1
Aparecida de Araújo Oliveira
Relações semântico-cognitivas no uso da preposição ‘em’
no português do Brasil
Belo Horizonte
FALE - UFMG
Programa de Pós-Graduação em Estudos Lingüísticos
2009
2
Aparecida de Araújo Oliveira
Relações semântico-cognitivas no uso da preposição ‘em’ no
português do Brasil
Pesquisa apresentada à Banca de Defesa de Tese no
Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos da
Faculdade de Letras de Universidade Federal de Minas
Gerais.
Área de Concentração: Linguística
Linha de Pesquisa: Estudos da Inter-relação entre
Linguagem, Cognição e Cultura.
Nível: Doutorado
Orientadora: Dra. Heliana Ribeiro Mello (UFMG)
Belo Horizonte
FALE-UFMG
2009
3
4
Ao Baiano e à Marta
À Carminha, à Gracinha, À Lucinha e ao Leninho
Ao Hebert, À Olívia e à Jackie
5
Agradecimentos
Meus mais sinceros agradecimentos ...
À minha orientadora, Professora Doutora Heliana Ribeiro Mello, por sua confiança e por
ter me proporcionado esta rica experiência de aprendizagem e crescimento acadêmico e de
amizade, que já caminha para uma década e que espero que continue por outras mais.
Ao Professor Augusto Soares da Silva, da Universidade Católica Portuguesa, por seus
ensinamentos, críticas e incentivo durante o período que me recebeu para doutorado
sanduíche naquela instituição e pela amizade que tem me demonstrado desde então.
Aos membros da Banca de Defesa de Tese, Professora Margarida Salomão, Professora Ana
Paula Rocha, Professor Mário Perini e Professor Luiz Francisco Dias, por suas importantes
contribuições para o enriquecimento desta pesquisa e pela oportunidade que me
concederam para uma enriquecedora discussão teórica.
A todos os professores e funcionários do Programa de Pós-graduação da Universidade
Federal de Minas Gerais.
À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – FAPEMIG – e à
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior – CAPES, pelas bolsas que
me concederam em períodos diferentes do curso de doutorado.
Aos alunos do curso de psicologia da FUNEDI-UEMG, de Divinópolis-MG, que foram
voluntários no experimento psicolinguístico, e ao meu grande Amigo, Maurício Faria,
professor daquela instituição, que intermediou esse contato.
Aos alunos dos cursos de Agronomia e Administração de empresas, da Universidade
Federal de Viçosa, do campus Rio Paranaíba, que também participaram como voluntários
nesta pesquisa e à Professora Fernanda Alcântara, atualmente na UFV sede, que me
incentivou nessa empreitada junto a esses alunos.
Ao amigo, Professor Pedro Ivo Vieira Good God, da UFV, por sua generosidade imensa e
por suas soluções práticas e teóricas a respeito dos métodos estatísticos empregados nesta
pesquisa.
Ao Professor Alan Jardel e a André Luiz de Souza, que colaboraram comigo nas primeiras
experiências com programas estatísticos.
À Professora Hanna Batoreu, da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa, por suas
intervenções com relação aos usos espaciais de preposições.
6
Ao Professor Anathol Stephanovisch, da Universidade de Bremen, por seus comentários
sobre a construção de um corpus delimitado.
Ao Professor Stephan Gries, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, por suas
sugestões para o experimento psicolinguístico.
A Jackeline de Oliveira Souza e a Bruno Luiz Soares por sua indispensável ajuda na
limpeza dos textos em HTML e na transcrição das entrevistas.
Um agradecimento caloroso a Rosália, Maria Marlene, Ângela, Roseni, Maria Ângela,
Marilene, Cirene, Flávia, Fernanda, por me fazerem acreditar em meus objetivos e por me
ajudarem a lidar com as perdas pelo caminho.
A esses e a toda minha família querida, que nunca desistiram de mim, mesmo eu
praticamente os tendo abandonado durante esses anos de estudo.
A todos que eu não menciono aqui, por puro cansaço da memória, mas que estiveram
comigo, apoiando e cuidando, ora mais visíveis, ora menos, mas sempre lá.
E obrigada a Quem cuidou de pôr toda essa gente no meu caminho e me ensinou que, assim
como a maioria das coisas na vida, uma tese não se escreve sozinha.
7
Resumo
O interesse na semântica de preposições por linguistas cognitivos tem propiciado uma
rica literatura sobre modelos de rede de polissemia, baseados no conceito de categorias
prototípicas. Apesar de sua reconhecida coerência, esses modelos deram origem a críticas não
apenas quanto à sua diversidade, mas, em particular, no que concerne a sua presumida natureza
cognitiva (SANDRA & RICE, 1995 e CROFT, 1998), notadamente o grau de compatibilidade
entre a visão do pesquisador e a do falante leigo. Inspirada por este último questionamento, esta
tese apresenta uma análise semântico-cognitiva da polissemia da preposição em do português do
Brasil, utilizando dois métodos empíricos: uma análise introspectiva baseada em um corpus de
1,2 milhão de palavras de textos jornalísticos e um experimento psicolinguístico com
universitários não-treinados, falantes nativos do português do Brasil. Para explicar a polissemia
dessa preposição, adotou-se especialmente o modelo teórico de linguagem baseado no uso e a
noção de conceitualização (LANGACKER, 1987), a proposta da linguagem corporificada, em
especial, esquemas imagéticos (JOHNSON, 1987), a noção de metáforas conceituais (LAKOFF
& JOHNSON, 1980), a semântica de classes fechadas (TALMY, 2000) e funções relacionais
envolvidas na semântica de preposições espaciais (VANDELOISE, 1991). O estudo explorou o
aspecto cognitivo da proposta teórica em duas etapas: primeiramente, buscou-se explorar os
processos cognitivos envolvidos na interpretação de usos sincrônicos da preposição e na ligação
entre os mesmos, seguindo o modelo de rede esquemática (LANGACKER, 2008, 1987), que
prevê relações de esquematização/instanciação e de sancionamento por extensão. A análise de
2813 ocorrências no corpus revelou dois sentidos esquemáticos para a preposição em, derivados
do esquema imagético de contentor: localização e especificação. O primeiro é instanciado em
vinte e duas categorias e subcategorias, que representam 86,78% dos usos, sendo oito
pertencentes ao domínio espacial, três, ao temporal, e onze a outros domínios concretos e
abstratos. O segundo aparece elaborado em nove subcategorias de especificação diversa, também
de domínios concretos e abstratos, que emergem de efeitos funcionais de controle e de suporte. A
maior parte da variação em contextos espaciais pôde ser explicada pela perspectivação conceitual
e pela relação funcional Contentor/objeto contido. Os demais usos foram interpretados por meio
de processos metafóricos e metonímicos. Na segunda etapa da pesquisa, 48 frases representando
categorias obtidas na análise do corpus foram submetidas à avaliação de falantes não-treinados
para serem agrupados por semelhança percebida. Cada informante também participou de uma
entrevista após a tarefa de classificação, na qual descreveu as estratégias empregadas na sua
execução. Utilizando os métodos estatísticos de hierarquia de agrupamentos e Tocher, de análise
multidimensional, verificou-se um isomorfismo fraco entre a rede proposta pela pesquisadora e a
avaliação dos participantes. Eles perceberam a estrutura relacional da rede e identificaram
algumas das categorias menores previstas na análise de corpus, em um total de sete conjuntos de
usos. A estrutura relacional da rede se manifesta, por exemplo, na associação de usos locativos e
não-locativos em um grupo maior de usos metafóricos, de usos espaciais e não-espaciais em um
grupo de localização e vários tipos de especificação (forma, cor, material, especificação abstrata)
em uma categoria única mais ampla. Além disso, os sujeitos formaram grupos grandes e
pequenos com diferentes índices de coesão interna, o que confirma a granularidade característica
dessas redes, ainda que em menor escala, e a coerência das ligações entre as categorias
semânticas.
Palavras chave: semântica cognitiva – preposição em – rede esquemática de polissemia –
perspectivação conceitual – relações funcionais – esquemas imagéticos – metáfora – metonímia –
metodologia empírica
8
Abstract
The great interest in the semantics of prepositions by cognitive linguists has allowed for
the emergence of a wealth of network models of polysemy based on prototype theory. Despite
their acknowledged coherence, these models have given rise to criticism on both their diversity
and, particularly, the presumed cognitive nature of these explanations (SANDRA & RICE, 1995
e CROFT, 1998), notably the degree of compatibility between the linguist’s view and that of the
non-informed native speaker. Inspired by the latter, in this dissertation we present a semantic
description of the polysemy of the Brazilian-Portuguese preposition em, by using two empirical
methods: introspective analysis of a 1.2-million-word corpus of journalistic texts and a
psycholinguistic experiment involving untrained university undergraduates, all native speakers of
Brazilian Portuguese. In order to explain the polysemy of this preposition, we adopted Ronald
Langacker’s (1987) usage-based model of language and his concept of construal, Mark Johnson’s
(1987) proposal of embodied cognition, mainly, his ideas about image schemata, George Lakoff
& Mark Johnson’s (1980) theory of conceptual metaphor, Leonard Talmy’s (2000) closed-class
semantics, and Claude Vandeloise’s (1991) study of functional relations as determinants of the
meaning of spatial prepositions. The cognitive aspect of this theoretical approach was attained in
two complementary stages: firstly, by following Langacker’s model of schematic network, we
explored the cognitive processes involved in the interpretation of synchronic uses of the
preposition, and those responsible for the coherent links obtained between them. This model
consists of a structure containing sanctioning and schema/instance relations between the uses.
The analysis of 2813 samples from the corpus revealed two highly schematic senses for the
preposition em, derived from the CONTAINER schema: location and specification. The first is
elaborated in twenty-two categories and subcategories, representing 86.78% of the uses, eight of
them belonging to space domain, three, to time domain, and the remaining eleven, to various
other concrete and abstract domains. As a result of the functional effects of control and support,
nine categories were found to instantiate the latter sense of specification, also in various concrete
and abstract domains. Most of the variation obtained in spatial contexts could be explained by
construal effects and the Container/contained functional relation. Other uses were interpreted as
emerging from metaphorical and metonymic processes. In the second stage of the research,
thirty-two subjects were involved in a sorting task, in which they should group forty-eight
sentences representing categories obtained in the previous analysis, by using a similarity
criterion. This task was followed by individual interviews, in which subjects explained the
strategies they used to complete the task. Statistical methods of cluster hierarchy and Tocher
multidimensional analysis revealed a weak isomorphism between the network proposed by the
researcher and the informants’ evaluation, i.e., they perceived its relational structure and
distinguished some of the categories predicted from the corpus analysis, producing seven sets of
uses. The relational structure of the network could be seen, for instance, in the association of
locative and non-locative uses in a large group of metaphorical uses, of spatial and non-spatial
uses in a schematic location category, and of various types of specification (shape, color,
material, abstract specification) in a single larger set. Besides, subjects formed large and small
groups with differing levels of internal cohesion, which corroborates the typical granularity of
these networks, even if obtained on a smaller scale, and the coherent relations between the
semantic categories.
Key-words: cognitive semantics – Portuguese preposition em – schematic polysemy network –
construal – functional relations – image schema – metaphor – metonymy – empirical methods
9
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO................................................................................................ 6
1.1. Objeto de estudo e problematização................................................................. 6
1.2. Objetivos............................................................................................................ 12
1.3. Justificando a pesquisa....................................................................................... 13
1.4. Resumo do capítulo e organização do texto...................................................... 18
PARTE I – DISCUSSÃO TEÓRICA 21
2. SEMÂNTICA E COGNIÇÃO....................................................................... 21
2.1. Corporeidade e cognição................................................................................... 22
2.1.1. Capacidades cognitivas a serviço da linguagem............................................... 23
2.1.1.1. A Simbolização e o sistema lingüístico............................................................. 23
2.1.1.2. Esquematização................................................................................................. 25
2.1.1.3. Comparação....................................................................................................... 29
2.1.1.4. Categorização..................................................................................................... 31
2.2. Conceitualização e linguagem........................................................................... 34
2.2.1. Definindo a categoria 'preposição'..................................................................... 36
2.3. Comentários finais sobre o capítulo................................................................... 40
3. COGNIÇÃO ESPACIAL E A LINGUAGEM.............................................. 41
3.1. Conceitos topológics e geométricos e a semântica das preposições.................. 44
3.2. O conceito de ‘localização’............................................................................... 48
3.3. Limites no emprego de em como ‘localização’................................................ 50
3.4. Assimetria conceitual na relação trajetor-marco............................................... 52
3.5. Efeitos funcionais envolvidos na construção de cenas espaciais....................... 55
3.6. Comentários finais sobre o capítulo................................................................... 61
10
4. POLISSEMIA E COGNIÇÃO....................................................................... 63
4.1. Rede de polissemia............................................................................................ 64
4.2. O surgimento de um novo uso........................................................................... 67
4.2.1. Esquemas imagéticos e extensões de sentido.................................................... 68
4.2.2. Metáforas conceituais e polissemia................................................................... 71
4.2.3. Metonímia e a polissemia.................................................................................. 74
4.3. Comentários finais sobre o capítulo.................................................................. 77
PARTE II – ASPECTOS METODOLÓGICOS E ANÁLISES 78
5. METODOLOGIA – FASE I - Pesquisa de corpora.................................. 80
5.1. Definindo a população...................................................................................... 80
5.2. Coleta e preparação dos dados.......................................................................... 81
5.3. Organização hierárquica do corpus.................................................................. 82
5.4. Listagem dos usos............................................................................................. 84
5.5. Procedimentos de análise................................................................................... 86
5.5.1. Critérios para distinção entre usos..................................................................... 87
5.5.3. Metodologia para determinação dos esquemas sancionadores.......................... 89
5.5.4. Sentidos esquemáticos....................................................................................... 90
5.6. Comentários finais sobre o capítulo................................................................... 90
6. ANÁLISE DE OCORRÊNCIAS DO CORPUS............................................ 92
6.1. Usos espaciais de em.......................................................................................... 94
6.1.1. Inclusão.............................................................................................................. 94
6.1.1.1. Inclusão em um meio......................................................................................... 97
6.1.1.2 Inclusão de um trajetor vazio em um meio........................................................ 98
6.1.2. Localização simples ou inespecífica.................................................................. 100
6.1.3. Contato.............................................................................................................. 102
6.1.4. Proximidade/adjacência..................................................................................... 108
6.1.5. Localização pontual........................................................................................... 109
6.1.6. Localização no alvo de um movimento............................................................. 110
6.2. Localização no tempo........................................................................................ 114
6.2.1. Localização no interior de um intervalo de tempo............................................ 115
6.2.2. Localização em um marco pontual no tempo.................................................... 117
11
6.2.3. Localização no final de um intervalo de tempo................................................. 118
6.3. Localização em outros domínios....................................................................... 119
6.3.1. Localização metafórica não-específica.............................................................. 120
6.3.2. Localização em grupos...................................................................................... 122
6.3.3. Atividades e eventos......................................................................................... 123
6.3.4. Estados e situações............................................................................................ 126
6.3.5. Palavras como contentores................................................................................. 128
6.3.6. Mudanças........................................................................................................... 129
6.3.7. Alvo movimento metafórico.............................................................................. 132
6.3.8. Alvo paciente de ação metafórica...................................................................... 133
6.3.9. Finalidade.......................................................................................................... 134
6.3.10. Alvo de atividade cognitiva............................................................................... 134
6.4. Afastamento do conceito de localização........................................................... 136
6.4.1. Especificação..................................................................................................... 137
6.4.2. Forma................................................................................................................. 138
6.4.3. Meio ou instrumento.......................................................................................... 142
6.4.4. Material.............................................................................................................. 143
6.4.5. Cor..................................................................................................................... 144
6.4.5. Suporte metafórico............................................................................................ 145
6.5. Conclusão da análise de corpus......................................................................... 146
7. METODOLOGIA – FASE II - VERIFICANDO O STATUS
COGNITIVO DA REDE................................................................................
151
7.1. O experimento psicolingüístico......................................................................... 155
7.1.1. Objetivos, lógica e hipóteses............................................................................. 155
7.1.2. Participantes e método....................................................................................... 156
7.1.3. Sobre o conteúdo das frases.............................................................................. 158
7.1.4. Tratamento dos dados....................................................................................... 158
8. EXPERIMENTO – RESULTADOS E DISCUSSÃO................................... 162
8.1. Análise............................................................................................................... 162
8.1.1. A coerência das categorizações......................................................................... 162
8.1.2. Níveis de granularidade..................................................................................... 167
8.1.3. A estrutura relacional......................................................................................... 170
8.2. Comparação com o modelo de rede proposto.................................................... 173
12
8.3. Comentários finais sobre o capítulo................................................................... 174
9. CONSIDERAÇÕES FINAIS E HORIZONTES DE PESQUISA.............. 176
Referências....................................................................................................... 179
Anexo I – Ocorrências no corpus...................................................................... 188
Anexo II – Acordo de participação.................................................................... 304
Anexo III - Classificação das frases empregadas no experimento
psicolingüístico..................................................................................................
305
Notas de fim.......................................................................................................
308
13
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1: Esquema imagético: movimento para o interior de um CONTENTOR................. 27
Figura 2: Esquema imagético de CONTATO........................................................................ 28
Figura 3: Estrutura semântica de uma preposição.................................................................. 38
Figura 4: Há um canudo no copo........................................................................................... 51
Figura 5: Tinha o olhar no copo............................................................................................. 51
Figura 6: A água está fora/perto do copo.............................................................................. 51
Figura 7: O princípio gestáltico da alternância entre figura e fundo..................................... 52
Figura 8: O contexto como referência para a figura.............................................................. 54
Figura 9: Inclusão parcial....................................................................................................... 58
Figura 10: Elemento funcional percebido na relação de ‘contenção’...................................... 59
Figura 11: A pêra está sob a/debaixo da queijeira................................................................... 59
Figura 12: Uma lâmpada ou uma garrafa?.............................................................................. 60
Figura 13: Rede esquemática.................................................................................................. 66
Figura 14: Sancionamento de um novo uso............................................................................. 68
Figura 15: Completamento do marco na conceitualização...................................................... 99
Figura 16: Rede esquemática de usos espaciais e metafóricos da preposição em................... 150
Figura 17: Instruções dadas aos participantes do experimento............................................... 157
Figura 18: Dendograma produzido Método Ward de agrupamento, dos níveis de
semelhança atribuídos a diversos usos de em.......................................................
164
Figura 19: Representação 3D dos grupos de frases formados pelo método de otimização
Tocher.....................................................................................................................
172
Tabela 1: Assimetria no alinhamento trajetor-marco............................................................. 53
Tabela 2: Estrutura temática do córpus, com a contagem de palavras por fonte................... 83
Tabela 3: Frequência de em e suas variantes formais no córpus........................................... 85
Tabela 4: Categorias semânticas obtidas no córpus e respectivas frequências de ocorrência 93
Tabela 5: Formação dos agrupamentos pelo método Tocher................................................. 166
Tabela 6: Classificação das frases empregadas no experimento psicolinguístico.................. 305
6
1. INTRODUÇÃO
1.1. Objeto de estudo e problematização
A pesquisa cujo relato ora se inicia emerge do interesse amplo em se conhecerem as bases
cognitivas que motivam a semântica de preposições em geral e de um interesse particular
na semântica daquelas de sentido mais abstrato1, como em do português contemporâneo do
Brasil (ou simplesmente português do Brasil). Mais especificamente, buscam-se os
significados de relações evocadas por essa preposição e as possíveis conexões entre tais
significados. Tendo como referência teórica a Semântica Cognitiva, considera-se que a
estrutura semântica de palavras como em pode ser descrita como uma rede polissêmica,
com sentidos esquemáticos e prototípicos (LANGACKER, 1987, 1991), da qual fazem
parte usos nos domínios espacial, da percepção sensorial e abstratos, tais como o tempo e
os estados emocionais, entre outros. Argumenta-se que tanto os usos em domínios
conceituais variados quanto as interligações entre eles são cognitivamente motivados.
Como palavras relacionais (ver seção 2.2.1), as preposições possuem, em sua
estrutura semântica, informações esquemáticas sobre os elementos que elas relacionam,
usualmente sintagmas nominais ou formas nominalizadas, que aqui se denominam trajetor
e marco. Além disso, a semântica das preposições comporta uma relação específica, que
pode ser um esquema, isto é, um padrão abstrato contendo noções topológicas, geométricas
ou, bem menos comumente, sobre formas de movimentos ou de regiões. Comparada a
outros integrantes da categoria, a preposição em é particularmente abundante no português
1
O adjetivo “abstrato” é empregado com duas acepções distintas nesta tese: (1) um sentido abstrato é
entendido como um padrão semântico obtido pela abstração de características mais gerais, comuns a vários
usos; (2) considera-se abstrato tudo aquilo que contrasta com a experiência concreta.
7
do Brasil e frequentemente evoca um conteúdo convencionalizado muito abstrato, qual seja
uma vaga noção [topológica] de ‘localização’ (por exemplo, NEVES, 2000. p. 670-80),
embora esse sentido não se aplique a todos os usos dessa palavra.
Praticamente toda a especificidade da estrutura semântica de em resulta do
contexto, isto é, das possíveis conceitualizações que emergem do domínio em que a cena se
realiza e que é evocado por outras palavras colocadas com a preposição. Na elaboração do
significado, o contexto – com suas dimensões física, cultural, social e linguística
(LANGACKER, 2008. p. 464) determina os aspectos mais salientes “do domínio não-
discreto de aplicação semântica” (SILVA, 2006. p. 80) da preposição. A especificação a
que se refere aqui engloba esquemas conceituais abstraídos de configurações espaciais, os
quais incluem propriedades geométricas de entidades, efeitos funcionais da configuração
espacial (VANDELOISE, 1991) e a designação de uma zona ativa (LANGACKER, 1987.
p. 271-4).
Vandeloise (1991. p. 217 e 227-8), que adota uma posição monossemista com
relação à semântica das preposições espaciais, postula que noções geométricas e mesmo
topológicas não são suficientes para descrever o sentido desses itens linguísticos. Para
explicar as possibilidades e limites no uso das preposições espaciais da língua francesa, ele
propõe que os objetos se encontram em relações funcionais no espaço, as quais ele busca
descrever por meio de regras.
De acordo com seu modelo, o uso da preposição dans (em, dentro de), por
exemplo, é definido pela Relação Funcional Contentor/objeto contido (Container/contained
Relation). Fazem parte dessa relação as noções de ‘inclusão’ e ‘controle’. Esta última
parece ser central na relação funcional em questão, quando o contexto trata de contentores
8
não-canônicos, isto é, não totalmente fechados, contendo objetos que apenas parcialmente
se localizam em seu interior. Observem-se seus exemplos, na página 217: Le fil est dans la
pince (O fio está no alicate) versus #Le fil est dans la pince à linge (#A corda de varal está
no prendedor de roupa). O uso de dans soa natural apenas no primeiro caso porque o alicate
tem a função de prender, ou seja, controlar o fio, ao passo que, no segundo exemplo, o
prendedor de roupas está pendurado na corda do varal, mas não a controla. Vandeloise
propõe, então, que é a não-conformidade com o efeito de controle da Relação Funcional
C/c que torna inviável o uso de dans no segundo exemplo, embora a configuração espacial
seja semelhante nas duas situações.
O enunciado (1) abaixo é um uso autêntico do português do Brasil, no qual a
noção de ‘controle’ está envolvida no emprego da preposição em.
(1) Não me saía da cabeça a imagem do autor dos disparos, (...), sorrindo com
um fuzil nas mãos ao celebrar a chegada de 2008. (Estadão – 01.5.2008) 2
As mãos do atirador seguram um objeto de dimensões maiores, o fuzil, e, ainda
assim, “controlam” sua posição. Em outras palavras, o fuzil não está totalmente incluído
nas mãos do atirador, mas ainda assim, diz-se que está “em suas mãos”. A análise proposta
nesta tese não adota radicalmente a posição de Vandeloise, mas considera que relações
2
A maioria dos exemplos que aparecem ao longo deste texto faz parte do córpus criado para esta pesquisa.
Entretanto, é possível encontrar alguns usos retirados da Internet, os quais se apresentaram mais claros para
algumas das explicações teóricas. Nesses casos, as fontes originais são apresentadas em notas de fim.
9
dessa ordem explicam certos limites no uso da preposição em que recebem uma descrição
mais pormenorizada na seção 3.5.
Já a conceitualização da cena descrita em (2) representa um caso de zona ativa,
como definida por Langacker (1987. p. 272-4).
(2) Assim pode ser descrita a tormenta monstro que por semanas foi registrada
no planeta Saturno.i
Considerando que o significado de uma forma linguística corresponde a um
conjunto de informações (sua base conceitual) do qual um aspecto é mais frequentemente
evocado, muitas vezes ocorre de outra característica ser salientada em certo uso. Muito
comumente, o sintagma nominal “planeta Saturno” designa um corpo celeste tridimensional
esférico, circundado por anéis, de tamanho comparável ao de certo número de outros
corpos celestes que compõem nosso Sistema Solar. Contudo, esse uso em particular
salienta a superfície plana do planeta (onde ocorrem as tempestades) e não exatamente sua
forma e localização no espaço. Diz-se, nesse caso, que a superfície é sua zona ativa atual.
Portanto, como forma de compreender a polissemia dessa preposição, são
consideradas as contribuições dos diversos itens lexicais disponíveis no cotexto, em
qualquer domínio conceitual. Além disso, são analisados os efeitos da chamada
perspectivação conceitual ou construal (LANGACKER, 1987, 2001, 2008) no significado
que o falante constrói, além de processos metafóricos e metonímicos de extensão
semântica.
10
Em pode desconcertar o linguista porque pode ocorrer em contextos ainda mais
variados que os que se vêem a seguir. Além disso, cada um desses casos pode ser
considerado um uso convencionalizado da preposição (polissemia) ou nuances contextuais
distintas de um mesmo sentido (vagueza/monossemia), dependendo do ponto de vista
teórico (GEERAERTS, 1993).
(3) A água é colocada no tanque e um gerador transforma o hidrogênio que
retira da água em energia. (Estado de Minas – 06.08.2008)
(4) A recomendação para o teste genético também vai ser impressa nas caixas
dos remédios. (JB – 25.07.2008)
(5) Ele mantém o olhar no copo. ii
(6) O DEM oficializou nesta quinta-feira, 19, a candidatura do deputado ACM
Neto a prefeito de Salvador. (Estadão – 21.06.2008)
(7) Além de projetos e programas de apoio voltados ao desenvolvimento social,
o Plano prevê investimentos em outras três áreas prioritárias. (JB –
21.06.2008)
(8) A seção internacional do Japan Times trazia uma enorme foto em preto e
branco de uma favela de Recife. (Estadão – 01.05.2008)
(9) É graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais. (Estado de Minas – 03.08.2008)
Levando-se em conta apenas a semântica, alguns comentários podem ser feitos a
respeito dessas amostras. Os exemplos (3) a (5) representam um emprego comum da
11
preposição em no domínio espacial, quando seu complemento designa um objeto
tridimensional, com um espaço interior. Nenhum deles, contudo, evoca a noção estática de
‘inclusão’. As três cenas relacionam-se, respectivamente, à ideia de ‘movimento para
dentro de um contentor’ (3), ‘contato’ com uma ‘superfície’ (4) e um ‘trajeto virtual’
percorrido pelo olhar 3 (5). Esses exemplos mostram que nem sempre as propriedades
geométricas do referente do complemento são suficientes ou adequadas para definir as
noções espaciais percebidas. Estão em jogo a maior saliência atribuída a uma das facetas
do objeto “copo” – sua zona ativa – e a construção de um movimento virtual ou fictive
motion do tipo “linha de visão” (TALMY, 2000. p. 110-1).
Processos metafóricos e metonímicos estão envolvidos nos usos (6) a (9), com
mapeamentos do espaço para o tempo e para outros domínios. Esses mapeamentos derivam
da estrutura (elementos dispostos em certa ordem) e da lógica de esquemas – ou
representações mentais – que se formam no domínio espacial, a partir da recorrência de
experiências semelhantes.
O exemplo (6) é um caso de localização em um ponto do tempo, que se origina da
noção de localização pontual no espaço. Como no exemplo (5), (7) também representa um
caso de movimento virtual em direção a um alvo, cujo trajeto faz parte da semântica de
“investimento”. A construção com em introduz a localização no final desse trajeto, as
“áreas prioritárias”, que são conceitualizadas como objetos. Através da noção de metáfora
conceitual, propõe-se a existência de um mapeamento de aspectos do esquema de TRAJETO
3
Em comunicação pessoal, o Prof. Mário Perini (UFMG) lembra que, “fisicamente, são os raios de luz que se
refletem no copo e atingem o olho” e, portanto, o trajeto efetivo seria no sentido oposto. Com isso, ele sugere
que, no caso em questão, “a língua reflete ainda um estágio primitivo do conhecimento” e que o fator decisivo
para a codificação linguística talvez seja a ação voluntária, mais claramente manifesta em “Ela me lançou um
olhar furioso”.
12
encontrado em (3) para o exemplo (7). Por outro lado, o significado dos dois últimos
enunciados envolve processos metafóricos e efeitos funcionais de esquemas imagéticos. A
expressão “em preto e branco” em (8) restringe a categoria “foto” a um tipo específico. Tal
restrição teria origem metaforicamente no efeito funcional de ‘controle’ que emerge de uma
cena espacial de inclusão, em que o contentor controla o objeto em seu interior. Um
processo semelhante se dá em (9). Nesse enunciado, o controle se manifestaria na
especificação da área de conhecimento – psicologia – do curso realizado.
Em suma, esses exemplos fazem parte de uma só categoria semântica complexa,
dotada de sistematicidade interna, a qual se pretende explicar apresentando-se razões
cognitivas.
1.2. Objetivos
Em face da problematização apresentada, este estudo visa a uma descrição
semântico-cognitiva da preposição em, no português contemporâneo do Brasil, partindo do
pressuposto que em representa uma categoria formada como uma rede esquemática.
Pretende-se construir um diagrama que mostre sentidos esquemáticos com características
presentes em outros usos, esquemas sancionadores (ou seja, que dão origem a outros) e
usos prototípicos (que aparecem com maior frequência na rede), além dos processos que
motivam as diferentes extensões de usos. Além disso, pretende-se confrontar a rede
proposta com a visão que falantes leigos do português do Brasil têm sobre a polissemia de
em. Alcançar esses objetivos implica responder às perguntas propostas a seguir:
i. Que esquemas são observáveis nos usos espaciais da preposição em? Que noções
topológicas e geométricas formam esses esquemas?
13
ii. Que processos cognitivos e funcionais estão envolvidos na compreensão desses
usos?
iii. Como esses esquemas dão origem a usos em outros domínios?
iv. Existe algum uso que represente o protótipo (o mais típico na rede) ligado a outros
por semelhança familiar 4?
v. Existe um esquema totalmente compatível com algum ou todos ou outros usos
descritos?
vi. Até que ponto outros falantes nativos do português brasileiro percebem semelhanças
e diferenças entre usos da preposição?
1.3. Justificando a pesquisa
A primeira motivação para uma pesquisa dessa natureza vem do autor do modelo
de teoria linguística adotado nesta investigação. Langacker (2000a. p.90) defende a ideia de
que “é possível haver uma explicação coerente [sobre a linguagem], na qual cada elemento
componente tem um significado (na verdade, um significado relacionado àqueles que ele
mostra em outros usos), e cada construção gramatical se reduz a uma configuração de
4
WITTGENSTEIN (1953) aplicou o construto semelhança de família em seu estudo da categoria ‘jogos’,
cujos membros, ele argumentou, não são unidos por uma propriedade sequer que seja comum a todos. Ao
contrário, conceitos como ‘xadrez’ (jogadores individuais, disputa, duração indefinida), ‘futebol’ (jogado por
equipes, disputa, duração pré-definida) e ‘paciência’ (um só jogador, sem disputa, duração indefinida) são
todos jogos, mesmo que não haja uma característica comum a todos os três. Na verdade, suas características
se distribuem de maneira semelhante ao fenótipo entre os membros de uma família.
14
estruturas simbólicas” 5. Foi considerando essa possibilidade que se decidiu buscar uma
motivação semântica de natureza cognitiva para os usos da preposição em.
O tipo de semântica a que Langacker se refere, e que aqui se assume, baseia-se em
conceitos que emergem da experiência. Esses conceitos formam um contínuo estruturado,
com diferentes graus de abstração e de complexidade, no qual não se observam fronteiras
claras entre o significado do léxico e o da gramática.
A preposição of, investigada por Langacker naquele artigo, e uma série de outras,
como o em do português do Brasil, foram, por muito tempo, apresentadas como exemplos
típicos de marcadores gramaticais desprovidos de conteúdo semântico. Tal situação é fruto
das ideias que marcaram um longo período do século XX (o apogeu do estruturalismo e do
gerativismo), que privilegiou o estudo da forma e, por isso, caracterizou-se por “uma
notável negligência de assuntos de conteúdo e de contexto” (SALOMÃO, 1990. p. 1).
Como evidência dessa visão, a maior parte das pesquisas anteriores sobre
preposições da língua portuguesa, desenvolvidas dentro de outras linhas, trata das
preposições ditas essenciais como um todo ou de preposições individuais, geralmente sob
uma perspectiva morfológica ou sintática. A maioria dessas investigações encaixa-se na
corrente gerativista (CENTOLA, 1972, SILVEIRA, 1951) ou normativo-prescritiva
(CEGALLA, 1994; LIMA, 1984; SACCONI, 1980; FARACO & MOURA, 1988), ou
ainda, estruturalista (CARONE, 1988). Mais próximo da proposta teórica adotada nesta
tese, Pontes (1992) descreve a relação entre a expressão do espaço e do tempo no português
por meio de diferentes classes de palavras, incluindo as preposições.
5
Do original: “It is a matter of some significance that a coherent account is possible in which each component
element has a meaning (in fact, a meaning related to those it displays in other uses), and each grammatical
construction reduces to a configuration of symbolic structures.” (Tradução livre)
15
À exceção do inventário semântico-lexical (BERG, 2005), sobre um grande grupo
de preposições do português, baseado na Teoria dos Papéis Temáticos, e investigações
sobre gramaticalização de preposições (CASTILHO, 2002), de modo geral, não existe um
corpo coeso de estudos sobre o sentido das preposições. Além disso, parece ser consenso,
na maioria dos trabalhos, que determinadas preposições não são portadoras de sentido em
alguns ambientes específicos.
Há trabalhos importantes envolvendo outros idiomas, anteriores ao nascimento da
Linguística Cognitiva, tais como o de Pottier (1962) a respeito da passagem dos casos
latinos para as preposições nas línguas neolatinas e o de Bennett (1975) sobre a semântica
de preposições da língua inglesa. Entretanto, a semântica das preposições começou a
ganhar destaque entre os linguistas cognitivos há cerca de três décadas, em meio ao
substancial incremento no número de estudos sobre a semântica das classes fechadas. Dos
muitos estudos que seguiram o pioneiro trabalho Story of over (BRUGMAN, 1981),
destacam-se aqui Vandeloise (1991, 1994), respectivamente, sobre preposições espaciais do
francês e in do inglês; Cuyckens (1993) sobre in; Tyler & Evans (2003) sobre preposições
espaciais do inglês; Langacker (2000a) sobre a semântica de of; Levinson & Meira (2003)
sobre aposições no idioma tiriyó; Geeraerts (1992), sobre a semântica do over holandês;
Brala (2002), sobre a semântica de in e on e questões lexicográficas em dicionários croatas.
Sobre preposições do português do Brasil, dentro do aporte da Linguística
Cognitiva, destaca-se Grenfell (2004), a respeito de locuções prepositivas. No português
europeu, Teixeira (1999) estudou as preposições espaciais no eixo frente/trás e Batoréo
(2000) investigou o modo como a língua expressa a cognição espacial, incluindo,
obviamente, as preposições espaciais. Como se vê, este é um tipo de trabalho pouco comum
16
envolvendo a língua portuguesa, não apenas pelo aporte teórico adotado, como pelo
compromisso assumido com a investigação da língua em uso.
Ainda sobre o português do Brasil, entre as pesquisas de cunho semântico, o
importante trabalho descritivo Neves (2000) apresenta uma lista de categorias de uso para
as preposições, levando em conta seu comportamento semântico e sintático. Em termos
explicativos, Poggio (2002), no quadro funcionalista, trata do processo de gramaticalização
de preposições da língua portuguesa desde o latim. Mesmo sendo inspiradores, esses
trabalhos não oferecem uma explicação cognitiva sincrônica para os usos das preposições.
Como se sabe, muitos dos elos motivadores de extensão semântica podem não ser
transparentes no uso atual da língua e podem ser irresgatáveis, como admite, por exemplo,
Langacker (1987. p.118). Contudo, Heine (1997. p. 19) considera que a dificuldade (do
falante nativo e do linguista histórico) em encontrar a motivação adequada para alguns usos
representa, temporariamente, “uma lacuna em nosso conhecimento que ainda está por ser
preenchida” 6. Em outras palavras, tal dificuldade não deve ser encarada como sinônima de
arbitrariedade.
Na verdade, os falantes leigos parecem ter encontrado um modo próprio de
solucionar essa questão. Eles realmente possuem intuições sobre o percurso das mudanças
linguísticas – as quais Desagulier (2005. p. 32-5) denomina “sensibilidade histórica dos
falantes nativos” (sensibilité historique des locuteurs autochtones). Para vários linguistas
cognitivos, esse fenômeno, também chamado “etimologia popular” (folk etymology) é um
6
Do original: “Not infrequently, motivation is no longer accessible to the native speaker, nor even to the
historical linguist. But this does not mean there is no motivation – it simply means there is a gap in our
knowledge that remains to be fulfilled.” (Tradução livre)
17
fato psicolinguístico que não pode ser desprezado. Esse tema é abordado por Lakoff (1987.
p. 452) com respeito às estratégias que os falantes utilizam para a interpretação de
expressões idiomáticas. Ele considera tais “teorias populares” um “fato psicológico
notável”, apesar de serem totalmente espontâneas e sem base científica. E lembra-nos ainda
da necessidade que as pessoas têm de criar elos de motivação para compreender
significados “arbitrários” 7 e, também, de que elas “funcionam melhor quando têm mais
informação que dá sentido ao que parece ser aleatório” 8.
Esse tipo de estratégia certamente se aplica à compreensão e ao uso de outras
classes linguísticas, entre elas, as preposições. A partir daí, procurou-se associar as
explicações cognitivas da pesquisadora para usos da preposição em às intuições que os
falantes nativos revelam sobre a ligação entre tais usos. Esta comparação constitui o ponto
central desta tese.
Em vista desse cenário, acredita-se que a atual proposta de pesquisa possa trazer
novas informações sobre a semântica da língua portuguesa, somando-se a outros trabalhos
nesta área já desenvolvidos no Brasil. Também se considera relevante aplicar uma
perspectiva teórica, cuja existência é das mais recentes, a um idioma distinto daquele de
seus proponentes, como comprovam os vários estudos sobre a mesma preposição over do
inglês (além de BRUGMAN, 1981; LAKOFF, 1987; DEANE, 1992; DEWELL, 1994;
7
A arbitrariedade só parece existir porque as origens de algumas expressões idiomáticas ainda não puderam
ser resgatadas.
8
Do original: “If we recognize the need to find motivating links that make sense of idioms, that people
function more efficiently with additional information that makes sense of otherwise random information, then
it is clear why people would try to make sense of idioms by finding as many motivating links as possible”
(1987. p. 452). (Tradução livre.)
18
KREITZER, 1997 e TYLER & EVANS, 2003), também, sobre in e on9 (TYLER &
EVANS, 2003; VANDELOISE, 1994; GOUGENHEIM, 1959; CLARK, 1973;
BENNETT, 1975; MILLER & JOHNSON-LAIRD, 1976; HERSKOVITS, 1982; EVANS
& TYLER, 2004). Finalmente, o uso de córpus e de dados experimentais contribui,
também, para a solidificação dessa vertente teórica baseada no uso, que pleiteia para si a
qualidade de “psicologicamente plausível”.
1.4. Resumo do capítulo e organização do texto
Neste capítulo foi introduzida a proposta desta investigação, fazendo-se uma
breve descrição do objeto e do problema de pesquisa, bem como do quadro teórico em que
ela ocorre. Foram nomeados os teóricos da Linguística Cognitiva cujo trabalho é mais
relevante para a pesquisa.
Também se procurou dar um primeiro esclarecimento sobre o que vem a ser uma
descrição semântico-cognitiva de uma preposição. Por meio de exemplos explicativos,
foram destacados alguns conceitos chave ligados à conceitualização. Além disso, foi
delineado o cenário das pesquisas sobre preposições no Brasil e no exterior, no qual se
verifica uma carência de estudos em língua portuguesa nesta linha teórica.
Do final desta introdução em diante, este texto se organiza em duas grandes
seções. A PARTE I, que apresenta uma discussão teórica sobre aspectos da Linguística
Cognitiva relevantes para a tese, engloba os capítulos 2, 3 e 4. O Cap. 2 discorre sobre
alguns fundamentos da Semântica Cognitiva, dando destaque especial ao significado
9
Exceções importantes são estudos tipológicos desenvolvidos por Stephen Levinson e associados, Melissa
Bowerman e associados, entre outros.
19
corporificado. Discute-se a emergência de conceitos a partir da experiência sensório-motora
e ainda o papel das capacidades cognitivas nesse processo. Essa seção inclui também uma
descrição mais aprofundada do objeto de estudo baseada no papel da Gestalt na
conceitualização e na convenção linguística.
No Cap. 3 tem-se uma incursão no funcionamento da linguagem como espelho de
relações espaciais. Ali se introduzem construtos que funcionarão como ferramentas de
análise, tais como noções topológicas, geométricas e funcionais. Particularmente, retoma-se
o tema do princípio gestáltico da assimetria figura-fundo para a expressão linguística de
relações espaciais que estão interligadas com aspectos do funcionamento das entidades no
mundo.
Encerrando a PARTE I do texto, a polissemia é o tema do Cap. 4, que tem início
com uma definição desse termo e uma explicação de sua emergência pela ótica da
Gramática Cognitiva. Explica-se como, na visão de R. Langacker, o sancionamento de
novos usos para velhas formas ocorre por processo de categorização, o que conduziu a uma
descrição da rede esquemática proposta por esse teórico para abrigar os fenômenos
envolvidos na motivação cognitiva dos usos diferenciados de uma mesma forma. Por fim,
mostra-se o funcionamento de esquemas imagéticos e mapeamentos metafóricos na
polissemia.
A PARTE II, que vai do Cap. 5 ao Cap. 8, dedica-se à pesquisa empírica
propriamente dita, incluindo duas seções de metodologia e outras duas de análise. O Cap. 5
descreve os procedimentos metodológicos empregados na construção do córpus de textos
jornalísticos, tais como a definição da população e os métodos de amostragem. Nele
20
também são definidos os critérios para a descrição semântica das categorias encontradas no
uso.
O Cap. 6 apresenta a análise das ocorrências no córpus. Inicia-se pelo domínio
espacial e envereda-se pelos processos de conceitualização sancionadores de novos usos da
preposição em no domínio temporal e em outros usos metafóricos. A seção inclui ainda um
mapa da polissemia de em, seguindo o modelo de rede esquemática de Langacker (1987). O
gráfico é um resumo das categorias semânticas obtidas através da introspecção da
pesquisadora.
No Cap. 7, descreve-se a metodologia empregada no experimento psicolinguístico
com falantes nativos. Sua seção inicial apresenta uma justificativa teórica para a realização
dessa etapa da pesquisa. A seguir, são descritos os procedimentos estatísticos utilizados na
análise dos grupos de semelhança formados com base nas categorias obtidas na seção 6.
A análise do experimento é feita no Cap. 8. Essa seção do texto apresenta os
gráficos gerados com o programa GENES, pelos métodos Ward de hierarquia de
agrupamentos e Tocher de otimização. Apresentam-se os resultados obtidos à luz dos
critérios descritos no Cap. 5 para a análise semântica das categorias.
Finalmente, o Cap. 9 contém a conclusão desta tese, na qual são comparados os
resultados da aplicação dos dois métodos distintos para análise empírica. Resume-se nessa
seção o que se considera ser a polissemia da preposição em dentro de uma perspectiva
semântico-cognitiva.
21
PARTE I – DISCUSSÃO TEÓRICA
2. SEMÂNTICA E COGNIÇÃO
A Semântica Cognitiva questiona ideias que remetem ao chamado Paradigma
Objetivista a respeito da cognição e da linguagem. Uma delas, conhecida como a Metáfora
do Tubo ou do Conduto (REDDY, 1979), é a premissa de que as palavras são portadoras de
sentido (BLOOMFIELD, 1961) e que esse sentido é estático e constitui-se como categoria
fechada. A Semântica Cognitiva apoia-se em duas importantes correntes complementares
de pensamento. Sua base epistemológica deriva das visões de Johnson (1987) sobre uma
cognição oriunda da experiência (Experiencialismo). Do lado linguístico, segue o modelo
de Gramática Cognitiva (LANGACKER, 1987) 10, baseado no uso. Por fim, como
resultado da interação entre cognição geral, linguagem e experiência, também existe um
forte vínculo entre a Linguística Cognitiva como um todo e a Psicologia da Gestalt, visto
que o significado da linguagem se organiza pelos mesmos princípios inerentes à percepção
sensorial.
Entre os semanticistas cognitivos, destaca-se, para este trabalho, a obra de
Leonard Talmy, o qual contribui com uma longa carreira de estudos sobre fenômenos
ligados à conceitualização linguística e sobre a expressão linguística da cognição espacial.
De outro lado, George Lakoff, juntamente com Mark Johnson, oferece-nos os fundamentos
10
A integração entre a Semântica Cognitiva e a Gramática Cognitiva produz, em certos pontos deste texto,
uma aproximação das duas no termo Linguística Cognitiva.
22
para a compreensão de processos da imaginação, como a metáfora conceitual e a
metonímia.
Embora emergindo do mentalismo gerativista, a Semântica Cognitiva é uma nova
proposta explicativa para o significado em comparação com a Semântica de Traços e a
Lógica de Condições de Verdade. O adjetivo “cognitiva” representa uma visão do
significado linguístico como conceitualização ou processamento cognitivo e, da linguagem
como parte da cognição geral. Isso implica uma grande mudança no estatuto atribuído à
linguagem, como mais uma modalidade da cognição geral, regida por princípios cognitivos
gerais. Essa alternativa torna o falante o principal personagem da construção do significado,
valorizando suas capacidades cognitivas e, portanto, incluindo os processos de
conceitualização na investigação linguística.
2.1. Corporeidade e cognição
A Tese da Corporeidade, proposta por Johnson (1987) e ampliada em Lakoff &
Johnson (1999), fornece a base filosófica e psicológica da Linguística Cognitiva. Associada
à Tese Simbólica (LANGACKER, 1987 e outros), a Tese da Corporeidade postula que a
linguagem é formada por representações de nosso sistema conceitual que se unem a formas
lexicais e, ainda, que os conceitos se originam da experiência física (a percepção). Por essa
razão, a linguagem é dita corporificada. Essa proposta visa a solucionar o problema de
como as representações são criadas, qual seja como conciliar o princípio objetivista de
que as representações são imagens de entidades reais com o pressuposto cartesiano de que a
mente é separada do corpo.
23
Lakoff & Johnson (1999) refinam a noção kantiana de esquema argumentando
que o raciocínio faz uso da experiência sensório-motora e é inseparável das características
peculiares de nosso corpo e cérebro. Essa ideia é reforçada em trabalho mais recente, no
qual é sugerido que as “estruturas empregadas em perceber e fazer precisam ser tomadas
para dar forma a nossos atos de compreender e de conhecer” 11 (JOHNSON, 2005. p.16).
Johnson argumenta ainda que o raciocínio envolve processos de imaginação, como vem
sendo demonstrado pelas ciências cognitivas.
2.1.1. Capacidades cognitivas a serviço da linguagem
Considerada uma modalidade – ainda que mais sofisticada – da cognição geral
(JOHNSON, 1987), a linguagem utiliza e reflete várias habilidades e processos básicos que
também são observados na percepção visual e na organização cognitiva global
(LANGACKER, 2001, 1987). Nesta seção, explora-se a importância dessas capacidades
para a emergência de conceitos a partir de esquemas e para o modelo de categorização
adotado na Linguística Cognitiva.
2.1.1.1. A simbolização e o sistema linguístico – Uma importante capacidade cognitiva
geral é a simbolização, pela qual a presença de uma forma evoca no falante um significado
e vice-versa. Ela está na origem da Tese Simbólica, o princípio que atribui à linguagem sua
natureza semiótica (LANGACKER, 1991), distinta da noção saussuriana de signo
principalmente pela dinamicidade do significado e pela atividade cognitiva do sujeito.
Outra consequência da capacidade simbólica é se considerar que todo fenômeno linguístico
– incluindo a gramática – possui motivação semântica. Isso é possível porque a língua se
11
Do original: “The basic form of the answer to this embodiment problem appears to be this: Structures of
perceiving and doing must be appropriated to shape our acts of understanding and knowing.” (Tradução livre;
itálicos no original.)
24
organiza sobre o significado conceitual. De acordo com esse modelo, o falante, em sua
constituição física e social, participa da formação de conceitos, por meio da abstração de
padrões recorrentes (Modelo bottom-up de língua) e da construção do significado
emergente.
Essa e as outras capacidades citadas ao longo deste texto têm um papel importante
na concepção de língua apresentada por Langacker (1987. p.73-4 e outros): um inventário
estruturado de unidades convencionais que se distinguem apenas pelo grau de abstração
dos conceitos que evocam. Chamam-se unidades “convencionais” por estarem
entrincheiradas – ou estabilizadas – na memória de um grande número de falantes. Como
marca da natureza estruturada desse inventário, as unidades normalmente se associam,
formando outras mais complexas. As unidades simbólicas propriamente ditas são
formadas pelo emparelhamento de um pólo fonológico estabelecido e um pólo semântico
estabelecido e a comunicação se dá por meio dessas estruturas que formam a substância
essencial e suficiente da língua.
No tocante ao significado que evocam, o léxico e a gramática diferenciam-se,
numa base prototípica, quanto ao grau de complexidade interna e de esquematicidade dos
conceitos que codificam. Existindo apenas gradientes de abstração, um item lexical como
“criança” e um elemento gramatical como a ordem de constituintes na oração são
igualmente considerados unidades simbólicas. Marcadores gramaticais (morfemas de
tempo, de modo, de caso, de número etc.) e regras gramaticais possuem um pólo fonológico
específico e um pólo semântico mais abstrato que itens lexicais. Mesmo as classes de
palavras se constituem, grosso modo, pelo emparelhamento de uma estrutura fonológica e
25
uma estrutura semântica12. A organização propriamente dita da linguagem também é
significativa, como o têm demonstrado a Gramática Cognitiva (LANGACKER, 1987), a
Gramática de Construções (GOLDBERG, 1995) e a Gramática Radical de Construções
(CROFT, 2001). Ela ocorre por meio de um conjunto limitado de conceitos, codificados por
itens de classes fechadas13. Como integrantes desse tipo de categoria, as preposições
encontram-se a meio caminho no contínuo de abstração e contribuem para o significado da
linguagem por meio desses conceitos mais básicos (TALMY, 2005a. p. 200).
2.1.1.2. Esquematização – Nossa capacidade de abstração ou esquematização permite-
nos perceber padrões recorrentes no uso da língua e, a partir deles, formar esquemas que
representam uma categoria ou conceito. Esses esquemas não possuem características de
objetos específicos e, portanto, são um tipo de estrutura bem mais abstrata que imagens
mentais. Isso acontece por comparação de experiências e seleção de aspectos comuns entre
as mesmas. Os esquemas formados são organizados como gestalts e essa capacidade de
estruturação é fundamental para a linguagem.
Numa perspectiva biológica, Langacker (1987. p.100 e 162) explica que cada
evento cognitivo deixa traços neuroquímicos que vão se repetindo toda vez que eventos
semelhantes ocorrem, gerando um efeito de reforço progressivo. A cada uso, os esquemas
vão se acomodando na memória do falante, na forma de rotina estabilizada. Assim ocorre o
12
TAYLOR (2002a) e LANGACKER (2008) oferecem uma explicação bastante clara a respeito de como as
classes gramaticais se constituem como estruturas simbólicas, que se encaixam em uma hierarquia de
conceitos (esquemas e instâncias).
13
Segundo TALMY (2000. p. 23), embora as “categorias fechadas” normalmente façam jus ao seu rótulo por
terem relativamente poucos representantes e não aceitarem novos membros com muita frequência, essa é uma
definição a ser testada empiricamente. Teoricamente, não é de todo impossível que, em certo idioma, exista
uma categoria gramatical com centenas de membros altamente específicos ou, ainda, que possa acolher novos
integrantes.
26
entrincheiramento ou a aquisição do conhecimento linguístico. Gradativamente, uma dada
estrutura se torna unidade simbólica para o falante.
As estruturas mentais oriundas da experiência sensório-motora constituem um
tipo especial a que se denomina esquemas imagéticos. Eles derivam de experiências
frequentes no cotidiano e são essenciais na explicação do significado de expressões
linguísticas que se referem a circunstâncias espaciais tanto estáticas quanto dinâmicas. Uma
definição proposta por Johnson (1987. p. 29) diz que um conceito ou esquema possui um
nível básico de especificidade e não se refere a nenhuma instância de uso em particular e,
tampouco, apenas à capacidade linguística. Um esquema é um “padrão, forma ou
regularidade recorrente em/de nossas atividades contínuas de ordenação [ações, percepções
e concepções]” 14.
Uma longa lista desses esquemas é tomada da literatura em Hampe (2005. p.2-3):
alguns foram apresentados originalmente por Johnson (1987) e Lakoff (1987) –
CONTENÇÃO/CONTENTOR, PERCURSO/FONTE-PERCURSO-ALVO, PARTE-
TODO –, por Johnson (1987) – CONTATO, SUPERFÍCIE, OBJETO, COLEÇÃO – e
outros, por Lakoff (1987) –VERTICALIDADE e FRENTE-VERSO.
A emergência desses esquemas deve-se à constituição do organismo humano, às
percepções, aos sentimentos e também às ações do corpo.
Na Linguística Cognitiva, é tradição fornecer representações pictóricas de
esquemas imagéticos como estratégia descritiva. Naturalmente, não se postula que essas
ilustrações, de caráter didático, correspondam às representações mentais do falante. Como
14
Do original: “A schema is a recurrent pattern, shape, and regularity in, or of, these ongoing ordering
activities [actions, perceptions, and conceptions].” (Tradução livre.)
27
parte da interpretação do exemplo a seguir, pressupõe-se uma configuração espacial de
movimento para dentro de um CONTENTOR.
(10) Imaginem uma jarra despejando suco num copo.iii
FIGURA 1 – Representação do esquema imagético complexo que inclui um ‘trajeto’ para dentro de
um ‘contentor’: o retângulo menor representa o contentor (copo) e tem seu interior
em foco. A seta representa a orientação do movimento evocado pelo verbo
“despejar”. A entidade que se desloca (suco) aparece como o círculo. Esse esquema é
neutro quanto aos eixos vertical, horizontal e ortogonal.
Nesse exemplo, as noções de ‘alvo do movimento’ e ‘localização no interior de
um contentor’ são inferências feitas a partir do verbo, da preposição e do conhecimento
enciclopédico do falante a respeito do contexto situacional.
Os esquemas imagéticos possuem uma estrutura e uma lógica de funcionamento
(ver seção 4.2.1). Essas estruturas são compostas por elementos geométricos e topológicos
que identificam uma série de objetos e relações. O esquema imagético de CONTENTOR,
apresentado no exemplo acima, parece ser central na semântica da preposição em.
Prototipicamente, ele envolve um objeto de duas ou três dimensões. Esse objeto é
constituído por um lado exterior, um limite ou fronteira e um interior, no qual se situa outro
objeto (LAKOFF & JOHNSON, 1999. p. 32-3). A emergência desse esquema imagético
28
decorre de padrões percebidos em situações como estar em/dentro de uma sala, observar
um objeto no interior de outro etc.
Por sua vez, o esquema de TRAJETO, que também faz parte do exemplo (10), é
constituído por um ponto de partida ou origem, um alvo ou ponto final e uma sequência de
localizações contíguas ligando os dois extremos. Esse esquema não inclui direção, a qual
acaba sendo imposta pelos variados propósitos que as pessoas têm ao seguir um trajeto. O
embasamento espacial desse tipo de esquema está em experiências como ir de casa para a
escola ou observar um caminho percorrido por uma pedra lançada num lago. Ao final, vai-
se de um ponto A para um ponto B e, portanto, segue-se em direção a B.
Outro esquema que também se aplica a certos usos dessa preposição é o de
CONTATO com uma superfície, quando duas ou mais entidades se tocam, como na
situação descrita em (11). Existe uma noção topológica de ‘contato’ entre a “quadra” e
“acampar”. A prototípica configuração bidimensional do marco favorece a emergência
desse esquema. Mais que isso, através de seu conhecimento leigo sobre a física do dia-a-
dia, o falante compreende o efeito funcional de ‘suporte’ por parte da quadra em relação à
atividade, uma consequência muito comum em tal configuração espacial.
(11) Se for preciso, vamos acampar na quadra. (Estado de Minas – 05.08.2008)
FIGURA 2 – Representação do esquema de CONTATO, sem orientação intrínseca, no qual se
destaca uma base sobre a qual se apoia um objeto.
29
Esses são alguns dos esquemas imagéticos relacionados à semântica da preposição
em. Enquanto sua adequação a esses usos e na descrição de outras preposições é
incontroversa entre semanticistas cognitivos, existe certa dificuldade em determinar
critérios para o emprego do termo imagético (GRADY, 2005). Certos padrões motores, de
dor, de emoção, de relações etc., nem sempre permitem a criação de imagens mentais.
Johnson (1987. p. 23, e ao longo dessa obra) utiliza o termo amplo – esquema –, sem
especificação, para se referir a esquemas ‘imagéticos’ ou ‘corporificados’, o que é razoável
em face de sua clara posição a respeito da base corpórea dos mesmos. Nesta tese, o termo
“esquema” também é aplicado àqueles imagéticos ou não.
Ressalva-se, porém, que a noção de ‘localização’ não constitui um conceito
imagético nos termos descritos acima. Vandeloise (1991), por exemplo, a considera uma
relação funcional, tendo em vista que o ser humano naturalmente busca localizar uma
entidade em relação a outra. Em suma, a ‘localização’ pode ser considerada um esquema
mais abstrato que se realiza imageticamente quando associado a outros elementos,
constituindo, assim, instâncias mais específicas, com posição própria na rede esquemática
de polissemia da preposição em.
2.1.1.3. Comparação – Como dito acima, a formação de esquemas também requer o
emprego da capacidade de comparar experiências e perceber diferenças e semelhanças.
Para isso, fazemos uso de padrões que permitem categorizar um novo evento. A
comparação ocorre em todos os domínios: percepção tátil de temperaturas diferentes,
reconhecimento de duas fotografias como idênticas, identificação de diferenças na
articulação de fonemas etc.
30
Por comparação, pode-se também reconhecer que usos distintos de uma mesma
palavra são elaborações de um sentido mais abstrato, em um mesmo domínio ou em
domínios conceituais diferentes, como apresentado abaixo:
(12) Use um grampo na ponta da linha para facilitar a troca de isca. iv
(13) Os cabos foram levados no cruzamento das ruas do Lavapés e Glicério.
(Estado de Minas – 06.08.2008).
(14) No dia 29 de maio, o deputado foi preso por lavagem de dinheiro e
formação de quadrilha. (JB – 21.06.2008)
(15) A fórmula é literalmente cozida na farmácia e embalada em pacotinhos de
plástico. (Estadão – 01.05.2008).
(16) A queda nos termômetros nos últimos dias foi causada por uma massa de ar
polar seca. (Estado de Minas – 05.08.2008).
(17) Na década passada houve uma onda de suicídio: 264 em cinco anos.v
Em uma primeira comparação, os exemplos (12) e (13) evocam uma estrutura
comum de ‘localização pontual’ no espaço, diferindo entre si apenas no tamanho envolvido.
O mesmo esquema pode explicar o exemplo (14), do domínio temporal, havendo, nesse
caso, uma conceitualização metafórica do “dia 29” como um ‘ponto’ específico no tempo,
semelhante às entidades espaciais “ponta da linha” e “cruzamento”. Os enunciados (15),
(16) e (17) compartilham o mesmo padrão abstrato – a noção de ‘localização no interior de
um CONTENTOR’ – também no domínio espacial (“em pacotinhos de plástico”) e no
temporal (“nos últimos dias”, “em cinco anos”). A diferença na dimensão dos marcos
31
aparece no domínio temporal. Porém, embora a duração varie significativamente, são
sempre períodos, conceitualizados com um limite inicial, um limite final e uma região
interior, à maneira de um contentor. Finalmente, abstrai-se um padrão mais esquemático de
‘localização’ ao se compararem os seis exemplos juntos (ver seção 3.2). Diz-se que esse
conceito é instanciado ou elaborado pelas noções mais específicas, quais sejam,
‘localização pontual’ e ‘localização dentro de um contentor’, ou ainda, que o conceito mais
abstrato sanciona os mais específicos (LANGACKER, 1987. p. 68-9; TAYLOR, 2002a. p.
140).
2.1.1.4. Categorização – A esta altura, parece claro que abstrair e comparar fazem parte do
processo da categorização. Essa importante capacidade cognitiva corresponde ao modo
como os seres humanos agrupam eventos, ações, emoções, relações espaciais, relações
sociais, governos, doenças, teorias etc. de acordo com seu tipo. Isso nos permite funcionar
melhor no mundo e sobreviver como espécie (LAKOFF & JOHNSON, 1999. p. 17-9;
LAKOFF, 1987. p. 6).
Esse processo pode gerar tipos diferentes de relações entre os membros de uma
categoria. A comparação dos enunciados (12) a (17) demonstra um modelo de
categorização baseado em esquematicidade (LANGACKER, 1987. p.68 e 74-5),
equivalente a uma relação taxonômica, que revela um padrão recorrente de ‘localização’. O
grau de compatibilidade entre esse conceito superior mais abstrato e os inferiores – as suas
instâncias – pode variar, afetando a estrutura da categoria que se forma: categoria
hierárquica (total compatibilidade) ou categoria prototípica (compatibilidade parcial).
Tal como na taxonomia hierárquica proposta por Lineu nas ciências naturais, a
tradição semântica tem lidado com conceitos como categorias clássicas, cujos membros
32
possuem determinadas características comuns a todos. Tais categorias são geralmente
compreendidas como “recipientes” abstratos contendo elementos (coisas) que
compartilham, pelo menos, uma propriedade comum. Sendo comum a todos, essa
propriedade – ou traço – é o padrão que define a categoria (LAKOFF, 1987. p. 6).
Categorias clássicas, usualmente representadas pelo critério binário +/- traço,
aplicam-se a relativamente poucas situações. Um exemplo seria o conceito/categoria
‘Senador’. Um indivíduo minimamente informado sobre a vida política do Brasil não teria
dúvidas em dizer que os senhores Eduardo Suplicy e Pedro Simon pertencem a essa
categoria, tendo em vista a função que desempenham no Senado, o processo eleitoral pelo
qual passaram, o período de duração de seu mandato etc.
Contudo, na maioria das vezes, pertencer ou não a uma categoria é uma questão
menos nítida, principalmente porque a categorização envolve impressões individuais e,
principalmente, culturais. A cultura representa um componente de peso na construção das
categorias que seguem um padrão prototípico. Estudos de base psicológica e
antropológica, tais como os de Wittgenstein (1953, sobre categorias de jogos), Berlin &
Kay (1969, sobre a denominação básica para cores), e Eleanor Rosch (197815 apud SILVA,
2006. p. 298, sobre a categorização) demonstraram que uma categoria natural inclui um ou
mais elementos com representatividade central, denominado protótipo, e outros mais
periféricos. Portanto, pertencer ou não a uma dada categoria é uma questão de gradação e
resulta de princípios como semelhança de família, os quais são estabelecidos culturalmente.
15
ROSCH, Eleanor. Principles of categorization. In: ROSCH, Eleanor; LLOYD, Barbara (Ed.). Cognition
and categorization. Hillsdale, N.J.: Erlbaum, 1978. p. 27-48.
33
Como exemplo de categoria prototípica, tomem-se algumas situações bastante
diversas, que, no entanto, parecem estar relacionadas: um trem viajando de Belo Horizonte
a Vitória, dunas que lentamente avançam sobre uma cidade, um globo que gira em torno de
si mesmo, um olhar colocado sobre alguém do outro lado de uma sala, uma pedra de gelo
que se transforma em uma pequena poça d’água. Apesar da diferença de velocidade do
movimento ocorrido, o primeiro e o segundo exemplos parecem ser mais claramente
identificáveis com a ideia de um trajeto que vai de uma origem a um alvo. O terceiro
implica outra forma de movimento, em que os marcos inicial e final se localizam no mesmo
ponto em um mesmo objeto e, portanto, tecnicamente, o deslocamento final é igual a zero.
Menos claro é o trajeto virtual descrito pelo olhar, que por si, é fruto da ação voluntária e da
atividade sensorial de um agente estático. Finalmente, um falante leigo sobre
conhecimentos linguísticos certamente não associaria, de imediato, a mudança de estado
físico a um esquema de TRAJETO.
Nesses casos, o conceito ‘movimento’ é uma categoria com vários membros, na
qual alguns parecem ser exemplos mais característicos que outros. Tomando-se uma
propriedade básica do movimento na Física – o deslocamento físico ao longo de um eixo –
percebe-se que esta não está presente em todos os membros que aparecem acima.
Mas o que une todos esses usos? Primeiramente, ao contrário do leigo, o linguista
tem dificuldade em não perceber um TRAJETO na maioria dos exemplos. Mas, mesmo o
falante não treinado perceberá algum tipo de semelhança, pelo menos entre os dois
primeiros exemplos. De todo modo, dir-se-á que o conceito de ‘movimento’ é
34
esquemático16 a todos os usos ou pelo menos aos dois primeiros. O movimento rotatório do
globo só é detectado – e caracterizado como tal – quando o conceituador percebe haver
uma distância entre os dois momentos em que um dado ponto no mapa-múndi passa a sua
frente ou, talvez, pelas faixas coloridas formadas pela distorção dos mapas dos países. Os
demais envolvem o que Langacker (1987. p.168-71) descreve como movimento abstrato
em domínios diferentes, nos quais já não se faz referência a um trajeto físico, isto é, o
processo metafórico já se perdeu para o leigo.
Na Linguística Cognitiva (por exemplo, LANGACKER, 1987. p.69), e
consequentemente neste texto, as categorias linguísticas são entendidas como pertencentes
a este último tipo, isto é, possuindo membros mais prototípicos (aqueles que evocam mais
diretamente o esquema da categoria) e menos prototípicos (incluídos na categoria por
associação indireta ou por determinada semelhança). Em se tratando do significado
linguístico, os conceitos associados às formas linguísticas são, na verdade, princípios de
categorização entrincheirados, que permitem identificar um evento cognitivo novo como
instância ou membro de uma classe (TAYLOR, 2002a. p. 43).
2.2. Conceitualização e linguagem
Compreender a mente corporificada e a cognição como fruto da experiência
resulta em uma maneira diferente de conceber o conhecimento linguístico. Uma visão
tradicional, adotada na Semântica Composicional ou Fregeana, por exemplo, afirma que o
falante domina uma lista de significados atrelados a formas linguísticas, como em um
16
O termo “esquemático” é um construto teórico e, portanto, não se alega que o falante leigo o utilize em seu
raciocínio.
35
dicionário. Porém, descrever a maneira como isso ocorre representa um problema, dada a
infinidade de conceitos a serem armazenados. Trata-se da questão da subespecificação do
significado linguístico: como uma palavra pode “conter” todos os significados que lhe são
atribuídos nas incontáveis situações de uso?
Mas como salienta Silva (2006. p.298-9), um número delimitado de primitivos –
por volta de sessenta – não seria suficiente para explicar o significado de uma palavra em
toda a sua abrangência. Por essa razão, a Semântica Cognitiva considera que o chamado
“significado contingente” se constitui a cada instância de uso da linguagem e se baseia em
um rico sistema prévio de informações, sobre vários domínios. As informações se
organizam como uma rede estabilizada na memória de longo prazo do falante, a qual se
denomina conhecimento enciclopédico. Como o falante também domina as relações
simbólicas da língua, a cada uso de uma forma, uma parte dessa rede é ativada em seu
cérebro. E, ainda, como as situações de uso nunca são exatamente as mesmas, os conceitos
ativados na rede também variam. Formas associadas a itens lexicais polissêmicos, por
exemplo, ativam uma rede semântica com vários sentidos convencionalizados, um dos
quais se torna o foco da atenção do falante em um dado evento cognitivo17.
Dentro da discussão sobre a motivação semântica para os fatos da língua, Talmy
(2000. p.21 e 93) define o significado como uma “representação cognitiva”
(“conceitualização” em LANGACKER, 2001 e 1987) que emerge de vários processos
cognitivos, a partir do significado referencial dos elementos da sentença, da compreensão
do contexto situacional, do conhecimento de mundo etc. Esse significado conceitual é
17
Um evento cognitivo é qualquer tipo de ocorrência cognitiva. Do ponto de vista biológico, trata-se do
“acionamento de um neurônio” ou uma grande rede deles (LANGACKER, 1987. p. 100).
36
“evocado” através da linguagem no discurso, de onde a importância dada ao conceituador.
Na visão de ambos os autores, o significado inclui, também, o conteúdo de ideias e de
experiências ligadas ao afeto e à percepção.
Um importante componente da conceitualização é aquele que Langacker (2001)
denomina perspectivação conceitual (construal). Ele representa a capacidade humana de
elaborar ou construir uma cena de vários modos. Langacker descreve várias dimensões da
perspectivação, entre elas a perspectiva e o ponto de vista e a saliência focal ou
proeminência. Esta última está diretamente relacionada ao princípio da assimetria figura-
fundo da Teoria da Gestalt.
Dois dos tipos de saliência focal apresentados por Langacker (1987, 2001 e
outros) são a designação de um perfil (profiling) e a assimetria (ver seção 3.4) entre
entidades envolvidas em uma relação.
O perfil de uma expressão linguística caracteriza-se como o foco principal de
atenção dentro da base ou domínio conceitual que ela evoca e corresponde àquilo que a
expressão designa, ou seja, seu “referente conceitual” (LANGACKER, 2001. p. 21). A
proeminência também está presente na definição das classes de palavras. Langacker (1987)
e Taylor (2002a) as definem com base na natureza dos referentes esquemáticos que seu
perfil evoca. Substantivos evocam ‘coisas’ e verbos designam ‘processos’. Estes últimos,
assim como adjetivos e preposições, encontram-se entre os itens com perfil relacional.
2.2.1. Definindo a categoria ‘preposição’
A distinção semântica entre as preposições em geral e outras classes de palavras,
adotada consensualmente na Linguística Cognitiva, foi proposta por Langacker (1987. p.
214-20 e 299-301). De acordo com esse autor, as preposições, conjunções, adjetivos e
37
advérbios designam relações atemporais 18 entre duas entidades denominadas trajetor e
marco 19, normalmente marcadas pela assimetria conceitual (ver seção 3.4), exceto no caso
de algumas conjunções. Langacker (1987. p. 243) sugere cautela ao se considerar adjetivos,
advérbios e preposições como classes distintas, usando apenas critérios sintáticos, por
exemplo, a ideia de que a preposição normalmente precede um marco explícito, elaborado
como um substantivo ou sintagma nominal. A preposição pode ser um adjetivo quando seu
trajetor é um substantivo e, um advérbio, quando seu trajetor é um processo.
Por sua própria natureza, as predicações 20 relacionais dependem conceitualmente
das entidades que relacionam. Como exemplo, os substantivos livro e livraria (coisas)
podem ser conceitualizados sem se fazer referência a outros objetos. Isto é, pode-se
imaginar qualquer livro ou qualquer livraria sem que outra entidade seja, necessariamente,
trazida para o foco de atenção do conceituador. Já a elaboração do sentido da preposição em
requer, em (18) abaixo, que os conteúdos de “o novo livro” e de “as grandes livrarias”
também sejam acessados.
(18) O novo livro está em todas as grandes livrarias. (JB – 21.06.2008)
18
Para LANGACKER (1987. p. 222), mesmo expressões como depois de e antes de são relações atemporais
visto que, embora especifiquem as posições relativas de dois eventos no tempo, perfilam uma relação estática
entre eles. Assim, embora o tempo seja o domínio primário nesses casos e o trajetor e o marco dessas relações
sejam processos, esses são conceitualizados como entidades unitárias e a configuração obtida é única e
consistente, com todas as facetas da cena simultaneamente disponíveis para a conceitualização de resumo e
não em sequência como acontece nas relações temporais perfiladas por verbos (ver seção 6.3.3 desta tese).
19
Esses termos recebem as seguintes denominações por diferentes autores: trajector e landmark
(LANGACKER, 1987 e outros), figure e ground (TALMY, 2000), cible e site ou target e ground
(VANDELOISE, 1991 e 1994).
20
Predicação é o termo empregado por LANGACKER (1987. p.97) para designar o pólo semântico de
qualquer expressão linguística.
38
Isso ocorre porque em contribui para a emergência de um esquema no qual as
“livrarias” (o marco) fornecem a ‘localização’ do “livro” (o trajetor). Em virtude dessa
interdependência, essas duas entidades abstratas compõem o perfil semântico de em e das
preposições de um modo geral. Tal fato inviabiliza investigações descontextualizadas de
membros dessa classe de palavras e demanda a aplicação de uma análise semântica
“distribuída” (SINHA & KUTEVA, 1995).
O diagrama abaixo é uma representação pictórica de um esquema preposicional.
Contudo, é importante esclarecer, mais uma vez, como Langacker (2008) o faz, que esse
tipo de representação tem apenas um caráter didático e que, obviamente, não são postuladas
quaisquer semelhanças com representações mentais de qualquer conceito.
FIGURA 3 – Diagrama simbolizando a estrutura semântica de uma preposição
FONTE – LANGACKER, 1987. p. 215.
Como é padrão nas notações de Langacker, na FIG. 3, linhas e contornos espessos
representam elementos em perfil: e1 e e2 constituem eventos cognitivos – no caso das
preposições, entidades conceitualizadas – e a linha entre eles, algum tipo de relação. Com
essa notação, Langacker inclui as entidades relacionadas como parte da estrutura semântica
da preposição, muito embora, o que esteja realmente em destaque seja a relação existente
entre elas. No exemplo (18), o significado da relação necessita da presença explícita do
e1 e2
39
trajetor (novo livro) e do marco (grandes livrarias), instanciando as entidades esquemáticas
que ajudam a compor o esquema preposicional.
A especificação das entidades envolvidas é, com certeza, muito vaga no caso da
preposição em. Contudo, grandes diferenças tipológicas são observadas na codificação de
esquemas espaciais (KUTEVA & SINHA, 1994. p. 221), que, por vezes, pedem abordagens
analíticas diferenciadas. Alguns idiomas organizam conceitos espaciais em classes fechadas
formadas por um grande número de elementos, os quais representam noções bastante
específicas. Entre essas línguas, o tiriyó, falado no norte do Brasil e no Suriname, expressa,
por meio de posposições, noções bastante exóticas, como ‘aquático’ (LEVINSON &
MEIRA, 2003). Por outro, há preposições como across e along do inglês, cuja escolha pelo
falante depende, entre outras coisas, de propriedades geométricas de elementos da cena
espacial (SINHA & KUTEVA, 1995. p. 180; TALMY, 2005a. p. 202-4). E, por último, há
preposições que subespecificam conceitos bastante familiares como ‘inclusão’ e ‘suporte’21.
Esse é o caso de em do português e en do espanhol, amplamente empregados em contextos
semelhantes àqueles em que se usam as preposições inglesas in, at e on (BRALA, 2002) e
seus correspondentes aproximados dans, à e sur do francês. Essa diversidade é corroborada
pela sobreposição parcial de em com outras formas do português do Brasil, tais como sobre,
em cima de, dentro de e junto a.
21
VANDELOISE (1991 e 1994) considera ‘contenção’ um resultado funcional e ‘inclusão’ uma noção
topológica. Essa última visão é a que se assume neste trabalho. A título de exemplificação, considera-se que,
como efeito funcional de sua ‘inclusão’ em um balão, o ar é ‘contido’ por ele.
40
2.3. Comentários finais sobre o capítulo
Nesta parte do texto, procurou-se demonstrar a base epistemológica da abordagem de
investigação assumida nesta tese. A opção pela Linguística Cognitiva como suporte teórico
baseia-se na crença de que a linguagem é necessariamente fundamentada pela experiência e
nas condições que foram dadas aos seres humanos para interagir e sobreviver. Em razão
disso, também se acredita que a base corpórea de nosso sistema conceitual e as
possibilidades de ampliação dos conceitos para novos domínios permitirão justificar a não-
-arbitrariedade da linguagem como um todo e, consequentemente, do fenômeno linguístico
que se propõe investigar aqui.
A esse respeito, juntamente com os conceitos de trajetor e marco, a noção de
esquemas imagéticos – entre os quais, CONTENTOR – e suas possibilidades de extensão,
encontram-se no cerne da semântica da preposição em. Levando em conta sua origem na
experiência corpórea, entende-se que o próximo passo para a compreensão da estrutura e do
funcionamento desses esquemas é conhecer a maneira como a linguagem lida com a
experiência espacial. Por essa razão, esse é o tema escolhido para a seção que vem a seguir.
41
3. COGNIÇÃO ESPACIAL E A LINGUAGEM
A cognição espacial está no centro de nosso pensamento e raciocínio. Sua
inegável importância pode ser reconhecida, por exemplo, na influência da geometria,
astronomia e cartografia no desenvolvimento das ciências e da tecnologia (LEVINSON,
2003. p. xvii).
Mas essa centralidade do domínio espacial para a existência humana é ainda mais
básica. É possível identificá-la em expressões linguísticas empregadas no cotidiano, tais
como “perder o rumo” (no português do Brasil), que, no domínio espacial, descreve uma
situação em que um motorista se encontra perdido em uma estrada, não sabendo qual
direção tomar. Mas esta expressão pode evocar, igualmente, outra experiência em que um
fato inesperado e impressionante deixou alguém desnorteado, isto é, sem saber que decisão
tomar (domínio psicológico). Casos como esse demonstram a penetração de conceitos
espaciais em vários domínios da cognição. Mais que isso, o caráter fundamental e primário
das experiências espaciais caracteriza-as como origem e modelo para a organização do
raciocínio como um todo (SWEETSER, 1990; LAKOFF, 1987).
Contudo, ainda que básica e cotidiana, a cognição espacial é um fenômeno
altamente complexo. Ela envolve capacidades como a percepção e a categorização da
forma de diferentes objetos, o reconhecimento de diferentes orientações no espaço e a
capacidade de perceber e categorizar relações topológicas entre objetos. Também é de
primordial importância a capacidade humana de perceber e conceber uma cena a partir de
perspectivas distintas ou, ainda, enfatizando aspectos diferentes da mesma (LANGACKER,
42
2001; ver também TALMY, 2000 e LEVINSON, 2003). Muito dessa complexidade passa-
-nos despercebida em face da primariedade e recorrência desses processos em nossas vidas.
Outro tipo de complexidade está envolvido na conceitualização de espaço. No
pensamento ocidental, desde a Grécia Antiga, a busca da definição adequada para o termo
vem produzindo diferentes ideias quase sempre baseadas em conceitos do senso comum a
respeito de lugar. Essas definições vão desde ideias sobre um “vazio” ou “éter” até aquelas
a respeito de um “espaço material”, tridimensional.
Aristóteles, por exemplo, definiu o espaço como uma série de lugares
“aninhados”, contidos em outros maiores, até o último limite externo, que continha todo o
universo. Já na Renascença, o espaço passou a ser “um vazio infinito, tridimensional”, ideia
que, mais tarde, inspirou Isaac Newton no desenvolvimento da distinção entre o espaço
absoluto (não relacionado a coisa alguma externa; não sensível) e o relativo (“lugares”
definidos como a posição de qualquer corpo em relação a outro conceitualizado como fixo).
A validade do conceito de espaço absoluto foi mais tarde contestada por Leibniz, para
quem o espaço nada mais é que a localização das coisas, ou seja, uma rede de lugares.
Posteriormente, Kant retomou o conceito de espaço absoluto, atribuindo a esse um caráter
intuitivo e apriorístico, independente das relações concretas propostas por Leibniz.
Finalmente, já no século XX, os diferentes graus de complexidade desses dois conceitos
são refletidos na afirmação de Einstein (1954. p. xiii): “Com relação ao conceito de espaço,
parece que ele foi precedido pelo conceito psicologicamente mais simples de lugar” 22.
22Do original: “Now, as for the concept of space it seems that it was preceded by the psychologically simpler
concept of place”. EINSTEIN, A. Foreword. In: JAMMER, M. (Ed.), Concepts of space: the history of
theories of space in physics. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1954. Apud LEVINSON, 2003. p.
326. (Tradução livre).
43
Essa brevíssima apresentação (adaptada de LEVINSON, 2003. p. 6-14) do
entrelaçamento dos conceitos de lugar e espaço ao longo da história tem por finalidade
realçar o fato de que a cognição espacial do senso comum – que se reflete na linguagem –
baseia-se na localização relativa a outros corpos e não na existência abstrata de um espaço
sem limites.
Certamente, nossa maior familiaridade com a conceitualização de lugares sugere
uma explicação intuitivamente simples: uma extensão infinita vazia e sem marcas – o
espaço abstrato – é funcionalmente ineficiente para efeitos de localização, além de ser
psicologicamente menos real. Quando um marco está localizado em algum ponto do
espaço, esse ponto é um lugar, qual seja o lugar onde se encontra o marco. Mas a definição
dessa localização com base no espaço abstrato não nos é psicologicamente possível ou
mesmo necessária, porque é um marco, e não o espaço, que serve como referência para que
se possa situar outro objeto (LYONS, 1977. p. 690).
A conceitualização do espaço no senso comum e, consequentemente, na
linguagem, é capturada e descrita com detalhe em Talmy (2000). Nas páginas 180 e 181,
ele sugere que nossa cognição espacial se baseia em um volume de espaço (que aqui se
entende como uma porção do espaço não delimitado, ou space), dentro do qual coisas
existem e eventos ocorrem. Nesse volume de espaço um objeto também se localiza em
relação a outro.
A experiência desse pesquisador com estudos tipológicos levou-o a propor
algumas generalizações sobre a representação desse domínio em classes fechadas de
palavras, dentre as quais se encontram as preposições. Segundo Talmy (2000 e 2005a),
44
essas palavras costumam codificar noções topológicas e umas poucas noções geométricas.
Dessas, as últimas são informadas com maior precisão pelas palavras de classes abertas.
3.1. Conceitos topológicos e geométricos e a semântica das preposições
Como mencionado na Introdução, descrições da semântica de preposições
costumam fazer uso de noções geométricas e topológicas. A topologia e a geometria
descrevem o espaço de modos distintos, porém, complementares.
A topologia lida com noções gerais e intuitivas, isto é, que dependem do
conceituador. São noções de ‘extensão’, ‘dimensão’, ‘separação’, ‘vizinhança’, ‘distância’,
‘proximidade’, ‘continuidade’, ‘limite’ e ‘inclusão’, algumas das quais frequentemente são
evocadas por preposições (TALMY, 2000. p. 27-28). Além disso, a topologia descreve
objetos como sendo múltiplos, internamente coesos, ou possuindo uma extensão linear.
Como exemplo, esta última propriedade faz parte do esquema de TRAJETO evocado pelas
preposições espaciais across e through da língua inglesa e pelo verbo de movimento
“atravessar” do português do Brasil.
De particular importância para a discussão proposta nesta tese é a noção
topológica de ‘inclusão’, intimamente relacionada à semântica de em. Tal noção pode se
manifestar de maneiras diferentes, em conformidade com o tipo de objetos envolvidos na
relação espacial. Abaixo, observam-se cinco variações contextuais desse conceito, descritas
por Vandeloise (1991. p. 211) em empregos espaciais da proposição francesa dans:
inclusão total, sem contato (19); inclusão total, com contato (20); inclusão parcial, com
sobreposição de limites das duas entidades (21); inclusão total em contentor aberto, com
45
contato (22) e inclusão total, com contentor aberto e sem contato (23). Em todas elas, o
marco é necessariamente conceitualizado como uma região ou objeto tridimensional.
(19) La mouche est dans le coffre-fort. [A mosca (voando) está dentro do cofre]
(20) Les bijoux sont dans le coffre-fort. [As joias estão dentro do cofre]
(21) Le chien est dans la niche [O cão está dentro da casinha (com a cabeça para
fora)]
(22) Le vin est dans le verre [O vinho está dentro do copo]
(23) La mouche est dans le verre. [A mosca está (voando) dentro do copo].
Por sua vez, as diversas modalidades da geometria abordam noções absolutas
(que teoricamente não dependem do conceituador) 23, tais como medidas, número de
dimensões, direção, ângulos etc. O número de dimensões faz parte da descrição de pontos,
linhas, superfícies e volumes. Já a noção de ‘direção’ está presente, por exemplo, na
semântica de atrás de e diante de, acima de e abaixo de, à direita de e à esquerda de. Essas
noções dependem da posição de um objeto em relação a outro (o qual pode ser o próprio
conceituador) que se encontra no centro de um sistema triaxial de coordenadas
(VANDELOISE, 1991. p. 3-4; ver também LEVINSON, 2003 como um todo).
Dentro de uma abordagem semântica mais ortodoxa, noções geométricas
aparecem em estudos como os de Gougenheim (1959) e Clark (1973), sobre as preposições
inglesas at, on e in, relacionadas, respectivamente a uma, duas e três dimensões. Essas
23
Na verdade, VANDELOISE (1991. p. 3 e 4) questiona exatamente a validade de certas descrições
exclusivamente geométricas que se propõem independentes do conceitualizador.
46
descrições estritamente geométricas parecem insuficientes em face de exemplos como (24)
e (25) a seguir, em que at e in aparecem com o mesmo marco (Berlim). De acordo com a
proposta de “descrição funcional” de Vandeloise (1994, 1991), o falante não
conceitualizaria a cidade de Berlim como um ponto (sem dimensões) em (24) e depois
como um contentor (tridimensional) em (25). Ainda nessa linha de raciocínio, o uso de at
no exemplo (24) é licenciado porque Berlim simplesmente localiza o trajetor de maneira
precisa, isto é, Berlim é a última de uma lista de cidades em que Hitler esteve. Na segunda
parte do enunciado, a função de conter o trajetor está ligada ao prédio da Chancelaria do
Reich, fisicamente mais consoante com a descrição de um contentor. Em (25), estaria em
jogo o fato de Berlim ser o refúgio de Hitler, exercendo sobre ele certa ação protetora e de
controle.
(24) …and finally, from 16th January till the end at Berlin, in the Reich
Chancellery, which he never left. [... e, finalmente, de 16 de janeiro até o
fim, “situado em” Berlim, na Chancelaria do Reich, da qual ele nunca saiu.]
(25) Hitler was now back in Berlin, facing the last desperate battle of the war.
[Agora Hitler estava de volta dentro de Berlim, enfrentando a última
desesperada batalha da guerra.] (TREVOR-ROPER, 1947. p. 52 e 91)
Os estudos de Gougenhein (1959) e Clark (1973) são propostas bastante fechadas,
que defendem o modelo clássico de categorização e, portanto, acabam por ser contestadas
devido ao grande número de contraexemplos encontrados. Como se leu anteriormente, a
categorização linguística não se dá de maneira absoluta. Além disso, são as propriedades
47
espaciais (que aqui se entendem como geométricas e topológicas) e outras características
das “entidades fisicamente relevantes” que impõem limites às relações em que essas
entidades se envolvem e, como consequência, aos tipos de significado espacial expressos
pelas preposições (ZELINSKY-WIBBELT, 1993. p. 4-5).
Já na Semântica Cognitiva, Talmy (2000. p. 192), demonstra como as preposições
espaciais across e through da língua inglesa representam o marco esquematicamente, com
conceitualizações geométricas distintas. Essas preposições descrevem um movimento ao
longo de um TRAJETO com características próprias, de um lado a outro de uma região: o
trajeto descrito por across ocorre sobre um ‘plano delimitado’ e por through, em um
‘fechamento’ linear, ou seja, possuindo uma forma cilíndrica.
(26) A bike sped across the field. [Uma bicicleta acelerou pelo campo. > Uma
bicicleta atravessou o campo a grande velocidade.]
(27) The bike sped through the tunnel. [A bicicleta acelerou pelo túnel. > A
bicicleta atravessou o túnel a grande velocidade.]
Avançando um pouco com os exemplos de Talmy, a bike sped through the field
evocaria a dimensão vertical do campo, salientando uma plantação de milho ou trigo que lá
existisse e envolvesse o trajetor nesse eixo. Além disso, #The bike sped across the tunnel
não parece adequado, porque o ciclista teria que se movimentar a grande velocidade de um
lado a outro da estrada (plano delimitado) que passa sob o túnel. Esse é um caso em que o
contexto claramente determina a escolha da preposição.
48
As três preposições – across, through e, ainda, dans – “representam o marco
como possuindo um ou outro tipo qualitativo de configuração geométrica integrada”
(TALMY, 2000. p. 192). Isso torna seu uso mais limitado que o da preposição em, a qual
aparece em construções que evocam variados tipos de noções geométricas e topológicas.
Por essa razão, não se espera encontrar na análise situações nas quais a escolha do falante
pela preposição em seja determinada exclusivamente pelas propriedades geométricas do
marco.
3.2. O conceito de ‘localização’
Talmy (2000. p. 189-91) cita localização (location) e movimento (motion) como
os dois principais conceitos envolvidos na representação linguística do espaço. Para os fins
propostos aqui, interessa no momento apenas o primeiro desses conceitos. A ‘localização’ é
uma noção básica, de natureza topológica, muito esquemática, ligada à noção de
estaticidade. Essa noção implica a posição de um objeto (figura-trajetor) em relação à
de outro (fundo-marco), conceitualizado como fixo.
Além disso, como explica Levinson (2003. p. 66), essa noção pode ser elaborada
de duas maneiras gerais. Primeiro, a categoria ‘localização’ pode incluir conceitualizações
que dependem de um sistema de coordenadas e envolver contrastes como anterioridade e
posterioridade e superioridade e inferioridade 24. Alternativamente, a ‘localização’ (que
24
Ordenadas absolutas (por exemplo, em cima de/embaixo de; norte/sul); ordenadas intrínsecas a um objeto
(a parte anterior de um cadeira ou de um veículo) e ordenadas relativas a um conceitualizador
(direita/esquerda; antes/depois). Esses conceitos são amplamente explorados por TEIXEIRA (1999) na
descrição de locuções prepositivas do português europeu no eixo horizontal frente/trás. (Ver também
VANDELOISE, 1991, para preposições espaciais do francês)
49
Levinson denomina ‘coincidência’) pode ser elaborada independentemente de qualquer um
daqueles sistemas de ordenadas, como no exemplo “A temporada nacional de corridas de
rua tem início em Belo Horizonte” 25. “Em Belo Horizonte” informa apenas uma
localização para o trajetor “início”.
A localização pode manifestar-se ainda como inclusão – “...um pão fresquíssimo,
daqueles que queimam a mão, no saco de papel” – , contato – “Comerciantes reclamam do
excesso de materiais na calçada” – e proximidade – “Braga fica perto do Porto”.
Portanto, o conceito de ‘localização’ é um hiperônimo de outros, tais como aqueles
expressos por junto a, dentro e fora de, perto e longe de, acima e abaixo de etc.
O emprego do termo ‘coincidência’ por Levinson é, contudo, controverso.
Vandeloise (1991. p. 159), por exemplo, argumenta que ‘coincidência’ é, idealmente, uma
noção simétrica. Porém, a “função” de localização – equivalente a situar uma entidade em
relação a outra – é altamente assimétrica (ver seção 3.4). Uma manifestação dessa
assimetria está no fato de o marco ser normalmente maior que o trajetor, o que não viabiliza
a coincidência de localização entre os dois. Esse fenômeno fica demonstrado na
comparação entre os enunciados abaixo, que demonstram a impossibilidade de alternância
entre o trajetor e o marco.
(28) A fábrica da maior indústria nacional de chinelos fica em Campina
Grande. (JB – 21.06.2008)
25
Adaptada do exemplo original The tournament is at Wimbledon. Levinson atribui a at Wimbledon a função
de mera localização.
50
(29) # Campina Grande fica na fábrica da maior indústria nacional de
chinelos.
Dessa forma, assume-se aqui a posição de Vandeloise, eliminando-se o nível
‘coincidência’ da hierarquia original de Levinson e denominando-se ‘localização simples
ou inespecífica’ os casos como “em Belo Horizonte” do enunciado mais acima,
‘localização pontual’, aqueles em que o marco realmente apresente essa configuração e
‘coincidência’, apenas os usos em que um evento ocupe toda a extensão de um marco
espacial e, também, temporal.
3.3. Limites no emprego espacial de em
Apesar do alto nível de esquematicidade do pólo semântico da preposição em, há
limites observáveis em sua aplicação, facilmente demonstráveis com uma entidade
concreta, como é o caso de “copo”. Enquanto construções como (4a, b e c) e (5a, b e c) são
possíveis descrições das situações representadas nas FIGURAS 4 e 5, dificilmente um
falante nativo concordaria que (6a) descreve a situação esquematizada na figura
correspondente.
51
FIGURA 4
a – Há um canudo no copo.
b – Há água no copo.
c – Há linhas no copo.
FIGURA 5
a – Tinha o olhar no copo.
b – Pôs a mão no copo.
c – Tinha a mão no copo.
FIGURA 6
a – # A água está no copo.
b – A água está fora do/ junto
ao copo.
Como se observa em (4 a-c) e (5 a-c), o significado de em traduz-se de seis
maneiras diferentes pelo menos, com um mesmo marco: ‘inclusão parcial’ em 4a, ‘inclusão
total’ em 4b, ‘parte-todo’ em 4c, ‘ponto final de um trajeto virtual’ em 5a, ‘ponto final de
um trajeto real’ em 5b e ‘contato’ em 5c. Em outras palavras, para cada uma das situações
esquematizadas nas FIGURAS 4 e 5, pelo menos três descrições diferentes foram possíveis,
e em cada uma dessas descrições, a relação evocada por em foi distinta.
Contudo, embora o significado ‘localização’ de em possa ser altamente
esquemático, não se trata de uma espécie de “arquipreposição”, que indica simplesmente
que um objeto está posicionado “em algum lugar” com relação a outro objeto. Um exemplo
disso pode ser visto na FIG. 6, a qual representa uma situação de ‘proximidade’, mas
também de ‘exclusão’, que não pode ser descrita pela preposição em. Tal limitação conduz
à hipótese de que, na ausência de contato entre o trajetor e o marco, como em 6a, a
52
semântica de em pressupõe a existência de certo controle do trajetor pelo marco, como será
discutido em momentos diferentes desta tese.
3.4. Assimetria conceitual na relação trajetor-marco
Segundo o princípio gestáltico da alternância entre figura e fundo, o sistema
perceptivo humano é capaz de destacar uma figura focal em uma cena e perceber outras
sensações como num plano de fundo. Na imagem clássica reproduzida abaixo, um
observador considerado normal ora percebe um vaso preto, ora dois rostos mais claros em
baixo-relevo, voltados um para o outro, mas nunca o vaso e os rostos ao mesmo tempo
(STERNBERG, 2000. p. 120).
FIGURA 7 – O princípio gestáltico da alternância entre figura e fundo.
FONTE – STERNBERG, 2000. p. 121.
Como foi discutido na seção 2.2, a relação de assimetria entre um trajetor e um
marco é uma dimensão da proeminência focal, relacionada a esse mesmo princípio da
Gestalt. Observando o uso da linguagem, Talmy (2000) sistematizou uma série de
distinções conceituais entre o trajetor (objeto primário) e o marco (objeto secundário)
baseadas na assimetria figura-fundo, que ocorrem com frequência. Sua lista é reproduzida
na TAB. 1 e é seguida por exemplos de aplicação em alguns contextos espaciais.
53
TABELA 1
Assimetria no alinhamento trajetor-marco
Objeto primário Objeto secundário
I Possui propriedades espaciais (ou
temporais) desconhecidas a serem
determinadas.
Atua como uma entidade de referência,
possuindo propriedades conhecidas que
podem caracterizar os aspectos
desconhecidos do objeto primário.
II Mais móvel. Mais permanente na localização.
III Menor. Maior.
IV Geometricamente mais simples em seu
tratamento (frequentemente
conceitualizado como um ponto26).
Geometricamente mais complexo em seu
tratamento.
V Mais recente na cena/na consciência. Aparece mais cedo na cena/na memória.
VI Mais relevante Menos relevante.
VII Sujeito a ser menos percebido
imediatamente.
Mais imediatamente perceptível.
VIII Mais saliente uma vez que tenha sido
percebido.
Menos saliente uma vez que o objeto
primário tenha sido percebido.
IX Mais dependente. Mais independente.
FONTE – TALMY, 2000. p. 183.
Como consequência do princípio I de assimetria focal, o fundo é referência para a
figura. Desse modo, alterações no fundo determinam mudanças na conceitualização da
figura.
26
Ver crítica de VANDELOISE (1991. p. 5-6) a respeito dessa característica.
54
A FIG. 7, desta vez reproduzida com um fundo mais rico em detalhes, demonstra
o papel deste na percepção da figura. O contexto mais informativo (vaso, mobília e ângulo
de incidência da luz) dá ao observador a certeza de que a imagem na metade direita da
fotografia é a sombra do vaso projetada na parede.
FIGURA 8 – O contexto como referência para a FIG. 3.
FONTE – STERNBERG, 2000. p. 121.
Na linguagem espacial, em particular no uso de preposições, os efeitos da
assimetria se fazem presentes em configurações que evocam o sentido de ‘localização em
algum lugar’ ou de ‘na proximidade de algum lugar’ cuja localização e propriedades
geométricas são conhecidas dos interlocutores (VANDELOISE, 1991. p. 21-3; TALMY,
2000. p. 182-4). A locução prepositiva perto de, por exemplo, permite uma alternância
entre entidades, desde que essas apresentem certas características semelhantes, como fica
demonstrado nos exemplos abaixo, adaptados da página 184 da segunda obra:
(30) A casa de Jade fica perto da minha.
(31) A bicicleta está perto da casa.
(32) ?A casa está perto da bicicleta.
55
Além das entidades esquemáticas e da ‘proximidade’ topológica, perto de
especifica a relação desigual entre elas, no sentido de que o marco (casa) serve de
referência para a localização do trajetor (a bicicleta) 27.
Na sequência do texto, pode-se ver como Vandeloise (1991) lida com o conceito
de ‘localização’ como uma das possíveis Relações Funcionais existentes entre entidades do
domínio físico.
3.5. Efeitos funcionais envolvidos na construção de cenas espaciais
Para Vandeloise (1994 e 1991), mais que noções geométricas ou lógicas (baseadas
em restrições seletivas), a investigação semântica dessas palavras deveria se basear no
conhecimento enciclopédico sobre o tipo de relações que realmente se estabelecem entre
entidades no espaço.
Assim, por exemplo, o último critério da assimetria mencionado anteriormente diz
que o marco serve de referência para a localização do trajetor. Na prática, a função de
localização é facilitada se o referente do marco tiver uma localização estática. Segundo esse
autor (1991. p. 21-3), a assimetria resulta em um princípio geral da linguagem – baseado na
experiência do mundo – de acordo com o qual “um objeto de localização desconhecida não
pode ser situado a não ser por referência a outro cuja posição seja mais conhecida” 28. Ele
27
Em comunicação pessoal, o Prof. Luiz Francisco Dias (UFMG) observa que o exemplo (32) soaria
inadequado em uma interpretação sitiante (permanente) da localização da casa, porque subverte os critérios II
e III: o trajetor (casa) ser mais estático e maior que o marco (bicicleta). Por outro lado, uma interpretação
cenográfica (temporária) da cena trataria a casa como um objeto móvel e daria maior aceitabilidade ao
enunciado.
28
Do original: “An object whose location is unknown cannot be situated without reference to an entity whose
position is better known.” (VANDELOISE, 1991. p. 21-2). (Tradução livre)
56
afirma ainda que, das três características – tamanho, mobilidade e informação nova –, esta
última tem prioridade sobre as demais, como demonstram estas construções com a locução
prepositiva près de da língua francesa:
(33) L’épingle est près du château. [o alfinete está perto do castelo]
(34) ? Le château est près du pin. [o castelo está perto do alfinete]
(35) Regarde l’étoile filante! Près du clocher. [Olhe a estrela cadente ! Perto da
torre da igreja]
(36) ? Regarde le clocher! Près de l’étoile filante. [Olhe a torre da igreja ! Perto
da estrela cadente]
(37) Le Cameron est près de l’équator. [A República dos Camarões fica perto do
Equador.]
(38) La grue est près des chalands. [A grua está perto das balsas.]
A estranheza causada pelos dois primeiros exemplos deve-se, a princípio, à
enorme diferença entre os tamanhos do alfinete e do castelo. É essa estranheza que
Vandeloise visa a destacar ao escolher entidades de dimensões tão desproporcionais em
seus exemplos. Esses dois enunciados representam com clareza dois aspectos – tamanho e
mobilidade – da função de ‘localização’. É antinatural procurar um castelo tomando-se
como referência um alfinete, especialmente porque este é um objeto móvel e de difícil
visualização em uma tomada que inclua, ao mesmo tempo, o castelo. Já a mobilidade da
estrela cadente não permite que se localize, por meio dela, a torre da igreja, que é estática.
57
Pode-se observar, entretanto, que os dois últimos exemplos não seguem os
critérios de tamanho e mobilidade, nessa ordem. Até mesmo por sua concretude, o território
dos Camarões é, sem dúvida, maior que uma linha imaginária tal como o Equador.
Entretanto, a localização desse país parece ser menos conhecida que aquela da linha
abstrata criada para ser referência mundial de latitude. O mesmo pode ser dito a respeito
das balsas, cuja movimentação se dá dentro de uma região conhecida do falante e do
ouvinte e, por isso, elas podem servir de referência para a localização da grua.
Outra relação funcional apresentada por Vandeloise (1991. p. 215-6; 1994. p. 172)
que pode explicar certos desvios da assimetria trajetor-marco denomina-se C/c
(Contentor/objeto contido). Nessa relação funcional, um contentor exerce um controle
sobre – ou contém – o trajetor nele incluído.
O exemplo (39) representa um caso de ‘inclusão parcial’ que recebe aqui uma
explicação com base na Relação C/c.
(39) ... a época é ótima para adquirir um pinheiro natural, uma vez que ele não
secará ao ficar apenas um mês no vaso.vi
O esquema evocado inclui um trajetor (pinheiro) que normalmente é maior que o
marco (vaso). A inversão da assimetria nesse exemplo de ‘inclusão parcial’ é licenciada
pelo contexto situacional, que informa ao falante sobre a relação C/c emergindo dessas
configurações. Em outras palavras, o vaso ‘controla’ a localização do pinheiro (ver também
seção 4.2.1). Alternativamente, poder-se-ia afirmar que está em jogo aqui a capacidade do
falante para conceitualizar o trajetor utilizando processos metonímicos (as raízes da árvore).
58
Entretanto, o falante dificilmente empregaria o termo “pinheiro” nesse caso apenas em
referência a suas raízes.
O conhecimento enciclopédico sobre a estrutura e propriedades físicas de líquidos
e de gases também explica outro caso de inclusão parcial: a espuma da cerveja está dans le
verre [no copo]. O líquido que é contido pelo copo é a mesma substância que forma a
estrutura gasosa da espuma, a qual pode se manter fora do copo, mas ainda presa a ele. O
impacto dessas diferenças conceituais varia de língua para língua. No português do Brasil, a
construção “no copo” seria mais aceitável, enquanto “dentro do copo”, provavelmente não.
FIGURA 9 – Inclusão parcial.
FONTE – VANDELOISE (1991. p. 34).
Outro exemplo bastante citado (de VANDELOISE, 1994) é o esquema espacial de
‘inclusão total’, topologicamente idêntico em duas cenas, mas que requer expressões
distintas na língua inglesa. Ele sai do escopo dos parâmetros de assimetria sugeridos em
Talmy (2000) e demonstra como os empregos de in e under são condicionados pela função
de ‘contenção’ do marco. A fumaça é localizada e controlada pela cúpula, enquanto a pera
está apenas situada em relação a ela.
59
FIGURA 10 – Elemento funcional percebido na relação de ‘contenção’.
FONTE – BRALA, 2002. p. 5.
(40) The smoke is in the cheese cover.[Lit.: A fumaça está dentro da tampa da
queijeira.]
(41) The pear is #in/under the cheese cover.[Lit.: A pera está dentro/debaixo da
tampa da queijeira.]
FIGURA 11 – A pera está sob a/debaixo da queijeira.
Acontece, porém, que no português do Brasil seria perfeitamente aceitável afirmar
que a fumaça e a pera estão na queijeira. Essa relação específica é expressa de maneira
distinta em nossa língua, não se destacando apenas a cúpula (cover), mas o objeto inteiro.
Desse modo, “A pera está sob a queijeira” implica uma relação diversa entre os dois
objetos, como na FIG. 11 acima.
60
Por essa mesma razão, pode-se falar sobre a exigência de um contentor com
abertura voltada para cima ou para baixo apenas por questões pragmáticas. A relação C/c se
manifesta na hipótese “fumaça + contentor aberto”. Devido às propriedades físicas da
fumaça, o aspecto funcional prevaleceria e o emprego de em só seria possível com o
contentor voltado para baixo:
(42) #A fumaça está na tigela. / A pera está na tigela.
Como última demonstração do efeito de ‘controle’ na relação C/c, explora-se esse
limite imposto à distribuição de em através da seguinte situação:
FIGURA 12 – Uma lâmpada ou uma garrafa?
FONTE – VANDELOISE, 1994. p. 172.
Do ponto de vista da conceitualização, a figura acima pode ser interpretada como
um esboço de uma garrafa com uma tampa ou como uma lâmpada em um bocal.
Entretanto, apenas o primeiro de cada par dos exemplos abaixo parece linguisticamente
adequado.
61
(43) O pior é que a lâmpada que iluminava o fundo da casa queimou, foram
colocar uma lâmpada no bocal, mas Régis escorregou, caiu e trouxe junto
o bocal. vii
(44) # O pior é que a lâmpada que iluminava o fundo da casa queimou, foram
colocar o bocal numa lâmpada, mas Régis escorregou, caiu e trouxe junto
o bocal.
(45) Coloque a tampa na garrafa, depois vire a garrafa de ponta cabeça na pia. viii
(46) # Coloque a garrafa na tampa, depois vire a garrafa de ponta cabeça na pia.
O efeito funcional do marco é novamente resultado de sua “energia” para
determinar a posição do trajetor. Nos casos acima, é o bocal que segura a lâmpada e, ainda,
a garrafa que, mesmo sendo um marco móvel, determina a posição da tampa. Como se verá
na seção 4.2.1, esse efeito funcional sanciona usos do conceito de ‘controle’ em domínios
abstratos tais como:
(47) O futuro desta campanha está em suas mãos. (Estadão – 01.05.2008)
3.6. Comentários finais sobre o capítulo
Nesta parte do texto, buscou-se destacar a relevância das experiências espaciais
para a cognição em geral, bem como demonstrar a complexidade envolvida em seu
processamento. Uma das consequências dessa complexidade é não se poder restringir a
análise semântica das preposições espaciais a noções puramente geométricas ou
topológicas. Procurou-se demonstrar a necessidade de se empregar conceitos topológicos,
62
geométricos e funcionais (ou do conhecimento de mundo), bem como certos componentes
da perspectivação conceitual e a convenção linguística.
Entre as noções espaciais discutidas, recebeu maior atenção a ‘localização’, a qual
se procurou definir como uma noção esquemática em relação a outras como ‘inclusão’,
‘contato’, ‘proximidade’ etc. Nesse sentido, ficou demonstrado que a preposição em
apresenta limites em sua aplicação como ‘localização’, aparentemente sendo necessário a
‘inclusão’ do trajetor em certa “zona de controle” ou “influência” do marco. Esses limites
impostos à distribuição de em são devidos à assimetria frequentemente observada entre o
trajetor e o marco das preposições espaciais em geral, assimetria essa potencializada pela
noção topológica de ‘localização’.
Um terceiro elemento que interfere no emprego de em como ‘localização’ tem
fundo pragmático, isto é, depende do conhecimento do conceituador sobre como objetos
físicos interagem no mundo ou sobre propriedades físicas desses objetos.
Além de explicar limites na distribuição de em no domínio espacial, os fenômenos
discutidos acima têm grande importância na emergência de extensões de sentido para
domínios abstratos, como se discutirá na sequência do texto.
63
4. POLISSEMIA E COGNIÇÃO
Esta seção apresenta o fenômeno da polissemia e sua relação com a
conceitualização. Embora o tema da plurissignificação linguística já fosse do interesse de
filósofos como Aristóteles e Santo Agostinho (SILVA, 2006. p.17), o termo polissemia
somente veio a ser cunhado por Michel Bréal em 1897. A polissemia designa o fenômeno
bastante abundante na linguagem em que sentidos novos são dados a uma mesma forma,
“sem que o sentido antigo seja extinto”.
Esse fenômeno, abundante entre elementos de classes tanto abertas como
fechadas, contrasta com a homonímia, a qual se caracteriza pela associação acidental de
múltiplos sentidos a uma mesma forma linguística. A polissemia difere também da
monossemia, que é marcada pela existência de um sentido muito abstrato, mas que permite
variações contextuais (SANDRA & RICE, 1995. p. 98).
Para marcar a existência de polissemia, pode-se fazer uso de paráfrase. Esse
recurso é empregado com certa frequência neste estudo para demonstrar como em se
sobrepõe a certos usos de um grupo de preposições e locuções prepositivas estabelecidas de
sentido mais “concreto”, tais como de (especificação), dentro de (inclusão), em cima de
(contato) etc. Dessa forma, é mais fácil identificar usos distintos que devam ser
considerados convencionalizados, como nestes exemplos retirados do córpus, todos com a
preposição em.
(48) Agora imagine que a água que você tem para beber e cozinhar seja a que está
no/dentro do copo à direita da fotografia. (Estado de Minas – 10.08.2009)
64
(49) São três placas de bronze postas uma acima da outra na/sobre a parede
frontal do MHAB. (Estado de Minas – 05.08.2008)
(50) Em/de bronze e granito, [o monumento] representa a conquista do território
e da liberdade. (Estado de Minas – 05.08.2008)
(51) Pouco após o fim do discurso de Hillary, o salão foi inundado por uma chuva
de papel picado nas/com as cores da bandeira americana. (Estadão –
01.05.2008)
Essa pequena amostra contém quatro usos considerados distintos neste estudo. A
diferença mais marcante entre eles está nos três domínios conceituais em que os usos se
dão: (48) e (49), no domínio espacial; no domínio das substâncias e das propriedades
físicas, (50) e, no domínio das cores, (51). Além disso, os usos espaciais diferem a respeito
do tipo de esquema imagético que evocam, por exemplo, CONTENTOR e CONTATO.
4.1. Rede de polissemia
A polissemia tem importância crucial na evolução das línguas. A “liberdade” que
os falantes têm para usar as palavras em contextos diferentes afeta o sistema linguístico por
inteiro, uma vez que as palavras vizinhas também são atingidas pelo mesmo efeito. Como
consequência, esse mecanismo transforma a língua no curso do tempo.
Mas a despeito de seu forte apelo diacrônico inicial, nem sempre a história da
palavra soluciona o debate da polissemia (VICTORRI & FUCHS, 1996. p. 11-2). Muitas
vezes, não há pistas sobre a etimologia de uma palavra ou não se sabe ao certo a que
período da evolução linguística se deve retornar: neste caso, ao latim ou ao indo-europeu?
65
Em uma perspectiva sincrônica, a unicidade deve ser sustentada por argumentos
tais como a existência atual de elementos comuns entre os diferentes usos do termo e de
sentidos intermediários entre os sentidos mais distanciados daquele que, na visão cognitiva,
denomina-se “sancionador” (LANGACKER, 1987. p. 66-71), sem um salto abrupto entre
os usos. Em termos de polissemia, a Semântica Cognitiva pleiteia a possibilidade de
explicar os elos entre os diversos usos por meio de algum processo cognitivo, como os
mencionados neste texto.
Muitas vezes, tais explicações convergem para a representação dos diferentes usos
e as relações entre eles em termos de um ou outro modelo de rede de polissemia (SANDRA
& RICE, 1995), por exemplo, o de Lakoff (1987) e o de Tyler & Evans, (2003).
Neste estudo, a organização dos usos é proposta por meio de uma Rede
Esquemática (LANGACKER, 1987. p.74-6), que inclui relações de categorização do tipo
esquema/instância para unidades simbólicas, padrões ou generalizações (esquemas em cada
nódulo) e o sancionamento de novos usos (categorização de usos sem status de unidade
linguística). O sancionamento pode ser total, quando um uso apresenta compatibilidade
completa com o padrão (unidade convencionalizada). Entretanto, normalmente ocorre
apenas sancionamento parcial, isto é, o padrão ou esquema superior não é de todo
compatível com o novo uso e, ainda assim, o usuário da língua o percebe como membro da
categoria que o padrão representa. Esse é o tipo de categorização baseada em protótipo. A
figura a seguir é um exemplo de aplicação dessa rede com conceitos nominais.
66
FIGURA 13 – Rede esquemática
FONTE – LANGACKER (1987. p.74)
As relações verticais no diagrama acima representam categorização por
elaboração (considerando a direção das setas). Isso implica que cada esquema na
extremidade final da seta é um exemplo, uma instância ou elaboração do esquema de onde
parte a seta. Assim, FRUTO é um conceito bastante esquemático, que incorpora noções
muito abstratas encontradas em FRUTA e TOMATE e, ainda, em MAÇÃ, BANANA e
PERA. Ser recoberto por algum tipo de pele ou membrana seria uma das características de
FRUTO. Por outro lado, TOMATE e FRUTA são instâncias ou elaborações de FRUTO.
O exemplo também inclui a representação de uma extensão de sentido, o qual
aparece como uma seta horizontal tracejada entre FRUTA e TOMATE. Isso quer dizer que
o conceito FRUTA deu origem ao conceito TOMATE como outra instância de FRUTO
(Ver também TAYLOR, 2002a. p. 138-40).
FRUTO
FRUTA TOMATE
MAÇÃ BANANA PERA
67
Não se deve pensar, contudo, que o emprego da rede esquemática exclua a análise
diacrônica. Na verdade, a diacronia pode colaborar para a explicação dos processos
cognitivos de extensão propostos através desse modelo, ao revelar contextos de descoberta,
períodos e tendências de estabilização de novos usos. Segundo o autor do modelo (1987.
p.70), a interface convenção-uso é a origem da mudança linguística, uma vez que usos
inéditos e os critérios de categorização que permitiram seu sancionamento podem vir a se
tornar unidades simbólicas e adquirir certo grau de convencionalização, como se discute
abaixo.
4.2. O surgimento de um novo uso
Como salienta Langacker (1987. p. 65-6), “são os falantes que criam expressões
novas e não as gramáticas” 29. O processo envolve um “esforço construtivo”, o qual,
segundo esse autor, é semelhante à tarefa de solucionar um problema. Além do
conhecimento da convenção linguística, entra em jogo uma série de habilidades cognitivas
tais como a memória, a capacidade de planejamento, de comparação e de julgar graus
distintos de semelhança.
Além dos recursos mencionados mais acima, o falante também utiliza sua
capacidade de conceitualizar uma única cena de maneiras distintas (construal em
LANGACKER, 2001) e de imaginação, isto é, sua capacidade de criar metáforas e
metonímias conceituais, que permite ao falante solucionar o problema de escolher, entre os
29
Do original: “Putting together novel expressions is something that speakers do, not grammars.” (Tradução
livre)
68
elementos linguísticos convencionalizados disponíveis – as chamadas “unidades
simbólicas” –, aquele que melhor se ajusta ao novo uso pretendido.
Quando o falante descobre a expressão mais adequada, entende-se que foi
encontrada uma estrutura alvo que sanciona o novo uso. O diagrama na página seguinte
representa esse processo.
FIGURA 14 – Processo de sancionamento de um novo uso.
FONTE – LANGACKER, 1987. p. 67.
A categorização por julgamento de semelhanças e diferenças não representa o
final da explicação para o surgimento de usos novos. A emergência também põe em jogo os
“processos imaginativos” metafóricos e metonímicos e efeitos de perspectivação
conceitual.
4.2.1. Esquemas imagéticos e extensões de sentido
PÓLO SEMÂNTICO
subespecificado
Pólo fonológico
PÓLO SEMÂNTICO
USO DETALHADO
Pólo fonológico‘
Estrutura sancionadora Estrutura alvo
Julgamento de categorização
Gramática (convenção linguística)
. . .
69
A maneira como nossa cognição lida com esquemas imagéticos é uma das
motivações para a extensão semântica. Em função de sua estrutura e propriedades, os
esquemas têm um papel proeminente na geração de novos sentidos. Esquemas são
constituídos por uma estrutura interna ou gestalt, que comporta elementos dispostos
conforme uma dada configuração. Como exemplo, a noção de ‘movimento’ é constituída
por uma entidade que se desloca e o TRAJETO que ela percorre, o qual inclui ainda um
ponto inicial e um ponto final e, às vezes, características específicas do tipo de movimento.
Além disso, eles também se caracterizam por certa “lógica básica” (ver seção
2.1.1.2), que corresponde a vinculações ou consequências naturais da estrutura de uma cena
espacial. O esquema de CONTENTOR, por exemplo, é formado por uma área delimitada
por uma fronteira. Em cada um dos exemplos abaixo, essa configuração gera consequências
que podem ser inferidas pelo falante (JOHNSON, 1987. p. 22):
1. O objeto contido é protegido contra forças externas, neste caso, o calor do
ambiente.
(52) Ela estava preservada em gelo desde sua captura no Mar de Ross. (Estadão –
01.05.2008)
2. As paredes do contentor podem ocultar ou não o objeto contido.
(53) As aves estavam escondidas (...), acondicionadas em uma caixa de papelão
dentro de uma bolsa de viagem. (Estado de Minas – 2007)
3. O objeto contido tem localização relativamente fixa.
70
(54) Em abril, a cantora passou a noite numa cela policial, mas foi libertada sem
acusação. (JB – 17.05.2008)
4. Ocorre “transitividade da contenção”, ou seja, um objeto A contido em um
contentor B, o qual está contido em um contentor C, também está contido em C.
(55) As aves estavam escondidas (...), acondicionadas em uma caixa de papelão
dentro de uma bolsa de viagem. (Estado de Minas – 2007)
5. As paredes do contentor restringem e controlam forças no seu interior.
(56) O local (...) abriga o segundo maior passivo ambiental do estado, com cerca
de 29 mil metros cúbicos de resíduos tóxicos (...) armazenados em valas e
em galões enterrados no solo. (JB – 21.06.2008)
A importância dessas vinculações está nos efeitos de sua recorrência. Embora nem
todas elas sejam produtivas no português, considera-se que tenham potencial para
desencadear processos de extensão semântica, reforçando a estabilização de expressões na
língua. No último dos casos acima, o efeito inferido – de controle sobre a entidade contida
– reflete-se na construção “está nas POSS mãos” ou “está nas mãos de X”, usada para
indicar que X tem o poder para decidir ou agir sobre uma determinada situação.
(57) (47) O futuro desta campanha está em suas mãos. (Estadão – 01.05.2008)
4.2.2. Metáforas conceituais e polissemia
71
Contrariando o pensamento preponderante até então, Lakoff & Johnson (1980)
propuseram um status primordial para os processamentos metafóricos em nossa cognição.
Esse reconhecimento permitiu que a metáfora ultrapassasse, por assim dizer, os limites do
universo imaginativo e literário, situando-a como um procedimento padrão do sistema
cognitivo, refletido na linguagem, no pensamento e nas ações humanas. De acordo com
essa proposta, ao se comunicarem, as pessoas utilizam incontáveis metáforas
convencionalizadas, que estão entrincheiradas em sua memória.
As metáforas correspondem a mapeamentos motivados entre domínios
conceituais. Estes podem ocorrer por força de semelhança perceptual ou funcional e por
correlação de experiências (LAKOFF & JOHNSON, 1980; GRADY, 1997).
Nos exemplos a seguir, de semelhança funcional, entende-se que há uma raiz
comum nas palavras empregadas em cada par ((58) e (59); (60) e (61)), sendo que os
falantes utilizaram a estrutura de conceitos do domínio concreto para organizar sua
experiência conceitual em domínios abstratos. Entre os elementos comuns mapeados,
encontra-se a relação de ‘suporte’ originada de nosso conhecimento a respeito da gravidade
e das propriedades físicas de entidades concretas: no domínio físico, a pedra fornece
suporte para manter a construção de pé; a pilha de jornais serviu de anteparo ou apoio para
a caneca. O mapeamento ocorre em direção ao ‘suporte abstrato’: é necessário que o
governo dê seu suporte ao projeto, o suporte dos eleitores através de seu voto permitirá que
o político seja eleito etc. O fenômeno se faz presente em todos os exemplos abaixo, que não
acidentalmente, são de idiomas diferentes:
72
(58) A água escorria como cachoeira dos dois lados do casebre, apoiado apenas
sobre uma pedra que não parecia durar muito até que deslizasse morro
abaixo. (Estadão – 01.05.2008)
(59) Um projeto desse porte tem que ter o apoio do Governo também. (JB –
17.05.2008)
(60) Penn used a moment to sip her coffee. “Gah!” (…) She quickly placed the
mug on the newspaper pile and said… [Penn fez uma pausa para um café.
“Eco!” (...) Ela logo colocou sua caneca sobre a pilha de jornais e disse…] ix
(61) Remember, elected officials are always aware of upcoming elections and
want to count on your vote. x [Lembrem-se: funcionários eleitos estão
sempre atentos às próximas eleições e querem contar com seu voto.]
Outros mapeamentos metafóricos ocorrem por semelhança perceptual (GRADY,
1997), o que corresponde à associação de conceitos devido a semelhanças físicas ou
características abstratas percebidas. No exemplo abaixo, é bem possível que, na origem
desse uso metafórico hoje convencionalizado, tenha ocorrido um processo de extensão
semântica por meio de mapeamentos de um domínio físico fonte (instrumento de percussão
> sino) para outro domínio físico alvo (vestuário > calça comprida) por força da forma
semelhante.
(62) Esses valores foram traduzidos na moda através de roupas soltas - como
saias longas, batas e calças boca-de-sino. (JB – 15.08.2008)
73
Especialmente devido ao seu caráter consciente, o processo de semelhança
perceptual distingue-se da correlação de experiências (GRADY, 1997). Este último se dá
quando duas experiências distintas frequentemente ocorrem juntas, sendo associadas no
nível conceitual, e uma passa a incorporar o sentido da outra e vice-versa. Por exemplo,
quando formamos uma pilha de livros, quanto mais livros há, mais alta é a pilha.
Considerando que a linguagem reflete nosso pensamento, expressões como “os juros
subiram” = “os juros aumentaram”, demonstram como, em nossa cultura, esses dois
conceitos estão interligados. Por força da recorrência, essas associações conceituais entram
para nossa memória de longo prazo, fornecendo mais uma fonte de motivação para a
polissemia.
A correlação de experiências distingue-se da lógica básica de esquemas
imagéticos porque não é uma consequência obrigatória. No exemplo dado, o número de
livros poderia ser aumentado sem haver um correspondente incremento da altura da pilha,
caso fossem alinhados lado a lado em uma estante.
Ao explicar o fenômeno, Grady (1997) observa que, frequentemente vivenciamos
episódios básicos delimitados no tempo, nos quais percebemos uma forte correlação entre
uma “circunstância física” (marcados pela intencionalidade) e uma “resposta cognitiva”
(gerada por uma capacidade inata). Essas coocorrências acabam por gerar uma associação
natural entre as duas dimensões, a ponto de associarmos o esquema físico a outra situação
vivenciada em outro domínio, a qual gere uma resposta cognitiva semelhante. Comumente
conceitualizamos “dificuldade” empregando esquemas de “peso”, ao associarmos a
sensação de desconforto e tensão tanto ao ato de levantar um peso como ao de superar uma
dificuldade. Em nossa língua, então, referimo-nos a uma “tarefa pesada” ou a “ser um peso
74
para alguém”. Essas já são metáforas convencionalizadas que todos entendemos sem
conscientemente evocarmos qualquer experiência física.
No que concerne o uso das preposições, a correlação de experiências
provavelmente explica certas construções com a preposição sob convencionalizadas no
português do Brasil, em que a resposta cognitiva a uma experiência no domínio físico
aparece explícita, como descrito abaixo (OLIVEIRA, 2007. p. 239). Na cena espacial, a
situação de risco decorre da natureza do marco (laje quebrada ao meio). O perigo é
previsível, nesta e em outras situações semelhantes, vivenciadas diretamente ou por meio
de relatos.
(63) Além do risco às pessoas que trabalhavam sob a laje quebrada ao meio, os
cinco peritos queriam evitar mais danificações às hastes e ao resto do pilar. xi
A resposta cognitiva de risco potencial é de tal modo recorrente, que não mais
carece da cena espacial motivadora e se projeta para outros domínios, gerando construções
estabilizadas contendo palavras como “risco” e “ameaça”.
(64) Pesquisa da ONU revela que jovens estão sob alto risco. xii
(65) Proibição de caça às baleias sob ameaça em reunião no Alasca.xiii
4.2.3. Metonímia e polissemia
Outro processo cognitivo que pode sancionar novos usos de uma forma é a
metonímia. Enquanto a metáfora conceitual é uma maneira de compreender um conceito
75
através de outro, a metonímia é tradicionalmente descrita como um modo de se referir a
uma entidade X por meio de outra Y, sendo que X e Y estão fortemente associadas na
experiência (LAKOFF & JOHNSON, 1980. p. 36).
Uma distinção mais recente e, talvez, mais esclarecedora entre os dois fenômenos
aparece em CROFT (2002. p. 178-9): a metáfora implica mapeamentos entre domínios
pertencentes a diferentes matrizes (LANGACKER, 1987, cap. 4) e a metonímia envolve a
saliência de aspectos de domínios pertencentes à mesma matriz. Uma matriz é o conjunto
de domínios interligados que constituem a base conceitual que uma forma linguística
evoca, ou seja, a porção do conhecimento enciclopédico que constitui seu pólo semântico
(Ver também TAYLOR, 2002b. p. 324-5).
Um tipo comum de relação metonímica é a relação parte-todo (TAYLOR, 2002a.
p. 111-2; LAKOFF & JOHNSON, 1980. p. 38), que envolve o fenômeno da zona ativa,
discutido na Introdução. Recapitulando, a zona ativa atual é a faceta que mais se salienta
na conceitualização de uma entidade em uma dada situação de uso. Os exemplos abaixo,
adaptados de Taylor (2002a. p. 111) demonstram como o termo “árvore” é empregado para
designar partes diferentes de uma mesma coisa.
(66) Os pássaros passam a noite naquela árvore.
(67) Um pica-pau fez um ninho naquela a árvore.
(68) Havia um balanço naquela árvore.
Em cada exemplo, partes distintas da árvore são evocadas, ou seja, há três
diferentes zonas ativas do referente de “árvore”. Em (66), a copa da árvore é esta parte; em
76
(67), trata-se da porção do tronco utilizada pelo pássaro para fazer seu ninho e em (68), a
zona ativa é algum galho mais resistente da árvore ao qual o balanço está atado. Esses usos,
nos quais o nome do todo é empregado para designar uma parte, são resultados pragmáticos
das diferentes cenas e, seria um exagero afirmar que a construção naquela árvore é
polissêmica.
Contudo, a metonímia pode explicar o emprego da preposição em para designar a
localização no alvo de um movimento (TAYLOR, 2002b. p. 330) em contraste com uma
localização estática.
(69) Muito antes de Cristo, alguns “sábios” já sabiam que vivemos em um
mundo redondo. (Estado de Minas – 05.08.2008) – LOCAL ESTÁTICO
(70) ... pela presença de Selma na vida do filho, pelo o que ela fez por ele, por tê-
lo colocado no mundo. (Estado de Minas – 05.08.2008) – ALVO
O primeiro uso é um caso de ‘localização simples’ enquanto o segundo representa
a elaboração de uma relação estática como ‘ponto final’ de um TRAJETO. Como já
mencionado, esse esquema imagético é constituído por um ponto inicial, um ponto final e
uma distância entre eles. Mas nesse caso, o ponto final é mais saliente, o que demonstra que
o fenômeno da metonímia é uma “ramificação” daquele descrito por Langacker como
“zona ativa” (TAYLOR, 2002a. p. 112) e pode, assim, gerar um novo emprego da
preposição, que represente mais uma instância do sentido de ‘localização’.
77
4.3. Comentários finais sobre o capítulo
Nesta seção do texto buscou-se descrever a polissemia como fruto da capacidade
cognitiva de categorização e da necessidade de se lidar com a desproporção entre a grande
quantidade de fenômenos a serem descritos e o número reduzido de formas linguísticas
disponíveis.
Argumentou-se que a categorização (prototípica) de novos usos pode ocorrer por
semelhança com um padrão pré-estabelecido e também por meios menos diretos, como
correlação de experiências, efeitos funcionais e lógicos de determinadas configurações
espaciais e por raciocínio metonímico.
Procurou-se descrever o modo como as relações entre os sentidos ou usos podem
ser organizadas em um modelo de polissemia em rede. O modelo proposto é a rede
esquemática (LANGACKER, 1987), a qual comporta relações do tipo esquema-instância e
de extensão. Na sequência, são descritos os procedimentos a serem adotados para a análise
da polissemia da preposição investigada, seguindo esse modelo.
78
PARTE II – ASPECTOS METODOLÓGICOS E ANÁLISES
Cada vez mais a Linguística Cognitiva tem sido chamada a demonstrar, na prática,
seu pressuposto de ser um modelo teórico “baseado no uso” e, assim, validar com dados
reais os muitos construtos de que faz uso. A maneira como se tem buscado cumprir esse
propósito vem sendo refinada nos últimos anos, como avaliam Gries et al. (2005) e Gries et
al. (2009). Na maioria das descrições linguísticas, não apenas se tem substituído “sentenças
construídas” por amostras autênticas da língua, como também se tem trabalhado com
frequências de uso e de distribuição de morfemas em córpus construídos segundo
metodologias bem definidas.
Enquanto esta última etapa coloca a Linguística Cognitiva efetivamente nos
parâmetros do probabilístico, Gries et al. (2005. p. 636) consideram que o conceito de
“modelo baseado no uso” inclui tanto a pesquisa de córpus como a experimental. Dessa
forma, segundo esses autores, seria desejável não apenas avançar na metodologia de
córpus, mas também caminhar para a estratégia metodológica denominada “evidência
convergente”, ou seja, corroborar os resultados da análise de córpus por meio de
experimentos psicolinguísticos.
No caso específico desta tese, procurou-se alinhar com esta nova etapa da
Linguística Cognitiva, interpretando-se a noção de “modelo baseado no uso” em termos de
pesquisa quantitativa de córpus e de experimentação com falantes nativos. Como
mencionado na Introdução, foram dois os objetivos principais assumidos: produzir uma
representação da rede esquemática para a preposição em, como proposto por Langacker
79
(2008 e 1987), e verificar o status cognitivo das diferentes categorias de uso e das relações
entre elas.
Assim sendo, a investigação se desenvolveu por dois métodos empíricos
complementares, que foram a observação de dados não eliciados num córpus e a
observação de dados eliciados através de experimentação com falantes nativos do
português brasileiro. O uso das duas abordagens – de córpus e experimental – tem a
vantagem adicional de anular diferenças entre informantes no tocante ao nível de
acessibilidade ao conteúdo conceitual. Tais diferenças podem ser descritas como variações
entre os aspectos linguísticos que recebem maior atenção consciente e, ainda, entre os
níveis diferenciados de prática com a introspecção linguística. (TALMY, 2005b. p.2, 11).
A análise de amostras retiradas do córpus teve por finalidade produzir uma série
de usos da preposição em e, com base nos aspectos teóricos discutidos na PARTE I,
fornecer explicações cognitivas sobre a motivação para a ocorrência dos mesmos. Uma vez
que a segunda etapa visou a testar a validade dos resultados obtidos na primeira, as
categorias semânticas resultantes proveram o objeto a ser investigado no experimento
psicolinguístico.
A fim de reproduzir o mais fielmente possível o encadeamento das fases da
pesquisa e de não distanciar as descrições da metodologia das análises resultantes de cada
uma delas, nesta PARTE II do texto optou-se por apresentar separadamente a discussão
metodológica de cada uma dessas fases precedida da respectiva análise dos dados.
80
5. METODOLOGIA – FASE I - Pesquisa de córpus
O uso de córpus é totalmente coerente com o quadro teórico escolhido, na medida
em que a Linguística Cognitiva se define como uma teoria baseada no uso (Usage-based –
LANGACKER, 2000b, outros) e tem como um de seus mais importantes construtos a
noção de esquema: uma abstração de padrões recorrentes no uso. Sendo assim, nesta
pesquisa, padrões semânticos recorrentes para em são inferidos de usos diversificados da
língua portuguesa em páginas on-line de jornais da região sudeste do Brasil. Tem-se, por
objetivo, determinar o uso mais prototípico no córpus, assim definido como o esquema
mais recorrente na rede (GEERAERTS, 1988; GILQUIN, 2006).
5.1. Definindo a população
Na criação do córpus desta pesquisa, procurou-se basear em Biber (1993), no
tocante a certos critérios qualitativos e quantitativos que, segundo o autor, devem nortear a
busca pela representatividade em pesquisa de córpus. Buscou-se o registro formal do
português brasileiro escrito, publicado em contexto jornalístico.
A partir daí, decidiu-se que a população alvo da pesquisa seria formada por textos
jornalísticos da região sudeste do Brasil, e tomou-se como “moldura de amostragem” (p.
243), reportagens e editoriais das edições on-line dos jornais “O Estado de Minas”, “O
Estadão” e “Jornal do Brasil”, publicadas entre 2007 e 2008. Esses jornais têm grande
alcance na região geográfica escolhida e adotam uma linha editorial semelhante. Além
disso, acredita-se ainda que eles atinjam um grupo de leitores aproximadamente similar.
81
5.2. Coleta e preparação dos dados
Como afirma Biber (1993. p. 244), a definição da moldura de amostragem deve
também levar em conta a razão custo-benefício, ainda que em detrimento da
representatividade ideal. Neste estudo, por exemplo, a escolha das edições a serem
incluídas foi determinada pela disponibilidade de tecnologia que permitisse acessar e baixar
as páginas dos periódicos utilizados.
Utilizou-se o software HTTrack Website Copier/3.x© 30, (SARDINHA, 2004. p. 46-
50), que permite ao usuário baixar páginas inteiras da Internet. Isso foi feito nos dias 01.05,
17.05, 20.06, 21.06, 22.06, 24.06, 25.06, 24.07, 25.07, 15.08 de 2008. Como esse programa
baixa arquivos em HTML, foi necessário aplicar um tipo de operação de “limpeza”, na qual
se separaram fragmentos dessa linguagem de programação dos textos propriamente ditos,
em língua portuguesa.
De:
JB Online :: TR- Regras para a circulação de caminhões valem a partir de segunda-
feira - 01/05/2008
(Fonte: Jornal do Brasil Online, 17.5.2008)
Para:
JB Online :: TR- Regras para a circulação de caminhões valem a partir de segunda-feira -
01/05/2008
Também foram excluídos do córpus textos de tabelas, que são apresentadas entre
, em HTML, como no exemplo na página seguinte, do jornal O Estado
de Minas, 03.12.2007, baixado em 22.06.2008.
30
Disponível gratuitamente no endereço www.httrack.com.
82
(…)
Shows mostraram que a capital tem grande diversidade
cultural
Os textos fonte também contêm caracteres estranhos, que precisaram ser
substituídos por caracteres normais. Para tal operação, foi utilizado outro software, o editor
de texto TextPad 5.2.0© 31.
corpoNoticia--> A terceira edição do PRÊMIO BRASIL DE MEIO
AMBIENTE destina-se a premiar e divulgar as ações que se destacam no
país, na área de meio ambiente e desenvolvimento sustentável.
Seu objetivo é mostrar à (...)
(Fonte: Jornal do Brasil Online, 25.7.2008)
5.3. Organização hierárquica do córpus
Conforme se vê na TAB. 2 a seguir, o córpus da pesquisa está organizado em
estratos formados por categorias temáticas baseadas em denominações dadas pelos próprios
veículos buscados. É possível observar a distribuição de palavras em cada categoria
temática e veículo, que fazem um total próximo de 1,2 milhão de palavras.
31
Disponível no endereço www.textpad.com.
83
TABELA 2
Estrutura temática do córpus, com a contagem de palavras por fonte.
Categoria Temática JB Estadão E. Minas TOTAL
Cidades 40104 8161 53635 101900
Ciência e Tecnologia 25750 6074 95020 126844
Comportamento 694 9534 17323 27551
Criminalidade 48321 16001 26760 91082
Economia 40678 69175 42081 150516
Educ. Cultura 63498 23549 33459 121924
Esporte 56667 93860 17184 167711
Internacional 38698 35112 36356 110166
Meio ambiente 11403 1058 31082 43543
País 48350 12955 37218 98523
Política 34118 3103 18819 56040
Saúde 14328 677 19242 34247
Trânsito 9611 6196 21781 37588
TOTAL 432220 285455 449960 1167635
A distribuição e a contagem de categorias linguísticas tendem a se manter estáveis
entre textos de um mesmo gênero/registro (BIBER, 1990), entretanto, acredita-se que as
categorias semânticas pesquisadas podem ser influenciadas pela variedade de temas
abordados. Embora não testada empiricamente, a adoção de uma organização temática do
córpus baseou-se na expectativa de que houvesse uma maior variedade de domínios nos
quais a preposição em pudesse ocorrer.
Nesse tipo de procedimento conservador, são retiradas amostras aleatórias (textos)
de categorias temáticas dentro da população alvo ao invés de se escolherem textos
aleatoriamente a partir do conjunto total da população. Além disso, procurou-se adotar o
critério da proporcionalidade de textos por tema disponíveis em cada edição do jornal
baixado. Com isso, acredita-se que os estratos sejam mais adequadamente representados
(BIBER, 1993. p. 244).
84
5.4. Listagem dos usos
Uma vez organizado o córpus, cada uso da preposição em e suas variantes formais
foi marcado com a etiqueta . Isso tornou possível a obtenção de uma lista com
41614 linhas de concordâncias, através do software TextSTAT©32. Essa lista foi exportada
como arquivo txt e tratada no editor de texto TextPad©. Essas amostras constam do
ANEXO 1, gravado em CD.
A análise semântica envolveu 3000 ocorrências da preposição, para as quais se
empregou o critério da proporcionalidade de ocorrência da preposição em combinação com
artigos e pronomes no córpus. Como se vê na TAB. 3 a seguir, formas como “naquilo”,
“nisto”, “nisso”, “num” e “numa” são muito raras no córpus, talvez, em função do gênero
escolhido. Outro fator que influenciou essa decisão diz respeito ao contexto semântico em
que as diferentes formas são empregadas. Inicialmente apenas uma hipótese, verificou-se,
por exemplo, que, nesses textos jornalísticos, 82% das ocorrências de “nesta” se dão em
colocação com nomes de dias da semana, o que representa um viés para a categoria
semântica de ‘localização no tempo’. A TAB. 3 a seguir resume a distribuição das diversas
formas no córpus e os procedimentos estatísticos adotados na escolha das amostras
analisadas.
32
Disponível gratuitamente no endereço www.niederlandistik.fu-berlin.de/textstat/software-en.html.
85
TABELA 3
Frequência de em e suas variantes formais no córpus.
Singular
Plural
Percentual
Ocorrências
analisadas
uma a cada
Em 14584 Z 35,05% 1051 14
Na(s) 10007 1394 27,40% 822 14
Naquela(s) 32 1 0,08% 2 14
Naquele(s) 28 7 0,08% 3 14
Naquilo 3 Z 0,00% 0 0
Nessa(s) 140 16 0,37% 11 14
Nesse(s) 185 44 0,55% 17 14
Nesta(s) 1317 12 3,19% 96 14
Neste(s) 391 15 0,98% 29 14
Nisso 15 Z 0,04% 1 14
Nisto 3 Z 0,00% 0 0
No 11162 1928 31,46% 944 14
Num(ns) 40 0 0,10% 3 14
Numa(s) 290 0 0,70% 21 14
Totais: 38197 3417 100,0% 3000
Total de ocorrências no
córpus: 41614
Como o concordanciador foi calibrado para exibir as ocorrências ordernando
alfabeticamente o contexto à esquerda da preposição33, analisou-se uma linha a cada
catorze, em cada listagem, em uma estratégia de amostragem aleatória sistemática. Esse
número aparece na última coluna da TAB. 3 e foi calculado dividindo-se o número total de
ocorrências no córpus pelo número total de amostras que se pretendia analisar. Esse foi
mais um procedimento visando a neutralizar o tipo de contexto semântico, colhendo-se
amostras distribuídas por todo o córpus.
No decorrer da análise foram encontradas duplicidades de ocorrência de um
mesmo contexto, originadas da publicação, por mais de um jornal, da mesma notícia ou fala
33
Esse procedimento facilitou a verificação de duplicidade indesejável, permitindo dupla checagem do
corpus.
86
da mesma personagem. Decidiu-se eliminar esses contextos idênticos, o que reduziu o
número final de usos para 2813, como mostra a TAB. 4, no Cap. 6.
5.5. Procedimentos de análise
Uma vez coletados e organizados os dados, os procedimentos automáticos deram
lugar à introspecção, especialmente em função da enorme porção do significado implícito.
A sequência de procedimentos envolvidos na análise pode ser resumida da seguinte forma:
i. categorização de usos espaciais e não-espaciais ou metafóricos, com base na
relação semântica obtida entre o trajetor e o marco;
ii. delimitação de um ou mais esquemas sancionadores, pelos critérios
definidos na seção 5.5.3;
iii. inferência de relações metonímicas, metafóricas e de mudança de
perspectivação entre o(s) esquema(s) sancionador(es) e as demais categorias
de uso;
iv. delimitação de um ou mais esquemas de nível de abstração superior para a
preposição, instanciados em diferentes grupos de uso;
v. determinação quantitativa do uso prototípico.
Salienta-se aqui que a forma de análise adotada segue o modelo de uma
“semântica distribuída” (SINHA & KUTEVA, 1995. p. 175 e 179), de acordo com a qual,
“existe algo mais no significado de uma preposição do que só a preposição” 34. Essa
perspectiva contrasta, essencialmente, com a atribuição de restrições seletivas à estrutura
34
“... there is more to the meaning of a preposition than just the preposition itself.” (Tradução livre.)
87
semântica das preposições, que frequentemente acompanham definições formais de
preposições espaciais. Segundo aqueles autores e, também, Zellinsky-Wibbelt (1993. p. 4-
5), além do conhecimento enciclopédico e dos processos cognitivos descritos em seções
anteriores, também o cotexto lexical contribui para a escolha da preposição mais adequada
em cada evento de uso e para a distinção entre sentidos alternativos de uma mesma
preposição.
No caso de em, assume-se, aqui, que o significado de toda a construção permite a
emergência de esquemas imagéticos específicos – CONTATO, CONTENTOR etc. – que
são instâncias de uma noção mais abstrata de ‘localização’(location), a qual contrasta com
“movimento” (motion, em Talmy, 2000). Para esse fim, a análise é informada por algumas
das noções topológicas (‘contato’, ‘inclusão’, ‘fechamento’, etc.) e geométrica (número de
dimensões do marco) discutidas anteriormente e pelo conhecimento enciclopédico. Este
último inclui informação proveniente da experiência perceptiva com objetos e substâncias e
possíveis relações funcionais (‘contenção’, ‘suporte’ e ‘localização’ (localization)
(Vandeloise, 1991)) entre elas, a chamada “física do senso comum”, e o conhecimento
sobre as intenções e crenças do falante (KUTEVA & SINHA, 1994. p. 219; TYLER &
EVANS, 2003. p. 14-5; VANDELOISE, 1991. p.14).
5.5.1. Critérios para distinção entre usos
Domínio conceitual – De acordo com Langacker (1987. p.117-8), embora os sentidos
relacionados de um item lexical possam ser bem parecidos, eles devem ser caracterizados
em função do domínio em que ocorrem. Justificando sua afirmação, Langacker cita
palavras da língua inglesa com sentidos muito próximos (close e near), que, entretanto,
diferenciam-se quanto ao domínio que selecionam:
88
(71) The tree is quite close to the garage. / The tree is quite near the garage.
(espaço) – (A árvore fica bem próxima da garagem.)
(72) It’s already close to Christmas. / It’s already near Christmas. (tempo) – (Já
está próximo do Natal.)
(73) That paint is close to the blue we want for the dining room. / ? That paint is
near the blue we want for the dining room. (percepção sensorial) – a
(Aquela tinta é próxima do azul que queremos para a sala de jantar.)
(74) Steve and his sister are very close to one another. / * Steve and his sister are
very near one another. (afeto) – (Steve e sua irmã são muito próximos um
do outro.)
Observa-se que as palavras near e close são sinônimas nos exemplos (71) e (72),
porém, a mudança de domínio determinou a aceitabilidade questionável e a inaceitabilidade
de near nos exemplos (73) e (74), respectivamente. Nesse raciocínio, é provável que a
relação entre os usos de um item lexical nos domínios “Espaço” e “Tempo” seja mais
perceptível que entre esses e os usos nos domínios da “Percepção sensorial” e do “Afeto”, o
que poderá ser verificado no experimento psicolinguístico com falantes nativos. Considera-
se, assim, que a mudança entre domínios de nossa experiência pode representar a distinção
semântica mais marcante entre os diferentes usos interligados da preposição em.
Esquemas imagéticos espaciais – Para os usos no domínio espacial, levam-se em conta os
esquemas evocados (CONTENTOR, CONTATO, TRAJETO) e suas subespecificações em
noções topológicas (‘inclusão’, ‘contato’, ‘adjacência’, ‘alvo’). Essas distinções emergem
89
da conceitualização da cena espacial e dos elementos que a compõem, ou seja,
características salientes do trajetor e do marco, tais como o número de dimensões salientes
ou sua forma. Um trajetor, por exemplo, pode ser um vazio ou um objeto concreto. Um
marco pode se configurar como um meio que envolve o trajetor ou um objeto sólido
delimitado, ou, ainda, não possuir limites definidos (uma região ou país). Outra distinção
que pode ocorrer no grupo de usos espaciais refere-se a marcos que se configuram como
atividades em comparação com objetos físicos.
5.5.3. Metodologia para determinação dos esquemas sancionadores
Um sentido ou uso sancionador é aquele que dá origem a outros, no mesmo domínio
ou em domínios diferentes. Esta pesquisa não faz qualquer alegação forte a respeito de um
sentido sancionador que seja um “sentido primário”, isto é, aquele com o qual,
obrigatoriamente, a preposição foi empregada pela primeira vez. Entretanto, como já
afirmado anteriormente, as extensões de sentido emergem, majoritariamente, a partir do
domínio espacial.
Além disso, a diacronia (por exemplo, CUNHA et AL., 1991) aponta um sentido
espacial “dentro de” para a preposição “in” no latim, da qual o em do português moderno se
originou. Esse sentido remete ao esquema imagético de CONTENTOR, que faz parte de
um subgrupo de relações espaciais expressas linguisticamente, que permitem algum tipo de
contraste em uma ou outra dimensão, tais como sobre e sob, no eixo vertical.
Intuitivamente, essa característica acaba por tornar mais claros os limites do uso de uma
preposição espacial na língua. No caso da preposição em, o sentido ‘dentro de’ contrasta
com ‘fora de’. Essas considerações sugerem que o esquema de CONTENTOR seja a
90
origem de uma série de outros empregos da preposição em e, portanto, possua o status de
principal sancionador.
Esquemas imagéticos originados dessa noção, por efeitos de perspectivação
conceitual, também podem ser considerados sancionadores, desde que possuam
características que levem a outros usos, características essas que não sejam diretamente
encontradas no esquema de CONTENTOR.
5.5.4. Sentidos esquemáticos
O modelo de rede adotado também inclui sentidos esquemáticos, que são conceitos
com um nível de abstração superior, que compõem o significado da preposição em
diferentes usos. Tais conceitos podem se manifestar em domínios diferentes, através de
suas instâncias ou elaborações. A análise do córpus permitirá observar a frequência com
que conceitos desse nível ocorrem na rede. Mas espera-se, também, que a etapa
experimental da pesquisa contribua para a determinação desse sentido.
5.6. Comentários finais sobre o capítulo
Buscou-se descrever aqui a metodologia da pesquisa empregada na etapa da
pesquisa relacionada à análise do córpus, com base em parte dos objetivos apresentados na
Introdução.
Descreveram-se os procedimentos de coleta e de constituição do córpus de textos
jornalísticos, bem como o tratamento aplicado às amostras. Sobre esse córpus, propôs-se
uma análise que visa a obter resultados estatísticos para usos prototípicos.
Com respeito à questão linguística, foram apresentados critérios semânticos para a
delimitação de categorias distintas de usos convencionalizados, baseadas em noções
91
topológicas, na perspectivação e na diferença entre domínios conceituais. Finalizando,
descreveu-se o que deve ser entendido como um esquema sancionador e um esquema
superior nesta pesquisa.
92
6. ANÁLISE DAS OCORRÊNCIAS DO CÓRPUS
Esta seção apresenta uma análise semântica de amostras do córpus de textos
jornalísticos, baseada na introspecção da pesquisadora, utilizando os conceitos e métodos
discutidos na seção anterior. A TAB. 4 na próxima página apresenta os resultados de
frequência obtidos. Nela são reveladas 22 categorias e subcategorias consideradas
elaborações do conceito de ‘localização’, que representam a grande maioria dos usos
(86,78%). Dessas, oito pertencem ao domínio espacial, três, ao temporal, e onze a outros
domínios concretos e abstratos. Obteve-se ainda um segundo grupo formado por nove
categorias (13,22% dos usos), também de domínios concretos e abstratos, com usos nos
quais não se percebe significado sincrônico de localização. Como se verá na descrição das
amostras, estes últimos se relacionam, em grande parte, a efeitos funcionais do esquema
imagético de CONTENTOR.
A descrição das categorias começa no domínio espacial, uma vez que usos
metafóricos são entendidos como extensões de conceitos espaciais. Parte-se do esquema
obtido pelas propriedades do marco e busca-se chegar à noção topológica evocada na
configuração. Por exemplo, uma entidade de conformação geométrica de contentor pode
estar envolvida em uma relação topológica de ‘contato’ e não de ‘inclusão’, dependendo da
configuração espacial entre essa entidade e um trajetor. São também intuídos efeitos
funcionais e de perspectivação conceitual em jogo na interpretação dessas ocorrências. Ali
são destacados fenômenos de conceitualização, tais como zonas ativas e processos
metonímicos.
93
A seguir, descrevem-se as relações de extensão a partir de alguns desses usos
espaciais para usos temporais e em outros domínios. Destacam-se também processos de
metaforização conceitual e as motivações para esses mapeamentos metafóricos, tais como
correlações de experiências e efeitos funcionais.
TABELA 4
Categorias semânticas obtidas no córpus e suas respectivas frequências de ocorrência
Categorias Semânticas
LOCATIVOS 2441 86,78% NÃO LOCATIVOS 372 13,22%
LOCALIZAÇÃO ESPACIAL: 1122 = 39,89%
1. Localização simples 953 33,88% 1. Controle 6 0,21%
2. Inclusão em contentor 42 1,49% 2. Especificação 89 8,66%
2.1. Inclusão em meio
9 0,32% 3. Forma 45 1,60%
2.2. Inclusão-tr-vazio 4 0,14% 4. Modo 94 3,34%
3. Contato
22 0,78% 5. Meio-instrumento 45 1,60%
4. Proximidade-Adjacência 8 0,28% 6. Material 7 0,25%
5. Localização pontual 15 0,53% 7. Cor 6 0,21%
6. Alvo-mov 69 2,45% 8. Suporte Met. 24 0,85%
9. Expressão fixa 56 1,99%
LOCALIZAÇÃO TEMPORAL: 551 = 19,59%
1. Loc-interior de intervalo 85 3,02%
2. Loc-pontual 453 16,10%
3. Fim-intervalo 13 0,46%
OUTROS USOS LOCATIVOS NÃO-ESP.: 768 = 27,30%
1. Loc. Met. N/específ. 120 4,27%
2. Grupo 41 1,46%
3. Atividade 164 5,83%
4. Evento 187 6,65%
5. Estado-situação 97 3,45%
6. Metáfora do Tubo 20 0,71%
7. Mudança de Estado 34 1,21%
8. AlvoPacienteAçãoMet. 24 0,85%
9. Alvomovmet 23 0,82%
10. Alvo-atv-cognitiva 42 1,49%
11. Finalidade 16 0,57%
TOTAL GERAL: 2813 100,00%
94
6.1. Usos espaciais de em
Como se verá no decorrer da análise, a noção mais esquemática de ‘localização’ se
faz presente em diferentes usos, tanto no domínio espacial quanto em domínios
metafóricos. No domínio espacial, essa noção se caracteriza pela assimetria entre trajetor e
marco (ver seção 3.4).
Como avançado na introdução deste capítulo, os usos espaciais da preposição em
são apresentados aqui em função da noção topológica (‘inclusão’, ‘contato’ etc.) mais
relevante, ou saliente, percebida na configuração espacial. Essa noção topológica tem
origem na maneira como o marco – e, por vezes, o trajetor – são elaborados em termos de
suas dimensões e em função de elementos da perspectivação.
6.1.1. Inclusão
O esquema de CONTENTOR remete à noção de topológica de fechamento
(closure) do marco, que por sua vez, envolve outros conceitos relacionados à estrutura de
contentores. O limite (boundary), por exemplo, é uma noção intuitiva, a qual corresponde à
superfície externa de um objeto em contraste com seu interior e com o seu complemento
(o restante do espaço não ocupado por esse objeto). O conceito de fechamento tanto
equivale à soma do interior e do limite de um objeto quanto à operação que, aplicada a um
dado objeto, gera esse mesmo resultado (SMITH, 1994). Apesar de a relação topológica de
‘inclusão’ parecer incontroversa, basta uma observação mais atenta dos exemplos abaixo
para se perceber que existem diferenças somente explicáveis em termos da
conceitualização.
A distinção entre ‘inclusão total’ e ‘inclusão parcial’ é evocada pelos itens lexicais
e pelo conhecimento de mundo. As cenas espaciais descritas em (75) e (76) envolvem
95
trajetores (água e atum) dentro de marcos conceitualizados como CONTENTORES tri-
dimensionais, perfeitamente fechados (garrafas e lata), de onde se abstrai a noção de
‘inclusão total’.
(75) Nem toda a água que compramos em garrafas é mineral. (Estado de Minas
– 03.08.2008)
(76) O presidente do México (...) anunciou que o congelamento (...) abrange
produtos como feijão, atum em lata, café, molho de tomate e sopas. (Estado
de Minas – 06.08.2008)
Em (77), tem-se como marco objetos tridimensionais abertos (caçambas) 35. Em
termos funcionais, o trajetor (cadernos) é contido pelo marco (caçambas). Explicação
semelhante licencia o uso da preposição em (78), já que a curvatura das mãos forma um
tipo parecido de concavidade, que pode incluir total (ou parcialmente) as chaves.
(77) Entraram na empresa, localizando os cadernos, novos (...) em caçambas.
(Estadão – 20.06.2008)
(78) Alguns motoristas que tiveram seus carros apreendidos fizeram ligação
direta em seus carros (...) deixando os fiscais (...) com as chaves dos veículos
nas mãos. (JB – 21.6.2008)
35
Ver VANDELOISE (1994, 1991) sobre descrições geométricas bastante detalhadas de contentores abertos.
Segundo observa esse autor, um objeto como um cálice possui mais de uma região côncava e somente a
relação Contentor/objeto contido (C/c) permite dizer qual dessas regiões pode realmente ‘incluir’ um outro
objeto.
96
Este não é, entretanto, o único tipo possível de inclusão. Uma conceitualização
possível para (79) é a de que o personagem (trajetor) esteja de pé na carroceria (marco).
Este último também se constitui como um contentor, mas o tipo de relação entre eles é de
‘inclusão parcial’.
(79) Quartiero seguiu na carroceria de uma caminhonete. (JB – 17.05.2008)
Finalmente, os exemplos (80) e (81) permitem duas interpretações, dependendo
do tamanho atribuído aos trajetores (o pão e os filhotes). Caso sejam pequenos, estarão
‘totalmente incluídos’ no saco de papel e na bolsa. Entretanto, o comprimento de uma
baguete provavelmente extrapolará as dimensões do saco e os cãezinhos podem estar com a
cabeça para fora da bolsa. Nesses casos, a relação obtida será de ‘inclusão parcial’.
(80) ...um pão fresquíssimo, daqueles que queimam a mão, no saco de papel
pardo, xiv
(81) Paris Hilton costuma aparecer em público com seus filhotes de cães de raça
na bolsa. (JB – 21.06.2008)
Assim, no caso da preposição em, a distinção entre ‘inclusão parcial’ e ‘total’ é
informada explícita ou implicitamente pelo contexto, o que inclui propriedades espaciais e
97
inferências não codificadas sobre a situação. Além disso, a seção 3.5 apresenta uma
explicação funcional para alguns desses casos de ‘inclusão’ 36.
Outro aspecto importante dos esquemas imagéticos, não apenas de
CONTENTOR, é que eles permitem grande variação de dimensão relativa sem perder
sua(s) propriedade(s) topológica(s). Esse é o fenômeno a que Talmy (2000) denomina
“cognição folha de látex”, que justifica o emprego da mesma forma linguística para
descrever cenas de dimensões absolutas muito diferentes, porém, proporcionalmente
semelhantes.
(82) Em abril, a cantora passou a noite numa cela policial. (JB – 17.05.2008)
(83) Os insetos são carregados em pequenas gaiolas ou caixas com furinhos.
(Estadão – 01.05.2008)
Um só esquema imagético de ‘inclusão’ emerge nos dois usos espaciais
representados por (82) e (83). A grande diferença de magnitude entre as duas cenas é
fornecida exclusivamente pelos itens lexicais “cantora” e “insetos”, “cela”, e “gaiola”.
6.1.1.1. Inclusão em um meio – Uma variação do conceito de inclusão total ocorre quando
o marco inclui totalmente o trajetor, em função das características físicas de ambos. Nos
36
VANDELOISE (1994. p. 166) discute o emprego da noção topológica de inclusão na análise da preposição
in por MILLER & JOHNSON-LAIRD (1976) e VANDELOISE (1984), e o debate central se dá em torno da
inclusão parcial e da inclusão total do trajetor no marco. VANDELOISE (1994) abandonou sua proposta
bissêmica (inclusão total é o sentido central e dá origem ao sentido de inclusão parcial), em troca de uma
explicação funcional.
98
casos abaixo, considera-se que o marco (água, chão) é um meio no qual o trajetor menor
está inserido.
(84) A Mars Express nos confirmou a presença de metano na atmosfera
marciana. (Estado de Minas – 06.08.2008)
(85) (...) a estiagem prolongada (...) favoreceu o aparecimento das algas na água
praticamente parada. (Estado de Minas – 2007)
(86) Sem terra, água, sol, nutrientes e minhocas no chão, nosso arroz e feijão já
era. (Estadão – 01.05.2008)
6.1.1.2. Inclusão de um trajetor vazio em um meio – Nos exemplos vistos até aqui, os
trajetores são sempre entidades às quais se pode atribuir uma existência concreta positiva.
Mas também é possível que um meio envolva uma entidade de existência concreta
negativa, que seja, em essência, uma ausência ou falha no marco, como “perfurações” e
“buraco”, os quais constituem trajetores espaciais vazios.
(87) A perícia encontrou várias perfurações no automóvel. (JB – 15.08.08)
(88) O buraco na parede foi feito com dois pedaços de ferro.xv
A explicação para esse fenômeno nos é dada por Vandeloise (1991. p. 213-4), em
adaptação de ideias de Langacker (1987. p.194-5) sobre fechamento. Segundo Vandeloise,
o conceituador completa a superfície do marco, de modo que ele passa a ser um meio que
inclui a entidade de existência negativa. Nessa configuração, o limite do fechamento
99
interno do marco coincide com o limite externo do trajetor. Na FIG. 15, o completamento
do marco é representado pela linha pontilhada e o trajetor vazio, pela seção com linhas
diagonais.
FIGURA 15: Completamento do marco na conceitualização.
FONTE: Vandeloise (1991. p. 214)
Cuyckens (1993. p. 50) considera que, em casos como esse, não apenas os limites
do marco sólido, mas toda a sua parte interior é sua zona ativa atual. Os trajetores
“perfurações” e “buraco” devem ser compreendidos da mesma forma que uma entidade
concreta, por exemplo, um projétil no automóvel ou um grão de areia na massa da parede.
Essa relação de interioridade não parece ser tão forte na língua portuguesa quanto se
observa, por exemplo, no holandês e no inglês, os quais licenciam respectivamente as
construções het gat/de barst in de muur, the hole/the crack in the wall [o buraco/a
rachadura #dentro da parede > o buraco/a rachadura na parede] (CUYCKENS, 1993. p.
50).
Essa diferença cultural na conceitualização é corroborada por exemplos do
português do Brasil como o buraco/a rachadura da parede, com a preposição de indicando
uma relação mais forte de parte/todo. Por outro lado, pelo menos na língua inglesa, não há
100
possibilidade de emprego da preposição of (the hole/the crack * of the wall) a qual, segundo
Langacker (2000a. p. 74-5), codifica relações parte-todo.
6.1.2. Localização simples ou inespecífica
A grande maioria (33,88%) dos usos espaciais da preposição em no córpus não
evoca uma relação espacial mais específica que a noção básica de ‘localização’. Isso quer
dizer que, nesses casos, o marco não se configura com clareza no que concerne ao número
de suas dimensões ou essas não são prioritárias para a compreensão do enunciado.
Como mostra Vandeloise (1991. p. 5-6) ao definir ‘localização’ como um conceito
funcional, diante de um enunciado como “o padre está na praia” ((4) Le curé est à la
plage), é pouco provável que algum falante “sucumbisse ao apelo dos princípios
geométricos” 37, idealizando o marco “praia” como unidimensional, bidimensional ou
tridimensional, exceto por “razões imperativas”. Ao contrário, prossegue o autor, as
chances são de que a “praia” seja construída como uma massa indeterminada. Acredita-se,
então, os usos da preposição em nesses casos derivem de contextos de inclusão, nos quais a
localização pura e simples é mais saliente.
Colocando em prática a observação daquele autor, embora um prédio seja um
objeto tridimensional, não se pode concluir peremptoriamente, através do enunciado (89),
que Jeferson estivesse em seu interior. O personagem poderia estar na portaria, no pátio, no
jardim, no estacionamento etc. O aspecto saliente nesse exemplo é sua localização ali e não
em outra parte da cidade.
37
Do original: “I doubt that either the child or the naive speaker using sentences (4) and (5) has succumbed to
the appeal of geometric principles.” (Tradução livre)
101
(89) Segundo o promotor, já foi constatado que Jeferson estava no prédio na
noite do crime. (JB – 21.06.2008)
Também não parece relevante para a conceitualização de (90) o fato de que as
plataformas de petróleo se encontrem parcialmente dentro do mar. Como destaca
Vandeloise (1991. p. 161 e 246, n.3), esse é um típico caso em que o conceituador se
encontra a uma distância razoável da cena e o Mar do Norte se torna seu “domínio de
busca” para a localização do trajetor.
(90) Cerca de 70 plataformas no Mar do Norte foram obrigadas a fechar ou
reduzir a produção. (Estadão – 01.05.2008)
(91) Nas últimas três semanas, vários confrontos armados foram registrados no
Vale do Bekaa e em Beirute. (Estado de Minas – 06.08.2008)
Já o enunciado (91) apresenta, por trajetor, eventos, que não podem ser definidos
em termos de dimensões espaciais. Esse dado já poderia tornar a relação topológica mais
vaga. Contudo, o aspecto mais importante parece ser ainda a perspectiva distante em
relação à cena, de tal modo que o vale e a cidade deixam de ter formas e limites claros e
passam a ser meros pontos de referência para a localização dos confrontos.
Por fim, a localização simples também se manifesta no domínio das entidades
virtuais, gerado pela informática. Esse universo mimetiza o mundo das entidades e relações
concretas com as quais já convivíamos muito antes de nos habituarmos a essa tecnologia. À
semelhança do que ocorre no domínio espacial, o exemplo (92) trata de um programa
102
disponível na rede mundial, que se torna um local virtual (marco) onde podem ser
encontradas referências também virtuais de pessoas (trajetor) do mundo concreto, que são
representadas de forma metonímica pelos nomes das pessoas. É possível confirmar essa
noção espacial na própria maneira como nos referimos a esse mundo como um “espaço
virtual” e criamos “endereços virtuais”, como no exemplo (93).
(92) Dois candidatos à Prefeitura do Rio aparecem no Orkut 38 com o slogan
“prefeito 2008”. (Estado de Minas – 06.08.2008)
(93) (...) as informações também não se encontravam no endereço eletrônico do
fórum. (Estado de Minas – 06.08.2008)
Além dos casos já descritos, o conceito básico de ‘localização’ também está
presente em outras categorias mais específicas descritas na sequência desta análise.
6.1.3. Contato
A relação topológica de ‘contato’ emerge destas outras construções com a
preposição em, a qual poderia ser adequadamente substituída por sobre.
(94) Três modelos levitavam (deitadas em pranchas estreitas)... (JB – 21.6.08)
(95) Menores ficam deitados em mesas de escritório, idosos em colchões no
chão. (Estado de Minas – 28.04.2008)
38
O Prof. Luiz Francisco Dias (UFMG) lembra que, como marca da categorização prototípica, uma
interpretação de ‘instrumento’ não poderia ser descartada para este exemplo (92).
103
(96) Em Tóquio e na Cidade do México, onde verde é coisa rara, o governo dá
incentivo fiscal para quem plantar no telhado.xvi
(97) Além das árvores, faixas estendidas no/sobre o gramado informavam que
“Se a árvore votasse muitos não se elegeriam”...xvii
Observa-se nos exemplos acima que os trajetores (modelos, menores/idosos,
plantar e faixas) não estão incluídos nos respectivos marcos. As pranchas estreitas, as
mesas/os colchões/o chão, o telhado e o gramado são entidades planas, ou com zonas ativas
conceitualizadas como tal, que oferecem algum tipo de ‘suporte’ para as entidades com as
quais estão em ‘contato’. Esse efeito funcional é resultado de nosso conhecimento
pragmático sobre as atividades humanas, pessoas e objetos descritos, que nos faz pensar
sobre os marcos com uma orientação horizontal.
Pelo lado oposto, a maneira como o contexto determina o fenômeno da zona ativa
fica clara quando se considera um marco como “quadra”, que, à primeira vista, é um plano
bidimensional. Entretanto, a relação que se destaca no exemplo abaixo não é o contato com
a superfície da quadra, a qual, na verdade, é construída mentalmente como dotada de um
interior, um limite e um exterior, como qualquer marco tridimensional, em virtude da
configuração espacial do trajetor (os jogadores) e da atividade em que estão envolvidos.
(98) O sistema de cotas do vôlei garantirá que pelo menos metade dos seis
jogadores em quadra por uma equipe possa defender a seleção do país-sede
do time. (Estadão – 24.06.2008)
104
A flexibilidade da cognição humana nesses fenômenos é descrita por Tyler & Evans
(2003. p. 183-4) como nossa capacidade de empregar as preposições que indicam
‘contenção’ com marcos que representam contentores não-canônicos. Segundo eles, esse
processo se estende para acolher marcos cujos limites são praticamente indefiníveis para o
falante, tais como países, regiões, mares etc. (Ver exemplos (90) e (91) repetidos aqui.).
(99) (90) Cerca de 70 plataformas no Mar do Norte foram obrigadas a fechar ou
reduzir a produção. (Estadão – 01.05.2008)
(100) (91) Nas últimas três semanas, vários confrontos armados foram registrados
no Vale do Bekaa e em Beirute. (Estado de Minas – 06.08.2008)
Novamente vale dizer que a preposição por si só não marca a distinção entre uma
localização “pura e simples” e a noção de ‘inclusão’, ou ainda, que esta última se perdeu
nesses casos. O exemplo (101) abaixo, retomado da seção 3.1, demonstra como a locução
dentro de, que acentua a noção de inclusão, não parece adequada para o contexto.
(101) (25) Hitler was now back in Berlin, facing the last desperate battle of the
war. [Agora Hitler estava de volta em/a/#dentro de Berlim, enfrentando a
última desesperada batalha da guerra.] (TREVOR-ROPER, 1947. p. 52 e 91)
A relação de ‘contato’ evocada por em inclui uma variante contextual ainda mais
específica que é a ‘aderência’ (attachment, em LEVINSON & MEIRA, 2003). Essa noção é
representativa de certos contextos em que o trajetor se situa abaixo ou atrás do marco, em
105
uma configuração espacial muito semelhante àquela evocada por alguns usos de sob ou
debaixo de, que, no entanto, não licenciam o emprego destas últimas formas. Nos exemplos
(102) a (105), o conhecimento pragmático do falante sobre os efeitos da Gravidade
informa-o que o trajetor ‘adere’ fortemente ao marco, ou ele cairia.
(102) “Viajamos igual a manga no/#sob o/#debaixo do/#sobre o cacho, todos
grudados...” (Estado de Minas – 06.08.2008)
(103) Sabe quantos funcionários públicos são necessários para se trocar uma
lâmpada no/junto ao/?sob o/#sobre o teto da repartição? xviii
Como característica da relação funcional Sustentador/objeto sustentado
(VANDELOISE, 1991. p. 197-8), o emprego de sob parece mais razoável quando há
ocultação do trajetor pelo marco ou uma distância entre os dois. Nos exemplos (102) e
(103) acima, embora haja uma orientação vertical, com o trajetor se posicionando abaixo do
marco, aquele está aderido a este.
A mudança na orientação (de vertical para horizontal) também é comportada pelo
uso de em. Nos casos abaixo, trata-se agora de uma oposição do tipo ‘frente/verso’ ou ‘na
frente/atrás’, que também pode ser expressa por sobre.
(104) Pérolas bordadas nas/sobre as barras das saias deram movimento e um
toque de luxo à criação. (Estado de Minas – 06.08.2008)
(105) Em suma, o jornalista não pode considerar o Brasil e Minas Gerais - como
dizia o poeta - como apenas um retrato na/sobre a parede.xix
106
Em (104) e (105), o elemento saliente gerado pelo conhecimento pragmático é que
tantos as pérolas quanto o retrato (trajetores) são visíveis ao conceituador. Tome-se, a
título de comparação, o que aconteceria se o tema do enunciado (104) fosse o arremate dos
bordados. Dir-se-ia, então, que os “nós do bordado estão sob o/#no/#sobre o direito do
tecido” ou os “nós do bordado estão no/sobre o/#sob o avesso”.
Ao contrário de sob, a forma sobre, que também evoca uma relação de ‘contato’
entre entidades, necessita de um contexto em que o trajetor esteja acima do marco ou diante
dele.
Em síntese, o uso da preposição em não depende da orientação espacial, mas de
uma proximidade entre trajetor e marco, que se acredita esteja relacionada à noção de
‘controle’ e não à de ‘sustentação’. E parece que, quando o eixo da orientação espacial se
altera, ‘estar visível’ também favorece esse controle. A noção de ‘contato’ com alguma área
de influência do marco é essencial a em, mas não a sobre e a sob. Em, portanto, não
expressa a relação Sustentador/objeto sustentado proposta por Vandeloise (1991 e 1994).
Isso leva à seguinte pergunta: por que em codifica ‘inclusão’ e ‘contato’? Em
princípio há duas explicações possíveis: uma baseada na perspectivação conceitual
(LANGACKER, 2001) e outra, no conhecimento enciclopédico (VANDELOISE, 1991, por
exemplo).
Como já discutido na Introdução, a perspectivação conceitual – um dos
componentes da conceitualização – envolve a capacidade de construir uma cena
focalizando em uma de suas facetas e deixando as demais em segundo plano. Demonstrou-
se esse fenômeno com o exemplo (2) reproduzido a seguir.
107
(106) (2) Assim pode ser descrita a tormenta monstro que por semanas foi
registrada no planeta Saturno.xx
Afirmou-se naquele ponto que a superfície plana do corpo celeste (marco) torna-
se mais saliente em função do trajetor (tormenta). Em segundo plano, ficam a forma
esférica (domínio da geometria) e outros componentes, como sua relação com outros
corpos celestes (astronomia). O aspecto da perspectivação conceitual envolvido é a
saliência ou ainda, a designação de uma zona ativa.
O mesmo fenômeno se passa no exemplo abaixo, empregado anteriormente para
explicar a noção de ‘inclusão parcial’.
(107) (82) Quartiero seguiu na carroceria de uma caminhonete. (JB –
17.05.2008)
Nesse caso, o trajetor (o homem) apoia-se numa parte da parede interna do marco
(carroceria), que tem propriedades geométricas de um contentor aberto. Além de estar
incluído na carroceria, Quartiero está em contato com seu limite interno, que também pode
ser sua zona ativa. Por força da recorrência (reforço pragmático) de situações como essa, a
forma de um contentor deixa de ser relevante e a preposição passa a ser empregada em
situações de ‘contato’.
Alternativamente, pode-se voltar a análise para as inúmeras possíveis experiências
que um indivíduo venha a ter com o esquema imagético de CONTENTOR, no que diz
respeito à geometria do marco. Sabe-se que os itens de classes fechadas como preposições
108
não costumam evocar especificidades geométricas tais como a forma (TALMY, 2000).
Portanto, considerando a modalidade da inclusão, torna-se possível que em codifique
relações de inclusão com contentores totalmente fechados, como um balão, e contentores
abertos, que podem variar desde copos até objetos com concavidade mínima, por exemplo,
uma saladeira. Nesses casos extremos, a distinção entre ‘inclusão’ e ‘suporte’ é muito
tênue, sendo impossível estabelecer, com precisão, o momento em que o trajetor deixa de
estar “dentro” do marco e passa a se localizar “sobre” ele.
Em síntese, a proximidade entre esquemas de CONTENTOR e de CONTATO
parece ser um bom exemplo de como o significado linguístico é construído com base nas
capacidades cognitivas do falante/conceituador e no seu conhecimento de mundo.
6.1.4. Proximidade/adjacência
Os dois usos a seguir evocam um conteúdo que também não emerge da geometria
do trajetor ou do marco. Em ambos a noção topológica evocada é de ‘proximidade’ ou
‘adjacência’. No exemplo (108), não se pode levar em conta a superfície plana
(bidimensional) saliente do marco “mesa” sem que isso gere uma interpretação inadequada,
na qual a personagem se senta sobre a mesa.
(108) Quem há de dizer, que quem vocês estão vendo, naquela mesa bebendo, é
meu querido amor. (JB – 15.08.08)
Em (109), observa-se um fenômeno parecido, em que o trajetor “hospital” não está
localizado sobre a superfície da rua propriamente dita, mas sim na área que tem início após
a calçada. Pode-se dizer, então, que o prédio está na ‘adjacência’ da rua. A conceitualização
109
de cada marco extrapola o limite físico da mesa e da rua e engloba sua “área de influência”.
O uso de em está, então, licenciado pelo efeito funcional de controle manifesto na
proximidade entre as entidades.
(109) O evento de assinatura será às 13h, no próprio hospital, na Rua Professor
Rodolfo Paulo Rocco, 255, 12º andar, Cidade Universitária, no auditório
Alice Rosa. (JB – 21.6.08)
6.1.5. Localização pontual
A ‘localização pontual’ é a elaboração do conceito de ‘localização’ na qual o
ponto de contato entre o trajetor e o marco é mínimo, de modo que se obtém uma
localização bastante específica de um objeto em relação a outro. Isso ocorre quando o
trajetor é realmente um ponto ou é conceitualizado como tal. Teoricamente, quando trajetor
e marco possuem aproximadamente a mesma dimensão e são ambos estáticos sob uma dada
perspectiva, é possível inverter sua ordem na construção prepositiva sem grandes alterações
de sentido, a não ser pela troca no foco da atenção. Mas isso normalmente não ocorre, ou é
expresso por outras formas da língua, tais como “ao lado de”, “na frente de”.
Na verdade, normalmente, não é possível inverter trajetor e marco em casos de
localização, seja ela pontual ou não (Ver seção 3.5). Embora o conceituador das cenas
espaciais em (110) e (111) possa tratar marcos e trajetores como entidades de tamanho
semelhante, os marcos (interseção e km 405) são referências mais estáveis que seus
respectivos trajetores (o sinal de trânsito e o cenário de bombardeio).
110
(110) Já foram feitas duas alterações: um sinal na interseção da Pedro II com a
Rua Peçanha e o fechamento de um trecho da avenida. (Estado de Minas –
21.06.2008)
(111) No km 405, o cenário é de bombardeio. (Estado de Minas – 21.06.2008)
Quando apenas o trajetor se assemelhar a um ponto, definitivamente não é
possível inverter a ordem na construção. Desse modo, a placa não serve de localização para
o acostamento e o exemplo (113) não é coerente.
(112) O senhor não viu a placa no acostamento?xxi
(113) # O senhor não viu o acostamento naquela placa?
De todo modo, embora a noção geométrica de ‘ponto’ dependa da
conceitualização e não apenas das propriedades geométricas das entidades relacionadas,
essa distinção é importante porque produz um esquema que se repetirá no domínio
temporal, em contraste com a noção de ‘inclusão’.
6.1.6. Localização no alvo de um movimento
A preposição em do português do Brasil não se encontra no grupo de preposições
que prototipicamente evocam o primitivo conceitual de ‘movimento’. Contudo, essa forma
é empregada com frequência em contextos dinâmicos. Nesses casos, considera-se aqui que
em localiza o trajetor em um ponto do marco coincidente com o final de um movimento.
Esse é um processo metonímico, em que o conceituador coloca em foco o alvo do
TRAJETO que compõe o conceito maior de ‘movimento’ (TAYLOR, 2002b. p. 330).
111
Estes exemplos, considerados adequados também por falantes nativos do
português europeu, evocam um esquema de ‘movimento causado’, no qual o foco central
da atenção está no alvo, seja ele um contentor – (114) e (116) ou uma superfície (115).
(114) Depoimentos de moradores, fotografias, vídeos e a análise da água mostram
que esgoto sem tratamento está sendo despejado na lagoa. (Estado de Minas
– 06.08.2008)
(115) Além de uma faixa com os dizeres “Queremos um time de verdade”,
bonecas, pipocas e bananas foram jogadas no gramado. (Estadão –
24.06.2008)
(116) Joguei os livros na bolsa / dentro da bolsa (P. DO BRASIL) > Lancei os
livros no saco / dentro do saco. (P. EUROPEU). 39
Em comparação, outro exemplo com o mesmo verbo “jogar” (=lançar) coloca a
atenção do conceituador no trajeto em si, o qual faz parte do valor semântico de a na
variante europeia.
(117) É dia de jogar flores no mar. xxii >... lançar ao mar (P. EUROPEU)
Falantes do português do Brasil, por sua vez, utilizam a preposição em com verbos
de ‘movimento causado’, como os vistos acima, independentemente do registro. Entretanto,
39
Exemplos retirados de uma conversa entre falantes nativos das duas variedades de português.
112
quando o movimento é do próprio agente, isto é, com verbos intransitivos, o emprego de
em parece restrito àqueles de sentido mais genérico, como em (118):
(118) Ângela Maria dos Santos, de 37, tentava amenizar o próprio sofrimento. ‘Fui
no posto de saúde do Bairro Ouro Minas, onde moro, e constataram que
estou com dengue’. > Fui ao posto... (P. EUROPEU) 40
(119) Armado com um revólver, o suspeito entrou na garagem e anunciou o
assalto. (Estadão – 24.07.2008)
O verbo “ir” é, talvez, entre todos os verbos intransitivos de movimento
direcionado, o mais básico, não evocando qualquer característica do marco, como ocorre
com o verbo “entrar” (119), que leva à conceitualização do marco espacial como um
CONTENTOR. Observa-se, contudo, que, com outros verbos menos vagos que “ir” – por
exemplo, “viajar” (e com o substantivo “viagem”) – é necessário fazer uso da preposição a
para que a noção de ‘alvo’ seja evocada. Construções com esse verbo produzem
significados diversos, incluindo o de ‘localização estática’.
(120) ... uma pane no avião em que viajava obrigou-o a dirigir-se de João Pessoa
para o Recife em automóvel... (JB – 25.08.2008) [meio]...
40
A versão europeia nesse caso e no de número (118) foram contribuídas pelo Prof. Augusto Soares
(Universidade Católica Portuguesa).
113
(121) A luz destas galáxias iniciaram [sic] a sua viagem em nossa direção muito
antes da existência da Terra. (Estado de Minas – 01.08.2008) [direção,
orientação]
(122) Fazemos muitas pesquisas, viajamos no país e no exterior em busca de
temas relevantes e importantes para o futuro do setor.xxiii [localização]
(123) Assistindo à Olimpíada, cabe ressaltar a coragem do presidente Lula da Silva
de viajar a/para Pequim. (JB – 20.06.2008) [alvo].
Não são discutidas, neste estudo, as razões que motivam tais usos. Salienta-se,
entretanto, que, no português do Brasil, o emprego de em com o sentido de ‘alvo’, com o
predicado “ir em Y”, ou ainda, “dar um pulo em Y”, é ainda uma questão de registro.
Apenas formalmente o português do Brasil ainda comporta usos com a forma a nessas
construções com “ir” e “lançar”, como ocorre à larga no português europeu.
Segundo Batoréo (2000. p. 444), variantes africanas do português também
utilizam em no lugar de a. Essa autora mostra ainda que, no português europeu, a
preposição a pode exprimir o conceito de movimento em ‘viagem ao Brasil’ e de
localização estática – junto a –, como em “o fio ao pescoço”.
Mas a semântica do verbo pode não ser a única explicação para o uso de em nos
contextos de movimento vistos acima, como destaca Mello (1996. p. 180), em seu estudo
sobre o português vernáculo brasileiro. De acordo com seu relato, uma “convergência de
fatores podem ter influenciado a preferência por esse padrão no uso de preposições no
114
Brasil” 41. Esse uso não só é comum em idiomas crioulos originados do português, mas
também existia no latim e no português arcaico: “Indo dar em hũa fonte” (Séc. XVI).
6.2. Localização no tempo
Vários autores, entre eles Lakoff & Johnson (1999. p. 128, 139-69) já discutiram a
dependência conceitual entre o domínio temporal e nossa conceitualização do espaço no
pensamento ocidental. Esses autores em particular discutem essa relação em termos de
metáforas conceituais destacando a ligação entre o tempo e o movimento. Segundo eles, ao
contrário do que se entende por tempo na Física – uma noção que precede o movimento 42 –
, na cognição, o conceito de movimento se forma na experiência física sensório-motora e,
portanto, é um esquema imagético básico. Essa condição permite que outros conceitos se
estruturem a partir dele, inclusive a passagem do tempo.
No que se denomina a metáfora da “orientação espacial” (LAKOFF &
JOHNSON, 1999. p. 142-4), tempos são considerados objetos, e a passagem do tempo é
associada a um TRAJETO. Como consequência, são frequentes os mapeamentos de
propriedades desse esquema imagético para a conceitualização do tempo. Assim, um ponto
inicial é mapeado para o primeiro instante de um período de tempo; um ponto final do
trajeto, para o último instante desse período; e uma sequência de pontos que formam a
41
Do original: “Perhaps one of the most striking differences in preposition use between BVP and the standard
is the use of the preposition em 'in' and its variants (ĩ, ni, no, na) with verbs of movement (…) once again a
convergence of factors might have influenced the preference for this type of pattern in the use of prepositions
in Brazil.” (MELLO, 1996. p. 180) (Tradução livre; negrito no original.)
42
Agradeço ao Prof. André Naves (UFV) seus esclarecimentos sobre esse assunto.
115
região interior do trajeto, para o próprio intervalo de tempo, desconsiderados o primeiro e o
último instantes (SMITH, 1994).
Enquanto certas preposições e locuções prepositivas (por exemplo, através de do
português e over do inglês) evocam toda a extensão do trajeto, incluindo suas extremidades,
a preposição em, por sua vez, salienta o interior dessa região como um todo, ou algum
ponto dessa região.
6.2.1. Localização no interior de um intervalo de tempo
Os enunciados abaixo representam casos em que todo o interior da região é
focalizado indistintamente.
(124) Queremos o nosso bonde restaurado com as características técnicas que
sempre funcionaram em seus 11 anos de existência (JB – 21.06.2008)
(125) Trabalhei nesses 15 anos de pesquisa sem parar.xxiv
Nesses exemplos, os processos se desenrolam durante todo o período de tempo –
“11 anos” e “nesses 15 anos” –, um fenômeno comparável à noção topológica de ‘inclusão’
(SMITH, 1994). Do mesmo modo que no domínio espacial, a região representada por cada
um desses intervalos de tempo pode ser conceitualizada como um CONTENTOR aberto ou
fechado, ou ainda, uma massa difusa, não delimitada.
Nos dois casos, a construção com em evoca uma região temporal delimitada, ao
longo da qual atividades durativas ocorrem. No domínio espacial, o mesmo esquema está
presente no exemplo a seguir, no qual o trajetor nitrogênio ocupa todo o espaço dentro do
recipiente selado que o contêm.
116
(126) ... ele foi mantido em nitrogênio em um ambiente isolado pelas duas ou
três últimas décadas. (Estado de Minas – 06.08.2008)
Poder-se-ia distinguir, ainda, com marcos temporais, a natureza pontual de uma
ação ou acontecimento, no sentido de este não se desenvolver ao longo do período de
tempo. Essas situações ou eventos têm duração limitada e, conceitualmente, não
apresentam uma duração interna. De acordo com as categorias aspectuais propostas por
Vendler (1967), classificam-se como “pontuais”.
Embora o marco seja conceitualizado como possuindo limites inicial e final e uma
duração interna como nos exemplos da categoria acima, o trajetor difere daqueles exemplos
porque ocupa apenas um ponto dentro desse tempo. A falência do banco, o surgimento de
um tufão e o lançamento do programa pelo governo são eventos que não ocupam toda a
duração dos períodos de tempo nos exemplos abaixo.
(127) Trata-se do quinto banco a falir neste ano no país. (Estadão – 24.07.2008)
(128) A espetacular obra de engenharia (...) foi projetada para resistir a todos os
tipos de tufões, já que se encontra em uma região propícia ao surgimento
deste fenômeno no verão (hemisfério norte). (Estadão – 01.05.2008)
(129) “Está difícil lançar o PAC nesses tempos, porque estamos entrando em
época de campanha”, disse Lula. (Estadão – 28.04.2008)
Essa é uma distinção sutil, que pode não ser detectada pelo falante leigo, visto que
o significado das construções também deriva de uma noção espacial de ‘inclusão’. E como
117
se discutiu nas seções 3.1 e 3.5, a preposição em não marca explicitamente os diferentes
tipos de inclusão espacial descritos. Cenas espaciais como a do exemplo (130) evocam um
esquema imagético de um CONTENTOR, com um marco delimitado (o carro), uma região
interior e uma região exterior. Os objetos encontrados (o trajetor) não ocupam toda essa
região. Acredita-se que tais características sejam mapeadas para o domínio temporal.
(130) Havia cinco frascos de lança-perfume no carro dirigido por Lombardi
(Estadão – 24.06.2008)
6.2.2. Localização em um marco pontual no tempo
Diferentemente das situações descritas acima, a ocorrência de certos processos
considerados pontuais coincide com um ponto delimitado no tempo. O significado dessas
construções temporais compartilha um esquema imagético com cenas espaciais construídas
de maneira semelhante à ‘localização pontual no espaço’, com um marco sem extensão
linear (ver seção 6.1.5). A evidência de que se trata de um fenômeno da conceitualização –
a cognição folha de látex – está no fato de, objetivamente, o período de um dia,
representado em (131) e (132), ter uma duração muito menor que um ano, que aparece em
(133).
(131) O helicóptero foi entregue ao Governo do Estado no dia 1º de outubro do
ano passado. (Estadão – 24.06.2008)
(132) O Overmundo completou um ano no último dia 7.xxv
118
(133) ‘Resolvi começar ‘do começo’ regravando Farinha do Desprezo, faixa que
abriu meu primeiro LP, em 1973.’ (Estadão – 25.06.2008)
6.2.3. Localização no final de um intervalo de tempo
Um terceiro caso de localização no tempo repete propriedades de cenas espaciais,
cuja expressão inclui construções com a preposição em. Por processo metonímico, é
possível que apenas o final da região representada pelo marco temporal esteja realmente em
destaque, e não o período todo.
Assim, no exemplo (134), embora a delegada deva passar os próximos 10 dias
trabalhando na investigação, a conclusão propriamente dita ocupará apenas o final desse
prazo. O mesmo se pode dizer a respeito do exemplo (135), porque o enunciado evoca
apenas certo ponto do movimento vertical, que ocorre ao final de alguns poucos segundos.
Como esses, no exemplo (136), o período de quinze dias que Kaká aguarda para voltar a
jogar também é construído metaforicamente como um região delimitada, da qual a
preposição em salienta apenas um limite final, isto é, o final da duração 43.
(134) [A delegada] pretende concluir o inquérito em 10 dias. (Estado de Minas –
05.08.2008)
(135) Em poucos segundos você já está a uns cinco metros do chão. (Estadão –
25.06.2008)
43
Agradeço à Profa. Margarida Salomão (UFJF) sua contribuição para a explicação desses exemplos. Ela
lembra que, na língua portuguesa, é a preposição até que evoca a meta de um TRAJETO temporal e não a
preposição em.
119
(136) O meio-campista Kaká, do Milan, afirmou que se prepara para voltar aos
gramados em 15 dias. (Estadão – 21.06.2009)
Como nos demais casos analisados, o significado dessa categoria resulta da
semântica distribuída pelo contexto, no qual se vê sempre um verbo com aspecto de curta
duração (concluir, estar=chegar, voltar=chegar de volta), inserido em uma moldura que
inclui um tempo anterior de preparação visando a uma conclusão (um processo perfilado
pelos verbos acima). A existência na língua da construção em até reforça essa ideia, visto
que somente com a presença do advérbio de inclusão, pode-se obter uma interpretação de
‘em qualquer ponto do período’: [A delegada] pretende concluir o inquérito em até 10 dias.
6.3. Localização em outros domínios
Além dos domínios espacial e temporal, a preposição em ajuda a formar
enunciados sobre cenas de outros domínios, nos quais, entretanto, ela ainda evoca
elaborações do conceito de ‘localização’. Alguns deles envolvem trajetores constituídos por
atividades ou eventos que podem ocorrer em domínios concretos ou abstratos; outras cenas
contêm marcos claramente abstratos, tais como estados emocionais e situações. Algumas
delas são estáticas e outras são dinâmicas. Neste último caso, assume-se que a localização
descrita pela preposição em é o ‘alvo’ ou ‘ponto final’ de um esquema de TRAJETO.
De um modo geral, esse tipo de ‘localização’ é possível e tão abundante porque o
ser humano utiliza esquemas abstraídos de entidades concretas, mais básicas em sua
experiência, para elaborar conceitualmente entidades mais complexas (LAKOFF &
JOHNSON, 1980). Uma vez que objetos do domínio físico fazem bons pontos de referência
120
para localização, também é possível atribuir a entidades não-concretas essa mesma
característica. Esta seção da análise lida com alguns dos tipos de localização metafórica
obtidos, cuja frequência, no todo, atingiu um nível importante no córpus (27,30). Somados
aos quase vinte por cento da localização metafórica no tempo, ultrapassam os casos de
localização espacial.
6.3.1. Localização metafórica não-específica
Descrevem-se aqui algumas modalidades de localização metafórica, que emergem
em diferentes domínios. Em cada um deles, o marco oferece algum tipo de referência
locativa para o trajetor, que pode ser um objeto, uma estrutura, um processo ou uma
situação.
No exemplo (137), a preposição em ajuda a situar os problemas – também
conceitualizados como coisas – dentro de uma entidade delimitada, que pode ser
comparada a estruturas complexas do domínio espacial. Neste caso, o sistema penitenciário
não é entendido como um conjunto organizado de prédios nos quais indivíduos
considerados culpados de algum crime são mantidos presos. A relação evocada não é,
portanto, ‘localização espacial’. Em vez disso, o sistema é uma estrutura mais ampla, que
também inclui outros personagens e processos.
(137) Em pelo menos cinco Estados, juízes, secretários de segurança, diretores de
presídio e advogados vão ser responsabilizados diretamente pelos problemas
no sistema penitenciário. (JB – 21.06.2008)
121
Uma explicação semelhante pode ser dada para o exemplo (138). Ele mostra um
trajetor não espacial – a fraude – que representa uma ação realizada dentro de um
determinado ambiente:
(138) O assistente de Jerome Kerviel, operador acusado pela fraude recorde no
Société Générale, foi colocado sob investigação por cumplicidade. (JB –
15.08.2008)
Novamente, o marco não é elaborado como um edifício – por exemplo, uma
agência do banco francês – e, portanto, não se trata de localização espacial. Em vez disso, o
marco é uma instituição, uma estrutura mais ampla que, certamente, possui um forte
vínculo com a materialidade das edificações, mas que também incorpora domínios de
atividades variadas. Como destacam Tyler & Evans (2003), certas atividades estão
fortemente associadas ao local onde se realizam, nesse caso em particular, uma empresa
financeira. Obtém-se, assim, mais uma motivação para o uso de uma preposição com
sentido locativo.
Outras vezes, a localização metafórica é indiciada pela presença de termos que
normalmente evocam noções espaciais, embora estejam ocorrendo como marcos em um
domínio não-espacial. A palavra “mundo”, que aparece no enunciado (139) certamente
tem um forte apelo espacial, porque nascemos, estamos, vivemos no “mundo” que é o
planeta Terra. O exemplo (140) representa um caso semelhante, em que um termo
fortemente relacionado ao conceito de localização é empregado em um domínio não-
122
espacial. A motivação gerada por esse cotexto é grande, uma vez que determinar a posição
de um objeto no espaço é basicamente dizer sua localização.
(139) Eu era desconhecido no mundo literário, sem chão. (Estadão – 25.06.2008)
(140) A Organização das Nações Unidas ... divulgou uma pesquisa que aponta o
Brasil na 76ª posição, entre os 129 países avaliados, do ranking da educação
básica. (Estadão – 01.05.2008)
Vários outros tipos de localização metafórica podem ocorrer, praticamente em
número tão grande quanto o de domínios que encerram as cenas analisadas. Alguns desses
ocorreram com mais frequência no córpus ou apresentaram algum tipo de saliência que fez
que merecessem uma descrição à parte nas subseções a seguir.
6.3.2. Localização em grupos
Esquemas imagéticos podem sofrer certas transformações durante sua
conceitualização. Lakoff (1987. p. 428) descreve um processo denominado “transformação
multiplex-massa”, que diz respeito a duas maneiras distintas, porém relacionadas, que um
objeto coletivo pode ser concebido. Quando o conceituador observa um grupo muito de
perto – como olhar uma imagem através de uma lente macro – os indivíduos que fazem
parte desse grupo aparecem como entidades distintas (multiplex). Entretanto, à medida que
se aumenta a distância entre o observador e essa entidade múltipla – como em uma tomada
fotográfica de ângulo aberto – a distinção entre os membros componentes diminui, a ponto
de serem concebidos como uma única massa.
123
Como explicam Tyler & Evans (2003. p. 185), após serem conceitualizados como
massa, essas entidades podem funcionar como marcos delimitados no espaço, o que permite
interações dinâmicas e estáticas com trajetores, em relação de inclusão. O enunciado (141)
demonstra como o marco “seleção” é conceitualizado como um objeto delimitado, no qual
se pode entrar. Já em (142), a evidência de que o marco coletivo é elaborado como uma
entidade única ou de massa está na possibilidade de ele vir a se partir ao meio.
(141) “Quando eu entrei na seleção, cobravam porque não convocava o Mineiro e
o Josué, agora me cobram porque eu convoco.” (Estado de Minas –
06.08.2008)
(142) Está formalizado o racha no PSDB de São Paulo. (JB – 21.06.2008)
6.3.3. Atividades e eventos
Como já mencionado, Tyler & Evans (2003. p.189) propõem haver uma forte
relação cognitiva entre uma atividade e a área em que ela é desenvolvida. Uma evidência
dessa associação pode ser encontrada na relação que normalmente se estabelece entre a
atividade profissional de uma pessoa e seu local de trabalho.
(143) Mas houve um outro erro logo no início de seus anos na Casa Branca – sua
tentativa desastrosa, sob direção de seu marido, de revisar o sistema de
saúde. xxvi
124
O termo “Casa Branca” é empregado em referência ao edifício sede do governo
norte-americano, no qual a primeira-dama Hillary Clinton trabalhou com seu marido por
algum tempo. Porém, é bastante comum que o nome também se refira às atividades
administrativas e políticas lá desenvolvidas. Nesse caso, trata-se de um processo
metonímico “local por atividade”, em que a construção é um conceito secundário evocado
pela expressão linguística.
Ocorrendo com frequência, a associação entre atividade e local se fortalece e em
passa a ser empregada também com o nome da atividade propriamente dita. Como
consequência, em pode ser encontrado em construções nas quais o marco é uma atividade
que não necessariamente ocorra em um local delimitado, ou, ainda, naquelas cujas
conceitualizações não dependam de um marco espacial saliente.
Como já salientado, atividades normalmente se caracterizam pela duração. Por sua
vez, ações que se desenvolvem dentro de um período delimitado de tempo possuem uma
aspectualidade diferente e normalmente são rotulados como eventos na literatura específica
(Ver VENDLER, 1967). Entretanto, conceitualizar atividades ou eventos como coisas –
things (LANGACKER, 1987) é um fenômeno cognitivo comum, como descrito mais
abaixo, que nos permite imaginá-los como objetos delimitados e, portanto, como
contentores ou pontos de referência para outros objetos.
Assume-se, então, que atividades e eventos geram a mesma motivação para o
emprego de em. Nos exemplos que vêm a seguir, o comando da seleção mexicana, os
projetos e a fertilização representam atividades com certa duração. Já os Jogos Olímpicos, a
decisão da Copa Ouro, o jogo do domingo e o clássico contra o Brasil são eventos bastante
limitados no tempo, dos quais os trajetores participam de alguma forma.
125
(144) Com um dos maiores atacantes de sua história no comando, os mexicanos
não conseguiram vaga nos Jogos Olímpicos de Pequim e ainda foram
derrotados pelos Estados Unidos na decisão da Copa Ouro. (Estadão –
24.06.2008)
(145) O atacante Lionel Messi não ficou satisfeito com o empate por 1 a 1 com o
Equador ... no jogo deste domingo, e espera a recuperação da seleção no
clássico contra o Brasil. (Estado de Minas – 06.08.2008)
(146) Por outro, não há muita perspectiva do Brasil participar nesses grandes
projetos.xxvii
(147) Dejetos usados na fertilização degradam microbacias. xxviii
Da mesma forma que qualquer objeto, a ocorrência tanto de eventos quanto de
atividades como marcos é perfeitamente natural. Trata-se, apenas, da flexibilidade de
nosso processamento cognitivo em jogo. Langacker (1987. p. 145-6, 248-9) atribui a ela
nossa capacidade de conceitualizar uma cena complexa por meio de sondagem de resumo
ou sequencial (summary scanning X sequential scanning).
Na sondagem de resumo, os diversos componentes conceituais da cena são
processados em paralelo. Em outras palavras, os diversos estados que compõem um
processo estão conceitualmente disponíveis a um só tempo, o que torna seu perfil
semelhante ao de coisas e relações atemporais. Ao contrário, verbos conjugados expressam
um processamento cognitivo sequencial, no qual os componentes ou estados constituintes
de uma cena complexa tornam-se disponíveis um após o outro.
126
6.3.4. Estados e situações
Estados também são conceitualizados como CONTENTORES ou regiões
delimitadas no espaço (LAKOFF & JOHNSON, 1999. p. 176, 179-81). Como contentores
metafóricos, estados permitem uma série de semelhanças com contentores espaciais, tais
como estar “em/dentro ou fora” de um estado, estar “à beira de” um estado ou estar “em um
estado profundo” e, portanto, ser difícil abandoná-lo.
A conceitualização de estados como contentores também pode ser explicada pelo
fenômeno que Grady (1997) denomina correlação de experiências. A análise da situação
descrita abaixo revela um esquema imagético em que uma situação se dá dentro de um
ambiente duplamente qualificado como um contentor (quitinete e caixa). Uma resposta
cognitiva natural que emerge de uma experiência como essa é a sensação de estar contido
em um espaço delimitado, que oferece pouca liberdade de movimento.
(148) Paula mora em uma quitinete que mais parece uma caixa de fósforos. xxix
Contudo, essa sensação não está necessariamente presente todas as vezes que a
preposição é complementada por esse marco. Um contexto parcialmente diferente, como
em “Paula mora em uma quitinete que mais parece uma galeria de arte”, não gera o
mesmo tipo de resposta cognitiva. Deduz-se, então, que o conhecimento de que Paula vive
em uma quitinete e as sensações obtidas desse conhecimento encontram-se em uma
correlação de experiências. Tal fato permite que, por reforço pragmático, gradativamente as
sensações sejam desvinculadas da experiência física e elas próprias venham a ocupar a
mesma posição que marcos espaciais.
127
Do mesmo modo que estados psíquicos vivenciados, também situações são
frequentemente elaboradas cognitivamente como entidades com características de
delimitação semelhantes às de marcos espaciais. Corroboram essa afirmação usos em que
essas entidades venham associadas a verbos que normalmente evocam movimentos físicos
orientados para dentro – exemplos (149) a (151) – ou para fora – (152) – de uma região
delimitada.
(149) Com isso, a tradição de dar notas e conceitos aos alunos caiu em desuso.
(Estado de Minas 05.08.2008)
(150) Adriana Aparecida Costa Souza, de 29 anos, começou a entrar em trabalho
de parto na manhã de domingo (Estado de Minas 05.08.2008)
(151) ... a categoria realizou uma assembleia Geral Extraordinária ... e decidiu
entrar em estado de greve. (JB – 21.06.2008).
(152) Embora, às vezes, tenha algumas falhas de ritmo, 'Agente 86' tem a seu favor
sair da mesmice das comédias para toda a família. (JB – 21.06.2008).
A mesma motivação está presente em usos estáticos da preposição em nos quais o
sentido de ‘contido em uma região delimitada’ é evocado pela construção de marcos
abstratos também com características herdadas do domínio espacial, como se vê de (153) a
(155).
(153) ‘A gente fica nessa angústia, porque ele passou de uma vida para outra e
queremos apenas enterrá-lo’, lamentou a mãe do pároco. (Estado de Minas –
05.08.2008)
128
(154) ... a rejeição é experimentada, muitas vezes, em solidão. (Estado de Minas –
03.08.2008)
(155) Trocava o dia pela noite para escrever em paz. (JB – 21.06.2009)
6.3.5. Palavras como contentores
A Metáfora do Tubo ou do Conduto (Reddy, 1979), mencionada no início desta
tese, é um fenômeno muito abundante na língua e envolve sua conceitualização como um
objeto delimitado, capaz de “conter” e de “transportar” conteúdo semântico. Segundo essa
metáfora, as palavras em suas diversas manifestações orais e escritas são CONTENTORES
de informação.
No exemplo (156) abaixo, as palavras do técnico da seleção são objetos
tridimensionais, que contêm suas ideias (que também são objetos) a respeito do que
aconteceria a seu time em Pequim. E no exemplo (157), o discurso do candidato
republicano é portador de objetos: os temas teoricamente não abordados pelos democratas.
Sendo as palavras ‘lugares’, elas podem, portanto, ocorrer em construções prepositivas
semelhantes àquelas com marcos espaciais.
(156) ... a seleção masculina de vôlei do Brasil viverá nos Jogos de Pequim, ... o
fim de uma geração “surreal”, nas palavras de seu comandante. (Estadão –
24.06.2008)
(157) Obama e Hillary ... não se concentram em questões importantes para o
eleitorado americano, como a economia e a Guerra no Iraque, temas
principais no discurso de McCain. (Estadão – 01.05.2008)
129
Mais abaixo será discutido como um efeito funcional do esquema de
CONTENTOR permite que a Metáfora do Tubo se associe ao significado de ‘forma’.
E, a seguir, discutem-se usos em contextos de movimento.
6.3.6. Mudança de estado ou condição
Existe uma relação conceitual entre mudanças de estado e movimentos (LAKOFF
& JOHNSON, 1999. p.179, 183), na qual os estados inicial e final são conceitualizados
como objetos (contentores ou pontos). Uma vez que estados são conceitualizados como
CONTENTORES – e o mesmo vale para situações –, mudanças são movimentos para
dentro ou para fora dessas regiões. Do mesmo modo que o movimento implica um
TRAJETO de um região ou ponto no espaço para outra região ou ponto final, as mudanças
ou transformações representam a saída de um estado (objeto) inicial para outro estado
(objeto) final.
Nos exemplos abaixo, ocorre a passagem de um estado ou forma anterior (uma
solução de sais e proteínas, a condição de Jonas antes de ser preso/desaparecer e a situação
do mercado antes do colapso) para um estado final (a forma de fibra da mistura, Jonas
desaparecido e a ruína do mercado financeiro).
(158) O sal faz com que as proteínas se juntem. Ao passar pelo canal maior, a
mistura se transforma em fibra. (Estadão – 01.05.2008)
(159) Jonas transformou-se, assim, no primeiro desaparecido político
brasileiro.xxx
130
(160) “Grandes executivos deixaram o barco assim que o mercado de títulos entrou
em colapso, deixando milhares de clientes com um problema nas mãos.”
(Estadão – 25.06.2008)
As mudanças ocorridas estão elaboradas como TRAJETOS, possuindo as mesmas
facetas principais desse esquema imagético. Nesses contextos, em por si só não evoca o
trajeto inteiro, mas acentua a ideia de localização no final da transformação. O uso de em na
construção “acabar em” no exemplo (161) é mais uma demonstração de como essa
preposição evoca o sentido de alvo de um movimento metafórico: o verbo “acabar” sem
complemento adverbial pressupõe uma transformação da existência para a inexistência. O
marco introduzido pela preposição em desconstrói esse sentido e gera a possibilidade de
outro estado que não a inexistência.
(161) Namoros na Internet podem acabar em crimes virtuais. (Estado de Minas –
06.08.2008)
O mesmo esquema imagético de TRAJETO está presente no exemplo abaixo, no
qual o final do movimento do trajetor coincide com o interior de um objeto tridimensional,
que é a cisterna. Essa abstração é mapeada para os usos com mudanças de estado ou
situação vistos acima.
131
(162) Os bombeiros resgataram (...) uma vaca que caiu em uma cisterna no sítio
Ebenezer, no município de Esmeraldas, na Região Metropolitana de Belo
Horizonte. (Estado de Minas – 04.2008)
Eventualmente, a mudança de estado pode se caracterizar como evolução no
desenrolar de uma atividade. Esse mapeamento tem origem no fato de que ações do
domínio físico ou de domínios abstratos compartilham uma mesma estrutura esquemática,
envolvendo etapas tais como um estágio antecedente de prontidão, um estágio inicial, o
processo de iniciar, o processo principal, o estágio final, além de outras possibilidades
intermediárias.
(163) De terça até sexta-feira, Belo Horizonte sedia a 7ª Conferência Latino-
Americana sobre Meio Ambiente e Responsabilidade Social (Ecolatina), (...)
este ano dedicado ao tema “Mudanças climáticas: tempo de entrar em ação”.
(Estado de Minas – 2007)
(164) Também contribuiu a produção da plataforma FPSO Cidade de Rio das
Ostras, que entrou em operação no dia 31 de março, no campo de Badejo,
também na Bacia de Campos. (JB – 17.05.2008)
Os exemplos anteriores representam casos de movimento virtual expresso pelo
mesmo verbo “entrar”, presente na descrição de cenas espaciais com um marco que
normalmente se caracteriza como um CONTENTOR:
132
(165) Anderson entra em casa para contar a novidade à mãe. (Estadão –
25.06.2008)
6.3.7. Alvo de movimento metafórico
Como já visto na seção 6.3.1, entidades complexas são metaforicamente
construídas a partir de modelos concretos mais básicos, herdando destes a possibilidade de
funcionarem como o ponto ou a região onde se localiza outra entidade. Do mesmo modo,
aquelas mesmas entidades complexas podem se constituir como o destino final ou alvo de
um movimento metafórico.
Na seção anterior, esse alvo foi um novo estado ou situação na qual se encontra o
trajetor. Mas outras entidades não-espaciais também podem ser alvo de movimento
causado por um agente. No exemplo (166), o marco “um longa metragem” é o destino final
do investimento (o movimento metafórico) causado pelo sujeito do verbo. Em (167), o
“conteúdo do livro” é um espécie de contentor metafórico, para dentro do qual se destina o
trajetor (a originalidade dos versos), num movimento causado pelos poetas.
(166) O criador Chris Carter decidiu investir em um longa-metragem. (Estadão –
25.06.2008)
(167) “Um barco remenda o mar” reúne versos de dez poetas chineses, que
inserem em seu conteúdo uma originalidade própria e única.” (JB –
15.08.2008)
133
6.3.8. Alvo paciente de ação metafórica
Os exemplos analisados nestas duas últimas seções expressam mudanças de estado
ou de localização metafórica do trajetor, nas quais o marco é esse novo destino. Mas a
preposição em também aparece em outros contextos metafóricos, com marcos que são
afetados por alguma ação ou processo. Nesses casos, não é o estado final que complementa
a preposição, mas sim as entidades afetadas pela ação, que se constituem como alvos. Em
(168), o mercado internacional do petróleo é o alvo de uma possível influência (ação) do
Brasil (o agente em potencial). O mesmo ocorre no exemplo seguinte, em que o trajetor (as
mudanças) atinge o marco da preposição (a legislação tributária).
(168) “O Brasil não é grande exportador nem grande consumidor de petróleo. Não
vejo porque poderia ter tanta influência no mercado internacional”.
(Estadão – 24.07.2008)
(169) Entre outras mudanças na legislação tributária feitas pela proposta,
destaca-se a ampliação do alcance do Regime Tributário para Incentivo à
Modernização e à Ampliação da Estrutura Portuária (Reporto). (JB –
15.08.2008)
Acredita-se que, como alvos, os marcos representam o lócus da ação e aí estaria a
motivação para uma preposição com sentido locativo. Mas também se pode inferir que os
dois exemplos analisados refletem o mesmo padrão derivado de ações de movimento físico,
nas quais o marco da preposição em também é alvo afetado, como nos exemplos (170) e
(171).
134
(170) Após um desentendimento entre Thales e o grupo, o promotor disparou 12
tiros em Modanez e Souza. (Estadão – 24.06.2008)
(171) Lula lembrou que nunca precisou de uma imposição legal para não bater em
seus próprios filhos. (Estadão – 24.06.2008)
6.3.9. Finalidade
O propósito de uma ação não-física também pode ser comparado ao alvo de uma
ação física (LAKOFF & JOHNSON, 1980). A ação de oferecer um almoço em (172) é o
trajetor de um movimento cujo alvo é prestar uma homenagem a alguém. Também se pode
pensar o mesmo com relação à defesa da turista brasileira, que representa a finalidade ou o
alvo metafórico da ação do jornal.
(172) Sabatinado pela imprensa, no almoço oferecido em sua homenagem, ... ele
não segurou a bronca. (JB – 15.08.2008)
(173) O jornal espanhol El Mundo saiu em defesa da brasileira Janaína Agostinho.
(Estadão – 24.06.2008)
6.3.10. Alvo de atividade cognitiva
Cabe ainda lembrar de um fenômeno da conceitualização de certas cenas, em que
o observador constrói uma espécie de movimento virtual – fictive motion – (TALMY, 2000.
p. 110-1) cuja trajetória se constitui como uma “linha de visão”. O autor explica que essa
linha vai dos olhos do observador até o objeto observado. Como ambos estão totalmente
135
estáticos, esse fenômeno é denominado movimento virtual e explica a expressão linguística
de cenas do domínio da percepção como o exemplo (5) repetido abaixo.
(174) (5) Ele mantém o olhar no copo. xxxi
Nesse exemplo, o copo é o alvo da atividade perceptual, e, por essa razão, também
parece natural que a relação entre trajetor e marco seja representada pela preposição
locativa em.
Mas Talmy também trata a percepção e a cognição como dois domínios adjacentes
cujas fronteiras são difíceis de definir (Ver seu conceito de “cepção” em TALMY, 2000).
Acredita-se, então, que essa proximidade permite que, à moda de atividades sensoriais, os
processos cognitivos também gerem elaborações constituídas de movimentos virtuais do
tipo descrito no primeiro parágrafo desta seção, em que a preposição em localiza o trajetor
no ponto final de um trajeto fictício.
Os exemplos abaixo corroboram essa ideia. Em (175), o alvo do verbo pensar é o
outro jogo. Teoricamente, o conceituador também constrói uma “linha de visão” cujo ponto
final é o objeto do pensamento do técnico. Os predicados “acreditar”, em (176), “prestar
atenção”, em (177), e outros que expressam fenômenos sensoriais e cognitivos também se
adaptam a essa construção em que o marco é o alvo do movimento do trajetor.
136
(175) O técnico romeno disse também que vai ignorar o duelo entre França e Itália.
Um empate favorece sua equipe. “Não posso comandar meu time pensando
no outro jogo. (Estado de Minas – 06.08.2008).
(176) Eu ouvi esses rumores, mas asseguro que não há maneira de acreditar nisso.
(JB – 21.06.2008).
(177) É fundamental prestar atenção nas dicas dadas pelo namorado(a). (Estado de
Minas – 06.08.2008).
6.4. Afastamento do conceito de localização
Nesta última parte da análise busca-se descrever os usos da preposição em que não
são entendidos como elaborações do conceito de ‘localização’. Eles emergem basicamente
de dois efeitos funcionais das noções topológicas de ‘inclusão’ e de ‘contato’, quais sejam,
‘controle’ e ‘suporte’.
O primeiro exemplo do córpus citado nesta tese representa um exemplo de
inclusão parcial, expresso pela preposição em, na qual, além da noção topológica, observa-
se ainda o efeito de controle exercido pelas mãos do atirador sobre a arma.
(178) (1) Não me saía da cabeça a imagem do autor dos disparos, (...), sorrindo
com um fuzil nas mãos ao celebrar a chegada de 2008. (Estadão –
01.5.2008)
A importância desse efeito com outros marcos espaciais é descrita mais
amplamente na seção 3.5 e seu papel na emergência de extensões metafóricas é apresentado
137
na seção 4.2.1, de onde se traz agora este exemplo de como a construção “nas mãos”
representa a noção de controle.
(179) (47) O futuro desta campanha está em suas mãos. (Estadão – 01.05.2008)
Acredita-se que essa vinculação do esquema de CONTENTOR seja a motivação
para uma série de usos não-locativos da preposição em, alguns dos quais são descritos a
seguir.
6.4.1. Especificação
De um modo geral, a especificação de uma entidade é sinônima de delimitação ou
controle da abrangência de seu significado. Acredita-se que essa característica motive o
emprego da preposição em em usos não locativos, nos quais se percebe um tipo de controle
indireto correspondente à especificação do trajetor.
Na seção 6.3.3, discutiu-se como a preposição em se combina com atividades e
eventos que atuam como marco de relações locativas metafóricas, embora o vínculo entre
tais atividades e os espaços onde ocorrem não seja sempre explícito. No limite do
afastamento de tal motivação, em também aparece codificando uma relação em que uma
atividade especifica o trajetor. Em cada um dos exemplos abaixo, o marco delimita a
amplitude do conceito que precede a preposição: o evento não envolverá, por exemplo,
especialistas em linguística, o especialista em dentística restauradora não será o mais
indicado para um tratamento ortodôntico e o paciente não carecia de pronto-atendimento
em ortopedia.
138
(180) O evento envolverá autoridades e especialistas em saúde. (JB – 21.06.2008)
(181) Cirurgião dentista, especialista em Dentística Restauradora. xxxii
(182) O hospital São Judas Tadeu (...) determinou o encaminhamento para o
Hospital João XXIII ou outro hospital com pronto-atendimento em cirurgia
plástica. (Estado de Minas – 30.04.2008)
A especificação pode se manifestar de incontáveis maneiras e não apenas pelo
ramo de atividade. No caso abaixo, os moradores não mencionam a presença de viciados
em álcool ou corridas de cavalo.
(183) Quem mora perto da construção diz que o local abriga assaltantes e viciados
em drogas. (Estado de Minas – 05.08.2008)
6.4.2. Forma
Como destaca Langacker (1987), a forma externa de um objeto normalmente está
incorporada na representação mental desse objeto. Pela relação bastante próxima entre a
forma e os limites do objeto, muitas vezes apenas a forma já é suficiente para designar a
entidade e seus limites (TYLER & EVANS, 2003. p. 196). Isso ocorre porque os limites da
entidade são mais salientes que seu interior, isto é, a parte contida dentro dos limites da
forma. Por efeito de reforço pragmático, o emprego de em passa a ser comum mesmo
quando o marco é uma forma, como nos exemplos a seguir:
139
(184) Depois de rodar em círculos com as mãos na cabeça, tropeçar nuns cinco
barcos de pesca e proferir blasfêmias em dialeto local...xxxiii
(185) [O] Viaduto Santa Tereza (...) guarda no seu desenho em arco páginas
importantes da história de Belo Horizonte. (Estado de Minas – 30.04.2008)
Em consonância com Tyler & Evans, assume-se aqui que a expressão “em
círculos” não evoca no falante a ideia de que alguém esteja vagando no interior de vários
círculos. Entende-se claramente que se trata da forma de um movimento e aquela constitui
um limite para este. O mesmo pode ser dito sobre o “arco” que determina ou controla a
forma da obra arquitetônica. Obviamente, o viaduto não está dentro de um arco. Esta é, na
verdade, sua forma.
Esse processo conceitual no qual a forma passa a constituir um limite para o
trajetor ocorre também em situações estáticas. No exemplo abaixo, também não se trata de
uma rede dentro da qual o atendimento seja realizado. Além da elaboração da atividade
“atendimento” como um objeto, apenas a forma radial desse objeto é salientada na
conceitualização.
(186) O ECA pressupõe um atendimento em rede. xxxiv
Essa explicação pode ser confirmada pelo emprego de em em construções com a
noção mais esquemática (forma, formato, estado físico da matéria), como nos exemplos a
seguir:
140
(187) A caça a baleias artesanalmente, a confecção de barcos utilizando peles de
foca, o respeito aos mais velhos e a noção de sociedade são alguns dos temas
que a autora descreve nesse trabalho escrito em forma de diário. (Estadão
– 25.06.2008)
(188) A escultura é formada por três chapas de aço, duas em forma de triângulo e
uma retangular. (Estado de Minas – 05.08.2008)
(189) Pesquisador francês Michel Armand inventou uma bateria que carrega
energia em estado sólido.xxxv
Alternativamente, a forma do trajetor pode ser dada por meio de sua configuração
interna, o que não impede o uso da mesma preposição. Esse é um aspecto tipológico
comum, que diz respeito à neutralidade das classes fechadas quanto à constituição interna e
à continuidade dos objetos que relacionam (TALMY, 2000. p. 30).
(190) Vendo som completo ou em partes.xxxvi
(191) Todos os pequenos anúncios das seções Imóveis Compra e Venda e Imóveis
Aluguel são publicados em subseções estruturadas por tipos de imóveis.xxxvii
(192) Lins chegou a se comparar a super-heróis de histórias em quadrinhos (JB –
15.08.2008)
Por extensão, construções com em também determinam o modo como um processo
se desenvolve. No enunciado (193), “sacrifício” não é simplesmente um estado em que o
jogador possa se encontrar, mas sim o modo como essa atividade será desenvolvida. E é
141
bastante provável que seu desempenho seja controlado ou determinado pelo marco da
preposição. Do mesmo modo, a eficácia da atuação da autoridade municipal em (194) é
delimitada pela maneira como é avaliada, isto é, apenas teoricamente as medidas poderiam
surtir algum efeito.
(193) “Sou a favor de jogar no sacrifício desde que o jogador tenha as mínimas
condições possíveis de jogar”. (Estado de Minas – 06.08.2008)
(194) Como o aeroporto é de responsabilidade do governo federal, as medidas de
Cesar Maia não funcionaram na prática. (JB – 25.06.2008)
A noção de forma também vem associada à Metáfora do Tubo descrita mais
acima. Uma vez conceitualizadas como objetos delimitados, as palavras herdam do
esquema de CONTENTOR seu efeito funcional de controle sobre o objeto contido em seu
interior. Por essa razão, supõe-se que tal controle possa se manifestar como a forma
linguística que um trajetor assume.
Observe-se como isso ocorre nos enunciados abaixo: em (195), a queda do
desempenho do Brasil é medida relativamente a outros países. Portanto, os “termos
relativos” dizem respeito à forma da mensuração – “relativamente a...” –, visto que,
provavelmente, o país deve ter apresentado algum avanço em números absolutos. No
exemplo (196), “em termos de” também introduz um modo ou uma forma como o resultado
de alguma ação deva ser avaliado. Já em (197), “nesses termos” são, na verdade, “nessas
condições”, as quais ‘controlam’ ou delimitam a forma de relacionamento que poderá vir a
se desenvolver.
142
(195) Em termos relativos, o Brasil caiu uma posição no ranking de 177 países e
territórios. (Estadão – 01.05.2008)
(196) Em termos de melhoria do trânsito o resultado é efêmero - explica o
engenheiro. (JB – 17.05.2009).
(197) Se quiser continuar comigo é nesses termos.xxxviii
O que distingue esse grupo dos exemplos de Metáfora do Tubo descritos em 6.3.5
é o fato de que, nestes três últimos exemplos, já não há referência explícita a palavras como
contentores. Como já dito, a relação se dá com uma vinculação de ‘controle’ que emerge da
noção topológica de ‘inclusão’.
6.4.3. Meio ou instrumento
Uma extensão metonímica do uso de em com atividades se traduz no processo pelo
qual o meio ou o instrumento utilizado para realizá-la aparece em colocação com em. Essa
associação aparece registrada no exemplo abaixo (NEVES, 2000. p. 678, ênfase presente no
original) como uma construção comum com essa preposição.
(198) “Faz rascunho, como um colegial”, diz, ao me ver tirar na máquina outra
lauda. (instrumento)
Nesse exemplo, em designa uma relação entre uma ação (“tirar outra lauda”) e o
instrumento empregado em sua realização (“na máquina”). O mesmo ocorre nos outros
casos. Em (199), a tarefa de criar uma mensagem deverá ser executada por meio do
Outlook e em (200), a visualização de certo conteúdo é possível por meio do Internet
143
Explorer. O mesmo processo metonímico licencia o uso de em no exemplo (201), porque os
dois idiomas são o meio através do qual as informações são passadas aos usuários do
cartão. A motivação vem por uma extensão do uso da preposição com uma atividade e não
diretamente do sentido de localização espacial.
(199) Crie uma nova mensagem de e-mail no Outlook. 44 (Estado de Minas –
03.08.2008)
(200) Esta página é melhor visualizada em Internet Explorer 5 ou superior.xxxix
(201) Os cartões são impressos nas duas faces, em inglês e chinês. (Estadão –
01.05.2008)
Embora Neves proponha uma distinção entre meio e instrumento, não se acredita,
neste estudo, haver uma diferença tão considerável entre os fatos que motivam esses usos, a
ponto de ser necessário sugerir duas categorias separadas.
6.4.4. Material
Tyler & Evans (2003. p. 190) sugerem que o meio ou instrumento utilizado em
uma atividade acabam por restringir a maneira como esta evolui. Do mesmo modo, parece
razoável que características físicas de um objeto, tais como o material empregado em sua
fabricação “controlem” a eficiência final desse artefato, como se lê no exemplo (202):
44
Assim como o exemplo (92), além de uma interpretação de ‘instrumento’, não se pode descartar uma
interpretação espacial (localização inespecífica) para (199) e (200), mas nem tanto para (201).
144
(202) Himel et al.20, 1995, observaram maior eficiência para as limas de níquel-
titânio quando comparadas às de aço inoxidável. xl
Novamente, acredita-se que o efeito de ‘controle’ seja a motivação para o uso da
mesma preposição. Considera-se então que os materiais bronze e porcelana fria limitam a
funcionalidade e a estética da escultura e do souvernir nos enunciados a seguir.
(203) Confeccionada em bronze pelo artista plástico Ruthnac, a escultura pesa 200
quilos e tem dois metros de altura, incluído o pedestal. (JB – 21.06.2008)
(204) Souvenirs em Porcelana Fria! xli
6.4.5. Cor
Outra característica que pode limitar a funcionalidade ou o impacto causado por
um objeto é a cor que lhe é atribuída. Comprova essa hipótese o enunciado abaixo:
(205) “A cor também tem que acentuar o corte”, Hazan continua, ecoando uma
estética que é compartilhada pelos coloristas mais procurados do país.xlii
Assim sendo, acredita-se que o mesmo processo metonímico derivado da noção de
atividade motive o uso de em nos exemplos (206) e (207). É sabido que a fotografia em
preto e branco representa um nicho específico dessa arte – em comparação com a fotografia
em cores – com profissionais e adeptos particulares. Já o controle exercido pela cor sobre o
145
tecido vem anunciado no próprio cotexto: se os tecidos nessas cores desbotam com
facilidade, eles provavelmente terão seu emprego limitado.
(206) A seção internacional do Japan Times trazia uma enorme foto em preto e
branco de uma favela de Recife. (Estadão – 01.05.2008)
(207) A chita ou o algodãozinho estampados nessas cores desbotam facilmente.xliii
6.4.5. Suporte metafórico
Na seção 4.2.1, descreveu-se como a noção funcional de ‘suporte’, que emerge de
inúmeras situações espaciais, é mapeada para domínios abstratos e, por reforço pragmático,
o novo emprego passa a incorporar a linguagem, mesmo na ausência de um vínculo físico
motivador. Um exemplo desses usos espaciais sancionadores pode ser visto no exemplo a
seguir. Nele, o marco “muro” provavelmente ainda se encontra em uma posição vertical,
estando em contato com o trajetor, que recebe seu suporte/apoio.
(208) O restante da estrutura começava a desabar e só estava apoiada em um
muro. (JB – 17.05.2008)
Como sempre, o mapeamento que gerou a extensão é percebido pelo uso do
mesmo item lexical em construções semelhantes, variando apenas o domínio. Na cena
descrita em (209), o suporte metafórico é fornecido não por uma entidade física como o
muro acima, mas por um marco abstrato, representado pelas experiências.
146
(209) Os trabalhos foram conduzidos por três dos seus diretores, ..., que se
apoiaram em experiências feitas com camundongos. (Estado de Minas –
06.08.2008)
No exemplo (210), todo o “edifício” do revezamento da tocha olímpica (o trajetor)
se sustenta sobre o princípio da segurança em primeiro lugar (o marco).
(210) O revezamento da tocha será baseado no princípio de que a segurança deve
vir em primeiro lugar. (Estadão – 24.06.2008)
O córpus inclui ainda uma quantidade (56 dentre os 2813) de usos da preposição
em cuja motivação não é transparente em termos sincrônicos e, portanto, não servem aos
propósitos desta pesquisa, mas fazem parte do ANEXO I .
6.5. Conclusão da análise de córpus
Retomando os procedimentos apresentados na seção 5.5, e iniciando pelo domínio
espacial, a busca no córpus de textos jornalísticos resultou em um número considerável
(953=33,88%) de usos nos quais se percebe apenas uma noção de ‘localização estática
inespecífica’. Esta categoria foi definida quando se considerou não haver ênfase nas formas
geométricas do marco e do trajetor ou de efeitos funcionais na conceitualização.
Ao contrário do que se esperava, foram muito poucas as ocorrências da preposição
com marcos tridimensionais dos quais tenha sido possível inferir um esquema imagético de
CONTENTOR: 55 ou pouco menos de 2% das amostras analisadas. Outro esquema
147
imagético obtido foi o de CONTATO. Suas elaborações em contextos espaciais foram
ainda menos numerosas que o esquema de CONTENTOR, somando apenas 22 usos ou
0,78% das amostras.
Comparados à frequência de ocorrência da categoria ‘localização inespecífica’,
estes últimos números corroboram a hipótese de que, em usos espaciais sincrônicos, a
preposição em evoca, prototipicamente, um esquema vago de localização, cujas elaborações
dependem da semântica distribuída.
Entretanto, com relação aos esquemas sancionadores, conclui-se que, apesar da
pouca presença no domínio espacial, o esquema imagético de CONTENTOR aparece
elaborado em cerca de um quinto dos usos no domínio temporal, através da metáfora que
equipara intervalos de tempo a entidades delimitadas. O mesmo esquema se manifesta
também em outras seis categorias metafóricas (grupo, atividade, evento, estado/situação,
Metáfora do Tubo e estado final), os quais representam 70,70% dos usos locativos não-
temporais.
Dessa forma, como principal sancionador na rede, o esquema de CONTENTOR
pode também estar na origem do esquema de CONTATO, sendo uma das explicações para
isso a experiência do falante com contentores abertos menos prototípicos e menos
côncavos. A importância desse esquema sancionador se completa com as sete categorias
metafóricas não-locativas que derivam do efeito funcional (ou vinculação) de ‘controle’,
que se considera associado à relação Contentor/objeto contido. Esse efeito também parece
estar relacionado à categoria espacial ‘proximidade/adjacência’, na qual não existe contato
físico real entre o trajetor e o marco.
148
Outro esquema importante é o de TRAJETO, que está presente em situações de
movimento no espaço. Contudo, apenas parte desse esquema é evocada pela preposição em,
qual seja seu ponto final. Na verdade, a localização que a preposição em evoca não parece
ser estática ou dinâmica. Em todos os exemplos de ‘movimento’, físico ou metafórico, esse
conceito é fornecido por outros elementos do cotexto, em especial, por verbos.
Considera-se, também que o esquema de CONTATO é sancionador na medida em
que seu efeito funcional de ‘suporte’ dá origem a uma categoria metafórica. Outro tipo de
metaforização deriva do esquema de ‘localização pontual’ no espaço para o domínio
temporal. Cerca de 80% dos usos temporais refletem uma elaboração desse esquema, cujo
mapeamento se dá por semelhança estrutural.
Finalmente, a análise também se propõe a encontrar esquemas de ordem superior
que ajudam a compor a rede esquemática como no modelo de Langacker. Além da
categoria ‘localização’, que aparece elaborada em pouco mais de 85% dos usos analisados,
o esquema de CONTENTOR e as categorias ‘suporte’ e ‘alvo’ também são instanciados em
mais de um domínio, o mesmo ocorrendo com a noção de ‘especificação’.
Concluindo esta parte do texto, apresenta-se na página a seguir um diagrama da
rede esquemática que resume as relações de esquematização e de extensão entre os vários
usos analisados da preposição em. Nele se encontram dois grupos maiores, referentes aos
usos locativos e não-locativos. A noção topológica de ‘localização’ se constitui como um
esquema superior que emerge de situações estáticas quanto dinâmicas, em domínios
concretos e abstratos. Os usos não-locativos são apresentados como instâncias do esquema
superior de ‘especificação’.
149
Essas noções participam de formas diferentes da semântica de em. No domínio
espacial, essa preposição encontra seu uso mais comum na noção vaga de ‘localização
simples ou inespecífica’, na qual os marcos não apresentam limites facilmente definíveis.
Em situações dinâmicas, em evoca a localização mais específica de ‘alvo’ ou ‘ponto final
do movimento’. Há ainda uma série de outros usos derivados do esquema CONTENTOR.
A maior parte dos usos metafóricos também deriva desse esquema. Por essa razão,
ele aparece em destaque como o principal sentido sancionador, o que não quer dizer que
seja o único. Por exemplo, o esquema de ‘localização no alvo de um movimento físico’ dá
origem aos usos metafóricos ‘limite do intervalo de tempo’, ‘estado final’ e ‘alvo de ação
abstrata’ sendo que em coloca o foco da atenção no final de cada um desses trajetos.
Todos os usos de onde parte uma seta tracejada também sancionam o uso que se
encontra na outra extremidade. O caso mais marcante é o grande grupo de ‘especificação’
originado do efeito funcional de controle, característico do esquema de CONTENTOR.
Esse efeito sanciona usos que especificam a forma, o material, a cor de um objeto ou o
meio ou instrumento empregado na sua fabricação ou realização, no caso de o trajetor ser
uma atividade.
É importante lembrar que alguns usos obtidos representam elaborações de
esquemas observados na experiência, que funcionam como categorizadores de novos usos.
Já os sentidos sancionadores são aqueles que geram extensões de uso por semelhança, zona
ativa, correlação de experiências ou efeitos funcionais de um esquema imagético.
150
CONTENTOR’
Contentor’’ - Espaço Contentor’’’ - Metafórico
Marco 3D Marco=
meio
Trajetor
vazio
Mudança de
estado
Limite final
do intervalo
Dentro do
intervalo de
tempo
Grupo
Atividade
ou evento
Controle’
Contato Proximidade Loc.
simples
Controle’’
físico
Especificação’
Suporte
Metafórico
Especificação’’ Forma Modo Meio ou
instrumento
Material Cor
Alvo mov. p/
interior
Metáfora do
tubo
LOCATIVOS
NÃO-LOCATIVOS
Esquema prototípico
X’
Esquema de nível superior
Uso metafórico
Elaboração de esquema
Extensão
Esquema sancionador principal
Loc.
pontual
Loc. Pontual no
tempo
Alvo
movimento
Alvo paciente de ação.
Finalidade
Alvo atv. cognitiva
Alvo paciente de ação.
Estado ou
situação
FIGURA 16 - Rede esquemática de usos espaciais e metafóricos da preposição em.
151
7. METODOLOGIA – FASE II - VERIFICANDO O STATUS COGNITIVO DA
REDE
Esta parte da pesquisa vai ao encontro do quinto objetivo apresentado na seção
Introdução, qual seja descobrir as distinções de sentido percebidas por falantes nativos do
português do Brasil, tanto em termos mais gerais quanto com maior grau de detalhamento.
Ela se relaciona à seção anterior na medida em que as categorias que compõem a rede
esquemática são utilizadas no experimento psicolinguístico descrito mais abaixo. Com esse
procedimento, espera-se poder aferir as convergências e divergências entre a visão do
falante leigo e a do linguista.
Trata-se de um experimento no qual informantes sem treinamento formal em
semântica foram convidados a agruparem, por nível de semelhança de sentido, enunciados
que formam pares de instâncias de uma mesma categoria de uso da preposição em, segundo
a visão da pesquisadora. Esse tipo de experimento é tipicamente conhecido na literatura
como “tarefa de classificação” ou sorting task.
Serviram de inspiração os questionamentos colocados por Sandra & Rice (1995),
Croft (1998. p. 151-2) e Gries et al. (2005, 2009). Os primeiros dizem respeito à validade
empírica de algumas premissas dos modelos de rede polissêmica no que concerne a seu
caráter cognitivo. O segundo argumenta que a introspecção apenas “limita, a priori, a gama
152
de possíveis representações mentais” 45 e que apenas dados de uso e experimentação
psicolinguística podem dar sustentação a modelos de representação mental. E os últimos
vêm defendendo a associação da experimentação linguística aos estudos de córpus.
A questão levantada por Sandra & Rice (p. 100-2) trata da propalada realidade
psicológica dos modelos de rede em dois componentes distintos: (i) processos mentais e (ii)
representações na memória. Os primeiros são aqueles envolvidos na categorização como
mecanismo de mudança da língua. Por meio da pesquisa histórica, por exemplo, verificam-
se as relações entre usos mais antigos e novos usos de uma dada forma. A realidade desses
processos mentais pode também ser abordada através de estudos sobre a aquisição da
língua.
O segundo componente cognitivo, sobre o qual esta tese se detém, diz respeito à
realidade das representações mentais. Essa é uma noção mais polêmica, como também o
afirma Croft (1998), a qual se traduz em questionar a premissa de que as redes de
polissemia retratam o léxico mental do usuário da língua. E em caso de resposta afirmativa,
pergunta-se qual seria o nível dessa correspondência.
Adeptos de uma versão forte do isomorfismo assumiriam que existe uma
correspondência total, ou seja, que os nódulos e ligações na rede são uma representação fiel
da estrutura semântica armazenada na memória do falante. Essa visão é intuitivamente mais
difícil de ser comprovada, embora a lógica das ligações propostas nos modelos de redes
45
Do original: “Introspective linguistic evidence can limit the range of alternative mental representations to a
set of possibilities. However, only evidence beyond introspection, such as usage data or psycholinguistic
experimentation might be able to narrow this set of possibilities to a single plausible model.” (p. 152,
tradução livre.)
153
mais comuns pareça ser corroborada pela abundância de conceitos da psicologia na
literatura linguística (SANDRA & RICE, 1995. p. 102). Tyler & Evans (2003), por
exemplo, consideram que seu modelo de rede coincide com o léxico mental dos falantes,
porque não inclui certas distinções contextuais, como ocorre na descrição de over por
Lakoff (1987):
“(…) é importante observar que nem todos os usos estão contidos na rede semântica.
Enquanto parte da variação em usos de uma palavra são necessariamente instanciados na
memória de longo prazo e, dessa forma, persistem na rede semântica, alguns usos são
criados on-line, no desenrolar da interpretação normal dos enunciados.” (TYLER &
EVANS, 2003. p. 7. Sem ênfase no original; ver também EVANS, 2005) 46
Contudo, outros estudiosos entendem que o isomorfismo pode ser apenas parcial
(a versão fraca), no sentido de que a rede mostra “previsões adequadas” a respeito do uso
da língua, mas não faz alegações sobre o léxico mental do falante.
Teóricos ainda mais cautelosos rejeitam o isomorfismo por acreditarem que o
nível de aprofundamento descritivo das redes proposto pelos linguistas pode não ser
percebido igualmente pelo falante. Langacker (1987. p. 380) é um desses autores. Ele
pondera que algumas distinções em níveis mais abstratos podem não ser percebidas pelo
falante e que algumas semelhanças também não. Segundo ele, isso ocorre porque “alguns
domínios são intrinsecamente salientes e abundantes no processamento cognitivo (por
46
Do original: “(…) it is important to note that not all usages are contained within the semantic network.
While some of the variation in uses of a word must be instantiated in long-term memory, and hence persist in
the semantic network, some uses are created on-line in the course of regular interpretation of utterances.”
(Tradução livre.)
154
exemplo, aqueles pertencentes ao espaço e à visão)” 47. Além disso, estruturas pertencentes
a domínios muito abstratos são menos salientes que aqueles pertencentes a domínios
ligados à percepção sensorial. Esse fato poderá se refletir na força e na amplitude dos
agrupamentos formados pelos informantes.
Sandra & Rice (1995. p. 103) apontam diferenças também entre aqueles que
negam o isomorfismo. Um grupo defende que as redes representam as ligações entre
sentidos encontradas pelo linguista na língua em uso por uma comunidade, mas não
descrevem o léxico mental dos falantes. O caráter psicológico da rede estaria atrelado aos
processos cognitivos envolvidos no surgimento de novos usos, mas sem qualquer alegação
de que uns ou outros possuam representações na memória de longo prazo.
Outro grupo afirma que algumas características das redes estão presentes na
organização do léxico mental dos falantes, tais como o alto nível de refinamento ou
“granularidade” da análise. Segundo essa hipótese, os falantes seriam capazes de perceber
distinções entre categorias mais amplas, assim como entre categorias mais finas. Mas não
há afirmações de que os falantes percebam semelhanças entre grandes categorias, tais
como entre domínios, isso porque as transparências dessas relações se perdeu na evolução
da língua.
Esta última visão é a que se assume neste trabalho e é também a que se pretende
verificar por meio de outra abordagem empírica.
47
Do original: “Some domains are intrinsically salient and pervasive in cognitive processing (e.g. those
pertaining to space and vision).” (Tradução livre.)
155
7.1. O experimento psicolinguístico:
O experimento psicolinguístico relatado a seguir difere daquele descrito por Sandra
& Rice (1995. p. 107-11) porque inclui entrevistas individuais feitas logo após a realização
da tarefa.
7.1.1. Objetivos, lógica e hipóteses
Em resumo, esta segunda abordagem empírica visou a descobrir (i) o nível de
granularidade que os falantes são capazes de perceber entre sentidos da rede e (ii) se as
relações entre categorias de domínios são ou não são realmente percebidas.
Em tarefas de classificação, os participantes são submetidos a um determinado
número de estímulos (neste caso, frases) os quais eles devem agrupar com base em algum
princípio pré-determinado (semelhança de significado). A lógica por trás do experimento é
de que as eventuais distinções e associações entre usos feitas pelos informantes refletem
diferenças contextuais, e algumas representações existentes em seu léxico mental -
especialmente associações entre grupos maiores – e, principalmente, suas estratégias de
categorização.
Na hipótese nula, admitiam-se três possibilidades:
1. os informantes não perceberiam qualquer diferença de sentido, demonstrando
uma atitude monossêmica em relação à preposição;
2. ocorreria o oposto, isto é, a polissemia extrema ou homonímia, porque os
informantes deixariam cada frase separada, do modo que as receberam, por não terem
percebido qualquer semelhança de sentido entre elas;
156
3. os agrupamentos seriam aleatórios, visto que os informantes apenas tentariam
cumprir a tarefa de agrupar, mas sem se preocupar com o critério definido.
A ocorrência das possibilidades um e dois indicaria que os informantes não
constróem distinções no nível das representações mentais ou de domínios da experiência e,
portanto, não faria sentido buscar qualquer convergência entre a visão desses falantes e a
rede esquemática proposta.
Como hipótese de pesquisa, e em coerência com a rede proposta, esperava-se que
nenhuma das possibilidades descritas na hipótese nula acontecesse. Ao contrário,
acreditava-se que os informantes formassem grupos de maneira coerente (capacidade de
discriminação) e que haveria grupos grandes e pequenos. Ainda de acordo com a premissa
das redes de polissemia, esperava-se que as distinções mais finas seriam mais fortes que as
maiores, ou seja, que mais informantes fariam distinções finas e menos informantes fariam
distinções entre categorias maiores. Como consequência, os grandes grupos e os pequenos
grupos se formariam em pontos diferentes da escala de dissimilaridade. Também se
esperava que muitos informantes fossem capazes de perceber algum tipo de semelhança
entre usos menores (estrutura relacional) e que, provavelmente, poucos perceberiam
relações entre grupos maiores.
7.1.2. Participantes e método
A tarefa off-line de classificação foi proposta a 32 falantes nativos de português do
Brasil, naturais de Minas Gerais, calouros universitários dos cursos de Psicologia,
Agronomia e Administração de Empresas, sem formação prévia em Letras (15 alunos da
157
Fundação Universitária de Divinópolis/UEMG e 17 da Universidade Federal de Viçosa –
Campus Rio Paranaíba) 48. Entre eles havia 23 moças e 9 rapazes, com idade média de 22
anos na ocasião da coleta. A carreira cursada, o gênero e a idade não foram considerados,
entretanto, como variáveis no estudo.
Cada informante recebeu 48 frases (TABELA 6, ANEXO III), numeradas ao
acaso, para serem agrupadas por critério de semelhança. As frases foram adaptadas de usos
encontrados na Internet, representando formas cognitivamente menos complexas das
categorias semânticas encontradas no córpus de textos jornalísticos (ANEXO I).
Além das frases apresentadas em tiras individuais de 4 X 19cm, com a palavra em
(no, na, naquela, etc.) sublinhada, os participantes também receberam, por escrito e
oralmente, as instruções que aparecem na FIG. 17 abaixo. A partir desse ponto, cada um
deles dispôs de tempo livre para agrupá-las por nível de semelhança percebido (usando para
isso de 30 e 45 minutos).
Instruções: Agrupe as frases de acordo com SEMELHANÇAS DE SENTIDO para as palavras
em negrito, percebidos pelo modo como são usadas. Não há limite máximo ou mínimo para o
número de grupos, nem para o número de frases em cada grupo. Os grupos podem variar de
tamanho. Pode haver um só grupo ou grupos com apenas um elemento.
FIGURA 17 - Instruções dadas aos participantes do experimento.
48
Todos os informantes assinaram um compromisso de participação nos termos do documento que aparece no
ANEXO 2.
158
7.1.3. Sobre o conteúdo das frases
Em face dos resultados encontrados no córpus, foram escolhidas categorias de
situações pertencentes a domínios concretos (espaciais ou não) e a domínios abstratos, e
contendo, também, certas características espaciais relacionadas ao trajetor e ao marco da
preposição, levados em conta na análise realizada pela pesquisadora. O experimento
também poderia revelar a influência de outros fatores pragmáticos, tais como o tipo de
inclusão.
Para testar o maior refinamento da rede, também se decidiu incluir pares de
sentenças que diferiam de outros por aspectos tais como a natureza do contato entre
entidades, o tipo de localização no tempo e, ainda, pela distinção aspectual entre eventos e
atividades. Acredita-se que especialmente esta última diferença seja bem menos saliente
para o falante leigo que a distinção entre tempo e espaço, por exemplo.
Foram evitados certos enunciados nos quais a preposição faz parte do sistema de
transitividade do predicado, especialmente com verbos cuja regência muitas vezes só se
consolida na linguagem do falante a partir do ensino formal. Também foram excluídas
construções muito estáveis na língua, nas quais a motivação semântica para o uso de em
não é sincronicamente transparente.
7.1.4. Tratamento dos dados
As respostas de todos os informantes foram tabuladas em matrizes simétricas individuais
com valores binários (0 e 1), onde o valor “zero” significa diferença e o valor “um”
representa semelhança entre frases. A partir da soma das trinta e duas matrizes, obteve-se
159
uma matriz de coincidências ou frequências absolutas (o número de vezes que determinado
par foi formado pelos informantes). A divisão desta matriz pelo total de informantes
produziu uma matriz de frequências relativas 49. Com base no complemento da matriz de
frequências relativas, calculou-se outra matriz, de dissimilaridade, a qual foi primeiramente
submetida a uma análise de agrupamentos, pelo método de Ward 50, no programa estatístico
GENES.
Análise de agrupamentos – cluster analysis – é um termo genérico para se referir a
procedimentos estatísticos que permitem a formação de grupos ou categorias de objetos
(elementos, dados) neste caso, de frases. De um modo geral, cada objeto pertence a um
único grupo e o conjunto de todos os agrupamentos contém todos os objetos, embora
também seja natural haver sobreposição entre grupos, dependendo da natureza dos dados
(EVERITT et al., 2001). Existem vários métodos possíveis de se formarem os grupos,
entretanto, como resume Cruz (2006. p. 102), de um modo geral, todos eles seguem o
princípio de que a homegeneidade dentro de cada grupo é maior que aquela existente entre
grupos diferentes. O método de Ward forma grupos com um erro interno mínimo
(homogeneidade máxima) entre os objetos de cada grupo e a média aritmética desse
elementos, ou seja, grupos com o mínimo desvio padrão entre seus objetos.
Quando se usa uma classificação do tipo hierárquico, como neste estudo, obtém-
se uma série de subdivisões que podem variar de um único agrupamento contendo todos os
49
A construção da matriz de similaridade segue o procedimento relatado por Sandra & Rice (1995. p. 108),
em experimento semelhante com as preposições in, on e at.
50
O método Ward de classificação foi sugerido pelo Prof. Stephan Gries (UCSB), em comunicação pessoal.
160
objetos a um número n de agrupamentos, cada um com um único objeto. No método de
Ward (DUTRA et al. 2009), tem-se inicialmente tantos grupos quanto o número de
elementos ou objetos e o erro interno e o desvio padrão intragrupo são, assim, iguais a zero,
visto que cada elemento é igual à média de seu próprio grupo.
No estágio seguinte, o método testa cada possibilidade de fusão entre grupos, 2 a 2,
escolhendo aquele que gera o menor erro interno no grupo formado. A cada comparação
(estágio) tem-se um número de grupos igual ao número de objetos menos o número de
comparações. A classificação gerada é, então, representada por um diagrama bidimensional
conhecido como dendograma ou diagrama de árvore, contendo todas as fusões ou
divisões ocorridas em cada estágio (FIG. 18).
A estrutura ou topologia do dendograma reflete a força das relações entre as
sentenças, como percebidas pelos informantes. Cada nódulo representa um agrupamento e
o comprimento dos ramos representam as distâncias nas quais os grupos são formados.
Como a análise partiu de uma matriz de dissimilaridade, os valores mínimos na escala de
distâncias refletem o grau máximo de semelhança obtido, isto é, a um grupo que se forma
próximo de zero atribui-se um nível muito alto de semelhança. Os rótulos dos objetos
analisados (F1=frase (1); F2=frase (2), etc.) aparecem junto aos nódulos terminais.
Em uma segunda etapa, submeteu-se a mesma matriz de dissimilaridade ao
método de otimização Tocher, também no programa GENES. Esse método de otimização
divide o conjunto de objetos “em subgrupos não-vazios e mutuamente exclusivos”
seguindo o critério de que “a média das medidas de dissimilaridade, dentro de cada grupo,
161
deve ser menor que as distâncias médias entre quaisquer grupos.” (CRUZ, 2006. p.104). O
emprego desse método dá ao pesquisador um “ponto de corte” para definir o nível de
granularidade das escolhas dos informantes.
162
8. EXPERIMENTO – RESULTADOS E DISCUSSÃO
Esta seção discute os resultados do experimento com falantes nativos, que
aparecem no gráfico gerado pela análise de agrupamentos hierárquicos – o dendograma na
FIG. 18 –, no gráfico tridimensional na FIG. 19 com dados da TAB. 5, ambos obtidos a
partir da análise multidimensional pelo método Tocher de otimização, e nas entrevistas com
os participantes.
8.1. Análise
Gerada com base na proporção das frequências com que todos os indivíduos
colocaram duas sentenças em um par, a hierarquia de agrupamentos produziu o
dendograma ou estrutura binária em forma de árvore (FIG. 18) que reflete a força relativa
das associações percebidas entre as sentenças. A escala de valores logo abaixo da árvore
demonstra a proporção dos informantes que agruparam dois tipos de uso pelo critério de
semelhança. Quanto mais próximo de 100, maior a dessemelhança entre as sentenças e os
grupos e vice-versa.
8.1.1. A coerência das categorizações
Uma visão geral do dendograma mostra que a hipótese nula não se confirma em
nenhum de seus aspectos. Primeiramente, a possibilidade de ocorrer monossemia no
sentido forte foi descartada, uma vez que vários grupos coerentes se formaram em
diferentes níveis, isto é, no geral os informantes não consideraram que os usos da
163
preposição tivessem um só significado. Essa visão seria confirmada caso a maioria dos
nódulos tivesse se formado próximo ao ponto “zero” da escala (semelhança máxima).
O oposto, homonímia máxima, também não ocorreu, visto que a maioria dos
nódulos não se formou na extremidade máxima da escala, mas distribui-se ao longo desta.
Embora não tenha havido nenhum informante que devolvesse todas as sentenças separadas
como as recebeu, uma participante as reuniu todas em um único grande grupo. Essa
decisão não foi aleatória, entretanto, e o sentido esquemático que ela encontrou para a
preposição não foi ‘localização’, como pode ser visto na transcrição de sua entrevista.
Sj15: “Olha, eu agrupei todas as frases em um só grande grupo porque eu acho que
toda vez que as... essas palavras sublinhadas aparecem, acontece uma especificação na
frase. Como se os elementos da frase estivem dentro de uma categoria.
(...)
Por exemplo, na frase “Joguei os livros na bolsa”. “Na bolsa”. Eu poderia ter jogado os
livros no chão ou jogado os livros na mesa.
(...) “Robô em forma de lagarta simula os movimentos do bicho.” É uma especificação
do robô: “em forma de lagarta”. O robô poderia ter outra forma.
(...) “Se quiser continuar comigo é nesses termos”. Se continuar comigo nesses...
poderia ser em outros termos.
(...) “Cirurgião dentista especialista em dentística restauradora.” Ele poderia ser
especialista em... em outra coisa.”
Essa explicação revela que, em sua visão, em possui um valor semântico mais vago
de ‘especificação’, um esquema de nível superior, instanciado por usos nos diferentes
domínios representados no experimento. Isso não quer dizer que a informante não perceba
distinções mais finas (forma, lugar, especialidade etc.), mas apenas que essas não são tão
salientes para ela.
164
22. Joguei os livros na bolsa.
47. Você deve colocar pouco ar no balão.
11. Carregava um pão fresquíssimo no saco de papel pardo.
30. O gelo no uísque destruiu seu teor alcoólico.
4. A Pousada Villa das Pedras fica na estrada que liga Brasília a Pirenópolis.
6. Ainda havia muitos icebergs no mar.
17. Entenda os protestos do setor rural na Argentina.
21. Havia faixas estendidas no gramado.
31. ... o Brasil e Minas Gerais como apenas um retrato na parede.
16. O governo dá incentivo fiscal para quem plantar no telhado.
33. O senhor não viu a placa no acostamento?
3. A miniatura possui um pequeno trincado no pára-brisa.
39. ... necessários para se trocar uma lâmpada no teto da repartição?
28. O buraco na parede foi feito com dois pedaços de ferro.
8. Bebê nasce num carro por falta de uma ambulância.
14. Ela estava sentada numa mesa do Café Capricieux.
35. Os alfabetos orientais atrapalham a ciência nesses países.
15. Quero te ver em meia hora.
48. Você será redirecionado para a página do Instituto em 5 segundos.
24. A chegada da família real Brasil em 1808 aprimorou... (24)
43. Trabalhei nesses 15 anos de pesquisa sem parar. (43)
32. O Overmundo completou um ano no último dia 7. (32)
27. Nesses tempos de globalização, Turquia e Brasil fazem...emergentes. (27)
9. Bem-vindo ao Programa de Pós-graduação em Direito da UFRGS. (9)
13. É cirurgião dentista, especialista em Dentística Restauradora. (13)
20. Fala e escreve bem em inglês e francês. (20)
5. Abajur decorado em porcelana fria. (5)
10. Cadeira de couro com estrutura em tubo de aço. (10)
37. Os designers trabalharam para criar um vestido em vermelho vibrante... (37)
18 Esta página é melhor visualizada em Internet Explorer 5 ou superior. (18)
29. O ECA pressupõe um atendimento em rede. (29)
38. Pesquisador... inventou uma bateria que carrega energia em estado sólido.
41. Rodou em círculos, tropeçou e proferiu blasfêmias.
40. Robô em forma de lagarta simula os movimentos do bicho. xliv
34. O uso de drogas pode constituir-se em um caso de dependência. xlv
46. Vendo som completo ou em partes.
36. Os anúncios das seções Imóveis são publicados em subseções...
2. A esperança de contar com o meia Roger no clássico contra o Santos.
7. Airton enfrenta Alemão no paredão do BBB.
12. Dejetos usados na fertilização degradam microbacias. (12)
44. Um pouco sobre civilização nas palavras de Bertrand Russell. xlvi (44)
45. Use um grampo na ponta da linha para facilitar a troca de isca. (45)
19. Eu me sentia bem naquela solidão. xlvii (19)
25. Na angústia, o homem experimenta a finitude de sua existência humana. xlviii (25)
1. A chita ou o algodãozinho estampados nessas cores desbotam facilmente. (1)
42. Se quiser continuar comigo é nesses termos. (42)
23. Jonas transformou-se no primeiro desaparecido político brasileiro. (23)
26. Não há muita perspectiva do Brasil participar nesses grandes projetos. (26)
FIGURA 18 – Dendograma produzido Método Ward de agrupamento, dos níveis de semelhança atribuídos a diversos usos de em.
165
Por fim, a possibilidade de os grupos terem sido constituídos aleatoriamente
também não se confirmou, visto que os agrupamentos foram coerentes e, nas entrevistas,
todos os participantes apresentaram justificativas igualmente coerentes para suas respostas,
baseadas em critérios semânticos. Sj6 e Sj19 usam palavras diferentes para se referirem à
noção de localização, mas ambos perceberam esse sentido como uma categoria.
Sj 6: “Ah, tá. O grupo um, é, eu reuni por, por local, com um sentido de, de lugar
que... têm essas frases. Você gostaria que eu lesse essas frases?”
Sj 19: “Eu usei o critério de ... é... qual... é... qual a outra palavra que o “em” poderia
ser substituído. (...) no grupo quatro, por exemplo, o “em” pode ser substituído pela
palavra “onde”. (...) E no dois são... sempre vem com características. É sempre
características do...da ... do que foi falado antes. Ouve só: Abajur decorado em
porcelana fria. É uma característica da... da decoração.”
Já esta outra informante tenta descrever usos metafóricos da preposição que ela
agrupou em uma só categoria, diferente de duas outras que ela havia criado. Percebe-se que
ela utiliza o critério de domínio (por exemplo, o tempo) evocado pelo enunciado, mas
reserva a noção de localização para usos espaciais. Por outro lado, para os outros casos, ela
procura uma categoria “guarda-chuva”, que ela considera capaz de incorporar usos em
domínios menos salientes. Além disso, Sj7 apoia-se no marco para realizar sua análise e
decidir o tipo de relação que a preposição ajuda a criar a cada vez.
Sj7: “A meu ver, esse aqui já não é nem uma coisa [lugar] nem outra [tempo]. Não tem
assim... uma característica que me chama mais a atenção.
(...)
Olha, eles dão mesmo coisas mais vagas. (...) Por exemplo... igual a esse. “Em rede”.
Rede é uma coisa muito ampla. Muito... Não é uma coisa específica. Então, eu fiz esse
grupo assim, de coisas não específicas. (...) é uma coisa assim... um caso é uma coisa
vaga, igual essa outra frase. A 34. Um caso é uma coisa vaga. Entendeu? Então,
assim... coisas mais vagas. (...) “Em partes”, “nas palavras”, “termos”, “círculos”, são
todas coisas mais vagas. Não é uma coisa precisa.”
166
A tentativa de formar grupos coerentes também se verifica na análise
multidimensional (TAB. 5) e respectivo gráfico na FIG. 19 e em uma tomada geral do
gráfico em árvore (FIG. 18). A análise multidimensional revelou sete diferentes grupos,
calculados por sua homogeneidade interna comparada à heterogeneidade entre eles. Isso é
feito com base em alguma dimensão semântica: o grupo <1>, majoritariamente de
‘localização espacial’, o grupo <2>, majoritariamente de ‘especificação’, o grupo <3>,
somente de usos temporais, o grupo <4>, majoritariamente de ‘estado emocional’, o grupo
<5>, contendo dois usos de ‘localização mais abstrata – estado final e a metáfora do tubo.
Os grupos <6> e <7> possuem um único indivíduo cada, também de usos metafóricos mais
vagos – ‘atividade’ e ‘cor’.
TABELA 5
Formação dos agrupamentos pelo método Tocher
GRUPO ACESSOS
<1> 22 47 11 6 33 21 16 31 3 4 28 17 14 39 8
30 7 45 2 12
<2> 5 10 37 40 38 41 29 46 36 13 9 20 34 18
<3> 15 48 24 32 43 27
<4> 19 25 42
<5> 23 44
<6> 26
<7> 1
No gráfico em árvore a coerência se manifesta na organização dos grupos. Logo de
início se observa uma distinção principal entre usos espaciais e usos metafóricos. Além
disso, a grande maioria dos usos espaciais está reunida no alto da FIG. 18, indo de f22 a
167
f35. Esse grupo é seguido por outro menor, de f15 a f27, que incorpora todos os usos
temporais. A seguir, vê-se um grande grupo de usos não-locativos de ‘especificação’, de f9
a f36, que contém como única exceção um uso de estado final em f34. Por fim, aparece
outro grupo de ‘localização abstrata’, que vai de f2 a f26, tendo como exceções um uso da
categoria ‘cor’ em f1 e o outro uso de ‘estado final’, em f23. Confirma-se, assim, a hipótese
de haver coerência na categorização dos significados da preposição pelos falantes nativos.
8.1.2. Níveis de granularidade
Uma vez confirmada a capacidade de discriminação e de esquematização dos
informantes, cabe agora discutir o nível dessa granularidade e a força de coesão entre os
grupos. Como se pode observar na FIG. 18, os participantes também distinguiram
inicialmente entre duas grandes categorias de usos espaciais e usos metafóricos, sendo que
dezesseis deles mencionaram o termo “especificação” em suas entrevistas. Já as grandes
categorias de domínios descritas na seção anterior se formaram pouco abaixo ou pouco
acima da metade da escala de distância naquele gráfico. O espaço, como esperado, foi o
mais saliente, seguido pelo tempo e esses dois grupos são muito nítidos em ambos os
gráficos.
Além disso, quando entrevistados, pelo menos vinte dos trinta e dois sujeitos
fizeram menção clara ao domínio espacial e dezenove, ao tempo, em contraste com onze
que explicitamente marcaram o domínio dos estados emocionais e seis que mencionaram a
categoria cor. Alguns chegaram a assumir essa diferença de nível de saliência, como neste
exemplo:
Sj 29: “O grupo quatro eu achei mais fácil que é mais... no local, em algum lugar.”
168
No nível das distinções mais finas, os falantes formaram alguns grupos menores,
com elevada coesão interna, ou seja, que foram confirmados por um número maior de
informantes. Os nódulos para esses grupos formaram-se mais próximo do nível zero de
dissimilaridade, ou máximo de semelhança observada. Esse resultado confirma outra
premissa das redes de polissemia, qual seja de que há níveis diferentes de granularidade e
que, portanto, existe variação de distância entre as categorias de uso (SANDRA & RICE,
1995. p. 108).
Muito próximo da semelhança ótima (o valor “zero” na árvore), encontram-se f22
– Joguei os livros na bolsa – e f47 – ... colocar pouco ar no balão –, com marcos bem
definidos como alvos de movimento para o interior de contentores; essas, por sua vez,
associam-se bem de perto a f11 – Carregava um pão fresquíssimo no saco de papel pardo –,
e depois a f30 – O gelo no uísque ... Esses dois últimos formam casos de localização
estática dentro de um marco também tridimensional. A presença de um marco com
características bem definidas do esquema de contentor acabou por gerar um grupo com
muita coesão interna, separado dos outros usos espaciais.
Outro agrupamento espacial bem nítido inclui f21 – Havia faixas estendidas no
gramado – e f31 – ... o Brasil e Minas Gerais como apenas um retrato na parede. –, com
marcos geometricamente bem definidos como objetos planos, evocando uma forte relação
de ‘contato’ com trajetores tangíveis e de fácil conceitualização como objetos. Finalmente,
f16 – ... plantar no telhado – e f33 – ... não viu a placa no acostamento? – foram
considerados altamente semelhantes, provavelmente porque os marcos tenham sido
conceitualizados como uma ‘localização estática específica’. Os demais usos espaciais se
169
agruparam próximos do início da escala, em torno do ponto 10. O alto grau de coesão intra
e intergrupos espaciais demonstra como esse domínio é básico em nossa experiência e
reforça a premissa das redes de polissemia, de que a natureza do marco e do trajetor tem
grande relevância na categorização dos significados das preposições.
Fora do domínio espacial, também foram observados pares com grande força
coesiva. Embora não tenha sido mencionada nas entrevistas como uma categoria à parte, a
‘localização no final de um período de tempo’ (f15 – Quero te ver em meia hora – e f48 –
Você será redirecionado para a página do Instituto em 5 segundos) formou-se em um
nódulo também muito próximo de zero na escala de distâncias. Contudo, os informantes
não associaram ‘mudanças de estado’ à noção de movimento metafórico, visto que f23 –
Jonas transformou-se no primeiro desaparecido político – e f34 – o uso de drogas pode
constituir-se em um caso dependência – aparecem muito distantes no dendograma.
À parte desses dois grandes domínios, já no terreno das especificações, f5 – abajur
decorado em porcelana fria – e f10 – cadeira de couro com estrutura em tubo de aço –
foram considerados semelhantes pela maioria dos participantes. Em ambas as sentenças, a
preposição em introduz o material de que objetos são fabricados. Por fim, também bastante
saliente é a semelhança percebida entre f19 – eu me sentia bem naquela solidão – e f25 – na
angústia, o homem experimenta a finitude ... –, nas quais o marco constitui um ‘estado
emocional’.
Os informantes também perceberam relações menos fortes de semelhança dentro
de grupos maiores. Um exemplo disso é a associação intermediária entre os usos f38 a f36,
relacionados à ‘forma’ de entidades e de atividades. Outro subgrupo distinto com nível
170
intermediário de coesão é formado por f2 – A esperança de contar com o meia Roger no
clássico contra o Santos – e f7 – Airton enfrenta Alemão no paredão do BBB –, cujos
marcos são ‘eventos’. Aliás, uma característica observada é que certas categorias
metafóricas com muita força interna ficaram bem separadas de outros subgrupos do mesmo
grupo maior. Certamente, esses são domínios com grande saliência cognitiva, mesmo não
representando experiências primárias.
Confirma-se assim a hipótese de que um maior número de informantes perceberia
distinções mais finas do que se observa em relação aos grandes grupos. Se o nível de
coesão interna fosse semelhante, os nódulos das grandes ligações viriam logo após os
nódulos que eles conectam, dando a impressão de um achatamento na árvore.
8.1.4. A estrutura relacional
Outra hipótese que se testou foi a capacidade de os participantes perceberem a
estrutura relacional, ou seja, a ligação coerente entre usos de categorias distintas. Esse fato
pôde ser comprovado pela associação entre usos locativos e não locativos em um grupo
maior de usos metafóricos, ainda que essa distinção tenha sido suplantada em força coesiva
pela semelhança intradomínios. Outro exemplo, foi a associação de usos locativos espaciais
e não-espaciais revelada pelo método Tocher. Na FIG. 19, o grupo 1, no canto direito
inferior do gráfico, contém usos locativos espaciais e não espaciais. Isso demonstra que um
número considerável de falantes associou o sentido esquemático de ‘localização’ também a
atividades e eventos (f2, f7 e f12) e ao uso espacial “avulso” de localização pontual (f45).
Esses usos estão destacados pela elipse pontilhada dentro do grupo 1 naquela figura. Mas
171
também se pode perceber essa associação no discurso de alguns informantes, como se vê
abaixo:
Sj 19: “Vendo som completo ou em partes”. “Dejetos usados na fertilização...”, “um
pouco sobre civilização nas palavras...”. Eu caracterizaria como referencial do físico.
Um local abstrato, não físico.
Sj30: Aqui é lugar. Igual “na parede”, “no uísque”, “na mesa”, em vários lugares. E
aqui, “visualizada em Internet”. É o lugar que ela é visualizada. Eu achei que estava
referindo a algum lugar. “nesses países”, “no paredão do big brother”, “no pára-brisa”.
Em todas eu achava que estava relacionada a um lugar.
Outra evidência de que os falantes percebem relações entre domínios diferentes
está no fato de terem produzido um grupo com vários tipos de especificação, associando
‘meio ou instrumento’ f20 (em francês) a dois usos bastante claros de ‘especificação’
propriamente dita (f9 – ... pós-graduação em direito – e f13 – ...especialista em dentística
restauradora) , ou ainda, f5 e f10 (‘material’) a f37(‘cor’).
Quanto à associação/não associação entre as grandes categorias, não se pode
afirmar com certeza que os falantes a perceberam ou se é resultado do formato da tarefa ou
do método de análise estatística. Tome-se a separação total entre o domínio primário do
espaço e os usos metafóricos como um todo. O método hierárquico, por exemplo, começa
sempre com todos os elementos ou objetos em um só grupo e, a partir daí, inicia-se uma
série de subdivisões. Ou acontece o contrário: considerando-se que todos os elementos são
diferentes no início do cálculo, esses vão sendo agrupados de acordo com certo algoritmo
até formarem um só grupo contendo todos os objetos. Essa poderia ser a razão para a
ausência de um nódulo unificador entre grupos maiores dentro dos limites da escala no
gráfico de árvore.
172
FIGURA 19 – Representação 3D dos grupos de frases formados pelo método de otimização Tocher.
Gr 1
Gr 2
Gr 3
Gr 4
Gr 5
Gr 6
Gr 7
173
8.2. Comparação com o modelo de rede proposto
Embora as respostas dos informantes tenham coincidido razoavelmente com a
proposta da rede – diferentes níveis de especificação, coerência na formação de grupos,
identificação de uma estrutura relacional –, certas características não foram reproduzidas
pelos participantes no nível das distinções mais finas.
Por exemplo, apesar de terem criado um subgrupo de ‘inclusão’ bastante distinto
no domínio espacial, os informantes não marcaram claramente a distinção entre inclusão
total ou parcial, tanto que f30 – gelo no uísque – e f6 – icebergs no mar – ficaram em
grupos diversos. Uma possível explicação para isso seria o fato de que o uísque está
delimitado pelo copo e o tamanho gigantesco do marco “mar” torna difícil de se
perceberem seus limites, criando uma localização mais vaga. O mesmo ocorre com f4 – a
pousada fica na estrada – e com f17 – os protestos na Argentina. E ainda, os dois usos com
trajetores vazios (o trincado no pára-brisa e o buraco na parede) foram frequentemente
agrupados com outros tipos de localização espacial mais vaga.
Do mesmo modo, como já mencionado, a noção de contato também ficou mais
clara para os informantes nos usos com trajetores mais concretos e delimitados: em f21 –
faixas no gramado – e f31 – retrato na parede – em comparação, por exemplo, com f16 –
plantar no telhado. Isso mostra que a orientação do contato não foi relevante. Na verdade,
marcos e trajetores espaciais mais delimitados e mais concretos foram os principais fatores
na tarefa de categorização.
Quanto à distinção aspectual entre eventos e atividades, mais de 80% dos
informantes agruparam f2 (no clássico) e f7 (no paredão do BBB), que são dois eventos
bem definidos. As atividades, ao contrário, apareceram dispersas na parte inferior do
174
dendograma (f12 –na fertilização – e f26 – nesses grandes projetos), formando grupos
menos coesos com exemplos de ‘metáfora do tubo’ (f44) e ‘estado final’ (f26). Dessa
forma, confirmou-se no nível metafórico a ideia de que o mais delimitado é mais saliente.
Como mostra a FIG. 18, o domínio temporal foi o grupo mais fortemente coeso e
também apresentou subdivisões. O ‘final de um intervalo de tempo’ descrito em f15 (em
meia hora e f48 (em cinco segundos) foi o significado mais saliente. Não houve qualquer
sinal da discriminação proposta entre duração e pontualidade, como o comprova o alto grau
de semelhança obtido entre “a chegada da família real em 1808” (f24) e “trabalhei nesses
quinze anos” (f43). A pontualidade no tempo foi tratada por alguns sujeitos como uma
instância de especificação geral, como se lê abaixo.
Sj21: “... pra mim, essas palavras dão o sentido de estar especificando as coisas. Por
exemplo, “Bem vindo ao programa de pós-graduação em direito da UFRGS.” Então,
aqui está especificando. Pós-graduação em. Está especificando. “Cirurgião dentista
especialista em dentística restauradora”. “Trabalhei nesses quinze anos de pesquisa”.
Está especificando. Não foi neste nem naquele. (...) O mesmo caso aqui. “O
overmundo completou um ano no último dia sete”, “Cadeira de couro com estrutura
em tubo de aço”. Está especificando, qual tubo? De aço. Fica um pouco confuso.”
Observa-se também uma separação entre eventos passados e eventos futuros.
Reconhece-se que o tempo verbal pode ter gerado um viés nos resultados para esse grupo.
8.3. Comentários finais sobre o capítulo
Esta seção apresentou os resultados do experimento proposto como segunda
abordagem empírica às redes de polissemia. Nela se demonstrou o comportamento de 32
falantes nativos do português do Brasil, sem formação na área da investigação. Levando-se
em conta o objetivo (i) apresentado na seção 7.2.1, percebeu-se que a capacidade de
175
discriminação dos informantes foi mais forte na distinção entre usos espaciais
(sancionadores) e usos metafóricos (extensões). Além disso, entre esses últimos, eles foram
capazes de diferenciar, com maior nitidez, usos temporais e usos relacionados à percepção
sensorial. Também ficou demonstrada a capacidade dos participantes para fazer distinções
finas, dentro e fora do domínio espacial, embora em menor grau que na rede esquemática
proposta pela pesquisadora.
Com relação ao objetivo (ii), demonstrou-se também que, embora uma noção
comum de ‘localização’ tenha sido percebida pelos participantes, tal noção foi suplantada
pela distinção entre domínios, especialmente o espacial, o temporal e os usos de
especificação. Também se observou que os participantes perceberam relações entre usos
metafóricos mais específicos, formando um grande grupo que inclui usos temporais e
outros, não-locativos.
Um último comentário com relação aos procedimentos de análise leva em conta o
ponto de corte na escala de distâncias da árvore de hierarquia ou dendograma. Esse ponto
de corte é subjetivo, conforme relatam Everitt et al. (2001). Na falta de um padrão
consolidado na literatura, optou-se por se apoiar na análise multidimensional de Tocher,
que permite a divisão de grupos nos moldes descritos mais acima. Isso gerou algumas
pequenas distorções que foram consideradas irrelevantes quando comparadas aos
benefícios do uso combinado dos dois métodos.
176
9. CONSIDERAÇÕES FINAIS E HORIZONTES DE PESQUISA
Esta tese apresentou uma análise cognitiva sincrônica da polissemia da preposição
em do português do Brasil, em usos obtidos a partir de um córpus selecionado de textos
jornalísticos, sob duas perspectivas: a do linguista e a do falante leigo.
Pelo lado do linguista, o aspecto cognitivo desta investigação está presente na
maneira como foi descrita a construção do significado de diferentes usos da preposição e as
relações obtidas entre eles. Para isso, baseou-se primordialmente no modelo de rede
esquemática de polissemia proposto por Langacker (1987) e nas noções de perspectivação
conceitual (desse mesmo autor) e de esquema imagético, definida por Johnson (1987). Pelo
lado do falante leigo, realizou-se um experimento psicolinguístico inspirado em Sandra &
Rice (1995), cujo objetivo foi verificar sua percepção sobre a polissemia da preposição, em
comparação à visão informada do linguista. A pesquisa realizada contou ainda com
procedimentos estatísticos em suas duas etapas: no estudo de córpus – criação, escolha das
amostras e proporção de ocorrência das categorias semânticas – e no experimento
psicolinguístico – na análise das distâncias entre os grupos criados pelos informantes e da
força coesiva intragrupo.
De acordo com o modelo de análise realizada, resumida no diagrama de rede, foi
possível perceber que a preposição em é um item linguístico “leve”, cuja função cognitiva é
criar elos entre ideias em determinados domínios. Como se comprovou no experimento
com os falantes nativos, não existe um sentido único que incorpore todos os usos da
preposição, visto que eles os distinguiram inicialmente entre locativos e não-locativos, o
que é evidência contra a tese da monossemia. Porém, mais que isso, dentro dos limites do
177
córpus, comprovou-se que o pólo semântico de em é formado por um esquema que licencia
dois tipos principais de relação: ‘localização’ e ‘especificação’. Esses dois grandes sentidos
formam os esquemas de nível superior inferidos. Abaixo desse nível, os significados são o
resultado da pragmática.
Ainda, em sua instanciação espacial, comprovou-se, pelas amostras do córpus, que
a preposição pode aparecer em colocação com marcos possuindo as mais diversas
configurações geométricas e constituições internas. Também se revelou não haver
limitações com respeito à orientação espacial dos objetos relacionados, mas existir, sim, um
tipo de restrição quanto à proximidade do trajetor em relação ao marco. A preposição
aparece somente em construções em que seja possível conceitualizar o trajetor como
estando situado em alguma zona de ‘controle’ do marco. Isso se confirma na pragmática,
por exemplo, nas configurações em que o trajetor se encontra abaixo do marco, caso em
que aquele deve, necessariamente, estar aderido a este.
Na análise de córpus, propôs-se o esquema de CONTENTOR como sancionador
dos demais usos de em, por meio de uma série de processos de perspectivação e
metaforização por semelhança estrutural e pelo efeito funcional de controle que compõe a
relação Contentor/objeto contido. Essa decisão foi tomada com base na etimologia da
palavra em. Embora os usos espaciais com marcos tridimensionais que dão origem a esse
tipo de relação fossem menos numerosos no córpus do que o esperado, esse esquema é o
mais comum na rede obtida, além de ter formado o grupo mais saliente e coeso dentre as
categorias formadas pelos participantes do experimento.
No tocante à validade empírica dos modelos de redes, verificou-se no experimento
a existência de um isomorfismo fraco entre a proposta de polissemia da pesquisadora e
178
aquela que emergiu das respostas dos falantes nativos. Com isso se quer dizer que os
falantes não produziram todas as categorias propostas pela pesquisadora, mas perceberam
certas distinções finas entre os usos da preposição, embora essas não tenham sido tão
numerosas quanto as propostas na análise da pesquisadora. Enquanto não se discute nesta
tese a relação entre a rede proposta e o léxico mental dos informantes, o experimento
demonstrou que eles utilizam estratégias de categorização semelhantes àquelas descritas no
Modelo de Rede Esquemática.
Confirmando Croft (1998), à exceção de eventos passados e futuros mencionados
na seção 8.2, as distinções feitas pelos informantes estiveram dentro do limite da tipologia
de categorias proposta inicialmente. Eles também foram capazes de formar grupos maiores,
distinguindo, de modo particular, entre usos espaciais, temporais e usos de especificação,
os quais eles reuniram em dois grupos maiores, de usos espaciais e metafóricos.
O que se pôde verificar é que os participantes perceberam a estrutura hierárquica e
relacional da rede, bem como construíram a polissemia da preposição em níveis de
granularidade diferentes. Do que foi exposto acima, conclui-se que, dentro dos limites desta
investigação, a polissemia da preposição em é baseada em dimensões diferentes, quais
sejam “locativo” versus “especificação”, “espacial” versus “metafórico” e, talvez, mais
claramente, a distinções entre os vários domínios da experiência em que ocorrem as
situações descritas por construções com a preposição em.
Ao longo do desenvolvimento desta pesquisa, foram sendo formados alguns
questionamentos que, espera-se, inspirarão outros estudos. O maior deles, que parece
óbvio, seria a aplicação desse modelo de rede e do experimento psicolinguístico a outras
preposições da língua portuguesa e, mais ainda, a outras classes ditas “fechadas”. Mais
179
pontualmente, desejar-se-ia investigar os processos cognitivos que permitem a
transformação de construções com a preposição em nas quais o marco passa a ser a
entidade que recebe o efeito de uma ação física ou abstrata.
180
Referências
BATORÉO, Hanna. Expressão do Espaço no português europeu: contributo
psicolinguístico para o estudo da linguagem e cognição. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian / Fundação para a Ciência e Tecnologia, 2000.
BENNETT, D. C. Spatial and temporal uses of English prepositions: an essay in
stratificational semantics. London: Longman, 1975.
BERG, Márcia B. O comportamento semântico-lexical das preposições do português do
Brasil. 2005. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos). FALE-UFMG.
BERLIN, B., KAY, P. Basic color terms: their universality and evolution. Berkeley:
University of California Press, 1969.
BIBER, Douglas. Representativeness in corpus design. Literary and linguistic computing.
v. 8. n. 4. 1993.
____________. Methodological issues regarding corpus-based analyses of linguistic
variation. Literary and linguistic computing, v. 5, p. 257-69, 1990.
BLOOMFIELD, Leonard. Language. New York: Holt, Rinehart and Winston. 1961 [1933].
BRALA, Marija M. Understanding and translating (spatial) prepositions: An exercise in
cognitive semantics for lexicographic purposes. University of Cambridge. Research Centre
for English and Applied Linguistics. Working papers, v. 7, 2002.
BRUGMAN, Claudia. Story of over. 1981. Tese (Mestrado) – Universidade da Califórnia,
Berkeley.
CARONE, F. B. Morfossintaxe. São Paulo: Ática, 1988.
CASTILHO, Ataliba. T. (2002) Gramaticalização de algumas preposições no Português
Brasileiro do século XIX. V SEMINÁRIO DO PROJETO PARA A HISTÓRIA DO
PORTUGUÊS BRASILEIRO, 2002, Ouro Preto.
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 37 ed. São
Paulo: Nacional, 1994.
CENTOLA, Rita de C. A. Estudo das ocorrências da preposição “com”. 1972.
Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Bento – PUC,
São Paulo.
181
CLARK, Herbert. Space, time, semantics and the child. In: MOORE, Terence E. (Ed.).
Cognitive development and the acquisition of language. New York: Academic Press, 1973.
p. 27-63.
CROFT, William. The role of domains in the interpretation of metaphors and metonymies.
In: DIRVEN, René; PÖRINGS, Ralf. Metaphor and metonymy in comparison and contrast.
Berlin: Mouton de Gruyter, 2002. p. 161-206. (Cognitive Linguistics Research 20).
____________ . Radical Construction Grammar: syntactic theory in typological
perspective. Oxford: Oxford University Press, 2001.
____________ . Mental representations. Cognitive linguistics. Berlin, v. 8., n.2, p. 151-73,
1998.
CRUZ, Cosme D. Programa GENES: análise multivariada e simulação. Viçosa: Editora da
UFV, 2006.
CUNHA, Antônio Geraldo da. Assistentes: Cláudio Mello Sobrinho et alii. Dicionário
etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa. 2. ed. rev. e acresc. de um suplemento.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
CUYCKENS, Hubert. The Dutch preposition in: a cognitive-semantic analysis. In:
ZELINSKY-WIBBELT, Cornelia (Ed.). The semantics of prepositions: from mental
processing to natural language processing. Berlin e New York: Mouton de Gruyter, 1993.
p. 27-71.
DEANE, Paul D. Polysemy as the consequence of internal conceptual complexity : The
case of over. Proceedings of the Eastern States Conference on Linguistics (ESCOL) 9. Ohio
State University: CLC Publications, 32-43. 1992.
DESAGULIER, Guilaume. Modélisation cognitive de la variation et du changement
linguistiques: étude de quelques cas de constructions émergentes en anglais contemporain.
2005. Tese (Doutorado em Linguística inglesa) – Université Michel de Montaigne,
Bordeaux 3.
DEWELL, Robert B. Over again: On the role of image-schema in semantic analysis.
Cognitive Linguistics 5, 351-80, 1994.
DUTRA, Ronyê M. O.; SPERANDIO, Mauricio; COELHO, Jorge. O Método Ward de
Agrupamento de Dados e sua Aplicação em Associação com os Mapas Auto-Organizáveis
de Kohonen. Disponível no site http://www.labplan.ufsc.br/sperandio/ward22_final.pdf -
Acesso em 08.03.2009.
182
EVANS, Vyvyan. The meaning of time: polysemy, the lexicon and conceptual structure. J.
Linguistics. n. 41. Cambridge: n. 41, p. 33-75, 2005.
EVANS, V,; TYLER, A. Spatial Experience, Lexical Structure and Motivation: The Case
of In. In RADDEN, G.; PANTHER, K. (Eds.). Studies in Linguistic Motivation. Berlin and
New York: Mouton de Gruyter, 2004. p. 157-92.
EVERITT, Brian; LANDAU, Sabina; LEESE, Morven. Cluster analysis.4 ed. London:
Arnold, 2001.
FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto de. Gramática. 3 ed. São Paulo:
Ática, 1988.
GEERAERTS, Dirk. Vagueness’s puzzles, polysemy’s vagaries. Cognitive Linguistics,
Berlin, v. 4, n. 3, p.223-72, 1993.
____________ . The semantic structure of Dutch over. Leuvense Bijdragen, Leuven, v. 81,
p.205-30, 1992.
____________. Where does prototipicality come from? In: RUDZKA-OSTYN, Brygida
(Ed.). Topics in Cognitive Linguistics. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins, 1988.
p.207-229.
GILQUIN, Gaëtanelle. The place of prototipicality in corpus linguistics. In: GRIES, Stefan;
STEFANOWITSCH, Anatol (Eds.). Corpora in Cognitive Linguistics: corpus-based
approaches to syntax and lexis. Berlin/ New York: Mouton de Gruyter, 2006. p. 159-191.
GOLDBERG, Adele. A Construction Grammar Approach to Argument Structure. Chicago:
University of Chicago Press. 1995.
GOUGENHEIM, Georges. Y-a-t-il des prépositions vides en francais? Le français
moderne, Paris, ano 27, n.1, p.1-25, 1959.
GRADY, Joseph E. Image schemas and perception: refining a definition. In: HAMPE,
Beate (Ed.). From perception to meaning: image schemas in Cognitive Linguistics. Berlin:
Mouton de Gruyter, 2005. p. 35-56. (Cognitive Linguistics Research 29)
____________. Foundations of meaning: primary metaphors and primary scenes. 1997.
Tese (Doutorado) – University of California, Berkeley.
GRENFELL, Adrete T. M. Sobre locuções prepositivas em hipótese cognitivista. 2004.
Tese (Doutorado) – Letras Vernáculas – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro.
183
GRIES, Stephan T.; HAMPE, Beate; SHÖNEFELD, Doris. Converging evidence: Bringing
together experimental and corpus data on the association of verbs and constructions.
Cognitive Linguistics, Berlin, v. 16, n. 4, p. 635-676, 2005.
____________. Converging evidence II: more on the association of verbs and
constructions. In: NEWMAN, John; RICE, Sally (Eds.). Experimental and empirical
methods in the study of conceptual structure, discourse, and language. Stanford, CA: CSLI.
2009. (no prelo)
HAMPE, Beate. Introduction. In: HAMPE, Beate (Ed.). From perception to meaning:
image schemas in Cognitive Linguistics. Berlin: Mouton de Gruyter, 2005. p. 1-14.
(Cognitive Linguistics Research 29)
HEINE, Bernd. Cognitive foundations of grammar. New York, Oxford: Oxford University
Press, 1997.
HERSKOVITS, A. Space and prepositions in English: regularities and irregularities in a
complex domain. Doctoral dissertation. Stanford University, Stanford, California, 1982.
JOHNSON, Mark. The philosophical significance of image schemas. In: HAMPE, Beate
(Ed.). From perception to meaning: image schemas in Cognitive Linguistics. Berlin:
Mouton de Gruyter, 2005. p. 15-33. (Cognitive Linguistics Research 29)
____________. The body in the mind: the bodily basis of meaning, imagination and reason.
Chicago: University of Chicago Press, 1987.
Jornal do Brasil. Disponível no endereço jbonline.terra.com.br. Acesso em 01.05.2008.
Jornal Estado de Minas. Disponível no endereço www.uai.com.br. Acesso em 01.05.2008.
Jornal O estado de São Paulo. Disponível no endereço www.estadao.com.br. Acesso em
01.05.2008.
KREITZER, Anatol. Multiple levels of schematization. A study in the conceptualization of
space. Cognitive linguistics 8, 291-325. 1997.
KUTEVA, Tanya; SINHA, Chris. Spatial and non-spatial uses of prepositions: conceptual
integrity across semantic domains. In: SCHWARTZ, Monika (Org.). Kognitive
Semantik/Cognitive Semantics: Ergenbnisse, probleme, perspektiven. Köln: Gunter Narr
Verlag Tübingen, 1994. p. 219-37.
LAKOFF, George. Women, fire and dangerous things: what categories reveal about the
mind. Chicago: The University of Chicago Press, 1987.
184
LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh: the embodied mind and its
challenge to western society. New York: Basic Books, 1999.
____________. Metaphors we live by. Chicago: The University of Chicago Press, 1980.
LANGACKER, Ronald W. Cognitive Grammar: A basic introduction. Oxford: Oxford
University Press, 2008.
____________ Viewing and experiential reporting in cognitive grammar. In: SILVA,
Augusto S. (Org.). Linguagem e cognição. Braga: Faculdade de Filosofia de Braga, 2001.
p. 19-49.
____________ Grammar and conceptualization. Berlin: Mouton de Gruyter, 2000a.
____________ A dynamic usage-based model. In: M. BARLOW, S. KEMMER (Org.).
Usage-based models of language. Stanford: CSLI, 2000b.
____________ Concept, image and symbol: the cognitive basis of grammar. Berlin, New
York: Mouton de Gruyter, 1991.
____________ Foundations of cognitive grammar: theoretical prerequisites. Stanford:
Stanford University Press, 1987. v.1.
LEVINSON, Stephen C. Space in language and cognition: Explorations in cognitive
diversity. Cambridge: Cambridge University Press. 2003. (Language, Culture and
Cognition 5).
LEVINSON, Stephen; MEIRA, Sérgio. ‘Natural concepts’ in the spatial topological domain
– adpositional meanings in crosslinguistic perspective: an exercise in semantic typology.
Language, [S.l.], v.79, n.3, p.485-516, 2003.
LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 24 ed. Rio de Janeiro: José
Olímpio, 1984.
LYONS, John. Semantics. Cambridge: Cambridge University Press, 1977. v. 2.
MELLO, Heliana R. The genesis and development of Brazilian vernacular Portuguese.
1996. Tese (Doutorado). City University of New York.
MILLER, George A.; JOHNSON-LAIRD, Phillip N. Language e perception.
CAMBRIDGE: HARVARD UNIVERSITY PRESS, 1976.
NEVES, Maria Helena de M. Gramática de usos do português. São Paulo: UNESP, 2000.
185
OLIVEIRA, Aparecida de A. Esquemas espaciais e extensões metafóricas na semântica de
preposições do português do Brasil: um estudo de caso. Revista da Associação Brasileira
de Linguística. Belo Horizonte, v. 6. n.1. 2007. p.223-258
POGGIO, Rosauta M. G. F. Processos de gramaticalização de preposições do latim ao
português: uma abordagem funcionalista. Salvador: EDUFBA, 2002.
PONTES, Eunice. Espaço e tempo na língua portuguesa. Campinas : Pontes, 1992.
POTTIER, Bernard. Systématique des elements de relation: étude de morphosyntaxe
romane. Paris: Librarie C. Klincksieck, 1962.
REDDY, Michael J. The conduit metaphor: a case of frame conflict in our language about
language. In: ORTONY, A. (Ed.). Metaphor and Thought. Cambridge: Cambridge
University Press, 1979. p.284-297.
SACCONI, L. A. Nossa gramática. 2 ed. São Paulo: Moderna, 1980.
SALOMÃO, M. Margarida M. Polysemy, aspect and modality in Brazilian Portuguese: the
case for a cognitive explanation of grammar. 1990. Tese (Doutorado em Linguística).
Graduate Division of the University of California at Berkeley.
SANDRA, Dominiek; RICE, Sally. Network analyses of prepositional meaning: mirroring
whose mind – linguist’s or the language user’s. Cognitive Linguistics, Berlin, v. 6, n. 1, p.
89-130, 1995.
SARDINHA, Tony Berber. Linguística de córpus. Barueri: Manole, 2004.
SILVA, Augusto Soares da. O mundo dos sentidos em português: polissemia, semântica e
cognição. Coimbra: Almedina, 2006.
SILVEIRA, Souza da . Sintaxe da preposição de. Rio de Janeiro: Organização Simões,
1951.
SINHA, Chris; KUTEVA, Tanya. Distributed Spatial Semantics. Nordic Journal of
Linguistics, [S.l.], v. 18, p. 167-99, 1995.
SMITH, Barry. Topological Foundations of Cognitive Science. FIRST INTERNATIONAL
SUMMER INSTITUTE IN COGNITIVE SCIENCE IN BUFFALO, 1994, Buffalo.
STERNBERG, Robert J. Psicologia Cognitiva. Trad. Por Maria R. B. Osório. Porto Alegre:
Artmed, 2000.
186
SWEETSER, Eve. From etymology to pragmatics. Cambridge: Cambridge University
Press, 1990.
TALMY, Leonard. The fundamental system of spatial schemas. In: HAMPE, Beate (Ed.).
From perception to meaning: image schemas in Cognitive Linguistics. Berlin: Mouton de
Gruyter, 2005a, p. 199-234. (Cognitive Linguistics Research 29)
____________. Foreword. In: GONZALEZ-MARQUEZ, M.; MITTELBERG, I.,
COULSON, S.; SPIVEY, M. (Ed.). Methods in Cognitive Linguistics. Amsterdam: John
Benjamins, 2005b, p. Xi-xxi.
____________. Toward a cognitive semantics: concept structuring systems. Cambridge:
The MIT Press, 2000. v. 1.
TAYLOR, John R. Cognitive grammar. Oxford: Oxford University Press, 2002a.
____________. Category extension by metonymy and metaphor. In: DIRVEN, René;
PÖRINGS, Ralf (Ed.). Metaphor and metonymy in comparison and contrast. Berlin:
Mouton de Gruyter, 2002b. p. 323-48. (Cognitive Linguistics Research 20).
TEIXEIRA, José. A configuração linguística do espaço no português europeu: modelos
mentais frente/trás. 1999. Tese (Doutorado em Ciências da Linguagem – Linguística
Portuguesa). Universidade do Minho, Braga.
TextSTAT 2.8c. Disponível no endereço http://www.niederlandistik.fu-berlin.de/textstat.
Último acesso em 01.04.2009.
TREVOR-ROPER, Hugh R. The Last Days of Hitler. New York: Macmillan, 1947.
TYLER, Andrea; EVANS, Vyvyan. The semantics of English prepositions: spatial scenes,
embodied meaning and cognition. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
VANDELOISE, Claude. Methodology and analyses of the preposition in. Cognitive
Linguistics, Berlin, v. 5, n. 2, p. 157-184, 1994.
____________. Spatial prepositions: a case study from French. Tradução: Anna R. K.
Bosch. Chicago: The University of Chicago Press, 1991. Original francês.
____________. Description of Space in French. 1984. Tese (Doutorado). University of
California, San Diego.
VENDLER, Zeno. Linguistics in philosophy. New York: Cornell University Press, 1967.
187
VICTORRI, Bernard; FUCHS, Catherine. La polysémie: construction dynamique du sens.
Paris: Hermès, 1996.
WITTGENSTEIN, L. Philosophical investigations. New York: Macmillan, 1953.
ZELINSKY-WIBBELT, Cornelia. Introduction. In: ZELINSKY-WIBBELT, Cornelia
(Ed.). The semantics of prepositions: from mental processing to natural language rocessing.
Berlin: Mouton de Gruyter, 1993. p.1-24. (Natural Language Processing 3)
188
ANEXO I
Ocorrências no corpus
LOC-ESP- simples.txt 15/5/2009
1 LOCESP - e dosetor quÃmico reavivaram os temores de que os efeitos da crisede crédito NOS Estados Unidos vão se
prolongar. “Voltou o medo de que haja uma contração e
2 LOCESP - erificar o que pode ser feito. Contudo, a secretaria adiantou, que a velocidade NAS vias citadas pelo leitor são
obrigatoriamente baixas porque tratam-se de vias s
3 LOCESP - Entre os fatores que contribuíram para o resultado, estão o aumento das vendas NOS Estados Unidos e no
Leste Europeu, além da boa capacidade da empresa naSÃO PAULO- A média salarial NO Japão reduziu 0,6% em junho, em relação ao mesmo
período do ano ant
5 LOCESP - A Movimento levou apenas um biquíni cortininha NA parte de baixo, com um tecido bem colorido por volta da
cintura e o tapa-sexo d
6 LOCESP - SÃO PAULO, 19 de junho de 2008 - As vendas EM 280 lojas de departamento no Japão, operadas por
93 empresas, caíram 2,7%
7 LOCESP - FLORIANÓPOLIS - A morte de vários pinguins NO litoral de Santa Catarina nos últimos três dias
preocupa cientistas noRIO - A Avenida Almirante Alves Câmara Júnior, NA Ilha do Governador, Zona Norte do Rio, será
interditada ao tráfego entre a Estr
9 LOCESP - PORTO ALEGRE - Um acidente envolvendo seis veículos NA RST-453,em Boa Vista do Sul, no
Rio Grande do Sul deixou um morto.
10 LOCESP - RIO - Uma massa de ar seco polar deixa o tempo aberto NO Rio. A temperatura volta a subir, mas
ainda faz frio no início da manhã,
11 LOCESP - corpoNoticia--> RIO - Não será permitida plantação de cana-de-açúcar NA Amazônia e no Pantanal. As
exceções serão as áreas de três usinas já inst
12 LOCESP - RIO - A Força Nacional de Segurança Pública ampliou a atuação NO Rio de Janeiro. Soldados e
oficiais também estão patrulhando a orla carioca, a
13 LOCESP - Nas últimas três semanas, vários confrontos armados foram registrados NO Vale do Bekaa e em
Beirute, o que exigiu ações do Exército e das forças d
14 LOCESP - O ministro israelense da Defesa, Ehud Barak, condicionou essas medidas à paz NA região. “Quando a calma começar
na Faixa, se ela começar, é difícil sabe
15 LOCESP - Nisso estou de acordo com o monsenhor Lugo”. As declarações foram feitas EM Assunção
durante uma parada militar para marcar o 164º aniversário da criação d
16 LOCESP - mês que vem que acontece emDubai e, se forem aprovadas, entrarão em vigor EM todo o mundo a partir da
temporada 2010/2011. Or
17 LOCESP - - como serviço social, obras e arquitetura, tecnologia da informação, e qualidade NO ambiente de trabalho. De
acordo com o coordenador do programa, Walcir da Concei
189
18 LOCESP - 2006. Ferreirinha afirmou também que a ordem de crescimento do mercado de luxo NO Brasil tem apostas certas
para Florianópolis, em Santa Catarina, o interi
19 LOCESP - 9, foi a que se feriu menos e está sob os cuidados dos avós paternos, que moram EM Lavras.Os menores foram
salvos por policiais militares que durante o patrulhame
20 LOCESP - A obra também traz projetos premiados do escritório Brasil Arquitetura, sediado EM São Paulo. O arquiteto Jaime
Lerner é convidado de honra e neste fim de s
21 LOCESP - Ademar explica que, em uma investigação como essa, o procedimento padrão NO mundo é permitir que, além da
Força Aérea Brasileira, os fabricantes das peças
22 LOCESP - Centro de Pesquisa Espacial da Universidade de Cornell, em Nova Iorque, NOS Estados Unidos. corpoNoticia-
->Imagine poder assistir ao último capítulo da s
23 LOCESP - Duarte Sequeira. Ele explica que a concentração de um grande volume de resíduos EM local úmido e quente é o
ambiente ideal para a proliferação de mosquitos e rato
24 LOCESP - Estados Unidos uniu-se ao pessimismo criado comum aperto monetário mais forte NO Brasil para levar a Bolsa
deValores de São Paulo ao pior nível em seis
25 LOCESP - Estados do Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, bem como NA Argentina,Holanda, Reino
Unido, Malta, Itália, Noruega, Bermudas, França e Cin
26 LOCESP - Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, Goiás, Tocantins e NO Distrito
Federal. Os mandados de busca foram expedidos pelo Supremo Tribunal Fe
27 LOCESP - Kovalainen chegou a ser dúvida para a prova depois de sofrer um acidente forte NO circuito de Barcelona,
durante o GP da Espanha quarta etapa do campeonato. Ele
28 LOCESP - Música é promovido pela Subsecretaria de Eventos da Prefeitura do Rio. Nascido NO Rio, Marcos Valle estudou
piano clássico e teoria musical na infância e,
29 LOCESP - PAULO - Duas pessoas foram detidas suspeitas de praticar um sequestro-relâmpago EM São Paulo e manter uma
mulher no porta-malas de um carro. A vítima teria
30 LOCESP - PSDB”, concluiu. corpoNoticia-->São Paulo - A Polícia Federal realiza buscas NOS gabinetes
dos deputados João Magalhães (PMDB-MG) e Ademir Camilo (PDT-MG) duran
31 LOCESP - Piauí em fevereiro de 2007 me vinha à cabeça cada vez que ia ao banheiro NO meu quarto de hotel de Tóquio
e encontrava um vaso sanitário high-tech, com ass
32 LOCESP - Rodoviários.- TrabalhoOs candidatos aprovados terão como atribuições fiscalizar EM todo território estadual a
qualidade do transporte público e da sua malha rodov
33 LOCESP - Serra na sexta-feira, nainauguração de unidade da petroquímica Braskem EM Paulínia(SP), e no
sábado, no início da campanha de vacinação
34 LOCESP - Todos nós estamos muito motivados na Ferrari e tentaremos andar muito bem EM Mônaco, onde no ano
passado tivemos problemas - acrescentou Raikkonen.O p
35 LOCESP - Yves Saint Laurent que, por contrato, ela deveria usar numa apresentação NOS Estados
Unidos. Falando ao telefone, Naomi usou de palavras grosseiras: “Eles p
36 LOCESP - a fornecer verba e equipamentos ao Grupo de Trabalho de Emergências Ambientais NO Estado de Minas Gerais,
criado este ano com a função de fiscalizar qualquer emp
37 LOCESP - amigos das vítimas se emocionaram muito e pediam justiça com faixas e cartazes NA porta da igreja. Já no
Morro da Providência a situação nesta manhã
38 LOCESP - ao clássico “E O Vento Levou...”, foram divididas entre a localidade de Bowen, NO estado de Queensland, e
em Darwin, norte da Austrália.Antes mesmo de cheg
39 LOCESP - até três anos para se aposentar, as gestantes, a não homologação das demissões NOS indicatos,entre outros
casos”, informou o presidente do sindicato. Mandú diss
40 LOCESP - bois, conscientize-se o consumidor: “Se você está comendo um filé de boi criado EM área desmatada da Amazônia,
não é filé - é uma castanheira de 50 metros com 200
41 LOCESP - campanha contra a medida na próxima cúpula do Mercosul, no dia 1º, NA Argentina. Ontem, o Paraguai
havia sugerido que o Mercosul se manifestasse cont
190
42 LOCESP - casa. Apenas cerca de 60% dos 2.350 lugares foram postos à disposição dos fãs. NO guichê, as vendas foram
encerradas às 13h15. Quem optou por comprar pela intern
43 LOCESP - chocou violentamente contra um poste e só parou após bater em uma árvore NO canteiro
central. corpoNoticia-->Um homem de 51 anos foi preso na tarde d
44 LOCESP - com as acusações, Levine, que estudou na Escola de Medicina de Harvard e NA Universidade da Carolina do
Norte, teria obrigado seus pacientes a permanecerem
45 LOCESP - com o objetivo de encontrar a loja menos movimentada. “As pessoas que trabalham EM restaurantes, no
comércio, em hotéis e motéis deixam para comprar d
46 LOCESP - commodity.Em novembro do ano passado, quando o primeiro megacampo (Tupi, NA bacia de
Santos) foi anunciado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou
47 LOCESP - comunidade Moreti, no município de Poconé, a 100 quilômetros de Cuiabá. Naquele trecho do rio de água
escura, a profundidade é superior a 10 metros. Duas
48 LOCESP - confusão e os militares levaram os jovens para a Delegacia Judiciária Militar, NO Santo Cristo,para atuá-los
por desacato. Na ocasião, o capitão que era
49 LOCESP - corpos foram levados para o Instituto Médico Legal de São Sebastião do Paraíso, EM Minas. corpoNoticia-->Foram
enterrados, no início da noite deste domin
50 LOCESP - datas são 18 e 19 de fevereiro. As aulas deverão começar em 25 deste mês, EM João Monlevade, e 17 de
março, em Ouro Preto. corpoNoticia-->Comunida
51 LOCESP - de 10 anos. Em janeiro, representantes do Zoológico de Londres estiveram EM BH analisando as condições
para recebimento das fêmeas. (Com Ingrid Furtado) c
52 LOCESP - de 124 pacientes por dia, caiu para 80.Os pacientes com dengue serão atendidos NO Hospital Municipal Miguel
Couto e no Centro de Saúde Municipal Píndaro de
53 LOCESP - de 44 anos, tinha construído debaixo de sua casa na cidade de Strasshof, NO subúrbio da capital
austríaca, um porão especial, atrás de uma porta de concret
54 LOCESP - de acréscimo de 15,4 % na produtividade, se comparada à safra 2006/2007. NO Centro-Oeste e Sudeste, a
produtividade está alta, segundo a Conab, devido a pr
55 LOCESP - de desenvolvimento. A publicação, ao apresentar os resultados do trabalho feito EM 15 estados,nas cinco
regiões brasileiras, aponta um caminho possível par
56 LOCESP - de desoneração das prestações dos serviços públicos de saúde. NO Brasil, ABL anuncia que já
prepara suas publicações utilizando a nova norma do
57 LOCESP - de tentar matar a ex-namorada com três tiros na cabeça e no peito, NO Centro Universitário de Belo
Horizonte (UNI-BH), no Bairro Estoril, na corpo,náuseas e manchas
vermelhas na pele. É transmitida pela picada da
59 LOCESP - detalhes que faz uma imagem ser “real” e tri-dimensional (holograma). Utilizada EM DVDs, permite o registro de
uma quantidade incrivelmente grande de dados, o que
60 LOCESP - do Sul, sobre a qual não deu detalhes. O líder venezuelano qualificou a reunião EM Buenos Aires de “muito
importante” e assinalou que os três presidentes acertara
61 LOCESP - do casal, a acionar a Polrcia Militar.Ao chegarem casa na Rua Lava-pas, NO bairro de
Vila Maria, os policiais entraram na casa e encontraram, debaix
62 LOCESP - do diesel produzido na Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim, NA RegiãoMetropolitana de Belo
Horizonte, na duplicação do gasoduto Gasbel
63 LOCESP - e teria sido fechado por um Gol prata na altura do Bairro São Cristóvão, NA Região Noroeste. A vítima
revidou, fechando o Gol logo adiante, e houve uma per
64 LOCESP - forte do escritório é o atendimento as pessoas mais carentes.- Temos escritório EM Campo Grande, Caxias,
Centro. O nosso forte é mesmo pessoas de baixa renda - af
65 LOCESP - gente. O perfume de rosmaninho é um costume antigo', contou. A festa da Páscoa EM São João é organizada por
monsenhor Paiva. Embora a cor roxa predomine na
191
66 LOCESP - incêndio desde o início da tarde desta segunda-feira em uma mata fechada NA Lagoa dos Mandarins, na
cidade de Divinópolis, Região Centro-Oeste de Min
67 LOCESP - internada em estado grave no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, EM BH.No final da noite
de quinta-feira, militares de Betim foram até a Unid
68 LOCESP - já havia fugido. corpoNotica-->Megaquadrilha de tráfico de drogas, que atuava EM Teófilo Otoni, no Vale
do Mucuri, e na Região Oeste de Belo Horizon
69 LOCESP - lançado pelo Ministério Público Estadual há dois anos, vai plantar 70 mil mudas EM áreas de proteção permanente
(APP). A ação será feita com os R$ 6,7 milhões pre
70 LOCESP - mudar uns seis jogadores - comentou. - Valdivia tem de melhorar o comportamento EM campo. É preciso ser mais
participativo, menos cricri. E que chame sempre a res
71 LOCESP - no agreste pernambucano, investiga a divulgaao de um vAdeo erótico caseiro EM comunidades de
relacionamento na internet. A mulher que aparece no
72 LOCESP - no mesmo local, a diversos serviços hoje espalhados por vários endereços NA capital. A iniciativa,
no entanto, promete gerar uma nova batalha por um
73 LOCESP - no sul de Minas Gerais, no leste do estado de São Paulo, inclusive NA capital, e no sul do
estado do Rio, incluindo a cidade do Rio de Janeiro.
74 LOCESP - nos garotos. Ou o Tratado de educação físico-moral dos meninos, publicado EM Pernambuco, em 1828,
que condena severamente o açoite nas nádegas,
75 LOCESP - notórios do século 20, recebeu o rapper, cujo verdadeiro nome é Curtis Jackson, EM sua casa na cidade de
Johansburgo, capital da África do Sul.- O encontro
76 LOCESP - o alívio no trânsito'. PROPOSTA Programa municipal para incentivar carona EM universidades, escolas e
grandes empresas Wender Adriano Nunes, 36 anos, tax
77 LOCESP - ontem, a primeira viagem da recém-reformada barca Boa Viagem, que vai circular NA linha Niterói-Rio. Ele
aproveitou a viagem para fiscalizar os serviços oferecid
78 LOCESP - os pais fora invadido.Segundo o promotor, já foi constatado que Jeferson estava NO prédio na noite do
crime. Cembranelli não quis adiantar o teor do depoime
79 LOCESP - planos de conservação.A maior parte das florestas públicas, cerca de 94%, está NA Região Norte. Isso porque,
apesar de a Lei de Gestão de Florestas ter sido sanc
80 LOCESP - por um shopping center.Durante a noite, os dois ainda participaram de uma festa EM Jurerê e seguiram para uma
boate na região central de Florianópolis. Amig
81 LOCESP - produzidos na queima de combustíveis fósseis em usinas de energia e EM eículos
automotores - e o aquecimento deve ser maior e mais rápido nos p
82 LOCESP - que liga os estados do Ceará, Maranhão e Piauí. Outros roteiros já consolidados EM outras regiões são 'Estrada
Real', o 'Vale do Acre', 'Brasília - Chapada dos Ve
83 LOCESP - que os 13 sobreviventes tiveram de nadar 15 metros até a margem do Rio Cuiabá, NA comunidade Moreti, no
município de Poconé, a 100 quilômetros de Cuiabá.
84 LOCESP - que os congressistas eliminem as restrições à s perfurações exploratórias NA plataforma continental. “Ã? hora
de os membros do Congresso acabarem com a do
85 LOCESP - que vamos ter uma grande vitória”, afirmou o ex-governador e presidente do DEM NA Bahia, Paulo Souto.”Neto vai
trazer o novo a Salvador”, afirma o presidente nac
86 LOCESP - quinta-feira com 27 papelotes de cocaína escondidos na cueca. Ele estava NUMA boate gay no Bairro
Barro Preto e, ao ser detido, confessou que ven
87 LOCESP - rnas do Grupo C, França e Itália enfrentam-se hoje, no Estádio Letzigrund, EM Zurique, às 15h45 (de
Brasília), na disputa pela classificação para as qu
88 LOCESP - ter desviado R$ 500,00 da verba utilizada pela PF para a compra de combustível NA cidade, recebeu sua segunda
condenação consecutiva e deverácumprir a pena na cidade, com 48 confirmações.
'Vamos aguardar os resultados laboratoriais do vig
192
90 LOCESP - tomei conhecimento até agora foi pela imprensa. Estou em minha residência EM Belo Horizonte desde cedo -,
afirmou Magalhães, em entrevista à Agência B
91 LOCESP - vai entrar com titulares ou reservas no jogo desta terça-feira, às 15h45, EM Berna. A partida pode
definir o segundo colocado do Grupo C da Eurocopa. Com do
92 LOCESP - vice-prefeitura. O PT ainda autorizou que o partido firme coligação com o PSDB, EM Aracaju
(SE), e também permitiu que o PT se una à coligação do PPS na dis
93 LOCESP - à 1h40 desta sexta encontraram o Gol placa GYL 9646.O carro estava sob a ponte, EM um local de difícil acesso.
Os corpos das vítimas foram encaminhados ao Institu
94 LOCESP - “ atende uma faixa do mercado de clientes como pessoas que trabalham, conectados EM locais fixos diferentes, e
por isso tem sido chamado de serviço nomádico (deslo
95 LOCESP - “, disse o presidente, que visitou no final da manhã um posto de vacinação EM São Bernardo do Campo, como
parte do langamento da campanha de vacinação contra
96 LOCESP - “Lisboa e Rio: Paradigmas de cidades atlânticas”, na Biblioteca Nacional, NO centro do Rio. Durante o
evento, o presidente português deixou claro que não e
97 LOCESP - (DEM-BA), que almeja a Prefeitura de Salvador. O democrata, por exemplo, aparece EM cinco comunidades “ACM Neto
prefeito 2008”. Os candidatos têm um argumento em<
98 LOCESP - (PSDB), carregou uma lanterna de prata durante o cortejo fúnebre, que terminou NA Igreja de São Francisco.
Durante todo o dia, foi grande a movimentação nas Minas foi do lavrador
Leandro Gonçalves Cruz, de 24 anos, morador de Araguari,
100 LOCESP - , Maria Clara e Carolina retornaram ao Brasil e permaneceram apenas quatro dias NO Rio de
Janeiro, antes de encarar novamente a longa viagem até à Ásia. No
101 LOCESP - , afirma que a rede de contatos é administrada diretamente pelo Centro Islâmico NA Ilha Margarita e suas
filiais em Barquisimeto, Anaco, Puerto Ordaz e Puer
102 LOCESP - , amigo da vítima.Na conversa com os policiais, Byernes disse que estava NA casa de uma vizinha quando
recebeu um telefonema de Negreti, dizendo que estava
103 LOCESP - , com a qual a SMAC mantém convênio, são levadas para o Jardim Zoológico do Rio, EM São Cristóvão, na
Zona Norte. Os pingüins vêm de regiões próximas ao Pólo
104 LOCESP - , contou o tenente Júlio Araújo.A carga apreendia está no depósito do MP, NO bairro Nova Suíça, Região
Oeste da capital.
105 LOCESP - , fez uma peregrinação por clínicas, centros de saúde e hospital de Vespasiano, NA Grande BH. Ela chegou à UPA
às 8h e também reclamava da longa espera. 'Deixei o
106 LOCESP - , foram apresentadas as pendências relacionadas aos 30 projetos de assentamentos EM Minas
Gerais. Segundo o Incra, até o final do ano, cerca de mil famílias podem
107 LOCESP - , guitarrista do Iron Maiden, teve seu instrumento roubado após um show da banda EM Atenas. O músico, porém,
ainda tem esperanças de reaver a peça e, no site
108 LOCESP - , independentemente do sexo, em seu Pacto Civil de Solidariedade (PACS). NA Alemanha, o casal que vive
junto possui direitos similares aos dos casados, ex
109 LOCESP - , lidar com duas tarefas simultaneamente e conectar itens relacionados entre si NO espaço e no tempo.
Ninguém sabe por quanto tempo os ganhos vão durar depo
110 LOCESP - , segundo a Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero), mas NOS aeroportos de Belo
Horizonte e João Pessoa, os atrasos superam 30%.Conforme bol
111 LOCESP - , também na Savassi, estacionada em local impróprio. Poucos minutos NA porta da Bueno Brandão, e o
agente Silvestre teve que pegar seu bloco de multas
112 LOCESP - ,9 na escala Richter, atingindo Lixian, a oeste do epicentro do terremoto, EM Wenchuan, o que
interrompeu as estradas e os sistemas de telecomunicações, rece
113 LOCESP - - rdo com funcionários georgianos, os russos não estão autorizados a portar armas NAQUELA área. Moscou
discorda, alegando que os soldados levavam armamento padrão,
193
114 LOCESP - -->RIO - Moradores da Cidade de Deus fazem um protesto contra a ação da polícia NA comunidade, na
Estrada do Gabinal, próximo ao acesso à Linha Amarela, na<
115 LOCESP - --texto--> RIO - Os resultados do rendimento real dos trabalhadores ocupados NAS seis principais regiões
metropolitanas do PaÃs (São Paulo, Rio, Belo Horizon
116 LOCESP - -> RIO - O grupo Mulheres de Chico irá se apresentar nesta domingo às 18h, EM Santa
Tereza.No repertório, o grupo revisita a obra do compositor carioca
117 LOCESP - -TEXTO-->BRUXELAS - Os líderes da União Européia abrem nesta quinta-feira, EM Bruxelas, uma reunião de
cúpula de crise que buscará desmonstrar que o bloco nã
118 LOCESP - -americanas para a Copa do Mundo, contra a Argentina, nesta quarta-feira, NO Mineirão. O técnico já
avisou que a derrota para o Paraguai não implicará neces
119 LOCESP - . Mas quando a bola rolar, os dois clubes de origem portuguesa - que ostentam NOS escudos de suas camisas
cruzes simbolizando a forte tradição religiosa - vão en
120 LOCESP - . Para fugir dos nazistas, Weil deixou seu país em 1933. Antes de se fixar EM Nova York, em 1933,
viveu em Londres e Paris. Em Nova York, o
121 LOCESP - . Pela manhã, um incêndio numa carreta fechou o trânsito na BR-381, NO trecho entre Belo Horizonte
e João Monlevade. A Scania placa KDT 8409, de Matip
122 LOCESP - .C.S, de 27 anos, morador de Pouso Alegre, esteve no município de Catalão, EM Goiás, entre os dias 15 e
17 de janeiro. No dia 21, já de volta a Minas G
123 LOCESP - .Em São Paulo, houve atrasos em 4,7% (ou 2) dos 43 vôos programados NO aeroporto de Congonhas.
No aeroporto de Cumbica, do total de 117 vôos pro
124 LOCESP - 0 pessoas de 70 nacionalidades, 80% delas africanasO Brasil é considerado líder NA América Latina na
política de proteção aos refugiados, de acordo com o re
125 LOCESP - 2014: Oportunidades e desafios para as cidades”, que ocorreu durante todo o dia NA PBH. Pela manhã, os
participantes debateram os aspectos institucionais relativo
126 LOCESP - 26 -, foi projetada para resistir a todos os tipos de tufões, já que se encontra EM