYAN; DECI, 2001; ERIKSON, 1998, 1972; RYFF, 1989; JAHODA, 1958). Para Ryff e Singer (2003), o propósito de vida corresponde à capacidade de se encontrar um significado e uma direção nas próprias experiências e de se propor e definir metas para a própria vida. Segundo Ryff e Singer (2008), essa orientação estaria fortemente fundamentada nas abordagens filosóficas existencialistas, especialmente a perspectiva da necessidade de sentido inerente ao ser humano (FRANKL, 2016, 2015) e a criação de significado na busca por uma vida autêntica, a escolha da “boa fé” de Sartre (2015). Segundo Waterman et al. (2010), para se alcançar o estado de eudaimonia não basta identificar e reconhecer os melhores talentos e habilidades, mas também decidir para onde direcionar os objetivos de vida relacionados a esses talentos e habilidades. Nesse sentido, os indivíduos precisam encontrar maneiras de usar suas habilidades e talentos na busca de objetivos pessoalmente significativos (WATERMAN et al., 2010). A categoria esteve presente no discurso de quatro entrevistados (entrevistada 5, entrevistado 6, entrevistada 7 e entrevistado 9), evidenciando-se que a experiência da viagem possibilitara a compreensão do significado e o propósito que a vida possui. Essas pessoas passaram a valorizar questões que antes não faziam parte de suas preocupações diárias e para as quais não davam tanta atenção. Nesse sentido, os entrevistados passaram a ser menos materialistas, menos ligadas ao dinheiro e a priorizar ainda mais a experiência presente da vida. 163 O valor e o sentido relacionados à existência sofreram algum tipo de transformação ou ganharam um significado mais amplo em relação à vida, desvinculando-se mais de questões materialistas e egocêntricas. O altruísmo passou a ser uma orientação mais forte na vida dessas pessoas. Um aspecto importante é que a entrevistada 5 e o entrevistado 6 demonstraram que mudaram sua relação com o dinheiro, passando a dar menos importância a questões de ordem financeira. A concepção de “morrer de trabalhar, precisar ter um emprego para ter uma condição de vida melhor, trabalhar muito” foi modificada, expandindo-se para um propósito de vida mais espiritual. Para o entrevistado 6, ele aprendeu a ser feliz com pouco e percebeu que não precisava ser milionário para ser feliz. A experiência da viagem parece ter proporcionado a chance para que este entrevistado “descobrisse o que, de fato, o fazia feliz na vida”, segundo suas palavras. A entrevistada 7 descobriu que um de seus propósitos de vida é o de ensinar crianças em algum projeto social, no qual pretende trabalhar tão logo quanto possível. Essa entrevistada se sentiu mais responsável “pelo que o mundo carrega”, sugerindo que a viagem lhe proporcionara uma transformação e a expansão do propósito e do sentido da vida que antes levava. O Quadro 12 mostra os trechos das entrevistas que apresentam relação com a categoria Significado e Propósito na vida. Quadro 12: Citações relacionadas à categoria Significado e Propósito na vida (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 5 Eu percebi a fragilidade que é minha vida. Eu já tinha passado por um momento assim no Brasil, de assalto, de sequestro e tal, já tinha sentido essa fragilidade, mas lá eu senti a fragilidade no sentido de quão rápido é a vida, de quão rápida ela é. Isso me assustou. Me fez redescobrir muita coisa em mim. De perceber que vários valores que eu tenho, que eu trago em mim, do tipo “trabalho é uma coisa importante, você precisa de ter um emprego”. Isso eu não acredito mais. Não dessa forma que eu acreditava, de que a vida é feita pra trabalhar. Eu já não acredito nisso mais. Então não foi nem especificamente o Quênia que me mudou nisso, mas foi a escolha de ir viajar, de tirar um ano pra viajar. Hoje eu penso assim. Por que é que eu não posso viver assim, por mais um tempo? Por que é que tem que ser só 1 ano? Eu decidi 1 ano, porque eu sabia que em 1 ano minha família ia aprovar, meus amigos iam aprovar, enfim. Mas porque é que eu não posso ter um emprego, porque eu não posso trabalhar pra ganhar um pouquinho pra conseguir viajar pra’li, ali eu trabalho mais um pouquinho pra ir pra lá, dali eu vou pra lá, por que é que eu não posso ter uma vida assim? Quem falou que está errado? Então assim, eu questionei muito os meus valores. Muito! O que é que é importante pra mim? Aprendi a valorizar o dinheiro de uma maneira que... eu tava um pouco com raiva de dinheiro, no sentido de: ah! Dinheiro tá movendo muito as pessoas pra ganância, pra tudo, e hoje eu consigo perceber como é que eu posso usar o dinheiro de uma maneira consciente e como que esse dinheiro me leva a pessoas maravilhosas, me fez conhecer pessoas maravilhosas. Eu respondi? 164 Quadro 12: Citações relacionadas à categoria Significado e Propósito na Vida (conclusão) Entrevistado Citações Entrevistado 6 Exatamente, espontâneo a troco de nada. Então isso mexeu muito comigo em questão de... Você precisa de muito pouco pra ser feliz, ou não precisa de ter dinheiro... Claro que você precisa pra... Você precisa de dinheiro pra sobreviver, mas tem muita coisa, a gente reclama por muito... tendo muita coisa, a gente reclama ainda. É um tempo que com certeza você ganha mais do que você tá cedendo pra eles e acho que me fez ser mais simples na vida, ter menos... me contentar com pouco, com menos coisa, tipo, não querer pensar só em dinheiro, em trabalhar pra... Tava até conversando com meu primo esses dias, tem uns dois dias. Que eu mudei um pouco minha percepção que eu quero pra minha vida, tipo dar duro, trabalhar, sei lá, morrer de trabalhar pra ter dinheiro, ter um carro, casa, não sei o quê... Se eu não trabalhar agora, ter uma condição, ter uma vida melhor. A gente não precisa ser milionário pra viver bem, não precisa ter o carro do ano pra ser feliz. Então, essa viagem, com essa experiência com as crianças no Camboja, nessa viagem, geral, isso me... ela fez essa mudança em mim. Eu pude ter mais experiências do que ter objetos, ter coisas, dar mais valor pra isso do que. Eu sou uma pessoa, vamos dizer assim, capitalista, eu acho que você tem que trabalhar, lutar por uma vida boa, ter dinheiro se você quiser ter um carro do ano etc. Eu não julgo isso, mas eu mudei o meu conceito em relação a isso. Eu acho que ter experiências, tipo igual essa viagem pra mim é muito mais gratificante do que se eu tivesse esse ano no Brasil, trabalhando, juntando dinheiro pra ter umas férias de 30 dias ou nem ia conseguir tirar 30 dias de férias, tá sempre pensando nas próximas férias, sem aproveitar a vida, tipo viver a vida. Porque no início da minha viagem eu tava bem perdido, não tinha nenhum norte pra onde eu queria ir, o que é que eu queria fazer após a viagem, pensando no meu pai, principalmente, no início, quando eu comecei a falar da viagem: - Pode ser legal, interessante, mas você deve ter em mente o objetivo pra ela. Não é só ir viajar. Mas eu não tinha muito objetivo, não sabia o que fazer, ainda não sei o que fazer depois quando eu voltar, mas com certeza eu tava muito pior, eu tava... é que eu me joguei no mundo, vamos dizer assim. Mudou totalmente minha vida. É mudança, a palavra que seria mudança, mudou tudo na minha vida. Se pensar de um ano atrás, há um ano eu tava em João Pessoa, como eu era e como eu sou hoje, não só como eu sou, mas minhas condições, tava trabalhando numa empresa, trabalho normal, sair 7 horas da manhã, ir pra fábrica, chegar 7 horas da noite, tinha uma rotina. Mudou tudo! Mudança, seria essa a palavra. Entrevistada 7 Foi uma surpresa e foi algo que me tocou, porque até depois disso eu pretendo trabalhar por um tempo. Meu irmão fez esse trabalho, ele tá trabalhando no Camboja, dando aula pra crianças é uma coisa que eu tenho interesse em fazer. Não sei como viabilizar isso ainda, mas mudou porque eu não tinha essa vontade antes. E eu me senti mais responsável pelo que o mundo carrega, pelos passos, tipo as pegadas que o meu consumo deixa no mundo. Entrevistado 9 Eu vou dizer que depois dessa experiência ficou aquela sensação de “não sei se realmente tenho um papel nesse mundo enorme e cheios de personagens divinos!”. Eu acho que foi... é essa uma das sensações que ficaram, por isso que há pouco a gente não se sentia à vontade em nenhum lugar. Assim, qual é o meu papel? A dúvida aumentou, duplicou, triplicou de tamanho. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 5.1.1.2 Autodesenvolvimento e Crescimento pessoal A categoria Autodesenvolvimento e Crescimento pessoal diz respeito à percepção de que, com o passar do tempo, a pessoa se desenvolveu como alguém com personalidade e características próprias e evoluiu como ser humano. Também corresponde ao desejo, vontade e 165 disposição para continuar se desenvolvendo com a realização dos melhores potenciais e capacidades, aquisição de conhecimento e habilidades, e a convicção de que se está em um contínuo processo de aperfeiçoamento; coragem no enfrentamento e superação das adversidades e provações da vida a partir da própria força interior (HUTA, 2016; WATERMAN et al., 2010; ROGERS, 2009; RYFF; SINGER, 2003, 1996; RYFF, 1989). Segundo Ryff e Singer (2008), esta categoria é a que mais se aproxima do conceito de eudaimonia de Aristóteles, evocando a autorrealização, bastante explorada nas abordagens teóricas de Maslow (1993) e Norton (1976), quando enfatizam a realização do potencial pessoal. Ao responderem se, em algum momento de suas vidas, já haviam passado por uma experiência de viagem na qual perceberam algum crescimento e desenvolvimento pessoal, os entrevistados foram taxativos em suas confirmações, enxergando as respectivas experiências de viagem como um momento de autodesenvolvimento, crescimento e amadurecimento. A entrevistada 1, por exemplo, relatou que uma viagem que marcou a sua história foi a primeira viagem na qual se afastou dos filhos, pois precisava de um momento sozinha, consigo mesma, para além da função de mãe. Tal viagem, segundo ela, transformou-a no sentido de ter mais autoconfiança e autoestima. Já a entrevistada 2 sinalizou que sua viagem de intercâmbio mudou completamente sua vida e lhe proporcionou crescimento pessoal, porque trouxe experiências intensas que nunca havia antes experimentado. Isso contribuiu para o seu desenvolvimento pessoal principalmente no que se refere à capacidade de relação com as pessoas. Já a entrevistada 4, tal como a entrevistada 1, afirmou que ganhou mais confiança em si mesma e passou a sentir que poderia alcançar vôos muito mais altos. Para a entrevistada 5, a transformação aconteceu devido ao fato de ter saído de sua zona de conforto e passado a se enxergar em outros papéis sociais que não havia exercido antes da viagem. A entrevistada comentou que a viagem lhe permitiu refletir sobre as escolhas feitas em sua vida, algo que não conseguia fazer antes da viagem porque não tinha tempo para pensar sobre o que queria de verdade. Segundo ela, quando se está imerso na sua realidade de origem, a pessoa não consegue se enxergar para além do seu papel de filho, de irmão, de chefe, etc. Durante a viagem, ela conseguiu parar para pensar no que ela quer ser e no que ela quer fazer para além das cobranças sociais. No discurso da entrevistada 5 é possível destacar claramente a oportunidade de reflexão proporcionada pelas experiências de viagem, tal como teorizado por Brown (2013), que, inspirando-se em Heidegger, utiliza o termo Speilraum do filósofo alemão, para afirmar que o tempo e o espaço fornecidos pelo turismo possibilitam uma pausa da rotina, 166 oportunizando o silêncio e a reflexão individual. Segundo Brown (2013), no Speilraum, o foco é removido do mundo cotidiano, oportunizando vislumbres sobre o futuro, e, durante o processo de introspecção, vislumbres incômodos acerca de aspectos inautênticos da vida podem ocorrer, permitindo que se pondere sobre a vida que se leva e sobre as transformações que podem ser realizadas, exatamente como a entrevistada 5 relatou. Essa capacidade de “suspensão” dos papéis institucionais durante as viagens reflete o caráter liminal do turismo. Segundo Kim e Jamal (2007): “Dentro de um espaço turístico liminar, as normas e regulamentos sociais convencionais são muitas vezes temporariamente suspensos, pois os turistas aproveitam o anonimato relativo e a ausência do escrutínio da comunidade” (KIM; JAMAL, 2007, p. 184). Os intervalos de tempo durante viagens, em que o indivíduo se despe momentaneamente das vestes de seus papéis institucionais e entra em contato com culturas, histórias, pessoas e ambientes diferentes dos seus proporciona uma oportunidade para que ele reflita sobre sua vida e sobre si próprio. O autossequestro da rotina, longe das amarras sociais e dos padrões e exigências institucionais, possibilita a liberdade reflexiva para o indivíduo. Sobre isso, o entrevistado 9 relata: Eu acho que eu conheci... Não sei se eu conheci ou pude interpretar algumas das minhas sensações de uma maneira mais livre, vamos dizer assim. Eu não sei como explicar isso. Eu acho que por estar mais à vontade, eu acho que até pela solidão, pelos momentos de solidão te provocam esse autoconhecimento. (Entrevistado 9). Já o entrevistado 8 destacou que o maior benefício proporcionado pela viagem foi seu amadurecimento pessoal. Ele afirmou que passou a valorizar mais as coisas que tinha na vida em seu local de origem. A viagem também o ajudou a se desvencilhar de coisas ruins que não faziam mais sentido em sua existência. Tal observação aponta para outro aspecto relacionado à categoria Autodesenvolvimento e Crescimento pessoal, aquele que diz respeito à abertura a novas experiências, característica-chave do funcionamento pleno (RYFF; SINGER, 2008; RYFF, 1989). A abertura a novas experiências em si constitui uma categoria isolada, mas está intimamente relacionada ao crescimento pessoal. O conceito de funcionamento pleno de Rogers (2009) considera que a pessoa precisa estar aberta a experimentações e em contínuo desenvolvimento, um permanente “vir a ser”, em vez de um estado fixo em que todos os problemas estão postos e resolvidos (RYFF; SINGER, 2008; RYFF, 1989). O Quadro 13 apresenta as citações ligadas à categoria Autodesenvolvimento e Crescimento pessoal, indicando sua importância para o estudo. 167 Quadro 13: Citações relacionadas à categoria Autodesenvolvimento e Crescimento Pessoal Entrevistado Citações Entrevistada 1 Foi a primeira vez que eu me afastei dos meus filhos, viajei sem eles, foi uma viagem dolorosa, porque também eu sei que eles queriam vir, mas ao mesmo tempo também eu precisava dessa viagem. Não só como pesquisadora, mas também como pessoa mesmo. Me afastar um pouco dessa coisa de mãe, que sempre tá me acompanhando. E essa viagem pra BH, pra mim, ela marcou muito, primeiro porque foi uma ousadia minha, de sair daqui com pouco dinheiro e me hospedar na casa de alguém que eu conhecia, sabia que era uma boa pessoa e tal, mas não tinha contato, um contato mais próximo, quando nós trabalhávamos na mesma empresa. Autoestima, confiança, uma autoconfiança. Acho que foram as duas coisas. Entrevistada 2 Então tu vai aprendendo aos poucos e principalmente o que me mudou foi eu quase que completamente porque eu morar num lugar que te faz viver experiências intensas em praticamente todas as áreas da vida. Então... por isso que eu... assim: como me mudou? Me mudou meio que completamente, porque me atingiu em tudo e porque justamente por ser tudo novo e ter esse relacionamento com pessoas, se você não fosse lá falar com a pessoa, a pessoa não vinha falar contigo, se você não fosse falar, você ia ficar sozinha. Entrevistada 4 Me acrescentou confiança. Saber que eu posso muita coisa. Muito mais que eu imaginava. Me acrescentou uma vontade muito maior ainda de ver o mundo. Tudo! Cada detalhe de tudo, porque eu vi tanta coisa diferente. Entrevistada 5 Quando você se coloca fora da sua zona de conforto, fora da sua cidade, por isso que eu acho que viajar é muito importante, porque é igual você falou: você sai da sua cultura, você sai da sua zona de conforto, você não precisa mais de ser o filho, você não precisa de ser o irmão, você não precisa de ser o chefe, você não tem mais nenhum papel pra cumprir, você vai se ocupar de si mesmo, você vai ocupar do que você quer fazer. Então se você quiser ficar o dia inteiro numa cama, você vai ficar. Porque ninguém te conhece ali, ninguém tá te vigiando se você tá dormindo demais ou de menos. E aí você vai conseguir parar pra pensar na sua vida, pensar nas suas escolhas que você fez, enfim, as coisas que você quer fazer, eu acho que de fato a gente não tá tendo é tempo. A gente tá ocupando demais o nosso tempo com trabalho e pra não ter que pensar. Ah! Foi tão bom identificar minha insignificância. Foi tão gostoso eu perceber que eu sou mais uma pessoa. Que meu ego tava muito inflado, assim. De: - Nossa! Eu vou pra África! Vou fazer e acontecer. Nada! Nada! Você vai lá se satisfazer, você vai... Claro que eu aprendi pra caramba, mas não consegui mudar realidade nenhuma. Eles continuam lá, o Quênia continua lá. Então, perceber a minha insignificância foi muito bom pra me libertar de responsabilidades que não são minhas. Claro que tem responsabilidades que são. Óbvio. Mas outras que eu achava que eu tinha que resolver as coisas, tipo: eu preciso ir pra lá e dar uma esperança pra essas crianças. Não, isso eu não consigo fazer. Isso eu não consigo. Aceitar que eu sou muito limitada. Aceitar as minhas limitações, enquanto ser humano, isso foi muito bom também pra trazer um pouco mais de paz pra viagem. Entrevistado 6 É um tempo que com certeza você ganha mais do que você tá cedendo pra eles e acho que me fez ser mais simples na vida, ter menos... me contentar com pouco, com menos coisa, tipo, não querer pensar só em dinheiro, em trabalhar pra... Tava até conversando com meu primo esses dias, tem uns dois dias. Que eu mudei um pouco minha percepção que eu quero pra minha vida, tipo dar duro, trabalhar, sei lá, morrer de trabalhar pra ter dinheiro, ter um carro, casa, não sei o quê... Se bem que eu nunca fui muito apegado às coisas materiais, mas eu tinha meus certos luxos. Não eram muitos, mas tinha algum custo com alguma coisa material, mas definitivamente quando eu voltar pro Brasil, definitivamente não é minha prioridade arrumar um emprego pra me matar lá pra ganhar dinheiro. Isso com certeza mudou em mim. Entrevistado 8 A princípio eu fui para aprender uma língua etc, mas o benefício maior pra mim foi a questão de amadurecimento, de me deparar com situações em que eu teria que resolver sozinho e mesmo num país estrangeiro, com uma língua completamente diferente e que eu não dominava completamente... Tanto a perspectiva do benefício que essa experiência me trouxe profissional, emocional, de todos os sentidos da minha vida. Mas também, ao mesmo tempo, de valorizar coisas que eu tinha aqui e que eu deixei. Coisas boas e ruins. As coisas ruins que me incomodavam, a experiência que eu tive lá, eu percebi que aquilo não fazia sentido eu permanecer tendo, então eu me desvencilhei. As outras não, de... sei lá, de aprofundar mesmo em uma cultura diferente, de aprender a lhe dar com o diferente, com o outro, com um olhar diferenciado. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 168 5.1.1.3 Autoconhecimento e Autoaceitação A categoria Autoconhecimento e Autoaceitação representa a disposição para conhecer a si próprio, reconhecendo as características positivas e negativas, com imparcialidade e resignação. Esta categoria estaria relacionada à consciência dos aspectos positivos e negativos de si próprio, mas com uma atitude positiva em relação a eles, reconhecendo as próprias limitações e orientando-se na direção da superação das características que são passíveis de modificação e que não se mostraram eficazes no enfrentamento dos desafios da vida (RYFF; KEYES, 2008, 1995). Erikson (1976) chama de integridade do ego a síntese resolvida de todos os triunfos e fracassos que a pessoa vivenciou em sua vida, alcançada por meio da autoavaliação honesta e resignada da própria história. A pessoa está ciente de suas falhas e limitações pessoais, mas se aceita e abraça a si mesmo como é (HIDALGO et al., 2010). Kernis e Goldman (2006) afirmam que a consciência das propensões e características pessoais constitui uma componente do comportamento autêntico. De acordo com os autores, à medida que as pessoas exercitam sua autenticidade, tornam-se mais conscientes do fato de possuírem aspectos multifacetados relacionados a si próprias e se esforçam para integrá-los em uma estrutura coesa de autoidentidade. Segundo a filosofia eudaimônica, conforme esclarecem Waterman et al. (2010), o conhecer-se a si mesmo precede o esforçar-se para realizar-se a si mesmo. Nesse sentido, torna-se imprescindível ter reconhecido e decidido que tipo de pessoa já se é para que se encaminhe em direção à autorrealização (WATERMAN et al., 2010). A ética eudaimônica convida cada pessoa a reconhecer e a viver de acordo com o seu daimon, ou seja, esforçar-se para realizar-se a si mesmo. De uma maneira geral, os nove entrevistados reconheceram que passaram a se conhecer mais após as experiências de suas respectivas viagens, mas os entrevistados 1, 4, 5 e 7 descreveram com profundidade as reflexões que tiveram em relação ao processo de autoconhecimento, autodescoberta e autoaceitação. A entrevistada 1, por exemplo, enfatizou mais uma vez a autoconfiança conquistada com a experiência da viagem, mas que o processo de reflexão a fez perceber o quão insegura se sentia em relação a si própria. Em suas palavras: Aí eu volto àqueles dois aspectos que eu te falei, que é essa questão da autoestima, de acreditar em mim e da autoconfiança. Às vezes eu não confio em mim mesma. Às vezes eu acho que eu não posso, que não consigo fazer determinada coisa e essa 169 viagem me mostrou isso: de que eu posso fazer o que eu quero, independente de qualquer coisa. É isso. A descoberta é essa (Entrevistada 1). A entrevista 4 afirmou que a viagem a fez perceber que ela era a sua melhor companhia, enaltecendo o fato de viajar sozinha. Para ela, a viagem iniciou um processo de autoconhecimento que ela mantém até os dias atuais, de se perguntar: “Quem? Como? Por quê? O que é que eu faço? Por que é que eu ajo de determinadas formas? Como que eu ajo? Como que eu ajo quando eu tô me submetendo às caixinhas ou como que eu ajo quando eu não estou?” (Entrevistada 4). A entrevistada 5 também afirmou que a viagem lhe proporcionou maior conhecimento sobre seu verdadeiro eu e enfatizou o fato de que “no nosso dia a dia a gente não para pra se conhecer”. A entrevistada também destacou que sair do “próprio contexto”, deixar sua “zona de conforto”, ajuda a pessoa a se descobrir. O relato da entrevistada 5 mostra o seu nível de envolvimento com o processo de autodescoberta: O que eu acho que acontece é que no nosso dia a dia a gente não para pra se conhecer. Muitas vezes a gente nem sabe quem a gente é. A gente tem uma vaga ideia de quem a gente é. E quando você tá fora do seu contexto, quando você se coloca fora do seu contexto, quando você se coloca fora da sua zona de conforto, você se descobre, vou nem te falar redescobre, porque redescobrir pressupõe que você já se descobriu alguma vez e sinceramente se eu olho pra meus amigos, se eu olho pras pessoas que eu convivo e são pessoas letradas, pessoas que de fato, por exemplo, meus amigos já pararam pra fazer terapia, pessoas que tão buscando se entender e tudo o mais, nem assim. Eu fiz terapia durante anos no Brasil! Anos! Desde os meus 18 anos eu queria entender mais sobre como minha mente funciona. E eu não me conhecia, várias facetas minhas, eu não tinha ideia que elas estavam aqui, porque eu tinha escolhido. Eu acho então que no nosso dia a dia a gente tá querendo trabalhar pra pagar as contas e pagando as contas pra ter coisas que você nem sabe porque é que você precisa. (Entrevistada 5). Outra perpectiva da autodescoberta destacado pela entrevistada 5, mas que evidencia o aspecto da autoaceitação, refere-se à sua decisão de se livrar de qualquer tipo de rotulação da imagem que tinha de si mesma. Ela percebeu que os rótulos a que se impunha a bloqueavam muito enquanto pessoa: 170 Também tirei vários rótulos de mim nessa viagem. Não quero rótulo de nada. Não quero rótulo de que eu sou rebelde, não quero rótulo de que eu sou tradicional, que eu sou econômica, ou que eu sou gastadeira. Não quero rótulo de nada. Rótulo te bloqueia muito. Te bloqueia muito naquele pensamento. Nem de profissão não quero mais. Por causa disso. (Entrevistada 5). A entrevistada 7, por sua vez, declarou que a viagem ajudou-a a ser mais autocrítica e consciente e que passou a refletir mais sobre seus comportamento e ideias. Em seu relato, a entrevistada chega a reconhecer o quão privilegiada era, o quanto seus pais a mimaram e o quanto isso moldou seu caráter egoísta. Contudo, a entrevistada afirmou que tem amadurecido com a vida, aprendendo que uma perspetiva excessivamente egocêntrica não é a que deve adotar. Segundo a entrevistada, a experiência vivida na sua viagem foi uma das que lhe mostraram que “o eu às vezes nem é tão importante assim”. O Quadro 14 indica os trechos das entrevistas que apresentam relação com a categoria Autoconhecimento e Autoaceitação. Quadro 14: Citações relacionadas à categoria Autoconhecimento e Autoaceitação (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 1 É aquela coisa que eu te falei de acreditar em mim. Eu quero, eu posso, talvez eu não pudesse tanto, mas eu consigo. Isso pra mim foi fantástico, porque... Naquela época eu tava com a minha bolsa de pesquisa, mas não é essas coisas pra fazer uma viagem, mas eu consegui comprar minha passagem, em 10 vezes, mas consegui, e aí tenho uns amigos que são essenciais na minha vida que me ajudaram... Eu acho que essa questão de querer conseguir uma coisa, focar naquilo. Me senti com vontade de voltar pra conhecer mais coisas. Teve um período que eu fiquei com vontade de ir estudar aí, vendo a possibilidade da UFMG, mas aí eu... A gente vai amadurecendo o pensamento, e Minas, BH pra mim ela tá muito distante. Aí eu volto àqueles dois aspectos que eu te falei, que é essa questão da autoestima, de acreditar em mim e da autoconfiança. Às vezes eu não confio em mim mesma. Às vezes eu acho que eu não posso, que não consigo fazer determinada coisa e essa viagem me mostrou isso: de que eu posso fazer o que eu quero, independente de qualquer coisa. É isso. A descoberta é essa. Entrevistada 2 Eu acho que toda viagem, se você se permite, você muda. Você conhece alguma coisa, experimenta alguma coisa, coisas que você não sabia antes você toma conhecimento. Enfim, eu acho que toda viagem, nem que seja pra cidade do lado, tu tem oportunidade de crescer se você quiser, mas eu acredito que a que mais me transformou foi a do Canadá, porque eu tava meio que saltando de paraquedas. Entrevistado 3 Acho que uma possibilidade de encontro com você mesmo, que é que depois no meu futuro eu vejo a consequência de pensar num novo projeto de vida. Eu acho que ela despertou esse conhecimento, porque eu acho que depois dali é que veio as questões, que começa a trabalhar essas coisas que você viveu ali na viagem, mas ela também tenha sido a faísca pra você começar a entender quem é você. Entrevistada 4 Então essa sensação de liberdade e a questão do descobrimento, também. Cada dia descobrindo uma coisa nova. E lá... eu já tava muito a fim de sair do meu trabalho assim e tal, porque eu tava saturada, não tava querendo mais e tal, mas aí lá eu tive total certeza que eu ia pra isso. Aqui eu não podia chegar e sair, porque eles foram camaradas comigo. Então... mas eu saí um ano... eu acho que foi exatamente um ano depois. [...] 171 Quadro 14: Citações relacionadas à categoria Autoconhecimento e Autoaceitação (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 4 [...] Eu descobri que eu sou minha melhor companhia. Então eu adorei viajar sozinha. Eu já tinha feito alguma viagem menor sozinha. Eu acho que iniciou o processo, que tá até hoje. De ter que tentar buscar cada vez mais entender quem? Como? Por quê? O que é que eu faço? Por que é que eu ajo de determinadas formas? Como que eu ajo? Como que eu ajo quando eu tô me submetendo às caixinhas ou como que eu ajo quando eu não estou? Acho que é isso. Entrevistada 5 Eu fiquei muito depressiva quando eu cheguei. Depressiva não, era um misto de muita gratidão por tudo que a minha vida tinha me oferecido, inclusive pela oportunidade de tá ali com elas, mas eu não sabia o que ia ser do resto. Eu achava que o choque foi muito grande! Por mais que eu tivesse pensado... Eu tava muito claramente consciente de que eu queria uma experiência pra minha vida. Eu vivi 35 anos na mesma casa em Belo Horizonte. Eu nasci naquela casa e ainda tava lá até essa ocasião. Então eu falei assim: - Eu quero ter mais experiência, eu quero conhecer outras culturas, eu quero conviver com gente diferente de mim, diferente da minha família, que tenham hábitos diferentes dos meus, que pense de maneira diferente, tenham verdades diferentes. O que eu acho que acontece é que no nosso dia a dia a gente não para pra se conhecer. Muitas vezes a gente nem sabe quem a gente é. A gente tem uma vaga ideia de quem a gente é. E quando você tá fora do seu contexto, quando você se coloca fora do seu contexto, quando você se coloca fora da sua zona de conforto, você se descobre, vou nem te falar redescobre, porque redescobrir pressupõe que você já se descobriu alguma vez e sinceramente se eu olho pra meus amigos, se eu olho pras pessoas que eu convivo e são pessoas letradas, pessoas que de fato, por exemplo, meus amigos já pararam pra fazer terapia, pessoas que tão buscando se entender e tudo o mais, nem assim. Eu fiz terapia durantes anos no Brasil! Anos! Desde os meus 18 anos eu queria entender mais sobre como minha mente funciona. E eu não me conhecia, várias facetas minhas eu não tinha ideia que elas estavam aqui, porque eu tinha escolhido. Eu acho então que no nosso dia a dia a gente tá querendo trabalhar pra pagar as contas e pagando as contas pra ter coisas que você nem sabe porque é que você precisa. Também tirei vários rótulos de mim nessa viagem. Não quero rótulo de nada. Não quero rótulo de que eu sou rebelde, não quero rótulo de que eu sou tradicional, que eu sou econômica, ou que eu sou gastadeira. Não quero rótulo de nada. Rótulo te bloqueia muito. Te bloqueia muito naquele pensamento. Nem de profissão não quero mais. Por causa disso. Entrevistado 6 Claro que ainda têm altos e baixos, mas com o decorrer da viagem eu consigo ver como que eu fui transformando, como que eu fui conseguindo aproveitar sozinho ou com as pessoas que eu conhecia na viagem e vendo essa transformação, principalmente no Camboja, mas foi no geral da viagem também, é legal ver essa transformação ao longo do tempo. Às vezes eu paro pra pensar no início da minha viagem, como eu sou completamente diferente e como viajar e também o pensamento no que eu quero quando eu voltar pro Brasil é bem... Entrevistada 7 Eu acho que ela me tornou uma pessoa mais consciente. Consciente e humana da realidade do que os outros passam que é diferente da minha, porque antes de eu ter visto esse contraste, eu sinceramente sequer tinha parado pra refletir como o turismo em si pesa sobre quem tá recepcionando, porque eu acho que é tudo uma magia, uma maquiagem. Eu me tornei uma pessoa mais consciente, mas eu passei a me ver de uma forma mais crítica, a refletir mais e tentar realmente criticar mais meus comportamentos, ideais e principalmente o que eu faço. Não só o que eu penso a respeito, mas o que realmente faço e que alguma coisa que eu vejo que eu peco muito, por exemplo: eu não concordei com aquela situação, mas eu também não fiz nada pra mudar. Eu acho que não adianta só sofrer o incômodo, eu falar que não tá certo aquilo, mas atitudes mesmo eu não tomar nenhuma atitude. Acho que autoconhecimento, autocrítica e uma capacidade de empatia maior, porque eu como criança sempre fui uma criança muito... Meus pais sempre me deram tudo que eu precisava, depois há algum tempo eu aprendi, a vida me deu uma surpresinha pra mostrar que não era assim e eu acho que ainda não evolui totalmente nisso: de parar de pensar no eu. E essa foi uma das experiências que me mostrou que o eu às vezes nem é tão importante assim. 172 Quadro 14: Citações relacionadas à categoria Autoconhecimento e Autoaceitação (conclusão) Entrevistado Citações Entrevistado 8 Então acho que isso foi também um divisor de águas, no sentido que trouxe um maior amadurecimento, valorização de coisas que a princípio a gente não valoriza quando a gente tá numa rotina, no cotidiano. Então é mesmo de focar pra coisas que você quer gastar energia e que te façam bem e deixar pra trás aquilo que não te agrega, que não traz benefício. Entrevistado 9 Eu acho que eu conheci... Não sei se eu conheci ou pude interpretar algumas das minhas sensações de uma maneira mais livre, vamos dizer assim. Eu não sei como explicar isso. Eu acho que por estar mais à vontade, eu acho que até pela solidão, pelos momentos de solidão te provocam esse autoconhecimento. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 5.1.1.4 Autoexpressividade A categoria Autoexpressividade corresponde ao envolvimento intenso em atividades que fazem pleno uso das melhores habilidades e talentos e que são a exata tradução de quem a pessoa é. Um aspecto fundamental na experiência eudaimônica, segundo Waterman et al. (2010), é o engajamento em atividades que demandam o melhor uso de suas potencialidades e capacidades. Dessa forma, a categoria está relacionada às atividades pessoalmente significativas, que vêm acompanhadas de sentimentos de autorrealização e experiência ótima, responsáveis por darem sentido e direção à vida (WATERMAN et al., 2010; WATERMAN et al., 2008; WATERMAN, 2004). A categoria Autoexpressividade fundamenta-se totalmente na teoria da identidade eudaimônica de Waterman (WATERMAN, 2007a, 1993a, 1992, 1990), que integra as concepções filosóficas sobre eudaimonia – a ideia de daimon, o “eu verdadeiro” –, a autorrealização e a busca da excelência, com aspectos da teoria da autodeterminação acerca da motivação intrínseca (WATERMAN et al., 2010). Nesse sentido, a categoria possui relação com as categorias de autodesenvolvimento e crescimento pessoal, autonomia, excelência, e significado e propósito na vida. A categoria Autoexpressividade foi observada nos discursos dos entrevistados que fizeram trabalho voluntário em viagens de longa duração (entrevistados 6 e 5). O entrevistado 6, por exemplo, ao se referir ao trabalho voluntário que realizou no Camboja, ensinando inglês para crianças, afirmou que interagir com aquelas crianças era muito gratificante, apesar das dificuldades culturais e linguísticas e as condições climáticas, com temperaturas bem acima das que estava acostumado. A entrevistada 5, por sua vez, falou da sua experiência com as crianças do Quênia, quando fez trabalho voluntário em uma organização social. Apesar de se censurar no início para admitir que sentia orgulho do trabalho que realizara, a entrevistada acaba 173 assumindo o sentimento e demonstrou-se realizada por todas as experiências vivenciadas em sua viagem. Embora não fique muito evidente, no depoimento da entrevistada 4 é possível perceber que ela associa a própria viagem a uma realização pessoal, algo que tivera desejo de realizar antes, e que, finalmente, com recursos próprios, conseguia finalmente realizar. A entrevistada chega a usar o termo “realização” para descrever a satisfação que sentiu ao realizar sua viagem. A entrevistada também comenta o quão feliz se sente ao se referir à viagem, mencionando o fato de ser mulher e de ter feito sua viagem sozinha. A entrevistada mostrou entusiasmo em suas palavras, enfatizando dois aspectos, os quais valoriza muito e que representam bem a sua viagem, o aprendizado e a liberdade. Em seu discurso é possível inferir elementos de autoexpressividade associados à viagem em si. O Quadro 15 apresenta as citações ligadas à categoria Autoexpressividade. Quadro 15: Citações relacionadas à categoria Autoexpressividade (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 4 Livre e feliz! Muito feliz! Teve uma tia que me falou que eu tava mais bonita nas fotos. Acho que são duas coisas que eu valorizo muito assim, são valores que é o aprendizado, descobrir coisas novas que tá muito presente numa experiência de viagem, principalmente nessa e outra coisa é a liberdade, de você tá livre ali. E também realização, né?! Porque quem diria que eu estaria fazendo uma viagem dessa assim? Eu sozinha, tipo assim, eu me achei o máximo! Estou indo sozinha para... Tudo bem. Quantas mulheres fazem isso? Mas eu achei que era muito legal eu tá ali sozinha, do outro lado do mundo... Entrevistada 5 Eu acho que essa experiência ela vai me transformar pra sempre a todo momento, porque tem várias fichas que ainda tão caindo. As primeiras semanas foram muito pesadas. Eu falava todos os dias... Eu fiquei muito depressiva quando eu cheguei. Depressiva não, era um misto de muita gratidão por tudo que a minha vida tinha me oferecido, inclusive pela oportunidade de tá ali com elas, mas eu não sabia o que ia ser do resto. Eu achava que o choque foi muito grande! Por mais que eu tivesse pensado... Foi um choque mais de falar: - Meu Deus, o que é que eu vou fazer aqui? Eu não posso ajudar essas pessoas! Incapacidade mesmo. De se sentir... Eu não vou fazer a menor diferença, sou só uma pessoa! Aqui são tantos! Tinham 15 lá, e eu sabia que no entorno tinham 60 esperando pra entrar pra casa, que também queriam o mesmo tipo de cuidado. Então assim, foi muito pesado nesse sentido. De imaginar que eu, uma pessoa só, não ia dar conta e eu não vou fazer a menor diferença na vida delas. Então, pesa muito você pensar que você tá ali, você vai tentar, mas... Eu acho que essa experiência vai me mudar pra sempre. Ela não vai acabar, sabe? Porque todos os dias eu lembro delas, das crianças. Todos os dias eu lembro das crianças! E todo dia eu penso assim: - Como é que tá sendo o dia a dia delas? Pelo menos ou de manhã, à tarde ou à noite eu lembro. - Ah! Agora elas tão indo pra escola. Lá são 4 horas a menos. Então eu não sei se orgulho é uma palavra que me define nisso não. Talvez seja sim. Talvez seja eu querendo falar que eu não sinto orgulho, né? Talvez eu sinta sim, orgulho um pouco de ter conseguido fazer tudo isso, porque era um sonho que eu tinha de fazer, sabe? De ir pra África, fazer voluntariado, era um sonho meu. Então pode dizer que eu tenho orgulho sim. É orgulho. 174 Quadro 15: Citações relacionadas à categoria Autoexpressividade (conclusão) Entrevistado Citações Entrevistado 6 Foi bastante gratificante. Foi meu primeiro voluntário. Eu sempre quis fazer, mas sempre acaba arrumando uma desculpa pra não fazer: - Tá, não tenho tempo! - Eu trabalho, estudo... Foi como eu falei: foi bem difícil ficar lá a questão principalmente do calor, muito quente! Comida...? Comida até tranquilo. Mas, apesar de toda essa dificuldade foi muito gratificante, eu aprendi bastante com aquelas crianças lá, por causa dessa questão de ser feliz com o pouco que você tem, de dar valor às oportunidades que você tem, embora as crianças aproveitando essa oportunidade de ter aula de inglês, tando lá todo dia, elas não eram obrigadas irem na aula, ia quem quisesse e elas iam praticamente, a frequência era bastante alta. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 5.1.1.5 Intimidade / Relacionamento A categoria Intimidade/Relacionamento diz respeito à relação harmoniosa e confiante com outras pessoas. Representa a sinceridade e a abertura junto a pessoas próximas e preocupação com o bem-estar e felicidade delas; reciprocidade e empatia. Corresponde a dar e receber amor, carinho, afeto, aconchego e apoio (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; WANG, 1999; RYFF; SINGER, 2008, 2003, 1996; KERNIS; GOLDMAN, 2006; KOTTLER, 2002, 1998; ERIKSON, 1998, 1976, 1972; RYFF, 1989). Relacionamento é uma necessidade humana básica e praticamente todas as abordagens teóricas e clínicas acerca do desenvolvimento humano incluem o domínio das relações interpessoais como crucial para uma vida bem vivida (RYFF; SINGER, 2008). Para Erikson (1998, 1976, 1972), a intimidade é fundamental no período da vida do jovem adulto, e o cuidar e orientar – a generatividade – corresponde a uma sequência natural da vida adulta. Relações calorosas com outras pessoas é uma característica da maturidade e pessoas classificadas como autorrealizadas apresentam fortes sentimentos de empatia e carinho para com todos os seres humanos e são capazes de amar de forma mais honesta, construir amizades mais verdadeiras e se identificar mais completamente com os outros (RYFF, 1989). Ryan e Deci (2017) defendem que a necessidade de relacionamento se refere ao sentimento de se sentir socialmente conectado e que esse sentimento é ainda mais forte quando as pessoas se sentem cuidadas por outras. Contudo, os autores salientam que a necessidade de relacionamento, ou, como eles também se referem, de pertencimento [belonging], também inclui o sentir-se importante e necessário para outras pessoas. Nesse sentido, o pertencimento diz respeito ao experimentar-se a si mesmo como contribuindo, no sentido de “doar-se” para a 175 vida de outras pessoas. Ryan e Deci (2017) também incluem aqui o aspecto mais amplo do relacionamento, ligado à integração a organizações e grupos sociais, quando sentimentos de pertencimento e benevolência se fariam presentes. A necessidade de relacionamento também é apontada na literatura como responsável por amenizar a sensação de ansiedade existencial. Na abordagem conhecida como Gestão do Terror [Terror Management Theory], os relacionamentos interpessoais harmoniosos com pessoas próximas agiriam, de maneira dinâmica e interrelacionada com a fé em uma visão de mundo e a autoestima, como um escudo protetor contra a ansiedade existencial (KESEBIR; PYSZCZYNSKY, 2012). A categoria Intimidade/Relacionamento foi identificada nas entrevistas quando os entrevistados comentaram acerca do que sentiram quando entraram em contato com pessoas nos lugares para onde viajaram, como a entrevistada 1, por exemplo, que afirmou que o fator humano tem um peso importante na viagem, isto é, a busca por conhecer outras pessoas, outros costumes, outra forma de ver a vida. A entrevistada 2 falou com admiração de como fora acolhida pela família que lhe recebera em seu intercâmbio, tratando-a mesmo como uma filha. Já o entrevistado 3 acredita que a viagem o deixara mais desenvolto nas relações sociais e menos ansioso. Da mesma forma, o entrevistado 9 contou que, após a experiência de sua viagem, passou a se sentir mais aberto e disposto a conversar com as pessoas, a dialogar. O entrevistado 8 afirmou que as amizades construídas na viagem foi algo importante e inesperado, já que fez a viagem com o objetivo de estudo e profissional. Contudo, no depoimento dos dois entrevistados que fizeram trabalho voluntário é possível perceber um nível ainda mais profundo de intimidade/relacionamento com as crianças com as quais interagiram. O relato emocionado da entrevistada 5 evidencia o nível de intimidade nas relações com as crianças no Quênia e a sua doação àquelas crianças, dando-lhes carinho, amor e atenção: A compreensão de que a gente é tudo igual, de que ser humano é ser humano, de que a gente tem a necessidade de amor. Uma coisa que eu fazia com eles, que me tocou muito foi que eles, na hora de dar boa noite, eu comecei a beijá-los, porque eu fazia isso na minha casa. Na minha casa todo mundo beija e tal, abraçar e beijar. E aquilo pra eles foi tão... assim! Eles não sabiam o que fazer, eles não tinham reação! Eles ficavam com os bracinhos pra baixo assim, com um olhar assim pra mim: - O que é que essa menina tá fazendo? O que é que essa mulher tá fazendo? E eles ficavam completamente sem reação nos primeiros dias. Aí, no segundo dia, na verdade, eles já fizeram fila pra ganhar beijo e abraço, aí quando eu tava dando beijo 176 e abraço, eles voltavam pra fila, sabe? [risos] pra ganhar de novo e de novo. Assim, isso foi uma coisa também que vai ficar pra sempre no meu coração. Então, uma coisa que eu aprendi foi que ser humano é feito da mesma coisa, independente se ele tem o que comer ou não. A gente quer amor, a gente quer se sentir amado, se sentir acolhido, então era o que me dava força, quando eu via que tava chegando a hora deles voltarem da escola e se eu não tinha preparado nenhuma atividade, eu ficava só lá abraçando e beijando eles. Abraçando e beijando, abraçando e beijando, que pra eles aquilo era, e pra mim também era muito bom, claro (Entrevistada 5). O Quadro 16 indica os trechos das entrevistas ligados à categoria Intimidade/Relacionamento. Notou-se que tal categoria esteve presente em seis das nove entrevistas, o que indica que as pessoas valorizaram este aspecto durante a viagem. Quadro 16: Citações relacionadas à categoria Intimidade / Relacionamento (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 1 Eu acho que o que mais mexe comigo é o fator humano: conhecer outras pessoas, outros costumes, outra forma de ver a vida. Quando eu viajo, o meu olhar é pra isso, pra essas questões mais humanas e mais sociais. Entrevistada 2 Eu acho que sentimentos, principalmente, porque eu acho que o que mais me marcou foi ver pessoas que nunca tinha me visto na vida, depois ali de questões de dias me acolheram numa maneira e me manteram perto delas. Porque como eu não conhecia ninguém, tinha momentos que tu sentia falta de chegar e ter alguém que tu conhece pra conversar qualquer coisa. E isso me surpreendeu muito! Eu ficava pensando: - Meu Deus, as pessoas... A própria mãe da família que eu morei ela me acolheu demais! Eu eu ficava pensando: - Cara, nunca me viu na vida! Abre as portas da casa pra eu morar e me acolhe como se eu fosse filha! Entrevistado 3 Acho que ela me deixou mais desenvolto pra interagir com pessoas em viagens, mas menos ansioso, ou alguma coisa assim. Entrevistada 5 A compreensão de que a gente é tudo igual, de que ser humano é ser humano, de que a gente tem a necessidade de amor. Uma coisa que eu fazia com eles, que me tocou muito foi que eles na hora de dar boa noite, eu comecei a beijá-los, porque eu fazia isso na minha casa. Na minha casa todo mundo beija e tal, abraçar e beijar. E aquilo pra eles foi tão... assim! Eles não sabiam o que fazer, eles não tinham reação! Eles ficavam com os bracinhos pra baixo assim, com um olhar assim pra mim: - O que é que essa menina tá fazendo? O que é que essa mulher tá fazendo? E eles ficavam completamente sem reação nos primeiros dias. Aí, no segundo dia, na verdade, eles já fizeram fila pra ganhar beijo e abraço, aí quando eu tava dando beijo e abraço, eles voltavam pra fila, sabe? [risos] pra ganhar de novo e de novo. Assim, isso foi uma coisa também que vai ficar pra sempre no meu coração. Então, uma coisa que eu aprendi foi que ser humano é feito da mesma coisa, independente se ele tem o que comer ou não. A gente quer amor, a gente quer se sentir amado, se sentir acolhido, então era o que me dava força, quando eu via que tava chegando a hora deles voltarem da escola e se eu não tinha preparado nenhuma atividade, eu ficava só lá abraçando e beijando eles. Abraçando e beijando, abraçando e beijando, que pra eles aquilo era, e pra mim também era muito bom, claro. [...] 177 Quadro 16: Citações relacionadas à categoria Intimidade / Relacionamento (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 5 Tem um menino lá, o Leonard, ele foi abandonado pelos pais, então ele não tem família. Ele tem só os primos, que moram lá também. E esse menino, ele ficava completamente sem reação. Ele baixava a cabeça assim e não deixava eu beijar o rostinho dele, aí eu apertava ele, beijava ele, só que no final ele já vinha correndo pra me abraçar e me beijar, porque ele sabia que eu tava ali pra isso. Então você ver que... Tem um outro que se chama Thomas, que ele tem 6 anos e é autista, só que eles não sabiam que o Thomas era autista. Eles nem sabem o que é isso! Isso é uma doença nossa, do Ocidente! Eu nem sei se o Oriente tá preocupado com o autista, não tenho essa informação, mas enfim, a África também não tá... o Quênia, sei lá, as pessoas que moravam lá não sabiam o que era isso. Quando a gente falou que ele provavelmente era autista: - Ah! O que é que é isso? Aí a gente explicou, porque uma das voluntárias tem um irmão autista e ela soube reconhecer que ele era autista e foi até ela, uma argentina, ela que reconheceu e aí a gente começou a perceber e ela falando, eu comecei a ler umas coisas que ela me dava e falei: - Gente, é mesmo! Ele tem todos os traços. E ele também mudou completamente! No início ele não conversava, ele ficava o tempo todo assim, com a cabecinha baixa, mas eu e... teve uma portuguesa também, a argentina e uma francesa, a gente começou a dar beijo, beijo, beijo e elas se abriram, as crianças, elas se abriram, porque eu não sei se os outros voluntários faziam isso, porque elas não sabiam reagir a isso. Então isso mexeu muito comigo. Elas não queriam nada, elas não tavam preocupadas com brinquedo... Claro, que se você desse algum brinquedo elas iam brincar, elas destruíam os brinquedos, como todas as crianças, mas um beijo, um abraço, um carinho nelas, assim, nossa! Entrevistado 6 Eu acho que essa experiência no Camboja foi particularmente mais especial pra mim, porque você sempre interage com os locais, são sempre receptivos, mas acaba não sendo um contato muito íntimo, muito profundo. Primeiro pela língua, porque eles não falam inglês, então é um contato assim de gestos, de risos, mas o Camboja como eu fiquei... não fiquei um mês lá, fiquei uns 20 dias, eu pude ter um contato maior e que eu acho que me tocou bastante foi que tinha umas crianças lá bastante inteligentes, pelo menos duas, três, que eram assim muito inteligentes, pegava rápido as coisas, só que você via que elas não tinham oportunidade, por mais que elas se esforçassem, as chances dela mudar de vida, conseguir uma vida melhor, é muito pequena. Então, a viagem foi bem tocante pra mim. De ver essas crianças com grande potencial, só que eu, sinceramente, acho que vai ser muito difícil elas mudarem. Até quando eu saí de lá, eu saí pensando: - Ah! Eu quero voltar daqui a 10 anos pra ver como que vou encontrar essas crianças. Talvez elas nem vão lembrar de mim, mas eu queria ver como que daqui 10 anos como que elas vão estar, se elas vão conseguir algum progresso. Então isso foi bem... E aconteceu algo, quando eu tava saindo dessa vila, eu peguei um ônibus com os locais, lá e numa das paradas entrou uma criança, uma família, um casal, eu acho que a avó também, o pai com uma criança, uma menina talvez de uns 8 anos, 10 anos e eu não entendi qual que era o problema, ela tava com alguma dor na barriga, porque ela não mexia. O pai dela tava com ela no braço e ela não podia mexer. E durante a viagem, num ônibus bem precário, toda hora eles colocavam água na barriga dela, um pano molhado, eu não consegui entender o que é que seria a doença dela, o problema. Ela tinha uma cara assim, de sofrimento, só que ela não chorava, não imitia um som, mas olhava pro rosto dela, o sofrimento, assim... surreal, só que sem emitir, sem chorar, sem nada, sem reclamar, só como num poço de sofrimento e eles estavam indo, o ônibus parou em frente ao hospital pra eles levarem ela. Então isso aí também me tocou bastante. Que é essa questão de oportunidade, também. Não tem uma infraestrutura... Eu não sou uma pessoa, eu não faço amizade muito facilmente, eu não sou extrovertido, de chegar já fazendo amizade, mas nos primeiros dois meses, acho que eu não viajei 5 dias sozinho. Nesse primeiro dia mesmo que eu tava assustado e tudo, já cheguei, fui pra uma outra cidade, já encontrei, conheci duas meninas, a gente já fez um passeio juntos e hoje eu tava conversando com elas as meninas que eu converso, amigas, assim de viagem com quem eu mais converso até hoje, agora há pouco eu tava conversando com elas pelo whatsapp. [...] 178 Quadro 16: Citações relacionadas à categoria Intimidade / Relacionamento (conclusão) Entrevistado Citações Entrevistado 6 [...] Eu acho que em questão de mudança, eu acho que é principalmente a cultura dos lugares que eu fui, das pessoas, o convívio com as pessoas nativas, em questão de beleza natural, de história, isso não influenciou tanto pra mudanças minhas, mas esse contato com as pessoas e às vezes nem só locais, viajantes mesmo. Entrevistado 8 Então é diferente. Eu fiquei bastante contente com isso, porque, querendo ou não essa experiência... eu tava lá pra estudar, com um foco específico, mas, essa rede de amizade que eu construí é uma coisa subjetiva. Teve gente que foi e que não conseguiu construir isso. Entrevistado 9 Me sinto mais à vontade pra conversar e pra me abrir, porque quando tu tá em viagem, tu tá sempre conversando com pessoas diferentes, principalmente eu, porque a maioria das viagens eu fiz sozinho. La no hostel, eu não aguento ficar quieto e preciso conversar com alguém, daí tu puxa papo com alguém que tu nem fala o idioma direito, enfim. Eu acho que eu tô mais aberto ao diálogo, à conversa, sei lá. Algo desse tipo. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 5.1.1.6 Autenticidade e Espontaneidade A categoria Autenticidade e Espontaneidade diz respeito a ser quem verdadeiramente se é; agir de acordo com o verdadeiro “eu” e em conformidade com os próprios valores, necessidades e convicções; apresentar-se de forma que reflita a própria essência e relacionar-se de maneira honesta e verdadeira com as outras pessoas. Verificou-se que a categoria esteve presente em quatro entrevistas. O entrevistado 3 afirmou que se sentiu mais vivo durante sua viagem. Conseguiu vivenciar o presente com plenitude e se descolar de vícios sociais. A entrevistada 4 relatou sentimento similar ao afirmar que sentiu que poderia ser ela própria. A entrevistada justificou esse seu sentimento com o fato de que, na viagem, ela estava em um lugar completamente diferente do seu local de origem e não havia ninguém a observando ou se importando com o que ela fazia. No relato da entrevistada 4 fica evidente o caráter liminar do espaço turístico, propiciando sentimentos de liberdade e espontaneidade, o que possibilitou à entrevistada o agir de acordo com a própria essência, seu eu verdadeiro. Isso é ainda mais destacado no relato do entrevistado 6, que afirma ter se sentido mais espontâneo, devido ao fato de estar longe das pessoas de seu contexto social e da desobrigação de cumprir os papéis sociais que geralmente cumpre em sua vida cotidiana: “Então eu acho que viajando, você tem mais oportunidade, você não tem que cumprir um papel de “Ah! O engenheiro da empresa tal, o pai de família [...] Você não tem o papel na [...] seu papel é você, você não tem que dar satisfação” (Entrevistado 6). O entrevistado 9 tem pensamento parecido ao entrevistado 6 e acredita que durante a viagem teve a oportunidade de ser mais espontâneo em sua forma de ser, já que, em suas palavras, não precisou seguir um “roteiro social”. 179 O Quadro 17 mostra as citações das entrevistas que apresentam relação com a categoria Autenticidade e Espontaneidade. Quadro 17: Citações relacionadas à categoria Autenticidade e Espontaneidade Entrevistado Citações Entrevistado 3 Acho que eu me senti vivo. Uma coisa de você vivenciar o presente, de plenitude, ao mesmo tempo um pouco... Não sei se é perplexo a palavra, mas seria uma coisa meio, como eu não domino o assunto, não sei o que é que tá acontecendo, não sei quem são essas pessoas. Você fica mais com os olhos abertos que com a boca. Você quer entender mais, você não sabe o que tá acontecendo, você fica meio... putz! Que difícil qualificar essa experiência, esse sentimento. Acho que é perplexo, não sei. Eu acho que a viagem dá essa oportunidade mesmo de você descolar de vícios sociais, que seria essa coisa da experiência nova, do lugar novo, onde você não domina coisas, então gesticula... Entrevistada 4 O fato de ninguém tá nem aí pra você. Você pode andar pelado na rua que ninguém olha pra você. Mas eu não senti que eu era invisível. Eu senti que eu podia ser eu. E as pessoas não ligavam pra isso. Podia ser quem eu era e as pessoas não ligavam pra isso. Esse é o ponto. Acho que esse é o ponto. Não sei se de transformação, mas é o ponto que é um ponto diferencial da viagem. Acho que eu diminuí o autocontrole. O autocontrole de autoimposição, de ter que ser daquele jeito, que as caixinhas querem colocar. Eu me permiti ser mais fora da caixinha mesmo. A caixinha fala que é isso, mas eu acho que é isso, a minha caixinha é isso aqui. Então eu vou ficar na minha caixinha. O mundo tá falando que é isso aí, mas eu acho que é isso, então eu vou focar nisso. Então eu acho que isso contribuiu que eu liberasse, libertasse um pouco dessa... Entrevistado 6 Não tinha reserva, nada, não tinha ninguém me esperando na outra cidade. Então assim, completamente espontâneo, completamente sem depender de ninguém. Então eu acho que viajando, você tem mais oportunidade, você não tem que cumprir um papel de “Ah! O engenheiro da empresa tal, o pai de família...” Você não tem o papel na... seu papel é você, você não tem que dar satisfação. Claro, você não vai fazer... tem que respeitar o próximo mesmo, mas não tem que dar satisfação a ninguém. Cumprir expectativa de ninguém. Só você. Entrevistado 9 Eu acho que a gente vive pelo outro. Eu vou só, pra encurtar, a gente vive mesmo pelo outro, e é nessas oportunidades que realmente a gente pode ser mais espontâneo. Eu tô dizendo por mim. Fui muito mais espontâneo quando tive essa oportunidade tanto no meu dia a dia, na minha forma de ser, na minha forma de conversar. Enfim. Eu acho que é regido por um roteiro social. Eu acho que as coisas acontecem assim. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 5.1.1.7 Autonomia A categoria Autonomia representa a capacidade de pensar e agir de forma independente, de ter ideias e convicções próprias, mesmo que vão contra o “dogma” aceito ou a sabedoria convencional (HIDALGO et al., 2010). Várias abordagens teóricas destacam qualidades relacionadas à autonomia como componente do funcionamento humano ótimo (RYFF; SINGER, 2008, 1996). Maslow (1993) destaca que indivíduos com elevados níveis de autorrealização podem ser descritos como autônomos e resistentes a processos de aculturação. Por sua vez, Rogers (2009) afirma que a pessoa plenamente funcional possui o locus interno de avaliação, guiando-se apenas por meio de seus próprios padrões pessoais, não necessitando da aprovação de terceiros para tomar decisões e agir. No processo de individuação descrito por 180 Jung, a pessoa vivencia a “libertação da convenção”, na qual já não mais pertence às crenças coletivas, aos medos e às leis das massas (RYFF; SINGER, 2008). Desde a infância as pessoas manifestam tendências intrínsecas que as levam a se interessar, a querer aprender e adquirir domínio em relação ao seu mundo externo e ao seu próprio mundo interior (RYAN; DECI, 2017, 2000; DECI; RYAN, 1985). Ryan e Deci (2017) explicam a autonomia como a necessidade de autorregulação das experiências e ações da pessoa, ou seja, a autonomia seria uma forma de funcionamento associada ao sentimento volitivo, congruente e integrado. Para Ryan e Deci (2017), o que caracteriza a autonomia são os comportamentos autoendossados da pessoa, congruentes com seus interesses e valores autênticos. Ao agir com autonomia, os comportamentos são engajados, enquanto que ações contrárias à própria vontade suscitam incongruência e conflito. As entrevistas indicaram a ocorrência da categoria Autonomia nas experiências de viagem consideradas significativas ou transformadoras pelos entrevistados, quando relataram que a viagem os transformou a partir do ganho do sentimento de maior autonomia e liberdade. A entrevistada 1 afirmou que uma das viagens mais marcantes em sua vida lhe transformara no sentido de lhe despertar o gosto pela liberdade e pela independência, concedendo-lhe mais autonomia. Da mesma forma, o intercâmbio da entrevistada 2 a transformara porque ela fez pela primeira vez muitas coisas que nunca havia feito na vida, ganhando mais autonomia e independência. Segundo ela, o seu jeito de reagir e interagir com o mundo mudou e ela já não se sente tão dependente dos pais após a viagem. O mesmo aconteceu com o entrevistado 8, que, antes de relatar sobre a viagem do seu doutorado sanduíche, referiu-se à sua primeira viagem de intercâmbio, quando ainda estava na graduação. Para esse entrevistado, sua primeira experiência de intercâmbio lhe proporcionou independência e amadurecimento: Foi muito bom, porque foi uma situação de mudança mesmo, de percepção, de confrontar com uma realidade diferente, sozinho e ter que me desvencilhar dos problemas que eu tive que enfrentar lá de certa maneira. Antes eu era muito dependente, de esperar, achar que as coisas poderiam vir de forma mais tranquilas, beneficiado pelos meus pais etc. Então era uma situação muito confortável pra mim. Minha família sempre me deu uma estrutura muito boa, em tudo, de educação e de acesso às coisas, mas não foi uma coisa que eu lutava para, entendeu? Era algo normal, ia de acordo com a corrente. Como eles não queriam que eu fosse, eu fiz mesmo assim e a partir do momento que eu ganhei e me vi em uma situação em que eu não dependeria deles 100%, eu tinha que ir e voltar de forma bem sucedida, não podia ir pra eles virarem pra mim e falarem: 181 - Eu avisei pra você não fazer. Então foi nesse sentido de amadurecer e falar: - Olha, então eu consigo me estruturar sozinho. E também de bater o pé, tipo: - Eu quero isso e eu vou seguir essa linha, ainda que tenha objeção por parte de quem quer que seja. (Entrevistado 8) O entrevistado 3 demonstrou o aspecto da autonomia na transformação feita pela viagem, quando declarou que, depois dela, perdeu o medo do mundo. Os entrevistados, de modo geral, sinalizaram que a viagem fez com que se sentissem mais independentes das pessoas, mais livres. O entrevistado 8 acredita que isso se dê porque, em sua perspectiva, toda vez que se vê sozinho em uma situação, ele tem que lidar consigo mesmo e aprender a lidar com suas emoções e sentimentos. O Quadro 18 apresenta as citações dos entrevistados que dizem respeito à categoria Autonomia. Quadro 18: Citações relacionadas à categoria Autonomia (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 1 O gosto pela liberdade. O gosto de ser solteira e fazer tudo que me dá na telha, não precisar tanto de dar satisfação a outra pessoa dos meus passos. Eu me senti muito livre, muito independente, muito senhora de mim. Entrevistada 2 Me transformou porque eu fiz muita coisa pela primeira vez num lugar totalmente diferente e me transformou assim de uma maneira que eu cresci tipo Juscelino Kubistchek: 50 anos em 5 (risos). Foi 1 ano que eu cresci demais! Eu voltei quase 100% independente. Eu vejo essa diferença com a minha irmã, que eu tenho uma irmã mais velha e tem coisas que ela não faz até hoje que eu faço e vou e me viro e ela não. Desde... eu lembro assim que antes eu não ia no mercado sozinha, então eu não tinha ideia de como comprar as coisas, quanto tempo as coisas duravam, que quantidade ia precisar... E vencer medos também. Acabei perdendo o medo de me perder no transporte público. Eu lembro que eu sempre que me perdia porque... tudo lá é ou metrô ou ônibus, então assim, é muito fácil de ser perder nas linhas. Acho que muda o nosso jeito de viver. Jeito de olhar pra muita coisa, jeito de olhar pro diferente, a tua criatividade muda, porque a gente passa por uns perrengues afora e tu tem que ser criativo, ousado. O teu jeito de reagir, de ir pra um problema muda. Então muda o jeito de viver num todo. Você passa a se virar na vida de um jeito muito mais leve. Pelo menos comigo foi assim. Independência. Hoje em dia só dependo ainda dos meus pais, vamos dizer assim, financeiramente um pouco, porque eu ganho um pouco de dinheiro também desses bicos aí que eu faço, mas também, fazendo universidade é eles que pagam. Então te dá muita independência. 182 Quadro 18: Citações relacionadas à categoria Autonomia (conclusão) Entrevistado Citações Entrevistado 3 Eu acho que ela me ajudou a não ter tanto medo do mundo, a ver, talvez, o mundo não como uma... não que o mundo se tornou menor, mas parece que se tornou mais fácil andar pelo mundo. Existem muitos lugares que eu quero conhecer, e tal, mas me deu uma segurança pra ver que as coisas podem dar certo, de que existem pessoas que podem te ajudar no caminho. Acho que ela me deu mais segurança pra ir sozinho em destinos que eu não conheço e também nesse momento que eu passei 4 dias sozinho, eu acabei escolhendo Praga e Budapeste e Budapeste é assim, tirando o hostel onde você fica, mais ninguém fala inglês naquela cidade e é muito interessante você passar por essa experiência que não te entende. Então, sei lá, você acaba ficando mais seguro. É uma sensação de confiança, que você é capaz de solucionar as coisas. Então eu acho que essa confiança, essa desenvoltura de falar com as pessoas. Entrevistada 4 Eu acho que é essa sensação de liberdade mesmo, tipo assim, eu tinha hora pra ir pra escola, mas eu não tinha hora pra acordar direito e a escola era mais tarde, eu me acordava mais tarde. Ninguém me conhecia. Eu saia do jeito que eu queria na rua. Claro que não, eu não saia tão desleixada, né? Mas eu saía tipo assim, não tava muito preocupada como que eu me arrumava pra ir pro trabalho. Eu não tava muito preocupada também se eu tava falando inglês bem ou mal igual eu ficava preocupada na escola, que eu ficava estudando. Autonomia, independência. Eu não vou falar que há benefícios com a língua. Foi um pouco, mas eu descobri que é difícil ser turista e estudante ao mesmo tempo. Então eu não estudava. Eu estudava na escola. Não estudava mais em casa. Você acha que eu ficar estudando enquanto eu podia ficar ao lado do Big Ben? Ficar estudando em casa? Não ia ficar estudando. Nunca! De nenhum, eu estudei em casa. Entrevistado 6 Eu acho que isso ainda é um pouco altos e baixos, mas de ser mais independente das pessoas. Não só das pessoas, mas nas coisas que eu não tenho controle, como por exemplo, vamos dizer essa questão do meu namoro, com minha ex namorada, foi algo que hoje eu não tenho muito o que fazer sobre isso. Se ela não quiser voltar comigo, eu não vou mudar a cabeça dela, não tá sobre meu alcance mudar a cabeça dela, então eu tenho que... que eles falam “let’s go”? Tem que deixar, é um pouco até, já vi isso na cultura budista. Tem algumas coisas que a gente tem que deixar. Entrevistado 8 Antes eu era muito dependente, de esperar, achar que as coisas poderiam vir de forma mais tranquilas, beneficiado pelos meus pais etc. Então era uma situação muito confortável pra mim. Minha família sempre me deu uma estrutura muito boa, em tudo, de educação e de acesso às coisas, mas não foi uma coisa que eu lutava para, entendeu? Era algo normal, ia de acordo com a corrente. Como eles não queriam que eu fosse, eu fiz mesmo assim e a partir do momento que eu ganhei e me vi em uma situação em que eu não dependeria deles 100%, eu tinha que ir e voltar de forma bem sucedida, não podia ir pra eles virarem pra mim e falarem: - Eu avisei pra você não fazer. Então foi nesse sentido de amadurecer e falar: - Olha, então eu consigo me estruturar sozinho. E também de bater o pé, tipo: - Eu quero isso e eu vou seguir essa linha, ainda que tenha objeção por parte de quem quer que seja. Eu acho que toda vez que você se ver numa situação que você tá sozinho, você tem que lidar consigo mesmo, porque você não tem nenhuma coisa que te atraia a atenção. É questão de saber de temperamento, de controle, da sua montanha russa de emoções e sentimentos. Eu acho que foi um tempo bom pra aprender a lidar comigo e uma forma de lidar com o outro também, favorecendo nesse sentindo, de respeitar o espaço do outro. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 183 5.1.1.8 Competência A categoria Competência diz respeito ao sentimento de que se é capaz de realizar alguma atividade ou empreendimento (RYAN; DECI, 2017, 2000; RYAN et al., 2006; DECI; RYAN, 1985; PETERSON; SELIGMAN, 2004; ERIKSON, 1998, 1976, 1972). Uma premissa fundamental da teoria de Erik Erikson é de que o desenvolvimento da identidade do ego é impulsionado pela predisposição inata aos seres humanos para ganhar competência ao interagirem com seus ambientes sociais (CÔTÉ; LEVINE, 2002). Uma segunda premissa de Erikson afirma que os processos mentais que constituem o ego são moldados no início da vida a partir dos desafios resultantes da necessidade universal de dominar a discrepância entre as necessidades fisiológicas e os obstáculos sociais associados ao atendimento dessas necessidades (CÔTÉ; LEVINE, 2002). Nesse sentido, o ego está sendo sempre desafiado em relação às tarefas de competência específicas de cada estágio do ciclo de vida. Sem desafios para resolver, o ego se torna estruturado de forma a produzir respostas passivas e fracas às demandas subsequentes (CÔTÉ; LEVINE, 2002). A categoria Competência também se encaixa na dimensão domínio ambiental de Ryff e Singer (2003), definida como a capacidade de escolher ou criar e sustentar ambientes adequados às suas condições psíquicas (RYFF; SINGER, 2003; RYFF, 1989). Segundo os autores, abordagens ao desenvolvimento também enfatizam a importância da capacidade de domínio ambiental, de manipular e controlar ambientes complexos, particularmente na meia- idade, e de como essa capacidade pode fazer diferença no mundo, quando o indivíduo transforma seu ambiente de maneira criativa, atuando positiva e proativamente no mundo por meio de atividades mentais e físicas e, com isso, contribuindo para o avanço e melhoria da sociedade (RYFF; SINGER, 2008, 1996; RYFF, 1989). Ryff e Singer (2008) lembram que Allport inclui a capacidade de expansão do eu como critério para a maturidade, quando o indivíduo se sente exigido a participar de esferas de empreendimento significativas que vão além da própria pessoa. A categoria Competência foi verificada nos discursos de 4 entrevistados, apresentando-se de duas formas diferentes. De maneira mais direta, a categoria competência apareceu no discurso dos entrevistados 3 e 8, cujas viagens se referiam às respectivas experiências de intercâmbio acadêmico, logo, relacionadas à própria formação profissional e acadêmica. O entrevistado 3 afirmou que o que vivenciara na viagem fora uma espécie de embrião para que o interesse em fazer o mestrado lhe fosse despertado. Já o entrevistado 8 184 relatou que a viagem contribuíra muito para formular melhor o problema que estava pesquisando em seu doutorado e para o exercício da sua profissão de professor e pesquisador. Uma segunda forma com que a categoria Competência se fez perceber em duas entrevistas (entrevistadas 1 e 4) diz respeito à realização da própria viagem, entendida como um desafio que fora suplantado com coragem e senso de propósito, de que era algo que deveria ser realizado, apesar das restrições e dificuldades. Uma consequência dessa “segunda forma” da categoria competência para as duas entrevistadas foi o sentimento de confiança em si própria. A entrevistada 1 comentou o quanto a viagem a fizera acreditar mais na sua capacidade de realização, enquanto a entrevistada 4 falou que a viagem lhe acrescentara mais confiança. Ambas as entrevistadas foram enfáticas no uso do verbo “poder”, transmitindo o sentimento de empoderamento, ser capaz, poder realizar, executar, fazer. A entrevistada 4 ainda relatou que um dos objetivos de sua viagem era ganhar mais confiança com a língua inglesa e que, para isso, segundo ela, tinha que viajar sozinha. A viagem acabou lhe proporcionando mais segurança no uso da língua inglesa. O Quadro 19 indica as citações ligadas à categoria Competência: Quadro 19: Citações relacionadas à categoria Competência Entrevistado Citações Entrevistada 1 É aquela coisa que eu te falei de acreditar em mim. Eu quero, eu posso, talvez eu não pudesse tanto, mas eu consigo. Isso pra mim foi fantástico, porque... Naquela época eu tava com a minha bolsa de pesquisa, mas não é essas coisas pra fazer uma viagem, mas eu consegui comprar minha passagem, em 10 vezes, mas consegui, e aí tenho uns amigos que são essenciais na minha vida que me ajudaram... Eu acho que essa questão de querer conseguir uma coisa, focar naquilo. Eu vou pra esse evento, eu quero participar disso, eu quero ser uma historiadora da religião, que foi o Encontro da Associação Brasileira de Historiadores da Religião e da minha turma eu era a única que pesquisava a história da religião. Então isso pra mim foi... E tanto que quando eu volto, eu volto com todas as novidades, com todos os livros que eu comprei. Autores que eu não conhecia que passei a conhecer. Inclusive autores mineiros que pesquisam sobre o meu tema e volto também com aquela sensação de que Minas Gerais, de uma maneira geral, é uma possibilidade de local de trabalho. Até pela área que eu pesquiso. Eu acho que é isso. Entrevistado 3 Esse tipo de coisa é que vai te abastecendo e vendo que você é capaz de fazer outras coisas que você não sabia que você era capaz. Mas talvez não tenha sido a faísca pra lá no futuro talvez tenha se transformado em alguma faísca no mestrado fora que é o que eu tô vivendo hoje. Entrevistada 4 Me acrescentou confiança. Saber que eu posso muita coisa. Muito mais que eu imaginava. Me acrescentou uma vontade muito maior ainda de ver o mundo. Tudo! Pra falar a verdade, a minha expectativa maior, eu queria ir sozinha porque eu queria falar inglês sozinha. Eu não tinha tanto essa dimensão desse ganho de autoconfiança e etc. Eu queria ganhar autoconfiança com a língua, e queria conhecer os lugares, mas aí essas outras coisas foram vindo. Entrevistado 8 E lá, estando em Portugal eu consegui viajar outros países e perceber coisas daquilo que eu pesquisava e de como que isso, no tocante à questão de edificação propriamente, em questão de planejamento urbano etc, tava muito mais avançado na Europa, de certa maneira, do que as coisas que a gente vivencia aqui que seria uma forma incipiente daquilo que eu estudo. Então eu acho que foi essa a diferença. Não sei se é isso, mas primeiro ao exercício da minha profissão de tentar ser mais próximo e de estender a mão pras pessoas da forma como me estenderam no meu processo de doutoramento e tentar fazer isso com os meus alunos, de estimular, de tentar ver a perspectiva, o ponto de vista do profissional. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 185 5.1.1.9 Empatia A categoria Empatia significa a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, tentando entender sua perspectiva da situação (BESTROM, 2009; RYFF; SINGER, 2008, 2003, 1996; KOTTLER, 2002, 1998; RYFF, 1989). A categoria foi mencionada em cinco das nove entrevistas realizadas, o que pode sugerir que a empatia é uma característica que pode ser adquirida a partir de uma experiência significativa de viagem. Os entrevistados demonstraram que, a partir do contato com a realidade dos lugares os quais visitaram e/ou viveram por um tempo, desenvolveram mais empatia para com o próximo. A entrevistada 2 afirmou que, com a experiência vivenciada na viagem, passou a observar mais o que é diferente, sem julgar, mas buscando entender melhor. A entrevistada 5 afirmou que, na sua viagem, desenvolveu mais empatia e amor pelo próximo ao acolher as crianças na África e observar a realidade delas. Em seu depoimento também é possível inferir o desenvolvimento da tolerância, que será abordada na próxima subseção. O entrevistado 6, que também fez trabalho voluntário, desenvolveu a empatia convivendo com a realidade das crianças para quem lecionava inglês em uma organização social não governamental no Camboja. Para ele, essa experiência fora gratificante. A entrevistada 7 ficou sensibilizada com a situação de miséria e pobreza de grande parte da população mexicana. Surpreendentemente, seu vislumbre acerca da realidade social dos povos mexicanos descendentes dos Maias se deu em uma viagem de férias com sua família para um resort em Cancún. O fato de a entrevistada estar usufruindo de um espaço suntuoso em um ambiente que não lhe pertencia e, ainda, cercada de miséria e injustiça social exatamente com os verdadeiros donos daquelas terras foi-lhe de tal forma incômodo, que ela chegou a admitir que se sentiu envergonhada. A entrevistada falou que sentiu uma enorme empatia pela situação daquele povo, a qual acredita não ser muito diferente da realidade brasileira, e afirmou sua vontade em voltar para fazer alguma coisa por aquele povo no México: É estranho, porque a gente... Eu senti, sinceramente um pouco de vergonha, porque eu pensei tipo assim: como eu tenho coragem de pagar essa fortuna que eu tô pagando nessa viagem, que é uma coisa completamente supérflua, não, eu não precisava dessa viagem pra viver, enquanto tem gente sofrendo do lado do meu resort, porque, se eu tirar 20 dólares aqui e der pras pessoas, vai fazer uma diferença incrível na vida delas. Vinte dólares pra mim naquele lugar é um drink que eu ia tomar, então, tipo, era uma coisa que foi vergonhosa mesmo, porque você sente uma coisa: - Ai, meu Deus! Eu quero ajudar esse pessoal! 186 Mas ao mesmo tempo você não sabe como e quase você também não quer, porque no fundo do coração você não quer abrir mão de uma viagem pra Cancún, pegar esse dinheiro e doar pras pessoas. Você quer fazer alguma coisa, mas... Eu tenho vergonha por causa disso, porque era muito fácil eu pegar e falar: - Não, dá na nossa próxima viagem. A gente não vai fazer, a gente vai doar pra alguém que precisa. E eu não fiz isso. Entende? O Quadro 20 indica as citações ligadas à categoria Empatia: Quadro 20: Citações relacionadas à categoria Empatia (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 2 Eu não tenho como escolher a que mais marcou, mas eu lembro desse sentimento até hoje, o quanto me marcou ou o acolhimento das pessoas comigo. Não só a brasileiros, mas pessoas também da minha Hostel Family, a própria escola... Essa facilidade que existe quando você ver tantos na mesma situação que você. Então vamos se juntar e a gente... vamo um ajudar o outro. E como eu presenciei muitas coisas diferentes nessa viagem, isso é uma das características que eu percebo e que eu acho que vai ficar pra sempre. Eu encontro o diferente mas eu fico por um olhar, assim, de que tá observando o diferente e não de quem tá julgando, tentando entender como isso acontece, isso é impossível. Eu completamente entendo as coisas que as pessoas fazem diferente de mim. Tanto as pequenas quanto as grandes diferenças culturais que existem, quanto as menores de questão de costumes, assim, do dia a dia. Então eu acho que isso vai ser permanente em mim. Que foi pela viagem. Entrevistada 5 Foi muito inesperado. Eu tava muito preocupada com o lance da estrutura física. Não preocupada, porque eu sempre acampei e eu sei que eu dou conta, mas eu tava assim, numa expectativa de imaginar... - Gente, como será a vida do dia a dia dessas pessoas? Porque não tem fogão, não tem geladeira, é tudo feito na hora, assim, na fogueira e tal. Mas o que eu não imaginava era o afeto. Foi uma coisa que realmente eu não parei pra pensar. Eu não achei que eu ia... sabe? Que o amor faz tanta diferença? Eu não tinha essa percepção. Porque quando a gente ver aquelas fotos das crianças da África, você não tem assim, eu pelo menos não pensava em abraçá-las e beijá-las. Eu pensava em acolhê-las pra dar o que elas precisam, tipo comida, limpeza, higiene... mas não. Então isso mudou em mim, muito. Hoje eu vejo o ser humano, eu vejo ele de outra maneira. Eu vejo... Ser humano, a gente é tudo igual, sabe? Então isso mudou em mim. Inclusive as pessoas que que querem me fazer mal. Eu olho pra elas hoje de outra maneira, eu olho pensando assim: - Deixa eu explicar pra essa pessoa que a gente pode se dar bem. Deixa eu tentar pra ela que nosso coração é igualzinho, que a gente é igualzinho por dentro, que a nossa cultura, a nossa condição nos faz ser diferentes, nos faz querer agir de maneira diferente às vezes, nos faz ter manifestações diferentes, mas a gente é bom! O ser humano é bom, é puro! Ele é bom na sua natureza. É o meio que corrompe a gente, no sentido de que se você toma cuidado pra se tornar uma pessoa consciente, você vai descobrir o amor dentro de você, você vai ser bom! Não tem como! Se você descobre a pureza disso, você não consegue ser mau. Então isso mexeu muito comigo, essa experiência de ser passada pra trás por causa da minha cor. É muito louco! A discriminação pela cor foi uma coisa que... porque você não tem como fingir que não é você. Tá exposto, é sua pele, não tem como você esconder sua pele. Então eu senti... é claro que não chega nem perto do que os negros passam no Brasil, isso me machucou muito quando eu pensei nisso. - Gente, eu tô aqui há 3 meses e mesmo assim eu não passei isso a vida inteira, né? 187 Quadro 20: Citações relacionadas à categoria Empatia (conclusão) Entrevistado Citações Entrevistado 6 Foi bastante gratificante. Foi meu primeiro voluntário. Eu sempre quis fazer, mas sempre acaba arrumando uma desculpa pra não fazer: - Tá, não tenho tempo! - Eu trabalho, estudo... Foi como eu falei: foi bem difícil ficar lá a questão principalmente do calor, muito quente! Comida...? Comida até tranquilo. Mas, apesar de toda essa dificuldade foi muito gratificante, eu aprendi bastante com aquelas crianças lá, por causa dessa questão de ser feliz com o pouco que você tem, de dar valor às oportunidades que você tem, embora as crianças aproveitando essa oportunidade de ter aula de inglês, tando lá todo dia, elas não eram obrigadas irem na aula, ia quem quisesse e elas iam praticamente, a frequência era bastante alta. Entrevistada 7 É estranho, porque a gente... Eu senti, sinceramente um pouco de vergonha, porque eu pensei tipo assim: como eu tenho coragem de pagar essa fortuna que eu tô pagando nessa viagem, que é uma coisa completamente supérflua, não, eu não precisava dessa viagem pra viver, enquanto tem gente sofrendo do lado do meu resort, porque se eu tirar 20 dólares aqui e der pras pessoas, vai fazer uma diferença incrível na vida delas. Vinte dólares pra mim naquele lugar é um drink que eu ia tomar, então, tipo, era uma coisa que foi vergonhosa mesmo, porque você sente uma coisa: - Ai meu Deus! Eu quero ajudar esse pessoal! Mas ao mesmo tempo você não sabe como e quase você também não quer, porque no fundo do coração você não quer abrir mão de uma viagem pra Cancún, pegar esse dinheiro e doar pras pessoas. Você quer fazer alguma coisa, mas... Eu tenho vergonha por causa disso, porque era muito fácil eu pegar e falar: - Não, dá na nossa próxima viagem. A gente não vai fazer, a gente vai doar pra alguém que precisa. E eu não fiz isso. Entende? Então, o que eu diria que me mudou muito nessa viagem, foi que eu tava num mundo onde eu pagava 5 dólares, que eu achava barato numa garrafa de água de 200ml, sei lá, e eu passei numa vila onde tinha uma criança com o pai dele vendendo água de coco, eu acho que a água de coco era tipo 10 pesos mexicanos, que pra gente devia ser nem 50 centavos direito, sei lá. Eu não lembro o valor certo, mas era uma coisa absurda de barato quando você convertia a moeda. E o menino ele tava descalço na casa deles que era tipo assim quase que de pau a pique, super humilde, super simples, com nada e a gente comprou e depois meu irmão, o menino pediu a ela uma moeda e meu irmão deu a ele todas as moedas de peso que a gente tinha pra ele e ele olhou como se fosse uma fortuna e não chegava nem a 20 centavos pra gente. E você sair, porque a gente parou de carro ali nessa família. Acho que autoconhecimento, autocrítica e uma capacidade de empatia maior, porque eu como criança sempre fui uma criança muito... Meus pais sempre me deram tudo que eu precisava, depois há algum tempo eu aprendi, a vida me deu uma surpresinha pra mostrar que não era assim e eu acho que ainda não evolui totalmente nisso: de parar de pensar no eu. E essa foi uma das experiências que me mostrou que o eu às vezes nem é tão importante assim. Entrevistado 9 Eu acho que eu aprendi a observar as outras culturas de uma maneira não questionadora. Eu acho que eu exercitei um pouco a minha empatia também, nessa experiência. Eu acho que era esse o ponto que eu queria chegar, sabe? Eu também conversei com vários imigrantes lá, que é uma das questões que eu pesquiso. Então, eu acho que eu exercitei a empatia. Eu acho que nesse sentido. Não é nenhum benefício à alma do que eu quis dizer, a empatia, assim. Nenhum rito religioso, nada. É como meta pessoal ser mais empático, sabe? Nada como recompensa. Se é que me entende. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 188 5.1.1.10 Tolerância A categoria Tolerância corresponde à capacidade de aceitar as diferenças; saber conviver com pessoas que possuem ideias, crenças, modos de vida e valores diferentes dos da própria pessoa (BESTROM, 2009; KOTTLER, 2002, 1998). De uma maneira geral, praticamente todos os entrevistados demonstraram algum aspecto relacionado à tolerância desenvolvida em decorrência das experiências multiculturais de suas respectivas viagens, especialmente quando associavam essas experiências a uma mudança na maneira como passaram a perceber a própria vida, a si próprios e, como consequência, o outro. Muitos desses aspectos já foram abordados, por exemplo, na seção anterior sobre a categoria Empatia e na seção sobre Intimidade/Relacionamento. As categorias seguintes, Perspectiva ampliada, Abertura ao novo e Benevolência também integram a rede de sentimentos e percepções relacionadas ao desenvolvimento do atributo tolerância. Dos entrevistados, a entrevistada 2 foi mais direta ao tratar da tolerância, afirmando que, durante seu intercâmbio no Canadá, tivera que aprender a ser tolerante com as diferenças, uma vez que convivia diariamente com pessoas de diversas partes do mundo, com hábitos e costumes muito diferentes dos dela. Por sua vez, a entrevistada 5 falou de sua atitude em relação ao racismo, que, ela mesma não tinha problemas em relação à raça, inclusive tendo se relacionado com homens negros quando ainda estava no Brasil, mas que, durante seu tempo de trabalho voluntário no Quênia, sentiu na pele o verdadeiro significado da discriminação motivada pela raça ou, mais apropriadamente, pela cor da pele. Segundo a entrevistada, por causa de sua origem “branca”, ela sempre tinha que pagar um pouco mais pelos serviços que precisava consumir. Isso a levou a refletir sobre as razões de tal comportamento por parte dos locais, chegando a um entendimento das raízes históricas do colonialismo Europeu no Continente Africano, portanto, a “raiva inconsciente” daquele povo para com ela. Esse nível de compreensão acabou levando- a a uma dupla mudança de atitude: primeiramente, de ser ainda mais tolerante com o jeito com que era tratada, mas, num segundo momento, de tentar fazer com que aquelas pessoas também entendessem a própria situação. Em suas palavras: Eu pagava mais. Teve um dia lá que eu estourei, briguei, gritei numa van que eu tava, porque eles tavam tentando me levar pra um lugar que não era o meu destino e estavam mentindo pra mim só pra pegar meu dinheiro. Então nesse dia eu fiquei desesperada 189 mesmo e gritei com eles, depois me senti super mal e no dia seguinte aconteceu a mesma coisa e eu tive uma reação completamente diferente. Eu falei: - Gente, peraí, não faz isso comigo não. Vamos cuidar um do outro. Eu tô aqui pra cuidar de vocês. Cuida de mim. Eu tô aqui pra cuidar das suas crianças, das nossas crianças. Então vamos cuidar! Cuida de mim. Eu tô te pedindo. Eu tô aqui pra te ajudar, me ajuda também. Então isso mudou em mim, muito. Hoje eu vejo o ser humano, eu vejo ele de outra maneira. Eu vejo... Ser humano, a gente é tudo igual, sabe? Então isso mudou em mim. Inclusive as pessoas que que querem me fazer mal. Eu olho pra elas hoje de outra maneira, eu olho pensando assim: - Deixa eu explicar pra essa pessoa que a gente pode se dar bem. Deixa eu tentar pra ela que nosso coração é igualzinho, que a gente é igualzinho por dentro, que a nossa cultura, a nossa condição nos faz ser diferentes, nos faz querer agir de maneira diferente às vezes, nos faz ter manifestações diferentes, mas a gente é bom! O ser humano é bom, é puro! Ele é bom na sua natureza. É o meio que corrompe a gente, no sentido de que se você toma cuidado pra se tornar uma pessoa consciente, você vai descobrir o amor dentro de você, você vai ser bom! Não tem como! Se você descobre a pureza disso, você não consegue ser mau. Então isso mexeu muito comigo, essa experiência de ser passada pra trás por causa da minha cor. É muito louco! (Entrevistado 5) O quadro 21 a seguir mostra as passagens dos discursos dos entrevistados: Quadro 21: Citações relacionadas à categoria Tolerância (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 2 Então, nessa casa eu aprendi muito a tolerância com o diferente, porque eu lembro que o indiano ele acordava de madrugada pra fazer os rituais, orações e tal, e acordava a casa inteira! Até que um dia o dono, ele foi lá conversar com ele, que ele tinha que repensar, porque não era todo mundo que tava disposto a passar a madrugada com ele acordado cantarolando. Então a gente vai aprendendo assim. Aprendendo, a por mais que aquela comida te pareça horrível, tanto de gosto quanto de cheiro. Tem umas comidas muito fortes pra quem não tá acostumada, pra pessoa daquele país, daquela cultura, ele ama! Então eu não posso dizer que aquela comida é ruim. Coisas desse tipo. E eu acredito que a viagem, ela até ajuda nesse processo. Porque tu enxerga a coisa diferente, tu ver que nem todo mundo é igual, que tem culturas tão diferentes e que é possível a convivência. Entrevistada 5 O racismo. Eu não era racista no Brasil. Eu tive relacionamentos com negros, eu tive um namorado, mais de um negro, mas ainda assim isso tava dentro, de alguma maneira, no sentido que as pessoas ficavam reparando se você tava com um negro ou não, sabe? Aquilo de alguma maneira tava presente na minha vida. Por exemplo: quando eu ia apresentar meu namorado pra minha família, sabia que eu ia enfrentar um certo questionamento. Hoje se eu tiver que fazer isso, vou fazer de outra maneira, porque eu tive uma percepção lá de que a nossa percepção de negro no Brasil ela é tão restrita, no sentido... Ela é tão errônea, tão vagabunda. Isso mudou muito em mim. Eu não consigo mais ver uma pessoa negra ou uma pessoa branca, ou uma pessoa de outra raça. Que a gente que acha que é raça, né? Mas não é raça. Então isso eu senti que mudou em mim. Porque lá, eu era diferente. Lá eu era a que sofreu. Branco no Quênia sofre discriminação. Então, esse lance da pele é a primeira coisa que você vê no outro. [...] 190 Quadro 21: Citações relacionadas à categoria Tolerância (conclusão) Entrevistado Citações Entrevistada 5 [...] Você não conhece nada do outro, mas você olha pra cara dele, você sabe que ele não é igual a você, igual no sentido... uma aspas bem grande, porque foi o que eu senti lá. Eles me olhavam como se eu não igual a eles. Então eles exploravam financeiramente, supervalorizavam as coisas quando eram pra mim, tudo custa mais caro pro branco e eu tentava falar com eles: - Não gente, não faz isso. Com todo amor que eu tinha no coração eu falava: - Gente, não faz isso não. Tão propagando a discriminação. Não vamos fazer isso com o outro não, a gente é igual. [...] Eu pagava mais. Teve um dia lá que eu estourei, briguei, gritei numa van que eu tava, porque eles tavam tentando me levar pra um lugar que não era o meu destino e estavam mentindo pra mim só pra pegar meu dinheiro. Então nesse dia eu fiquei desesperada mesmo e gritei com eles, depois me senti super mal e no dia seguinte aconteceu a mesma coisa e eu tive uma reação completamente diferente. Eu falei: - Gente, peraí, não faz isso comigo não. Vamos cuidar um do outro. Eu tô aqui pra cuidar de vocês. Cuida de mim. Eu tô aqui pra cuidar das suas crianças, das nossas crianças. Então vamos cuidar! Cuida de mim. Eu tô te pedindo. Eu tô aqui pra te ajudar, me ajuda também. Então isso mudou em mim, muito. Hoje eu vejo o ser humano, eu vejo ele de outra maneira. Eu vejo... Ser humano, a gente é tudo igual, sabe? Então isso mudou em mim. Inclusive as pessoas que que querem me fazer mal. Eu olho pra elas hoje de outra maneira, eu olho pensando assim: - Deixa eu explicar pra essa pessoa que a gente pode se dar bem. Deixa eu tentar pra ela que nosso coração é igualzinho, que a gente é igualzinho por dentro, que a nossa cultura, a nossa condição nos faz ser diferentes, nos faz querer agir de maneira diferente às vezes, nos faz ter manifestações diferentes, mas a gente é bom! O ser humano é bom, é puro! Ele é bom na sua natureza. É o meio que corrompe a gente, no sentido de que se você toma cuidado pra se tornar uma pessoa consciente, você vai descobrir o amor dentro de você, você vai ser bom! Não tem como! Se você descobre a pureza disso, você não consegue ser mau. Então isso mexeu muito comigo, essa experiência de ser passada pra trás por causa da minha cor. É muito louco! Entrevistado 8 Não sei se é isso, mas primeiro ao exercício da minha profissão de tentar ser mais próximo e de estender a mão pras pessoas da forma como me estenderam no meu processo de doutoramento e tentar fazer isso com os meus alunos, de estimular, de tentar ver a perspectiva, o ponto de vista do profissional. É, é... talvez a palavra seja essa [humanizado]. Na perspectiva familiar, de valorizar relações boas e de transformar essas relações de uma forma de reciprocidade e esse foi aquele que não seja interessante, porque eu... não faz sentido perder tempo com isso. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 5.1.1.11 Perspectiva ampliada A categoria Perspectiva ampliada representa o senso desenvolvido de percepção que considera diferentes pontos de vista e entendimentos sobre um mesmo fenômeno, proporcionando uma compreensão mais lúcida acerca dos fatos da vida (BESTROM, 2009; PETERSON; SELIGMAN, 2004; ROBERSON, 1999; KOTTLER, 2002, 1998; MASLOW, 1959). Segundo Bestrom (2009), toda viagem se inicia com o distanciamento dos ciclos de atividades cotidianas e padrões de estilo de vida, rumo a algo novo, uma nova direção. “Este primeiro passo é composto de uma mudança fundamental, a representação do movimento de 191 um indivíduo do ambiente familiar e interações para uma existência transitória baseada em novas experiências, confusão e estranheza” (BESTROM, 2009, p. 200). Para a autora, esse “primeiro passo” da jornada representa o início de um processo que proporcionará ao viajante uma nova perspectiva, uma nova maneira de ver e entender o mundo. Kottler (2002) explica que, ao viajar e se expor à diversidade, a pessoas e lugares não familiares, o indivíduo pode ser levado a um processo de mudança de perspectiva, com impacto duradouro para a sua própria vida, mudando o curso do conhecimento, dos valores, das atitudes e do próprio comportamento. Kirillova, Lehto e Cai (2017, 2016a, 2016b; KIRILLOVA; LEHTO, 2015) sustentam que, no espaço liminal do ambiente turístico, o viajante é tomado pela admiração, pelo encantamento, pelo espanto e pela perplexidade evocados pelo ambiente estranho. Sujeitos a acontecimentos que podem disparar experiências extraordinárias e “de pico”, reflexões sobre a vida, sobre os próprios valores e crenças e sobre a sua forma de ser podem ser provocados, o que dá início a um processo progressivo de experiência de autenticidade existencial, na qual também se fazem presentes sentimentos negativos (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2016a, 2016b; KIRILLOVA; LEHTO, 2015; BROWN, 2013). A Perspectiva ampliada esteve presente em sete das nove entrevistas. Notou-se a presença de tal categoria no discurso, por exemplo, da entrevistada 1, que explicou que a viagem expande os horizontes e faz com que ela perceba outras formas de encarar a vida. A entrevistada 2, por sua vez, afirmou que a viagem transformou seu jeito de viver, isto é, ampliou sua percepção sobre o diferente e tornou-a mais criativa. Ela expressa isso quando menciona uma frase lembrada no momento, dita por sua mãe: “Quando a gente viaja, a gente percebe que, que nem diz minha mãe: o mundo virou pequenininho”. A entrevistada 7 também demonstrou que ampliou sua percepção quando afirmou que a viagem abrira seus olhos para uma realidade que ela ignorava antes da experiência. Por sua vez, o entrevistado 8 contou que pôde confrontar a sua realidade com uma outra durante o período da viagem, o que ampliou sua percepção e entendimento sobre o mundo. No Quadro 22 é possível verificar as citações relacionadas à categoria Perspectiva ampliada. 192 Quadro 22: Citações relacionadas à categoria Perspectiva ampliada (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 1 Você não expande e aí quando você sai, você vai pra uma cidade maior, eu adoro cidades grandes, aí você percebe que as pessoas têm outro comportamento, têm outra maneira de encarar a vida, se vestem diferente! As percepções elas acontecem instantaneamente. Você tá tendo contato com as coisas novas e vai se refazendo, vai pensando diferente: - Ah! Aquela forma que eu pensei não era tão assim, pode ser desse jeito. O que eu vivi em Belo Horizonte foi de um jeito, o que foi em Juiz de Fora foi outro, o que foi no Rio foi diferente. Mas aí em Belo Horizonte o que mudou foi a vontade de querer algo mais pra mim, mas não só pra mim. Obviamente pros meus filhos. Porque o que eu tenho aqui, eu acho que eu tenho muito pouco. É um pouco que eu acho que eu poderia ter mais se eu estivesse num local como Belo Horizonte. Entrevistada 2 Acho que muda o nosso jeito de viver. Jeito de olhar pra muita coisa, jeito de olhar pro diferente, a tua criatividade muda, porque a gente passa por uns perrengues afora e tu tem que ser criativo, ousado. O teu jeito de reagir, de ir pra um problema muda. Então muda o jeito de viver num todo. Você passa a se virar na vida de um jeito muito mais leve. Pelo menos comigo foi assim. Quando a gente viaja, a gente percebe que, que nem diz minha mãe: “o mundo virou pequenininho”. Entrevistado 3 A vivência de alguma coisa que não estava esperando, experimentar ou passar e que acabou me surpreendendo, eu tinha uma imagem na cabeça do que eu ia viver e o que viesse foi muito melhor, porque meio que surpreende a gente, porque nessa surpresa você acaba se deparando com o diferente, com aquilo que você não conhece, com sensações diferentes... Você conhece pessoas de outra realidade e consequentemente elas te passam um pouco da realidade delas pra você, o que acaba ampliando a sua noção de mundo, o que você conhecia como referência. Talvez não seja a referência, exatamente, não seja o único modelo, existem outros. Você só ver esses outros modelos, a questionar esses outros modelos, que podem ser interessantes também. Entrevistada 5 Olha, eu senti que o mundo tem umas realidades que a gente não faz ideia mesmo, né? De como essas pessoas sobrevivem? Como é que elas sorriem? Você não pode comparar, porque quando você compara, você põe o seu filtro e aí o seu filtro já tá totalmente deturpado pela sua realidade. Ele não é real, sabe? Porque a maior parte da população daquele país não vive da minha realidade. Então eu me sentia impotente demais! Muito impotente! Porque tudo que eu queria fazer, ela falava: - Mas não vai fazer nenhuma diferença. Isso é só um biscoito que eu quero dar. - Mas não vai mudar a vida delas. Ou escovar dente pra não perder os dentes. - Ah, mas que diferença faz se ele vai ter dente ou não?! Ele não sabe nem se tem comida! Entra religião, entra economia, política, entra tudo aí, porque a forma deles pensarem... O que é justiça pra você? A forma deles pensarem justiça é tipo queimar ladrão, então isso reflete na maneira como eles vão lidar com você. Claro que eles não vão te queimar, mas a forma como eles te julgam vem daí, vem da essência de justiça, vem da política, vem de como seu país tá sendo construído, como que a sua realidade tá sendo construída ali. Eu acho que isso foi determinante. Entrevistado 6 É igual eu comentei sobre questão de internalizar, questão do “let it go”. É a mesma coisa. Você sabe que você é uma pessoa num planeta de 7 bilhões pessoas, você não é nada, mas no seu dia a dia você não tem muito essa consciência, você não pensa muito isso, que você não é importante, que você não é nada, mas quando você viaja você descobre outros mundos, descobre outras pessoas, uma realidade bem mais difícil que a sua, uma realidade completamente diferente com outras ideias, outras percepções de mundo, outros conceitos, você realmente ver que você não é nada. É só mais um nesse 7 bilhões de pessoas. Você não é nada mais que esse tantinho de cada nada de pessoa no mundo que pode ser mesmo sendo nada pode fazer. Você não vai fazer uma diferença... tá, você pode fazer uma diferença no mundo, criar uma invenção que vai modificar o mundo, mas são pessoas excepcionais que não é a norma, mas mesmo fazendo um pouquinho de diferente, um pouquinho a mais, você consegue mudar a vida de uma pessoa, duas, uma família. Com muito pouca coisa você consegue fazer uma mudança que vai ser muito significativa pra outras pessoas. [...] 193 Quadro 22: Citações relacionadas à categoria Perspectiva ampliada (conclusão) Entrevistado Citações Entrevistado 6 [...] A primeira questão, assim, de visão de mundo, como agora, o último lugar que eu tava no Irã. Quando eu falei que ia pro Irã pros meus amigos, todo mundo: - Você é louco! O que é que você vai fazer no Irã? - O que é que você tá procurando lá? E assim, foi o país mais que eu fui mais bem recebido. Você não tem noção do pessoal de lá, o povo tipo, você fala que é brasileiro, então, os caras são apaixonados com brasileiro. Param na rua, em toda esquina, convida pra um chá, pra almoçar, é surreal! O contato com o pessoal foi surreal! Então, também no Sudeste asiático, eu não tinha ideia de como era, foi ter contato com os budistas, com um pouco de hindu, então é um aprendizado enorme, tipo... muitos países, igual Camboja, Myanmar, Laos, que eu antes não sabia nada da história, eu acabei conhecendo a história. Camboja é um país que sofreu muito até num passado bem recente, 20 anos atrás teve um genocídio lá, não sei se é considerado genocídio, mas 3 milhões de pessoas morreram num governo, então teve essa mudança de visão de mundo, de conhecer o mundo, sem conhecer pessoalmente, sem ser por terceiros, sem ser pela mídia, por ouvir dizer, pelo contato com as pessoas mesmo e segunda mudança interior, principalmente no Sudeste asiático, como que a nossa realidade é muito diferente da deles. Eu sou aí no Brasil de classe média, de classe média alta, sempre tive condição de vida boa, estudei em escola particular, nunca passei fome, nunca tive problema por falta de dinheiro, aí você vai pra um Camboja, pra um Laos, pra umas vilazinha, tipo a pessoa mora, toma banho de balde, não tem eletricidade, não tem saneamento básico, aquelas condições que tem no Brasil também, se você for pro interior do Nordeste você encontra a mesma coisa, só que eles têm toda essa dificuldade, mas tão sempre com um sorriso. Entrevistada 7 Ela abriu meus olhos pra uma realidade que eu ignorava e que eu não tenho quase direito de ignorar e principalmente porque eu tava num contexto, que é bem um contexto que eu vivo. Entrevistado 8 Foi muito bom, porque foi uma situação de mudança mesmo, de percepção, de confrontar com uma realidade diferente, sozinho e ter que me desvencilhar dos problemas que eu tive que enfrentar lá de certa maneira. Eu acho que a minha perspectiva de visão de espaço público e privado muda, de querer isso também. Porque que eu não posso ter isso aqui? Que inclusive é uma coisa que acontece agora depois que eu voltei, querendo ou não, a gente começa a perceber essas coisas de certa maneira, depois que você vivencia. Aí você ver gente agora indo pra Praça da Liberdade, então lá pra Praça do Papa pra fazer a mesma coisa, só que a qualidade disso é diferente. Você vai, mas você tem que ter o temor. Você não pode ficar ali, solto, livre, sem preocupar que pode vir alguém e te interromper nesse sentido. Então eu acho que o que me fez mudar era isso, de contestar essa realidade doentia que a gente vivencia e falar: - Precisa mudar. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 5.1.1.12 Benevolência A categoria Benevolência corresponde à capacidade de oferecer ajuda, cuidado e generosidade de forma espontânea e desinteressada; ter compaixão e amor altruísta (RYAN; MARTELA, 2016; SELIGMAN, 2011; PETERSON; SELIGMAN, 2004). Tal categoria esteve presente em quatro entrevistas no momento em que os entrevistados sinalizaram que as experiências turísticas os transformaram no sentido de se tornarem pessoas mais benevolentes e altruístas, de quererem ajudar mais as pessoas sem esperar nada em troca. Isso pode ser visto em quatro entrevistas. Este aspecto esteve presente no depoimento da entrevistada 5, cuja viagem mais marcante foi aquela em que viveu no Quênia 194 como voluntária ajudando crianças carentes. O contato com uma realidade difícil completamente diferente da dela despertou-lhe a benevolência, um desejo altruísta de cuidar daquelas crianças. O aspecto da benevolência também esteve presente no depoimento do entrevistado 6, que fez voluntariado no Camboja com crianças carentes. O entrevistado contou que o contato com a pobreza e a falta de perspectiva da realidade das crianças o modificaram e despertaram nele o sentimento altruísta de benevolência, tal como a entrevistada 5. Isso transformou-o, tornando-o uma pessoa mais solidária e que pretende fazer trabalho voluntário para ajudar outras comunidades. A situação difícil de pobreza e carência da maior parte da população do México, conforme já comentado, sensibilizou a entrevistada 7 que, apesar de não ter feito trabalho voluntário em sua viagem, teve o desejo aflorado de voltar ao país para ajudar de alguma forma a comunidade mexicana. Os trechos dos relatos descritos no quadro 23 evidenciam a presença de elementos da categoria Benevolência nas experiências de viagens dos entrevistados. Quadro 23: Citações relacionadas à categoria Benevolência (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 5 Então, por exemplo, no Quênia, a minha viagem pro Quênia foi uma viagem de voluntariado. Então, eu fui pra ficar 3 meses, morei 3 meses lá numa casa de crianças carentes e eu acho que foi a viagem mais transformadora, porque eu tive um contato com uma outra cultura completamente diferente da minha, com uma situação econômica completamente diferente da minha, necessidades básicas que eu nem pensava mais se seria um problema pra minha vida ter que comer mais hoje, porque eu não sei se vai ser a última refeição do dia, por exemplo. Então, a viagem pro Quênia foi a viagem mais transformadora que eu já fiz, assim, porque foi uma... foi ter contato de fato com a escassez, mas que na verdade você percebe depois que não é tão escassez assim, pelo menos foi a percepção que eu tive dessa viagem, sabe? O que mais me tocou, que eu consigo pensar agora foi, incialmente, eu achei que a parte difícil fosse a estrutura física e as condições de vida deles. - Ah! Será que eu vou dar conta de... - Como é que será o banheiro? - Como é que será a comida? - Será que eu vou dar conta disso? Mas quando eu comecei a me relacionar com as crianças, o mais difícil pra mim foi pensar se eu as veria no futuro. Foi pensar que eu as deixaria lá, voltaria pro meu mundo e elas permaneceria ali naquela situação, que eu sei que é a delas, que eu hoje eu compreendo que é a delas, mas isso me modificou muito, porque eu fui pensando muito em mim, no sentido de: - Ah! O que será que eu vou encontrar? E eu saí imaginando: - O que é que elas vão ser da vida? Essa experiência me mudou muito, mas eu não sei se o meu contato com elas mudou elas de alguma maneira, sabe? Eu acho que não. Então, isso me baqueou muito nas primeiras semanas, de falar: - Meu Deus! Eu vou embora daqui a 3 meses e eu não vou ver essas crianças mais. Será? Não sei se eu vou vê-las. Como vai ser a vida dessas crianças daqui pra frente? Eu sei que elas tão muito bem cuidadas por uma equipe, mas foi uma coisa que me machucou muito pensar que talvez não as veria novamente. [...] 195 Quadro 23: Citações relacionadas à categoria Benevolência (continua) Entrevistado Citações Entrevistada 5 [...] Olha, eu senti que o mundo tem umas realidades que a gente não faz ideia mesmo, né? De como essas pessoas sobrevivem? Como é que elas sorriem? Você não pode comparar, porque quando você compara, você põe o seu filtro e aí o seu filtro já tá totalmente deturpado pela sua realidade. Ele não é real, sabe? Porque a maior parte da população daquele país não vive da minha realidade. Então eu me sentia impotente demais! Muito impotente! Porque tudo que eu queria fazer, ela falava: - Mas não vai fazer nenhuma diferença. Isso é só um biscoito que eu quero dar. Mas não vai mudar a vida delas. Ou escovar dente pra não perder os dentes. - Ah, mas que diferença faz se ele vai ter dente ou não?! Ele não sabe nem se tem comida! Então, às vezes você quer mostrar o que é importante pra você a partir do seu ponto de vista obviamente, pela sua bagagem, mas isso é tão inútil lá, porque você tem que tentar pelo menos é o que eu senti lá, eu tinha que tentar ver o que ele precisava pra realidade dele e não pra me satisfazer. Igual a gente tava tentando ensiná-los a comer de garfo e faca. Pra quê?! Eles gostam de comer com a mão, eles não têm garfo e faca na casa deles. Então assim, não faz nenhum sentido usar guardanapo. Escovar dente? Não faz menor sentido. Eles não tão preocupados com a saúde bucal. Estão preocupados em comer! E ficar com o gosto do negócio na boca pra eles é bom, porque faz lembrar a experiência do alimento. Então é difícil! É muito difícil! Eu me sentia muito impotente! Muito impotente! Entrevistado 6 E do Camboja, especialmente eu fiz meu voluntário lá foi, eu dei aula pra umas crianças numa vila bem pequena, bem pobre. Não tinha eletricidade, a gente tomava banho de balde. Então, a viagem foi bem tocante pra mim. De ver essas crianças com grande potencial, só que eu, sinceramente, acho que vai ser muito difícil elas mudarem. Até quando eu saí de lá eu saí pensando: - Ah! Eu quero voltar daqui a 10 anos pra ver como que vou encontrar essas crianças. Foi bastante gratificante. Foi meu primeiro voluntário. Eu sempre quis fazer, mas sempre acaba arrumando uma desculpa pra não fazer: - Tá, não tenho tempo! - Eu trabalho, estudo... Foi como eu falei: foi bem difícil ficar lá a questão principalmente do calor, muito quente! Comida...? Comida até tranquilo. Mas, apesar de toda essa dificuldade foi muito gratificante, eu aprendi bastante com aquelas crianças lá, por causa dessa questão de ser feliz com o pouco que você tem, de dar valor às oportunidades que você tem, embora as crianças aproveitando essa oportunidade de ter aula de inglês, tando lá todo dia, elas não eram obrigadas irem na aula, ia quem quisesse e elas iam praticamente, a frequência era bastante alta. O que eu espero que eu leve pra essa minha vida a questão de ser mais solidário com o próximo num trabalho voluntário, que eu quero continuar fazendo trabalho voluntário, já tem alguma coisa pensando em como fazer. Eu não fiquei tempo suficiente lá pra fazer elas falarem inglês, mas é um programa. Depois de mim, outros voluntários foram. Nem sempre, mas quase sempre que pode fazer uma diferença pra elas. A questão que eu falei que elas não têm muitas oportunidades. O inglês é uma grande oportunidade pra elas em questão de turismo, porque não tem indústria, não é desenvolvido mas o turismo é o que pode fazer eles terem uma vida melhor. Então foi uma pequena ação que pode dar uma oportunidade pra eles mudarem de vida. Entrevistada 7 Mas é uma coisa que realmente tem que ligar o botão de ignorar mesmo, porque se for parar pra pensar... E foi uma coisa que eu trago até hoje, que se eu puder voltar lá no México eu pretendo fazer alguma coisa pra tentar ajudar de alguma forma, porque eles me deram um presente. O México foi um presente pra mim. É um lugar que eu amo muito, é uma cultura que eu gosto, é um lugar que eu fui muito feliz, bem recepcionada, mesmo por só uma semana e eu não sinto que o turismo devolve pras pessoas o que elas dão pra quem reside. É estranho, porque a gente... Eu senti, sinceramente um pouco de vergonha, porque eu pensei tipo assim: como eu tenho coragem de pagar essa fortuna que eu tô pagando nessa viagem, que é uma coisa completamente supérflua, não, eu não precisava dessa viagem pra viver, enquanto tem gente sofrendo do lado do meu resort, porque se eu tirar 20 dólares aqui e der pras pessoas, vai fazer uma diferença incrível na vida delas. [...] 196 Quadro 23: Citações relacionadas à categoria Benevolência (conclusão) Entrevistado Citações Entrevistada 7 [...]Vinte dólares pra mim naquele lugar é um drink que eu ia tomar, então, tipo, era uma coisa que foi vergonhosa mesmo, porque você sente uma coisa: - Ai meu Deus! Eu quero ajudar esse pessoal! Mas ao mesmo tempo você não sabe como e quase você também não quer, porque no fundo do coração você não quer abrir mão de uma viagem pra Cancun, pegar esse dinheiro e doar pras pessoas. Você quer fazer alguma coisa, mas... Eu tenho vergonha por causa disso, porque era muito fácil eu pegar e falar: - Não, dá na nossa próxima viagem. A gente não vai fazer, a gente vai doar pra alguém que precisa. E eu não fiz isso. Entende? Entrevistado 9 Foi essa sensação entre aspas “gostaria que outras pessoas sentissem essas possibilidades”, que sentissem, lógico, tem que tá lá. Fonte: Dados da pesquisa (2018) 5.1.1.13 Abertura ao novo A categoria Abertura ao novo corresponde à disposição para novas experiências; mente aberta a novas ideias, modos de vida e possibilidades (SELIGMAN, 2011; ROGERS, 2009; RYFF; SINGER, 2008, 2003, 1996; PETERSON; SELIGMAN, 2004; RYFF, 1989). A partir da análise das entrevistas, percebeu-se que a abertura ao novo está bastante relacionada à experiência turística. A entrevistada 1, por exemplo, afirmou que, sempre que volta de viagem para sua cidade, sente-se transformada, com novas ideias e planos, comentando que a viagem transforma a pessoa também no sentido de adotar alguns costumes e características dos locais por onde passa, como o “jeito do lugar” ou o sotaque dos moradores locais. O entrevistado 9 destacou um aspecto peculiar sobre a abertura a novas experiências, o fato de ele ser uma pessoa de uma cidade do interior e a viagem ter-lhe propiciado a expansão dos horizontes. Segundo o entrevistado, tal sensação proporcionou-lhe uma sensação de leveza e um desejo de conhecer novos lugares. O Quadro 24 indica os trechos das falas dos entrevistados que apresentam relação com a categoria Abertura ao novo. 197 Quadro 24: Citações relacionadas à categoria Abertura ao novo Entrevistado Citações Entrevistada 1 E aí fiz uma amizade e conheci outras pessoas também, outro universo, diferente do que eu vivo aqui. Eu sempre quando viajo, eu pareço que tomo um gás. Eu volto transformada, eu volto com novas ideias, novos sonhos, cheia de planos, com vontade de voltar... Quando eu passo, eu saio pegando um pouco do jeito, do lugar e termino adotando pra mim. Entrevistada 2 Depois fui morar numa casa que tinha 7, na realidade, morando na mesma casa, e aí a gente aprende muito assim, coisa do mundo inteiro, muita cultura, tu experimenta comida de tudo que é lugar, só que você tem que tá aberto pra isso. Você tem que estar disposto a correr riscos, vamos dizer assim, porque, assim como eu pude ir pra um lugar e dar tudo certo, podia ir e dar tudo errado, né? Meu sotaque é um bom exemplo. As pessoas meio que riam do meu sotaque. O sotaque gaúcho ele é bem pesado e eu perdi meu sotaque lá. Eu voltei falando igual os mineiros, sim! Muito igual aos mineiros, porque lá o português, quando eu falo o português era geralmente do mineiro e era uma coisa que eu falava pra minha mãe. Meus pais quando falavam comigo pelo Skype: - Meu Deus, você perdeu todo o seu sotaque gaúcho! Tá falando igual os mineiros! - Onde? Eu continuo com meu sotaque gaúcho! Porque eu não percebia. Isso foi uma das questões que eu não forcei, eu não queria deixar de ser gaúcha, porque riam do meu sotaque gaúcho, mas foi uma coisa que aconteceu. E quando eu voltei pro Rio Grande do Sul aí eu percebi o quanto meu sotaque tava mineiro. E eu acho que eu nunca mais voltei a ter um sotaque pesado que eu tinha. Entrevistada 5 Eu tava muito claramente consciente de que eu queria uma experiência pra minha vida. Eu vivi 35 anos na mesma casa em Belo Horizonte. Eu nasci naquela casa e ainda tava lá até essa ocasião. Então eu falei assim: - Eu quero ter mais experiência, eu quero conhecer outras culturas, eu quero conviver com gente diferente de mim, diferente da minha família, que tenham hábitos diferentes dos meus, que pense de maneira diferente, tenham verdades diferentes. Entrevistado 6 É igual eu comentei sobre questão de internalizar, questão do “let it go”. É a mesma coisa. Você sabe que você é uma pessoa num planeta de 7 bilhões pessoas, você não é nada, mas no seu dia a dia você não tem muito essa consciência, você não pensa muito isso, que você não é importante, que você não é nada, mas quando você viaja você descobre outros mundos, descobre outras pessoas, uma realidade bem mais difícil que a sua, uma realidade completamente diferente com outras ideias, outras percepções de mundo, outros conceitos, você realmente vê que você não é nada. É só mais um nesse 7 bilhões de pessoas. Entrevistado 9 Eu fui como acadêmico, né? Mas o ponto que mais me tocou foi essa abertura de possibilidades, de novas vivências. Essa sensação, essa leveza, essa vontade de sair por aí e ir pra outros lugares, mas não só pelo lugar, pelas pessoas. Eu acho que esse é o ponto, sim. Despertou pra uma... me despertou pra um novo olhar pras pessoas. Eu acho que esse foi um dos pontos. Fonte: Dados da pesquisa (2018) A fase qualitativa da pesquisa buscou compreender em profundidade como os viajantes se sentiram em suas respectivas experiências de viagem, quais emoções vivenciaram e quais reflexões fizeram sobre suas vidas e sobre si próprios, segundo as categorias de análise previamente localizadas na literatura, como também quais benefícios ou transformações pessoais foram percebidos como importantes para esses entrevistados e como foram incorporados em seu jeito de ser e de enxergar o mundo. Percebeu-se que, embora praticamente todas as categorias pudessem ter sido identificadas nos depoimentos dos entrevistados, elas diferiram em “níveis”, com alguns entrevistados apresentando maior profundidade na vivência de determinada característicia da experiência eudaimônica/transformadora. 198 Um ponto em comum entre os que apresentaram níveis mais profundos da experiência foi a presença de traços de ansiedade existencial. Os dois entrevistados que fizeram trabalho voluntário se encaixam neste perfil. Ambos demonstraram algum grau de desconforto com a vida que estavam levando, não se sentindo satisfeitos e não encontrando sentido para ela, apesar de estarem bem posicionados profissionalmente e financeiramente equilibrados. A ideia de viajar, de “autossequestrar-se” da vida cotidiana aparece como necessidade para esses dois entrevistados. 199 5.2 Pesquisa Quantitativa No período compreendido entre 25/05/2018 e 15/09/2018, 578 questionários válidos foram coletados. Desse total, 411 foram questionários físicos e 167 respostas provenientes da versão digital do questionário, hospedado na plataforma GooleDocs® e disponibilizado via redes sociais (Facebook® e WhatsApp®) e email. A abordagem do questionário físico se deu com a visita prévia a Instituições de Ensino Superior e a devida explicitação dos objetivos da investigação a dirigentes e coordenadores de curso, que autorizaram a aplicação do questionário junto aos alunos em horário de aula, com a presença do respectivo professor, também informado acerca dos objetivos da pesquisa. Em horários de aula previamente combinados, o pesquisador era apresentado às turmas, quando explicitava as razões da pesquisa e o critério de filtragem para a participação voluntária e sintetizava as instruções para resposta ao questionário. Questões éticas relacionadas à livre participação do respondente, da consciência quanto aos objetivos da pesquisa e da garantia do anonimato das respostas eram enfatizadas durante a explicação. Os professores também eram convidados a participar da pesquisa, o que quase sempre ocorreu. Pessoas do conhecimento pessoal do entrevistado também foram contactadas para participar da pesquisa, recebendo as mesmas informações quanto aos objetivos, livre participação, anonimato e instruções de resposta. O tempo mínimo de resposta ao inquérito, após a explicação do pesquisador, foi de 25 minutos, e o tempo máximo, de cerca de 45 minutos. Questionários incompletos ou com respostas notadamente pouco engajadas foram rejeitados. Os dados coletados por questionário físico foram tabulados em software estatístico (SPSS®). Os dados provenientes das respostas ao questionário on-line, registrados automaticamente na plataforma GoogleDocs®, foram transferidos para a mesma base de dados no SPSS®. Após tabulados, uma verificação de outliers univariados com o uso de boxplots foi empreendida com o objetivo de se localizar possíveis entradas de dados grosseiras, por erro de digitação. Tal estratégia permitiu a recuperação de 6 casos com algum valor absurdamente discrepante em uma ou mais variáveis. Ainda na fase preliminar de análise dos dados, 5 casos foram eliminados por apresentarem ausência de resposta em mais de 4 questões seguidas. Após a avaliação inicial, os dados foram submetidos a procedimentos de verificação de dados ausentes, outliers e normalidade. 200 5.2.1 Preparação dos dados Após tabulados, o exame para tratamento de dados ausentes (missing values) e discrepantes (outliers), como também para os diagnósticos de normalidade e linearidade são necessários em qualquer análise de dados que utilize algum método multivariado, como a modelagem de equações estruturais (HAIR et al., 2014b, 2005). Esta pesquisa seguiu tais procedimentos. 5.2.1.1 Diagnóstico e tratamento de dados ausentes Dependendo da extensão com que respostas a diferentes questões do instrumento de coleta não são fornecidas pelos respondentes, seja por recusa consciente, seja pelo não engajamento no processo de resposta ao inquérito, ou por mera desistência de completá-lo, dados ausentes podem prejudicar a análise estatística e viesar as conclusões do estudo. Dessa forma, uma avaliação acerca da extensão da incidência de eventual ausência de informação na matriz de dados e de possíveis tratamentos adequados a esses dados faltantes precisa ser conduzida, de modo a garantir maior eficiência no uso das técnicas analíticas multivariadas e viabilizar a explicação e compreensão dos fenômenos estudados (HAIR et al., 2014b; McKNIGHT et al., 2007; LITTLE; RUBIN, 2002; RUBIN, 1987). A análise dos dados referentes às variáveis correspondentes aos constructos estudados (203 variáveis) foi realizada e nenhuma dessas variáveis apresentou dados faltantes superiores a 5%. Na verdade, todas apresentaram dados ausentes inferiores a esse percentual. O teste MCAR de Little (χ² = 19782,346; 17712 g.l.; p < 0,001) indicou que os poucos dados ausentes não eram completamente aleatórios [MCAR – Missing Completely at Random], sugerindo que eles poderiam ser aleatórios [MAR – Missing at Random] ou não aleatórios [MNAR – Missing Not at Random]. Apesar do nome, MAR, os dados desse tipo não implicam que os valores perdidos são aleatórios em sentido estrito (SCHAFER, 1997). A condição de completa aleatoriedade dos dados ausentes só pode ser assumida para os dados MCAR, que são um caso especial de MAR (SCHAFER, 1997). O tipo MAR é menos restritivo que o MCAR (LITTLE; RUBIN, 2002), uma vez que requer apenas que “os valores ausentes se comportem como uma amostra aleatória de todos os valores dentro das subclasses definidas pelos dados observados” [...] (SCHAFER, 1997, p. 22). Ou seja, a probabilidade de que um dado esteja ausente depende dos dados 201 observados e não dos próprios dados ausentes (SCHAFER, 1999, 1997). Porém, conforme observam Hair et al. (2014b, p. 47): “Mesmo que o processo de dados perdidos seja aleatório na amostra, seus valores não são generalizáveis para a população. Na maioria das vezes, os dados estão faltando aleatoriamente dentro de subgrupos, mas diferem em níveis entre subgrupos. O pesquisador deve determinar os fatores que determinam os subgrupos e os níveis variáveis entre os grupos”. Não existe diagnóstico formal preciso para diferençar um padrão de dados ausentes MAR de um MNAR, tal como o teste MCAR de Little permite identificar se um padrão de dados ausentes é ou não completamente aleatório. A não ser quando se tem algum tipo de controle sobre o padrão de dados ausentes em uma investigação, a precisão do diagnóstico de um padrão MAR de dados omissos não pode ser garantida, exigindo inclusive verificação externa aos dados coletados (SCHAFER, 1997), algo improvável em um survey transversal, uma vez que não se tem acesso às fontes de resposta (respondentes). Na verificação dos poucos dados ausentes da pesquisa não foi possível perceber algum tipo de padrão na omissão dos dados (concentração, desistência, etc.), sugerindo certa aleatoriedade dos dados perdidos, portanto, um padrão MAR, o que apontou para a plausibilidade de uso de alguma técnica disponível que permita a mitigação dos efeitos indesejáveis dos dados omissos durante a análise multivariada (HAIR et al., 2014b). A estratégia considerada para lidar com os dados ausentes foi a de imputação estatística, ou simplesmente imputação, consistindo no “processo de estimar o valor omisso com base em valores válidos de outras variáveis e/ou casos na amostra. O objetivo é empregar relacionamentos conhecidos que possam ser identificados nos valores válidos da amostra para auxiliar na estimativa dos valores ausentes” (HAIR et al., 2014b, p. 48). A opção pela estratégia de imputação se justifica pela necessidade de se manter ao máximo o número de observações na amostra coletada (569 casos após a exclusão dos 3 com ausências em mais de 4 variáveis seguidas), uma vez que as técnicas de análise multivariada utilizadas exigem um número mínimo de observações por variável analisada. Assim, a imprescindibilidade de se garantir o tamanho da amostra exigiu a adoção da estratégia de imputação. A alternativa utilizada para a imputação dos poucos dados ausentes na matriz de dados para as variáveis quantitativas foi a de imputação estocástica por maximização de expectativa, ou simplesmente EM [Expectation Maximization], que, segundo Hazzi e Maldaon (2015), de um ponto de vista conservador, é a mais apropriada quando os dados ausentes são ou completamente aleatórios (MCAR) ou aleatórios (MAR), e quando o percentual de dados 202 perdidos é inferior a 5%. Quando tais condições ocorrem, “[...] a EM é a técnica mais preferida dos métodos de imputação simples, pois nos outros métodos a variância e o erro padrão são reduzidos e a chance de erros do Tipo II aumenta” (HAZZI; MALDAON, 2015, p. 56). Para as variáveis categóricas, especialmente as que acessavam o perfil sociodemográfico dos respondentes (gênero, situação marital e educação formal), não foi possível tratar os dados ausentes, embora o perfil da amostra possa ser retratado com certa precisão dadas as raríssimas ausências. 5.2.1.2 Diagnóstico de outliers Outliers são observações substancialmente diferentes e distantes do padrão dos demais dados, podendo ser extremamente altas ou extremamente baixas (HAIR et al, 2005). Outliers podem ocorrer devido a erros na entrada dos dados ou porque aquela observação em questão não se refere à população estudada (KLINE, 2011). Quando outliers são diagnosticados, algumas decisões precisam ser tomadas pelo pesquisador, tendo que escolher uma das seguintes alternativas: (1) excluir o dado discrepante, (2) convertê-lo em valor igual ou o mais próximo do padrão observado, (3) realizar uma transformação matemática para a variável com valores discrepantes ou (4) mantê-lo como aparece (KLINE, 2011). 5.2.1.2.1 Outliers univariados Outliers univariados são casos extremos em uma única variável. Para identificar outliers univariados, utilizam-se os escores padronizados z de cada variável, considerando-se como outlier o valor absoluto de z superior a 4, para amostras superiores a 80 observações (KLINE, 2011). Com o diagnóstico realizado com o uso do escore z, 27 valores considerados discrepantes foram identificados, correspondendo a 20 casos. Porém nenhum desses casos apresentou valores discrepantes em mais que 4 variáveis, optando-se assim pela manutenção desses casos na matriz de dados. 5.2.1.2.2 Outliers multivariados Outliers multivariados apresentam escores extremos em duas ou mais variáveis ou seu padrão de escores é atípico. Para identificar outliers multivariados utiliza-se a estatística D² 203 de Mahalanobis, que indica a distância entre um conjunto de escores para um caso individual (vetor) e as médias amostrais para todas as variáveis (centróide). Em amostras grandes (>80 casos), avalia-se a medida D²/df, sendo df [degrees of freedom] os graus de liberdade mensurados como o número de variáveis usadas. Os níveis de referência para as medidas D2/df devem ser conservadoras (p ≤ 0,05 ou p ≤ 0,01), resultando em valores entre 3 e 4 para amostras maiores (HAIR et al., 2014b; KLINE, 2011). 257 outliers multivariados foram detectados e excluídos da base de dados. Com isso, a amostra final foi de 312 sujeitos. 5.2.1.3 Diagnóstico de normalidade das variáveis A normalidade dos dados diz respeito ao pressuposto de que cada variável e todas as combinações lineares das variáveis são normalmente distribuídas, ou seja, um teste de normalidade mostra se uma a distribuição de dados de determinada variável possui simetria com a distribuição normal. Se a variação em relação à distribuição normal for suficientemente grande, os testes estatísticos F e t são inválidos, já que eles pressupõem dados que seguem uma distribuição normal (HAIR et al., 2005). Para a verificação da normalidade dos dados, utilizou-se o teste de Kolmogorov- Smirnov, que avalia se a distribuição da variável em estudo em uma determinada amostra provém de uma população com uma distribuição específica, no caso, uma distribuição normal. A hipótese nula estabelece que a distribuição da variável na população é normal. Em todas as 203 variáveis testadas, a significância verificada foi de p ≤ 0,01, rejeitando-se a hipótese nula. Dessa forma, a normalidade não foi observada para nenhuma das variáveis, reforçando a escolha da abordagem PLS-SEM para a modelagem de equações estruturais. 5.2.2 Perfil da amostra Os 312 sujeitos da amostra final tinham em média 27,43 anos, em sua grande maioria solteiros (63,3%), com ensino médio completo (54,7%). Uma pequena maioria (52,9%) era do gênero masculino. As subseções seguintes detalham o perfil sociodemográfico da amostra. 204 5.2.2.1 Gênero No que se refere ao gênero, houve pequena predominância de pessoas do sexo masculino na amostra, representando 52,9% das observações válidas. A tabela 1 e o gráfico 1 a seguir exibem a distribuição dos sujeitos quanto ao gênero. Tabela 1: Distribuição da amostra quanto ao gênero Frequência absoluta Frequência relativa Frequência relativa (válida) Masculino 165 52,9 52,9 Feminino 147 47,1 47,1 Dados ausentes 0 0 0 Total 312 100,0 100,0 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) Gráfico 1: Distribuição da amostra quanto ao gênero (frequência relativa válida) Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) 5.2.2.2 Status marital O status marital dos sujeitos foi majoritariamente de solteiros, representando 63,3% do total válido de observações. Pessoas que se declararam casadas representaram 24,1% da amostra, seguidos dos separados/divorciados (6,8%), dos que se declararam em união estável 205 (4,8%) e dos viúvos, que somaram apenas 3 sujeitos. A tabela 2 e o gráfico 2 a seguir resumem a distribuição da amostra em relação ao status marital. Tabela 2: Distribuição da amostra quanto ao status marital Frequência absoluta Frequência relativa Frequência relativa (válida) Solteiro 197 63,1 63,3 Casado 75 24,0 24,1 Separado/Divorciado 21 6,7 6,8 União estável 15 4,8 4,8 Viúvo 3 1,0 1,0 Dados ausentes 1 0,3 - Total 312 100,0 100,0 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) Gráfico 2: Distribuição da amostra quanto ao status marital (frequência relativa válida) Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) 5.2.2.3 Educação formal Mais da metade dos sujeitos da amostra possuía ensino médio, representando 54,7% das observações válidas, enquanto 27,3% das observações válidas possuía graduação. Sujeitos que afirmaram possuir pós-graduação somaram 16,8% das observações válidas, sendo 8,7% o 206 nível de especialização/MBA, 5,5% o de mestrado e 2,6% o nível de doutorado. Apenas 4 sujeitos (1,3%) na amostra possuíam o ensino fundamental. Deve ser observado o fato de que a grande maioria dos sujeitos foi recrutada em cursos de graduação, o que reflete a grande incidência de pessoas que se declararam como possuindo o ensino médio completo, embora estivessem cursando o nível superior. A tabela 3 e o gráfico 3 a seguir resumem a distribuição dos sujeitos quanto à educação formal. Tabela 3: Distribuição da amostra quanto à educação formal Frequência absoluta Frequência relativa Frequência relativa (válida) Percentual acumulado (válido) Fundamental 4 1,3 1,3 1,3 Médio 170 54,5 54,7 55,9 Graduação 85 27,2 27,3 83,3 Especialização/MBA 27 8,7 8,7 92,0 Mestrado 17 5,4 5,5 97,4 Doutorado 8 2,6 2,6 100,0 Dados ausentes 1 0,3 - - Total 312 100,0 100,0 - Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) Gráfico 3: Distribuição da amostra quanto à educação formal (frequência relativa válida) Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) 207 5.2.2.4 Idade A idade dos sujeitos da amostra variou de 18 a 62 anos, com média de 27,43 anos. A grande concentração se deu entre os 20 (1º quartil) e os 32 anos (3º quartil). O valor mais comum foi 20 anos, enquanto o valor central foi 24 anos. A idade máxima observada esteve a cerca de 3,5 desvios-padrão da média, revelando uma variação relativamente alta dos dados (coeficiente de variação de 36,03%). A tabela 4 a seguir exibe as estatísticas-resumo de tendência central e variação dos dados. O gráfico 4 exibe o formato positivamente assimétrico da distribuição da amostra por faixa etária. Tabela 4: Estatísticas-resumo relacionadas à idade dos sujeitos da amostra Média Mediana Moda Desvio-padrão Assimetria Curtose Amplitude Mínimo Máximo 27,43 24 20 9,885 1,497 1,856 44 18 62 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) Gráfico 4: Distribuição da amostra quanto à faixa etária Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) 208 5.2.3 Motivações de viagem No que se refere às motivações de viagens, “Passeio / Férias / Lazer” foi o principal motivo alegado pelos sujeitos da amostra, representando quase metade das respostas válidas (49,8%). Com 15,1% das respostas válidas, “Estudo / Intercâmbio” foi o segundo motivo mais presente na amostra, seguido de “Visitar alguém importante” (8,7%), “Trabalho / Negócios” (6,8%), “Conhecer o mundo / Imersão em uma outra cultura” (5,5%), “Fugir do stress do trabalho e da vida cotidiana” (4,2%), “Crença religiosa / Espiritualidade” (3,2%), “Autoconhecimento / Reflexão” (2,6%) e “Saúde / Tratamento médico / Spa”, com apenas 2 observações (0,6%). 11 respondentes (3,5%) alegaram “Outros” motivos para terem viajado. A tabela 5 e o gráfico 5 a seguir mostram os resultados das frequências observadas para as motivações de viagem na amostra. Tabela 5: Distribuição das motivações de viagem na amostra Frequência absoluta Frequência relativa Frequência relativa (válida) Passeio / Férias / Lazer 155 49,7 49,8 Estudo / Intercâmbio 47 15,1 15,1 Visitar alguém importante 27 8,7 8,7 Trabalho / Negócios 21 6,7 6,8 Conhecer o mundo / Imersão em outra cultura 17 5,4 5,5 Fugir do stress do trabalho e da vida cotidiana 13 4,2 4,2 Crença religiosa / Espiritualidade 10 3,2 3,2 Autoconhecimento / Reflexão 8 2,6 2,6 Saúde / Tratamento médico / Spa 2 0,6 0,6 Outro 11 3,5 3,5 Dados ausentes 1 0,3 - Total 312 100,0 100,0 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) 209 Gráfico 5: Distribuição das motivações de viagem na amostra Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) 5.2.4 Tempo em que a viagem foi realizada e tempo de duração (estadia) da viagem A maioria dos sujeitos da amostra (63%) havia feito a viagem que consideraram a mais importante de suas vidas há mais de um ano, considerando o dia em que responderam o inquérito, e a esmagadora maioria (76,6%) permaneceu no destino por menos de um mês. As tabelas e gráficos seguintes detalham essas informações. Tabela 6: Tempo em que a viagem foi realizada em relação ao dia da resposta ao questionário Frequência absoluta Frequência relativa Frequência relativa (válida) Viajou há um ano ou menos 115 36,9 37,0 Viajou há mais de um ano 196 62,8 63,0 Dados ausentes 1 0,3 - Total 312 100,0 100,0 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) 3,5% 0,6% 2,6% 3,2% 4,2% 5,5% 6,8% 8,7% 15,1% 49,8% 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 Outro Saúde / Tratamento médico / Spa Autoconhecimento / Reflexão Crença religiosa / Espiritualidade Fugir do stress do trabalho e da vida cotidiana Conhecer o mundo / Imersão em outra cultura Trabalho / Negócios Visitar alguém importante Estudo / Intercâmbio Passeio / Férias / Lazer 210 Gráfico 6: Tempo em que a viagem foi realizada em relação ao dia da resposta ao questionário Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) Tabela 7: Tempo de permanência/estadia dos sujeitos no(s) destino(s) Frequência absoluta Frequência relativa Menos de 1 mês 239 76,6 De 1 a 3 meses 31 9,9 Mais de 3 até 6 meses 10 3,2 Mais de 6 meses até 1 ano 9 2,9 Mais de 1 ano 23 7,4 Total 312 100,0 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) 211 Gráfico 7: Tempo de permanência/estadia dos sujeitos no(s) destino(s) Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) 7,4% 2,9% 3,2% 9,9% 76,6% 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Mais de 1 ano Mais de 6 meses até 1 ano Mais de 3 até 6 meses De 1 a 3 meses Menos de 1 mês 212 5.2.5 Análise da dimensionalidade dos constructos Definir um constructo inclui, entre outras orientações, determinar sua dimensionalidade (HAIR et al., 2018). Dessa forma, os constructos que comporão o modelo estrutural a ser testado precisam ser avaliados segundo sua dimensionalidade, o que é feito por meio de análise fatorial exploratória. O método de extração escolhido é o das componentes principais com rotação oblíqua [oblimin rotation]. Segundo Hair et al. (2014b), a rotação oblíqua é preferível quando se têm constructos significativamente fundamentados teoricamente, como é o caso de todos os constructos do presente estudo. Ainda segundo Hair et al. (2014b), no mundo real, dificilmente os constructos se encontram não correlacionados entre si. As seções seguintes apresentam os resultados da análise fatorial exploratória dos 5 constructos estudados. 5.2.5.1 Análise Fatorial Exploratória do constructo Personalidade Agêntica Os itens das 4 subescalas do MAPS20 foram submetidos à análise das componentes principais com rotação oblíqua. O teste Kaiser-Meyer-Olkin de adequação da amostra (KMO = 0,835) e o teste de esfericidade de Bartlett: (χ² = 2592,894; 105 g.l.; p < 0,001) indicaram a viabilidade da análise fatorial para as variáveis escolhidas. Itens com comunalidades inferiores a 0,400 foram excluídos, bem como aqueles que apresentaram cargas fatoriais inferiores a 0,500 ou que carregaram em mais de um fator. Com estes procedimentos, foram eliminados um item da subescala Locus de controle (LC_002), um item da subescala Propósito na vida (PV_005) e 2 itens da subescala Autoestima (AU_003R e AU_004R), ambos com construção semântica oposta aos demais itens da dimensão (itens reversos). Todos os 5 itens da subescala Força do ego foram aproveitados. Os 4 fatores juntos explicaram 58,859% da variância total. A tabela 8 a seguir sintetiza os resultados da solução fatorial para o constructo Personalidade Agêntica, trazendo as cargas fatoriais de cada item de uma mesma dimensão e suas respectivas comunalidades (h²), médias e desvios-padrão, bem como a variância explicada por cada dimensão e a consistência interna dos itens de cada fator medida pelo alfa de Cronbach (α) padronizado. 213 Tabela 8: Solução fatorial do constructo Personalidade Agêntica Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Locus de controle LC_001_Tornar-se uma pessoa bem sucedida é uma questão de trabalho árduo; não tem nada a ver com “sorte”. 0,746 0,576 30,954 7,435 2,357 0,531 LC_003_Não consigo aceitar ou acreditar que “sorte” ou “chance” possa ter algum papel importante na minha vida. 0,726 0,535 4,950 2,780 LC_004_O que acontece comigo é consequência do que eu faço. 0,677 0,470 8,435 1,809 Propósito na vida PV_001_No meu normal, eu me encontro quase sempre ... 0,859 0,751 10,329 7,428 1,966 0,862 PV_002_Para mim, a vida é quase sempre ... 0,865 0,758 7,554 1,842 PV_003_Para mim, os dias são sempre ... 0,792 0,637 6,936 2,211 PV_004_Minha vida é ... 0,783 0,624 8,581 1,821 Autoestima AU_001_Estar em minha companhia é muito divertido. 0,621 0,492 9,417 8,105 1,766 0,699 AU_002_Sou popular entre as pessoas da minha idade. 0,781 0,651 6,604 2,452 AU_003_As pessoas geralmente seguem minhas ideias e opiniões. 0,816 0,676 6,870 1,987 Força do ego FE_001_Gostar de situações difíceis e desafiadoras. 0,557 0,428 8,158 7,543 2,353 0,721 FE_002_Persistência e força de vontade para concluir atividades iniciadas. 0,668 0,521 8,114 1,935 FE_003_Em condições de distração, conseguir manter a concentração em relação à maioria das pessoas. 0,792 0,652 6,605 2,383 FE_004_Suportar melhor o desconforto físico em relação à maioria das pessoas. 0,593 0,466 6,634 2,468 FE_005_Não se distrair facilmente na execução de uma atividade. 0,748 0,591 6,583 2,521 Método de extração: Análise das componentes principais; Método de rotação: Oblimin com normalização Kaizer; Convergência da rotação em 7 iterações; KMO = 0,835; Teste de esfericidade de Bartlett: χ² = 2592,894; 105 g.l.; p < 0,001; Variância total explicada = 58,859%. Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) O alfa de Cronbach padronizado para os itens do primeiro fator (Locus de controle) apresentou valor (α = 0,531) inferior a 0,60, o mínimo aceitável para admitir consistência interna entre os itens (HAIR et al., 2013). Contudo, deve-se levar em consideração a definição do constructo original (CÔTÉ, 2016, 1997; ROTTER, 1966) e o fato de que, além de ser uma medida conservadora de confiabilidade, o alfa de Cronbach é sensível à quantidade de itens (HAIR et al., 2014a). A avaliação mais robusta para a consistência interna dos itens de cada fator (constructo) é feita por meio da medida de confiabilidade composta, que leva em conta as diferentes cargas dos indicadores, em oposição ao alfa de Cronbach, que assume que todos os indicadores são igualmente confiáveis (HAIR et al., 2014a), juntamente com a medida da variância média extraída. Essa avaliação é apresentada na seção referente à modelagem de equações estruturais. 214 5.2.5.2 Análise Fatorial Exploratória do constructo Ansiedade Existencial Os 22 itens adaptados da escala Existential Concerns Questionnaire foram submetidos à análise das componentes principais com rotação oblíqua. O teste Kaiser-Meyer- Olkin de adequação da amostra (KMO = 0,937) e o teste de esfericidade de Bartlett: (χ² = 4287,314; 120 g.l.; p < 0,001) indicaram a viabilidade da análise fatorial para as variáveis. Com exceção do item EC_006 [Preocupação com o significado da vida], que apresentou comunalidade 0,392, todos os demais que apresentaram comunalidades inferiores a 0,400 foram excluídos (HAIR et al., 2013). A decisão de manter o item se explica pelo fato de sua carga fatorial ter sido elevada (0,618), apesar de sua comunalidade estar abaixo de 0,400, bem como por ser um item importante para o significado da dimensão ao qual fora agregado. Itens que apresentaram cargas fatoriais inferiores a 0,500 ou que carregaram em mais de um fator também foram eliminados. Com estes procedimentos, 6 itens foram eliminados (EC_001; EC_002; EC_004; EC_007; EC_011; EC_018). Dois fatores emergiram da análise, explicando 54,193% da variância total. A tabela 9 a seguir sintetiza os resultados da solução fatorial para o constructo Ansiedade Existencial, trazendo as cargas fatoriais de cada item de uma mesma dimensão e suas respectivas comunalidades (h²), médias e desvios-padrão, bem como a variância explicada por cada dimensão e a consistência interna dos itens de cada fator medida pelo alfa de Cronbach (α) padronizado. Tabela 9: Solução fatorial do constructo Ansiedade Existencial (continua) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Vazio existencial EC_003_Preocupação por “não me sentir em casa no mundo”, como se eu não pertencesse a esse mundo. 0,681 0,492 45,991 3,950 2,997 0,887 EC_006_Preocupação com o significado da vida. 0,618 0,392 5,000 3,189 EC_008_Ansiedade por perder o contato comigo mesmo, meu eu verdadeiro. 0,776 0,616 3,572 3,000 EC_009_Incômodo com a ideia de eu estar, de fato, sozinho nessa vida. 0,710 0,512 3,690 3,033 EC_010_Ansiedade pelo fato de minha vida estar passando. 0,726 0,542 5,284 3,350 EC_012_Preocupação em não viver a vida que eu poderia estar vivendo. 0,688 0,482 5,548 3,204 EC_013_Medo em saber que as pessoas nunca me conhecerão profundamente. 0,725 0,537 3,946 3,058 EC_016_Preocupação pelo fato de que as coisas que eu considerava importantes um dia me parecessem agora sem sentido. 0,643 0,463 4,552 3,098 EC_019_Ansiedade por sentir que existe uma distância entre mim e as outras pessoas. 0,695 0,498 4,043 3,016 EC_022_Receio por não conseguir me conhecer em um nível mais profundo. 0,722 0,525 4,156 3,164 215 Tabela 9: Solução fatorial do constructo Ansiedade Existencial (conclusão) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio padrão α Morte e finitude EC_005_Medo por saber que a qualquer momento eu poderia morrer. -0,760 0,581 8,201 3,407 3,030 0,865 EC_014_Preocupação pelo fato de que, de repente, algo terrível poderia acontecer comigo. -0,806 0,671 3,868 3,130 EC_015_Afastar os pensamentos de que a vida acabará. -0,739 0,563 4,237 3,216 EC_017_Medo de morrer sem ter vivido o melhor da vida. -0,684 0,505 5,370 3,608 EC_020_Ansiedade ou preocupação por perceber o quão vulnerável meu corpo é aos perigos da vida. -0,777 0,633 4,347 3,126 EC_021_Ansiedade ou preocupação por ter que deixar tudo quando chegar o momento de morrer. -0,810 0,659 3,372 2,994 Método de extração: Análise das componentes principais; Método de rotação: Oblimin com normalização Kaizer; Convergência da rotação em 7 iterações; KMO = 0,937; Teste de esfericidade de Bartlett: χ² = 4287,314; 120 g.l.; p < 0,001; Variância total explicada = 54,193%. Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) Consistente com o estudo que validou a escala original, o Existential Concerns Questionnaire (ECQ) (van BRUGGEN et al., 2017), da qual os itens analisados foram adaptados, os indicadores representativos das questões existenciais relacionadas a (1) falta de sentido (EC_006; EC_016), (2) culpa (EC_010; EC_012), (3) isolamento (EC_003; EC_009; EC_013; EC_019) e (4) identidade (EC_008; EC_022) foram carregados em um único fator que explicou a maior parte da variância dos dados (45,991%). A consistência entre os 10 itens do fator foi alta (α = 887). Na teoria de Tillich (2000), as duas primeiras questões existenciais – falta de sentido e culpa – dizem respeito, respectivamente, a duas ameaças do “não-ser” ao “ser”, a autoafirmação espiritual e a autoafirmação moral do homem. Esta é colocada em xeque quando os indivíduos se sentem aquém de suas potencialidades e não conseguem realizá-las, enquanto que a primeira é ameaçada a partir da sensação de vazio proveniente da consciência da falta de significado na vida. Quando colocadas em conjunto com o (1) isolamento social – a experiência de não se estar conectado a outras pessoas e não conseguir compartilhar plenamente a perspectiva de outra pessoa – e a (2) insegurança acerca de quem se é, de não possuir o conhecimento sobre si mesmo, além das inconsistências da experiência sobre si mesmo e o mundo (identidade), sugere-se a sensação de vazio e de insignificância em relação à própria existência. Por esta razão, o fator foi nomeado de vazio existencial. Também consistentemente com o estudo de van Bruggen et al. (2017), os itens relacionados à ansiedade da morte, nos dois aspectos considerados pelos pesquisadores, a consciência da própria finitude e a ameaça à própria existência, foram carregados em um único 216 fator, que explicou 8,201% da variância total. A consistência interna dos 6 itens também foi alta (α = 0,887). O fator foi batizado de morte e finitude. Um fato a ser destacado foi a correlação negativa entre os dois fatores. No estudo de van Bruggen et al. (2017), com exceção dos itens representativos da ansiedade da morte, todos os demais apresentaram alguma inter-relação, o que levou os pesquisadores a vislumbrarem a possibilidade de a ansiedade da morte possuir um papel particular na construção da ansiedade existencial. A terceira dimensão observada no estudo de van Bruggen et al. (2017), a dimensão evitação, não foi verificada na análise empreendida com os itens modificados do Existential Concerns Questionnaire. Com exceção do item EC_015, que faz menção explícita a pensamentos de morte [Afastar os pensamentos de que a vida acabará], nenhum dos demais itens representativos dessa dimensão apresentou cargas fatoriais nos limites mínimos, tendo sido então excluídos na solução final. 5.2.5.3 Análise Fatorial Exploratória do constructo Bem-estar Subjetivo Os 18 itens destinados à mensuração do constructo Bem-estar subjetivo também foram submetidos à análise das componentes principais com rotação oblíqua. O teste Kaiser- Meyer-Olkin de adequação da amostra (KMO = 0,924) e o teste de esfericidade de Bartlett: (χ² = 5026,446; 120 g.l.; p < 0,001) indicaram a viabilidade da análise fatorial para as variáveis. Dois itens com cargas fatoriais inferiores a 0,500 e carregados em mais de um fator foram excluídos (BES_13 e BES_16). Os 3 fatores explicaram 63,620% da variância total. A tabela 10 a seguir sintetiza os resultados da solução fatorial para o constructo Bem-estar subjetivo, mostrando as cargas fatoriais dos itens, suas respectivas comunalidades (h²), médias e desvios- padrão, bem como a variância explicada por cada fator e a consistência interna de seus itens, medida pelo alfa de Cronbach (α) padronizado. Tabela 10: Solução fatorial do constructo Bem-estar Subjetivo (continua) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Afetos positivos BES_01_Disposto 0,804 0,660 46,648 7,509 1,947 0,886 BES_04_Decidido 0,764 0,603 7,488 2,000 BES_05_Inspirado 0,797 0,639 7,577 2,059 BES_06_Contente 0,739 0,622 7,465 2,074 BES_08_Seguro 0,699 0,612 6,889 2,240 BES_10_Animado 0,773 0,673 7,551 2,098 217 Tabela 10: Solução fatorial do constructo Bem-estar Subjetivo (conclusão) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Afetos negativos BES_02_Preocupado 0,663 0,589 10,074 7,021 2,264 0,862 BES_03_Inseguro 0,716 0,540 5,410 2,649 BES_07_Desanimado 0,784 0,672 4,087 2,349 BES_09_Deprimido 0,812 0,713 3,507 2,521 BES_11_Angustiado 0,800 0,653 4,084 2,598 BES_12_Triste 0,799 0,664 3,423 2,325 Avaliação sobre a satisfação com a vida BES_14_A minha vida está de acordo com o que desejo para mim. 0,865 0,761 6,897 5,815 2,660 0,800 BES_15R_Estou insatisfeito com minha vida. (R) 0,655 0,470 7,147 2,820 BES_17_Tenho aproveitado as oportunidades da vida. 0,651 0,565 7,684 2,092 BES_18_Estou satisfeito com minha vida. 0,844 0,743 6,970 2,488 Método de extração: Análise das componentes principais; Método de rotação: Oblimin com normalização Kaizer; Convergência da rotação em 7 iterações; KMO = 0,924; Teste de esfericidade de Bartlett: χ² = 5026,446; 120 g.l.; p < 0,001; Variância total explicada = 63,620%. Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) A solução com três fatores bem definidos aponta na direção da concepção aceita na literatura de que o constructo Bem-estar subjetivo é composto por três dimensões independentes, duas relativas às componentes afetivas – afetos positivos e afetos negativos – e uma relativa à componente cognitiva – satisfação com a vida (PAVOT, 2008; ARTHAUD- DAY et al., 2005; LUCAS; DIENER; SUH, 1996; DIENER; EMMONS, 1984; DIENER, 1984; BRADBURN; CAPLOVITZ, 1965). A dimensão de afetos positivos explicou quase a metade da variância total dos dados (46,648%), seguida pela dimensão de afetos negativos (10,074%) e pela avaliação da satisfação com a vida (6,897%). 5.2.5.4 Análise Fatorial Exploratória das subescalas do Identity Issues Inventory Os itens de cada subescala (Integração, Diferenciação, Papéis de Trabalho e Visão de Mundo) do Identity Issues Inventory foram submetidos à análise das componentes principais com rotação oblíqua, separadamente. Essa decisão se deveu à complexidade das soluções iniciais com os 48 itens do instrumento, que não possibilitaram inteligibilidade do ponto de vista teórico, talvez devido à maior variação do perfil etário dos sujeitos na amostra, que incluiu pessoas na fase adulta e senil (amplitude etária dos 18 aos 74 anos), diferentemente do público- alvo do instrumento original, jovens no início da fase adulta e jovens adultos (amplitude etária dos 18 aos 63 anos). A análise em separado dos itens das subescalas do instrumento original possibilitou a visualização de uma estrutura fatorial que remetia aos três níveis de identidade do modelo 218 multidimensional de Côté e Levine (2002), considerados pelo Identity Issues Inventory como três dimensões da identidade: (1) a dimensão da experiência subjetiva (identidade do ego); (2) a dimensão das atividades interpessoais do dia a dia, ou seja, as interações pessoa-contexto (identidade pessoal); e (3) a dimensão da estrutura social, refletida nos papéis sociais que a pessoa desempenha em uma sociedade e o status relativo desses papéis (identidade social) (ROBERTS; CÔTÉ, 2014). Os resultados das quatro diferentes análises fatoriais (uma para cada subescala) são mostrados nas subseções seguintes e sintetizados nas tabelas 11 a 14. 5.2.5.4.1 Análise Fatorial Exploratória da subescala Integração Os testes de fatorabilidade para os 12 itens da subescala Integração foram aceitáveis: KMO = 0,675; teste de esfericidade de Bartlett significativo a 1% (χ² = 993,644; 28 g.l.; p < 0,001). Itens com comunalidades inferiores a 0,400 foram excluídos, bem como aqueles com cargas fatoriais inferiores a 0,500, ou carregados em mais de um fator. Como resultado de tais critérios, 4 itens foram excluídos (IN_001; IN_007R; IN_011R; IN_012R). Os 3 fatores resultantes explicaram 65,350% da variância total. A tabela 11 a seguir sintetiza os resultados da solução fatorial para a dimensão Integração do Identity Issues Inventory, mostrando as cargas fatoriais dos itens, suas respectivas comunalidades (h²), médias e desvios-padrão, bem como a variância explicada por cada fator e a consistência interna de seus itens, medida pelo alfa de Cronbach (α) padronizado, que foi substituído pela correlação de Spearman (ρ) no terceiro fator, por ter sido formado por apenas dois itens. Tabela 11: Solução fatorial da subescala Integração (continua) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio padrão α Identidade do ego (Continuidade espaço- temporal) IN_002_Aconteça o que acontecer, ainda me sinto seguro acerca de quem eu realmente sou. 0,642 0,491 32,073 7,854 2,119 0,764 IN_003(R)_Muitas vezes me sinto confuso a respeito de quem eu realmente sou. (R) 0,885 0,787 6,384 3,120 IN_004(R)_Dentro de mim existe um conflito acerca de quem eu realmente sou. (R) 0,911 0,835 7,121 2,984 219 Tabela 11: Solução fatorial da subescala Integração (conclusão) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Identidade pessoal (Estabilidade socioemocional) IN_005_Na opinião dos meus amigos eu me comporto de forma madura. 0,821 0,684 18,509 7,792 2,164 0,620 IN_006_Meus amigos e familiares me consideram uma pessoa responsável. 0,766 0,618 8,543 1,694 IN_008(R)_Pessoas que me conhecem bem frequentemente me tratam como uma pessoa imatura. (R) 0,644 0,587 8,407 2,291 Identidade social (Lugar no mundo) IN_009_Sinto que pertenço a um grupo de pessoas que pensam como eu, com quem me sinto feliz e com quem pretendo me relacionar estreitamente por um bom tempo. 0,773 0,613 14,768 6,759 2,624 0,305* IN_010_Sou reconhecido como uma pessoa adulta que pertence a um grupo social estabelecido. 0,738 0,613 6,404 2,533 Método de extração: Análise das componentes principais; Método de rotação: Oblimin com normalização Kaizer; Convergência da rotação em 8 iterações; KMO = 0,675; Teste de esfericidade de Bartlett: χ² = 993,644; 28 g.l.; p < 0,001; Variância total explicada = 65,350%. *Nota: Com apenas dois itens, em vez de usar o α de Cronbach, calculou-se a correlação entre os itens pelo ρ de Spearman, que foi significativo (p < 0,001). Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) A integração se refere à tarefa de formação da identidade que fornece o senso de totalidade, de integralidade, onde as várias esferas da experiência são reunidas de maneira unificada. Os três fatores que emergiram da análise representam os três níveis (ou dimensões) em que o senso de totalidade é observado. O primeiro fator indica a dimensão da experiência subjetiva (identidade do ego), que explicou 32,073% da variância total, representando a continuidade espaço-temporal, o sentimento íntimo de que se é a mesma pessoa ao longo da vida, a certeza interior de se saber quem é. Dois dos 3 itens que formaram o fator denotam o aspecto distônico da continuidade espaço-temporal. O α de Cronbach indicou consistência interna moderada (α = 0,764) do fator. O segundo fator diz respeito à dimensão das interações pessoa-contexto (identidade pessoal), ou seja, os comportamentos exibidos nas interações com outras pessoas. Na tarefa da Integração esse comportamento é representado por uma postura equilibrada e responsável segundo a percepção das outras pessoas, o que está refletido exatamente pelos itens do fator. A variância explicada pelo fator foi de 18,509%, e sua consistência interna foi baixa, mas ainda no nível mínimo de aceitabilidade (α = 0,620). O terceiro fator se refere à dimensão da identidade social, caracterizada na tarefa de Integração pelo sentimento de fazer parte de uma comunidade, pela associação a pessoas com os mesmos pensamentos e ideias, um “lugar no mundo” ao qual a pessoa pertence. O fator 220 explicou 14,768% da variância total, e a correlação entre os dois itens que o formaram foi significativa (ρ = 0,305; p < 0,001). 5.2.5.4.2 Análise Fatorial Exploratória da subescala Diferenciação Os testes de fatorabilidade para os 12 itens da subescala Diferenciação foram aceitáveis: KMO = 0,722; teste de esfericidade de Bartlett significativo a 1% (χ² = 577,434; 28 g.l.; p < 0,001). Com exceção do item DI_009 [Acredito que encontrei meu lugar no mundo, o cantinho ao qual pertenço], todos os demais com comunalidade inferior a 0,400 foram excluídos. Constatou-se que a retirada do item não reduzia a consistência interna do fator tão drasticamente (α = 0,604), mas decidiu-se pela sua manutenção devido à sua carga fatorial (0,563) e contribuição para a validade de face do fator. Itens com cargas fatoriais inferiores a 0,500 ou carregados em mais de um fator também foram excluídos. Como resultado, 4 itens foram excluídos (DI_001; DI_002; DI_003R; DI_004R). Os 3 fatores resultantes explicaram 58,257% da variância total. A tabela 12 a seguir sintetiza os resultados da solução fatorial para a dimensão Diferenciação do Identity Issues Inventory, mostrando as cargas fatoriais dos itens, suas respectivas comunalidades (h²), médias e desvios-padrão, bem como a variância explicada por cada fator e a consistência interna medida pelo alfa de Cronbach (α) padronizado para o primeiro fator. Nos dois outros fatores, o alfa de Cronbach foi substituído pela correlação de Spearman (ρ), devido ao fato de terem sido formados por apenas dois itens cada. Tabela 12: Solução fatorial da subescala Diferenciação (continua) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Identidade social (Autossuficiência e lugar no mundo) DI_009_Acredito que encontrei meu lugar no mundo, o cantinho ao qual pertenço. 0,563 0,368 29,871 5,990 2,855 0,609 DI_010_As pessoas poderiam me reconhecer como um adulto autossuficiente. 0,675 0,557 6,268 2,739 DI_011(R)_Não tenho conseguido alcançar o tipo de autossuficiência esperada de uma pessoa adulta. (R) 0,727 0,675 6,864 2,886 DI_012(R)_Ainda não tenho certeza de onde me encaixo na sociedade adulta. 0,691 0,629 7,285 2,897 Identidade pessoal (Apresentação distônica) DI_007(R)_Continuamente modifico a maneira como me apresento para as outras pessoas de modo a conseguir o melhor resultado da situação em que me encontro. (R) -0,754 0,580 16,373 5,379 3,044 0,279* 221 Tabela 12: Solução fatorial da subescala Diferenciação (conclusão) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Identidade pessoal (Apresentação distônica) DI_008(R)_Se eu percebo que alguém tende a não me aprovar, finjo possuir características que, na verdade, não possuo. (R) -0,751 0,595 8,525 2,268 Identidade pessoal (Apresentação sintônica) DI_005_Na maioria das vezes eu me visto e ajo de uma forma que reflete o tipo de pessoa que eu realmente sou. 0,870 0,773 12,013 7,866 2,255 0,253* DI_006_Meu comportamento é coerente em qualquer situação. 0,635 0,484 7,636 1,783 Método de extração: Análise das componentes principais; Método de rotação: Oblimin com normalização Kaizer; Convergência da rotação em 13 iterações; KMO = 0,722; Teste de esfericidade de Bartlett: χ² = 577,434; 28 g.l.; p < 0,001; Variância total explicada = 58,257%. *Nota: Com apenas dois itens, em vez de usar o α de Cronbach, calculou-se a correlação entre os itens pelo ρ de Spearman, que foi significativo (p < 0,001). Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) A diferenciação corresponde ao processo de percepção de si mesmo como uma entidade diferente das outras pessoas e começa na infância, com o processo de individuação, prosseguindo nas etapas seguintes do desenvolvimento como um processo cada vez mais de individualização, que tem seu ponto alto na transição para a fase adulta. Na dimensão da identidade do ego, a tarefa diferenciação se reflete na percepção de que se é uma pessoa diferente das demais com quem se convive. Essa dimensão acabou não sendo contemplada na solução fatorial para a Diferenciação. Todos os 4 itens excluídos na análise se referiam exatamente ao processo de individualização na dimensão da identidade do ego, as fronteiras de identidade, refletindo a sensação de que se é a própria pessoa em termos de se diferenciar dos outros em suas vidas. Por outro lado, os três fatores extraídos na análise fatorial se referiram às dimensões social e pessoal da identidade, sendo que esta última se fez representada em dois fatores, um trazendo o aspecto distônico e o outro destacando o aspecto sintônico. O primeiro fator se referiu à dimensão da identidade social na tarefa de Diferenciação, que é refletida no sentimento de autossuficência e de que se encontrou o seu lugar na sociedade. O fator explicou 29,871% da variância total, e sua consistência interna esteve no limite mínimo aceitável (α = 0,609). O segundo e o terceiro fatores corresponderam à dimensão pessoal da identidade, refletida no controle sobre o próprio comportamento e no sentimento de singularidade em relação aos outros. Isso está sintetizado na maneira como o indivíduo se apresenta em suas interações com as outras pessoas. O terceiro fator destacou o aspecto sintônico (positivo) dessa apresentação, explicando 16,373% da variância total, enquanto que o segundo fator enfatizou 222 seu aspecto distônico (negativo), responsável por explicar 12,013% da variação dos dados. Devido ao fato de cada um dos fatores ter sido formado por apenas dois itens, o alfa de Cronbach foi substituído pela correlação não paramétrica de Spearman dos itens de cada fator, tendo sido verificada significância estatística a 1% para ambos os fatores (fator 2: ρ = 0,279; fator 3: ρ = 0,253). 5.2.5.4.3 Análise Fatorial Exploratória da subescala Papéis de Trabalho Os resultados do teste de adequação da amostra Kaiser-Meyer-Olkin (KMO = 0,724) e o teste de esfericidade de Bartlett (χ² = 1308,143; 36 g.l.; p < 0,001) apontaram para a fatorabilidade dos 12 itens da subescala de Papéis de Trabalho do Identity Issues Inventory. Itens com comunalidades inferiores a 0,500 bem como aqueles com cargas fatoriais menores que 0,600 ou carregados em mais de um fator foram excluídos. Em decorrência da aplicação desses critérios, 3 itens foram excluídos (WR_001; WR_002; WR_008R). Os 3 fatores resultantes explicaram 64,805% da variância total. A tabela 13 a seguir sintetiza os resultados da solução fatorial para a dimensão Papéis de Trabalho, mostrando as cargas fatoriais dos itens, suas respectivas comunalidades (h²), médias e desvios-padrão, bem como a variância explicada por cada fator e a consistência interna medida pelo alfa de Cronbach (α) padronizado, com exceção do terceiro fator, no qual o alfa de Cronbach foi substituído pela correlação de Spearman (ρ), devido ao fato de ter sido formado por apenas dois itens. Tabela 13: Solução fatorial da subescala Papéis de Trabalho (continua) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Identidade social (Credenciais adquiridas e status de trabalho) WR_009_O nível de educação formal que possuo é justamente aquele que eu sempre quis alcançar. 0,722 0,582 33,658 6,210 2,881 0,667 WR_010_Possuo um trabalho (ou papel na família) com o qual me sinto feliz e no qual pretendo permanecer por um bom tempo. 0,755 0,576 6,314 3,066 WR_011R_Eu ainda não possuo os requisitos educacionais necessários para obter o tipo de trabalho que eu gostaria de ter definitivamente. (R) 0,664 0,518 5,578 3,329 WR_012R_Ainda tenho que encontrar um trabalho (ou papel na família) no qual eu consiga o respeito que mereço. (R) 0,662 0,542 6,943 3,217 Identidade pessoal (Competências reconhecidas) WR_005_As pessoas com quem convivo acham que possuo alguns talentos e habilidades úteis. -0,837 0,708 17,107 8,521 1,674 0,776 WR_006_Possuo certas habilidades ou talentos que me são úteis na vida. -0,846 0,725 8,513 1,754 223 Tabela 13: Solução fatorial da subescala Papéis de Trabalho (conclusão) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Identidade pessoal (Competências reconhecidas) WR_007_As pessoas me reconhecem por alguns dos meus talentos e habilidades. -0,802 0,652 7,304 2,360 Identidade do ego (senso de competência distônico) WR_003(R)_Não estou certo se possuo os talentos e requisitos adequados para me manter em um bom emprego. (R) -0,867 0,764 14,039 7,123 2,965 0,648* WR_004(R)_Eu acho que não possuo as habilidades necessárias para conseguir ou manter o tipo de trabalho que eu gostaria realmente de ter. (R) -0,874 0,766 7,673 2,828 Método de extração: Análise das componentes principais; Método de rotação: Oblimin com normalização Kaizer; Convergência da rotação em 13 iterações; KMO = 0,724; Teste de esfericidade de Bartlett: χ² = 1308,143; 36 g.l.; p < 0,001; Variância total explicada = 64,805%. *Nota: Com apenas dois itens, em vez de usar o α de Cronbach, calculou-se a correlação entre os itens pelo ρ de Spearman, que foi significativo (p < 0,001). Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) Papéis de Trabalho diz respeito à tarefa de formação de identidade característica da transição para a idade adulta e implica o investimento pessoal na aquisição de habilidades e o efetivo exercício produtivo dessas habilidades, a fim de contribuir de alguma forma para a sociedade. O primeiro fator evidenciou a dimensão da identidade social dos Papéis de Trabalho, destacando as credenciais educacionais adquiridas e o status social percebido do trabalho. O fator explicou 33,658% da variância total e o alfa de Cronbach para seus 4 itens (α = 0,667) alcançou o patamar mínimo de aceitação. O segundo fator se referiu à dimensão da identidade pessoal, que evidencia o reconhecimento e o exercício das habilidades e competências pessoais. O fator explicou 17,107% da variância total, e sua consistência interna foi moderada (α = 0,776). No nível da identidade do ego a tarefa dos Papéis de Trabalho é refletida no senso de competência, na segurança íntima de que se possuem as habilidades e o conhecimento necessário para participar da vida social produtiva, traduzido no sentimento de que se é capaz. Contudo o terceiro fator destacou o caráter distônico do senso de competência, refletindo a insegurança pela incompletude da tarefa dos Papéis de Trabalho. O fator explicou 14,039% da variação dos dados e a correlação entre seus dois itens foi elevada e significativa a 1% (ρ = 0,648). 224 5.2.5.4.4 Análise Fatorial Exploratória da subescala Visão de Mundo Os resultados do teste Kaiser-Meyer-Olkin de adequação da amostra (KMO = 0,637) e o teste de esfericidade de Bartlett (χ² = 782,074; 28 g.l.; p < 0,001) apontaram para a viabilidade da análise fatorial para os 12 itens da subescala Visão de Mundo do Identity Issues Inventory. Itens com comunalidades inferiores a 0,400, bem como aqueles com cargas fatoriais menores que 0,600 ou carregados em mais de um fator foram excluídos. Como consequência, 4 itens foram excluídos (WV_001; WV_002; WV_008R; WV_012R). Os 3 fatores extraídos na análise explicaram 63,629% da variância total. A tabela 14 a seguir sintetiza os resultados da solução fatorial para a dimensão Visão de Mundo, mostrando as cargas fatoriais dos itens, suas respectivas comunalidades (h²), médias e desvios-padrão, bem como a variância explicada por cada fator e a consistência interna medida pelo alfa de Cronbach (α) padronizado, com exceção do segundo fator, no qual o alfa de Cronbach foi substituído pela correlação de Spearman (ρ), devido ao fato de ter sido formado por apenas dois itens. Tabela 14: Solução fatorial da subescala Visão de Mundo Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio padrão α Identidade pessoal (Coerência axiológica) WV_005_Frequentemente eu me posiciono e exponho sobre o que acredito. 0,751 0,587 28,594 7,933 2,232 0,601 WV_006_As pessoas com quem convivo me conhecem como alguém que possui convicções e valores fortemente estabelecidos. 0,800 0,644 8,116 1,926 WV_007_Eu tomo o cuidado para garantir que meu comportamento diário reflita de modo coerente minhas crenças e valores fundamentais. 0,603 0,482 7,768 2,133 Identidade do ego (Aspectos distônicos do significado e propósito) WV_003(R)_Minhas crenças e valores estão principalmente voltados para satisfazer minhas próprias necessidades imediatas. (R) 0,871 0,768 20,400 6,878 2,671 0,590* WV_004(R)_O meu senso de propósito na vida se refere principalmente à satisfação de minhas necessidades imediatas e pessoais. (R) 0,880 0,783 6,267 2,910 Identidade social (Engajamento reconhecido) WV_009_Eu vivo de acordo com um conjunto consistente de valores e crenças (sejam políticas, religiosas, científicas, etc.) ligados a um ou mais grupos ou associações. -0,799 0,669 14,635 6,127 2,846 0,567 WV_010_As pessoas me conhecem como um membro de um grupo social que defende valores e crenças fortes. -0,640 0,607 6,007 2,985 WV_011(R)_Não vivo minha vida com base em crenças religiosas ou políticas amplamente aceitas. (R) -0,689 0,551 5,988 3,292 Método de extração: Análise das componentes principais; Método de rotação: Oblimin com normalização Kaizer; Convergência da rotação em 9 iterações; KMO = 0,637; Teste de esfericidade de Bartlett: χ² = 782,074; 28 g.l.; p < 0,001; Variância total explicada = 63,629%. *Nota: Com apenas dois itens, em vez de usar o α de Cronbach, calculou-se a correlação entre os itens pelo ρ de Spearman, que foi significativo (p < 0,001). Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) 225 A tarefa de aderir a uma Visão de Mundo é fundamental na construção da identidade, fornecendo uma fonte a partir da qual o indivíduo pode atribuir um sentido e um propósito na vida em termos de uma crença ou “algo” maior que ele próprio, seja uma religião, uma ideologia política, etc. O primeiro fator se referiu à dimensão da identidade pessoal da tarefa de adesão a uma visão de mundo, na qual é evidenciada a coerência entre o comportamento da pessoa e as crenças, valores e princípios que diz acreditar e seguir. Essa dimensão é refletida na exposição das crenças individuais e no reconhecimento das outras pessoas sobre tais crenças e valores da pessoa. O primeiro fator explicou 28,594% da variância total, e sua consistência interna se apresentou no limite mínimo de aceitação (α = 0,601). O segundo fator destacou o aspecto distônico da tarefa de adesão a uma visão de mundo no nível da identidade do ego, quando o indivíduo não possui um sentido de propósito enraizado em um sistema de crenças, assumindo uma perspectiva individualista e egocêntrica. O fator explicou 20,400% da variância total, e a correlação entre seus dois itens foi elevada e significativa (ρ = 0,590; p < 0,001). O terceiro fator indicou a dimensão da identidade social da Visão de Mundo, refletida no reconhecimento do engajamento pessoal a um sistema de crenças e valores. O fator explicou 14,635% da variância total, mas sua consistência interna (α = 0,567) ficou abaixo do limite mínimo de aceitação. 5.2.5.5 Análise Fatorial Exploratória do constructo Experiência Turística Eudaimônica Os 96 itens desenvolvidos para representarem as 15 dimensões teorizadas como possíveis componentes do constructo Experiência Turística Eudaimônica (ETE), conforme o quadro 11, à página 164, foram submetidos à análise das componentes principais com rotação oblíqua. O teste Kaiser-Meyer-Olkin de adequação da amostra (KMO = 0,956) e o teste de esfericidade de Bartlett: (χ² = 15409,028; 861 g.l.; p < 0,001) indicaram a viabilidade da análise fatorial para as variáveis selecionadas. Seis fatores emergiram na solução final, explicando 62,636% da variância total. Itens com comunalidades inferiores a 0,400 foram excluídos, bem como aqueles com cargas fatoriais menores que 0,600 ou carregados em mais de um fator. Como consequência, 55 itens foram excluídos. A consistência interna de cada fator foi elevada, com o α de Cronbach (0,797 ≤ α ≤ 0,932) sempre acima dos limites mínimos aceitáveis. A tabela 15 a seguir sintetiza os resultados da solução fatorial para o constructo Experiência Turística Transformadora, mostrando as cargas fatoriais dos itens, suas respectivas comunalidades (h²), 226 médias e desvios-padrão, bem como a variância explicada por cada fator e a consistência interna de seus itens, medida pelo alfa de Cronbach (α) padronizado. Tabela 15: Solução fatorial do constructo Experiência Turística Eudaimônica – ETE (continua) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Alteridade e Benevolência ED_054_Aprendi a me colocar no lugar da outra pessoa antes de agir ou fazer qualquer tipo de julgamento em uma situação específica. 0,835 0,729 39,092 7,554 2,401 0,932 ED_092_Passei a ficar mais interessado e sensibilizado com os problemas das pessoas. 0,761 0,651 7,264 2,490 ED_036_Entendi que não se deve julgar as pessoas por suas características gerais. 0,722 0,570 8,053 2,428 ED_055_Aprendi que não se deve julgar as pessoas com base em ideias que já tínhamos antes de conhecê-las de fato. 0,814 0,694 7,814 2,404 ED_074_Entendi que, antes de qualquer julgamento ou ação, precisamos buscar compreender as razões e a situação que a outra pessoa está vivendo. 0,807 0,697 7,901 2,208 ED_056_Compreendi que a realidade que eu acreditava que conhecia era apenas uma dentre as diversas versões dos fatos. 0,683 0,515 7,594 2,393 ED_075_Percebi que a realidade é bem diferente daquela que costumamos conhecer quando a vivenciamos de perto. 0,658 0,588 8,015 2,139 ED_094_Compreendi que sempre existe uma “outra versão” para os fatos e que se deve buscar conhecer todas as versões possíveis para que se tenha uma ideia mais próxima da verdade. 0,654 0,581 7,820 2,268 ED_038_Desenvolvi a necessidade de ajudar a quem eu vejo que precisa de ajuda. 0,783 0,634 7,354 2,489 ED_057_Passei a não me omitir ante às necessidades e dificuldades das pessoas. 0,763 0,627 6,927 2,556 ED_076_Passei a me preocupar mais com as condições em que as pessoas vivem e procurar ajudá- las como eu posso. 0,826 0,717 7,331 2,436 Intimidade e Pertencimento ED_065_Eu me senti profundamente conectado a um grupo de pessoas. 0,708 0,606 7,896 7,068 2,692 0,920 ED_066_Senti uma sensação de confiança mútua com quem compartilhei aqueles momentos, que estávamos juntos sem interesse, totalmente desapegados de nossos papéis e funções da vida normal. 0,809 0,681 7,450 2,559 ED_048_Havia uma atmosfera amistosa, na qual me senti à vontade com as pessoas. 0,708 0,626 7,288 2,633 ED_049_Havia solidariedade e harmonia entre as pessoas com quem me relacionava. 0,717 0,602 7,594 2,406 227 Tabela 15: Solução fatorial do constructo Experiência Turística Eudaimônica – ETE (continua) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Intimidade e Pertencimento ED_067_Me tornei mais íntimo dos que me acompanhavam. 0,831 0,705 7,636 2,5011 ED_068_Eu procurava fazer com que o grupo se sentisse tão bem quanto eu me sentia. 0,812 0,667 7,565 2,442 ED_085_Me aproximei mais das pessoas que me são importantes. 0,728 0,596 7,775 2,385 ED_086_As pessoas pareciam se importar comigo. 0,818 0,681 7,508 2,410 ED_087_As horas com que eu passava com as outras pessoas eram prazerosas e desprovidas de interesse. 0,782 0,640 7,792 2,315 Eudaimonia ED_002_As ideias que tenho sobre qual o propósito da minha vida foram fortalecidas. 0,753 0,617 5,893 6,966 2,538 0,893 ED_021_Descobri um sentido para a minha existência. 0,795 0,686 6,029 2,933 ED_022_Tive a certeza de quais objetivos e metas deveria realizar na vida. 0,795 0,643 6,970 2,592 ED_078_Consegui estabelecer objetivos claros e um propósito para a minha vida. 0,686 0,565 6,963 2,534 ED_025_Descobri mais sobre quem eu sou. 0,733 0,615 7,079 2,491 ED_044_Consegui resolver muitas das minhas questões interiores. 0,690 0,547 5,966 2,720 ED_007_Participei de atividades que me fizeram me sentir quem eu realmente sou. 0,700 0,550 6,882 2,786 ED_027_Estive engajado em atividades que me deram uma certeza do que eu deveria fazer na minha vida. 0,720 0,537 6,335 2,886 Abertura ao novo ED_020_Aprendi a apreciar modos de vida diferentes e até mesmo exóticos. 0,680 0,540 3,934 7,209 2,698 0,797 ED_058_Passei a gostar de explorar o desconhecido. 0,681 0,517 7,527 2,575 ED_095_O gosto pela exploração de coisas novas me foi despertado. 0,846 0,742 7,950 2,299 ED_096_Aprendi a experimentar novas possibilidades. 0,847 0,735 8,065 2,195 Autonomia ED_031_Pude expressar minhas ideias e visão de mundo sem me preocupar com o que as pessoas poderiam pensar a meu respeito. -0,784 0,667 3,311 6,553 2,785 0,847 ED_032_Me senti plenamente revigorado, física e mentalmente. -0,612 0,596 7,437 2,613 ED_050_Não precisei fingir ou mentir sobre o que pensava ou sentia a respeito de algo, apenas para agradar as outras pessoas. -0,628 0,481 7,443 2,776 ED_013_Me senti livre para expressar minhas ideias e opiniões. -0,704 0,569 7,052 2,633 ED_033_Fiquei mais seguro para ser e agir do jeito que eu sou, sem me preocupar com o que as pessoas poderiam pensar de mim. -0,792 0,676 7,154 2,609 ED_052_Fortaleci aquilo que pensava e acreditava, sem que fosse necessário ganhar a aprovação das outras pessoas. -0,618 0,546 7,246 2,634 228 Tabela 15: Solução fatorial do constructo Experiência Turística Eudaimônica – ETE (conclusão) Fator Itens Carga fatorial h² % variância explicada Média Desvio- padrão α Amadurecimento ED_042_Entendi que para qualquer ser humano, independente da idade, o ato de viver é um processo de aprendizado e amadurecimento. -0,711 0,649 2,510 8,673 2,026 0,833 ED_061_Compreendi que as pessoas estão continuamente se desenvolvendo. -0,674 0,672 8,193 2,082 ED_062_Percebi que precisamos aprender com as lições que a vida nos dá e que enfrentar as dificuldades nos torna mais fortes como seres humanos. -0,757 0,759 8,321 2,069 Método de extração: Análise das componentes principais; Método de rotação: Oblimin com normalização Kaizer; Convergência da rotação em 9 iterações; KMO = 0,956; Teste de esfericidade de Bartlett: χ² = 15409,028; 861 g.l.; p < 0,001; Variância total explicada = 62,636%. Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SPSS com os dados da pesquisa (2018) O primeiro fator foi formado por 11 itens que representavam originalmente as dimensões Empatia (ED_054; ED_092), Tolerância (ED_036; ED_055; ED_074), Perspectiva ampliada (ED_056; ED_075; ED_094) e Benevolência (ED_038; ED_057; ED_076), explicando 39,092% da variância total. A consistência interna do fator foi bastante alta (α = 0,932). Os itens fazem alusão a um processo de tomada de consciência em relação ao outro, ao não eu, que vai da percepção de realidades diferentes da do próprio indivíduo, passando pela empatia, pela aceitação de outros modos de vida e compreensão das diferenças, culminando com uma atitude altruísta e benevolente. Empatia significa a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, tentando entender sua perspectiva da situação (BESTROM, 2009; RYFF; SINGER, 2008, 2003, 1996; KOTTLER, 2002, 1998; RYFF, 1989). A Tolerância corresponde à capacidade de aceitar as diferenças; saber conviver com pessoas que possuem ideias, crenças, modos de vida e valores diferentes dos da própria pessoa (BESTROM, 2009; KOTTLER, 2002, 1998). Já a Perspectiva ampliada representa o senso desenvolvido de percepção que considera diferentes pontos de vista e entendimentos sobre um mesmo fenômeno, proporcionando uma compreensão mais lúcida acerca dos fatos da vida (BESTROM, 2009; PETERSON; SELIGMAN, 2004; ROBERSON, 1999; KOTTLER, 2002, 1998; MASLOW, 1959). Benevolência corresponde à capacidade de oferecer ajuda, cuidado e generosidade de forma espontânea e desinteressada; ter compaixão e amor altruísta (RYAN; MARTELA, 2016; SELIGMAN, 2011; PETERSON; SELIGMAN, 2004). 229 A fim de refletir o processo de consciência de outras possíveis realidades e o reconhecimento do outro, o que inclui os itens representativos da Empatia, da Tolerância e da Perspectiva ampliada, optou-se por nomear esse conjunto de Alteridade. No entanto, esse nome desconsidera a característica do altruísmo que é destacada pelos itens representativos da dimensão original Benevolência. Assim, com o objetivo de preservar os conceitos das dimensões originais, o nome escolhido para o fator foi Alteridade e Benevolência, passando a contemplar todas as transformações pessoais sugeridas pelos indicadores. O segundo fator foi formado por 9 itens provenientes das dimensões originais Pertencimento (ED_065; ED_066) e Intimidade/Relacionamento (ED_048; ED_049; ED_067; ED_068; ED_085; ED_086; ED_87), representando o aspecto social da experiência turística. Os nomes das dimensões originais foram mantidos para designar o fator: Intimidade e Pertencimento. O fator explicou 7,896% da variância total, e sua consistência interna foi elevada (α = 0,920). O terceiro fator foi formado por itens originários das dimensões Significado e Propósito na Vida (ED_002; ED_021; ED_022; ED_078), Autoconhecimento e Autoaceitação (ED_025; ED_044) e Autoexpressividade (ED_007; ED_027), explicando 5,893% da variância total e com consistência interna elevada (α = 0,893). As três dimensões originais sintetizam o conceito de eudaimonia, e, por esta razão, o fator foi assim nomeado. O Significado e propósito na vida diz respeito ao sentido atribuído à natureza do ser e da própria existência (STEGER et al., 2006), e corresponde aos objetivos e intenções que dão um sentido de orientação e contribuem para dar significado à vida (WATERMAN et al., 2010; SCHUTTE; WISSING; KHUMALO, 2013; SELIGMAN, 2011; RYFF; SINGER, 2008, 2003, 1996; DECI, 2001; ERIKSON, 1998, 1972; RYFF, 1989; JAHODA, 1958). Para Ryff e Singer (2003), o propósito de vida corresponde à capacidade de se encontrar um significado e uma direção nas próprias experiências e de se propor e definir metas para a própria vida. Segundo Waterman et al. (2010), para se alcançar o estado de eudaimonia não basta identificar e reconhecer os melhores talentos e habilidades, mas também decidir para onde direcionar os objetivos de vida relacionados a esses talentos e habilidades. Nesse sentido, os indivíduos precisam encontrar maneiras de usar suas habilidades e talentos na busca de objetivos pessoalmente significativos (WATERMAN et al., 2010). A dimensão Autoexpressividade reflete um aspecto fundamental na experiência eudaimônica, segundo a perspectiva de Waterman (WATERMAN et al., 2010; WATERMAN et al., 2008; WATERMAN, 2004), referindo-se ao engajamento em atividades que demandam 230 o melhor uso das próprias potencialidades e capacidades e que são pessoalmente significativas (WATERMAN et al., 2010; WATERMAN et al., 2008; WATERMAN, 2004). A dimensão Autoconhecimento e Autoaceitação representa a disposição para conhecer a si próprio, reconhecendo as características positivas e negativas, com imparcialidade e resignação, orientando-se na direção da superação das características que são passíveis de modificação e que não se mostraram eficazes no enfrentamento dos desafios da vida (HIDALGO et al., 2010; RYFF; KEYES, 2008, 1995; ERIKSON, 1976). A ética eudaimônica convida cada pessoa a reconhecer e a viver de acordo com o seu daimon, ou seja, esforçar-se para realizar-se a si mesmo, portanto, segundo essa filosofia, o conhecer-se a si mesmo precede o esforçar-se para realizar-se a si mesmo (WATERMAN et al., 2010). Dessa forma, a componente Eudaimonia fornece alguma evidência para a hipótese de que a experiência turística transformadora é uma categoria mais ampla de experiência significativa em contextos de viagem e turismo, que incorpora o aspecto eudaimônico. O quarto fator foi inteiramente composto pelos itens da dimensão Abertura ao novo (ED_020; ED_058; ED_095; ED_096) anteriormente teorizada, sendo então mantido o nome. O fator explicou 3,943% da variância total dos dados, e seus quatro itens apresentaram boa consistência interna (α = 0,797). Abertura ao novo corresponde à disposição para novas experiências; mente aberta a novas ideias, modos de vida e possibilidades (SELIGMAN, 2011; ROGERS, 2009; RYFF; SINGER, 2008, 2003, 1996; PETERSON; SELIGMAN, 2004; RYFF, 1989). O quinto fator foi formado igualmente por itens originários das dimensões Autenticidade e Espontaneidade (ED_031; ED_032; ED_050; ED_078) e Autonomia (ED_013; ED_033; ED_52), explicando 3,311% da variância dos dados. A consistência interna do fator foi alta (α = 0,847). Com exceção do item ED_032 [Me senti plenamente revigorado, física e mentalmente], todos os demais fazem alusão à independência de pensamento e opinião, características mais definidoras da Autonomia, razão pela qual o fator foi assim nomeado. Autonomia diz respeito à capacidade de pensar e agir de forma independente, de ter ideias e convicções próprias, mesmo que vão contra o “dogma” aceito ou a sabedoria convencional (HIDALGO et al., 2010). Para Ryan e Deci (2017), o que caracteriza a autonomia são os comportamentos autoendossados da pessoa, congruentes com seus interesses e valores autênticos. Rogers (2009) afirma que as pessoas que funcionam de forma plena possuem o locus interno de avaliação, guiando-se apenas por meio de seus próprios padrões pessoais, não necessitando da aprovação de terceiros para tomar decisões e agir. 231 O sexto fator foi composto integralmente pelos itens da dimensão original Autodesenvolvimento e Crescimento pessoal (ED_042; ED_061; ED_095; ED_062), mas seus itens captaram o aspecto do amadurecimento como pessoa, refletido na compreensão acerca do desenvolvimento de todos os indivíduos, no entendimento de que as pessoas aprendem ao longo de toda a vida e na resignação no próprio ato de viver. Tais acepções remetem a uma postura mais resoluta em relação à vida, característica de pessoas mais amadurecidas como seres humanos. A fim de traduzir mais precisamente o conteúdo dos itens e levando em conta que os itens não abrangem todos os aspectos relacionados à dimensão Autodesenvolvimento e Crescimento pessoal (embora ela esteja parcialmente contemplada), optou-se por nomear o fator de Amadurecimento. O fator explicou a menor quantidade de variação dos dados (2,510%), mas sua consistência interna foi elevada (α = 0,833), apesar do número reduzido de itens. 5.2.6 Modelagem de Equações Estruturais – Teste do modelo teórico Enquanto o modelo estrutural descreve as relações entre as variáveis latentes (constructos), o modelo de mensuração representa as relações entre os constructos e suas respectivas variáveis observáveis (indicadores) (HAIR et al., 2017). O modelo estrutural e suas hipóteses implicadas só poderão ser testados e avaliados se os constructos do modelo tiverem sido mensurados adequadamente (HAIR et al., 2017). A avaliação do modelo de mensuração fornece essa evidência. 5.2.6.1 Modelo de mensuração Na etapa de definição dos constructos, duas alternativas são possíveis: (1) o constructo é definido como reflexivo, quando as medidas representam os efeitos (ou manifestações) do constructo (variável latente), caso em que o sentido da causalidade parte do constructo para seus indicadores (HAIR et al., 2017); e (2) o constructo é definido como formativo, quando os indicadores ou outros constructos antecedentes são as causas do constructo (HAIR et al., 2017). No caso do constructo reflexivo, as variáveis observáveis (indicadores) são uma função do constructo, logo, qualquer mudança no constructo será refletida em suas dimensões (DIAMANTOPOULOS; SIGUAW, 2006). Já no caso do constructo formativo, cada possível indicador (constructo antecedente) cobre um aspecto 232 específico e distinto do domínio do constructo que é “causado” e, por este motivo, não podem ser omitidos ou assumidos como correlacionados, uma vez que isso alteraria a natureza do constructo objeto da causação (HAIR et al., 2017). Neste trabalho, todos os constructos do modelo a ser testado foram definidos como reflexivos. Na avaliação do modelo de mensuração reflexiva são usadas: (1) medidas de consistência interna – alfa de Cronbach e confiabilidade composta; (2) verificação da validade convergente – cargas externas dos indicadores e a variância média extraída; e (3) avaliação da validade discriminante – critério das cargas cruzadas, critério Fornell-Larcker e razão Heterotrait-Monotrait (HTMT). 5.2.6.1.1 Consistência interna e validade convergente Para as medidas de consistência interna – alfa de Cronbach e confiabilidade composta –, os valores de referência são acima de 0,70, embora valores de confiabilidade composta no intervalo de 0,60 a 0,70 sejam aceitáveis em pesquisas exploratórias (HAIR et al., 2017). O alfa de Cronbach é uma medida conservadora de confiabilidade que apresenta valores relativamente baixos, sendo sensível ao número de indicadores, enquanto que a confiabilidade composta tende a superestimar a confiabilidade da consistência interna, resultando em valores mais elevados (HAIR et al., 2017). Segundo Hair et al. (2017), ao analisar e avaliar a confiabilidade da consistência interna dos indicadores, a verdadeira confiabilidade geralmente está entre o alfa de Cronbach (limite inferior) e a confiabilidade composta (limite superior), e por essa razão ambos os indicadores devem ser reportados. A validade convergente verifica o quanto cada indicador se correlaciona positivamente com medidas alternativas do mesmo constructo (HAIR et al., 2017). No caso de um constructo reflexivo, seus indicadores representam diferentes “abordagens” para mensurá- lo, de modo a cobrir ao máximo o domínio do constructo e capturá-lo com maior precisão (HAIR et al., 2017). Dessa forma, os indicadores devem convergir ou compartilhar uma alta proporção de variância (HAIR et al., 2017). A validade convergente dos construtos reflexivos é verificada por meio das cargas externas dos indicadores e da variância média extraída (AVE). Para as cargas externas, o valor de referência é 0,70. Contudo, Hair el al. (2017) afirmam que frequentemente são encontrados valores inferiores a esse limite em pesquisas nas ciências sociais e que a eliminação de indicadores que apresentam cargas externas baixas precisa ser feita com bastante cuidado, avaliando os efeitos da remoção desses itens na 233 confiabilidade composta e na validade de conteúdo do construto, pois um indicador com carga inferior a 0,70 pode representar um aspecto relevante do domínio do constructo, e sua exclusão pode distorcê-lo conceitualmente, comprometendo sua validade de conteúdo, uma vez que um aspecto específico do domínio do constructo deixou de ser capturado. Hair et al. (2017) afirmam que, geralmente, os indicadores com cargas externas entre 0,40 e 0,70 devem ser considerados para remoção somente quando isso levar a um aumento da confiabilidade composta ou da variância média extraída acima dos limites sugeridos e desde que essa exclusão não afete a validade de conteúdo do constructo, pois indicadores com cargas externas mais fracas são algumas vezes retidos exatamente devido à sua contribuição para a validade de conteúdo (HAIR et al., 2017). Para verificar a validade convergente de um constructo utiliza-se a variância média extraída (AVE), definida como o valor da grande média das cargas quadradas dos indicadores associados ao construto, ou seja, a soma das cargas quadradas dividida pelo número de indicadores (HAIR et al., 2017), equivalendo, portanto, à comunalidade do constructo (HAIR et al., 2017). Uma AVE com valor de 0,50 ou superior indica que, em média, o constructo explica mais da metade da variância de seus indicadores. Por outro lado, uma AVE menor que 0,50 indica que, em média, mais variância permanece nos termos de erro dos itens do que na variância explicada pelo constructo (HAIR et al., 2017). Após o uso da análise fatorial exploratória para a verificação da dimensionalidade dos constructos, o modelo teórico precisou ser re-especificado, uma vez que a análise fatorial confirmatória não apontou para a estabilidade da estrutura dimensional de duas das escalas utilizadas, a MAPS20 e a Identity Issues Inventory. No caso da MAPS20, apenas a dimensão Propósito na vida pôde ser aproveitada, uma vez que as outras três ficaram com apenas um indicador cada, prejudicando a cobertura do domínio original do constructo, consequentemente, distorcendo o constructo de segunda ordem [Personalidade agêntica]. Como o Propósito na vida é um conceito-chave na psicologia positiva e na psicologia humanista-existencial, como também na literatura sobre identidade na perspectiva neo-eriksoniana, o constructo foi mantido, passando-se a verificar sua relação com as dimensões validadas da experiência turística eudaimônica e com as tarefas de identidade. Para acessar o senso de identidade, consideraram-se os itens relacionados às duas categorias de tarefas de identidade – tarefas de autoidentidade e tarefas de identidade social –, uma vez que a estrutura fatorial encontrada para os itens do Identity Issues Inventory, embora coerente com a teoria que fundamentou seu desenvolvimento, divergiu daquela prevista por 234 seus autores, como também não foi possível sustentá-la na análise fatorial confirmatória. Considerando que os itens originais passaram por processo de tradução com a participação de 3 profissionais bilíngues e que foram pré-testados e modificados para se adequarem ao português falado no Brasil e minimizar possíveis “ruídos semânticos”, como também dois dos profissionais que ajudaram a traduzir os itens para o português fizeram a validação back- translation, duas possíveis razões para que a eficiência da escala não tenha sido verificada seja: (1) a sua aplicação a uma amostra com faixa etária mais ampla que aquela para a qual a escala original fora desenvolvida, e (2) seu uso em um contexto específico (viagens a turismo), quando sua aplicação apropriada tivesse sido o contexto de vida mais amplo dos sujeitos. Dessa forma, utilizando-se dos indicadores relacionados às duas respectivas classes superiores de tarefas de identidade, uma análise fatorial exploratória com extração forçada de um fator para cada classe de tarefas de identidade foi efetuada. Os itens resultantes dessas duas AFE’s foram usados como indicadores reflexivos de duas proxies: Autoidentidade e Identidade Social. Com este procedimento, buscou-se a operacionalização de um conceito-chave para a presente pesquisa (identidade) que fosse compatível com os fundamentos teóricos da escala original, após as dimensões constituintes da escala não terem sido confirmadas. Os itens utilizados nesse procedimento se referiram apenas ao caráter sintônico das duas tarefas de indentidade, devido ao fato de se perceber que os itens relacionados ao caráter distônico de cada tarefa (itens reversos) tendiam a ser agrupados isoladamente ou se sobrepondo aos indicadores “sintônicos” da respectiva tarefa, o que distorcia o constructo que emergia, deixando-o mais com a característica distônica daquela tarefa de identidade. Dessa forma, optou-se por considerar apenas os indicadores sintônicos (positivos). O constructo de segunda ordem Experiência Turística Eudaimônica [ETE] não alcançou validade convergente medida pela AVE, mesmo depois da eliminação de itens dos constructos de primeira ordem constituintes. Por esta razão, passou-se a considerar as dimensões da experiência turística que alcançaram validade convergente, de modo a possibilitar a verificação da influência de cada uma na predição dos constructos consequentes. Com exceção da dimensão Alteridade e Benevolência, todas as demais extraídas na análise fatorial exploratória foram confirmadas. Os itens referentes às dimensões Empatia e Benevolência, que haviam sido agrupados no mesmo fator [fator 6: Alteridade e Benevolência], apresentaram cargas externas muito baixas e por isso foram excluídos. Os itens remanescentes compunham a dimensão original Perspectiva ampliada e Tolerância. Optou-se por manter o nome 235 Perspectiva ampliada para o constructo por refletir de forma mais abrangente a conscientização de outras realidades. No que se refere ao constructo Ansiedade Existencial, quando especificado como reflexivo de segunda ordem, a validade convergente medida pela AVE não alcançava o limite mínimo exigido (AVE ≥ 0,50), mesmo quando suas duas dimensões constituintes apresentavam AVEs superiores, tal como acontecera com o constructo Experiência Turística Eudaimônica. Devido a isso, o constructo passou a ser especificado como de primeira ordem, mensurado pelos indicadores das duas dimensões constituintes [Vazio Existencial e Morte e Finitude]. Essa especificação encontra suporte em van Bruggen et al. (2017), os próprios autores que desenvolveram a escala original [Existential Concerns Questionnaire], quando atestaram que, ao ser tratada de forma unidimensional, sua escala também apresentava bons indicadores de consistência interna e validade teste-reteste. Quando especificada dessa forma, os autores operacionalizam o conceito de ansiedade existencial de maneira ampla, como um sentimento generalizado acerca das questões existenciais. Por fim, no que diz respeito ao constructo Bem-estar subjetivo (BES), deve-se enfatizar que, apesar de ter apresentado ótima solução fatorial na AFE, com as 3 dimensões componentes apresentando bons indicadores de confiabilidade, o constructo não conseguiu ser modelado no SMART-PLS®, seja reflexiva ou formativamente. Com 312 unidades amostrais e potencialmente 29 relações a serem testadas, a estimação dos parâmetros do modelo ainda seria garantida pela regra mais usada para o tamanho mínimo da amostra, a regra “10 times” (HAIR et al., 2017), mas não foi o que ocorreu. Dessa forma, devido a restrições de tempo, decidiu-se deixar de fora o constructo Bem-estar subjetivo do presente trabalho, enquanto detalhamentos de ordem mais técnica relacionadas ao algoritmo PLS fossem melhor compreendidos, a fim de se encontrar uma causa para a não aceitação da inclusão do constructo no modelo previamente especificado. Com isso, as hipóteses levantadas para se testar as relações dos constructos antecedentes com o BES ficaram também de fora da análise aqui empreendida. A tabela 16 sintetiza os resultados da validação final do modelo de mensuração quanto à consistência interna e à validade convergente. 236 Tabela 16: Validação do modelo de mensuração: cargas externas, confiabilidade simples e composta e variância média extraída (AVE) (continua) Constructo Indicadores Cargas externas Alfa de Cronbach Confiabilidade composta AVE ABERT_NOVO [Abertura ao novo] ED_020_Aprendi a apreciar modos de vida diferentes e até mesmo exóticos. 0,707 0,753 0,861 0,675 ED_095_O gosto pela exploração de coisas novas me foi despertado. 0,862 ED_096_Aprendi a experimentar novas possibilidades. 0,885 AMADUREC [Amadurecimento] ED_042_Entendi que para qualquer ser humano, independente da idade, o ato de viver é um processo de aprendizado e amadurecimento. 0,810 0,662 0,852 0,742 ED_061_Compreendi que as pessoas estão continuamente se desenvolvendo. 0,910 ANSI_EXIST [Ansiedade existencial] EC_008_Ansiedade por perder o contato comigo mesmo, meu eu verdadeiro. 0,624 0,805 0,857 0,501 EC_010_Ansiedade pelo fato de minha vida estar passando. 0,773 EC_012_Preocupação em não viver a vida que eu poderia estar vivendo. 0,772 EC_017_Medo de morrer sem ter vivido o melhor da vida. 0,741 EC_020_Ansiedade ou preocupação por perceber o quão vulnerável meu corpo é aos perigos da vida. 0,689 EC_021_Ansiedade ou preocupação por ter que deixar tudo quando chegar o momento de morrer. 0,633 AUTONO [Autonomia] ED_013_Me senti livre para expressar minhas ideias e opiniões. 0,913 0,699 0,866 0,765 ED_031_Pude expressar minhas ideias e visão de mundo sem me preocupar com o que as pessoas poderiam pensar a meu respeito. 0,834 AUTO_ID [Autoidentidade] DI_001_Sinto que amadureci completamente como uma pessoa com personalidade própria. 0,854 0,689 0,830 0,622 IN_001_Sinto que me tornei uma pessoa completa. 0,849 IN_002_Aconteça o que acontecer, ainda me sinto seguro acerca de quem eu realmente sou. 0,645 EUDAIMON [Eudaimonia] ED_007_Participei de atividades que me fizeram me sentir quem eu realmente sou. 0,746 0,826 0,877 0,588 ED_025_Descobri mais sobre quem eu sou. 0,796 ED_027_Estive engajado em atividades que me deram uma certeza do que eu deveria fazer na minha vida. 0,771 ED_044_Consegui resolver muitas das minhas questões interiores. 0,773 237 Tabela 16: Validação do modelo de mensuração: cargas externas, confiabilidade simples e composta e variância média extraída (AVE) (conclusão) Constructo Indicadores Cargas externas Alfa de Cronbach Confiabilidade composta AVE EUDAIMON [Eudaimonia] ED_078_Consegui estabelecer objetivos claros e um propósito para a minha vida. 0,748 ID_SOCIAL [Identidade social] WR_005_As pessoas com quem convivo acham que possuo alguns talentos e habilidades úteis. 0,666 0,568 0,776 0,537 WR_007_As pessoas me reconhecem por alguns dos meus talentos e habilidades. 0,808 WV_007_Eu tomo o cuidado para garantir que meu comportamento diário reflita de modo coerente minhas crenças e valores fundamentais. 0,717 INTIM_PERTEN [Intimidade e pertencimento] ED_049_Havia solidariedade e harmonia entre as pessoas com quem me relacionava. 0,726 0,833 0,882 0,599 ED_065_Me senti profundamente conectado a um grupo de pessoas. 0,764 ED_067_Me tornei mais íntimo dos que me acompanhavam. 0,809 ED_068_Eu procurava fazer com que o grupo se sentisse tão bem quanto eu me sentia. 0,815 ED_085_Me aproximei mais das pessoas que me são importantes. 0,752 PERS_AMP [Perspectiva ampliada] ED_036_Entendi que não se deve julgar as pessoas por suas características gerais. 0,748 0,787 0,862 0,610 ED_056_Compreendi que a realidade que eu acreditava que conhecia era apenas uma dentre as diversas versões dos fatos. 0,721 ED_074_Entendi que antes de qualquer julgamento ou ação precisamos buscar compreender as razões e a situação que a outra pessoa está vivendo. 0,862 ED_075_Percebi que a realidade é bem diferente daquela que costumamos conhecer quando a vivenciamos de perto. 0,787 PROP_VIDA [Propósito na vida] PV_001_No meu normal, me encontro quase sempre ... 0,877 0,789 0,876 0,703 PV_003_Para mim, os dias são sempre ... 0,841 PV_004_Minha vida é ... 0,796 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® 238 5.2.6.1.2 Validade discriminante Validade discriminante é o grau em que um constructo é verdadeiramente distinto de outros constructos, segundo padrões empíricos (HAIR et al., 2017). Assim, estabelecer a validade discriminante consiste na verificação de que o construto é único e capta fenômenos não representados pelos outros construtos no modelo (HAIR et al., 2017). Tradicionalmente, dois critérios têm sido usados para avaliar a validade discriminante: (1) o critério das cargas cruzadas, no qual as cargas externas dos indicadores do constructo ao qual estão associadas devem ser maior do que todas as suas cargas nos outros constructos, e (2) o critério de Fornell- Larcker, que é uma abordagem mais conservadora para a verificação da validade discriminante, na qual a AVE de cada constructo deve ser maior que o quadrado de sua correlação com qualquer outro construto (ou o quadrado da AVE ser maior que as correlações nos demais constructos) (HAIR et al., 2014a). As tabelas 17 e 18 seguintes trazem os resultados da validação discriminante dos constructos segundo os dois critérios comentados. Por esses dois critérios, a validade discriminante foi estabelecida para os constructos. Tabela 17: Validade discriminante: Critério de Fornell-Larcker [A] [B] [C] [D] [E] [F] [G] [H] [I] [J] [A] ABERT_NOVO 0,822 [B] AMADUREC 0,479 0,862 [C] ANSI_EXIST 0,149 0,092 0,708 [D] AUTONO 0,317 0,378 -0,072 0,874 [E] AUTO_ID 0,282 0,292 -0,080 0,373 0,789 [F] EUDAIMON 0,464 0,483 0,142 0,516 0,445 0,767 [G] ID_SOCIAL 0,129 0,184 -0,128 0,317 0,340 0,301 0,733 [H] INTIM_PERTEN 0,395 0,421 -0,105 0,501 0,260 0,454 0,247 0,774 [I] PERS_AMP 0,531 0,607 0,167 0,349 0,263 0,503 0,157 0,418 0,781 [J] PROP_VIDA 0,220 0,275 -0,253 0,344 0,398 0,322 0,352 0,380 0,282 0,838 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® 239 Tabela 18: Validade discriminante: Critério das cargas cruzadas [A] [B] [C] [D] [E] [F] [G] [H] [I] [J] ED_020 0,707 0,287 0,153 0,247 0,245 0,371 0,080 0,234 0,373 0,128 ED_095 0,862 0,463 0,114 0,252 0,200 0,387 0,104 0,377 0,477 0,196 ED_096 0,885 0,425 0,103 0,279 0,248 0,383 0,130 0,358 0,455 0,214 ED_042 0,375 0,810 0,152 0,309 0,211 0,396 0,081 0,343 0,502 0,188 ED_061 0,445 0,910 0,029 0,343 0,284 0,436 0,215 0,382 0,545 0,275 EC_008 0,046 0,006 0,624 -0,017 -0,026 0,116 -0,077 -0,123 0,058 -0,151 EC_010 0,155 0,102 0,773 -0,052 -0,067 0,129 -0,086 -0,090 0,095 -0,217 EC_012 0,154 0,093 0,772 -0,004 -0,018 0,116 -0,072 -0,092 0,131 -0,232 EC_017 0,132 0,119 0,741 -0,072 -0,088 0,055 -0,112 -0,025 0,216 -0,142 EC_020 0,056 -0,006 0,689 -0,076 -0,071 0,133 -0,113 -0,048 0,096 -0,126 EC_021 0,005 -0,003 0,633 -0,125 -0,078 0,055 -0,101 -0,105 0,051 -0,215 ED_013 0,312 0,326 -0,083 0,913 0,360 0,467 0,316 0,442 0,305 0,346 ED_031 0,235 0,342 -0,037 0,834 0,285 0,437 0,229 0,439 0,308 0,244 DI_001 0,298 0,312 0,025 0,316 0,854 0,432 0,283 0,185 0,287 0,262 IN_001 0,259 0,219 -0,023 0,322 0,849 0,384 0,277 0,191 0,208 0,309 IN_002 0,084 0,143 -0,232 0,239 0,645 0,211 0,243 0,255 0,107 0,396 ED_007 0,390 0,382 0,137 0,374 0,319 0,746 0,155 0,367 0,338 0,224 ED_025 0,432 0,417 0,125 0,418 0,384 0,796 0,212 0,299 0,432 0,216 ED_027 0,273 0,357 0,162 0,361 0,244 0,771 0,251 0,338 0,323 0,178 ED_044 0,367 0,340 0,084 0,429 0,372 0,773 0,214 0,320 0,391 0,208 ED_078 0,313 0,357 0,056 0,391 0,362 0,748 0,302 0,405 0,420 0,369 WR_005 0,098 0,126 -0,071 0,204 0,241 0,204 0,666 0,216 0,135 0,222 WR_007 0,131 0,139 -0,065 0,251 0,266 0,222 0,808 0,173 0,112 0,238 WV_007 0,060 0,138 -0,137 0,238 0,240 0,231 0,717 0,160 0,102 0,303 ED_049 0,303 0,373 -0,163 0,448 0,242 0,332 0,172 0,726 0,300 0,253 ED_065 0,345 0,307 -0,050 0,401 0,241 0,504 0,188 0,764 0,386 0,297 ED_067 0,279 0,242 -0,083 0,338 0,123 0,274 0,150 0,809 0,272 0,247 ED_068 0,299 0,301 -0,063 0,405 0,143 0,298 0,208 0,815 0,312 0,292 ED_085 0,292 0,372 -0,052 0,337 0,227 0,320 0,220 0,752 0,324 0,354 ED_036 0,337 0,488 0,199 0,269 0,165 0,387 0,034 0,296 0,748 0,157 ED_056 0,383 0,465 0,168 0,286 0,200 0,464 0,142 0,307 0,721 0,189 ED_074 0,429 0,472 0,116 0,288 0,237 0,383 0,174 0,337 0,862 0,290 ED_075 0,509 0,485 0,051 0,245 0,209 0,345 0,115 0,366 0,787 0,224 PV_001 0,227 0,231 -0,218 0,290 0,379 0,276 0,337 0,330 0,259 0,877 PV_003 0,173 0,250 -0,186 0,302 0,337 0,322 0,306 0,316 0,259 0,841 PV_004 0,146 0,210 -0,239 0,274 0,276 0,201 0,231 0,310 0,183 0,796 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® Contudo, mais recentemente, tanto o critério das cargas cruzadas quanto o de Fornell-Larcker têm sido criticados (HENSELER; RINGLE; SARSTEDT, 2015) por não conseguirem estabelecer validade discriminante quando dois constructos estão perfeitamente correlacionados ou quando as cargas dos indicadores dos constructos em consideração diferem apenas ligeiramente (HAIR et al., 2017). A fim de remediar esse problema, a avaliação da razão heterotrait-monotrait (HTMT) foi proposta por Henseler, Ringle e Sarstedt (2015). A HTMT consiste na razão entre a média das correlações heterotrait-heteromethod (correlações dos indicadores entre os constructos que medem fenômenos diferentes) e a média das correlações monotrait-heteromethod (correlações de indicadores dentro do mesmo constructo). Uma vez que existem duas submatrizes monotrait-heteromethod, toma-se a média geométrica das suas correlações médias (HENSELER; RINGLE; SARSTEDT, 2015, p. 121). 240 Conforme explicam Hair et al. (2017, p. 147): “Tecnicamente, a abordagem HTMT é uma estimativa de qual seria a verdadeira correlação entre dois constructos, se eles fossem perfeitamente medidos (ou seja, se fossem perfeitamente confiáveis)”. Essa correlação verdadeira é chamada de correlação “desatenuada” [disattenuated], que, se apresentar valor próximo a 1, indica ausência de validade discriminante entre os constructos considerados (HAIR et al., 2017). Embora um limite para a razão heterotrait-monotrait seja discutível (HENSELER; RINGLE; SARSTEDT, 2015), o valor máximo de 0,90 é sugerido para constructos conceitualmente muito semelhantes, enquanto o limite mais conservador de 0,85 é referência para constructos conceitualmente distintos (HAIR et al., 2017). Além de verificar a razão HTMT no limite conservador, Hair et al. (2017) recomendam ainda conferir (por meio do procedimento bootstraping) se os intervalos de confiança dos valores da razão HTMT são significativamente diferentes de 1, ou seja, se o valor da unidade é incluído em algum dos intervalos de confiança da razão HTMT. A tabela 19 a seguir mostra os valores da razão HTMT para os constructos, todos abaixo do limite conservador 0,85. A tabela 20, apresentada um pouco adiante, evidencia que os intervalos de confiança do critério HTMT estimados pelo método de reamostragem bootstrap não incluem o valor 1, atestando a validade discriminante dos construtos. As colunas indicadas com “2,5%” e “97,5%” mostram, respectivamente, os limites inferior e superior dos intervalos de confiança ajustados de 95% [bias-corrected and accelerated]. A tabela 20 ainda mostra os valores HTMT originais e as respectivas médias extraídas a partir das 5.000 amostras geradas pelo procedimento bootstraping. Tabela 19: Validade discriminante: Razão Heterotrait-Monotrait (HTMT) [A] [B] [C] [D] [E] [F] [G] [H] [I] [J] [A] ABERT_NOVO [B] AMADUREC 0,672 [C] ANSI_EXIST 0,169 0,157 [D] AUTONO 0,430 0,558 0,121 [E] AUTO_ID 0,377 0,415 0,198 0,528 [F] EUDAIMON 0,588 0,650 0,181 0,675 0,568 [G] ID_SOCIAL 0,199 0,278 0,195 0,490 0,544 0,429 [H] INTIM_PERTEN 0,494 0,553 0,146 0,656 0,343 0,534 0,357 [I] PERS_AMP 0,691 0,847 0,210 0,473 0,343 0,618 0,225 0,510 [J] PROP_VIDA 0,280 0,370 0,321 0,453 0,552 0,380 0,512 0,460 0,345 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® 241 Tabela 20: Valores originais, médias amostrais e intervalos de confiança ajustados dos valores da razão Heterotrait-Monotrait (HTMT) HTMT Média da amostra Intervalo de confiança de 95% [ajustado] 2,5% 97,5% AMADUREC -> ABERT_NOVO 0,672 0,674 0,517 0,828 ANSI_EXIST -> ABERT_NOVO 0,169 0,196 0,114 0,301 ANSI_EXIST -> AMADUREC 0,157 0,182 0,101 0,290 AUTONO -> ABERT_NOVO 0,430 0,432 0,281 0,577 AUTONO -> AMADUREC 0,558 0,564 0,410 0,713 AUTONO -> ANSI_EXIST 0,121 0,153 0,077 0,263 AUTO_ID -> ABERT_NOVO 0,377 0,387 0,255 0,520 AUTO_ID -> AMADUREC 0,415 0,419 0,276 0,563 AUTO_ID -> ANSI_EXIST 0,198 0,233 0,160 0,324 AUTO_ID -> AUTONO 0,528 0,531 0,389 0,667 EUDAIMON -> ABERT_NOVO 0,588 0,589 0,468 0,700 EUDAIMON -> AMADUREC 0,650 0,651 0,529 0,767 EUDAIMON -> ANSI_EXIST 0,181 0,204 0,111 0,329 EUDAIMON -> AUTONO 0,675 0,678 0,548 0,796 EUDAIMON -> AUTO_ID 0,568 0,571 0,455 0,685 ID_SOCIAL -> ABERT_NOVO 0,199 0,220 0,097 0,374 ID_SOCIAL -> AMADUREC 0,278 0,299 0,153 0,467 ID_SOCIAL -> ANSI_EXIST 0,195 0,226 0,124 0,359 ID_SOCIAL -> AUTONO 0,490 0,493 0,336 0,648 ID_SOCIAL -> AUTO_ID 0,544 0,549 0,386 0,714 ID_SOCIAL -> EUDAIMON 0,429 0,432 0,291 0,577 INTIM_PERTEN -> ABERT_NOVO 0,494 0,495 0,352 0,624 INTIM_PERTEN -> AMADUREC 0,553 0,556 0,390 0,712 INTIM_PERTEN -> ANSI_EXIST 0,146 0,176 0,104 0,283 INTIM_PERTEN -> AUTONO 0,656 0,658 0,542 0,769 INTIM_PERTEN -> AUTO_ID 0,343 0,347 0,223 0,480 INTIM_PERTEN -> EUDAIMON 0,534 0,534 0,415 0,639 INTIM_PERTEN -> ID_SOCIAL 0,357 0,361 0,221 0,506 PERS_AMP -> ABERT_NOVO 0,691 0,691 0,559 0,812 PERS_AMP -> AMADUREC 0,847 0,852 0,733 0,966 PERS_AMP -> ANSI_EXIST 0,210 0,227 0,136 0,343 PERS_AMP -> AUTONO 0,473 0,476 0,325 0,617 PERS_AMP -> AUTO_ID 0,343 0,352 0,226 0,487 PERS_AMP -> EUDAIMON 0,618 0,620 0,511 0,721 PERS_AMP -> ID_SOCIAL 0,225 0,249 0,134 0,397 PERS_AMP -> INTIM_PERTEN 0,510 0,512 0,373 0,639 PROP_VIDA -> ABERT_NOVO 0,280 0,287 0,159 0,422 PROP_VIDA -> AMADUREC 0,370 0,372 0,208 0,529 PROP_VIDA -> ANSI_EXIST 0,321 0,327 0,195 0,460 PROP_VIDA -> AUTONO 0,453 0,455 0,304 0,597 PROP_VIDA -> AUTO_ID 0,552 0,554 0,420 0,682 PROP_VIDA -> EUDAIMON 0,380 0,381 0,254 0,503 PROP_VIDA -> ID_SOCIAL 0,512 0,516 0,372 0,661 PROP_VIDA -> INTIM_PERTEN 0,460 0,461 0,327 0,586 Fonte: Reproduzido da saída do SMART-PLS3® A figura 5 a seguir mostra o modelo estrutural re-especificado após a avaliação do modelo de mensuração. 242 Figura 5: Modelo estrutural re-especificado após a avaliação do modelo de mensuração Fonte: Saída do SMART-PLS3® 242 243 5.2.6.2 Modelo estrutural Após a certificação de que os constructos que compõem o modelo teórico reespecificado foram mensurados adequadamente, a análise do modelo estrutural pode ser efetuada. Os critérios-chave para se avaliar os resultados do modelo estrutural são: (1) verificação da colinearidade entre os constructos endógenos; (2) avaliação da significância e relevância das relações entre os constructos do modelo (coeficientes de caminho); (3) avaliação dos coeficientes de determinação (R²); (4) avaliação do tamanho do efeito (f²); e (5) avaliação da relevância preditiva do modelo (Q² e q²) (HAIR et al., 2017). O software utilizado nesta análise, o SmartPLS® versão 3, além de ser o mais usado para aplicações do PLS-SEM (HAIR et al., 2018), permite diagnósticos que não estavam disponíveis em versões anteriores, o que obrigava os pesquisadores a utilizarem outros softwares auxiliares, como o SPSS® e o Microsoft Excel®, para realizarem procedimentos não incorporados ao software. Especificamente, a versão 3 do SmartPLS® executa automaticamente os diagnósticos de multicolinearidade e de tamanho do efeito (f²). No entanto, o software ainda não incorporou procedimento para o cálculo de q². 5.2.6.2.1 Diagnóstico de multicolinearidade Uma vez que a estimação dos coeficientes de caminho nos modelos estruturais por PLS-SEM se baseia em regressões pelos mínimos quadrados ordinários de cada variável latente endógena sobre seus constructos predecessores correspondentes, torna-se necessário o exame de questões relacionadas à multicolinearidade, pois os coeficientes de caminho estarão sujeitos a vieses quando a estimação envolver níveis significativos de multicolinearidade entre os constructos preditores (HAIR et al., 2017, 2014a). Níveis aceitáveis de multicolinearidade são indicados por valores de tolerância abaixo de 0,20, correspondendo a valores VIF [variance inflation factor] inferiores a 5 (HAIR et al., 2017). Conforme os resultados da tabela 21 a seguir, não houve restrições de colinearidade entre os constructos internos, atestado pelos valores VIF, que estiveram abaixo de 5 (VIF ≤ 5). 244 Tabela 21: Valores VIF internos [A] [B] [C] [D] [E] [F] [G] [H] [I] [J] [A] ABERT_NOVO 1,576 1,576 1,575 [B] AMADUREC 1,801 1,801 1,799 [C] ANSI_EXIST 1,000 1,000 1,000 1,000 1,000 1,000 [D] AUTONO 1,594 1,594 1,567 [E] AUTO_ID [F] EUDAIM 1,784 1,784 1,773 [G] ID_SOCIAL [H] INTIM_PERTEN 1,618 1,618 1,558 [I] PERS_AMP 1,916 1,916 1,909 [J] PROP_VIDA 1,241 1,241 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® 5.2.6.2.2 Significância e relevância das relações entre os constructos (coeficientes estruturais) Um modelo estrutural é constituído por relações entre constructos; enquanto a direção dessas relações é indicada por setas, a força das relações é indicada pelos coeficientes de caminho, que variam entre -1 e +1 (HAIR et al., 2017). Quanto mais próximo de +1 for o coeficiente de caminho, maior o indício de uma forte relação positiva entre os constructos. O inverso é verdadeiro para coeficientes de caminho mais próximos de -1. Contudo, a significância dos coeficientes é avaliada por meio dos valores t (HAIR et al., 2017). A tabela 22 a seguir mostra os valores dos coeficientes de caminho e os respectivos valores da estatística t e do valor p, que indicam a significância dos coeficientes, e os intervalos de confiança de 95% (ajustados). Das relações teorizadas pelo modelo, apenas 10 (em negrito) apresentaram significância estatística no nível de 5% (valor crítico de t = 1,96; p ≤ 0,05) ou 1% (valor crítico de t = 2,57; p ≤ 0,01), tendo sido então suportadas. Tabela 22: Valores, significância (estatística t e valor p) e intervalos de confiança de 95% (ajustados) dos coeficientes de caminho (continua) Coeficientes de caminho Estatística t Valor p Intervalo de confiança de 95% [ajustado] 2,5% 97,5% ABERT_NOVO -> AUTO_ID 0,077 1,155 0,248 -0,053 0,204 ABERT_NOVO -> ID_SOCIAL -0,045 0,641 0,522 -0,178 0,102 ABERT_NOVO -> PROP_VIDA -0,018 0,292 0,770 -0,139 0,109 AMADUREC -> AUTO_ID 0,049 0,701 0,483 -0,089 0,181 AMADUREC -> ID_SOCIAL 0,015 0,200 0,842 -0,126 0,159 AMADUREC -> PROP_VIDA 0,045 0,593 0,553 -0,101 0,192 ANSI_EXIST -> ABERT_NOVO 0,149 2,262 0,024 0,010 0,265 ANSI_EXIST -> AMADUREC 0,092 1,229 0,219 -0,068 0,228 ANSI_EXIST -> AUTONO -0,072 1,020 0,308 -0,211 0,065 ANSI_EXIST -> EUDAIMON 0,142 2,089 0,037 0,007 0,271 245 Tabela 22: Valores, significância (estatística t e valor p) e intervalos de confiança de 95% (ajustados) dos coeficientes de caminho (conclusão) Coeficientes de caminho Estatística t Valor p Intervalo de confiança de 95% [ajustado] 2,5% 97,5% ANSI_EXIST -> INTIM_PERTEN -0,105 1,509 0,131 -0,240 0,028 ANSI_EXIST -> PERS_AMP 0,167 2,303 0,021 0,010 0,293 AUTONO -> AUTO_ID 0,147 2,223 0,026 0,019 0,277 AUTONO -> ID_SOCIAL 0,156 2,467 0,014 0,035 0,280 AUTONO -> PROP_VIDA 0,148 1,916 0,055 -0,006 0,295 EUDAIMON -> AUTO_ID 0,279 3,899 0,000 0,143 0,428 EUDAIMON -> ID_SOCIAL 0,163 2,331 0,020 0,028 0,307 EUDAIMON -> PROP_VIDA 0,096 1,327 0,185 -0,046 0,236 INTIM_PERTEN -> AUTO_ID -0,075 1,163 0,245 -0,199 0,053 INTIM_PERTEN -> ID_SOCIAL 0,030 0,466 0,641 -0,100 0,151 INTIM_PERTEN -> PROP_VIDA 0,220 3,247 0,001 0,090 0,355 PERS_AMP -> AUTO_ID -0,043 0,650 0,516 -0,172 0,091 PERS_AMP -> ID_SOCIAL -0,049 0,626 0,531 -0,201 0,105 PERS_AMP -> PROP_VIDA 0,073 0,954 0,340 -0,074 0,227 PROP_VIDA -> AUTO_ID 0,268 4,267 0,000 0,144 0,389 PROP_VIDA -> ID_SOCIAL 0,254 4,467 0,000 0,142 0,365 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® 5.2.6.2.3 Magnitude dos coeficientes de determinação (R²) O coeficiente de determinação (R2) representa a quantidade de variância nos construtos endógenos explicada por todos os construtos exógenos ligados a ele (HAIR et al., 2017). O R² é uma medida do poder preditivo do modelo e é calculado como a correlação quadrada entre os valores reais e previstos de um determinado constructo endógeno (HAIR et al., 2017). O valor de R2 varia de 0 a 1, com a maior capacidade preditiva sendo indicada por valores mais próximos de um. No entanto, níveis mínimos do R² não têm sido consenso na literatura, variando entre os campos em que a pesquisa é realizada (GARSON, 2016). Segundo Hair et al. (2017), valores R2 de 0,20 são considerados altos em disciplinas como comportamento do consumidor. Já em pesquisas acadêmicas no campo do marketing, valores R2 de 0,75, 0,50 ou 0,25 são considerados, respectivamente, como substanciais, moderados ou fracos (HAIR et al., 2017; HENSELER; RINGLE; SINKOVICS, 2009). Mas, ainda assim, isso não é consenso. Por exemplo, Chin (1998) estabelece essa mesma classificação para os valores 0,67, 0,33 e 0,19, enquanto Cohen (1988) sugere valores ainda mais baixos, de 0,26 (substancial), 0,13 (moderado) e 0,02 (fraco). Falk e Miller (1992) afirmam que coeficientes de determinação maiores ou iguais a 0,10 (R² ≥ 0,10) devem ser considerados para análise. 246 Uma vez que este estudo é exploratório, lidando com relações entre variáveis latentes ainda não verificadas na literatura, e levando em consideração a complexidade da mensuração dessas variáveis, consideraram-se os valores de R² significativos a 5%. Dessa forma, a partir das informações contidas na tabela 23, pode-se afirmar que as 6 dimensões da experiência turística – Abertura ao novo (ABERT_NOVO), Amadurecimento (AMADUREC), Autonomia (AUTONO), Eudaimonia (EUDAIMON), Intimidade e Pertencimento (INTIM_PERTEN) e Perspectiva ampliada (PERS_AMP) – juntamente com o constructo Propósito na vida (PROP_VIDA) explicaram 29,1% da variância da Autoidentidade (AUTO_ID) e 18,5% da variância da Identidade Social (ID_SOCIAL). As mesmas 6 dimensões da experiência turística explicaram 19,4% do constructo Propósito na vida. A figura 6 na página seguinte mostra o modelo estrutural com os coeficientes de caminho e de determinação. Tabela 23: Valores, significância (estatística t e valor p) e intervalos de confiança (ajustados) dos coeficientes de determinação (R²) Coeficientes de determinação (R²) Estatística t Valor p Intervalo de confiança de 95% [ajustado] 2,5% 97,5% ABERT_NOVO 0,022 1,171 0,242 0,000 0,070 AMADUREC 0,008 0,592 0,554 0,000 0,052 AUTONO 0,005 0,423 0,672 0,000 0,044 AUTO_ID 0,291 6,638 0,000 0,228 0,402 EUDAIMON 0,020 1,007 0,314 0,000 0,074 ID_SOCIAL 0,185 4,354 0,000 0,131 0,297 INTIM_PERTEN 0,011 0,694 0,488 0,000 0,058 PERS_AMP 0,028 1,208 0,227 0,001 0,086 PROP_VIDA 0,194 4,440 0,000 0,135 0,308 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® 247 Figura 6: Modelo estrutural com coeficientes de caminho e coeficientes de determinação dos constructos dependentes Fonte: Adapatado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® 247 248 5.2.6.2.4 Avaliação do tamanho do efeito (f²) Além de avaliar os valores de R2 de todos os constructos endógenos, a mudança no valor de R2 quando um constructo exógeno é omitido do modelo pode ser usada para avaliar se o constructo omitido tem um impacto substantivo nos constructos endógenos (HAIR et al., 2017). Isso é feito por meio da medida chamada de tamanho do efeito (ƒ2), que é calculada com a seguinte formulação: ƒ2 = (R2 incluído – R2 excluído) / (1 − R2 incluído), onde R2 incluído e R2 excluído são os valores de R2 da variável latente endógena quando uma variável latente exógena selecionada é incluída e excluída do modelo (HAIR et al., 2017). O tamanho do efeito (ƒ2) é calculado estimando-se o modelo de caminho no PLS duas vezes, a primeira vez com a variável latente exógena incluída (resultando em R2 incluído) e a segunda com a variável latente exógena excluída (resultando em R2 excluído) (HAIR et al., 2017). Os parâmetros de avaliação de ƒ2 foram sugeridos por Cohen (1988), com os valores de 0,02, 0,15 e 0,35, indicando, respectivamente, efeitos pequenos, médios e grandes da variável latente exógena (HAIR et al., 2017). Valores inferiores a 0,02 indicam que não há efeito (HAIR et al., 2017). Complementarmente, os efeitos totais dos constructos predecessores podem ser verificados. Nesse sentido, avalia-se a intensidade com que cada constructo antecedente influencia, em última instância, o constructo mais à direita, por meio dos constructos mediadores. A tabela 24 a seguir mostra os resultados do tamanho do efeito (f²) para cada par antecedente/consequente de constructos previsto no modelo estrutural. A tabela 25, seguinte, mostra os efeitos totais. Tabela 24: Valores, significância (estatística t e valor p) e intervalos de confiança de 95% (ajustados) do tamanho do efeito (f²) (continua) Efeito do tamanho (f²) Estatística t Valor p Intervalo de confiança de 95% [ajustado] Avaliação de f² 2,5% 97,5% ABERT_NOVO -> AUTO_ID 0,005 0,484 0,628 0,000 0,038 Nulo ABERT_NOVO -> ID_SOCIAL 0,002 0,220 0,826 0,000 0,025 Nulo ABERT_NOVO -> PROP_VIDA 0,000 0,057 0,955 0,000 0,017 Nulo AMADUREC -> AUTO_ID 0,002 0,245 0,807 0,000 0,027 Nulo AMADUREC -> ID_SOCIAL 0,000 0,026 0,980 0,000 0,021 Nulo AMADUREC -> PROP_VIDA 0,001 0,184 0,854 0,000 0,026 Nulo ANSI_EXIST -> ABERT_NOVO 0,023 1,112 0,266 0,000 0,075 Pequeno ANSI_EXIST -> AMADUREC 0,009 0,567 0,571 0,000 0,055 Nulo ANSI_EXIST -> AUTONO 0,005 0,405 0,685 0,000 0,046 Nulo ANSI_EXIST -> EUDAIMON 0,020 0,952 0,341 0,000 0,080 Pequeno ANSI_EXIST -> INTIM_PERTEN 0,011 0,663 0,507 0,000 0,061 Nulo ANSI_EXIST -> PERS_AMP 0,029 1,138 0,255 0,001 0,094 Pequeno 249 Tabela 24: Valores, significância (estatística t e valor p) e intervalos de confiança de 95% (ajustados) do efeito do tamanho (f²) (conclusão) Efeito do tamanho (f²) Estatística t Valor p Intervalo de confiança de 95% [ajustado] Avaliação de f² 2,5% 97,5% AUTONO -> AUTO_ID 0,019 0,988 0,323 0,001 0,073 Nulo AUTONO -> ID_SOCIAL 0,019 1,125 0,261 0,001 0,063 Nulo AUTONO -> PROP_VIDA 0,017 0,877 0,380 0,000 0,071 Nulo EUDAIMON -> AUTO_ID 0,062 1,819 0,069 0,016 0,147 Pequeno EUDAIMON -> ID_SOCIAL 0,018 1,064 0,287 0,001 0,066 Nulo EUDAIMON -> PROP_VIDA 0,006 0,581 0,561 0,000 0,038 Nulo INTIM_PERTEN -> AUTO_ID 0,005 0,495 0,620 0,000 0,035 Nulo INTIM_PERTEN -> ID_SOCIAL 0,001 0,129 0,897 0,000 0,018 Nulo INTIM_PERTEN -> PROP_VIDA 0,039 1,478 0,140 0,006 0,106 Pequeno PERS_AMP -> AUTO_ID 0,001 0,220 0,826 0,000 0,023 Nulo PERS_AMP -> ID_SOCIAL 0,002 0,199 0,842 0,000 0,026 Nulo PERS_AMP -> PROP_VIDA 0,003 0,362 0,717 0,000 0,034 Nulo PROP_VIDA -> AUTO_ID 0,082 1,970 0,049 0,022 0,183 Pequeno PROP_VIDA -> ID_SOCIAL 0,064 2,036 0,042 0,019 0,140 Pequeno Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® Tabela 25: Valores, significância (estatística t e valor p) e intervalos de confiança de 95% (ajustados) dos efeitos totais Efeitos totais Estatística t Valor p Intervalo de confiança de 95% [ajustado] 2,5% 97,5% ABERT_NOVO -> AUTO_ID 0,072 1,042 0,298 -0,064 0,205 ABERT_NOVO -> ID_SOCIAL -0,050 0,680 0,497 -0,186 0,103 ABERT_NOVO -> PROP_VIDA -0,018 0,292 0,770 -0,139 0,109 AMADUREC -> AUTO_ID 0,061 0,833 0,405 -0,080 0,204 AMADUREC -> ID_SOCIAL 0,026 0,336 0,737 -0,126 0,180 AMADUREC -> PROP_VIDA 0,045 0,593 0,553 -0,101 0,192 ANSI_EXIST -> ABERT_NOVO 0,149 2,262 0,024 0,010 0,265 ANSI_EXIST -> AMADUREC 0,092 1,229 0,219 -0,068 0,228 ANSI_EXIST -> AUTONO -0,072 1,020 0,308 -0,211 0,065 ANSI_EXIST -> AUTO_ID 0,044 1,086 0,277 -0,040 0,119 ANSI_EXIST -> EUDAIMON 0,142 2,089 0,037 0,007 0,271 ANSI_EXIST -> ID_SOCIAL -0,006 0,204 0,838 -0,073 0,052 ANSI_EXIST -> INTIM_PERTEN -0,105 1,509 0,131 -0,240 0,028 ANSI_EXIST -> PERS_AMP 0,167 2,303 0,021 0,010 0,293 ANSI_EXIST -> PROP_VIDA -0,007 0,178 0,859 -0,090 0,057 AUTONO -> AUTO_ID 0,186 2,809 0,005 0,054 0,317 AUTONO -> ID_SOCIAL 0,194 2,928 0,003 0,064 0,322 AUTONO -> PROP_VIDA 0,148 1,916 0,055 -0,006 0,295 EUDAIMON -> AUTO_ID 0,305 4,356 0,000 0,174 0,451 EUDAIMON -> ID_SOCIAL 0,188 2,578 0,010 0,047 0,334 EUDAIMON -> PROP_VIDA 0,096 1,327 0,185 -0,046 0,236 INTIM_PERTEN -> AUTO_ID -0,016 0,243 0,808 -0,142 0,114 INTIM_PERTEN -> ID_SOCIAL 0,086 1,300 0,194 -0,045 0,211 INTIM_PERTEN -> PROP_VIDA 0,220 3,247 0,001 0,090 0,355 PERS_AMP -> AUTO_ID -0,024 0,334 0,739 -0,161 0,120 PERS_AMP -> ID_SOCIAL -0,030 0,360 0,719 -0,194 0,131 PERS_AMP -> PROP_VIDA 0,073 0,954 0,340 -0,074 0,227 PROP_VIDA -> AUTO_ID 0,268 4,267 0,000 0,144 0,389 PROP_VIDA -> ID_SOCIAL 0,254 4,467 0,000 0,142 0,365 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® 250 5.2.6.2.5 Avaliação da relevância preditiva (Q²) Hair et al. (2017) afirmam que, além de se avaliar a magnitude dos valores de R2 como critério de precisão preditiva, deve-se também examinar o valor Q2 de Stone-Geisser, que consiste em uma medida do poder preditivo do modelo fora da amostra analisada, sua relevância preditiva. Quando um modelo de caminho no PLS apresenta relevância preditiva, ele consegue prever com precisão os dados não utilizados na estimativa do modelo (HAIR et al., 2017). Valores Q2 maiores que zero para uma variável latente endógena reflexiva indicam a relevância preditiva do modelo de caminho para um determinado construto dependente, enquanto valores iguais ou menores que zero indicam ausência de relevância preditiva (HAIR et al., 2017). O valor de Q2 é obtido usando o procedimento blindfolding para uma distância de omissão especificada D. O blindfolding é uma técnica de reutilização de amostra que omite todos os pontos de dados nos indicadores do construto endógeno e estima os parâmetros com os demais pontos de dados (HAIR et al., 2017). Os pontos de dados omitidos são considerados valores omissos [missing values] e tratados como tal pelo algoritmo PLS-SEM; as estimativas resultantes são usadas para prever os pontos de dados omitidos (HAIR et al., 2017). A diferença entre os pontos de dados verdadeiros (omitidos) e os preditos é então usada como entrada para a medida Q2 (HAIR et al., 2017). O processo se repete até que cada ponto de dado tenha sido omitido e o modelo re-estimado. O blindfolding é aplicado a constructos endógenos reflexivos ou constructos endógenos de item único (HAIR et al., 2017). Duas abordagens podem ser usadas para o cálculo de Q2: (1) a validação cruzada da redundância do constructo [cross-validated redundancy approach], baseada nas estimativas do modelo de caminho do modelo estrutural (pontuações dos construtos antecedentes) e do modelo de mensuração (constructo endógeno alvo) da predição de dados; e (2) a abordagem de validação cruzada da comunalidade do constructo [cross-validated communality approach], que usa apenas os escores do constructo estimados para o constructo endógeno alvo (sem incluir as informações do modelo estrutural) para prever os pontos de dados omitidos (HAIR et al., 2017, p. 237). Contudo, Hair et al. (2017) advertem para que apenas a primeira abordagem seja utilizada, uma vez que é a que considera o modelo estrutural, elemento-chave do modelo de caminho, para prever os pontos de dados omitidos, sendo a abordagem que melhor se ajusta à modelagem de equações estruturais com PLS. A tabela 26 a seguir mostra os resultados da validação cruzada da redundância dos constructos analisados. Com exceção do valor relacionado ao constructo Autonomia 251 (AUTONO), apesar de pequenos, os valores de Q2 para os demais constructos são maiores que zero, atestando relevância preditiva para os constructos exógenos sobre os endógenos. Tabela 26: Validação cruzada da redundância do constructo SSO SSE Q² (=1-SSE/SSO) ABERT_NOVO 936,000 924,413 0,012 AMADUREC 624,000 620,358 0,006 ANSI_EXIST 1.872,000 1.872,000 AUTONO 624,000 625,101 -0,002 AUTO_ID 936,000 791,640 0,154 EUDAIMON 1.560,000 1.543,493 0,011 ID_SOCIAL 936,000 857,216 0,084 INTIM_PERTEN 1.560,000 1.551,607 0,005 PERS_AMP 1.248,000 1.229,967 0,014 PROP_VIDA 936,000 823,785 0,120 Fonte: Elaborado pelo autor a partir da saída do SMART-PLS3® Com base em todas as verificações realizadas, a tabela 27 resume os resultados para os testes das hipóteses implicadas no modelo estrutural. Das 10 relações significativas verificadas, 6 delas não mostraram poder explicativo para os respectivos constructos dependentes (R² dos constructos dependentes não significativos), sendo que dessas 6, 3 não apresentaram nenhum efeito significatvo (f² < 0,02). As 4 relações suportadas (em destaque) são aquelas que (1) apresentaram significância estatística, (2) demonstraram algum efeito de tamanho sobre a variável dependente e (3) apresentaram relevância preditiva sobre a variável dependente (Q2 da variável dependente endógena maior que zero). Tabela 27: Resultados dos testes das hipóteses do modelo (relações entre os constructos) (continua) Relações hipotetizadas pelo modelo Coeficientes de caminho Significância Efeito do tamanho (f²) Resultado ABERT_NOVO -> AUTO_ID 0,077 Não Nulo Rejeitada ABERT_NOVO -> ID_SOCIAL -0,045 Não Nulo Rejeitada ABERT_NOVO -> PROP_VIDA -0,018 Não Nulo Rejeitada AMADUREC -> AUTO_ID 0,049 Não Nulo Rejeitada AMADUREC -> ID_SOCIAL 0,015 Não Nulo Rejeitada AMADUREC -> PROP_VIDA 0,045 Não Nulo Rejeitada ANSI_EXIST -> ABERT_NOVO 0,149 p ≤ 0,05 Pequeno Rejeitada ANSI_EXIST -> AMADUREC 0,092 Não Nulo Rejeitada ANSI_EXIST -> AUTONO -0,072 Não Nulo Rejeitada ANSI_EXIST -> EUDAIMON 0,142 p ≤ 0,05 Pequeno Rejeitada ANSI_EXIST -> INTIM_PERTEN -0,105 Não Nulo Rejeitada ANSI_EXIST -> PERS_AMP 0,167 p ≤ 0,05 Pequeno Rejeitada AUTONO -> AUTO_ID 0,147 p ≤ 0,05 Nulo Rejeitada AUTONO -> ID_SOCIAL 0,156 p ≤ 0,05 Nulo Rejeitada AUTONO -> PROP_VIDA 0,148 Não Nulo Rejeitada EUDAIMON -> AUTO_ID 0,279 p ≤ 0,01 Pequeno Suportada EUDAIMON -> ID_SOCIAL 0,163 p ≤ 0,05 Nulo Rejeitada EUDAIMON -> PROP_VIDA 0,096 Não Nulo Rejeitada INTIM_PERTEN -> AUTO_ID -0,075 Não Nulo Rejeitada 252 Tabela 27: Resultados dos testes das hipóteses do modelo (relações entre os constructos) (conclusão) Relações hipotetizadas pelo modelo Coeficientes de caminho Significância Efeito do tamanho (f²) Resultado INTIM_PERTEN -> ID_SOCIAL 0,030 Não Nulo Rejeitada INTIM_PERTEN -> PROP_VIDA 0,220 p ≤ 0,01 Pequeno Suportada PERS_AMP -> AUTO_ID -0,043 Não Nulo Rejeitada PERS_AMP -> ID_SOCIAL -0,049 Não Nulo Rejeitada PERS_AMP -> PROP_VIDA 0,073 Não Nulo Rejeitada PROP_VIDA -> AUTO_ID 0,268 p ≤ 0,01 Pequeno Suportada PROP_VIDA -> ID_SOCIAL 0,254 p ≤ 0,01 Pequeno Suportada Fonte: Elaborado pelo autor a partir dos resultados da saída do SMART-PLS3® 5.3 Discussão integrada Os resultados da avaliação do modelo estrutural apontam algumas relações entre dimensões de transformação pessoal proporcionada por uma experiência turística considerada importante para a vida do indivíduo e a sua Autoidentidade, o senso de si mesmo. Especificamente, Eudaimonia [EUDAIMON] foi a dimensão que mais explicou o constructo Autoidentidade [AUTO_ID] (coeficiente de caminho = 0,279; efeitos totais = 0,305), sendo a única que mostrou impacto relevante na predição da proxie da tarefa de autoidentidade, ainda que o tamanho do efeito tenha sido pequeno (f² = 0,062). A identidade de um indivíduo é construída durante toda a sua vida, portanto, influenciada por diversos fatores. O fato de o presente estudo ter captado uma relação positiva entre a experiência eudaimônica vivenciada em contextos de viagem e turismo e a autoidentidade não só encontra suporte na teoria da identidade eudaimônica de Waterman (WATERMAN, 2007a, 1993a, 1992, 1990), como estabelece uma ligação entre experiências de viagem e a construção da identidade. A dimensão Eudaimonia reflete o caráter experiencial do turismo, no qual o indivíduo está envolvido em diferentes atividades, e as vincula ao seu eu verdadeiro. Isso está bem representado na frase “Participei de atividades que me fizeram sentir quem eu realmente sou” [ED_007]. Alguns depoimentos da fase qualitativa fazem referência à necessidade de se afastar do cotidiano, de abandonar os papéis e as expectativas sociais e partir para conhecer outras realidades e refletir sobre a própria vida. Algumas vezes essa jornada também se torna um processo de conhecer-se a si mesmo. A relação entre Eudaimonia e Autoidentidade verificada no survey parece reforçar a tese da literatura do turismo (especialmente a que trata da experiência de autenticidade) de que os intervalos de tempo durante viagens, quando o indivíduo se despe momentaneamente das vestes de seus papéis institucionais e entra em 253 contato com culturas, histórias, pessoas e ambientes diferentes dos seus, proporciona uma oportunidade para que ele reflita sobre si próprio. Itens tais como “Descobri mais sobre quem eu sou” [ED_025] e “Consegui resolver muitas das minhas questões interiores” [ED_044] captam o aspecto de autoconhecimento e autoaceitação da experiência eudaimônica. Esses aspectos são melhor compreendidos com os relatos das pessoas que reconhecidamente passaram por esse processo de autoconhecimento em uma experiência de viagem. Conforme a análise das entrevistas já reportadas neste trabalho demonstrou, a viagem proporcionou um tempo para reflexão que levou a Entrevistada 1 a perceber sua insegurança, e, para as entrevistadas 4, 5 e 7, o desencadeamento de um processo de autoconhecimento. A Entrevistada 4 passou a se questionar mais sobre “Quem? Como? Por quê? O que é que eu faço? Por que é que eu ajo de determinadas formas? Como que eu ajo? Como que eu ajo quando eu tô me submetendo às caixinhas ou como que eu ajo quando eu não estou?” (Entrevistada 4), inclusive após sua viagem, passando a agir assim em sua vida atual. A Entrevistada 5 também passou a se conhecer mais, reconheceu que “no nosso dia a dia a gente não para pra se conhecer” e que para que a pessoa possa se descobrir, torna-se necessário sair do “próprio contexto”, abandonar a “zona de conforto”. A Entrevistada 7 tomou consciência de sua condição social privilegiada e de seu caráter egoísta, passando a assumir uma postura mais autocrítica e responsável. O depoimento da Entrevistada 5 é bastante emblemático no que se refere à necessidade de autoconhecimento e do afastamento da vida normal como condição para que o processo de reflexão possa acontecer: O que eu acho que acontece é que no nosso dia a dia a gente não para pra se conhecer. Muitas vezes a gente nem sabe quem a gente é. A gente tem uma vaga ideia de quem a gente é. E quando você tá fora do seu contexto, quando você se coloca fora do seu contexto, quando você se coloca fora da sua zona de conforto, você se descobre, vou nem te falar redescobre, porque redescobrir pressupõe que você já se descobriu alguma vez e sinceramente, se eu olho pra meus amigos, se eu olho pras pessoas que eu convivo e são pessoas letradas, pessoas que de fato, por exemplo, meus amigos já pararam pra fazer terapia, pessoas que tão buscando se entender e tudo o mais, nem assim. Eu fiz terapia durante anos no Brasil! Anos! Desde os meus 18 anos eu queria entender mais sobre como minha mente funciona. E eu não me conhecia, várias facetas minhas, eu não tinha ideia que elas estavam aqui, porque eu tinha escolhido. Eu acho então que no nosso dia a dia a gente tá querendo trabalhar pra pagar as contas e pagando as contas pra ter coisas que você nem sabe porque é que você precisa. (Entrevistada 5) 254 Além disso, a experiência eudaimônica parece evocar a “certeza interior” acerca das escolhas a serem feitas na vida, como consequência das reflexões feitas no ambiente turístico e o envolvimento em atividades autoexpressivas. No survey, esse aspecto é captado pelos itens: “Consegui estabelecer objetivos claros e um propósito para a minha vida” [ED_078] e “Estive engajado em atividades que me deram uma certeza do que eu deveria fazer na minha vida” [ED_027]. Assim, a relação positiva entre Eudaimonia e Autoidentidade, fornece uma evidência para a tese de que o espaço liminal propiciado em viagens a turismo pode oportunizar a liberdade reflexiva para o indivíduo, que, longe das amarras sociais e dos padrões e exigências institucionais, consegue envolver-se na busca de sua segurança ontológica. Embora preconizada na literatura, até onde se pôde averiguar, essa relação ainda não havia sido estabelecida estatisticamente. Duas outras relações significativas dizem respeito ao constructo Propósito na vida [PROP_VIDA], mensurado pela subescala de mesmo nome do MAPS20 (a única que resistiu à análise fatorial confirmatória durante a avaliação do modelo de mensuração), e os dois constructos que aproximam as tarefas de identidade – Autoidentidade [AUTO_ID] e Identidade social [ID_SOCIAL]. Nesse sentido, tanto a Autoidentidade (coeficiente de caminho = 0,268) quanto a Identidade social (coeficiente de caminho = 0,254) foram preditas pelo Propósito na vida. O propósito na vida está intimamente relacionado ao sentido que o indivíduo atribui à própria existência, encontrando algum significado para a sua vida (STEGER et al., 2006). Essa relação do propósito na vida com resoluções positivas de identidade tem sido demonstrada em estudos empíricos, seja na perspectiva do capital de identidade, quando se assume o propósito na vida como um recurso pessoal intangível, seja como componente psicológico importante para o bem-estar (SUGIMURA et al., 2016; NEGRU-SUBTIRICA et al., 2016; CÔTÉ, 2016; OLIVEIRA et al., 2014; CÔTÉ; SCHWARTZ, 2002). No survey, o Propósito na vida foi mensurado sem referência à viagem lembrada pelos sujeitos, servindo de medida da autoavaliação acerca do quão orientada está a vida do indivíduo em relação aos seus objetivos e o significado percebido dessa direção para a sua própria existência. O propósito na vida corresponde ao “significado ontológico da vida do ponto de vista do indivíduo que experiencia” (CRUMBAUGH; MAHOLICK, 1964, p. 201), consistindo na capacidade de se encontrar um significado e uma direção nas próprias experiências e de se propor e definir metas para a própria vida (RYFF; SINGER, 2003). Assim, a relação positiva entre Propósito na vida e Autoidentidade aponta para resoluções sintônicas das tarefas de autoidentidade. Seguindo o mesmo raciocínio, a relação positiva entre Propósito 255 na vida e Identidade Social também sinalizam resoluções sintônicas das tarefas de identidade social. Na pesquisa qualitativa, entrevistados que vivenciaram uma experiência reflexiva mais profunda passaram a atribuir novo significado à vida, valorizando mais a experiência presente e as relações com as outras pessoas, substituindo valores materialistas por outros mais humanistas, e adotando uma atitude menos egocêntrica, com o exercício mais consciente da alteridade e do altruísmo. Para essas pessoas, o sentido da própria existência ganhou uma dimensão mais universalista. Uma observação curiosa nas falas desses indivíduos é o fato de eles passarem a perceber que os aspectos de suas vidas mais relacionados com sua identidade social, como o trabalho e os papéis sociais, acabavam entrando em conflito com questões pessoais mais íntimas, ligadas a possibilidades de existir e novas formas de ser, ou seja, às escolhas que poderiam fazer para suas vidas. Outro ponto a ser destacado diz respeito ao fato de traços de ansiedade existencial durante as viagens relatadas terem sido apenas manifestados exatamente nos depoimentos desses entrevistados. No survey, a relação entre ansiedade existencial e propósito na vida não foi testada, uma vez que o modelo inicialmente proposto não previa a conexão entre esses constructos, mas nenhuma relação da ansiedade existencial com as dimensões da experiência turística se mostrou relevante do ponto de vista do poder de predição, ainda que três dessas relações tivessem sido significativas (ANSI_EXIST->ABERT_NOVO; Coeficiente de caminho = 0,149; ANSI_EXIST->EUDAIMON; Coeficiente de caminho = 0,142; ANSI_EXIST->PERS_AMP; Coeficiente de caminho = 0,167). Assim, o estudo quantitativo não constatou a ansiedade existencial como antecedente de qualquer das dimensões da experiência turística em ambientes de viagem e turismo, contrariando o que preconiza a literatura (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; KIRILLOVA; LEHTO, 2015). Por outro lado, no estudo qualitativo, os quatro entrevistados (entrevistados 5, 6, 7 e 9) que apresentaram níveis mais profundos de transformação pessoal foram exatamente os mesmos que questionaram acerca do propósito de suas vidas e de qual era o sentido do trabalho que tinham e dos papéis que assumiam em seu cotidiano. Não é possível afirmar que a experiência da viagem tenha disparado esse processo, a não ser no caso da Entrevistada 7, a única dos quatro entrevistados aqui referidos que viajou por um período curto de tempo (menos de um mês). Os outros 3 entrevistados cujas experiências de viagem duraram pelo menos 6 meses afirmaram estar de certa forma insatisfeitos com algum aspecto de suas vidas já antes da 256 viagem, que se sentiam desconfortáveis com a vida que levavam e que, por isso, sentiam uma necessidade de se afastar de tudo e de todos. Assim, pode-se inferir que esses três entrevistados já estavam em um processo de ansiedade existencial antes da viagem, ainda que em estágio inicial, e que a viagem pode ter oportunizado o tempo que precisavam para refletir sobre as questões existenciais que lhe incomodavam, tal como sugerido por Kirillova e Lehto (2015). Neste ponto, “ouvir” um relato representativo dessa evidência é a melhor forma de entender as nuances dessas reflexões. O depoimento a seguir da Entrevistada 5 já foi descrito na seção referente à análise das entrevistas em profundidade, mas cabe trazê-lo novamente para ilustrar como os questionamentos suscitados nas reflexões da entrevistada colocam os valores e as prioridades relacionados à sua identidade social em xeque e refletem o sentimento de ansiedade existencial e como isso a levou a um ponto em que escolhas precisavam ser feitas em sua vida: Eu percebi a fragilidade que é minha vida. Eu já tinha passado por um momento assim no Brasil, de assalto, de sequestro e tal, já tinha sentido essa fragilidade, mas lá eu senti a fragilidade no sentido de quão rápido é a vida, de quão rápida ela é. Isso me assustou. Me fez redescobrir muita coisa em mim. De perceber que vários valores que eu tenho, que eu trago em mim, do tipo “trabalho é uma coisa importante, você precisa de ter um emprego”. Isso eu não acredito mais. Não dessa forma que eu acreditava, de que a vida é feita pra trabalhar. Eu já não acredito nisso mais. Então não foi nem especificamente o Quênia que me mudou nisso, mas foi a escolha de ir viajar, de tirar um ano pra viajar. Hoje eu penso assim. Por que é que eu não posso viver assim, por mais um tempo? Por que é que tem que ser só 1 ano? Eu decidi 1 ano, porque eu sabia que em 1 ano minha família ia aprovar, meus amigos iam aprovar, enfim. Mas porque é que eu não posso ter um emprego, porque eu não posso trabalhar pra ganhar um pouquinho pra conseguir viajar pra’li, ali eu trabalho mais um pouquinho pra ir pra lá, dali eu vou pra lá, por que é que eu não posso ter uma vida assim? Quem falou que está errado? Então assim, eu questionei muito os meus valores. Muito! O que é que é importante pra mim? Aprendi a valorizar o dinheiro de uma maneira que... eu tava um pouco com raiva de dinheiro, no sentido de: ah! Dinheiro tá movendo muito as pessoas pra ganância, pra tudo, e hoje eu consigo perceber como é que eu posso usar o dinheiro de uma maneira consciente e como que esse dinheiro me leva a pessoas maravilhosas, me fez conhecer pessoas maravilhosas. Eu trabalhava 13, 14 horas por dia na empresa e dando aula. Então isso pra mim era a vida. Eu tinha que fazer isso, porque eu tinha que comprar uma casa, eu tinha que pagar meu carro, eu tinha que estudar inglês, eu tinha que pagar meu curso do mestrado, enfim, eu tinha que viajar também, meu lazer, eu tinha, mas eu tinha que 257 trabalhar desse tanto e eu percebi nessa viagem que não é assim, que pra você ter lazer, pra você ter um bom lugar pra dormir, boa comida, você não precisa trabalhar essa quantidade de tempo. Existem outras maneiras de você viver a vida. A vida tá passando, eu tenho 35 anos... eu falei isso pra minha mãe... eles me perguntavam se eu não queria casar, se eu não tinha esses negócios, né? eu falei: - Ô mãe, se acontecer de casar vai ser só mais um episódio na minha vida. Mas esse episódio não pode ser o episódio determinante. Ele não pode conduzir a minha vida. Por que é que tem que ter um episódio que vai conduzir a sua vida? E por que é que esse episódio alguém tá escolhendo que seja o casamento? Quem é que tá fazendo essas decisões? Quem é que tá tomando essas decisões? Quem falou que isso é importante pro meu trajeto enquanto ser humano? Quem falou isso? E eu não sei, a vida tá passando. De vez em quando eu não me sinto com 35 anos (Entrevistada 5). No caso da Entrevistada 7, um sentimento de culpa e vergonha lhe tomou quando se deu conta de que estava agindo tal como os colonizadores espanhóis que usurparam todos os recursos do povo nativo mexicano e o exploraram para benefício próprio. Em sua experiência de viagem a Cancún, a entrevistada foi despertada para um propósito de vida diferente daquele que vinha trilhando em sua carreira acadêmica bem sucedida, o de trabalhar com crianças em um projeto social. A entrevistada se sentiu mais responsável “pelo que o mundo carrega” (Entrevistada 7). Os depoimentos dos entrevistados que apresentaram níveis mais profundos de transformação pessoal e manifestaram algum grau de ansiedade existencial parecem apontar para aquilo que filósofos existencialistas e teóricos da psicologia humanista-existencial têm preconizado, a ausência de significado da existência, segundo Sartre (2015), e, divergindo deste, a busca por um sentido na própria vida como a principal força motivacional do ser humano, defendida por Frankl (2016, p. 124). A ansiedade existencial no discurso dos entrevistados também parece evidenciar o quão inautêntica suas vidas lhes pareciam. Abandonar temporariamente os aspectos inautênticos da vida e buscar outras referências de vida e culturas, modos mais autênticos de viver, aparece como uma alternativa para essas pessoas de confrontarem a vida que levavam com outras possibilidades de ser. Considerando os depoimentos, pode-se afirmar que, no caso desses entrevistados, há evidência para a tese da experiência de viagem como o Speilraum Heideggeriano, segundo os argumentos defendidos por Brown (2013). Aqui a experiência da viagem propiciou o tempo e o espaço liminal necessários para que os entrevistados refletissem sobre suas vidas, levando-os a escolher a vida 258 mais autêntica, condizente com o seu próprio eu, sem se importar com o julgamento que as outras pessoas de seu convívio poderiam vir a fazer. Dessa forma, a julgar por esses relatos, tudo leva a crer que a ansiedade existencial possui algum papel na experiência transformadora em contextos de viagem, tal como defendido por Kirillova e Lehto (KIRILLOVA; LEHTO; CAI, 2017; KIRILLOVA; LEHTO, 2015), mas não é possível supor que seja disparada pela experiência da viagem em si, embora possa ser potencializada por ela. Pelos relatos dos entrevistados, a ansiedade existencial faria parte de um processo ontológico que a pessoa já vinha experimentando, de busca de um significado para a própria existência. De qualquer forma, o depoimento da Entrevistada 7 se encaixa no processo descrito por Kirillova e Lehto (2015) e também confirma a aleatoriedade dos gatilhos das experiências transformadoras vivenciadas em viagens, conforme teorizado por Kirillova, Lehto e Cai (2017). Por fim, o constructo Propósito na vida foi explicado essencialmente pela dimensão Intimidade e Pertencimento [INTIM_PERTEN] (coeficiente de caminho = 0,220). Essa dimensão reflete o caráter social da experiência turística, quando o viajante entra em contato com outras pessoas e juntos compartilham momentos de espontaneidade e solidariedade, que podem suscitar sentimentos de unidade e comunhão, um fenômeno conhecido por communitas. Três itens do constructo Intimidade e Pertencimento refletem essa característica: “Havia solidariedade e harmonia entre as pessoas com quem me relacionava” [ED_049]; “Eu me senti profundamente conectado a um grupo de pessoas” [ED_065]; “Eu procurava fazer com que o grupo se sentisse tão bem quanto eu me sentia” [ED_068]. Manter relacionamentos interpessoais e sentir-se socialmente conectado é uma necessidade humana fundamental (RYAN; DECI, 2017). A intimidade é o estágio de resolução sintônica seguinte à crise de identidade mais importante para o indivíduo, a adolescência, segundo Erik Erikson (1998, 1976, 1972). Durante o início da fase adulta as pessoas sentem necessidade de se unir uma a outra. Neste período, o amor e a empatia são incorporados à estrutura da identidade do ego. A sequência natural seria o cuidar e orientar, a generatividade. Assim, dar e receber amor, carinho, afeto, aconchego e apoio, ser sincero e aberto com quem se ama e preocupar-se com o bem-estar dessas pessoas, tudo isso faz parte da intimidade, condição fundamental para a identidade do ego seguir seu desenvolvimento sadio. Além disso, relações calorosas com outras pessoas são uma característica da maturidade. Pessoas autorrealizadas possuem fortes sentimentos de empatia e carinho para com as outras pessoas e são capazes de amar de forma mais honesta, construir amizades mais verdadeiras e se identificar 259 mais completamente com os outros (RYFF, 1989). Dois itens captam esses aspectos: “Eu me tornei mais íntimo dos que me acompanhavam” [ED_067]; e “Eu me aproximei mais das pessoas que me são importantes” [ED_085]. A relação positiva entre Intimidade e Pertencimento e Propósito na vida parece indicar a importância do papel dos relacionamentos interpessoais e do sentimento de conexão a outras pessoas, vivenciados durante experiências de viagem, no significado que se atribui à própria existência. Sentir-se amado, conectado intimamente a outras pessoas, retribuir com carinho, honestidade e afeto, doar-se para cuidar de pessoas próximas, tudo isso parece contribuir para dar algum sentido à própria vida. A necessidade de relacionamentos interpessoais harmoniosos é apontada na literatura como responsável por amenizar a sensação de vazio existencial, protegendo o indivíduo contra a sensação de se estar sozinho no mundo e da consciência da finitude da existência (KESEBIR; PYSZCZYNSKY, 2012). Em praticamente todos os depoimentos dos entrevistados na fase qualitativa o aspecto social e interpessoal das experiências de viagem foi enfatizado. Conhecer pessoas, envolver-se de forma mais desinibida nas relações sociais, construir laços de amizade, ser recebido e tratado com carinho, tudo isso parece ser um traço marcante das experiências de viagem, aspecto este também verificado no survey. Para os entrevistados que se envolveram em atividades de voluntariado, a experiência de conexão e intimidade foi ainda mais profunda. Em síntese, os resultados da pesquisa quantitativa confirmaram seis dimensões da experiência turística representativas de transformações percebidas pelos sujeitos em sua maneira de ser e/ou perceber o mundo, durante suas experiências de viagem – Abertura ao novo, Amadurecimento, Autonomia, Eudaimonia, Intimidade e Pertencimento, e Perspectiva ampliada. Dessas seis dimensões, Eudaimonia foi a que apresentou relação significativa com o senso de si mesmo, a Autoidentidade, a percepção de que se é a mesma pessoa ao longo do tempo e de que se é uma entidade psicológica distinta, indicando que a experiência de viagem possibilita o autoconhecimento e a resolução de questões intrapessoais, além de envolver o indivíduo em atividades que o aproximam do seu eu verdadeiro. A pesquisa qualitativa mostrou que, nos casos em que a busca pelo conhecimento de si mesmo é mais intensa, o indivíduo experimenta o sentimento de ansiedade existencial, não necessariamente por causa da viagem, mas por um processo ontológico particular que já está vivenciando. Nestes casos, a viagem se apresentou como uma oportunidade para que os indivíduos se afastassem de suas vidas e buscassem melhor compreensão acerca dos incômodos existenciais que lhe afligiam. 260 Outra constatação da pesquisa quantitativa se refere ao papel das relações interpessoais harmoniosas propiciadas em ambientes turísticos na construção do sentido da vida, mais propriamente no propósito da vida, indicando a potencialidade que as experiências de viagem possuem para que se conheçam pessoas, para que se estreitem laços de amizade e para aproximar ainda mais aqueles que estão juntos. 261 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo partiu da premissa já estabelecida na literatura de que o tempo vivenciado em espaços turísticos possibilita ao indivíduo reflexões sobre sua vida e a realidade que percebe e viabiliza escolhas para a definição e/ou resolução de sua autoidentidade. As características liminares dos ambientes turísticos e o envolvimento em atividades diferentes daquelas que o indivíduo lida em seu cotidiano são as principais condicionantes para que os processos de transformação e desenvolvimento pessoal aconteçam. No entanto, o estudo insere o processo de autodesenvolvimento experienciado em ambientes turísticos como parte do processo biopsicossocial de desenvolvimento da identidade, segundo a perspectiva eriksoniana, atribuindo ao tempo-espaço turístico a característica de moratória institucional. O contexto em que tal caráter é assumido é o da modernidade tardia, na qual a experiência humana é cada vez mais midiatizada e o protagonismo do consumo nas várias esferas do espaço de vida individual ganha status de necessidade. Aliadas às profundas transformações de instituições tradicionais, as relações sociais nesse contexto são superficiais e utilitaristas e a autoidentidade passa a ser gerenciada, de modo a se adaptar a diferentes esferas socioinstitucionais. O self passa a ser uma mera representação daquilo que o indivíduo percebe do que dele é esperado, adiando o florescimento do verdadeiro eu ao assumir um “eu situacional” (CÔTÉ; LEVINE, 2002, p. 129). Dessa forma, as resoluções de identidade no contexto moderno-tardio são desafiadas e postergadas para além da adolescência, muitas vezes perdurando por toda a vida adulta, deixando os indivíduos carentes do senso de segurança ontológica. Os espaços turísticos fornecem um intervalo longe dos compromissos da vida cotidiana no qual o indivíduo renuncia temporariamente seus papéis sociais, geralmente em contextos culturais diferentes daqueles a que o indivíduo está acostumado. Nesses intervalos espaço-temporais o indivíduo pode experimentar outras formas de ser e se envolver em atividades que podem despertar potenciais que permaneceram adormecidos. O indivíduo também pode refletir sobre a autenticidade de sua vida e sobre as possibilidades e alternativas de vida mais coerentes com o verdadeiro eu. Embora o constructo experiência turística eudaimônica, proposto inicialmente como sendo de segunda ordem, não tenha alcançado validade convergente, seis das quinze dimensões teorizadas como componentes do constructo foram confirmadas no modelo 262 estrutural. Dessa forma, com a validação discriminante das dimensões (1) Abertura ao novo, (2) Amadurecimento, (3) Autonomia, (4) Eudaimonia, (5) Intimidade e Pertencimento, e (6) Perspectiva ampliada, o estudo fornece um framework a partir do qual outros estudos podem partir. Nesse sentido, pesquisas poderiam ser empreendidas na busca de refinamento dos constructos, de modo a torná-los mais robustos do ponto de vista da validade preditiva e nomológica. As dimensões também poderiam ser mensuradas em diferentes tipos de turismo (aventura, backpacking, rural, comunitário, educacional, etc.) e sua incidência apontar quais tipos de turismo são mais propensos a proporcionar experiências mais profundas, relacionadas ao desenvolvimento do self e à construção da autoidentidade. Por outro lado, os resultados observados acerca das relações entre as dimensões de experiência eudaimônica e as proxies do senso de autoidentidade e identidade social sugerem que poucas dimensões de transformações pessoais são preditoras de resoluções de autoidentidade ou guardam alguma relação com as tarefas de formação da identidade. As dimensões Perspectiva ampliada, Abertura ao novo e Amadurecimento não apresentaram relações significativas com as tarefas de Autoidentidade e Identidade social, tampouco com o constructo Propósito na vida. Já as relações da dimensão Autonomia com a Autoidentidade e a Identidade pessoal, embora significativas, não apresentaram validade preditiva. Esses resultados suscitam investigações e a elaboração de outras hipóteses para o papel que as dimensões de transformação pessoal representam na formação da identidade ou qual a função e a dinâmica dessas dimensões na experiência eudaimônica em si. No que se refere à dimensão Intimidade e Pertencimento, se por um lado não apresentou qualquer relação significativa com as proxies das tarefas de identidade, por outro, foi a única que mostrou conexão significativa com o constructo Propósito de vida, que, por sua vez, foi preditor das duas tarefas de identidade. Essas relações ajudam a entender a importância do aspecto interpessoal nas experiências turísticas, mas, de uma maneira geral, seu significado para a própria existência. As relações sociais na modernidade tardia são superficiais e acontecem como um meio para se atingir um objetivo particular. Nesse tipo de relação interpessoal, o contato é feito com uma imagem projetada, uma encenação de um self que permita ao indivíduo ser aceito nas instituições com as quais interage. Se por um lado essas relações aumentam as chances de que o indivíduo penetre espaços institucionais mais restritos, por outro, extrai a autenticidade individual e afasta o indivíduo do seu verdadeiro eu. As relações desprovidas de interesse e os momentos espontaneamente compartilhados com outras pessoas nos espaços turísticos podem 263 devolver um pouco da substância vital minada dos encontros sociais superficiais da vida cotidiana. A principal contribuição do estudo se refere à teorização das experiências turísticas como possíveis moderadores de transformações pessoais profundas relacionadas à construção da autoidentidade. A relação empiricamente verificada entre a dimensão Eudaimonia e a proxie Autoidentidade corrobora a hipótese das experiências de viagem como possível vetor para experiências de autodescoberta que, por sua vez, podem auxiliar processos de (re)construção do senso de autoidentidade, favorecendo o sentimento de segurança ontológica para os indivíduos. Coerentemente com a literatura do campo do turismo que preconiza as experiências turísticas e as reflexões suscitadas em condições de liminaridade como desencadeadoras de processos de ansiedade e autenticidade existenciais, o estudo testou a relação da ansiedade existencial como precursora das dimensões de experiência eudaimônica, e analisou o conteúdo das entrevistas em profundidade. Os resultados não foram conclusivos. Na pesquisa quantitativa, embora três relações tenham sido significativas (Ansiedade Existencial -> Abertura ao novo; Ansiedade Existencial -> Eudaimonia; Ansiedade Existencial -> Perspectiva ampliada), elas não se mostraram relevantes do ponto de vista do poder preditivo. Nesse sentido, a abordagem quantitativa não captou a relação teorizada entre ansiedade existencial e experiência eudaimônica ou dimensões de transformação pessoal. Por outro lado, as entrevistas em profundidade indicaram que os entrevistados que vivenciaram níveis mais profundos de transformação pessoal foram exatamente aqueles que, antes de fazerem a viagem de cuja experiência estavam relatando, vinham se questionando acerca do propósito de suas vidas e do trabalho que tinham e sobre o sentido dos papéis que desempenhavam no cotidiano de suas vidas. Os entrevistados demonstraram estar de algum modo insatisfeitos com a vida que levavam, mesmo estando em um momento de bons resultados profissionais e parecendo estar no caminho “certo”. Os entrevistados se sentiam incompletos, não encontrando um sentido para suas vidas, trazendo evidências de possíveis traços de ansiedade existencial. Nos relatos desses mesmos entrevistados é possível inferir que eles próprios atribuem à experiência da viagem, as mudanças de perspectivas acerca da própria vida e a adoção de novos modos de ser. Após suas respectivas experiências, os entrevistados passaram a atribuir novo significado à vida, valorizando mais a experiência presente e as relações com as outras pessoas, substituindo valores materialistas por outros mais humanistas e adotando uma 264 atitude menos egocêntrica, com o exercício mais consciente da alteridade e do altruísmo. Para essas pessoas, o sentido da própria existência ganhou uma dimensão mais universalista, como se sentissem mais responsáveis pelo mundo em que vivem. A aparente inconsistência entre os resultados do survey e as entrevistas em profundidade pode estar relacionada ao método, especialmente no que se refere aos procedimentos de coleta dos dados. Enquanto nas entrevistas em profundidade os sujeitos falavam livremente sobre suas memórias e experiências subjetivas relacionadas à própria vida e à viagem que reconhecidamente atribuíam como responsável por mudanças em sua maneira de ser, no survey os respondentes eram submetidos a um procedimento de busca de recordações via instruções textuais que pode gerar esforço cognitivo limitador para o engajamento às questões a serem respondidas. Além disso, assuntos relacionados à finitude e à morte podem ser de difícil acesso, principalmente quando relacionados a memórias de viagens. Estudos que mensurem a ansiedade existencial em grupos distintos de turistas – aqueles que vivenciaram experiências eudaimônicas ou transformações profundas e aqueles que não tiveram essa experiência – podem contribuir para a elucidação da função da ansiedade existencial na experiência eudaimônica. Uma outra contribuição do estudo se refere à demonstração da possibilidade de se levar para as pesquisas no campo do turismo os conceitos consolidados da psicologia do desenvolvimento na linha de pesquisa mais tradicional sobre a formação da identidade, a vertente neoeriksoniana. Nesse sentido, verificações sobre correlações entre os status de identidade e as diferentes dimensões da experiência eudaimônica podem ser estabelecidas. Da mesma forma, dimensões relacionadas com o caráter processual da formação da identidade, como aquelas preconizadas pelos modelos de ciclo duplo e de certeza-incerteza – exploração ampla, exploração em profundidade, exploração ruminativa, comprometimento, identificação de compromisso e reconsideração de compromisso – podem ser correlacionados com as dimensões da experiência turística. Estas possibilidades de pesquisa derivam diretamente da proposta aqui defendida de se entender o tempo-espaço turístico como uma moratória institucional e de se assumir as experiências turísticas como parte da própria condição humana de existir. Ainda com relação às dimensões verificadas no survey, outros constructos podem ser testados como antecedentes da experiência eudaimônica, tais como fatores pessoais (características de personalidade, valores, etc.), bem como consequentes, por exemplo o bem- estar subjetivo, depressão, entre outros. 265 O uso da abordagem de métodos mistos para a consecução dos objetivos da pesquisa se mostrou uma escolha eficiente, uma vez que os resultados das entrevistas em profundidade complementaram e aprofundaram a compreensão das relações quantitativas verificadas no survey, fornecendo subsídios para a interpretação “além dos números” e possibilitando a contextualização das análises. Contudo, o estudo apresenta limitações que não podem ser ignoradas. Em primeiro lugar, deve-se reforçar a inadequação das escalas de Personalidade Agêntica – MAPS20 – e de resolução de identidade – Identity Issues Inventory – para os propósitos da investigação. No caso da MAPS20, das quatro subescalas constituintes (Locus de controle, Propósito na vida, Autoestima e Força do ego), apenas Propósito na vida se mostrou válida. A MAPS20 tem sido reportada como uma escala robusta em diferentes contextos culturais. Tal fato suscita a necessidade de estudos que tenham por objetivo a validação da escala no contexto brasileiro e a verificação dos pressupostos teóricos que a sustentam, de modo a se analisar se existem diferenças culturais marcantes que possam inviabilizar seu uso no Brasil. Quanto à Identity Issues Inventory, a estrutura dimensional da escala não foi verificada. A escala foi traduzida e revisada por profissionais bilíngues (Inglês/Português), testada e submetida ao procedimento back-translation. A aplicação da escala em uma amostra com amplitude etária maior do que a faixa para a qual a escala fora originalmente desenvolvida (jovens adultos) pode ter sido uma das possíveis causas para a não reprodução de sua estrutura fatorial. Outra possível causa para isso diz respeito à adaptação da escala para uso em um contexto específico (viagens a turismo). Da mesma forma que a escala MAPS20, estudos posteriores poderiam testar a validade da escala no contexto brasileiro. No que diz respeito à escala para mensuração do constructo Bem-estar subjetivo (BES), a estrutura fatorial obtida por meio da análise fatorial exploratória refletiu muito satisfatoriamente a teoria e a literatura correspondentes. Contudo, no modelo estrutural especificado no SMART-PLS®, o constructo não foi suportado, apesar de haver dados supostamente suficientes para a estimação dos parâmetros constantes no modelo. Aspectos de ordem técnico-conceitual relacionados à modelagem de equações estruturais com o SMART- PLS® podem ter contribuído para inviabilizar o modelo, uma vez que, do ponto de vista teórico, a especificação do constructo era coerente. Por fim, o estudo não realizou verificações do comportamento do modelo estrutural em subgrupos da amostra (idade, educação formal e motivação de viagem), algo fundamental 266 para as teorias sobre o desenvolvimento da identidade. Tais verificações se mostram promissoras possibilidades de investigação acerca de experiências turísticas. 267 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAHAMS, R. Ordinary and extraordinary experience. In: TURNER, V.; BRUNER, E. (Orgs.), The anthropology of experience. Urbana-Champagne, University of Illinois Press, 1986, p. 45–73. ADAMS, G. R. Identity: A brief critique of a cybernetic model. Journal of Adolescent Research, v. 12, p. 358–362, 1997. ADAMS, G. R. The objective measure of ego identity status: A reference manual. Guelph, Canada, University of Guelph, 1998. Disponível em: Acesso em: 10.01.2018 ADAMS, G. R.; DYK, P. A. H.; BENNION, L. D. Parent–adolescent relationships and identity formation. Family Perspective, v. 21, p. 249–260, 1987. ADAMS, G. 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Fale-me a respeito. 3) Qual era a sua experiência em termos de viajar na época dessa viagem? Foi a primeira viagem da sua vida ou você já havia feito outra viagem semelhante anteriormente?  Você era jovem/adolescente, estava na faculdade ou foi logo depois de ter terminado a faculdade?  Essa viagem foi feita por você sozinho?  Você considera que a distância de casa foi algo que fez diferença nessa viagem?  Quanto tempo durou toda a viagem e em que tipo de hospedagem você ficou? (hotel/hostel/acampamento/residência universitária/casa de família/etc.) 4) Voltando à experiência como um todo, que foi que mais lhe tocou, o que mais mexeu com você? 5) Como você se sentiu nessa experiência? 6) Em que essa experiência lhe acrescentou? 7) Tudo isso já era esperado por você, ou seja, esse crescimento que você alcançou foi algo, digamos, planejado, você viajou com essa intenção, ou a sensação/sentimento/percepção de que cresceu e se desenvolveu, enfim, de que você mudou foi algo que aconteceu durante a própria viagem, sem que você esperasse que isso acontecesse? 8) A percepção de que você mudou, de que você foi transformada como pessoa, de que cresceu e se desenvolveu, aconteceu já imediatamente após a experiência da viagem ou 299 ela veio com o tempo, depois que você retornou e foi refletindo a respeito? Fale-me sobre isso. 9) Na ocasião da viagem você passava por algum momento diferente na sua vida, uma situação muito boa ou muito difícil na família ou no trabalho? Enfim, você lembra se vivia um momento delicado ou de felicidade? Como você estava se sentindo nesse período imediatamente anterior ou que antecedeu a viagem que você considera que lhe transformou? Fale-me a respeito. 10) O que mudou definitivamente em você nessa experiência? Como você passou a se ver? 11) Nessa experiência você passou por algum momento delicado ou uma situação difícil? Fale-me a respeito. 12) O “quê” do ou no lugar (seja ambiente, geografia, história, pessoas, cultura, situação econômica, acontecimentos dramáticos, ou qualquer outro aspecto característico do lugar no momento em que você lá esteve) você associa à experiência que teve, ou o que, na sua percepção, lhe levou a passar por essa experiência? 13) Essa sua experiência é algo que você se orgulha de ter passado? É algo que você faz questão de contar a pessoas próximas por quem você tem muito carinho e respeito, familiares, amigos? Por quê? Fale um pouco sobre isso. 14) Levando em conta essa sua experiência, como você avalia o valor pago pela viagem em si? Você diria que “valeu à pena”? Por quê? 15) Quais os principais benefícios que essa experiência lhe trouxe? 16) Em uma palavra, como você definiria essa sua experiência? 17) Na sua percepção e avaliação, você considera que durante essa viagem você conseguiu SER mais você mesmo? Ou seja, longe da rotina de sua vida normal, você considera que pôde agir de forma mais espontânea? O que isso significou pra você? Fale-me um pouco a respeito. 18) Por fim, até que ponto essa experiência lhe fez ver quem você é? O quanto você passou a se conhecer com essa experiência e o seu “papel” ou o seu “lugar” no mundo? Fale- me um pouco sobre isso. 19) Gostaria de fazer algum comentário? Fique à vontade. 300 APÊNDICE II Formulário de coleta de dados (Questionário) 301 302 303 304 305 306 307 308 309 310 311 312 313 314 315 ANEXO I Itens originais do Identity Issues Inventory (I3)* Integration 1. I feel like I have grown into a ‘‘whole’’ person. 2. Whatever happens, I still have a secure sense of who I am deep inside. 3. I often feel confused about who I am deep inside. (R) 4. There is a struggle inside of me about who I really am. (R) 5. My friends think I behave maturely. 6. My friends and family see me as a responsible person. 7. I act like a different person, depending on the social situation. (R) 8. People who know me well often treat me like I’m immature. (R) 9. I belong to a community of like-minded people with whom I will be happy to closely associate indefinitely. 10. I am recognized as an adult member of an established social group. 11. I have been unable to find a meaningful group of like-minded people with which to affiliate on a more or less permanent basis. (R) 12. I have not been able to become a member of a ‘‘community’’ that will support who I am. (R) Differentiation 13. I feel like I have fully matured into being my own person. 14. I am in control of my own emotions. 15. I have a difficult time thinking and acting decisively. (R) 16. Sometimes other people feel like I rely on them too much emotionally. (R) 17. Most of the time, I dress and act in ways that reflect the kind of person that I really am. 18. My behaviour is generally consistent in all situations. 19. I continually change the way I present myself to others to get the best out of the situation I’m in. (R) 20. If I think someone won’t approve of me, I pretend to have characteristics that I don’t really possess. (R) 21. I have found my niche (unique place of belonging) in life. 22. Others would recognize me as a self-sufficient adult. 23. I have not been able to achieve the type of selfsufficiency expected of an adult. (R) 24. I’m still not sure where I fit in adult society. (R) Productive/Work Roles 25. I have certain abilities that make it possible for me to be effective in the work I choose to undertake. 26. I think of myself as a competent person who makes productive contributions to society. 27. I really don’t know if I have the right talents to maintain a good job. (R) 316 28. I do not feel like I have the necessary skills to get (or keep) the kind of job I would really like to have. (R) 29. People in my life think that I have some useful talents or skills. 30. I have certain skills or talents that I use in my life. 31. People who know me recognize me in terms of certain talents and skills. 32. When people think of who I am, they do not associate me with any specific talents or skills. (R) 33. I have as much formal education as I ever wanted to get. 34. I have a job (or homemaking role) that I am happy keeping for the foreseeable future. 35. I do not yet have the educational credentials necessary to get the kind of job I would ultimately like to have. (R) 36. I have yet to find a job (or homemaking role) that would gain me the respect I deserve. (R) Worldview 37. My beliefs and values relate to something that is much more important than my own individual needs. 38. My beliefs and values provide me with a firm sense of purpose in life. 39. My beliefs and values are mostly geared to satisfying my own immediate needs. (R) 40. My sense of purpose in life mainly involves gratifying my own immediate, personal needs. (R) 41. I often speak up about what I believe in. 42. People in my life know me as someone with firm beliefs and values. 43. I make sure that my day-to-day behaviour reflects my underlying beliefs and values. 44. People in my life do not know me as someone with consistent beliefs or values. (R) 45. I live my life in way that is consistent with a firm set of values and beliefs (religious, political, secular or otherwise) associated with some organized groups. 46. Other people know me as a member of a social group that espouses strong values and beliefs. 47. The way that I live my life is not based on any widely accepted religious or political beliefs. (R) 48. Others do not generally think of me as someone who commits to any causes or organized beliefs systems. (R) *ROBERTS, S. E.; CÔTÉ, J. E. The Identity Issues Inventory: Identity stage resolution in the prolonged transition to adulthood. Journal of Adult Development, v. 21, p. 225–238, 2014. DOI: 10.1007/s10804-014-9194-x 317 ANEXO II Itens do Multimeasure Agentic Personality Scale (versão com 20 itens) – MAPS20* Self-Esteem I'm a lot of fun to be with. I'm popular with persons my own age. People usually follow my ideas. I'm not as nice looking as most people. (R) Most people are better liked than I am. (R) Purpose in Life I am usually completely bored … exuberant and enthusiastic. Life to me seems always exciting … completely routine. (R) Every day is constantly new and different … exactly the same. (R) My life is empty, filled only with despair … running over with exciting good things. I am a very irresponsible person … very responsible person. (Excluído) Locus of Control Becoming a success is a matter of hard work. Lucky breaks have little or nothing to do with it. When I make plans, I am almost certain that I can make them work. (Excluído) There is a direct connection between how hard I study and the grades I get. It is impossible for me to believe that chance or luck plays an important role in my life. What happens to me is my own doing. Ego Strength I enjoy difficult and challenging situations. I have a lot of will power. I am able to concentrate better than most people under distracting conditions. I can bear physical discomfort better than most. When I have a job to do, I am not easily distracted. *CÔTÉ, J. E. The identity capital model: A handbook of theory, methods, and findings. Unpublished manuscript, Department of Sociology, The University of Western Ontario, London, Ontario, Canada, 2016. 318 ANEXO III Itens originais do The Existential Concerns Questionnaire (ECQ)* General EA 1. The question of whether life has meaning makes me anxious. 2. It frightens me when I realize how many choices life offers. 3. I worry about not being at home in the world, as if I do not belong here. 7. I worry about the meaning of life. 9. I get anxious because of losing touch with myself. 10. I struggle with the feeling that in the end I am on my own in life. 14. I worry about not living the life that I could live. 16. The awareness that other people will never know me at the deepest level frightens me. 19. It frightens me that things I once considered important seem meaningless when I look back on them. 20. I am afraid that I do not get out of life what is in it. 22. I have the anxious feeling that there is a gap between me and other people. 25. I am afraid that I will never know myself at the deepest level. Death anxiety 5. Existence feels threatening to me, as if at any moment something terrible could happen to me. 6. It frightens me that at some point in time I will be dead. 12. It makes me anxious that my life is passing by. 17. I worry that, out of the blue, something terrible might happen to me. 23. I become anxious when I realize how vulnerable my body is to the dangers of life. 24. I worry about having to let go of everything at the moment of my death. Avoidance 8. I try to forget that all my choices have consequences. 13. When the question of whether life has meaning enters my mind, I try to think quickly about something else. 18. I try to push away the thought that life will end. 21. I try to avoid the question of who I really am. *van BRUGGEN, V.; ten KLOOSTER, P.; WESTERHOF, G.; VOS, J.; de KLEINE, E.; BOHLMEIJER, E.; GLAS, G. The Existential Concerns Questionnaire (ECQ) – Development and Initial Validation of a New Existential Anxiety Scale in a Nonclinical and Clinical Sample. Journal of Clinical Psychology, v. 0, n. 0, p. 1– 12, 2017. DOI: 10.1002/jclp.22474