UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO PRISCILLA KELLY FIGUEIREDO A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA E OS PRIMEIROS CURSOS DE FORMAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL: O ESTABELECIMENTO DE UMA DISCIPLINA (1929-1958) BELO HORIZONTE 2016 PRISCILLA KELLY FIGUEIREDO A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA E OS PRIMEIROS CURSOS DE FORMAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL: O ESTABELECIMENTO DE UMA DISCIPLINA (1929-1958) Tese apresentada ao Programa da Pós-Graduação em Educação: conhecimento e inclusão social, na linha de pesquisa de História da Educação, da Faculdade de Educação, da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Educação. Orientador: Prof. Dr. Marcus Aurelio Taborda de Oliveira BELO HORIZONTE 2016 PRISCILLA KELLY FIGUEIREDO A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA E OS PRIMEIROS CURSOS DE FORMAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL: O ESTABELECIMENTO DE UMA DISCIPLINA (1929-1958) COMISSÃO EXAMINADORA ___________________________________________________ Prof. Dr. Marcus Aurelio Taborda de Oliveira – Orientador ___________________________________________________ Prof.(a) Dra. Andrea Moreno – FaE/ UFMG ___________________________________________________ Prof.(a) Dra. Meily Assbú Linhales - EEFFTO/UFMG ___________________________________________________ Prof.(a) Dra. Mirian Jorge Warde – UNIFESP ___________________________________________________ Prof.(a) Dra. Silvana Vilodre Goellner – ESEF/UFRGS BELO HORIZONTE, 10 de junho de 2016 AGRADECIMENTOS Posso estar só Mas sou de todo mundo Por eu ser só um Ah nem, ah não, ah nem dá Solidão, foge que eu te encontro Que eu já tenho asas... Isso lá é bom?! Doce solidão... (Doce solidão – Marcelo Camelo) Ir de encontro à solidão foi um caminho necessário ao longo da escrita da tese. Essa “doce solidão” que o trabalho de uma tese nos impõe, só pôde ser “doce” porque feita pela presença de muitas pessoas que ao longo desse processo tornaram essa escrita possível. À universidade pública brasileira, lugar que me possibilitou formação gratuita e de excelência, que se transformou e foi transformada em suas cores, se diversificando e ampliando suas entradas ao longo desses últimos anos. De aluna à docente, agradeço a todas as pessoas que possibilitaram que eu vivesse esse processo sendo parte dele desde a graduação. Em Aracaju, agradeço aos professores do DEF e à Universidade Federal de Sergipe pela liberação e licença para esse doutoramento. A imersão nesse processo de formação foi fundamental e por isso agradeço de forma mais próxima aos professores: Cristiano Mezzaroba e Fábio Zoboli pela amizade e torcida; Roselaine Kuhn pela amizade fraterna e pelos encontros “além-mar”, em Portugal e na França, que nos foram possibilitados pelas “teses”; Hamilcar Dantas Junior por, como supervisor interno, ter cuidado de encaminhar os diversos relatórios acompanhando de perto a escrita dessa tese. Ao Marcus que, ao me receber como orientador em Belo Horizonte, se mostrou desde o início sempre solícito e aberto ao diálogo nas propostas para essa escrita. Obrigada pela orientação firme e solidária ao longo desse processo. Aos membros da banca examinadora, mulheres que aceitaram contribuir com a leitura desse trabalho permeado por homens; Andrea Moreno, Meily Linhales, Mirian Warde e Silvana Goellner. À Ana Maria Galvão e Hamilcar Junior pelo aceite da suplência. Aos colegas e membros do CEMEF – Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer da UFMG. Voltar a este grupo de pesquisa fortaleceu meus caminhos de pesquisadora e reafirmou o quão importante para a história da educação física brasileira o trabalho que é nesse ambiente realizado. Da mesma forma agradeço aos membros do GEPHE – Centro de Pesquisa em História da Educação pela possibilidade do aprofundamento nos debates sobre a História da Educação e do NUPES - Núcleo de Pesquisas sobre a Educação dos Sentidos e das Sensibilidades. Especialmente pela troca acadêmica ao longo das disciplinas na FaE à Chynthia Greive, Kelly Julio, Sérgio Chaves Jr., Marina Braga, Bruna Oliveira, Vanessa Macedo, Ramona Mendes, Carolina Bassi, Alice Christofaro e Cristiane Pisani. Meu agradecimento às muitas pessoas e instituições que contribuíram diretamente na coleta das fontes; No Rio de Janeiro, À Carolina Ramos, responsável pelo Centro de Memória Inezil Penna Marinho na Escola de Educação Física e desportos EEFD/UFRJ. Ao Ten. Guariento da Escola de Educação Física do Exército – EsEFEx, pelo acesso ao acervo da Biblioteca Jair Jordão Ramos. Ao CPDOC/FGV pelo acesso ao acervo da Divisão de Educação Física através do Fundo Gustavo Capanema. Aos funcionários da BN - Fundação Biblioteca Nacional. Em Porto Alegre, A André Silva e Cássio Cassel pela recepção amiga, pelos jantares e pelas trocas acadêmicas. À Silvana Goellner e Christiane Macedo pelo interesse na pesquisa, disponibilidade, abertura e empenho em disponibilizar o Acervo do Centro de Memória do Esporte, CEME/ESEF/UFRGS. Agradeço também às bibliotecárias da ESEF Ivone e Nagela pela atenção aos temas da pesquisa na consulta ao Acervo Histórico. À Alice Opala pela abertura de sua casa para consulta ao Acervo Pessoal do professor Inezil Penna Marinho. No Paraná, À Vera Moro pela abertura do acervo do Centro de Memória do Dep. de Educação Física – CEMEDEF/UFPR, pela recepção calorosa, pela cama quente e pelos jantares e trocas de impressões sobre esse processo de formação. Ao tio Luizinho, Márcia, Larissa e Geovane pelo afeto em família. No Espírito Santo, Ao Tatá, Tarcísio Mauro Vago pela torcida e por gentilmente disponibilizar sua casa para “pouso”. À Paulete e Felipe Quintão pela recepção no CEFD e pela acolhida em Vitória. A Omar Schneider e aos estagiários do PROTEORIA – Instituto de pesquisa em Educação e Educação Física pela abertura do Arquivo Institucional do CEFD/UFES. Em Belo Horizonte, À Meily Linhales, Gisele Oliveira e aos estagiários do CEMEF - Centro de Memória da Educação Física, do esporte e do lazer pela abertura e auxílio na consulta do Arquivo Institucional da Escola de Educação Física da UFMG. Em Paris, A Renaud D’Enfert pela acolhida em Paris e sugestão de acervos e seminários. Ao GHDSO - Groupe d’Histoire et Diffusion des Sciences d’Orsay e à Université Paris XI pela experiência de formação com os pesquisadores. Aos funcionários e pesquisadores com quem tive a oportunidade de conviver na BnF – Bibliothèque Nationale de France, pelo cuidado na orientação e recepção aos estrangeiros. Aos amigos pesquisadores brasileiros que se tornaram família ao longo dos nove meses na Maison du Brésil na Cité Universitaire Internationale de Paris; pela partilha das dores e delícias de ser estudante em terra estrangeira. À CAPES pela concessão da Bolsa PDSE para estágio sanduíche no exterior. Aos que partilharam desse processo de mãos dadas com o coração agradeço: À minha mãe, Ana Julia, fonte de amor e inspiração não me deixando desanimar com seus conselhos, preces e otimismo, mesmo nos momentos mais difíceis desse processo. À minha irmã Aline pelo olhar sobre a vida. Ao meu pai Gilmar Figueiredo por me incentivar a nunca estudar em escola ruim. Ao Láucio pela experiência a dois de amor e partilha e por sempre me ensinar que a vida não deve ser levada tão a sério. À Laura pela presença constante, terna e meiga. À dinha Ana Elisa e à Julia que de coração e braços abertos fizeram de BH também casa de mãe. Aos Borato’s que crescendo em quantidade vão me ensinando sobre amor e convivência. Ao Inácio pelo amor e paciência com que entrou nas nossas vidas. Aos amigos que são também família: Carla Augusta, Andrea Lage, Sonária, Luciana Silva, Eliano, Adriana Ferreira, Cristiano Mezzaroba, Roselaine Kuhn, Marise Botti, Diego Mendes, Carine Winck, Leonardo Guimarães, Ana Carolina Bach, Angela e Cleso Pacheco. Grata pelas muitas palavras de incentivo! À Xica e Capitu por me lembrarem de que era preciso “passear” todo dia fazendo minha solidão diária mais doce. À Mirian Rego, enfermeira obstetra, Kalu Brum, doula e Lucas Barbosa, obstetra, por me ensinarem ao longo desses últimos meses que é possível nascimentos mais respeitosos e humanizados no país das cesarianas eletivas e por me fazerem confiar nos meus instintos. Ao Theo que, chegando na velocidade de quem deseja partilhar o lado de cá da vida, me impulsionou na finalização da escrita deste trabalho. Filho, um dia te conto melhor a história de como foi finalizar essa tese à sua espera e em meio a um Golpe de estado civil midiático, surto de Dengue, Zika vírus e H1N1 em nosso país. Lutando e esperando por dias melhores, só por isso já somos sobreviventes! Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais... Para minha avó, Maria da Conceição de Oliveira professora e mãe de dez filhos, por me fazer lembrar que “queria ter sido uma mulher mais estudada” (In memorian) RESUMO Esta tese ocupa-se da disciplina História da Educação Física e sua institucionalização nos currículos dos cursos de formação em educação física entre os anos de 1929 a 1958. A análise da disciplina História da Educação Física através dos currículos dos cursos permitiu estabelecer conexões com a história da formação de professores em Educação Física no Brasil através da análise das relações entre as instituições de ensino e seus currículos com os professores e suas produções acerca da disciplina supracitada. Interessou compreender de forma mais ampliada como a disciplina se estabeleceu num contexto institucional e político a partir do início dos anos de 1930 na educação física brasileira e de forma mais internalista como esta poderia ser revelada através de seus conteúdos e finalidades pelos compêndios, livros e programas de ensino considerados como “práticas” dos professores que a ministraram ao longo das três décadas dos cursos analisados. Tais análises tiveram como ponto de partida as propostas teóricas de Ivor Goodson (1990, 2000) sobre a história social do currículo e das disciplinas e das indicações de André Chervel (1990) e suas proposições sobre a gênese, a função e o funcionamento de uma disciplina. Esse escopo teórico aliado às fontes tentou mostrar o processo de institucionalização da disciplina HEF levando em consideração as instituições de ensino, seus cursos e os sujeitos, professores que a produziram. Considerando que foi pelo processo de escolarização da educação física e pela necessidade da formação de professores que a disciplina passa a fazer parte dessa formação profissional, a disciplina HEF é posta em relação ao contexto de produção de seus professores através da investigação da trajetória profissional destes. Esse movimento de estabelecer indicativos institucionais e de revelar os conteúdos da disciplina através dos programas de ensino, livros e compêndios revelou que a disciplina parece, ao longo do período analisado, contribuir para o estabelecimento de subsídios teóricos aos processos pedagógicos da formação em educação física. A produção dos professores mostrou que uma das grandes finalidades da disciplina esteve conectada à legitimação do Método Francês de educação física no Brasil ao longo dos anos de 1930. Marcadamente uma disciplina teórica, a História da Educação Física permeou o currículo de todos os cursos analisados estabelecendo uma leitura “estrangeira” da história da educação física como forma de legitimar a formação pedagógica para a atuação da educação física. A partir da década 1940 a disciplina tem seus temas ampliados para as questões “nacionais” indicando a projeção de futuros métodos ou sistemas de Educação Física nacionais contribuindo para a construção de um lugar para a História da Educação Física nacional dentro de seus programas. O alinhamento da História da Educação Física com os temas da História Universal de forma linear e cronológica, a história filosófica devedora da Antiguidade e a tentativa de estabelecer uma utilidade para a História para a Educação Física foram permanências da disciplina ao longo das décadas analisadas. As fontes mobilizadas permitiram a investigação das concepções de seu ensino compreendendo os temas e conteúdos em jogo nesse processo em conjunto com ações institucionais elaboradas pelo Estado Novo através da Divisão de Educação Física. Observou-se uma preocupação de que a disciplina ocupasse um lugar de aparente transição “teórica” para “prática” naqueles currículos aliadas às seções pedagógicas dos mesmos. Foi notório nesse processo, que a disciplina História da Educação Física pudesse fornecer teorias explicativas capazes de articular o passado corroborando com os métodos de intervenção pedagógicos de seu presente. Palavras-chave: história das disciplinas, disciplina História da Educação Física, história da educação física, história do currículo, história da formação de professores. ABSTRACT This thesis deals with the History of Physical Education (HPE) as a subject and its institutionalization in teacher education courses curricula in Physical Education (PE) between the years 1929 and 1958. The subject analysis through the courses curricula allowed us to establish connections with history teacher training in PE in Brazil by analyzing the relations between educational institutions and their curricula, with teachers and their productions on the subject. The objective is to understand, in a more expanded way, how the subject has established itself in an institutional and political context from the beginning of the 1930s and, in a more internal way, how this could be revealed through their contents and purposes in the compilations, books and education programs which could be considered as teachers practices at the time they taught the subject. Such analyzes had, as a starting point, Ivor Goodson’s (1990, 2000) theoretical proposals on the social history of curriculum and subjects and André Chervel’s (1990) indications and his propositions on the genesis, function and operation of a subject. This theoretical framework, together with the sources, attempted to show the institutionalization process of the HPE, taking the educational institutions, their courses, subjects and teachers who produced it into account. Considering that the subject becomes part of teacher education by the insertion of PE in schools and the need for teacher training, HEF is established in relation to the production context of its teachers through their research career path. This movement of establishing institutional indicatives and revealing the subject contents through educational programs, books and manuals revealed that the subject seems to contribute to the establishment of theoretical support to educational processes in PE. Teachers’ productions showed that one of the great commitments of the subject was connected to the PE French Method legitimation in Brazil over the 1930s. Being a markedly theoretical subject, HPE has permeated all the analyzed courses curriculum, establishing a "foreign" reading in the history of PE as a way to legitimate pedagogical training for its role. From the late 1940s the subject has its themes expanded to “national” issues and that indicates the projection of future methods or national PE systems, in a way that it contributes to the construction of a place for the History of National Physical Education in their programs. HPE alignment with Universal History themes in a linear and chronological order, philosophical history as an antiquity debtor and the attempt of establishing a utility for HPE were constant in the course over the decades which were analyzed. The sources allowed the investigation of teaching concepts comprising the topics and contents which were at stake in this process, together with institutional actions developed by the New State through the Division of PE. There was a concern that the subject would occupy a place of apparent “theoretical” transition to "practice" in those curricula, coupled with their pedagogical sections. It was clear that, in this process, HPE could provide explanatory theories which were able to articulate the past corroborating the pedagogical intervention methods of the present. Keywords: History of subjects, History of Physical Education subject, Physical Education, curriculum history, history of teacher education. RÉSUMÉ La présente thèse traite de la discipline Histoire de l'éducation physique et son institutionnalisation dans les programmes des cours de formation en éducation physique entre les années 1929 à 1958. L'analyse de la discipline à travers les programmes de ses cours a permis à la recherche d'établir des liens avec l'histoire de la formation des enseignants en éducation physique au Brésil, en analysant les relations entre les établissements d'enseignement et leurs programmes, avec les enseignants et leurs productions académiques sur cette discipline. Il est intéressant de comprendre, d’une forme plus élargie, comment la discipline s’est mise en place dans un cadre institutionnel et politique depuis le début des années 1930, dans l'éducation physique brésilienne. En plus, d’une façon plus intèrne, comment cela pourrait être révélé à travers leurs contenus et leurs finalités transmis par les recueils, les livres et les programmes d’enseignement considérés comme « pratiques » des enseignants qui ont offert pendant trois décennies les cours analysés. Ces analyses ont eu comme point de départ les propositions théoriques de Ivor Goodson (1990, 2000) à propos de l'histoire sociale du curriculum et des disciplines et les indications et les propositions de André Chervel (1990) sur la genèse, la fonction et le fonctionnement d'une discipline. La portée théorique alliée aux sources documentaires avait pour but montrer le processus d'institutionnalisation de la discipline HEF en tenant compte les établissements d'enseignement, leurs cours et les profiossionnels qui l'ont produit. Considérant que la discipline HEF est devenue partie de cette formation professionel à travers les processus de scolarisation de l’éducation physique et par la nécessité de formation de professeurs, celle-ci est mise en relation avec le contexte de production de ses enseignants par le biais de l’enquête du parcours de recherche de ces derniers. Cette démarche pour établir des indications institutionnelles et pour montrer le contenu de la discipline à travers des programmes éducatifs, des livres et des manuels a rélévé que la discipline semble, tout au long de la période analysée, contribuer à la mise en place d'un soutien théorique aux processus pédagogiques de formation en éducation physique. La production académique des enseignants a montré que l'un des grands objectifs de la discipline était la légitimation de la méthode française de l'éducation physique au Brésil, au cours des années 1930. Étant nettement une discipline théorique, l'Histoire de l'éducation physique a entremêlé le programme de tous les cours analysés établissant une lecture « étrangère » de l’Histoire de cette discipline comme un moyen de légitimer la formation pédagogique qui envisageat la performance du profissionnel de l’éducation physique. A partir de la fin des années 1940 les thèmes abordés par cette discipline sont élargis aux questions « nationales », indiquant la projection de méthodes futures ou des systèmes d'éducation physique nationaux qui contribuent à la construction d'un lieu pour l'Histoire de l'éducation physique nationale dans leurs programmes. L'alignement de l'Histoire de l'éducation physique avec les thèmes de l'Histoire universelle de façon linéaire et chronologique, l’Histoire philosophique débiteuse de l'Antiquité et la tentative d'établir un utilitaire pour l'Histoire de l'éducation physique ont été des continuités de la discipline au cours des décennies analysées. La documentation analysée a permis l'enquête a propors de concepts de son enseignement, comprenant les thèmes et le contenu en question dans ce processus, ainsi que des actions institutionnelles élaborées par le Estado Novo à travers la Division de l'Éducation Physique. Par ailleurs, il a été possible d’observer une préoccupation concernant le fait de que la discipline occuperait une place de transition « théorique » à la « pratique » dans ces programmes, par rapport à leurs propres sections pédagogiques. Il a été évident dans ce processus que la discipline Histoire de l’éducation physique puisse fournir des théories explicatives, capables d'articuler le passé corroborant avec les méthodes d'intervention pédagogique du présent. Mots-clés: histoire des disciplines, l'histoire de la discipline éducation physique, l'histoire de l'éducation physique, l'histoire du curriculum, l'histoire de la formation des enseignants. LISTA DE SIGLAS ABC Academia Brasileira de Ciências ABE Associação Brasileira de Educação CMEF Centro Militar de Educação Física CNE Congresso Nacional de Educação EF Educação Física ENEFD Escola Nacional de Educação Física e Desportos EEFE Escola de Educação Física do Exército HEF História da Educação Física IHGB Instituto Histórico e Geográfico do Brasil INEP Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MÊS Ministério da Educação e Saúde Pública PNE Plano Nacional de Educação UB Universidade do Brasil UDF Universidade do Distrito Federal UNE União Nacional dos Estudantes URJ Universidade do Rio de Janeiro USP Universidade de São Paulo LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Estabelecimentos de Ensino ................................................................................. 27 Quadro 2 – Acervos Consultados ............................................................................................ 27 Quadro 3 – Artigos de Fernando de Azevedo na Revista Educação Physica ......................... 59 Quadro 4 – Currículos dos cursos de Educação Física da década de 1930 ............................. 94 Quadro 5 – Artigos de Laurentino Bonorino na Revista de Educação Física do Exército ... 111 Quadro 6 – Referências bibliográficas francesas do compêndio Histórico da Educação Física ...................................................................................................................................... 143 Quadro 7 – Tittre II – Instruction – Chapitre 1er - Programme des cours ............................ 147 Quadro 8 – Artigos de Américo Netto na Revista de Educação Physica ............................. 166 Quadro 9– Currículos do curso de Educação Física da ENEFD ........................................... 183 Quadro 10 – Programa de História da Educação Física e dos Desportos ............................. 215 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 16 CAPÍTULO 1 – O CONHECIMENTO HISTÓRICO E A EDUCAÇÃO FÍSICA: CONSTITUINDO UM CAMPO DISCIPLINAR .................................................................... 30 1.1 A Divisão de Educação Física: constituindo uma história para a educação física no Brasil ................................................................................................................................... 30 1.1.1 Pioneiros da Educação Física no Brasil ....................................................................... 30 1.2 Educação Física – Estatística e Organização da Educação Física no Brasil ...................... 34 1.3 Constituindo um campo disciplinar na formação em educação física................................ 37 1.4 Conversando com Rui Barbosa e Fernando de Azevedo ................................................... 43 1.4.1 Rui Barbosa e a história da educação física ................................................................. 43 1.5 Os escólios de Inezil Penna Marinho sobre “a história” da Educação Física nos pareceres de Rui Barbosa ......................................................................................................................... 49 1.6 Fernando de Azevedo e a História da Educação Física ...................................................... 53 1.7 A história da educação física em Da Educação Física ...................................................... 61 CAPÍTULO 2 – A DISCIPLINARIZAÇÃO DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA: ENTRE MILITARES E CIVIS ................................................................................................ 72 2.1 Os cursos de formação em educação física e o lugar da disciplina HEF: instituições, sujeitos e práticas nos 1930 ...................................................................................................... 72 2.2 O lugar de fronteira dos primeiros cursos de formação em Educação Física: entre o técnico e o superior ................................................................................................................... 78 2.3 Os currículos dos primeiros cursos de formação em educação física: o lugar da HEF ...... 92 CAPÍTULO 3 – OS PROFESSORES DA “CADEIRA” DE HEF E SUAS PRÁTICAS NOS ANOS 1930: CIRCULAÇÃO E APROPRIAÇÃO NACIONAL E INTERNACIONAL .... 103 3.1 Dos professores da “cadeira” de HEF e suas práticas ...................................................... 103 3.1.1 Laurentino Lopes Bonorino ....................................................................................... 106 3.1.2 Carlos Marciano de Medeiros .................................................................................... 117 3.2 O compêndio Histórico da Educação Física ..................................................................... 118 3.3 Os programas da cadeira de História da Educação Física: o curso para professores no Espírito Santo ......................................................................................................................... 130 3.4 A produção do Histórico da Educação Física: circulação e apropriação dos referenciais franceses ................................................................................................................................. 137 3.5 A História nas referências do Histórico da Educação Física .......................................... 151 3.6 Américo R. Netto .............................................................................................................. 163 3.7 Os Jogos Olympicos de hontem, de hoje e de amanhã ..................................................... 168 CAPÍTULO 4 – A “CADEIRA X” DA ENEFD: OS PROFESSORES DE HEF E SUAS PRÁTICAS (1939 A 1958) .................................................................................................... 173 4.1 A ENEFD: a disciplina HEF e os indicativos de um novo lugar de formação em Educação Física ....................................................................................................................................... 173 4.2 A disciplina HEF e sua institucionalização na ENEFD ................................................... 178 4.2.1 A constituição do quadro docente da ENEFD e o currículo da Escola Nacional de Educação Física .................................................................................................................. 178 4.3 Os professores de História da Educação Física na ENEFD e os programas da “cadeira X” ........................................................................................................................................... 185 4.4 Aluizio Accioly ................................................................................................................ 189 4.5 Inezil Penna Marinho........................................................................................................ 194 4.6 Contribuição para a História da Educação Física no Brasil ............................................. 208 4.7 História e Organização da Educação Física e dos Desportos ........................................... 213 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 222 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................... 228 16 INTRODUÇÃO A distinção entre o passado e o presente é um elemento essencial da concepção do tempo. É pois, uma operação fundamental da consciência e da ciência histórica. Como o presente não se pode limitar a um instante, a um ponto, a definição da estrutura do presente, seja ou não consciente, é um problema primordial da operação histórica. (LE GOFF, 2003, p. 207) Estudar a história do currículo e a história das disciplinas pressupõe o estudo de uma gama de “diferentes cenários e níveis” (GOODSON, 2000, p. 51). Essa é a recomendação de Ivor Goodson para o estudo da história do currículo como um “conflito social”. Através dessa gama de cenários e níveis, o currículo, segundo o autor, poderia ser melhor compreendido por uma visão construcionista e, por isso, também histórica e social de um trabalho que deseja compreender a história de uma disciplina. Atentar para os cenários e níveis nesse contexto é também considerar a necessidade de examinar as forças internas e externas que vão, ao longo do tempo, moldando currículos e disciplinas ao que foi prescrito como atividade de aula e também como força política e institucional. Ao longo deste estudo, diferentes cenários em relação à história da disciplina História da Educação Física (HEF) foram surgindo através das fontes pesquisadas. O objetivo inicial de analisar a história dessa disciplina no currículo dos primeiros cursos de formação em Educação Física no Brasil ganhou outras camadas de análise através do olhar sobre documentos institucionais e sobre o que denominamos como a “materialidade” da disciplina: programas de ensino, livros e compêndios destinados às funções didático-pedagógicas da disciplina. A ideia inicial de enquadrá-la em uma teoria da história das disciplinas acadêmicas, por esta se estabelecer nos chamados “primeiros cursos superiores de formação”, considerando-a a partir de um “padrão evolutivo” como proposto por Ivor Goodson (1990), foi descartada nesse processo. Isso se deu devido à constatação de que, nesses diferentes cenários apresentados, era necessário observar melhor seus “parâmetros para a prática”, de acordo com Goodson, e sua “gênese, função e seu funcionamento”, como propõe André Chervel (1990). Devido a essas questões e na tentativa de compreender que a disciplina História da Educação Física também se constituía como um lugar de conflito social dentro da própria Educação Física e das instituições estatais que regularam sua escolarização, me lancei a uma análise ora externa, ligada aos documentos oficiais institucionais e políticos, ora mais interna, 17 ligada à produção do que foi destinado à disciplina. Ao longo desse processo, categorias teóricas foram abandonadas fazendo surgir outras questões mais ligadas a como a institucionalização dessa disciplina havia ocorrido levando em conta as instituições e os sujeitos que a produziram ao longo das três décadas analisadas. Serviram-me de inspiração teórica as problematizações de Ivor Goodson sobre o “surgimento” de uma disciplina dentro do currículo. Da mesma forma, para a compreensão dos “parâmetros da prática” da disciplina foram importantes as considerações de André Chervel sobre a “gênese, a função e o funcionamento” de uma disciplina. Embora a investigação se centrasse na disciplina HEF, o conjunto de fontes mostrou que a HEF se ampliava na configuração do campo de conhecimento e na atuação da própria Educação Física como saber que tentava se legitimar na escola. Foi pelo processo de escolarização da educação física e pela necessidade da formação de professores para esse processo que a HEF passou a fazer parte dessa formação e a ser reinvindicada por esses sujeitos e lugares institucionais também. Essas categorias, nesse sentido, me permitiram tensionar a ambiência política e institucional da disciplina HEF em meio aos cursos de formação e à produção dos professores analisados em conjunto com sua trajetória profissional. A história das disciplinas acadêmicas no debate da história das disciplinas é ainda incipiente para uma compreensão mais alargada e aprofundada das disciplinas que não surgiram das matrizes interpretativas da escola, como é o caso da HEF. 1 Apesar disso, a noção de “surgimento” proposta por Goodson (1990) para a compreensão das disciplinas acadêmicas ajudou, com certas limitações, na interlocução com as fontes. Ivor Goodson lembra que no “surgimento” de uma disciplina “os professores raramente são especialistas treinados, mas trazem o entusiasmo missionário dos pioneiros à sua tarefa” (LAYTON, 1972 apud GOODSON, 1990, p. 235-236). O autor faz essa afirmação a partir da noção de “evolução” proposta no modelo de Layton 2 , o qual compreende como um modelo provisório, mas que 1 Na História das disciplinas acadêmicas, o fazer científico como objeto primeiro de análise tem, nas disciplinas de matriz escolar, modelo para as disciplinas que se estabeleceram no ensino superior. Marcadas em suas constituições pelas trocas entre escola e universidade, tais disciplinas acabariam reforçando os vínculos com a tradição científica e acadêmica das universidades, adquirindo status de ciência. A disciplina HEF não passa por esse percurso, pois se estabeleceu diretamente nos chamados Cursos Superiores de Educação Física. Sobre a história das disciplinas acadêmicas e o processo de academicização das disciplinas, ver Goodson (1990, 1995, 1997) e Warde (1990). 2 O modelo de Layton utilizado por Goodson (1990) analisa a evolução de uma disciplina em direção a um status acadêmico categorizando-a em três estágios distintos. “No primeiro estágio: o inexperiente intruso assegura um lugar no horário escolar, justificando sua presença com base em fatores tais como pertinência e utilidade. Durante esse estágio, os aprendizes são atraídos pela matéria por causa de sua relação com questões de seu interesse. Os professores raramente são especialistas treinados, mas trazem o entusiasmo missionário dos pioneiros à sua tarefa. O critério dominante é a relevância para as necessidades e interesses dos aprendizes. No segundo e intermediário estágio: uma tradição de trabalho acadêmico na matéria está emergindo juntamente 18 ajudaria no entendimento das disciplinas por não considerá-las como explicações monolíticas, entendendo-as em constante fluxo. A compreensão desse fluxo é possível quando a investigação histórica da constituição das disciplinas se estabelece a partir da particularidade do conjunto de fontes e também da interrogação do pesquisador sobre a construção e a reconstrução dos parâmetros da disciplina. Esse movimento de a priori ter escolhido categorias explicativas como a história das disciplinas acadêmicas foi rejeitado quando a investigação por dentro das fontes mostrou que a disciplina se estabelecia a partir de uma dinâmica institucional e da produção de seus professores, estando fora do contexto científico, base das disciplinas nessa análise de Goodson (2000). Era necessário, assim, observar esses dois “cenários” – o institucional e a produção dos professores –, suas mudanças e permanências. Foi a partir da produção teórica de Goodson (1990, 2000) que esses diferentes cenários, o institucional e a produção dos professores, se estabeleceram nessa tese, na tentativa de compreender o que seriam os currículos prescritos da disciplina HEF. Tais prescrições, segundo o autor, se configurariam tanto emanadas dos órgãos políticos e administrativos, como também dos livros, guias e programas do professor, compreendendo o que é elaborado pelo professor e o que é constituído pelo estado e pelas instituições. Tratando da “história das disciplinas” e de sua relação com o currículo, Goodson (1995) estuda o currículo e as disciplinas como um “artefato social” gerado por meio dos conflitos, não podendo ser tratado como um elemento dado e naturalizado. Como lugar de enfrentamento, o currículo deve ressaltar os programas, os textos e os sujeitos em um mesmo lugar de importância, estabelecendo entre eles, tanto de forma simbólica quanto prática, os aspectos históricos para sua compreensão. Nos estudos históricos das disciplinas escolares propostos por Ivor Goodson, a atenção aos chamados níveis pré-ativos do currículo também auxilia no entendimento institucional da trajetória das disciplinas: as prescrições emitidas pelo Estado, as burocracias locais, as prescrições institucionais, as prescrições dos departamentos das disciplinas e, finalmente, e muito importante, as prescrições e preparativos do currículo por parte dos professores que com o corpo de especialistas treinados, do qual são recrutados os professores. Os estudantes são ainda atraídos ao estudo, mas tanto por sua reputação e status acadêmico crescente quanto por sua relevância em relação aos problemas e interesses. A lógica interna e a disciplina da matéria estão se tornando crescentemente influente sobre a seleção e a organização do seu conteúdo. No estágio final: os professores constituem um corpo profissional com regras e valores estabelecidos. A seleção do conteúdo da matéria é determinada em grande medida pelos julgamentos e práticas dos acadêmicos especialistas que levam a pesquisas na área. Os estudantes são iniciados numa tradição, suas atitudes aproximando-se da passividade e da resignação, um prelúdio ao desencantamento” (LAYTON, 1972 apud GOODSON, 1990, p. 235-236). 19 ministraram a disciplina (GOODSON, 1995, p. 190). Embora esse quadro teórico não trate das disciplinas que não surgem na escola como é o caso da HEF, os estudos históricos sobre construção social do currículo colaboram para a análise de como se originam as disciplinas e de como elas se redefinem historicamente. Já André Chervel (1990), ao tratar da história das disciplinas escolares, produz uma análise mais internalista, caracterizada pelo olhar sobre as práticas e sobre modos de produção do professorado, tais como exames e cadernos de alunos, cadernos e exercícios escolares, instrumentos científicos e material didático. Ao tratar da história das disciplinas escolares como objeto, André Chervel prioriza a atenção sobre a história dos conteúdos de ensino, caracterizando a história das disciplinas como a própria concepção da história do ensino. Como apontado anteriormente, Chervel (1990) propõe três problemas centrais a serem debatidos de forma mais internalista em relação ao trabalho com a história das disciplinas: “a gênese, a função e o funcionamento da disciplina”. A investigação da “gênese” da disciplina teria, para o autor como ponto central a escola e como esta teria produzido uma disciplina; a da “função” de uma disciplina apontaria a finalidade para a qual foi criada; e a do “funcionamento” de uma disciplina demonstra o sentido com que ela se propaga ou se vulgariza na reprodução dos saberes e das práticas nela constituídos (CHERVEL, 1990, p. 185). Esses elementos teóricos me impeliram a pensar a disciplina no interior dos currículos dos primeiros cursos de formação em educação física estabelecidos entre 1929 a 1958 e sua relação mais ampla com a formação de professores no Brasil. A análise da disciplina HEF partiu de uma concepção mais ampliada de currículo e teve como foco os fluxos institucionais e políticos através da história das disciplinas no interior da construção social do currículo, a partir dos arcabouços teóricos acima citados. Partindo da proposição desses problemas, foi possível não somente acessar os conteúdos da disciplina como propõe André Chervel, mas tentar observar como eles dialogavam com a estrutura institucional mais ampla em torno da educação física, de sua história e dos currículos dos cursos. Procurei construir o contexto específico da disciplina HEF como objeto de estudo, buscando compreender seus diferentes fluxos de desenvolvimento pelos currículos dos cursos de formação e pelos professores que a produziram. Esse exercício possibilitou compreender o lugar múltiplo desse objeto de pesquisa nos estudos da história social das disciplinas. Esses argumentos teóricos acima citados se estabeleceram como linhas argumentativas que se complementam ao longo desse estudo, possibilitando o arranjo das fontes e das análises. É certo que a disciplina HEF parece 20 não se enquadrar perfeitamente em nenhum desses modelos teóricos de Ivor Goodson e André Chervel, mas foi através deles que procuramos mostrar o que Bruno Belhoste (1995, informação verbal 3 ) sugere em relação à história das disciplinas: que esta pode ser “inventada, composta e decomposta” em seu processo de constituição histórica. Reconhecendo os limites da noção teórica sobre a história das disciplinas escolares, o autor indica aos historiadores formas de operar com elas, entendendo-as enquanto práticas sociais construídas “caso a caso”. [...] Aquilo que ele [o historiador] procura mostrar, ao contrário, é como os discursos e usos são inventados e compostos, decompostos, colocados em circulação e reinventados e em qual parte são aí conduzidos, em cada caso, os ensinos. [...] O historiador das disciplinas deve então se recusar, a priori, a se fechar na instituição escolar, e ainda menos na “situação didática”; ele deve, antes de tudo, construir a cada vez o contexto específico de seu objeto de estudo (BELHOSTE, 1995, s.p.). O olhar sobre conteúdos, planos, compêndios, artigos e relatórios, em diálogo com o contexto ampliado da História da Educação Física do período, permitiu que as trajetórias profissionais dos homens que a escreveram pudesse ser revelada e, com elas, o caminho percorrido também na disciplina HEF. Através das instituições foi possível identificar professores com características muito distintas que ministraram a disciplina ao longo das três décadas investigadas. Eles foram, em sua maioria, homens: militares, jornalistas, técnicos e esportistas que, ao se ocuparem da docência de HEF, estiveram intimamente comprometidos com a máquina governamental e nela transitaram, seja pelos órgãos de regulação, seja pelas instituições de ensino. Estando imersos como docentes em uma disciplina marcadamente teórica, todos esses sujeitos, em diferentes graus ao longo do período, ajudaram a consolidar uma disciplina que pareceu estar inclinada a subsidiar teoricamente os processos pedagógicos dos cursos, como a escolha dos Métodos Ginásticos, de Educação Física e do esporte, que eram compreendidos como conhecimento a ser mobilizado pedagogicamente. Não seria possível, dessa forma, observar a disciplina HEF somente nos indicativos institucionais. Houve, ao longo do período incial analisado, um alinhamento de propostas entre os sujeitos que estiveram empenhados na escrita dessa historiografia ao longo dos anos de 1930 a 1940. Essa aproximação do caráter pedagógico da disciplina somente foi possível pelo acesso, de forma mais internalista, aos programas de ensino, compêndios e livros que, escritos com funções didáticas para a disciplina, contribuíram para dizer sobre sua função e sua funcionalidade como propôs Chervel. 3 Resumo de palestra proferida no Brasil em 22 de janeiro de 1995. Na palestra, Bruno Belhoste tenta avançar propondo outras matrizes interpretativsa para a história das disciplinas escolares a partir do escopo teórico de André Chervel. 21 Esse exercício de pesquisa também foi possível a partir do que Vinão (2008) chama de “elaboração do esquema de pesquisa”. Em relação à disciplina, observaram-se: lugar, presença, denominações e peso nos planos de estudos; objetivos explícitos e implícitos e os discursos que a legitimam como disciplina escolar; conteúdos prescritos (planos de estudo, livros de texto, programas, programações); professores das disciplinas: formação e titulações, seleção (requisitos, concursos, oposições, memórias, critérios e avaliações), a carreira docente, as associações (formação de comunidades disciplinares, as publicações e outros méritos); presença social e institucional; e, por fim, uma aproximação, até onde foi possível, às práticas escolares e à realidade em classe através de memórias, informes, exames, diários e cadernos de aula, documentos particulares, etc. Do ponto de vista da investigação na elaboração desse esquema de pesquisa, a história da educação física nacional e a história da disciplina HEF, por vezes, pareciam se confundir ou se sobrepor. Separar e agrupar o que era a História da Educação Física como campo e a disciplina HEF tornou-se um grande desafio. As fontes, em determinado momento, mostraram que não seria possível examiná-las de forma dicotômicas. Estabelecida como prioridade para o Estado Novo brasileiro, a história da educação física ajudou a definir e legitimar a educação física e seu processo de escolarização, sobretudo o que foi produzido no entorno de suas orientações pedagógicas através dos incentivos políticos de uma estrutura mais ampla e institucional. Além disso, foi a partir das “prioridades sociais e políticas”4 mais amplas desse contexto institucional de currículo, mais especificamente da Divisão de Educação Física do Ministério da Educação e Saúde Pública (MES), que foi possível reconhecer a produção de uma “tradição inventada”5 que tentou disseminar valores e normas, produzindo um passado apropriado para a educação física nacional. Essa invenção de uma tradição foi institucionalmente organizada através da memória de homens que, entre os séculos XIX e XX, tomaram a educação física como objeto de defesa. Esses homens ocuparam cargos institucionais, produzindo para a Educação Física nacional um passado demarcado pela história que eles haviam escrito. Nessa trama é possível reconhecer que a HEF enquanto 4 Ao tratar da história do currículo, Ivor Goodson (2000, p. 54) sugere observar as prioridades sociais e políticas desse contexto social antes de tratar dos parâmetros para a prática na pesquisa da história das disciplinas. 5 Termo utilizado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger e posteriormente apropriado por Ivor Goodson para tratar do currículo como “produção e reprodução social”. A tradição inventada se constitui como ferramenta que se estabelece dentro de breves períodos de tempo como forma de corroborar um conjunto de práticas simbólicas anteriores. Tenta, por isso, disseminar valores e normas de comportamento através da repetição, o que automaticamente implica uma tentativa de continuidade do passado, criando assim um “passado apropriado”. (Ibid., p.57) 22 temática já circulava nas produções brasileiras desde o século XIX. Não era mais possível pensar a disciplina sem dialogar com a própria história da constituição da educação física, nesta tese demarcada através das fontes da Divisão de Educação Física do MES. Os sujeitos que produziram a disciplina ao longo da década de 1930 se valeram dessa “tradição inventada”, não restringindo a História da Educação Física somente à ambiência dos cursos de formação, mas utilizando-a como um modelo de confirmação de escolhas políticas e pedagógicas. Ao longo desse processo, foi preciso pensá-la como tema reivindicado nos documentos oficiais e como forma de invenção de uma história para o próprio campo. Para isso, o argumento de Paiva (2004) sobre o engendramento do campo a partir de uma perspectiva bourdieusiana foi importante para o estabelecimento do que chamamos de um campo disciplinar para a formação em educação física no Brasil ao longo dos anos de 1930, sendo a HEF parte dele 6 . Combinadas, as propostas teóricas de Ivor Goodson e André Chervel e a produção de um “inventário de pesquisa” me ajudaram a estabelecer um olhar macro sobre a história social da educação física a partir da disciplina HEF e as interferências produzidas em seu estabelecimento nos primeiros cursos de formação no Brasil. Dessa forma, os cursos de formação em Educação Física no Brasil, estabelecidos ao longo dos anos de 1930 e 1950 e o processo de institucionalização da disciplina HEF, se constituíram como objetos desta pesquisa. A disciplina esteve indissociavelmente conectada aos cursos e à produção de seus professores em seu processo de constituição e institucionalização. Desse modo, parto da hipótese de que a disciplina HEF sempre esteve presente nos cursos de formação em Educação Física no Brasil 7 . A hipótese da “estabilidade” da disciplina HEF nos cursos permitiu que pudéssemos observar não somente sua presença nos currículos, mas também suas diferentes características aliadas a outras disciplinas e/ou sendo desenvolvida com outras temáticas nesses mesmos cursos. Essa hipótese ajudou a produzir um mapeamento da 6Opto por trabalhar com o argumento do “engendramento do campo” elaborado por Paiva (2004) e não diretamente com a teoria do campo de Pierre Bourdieu. A autora, tratando do processo de legitimação social da educação física brasileira, lembra que é ao longo dos anos 1930 que a disciplina Educação Física se institucionaliza de forma polissêmica. Os argumentos de Paiva (2004) produzidos a partir de Bourdieu (1983) sobre o engendramento do campo da Educação Física estabelecido na década de 1930, juntamente com a concepção de currículo ampliado de Goodson (2000), me impeliram a pensar, inspirada na proposta de Barros (2011), na constituição de um “campo disciplinar” na formação em Educação Física, sendo a disciplina HEF parte constituidora desse campo. Nesse sentido, apesar de a Educação Física se escolarizar, ainda que de forma polissêmica e com diferentes nomes e funções no Brasil a partir do século XIX, a formação de seus professores ainda permaneceu pouco normatizada pelo Estado e ainda carente de legitimação de um campo disciplinar que constituísse a formação desses professores que já produziam uma ação de caráter pedagógico na escola. 7 A disciplina HEF encontra-se presente nos históricos escolares dos alunos da EEFE desde 1929, estando também presente em outros cursos criados ao longo da década de 1930 no Brasil. Ela permanece no currículo da Escola Nacional de Educação Física e Desportos - ENEFD desde sua criação em 1939 até 1958, marco final deste estudo, assim como em demais cursos criados no Brasil entre os anos de 1940 a 1968. 23 disciplina no conjunto de fontes, perguntando o porquê de ela se configurar como disciplina nos currículos dos cursos de formação em Educação Física no Brasil desde 1929 na Escola de Educação Física do Exército (EEFE) até o final dos anos de 1950, período analisado nesta tese. Os primeiros cursos de formação de professores parecem utilizar a disciplina HEF como forma de legitimar a formação pedagógica desejada reafirmando a necessidade da formação de profissionais especializados na atuação da Educação Física na escola. É pela via da escolarização e da formação de professores que a hipótese da “estabilidade” da disciplina poderia ser analisada. A tentativa de entender os sentidos da produção da HEF como disciplina parece ter estabelecido íntima relação com as estratégias de legitimação do campo da Educação Física, sobretudo a que diz respeito à institucionalização dos cursos de EF constituídos pelos militares e à vulgarização de seus sentidos em âmbito civil. A institucionalização da Educação Física, sobretudo aquela produzida a partir dos primeiros cursos de formação de professores, ocorreu ao longo da década de 1930 no Brasil e foi pela sua escolarização que surgiu a necessidade de uma formação específica. A inspiração teórica dos trabalhos relativos à história da disciplina História da Educação (HE) colaborou para que as reflexões contruídas nessa tese sobre as finalidades pedagógicas da disciplina HEF fossem elaboradas nesse processo, e, da mesma forma, permitiu compreender que essa também seria uma via possível para a análise de parte do processo da formação de professores em Educação Física. Esses estudos 8 possibilitaram não somente investigar o conjunto de fontes acessado para esta pesquisa a partir dos cursos e da produção de seus professores como grandes eixos norteadores, mas também a melhor observação de como as concepções ideológicas, a aproximação ou o distanciamento da cientificidade proposta na formação de professores em EF, estariam postas ou não na HEF como disciplina. Os argumentos desses estudos revelam algumas características importantes em relação à disciplina História da Educação: a formação da docência pela moral, tendo sido produzida uma tradição historiográfica cristã na Educação; o caráter religioso, a moral e a postura salvacionista conferidos à disciplina HE, também constituída como uma disciplina não escolar assim como a HEF; e as diretrizes da História e da Filosofia integradas em seu processo de constituição histórica 9 . 8 Carvalho (2003), Warde (1990, 1998), Fonseca (2003), Falcon (2006), Nunes (1996), Vidal e Faria Filho (2003). 9 Essa integração entre Filosofia da Educação e História da Educação, segundo os autores, teria reforçado o afastamento da escrita com a prática dos arquivos, estimulando interpretações que pretendiam conferir à HE 24 Foi pelo caminho da formação de professores que partimos do pressuposto que os primeiros cursos de formação de professores em EF se utilizaram da disciplina HEF como uma forma de legitimar a formação desejada constituindo um campo disciplinar. A HEF nesse campo disciplinar seria parte de uma estrutura de saberes que, elaborados e demarcados nos currículos como disciplinas (tais como Metodologia, Organização e Pedagogia da EF) se constituíram na base da formação profissional em Educação Física. Tais disciplinas parecem atender à demanda da escolarização da educação física e do esporte nos cursos criados entre os anos de 1920 a 1950, período de recorte desse estudo. A formação de professores é, nesse sentido, posterior a uma prática que já se constituía como parte do processo de escolarização. A legitimação desses cursos era, da mesma forma, necessária e, portanto, outra hipótese perseguida ao longo da tese é de que a disciplina HEF teria servido para ajudar na legitimação da Educação Física como campo disciplinar ainda em construção nos cursos de formação de professores. Se a Educação Física como campo se estabelecia como prática social, a formação de seus professores/instrutores era também incipiente e frágil no início do século XX no Brasil. A HEF como disciplina ajudaria a normatizar um campo disciplinar na formação profissional na Educação Física brasileira, conferindo legitimidade aos seus primeiros professores a partir da História para a apropriação e a produção de práticas, como no caso dos militares, da defesa do Método Francês de educação para a escola brasileira. Logo, o arranjo metodológico dessa pesquisa foi estabelecido para tentar compreender a história da disciplina HEF a partir de duas vertentes: a primeira constituída a partir da necessidade de investigação da disciplina HEF no interior dos currículos dos primeiros cursos de formação de professores/instrutores de Educação Física, observando o estabelecimento desses cursos e a construção de seus currículos; e a segunda voltada para a maneira com que a disciplina de HEF se estabeleceu nesse ínterim através da produção de seus professores. Dessa maneira, além de investigar as concepções do ensino dessa disciplina, compreendendo seus temas e conteúdos, optei por adentrar em um conjunto de fontes que me permitiu investigar a própria concepção sobre a história da educação física que tentava se legitimar no Brasil a partir dos veículos oficiais do Estado, como a Divisão de Educação Física e as Revistas especializadas do período, sobretudo as revistas Educação Physica e Revista de Educação Física do Exército. uma importância moral, e transformando a disciplina menos em uma ciência matricial (Psicologia, Sociologia ou Biologia) e mais em uma disciplina formadora. 25 Corroborada por uma disciplina que nascia na escola e pela urgência da formação de professores, a HEF fez parte de um conjunto de ações que, ao criar uma história para a educação física nacional, ajudou também na institucionalização da disciplina na formação de seus professores, com forte tendência a subsidiar suas práticas pedagógicas inspiradas nos modelos estrangeiros. Foi através dos compêndios e livros da disciplina que reconhecemos a necessidade de refletir sobre a circulação de uma produção estrangeira na escrita do material didático a ela destinado, bem como sua apropriação e circulação no Brasil. Esse esforço resultou na análise do contexto de produção nacional e internacional das obras escritas como princípio pedagógico para a disciplina HEF. Esse arranjo metodológico está intimamente relacionado também ao recorte temporal estabelecido a partir dos indicativos das fontes. Se foi pelo enraizamento da Educação Física como disciplina escolar como apresentam Vago (2002) e Paiva (2004) 10 que os cursos de formação começaram a ser organizados, foi pelas fontes desses cursos e pela produção de seus professores que os marcos temporais também se estabeleceram na tese. Criada em 1929, a Escola de Educação Física do Exército (EEFE) passa a existir com tal nomenclatura integrada ao Centro Militar de Educação Física (CMEF) 11 apenas em 1933, mas desde o primeiro momento contém em seu currículo a disciplina HEF. O início do curso de Educação Física no Rio de Janeiro e posteriormente o dos cursos do Espírito Santo, de São Paulo e de Minas Gerais, na efervescência dos debates da criação da universidade brasileira, são marcos temporais que culminaram na criação da Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD) em 1939. Nesse período, esteve a Divisão de Educação Física, órgão do Ministério da Educação e Saúde também empenhada na divulgação da HEF. O marco final proposto também se constituiu tendo as fontes como guia e com íntima relação com a produção de Inezil Penna Marinho, catedrático de HEF da ENEFD. A vasta produção de Inezil Penna Marinho sobre história da educação física e sua presença como professor da disciplina HEF no final dos anos de 1950 demarcaram as análises finais dessa tese. Ao longo dessas três décadas foi possível identificar neste estudo as permanências e as mudanças dessa disciplina, caracterizadas tanto nos currículos quanto na produção de seus professores. Da mesma forma, foi possível identificar a ascensão de determinados conhecimentos em detrimento de outros no interior da disciplina e sua ampliação e reorientação temática ao longo desse período 12 . 10 Cf. VAGO, 2002; PAIVA, 2004. 11 Sobre o CMEF ver também Amarílio Ferreira Neto (1999) e Meily Linhales (2009a). 12 É importante considerar que os cursos de formação parecem se organizar tendo a disciplina educação física escolar como um dos princípios norteadores da formação profissional. Como a educação física não estava consolidada como disciplina escolar, ela se apresenta nesse momento como um conjunto muito genérico e 26 O acesso ao conjunto de fontes para esta pesquisa somente foi possível através da aproximação dos cursos de Educação Física nas diferentes instituições de ensino que mantêm guarda dessa documentação através de Centros de Memória, acervos institucionais e bibliotecas. Os diversos documentos institucionais analisados, relatórios, programas de ensino, compêndios, livros e artigos das revistas especializadas do mesmo período, foram fundamentais e compuseram um “esquema de pesquisa” como Antônio Vinão (2008) propõe ao estudo das disciplinas. O itinerário de busca dessas fontes começou no levantamento de Costa (1971) da fundação dos primeiros estabelecimentos civis públicos e privados de ensino superior de Educação Física e Desportos, em funcionamento até 1969 (Quadro 1). O levantamento foi basilar para constituir e organizar o corpus documental relativo às disciplinas. Das onze instituições criadas até 1968, oito eram instituições públicas; a ENEFD é a única de caráter federal, sendo as demais estaduais 13 . Apesar de a coleta das fontes ter se realizado em diferentes instituições até o início dos anos de 1970 14 , optei por utilizar fontes produzidas pós 1940 tendo como baliza a ENEFD e excluindo por ora as análises dessa disciplina nos demais cursos criados no mesmo período em outros estados brasileiros. Essa escolha deu-se levando em conta a quantidade de material coletado relativo à disciplina HEF ao longo dos anos de 1930 e o volume da produção de Inezil Penna Marinho na ENEFD, que marca essa disciplina também nas outras instituições do período, optando por dedicar a sua produção na ENEFD um olhar mais aprofundado (Quadro 2). Reconheço, entretanto, a importância da continuidade desta pesquisa através dos cursos estaduais, posteriormente federalizados a partir da década de 1960, identificando sua importância na disseminação da formação profissional em Educação polissêmico de práticas que já vinha sendo escolarizado desde o século anterior no Brasil, mas que por vezes não aparecia sob a rubrica “educação física”. No entanto, compreendo que uma disciplina pode existir mesmo antes de sua rubrica definitiva como nos propõe observar Dominique Julia (2001, 2002). 13 Costa (1971) apresenta outras quatro instituições de caráter administrativo inicial privado, criadas no estado de São Paulo no mesmo período: a Escola de Educação Física de São Carlos, criada em 21/01/1950, a Escola de Educação Física de Bauru, criada em 01/12/1953, e o Curso de Educação Física da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Campinas, de 1968. A Escola de Educação Física de Santos, criada em 24/04/1969, também aparece na relação das instituições de caráter particular. Em um adendo a essas escolas, localizo também a Escola de Educação Física das Faculdades Católicas em Belo Horizonte em 1952, depois fundida com a Escola de Educação Física do Estado de Minas Gerais resultando na Escola de Educação Física de Minas Gerais em 1953. 14 Foram realizadas visitas aos acervos de diferentes instituições brasileiras e estrangeira (Quadro 2) para consulta da documentação institucional e coleta das fontes entre janeiro e junho de 2014 no Brasil e entre janeiro e junho de 2015 em Paris. A opção pelas instituições de caráter público teve alguns propósitos: perceber a amálgama que une algumas dessas Escolas de Educação Física, o trânsito de seus professores e a produção de material didático relativo à HEF. A escolha de alguns dos estabelecimentos de ensino a serem pesquisados foi dada em face da organização dos Acervos Institucionais em Centros e Memória ou em outros locais de guarda da documentação das instituições. 27 Física em cada um dos estados da federação aos quais pertencem e sua contribuição para a disciplina analisada. Foi através desses diferentes “cenários e níveis” que esta pesquisa tentou contribuir para uma ampliação do debate da história das disciplinas na Educação Física brasileira, sobretudo daquelas que não têm nascedouro na escola, temática ainda incipiente e necessária à nossa historiografia. Assumindo alguns desses instrumentos teóricos, tentamos uma aproximação incompleta e provisória de um conjunto de fontes presentes nas estruturas institucionais, nos sujeitos, nos professores da disciplina HEF e em suas práticas. Entender as finalidades dessa disciplina exigiu um esforço em olhar para a Educação Física em seu processo de escolarização, reconhecendo as múltiplas ingerências (político-institucionais e pedagógicas) necessárias à formação de professores ao longo do período, no contexto dos cursos analisados. Quadro 1 – Estabelecimentos de Ensino Estabelecimentos de ensino Dependência administrativa inicial Localização Data da autorização de funcionamento 1. Escola de Educação Física do Estado de São Paulo Estadual São Paulo – SP 04/03/1939 2. Escola de Educação Física e Desportos U.F. do Rio de Janeiro Federal Rio de Janeiro – Estado da Guanabara 17/04/1939 3. Escola Superior de Educação Física do Rio Grande do Sul Estadual Porto Alegre – RS 27/05/1941 4. Escola de Educação Física e Desportos do Paraná Estadual Curitiba – PR 07/07/1942 5. Escola Superior de Educação Física de Pernambuco Estadual Recife – PE 19/05/1947 6. Escola de Educação Física de Minas Gerais Estadual Belo Horizonte – MG 12/11/1952 7. Escola de Educação Física da U. F. do Espírito Santo* Estadual Vitória – ES 30/01/1961 8. Escola Superior de Educação Física de Goiás Estadual Goiânia – GO 07/12/1964 *Funcionando desde 24/08/1931 em cursos de Emergência, Educação Física infantil e de monitores. Fonte: COSTA, 1971, p. 46 Quadro 2 – Acervos Consultados 28 Acervos consultados Localização 1. BN - Fundação Biblioteca Nacional Rio de Janeiro 2. CEME - Centro de Memória Inezil Penna Marinho Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ – Rio de Janeiro 3. Biblioteca Jair Jordão Ramos Escola de Educação Física do Exército – EsEFEx – Rio de Janeiro 4. CPDOC - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil Escola de Ciências Sociais – FGV – Rio de Janeiro 5. CEME - Centro de Memória do Esporte ESEF - Escola Superior de Educação Física/ UFRGS – Porto Alegre 6. CEMEF- Centro de Memória da Educação Física, do esporte e do Lazer EEFFTO – Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional /UFMG – Belo Horizonte 7. PROTEORIA – Instituto de pesquisa em Educação e Educação Física CEFD - Centro de Educação Física e Desportos/UFES – Vitória 8. CEMEDEF - Centro de Memória do Departamento de Educação Física Departamento de Educação Física da UFPR – Curitiba 9. BnF – Bibliothèque Nationale de France Paris - França Fonte: Elaborado pela autora desta tese. A organização dos capítulos Esta tese estrutura-se em quatro capítulos. O primeiro capítulo, intitulado “O conhecimento histórico e a Educação Física: constituindo um campo disciplinar”, dialoga com textos produzidos entre os séculos XIX e início do século XX, buscando compreender como o conhecimento histórico já se apresentava como um elemento constituidor da produção de Rui Barbosa, Jorge de Morais e Fernando de Azevedo. Tentando captar o que teria sido a “retomada” desses autores na década de 1930 através da Divisão de Educação Física, proponho uma análise que tenta entender a história da educação física a partir da produção desses sujeitos, sendo, por isso, permeada pela constituição da história do próprio campo através dos chamados “Pioneiros da Educação Física no Brasil”. No segundo capítulo, “A disciplinarização da História da Educação Física: entre militares e civis”, buscamos traçar a constituição dos primeiros cursos de formação em educação física no Brasil, ao longo dos anos de 1930, procurando compreender a disciplina História da Educação Física no interior dos currículos dos cursos. Nesse processo, a análise 29 das ações do Estado Novo por meio da Divisão de Educação Física do MES foi importante para a observação dos impulsos governamentais na formação de professores e na criação de departamentos de educação física. O VII Congresso Nacional de Educação da ABE, a Revista de Educação Physica e a Revista de Educação Física do Exército, foram fontes basilares para a chegada à institucionalização da disciplina HEF através dos currículos dos cursos. No terceiro capítulo, “Os professores da cadeira de HEF e suas práticas nos anos 1930: circulação e apropriação nacional e internacional”, tentamos melhor compreender quem foram esses professores, suas trajetórias profissionais e como a disciplina HEF esteve estruturada em termos de conteúdos. No mapeamento dos primeiros professores, consideramos como suas “práticas” as suas produções identificadas. Para isso, analisamos compêndios, livros e programas de ensino escritos ao longo do período com finalidades didáticas para a disciplina HEF. O compêndio produzido pelos tenentes do Exército, o Histórico da Educação Física (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931), foi o eixo estruturador do capítulo indicando os desdobramentos da circulação nacional e internacional das referências, ajudando a definir no Brasil uma condição “estrangeira” sobre a escrita da disciplina História da Educação Física. O quarto capítulo, “A ‘cadeira X’ da ENEFD: os professores de HEF e suas práticas (1939 a 1958)”, teve sua narrativa organizada tendo como eixo condutor a ENEFD e seu currículo como um novo lugar de constituição da disciplina HEF. Reconstituindo o que teria sido a Cadeira X de História e Organização da Educação Física e dos Desportos institucionalmente e através de seus professores e também das “práticas” indicadas nos livros e programas de ensino, procuramos compreender como ela produziu outros indícios sobre a disciplina. A produção de Inezil Penna Marinho sobre a História da Educação Física foi essencial para melhor compreender a disciplina institucionalizada na ENEFD. 30 CAPÍTULO 1 – O CONHECIMENTO HISTÓRICO E A EDUCAÇÃO FÍSICA: CONSTITUINDO UM CAMPO DISCIPLINAR 1.1 A Divisão de Educação Física: constituindo uma história para a educação física no Brasil 1.1.1 Pioneiros da Educação Física no Brasil Em 1882 e em 1883, Rui Barbosa apresentou à Câmara dos Deputados dois pareceres elaborados como importantes diagnósticos sobre a Educação, intitulados: Reforma do Ensino Secundário e Superior (BARBOSA, v. IX, t. I, 1942) e Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública (BARBOSA, v. X, t. I ao IV, 1947). Os documentos eram fruto da relatoria da Comissão de Instrução Pública encarregada de apreciar o Decreto nº 7.247, de 19 de abril de 1879, de autoria do ministro Carlos Leôncio de Carvalho, o qual reformava os ensinos primário e secundário no município da Corte e o ensino superior em todo o Império (MACHADO, 2010). Os pareceres são, contudo, parte de uma demanda maior a respeito da política da educação popular, tema que, segundo Souza (2000), envolveu todo o Ocidente em questões que concerniam à organização administrativa do ensino e até mesmo às questões didáticas e pedagógicas. Tais discussões, empreendidas por políticos e intelectuais ao longo do século XIX, tinham como uma das finalidades maiores a instituição da escola primária e os meios de sua universalização. Esse processo teria desaguado em debates acerca da democratização da cultura e da função política da escola nas sociedades modernas: da discussão sobre o conteúdo da escolarização como temática central a debates sobre interesses políticos, ideológicos, religiosos, sociais, econômicos e culturais (SOUZA, 2000). Como relator, Rui procurou documentar os pareceres com um farto material bibliográfico especialzado que veio do exterior, sobretudo da Europa. Indicando, a partir da seleção desse material, um programa pensado para o ensino, Rui apresenta, entre diversas disciplinas, indicativos e prescrições sobre a Educação Física. Ao fazê-lo, introduz a Educação Física como disciplina nos programas de ensino primário que, juntamente com as ciências e o desenho, articulariam uma linguagem de modernidade (SOUZA, 2000, p. 12). A escrita dos pareceres de Rui foi um marco político e educacional importante no século XIX, além de ser tomada como fonte no século XX nos escritos sobre História da Educação pelos denominados pioneiros da educação nova. Lourenço Filho (2001) assinala o impulso renovador da educação invocando, ao longo de anos 1930, a atualidade dos pareceres 31 (LOURENÇO FILHO, 2001). Em A pedagogia de Rui Barbosa, publicado em 1954, Lourenço Filho apresenta Rui e seus pareceres como uma referência para a geração dos autointitulados renovadores da educação. O autor toma temas já proferidos por Rui no século XIX – como o ensino público, a obrigatoriedade escolar e a laicidade – como princípios que também fundamentariam tanto o Manifesto dos Pioneiros de 1932 quanto as dimensões políticas da Escola Nova. Os textos de A Pedagogia de Rui Barbosa (LOURENÇO FILHO, 2001) lançaram um dos mais importantes projetos político-editoriais empreendidos entre as décadas de 1930 e 1940 no Brasil: o projeto de publicação das obras completas de Rui, organizado pelo MES no Estado Novo. Faria Filho (2013) lembra que, no âmbito teórico e político, diversos sujeitos desse período teriam contribuído para constituir os textos de Rui Barbosa dedicados à educação em um documento-monumento da história e da memória da educação brasileira, nomeando-o como um grande pedagogista brasileiro. A estruturação das obras completas de Rui Barbosa, segundo o autor, realizou-se contra o esquecimento e a favor da construção de um legado ruiano como monumento da cultura brasileira. Da Educação Física (BARBOSA, 1947) se apresenta como o texto de Rui da referida reforma do ensino primário, dedicado à mesma temática. O documento marca a possibilidade da construção de um currículo mais moderno, que tenta substituir uma cultura literária por uma cultura científica na escola. Também é um dos primeiros documentos oficiais referentes à escolarização da educação física no Brasil que faz o uso da história da educação física, sobretudo aquela anteriormente produzida em terras estrangeiras. Rui se utiliza da História como forma de legitimar no Brasil o que vinha sendo produzido fora dele para tratar do lugar da educação física na escolarização. O texto de Rui Barbosa também é retomado por autores da Educação Física ao longo das décadas de 1930 e 1940. Os sujeitos envolvidos com a EF brasileira via MES e sob orientação do ministro Gustavo Capanema também se valeram dessa retomada, ajudando a constituí-lo como o grande reformador brasileiro. Os denominados Pioneiros da Educação Física no Brasil (DIVISÃO DE EDUCAÇÃO FÍSICA, 1943) parecem fazer o mesmo movimento de retomada dos pareceres realizado pelos autointitulados pioneiros da educação nova. Quase sessenta anos depois da apresentação dos pareceres, a Divisão de Educação Física 15 , órgão criado em 1937 no Estado Novo e dirigida pelo Major João Barbosa Leite, publica em livreto (ou opúsculos) os discursos da solenidade em homenagem àqueles que 15 Órgão do MES – Ministério da Educação e saúde vinculado ao Departamento Nacional de Educação e dirigido pelo Major João Barbosa Leite. 32 teriam sido os “pioneiros da Educação Física no Brasil” (DIVISÃO DE EDUCAÇÃO FÍSICA, 1943). A solenidade teria sido realizada em decorrência do 20º aniversário da morte de Rui Barbosa, em 1943, quando a Divisão de Educação Física inaugurou em suas dependências retratos de Rui Barbosa e também de Jorge de Morais 16 , intitulando-os como os vanguardistas em prol da EF no Brasil. O discurso do major João Barbosa Leite publicado nesse livreto traz Rui Barbosa e Jorge de Morais como marcos políticos para a consolidação da Educação Física no Brasil. Para Leite, Rui Barbosa estaria adormecido sob a poeira dos arquivos e há mais de meio século não teria tido visibilidade na Educação Física brasileira, sobretudo por aqueles que se diziam responsáveis pela educação da infância e da juventude no país. Uma das funções da homenagem e do livreto seria consolidar o nome de Rui Barbosa na História da Educação Física brasileira, exaltando a importância de sua produção para o avanço do entendimento dos exercícios físicos, do corpo, da educação física e seus sentidos higiênicos e moralizantes. A inserção da ginástica nos programas escolares e sua equiparação a outras disciplinas são temas que, juntos à noção de educação integral, ainda persistiam nos debates dos anos 1940, apesar de já indicados por Rui Barbosa nos pareceres do século anterior. A prática sistematizada e racional dos exercícios físicos, indicada no parecer de 1882, ainda permanecia como tema a ser legitimado pelos “servidores” (leia-se professores) que a Divisão de Educação Física administraria no pós 1937 17 . Ao longo do discurso, o major, ao tratar do pensamento educacional proposto por Rui Barbosa no Parecer Da Educação Física (1947), lamenta que a EF ainda precisasse se afirmar como um conhecimento importante e legítimo nos anos 1940, apesar da obrigatoriedade de sua prática já ter sido legalizada na Constituição de 1937. Por isso, como parte de um contexto mais amplo do MES, para aquele momento, se fazia importante a presença dos escritos de Rui por sua aualidade (LOURENÇO FILHO, 2001), para a difusão da Educação Física como desejado pela Divisão. Como um órgão fiscalizador, a Divisão administraria a prática da Educação Física pelo Brasil, e, ao trazer a memória de Rui Barbosa, parece tentar reforçar a obrigatoriedade dos exercícios físicos nos 16 Não tratarei neste capítulo de forma pormenorizada dos projetos de lei elaborados pelo deputado e médico amazonense Jorge de Morais. No entanto, intitulado pelo MES como um dos “pioneiros da educação física” é importante lembrar que este propôs no projeto de lei de 1905, a criação de duas escolas de Educação Física, sendo uma militar e outra civil. Arrolando alguns conhecimentos como fundamentais para a formação em Educação Física no Brasil, entre eles, a anatomia, a fisiologia, princípios gerais de higiene e a história e evolução da Educação Física como conhecimentos de primeiro plano, Jorge de Morais apresenta a necessidade de uma escola civil e uma militar como fundamentais na promoção da formação de professores no Brasil. (COSTA, 2006; MARINHO, 1941). 17 A EF é tornada obrigatória na escola pelo artigo 131 da Constituição de 1937. 33 estabelecimentos de ensino, tentando respaldar a legislação em vigor desde o final da década anterior. Se a retomada da memória de Rui é invocada pela Divisão como forma de fazer lembrar a obrigatoriedade do Estado de cumprir os indicativos pedagógicos por ele propostos no Parecer de quase sessenta anos antes, ela também parece se justificar por uma tentativa de legitimar a prática da educação física no processo de escolarização da disciplina ainda nos anos 1940. Apesar de obrigatória na escola, a Educação Física estaria ainda em processo de consolidação no Brasil e, para isso, nada mais legitimador do que tentar trazer a memória de Rui como forma de “orientar os passos e clarear os caminhos”(LEITE, 1943, p.11) para uma EF devidamente escolarizada no Brasil como desejava o major. Rui é nomeado na homenagem da Divisão e no texto in memoriam, ao passo que Jorge de Morais é um dos autointitulados pioneiros da Educação Física que tem fala concedida durante o evento. Seu discurso, publicado no mesmo livreto, ratifica a si mesmo como um pioneiro da Educação Física. Jorge de Morais afirma que naquele momento seus “primeiros passos” estariam sendo coroados antevendo os “brasileiros de amanhã” (MORAIS, 1943, p. 22). A beleza física e moral do povo brasileiro, o progresso, a defesa do estado e a crítica aos abusos referentes à prática do atletismo e dos desportos, eram alguns dos temas que estariam sendo, segundo o deputado, devidamente tratados pela Divisão de Educação Física. Para ele, o país teria falhado clamorosamente com os pareceres de Rui, pois os dirigentes nacionais não lhe conferiram a devida atenção. Jorge de Morais lembra que seu projeto de Lei de 1905, assim como os Pareceres de Rui, teria “dormido em sono profundo” (MORAIS, 1943, p. 20) sendo adotado efetivamente somente no Governo de Getúlio Vargas. O deputado se referia à concretização das duas escolas de formação propostas em 1905 e efetivamente inaugurada somente em 1939, com a criação de uma escola civil: a ENEFD no Rio de Janeiro. Como vimos argumentando, a tentativa institucional dos sujeitos ligados à educação física no Estado Novo de trazer a memória de Rui Barbosa e Jorge de Morais como forma de corroborar seu “pioneirismo” parece indicar um movimento mais amplo de tentativa de legitimar uma área que se consolidava, sobretudo no que diz respeito à sua escolarização no Brasil. Os discursos publicados no Pioneiros da Educação Física no Brasil produzido pela Divisão de Educação Física na década de 1940 mostram Rui Barbosa e Jorge de Morais como produtores de uma História da Educação Física no Brasil. Tomados como documentos históricos, os Pareceres de Rui Barbosa e o Projeto de Lei de Jorge de Morais parecem ajudar a conferir legitimidade a uma história da educação física que desejava ser contada por um órgão oficial como a Divisão. 34 1.2 Educação Física – Estatística e Organização da Educação Física no Brasil Assim como a publicação de Pioneiros da Educação Física no Brasil (DIVISÃO DE EDUCAÇÃO FÍSICA, 1943), Educação Física: estatística (MARINHO, 1942) e Organização da Educação Física no Brasil (MARINHO, 1941) são organizados como parte do projeto editorial do MES e publicados como fruto de Conferências para professores diplomados, realizadas pela Divisão de Educação Física 18 . Os dois últimos são livretos (ou opúsculos) lançados por Inezil Penna Marinho, técnico de educação da Divisão de Educação Física 19 desde 1939, respectivamente, em 1940 e em 1941, que marcam a historiografia da Educação Física no Brasil. As duas obras são também os primeiros estudos de Inezil Penna Marinho dedicados à História da Educação Física, temática à qual dedicou grande parte da sua obra produzida até o início dos anos 1980. O curso da Divisão de Educação Física teve um total de dez conferências, sendo que dessas, seis teriam sido ofertadas por Inezil 20 . Essas obras são importantes porque marcam também um primeiro interesse em documentar o que se constituiria como uma historiografia da Educação Física nacional, já que as literaturas publicadas anteriormente a essa data indicavam uma historiografia da Educação Física pautada na produção estrangeira, sobretudo advinda da Europa 21 . Sendo assim, é possível dizer que essas duas publicações de Inezil Penna Marinho são os primeiros exercícios de uma busca documental que apresentam um amplo levantamento de datas e fatos sobre o que seria uma história da educação física nacional a partir de fontes como: legislação, jornais, revistas, teses da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, de Pernambuco, da Faculdade de Direito, livros de Educação Física e Esporte, súmulas, arquivos diversos, livros sobre a história do Brasil, livros de memorialistas, entre outras. Organizados a partir de uma periodização política, Inezil descreve autores, 18 Conferências realizadas para o I Curso de Informações para professores de Educação Física, médicos especialistas, técnicos desportivos, treinadores e massagistas. Promovidas pelo Departamento Nacional de Educação via Divisão de Educação Física, as conferências foram ofertadas para especialistas já formados nessas áreas. 19 Melo (1998.) lembra que Inezil entrou em 1939, dois anos depois da criação do órgão, como assistente técnico. Passou a assistente de ensino em 1940 e em 1941 já era técnico de educação, o primeiro do Brasil ligado à Educação Física, e chefe da Secção Pedagógica da DEF. Sua carreira na DEF/MES é anterior à sua formação na ENEFD. Inezil cursou Educação Física na ENEFD entre os anos de 1941 a 1943, tendo se tornado professor dessa mesma instituição posteriormente. Em 1949 foi aprovado em concurso público, primeiro para livre- docente, depois para catedrático. A obra de Inezil é objeto dos dois últimos capítulos desta tese. 20 Ainda segundo Melo (s.d.), Organização da Educação Física no Brasil foi publicado, assim como todas as outras obras, no Boletim de Educação Física da DEF, número 1, junho de 1941. 21 O compêndio Histórico da Educação Física, publicado em 1931 pelos tenentes e professores do Exército, Laurentino Lopes Bonorino, Antônio de Mendonça Molina e Carlos Marciano de Medeiros, é um exemplo desse tipo de publicação, em que é possível encontrar apenas um parágrafo sobre a História da Educação Física brasileira. Esse compêndio será melhor analisado no Capítulo III desta tese. 35 compêndios, manuais e teses que versavam sobre temas que iam da higiene à ginástica e que teriam sido produzidos ou adotados em diferentes instituições de ensino brasileiras desde o século XVIII 22 . A partir dessas fontes, Inezil forjou um primeiro ensaio sobre a historiografia da Educação Física brasileira, amparado institucionalmente pela Divisão de Educação Física e atento aos autores e à legislação nacional. Inezil trata o parecer de Rui Barbosa como uma peça notável que teria integrado a Educação Física na forma de ginástica nos programas escolares que surgiram após sua publicação no Brasil. Ao demarcar Rui e os pareceres como gênese da ginástica escolarizada, Inezil produz um apagamento, invisibilizando toda escolarização dessa mesma prática que vinha acontecendo no Brasil desde o século XIX (MARINHO, 1941). A história descrita por Inezil relata sobre diversas instituições e sobre a organização dos estados brasileiros em relação à educação física. Interessado na datação e no mapeamento da historiografia para o funcionamento de seus cursos como pontos-chave, importava a Inezil um percurso histórico que pudesse, ao final, descrever a importância da Divisão de Educação Física como órgão que, a partir daquele conjunto histórico, se legitimaria como o grande administrador da Educação Física na escola tendo como uma de suas finalidades a “unidade doutrinária” do Método Francês. Para Inezil, naquele momento, o “inquérito” realizado nas escolas de ensino secundário teria sido a forma encontrada pela Divisão de Educação Física de organizar uma fiscalização federal através de fichas de informações. Mapear e fiscalizar a produção da educação física nos estabelecimentos de ensino secundário era uma das formas de colocar em prática a legislação que entrara em vigor concomitantemente à criação da Divisão em 1937. Inezil esteve envolvido na elaboração dos “inquéritos” da Divisão desde o início e a obrigatoriedade da EF nos termos da lei teria sido, segundo ele, a consagração da Educação Física (MARINHO, 1941). A Divisão de Educação Física, além de fiscalizar, parece também tentar normatizar metodologicamente o ensino. Fazer cumprir a lei e tornar a educação física uma prática elaborada a partir dos preceitos do Método Francês de ginástica era uma de suas funções naquele momento. Em ambas as publicações, Educação Física: estatística (MARINHO, 1942) e A organização da Educação Física no Brasil (MARINHO, 1941), o controle sob os 22 Em Educação Física: Estatística, publicado em 1940, Inezil relata que o primeiro interesse pela Educação Física no Brasil teria se manifestado, de acordo com suas fontes, no final do século XVIII através do Tratado de Educação Física e Moral dos meninos de ambos os sexos de Luiz Moniz Barreto publicado em 1788. Em 1970, o mineiro Francisco de Mello Franco, formado pela Universidade de Coimbra, publica o Tratado de Educação Física dos meninos para uso na Nação portuguesa. 36 inquéritos parece se estender para um tema também de grande preocupação do exército brasileiro desde aos anos 1920, a unidade doutrinária. Os inquéritos mostram a ascensão do Método Francês nas aulas dos colégios, o que iria ao encontro da unidade de doutrina preconizada pela Divisão de Educação Física e também pelo Centro Militar de Educação Física (CMEF) 23 . Mapeando os primeiros cursos e instituições de formação em Educação Física nos diversos estados brasileiros, Inezil apresenta os diversos órgãos especializados em Educação Física em que os estados mantinham cursos de formação criados ao longo dos anos 1930. Apesar de tratar do que chamou de “pioneirismo dos militares” nessa formação em EF ao longo dos anos 1920, o autor lembra ter sido a partir da Reforma do Ensino do Distrito Federal, realizada por Fernando de Azevedo em 1928, que uma escola de formação de professorado especializado em Educação Física teria sido proposta, o que teria contemplado uma formação mais civil já anteriormente sugerida por Rui Barbosa nos pareceres e por Jorge de Morais em seu projeto de lei (MARINHO, 1941, p. 13). Essa escola civil, não tendo se concretizado naquele momento, fez com que Fernando de Azevedo solicitasse matrícula para os professores civis no Curso Provisório de Educação Física do Exército que entrara em funcionamento em 1929. Em diálogo próximo e constante com Fernando de Azevedo e sua produção sobre Educação Física, Inezil o enaltece como um dos “baluartes” desse curso, juntamente com os tenentes do Exército Ignácio Rolim e Virgílio Bastos. Em Organização da Educação Física no Brasil (MARINHO, 1941), Inezil reconhece em Fernando Azevedo a figura do político e do reformador do ensino devido à sua atuação em relação à reforma do Distrito Federal, às dimensões políticas da educação e ao que estas implicavam para a formação em Educação Física no Brasil. O livro de Fernando de Azevedo, Da Educação Física (1960), com título homônimo ao parecer de Rui Barbosa, publicado pela primeira vez em 1920, não é tomado como fonte para a história da educação física nacional nas publicações de Inezil chanceladas pela Divisão naquele momento. Apesar de sua publicação, não ter sido tomada como fonte pela Divisão, Fernando de Azevedo mateve propósitos muito próximos ao que Lourenço Filho (2001) chamou de “atualidade” dos pareceres. Preocupado com a formação e a especialização dos professores do Distrito Federal, estabeleceu importante intercâmbio com os militares no processo de formação de professores de educação física nos anos de 1930, mantendo essa interlocução 23 A questão da “unidade de doutrina” e a relação com o CMEF será mais bem debatida no Capítulo 2 da tese. 37 aberta com a publicação de seus textos nas revistas especializadas em Educação Física do período. Replicando sua produção na década seguinte nessas revistas, Azevedo acaba sendo constantemente convocado pelos editores como produto e também produtor de uma historiografia da Educação Física brasileira ao longo dos anos 1930 24 . Da mesma forma que Rui Barbosa nos pareceres em 1882, Fernando de Azevedo, em Da Educação Física, em 1920, também esteve preocupado com uma historiografia da EF que retratasse o processo de sua constituição no estrangeiro, caracterizada pelos Métodos Ginásticos Europeus para justificar de forma mais ampla a escolarização de sua prática. Fernando de Azevedo, citado nas publicações de Inezil e nas Revistas como o político e reformador que tenta regulamentar uma escola de formação de professorado especializado em Educação Física é tratado nessas publicações como sujeito que teria fracassado na implementação da Reforma do Ensino do Distrito Federal (MARINHO, 1941, p. 13). Isso também ocorre no Parecer de Rui Barbosa e no projeto de lei de Jorge de Morais. Em comum, esses três sujeitos são marcados por projetos de criação de cursos para formação de profissionais especializados que não se concretizaram: Rui Barbosa, no século XIX, Jorge de Morais e Fernando de Azevedo, no início do século XX. A criação dos cursos se materializa somente nos anos finais da década de 1930 no Brasil 25 tendo o MES e a Divisão como órgãos condutores do processo. 1.3 Constituindo um campo disciplinar na formação em educação física Autorizados pelas fontes da Divisão de Educação Física e pelas Revistas especializadas como produtores de uma História da Educação Física brasileira, Rui Barbosa, Jorge de Morais e Fernando de Azevedo são tratados como autoridades que historicizam o passado da Educação Física e, ao fazê-lo, passam também a fazer parte dessa história. As produções (parecer, projeto de lei e livro) citadas nas publicações da Divisão e nos artigos nas Revistas 26 especializadas da década de 1930 e 1940 parecem se constituir enquanto produto histórico do campo como documentos fundadores de uma história da educação física nacional. 24 Essa relação de Azevedo e sua produção nas Revistas especializadas em EF será mais bem apresentada nos itens seguintes desse capítulo. 25 Rui Barbosa em 1882 propõe a fundação de uma escola normal de ginástica, na qual se formassem professores para as escolas do município e para as províncias e programas de ginástica equiparados a outras matérias de ensino. Jorge de Morais em 1905 propõe a criação de dois cursos de formação, um militar e outro civil. Fernando de Azevedo propõe em 1928 na Reforma do Ensino do Distrito Federal a criação de uma escola de formação. 26 Revista Educação Physica e Revista de Educação Física do Exército, publicadas ao longo dos anos 1930. 38 As memórias desses sujeitos e de suas produções, nas publicações acima citadas, aparecem ao longo da década de 1930 e 1940 no Brasil como parte do que foi chamado de gênese da Educação Física nacional pelo MES. A Divisão de Educação Física faz um enorme esforço por meio de sua política editorial na tentativa de constituir uma história para a Educação Física nacional. Esse esforço parece ser uma tentativa desse órgão regulador de afirmar a legalização da prática da educação física, ainda que ela se apresentasse de forma polissêmica na sociedade brasileira 27 . Essa tentativa de legitimação social da educação física ao longo da década de 1930 foi tratada por Paiva (2003, 2004) em uma análise bourdeusiana do campo. O campo da Educação Física, de acordo com a autora, teria sido configurado pela historiografia brasileira a partir dos anos 1930, fortemente influenciado por sua institucionalização. A EF, para a autora, é um campo que tentava se legitimar de forma polissêmica, mas acima de tudo pela via das instituições médicas, militares e pedagógicas. Tratando do processo de legitimação da educação física, a autora formula hipótese do que se constituiria como o engendramento do campo da Educação Física (PAIVA, 2003) a partir de uma perspectiva Bourdieusiana, arguindo sobre a identidade e a legitimidade da Educação Física brasileira. A partir dos argumentos de Paiva (2004) de que é ao longo dos anos 1930 que a disciplina educação física se institucionaliza, é possível considerar que nos primeiros cursos de formação, a escolarização da educação física não parece ser nem causalidade e nem coincidência, mas um dos elementos que contribuíram para a construção de uma especificidade e também para sua profissionalização. Analisando o que chama de “engendramento do campo”, a autora afirma que o processo de escolarização da educação física parece ter sido um dos elementos que concorreram para a constituição de sua especificidade. Os argumentos de Paiva sobre o engendramento do campo da Educação Física estabelecido na década de 1930 juntamente com a concepção de currículo ampliado de Goodson (2000) me impeliram a pensar na constituição de um “campo disciplinar” na formação em Educação Física, sendo a disciplina HEF parte dele. Nesse sentido, ainda que a 27Linhales (2006) lembra que desde o século XIX várias “educações físicas” foram produzidas e legitimadas. A autora se refere à Educação Física como um conceito alargado da educação higiênica/educação dos corpos, como prescrição de métodos e de exercícios físicos e/ou corporais (também denominados exercícios ginásticos e/ou atividade física), ou como um componente curricular (atividade ou disciplina escolar). Atenta ao processo de escolarização do esporte no Brasil, a autora lembra ser importante evitar uma perspectiva evolucionista que aprisiona, na cronologia, um idealizado progresso linear: da educação física (sentido alargado) para a ginástica (seus métodos), desta para a educação física (componente curricular) e desta para a educação física esportiva (que pode ou não estar na escola). 39 Educação Física se escolarizasse de forma polissêmica e com diferentes nomes e funções no Brasil a partir do século XIX, a formação de seus professores ainda permaneceu pouco normatizada pelo Estado e ainda carente de legitimação de um campo disciplinar que constituísse a formação desses professores que já produziam uma ação de caráter pedagógico na escola 28 . Para o estudo da história das disciplinas a partir da concepção de currículo ampliado, Goodson (2000) sugere categorizar num primeiro momento alguns sujeitos (professores) nos espaços (instituições de ensino/cursos), localizando suas práticas (compêndios e livros), localizadas no seu tempo histórico (décadas de 1930 a 1950). Apesar do surgimento difuso da disciplina HEF, com antecedentes que demarcam que a história da Educação Física era tema presente em publicações anteriores à institucionalização desta como disciplina nos primeiros cursos de formação no Brasil, é possível observar que o conhecimento histórico já demarcado nas produções de Rui Barbosa e Fernando de Azevedo 29 também contribuiu, através dos argumentos da história, para a legitimação do campo e da formação desejada em algumas instituições, entre elas o Curso Provisório de Educação Física criado pelos militares em 1929 e a Divisão de Educação Física em 1937, dirigida pelos mesmos militares. Os primeiros cursos de formação em Educação Física criados entre as décadas de 1920 a 1950, período de recorte deste estudo, parecem se constituir, entre outras funções, como uma forma de atender à demanda social da Educação Física já escolarizada. Partindo dos argumentos de Paiva (2004) sobre o engendramento do campo, a formação de professores é, nesse sentido, posterior a uma prática que já se constituía como parte do processo de escolarização. Se a necessidade da legitimação desses cursos era da mesma forma iminente é 28 Valter Bracht tem, desde os anos 1990, esboçado uma série de argumentos sobre a conformação e a legitimação da Educação Física brasileira. Tratando do que seriam o conhecimento e a especificidade da Educação Física, o autor reafirma alguns argumentos da história da constituição do campo que ajudam a compreender também o que se estrutura como saber para uma história da formação de seus professores. Para essa análise, o autor retoma alguns argumentos ratificando o que chama de “mandato social nascente da Educação Física” pela via dos Métodos Ginásticos Europeus. Tal mandato seria especialmente uma tarefa de caráter pedagógico e, nesse caso, intervencionista. Segundo o autor, se a Educação Física como campo sempre foi uma tentativa de intervir socialmente com práticas corporais e, principalmente nos seus primeiros momentos, com a sistematização de um conjunto de práticas que foram chamadas de Métodos Ginásticos, seu objetivo principal sempre esteve ligado à intervenção pedagógica e educativa na sociedade como forma de concretizar objetivos sociais. Na constituição dos sistemas educacionais, a escola passa a ser um lócus importante de efetivação da educação física na população. Segundo o autor, somente após estar significativamente escolarizada é que a EF teve seus primeiros cursos de formação de professores inaugurados (BRACHT, 2007). 29 Apesar de tratado como fonte para a historiografia da educação física nacional pela Divisão de Educação Física, não tomarei os projetos de lei de Jorge de Morais como objeto de análise na tese. A difusão dos textos de Rui Barbosa e Fernando de Azevedo parecem ter tido maior alcance nos livros e revistas especializadas do que os pareceres do deputado amazonense, por isso a escolha por parte da obra de Rui Barbosa e de Fernando de Azevedo em relação à HEF. 40 importante perguntar sobre o porquê de a história da Educação Física ter sido transformada em uma disciplina. De forma mais ampla e reconhecendo a necessidade de uma formação especializada, Paiva (2004) observa que é porque se torna uma disciplina “escolar” que a educação física pode aspirar a ser uma disciplina “acadêmica”. Partindo desse contexto, um “campo disciplinar” se estruturaria por meio de um conjunto de saberes elaborados para se constituírem tendo como finalidade a formação ou a especialização profissional. A HEF como parte desses saberes está intimamente ligada à formação de professores desejada a partir de uma educação física (ainda polissêmica) que se escolarizava e que tentava se legitimar na escola. Barros (2011), ao tratar da constituição de um campo disciplinar, lembra que, antes de tentar conceituá-lo, faz-se importante delimitar as especificidades e os elementos que o constituem. Tentando mapear a constituição dos campos disciplinares, o autor traz à cena questões que ajudam nessa conceituação: O que constitui um campo de saber como disciplina? Que história, ou que histórias, levam um determinado conjunto de práticas, representações e modos de fazer a se definir gradualmente, até que esse conjunto adquira uma identidade suficientemente forte para que, a partir dele, passem a se nomear profissionalmente os praticantes da nova disciplina? Que elementos mínimos, enfim, são necessários para que se constitua efetivamente um campo disciplinar, e para que este se mantenha frente a outros saberes? (BARROS, 2011, p. 205) As questões acima são importantes balizas para tentar compreender os sentidos da produção da HEF como parte de um campo disciplinar mais amplo e como esses sentidos estabelecem relação com as estratégias de legitimação do campo da educação física, sobretudo no que diz respeito à institucionalização dos cursos de EF constituídos pelos militares e a disseminação de seus sentidos em âmbito civil através da formação de professores ao longo do período de recorte da tese. A institucionalização da Educação Física, sobretudo aquela produzida a partir dos primeiros cursos de formação de professores, ocorreu ao longo da década de 1930 no Brasil e foi pela sua escolarização, como lembra Paiva (2004), que cresceram os clamores sociais em torno da necessidade de uma formação específica. Dessa forma, uma das hipóteses a perseguir a partir da noção de “campo disciplinar” ao longo da tese é a de que a disciplina HEF teria servido para ajudar na legitimação da Educação Física, seja no sentido da inserção de sua prática de forma polissêmica na sociedade brasileira, seja no sentido da constituição de um campo disciplinar ainda em construção nos cursos de formação de professores. Estabelecia-se em diferentes instituições a urgência da profissionalização de seus professores/instrutores de forma iminente e também incipiente no início do século XX no Brasil. De forma concomitante talvez seja possível compreender a 41 necessidade de se criar um especialista com formação específica e, a partir daí, compreender melhor como a HEF como disciplina se constitui como um elemento dessa legitimação. Esse “campo disciplinar” constituído a partir dos primeiros cursos de formação de EF também é impactado pela multiplicação de “campos históricos” a partir do século XX o que, segundo Barros (2011), seria, além de um indicativo de desdobramento interno da história, também fruto de uma crescente especialização dos campos disciplinares no período contemporâneo, tal como ocorreu com a História da Educação Física. A produção de conhecimento e a especialização dos saberes vieram também acompanhadas de uma especialização na formação profissional. Por isso, vivificar Rui Barbosa, Jorge de Carvalho e Fernando de Azevedo nesse contexto e constituir uma HEF representativa, a partir da produção e da memória desses atores, parece ser uma forma da Divisão de Educação Física de forjar a própria historiografia da Educação Física brasileira produzindo uma “tradição inventada”30. Dessa forma, a instituição tentou disseminar valores e normas produzindo um passado apropriado para a educação física nacional. A tradição inventada, segundo Goodson (2000), se constitui como ferramenta que se estabelece dentro de breves com grande rapidez como forma de corroborar um conjunto de práticas simbólicas anteriores. Tenta por isso disseminar valores e normas de comportamento através da repetição, o que automaticamente implica uma tentativa de continuidade do passado, criando assim um “passado apropriado” (GOODSON, 2000, p. 57). Essa invenção de uma tradição pela Divisão foi institucionalmente organizada por meio da memória desses homens que entre os séculos XIX e XX tomaram a Educação Física como objeto de defesa. Diante desse contexto, acreditamos que analisar as obras de Rui Barbosa e Fernando de Azevedo em perspectiva histórica e olhando para a história nelas constituída pode ajudar a compreender o que foi escrito sobre história da educação física no Brasil no início do século XX, para posteriormente observar a constituição da disciplina nos currículos dos cursos. Os ensaios historiográficos de Rui Barbosa e Fernando de Azevedo vão reverberar na produção subsequente, sobretudo nas publicações das Revistas especializadas. A partir da produção destes autores é possível melhor compreender que a historiografia da EF e a história da disciplina HEF estão intimamente relacionadas, apesar de não terem o mesmo sentido e intencionalidade. A HEF, antes de se constituir dentro de um sistema de disciplinas organizadas, de um campo disciplinar com a funcionalidade de formar professores e instrutores de EF, se constituiu nos debates da Educação Física ao longo dos séculos XIX e 30 Termo utilizado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger posteriormente apropriado por Ivor Goodson (2000) para tratar do currículo como uma “produção e reprodução social”. 42 XX. Isso significa que, antes de a HEF pertencer a dispositivos institucionais de formação (cursos superiores), ela já era mencionada, elaborada e reinvindicada nos debates sobre a EF no Brasil. A preocupação com a utilização da História na Educação Física pela Divisão pode, nessa perspectiva, ajudar a justificar a presença da própria educação física na sociedade. Suas práticas e seus métodos institucionalizados pelos cursos e nestes disciplinarizados vêm ao encontro das observações do que foi tratado como histórico para a EF por Rui Barbosa e Fernando de Azevedo. A história na educação física, representada como um elemento de introdução e justificativa nos textos desses intelectuais parece paulatinamente se agrupar culminando na instituicionalização no pós 1930. Nesse sentido, considero importante recuar no marco temporal da disciplina HEF de forma institucionalizada para tentar perceber, a partir desses intelectuais e dos elementos presentes nas fontes da Divisão de Educação Física do MES, como esse saber histórico, constituído posteriormente em um “campo disciplinar” nos cursos de formação, foi elaborado. Recuar o marco temporal proposto pode sugerir uma fuga do período de institucionalização da disciplina HEF, demarcado na tese ao longo da década 1930, mas ajuda a demarcar a formação da disciplina em relação às circunstâncias externas. Esse recuo ajuda a entender como a História era um conhecimento já demandado pelos intelectuais que escreveram sobre a EF, mas também a perceber essa história como um conhecimento amplo e complexo, já anteriormente debatido antes de ser disciplinarizado. Rui Barbosa e Fernando de Azevedo são, por isso, autores e fontes importantes para compreender o campo disciplinar e a disciplina HEF. Seus temas se aproximam abundantemente dos conteúdos que são apresentados posteriormente na disciplina e suas produções circularam na área com fecundidade, sobretudo após a criação dos primeiros cursos, como nos três documentos anteriormente apresentados, Pioneiros da Educação Física no Brasil (DIVISÃO DE EDUCAÇÃO FÍSICA, 1943), Educação Física: estatística (MARINHO, 1942) e Organização da Educação Física no Brasil (MARINHO, 1941). De momentos muito distintos, Rui Barbosa no século XIX e Fernando de Azevedo no século XX, ambos recorrem à Educação Física com finalidade muito semelhante: a escola, a formação de professores e a expansão de seu ensino. Além disso, cabe também lembrar que eles foram homens de Estado e nele produziram e foram produzidos. Como, quando e por que a HEF começa a ser tematizada por esses intelectuais interessa para pensar tanto na produção sobre HEF, anterior a sua disciplinarização, quanto como e de que forma a HEF sustentaria o argumento da importância da educação física na escolarização no Brasil. 43 Para a Divisão de Educação Física, escrever sobre história na educação física através das memórias desses intelectuais certamente também foi uma forma de achar um lugar na história para essa prática no Brasil. A justificativa histórica das publicações da Divisão acima citadas mostra que a História constituída na Educação Física deveria fazer parte do projeto de afirmação da EF como uma disciplina escolar, ajudando em sua perpetuação e legitimação. Ambos os autores tinham como tema a escola, a educação, como lugar de interlocução primeira e apoiavam a ginástica sueca de Ling, então considerada a mais didática e correta a ser apropriada pela a escola brasileira. Apesar da distância histórica de suas produções, esses sujeitos produzem tendo a história como uma forma de justificar as escolhas intelectuais em suas intervenções pedagógicas. Rui Barbosa e Fernando de Azevedo foram utilizados pela Divisão como a voz autorizada do passado para tentar legitimar as práticas do presente. 1.4 Conversando com Rui Barbosa e Fernando de Azevedo 1.4.1 Rui Barbosa e a história da educação física Rui Barbosa é um autor que, desde o século XIX, vem sendo mobilizado por pesquisadores e intelectuais de diversas áreas. Além do jurista, do homem público e de letras, do exímio intelectual, Rui é mobilizado no campo educacional a partir de diversas matrizes do pensamento educacional brasileiro na primeira metade do século XX como apontam Faria Filho; Inácio (2015) e Machado (2010). Diversos intelectuais que pensaram a educação nacional mobilizaram sua produção 31 , contudo, seus conhecidos pareceres da reforma do ensino secundário e superior e reforma do ensino primário apresentados na Câmara dos Deputados em 1882 32 , amplamente discutidos, apresentados e debatidos pela intelectualidade brasileira, têm sido, ao longo das últimas décadas, de pouco interesse histórico para o debate da Educação Física. Apesar de sua grande mobilização na primeira metade do século XX no Brasil por diversos intelectuais da Educação, os pareceres ainda carecem de um estudo mais aprofundado em relação ao seu contexto de produção específico, em relação aos métodos e programa escolar, e nesse sentido, sobre os conhecimentos de Rui acerca da Educação Física 31 Segundo Faria Filho e Inácio (2015), entre os autores estão José Verissímo em seu livro A Educação nacional, Carneiro Leão em O Brazil e a educação popular, Lourenço Filho em Introdução ao estudo da Escola Nova, Afrânio Peixoto, em Noções de História da Educação e Fernando de Azevedo em A Cultura Brasileira. 32 Os pareceres foram elaborados para servir de subsídio à discussão do projeto de Reforma do Ensino Primário e Secundário no Município da Corte e Superior em todo o Império em substituição à reforma instituída por Leôncio de Carvalho em 1879. 44 no século XIX 33 . As propostas de renovação educacional de Rui previam que outras realidades teóricas fossem implantadas, modernizando o Brasil à luz de uma educação que já se perpetuava no estrangeiro. O método intuitivo seria central nessa renovação pedagógica, tendo consigo a introdução de novas disciplinas nos programas de ensino, entre elas, a educação física, que contribuiria para a “modernização” do currículo escolar. Nas pesquisas da Educação Física brasileira, os pareceres têm sido utilizados muito mais para datar um acontecimento histórico, localizando o lugar e o conteúdo dentro do processo de escolarização dos finais do século XIX, do que realmente para debater suas referências e seu contexto de produção, os autores e as apropriações utilizadas por Rui Barbosa ao pensar a modernização do ensino. 34 Rui Barbosa repete uma tradição de diversos autores: historiciza a Educação Física nos pareceres justificando suas escolhas. Analisar as referências dos pareceres pode trazer pistas sobre a escrita da História da EF no início do século XX e a posterior história da disciplinarização dessa temática. Observar as obras e as incursões de Rui Barbosa pela História da Educação Física significa compreender como o pensamento pedagógico da EF foi interpretado por ele naquele documento. Souza (2000) lembra que, ao longo do século XIX, disputas e debates marcaram a configuração do currículo dos ensinos primário e secundário no Ocidente. Segundo a autora, nesse processo estiveram em jogo a substituição de uma cultura literária pela cultura científica no ensino secundário e a difusão de conhecimentos úteis de natureza social, moral e cívica no ensino primário. A educação física não fugiu à regra de ser transformada cientificamente; sua apresentação no parecer do ensino secundário vem antecedida do cultivo científico na indústria para a constituição do futuro do país. Partindo da proposta do currículo para o Imperial Liceu Pedro II, Rui acreditava que as vocações científicas e artísticas deveriam ajudar a constituir uma nação produtiva e higiênica. A constituição dessa higiene viria através da ginástica. O autor não utiliza o termo “ginástica” em seus primeiros argumentos, mas “educação do corpo” e “educação corpórea” são termos utilizados como forma de pensar o desenvolvimento do corpo biológico com a finalidade da higiene. A ginástica, assim como o desenho, seria uma das “disciplinas especiais” que inaugurariam a modernização da escola. 33 Da mesma forma que Da Educação Física, a Musica e Canto e o Desenho, ainda merecem análises conceituais mais específicas. 34 Os pareceres têm sido utilizados na Educação Física como marco histórico; para datar historicamente as propostas curriculares da escolarização da Educação Física nacional em relação à sua historicidade pelos autores que trataram da História da Educação Física entre as décadas de 1980 e 1990, como Lino Castellani Filho (1988), Paulo Ghiraldelli (1998) e Manoel José Gomes Tubino (1997). 45 Tratando a ginástica como universal e universalmente obrigatória, ela deveria ser desenvolvida a partir das experiências exitosas de países como os Estados Unidos, que fizeram com que seus professores se formassem na Europa. Exemplos de experiências alemãs, suíças, inglesas e argentinas também são apresentados, salientando-se o fato de ser função do Estado o investimento na formação dos mestres de ginástica. Rui Barbosa historiciza a experiência de diversos países, tratando o desenvolvimento da Ginástica Alemã, por exemplo, como uma mãe da ciência e da educação. Além de historicizar as experiências exitosas de países estrangeiros (BAUDOIN, 1865) 35 sem, contudo, mencionar as escolas ginásticas, Rui dedica um parágrafo para a descrição do histórico da civilização grega em relação à educação física. Somente ao final da descrição do projeto, o parecer sugere que o governo contrate no estrangeiro, “agentes” (professores) capazes de organizar o ensino no Brasil. Tais professores de ginástica deveriam advir da Suécia, da Alemanha ou da Suíça. Inezil Penna Marinho (1980) ao analisar esse trecho do parecer diz que tal escolha diz das preferências de Rui pela Ginástica Sueca e Alemã, bem como pela Calistenia. Justificando que a fisiologia já compreendia que apartar a educação physica e a educação mental seria danoso ao processo de desenvolvimento humano, Rui trouxe para o texto a ideia de que o pensamento grego não coadunava com as raças atrasadas que separavam corpo, espírito e arte na constituição dessa educação. O ideal de uma educação integral grega é tomado como exemplo de excelência na constituição do discurso modernizador do corpo, da ginástica e da educação física. Voltar ao pensamento grego significava que aquela pedagogia do final do século XIX conseguiria se modernizar à luz de uma educação de “corpo e espírito” grega. A pedagogia moderna deveria se inspirar no ideal de educação grego, designado a partir da filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles. Tal filosofia combinaria a dimensão “atlética” do homem com sua dimensão de “estudo”, para desencadear uma educação “doutrinária”. A insistente defesa de Rui por uma educação integral, seja a partir da filosofia grega, seja a partir do princípio Spenceriano 36 , converteram-se no primeiro fundamento pedagógico sistemático para a seleção dos conteúdos, sobretudo o relativo à escola primária. 35 Marinho (1980) afima que tal experiência Alemã na obra de Rui é fruto de inspiração na obra de Jahn, precursor da Ginastica Alemã e que esta teria inspirado o sentido político e patriótico que teriam desencadeado as fundações de sociedades ginásticas por todo o mundo. Inezil, contudo, não analisa mais aprofundadamente que tais referências a países estrangeiros alentadas por Rui foram retiradas de uma publicação francesa que tratava do desenvolvimento do ensino primário na Belgica, na Alemanha e na Suíça datada de 1865. Inezil ignora tal debate a partir da referencia de Rui. Rui Barbosa ainda não se posiciona em relação à melhor escola ginástica europeia no parecer do ensino secundário e superior. 36 A obra de Spencer, Educação Intellectual, Moral e Physica, publicada em 1861, coadunava com uma concepção de educação com as aspirações e necessidades da sociedade moderna. O apelo de Spencer à correspondência entre a lei da evolução biológica (lei do desenvolvimento orgânico) e o progresso social possibilitou a naturalização da evolução da sociedade e da compreensão da ciência. 46 Para Souza (2000), a definição de uma nova cultura escolar para o povo encontrou respaldo filosófico e pedagógico para amparar um projeto de fundo político e social. Dos cinco referenciais bibliográficos da escrita do parágrafo de inspiração grega, quatro são fontes de língua inglesa e uma de língua alemã. Das fontes de língua inglesa, a enciclopédia Gleaning of past years escrita por W. E. Gladstone é referenciada mais de uma vez. Rui Barbosa, entretanto, não o cita em vão. Gladstone, assim como Rui Barbosa, era também um homem público no século XIX; foi por quatro vezes Primeiro Ministro do Reino Unido e exerceu carreira política entre 1832 e 1894. Intelectual inglês de formação clássica, Gladstone estudou na Eton School e na Oxford University antes de seguir carreira política. Como primeiro ministro, foi um dos responsáveis pela criação de um programa de educação primária nacional 37 . A utilização por Rui dos volumes da enciclopédia Gleaning of past years, além de inspiração teórica e fonte de erudição, parece parece demonstrar simpatia à inspiração política inglesa de Gladstone e sua inserção no Partido Liberal. É importante lembrar que a modernização proposta por Rui Barbosa se baseava, sobretudo, nas propostas internacionais e, segundo Souza (2000), como salientado anteriormente, as políticas de educação popular, principalmente as que tratavam sobre as finalidades e os meios de universalização da escola, foram pauta pública em todo o Ocidente no século XIX. Da mesma forma, Lourenço Filho (2001) lembra que o parecer seguinte sobre a reforma do ensino primário tem larga apropriação dos relatórios de Hippeau e Buisson 38 relativos à reforma do ensino Francês de 1882. Atento aos textos que regulamentaram a escola pública, laica e obrigatória na França, a partir da Reforma Jules Ferry, Rui se apropria de diversas ideias dos relatórios de Buisson para a escrita do parecer sobre o ensino primário 39 . A proposta da Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública, apresentada em 1883, cinco meses após o primeiro parecer que trata dos ensinos secundário e superior, se apresenta na forma de um estudo mais complexo e aprofundado, nomeado Da Educação Física. Esse parecer, segundo Lourenço Filho (2001), foi escrito com maior material bibliográfico, advindo, sobretudo, da Europa e dos Estados Unidos. Rui foi designado como relator em 1881, mas o material bibliográfico para o preparo dos relatórios foi recebido enquanto ele era produzido. Da Educação Física apresenta mais trabalhos em francês pela utilização das memórias do Congresso Internacional de Ensino em 37 W. E. Gladstone Biography. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2015; WILLIAM Ewart Gladstone. Disponível em: . Acesso em 29 set. 2015. 38 Inspetor Geral da Instrução Pública na França (1878), Diretor do Ensino Primário (1879), redator da Revue Pédagogique, Professor da Sorbonne (1887), 39 Sobre essa apropriação, ver mais em Bastos (2000). 47 Bruxelas, dois anos antes. Lourenço Filho levanta a hipótese de que Rui não disporia desse material quando escreveu o primeiro relatório (LOURENÇO FILHO, 2001, p. 6). Rui continua fazendo um duplo movimento no segundo parecer em relação à utilização histórica. Se por um lado continua utilizando a referência da filosofia e da história gregas como forma de introdução à educação integral e aos ideais de harmonia entre corpo e espírito para a escolarização da ginástica, por outro continua historicizando o que vinha sendo produzido na Europa e nos Estados Unidos como experiências dessa escolarização. Apesar de a influência grega estar dispersa por quase todo o parecer do ensino primário, Rui dedica bem mais que o único parágrafo do parecer anterior. Além disso, as referências bibliográficas dessa escrita em nada se assemelham ao parecer anterior do ensino secundário. Sendo a maioria em inglês, Rui parece nesse momento ter adquirido bibliografias inglesas que tratavam especificamente da história grega. History of Herodotus, A history of Greek Philosophy e The History of Greece se apresentam como os principais referenciais que introduzem o parecer do Ensino Primário. A civilização grega aparece novamente como lugar idílico para o desenvolvimento de uma educação ideal. A prática da ginástica como forma de desenvolvimento do corpo e do espírito teria tido na Grécia a melhor representação de desenvolvimento humano para a educação “liberal”. A ginástica é uma das práticas educativas da república idealizada e teria a tarefa de equilibrar “forças espirituais e físicas” na educação através da arte. Corpo e alma, arte e música, Estado e família, natureza e energia viril, parecem binômios que, ao serem combinados, poderiam também produzir a educação moderna da proposta de Rui. A paisagem Helênica que comporia essa educação também é idealizada: os ginásios públicos com “áreas cheias de sol e árvores”, o campo e a água corrente, a natureza e o homem, deveriam se constituir no século XIX combinados a uma dimensão científica. A filosofia precisaria, dessa forma, unir-se à ciência e às “novas leis biológicas” que regeriam não somente um corpo com espírito e alma fortes, mas que também fossem capazes de abrigar uma ancestralidade grega com uma modernidade científica para a composição daquela educação. Ao longo do parecer, fica evidente que, para Rui, a combinação de uma educação que priorizasse a ancestralidade grega e a modernidade científica estaria se constituindo pelas denominadas “raças enérgicas” do centro e do norte da Europa. O fato de esses países terem conseguido harmonizar os conceitos da civilização grega e a modernidade científica certificava que tal educação nacional estaria se convertendo em uma educação popular. Essa constatação também pode ser observada em relação a sua proposição para a formação de 48 professores. O relatório sugeria mais uma vez que o governo obtivesse, por meio de contrato no estrangeiro, algum “ginasiarca europeu” para formar especialistas na ginástica escolar no Brasil. A formação de professores também é tema do relato da experiência alemã. Tal formação deveria conter obrigatoriamente história da ginástica da mesma forma que conhecimentos de fisiologia e anatomia. Dialogando com os relatórios produzidos internacionalmente, Rui retoma o Rapport sur l’ètat actuel de l’enseignement spécial et de l’enseignement primaire en Belgique, en Allemagne et en Suisse 40 , já anteriormente utilizado no primeiro parecer. Publicado pela imprensa nacional francesa em 1854 e escrito por J.M. Baudoin, o relatório é retomado em diversos momentos no Parecer do ensino primário. Em 1872, os franceses haviam deliberado a organização do ensino da ginástica, debatendo e apresentando as propostas sobre os métodos ginásticos sueco e alemão. Os relatórios analisados apresentam a situação do ensino nesses países; entre estes, a ginástica, os sujeitos e os dispositivos legais envolvidos na constituição de seu ensino. Rui tenta, dessa maneira, conferir historicidade aos processos educativos que vinham acontecendo em diversos lugares a partir do primado orientador da filosofia. Ancorado no estudo de autores de relatórios de ensino de outros países, sobretudo na Europa, constrói uma sucessão histórica delineada a partir da filosofia. Apesar de tratar, nos relatórios, de temas que levariam à modernização da prática da ginástica e a sua inserção na escola brasileira, o mundo grego parece estabelecido como um ponto de partida e também de chegada. Ao mesmo tempo em que coloca o mundo grego e seu ideal em um plano separado, idílico e introdutório para a compreensão da educação, também faz com que essa mesma Grécia, aliada a uma reflexão filosófica e biológica de corpo, possa ser ponto de chegada de uma educação moderna alicerçada pelos processos científicos da fisiologia e anatomia na tentativa de equilibrar, nessa nova proposta de educação, a cientificidade e a filosofia. Nesse sentido, a proposta se se aproxima do “princípio helenista”, o qual, a partir da heurística, procura equilibrar beleza e harmonia 41 . A história da educação física apresentada nos pareceres é escrita em simbiose com a filosofia e impregnada de dados que conferiram cientificidade a um corpo biológico. Rui não abandona a filosofia como forma de analisar o homem e a educação no contexto da necessidade da ginástica escolar. 40 Relatório sobre o estado atual do ensino especial e do ensino primário na Bélgica, Alamenha e na Suíça. Tradução livre da autora. 41 Cambi (1999) trata do principio helenista também como forma de estabelecimento da História da Pedagogia. 49 1.5 Os escólios de Inezil Penna Marinho sobre “a história” da Educação Física nos pareceres de Rui Barbosa Inezil Penna Marinho, em meados dos anos 1970, se dedicou a uma análise mais detida sobre os pareceres em relação à temática da educação física. Inezil publica a primeira edição de Rui Barbosa: Paladino da Educação Física no Brasil em 1975, pela gráfica do Senado Federal. 42 Com a autoridade de membro agraciado com a Medalha de Rui Barbosa, membro do Instituto dos Advogados do DF em Brasília e de catedrático de História da Educação Física da UFRJ, Inezil é convidado a publicá-lo novamente como uma “encomenda” destinada a comemorar o “Centenário do Parecer” de Rui, apresentado à Câmara dos Deputados em 1882. Como membro da Divisão de Educação Física, Inezil esteve de alguma forma envolvido com a publicação do Pioneiros da Educação Física no Brasil nos anos 1940. O documento de 1940 da Divisão de Educação Física foi publicado em comemoração ao 20º aniversário de morte de Rui, mas fazia parte de um movimento mais amplo do MES de estabelecer o legado da obra de Rui como monumento da cultura nacional. Mais de trinta anos depois, o exercício de Inezil sobre a obra de Rui e a educação física teve como finalidade comemorar o centenário dos pareceres. A continuidade da presença de Rui como sujeito que inaugura uma história da escolarização da educação física no Brasil é acompanhada pela metáfora do “paladino”43, do cavaleiro que teria defendido a causa da educação física nacional. Utilizando de uma escrita comumente utilizada no judiciário, Inezil estrutura seu texto em “escólios”. Termo normalmente utilizado pela esfera jurídica, os “escólios” teriam por finalidade interpretar e explicar trechos de uma obra e apresentar análises utilizadas por seu autor na sua elaboração. Eles também parecem ter sido amplamente utilizados como forma de explicar, comentar ou criticar autores da Antiguidade Clássica. Inezil não se aprofunda no debate da educação nacional, tampouco nos métodos de ensino da escola e em seu currículo. Escolhendo algumas obras para análise da escrita do parecer, Inezil Penna Marinho se utiliza dos argumentos de A pedagogia de Rui Barbosa de Lourenço Filho (2001), nomeando-o como um “doutrinador e reformador social”. As análises de Lourenço Filho e, consequentemente, de Inezil, são em tom de exaltação, legando a Rui 42 Sob o patrocínio do senador Adalberto Sena, a primeira edição teve tiragem de 1.000 exemplares e, segundo o editor da 3ª edição, teria esgotado rapidamente (MARINHO, 1980). 43 Paladino, significado segundo Silveira Bueno (1996): cavaleiro que acompanhava Carlos Magno à guerra. Cavaleiro andante. Homem que defende com ardor as grandes causas. Campeão, homem corajoso, defensor, cavaleiro. 50 sua importância como homem público preocupado com a educação e com as reformas sociais necessárias para que ela se perpetuasse. Apresentando os dois pareceres na íntegra, Inezil tenta analisar nos escólios parte da produção e das referências de utilizadas por Rui. Apesar de toda a exaltação à figura e à obra de Rui, Inezil analisa os pareceres justificando ser somente naquele momento (entre final dos anos 1970 e início dos anos 1980) possível realizá-lo. Sua bagagem teórica como autor de diversas obras sobre a História e os Métodos na Educação Física entre os anos 1940 a 1960 e sua participação em diferentes eventos de Educação Física, sobretudo na América Latina e na Europa teriam sido fonte inspiradora para a análise da obra de Rui. Inezil está também interessado em alinhar sua produção à de Rui. Ao apresentar sua obra e sua circulação internacional nos congressos de Educação Física, ele se coloca como um dos autores que explorou temas que Rui apresenta nos pareceres da EF. Nesse sentido, Inezil afirma ao leitor a importância da sua própria obra, a partir da produção de Rui Barbosa. A Antiguidade Grega seria um desses legados teóricos de Rui no século XIX para Inezil no século seguinte. “Ruy inspirou-se nos ideais gregos, analisou o que acontecia nas grandes nações e, finalmente, pretendeu que o Brasil também entre elas figurasse. Suas lições de patriotismo enchem-nos de orgulho” (MARINHO, 1980, p. 23). Inezil parece ter cumprido as “lições” de Rui ao longo da segunda metade do século XX no Brasil. O ideal grego como fonte primeira de inspiração para a compreensão histórica da Educação Física foi justificativa e fundamentação teórica em todas as suas obras. Inezil lembra que, além da sua análise sobre as obras gregas de Píndaro (MARINHO, 1957) 44 , em livro publicado em 1957 e fruto da tese de catedrático na ENEFD no Rio de Janeiro, ele havia, no ano de 1953, realizado viagem à Grécia. Inspirado pelo helenismo grego, Inezil sugere que tal viagem teria incentivado um olhar mais atento às obras de Homero e Píndaro para a compreensão histórica da educação física. A viagem que realizamos à Grécia em 1953 permitiu-nos pisar a mesma terra onde andara Píndaro, estar em lugares onde também ele estivera, sentir aquelas ruínas de rara mística impregnadas, como se delas transcedesse o lirismo, que com tanta beleza cantara. E aqueles resquícios, que para muitos poderiam parecer apenas 44 Píndaro (522 a.C. — 443 a.C.), também conhecido como Píndaro de Cinoscefale ou Píndaro de Beozia (518 a.C., Tebas – 438 a.C., Argos), foi um poeta grego lírico, autor de "Epinícios" ou "Odes Triunfais" compostos em homenagem aos vencedores dos jogos disputados em sua época, especialmente os participantes de competições olímpicas. As principais obras de Píndaro são: Odes Píticas (498-446 a.C.); Odes Olímpicas (488- 460 a.C.); Odes Neméias (485-444 a.C.); e Odes Ístmicas (480-454 a.C.). Eram poemas corais líricos e não se preocupavam em narrar o transcorrer das disputas, e sim em exaltar os jogadores, seus familiares e suas terras natais. O poeta era um aristocrata, portanto sua produção poética refletia naturalmente a visão de mundo deste segmento social. Foi financiado pelas famílias mais importantes da região grega. SANTANA, A. L. Píndaro. Disponível em: . Acesso em: 4 nov. 2015. 51 mármores enegrecidos e corroídos pelo tempo, cresciam para nós a significação, porque neles venerávamos a sabedoria de Sócrates, o espírito de Platão, a inteligência de Aristóteles, a imaginação de Eurípedes, a arte de Fídias... e a poesia de Píndaro (MARINHO, 1980, p. 24). Tentando comprovar corporalmente as lições deixadas por Rui, Inezil continua a perpetuar, já no início dos anos 1980 no Brasil, a aparente continuidade da presença de uma história filosófica grega na história da educação física nacional. Representar historicamente a Grécia é certamente uma permanência nas obras que tematizam a História da Educação Física durante todo o século XX. Essa influência filosófica na História da Educação Física pauta alguns temas centrais: o ideal de educação, a ginástica e as olimpíadas. O desenvolvimento desses temas, aliados à filosofia de Rabelais (com Gargantua), Montaigne (com Essais) e Rousseau (com Émile ou l’Education)45, é pauta proposta por Rui no século XIX que permanece nos argumentos teóricos de Inezil. Fazendo um uso “prático e utilitário” da filosofia desses autores, Inezil confere a suas obras a primazia histórica dos argumentos sobre o corpo, a pedagogia e o movimento, gerando, dessa forma, uma permanência na escrita da história da Educação Física. Os escólios de número 14 a 19 de Rui Barbosa: paladino da Educação Física no Brasil são comentários sobre o trecho inicial do Parecer do ensino primário de Rui Barbosa. Rui começa seu parecer com palavras do Essais de Montaigne. Nas palavras de Rui, as páginas de Rabelais escritas por Montaigne irradiavam “uma educação perfeita” e o “gênio da civilização grega”. A ginástica inspirada no mundo grego seria, para Rui, o desenvolvimento inteligente do corpo e um elemento essencial para uma educação liberal. No longo escólio de número 14, Inezil faz a descrição dos principais pontos do Essais de Montaigne 46 que poderiam “interessar à Educação Física”. Utilizando os quatro tomos de Montaigne, Inezil traduz e transcreve o que julga ser “importante para a educação física”, sem muito interesse na compreensão de Rui sobre o tema. Descrevendo trechos que tematizam a filosofia, o corpo e as práticas corporais gregas ao longo dos quatro tomos, Inezil apresenta também sua compreensão a partir do recorte, tematizando a natureza, a educação ideal, a beleza e a harmonia. O mesmo exercício é realizado com Rabelais descrevendo trechos de Gargantua, obra que Inezil considera pertinente à Educação Física, no escólio 15. Neste, a cavalaria, a 45 Intelectuais e autores que se opuseram ao modelo medieval de educação baseado na repetição e na memória. Tratados como os primeiros autores a desenvolver a educação humanista a partir do século XVI inspirados nos ideais gregos como uma forma de desenvolver as tendências positivas naturais da criança e sua formação intelectual e moral através da aquisição de cultura. Os três autores têm em comum os princípios de uma educação humanista. 46 MONTAIGNE. Essais: nouvelle édition avec notes par MJV. Leclerc. Paris. A obra foi utilizada por Rui e analisada por Inezil. Esse foi o escólio mais longo descrito em oito páginas em Rui Barbosa: paladino da Educação Física no Brasil com os trechos que, segundo Inezil, interessariam à Educação Física. 52 ginástica, a natação e as lutas estavam presentes nos trechos escolhidos, representando a educação que Gargantua, personagem principal da obra, deveria ter para abandonar sua “viçosa maneira de viver” (Marinho, 1980, p. 108). Inezil dedica o escólio de número 16 à análise de Rui a respeito da educação helênica, compreendida por ele como uma educação para o equilíbro das forças físicas e espirituais. Esse talvez seja o escólio que demonstre que o interesse de Inezil era muito mais de evidenciar seu aporte teórico e sua capacidade intelectual sobre a história grega do que necessariamente dialogar com Rui, abrangendo sua obra. Para esse trecho citado por Rui, Inezil sugere que um estudo mais profundo da educação grega estaria presente na obra Histoire de l’Education dans L’Antiquité do professor da Sorbonne, Henri-Irénée Marrou. Publicado em 1955, quase um século depois dos pareceres, o terceiro capítulo desse livro seria totalmente dedicado à Educação Física. Sem nenhuma conexão direta com as referências de Rui, mas relacionado aos temas por ele apresentados, Inezil apresenta-se com a autoridade de quem estudou vastamente o tema da educação na Antiguidade Clássica, estando pouco preocupado com o pensamento de Rui e mais com os temas legados nos pareceres que contribuiriam para pensar a educação física e sua história. A ideia de que a educação pertencia ao Estado grego, para Rui, é forte argumento para que os pareceres também pudessem ser incorporados pelo estado brasileiro. Para ele, a regulação da Educação pelo estado grego pressupunha a construção de ginásios públicos e vastas áreas verdes para o desenvolvimento da ginástica e da “energia viril”. Essa educação ideal conferiria, aos futuros cidadãos, capacidade de participação na direção da esfera pública. Inezil argumenta que Rui sentia-se fascinado pela ideia de harmonia de “corpo e alma” da obra de Platão. A República de Platão, construída a partir de um Estado utópico, teria como uma das formas de educação formar o corpo pela música e pela ginástica. Essa educação, no entanto, não poderia separar corpo e espírito, e, nesse sentido, Rui se lembra da importância da biologia e da ciência de seu tempo para pensar a educação e também o corpo. Se na Grécia antiga a alma e o corpo têm dimensão espiritual, no século XIX, filosofia e ciência deveriam ser pressupostos orientadores para a educação de seu tempo. O escólio 18 de Inezil, referente ao argumento de Rui da necessidade de pensar a civilização científica e a escola grega, é completamente apartado do debate dos pareceres. Justificando seus diversos estudos sobre os valores e a importância da cultura grega e a contribuição desta para a humanidade, Inezil novamente relembra sua tese de catedrático da ENEFD Interpretação Histórica da XIV Olímpica de Píndaro publicada em 1957. Mais uma vez seu escólio apresenta-se mais ligado à divulgação de sua produção do que necessariamente preocupado 53 com a interpretação e a análise dos pareceres. O estudo da cultura grega como ponto de chegada para compreender os Jogos Olímpicos seria uma de suas intenções. Para Rui, as Olimpíadas significavam uma celebração “como vasta homenagem nacional à educação popular”. A reunião de ginastas, a produção de uma educação “máscula e forte”, uma educação para um “povo livre” são novamente ideias compiladas do relatório de Baudoin acima citado, tratando do ensino primário na Bélgica, na Alemanha e na Suiça. Inezil, no escólio número 19, lembra que as odes Pindáricas estariam divididas em quatro livros e que a primeira delas, a “Olímpica”, seria dedicada aos vencedores dos Jogos Olímpicos. A descrição do escólio é um esquadrinhamento do parecer de Rui sobre a constituição dos Jogos Olímpicos na antiguidade e todo seu caráter religioso. A contribuição de Inezil para um olhar mais refinado sobre os pareceres de Rui Barbosa é inegável para a bibliografia da educação física brasileira. Seu exercício de recortar, na obra de Rui, os temas concernentes à EF e, no caso descrito acima, em relação à História da Educação Física, mostra um empenho em revelar a produção de Rui Barbosa e a sua própria produção intelectual. Inezil, já um intelectual maduro em meados dos anos 1970, imergiu nos escritos de Rui Barbosa na Biblioteca Nacional, na Faculdade de Medicina e na Biblioteca da Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro. Tratando Rui como “paladino da Educação física no Brasil”, Inezil confere importância e historicidade aos pareceres ligados à EF, mas também desconsidera toda uma prática ginástica já existente na escola brasileira do século XIX. Nesse sentido, Inezil parece dizer que a institucionalização da prática da ginástica na escola teria iniciado a partir dos escritos de Rui, desconsiderando a produção e a circulação de manuais de ensino de ginástica e práticas que já vinham acontecendo na escola brasileira do mesmo período 47 . 1.6 Fernando de Azevedo e a História da Educação Física Há vinte anos que Fernando de Azevedo é a voz mais autorizada no Brasil em questões educativas. Educador de ampla visão e vigorosa envergadura, elle evitou desde cedo a educação unilateral que, durante tantos annos, tanto mal nos faz. Ergueu sua voz insuspeita de professor de letras clássicas, de homem de gabinete, de trabalhador intellectual, em favor da cultura indispensável e simultânea do corpo, até então desprezada (LESSA, 1936, p. 45-47). Fernando de Azevedo, um dos expoentes do movimento escolanovista brasileiro, escreveu sobre a produção de Rui Barbosa em A Cultura Brasileira (1963). Lançado em 1943 47 Sobre a produção, adoção e circulação de manuais de ensino de ginástica e a constituição da Educação Física como disciplina escolar, bem como as mudanças e permanências que marcaram sua trajetória no currículo entre os finais do século XIX e início do século XX ver mais em Puchta (2015). 54 como parte do censo de 1940, o livro foi resultado de convite feito pelo IBGE, para que Azevedo escrevesse uma introdução aos dados do recenseamento. É nesse livro que aparecem (no segundo capítulo, “As origens das instituições escolares”) referências à obra de Rui Barbosa. Criticando o Estado imperial em relação à organização de sua instrução pública e dizendo faltar a este “solidez à própria base de iniciativas oficiais”, o autor recorda que, do ponto de vista da forma e da erudição, o parecer era uma “obra prima”, no entanto, a reforma proposta por Rui estaria ainda, no final do século XIX, em um plano ideal e teórico de inspiração eclética Azevedo (1963 apud FARIA FILHO, 2015, p. 183). Reconhecendo as qualidades e a erudição de Rui, Azevedo lembra que o parecer teria levado mais de meio século para “amadurecer”, tendo sido retomado no pós 1930, na ocasião em que “uma cultura brasileira” já estaria implantada apesar dos “empréstimos” da cultura Ocidental. Fernando de Azevedo se referia, em tom de crítica, aos pareceres sobre a grande apropriação de produção estrangeira, fazendo com que temas e instituições discordantes estivessem propostas como tendo o mesmo sentido. Faria Filho (2015) assinala que as referências aos pareceres ao longo das quatro primeiras décadas do século XX, pelo pensamento pedagógico brasileiro, são escassas. Os intelectuais da educação ora lamentavam o abandono da causa da educação por Rui Barbosa, ora denunciavam a inadequação de suas propostas à realidade brasileira (FARIA FILHO, 2015, p. 185). A realidade da “nova” educação brasileira estaria nas mãos de um grupo de intelectuais que, ao longo da década de 1930, reformaram a instrução pública, o que Rui não teria conseguido nos finais do século XIX, como lembrado por Azevedo. Fernando de Azevedo, como integrante desse grupo de intelectuais, foi representado também na historiografia da Educação Física brasileira como um importante reformador da educação e um dos grandes responsáveis por sua escolarização. A epígrafe desta seção, escrita por Origenes Lessa em artigo intitulado “Ouvindo um apóstolo da Educação Physica brasileira” (LESSA, 1936), ajuda a configurar uma tradição dessa representação da historiografia no Brasil: Fernando de Azevedo como um “precursor” e “pioneiro”. Considerado precursor e autointitulado “pioneiro” também na Educação Física pelos seus pares, Fernando de Azevedo foi um dos defensores da “Educação Physica scientificamente fundamentada” na construção de uma “geração nova”(LESSA, 1936, p. 45). Como professor, escritor e diretor da Instrução Publica do Distrito Federal (1927- 1930) e de São Paulo (1933), Fernando de Azevedo, especialmente preocupado com a especialização dos professores que atuavam na escola brasileira, ajudou a promover, desde os anos 1920, o debate da necessidade da formação de professores no Brasil, inserindo a 55 Educação Física no plano geral da educação. Como Diretor Geral da Instrução Pública do Distrito Federal em 1928, implementou ampla reforma educacional na Capital da República e, em 1933, como Diretor Geral da Instrução Pública de São Paulo, participou ativamente da fundação da USP (PILETTI, 2002, p. 84). Tanto na então Capital Federal (Rio de Janeiro) quanto em São Paulo, esteve atento à necessidade da formação dos professores de Educação Física no Brasil, enviando algumas dezenas de professores primários para fazer curso de aperfeiçoamento e especialização profissional na Escola de Educação Física do Exército (EEFE) no Rio de Janeiro, até então instituição de maior grau de formação em Educação Física. Tais professores, segundo Azevedo (1960), teriam sido os primeiros a se habilitarem para o exercício do magistério, tendo a EEFE diplomado em 1929 vinte civis que foram enviados à escola (MARINHO, 1941, p. 13) já que a “escola de formação de professorado especializado” proposta por Azevedo na Reforma de 1928 no DF não teria se concretizado. Apesar de grande defensor do Método Sueco, por sua dimensão educativa na educação física, Azevedo não se absteve de enviar os professores para a formação na EEFE, que já defensora do Método Francês naquele momento. A reforma de Fernando de Azevedo em 1928, no Distrito Federal, estabeleceu que a Educação Física devesse ser ministrada “diariamente” para todos os alunos, prevendo para este cumprimento a criação de uma “Escola profissional de Educação Física” que se destinaria a preparar e selecionar professores para os estabelecimentos de ensino no Distrito Federal. Inezil Penna Marinho (1941, 1952), atenta para o fato de que a reforma de Fernando de Azevedo no ensino primário do Distrito Federal, que previa tal Escola Profissional de Educação Física, não chegou a ser instalada nos programas oficiais. Esse contexto ajuda a ratificar os argumentos de Olinda Evangelista (2001), que entende que a pretensão de Fernando de Azevedo de elevar o nível de formação dos professores ficou mais evidente no “Manifesto dos pioneiros da Educação Nova de 1932” (AZEVEDO, 2010). Azevedo, naquele momento, dizia ser a formação de professores de todas as funções públicas a mais importante, sendo necessário que os professores de todos os graus de ensino se preparassem nos estabelecimentos de ensino secundário, nas faculdades e nas escolas normais que, posteriormente, seriam incorporadas às universidades 48 . 48 Para Evangelista (2001), a trajetória de Fernando de Azevedo com a formação de professores culminou com a institucionalização da formação universitária do professor no Instituto de Educação em 1934 o que, segundo o Ministério da Educação e Saúde Pública, representava a consagração do Manifesto dos Pioneiros da escola nova, lançado em 1932.Foi institucionalizada, então, a área educacional na primeira organização universitária oriunda da reordenação do Ensino Superior pelo Governo Getúlio Vargas – a universidade da comunhão paulista. 56 Localizando Fernando de Azevedo como uma fonte documental importante entre os anos de 1920 a 1930, Pagni (1995) propõe questionar até que ponto a historiografia da Educação Física brasileira tem sido herdeira de sua concepção de história. Criticando o que vinha sendo produzido na historiografia da Educação Física em relação à utilização de Fernando de Azevedo como única fonte, o autor afirma ser necessário localizar Azevedo dentro dos interesses e embates políticos de seu tempo. Daí a importância de colocar outras fontes em diálogo com Fernando de Azevedo para discutir a HEF, o que para Pedro Pagni (1995) ainda seria algo raro nos estudos na década de 1990. Fernando de Azevedo, amplamente conhecido pela participação no movimento de “renovação educacional”, pelo “Manifesto dos pioneiros da Educação Nova de 1932” e pelo “movimento escolanovista”, iniciou suas atividades profissionais como professor substituto de latim do Gymnasio Official de Minas, concorrendo, posteriormente, à “Cadeira de Educação Physica” em 1915 no mesmo estabelecimento. Ao propor a criação da “cadeira”, disputou-a em concurso e foi reprovado. Anos mais tarde, tendo a tese apreciada por Lindolfo Azevedo em O Paiz, recebeu a seguinte frase, repetida por Azevedo em momentos distintos: “a cadeira não lhe foi dada, mas o livro ficou” (AZEVEDO, 1960, 1936). Quando perguntado por Orígenes Lessa sobre seus interesses iniciais pela “educação physica”, assim respondeu: É uma historia um pouco antiga [...] foi por uma época em que quasi ninguem se interessava por esses assumptos e eu era muito moço, de cerca de 21 annos. Professor substituto de latim num gymnasio official em Minas, impressionou-me profundamente, nesse primeiro contacto com a educação no Brasil, o descaso, a quasi total indifferença pela educação physica nas escolas. Ou não existia, ou quando havia nas escolas alguma cousa com esse nome, era tudo, menos educação physica. Imcomprehensão, desinteresse, ignorância quasi absoluta desses problemas. Foi creado então, por suggestão minha a secção de educação physica nesse gymnasio. O logar foi posto em concurso. Escrevi um livro. A cadeira não me foi dada, mas o livro ficou. [...] (LESSA, 1936, p. 45). O livro A Poesia do Corpo ou A Gymnastica escolar, sua história e seu valor, lançado em 1915, foi posteriormente ampliado 49 e publicado em 1920 como: Da Educação Física: o que ela é, o que vem sendo e o que deveria ser acompanhado de Antinoüs: estudo de cultura atlhetica. Para o autor, a obra Da Educação Física “vinha preencher sensível lacuna em nossa pobrísssima literatura pedagógica”. Publicado em uma dezena de capítulos aumentada e, segundo o autor, “completamente refundida” em outro título, o livro, assim, teria “o fim preciso a que se destina”: a discução do problema da Educação Física que estaria a pedir uma “solução imediata” e “científica”, o que seu livro pretendia oferecer (AZEVEDO, 1960, p. 49Em 1919 publica “Antinous: estudo da cultura atlética” e “O Segredo da Marathona” de discurso pronunciado na ACM de SP. Em 1920 amplia-a e publica Da Educação Física... 57 28). Ao escrever Da Educação Física com título homônimo ao parecer de Rui Barbosa destinado ao Ensino Primário, Azevedo ignora o texto de Rui e assim diversos autores já anteriormente utilizados por ele no século XIX para tratar da educação física, de sua história e da necessidade de sua escolarização. Da Educação Física contribuiu para o amplo debate acerca da Educação Física inserida no plano geral da educação; o descaso e a indiferença por essa disciplina nas escolas, tônica do argumento do livro de 1915, permaneceu no discurso de Azevedo nas décadas subsequentes. Em 1936, quando perguntado pela Revista Educação Physica sobre o “estado actual da educação physica no Brasil”, Azevedo ainda se mostrava preocupado com a formação e a especialização dos professores, dizendo que ainda estaria “quasi tudo por fazer nessa materia” (LESSA, 1936, p. 46). Apesar das “iniciativas particulares ou officiaes excelentes como, por exemplo, nos domínios officiaes da EEFE, na Fortaleza de São João” no Rio de Janeiro, Azevedo admite que até então não havia “um plano geral, organico e systematico, de educação physica” (LESSA, 1936, p. 46-47), lembrando que a organização das instituições escolares ainda dependeria de uma maior eficiência do estado. Dependendo dos militares para essa formação, já que sua pretensa Escola de Formação Profissional em Educação Física da Reforma de 1928 não havia se concretizado, Azevedo se alia a estes e exalta a Escola de Educação Física do Centro Militar de Educação Física do Exército (CMEF), relatando sua importância na formação de oficiais e civis em Educação Física. Apesar disso, deixa explícita a lacuna e a necessidade do investimento dessa formação se concretizar em “todas as instituições” (LESSA, 1936, p. 46-47). Na esteira do debate dos Pioneiros da Educação Nova da década de 1930, teria também o professor de Educação Física uma “nova orientação”: ser moderno. Em “O papel do professor moderno de Educação Physica” (AZEVEDO, 1937) a “formação do pessoal do ensino” dependeria do êxito da “grande obra de regeneração orgânica e esthetica” (AZEVEDO, 1937, p. 15-18) do povo brasileiro. Tal missão não seria possível se não houvesse “professores de indiscutível instrucção teórica e pratica” (AZEVEDO, 1937, p. 15). Nessa formação, os professores deveriam ser superiormente orientados por um educador, que, “além de psychologo avisado” seria também um “engenheiro biologicista [...] com competência thecnica acima de toda crítica” (AZEVEDO, 1937, p. 16). Ao se autointitular “renovador” do movimento educacional brasileiro, para Marta Carvalho (2003a), Fernando de Azevedo se identifica historicamente com as propostas de esgotamento da normatização de práticas docentes dos modelos pedagógicos que vinham balizando a institucionalização da escola no Brasil desde o final do século XIX. Esse traço 58 renovador do movimento educacional, para a autora, é realçado em detrimento dos aspectos conservadores que, estabelecidos como “velha educação”, constituiram-se como narrativa oficial e de ruptura com a política oligárquica por educadores como Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo a partir da década de 1930. O contexto político e cultural dos anos 1920 – revoltas tenentistas, política café-com-leite, modernismo, voto censitário, movimento operário 50 – e a insatisfação desses educadores com o movimento educacional tiveram, nos anos 1930, um desfecho importante: uma demanda pela modernização do país. Os chamados “pioneiros da educação nova” começam a difundir no Brasil um movimento de renovação educacional. A visibilidade das práticas de Fernando de Azevedo para a produção de uma modernização da educação está, entre outras, nas reformas educacionais, organizadas durante o período em que foi diretor da Instrução Pública, nos diversos livros publicados, nos artigos em revistas especializadas, enfim, no seu trabalho como intelectual e professor divulgando, entre outros, o movimento escolanovista. Reavaliando o movimento educacional brasileiro, Carvalho (2003) aponta as incoerências das acepções do que foi produzido como discurso da renovação educacional: a unificação do sistema educacional não teria sido compreendida como um programa político amplo e, nesse caso, de caráter autoritário, tendo sido reciclada pela Revolução de 1930. Além disso, o sentido democratizador atribuído ao projeto de renovação seria insuficiente. A posição de enunciador do novo movimento educacional ainda não tinha sido estabelecida a partir da inserção política de Azevedo nos 1930. Da Educação Física não foi escrito em meio ao “surto renovador” da educação brasileira como A Cultura Brasileira. Escrito durante o Estado Novo, A Cultura Brasileira tenta ser uma “marcha gloriosa e avassaladora do novo, batendo-se em diversas frentes contra o velho, o tradicional e o arcaico” (CARVALHO, 2003, p. 227) 51. O livro, projetado para ser uma obra “monumental” 50 Ferreira e Pinto (2006) salientam que os anos de 1920 são marcados por diversos movimentos diante da crise da República Velha e do domínio oligárquico de São Paulo e Minas Gerais; amplos setores da sociedade brasileira passaram a manifestar uma profunda e crescente insatisfação, impactando o campo político e cultural. Os levantes militares, como o Movimento Tenentista, o Movimento Operário, a Semana de Arte Moderna, entre outros, podem ser considerados manifestações que colocavam em discussão a República Velha e seu sistema de dominação oligárquico, agravando a crise econômica, política e cultural do país. Esse conjunto de insatisfações acabou culminando na década seguinte na chamada Revolução de 1930, quando uma junta de generais depôs Washington Luis, instaurando o “governo provisório” e tendo Getúlio Vargas como presidente em novembro de 1930. Fausto (1997) crê que a revolução de 1930 deve ser entendida como resultado de conflitos intraoligárquicos fortalecidos por movimentos militares dissidentes que tinham como objetivo golpear a hegemonia da burguesia cafeeira. A resposta para essa situação foi o Estado de compromisso, que nada mais é que um Estado que se abre a todas as pressões sem se subordinar a nenhuma delas. Suas principais características são: maior centralização de poder, com subordinação das oligarquias e ampliação de intervencionismo. 51 Lançada em 1943, foi escrita como Introdução ao Censo de 1940 e dentre outras obras é publicação de forte acento sociológico. 59 e gestado num ambiente de agitações e efervescência intelectual, reflete, de acordo com Maria Rita Toledo (2000), a busca no passado pelas explicações e interpretações para o Brasil presente, tendo a educação como lugar mais fértil para o estudo da cultura brasileira, definida como lugar de transmissão das tradições. Entre os diversos cargos públicos assumidos, seu estabelecimento em meio ao Estado Novo no Brasil a partir de 1937 fez de Azevedo, para Nelson Piletti (2002), um intelectual entre a “direita e a esquerda”. Para o autor, alguns renovadores educacionais da década de 1920, como Francisco Campos e Lourenço Filho, aliaram-se ao Regime do Estado Novo exercendo cargos de poder no Governo enquanto outros tomaram posições mais à esquerda e foram perseguidos pelo governo, como Anísio Teixeira e Paschoal Lemme. Já Fernando de Azevedo teria, ainda para Piletti (2002), enveredado pelo centro, alternando ora críticas ao autoritarismo ora elogios aos aspectos positivos das iniciativas do regime ditatorial do Estado Novo. Muitas inquietações que se aprofundaram nos debates posteriores de Azevedo já estavam presentes na primeira obra: a preocupação com a educação integral, as bases científicas e a psicologia na educação. Por isso, para Azevedo, ainda em 1936, seria preciso continuar repetindo que “em todos os systemas de educação nacional, a educação physica, integrada no plano e segundo os princípios da educação geral é uma das partes essenciaes da organização” e deveria ser ministrada a todos os indivíduos: das escolas pré-primárias até as universidades (LESSA, 1936, p. 46). Embora escrito em um momento anterior, Da Educação Física será também representado, pelo próprio autor e por artigos na Revista Educação Physica, como um debate pioneiro na Educação Física brasileira nas décadas subsequentes. Conforme indicado no Quadro 3, a Revista Educação Physica replica alguns dos artigos contidos no livro entre 1936 a 1938, tratando-o como “precursor”, como “a voz mais autorizada no Brasil, em questões educativas” e ocupando “incontestavelmente lugar de destaque” (LESSA, 1936, p.45-47) na Educação e na Educação Física brasileiras. Fernando de Azevedo é apresentado nas revistas especializadas em educação física como pertencente a uma geração de educadores que, desde os 1920, teriam procurado enfrentar os problemas da organização nacional. Esse enfrentamento, realizado por meio da organização da cultura, promoveu uma grande reforma de “costumes na vida nacional” (CARVALHO, 2003, p. 234). Quadro 3 – Artigos de Fernando de Azevedo na Revista Educação Physica Revista Educação Physica Título do artigo Autor 60 N.5 abril 1936 O problema da regeneração Fernando de Azevedo Ouvindo um apóstolo da Educação Física no Brasil (Fernando de Azevedo fala a nossa revista) Fernando de Azevedo entrevistado por Origenes Lessa Pioneiros da Educação Física – Fernando de Azevedo Ricardo Rodrigues Vieira N.7 dezembro 1936 Marathona Fernando de Azevedo Aphorismas de Educação Athletica Fernando de Azevedo N.8 fevereiro 1937 O papel do professor moderno de Educação Physica Fernando de Azevedo N.9 abril 1937 Origem e evolução da Educação Physica Fernando de Azevedo N.16 março 1938 Educação Integral – intellectual, moral, physica Fernando de Azevedo N.24 novembro 1938 Antinous – padrão da educação integral: physica, moral e intellectual Fernando de Azevedo Fonte: Elaborado pela autora desta tese. Apresentado nas revistas como político e reformador, Azevedo replica seus textos mais de uma década depois, ratificando que a Educação Física era, essencialmente, educação e que, como parte dela, se ligaria a suas teorias gerais. Fernando de Azevedo produziu, por conseguinte, importante diálogo com a História da Educação Física no Brasil. Da Educação Física se tornou fonte inspiradora de trabalhos escritos nas décadas subsequentes para a disciplina História da Educação Física. Ao reclamar por professores especializados, Fernando de Azevedo não exclui que tais profissionais precisassem ser “senhores dos fundamentos, dos métodos e das técnicas modernas de educação física”, fazendo clara alusão à necessidade dos conhecimentos dos “princípios e tendências gerais da educação” (AZEVEDO, 1960, p. 19). em instituições especializadas. A História da Educação Física, sobretudo a que estabelece sua origem na Antiguidade Clássica, estaria constituída como parte importante dessa formação – inserida nas tendências gerais da educação – que teria, na análise histórica mais ampliada, uma forma de “iluminar” o presente e seus argumentos, sobretudo os relativos à educação integral de influência grega. A posição presentista na historiografia é uma marca da sua produção como apontam Carvalho (2003b) e Catharina Alves (2010). Repetir os princípios 61 gerais da Educação na Educação Física e neles o que se constituía como história era uma premissa para essa formação e forma de explicação do presente. 1.7 A história da educação física em Da Educação Física Fernando de Azevedo impressionou pela primeira vez os meios cultos brasileiros pelo seu conhecimento de coisas antigas, pelas suas incursões no passado, pelo domínio de línguas mortas. [...] O latinista que dominava os segredos da língua maravilhosa de Horacio, o historiador de olhar vivo e seguro, que reconstituía idades e civilizações, não se deteve apenas nas difficuldades linguísticas, nos nomes e datas, nem mesmo na belleza immorredoura das obras de arte que encontrava. Sentiu, comprehendeu, comparou, applicou. Ia ver no passado o presente. Entre grandes ensinamentos que foi buscar, estava a lição luminosa da Grécia, vividas nas palestras e nos gymnasios onde philosophos iam buscar, como Sócrates e Platão os seus melhores discípulos (LESSA, 1936, p. 45). Indo ao passado para compreender seu presente, Fernando de Azevedo foi interpretado como “pioneiro e renovador” também no contexto de surgimento dos primeiros intelectuais que escreveram sobre a história da educação física no Brasil. Entendo, assim como Peter Burke (2012), que personagens como Fernando de Azevedo foram “catalisadores de um movimento mais geral”. O autor argumenta que a acumulação de conhecimentos tornava a especialização no século XX cada vez mais inevitável, havendo periódicos e congressos criados para promover a comunicação acadêmica, mas que a “consciência disciplinar” foi um resultado colateral importante. O debate da escolarização no Brasil, tido como urgente ao longo dos anos 1920 e 1930, passava pela educação física e pela necessidade da especialização de seus professores. Mesmo nunca tendo sido “professor” da disciplina HEF, Fernando de Azevedo, ao escrever Da Educação Física, contribuiu, quase uma década depois, para a sua constituição, demonstrando a heterogeneidade e a fluidez das fases iniciais de uma disciplina, como sugere Burke (2012). Da Educação Física foi dividido pelo autor em três partes, intituladas “O estado da questão: fatos e interrogações”; “Escolas e métodos”; e “Importância e situação do problema no Brasil”. “Origem e evolução da Educação Física” (Azevedo, 1960, p. 31-36), o primeiro artigo de do livro, é antecedido por uma série de imagens de referências gregas: o pugilista, o discóbulo, as danças gregas. A Grécia como modelo inspirador para explicar a “educação física moderna” e como “germe da nova forma de educação” tem na história o argumento de sua evolução. Tratando os exercícios físicos como uma “ocupação derivada” do “transbordamento da alegria” da pesca, da caça e de outras “ocupações de ordem primitivas”, Azevedo desenvolve o argumento de que essa “primeira fase da educação física” precisaria tornar-se uma “ciência da saúde” partindo do pressuposto de que a música e a dança, antes 62 consideradas arte na Grécia, paulatinamente se transformam em ciência. Também a educação física estaria fadada a tal caminho: a “cultura física” teria na arte sua primeira expressão para enfim tornar-se ciência moderna (AZEVEDO, 1960, p. 33). Ao exemplificar as práticas físicas dos chineses e indianos e a forma precursora como eles utilizaram “o valor fisiológico e sanitário dos exercícios físicos”, Azevedo remonta a criação da civilização grega como o lugar no qual a Educação Física deveria espelhar suas práticas, preconizando os valores estéticos que deveriam convergir em “todas as atividades educativas”. Considerando já haver a presença da “educação física” em ginásios e estabelecimentos públicos na Antiguidade, Azevedo, assim como Rui Barbosa, o faz sem a preocupação de tensionar o léxico “educação física”, tampouco se perguntando se a ginástica produzida pelos gregos tinha relação com as práticas de seu tempo. Tendo a Grécia suas práticas ginásticas e jogos como algo a ser copiado, Azevedo justifica que a educação física lá produzida já “era uma ciência paciente e raciocinada” (AZEVEDO, 1960, p. 33-34). Oscilando entre a descrição e o deleite poético de uma “Grécia artística e voluptuosa”, Fernando de Azevedo faz uso de argumentos poéticos, descrevendo a arquitetura e a geografia como um elementos utópicos e necessários à modernidade. Nas descrições, seus argumentos são lineares, percorrendo a história como uma forma de descrever o tempo e seus acontecimentos em sequência. Azevedo demonstra profundo incômodo com “o declínio dos costumes” que, para o autor, degenerou a Grécia e a educação física, separando “a cultura do corpo da cultura do espírito”, pois a “especialização” que teria rompido com a ideia de “educação integral”. A educação integral é temática importante para o autor e perpassa seus princípios educacionais. Rechaçando o “transbordamento da força muscular” em detrimento da beleza e da arte, os romanos teriam desviado o intuito pedagógico da ginástica em um “objeto de curiosidade bárbara” pelos costumes de jogos atléticos e espetáculos de circo (AZEVEDO, 1960, p. 35). A Idade Média, descrita a partir das “tendências cavalheirescas” e como uma época de “abandono” do corpo, seria interrompida pelo Renascimento, “registrando um impulso efêmero para a educação do corpo” (AZEVEDO, 1960, p. 34). As humanidades clássicas, retomadas por Mercurialis e pelo Marechal de Saxe, dariam à “ginástica lugar num plano racional de educação física” (AZEVEDO, 1960, p. 35). Também a ideia de uma “pedagogia tradicional”, da Idade Média, já existiria em contraponto a uma nova e racional pedagogia Renascentista. Em seguida, Azevedo credita a Guts Muths a criação da ginástica na Alemanha a partir de princípios científicos e pedagógicos; a Ling, poeta e educador que, no Instituto de 63 Estocolmo, na Suécia, a invenção também de método próprio; e a Amoros, em Grenelle, na França, trabalho relevante pela “causa” da ginástica. Ao apresentar sucintamente as escolas e os métodos ginásticos, ressalta Ling e Nactigall como sujeitos que “ardentemente” advogaram pela causa. Ao longo da obra, mais especificamente na segunda parte, Fernando de Azevedo defende o método sueco por ser o melhor método do ponto de vista pedagógico. A educação física desenvolvida na Grécia como uma “arte plástica” deveria, a partir de então, “se completar modernamente” com os elementos da fisiologia e da psicologia para que, “segura e eficaz”, pudesse continuar seu ciclo evolutivo. Chamando a educação física de “ciência da saúde”, esta deveria ser reedificada partindo dos valores gregos, sem perder de vista a dimensão científica dada por autores como Demeny e Mosso. O discurso modernizador é invocado também aos chamados “pioneiros da orientação nova”, que marcariam tal evolução com o acréscimo da psicologia ao debate científico da educação física (AZEVEDO, 1960, p. 36). No prefácio de 1960 de Da Educação Física, Fernando de Azevedo afirma que os estudos clássicos como professor e a Conferência denominada “Lição da Grécia”, serviram de fonte de inspiração para o “movimento em favor da Educação Física no Brasil” (AZEVEDO, 1960, p. 10): Os tempos certamente são outros e não saberíamos nem nos interessaria fabricar uma alma antiga. Temos de ser modernos, criadores de uma nova civilização, com outros estilos de vida e de pensamento. Mas foi dos gregos, em contato com a cultura helênica, que despertou em mim o sentido de beleza e da eficácia dos exercícios naturais, dos jogos gímnicos ou praticados em estado de nudez, em pleno ar, e dessa maravilhosa associação da poesia, da música e plástica, que fazia apelo a todo ser pensante e sensível, e podia exprimir “o homem todo inteiro, corpo e alma, na jovial plenitude de uma existência bem equilibrada, e segundo as regras, validadas a um tempo para a arte e para a vida, da ordem, da medida e da harmonia”(AZEVEDO, 1960, p. 11). “Origem e evolução da educação física”, compilado na íntegra na Revista Educação Physica de abril de 1937, é o único artigo de Da Educação Física dedicado inteiramente ao entendimento de uma história da educação física. Nele, Fernando de Azevedo, através da genealogia de cada momento histórico, demonstra sua devoção latinista à cultura helênica. Tendo sua formação inicial “impregnada de humanismo clássico” (AZEVEDO, 1960, p. 11) como professor de “línguas clássicas e estudioso das literaturas da Grécia e de Roma” (LESSA, 1936, p. 47), além de ex-seminarista, Azevedo consegue exprimir a formação de um intelectual clássico, olhando para a Grécia como forma não apenas de entender a história por ele contada, mas de justificar as escolhas teóricas construídas no seu tempo. 64 Ciente do quanto a Antiguidade Clássica o havia influenciado, afirma “ser ela indispensável” (AZEVEDO, 1960, p. 20) ao conhecimento da História Universal. Apesar de negar que Da Educação Física obedeceria a uma visão romantizada da Grécia antiga, Azevedo idealizou a Antiguidade e a irradiou por toda sua obra como um fazer próprio dos intelectuais humanistas daquele momento, tentando ver “no antigo”, o “moderno”52. Como Fernando de Azevedo se pretendia “moderno”, seria necessário que ele se remetesse ao antigo. Como Da Educação Física é a ampliação de uma tese de concurso, o livro não foi estruturado, a priori, como um manual ou compêndio didático para ser utilizado em sala de aula. Apesar de cumprir uma dada ordem sequencial e didática no encadeamento de seus capítulos, Azevedo não está preocupado com o método da história, tampouco com a forma como a história se apresentaria. Espraiada nos diferentes artigos, a história aparece sempre remontando ao momento grego e justificada pela chave da modernidade. Preocupado com uma análise histórica mais ampliada que iluminasse o presente e seus argumentos, sobretudo os relativos à “educação integral” de influência grega, seria o corpo lugar privilegiado para o desenvolvimento desses pressupostos. Mesmo aparentemente não preocupado em escrever uma história, o autor constrói uma narrativa que coteja, a todo o momento, a História Antiga – entre a poesia e a arte – desenvolvida a partir dos períodos históricos da história geral, tal como no artigo “Origens...” da antiguidade oriental a ocidental, chegando a modernidade. Essa estrutura narrativa, apesar de se apresentar melhor estruturada nesse artigo, aparece também espraiada e não linearizada no restante do livro. O capítulo seguinte, apesar de não ser construído de forma linear, produz um modelo narrativo para compreender as “Escolas e Métodos” na Educação Física, a partir das suas “divergências” e não pelas convergências. Essa construção, certamente influenciada pelas bibliografias francesas sobre os Métodos Ginásticos Sueco e Francês que se apresentam nas referências bibliográficas de Da Educação Física, não dialoga sobre as influências de uma 52 Marcus Carvalho (s.d.) mostra que a “querela entre os antigos e os modernos” não é um debate tão novo na década de 1920 no Brasil. Entre outros exemplos, o autor mostra que, em meio à Corte de Luís XIV na França, houve um debate sobre a redefinição dos preceitos artísticos que transformariam as normas anteriormente tratadas nos moldes da antiguidade clássica. O partido dos modernos teria se insurgido contra a autocompressão do classicismo francês questionando o sentido de imitação dos modelos antigos. Daí a relação entre antigo e moderno ser algo sutil e extremamente matizado se compreendermos que esse debate advém da difusão das consequentes ressignificações das identidades de “corpos”, “indíviduos”, “classes sociais”, “multidões”, “povos”, “nações”, e outras entidades personalizadas ou sociais que marcaram definitivamente a história do século XIX, impactando o campo acadêmico, científico e artístico no século XX (CARVALHO, s.d., p. 12). 65 escola ginástica sobre a outra, formatando uma escrita da história da Educação Física no século XX. A proposta de ver as “divergências” de cada escola ou método ginástico parte de uma pergunta básica para Azevedo: qual seria o melhor método para a Educação Física escolar? Colocá-los em confronto seria, então, fundamental para determinar suas diferenças e daí fazer a escolha pelo método que melhor conviesse à Educação Física escolar, mesmo que isso significasse desconsiderar que o desenvolvimento dessas escolas ginásticas datava de um período histórico muito próximo – século XIX – sobretudo a sueca e a francesa, e, como já sinalizado, como se não tivessem se influenciado mutuamente. A saúde, as qualidades morais e a coragem seriam três critérios importantes da concepção grega para o “tipo ideal de atleta” tendo na ginástica o “perfeito equilíbrio humano” (AZEVEDO, 1960, p. 46). Partindo da eugenia como possibilidade de olhar para uma Educação Física científica, especulava a “importância fisiológica” que os antigos teriam atribuído aos exercícios, algo que a Educação Física havia, de forma “lastimável”, esquecido. A perda de uma essência que outrora já teria existido na Antiguidade Clássica, é argumento recorrente. O exercício teria a utilidade de formar o “homem de ação” ou “homem moderno” e contribuir para o “domínio de si mesmo”, tendo na anatomia a coexistência com a fisiologia e a psicologia na puberdade, idade de “superabundância de energias corporais” (AZEVEDO, 1960, p. 44). O argumento de Azevedo mostra que a História deveria ser pragmática; estar a serviço de apresentar uma “retomada” dos antigos sem o “acréscimo” da cientificidade daquele momento histórico. A definição de Educação Física passaria pela educação de uma “vida corporal” para, enfim, chegar a uma vida espiritual, motivo máximo da existência e “coroamento da mesma”. A “educação física integral” estaria nos exercícios físicos educativos; nos jogos, nas ginásticas pedagógicas e nos esportes, somente se neles fossem desenvolvidos o sentido de saúde e a compreensão da beleza (AZEVEDO, 1960, p. 56). Os exercícios deveriam, assim, se desenvolver pelos padrões científicos e racionais, embebidos de beleza e arte. Ginástica, arte e natureza seriam a simbiose de um “corpo de edifício” (AZEVEDO, 1960, p. 67), que, integrado, poderia exprimir a completude da educação proposta pelo autor. Nessa tentativa de justificar a Educação Física como uma prática utilitária e educativa, o autor compreende a ginástica respiratória como prática que deveria anteceder todas as outras, a partir de um “treinamento metódico”, segundo os princípios de Ling (AZEVEDO, 1960, p. 62). Azevedo abomina os esportes e jogos intensivos como forma de iniciar uma prática de Educação Física a despeito de que ser uma forma de “forçar o coração e congestionar os pulmões” (AZEVEDO, 1960, p. 62). 66 A influência grega certamente é melhor tensionada quando a “modernidade” proposta pelo autor entra em diálogo mais próximo com o esporte. Os atletas gregos e o trabalho “em equilíbrio orgânico” em detrimento da força muscular é a tônica para escrever sobre o atletismo. A proporcionalidade do corpo, apresentada à luz da estatuária grega, deveria conter um “vigor sem exuberância” para os esportes. Plasticidade, harmonia e moderação no esporte seriam atributos importantes em face da “violência” e dos cuidados com sua utilização para que não desarmonizasse o corpo (AZEVEDO, 1960, p. 75-76). O argumento da plasticidade e da harmonia é retomado pelo autor, para quem as prescrições da Educação Física para as mulheres seriam acrescidas de “beleza, doçura e graça”. Os segredos da beleza do corpo feminino estariam representados na estatuária grega que possuísse um “colete muscular natural em vez do inquisitorial espartilho moderno”. O grande vigor físico feminino se oporia a uma visão de beleza clássica e o abandono do espartilho seria condição primeira para a aproximação da plasticidade “helênica” de Platão e Aristóteles (AZEVEDO, 1960, p. 80). A ginástica educativa e os jogos “menos violentos” seriam indicados às mulheres, assim como a dança ao ar livre e a natação. Não deveria ser negada às mães, ou às “obreiras da vida” o direito da “cultura física”, desde que tais práticas de aproximassem da harmonia e da plasticidade remetidas ao momento grego. As “filhas da Hélade”, Afrodite e Vênus de Milo, poderiam ser exemplo de transformação eugênica das “mulheres franzinas e atrofiadas pelo espartilho” (AZEVEDO, 1960, p. 87-98). Silvana Goellner e Alex Fraga (2004), ao apresentarem Sandwina como o contrário dos ideais de graça e delicadeza desenhadas por Azevedo e por grande parte dos intelectuais de seu tempo, fazem uma reflexão sobre como os corpos femininos das “mulheres forçudas” permanecem nas zonas de sombra sendo considerados desviantes do que se queria naturalizar como inerente ao feminino. Daí mulheres como Sandwina serem invisibilizadas em Da Educação Física, pois, se tornadas visíveis, poderiam desestabilizar as imagens construídas para reforçar e assegurar um jeito feminino de ser e de se comportar. Ainda sobre o argumento grego da harmonia e da plasticidade, competiria ao professor de Educação Física ordenar e harmonizar os exercícios “orientando-os de modo enérgico e eficaz”. Inferindo não ser esse professor uma figura tão recente na educação, Azevedo identifica que, na Grécia, o ginasta já seria subordinado ao professor, o então “ginasiarca” ou “pedômono”, que dirigia os exercícios nos “ginásios e efébias”. Assim como os exemplos gregos que aparecem ao longo de toda a obra, o conhecimento histórico estaria espraiado em todos os conhecimentos possíveis na formação em Educação Física. Compreender a 67 historicidade em todos os conhecimentos, sobretudo os de origem na Antiguidade Clássica, seria condição primeira para essa formação. Apesar de a influência “Helênica” aparecer ao longo de toda a obra, é nos artigos da primeira parte do livro que se encontra maior incidência de alusões aos temas da Antiguidade Clássica na Educação Física. O humanismo grego como modelo inspirador volta a ganhar força quando Fernando de Azevedo apresenta, na sequência de Da Educação Física, a epístola Antinoüs : estudo de cultura atlética (1960) acompanhada de O segredo de marathona (1960). Como dito acima, parece ser na aproximação com o esporte que as tensões de sua influência clássica se chocam com o que vinha sendo praticado como esporte no período. A “violência” e o “vigor físico excessivo” dos esportes poderiam desarmonizar o equilíbrio proposto pela Antiguidade Clássica. Daí a estátua de Antinoüs ser o exemplar ideal do corpo moderno: robusto, proporcional e de grande beleza plástica. Meily Linhales (2009a) salienta que Fernando de Azevedo se refere à estátua de Antinoüs, e não ao próprio personagem grego. A reverência a Antinoüs como formador de uma atlética grega harmônica entre forma e vigor é colocada em tensão com a figura de Hércules, que representaria “a desarmonia muscular por hipertrofia”. [...] não se comprazia nestes atletas de feira, de pescoço taurino, sulcado de cordões distendidos e de invólucro muscular nodoso, maciço e grotesco, nesses atletas profissionais, a que os músculos parecem ter tirado todas as forças e todo o vigor da inteligência (AZEVEDO, 1960, p. 225). Antinoüs de alguma forma representa seu incômodo com os esportes “violentos e vigorosos” em detrimento do conhecimento de humanidade aos quais tais esportes poderiam ser alçados, como a retomada dos “poemas de prosa e verso” e “os hábitos de conversar nos ginásios”, práticas gregas que não mais se perpetuavam. A “verdadeira cultura humana” não estaria somente na exercitação do físico, mas, sobretudo, no equilíbrio entre corpo e espírito ali representado por Antinoüs. Citando Voltaire, Azevedo afirma que o atleta ideal deveria ter “o corpo de atleta e a alma de um sábio” (AZEVEDO, 1960, p. 226). Uma série de contraposições é estabelecida por Azevedo para demonstrar que o esporte, tal qual vinha sendo praticado no âmbito social, não determinava as dimensões gregas como eixo norteador para seu desenvolvimento. O “atleta embrutecido e embotado pelo excesso de exercício” estaria contribuindo para o desprestígio da Educação Física, ao passo que a “delicadeza do espírito grego” seria a saída possível para o equilíbrio dos exercícios. Colocadas tais contraposições, utiliza o termo “educação atlética” para falar das benesses do que seriam os esportes gregos. Opondo outros argumentos, Azevedo está em franco debate com o esporte, 68 utilizando a história para legitimar sua compreensão de Educação Física. Nada mais restaria à Educação Física a não ser se embeber da “história heroica” grega para que pudesse se modernizar (AZEVEDO, 1960, p. 225-229). A finalidade em relação ao esporte (atlética moderna), estabelecida a partir da Antiguidade Clássica, estaria em achar um “sistema” que pudesse ser designado para a escola. A crítica dirigida aos ingleses de nunca terem ligado o esporte à pedagogia, transformando-o em um “benefício brutal”, é colocada em tensão com o fim que ele deveria ter: a arte e a beleza. Para Azevedo, ingleses e romanos teriam utilizado o esporte de forma higiênica semelhante, “como meio de adquirir e conservar a saúde”, excluindo sua função maior, a estética e a artística (AZEVEDO, 1960, p. 251). Não seria, portanto, qualquer esporte digno de estar na escola, mas a “atlética” (esportes em grego), prática “essencialmente fisiológica, higiênica e artística”, estaria autorizada a se instituir como sistema (esportivo) para a Educação Física. Linhales (2009a), ao comparar o texto de Da Educação Física de 1915 com o de 1920, diz que a dimensão educativa do esporte, para Fernando de Azevedo, é construída muito mais por premissas de ordem moral do que de ordem física. Se fadiga e exaustão são problemáticas destacadas em 1915, na segunda versão, o caráter perseverante e enérgico aparecem nos ajustes de sua interpretação sobre o esporte. Apresentando o pentatlo, o salto, o dardo e o disco, a corrida, a luta, os exercícios gímnicos e o tênis como as atléticas autorizadas para a educação, Azevedo produz o discurso de uma cultura a ser transformada: da incompletude dos esportes modernos ao do potencial conferido a eles pela possibilidade da apropriação do pensamento grego. Diversos são os adjetivos atribuídos ao momento histórico grego que determinavam sua potencialidade em transformar e erigir as práticas modernas. Beleza, arte, plasticidade, equilíbrio, graça, robustez, formosura, harmonia, entre outros, indicam características positivas atribuídas às práticas empregadas na Grécia que, se não acrescidas de uma dimensão científica, sobretudo a eugênica, representariam a ausência dessa positividade nas práticas modernas, no que dizia respeito ao esporte e à ginástica de cunho educativo. A bibliografia de Da Educação Física é, em quase sua totalidade, composta de obras francesas. Das 93 obras citadas, diversas são as temáticas: educação, educação física, ginástica, esporte, medicina, psicologia, entre outras. Dessas obras, oito fazem referência à História a partir das temáticas gregas e artísticas no título e, dessas, três são bibliografias 69 escritas em latim, sendo as demais em francês e inglês 53 . Azevedo, embora não pareça estar preocupado com o método da escrita historiográfica, se utiliza dela em diálogo com autores da tradição Grega, como Werner Jaeger. Paidéia: a formação do homem grego, principal obra de Jaeger foi editada na Alemanha pela primeira vez em 1936 e somente lançada no Brasil em 1966. Fernando de Azevedo publicou Da Educação Física em um momento da escrita da História denominado por Astor Diehl (1999) de “fase do redescobrimento do Brasil”. O autor apresenta a escrita da História até os anos 1930 como um período de interpretações dos grandes intelectuais e de grandes sínteses. Nesse sentido, as obras do período são de difícil classificação dentro dos moldes convencionais da chamada ciência histórica que se desenvolve no Brasil, fortemente influenciada pela Revolução de 1930 (DIEHL, 1999, p. 26). Fernando de Azevedo acompanha esse movimento historiográfico de grandes interpretações sem perder de vista grandes temas brasileiros, como a educação, que impactariam fortemente suas obras em um momento histórico seguinte. As bibliografias do autor que carregam “História” no título trazem consigo a justificativa pela historicidade das temáticas, quase “contemporâneas” ao seu fazer como professor e que se aproximam das práticas “modernas”, com as quais Azevedo traça íntimo diálogo: a educação, a educação física, a ginástica e o esporte 54 . Como professor de latim e acessando tal bibliografia, seu texto se fez carregado de aforismas gregos para justificar e construir uma história para as práticas “modernas”. Ao dar “forma” historiográfica para as práticas educativas tomadas como modernas, Azevedo contribui para afirmar e também para produzir uma narrativa histórica da Educação Física intimamente devedora da história grega. A história da Educação Física, sobretudo a narrada no século XX, é devedora dessa tradição narrativa que, apesar de não ser inaugurada no Brasil pelo autor, certamente deve a ele um dos desdobramentos mais férteis para a área pelo viés do debate com a educação. A Educação Física moderna, perdida de suas “origens”, deveria se encontrar na Antiguidade para, iluminada por suas benesses, ser regenerada e, por conseguinte, regenerar o corpo e a escola. 53 As obras que fazem referência no título à História Grega são: Die Hellenische Kultur (BAUGARTEN et al. 1908), Die Gimnastik und Agonistik der Hellenen (KRAUSE, 1841), Die Gimnastik der Hellenen (JAEGER, 1857), Description Gymnastique apud Graecos (BRUGMA, 1855), Dictionnaire des Sciences, dês lettres et des arts (BOUILLET, 1905), L’Education Atheniense au V et VI siècle av. J.C. (GIRARD, 1890), Ouvres completes: Histoire Ancienne (ROLLIN, 1936) e Greek Education (1881) e Greek Antiquities (1876) de MAHAFFY. 54 Seria necessário um aprofundamento não somente nessas obras, mas também nas demais referências para melhor inferir sobre essa apropriação. Como as obras não são objeto da tese, compreendo que a análise mais ampliada sobre as perspectivas historiográficas e os modelos historiográficos de escrita dos quais Azevedo se aproximava é uma forma possível de entender sua sintonia com a produção historiográfica do período. 70 Procuro, assim, entender Fernando de Azevedo como um grande intérprete da Antiguidade para a historiografia da Educação Física que, pautado em uma historiografia da educação clássica embebida da filosofia, constrói argumentos para os problemas da Educação Física do seu presente. Fernando de Azevedo, como professor, intelectual e político, produziu Da Educação Física, e seu “entusiasmo missionário” de ex-seminarista e professor de latim para com a Educação Física pode ser observado nessa produção. Na obra também estão contidas suas interpretações para a História da Educação Física. De forma mais ampla, a utilidade da obra parece também se configurar na organização de um “campo disciplinar” nesses primeiros cursos de formação, entre outros motivos, pelo fato de esta ser uma das referências do compêndio Histórico da Educação Física (BONIRINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931) 55 . Por ser reconhecido como grande incentivador de reformas que culminassem em instituições de formação especializadas e também como fonte de inspiração para a produção da disciplina HEF, a partir de Da Educação Física, Azevedo circula nessa comunidade disciplinar 56 com o duplo papel: de intelectual e de político reformador. Apesar de Fernando de Azevedo não ter sido professor da disciplina de HEF e de tal disciplina não ser de matriz escolar, é possível compreender seus diferentes fluxos de desenvolvimento localizando instituições, cursos e produções de seus professores e suas relações nessa construção. O fato de uma disciplina poder ter diferentes lugares de surgimento e também se desenvolver em diferentes âmbitos concomitantemente – nas revistas, nos cursos de formação, na produção de seus professores – reforça o lugar múltiplo compreendido pelos estudos da história social das disciplinas, bem como suas necessidades e seus interesses dentro das instituições. De todo modo, ao mapear esses antecedentes da disciplina HEF, sigo a pista deixada por Goodson (1990) para essa análise: o que deixa de ser explicado são os estágios de evolução da disciplina. Apesar de não desejar tratar de sua “evolução”, acredito que o conceito ajuda a pensar que há diferentes estágios de maturação nesse processo histórico. Daí 55 Histórico da Educação Física, o primeiro “compêndio didático” publicado no Brasil – assim caracterizado por seus autores – sobre o tema HEF, que se tem conhecimento. O livro de F. Azevedo, Da Educação Física, é uma das duas bibliografias especializadas em língua portuguesa citada pelos autores. A obra será melhor discutida do Capítulo 3 desta tese. 56 Goodson (1995), ao tratar do conceito de comunidade disciplinar, afirma que este implica ter professores como porta-vozes empenhados em uma “elaborada organização do conhecimento”. O conceito parece fértil para observar as regularidades com que os temas se apresentam nos livros e artigos bem como a circulação destes nas instituições e nas revistas do período. A amálgama dessa comunidade disciplinar seria, nesse caso, a prática docente na disciplina HEF, ou seja, a identidade profissional desses professores e as implicações de sua produção, aqui entendidas como prescrições para a disciplina. 71 a relevância de se analisarem as finalidades de uma disciplina no ensino, como sugere Chervel (1990), tentando entender, a partir das fontes, sua problemática própria: as estratégias empregadas para a construção da disciplina HEF a partir dos currículos dos cursos, dos professores e de suas práticas profissionais, seus vínculos institucionais, compreendendo o conjunto de elementos prescritivos e as balizas mobilizadas por esses profissionais. 72 CAPÍTULO 2 – A DISCIPLINARIZAÇÃO DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA: ENTRE MILITARES E CIVIS 2.1 Os cursos de formação em educação física e o lugar da disciplina HEF: instituições, sujeitos e práticas nos 1930 Ao contrário do que muita gente tem proclamado, os gentios que habitavam as terras brasileiras não era indivíduos de má constituição física e aspecto doentio. Muito ao contrário, tipos robustos e afeitos a luta pela vida, assas difícil que as contingencias da época exigiam. (LEITE, 1937) “Evolução” (LEITE, 1937)57 é documento publicado pela Divisão de Educação Física pelo seu diretor, Major João Barbosa Leite, em 1937. Tratando do que teria sido a “evolução” da educação física no Brasil até aquela data, o documento tenta retratar a educação física produzida pelos então homens primitivos brasileiros através da caça, da pesca, da defesa e da canoagem, caracterizando tais práticas para fins guerreiros. O homem primitivo brasileiro, tipificado pela figura do índio, resumia as “atividades físicas”, então configuradas do período anterior à colonização portuguesa. Considerando as dimensões higiênicas e eugênicas como pressupostos científicos que regulavam a Educação Física na década de 1930, o documento frisa que tais homens não seriam indivíduos de “má constituição” e “aspecto doentio”. Como “tipos robustos”, esses índios são caracterizados pela “atividade guerreira”, traduzida como “atividade física” naquele documento58. Preocupado com a regulação da educação física em âmbito federal, a Divisão tentava, no ano de 1937, estendê-la a todo país e, para isso, produziu uma série de documentos tentando anunciar que, até aquele momento, poucas iniciativas teriam sido tomadas. Produzir um documento datando a “Evolução” da prática até aquele momento também era uma das formas de recortar historicamente o que havia sido produzido, até então, em âmbito institucional e político, “denunciando” que o problema da educação física nacional ainda estaria posto e, ao mesmo tempo, anunciando o protagonismo do Estado Novo na criação desse órgão “regulador”. A regulação da Divisão teria a função de fiscalizar as diversas escolas assegurando a obrigatoriedade da prática em território nacional, bem como a especialização técnica de seus instrutores/professores. 57 LEITE, Major Barbosa. Evolução. Rio de Janeiro: Divisão de Educação Física, MES, 1937. s/p. Fundo Gustavo Capanema CPDEC/FGV. 58Acredito que “Evolução”, apesar de assinado pelo major, foi documento já escrito por Inezil Pena Marinho como técnico da Divisão de EF. Essa hipótese é pautada em uma descrição muito próxima dada às temáticas presentes nos livros sobre HEF escritos por Inezil ao longo dos anos de 1940 e que serão mais bem apresentados nos capítulos subsequentes. 73 “Evolução” é estruturado historicamente, tratando da prática indígena, passando pela chegada dos jesuítas no Brasil, período caracterizado pela atividade física tanto como forma de regulação dos índios como sujeitos selvagens, quanto pela compreensão da rígida disciplina dos colégios jesuítas, em contraponto ao que seriam os “instintos naturais” dos índios. Como momento de transição dos interesses higiênicos para os interesses educacionais, o documento lembra a centralidade dos médicos e a produção de suas teses influenciadas pelo pensamento Spenceriano e Rousseauniano. A ginástica produzida na Escola Militar no Rio de Janeiro e os pareceres de Rui Barbosa são lembrados, assim como a publicação pelo então Ministro do Império, de O novo guia para o ensino da Ginástica, baseado no Método Alemão de Ginástica. É recorrente nos documentos da Divisão a crítica de que o Período Imperial no Brasil não teria dado “o devido interesse” à Educação Física nacional. A Educação Física no relatório teria tido certo protagonismo, por meio da ginástica e dos esportes, somente no pós 1930 através de instituições como ACM, Ginásio Nacional, Colégio Militar e Marinha. Novamente tentando dar visibilidade política ao protagonismo daquele período histórico, a possibilidade de um melhor desenvolvimento da educação física somente seria possível com a criação do MES, em 1930, bem como a partir da Reforma Francisco Campos. O documento indica como marcos históricos o projeto de Jorge de Morais em 1905, e a Reforma Fernando de Azevedo de 1928. Contudo, é efuzivo ao promover a EEFE e seu curso provisório de 1929 como o lugar institucional primeiro de formação da Educação Física nacional. O documento em questão mostra a necessidade de ratificar a presença da educação física, ao mesmo tempo em que demonstra sua fragilidade e iminência como uma prática ainda a ser disseminada no Brasil. Os membros da Divisão de Educação Física, preocupados com a centralidade da criação de publicações e decretos sobre a temática, tentam apresentar um “histórico da educação física nacional” para, entre outras funções, justificar como os órgãos administrativos de diferentes estados estariam disseminando “especializações” para orientar e formar professores de educação física no Brasil. Preocupados com as ações nos diferentes níveis de ensino, os documentos da Divisão de Educação Física não somente invisibilizam todo o processo de constituição da escolarização da ginástica que vinha acontecendo no Brasil desde o século XIX, criticando a falta de protagonismo do estado, como também o fazem com a formação de seus professores, movimento que também vinha acontecendo desde o século anterior, sobretudo a partir das escolas normais e inspetorias de ensino estaduais. Historiar a educação física brasileira e, de forma muito específica, a constituição de suas instituições e as reformas no âmbito da legislação, parece também uma forma de 74 apresentar relatórios ao então Ministro Gustavo Capanema sobre a situação da educação física no Brasil, procurando estabelecer relações com os diversos estados da federação para, com eles, regular, organizar e fiscalizar Departamentos, Superintendências e Inspetorias de Educação Física em território nacional. Além disso, o documento “Evolução” é forte expressão de que a intenção da Divisão era centrar seus investimentos na educação através da formação de professores. O major faz questão de destacar que o processo de “evolução” sofrido pela Educação Física até aquele momento havia permitido passar de um quadro majoritariamente destinado da “higiene” para a “educação”. Para corroborar essa afirmação, o restante do documento é dedicado às ações oficiais em relação aos investimentos da DEF na cena educacional brasileira, seja a partir de decretos e leis, seja no estímulo à visibilidade institucional para a formação de instrutores e professores. Ações destinadas à formação de professores permeiam todo o documento, com destaque para aquelas que seriam medidas de estabelecimento de regulação federal em âmbito estadual para a especialização de professores e médicos nas escolas ou nos cursos superiores de educação física. Essa é uma estratégia da Divisão que também pode ser observada no “Plano de ação para o ano de 1938” (DIVISÃO DE EDUCAÇÃO FÍSICA, 1938), que se propunha na regulação das ações de formação de professores que já aconteciam nos diversos estados brasileiros. O documento apresenta diferentes finalidades em relação à legislação: criação de instituições como a ENEFD, criação de parque olímpico, criação de legislação esportiva e modificações no PNE no âmbito da Educação Física. Apesar desses objetivos referentes à legislação, o destaque se encontra no item “Organização geral” e, posteriormente, no chamado “Propaganda da Educação Física”. O primeiro item previa a necessidade de formação técnica e especializada para instrutores e professores e a organização e a fiscalização do ensino de educação física em diferentes estabelecimentos. O segundo refere-se ao incentivo e à organização de projetos que colocariam a prática da educação física como tema central, como excursionismos, competições amadoras e promoção de filmes educativos. Esses objetivos estão alinhados a um projeto mais amplo do Estado Novo, que tinha canais de difusão como imprensa, rádio, cinema e teatro como forma de mobilização de seus projetos políticos para educação, cultura e patrimônio (BOMENY, 2001). À frente dessa trama institucional da Divisão estava o Major João Barbosa Leite que já havia estado à frente do processo de concretização da EEFE no CMEF na mesma década. Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde Pública de 1934 a 1945, é sujeito importante nessa articulação entre militares e civis. Em 1937, Capanema envia carta ao Ministro da Guerra, General Dutra, solicitando que este pusesse o Capitão Rollim à 75 disposição do Ministério da Educação para assumir a Divisão de Educação Física (CAPANEMA, 1937). A postura centralizadora das políticas do Estado Novo (1937-1945), juntamente com a capacidade de articulação de intelectuais, é um dos marcos desse período político que produziu diversas engrenagens de institucionalização do Estado nos processos educacionais. O Estado Novo no Brasil exerceu, a partir da ideia de modernização, um amplo apelo à intelectualidade para a construção de um projeto de estado nacional, como ressaltam Bomeny (2001) e Gomes (2000). Para o processo de legitimação e institucionalização da Educação Física, esse apelo deu-se não apenas aos intelectuais, mas também aos capitães e generais, sujeitos que, a partir da experiência da educação física no Exército, espraiariam seu métier em outras esferas da sociedade. Solicitando o Capitão Rollim na carta ao Ministro da Guerra, Capanema assinala que precisaria de “pessoal competente”, o que encontraria nas fileiras do exército. Nesse sentido, um mesmo ministério, a princípio com objetivos comuns, reunia literatos modernistas, positivistas, católicos, socialistas e integralistas, lado a lado, como lembra Helena Bomeny (2001), e, além destes, militares do Exército, justificando uma demanda por especialistas que envolveria diferentes áreas da educação e da saúde. Os capitães e generais do exército, assim como os diversos intelectuais do Estado Novo, não foram convocados por Capanema de forma fortuita. Juntos, selariam, na década de 1930, a legitimidade institucional de uma relação que vinha acontecendo desde as primeiras ações de formação em Educação Física, restritas ao Exército, desde 1909, com a Escola de Educação Física da Força Pública de São Paulo, e com a posterior criação do Centro Militar de Educação Física no Rio de Janeiro, em 1922 59 . Por isso o entendimento mais amplo, ainda que passível de diversas críticas, de que a ligação do Exército com o Estado Novo na educação física brasileira seja uma história mais caracterizada por continuidades do que a rupturas. Alinhados, mas não sem tensões, civis e militares parecem constituir uma trama que tinha como uma de suas finalidades instruir e formar professores ao longo da década de 1930. O projeto da Divisão de Educação Física reafirma a massiva presença do exército na constituição da educação física nacional. Os investimentos dessa instituição ajudaram a desencadear um tipo de formação profissional em Educação Física ao longo dos anos 1930 e, nessa trama, muitos autores já trataram da relação entre militares e civis (MELO, 2007; FERREIRA NETO, 1998,1999; LINHALES, 2009a, 2009b; PAIVA, 2004), porém, parece ainda contemporâneo reafirmar que não se trata de uma oposição entre eles. Pelo contrário, pensar nas interpretações e nos investimentos que diferentes grupos sociais estabeleceram na 59 Ver mais em Melo (2007) e Ferreira Neto (1999). 76 constituição da formação profissional ajuda a entender os lugares institucionais e os sujeitos que estavam em constante disputa para o estabelecimento de um “campo disciplinar” que parece se configurar a partir de 1929, com o Curso Provisório do Exército. Em 1933, o Centro Militar de Educação Física (CMEF) é substituído pela Escola de Educação Física do Exército (EEFE), criada inicialmente para formar instrutores, monitores, mestre d'armas, monitores de esgrima e médicos especializados, sendo também permitido a civis participar dos cursos (MELO, 1997). Porém, foi alguns anos antes, em 1929, que entrou em vigor o Curso Provisório de Educação Física do (CMEF), posteriormente transformado em (EEFE) 60 , em 1933 no Rio de Janeiro, então Capital Federal. Apesar de não ser o primeiro curso de formação em Educação Física no Brasil é de seus professores o primeiro material “pedagógico” sobre a disciplina HEF de que se tem conhecimento. Ainda que as primeiras formações para a tropa em Educação Física reconhecidas no Brasil tenham surgido na Escola de Educação Física do Centro de Esportes da Marinha, em 1925 61 , sendo também a Escola de Educação Física da Força Pública do Estado de São Paulo, criada em 1909, outro lugar de formação em vigência no Brasil, é dos tenentes e professores da EEFE e da Escola de Educação Física do Espírito Santo o Histórico da Educação Física, a primeira publicação que deixa explícita, na apresentação dos autores, a intenção didático-pedagógica do trabalho com a disciplina HEF. Inezil Penna Marinho (1953) lembra ser esse o único livro do gênero até aquela data. Considerando a EEFE como um lugar de memória importante para a formação de professores em Educação Física no Brasil, torna-se também importante observar a constituição do debate sobre a formação de professores através dos cursos por ela ofertados e pelas demais instituições que, no mesmo período, se ocuparam desse mesmo fazer. Rastrear a História da Educação Física desse período, a partir da constituição dos primeiros Cursos de formação, faz-se importante para perseguir a hipótese da “estabilidade” da disciplina nos currículos, observando qual caráter essa formação profissional assume: se técnico ou superior. Utilizando como fonte a Revista de Educação Física do Exército, a Revista Educação Physica, os Históricos Escolares e Regulamentos da EEFE do acervo da escola, o acervo do Arquivo Permanente do CEFD/UFES e os anais do VII Congresso Nacional de Educação, 60 Para uma melhor compreensão dos militares na Educação Física brasileira, ver Ferreira Neto (1998, 1999). 61 O Major Barbosa Leite, em ofício da Divisão de Educação Física em 1937, escreve um inventário histórico da Educação Física no Brasil e o denomina de “Evolução”. Nesse ofício encaminhado ao então ministro Gustavo Capanema, apresenta a importância das escolas de formação de educação física e afirma que, no mesmo momento em que a EEFE fundava seu Curso Provisório de Educação Física em 1929, a Liga de Esportes da Marinha também fazia “sem alardes um trabalho consciencioso para a formação de elementos com a competência necessária para dirigir as atividades físicas nos estabelecimentos e unidades navais no Brasil”. LEITE (1937). Fundo Gustavo Capanema, CPDOC/FGV. 77 tento traçar a ligação entre os cursos, seus currículos e as inserções de seus professores nas revistas especializadas. Partindo da premissa de que a formação de professores era iminente e, ao mesmo tempo, recente, tento compreender essas relações a partir de seus lugares institucionais. O movimento estabelecido neste capítulo tende a revelar, de forma mais “externalista”, o que Ivor Goodson (2000) sugere como paradigma conflitivo na constituição dessas instituições a partir da história social do currículo e o estabelecimento das disciplinas. O autor lembra que o currículo é uma fonte importante de estudos históricos e que deles podem aflorar uma série de outros problemas, entre estes, o enfrentamento do que seria a história das disciplinas (GOODSON, 1995, p. 95). O movimento metodológico proposto por Ivor Goodson para entender a história das disciplinas passa necessariamente pela análise histórica dos currículos e de suas reformas, colocando em tensão diferentes sujeitos e instituições ao longo de suas análises. Esse currículo “escrito e prescrito” é certamente uma fonte documental importante para mapear o terreno em que se estabelecem as disciplinas. Analisá-los como guia ajuda a compreender as estruturas institucionais nas quais a disciplina HEF se estabeleceu. Isso significa que, mesmo sendo analisados no âmbito das prescrições, currículo e disciplinas são parâmetros importantes para compreender as práticas políticas e pedagógicas dos sujeitos que tiveram a História da Educação Física como um de seus âmbitos de ação – professores, homens de Estado, capitães e generais – nessa trama. São esses diferentes grupos e suas relações com as instituições que farão com que a estrutura do que chamo aqui de “campo disciplinar” seja estabelecida. O primeiro passo deste estudo é analisar a construção social do currículo e entendê-lo como “conflito social”, mapeando diferentes níveis e cenários entre o currículo prescrito e o currículo como atividade na sala de aula; nesse caso, entre o currículo escrito (teoria) e o currículo ativo (prática), como sugerido por Ivor Goodson (2000). Isso significa que Goodson não abre mão, nessa análise, das prescrições curriculares, do que foi adotado e está escrito nos programas disciplinares. Esses elementos teóricos auxiliam na observação das relações mais “externas” ao processo de constituição da disciplina, travando as relações institucionais e políticas produzidas no trato com a constituição dos currículos dos primeiros cursos de formação em Educação Física no Brasil. Como já sinalizado anteriormente, a presença da educação física, sobretudo a que se referia à prática da ginástica e posteriormente dos esportes, já vinha se estabelecendo na escola desde meados do século XIX no Brasil. Isso significa que os primeiros cursos de formação foram criados pela necessidade, ainda frágil, mas já 78 estabelecida, da disciplina educação física escolar. Daí ser possível inferir que é o processo de institucionalização da educação física na escola que desencadeia a necessidade de especialização desse instrutor/professor advindo tanto dos corpos da tropa quanto do âmbito civil. Esses agentes sociais, localizados nos diferentes cursos de formação, nas revistas especializadas, nos congressos e no Estado, tentam, ao longo da década de 1930, assegurar a importância da educação física e com ela sua legitimação nos diferentes âmbitos sociais. A história vista como “evolução”, como representada no documento da Divisão de Educação Física, se expressa, nessa trama, como recurso para o fortalecimento da ainda “frágil” educação física que tenta se legitimar ao longo dos anos 1930 e também como elemento constituinte da tentativa de legitimação de um campo disciplinar que se perspectivava nos primeiros cursos de formação. Nessa lógica, a História da Educação Física tem uma dupla identidade: ser um recurso de legitimação legal da educação física no âmbito do Estado Novo no Brasil e ser parte da identidade de um campo disciplinar na formação de professores. 2.2 O lugar de fronteira dos primeiros cursos de formação em Educação Física: entre o técnico e o superior Entendo que a compreensão da disciplina HEF passa necessariamente pelo entendimento mais amplo da formação profissional pensada para a educação física no período, e pelo necessário aprofundamento da análise dos cursos ofertados pelas primeiras instituições brasileiras, que tinham como finalidade o aperfeiçoamento de professores. Os estudos produzidos sobre as primeiras instituições de formação em educação física no Brasil, tais como os de Amarílio Ferreira Neto (1998, 1999) e de Dirce Silva (1996, 1997), são importantes para o entendimento da história institucional, no entanto, não levam em consideração o cotidiano dessas instituições, as rotina e as práticas que nelas se realizavam por meio de seus currículos e disciplinas. Mais atentos ao processo histórico institucional, às suas origens e às influências externas que consolidaram tais instituições, esses estudos tratam os cursos como apêndice e, de forma genérica, apresentam suas finalidades em concordância com as perspectivas de seus primeiros fundadores. A formação profissional em educação física nesses estudos e em outros, tem sido, na historiografia da área, explicada pela constituição das instituições e não necessariamente do que foi nelas produzido como conhecimento a ser veiculado. Compreendo que a aproximação do cotidiano desses primeiros cursos através da análise de seus currículos é fundamental para a compreensão das finalidades da disciplina HEF, objeto desta tese. 79 Os estudos sobre a formação de professores no ensino superior no Brasil costumam definir as políticas do Estado Novo como marcos do estabelecimento da formação superior na Educação Física Brasileira, tendo a Educação Física sua culminância com a criação da ENEFD em 1939 na Universidade do Brasil, criada em 1937, pelo então ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema. Tais estudos 62 não observam, contudo, de forma mais próxima, se os currículos dos cursos especiais em educação física – de instrutores, monitores ou para professores – ministrados anteriormente, se aproximavam ou não da chamada formação “superior”. É certo que a iminência da formação de professores vinha acontecendo desde o final do século XIX quando do estabelecimento da cadeira de gymnastica nas escolas. Na tentativa de formar o professorado para atuar no ensino primário, as Escolas Normais surgem como forma de disseminar a higiene, a disciplina e a eugenia, sendo a gymnastica uma das formas de promover o aperfeiçoamento físico do professorado e também de preparar as professoras para o exercício do magistério (VAGO, 2010, p. 128). Tarcísio Vago (2010) lembra que o enraizamento da disciplina Educação Física nas escolas fez com que houvesse necessidade da formação de um campo profissional do magistério primário, sendo por isso constituídas as comunidades profissionalizadas para atuar nas escolas ao longo dos anos 1920 em Minas Gerais. Outros estados como Minas Gerais também assumiram o protagonismo dessa formação, tendo a Educação Física como disciplina na formação nas Escolas Normais e também nas Inspetorias de Ensino estaduais, como é o caso analisado por Silva (2009). A instituição da EEFE tenta regular essa formação de professores de Educação Física a partir de diretrizes nacionais, almejando, dessa maneira, normatizar o especialista a partir de um currículo mais ampliado que o das formações anteriores e fundamentado em práticas “científicas”. A formação em Educação Física tem, no funcionamento do Curso Provisório da Escola de Sargentos, a partir 1929, e na posterior criação da EEFE em 1933, lugar importante para a disciplina considerando o Histórico da Educação Física como um programa disciplinar, ou como sugere Goodson (1990), um “guia” organizado a partir de uma estrutura disciplinar, tendo como finalidade o ensino. A formação “científica” proposta pela EEFE era pautada na eugenia como lembra Silva (2012). A Educação Física no CMEF, apesar de existir desde 1922, se manteve como formação para os “corpos da tropa” sem ter conseguido formar uma primeira turma de 62 Cf. ÂNGELA AZEVEDO, 2013; CELSO CASTRO, 1997; SOUZA NETO et al., 2004, BENITES et al., (2008). 80 instrutores, devido a seu fechamento por conta da “revolução”63 do mesmo ano. O CMEF só volta a funcionar em 1929, quando “o problema da Educação Física” entra em processo de efetivação no interior do Exército e na sociedade civil, impulsionado pelas Reformas da Instrução Pública promovidas por Fernando de Azevedo na Capital Federal (FERREIRA NETO, 1998, p. 78-81). Ao considerar que só é possível pesquisar a disciplina HEF através dos primeiros cursos de formação em Educação Física, não desconsidero que o debate sobre História da Educação Física já vinha sendo explicitado em publicações que tinham, ainda no período anterior, a Educação Física como tema, como em Da Educação Física de Fernando de Azevedo e os pareceres de Rui Barbosa, anteriormente discutidos. Os debates sobre a criação de uma universidade no Brasil, dos anos 1920 até a redemocratização em 1945, são momentos complexos da vida brasileira, marcados pela transferência de foco dos governos estaduais para o âmbito nacional (MENDONÇA, 2000). A necessidade de formar professores para atuação no magistério também ganha centralidade a partir de 1920 e o debate sobre a universidade no Brasil se instaura a partir de duas entidades: a Academia Brasileira de Ciências (ABC), de 1922, e a Associação Brasileira de Educação (ABE), instituída em 1924 (FÁVERO, 1999; ROTHEN, 2008). Essas entidades, segundo Fávero (1999), estavam comprometidas com um movimento mais amplo pela modernização do sistema educacional brasileiro em todos os níveis, incluindo o universitário. Um desses reflexos é o “Estatuto das Universidades” que, em 1931, traduzia algumas diretrizes resultantes dos debates iniciados nos anos 1920 na ABC e na ABE. No mesmo período em que a EEFE se constituía como lugar importante na formação dos primeiros quadros de professores militares e civis em Educação Física, começa a se delinear no Brasil, nos anos 1920, a instituição da Universidade do Rio de Janeiro (URJ), que incorporou em universidade as Escolas Politécnicas e de Medicina do Rio de Janeiro, garantindo autonomia didática e administrativa, porém sem estabelecer de uma integração entre elas. Fávero (2006) afirma que a criação dessa primeira universidade reacende o debate sobre o problema universitário no Brasil. Na década seguinte e em meio ao Governo Provisório de Getúlio Vargas, em 1930, é criado o Ministério da Educação e Saúde Pública, que tem Francisco Campos como primeiro titular. Campos promulga um decreto em 1931, denominado de “Estatuto das universidades brasileiras”. É a partir desse estatuto que a ideia de universidade no Brasil começa a ganhar forma, não mais composta apenas por faculdades 63 A Revolução de 1922, mais conhecida como Revolta dos 18 do Forte de Copacabana foi a primeira revolta do Movimento Tenentista. O levante ocorrido em julho de 1922 no Rio de janeiro reivindicava, entre outros, o fim das oligarquias latifundiárias no poder. O levante foi organizado por setores de baixa patente das forças armadas como tenentes, sargentos, cabos e soldados. Ver mais em Fausto et al (2000). 81 isoladas. Na mesma data, foram baixados mais dois decretos-lei: o que criava o Conselho Nacional de Educação (CNE), que tratava da “Organização da Universidade do Rio de Janeiro” (URJ) e o “Estatuto das Universidades”, que congregaria em unidade universitária pelo menos três dos seguintes institutos de ensino superior: Faculdade de Direito, Faculdade de Medicina, Escola de Engenharia e Faculdade de Educação, Ciências e Letras. A referida reforma tinha como principal foco a inovação e a inclusão das escolas que iriam compor, na universidade, uma Faculdade de Educação, Ciências e Letras como uma instituição híbrida que se caracterizaria como órgão de alta cultura e também de formação de professores para o ensino normal e secundário (MENDONÇA, 2000, p. 138). Embora a Reforma Francisco Campos recomendasse desde 1931 a criação da Faculdade de Educação, Ciências e Letras e sua inserção na Universidade do Rio de Janeiro, somente em 1934 o governo do Estado de São Paulo criou a USP, incluindo nesta algumas escolas superiores já existentes (LOPES, 2008). Um ano depois, na cidade do Rio de Janeiro, então capital do país, se instituía a Universidade do Distrito Federal (UDF), que tinha como uma das principais finalidades a propagação do ensino nas escolas e a formação de profissionais do magistério como uma premissa. Nesse contexto, Mendonça (2002) e Lopes (2008) afirmam que a UDF se consagrou como a culminância de um processo iniciado com a transformação da antiga Escola Normal em Instituto de Educação em 1932, com a criação da Escola de Professores em nível superior, para promover a formação do magistério primário e secundário do Distrito Federal. Três anos mais tarde, a Escola de Professores seria vinculadaà UDF sob a denominação “Escola de Educação” tendo Anísio Teixeira como seu principal articulador. A ABE como lugar de interlocução com as propostas de institucionalização das universidades e com a formação em Educação Física entre militares e civis também merece atenção nesse momento. O VII Congresso Nacional de Educação realizado em 1935 teve como temática principal a Educação Física. Meily Linhales (2009b) relata a dificuldade encontrada pela ABE em agregar educadores em um momento de grande tensionamento político que, prenunciando o Estado Novo, conferia à Educação Física o estatuto de causa nacional. O VII Congresso Nacional de Educação realizado no Rio de Janeiro incluiu em sua programação um vasto conjunto de exposições, visitas, paradas, desfiles, passeios e espetáculos musicais, tornando questionável o caráter acadêmico de sua proposição. Nesse complexo quadro de interesses e escolhas, a programação acadêmica propriamente dita parecia não possuir grande destaque. Não tinha o entusiasmo das visitas e demonstrações e nem o relevo político da reunião dos dirigentes estaduais 82 com o ministro. As correspondências recebidas e enviadas durante a preparação do VII CNE, bem como as notas divulgadas na imprensa nos dias do evento, não ressaltam nenhuma grande tese ou proposições formuladas para a Educação Física. (LINHALES, 2009a, p. 243). Apesar de a programação acadêmica do VII CNE não possuir grande destaque, é interessante observar que as “teses” e “Sessões ordinárias” apresentadas no evento estão preocupadas em apresentar a “organização da educação física” e sua normatização em departamentos, escolas e cursos nos diversos estados brasileiros. Tendo presentes professores e instrutores de vários estados, alguns trabalhos se dedicam a dizer da fundação, organização e funcionamento desses cursos. As teses que versavam sobre a Organização dos institutos ou Escolas de Educação Física sugerem, ao final, a difusão dos cursos que já existiam no país. Isso se daria com a criação de mais cursos de aperfeiçoamento e o aprimoramento dos cursos já existentes. O discurso do Dr. Pedro Ernesto, então prefeito da cidade do Rio de Janeiro, na Sessão Inaugural do VII Congresso Nacional de Educação, mostra que essa reorganização na formação dos professores passava pelo aspecto do nível de ensino também caracterizados na Reforma Francisco Campos: o ensino técnico-profissional e a universidade. Tendo fundido o ensino secundário com o ensino profissional, a formação de uma escola técnica secundária representaria para o Brasil os “princípios de uma escola secundária moderna”. Essa transformação da antiga escola profissional teria sido acompanhada de uma ampla reorganização do preparo do magistério quando a antiga Escola Normal foi substituída pelo Instituto de Educação. Essa “escola de professores” passaria a preparar a formação dos profissionais sob “novas bases, novos métodos e novos programas”. A transformação dessa escola em Universidade, nesse caso a UDF, para o prefeito Pedro Ernesto teria “revolucionado” o Distrito Federal (ERNESTO, 1935). Conectadas a esse contexto de emergência na formação de professores civis e tendo a Educação Física consolidada no interior da instituição militar, como lembra Castro (1997), cursos de formação em Educação Física para civis e militares são instaurados em diferentes instituições e estados no Brasil no mesmo período. O CMEF, posteriormente EEFE, desde 1929, se constitui como polo disseminador da formação, tanto de militares quanto de civis, em Educação Física para outros estados do Brasil. O Curso Provisório de 1929, transformado em EEFE, no decreto-lei n.23.252 de 19 de outubro de 1933, instituía o funcionamento de cursos de instrutores e monitores de educação física, mestre de armas e monitores de esgrima, especialização em educação física para médicos e curso para massagistas desportivos (A CRIAÇÃO da Escola de Educação Física do exército, 1933) 83 A expansão desse ensino se inicia no ano de 1930 quando o Ministro da Guerra transfere o CMEF para a Fortaleza de São João dotando-o de material necessário e de recursos humanos. Esse projeto militar de expansão da educação física teria, além dos cursos, a circulação da Revista de Educação Física como uma forma de estabelecimento de princípios sobre a escola, a educação e o corpo (FERREIRA NETO, 1999, p. 50). Implementar a Educação Física para a tropa e para a sociedade civil era uma das metas da constituição de uma “pedagogia do Exército” para a Educação Física, segundo Ferreira Neto (1999), sendo a difusão dessa prática importante para o Gabinete da Guerra. Essa difusão tinha no CMEF o mais alto grau de especialização para o período e como um dos objetivos, a ampliação das práticas de Educação Física “militares” também para o meio civil. Os discursos da modernidade, da educação e da eugenia são algumas conexões utilizadas pelos militares para tratarem da afirmação da EEFE no âmbito civil. Como em todas as causas nacionais, nesta também o exercito não agiu isolado do elemento civil, interessado na cruzada empreendida pelos representantes de escolas do meio educacional do país. Em 1930, era já o CMEF uma explêndida afirmação [...] entre os estabelecimentos modernos do ramo educacional a que se filiou. [...] a criação da Escola de Educação Física é o avanço mais audaz e decisivo para a vitória do empreendimento em prol do nosso aperfeiçoamento racial (ABREU, 1933, s/p). O Capitão Antônio M. Molina (1935), ao discorrer sobre como a EEFE atuou “em prol” da Educação Física nacional lembra que, ainda em 1929, Fernando de Azevedo, então Diretor da Instrução Pública do Distrito Federal, obteve do Ministro da Guerra permissão para que professores públicos fossem matriculados na EEFE. Segundo Molina, seria desse momento “o início da corporificação da Educação Física no meio civil” (MOLINA, 1935 p. 05). Essa aproximação de Fernando de Azevedo com a EEFE continua a acontecer após sua transferência para São Paulo. Como diretor da Instrução Pública paulista, Azevedo continuou enviando professores para fazer o Curso de Educação Física na EEFE, no Rio de Janeiro. Imagens de professores públicos do estado de São Paulo, matriculados no CMEF em 1933 e de professores públicos do Distrito Federal, também diplomados pelo CMEF em 1929, aparecem ao lado da imagem de Fernando de Azevedo na Revista Educação Física do Exército (BONORINO, 1932). É por meio desse contexto institucional da formação de professores que é possível narrar o estabelecimento da HEF como disciplina. O tenente posterior, Capitão Laurentino Lopes Bonorino, um dos sujeitos centrais na trama da disciplina HEF, escreve um artigo exaltando o pioneirismo de Fernando de Azevedo no meio educacional (BONOMIRO, 1932), lembrando que em 1929, na então “memorável” reunião do Ministério da Guerra, onde havia 84 sido tratada a difusão da Educação Física e sua obrigatoriedade no Brasil, Fernando de Azevedo “teve papel destacado na defesa de suas ideias”, que já seriam consubstanciadas em diversos trabalhos publicados. Bonorino sabia da importância política e intelectual de Fernando de Azevedo para a institucionalização da Educação Física dentro e fora do Exército. Com o intuito de manter a influência do exército para além dele, o Capitão Bonorino lembra que Azevedo, naquela reunião, teria dito ser “mister e preliminar a preparação de instrutores” para que a obrigatoriedade da Educação Física se perpetuasse na escola brasileira. Daí a articulação para o envio dos professores públicos do Distrito Federal, em 1929, para a formação no então Centro Provisório de Educação Física (BONOMIRO, 1932). No mesmo artigo, Bonorino, além de anunciar o envio dos professores públicos de São Paulo por Fernando de Azevedo, faz votos para que “o grande educador possa levar a tarefa até o fim: criar a Escola do estado [...]”(BONOMIRO, 1932, s.p.). Criada pelo Departamento de Educação Physica do Estado de São Paulo (DEF), a Escola Superior de Educação Physica do Estado de São Paulo, citada por Bonorino em 1932, só entraria em vigor em agosto de 1934 com os cursos de “instructores de gymnastica” e de “professores de Educação Physica”. Os instructores de gymnastica recebem, num anno de curso, os ensinamentos básicos, quer theoricos, quer práticos, para ministrarem o ensino e a pratica da physiocultura. Mas para alcançarem o título de professores de educação physica precisam estudar mais um anno, sahindo da escola, então habilitados a serem verdadeiros directores de educação physica, nos colégios ou clubs desportivos. (Escola Superior de Educação Physica do Estado de São Paulo, 1936, s.p.) O Departamento de Educação Física do Estado de São Paulo já havia, no ano de 1931, realizado “dois cursos sumários” de Educação Física: um deles de “caráter rápido” e outro “mais desenvolvido conquanto ainda elementar para professoras da Capital”. Porém, em 1933, o Departamento de Educação Física do estado foi extinto e foi criado o Serviço de Educação Física, subordinado ao também recém-criado Departamento de Educação, que substituía a Diretoria Geral do Ensino. Dirce Silva (1997) salienta que a extinção do Departamento teve relação política com a Revolução Constitucionalista de 1932 64 . Mesmo com toda essa mudança, Fernando de Azevedo não teria conseguido com essa medida dar “mais eficiência” ao Serviço de Educação Física. Em 1934, o Departamento de Educação Física foi então restituído e, com ele, instalada a Escola Superior (HISTÓRICO do Departamento de Educação Física do Estado de São Paulo, 1936). 64 A Revolução Constitucionalista de 1932, também conhecida como Guerra Paulista ocorreu entre julho e outubro de 1932 e teve como objetivo a derrubada do Governo Provisório instaurado por Getúlio Vargas em 1930. A Revolução Constitucionalista se caracterizou por uma resposta paulista à Revolução de 1930 que havia acabado com a autonomia que os estados gozavam desde a constituição de 1891, sendo esta invalidada. Ver mais em Fausto et al (2000). 85 O Dr. Arne Enge, quando apresenta, em 1935, trabalho sobre a organização dos serviços do DEF de São Paulo na segunda sessão ordinária do VII Congresso Nacional de Educação, comenta ser a Escola de Educação Física de São Paulo uma instituição destinada a formar “professores técnicos” de Educação Física e que esta, para iniciar suas tarefas, havia recebido dez professores da EEFE. O Diretor do DEF de São Paulo, afirmando estarem em “contacto permanente” com a EEFE, ressalta que eram dessa Escola as normas e diretrizes da Escola Superior de São Paulo (ENGE, 1935). Desde 1929, também em São Paulo, a Escola de Educação Física da Força Pública do estado formava praças e oficiais. Tudo indica que, mesmo tendo cursos de instrutores e monitores de Educação Física para a tropa, assim como a EEFE, essa Escola não se constituiu como um espaço de formação também para civis. Diferentemente da EEFE, a Escola da Força Pública, ainda em 1936, continuava diplomando “oficiais e inferiores”. Esses indícios mostram que Fernando de Azevedo opta por estabelecer relações para a formação de professores pela EEFE, ainda que em São Paulo já existisse uma “centenária corporação” empenhada na difusão da Educação Física também em âmbito militar (A EDUCAÇÃO Física na Força Pública de São Paulo, 1936). Aureo de Moraes, ao apresentar a Secção Feminina da Escola Superior de Educação Física de São Paulo, rotoma o discurso amplamente propalado sobre o “vanguardismo” daquele estado, lembrando que a preparação técnica em Educação Física naquela Escola Superior era para os professores que iriam estar a cargo “da educação da infância paulista” (MORAES, 1934, p. 15). As professoras primárias seriam as grandes beneficiárias dessa formação. Isso mostra que, diferentemente da EEFE, a Escola Superior de Educação Physica de São Paulo estaria mais conectada ao “Movimento dos Pioneiros” e ao debate da “Escola Nova”, quando é considerado relevante o “problema” da falta de professores formados em Educação Física para infância. A criação da USP, também em 1934, preserva características que se aproximam da Escola Superior de Educação Physica do Estado de São Paulo. Ainda que esta não tivesse sido incorporada à USP, o que veio a ocorrer apenas em 1969, chama atenção a preocupação de ambas com a formação do magistério. Lopes (2008) atenta para a aproximação existente entre a USP e a UDF, constituídas como expressões do ideário do “Manifesto dos Pioneiros”, voltadas tanto para a pesquisa científica quanto para a formação de professores. O debate acerca da Associação de Professores de Educação Física de São Paulo, fundada em julho de 1935, põe em cheque a questão central que ainda permanecia mesmo com o advento dos cursos de formação: “a aquisição de instrutores habilitados de educação 86 física”. A ausência de uma Escola de Educação Física em São Paulo, em 1933, não havia permitido formar “instrutores” suficientes para suprir a demanda do magistério. Tomando como exemplo o envio de professores públicos por Fernando de Azevedo, em 1929, o autor dizia ser necessário que o exemplo se repetisse em 1933, reiterando a EEFE como o lugar para essa formação 65 . Até o ano de 1936, a Escola Superior já havia diplomado, entre instrutores e professores, “mais de cem rapazes e moças”66. Ainda que adjetivada como “vanguardista” e “pioneira”, em 1935, um ano depois de sua criação, a Escola Superior de Educação Physica de São Paulo envia seus alunos para estágio na EEFE, assim como já ocorrido em 1929 no Distrito Federal e em 1933 na Instrução Pública de São Paulo. Noticiada como excursão de “caráter científico a estabelecimentos congêneres”, o estágio na EEFE era uma forma também de seus ex-alunos, agora professores em São Paulo, retornarem ao Rio de Janeiro. O aparente duplo movimento, de estágio dos alunos e da formação continuada de seus professores, é perceptível nas práticas realizadas: conferências sobre matérias teóricas lecionadas, demonstrações práticas de Educação Física e de esportes, visitas a estabelecimentos técnicos no Rio de Janeiro, acompanhadas da assertiva de que em seu quadro docente havia dez professores diplomados na EEFE 67 . Ainda que noticiando com fervor a Escola de Educação Physica de São Paulo, lembrando que ela teria sido fundada “em moldes semelhantes” aos da EEFE68, a Revista de Educação Física do Exército assegura à EEFE um lugar mais autorizado para essa formação quando expõe que, apesar de estar “bem provida” de instrutores (dez deles diplomados pela EEFE), esta ainda não teria constituído um bom serviço de inspeção médico-desportiva e de controle periódico de resultados, por não dispor de médicos especializados já em 1936 69 . Fernando de Azevedo, como Diretor de Educação de São Paulo, ainda que criando uma escola de caráter civil, não perde os laços com os militares, e continua a enviar estudantes e professores para estágios na EEFE. Pouco expressivo como uma troca acadêmica, os estágios no Rio de Janeiro pareciam mais uma forma de qualificar a formação, sobretudo aquela relativa aos aspectos médicos. Reconhecidamente lugar de produção de 65 A ASSOCIAÇÃO, 1936, p. 16-17. 66 ESCOLA, 1936, p. 77-80. 67 A ASSOCIAÇÃO, 1936. Os professores diplomados na EEFE atuantes na Escola de Educação Physica de São Paulo são Alvaro Cardoso, João França, Idílio Alcantara de Oliveira Abade, José Benedito Madureira, José Benedito de Aquino, Jarbas Sales de Figueiredo, Alfredo Giorgietti, Pedro Alísi, José Vilela Bastos e Antonio de Castro Carvalho. 68 A ESCOLA, 1935, s.p. 69 A ASSOCIAÇÃO, 1936, p. 16. 87 práticas “científicas” ligadas às ciências laboratoriais como a Biometria e a Biotipologia (GOMES; SILVA; VAZ, 2013), a EEFE seria o lugar autorizado e possivelmente reconhecido por Fernando de Azevedo para o complemento dessa formação. Reconhecendo em Da Educação Física a importância da eugenia como conhecimento inerente à Educação Física, é de se esperar que Azevedo, ao não dispor de médicos especializados em São Paulo, confiou à EEFE, ao seu Departamento Médico e ao Gabinete de Biometria o complemento a essa formação. Era necessário imprimir em São Paulo uma “feição científica” da Educação Física que já existia na EEFE, pautada nas práticas de medidas e classificações de aspectos morfológicos e fisiológicos do corpo, tanto para as tropas do Exército quanto para os alunos da escola (GOMES; SILVA; VAZ, 2013, p. 1557). Preocupada com o espraiamento e também com o controle da formação em Educação Física pelo país, a Revista de Educação Física do Exército noticia o desenvolvimento dos Departamentos e Inspetorias de Educação Física no Espírito Santo, São Paulo, Pernambuco, Minas Gerais e Pará 70 . Com intuito de mostrar a difusão dos cursos de formação nesses estados e também de apresentar que essa difusão era realizada por professores diplomados no CMEF no Rio de Janeiro, a revista se empenha em noticiar “o avanço” da Educação Física pelo Brasil. Também é possível observar no VII Congresso Nacional de Educação, em 1935, esse esforço de apresentar o avanço da Educação Física pelos estados da federação. Promovido pela ABE e tendo como tema a Educação Física, os trabalhos apresentados nas “sessões ordinárias” se incumbem da divulgação da organização dos serviços de Educação Física em São Paulo e no Espírito Santo. Normalmente apresentados pelos Diretores das Escolas de Educação Física, nos trabalhos é possível verificar a trajetória de constituição desses cursos e seus programas entre 1931 e 1935. Criado no mesmo ano que o Departamento de Educação Física de São Paulo, o Departamento de Cultura Physica do Estado do Espírito Santo, instaurado em 1931, realiza o Curso Especial de Educação Physica. Amplamente noticiado na Revista de Educação Física do Exército, a Inspetoria do Estado, ao realizar o Curso Especial de Educação Física, parece mais sintonizada com as práticas da EEFE do que a também recém-instituída Escola Superior de Educação Physica de São Paulo. O Curso Especial de Educação Física do Espírito Santo é declaradamente criado à luz do CMEF no Rio de Janeiro. A Inspetoria do Estado do Espírito Santo, promotora do curso de formação, teria o papel de vulgarizar, orientar, controlar e 70 A CRIAÇÃO, 1934, p.02. 88 fiscalizar a prática da Educação Física em todos os estabelecimentos de ensino, abrindo anualmente as portas a um Curso Especial com programas nos moldes da EEFE 71 . Se o Curso de São Paulo se aproximava mais da formação de professores, no Espírito Santo (assim como a EEFE) havia, anteriormente a essa preocupação, a necessidade da formação de militares (SILVA, 1997, p. 165). No Espírito Santo, além dos cursos destinados aos professores das instituições públicas, o curso de monitores era realizado principalmente para as instituições militares, ainda que estes também se ocupassem da escola. O curso de professores busca habilitar o professorado a ministrar educação física nos estabelecimentos estaduais de ensino e o curso de monitores preparar sargentos e guardas civis para auxiliares desta instrução nas suas corporações e eventualmente nos estabelecimentos de ensino do Estado 72 . O curso de instrutor e monitor de Educação Física na EEFE recebia alunos civis, o que aparentemente não acontecia no Espírito Santo a princípio, sendo o curso de monitores destinado a militares e o de instrutores e professores a civis. Os históricos escolares dos alunos da EEFE de 1929 a 1938 mostram que, desde 1929, ano da criação do Curso Provisório de Educação Física, há civis em ambos os cursos, de instrutores e de monitores de Educação Física. É interessante lembrar que, embora se ocupasse da formação civil, a EEFE não criou cursos específicos para a formação de professores, diferentemente do Departamento de São Paulo e do Estado do Espírito Santo, que criaram cursos específicos para a formação do professorado e, nestes, visitas e estágios à EEFE como forma de complementar a formação 73 . O Estado do Espírito Santo, no entanto, seria o local onde a Educação Física estaria sendo encarada com “maior seriedade pelos seus dirigentes”, de acordo com os editores da revista. Os cursos de Educação Física, que em 1933 já haviam diplomado 46 professores primários, “estenderiam às 10.000 crianças o benefício oriundo da educação física” e ainda disseminariam sua prática para o interior do estado 74 . Os dirigentes, segundo a revista, estariam atentos ao problema do “futuro da raça”, não poupando esforços para produzir “ótimos resultados” para a causa nacional75. Os Capitães Carlos Marciano de Medeiros e Horácio Candido Gonçalvez, ambos diplomados pela EEFE, seriam os grandes responsáveis pela organização da Educação Física 71 A EDUCAÇÃO FÍSICA, 1933. O QUE, 1934 72 Justificação as diretivas para os programas dos cursos de professores e monitores escrita por Horacio Gonçalves – Dir. Tecnico, 25 de outubro de 1933. Arquivo Permanente CEFD-UFES. 73 IMAGENS, 1935. 74 A EDUCAÇÃO FÍSICA, 1933, p. 09-10. 75 O ESTADO, 1936, s.p. 89 naquele estado, que teria sido o primeiro a organizar uma Escola de Educação Física “nos moldes” da EEFE76. Heitor Rossi Bélache, Inspetor Chefe da EF do Estado do Espírito Santo, apesar de apresentar uma contínua ampliação da formação de professores, mostrando que em 1935 já existiam “84 instructores especializados”, deixa claro que ela ainda não se estendia para todo o professorado, mostrando ser insuficiente o número de professores especializados para todo o estado 77 . A visibilidade da formação de professores era dada através da Revista de Educação Física do Exército que noticiava como em cada estado da federação estavam sendo formados “núcleos de entusiastas” que agiam com fins “patrióticos” para a difusão da Educação Física “moldada em preceitos científicos” no território nacional. É recorrente, no discurso militar, através dos redatores da Revista de Educação Física do Exército colocar a EEFE no papel de propugnadora desse processo de formação como “corresponsável” pela educação e pela formação de professores. Se, de acordo com a Revista de Educação Física do Exército, os cursos do Espírito Santo e de São Paulo seguiam preceitos inspirados na EEFE, o mesmo não acontecia com o curso intensivo para professoras normalistas de Minas Gerais, proposto por Renato Eloi de Andrade, então Inspetor de Educação Física do estado. Ao publicar os programas, Renato Elói de Andrade diz ser a finalidade do curso “preparar intelectual e tecnicamente as professoras, capacitando-as a bem desempenharem as funções do magistério mineiro sob orientação moderna e científica”78 . Em 1943, Lourenço Filho, então diretor do Instituto Nacional de Estudos pedagógicos (INEP), envia ofício ao Ministro da Educação, Gustavo Capanema, atendendo à sua solicitação sobre a relação de órgãos especializados para a orientação da educação física nas escolas primárias brasileiras e sua situação em diferentes estados até aquele momento. Arrolando uma lista extensa e analisando os decretos de cada estado, Lourenço Filho escreve de próprio punho no final da primeira página: “como se vê, das 22 unidades federativas, 13 já possuem órgãos especializados para difundir e orientar a educação física nas escolas primárias. Todos criados depois de 1930” 79. Lourenço Filho se referia aos diversos Departamentos, Inspetorias e Diretorias de Ensino criadas ao longo dos anos 1930 80 . 76 O ESTADO, 1936, s.p. 77 BÉLACHE, 1937, p. 19. 78 ANDRADE, 1934, p.25. 79 Ofício de Lourenço Filho ao Ministro Gustavo Capanema. 17/07/1943. Arquivo Gustavo Capanema CPDOC/FGV 80 Orgãos especializados nos estados e DF. Ofício de Lourenço Filho ao Ministro Gustavo Capanema. 17/07/1943. Arquivo Gustavo Capanema CPDOC/FGV. Departamento de EF do Pará (decreto 1.138 de 30/12/1933), Inspetoria de EF do Piauí (lei n.168 de 03/03/1939), Inspetoria de Educação física e artística da Paraíba (lei n.16 de 13/12/1935), Inspetoria de Educação Física, Recreação e Jogos escolares da Bahia (decreto 90 A longa exposição acompanhava o tratamento dado à educação física nos diversos estados onde havia “serviços de educação física”, mas onde os decretos ainda não teriam acontecido, ou em que ainda não havia “serviço especializado”. As análises do INEP eram repassadas para a Divisão de Educação Física diretamente por Capanema como forma de atualizar os dados sobre a educação física nacional, entre os quais os relativos à criação de escolas e cursos. O ofício enviado por Capanema ao Diretor da divisão em 1945 81 apresenta as “Escolas de Educação Física” fundadas anteriormente à ENEFD, em 1939. Nessa listagem, além das Escolas da Marinha e do Exército no Rio de Janeiro, das de São Paulo e do Espírito Santo, aparecem também os estados de Santa Catarina e do Piauí – Santa Catariana com um “Curso provisório” criado em 1938 e Piauí com o “Curso Especial”, criado em 1939. Pelo documento de Anísio, em 1943, é possível perceber que as Inspetorias de Educação Física de ambos os estados teriam sido criadas no mesmo ano do início desses cursos. A criação de Inspetorias, Departamentos e Diretorias de Educação Física era forma de regular e promover no âmbito estadual a Educação Física, sobretudo aquela destinada ao ensino primário. O curso de formação vinculado à Inspetoria de Minas Gerais não foi tomado como referência pela Divisão de Educação Física como um dos cursos que “antecedem a ENEFD” em 1939. Da mesma forma é possível que em diversos outros estados já fossem ministrados cursos sem o mesmo reconhecimento, apesar de documentados na Revista de Educação Física do Exército como é o caso do curso de Minas Gerais. Este é invisibilizado pelo Estado Novo mais de dez anos após a sua criação, em 1945, como é possível observar no ofício de Capanema para a Divisão nesse Relatório do INEP. Giovanna Silva (2009), ao analisar a Inspetoria de Educação Física de Minas Gerais, discute melhor as contingências de sua criação, em 1927, ligadas à formação de professores a partir da Reforma do Ensino Primário em Minas Gerais. A qualificação das professoras foi assunto de relevo para a Inspetoria, que investiu na organização de cursos intensivos para a formação docente desde 1928. Os cursos podem ser divididos em dois momentos: o primeiro compreendendo os realizados entre 1928 e 1932 e o segundo abrangendo os cursos intensivos n.10.478 de 24/12/1937), Diretoria de Educação Física do Espírito Santo (decreto n. 10.330 de 20/03/1939), Divisão de Educação Física do rio de Janeiro (decreto n.784 de 12/06/1939), Serviço de Educação Física do DF (decreto n. 6.641 de 14/03/1940), Departamento de Educação Física de São Paulo (decreto n.6.583 de 01/08/1934), Serviço Municipal de parques infantis de São Paulo (ato n. 861 de 30/05/1935), Inspetoria de Educação Física do Paraná (decreto n.846 de 10/04/1931), Inspetoria de Educação Física de Santa Catarina (decreto n.125 18/06/1938), Departamento de Educação Física do RS, (06/05/1940), Inspetoria de Educação Física de MG, (decreto n. 11.411 30/06/1934), Diretoria de Educação Física escolar de PE (decreto n.606, 04/04/1941) 81 Ofício de Gustavo Capanema para Diretor da Divisão de Educação Física. 09/10/1945. Arquivo Gustavo Capanema. CPDOC/FGV 91 organizados em 1933 e 1934. Se, no primeiro momento, esses cursos eram uma forma de despertar no professorado o interesse por seu aperfeiçoamento, com um caráter mais prático, o segundo momento abrangeu um maior número de docentes, com professoras primárias também do interior do estado, e contou com uma estrutura organizacional melhor. Os cursos de 1933 a 1934 conferiam às professoras um certificado de especialização para o ensino de Educação Física nos grupos escolares e seus programas teriam extrapolado o caráter essencialmente prático que acompanhava as estratégias de formação do momento anterior. Tais cursos, ainda que localizados prioritariamente sob a égide dos governos estaduais através dos Departamentos de Educação Física, tinham do governo federal uma progressiva centralização marcada pelo Estado Novo. Entendo que esses cursos, configurados com maior ou menor influência da EEFE, via Ministério da Guerra, produziram sucessivas articulações, marcando a forma de ensinar educação física e sendo marcados pelas expressões políticas da sociedade. Portanto, é de se supor que tais expressões marcariam também a forma de organizar a disciplina HEF, muito próxima às propostas presentes nos documentos que vinham sendo publicados pela Divisão de Educação Física, como Pioneiros da Educação Física no Brasil (DIVISÃO DE EDUCAÇÃO FÍSICA, 1943) e “Evolução” (LEITE, 1937), já discutidos nesta tese, e que tinham como uma de suas finalidades ampliar a formação de professores no país. O fato de o Ministério da Guerra ter tomado a iniciativa de orientar a formação dos cursos de Educação Física, apoiados por um intelectual como Fernando de Azevedo, fez com que eles estivessem em um lugar de fronteira: eram tanto expressão de um debate educacional mais amplo, que vinha acontecendo desde a década de 1920, quanto marcadamente pautados pelo discurso nacionalista e disciplinador do Exército. Fernando de Azevedo ajudava a conferir autoridade política ao curso e o Exército agia no sentido de manter sua influência e reafirmar seus pontos de vista. A apresentação das instituições e dos diversos Cursos de formação, se faz necessária para a verificação da hipótese da “estabilidade” da disciplina HEF nos currículos, uma vez que, mesmo em instituições distintas, os cursos de formação acima citados até 1934 têm em comum o fato de terem em seus currículos a História da Educação Física como uma disciplina. O entendimento dessa trama institucional é fundamental para a análise dos currículos desses primeiros cursos, pois demonstra que há uma conexão de um movimento em prol da formação de professores que tem a HEF como uma das disciplinas desse quadro comum. Apesar de a primeira análise da disciplina estar necessariamente vinculada ao CMEF e à EEFE através do compêndio Histórico da Educação Física, estas não são as únicas 92 instituições que mobilizam esse conhecimento. Ainda que a Revista de Educação Física do Exército afirme que os demais cursos teriam surgido a partir das normativas da EEFE, é preciso perceber as semelhanças e as diferenças desses currículos e o lugar da disciplina HEF. Esse primeiro movimento da disciplina, descrito por Goodson (1990) como um período de “cabos e baías”, pode mostrar como a HEF começa a garantir lugar nos currículos das primeiras escolas, sendo estas de formação “técnica” ou “superior”. 2.3 Os currículos dos primeiros cursos de formação em educação física: o lugar da HEF O movimento em prol da formação de professores que vinha acontecendo em muitos estados para capacitar, sobretudo, o professorado primário, ganha vulto, a partir dos anos 1930, nos Departamentos, Inspetorias e Escolas de Educação Física mantidos em âmbito estadual e, em sua maioria, subordinados a Inspetorias de Educação. A EEFE, ainda que fora desse contexto estadual, representava, para as demais, um lugar de práticas legitimadas pelo governo federal e por ele incentivadas. Uma das finalidades da Divisão de Educação Física, órgão do MÊS, era de, em conjunto com os governos estaduais, estabelecer cooperação para a constituição da “unidade de doutrina”82, que ajudasse a organizar os conhecimentos científicos e pedagógicos dos cursos. A “unidade de doutrina” é tema recorrente na Revista de Educação Física do Exército por diversos autores ligados ao Exército. Ela se configuraria pela uniformização do ensino baseada, sobretudo, no Método Francês de Ginástica, que vinha sendo difundido pela EEFE desde o início da década de 1930 em seus cursos. O aperfeiçoamento e a especialização dos professores nos diversos estados seriam estimulados desde que se adaptassem ao modelo “doutrinário” também apropriado para organizar e fiscalizar a prática da educação física pelo Governo Federal, como lembra o documento. Partindo das afirmativas da Revista de Educação Física do Exército de que a EEFE traçou os moldes dos Cursos do Espírito Santo e de São Paulo, é possível, observando a distribuição curricular, analisar pormenorizadamente como cada instituição organizou sua formação. É fato que havia diversos professores dessas escolas egressos da EEFE e que esta, para Mauro Betti (1991), foi considerada “célula máter” da educação física no Brasil. Os cursos, porém, tinham tempos de duração muito distintos (EEFE – 9 meses, ES – 5 meses, SP 82 Ofício Major Barbosa Leite. Plano de ação para 1938 junto aos governos estaduais. Divisão de Educação Física, 14/12/1937. Arquivo Gustavo Capanema. CPDOC/FGV. 93 – de 1 a 2 anos e MG – indefinido), mas todos se dividiam basicamente em duas partes: teórica e prática 83 . O Curso de Instrutores e Monitores da EEFE tem a prescrição do ensino dividida em três partes: Ensino Geral teórico-prático, Ensino Prático e a parte do ensino, indicada no regulamento de 1933 da EEFE, que seria para excursões e visitas. O Curso Especial do Espírito Santo parece seguir também tais indicações, incorporando as indicações da EEFE, assim como o curso de professores de São Paulo. Apesar de dividido em duas partes: Ensino Geral e Ensino Prático, o terceiro item – as excursões e visitas – parece ter sido cumprido quando observamos a Coluna da Revista de Educação Física do Exército “Visitas à EEFE”. Imagens de professoras de Educação Física diplomadas no Espírito Santo em excursão e de professoras de São Paulo em estágio na EEFE aparecem junto a imagens das “diversas atividades desenvolvidas na EEFE” como práticas de atletismo, remo, práticas no gabinete biométrico, atividades ginásticas nos pórticos e visitas de delegações e federações esportivas 84 . O curso de professores de São Paulo, embora também se apresente metodologicamente dividido entre parte teórica e prática, tem duração de dois anos e, dos demais, é o que mais investe na dimensão pedagógica em sua estrutura e o que supostamente também mais se aproxima do caráter superior proposto pelo “Estatuto das Universidades” na Reforma Francisco Campos. O tempo de duração de dois anos, o diálogo mais próximo com a pedagogia, com a psicologia e a maior visibilidade aos esportes e à dança, acrescidos das disciplinas de cunho biológico e fisiológico presentes nos demais cursos, indica um aprofundamento teórico marcado tanto pelo currículo da EEFE quanto pela aproximação com o movimento educacional, tendo no magistério o foco de seu investimento. Na instalação da Escola Superior de Educação Física de São Paulo, ambos os cursos (para instrutores de ginástica e para professores) eram realizados em um ano, sendo a matrícula para o curso de professores permitida somente para alunos que já haviam se diplomado no curso de instrutores de ginástica. Essa aproximação com a formação mais conectada ao magistério, tendo a educação como pano de fundo, mostra que o curso de instrutores de ginástica não teria sido suficiente para os “formar técnicos especializados” que aquela educação física já exigia. Ampliado para dois anos de duração, o curso de professores conseguiria formar, com maior 83 O Curso do ES, com a instituição da Escola de Educação Física substituindo o Curso Especial daquele departamento, passa a ser de 9 meses a partir de 1934. Antes disso, segundo Heitor Rossi Bélache, eles duravam de 3 a 5 meses (BÉLACHE, 1935). 84 IMAGENS, 1935. 94 profundidade, “técnicos” melhores, instruídos para o ensino da “prática” da Educação Física nas escolas paulistanas (ENGE, 1935, p.64-65). Os cursos da EEFE e do Departamento do Espírito Santo, com duração de 9 meses e 5 meses, também prescrevem uma formação pedagógica, entretanto, parecem mais estruturados pelas ciências biológicas. Mesmo havendo disciplinas esportivas e pedagógicas em relação à Educação Física, disciplinas nomeadas a partir da rubrica “educação” inexistem. O que difere a Escola Superior de SP dos demais cursos é, sobretudo, a aproximação com o debate educacional, que confere um lugar de fronteira a essa formação: em que medida ela se caracterizaria como técnico-profissionalizante ou superior? Quadro 4 – Currículos dos cursos de Educação Física da década de 1930 1933 1933 – 1934 1934 1934 1 - Escola de Educação Física do Exército 2 - Dep. de Educação Física do Estado do Espírito Santo 3 - Escola Superior de Educação Physica de São Paulo 4 - Inspetoria de Educação Física de Minas Gerais Curso de Instrutores e Monitores de Educação Física. Curso Especial de educação física para professores e monitores. Curso de professores de educação física e instrutor de gymnastica Curso Intensivo de Educação física Duração: 9 meses Duração: 5 meses Duração: 2 anos (professores); 1 ano (instrutores) Duração: (?) Ensino divide-se em 3 partes: 1º Ensino Geral teórico- prático 2º Ensino prático 3º Excursões e visitas Primeira parte 1ª secção a)Biologia; anatomia e fisiologia dos grandes aparelhos; b)Quinesiologia c)Higiene d)Socorros de urgência nos acidentes desportivos 2ª secção a) Fisioterapia, ginástica ortopédica e massagem desportiva b) Pratica de morfologia, biometria e bio-estatistica a) Ensino geral b) Ensino pratico Matérias Teóricas: Anatomia e fisiologia aplicadas Higiene História da Educação física Pedagogia e metodologia da educação física Cionesiologia Biometria, biotipologia e estatística Socorros de urgência Materias praticas: Educação Física: execução Educação Física: direção Esportes individuais Esportes coletivos Ginastica rítmica Dansas regionais Coro orfeônico 1º anno: Parte pratica 1 – pratica do methodo francez de educação physica até o 2º grau do cyclo secundario 2 – Educação physica na edade madura 3- praticas higiênicas da velhice 4 – grandes jogos 5 – natação 6 – Dansas rythmicas Parte theorica: 1 – Pedagogia da educação physica 2 – Anatomia e physiologia dos grandes apparelhos 3 Mechanica animal e cynesiologia a)ensino geral das ciências relacionadas com a educação física b)ensino teórico-pratico dos assuntos propriamente específicos da educação física c)estudos complementares Das ciências relacionadas com a educação física constam noções das seguintes matérias: anatomia e antropometria aplicadas, fisiologia, ginástica ortopédica, fisioterapia, higiene e socorros de urgência. Didatica e pedagogia da educação física sob os títulos: 95 3ª secção a)pedagogia da educação física e desportiva com a parte previa de psico-pedagogia. Organização da educação física civil e militar b) Histórico da Educação Física em geral e no Brasil em particular. Estudos dos métodos. Segunda parte a) Educação física geral (todos os ciclos) e educação física militar; b) esgrima c) Desportos terrestres e aquáticos d) Práticade atuação como juiz de desportos Terceira parte Constará de visitas aos estabelecimentos de ensino ou desportivos e excursões que interessam direta ou indiretamente a educação física Art.36 – Este curso terá duração de 9 meses. Exames práticos: Educação Física, elementar, secundaria e superior 4 – Psichologia educativa 5 – Higiene 6 – História da educação Física 2º anno: Parte pratica 1 – Natação 2 – Cyclo superior do methodo francez de educação physica: esportes individuais e colletctivos 3 – dansas rythmicas Parte theorica: 1 – pedagogia da educação physica 2 – biologia, antropologia, morphologia e biometria 3 – Physioterapia e gymnastica ortopédica 4 – Accidentes esportivos, suas prevenções e socorros de urgência I – nomenclatura dos movimentos II – direção dos planos de movimentos III – fisiologia mecânica dos movimentos VI – progressão dos movimentos V – teoria e técnica da coonfecção das series de exercícios VI – valores psicológicos e fisiológicos das atividades usadas pela educação física quer sob o ponto de vista do educando, quer sob o ponto de vista da sua relação com a sociedade VII – estudos dos valores sociais das diversas atividades físicas 1 – marcha e callistenia, como fatores da educação do sentido, da beleza e do ritmo coletivo 2 – os jogos pequenos como elemento de expansão e exteriorização da personalidade 3 – os grandes jogos como elemento fundamental na educação e adptação das faculdades de assimilação e identificação do educando, com seus sentimentos, ideais e comportamento sociais. VIII – estudos e aplicações das possíveis habilidades da Educação Física como fator auxiliar do desenvolvimento intelectual: sua relação com todas as matérias do ensino e seus valores pedagógicos como auxiliares; seu papel como elemento de emulação e fixação de hábitos de higiene individual e social. IX – estudos das regras dos jogos desportivos; organização e administração da educação física escolar. 96 Estudos complementares constantes do item c) História da educação física em geral e, em particular no Brasil; estudo, confronto e crítica dos métodos de educação física universalmente conhecidos; organização escoteira aplicada a escola, a educação física como fator de socialização escolar, clubes e associações; campeonatos internos e externos; demonstrações e festas. Fonte: Regulamento da EEFE – 1933; Diretivas para organização dos programas do Curso especial para educação física 1933-1934/Arq. Perm. CEFD/UFES; Revista de Educação Physica do Exército, n.14, 1934; Revista Educação Physica, n.6, 1936; Revista de Educação Physica do Exército n.14, 1934. Em 1932, das várias propostas para a universidade brasileira, havia diversos debates sobre a criação de universidades técnicas ou universidades de trabalho. Em seu discurso de posse na pasta da Educação e Saúde, o Ministro Washington Pires dizia que o governo “revolucionário” pretendia realizar a organização do ensino técnico profissional e trabalhar diretamente pelo ensino primário. Nesse sentido, da “universidade clássica” fariam parte os cursos de ciências jurídicas, sociais, pedagogia, entre outros, e a universidade técnica, que englobaria as engenharias, o comércio, as usinas e demais, teria um “caráter profissional” (FÁVERO, 1980, p. 44). Apesar de a ideia de uma universidade técnica ou do trabalho não ter vingado, as práticas técnicas profissionalizantes permaneceram: os fins utilitários das formações, a prática como momento do ensino final a ser alcançado na formação, a teoria como justificativa para o fazer prático. O “Estatuto das Universidades”, em 1931, ao centralizar e nortear o ensino superior no Brasil, determinava que as Faculdades de Ciências e Letras se encarregariam da formação profissional dos professores secundários, uma vez que não havia, até então, uma instituição específica para fazê-lo. Nesse sentido, nomeadas como Escolas Superiores, tanto a instituição paulista quanto o Curso do Departamento de Educação Física do Espírito Santo se encarregariam naquele momento de uma formação “técnico-profissional”, pautando com maior ou menor profundidade o debate educacional em seus cursos, mas encarregadas de promover, na formação, especificidades teóricas e práticas de uma Educação Física que tinha 97 como elementos norteadores na educação do corpor a biologia e seus desdobramentos. Tais cursos aparentam ter uma maior aproximação com as chamadas escolas “técnico- profissionais”, advindas mais dos debates sobre o ensino secundário no Brasil do que com a ideia de Universidade de caráter superior também instituída na Reforma Francisco Campos. Mais aproximados da formação para o trabalho “manual”, tendo como fim a “prática”, os cursos dessas diferentes instituições demonstram apenas de forma muito tímida a inclinação para o trabalho acadêmico. Um exemplo disso é a apreciação feita por Heitor Rossi Bélache, em 1935, da forma como a Escola de Educação Física do Espírito Santo mobilizaria seu currículo. A execução pratica dos exercícios do método é feita em sessões de estudo visando ensinar em detalhes a técnica de todos os movimentos que entram na composição de lição da educação física. A composição e direção das lições é feita, frequentemente desde que se haja estudado as regras concernentes a conduta da execução do trabalho (BÉLACHE, 1935, p. 245. ). Aliados a essa dicotomia entre teoria e prática, nos cursos do Exército se formariam “instrutores” de educação física, militares e civis, para a Educação Física escolar. Nesse contexto, “instruir” era sinônimo de “educar”. Se, para Fernando de Azevedo, a dimensão da formação estava em pauta, esta se dava pela “instrução”, naquele momento, intimamente relacionada à “prática” como forma de ensinar. Diplomados como “instrutores”, militares e civis ocupariam cargos de “professores” nas escolas. A “instrução” se aproxima muito das finalidades “práticas” e “manuais” dos cursos; dos fins que deveriam atingir aprendendo as técnicas dos movimentos, como apresentado por Bélache no Espírito Santo. “Instruídos”, os professores poderiam disseminar a prática da educação física pelas escolas brasileiras e, com isso, lentamente, promover a regeneração da raça nacional a partir de uma orientação pedagógica “uniforme”, pautada em práticas “racionais, científicas e sob vigilância médica.”85 A parte teórica dos cursos, normalmente a primeira, era composta pelas disciplinas biológicas, Anatomia, Fisiologia, Higiene, Biometria e, junto a estas, Pedagogia, Organização e História da Educação Física. Aparentemente, matérias subsidiárias às consideradas “científicas”, a Pedagogia, a Organização e a História da Educação Física, são parte da formação que não se vinculava diretamente aos domínios da biologia, mas que cumpria um papel formador de ensinar o que já havia sido realizado em Educação Física (História da Educação Física), as normativas do presente (Organização da Educação Física) e o que estaria sendo realizado no presente e/ou futuro próximo como prática (Pedagogia da Educação 85 Ofício Major Barbosa Leite sobre o ante-projeto de lei elaborado pela secretaria Geral de Segurança Nacional em relação ao “problema nacional da educação física. 14/12/1937. Arquivo Gustavo Capanema. CPDOC/FGV 98 Física). Isso é perceptível nos cursos da EEFE, pois as disciplinas aparecem na 3ª seção da parte teórica, entre o final do ensino teórico e o início do ensino prático. Pedagogia, Organização e História da Educação Física cumprem uma aparente transição da “teoria” para a “prática” e parece fértil pensá-las construídas, ainda que em espaços e instituições distintas, com finalidades parecidas com a da disciplina História da Educação. A disciplina História da Educação, demandada pelos chamados “Renovadores da Educação” na década de 1920, também estava pautada entre “teoria” e “prática” e, em meio às várias ciências, a História não estaria ainda considerada nessa formação, segundo Warde (1997). Considerada “filha tardia”, a História da Educação foi marcada por ter sido apêndice da Filosofia da Educação e por não ter sido incluída entre as ciências auxiliares (Psicologia, Sociologia e Biologia) das múltiplas abordagens da Educação. Somente desde a década de 1930, a História da Educação passou a ser incluída nos currículos dos cursos normais e de Pedagogia, unida à Filosofia da Educação. Embora anexada aos currículos, a História não foi incorporada como ciência, mas como disciplina formadora, tal qual a Filosofia. Da mesma forma, se nos cursos de “monitores” e “instrutores” as disciplinas biológicas representariam os princípios da eugenia e do higienismo como lugar do fazer científico, a disciplina HEF, tal qual a disciplina História da Educação, aparentemente não foi incorporada como ciência. Observando o currículo do curso de instrutores e monitores de Educação Física, é possível cogitar que ela se constituiu como uma disciplina de formação intelectual capaz de articular o passado daquela Educação Física com suas normativas presentes para constituir uma prática futura justificando assim Pedagogia, Organização e História em uma mesma “secção” de ensino como forma de “oferecer justificativas para o presente e ser guia para a construção do futuro” (WARDE, 1997, p. 94). Diferentemente dos três cursos anteriormente apresentados, a disciplina HEF no Curso Intensivo de Educação Física de Minas Gerais aparece no currículo no último item de sua estrutura, como “estudos complementares”. O curso de Minas Gerais também apresenta as chamadas “ciências auxiliares” como as que se relacionam diretamente com a Educação Física, porém a tônica do curso parece diferir da dos demais por propor a “didática e a pedagogia” da Educação Física dialogada com as ciências normativas da primeira parte do curso. Didática e pedagogia, nesse caso, podem ser consideradas a parte “prática” do currículo. Para além da dicotomia “teoria e prática”, o que torna o Curso Intensivo para professores diferente dos demais é sua articulação entre as “ciências auxiliares” e as práticas pedagógicas para a formação no magistério. Tendo como princípio a produção das práticas sob o ponto de vista do educando, o curso articula a fisiologia com a psicologia, a calistenia, 99 os jogos e a higiene. A História da Educação Física como “ensino complementar” nesse processo é prescrita juntamente com a organização escoteira e a Educação Física como lugar de socialização escolar, em clubes, associações, etc, proposição próxima à da EEFE, que também entende ser o último momento do curso tempo de estágios e excursões em diferentes instituições. HEF, apesar de presente nesse curso, indica uma não articulação direta dos elementos pedagógicos, tampouco com as normativas científicas das disciplinas biológicas como no currículo da EEFE. Chama atenção também a articulação dos três primeiros cursos apresentados se realizar a partir do Método Francês, o que não acontece com o curso de Minas Gerais, que parece ter a calistenia como prática ginástica norteadora. Ferreira Neto (1998, 1999), Silva (1997) e Goellner (1996) afirmam que, desde 1907, o Brasil recebe influência no processo de modernização do Exército das Missões Militares Francesas, mas que somente em 1931, através de portaria ministerial, o Método Francês é lançado como oficial no Brasil através do Regulamento Geral de Educação Física, em uma tentativa do Estado de uniformizar a prática da ginástica na escola. Inspirado na edição francesa de 1927, do Réglement Géneral D’Education Physique e prescrito como obrigatório em território nacional para os ensinos secundário, normal e superior, o Regulamento foi oficialmente eixo norteador da EEFE a partir de 1933, e nesse sentido, inspiração também disseminada nos cursos de formação do Espírito Santo e de São Paulo e, posteriormente, incentivado pela Divisão de Educação Física pelo Estado Novo. Destoando dos demais, em Minas Gerais, o curso intensivo organizado por Renato Eloi de Andrade tinha, em sua estrutura, certamente a influência da formação desse inspetor na ACM de Chicago e Montevideo 86 . Essa formação, distinta das demais e aparentemente contraditória à tentativa de uniformização da formação em Educação Física pela EEFE, foi incorporada pelo Exército por meio da revalidação de diplomas. Na Revista de Educação Física do Exército seguinte à publicação do programa do Curso Intensivo da Inspetoria de Minas Gerais, J. R. Toledo de Abreu (1934) apresenta o argumento de que a projeção da EEFE no meio civil também era realizada a partir da prática de revalidação de diplomas “escolas congêneres estrangeiras”, explicando que a “causa da Educação Física” transcendia as forças armadas. A necessidade constante de reiterar que a EEFE era um lugar de formação 86 Silva (2009) salienta que a formação de Renato Eloi de Andrade passa pela ACM norte-americana e anteriormente pela direção do departamento físico da mesma instituição no Rio de Janeiro. A ACM mantinha cursos também nas “escolas locais” no Rio de Janeiro, em Buenos Aires e Montevideo. Renato Eloi de Andrade, diplomado pelo Instituto técnico da ACM, realizou a última parte de sua formação a partir de 1925 em Montevideo. Retornando ao Brasil, ele assume o cargo de Inspetor de Educação Física de Minas Gerais em 1927. 100 para civis é justificada pelo problema de regenerar a raça nacional. Os cursos da EEFE, então normativas nacionais legitimadas pelo Estado Novo no pós 1937, dariam espaço para a revalidação de diplomas de outras instituições, obedecendo a uma “inteligente política educativa” que ajudaria nessa regeneração através da Educação Física. Além de formarem, em 1935, a “maior turma de professores” provenientes dos diversos estados do país, seria a primeira vez que a EEFE revalidaria diplomas de dois professores de Educação Física titulados pela ACM em Montevideo (ABREU, 1934). A EEFE não somente tentava centralizar e orientar a formação dos professores, mas também legitimava e reconhecia, em outras instituições, métodos e processos científicos que sanariam o problema da raça nacional que pretensamente desenvolveram hábitos higiênicos e práticas salutares para o povo brasileiro. Mesmo tentando normatizar a educação física brasileira pelo regulamento que previa o Método Francês como o oficial no Brasil, a centralização parece não funcionar completamente, pois os cursos em outros estados também surgiam com outras perspectivas pedagógicas no mesmo momento. Certamente, os responsáveis pela revalidação sabiam que o Método Francês não era o adotado pela ACM e que esta tinha como prática norteadora os esportes e as orientações da calistenia. Isso mostra que o Método Francês, apesar de instituído como norma pelo Ministério da Guerra, não era unanimidade entre seus professores e dirigentes. Ao regularizar os diplomas, a EEFE legitima práticas desse outro lugar de formação estabelecendo um caminho contrário ao da “homogeneização” e da “unidade de doutrina” prevista no regulamento, mas mantendo sua centralidade. Entendo que essas revalidações vão além da tentativa de enfrentar a ausência de legislação que regulasse a prática da Educação Física em nível nacional, como sugere Ferreira Neto (1998). O autor argumenta que estados e municípios realizaram reformas de ensino entre o século XIX e o início do XX e que estas só conseguiram normatizar a rubrica da Educação Física entre 1930 e 1945, no Governo Getúlio Vargas, a partir da constituição de 1937. As revalidações representam uma fragilidade institucional da Educação Física, que se constituía, todavia, também em um reconhecimento à diversidade do que seria a Educação Física pela EEFE. É notório que as revalidações foram uma tentativa de controlar e normatizar a formação na área sem, com isso, descartar a possibilidade de haver dissidências internas sobre o ensino ou a “unidade de doutrina” desejada. Se as reformas anteriores nomeavam Educação Física como dança, recreação, trabalhos manuais, ginásticas etc., a formação pela ACM continua a explicitar essa diversidade, a princípio não desejada pelo Exército, entretanto legitimada por ele. Ainda que legitimado pela EEFE, é importante lembrar que o Curso da 101 Inspetoria de Minas Gerais é invisibilizado pelo Governo do Estado Novo em relatório oficial do INEP de Capanema para a Divisão de Educação Física. Uma das hipóteses dessa invisibilidade é que sua doutrina não estaria alinhada à dos militares que dirigiam a Divisão de Educação Física. O ensino secundário proposto por Francisco Campos e Gustavo Capanema comungava de uma escola secundária direcionada à formação de uma elite intelectual, diferentemente do que havia sido proposto por Anísio Teixeira e outros intelectuais ligados à ABE nos anos 1930. Anísio, na Reforma da Instrução Pública do Rio de Janeiro, introduz no nível secundário o ensino profissional técnico, já anteriormente presente no sistema de ensino primário acrescentando, aos “cursos práticos” já existentes, cursos de cultura geral (NUNES, 2001, p. 109) 87 . Se retomarmos o argumento de Valter Bracht (2015) de que o “mandato social nascente” da Educação Física era tarefa com finalidades pedagógicas, historicamente ligadas às práticas de intervenção sobre o corpo caracterizadas em grande medida pela via dos Métodos Ginásticos Europeus, é possível pensar que a sistematização para a intervenção tem relação direta com atividades práticas como as já constituídas nas escolas de ensino primário daquele período. Apesar do discurso, teoria e prática, na constituição desses cursos, aparentemente se apresentam de forma dicotômica, e é preciso lembrar que toda a fundamentação dessa “prática” está historicamente pautada nos conhecimentos médicos advindos das disciplinas de Fisiologia, Anatomia, Cinesiologia, entre outras presentes nesses currículos. Por isso Bracht (2015) lembra também que é um equívoco histórico do campo da Educação Física contrapor as áreas e disciplinas biológicas às áreas ou disciplinas pedagógicas, pois estas se constituem com objetivos muito distintos. Se, por um lado, as ciências biológicas se propõem a constituir “teorias explicativas”, por outro, a área “pedagógica”, de intervenção e mais ligada à prática, se proporia a “educar as pessoas” (BRACHT, 2015, p. 111-112). A disciplina HEF parece se aproximar do que Valter Bracht (2015) chama de área ou disciplinas “pedagógicas”. Como disciplina de formação intelectual, a HEF forneceria também “teorias explicativas” capazes de articular o passado daquela Educação Física com suas diretrizes presentes para constituir uma prática futura, justificando assim as disciplinas de Pedagogia, Organização e História em uma mesma “secção” de ensino. Concebidos de forma muito próxima à proposta por Anísio Teixeira, os cursos são elaborados com finalidades práticas e de intervenção pedagógica acrescidos de teorias explicativas biológicas e de 87 Decretos n.3.673 e 3.804 de 1932. 102 formação geral, como a história, que ajudariam junto com a biologia a fundamentar ações de caráter pedagógico. Por conseguinte, podemos dizer que a HEF não se configura como uma “teoria explicativa científica”, mas como uma “teoria explicativa formativa” que, embora não tivesse o prestígio das ciências biológicas, também fundamentavam a “prática” (Métodos Ginásticos) dos primeiros cursos de formação. Apesar de nomeados como cursos superiores de Educação Física, estes estão mais próximos dos cursos técnicos propostos por Anísio Teixeira. Não é possível dizer que se constituem como um campo acadêmico a partir da nomenclatura “nível superior”. O caráter “prático” e “intervencionista” ainda permanece a despeito da denominação “superior” e ademais são médicos, militares e esportistas que “migram” para dentro desse “campo disciplinar” e continuam nele produzindo nos primeiros cursos de formação88. Dada a configuração incipiente e pouco normatizada da Educação Física e, por isso, também de sua formação profissional, naquele contexto curricular, a disciplina HEF compôs, articulada com a seção pedagógica desses currículos, a ligação entre teoria e prática pedagógica. Como parte daquele currículo que diplomaria os primeiros professores no mais alto grau de especialização para o momento, a HEF tinha como uma de suas finalidades articular pedagogicamente o conhecimento que viria a ser posto em prática no momento seguinte com as ciências auxiliares que justificavam o fazer científico da Educação Física. Se, nesse primeiro momento, o esforço foi localizar a disciplina HEF no currículo dos cursos, a etapa seguinte é compreender como a disciplina se configurou de forma mais “internalista” a partir da produção de seus primeiros professores; seus livros, compêndios e programas de ensino nos primeiros cursos que tiveram a “cadeira” de HEF, estando mais atenta ao “funcionamento” da disciplina, como aconselha André Chervel (1990). 88 Paiva (2004) lembra ser importante suspeitar da formulação de que a constituição do campo acadêmico da EF se realizou a partir dos cursos de formação de nível “superior”. 103 CAPÍTULO 3 – OS PROFESSORES DA “CADEIRA” DE HEF E SUAS PRÁTICAS NOS ANOS 1930: CIRCULAÇÃO E APROPRIAÇÃO NACIONAL E INTERNACIONAL 3.1 Dos professores da “cadeira” de HEF e suas práticas [...] com o evolver da educação física no Brasil, dentro em breve teremos a ventura de vêr os nossos patrícios prolongarem nosso esforço com a História da Educação Física no Brasil. [...] (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. vi) A ideia de “edificar a Educação Física nacional” está frequentemente presente no discurso dos militares, sobretudo a partir da criação do curso provisório de Educação Física, em 1929, e da Revista de Educação Física, publicada pelo Exército a partir de 1932. O compêndio Histórico da Educação Física (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931) conectado a um projeto mais amplo de difundir a formação em Educação Física pelo país, foi escrito também como forma de edificar a Educação Física nacional, mostrando, contudo, que a “história” dessa prática no Brasil era “estrangeira”. Escrito com intuito de ser adotado como ferramenta pedagógica para a disciplina HEF, o Histórico parte da constatação de que o Brasil não possuía uma “história da educação física”. Essa é uma das justificativas para que a HEF seja narrada a partir das referências estrangeiras, sobretudo aquela tangenciada por uma história europeia marcada pela história de seus métodos e escolas ginásticas. Se a “história” no Histórico seria tratada como um problema “exterior”, ela se valia de uma compilação, em grande maioria, de livros franceses. “Em outros idiomas encontramos, em cada novo livro, à guisa de prefácio, um esboço da História da Educação Física. Esses fragmentos não podem por certo constituir matéria para uma disciplina, como é a cadeira de História de Educação Física [...] (BONOMIRO et al., 1931, p. i). A identidade da disciplina História da Educação Física passa pela necessidade de constituir material para a formação de instrutores/professores no Brasil. Funcionando como livro didático, o Histórico, primeiro compêndio de História da Educação Física publicado no Brasil, estabeleceu condições materiais para o ensino da disciplina, apresentando uma confluência de traços que formatam sua constituição: a necessidade de material para o curso de formação de professores, a escrita como expressão da prática de professores que, vinculados ao Exército, estiveram empenhados em promover a bandeira nacionalista da educação física brasileira, reconhecendo que essa promoção só seria possível a partir de uma 104 fundamentação teórica “estrangeira”, e por fim, a certeza de que a história “estrangeira” do compêndio escrito para a disciplina HEF no CMEF seria também transformada em uma história nacional a ser escrita por outros sujeitos em outro momento histórico, garantindo assim uma história futura sobre o “pioneirismo” do próprio Exército em relação à Educação Física brasileira. A HEF, então disciplinarizada a partir de um “programa organizado” de ensino como se apresenta o compêndio, pode ser também uma forma de observar a concepção da história desse ensino, identificando nele as finalidades da disciplina, como sugere Chervel (1990). As grandes sínteses do compêndio não escapam do quadro tradicional dos livros publicados em território francês e da forma como essas produções constroem a história da Educação Física, sobretudo aquela relativa à ratificação da cientificidade do Método Francês de Ginástica. Empenhados em contar uma história da Educação Física, os autores reduzem as bibliografias francesas às metodologias consideradas mais cabíveis ao desenvolvimento da educação física no Brasil. Para isso, vulgarizam um conhecimento histórico já anteriormente produzido na Europa, que pudesse justificar as escolhas dos métodos ginásticos e a atuação do Exército no Brasil e fora dele, na formação de profissionais militares e civis 89 . André Chervel (1990) ressalta que a história dos conteúdos de ensino é componente central da história das disciplinas e que é em torno dos conteúdos que uma disciplina se constitui. Apesar disso, o papel da história do ensino precisa ser ampliado para que seja possível pensá-lo em relação às finalidades de uma disciplina. Mostrar essa configuração seria, assim, “fazer aparecer a estrutura interna da disciplina” (CHERVEL, 1990, p. 183-184) pensando sobre suas finalidades. O corpus documental mais amplo ajuda a compreender que as finalidades “reais” são diferentes das finalidades de “objetivo” como o autor sugere observar. A exploração do corpus documental do Histórico mostra que a disciplina HEF parece estar estruturada como finalidade de legitimação do Método Francês em território nacional, justificando as escolhas pedagógicas e intervencionistas ligadas aos saberes “práticos” dos cursos. As finalidades “reais” mais amplas sugerem que a HEF seja um meio de legitimação social da Educação Física enquanto campo, ao longo da década de 1930, como já anteriormente apresentado. O esforço em “fazer aparecer a estrutura interna da disciplina” nesse capítulo se dará por meio da biografia profissional de seus autores, dos objetivos e da matéria de ensino do compêndio Histórico da Educação Física, da cadeira de HEF e de suas influências nacionais 89A École normale de Gymnastique et d’escrime de Joinville-le-Pont, criada em Paris em 1852, é uma dessas referências. 105 e estrangeiras. Se, de forma mais ampla, a disciplina foi anteriormente apresentada dentro da estrutura de um currículo, de forma mais restrita é momento de confrontar a “disciplina” com os professores que a produziram e sua “matéria de ensino” (CHERVEL, 1990, p. 187). Partindo do pressuposto de que a criação de uma disciplina não é algo arbitrário e que essa construção é uma forma de compactuar e dar visibilidade a um determinado conhecimento, entendo ser o compêndio uma expressão da prática dos professores e, assim, a forma mais aproximada de compreender a construção da disciplina em análise. Os professores, ao prescreverem livros, compêndios e programas, elaboraram um conjunto de balizas que nortearam o saber a ser veiculado e que ajudam a demonstrar as finalidades de uma disciplina. Tais prescrições também dizem muito do que era importante ser ensinado, e as relações desse conjunto de professores identificados em lugares de trânsito e circulação dão pistas da constituição da disciplina, sobretudo em relação às publicações relacionadas a eles. A identificação dos professores nas revistas e a análise do primeiro compêndio escrito com a finalidade de ser “matéria” da cadeira de HEF ajudam a compor um conjunto de elementos: a circulação e a apropriação dos sujeitos e de suas obras, as instituições e práticas pedagógicas dos professores. Entre outras questões, esses elementos indicam as possibilidades de que as finalidades da disciplina HEF sejam colocadas em perspectiva. Nesse contexto é importante lembrar que a profissão de historiador no período era prática difundida em diversas outras práticas profissionais. Eram as contingências e as trajetórias profissionais que definiam socialmente quem era ou não historiador no período. Para Gomes (1996) podem ser considerados historiadores nesse período todos aqueles que produziram na área dos “estudos históricos”. Esses homens eram poetas, romancistas, juristas e jornalistas que tinham na política e na militância lugar de exteriorização das questões sociais. Bonorino e os demais tenentes autores do Histórico não deixam de ser militantes em prol das questões do Exército brasileiro. Uma característica importante a ser observada na produção dos historiadores do período é a maturidade intelectual e também o perfil diferenciado em termos de contribuições em relação à escrita da História. Também não há um tipo rígido de texto considerado histórico, ou uma forma de contribuição particularmente valiosa nesse sentido especifico. São enquadrados como trabalho do historiador tanto a narrativa que resulta da pesquisa documental, quanto o trabalho de tradução e prefaciamento de livros estrangeiros, de localização e edição de documentos e ensaios históricos, de redação de compêndios voltados para o público escolar, e até mesmo a elaboração dos verdadeiros e bons romances históricos. Obras com finalidades distintas – a pesquisa, o ensino e a divulgação mais ampla – constituem um conjunto no qual não se sente hierarquizações maiores (GOMES, 1996, p. 38). 106 Essa diversidade de ações do historiador do período revela também o fato de até os anos 1930 ainda não existirem faculdades dedicadas à formação de profissionais em história. O “ofício do historiador” era executado por uma categoria mais abrangente de intelectuais, os chamados “homens de letras” (GOMES, 1996, p. 38). No caso dos homens que escreveram sobre a História da Educação Física, para além de “homens de letras”, é possível também chamá-los de “homens de armas”, guardadas as relações com as trajetórias profissionais desses primeiros professores. Os chamados historiadores, até o início dos anos 1940, escreveram sobre biologia, etnologia, folclore, linguística e geografia, além de história. Escrevendo especificamente sobre História da Educação Física, produziram textos também sobre fisiologia, biometria e diversos outros saberes, como filosofia e literatura, que circundavam aquela formação profissional em seus primeiros momentos. Essa polivalência, segundo Gomes (1996), teria estimulado a divisão e a especialização dos campos de conhecimento, apontando inclusive a necessidade de reformular as cadeiras de ensino que reuniam assuntos de grande diversidade na área das humanidades, em geral, e da história, em particular. Para a autora, a complexidade que marca as décadas iniciais do século XX é estimulante para se pensar os caminhos da História “no” e “do” Brasil (GOMES, 1996, p. 38). Com o intuito de apresentar esses autores e a produção do Histórico da Educação Fisica, foram elaboradas biografias profissionais desses sujeitos – além dos tenentes Laurentino Lopes Bonorino e Antônio de Mendonça Molina, autores do Histórico e professores da EEFE, Américo R. Netto, então professor de História da Educação Física na Escola Superior de Educação Física de São Paulo, que publicou em 1937 Jogos Olympicos de hontem, de hoje e de amanhã. O livro de Américo Netto, assim como o dos tenentes também é escrito destinado ao uso como material didático. 3.1.1 Laurentino Lopes Bonorino Personificando a polivalência dos historiadores do período, o tenente Laurentino Lopes Bonorino foi uma das vozes do Exército na configuração da disciplina HEF. A HEF disciplinarizada, como uma das especializações decorrentes dessa diversidade da História, tem na rubrica da EEFE a denominação de “Histórico da Educação Física em geral e no Brasil em particular”. Histórico da Educação Física também é o nome do compêndio escrito para a disciplina HEF por BONORINO; MOLINA; MEDEIROS. (1931), então professor da EEFE. Além de Laurentino Lopes Bonorino, outros dois autores dividem a autoria desse compêndio 107 destinado à cadeira de HEF: Carlos Marciano de Medeiros, ex-aluno da EEFE, um dos criadores e diretor do Departamento de Educação Física no Estado do Espírito Santo e professor no mesmo curso e Antônio de Mendonça Molina, também instrutor do CMEF. O ponto de partida segue a trilha das publicações de Laurentino Lopes Bonorino, sendo possível localizá-lo como um dos editores da Revista de Educação Física do Exército desde sua criação em maio de 1932 até 1934. Seu histórico como aluno na EEFE mostra que ele se diplomou na primeira turma do então curso provisório do CMEF em 1929 como instrutor de Educação Física. Tendo se classificado em primeiro lugar da turma com “grau final” de 7,59 e menção “bem”, o tenente Bonorino passa a compor o quadro de instrutores do CMEF divulgando em suas publicações – na revista e no compêndio – o Método Francês como a melhor prática 90 . O mapeamento da trajetória profissional de Bonorino permite identificar que produções como o Histórico foram resultado de um longo processo de vinculação institucional e também de maturidade profissional e intelectual. Os estudos históricos no início do século XX tiveram estreita relação com a atividade profissional de seus produtores, segundo Gomes (1996), sendo elaborados em grande maioria com objetivos “práticos” de municiar o exercício profissional e a atuação política no país. Essa atuação política do Exército em relação à Educação Física não esteve somente vinculada ao Ministerio da Guerra ao longo dos anos 1930. A estreita relação dos militares com o Ministerio da Educação e Saúde mostra que essa atuação desejava se espraiar também pela via da formação de professores exportando para a escola o modus operanti aprendido na EEFE. No caso de Bonorino, a atuação política e a militância em prol das questões do Exército ganham visibilidade no compêndio como uma das expressões da prática profissional, assim como sua atividade jornalística nas revistas especializadas em EF do período. A atividade jornalística, nela incluída a produção historiográfica, representava uma forma de ingresso no trabalho intelectual e também de expandir contatos para outras esferas políticas e sociais (GOMES, 1996, p. 45). Entendendo que revistas e jornais foram a base da circulação de ideias da época, mapear esses professores/historiadores foi uma das estratégias para também compreender a ascensão institucional impelida 90 Históricos escolares 1929-1938. Acervo EsEFEx. 108 às suas trajetórias profissionais. Dos três tenentes autores do Histórico o único não mapeado na revista foi Antônio de Mendonça Molina. Molina possivelmente foi aluno de Bonorino, tendo se formado na turma de Instrutores de Educação Física de 1930. O histórico escolar do Tenente Antônio Molina mostra que ele foi aprovado em 1º lugar com “grau final” 8,36, com menção “muito bem” e, possivelmente por isso, assim como Bonorino em 1929, teria sido incorporado como Instrutor do CMEF ainda naquele ano 91 . Através de Marinho (1953) é possível identificar que, em 1936, Molina lançou a terceira edição do seu livro Corridas a pé. Isso denota uma primeira aproximação com Bonorino, ex-atleta de atletismo e treinador da mesma modalidade na Liga de Sports do Exército 92 . Presente como auxiliar da direção técnica do CMEF, que, em 1930 se transfere para a Fortaleza de São João, Bonorino ficou subordinado ao Capitão Orlando Eduardo Silva, que assume a direção técnica do Centro. Também como auxiliares técnicos junto ao tenente Bonorino estão Ignacio Rolim que, posteriormente, em 1937, assumiu a diretoria da Divisão de Educação Física, e os médicos Virgilio Bastos e Hermilio Ferreira. Em 1931, ano da publicação do Histórico, Bonorino passa a ser o Diretor Técnico do CMEF (FERREIRA NETO, 1998, p 81). A história de Bonorino com o Exército, porém, parece começar em 1920. Ainda em 1920 é possível localizá-lo como um dos “alumnos da Escola militar”, nesse ano que homenageiam o Almirante Barroso com uma estátua pela “batalha de Riachuelo”93. Sua relação com o também tenente Ignacio Rolim, figura importante para a EF brasileira 94 , que assume naquele momento o CMEF, era de longa duração. Registros de viagens de São Paulo para o Rio de Janeiro em 1921mostram que ambos eram “passageiros nocturnos” dos trens que faziam tal rota 95 . A entrada de Bonorino na Escola Militar, em 1920, parece ter forte ligação com seu envolvimento com o esporte, já que antes de se tornar um aluno militar ele era jogador de futebol 96 . Seu envolvimento com o esporte se consolidaria no Exército através da “Liga de Sports do Exército”, lugar pelo qual Bonorino se projeta como atleta de “corridas a pé” e depois como treinador dessa mesma prática97. Seu relacionamento com o Exército, entretanto, nem sempre foi tranquilo. Em 1922, alguns jornais relatam que ele era um dos “officiaes membros” da Escola de Sargentos que foram acusados de tomar parte no 91 Históricos escolares 1929-1938. Acervo EsEFEx 92 A MARATHONA, 1926, s.p. 93 OS ALUMNOS, 1920, s.p. 94 Ignacio Rolim vai criar a Divisão de Educação Física em 1937, órgão ligado ao MES – Ministério da Educação e Saúde Pública e depois ser diretor da ENEFD criada em 1939. 95 PASSAGEIROS, 1921, s.p. 96 Segundo o Correio Paulistano, havia dois anos que o mesmo não jogava por isso a cessão ao RJ. (CONFEDERAÇÃO, 1920. s.p) 97 A FESTA, 1921, s.p. 109 pronunciamento militar na noite do dia 04 de julho. Bonorino foi recolhido e preso por ordem superior 98 , junto a outros oficiais que dois dias antes haviam desencadeado a “Revolta dos 18 do Forte de Copacabana”, no Rio de Janeiro, primeira manifestação do Movimento Tenentista que reivindicava, entre outros, o fim das oligarquias no poder. Nesse mesmo ano, se casou e foi transferido para o 29º Batalhão de Caçadores (BC), em Natal, retornando ao Rio de Janeiro em 1926 99 . Quando Bonorino volta para o Rio de Janeiro em 1926, retoma seu envolvimento com a Liga de Sports do Exército como técnico de atletismo. Apresentando as “victorias de seus athletas” nas competições, descreve todo o regime de treinamento “racionalmente” dividido entre treinos físicos e alimentação, através das rotinas que tornariam possível fazer um “campeão”100. Essa mesma disciplina que como treinador permitia formar “campeões” no atletismo foi utilizada como argumento de sua defesa no tribunal do Exército contra a acusação de “chicotear” um soldado que estava sob suas ordens na Fazenda do Exército de Ipiabas de modo “excessivo, viollento e illegal”, interior do Rio de Janeiro. A imprensa carioca noticiou o caso em diversos jornais 101 execrando o tenente e acusando-o de “transmudar os papeis da lamentável scena e de agressor, transformando-se em agredido”. Em O Malho, o caso não recebeu apenas uma nota, mas uma página inteira com reportagem intitulada “Como crear, assim o exército-cidadão?”. Os excessos dos oficiais do Exército contra seus subalternos foram considerados pelo jornal como uma atitude anticívica e pouco patriótica, colocando a instituição militar em cheque. É incrível que ainda possam existir officiaes capazes de erguer um chicote contra um irmão de armas, deturpando com esse gesto o sacerdócio sagrado da missão civica de que estão investidos. O soldado brasileiro depois da obrigatoriedade do serviço militar não é mais um mercenário bronco, que não mereça o respeito e a consideração de seus superiores. É um cidadão transitoriamente collocado em situação de subalternidade profissional, mas que uma vez excluído das fileiras do Exercito, volta ser tanto e as vezes mais que seus ex-superiores. 102 A defesa de Bonorino no seu julgamento tinha na “apologia da disciplina e da obediência hierarchica, as condições vitaes do Exercito”103 que deviam ser por ele executadas. O réu foi julgado em 1927 e absolvido por unanimidade dos votos pelo Código Penal Militar, sendo exonerado da Fazenda de Ipiabas. Apesar do ocorrido em 1926 e do seu julgamento em 98 PRESOS, 1922; OFFICIAES, 1922. 99 PROCLAMAS, 1922; MINISTÉRIO, 1926; TÍTULO, 1926; TRANSFERÊNCIAS, 1926; SE CASA, 1926. 100 A PALAVRA, 1926, s.p. 101 DISCIPLINA, 1927, p. xx-xx.; COMO CREAR, 1927, p. xx-xx; JUSTIÇA, 1927, p. xx; AGREDIU, 1927, s.p; O PROCESSO, 1928. s.p. 102 COMO CREAR, 1927, s.p. 103 O JULGAMENTO, 1927, s.p. 110 1927, Bonorino permanece no Exército e aparece compondo o primeiro quadro de alunos do “Curso de educação physica para officiaes” na Escola de Sargentos, em 1929, devido a sua presença “esmerada” como atleta e técnico daquela instituição. Os oficiais escolhidos para a primeira turma tinham, segundo os jornais, “extremada dedicação”, não só como praticantes, mas principalmente com a preparação de atletas, sendo que alguns tinham revelado “valores incommuns e verdadeiros techinicos no assumpto” e, como tal, deveriam ser indicados para o referido curso, ainda que os critérios de escolha para o aperfeiçoamento profissional não tivessem sido completamente definidos. Bonorino era considerado “um athleta e entraineur meticuloso” já tendo preparado “innumeros” dos melhores atletas do Exército em corridas de fundo. Assim como ele, Orlando Eduardo Silva, como “preparador de athletas” no Club de Regatas Vasco da Gama, seria mais um dos componentes da primeira turma daquele curso em que se aproveitavam quadros do Exército que já vinham “há longos annos pugnando pela Educação Physica do Exercito e perdendo horas e horas do dia no preparo das representações de suas unidades às competições athleticas militares”104. Tendo assumido o posto de instrutor da cadeira de HEF, em 1930, na EEFE, publica juntamente com Antonio Molina e Carlos de Medeiros o Histórico da Educação Física em 1931 e, na Revista de Educação Física do Exército, escreve artigos abrangendo temas muito distintos entre si, demonstrando a polivalência de suas atividades profissionais 105 . A multiplicidade de temas publicados pelo autor confirma uma característica que Goodson (1990) apresenta ser do primeiro estágio de uma disciplina: professores dessa fase inicial raramente são “especialistas treinados”, mas trazem consigo o “entusiasmo missionário aos pioneiros a sua tarefa” (GOODSON, 1990, p. 235). O Histórico, entretanto, parece ter sido “gestado” quando Bonorino ainda era aluno do Curso em 1929. A visita dos professores e alunos do Curso de Educação Física da Marinha à Escola do Exército em outubro de 1929 mostra uma programação intensa de seus professores. A caravana que partiu para a Vila Militar foi acompanhada por diversos jornalistas que tinham como finalidade documentar a visita e apresentar os trabalhos da nova Escola do Exército. Entre as atividades da visita, foi realizada na parte prática “uma lição de educação physica pelo novo methodo francez” e duas conferências: uma para os oficiais e jornalistas 104 A EDUCAÇÃO PHYSICA, 1929. s.p. Os candidatos para o Curso provisório de Educação Physica para officiaes aberto em 25 de julho de 1929 na Escola de Sargentos da Infantaria foram: Tenentes Sylvio Americo de Santa Rosa, Laurentino Lopes Bonorino, Jarbas Cavalcanti de Aragão, Olavo Mena Barreto. 105 É possível identificar que Bonorino também publica Jogos, escrito em parceria com os mesmos tenentes do Histórico com o também tenente Pedro Geraldo de Almeida, Elementos de antropometria e biometria em parceria com João Gualberto Gomes Sá, Posições de partida e flexionamentos simples com Antônio de Mendonça Molina e Jiu-Jitsú na defesa pessoal como único autor. 111 feita pelo tenente Bonorino intitulada “Histórico da Educação Física” e outra ofertada para os alunos da Marinha sobre a “Concepção Physiológica do Methodo Francez” realizada pelo 1º tenente médico Dr. Hermilio Ferreira 106 . Segundo o jornal, ambos os professores “discorreram com proficiência” os assuntos de suas conferências. A apresentação do Histórico, todavia, não estaria destinada aos alunos, mas aos jornalistas e oficiais da Marinha. Apesar de desde 1929 já estar atuando como professor, a nomeação de Bonomiro como oficial como instrutor da EEFE só sai em 1931 107 . A conferência parece ser uma forma que ele encontrou de apresentar para o público da Marinha a legitimidade da Educação Física naquele curso de formação, respaldado pela “história” de uma educação física a ser contada no Brasil. Desde a fundação da revista, em 1932, Bonorino publica em quase todos os números até 1934. Conectado com as reformas propostas por Fernando de Azevedo no DF e em SP, Bonorino o homenageia pelo trabalho em prol da Educação Física na Instrução Pública dessas regiões. Tomando Azevedo ora como um reformador ora como inspiração política para a Educação Física brasileira, Bonorino reinvindica a modernização do ensino da EF, apontando para a necessidade de olhar a tradição dos escritos dos mais diversos temas, neles incluídos os historiográficos. Nesse sentido, além de escrever sobre diversos temas, traduzia e prefaciava artigos compilados de revistas estrangeiras, produzidas, sobretudo, no continente europeu. Quadro 5 – Artigos de Laurentino Bonorino na Revista de Educação Física do Exército Revista de Educação Física do Exército Artigos de Bonorino N.1 maio – 1932 O papel da espádua nos lançamentos N.2 junho – 1932 A determinação do esforço físico e os resultados da bioenergética N.3 julho – 1932 Fernando de Azevedo e a Educação Física Lição de Educação Física N.6 março – 1933 Fernando de Azevedo e a Educação Física Ed. Física Feminina N.9 junho – 1933 São Paulo e os centros de férias N.10 agosto – 1933 Ataque e defesa – Jiu-Jitsu Fonte: Elaborado pela autora desta tese 106 A EDUCAÇÃO PHYSICA,1929, s.p. 107 NOMEADOS, 1931, s.p. 112 Atento ao trabalho de Fernando de Azevedo e exaltando a contribuição deste para a Educação Física brasileira, o tenente Bonorino destaca seu importante papel na formação de professores na EEFE, como já apresentado anteriormente. Lembrando a complexidade do panorama da Educação Física no Distrito Federal em 1932 e tendo Anísio Teixeira como diretor da Instrução Pública, o tenente Bonorino afirma serem a metodização, a coordenação e a fiscalização do ensino, então desejo de Fernando de Azevedo, as saídas para sua unificação. É importante destacar que, quando Bonorino se refere à “unificação” do ensino, trazendo os argumentos de Fernando de Azevedo, ele o faz levando em conta a Educação Física no contexto educacional e as implicações na formação de seus quadros. Aliado a tal preocupação com a “uniformização” de um método ginástico no país, o argumento da unificação do ensino estava mais próximo do debate acerca de um decreto que regulamentasse o Método Francês, o que veio a acontecer em 1933, do que imbuído do debate educacional mais amplo como, por exemplo, os desdobramentos da “Escola Nova” defendidos por Azevedo. A “unidade de doutrina” do Exército, sua grande preocupação, deveria orientar didática e tecnicamente o ensino da Educação Física nos mais diversos estabelecimentos. Preocupado com a “uniformização” dessa formação para instrutores/professores, Bonorino trata o panorama da educação no Distrito Federal como complexo e argumenta ser do “Método” o grande problema. Para ele, os professores estariam ensinando em sua grande maioria por um “método seu”. Seria necessário uma “cruzada de integração real da educação física” nos programas escolares para transformar essa realidade (BONORINO, 1932, s.p). Bonorino, inspirado politicamente por Fernando de Azevedo, sabia que, para atingir os programas escolares, seria necessário formar os professores e que o trato com os métodos ginásticos seria um dos eixos norteadores incutidos nessa demanda. Fernando de Azevedo, porém, não parecia estar preocupado com a “uniformização” de um método ginástico, ainda que defendesse o Sueco como o mais apropriado para a escola brasileira. A ideia de metodização para Fernando de Azevedo parece estar mais ligada a uma escola integral, nova e ativa do que especificamente à escolha de um Método Ginástico. O envio por Azevedo dos professores da Instrução Pública do Distrito Federal e de São Paulo em momentos distintos para formação na EEFE, que era pautada no Método Francês, evidencia que sua preocupação com a formação de professores era mais ampla, não sendo o “método ginástico” o grande problema. Contraditoriamente, ainda que defendendo o Método Francês, mas sem o fazer explicitamente, Bonorino utiliza-se dos argumentos de Fernando de Azevedo para justificar o esforço da EEFE em transformar esse método em prática uniformizadora a ser posta como 113 obrigatoriedade para a escola brasileira e, por conseguinte, também na formação de professores (BONORINO, 1932a). Os outros dois artigos publicados pelo Tenente, e depois Capitão, Laurentino Lopes Bonorino, não fazem relação direta com a História da Educação Física, mas têm em sua identidade a admiração pela produção dos franceses 108 . O Curso de EF para oficiais da Escola de Sargentos criado em 1929 já se caracterizava como uma tentativa de “difundir e unificar o ensino da educação physica pelo moderno methodo francez”109. Em 1931, O Jornal publica um longo artigo sobre a comissão que chega da França ao Brasil, a fim de que aqui se adotassem as “regras francesas” na Educação Física. Enaltecendo o general Leite de Castro, que teria passado longos anos na França observando o que lá era feito em relação à EF, o artigo lembra que ele iria “entrar em entendimentos com os ministros da Instrucção e da Marinha”, órgãos de governo que também poderiam se interessar pelo assunto da difusão da Educação Física por todo o Brasil. Assim, chega ao Brasil o Major Pierre Ségur, “acatado techinico da Missão franceza” para, em conjunto com os tenentes Laurentino Lopes Bonorino e Antonio Molina, traduzir e adaptar às necessidades brasileiras a primeira e a terceira partes do “Regulamento Francez de Educação Physica”110. Isso mostra que Bonorino, além de defensor do Método Francês como forma de uniformizar o ensino, foi protagonista da inserção desse método no interior do Exército, traduzindo e divulgando-o, contribuindo, assim, para sua regulamentação e difusão em território nacional. A adoção da primeira e da terceira partes do regulamento francês foi nomeada no Brasil de Regulamento nº 7, passando a orientar o ensino secundário, normal e superior. O major Pierre Ségur 111 , comandante da Missão Militar francesa, permanece no Brasil por cinco anos a convite do governo, desenvolvendo atividades nos Centros Militares de Educação Física da Capital Federal como contratado do governo, retornando à França em janeiro de 1933 112 . 108 Adaptando e traduzindo o trabalho do Dr. Etienne Mabille do Instituto Regional de Educação Física da Faculdade de Medicina da Universidade de Nancy, Bonorino apresenta “O papel da espádua nos lançamentos”. Para o autor, o que chegava ao Brasil sobre esse tema via norte-americanos e alemães não passariam de análises “puramente de ordem técnica”. Sob o ponto de vista da anatomia e da fisiologia, Bonorino compreendia que o Dr. Mabille fazia uma análise mais completa que a dos demais (Bonorino, 1932b) 109 A EDUCAÇÃO PHYSICA, 1929, s.p. 110 A EDUCAÇÃO PHYSICA,1931, s.p. 111 Na homenagem na EEFE, o comandante Ségur, teria ficado visivelmente comovido pelas homenagens e pelas múltiplas gentilezas dos presentes pronunciando “um magnífico improviso resaltando a acção da França nas iniciativas da humanidade e o papel destacado da velha Escola de Joinville berço da cinematographia moderna do progresso da physiologia e da analyse mechanica dos movimentos, pelos velhos mestres Marey e Demeny”. Salientou o trabalho do CMEF que disse ser digno de toda admiração e amparo pelos múltiplos benefícios que a nossa raça há de usufruir (CMEF,1933, s.p). 112 CMEF,1933, s.p. 114 O Capitão Laurentino Bonorino, apesar de pouco ter publicado na Revista de Educcação Fíisca do Exército parece ser protagonista da regulamentação do Método Francês no Brasil, estando rodeado politicamente pelos mesmos sujeitos concernentes a seu fazer docente. Na edição de janeiro de 1934, mesma publicação em que se apresentam a expansão dos Departamentos de Educação Física do Espírito Santo e de Minas Gerais e seus cursos, foi publicado também um artigo sobre a criação do Departamento de Educação Física em Pernambuco, anexo ao C.P.O.R daquela região. Nele os editores transcrevem o Boletim com as justificativas para a criação daquele Departamento, apresentam seus fundadores e tratam das vantagens da prática de uma Educação Física “racional, metódica, científica e inteligente”, sendo para isso necessário, em seus fins higiênicos, o estabelecimento das relações entre o homem e a sociedade. A Educação Física como forma de desenvolver a manutenção do corpo e de resolver problemas de higiene teria no recém-criado curso em Pernambuco ainda ministrado apenas para os “corpos da tropa”, o desenvolvimento dos estudos fisiológicos. O final do artigo revela que, na necessidade de orientar processos educativos em outros estados, o Exército havia transferido para Pernambuco um “oficial especializado” para, com isso, organizar, com aquele Departamento, um curso de emergência destinado à preparação de monitores para os “corpos da tropa” enquanto ainda não existissem instrutores e monitores como na EEFE. Logo abaixo, uma nota da própria revista relata que esse oficial seria o Capitão Laurentino Lopes Bonorino. [...] nosso companheiro de lutas pela eugenização do país, que durante largos anos labutou na Escola de Educação Física do Exército como instrutor de várias disciplinas. Seus trabalhos o tornaram bastante conhecidos nos meios educacionais, especialmente nesta Capital, razão pela qual nos dispensamos de po-lo em destaque. A ele, se deve a ótima organização que tem agora o Departamento de Educação Física do C.P.O.R. da 7ª região 113 . Justificando a criação do Departamento e do curso de formação que seria posto sob a orientação do Capitão Bonorino, o Boletim destaca que, mesmo no meio militar, havia a “miséria orgânica” e a “falta de higiene individual”, afirmando assim serem totalmente desconhecidos os exercícios físicos para esse fim. Além disso, apontamentos que contribuíam para esse contexto tinham nas falhas do sistema educacional o fato de a Educação Física ser relegada a um plano inferior. Essa incompreensão do significado da educação daria uma dupla tarefa ao Exército: “fazer primeiramente homens e depois soldados”. Nessa formação, centenas de homens poderiam ser restituídos à sociedade, fisicamente mais “robustos” e 113 AMPLIANDO, 1934, p. 37. 115 “moralmente” capazes de lidar com a vida cotidiana a partir de benefícios que viriam da higiene e da eugenia, ratificando os cânones científicos 114 . Laurentino Lopes Bonorino, após a fundação do Departamento de Educação Física em Pernambuco 115 , aparece citado na Revista de Educação Física do Exército, pelo Capitão Antônio de Mendonça Molina, somente em 1935. Coautor do Histórico, Molina faz, em 1935, um balanço da EEFE em relação à sua atuação “em prol da Educação Física nacional”. Molina lembra que a expansão da Educação Física no meio civil pelo Brasil dava-se pelo desenvolvimento das Escolas e Departamentos dos estados 116 . Valendo-se dos exemplos dos vários esforços estaduais para a organização da EF no Brasil, relata que o Capitão Bonorino já havia erguido um estádio e criado cursos regionais de Educação Física em Pernambuco. Junto com o Capitão Mamede, Bonorino também havia enviado oficiais, médicos e sargentos de Pernambuco para cursar a EEFE como forma de fortalecer a escola da “Fôrça estadual”, tentando solucionar o “problema” da Educação Física naquele estado117. Incorporado ao debate educacional e propagandeador desse debate, Bonorino ajuda a criar o Departamento em Pernambuco, justificando que a educação do ponto de vista militar deveria ser mais bem compreendida para que se facilitassem as “especializações”. Lendo “especializações” como “formação”, Bonorino continuava a realizar o discurso da uniformidade da Educação Física, “na escola, no quartel, no lar e nos clubes”. Para ele, essa seria uma Educação Física “única” do ponto de vista geral, nesse caso, da educação e, mais especificamente, de sua metodização “francesa” que, incorporada na escola e em outras instituições, passaria a fazer parte integrante da vida privada 118 . Transferido para o Rio de Janeiro novamente em 1935, Bonorino se torna aluno da “Escola de Armas do Exército”119 e, em 1936, recebe homenagem do Governo Francês em cerimônia na EEFE. Na cerimônia em homenagem aos “officiais instructores” da EEFE, Bonorino faz discurso tecendo diversos elogios à Escola de Joinville-le-Pont e, após, oferta a medalha que acabara de receber do Governo Francês ao Museu da EEFE. O comandante da missão militar francesa presente solicitou a ele uma cópia do seu discurso para enviar à Escola de Joinville 120 . Bonorino, apesar de não fazer mais parte do quadro de instrutores da EEFE, 114 AMPLIANDO, 1934, p. 37. 115 BONORINO É TRANSFERIDO, 1933, s.p. 116 Em 23 de janeiro de 1934, o jornal Correio da Manhã noticia a presença de Bonorino no Departamento Techinico de ensino da EEFE como um dos oficiais que irá servir nos diversos Departamentos da Escola de Educação pelo país. 117 A EEFE, 1935, p. 5-7. 118 Idem. 119 MATRICULAS ,1935 ; OS QUE VÃO CURSAR, 1936. 120 OFICIAIS, 1936, s.p. 116 parece ainda muito conectado à instituição. Como “instrutor”, esteve visivelmente preocupado com a disseminação do Método Francês, fazendo desta sua maior causa. Apesar de conectado com a difusão do ensino da educação física pelo Exército ao longo de quase uma década, o Capitão Bonorino parece abandonar tal função. Transferido para Petrópolis como encarregado do Batalhão de Caçadores em 1939, passa a se ocupar também dos microfones da rádio difusora da cidade, dissertando na “Sessão cívica” temas como “A personalidade do Marechal Floriano e os exemplos de civismo que nos legou”121. Partindo da sua produção e de sua presença nos jornais e revistas, é possível inferir que Bonorino foi professor da cadeira de HEF na EEFE de 1930 a 1933, já que, em 1934, ele já se encontrava desenvolvendo atividades no recém-criado Departamento de Educação Física de Pernambuco. Os históricos escolares dos alunos da EEFE ajudam a confirmar que a disciplina HEF existiu desde 1929 e ao longo de toda a década de 1930 nos cursos de instrutores, monitores, especialização e medicina especializada. O regulamento da EEFE de 1933 determina que os cursos de instrutores e monitores funcionariam eventualmente para civis: professores federais, municipais e para demais interessados que pudessem ser preparados para ministrar educação física em diversos estabelecimentos civis. A disciplina HEF não aparece como componente curricular apenas nos cursos de massagista esportivo e monitor de esgrima. Não foi possível identificar o professor da disciplina em 1929, ano em que Bonorino faz o curso como aluno, porém é possível cogitar duas hipóteses sobre quem assume a cadeira de HEF após sua saída. Uma delas é a de que Antônio de Mendonça Molina, coautor do Histórico teria assumido a disciplina até 1936, ano em que as publicações de Jair Jordão Ramos ganham visibilidade na Revista de Educação Física do Exército. A outra hipótese, mais remota, é Jair Jordão Ramos ter assumido a disciplina ainda em 1934. O compilado de textos de Jair Jordão Ramos, que gerou o livro “os Exercícios Físicos na história e na arte: do homem primitivo aos dias atuais”, publicado post-mortem em 1982, indica que a obra seria composta de trabalhos escritos pelo autor ao longo de sua carreira como professor da disciplina HEF na EEFE. A presença de seus artigos na revista é marcada por uma ruptura, gerando dois momentos distintos: de 1936 a 1939 e em seguida de 1950 a 1956 122 . 121 INQUERITOS, 1939, s.p. 122 A produção de Jair Jordão Ramos merece uma análise pormenorizada em relação ao Exército e à disciplina HEF. Apesar do desejo de analisá-la em relação à produção dos demais professores nesta tese, acredito que o livro de Jair Jordão Ramos necessita de uma analise mais cuidadosa em outro momento por não ter sido publicado nos seus anos de atuação como professor da EEFE. 117 Opto por apresentar, logo após Bonorino, Carlos Marciano de Medeiros, em função da sua importância para a Educação Física no Estado do Espírito Santo. 3.1.2 Carlos Marciano de Medeiros Como um dos tenentes da chamada “Revolução de 1930” no Espírito Santo, Carlos Marciano de Medeiros é um dos instrutores/professores que em 1931 funda o Departamento de Educação Física daquele estado. Também autor do Histórico da Educação Física, Medeiros é um dos oficiais que faz o curso de instrutor de Educação Física no CMEF em 1929, assim como Bonorino e, em 1930, chega ao Espírito Santo empenhado em difundir, orientar e organizar as atividades de ensino. Silva (1996) afirma ser possível concluir que sua “indicação” para o cargo atendeu a orientações políticas, mas também, e principalmente, a orientações técnicas. Para desempenhar as funções de Diretor, era previsto no decreto estadual um técnico devidamente habilitado. Nomeado pelo Capitão João Punaro Bley, então interventor do Espírito Santo, Carlos Marciano de Medeiros foi o Diretor do Departamento e também o professor da disciplina História da Educação Física no curso especial de Educação Física para professores, além de deputado naquele estado. Como deputado, foi responsável pela emenda aprovada em 1935, pela Assembleia do Estado do Espírito Santo, que tornava a Educação Física disciplina obrigatória nos programas de ensino. Tal emenda, prevendo a obrigatoriedade da disciplina, tratava também de orientar, formar e aperfeiçoar os professores daquele estado através de um órgão técnico para a difusão da educação física, nesse caso a recém-criada Escola de Educação Física, em 1934. Na revista, ao fazer as saudações ao Espírito Santo como primeiro estado da federação que havia incluído em sua “carta política” a obrigatoriedade da Educação Física na escola, lembrava também que a primeira e “grandiosa iniciativa” havia sido do Exército em prol da causa nacional. Tornada lei no estado, a Educação Física devia ao Exército a promoção da saúde e da prosperidade de seu povo através de sua Escola de Educação Física 123 . Carlos Marciano de Medeiros se afasta da direção e da docência da disciplina HEF, no ano de 1932, e o então secretário do Departamento de Educação Física, Heitor Rossi Bélache, assume interinamente ambas as funções, assinando o programa de ensino de HEF naquele ano 124 . Em 1933, no curso especial para professores e monitores de Educação Física, Medeiros volta a assinar o programa da disciplina HEF e as sabatinas, agora acompanhado de 123 INCLUÍDA, 1935. 124 Programa de História da Educação Física, 1932. Arquivo Permanente CEFD/UFES. 118 Horácio Candido Gonçalves, então Diretor Técnico que, naquele mesmo ano, acabara de assumir a direção do Departamento, ficando no cargo até setembro de 1934. Pelas datas dos programas da cadeira de HEF, parece ser o primeiro semestre de 1933 o último de Carlos Marciano de Medeiros como professor da disciplina. Os programas que datam do segundo semestre de 1933 indicam Heitor Rossi Bélache como o professor que assume a cadeira de HEF no curso de professores e também na primeira sabatina de HEF para o curso de monitores. Em 1933, Carlos Marciano de Medeiros deixa o cargo de diretor e, após Horácio Gonçalvez, Heitor Rossi Bélache assume a direção da já criada Escola de Educação Física – que substituiria o curso especial –, ficando no cargo até 1945, sendo também o professor da disciplina HEF até essa mesma data 125 . A Escola passou a ser composta pelos cursos de instrutores e professores e o de monitores, que já existia como curso especial, acrescida do curso de médicos especializados. Carlos Marciano de Medeiros, já como deputado estadual e presidente da Assembleia, em 1935 consegue aprovação de uma emenda de sua autoria, que transformava em lei estadual a obrigatoriedade dos programas de educação física na escola e, com esta, ratificava o papel da Escola de Educação Física, que “continuaria difundindo e aperfeiçoando” a formação em Educação Física para os professores do Espírito Santo. Marinho (1953) lembra que a emenda proposta e aprovada teria sido influenciada pelas decisões votadas no VII Congresso Nacional de Educação ocorrido no mesmo ano. As sessões ordinárias do congresso demonstram uma urgência na discussão de temas ligados ao funcionamento, à organização e à administração de departamentos, escolas e serviços de Educação Física pelos estados. Um desses trabalhos, apresentado pelo capitão Horácio Candido Gonçalves, discorria sobre a organização do curso após a recém-criada Escola de Educação Física do Espírito Santo. O Capitão Horácio lembra, como executor do “plano de Educação Física” daquele estado, que este passou a fazer parte do programa de governo do Capitão João Punaro Bley, sendo Carlos Marciano de Medeiros seu idealizador 126 . 3.2 O compêndio Histórico da Educação Física Considerando o Histórico da Educação Física como um “currículo escrito”, como sugere Ivor Goodson (2000), acredito que ele possa ser interpretado como um guia oficial, um testemunho e uma importante fonte documental sobre a estrutura institucionalizada da 125 Relação de diretores da unidade, s.d.. Arquivo Permanente CEFD/UFES. 126 GONÇALVES, 1935, p. 113-124. 119 disciplina HEF. Escrito em função da “matéria dada” no ano de 1930 no CMEF, BONORINO; MOLINA; MEDEIROS. (1931) apresentam no prefácio a explícita intenção pedagógica e didática da obra. O compêndio, organizado e prescrito para a disciplina de HEF do ano de 1930, é apresentado como um esboço para a “edificação” da Educação Física nacional. Aliados a determinações legais que começavam a promover a formação em Educação Física em diferentes estados, o compêndio cumpria o papel de difundir o que era ensinado pela EEFE e de instruir a prática pedagógica, sendo guia orientador para professores e alunos. As determinações legais que criam cursos estaduais necessitavam de material didático para o desenvolvimento das cadeiras nos cursos de formação. Os compêndios destinados à prática pedagógica dos professores na escola, já amplamente utilizados na escola brasileira desde o século XIX 127 , também se difundem para as cadeiras de formação profissional. Organizado para servir como referência nos “estabelecimentos congêneres” em que eram abertos cursos nos diversos estados brasileiros, o Histórico serviria como um orientador de instrutores, professores e alunos para a cadeira de HEF. Tal orientação pouparia, segundo seus autores, “o fastidioso trabalho” de consultas a bibliotecas que teriam os profissionais em sua formação sobre a matéria a ser estudada/ensinada. Argumentando serem as bibliotecas pouco aparelhadas e que a matéria havia até ali pouco interessado os escritores brasileiros até aquele momento, os tenentes se propõem a transcrever um histórico para a Educação Física a partir de livros estrangeiros já que “em língua vernácula” até então nada havia sido escrito. Como uma compilação de livros e compêndios estrangeiros que tinham como intuito orientar a disciplina nos cursos de formação, os tenentes expressam a tentativa do Exército de unificar a educação física do norte ao sul do país. O pretexto dessa unificação, que tinha como ponto de partida o CMEF, possibilitaria que, no futuro, uma História da Educação Física no Brasil pudesse ser contada, expressando os princípios que a regiam naquele momento: a cientificidade, a racionalidade e o método (francês), propagandeados pelo Exército. Justificando as práticas “científicas e racionais” promovidas pelo ensino da EEFE, os autores outorgam o protagonismo do Exército naquele presente e, assim, projetam também sua escrita futura. O compêndio, para além de ser um guia, faria parte de um movimento mais amplo de espraiamento das práticas que, já estabelecidas na EEFE, pudessem também ser incorporadas 127 Manual de Ginastica de Pedro Manuel Borges e demais manuais e compêndios como os de Paulo Lauret, Arthur Higgins, Antonio Martiniano Ferreira e Schereber circularam como programa da disciplina de gymnastica nas escolas no Brasil entre o século XIX e o XX. 120 nos demais departamentos e escolas que eram criadoss pelo país. À medida que essas diferentes instituições e cursos se instituem, os materiais didáticos produzidos pelos professores da EEFE para essa formação também ganham visibilidade. Nesse sentido, acredito que o Histórico tenha circulado nas diferentes instituições e nos cursos anteriormente apresentados, que tinham na EEFE lugar modelar nessa formação. A ideia da publicação deste trabalho, que constituiu a materia dada no ano de 1930 aos alunos do C.M.E.F. e foi distribuído em fascículos, aos interessados, não nasceu absolutamente do desejo de aparecer, nem da veleidade de nos colocarmos em evidência, mas não somente de cooperarmos com nossa modesta particula de conhecimentos na construção que ora se esboça do patriotico edificio da Educação Fisica Nacional. Move-nos o elevado proposito de alargarmos a estrada para nossos porvindouros no Centro Militar de Educação Física e para aqueles que, nos estabelecimentos congeneres, se dedicarem ao assunto, facilitando-lhes o estudo da cadeira de Historia e poupando-lhes o fastidioso trabalho de ininterruptas consultas, sobremodo dificultadas por não se encontrarem as nossas bibliotecas aparelhadas para servirem de fonte de informações sobre a materia em apreço. O assunto de que trata este compendio ainda não interessou os nossos escritores; eis porque, em língua vernacula, nada ha a tal respeito. Em outros idiomas encontramos, em cada novo livro, á guisa de prefacio, um esboço da Historia da Educação Fisica. Esses fragmentos não podem por certo constituir materia para uma disciplina, como o é a cadeira de Historia da Educação Fisica, principalmente do C.M.E.F., onde ha um programa organizado, á margem do qual este trabalho foi desenvolvido. Nada ha de originalidade neste compendio; como verificarão os leitores trata-se de uma compilação, coordenada e tão completa quanto possivel. Eis aí, em breves linhas, os motivos do nosso trabalho. Certamente, com o evolver da educação física no Brasil, dentro em breve teremos a ventura de vêr os nossos patricios prolongarem o nosso esforço com a Historia da Educação Fisica no Brasil. Até lá é preciso, porém, que trabalhemos com afinco e que conduzamos as autoridades civis e militares do País ao palanque dos Estadios nacionais para lhes mostrarmos como o caboclo nortista, do Centro ou do Sul, se transfiguram milagrosamente em homens sabidos e desembaraçados pelos exercicios fisicos, científicos e racionais codificados no metodo que propagamos. Dezembro de 1931, Os autores (BONORINO, MOLINA, MEDEIROS, 1931, p. v-vi). Os autores explicitam a incipiência da obra para com as questões do ensino e reconhecem o ineditismo em território nacional. Reconhecer tanto a obra como fonte quanto seu papel pedagógico no curso de formação do CMEF é importante para entender que nela se encontram as primeiras prescrições para a disciplina HEF. Analisar as condições de produção da obra é relevante para observar a organização, as concepções, os conteúdos, as referências, as funções e funcionalidades do programa explicitado pelos autores. A obra, nesse caso, pode ser vista como a expressão da prática docente daquele grupo de professores, organizada, a princípio, com claras intenções pedagógicas. Observar o que era ensinado em História da Educação Física por meio desse compêndio é um dos objetivos do mapeamento do “surgimento” da disciplina, tensionando a noção da EEFE como lugar de irradiação modelar de formação. Acredito que a irradiação da EEFE como uma instituição modelar pode ter implicado também a difusão dos livros, programas e compêndios de seus professores. 121 Como publicaram o compêndio em 1931, pela Imprensa Oficial de Vitória-ES, os autores estavam em sintonia com o processo de formação de militares e civis dentro da EEFE, bem como na Inspetoria de Educação Física no Estado do Espírito Santo, tendo ministrado a disciplina HEF nas respectivas instituições de ensino no início dos anos 1930. Dada a relevância de compreender as redes de sociabilidade desses professores, não podemos esquecer que é a partir de seus escritos e também de seus espaços de circulação que tais autores são analisados. O Histórico é caracterizado pelos autores como um compêndio e tem 237 páginas, sendo dividido “racionalmente” em cinco grandes períodos: o primeiro, “pré-histórico- antigo”, se apresenta com o aparecimento do homem sobre a Terra e termina com a antiguidade oriental; o segundo período, chamado de “clássico”, se inicia com os “tempos heroicos” da Grécia e vai até o Império Romano; o terceiro período, denominado “medieval”, abrange toda a Idade Média; o quarto período se institui do Renascimento até o século XIX; e, por fim, o quinto e último período, o “contemporâneo”, do século XIX ao XX e, para os autores, se inicia pelas críticas feitas ao Método Sueco por Demeny e vai até os anos 1930. Na bibliografia do Histórico, das trinta e cinco obras apresentadas apenas cinco são títulos nacionais 128 sendo as demais referências francesas. A grande maioria trata de temas como a educação física, a ginástica e seus métodos, a saúde e os esportes. Alguns títulos tratam especificamente da história dos temas referidos, outros são guias, manuais, conferências, tratados, nem sempre nomeados como históricos. Os grandes tratados de Educação Física e os manuais, em sua grande maioria, franceses, são recorrentes na lista bibliográfica. As bibliografias nacionais, compostas por livros de História Geral e História Universal, guardam a influência da forma clássica de escrever história no período: marcada pela segmentação dos grandes períodos da humanidade com periodização linear e composta pela escrita enciclopédica, tenta apresentar todos os assuntos ocorridos na Educação Física até aquele momento presente 129 . 128 Os títulos nacionais utilizados como bibliografia são os seguintes: História Geral de A. Malet e P. Grillet, Historia Universal de Raposo Botelho, Historia Universal de Jonathas Serrano, Da Educação Física de Fernando de Azevedo, O Genio da Aristocracia e da Beleza de José Palmella. 129 A escrita enciclopédica, para Robert Darnton (1986), entende que o conhecimento é algo organizado e classificado. Tentando explicar a construção da Enciclopédie pela metáfora da “árvore do conhecimento”, o autor lembra que a tendência de organizar o conhecimento passa pela construção de um método. Mapear, delinear e espacializar segmentos do conhecimento são formas características dessa escrita alimentadas por Francis Bacon a D’Alembert. Diderot e D’Alembert descreveram a Enciclopédia como uma tentativa de ordenar e concatenar “todo” conhecimento humano. Esse grande mapeamento de todos os conhecimentos humanos transmitidos pela metáfora da árvore do conhecimento também estaria nas pretensões dos autores do Histórico. Sua completude prestaria “valioso” auxílio aos estudantes dessa disciplina (DARNTON, 1986, p. 250-251). 122 Das bibliografias nacionais, Da Educação Física de Fernando de Azevedo é referência já anteriormente citada que influenciou o Histórico. Apesar de pouco preocupado com a escrita historiográfica, Azevedo esteve mais interessado em utilizar a história para justificar as escolhas daquela educação física do início do século XX. Jonathas Serrano, outro autor referenciado no Histórico, também tem na educação sua forma de mobilizar a História. Membro do IHGB, professor de História do Colégio Pedro II e da Escola Normal da então capital federal, o autor é conhecido, segundo Maria Auxiliadora Schmidt (2004), por ter influenciado o debate pedagógico no ensino de História e pela proximidade com o debate da Escola Nova e as ideias de John Dewey. Preocupado em propor o ensino de História, Serrano lança uma série de livros e o primeiro é uma das referências citadas no Histórico: Epitome de História Universal, que teria sido adotado como manual didático em vários estabelecimentos de instrução da capital federal. O livro foi lançado em 1912 e foi escrito fortemente influenciado pelo professor francês Henrique Monot, de quem Serrano era discípulo. Através deste, ele teria tido acesso aos manuais de Lavisse (álbum Historique), nos quais teria sido introduzido aos novos métodos do ensino de História (SCHMIDT, 2004, p. 197). O livro teve 24 edições e obteve sucesso desde a primeira até a última, datada de 1954 130 . Ele foi organizado em quatro partes que acompanham o desenvolvimento metodológico da civilização ocidental 131 e, segundo Schmidt (2004),a concepção de História de Serrano revela uma adesão implícita e explícita à historiografia do século XIX, particularmente aquela vinculada à obra de Bossuet – Discours sur l’histoire universele. A concepção de História dos três tenentes parece cópia de Serrano quando este afirma ser a História o “estudo da origem e do desenvolvimento das sociedades humanas a partir de seus fatos mais importantes” (Schmidt 2004, p. 197) Idílio Colonia prefacia o Histórico lembrando ser este “o aparecimento da História da Educação Física” na Educação Física brasileira. Considerando a HEF “uma matéria um tanto esparsa”, o livro seria contributo para “facilitar” o conhecimento do assunto. Idílio Colonia dá ênfase no prefácio ao momento do livro em que os autores apresentam estudos do Método Sueco e seu paralelo com o Método Francês. O grande contributo do compêndio estaria em apresentar o Método Sueco como antiquado e falho e o Método Francês como o moderno e 130 Schmidt (2004) relata que Serrano credita essa obra a quatro fatores: a experiência que possuía no magistério (na época, de 15 anos); aos processos da pedagogia, que condenava os processos exaustivos de ensino de História baseados na memorização e no acúmulo de datas; à influência de Lavisse, principalmente do seu álbum Historique e, finalmente, aos progressos dos recursos tecnológicos que poderiam ser usados no ensino de História, como o cinematógrafo. (SCHMIDT, 2004, p. 198) 131 História antiga (Antiguidade Oriental e Clássica); História da Idade Média, História Moderna e História Contemporânea. 123 científico, como as proposições posteriormente regulamentadas pela EEFE em 1933 (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. vii-viii). Metodologicamente, os autores se baseiam no formato dos livros, manuais e enciclopédias de História Universal, tentando localizar temáticas que afirmem a presença de um histórico da Educação Física partindo de uma periodização clássica. A escrita da História da Educação Física seria compreendida como uma derivação da escrita de uma História Geral que pudesse localizar nos temas universais a sua especificidade. A grande referência à História Universal na produção do Histórico da Educação Física faz-se também como tentativa de dar visibilidade a esse tema, até então, não explicitado nas enciclopédias universais e que tampouco havia interessado os “escritores nacionais”. A consequência disso, para os autores, seria “em língua vernácula, nada haver a tal respeito” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931 p. v-vi) fazendo com que a concepção, os temas e a estrutura do compêndio fossem balizados pela literatura “estrangeira”, sobretudo a de origem francesa. Como explicitado anteriormente, os autores apresentam a concepção de História como “a ciência que tem por fim a narração verídica dos fatos e acontecimentos mais importantes, passados nas sociedades humanas e as relações existentes entre os mesmos”. A concepção de História entendida pela aproximação da verdade tem por princípio a tentativa de contar uma história que, pautada em fatos, não fosse confundida com literatura. O debate posto sobre a escrita de uma “História Universal” obedeceria à ordenação cronológica dos fatos, além das tentativas de caracterizá-la como ciência. 132 É do século XIX o movimento de tentar cientificizar a História. A “ciência da história”, incipiente no século XIX, torna-se o centro de oposição ao “idealismo” como forma de escrevê-la a partir das relações de “causa e efeito” e a história científica passa a se caracterizar como um conhecimento matemático. Chamada de positivista, a História deveria, assim como as demais ciências, observar os fatos, constatar suas relações e, por fim, aplicá- las. Esse “espírito positivo” passa a predominar entre os historiadores iniciando assim uma luta contra a influência da “filosofia da história” sobre a tentativa de se instituir um “método histórico” para consolidar a “ciência da história”. A instituição desse “método histórico” no século XIX torna-se modelo para as outras ciências humanas fazendo com que os historiadores obtivessem prestígio social e intelectual pela estruturação do conhecimento histórico em bases “empíricas e positivas”. A história científica não teria a pretensão de fundir passado, presente e futuro, mas diferenciar passado e presente de forma objetiva dando ênfase 132 BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. v 124 aos fatos singulares e individuais. O objetivo do historiador seria localizar e datar fatos e eventos garantindo racionalidade e inteligibilidade ao momento. Essa época foi chamada de “época do historicismo” (REIS, 1996, p. 5-7). O historicismo é a rejeição radical das filosofias da história iluminista e hegeliana. [...] As relações entre história e filosofia se invertem: é a filosofia que se revela histórica, é ela que se mostra influenciada e subordinada às suas condições históricas. A História não se submeteria a nenhum a priori. Estes a priori é que possuem sua origem na historicidade e só podem ser pensados e explicados historicamente. A rejeição da subordinação da história a filosofia se assenta em uma nova atitude do historiador – a positiva – e em uma outra forma de tratar o seu material – através do método crítico de purificação das fontes. O conhecimento histórico não se assentará mais sobre elementos a priori, será um conhecimento a posteriori (REIS, 1996, p. 7). A história contada no Histórico deseja ser universal e, por ser uma compilação, parece pouco preocupada com o caráter metódico da História. Seus autores, ainda que preocupados em discorrer sobre uma periodização clássica, trazendo a filosofia como um dos componentes dessa escrita, apresentam diferentes concepções que compõem a escrita do compêndio. Os preceitos positivistas influenciados pelo historicismo podem ser considerados eixo norteador da escrita das referências, sobretudo as estrangeiras, apesar de seus autores não expressarem uma preocupação com a escrita e com o método, estando mais preocupados com a estrutura e com o discorrer da “verdadeira história” a ser narrada daquele momento. A escrita da história no compêndio seria, a princípio, utilitária e formadora, pois antecedia e justificava as práticas pedagógicas que seriam executadas no momento seguinte nos currículos dos cursos. Invocando o que seria a “Educação Física” nos diversos momentos históricos, os três tenentes podem ter compilado também a influência do historicismo ainda presente na escrita da História do início do século XX nos autores estrangeiros. O primeiro período, ou Pré-Histórico-antigo, é bem sucinto e se inicia tratando da imprecisão da geologia do aparecimento do homem na Terra, apresentando, no seu desenvolvimento físico, a necessidade de caçar, nadar e atacar, em sua fase nômade. A noção dos povos não civilizados e selvagens praticarem “atividades físicas” justifica para os autores que o “germe do exercício físico nasce instintivamente com o homem” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 8-9). O argumento da naturalidade dos movimentos de trepar, andar e correr tem seu ápice mais tarde na transformação do treinamento físico em arte, e esta seria a primeira fase da “educação física” a tornar-se uma “ciência da saúde”. Nesse sentido, a Educação Física teria nascido quando o homem compreendeu a necessidade do desenvolvimento físico, remontando sua origem às antigas civilizações orientais (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 8-9). Daí segue o desenvolvimento 125 pormenorizado da “cultura física” dos povos Egípcios, Hindus e Chineses nas páginas subsequentes. Tal argumento também é utilizado, segundo os autores, por George Hebert na constituição de seu Método Natural, inspirado na Escola Amorosiana francesa no século XIX. A observação dos diferentes povos e suas práticas de movimento ratifica o argumento da “naturalidade” do corpo em relação à posterior cientificidade da constituição dos métodos ginásticos europeus. Para transformar o natural em ciência, o corpo “deveria se submeter a desenvolvimento, mediante um treino e uma educação adequados” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 9), para, em consequência, perceber o seu “próprio vigor muscular” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 9). O segundo período, ou Clássico, apresenta a Grécia de Hércules, as disputas Espartanas, os poetas e filósofos. A “Era das Olimpíadas” como lugar iluminado teria conferido ao povo grego uma “ascendência absoluta e um surto de progresso” graças a Píndaro, Sófocles, entre outros, que “iluminaram o seu século” com poesia, história, filosofia, medicina, escultura e pintura (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 16). O debate acerca da ginástica como desenvolvimento do espírito que não se distinguia da ciência é realizado com referências a com Platão e Homero. A história dos ginásios, dos diversos jogos (Pítcos, Ístmicos e Nemeus), com seus respectivos vencedores e o restabelecimento dos Jogos Olímpicos da Era Moderna aparece em uma crescente em relação ao “esplendor e ao apogeu da Educação Física” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 16), na Grécia. O período romano é apresentado com o reconhecimento da “Educação Física grega” em declínio. Roma é discípula da “herança” grega dos ginásios e dos jogos, porém, sem o caráter helênico da formação grega. O único objetivo da Educação Física romana seria a “grandeza da pátria” para formar cidadãos “robustos, intrépidos e resistentes” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 38). Os circos, anfiteatros e seus gladiadores são apresentados como encerramento do período. O apogeu romano é marcado pela ascensão do cristianismo, que pregava renúncia de tudo que era material e terrestre relegando “a segundo plano a conservação da integridade corporal, tornando-se desta arte, funesto a cultura física” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 46). O terceiro período, ou Medieval, é apresentado pelos autores como momento de “abandono do próprio corpo”. As características do cristianismo são apresentadas como apagadoras do “vigor brutal que o pagão desafiava as forças da natureza” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 49. O feudalismo, a cavalaria, os torneios e as justas são temas presentes apresentados sem a euforia e o deleite do momento anterior grego. Descrito 126 de forma sucinta, este período, para a “Educação Física”, não seria nada mais que “uma solução de continuidade entre o esplendor grego e romano e o período do Renascimento” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 59). O quarto período, ou Renascimento, se apresenta como uma retomada dos valores gregos. Os autores apresentam a inspiração grega, demonstrando “como a Grécia imortal encarava a educação do corpo” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 61). Por meio da biografia do italiano Vitorino da Feltre, os autores apresentam a retomada da preocupação com o corpo e com o “desenvolvimento das faculdades físicas e as energias morais do homem” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 64). Grandes pensadores do período renascentista são apresentados junto a suas obras, século a século, através de biografias. Do século XV ao XIX, são destacadas as contribuições para a Educação Física de Mercurialis, Montaigne, Bacon, Da Vinci, Fenelon, Rousseau, Basedow, Pestalozzi, Guts- Muths, Jahn, Spiess, Demeny, entre outros. Eram filósofos, historiadores, pedagogos, médicos, teólogos, poetas, fotógrafos, fisiologistas, enfim, homens de múltipla formação que, ao serem biografados, são exaltados pela contribuição ao desenvolvimento da Educação Física. A Educação Física no Brasil é brevemente apresentada pela primeira vez ao longo da obra, na página noventa e cinco, em que se menciona que no Brasil “em 1884 é aventada a ideia da ginástica fazer parte dos programas escolares”. A ginástica no Brasil, no entanto, já estava presente na escola primária naquele período, ainda que os autores do Histórico afirmem que esta somente poderia ser historiada através da dimensão legal pela via das Instruções Públicas e pelos Manuais de Ginástica. Para os autores, a presença dos debates sobre a Educação Física na Instrução Pública seria devedora a “figuras de relevo”, como Bandeira Filho, Borges Carneiro, Martins Pacheco, Pedro Manuel Borges e Vitório da Costa. O Manual de Ginástica de Pedro Manuel Borges e o Tratado de Educação Física para meninos de Francisco de Melo Franco são datados como os primeiros trabalhos publicados no Brasil sobre o tema da Educação Física. Localizando a Escola Normal do Rio de Janeiro como um “centro irradiador do movimento em prol da Educação Física no Brasil” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 95), os autores também reconhecem Ataliba Fernandes, Paulo Vidal e Artur Higgins como brasileiros que “muito cooperaram para a implantação da ginástica” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 95). BONORINO; MOLINA; MEDEIROS (1931), apesar de apresentarem alguns manuais, não os analisam como fontes. Ao localizarem o compêndio de Pedro Manuel Borges, publicado em 1866, como guia para a disciplina de gymnastica na Côrte brasileira, os 127 autores apenas lembram que a ginástica já figurava nos programas escolares. Tomando o Manual de Ginastica de Pedro Manuel Borges e demais manuais e compêndios como os de Paulo Lauret, Arthur Higgins, Antonio Martiniano Ferreira e Schereber 133 , que circularam como programa da disciplina de gymnastica nas escolas no Brasil entre os séculos XIX e XX, é possível perceber uma preocupação com a prática dos exercícios, suas indicações técnicas, além da preocupação com desenhos explicativos, demonstrando nas lições as finalidades de cada exercício. Em nenhum desses compêndios e manuais a História da Educação Física aparece nem como tema a ser introduzido, tampouco como conteúdo a ser ensinado. O século XIX tem lugar de destaque no Histórico, pois, a partir da biografia de Francisco Amoros y Odeano, o precursor da Ginástica Francesa, a Escola Amorosiana é apresentada como propugnadora do “fortalecimento da raça humana”. A biografia é acompanhada da descrição de trechos do Manual de Educação Física, Ginástica e moral exaltando a ginástica como uma “ciência provada” capaz de tornar o homem mais “corajoso, intrépido e inteligente” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 103). Ao lado de Amoros, o Método Sueco também ocupa lugar de destaque, porém, os autores localizam a polêmica do período sobre a obra de Ling, afirmando que ele teria sido influenciado pelas doutrinas ginásticas orientais. Colocando em dúvida tal polêmica, os autores afirmam ser mais provável a influência de Ling advir de educadores alemães bem como ser devedora da “vasta cultura clássica” para sua inspiração pela ciência. O Método Sueco não teria sido uma criação somente de Ling, mas, em grande parte, dos seus alunos que cooperaram para a publicação do método depois de sua morte. A dúvida sobre a autenticidade e o fato de a possibilidade da obra de Ling ter sido “modificada e melhorada” pelos alunos do Instituto de Estocolmo reforçam o tom de críticas ao Método Sueco em contraposição à exaltação à Escola Amorosiana e à Ginástica Francesa. Apesar de apresentarem detalhadamente as concepções e bases do Método Sueco, suas “falhas fisiológicas” são apontadas e Ling, para os autores, não seria o “culpado” por elas, já que, na época em que teria concebido o método, a fisiologia aplicada que constituiria o verdadeiro alicerce para a Educação Física era incipiente, enquanto a anatomia se achava em pleno desenvolvimento (BONORINO; MOLINA; MDEIROS, 1931, p. 119). As diversas críticas sobre o Método Sueco esboçam a ascensão do Método Francês e suas benesses, recomendadas para a escola brasileira. As críticas sobre o Método Sueco, 133 Manual Theorico Pratico de Gymnastica, Paulo Lauret, 1876; Manual Theorico pratico de Gymnastica escolar, Pedro Manuel Borges, 1888; Compendio de Gymnastica e Jogos escolares, Arthur Higgins, 1896; Compendio Pratico de Gymnastica para uso nas escolas normais e primárias, Antônio Martiniano Ferreira, 1897; Gymnastica doméstica, médica e hygiênica, D.G.M. Schreber, s.d.. Tais compêndios foram estudados como dispositivos para a escolarização da gymnastica no Brasil por Linhales (2014), Moreno et al (2013) e Puchta (2007; 2015). 128 realizadas pelos autores, não se concentram apenas na dimensão fisiológica. Reconhecido como “monótono”, o método é criticado por não se constituir como meio de “perseverar no trabalho físico”, principalmente em relação às crianças. Como ex-alunos do Colégio Militar, os autores relatam as experiências pessoais vividas com as lições de Ginástica Sueca, descrevendo o “desprazer” de executá-la diariamente. O Método Sueco e seus “graves defeitos” seriam inaceitáveis para a “raça latina”. Mesmo reconhecendo “certo fundamento científico”, a rejeição a ele só poderia se alterar “corrigindo-o de anatômico para fisiológico” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 121-122). Essa correção, no entanto, teria sido realizada pelos franceses que, se utilizando da fisiologia, teriam concebido um método com mais utilidade prática, além de mais prazeroso que o Sueco. O quinto e último período, denominado Contemporâneo, ocupa a maior parte da obra. Com mais de cem páginas, o período Contemporâneo é descrito de forma inicial a partir das biografias de “autores modernos” que estavam ocupados com a “propagação da Educação Física, e particularmente desta na escola, sobretudo na Alemanha, Suíça e França” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 123). Oertel, Lagrange, Demeny, Hebert, Dalcroze, entre outros, são biografados. As críticas ao Método Sueco continuam sendo apresentadas como a realizada por Demeny no livro A Escola Francesa As falhas do Método Sueco seriam determinantes para o aparecimento “do novo meio de Educação Física”, no caso, a Escola Francesa. Calcados no “progresso da cronofotografia” e na “então incipiente fisiologia”, a transcrição científica do Método Francês é descrita exaltando a “extraordinária vantagem” do mesmo sobre o Método Sueco. O saber científico representado pela fisiologia conferiu status às atividades que passaram a ser regradas e disciplinadas pelos fisiologistas que levaram à Escola Militar de Joinville-le-Pont preocupações sobre a forma do movimento. Georges Demeny e seus estudos realizados nessa escola teriam trazido implicações fisiológicas importantes para cientificizar o Método Francês (GOELLNER, 1996, p. 129). Paralelos entre a Escola Francesa e a Ginástica Sueca são apresentados ao longo de diversas páginas, sempre exaltando o Francês como o “método do futuro”, capaz de “impor seus resultados ao controle experimental” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 152). À “velha escola sueca” restaria a obscuridade e as críticas a seus fundamentos (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 152). A “Ginástica Culturista”, o “Método Natural” e o “Método Esportivo” também ocupam parte importante desse capítulo e, após as respectivas descrições, são apresentadas as críticas a cada um dos mesmos. Contudo, a escolha dos autores de apresentar de forma pormenorizada o Método Francês demonstra sua centralidade naquele momento, mas, 129 sobretudo, a possibilidade de transformar o CMEF e a EEFE em estabelecimentos que se aproximassem da Escola Militar de Joinville-le-Pont na França, que preparava professores, instrutores e monitores “para transformar em homens vigorosos a juventude francesa” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 181). “Oxalá, que dentro em pouco, o C.M.E.F. seguindo este exemplo, colha frutos transmitindo a mocidade brasileira, os indispensáveis ensinamentos que se fazem mistér para torna-la forte, sadia e bela.” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 181). Francisco Amoros, a Escola de Joinville-le-Pont, os regulamentos franceses de ginástica, a obra de Demeny, as ações da ginástica na Instrução Pública francesa e os regulamentos gerais franceses são descritos exaltando o Método Francês, que, segundo os autores do compêndio, já teria sido, até aquela data, adotado na Rússia, em Luxemburgo e em Portugal. O método francês acabaria sendo aceito como método oficial no Brasil em 1933, através do Regulamento número 7. Foi dos anos 1930 a 1940 que o Método Francês adquiriu notoriedade em território nacional, segundo Goellner (1992). A adoção oficial do Regulamento Geral francês, dos princípios da École de Joinville-le-Pont em 1931 e sua implantação no ensino secundário teriam “enchido de prazer e desvanecimento” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 210) os autores do Histórico da Educação Física. A obra dos três tenentes indica temas que eram veiculados na cadeira de História da Educação Física, a princípio, em instituições do Rio de Janeiro e no Espírito Santo. Para além das temáticas apresentadas, a obra, do ponto de vista metodológico, acompanha os padrões enciclopédicos dos livros e manuais de História Geral. A forte influência francesa na bibliografia explicita o fervor a favor do Método Francês e sua adoção no Brasil. Os temas que concernem a Educação Física brasileira dentro do Histórico se limitam à descrição dos homens, “figuras de relevo”, que contribuíram para a Educação Física nacional. A abordagem central do programa da disciplina tem no Método Francês a grande questão nacional apresentada: sua escolha e as benesses para a formação do brasileiro “jovem, sadio e belo”. O último período compõe a maior parte do compêndio e se dedica a analisar a história das práticas que, ainda contemporâneas, eram utilizadas na estrutura metodológica das aulas da EEFE. O Histórico, escrito com a preocupação com a formação de professores na EEFE, ajuda a compreender que os períodos anteriores ao “contemporâneo” serviriam para “iluminar” as práticas pedagógicas do presente. A estrutura histórica do compêndio tem como finalidade justificar o Método Francês e sua possível inserção na Educação Física nacional a partir das suas bases fisiológicas e de suas possibilidades pedagógicas para a escola. 130 O Histórico, ao assumir a forma de escrever a história fragmentada nos períodos clássicos, também caracterizados na História Geral e Universal, inaugurou para a História da Educação Física brasileira essa mesma estrutura, própria da escrita positivista e historicista do momento 134 . A função do historiador de recuperar os eventos e narrá-los a partir de documentos “oficiais”, a história “resgatada” através desses documentos, e os fatos organizados em uma sequência cronológica de narrativa caracterizam tal influência (REIS, 1996, p. 12-13). A periodização linear e a segmentação na apresentação dos Métodos Ginásticos demonstram que essa estrutura foi incorporada na escrita da História da Educação Física ao longo do século XX, segmentando também a forma de compreensão dessa história. Apesar de toda influência positivista na estrutura da escrita, ela não se dá por completo ao longo do compêndio. As escolhas e demarcações a favor do Método Francês, os relatos das experiências pessoais no CMEF, o júbilo e a exaltação de determinadas práticas em detrimento das demais e a demarcação política dos autores mostram que eles ainda não haviam se apropriado totalmente da dimensão científica da história a ponto de abandonar a especulação filosófica e os elementos subjetivos em suas escolhas. A história científica – positiva e historicista – seria aquela produzida por historiadores capazes de se neutralizar como sujeitos, para fazer aparecer o seu objeto, evitando a construção de hipóteses, não julgando e tampouco problematizando o real (REIS, 1996, p. 13). Os tenentes, no entanto, não se mantiveram totalmente isentos e imparciais aos fatos, “contaminando” filosoficamente suas escolhas políticas, sociais e culturais na escrita daquela história. O Histórico está na fronteira entre o desejo de ser uma história “científica”e a “filosofia da história”, que ainda exercia forte influência no seu fazer. 3.3 Os programas da cadeira de História da Educação Física: o curso para professores no Espírito Santo Percebendo, a partir do Histórico, a circulação de ideias sobre o ensino da História da Educação Física e tentando sintonizar os professores e suas práticas, é preciso questionar por quais instituições essa produção circulava e, sobretudo, como os programas dessa disciplina reconhecem (ou não) esse compêndio como guia orientador do ensino. Compreendendo que 134 Reis (1996) afirma que o esforço de constituição de uma história científica no século XIX resultou em três direções principais: a orientação rankiana, que queria aproximar a história do modelo científico da física, a orientação ditheyniana, que deseja compreender as especificidades do conhecimento histórico que o tornasse diferente das ciências naturais, e, por fim, a orientação marxista que submeteria o conhecimento historico- científico a sua relação com a realidade, a praxis. 131 Carlos Marciano de Medeiros é ex-aluno da EEFE, um dos autores do Histórico, diretor do Departamento de Educação Física do Estado do Espírito Santo e também professor da disciplina HEF naquele curso, é possível associar as representações do programa dessa cadeira ao contexto de produção docente desse sujeito nessa rede de sociabilidade. Medeiros dividiu com Heitor Rossi Bélache a tarefa da docência da cadeira de História da Educação Física, e a disciplina esteve presente no currículo desde o primeiro curso de emergência para instrutores e professores ainda em 1931 no Espírito Santo. As diretivas para organização dos programas mostram que o propósito da HEF seria compreender o estudo da evolução da educação física através da história da civilização, desde o homem primitivo. As prescrições para a construção desse programa teriam os “métodos de educação física e suas linhas gerais” como uma das finalidades135. As diretivas também mostram que das 360 horas dos 120 dias correspondentes à execução do curso História da Educação Física, 20 horas eram destinadas ao seu ensino no curso de professores e 10 horas no curso de monitores, sendo este último indicado para a “formação da tropa”. Comparadas às demais cadeiras, HEF tinha naquele currículo o menor número de horas. Anatomia e fisiologia - 50h, Higiene – 30h, História da Educação Física – 20h, Noçoes de psicologia, pedagogia e metodologia da EF – 40h, Cinesiologia – 40h, Antropometria, Noções de biotipologia e estatística – 40h, Massagem, socorros de urgência e ginástica ortopédica – 20h, Provas mensais – 35 horas, Correção de provas – 35h (CURSO ESPECIAL PARA EDUCAÇÃO FÍSICA, 1934, s.p). A disciplina HEF é compreendida no currículo como “ensino geral” no curso de professores e buscaria habilitar o professorado a ministrar Educação Física nos estabelecimentos estaduais de ensino e no curso de monitores para preparar sargentos e guardas civis para auxiliar na instrução em suas corporações e, eventualmente, nos estabelecimentos de ensino do estado. Em 1933, na abertura do 3º curso de professores e do 1º curso de monitores, o currículo foi ampliado para cinco meses, tendo seus programas calcados na orientação do CMEF. Essa ampliação acontece no mesmo momento em que o CMEF se torna EEFE, também ampliando sua estrutura curricular para um ano de curso. O Inspetor interino Horácio Gonçalves afirma que essa ampliação representa a possibilidade de “integrar as novas gerações com um plano racional de educação física visando aprimoramento eugênico da raça”136. O currículo é estruturado considerando as disciplinas “científicas” como norteadoras do ensino. Nessa perspectiva, o aprimoramento eugênico da raça poderia ser alcançado pela dimensão biológica, tendo na dimensão formativa da disciplina de HEF as 135 CURSO ESPECIAL, 1934, s.p 136 Abertura do curso especial de Educação Física, 1933. Arquivo Permanente CEFD/UFES. 132 justificativas do passado para a construção de uma nova raça brasileira. Horácio Gonçalves, já como diretor técnico do departamento, indica que a cadeira de HEF deveria conter “a narração dos fatos e acontecimentos que marcaram os períodos áureos e de decadência da educação física”(AUTOR, ano, p. xx). Marcada também pela tentativa de apresentar a universalidade desse conhecimento, a cronologia da cadeira seria dada “desde a edade da pedra até a contemporânea”137. Os programas encontrados entre o período de 1931 a 1934 têm a mesma estrutura cronológica e “evolutiva” também presente no Histórico. As partes essenciaes dos programas sofrem uma ampliação à medida que os cursos vão acontecendo deixando de ser resumidas apenas pelo título dos assuntos gerais e passando a conter um resumo temático da abordagem que será realizada. Além disso, a partir de 1933, o Método Francês ganha mais espaço nesses programas, possivelmente impactados pelo Regulamento da EEFE, criado no mesmo ano e que tinha como princípio norteador a inserção de tal método em território nacional. Essa ampliação do método no cenário nacional foi reforçada quando o Presidente da República Washington Luís confirmou sua adoção também nos estabelecimentos civis na tentativa de “uniformizar” a Educação Física. Quando Getúlio Vargas assume o poder com respaldo das Forças Armadas, através do golpe, mais conhecido como “Revolução de 1930”, reforça o discurso de uma “unidade nacional” com apoio do Exército. O Exército, por sua vez, tendo como guia o Método Francês, se constituiu como elemento adequado para forjar um caráter “nacionalista” (GOELLNER, 1996, p. 134). É possível observar nos programas da disciplina o Método Francês como lugar de chegada; como temática final a ser alcançada. Contudo, a partir de 1933, duas características começam a aparecer mais intensamente: o método francês vigorando em todos os pontos da prova escrita do último programa, indicando que a normativa da adoção do mesmo como oficial em 1933 pelo Exército teria sido incorporada por esta instituição e, diferentemente do que parece indicado no Histórico, os programas passam a apresentar a Educação Física no Brasil e no Espírito Santo como temas a serem historiados. Escrever o processo de constituição histórica da Educação Física no Brasil era urgente, sobretudo aquela que localizasse o Exército e as instituições derivadas dele como protagonistas dessa história. 137 Justificação as diretivas para os programas dos cursos de professores e monitores, Arquivo Permanente CEFD/UFES, 25 de outubro de 1933. 133 Programa de HEF 1931 138 História da Educação Física: 1º Generalidades: Divisão – Primeira parte do 1º período 2º Egypcios – Hindus e Chineses 3º Gregos – Período Classico 4º Romanos 5º Período Medieval – Edade Média 6º Período da Renascença – Precursores do século XIV 7º Séculos XV, XVI, XVII, XVIII, e XIX 8º Methodo Sueco 9º Crítica de Demeny ao Methodo Sueco 10º Escola Americana 11º Escola Franceza de Demeny 12º Período Contemporâneo – Seculo XX 13º Histórico da Educação Physica em França. Programa de HEF 1932 139 Programa de História da Educação Física junto aos demais; 1º - Generalidades: Divisão – Primeira parte do 1º período 2º Período – Gregos; Olimpiadas. Grandes Jogos gregos; Jogos Olimpicos, Piticos, Nemeus e Istimicos – Phanatheneia. 3º Estabelecimento dos jogos olímpicos – o ginásio grego – Os romanos – Jogos romanos 4º 3º período - Considerações Gerais – O torneio e a justa 5º 4º período – Vitorio de Feltre – Maffes Vegie – Jeronimo Mercuriali – Francisco Bacon – Berelli – Perrault e Da Vinci – Fenelon – Hoffmann. 6º Jean Jacques Rousseau – Basedow – Pestalozzi, Nachtegall 7º Ludovico Jahn – Clias – Triat – Laisné – Georgú - Demeny 8º Escola amorosiana – manual de educação física, ginástica e moral 9º Methodo Sueco 10º Crítica de Demeny ao Methodo Sueco feita por Demeny 11º Escola Franceza de Demeny – Paralelo entre a Escola Franceza e Methodo Sueco Programa de HEF 1933 140 Generalidades: Divisão – período pré-histórico antigo. Egypcios Indús, Chineses. Periodo clássico, Gregos. Romanos. Periodo medieval. O torneio e a justa Periodo renascentista. Precursores. Seculo XIV a XIX Escola amorosiana ao Methodo Sueco Periodo contemporâneo. Crítica ao Methodo Sueco feita por Demeny Escola Franceza de Demeny. Estudo comparativo entre a Escola Franceza e Methodo Sueco Ginastica culturista e método natural Metodo esportivo Eclosão do método francez Histórico do método francez Comparação com os métodos estudados A Educação Física no Brasil 138 Ofício – Partes essenciaes para serem seguidas no Curso de Educação Physica destinado aos futuros professores do curso. Carlos Marciano de Medeiros – Tem. Cel. Director. Arquivo Permanente CEFD/UFES, 22 de agosto 1931. 139 Programa de História da Educação Física. Ass: Heitor Rossi Bélache, Arquivo Permanente CEFD/UFES, 1932. 140 Curso especial para professores e monitores de educação física, Carlos Marciano de Medeiros e Horácio Candido Gonçalves, Arquivo Permanente CEFD/UFES, 1933. 134 A Educação Física no Estado do Espirito Santo. Programa de HEF 1933 141 1 – Definição - Generalidades: Divisão da História em períodos - 1º período (pré- histórico-antigo) Egypcios, Indús e Chinezes – Caracteristicas de cada um. 2 - 2º Período – Classico - Gregos; (Olimpiadas. Origem e divisão da ginástica grega – ginazios – Os Jogos – Jogos Olimpicos) 3 – Continuação – (Jogos Piticos, nemeus e Istimicos) Caraceteristicas que marcaram este período como o apogeu da Educação Física Panateneia – Inicio do declínio dos costumes gregos. 4 – Continuação – Romanos, seus jogos, seus exercícios, sua índole – estudo comparativo da ginástica entre os povos, grego e romano. Causas da decad~encia da Educação Física. 3º período – Medieval - Considerações Gerais – O torneio e a justa – Traços que marcaram este período como o de uma solução de continuidade para a Educação Física. 5 - 4º período ou período Renascimento – Seculos XIV a XIX- Fatores do renascimento – Seculo XIV – pronuncio de uma nova era - Vitorino de Feltre; Seculo XV – Maffeo Vegie; Seculo XVI – Jeronimo Mercuriali; Seculo XVII – F. Bacon – Borelli – Perrault e Da Vinci – Fenelon – Hoffmann. 6 – Continuação – Seculo XVIII - Jean Jacques Rousseau – Basedow – Pestalozzi, Nachtegall, Ludovico Jahn – Clias – Triat – Napoleão - Laisné – Georgú 7 – Continuação – Seculo XIX George Demeny – Apreciação geral sobre os precursosres 8 - Escola amorosiana – Biografia de Amoros, apreciação do seu manual de educação física, ginástica e moral, divisão das faculdades a desenvolver como objetivo do método. 9 - Metodo Sueco – Biografia de Ling – Concepção e bases – utilidade prática 10 – 5º Periodo – Contemporâneo – Sumario do período - Crítica ao Metodo Sueco feita de Demeny 11 – Escola Franceza de Demeny – característica do método – seu cuidado com a educação física feminina – apreciação sobre o método. 12 – Estudo comparativo entre a ginástica sueca e a escola franceza e vantagem desta última 13 – Ginastica Culturista: Triat, seu precursor moderno – Utilidades e falhas – Seu erro capital 14 – Metodo Natural – Origem – bases – critica ao método – como seria recomendável 15 – Método esportivo – (Dr. Beilin du Coteau) Visão de Conjunto – exposição prática do método – critica ao método 16 – Eclosão do método francês – Histórico (1837-1852) 1º regulamento Francês de Ginastica (1846) – Creação da escola de Joinville (1852) – A obra do Coman Dante D”Argy (1846-73) 17 – Joinville e as sociedades de ginástica (Ação de instrução pública (1850-1895) – Influencia esportiva ingleza e sueca – Trabalhos de Marey e Demeny – o Congresso internacional de Educação Física (1900) – O Regulamento de 1902. 18 – Demeny na Escola de Joinville (1902-07) Periodo de coordenação (1906-14) Finalidade da Escola de Joinville – Instrução Militar – Sintomas e dessidencias – vantagens advindas com a grande guerra (1915-18) – A nova doutrina da Escola de Joinville – O plano geral de Educação Física nacional e o projeto de regulamento geral (1919-1922) 19 – Periodo de 1922-1929 – Histórico (método frances e Regimento de 1927 na cadeira de Pedagogia) ligeira comparação com a apreciação em comparação aos métodos estudados – A educação Física no Brasil (CMEF) 20 – Educação Física no Estado do Espírito Santo. 141 Programa da cadeira de História da Educação Física do Curso de professores distribuída em 20 aulas, Ass: Heitor Rossi Bélache. Arquivo Permanente CEFD/UFES, 1933. 135 Prova escrita de História da EF 1933. 142 Ponto 1 – Egypcios – Divisão da grammatica grega; o pentathon. O torneio Fenelon. Crítica e concepção do methodo sueco Ponto 2 – Indus Jogos Gregos. Combate de Gladiadiadores. As justas. Vitorino de Feltre. Vantagens e desvantagens da gymnastica culturista Ponto 3 – Chinezes – Apreciações sobre a gymnastica romana em confronto com a gymnastica grega. Divisão da Gymnastica sueca Ponto 4 – Descrição do Pugilato e do pancraci. A gymnastica pedagógica segundo o methodo sueco. Eclosão do método francez Ponto 5 – Motivos da decadência da educação physica entre os romanos; renascimento. Mercurialli. Critica feita por Demeny ao methoso sueco em relação as posições fundamentais. Ponto 6 – Methodo Sueco – características de methodo de Demeny. Methodo Francez: primeiro regulamento francez de gymnastica e creação da escola de Joinville Ponto 07 – Escola amorosiana – Gymnasticas culturistas. Critica ao método natural. História do methodo francez no período de 1837 a 1852 Ponto 08 – Movimento empregado pela escola franceza de Demeny – A lição de gymnastica segundo o methodo sueco. Bourly. Perrault. Da Vinci Ponto 9 – Divisão da História da Educação Física em períodos – Torneio e justa, Utilização dos movimentos activos e passivos no methodo sueco Ponto 10 – A educação physica entre os gregos – accção da instrucção publica na creação do methodo francez. Renascimento da educação physica Ponto 11 – apreciação sobre o 1º período da Educação physica – Haffeo Veggio. Methodo francez – Joinville e as sociedades gymnasticas. Ponto 12 – Bases physiologicas do método natural – 2º período de Educação Physica: Gregos e Mercurialli Ponto 13 – Bases pedagógicas do methodo natural. Educação Physica feminina segundo o methodo sueco. A influencia sueca sobre o methodo francez. Ponto 14 – Methodo francez de educação física – Torneio, jogos romanos. Chinez Ponto 15 – 3º período de Educação Physica. Methodo Francez e Regulamento de 1910 Ponto 16 – Apreciação sobre o methodo de Demeny. Critica feita por Demeny no methodo sueco em relação as energias mecânicas e erros de analyse Ponto 17 – Plano de lição segundo o methodo de Demeny. Critica ao methodo sueco feita por Demeny em relação as extensões dorsais Ponto 18 – Romanos – Trabalhos de Niarcy e Demeny na creação do methodo francez. Crítica ao método natural Ponto 19 – Gymnastica culturista – critica ao methodo sueco feita por Demeny em relação aos erros capitais nas leis naturaes dos movimentos e aos despreso do prazer e da utilidade pratica – Hoffman Ponto 20 – Methodo Nacional Francez de Educação Physica – Periodo de 1922 a 1930 – bases pedagógicas do methodo natural – Chinezes e romanos. Como “matéria teórica” e entendida no contexto daquele currículo como “ensino geral”, os programas da cadeira de História da Educação Física acima apresentados contêm as mesmas divisões cronológicas e temáticas do Histórico, por isso, é possível inferir que o compêndio era material didático das aulas nos Cursos do Departamento de Educação Física do estado do Espírito Santo, com objetivo de capacitar teoricamente os alunos a respeito dos Métodos Ginásticos, sobretudo o francês. A disciplina HEF cumpria um papel pragmático de 142 Pontos para exame escrito de História da Educação Física publicados em jornal (sem nome). Arquivo Permanente CEFD/UFES, 1933. 136 formação de futuros professores acerca do desenvolvimento social que a Educação Física deveria seguir: o caráter higiênico, eugênico e disciplinarizador do corpo. Concordo com Thiago Will et al. (2014) quando estes afirmam que o desenvolvimento dos métodos ginásticos na cadeira de HEF teria assumido um caráter utilitário. Anunciando como os métodos solucionaram problemas da história da humanidade como a degeneração, a falta de vigor para o trabalho e o baixo sentimento de pertencimento a uma nacionalidade, os autores indicam que a disciplina HEF tinha essas finalidades. Acredito que os Métodos Ginásticos, na verdade, teriam na cadeira de HEF uma dupla função: a compreensão de uma historicidade forjada pelo contexto de uma história europeia “estrangeira” e, posteriormente, sua implicação na prática pedagógica das disciplinas de Pedagogia e Metodologia da Educação Física 143 . Esse papel formador e subsidiário às ciências auxiliares que conferiam “cientificidade” à Educação Física, faz da HEF uma disciplina de formação geral que garantia no processo formativo, elementos teóricos capazes de contribuir com a prática pedagógica, momento subsequente dos currículos caracterizados como “ensino prático” nos quais “matérias práticas” eram executadas em consonância com o aporte teórico apresentado. As provas escritas e as sabatinas também seguiam as mesmas seriações apresentadas nos programas, assim como no Histórico.. Os pontos que eram sorteados têm em comum o fato de serem enunciados contendo três períodos distintos do programa. Discorrer sobre os diferentes momentos históricos referenciando nomes e datas no processo avaliativo era uma prática corrente. Normalmente divididas em três questões relativas aos mesmos cinco períodos definidos no Histórico, as avaliações teóricas e as sabatinas eram os métodos avaliativos que demandavam a descrição dos fatos e datas tendo como ponto de chegada os métodos ginásticos. A presença do Histórico no programa do Curso para professores e instrutores do Espírito Santo e seu caráter marcadamente didático mostram que seus autores empregaram efetivamente o compêndio no processo de formação docente na primeira metade dos anos 1930. Embora a disciplina estivesse presente no currículo em um lugar de fronteira – posta como teoria e mirando a prática – e em diálogo mais próximo com a Pedagogia, ela parece se aproximar mais da estrutura da “História Geral” do que das temáticas da educação, também caras a seus autores. Decerto, as finalidades da disciplina HEF eram concernentes a uma 143 Apesar de não ser o foco da pesquisa, foi possível observar que os Métodos Ginásticos aparecem como prática pedagógica principal na cadeira de Metodologia da Educação Física nas diversas instituições por mim pesquisadas para a escrita da tese (ENEFD, EEF do ES, EEF do PR). Carecemos na área de um estudo mais aprofundado dessa disciplina como contribuição e interlocução desse debate acerca das disciplinas de “formação geral”. 137 formação que “iluminasse” as práticas pedagógicas, possivelmente em diálogo com o debate contemporâneo da educação, visto que seus professores circulavam pelas revistas especializadas e também pelos congressos da área, discutindo de forma recorrente o “método” a ser adotado, e contando com o apoio do Ministério da Educação e Saúde na formação de novos professores. 3.4 A produção do Histórico da Educação Física: circulação e apropriação dos referenciais franceses Quer em sua concepção científica, quer em suas conclusões práticas, este método só merece encomios. Simples, variado, racional e progressivo, é capaz de aperfeiçoar a saúde do indivíduo e melhorar a raça. Adaptável por excelência ao temperamento latino, merece ser divulgado e praticado entre nós. Dá ao médico, a importância que ele deve ter na educação física científica, uma vez que esta não é sinão um capítulo a parte da Higiene baseada na fisiologia. Eclético, tirando de cada método aquilo que ele tem de útil, ao par das mais modernas conquistas científicas, sem rejeitar o progresso, que ele pretende acompanhar pari-passu, é o único método que pode resolver a equação da Educação Física, tal qual ela se apresenta, entre nós, mormente se levarmos em linha de conta os pontos de contacto entre a psicologia racial, francesa e a nossa (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS, 1931, p. 232). “Apreciação sobre o método”, o francês, nesse caso, é trecho que finaliza a longa exposição que trata da História do Método Francês, seus protagonistas e sua metodologia no compêndio Histórico da Educação Física. Não por acaso, os autores decidem finalizar a longa exposição dos principais métodos que figuravam naquele momento – entre eles, o Sueco, o Natural, a Ginástica Culturista e o Método Esportivo – com o Método Francês. Recebendo tratamento diferente dos demais, a análise final, depois da exposição de cada método no Histórico recebe o título de “Crítica ao Método”, momento em que os autores apontam as falhas e as utilidades em cada um deles. No caso do Método Francês, a “crítica” anteriormente utilizada nos demais é transformada em “apreciação”, demonstrando que, para os autores, a referência francesa deveria ser assumida como a mais adaptável ao “temperamento latino”. O fato de ser a última temática referenciada do compêndio implica também ser necessário o conhecimento histórico das práticas de outros métodos, mas compreender o método francês como objetivo final a ser alcançado como prática a ser difundida no Brasil pelo Exército. A relação do Brasil com as missões francesas e seus regulamentos de educação física vinha acontecendo desde a primeira década do século XX, mas sua regulamentação oficial em território nacional dá-se em 1921, instituindo sua obrigatoriedade como método oficial dentro do Exército brasileiro (MARINHO, 1980, p. 52; GOELLNER, 1992, p. 138). Tal 138 regulamento, aprovado pelo Ministro da Guerra, já refletia a metodologia utilizada na Escola de Joiville-le-Pont em Paris. O CMEF, criado em 1922, tinha como um de seus objetivos a difusão de tal método no Brasil. Ainda que o Histórico seja uma publicação de quase uma década depois, o compêndio reforça a tese de que a EEFE, criada em 1929 no interior do CMEF, desejava apropriar-se dos conceitos e práticas da escola francesa de Joinville na formação tanto da tropa quanto civil. A École de Joinville-le-Pont, criada em 1852 em Paris, com inspiração Amorosiana 144 , tinha como objetivo a formação de soldados franceses para a instrução do ensino da ginástica dentro do exército francês. A partir da introdução da ginástica nas escolas primárias francesas em 1850 e da sua ampliação para os colégios, Joinville-le-Pont passa a ser local para onde a Instrução Pública francesa envia novos professores para formação. A introdução da ginástica na escola primária é impulsionada por um processo de larga ampliação dos conteúdos de ensino, incluindo a educação física, presente nos discursos oficiais através das reformas de Jules Ferry. Como Ministro da Instrução Publica, ele cria batalhões escolares e, com estes, proliferam-se os exercícios militares (SOARES, 1998, p. 130). A École de Joinville produz suas primeiras formações, em um contexto de desenvolvimento científico da Educação Física pautado na fisiologia, com as contribuições de Étienne-Jules Marey e Georges Demeny 145 . Além disso, surgia a necessidade da prática da educação física com finalidades higiênicas na formação de professores para as escolas primárias francesas. A École de Joinville, desde sua fundação em 1852, teve diferentes nomes e também diferentes identidades no tocante ao ensino da EF e da ginástica até o início do século XX: École Normale Militaire (1852), École Normale de Gymnastique et d’escrime de Joinville-le- Pont (1872), Centre d’Education Physique (1916) e novamente École Normale de Gymnastique et d’escrime de Joinville-le-Pont (1919) (LES 150 ANS DE L’ECOLE DE JOINVILLE, 2002, p. 11). A partir de 1925 ela se torna École Supérieure d’Education 144 O coronel espanhol Francisco Amoros y Odeano passa a viver em Paris a partir de 1814 e, tendo conquistado o apoio da monarquia francesa passa a desenvolver os rumos iniciais do que ficou conhecido como a ginástica científica francesa, Amoros teria apoiado as tropas de Napoleão que foram explusas da Espanha. Passando a viver na França, a ginástica passou a ser uma ponte que permitiu Amoros transitar da aristocracia espanhola para a francesa tendo a partir dessa a construção de Ginásios aonde foi nomeado diretor civil e militar (SOARES, 1998). Segundo a autora, a ginástica pensada por Amoros se inseriu em um conjunto de normas de conduta moral e de pedagogias que se elaboraram para formar ou reformar o corpo regulando corretamente suas manifestações e educando a vontade. 145 Nos primeiros dois anos do século XX Georges Demeny ajuda a organizar o curso de Educação Física da École Militar de Joinville-le-Pont e é nomeado professor de fisiologia aplicada. Na mesma escola cria e dirige o laboratório de fisiologia aplicada. Étienne-Jules Marey, também fisiologista, foi inventor da cronofotografia, precursora do cinema que impulsionou as pesquisas na França sobre a as várias fases do movimento em uma única superfície fotográfica. Publicou em 1880 Le Vol des Oiseaux, e, em 1873, La Machine Animale ajudando a difundir a anatomia e a fisiologia. LES 150 ANS DE L’ECOLE DE JOINVILLE, 2002. 139 Physique, transformando suas cadeiras de ensino e também influenciando outros países a partir da publicação do Règlement Général d’Education Physique: Méthode française (1926). No Histórico, seus autores lembram que a seleção e a formação do professorado brasileiro no CMEF não foram realizadas com a criação de uma “escola especial de ginástica” que atendesse o magistério. Os professores brasileiros, assim como os franceses, foram submetidos a uma formação própria do exército, que já ocorria na formação de instrutores para os “corpos da tropa” (BONORINO; MOLINA; MEDEIROS. 1931, p. 190). Se houve uma tentativa de transposição direta do trabalho realizado em Joinville-le- Pont – como indicam os autores do Histórico e fontes da Revista de Educação Física do Exército 146 –, de seus objetivos e de sua orientação, implica pensar em se e como a HEF foi tematizada ou disciplinarizada pela escola francesa, sobretudo a partir da “adoção oficial” do Regulamento número 07 no Brasil, que determinou como oficial o Método Francês do ensino primário ao superior a partir de 1931. É importante lembrar que o Regulamento número 07 brasileiro é cópia das primeiras e terceiras partes do Règlement Général de l’Education Physique, publicado em Paris em 1925. Publicado no Brasil no mesmo ano do Histórico, o Regulamento número 07 teve como tradutores do francês para o português os tenentes Bonorino e Molina, também autores do compêndio. Nesse sentido, o Histórico, para além de um compêndio que serviria como guia oficial de uma disciplina, parece também ser uma “ponte” que justificaria, a partir da “história”, a adoção da proposta francesa para a Educação Física, praticada no interior do Exército, para o âmbito civil. Essa “ponte”, como demonstrado no capítulo anterior, se daria, sobretudo, pela formação de professores civis no interior do CMEF e da EEFE. Tratar os regulamentos de Educação Física como “prescrições” é de fundamental importância para compreender que sua adoção não foi geral e irrestrita no Brasil. Se no interior do Exército eles parecem aceitos como estrutura metodológica, o desafio da sua regulação no âmbito do ensino estaria em grande medida na aposta de que a formação dos professores acarretaria sua adoção no ensino da educação física na escola brasileira. A adoção do Método Francês como “uniforme” na França também tomou longos debates entre alguns de seus autores. Apesar de a École de Joinville-le-Pont ser o berço desse método de educação física, ele também não se disseminou sem tensionamentos, sobretudo na tentativa de desqualificar a Escola Sueca. Esse tensionamento deu-se, em grande medida, através de artigos de revistas francesas, entre o final do século XIX e início do século XX, 146 Goellner (1992), Ferreira Neto (1999) e Marinho (1943) também são autores que, ao escreverem sobre o Método Francês no Brasil e a EEFE, fazem essa relação. 140 influenciados pelos Règlements Militaires publicados em 1902 e 1910, que inspirariam o Règlement Générale d’Education Physique publicado em 1925. O debate fervoroso entre os renomados Georges Demeny, professor da École e Dr. Philippe Tissié, defensor do Método Sueco, repercutiam escolhas distintas sobre diferentes escolas ginásticas a serem adotadas em território francês, em grande medida, na tentativa de influenciar a Instrução Pública francesa, a formação de seus instrutores e a escolha do melhor método nas diferentes idades escolares. Demeny, professor da École de Joinville, escreve em 1900 o Sur l’evolution d’education physique en France. O texto é parte das publicações do jornal Le Gymnaste e a tônica do artigo é o ataque às ditas “verdades” do Dr. Philippe Tissié e sua defesa sobre o Método Sueco, que deveria ser rejeitado pelos franceses. A “evolução” da educação física para Demeny seria a própria ginástica francesa que, ao combater o empirismo, teria produzido pesquisa sendo capaz de introduzir um método experimental também na educação. Toda essa evolução já teria sido por ele apresentada em detalhes no Les bases scientifiques de l’education physique, onde teria explicado em detalhes os resultados científicos de suas pesquisas laboratoriais sobre respiração, força muscular, medições corporais, entre outros temas. Demeny, apesar de defender a ginástica francesa e sua uniformização, criticando a postura de Tissié, é defensor de que parte da Ginástica Sueca deveria ser incorporada ao Método Francês. A adoção de um sistema misto de ginástica para a França seria a saída mais viável que evitaria disputas entre Escolas Ginásticas, que, segundo o autor, seriam “estéreis e cheias de animosidades”. Enviado pelo Estado francês, em janeiro de 1890, para uma missão na Suécia com Dr. Lagrange, em seu relatório ao ministro ele relata como seria esse “sistema misto” (DEMENY, 1900, p. 1-3). 1º Aprendre aux Anglais leur hygiène, leurs recreations en plein air, sans toutefois abuser des concours qui ne s’adressent qu’à une minorité d’élite; 2º A empruter aux Suédois leur gymnastique pédagoogique et esthétique; 3º Et à conserver notre gymnastique militaire avec ses applications, à peu près telle qu’elle se fait à l’Ecole de Joinville-le-Pont (DEMENY, 1900, p. 1-3).147 Ainda que afirmando que a “evolução” da educação física na França teria sido mérito de suas pesquisas, Demeny parte da apropriação do Método Sueco e de suas prescrições, reafirmando detalhadamente a sua não cientificidade. Como membro da Comissão da Instrução Pública, expunha nas conferências públicas francesas como o método científico deveria se tornar uma possibilidade na educação francesa. Sur l’evolution d’education 147 1º Aprender com os ingleses sua higiene, sua recreação ao ar livre sem, contudo abusar das disputas que não se endereçam a uma minoria da elite. 2º Pegar emprestado dos Suecos a sua ginástica pedagógica e estética 3º Conservar nossa ginástica militar com suas aplacações aproximadas daquelas que são realizadas na École de Joinville-le-Pont (DEMENY, 1900, p. 1-3. tradução nossa). 141 physique en France é obra de referência do Histórico. Apesar de apresentar a mesma defesa pela Ginástica Francesa, os autores do Histórico não apresentam a defesa do Método Sueco, publicada por Philippe Tissié no mesmo período. L’Evolution de l’education physique en France et en Belgique (1900-1910): Histoire triste (suíte à cent ans d’erreur) (TISSIÉ, 1911) parece ser uma das respostas de Tissié a Demeny. Fundador da Liga Francesa de Educação Física, o Dr. Philippe Tissié era médico e foi também autor de propostas para as reformas escolares francesas. Os “cem anos de erros” na História da Educação Física francesa e belga estariam teriam se realizado por uma ginástica que não seria “pura”, mas eclética e que misturaria “o empirismo dos acrobatas com as verdades educativas e alguns movimentos das cronofotografias” (TISSIÉ, 1911, p. 05). Para o Dr. Tissié, a ginástica alemã e a sueca não teriam nenhuma enganação em seus métodos, ao contrário da ginástica francesa que era por ele chamada de “eclética”, produzindo, segundo o autor, mais “confusão” do que ordem Tissié (1911, p. 5). Outra publicação do período que trata especificamente do que seria a HEF é de Eugène Paz, professor do Lycée Condorcet, jornalista e primeiro presidente da União das Sociedades de Ginástica na França. Em 1881, Paz lança o Documents pour servir à l’histoire de la gymnastique en France, uma compilação de textos e normativas publicadas no jornal Moniteur de la Gymnastique entre os anos de 1868 a 1873. Nele, Paz descreve as normativas por ordem e data da organização das sociedades ginásticas criadas nos vários estados franceses ao longo de 1869 a 1873. Tentando descrever, naquela publicação, o que seria a “desnaturalização da história”, Paz (1881) lembra que tal publicação serviria historicamente para atribuir a verdade dos atos aos seus devidos autores.Estava interessado, com isso, em nomear os sujeitos que foram responsáveis pelo desenvolvimento da Ginástica na França e deveriam ter no registro da memória a perpetuação daquela HEF, recebendo o devido mérito. Partindo das Sociedades Ginásticas Francesas, a história é contada a partir dos títulos adotados, das datas de fundação, dos regulamentos, dos membros ativos e honorários, dos presidentes e membros dos comitês, da designação dos exercícios ginásticos oferecidos pelas sociedades, do número de membros que se reuniriam a cada semana, das descrições da dimensão local daquelas sociedades e da lista de seus aparelhos de ginástica. A história é descrita como forma de marcar linearmente o surgimento das sociedades. Ainda que essa produção não seja referência do compêndio, ela é documento que circula no mesmo período como um histórico na França. Mas os autores do Histórico se utilizam de duas outras obras de Paz que tematizam a historicidade da ginástica. 142 L’Ouvre de Joinville, publicado pelo tenente-coronel Coste, em 1909, também se caracteriza como um histórico da École Normale de Gymasntique et d’escrime de Joinville-le- Pont. A obra é matizada também pela necessidade de afirmação do Método Francês a partir da criação de escolas militares regionais pela França, no sentido de uma “unidade de método”. Para o Coronel Coste, Joinville seria “a única escola a possuir uma obra capaz de combater as lacunas que poderiam ainda existir nas práticas de ensino” (COSTE, 1909, p. 17). Defendendo a formação de professores naquele estabelecimento, o autor reconhece que, para os professores se tornarem educadores, deveriam ser formados a partir de um “novo papel”, que, neste caso, seria o Metodo Francês, passando por um estágio na École. L’Ouvre de Joinville, ainda que propondo, a partir de suas práticas militares, a criação de um curso superior civil, um histórico dos momentos de Ling na ginástica francesa e o regulamento militar de 1902, tem em seu cerne a justificativa de uma “unidade de doutrina” como condição essencial para a organização da Educação Física nos estabelecimentos de ensino franceses. A tônica da “unidade de doutrina” do Histórico tem L’Ouvre de Joinville como uma de suas referências: a tentativa de criação de um método “uniforme” para o estado, a partir da “crítica” sobre o Método Sueco ainda que se apropriando do seu caráter “pedagógico”. É importante notar que, ao tratar da ginástica francesa, os autores necessariamente discorrem sobre a École Normale de Joinville-le-Pont como “berço” da ginástica francesa “científica” e aparelhada com o laboratório de fisiologia comandado por Demeny. O tema da “história e sua evolução”, em relação à Educação Física, publicado na França no período, apesar de ser temática central dos dois artigos de Tissié de Demeny acima citados, se reduz à disputa de qual seria a melhor escola ginástica e ao debate de um método nacional francês no início do século XX. Tissié parece ser o grande contraponto de Demeny que, estabelecido na École de Joinville, vai propagar a cientificidade de seu método por outros países, incluindo o Brasil. Como apontado anteriormente, bibliografia do Históricodemonstra que houve uma vasta apropriação de livros franceses em sua construção: das 35 obras apresentadas, apenas cinco são títulos nacionais, sendo as demais 26 referências francesas. Nesse sentido, seria possível, a partir dessas e de outras fontes que apontam o vínculo Brasil-França nesse período, pensar na possibilidade de que a École de Joinville-le-Pont também tivesse disciplinarizado a HEF? Foi com essa e outras questões que foram produzidos, ao longo do estágio do doutorado 143 sanduíche em Paris, dois inventários 148 : o primeiro relativo às obras utilizadas pelos tenentes no Histórico e o segundo relativo aos cursos e programas de ensino da École de Joinville-le- Pont. Ao longo do levantamento bibliográfico foi possível perceber que os referenciais do Histórico poderiam ser eixos que norteariam questões concernentes não somente ao funcionamento interno da disciplina, mas também em relação à apropriação e à circulação de obras francesas no Brasil: a percepção do que foi escolhido para ser transcrito pelos tenentes instrutores para que se tornasse História no curso de formação brasileiro, o lugar da História da Educação Física para os franceses na formação de seus professores e, por fim, como esses recortes se tornam uma disciplina para formação de professores no Brasil. Quadro 6 – Referências bibliográficas francesas do compêndio Histórico da Educação Física Auteur Œuvre et code reference BnF Paz, Eugène (1835-1901) La santé de l'esprit et du corps par la gymnastique Publication: Paris : Librairie du Petit journal, 1865 Description matérielle: 1 vol. (140 p.) ; in-16 Notice n°: FRBNF31070976 Paz, Eugène (1835-1901) La Gymnastique obligatoire Publication: Paris: L. Hachette, 1868 Description matérielle: In-16, 127 p. Note(s): La couverture imprimée porte : "3e édition" Notice n°: FRBNF31070969 Dubech, Lucien (1881-1940) 1930 Où va le sport ? Publication: Paris, Impr. "Pascal", 13, rue Pascal ; Alexis Redier, éditeur, 1930. (13 novembre 1931.) 148 O estágio do doutorado sanduíche foi realizado ao longo de oito meses, entre dezembro de 2014 e julho de 2015, em Paris na Université de Paris XI sob orientação do professor Renaud D’Enfert no Groupe d’histoire et diffusion des sciences d’Orsay (GHDSO). Os inventários foram produzidos a partir das pesquisas no Catalogue Système Universitaire de Documentation (Sudoc) e no Catalogue General da Bibliothèque Nationale Française (BnF). A partir da construção de palavras-chave, no final de fevereiro de 2015, havia classificado 113 obras que, pelo título, faziam relação com os temas da tese. Começava aí a segunda parte do trabalho: a leitura e a escolha dos referenciais então catalogados. Atenta aos referencias bibliográficos franceses do compêndio Histórico da Educação Física durante o levantamento bibliográfico no Catalogue General, percebi, ao final dessa primeira etapa de trabalho, que dos 26 referenciais franceses, 24 se encontravam disponíveis para consulta e cópia na BnF. A data da produção das obras, a maioria entre final do século XIX e primeiros anos do século XX, me permitiu não somente acessá-los como fotografá-los e copiá-los. Além das bibliografias do Histórico foram rastreadas as fontes da École Normale de Gymnastique et Escrime de Joinville-le Pont. Sabendo da influência da École Normale na constituição do Centro Militar de Educação Física do Exército (CMEF), queria, a partir delas, saber de seu currículo entre o final do século XIX e início do século XX. 144 In-16, 228 p. 12 fr. [1250] Notice n°: FRBNF32046714 Pindare (0518-0438 av. J.-C.) Traduction complète de Pindare, par C. Poyard, Publication: Paris: Impr. impériale, 1853 Description matérielle: In-8° , VI-265 p. Notice n°: FRBNF31114200 Amoros, Francisco (1770-1848) Manuel d'éducation physique, gymnastique et morale Publication: Paris: Éd. "Revue EPS", 1998 Impression: Paris : Impr. Jouve Description matérielle: 2 vol. (488, 528 p.) ; 15 cm Lefébure, C. (Colonel)1908 L'Éducation physique en Suède Publication: Bruxelles: Office de publicité, 1908 Description matérielle: In-4° , XXII-284 p., fig. Notice n°: FRBNF30771518 Lefébure, C. (Colonel)1914 Méthode de gymnastique éducative suédoise, cours professé à l'École normale de gymnastique et d'escrime. Publication: Bruxelles: J. Lebègue, 1914 Description matérielle: In-8° , XX-218 p., tabl. et appendices, fig. Notice n°: FRBNF30771519 Tissié, Philippe (1852-1935) 1919 L'Éducation physique et la race : santé, travail, longévité Publication: Paris : E. Flammarion, 1919 Description matérielle: In-16, 336 p., fig. Note(s): Bibliothèque de philosophie scientifique Notice n°: FRBNF31473535 Boigey, Maurice (1877-1952) Manuel scientifique d'éducation physique Publication: Corbeil, impr. Crété; Paris, Payot et Cie, 106, boulevard Saint-Germain, 1923. In-8, 646 p. 25 fr. [7349] Notice n°: FRBNF31834298 Boigey, Maurice (1877-1952) Physiologie de la culture physique et des sports Publication: Clichy (Seine), impr. Paul Dupont ; Paris, Albin Michel, éditeur, 22, rue Huyghens, 1927. (2 juin.) In-16, 383 p. 15 fr. [7768] Notice n°: FRBNF31834304 Hébert, Georges (1875-1957) Guide pratique d'éducation physique. Jeunes classes Publication: Paris : impr. nationale, 1918 Description matérielle: 107 p. ; in-16 145 Note(s): Ministère de la guerre. Direction de l'infanterie Notice n°: FRBNF43621381 Demenÿ, Georges (1850-1917) Sur l'Évolution de l'éducation physique en France Publication: Paris : publications du journal "le Gymnaste", (s.d.) Description matérielle: In-8° , 18 p. 1900 Note(s): Extrait de la "Revue scientifique" Notice n°: FRBNF30321620 Messerli, Francis (Dr) 1916 Histoire générale de la culture physique et de la gymnastique médicale. Publication: Lausanne: T. Sack, 1916 Description matérielle: In-16, 118 p. Notice n°: FRBNF30934041 publiée sous le patronage de l'Académie des sports et du Comité national des sports C.O.F.1924 Encyclopédie des sports Publication: Paris: impr. Villain et Bar, 22, rue Dussoubs: Libr. de France, 110, boulevard Saint- Germain, 1924. (31 janvier 1927.) Description matérielle: In-4, XII-492 p. avec illustrations et planches en noir et en couleur. [3548] Notice n°: FRBNF33366336 Boigey, Maurice (1877-1952) Conférences faites à l'école normale de gymnastique et d'escrime de Joinville-le-Pont Publication: Paris, impr. de L. Fournier, (s. d.) In- 16, 24 p. Notice n°: FRBNF31834283 Labbé, Marcel (1870-1939) Traité d'éducation physique Publication: Corbeil, impr. Crété ; Paris, Gaston Doin et Cie, éditeurs, 1930. (24 mai.) 2 vol. in-8. T. 1, XII-580 p. ; t. 2, 637 p. Les deux volumes, 200 fr. [6875] Notice n°: FRBNF32332042 Mosso, Angelo (1846-1910) L'Éducation physique de la jeunesse Publication: Paris: F. Alcan, 1895 Description matérielle: In-12, XLIII-260 p. Autre(s) auteur(s): Bahar, J.-B.. Traducteur Legros, Victor (Commandant). Préfacier Notice n°: FRBNF30986132 Peladan, Joséphin (1859-1918) L'Athlétie et la statuaire antiques Publication: Paris: E. Sansot et Cie, s. d. Description matérielle: In-16 (16 cm), 100 p. [Acq. 1066-65] 146 Note(s): Circa 1913 Notice n°: FRBNF33131410 Demenÿ, Georges (1850-1917) Essai d'une méthode positive d'éducation physique Publication: Paris : H. Paulin, (s. d.) Description matérielle: In-8° , 27 p. Note(s): Extrait de l'"Éducation moderne" Notice n°: FRBNF30321606 Demenÿ, Georges (1850-1917) L'Éducation physique en Suède Publication: Paris : Société d'éditions scientifiques, 1901. 2e éd. Description matérielle: In-12, 109 p., pl., tableau Notice n°: FRBNF30321605 Coste, Émile (Colonel) L'Oeuvre de Joinville Publication: Paris, H. Charles-Lavauzelle, (1909). In-16, 192 p. Note(s): Gymnastique Notice n°: FRBNF31971848 Hébert, Georges (1875-1957) L'Éducation physique, où l'entraînement complet par la méthode naturelle, exposé et resultants Publication: Paris : Vuibert, 1917. 3e éd. Description matérielle: In-8° , 158 p., pl. Notice n°: FRBNF30584723 Hébert, Georges (1875-1957) Le Code de la force. La force physique, ses éléments constitutifs et sa mesure pratique Publication: Paris: Vuibert, 1916 Description matérielle: In-16, XX-123 p., couv. ill. Notice n°: FRBNF30584719 Fonte: Catalogue Général BnF. As fontes relativas à construção curricular e disciplinar da École Normale de Gymnastique et Escrime de Joinville-le Pont foram exploradas nesse contexto. Sabendo da influência da École Normale na constituição do Centro Militar de Educação Física do Exército (CMEF), outra questão mais exterior à construção do Histórico perpassava saber do seu currículo entre o final do século XIX e início do século XX e da possibilidade de a HEF ser uma disciplina também presente na escola de formação francesa. Programas de curso da École de Joinville foram encontrados em diferentes documentos, sobretudo naqueles com indicativos da Instrução Pública, bem como em obras que tematizam diretamente os cursos nela realizados. Napoleon Laisné, discípulo de Amoros e um dos fundadores da École Normale Militaire, professor de ginástica, apresenta à Instrução 147 Pública francesa, em 1865, um projeto de formação de uma École Normale de Gymnastique Generale. A proposta dessa escola não aparenta estar diretamente ligada aos militares, mas sob “a disciplina” destes. O programa de curso proposto seria complementado com obras de Mercurialis, Lock, Dessesartz, Sabatthier, de Tissot, que fariam parte de uma biblioteca “para a completa educação dos ginastas” (LAISNÉ, 1868, p. 9). Nessa proposta, Laisné apresenta os conhecimentos a serem ensinados que confeririam a licença de capacitação em gymnastique générale: Art.14 Le brevet de gymnastique générale comprendrait des connaissances sur l’ostéologie, la myologie, la névrologie, la circulation, la physiologie, etc., l’orthopédie et l’hydrothérapie, tous les massages, toutes les frictions, la gymnastique médicinale et chirurgicale; les eleves devraient avoir aussi des connaissances que de ceux qui pourraient atteindre ce degré de perfection. On apprendrait encore l’escrime à la bayonnette, le tir des armes à feu les plus usuelles, le tir à l’arc, au javelot, à l’arbalète, à la sarbacanne, le jeu de paume, de balle, de ballon, de boules, de quilles, de siam, de volants, de cornet de Grace, de billou, etc.;enfin tous les jeux connus qui développent l’adresse (LAISNÉ, 1868, p. 09)149. A proposta de Laisné se concretizaria na fundação da École Normale de Gymnastique et d’escrime de Joinville-le-Pont somente em 1872. O Regulamento de 2 de abril de 1894 sobre a organização e o funcionamento da École Normale de Gymnastique et d’Escrime de Joinville mostra que esta mantinha como objetivo a formação de instrutores de ginástica e mestres de armas que estariam destinados a difundir nos “corpos da tropa” um modo de “ensino uniforme” no concernente aos princípios dos exercícios de ginástica e de esgrima destinados à educação física do soldado. Ainda que a École de Joinville já formasse intrutores militares que eram enviados para a Instrução Pública escolar desde o final dos anos de 1860, sua normativa ainda permanecia para a formação do soldado sem nenhuma menção a qualquer tema relativo à História da ginástica, da esgrima ou da educação física. Quadro 7 – Tittre II – Instruction – Chapitre 1er150 - Programme des cours 149 Art. 14 A licença de ginástica geral compreenderá os conhecimentos sobre osteologia, miologia, a nefrologia, a circulação, a fisiologia, etc, a ortopedia e hidroterapia, todas as massagens, todas as fricções, a ginástica medicinal e de cirurgia; os alunos deverão ter também os conhecimentos positivos sobre a ginástica pedagógica, a ginástica militar e a ginástica estética; mas nós não exigiremos os conhecimentos daqueles que não puderem alcançarem este grau de perfeição. Nós aprenderemos ainda a esgrima e a baioneta, o tiro de armas de fogo mais usuais, o tiro de arco, o dardo, o arco, a zarabatana, o tênis, de bola, de boliche, de siam, os voos, de cornet de Grace, de bilhar, etc, enfim todos os jogos conhecidos que desenvolvem o corpo. Tradução livre da autora 150École Normale de Gymnastique e d’escrime. Reglement du 02 de avril de 1894, p.09 Cap.II – Instrução - Programa de Curso Art 22. Os alunos oficiais serão divididos em dois grupos de instrução para o trabalho prático 1º - A ginástica teórica e prática incluem: Coeficiente Teoria e Pratica; Os exercícios de flexibilidade propriamente ditos T1/P2; O boxe francês T1/P2; O bastão T1/P2; A natação T1/P2; A ginástica nos aparelhos T6/P12; 2º -O telegrafo Morse e óptico 2; 3º - A esgrima com espada 4 148 1º - La gymnastique théorique et pratique comprenant: Coefficients Théorie Pratique a) Les exercices d’assouplissement proprement dits 1 2 b) Le boxe française 1 2 c) Le bâton 1 2 d) La natation 1 3 e) La gymnastique aux appareils 6 12 2º - La télégraphie Morse et optique 2 3o - L’escrime à l’épée 4 4º - La manoeuvre de la pompe à incendie 1 5º - Le tir au revolver 2 6º - La physiologie, l’anatomie et l’hygiène de l’homme 3 7º - Le règlement de manoeuvres de l’infantarie 4 8º - L’étude de questions se rapportant à l’education physique du soldat 4 Conduite 4 Manière de servir 2 Aptitude comme instructeur 4 Fonte: Cours de Pedagogie Além dos Regulamentos da Instrução Pública, outra fonte explorada foram as publicações da École de Joinville, como conferências e cursos realizados por seus professores, sobretudo as que datam a partir do início do século XX, momento em que os projetos de regulamentos gerais de Educação Física são apresentados pela Direção da Infantaria francesa, dissertando sobre sua regulação e suas aplicações educativas durante a idade escolar. O major Maurice Boigey, professor e médico-chefe da École de Joinville, lança um conjunto de conferências tratando do “crescimento do organismo humano durante a idade escolar e suas aplicações educativas” e outro sobre o sedentarismo “seus inconvenientes e meios de combate”(BOIGEY, s.d.)151. Além das conferências do Dr. Boigey, a publicação do Cours de Pedagogie (1924) realizada pela École de Joinville, em 1924, parece ser um grande programa de ensino já amplamente influenciado pela construção dos projetos de regulamentos gerais franceses, que se tornaria, em 1925, o Règlement Général d’Education Physique – Méthode 4º - A operação com a bomba de incêndio 1; 5º - O tiro com revolver 2; 6º - A fisiologia, a anatomia e a higiene do homem 3; 7º - O regulamento de operação da infantaria 4; 8º - O estudo das questões relacionadas a educação física do soldado 4: condução 4, maneira de servir 2, atitude como instrutor 4. 151 Boigey sucede Georges Demeny a frente do Laboratoire de physiologie appliquée à l’exercice physique em Joinville a partir de 1918. 149 Française. O Cours de Pedagogie da École de Joinville contém 1.075 páginas e é muito semelhante ao Règlement em sua constituição. Apesar de o Regulamento de 1925 ser mais detalhado em imagens, sobretudo na parte relativa à “pedagogia aplicada”, ambos se assemelham a um grande e aprofundado “manual de ginástica e esporte”, baseados em princípios e regras que regulamentariam o Método Francês de Educação Física. Além do Cours de Pedagogie, foi em Joinville-le-Pont que foram editados o Cours d’Anatomie et de Physiologie e o Règlement Général d’Education Physique-Méthode Française (1926). O curso de 1924 tinha como objetivo geral a “exposição das generalidades relativas ao Método Francês”. Partindo das prescrições do Método francês, grande parte do curso era destinada às indicações pedagógicas aos futuros “instrutores” de Educação física, com apresentação de exercícios, técnicas de execução e seus efeitos mecânicos e fisiológicos. Table de matières Titre premier Pédagogie générale Chapitre Ier – La Méthode Française d’Education Physique Chapitre II – Règles generals à suivre pour l’application de la Méthode Chapitre III – Règles concernant la conduit et l’exécution du travail Chapitre IV – Organisation d’un Stade, Gymnase et Hangar d’Education Physique Titre II Pédagogie appliqué Chapitre Ier – Les assouplissements Chapitre II – La Marche Chapitre III – Le Grimper Chapitre IV – Les Sauts Chapitre V – Le Lever-Porter Chapitre VI – Les Courses Chapitre VII - Les lancements Chapitre VIII – L’Attaque et la Défense Chapitre IX – Les jeux et Exercices mimes Titre III L’Entrainement Physique dans L’Armée Chapitre Ier – L’Educationet l’Instruction Physiques Militaires Chapitre II – Réeducation Physique Militaire Titre IV Les sports collectives Généralités Chapitre Ier – Le Football- Association Chapitre II – Le Football-Rugby (meme plan) Chapitre III – Le Hockey (même plan) Chapitre IV – La Basket-ball (même plan) Chapitre V – La notation – Le Water-Polo (même plan) Chapitre VI – L’Aviron (même plan) Chapitre VII – Sports divers: Volley-ball, Bat-ball, cage-ball, push-ball, les grands Jeux, etc. Titre V Organisation d’une Réunion d’Education Physique et Sportive 150 Chapitre Ier – Principes généraux a) Avant la réunion b) Le jour de la réunion Chapitre II – Organisation proprement dite: Fête d’Education Physique. Réunions diverses. Matches, etc. 152 O programa é dividido em cinco partes e, em nenhuma delas, nem como nos programas da Instrução Pública, é possível perceber a presença da História da Educação Física como um tema ou uma disciplina da École. O artifício do uso funcional da História como forma de justificar a unificação de um método nacional é recorrente nas publicações francesas do mesmo período, assim como o recurso de apresentar os “erros” da Ginástica Sueca, porém, isso não reverbera nos programas de ensino de Joinville. O fato de os programas da École de Joinville, desde sua criação até meados da década de 1920, não apresentarem nenhum indício da HEF como disciplina ou tema a ser desenvolvido ao longo de seus cursos, faz crer que esta, ainda que transcrita de uma série de capítulos acima referenciados nas bibliografias do Histórico..., seja uma construção dos militares brasileiros. Em momento algum foi possível identificar indícios de que a HEF pudesse ter sido uma disciplina proposta em Joinville, mesmo que no Histórico... o desejo de se assemelhar a Joinville se perpetue na compilação de obras francesas que tratam da história da educação física sem que estas sejam temática de desenvolvimento central. Esses indícios trazem outras questões associadas à criação da disciplina no contexto dos cursos de formação no Brasil: Por que não houve “necessidade” de uma disciplina de HEF na École de Joinville? Por que no Brasil esta se perpetua na formação de professores? Partindo dessas questões, algumas suposições podem ser elaboradas baseadas nas fontes analisadas. A primeira delas está relacionada ao contexto específico de desenvolvimento da Educação Física brasileira, que precisava se perpetuar como prática regulamentada nos diversos níveis de ensino. A consolidação da formação dos professores, tendo a HEF como uma disicplina, ajudaria na vulgarização de sua prática na escola a partir uma progressiva especialização de seus professores, justificada por uma produção já estabelecida na Europa. Apesar de as bibliografias francesas também explicitarem esse mesmo processo, no Brasil não parecia existir ainda uma tradição de práticas ginásticas perpetuadas em Sociedades, Associações e Ginásios. Não havia sobretudo autores que propusessem uma defesa intelectual de tais associações, de forma corriqueira, nos jornais ou revistas especializadas 153 . Os autores do Histórico, atentos a esse processo de heterogeneidade das práticas relativas à Educação Física no Brasil, tentam, ao traduzir o Règlement général 152 COURS DE PEDAGOGIE, 1924, p. 1049-1050. 153 Ver mais em Moreno (2001) 151 francês, prescrevê-lo como oficialmente obrigatório no Brasil. Estabelecer uma disciplina HEF para os cursos de formação ligados à EF no Exército tinha um caráter pragmático de apresentar o desenvolvimento da Educação Física em território europeu como uma tradição e prática consolidada para, assim, constituir uma intervenção pedagógica semelhante em território brasileiro. Convertida em conhecimento curricular, a disciplina de História da EF poderia ser capaz de “responder” às escolhas dos métodos já consolidados fora do país. Se é possível argumentar sobre a presença da disciplina HEF no Brasil a partir da legitimação da Educação Física ao longo da década de 1930 nos cursos de formação, talvez seja mais difícil compreender a razão de ela não existir como uma disciplina ou matéria de ensino no território francês. A força da tradição da ginástica em território europeu, a ginástica como uma prática consolidada, ainda que passível de regulamentação de um “método oficial”, a história como um “prefácio” esboçado nas bibliografias dos livros franceses de educação física e ginástica dos séculos XIX e XX, a história como parte da formação “clássica” francesa, aparentemente apartada de uma “pedagogia aplicada” dos exercícios e dos métodos ginásticos, mais próxima às ciências auxiliares que confeririam cientificidade e, no caso da EF, próxima às dimensões biológicas e fisiológicas, são argumentos que podem indicar a ausência da HEF como matéria de ensino ou disciplina, ainda que presente como tema em bibliografias do mesmo período, como será apresentado a seguir. 3.5 A História nas referências do Histórico da Educação Física Das várias fontes encontradas sobre a estrutura da École de Joinville-le-Pont, suas matérias e seus cursos, em nenhuma é possível perceber a disciplina HEF ao longo de sua existência, apesar de o tema circular em várias das bibliografias escritas por seus professores durante o mesmo período. Dada a constatação de que a disciplina História da Educação Física seria uma construção brasileira, apesar da utilização de todos os referenciais franceses, outro exercício interessante seria avaliar o que nas bibliografias francesas foi considerado “histórico” e como isso influenciou a escrita do Histórico brasileiro. É importante salientar que, apesar de ser uma compilação de textos, o compêndio foi organizado para se constituir como matéria de ensino, algo aparentemente não realizado pela École de Joinville, instituição que influencia a constituição do CMEF. Das 24 obras catalogadas e transcritas pela autora, apenas duas têm a História da Educação Física como temática central: Sur l'Évolution de l'éducation physique en France de Georges Demeny, publicada em 1900, e Histoire générale de la culture physique et de la 152 gymnastique médicale do Dr. Francis Messerli, publicada em 1916. O livro de Demeny, como já anteriormente apresentado, é extrato de um texto publicado no Jornal Le Gymnaste e parece ser uma tentativa de justificar cientificamente as benesses do Método Francês e também de responder ao Dr. Philippe Tissié que, defendendo o Método Sueco, produziu uma série de críticas ao Método Francês, entre elas a de que este seria um método “eclético”. Tissié escreve a Demeny que submeter um método ao ecletismo seria cometer uma “traição contra a pátria francesa” ao indicá-lo como oficial, sobretudo nos estabelecimentos de ensino (DEMENY, 1900, p. 18). Demeny tenta, ao longo das 18 páginas do artigo, justificar pela empiria e pela “ciência” que o ecletismo do Método Francês de ginástica se imporia pela sensatez de saber que em outros países, como Dinamarca, Inglaterra, Estados Unidos, Hungria e Italia, já haviam adotado de maneira “mista” os sistemas de Ginástica (DEMENY, 1900, p. 17). Analisando historicamente a conjuntura do método sueco na França e justificando suas pesquisas, Demeny conclui: Nous partons des qualités physiques à receherher, nous examinons les effets de l’exercice propres à les acquérir par divers moyens, et nous mettons en pratique. Nous résumons dans une synthèse tout notre enseignement et cette synthèse ne vient pas de Suède: elle était publiée en partie dès 1880, et nous servait déjà de programme general (DEMENY, 1900, p. 18) 154 . Argumentando que o curso superior de Joinville teria se desenvolvido a partir desses princípios e que estes não teriam vindo dos suecos, mas já anteriormente publicados como programa no curso Cercle de gymnastique rationnelle, Demeny afirma ser o “ecletismo” uma “porta aberta ao progresso”. Para o autor, a educação física na França estaria arruinada e seu sistema de educação mal apropriado e incompleto se às crianças fosse imposto outro sistema educacional (DEMENY, 1900, p. 18). A outra obra que tem em seu título a temática central da história como referência no compêndio, Histoire générale de la culture physique et de la gymnastique médicale do Dr. Francis Messerli, publicada em 1916, em Lausane na Suíça, parece pela primeira vez apresentar uma HEF muito próxima à estrutura utilizada pelos autores do Histórico. Dr. Francis Messerli se apresenta como médico cirurgião e professor de ginástica laureado pela Universidade de Lausanne. Foi discípulo de Pierre de Coubertin 155 e fundador do Comitê 154 Nós partimos das qualidades físicas para investigar, nós examinamos os efeitos do exercício específico para adquiri-los através de diversos meios, e nós o colocamos em prática. Nós resuminos em uma síntese todo nosso ensino e esta síntese não vem da Suécia: ela foi publicada em parte em 1880 e já nos serviu como programa geral. Tradução livre da autora. 155 Dr. Messerli publica Dans le sillage de Pierre de Coubertin: quelques souvenirs et impressions du Dr Fr.M. Messerli sobre sua relação com o esporte, os jogos Olímpicos e o Barão Pierre de Coubertin. Bulletin du Comitê International Olympique, n.13, janvier de 1949. 153 Olímpico suíço em 1912, estando à frente de diversos Jogos Olímpicos entre 1920 e 1936, além de diretor do Bureau International de Pédagogie Sportive 156 . Engajado pela “causa” Olímpica e o desenvolvimento dos esportes e da ginástica na Suíça, ele identifica, em 1916, não haver ainda, entre as publicações, “nenhum volume de história geral da cultura física”, o que, para o autor, representaria uma lacuna na formação dos mestres de ginástica, de professores e para as pessoas do “esporte em geral”. Escrito também para ser um guia para candidatos que desejassem a licença de instrutores de ginástica, o livro foi uma publicação recomendada pela Société Fédérale Suisse de Gymanstique. As explicações apresentadas no prefácio do livro do Dr. Messerli correspondem inicialmente às mesmas de Bonorino, Molina e Medeiros: trata-se escritos a partir da lacuna de um conhecimento histórico e reunidos em uma só publicação; se realizam como compilações históricas que a priori não teriam nada de original, apresentando a história da “cultura física” ou, no caso brasileiro, da “educação física”, a partir de uma divisão clássica já realizada em outras bibliografias do mesmo período: Table de matières Première partie; Histoire générale de la culture physique et de la gymnastique médicale Chapitre Ier Dans l’antiquité; Egypte; Indes; Chine; Grèce; Rome; Chapitre II; Moyen âge et Renaissance (V au XVI EME siècle) Chapitre III Temps modernes (du XVII siècle à l’époque actuelle) Chapitre IV Epoque contemporaine Deuxieme partie Le developement de la gymnastique scolaire et de societé dans les différents pays. (COURS DE PEDAGOGIE 1924, p. 1049-1050) A grande diferença da obra do Dr. Messerli em relação ao Histórico. e também às demais obras publicadas em língua francesa que versavam sobre a HEF no mesmo período, é que a primeira almeja uma “imparcialidade de todas as escolas e países” (MESSERLI, 1949, p. 10). Para contar uma “história geral”, como proposto pelo autor, não caberia ignorar a história de escolas ginásticas de outros países como identificado por ele nas bibliografias francesas do período. Dr. Messerli lembra que nenhuma “história geral” sobre a “cultura física” havia sido escrita em língua francesa, ainda que Demeny o tenha realizado em 156 MESSERLI, Francis-Marius. Dictionnaire historique de la Suisse. Disponível em: . Acesso em: 02 fev. de 2016. 154 Evolution de l’Education Physique tratando especificamente da escola francesa. Dr. Messerli adverte que os franceses ignoraram sistematicamente as publicações sobre a história geral da cultura física, sobretudo a alemã, que contava com diversos volumes anteriormente publicados (MESSERLI, 1949, p. 11-12). Tentando apresentar, na segunda parte do livro, o desenvolvimento da ginástica escolar, o autor dedica parte da escrita aos créditos à “ginástica alemã”. Houve no Brasil, missões alemãs para a difusão da ginástica, anteriores às missões francesas 157 . Tais eventos também são ignorados na escrita brasileira do Histórico, que também produz um apagamento da ginástica alemã e escolhe como prática a ser difundida o Método Francês, sendo a primeira parte um aparente compilado da publicação Suíça. Histoire générale de la culture physique et de la gymnastique médicale (MESSERLI, 1916) é a referência do Histórico da Educação Física à qual ele mais se assemelha estruturalmente, seja pela escolha de uma escrita pautada na Antiguidade Clássica como forma de “iluminar” o período Contemporâneo, seja pela finalidade da obra de servir de guia para a formação de professores, preenchendo uma “lacuna” na produção francesa em relação a uma “história geral” da “cultura física” ou da “educação física”. O fato de o livro do Dr. Messerli ser uma produção Suíça e a primeira em língua francesa a tratar da História da Educação Física de forma mais generalizante é mais um indício da ausência dessa disciplina ou matéria de ensino na École de Joinville-le-Pont, mais preocupada em difundir manuais destinados ao ensino da ginástica baseados nos modelos científicos fisiológicos e em construir regulamentos gerais 158 que normatizariam a educação física em diferentes momentos históricos nos estabelecimentos de ensino franceses. As demais obras referenciadas no Histórico ora apresentam um capítulo ou mais capítulos dedicados a historicizar, a partir da Antiguidade Clássica, a ginástica, o esporte ou a esgrima, ora não apresentam nenhuma menção à História. Desses autores, Eugéne Paz, ainda no século XIX, é um dos precursores em língua francesa a dedicar grande parte de duas de suas obras à escrita do que seria uma historiografia 157 Essas missões estão intimamente relacionadas à chegada da Família Real ao Brasil e à abertura dos portos em 1808 que proporcionou a chegada de diversos imigrantes europeus ao país, sobretudo alemães, que ajudaram a difundir o Turnen através de clubes e escolas Teuto-brasileiras. Sobre a ginástica alemã no Brasil e o processo de imigração, ver mais em Tesche (2002), Quitzau e Soares (2010), Lisboa e Cunha Junior (2011). Além disso, houve missões militares alemãs pela via do Exército através de D. Pedro I na tentativa de, após a declaração da indenpendência do Brasil, tentar substituir as tropas portuguesas repatriadas implementando um novo modelo de Exército. Ver mais em Tesche (2013). 158 Foram diversos os Regulamentos franceses escritos desde meados do século XIX. Em 1848 Amoros redigiu o primeiro regulamento de ginastica militar. Outros Regulamentos foram redigidos nos anos subsequentes como os de 1902, 1910, 1919 e 1925 com o que se constituiu oficialmente como o Método Francês (LES 150 ANS DE L’ECOLE DE JOINVILLE, 2002). 155 da ginástica 159 . La santé de l’esprit et du corps par la gymnastique, publicado em 1865, e La Gymnastique obligatoire de 1868, são publicações do fundador da primeira sociedade de ginástica parisiense e também do Grand Gymnase (PAZ, 1865 p. 135-136), estabelecimento privado dedicado ao ensino da ginástica aos civis, aparentemente apartado das finalidades militares do método francês, mais fortemente influenciado pela ginástica sueca de Ling. Paz (1865) expõe a utilidade dos exercícios ginásticos descrevendo suas finalidades: La Gymnastique fait partie de l’education, de la politique, de l’hygiène et de la thérapeutique; elle appelle, à ces divers titres, les méditations de l’homme d’État, de l’instituteur, du philosophe et du médicin; elle interesse surtout le père de famille qui se soucie tant soit peu la beauté, de la vigueur, du progrès intellectuel et physique de la race (PAZ, 1865, p. 21)160. Como professor do Lycée Condorcet, jornalista e primeiro presidente da União das Sociedades de Ginástica na França, Eugène Paz parece ter uma visão mais ampliada da destinação dos exercícios ginásticos do os militares franceses. Embora La santé de l’esprit et du corps par la gymnastique seja uma publicação destinada à compreensão do que seria uma “ginástica médica” a partir do ponto de vista da “doença” e da “higiene”, o autor dedica quatro dos sete capítulos à História da Ginástica, partindo da Antiguidade Clássica até o que denomina como “a ginástica moderna na França” (PAZ, 1865 p. 01-140). Table de matières; Chapitre VI La Gymnastique chez les Grecs Chapitre V La Gymnastique chez les Romains Chapitre VI La Gymnastique au Moyen-Âge Chapitre VII La Gymnastique moderne en France (PAZ, 1865, p. 138-140) Paz, independentemente de conceber uma “ginástica médica”, também estava preocupado, ao descrever as práticas ginásticas entre gregos, romanos e na idade média, em 159 Também no século XIX, Angelo Mosso, fisiologista e professor da Universidade de Turim publica a tradução em língua francesa do L’Éducation Physique de la jeunesse em 1895. Nele, Mosso apresenta, no Capítulo V “L’Evolution de la Gymnastique”, o movimento de criação da Ginástica Alemã e Sueca mas fazendo disso justificativa para como o “problema da educação física” seria resolvido na Itália. O autor relata que o atraso das reformas da instrução pública sobre a ginástica na Itália seria devedor da ausência de um fisiologista nesse processo. Para isso exalta as figuras de Marey, Demeny, Lagrange entre outros na produção de relatórios com autoridade científica que teriam desencadado em uma melhoria significativa na educação da juventude (MOSSO, 1895, p.103-105). 160 A Ginástica faz parte da educação, da política, da higiene e da terapêutica. Ela chama, a estes diversos títulos, as meditações do homem de Estado, do professore, do filósofo e do médico: ela interessa sobretudo ao pai de família que se preocupa minimamente da beleza, do vigor, do progesso intelectual e físico da raça. Tradução livre da autora. 156 justificá-las a partir do desenvolvimento histórico do que seria a “ginástica moderna na França”, apresentando, por fim, seu estabelecimento, o Grand Gymnase, como local “moderno” onde qualquer pessoa em qualquer idade poderia desenvolver tais práticas, inspiradas por condutas já realizadas na Antiguidade. Apresentar a historicidade dessa ginástica seria a forma de justificar a importância do trabalho de hidroterapia, de estimulação da circulação, da utilização do trapézio, dos alteres, da esgrima e do combate sem armas, destinados à saúde e à cura das enfermidades no Grand Gymnase (PAZ, 1865 p. 124-125). Três anos mais tarde, ao lançar La Gymnastique obligatoire, Eugène Paz reforça os princípios postos no livro anterior, porém mais focado na obrigatoriedade da ginástica na educação da infância. A ideia de que os exercícios ginásticos pudessem ser úteis à educação corporal familiar e que, a partir desta, a família pudesse exigir dos professores escolares sua prática como obrigatória no processo educacional, esteve no centro de suas questões. Para tal, Paz refaz o caminho da história da “ginástica no estrangeiro” para compreender sua presença como prática obrigatória na instrução pública francesa. No capítulo “La gymnastique à l’étranger”, o autor se propõe a tratar sobre como a ginástica teria se desenvolvido em países como Suíça, Alemanha e Suécia. Inspirado por Guts-Muth, Nachtegall, Jahn, a partir da Ginástica Alemã, também tratando da Ginástica Sueca de Ling como “essencialmente médica” (PAZ, 1865 p. 20-33, 117-125), Paz levanta os defeitos dessas escolas propondo que o sistema de ginástica francês deveria ser “misto”. Ce système, d’ailleurs admirablement élaboré par son créateur, pèche par l’excès contraire à celui des Allemands et des Suisses. L’un, par as passivité méthodique et excessive, tendrait à faire de la gymnastique une sorte de médicamentation à la fois insufisante et fastidieuse; l’autre, par son exuberante activité, prend trop le corps humain em bloc, sans tenir compte de la relativité des forces, de l’état d’anémie de tel organism, de l’état de pléthore de antre. Pour résumer notre pensée, les Allemands et les Suisses penchent trop vers l’art, les Suédois inclinent trop vers la science. La vérité este entre ces deux extremes (PAZ, 1868, p. 77). 161 Novamente é possível perceber que o uso da história em ambas as literaturas é uma forma de justificar a escolha de um método que melhor pudesse ser introduzido em todas as escolas públicas francesas, baseado no que anteriormente teria sido implantado na Alemanha, na Suíça e na Suécia. Para isso, Paz critica a formação em Joinville-le-Pont e os Règlements 161 Este sistema, também maravilhosamente concebido por seu criador, peca pelo excesso contrário como dos Alemães e dos Suíços. Um, pela passividade metódica e execessiva, tendem a fazer da ginástica um tipo de medicamentação como de maneira insuficiente e tediosa; o outro, pela sua exuberante atividade, toma muito o corpo humano em bloco, sem levar em conta a relatividade das forças, do estado de anemia deste organismo, do estado de pletora do antro. Para resumir nosso pensamento, os Alemães e os Suissos se inclinam demasiadamente para a arte, os Suecos se inclinam mais para a ciência. A verdade está entre estes dois extremos. Tradução livre da autora. 157 Militaires, demonstrando que os instrutores e monitores formados por essa instituição não conseguiriam ainda “empregar utilmente os exercícios corporais” (PAZ, ANO, p. 78-79) tampouco demonstrar tais exercícios, pois essa formação estaria demasiadamente atrelada a uma prática militar (PAZ, 1868, p. 83-85). O autor finaliza La Gymnastique obligatoire com um longo relatório destinado ao Ministro da Instrução Pública francês com a finalidade de demonstrar que seus estudos sobre a organização do ensino da ginástica na Alemanha, na Áustria, na Bélgica, e na Holanda poderiam contribuir também para a organização do ensino da ginástica obrigatória em todos os graus de ensino na França. O que parece estar em jogo quando dos sentidos de se seriar a historiografia da ginástica é o perfil humanista da compreensão dessa prática pelo autor, o que não acontece em todas as bibliografias referenciadas no Histórico. A compreensão de suas “origens”, de seu “progresso” e de sua “decadência” parece ser definidora para a chegar a uma conclusão prática do que e como seria a educação física e a ginástica naquela contemporaneidade. Esse uso utilitário da história está posto por Eugène Paz em ambas as obras assim como no Histórico, que, apesar de invisibilizar os argumentos políticos franceses entre os autores e suas escolhas “pedagógicas”, destina metade de sua publicação à compreensão da educação física e da ginástica na época, tentando também delinear uma conclusão para a melhor prática, para o melhor método ginástico a ser desenvolvido. Se no Brasil a questão central em torno dessa história “utilitarista” no Histórico esteve na urgência dos militares em eleger o Método Francês de Educação Física produzindo diversas críticas sobre o Método Sueco, organizado décadas antes, na França essa justificativa histórica é mais difusa como pode ser observado na bibliografia francesa do compêndio brasileiro. Observando a bibliografia francesa do compêndio, é possível perceber que, entre os séculos XIX e XX, essa história foi também utilizada ora para afirmar o Método Sueco e rememorar o Método Alemão como fez Eugène Paz, ora para discutir o esporte como uma prática nova e ainda indefinida naquela ambiência social como em Où va Le Sport de Lucien Dubech (1930) 162 , ora para também afirmar a cientificidade do Método Francês historicizando a obra do Coronel Francisco Amoros a partir do Manuel d’education physique, gymnastique et morale, apresentando sua “evolução” e os “progressos científicos” pelos estudos de Demeny como em Essay d’une méthode positive d’education physique. 162 Lucien Dubech foi jornalista e crítico literário francês, autor de uma obra com títulos diversos entre elas obras sobre a história do teatro francês, ensaios históricos e biográficos: Les chefs de file de la jeune génération e Le Théâtre de 1925; La Comédie-Française d'aujourd'hui , de 1926; Pourquoi je suis royaliste , 1928; Histoire générale illustrée du the tre e Histoire de Paris, ambos publicados em 1931. Où va le sport é publicação de 1930. 158 A utilização da Antiguidade Clássica como “iluminadora” do que seria a “cultura intelectual moderna” e com ela o desenvolvimento da ginástica, da educação física e de seus métodos também é estratégia recorrente na utilização da história da educação física nessas bibliografias. A verdadeira “cultura física” teria se desenvolvido entre os gregos, restando às escolas ginásticas a influência intelectual, moral e racional da Antiguidade Clássica. Essa estratégia é claramente utilizada por Lefébure em L’education Physique em Suède, de 1903. O capitão e comandante Clément Lefebure, então diretor da École normale de gymnastique e escrime de Bruxelas na Bélgica escreve a obra a partir de um extrato do relatório de 1889 sobre sua missão na Suécia a pedido do Ministro da Instrução Pública belga para a criação de uma Faculdade de Educação Física naquele país (LEFEBURE, 1908, p. xvi-xxii). Ao contrário dos demais autores, Lefebure não parece estar preocupado em apresentar a historiografia clássica como justificativa para a escolha do Método Sueco de Educação física como o melhor, mesmo que o defendesse. “Conception de l’education physique chez les grecs” (LEFEBURE, 1908, p. 273-279) é o último anexo da obra e contém apenas sete páginas. O autor estava atento à necessidade de justificar historicamente a obra de Ling, mostrando sua influência pelos filósofos, poetas, educadores e médicos da Grécia antiga. A ideia de uma “ginástica racional” e o que teria sido o início de uma “educação física educativa” já estariam presentes entre os filósofos da Antiguidade e Ling, pai da Escola Sueca, não teria se furtado a estes na construção de seu método ginástico. Essa estratégia também é utilizada pelo Dr. Maurice Boigey nas duas obras de referência do Histórico, o Manuel Scientifique d’Education Physique de 1922 e o Physiologie de la culture physique et des sports de 1927. Sucedendo Georges Demeny à frente do laboratoire de physiologie appliquée à l’exercice physique na École de Joinville, Dr. Maurice Boigey tem no cerne de suas preocupações o desenvolvimento fisiológico e biológico dos exercícios, criticando com veemência a disputa de métodos e escolas ginásticas. A concepção médica de suas obras seria um “guia” para os educadores franceses pouco importando o método ou escola ginástica utilizada, mas atento aos resultados fisiológicos que seriam possíveis a partir de sua prática. Nous nous sommes attachés à connaitre les différentes méthodes d’education physique. Nous avons, à loisir, analysé les effets de chacune d’elles. Après des observations nombreuses poursuivies pendant plusieurs années, nous sommes arrivé à cette conviction qui’il n’est pas de mèthode qui puisse légitimement prétendre être la meilleure. Aucune d’elles ne possède, en soi, des qualités qui la puissent faire équitablement prévaloir sur toutes les autres. [...] Méthode de Amoros, méthodes de Ling, de Demeny, d’Hébert, de Racine, de Desbonnet, de Duncan, de Jacques Dalcroze, de Joinville: voilà qui est bientôt dit. Sous ces vocables, se cachent diverses modalités du mouvement. Les résultats physiologiques sont identiques 159 lorsque les exercices sont bien faits: ils se traduisent par la santé pour celui ou celle qui les execute (BOIGEY, 1922, p. 20-21) 163 . Manuel Scientifique de L’Education Physique (BOIGEY, 1923) é uma longa obra dedicada à compreensão das grandes funções biológicas e fisológicas dos exercícios e da biometria. A primeira edição, de 1922, contém 25 capítulos e mais de 600 páginas dedicadas a assuntos diversos relativos à influência médica, sobre temas que tratam de circulação, respiração, alimentação, morfologia, sedentarismo, treinamento, entre outros. A obra, porém, foi bastante reformulada até a quarta edição em 1939, tanto no número de capítulos quanto nas temáticas. A primeira edição, no entanto, parece ser a única a apresentar um longo capítulo denominado “Historique de l’education physique” com intenções de retratar os exercícios corporais como uma prática “velha” e “antiga”, já presentes no desenvolvimento das civilizações grega, romana, hindu, egípcia, entre outras 164 . Esse capítulo é o primeiro de toda a bibliografia do compêndio brasileiro até então amplamente ilustrado com imagens de lutas, planos de ginásios, palestras e estádios olímpicos da Antiguidade e referenciando a obra Da arte ginástica de Mercurialis. O autor também dedica parte do livro às contribuições dos chamados “precursores” da Educação Física como J.J. Rousseau, Pestalozzi, Jahn, Nachtegall, Clias, Ling e Amoros. Physiologie de la culture physique et des sports, publicado em 1927, percorre o mesmo caminho, tendo como primeiro capítulo o “Histoire de la culture physique”. O Histórico parece copiar esse modelo e, a partir do “Renascimento”, publica a referência dos “precursores” da Educação Física até o século XIX. A História da Educação Física encontrada nessas obras se apresenta como uma forma de enaltecer seus “precursores” e justificar as escolhas da constituição de práticas científicas para um corpo biológico. Dr. Boigey é o primeiro autor das referências do compêndio brasileiro a fazer um compilado mais amplo da influência dos chamados “precursores” sem se posicionar na escolha de alguma Escola Ginástica ou Método de Educação Física. Apresentar um histórico da educação física nessa configuração médica mostra que um conjunto de práticas chamadas “antigas”, pôde ser reinventado a partir dos estudos da biologia e da fisiologia, sendo a medicina o “guia” do 163 Nós somos cometidos a conhecer os diferentes métodos de educação física. Nós temos, de lazer, analisar os efeitos de cada um deles. Depois de numerosas observações processadas durante vários anos, nós chegamos a esta convicção que não há um método que pode legitimamente pretender ser o melhor. Nenhum deles possui em si as qualidades que o podem fazer de forma justa (de forma igual) prevalecer sobre os outros. Método de Amoros, métodos de Ling, de Demeny, d’Hébert, de Racine, de Desbonnet, de Duncan, de Jacques Dalcroze, de Joinville:aqui está, que é brevemente dito. Nestes termos, se escondem diversas modalidades do movimento. Os resultados fisiológicos são idênticos quando os exercícios são bem feitos: eles se traduzem em saúde para os que os executam. Tradução livre da autora. 164 BOIGEY, 1923, p. 27 160 educador que desenvolveria aquela educação física da segunda década do século XX na França. Desse conjunto de autores presentes como referência do Histórico, apenas o Dr. Philippe Tissié nega a tradição de escrever sobre a historiografia da Educação Física referenciando a Antiguidade Clássica como o lugar “ideal” a ser retomado pela modernidade. L’Education physique et la race: santé, travail, longévité (TISSIÉ, 1919) é um conjunto de três livros que trata da “educação física racional” a partir dos princípios fisiológicos, da fadiga e da evolução da Educação Física na França. Já no prefácio o autor adverte que aquela sociedade necessitava “reinventar” as formas de buscar a racionalidade de seu presente ao contrário de utilizar-se da Antiguidade Clássica como justificativa para as práticas da educação física. Se a retomada das práticas gregas era considerada “emotiva” por Tissié, o Método Sueco significaria a racionalidade e a “verdade” educativa, necessárias para aquela sociedade. O autor retoma os “erros” da evolução da educação Física na França, resumindo o Método Sueco e indicando sua adoção a partir das noções de “saúde, trabalho e longevidade” 165 . Soigner le corps n’est plus comme dans l’antiquité. Avoir le souci de la force musculaire, mais avoir le souci de la santé dans la recherche de la longevité, en vue d’un plus grand travail énergétique à fournir. Nous devons donc modifier notre formule de vie physique et ne plus la demander à l’émotivité de l’antiquité grecque; nous devons la demander à la raison du présent parce que nos conditions d’exitence sont différentes (TISSIÉ, 1919, p.5-6) 166 . A “evolução” da educação física na França e os “cem anos de erros” desta somente poderiam ser historicizados a partir de Jahn e Ling, fundadores das chamadas Escolas Alemã e Sueca respectivamente e, para Tissié, ignorados e mal interpretados nas demais literaturas do período. Como na publicação anterior, Tissié continua a criticar a formação de pedagogos e a École de Joinville que, para o autor, deveria ser completamente reformada em relação ao método e à estrutura. Para isso, ataca a organização política da École, acusando-a de ignorar e tratar como inferior a ginástica sueca assim como considera os médicos um “perigo” à prática da educação física. À juventude seria suficiente o “movimento por si mesmo” como forma de se beneficiar de uma boa prática de educação física ao contrário da indicação do Método Francês como conduzido pelos regulamentos franceses (TISSIÉ, 1919, p. 260-275). Tissié 165 Retoma a publicação de 1911, L’evolution de l’education physique en France et en Belgique (1900-1910): histoire triste (suite à cent ans d’erreur). 166 Curar o corpo não é mais como na antiguidade. Ter a preocupação da força muscular, mas ter a preocupação da saúde na busca pela longevidade, em vista de um trabalho de energia maior para fornecer. Nós devemos, então, modificar nossa fórmula de vida física e não mais à solicitar a emotividade da antiguidade grega. Nós devemos perguntar à razão do presente, pois nossas condições de existência são diferentes. 161 continuava a atacar as práticas de laboratório desenvolvidas por Demeny e a estrutura da École de Joinville. Para isso, se apoiava na defesa do Metodo Sueco, na formação do Instituto de Estocolmo e no ataque às praticas instituídas pelos regulamentos militares franceses para o ensino. A despeito da utilização de L’Education Physique et la race de Tissié pelos autores do compêndio brasileiro, estes invisibilizam não somente o debate político entre Tissié e Demeny na França como elegem os estudos de Demeny e as obras de desdobramento da École de Joinville como as verdadeiras. Esse conjunto de fontes ajuda a demonstrar o que Chervel (1990) buscou compreender em relação à função e ao funcionamento de uma disicplina. Ainda que a história de seus conteúdos seja um componente central, o papel da história das disicplinas é mais amplo: de fazer aparecer a configuração original à qual as finalidades deram origem. Essa amplitude da noção de disciplina proposta por André Chervel somente foi possível de ser compreendida para a disciplina HEF proposta pelos tenentes do Exército brasileiro a partir do contato direto com as referências francesas utilizadas por eles. Parecem ter sido diversas as funções, as reinvenções e também as ocultações realizadas pelos autores do Histórico. Invisibilizar as diferentes concepções dos autores referenciados no Histórico não foi fortuito. Os tenentes brasileiros não apenas desejavam uma formação que refletisse o modelo da École de Joinville como, a partir deste, reinventaram essa História da Educação Física por meio de bibliografias que não produziam uma convergência de concepções. As diferentes concepções dentro dos referenciais franceses mostram que o protagonismo das obras citadas na escrita do Histórico parece não ser da história da educação física, mas das práticas, dos exercícios e da construção de um corpo biologicamente melhor e do método ginástico mais adequado para o período. A HEF, no entanto, foi o “meio” para justificar todo esse esforço. Reunir como temática central a HEF em livro é certamente uma prática brasileira que justifica o programa de uma disciplina que aparentemente não existiu em território francês. O Histórico, tanto como um compêndio, quanto como um programa de ensino para uma disciplina, é uma organização brasileira inspirada não somente nos excertos históricos de diferentes capítulos franceses, mas também em um conjunto de histórias que, entrelaçadas, poderiam afirmar uma prática oficial no Brasil. Se, por um lado, os tenentes brasileiros invisibilizam as diferentes concepções e métodos nas bibliografias por eles mesmos referenciadas, por outro, conceberam um compilado da HEF a partir da seriação Pré-História, Antiguidade Clássica, Idade Média e Renascimento, que é recorrente na maioria dos autores por eles citados, inspirados na estrutura da História Geral. Essas bibliografias francesas apresentam um capítulo “Histórico” como forma de, inspirados nessa Antiguidade e em uma 162 seriação clássica até a contemporaneidade, afirmar o Método Francês como o mais cientificamente viável, tentando para isso sua adoção como oficial no sistema de ensino francês. Os autores brasileiros, ao compilarem os franceses, se utilizam dessa estratégia de legitimação do Método Francês a partir da crítica a outros métodos, sobretudo o sueco. Há, nessas bibliografias, de forma geral, a tentativa de desconstrução das proposições anteriores, apresentadas como “históricas”, para uma aclamação de um modelo “novo” no qual as organizações científicas e laboratoriais seriam o centro do processo, como é o caso dos estudos de Demeny. Estrategicamente, a subserviência a priori dessa disciplina em relação à adoção do Método Francês parece significar também uma justificativa institucional do Exército brasileiro que, partindo dessa historiografia, o sancionou como o melhor e mais viável para o Brasil. Para além da disciplina, o compêndio foi uma estratégia que ajudou a definir a vitória na prescrição de uma orientação teórica não somente no interior do Exército como também na implementação do Método Francês como oficial pelo governo brasileiro no início dos anos 1930 no Brasil. A longa relação com as missões francesas em território nacional certamente ajudou na circulação desses referenciais, definindo também uma orientação específca para a disciplina HEF no interior do Exército brasileiro, que tinha como finalidade a prática pedagógica pautada nesse método. Se os tenentes brasileiros no prefácio anunciavam que “nada havia de originalidade na obra”, hoje é possível dizer que a originalidade deles esteve em reunir um conjunto de dados que tornou possível contar não somente sobre uma disciplina, mas de forma mais extensiva, contar parte da História da Educação Física escrita para a formação de professores no Brasil. Considerando que o Histórico é o currículo escrito e, nesse sentido, o que mais se aproxima do que teria sido a disciplina HEF, é possível pensar que ele pode se constituir no que Ivor Goodson (1991) chamou de uma “retórica legitimadora”. Promulgando um determinado saber, nesse caso a HEF, o Histórico acaba por encarnar as intenções de uma estrutura política e institucional, criando consigo uma comunidade de especialistas que será aceita na disciplina através de uma “retórica legitimadora”. Como “retórica legitimadora”, o compêndio é uma das fontes mais tangíveis, juntamente com o Regulamento n.7, de uma rede destinada a consolidar do Método Francês no Brasil a partir da formação de professores no âmbito institucional pela via da EEFE e do MES. Essa “matéria escrita” nas instituições certamente ajudou na consolidação desse processo, implicando também, segundo Goodson, a promoção e a alocação de recursos, as atribuições e distribuição profissional no interior da instituição do Exército e, por conseguinte, do MES. Como um “guia” oficial da disciplina, é 163 preciso pensar que a obra apontou para além de um processo de intervenção pedagógica, mas ajudou a construir na estrutura política do sistema educativo do período a “vitória” de uma orientação teórica. Essa interação entre currículo/disciplina e processo político mostra que disciplinas como a HEF na EEFE ajudaram a produzir uma legislação para o país, nesse caso, a obrigatoriedade do Método Francês a partir do Regulamento número 07, inspirado no Règlement francês. Os tenentes brasileiros produziram suas retóricas apoiados na produção francesa. Essa legislação, sustentada na “retórica legitimadora” daquele Histórico ajudou na manutenção dos discursos e ações políticas dos sujeitos envolvidos nessas instituições, sobretudo na determinação da formação de professores que deveria ser realizada no Brasil. Isso ajuda a demonstrar que a disciplina “é uma construção social e política” entremeada por atores que utilizam “recursos ideológicos e materiais para levarem a cabo suas missões individuais e coletivas” (GOODSON, 1995, p. 27). 3.6 Américo R. Netto [...] A inspiração. É por ella que devemos começar, pois encerra não só a explicação de divergências e até contrastes de outro modo quasi impossíveis de entender, mas evidentes por si mesmos, entre as olympiadas antigas e modernas, como também o rythmo da própria evolução destas e daquellas. E, nesta evolução, os factores de progresso e de decadência de umas e de outras. Si é relativamente fácil mostrar e definir as causas que determinam o aparecimento do neo-olympismo em nossa civilisação, pois além de recentíssimas, pode-se bem dizer, foram nítida e claramente formuladas pelo seu genial propugnador Pierre de Coubertin [...] (NETTO, 1937, p. 5) Tratar da “história do esporte” em um programa de formação de professores na década de 1930 não é algo comum, inclusive nas literaturas produzidas no “estrangeiro”. Entre os finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX, muito se historiou em relação aos movimentos ginásticos e às escolas ginásticas estrangeiras, mas pouco foi feito em relação ao esporte. A consolidação do esporte como fenômeno social e de massas ainda não era forte suficiente para reverberar em uma literatura que contasse sua história “moderna”, sobretudo pelas resistências da intectualidade em relação ao seu potencial educativo e aos “excessos” que sua prática causaria sobre o organismo. Apesar de sua larga aceitação em âmbito social e cultural no Brasil, como é possível observar em Lucena (2001) e Melo (2001), o esporte ainda não havia se consolidado no processo de escolarização como é possível observar em Linhales (2009). Escrever sobre “história do esporte” naquele momento se refere grandemente a escrever sobre o Barão Pierre de Coubertin e os Jogos Olímpicos. O livro de Américo R. 164 Netto, Jogos Olympicos de hontem, hoje e amanhã tenta trilhar esse caminho percorrendo as possibilidades narrativas da história dos Jogos Olympicos pelos caminhos da crônica esportiva. No prefácio da terceira edição de Da Educação Física (1960), Fernando de Azevedo relata que concomitantemente ao processo de institucionalização das Escolas de Educação Física de São Paulo e do Rio (ESEF e EEFE) na década de 1930 e em meio à necessidade de cursos de aperfeiçoamento e especialização profissional, fundaram-se também revistas especializadas, como Esportes e Atlética, cumprindo demanda de difusão dos “esportes” e das “atividades atléticas” para o “progresso” da Educação Física no país. Considerando ser a bibliografia sobre história do esporte “quase inexistente” no Brasil nos anos 1920, Azevedo se coloca como protagonista na escrita dessa história no período, lembrando que a bibliografia sobre o esporte teria, nas décadas subsequentes, sido enriquecida com livros, folhetos e comunicações que acompanharam o “progresso” dessa escrita. Mesmo que, para Azevedo, os “progressos” tivessem acontecido em vários setores para a Educação Física, ainda estaria quase tudo por fazer em relação à especialização de professores. As revistas Esporte e Atlética seriam parte desse progresso mesmo que tivessem tido curta duração editorial (AZEVEDO, 1960, p. 14-15). Américo R. Netto foi em 1919 o responsável pela editoria da revista Esporte e, posteriormente, professor de História da Educação Física na Escola Superior de Educação Physica de São Paulo, fundada em 1934. Nesse mesmo período foi também diretor da “secção esportiva do (jornal) Estado de São Paulo” e, em 1924, o chefe da delegação do Brasil na 8ª Olímpiada em 1924 em Paris. Advogado formado pela Faculdade de Direito de Recife, defendeu em 1917 tese de doutorado intitulada Liberdade profissional. Além da tese, Américo Netto também publicou até 1935 um total de 12 livros sobre diferentes temáticas, por exemplo geografia, ferrovias, automóveis e esporte. 167 Em 1937 Américo R. Netto publica Jogos Olympicos de hontem, de hoje e de amanhã escrito, segundo o autor, a partir de “uma necessidade de ordem didactica” derivada de sua inserção como professor de História da Educação Física na Escola Superior de Educação Física de São Paulo. Observando serem os debates acerca das questões Olímpicas necessários, Américo constata “uma falta absoluta de estudos geraes, com caracter verdadeiramente educativo” (NETTO, 1937, p. 3). Considerando que a produção até aquele momento sobre o 167 Os livros publicados com títulos que se referem ao esporte são: Regras athleticas internacionais (1922); Nacionalização da terminologia esportiva (1920); Manual de Athletismo (1922); Reide Rio-Montevideo (1930). 165 tema dos Jogos Olímpicos era “panorâmica”, o autor propõe um estudo comparativo entre os jogos olímpicos antigos e modernos como forma de contribuir para o aprendizado dos alunos na formação em Educação Física. A Revista Educação Physica publica dezoito artigos de Américo Netto entre 1937 e 1939. Desses dezoito, sete são transcrições na íntegra do livro. Considerando a escassa literatura esportiva no Brasil, a Revista Educação Physica parabeniza Américo Netto pelo seu 20º aniversário como jornalista do Estado de São Paulo e também colaborador na própria revista. No artigo, o Dr. Mario Sergio Gardim traça biografia do autor lembrando que Netto há muito vinha praticando atividades de jornalista e editor além de escrever sobre “todos os gêneros” da Educação Física e se especializando “na parte techinica doutrinária”. A grande contribuição de seus escritos na Revista Educação Physica foi para a temática da história dos jogos olímpicos. [...] Dos seus predicados para estudos históricos, são demonstrações os trabalhos sobre os antigos caminhos de S.Paulo e os “Jogos Olympicos, de hontem, de hoje e de amanhã”. [...] É jornalista que conhece os processos graphicos, tendo sido próprio editor de vários livros. Conhece o processo jornalístico, desde redigir artigo a machina, até vê-lo impresso na folha. Uma das características de sua actividade é haver-se dedicado as obras de caracter educativo, visando o progresso da coletividade.[...] como secretário do Departamento de Educação Physica bem como professor da Escola Superior, vem exercendo funcção altamente efficiente de professor de psychologia e de história. 168 Sua atividade jornalística no Estado de São Paulo parece ter influenciado não apenas sua produção, mas seu engajamento com os esportes em São Paulo: instituiu em 1918 a prova “Estadinho” de atletismo com Julio Mesquita Filho, assumiu a editoria da Revista Esportes em 1919, a escrita do Manual de atletismo em 1922, uma “exposição automobilística” e a chefia da delegação brasileira nas Olimpíadas de 1924. Como sujeito engajado na “causa” esportiva, tais ações parecem ter conferido a Américo Netto autoridade para ministrar a disciplina de HEF na Escola Superior de Educação Física. Todo esse engajamento esportivo teria no jornal Estado de São Paulo lugar primeiro de ressonância de seus escritos. Pagni (1996) lembra que os intelectuais e empresários que se articulavam em torno do Estado de São Paulo articularam o debate em torno do projeto de modernização da sociedade brasileira que culminaria na campanha em prol do ensino superior e universitário resultando na criação da USP em 1934 169 . 168 GARDIM, 1938, s.p. 169Esse grupo de intelectuais e políticos paulistas tinha como meta “dirigir a sociedade brasileira rumo à modernização social” e teriam sido os grandes responsáveis pelas Reformas Educacionais de 1927 no Distrito Federal e de 1933 em São Paulo. 166 Fernando de Azevedo, também inserido no jornal Estado de São Paulo e liderando a interlocução desse grupo de intelectuais acerca do debate sobre a modernização da educação no Brasil, se inspirava na tradição grega para a produção de suas obras. Em Da Educação Física considera que Pierre de Coubertin havia restaurado os Jogos Olímpicos inspirado nas tradições gregas, sendo este um dos grandes impulsos daquele século (AZEVEDO, 1960, p. 11). Américo Netto escreve conectado a essa tradição grega trazendo-a para o presente e crendo que uma possível transformação da sociedade a partir dessa tradição pudesse reconfigurar suas práticas. Sua proximidade a Fernando de Azevedo no jornal e no Departamento de Educação Física do estado, a docência na Escola Superior de Educação Física, os artigos na Revista Educação Physica, a escassa literatura sobre a História dos Jogos Olímpicos modernos no Brasil me fazem crer na possibilidade de o livro Jogos Olympicos de hontem, de hoje e de amanhã (1937) ter circulado como material didático da disciplina HEF naquele momento. Quadro 8 – Artigos de Américo Netto na Revista de Educação Physica Revista de Educação Physica Título do artigo N.9 abril 1937 Uma invenção moderna – o Record* Jogos Olympicos de hontem, de hoje e de amanhã* N.10 1937 O propósito do Circuito da Gavea – uma indagação angustiosa Os dotes mentais e moraes do automobilista N.12 novembro 1937 Esporte e Intelligencia As victorias dos gregos em Marathona* N.12 novembro 1937 Esporte e Intelligencia As victorias dos gregos em Marathona* N.14 janeiro 1938 A Idea Olympica – um evangelho da paz* Uma vida dedicada ao esporte brasileiro (Americo R. Netto) N.15 fevereiro 1938 Especialista ou limitado? N.16 março 1938 Gymnastica e esporte – alguns 167 critérios para diferencia-los N.20 julho 1938 Uma primorosa evocação olympica* N.25 dezembro 1938 Um novo conceito de longevidade – como a educação física está influindo para recuar o início da velhice N.27 fevereiro 1939 A inspiração dos jogos Olympicos* N.28-29 mar-abril 1939 Histeria de correr – uma das mais estranhas e estúpidas psicoses do automobilista N.30 maio 1939 Três diretrizes da fisiocultura – o conceito volumétrico – o critério funcional e complexo cérebro funcional N.32 julho 1939 Exageros e perigos do esporte – como previni-los e remadialos. Fonte: Elaborado pela autora desta tese. (*artigos oriundos do livro Jogos Olympicos de hontem, de hoje e de amanhã) Apresentado como um “estudo histórico, technico e social”, Américo Netto afirma ser o livro “uma sucessão de chronicas da secção esportiva do Estado de São Paulo” melhor sistematizada, transformada e ampliada ratificando sua finalidade de aliar o “esporte a arte e a literatura”. Uma “intellectualização” do esporte só seria possível aliando-o à arte e à literatura. Considerando serem os Jogos Olímpicos um dos maiores “empreendimentos educativos do passado e do presente”, o autor mira a influência da tradição grega na possibilidade de transformação das práticas esportivas futuras. A centralidade que o esporte ganha no início do século XX na sociedade brasileira e também na escola, a visibilidade dos Jogos Olímpicos modernos como um momento de culminância das práticas esportivas e a incipiência de narrar uma história ainda pouco explorada no Brasil me faz considerar que Jogos Olympicos de hontem, de hoje e de amanhã (1937) tenha sido lido também como um livro didático, a despeito do seu caráter jornalístico de crônicas. Ainda que o livro tenha circulado apenas no estado de São Paulo e na Escola Superior do estado, a Revista Educação Physica ampliou sua visibilidade ao publicar algumas das crônicas nele contidas. 168 É importante pontuar que “Jogos Olímpicos modernos” não era temática no compêndio de BONORINO; MOLINA; MEDEIROS. (1931), tampouco dos programas da Escola de Educação Física do Espírito Santo. Os Jogos Olímpicos gregos presentes nos programas são narrados na constituição do segundo momento considerado “clássico”, tendo a ginástica e os ginásios como temática central. É possível que a produção de Américo Netto e sua atuação como jornalista tenham constituído um programa para a cadeira de HEF muito distinto dos da EEFE e do DEF/ES. A tônica historiográfica do livro está em apresentar mais as diferenças do que as semelhanças dos Jogos Olímpicos antigos e modernos assim como sua “evolução” e sua “decadência”. Assim como Fernando de Azevedo tem no humanismo grego modelo inspirador para explicar a “educação física moderna”, Américo Netto o faz para explicar os Jogos modernos mirando “o hoje e o amanhã” como indica o título de seu livro. Um novo esporte inspirado na Grécia teria na história o argumento para sua evolução. 3.7 Os Jogos Olympicos de hontem, de hoje e de amanhã Se o esporte era uma prática que começava a se consolidar no Brasil gerando diversas divergências em torno da sua concepção, sobretudo no que diz respeito à sua relação com a escola 170, a historicidade dos Jogos Olímpicos “modernos” é tão recente quanto esse debate entre as décadas de 1920 a 1930 no Brasil. Caracterizando as Olimpíadas modernas como “neo-olympismo”, Américo Netto (1937) se refere ao homem “moderno” e ao “antigo”, como antagonistas. A diferença “espiritual” entre eles marcaria a perda progressiva de um ideal pedagógico que poderia atingir as gerações futuras. Marcando como religiosa a influência dos Jogos Olímpicos clássicos, com seu caráter festivo e a entrega aos deuses, o autor demonstra ser esta “uma das mais altas expressões da civilização Helênica” e também uma conquista da Antiguidade Clássica. Os Jogos gregos teriam com o tempo perdido a “pureza” e se degenerado se transformando em “meros espetáculos” caracterizados como “verdadeiras feiras de actividades desportivas”. Para construir uma nova Olimpíada, Pierre de Coubertin teria se afastado do antigo conceito olímpico, assumindo uma visão “cosmopolita” que, apartado do culto das divindades gregas, assumiria um ideal superior: “reunir para altamente educar” (NETTO, 1937, p. 7-8). Apesar de toda a exaltação à Grécia antiga como local de grande expressão e do reconhecendo de que os ideais olímpicos daquela época eram completamente diferentes, Américo Netto exalta a função olímpica orquestrada por Coubertin como educativa e capaz de ser estendida à formação futura do homem. Mesmo manifestando 170 Sobre o debate relativo à história do esporte e a escola, ver mais em Melo (2001) e Linhales (2009a). 169 incômodo com o “imediatismo”, com a “busca dos resultados rápidos” e com o mérito “puramente qualitativo” do esporte que vinha sendo praticado, o autor reafirma que as Olimpíadas produzidas naquele tempo teriam a educação como sua finalidade final. No livro composto por 43 crônicas em 180 páginas e tratando dos mais diversos assuntos relativos à História dos Jogos Olímpicos, Américo Netto polariza os jogos gregos e os jogos contemporâneos, marcando suas diferenças: materiais, geográficas, de funcionamento, de gênero. Discorrendo sobre as cidades-sede olímpicas, as projeções geográficas, os programas, a mulher e o instrumental dos jogos “de hontem e hoje” inventariando datas e fatos, o autor vai construindo uma sequência temática que, embora possa ser lida de forma independente como crônicas, obedece a uma ordem sequencial na narrativa. O atletismo tem lugar de destaque com as corridas e também o decatlo e o pentatlo, provas que, reestruturadas, permaneceram nos programas olímpicos perpetuando as tradições gregas. Inventariando datas e fatos das últimas olimpíadas “antigas e modernas” ocorridas até os anos 1930, a narrativa corrente se refere sobremaneira ao tempo presente do autor, característica própria de uma escrita jornalística que parece pouco preocupada em escrever uma história e mais afeta em demonstrar as comparações entre o “antigo” e o “novo”. Dos 18 artigos publicados por Américo Netto na Revista Educação Physica, sete deles são compilações na íntegra do Jogos Olympicos de hontem, de hoje e de amanhã que acompanham com proximidade temporal as publicações de Fernando de Azevedo entre 1937 a 1939. Acredito que a escolha dessas crônicas específicas para publicação, entre as presentes no livro, pode demarcar algumas distinções: a inclinação por temáticas mais populares, que gerariam polêmicas, a predileção do autor ou dos editores por determinados temas, ou a eleição das que demonstrassem potencial formativo para a História da Educação Física, considerando a ausência de historiografia sobre os Jogos “modernos” para o período. A resenha do livro de Netto publicada pelos editores da Revista Educação Physica lembra os leitores que, depois da publicação de Da Educação Física em 1920 por Fernando de Azevedo, ainda não havia no Brasil outro livro “de vulto” sobre o assunto esportivo. Jogos Olympicos de hontem, de hoje e de amanhã, para os editores, tinha o mérito de não repetir “chavões” sobre a exaltação grega, “afrontando” o que já fora anteriormente escrito. Considerado um “livro de estudo”, ele teria fugido do “propósito noticioso puramente actual” ajudando na ampliação da imprensa periódica brasileira e dando às Olimpíadas uma escrita 170 “útil” na medida em que o livro poderia ser consultado em qualquer época, por ser de “grandes generalidades”171. Sua primeira crônica publicada em 1937 na Revista Educação Physica, “Uma invenção moderna – o Record” demonstra uma escolha que perpassa todas as demais: o caminho evolutivo percorrido das Olimpíadas clássicas às modernas. Argumentando que “os antigos” desconheciam o cronômetro, o conceito de recorde teria “sido pelos gregos ignorado”. Tido como “moderno”, afirma que o cronômetro daria a medida exata da “luta esportiva”. Nas olimpíadas clássicas, os resultados das provas eram expressos pelas colocações, pelas marcas de chegada e pelas impressões oculares, diferentemente das modernas, que teriam o aparato técnico, cronômetros e fitas de medidas como marcações mais fiéis para determinar quem seria o melhor. Se os “modernos” facilitavam o esforço dos “esportistas” com melhores pistas e usos de acessórios que aumentariam a eficiência física, os gregos dificultavam esse trabalho colocando-os para competir sobre caixas de areia, tornando a prática esportiva mais enérgica. [...] Como quer que seja, faltou as olympiadas classicas o conceito de Record, do qual estão impregnadas as modernas. [...] Como conclusão apressada de um primeiro e rapido exame, parece que o Sport de hoje assignala sobre o de antanho, neste ponto, uma nítida superioridade. O conceito de Record apresenta-se effectivamente como uma conquista moderna technica de medidas, devendo trazer, logicamente, um novo motivo de estimulo, porquanto aponta um máximo que já foi obtido e que, assim pode e deve ser pelo ao menos igualado [...] (NETTO, 1937, p. 63-64) Defendendo a “evolução” como progresso, mas sem pactuar com as possibilidades técnicas de cada momento histórico, Américo Netto pondera serem os efeitos dos recordes ainda desconhecidos podendo se constituir como um “excesso” sobre o corpo. A noção de recorde para uma “educação física racional” seria nociva e excessiva. Embora tente compactuar com a noção de racionalidade presente no discurso da Educação Física do período, o autor acaba assinalando suas impressões sobre a superioridade do “novo”, do “moderno” sobre o “antigo” e o “velho”. O discurso formativo sobre o esporte tenta se aproximar do debate educacional, mas esbarra nas contradições do autor que embora deseje como docente uma prática racional, acaba por manifestar a predileção pelo “novo e moderno”. Apesar da frágil tentativa de aproximação com o debate educacional, Américo Netto, como salientado anteriormente, vê no movimento olímpico moderno uma possibilidade de diálogo com a arte e a literatura tentando dessa forma “intellectualizar” o esporte. Como chefe da delegação brasileira nas Olimpíadas de 1924 em Paris, o autor lembra terem sido lançados 171 JOGOS, 1937, p. 72. 171 naquele período “vários romances, directamente inspirados nas olympiadas clássicas”. Um desses trabalhos seria Euthymos vencedor olympico de Maurice Génevois que narra a história de um jovem grego que teria abandonado os prazeres da vida para ser treinado por um campeão olímpico tornando-se um vencedor no pugilato (NETTO, 1938). Ao traduzir o romance, Américo Netto exprime a faceta de homem das artes e das letras, formado em Direito, que exercia a docência e o jornalismo, revelando amplas preocupações com o caráter formativo do movimento olímpico. O autor finaliza o livro perguntando sobre o futuro das olimpíadas. Tentando elucubrar sobre o futuro, se do amanhã poderia se esperar a decadência dos jogos tal qual havia ocorrido na Grécia em função da ascensão do cristianismo ou se haveria uma progressão, contando que as olimpíadas estivessem intimamente ligadas à “evolução da humanidade inteira”. Tentando fazer previsões, o autor novamente se utiliza da chave da evolução e do progresso lembrando a frase de Euclydes da Cunha “ou progredimos, ou desaparecemos”. A referência é utilizada para lembrar que as Olimpíadas gregas teriam desaparecido pelo fato de não terem “progredido”, permanecendo como uma celebração “primitiva”. A continuidade dos Jogos Olímpicos modernos dependeria da capacidade de transformação das suas práticas em “progresso” atentando sempre para as possíveis “explorações” nacionalistas que poderiam transformá-los em um empreendimento econômico e financeiro atraindo assim a cobiça dos países. Preocupado com o uso nacionalista, o autor relata ser o desenvolvimento de “infiltrações raciais” um dos possíveis riscos que transformariam os Jogos em matéria comerciável, contrariando as suas proposições primeiras de encontro e congraçamento coletivo. Os recordes, assim, haveriam de cessar um dia para que os “sensacionalismos” em torno dos Jogos também se findassem. Como bom jornalista, Américo Netto estava preocupado com as novidades em torno dos jogos modernos e o recorde era uma dessas. O autor tinha ciência de que as exigências dos leitores de jornais esportivos poderiam com o tempo tornar-se “insaciáveis” e que tais leitores seriam, com o tempo, enganados e desiludidos com os “Jogos futuros”, quando antes – na Grécia – eles haviam merecido “franca admiração” e “delirantes applausos”. Apesar de seguir a mesma linha argumentativa de Fernando de Azevedo, remontando ao período grego clássico na modernidade, Américo Netto não parece preocupado em aplicar o conceito clássico na modernidade como Azevedo. Trabalhando com a dicotomia entre o antigo e o novo, Américo Netto apresenta sua predileção pela modernidade e não o faz apenas para justificar o presente. Apresenta o presente sem necessariamente justificá-lo pelo momento grego, apesar de utilizá-lo como momento do “hontem”, marcado na história. 172 Fernando de Azevedo passa pela história grega em Da Educação Física para justificar suas escolhas e práticas modernas, sobretudo aquelas que tangem a educação e a escola, diferentemente de Américo Netto que se utiliza dos “Jogos Olympicos de hontem” para demarcar a existência de uma história e de sua evolução, não necessariamente para que elas fossem úteis ao presente. 173 CAPÍTULO 4 – A “CADEIRA X” DA ENEFD: OS PROFESSORES DE HEF E SUAS PRÁTICAS (1939 A 1958) 4.1 A ENEFD: a disciplina HEF e os indicativos de um novo lugar de formação em Educação Física Desde que se compreenda em toda sua amplitude a noção de disciplina, desde que se reconheça que uma disciplina escolar comporta não somente as práticas docentes de aula, mas também as grandes finalidades que a presidiram [...] então a história das disciplinas escolares pode desempenhar um papel importante não somente na história da educação, mas na história cultural (CHERVEL, 1990, p. 184). O estudo em torno das finalidades das disciplinas, como propõe observar André Chervel (1990), deve ser conduzido simultaneamente sobre dois planos se utilizando de uma dupla documentação: a dos objetivos fixados pela disciplina e a da realidade pedagógica. A disciplina e seus objetivos, representados neste capítulo pelos relatórios de cadeira e livros com finalidades didáticas, e a realidade pedagógica observada pelos relatórios e ofícios institucionais, projetos, artigos, discursos, são caminhos que permitem observar a particularidade da constituição da disciplina HEF dentro de uma estrutura curricular institucionalizada como a da ENEFD a partir do final da década de 1930 no Brasil. No momento anterior à institucionalização da ENEFD, a disciplina HEF se apresentava caracterizada pela utilidade da divulgação dos Métodos Ginásticos para uma formação geral no contexto da especialização dos cursos de Educação Física no Brasil, processo desencadeado a partir do final dos anos 1920. Além disso, se apresenta como “matéria teórica”, que, dentro dos currículos, serviria de fundamentação para as “matérias práticas”. A disciplina História da Educação Física e, nela, as temáticas dos Métodos Ginásticos apresentados a partir de suas “divergências” teriam como finalidade subsidiar a prática pedagógica desses mesmos métodos nas disciplinas subsequentes de Pedagogia e Metodologia, fundamentando-as. A disciplina vai aos poucos incorporando outros debates, como o esporte e sua história e, em especial, a historicidade dos Jogos Olímpicos, tema incipiente para a historiografia se comparado à ginástica e seus métodos. Localizada em cursos de formação que começavam a se estruturar nos anos 1930, a disciplina HEF vai se constituindo espelhando-se no que era produzido pelo Exército na EEFE. Os programas, organizados com temáticas de obras estrangeiras, sobretudo as francesas, traduzidas pelos primeiros professores “da cadeira” nos cursos de formação, que se instituíam até 1934, mostram que o Histórico da Educação Física, compêndio escrito tendo como finalidade a 174 “matéria” HEF, teria sido uma criação brasileira para uma disciplina que aparentemente não figurava no contexto de formação de instrutores e professores na França, país de onde advém grande parte da compilação para o compêndio. Esse primeiro panorama demonstra duas grandes influências da disciplina: as ingerências estrangeiras “francesas” que marcaram as escolhas temáticas e a escrita da história “positivista” do período, marcando as escolhas estruturais e cronológicas. É acreditando que a disciplina, conectada às dimensões “pedagógicas” dos cursos, faria parte de um projeto mais amplo e lento de aproximação com o debate educacional, que é possível pensar na formação dos professores como uma estratégia para a legitimação da Educação Física no contexto social brasileiro. Nesse contexto dos cursos de formação caracterizados como “técnico-profissionais”, acontecem, no ano de 1934, as eleições indiretas do governo de Getúlio Vargas e Gustavo Capanema assume o Ministério da Educação e Saúde Pública (MES). José Silvério Baía Horta (2002) lembra que a reforma que o então ministro promoveu no MES, iniciada em dezembro de 1935, tentava ampliar o campo de atuação do Ministério. Essa reforma teve como uma de suas ações transformar a Universidade do Rio de Janeiro em Universidade do Brasil, em 1937, instituindo ali uma escola de formação para professores civis, a ENEFD, concretizada em 1939. Com o Golpe de Estado que instituiu o Estado Novo em 1937, Gustavo Capanema, fazendo oposição a Francisco Campos, responsável pela criação do “Estatuto das Universidades” em 1931, readequou o caráter centralizador de seu ministério, sintonizado com o novo regime. Nessa disputa política, Capanema acaba permanecendo no governo do Estado Novo e se manifesta a favor da reorientação do sistema educacional no sentido de transformá-lo em instrumento de Estado. A Educação ficaria a serviço do governo central e todas as atividades educacionais do país passariam por uma centralização pelos códigos do Governo Federal. Esse momento de transição nas políticas educacionais no Brasil também é marcado na Educação Física pela criação da Divisão de Educação Física do MES, em 1937. Como parte desse mesmo movimento, podemos incluir a criação da ENEFD, responsável nas décadas subsequentes pela formação do professorado civil e modelo para a criação dos demais cursos de Educação Física civis pelo Brasil. Creio ser este também outro momento da disciplina HEF que passa a integrar o currículo da ENEFD. Astor Diehl (1999) lembra que a escrita da História sofre grande impacto com a criação das universidades no Brasil, sobretudo as instituídas após o Estado Novo como a UB, pois elas representariam também a institucionalização do saber. Para o autor, essa escrita se apresenta no período em duas 175 frentes: uma voltada para o passado e para o ideal aristocrático da cultura brasileira e outra voltada para o futuro, caracterizada pelo pensamento radical da classe média urbana. Em ambas as frentes, a escrita historiográfica procurava se libertar da perspectiva mitológica e tipificadora dos Institutos Históricos e do “positivismo ingênuo” (DIEHL, 1999, p. 26). Para Diehl (1999), é nesse momento que se nota a influência de professores franceses no Brasil. Na Educação Física, porén, esta já estava amplamente influenciada desde as Missões Francesas das décadas anteriores. O discurso de abertura de Gustavo Capanema, já ministro da Educação em 1935, no VII Congresso Nacional de Educação no Rio de Janeiro, mostra que a íntima relação que ele estabeleceu com a Educação Física até o fim do Estado Novo, em 1945, se faria pela “necessidade de um impulso vigoroso”. A concentração dos professores em torno dos problemas da Educação Física naquele congresso seria, para Capanema, prova da necessidade de ampliação da Educação Física, tanto internamente no MES, quanto nas diretrizes nacionais (CAPANEMA, 1935). No mesmo congresso em que foram apresentados diversos trabalhos sobre a Organização dos Departamentos de Educação Física e de cursos na Instrução Pública de diferentes estados, o professor Cyro de Morais apresentou um trabalho intitulado “A organização de Institutos ou Escolas de Educação Física” (MORAIS, 1935), indicando a criação de uma Escola Nacional de Educação Física. Apresentando a constituição de centros de especialização em Educação Física nos Estados Unidos e na América do Sul, Cyro de Morais mostrava ser a universidade o lugar no qual tal especialização deveria ocorrer. A universidade consolidaria nos cursos de Educação Física sua faceta científica e ratificaria a área no contexto geral da educação. Afirmando ser a Educação Física e a formação de professores uma preocupação mundial, Cyro de Morais lembra que, no Brasil, Rui Barbosa, em 1882, na “Reforma do Ensino primário”, já dava indicativos para a construção de uma escola para preparação de professores, propondo cursos de formação gratuitos, de dois anos e anexos às Escolas Normais (MORAIS, 1935). Reconhecendo o trabalho de alguns estados na formação dos professores e também o envio de professores para formação na EEFE, esclarece ser esta instituição “apreciável” na formação e “digna de elogios”, no entanto, seus cursos se concretizariam em um prazo muito reduzido. Considerando serem o “aspecto técnico” e o “aspecto educativo” da Educação Física deficientes, as críticas de Cyro de Morais recaem sobre as feições militares da Educação Física, que vinham sendo reforçadas nas escolas no Brasil. Expressando a importância de se aplicarem nas aulas de Educação Física “modernas teorias pedagógicas”, 176 Cyro de Morais mostra que a principal característica dos programas escolares daquele momento era essa “feição militar”, que representaria “disciplina exagerada”, propondo, assim, “profundas transformações” nessa prática profissional. Tais transformações teriam na ENEFD outro lugar de referência para a formação em Educação Física, com distinta orientação nos seus princípios pedagógicos (leia-se, diferente da orientação militar). Ao propor pontos para a organização da ENEFD, o autor apresenta quatro cursos: Instrutores (um ano de funcionamento), Professores de Educação Física (três anos), Médicos especializados em Educação Física (um ano) e Bacharéis em Educação Física (dois anos). A História da Educação Física aparece como disciplina prescrita na proposta do Curso de Professores figurando em meio às de formação geral: Psicologia Escolar, Pedagogia da Educação Física, Organização e Administração da Educação Física 172 . Apesar dos vários indicativos da criação de uma escola civil, a ENEFD somente se consolidaria pelo MES tendo Capanema como um de seus incentivadores, em 1939, na recém- criada Universidade do Brasil, não fazendo parte da proposta de Cyro de Morais, que em 1935 propunha que ela integrasse a URJ, instituição dissolvida pelo Ministro. Acreditando ser este outro momento relevante na constituição da disciplina HEF e um indicativo de que esta, como a UB e a ENEFD, se estabelece diretamente para uma formação civil, faz-se importante analisar essa estrutura institucional e os professores que a produziram nesse ínterim. A partir de 1935, quando no Brasil ampliam-se as tendências centralizadoras que são consolidadas pelo Estado Novo em 1937, consolida-se também a figura política de Gustavo Capanema, então ministro da Educação e Saúde do Governo Getúlio Vargas e sujeito central que articulou a criação da Universidade do Brasil (UB) em 1937 e, vinculada a ela, da Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD), em 1939. Egressos civis e militares da EEFE constituirão os quadros de professores da ENEFD 173 . Das 17 cadeiras de ensino fixadas pelo Decreto-lei 1.212 que institui a ENEFD, HEF ocupava a Cadeira de número 10 174 . Neste capítulo, pretendo acompanhar a institucionalização da Cadeira X, designada como História da Educação Física e dos desportos na ENEFD a partir de seus docentes e programas de ensino, os indicativos de Gustavo Capanema, então ministro da Educação e Saúde, e os militares na criação do Decreto-Lei 1.212. Nessa institucionalização faz-se importante o diálogo entre os professores 172 MORAIS, 1935, p.128-133. 173 Melo (1996) e Grunennvalt (1997), em dissertações sobre a ENEFD oferecem, sob pontos de vista distintos, importantes contribuições sobre a história da instituição. 174 Ofício Luís Simões Lopes para Getúlio Vargas sobre proposta de provimento de cargos e funções da ENEFD. 10 de outubro de 1939. Fundo Gustavo Capanema CPDOC/FGV. 177 dessa disciplina desde a criação da ENEFD em 1939 e suas trajetórias profissionais, assim como sua produção sobre os temas relacionados à cadeira no mesmo período. O estabelecimento dessas relações se faz possível por meio dos “relatórios anuais” da direção da ENEFD e dos programas de ensino, presentes nos “relatórios de cadeira”. Dos professores de HEF, é possível destacar dois: Aluizio Ramos Accioly e Inezil Penna Marinho 175 , catedráticos da disciplina de HEF em diferentes períodos na ENEFD. As bibliografias produzidas por estes com finalidades de caráter pedagógico para a disciplina HEF revelam-se também como fruto da docência em Educação Física na ENEFD. As obras, os relatórios de cadeira e a revista Arquivos da ENEFD, periódico oficial da instituição, publicado entre os anos de 1945 e 1972 176 , foram de fundamental importância para a compreensão das finalidades da disciplina institucionalizada. Apesar do desejo de colocar em perspectiva os sentidos, as representações, os discursos, os contextos de produção das obras de Inezil e Accioly com Bonorino, Molina e Medeiros (1931), Américo Netto (1937) e Jair Jordão Ramos (1982), este último me parece mais próximo ao debate sobre a História da Educação Física no Brasil a partir do final da década de 1950. A produção de Jair Jordão Ramos, apesar de merecer uma análise pormenorizada, parece não estabelecer relação direta com a História da Educação Física no mesmo período histórico, se comparada às obras de Inezil Penna Marinho e Aluizio Accioly. Ainda que suas publicações na Revista de Educação Física do Exército datem a partir de 1936, período analisado no primeiro capítulo, o desenvolvimento de sua produção nas revistas especializadas em EF acontece nas décadas seguintes e são pouco afeitas aos temas da História, objeto de seu livro Os exercícios físicos na história e na arte: do homem primitivo aos nossos dias (RAMOS, 1982) 177 . A combinação da legalidade dos decretos com o levantamento dos planos de trabalho dos primeiros professores da disciplina HEF na ENEFD, na interface com os saberes que circulavam nos discursos da intelectualidade, importa para observar a sincronia e a diacronia dos conteúdos presentes no ensino da disciplina. Acredito que a criação da ENEFD inaugura 175 O levantamento da produção do autor será realizado via documentos institucionais da ENEFD, localizados atualmente na EEFD (Escola de Educação Física e Desportos) da UFRJ e também em seu acervo pessoal na cidade de Porto Alegre. Nascimento (1997) também ajuda na compreensão de uma de suas obras. 176 Disponível on-line em . Acesso em março de 2016. 177 O prefácio post-mortem escrito por Manuel José Gomes Tubino e José Maurício Capinussu apresenta o livro do General Jair Jordão Ramos (1982) como um compilado de trabalhos escritos ao longo de sua carreira. Localizando a obra como fruto da docência na EEFE, Tubino e Capinussu expõem a relevância de sua produção, nacional e internacionalmente. O prefácio enaltece e celebra o general e “sua grandeza humana e histórica Há que se investigar posteriormente seus textos recorrentes da Revista de Educação Física do Exército para melhor compreender essa produção publicada somente em 1982. 178 outro contexto de formação docente em Educação Física no Brasil. Igualmente, a relevância da produção de Inezil Penna Marinho colabora para a instauração desse outro contexto sobre a História da Educação Física brasileira e também para a disciplina em análise. Entendo que a ENEFD, institucionalmente, e a produção de Inezil Penna Marinho se constituem como articuladoras desse momento da disciplina, revelando uma expansão de temas, sobretudo os relativos à história nacional. 4.2 A disciplina HEF e sua institucionalização na ENEFD 4.2.1 A constituição do quadro docente da ENEFD e o currículo da Escola Nacional de Educação Física A legislação observada como resultado de longo debate anterior à conformação da ENEFD ajuda na observação das práticas curriculares propostas a partir do Decreto-Lei número 1.212 de 17 de abril de 1939, que cria a ENEFD na então Universidade do Brasil no Rio de Janeiro. O diálogo com o que o então ministro da Educação do Governo Vargas, Gustavo Capanema, propõe sobre a criação da ENEFD e os pareceres do Ministério da Educação e Saúde do período são importantes para compreender os projetos políticos de formação do Governo Federal, localizando a Educação Física e sua relação com a Educação e com a Saúde nesse ínterim. Victor Melo (1996) e José Tarcísio Grunennvaldt (1997) pesquisaram a Escola Nacional de Educação Física e Desportos a partir de temas relacionados à sua constituição histórica e de sua importância no cenário nacional da formação de professores. Analisando a constituição histórica da ENEFD, Melo (1996) chega a algumas conclusões: A criação da ENEFD estava ligada ao projeto político do Estado Novo. O processo de criação da ENEFD foi similar ao de outras escolas e cursos de formação de professores ressaltando-se a presença central dos militares, a ENEFD obteve maior status no momento em que os médicos ocuparam a direção, a ENEFD teve um importante papel na produção e divulgação de novos conhecimentos, os estudantes ocuparam papel de destaque na estrutura da ENEFD, a perda de status da ENEFD deu-se tanto por influência de fatores externos (mudança de capital, reforma universitária, fusão do estado do RJ com o estado da Guanabara) quanto por fatores internos (lenta renovação do corpo docente, restrições ao movimento estudantil, afastamento dos médicos da direção) (MELO, 1996, p. vii). José Tarcísio Grunennvaldt, ao analisar a mesma instituição, aponta a centralidade dos militares na elaboração do Decreto-Lei 1.212 de 1939. Para o autor, a ENEFD estava sintonizada com o que já vinha se desenvolvendo na EEFE desde o final dos anos 1920. 179 [...] coube aos militares, médicos e esportistas, sustentados pelo amplo respaldo que tiveram na estrutura corporativa do Estado Novo, viabilizar a estrutura da ENEFD como uma formulação orgânica de influências duradouras para a educação física brasileira. Os militares tiveram uma participação decisiva na feitura do decreto-lei n. 1.212, que criou a escola que sintetizou toda a experiência que vinham desenvolvendo na EsEFEx. Tiveram um destaque especial, pois eram os diretores. (GRUNENNVALDT, 1997, p. 5). Luciano Faria Filho (1998) salienta que conceber um debate com a legislação é estar atento às várias dimensões da lei: ao seu ordenamento jurídico, mas também à sua linguagem e prática social. Por isso, o momento de produção da lei é importante para compreender os conflitos, debates e tensões postas. A produção e a realização da lei são frutos de práticas sociais, lugar de construção e expressão de conflitos e lutas sociais. O decreto-lei em questão abre cinco cursos: superior de Educação Física; normal de Educação Física; de técnica desportiva; de treinamento e massagem; e de medicina da Educação Física e dos desportos. Há que se considerar que a formação universitária em Educação Física começava a se estabelecer ainda que a disciplina HEF já estivesse presente nas instituições criadas anteriormente à ENEFD. O que esse decreto-lei realiza com a criação da ENEFD é abrir precedente para que essa instituição, além de difundir a Educação Física em caráter universitário, aparentemente diferente das demais, conferisse uma “unidade teórica e prática da educação física e dos desportos” para todo o país178. Esse caráter “universitário” pretendido parece não se concretizar, pelo menos nos primeiros anos da instituição, pois, como defendido por Melo (1996) e Grunennvaldt (1997), a ENEFD esteve alinhada com os mesmos militares que regiam a EEFE. A articulação de Gustavo Capanema na criação da ENEFD, apesar de contar com a expertise dos militares, indica que ele esteve mais preocupado com a qualificação das “cadeiras de ensino”, sendo o problema do ensino ainda pouco debatido na preparação de professores no país. Diferentemente do que ocorreu com o curso de Philosofia da Faculdade Nacional, para o qual Capanema solicitava autorização de Getúlio Vargas para a contratação de professores estrangeiros, inspirado nos contratos já existentes da USP e da UDF, para a ENEFD o ministro indica que, nos cinco primeiros anos de funcionamento da escola, qualquer funcionário público civil ou militar poderia exercer funções dos cargos criados como comissionados 179 . De imediato, o Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, a pedido do Diretor da ENEFD, o major Ignácio de Freitas Rolim, indica médicos e militares, então 178 BRASIL, 1939, p.97-105. 179 CAPANEMA, Gustavo. [Carta] 10 de abril de 1939, Riode Janeiro [para] VARGAS, Getúlio, Rio de Janeiro. Dispõe sobre as informações referentes a contratação de professores na UB. Fundo Gustavo Capanema, CPDOC/FGV. 180 professores da EEFE, para compor o quadro de catedráticos da ENEFD mostrando que o provimento das cadeiras de ensino contava não somente com o quadro da EEFE como foi por seus dirigentes corroborado em conjunto com o Ministro da Guerra. Havendo no Decreto-Lei n. 1.212 de 17 de abril do ano em curso, que creou a ENEFD, a disposição que, nos cinco primeiros anos de funcionamento da Escola, poderá o Presidente da Republica comissionar funcionário público civil ou militar, para exercer qualquer dos cargos ou funções instituídas na lei (art. 50), sugiro com a devida vênia, a V. Excia. A conveniência de se solicitar ao Sr. Ministro da Guerra permissão previa para que possam ter exercício neste Instituto, no período inicial de sua organização, sem prejuízo das funções respectivas, nos estabelecimentos que servem os seguintes quadros do Ministério da Guerra: Para catedráticos; 1 – Capitão Orlando Eduardo Silva, do EME (História e Organização da EF e dos desportos) 2 – Capitão Raimundo Simap de Mendonça do CIAC (Desportos aquáticos) 3 – Dr. Hermilio Ferreira (médico) Policlinica militar (Biometria) 4 – Dr. Aureo de Morais (médico) EEFE (cinesiologia) 5 – Dr. José Pio da Rocha (médico) da EEFE (fisiologia aplicada) 6 – Tenente Fritz Azevedo Manso da EEFE (ataque e defesa) Eurico Gaspar Dutra Ministro de Estado dos negócios e da Guerra 180 Nos ofícios enviados ao Ministro da Guerra e a Getúlio Vargas na organização e apresentação do Decreto-lei da criação da ENEFD, Gustavo Capanema reitera de forma recorrente o cuidado com a formação de professores. Capanema propunha resolver a necessidade de uma formação de professores mais qualificada tecnicamente e que fosse capaz de, através de pesquisas, “resolver o problema da Educação Física nacional” com a promoção de professores especializados, regulamentando, assim, a formação em Educação Física no país. Habilitando o especialista em Educação Física, Capanema precisou “estender regalias” dessa mesma formação aos outros diversos cursos que já funcionavam no país, já que a ENEFD regulamentava com um Decreto-lei o licenciado em Educação Física, o que ainda não havia sido realizado nos demais cursos já existentes. As “regalias de licenciados” foram primeiramente solicitadas pelo Dep. de Educação Física da Marinha, depois aos médicos especializados na EEFE e após longa solicitação do Ministro da Guerra, também aos sargentos, instrutores e monitores formados pela EEFE 181 . 180 Ofício da ENEFD para Ministro da Guerra, 19 de julho de 1939. Fundo Gustavo Capanema, CPDOC/FGV. 181 Extensão de diploma. Decreto-lei 5.975 9 de Nov. de 1943. Estende aos diplomados pelo curso de educação física do Departamento de Educação Física da Marinha as regalias de licenciado em educação física. Validação de cursos, Decreto-lei 1.380 de 28 de junho de 1939, Estende aos alunos do curso de emergência de Educação física as regalias de licenciados em Educação física e dos médicos especializados em educação física e desportos. Ministério da Guerra; Exposição de motivos estendendo as regalias do Decreto-lei 1212 s.d.. Decreto-lei estendendo aos alumnos da EEFE e dos extintos Centros Regionais as regalias conferidas pelo Decreto-Lei 1.212 aos diplomados em educação física. Divisão de EF, 1941, Estende aos Instrutores, monitores e médicos especializados pela EEFE as regalias de licenciados em EF e dos médicos especializados em educação física e desportos. Fundo Gustavo Capanema. CPDOC/FGV. 181 Ainda que aliados na criação da ENEFD, a relação entre o MES e o Ministério da Guerra, na formação de professores, era passível de concorrência. A solicitação de Eurico Gaspar Dutra a Gustavo Capanema para a extensão de “regalias de licenciados” aos sargentos, instrutores e monitores de Educação Física, baseada no Decreto 1.212, deixa claro que a ENEFD, para o Exército, não teria capacidade suficiente de diplomar professores para todo o ensino secundário. Dutra tenta mostrar a Capanema que a EEFE ainda tinha centralidade nessa formação, defendendo a habilitação do especialista militar nos estabelecimentos de ensino 182 . Essa relação entre militares e civis na constituição da ENEFD nem sempre foi tranquila ou esteve alinhada na perspectiva da formação dos novos professores que ali chegavam. Ainda que houvesse sido criada para a formação civil, a escola esteve marcada pela disciplina militar e pelas práticas de muitos dos professores que produziam a mesma formação na EEFE. Peregrino Junior, catedrático de Biometria, escreve carta a Gustavo Capanema questionando justamente o que seria a orientação de uma escola que “se propunha civil”. Para o catedrático, um dos erros mais graves em relação à organização da ENEFD estaria na sua “subordinação integral ao padrão militar da EEFE”. Crear duas escolas do gênero com a mesma organização e a mesma orientação seria quando nada uma superfactação. [...] Esta só poderia sobreviver se fosse diferente daquela. A ENEFD tem que ser, por força diferente da EEFE. [...] Por que do regime de exercícios severíssimos impostos aos militares. [...] Os civis, além de não estarem treinados para a pratica intensiva dos exercícios que lhes são exigidos, ao sahirem da Escola, ao envés de irem repousar, comer e estudar, vão trabalhar em outros ramos da atividade civil. Daí a estafa, o depauperamento, a inadaptação dos elementos civis sob o regime atual da ENEFD. [...] é preciso adaptar a Escola ao regime de administração civil, desprezando o modelo militar naquilo que ele tem de peculiar e inadequado. 183 Aliados na criação de uma escola civil, o Ministério da Educação e da Guerra do Governo Getúlio Vargas fixaram a criação de 17 cadeiras que seriam lecionadas na ENEFD. Dessas, cinco seriam ocupadas por quadros militares oriundos da EEFE, nos primeiros cinco anos de seu funcionamento 184 . A Cadeira X, História e Organização da Educação Física e dos desportos, seria uma das que teria como catedrático o Capitão Orlando Eduardo Silva, então professor da EEFE, que se estabelecia em cargo comissionado cedente do Ministério da 182 Ofício de Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra para GC MÊS. 11 de agosto de 1941. Fundo Gustavo Capanema. CPDOC/FGV. 183 PEREGRINO JUNIOR [Carta] 26 dez. 1940, Rio de Janeiro [para] CAPANEMA, Gustavo, Rio de Janeiro. Dispõe sobre problemas da ENEFD. Fundo Gustavo Capanema. CPDOC/FGV. 184 [...] para exercer interinamente o cargo de professor catedrático, padrão L, para lecionar as cadeiras II, IV, VI, X e XVII. [...] de comissionamento de acordo com o art. 50, no cargo de Professor catedrático. Ofício Luis Simões Lopes – Presidente do DASP que procedia seleção de pessoal para serviço público federal para Getúlio Vargas Presidente da República 10 de outubro de 1939. Fundo Gustavo Capanema. CPDOC/FGV. 182 Guerra 185 . Como assistente de ensino do Capitão Orlando, foi nomeada a professora Maria Lenk que, nos anos subsequentes, assumiria a cadeira efetiva de Desportos Aquáticos Femininos. O rascunho de Capanema para a elaboração do Decreto-lei 1.212 mostra que a disciplina de História da Educação Física aconteceria em três dos seus cinco cursos: de Professor de Educação Física, de Professora Escolar de Educação Física e de Médico especializado em Educação Física. No curso de técnico esportivo, a cadeira de História da Educação Física ministraria conhecimentos relacionados ao histórico do movimento desportivo e dos Jogos Olímpicos até seu renascimento e o curso de treinador e massagista desportivo não contaria com essa cadeira 186 . Na publicação do decreto, esses cursos aparecem renomeados como Superior, Normal, de Técnica desportiva, de Treinamento e massagem, e de Medicina especializada, contando com a História da Educação Física como disciplina em todos eles. O primeiro curso superior de Educação Física constituído na ENEFD tinha um caráter técnico e poderia ser concluído em até dois anos. Porém, o decreto lei Decreto-Lei 8.270, de 03 de dezembro de 1945, altera de dois para três anos o curso superior de Educação Física. O acréscimo de um ano, segundo Victor Melo (1996), promoveu uma mudança: o curso passou a ser realizado em três anos, com alunos já egressos do ensino secundário e que tinham que passar em um vestibular bastante rigoroso. Isso modificou profundamente a característica dos alunos que passaram a chegar mais maduros e capazes teoricamente, muitos até oriundos de outras faculdades, como afirma o autor. Modificou-se a forma de divisão do curso de primeira e segunda séries para primeiro, segundo e terceiro anos. A anualidade garantiu uma dimensão mais acadêmica ao curso, que recebia estudantes de outros estados do Brasil que pudessem ir ao Rio de Janeiro fazer seu curso. A concessão de bolsas era recorrente e o bolsista deveria assumir o compromisso de, ao final do curso, retornar a seu estado de origem para atuar na organização da educação física de sua região. Isso, entretanto nem sempre ocorria 187 . O Quadro 8 demonstra os currículos nos decretos-lei de 1939 e de 1945 da Escola Nacional de Educação Física e Desportos. 185 Ofício Luis Simões Lopes – Presidente do DASP que procedia seleção de pessoal para serviço público federal para Getúlio Vargas Presidente da República 10 de outubro de 1939. Fundo Gustavo Capanema. CPDOC/FGV. 186 Rascunho Projeto de Lei 1.212 crea a ENEFD. Fundo Gustavo Capanema. CPDOC/FGV. 187 Alguns alunos permaneciam no Rio de Janeiro, deixavam-se contagiar pelo padrão de vida da capital, de uma grande cidade. Normalmente a maioria dos bolsistas era oriunda de territórios do Norte, Nordeste e Centro Oeste, e poucos eram oriundos da Região Sul, que já contava com processo de formação bastante avançado, estabelecendo também relações com o estado de São Paulo (MELO, 1996, p. 71). 183 Embora o currículo tenha se ampliado, a Cadeira X parece ter sido reduzida em seu número de aulas. A cadeira, que apresentava duas disciplinas distribuídas em momentos distintos, passa apresentar a “História da Educação Física e dos desportos” e “Organização da Educação Física e dos desportos” em um mesmo momento, ainda que com programas diferentes. O relatório anual de 1939 do diretor da ENEFD, Major Ignacio de Freitas Rolim, demonstra que a Cadeira X, ainda que importante para os “conhecimentos básicos da humanidade”, não se constituía como essencial na formação, indicando que, assim como na EEFE, essa disciplina estaria compondo a parte prática daquela formação em Educação Física. Observações de caráter pedagógico e didático em torno das diferentes cadeiras do currículo escolar. [...] X – História e organização da Educação Física Embora não constituam matérias essenciaes à formação dos diferentes especialistas, a História e organização da Educação Física deram margem, no desenrolar do curso, a que se pudesse notar a premente necessidade de uma coordenação mais perfeita entre o ensino das diferentes disciplinas teóricas e sua íntima correlação com a prática. Os resultados obtidos, segundo o testemunho do próprio catedrático, se não foram ótimos, apresentaram-se compensadores, apesar de, ainda nesta cadeira, haver elementos para se verificar a incultura geral dos alunos, no que concerne a conhecimentos básicos de humanidade. Tornou-se preciso mesmo grande dose de benevolência para que não houvesse grande numero de reprovados. Em todo caso, como se tratasse de matéria que não afeta integralmente a orientação científica e racional do futuro professor, foi possível condescender, tendo-se também em conta, que nesses dois primeiros anos, segundo o espírito do Decreto-Lei 1.212 é facultado à Escola regularizar a situação daqueles que já vinham exercendo a profissão de professores de educação física e orientadores de desportos. Maiores exigências se farão para aprimorar culturalmente o corpo de mentores de educação física e de desportos no próximo ano letivo. (Major Ignácio de Freitas Rollim, Diretor da ENEFD.) 188 Quadro 9– Currículos do curso de Educação Física da ENEFD 188 Relatório anual ENEFD 1939. Relatório das atividades escolares do ano de 1939. Major Ignacio de Freitas Rollim, 1940. Ceme/EEFD/UFRJ. Decreto-Lei número 1.212 de 17 de abril de 1939 Decreto-Lei nº 8.270, de 3 de Dezembro de 1945 184 Fonte: Elaborado pela autora desta tese. A disciplina de HEF, subsidiando e fundamentando o ensino das cadeiras práticas dos cursos, não comprometia, segundo o Major, a “orientação científica”, princípio pelo qual a formação em Educação Física deveria ser conduzida. A HEF, como uma “matéria não essencial”, parece intermediar a formação cultural dos alunos também devendo ser capaz de fundamentar as cadeiras práticas propostas pela ENEFD. Essa perspectiva da disciplina HEF é muito próxima àquela também produzida na EEFE, anteriormente apresentada, preocupada em apresentar modelos de atuação pautados, sobretudo, nos Métodos Ginásticos Europeus. É preciso reconhecer que o professor da Cadeira X entre 1939 e 1940 era um militar, bem como 1ª serie/ano 1. Anatomia e fisiologia humanas. 2. Cinesiologia. 3. Higiene aplicada. 4. Socorros de urgência. 5. Biometria. 6. Psicologia aplicada. 7. Metodologia da educação física. 8. História da educação física e dos desportos. 9. Ginástica rítmica. 10. Educação física geral. 11. Desportos aquáticos. 12. Desportos terrestres individuais. 13. Desportos terrestres coletivos. 14. Desportos de ataque e defesa. 1.Higiene aplicada. 2.Socorros de urgência. 3.Metodologia da educação física. 4. História e organização da educação física e dos desportos. 5. Educação física geral. 6. Desportos aquáticos e náuticos. 7. Desportos terrestres individuais. 8. Desportos terrestres coletivos. 9. Desportos de ataque e defesa. 10. Ginástica rítmica. 2ª serie/ano 1. Cinesiologia. 2. Fisioterapia. 3. Biometria. 4. Psicologia aplicada. 5. Metodologia da educação física. 6. Organização da educação física e dos desportos. 7. Ginástica rítmica. 8. Educação física geral. 9. Desportos aquáticos. 10. Desportos terrestres individuais. 11. Desportos terrestres coletivos. 12. Desportos de ataque e defesa. 1. Cinesiologia aplicada. 2. Fisiologia aplicada. 3. Metabologia aplicada. 4. Metodologia da educação física. 5. Educação física geral. 6. Desportos aquáticos e náuticos. 7. Desportos terrestres individuais. 8. Desportos terrestres coletivos. 9. Desportos de ataque e defesa. 10. Ginástica rítmica. 3ª serie/ano --------- 1. Fisioterapia aplicada. 2. Psicologia aplicada 3. Biometria aplicada. 4. Metodologia da educação física e dos desportos. 5. Educação física geral. 6. Desportos aquáticos e náuticos. 7. Desportos terrestres individuais. 8. Desportos terrestres coletivos. 9. Desportos de ataque e defesa. 10. Ginástica rítmica. 185 o diretor da escola, implicando, assim, formação e estruturação disciplinar também muito próximas às da formação militar, na qual a utilidade da disciplina estaria vinculada à escolha das melhores práticas e modelos de atuação do período. O Capitão Orlando Eduardo Silva aparece como catedrático da Cadeira X nos cursos de 1939 na ENEFD, mas o quadro de professores das cadeiras teóricas mostra que o então assistente de ensino da cadeira de Fisioterapia do ano de 1939, o médico Aluizio Freire Ramos Accioly, assume no segundo semestre de 1940 a Cadeira X de História e Organização da Educação Física e dos desportos, tendo ainda Maria Lenk como sua assistente de ensino 189 . Accioly permanecerá como professor catedrático da Cadeira X ao longo de dezesseis anos, até 1956. Apesar do longo tempo como professor da cadeira, Accioly pouco publicou nas revistas especializadas ou em formato de livro sobre temas concernentes ligados à HEF ou mesmo à Organização, diferentemente do professor Inezil Penna Marinho, que a assume após essa data. Inezil, ao contrário, parece assumir a cadeira de História e Organização em 1956, já como referência bibliográfica consolidada na área e como técnico em educação e professor que muito havia produzido nos anos anteriores sobre a temática da HEF. Para melhor compreender a disciplina HEF na ENEFD, entre os anos de 1939 a 1958, é preciso pô-la em diálogo com a trajetória profissional de seus professores, suas publicações e seus programas de ensino. 4.3 Os professores de História da Educação Física na ENEFD e os programas da “cadeira X” André Chervel nos lembra de que, no coração do processo que transforma as finalidades em ensino, está a figura do docente. Atento à dimensão sociológica do fenômeno disciplinar, Chervel (1990) propõe que estejamos atentos a esse indivíduo, o docente, e como as finalidades de uma disciplina se revelam e podem ser reveladas a partir dele. A tomada de consciência de um processo disciplinar requer também observar como os professores se dispõem na trama curricular e como sua trajetória profissional resvala na disciplina. Os docentes da ENEFD que assumiram a disciplina HEF ao longo desse período ora apresentam tal disciplina como ponto de partida de suas trajetórias profissionais, ora se localizam nesse quadro como transformadores da realidade do ensino, propondo temas que ampliaram e impactaram a disciplina e a produção sobre a historiografia da Educação Física nacional. 189 Relatório de Atividades da ENEFD desde sua criação até a presente data. 05 de Nov. 1940. Cap. Dr. Hermilio Ferreira Diretor. Fundo Gustavo Capanema. CPDOC/FGV. 186 O corpo docente da ENEFD, ainda que organizado e contando com o apoio e a parceria dos militares professores da EEFE, era bastante eclético. Formado por médicos, professores de Educação Física e militares, em sua maioria ex-atletas, como lembra Melo (2005), muitas vezes não trabalhava de forma articulada. Na tentativa de realmente se estabelecer como uma “escola padrão” para a formação profissional em Educação Física, a ENEFD sofreu transformações, tanto no âmbito curricular quando na estrutura docente, ao longo de seus primeiros cinco anos. Essa reformulação acarretou: ampliação da carga horária dos cursos ofertados; renovação da grade curricular; mudança na direção, que passou a ser comandada por médicos e não mais por militares; e aparecimento de um periódico específico que deu visibilidade à produção de seus professores, como foi o caso da revista Arquivos da ENEFD, publicada entre os anos de 1945 e 1966. O fim do Estado Novo e o estabelecimento do processo de democratização do país, a partir da Constituição de 1946, ampliou a diversidade do quadro docente que se reestruturou não mais centrado na figura dos militares, como nos anos iniciais. Esse quadro diverso, tanto de docentes quanto das mudanças no currículo, provocou também uma reestruturação interna de seus professores, desde os Catedráticos até os chamados Assistentes ou Coadjuvantes de ensino. O Capitão Orlando Eduardo Silva, primeiro professor da disciplina e parte do quadro docente também da EEFE, assume a Cátedra X em 1939, sob a assistência da Professora Maria Lenk, nadadora olímpica que, em 1942 é admitida oficialmente na Cátedra de Natação Feminina 190 . Maria Lenk, contudo, parece se ocupar, como assistente de ensino, diretamente das aulas de Organização da Educação Física e dos Desportos da Cadeira X até o ano de 1942, quando assume a cadeira de Natação Feminina. Substituindo o já Major Orlando Silva em 1940, é possível localizá-la como responsável direta pela disciplina tanto de História como de Organização, ainda que suas aulas e seus interesses parecessem mais destinados à segunda 191 . É importante destacar que a disciplina de Organização, embora esteja presente no currículo de 1939, aparece pela primeira vez no currículo da ENEFD acompanhada da de HEF na reforma curricular. A disciplina aparenta ser uma tentativa de estruturar o que seria a organização da Educação Física e dos esportes através das regulamentações, tanto do governo federal em seus atos e legislações quanto da estruturação nacional e internacional dos esportes, da construção e da instalação das práticas esportivas e da organização de calendários 190 Relatório anual ENEFD 1942. Relatório geral referente às atividades da ENEFD durante o ano letivo de 1942. Major Ignacio de Freitas Rollim. Ceme/EEFD/UFRJ. 191 Relatório de cadeira 1940. Relatório História e Organização da Educação Física e dos desportos. Prof. Maria Lenk, assistente de História e Org. da Ef e desportos. Rio de Janeiro, 12 de VII – 1940. Ceme/EEFD/UFRJ 187 e competições esportivas. A organização da EF e dos esportes parece constantemente regulada pelas normativas governamentais e também pelas normativas que regiam os Comitês, Federações e Confederações esportivas. Não há nenhuma justificativa em nenhum dos relatórios anuais ou de Cadeira da ENEFD que explique ou justifique o fato de História e Organização da EF pertencerem à mesma cátedra e o porquê de estarem sempre alinhadas na conformação desse currículo desde sua criação. No entanto, é possível, a partir de seus programas, compreender que, enquanto a HEF se apresentava como uma disciplina de formação intelectual, mobilizando as questões do passado, Organização da EF se estrutura a partir das questões do presente ou de um passado muito recente, indicando aos futuros professores a forma como o conhecimento do “passado” da História deveria ser mobilizado no “presente” pela Organização. Programa de Organização da Educação Física e dos desportos 1940; 1ª aula – 13-V-40 – Organização esportiva internacional 2ª aula – 16 – V – 40 - Organização desportiva nacional – sua ligação com a organização internacional 3ª aula – 20 – V – 40 - COB Organização e finalidades – organização dos jogos desportivos 4ª aula – 27 – V – 40 - Organização das praças desportivas em conjunto 5ª aula – 01 – VI – 40 - Recapitulação da organização desportiva – primeira parte da organização de stadios 6ª aula – 08 – VI – 40 - Continuação da organização de stadios – instalações para provas de campo – traçados de pistas 7ª aula – 15 VI – 40 - Organização e construção de piscinas de natação 8ª aula – 18 – VI – 40 - Higiene das piscinas e tratamento das águas Maria Lenk - Prof. Assistente de História e Org. da EF e desportos 192 Programa de Organização da Educação Física e dos desportos 1943; II - Organização e administração 3 - Educação Física no Brasil – âmbito federal, estadual e municipal 4 – Desportos no Brasil – idem, relações internacionais 5 – Educação Física nos países da Europa Atlântica 6 - Educação Física nos países da Europa Mediterrânea e Báltica 7 - Educação Física nos países Americanos do norte e Centro 8 - Educação Física nos países Americanos do Sul 9 - Educação Física nos países Asiáticos especialmente no Japão 10 – Organização da Educação física escolar e extra-escolar 11 – Legislação da Educação Física n Brasil III – Organização de competições 12- atletismo 13 – natação 14 – desportos coletivos 15 – competições olímpicas IV – Locais para as praticas desportivas 16 – estádios 192 Relatório de cadeira 1940. Oito aulas realizadas de Organização da Educação Física e dos Desportos por Maria Lenk em 1940. Relatório História e Organização da Educação Física e dos desportos. Prof. Maria Lenk, assistente de História e Org. da Ef e desportos. Rio de Janeiro, 12 de VII – 1940. Ceme/EEFD/UFRJ. 188 17 – piscinas 18 – ginásios 19 – parques infantis e play grounds193 Organização anuncia um complemento do presente à História da Educação Física e também uma forma de demarcar a oficialidade da Educação Física e dos Esportes nos governos e órgãos oficiais que regulamentavam e normatizavam tais práticas. Em que pese que a disciplina de Organização não seja objeto de análise desse estudo, importa observar que, estando na mesma Cátedra que a disciplina de HEF, as duas deveriam compartilhar o mesmo professor. As Cátedras se constituíram até 1968 no Brasil como alma mater das instituições de ensino superior segundo Fávero (2000). A Cátedra passa a existir nos tempos de Brasil Imperial, mas é na Reforma Francisco Campos que ela é ratificada tendo o professor catedrático, a hierarquia no corpo docente em relação aos chamados “assistentes ou coadjuvantes de ensino”. No Estatuto das Universidades Brasileiras de 1934, a ideia da Cátedra ganha força e estabelece alguns princípios centrais que vão perdurar até a Reforma Universitária de 1968: a garantia da liberdade de cátedra, a dispensa e, após a Constituição de 1946, a obrigatoriedade do concurso de provas e títulos no provimento dos cargos e a garantia dos professores nomeados por concurso de vitaliciedade dos cargos (FÁVERO, 2000, p. 89- 90). Mesmo que a Universidade do Brasil concentrasse o poder de suas escolas e institutos no âmbito dos catedráticos para a organização de seus regimentos, muitos dos primeiros professores eram designados como catedráticos interinos, a maioria designada pelo presidente Getúlio Vargas e sem concurso, como é o caso dos docentes da ENEFD. Tomemos como exemplo o professor Aluizio Ramos Accioly, que assume a Cátedra de História e Organização da Educação Física e dos Desportos durante o 2º semestre de 1940 194 . Accioly, antes assistente de ensino da cátedra de Fisioterapia, permanece, após 1940, na Cátedra de História e Organização até 1956, todavia, somente realiza o concurso para catedrático em 1954 195 . A partir da Constituição de 1946, o concurso de provas e títulos passa a ser obrigatório, porém 193 Relatório de cadeira 1943. Relatório História e Organização da Educação Física e dos desportos. Aluizio Ramos Accioly. Ceme/EEFD/UFRJ. 194 Relatório de cadeira 1940. Relatório História e Organização da Educação Física e dos desportos. Aluizio Ramos Accioly. Assumi a direção da cadeira ao inciar-se o 2º período letivo, isto é, em 1º de agosto de 1940, data que foi então iniciado o curso. Ceme/EEFD/UFRJ 195 Relatório anual ENEFD 1954. Relatório geral referente às atividades da ENEFD durante o ano letivo de 1954. Concurso: “Foi realizado concurso para a cátedra de História e Org. da EF e dos desportos ao qual concorreu Dr. Aloisio Freire Ramos Accioly, único candidato inscrito, tendo sido aprovado.” Ceme/EEFD/UFRJ. Revista Arquivos da ENEFD N.9, jan.jun. 1956. Noticiário; Posse de professor: Discurso de saudação ao Professor Aluísio Acioli no ato de sua posse em nome da Congregação da ENEFD 27/04/1954– Prof. Alberto Latorre de Faria p.133. 189 muitos professores da ENEFD, quando realizam seus concursos, o fazem somente após a década de 1950 196 . O regimento interno da ENEFD de 1941 referenda a distinção entre cadeiras teóricas e cadeiras práticas dos cursos. Uma das exigências para que os catedráticos assumissem as cadeiras teóricas era a formação em nível superior e parte delas deveria ser ocupada por médicos 197 . A Cátedra X de História e Organização, apesar de não contar com essa obrigatoriedade de ser ocupada por um médico, teve como docente o Dr. Accioly por dezesseis anos consecutivos. 4.4 Aluizio Accioly Aluizio Accioly assume a cadeira de História e Organização da Educação Física e de Desportos em 1940 com uma trajetória pessoal e profissional muito apreciada pela diversidade do corpo docente nos anos iniciais da ENEFD. Era médico com formação pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro 198 , mas também ex-aluno do curso de médico especializado pela EEFE e ex-atleta de basquete, tendo integrado a equipe brasileira dessa modalidade nos Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim 199 . A medicina, o vínculo com a formação na Escola do Exército e a trajetória de ex-atleta certamente foram fundamentais para que ele integrasse, no ano de 1939, o quadro docente da ENEFD como assistente de ensino das cadeiras de Fisioterapia e Biometria até assumir a História e Organização como catedrático. Accioly foi o último professor catedrático interino a assumir o cargo de efetivo e a função vitalícia da cátedra. Apesar de o relatório anual da ENEFD listá-lo em um dos concursos que estariam em pauta entre os anos de 1950 a 1951 200 . Accioly realiza o concurso 196 A Revista Arquivos da ENEFD noticia os concursos dos Catedráticos, as bancas, e por vezes os discursos de posse do catedrático ou da banca ao longo dos anos de 1950. Relatório anual ENEFD 1950/51. Concursos em pauta na ENEFD: Para professor catedrático, 1 – Cadeira de Anatomia e Higiene: Candidato inscrito: Waldemar Areno. 2 – Cadeira de Fisioterapia, Candidato inscrito: Camilo Manuel Abud. 3 – Cadeira de Psicologia aplicada, Candidato inscrito: Carlos Sanches de Queiroz. 4 – Cadeira de História e Organização da Educação Física, Candidato inscrito: Aluizio Freire Ramos Accioly. Ceme/EEFD/UFRJ 197 Relatório anual ENEFD 1941. Relatório geral referente às atividades da ENEFD durante o ano letivo de 1941. Ceme/EEFD/UFRJ. Victor Melo(1999) também trata sucintamente do mesmo tema no artigo de introdução intitulado “Porque devemos estudar a História da Educação Física e do esporte nos cursos de graduação?”. Melo (1999, p. 21) 198 ACADEMIAS, 1932, s.p. 199UNIVERSITÁRIOS, 1935, s.p. “A delegação da Federação Atlética de Estudantes que disputará naquella cidade varias partidas de waterpolo, natação e basketeball.” Jornal A noite, 02 de julho de 1936. “Saberemos vencer ou perder como verdadeiros sportmen, para sermos dignos filhos do Brasil”. Accioly integrante da equipe de basteketeball brasileira nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. 200 Relatório anual ENEFD 1950/51. Concursos em pauta na ENEFD: Para professor catedrático, 1 – Cadeira de Anatomia e Higiene: Candidato inscrito: Waldemar Areno. 2 – Cadeira de Fisioterapia, Candidato inscrito: 190 somente em 1954, sendo, segundo o Professor Alberto Latorre de Faria, o “ultimo professor a ser empossado na plenitude dos direitos da honrosa e vitalícia função”. O discurso de saudação de Alberto Latorre de Faria pela posse de Accioly o trata como “pioneiro” da escola e dos “desportos nacionais”, exaltando os 15 anos de sua trajetória profissional como docente na ENEFD 201 . O discurso de posse, ocorrido em 1954, é publicado na Revista Arquivos da ENEFD somente em 1956, ano em que a Congregação da Escola anuncia seu falecimento. A publicação parece ser uma forma de homenagear e exaltar a memória de Accioly após 16 anos na docência na instituição 202 . Ao longo de sua trajetória profissional é possível identificar cinco publicações suas editadas pela Biblioteca Brasileira de Educação Física e dirigidas por Inezil Penna Marinho, então catedrático de Metodologia da Educação Física e dos Desportos na ENEFD desde 1949. A série “Divulgação didática” publica opúsculos indicando o material didático para o acesso dos professores de Educação Física de forma geral e também dos alunos dos cursos. Origem e Evolução do Foot-Ball, Adolph Spiess e a Ginástica nas Escolas Alemãs, Os Sokols e sua Organização, Sistema de Organização de Competições por Equipes e Basedow e sua Contribuição à Educação Física são obras publicadas entre os anos de 1949 a 1950 e têm indicação de sua finalidade na capa: “para o uso dos alunos das Escolas de Educação Física”203. As cinco publicações têm em comum os temas também relacionados à cadeira de História e Organização e os indicativos de que a produção de material didático de fácil acesso para o uso nos cursos de formação poderia ser uma alternativa às bibliografias indicadas para essas disciplinas, normalmente compostas por grandes livros, enciclopédias e tratados de História Universal, como aparece no relatório de cadeira de 1943 204 . Camilo Manuel Abud. 3 – Cadeira de Psicologia aplicada, Candidato inscrito: Carlos Sanches de Queiroz. 4 – Cadeira de História e Organização da Educação Física, Candidato inscrito: Aluizio Freire Ramos Accioly. Relatório anual ENEFD 1954. Relatório geral referente às atividades da ENEFD durante o ano letivo de 1954. Concurso: “Foi realizado concurso para a cátedra de História e Org. da EF e dos desportos ao qual concorreu Dr. Aloisio Freire Ramos Accioly, único candidato inscrito, tendo sido aprovado.” Ceme/EEFD/UFRJ 201 FARIA, 1956. 202 Relatório anual ENEFD 1956. Relatório geral referente às atividades da ENEFD durante o ano letivo de 1956. Congregação: “A congregação da ENEFD sofreu, nesse ano recém-findo dois duros golpes: o falecimento do professor catedrático Aluízio Freire Ramos Accioly (julho 17/07/1956) e do professor de ensino superior e até então secretário, Prof. Oswaldo Ferreira da Costa (outubro 23/10/56) titular de desportos aquáticos náuticos masculinos.” Ceme/EEFD/UFRJ 203 As cinco obras originais podem ser encontradas no acervo do CEME na ESEF/UFRGS. 204 Relatório de cadeira 1943. Relatório História e Organização da Educação Física e dos desportos. Aluizio Ramos Accioly. Bibliografia, História da humanidade - Van Loon, America – Van Loon, História Universal – H. G. Wells, Histórico da Educação Física – Bonorino, Molina, Casa Grande e Senzala – Gilberto freire, Um engenheiro Frances no Brasil – Gilberto freire, Enciclopédia dos Sports – Ac. Dos Sports, História do Brasil – Rocha Pombo, História Social do Brasil – Pedro Calmon, História da Educação – Paul Monroe, História da Educação – Afranio Peixoto. Ceme/EEFD/UFRJ. 191 Os Relatórios de Cadeira produzidos por Aluizio Accioly entre os anos de 1940 e 1944, relativos à disciplina História da Educação Física, mostram a forma sucinta com que ele descrevia seus programas de aula assim como os itens obrigatórios do relatório 205 . O relatório de cadeira de 1940 demonstra que Accioly adota o programa de ensino do Major Orlando Eduardo Silva “sem nenhuma modificação”. O formato de aulas em “conferências e seminários” parece ser uma metodologia que permanece ao longo dos anos e, por ora, é justificado devido à “inexistência de material de ensino adequado com a moderna pedagogia”206. A melhoria das condições materiais da Escola também é um problema apontado de forma recorrente, impactando sua metodologia de aulas. O programa de ensino de 1943, que é replicado em 1944, é o mais completo até então apresentado pelo professor. Ainda que se assemelhe, em grande medida, ao programa dos Tenentes do Exército e que o Histórico da Educação Física (BONORINO, MOLINA, MEDEIROS, 1931) seja a única referencia bibliográfica específica da História da Educação Física citada por Accioly, os objetivos, ou “fins a atingir”, e os indicativos dos temas sobre a Educação Física nacional já apontam para uma ampliação dos temas dessa disciplina. Além de se utilizar de intelectuais que tentavam interpretar o Brasil sob o ponto de vista da sociologia, como Gilberto Freire, ou pela História, como Pedro Calmon e Rocha Pombo, Accioly não replica a centralidade do Método Francês, o que era recorrente nos programas das disciplinas de HEF do período anterior. O alinhamento da História da Educação Física com os temas da História Universal ainda permanece de forma linear e cronológica, assim como a prática de tentar olhar para o passado tratando de sua utilidade para a Educação Física executada no período contemporâneo. Os Métodos Ginásticos e sua história ainda são questões centrais e isso pode ser percebido quando o professor indica que o “processo de instrução” da disciplina poderia ser realizado através de comparações em sessões de campo que contassem com a colaboração da Cadeira de Educação Física Geral, que, naquele momento, era a disciplina responsável por difundir os conhecimentos práticos dos métodos ginásticos 207 . História da Educação física e dos desportos 205 Os programas de cadeira são por vezes não apresentados. O professor Accioly comunica por ofício à congregação de que o programa do ano corrente “seria o mesmo realizado no ano anterior”. 206 Relatório de cadeira de 1940 e de 1941. Aluizio Ramos Accioly. Ceme/EEFD/UFRJ. 207 Na Reforma curricular de 1945, a disciplina de Educação Física Geral é renomeada para Metodologia da Educação Física e dos Desportos. 192 A)Fins a atingir I – O ensino da “História da Educação física e dos desportos” não será apenas ilustrativo, cronológico e informativo dos acontecimentos e nomes históricos da Educação Física e dos desportos. Não que isto seja dispensável, ao contrário, servirá de ponto de partida para um estudo que confronte os vultos passados e sua utilidade da Educação Física moderna. II – Atualmente promovemos nossa educação física por intermédio de um método ao qual os conhecimentos científicos do momento permitem classifica-lo de excelente em face dos objetivos que lhe são propostos. Necessário será sem duvida saber como surgiu, que apareceu, como evoluiu, quais causas que determinaram a concorreram para seu aparecimento e desenvolvimento. Desse modo, na confecção de futuros métodos poderemos evitar reedições ou repetições de cousas que a experiência já condenou por prejudiciais e inúteis o que seria dificilmente evitado sem o conhecimento das dificuldades que passaram no decorrer de suas existências, métodos e sistemas de educação física III – Ao estudarmos o método procuramos faze-lo analisando o ambiente histórico, precursores e contemporâneos, ideias próprias e alheias de seu autor bem como sua influencia nos usos e costumes dos povos que o adotaram. B) Relação pormenorizada de assuntos: 1 – História definições, relações com as outras ciências, generalidades – Educação, definição, evolução e conceito. 2 – Educação Física nos tempos primitivos, aparecimento, evolução, aspectos, características 3 – Educação Física egípcia, aspectos, características 4 - Educação Física Hindu, aspectos e características 5 - Educação Física Chinesa, aspectos, características 6 - Educação Física Grega, aspectos, características 7 - Educação Física Romana, aspectos, características 8 - Educação Física na Idade Média 9 - Educação Física no Renascimento – séculos XIV – XV – XVI 10 - Educação Física nos séculos XVII e XVIII 11 – Método de Amoros – Escola Amorosiana 12 – Método de Hebert 13 – Método de Ling 14 – Método de Demeny – Método Francês 15 – Método Culturista – Método Esportivo 16 – Método dos Sokols 17 – Método Alemão moderno 18 – Ginástica calistenica – Ginástica Dinamarquesa 19 – História da Educação Física no Brasil – aspectos e características – generalidades 20 – Educação Física no Brasil Colônia 21 - Educação Física no Brasil Império 22 - Educação Física no Brasil República 23 - Educação Física no Brasil Estado Novista 24 – História dos esportes – Esgrima, lutas – Box – foot-ball, basket-ball, volley- ball, tennis, remo – atletismo – aparelhos – pesos e halteres 25 – História dos esportes no Brasil C) Meios Documentação Bibliografia História da humanidade - Van Loon America – Van Loon História Universal – H. G. Wells Histórico da Educação Física – Bonorino, Molina 193 Casa Grande e Senzala – Gilberto freire Um engenheiro Frances no Brasil – Gilberto freire Enciclopédia dos Sports – Ac. dos Sports História do Brasil – Rocha Pombo História Social do Brasil – Pedro Calmon História da Educação – Paul Monroe História da Educação – Afranio Peixoto Os assuntos deverão ser tratados em 29h úteis de instrução sob a dosagem de uma sessão semanal de 45 minutos D)Processo de instrução O processo empregado será preferentemente o de conferencias, visto que a maioria não se presta a demonstrações praticas. Lançar-se-á mão sempre que for conveniente da cinematografia, exibindo filmes que falem diretamente da educação física ou que retratem uma época onde um dos métodos vistos tenha tido alguma influencia. O processo de comparações estará sempre em evidencia, máxime se pudermos faze-lo em sessões de campo em colaboração com a cadeira de Educação Física Geral. Dr. Aluizio Accioly Prof. Catedrático 208 A grande diferença para os programas de ensino anteriores é que os Métodos Ginásticos “estrangeiros” deveriam ser estudados não mais com o propósito de uma escolha do “mais adequado ao tipo brasileiro” ou para incorporação irrestrita do método escolhido como oficial. Estudar a história desses métodos parece ser, já nesse momento, para Accioly, uma forma de que pudessem ser projetados futuros métodos ou sistemas de educação física nacionais. A tentativa de produzir um método nacional de educação física já vinha sendo desenvolvida através dos inquéritos realizados pela Divisão de Educação Física nas escolas e publicados pela primeira vez por Inezil Penna Marinho em 1942 209 . O Método Nacional de Educação Física ganha, no ano de 1944, um concurso específico, promovido pela Divisão de Educação Física do MES. Inezil, técnico em Educação e funcionário da Divisão, se dedica, desde 1942, à escrita de monografias e trabalhos 210 que culminariam no “Ante-projeto do Método Nacional de Educação Física”211. O Método Nacional tinha como um dos pontos centrais a crítica ao Método Francês e a criação de um método nacional como alternativa a 208 Relatório de cadeira 1943. Relatório História e Organização da Educação Física e dos desportos. Aluizio Ramos Accioly.Ceme/EEFD/UFRJ. Após o ano de 1943 é possível localizar outro programa de História e Organização de Accioly somente em 1951. O programa da disciplina de 1951 é igual ao de 1943. 209 MARINHO, Inezil Penna. O Método Nacional de Educação Física: inquérito realizado pela Divisão de Educação Física. Rio de Janeiro: MES, Dep. nacional de Educação, Divisão de Educação Física, 1942. Ceme/ESEF/UFRGS. 210 MARINHO, Inezil Penna. Condições a que deverá satisfazer um Método Nacional de Educação Física: contribuição ao método nacional de Educação Física. MES, Dep. Nacional de Educação, Divisão de Educação Física, Rio, Imprensa nacional, 1945. Ver também Relatório de atividades de Inezil Penna Marinho na Divisão de EF entre 1940 a 1945: Concurso de Contribuições ao Método Nacional de Educação Física. Ceme/ESEF/UFRGS. 211 Ante-projeto do Método Nacional de Educação Física, Tomo 1 – 1ª parte – 1946. Acervo CEME/ESEF/UFRGS. 194 este. Accioly, ao elaborar seu programa de HEF, esteve conectado a essas produções realizadas pela Divisão de Educação Física e a um primeiro esboço da produção do Método Nacional elaborado por Inezil. O Método Francês, declarado oficial no Brasil no início dos anos de 1930, esteve atrelado às práticas executadas pelo Exército e por ele incentivadas nas décadas anteriores, entretanto, ele não foi consensual entre os professores nas diversas instituições de ensino, o que é possível perceber através dos inquéritos realizados pela Divisão e publicados em seu Boletim. A ENEFD, como uma escola civil e, ainda naquele momento dirigida por militares, era demasiadamente diversa em seu quadro docente, o que em certa medida parece não ter feito prosperar a obrigatoriedade do Método Francês naquela instituição, como aconteceu na EEFE. Pouco antes do seu falecimento, em 1956, Accioly escreve e publica juntamente com Inezil Penna Marinho História e Organização da Educação Física e dos Desportos. O livro, dividido em três volumes, se apresenta como uma obra didática que tinha como finalidade prover alunos e escolas de Educação Física de material de estudo. Com a mesma justificativa formulada pelos Tenentes no Histórico da Educação Física Accioly e Inezil afirmam que as bibliografias a respeito estariam em “língua estranha” e que seria de difícil aquisição. Os dois primeiros volumes, segundo os autores, seriam o próprio programa da Cadeira X da ENEFD que passaria a vigorar a partir de 1956. Inezil, naquele momento, era o Chefe do Departamento de Pedagogia, que agregava Cátedras afins, entre elas a de Metodologia da Educação Física e dos Desportos sob sua tutela e a de História e Organização de Accioly. Essa proximidade não somente desencadeou essa publicação como fez com que Inezil, no mesmo ano, assumisse a regência da disciplina de História e Organização após a morte de Accioly. Ainda que tenha sido um programa elaborado por ambos os professores, acredito que este livro já estivesse amplamente influenciado pela produção em História da Educação Física publicada por Inezil desde 1941, sobretudo pela longa publicação Contribuição para a História da Educação Física no Brasil, lançada em 1943 pela Imprensa Nacional, sob a chancela do MES. 4.5 Inezil Penna Marinho Ao longo dos últimos vinte anos, Inezil Penna Marinho tem sido objeto de estudos para diversos pesquisadores da Educação Física brasileira 212 . Esses estudos se ocupam desde 212 Dos pesquisadores brasileiros que produziram sobre Inezil e sua obra podemos destacar: Nascimento (1997), Ferreira Neto (1999), Melo (1998, 2008, 2009), Goellner (2005), Goellner e Silva (2009) e Dalben (2011). 195 seu perfil biográfico à sua influência como um dos maiores intelectuais da Educação Física brasileira, pautados a partir de sua produção humanista que versou sobre diferentes temáticas: pedagogia, psicologia, filosofia, história, entre outras. Embora seja possível adentrar a obra de Inezil pelas diversas temáticas que ele legou como professor e pesquisador e pela amplitude de sua produção, analisá-lo em seu papel de historiador talvez seja imperativo pela primazia de sua produção, como sujeito que toma a História como um dos temas que o acompanhará desde o início da sua carreira de pesquisador. Tendo produzido e atuado profissionalmente em diferentes frentes, a História parece ser temática que o acompanha como burocrata, professor, editor e jornalista e pesquisador, preocupado com a formação humanista da Educação Física brasileira. Assim como Aluizio Accioly, Inezil parece se enquadrar na diversidade do quadro docente da ENEFD, mesmo que sua entrada nessa instituição tenha ocorrido quase uma década depois. Com formação no curso de Instrutor de Educação Física na EEFE em 1938 213 , e com uma longa passagem como Técnico em Educação pela Divisão de Educação Física do MES entre os anos de 1939 e 1947 214 , Inezil conviveu diretamente com os militares e, com estes e a suas instituições, produziu e se fez produzir como importante intelectual até sua chegada à ENEFD. Sua carreira como Técnico em Educação na Divisão de Educação Física permitiu o trânsito direto nas estruturas de poder do Departamento Nacional de Educação vinculado ao MES, assim como o fez circular por todo o país fiscalizando e inspecionando novos cursos de Educação Física, exames, e fazendo orientação técnica em diferentes escolas de formação da área 215 . Bilhetes, ofícios e cartas dirigidas a Gustavo Capanema sobre diversos assuntos, sobretudo enviando-lhe material de seus artigos originais, são recorrentes ao longo de sua trajetória profissional na Divisão 216 . Foi pela Divisão que seus primeiros e 213 Diploma Escola de Educação Física do Exército. Diploma do curso de Instrutor de Educação Física. Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 1938 com menção Bem. Acervo CEME – UFRJ. 214 Inezil se inscreve para a prova de habilitação disputando com mais três concorrentes o cargo de sub-assitente técnico da Divisão de Educação Física do MÊS. Em 1940 se inscreve na mesma instituição para o cargo de técnico de educação com a tese: Especialização – Fatos preponderantes na técnica da Educação Física. Em 1941, é nomeado para o cargo. Relatório de atividades de Inezil Penna Marinho na Divisão de EF entre 1940 a 1945. Acervo CEME/ESEF/UFRGS. 215 Entre os anos de 1940 e 1945, é possível ver designações da Divisão de Educação Física assinadas por Capanema para que Inezil visitasse os seguintes estabelecimentos: Escola Superior de Educação Física do Estado de São Paulo, Escola de Educação Física e Desportos do Estado do Paraná, Curso Normal de Educação Física do Estado de Santa Catarina e Escola de Educação Física do Estado do Rio Grande do Sul, Curso Normal de Educação Física do Estado de Pernambuco, Escola Superior de Educação Física de Porto Alegre. Portarias e documentos de cargos exercidos por Inezil Penna Marinho 1940-1945. Acervo CEME/ESEF/UFRGS. 216Exemplo de algumas dessas correspondências: “Inezil Penna Marinho Cumprimenta respeitosamente e pede permissão para oferecer a vossa Excia. Um exemplar da monografia com que concorreu ao concurso promovido pelo MES” 1942. “Inezil Penna Marinho cumprimenta respeitosamente o Exmo. Sr. Ministro da Educação e oferece cópia da conferencia pronunciada dia 11/11/44 na ABI, O estado Nacional e a Educação 196 mais importantes trabalhos sobre a HEF foram publicados e também foi por ela que pôde viajar por diferentes instituições do país, fazendo com que sua produção circulasse. Ao longo dos anos na Divisão de Educação Física, esteve amparado por uma política de publicações que incentivava não somente os temas “nacionais”, como o nacionalismo em sua estrutura política do Estado Novo, publicando assim diversas conferências, monografias, opúsculos e livros sobre a Educação Física e sua faceta humanista pautada na pedagogia, na história e na filosofia, tendo como preocupação a escola e seus princípios pedagógicos 217 . Inezil, ao longo desses anos, circulou e se fez circular enquanto Técnico de Educação, autor, pesquisador e militante da Educação Física brasileira pela América Latina em diversos congressos Panamericanos de Educação Física. Tendo estabelecido relações com instituições e pesquisadores da Educação Física, ofertou suas obras e foi constantemente solicitado oficialmente por essas instituições para o envio de suas publicações chanceladas pelo MES e pela Imprensa Nacional. É possível mapear, através de suas correspondências, solicitações de obras de diferentes estados brasileiros, países e pesquisadores de toda a América Latina e dos Estados Unidos 218 . Em meio a toda sua vasta produção do período, ao longo do ano de 1941, já como Técnico de Educação da Divisão, presta vestibular para o curso de especialização de Técnica Desportiva na ENEFD, ao mesmo tempo em que retoma seu curso de Direito, iniciado nos finais dos anos de 1930, finalizando-o em 1944 219 . Essa inclinação às humanidades e sua erudição foram certamente definidoras para uma das características marcantes de sua obra, física”. “Tenho a honra de enacaminhar a V. Ex. antes de sua divulgação os originais de meu artigo “O Método Nacional De Educação Física” que encara com grande interesse para a educação em geral e a educação física em particular.” 15de maio de 1945. Fundo Gustavo Capanema CPDOC/FGV. 217 Essa preocupação pode ser melhor compreendida também por meio das correspondências entre Lourenço Filho e Inezil que ocorrem com solicitação de obras, sínteses e material publicado sobre a Educação Física pela via oficial do MES através dos ofícios a Capanema. Por exemplo: Ofício de Lourenço Filho, Diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos para G. Capanema Ministro da Ed. e Saúde, 17 de julho de 1943. Fundo Gustavo Capanema CPDOC/FGV 218 Correspondências sobre trabalhos publicados e correspondências solicitando publicações: Revista Popular de la salud, Buenos Aires – Argentina, maio de 1943, De Cuba, Miguel Angel Raymat – Director Del Parque Juvenil Deportivo “José Marti” La Habana, Diciembre 01 de 1943, Do Equador em 16 de dez. de 1947, Do Uruguai em 1 de julho para a Escuela Militar de Educación Física solicitando livros para compor sua biblioteca. The Library of Congress, USA – Whashington, 17 de março de 1944, Southest Texas State Teachers College, Dep. of Physical Education 30 de jan. 1947, The Library of the University of Texas, 6 de fev. de 1947, Mexico, 11 de março de 1944, Assuncion, Paraguai 10 de janeiro de 1944 Conselho Nacional de Cultura Física, Lima, 22 de janeiro de 1944 Direção de Educação física e de Higiene escolar, Montevideo, 15 de dezembro de 1943 Centro Cultural de professores de educação física. Acervo CEME/ESEF/UFRGS. 219“Curso de especialização na Escola Nacional de Educação Física e Desportos da UB: realizei curso de Técnica Desportiva. Sinto satisfação em comunicar-vos que nos exames vestibulares da referida Escola [...] classifiquei-me em primeiro logar com media global 90. Terminado o curso, obtive media global mais elevada da turma de 8,56 com distinção em todas as cadeiras teóricas.” 6 de janeiro de 1942. “Curso de Direito: após cinco anos de esforços que somente eu poderei avaliar conclui meu curso de Bacharel em Direito”. 04 de janeiro de 1944. Relatório de atividades de Inezil Penna Marinho na Divisão de EF entre 1940 a 1945. Em 1958 também finaliza o Curso de Filosofia. Acervo CEME/ESEF/UFRGS. 197 que foi a busca de subsídios nas diversas áreas de conhecimento para melhor compreender a Educação Física como prática pedagógica. Dos autores que publicaram sobre suas obras nos últimos vinte anos, dois merecem destaque por tratarem de forma mais restrita a produção de Inezil sobre a História da Educação Física. Célia Carvalho do Nascimento (1997) e Victor Melo (1998, 1999, 2002). Apesar de não terem tratado diretamente da disciplina HEF na ENEFD e mais diretamente de sua produção sobre a HEF, acredito que esta influencia o livro História e Organização da Educação Física publicado em 1956, em parceria com Accioly, e escrito como para nortear a disciplina na ENEFD. O livro, no entanto, é fruto de uma trajetória de produção sobre HEF que começa no início dos anos de 1940, quando Inezil ainda era Técnico em Educação da Divisão. Como fruto das Conferências para professores diplomados, realizadas pela Divisão de Educação Física 220 , Inezil Penna Marinho, então técnico de educação da Divisão de Educação Física desde 1939, lança dois livros que marcam a historiografia da Educação Física no Brasil: Educação Física: Estatística(1940) e Organização da Educação Física no Brasil (1941). As duas obras são também os primeiros estudos de Inezil Penna Marinho dedicados à História da Educação Física, temática à qual dedicou grande parte da sua obra produzida até o início dos anos de 1980. O curso da Divisão de Educação Física teve um total de dez conferências, dessas, seis teriam sido ofertadas por Inezil 221 . Essas obras são importantes porque marcam também um primeiro interesse em documentar o que se constituiria como uma “historiografia da Educação Física nacional”, já que as publicações anteriores a essa data sobre a temática indicavam uma historiografia da Educação Física pautada nos estrangeirismos, sobretudo os advindos da Europa. O compêndio Histórico da Educação Física, publicado em 1931 pelos tenentes e professores do Exército, é um exemplo desse tipo de publicação em que é possível encontrar apenas um parágrafo sobre a História da Educação Física brasileira. Daí ser possível dizer que essas duas publicações de Inezil Penna Marinho são os primeiros exercícios de uma busca documental que apresenta um amplo levantamento de datas e fatos sobre o que seria uma história da educação física nacional, a partir de fontes como legislação, jornais, revistas, teses da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, de Pernambuco, da Faculdade de Direito, livros 220 Conferências realizadas para o I Curso de Informações para professores de Educação Física, médicos especialistas, técnicos desportivos, treinadores e massagistas. Promovidas pelo Departamento Nacional de Educação via Divisão de Educação Física, as conferências foram ofertadas para especialistas já formados e que tinham cursado os cursos com a mesma nomenclatura das especialidades acima citadas. 221 Ainda segundo Melo (s.d.), Organização da Educação Física no Brasil foi publicado, assim como todas as outras obras, no Boletim de Educação Física da DEF, número 1, junho de 1941. 198 de Educação Física e Esporte, súmulas, arquivos diversos, livros sobre a história do Brasil, livros de memorialistas, entre outras. Em uma periodização política, Inezil descreve autores, compêndios, manuais e teses que versavam da higiene à ginástica e que teriam sido produzidos ou adotados em diferentes instituições de ensino brasileiras desde o século XVIII 222 . A partir dessas fontes, Inezil forjou um primeiro ensaio sobre a historiografia da Educação Física brasileira, amparado institucionalmente pela Divisão de Educação Física e atento a autores e à legislação nacional. As publicações, além de um primeiro ensaio documental-factual da Historiografia da Educação Física brasileira, foram também uma forma de a Divisão de Educação Física apresentar o “pioneirismo” daquele governo na orientação da educação física, sobretudo na relação com sua obrigatoriedade nos estabelecimentos de ensino secundário e na fiscalização e na orientação dos novos cursos de formação que se instituíam no país. Parte delas se dedica a demonstrar, após o momento da apresentação histórica, os atos e decretos que ajudaram a centralizar as ações dos governos estaduais vinculando-os diretamente ao governo federal, assim como os inquéritos produzidos em escolas de todo o país. A observação do perfil dos alunos que praticavam a educação física, os métodos ginásticos utilizados nessas escolas, o número de sessões (aulas) por semana, o perfil biométrico, as agremiações e as publicações, são dados que, elaborados e justificados nessas publicações, se construíam de forma mais erudita em um discurso de legitimação do Estado. Essa centralização, própria das práticas estadonovistas, demonstra o desejo do Estado de centralizar suas regulamentações, e Inezil foi protagonista desse processo na Divisão de Educação Física do MES redigindo pareceres, gráficos e tabelas nas publicações oficiais, em relação aos fatos históricos, mas principalmente ao cotidiano das atividades dessa instituição. João Barbosa Leite, diretor da Divisão por mais de uma vez, foi elogioso em relação aos pareceres de Inezil, expedindo ofícios de saudação a ele e delegando a Inezil o cargo de diretor interino da Divisão na sua ausência 223 . O rigor de suas publicações demonstra que o autor esteve constantemente preocupado com a ida às fontes, mas também que o uso destas pudesse justificar seus relatórios e os dados do presente no seu trabalho de Técnico na Divisão. Ele produziu e foi produzido como intelectual e homem público também em um 222 Em Educação Física: Estatística, publicado em 1940, Inezil relata que o primeiro interesse pela Educação Física no Brasil teria se manifestado, de acordo com suas fontes, nos finais do século XVIII através do “Tratado de Educação Física e Moral dos meninos de ambos os sexos” de Luiz Moniz Barreto publicado em 1788. Ainda no século XVIII, o mineiro Francisco de Mello Franco, formado pela Universidade de Coimbra, publica Tratado de Educação Física dos meninos para uso na Nação portuguesa em 1790. 223 Portarias e documentos de cargos exercidos por Inezil Penna Marinho de 1940 a 1945. Acervo CEME/ESEF/UFRGS. 199 momento histórico muito oportuno. O Estado Novo, que desejava recriar uma tradição nacional e que ajudou na constituição dessa narrativa histórica, foi providencial para sua grande contribuição para a História da Educação Física e o desenvolvimento dos temas nacionais, antes pouco abordados pelas bibliografias afins 224 . Se, em uma perspectiva mais ampla, a Divisão de Educação Física e suas publicações sobre História da Educação Física ajudaram na consolidação da Educação Física como campo que se constituía e que tentava se legitimar pelas vias oficiais, como apresentado no primeiro momento desta tese, a obra de Inezil como técnico e professor é fonte importante desse processo de consolidação através da política editorial Estadonovista 225 . O livro Contribuição para a História da Educação Física no Brasil, publicado em 1943, é um dos exemplos dos impulsos editoriais da Divisão de Educação Física via MES para a construção de um lugar para a História da Educação Física nacional. A grande obra de Inezil, relativa à História da Educação Física, fazia parte também do discurso Estadonovista da História do Brasil, que estava se reescrevendo não somente para uma elite intelectual, mas direcionado aos círculos de educação formal, como o Major João Barbosa Leite apresenta em seu prefácio como sendo “de grande utilidade, principalmente para as escolas de educação física” (MARINHO, 1943, p. i). Essa recuperação do passado pelo Estado Novo, segundo Gomes (1996), tem forte relação com a inscrição do que a autora chama de “fonte de nacionalidade”. Seria pela via da perspectiva historicista que o “passado” seria capaz de preencher com respostas verossímeis as exigências do presente e a este se adequar. Além da via historicista, a “leitura positiva do passado” é outra dimensão presente na escrita dos intelectuais do período, que tentavam interpretar a realidade através do uso do “método” que consistiria em “chegar ao real por trás”, ou a partir de seu passado sem necessariamente tentar interpretar aquela realidade social de forma cíclica. A postulação desse passado teria sido dada por duas vias: a de um passado que se manifesta através de um conjunto de tradições convivendo com o presente de maneira ahistórica, através de um tempo não datado, e a de um passado histórico ligado à ideia de tempo linear e cronológico, datado e recuperado pela memória de fatos e personagens únicos existentes em uma sucessão (GOMES, 1996, p. 142- 143), como é o caso da produção sobre História da Educação Física de Inezil, entendendo que sua grande contribuição é fazer aparecer um passado nacional para a HEF. 224 Sobre Estado Novo e seu caráter nacionalista ver mais em Gomes (1996). Nascimento (1997) também traça essa relação em relação à obra de Inezil. 225 É possível também tomar como exemplo dessa política editorial a publicação dos pareceres de Rui Barbosa, a Revista Cultura Política pesquisada por Gomes (1996), entre outros. 200 Contribuição para a História da Educação Física no Brasil foi escrito entre os anos de 1940 a 1941 e lançado em 1943 os primeiros de Inezil como assistente da Divisão. O relatório de atividades de Inezil referente ao ano de 1941 já apresenta o livro como “trabalho inédito” e pronto para ser publicado no ano corrente. Naquele momento, o autor anunciava um livro de 800 páginas. É também no ano de 1941 que finaliza seu curso de Técnica Esportiva na ENEFD e, como aluno dessa instituição, Inezil produziu um “diário de classe” com anotações e avaliações das aulas de cada um de seus professores. Com o mesmo rigor da escrita de suas publicações, seu diário de aluno da ENEFD o mostra discordando das aulas de diversos professores, produzindo e problematizando críticas sobre temas trabalhados em aula. As aulas de Organização da Educação Física e dos Desportos de Maria Lenk são, sem dúvida, as que recebem as maiores críticas, sobretudo quando ela se refere “de forma equivocada” em relação à estrutura da Educação Física no MES ou por “trocar e confundir nomes dos delegados” ligados às confederações desportivas. As críticas de Inezil são menos intensas em relação a Accioly, ainda que discorde da análise cronológica da aula de HEF sobre a divisão dos “períodos da humanidade”226. O olhar atento e crítico de Inezil para com essas disciplinas tinha relação direta com sua atividade profissional e também com a produção de Contribuição para a História da Educação Física no Brasil. Seu relatório da Divisão do ano de 1942, seguinte à formação na ENEFD, anuncia que o livro já estaria “no prelo” e que seus direitos haviam sido adquiridos pelo MES sob recomendação de Gustavo Capanema a respeito da “utilidade pública” da obra. Ela aparece como “trabalho publicado” pela Imprensa Nacional nos relatórios em 1943 com chancela do MES e contendo 616 páginas 227 . Essa publicação é, sem dúvida, a maior, tanto no 226 Diário Escolar de aluno do Curso de Técnica Desportiva da ENEFD, Rio 1941. Abril, dia 28. Aula de Organização – Maria Lenk. Apresentação da cadeira de organização Administrativa da Educação Física no Brasil. Observações: Foi a pior de todas as aulas até agora sob o ponto de vista técnico. Falando na organização do Ministério da Educação, a Prof(a) referiu-se à “Divisão de Educação Física e Desportos” subordinando-a diretamente ao Ministro sem se referir ao Departamento Nacional de Educação. Falando das atribuições daquela Divisão afirmou que lhe competia somente a fiscalização da educação física nos estabelecimentos de ensino secundário e que entre a Escola e a Divisão existiam somente laços de amizade. Outro absurdo foi subordinar a Universidade à Divisão de Ensino Superior. É triste que a prof. da cadeira de Organização não saiba ao menos a organização do Ministério da Educação e Saúde, desconhecendo “In totum” a lei n. 378 de 13 de janeiro de 1937. Maio, dia 05. 4ª aula – Organização – profa. Maria Lenk Organização Institucional Desportiva. Inezil critica Maria Lenk novamente afirmando que ela teria “feito confusão dos nomes dos Delegados Brasileiros no CND com o velho Barão do Rio Branco, quando na verdade este se trataria do filho deste que se encontrava vivo na cidade de Berna, na Suíça como representante diplomático do Brasil e que por motivos particulares renunciaria ao cargo. Aula regular. Maio, dia 12. O professor disse que o período pré- histórico termina ‘com o fim da antiguidade oriental’; parece-me que ‘fim da antiguidade’ seja um absurdo. Por certo o Prof. desejava referir-se ao “caso da civilização oriental” Boa aula, apesar disso. Acervo CEME/ESEF/UFRGS. 227 Relatórios de atividades de Inezil Penna Marinho na Divisão de EF entre 1940 a 1945. Acervo CEME/ ESEF/UFRGS. 201 volume quanto pelo amplo levantamento documental das diversas fontes e no número de bibliotecas visitadas pelo autor. Embora seja sua obra de maior fôlego como pesquisador dedicado à produção da História da Educação Física nacional, não é a mais conhecida e estudada pelos pesquisadores da área. Contribuição para a História da Educação Física no Brasil é republicado com modificações e dividido em quatro volumes, tornando-se a versão de 1952 e 1953 – História da Educação Física e dos desportos no Brasil – mais conhecida e difundida até os anos de 1980 no Brasil. A recuperação do passado da História da Educação Física pela via dos temas nacionais é certamente a grande contribuição de Inezil que, alinhado a uma perspectiva historicista e nacionalista, também se afiliou à escrita dos estudos históricos daquele período. Nascimento (1997) e Melo (1998), ao tratarem das críticas aos trabalhos de Inezil pelos estudiosos da década de 1980, lembram que ele esteve em perfeita consonância com o momento de sua produção. O espírito positivista, as fontes “seguras” e os “documentos oficiais” conferiam veracidade à escrita sem que o autor deixasse de se posicionar em muitas delas 228 . A produção sobre HEF de Inezil, ainda que linear, cronológica e estruturada pelos marcos políticos do país, evidenciou que havia um passado nacional da HEF, mas também que este poderia ser redefinido com as ações oficiais da Divisão e de outras instituições ligadas à EF e centralizadas pelas normativas do Estado Novo. Uma dessas ações é certamente o investimento de Inezil desde 1942 na escrita sobre do “Método Nacional de Educação Física” que, ao que tudo indica, não se concretiza mesmo com a publicação em 1946 do “Ante- projeto do Método Nacional de Educação Físca”229. O passado contado por Inezil tem duas inclinações: um histórico e cronológico e outro também vivo no presente, através de sua produção na Divisão que tentava legitimar a educação física nos estabelecimentos de ensino pelo país. Alinhado ao Estado Novo, Inezil foi exímio crítico do novo momento de redemocratização do país e da substituição de Gustavo Capanema no MES 230 . Tendo renunciado ao cargo de Chefe da Seção Técnico-Pedagógica da Divisão, em 1946, é 228 As críticas direcionadas à obra de Inezil na década de 1980, segundo Melo (1998), são; uma periodização exterior ao objeto de estudo, ligada à periodização política e nacional, obras com levantamentos de datas, fatos e nomes apresentados sequencialmente e sem um análise crítica desse material, apresentação de uma história oficial, abordagens macro, falta de definição da natureza dos objetos Educação Física e esporte. 229 Uma das grandes questões do Método Nacional de Educação Física era a crítica ao Método Francês e os indicativos da capoeira como a ginástica nacional. A historiografia da Educação Física brasileira deve a esse pesquisador um estudo mais aprofundado dessas proposições. 230 Inezil publica carta enviada ao novo ministro na Revista Brasileira de Educação Física em 1946 se apresentando como um técnico capacitado e citando suas viagens e publicações na área, além de criticar a permanência de profissionais não qualificados na Divisão no novo governo e, aparentemente, solicitar um novo cargo na Divisão. Ver mais em Nascimento (1997, p. 28-29). 202 designado em 1947, ainda como Técnico de Educação concursado do MES, para exercer suas funções como secretário da ENEFD, escola pela qual havia se especializado em 1941. 231 Inezil passa a compor o quadro docente da ENEFD somente em 1949, quando é aprovado em concurso público para livre-docente na cadeira de Metodologia da Educação Física e dos Desportos 232 . Suas publicações sobre História da Educação Física, a partir de então, parecem ser uma ampliação das fontes anteriormente apresentadas em 1943 em Contribuição para a História da Educação Física no Brasil. Como professor de Metodologia da Educação Física e dos Desportos, se ocupou de temas mais próximos à Pedagogia, à Recreação e aos Sistemas e Métodos, ainda que não abandonasse as abordagens históricas nesses contextos. No ano em que publica História e Organização da Educação Física em parceria com o Catedrático de História e Organização da ENEFD, Aluizio Accioly, Inezil também assume a Cátedra X em função de sua morte 233 . Acumulando as funções de regente da cadeira de História e Organização e de Catedrático de Metodologia, Inezil envia carta Congregação da ENEFD com uma exposição de motivos, explicando sua escolha pela Cátedra de História e Organização. Tenho a honra de levar ao conhecimento dos ilustres membros do corpo congregado desta escola a presente exposição de motivos, seguida de formal declaração: a) Tendo ficado vaga a cadeira de História e Organização da Educação Física e dos Desportos com o falecimento do saudoso companheiro Prof. Aluizio Accioly, a quem me ligavam laços de particular amizade e de profunda afinidade cultural (publicamos em colaboração, um livro texto de História, o que nos propiciou íntima convivência até poucos dias antes de sua morte) fui indicado por esta congregação para assumir a regência da respectiva cátedra; b) No desempenho da regência, ministrei pessoalmente todas as aulas, dei trabalhos de estágio e identifiquei-me cada vez mais com as características da referida cadeira, sentindo-me por ela verdadeiramente empolgado, pois o seu conteúdo se confundia com meu particular interesse pela cultura grega, filosófica, literária e artística; c) Nasceu, em mim, como seria natural, o desejo de me transferir da cadeira de Metodologia para a de História e procurei verificar qual seria o processo pelo qual isso poderia se realizar; d) Da entrevista que tive com a Sra. Diretora do Dep. de Administração da UB, ficou esclarecido ser impossível requerer a pura e simples transferência, uma vez que já tinham sido abertas as inscrições para o concurso destinado ao provimento respectivo; 231 Portarias e documentos de cargos exercidos por Inezil Penna Marinho, 1947. MES – Portaria n. 18 de 31 de outubro de 1947. “O diretor da ENEFD resolve designar de acordo com o artigo 86 do decreto-lei n. 1713 de 28 de outubro de 1939, Inezil Penna Marinho, Técnico de Educação classe L, do Quadro permanente do Ministério da Educação e Saúde, para exercer função gratificada de Secretário (ENEFD-UB) da mesma Escola. Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1947, Dr. Carlos Sanchez Queiroz – Diretor.” Acervo CEME ESEF/UFRGS. 232 Concurso professor catedrático de Metodologia da Educação Física e dos desportos, 1949. Candidato: Inezil Penna Marinho. Prova realizada entre 10 e 15 de janeiro de 1949. Acervo Ceme – ESEF/UFRGS 233 Relatório anual ENEFD 1956. Relatório geral referente às atividades da ENEFD durante o ano letivo de 1956 “Corpo docente;Para preenchimento da vaga do Prof. Accioly, cuja cadeira esta sendo regida pelo colega Inezil Penna Marinho, (obsequio ler mais detalhes no capítulo pessoal), foi aberto concurso, conforme publicação de edital no Diário Oficial de 3/10/1956 (prazo de seis meses)”. CEME/EEFD/UFRJ. 203 e) Nessas condições, restava-me outro caminho: inscrever-me no concurso, concorrendo, cuja presunção de direitos não mais poderia ser discutida. f) Os que nesta casa já fizeram concurso para catedrático, sabem quão penoso o mesmo se apresenta exigindo do candidato esforço mental e desgaste emocional a par das grandes despesas com impressão de tese, aquisição de livros e preparação de títulos, etc.; g) Assim o caminho que me foi apontado para alcançar a transferência da cátedra exige sacrifícios que poucos companheiros ousariam repetir e aos quais terei de me submeter, realizando, já nesta fase da vida, um novo e gigante esforço; h) Em consequência, desejo comunicar aos ilustres e ilustrados membros deste corpo congregado a deliberação que tomei de me inscrever no concurso de títulos e provas destinado ao provimento de cadeira de História e Organização da Educação Física e dos desportos [...] i) Cabe-me ainda acrescentar que, se por acaso for feliz no citado concurso e conquistar direito à nomeação para provimento do cargo em tela, optarei, como desde agora o faço por instrumento de presunção, com a firma devidamente reconhecida, pela cadeira de História e Organização da Educação Física e dos desportos, renunciando concomitantemente à cadeira de Metodologia da Educação Física e dos desportos; j) Verificando-se essa hipótese, isto é, da vacância da cadeira de Metodologia – sugiro que imediatamente seja posta a extinção da mesma com a adoção das seguintes providencias complementares;[...] Inezil Penna Marinho Catedrático de Metodologia da Educação Física e dos desportos Regente de História e Organização de Educação Física e dos desportos 14/03/57 234 Na impossibilidade da vacância de cadeira, se lança a mais um concurso na mesma instituição, mas, naquele momento, já autor e professor consolidado e referência como pesquisador em História da Educação Física. A análise de títulos para o concurso continha publicações de 12 livros, 44 monografias e ensaios, 4 teses para concursos e 419 artigos em boletins e revistas da área 235 . Apesar do grande impacto da sua produção em História da Educação Física na década anterior, se torna efetivamente catedrático da Cadeira X em 1957, tomando posse em 1958 236 . Seu interesse por cultura grega, filosofia e literatura pode ser visto na tese defendida e posteriormente publicada sob o título de Interpretação Histórica da XIV Olímpica de Píndaro 237 . Tendo viajado à Grécia e admirador da cultura Clássica 238 , Inezil 234 Relatório da comissão julgadora do concurso para Catedrático de História e Organização. Carta de Inezil Penna Marinho para a Congregação da ENEFD. Acervo CEME/EEFD/UFRJ. 235 Relatório da comissão julgadora do concurso para Catedrático de História e Organização. Prof. Cid Braune Filho (presidente da comissão julgadora). Acervo Ceme/EEFD/UFRJ. 236 NOTICIÁRIO: Concurso para catedrático, 1957, p. 96-97. Relatório anual ENEFD 1958. Relatório geral referente às atividades da ENEFD durante o ano letivo de 1957. CEME/EEFD/UFRJ. Foram realizadas no mês de junho as provas do concurso para catedrático da Cadeira de História e organização da Educação Física e dos desportos, vaga em virtude do falecimento do seu titular, o saudoso professor Aluizio Freire Ramos Accioly. A comissão julgadora foi constituída pelos professores Manoel Bergstrom Lourenço Filho e Djacir Menezes da Faculdade Nacional de Filosofia, professor Roberto Accioly do Colégio Pedro II, e dos professores Cid Braune Filho e Carlos Sanches Queiroz, representantes da nossa congregação. Após provas brilhantes, que merecem justas e elogiosas referências, foi indicado por unanimidade o professor Inezil Penna Marinho, candidato único, que já era catedrático efetivo da cadeira de Metodologia da educação física e dos desportos e que optou pela cátedra recentemente conquistada. 237 Além de apresentar a tese, Inezil discorreu sobre dois pontos sorteados dos dez apresentados pela Banca Examinadora. Foram eles: Ponto n.5 (da relação de pontos de História da EF e dos desportos): Importância 204 parece repetir no concurso a força da tradição que permaneceu na escrita da História da Educação Física: o devotamento à cultura helênica, a cultura grega como modelo inspirador para as práticas do presente, a História pautada ainda nos princípios norteadores da Filosofia. A inspiração pela Filosofia parece destoar dos temas nacionais ligados à HEF que o haviam consagrado como pesquisador, porém, é importante lembrar que, nesse mesmo momento, Inezil cursava Filosofia na Faculdade Nacional de Filosofia da UB 239 . Os temas nacionais por ele tratados na HEF, mesmo que importantes para a área, parecem não lhe conferir a erudição necessária para impressionar a banca que tinha na sua composição dois professores da Faculdade Nacional de Filosofia e, possivelmente, também seus professores naquele mesmo momento: Lourenço Filho e Djacir Menezes 240 . Essa erudição pode ser observada nas traduções utilizadas para a escrita da tese Interpretação Histórica da XIV Olímpica de Píndaro 241 , que exigiu de Inezil traduções do latim, francês, inglês e espanhol para expressar seu conhecimento sobre a História de Píndaro dentro da estrutura dos períodos gregos e de sua produção artística e literária. A formação do intelectual passava necessariamente pela Filosofia e pelo estudo das línguas, sobretudo se estas expressassem a História Antiga compreendida na interface da poesia e da arte através da literatura. Olhar para o passado através dos “clássicos” também é um dos princípios norteadores da sua escrita. Os Clássicos e a Educação Física (1945) se apresenta como um complemento ao Contribuição para a História da Educação Física no Brasil e, segundo o autor, é um “facilitador” ao estudo da História da Educação Física, já que o primeiro se ocupou da História da Educação Física nacional. Tendo como eixo a análise de filósofos e pedagogos que tiveram suas obras marcadas pelos princípios educacionais de diferentes períodos Histórica dos Métodos culturistas e desportivos. Ponto n.9 (da relação de pontos de Organização da Educação Física e desportos) Parques infantis e Play-grounds – sua organização. Relatório da comissão julgadora do concurso para Catedrático de História e Organização. Prof. Cid Braune Filho (presidente da comissão julgadora). Acervo Ceme/EEFD/UFRJ. 238 MARINHO, 1954, p. 65-67. Inezil viaja à Grécia e também a outros países da Europa em 1953 em função de sua ida ao III Congresso Mundial de Educação Física realizado entre 2 e 9 de agosto de 1953 sob os auspícios da Federação Internacional de Ginástica de Ling e o patrocínio do Governo da Turquia, em Istambul. 239 Diário de classe de Inezil Penna Marinho com apontamentos sobre as aulas no Curso de Filosofia entre os anos de 1957/58. Acervo CEME/ESEF/UFRGS. 240 Relatório anual ENEFD 1958. Relatório geral referente às atividades da ENEFD durante o ano letivo de 1957. CEME/EEFD/UFRJ. “Noticiário: Concurso para catedrático. Revista Arquivos da ENEFD n.11 dez.1957. 241 MARINHO, 1957, p. 29. A tese publicada em 1957 com esse título em formato de livro também foi publicada em formato de artigo na Revista Arquivos da ENEFD sob o título de “Valor Histórico das Odes Pindáricas: a especial significação da XIV Olímpica”. 205 históricos, Inezil reúne aqueles que “mais se interessariam pela Educação Física”, de Homero a Spencer 242 . Na tese do concurso de História e Organização, que tentava compreender a obra poética de Píndaro, Inezil chega a duas questões centrais que marcavam, a partir da Filosofia, seus interesses pela História da Educação Física: a representação do documento “mais antigo e historicamente idôneo” e a relação desse documento grego com os esforços de Pierre de Coubertin e os Jogos Olímpicos Modernos, realizados em 1896 em Atenas. Tão importante quanto concluir que Píndaro não havia sido “apenas poeta lírico que cantou os jogos gregos” era a comprovação de que este fora também historiador, tendo fornecido “fonte segura” para aquela narrativa historiográfica. A leitura do passado como justificativa para a leitura do presente da história do esporte reflete não somente que esta ganha mais relevância em relação à história dos métodos ginásticos, mas também como o espírito positivo e positivista da comprovação das fontes para sua escrita é princípio norteador para a compreensão de sua historiografia. A história da educação física brasileira, objeto de estudo que o acompanhou desde o início dos anos de 1940 e consolidou seu lugar como pesquisador, não se apresenta como suficientemente capaz de, dezessete anos depois da publicação das primeiras pesquisas, ser objeto de defesa em sua banca, em contraponto à representação de um professor capaz de mobilizar conhecimentos, em tese, mais eruditos e clássicos. O argumento para a escolha do tema da tese seria a “necessidade de revisão das fontes” difundidas sobre Píndaro no Brasil, assim como para a “correção de conceitos e interpretações de frases latinas e gregas”, o que enriqueceria a literatura de língua portuguesa, considerada por ele escassa 243 . É certo que a escolha do seu tema de tese teve correlação direta com o momento de formação que ele vivia cursando Filosofia na UB e com a necessidade de se afirmar entre seus pares como intelectual e conhecedor dos clássicos. Essa escolha era uma demonstração de que ele acessaria a Educação Física e sua história por essa via, bem como para perpetuar uma ligação que vinha de longa data com a literatura e com a poesia 244 . Esse lugar de afirmação da Filosofia e de suas escolhas no concurso mostra que Inezil não rompeu com uma tradição na escrita da historiografia da Educação Física, mesmo que 242 Inezil analisa de forma pormenorizada o esboço biográfico, transcrevendo comentários relativos à Educação Física dos seguintes autores: Homero, Platão, Aristóteles, Juvenal, Thomas Morus, Rabelais, Montaigne, Fenelon, Rousseau, Pestallozzi, Herbart e Spencer (MARINHO, 1945). 243 MARINHO, 1958, p.127-145 244 Como poeta, Inezil ganhou concursos entre eles o premio de Literatura da Academia de Ciências e Letras de 1933 com o poema Tetrálogo dos Cavaleiros do Apocalipse. 206 desejasse na nova Cátedra assumir “novos rumos para a História da Educação Física”245. Além disso, importante levantar os argumentos de Inezil em relação à sua preferência pela Cátedra de História e Organização em relação à de Metodologia. Argumentando ser a cátedra de Metodologia instável e a de História mais sólida e cristalizada, a segunda poderia melhor se estabelecer “a partir da investigação dos fatos históricos”, oportunidade não somente de observar a sua evolução, mas também de satisfazer suas necessidades enquanto pesquisador em relação à ciência e à arte: E porque esta preferência pela cátedra de História? A experiência ensinou-me que o conteúdo da cátedra de Metodologia da Educação Física é instável, renovando-se todos os anos, o que não permite sedimentação da cultura. E mais: com o decorrer do tempo os conhecimentos se transferiam do campo metodológico para o domínio histórico. E eis ainda outro fator, talvez o mais grave: o que, aqui, para nós estava no campo da Metodologia, em outros países já havia se transferido ao domínio histórico. Assim, por exemplo, em 1946, em nossas escolas especializadas, ainda era ensinado o método Francês de Joinville-le-Pont, enquanto na França, o mesmo já pertencia aos quadros da História. A instabilidade do conteúdo dos programas de Metodologia opõe-se a estabilidade dos assuntos pertinentes ao programa de História que possibilitam ao professor neles cada vez mais se aprofundar. Concluindo, os conhecimentos de Metodologia tendem, no tempo e no espaço, a transferir-se ao domínio da História; esta é a mais legítima herdeira daquela. Assim, o cabedal que acumulei no estudo da Metodologia da Educação Física incorpora-se hoje àquele de que necessito para o ensino da História da Educação Física (MARINHO, 1958, p. 129). A História, para Inezil, diferentemente da Metodologia, estaria submetida a certas leis e a um método preestabelecido, e, por isso, seria menos afeita às mudanças. As constantes mudanças metodológicas no âmbito da Educação Física, dos Métodos Ginásticos ao Esporte, não ocorreriam na História, pois ela estaria além do “domínio da ciência, também nos domínios da arte”. Essa é uma interpretação muito próxima às concepções de história de Fernando de Azevedo em Da Educação Física. Para Inezil, a “interpretação pessoal dos fatos” faria com que o historiador deixasse de ser somente “cientista” tornando-se também “artista”. Essa interpretação advém não somente dos conceitos de uma história Metódica e Rankeana, como indicado por Melo (1998) e Nascimento (1997), mas também de inspiração na Antiguidade Clássica. Ainda que Inezil considerasse que o homem moderno havia transformado a História em um campo científico por ele creditado à “veracidade dos fatos”, não desconsiderava que em seus estudos a mitologia grega. Analisando o “campo histórico de Heródoto a Toynbee”, Inezil nos mostra que sua inspiração estaria na Filosofia da História marcada pelos processos de nascimento, crescimento e declínio das civilizações 246 . A 245 MARINHO, 1958, p.127-145 246 Arnold Toynbee é um historiador e ensaísta que escreve A Study of History, uma síntese sobre o nascimento, crescimento e decadência das civilizações publicada em doze volumes entre 1934 a 1961. Toynbee contesta a 207 História, para Inezil, além da utilidade de fazer com que o conhecimento fosse descoberto a partir das “fontes originais” na arte e na Filosofia, sempre esteve também empreendida para o auxílio na compreensão das práticas pedagógicas da Educação Física, revelando sua faceta de professor de Metodologia interessado também por diversos outros assuntos, como a Psicologia, a Sociologia e a Pedagogia. Victor Melo (2002) afirma que as mudanças de características da obra de Inezil consolidaram-se a partir do momento em que ele se tornou professor da Cadeira de História e Organização da Educação Física na ENEFD em 1957. Embora em seu “discurso de posse” ele se mostre um catedrático experiente, indicando reestruturações para a disciplina como “uma interpretação consciente dos dados” em contraponto à “memorização de datas e fatos”, a contratação de um tradutor de línguas e a criação de um Museu de História para ENEFD, acredito que tais indicativos não chegam nem a impactar sua obra historiográfica na Educação Física, tampouco a estrutura da disciplina na ENEFD, que continua marcada por uma perspectiva de inspiração Metódica e Rankeana fortemente influenciada por uma filosofia da história para a qual o registro e a veracidade dos fatos históricos são premissas 247 . Marinho esteve preocupado com a fiel divulgação dos documentos como fontes seguras, o que não ocorreu no momento anterior nas publicações sobre História da Educação Física ligadas ao Exército e aos demais cursos dos anos de 1930, em que é possível perceber uma compilação de dados de outras bibliografias, geralmente estrangeiras. Apesar de acreditar que Inezil tenha contribuído para o avanço e a ampliação dos temas e perspectivas da disciplina História da Educação Física na ENEFD, esta ainda permanece com padrões muito próximos à disciplina HEF desenvolvida ao longo dos anos de 1930 no Brasil. Sendo a Cátedra um cargo vitalício, Inezil figura no quadro docente da ENEFD como catedrático de História e Organização até 1962, porém, seu afastamento da ENEFD acontece a partir de 1959, tendo ficado apenas dois anos à frente da docência em HEF: entre 1956 e 1957 como regente e em 1958 como catedrático. Afastado e à disposição do MEC em Brasília após atitude seguida pelos historiadores franceses, de positivistas tradicionais aos inovadores dos Annales. A obra se apresenta como uma filosofia da história apreendida de maneira empírica a partir do olhar sobre o declínio das civilizações Ocidentais (BOURDÉ, MARTIN, 1983, p. 57-59). 247 MARINHO, 1958, p.127-145. Ver mais sobre As Escolas Históricas em Bourdé; Matin (1983). 208 o ano de 1959 248 , a partir dessa data ele passa a se dedicar de forma mais intensa à carreira de advogado 249 . 4.6 Contribuição para a História da Educação Física no Brasil Se Contribuição para a História da Educação Física no Brasil nasce no período em que há um movimento de grandes intelectuais de interpretação e sínteses sobre a história nacional, fortemente influenciados pelos grandes temas historiográficos brasileiros e por intelectuais como Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda, como lembra Diehl (1999), é também nesse momento que há uma institucionalização do saber na universidade brasileira, provocando um engajamento de perspectivas nacionais e desenvolvimentistas. Subsidiar as escolas de Educação Física com material didático é uma das intenções do Diretor da Divisão de Educação Física, o Major João Barbosa Leite e Contribuição para a História da Educação Física no Brasil faria parte desse projeto de expansão das publicações sobre Educação Física do órgão (MARINHO, 1943, p. ii). No caso da Educação Física, a institucionalização do seu saber na universidade se estabelece a partir das ciências biomédicas. A importância da obra de Inezil, especialmente emContribuição para a História da Educação Física no Brasil, é demonstrar que havia outras referências importantes no estabelecimento da Educação Física que não estavam enquadradas na ordem médica vigente. É importante atentar para o fato de que sua relação humanista na escrita da Educação Física brasileira era um contraponto importante ao estabelecimento das perspectivas anátomo-fisiológicas sobre o corpo e suas práticas. Melo (2002) nos lembra de que a preocupação de Inezil com a História não era circunstancial e esteve ligada à sua profunda compreensão da Educação Física e do papel que ela deveria ocupar na sociedade brasileira e, principalmente, à compreensão de que ela era uma prática pedagógica. Esses subsídios estão presentes nas 616 páginas de Contribuição para a História da Educação Física no Brasil não apenas para a compreensão da Educação Física como prática 248 Relatório anual ENEFD 1959. Relatório geral referente às atividades da ENEFD durante o ano letivo de 1959. De acordo com a alínea q do at. 177 do Reg. Interno, autorizar o professor IPM para colaborar com o MEC na organização do plano educacional de Brasília nos períodos de 15/03/59 a 15/06/59 e de 01/08/59 a 31/10/59. CEME – EEFD/UFRJ 249 Inezil toma posse em 29/08/1958 na ENEFD. Relatório anual ENEFD 1958. Corpo Docente. Revista Arquivos da ENEFD 1958 a 1962. A partir dessa data Renato Brito Cunha, professor de Educação Física do Colégio Pedro II assume como catedrático interino a Cadeira de História e Organização tornando-se livre-docente em concurso realizado em 1960. Renato Cunha, porém só é nomeado em 1962 face ao afastamento oficial como catedrático de Inezil Penna Marinho. Relatórios anuais ENEFD 1960 a 1962. CEME/EEFD/UFRJ. 209 pedagógica, mas para a comprovação e de que ela esteve, em diferentes momentos históricos, datada na Instrução Pública brasileira por decretos-lei, atos oficiais, discursos, publicações, criação de cursos, programas de ensino, entre outros. A partir de uma vasta pesquisa em diferentes bibliotecas no Rio de Janeiro (DF), em São Paulo e no Espírito Santo, Inezil constata que o desenvolvimento da área a teria transformado do campo da higiene para o campo da educação. O levantamento dos decretos e publicações sobre a EF na Instrução Pública, nos diferentes estados e no DF, ocupa boa parte da obra, sobretudo aquela destinada ao período de Brasil República. O autor lembra que a obra não pretendia ser um “histórico da Educação Física no Brasil”, mas uma “contribuição” nesse sentido. Atento ao Histórico dos três tenentes, em que havia meia página destinada à referência nacional, Inezil deixa explícito que Contribuição para a História da Educação Física no Brasilnão se valia dessa mesma estrutura narrativa. Sua “contribuição” se revelaria nas diferentes fontes coletadas e datadas cronologicamente, indicando um grande inventário sobre a História da Educação Física nacional. Publicado pela Imprensa Nacional com chancela do MEC, Contribuição para a História da Educação Física no Brasil foi uma das obras mais solicitadas a Inezil e também por ele enviadas para diferentes professores e pesquisadores do Brasil e da América Latina entre os anos de 1943 e 1947 250 . Foi via Divisão de Educação Física e pelas políticas editoriais Estadonovistas que a obra teve a circulação desejada por Inezil e foi a esse órgão também que Inezil creditou pela primeira vez a “Educação Física ter merecido a devida atenção das autoridades educacionais” (MARINHO, 1943, p. 11). O discurso nacionalista de um Brasil grande e suas perspectivas reformistas aparece fortemente apresentado como um diagnóstico de desenvolvimento e de “evolução” da Educação Física, desde a “educação física dos índios” até 1941, final do período Republicano analisado. Essa “evolução” permitiu a Inezil demarcar, ao longo da obra, quatro eixos principais nos levantamentos de suas fontes em cada período histórico analisado: as publicações, a legislação, a formação de pessoal especializado em Educação Física e os acontecimentos diversos, normalmente ligados a congressos, atividades esportivas, jogos, entre outros. Esses dados, também descritos de forma quantitativa nas sínteses finais de cada capítulo, lembram seus relatórios da Divisão e seus inquéritos e, da mesma forma, estabelecem uma perspectiva evolutiva da presença e da importância da Educação Física na esfera social. Os temas e fontes eminentemente nacionais são eixo condutor, assim como a estrutura política e seus marcos 250 Correspondências sobre trabalhos publicados Inezil Penna Marinho, 1943 a 1947. Acervo CEME/ESEF/UFRGS 210 históricos para a compreensão do que teria sido a “Educação Física” nesses diferentes momentos. Os temas e fontes nacionais são primazia mesmo que, por ora, Inezil coteje uma bibliografia “estrangeira” para, por vezes, situar nosso atraso na legislação e nos debates em relação à França e aos Estados Unidos. Encontrar a Educação Física entre os índios e suas práticas é um de seus primeiros investimentos nas bibliografias de historiadores estrangeiros, que relatavam as histórias de viagens ao Brasil. Jean de Lery, Joan Nieuof, Carl Seidler, Debret, são alguns autores que, para Inezil, conseguem apresentar que “a caça, a pesca, a natação, a canoagem, o arco e flecha” já eram praticadas no Brasil antes da chegada dos portugueses. Inezil discorre sobre as práticas das principais tribos indígenas brasileiras marcando-as ora como “desportivas” ora como “exercício”, descrevendo-as pelos autores naturalistas e brasilianistas que trataram do período. Esse olhar tipificado e “estrangeiro” ajuda a construir uma narrativa que trata os índios como selvagens tendo a natureza como seu habitat (MARINHO, 1940, p. 11-39). Interessado em demarcar nessa bibliografia as fontes que tratavam da Educação Física nacional, Inezil não esteve preocupado em problematizar conceitos, mas em salientar a veracidade das fontes coletadas em uma grande diversidade de obras, fazendo aparecer, naquele momento, uma historiografia da educação física nacional. Se a História da Educação Física no Brasil Colônia se resumiu, para Inezil, à história das práticas indígenas, no Brasil Império há um avultamento de publicações e legislações, principalmente referentes aos atos oficiais da Instrução Pública primária dos estados brasileiros, à presença da ginástica e de seus manuais nos currículos escolares e à publicação de teses da Faculdade de Medicina. Para Inezil, o principal documento do período, sobretudo do ponto de vista administrativo, para o estado, é o Parecer de Rui Barbosa, descrito em sua totalidade em Contribuição para a História da Educação Física no Brasil. É importante lembrar que a visibilidade dos pareceres de Rui, na obra de Inezil, vai ao encontro da perspectiva adotada pela Divisão de Educação Física naquele mesmo momento histórico. Como apresentado no primeiro capítulo, a Divisão retoma a figura de Rui e seus pareceres como uma forma de reinventar uma tradição e, através da memória, inventa e atualiza uma História para a Educação Física brasileira. Como Técnico em Educação, ocupando um posto administrativo em relação à Educação Física e como representante do governo central, Inezil percorre também um caminho administrativo em Contribuição para a História da Educação Física no Brasil Preocupado com os marcos legislativos e com as publicações de cada período, ele explora as fontes através de uma curva ascendente, mostrando que é pela via do Brasil República que a Educação Física passa a ter o devido reconhecimento, especialmente a partir da criação da 211 Divisão. A maior parte da obra é dedicada a esse período, dividida entre os três marcos políticos: de 1889-1930, marco da independência, popularmente conhecido como República Velha, de 1930-1937, momento de estabelecimento do Governo Provisório e de 1937-1941, momento de outorga da Constituição de 1937 pelo Governo Vargas e estabelecimento do Estado Novo 251 . Sempre atento aos marcos oficiais educacionais, à instrução pública e a normativas que demonstrassem o avanço da educação física no âmbito educacional, Inezil deu especial atenção ao Brasil República na escrita de uma História que tivesse como princípio o olhar pedagógico sobre a educação física e seu ensino. As normativas da Instrução Pública, a criação de ginásios, serviços médicos e centros militares de educação física, através do Ministério da Guerra, mostram sua preocupação em documentar os diversos cursos de formação que começam a ser criados no Brasil, apresentando seus programas, a criação das associações desportivas e ligas de esporte, além do mapeamento das publicações da área de Educação Física e Esportes, por diferentes autores em livros e revistas especializadas. O olhar atento sobre a estruturação dos cursos e a formação dos professores através dos decretos-lei ocupa grande parte da publicação. Inezil, como Técnico da Divisão, buscou uma perspectiva administrativa que mapeasse o crescimento e a expansão da Educação Física em território nacional, assim como as publicações dos professores que se ocuparam desse campo. A ampliação dos decretos-lei e de diplomados nos diferentes estabelecimentos pelo país ao longo dos três períodos de Brasil República apresentados mostra que o ponto de culminância da obra estaria na ascensão do Estado Novo. A defesa do lugar da Educação Física na Constituição de 1937 e e a demonstração, através de suas fontes, de que a ampliação dos cursos de formação de professores especializados advinha do estabelecimento dos órgãos ligados à EF, como o DEF e a Divisão, são duas das sínteses conclusivas que podem ser pensadas na estruturação da obra. Para Inezil, foi entre os anos de 1937 e 1941 que a Educação Física no país “atingiu o máximo do seu desenvolvimento” (MARINHO, 1943, p. 461). É também nesse período que se amplia consideravelmente o número de publicações, decretos e instituições dedicados à formação em EF. Essa ampliação creditada ao governo que Inezil também representava naquele momento mostra que os professores e instrutores especializados pelos diferentes cursos brasileiros disseminariam a Educação Física pelo Brasil como se fossem “missionários de uma nova fé” (MARINHO, 1943 p. 473). 251 O período Brasil República representa a maior parte de Contribuição, indo da página 91 à 616. 212 Contribuição para a História da Educação Física no Brasil se estrutura como um longo e laborioso inventário histórico a partir do olhar do burocrata que, aproximando-se das estruturas dos inquéritos sobre a educação física nacional, teve como grande finalidade o mapeamento dos órgãos brasileiros especializados na institucionalização da prática da educação física pelo país. Mais do que um levantamento histórico, Contribuição para a História da Educação Física no Brasil é um inventário preocupado com a disseminação da educação física enquanto princípio pedagógico pelo Brasil. O livro rendeu frutos e também críticas a Inezil. Estas foram apresentadas quase dez anos depois, pelo próprio autor, na ampliação de Contribuição para a História da Educação Física no Brasil para o História da Educação Física e dos Desportos no Brasil, reeditado, ampliado e publicado em quatro volumes, também chancelados pela Divisão de Educação Física. A falta de índices em Contribuição para a História da Educação Física no Brasil teria sido a grande crítica recebida pelo autor, o que dificultava para os demais professores a consulta aos acontecimentos históricos. Outra questão teria sido a limitação aos 1.000 volumes distribuídos pela Imprensa Nacional em 1943, sem posteriores reedições, não permitindo mais a circulação da obra (MARINHO, 1952). No momento da replicação de Contribuição para a História da Educação Física no Brasil através do História da Educação Física.., em 1952, Inezil já fazia parte do quadro docente da ENEFD como professor de Metodologia da Educação Física e dos Desportos e, naquele momento, não se dedicava tão diretamente ao trabalho com a história como no momento anterior, mais preocupado com temáticas da Pedagogia – didática, psicologia e sistemas e métodos de educação física – que demonstravam questões também mais próximas ao interesse da cátedra que ocupava. Contribuição para a História da Educação Física no Brasil foi, sem dúvida, seu grande investimento sobre os temas nacionais na História da Educação Física e também responsável pela replicação de outras obras além dos quatro volumes de História da Educação Física e dos desportos no Brasil, da década de 1950. Em 1979, Inezil envia o trabalho em francês Origines de l’Education Physique au Brésil pendant la colonisation (1500-1822) 252 para o Séminaire International d’Histoire de l’Education Physique et des Sports realizado em Viena, na Áustria. O trabalho, extrato do Contribuição para a História da Educação Física no Brasil e do História da Educação Física...é apresentado em Viena por Jacintho Targa, então diretor da ESEF da UFRGS e publicado em francês por Inezil no ano de 252 Exemplar presente em diversas bibliotecas brasileiras das instituições de ensino, na BN no Rio de Janeiro e, em Paris, um exemplar pode ser encontrado na BnF. 213 1985. História da Educação Física no Brasil é reeditado, ganhando, em 1980, uma versão reduzida em um livro com pouco mais de cem páginas, ainda contendo todos os períodos históricos presentes nas publicações anteriores. Chama atenção nessa reedição dos anos de 1980 o fato de Inezil reclamar por uma História da Educação Física brasileira em livros e compêndios estrangeiros publicados entre as décadas de 1910 e 1940, no Brasil 253 . O fato de, nessas obras internacionais, não haver qualquer referência sobre a História da Educação Física brasileira faz com que Inezil reedite o livro com o argumento de que “a tradição seja preservada” em relação a seus estudos e pesquisas sobre a História da Educação Física e dos esportes nacionais. Apesar de sua grande circulação no Brasil e possivelmente na América Latina, Inezil parece lamentar que suas publicações não tenham impactado a bibliografia estrangeira, sobretudo as de língua francesa e inglesa. Conectado aos historiadores de seu momento, Inezil desejou, além de mostrar a “veracidade dos fatos” através da “evolução” das práticas que poderiam ser consideradas educação física ou esporte, em cada momento datado, fazer com que a documentação pudesse estar ao alcance dos pesquisadores. Sabedor de que não conseguiria atingir a totalidade das fontes, replica a obra refundindo-a por mais de uma vez até os anos de 1980. A popularidade dos quatro volumes de História da Educação Física no Brasil o fez, por vezes, juntamente com os inúmeros trabalhos publicados nas revistas Revista Brasileira de Educação Física, Educação Physica, Revista de Educação Física, Cultura Política, Boletim da Divisão de Educação Física, entre outros, ser confundido com a própria História da Educação Física brasileira ao longo do segundo quartel do século XX. 4.7 História e Organização da Educação Física e dos Desportos O discurso de posse de Inezil na Cátedra de História e Organização da Educação Física e dos Desportos apresenta apontamentos sobre conceitos, metodologia e temáticas que, a partir daquele momento, seriam, segundo o próprio Inezil, reconfiguradas em relação aos programas de ensino de Aluizio Accioly, seu antecessor. Um dos “novos rumos propostos” para a cátedra era a mudança desta do 1º para o 3º ano do curso, momento em que os alunos já teriam uma vivência mais complexificada e, consequentemente, também uma formação cultural. Se as cadeiras de base orbitavam entre as disciplinas de Anatomia, Fisiologia e 253Argumentando a falta de referências sobre o Brasil e que isso pudesse ser por “falta de maiores informações sobre o nosso país no âmbito internacional”, Inezil lista as seguintes publicações ressaltando que nelas nada continha HEF no Brasil: Histoire de L’Education Physique de H. de Genst de 1947, A Brief History of Physical Education de Emmet A. Rice de 1929, A Guide to the History of Physical Education de 1923 e Histoire Générale de la Culture Physique de Frei Messerli de 1916. 214 Biometria, a disciplina História e Organização da Educação Física tinha como função, para Inezil, a erudição, ou seja, a ampliação do conhecimento e da instrução através de uma ampla e variada cultura adquirida através do estudo e da leitura e não advinda dos laboratórios biomédicos como se caracterizariam as cadeiras de base daquele currículo. A cadeira de História é de cúpula e não de base, é de erudição e não de propedêutica. Por esta razão, não deverá figurar na 1ª serie, mas isto sim, na 3ª quando poderá ser mais útil aos alunos e por eles melhor compreendido o papel que desempenha em sua formação cultural (MARINHO, 1958). O discurso de posse dá indicativos dessa reestruturação da Cadeira X e dos programas de ensino anteriormente assinados pelo colega de docência Aluizio Accioly. Esses indicativos estão concretizados na forma de programa de ensino da disciplina no livro História e Organização da Educação Física e dos Desportos - Volume I, escrito em colaboração com Accioly e publicado em 1956, ano em que Inezil assume a Cátedra como regente devido ao falecimento de Accioly. Com a pretensão de ser uma obra didática para alunos de Educação Física em formação, os professores apresentam de forma detalhada o programa de HEF e dos desportos da ENEFD, com a justificativa de que livros sobre HEF estariam em “língua estranha” e também que seriam de “difícil aquisição”. Escrito tendo para ser um livro didático, História e Organização da Educação Física e dos Desportos faria parte de um conjunto de três volumes de publicações, entre elas História Geral da Educação Física e História Geral dos Desportos. História Geral da Educação Fisica, entretanto, é lançado por Inezil somente no início dos anos de 1980, sem a coautoria de Accioly e exatamente com o mesmo conteúdo de História e Organização da Educação Física e dos Desportos de 1956. Já História Geral dos Desportos não parece ter sido publicada pelo autor nas décadas subsequentes. A obra, no entanto, apresenta poucas ampliações temáticas em relação aos programas de Accioly ministrados na década anterior na ENEFD. Melo (1998) argumenta que é a partir do momento em que assume a cátedra, que há uma mudança em sua obra relativamente à historiografia da Educação Física. Divergindo desse argumento, acredito que a historiografia ainda se apresenta marcada por uma história a partir dos princípios filosóficos, pela compreensão da Antiguidade Clássica como período que “ilumina” o presente, pelos princípios de uma Educação Física “humanista”, pela história contada através dos grandes períodos da humanidade e pelos indicativos das escolas e dos métodos ginásticos europeus como uma de suas finalidades. Ainda que o temário do programa de 1956 se assemelhe muito aos anteriores, História e Organização da Educação Física e dos Desportos apresenta um 215 avanço na conceituação da História para os autores, bem como uma ampliação temática em relação à Educação Física, não somente centrada nos princípios históricos modernos das escolas e dos métodos ginásticos europeus, mas também em seu desenvolvido nos Estados Unidos e na América Latina. UNIVERSIDADE DO BRASIL ESCOLA NACIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA E DESPORTOS Programa de História da Educação Física e dos Desportos 254 Fins a atingir: a) Apreciar a História de um ponto de vista científico, estudando seu moderno conceito, verdadeiro objeto e métodos de que se vale, assim como as relações que a ligam às demais ciências, divisão e tendências filosóficas. b) Considerar os fatos que constituem a História da Educação Física, partindo das atividades do homem pré-histórico, suas condições de vida, costumes e necessidades. c) Apresentar as antigas civilizações, principalmente a grega e romana, destacando as instituições e fatos estreitamente ligados à Educação Física. d) Estudar as condições de vida na Idade Média, apreciando o Renascimento como a aurora de uma nova mentalidade. e) Analisar as principais linhas doutrinárias modernas e contemporâneas, destacando sua repercussão no cenário mundial. f) Evidenciar as influências sofridas pelos países da América, dando especial realce ao Brasil. g) Concluir com uma apreciação sobre as principais tendências da Educação Física na Europa e na América. (ACCIOLY; MARINHO,1956, p.7-9) Quadro 10 – Programa de História da Educação Física e dos Desportos Número de pontos Assuntos Número de aulas 1. História: conceitos – objeto – métodos. História como ciência. Suas relações e importância. 1 2. Divisões da História. Suas relações com a Educação Física. Tendências filosóficas. 1 3. As atividades físicas do homem pré-histórico. O “habitat” – usos e costumes 1 4. A Educação Física entre os povos do Extremo Oriente a) chineses b) hindus 1 254 Accioly; Marinho (1956, p.7-9) 216 c) japoneses 5. A Educação Física entre os povos do oriente próximo a) Egípcios b) Caldeus e assírios c) Hebreus d) Medas e Persas e) Fenícios e Insulares 1 6. A Educação Física na Grécia a) Características da civilização helênica b) Período lendário e pré-histórico c) A Educação Física em Esparta e Atenas d) Os Grandes Jogos e) Decadência da civilização grega 4 7. A Educação Física em Roma a) Características da civilização romana b) A educação militar e a importância dos exercícios físicos c) Os grandes Jogos d) Decadência da civilização romana 3 8. A Educação Física na Idade Média a) Características da Idade Média b) A educação cristã e o desprezo pelos exercícios físicos c) Os jogos públicos. O Torneio e a Justa. 1 9. A Educação Física no Renascimento a) Os precursores b) As figuras mais representativas 1 10. A Educação Física nos tempos modernos. As grandes correntes contemporâneas a) A linha doutrinária sueca b) A linha doutrinária francesa c) A linha doutrinária alemã d) A linha doutrinária dinamarquesa e) A ginástica feminina moderna 5 11. A Educação Física nos Estados Unidos 1 12. A Educação Física na América Latina 1 13. A Educação Física no Brasil a) Colônia b) Império c) República 5 217 14. Grandes tendências atuais da Educação Física na Europa e na América Margem de segurança 1 4 15. Total 30 aulas Fonte: (ACCIOLY; MARINHO,1956, p.7-9) O avanço em relação ao programa que vinha sendo ministrado não ocorre somente na ampliação temática, mas também no número de aulas ministradas. A disciplina de HEF, antes distribuída em 22 aulas para o curso superior de Educação Física, ao longo da década de 1940 é ampliada para 30 aulas 255 . Grécia e Roma, como sociedades inspiradoras na construção da Educação Física “humanista” desejada, ainda era o tema que concentrava o maior número de aulas, assim como os princípios filosóficos na interpretação dos fatos. É pela via da História da Filosofia que se chega até o pensamento da Antiguidade Clássica e, a partir deste, que a compreensão e a construção das práticas do presente seriam possíveis. Essa “interpretação filosófica dos fatos históricos” é um dos eixos de apresentação do discurso de posse de Inezil e momento no qual, pela primeira vez, apresenta algum tipo de conceituação teórica em relação à História, que desejava construir na disciplina a partir daquele momento. A conceituação da História, seus objetos e métodos, também é apresentada em História e Organização da Educação Física e dos Desportos, fazendo parte da primeira aula do programa. O programa da primeira aula, dividido em cinco eixos principais, tem como temáticas: Conceitos, Objeto, Métodos, História como ciência e suas relações e importância. Para os autores, História como conceito advinha do termo grego “conhecimento por inquirição” que, grosso modo, significaria as indagações do “conhecimento do passado”. A História é definida pelos autores como “ciência que estuda os fatos passados levando-se em conta o nexo causal e a localização cronológica dos mesmos”. Trabalhando com um conjunto de autores clássicos da Filosofia como Voltaire, Rousseau, Huizinga, entre outros, os autores tentam conceituar a História ora como “um amontoado de mentiras” ora como “estudo dos fatos humanos interdependentes e em sequência”. As conceituações têm em comum o fato de a História ser vista como uma ciência que “estuda o passado”, observando-o a partir de uma sucessão de acontecimentos. A noção de “evolução”, posta em relação à comprovação do fato 255 História da Educação Física - 76 aulas distribuídas entre os seguintes cursos: Curso superior A – 22 aulas, Curso Superior B – 22 aulas, Curso Normal – 12 aulas, Med. Desp. – 10 aulas, Técnica Desp. – 10 aulas. Relatório de cadeira 1943. Relatório História e Organização da Educação Física e dos desportos. Aluizio Ramos Accioly. Ceme/EEFD/UFRJ. 218 histórico a partir das fontes, é outra premissa. A História deveria se dedicar a “investigar e expor”. A “interpretação pessoal” de seu obejeto seria, para os autores, “penetração nos domínios da arte”, o que faria com que a História perdesse seu cunho científico para ganhar aspecto artístico. Isso significa que as fontes deveriam transmitir a veracidade dos fatos sem que estes precisassem da intervenção interpretativa de quem a pesquisa. A função do pesquisador em História seria somente a investigação e a exposição dos fatos como forma de comprová-los, entendendo que a sucessão cronológica demonstraria que estes não se repetiriam “como produto das mesmas causas” (ACCIOLY; MARINHO, 1956, p. 11-13). A operação metodológica proposta é baseada nos passos estruturais da Heurística ou conhecimento das fontes, crítica interna e externa das fontes, e interpretação dos fatos, compreendida como a pesquisa das leis, seguida de sua exposição. As fontes seriam um conjunto de coisas ou objetos que, reunidos, formariam repositórios de informação e a crítica às fontes, internas e externas, constituiriam o “encadeamento dos fatos”, que, na sua interpretação, nada mais seria do que a “apresentação das leis”, indicando que estas eram uma sequência de fatos passados, mas também uma forma de “explicar o presente, prever ou preparar o futuro” (ACCIOLY; MARINHO, p. 14-16). Conectados com as perspectivas metodológicas históricas de seu tempo, os autores partem do que hoje conhecemos como a História Tradicional que, segundo Chartier (1991), apresenta o objeto de estudo de forma linear, confundindo-o com a história política e econômica e tendo a história das grandes civilizações apresentada dentro de um contexto macro e geral. A História Tradicional, preocupada em documentar os fatos e comprovar suas verdades, também esteve diretamente relacionada ao Estado e aos seus documentos oficiais, a partir de uma narrativa de acontecimentos ligados por relações causais, trazendo à cena os grandes homens, precursores e seus feitos, pouco preocupados com o contexto em que as fontes foram produzidas. A História da Educação Física, nessa operação metodológica, inspirada na História Tradicional e na Escola Metódica, deveria ser apresentada a partir de seus “principais sucessos relacionados aos exercícios físicos” (ACCIOLY; MARINHO, p. 17). Accioly e Inezil, ao exporem tais perspectivas metodológicas na operação historiográfica da primeira aula do programa de HEF e Desportos, mostram também que a forma com que estes operavam a HEF como pesquisadores ia ao encontro de tais perspectivas. Ainda que cotejassem a Escola Metódica Histórica, esta não se faz sem grande especulação filosófica, prática que os autores não abandonam e da qual a Escola Metódica, segundo Bourdé e Martin (1983), deseja se afastar visando à objetividade absoluta no domínio da História. Ao passo que não exprimem na sua totalidade a expressão dessa escola histórica, 219 Accioly e Inezil são fiéis a ela quanto às técnicas de respeito ao inventário de fontes, à escrita e a sua organização. Ainda que outras perspectivas históricas começassem a surgir, como os Anna les, a Escola Metódica continua a dominar o ensino e a investigação em história nas universidades até os anos de 1940 na França, inscrevendo uma evolução mítica da coletividade francesa sob a forma de uma galeria de heróis, produzindo uma memória de gerações de estudantes até os anos de 1960 (BOURDÉ; MARTIN, 1983, p. 97). [...] Na realidade, os adeptos da escola metódica não tiraram inspiração do francês Auguste Comte, mas do alemão Leopold Von Ranke. [...] É portanto necessário voltar a fonte. Em meados do século XIX as teses de L.V. Ranke puseram em causa as filosofias da história de bom grado especulativas, subjetivas e moralizadoras; e avançaram formulas científicas objetivas ou positivas que influenciaram três gerações de historiadores a princípio na Alemanha e, em seguida na França. Os postulados teóricos de Von Ranke encadeiam-se da maneira seguinte: 1ª regra: incumbe ao historiador não julgar o passado nem instruir os seus contemporâneos, mas simplesmente dar conta do que realmente se passou. 2ª regra: não há nenhuma interdependência entre o sujeito conhecedor – o historiador – e o objeto de conhecimento – o fato histórico. Por hipótese, o historiador escapa a qualquer condicionamento social, o que lhe permite ser imparcial na percepção dos acontecimentos. 3ª regra: [...] A história – existe em si objetivamente; tem mesmo uma dada forma e estrutura definida [...]; 4ª regra; a relação cognitiva é conforme a um modelo mecanicista. O historiador registra o fato histórico de maneira passiva como o espelho reflete a imagem de um objeto. [...] 5ª regra: a tarefa do historiador consiste em reunir o número suficiente de dados assente em documentos seguros, a partir destes fatos por si só, o registro histórico organiza-se e deixa-se interpretar. Qualquer reflexão teórica é inútil, mesmo prejudicial, porque introduz um elemento de especulação. Segundo Von Ranke, a ciência positiva pode atingir a objetividade e conhecer a verdade da história. A escola metódica, aplicando à letra o programa de Von Ranke, faz verdadeiramente progredir a historiografia na França (BOURDÉ; MARTIN, 1983, p. 114) No Brasil, essa influência na Educação Física parece ter perdurado até o início dos anos 1980. Mesmo atacada e criticada pela geração seguinte dos historiadores dos Annales, a História Metódica foi fundamental para o aparecimento do compilado de fontes sobre HEF produzido por Inezil Penna Marinho entre os anos de 1940 e 1960. Pautados pelos marcos políticos da História Tradicional e Metódica, os professores da ENEFD ampliam o espectro temático da disciplina, apresentando como programa de aula a Educação Física e os desportos nos EUA e na América Latina. A partir da perspectiva da América como continente colonizado e das influências das escolas e dos métodos ginásticos europeus, a História da Educação Física e a criação das principais referências de clubes e associações esportivas são descritas. Apresentar EUA e América Latina, além de demarcar a produção de autores desses 220 países, fazia parte também das relações de sociabilidade estabelecidas por Inezil nos Congressos Panamericanos de Educação Física, como o ocorrido no México, em 1946 256 . Diferentemente do Histórico dos tenentes do Exército, os programas direcionados às temáticas dos movimentos ginásticos europeus não tinham como finalidade a apropriação ou a escolha do melhor método para ser aplicado em território nacional. Tomando grande parte do programa de ensino, a “análise das grandes correntes contemporâneas” se dedica à compreensão de suas principais perspectivas e seus “precursores” europeus. O grande intuito do programa da disciplina é a chegada a uma História da Educação Física no Brasil por meio dos mesmos marcos políticos da escrita de Contribuição para a História da Educação Física no Brasil, tendo como indicações a produção bibliográfica de Inezil. A produção de Inezil também aparece de forma mais contemporânea e possivelmente influenciada pelo cargo anterior de Catedrático de Metodologia da Educação Física e dos desportos nos itens relativos às “tendências atuais” da EF na Europa e na América, como última aula da disciplina. Antecipando que tais tendências seriam transformadas em história, tal qual o argumento de sua transferência de cadeira na ENEFD, o programa lembra que o cenário brasileiro, em relação à Educação Física, vivia ainda um conflito de influências entre o Método Francês de Joinville-le-Pont, a calistenia, a Ginástica Sueca e a Educação Física desportiva generalizada. O Método Nacional de Educação Física, tão divulgado por Inezil nos anos de 1940, desaparece de suas publicações após sua saída da Divisão de Educação Física em 1946, todavia, os marcos da historiografia da Educação Física brasileira ganham espaço na disciplina, amplamente influenciada por sua produção da década anterior advinda de Contribuição para a História da Educação Física no Brasil. O programa de ensino da ENEFD apresenta uma ampliação de temas importantes para a compreensão da História da Educação Física a partir de princípios da Filosofia, fortemente mobilizada para a compreensão daquela Educação Física contemporânea, mas uma mudança metodológica em relação à História não havia ainda ocorrido no Brasil de forma mais profunda. Inezil, em seu discurso de posse, disse: “[...] A cadeira de História da Educação Física há de contribuir poderosamente para que esta Escola reviva o ideal grego que Píndaro cantou, Heródoto escreveu e Miron esculpiu.”257 256 As considerações finais e leituras indicadas no programa de aula mostram que Inezil registrou mesa redonda do delegado de Educação Física dos EUA apresentando o programa de Educação Física daquele país. O registro mostra que tais eventos eram também lugar de trocas acadêmicas divulgação de sua produção. 257 Discurso de posse do Prof. Inezil Penna Marinho. Revista Arquivos da ENEFD, Rio de Janeiro, n.12, p.127 a 145, dez. 1958. CEME/EEFD/UFRJ 221 Se o programa da cadeira não avança metodologicamente, ele amplia as fontes e bibliografias, deixando como marca também a produção didática indicativa para a disciplina, como é o caso de História e Organização... O que há de comum entre os programas do final da década de 1920 até o de 1956, da ENEFD, certamente está no olhar desses professores sobre a Antiguidade Clássica como princípio “iluminador” das práticas e da compreensão do presente. A História Antiga e a interface com a Filosofia, a poesia e a arte na formação desses professores fizeram dessa temática uma permanência nos programas e na compreensão da historiografia da Educação Física nacional. Um redimensionamento metodológico efetivo não acontece pelo impacto da historiografia tradicional no Brasil. Apesar disso, Inezil e Accioly ampliam fontes, temas e conceitos, dimensionando, para o programa da Cadeira X na ENEFD, uma historiografia da Educação Física nacional. A história dos conteúdos como um dos componentes centrais da história das disciplinas tem o papel mais amplo de subsidiar a observação dos resultados concretos das propostas de um programa de ensino, auxiliando no desvendamento “da estrutura interna da disciplina” que, para Chervel (1990), é um dos pontos chave de observação das finalidades para as quais uma disciplina é proposta. HEF na ENEFD se estabelece de maneira muito particular em relação ao momento político do Estado Novo, inspirada em dispositivos impulsionados pela formação de professores e pelo aparecimento dos temas nacionais nessa formação. A disciplina acompanha esse processo de estruturação institucional do nível universitário, sendo abastecida por conteúdos de ensino que se perpetuavam de maneira consoante às finalidades de seu momento anterior, quando os cursos não tinham essa mesma designação de nível de ensino. Capaz de se moldar nos dispositivos criados via MES e através dos incentivos para a formação de professores (o grande mote da criação de instituições como a ENEFD), a produção de Inezil não somente impactou a disciplina na sua organização e em seu conteúdo como também alterou suas finalidades para o olhar sobre uma história da Educação Física nacional. 222 CONSIDERAÇÕES FINAIS No percurso desta pesquisa foi possível observar que, ao longo dos finais da década de 1920 e início da década de 1930, cursos de formação e especialização superiores em Educação Física foram criados no Brasil e, com eles, também o movimento de institucionalização da disciplina História da Educação Física. Observar a disciplina no interior dos currículos desses cursos foi um dos exercícios da tese, que nos possibilitou perceber também sua função e seu funcionamento, de forma mais ampla, em relação às instituições e ao governo federal do período e, de forma mais interna, em relação aos temas, conteúdos, programas, livros e compêndios que circularam como subsídios pedagógicos. Destaca-se, nesse período, a tentativa institucional dos sujeitos ligados à Educação Física no Estado Novo de retomar a memória de autores intitulados “pioneiros da Educação Física”, indicando, a partir de sua produção, um movimento mais extenso na tentativa de legitimar a Educação Física e sua escolarização no Brasil. As memórias e a produção de Rui Barbosa, Fernando de Azevedo e Jorge de Morais aparecem, ao longo da década de 1930 no Brasil, como parte do que foi chamada de “gênese” da Educação Física nacional pela Divisão de Educação Física e também como retórica legitimadora para a organização dos primeiros cursos de formação. A História, antes de ser uma disciplina institucionalizada nos primeiros cursos de Educação Física no Brasil, foi tema que circulou entre intelectuais brasileiros dos séculos XIX e XX que estiveram preocupados com a formação e a institucionalização EF no processo de sua escolarização. Decerto foi o processo de institucionalização da Educação Física na escola que desencadeou a necessidade de uma especialização do professor, sendo a disciplina HEF parte integrante de todos os currículos das escolas de formação analisadas. A História da Educação Física nesses currículos aparentemente cumpre a função de realizar a transição da “teoria” para a “prática”, se constituindo como uma disciplina de formação intelectual capaz de articular o passado da Educação Física, apontando justificativas para a construção do futuro. Como disciplina de formação intelectual e articulada às seções “pedagógicas” dos currículos, a HEF forneceria “teorias explicativas formativas” (e não científicas) capazes de articular o passado daquela Educação Física com suas normativas presentes para constituir uma prática futura. Embora não tivesse o prestígio das disciplinas biológicas presentes nesses currículos, HEF também fundamentava a “prática” ou a escolha dos métodos ginásticos dos primeiros cursos de formação. Isso significa que a HEF tinha como uma das suas finalidades 223 articular pedagogicamente o conhecimento que viria a ser posto em prática no momento seguinte do currículo, com as chamadas “ciências auxiliares” que justificavam o fazer científico da Educação Física. Uma das vias da legitimação da Educação Física na escola foi o investimento, de diferentes instituições, em cursos superiores para a formação de professores, sendo que a disciplina HEF foi um dos saberes que ajudaram a consolidar tal formação profissional. Partindo dos cursos de formação, seus currículos e da produção de seus professores, foi possível compreender que a disciplina HEF se autojustificou na formação de professores através dos compêndios, livros e programas que, escritos como material didático, estabeleceram uma História filosófica e uma narrativa intimamente devedora da história grega e antiga para a HEF. É possível dizer, a partir desse percurso, sobre uma dupla funcionalidade da disciplina HEF: de forma mais ampla, ajudou a legitimar um campo disciplinar que se constituía nos primeiros cursos de Educação Física no Brasil e, de forma mais internalista, teve fortes ligações com a dimensão pedagógica e intervencionista da Educação Física, apontando para os melhores métodos a serem aplicados em seu ensino. Legitimando socialmente um campo de atuação profissional, os discursos “autorizados pela história” ajudavam a forjar as práticas desejadas nesses cursos, sobretudo aquelas ligadas às escolhas do melhor ou mais adequado Método Ginástico Europeu desejado para a formação de professores que impactasse a EF escolar brasileira. Nessa trama, a disciplina HEF se justificou por sua presença como disciplina de formação nos cursos de especialização em Educação Física a partir de um conjunto de iniciativas de institucionalização da EF. Destinadas à formação de professores, foi possível demarcar seu papel prático, pragmático e programático, como um saber que partiu de uma historiografia estrangeira que, traduzida e incorporada às publicações brasileiras, demarcou também escolhas sobre seus métodos de intervenção pedagógicos. Foi pela produção de seus primeiros professores: tenentes do Exército, médicos, esportistas e intelectuais, que foi possível adentrar nos compêndios, livros, programas e artigos escritos como subsídios pedagógicos da disciplina HEF. Os livros e compêndios foram na tese entendidos como ferramentas pedagógicas que se constituíram no trabalho dos primeiros professores da disciplina que contavam sobre uma história da educação física “estrangeira” traduzida com a justificativa da ausência de publicações em língua portuguesa sobre o tema. O exercício de cópia e tradução de obras estrangeiras permitiu que se forjassem os primeiros materiais pedagógicos e didáticos da disciplina, como o compêndio Histórico da 224 Educação Física, publicado pelos tenentes Bonorino, Molina e Medeiros (1931) e aparentemente utilizado nos primeiros cursos de formação analisados. Considerando o Histórico como um “currículo escrito” e uma importante fonte documental sobre a estrutura institucionalizada da disciplina HEF, o compêndio tem a concepção, os temas e a estrutura balizadas pela literatura “estrangeira”, sobretudo a de origem francesa. É inspirado em uma História Filosófica e de escrita fragmentada a partir dos períodos clássicos da história universal. A narrativa cronológica e evolutiva de referências estrangeiras é tangenciada por uma trajetória europeia marcada pela história de seus métodos e escolas ginásticas. O corpus documental do compêndio mostra que a disciplina HEF esteve estruturada tendo como uma de suas finalidades a legitimação do Método Francês em território nacional, justificando as escolhas pedagógicas e intervencionistas ligadas aos saberes “práticos” dos cursos. A obra apresentou diversas críticas ao Método Sueco, bem como exaltou e ajudou na legitimação do Método Francês no Brasil, instituído como oficial, como o mais científico. A justificativa da escolha por esse método se deu a partir de suas bases fisiológicas e de suas possibilidades pedagógicas para a escola brasileira. Da mesma forma, é possível observar nos programas da disciplina HEF o Método Francês como lugar de chegada, como temática final a ser alcançada nos cursos de educação física instituídos até os finais dos anos de 1930, tendo o Histórico da Educação Física como eixo norteador das aulas. Esse papel formador, subsidiário às ciências auxiliares que conferiam “cientificidade” à Educação Física, faz da HEF uma disciplina de formação geral, que garantiria no processo formativo elementos teóricos capazes de contribuir para a prática pedagógica, momento subsequente dos currículos caracterizados como “ensino prático”, no qual “matérias práticas” eram executadas em consonância com o aporte teórico apresentado. Outra constatação importante relativa ao Histórico da Educação Física e a seus referenciais franceses foi a demonstração de que a disciplina História da Educação Física seria uma construção brasileira. Apesar de ser uma compilação de textos, o compêndio foi organizado para se constituir como matéria de ensino, algo aparentemente não realizado pela École de Joinville, instituição que influencia a constituição do CMEF e local de docência dos autores do Histórico. O compêndio, escrito com finalidade didática, foi certamente uma prática brasileira justificada pelo programa de uma disciplina que aparentemente não existiu em território francês. As bibliografias francesas apresentam um capítulo “Histórico” como forma de, inspiradas na Antiguidade e em uma seriação clássica até a contemporaneidade, afirmar o Método Francês como o mais cientificamente viável, almejando, com isso, sua adoção como oficial no sistema de ensino francês. Os autores brasileiros, ao compilarem os 225 franceses, se utilizam dessa estratégia de legitimação do Método Francês a partir da crítica a outros métodos, sobretudo o sueco. A disciplina HEF esteve marcada, ao longo da década de 1930, por um panorama de ingerências estrangeiras “francesas” que definiram as escolhas políticas mais amplas e também programáticas da disciplina. A partir da década de 1940, a disciplina parece desenvolver sua temática, influenciada pela produção de Inezil Penna Marinho sobre a História da Educação Física no Brasil. O nivelamento da História da Educação Física com os temas da História Universal de forma linear e cronológica, a história filosófica, ainda devedora da Antiguidade, e a tentativa de observar a utilidade da história para a Educação Física executada naquele contexto são ainda elementos constantes na disciplina ao longo das duas décadas subsequentes. Os métodos ginásticos e sua história continuam sendo questões centrais, mas não mais se apresentam com o propósito de uma incorporação oficial pelo Estado na escola brasileira. Estudar a história desses métodos após 1940 parece ser uma forma de que futuros métodos ou sistemas de Educação Física nacionais serem projetados. O livro Contribuição para a História da Educação Física no Brasil, de 1943, é obra de Inezil Penna Marinho publicada pela Divisão de Educação Física, via MES, que vai ao encontro da ampliação de uma narrativa histórica dos temas nacionais, antes pouco abordados pelas bibliografias afins. Essa publicação impacta os programas da disciplina HEF nas duas décadas subsequentes, contribuindo para a construção de um lugar para a História da Educação Física nacional. Essa ampliação das fontes e dos temas nacionais nos programas da disciplina de HEF deixa como marca também uma ampliação da produção didática para a disciplina, como é o caso de História e Organização da Educação Física, publicado em 1956 e estruturado a partir das aulas da ENEFD. Institucionalizada em diferentes cursos de formação em Educação Física, por vezes categorizados como superior, a HEF como disciplina parece passar por um processo mais de permanência do que de ruptura ao longo das três décadas analisadas na tese. Instituída na formação de professores, ela sempre esteve alinhada a uma tentativa de estabelecimento através da história dos parâmetros pedagógicos para a compreensão da Educação Física do seu presente. Ao longo do período analisado, é possível falar também sobre três momentos da disciplina, aqui categorizados a partir das fontes: num primeiro momento, há o aparecimento da HEF como tema que circula em diferentes publicações e documentos oficiais do Estado, na tentativa de ajudar na legitimação da educação física e invocando, para isso, a memória dos sujeitos que teriam defendido a EF publicamente; em um segundo momento, praticamente concomitante ao primeiro, é possível perceber a disciplina já institucionalizada nos cursos de 226 formação e, nestes, a utilização de uma produção teórica devedora dos referenciais de uma história “estrangeira” da Educação Física, tendo como uma de suas grandes finalidades a legitimação do Método Francês de Educação Física no Brasil; e, em um terceiro momento, a ampliação dos programas da disciplina para a escrita de uma história da educação física nacional, amparada pela produção de Inezil Penna Marinho. O caminho percorrido de Rui Barbosa a Inezil Penna Marinho mostra que órgãos como a Divisão de Educação Física foram fundamentais na atualização de uma tradição inventada, criando uma história para a Educação Física e ajudando na legitimação de um campo que se constituía. Rui, assim como os professores que produziram a disciplina HEF nos diferentes cursos analisados, é parte dessa história de reinvenções da memória de seus “antecessores e precursores” estrangeiros e nacionais. O conjunto variado de fontes e documentos de diferentes naturezas e, em sua maioria, produzidos pelas instituições estatais e de ensino, bem como a produção dos professores do período estudado permitiram percorrer a história dessa disciplina a partir de suas prescrições. A disciplina HEF, acessada a partir de sua institucionalização nos diferentes estabelecimentos de ensino, entre 1929 e 1958, demonstrou que uma disciplina teórica em meio a uma formação eminentemente prática se estabeleceu por motivos muito diversos, que extrapolam a simples compreensão da história limitada à dimensão de seu ensino. Foi pela diversidade da documentação que a diversidade dos sentidos dados à disciplina ao longo desse período pôde ser revelada, ajudando revelar também parte da história da Educação Física brasileira. Essas histórias, contudo, não se esgotam e outras possíveis são necessárias para a ampliação desse estudo. Para a disciplina HEF, o período que vai dos finais dos anos de 1940 até meados dos anos 1960 é marcado pelo surto da expansão das universidades no Brasil. Cresce significativamente o número de instituições existentes: de 5 em 1945, para 37 em 1964 (CUNHA, 1986, p. 232). Isso significa que, no mesmo período de criação da ENEFD, outros cursos de formação superior em Educação Física foram criados no Brasil. Apesar de ter acessado as fontes de alguns deles, no limite desta tese não foi possível realizar um estudo mais alargado da disciplina HEF nessas demais instituições e, assim, estabelecer relações também com a produção de seus professores. Essa ampliação merece futuramente um exercício de pesquisa a partir dessas ou de outras indagações possíveis sobre a disciplina HEF. O contato com a diversidade de fontes, teses, dissertações, livros e artigos mostrou outros estudos necessários para a historiografia da Educação Física brasileira, a partir do 227 dispositivo da disciplina HEF desta tese. A Divisão de Educação Física, órgão criado em meio ao Estado Novo e vinculado ao MES, merece ser explorada em um estudo particular, assim como seu boletim e os inquéritos produzidos pelos sujeitos envolvidos com a regulamentação da Educação Física do período. Também o Método Nacional de Educação Física, proposto por Inezil Penna Marinho ao longo dos anos de 1940 no Brasil, mereceria uma pesquisa mais aprofundada que investigasse como os temas nacionais passam a fazer parte da produção desses sujeitos envolvidos com a escrita da historiografia da educação física nacional. Há que se fazer um esforço de investigação com esses objetos de pesquisa, que merecem ser enfrentados pelos pesquisadores brasileiros. A hipótese da longevidade ou da “estabilidade” da disciplina HEF ainda permanece como questão a ser mais bem investigada a partir da sua presença nos cursos de Educação Física nas décadas subsequentes. Até o final da década de 1950, HEF ainda não podia ser considerada uma disciplina estável somente por sua presença constante nos currículos dos cursos de formação. A incipiência de sua formação e de seus saberes revela serem necessárias outras relações e pesquisas dentro de um novo conjunto documental que a demarque internamente na universidade brasileira dentro de outros marcos políticos. É preciso, assim, continuar produzindo novas indagações no lugar de pesquisadora, estando mais atenta às contradições e incoerências que surgem nas representações nacionais e que normalmente são elaboradas por representações regionais e locais acerca da experiência cotidiana da formação de professores. Daí a importância na compreensão particular dos cursos, da trajetória e da produção de cada professor na docência da disciplina HEF também nos anos subsequentes que culminaram para essas instituições com o Golpe Militar de 1964 e a Reforma Universitária de 1968. A reforma, entre outras funções, rompeu com o sistema de cátedras, fortaleceu na universidade o princípio da autoridade da disciplina, a departamentalização, a ampliação de vagas, a implementação do vestibular unificado e a criação de cursos de curta duração com ênfase nos aspectos técnicos e administrativos (FÁVERO, 2006, p. 32) As cátedras foram substituídas pelos departamentos, adotando-se o sistema de créditos e a seleção de professores passou a ser de responsabilidade acadêmica, havendo uma carreira estruturada em níveis, sendo a pós-graduação, premissa para ingresso na instituição enquanto docente (MENDONÇA, 2000, p. 142). Outras histórias sobre a mesma disciplina são possíveis a partir também deste outro quadro político e administrativo do Brasil e de suas universidades. 228 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Fontes: A ASSOCIAÇÃO de professores de EF de S. Paulo e suas atividades. Revista de Educação Física do Exército, Rio de Janeiro, n. 31, p. 16-17, mai. 1936. 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Acervo do CEME – Centro de Memória Inezil Penna Marinho/EEFD/UFRJ. 245 APÊNDICES UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO FACULDADE DE EDUCAÇÃO LINHA DE PESQUISA: HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Rapport final de stage doctorale Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior – PDSE Université Paris XI - Orsay La trajectoire historique de la discipline Histoire de l'Éducation physique au Brèsil (1929-1968) Orientador no Brasil: Prof. Dr. Marcus Aurélio Taborda de Oliveira – (UFMG) Directeur de thèse en France: Prof. Dr. Renaud D’Enfert- (Paris XI) Paris, juillet de 2015 246 1. Introduction Ce rapport se présente comme une première analyse du stage de doctorat que j'ai effectué de décembre 2014 à juillet 2015 à Paris. Ce dernier retrace un panorama général du séjour et fait référence au travail de recherche que j'ai pu mener pendant cette période, très riche et productive, passée en France. L'opportunité de fréquenter des bibliothèques, des séminaires, des collections et des musées fait de Paris un lieu accueillant pour une jeune chercheuse. La disponibilité des collections et des bases de données, les divers séminaires auxquels j'ai pu assister et la participation au Groupe d’Histoire et Diffusion des Sciences d’Orsay (GHDSO) ont constitués mon quotidien dès mon premier mois à Paris. Le privilège de fréquenter les différentes institutions d'enseignement françaises, gratuitement notamment, de pouvoir écouter et de parler avec des chercheurs que je prends comme référence, ont fait de ce stage un moment important de ma formation de chercheur. Au-delà de la reconnaissance d'un autre lieu géographique, être en dehors de mon pays et particulièrement à Paris, m'a permis d'observer le travail de différents professeurs et chercheurs que j'ai pu écouter, dont j'ai lu les publications et avec lesquels j'ai discuté. Au fur et à mesure que je maitrisais mieux la langue française et que je m'habituais au mode de vie, à la nourriture et aux habitudes locales, Paris est devenu chaque jour plus attractif. Entre bibliothèques, patrimoines et archives j'ai décidé, après le deuxième mois de séjour, que mon immersion comme chercheuse s'effectuerait plutôt dans le cadre du Catalogue Général de la Bibliothèque Nationale Française (BnF). Fréquenter la BnF, manipuler ses livres, parler avec les employés et avec d'autres chercheurs qui fréquentent aussi cet espace furent nettement la grande expérience empirique de ce stage. Habiter la Cité Universitaire Internationale de Paris fut aussi une expérience importante pour ma recherche. Au-delà de la découverte culturelle d'un pays étranger et d'échanges avec des chercheurs brésiliens, être à la CIUP et, en particulier, à la Maison du Brésil, a permis également de tisser des liens académiques concrets avec différents chercheurs, dans ce lieu international, et, notamment du point de vue culturel, avec des chercheurs du monde entier. De la même façon, l'accueil du professeur Renaud D’Enfert et du Groupe GHDSO à l'Université Paris XI à Orsay m'ont permis de mieux observer le travail méthodologique de recherche confié aux membres de ce groupe de recherche. Attentif aux débats méthodologiques sur l'histoire des disciplines, le groupe a grandement contribué à 247 l'élaboration théorique et méthodologique de ma thèse. Lire et suivre les débats du GHDSO sur l'Histoire de la Science dans l'Histoire des disciplines a contribué à remodeler mon cheminement méthodologique pour penser l'Histoire de l'Éducation Physique comme une discipline. L'Histoire de l'Éducation Physique, l'Histoire de l'Éducation, l'Histoire des disciplines ont été des thèmes qui devaient être abordés dès le début de ce séjour. Explorer les différents séminaires proposés au Collège de France, à l'École des Hautes Études en Sciences Sosiales, à l'université Paris-Sorbonne sur ces thématiques m'a permis d'agrandir mon répertoire théorique et de repenser les approches méthodologiques proposées dans ma thèse. Un autre lieu important d'échanges universitaires et culturels était le Cours de Français pour les étrangers proposé par la Mairie de Paris. Ce cours, proposé entre mars et juin de 2015, m'a aidée à mieux maitriser la langue dans ma vie quotidienne et s'est avéré extrêmement utile pour les lectures et les traductions réalisées pendant ce séjour, notamment dans le cadre du travail à la BnF. La période de stage de doctorat sandwich m'a permis d'avancer sur les questions théoriques, analytiques et méthodologiques de ma thèse, d'accéder à de nouvelles références bibliographiques et d’élargir ainsi les sources de ma thèse à partir des bases de données françaises, comme nous le verrons dans le point suivant. 2. Itinéraires de recherche et choix au long du parcours La proposition initiale écrite pour la Capes précisait que cette étape comprendrait deux principaux axes de développement au cours de la période: le premier concerne l'approfondissement théorique dans l'Histoire des disciplines et dans l'Histoire des Sciences, le deuxième aborde la littérature bibliographique en lien avec les thèmes de ma recherche. Dans un premier temps, le principe d'orientation théorique de ma thèse reposait sur une Histoire des disciplines caractérisées par un modèle théorique dans l'Histoire. L'hypothèse proposant la discipline Histoire de l'Éducation Physique comme pouvant faire partie de l'Histoire des Sciences a été complètement écartée suite à la remarque du groupe GHDSO soulignant que l'Histoire des disciplines scientifiques ne constitue pas une base pour aborder l'Histoire de l'Éducation Physique, bien qu'elle utilise les Sciences naturelles pour son élaboration. L’histoire des Sciences m'a aidée à comprendre que les justifications des professeurs qui écrivaient sur l’Histoire de l’Education Physique dans des livres et des manuels jusqu'alors recherchés, se trouvaient guidées par un modèle scientifique et biologique 248 déjà longuement discuté en détail dans l'Education Physique, mais ne représentant pas une tentative de constitution d'un matière scientifique à proprement parler. Cela devient plus perceptible lors de la consultation des sources de recherche dans le cadre de la BNF. Pendant la production du texte final pour la qualification de ma thèse en novembre de 2014, mon attention a été attirée, dans la bibliographie de l’Historique de l'Education Physique, par le premier compendium de l’Histoire de l’Education Physique publié au Brésil en 1929 par des lieutenants, instructeurs de L’École d'Education Physique de l’Armée. Bien qu'ils aient disposé de peu de ressources bibliothécaires en matière d'Histoire de l'Education Physique et qu'ils se soient peu intéressés aux écrivains brésiliens de leur époque, ces lieutenants se proposèrent d'écrire une historique de l'Éducation Physique à partir de livres étrangers car en portugais, la langue locale, rien jusqu'alors n'avait été écrit. Le texte ainsi rédigé apparaît clairement comme une "compilation" de livres étrangers et de manuels ayant pour objectif d'orienter la discipline dans le cadre des cours de formation des instructeurs. Dans la bibliographie du Compendium Historique de l'Education Physique, parmi les trente- cinq œuvres présentées, seulement cinq titres sont nationaux (en portugais), les autres regroupant vingt-six références françaises. Pour cette raison je me suis intéressée à ces références en janvier et février 2015, en me consacrant en particulier aux bases de données françaises indiquées par le professeur Renaud d’Enfert. (tableau 02) Pour accéder au Catalogue Général de la BnF, et au Catalogue (Sudoc) Système Universitaire de Documentation, différents mots clefs ont été utilisés en lien avec ma thèse: l'histoire de l'éducation physique, l'histoire du sport, l'histoire de la gymnastique, l'histoire de l'éducation, l'École normale de gymnastique et d'escrime de Joinville-le-Pont, cours de gymnastique de l'École normale et d'escrime, l'histoire de la discipline de l'éducation physique, cahiers d'histoire de l'éducation physique, notamment. À partir de cette recherche par mots-clés de la thèse, fin de février 2015 j’avais classé 113 œuvres qui, par leur titre, étaient en relation avec le sujet de ma thèse. Par la suite commença la deuxième partie de mon travail de recherche, la lecture et le choix des références en catalogue. Attentive aux références bibliographiques françaises du compendium Historique de l'Éducation Physique lors du classement bibliographique dans le Catalogue Général, j'ai pu constater, à la fin de cette première étape de travail, que parmi les 26 références françaises, 24 étaient disponibles pour la consultation et la copie à la BnF. La date de production de ces mêmes références se situait pour la plupart entre le fin du XIXème et le début du XXème siècle, ce qui m'a permis d'y accéder, de les photographier et de les copier. 249 Le choix par une lecture attentive des références du compendium Historique de l’Education Physique publié au Brésil en 1929 s'est trouvée influencée par mes lectures et les séminaires que je suivais à ce moment-là à Paris. Au long de la constitution de la bibliographie j’ai observé que les références de l'Historique pourraient être un moyen de mieux comprendre certaines questions relatives, non seulement au fonctionnement interne de la discipline, mais aussi en relation avec l'appropriation et la circulation des œuvres françaises au Brésil. Me semblent importants la perception de ce qui a été choisi pour être retranscrit par les lieutenants instructeurs pour devenir l'Histoire au cours de la formation brésilienne, le lieu de l'Histoire de l'Education Physique pour les Français, et enfin, comment ces coupes sont devenues une discipline au Brésil. En plus des sources bibliographiques de l’Historique, je me suis intéressée aux sources de l'Ecole Normale de Gymnastique et d'Escrime de Joinville-le- Pont. Connaissant l'influence de l'Ecole Normale de Joinville pour la constitution du Centre Militaire d'Éducation Physique de l'Armée au Brésil, je voulais, à partir de ces dernières, en apprendre plus sur le programme de cette école entre la fin du XIXème et le début du XXème siècle. Parmi les diverses sources trouvées sur la structure et les cours de cette école, aucune ne permet de suivre une discipline tout au long de son existence, malgré le thème Histoire de l'Education Physique permettant de circuler dans plusieurs bibliographies utilisées par les enseignants à cette époque. Cela m'a incitée à étudier encore davantage les réferences françaises de l'Historique dans la mesure où la discipline Histoire de l'Éducation physique serait une pratique brésilienne, n'étant pas proposée par les Français à l'École de Joinville, malgré l'utilisation de ces références françaises. Bien qu'étant une compilation de textes, le compendium a été organisé pour constituer une matière d'enseignement, ce qui semble ne pas avoir été le cas à l'Ecole de Joinville qui a influencé la constitution du CMEF au Brésil. Entre mars et juin 2015, je me suis consacrée à la lecture, au classement, à la transcription et à la traduction d'ouvrages relatifs aux références de l'Historique et de l'École Normale de Gymnastique et d'Escrime à la BnF. Tableau 01 - References Bibliographiques françaises du compendium Historique de l'Éducation Physique Auteur Œuvre Chapitre d’histoire Paz, Eugène (1835-1901) Gallica et acheté La santé de l'esprit et du corps par la gymnastique Publication : Paris : Librairie du Petit journal, 1865 Description matérielle : 1 vol. (140 p.) ; Chapitre IV – la gymnastique chez les Grecs Chapitre V – La gymnastique chez les Romains Chapitre VI – La gymnastique au 250 in-16 Notice n° : FRBNF31070976 moyen-age Chapitre VII – La gymnastique moderne em France Paz, Eugène (1835-1901) Microfiche Transcrit et imprime La Gymnastique obligatoire Publication : Paris : L. Hachette, 1868 Description matérielle : In-16, 127 p. Note(s) : La couverture imprimée porte : "3e édition" Notice n° : FRBNF31070969 Chapitre V - La Gymanastique a l’étranger Chapitre VI – La gymnastique en France Dubech, Lucien (1881-1940) 1930 Microfiche Transcrit et imprimé Où va le sport ? Publication : Paris, Impr. "Pascal", 13, rue Pascal ; Alexis Redier, éditeur, 1930. (13 novembre 1931.) In-16, 228 p. 12 fr. [1250] Notice n° : FRBNF32046714 Chapitre I a XV - Tout l’ouvre c’est un histoire du sport Pindare (0518-0438 av. J.-C.) Gallica Traduction complète de Pindare, par C. Poyard, Publication : Paris : Impr. impériale, 1853 Description matérielle : In-8° , VI-265 p. Notice n° : FRBNF31114200 Toute l'oeuvre du classicisme grec et olimpíadas grecques – poésies Amoros, Francisco (1770- 1848) Texte imprime et acheté Manuel d'éducation physique, gymnastique et morale Publication : Paris : Éd. "Revue EPS", 1998 Impression : Paris : Impr. Jouve Description matérielle : 2 vol. (488, 528 p.) ; 15 cm Aucune mention de l’histoire Lefébure, C. (Colonel) 1908 Photographié et acheté L'Éducation physique en Suède Publication : Bruxelles : Office de publicité, 1908 Description matérielle : In-4° , XXII-284 p., fig. Notice n° : FRBNF30771518 Première Partie Chapitre premier – Les origins de la gymastique pedagogique suedoise Annexe III Conception d’education physique chez les Grecs de l’antiquité classique Lefébure, C. (Colonel) 1914 Photographié Méthode de gymnastique éducative suédoise, cours professé à l'École normale de gymnastique et d'escrime. Publication : Bruxelles : J. Lebègue, Aucune mention de l’histoire 251 1914 Description matérielle : In-8° , XX-218 p., tabl. et appendices, fig. Notice n° : FRBNF30771519 Tissié, Philippe (1852-1935) 1919 Microfiche Transcrit et imprime L'Éducation physique et la race : santé, travail, longévité Publication : Paris : E. Flammarion, 1919 Description matérielle : In-16, 336 p., fig. Note(s) : Bibliothèque de philosophie scientifique Notice n° : FRBNF31473535 Premier auteur de nier l'antiquité grecque comme une source d'inspiration du modèle Livre III – L’espirit Clinique en Éducation Physique Chapitre premier – L’evolution de l’idée physique en France (cent ans d’erreur) Chapitre II – Des causes d’erreur et de retard em Éducation physique Chapitre III – Une oeuvre de vie nationale (1888-1918) Boigey, Maurice (1877-1952) Photographié et acheté Manuel scientifique d'éducation physique Publication : Corbeil, impr. Crété ; Paris, Payot et Cie, 106, boulevard Saint- Germain, 1923. In-8, 646 p. 25 fr. [7349] Notice n° : FRBNF31834298 Édition 1923 (photo) Preface (p.19) Historique de l’Education Physique (p.27) Édition 1939 (acheté) Aucune mention à l’histoire Boigey, Maurice (1877-1952) Microfiche Transcrit et acheté Physiologie de la culture physique et des sports Publication : Clichy (Seine), impr. Paul Dupont ; Paris, Albin Michel, éditeur, 22, rue Huyghens, 1927. (2 juin.) In-16, 383 p. 15 fr. [7768] Notice n° : FRBNF31834304 Preface (p.07,08) Chapitre premier – Histoite de la culture Physique (p.09 a 57) Hébert, Georges (1875-1957) Gallica Guide pratique d'éducation physique. Jeunes classes Publication : Paris : impr. nationale, 1918 Description matérielle : 107 p. ; in-16 Note(s) : Ministère de la guerre. Direction de l'infanterie Notice n° : FRBNF43621381 Aucune mention a l’histoire Demenÿ, Georges (1850- 1917) Sur l'Évolution de l'éducation physique en France Publication : Paris : publications du journal "le Gymnaste", (s. d.) Tout le livre pag 01 a 17 252 Photographié et imprimé Description matérielle : In-8° , 18 p. 1900 Note(s) : Extrait de la "Revue scientifique" Notice n° : FRBNF30321620 Messerli, Francis (Dr) 1916 Gallica Histoire générale de la culture physique et de la gymnastique médicale. Publication : Lausanne : T. Sack, 1916 Description matérielle : In-16, 118 p. Notice n° : FRBNF30934041 Tout le livre publiée sous le patronage de l'Académie des sports et du Comité national des sports C.O.F.1924 photographié Encyclopédie des sports Publication : Paris : impr. Villain et Bar, 22, rue Dussoubs : Libr. de France, 110, boulevard Saint-Germain, 1924. (31 janvier 1927.) Description matérielle : In-4, XII-492 p. avec illustrations et planches en noir et en couleur. [3548] Notice n° : FRBNF33366336 Histoire de l’escrime Boigey, Maurice (1877-1952) photographié Conférences faites à l'école normale de gymnastique et d'escrime de Joinville-le- Pont Publication : Paris, impr. de L. Fournier, (s. d.) In-16, 24 p. Notice n° : FRBNF31834283 Aucune mention a l’histoire Labbé, Marcel (1870-1939) Transcrit et imprimé Traité d'éducation physique Publication : Corbeil, impr. Crété ; Paris, Gaston Doin et Cie, éditeurs, 1930. (24 mai.) 2 vol. in-8. T. 1, XII-580 p. ; t. 2, 637 p. Les deux volumes, 200 fr. [6875] Notice n° : FRBNF32332042 Preface Avant propôs – p.05 a 09 Historique de l’Education Physique – p. 09 a 67 Mosso, Angelo (1846-1910) Imprimé L'Éducation physique de la jeunesse Publication : Paris : F. Alcan, 1895 Description matérielle : In-12, XLIII- 260 p. Autre(s) auteur(s) : Bahar, J.-B.. Traducteur Legros, Victor (Commandant). Préfacier Notice n° : FRBNF30986132 Chapitre V – L’Evolution de la Gymanstique – p.87 a 132 Peladan, Joséphin (1859- L'Athlétie et la statuaire antiques Histoire classique – Tout le livre 253 1918) Photographié Publication : Paris : E. Sansot et Cie, s. d. Description matérielle : In-16 (16 cm), 100 p. [Acq. 1066-65] Note(s) : Circa 1913 Notice n° : FRBNF33131410 Demenÿ, Georges (1850- 1917) Transcrit et imprimé Essai d'une méthode positive d'éducation physique Publication : Paris : H. Paulin, (s. d.) Description matérielle : In-8° , 27 p. Note(s) : Extrait de l'"Éducation moderne" Notice n° : FRBNF30321606 Aucune mention a l’histoire Demenÿ, Georges (1850- 1917) L'Éducation physique en Suède Publication : Paris : Société d'éditions scientifiques, 1901. 2e éd. Description matérielle : In-12, 109 p., pl., tableau Notice n° : FRBNF30321605 Regarder Lefebure Coste, Émile (Colonel) Imprimé L'Oeuvre de Joinville Publication : Paris, H. Charles- Lavauzelle, (1909). In-16, 192 p. Note(s) : Gymnastique Notice n° : FRBNF31971848 Tout le livre Hébert, Georges (1875-1957) Acheté L'Éducation physique, où l'entraînement complet par la méthode naturelle, exposé et resultants Publication : Paris : Vuibert, 1917. 3e éd. Description matérielle : In-8° , 158 p., pl. Notice n° : FRBNF30584723 Aucune mention a l’histoire Hébert, Georges (1875-1957) Acheté Le Code de la force. La force physique, ses éléments constitutifs et sa mesure pratique Publication : Paris : Vuibert, 1916 Description matérielle : In-16, XX-123 p., couv. ill. Notice n° : FRBNF30584719 Aucune mention a l’histoire 254 Parmi les 24 œuvres cataloguées, copiées et transcrites, seulement deux ont l’Histoire de l'éducation physique comme thématique centrale: Sur l'Évolution de l'éducation physique en France de Georges Demenÿ, publiée en 1900 et Histoire générale de la culture physique et de la gymnastique médicale du Dr. Francis Messerli, publiée en 1916. Les autres œuvres, bien que n'ayant pas l'Histoire comme thématique centrale présentent parfois un chapitre, parfois ne présentent aucune mention sur l'Histoire, sauf cette Classique Grecque, de la Gymnastique, du Sport ou de l’Escrime. Je crois qu'une analyse plus détaillée des deux œuvres précités et le choix de certains chapitres dans l'Historique de l'Éducation Physique présents dans les autres œuvres cataloguées peuvent contribuer à la compréhension de la signification du fonctionnement de l'Histoire en lien avec l'Historique de l'Éducation Physique publié au Brésil en 1929. Cela peut permettre d'expliquer la raison de leur présence dans l'écriture de l'Historique de l'éducation physique, en particulier en ce qui concerne la discipline brésilienne élaborée pour la formation de ses enseignants. Lors de la collecte des données plus détaillée sur les thèmes présents, les concepts d'histoire et le choix des auteurs de l'Historique, permettent une analyse beaucoup plus fine. Le GHDSO et ses dialogues avec l'Histoire de la Science et l'Histoire de l'Education ont permis de constater que les Sciences «naturelles et biologiques» abordées par les médecins et les enseignants du XIXème et du XXème siècle dans les bibliographies recueillies, accompagnent les discours et les pratiques scientifiques de l'Éducation Physique. Un premier regard sur les sources permet de constater qu'écrire l'Histoire Classique, des Méthodes de gymnastique et les écrits qui les ont précédés étaient importants pour justifier de telles “pratiques scientifiques”. L'Histoire dans ce cas semble précéder et servir d'explication aux méthodes et aux pratiques de gymnastique présentes dans les bibliographies. Au-delà de proposer une explication, cela semble même conférer une réelle autorité au discours scientifique. Le corps doit être construit par la pratique de la gymnastique, de l'escrime et du sport précisait le discours légitimateur et formateur de l'Histoire. L'Historique de l'Education Physique, suite à la constitution de l'Histoire ne naît pas d'une tradition scientifique, mais une de ses fonctions pour l'Éducation Physique semble être la justification de l'écriture scientifique. Il s'agit d'une hypothèse déjà soulignée dans le texte de qualification de ma thèse, mais renforcée à partir du stage doctoral que j'ai effectué à Paris. Cet argument est en cours de développement à partir de l'analyse des œuvres rassemblées dans le Catalogue Général de la BnF. Dans ce sens, l'Histoire de l'Éducation Physique trouvée dans les divers chapitres des 255 livres se présente comme une forme de glorification de ses précurseurs et de justification des choix pour la constitution de pratiques scientifiques liées à une perception biologique du corps. Le rôle principal de la plupart des œuvres semble ne pas être l'Histoire, mais les pratiques, la construction d'un corps biologiquement meilleur et l'élaboration de la méthode de gymnastique la plus appropriée pour cette époque. Cependant, un approfondissement de ces concepts et une analyse plus détaillée de la présence de ces deux œuvres qui ont l’Histoire d’Education Physique comme thématique centrale sont nécessaires pour mieux comprendre ce dernier argument. 256 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO FACULDADE DE EDUCAÇÃO LINHA DE PESQUISA: HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Relatório final de estágio doutorado sanduíche Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior – PDSE Université Paris XI - Orsay A trajetória histórica da disciplina História da Educação Física (1929-1968) Orientador no Brasil: Prof. Dr. Marcus Aurélio Taborda de Oliveira – (UFMG) Directeur de thèse en France: Prof. Dr. Renaud D’Enfert- (Paris XI) Paris, juillet de 2015 257 1. Introdução O presente relatório se apresenta enquanto uma primeira análise do estágio doutoral entre dezembro de 2014 a julho de 2015 em Paris. O mesmo se apresenta como um panorama geral da estadia e indica os encaminhamentos da pesquisa após o rico e produtivo período em terras francesas. Frequentar bibliotecas, seminários, acervos e museus fez de Paris um lugar acolhedor para uma jovem pesquisadora. A disponibilidade dos acervos e bases de dados, os diversos seminários frequentados e o Groupe d’histoire et diffusion des sciences d’Orsay (GHDSO) se constituíram enquanto rotina desde o primeiro mês. O privilégio de frequentar as diversas instituições de ensino francesas de forma gratuita, de poder ouvir e conversar com pesquisadores os quais tomo como refêrencia, fizeram desse estágio um importante momento de formação enquanto pesquisadora. Para além do reconhecimento de um outro lugar geográfico, estar fora do país e, especialmente em Paris, me permitiu observar os fazeres dos mais diversos professores e pesquisadores os quais ouvi, li e conversei. À medida que o domínio da língua acontecia, que o estranhamento da comida e dos hábitos se naturalizavam, Paris se tornava cada dia mais atraente. Entre bibliotecas, acervos e arquivos decidi, após o segundo mês de estadia, que a imersão como pesquisadora viria nesse momento a partir do Catalogue General da Bibliothèque Nationale Française (BnF). Frequentar a BnF, manusear seus livros, conversar com seus funcionários e com demais pesquisadores que também frequentam o espaço foi marcadamente a grande experiência empírica desse estágio. Morar na Cité Universitaire International de Paris também foi uma experiência importante para a pesquisa. Para além de “se reconhecer” culturalmente em terra estrangeira e entre pesquisadores brasileiros, estar na CIUP e, em especial, na Maison du Brèsil, permitiu também que laços acadêmicos e afetivos fossem criados com diferentes pesquisadores. Estar num lugar “internacional” como a CIUP permitiu trocas culturais com pesquisadores de diferentes lugares do mundo. Da mesma forma, o acolhimento do professor Renaud D’Enfert e o Grupo GHDSO na Université Paris XI em Orsay me permitiu melhor observar o tratamento metodológico dado às temáticas de pesquisa do grupo. Atenta às construções metodológicas sobre a história das disciplinas, o grupo contribuiu em sobremaneira para a metodologia da tese. Ler e observar os 258 debates do GHDSO sobre história da ciência na história das disciplinas ajudou a remodelar o caminho metodológico para pensar a História da Educação Física como uma disciplina. A História da Educação Física, a História da Educação, a História das disciplinas foram temas que estiveram no horizonte dessa estadia como um eixo norteador. Explorar os mais diversos Seminários propostos no Collège de France, na École de Hautes Études, na Paris-Sourbonne com tais temáticas permitiu ampliar o repertório teórico quanto repensar os caminhos metodológicos propostos na tese. Outro importante lugar de trocas acadêmicas e culturais foi o Curso de língua francesa para estrangeiros ofertado pela (Mairie de Paris) Prefeitura de Paris. O curso, realizado entre março e junho de 2015 auxiliou no desenvolvimento da língua, no cotidiano da cidade sendo extremamente útil para as leituras e traduções realizadas ao longo da estadia no trabalho na BnF. O período do estágio do doutorado sanduíche possibilitou um avanço nas questões teórico-analíticas e metodológicas da tese, acesso a novas referências bibliográficas e ampliação das fontes da tese a partir das bases de dados francesas como apresentado no ítem seguinte. 258 2. Itinerários de pesquisa e as escolhas ao longo do caminho A proposta inicial escrita para a Capes delineava que este estágio teria dois grandes eixos ao longo do período; o primeiro de caráter de aprofundamento teórico na “história das disciplinas” e na “história das ciências”, o segundo de levantamento bibliográfico em relação aos temas da pesquisa. A princípio, o eixo norteador teórico da tese estava delineado por uma história das disciplinas que tinha na história currículo o modelo teórico para observar a disciplina. A hipótese de que a disciplina História da Educação Física poderia também se constituir a partir de uma “história das ciências” foi completamente descartada ao observar no grupo GHDSO que a História das disciplinas “científicas” não se constituem como base para dizer da História da Educação Física, apesar dessa lançar mão das ciências naturais durante sua constituição. A “história das ciências” me ajudou a entender que as justificativas dadas pelos professores que escreviam sobre HEF nos livros e manuais até então pesquisados foram, no entanto, pautadas 258 O quadro 02 apresenta de forma detalhada todas as atividades realizadas ao longo do período do estágio doutoral. 259 por um modelo científico e biológico já longamente discutido na área, mas não por ela constituída enquanto tentativa de tornar-se uma matéria científica. Isso se torna mais perceptível a partir do momento que entro em contato com as fontes da pesquisa na BnF. A reorganização teórico-metodológica da tese vem acompanhada do aprofundamento da vertente francesa da “história das disciplinas”. Mais preocupados com o funcionamento da disciplina do que com a história do currículo, os trabalhos franceses se concentram, sobretudo na produção interna das disciplinas (livros, compêndios, cadernos) e menos preocupadas com seu impacto no currículo e das relações deste com as disciplinas. Ao contrario da vertente anglo-saxônica, a história das disciplinas para os franceses não tem relação direta com a história do currículo e sua produção, minha preocupação inicial. Apesar de não desejar descartar as análises dos primeiros currículos do Curso do CMEF já por mim realizadas na primeira parte da tese, entendi, a partir das bibliografias francesas, que o investimento nas análises da produção interna da disciplina poderiam ser tão importantes quanto tentar perceber a HEF dentro dos primeiros currículos dos cursos de formação de professores em Educação Física no Brasil. Durante a produção do texto final para a qualificação da tese em novembro de 2014, chamou-me atenção a bibliografia do Histórico da Educação Física, primeiro compêndio de HEF lançado no Brasil em 1929 pelos 03 Tenentes, instrutores da Escola de Educação Física do Exército. Argumentando serem as bibliotecas pouco aparelhadas e a matéria (HEF) tendo pouco interessado aos escritores brasileiros até aquele momento, os tenentes se propõem a transcrever um histórico para a Educação Física a partir de livros estrangeiros já que “em língua vernácula” (português) até então nada havia sido escrito. Os tenentes deixam claro que o texto é uma “compilação” de livros e compêndios estrangeiros que tinham como intuito orientar a disciplina nos cursos de formação. Na bibliografia do Histórico..., das trinta e cinco obras apresentadas apenas cinco são títulos nacionais sendo as demais, 26 (vinte e seis) referências francesas. Passei nesse sentido a estar atenta a tais referências quando entre os meses de janeiro e fevereiro de 2015 me dediquei aos levantamentos bibliográficos nas bases de dados francesas indicadas pelo professor Renaud d’Enfert. (quadro 02). Ao acessar o Catalogue General da BnF, e Catalogue (Sudoc) Système Universitaire de Documentation, foram utilizadas diversas palavras-chaves que faziam relação com a tese; história da educação física, história do esporte, história da ginástica, história da educação, Escola normal de Ginástica e esgrima de Joinville-le-Pont, Cursos da Escola normal de ginástica e esgrima, disciplina história da educação física, cadernos de história da educação física, dentre outras. 260 A partir das palavras-chave, no final de fevereiro de 2015 havia classificado 113 obras que, pelo título, faziam relação com os temas da tese. Começava aí a segunda parte do trabalho; a leitura e a escolha dos referenciais então catalogados. Atenta aos referencias bibliográficos franceses do compêndio Histórico da Educação Física durante o levantamento bibliográfico no Catalogue General, percebi, ao final dessa primeira etapa de trabalho, que dos 26 referenciais franceses, 24 se encontravam disponíveis para consulta e cópia na BnF. A data da produção dos mesmos, a maioria entre final do século XIX e primeiros anos do século XX me permitiu não somente acessá-los como fotografa-los e copiá-los. A escolha pela leitura atenta das referências do compêndio de HEF publicado no Brasil em 1929 deu-se impactada pelo cotidiano de leituras e seminários pelos quais frequentava também naquele momento em Paris. Os temas que circunscreviam a história das disciplinas quase nunca tocavam no tema do currículo, mas tinham exímio cuidado em olhar para o conteúdo e a trajetória interna das disciplinas. Ao longo do levantamento bibliográfico percebi que os referenciais do Histórico... poderiam ser uma forma de perceber algumas questões concernentes não somente ao funcionamento interno da disciplina, mas também em relação a apropriação e a circulação de obras francesas no Brasil. A percepção do que foi escolhido para ser transcrito pelos 03 tenentes instrutores para que se tornasse história no curso de formação brasileiro, o lugar da História da Educação Física para os franceses e, por fim, como esses recortes se tornam disciplina no Brasil. Além das bibliografias do Histórico... fiz um longo levantamento rastreando as fontes da École Normale de Gymnastique et Escrime de Joinville-le Pont. Sabendo da influência da École Normale na constituição do Centro Militar de Educação Física do Exército (CMEF), queria, a partir delas, saber do currículo da mesma entre o final do século XIX e início do século XX. Das várias fontes encontradas sobre sua estrutura e seus cursos, em nenhuma é possível perceber tal disciplina ao longo de sua existência, apesar do tema HEF circular em várias das bibliografias utilizadas por seus professores ao longo do mesmo período. Isso me instigou ainda mais em me debruçar sobre os referenciais franceses do Histórico... dada a constatação de que a disciplina História da Educação Física seria uma prática brasileira, apesar da utilização de todos os referenciais franceses. Apesar de ser uma compilação de textos, o compêndio foi organizado para se constituir enquanto matéria de ensino, algo aparentemente não realizado pela École de Joinville que influencia a constituição curricular do CMEF. 261 Entre os meses de março a junho me dediquei à leitura, catalogação, transcrição e traduções das obras relativas aos referenciais do Histórico... e da École Normale de Gymnastique et Escrime na BnF. Tableau 01 - References Bibliographiques françaises du compendium Historique de l'Éducation Physique Auteur Œuvre Chapitre d’histoire Paz, Eugène (1835-1901) Gallica et acheté La santé de l'esprit et du corps par la gymnastique Publication : Paris : Librairie du Petit journal, 1865 Description matérielle : 1 vol. (140 p.) ; in-16 Notice n° : FRBNF31070976 Chapitre IV – la gymnastique chez les Grecs Chapitre V – La gymnastique chez les Romains Chapitre VI – La gymnastique au moyen-age Chapitre VII – La gymnastique moderne em France Paz, Eugène (1835-1901) Microfiche Transcrit et imprimé La Gymnastique obligatoire Publication : Paris : L. Hachette, 1868 Description matérielle : In-16, 127 p. Note(s) : La couverture imprimée porte : "3e édition" Notice n° : FRBNF31070969 Chapitre V - La Gymanastique a l’étranger Chapitre VI – La gymnastique en France Dubech, Lucien (1881-1940) 1930 Microfiche Transcrit et imprimé Où va le sport ? Publication : Paris, Impr. "Pascal", 13, rue Pascal ; Alexis Redier, éditeur, 1930. (13 novembre 1931.) In-16, 228 p. 12 fr. [1250] Notice n° : FRBNF32046714 Chapitre I a XV - Tout l’ouvre c’est un histoire du sport Pindare (0518-0438 av. J.-C.) Gallica Traduction complète de Pindare, par C. Poyard, Publication : Paris : Impr. impériale, 1853 Description matérielle : In-8° , VI-265 p. Notice n° : FRBNF31114200 Toute l'oeuvre du classicisme grec et olimpíadas grecques – poésies Amoros, Francisco (1770- 1848) Texte imprime et acheté Manuel d'éducation physique, gymnastique et morale Publication : Paris : Éd. "Revue EPS", 1998 Impression : Paris : Impr. Jouve Description matérielle : 2 vol. (488, 528 p.) ; 15 cm Aucune mention de l’histoire 262 Lefébure, C. (Colonel) 1908 Photographié et acheté L'Éducation physique en Suède Publication : Bruxelles : Office de publicité, 1908 Description matérielle : In-4° , XXII-284 p., fig. Notice n° : FRBNF30771518 Première Partie Chapitre premier – Les origins de la gymastique pedagogique suedoise Annexe III Conception d’education physique chez les Grecs de l’antiquité classique Lefébure, C. (Colonel) 1914 Photographié Méthode de gymnastique éducative suédoise, cours professé à l'École normale de gymnastique et d'escrime. Publication : Bruxelles : J. Lebègue, 1914 Description matérielle : In-8° , XX-218 p., tabl. et appendices, fig. Notice n° : FRBNF30771519 Aucune mention de l’histoire Tissié, Philippe (1852-1935) 1919 Microfiche Transcrit et imprimé L'Éducation physique et la race : santé, travail, longévité Publication : Paris : E. Flammarion, 1919 Description matérielle : In-16, 336 p., fig. Note(s) : Bibliothèque de philosophie scientifique Notice n° : FRBNF31473535 Premier auteur de nier l'antiquité grecque comme une source d'inspiration du modèle Livre III – L’espirit Clinique en Éducation Physique Chapitre premier – L’evolution de l’idée physique en France (cent ans d’erreur) Chapitre II – Des causes d’erreur et de retard em Éducation physique Chapitre III – Une oeuvre de vie nationale (1888-1918) Boigey, Maurice (1877-1952) Photographié et acheté Manuel scientifique d'éducation physique Publication : Corbeil, impr. Crété ; Paris, Payot et Cie, 106, boulevard Saint- Germain, 1923. In-8, 646 p. 25 fr. [7349] Notice n° : FRBNF31834298 Édition 1923 (photo) Preface (p.19) Historique de l’Education Physique (p.27) Édition 1939 (acheté) Aucune mention à l’histoire Boigey, Maurice (1877-1952) Microfiche Transcrit et acheté Physiologie de la culture physique et des sports Publication : Clichy (Seine), impr. Paul Dupont ; Paris, Albin Michel, éditeur, 22, rue Huyghens, 1927. (2 juin.) In-16, 383 p. 15 fr. [7768] Notice n° : FRBNF31834304 Preface (p.07,08) Chapitre premier – Histoite de la culture Physique (p.09 a 57) 263 Hébert, Georges (1875-1957) Gallica Guide pratique d'éducation physique. Jeunes classes Publication : Paris : impr. nationale, 1918 Description matérielle : 107 p. ; in-16 Note(s) : Ministère de la guerre. Direction de l'infanterie Notice n° : FRBNF43621381 Aucune mention a l’histoire Demenÿ, Georges (1850- 1917) Photographié et imprimé Sur l'Évolution de l'éducation physique en France Publication : Paris : publications du journal "le Gymnaste", (s. d.) Description matérielle : In-8° , 18 p. 1900 Note(s) : Extrait de la "Revue scientifique" Notice n° : FRBNF30321620 Tout le livre pag 01 a 17 Messerli, Francis (Dr) 1916 Gallica Histoire générale de la culture physique et de la gymnastique médicale. Publication : Lausanne : T. Sack, 1916 Description matérielle : In-16, 118 p. Notice n° : FRBNF30934041 Tout le livre publiée sous le patronage de l'Académie des sports et du Comité national des sports C.O.F.1924 photographié Encyclopédie des sports Publication : Paris : impr. Villain et Bar, 22, rue Dussoubs : Libr. de France, 110, boulevard Saint-Germain, 1924. (31 janvier 1927.) Description matérielle : In-4, XII-492 p. avec illustrations et planches en noir et en couleur. [3548] Notice n° : FRBNF33366336 Histoire de l’escrime Boigey, Maurice (1877-1952) photographié Conférences faites à l'école normale de gymnastique et d'escrime de Joinville-le- Pont Publication : Paris, impr. de L. Fournier, (s. d.) In-16, 24 p. Notice n° : FRBNF31834283 Aucune mention a l’histoire Labbé, Marcel (1870-1939) Transcrit et imprimé Traité d'éducation physique Publication : Corbeil, impr. Crété ; Paris, Gaston Doin et Cie, éditeurs, 1930. (24 mai.) 2 vol. in-8. T. 1, XII-580 p. ; t. 2, Preface Avant propôs – p.05 a 09 Historique de l’Education Physique – p. 09 a 67 264 637 p. Les deux volumes, 200 fr. [6875] Notice n° : FRBNF32332042 Mosso, Angelo (1846-1910) Imprimé L'Éducation physique de la jeunesse Publication : Paris : F. Alcan, 1895 Description matérielle : In-12, XLIII- 260 p. Autre(s) auteur(s) : Bahar, J.-B.. Traducteur Legros, Victor (Commandant). Préfacier Notice n° : FRBNF30986132 Chapitre V – L’Evolution de la Gymanstique – p.87 a 132 Peladan, Joséphin (1859- 1918) photographié L'Athlétie et la statuaire antiques Publication : Paris : E. Sansot et Cie, s. d. Description matérielle : In-16 (16 cm), 100 p. [Acq. 1066-65] Note(s) : Circa 1913 Notice n° : FRBNF33131410 Histoire classique – Tout le livre Demenÿ, Georges (1850- 1917) Transcrit et imprimé Essai d'une méthode positive d'éducation physique Publication : Paris : H. Paulin, (s. d.) Description matérielle : In-8° , 27 p. Note(s) : Extrait de l'"Éducation moderne" Notice n° : FRBNF30321606 Aucune mention a l’histoire Demenÿ, Georges (1850- 1917) L'Éducation physique en Suède Publication : Paris : Société d'éditions scientifiques, 1901. 2e éd. Description matérielle : In-12, 109 p., pl., tableau Notice n° : FRBNF30321605 Regarder Lefebure Coste, Émile (Colonel) Imprimé L'Oeuvre de Joinville Publication : Paris, H. Charles- Lavauzelle, (1909). In-16, 192 p. Note(s) : Gymnastique Notice n° : FRBNF31971848 Tout le livre Hébert, Georges (1875-1957) Acheté L'Éducation physique, où l'entraînement complet par la méthode naturelle, exposé et resultants Publication : Paris : Vuibert, 1917. 3e éd. Description matérielle : In-8° , 158 p., Aucune mention a l’histoire 265 pl. Notice n° : FRBNF30584723 Hébert, Georges (1875-1957) Acheté Le Code de la force. La force physique, ses éléments constitutifs et sa mesure pratique Publication : Paris : Vuibert, 1916 Description matérielle : In-16, XX-123 p., couv. ill. Notice n° : FRBNF30584719 Aucune mention a l’histoire Das 24 obras catalogadas, copiadas e transcritas, apenas duas tem a História da Educação Física como temática central: Sur l'Évolution de l'éducation physique en France de Georges Demenÿ, publicada em 1900 e Histoire générale de la culture physique et de la gymnastique médicale do Dr. Francis Messerli, publicada em 1916. As demais obras, apesar de não terem a História como temática central ora apresentam um capítulo, ora não apresentam nenhuma menção à História, seja essa Clássica Grega, da Ginástica, do Esporte ou da Esgrima. Outros livros relativos à École Normale de Gymnastique et escrime de Joiville-le- Pont também foram catalogados, impressos, comprados e transcritos. Tal bibliografia que também se apresenta em parte no quadro acima é de fundamental importância para tratar da relação dessa instituição e de seu currículo como influenciador do CMEF no Brasil. Acredito que uma análise mais detalhada das duas obras supracitadas e a escolha de alguns capítulos sobre História da Educação Física presentes nas demais obras catalogadas podem contribuir para o entendimento do significado do funcionamento da História tanto em relação ao Histórico da Educação Física publicado no Brasil em 1929. O mesmo também pode ajudar a responder porquês de sua presença na escrita da História da Educação Física, mais especificamente em relação à disciplina brasileira elaborada para a formação de seus professores. O levantamento mais detalhado dos temas presentes nas mesmas, os conceitos de história e as escolhas dos autores do Histórico... precisam de maior refinamento para análise. O GHDSO e seus diálogos com a história das ciências e a história da educação ajudou a observar que a ciência “natural e biológica” de que falam os médicos e professores do século XIX e XX nas bibliografias coletadas, acompanham os discursos e práticas científicas da Educação Física. Um olhar inicial sobre as fontes é possível perceber que escrever a História Clássica, dos Métodos Ginásticos e de seus precursores era importante para justificar tais “práticas científicas”. A História nesse caso parece preceder e servir como explicação dos métodos e práticas ginásticas presentes nas bibliografias. Para além de explicativa, a mesma 266 parece conferir autoridade ao discurso científico. O corpo que deveria ser construído com a prática da ginástica, da esgrima e do esporte precisava do discurso legitimador e formador da História. A História da Educação Física acompanhando a própria constituição da História não nasce de uma tradição científica, mas uma de suas funções para a Educação Física aparenta ser a justificativa da escrita científica. Essa é uma hipótese já esboçada no texto de qualificação da tese, mas reforçada a partir do estágio doutoral. Tal argumento está sendo melhor desenvolvido a partir da análise das obras coletadas no Catalogue General da BnF. Nesse sentido, a História da Educação Física encontrada nos diversos capítulos de livros se apresenta como uma forma de enaltecer seus precursores e justificar as escolhas da constituição de práticas científicas para um corpo biológico. O protagonismo da maioria das obras parece não ser da história, mas das práticas e da construção de um corpo biologicamente melhor e do método ginástico mais adequado para o período. Apesar disso, é preciso um aprofundamento em tais conceitos e uma análise mais detalhada da presença das duas obras que tem a HEF como temática central para melhor avaliar o argumento acima. 267 ACTIVITÉS REALISÉES AU LONG DU SÉJOUR 268 268 Mois Activités Lieu Décember Arrivée à Paris Orientation/Rendez-vous avec Professeur Renaud D’Enfert Présentation de la proposition du stage Janvier Recherche sur les bases donnés françaises: Le site CAIRN (bouquet de revues): http://www.cairn.info/ Le bouquet biblio SHS: http://biblioshs.inist.fr/ Le catalogue de la Bibliothèque Nationale de France: http://catalogue.bnf.fr/jsp/recherchemots_simple.jsp?nouvelleRecherche=O&nouv eaute=O&host=catalogue Le catalogue Sudoc Système Universitaire de Documentation: http://www.sudoc.abes.fr/ Le Service historique de la défense: http://www.servicehistorique.sga.defense.gouv.fr/ Les ressources de l'ex-Service d'histoire de l'éducation: http://rhe.ish-lyon.cnrs.fr/ Cité Universitaire et BnF Séminaire: Histoire Du Corps, Objets, Méthodes Thierry PILLON, professeur à l'Université de Rouen Georges VIGARELLO, directeur d'études à l'EHESS École de Hautes Études en Sciences Sociales 269 269 Séminaire: Enfance, éducation, genre et société, XIXe-XXIe siècles Jean-Noël Luc, Professeur Université Paris –Sorbonne Université Paris –Sorbonne Séminaire: Séminaire Franco-Brésilien sur l'histoire de l'enseignement primaire Université Paris VII Diderot Séminaire: "L'offre locale d'enseignement scientifique et technique GHDSO – Groupe d’Histoire et Diffusion des Sciences d’Orsay Université Paris XI Orsay Février Travail avec les bases de données; “Catalogue Sudoc” et le “Catalogue de la Bibliothèque Nationale Française (BnF) Bibliothètque Nationale Française - BnF Séminaire: Histoire Du Corps, Objets, Méthodes Thierry PILLON, professeur à l'Université de Rouen Georges VIGARELLO, directeur d'études à l'EHESS École de Hautes Études en Sciences Sociales Séminaire: Enfance, éducation, genre et société, XIXe-XXIe siècles Jean-Noël Luc, Professeur Université Paris –Sorbonne Université Paris –Sorbonne Séminaire: Séminaire des doctorantes et doctorants du GHDSO Groupe d’Histoire et Diffusion des Sciences d’Orsay Université Paris XI Orsay 270 270 Mars Séminaire: Enfance, éducation, genre et société, XIXe-XXIe siècles Jean-Noël Luc, Professeur Université Paris –Sorbonne Université Paris –Sorbonne Cours: Histoire connectée des sociétés de cour Sanjay Subrahmanyam, Professeur d'Histoire à l'Université de Californie (Los Angeles) Professeur invité du College de France 2014-2015 Collège de France Séminaire: "L'offre locale d'enseignement scientifique et technique GHDSO – Groupe d’Histoire et Diffusion des Sciences d’Orsay Université Paris XI Orsay Travail avec les sources de la BnF – Lecture et traduction des livres françaises qui sont references bibliographies de le premier Compendium d’Histoire d’Education Physique au Brèsil a 1929. Bibliothètque Nationale Française - BnF CMA – Cours Municipaux d’Adults - Langue Française - Mairie de Paris Niveau B1.1- 90h École Maternelle de la Porte d’Ivry Avril Séminaire: Enfance, éducation, genre et société, XIXe-XXIe siècles Jean-Noël Luc, Professeur Université Paris –Sorbonne Université Paris –Sorbonne Séminaire: "L'offre locale d'enseignement scientifique et technique GHDSO – Groupe d’Histoire et Diffusion des Sciences d’Orsay Université Paris XI Orsay 271 271 Séminaire: Séminaire des doctorantes et doctorants du GHDSO Groupe d’Histoire et Diffusion des Sciences d’Orsay Université Paris XI Orsay Travail avec les sources de la BnF – Lecture et traduction des livres françaises qui sont references bibliographies de le premier Compendium d’Histoire d’Education Physique au Brèsil a 1929. Bibliothètque Nationale Française - BnF CMA – Cours Municipaux d’Adults - Langue Française - Mairie de Paris Niveau B1.1- 90h École Maternelle de la Porte d’Ivry Mai Travail avec les sources de la BnF – Lecture et traduction des livres françaises qui sont references bibliographies de le premier Compendium d’Histoire d’Education Physique au Brèsil a 1929. Bibliothètque Nationale Française - BnF Séminaire: "L'offre locale d'enseignement scientifique et technique GHDSO – Groupe d’Histoire et Diffusion des Sciences d’Orsay Université Paris XI Orsay Séminaire: La longue durée, à la loupe M. Carlo GINZBURG, Professeur à l'École Normale supérieure de Pise(Italie) Collège de France CMA – Cours Municipaux d’Adults - Langue Française - Mairie de Paris Niveau B1.1- 90h École Maternelle de la Porte d’Ivry 272 272 Juin Travail avec les sources de la BnF – Lecture et traduction des livres françaises qui sont references bibliographies de le premier Compendium d’Histoire d’Education Physique au Brèsil a 1929. Bibliothètque Nationale Française - BnF CMA – Cours Municipaux d’Adults - Langue Française - Mairie de Paris Niveau B1.1- 90h École Maternelle de la Porte d’Ivry Juillet Travail avec les sources de la BnF – Lecture et traduction des livres françaises qui sont references bibliographies de le premier Compendium d’Histoire d’Education Physique au Brèsil a 1929. Bibliothètque Nationale Française - BnF Construction du rapport final du stage