UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS ESCOLA DE MÚSICA RAFAEL MARIN DA SILVA GARCIA LÁ NO CÉU CANTA OS ANJO, AQUI NA TERRA CANTA NÓIS Um estudo etnográfico das práticas sócio-musicais dos foliões de reis no sul de Minas Gerais Belo Horizonte 2019 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS ESCOLA DE MÚSICA RAFAEL MARIN DA SILVA GARCIA LÁ NO CÉU CANTA OS ANJO, AQUI NA TERRA CANTA NÓIS Um estudo etnográfico das práticas sócio-musicais dos foliões de reis no sul de Minas Gerais Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Música da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Música. Linha de pesquisa: Música e Cultura. Orientadora: Prof.ª Rosângela Pereira de Tugny. Belo Horizonte 2019 G216l Garcia, Rafael Marin da Silva Lá no céu canta os anjo, aqui na terra canta nóis [manuscrito]: um estudo etnográfico das práticas sócio-musicais dos foliões de reis no sul de Minas Gerais./ Rafael Marin da Silva Garcia. - 2019. 370 f., enc. + 1 DVD Orientadora: Rosângela Pereira de Tugny. Linha de pesquisa: Música e Cultura. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Música. Inclui bibliografia. 1. Música - Teses. 2. Folia de Reis - Minas Gerais. 3. Festas religiosas - Brasil. 4. Etnomusicologia. I. Tugny, Rosângela Pereira de. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de Música. III. Título. CDD: 780.91 À Glória de Elohim YHWH E do Grandioso Avatar YAHUSHUA, o Mashiach. AGRADECIMENTOS Agradeço em primeiro lugar aos foliões, aos devotos e aos magos que visitaram Jesus, sem os quais este trabalho jamais poderia ser realizado. Se por acaso não me recordar de todos os foliões com quem convivi nos últimos anos, adianto aqui minhas sinceras desculpas. Agradeço à Maria Consolita e ao embaixador Ulisses Oswaldo de Brito (Oswaldinho), pela amizade e pela forma tão amistosa como me receberam em sua casa, estendendo meus agradecimentos a todos os foliões da Companhia Nossa Senhora de Fátima: Vicente de Brito, Luiz de Brito, Carlos Antônio Donizette, João Santana, Zé Messias, Tadeu, Fagundes, Carlos José, Francisco Donizette, José Rosa da Silva, Wanderley Carvalho e Geraldo da Silva. Agradeço ao embaixador Divino Vitório dos Santos (Vino) e aos demais foliões da Companhia dos Santos Reis, por terem aceitado minha presença junto da companhia e pela confiança e amizade surgida nestes quatro anos de convivência: Gilberto Geraldo dos Reis, José Vicente Cassimiro, José Ailton de Paula, Sebastião Geraldo, Antônio Carlos (Bicudo), Antônio Carlos de Lima, Fabio Cruz (Fabinho) e José Dito Lázaro (Decão). Agradeço ao Vicente Aparecido Moreira e aos demais foliões da Companhia Sagrado Coração de Jesus pelos valiosos ensinamentos sobre o processo de aprendizagem dos seus bastiõezinhos, pelos goles de cachaça e pelo sincero companheirismo: Sebastião Antônio dos Santos (Tião), Adriano Nogueira, Álvaro Silva Nogueira, Adriano da Silva, José Maria Alves (Zé Maria), Fábio Donizete Alexandre e Paulo da Silva (Polica). Agradeço ao João Vitor Donizete (Tinho), organizador e responsável pela Companhia Estrela Guia, por permitir minha participação junto da companhia e por mediar minha relação com os foliões, aos quais também deixo aqui meus sinceros agradecimentos: João Francisco Viana, Ilson Donizetti Viana, Macionil Viana, Antônio Juscelino (Toninho), Sebastião Alves, Éder Rodrigo de Lima, Luís dos Anjos Anacleto, Afonso Vieira e Marcelo dos Reis da Mota. Agradeço ao Miguel Geraldo da Silva, responsável pela Companhia dos Bárbaras, pelo café oferecido todas as vezes que me recebeu em sua casa e por ter me apresentado a belíssima comunidade rural dos Bárbaras, seus moradores e os foliões de sua companhia, aos quais deixo igualmente meus agradecimentos: Odair de Lima (Bicudo), Salvador Pereira, Donizeti de Lima Messias, Júlio César Messias, Jairo da Silva, José Geraldo de Ávila da Silva, Milton Reis da Silva (Bilica), Paulo da Silva, Mateus André da Silva, Bruno Oliveira da Silva, Jonathan Pires, João Lino (Dila) e Francisco Josué da Silva. Agradeço ao Rosário Rosa de Oliveira (Loro), responsável pela Companhia Estrela do Oriente, e a todos os foliões por permitirem minha presença durante as jornadas, pelos relatos tão valiosos que me forneceram e pela convivência harmoniosa durante o trabalho de campo: Alexsandro Vitório, Wellington Aparecido Viana, Jonathan Roberto Viana, Sebastião Silva, Leonardo Augusto, Cássio Marques de Carvalho Jr. Elder Augusto, Sebastião Siqueira (Tião Baé) e Sebastião dos Santos (Tião Uca). Agradeço aos irmãos foliões Francisco Batista dos Santos “Moeirinha”, Vitor Batista dos Santos “Batistinha” e Rosário Batista dos Santos, da Companhia dos Noel, por terem sido tão solícitos com minha presença em suas casas e por terem me apresentado os admiráveis foliões do grupo, aos quais também deixo aqui meus agradecimentos: Paulo Mathias Cardoso, Vitor Vicente Borges, José dos Reis Oliveira, Mauro Coelho da Silva, Geraldo Miranda, Geraldo Vianna, Geraldo Bifaroni e Sebastião Feliciano. Agradeço à dupla de irmãos José Roberto e José Célio, foliões da antiga geração que por muitos anos ficaram responsáveis pela Companhia Filhos da Cambraia, e aos irmãos da nova geração Rafael Nunes Novais e Ricardo Nunes Novais, que têm ajudado os mais velhos a manterem viva a tradição. A todos os foliões, muito obrigado pela amizade e confiança: Leri Alves Ferreira, Alcinei Donizette Siqueira, José Reis Garcia, José Davi Ribeiro, Roberto do Baguari, Devanir Amaro, João das Paineiras, Pedro Campos Nogueira e Alpino dos Reis. Agradeço ao Gaspar Ribeiro (Keka), embaixador e folião responsável pela Companhia da Irmandade, e a todos seus foliões pela oportunidade de conhecer suas tradições de perto e também pela paciência que tiveram nos vários desencontros que tivemos durante os giros da companhia: Walter dos Reis, Adilson dos Reis, Adriano, Marquinho Didico, Milton Vitório, Nicínio (Preto), Nivaldo dos Santos Correia, Marcos, Waldo e Waldir. Agradeço ao José Leal Filho (Zé Leal) e a seu filho Osmair Leal dos Reis (Cantarelli), organizadores e responsáveis pela Companhia Sagrado Coração de Jesus e pela Companhia Reis do Oriente, de Fama. Obrigado por terem me apresentado um pouco de suas tradições, por terem me levado a conhecer um vasto território na zona rural da região e por terem me apresentado seus habilidosos e simpáticos foliões, aos quais deixo aqui meus agradecimentos: Totonho, Nê, Caipora, Dorival, Sebastião, Neguim, Breno e Bruno (Companhia Sagrado Coração de Jesus); Vicente Rocha, Miguel Rodrigues, André Cândido, Joaquim Rodrigues Barbosa, Lucas Aparecido, Maria Vitória Fagundes, João Francisco, Adimilson Leandro, José Alves, Marcelo Ângelo Alves e Valter Rodrigues (Companhia Reis do Oriente). Agradeço ao embaixador João Benedette, ao organizador Sidnei Benedetti e a todos os foliões da Companhia dos Benedette pelas histórias envolvendo a viagem dos três reis magos, pelos inúmeros causos sobre sua companhia e por terem me recebido tão bem junto ao grupo: Arlope Siqueira, Wolney Vieira, José Dionísio Benedetti, José Dionísio Benedetti Filho, Antônio Benedette, Wagner Benedette, Baltazar Teodoro Benedetti, Renato Alves, Francisco Augusto Paiva, Ronaldo Miranda, José Roberto Pierrote, Giuliano dos Santos, José Cristiano, Carlos Eduardo, João Pedro Campos, Renato Alves, Mateus Sanfonêro e Adenilson Machado. Agradeço ao Ronaldo Batista, ao Wilson Gomes Alves, ao Devanil de Oliveira e aos demais foliões da Companhia da União, que me levaram para as comunidades rurais mais longínquas da região e com quem tive o grande privilégio de finalizar, com grande alegria e emoção, a jornada dos dois primeiros anos de trabalho de campo. Agradeço ao cinegrafista Cleiton Custódio Ferreira, por ter aceitado meu convite para fazer os registros das companhias nos dois primeiros anos do trabalho de campo, pois devo a ele a possibilidade de poder retribuir aos foliões com um material tão bonito e especial, como são os registros audiovisuais coletados. A ele também devo quase todas as fotografias deste trabalho, a singular sensibilidade artística e a naturalidade e ousadia dos registros, pois em vários momentos fui arrastado para dentro das casas dos devotos pelas lentes de sua câmera. Agradeço também à minha irmã Letícia Garcia, que nos últimos dias de trabalho de campo me acompanhou para realizar os derradeiros registros audiovisuais, me ajudando a preencher algumas lacunas que ainda precisavam ser investigadas e registradas. Agradeço ao escritor Affonso M. Furtado Silva, pelo agradável encontro na ocasião da comemoração do centenário da capela dos Santos Reis de Alfenas e por ter me presenteado com seu livro sobre a história da capela, enriquecedor para os desdobramentos da pesquisa. Agradeço ao amigo Zé Broinha, jornalista e repórter da Universidade José do Rosário Vellano (UNIFENAS), por ter me colocado à disposição todo seu acervo audiovisual sobre as companhias de reis de Alfenas, coletados por ele pelo menos desde a década de 1960. Agradeço aos meus colegas de trabalho do Conservatório Municipal de Alfenas pelo apoio inconteste ao desenvolvimento desta pesquisa e também aos funcionários da Prefeitura Municipal de Alfenas, que abrandaram minha jornada de trabalho para que eu pudesse dedicar mais tempo à escrita em sua etapa final. Agradeço especialmente ao Júlio César da Paz (ex- diretor do conservatório municipal), ao Ney Lima (ex-superintendente de cultura de Alfenas), à Tani Rose (atual secretária de educação e cultura de Alfenas), ao Guilherme Abraão (atual superintendente de cultura) e ao Thiago Moraes (atual diretor do conservatório municipal). Agradeço aos amigos Josafa Ferreira, Jansley Nascimento, João Marcos Dias e demais colegas da Escola de Música pela amizade, confiança e por terem me hospedado de forma tão acolhedora na moradia universitária da UFMG durante os dois primeiros anos do doutorado. Agradeço aos amigos e professores do meio acadêmico, com quem tive o privilégio de conviver durante a realização deste trabalho, principalmente pelos ensinamentos e conversas tidas durante o cumprimento dos créditos. Agradeço especialmente à Geralda Martins Moreira e ao Alan Antunes Gomes, funcionários da secretaria do Programa de Pós-graduação que sempre se dispuseram em me ajudar com a parte burocrática do doutoramento e sem dúvida contribuíram para um ambiente de estudo e trabalho aprazivelmente harmonioso e acolhedor. Agradeço imensamente ao professor Carlos Tadeu Siepierski, que de certa forma tem me acompanhado nos últimos oito anos nesta derradeira etapa de minha formação acadêmica e de quem tive a sorte de ser aluno e orientando durante minha graduação em Ciências Sociais na Universidade Federal de Alfenas, onde desenvolvi o projeto de pesquisa deste trabalho. A ele agradeço pela revolução intelectual proporcionada em suas aulas durante a graduação, pela centrada e imparcial orientação durante a elaboração da monografia de conclusão do curso e pelas preciosas sugestões como membro da banca durante o exame de qualificação desta tese. Agradeço à professora Glaura Lucas, pelas valiosas contribuições durante o exame de qualificação, especialmente por me distanciar de um modelo genérico e cristalizado de folia de reis e me chamar atenção para o fato de que a dinâmica de interações no universo desses grupos é resultado de um cenário heterogêneo de constantes disputas e negociações. A ela também sou grato pelas aulas durante o doutoramento, onde tive o privilégio de ter sido seu aluno e de ter contato com sua peculiar sensibilidade em relação às culturas tradicionais. Agradeço também ao professor Edgar Barbosa Neto, pelas valiosas sugestões durante o exame de qualificação, dentre elas a mudança no título deste trabalho, que embora ainda não esteja inteiramente adequado ao material empírico e à experiência etnográfica, com certeza se apresenta mais apropriado do que o título indicado no exame de qualificação. Agradeço ainda pelas sugestões sobre o estilo de escrita, particularmente à minha tentativa (vã, às vezes) de recriar no texto minhas experiências me valendo também do discurso indireto livre, além da sugestão de uma bibliografia que serviu de fonte inspiradora para a escrita deste trabalho. Agradeço à professora Suzel Ana Reily, por ter aceitado o convite para fazer parte da banca examinadora na defesa e pelas valiosas contribuições durante sua arguição, muitas das quais procurei incorporar nesta versão final do trabalho. Espero ter sido capaz de reparar de forma satisfatória algumas das fragilidades e dubiedades apontadas no texto. Agradeço ao Leonardo Pires Rosse, pela leitura tão cuidadosa que fez da tese como membro suplente da banca, trazendo importantes sugestões para esta versão final do trabalho. Agradeço especialmente à professora Rosângela, que confiou no projeto e aceitou me orientar nesta pesquisa. Com uma orientação séria e serena, tive a sorte de receber sugestões que foram verdadeiras pedras preciosas para muitos dos desdobramentos deste trabalho, pois em cada pequeno comentário seu eu vislumbrava a possibilidade de desenvolver um capítulo inteiro sobre a questão que me era apresentada. A ela devo, por exemplo, o desenvolvimento de todo o capítulo que discute a questão estruturalista na parte inicial do trabalho, entre tantos outros, de modo que, se as “pedras preciosas” que recebi durante a orientação não foram bem “lapidadas”, cabe unicamente a mim a responsabilidade de não as ter bem aproveitado. Agradeço ao Geraldo Donizete Alves “Pacheco” (in memoriam), ao Índio Cachoeira (in memoriam) e ao João Batista (in memoriam), meus amigos violeiros e foliões que partiram para o plano espiritual durante a realização desta pesquisa e cujos ensinamentos musicais e humanos sempre levarei comigo. Agradeço infinitamente à minha amada mãe, que algumas vezes contribuiu com as despesas que tive para realização deste trabalho e sempre me incentivou nos estudos musicais, sendo a principal responsável pela possibilidade de concluir mais esta etapa. Agradeço, por fim, aos meus pais, amigos e familiares, que tantas vezes me tiraram de trás da mesa onde escrevi a maior parte do texto para me fazer viver um pouco além da janela da sala. Agradeço especialmente à minha tia Miraci Solange (in memoriam) e à minha avó, a Dona Bia (in memoriam), que foram habitar com Cristo durante a realização desta pesquisa e cujos traços caipiras estão fortemente presentes em todo o trabalho; ao inusitado e magnífico Museu do Esquecimento, minha “válvula de escape” nos momentos de crise durante a escrita; e às lindas crianças que fazem parte da minha vida: meus sobrinhos Gabriel e Nícolas, minhas sobrinhas Marjorie, Alice, Melissa e Beatrice, e à minha querida Cecília. Aos pequenos e às pequenas, em quem procuro me espelhar todos os dias, obrigado pelo tão agradável e estranho sentimento, que me faz sentir criança, e adulto ao mesmo tempo. De Pirenópolis fui para Mossâmedes, onde pesquisei outra “Festa do Divino” e onde saí em jornada, pela primeira vez, com uma Companhia de Foliões de Santos Reis. Foi quando eu comecei a aprender que por debaixo do folclórico, como nós chamamos o que vemos, existe a devoção, como o povo chama o que faz. Foi ali que reaprendi a compreender a cultura popular do ponto de vista dos seus próprios praticantes. Este é o aprendizado mais difícil, porque ele converte o pesquisador em participante e o cientista em crente. Assim eu comecei a negar, com a lição dos lavradores do interior de Goiás, quase tudo o que havia aprendido com os professores universitários do Rio de Janeiro. CARLOS RODRIGUES BRANDÃO, 1981 Resumo O presente trabalho apresenta, a partir de uma abordagem etnográfica, alguns aspectos do universo social e musical dos foliões de reis do sul de Minas Gerais, especificamente de treze companhias pertencentes aos municípios de Alfenas e Fama. A jornada desses grupos (nome dado ao trabalho religioso de culto e adoração aos três reis magos) também foi acompanhada pelos municípios de Paraguaçu, Machado, Areado e Campos Gerais. Além de realizar uma breve revisão bibliográfica e uma discussão sobre as dimensões particulares e “universais” desta atividade religiosa, o trabalho também apresenta, de forma dialógica e articulada com algumas noções estruturalistas, uma possível fundamentação teórica para interpretar o mito de origem dos foliões, ancorada principalmente no caráter “simbólico” da viagem realizada pelos três reis magos. As relações sociais entre santo, devotos, foliões e moradores são descritas de modo a evidenciar um cenário dinâmico de contendas e reconciliações, como os preconceitos sofridos pelos foliões, a importância das relações de parentesco, a presença das mulheres nas companhias, o pagamento pelo trabalho dos foliões, os conflitos com a prefeitura, os tabus, as relações estabelecidas com o mundo espiritual etc. Sempre procurando realizar as descrições e análises a partir dos relatos dos foliões, o trabalho também traz algumas discussões acerca do processo pedagógico e da estrutura social do ritual, atentando para a musicologia presente nos hinos de reis e nos cantos de agradecimento. Por fim, o trabalho traz a descrição de uma festa de chegada e entrega da bandeira em uma comunidade rural, demonstrando a importância que as capelas dedicadas aos santos católicos possuem para os devotos, que diante da polarização entre campo e cidade e da diminuição na quantidade de companhias na região, se reinventam e se reestruturam para propagarem suas crenças e perpetuarem suas tradições religiosas. Palavras-chave: Festa religiosa brasileira; Culturas tradicionais no Brasil; Companhias de reis; Folias de reis; Hino de reis; Santos Reis; Catolicismo popular no sul de Minas Gerais. Abstract This work shows, from an ethnographic approach, some aspects of the social and musical universe of foliões de reis from the south of Minas Gerais, specifically from thirteen groups from Alfenas and Fama cities. The journey of these groups (name given to the religious activity of cult and worship to the Three Kings) was also discussed in Paraguaçu, Machado, Areado and Campos Gerais cities. Besides doing a brief bibliographical review and discussing the particular and general dimensions of that religious activity, this work also presents, in a dialogical and articulated way with some structuralist notions, a possible theoretical basis to the interpretation of the foliões myth origin, mostly based on the “symbolic” character of the Three King’s journey. The social relations between saints, devotees, singers and residents are also described in order to show an dynamic scenery of disputes and reconcilements, as well as the prejudices suffered by the foliões; the importance of kin relationships; the women presence in those groups; the payments given to the singers; the conflicts with the local government; taboos; the relations established with the spiritual world etc. This work also brings some discussions about pedagogical process and social structure of the rituals, always describing and analyzing the reports given by the foliões, also in accordance with the musicology found in the hinos de reis and cantos de agradecimento. Finally, this work brings the description of the arrival and delivery of the flag in a rural community, paying attention to the importance that the chapels dedicated to the Catholic saints have for the devotees, who face the polarization between countryside and city and the decrease in number of groups in the region, reinvent themselves and restructure to propagate their beliefs and perpetuate their religious traditions. Keywords: Brazilian religious holiday; Tradicional cultures in Brazil; Companhias de reis; Star singers; Hino de reis; Holy Kings; Popular Catholicism in the South of Minas Gerais. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Imagem Descrição Crédito Pg. 01 O estado de Minas Gerais [...] Autor desconhecido 30 02 O bastião Nivaldo com um casal [...] Cleiton Custódio 104 03 A Companhia Nossa Senhora [...] Cleiton Custódio 107 04 O bandeireiro José Célio [...] Cleiton Custódio 109 05 As mulheres também pulam [...] Cleiton Custódio 111 06 O bastião Wolney Vieira [...] Cleiton Custódio 115 07 Bastião da Companhia Estrela [...] Cleiton Custódio 118 08 À frente, Seu Miguel, organizador [...] Cleiton Custódio 137 09 À esquerda um ajudante [...] Cleiton Custódio 138 10 A Companhia Estrela do Oriente [...] Cleiton Custódio 140 11 A chegada dos foliões e dos bastiões [...] Cleiton Custódio 142 12 O celeiro do Sítio da Lage. Cleiton Custódio 143 13 Franscisco Noel, responsável [...] Cleiton Custódio 155 14 O embaixador Paulo Mathias [...] Cleiton Custódio 158 15 A família Noel: no centro e à direita [...] Letícia Garcia 160 16 A Companhia dos Noel sob um arco [...] Cleiton Custódio 169 17 Os foliões da Companhia dos Noel [...] Letícia Garcia 175 18 Os irmãos Luiz de Brito, Oswaldo [...] Letícia Garcia 182 19 Maria Consolita, a rainha [...] Cleiton Custódio 183 20 A bastiãzinha Camile Vitória [...] Letícia Garcia 184 21 A bastiãzinha Maria Vitória [...] Cleiton Custódio 186 22 À frente, o embaixador Carlos [...] Letícia Garcia 190 23 A Companhia Nossa Senhora [...] Rafael Marin 192 24 Os foliões João Santana [...] Cleiton Custódio 194 25 Companhia Sagrado Coração [...] Cleiton Custódio 205 26 Foliões da Companhia Sagrado [...] Cleiton Custódio 209 27 A Companhia Reis do Oriente [...] Cleiton Custódio 211 28 Os foliões na casa do devoto [...] Cleiton Custódio 213 29 O folião Miguel Rodrigues [...] Cleiton Custódio 215 30 Os foliões da Companhia [...] Cleiton Custódio 219 31 A comunidade rural [...] Autor desconhecido 222 32 O bastião da Companhia Reis [...] Cleiton Custódio 225 33 A Companhia Reis do Oriente [...] Cleiton Custódio 227 34 O bastião Álvaro Silva [...] Cleiton Custódio 231 35 O jovem Carlos, de apenas [...] Rafael Marin 233 36 A Companhia Sagrado Coração [...] Cleiton Custódio 236 37 Jovens bastiões da Companhia [...] Cleiton Custódio 243 38 Chegada da Companhia [...] Cleiton Custódio 245 39 Companhia dos Benedette [...] Cleiton Custódio 250 40 O cruzeiro e o coração [...] Cleiton Custódio 254 41 Os três bastiõezinhos [...] Cleiton Custódio 258 42 A Companhia da Irmandade [...] Rafael Marin 270 43 A Companhia Estrela Guia [...] Cleiton Custódio 271 44 Os foliões da Companhia [...] Cleiton Custódio 272 45 Um folião da Companhia [...] Cleiton Custódio 273 46 O bastião Tinho, responsável [...] Cleiton Custódio 284 47 Eu, Zé Messias, João Santana [...] Cleiton Custódio 291 48 O embaixador Paulo Mathias [...] Cleiton Custódio 295 49 O folião Sebastião Geraldo [...] Cleiton Custódio 297 50 O folião Valter, que faz a voz [...] Cleiton Custódio 300 51 Companhia Filhos da Cambraia [...] Rafael Marin 313 52 O folião Pedro Campos [...] Rafael Marin 316 53 A Companhia Santa Bárbara [...] Cleiton Custódio 319 54 O corredor por onde a Companhia [...] Cleiton Custódio 321 55 A bandeira da Companhia [...] Cleiton Custódio 324 56 Tião Lino, morador da comunidade [...] Cleiton Custódio 325 57 A capela Santa Bárbara. Cleiton Custódio 326 58 A capela dos Santos Reis [...] Cleiton Custódio 328 59 A companhia dos Santos Reis [...] Cleiton Custódio 329 60 O cinegrafista Cleiton Custódio [...] Rafael Marin 335 61 A Companhia da União em frente [...] Cleiton Custódio 338 62 O embaixador Wilson observando [...] Cleiton Custódio 339 63 Casas geograficamente dispersas [...] Cleiton Custódio 343 SUMÁRIO Introdução Estrutura do trabalho................................................................................................ 20 Aspectos gerais........................................................................................................ 24 O campo de pesquisa............................................................................................... 29 Os foliões................................................................................................................. 32 Os devotos............................................................................................................... 42 Os três reis santos.................................................................................................... 47 Metodologia............................................................................................................. 49 O escrever e o viver................................................................................................. 54 Em troca de que?..................................................................................................... 58 Parte I – O particular e o “universal” 1. Um estudo etnográfico entre folias e companhias................................................... 64 1.1. A moral terminológica e as três classes de foliões...................................... 65 1.2. O trabalho religioso de uma confraternização de fé.................................... 68 1.3. Um cenário heterogêneo de disputas e negociações.................................... 70 2. Os estudos sobre o culto de adoração aos Santos Reis............................................ 72 2.1. Uma reflexão sobre o particular e o “universal”.......................................... 77 2.1.1. Elementos “universais” em casos particulares....................................... 86 2.2. O sistema de trocas e as contribuições de outros estudos............................ 90 3. Uma interpretação da gênesis.................................................................................. 95 3.1. O mito de origem e a abordagem estruturalista........................................... 98 3.2. O bastião, marungo ou palhaço e suas funções............................................103 3.2.1. As variações sobre o simbolismo do bastião......................................... 110 3.3. O quarto mago e as variações sobre os três reis........................................... 119 4. A jornada: “representação” da viagem dos três reis?.............................................. 126 4.1. As noções de representação nas ciências sociais........................................ 129 Parte II – As relações sociais 5. Os preparativos para o trabalho religioso................................................................ 135 5.1. A saída da Companhia Estrela do Oriente.................................................. 139 5.1.1. A descoberta da estrutura musical dos hinos de reis..............................148 5.2. O primeiro almoço com os foliões............................................................... 149 5.2.1. O preconceito com o macarrão vermelho.............................................. 150 5.3. A primeira baixa de um folião..................................................................... 152 6. Um giro com os irmãos da Companhia dos Noel.................................................... 154 6.1. As relações de parentesco e o casamento das vozes.................................... 159 6.2. A tradição e a quebra do regulamento......................................................... 163 6.2.1. O consumo da cachaça........................................................................... 168 6.2.2. O silêncio do universo........................................................................... 170 6.3. A música sertaneja raiz................................................................................ 177 7. Uma mulher no comando: a Companhia Nossa Senhora de Fátima....................... 181 7.1. As mulheres nas companhias....................................................................... 183 7.2. O trabalho dos foliões.................................................................................. 190 7.3. O auxílio do poder público.......................................................................... 196 8. A Companhia Reis do Oriente e a Companhia Sagrado Coração de Jesus........... 203 8.1. A multiplicação das companhias e a solidariedade entre os foliões............ 205 8.2. A lenda do fazendeiro malvado e seu boi brabo.......................................... 210 8.2.1. Um ano de mudanças e o reencontro com os foliões............................. 217 8.3. O projeto e a construção da Usina Hidrelétrica de Furnas........................... 219 8.3.1. Atravessando o “mar de Minas” com a companhia............................... 223 Parte III – O processo pedagógico 9. Os bastiõezinhos da Companhia Sagrado Coração de Jesus.................................. 230 9.1. Aprender ouvindo e tocando........................................................................ 234 9.2. Uma comunidade de prática.........................................................................238 10. Um giro em família com a Companhia dos Benedette............................................ 244 10.1. O arco de bambu e a corrente de papel crepom........................................... 246 10.1.1. A primeira amarração: a vitória dos Santos Reis.................................. 248 10.1.2. A segunda amarração: o Anjo Gabriel e a Virgem Maria.................... 250 10.1.3. A terceira amarração: o cruzeiro e a estrela guia.................................. 253 10.2. O recebimento de versos.............................................................................. 263 11. O encontro da Companhia da Irmandade com a Companhia Estrela Guia............ 269 11.1. O duelo de improviso dos bastiões.............................................................. 274 11.1.1. O abecedário e outras amarrações.......................................................... 279 11.2. O verdadeiro vencedor................................................................................. 287 Parte IV – A musicologia dos foliões 12. O hino de reis........................................................................................................... 290 12.1. O cordão e a sobreposição de vozes............................................................ 293 12.1.1. Do embaixador ao contra-fino............................................................... 297 12.2. A trova dos versos........................................................................................ 301 12.2.1. Improvisação e abdução......................................................................... 306 13. “Deus lhe pague a boa esmola”: os vários tipos de agradecimento......................... 309 13.1. Uma aula com a Companhia Filhos da Cambraia...................................... 310 Parte V – O fim da jornada 14. A chegada e entrega da bandeira da Companhia Santa Bárbara............................ 318 14.1. Na capela Santa Bárbara.............................................................................. 323 14.2. A capela dos Santos Reis............................................................................. 327 15. À procura da Companhia da União......................................................................... 332 15.1. O encontro e a chegada................................................................................ 335 16. Algumas interpretações do apocalipse.................................................................... 340 16.1. A roça e a cidade.......................................................................................... 342 16.1.1. O centro e a periferia..............................................................................346 16.2. A diminuição no número de companhias.....................................................348 Considerações finais.......................................................................................................... 353 Referências bibliográficas................................................................................................. 358 Glossário............................................................................................................................. 365 Apêndice A – Transcrição................................................................................................. 367 Apêndice B – Conteúdo do DVD...................................................................................... 370 19 – INTRODUÇÃO – Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar. Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo. Entendo bem o sotaque das águas Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim um atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática. Só uso a palavra para compor meus silêncios. MANOEL DE BARROS 20 Estrutura do trabalho Este trabalho apresenta, a partir de uma abordagem etnográfica, alguns aspectos do universo social e musical dos foliões de reis do sul de Minas Gerais, especificamente de treze companhias pertencentes aos municípios de Alfenas e Fama. A jornada dos grupos com quem trabalhei também foi acompanhada pelos municípios de Paraguaçu, Areado, Campos Gerais e Machado. No decorrer do trabalho faço uma breve revisão bibliográfica acerca dos estudos sobre esta prática religiosa, além de discutir seu caráter “simbólico” e as relações sociais nela presentes, sempre procurando realizar as análises a partir dos relatos dos próprios foliões. O trabalho também traz algumas discussões sobre o processo pedagógico desta prática sagrada, além de atentar para a musicologia presente nos hinos de reis e nos cantos de agradecimento. Ao final do trabalho descrevo a chegada e entrega da bandeira de uma das companhias em uma comunidade rural, atentando para a importância que as capelas dedicadas aos santos católicos possuem para os devotos e foliões, que diante da polarização entre campo e cidade e da diminuição na quantidade de companhias na região, se reinventam e se reestruturam para propagarem sua fé, suas crenças e para perpetuarem suas tradições religiosas. Um dos dilemas durante o processo de escrita deste trabalho foi a possibilidade de escolher uma das treze companhias de reis que fizeram parte da pesquisa e acompanhar mais de perto exclusivamente sua trajetória, na tentativa de aproximar meu texto etnográfico de uma descrição analítica mais minuciosa. Esta opção (aliás, de difícil decisão) foi, a princípio, deixada de lado, pois acreditava que, ao privilegiar uma das treze companhias na descrição etnográfica, estaria relegando as demais companhias a um segundo plano de evidência e, ao mesmo tempo, de importância. Isto fez com que eu estruturasse o texto de modo a contemplar todas as treze companhias no trabalho, dedicando ao menos um capítulo para cada uma delas e, em alguns casos, um mesmo capítulo para duas companhias. Assim, a saída que achei para este impasse foi fazer com que em cada um dos capítulos sobressaíssem algumas questões que se mostraram naturalmente mais evidentes e relevantes em cada uma das treze companhias. Exemplifico: eu poderia apresentar e discutir a questão da aprendizagem através de minha experiência com qualquer uma das treze companhias. No entanto, este foi um tema que se apresentou de forma muito mais evidente durante minha experiência com a Companhia Sagrado Coração de Jesus, de Alfenas, e por isso me utilizo principalmente dos relatos dos foliões desta companhia para discutir esta questão. Da mesma forma, eu poderia apresentar e discutir sobre a importância das relações de parentesco para o casamento das vozes através de 21 qualquer companhia, mas este assunto foi tão claramente mais reiterado durante meu convívio com os foliões da Companhia dos Noel que me utilizo desta companhia como “tipo ideal” (WEBER, 1999) para apresentar e discutir esta questão. É evidente que esta estrutura não é rígida e que os relatos não estão separados em capítulos estanques, tendo em vista que em um mesmo capítulo há relatos de foliões de outras companhias. Mas, apesar do caráter dialógico e polifônico que procurei dar ao texto (BAKHTIN, 1981), é possível perceber de forma mais ou menos clara minha tentativa de evidenciar e discutir determinadas questões em cada capítulo a partir de uma companhia específica, privilegiando-a em detrimento das demais. Por outro lado, apesar desta minha tentativa de equalizar a importância e a relevância etnográfica das treze companhias no decorrer do trabalho, o aprofundamento na discussão de certas questões fez com que algumas companhias se sobressaíssem mais do que outras no texto, ganhando maior destaque na descrição e, consequentemente, como resultado de minha experiência etnográfica. Isso foi algo que aconteceu de forma tão natural que, justamente por isso, acredito que esta aparente desproporção do espaço no trabalho dedicado às diferentes companhias não tenha comprometido nem o conteúdo em si e nem minha intenção inicial, de trazer ao texto, de forma mais equilibrada possível, as treze companhias com quem trabalhei. * * * O trabalho possui dezesseis capítulos divididos em cinco partes, inauguradas por uma introdução e encerradas com uma breve consideração a guisa de conclusão. Na introdução apresento o caráter extenuante e laborioso da jornada em louvor aos três reis magos e sua intrínseca relação com a dimensão sagrada da vida dos fiéis e devotos, que atinge de modo transcendental também a concepção musical dos foliões, traçando um panorama geral sobre o que fazem e no que acreditam. A seguir apresento brevemente o campo onde foi realizada a pesquisa, situando-o geograficamente no território brasileiro e apontando alguns de seus aspectos naturais, econômicos e sociais. Ainda nesta parte introdutória apresento alguns dos principais sujeitos da pesquisa, com especial destaque para os embaixadores e para os foliões organizadores e responsáveis pelas companhias estudadas. Nas últimas partes desta seção introdutória trago uma breve reflexão sobre os procedimentos metodológicos utilizados (em especial sobre minha inserção na rede de sociabilidade dos foliões), sobre meus dilemas no processo de escrita e sobre as contribuições que a pesquisa pode trazer às companhias. 22 A primeira parte, intitulada O particular e o “universal”, possui quatro capítulos. No primeiro deles procuro apresentar, de forma mais detalhada e priorizando os relatos dos foliões, o quanto o campo em estudo se apresentou dinâmico, heterogêneo, algumas vezes contraditório e constantemente mediado por disputas e negociações, evidenciando também as disputas terminológicas entre os foliões e, conexamente, o caráter solidário e confraternal do trabalho religioso de adoração aos três reis magos. No segundo capítulo faço uma breve revisão bibliográfica, onde apresento alguns estudos já realizados sobre o tema e algumas de suas principais contribuições, com destaque para a polarização existente entre as noções de particular e “universal” e para o sistema de trocas e de reciprocidade da atividade religiosa dos foliões. Inspirado por uma abordagem estruturalista, o terceiro capítulo discute o mito de origem dos foliões e as variações existentes em dois importantes personagens do ritual (os bastiões e o quarto rei mago), colocando a possibilidade deste mito de origem ser um dos alicerces fundadores e motivadores para a perpetuação da jornada religiosa. O quarto capítulo apresenta esta atividade sagrada como “representação” simbólica do mito de origem e levanta, de forma sucinta, uma discussão acerca da noção de representação nas ciências sociais. A segunda parte, intitulada As relações sociais, também possui quatro capítulos. No quinto capítulo apresento, de forma mais descritiva, os preparativos para o trabalho religioso a partir do convívio com a Companhia Estrela do Oriente, com a qual pude verificar alguns dos procedimentos de sua retirada no ano de 2015, precisamente em meu primeiro dia de trabalho de campo. Neste capítulo também apresento o conflito existente entre foliões e moradores não devotos, calcado principalmente no preconceito em relação à noção de macarrão vermelho, e algumas das disputas surgidas entre os próprios foliões da companhia, além da descoberta da estrutura que rege a cantoria em responsório dos hinos de reis. No sexto capítulo apresento, a partir de minha experiência junto da Companhia dos Noel, a importância que os foliões dão para as relações de parentesco, principalmente no que diz respeito ao “casamento” das vozes, e as diferentes formas com que os foliões lidam com algumas restrições, como o consumo da cachaça e as singularidades dos cantos aos espíritos dos falecidos. Ao final desse capítulo faço uma breve discussão sobre a execução do repertório “sertanejo raiz” pelos foliões, sua relação com os hinos de reis e sua importância na sociabilidade. O sétimo capítulo busca demonstrar a importância das mulheres nas companhias a partir de minha experiência com a Companhia Nossa Senhora de Fátima, bem como as diferentes formas como os foliões responsáveis pelas companhias lidam com a questão do pagamento de diárias para os foliões contratados e as relações, por vezes tensas, estabelecidas com o poder público. No oitavo e último capítulo 23 retomo, de forma mais apurada, a complementar relação de conflito e solidariedade entre os foliões, tendo como protagonistas a Companhia Reis do Oriente e a Companhia Sagrado Coração de Jesus, de Fama. O capítulo evidencia a capacidade de manutenção do trabalho religioso por parte dos foliões mesmo em períodos de crise, algo possível, sobretudo, através da solidariedade, virtude dotada de valor singular para muitos devotos. Ao final discuto os impactos da Usina Hidrelétrica de Furnas na vida dos moradores da região e o papel social e econômico que a represa desempenha hoje na vida e nas relações sociais de alguns foliões. A terceira parte, intitulada O processo pedagógico, possui três capítulos. No primeiro deles apresento, a partir de minha experiência com a Companhia Sagrado Coração de Jesus, de Alfenas, uma descrição e uma discussão sobre os processos de ensino-aprendizagem dos jovens bastiões e sua passagem para a condição de foliões, articulando este processo com a noção de comunidade de prática e atentando para sua importância na perpetuação da tradição. No décimo capítulo me proponho a descrever, de forma mais apurada e a partir da experiência junto da Companhia dos Benedette, os principais elementos rituais utilizados nesse processo pedagógico, como os arcos de bambu, as anunciações e as amarrações. Ainda nesse capítulo, estipulo a importância da noção de recebimento de versos enquanto categoria nativa e retomo a finalidade pedagógica da prática declamatória na formação social e musical dos foliões mais jovens. O décimo primeiro capítulo apresenta o encontro entre a Companhia da Irmandade e a Companhia Estrela Guia, onde descrevo o duelo de improviso travado entre seus bastiões e o abecedário, etapas rituais que, de certa forma, consagram a formação dos foliões. A quarta parte, intitulada A musicologia dos foliões, possui dois capítulos. No primeiro deles apresento alguns aspectos constituintes dos hinos de reis e sua estrutura musical, como a sobreposição de vozes, as funções dos cantadores, as dificuldades na arte da improvisação, as diferentes modalidades de versos e as várias temáticas das cantorias. O segundo capítulo traz os vários tipos de cantos de agradecimento, principalmente a partir da experiência junto dos foliões da Companhia Filhos da Cambraia e da Companhia dos Santos Reis. Estes capítulos vêm acompanhados de transcrições musicais destas duas formas de cantos, buscando mostrar algumas de suas características musicais e o quão diversos são os cantos de agradecimento. A quinta e última parte, intitulada O fim da jornada, possui três capítulos. No décimo quarto descrevo a chegada e a entrega da bandeira feita pela Companhia Santa Bárbara na comunidade rural sede da companhia, assim como as particularidades que existem na forma com que cada companhia faz sua chegada, sua entrega da bandeira e sua festa. Nesse capítulo também apresento a importância dada pelos foliões e devotos às capelas dedicadas aos seus 24 santos de devoção, a exemplo da capela de Santa Bárbara e da capela dos Santos Reis. No penúltimo capítulo descrevo a chegada para a janta feita pela Companhia da União no último dia da jornada de 2015 e a experiência vivida em uma das comunidades rurais da região junto desta companhia. Por fim, associando as chegadas de entrega da bandeira destas companhias com as comunidades rurais, busco estabelecer algumas relações entre campo e cidade, centro e periferia, a diminuição no número de companhias em sua relação com estas comunidades rurais e a dupla e dúbia interpretação dos foliões acerca da proximidade do fim da tradição na região: de um lado, a ideia de que ela entrou em um inevitável processo de extinção; de outro, a crença na capacidade regenerativa da tradição através de sua permanente transformação. Aspectos gerais Uma das várias alterações feitas no texto desde o exame de qualificação, que acredito ser importante mencionar aqui, foi a de deixar de tratar o trabalho de culto, louvor e adoração aos três reis magos como festa. Evidentemente que existem, dentro das várias etapas rituais da jornada religiosa das companhias, momentos festivos de lazer e descontração, os quais estão muitas vezes tão imbricados com o culto devocional que parecem ser (e muitas vezes o são) uma coisa só. Mas creio que o termo trabalho, acrescido do adjetivo religioso, esteja mais de acordo com o que fazem os foliões e também mais próximo da forma como eles próprios encaram suas atividades devocionais. O termo trabalho evoca também a ideia de esforço, ou seja, de realização de algo que não é muito simples e fácil de fazer. Em outras palavras, um conjunto de atividades realizadas com muito empenho e dedicação por um grupo de pessoas com o objetivo de se atingir uma meta. O trabalho de adoração aos três reis santos exige dos foliões muito suor, um grande esforço físico e uma dose de energia que não encontramos em qualquer pessoa. Como me disse certa vez o folião Luiz dos Anjos Anacleto, “pra nós aqui que trabalhamos é mais fácil tirar uma tarefa no roçado do que sair em uma companhia de reis”. Essa frase evidencia bem o desgaste físico que uma jornada requer dos foliões. Neste mesmo sentido, tratar esta atividade religiosa dos foliões no sul de Minas Gerais como mera manifestação cultural, artística, musical, religiosa e folclórica talvez seja reduzi-la a rótulos que provavelmente não dão conta de abarcar a infinidade de dimensões sociais nela presentes, afinal, “a Folia de Reis é um exemplo privilegiado da complexidade de símbolos e de práticas do catolicismo popular” (BRANDÃO, 1981: 36), uma prática encontrada com particularidades regionais em todo território brasileiro e considerada por um grande número 25 de foliões e devotos como um importante símbolo do catolicismo popular e da cultura tradicional. No entanto, para além das idiossincrasias encontradas regionalmente (de ordem estética, performática, formal, estrutural, musical etc.), estas diferentes práticas devocionais de culto e louvor aos três reis magos mantêm, em suas várias configurações regionais, um caráter predominantemente sagrado, religioso e extramundano, ou seja, a crença dos devotos e foliões em Jesus Cristo e nos magos que o visitaram quando de seu nascimento. Os milagres, como veremos, assumem um papel central na atividade devocional dos devotos e foliões, e geralmente são interpretados como sendo enviados pelo próprio santo ou por Jesus Cristo. Enquanto alguns devotos acreditam que o santo possui certa autonomia para realização dos milagres, outros acreditam que os três reis atuam apenas como mediadores entre os fiéis e o filho de Deus. O folião José Ailton de Paula, por exemplo, me contou que chegou a ver vários milagres realizados pelos três reis santos, “de a pessoa receber o milagre aqui agora. Fazia aquela intenção ali, com fé, chorando e a companhia de reis saía, andava uma hora, duas horas e a pessoa já ia atrás. Quando a gente ia ver a pessoa já tinha recebido o milagre e tava chorando”. Já o folião Sidnei Benedetti acredita que “santo nenhum faz milagre, mas eles intercedem por nós. Quem faz milagre é só o Senhor Jesus Cristo. Os santos eles apenas intercedem pela gente”. O santo e Jesus Cristo são duas faces da mesma moeda. Os três reis magos, neste sentido, não dividem com Jesus Cristo apenas os panos e estampas das bandeiras, mas dividem também um papel crucial no imaginário dos devotos e foliões como autores ou mediadores dos milagres. É neste sentido que, ainda em se tratando de um catolicismo dissociado dos cânones oficiais e ortodoxos do catolicismo oficial, tem boa parte de sua fundamentação sagrada e devocional baseada em passagens bíblicas1, em especial aquelas que se referem ao nascimento de Jesus Cristo, à visita dos magos do Oriente, à fuga para o Egito e à matança dos inocentes2. O desejo de apreender mais sobre o nascimento de 1 As boas-novas sobre Yeshua, o Messias, contadas por Mattityahu (Evangelho Segundo São Mateus) é o único livro bíblico que faz referência à viagem, embora se refira aos viajantes como magos e não como reis, como são retratados na cultura popular: “Depois de Yeshua ter nascido em Beit-Lechem, na terra de Y’hudah, durante o reinado de Herodes, magos vindos do oriente chegaram a Yerushalayim e perguntaram: Onde está o recém- nascido rei dos judeus? Vimos sua estrela no oriente e viemos adora-lo” (Mattityahu 2:1-2). Estudiosos relatam que foi no séc. III que eles receberam o título de reis, talvez para confirmar a profecia do Livro dos Salmos (72: 11): “E todos os reis se prostrarão perante ele”. Nas demais referências bíblicas ao nascimento de Jesus não é mencionada a visita dos magos: no Evangelho Segundo São Lucas (1:2), nas Epístolas de São Paulo aos romanos (1:3), [...] aos gálatas (4:4) e em alguns livros do Antigo Testamento (Isaías 7:14, 9:6, 53:3-7 e Miquéias 5:2). 2 Oswaldo Elias Xidieh coletou, a partir de 1938, centenas de narrativas sobre estas passagens da vida de Jesus Cristo, muitas delas acrescidas de fatos e histórias não mencionadas nos evangelhos. No livro Narrativas Pias Populares, de 1967, o autor (1993: 37-44) transcreveu algumas narrativas com as temáticas da concepção, da anunciação e da fuga para o Egito. Para Alfredo Bosi (apud XIDIEH, 1993: 21), Xidieh “levanta a hipótese de uma continuidade subterrânea dessas figuras e casos exemplares desde os evangelhos apócrifos (o Evangelho Árabe da Infância, o Evangelho do Pseudo-Mateus, o Evangelho Armênio da Infância, o Evangelho Copta, o 26 Jesus Cristo, principalmente por parte dos bastiões, leva muitos deles para além das passagens sagradas contidas na Bíblia. O bastião Wolney, por exemplo, me contou que buscou livros até no Rio de Janeiro para aprender mais: “Aí peguei um livro que chamava O mártir do Gólgota. Esse livro não tem pra ele. É um livro do tamanho de uma Bíblia. Ele tem tudo, sabe? Desde os profetas, que começa lá na profecia do profeta Isaías, até a morte de Cristo”. O bastião Nivaldo, outro estudioso das escrituras sagradas, me contou com orgulho sobre o fato de ser o único bastião capaz de recitar o Salmo noventa e um inteiro e que até agora nunca viu nenhum bastião declamar um Salmo tão extenso: “Eu comecei com oito anos de idade e hoje eu tenho quarenta. Então nessa convivência eu sempre quis fazer mais e mais. Aprendia uma coisa e falava: ‘Não, eu tenho que aprender mais’. Fui aprendendo e hoje eu sei bastante coisa [...]”. No entanto, embora o estudo faça com que exista certo consenso por parte dos devotos e foliões sobre o nascimento de Jesus, existem também algumas divergências, muitas delas sobre os próprios reis magos que o visitaram3. Uma destas divergências diz respeito a qual dos três reis magos seria o rei negro, pois enquanto alguns relatos trazem Baltazar como sendo o rei negro (XIDIEH, 1993: 37), outros afirmam que se trata de Belchior, como me contou o folião Luís de Brito: “Gaspar e Baltazar queriam dar um nó no Belchior pra eles serem os mestres, né? Por ele ser preto os outros dois desfizeram do Belchior, mas não adiantou”. Outra divergência (ou variação) diz respeito ao nome de Belchior, sendo este rei mago comumente também chamado de Melchior ou simplesmente de Brechó. Evangelho de São Tomé...), que a Igreja não incluiu no seu cânon, embora desfrutassem de larga aceitação popular nos primeiros séculos, até certos prolongamentos no Alcorão; daí, por vias de transmissão oral, teriam chegado à cultura popular ibérica e brasileira. O fato historicamente constatável é que permaneceram”. 3 O Evangelho Segundo São Mateus também não se refere a três magos, mas sim a uns magos, que viajaram até Jerusalém para visitar e presentear com ouro, incenso e mirra o menino Jesus recém-nascido. Acredita-se que a referência a três magos se deve ao fato de terem sido três os presentes mencionados no evangelho. Os nomes Gaspar, Baltazar e Belchior (ou Melchior) atribuídos aos magos na cultura popular também não são citados no evangelho, ainda que possuam referências em obras de teólogos do início da Era cristã, a exemplo do tratado Excerpta et Colletanea, do monge inglês Beda, o Venerável (673-735), que afirmou que: “Belquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus; Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio; e Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”. Acredita-se que foi por volta deste período que eles foram reconhecidos como reis de três nações diferentes, justamente para simbolizar a adoração de Jesus por todos os povos: Belchior rei da Pérsia, Gaspar rei da Índia e Baltazar rei da Arábia. Em hebraico seus nomes significam rei da luz (melichior), o branco (gathaspa) e senhor dos tesouros (bithisarea). Existe uma lenda medieval que diz que os magos se reencontraram cerca de cinquenta anos após a visita a Jesus, na cidade turca de Sewa, onde faleceram. Mais tarde os corpos teriam sido levados para Itália, na cidade de Milão, onde ficaram até o séc. XII, antes do imperador germânico Frederico dominar a cidade e os levar para a catedral de Colônia, na Alemanha. Os turistas que ainda hoje passam pela catedral são informados de que ali estão as urnas mortuárias dos magos que visitaram o menino Jesus em Belém. Segundo o historiador André Leonardo Chevitarese, professor de História Antiga da UFRJ, os magos não passam de personagens criados pelo evangelista Mateus para fortalecer a simbologia presente no evangelho, não havendo evidências históricas sobre a existência deles. Quanto aos corpos, o teólogo Jaldemir Vitório, do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus de BH, afirma que certamente não são os magos que estão enterrados naquela catedral. 27 Ainda que um conhecimento mais profundo e detalhado das escrituras sagradas seja de domínio exclusivamente dos bastiões e embaixadores, responsáveis pelas declamações e pela trova dos versos, a crença e a fé dos demais devotos se baseiam igualmente nos escritos dos evangelhos, responsáveis por sustentar toda a tradição religiosa do trabalho devocional de culto e adoração aos Santos Reis. Além da tradição religiosa, os escritos sagrados dos foliões também sustentam sua tradição musical, pois assim como existe a fé na viagem que os três reis magos fizeram do Oriente para visitar o menino Jesus em Belém, existe também a crença de que eles teriam atravessado todo o deserto em uma comitiva, ou seja, na companhia de companheiros e vassalos, evitando os ataques de beduínos e saqueadores e sempre cantando entre si. É esta crença que sustenta a justificativa de utilizarem cinco, seis e às vezes até sete vozes diferentes no canto em responsório das companhias de reis. Estas vozes seriam, neste sentido, uma representação das vozes que os três reis magos supostamente teriam feito com sua comitiva durante a viagem pelo deserto. O capitão João Benedette, por exemplo, me disse que “são sete vozes. Por isso que eu te falo que os reis, quando viajaram, eles saíram cantando em três, mas conforme eles foram andando eles foram evoluindo e o pessoal foi indo com eles. [...] Eles saíram em três e de repente eles estavam em sete vozes”. * * * No sul de Minas Gerais, a atividade religiosa das companhias de reis se inicia dia 25 de dezembro (acreditado como sendo a data do nascimento de Jesus Cristo4) e vai até dia 06 de janeiro (Dia de Santos Reis5), compreendendo doze dias de jornada. No entanto, embora o 4 A origem do Natal e a crença de que Jesus Cristo teria nascido no dia 25 de dezembro provém de uma bem sucedida incorporação ao recém-criado cristianismo de práticas devocionais ao deus mitra, ainda nos primeiros séculos da era cristã. A referência era um culto praticado no antigo Egito, onde se celebrava o Sol Invictus ou Natalis Invicti Solis (Festa do Sol Invencível ou Feliz dia do Sol Invencível), originalmente destinada para celebrar o renascimento anual do deus sol no dia 25 de dezembro após os três dias de sua “morte”, ocorrida no dia 21 de dezembro, com o início do solstício de inverno no hemisfério norte. Este culto teria sido posteriormente apropriado por outros povos, dentre os quais o romano, de onde teria surgido o mitraísmo: “O dies natalis é celebrado no solstício de Inverno, esta foi uma forma de utilizar a festa já existente, adaptando-o às necessidades desta nova religião [...]. Antes de Jesus já era celebrado, na mesma data, o Sol Invictus e, mais tarde, o nascimento de Mitra” (AFONSO, 2012: 32). Após a conversão do Imperador Constantino, o Grande (272-337), o cristianismo foi ressignificado pela Igreja Católica no século III para estimular a conversão dos povos tidos pagãos sob o domínio do Império Romano: “Várias camadas de civilização precedem o cristianismo e servir-lhe-ão de alicerces. Ao mundo política e administrativamente unificado e homogeneizado por Roma, corresponde uma sociedade cosmopolita em que todas as culturas com elementos e valores, às vezes antagônicos aos da velha ordem imperial, são carreados de todas e por todas as províncias” (XIDIEH, 1993: 73). 5 Historicamente, o trabalho religioso de adoração aos Santos Reis tem sua origem consensualmente atribuída à Península Ibéria (Portugal e Espanha), afirmação que será questionada no decorrer do trabalho. Em alguns países de tradição católica, principalmente aqueles de língua espanhola, o dia de Santos Reis é mais importante 28 giro das companhias se inicie na manhã de Natal, reunindo todos os foliões no local de onde a companhia fará sua saída, os preparativos e as reuniões geralmente começam alguns meses antes. No primeiro dia de jornada, assim que os foliões findam o ritual de saída da companhia, eles seguem a pé ou com algum meio de transporte para os bairros ou para as zonas rurais do município, onde farão seus giros e onde passarão o dia inteiro andando pelas ruas, cantando e tocando, aguardando que os devotos os convidem para entrar e cantar dentro de suas casas. O convite é para cantar o hino de reis e adorar o menino Jesus nascido e os três reis que estão no centro do presépio, que sempre é montado pelos devotos nesta época do ano. É também neste momento que muitos devotos pagam as promessas e os pedidos feitos ao santo no decorrer do ano, beijando a bandeira, esfregando-a sobre a cabeça para receber as benções e às vezes a levando para abençoar os cômodos da casa. Como forma de agradecimento os devotos geralmente oferecem às companhias algo a ser utilizado na festa que será realizada no dia do santo: um frango, um porco, um pacote de arroz, alguma quantia em dinheiro etc. Na impossibilidade de fazer alguma oferta os devotos podem simplesmente oferecer um café, um pedaço de bolo ou mesmo uma copo de água, para que a companhia possa seguir a jornada com seus foliões alimentados. Como retribuição canta-se o agradecimento, seguindo então para outras casas e outros bairros levando as bênçãos do santo. Quando o devoto que convida a companhia para cantar em sua casa está passando por alguma necessidade financeira e não tem condições de dar qualquer oferta ao santo, são os foliões quem dão algum donativo após terem cantado normalmente o hino de reis. Ao invés de recolherem a oferta do devoto, eles deixam algum mantimento que haviam recebido de outra casa. O ponto alto dos giros são os almoços e os jantares, pois geralmente são nestas casas que moram os devotos que receberam as maiores graças dos Santos Reis no decorrer do ano, verdadeiros milagres testemunhados por amigos e familiares, embora os almoços e jantares também possam ser oferecidos apenas para manter viva a tradição. Em todo caso, as cantorias nestas casas são mais demoradas, assim como devem ser previamente programadas. Algumas dessas chegadas são agendadas com até dois anos de antecedência pelos devotos que precisam oferecer uma refeição aos foliões para quitar sua dívida com o santo, sendo este agendamento crucial para que o devoto e as cozinheiras possam preparar a farta refeição que será oferecida aos foliões, já que as companhias saem em grupos de aproximadamente doze integrantes. Nas e mais comemorado do que o próprio Natal. Um dos argumentos dos foliões que justificam o fato do dia dos Santos Reis ser comemorado no dia 06 de janeiro é o de que este teria sido o tempo entre a visão que os reis tiveram da estrela que anunciava o nascimento de Cristo e o tempo de viagem do Oriente até Belém. Ou seja, os reis magos teriam levado doze dias de viagem pelo deserto até o local onde Jesus teria nascido. 29 chegadas do almoço e do jantar, a companhia geralmente é seguida por um grande número de devotos que querem ouvir o hino de reis, beijar a bandeira e almoçar junto com os foliões, já que nestas chegadas as refeições sempre são oferecidas a todos que estão presentes. Estas e muitas outras características do trabalho religioso de culto e louvor aos Santos Reis serão retomadas ao longo do texto, articuladas com os relatos dos próprios foliões. O que procurei fazer nesta breve introdução foi passar apenas os aspectos mais gerais da atividade religiosa, sem ainda me voltar às singularidades existentes nas várias etapas do ritual que são praticadas pelas treze diferentes companhias. Antes de chegarmos a estes desdobramentos, é importante apresentar, ainda que brevemente, o campo de trabalho, os sujeitos da pesquisa, a metodologia, os dilemas no processo de escrita e as contrapartidas destinadas às companhias. O campo de pesquisa Ainda que o trabalho de campo não tenha sido realizado em um único município, o “ponto de partida” para esta pesquisa e a maior parte da investigação foi feita em Alfenas, sul de Minas Gerais. Situado geograficamente na mesorregião e microrregião do sul e sudoeste do estado, o município possuía estimativa populacional de 79.707 habitantes para 2017, sendo a grande maioria residente na zona urbana – segundo dados do IBGE. Algo bastante curioso de se observar na cidade é que, embora existam características que lhe conferem um caráter aparentemente mais urbano6, uma observação mais detalhada nos permite enxergar uma forte prevalência de traços campesinos, a exemplo dos 56 bairros tidos por rurais pela prefeitura e o fato de seus dois distritos, Barranco Alto e Gaspar Lopes, também se situarem na zona rural. Distante cerca de 380 quilômetros da capital Belo Horizonte, Alfenas é um dos trinta e quatro municípios sul-mineiros banhados pela represa da Usina Hidrelétrica de Furnas e tem como municípios limítrofes Machado, Areado, Paraguaçu, Campos Gerais e Fama. Com dois ribeirões de médio porte (o Ribeirão Cacus e o Córrego da Laje), o município é banhado pela bacia hidrográfica do Rio São Tomé e pelo vale do Rio Sapucaí, proveniente da bacia do Rio Paraná. Com exceção do limite sul, a cidade é totalmente circundada pela represa de Furnas, responsável pela inundação de alguns de seus afluentes e onde desagua o Rio São Tomé, que atravessa a comunidade rural homônima e que está descrito na última parte deste trabalho. 6 A cidade possui dois cursos de medicina, um na Universidade José do Rosário Vellano (UNIFENAS) e um na Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL). Além destas Universidades, o município também conta com polos de centros universitários que oferecem cursos na modalidade EaD, como o Centro Universitário Internacional (UNINTER), a Universidade Norte do Paraná (UNOPAR) e a Universidade Paulista. Para muitos moradores, isto é sinal de progresso e desenvolvimento, caracterizando-o como um município predominantemente ”urbano”. 30 Como veremos nos relatos dos foliões, a represa desempenha um papel relativamente importante na vida social e econômica de alguns moradores da região, assim como a atividade agropastoril, pois embora o café ainda seja o principal produto cultivado na agricultura, sendo consumido tanto internamente quando exportado para outras regiões do país, desenvolve-se também a cultura de outros produtos alimentícios (arroz, alho, batata-inglesa, feijão, milho, café, cana-de-açúcar7, mandioca, soja, tomate e frutas) e, no setor pecuário, uma atividade relativamente intensa de rebanho, utilizados tanto na produção de leite quanto como gado de corte. Esta forte presença da atividade pecuária na região eu pude perceber sempre que estava com a Companhia Nossa Senhora de Fátima na jornada em meio às comunidades rurais do município, pois era nestes momentos que a foliã Maria Consolita, organizadora da companhia, olhava para o gado e me dizia em tom saudosista que havia nascido “no meio de uma boiada”. O estado de Minas Gerais e, no destaque, o município de Alfenas dentro do estado. 7 Nos últimos anos a economia sucroalcooleira tem se expandido de forma vertiginosa na região, alterando significativamente a paisagem das zonas rurais devido ao arrendamento de terras realizado junto a pequenos agricultores. Tal expansão está, em grande parte, associada às atividades da Usina Monte Alegre, situada no município vizinho de Monte Belo, que arrenda terras de pequenos sitiantes para o plantio de cana-de-açúcar. 31 No que diz respeito à topografia do município, ela pode ser exemplificada por uma frase do folião Sidnei Benedetti, organizador e responsável pela Companhia dos Benedette, que me contou que nasceu “no pé de uma serra” em um bairro rural da cidade. Assim como toda a região, o município de Alfenas é marcado por um relevo predominantemente ondulado com pontos de alternância com um relevo plano e montanhoso, embora nas zonas rurais a paisagem montanhosa seja ainda mais acentuada. Esta paisagem que envolve a cidade e praticamente toda região vem caracterizada pela sucessão de morros e garupas pelo menos desde a cidade de Poços de Caldas, circundando também toda a bacia do Rio Grande e do Rio Sapucaí, cujos alguns afluentes foram inundados pela represa. Já o solo é marcado pela terra vermelha8, citada por alguns foliões como uma das riquezas naturais da região. Na área industrial tanto Alfenas quanto outros municípios da região vêm consolidando vocação para o setor têxtil. O bastião Domingos Wolney Vieira, por exemplo, é proprietário de uma pequena empresa no município vizinho de Paraguaçu: uma oficina de tapeçaria que fabrica sofás e reforma móveis usados. Mas, no caso de Alfenas, o município conta com um distrito industrial que é um dos maiores do sul do estado e agrega quase todo setor industrial da cidade, com indústrias de grande e médio porte que atendem tanto parte do diversificado comércio varejista da cidade quanto de outros municípios da região. No que diz respeito ao aspecto religioso, o município congrega cinco paróquias, vinte capelas e quarenta pastorais, além de outros movimentos religiosos e irmandades. Apesar da forte presença de igrejas evangélicas e de terreiros de umbanda e candomblé, o catolicismo ainda é a religião mais presente e a Igreja São José e Dores a mais tradicional da cidade. As atividades religiosas do catolicismo popular, do qual o trabalho religioso de louvor aos Santos Reis faz parte, são igualmente numerosas. Além da tradição de reis, que acontece anualmente entre os meses de dezembro e janeiro, podemos citar a Festa São José e Dores, que ocorre em março; a Festa de São Francisco, que ocorre em junho em frente à capela São Francisco; a Festa de São Pedro e Senhor do Bom Jesus, em junho; a Festa de Nossa Senhora Aparecida, que ocorre em setembro/outubro em frente à Capela de mesmo nome; as Congadas e a Festa São Judas Tadeu, realizadas em outubro; a Festa de Nossa Senhora do Rosário, padroeira da cidade; além de outras festas tradicionais sem datas fixas. Muitas das atividades religiosas do catolicismo popular estão ligadas às zonas rurais do município, onde residem muitos devotos 8 A terra vermelha é descrita em muitas narrativas de música caipira como ouro vermelho ou terra roxa. O linguista Romildo SANT’ANNA (2000) observou que a utilização do termo terra roxa decorre de uma confusão feita pelos nativos do interior de São Paulo e Minas Gerais que, ao ouvirem migrantes italianos pronunciarem “terra rossa”, que em italiano significa “terra vermelha”, o traduziam literalmente por “terra roxa”. 32 dos santos católicos e onde muitas vezes são estabelecidas as sedes destes grupos. Embora existam muitos bairros rurais dispersos pelo município, estes geralmente são inseridos em um quadro oficial da prefeitura, onde são discriminadas treze comunidades rurais divididas em sete grupos, segundo classificação do Programa Saúde da Família Rural9. Foi nestas comunidades onde fiz minhas primeiras incursões de familiarização com o campo de pesquisa e onde comecei a desenvolver interesse pelo tema deste trabalho, ainda em meados de 2012. Após os primeiros contatos com alguns foliões e violeiros representantes dos grupos tradicionais da zona rural, minha rede de colaboradores foi aos poucos sendo estendida para a cidade, me levando curiosamente para o local de onde eu havia saído antes de começar a me interessar pelo tema. Isso se deu porque muitos destes músicos tradicionais residem na cidade, o que fez com que o recorte geográfico e espacial do trabalho de campo fosse misto, ou seja, entre o campo e a cidade, acompanhando a distribuição geográfica das companhias de reis e de seus foliões. A necessidade de trânsito entre o rural e o urbano decorre, portanto, da característica desta atividade religiosa na região, pois, assim como na prática não se promove uma divisão estanque de gêneros musicais entre sagrado (os hinos de reis) e profano (a música caipira e sertaneja de raiz), também não se aplica uma divisão destas práticas entre o campo e a cidade, já que elas trazem em si uma constante alternância do locus de atuação dos foliões. Os foliões A grande maioria dos foliões desta pesquisa reside na mesma região (em alguns casos, nas mesmas casas) onde nasceram. Alguns deles levam a música para além de suas atividades religiosas e devocionais, com uma carreira amadora que, em certos casos, chega a aspirar uma profissionalização no segmento da música caipira e sertaneja de raiz. Mas mesmo nestes casos são músicos que, de certa forma, vivem no anonimato e distantes das grandes gravadoras e da disseminação musical nos veículos de comunicação midiáticos. Com singularidades em seus modos de vida e em suas formas de coexistirem, estes artistas-foliões anônimos possuem uma profunda consciência do papel que desempenham na vida dos fiéis com quem convivem todos os anos. Uma consciência marcada por valores baseados principalmente na solidariedade e na caridade que, em muitos casos, se transforma verdadeiramente em amor ao próximo. 9 Em 2013 o município possuía os seguintes dados acerca destas comunidades rurais: Comunidades Espigão, Baguari e Harmonia: 76 famílias / 231 pessoas; Comunidades Coruja, Serrinha e Santa Maria: 127 famílias / 446 pessoas; Comunidade dos Bárbaras: 102 famílias / 231 pessoas; Comunidade Mandassaia: 104 famílias / 398 pessoas; Comunidades Matão e Esteves: 81 famílias / 295 pessoas; Comunidades São Tomé e Paineiras: 74 famílias / 251 pessoas; Comunidade Barranco Alto: 122 famílias / 470 pessoas. 33 No entanto, as virtudes evidentemente não excluem a posse de alguns vícios e defeitos tão característicos da existência humana: pequenas ambições circunscritas em seus círculos de convivência, vaidades, alguma inveja, desafetos e, quase sempre, um pouco de orgulho. Mas estas imperfeições estão quase sempre atreladas à capacidade de se arrepender ou de negociar uma remissão com o santo, como acontece com os milagres. No caso específico deste último, vale apontar que, além das refeições ofertadas às companhias como pagamento por uma causa alcançada, pode-se também saudar a dívida com o santo através de um voto ou homenagem. Assim como as companhias de reis no sul de Minas Gerais geralmente trazem em seus nomes algum tipo de homenagem à família ou à comunidade que deu origem ao grupo, à viagem realizada pelos reis magos, aos Santos Reis ou a algum outro santo católico, muitos foliões também trazem em seus nomes ou sobrenomes tais homenagens. Logo a seguir veremos o quanto são recorrentes entre os foliões sobrenomes como Aparecido, dos Reis, dos Santos, Divino, entre outros que indicam uma homenagem ou até mesmo o pagamento de alguma promessa pelos pais do folião utilizado como sublimação. Como uma marca ou um sinal, os sobrenomes em homenagem aos santos católicos se perpetuam através das gerações e, com eles, a devoção em seus protetores e o sentimento de obrigação a trabalhar (a vida inteira, em alguns casos) em favor das santidades que carregam em seus nomes. Infelizmente não será possível mencionar aqui todos os foliões com quem convivi nos últimos anos, de modo que apresentarei apenas aqueles que considero os mais representativos em cada companhia: os organizadores dos grupos, os embaixadores e aqueles responsáveis por me lançar na rede de sociabilidade nativa. No entanto, antes de apresentar estes foliões, julgo importante narrar um fato que exemplifica bem a forma como eles são vistos na cidade. Na noite do dia 04 de janeiro de 2018, dois dias antes de terminar o trabalho de campo para esta pesquisa e depois de ter passado o dia seguindo a Companhia Sagrado Coração de Jesus e a Companhia dos Santos Reis, me encontrei com um amigo no centro de Alfenas para conversarmos sobre o andamento de um trabalho no qual temos uma parceria. No meio da conversa contei-lhe como haviam sido meus últimos dias ao lado das companhias da cidade, enfatizando o quanto ainda era capaz de me surpreender mesmo depois de quase quatro anos acompanhando de perto o cotidiano e a rotina dos foliões durante suas jornadas. Ao ameaçar lhe contar uma das surpresas que tive na jornada deste último ano, fui interrompido pelo meu amigo com a seguinte frase: “E por acaso estas pessoas têm algo interessante a dizer?”. Sem o desdém e o desprezo com o qual a pergunta me foi dirigida, os foliões que apresento a seguir se dispuseram a me contar um pouco da história de suas vidas em relatos que não são apenas 34 dignos de interesse, mas também de zelo e atenção. As trezentas páginas que se seguem são, em certo sentido, uma resposta àqueles que têm alguma dúvida se os foliões de reis no sul de Minas Gerais têm ou não algo de interessante a nos dizer. * * * Maria Consolita da Silva nasceu “no meio da boiada” dia 17 de abril de 1941, no sítio Limeira próximo à Usina Ariadnópolis, região pertencente ao município de Campo do Meio e distante aproximadamente cinquenta e sete quilômetros de Alfenas. Sendo filha de sitiantes, aprendeu desde cedo a “fazer as coisas da roça” no sítio de seu pai, onde fabricava rapadura e polvilho. Saiu de lá com nove anos e aos doze já trabalhava como ajudante doméstica na casa de uma família em Alfenas, que ficou responsável pelos seus estudos na cidade. Aos dezesseis anos voltou para o sítio do pai e um ano depois estava se casando com um homem mais velho “para fazer o gosto da mãe”, que a levou para a capital fluminense e depois a abandonou em Petrópolis. Aos dezenove anos se mudou para São Paulo, cidade onde conheceu e viveu com o pai de sua única filha por sete anos: “Esse também me abandonou e eu não sei por onde ele anda”. Em 1965 teve sua única filha, Eliane Pinheiro, que aos cinquenta e três anos mora hoje em Santa Catarina e carrega, como sua mãe, um histórico de doenças vasculares. Em São Paulo trabalhou como faxineira, copeira e doméstica em vários bairros da capital (Casa Verde, Vila Mariana, Ipiranga, Pinheiros etc.), até que se mudou para Santo Amaro, onde trabalhou como faxineira e como enfermeira na Santa Casa do distrito: “As irmãs da Santa Casa viram que eu tinha vocação para enfermagem e me convidaram para ajudar como enfermeira. Eu não tinha nenhum estudo em enfermagem, mas até dentro de centro cirúrgico eu trabalhei”. Foi com um casal de enfermeiros com quem trabalhava no hospital que ela aprendeu a tocar viola caipira, com quem tocava e cantava em bares de Santo Amaro próximos da casa onde morava sozinha. Sua vida mudou radicalmente em 1973, quando um AVC e um infarto paralisaram o lado esquerdo de seu corpo e a deixaram por quase dois anos sem falar e andando com muita dificuldade, sendo obrigada a se aposentar por invalidez: “Até hoje tem muitas palavras que não consigo falar direito e ando com dificuldade. E na viola eu nunca mais peguei”. Em 1975, enquanto assistia o programa Viola, Minha Viola, viu uma dupla caipira cantando um hino de reis e se recordou da infância que havia passado no sítio de seu pai, quando este cantava os 35 hinos de reis junto dos seus irmãos durante o período de jornada das companhias: “Eu não lembrava mais da companhia do meu pai. Quando fui pra São Paulo esqueci da minha religião, porque trabalhava dia e noite. Só pensava em trabalhar”. Assim que viu a dupla caipira cantando o hino de reis na televisão ela se ajoelhou em frente ao aparelho e fez uma promessa aos Santos Reis e a Nossa Senhora Aparecida para que voltasse a andar e a falar, pois tinha uma filha de dez anos para criar. Caso fosse curada, se comprometeria em carregar a bandeira de Santos Reis à frente da companhia de seu irmão durante sete anos seguidos e faria sete romarias a pé: “Deu quinze dias minha perna e meu braço começou a mexer de novo e eu voltei a falar”. O milagre veio em quinze dias, mas o pagamento pelo milagre recebido só foi feito em outubro de 1991, quando voltou para Alfenas e por sete anos saiu à frente da companhia de seu irmão carregando a bandeira dos Santos Reis, período em que também fez seis romarias a pé de Alfenas para Aparecida do Norte e uma de Alfenas para Três Pontas. Após receber o milagre e antes de retornar para Alfenas, ainda voltou a trabalhar na capital paulista como auxiliar de serviços no escritório de uma distribuidora de bebidas, como faxineira em um hospital e por dezesseis anos como copeira no Banco Bandeirantes. Depois que voltou para Alfenas conheceu em 1999 o folião Oswaldo Luís de Brito, o Oswaldinho, atual embaixador de sua companhia e com quem foi casada por quase dez anos: “A companhia do meu irmão estava com dois foliões doentes e meu irmão estava precisando de folião, então a gente ficou sabendo que ele cantava e fomos buscar ele lá em Monte Belo pra ajudar a gente. Ele veio e trouxe seus irmãos pra cantar também”. Maria Consolita conta que, como o folião estava procurando emprego em Alfenas, ela acabou alugando um quarto em sua casa para ele, o que algum tempo depois resultou em uma união mais duradoura. A Companhia Nossa Senhora de Fátima foi deixada aos cuidados de Maria Consolita pelo seu irmão Albertino Gomes da Silva, falecido em 20 de agosto de 2009, e, desde seu falecimento, Oswaldinho a ajuda na organização e no comando como capitão. A união como marido e mulher durou até meados de 2007, quando o casal se separou e o folião decidiu voltar para Monte Belo: “Ele bebia e fumava muito e eu não gosto nem de bebida e nem de cigarro”. Nascido “um dia depois do dia de São João”, 25 de junho de 1967, Oswaldinho voltou para Alfenas somente três anos depois da separação “parecendo um mendigo”, recorda Maria Consolita: “Eu disse pra ele que se ele quisesse ele podia ficar no quarto aqui do fundo e me ajudar com as despesas da casa”. Oswaldinho já trabalhou como servente de pedreiro, soldador e borracheiro em Monte Belo e também no serviço de limpeza 36 da prefeitura de Alfenas, mas estava apanhando café quando Consolita me contou sua história em maio de 2017: “Hoje eu tenho ele igual um filho pra mim e ele parece que me tem como mãe também. Agora ele tá apanhando café na Usina Monte Alegre, daqui a pouco ele chega”. A Companhia dos Benedette foi criada em 1953 por José Benedette, primeiro capitão da companhia falecido em 1984. Assim que seu folião-fundador faleceu a companhia passou a ser assumida por seu irmão, João Batista Benedette. Nascido dia 31 de janeiro de 1949, no Bairro dos Viana (comunidade rural do município de Alfenas), o folião foi registrado na cidade vizinha de Fama, algo que “era muito comum naquela época. A gente nascia em um lugar, mas era registrado em outro”. Na roça onde nasceu João Benedette viveu até seus dezessete anos trabalhando na agricultura ajudando sua família, sendo com essa idade que se mudou para a cidade e passou a trabalhar como motorista de ônibus, atividade que exerceu a maior parte de sua vida. Foi ainda na roça quando pequeno que o folião conheceu e conviveu com Miguel Rodrigues, seu parceiro de hinos de reis e de música caipira. Em 2010 os dois formaram a dupla João do Carro & Boiadeiro, que já possui três CDs gravados com composições dos próprios cantadores. O folião Miguel Rodrigues, o Boiadeiro da dupla, nasceu dia 21 de setembro de 1955 na mesma comunidade rural que o parceiro, o Bairro dos Viana: “A gente nasceu e foi criado tudo junto, somos tudo primo. Ele é Benedette e eu sou Rodrigues, mas somos tudo primo”. Na roça onde eles moraram Miguel conta que “capinava o roçado pra plantar milho, mandioca, tomate e café. Trabalhei a vida inteira com roçado e andando com carro de boi. Só em 1989 comecei a trabalhar na prefeitura de Fama fazendo serviços gerais e continuo lá até hoje”. O folião me contou que, além de cantar reis e de atuar na dupla caipira com João Benedette, também já cantou algumas vezes em companhias do Divino, mas que são raros os anos nos quais os foliões se reúnem para sair em louvor ao Divino Espírito Santo: “Já cantei, mas companhia do Divino tem muito pouco por aqui. O povo sai só de vez em quando. Tinha um pessoal que saía, mas daí morreu um folião e o pessoal desgostou. Agora companhia de reis é mais tradição. Tem demais da conta”. Em 2014 João Benedette passou a responsabilidade da companhia ao sobrinho Sidnei Aparecido Dionízio Benedetti, atual organizador. Neto do fundador da companhia e sobrinho- neto de João Benedetti, Sidnei nasceu “no pé de uma serra” na zona rural de Alfenas no dia 07 de maio de 1979, em uma comunidade rural chamada Bairro das Tosses. Nascido e criado no 37 roçado, o folião trabalhou até os dezessete anos como agricultor, idade em que foi morar na cidade para trabalhar na construção civil, tendo voltado a trabalhar como agricultor apenas entre os anos de 2000 e 2002. Como muitos foliões, ele possui em seu sobrenome uma homenagem a uma das santidades católicas, algo que também passou para um de seus três filhos: Baltazar Teodoro Benedetti. Sidnei batizou seu filho mais velho com o nome de um dos três reis magos “por causa de um milagre recebido”. A própria tradição da companhia de sua família, que fez sua primeira jornada em 1950, não pode deixar de existir devido à promessa que o folião fez a sua avó antes de seu falecimento: “Eu prometi pra minha avó que cuidaria da bandeira da companhia todo ano e que nunca deixaria a companhia parar. E se Deus quiser ela não vai parar. Com Benedette ou sem Benedette ela vai continuar Benedette pro resto da eternidade”. Certo dia, quando tinha apenas seis anos, ele estava brincando com seu irmão e seu tio colocou os dois dentro de um curral para que os dois brincassem lá dentro, já que moravam na roça. Durante a brincadeira Sidnei caiu em cima do próprio braço e o fraturou: “Meu pai trabalhava e não podia me trazer pra cidade, só me trouxe depois de algum tempo. Quando cheguei o médico engessou meu braço e só depois de sessenta dias eu voltei no hospital. Tirei o gesso e meu braço não movimentou mais”. Sidnei conta que seu braço havia secado e que o próprio médico disse aos seus pais que o braço não movimentaria mais, pois tinha perdido um líquido existente na cartilagem responsável pelo movimento e que somente um milagre faria seu braço movimentar novamente: “O médico disse que eles na medicina não podiam fazer mais nada. Então eu continuei minha vida com meu braço seco e sem movimento”. Depois de alguns anos, quando estava fazendo uma chegada com a companhia na casa de uma devota no município de Fama, o folião foi andar numa estrada de terra debaixo de chuva e acabou escorregando no barro. Já no chão, um dos bastiões da companhia pisou sem querer em seu meu braço direito e, ao pisar, seu braço esquerdo esticou: “Eu não senti nada de dor. E no que ele esticou eu movimentei o braço, ergui o braço pra cima e gritei pra turma: ‘Meu braço movimentou’. Ninguém conseguiu fazer mais nada, foi só choro”. Segundo me contou o folião, após esse acontecimento ele soube que sua mãe, sua avó e sua tia haviam feito uma promessa aos Santos Reis para que seu braço voltasse a movimentar. Ou seja, o milagre recebido era fruto de uma tripla promessa: “Coincidentemente as três promessas eram a mesma, que enquanto existisse a Companhia de Reis dos Benedette eu ia sair na companhia. Santo não faz milagre, mas ele intercede por nós. E foi por intermédio dos Santos Reis que eu 38 recebi meu braço de volta”. O folião, que já foi agricultor e que hoje trabalha como mestre de obras na construção civil, diz que perdeu seu último trabalho registrado por causa da companhia de reis. “O patrão não me deixou sair e eu falei que ia sair. Quando voltei fui mandado embora devido a isso e até hoje eu estou trabalhando sem registro. Mas eu continuo firme nessa devoção. Enquanto estiver vivo vou levar essa tradição”. O folião Vicente Aparecido Moreira atualmente é o responsável e organizador pela Companhia Sagrado Coração de Jesus, de Alfenas. Nascido no dia 22 de janeiro de 1968, na zona rural do município de Monte Belo, o folião me contou que a vida toda fez “serviço de roça”, mas que nos últimos vinte anos mudou de profissão e passou a trabalhar na construção civil: “Eu fui criado sempre na roça tirando leite, tocando gado e mexendo com carro de boi, mas há uns vinte anos eu vim pra cidade pra começar a trabalhar como pedreiro. Já faz uns vinte anos”. Vicente é um grande conhecedor dos segredos que envolvem o plantio e a colheita dos principais produtos cultivados na região: café, arroz, batata, feijão, milho, mandioca etc. “Eu sei tudo de plantação: as datas de plantar, de colher, as luas e as qualidades da terra. Aqui a gente tem aquela terra vermelha, que é uma terra muito boa de plantar. Tem uns que chamam de terra cultura, terra roxa ou terra gorda. O que você cultivar nessa terra vinga e ela dá até sem adubo”. Sendo filho de folião, Vicente me contou que antigamente eram mais expressivos os trabalhos de culto e adoração a outros santos, mas que hoje algumas dessas práticas caíram em desuso. As companhias de São Gonçalo, por exemplo, da qual seu pai e seu tio eram “tiradores” (embaixadores), ainda sobrevivem graças a alguns foliões que persistem em manter viva a tradição, “mas o povo não mexe mais com isso. Lá na roça meu tio Vitor ainda oferece terço de São Gonçalo, ele que é o tirador”. Segundo me contou Vicente, a companhia de São Gonçalo “é três pessoas de lá e três pessoas de cá, cada um com uma viola. Meu tio cantava de lá e eu respondia de cá. Ele ainda faz as rezas pras almas também, é o único que mexe com essas coisas por aqui. Por acaso você já ouviu falar das rezas pras almas?”. O folião também me disse que foi ele quem trouxe a “letra do ABC” (o abecedário) para Alfenas, vindo das terras dos seus tios para lá de Alterosa. Vicente é o organizador e responsável pela companhia há cerca de quinze anos, cargo que assumiu depois que alguns de seus companheiros faleceram: “Eu cantava junto com o Zé Pereirinha, o Binha e o Custódio que já morreram. Eles foram morrendo, nós ficamos e eu passei a organizar a companhia, que na época nem tinha nome”. Depois de cumprir sua promessa por sete anos ele passou a reunir 39 e organizar o grupo: “Falei: ‘Ó Tião, eu vou organizar o negócio’. Então eu pegava o dinheiro das ofertas e comecei a comprar os uniformes. Aí o Binha morreu e então eu pedi pro Tião me ajudar a terminar de cumprir minha promessa. Sete anos”. O folião a quem Vicente se refere é Sebastião Antônio dos Santos, o atual embaixador da Companhia Sagrado Coração de Jesus, mais conhecido como Tião ou Tiãozinho. Nascido no dia 13 de junho de 1957, Tião me contou que começou a sair em companhias ainda quando criança: “Desde os meus sete anos eu nunca falhei nenhum ano, mas como embaixador eu comecei com dezessete pra dezoito anos”. O folião nasceu em uma das várias comunidades rurais entre os municípios de Fama e Alfenas, mais precisamente em um bairro chamado Barreiro, onde trabalhou na roça até seus dezoito anos, quando se mudou para a cidade e passou a trabalhar na construção civil: “Meus documentos são todos de Fama, mas eu nasci foi no meio entre Alfenas e Fama. Só com dezoito anos eu parei de trabalhar no roçado e fui pra cidade, daí comecei a trabalhar de pedreiro e mestre de obras”. Tião é pai de duas filhas e, embora seja embaixador há mais de cinquenta anos, está na Companhia Sagrado Coração de Jesus junto com Vicente há cerca de vinte anos: “Eu já conhecia o Vicente de muito antes, mas depois que eu dei uma ajuda pra ele poder cumprir sua promessa nós decidimos dar continuidade na companhia e estamos juntos até hoje”. Na região estudada existem dois grupos com o mesmo nome, a Companhia Sagrado Coração de Jesus de Alfenas, da qual Vicente e Tião fazem parte, e a do município de Fama. Esta última foi fundada pelo embaixador José Leal filho, nascido na zona rural de Alfenas e onde trabalhou como lavrador até meados de 1966, quando deixou o trabalho na agricultura e foi trabalhar como pescador profissional: “Na minha vida eu trabalhei quarenta e dois anos como pescador profissional, depois cansei e fui mexer com horta. Tenho minha chácara lá onde planto minhas verduras e até hoje vendo pra região inteira”. Zé Leal, como é mais conhecido, nasceu no dia 06 de setembro de 1938 e é pai de doze filhos, seis homens e seis mulheres. Desde 2008 o folião se dedica ao cultivo de verduras, legumes e outros tipos de hortaliças na cidade de Fama, onde possui uma pequena chácara e onde reside com sua mulher. Aos oitenta anos o folião me disse que vai para Aparecida do Norte em 2018 apenas por tradição: “A primeira vez que eu fui pra Aparecida do Norte a pé foi em 1988, pra cumprir uma promessa que eu tinha feito. Esse ano eu vou de novo, mas só por tradição. Não sei se vou conseguir fazer o trajeto todo andando, mas vou até 40 quando eu aguentar”. No dia 19 de maio de 2018 Zé Leal recebeu o título de embaixador mais antigo da região, dividido com outro embaixador de Paraguaçu: “Ele é mais velho do que eu, tem oitenta e quatro anos. Mas eu comecei a cantar reis primeiro”. Zé Leal é pai do folião Osmair Leal dos Reis, conhecido na região como Cantarelli e organizador e responsável pela Companhia Reis do Oriente. Cantarelli nasceu dia 09 de janeiro de 1968 em Alfenas e trabalhou a maior parte de sua vida como lavrador na roça e, posteriormente, como pescador profissional ao lado de seu pai. Desde 2017 Cantarelli é prefeito do município de Fama, cargo que ocupa com bons olhos dos demais foliões da cidade, que acreditam que sua eleição pode trazer melhorias para a tradição de reis no município. Quando o encontrei durante a jornada de 2016-2017, sabendo que ele havia acabado de ser eleito, perguntei se ele não devia estar trabalhando em seu gabinete na prefeitura ao invés de fazendo o giro com sua companhia: “Eu passei lá pra assumir o cargo no dia primeiro, mas só vou pra lá mesmo depois do dia seis, quando a gente terminar a jornada e depois que a gente acabar de cumprir as promessas do pessoal”. Rosário Rosa de Oliveira é o organizador e responsável pela Companhia Estrela Guia, sendo mais conhecido entre os foliões e devotos como Loro. Nasceu no município de Alfenas em 09 de outubro de 1951 e começou a trabalhar para os três reis santos vinte anos atrás. Embora tenha exercido várias atividades profissionais, trabalhou a maior parte de sua vida com loteamentos na região e como corretor de propriedades rurais. Há três anos se mudou da cidade de Alfenas para um sítio próximo às comunidades rurais Esteves e Matão, que ele chama de Sítio da Lage: “Faz três anos que eu saí da cidade pra vir morar na roça, mas esse ano (2018) eu vou voltar pra cidade. Antes de setembro eu já quero estar morando na cidade de novo”. Loro tem quatro filhos e seis netos, todos devotos dos três reis santos e que sempre o auxiliam no trabalho religioso. Miguel Geraldo da Silva nasceu no bairro rural Santa Bárbara no dia 07 de setembro de 1948 e desde criança segue o grupo de sua comunidade: “Eu tinha dez, doze anos. Era criança ainda, não sabia cantar, mas já acompanhava a companhia aqui do bairro”. Seu Miguel, como costumo chamá-lo, viveu sua vida toda na comunidade “dos Bárbaras” trabalhando como agricultor. Aposentado desde 2012 devido a um derrame, hoje se dedica a pequenas atividades agrícolas em sua propriedade rural. 41 João Vitor Donizete de Oliveira, mais conhecido como Tinho, nasceu dia 15 de maio de 1975 no município de Campos Gerais, mas mudou-se para Alfenas ainda criança, aos cinco anos de idade. Trabalhou a maior parte de sua vida na construção civil, como pedreiro, mas nos últimos anos abriu um pequeno estabelecimento comercial em frente sua casa no bairro Aparecida, um minimercado onde trabalha com sua mulher e onde vende alimentos e utensílios de uso doméstico. Tinho sai de bastião desde os cinco anos de idade e já está há dezoito anos na Companhia Estrela Guia, tendo assumido o posto de folião organizador em 2013. Francisco Batista dos Santos é o atual responsável e organizador da Companhia dos Noel e nasceu na comunidade rural Esteves (município de Alfenas) em 27 de junho de 1941: “Nasci num dia, mas fui registrado no outro. No meu documento tá que eu fui nascido dia vinte e oito, mas foi dia vinte e sete”. Como folião de reis, o cantador é mais conhecido na cidade como Francisco Noel, pelo fato de ser filho do folião Noel Dorico dos Santos, fundador da companhia. No entanto, o folião também é conhecido na cidade como Batistinha, codinome utilizado quando participa como cantador de duplas caipiras na região ou com seu Trio Coração de Ouro, grupo de música sertaneja raiz que possui certa notoriedade entre os adeptos desse segmento musical na cidade. Francisco Noel trabalhou a vida inteira como pedreiro de forma autônoma: “Eu pegava as empreitas, montava uma turminha pra fazer o serviço e pagava os funcionários”. O folião, aposentado desde 2010, carrega junto de seus irmãos a tradição de uma das companhias de reis mais antigas da região. Divino Vitório dos Santos, mais conhecido na cidade como Vino, nasceu em Araxá no dia 25 de agosto de 1954 e se mudou para Alfenas no final da década de 1970. Durante a maior parte de sua vida exerceu a profissão de comerciante, atividade com a qual se aposentou alguns anos atrás. Aos dezoito anos começou a sair como bastião e depois integrou a companhia de Jorge Lourenço, um dos foliões mais conhecidos da cidade e falecido em 1999. Vino é considerado por muitos como um importante folião na transmissão da tradição aos bastiões mais novos: “[...] os bastião melhor lá perto do cemitério tudo fala os versos que eu ensinei”. De bastião passou a sanfoneiro e depois a embaixador da Companhia dos Santos Reis, onde atua até hoje. 42 Os devotos No sul de Minas Gerais, os devotos que recebem as companhias de reis em suas casas podem ser divididos basicamente em dois grupos. De um lado, temos aqueles que são “pegos de surpresa” pelos foliões quando estes estão fazendo o giro tocando seus instrumentos pelas ruas da cidade. Nestes casos, os devotos geralmente não estão aguardando a visita dos foliões, mas os convidam para cantar em frente ao presépio montado nesta época do ano ao ouvirem o som da sanfona e da percussão passando em frente de suas casas. A bandeira dos Santos Reis costuma ser levada aos demais cômodos da casa para transmitir as bênçãos do santo depois de ser beijada pelos devotos, que geralmente improvisam um café para os foliões. De outro lado, temos aqueles que agendam previamente a visita da companhia para oferecer um almoço ou um jantar como pagamento de alguma promessa. Nestes casos, é preciso que o devoto esteja em uma condição financeira que lhe permita pagar sua promessa ou então que receba a ajuda de outros devotos, já que os gastos com os preparativos não são poucos. Os relatos abaixo evidenciam estas diferentes situações bastante contrastantes no que diz respeito aos gastos que as chegadas envolvem e às distintas condições dos devotos de arcar com estas despesas. Meu irmão que gostava muito, mas ele nunca foi folião. Então desde que eu tô com ele eu recebo a companhia de reis na minha casa. Graças a Deus eu sempre tratei muito bem as pessoas. Eu dava janta, só que agora eu não tô tendo condições de dar. Esse ano eu não tive nem condições de servir um café. Mas eu espero que Deus e os três reis santos me perdoem, porque eu não dei porque eu não tive condições de dar. Sempre que eu posso eu dou, mas esse ano não deu pra fazer nada e eu fico muito triste com essas coisas. Mas Deus quis assim, né? Então eu não posso fazer nada. MARGARIDA DAS GRAÇAS, 2015 Eu cheguei a pedir almoço em muita casa. Você ia na casa de fulano, você chegava lá ele falava: “Uh rapaz, você me pegou meio desprevenido. Arroz com feijão eu tenho, mas não tenho carne, não tenho nada”. Filho de Deus, quem tá com fome come um arroz com feijão e com uma farinha. Tá bom demais. Não tá? Eu lembro do Tião Laurindo, até já morreu. Ele morava lá no Campo Grande. Um dia eu cheguei lá ele falou: “Vou falar a verdade pra você: arroz e feijão eu tenho aqui em casa, mas a mistura que eu tenho aqui é abóbora”. Nós chegamos lá e ele fez arroz, feijão, abóbora e uma salada de pepino. Vou falar a verdade pra você, eu acho que nunca comi uma comida tão gostosa na minha vida. Isso depende do jeito, né? Você estando com fome você come qualquer coisa, não come? Agora só carne é comida boa? Não é. Mas hoje você come carne o dia inteiro. Que hoje tem fartura, graças a Deus. Antigamente também tinha muita fartura, mas não tinha é jeito de comprar. O povo morava na roça. Hoje fica mais fácil, tem mais condução, tem tudo, né? Você liga lá no supermercado eles levam pra você lá na roça. Antigamente não era assim. Hoje tem as entregas. MIGUEL RODRIGUES, 2016 43 Uma coisa que eu não deixo de falar todo ano é a quantidade de pessoas que me ajuda todo ano, sabe? Eu falo patrocinadores. Seja um quilo de carne moída, seja a roupa. Só pra você ter uma noção: Você viu a quantidade de pessoas que estava aqui hoje? Eu não comprei um quilo de carne, eu não comprei um refrigerante, eu não comprei um litro de vinho. Eu tenho a minha parte que eu não gosto de ficar comentando. Não preciso falar o que gastei. Mas eu preciso agradecer de coração e pedi que os três reis santos iluminem essas pessoas que todo ano doam pra gente. Eu acho que isso é muito bonito. É uma coisinha simples. Um dá um garrafão de vinho pra mim, outro dá um pacote de arroz. E sai essa festa que você viu aí. Imagina bem se a humanidade, se todo mundo fizesse isso com o próximo, o tanto que nós seríamos felizes. Não teria guerra e não teria desemprego. Não tinha nada disso se cada um doasse para o próximo. FABINHO, 2016 Como veremos mais adiante, esta solidariedade não aparece somente entre os devotos que vão receber os foliões em suas casas e outras pessoas, mas também são estendidas para as companhias e seus foliões. Ao mesmo tempo em que reflete a forma como se manifesta a ajuda mútua entre devotos e amigos que ajudam o anfitrião a receber uma companhia de reis, o relato de Fabinho também evidencia os “dois lados da moeda” que movimentam e motivam a calorosa recepção das companhias: as promessas e os milagres. No caso do devoto Fabinho, por exemplo, ele tem uma promessa vitalícia herdada de seu pai e oferece todos os anos um almoço para a Companhia da Irmandade, sempre no dia 03 de janeiro. A promessa é o seguinte, começou assim: o meu tio Perasco, que tá até aqui, ele que dava a promessa. Aí o que aconteceu? Ele fez um sobrado lá no centro da cidade e não tinha como a companhia subir lá. Ele perguntou se não podia fazer na casa do meu pai naquele ano, porque a casa do meu pai era mais terreno, era mais livre e mais fácil de levar a folia. Aí bem na hora que a gente tava limpando os frangos caiu um raio. Aí acabou com a casa, acabou com a fiação, acabou com tudo. Aí graças a Deus ninguém se machucou. Aí meu pai como é muito teimoso falou: “Vai ter a janta”. Puxamos o fio do vizinho, terminamos de limpar os frangos, de fazer tudo e demos a janta. Aí na hora da despedida meu pai falou: “A partir de hoje, por causa do raio, porque não machucou ninguém e ninguém morreu, vai ter a promessa. E tem que ser dia três. Não pode ser dia dois e nem dia quatro”. Já aconteceu de a folia não poder vim e a gente pega o material aqui e doa na igreja. Mas eu não gosto. Eu gosto de dar a comida e ver o povão. Aí meu pai faleceu faz nove anos e eu continuei dando comida. Já dei bastante comida pra esse povo. Mas eu mesmo não fiz promessa. Eu não tenho promessa. Agora acontece muita coisa no meio disso aí pra quem tem fé mesmo de verdade. Eu já vi gente sair chorando daqui, chorando de sair lágrimas. Gente que consegue graça. Eu não sou pastor. Não sou nada. Quem fala são eles. Eu não vou documentar nada aqui, não vou provar nada pra vocês. Tanto é que no ano passado nós demos almoço pra folia e o rapaz destampou a chorar aqui que eu não entendo. FABINHO, 2016 Tanto a existência quanto a perpetuação das companhias de reis depende diretamente dos devotos que todos os anos as recebem em suas casas, seja para pagarem suas promessas ou apenas para manter viva a tradição. Como veremos no decorrer do trabalho, existem duas 44 formas dos devotos se relacionarem com as companhias, descritas pelos foliões como receber por religião, quando o devoto está pagando ao santo uma dívida por alguma graça recebida, e receber por tradição, quando o devoto não possui nenhuma dívida a ser paga e mesmo assim recebe a companhia em sua casa apenas para manter viva a tradição. A devota Alzira, por exemplo, me disse que já recebeu muitos milagres, mas que continua recebendo a companhia em sua casa mesmo depois de já ter quitado suas dívidas com o santo. Eu venho de São Paulo pra ficar aqui em Alfenas pra receber as companhias. Eu moro em São Paulo e tenho uma casa aqui pra descansar e venho pra cá por causa deles, pra agradecer eles. Sou devota e já recebi muitas promessas que eu fiz, consegui e até morrer não me desapego deles. Santos Reis pra mim é tudo. Na primeira vez quando eu vim eu frequentava a casa do Sr. João, quando ele dava comida pros Santos Reis. E falaram: “Ah, vamos esperar o Vicente que ele que é o dono da folia”. Eu falei: “Vou esperar”. E então eu ficava pra me encontrar com a bandeira. O meu filho estava desempregado e aí eu pedi chorando, porque meu filho mexe com advocacia, e eu alcancei a graça e vim no próximo ano pra agradecer. Aí depois eu pedi outro pedido pros Santos Reis com lágrima nos olhos, chorando mesmo, porque eu tinha uma dor nos pés e a dor era forte, era muito grande e nada melhorava. Mas graças a Deus os Santos Reis me responderam. Eu tenho fé e vou com eles até meu fim da vida, enquanto eu tiver. Não tem dinheiro em banco e não tem nada que pague o que os Santos Reis fazem. E esses coitados andam na chuva, na friagem, no relento, eles passam os problemas deles pra chegar no fim a festa dos Santos Reis. Mas só que eles têm também os apertos deles.10 ALZIRA, 2018 As formas como os devotos fazem suas promessas podem variar bastante, sendo que uma não é considerada melhor ou mais eficaz do que a outra. Pode-se, por exemplo, fazer a promessa sem sair de casa com uma simples reza, na igreja durante uma missa, dando um nó em uma das fitas da bandeira que as companhias carregam (sendo esta talvez a prática mais comum), entre outras. Mas as promessas não devem ser feitas à revelia, pois como me contou o folião Miguel Rodrigues, “se você faz uma promessa, você não vai fazer uma promessa à toa, sem precisão. Quando você faz uma promessa é porque você tá precisando. Que se você estiver precisando você vai apelar pra santo e pra Deus: Me ajuda!”. É por isso que muitas das promessas pagas pelos devotos estão relacionadas ao livramento de enfermidades, até mesmo em animais de estimação. Embora não haja restrições ao que pode ser pedido aos Santos Reis, me pareceu prevalecer um bom senso entre os devotos, no sentido de não se fazer promessas para situações triviais e pouco significantes. 10 Oswaldo Elias XIDIEH (1993: 85) já havia observado que “as Folias de Reis, as Bandeiras do Divino, o Culto ou Adoração das Almas, os pedintes por penitência ou promessa, esses grupos de indivíduos andarilhos, só poderiam dar vivência às suas crenças em meios moldados sócio-culturalmente para a sua aceitação e aprovação, normalmente tendentes a agasalhá-los e considerar esse acolhimento uma participação sua, obrigatória e fora de discussão, no cumprimento da promessa alheia e nos benefícios que dela decorrem”. 45 No que diz respeito ao pagamento das promessas, existe uma sutil diferença entre as promessas feitas por um devoto que não é folião e aquelas feitas pelos foliões da companhia. Enquanto que no primeiro caso ele pode saldar sua dívida oferecendo um almoço ou um jantar aos foliões, alguma quantia em dinheiro ou até mesmo alguns animais ou mantimentos para a festa de entrega da bandeira, no segundo caso o folião deve pagar sua promessa com a própria jornada e a realização da festa no dia de entrega da bandeira. Mas mesmo que a jornada esteja sendo realizada como forma de pagamento da promessa de um de seus foliões, a companhia não fica proibida de pagar as promessas de outros devotos que possuem alguma dívida com o santo, sendo estes os casos onde são oferecidos os almoços e os jantares aos foliões. Por fim, associados às promessas estão os milagres, pois na maioria das vezes que os devotos e foliões se referem aos três reis santos é para falar dos seus milagres, tenham eles presenciado ou não. Estes relatos possuem uma beleza singular, principalmente pela forte carga de espiritualidade, devoção e fé que trazem. Se na promessa está refletida a fé, pela esperança de ter o pedido atendido, na consumação da graça recebida está sustentada toda a crença de que o santo realmente existe e atende os pedidos. O folião Osmair Leal dos Reis, o Cantarelli, me relatou dois dos vários milagres que presenciou. Nós já chegamos a documentar milagres. Lá na serra uma senhora. Todo ano a gente passava na casa dela. Aí nesse ano nós vínhamos passando na casa dela e ela estava sozinha. Eu vi ela quando ela estava sentada no banco. Eu fui entrando com a bandeira e o André entrou atrás de mim. O Miguel esse ano não estava com a gente não. Aí ela levantou e veio de encontro pra pegar a bandeira. Aí eu dei a bandeira pra ela e notei diferença. Achei que ela ia cair. Ela pendeu pra lá, balançou. Aí eu falei: “Agora eu vou segurar ela”. Veio na minha cabeça. Aí ela firmou. Firmou. Aí ela segurou a bandeira e encostou na parede. Aí chegou um sobrinho dela, não sei o que era dela. Aí cantamos. Aí o capitão cantou tudo, agradecemos. Aí ela falou: “Vou te falar pra vocês. Vocês não viram, mas aconteceu um milagre aqui dos Santos Reis. Tá fazendo um ano que eu não largo do andador. Eu levanto só com o andador e só ando com o andador. E agora nesse momento eu consegui levantar sem o andador e segurar a bandeira. Foi um milagre dos Santos Reis. O ano que vem, se eu estiver viva eu quero dar uma janta pra companhia de reis de vocês. E se eu não estiver é pra avisar meus filhos pra fazer essa janta no meu nome”. Faz dois anos já que nós estamos jantando lá e ela tá viva, forte e firme. Tá viva lá. Esses dias pra trás passou meio mal, a filha dela quem me falou. Mas esse ano nós ainda jantamos na casa da filha dela, que ela tá morando com a filha dela. A gente documentou ela falando que foi um milagre, falando que fazia um ano que não andava e que não conseguia andar. E eu senti que ela ia cair e levei a mão pra segurar, porque se ela fosse cair eu abraçava e segurava. Aí falei pra ela: “Com todo respeito, como se fosse a minha mãe, se a senhora deixa eu dar um beijo na sua face, no seu rosto”. Ela deixou. Aí depois que aconteceu isso já dei mais dois beijos. Cada ano que eu vou eu dou um beijo no rosto dela. Agora eu deixei meu telefone. Se caso acontecer dela vir a falecer eu já deixei o número do meu telefone lá pra me avisar, faço questão de ir no velório dela. Às vezes é ela quem vai no meu ainda. Não sei. Nós estamos vivos aqui, mas não sabemos daqui um minuto. Mas eu deixei meu telefone lá e vou fazer questão de ir. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 46 Essa passagem aconteceu lá nos Bárbaras: A gente vinha chegando num dia de domingo. A gente vinha chegando numa casa pra cantar e quando eu olho no terreiro assim tinha uma menininha engatinhando. Sabe aquelas quando tá engatinhando? O Joaquim estava, o Gaiadas estava e o Divirso. Os outros eu acho que não estavam não. Mas já contei a história. Essa era a companhia de reis do Paia, o Paia estava. Pode perguntar pra eles que eles confirmam: o Totonho, o Paia e o Joaquinzinho confirmam ali. Aí quando vê a menina saiu de dentro, desceu e entrou debaixo da caminhonete. E a tia dela que estava indo pra Alfenas ligou a caminhonete. Ela ligou a caminhonete, saiu e a menina debaixo da caminhonete. Aí eu gritei. Até não gritei os Santos Reis não. Gritei: “Nossa Senhora da Aparecida, tem uma menina debaixo da caminhonete”, gritei pra ela. Ela andou com a caminhonete e passou em riba da menina, passo o pneu em cima do bracinho da menina. Aí a menina ficou lá. Ela catou a menina correndo na mesma caminhonete, colocou e levou pra Alfenas. Levou pra Alfenas, chegou lá e quando vê, passou uma hora mais ou menos ligaram que não teve nenhum arranhado na menina. Não deu nem nada. E o pneuzão passou em riba do bracinho dela e a menina engatinhando, começando querer a andar. E o pneu da caminhonete passou em riba dela e aquela pelota que tem atrás do referencial não sei se bateu na cabeça dela que ela ficou deitada com as mãozinhas pra cima. Aí depois de uma hora ligaram que não tinha acontecido nada com a menina. E os Santos Reis estavam chegando nesse momento. Aí cantamos na casa, pedimos pros Santos Reis, aí já cantamos os versos pedindo pros Santos Reis interferir e ajudar a menina. Quando vê vem notícia da menina que não aconteceu nada, nem com o bracinho nem com nada. Isso quer dizer que a gente vê presenças. Isso foi coisa que aconteceu e isso não é estória não, porque a gente ouve falar. Mas isso a gente viu na nossa frente, foi pelos nossos olhos que até hoje nós estamos enxergando. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 Como veremos, existe uma profunda relação entre os milagres e as fitas da bandeira, pois são através de nós nas fitas que os devotos fazem as promessas e esperam a intervenção do santo. Como me disse o embaixador Vino, “cada nó daquele ali é uma promessa que a pessoa faz. Cada nó na fita. Muita promessa que eles fazem. Todo ano a gente troca as fita”. Um último relato evidencia esta profunda relação entre os milagres e as fitas das bandeiras. Eu estava com uns quinze, dezesseis anos. A gente passou numa fazenda, que de primeiro a companhia de reis andava mais era só pra roça. Passamos numa fazenda e o retireiro de lá tinha três filhos. Tinha um menino de uns dezessete anos, uma menina de uns doze anos e uma de uns três. Essa menina de doze anos, uma vez deu um negócio no braço dela que estava em carne viva. O pai dela falou que já tinha levado pra tudo quanto é médico e não descobriam, passavam as coisas e nada. Isso falando pro meu avô. Clamando e falando. Meu avô pegou o bracinho da menina, olhou bem certinho, foi lá na bandeira, pegou uma fita da bandeira, tirou e amarrou. Pegou outra, tirou e amarrou. E falou pra mãe da menina fazer os pedidos certinhos e levar a menina no dia da chegada da companhia de reis. Falou pra desamarrar a fita só lá na chegada, pra não deixar desamarrar antes. No dia da chegada ela levou a menina lá e o braço estava sarado. Estava sequinho. Só de contar eu arrepio aqui, olha. Mas é a fé. A fé. Os três reis santos são muito milagroso. Muito milagroso. JOSÉ AILTON DE PAULA, 2015 47 Os três reis santos As antigas divindades trinitárias11 exerceram grande influência nas transfigurações que o cristianismo sofreu desde sua criação, algo que podemos observar pela incorporação de uma terceira entidade (o Espírito Santo) na dualidade divina hebraica durante a segunda metade do século IV d. C., especificamente no ano 381, quando o Primeiro Concílio de Constantinopla aprovou o Credo Niceno-constantinopolitano e acrescentou ao Credo Niceno, promulgado em 325 no Primeiro Concílio de Nicéia, uma descrição do Espírito Santo como sendo “o Senhor e doador da vida, que procede do Pai e que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”. Tal como na trindade divina na qual acreditam os foliões, onde Deus seria formado pela junção de três entidades (o Pai, o Filho e o Espírito Santo), os Santos Reis também são constituídos por três pessoas, simbolizadas nas figuras de Gaspar, Baltazar e Belchior. Carlos Rodrigues Brandão já havia chamado atenção para o fato de que os três reis santos são, na verdade, retratados pelos devotos como uma única pessoa, sendo comumente designados por adjetivos no singular, como “glorioso Santos Reis”. Conforme já observou Brandão (1981: 22), “esta não é a primeira vez que encontro este modo singular de reunir os Três Reis do Oriente – cujos nomes individuais todos conhecem – em uma só santidade. É muito comum a fala: Santos Reis é um santo muito milagroso”. Com os foliões de reis no sul de Minas Gerais esta máxima não foge à regra, pois, como veremos no decorrer do trabalho, existem várias passagens onde os foliões se referem aos três reis magos como sendo uma única entidade, santificada e integrada a um santo uno. Esta seria, portanto, uma primeira característica da entidade de culto e adoração dos devotos e foliões. 11 Os antigos sumérios acreditavam que o universo havia sido dividido em três regiões, cada uma delas governada por um deus: “Anu regia o céu. A terra foi dada a Enlil. Ea se tornou o governante das águas. Juntos, eles constituem a tríade dos Grandes Deuses” (GRAVES, 1994: 54-55). Os babilônios também reconheciam a existência de três entidades em um único deus, “como aparece em um deus composto de três cabeças que fazem parte de sua mitologia, e o uso do triângulo equilátero, também, como um emblema da trindade como unidade” (ROCK, 1867: 22-23). Os três deuses hindus (Brahma, Vishnu e Shiva) se proclamam como um “único ser que aparece sob três formas pelos atos de criação, preservação e destruição, mas que na verdade é um só”. No antigo Egito “o Hino a Amon ordena que ‘Nenhum deus surgiu antes dele (Amon)’ e que ‘Todos os deuses são três: Amon, Ré e Ptah, e não existe um segundo a eles. Oculto é o seu nome como Amon, ele é Ré na face, e seu corpo é Ptah’. Esta é uma declaração de trindade, os três principais deuses do Egito agrupados em um deles, Amom” (NAJOVITS, 2004: 83-84). Muitas outras civilizações possuíam suas próprias trindades divinas. Na Grécia eram Zeus, Poseidon e Adonis. Os fenícios adoraram Ulomus, Ulosuros e Eliun. Em Roma adoravam Júpiter, Netuno e Plutão. Nas nações germânicas eram chamados de Wodan, Thor e Fricco (MAURICE, 1798: 171). Asmodeus, um demônio da mitologia judaica considerado um dos sete anjos do inferno, abaixo apenas de Lúcifer, é normalmente representado com asas e três cabeças. O próprio Aristóteles escrevia no século IV a. C. que “todas as coisas são três, e três vezes é tudo, e vamos usar esse número na adoração dos deuses, pois, como dizem os pitagóricos, tudo e todas as coisas são limitadas por três, o fim, o meio e o início têm este número em tudo, e este compõe o número da trindade” (WEIGALL, 1928: 197-198). 48 Uma segunda característica dos três reis santos, que desconstrói um pouco a ideia de bondade unívoca das divindades e dos santos católicos, diz respeito à sua personalidade e ao seu gênio um pouco temperamental. Entre seus devotos o santo é famoso pelos dois principais atributos que carrega: ser um santo milagroso e ao mesmo tempo muito vingativo. Quanto ao primeiro atributo, ele parece ter ficado evidente a partir dos relatos de milagres mencionados, além de outros que percorrerão as próximas páginas do trabalho, sendo necessário discorrer sobre o segundo. BRANDÃO (1981: 17) já havia observado que “nenhuma casa «que pediu a bandeira» pode ficar sem a visita dos Reis. Por outro lado, o imaginário do sertão sempre guarda a memória de castigos às vezes incríveis enviados a quem recusou receber a Folia”.12 O caráter vingativo na personalidade dos Santos Reis esteve presente nas falas de alguns foliões e uma das histórias que envolvem o assunto me foi contada pelo folião José Ailton de Paula, da Companhia dos Santos Reis. Em seu relato o folião evidencia o quanto é importante não se zombar do santo e tampouco destratar ou ofender seus foliões. No entanto, o santo é justo. Ele pune as pessoas conforme a crença de cada um, pois para aqueles que nele creem e que porventura cometem algum deslize, o troco certamente virá na forma de algum castigo, mas para aqueles que não o creem ou que tampouco sabem de sua existência, ele ignora as ofensas e malcriações recebidas e acaba por não castigar o ofensor. E outra coisa hein! Assim, quem acredita já sabe como que é. Os três reis santos, pode perguntar pros meus amigos aí. Os três reis santos é muito milagroso, mas ele é vingativo também. Se a pessoa zombar dele, se uma pessoa que entende... Eu falo porque eu já cheguei a ver isso, que eu saio desde a idade de sete anos na companhia de reis. Eu saía com meu pai, com meus tios, carregando guarda-chuva. Eu andava só pras roças. Aí quando eu tive uns sete anos que eu peguei meus nove, dez anos, eles me colocaram pra cantar de tala, a última voz lá atrás. Eu fiquei uns cinco anos cantando de tala, aí depois que eu fui pro contra-fino e fiquei até hoje no cavaquinho. Então, o que é que eu ia falar pra você... Eu vi muitos milagres acontecerem pelos três reis santos e também vi muito castigo também. Porque a pessoa que não conhece não tem problema nenhum, porque ele não sabe. Igual a vez que a gente tava passando ali perto do Seu Mané da Esmeralda. Aí tinha uma república e eles tava com uma festa lá. Tinha uns quinze estudantes, homem e mulher. Aí a gente tava vindo com a companhia de reis assim, foi um dia de sábado, a gente tava vindo com a companhia umas três, quatro horas da tarde. Nós vindo com a companhia de reis assim e eles lá tomando cerveja tudo. Eles saíram na rua assim pra pegar a bandeira e o bandeireiro não quis entregar. Eu falei: “Pode 12 Maria Isaura PEREIRA DE QUEIROZ (1968: 112) também observou que “a festa religiosa é da mais alta importância no meio caboclo brasileiro; trata-se da maneira tradicional de festejar o patrono local. É preciso que êste não possa se queixar dos fiéis, pois, caso contrário, vingar-se-á enviando sêcas prolongadas, inundações, nuvens de gafanhotos, provando que não se acha satisfeito com o tratamento que lhe tem sido dispensado. O santo, porém, tem também seu temperamento e seus caprichos; zanga-se muitas vêzes sem razão, malgrado o excelente tratamento de seus devotos. Êstes, então, exercem represálias: exilam-no para uma capelinha sem importância por acaso erguida nas terras de um dos moradores do bairro, e que serve assim de lugar de castigo; suprimem velas e flôres que de ordinário lhe oferecem; colocam-no de cabeça para baixo dentro de um pôço”. 49 entregar. Pode entregar”. Eles pegaram a bandeira, pularam pra cima, brincaram, pularam pro meio, fizeram aquela bagunça. Aquela anarquia tudo, entendeu? Aí depois ele falou... Eles nem sabiam o que era pra falar na verdade. Nem daqui eles não eram. Aí a gente explicou pra eles certinho. Um foi lá, pegou dez reais, deu e a gente foi embora. Eu falei ó: “Se por acaso fossem pessoas que entendessem a gente não podia deixar, porque eles entendem. Tanto o pecado fica com eles quanto com a gente. Mas como eles não entendem, Santos Reis não viu pecado nenhum. Porque não entende, entendeu? A pessoa que faz as coisas, ele sabendo, aí tem o pecado. Não sabendo, não tem. A pessoa não entende, ué. Não entende, né? Então é aquele negócio, ele é muito milagroso, mas é vingativo também. Eu cheguei a ver vários milagres que os três reis santos fez de, por exemplo, a pessoa receber o milagre aqui agora. Fazia aquela intenção ali, com fé, chorando e a companhia de reis saía, andava uma hora, duas horas e a pessoa já ia atrás. Quando a gente ia ver a pessoa já tinha recebido o milagre e tava chorando. JOSÉ AILTON DE PAULA, 2015 O embaixador Oswaldinho, da Companhia Nossa Senhora de Fátima, me contou que certa vez estava cantando em uma companhia onde tinha um folião chamado João Custódio, que cantava de contrato, e um embaixador de nome Joaquim Januário que, segundo ele, “era um embaixador soberbo que queria ser mais que o tal”. Em determinado momento da jornada o embaixador repreendeu em tom de humilhação o cantador com as seguintes palavras: “Olha João Custódio, você abre essa sua boca de contrato, mas não sai nada, só fica resmungando”. O folião ofendido então teria respondido ao embaixador: “Olha, perante Santos Reis e perante essa bandeira aqui Joaquim, eu ainda quero ver você desse jeito que você tá me remendando”. Segundo Oswaldinho, aquela foi a última vez que Joaquim cantou: “Deu um derrame nele e do mesmo jeito que ele remendou o João Custódio ele ficou”. Metodologia Minha inserção na rede de sociabilidade dos foliões se deu de variadas formas e em momentos diferentes nas várias etapas em que fui adentrando no universo nativo. Ou seja, tratou-se de um processo, que não será possível descrever aqui em todos seus detalhes. É preciso dizer que também foram múltiplas as formas como eu era enxergado pelos diferentes foliões, principalmente por aqueles com quem tive maior proximidade. Jornalista, repórter, produtor e professor de viola caipira foram alguns dos nomes que me foram dados, algo que dependia muito da relação que eu possuía com determinado folião, da forma como havia se dado minha inserção em determinado grupo e, principalmente, da forma como eu havia sido apresentado aos demais foliões pelos responsáveis e organizadores das companhias. Quando organizei a I Mostra de Viola Caipira e de Música Tradicional de Raiz na Universidade Federal de Alfenas em julho de 2015, com o objetivo de reunir e conhecer mais 50 violeiros e foliões da região e já pensando na oportunidade de adentrar, de forma mais efetiva, em seus universos sociais e musicais, me apresentei aos artistas convidados para tocarem no evento como professor do Conservatório Municipal de Alfenas, tendo em vista que aquela primeira edição da mostra musical foi realizada em parceria com o conservatório. Alguns dos foliões desta pesquisa também se apresentaram naquela ocasião, como é o caso dos irmãos Francisco e Vitor Noel (Companhia dos Noel), que formavam o Trio Coração de Ouro e que na ocasião foram acompanhados no baixo elétrico por José Vicente Cassimiro (Companhia dos Santos Reis) e no acordeom por Sebastião Feliciano (Companhia Filhos da Cambraia). No evento, também se apresentaram a dupla João do Carro e Boiadeiro, formada pelos foliões João Benedette e Miguel Rodrigues (Companhia dos Benedette), entre outros músicos e violeiros da região que não eram necessariamente foliões de reis. Devido a este contato com os foliões naquele evento, passei a ser chamado por alguns deles, durante todo o período de trabalho de campo, como professor do conservatório ou simplesmente como professor. O termo professor passou a ser utilizado posteriormente por outros foliões, que viam e ouviam seus companheiros me tratarem dessa forma, além de ter se estendido para foliões de outras companhias pelos mais diferentes motivos. O folião Marquinho Didico (Companhia da Irmandade), por exemplo, sabia que eu era professor porque uma de suas filhas era aluna do conservatório, de modo que sempre nos encontrávamos no saguão da escola. Outros foliões já passaram a me chamar de professor depois que me viram tocando viola caipira nos intervalos do ritual e nos momentos de descanso após as chegadas do almoço. Foi este o caso do folião João Batista, que saiu na Companhia Sagrado Coração de Jesus de Fama nos dois primeiros anos de trabalho de campo e como embaixador da Companhia Filhos da Cambraia durante a jornada de 2017-2018. Após me explicar a estrutura dos cantos de agradecimento no dia 05 de janeiro de 2018, lembrou-se que eu era professor de viola e logo em seguida advertiu seus companheiros foliões em tom de brincadeira: “Você é professor de instrumento, ué? A gente aqui tá conversando com nego teio. É preciso cuidado hein. Cuidado”. Os foliões que não sabiam que eu era professor de música no conservatório da cidade costumavam me chamar de jornalista ou de repórter, já que eu sempre estava carregando um equipamento de gravação e acompanhado de um cinegrafista. Esta forma de tratamento me acompanhou durante todo trabalho de campo e até hoje, quando às vezes encontro algum dos foliões pelas ruas da cidade, sou apresentado aos seus amigos como jornalista ou repórter das companhias. Lembro-me que no último dia da jornada de 2017-2018, ou seja, após três anos de trabalho de campo, ao atualizar o telefone do capitão da Companhia Estrela do Oriente em 51 meu celular e também lhe passar meu número, pude ver quando o folião Alexsandro digitou em seu aparelho meu nome adjetivado para que depois pudesse se lembrar: Rafael repórter. Após um primeiro contato estabelecido com alguns foliões para convidá-los para a mostra musical mencionada, comecei a entrar em contato com outros foliões para aumentar minha rede de contatos antes de iniciar o trabalho de campo propriamente dito. Alguns foliões eu tive a oportunidade de conhecer antes mesmo da referida mostra musical, como foi o caso do folião Arlope Siqueira, que conheci quando lhe fiz uma visita em 2013 com o objetivo de conhecê-lo pessoalmente, pois já tinham me informado que ele atuava como cantador em uma dupla caipira e também como folião de reis, sendo através dele que conheci os demais foliões da Companhia dos Benedette. Outros foliões eu passei a conhecer em período posterior, mais próximo à data estipulada para iniciar o trabalho de campo, através de encontros marcados via contato telefônico, que eu conseguia com outros foliões ou com o Ney Lima, superintendente de cultura do município na época. Foi através destes telefonemas, por exemplo, que marquei meu primeiro encontro com o folião Miguel Geraldo (Companhia Santa Bárbara) dentro do mercadão municipal de Alfenas, com o folião Rosário Rosa (Companhia Estrela do Oriente) no saguão do conservatório, com a foliã Maria Consolita (Companhia Nossa Senhora de Fátima) em sua casa, com o folião José Roberto (Companhia Filhos da Cambraia) em um bar no bairro Aparecida etc. Quando iniciei o trabalho de campo, eu já conhecia ao menos um folião de cada uma das companhias previstas no projeto de pesquisa. Um dos momentos importantes de ampliação dos meus contatos após ter dado início ao trabalho de campo, que também foi crucial para consumar minha inserção na rede de sociabilidade dos foliões, foram os almoços e as pausas de descanso logo após as refeições. Já no primeiro dia de trabalho de campo, quando terminamos de fazer os registros audiovisuais e algumas entrevistas com os foliões da Companhia Estrela do Oriente, fomos impedidos de deixar o grupo para ir almoçar na cidade, sob a ameaça de “não precisarmos mais voltar”. As refeições feitas junto dos foliões no início do trabalho de campo (especialmente os almoços, onde as pausas de descanso eram mais longas e suscitavam conversas, histórias e causos dos mais variados tipos) me permitiram estabelecer um contato mais efetivo com os foliões e me deram a oportunidade de criar laços afetivos e de confiança cada vez mais estreitos, pois eram nestes momentos que alguma viola caipira ou algum violão vinha parar no meu colo e, estimulado por um ou mais copo de vinho, eu arriscava um ponteado improvisado ou então acompanhava algum folião cantador em uma música caipira ou sertaneja de raiz. 52 Assim como minha inserção na rede de sociabilidade dos foliões se deu de diferentes formas durante o trabalho de campo, minha incursão pelo município e pela região junto das companhias também se deu desse modo. No início não era possível realizar um planejamento, no sentido de escolher previamente os bairros da cidade e as comunidades rurais pelas quais eu iria acompanhar cada uma das treze companhias. Ainda sem saber direito os locais por onde passavam e sem saber que, segundo eles mesmos me diziam, algumas chegadas eram melhores do que outras para que eu pudesse fazer os registros audiovisuais e coletar dados para a pesquisa, eu apenas seguia os foliões. Aos poucos, conforme assimilava a lógica dos giros, fui sendo capaz de escolher os locais onde iria acompanhar os foliões: pela cidade ou pela zona rural; em bairros “ricos” ou “pobres”; nas chegadas mais suntuosas ou naquelas mais modestas etc. Esta escolha muitas vezes estava relacionada com minha percepção de que, em algumas chegadas, as etapas e os elementos simbólicos do ritual (os arcos de bambu, as amarrações, as imagens dos santos, o abecedário etc.) são mais simples e, em alguns casos, até mesmo dispensados. Era comum, por exemplo, eu manifestar interesse de seguir alguma das companhias em tal dia e ouvir de seu responsável que “a chegada não vai ser boa, lá eles nem colocam arco pra gente cantar. Vem com a gente amanhã que vai ter três arcos e o dono da casa lá faz um monte de amarração”. Ou seja, a quantidade de arcos e as amarrações se mostraram, algumas vezes, além de um sinal de prestígio para o devoto e dono da casa que recebia a companhia, fatores condicionantes para que minha presença junto dos foliões em determinados dias fosse mais ou menos requisitada, ou até mesmo dispensada. Outro ponto a ser mencionado diz respeito ao contato tido com as treze companhias durante todo o trabalho de campo. Embora parte considerável dos dados e dos relatos tenha sido coletada durante os doze dias de jornada do trabalho religioso, minha convivência com muitos foliões transcendeu o período de atividade das companhias pelas ruas da cidade. Ou seja, foram vários os encontros realizados com alguns foliões fora do período em que as companhias fazem seus giros, ainda que muitos dos relatos coletados nestas situações não possuam a mesma intensidade emotiva e a verve devocional daqueles coletados durante a jornada, talvez por estarem já fora do contexto sagrado dos foliões. Neste sentido, posso dizer que, com exceção de minha presença de forma mais sistemática e contínua durante os doze dias do trabalho religioso entre 2015 e 2018, o trabalho de campo também foi realizado de forma difusa, intermitente e esporádica em alguns períodos fora da atividade religiosa. No que diz respeito ao trabalho de campo realizado durante a jornada, o planejamento inicial era acompanhar duas companhias diferentes em cada dia de giro, tendo em vista que 53 eram doze dias de jornada e treze as companhias a serem acompanhadas. Ou seja, a intenção inicial era seguir um grupo pela parte da manhã até a chegada para o almoço e outro na parte da tarde até a chegada para a janta. Desse modo, seria possível acompanhar cada uma das companhias pelo menos duas vezes durante os doze dias de jornada. O objetivo era privilegiar o material etnográfico fazendo com que ele fosse relativamente diversificado, no sentido de ser coletado em diferentes dias e em momentos em que os foliões estivessem enfrentando diferentes situações. Isso foi algo que, com poucas exceções, foi realizado com certo êxito, de modo que pude acompanhar cada uma das treze companhias em pelo menos dois dias durante as jornadas de 2015-2016 e 2016-2017. Apenas durante a jornada de 2017-2018 (último ano de trabalho de campo e, portanto, momento em que já estava em posse de um vasto material para ser trabalhado) optei por acompanhar apenas alguns grupos de forma mais pontual, para tentar preencher algumas lacunas na descrição etnográfica e nas análises e interpretações. A opção de acompanhar todas as treze companhias durante a jornada está relacionada ao recurso metodológico adotado e já mencionado, de redimensionar o “recorte do objeto” e não ter que escolher apenas uma ou outra companhia para fazer parte da pesquisa. Abranger tantos grupos pode, ao mesmo tempo em que trazer alguns problemas metodológicos, resolver outros, pois, ao contemplar todas as companhias com as quais tive contato durante o trabalho de campo, fiquei dispensado, por exemplo, de justificar aos foliões responsáveis pelos grupos que fossem ficar de fora do trabalho os motivos de sua exclusão. Mas esta escolha também soluciona outros problemas na coleta dos dados, como a questão da continuidade dos relatos e sua relação com o trânsito de alguns foliões por diferentes companhias, pois, ao abarcar todas elas, consegui manter contato com meus principais interlocutores e colaboradores de um ano para outro, independente da companhia na qual estavam participando no ano seguinte. Por fim, é preciso dizer que os dados foram coletados em situações bastante diversas, transitando entre um planejamento das ações ocorrido de forma bastante previsível até sua total imprevisibilidade. Isto fez com que em determinados momentos os foliões me passassem informações sem que eu houvesse feito qualquer tipo de solicitação e, em outras situações, através de perguntas feitas em meio às conversas ou em entrevistas previamente agendadas. Ainda que chegado o momento de ir a campo a escolha metodológica tivesse sido a favor da etnografia e da observação participante – ou, segundo Loïc Wacquant (2002), da participação observante –, muitos foliões fizeram verdadeiras autobiografias, se aproximando da proposta metodológica da História Oral. No entanto, isto não significa que esta pesquisa seja resultado de uma mescla metodológica, mas tampouco posso afirmar que os dados foram coletados de 54 maneira totalmente uniforme. O que me ficou claro foi que, a partir do momento em que as relações se estreitavam e a intimidade com os foliões e com o campo de estudo aumentava, se tornava cada vez mais difícil me policiar em relação à forma como os dados eram coletados. O escrever e o viver Já no final de escrita desta tese me deparei com um trabalho de Carlos Rodrigues BRANDÃO (1981: 05-06) onde ele reflete sobre a época em que era monitor no Instituto de Psicologia Aplicada da Universidade Católica do Rio de janeiro e quando, às vezes, por volta de cinco horas da tarde, ele se via “atrás de uma mesa corrigindo uma pilha de testes com que as pessoas inventam se medir, e olhava para além da janela, em direção aos bosques da universidade. E eu pensava que a vida estava lá fora, além do bosque e da cidade”. Quando li este parágrafo senti de imediato certa identificação devido ao fato de perceber nele, ainda que este não tenha sido o principal objetivo do autor, uma distinção entre estar atrás de uma mesa e estar além do bosque e da cidade, que sugestivamente associo aqui às noções de escrever e viver, respectivamente. Neste sentido, tomo estas atividades como distintas, ainda que partes integrantes da etnografia, baseado principalmente em minha experiência com esta pesquisa. Ou seja, minha vivência junto dos foliões no trabalho de campo e com o processo de escrita. Ainda que a escrita esteja ligada de forma intrínseca ao processo de produção de conhecimento científico (WINKIN, 1998; CARDOSO DE OLIVEIRA, 1998), ela pode, justamente por isso, suscitar discussões sobre seu processo e sua relação com as demais etapas de produção do conhecimento. O paralelo que gostaria de fazer, especificamente com este trabalho, atenta para a desproporcional (e talvez ingrata) dedicação de tempo entre a vivência do trabalho de campo e o processo de escrita do que foi vivenciado, ou seja, para o tempo passado para além do bosque e da cidade e aquele passado atrás de uma mesa. Ao menos no caso específico desta pesquisa, onde o trabalho de campo foi realizado de forma concentrada em três incursões de aproximadamente doze dias cada no período de trabalho devocional das companhias e de forma mais esparsa no período em que a atividade religiosa é relativamente suspendida (em alguns casos, até mesmo proibida), eu diria que pude experimentar a grande discrepância que existe entre o trabalho de campo e a descrição dessa experiência. Em outras palavras, a angústia subtendida na reflexão de Brandão (em outro contexto, é claro), de se estar atrás de uma mesa produzindo textos que as pessoas, estimuladas pelos mais variados objetivos, inventam a si mesmas, enquanto assistia a vida passar pela janela de uma sala. 55 São os “ossos do ofício”, muitos diriam e com razão. O próprio Carlos Rodrigues Brandão continuou escrevendo muito tempo depois de ter percebido que a vida se passa lá fora, para além da janela da sala. Sua produção textual após esta reflexão crítica sobre aquilo que estou chamando de escrever e viver foi e ainda continua sendo vasta, talvez pelo fato de ter saído de uma atividade onde a produção textual era técnica e burocrática para outra, de ordem mais reflexiva. Afinal, descrever uma experiência vivida pode ser algo interessante em muitos casos, podendo ainda ter como estimulante a possibilidade de articular tal experiência com conceitos e teorias sociais. Isto de fato talvez não seja algo questionável, pois o próprio BRANDÃO (1981: 07) diz que aprendeu a se envolver de emoção pelo seu trabalho por causa daquilo que ele lhe revelava e, por isso mesmo, aprendeu “a só querer pesquisar e escrever sobre aquilo que de algum modo tomasse conta de minha vida e dos seus significados. Agora não era preciso olhar mais pela janela. A vida estava ali onde eu ia buscá-la”. No entanto, quando me ocupei da tarefa de descrever o que foi vivenciado – algo que, no meu caso, ocupou a maior parte do tempo no processo de produção do conhecimento –, a vida continuou lá, muito distante de mim e ainda do outro lado da janela, ainda que muito do que produzia textualmente dizia respeito àquela vida. E digo isso porque escrever e produzir conhecimento tem se apresentado como um dilema e uma grande dificuldade para mim, tanto no que diz respeito à formulação textual acadêmica e a necessidade de articulação com teorias sociais quanto, e principalmente, no que se refere à abdicação de “viver para além da janela”. Neste sentido, o questionamento que julgo interessante e de relativa importância trazer aqui diz respeito ao condicionamento (e não à disposição) ao qual o pesquisador pode estar submetido e ao “preço” que geralmente se paga quando se propõe a realizar um trabalho dessa natureza. Esta postura, ou melhor, este condicionamento de ordem social, não deixa de ser passível de questionamento, inclusive do ponto de vista antropológico. * * * Durante minha trajetória acadêmica tive oportunidade de cursar algumas disciplinas que abordaram especificamente a questão da escrita etnográfica, conteúdo este que retomei durante parte do processo de elaboração desta tese para levantar alguns questionamentos acerca das possibilidades textuais – algumas provenientes da antropologia chamada de pós- moderna – e também para tentar situar a opção utilizada neste trabalho a partir das correntes estilísticas existentes. O grande abismo que existe entre pensar a escrita e escrever fez com 56 que muitos dos estilos textuais estudados não fossem de fato utilizados nesta tese, tratando-se, em certo sentido, daquela “descoberta antropológica” descrita por Mariza PEIRANO (1992: 09) como sendo um diálogo que agora não é mais entre indivíduos (pesquisador e nativo), mas sim “entre a teoria acumulada da disciplina e o confronto com uma realidade que traz novos desafios para ser entendida e interpretada; um exercício de ‘estranhamento’ existencial e teórico [...]”. Neste caso, tratou-se especificamente do processo de escrita. No caso específico deste trabalho, muito mais do que meu interesse em produzir um texto com determinado estilo de escrita, o contexto da pesquisa e a forma como os dados foram obtidos tiveram um papel fundamental na constituição estilística do texto. Em primeiro lugar é preciso considerar que uma das singularidades deste trabalho é a grande quantidade de informantes, algo que por si só já direcionou parcialmente a elaboração textual, pois, além dos foliões já mencionados no início do trabalho, muitos outros contribuíram com valiosos relatos para esta pesquisa. Quando digo que a grande quantidade de sujeitos direcionou parcialmente o estilo de escrita, me refiro à impossibilidade de utilização de alguns modelos colaborativos devido a esta característica do trabalho, como o utilizado por Davi KOPENAWA e Bruce ALBERT (2015), por exemplo. A passagem da condição de colaborador-informante para a de coautor, como no trabalho citado, se torna impossível quando o número de informantes é muito grande, sendo que, o máximo a se fazer nestes casos, é uma tentativa de edição textual dialógica (CLIFFORD, 1986; FELD, 1987), sendo esta minha tentativa neste trabalho. Na busca de um estilo de escrita que me permitisse recriar no texto o efeito de minha experiência etnográfica e que aproximasse a descrição textual daquilo que foi vivenciado, optei pela mescla de alguns procedimentos textuais: o discurso direto com transcrições literais dos relatos dos foliões13, o discurso indireto e o discurso indireto livre14, este último como forma de recepção ativa do discurso do outro (BAKHTIN, 2006). Ao compreender que a simples transcrição dos relatos dos foliões não seria capaz de transmitir de forma satisfatória minha convivência com eles, procurei, ainda que de forma incipiente, me valer da mescla de 13 José Alberto SALGADO E SILVA (2011: 08) cita dois exemplos que considera bem sucedidos de transcrições literais por sua vivacidade: o livro de Luciana PRASS (2004), “com trechos que reencenam interlocuções importantes para o trabalho de campo”, e um capítulo de Murray SCHAFER (1991), onde o autor “reconstitui a trajetória de pensamento em grupo”. O autor ainda ressalta que “mesmo entendendo que essa reconstrução de diálogos também corresponda a uma edição – e dependa de o pesquisador evitar distorções, como em qualquer outro momento de um relatório –, seu efeito chama a atenção pela expressividade e revelação de atitudes, processos cognitivos e relações sociais durante uma pesquisa”. 14 Como exemplo de utilização do discurso indireto e do discurso indireto livre, temos a opção textual de Ana Carneiro CERQUEIRA (2015), onde a autora procurou manter a forma como as pessoas conversavam como um dos artifícios de tradução. Neste sentido, pode-se dizer que a experiência textual da autora saiu de um registro puramente empírico do discurso para um registro propriamente conceitual, reproduzindo as falas dos sujeitos de forma que aproxima o leitor do ambiente onde as conversas foram realizadas. 57 alguns artifícios textuais para tentar fazer do texto uma experiência de minha experiência, a fim de transmitir um mínimo de verdade que a experiência etnográfica me proporcionou. E ainda que seja um texto basicamente escrito por um eu, o que procurei fazer foi lhe dar um caráter dialógico e polifônico, inclusive nas partes onde realizo as análises e interpretações, momentos em que a tendência era para que predominasse um caráter mais monológico. Outra mudança no texto desde o exame de qualificação importante de ser mencionada diz respeito à passagem da escrita em primeira pessoa do plural para a primeira pessoa do singular. Se antes meu entendimento era de que o texto deveria ser escrito na primeira pessoa do plural, por entender que desta pesquisa participaram diversas pessoas que de alguma forma contribuíram para seu resultado final, agora consigo perceber que a escrita em primeira pessoa do singular pode, em vários momentos e de diferentes formas, potencializar a transferência da experiência etnográfica para o texto, aproximando o que foi vivenciado coletivamente do que está sendo descrito textualmente. Isto não significa desconsiderar as inúmeras colaborações recebidas durante o processo de escrita, mas significa antes compreender que, embora toda escrita seja colaborativa, elas nunca são colaborativas da mesma forma. Uma última questão sobre a escrita (talvez a mais delicada de todas) diz respeito à transcrição literal dos relatos dos foliões, algo que também sofreu alterações desde o exame de qualificação. Se antes eu acreditava que a reprodução ipsis litteris dos relatos dos foliões seria capaz de reproduzir a espontaneidade dos contextos no momento em que eles foram registrados, me recusando no princípio inclusive a corrigir gramaticalmente suas falas, hoje meu entendimento é outro. Um dos impasses nesta questão era encontrar o bom senso no processo de transcrições dos relatos na língua dos foliões – que poderíamos chamar de um “brasileiro dialetal15” –, pois, sabendo que existem linguistas (INÊS DE ALMEIDA et al., 2004; BAGNO, 2009; MELLO et al., 2011) que consideram que não há erro nesta fala, mas sim que são formas diferentes de utilização da língua, foi preciso decidir se os relatos seriam transcritos de forma fiel, segundo a fala nativa, ou se seriam corrigidos segundo a ortografia e a gramática da língua portuguesa formal e oficial. 15 Embora o termo dialeto tenha sido praticamente abolido da linguística contemporânea, ele se fez muito presente nos estudos linguísticos sobre os modos de falar caipira pelo menos desde a segunda metade do século XX. Em 1876, por exemplo, José Vieira COUTO DE MAGALHÃES (2013: 26-29) sugeriu uma aproximação da língua tupi (ou nheengatu) com os dialetos do caipira, do caboré, do caboclo, do mameluco etc. Em 1920 Amadeu AMARAL (1981: 41-42) observou que “ao tempo em que o célebre falar paulista reinava sem contraste sensível, o caipirismo não existia apenas na linguagem, mas em todas as manifestações da nossa vida provinciana. De algumas décadas para cá tudo entrou a transformar-se. [...] Era impossível que o dialeto caipira deixasse de sofrer com tão grandes alterações do meio social”. Em período mais recente Ada Natal RODRIGUES (1974:22) concentrou seu estudo sobre o dialeto caipira na região de Piracicaba, pelo fato de ser “considerada uma das regiões onde o Dialeto Caipira, mesmo na área urbana, teria grande vigor”. 58 Sobre esta questão, duas contribuições foram fundamentais para minha decisão. A primeira veio quando minha orientadora me disse o seguinte: “Quando eu falo pessoalmente com você ‘Vô continuá sempre fazêno’, a tendência seria você transcrever ‘Vou continuar sempre fazendo’, porque você pressupõe que eu falo o português formal e correto e, portanto, transcreve corretamente sem mesmo reparar na minha pronúncia”. A segunda veio quando o professor Edgar Barbosa Neto, durante o exame de qualificação, apontou que “essa coisa, por exemplo, de suprimir determinadas consoantes (seno, achano, tamém, etc.) não me parece ser próprio do modo caipira. Muitas pessoas que conheço aqui em BH fazem isso”. Ao recordar que praticamente todas as pessoas que conheço, inclusive acadêmicos, falam “dialetalmente” e que eu certamente adequaria gramaticalmente suas falas para o português formal caso fosse transcrevê-las, achei que seria justo adequar também as falas dos foliões para a norma culta. No entanto, esta questão ainda traz outro desdobramento, que diz respeito a uma clara demarcação de classe social que, em último caso (como eu estava procedendo sem me dar conta), pode imprimir um caráter exótico ou folclórico à fala nativa, e isso na conotação mais pejorativa que estes termos possuem. A opção foi, portanto, por um caminho mais sutil, adequando a fala nativa à ortografia e à gramática da norma culta e do português oficial, buscando me valer mais do conteúdo daquilo que me foi dito do que propriamente da forma como me disseram. Em outras palavras, transcrever as falas dos foliões de forma exata, deixando transparecer o que na fala nativa foge à regra do português formal e reificando na transcrição as variações de pronúncia de sua língua oral, foi algo que em dado momento já não fazia mais sentido para mim. Chegado o momento de reescrever esta tese e já tendo repensado as escolhas iniciais, optei por manter um estilo discursivo adequado à norma culta para os relatos dos foliões sem, no entanto, me distanciar de uma escrita etnográfica, tarefa na qual ainda não sou capaz de precisar com muita exatidão o quanto fui bem sucedido. Em troca de que? Até que os laços de confiança e afetividade sejam construídos entre pesquisador e colaborador-informante, é preciso que o primeiro desenvolva meios para conseguir as informações necessárias para realização da pesquisa. Na pesquisa etnográfica esses meios podem ser entendidos simplesmente como trocas e geralmente refletem a forma como se deu uma primeira inserção do pesquisador no campo de trabalho e em meio aos sujeitos cuja vida e hábitos ele pretende investigar, sendo que esta inserção dificilmente se dará sem que seja 59 estabelecida alguma forma de troca. Quando conviveu com os apinayé, Roberto DaMatta revelou em uma de suas obras estas duas dimensões da relação existente entre pesquisador e colaborador-informante: de um lado, a importância da permuta como meio socializador; de outro, o surgimento de improváveis posturas afetivas em meio à uma constante negociação. Pengi entrou na minha casa com uma cabacinha presa a uma linha de tucum. Estava na minha mesa remoendo dados e coisas. Olhei para ele com o desdém dos cansados e explorados, pois que diariamente e a todo o momento minha casa se enche de índios com colares para trocas pelas minhas missangas. Cada uma dessas trocas é um pesadelo para mim. Socializado numa cultura onde a troca sempre implica uma tentativa de tirar o melhor partido do parceiro, eu sempre tenho uma rebeldia contra o abuso das trocas propostas pelos Apinayé: um colar velho e mal feito por um punhado sempre crescente de missangas. Mas o meu ofício tem desses logros, pois missangas nada valem para mim e, no entanto, aqui estou zelando pelas minhas pequenas bolas coloridas como se fosse um guarda de um banco. Tenho ciúme delas, estou apegado ao seu valor – que eu mesmo estabeleci... Os índios chegam, oferecem os colares, sabem que eles são mal feitos, mas sabem que eu vou trocar. E assim fazemos as trocas. São dezenas de colares por milhares de missangas. Até que elas acabem e a notícia corra por toda a aldeia. E, então, ficarei livre desse incômodo papel de comerciante. Terei os colares e o trabalho cristalizado de quase todas as mulheres Apinayé. E eles terão missangas para outros colares. Pois bem, a chegada de Pengy era sinal de mais uma troca. Mas ele estendeu a mão rapidamente: – Esse é para o teu ikrá (filho), para ele brincar... E, ato contínuo, saiu de casa sem olhar para trás. O objeto estava nas minhas mãos e a saída rápida do indiozinho não me dava tempo para propor uma recompensa. Só pude pensar no gesto como uma gentileza, mas ainda duvidei de tanta bondade. Pois ela não existe nesta sociedade onde os homens são de mesmo valor. DAMATTA, 1978: 33-34 Embora não exista equação universal para se analisar o “gesto de gentileza” descrito pelo antropólogo e ainda que existam diferentes formas de conceituar termos como dádiva e troca na literatura antropológica clássica, baseadas inclusive em distintos tipos de sociedades (MAUSS, 1974; BOURDIEU, 1974), podemos interpretar o caso citado por Roberto DaMatta como sendo bastante sintomático e revelador de uma situação específica. Sabemos que para descobrir algo é preciso relacionar-se e que para relacionar-se é preciso estar, de alguma forma, inserido nas várias dimensões da vida dos sujeitos, sendo a permuta de interesses talvez uma das formas mais práticas, simples e honestas de se estabelecer esta relação, desde que sempre venha acompanhada de uma clara consciência ética e moral de seu papel como pesquisador. Já a gentileza, por outro lado, tal como o colar oferecido pelo garoto apinayé ao antropólogo, só pode ser concebida em um momento posterior desta relação social, onde já predominam os laços de confiança e afetividade mencionados anteriormente, sendo, portanto, substancialmente diferente da troca, em cujo fim há sempre algum interesse. 60 Exemplos destas trocas não faltam na literatura e nos relatos etnográficos, como, por exemplo, quando Bronislaw MALINOWSKI (1976: 22) descreveu sua necessidade de instalar uma atmosfera de amabilidade mútua e suas condições de obtenção de informações junto aos nativos, com saudações em pidgin-English e algumas trocas de tabaco: “De facto, como sabiam que iria meter o nariz em tudo, mesmo onde um nativo bem educado não sonharia fazê-lo, acabaram por me encarar como parte integrante das suas vidas, um mal ou um aborrecimento necessário, mitigado por donativos em tabaco”. Para o antropólogo (1976: 18), tão ou mais importante do que o estabelecimento destas relações é o esclarecimento, por parte do etnógrafo e no texto escrito, da forma como as relações sociais foram estabelecidas. Esta inclusão no texto das condições, adversas ou não, enfrentadas pelo pesquisador para obter informações junto aos sujeitos e de um relato bastante claro das formas pelas quais chegou aos fatos descritos, parece ser algo realmente importante. No entanto, ao invés de serem informações decorrentes de situações inesperadas surgidas in loco, no próprio campo de trabalho, atualmente estas informações que se referem às possibilidades de trocas entre pesquisador e colaborador-informante podem já estar previamente definidas no projeto de pesquisa e ser os próprios objetivos para os quais a pesquisa será direcionada. Neste sentido, podemos distinguir basicamente duas correntes sobre as maneiras do fazer científico nas ciências humanas e sociais: aquela que entende que não cabe ao pesquisador exercer um papel ativo de agente social responsável por buscar transformações e melhorias nas condições de vida dos sujeitos de sua pesquisa; e a que entende que, justamente por possuir uma posição privilegiada na sociedade, caberia sim ao pesquisador condicionar seu trabalho para ações de instrumentalização dos sujeitos e transformação da realidade social. Em suma, estas correntes dizem respeito às formas como se dão as “trocas” entre o pesquisador e seus colaboradores. Especificamente dentro da Etnomusicologia, a segunda corrente vem sendo refletida nas propostas da Etnomusicologia Aplicada e da Pesquisa Ação-participativa (CAMBRIA, 2004; TYGEL, 2009; LUCAS, 2011), que, embora possuam suas particularidades, possuem entre seus objetivos centrais a realização de trabalhos práticos em benefício das comunidades estudadas dentro da própria pesquisa, e não como uma atividade paralela. A pesquisa ação- participativa, por exemplo, demanda que os principais objetivos de pesquisa sejam definidos conjuntamente entre pesquisadores e colaboradores, tendo seu desenvolvimento realizado de forma colaborativa e seus resultados e produtos decorrentes de prévias definições coletivas. Em certo sentido, são formas de trazer os sujeitos para ações em prol do cumprimento dos objetivos da pesquisa, instrumentalizando-os tanto na prática quanto teoricamente para 61 que possam desenvolver meios de continuarem trabalhando para melhorar suas condições de vida e de suas próprias comunidades, mesmo após o fim da pesquisa. Tais modelos buscam compreender a realidade social e aprofundar o conhecimento científico de forma articulada e guiada por princípios de responsabilidade social, cujos objetivos devem solucionar dilemas práticos das comunidades a partir da construção de conhecimentos compartilhados. Neste sentido, a pesquisa científica deve ser vista como uma forma de interação humana que deve contribuir para uma transformação positiva de determinado grupo ou realidade social. A intervenção do pesquisador para esta transformação da realidade social pode ocorrer de diversas formas, como em propostas de educação comunitária, em cursos de formação e capacitação dos sujeitos da pesquisa, na criação de ONGs, na produção de CDs ou DVDs dos grupos estudados, na catalogação e inventários das manifestações culturais tradicionais, na organização de arquivos e museus, na formulação de políticas públicas, entre tantas outras atividades. No entanto, é preciso ressaltar a importância de que todas estas ações em prol da comunidade sejam ditadas pelos próprios sujeitos da pesquisa, que as definirá conforme as necessidades do grupo. Ou seja, diferentemente dos casos mencionados anteriormente, todo o conteúdo das trocas é previamente colocado pelos colaboradores de forma participativa e autônoma entre os membros das comunidades, fazendo com que posteriormente os próprios sujeitos possam assumir total responsabilidade e controle destas ações. * * * No caso específico desta pesquisa, ainda que ela não se constitua uma pesquisa ação- participativa, algumas trocas se mostraram úteis e trouxeram contribuições para os grupos estudados. Entre as contrapartidas surgidas para que eu pudesse seguir as companhias em suas jornadas, a mais importante foi, sem dúvida, a devolutiva aos grupos do material audiovisual coletado durante o trabalho de campo. Na medida em que os registros foram sendo realizados (pensados inicialmente apenas para complementar o texto e auxiliar nas transcrições), muitos foliões começaram a solicitar uma cópia do material gravado, ressaltando sua importância para o grupo que, na maioria dos casos, não possuíam registros de suas atividades em material audiovisual. O folião José Ailton, por exemplo, foi um dos que reforçou a importância dos registros: “Pelo tempo que a gente sai, sem ser essas pessoas de celular, assim, que filma pra ficar em casa, mais simplesinho, você tá sendo a primeira. Tá sendo a primeira”. Já o folião Vitor Batista dos Santos, da Companhia dos Noel, praticamente nos intimou a fornecer uma 62 cópia dos registros: “Espero que você faça um presente do CD pra gente. E do DVD. Eu acho bom, porque a gente precisa guardar. Aí tá nós cantando, não tá? Não vai ter? Vai gravar com a gente cantando, né? Então, é uma lembrança. Que a gente pode até morrer qualquer hora aí. Sei lá. Mas fica pro povo, não é?”. E foi a partir do desejo dos foliões de possuírem estes registros que firmamos com as companhias um compromisso de fornecer a cada uma delas uma cópia com algumas passagens de suas atividades nos quatro anos de trabalho de campo. No entanto, de todo material gravado, somente alguns registros do primeiro e segundo ano do trabalho de campo já foram editados e disponibilizados aos grupos até este momento, principalmente devido à falta de tempo para finalizar as edições, sendo que a devolução do restante deste material está prevista para o final de 2019. A parte do material já entregue aos grupos também foi exibida publicamente aos foliões e devotos em duas ocasiões. A primeira ocorreu nos dias 21, 22 e 23 de dezembro de 2016 durante a II Mostra de Viola Caipira e Música Tradicional de Raiz. Na ocasião foram exibidos excertos dos registros audiovisuais de nove das treze companhias deste trabalho durante três dias de evento (três vídeos por dia) na Universidade Federal de Alfenas, onde compareceram dezenas de devotos e foliões de quase todas as companhias. A segunda ocasião ocorreu nos dias 01, 02, 08 e 10 de dezembro de 2017, quando foram exibidos excertos dos registros da Companhia Nossa Senhora de Fátima, da Companhia dos Santos Reis, da Companhia Santa Bárbara e da Companhia Sagrado Coração de Jesus em diversos bairros da cidade, onde ficam as sedes das companhias. Uma segunda utilização do material audiovisual, esta de ordem mais pessoal e já não tão condicionada pelos interesses dos foliões, surgiu quando, ao revisar o material que havia sido gravado, percebemos seu potencial para produção de um documentário sobre os grupos que participaram da pesquisa. Ainda que tal produção seja algo um pouco mais ambicioso do ponto de vista técnico e estrutural, o que torna um projeto a ser realizado em médio prazo, seu objetivo não é a comercialização e a ampla divulgação com interesses artísticos e midiáticos, mas a circulação entre um público direcionado e interessado em questões sobre as tradições musicais populares do país, ainda que a produção possa extrapolar a circulação local para um âmbito regional ou mesmo nacional. A produção de um documentário desta natureza também pode auxiliar na promoção de políticas que se voltem às necessidades das companhias, como a obtenção de auxílios e recursos junto ao poder público. E, neste sentido, a própria pesquisa pode trazer algumas contribuições para os grupos, uma vez que pode ser utilizada como um quadro das atividades religiosas dos foliões, revelando vários aspectos no que concerne à sua organização estrutural, às relações sociais estabelecidas e às necessidades para sua realização. 63 – PARTE I – O PARTICULAR E O “UNIVERSAL” Basta que se lhe reconheça o modesto mérito de ter deixado um problema difícil numa situação menos ruim do que aquela em que o encontrou. Não devemos esquecer que na ciência não pode haver verdades estabelecidas. O estudioso não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é aquele que faz as verdadeiras perguntas. CLAUDE LÉVI-STRAUSS, 1967 64 1. Um estudo etnográfico entre folias e companhias Não me recordo exatamente quando foi a primeira vez que ouvi o termo folia de reis, mas acredito que tenha sido entre 2004 e 2007, durante minha graduação em Música, muito provavelmente em algum texto lido para alguma disciplina que abordava temáticas da cultura popular. Portanto, antes disso o termo possuía pouco ou nenhum significado para mim, sendo que, mesmo depois deste primeiro contato, minha imagem sobre o que seria uma folia de reis ainda era extremamente vaga, para não dizer errônea. Em 2012, já residindo no município de Alfenas, passei a ouvir o termo novamente – talvez pela segunda vez na vida – mas, desta vez, com certa frequência. Isto foi algo que de imediato me chamou bastante atenção, mesmo não sabendo ainda no que realmente consistia uma folia de reis. O contexto no qual passei a ouvir o termo com mais frequência foi minha participação em um projeto de pesquisa coordenado pelo professor Dr. Carlos Tadeu Siepierski, no período em que fui aluno de graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alfenas16. Nesta ocasião tive oportunidade de realizar inúmeras visitas às comunidades rurais do município, assim como o grande privilégio e satisfação de manter um efetivo e afetivo contato com vários de seus moradores. Ainda que o objeto de investigação da pesquisa não fosse musical, foi através dela que pude conhecer melhor as manifestações tradicionais do município – das quais a dedicada ao culto aos três reis magos é apenas uma delas – e seus principais realizadores: os devotos e foliões. Este foi o primeiro passo para que eu viesse, desde então, aprimorando, reelaborando e reatualizando constantemente meu conceito sobre o que seria uma folia de reis e, mais do que isso, do que seria uma folia de reis para os devotos e foliões de Alfenas. O termo folia de reis, no sul de Minas Gerais, geralmente caminha ao lado do termo companhia de reis, sendo dois lados de uma mesma moeda, enquanto que o termo ciclo de reis, por sua vez, não é utilizado pelos foliões, ainda que curiosamente esteja presente em uma vasta literatura sobre o tema, tendo sido talvez apropriado de forma genérica pelos folcloristas e acadêmicos brasileiros a partir das terminologias utilizadas nos estudos europeus sobre os trabalhos religiosos de culto aos santos católicos. Portanto, antes de iniciarmos nossa jornada junto das companhias, parece importante apresentar e discutir algumas definições relativas aos termos folia e companhia de reis, em acordo com os termos utilizados pelos devotos e foliões sujeitos deste trabalho. 16 A proposta do projeto de pesquisa era investigar algumas questões relacionadas à identidade a partir de uma Antropologia das Modernidades, especificamente sobre possíveis conflitos e dilemas de identidade vividos por agentes comunitários de saúde do Programa Saúde da Família Rural – PSF de Alfenas, durante o processo de implantação do conhecimento e de tratamentos biomédicos nas comunidades rurais do município. 65 1.1. A moral terminológica e as três classes de foliões No que diz respeito à terminologia utilizada, podem ser distinguidas basicamente três classes de foliões: os que fazem questão de utilizar o termo companhia de reis, por atribuírem um sentido pejorativo ao termo folia; aqueles que preferem utilizar o termo folia de reis, por acreditarem ser este o termo correto segundo a tradição; e os que aparentemente se mostram indiferentes em relação à utilização de um ou de outro termo, embora esta indiferença possa ser mais consequência de um descuido ou uma falta de policiamento para se referir ao termo que acreditam ser correto do que de fato uma postura de indiferença ou de contradição. O capitão Tiãozinho, da Companhia Sagrado Coração de Jesus, me disse que “tem gente que não gosta de falar folia. Mas se você levar pela tradição antiga, o certo é falar folia mesmo. O certo é folia”. O bastião Nivaldo dos Santos, da Companhia da Irmandade, me contou que faz trinta anos que ele “corre atrás de folia de reis”. O folião José Ailton de Paula, ao reforçar o que é folclore, me disse que “folclore não é só congada não. É folia de reis, congo, moçambique, caiapó, olodum, escola de samba [...]”. E se valendo também de folia, o capitão Odair Jovino “Bicudo”, da Companhia Santa Bárbara, em uma conversa no dia de entrega da bandeira em 2016, me disse que “hoje é o dia final da folia de reis”. O devoto Zeca, que recebeu a Companhia dos Noel em 2015, me disse que os foliões precisam estar “obedecendo todas as regras da folia de reis”. Já o músico Jair Campanário, que por quase quinze anos foi violonista da dupla Milionário & José Rico e que viu e ouviu pela primeira vez um hino de reis durante a jornada de 2016, fez o seguinte comentário: Você sabe que eu nunca tinha visto um reizado na minha vida? É bom a gente saber. A gente vai ouvindo, vai se apegando, vai imaginando e vai entendendo o sentido da coisa. É engraçada essa vida da gente, né? Já rodei o mundo aí e nunca acompanhei uma folia de reis. A gente vê de longe. A primeira vez foi hoje. Tenho sessenta e cinco anos. Você já pensou rapaz. Eu que pensei que já tivesse passado por tudo que alguém pode passar na vida, de repente o Ademir me tirou da cama, porque eu estou com problema de depressão, e me chamou pra vir no Ernani um poquinho pra descontrair, que a companhia dele ia tá aqui. Vim, acabei cantando umas modas e de repente estou aqui na folia cantando também. Reis. JAIR CAMPANÁRIO, 2016 Ainda que alguns foliões e devotos se utilizem do termo folia de reis por descuido ou distração, alguns relatos nos evidenciam que existem foliões que realmente acreditam que seja este o termo correto para se referir aos grupos, pois, como me contou o capitão Tiãozinho, “se você levar pela tradição antiga, o certo é falar folia mesmo. O certo é folia”. 66 Quanto às referências aos relatos onde os dois termos aparecem lado a lado, estes são igualmente numerosos. O folião Miguel, responsável pela Companhia Santa Bárbara, relatou o seguinte: “Nós temos uma folia de reis aqui já há muitos anos, vem de uma tradição dos nossos avós, pais e vem passando de geração para geração [...]. Nós vamos levando a folia de reis até quando puder, se Deus quiser. A companhia de reis é uma tradição muito antiga”. O folião Osmair Cantarelli, responsável pela Companhia Reis do Oriente, ao saber que talvez não tivesse a quantidade mínima de foliões para o giro de 2016, me disse: “Vou pegar umas varas de anzol, vou pra beira do córrego e vou ficar lá até acabar as folias de reis. Acho que vai parar minha companhia de reis”. O folião José Vicente Cassimiro me contou que “a tradição de folia de reis” não entrava no seu sangue, até que decidiu sair pela primeira vez “com a companhia, que acabou”. O folião Sebastião, capitão da Companhia Santa Bárbara, me contou “um pouquinho da tradição da companhia de reis: [...] Eu comecei com folia de reis através do meu pai, porque meu pai era folião de reis. Meu pai era bastião”. O folião Gilberto dos Reis me relatou que, em um dos anos em que saiu com a companhia, fez uma doação na capela do santo dando a seguinte explicação ao padre: “Eu saio com folia de reis, então o dinheiro que sobrou da companhia de reis eu vim fazer uma doação”. A devota Miriam me disse que todos os anos ela e sua cunhada ficam responsáveis pela comida e que elas “esperam mais a folia de reis do que eles [os homens]. E no dia que a companhia chega nós começamos seis horas da manhã cozinhando”. O devoto Pascoal, que sempre ajuda a Companhia da Irmandade com a doação de um uniforme novo, disse que “as companhias é uma tradição que vem cada vez se diminuindo mais. O povo, a população de hoje, essa nova juventude não acredita na folia de reis, no nascimento de Cristo”. E, por fim, um relato onde os termos aparecem na mesma palavra, registrado em uma conversa com José Dito Lázaro, o Decão. Sendo parente mais velho dos foliões da Companhia dos Santos Reis, ao me contar a história de seu bairro ele disse que os atuais foliões são mais novos do que os de sua geração, sendo eles que “ficaram incumbidos de fazer esse trabalho da companhia de folia de reis”. Ainda que esta discussão terminológica possa parecer totalmente supérflua, ela mostra sua importância quando nos voltamos para os relatos dos foliões que fazem questão de usar o termo companhia de reis, por associarem o termo folia a um grupo de pessoas que saem pelas ruas da cidade fazendo baderna, bagunça e algazarra, geralmente sem instrumentos musicais e de forma bastante caótica e desordenada. Segundo estes, os integrantes de folias não possuem compromisso religioso e não são devotos de nenhum santo, ficando sua atuação dissociada da fé, das pregações e das visitas domiciliares de caráter evangelizadoras e circunscrita ao plano 67 mais imediato e não mediado da existência física e material dos foliões. Distintamente do que aparentemente ocorre em outras regiões do país, onde o termo folia não traz nenhum sentido pejorativo aos foliões (BITTER, 2008; PEREIRA, 2011), sendo utilizado tanto para se referir aos doze dias de saída dos grupos quanto aos grupos em si, no sul de Minas Gerais este termo muitas vezes vem carregado de uma forte carga semântica pejorativa, motivo pelo qual muitos foliões o evitam. Esta associação negativa do termo, consequente de um valor moral atribuído por uma parcela significativa da coletividade de devotos e foliões, funciona, em muitos casos, como um elemento social restritivo de controle e policiamento, o que pode ser observado pelo fato de que, a não ser por alguma distração ou descuido durante uma conversa, muitos foliões raramente o utilizam por correrem o risco de serem corrigidos por seus companheiros. Alguns foliões acreditam que ao utilizar o termo folia estarão se comprometendo ou sendo mal vistos por seus pares, devido principalmente ao ressentimento que muitos deles possuem em relação ao termo e pelo sentido moral que o associa ao caráter não religioso, à baderna e à desordem. O capitão João Benedette, por exemplo, ao explicar as origens das companhias, me contou que antigamente foi formado “o grupo que hoje uns chamam de folia de reis, mas para nós é companhia de reis”. Para o folião José Rosa da Silva, da Companhia Nossa Senhora de Fátima, “falar folia tá muito errado, porque folia tem em diversas coisas. Nessa parte aí é companhia de reis. Eu acho que folia tá errado. Eu saio há sessenta e sete anos, desde a idade de criança. Comparam companhia de reis com folia, mas é diferente”. O folião Zé Messias reforça a posição do companheiro dizendo que “o certo é companhia de reis... folião é quando completa, daí fala os foliões”. E indo nesta mesma direção, outro folião da companhia endossa o posicionamento dos companheiros, afirmando que: O certo é companhia mesmo, porque Gaspar e Baltazar foram companheiros de Belchior. Porque o rei é só um, só Belchior. Gaspar e Baltazar foram companheiros dele, então por isso que surgiu a companhia dos Santos Reis. Agora a folia que eles falam é de Carnaval. Só que na bíblia tá folia de reis, mas o certo é companhia de reis. Porque quando São José foi coroar o rei, que era Belchior, Gaspar e Baltazar ficou pra trás. Então São José perguntou: “O que esses dois estão fazendo junto com você?”. Belchior disse: “Eles chegaram atrasados, mas estão em minha companhia”. São José falou: “Então agora você coroa esses dois pra ser a tua companhia”. Aí surgiram os três reis magos do Oriente e as três pessoas da santíssima trindade. Aí eles saíram procurando agasalho, pedindo pouso e comida. Aí a estrela apagou e deu o sinal aonde estava o menino Jesus que tinha nascido. Mas aí eles já estavam em três. Cada um de uma nação. LUÍS DE BRITO, 2018 68 Ainda que em alguns casos, como estes apresentados, exista consenso entre foliões de uma mesma companhia sobre a terminologia correta a ser usada, existem casos em que foliões de um mesmo grupo discordam abertamente sobre esta questão. O folião Carlos Eduardo de Souza Alves, de apenas onze anos e filho de um dos foliões da Companhia Sagrado Coração de Jesus, ao ouvir o capitão Tião dizer que “se você levar pela tradição antiga, o certo é falar folia mesmo”, entra no meio da nossa conversa discordando enfaticamente do capitão: “Meu pai não gosta que fala folia, ele gosta que fala companhia. Toda vez que eu falo folia de reis ele me corrige: ‘Não é folia, folia é de cachorro. É companhia’”. O capitão, meio sem jeito de questionar a autoridade do pai do garoto, diz que “tem pessoas que tem esse preconceito, mas a gente não liga não porque a gente já conheceu desde moleque como folia”. O último relato a ser apresentado é do bastião Wolney Vieira, da Companhia dos Benedette, que me esclareceu com mais detalhes os motivos pelos quais acredita que não se deve utilizar o termo folia. Pra nós foliões não é só um folclore, certo? É uma fraternização de fé. Nós saímos porque os reis magos saíram lá do Oriente e vieram pra Belém pra visitar o menino Jesus que é o Rei, né? É o Rei do mundo. Então eles vieram com muita fé pra isso. Então nós aqui que somos da companhia de reis, na época nós formamos, chamamos os companheiros, os que chamam de foliões, e falamos que é companhia de reis. Porque companhia de reis? Porque companhia de reis a gente reúne os companheiros, os foliões, e sai com a bandeira dos três reis, com o menino Jesus e Maria José que é religião. É pregar o evangelho do nascimento de Jesus Cristo que nós saímos fazendo. E sendo assim nós falamos companhia de reis porque forma uma companheira, uma companheirada, certo? E a folia de reis, como o povo fala: folia? Mas folia é diferente. A folia é aquela que sai fazendo algazarra. Não tem sanfona, não tem nada e não prega o evangelho. Nós saímos pregando com fé. Para nós, fé. Agora folia é algazarra. Então isso é a diferença da folia com a companhia de reis pra nós. Então nós falamos companhia de reis porque nós pregamos o evangelho, o nascimento de Jesus Cristo e falamos sobre isso na viagem dos reis com fé. [...] Na companhia de reis nós saímos por confraternização de fé com nossa bandeira na frente. Agora folia é diferente, a folia ela não tem aquela bandeira, ela sai fazendo algazarra, batendo caixa, pandeiro e tal, igual carnaval que vai batendo aí e tal. Aí são as folias. As folias não cantam dentro das casas, não saem para esse fim, né? Por isso que nós gostamos de chamar de companhia de reis por causa disso, a companhia de reis sai de forma organizada. O objetivo dela é essa organização pra chegada. Como é que você vai chegar e bagunçar na casa dos outros? Não pode né? Tem que chegar pelo menos uniformizado pra fazer a coisa certa. Você está fazendo uma coisa pra Deus, então o certo da companhia de reis geralmente é isso. É pregar alegria, o evangelho do nascimento de Jesus e levar alegria nos lares das pessoas. WOLNEY VIEIRA, 2016 1.2. O trabalho religioso de uma confraternização de fé Uma última consideração neste sentido diz respeito aos termos utilizados pelos foliões para se referir aos doze dias de saída dos grupos para cantar na casa dos devotos, assim como para os trajetos que fazem diariamente pelos municípios da região. Na bibliografia folclórica e 69 acadêmica geralmente são utilizados termos como giro (PEREIRA, 2011), percurso, ciclo de visitações (IKEDA, 2011), jornada (BRANDÃO, 1981; REILY, 2002; BITTER, 2010), ciclo (ROSSE, 2009), entre outros. Em alguns destes trabalhos é difícil situar o que seria de fato a terminologia nativa do que, eventualmente, possa ser uma pressuposição do pesquisador. No caso do nosso campo, ainda que existam conflitos no que diz respeito à terminologia utilizada para se referir aos grupos, como mencionamos, o mesmo não acontece em relação aos termos utilizados para se referir à saída dos grupos. Ainda que o termo dia de reis seja compartilhado pelos foliões para se referir ao dia em que é feita a entrega da bandeira, muitos foliões sequer nomeiam os doze dias em que saem com suas companhias, sendo comum ouvir de alguns que “cada um dá um nome” ao ato de sair pelos bairros para cantar nas casas e pagar as promessas dos devotos, ou até mesmo que tal prática “não tem nome”. Outros foliões acabam por sugerir alguns termos que, ainda que de forma genérica ou específica, se referem ao período de doze dias em que saem pelas ruas para pagar as promessas dos devotos. Os foliões José Ailton de Paula e Divino Vitório dos Santos, por exemplo, falam em folclore da cidade, assim como o bastião Wolney, que além deste termo também se reporta ao encontro dos foliões como sendo uma confraternização de fé. O folião Osmair Cantarelli fala em trabalho ao se referir a “esse trabalho que nós fazemos com a companhia de reis”, enquanto que para o capitão Adriano Nogueira, da Companhia Sagrado Coração de Jesus, os termos utilizados para se referir à saída dos grupos não tem muita importância, embora ele se utilize de termos como giro e itinerário. Já o folião Tião, capitão desta mesma companhia, faz uma distinção entre os doze dias de saídas, que ele denomina jornada, e as saídas diárias dos grupos, o giro ou itinerário. Alguns falam: aonde vai ser o itinerário? Outros falam: aonde vai ser o giro? Então precisa saber pra onde vai pra controlar. Por exemplo: nós almoçamos aqui e a janta vai ser lá perto do Zoológico. Então a gente vai ver por onde vai andar, onde vai ser o giro, o itinerário, pra gente não ficar deslocando muito. Entendeu? Agora jornada é do dia vinte e cinco até o dia seis. Aí é uma jornada só. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2018 Tendo em vista que em muitos trabalhos é comum encontrarmos termos como ciclo de reis, festa de reis, festa dos santos reis, festejos aos santos reis, terno de reis, terno dos santos reis, reisado, entre outros, apropriados como se fossem consensualmente utilizados e aceitos, ainda que muitas vezes não tenham sido mencionados diretamente pelos foliões e devotos que foram sujeitos da pesquisa, julgamos importante ao menos problematizar estas questões. Um dos intuitos desta problematização foi chamar atenção para os inúmeros desdobramentos que esta discussão poderia tomar, como, por exemplo, a constatação de uma autonomia do sistema 70 religioso extraoficial em relação ao catolicismo ortodoxo (BRANDÃO, 2007). Neste sentido, as contradições terminológicas, ideológicas e conceituais que foram apresentadas percorrerão todo o trabalho, pois são reflexos diretos de um universo dinâmico, conflituoso e heterogêneo cujas interações, negociações e disputas são muito características de formulações políticas e ideológicas elaboradas no interior de seu próprio sistema cultural, sendo sobre elas que desenvolveremos algumas das interpretações sociais presentes nesta pesquisa. 1.3. Um cenário heterogêneo de disputas e negociações A partir dos relatos apresentados podemos fazer algumas breves considerações, sendo necessário, acima de tudo, chamar atenção para a ausência de consenso entre os foliões. Além do fato dos dois termos possuírem significados diferentes para alguns foliões (de companhias diferentes ou de uma mesma companhia), é curioso observar que estas diferenças nunca foram descritas na literatura folclórica e acadêmica tradicional, mesmo nas etnografias que buscaram realçar as particularidades do caso estudado, o que sugere que tais diferenças não existam nos campos de estudo ou que os estudiosos optaram por deixa-las fora de discussão, nos passando uma impressão de que existe um consenso entre os foliões no que diz respeito à utilização dos termos folia de reis, companhia de reis ou mesmo ciclo de reis. Esta literatura, parte dela mais antiga e, portanto, mais distante da dinâmica de interações atuais no universo local das folias / companhias de reis, desconsidera alguns aspectos que julgamos serem imprescindíveis para estudos desta natureza, ainda que muitos destes trabalhos enfatizem com propriedade que não existe um modelo de folia ou companhia que possa ser utilizado de forma genérica. Ainda que seja necessário considerar a pluralidade de ideologias e terminologias locais do nosso campo de estudo, de forma a não equaliza-las ou neutraliza-las, não podemos deixar de lado o fato de que existem aquelas que são dominantes, conceitos mais cristalizados (como a prevalência do termo companhia em nosso campo, ainda que coexistindo com o termo folia) que, ainda que não devam ser recortados do cenário de interações, negociações e disputas tão características do universo dinâmico e heterogêneo ao qual pertencem, devem ser valorizados e considerados em relação (de detrimento, se necessário) às ideologias e terminologias menos ocorrentes (como é o caso do termo folia). Esta afirmação de forma alguma sugere que alguns conceitos menos recorrentes devem ser interpretados como uma distorção ou desvio, que foge de um modelo presumidamente concebido a partir de uma tradição supostamente cristalizada, mas sim que, sendo considerados em uma relação hierárquica, onde determinadas ideologias e 71 terminologias possuem mais adeptos do que outras (como é o caso do termo companhia), elas acabam por reforçar o cenário dinâmico e heterogêneo de conflitos e interações do qual fazem parte. Há também de considerar que, obedecendo minha proposta etnográfica, de privilegiar os discursos, entendimentos e termos dos devotos e foliões, é preciso apresentá-los com todas suas divergências e contradições, sem que a isso seja cotejado um sentido exterior, como se estivessem fora de seus domínios culturais, simbólicos e sociais. 72 2. Os estudos sobre o culto de adoração aos Santos Reis Os estudos sobre o culto aos três reis magos felizmente já foram merecedores de fazer parte de cuidadosas revisões bibliográficas dentro das ciências humanas e sociais, tendo sido realizadas por pesquisadores comprometidos em resgatar na história da produção intelectual brasileira trabalhos que de alguma forma tenham abordado esta temática. O que apresentarei a seguir, de forma bastante sucinta e substancial, são, portanto, apenas alguns apontamentos sobre os levantamentos já realizados por outros pesquisadores (dos estudos folcloristas até os estudos antropológicos e sociológicos), procurando eventualmente trazer alguma contribuição acerca de trabalhos produzidos em outras áreas do conhecimento, principalmente na Música. Nos últimos anos surgiram dois trabalhos produzidos nas ciências humanas e sociais, especificamente na Antropologia, que ganharam destaque dentro da produção sobre este tema pelas valiosas contribuições que trouxeram para a área, pelo rigor metodológico e científico adotado por seus autores e, como consequência disso, por terem sido transformados em livros. As obras de Daniel BITTER (2008) e Luzimar Paulo PEREIRA (2011), frutos de suas teses, nos trazem uma revisão bibliográfica particularmente cuidadosa sobre o trabalho religioso de culto e louvor aos Santos Reis, onde os autores distinguem dois grupos onde estudos com esta temática podem ser classificados na história da produção intelectual brasileira: de um lado, aqueles produzidos pelos pesquisadores através de uma análise mais descritiva, representados em sua grande maioria pelos folcloristas17; de outro, uma vertente já interpretativa, analítica e mais reflexiva, representada em grande maioria por sociólogos e antropólogos18 que buscaram 17 AMARAL, Amadeu. Tradições Populares. São Paulo: Instituto Progresso Editora, 1948; ARAÚJO, Alceu Maynard. “Folias de Reis de Cunha”. Em: Documentário Folclórico Paulista, Revista do Arquivo Municipal (RAM) 20 (157) jul / dez, 1952; TAVARES DE LIMA, Rossini. O ABECÊ do Folclore. São Paulo: Ricordi, 1972; CASTRO, Zaíde Maciel & COUTO, Aracy do Prado. Folias de Reis. Rio de Janeiro: Cadernos de Folclore da FUNARTE, n. 16, 1977; PORTO, Guilherme. As Folias de Reis no sul de Minas. Rio de Janeiro: Edições FUNARTE/INF, 1982; CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998; etc. 18 BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Folia de Reis de Mossâmedes. Rio de Janeiro: Cadernos de Folclore da FUNARTE, n. 20, 1977; FRADE, Cáscia. O saber do viver. Redes sociais e transmissão do conhecimento. Tese de doutorado em Educação. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 1977; BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Sacerdotes da Viola. Petrópolis: Vozes, 1981; PESSOA, Jadir Moraes; PESSOA, Edison; VIANÊS, Edson Alves. Meu senhor dono da casa: os 50 anos da Folia de Reis de Lages. Goiânia: O Popular, 1993; PEREIRA, Luzimar Paulo. Os andarilhos dos Santos Reis: um estudo etnográfico sobre Folias de Reis, bairro rural e sistemas de prestações totais. Dissertação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. CPDA/UFRRJ, 2004; COSTA, Mauro Sá Rego. “Para uma estética das Folias de Reis entre as formas populares de folclore”. Conservatório Brasileiro de Música: pesquisa e música, v. 1. Rio de Janeiro: Machado Horta Editora e Publicidade, 1984-1985; MONTE-MOR, Patrícia. Hoje é dia de Santos Reis: um estudo de cultura popular no Rio de Janeiro. Dissertação em Antropologia Social. Museu Nacional/UFRJ, 1992; REILY, Suzel Ana. “Political Implications of Musical Performance”. The Word of Music. 37 (2), 1995, pp. 72-102; PERALTA, Patrícia. A dramaticidade plástica da Folia de Reis. Análise das imagens e rituais da folia manjedoura de mangueira. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2000; REILY, Suzel Ana. Voices of the Magi: enchanted journeys in Southeast Brazil. Chicago: University 73 deslocar para estas manifestações culturais um olhar mais reificado e relativista, na tentativa de obter mais objetividade e propriedade na interpretação das relações sociais, das interações performáticas e das alianças pessoais construídas no processo ritual destas manifestações. Sobre o primeiro grupo Daniel BITTER (2008: 10) ressalta que “a preocupação central desses trabalhos está na descrição formal dos vários elementos que compõe a folia”, enquanto Luzimar Paulo PEREIRA (2011: 13) diz que, “de modo geral, os autores identificados com a abordagem folclorista estão preocupados em buscar as origens ibéricas dessa manifestação religiosa”. Ou seja, enquanto uma vertente adotou uma abordagem difusionista (suas origens ibéricas), uma exaustiva descrição dos elementos materiais e não materiais das festas (roupas, instrumentos, música, versos etc.) e uma possível “extinção” destas manifestações diante dos processos de urbanização, modernização e mundialização da cultura, muitas vezes reiterando discursos saudosistas, a segunda vertente procurou compreender estes festejos no interior de sistemas culturais e sociais específicos e dentro da diversidade da cultura popular brasileira, atentando ora para as questões da reciprocidade, da unidade social e da identidade dos sujeitos dentro de pequenas comunidades e ora para a inserção destas festividades predominantemente rurais em grandes centros urbanos a partir das ressignificações promovidas pelos sujeitos no novo contexto social e cultural, tomando para análise as performances musicais e os artefatos simbólicos com uma abordagem teórica e conceitual de cunho sociológico e antropológico. A “visão sistêmica de cultura” (BITTER, 2008: 11) toma então lugar da abordagem difusionista e eminentemente descritiva dos folcloristas, em “uma tentativa de se entender os festejos no interior de sistemas culturais e sociais específicos” (PEREIRA, 2011: 13). Já em 1981, Carlos Rodrigues BRANDÃO (1981: 08) havia mencionado o que ele dizia serem tipos opostos de livros e documentos sobre este tema: “de um lado os da Antropologia Social que formulavam teorias e desvendavam mistérios de inúmeros tipos de trocas sociais e simbólicas entre os homens. De outro lado, os do folclore brasileiro, que descreviam muitas vezes as mesmas coisas que eu estudava em Goiás, tal como elas aconteciam em outros Estados”. Estas duas correntes apresentadas pelos autores mencionados foram, e ainda são, os alicerces de muitas of Chicago Press, 2002; CHAVES, Wagner. Na jornada de Santos Reis: uma etnografia da Folia de Reis do mestre Tachico. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social. PPGAS/UFRJ, 2003; PEREIRA, Luzimar Paulo. Os andarilhos dos Santos Reis: Um estudo etnográfico sobre Folia de Reis e Bairro Rural. Dissertação de mestrado em Antropologia. Rio de Janeiro: UFRRJ, 2004; CHAVES, Wagner. “Recebeis meu Bom Jesus com sua nobre folia”: reflexões sobre a eficácia do canto nas folias norte-mineiras do alto-médio São Francisco. Textos escolhidos de cultura e arte populares. Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, 2006, pp. 81-99. CHAVES, Wagner. A bandeira é o santo e o santo não é a bandeira: práticas de presentificação do santo nas Folias de Reis e de São José . Tese de Doutorado em Antropologia Social. PPGAS/UFRJ, 2009; BITTER, Daniel. A bandeira e a máscara: a circulação de objetos rituais nas folias de reis. Rio de Janeiro: 7Letras; Iphan/CNFCP, 2010; PEREIRA, Luzimar Paulo. Os giros do sagrado: um estudo etnográfico sobre as folias em Urucuia, MG. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011. 74 pesquisas que trazem em suas temáticas os cultos de louvor e adoração aos Santos Reis, sendo esta própria introdução um reflexo desta influência. Além dos trabalhos nas áreas do Folclore, Sociologia e Antropologia, temos também alguns trabalhos produzidos na área da História, onde o tema foi tratado de forma distinta pela própria natureza da disciplina. O historiador Pedro Henrique VICTORASSO (2013) realizou uma revisão bibliográfica de trabalhos produzidos na área, constatando que pesquisas sobre o tema são relativamente recentes e, portanto, escassas. Ao abordar os festejos de culto e louvor aos Santos Reis em diversas regiões do país, estes trabalhos se inserem, segundo o autor, em uma corrente denominada de Nova História Cultural, que, pelo diálogo, principalmente com a Antropologia, abriu espaço para a valorização do local e do particular a partir da utilização de metodologias promotoras deste diálogo, como a História Oral. O historiador também divide estes trabalhos em duas categorias, sendo uma cultural e outra religiosa, dentro das quais se encontram distintas vertentes de pesquisa. Segundo o autor, na primeira categoria os trabalhos adotam uma concepção social de cultura proveniente da escola marxista inglesa (especialmente Raymond Williams), rejeitando uma visão de cultura popular estática no passado e interpretando-a como rica em significados, procurando recriar, a partir das práticas das festas de Santos Reis, uma ideia de identidade cultural local apontando para a existência de particularidades e conflitos típicos do universo cotidiano das relações de trabalho e lazer19. Já a segunda categoria se volta para uma análise da vida social dos sujeitos a partir do intercâmbio estabelecido com o universo sagrado- religioso e como este norteia suas vidas, dispensando um contexto histórico e cronológico por 19 Nesta corrente, que o autor denomina de História Social da Cultura, ele identifica dois blocos: No primeiro, a análise da cultura popular passa pela visão dos modos de pensar, agir e sentir dos sujeitos, mas também é vista como um conflituoso campo de interações sociais. Aqui os autores se valem de conceitos como os de prática e representação, de Michel de CERTEAU e de Roger CHARTIER, para discutir permanências e transformações de práticas culturais em sua relação com as transformações econômicas e sociais vivenciadas pelos sujeitos. Neste bloco o autor situa os seguintes trabalhos: MACHADO, Maria Clara Tomaz. Cultura popular e desenvolvimento em Minas Gerais: Caminhos cruzados de um mesmo tempo (1950-1985). 291 f. Tese (Doutorado em História Social): Universidade de São Paulo, 1998; GOLOVATY, Ricardo Vidal. Cultura popular: saberes e práticas de intelectuais, imprensa e devotos de Santos Reis – 1945-2002. 180 f. Dissertação (Mestrado em História Social): Universidade Federal de Uberlândia, 2005. No segundo bloco, os autores também se aproximam do paradigma de “cultura como representação”, defendido por Michel de CERTEAU, mas, agora, procuram observar os modos de usar e de elaborar representações sociais, bem como de assimilar elementos culturais e religiosos a partir da forma como são ressignificados ou mesmo abandonados pelos sujeitos (a exemplo das adaptações dos festejos de culto e adoração aos Santos Reis realizados fora do período tradicional, para sua utilização em festividades e eventos não religiosos, refletindo assim as distintas formas nas quais as práticas culturais são pensadas, criadas e recebidas pelos sujeitos), partindo de suas transformações e de suas permanências no decorrer da História. Neste bloco o autor situa os trabalhos: OUROFINO, João Venâncio Machado. São Braz de Minas: A migração, as transformações locais e o imaginário religioso. 169 f. Dissertação (Mestrado em História): Universidade de Brasília, Brasília, 2009; PINTO, Jorge Luiz Dias. Os espaços da Folia de Reis em Maringá/PR: O grupo Unidos com Fé. 129 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual de Maringá, 2010. 75 entender que a compreensão da dimensão social e cultural dos sujeitos, se constituídas via religião, se sobrepõem à descrição de acontecimentos puramente históricos20. Em período mais recente começaram a surgir trabalhos especificamente em Programas de Pós-graduação em Música, trazendo algumas particularidades se comparados com aqueles produzidos nas áreas da Antropologia, Sociologia e História. Apesar de dialogarem com estas e outras áreas do conhecimento afins da Etnomusicologia, principalmente no que diz respeito à coleta de dados – ao se valerem da etnografia enquanto método e da observação participante enquanto ferramenta metodológica –, estes trabalhos possuem, como característica comum, a realização de transcrições musicais e sua utilização como elemento fundamental para a análise interpretativa21. Embora as transcrições musicais tenham sido utilizadas desde longa data por folcloristas, inclusive em estudos sobre as festividades de culto e louvor aos Santos Reis, uma novidade nos trabalhos dos etnomusicólogos consistiu na tentativa de articulação das análises musicais com o contexto social e cultural das práticas religiosa-musicais e com um repertório teórico e conceitual proveniente principalmente da Antropologia e da Sociologia, além de um tratamento diferenciado dado às análises formais e estruturais das músicas em relação àqueles 20 Nesta corrente os autores privilegiam a vivência sagrada e religiosa dos sujeitos e as trocas realizadas com as divindades: MENDES, Luciana Aparecida de Souza. As Folias de Reis em Três Lagoas: a circularidade cultural na religiosidade popular. 142 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal da Grande Dourados; Dourados, 2007; LOPES, André Camargo. Adeus às violas: As Companhias de Reis da região dos Cinco Conjuntos no município de Londrina/PR – estudos históricos acerca do catolicismo tradicional popular brasileiro e a formação dos mestres-rituais a partir da mobilidade social da região. 391 f. Dissertação (Mestrado em História Social). Universidade Estadual de Londrina; Londrina, 2009; VICTORASSO, Pedro Henrique. A Folia de Reis da Companhia de Reis Fernandes em Olímpia / São Paulo (1964-2014): entre o sagrado e o profano. 169 f. Dissertação (Mestrado em História) - Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP, 2015. 21 KIMO, Igor Jorge. Música, ritual e devoção no terno de folia de reis do mestre Joaquim Poló. 219 f. Dissertação (Mestrado em Música). Escola de Música; Universidade Federal de Minas Gerais: Belo Horizonte, 2006. FONSECA, Edilberto José de Macedo. ”Temerosos Reis do Cacete”: uma etnografia dos circuitos musicais e das políticas culturais em Januária - MG. 309 f. Tese (Doutorado em Música). Centro de Letras e Artes; Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2009; CALDEIRA NEVES, Marco Antônio. A Música da Folia de Reis na Comunidade Quilombola Agreste do Norte de Minas Gerais. Dissertação (Mestrado em Música). Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes; Universidade Federal da Paraíba: João Pessoa, 2010; IKEDA, Alberto Tsuyoshi. Folias de Reis, sambas do povo: Centro de Estudos de Cultura Popular (CECP); Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR): São José dos Campos, 2011; CASTRO LOPES, Marcelo de. Sons, violência e devoção: um estudo sobre as Folias de Reis em Juiz de Fora-MG. 192 f. Tese (Doutorado em Música). Centro de Letras e Artes; Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2013; ROCHA, ROSENILHA FAJARDO. Tradição, religiosidade e pertencimento na performance musical da Folia de Reis da Serra. 206 f. Dissertação (Mestrado em Música). Centro de Comunicação, Turismo e Artes; Universidade Federal da Paraíba: João Pessoa, 2014; LEAL DO CARMO, Raiana Alves Maciel. Políticas culturais para as culturas populares em Januária-MG: inter-relações com as práticas musicais na contemporaneidade. 248 f. Tese (Doutorado em Música). Centro de Comunicação, Turismo e Artes; Universidade Federal da Paraíba: João Pessoa, 2015. SANTOS, Kátia da Piedade. Seresta de Reis de Campo Largo: prática musical de uma manifestação sacro-profana popular. Dissertação (Mestrado em Música). Setor de Artes, Comunicação e Design; Universidade Federal do Paraná: Curitiba, 2015; APARECIDO DE MATOS, Ronaldo. Os cantos da Companhia de Reis Fernandes de Olímpia - São Paulo. 323 f. Dissertação (Mestrado em Música). Instituto de Artes; Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”: São Paulo, 2016. 76 realizados pelos folcloristas. Neste sentido, um dos principais objetivos das pesquisas na área foi o de analisar os elementos centrais responsáveis por dar forma e sentido às performances musicais dos grupos se valendo também de análises musicais e estruturais, especialmente dos hinos de reis. O diálogo entre estes repertórios (o musical-social, fornecido pelo trabalho de campo, e o teórico-conceitual, fornecido pela Antropologia e Sociologia) foi, de fato, uma grande novidade nas primeiras pesquisas etnomusicológicas com esta temática. Apesar desta característica comum, estes trabalhos se diferenciam por terem diferentes focos de preocupações aos quais as análises musicais se articulam, pois enquanto alguns deles procuraram, a partir das transcrições dos cantos, realizar análises sistemáticas do repertório a fim de identificar os diferentes momentos do ritual e como se desenvolvem as relações que o estruturam e lhe dão forma (KIMO, 2006; ROSSE, 2009), outros procuraram articular estes sistemas musicais com os princípios religiosos dos sujeitos, apontando assim procedimentos e concepções que, além de estruturarem as práticas musicais, também validam as experiências de fé dos devotos (ROCHA, 2014; MATOS, 2016). Entre esta produção acadêmica há ainda trabalhos que procuraram apresentar o sistema musical constituinte dos cantos de reis a partir de uma descrição analítica de seus aspectos gerais, focando os elementos definidores de suas estruturas no que se refere às suas características organológicas, rítmicas, melódicas e vocais. Tais trabalhos articulam os elementos musicais com discussões teóricas acerca do sincretismo do qual o catolicismo popular faz parte, agregando a ele algumas práticas musicais de origem africana como elemento de um rico e complexo universo sonoro (CALDEIRA NEVES, 2010; IKEDA, 2011). Outra corrente de produção verificada foi a de trabalhos que incorporaram às discussões propriamente musicais a questão da formação da identidade e as tensões existentes entre poder público e comunidade de participantes da festividade, interpretando as diferentes formas de inserção destes grupos e sua vigência nas relações institucionais a partir de ações de fomento como parte das políticas culturais implantadas pelo poder público. São trabalhos que se inserem em modelos colaborativos de pesquisa com o intuito de apreender as inter-relações entre as práticas musicais dos grupos de culto e adoração aos três reis magos e o cenário das políticas culturais desenvolvidas em algumas regiões do país, objetivando compreender como são realizados estes diálogos e seu impacto na prática musical dos grupos, na redefinição dos espaços culturais, no estímulo à circulação dos conteúdos culturais e também no processo de ressignificação articulado com o papel desempenhado pelo poder público (FONSECA, 2009; LEAL DO CARMO, 2015; SANTOS, 2015). Cabe mencionar ainda estudos que priorizaram questões do universo simbólico enquanto elemento constituinte dos processos de estruturação 77 dos grupos, especificamente aquelas que refletem suas condutas violentas, ainda que de forma articulada com as sonoridades resultantes deste processo. Para estes trabalhos, os métodos tradicionais de análise baseados em transcrições musicais são interpretados como um modelo canônico pertencente a uma Etnomusicologia tradicional e, portanto, totalmente dispensáveis para realização da análise etnomusicológica na contemporaneidade (CASTRO LOPES, 2013). 2.1. Uma reflexão sobre o particular e o “universal” A bibliografia sobre as práticas de culto e adoração aos Santos Reis, principalmente a antropológica ou influenciada pela disciplina, muitas vezes tem como primazia – justa, mas que em alguns casos se torna quase uma obsessão e da qual este trabalho talvez não escape – a abordagem, análise e interpretação das particularidades dos campos estudados em detrimento das relações mais abrangentes que o campo possui com outros sistemas culturais dos quais, inclusive, faz parte, e isso quando não promove sua exclusão. Esta corrente epistemológica, que procura contrapor de forma dualista e muitas vezes como pares de oposição um modelo genérico e “universal” de folia ou companhia (geralmente cristalizado nos estudos folclóricos) e os modelos particulares presentes em campos específicos de estudo (geralmente decorrentes de trabalhos etnográficos de influência antropológica), está presente em alguns estudos e sua análise traz importantes elementos para problematizar algumas questões epistemológicas. Uma importante discussão a esse respeito foi realizada pelo etnomusicólogo Leonardo Pires ROSSE (2009), responsável por uma interessante postura crítica aos estudos acadêmicos produzidos a partir dos anos 1980, cujos temas abordaram rituais e grupos intitulados folia no país. Sua análise insere, curiosamente, tanto estudos folclóricos quanto pesquisas acadêmicas dentro de uma mesma corrente epistemológica, no sentido de ambos serem responsáveis pela reprodução de algumas definições que supostamente reforçariam a existência de um modelo genérico e universal de folia. Embora reconheça que muitos dos problemas metodológicos da perspectiva folclorista tenham sido superados pelas ciências sociais, no sentido de propor um refinamento analítico então ausente nos estudos folclóricos, ROSSE (2009: 21) acredita que marcas características do pensamento folclorista reincidem insistentemente sobre uma parcela considerável dos trabalhos produzidos no ambiente acadêmico: “Talvez seduzidos pela ilusão do arcaísmo popular, tão profundamente edificada em torno de projeções de simplicidade, ancestralidade, coerência e universalidade, vários autores adotam e reproduzem o modelo genérico de referência (se não de definição) da folia idealizado nas obras folcloristas”. 78 Vemos que, assim como entre os folcloristas, a demarcação de uma ascendência precisa da folia constitui uma prioridade constante, mesmo em trabalhos que desenvolvem em seqüência reflexões que em nada dependem ou relacionam-se a esta questão. Normalmente não se trata de um recuo histórico minimamente aprofundado e conseqüente, mas de considerações rápidas e gerais, muitas vezes sem fundamentação clara, ou apoiadas firmemente em vulgatas de dados formulados sem maior rigor, alimentando um ciclo acrítico de informações destinadas a preencher de forma simples o incômodo das origens. ROSSE, 2009: 29 Um dos conceitos utilizado por alguns pesquisadores enquanto recurso metodológico para análise e criticado pelo autor é a noção de variação (da qual, aliás, estou me apropriando neste trabalho), a exemplo dos trabalhos realizados por PESSOA (2007: 69-70), para quem “as variações que há entre elas [as folias] se devem, logicamente, às variações da própria folia conforme as regiões [...]. No essencial do ritual, elas são coincidentes, no sentido de se referirem à folia como um ritual itinerante do catolicismo popular [...]”, e por BONESSO (2006: 152), que acredita que, embora não possa ser proposta uma folia genérica, “há uma homologia entre elas, que pode ser pensada como variações de um mesmo tema dentro de um esquema de reciprocidade. Um princípio estruturante que as coloca em diálogo [e que] possibilita-nos compreender as particularidades também”. A crítica de ROSSE recai principalmente sobre uma suposta afirmação dos autores de que estas folias seriam coincidentes no essencial do ritual e de que existiria uma homologia entre elas, o que revelaria uma tentativa destes pesquisadores de promover uma uniformização da diversidade por realizarem “uma crítica a definições universalistas de folia, sem deslocar, entretanto, o eixo da discussão, que se mantém sobre a hipótese da unidade”, e também onde “a metáfora ‘variações de um mesmo tema’ é muito forte [...], concebendo explicitamente a existência de uma versão original da folia, um princípio comum de estruturação” (ROSSE, 2009: 25). Entre os autores cujas pesquisas supostamente manteriam esta hipótese de unidade e reforçariam a existência de um modelo genérico e “universal” de folia estão REILY (2002), CHAVES (2003; 2006), MOREYRA (1981; 1983), entre outros criticados pelo autor. Ao atualizar esta discussão em sua tese e considerando o crescimento da literatura dedicada às folias, ROSSE (2017: 20) reforçou sua crítica a partir de estudos mais recentes, constatando a persistência de problemas que já haviam sido identificados por ele quando da realização de sua dissertação: “1) o uso nauseante de um tipo de definição preambular, ou de modelo genérico de referência do que viria a ser a ‘Folia’ [...]; 2) grande apego ao paradigma das origens; e 3) ênfase ao estudo de ‘Folias de Reis’, em detrimento de outros ciclos”. Em 79 sua reformulação crítica, ROSSE (2017: 35-36) apresentou vulgatas presentes nos estudos atuais e criticou a apropriação de conceitos naturalizados e de versões preambulares para apresentação do objeto: uma “folia que não raro se mistura confusamente a casos particulares, esses entendidos por vezes naturalmente como parte daquela [...] como se umas completassem as outras, como se tratassem ao fim e em suma de uma mesma e única coisa”. Segundo o autor, antes de se tratar de um exercício comparativo, se trata de projeções realizadas a priori em torno de uma noção ampla de folia e de indistinções sintomáticas entre particular e geral, tomando um modelo de ascendência portuguesa que chegou ao Brasil no século XVI e reduzindo sua dinamicidade e heterogeneidade. Este processo seria responsável também por uma valorização das folias de reis em detrimento de outros ciclos festivos, não havendo muito investimento demonstrativo nestes trabalhos que deduzem uma “rede radial de relações onde a folia de Reis seria eleita como ‘origem’ central de tantas práticas”. Ainda para o autor, os trabalhos por ele analisados apontam para a formação de uma imagem de folia de reis com uma identidade delimitada a priori, que passaria a receber variações e fundar outras identidades que seriam sempre tributárias de uma matriz principal utilizada como esquema a ser reproduzido ou variado. ROSSE (2017: 53) também relaciona o paradigma das origens e a obsessão dos pesquisadores por um modelo de referência preambular a uma noção de cultura e identidade como coisas, “entendimento que Carneiro da Cunha, por exemplo, propõe chamarmos de ‘platônico’. Aqui a identidade seria vista justamente enquanto conjunto de itens e relações baseados na reprodução de modelos prévios, que supõem essências”. A denúncia a trabalhos que homogeneízam diferentes práticas de folias em detrimento de definições engessadas e previamente concebidas, retrocedendo e submetendo as diferentes formas de folias a um arquétipo originário e comum, “uma folia única vinda de Portugal, um modelo objetivo e original, a partir do qual constroem-se ‘variações’ em território brasileiro” (ROSSE, 2009: 26), se mostra indiscutivelmente pertinente. Mas o estruturalismo não busca uma versão autêntica e primitiva dos mitos, busca antes definir cada mito pelo conjunto de suas versões. Como observou Lévi-Strauss (2008: 234), “posto que um mito se compõe do conjunto de suas variantes, a análise estrutural deverá considerar todas elas na mesma medida”. Assim, a busca destas “origens remotas” das folias, embora sirva como contexto histórico, de fato não permite a compreensão de uma determinada realidade social, crítica já realizada pelo historiador Marc BLOCH (2001: 56-57) quando este se referiu ao mito das origens, ou seja, ao modelo metodológico de explicação do presente partindo de elementos do passado, onde “as origens são um começo que explica. Pior ainda: que basta para explicar”. 80 Esta questão nos traz um desdobramento que julgamos importante ser discutido aqui, acerca da relação entre universalismo e estruturalismo. É evidente que nem todos os trabalhos “universalistas” sejam também estruturalistas, pois, mesmo entre os trabalhos criticados, há aqueles que promovem modelos genéricos de folias e não interpretam suas diferentes versões dentro de uma abordagem estruturalista. No entanto, não interpreto que esta seja a proposta de alguns dos autores criticados, ou seja, de apresentar um discurso que insiste na existência de uma versão original de folia a partir da qual são construídas variações. Antes disso, entendo suas propostas em uma abordagem estruturalista e dentro de um cenário de contextualização de campos particulares de estudo com elementos e práticas sociais mais amplas, presentes em grupos de folias encontrados nas diversas regiões do país (a presença dos bastiões ou das fitas coloridas nos instrumentos, por exemplo, pode ser encontrada em muitos grupos de folias de reis pelo país). Além de considerar a condução epistemológica dos autores criticados como pertinente, ela também reflete correntes interpretativas e metodológicas bastante distintas, cujos fundamentos conceituais e teóricos aparentemente possuem motivações epistemolóticas muito mais amplas e complexas do que a crítica sugere. * * * Antes de desdobrarmos algumas destas questões é preciso reconhecer que, justamente por existirem, de fato, elementos invariáveis e comuns às diferentes práticas de folias no país, se abre a possibilidade de comparação e se mostra oportuna a noção de “variações sobre um mesmo tema” proposta por autores que, não apenas admitem as idiossincrasias dos diferentes grupos de folias existentes no país, como também direcionam os objetivos de suas pesquisas para estas particularidades. O antropólogo Márcio BONESSO (2006: 152), por exemplo, além de reconhecer estas particularidades, também critica as definições universalistas por entender que tais definições criam várias controvérsias entre os pesquisadores que escreveram sobre o assunto, tendo em vista que cada região e folia, com suas características próprias, passariam a representar as folias de reis de um modo geral: “Assim, os sentidos múltiplos e contraditórios próprios das manifestações populares religiosas brasileiras e de vários outros países ganham um contorno ‘típico’, quando se universaliza e padroniza a diversidade”. Com esta mesma postura, Jadir de Morais PESSOA (2007: 69-70) interpreta que “as variações que há entre elas [as folias] se devem, logicamente, às variações da própria folia conforme as regiões – mineira, baiana, goiana, com pouso, sem pouso, com palhaço, sem palhaço etc.”. 81 Outro ponto interessante de ser problematizado diz respeito à escrita etnográfica, pelo fato de, segundo ROSSE (2009: 22), alguns estudos etnográficos conduzirem suas descrições “continuamente de uma perspectiva geral e universalista como introdução do caso local”. Segundo o autor (2009: 22), este seria o caso da pesquisa de Suzel Ana REILY (2002), onde “diversos aspectos do ritual são descritos separadamente em outras passagens partindo-se igualmente de uma visão geral que referencia o caso particular. O local aparece neste sentido secundariamente, como uma confirmação do universal [...]”. No entanto, é preciso considerar que, segundo palavras da própria autora, sua proposta não parece se alinhar com uma visão universalista e essencialista de cultura, como procurou evidenciar logo no início de seu texto: “Um dos meus objetivos foi retratar a fluidez com que as comunidades de folias negociavam continuamente sua vida ritual a partir das interações pessoais, aproveitando suas experiências cotidianas à margem da sociedade brasileira dominante” (REILY, 2002: 02). Neste sentido, é preciso compreender que o recurso estilístico utilizado no texto reflete naturalmente apostas políticas e metodológicas de seus autores. No caso desta pesquisa, por exemplo, embora do ponto de vista estilístico da escrita eu esteja apresentando as informações particulares do campo em estudo para depois proceder com a apresentação das características mais gerais, alinhando dessa forma com minha proposta de valorizar no texto o que é da tradição local e privilegiar o discurso nativo, considero que tal opção se refere muito mais à forma de apresentação do que ao conteúdo propriamente dito, o que muitas vezes pode ser reflexo da adoção de determinada corrente estilística e interpretativa dentro da disciplina. No entanto, embora não seja a única possibilidade de escrita etnográfica, cotejar a bibliografia e as teorias existentes sobre o tema com as definições, os discursos e as teorias nativas após a descrição daquilo que foi vivenciado no trabalho de campo, pode ser interpretado não apenas como uma simples opção textual dentre as várias correntes estilísticas existentes na disciplina, mas também como uma aposta política e metodológica de seu autor. O recurso estilístico adotado então por Suzel Ana REILY, por exemplo, me parece ser bastante claro neste sentido, principalmente se compreendermos a corrente epistemológica na qual está inserido, pois, segundo a autora (2012: 22), “não é uma questão de ‘universal versus particular’, é uma relação ‘teoria versus etnografia’”, ou seja, não se trata de uma polarização de contenda entre uma abordagem universalista em contraste com uma particularista, mas sim de uma tentativa de estender o âmbito de alcance das teorias existentes na pesquisa para além da própria pesquisa, estejam elas apresentadas a priori ou a posteriori à descrição etnográfica. É o que faz, por exemplo, a autora julgar importante que o pesquisador se coloque o seguinte 82 questionamento: “O que, no meu trabalho, pode interessar a um antropólogo na Índia?”, pois seu entendimento é o de que a descrição etnográfica não pode ter uma importância localizada, sendo preciso pensar o material etnográfico como ilustração de uma ideia maior, que pode ter relevância para além daquele contexto: “É preciso começarmos a ser produtores de teorias. Do jeito que é atualmente, continua aquela relação em que nós [os brasileiros] produzimos a matéria para aqueles que, então, criam os pensamentos, as teorias”. Uma alternativa, portanto, seria utilizar modelos onde as teorias, passíveis de serem utilizadas no âmbito macroestrutural de produção acadêmica, são apresentadas antes da exposição e análise dos casos particulares. Tomemos John Blacking como exemplo. Os textos dele começam assim: “este artigo lida com o papel da música no ritual”. Com uma afirmação assim, o artigo se torna interessante a um público mais amplo, ou seja, a todos os antropólogos que trabalham na interface música e ritual. Não se trata apenas de um artigo sobre o ritual dos Venda; é sobre música num contexto ritual, ainda que o exemplo etnográfico seja os Venda. Aí vem a etnografia, para mostrar como aquilo funciona naquela prática, naquela instância. E, na conclusão, retorna-se, para indicar o potencial transcultural do trabalho. REILY, 2012: 22 Outro desdobramento diz respeito à relação entre etnografia, teoria e método, que nos remete novamente à discussão acerca da presença de determinada orientação metodológica no texto, pois a aposta política das diferentes posturas teóricas, estilísticas e interpretativas já é por si só um método que não deve ser banalizado. Vejamos as teorias decolonialistas22, por exemplo, cuja aposta metodológica vai de encontro à presumida universalização da história dos “vencedores” contada pelas nações consideradas hegemônicas e reproduzida nos livros e em uma vasta bibliografia elaborada por muitos doutores do meio acadêmico. A aposta política e metodológica do giro decolonial procura justamente dar primazia a outras teorias, ainda que do encontro destas teorias com as já existentes possam surgir novas interpretações. E ainda que esteja muito distante da atual realidade acadêmica e que provavelmente nunca venha a se consolidar, talvez a melhor contribuição que a produção teórica seja capaz de nos fornecer seja a superação das diversas dicotomizações (universal versus particular, etnografia versus teoria etc.), do complexo de inferioridade cultural e de posturas etno/eurocêntricas. Aqui entra a primazia da teoria, que para alguns autores deve ser dada pelos próprios nativos e, para outros, deve vir “de fora” para auxiliar na descrição e na análise dos dados. Em 22 Sobre as teorias decolonialistas, consultar: BALLESTRIN, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, nº11. Brasília, mai-ago de 2013, pp. 89-117; LEDA, Manuela Corrêa. Teorias pós- coloniais e decoloniais: para repensar a sociologia da modernidade. Monografia (Conclusão de Curso) – UnB, Brasília: 2014; MIGLIEVICH-RIBEIRO, Adélia. Por uma razão decolonial: desafios ético-político-epistemológicos à cosmovisão moderna. Civitas – Revista de Ciências Sociais: Porto Alegre, v. 14, n. 1, p. 66-80, jan-abr de 2014. 83 todo caso, podemos perceber que a importância da teoria pode ser exemplificada pela própria trajetória da Antropologia enquanto disciplina, que, embora tenha mudado com a etnografia e tenha ampliado muitos de seus conceitos clássicos, nunca deixou de se utilizar de teorias e passou a aprofundar ainda mais suas possibilidades de formulação teórica. Segundo Mariza Peirano, por exemplo, monografias não são simplesmente resultado de métodos etnográficos, mas são antes formulações teórico-etnográficas, sejam elas construídas a partir dos sistemas culturais investigados ou trazidas “de fora” para auxiliar na análise dos dados. Etnografia não é método; toda etnografia é também teoria. Aos alunos sempre alerto para que desconfiem da afirmação de que um trabalho usou (ou usará) o “método etnográfico”, porque essa afirmação só é válida para os não iniciados. Se é boa etnografia, será também contribuição teórica; mas se for uma descrição jornalística, ou uma curiosidade a mais no mundo de hoje, não trará nenhum aporte teórico. PEIRANO, 2014: 383 É neste sentido que uma descrição etnográfica de relevância também precisa ser capaz de demonstrar sua capacidade teórica (nativa ou “de fora”), algo que possa estender sua “vida útil” dentro da área e da disciplina, ainda que muitas teorias antropológicas surjam e logo em seguida desapareçam acompanhando certos modismos da Antropologia. Como sugeriu Mariza Peirano, talvez não seja totalmente possível separar etnografia e teoria, tendo em vista que sempre encontraremos muita teoria em uma fina descrição etnográfica. É possível que exista alguma correlação entre a quantidade de teoria desvendada (ou utilizada) em uma descrição etnográfica e os objetivos de uma pesquisa, como se a possibilidade de se chegar próximo do pensamento nativo estivesse condicionada ao aporte teórico utilizado para análise ou então às teorias encontradas dentro dos sistemas culturais. O que se mostra evidente é a existência de inúmeras disputas político-metodológicas dentro das ciências sociais e que as opções teóricas podem implicar necessariamente a tomada de uma posição política que inevitavelmente terá outra a ser confrontada, de modo que não há como dizer que os exemplos mencionados, toda esta discussão e as posturas dos diferentes autores citados neste trabalho não tenham em seus conteúdos opções teóricas, políticas e metodológicas bastante distintas. * * * Uma última questão a se considerar diz respeito à tendência da literatura sobre folias em privilegiar as práticas associadas ao trabalho religioso de culto e adoração aos reis magos em detrimento de outras práticas onde surge igualmente uma noção de folia, a exemplo dos 84 cultos em louvor a São Gonçalo, a Santa Luzia, a Santa Cruz, ao Bom Jesus, a São Sebastião, a São José, a Nossa Senhora Aparecida, ao Divino Espírito Santo, entre tantos outros. Alguns autores de fato sugerem que o trabalho religioso de culto aos três reis santos seria responsável inclusive pela origem de outras práticas religiosas (NEVES, 2010: 79), afirmação esta que fez com que ROSSE (2015: 196) interpretasse como “saliente e desconfortante a frequência de trabalhos que tratavam de ciclos rituais relacionados aos Reis Magos cristãos (as “Folias de Reis”) e que os abordavam apenas como exercício religioso, a despeito de outros ciclos e contextos musicais [...]”. Ao revisitar em seu doutoramento a importância dos três reis magos na literatura sobre folias, ROSSE (2017: 44) observou que, dos oitenta e dois trabalhos por ele analisados, apenas dois (PEREIRA, 2011; RODRIGUES, 2011) não abordaram as folias de reis e que, dos outros oitenta, apenas nove não apresentavam o termo “reis” em seus títulos. Chaves por exemplo, como apontamos acima, apresenta em sua tese (2009) uma etnografia da folia de São José, além da folia de Reis, nos municípios de São Francisco e Januária, Minas Gerais. Ele fala ainda, tanto na tese quanto em artigo posterior, da existência, no norte de Minas Gerais, de folias de Santa Luzia, Bom Jesus, São Sebastião, Divino, Nossa Senhora Aparecida, São Miguel, São Geraldo, entre outras [...]. Indica também, no vale do São Francisco, um sistema folião aberto, onde novas folias podem e são criadas [...]. Nesse contexto, o autor vê a folia dedicada aos Reis como uma “variante”, um ciclo possível dentre vários outros [...]. Num sistema semelhante, Pereira [...] nos mostra que, em Urucuia (MG), as folias são dedicadas a qualquer santo católico. Há aí folias de São Sebastião, São José, Bom Jesus da Lapa, Nossa Senhora Aparecida e Santa Luzia, dentre muitas outras. ROSSE, 2017: 45 No que diz respeito à preferência pelo trabalho religioso de culto e louvor aos Santos Reis por uma parcela considerável de pesquisadores, é preciso reconhecer a impossibilidade de sermos justos ao realizar tais críticas pelo fato de não termos acesso às circunstâncias que os levaram às suas escolhas. No meu caso particular, por exemplo, muito antes de ter sido uma escolha do objeto de pesquisa feita a priori, influenciado ou levando em consideração a prevalência dada ao culto aos Santos Reis por outras pesquisas (antes de iniciar meu trabalho eu nunca havia tido qualquer contato com esta bibliografia), foram os próprios foliões que de repente surgiram para “serem investigados”. No caso específico deste campo de estudo, antes de admitir a existência de “uma superioridade de grupos e festas chamados ‘folia de reis’ e que a ênfase da literatura seria fruto natural dessa balança” (ROSSE, 2015: 197 e 2017: 45), 85 se mostra necessário reconhecer a existência de muitas outras práticas musicais (religiosas ou não) realizadas na região estudada e no sul de Minas Gerais como um todo23. A existência destas atividades pode ser observada pelos relatos dos próprios foliões, como o de José Ailton de Paula, que, ao se referir a estas práticas, me recordou que “folclore não é só congada não. É folia de reis, congo, moçambique, caiapó, olodum, escola de samba. É tudo”. Da mesma forma o folião Divino Vitório dos Santos, ao mencionar a falta de apoio da prefeitura para o folclore da cidade, reclamou que “o prefeito tem que por uma pessoa lá dentro responsável pelos folclores, que gosta de companhia de reis, congado. Porque a pessoa vai lá e só se interessa por pagode e carnaval. O resto esquece tudo. Não é assim não. Folclore é tudo”. No entanto, na experiência que tive com meu campo de pesquisa pude perceber que a vida dos sujeitos envolvidos nestas diversas práticas sócio-musicais geralmente é conduzida e orientada pela esfera religiosa, ainda que possam ser bastante variadas as atividades musicais dos sujeitos. Sendo assim, me parece natural que eles dediquem às práticas de ordem religiosa uma importância maior em relação àquelas que estão dissociadas do universo religioso, uma vez que, por não estarem inseridas no âmbito sagrado (como é o caso dos grupos de pagode e do carnaval), muitas destas práticas não gozam do mesmo status por parte da comunidade. Mas ainda pode ser questionado por qual motivo, dentre as várias práticas de caráter religioso, a dedicada aos três reis magos assume uma valorização em detrimento de outras práticas consideradas sagradas na literatura sobre folias em geral, mas principalmente neste trabalho. Em primeiro lugar, é preciso apontar que minha experiência com esta pesquisa foi bastante diversa daquela vivenciada por ROSSE (2017: 46) no alto Jequitinhonha, onde ele observou a existência de giros com folias dedicadas aos diversos santos católicos em um “sistema igualmente aberto, onde novos ciclos e repertórios musicais podiam surgir sem maiores constrangimentos” e onde não lhe pareceu haver, “entre os atores locais, qualquer hierarquização entre o ciclo de Reis e os demais”. Sem a pretensão de querer estender as particularidades de meu campo de estudo para outros trabalhos, me pareceu realmente existir entre os foliões do sul de Minas Gerais uma primazia pelo trabalho religioso de culto e louvor aos três reis magos, algo que talvez possa ser explicado pelo fato das companhias serem aquilo que o folião Wolney Vieira denominou de confraternização de fé, responsável por congregar o maior número de foliões de outras 23 Entre as festas de caráter religioso encontradas na região podemos citar, além da tradição de reis, realizada em louvor aos Santos Reis; o congo (ou congada) e o moçambique, em louvor principalmente à Nossa Senhora do Rosário e à São Benedito; a festa de São Gonçalo, em louvor a São Gonçalo de Amarante; a festa do Divino, em louvor ao Espírito Santo, entre outras que obedecem o calendário do catolicismo popular. Já entre as festas não religiosas, podemos citar o caiapó (um folguedo de temática indianista), o pagode, o carnaval etc. 86 práticas sagradas24. Na região estudada, ainda que nem todo folião de reis participe de outras atividades religiosas, muitos dos foliões que atuam em companhias dedicadas a outros santos católicos participam, em sua grande maioria, como foliões no culto de adoração aos Santos Reis. Um reflexo dessa importância dada ao culto aos três reis magos na região são os vários encontros de companhias de reis realizados durante o ano, algo que não ocorre com a mesma intensidade e frequência com as companhias dedicadas aos demais santos católicos. O folião Vicente Aparecido Moreira, por exemplo, me contou que antigamente eram mais expressivos os trabalhos religiosos de culto e adoração a outros santos, mas que hoje muitas dessas práticas caíram em desuso. As companhias de São Gonçalo, por exemplo, da qual seu pai e seu tio eram “tiradores” (embaixadores), ainda sobrevivem graças a alguns foliões que persistem em manter esta tradição, “mas o povo não mexe mais com isso. Lá na roça meu tio Vitor ainda oferece terço de São Gonçalo, ele que é o tirador. O São Gonçalo é três pessoas de lá e três pessoas de cá, cada um com uma viola. Meu tio cantava de lá e eu respondia de cá”. O folião Miguel Rodrigues, que também já cantou em companhias do Divino, me disse que são raros os anos nos quais os foliões se reúnem para sair em louvor ao Divino Espírito Santo: “Já cantei, mas companhia do Divino tem muito pouco por aqui. O povo sai só de vez em quando. Tinha um pessoal que saía, mas daí morreu um folião e o pessoal desgostou. Agora companhia de reis é mais tradição. Tem demais da conta”. 2.1.1. Elementos “universais” em casos particulares Quando nos voltamos para os relatos dos foliões vemos que, além das divergências e contradições existentes em seus discursos, existe também uma discussão dualista entre alguns elementos simbólicos e materiais que devem ou não obrigatoriamente fazer parte da prática religiosa de culto aos Santos Reis. Estes aspectos dicotômicos, presentes nos relatos de alguns foliões, podem ser relacionados com as noções de universal e particular das práticas sociais, bastante difundidas na literatura acadêmica. Para desdobramento desta discussão, a interjeição nativa tem que ter se mostra bastante sugestiva para nos aprofundarmos um pouco mais nestas noções dentro do universo dos foliões. É bastante comum, por exemplo, os foliões afirmarem que determinados elementos simbólicos ou materiais tem que ter durante o trabalho religioso. 24 Outra explicação possível para esta primazia do trabalho religioso de culto e adoração aos três reis magos na região, ainda que conjectural, seria o fato desta ser a prática musical-religiosa que homenageia e simboliza o nascimento de Jesus Cristo, tido pelos foliões como filho de Deus e, portanto, principal evento da humanidade. 87 O folião José Ailton de Paula, por exemplo, me disse que as fitas coloridas que são amarradas na viola caipira e no violão tem que ter na prática religiosa de culto aos Santos Reis: É o enfeite, né? É que o folclore é muito brilho, alegria. Então é fita, flor, essas coisas assim, né? Os reis e o congo são desse jeito. No instrumento de reis e instrumento de congo tem que ter uma fitinha, uma florzinha, né Gilberto? Tem que ter. É coisa alegre. É uma tradição alegre. É muita alegria os três reis. Tem que ter. Tem folião que diz que nos reis são três fitas que usa: azul, amarela e vermelha. O azul representa o incenso, o amarelo o ouro e a vermelha a mirra. Mas tem gente que põe mais, põe outras cores, né? JOSÉ AILTON DE PAULA, 2017 O folião Oswaldinho, da Companhia Nossa Senhora de Fátima, também considera imprescindível fitas coloridas nos instrumentos, pois cada fita representa uma coisa: a paz, o amor, o lugar etc.: “Cada lugar que a gente passa tem uma cor diferente. Tem a cor verde, a cor amarela, a cor branca, que se chama a nossa paz. Tem a cor amarela, que é a esperança. Tem o verde, que é uma cor mais alegre. Cada rei carregou uma cor no seu vestuário”. Outro exemplo são os bastiões, pois, segundo o folião Luís de Brito, da Companhia Nossa Senhora de Fátima, “se não tiver palhaço não tem companhia de reis. Aí é companhia do Divino”. Bastião tem que ter três, porque representam os três reis magos, né? O certo então é ter três bastiões só. Mas sempre muitas pessoas querem sair, gostam, querem cumprir a promessa, aí tem que ter mais. Mas o certo é três. Mas nunca sai com três só, né Gilberto? Sempre um gosta, outro gosta e quer vestir. Nós que temos moleque temos que deixar pra ir incentivando, né? Só que pode ter mil bastiões, só que entra na casa só três representando os três reis magos. Você pode ver que até na rua pode ter até quinhentos, mas entrar é só três que entra. Não passa disso. Às vezes a casa é apertada e não cabe muita gente e entra só um, mas três tem que ter25. JOSÉ AILTON DE PAULA, 2017 Assim como existem elementos simbólicos e materiais que, no entendimento de alguns foliões, são imprescindíveis para suas práticas religiosas, existem também aqueles que podem 25 Em algumas regiões do país não existe bastião em alguns grupos de folias de reis, pois como alguns foliões acreditam que eles representam os soldados do rei Herodes, eles não podem acompanhar os foliões durante a jornada (BRANDÃO, 1981: 33; AZEVEDO, 2007: 05; BITTER, 2010: 146-147). Além dos bastiões, existem outras características que são comuns às diferentes folias de reis e, portanto, são aceitas socialmente. Como exemplo, podemos mencionar o santo ao qual o trabalho religioso é dedicado, que sempre é o mesmo; o período em que ocorrem as jornadas, que sempre é o mesmo; o dia do santo (06 de janeiro), que é o mesmo em todo o país; a passagem bíblica que fundamenta o culto e a fé; seu caráter religioso, itinerante e precatório; a utilização da música como elemento devocional; os cantadores e instrumentistas; seu propósito (anunciar o nascimento de Jesus); seu caráter simbólico e representacional etc. Questionar a existência desses elementos que perpassam diferentes folias de reis pelo país seria desconsiderar que estes diferentes grupos de reis, por suas particularidades, não pudessem ter elementos de conexão (artefatos simbólicos, condutas rituais, práticas performáticas, tabus etc.) com outros grupos existentes no país, o que seria uma inverdade e também uma mitificação da noção de particular em relação a tudo o que extrapola o universo das particularidades. 88 ou não se fazer presentes no ritual. Uma prática que eu via como um tabu entre os foliões até pouco tempo diz respeito às restrições que envolvem a execução de instrumentos de percussão (caixa e pandeiro) quando algum devoto solicita versos para um parente falecido. Ainda que alguns foliões critiquem esta prática, outros a utilizam sem qualquer ressentimento. O folião Geraldo Miranda, da Companhia dos Noel, me disse que não toca a caixa quando os cantos são aos falecidos, pois “tem uma tradição aí. Mas muita gente toca a caixa. O Chico que tá puxando a companhia tá tocando. Eu não falo nada não, deixo quieto. Mas geralmente nós não tocamos a caixa. É uma tradição. Uns falam de um jeito e outros falam de outro”. O folião Sebastião Feliciano também considera proibido tocar a caixa quando se canta aos falecidos: E outra coisa: pra cantar pra falecido, assim dizia um capitão nosso que morreu ano retrasado, ele falava pra nós que ele cantava pra pessoa que já faleceu até seis horas, depois das seis ele não cantava mais. Agora por qual motivo eu não sei. Até seis horas ele cantava. Depois ele falava que não podia cantar mais. Mas não explicava por qual motivo que era também não. Agora caixa não bate mesmo. SEBASTÃO FELICIANO, 2018 Ao ouvir o companheiro se posicionar, o embaixador Vitor Vicente Borges contradisse que “isso é um sistema dos antigos, né? Do tempo dos mais velhos. Os idosos que falavam isso aí. Antigamente. Mas eu acho que não tem nada a ver não. Cada um quer saber mais do que o outro, mas na verdade tá todo mundo aprendendo. Ninguém é mais do que ninguém”. E para o capitão Sebastião Antônio dos Santos, “cada embaixador leva de um jeito”: Eu, por exemplo, toco normal. Ele já para a caixa. Uns param e outros não. Isso depende de cada um. Tem gente que acaba de cantar um verso pra um falecido e já tá bom. Deus lhe pague e tá joia. O outro já acaba de cantar os versos pra um falecido e já reza um Pai Nosso e uma Ave Maria pra alma daquela pessoa. Então cada um é cada um, cada companhia faz de um jeito. Isso varia de embaixador pra embaixador, é a linhagem que você aprende. Eu aprendi de uma maneira e ele aprendeu de outra. E eu acho até bacana isso ser diferente, porque senão ficava igual e você não precisava gravar todas. Gravava uma só, né? SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2018 Sem a pretensão de chegar a uma afirmação categórica sobre a presença ou não de determinados elementos simbólicos ou materiais dentro do ritual, ou seja, sobre práticas tidas por universais ou particulares, o que quero ressaltar é a possibilidade de serem estabelecidas correlações entre práticas similares em diferentes campos de estudo e, dentro destas, variações de procedimentos que estariam relacionados às particularidades de casos específicos. As fitas coloridas na viola, por exemplo, podem ser consideradas como elemento comum às diversas práticas de folias em muitas regiões, embora seus significados e formas de utilização possam 89 variar em diferentes casos. Neste mesmo sentido, os instrumentos de percussão podem ser considerados imprescindíveis para a cantoria, ainda que sua utilização possa variar em cada situação: “Uns param e outros não. Isso depende de cada um”. No decorrer do texto surgirão muitos exemplos de elementos materiais ou simbólicos considerados como imprescindíveis para o trabalho religioso que, ao mesmo tempo em que se fazem presentes em um espectro mais amplo de práticas dedicadas ao santo (o que poderia ser interpretado como um aspecto “universal” dentro de um sistema macroestrutural da tradição de reis do qual as companhias fazem parte), assumem diferentes significados e formas de utilização nos casos particulares. Antes de prosseguirmos, talvez seja importante discutir as consequências que uma separação muito rígida e inflexível entre particular e “universal” pode trazer para o trabalho, principalmente no que se refere às críticas que impossibilitam a apropriação e aplicação, em novas pesquisas, de teorias e conclusões produzidas em outros campos de estudos, muitas vezes com o argumento de valorizar as particularedes do caso investigado em detrimento de seus aspectos mais gerais. Como neste trabalho me utilizo de resultados obtidos em diversas pesquisas sobre o culto de louvor aos Santos Reis, por entender que muitas de suas teorias são aplicáveis ao nosso caso particular, julgo importante discutir sobre as particularidades destas pesquisas (o que talvez não possa ser aqui aproveitado) e aquilo que é mais geral (no sentido de corresponder a uma produção teórica decorrente de condutas sociais mais abrangentes e igualmente presentes em nosso caso particular de estudo). Um exemplo de resultado bastante particular de pesquisa foi apresentado por Alberto IKEDA (2011), ao demonstrar a existência de diferentes modalidades de companhias de reis presentes em Goiânia e onde alguns grupos praticam o samba em alguns momentos do giro, por ser um gênero característico do interior baiano, de onde muitos foliões provinham. Sendo esta uma prática indiscutivelmente muito particular da região e do período histórico no qual a pesquisa foi realizada, pouca ou nenhuma apropriação e correspondência teórica poderia ser realizada com nosso estudo, tomando o samba como gênero musical utilizado nos momentos de lazer dos foliões. Já a pesquisa de Carlos Rodrigues BRANDÃO (1981), por exemplo, ainda que historicamente mais distante, abordou aspectos mais “universais” e comuns a um grande número de folias de reis, independente de sua região e do período histórico, como seu caráter precatório e sua estrutura contratual, teoria esta aplicável em nosso campo de estudo e motivo pelo qual a utilizarei para discutir a sociabilidade na prática contratual dos foliões. 90 2.2. O sistema de trocas e as contribuições de outros estudos Mais do que apenas um grupo precatório, do que apenas o terno ou a companhia, as folias são extensos rituais de trocas sociais e simbólicas. Nelas, homens e divindades, personagens cerimoniais e pessoas comuns, vivos e mortos, famílias e indivíduos – todos, enfim, encontram-se presos a uma extensa rede pela qual bens e serviços morais, religiosos, econômicos, estéticos, entre outros, são trocados, dados, recebidos e retribuídos. PEREIRA, 2011: 12 Esta associação sugerida por Luzimar Paulo Pereira entre o trabalho religioso de culto aos Santos Reis com “extensos rituais de trocas sociais e simbólicas”, onde os sujeitos estão presos a uma rede na qual os “bens e serviços morais, religiosos, econômicos, estéticos, entre outros, são trocados, dados, recebidos e retribuídos”, não é uma grande novidade nos estudos sobre o tema. Carlos Rodrigues Brandão (1981: 27) já havia interpretado as jornadas de culto aos três reis magos como um espaço camponês simbolicamente ritualizado para uso religioso por uma comunidade composta de um grupo fixo (os moradores rurais) em situações de diálogo e contrato com um grupo móvel (os foliões), estabelecido para efeitos de circulação de dádivas entre estes grupos. Na época, inspirado claramente pelo Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss, Brandão observou que os foliões nunca cantam para si próprios, mas sempre para aqueles que se encontram fora do grupo: os moradores ou promesseiros devotos que, ao contracenarem com os foliões, também se tornam protagonistas do ritual, estabelecendo com os foliões algumas formas de relações contratuais. Ao interpretar os enredos narrativos dos hinos de reis e das declamações dos bastiões para além de meras sequências do nascimento de Jesus Cristo, Brandão tomou estas narrativas como elementos responsáveis por conduzir, em seus versos e simbolicamente, as diversas trocas entre os sujeitos do ritual26. Muitas destas trocas são igualmente expressas nos versos de agradecimento, pois para quem ofertou uma leitoa ou um frango, por exemplo, a companhia pode pedir para que Santos Reis zele do chiqueiro ou do galinheiro do dono da casa; para quem serviu uma refeição aos foliões, a companhia pode pedir para que Santos Reis nunca deixe faltar comida na despensa daquela família; para aquele devoto que ofereceu alguma quantia em dinheiro para a festa de chegada, a companhia pode pedir aos Santos Reis que retribua em dobro a quantia ofertada e, 26 Como exemplos, podemos citar o pedido feito em versos para o almoço, que é atendido com uma mesa farta de comida, que, por sua vez, é retribuído pelo grupo com um agradecimento e bênçãos para as cozinheiras; o pedido de ofertas para a festa que será realizada no dia 06 de janeiro, em nome de Santos Reis, que é atendido pelo grupo que, em troca, abençoa o dono da casa juntamente com toda sua família; o pedido de um devoto que deseja pagar alguma promessa e que é atendido pelo grupo em nome dos Santos Reis, que, por sua vez, recebe do devoto alguma oferta em dinheiro, um almoço ou um jantar para a companhia, e assim por diante. 91 em todos os casos, que derramem suas bênçãos sobre toda a família dos donatários. Observa ainda Carlos Rodrigues Brandão (1981: 28) que são os versos da cantoria os responsáveis por conduzir a conduta dos sujeitos envolvidos no trabalho ritual, pelo fato de definirem quem são os sujeitos partícipes do sistema contratual, o que está acontecendo, o que eles estão fazendo e os motivos pelos quais fazem o que fazem. A relação entre o contrato social firmado entre os sujeitos e os versos fica ainda mais evidente quando observado que os objetos ofertados são mencionados com certo rigor e assumem importante papel na cantoria, de modo que “o mestre estabelece nos versos relações de agradecimento e bênção entre eles e o seu significado para as pessoas. Os objetos em si mesmos atraem para o doador, para os seus bens em conjunto, ou para um tipo de bem específico, as bênçãos de Deus”. Assim, a sequência contratual expressa nos versos, que reflete as trocas estabelecidas entre os sujeitos, poderia ser descrita como: Pedir pouso – dar pouso – pousar – retribuir abençoando; Pedir comida – dar comida – comer – retribuir abençoando; Pedir oferta – dar oferta – receber – retribuir abençoando. BRANDÃO, 1981: 30 Os versos estabelecem diferenças entre tipos de dádivas e retribuições, embora tenham duas coisas em comum: as bênçãos divinas mediadas por Santos Reis sempre devem retornar para a pessoa que de alguma forma ajudou a companhia, seja nesta vida ou na outra; a dádiva, assim como as bênçãos de Deus, sempre é cantada nos versos de forma a enfatizar aquilo que foi oferecido pelo devoto ou promesseiro. Existem inúmeros casos que podem confirmar esta interpretação do autor, como, por exemplo, os versos criados pelo embaixador da Companhia dos Benedette no dia 30 de dezembro de 2016, quando este agradeceu cada item presente na mesa do jantar oferecido por um devoto que pagava sua promessa: Agradeço o refrigerante Que os meus foliões tomou Deus lhe pague a aguardente Que meus foliões ganhou Eu já tava me esquecendo Os três reis quem me lembrou Deus lhe pague a sobremesa Que a nossa mesa completou JOÃO BENEDETTE, 2016 A lógica do trabalho religioso apontada por Brandão (1981: 31) se funda basicamente em pedir, dar, receber e retribuir, de modo que, segundo os fundamentos da dádiva / dom nas 92 sociedades ditas primitivas ou arcaicas mencionadas na obra de Marcel Mauss (1974: 57), as iniciativas de ordem pessoal e aparentemente espontâneas de donativos esconderiam regras compulsórias de prestação e contraprestação de serviços, produzindo um contínuo rodízio de bens materiais e simbólicos ligados de forma intrínseca às relações sociais entre os sujeitos destas comunidades. Muito mais do uma conduta espontânea, livre e arbitrária, estes sujeitos estariam presos a uma sequência de regras e obrigações, amarrados a uma corrente simbólica de trocas fundamentada essencialmente em pedir, dar, receber e retribuir. Um jogo cujas próprias coisas dadas ganharam o poder de determinar parte das regras das trocas, porque nelas mesmas existe e se manifesta o poder da doação e da reciprocidade. O valor da dádiva está em que são elas as que articulam relações entre os que às fazem circular: em seu próprio nome, no de seu povo ou nos seus deuses. Parceiros obrigados a trocas de dons e contradons, trocam com eles gestos de reconhecimento, afirmações de respeito e de gentileza e, de certo modo, doam-se a si próprios. BRANDÃO, 1981: 31 É esta lógica que faz o autor (1981: 31-32) entender os bairros e as comunidades rurais onde se realizam os giros desses grupos como “um grande ritual / mercado de circulação de bens de pequeno valor material e de bens de um acreditado grande valor simbólico-religioso”. Esta composição contratual dos trabalhos de louvor e adoração aos três reis magos, de pedir e receber bens materiais e retribui-los por meio de dádivas sociais e espirituais (as bênçãos e a proteção divina), reflete a legitimidade deste sistema de troca evidenciando a reciprocidade desejada – e proporcionalmente aumentada – aos familiares, aos amigos e até mesmo aos animais dos devotos e promesseiros ofertantes. Segundo Brandão, enquanto grupo inserido em um campo de relações e de representações entre deuses e homens (e também entre tipos de homens, mediadores de dádivas), as companhias de reis constituem um tempo e um espaço de trocas cerimoniais que nada mais fazem do que reatualizar, no plano ritualístico da religião, as situações tradicionais de prestações e contraprestações de bens e de serviços entre parceiros camponeses, que ele denomina de “uma crônica cerimonial” da própria sociedade camponesa. Em nome de pedir e de receber bens materiais – para si próprios durante a jornada (comida e hospedagem), e para os outros, depois dela (dinheiro e bens) – os foliões são obrigados a retribuir por meio de dádivas sociais (a proclamação do valor moral do gesto do doador) e espirituais (bênçãos e pedidos de proteção divina). Promesseiros e devotos, contra-atores da Folia dão porque estão incorporados ao ritual, e dar é um dos seus momentos. Mas eles dão, também, porque a crença simbólica, que garante com palavras sagradas a legitimidade das trocas, proclama a reciprocidade desejada: o doador será abençoado nesta vida e/ou na outra; os seus bens serão proporcionalmente aumentados; os seus familiares e os seus animais serão protegidos. Todos acreditam que o ato de dar obriga Deus a retribuir, em nome 93 dos Três Reis (mediadores sobrenaturais) e através do trabalho religioso dos foliões (mediadores humanos). O dom, a coisa dada, dirige o contradom, a coisa retribuída, pelo seu poder: o dinheiro atrairá mais dinheiro; o frango, o porco e o gado atrairão proteção necessária sobre os seus iguais, restados na casa de quem os deu. BRANDÃO, 1981: 32-33 DEUS (dá sem receber) TRÊS REIS SANTOS (mediação sobrenatural) FOLIÕES (mediação humana) (dão bens espirituais de Deus em troca de bens materiais dos homens) MORADORES (dão bens materiais dos homens em troca de bens espirituais de Deus) POBRES (recebem sem dar) BRANDÃO, 1981: 35 No entanto, há de se considerar que, entre as críticas possíveis de serem orquestradas à interpretação do autor, uma parece ser mais relevante por incitar um posterior desdobramento teórico e reflexivo. A crítica se refere a uma afirmação categórica de Brandão (1981: 32), que toma este espaço de trocas como o núcleo das relações simbólicas do ritual, defendendo assim que os foliões não saem para cantar louvores ao menino Jesus, para representar e reconstruir simbolicamente a história do nascimento de Cristo e tampouco para arrecadar dinheiro para a festa comunitária de entrega da bandeira, mas tão somente para “proclamar e responder por um tempo ritual diferente de trânsito entre homens e dádivas”. Segundo o autor, tal afirmação seria justificada pelos diferentes motivos que fazem mestres e foliões optarem por fazer parte de uma companhia: as relações impositivas estabelecidas com Santos Reis pelo fato de terem contraído compromissos com promessas provisórias ou de devoção perene; as relações de parentesco ou de compadrio; ou simplesmente o fato de serem eles os únicos especialistas nos fundamentos da tradição em toda a comunidade de devotos. A Folia não gira para cantar louvores ao Menino Jesus, nem para reconstruir, como um auto piedoso igual ao das Pastorinhas que existem no Nordeste e a que eu assisti duas vezes em Pirenópolis (Goiás), a história do Natal de Jesus. Mas ela tampouco 94 gira para arrecadar, em 13 ou em 7 dias, dinheiro dado por alguns para uma festa comunitária de todos. O que a Folia faz é proclamar e responder por um tempo ritual diferente de trânsito entre homens e dádivas. BRANDÃO, 1981: 32 Acaso seria outra a função social de tantos outros rituais religiosos da religião popular de nossos índios e de nossos camponeses – os que ficaram ainda nos seus lugares de origem e os que migraram para a cidade? Acaso a sociedade e os seus homens não pedem deles apenas que quebrem com a sabedoria, a arte e a fé de todos – iguais na mesma crença, desiguais nos postos de sua prática – a rotina sazonal de trabalho e de trocas de produtos do trabalho, para repô-los outra vez e mais outras ainda, retraduzidos como festa, como canto e como comida coletiva, e também como a desejada bênção de Deus, trazida aos pobres por outros pobres, sob mãos que seguram a viola e o violão? BRANDÃO, 1981: 36 O sistema contratual apontado por Brandão é sem dúvida uma importante contribuição para se compreender alguns aspectos das práticas de culto e adoração aos Santos Reis, mas se considerarmos sua complexidade e a multi-causalidade de fenômenos que concorrem para que a jornada das companhias se efetive, esta explicação ainda se mostra fragmentária, ou seja, a dimensão contratual do trabalho religioso está longe de ser a única responsável pela saída das companhias, sendo apenas uma dentre várias situações que contribuem para que se concretize os giros das companhias. A ideia de fragmentariedade não possui um sentido depreciativo, mas busca mostrar a infinidade de dimensões da existência humana e das relações sociais do qual todo ritual é provido, das quais a dádiva se apresenta apenas como um de seus elementos constitutivos e motivadores para que os foliões realizem o giro. E igualmente consciente do quanto este trabalho também se apresenta como fragmentário neste sentido, o desdobramento desta crítica não pretende muito mais do que lançar luz a uma parte extremamente ínfima do mosaico de relações sociais que envolvem o trabalho religioso em louvor aos Santos Reis, algo que fica ainda mais aquém de uma pretensa objetividade da realidade se condensada com a infinidade de abordagens interpretativas e de aportes teóricos e conceituais possíveis de serem utilizados. É neste sentido que deixamos de lado o sistema contratual de reciprocidade, tão bem interpretado pelo autor, para orquestrar a ideia de que os foliões talvez possuam uma noção estrutural de suas práticas (no sentido de estarem fazendo algo que sempre foi feito), o que pode ser um dos vários fenômenos responsáveis pela jornada das companhias. 95 3. Uma interpretação da gênesis O encontro com grupos de outros municípios, cuja investigação estava fora do escopo inicial do projeto de pesquisa, foi algo bastante recorrente durante todo trabalho de campo. A primeira vez que encontrei uma companhia de reis “diferente” foi dia 05 de janeiro de 2016, enquanto esperava a Companhia Reis do Oriente em um celeiro abandonado na zona rural entre os municípios de Alfenas e Fama. Apesar de instigado a alterar o itinerário previsto e adiar o encontro que havia agendado para seguir aquela “nova” companhia, decidi manter o cronograma e ficar dentro da delimitação proposta no projeto inicial, mesmo porque, aquele seria meu primeiro contato com os foliões da Companhia Reis do Oriente percorrendo os sítios pela zona rural de Fama. Se eu já tivesse acompanhado esta companhia antes e já tivesse coletado alguns relatos de seus foliões, eu certamente teria partido atrás daquela companhia que se apresentava como uma novidade para o trabalho. Foi exatamente esta situação que aconteceu dois anos depois, enquanto seguia com os foliões da Companhia da Irmandade pela zona rural de Alfenas no dia 05 de janeiro de 2018. Já com uma quantidade considerável de dados e material audiovisual desta companhia, que vinha sendo coletado desde a jornada de 2015-2016, não pensei duas vezes em mudar meu itinerário quando me encontrei com uma companhia “diferente” pelo caminho. A companhia que eu seguia cantava em algumas casas do bairro rural da Ponte das Amoras quando, em sentido contrário ao nosso, vieram os foliões da Companhia Nossa Senhora do Carmo, do município vizinho de Campos Gerais. Pedi licença e desculpas aos foliões da Companhia da Irmandade e informei que os deixaria para seguir por algumas horas os foliões da companhia que havia acabado de encontrar pelo caminho: “Vai lá que a gente vai seguindo pela estrada aqui, depois você encontra a gente lá na frente”, me disse o capitão Gaspar Ribeiro, o Keka. Assim que fui autorizado pelos foliões da Companhia Nossa Senhora do Carmo para acompanhá-los e fazer alguns registros nas casas por onde cantariam, aproveitei a primeira oportunidade que tive para desenvolver uma conversa, desta vez apenas com o gravador na mão, pois, como ainda não tinha intimidade com aqueles foliões, o registro visual poderia ser algo muito invasivo e deixá-los um pouco inibidos. Na pausa para esta conversa, que se deu logo após os foliões terem cantado o agradecimento em uma das casas, pedi para que eles me falassem um pouco sobre a história das companhias de reis e um pouco da história daquela companhia em especial, ocasião em que descobri que Nossa Senhora do Carmo é a padroeira de Campos Gerais e o motivo pelo qual a companhia leva este nome. Antes disso, no entanto, 96 um dos foliões me deu o seguinte relato sobre qual seria a origem das companhias de reis, sendo a partir dele que pretendo desenvolver as reflexões teóricas deste capítulo. Isso é o projeto do começo do mundo, né? Porque quem que vigiou o menino Jesus foi os três reis santos, né? Que salvou ele. Então é isso aí. Eles falam folia de reis, mas não é folia. É companhia de reis. Porque folia é outra coisa, né? A companhia é acompanhada pelo Divino Espírito Santo. E a original mesmo tem as três, né? Têm os três reis santos, tem o Divino Espírito Santo e tem o mastro de São Sebastião. São as únicas três que têm no mundo. VITOR DOMINGOS TIBÚRCIO, 2018 As companhias de reis enquanto confraternização de fé, trabalho religioso, pregação do evangelho, anunciação do nascimento de Jesus Cristo, entre outras definições dadas pelos foliões, existem desde o começo do mundo, não sendo encontradas divergências acerca desta origem ancestral das companhias de reis e sendo este um dos poucos consensos que há entre os foliões. As divergências, quando existem, dizem respeito mais ao momento posterior de instituição desta prática que representa a viagem dos três reis magos do que da origem em si. Sobre isso, o folião Luís de Brito, por exemplo, me contou que “a primeira companhia de reis que saiu foi inventada pela mão de um homem chamado Jerônimo. Foi a primeira companhia de Santos Reis que saiu”. Já o folião João Benedette me contou que: [...] a primeira companhia de reis surgida no mundo foi na Espanha no ano de 1200. Uma turma de espanhóis saiu cantando e pregando o evangelho do que tinha acontecido na viagem dos reis e aquela multidão foi acompanhando eles cantando e tocando. Por isso que surgiu a companhia de reis na Espanha, depois que foi trazida pelos portugueses aqui no Brasil no ano de 1650. JOÃO BENEDETTE, 2018 Quanto à origem primeira das companhias de reis, todos os relatos apontam para um “projeto do começo do mundo”, uma tradição que remonta às origens da humanidade e cuja ancestralidade está totalmente fora de questionamento pelos foliões. Estes relatos se referem às visitas realizadas ao menino Jesus pelos magos e pelos pastores, e não às representações posteriores, como me explicou o capitão da Companhia Sagrado Coração de Jesus: [...] a origem é a primeira visita depois dos pastores. Seria a segunda visita, porque quem visitou Jesus primeiro foram os pastores que já estavam lá perto. A segunda visita foi a dos três reis. Então a origem é essa: a visita dos três reis ao menino Jesus. Tanto é que você que tem acompanhado a gente você tem visto que quando a gente chega no presépio o bastião fala sobre isso, sobre a visita dos três reis ao presépio de Maria, que a gente chama de adoração. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2018 97 O folião João Santana, da Companhia Nossa Senhora de Fátima, ao comentar sobre os abusos e extravagâncias cometidos por alguns foliões, me disse que “os três reis é uma coisa que vem desde o começo do mundo, por isso não pode abusar muito”. O folião responsável pela Companhia Santa Bárbara, Miguel Geraldo da Silva, me contou que “companhia de reis é uma tradição muito antiga que vem desde o começo do mundo. Desde o começo do mundo tem companhia de reis, da época que os reis magos visitaram Jesus”. Segundo o embaixador Oswaldo de Brito, da Companhia Nossa Senhora de Fátima, a tradição de companhias de reis foi inventada por Gaspar, Baltazar e Belchior “desde o começo do mundo, quando surgiu na fuga de Jesus para o Egito. Então os três se vestiram das batinas deles, dos vestuários que eles tinham. Um pegou a caixa, o outro pegou o pandeiro e fizeram a companhia de reis”. Segundo o folião Geraldo Miranda, da Companhia dos Noel, a companhia de reis é uma tradição “lá de dois mil anos atrás”, uma prática religiosa surgida milhares de anos atrás e quase que com o surgimento da humanidade sobre a Terra. Os bastiões representam os três reis santos. Foram os três reis as primeiras pessoas que visitou o menino Jesus. Por isso que eles se vestem desse jeito. Aí quando o rei Herodes ficou sabendo que nasceu o menino Jesus ele queria matar. Aí pra voltar avisaram eles pra não voltar. Foi preciso mascarar pro rei Herodes não saber, pra não ficar perguntando pra eles pra onde que eles vai, pra onde que eles iam. Porque ele queria matar eles também. Entendeu? Porque que eles fardam assim? Pra não ver. É a tradição que vem vindo lá de dois mil anos atrás. Por isso que o certo é só três bastião. Por isso que depois eles fardaram e tiveram que voltar pra trás. O rei Herodes cercou eles numa ponte lá pra saber deles, pra saber onde tava o menino Jesus. Aí eles vestiram essa máscara. Diz que entraram até numa festa e o povo ficou tudo estranhando. Eles dançaram um pouco na festa, saíram e ninguém conheceu eles. É a tradição, né? É uma longa história. Eu não sei muito não, eu sei um pouco. Quantos anos não faz isso? É muitos anos. GERALDO MIRANDA, 2017 Ainda que as discussões sobre as origens históricas das folias, especialmente a ibérica, tenham sido alvos de críticas devido a pouca serventia que elas supostamente trazem para se realizar uma análise interpretativa de determinada realidade social, ou seja, para “explicação do presente a partir de elementos do passado”, não podemos deixar de discutir estas “origens históricas” quando elas se apresentam tão reiteradamente nos relatos dos foliões. No entanto, aqui esta interpretação será orquestrada a partir do mito de origem nativo, algo que pode nos trazer valiosas contribuições na tentativa de compreender os elementos motivadores para a jornada das companhias para além do sistema contratual. Se a tentativa de explicação social levando-se em consideração as origens ibéricas das companhias partindo de uma abordagem difusionista não se apresenta como pertinente, ou seja, da existência de uma versão original a 98 partir da qual são construídas suas variações, o mesmo não se pode dizer acerca da discussão deste mito de origem para se interpretar as dimensões sociais e simbólicas da prática religiosa dos foliões, particularmente aquelas ligadas aos aspectos cosmológicos e representacionais. 3.1. O mito de origem e a abordagem estruturalista Existe na afirmação de que as companhias de reis existem desde o começo do mundo algumas questões que o estruturalismo talvez seja capaz de, senão responder, ao menos lançar alguma luz a respeito. A noção estrutural de estarem fazendo algo que desde sempre foi feito, igualmente presente em um grande número de civilizações antigas no sentido de assimilar um tempo não cronológico de algo que “sempre” existiu, uma festividade onde os sujeitos atuam em uma dimensão pública que vem representada por rituais realizados pelas ruas da cidade e que sempre pode ser um “agora”, nos sugere que estas narrativas não devem ser interpretadas a partir da ideia de que para os foliões existe um passado remoto disposto de modo linear, mas sim a possibilidade de existência de elementos estruturantes por trás delas. Estes elementos estruturais enquanto modelo explicativo para a realidade social inserem estas narrativas como partes que se articulam dentro de um todo maior e que aspiram um princípio de universalidade a partir das operações binárias que moldam as representações sociais coletivas destes sujeitos, revelando a existência de uma estrutura mais profunda na qual as narrativas estão ancoradas. A partir do momento em que constatamos que muitas destas narrativas mitológicas se fazem presentes em povos e sociedades tão distintas entre si, uma infinidade de temas comuns pode ser interpretada dentro de uma abordagem sincrônica e a partir da noção levistraussiana de mitema, partícula essencial e irredutível de grandes sistemas mitológicos, responsável por conferir unidade aos diferentes mitos a partir dos pontos de articulação que possuem entre si. Se analisarmos o mito de origem dos foliões de forma articulada com outros mitos e dentro de uma imobilidade histórica e temporal, buscando elementos imutáveis e correspondências em diferentes povos, talvez nos seja possível ao menos conjecturar a existência de estruturas encobertas que fundamentam e sustentam estes relatos do ponto de vista mitológico. Lévi- Strauss acreditava que podem existir elementos universais na cultura dos povos, responsáveis por configurar, de forma suspensa e inconsciente, os modos de agir e pensar daquilo que ele entendia por espírito humano, sendo as regras, as normas e os padrões estabelecidos de forma inconsciente os elementos responsáveis por modelar a cultura, o pensamento e a conduta dos diferentes povos e sociedades. Neste sentido, os pares de oposição levistraussianos podem ser 99 estabelecidos como condicionantes do pensamento para análise dos mitos, buscando modos análogos de construção do pensamento em outras sociedades a partir de suas articulações. Contudo, os mitos, aparentemente arbitrários, se reproduzem com as mesmas características e, muitas vezes, os mesmos detalhes, em diversas regiões do mundo. Daí a questão: se o conteúdo do mito é inteiramente contingente, como explicar que, de um extremo a outro da terra, os mitos se pareçam tanto? Tomar consciência dessa antinomia fundamental, que pertence à natureza do mito, é condição sine qua non para podermos esperar resolvê-la. LÉVI-STRAUSS, 2008: 223 Antes de nos voltarmos especificamente ao mito de origem dos foliões, que descreve as companhias de reis como que existindo desde o começo do mundo, podem ser interessantes e particularmente sugestivos para nossa interpretação, exemplos onde o pensamento cristão e algumas passagens bíblicas se articulam com formulações míticas de outros povos. No segundo volume das Mitológicas, por exemplo, Lévi-Strauss (2000: 431-439) menciona o detalhe de um mito que aparece de forma recorrente em um grande número de narrativas. O autor toma como mito de referência um herói coletor de mel da etnia terena que, sendo vítima de maldades de sua mulher, passa a mancar e perde o gosto pelo trabalho, partindo, então, em busca de mel. O ato de mancar deste herói ocupa um lugar significativo em outros cerimoniais dos próprios terenas e aparece em rituais de povos para além da América setentrional, sendo geralmente associado a fenômenos sazonais27. Entre os vários mitos citados nesta obra, Lévi- Strauss (2000: 434) menciona que “o Antigo Testamento descreve uma cerimônia que tinha por finalidade vencer a seca, em que dançarinos mancando circundavam o altar28. Um texto 27 “Uma moça manca é a única que consegue vencer o inverno e fazer a primavera chegar (M³⁴⁷: Shuswap, Teit 1909: 701-01). Uma criança de pernas tortas põe fim à chuva (M³⁴⁸: Cowlitz, Jacobs 1934: 168-69) ou faz o sol reinar (M³⁴⁹: Cowlitz e outras tribos salish da costa; Adamson 1934: 230-33, 390-91). Um aleijado traz a primavera (M³⁵⁰: Sanpoil-Nespelem, Ray 1954: 199). A filha manca de Lua desposa a lua nova; a partir de então, não fará mais tanto calor, porque o sol se moverá (M³⁵¹: Wishram, Sapir 1909: 311). Para terminar esta breve lista, um outro mito wasco praticamente nos leva de volta ao nosso ponto de partida (cf.M3), pois evoca um enfermo, o único capaz de ressuscitar dentre os mortos e permanecer entre os vivos; desde aquela época, os mortos não podem mais reviver como as árvores na primavera (M³⁵²: Spier & Sapir 1930: 277)” (2000: 433). 28 No entanto, em nenhuma passagem do Antigo Testamento é descrita esta cerimônia que tinha por finalidade vencer a seca, onde dançarinos mancando circundavam o altar. É provável que Lévi-Strauss esteja se referindo à passagem bíblica descrita no capítulo 18 do primeiro livro de Reis, que se inicia com o verso “E sucedeu que, depois de muitos dias, a palavra do SENHOR veio a Elias, no terceiro ano, dizendo: Vai, apresenta-te a Acabe; porque darei chuva sobre a terra”. A referência aos “mancos” nesta passagem bíblica é uma metáfora que se refere aos israelitas que adoravam dois deuses diferentes ao mesmo tempo, adorando o Deus de Israel e Baal, uma adoração instável e vacilante como a de um homem coxo: “Então Elias se chegou a todo o povo, e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o, e se Baal, segui-o. Porém o povo nada lhe respondeu” (1 Reis 18: 21). Na ocasião, Elias propõe como prova da superioridade de seu Deus sobre Baal uma concorrência que consistia em oferecer, com fogo descido dos céus, um bezerro queimado em holocausto, cada qual a seu Deus. Os quatrocentas e cinquenta profetas de Baal tentaram, desde a manhã até 100 talmúdico sugere que no século II de nossa era, em Israel, a dança claudicante ainda era praticada para chamar a chuva”. Além de mancar, o herói do mito terena também era coletor de mel, sendo o mel outro elemento presente de forma metafórica em vários mitos de civilizações antigas e em algumas passagens bíblicas. Sobre a presença do mel em outros mitos, Lévi-Strauss observou que: [...] os hinos védicos associam frequentemente o leite e o mel, os quais, segundo a Bíblia, fluirão pela Terra prometida. ‘Mais doces do que o mel’ são as palavras do Senhor. O mel era a oferenda por excelência que os babilônios faziam aos deuses, pois estes exigiam um alimento que não tivesse sido tocado pelo fogo. Na Ilíada, as jarras de mel servem de oferenda aos mortos. Em outros contextos elas foram usadas para abrigar seus despojos. LÉVI-STRAUSS, 2000: 13 Assim como o ato de mancar e o mel, muitos outros elementos míticos presentes em diversas culturas possuem seus análogos bíblicos, a exemplo do sistro, instrumento percutido utilizado para chamar ou espantar espíritos entre os antigos sumérios e egípcios, chegado até a igreja católica apostólica romana como um instrumento das trevas. A característica das trevas deste instrumento possui uma curiosa analogia entre mitos sul-americanos e procedimentos litúrgicos do catolicismo romano. Neste último caso, por exemplo, os sinos das igrejas eram proibidos de serem tocados entre a missa da quinta-feira santa e a missa do sábado, sendo então substituído por outras fontes de ruído (o martelet, a cegarrega, o claquoir, a aldrava, a matraca ou o próprio sistro), apesar da hostilidade e das restrições da igreja em relação a estes instrumentos das trevas. Sobre estes instrumentos, Lévi-Strauss observou que: [...] todos eles exercem funções teoricamente distintas, mas frequentemente misturadas na prática: fazer barulho dentro ou fora da igreja; convocar os fiéis na ausência dos sinos; acompanhar as crianças, quando elas saem para pedir óbolos. Segundo certos testemunhos, os instrumentos das trevas também serviriam para recordar os prodígios e os ruídos terríveis que marcaram a morte de Cristo. LÉVI-STRAUSS, 2000: 380 Da mesma forma, muitos outros esquemas míticos e rituais podem ser interpretados a partir da relação análoga que possuem com mitos comuns a culturas muito distantes umas das o meio dia, conseguir uma resposta de seu deus saltando em volta do altar que haviam feito, sem sucesso: “E tomaram o bezerro que lhes dera, e o prepararam; e invocaram o nome de Baal, desde a manhã até ao meio- dia, dizendo: Ah! Baal, responde-nos! Porém nem havia voz, nem quem respondesse; e saltavam sobre o altar que tinham feito” (1 Reis 18: 26). Após Elias tomar o altar e invocar o nome do Deus de Israel, caiu fogo do céu “e consumiu o holocausto, a lenha, as pedras, o pó e ainda lambeu a água que estava no rego” (1 Reis 18: 38). A passagem termina com as nuvens se escurecendo, ventos e com uma forte chuva enviada pelo Deus de Elias. 101 outras e a tradições diversas, como é o caso dos ritos de extinção e renovação dos fogos domésticos, precedido por jejuns e pelo emprego dos instrumentos das trevas29. Para concluir a articulação dos elementos míticos citados, cabe ainda dizer que o herói terena mencionado no início, ao descobrir as maldades de sua mulher, partiu em busca de mel para se vingar dela (o mel seria um de seus instrumentos de vingança) batendo as solas de couro de suas sandálias uma na outra, utilizando-as como um chicote ou um instrumento de percussão, provavelmente para obter ajuda dos espíritos e assim encontrar mel mais facilmente. * * * Antes de voltarmos para a origem das companhias presente nas narrativas míticas dos foliões, cabe ainda mencionar que, na obra de Lévi-Strauss (2000: 16), o mel, como uma das categorias fundamentais da cozinha – a do cru e a do cozido –, se opõe ao tabaco, “na medida em que estes preparados apresentam caracteres complementares: um é infra-culinário, o outro é meta-culinário”, associando assim tais características às representações míticas da passagem da natureza à cultura. Sem a pretensão de explorar detalhadamente a análise que Lévi-Strauss faz da natureza duplamente paradoxal de oposição existente entre o mel e o tabaco em nossas sociedades ocidentais, e já voltando à origem das companhias de reis presente nas narrativas míticas dos foliões, podemos de certa forma depreender destas narrativas a existência de uma passagem do estágio de natureza para o de cultura, como se o tempo passado das companhias de reis, ou seja, a viagem original / natural realizada pelos reis magos através do deserto para visitar o menino Jesus, estivesse no domínio da natureza e a representação que hoje em dia as companhias fazem dela estivesse no domínio da cultura. É neste sentido que Lévi-Strauss se refere à dupla estrutura dos mitos, sendo esta ao mesmo tempo histórica e a-histórica. 29 “As ‘trevas’ que reinavam na igreja durante o ofício do mesmo nome podiam simbolizar tanto a extinção dos fogos domésticos como a noite que caiu sobre a terra no momento da morte de Cristo” (2000: 382-383) [...]. “Na Córsega, ‘as crianças batem com toda força bastões nos bancos da igreja ou então colocam dois dedos na boca e assobiam com toda força. Representam os judeus perseguindo Cristo” (LÉVI-STRAUSS, 2000: 385). Vale lembrar que existem muitas obras compostas “para as trevas” na tradição da música de concerto, como as Lições das trevas para a Quarta-feira Santa, ou Leçons de ténèbres em francês, uma séria de três peças vocais escritas por François Couperin (1668-1733) para as liturgias da santa semana de 1714 na Abadia de Longchamp (além desta, foram compostas outras duas séries de três peças cada uma que não chegaram até nós, uma para a quinta-feira santa e uma para a sexta-feira santa). Esta obra foi escrita a partir de uma passagem do antigo testamento, onde são descritas as lamentações de Jeremias sobre a primeira destruição de Jerusalém pelos Babilônios, e na tradição católica simbolizam também a solidão de Cristo abandonado pelos apóstolos. Ainda que a obra de Couperin seja a mais famosa, outros compositores também escreveram suas “lições das trevas”. 102 Um mito sempre se refere a eventos passados, “antes da criação do mundo” ou “nos primórdios”, em todo caso, “ha muito tempo”. Mas o valor intrínseco atribuído ao mito provém do fato de os eventos que se supõe ocorrer num momento do tempo também formarem uma estrutura permanente, que se refere simultaneamente ao passado, ao presente e ao futuro. LÉVI-STRAUSS, 2008: 224 É também neste sentido que uma das reduções binárias possível de ser estabelecida a partir destas narrativas é entre tempo passado e tempo presente, uma forma de organização do pensamento utilizada por algumas sociedades antigas que foi igualmente descrita por Georges Balandier e que se apresenta pertinente para interpretarmos a forma como se configuram estas representações tradicionais e ancestrais a partir das narrativas míticas dos foliões, incutindo nos sujeitos o sentimento de que suas práticas e rituais “sempre existiram”. Georges Balandier (1969: 130) observou, por exemplo, que nas trocas de reinados das sociedades tradicionais com estado monárquico, o entronizar de um novo rei vem sempre acompanhado por objetos e rituais que instauram um simbólico retorno às origens primeiras da comunidade (ou, como nas companhias de reis, ao começo do mundo), oferecendo ocasião para se repetir simbolicamente o contexto fundacional da realeza e os atos fundadores que a edificaram e a legitimam. Así, en el antiguo reino de Kongo, instaura un simbólico retorno a los orígenes, merced a un ceremonial que asocia al nuevo rey, los notables y el pueblo, que impugna a los partícipes del comienzo: el descendiente del fundador, los representantes de los antiguos ocupantes de la región que corresponde a la provincia real, que se convirtieron em «aliados» de los soberanos kongo. Invoca los manes de los primeros reyes, las «doce generaciones» a las cuales están vinculados, e impone la manipulación de los más antiguos símbolos y signos. Hace remontar a los tiempos de una historia devenida mito y revela al soberano como el «forjador» y el guardián de la unidad kongo. La entronización del rey no garantiza sólo la legitimidad del poder ostentado, sino que asegura el rejuvenecimiento de la monarquía, da al pueblo – por cierto tempo – el sentimiento de una nueva partida «desde el principio». BALANDIER, 1969: 130 Este sentimento de retorno ao começo do mundo e de uma nova partida, bem marcada e presente nos relatos de alguns foliões, nos fornece uma importante pista para situarmos estas narrativas de origem das companhias de reis dentro de uma estrutura maior e mais profunda de sentido e significados: a estrutura dos mitos. Além desta interpretação, também se mostra importante apontar que esta noção estrutural de que suas práticas e rituais “sempre existiram” (e por isso não podem deixar de fazê-las, pois são as responsáveis pela conexão entre passado, presente e futuro) se apresenta como um importante agente motivador para a permanência e principalmente para a perpetuação das companhias de reis em um futuro próximo. 103 Embora não seja o objetivo principal do trabalho, as relações estruturais talvez ainda possam ser esclarecidas com mais propriedade em investigações futuras e assim lançar nova luz sobre esta questão, de modo a ampliar as causas motivadoras da jornada das companhias para além do sistema contratual de dádivas e trocas. Com o intuito de aprofundar um pouco mais esta questão, há de se mencionar um personagem ritual essencial na atividade religiosa dos foliões que igualmente sugere a existência desta estrutura mítica das companhias de reis e que merece, ainda que superficialmente, ser um pouco mais discutido neste trabalho. Trata-se dos bastiões, aos quais são atribuídos papéis bastante controversos no que diz respeito à sua verdadeira representação simbólica. 3.2. O bastião, marungo ou palhaço e suas funções A primeira companhia de reis que saiu foi inventada pela mão de um homem chamado Jerônimo. Foi a primeira companhia de Santos Reis que saiu. E não tinha palhaço não, bastião. Mas pra modo deles atravessar o menino Jesus inventaram os dois palhaços pra desviar o demônio, que fez semelhança com o rei Herodes. Os bastiões. Aí eles foram vestidos de traidor pra trair o demônio, afastar ele pra poderem atravessar o menino. Aí os bastiões foram abençoados e foram mascarados. Eles foram mascarados pra trair o demônio e foram abençoados porque ajudaram a atravessar o menino Jesus. Então por isso que eles foram abençoados. Inclusive, por isso que o bastião dentro da casa não pode entrar. Conforme for o dono da casa o bastião não pode entrar. Porque o bastião é assim: Se o bastião for um ladrão e ele entrar dentro da tua casa, depois ele tira a máscara de noite e vai lá roubar. Então o dono da casa tem que conhecer o bastião. O dono da casa chega e pergunta: “E esse bastião? De onde que ele é?”. “Ah, ele é de Monte Belo”. “Então deixa eu ver a cara dele”. Aí o dono da casa conhece ele. Mas se ele chegar com a máscara o dono da casa tem que ver o rosto dele. Porque senão ele tá lá na tua casa, ele olha tudo o que você tem e ele sai. Quando é de noite ele vai com o revólver, te mata e te rouba. Ele é traidor. Então ele tem que tirar a máscara pro dono da casa conhecer ele. Por isso que ele tem que ficar do lado de fora. Do lado de fora ele é o vigia da bandeira. Se chega um cachorro pra atacar a companhia ele tem que proteger. Se o dono da casa faz uma pergunta, ele tem que responder. Agora, se a bandeira dos Santos Reis pousar lá dentro da tua casa o bastião não pode ser o vigia da bandeira, porque ele não pode pousar lá vigiando a bandeira a noite inteira. Ele tem que ficar do lado de fora. Ele vai embora aí os Santos Reis vai ficar por tua conta, porque eles tão dentro da tua casa. Então por isso que ele não é o guarda da bandeira. Uns falam que ele é o guarda da bandeira, mas nunca foi. Porque quando foi pra atravessar o menino Jesus, só foram os Santos Reis, só os três reis magos do Oriente que atravessaram. Não passou nenhum palhaço. Ele é o vigia da bandeira só, mas não é o guarda da bandeira. A gente tem um punhado de bastião aqui. O necessário do bastião é carregar a espada, o bastão. Porque se chega um cachaceiro em volta da bandeira o bastião tem que tirar o cachaceiro. Nada do embaixador e nem do bandeireiro fazer isso. O bandeireiro tá segurando a bandeira, se entra um cachaceiro perturbando o bandeireiro o bastião tem que falar: “Você se afasta daqui e nos dá licença que aqui vale o respeito”. Isso é por conta do bastião. E se tem uma flor no chão com um significado na hora da chegada também é o bastião quem tem que falar. O bandeireiro não tem que falar nada. Porque na hora que os três reis foram atravessar o menino Jesus perguntaram pra eles: “Quem vocês são?” E eles disseram: “Nós somos os palhaços”. Então eles têm que fazer palhaçada pro povo dar risada. Se não tiver palhaço não tem companhia de reis. Aí é companhia do Divino. Eles têm que 104 distrair o povo igual distraíram o demônio. Aí depois eles se cruzaram, um pra lá e outro pra cá. Aí os palhaços pulando um pra lá e outro pra cá distraíram e levaram o demônio pro outro lado. Aí depois que tudo acalmou os magos passaram com o menino Jesus. LUÍS DE BRITO, 2018 Os termos bastião, marungo e palhaço são usados para se referir à figura responsável por alegrar os devotos e por decorar e declamar os extensos enredos narrativos que envolvem o nascimento de Cristo e sua fuga para o Egito. A opção de começar este tópico com o relato do folião Luís de Brito se deve pelo fato de nele estarem presentes as principais características dos bastiões, algumas delas bastante controversas. Mas antes de apresentar as características e funções dos bastiões que são pontos de discordância entre um grande número de foliões, serão apresentadas aquelas que são consensuais entre todos os foliões das diversas companhias. A primeira delas diz respeito ao entendimento de que uma das funções primordiais dos bastiões é “fazer palhaçada pro povo dar risada”, ou seja, pular e dançar para descontrair os fiéis igual “distraíram o demônio”. Esta responsabilidade, compartilhada por devotos e foliões, explica porque no sul de Minas Gerais não existem companhias de reis sem seus respectivos bastiões. O bastião Nivaldo com um casal de amigos na chegada da Companhia da Irmandade em 2015. 105 Eu comecei criança mesmo, sabe? Hoje eu tenho quarenta anos de idade. Se eu me lembro bem, eu comecei com oito anos de idade, então já faz bastante tempo. Vem de família também, dos meus tios. O capitão é meu tio. Sempre gostei de bastião e vou continuar sempre fazendo o povo rir. Porque em alguns lugares o pessoal chama de bastião, marungo ou palhaço. Então conforme palhaço a gente tem que fazer todo mundo dar risada. E é o que eu tento o máximo possível. O que acontece? Se a companhia tem um bastião bom que anima, com esse ritmo nosso que já é mais animado o pessoal gosta mais ainda. O pessoal faz a festa junto. A gente gosta de chegar e representar, falar uns versos da tradição, que tem isso também. A gente gosta de chegar e apresentar coisas bonitas mesmo pra fazer o mais bonito possível. Coisa que ninguém falou o bastião fala. Tipo o Salmo noventa e um. Nunca vi nenhum bastião falar até hoje, mas eu chego na casa, ajoelho e falo um Salmo desse tamanho. É conforme eu falei pra você, eu comecei com oito anos de idade e hoje eu tenho quarenta. Então nessa convivência eu sempre quis fazer mais e mais. Aprendia uma coisa e falava: “Eu tenho que aprender mais”. Fui aprendendo e hoje eu sei bastante coisa, graças a Deus e graças aos nossos três reis santos também. NIVALDO DOS SANTOS CORREIA, 2016 Quando uma companhia se dirige para uma casa onde será oferecido almoço ou jantar os foliões sempre param algumas dezenas de metros antes do primeiro arco para aguardar o sinal do dono da casa de que já podem então fazer a chegada. Segundo a tradição dos devotos, este sinal deve ser um tiro de rojão, dado pelo dono da casa ou por alguém por ele autorizado, embora na falta deste recurso pode-se também pedir para que alguém da família ou um amigo vá avisar os foliões de que eles “já podem descer”. Este tempo de espera entre a chegada da companhia até a casa onde será oferecido o almoço ou o jantar e o tiro de rojão liberando os foliões para fazerem a chegada geralmente leva alguns minutos, mas já presenciei casos em que os foliões tiveram de esperar por mais de uma hora até o dono da casa soltar os rojões autorizando a chegada da companhia. Estes casos geralmente ocorrem quando as cozinheiras estão atrasadas com os preparativos para a refeição (ou quando os foliões chegam muito antes do combinado) e precisam de mais tempo para finalizar a comida. Isso acontece porque, ainda que o tempo entre a chegada dos foliões e o sentar-se à mesa (ou no chão) para almoçar possa demorar mais de uma hora, dependendo da quantidade de arcos e amarrações preparados pelo dono da casa (o que permitiria às cozinheiras terminarem a comida), o primeiro rojão quase nunca é solto sem que a comida esteja totalmente pronta e sem que as cozinheiras também estejam em frente da casa aguardando a chegada dos foliões, pois, como me contou a devota Miriam, que todos os anos prepara com sua cunhada o almoço para os foliões da Companhia da Irmandade a pedido do marido, elas esperam mais a folia de reis do que eles [os homens]. No dia 04 de janeiro de 2018, enquanto seguia a Companhia Sagrado Coração de Jesus em uma chegada para o almoço, os bastiões já fisicamente cansados pelos dez dias de trabalho já transcorridos não pareciam muito dispostos a pular e dançar. Após ser disparado o 106 primeiro rojão, que liberava a companhia para fazer sua chegada, os foliões demoraram cerca de um minuto para começar a tocar seus instrumentos e, três minutos depois, os bastiões já haviam parado de dançar e de fazer suas estripulias (ao que tudo indica, em acordo com o sanfoneiro que parou de tocar sua sanfona, pois, de certa forma, é ele quem decide quando os bastiões devem parar de dançar). No mesmo momento a dona da casa os repreendeu dizendo: “Tem que ser meia hora de dança gente, vamos!”. Em seguida, seu marido José Ismael de Oliveira reforçou a indignação da esposa: “Estes bastião estão muito desanimados. Hoje não é mais como era antigamente”. Um pouco surpreso com as declarações daquele casal, decidi ir conversar com os dois após o almoço, no que obtive o seguinte relato do dono da casa: Antigamente parece que os bastiões eram mais animados do que os de hoje. É o bastião que traz alegria e vai contagiando o pessoal. E quanto mais eles pulam mais a turma vai chegando, os vizinhos. Quando a companhia tá chegando aí começa a soltar os foguetes, e o pessoal, os vizinhos, vão se aproximando. O bastião começa a incentivar, a pular mais, aí vai contagiando o pessoal e a vizinhança vai aparecendo. Une mais as pessoas. JOSÉ ISMAEL DE OLIVEIRA, 2018 Esta responsabilidade do bastião de animar os vizinhos e familiares que comparecem a uma chegada também vale, ainda que em menor grau, para os percursos que os foliões fazem entre uma casa e outra quando caminham pelas ruas da cidade ou pelas estradas dos bairros rurais. Muito diferente de quando as companhias entram nas casas para a cantoria do hino de reis, onde a música é introspectiva e o silêncio sagrado para que os devotos possam entender o conteúdo dos versos, quando ela está andando pelas ruas o ambiente se transforma totalmente, a começar pelo ritmo dançante e animado comandado pela sanfona e pela percussão, já que é neste momento que os bastiões fazem a maior parte das estripulias: gritam, pulam, dançam e brincam com os transeuntes. Esta música dançante tocada nas ruas para os bastiões dançarem e pularem é chamada por alguns foliões simplesmente de forró, gênero muito apreciado pelos foliões e utilizado nos momentos de lazer do trabalho religioso. O embaixador Vino me disse que depois da chegada e entrega da bandeira na jornada de 2015-2016 os foliões iam “fazer um forrozinho. E nossa chegada é bonita. Na casa do irmão desse rapaz aqui o ano passado nós fizemos um festão lá. Fechemos no forró e foi até tarde [...]”. O embaixador Oswaldo de Brito me disse que “em cada lugar canta uma toada, né? Você tem a toada do forró, você tem a toada do catira. Vamos supor, tem uma tradição: às vezes você chega numa casa e o caboclo quer que canta uma moda, um cururu, um samba. Aí varia o ritmo”. Além da utilização do termo forró para se referir à música tocada nas ruas para alegrar os bastiões e também para 107 avisar os devotos que a companhia está passando em frente de suas casas, o embaixador Adriano Nogueira, da Companhia Sagrado Coração de Jesus, me relatou que: [...] essa música das ruas o pessoal mais antigo chamava de jaca, né? Eles falavam cortar jaca: “Vamos fazer um ritmo para os bastiões cortar jaca”. Que é aquela dança que eles fazem, que eles agacham no chão e jogam as pernas pra lá e pra cá, sabe? Aí a gente fala: “Vamos tocar uma jaquinha”. É esse ritmo. Na verdade a gente que trata esse ritmo como jaca, mas o nome não é isso não. Seria quase que um forró mesmo. ADRIANO NOGUEIRA, 2018 A Companhia Nossa Senhora de Fátima caminha pelas ruas enquanto toca o corta-jaca ou forró. Outra função dos bastiões consensualmente compartilhada pelos foliões diz respeito à responsabilidade de declamar versos: para fazer adoração em frente ao presépio, para anunciar o nascimento do menino Jesus, para desfazer as amarrações, para travar disputas de improviso com os bastiões de outras companhias, entre outras atividades declamatórias. Se uma primeira função dos bastiões é pular, dançar, gritar, alegrar e divertir os devotos com suas estripulias, a segunda função diz respeito ao ato de criar e declamar versos: “Se tem uma flor no chão com um significado na hora da chegada também é o bastião quem tem que falar. O bandeireiro não tem que falar nada”, disse o folião Luís de Brito. São eles os responsáveis pelas anunciações em frente aos presépios e por memorizar os enredos onde são narrados os acontecimentos que 108 envolvem o nascimento de Jesus. Apenas se, por distração ou falta de experiência, o bastião passar direto pelo presépio, a responsabilidade de fazer a anunciação recai ao capitão, que deve fazê-la cantando em responsório com os demais foliões e não de forma declamada. Até os versos do bastião a gente inventa. A maioria dessa bastiãozada que fala aí. Eu com o Jorge Lourenço mesmo, quando nós chegávamos a falar nós falávamos o dia inteiro, mas tudo improvisado. Nós fazíamos de improviso. Muita coisa você pega da Bíblia. Têm muitos versos que eu tirei da Bíblia e trovei ele. Nego falar os vinte e cinco versos, eu ainda nunca vi ninguém falar vinte e cinco versos. Você já viu algum bastião falar vinte e cinco versos? Não fala. Vinte e cinco versos é do nascimento de Cristo até quando ele morreu. Ninguém fala, sempre passa por cima. Eu falo muito verso, ensinei as bastiãozada tudo a falar verso. Têm uns bastião aqui, os bastião melhor lá perto do cemitério, tudo fala os versos que eu ensinei. É tudo que eu com o Jorge Lourenço aprendemos nas outras companhias. Nós também éramos bastião, passemos a embaixador. Até fui sanfoneiro do Jorge primeiro. Primeiro eu era sanfoneiro pra depois passar a embaixador. Aí depois passou o irmão dele pra sanfona e hoje eu tô embaixando com eles. E olha que faz anos. Faz anos. Na idade que eu tô aqui hoje, acho que faz uns trinta anos daquela época do Jorge. Uns trinta anos ou mais. Eu tô com sessenta anos nas costas, tenho quarenta e poucos anos de companhia de reis. Quando eu comecei a cantar com ele eu era solteiro ainda. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 Como já foi dito pelo folião Luís de Brito, o bastião é o vigia da bandeira e cabe a ele tomar conta dela30. A ideia de tomar conta da bandeira consiste, entre outras coisas, em fazer toda a cortesia ao devoto quando a companhia chega: perguntar se ele tem alguma preferência na cantoria, se ele quer que os versos sejam dedicados a algum falecido ou para algum parente que está distante, se ele está satisfeito com o que já foi cantado ou se ele quer que cante mais versos, se a companhia já pode fazer o agradecimento para se retirar da casa etc. Muitas vezes o bastião também funciona como uma espécie de mediador entre o devoto e a companhia, não sendo raros os casos em que o devoto fica insatisfeito com a cantoria, chama o bastião de lado e pede para que ele avise o embaixador para cantar novos versos, o que geralmente acontece quando o embaixador se esquece de cantar os versos que foram pedidos pelo dono da casa para uma pessoa específica. Quando o embaixador se esquece de agradecer as cozinheiras, por exemplo, geralmente é o bastião quem intercede para que novos versos sejam trovados. 30 Em algumas regiões do país as bandeiras não são utilizadas pelos grupos que saem em louvor e adoração aos Santos Reis. Alberto IKEDA (2011: 113-114), por exemplo, faz esta observação a partir do relato de um devoto: “Sobre o uso da bandeira nas folias de reis, diz Signeis Pereira dos Santos (50 anos, nascido em Barreiras, Bahia, residente em Goiás desde 1970), cuja folia sai apenas durante três dias: ‘Lá na Bahia só sai bandeira do Divino, São Sebastião, São João e Coração de Jesus, que só caminham de dia. Folia baiana (de reis) não tem bandeira. Esse povo daqui parece tudo doido, que sai com bandeira de reis. Folia que sai de noite não pode ter bandeira’ (Goiânia, 02/01/1988)”. 109 O bastião tem que tomar conta da bandeira. Ele tem que tá junto com a bandeira pra ele ver como é que vai cantar e perguntar pro dono da casa: “Que jeito o senhor quer que a gente canta?”. E brincar. Às vezes a gente chegava na brincadeira e falava: “Ô patrão, eu tô com uma fome. Que que tem aí pra gente? O terreiro tá cheio e nós tamo querendo uma sementinha de galinha”. Sementinha de galinha é o ovo. Então a gente brincava. Aí na hora de agradecer a gente perguntava: “Pode agradecer patrão? Que nós vamos agradecer? Um leitão, um cachorro, um boi, um rato? Qualquer coisa”. Era um modo de brincar, né? Aí a gente agradecia. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 Assim como os cantadores saem uniformizados com seus instrumentos, indispensáveis para a cantoria, os bastiões também possuem seus acessórios próprios: suas roupas coloridas, que eles chamam de farda, suas máscaras e, em algumas companhias, também as espadas de madeira. As fardas são sempre confeccionadas com chitas, procurando chamar o máximo de atenção possível dos moradores e devotos, tal como fizeram os três reis magos para distrair os soldados do rei Herodes; as máscaras, geralmente feitas pelos próprios foliões de papelão ou tubos de PVC, escondem o rosto dos bastiões; e as espadas de madeira, que atualmente parecem ter caido em desuso na região e vêm sendo utilizadas apenas por alguns bastiões, os ajudam a afugentar os cachorros que investem contra as companhias. O bastião Nivaldo dos Santos me contou emocionado sobre a satisfação de ter ganhado, pela primeira vez em sua vida, uma máscara e uma farda de um dos colaboradores de sua companhia. O bandeireiro José Célio, da Companhia Filhos da Cambraia, caminha com a bandeira enquanto seu irmão José Roberto e um bastiãozinho empunham suas espadas de madeira. 110 Pra mim é uma importância muito grande, pra mim que já tenho trinta anos de correr atrás de folia de reis. Eu agradeço muito o patrão porque sempre eu mesmo que fiz minha farda, nunca ganhei. É a primeira vez que eu tô ganhando uma farda e uma máscara. É uma gratificação muito grande. Eu fico muito satisfeito e tenho muito a agradecer. E você pode esperar que a gente vai cantar e eu faço questão de falar um verso traduzido agradecendo o presente. NIVALDO DOS SANTOS CORREIA, 2016 A espada, ainda que não seja utilizada por todos os bastiões, se apresenta como o mais emblemático dos elementos materiais utilizados no ritual, por ser interpretada simbolicamente como representante do bem (a espada dos reis que protegeram o menino Jesus dos soldados de Herodes) ou do mal (a espada dos soldados que foram enviados pelo rei Herodes para matar o menino Jesus), sendo este duplo simbolismo que fundamenta a reflexão a seguir. 3.2.1. As variações sobre o simbolismo do bastião As companhias de reis, na época que foram inventadas, foi Gaspar e Baltazar quem inventou, entendeu? Desde o começo do mundo, quando surgiu na fuga de Jesus para o Egito. Então os três se vestiram das batinas deles, dos vestuários que eles tinham. Um pegou a caixa, o outro pegou o pandeiro e fizeram a companhia de reis. Por isso que existem os marungos nas folias de reis, pra enganar o rei Herodes pra não matar o menino Jesus. Os bastião faz a representação dos soldados que ajudaram na fuga do menino Jesus para o Egito. Eles que ajudaram a enganar o rei Herodes. Os bastião não são os três reis magos não. Os três reis magos são os três reis magos. Os bastião foi pra enganar o Herodes. Os bastião nas folias de reis representam os soldados da bandeira, entendeu? Dos três reis que são do Oriente. Eles são os soldados dos três reis magos. OSWALDO DE BRITO, 2017 Como veremos, os bastiões possuem um papel controverso nas companhias no que diz respeito à sua representação simbólica, não existindo consenso entre os foliões sobre quem de fato eles representam. Alguns dizem que os bastiões representam os soldados de Herodes que tentaram desviar os três reis magos do caminho para impedi-los de chegar até o menino Jesus, ou então os soldados enviados pelo rei Herodes para degolar os recém-nascidos e para matar o menino Jesus quando a família sagrada, orientada pelos reis magos, fugiu para o Egito. Ainda sobre esta versão, existem foliões que a incrementam dizendo que os bastiões representam os soldados que foram matar o menino Jesus a mando do rei Herodes, mas que se arrependeram ao constatar que se tratava do filho de Deus, passando então a ajudar a família sagrada em sua fuga. Mas, se por um lado existem foliões que defendem que “os bastiões não são os três reis magos”, por outro, existem os que acreditam que os bastiões de fato simbolizam os próprios reis magos, o que seria justificado pelo fato de geralmente serem em número de três. 111 O folião José Ailton de Paula, por exemplo, me disse que “os bastião eles representam os três reis santos. É o Brechor, Baltazar e Gaspar. Eles representam os três reis magos, né? O certo então é ter três bastião só. Mas sempre muitas pessoas quer sair, gosta, quer cumprir a promessa, aí tem que ter mais. Mas o certo é três. Os três representando os três reis magos”. As mulheres também pulam e dançam: uma bastiana da Companhia Santa Bárbara durante a festa de chegada e entrega da bandeira, no dia 09 de janeiro de 2016. Se o fato de que os bastiões devem ser em número de três nas companhias pode ser um argumento para aqueles foliões que afirmam que os bastiões são uma representação simbólica dos três reis magos, o mesmo não acontece com o fato de possuírem suas espadas, pois tanto reis quanto soldados são portadores de espadas, impedindo a utilização deste elemento como justificativa tanto para uma quanto para outra interpretação, ainda que alguns foliões afirmem que as espadas são um símbolo por excelência de reis ou, por outro lado, de soldados. Com as danças e estripulias que os bastiões fazem pelas ruas acontece o mesmo embate interpretativo, pois, equanto alguns interpretam as danças dos bastiões como sendo a tentativa dos soldados de desviar os três reis magos do caminho para Belém, outros as interpretam como sendo dos 112 soldados já arrependidos que, querendo ajudar a família sagrada e os três reis magos em sua fuga, dançavam para distrair e enganar os outros soldados que perseguiam o menino Jesus. * * * Antes de aproximar as variações das representações simbólicas dos bastiões para uma interpretação baseada no estruturalismo levistraussiano, talvez seja interessante apresentar a forma como diferentes autores interpretaram a representação simbólica dos bastiões em seus estudos sobre o trabalho religioso de culto aos Santos Reis. Suzel Reily, por exemplo, faz uma interpretação dos bastiões inspirada na obra de Antonio Gramsci, que para ela foi o autor que percebeu como se estrutura a moral e a religiosidade subalterna, como uma idealização onde todos são iguais e onde todas as pessoas têm obrigações umas com as outras dentro de uma rede de reciprocidade e de reconhecimento das necessidades e compromissos de cada um. Sem duvida, as figuras mais marcantes de uma folia são os palhaços (bastiões). Considerados frequentemente os espias de Herodes, arrependeram-se quando se encontraram com o Menino Jesus, como relata Seu Antônio Mariano, da cidade de Arceburgo, Minas Gerais: A origem que eu tenho de dar é... que os bastião era soldado do Herodes. Herodes então que viu que os Magos saiu dali, disse: “Vai atrás daqueles, homi, pra mim. Vai ver onde eles vão.” Ai eles foram, né, mas eles não chegou lá onde os Reis chegou, não: só viram Jesus de longe... Mas na hora que eles chegaram de volta, aí o Herodes [perguntou]: “Como é que é? Que que deu?” [O bastião respondeu:] “Ah, não deu nada. Eu não vi nada.” Ele mentiu, ne? REILY, 2009: 09 Para Gramsci, o folclore representaria a cultura do subalterno, na medida em que ele articularia uma comparação entre as condições de vida dos subalternos e as classes dominantes. Inclusive, dessa perspectiva, Gramsci permite o resgate da palavra “folclore”, que no Brasil, em particular, passou a adquirir conotações negativas dentro da Antropologia, dadas as suas ligações com as orientações nacionalistas e metodologias de pesquisa amadorísticas. Nesse sentido, então, a folia de reis pode ser entendida como “folclore subalterno”, por articular a percepção subalterna das hierarquias sociais vigentes. REILY, 2012: 12 A interpretação da autora também se fundamenta na ideia de que as folias possuem uma atuação política, no sentido dos valores morais divinos de reciprocidade e solidariedade pregados por estes grupos estarem em contraste direto com o cotidiano dos foliões quando estes não estão atuando no trabalho religioso. Neste sentido, sendo soldados enviados pelo rei Herodes para vigiar e perseguir a família sagrada, os bastiões seriam representantes de uma reciprocidade negativa, ou seja, do poder e da acumulação de capital que, em última instância, 113 se refere à figura do patrão e à relação que ele estabelece com seus empregados, pois “embora (ao menos nesse momento) a tradição da folia não se relacione com ações políticas públicas, ela pode ser vista como parte de uma rede infrapolítica, promovendo cobertura segura para a construção de hidden transcripts e para a criação da integridade cultural” (REILY, 2002: 20- 21). É também nesta direção que a autora interpreta o fato de que existe, entre os sujeitos de sua pesquisa, a crença de que os reis acabam por inverter a maldade do rei Herodes, pois, se por um lado ele havia mandado seus soldados matar as crianças, por outro, muitas mães que possuem filhos pequenos doentes prometem ao santo que seu filho ou filha vestirá a farda de bastião por sete anos caso seja curado31. Esta seria uma dupla esfera de atuação do bastião, que dentro de um mesmo universo simbólico sugere a variação do mito. Dentro desta corrente de pensamento, os símbolos presentes no trabalho religioso de culto aos Santos Reis, onde a figura do bastião é apenas um deles, estariam necessariamente associados a uma dimensão política e ideológica, onde os interesses políticos e econômicos de um passado colonialista seriam, então, ocultados através da capacidade que a religião possui de camuflar uma dimensão ao mesmo tempo escravista e opressora da realidade social. Carlos Rodrigues BRANDÃO (2007: 21), por exemplo, chegou a tocar neste ponto ao relacionar o jogo político das classes dominantes com as práticas religiosas das classes oprimidas. 31 O número sete está muito presente nas folias de reis e nas escrituras sagradas dos foliões, considerado por muitos deles como um número perfeito. No sul de Minas Gerais ele pode ser encontrado nas “sete dores de Maria” e também nas anunciações dos bastiões, quando estes dizem: “Lá no Céu tem sete Anjos, tocando sete violas”. Téo AZEVEDO (2007: 37) observou que, nos grupos do norte de Minas Gerais e na região do Vale do Jequitinhonha, utilizar os instrumentos de reis em outras músicas “pode dar atraso de sete anos na vida de quem desrespeitar a tradição”, e que “quem participa da Folia uma vez é obrigado a participar durante sete anos. [...] A casa que a Folia cantar e o dono não abrir a porta será amaldiçoada por Santos Reis durante sete anos. [...] O folião que quebrar sete cordas na noite ou furar dois couros precisa ser benzido para poder acompanhar a Folia. [...] Quem armar presépio um ano tem que fazê-lo sempre, senão terá sete anos de atraso. [...] O folião que começar a foliar no Terno tem que segui-lo até sete anos, e só depois desse período é que poderá passar para outra folia, pois, caso contrário, terá sete anos de atraso na vida” (2007: 43-44). Carlos Rodrigues BRANDÃO (1981: 23) menciona Dona Matilde, dona de um terno de reis de Poços de Caldas que “fez voto há 3 anos e tem compromissos de sair por mais 4, até cumprir os 7 de preceito”. Sobre as interpretações desta obrigatoriedade de sete anos, o autor ainda esclarece: “Alguns mestres afirmam que, quando se faz uma promessa de sair com a Folia, o promesseiro pode completar seis anos seguidos. Mas se fizer a saída no sétimo, fica com o compromisso com Santos Reis para o resto da vida. Assim se acredita no interior de Goiás. Mestre Messias confirmou a mesma coisa em Goiânia. Assim também pensam alguns mestres em Caldas, Poços de Caldas, Campestre e Machado”. Alberto IKEDA (2011: 81) observou que “existem também folias que são organizadas apenas durante certo número de anos (no geral sete), somente para cumprimento de promessas. Nesses casos é comum que o ‘dono’ da folia convide um embaixador para a realização das jornadas, cabendo ao primeiro toda a parte organizativa e ao segundo a liderança ritualística religiosa”. O folião Vicente, da Companhia Sagrado Coração de Jesus, me deu o seguinte relato envolvendo o número sete: “Os foliões aqui é a mesma coisa de irmão pra mim. Eles cumpriram minha promessa por sete anos, foram eles que cumpriram. O Tião, o Pulica e o Zé Maria, grandes parceiros meus. Eles que me ajudaram e eu devo muito a eles”. É curioso também observar que a abertura das vozes na cantoria de reis é feita no máximo em número de sete vozes. 114 Ao se explicar a ordem social do sagrado, desvenda-se o lugar onde o político é mais prodigioso. E o que o faz ser assim, ali, é justamente o poder da religião de ocultar, sob seus símbolos de última instância, os interesses terrenos de seus produtores sociais a quem ela, às vezes, serve, seja ocultando ou, pelo menos, revestindo com canto e fórmulas de maravilha o jogo político da dominância. BRANDÃO, 2007: 21 Outros autores sugerem, com base nos relatos dos foliões, distintas interpretações para descrever o simbolismo dos bastiões. Daniel Bitter, por exemplo, menciona um mestre que justificou a ausência de palhaços em sua folia dizendo que, sendo eles representantes do rei Herodes ou seus próprios soldados, não seguiram os magos até o local onde o menino Jesus havia nascido e, portanto, não podem acompanhar as folias de reis durante sua jornada. Isso acontece mesmo quando os palhaços estão presentes junto de algumas folias, fazendo com que muitos foliões continuem os associando aos soldados já arrependidos do rei Herodes. A explicação para a presença dos palhaços dada pelo mestre Élcio, por exemplo, está em que eles seriam de fato os soldados de Herodes disfarçados com máscaras para não serem reconhecidos pelo próprio Herodes, uma vez que eles desacataram a ordem de matar o menino-Deus, pondo-se eles também a adorá-lo. BITTER, 2010: 146-147 O violeiro Téo AZEVEDO (2007: 05) relatou que no Norte de Minas Gerais “quase não existe palhaço, bastião ou marongo nas Folias de Reis, e segundo uma lenda da região, os palhaços representam o rei Herodes”, já que os três reis magos seriam representados pelos próprios foliões cantadores. Alberto IKEDA (2011: 82) também observou que os palhaços têm simbologia variada dentro das folias, sendo na maioria das vezes identificados com o “‘mal’ (espião do Rei Herodes) ou representantes do diabo; mas existem também declarações inversas, de que são os ‘guias da bandeira’ ou que ‘os palhaços são dois: um dançou para distraí o Rei Herode e o outro fugiu com o Menino (Deus)’, portanto, representando o ‘bem’”. Uma última variação da representação deste mito – esta uma dupla variação, pois também está relacionada com os relatos de que as companhias existem desde o começo do mundo – pode ser encontrada no estudo etnográfico de Ana Carneiro Cerqueira, onde um senhor buraqueiro chamado Zé de Orotides refletiu sobre as controvérsias dos fundamentos da folia. As pessoas falam que a folia começou no início do mundo, contou-me ele, mas não foi bem assim! E me exemplificou “o causo dos três Reis Magos”, viajantes rumo ao local de nascimento do menino Jesus, escondidos do Rei Herodes, que queria matar a criança então recém-nascida. Os Reis Magos receberam de Deus um sinal sobre o nascimento de Jesus, e sobre a localidade a encontrá-lo: uma estrela brilhante indicar-lhes-ia o rumo, contou Zé Orotides. Caminharam durante toda noite, no rumo da estrela, enquanto Herodes, também sabedor do ocorrido, caçava-os. As 115 folias em que há pessoas representando Herodes sob fantasias de palhaços e mascarados estão equivocadas, concluiu Orotides, pois reapresentam o giro dos Magos em companhia daquele de quem justamente estes fugiam. CERQUEIRA, 2010, 63-64 O bastião Wolney Vieira com seu filho e outros bastiões da Companhia dos Benedette. * * * Antes de prosseguir com uma interpretação que tem a abordagem estruturalista como base teórica, se mostra necessário reconhecer suas limitações (de minha interpretação, não do estruturalismo), ao menos para o caso específico da figura do bastião. Em grande parte de sua obra, Lévi-Strauss trabalhou diretamente com narrativas míticas, articulando-as com eventos dos mitos que tinham igualmente funções estruturais, ou seja, elementos sempre de natureza sensível. No entanto, as variações em torno da figura do bastião apresentadas, sobre as quais pretendo realizar a análise, não são o mito propriamente dito, mas sim representações que os bastiões fazem do mito. Neste sentido, ao realizar uma análise interpretativa não estarei me voltando ao mito em si, mas sim às variações decorrentes das interpretações e representações que os bastiões fazem deste mito. Em suma, uma interpretação sobre outra interpretação (ou representação). Porém, o fato das variações residirem nas representações dos bastiões não as exclui do domínio mitológico e tampouco extrai o mito da concepção nativa, embora o acesso a ele passe a ser mediado pelas variações decorrentes das representações dos bastiões. 116 Ao me valer das representações mitológicas dos bastiões para a análise, me distancio de uma abordagem propriamente estruturalista por estar parcialmente privado do mito em sua essência, algo que sem dúvida compromete a interpretação. No entanto, embora seja claro que exista um problema metodológico se quisermos enquadrar a análise dentro de uma abordagem essencialmente estruturalista, por tomar a simbologia dos elementos e as representações como se elas fossem o próprio mito, esta operação pode ser interessante para refletirmos tanto sobre os atos simbólicos dos foliões quanto sobre a forma vigente de se pensar o sentido dado pelos nativos aos seus atos simbólicos. Sem a menor pretensão de querer inventar uma nova forma de pensar o sentido dado aos atos simbólicos pelos nativos, o motivo desta colocação se deve apenas para demonstrar consciência da operação que será realizada e de que as representações não são a mesma coisa que os próprios mitos. O aparente desvio epistemológico, no sentido de querer interpretar no lugar dos foliões e situar o mito no âmbito de natureza e o ritual no de cultura, por exemplo, deve ser considerado na relação ritual e mito, tendo em vista que praticamente todos os rituais se fundam em mitos e, por natureza, são coisas diferentes. Na leitura de Lévi-Straus, por exemplo, o ritual estaria no lugar do caótico, dos estados alterados de consciência, ao contrário do mito, que está mais associado à forma e à narrativa. Como já foi esboçado anteriormente, o estruturalismo não busca uma versão autêntica e primitiva dos mitos, mas sim definir cada mito pelo conjunto de suas versões. Lévi-Strauss (2008: 234) já havia dito que, “posto que um mito se compõe do conjunto de suas variantes, a análise estrutural deverá considerar todas elas na mesma medida”. A consideração das várias variantes de um mito é exemplificada por Lévi-Strauss (2008: 241) através do mito de Édipo e do mito zuñi de origem, onde ele aplica sistematicamente o método de analise estrutural, conseguindo então “ordenar todas as variantes conhecidas do mito numa série, formando uma espécie de grupo de permutações, no qual as duas variantes situadas nas duas extremidades da série apresentam, uma em relação à outra, uma estrutura simétrica, mas invertida”. A partir do que já foi apresentado, acerca das variantes das representações mitológicas da figura do bastião, não será preciso ir muito mais adiante para concluirmos que o método de análise estrutural de um mito, se realizado dentro do contexto de produção do mito, como é o caso apresentado (o grande sistema cultural do qual as diversas tradições de reis fazem parte, daí a necessidade de expandirmos nosso caso particular para uma pretensa “universalidade”), fará com que nosso mito muito provavelmente apresente cada uma de suas variações dentro de uma oposição dialética dada por sua própria natureza como elemento resultante de uma “tradução”, no sentido de um mito ser sempre originado a partir de outro mito, estando dele 117 deslocado histórica e geograficamente ou não. No caso das representações mitológicas da figura do bastião, ao ingressar em um universo cultural novo, onde ainda não possui relação com a organização social e com os modelos de pensamento dos foliões, o mito perde suas características primordiais de comunicabilidade e passa a se “empobrecer” estruturalmente, passando então a se constituir de seu próprio oposto para que não seja abolido do sistema. São transformações desta natureza que fazem com que o mito não tenha começo nem fim, pois é ele próprio apenas fragmento (por vezes invertido) de uma narrativa maior, o que o possibilita de ser encontrado entre povos histórica e geograficamente tão distantes um do outro. Na mitologia nativa dos foliões, conjecturei que esta dialetica venha acompanhada da passagem de um estado de natureza (o mito original das escrituras sagradas) para um estado de cultura (o ritual de representação simbólica dos foliões), onde a passagem de um estado a outro reintroduz tanto algumas de suas características originais quanto de suas variações, pois a construção estrutural do mito pressupõe que ele já possui uma dupla permutação de funções: 1) que qualquer das características do mito seja substituída por seu contrário, e; 2) que haja uma inversão correlata entre o mito original e o mito representado simbolicamente. Carlos Rodrigues BRANDÃO (1981: 26), por exemplo, menciona práticas rituais que são opostas àquelas praticadas pelas companhias presentes neste trabalho. Ao relatar como os foliões mais velhos de Caldas realizavam o ritual em tempos mais antigos, com mais rigor e obediência ao que se supõe que faziam os magos, o autor observa que, por simbolizarem a fuga dos magos pelos soldados do rei Herodes, os foliões “viajavam só durante a noite, em silêncio pelas estradas. Chegando a uma casa pediam pouso, sem cantar e com pouco alarde. Apenas dentro da casa cantavam. Durante o dia ficavam dentro de um pouso para saírem de novo ao escurecer de um novo dia, em mais uma noite inteira de jornada”. Sobre a adoração realizada em frente ao presépio, Brandão também menciona práticas totalmente opostas às dos foliões das companhias que fizeram parte desta pesquisa. Alguns mestres em Caldas e em outras cidades acham muito errado que a Folia encontre qualquer outro presépio pelo caminho, que não o da «festa», no dia 6 de janeiro. Se em alguma casa de giro ou de pouso houver «uma lapinha», ela deve ser cuidadosamente escondida, se possível, sob um pano que a cubra por inteiro. Encontrei vários mestres com a mesma explicação: se a Folia «faz como os Três Reis», buscando pelos caminhos e entre casas o local do nascimento do Menino Jesus, como podem encontrá-lo no meio da jornada e em outro local que não no da festa? Pior, como podem fazer mais de uma adoração? Algumas pessoas criticaram Mestre Lázaro por ter cantado a adoração diante de um presépio, no dia 1° de janeiro. Mas ele se desculpou com a mesma lógica que rege o ritual: Como é que eu ia negar pra quem pediu? Era promessa... BRANDÃO, 1981: 27 118 Bastião da Companhia Estrela Guia durante a jornada de 2015-2016. Além destas práticas rituais que se invertem, há também as já mencionadas variações sobre a figura do bastião, que nos grupos citados por Brandão (1981: 33) são associados ao rei Herodes e seus soldados, embora sejam comuns divergências sobre eles: “se ele é o Herodes, o demo, pra que que eu quero ele em minha Companhia? diz Mestre Messias em Goiás. Outros consideram um ou dois palhaços como personagens indispensáveis em uma Folia”. Outra questão interessante diz respeito ao fato dos bastiões de Caldas possuírem condutas totalmente opostas às dos foliões: “são fantasiados enquanto os foliões surgem com suas roupas civis; falam, enquanto os foliões cantam; são grotescos e profanos (não rezam), enquanto os foliões são solenes e religiosos”. Conforme observou Brandão (1981: 33), os bastiões “não entram na casa enquanto há «cantoria»; ficam de fora correndo atrás de crianças e de cachorros; debocham das pessoas, do dono da casa e mesmo dos foliões. Em síntese, eles fazem tudo o que os outros não fazem e não fazem nada do que os outros fazem”. 119 3.3. O quarto mago e as variações sobre os três reis Existe o quarto rei. Esse quarto rei ficou para trás. Por que ele ficou para trás? Porque ele não foi profetizado, por isso que ele não conseguiu visitar Jesus. Ele saiu atrasado, né? E cada vez que ele invocava mais depressa acontecia alguma coisa. E como ele naquela época era tipo médico assim, ele dava aquelas ervas que o povo dava. Fazia remédio de ervas e era muito entendido. Então cada lugar que ele passava ele via uma pessoa doente, entendeu? E ali ele parava e curava. Cada vez que ele parava e curava aquelas pessoas ele foi se atrasando. Foi se atrasando. E Jesus foi seguindo a vida dele, né? Foi seguindo. E esse rei foi ficando até que ele ficou em uma aldeia de leprosos. Ele ficou muitos anos nessa aldeia fazendo pomada e curando os leprosos. Vinte e cinco anos. E ali foi ficando. Foi ficando, ficando, até que um dia Jesus passando em Jerusalém, naquela procissão dos ramos, Jesus passando por Belém, que falaram pra ele que Jesus estava vindo pra Belém naquela procissão dos ramos. Naquela época Jesus montava no burrinho. Foi na procissão dos ramos, né? Foi mais ou menos assim. O nome do rei era Artabano. Ele era muito rico e trouxe várias pedras de ouro pra dar pra Jesus, e tudo isso ele foi vendendo e dando pras pessoas pobres e curando as pessoas. Dando e ajudando. E acontecia isso e ele ficava pra trás. Ele acabou com tudo o que ele tinha na viagem. Ele não tinha aquele coração de chegar pra pessoa e falar que não ia fazer. Ele parava e ajudava. E foi ficando e ficou trinta e três anos pra trás. Até que ele ouviu falar de Jesus, né? Quando ele ouviu falar de Jesus ele já estava passando nessa época dos ramos que eu falei pra você, de Jerusalém. Aí já passou e ele não viu. O pessoal falou: “Você não viu Jesus?”. Mas ele estava lá na aldeia curando os leprosos. Até que ele ficou sabendo que Jesus iria ser crucificado, né? Aí o que aconteceu? Ele já estava muito velhinho, já estava velho demais da conta. E ele saiu e falou assim: “Eu tenho que ver Jesus”. Mais ele não estava aguentando mais, já estava no fim da vida. E chegando perto do calvário, subindo pelo calvário assim, ele chegou até um certo nível assim e encostou em uma pedra. E a última pedra de ouro que ele estava ele deu em uma cidade chegando lá. Tinha um pessoal, um soldado de Herodes brigando com um pai de família pra receber o dote lá. Tinha que dar um imposto. Então o pai daquela família não tinha aquele dote pra dar, porque não tinha dinheiro. Os soldados pegaram a filha dele e a mãe e começaram a bater. Ele tirou aquela pedra de ouro e doou pra salvar aquela família. E seguiu viagem. Chegando perto lá do calvário ele se encostou em uma pedra e disse pra Jesus que a pedra de ouro que ele ia dar ele doou pra família, né? E Jesus já estava na cruz sendo crucificado. Aí ele falou: “Jesus, o senhor me perdoa por eu não poder vir te visitar e doar o meu presente”. Aí nesse momento ele já não estava aguentando, já estava morrendo já. Aí Jesus apareceu pra ele e falou assim: “Você não estava comigo, mas eu estava contigo. Você lembra aquela pessoa que você curou lá naquela estrada de cavalo que você parou? Então, era eu aquela pessoa que estava com você. Aqueles leprosos que estavam lá. Eu estava contigo lá”. Jesus falando pra ele assim, de frente a frente. Apareceu pra ele falando: “Eu estava contigo. Você achando que estava sozinho, mas eu estava com você”. Todas aquelas pessoa que ele curava Jesus falava que estava junto com ele, entendeu? Jesus estava com ele em tudo quanto é lugar. Aí naquele momento lá, não sei se enfartou, não sei do que, ele morreu. Mas ele morreu feliz porque Jesus apareceu pra ele e contou toda essa história. Ele não estava com Jesus, mas Jesus estava com ele todos aqueles momentos. Jesus morrendo já. Aí ele morreu também. Por que tudo isso aconteceu? Porque ele não foi profetizado, né? Porque tudo o que foi escrito pelos profetas aconteceu. O dele ele quis que fizesse acontecer com todo o esforço dele. Aconteceu, mas da seguinte forma. Ele a hora que estava morrendo e Jesus já sendo crucificado. É assim que termina. WOLNEY VIEIRA, 2016 120 Falaram pra mim que saíram quatro reis. O rei Artabano diz que saiu junto com eles também. Diz que na época foram quatro reis que saíram: Gaspar, Baltazar, Belchior e Artabano. Só que Artabano era médico. Mas todos eles levaram um presente pra Jesus. Um levou mirra, outro levou ouro e esse Artabano levou uma pedra, parece que era uma pedra verde de muito valor. Mas por ele ser médico ele passou em um povoado lá e tinha uma senhora pra dar a luz, então ele ficou pra trás. Até já vi esse filme. Mas só que, em todo caso, quem sou eu? Eu só escuto falar. E por ele ficar pra trás ele perdeu os outros três. E seguiu. E ele só encontrou Jesus depois de trinta e três anos. Onde ele passava o povo falava: “Ele esteve por aqui fazendo milagre, curando cego, curando leproso”. Quando ele encontrou Jesus ele tinha trinta e três anos já, Jesus. Ele estava preso na cruz. Artabano estava com a vista meio fraca já. Eu sei que, pela história que me contam, onde ele passava, ele também ajudava com essa pedra aí. Ele dava para os pobres, pra quem precisava. Vai dar dinheiro pra rico pra que? Tem que dar pra pobre, né? Aí diz que lá onde é Jerusalém hoje, Judéia, Judá, ele chegou lá com a vista bem enfraquecida. Ele já enxergou Jesus, mas estava preso numa cruz. Até tem um colega meu que é bastião, o Wolney de Paraguaçu. Ele mandou eu fazer uma música e eu fiz a música. Só que agora eu não lembro ela, senão eu ia até cantar ela pra vocês ver aqui. Se você acha que é mentira passa lá em casa que eu te dou uma cópia dela. Chama “A história de Artabano”. Então tem muita história. Quem sabe se era verdadeira ou se não era verdadeira? Pra mim tudo é verdadeira. Só sei que hoje são poucas pessoas que estão acreditando. Se é verdadeira poucos acreditam. E se é mentirosa poucos que acreditam também. Só que o povo hoje não está acreditando em quase nada, não é mesmo? Na minha cabeça. Mas em todo caso, eu acredito. MIGUEL RODRIGUES, 2016 Este episódio encontra muita ressonância na cultura popular em geral, onde também se menciona a existência de quatro reis magos, ao invés de três. A saga de Artabano foi descrita no século XIX pelo teólogo e pastor americano Henry van Dyke (1852-1933), tendo inspirado em meados da década de 1980 a produção do filme O quarto sábio (The Fourth Wise Man), dirigido por Michael Ray Rhodes e estrelado por Martin Sheen fazendo o papel de Artabano, cuja estreia ocorreu em 30 de março de 1985. No original The Other Wise Man, publicado em 1895, Henry van Dyke menciona um quarto mago que também viu a estrela que anunciava o nascimento de Cristo e decidiu, junto com os outros três reis, segui-la para presentear o filho de Deus. Artabano era médico, homem de muitas posses, habitava as montanhas da Pérsia e era seguidor da seita de Zoroastro, tendo se reunido certa noite com o conselho da seita para informa-los de sua decisão e convidá-los a seguir a estrela para Belém: “Os meus três amigos Gaspar, Melchior, Baltazar e eu, vimos a grande luz brilhante de uma nova estrela há vários dias e vamos sair juntos para Jerusalém para ver e adorar o Prometido, o Rei de Israel”. Ainda que tivesse sido desacreditado pelo conselho, Artabano vendeu sua casa e tudo quanto possuía para comprar provimentos e jóias para o menino Jesus: uma safira, um rubi e uma pérola. Artabano preparou seu melhor cavalo, de nome Vasda, e partiu ao encontro de Gaspar, Melchior e Baltazar, mas durante a viagem encontrou um hebreu caído na estrada à beira da morte e, após pedir sabedoria divina sobre o que fazer, decide tratar do homem por vários dias 121 ao invés de seguir ao encontro dos três magos que o esperavam. Após sua caridade, ele parte novamente ao encontro dos três magos, mas ao chegar ao local combinado não os encontram, mas um pergaminho, dizendo que já haviam partido. Em desespero, por ter gasto todas suas providências com o enfermo, regressou à Babilônia para vender a safira que daria de presente a Jesus e comprar camelos e provisões para a viagem. Chegando a Belém muitos dias depois, parou para perguntar a uma jovem mãe se ela havia visto os outros magos, sendo informado de que tanto os três magos quanto José, Maria e o menino Jesus não estavam mais em Belém. Neste momento chegaram os soldados do rei Herodes para degolar todas as crianças da cidade e bateram à porta da casa para ver se havia crianças, enquanto a jovem mãe tentava esconder seu filho. Artabano impede a entrada dos soldados na casa, atende o capitão à porta dizendo que está sozinho e lhe oferece o rubi para deixa-lo em paz, lamentando depois por ter mentido e por dar aos homens o presente que era para o filho de Deus. De Belém Artabano segue para muitas outras cidades por vários anos à procura de Jesus Cristo, até que em uma humilde casa em Alexandria é informado por um velho rabi de que o Rei que ele tanto procura não será encontrado entre ricos e poderosos, mas entre pobres e humildes que sofrem e são oprimidos. Passando por lugares onde predominava a fome, a miséria e a escravidão, ele ajudava os necessitados por onde passava, alimentando os que tinham fome, cuidando dos enfermos e confortando os prisioneiros. Após trinta e três anos peregrinando à procura de Jesus Cristo, já velho, cansado e doente, Artabano vai à Jerusalém e vê uma agitação na cidade, quando vem saber que dois ladrões seriam crucificados e, com eles, um homem chamado Jesus de Nazaré, que fizera muitos milagres entre o povo judeu. Artabano então pensou consigo: “Os caminhos de Deus são mais estranhos do que o pensamento dos homens. Agora é o tempo de oferecer a minha pérola para livrar da morte o meu Rei”. Ao seguir a multidão para encontrar Jesus viu uma jovem persa sendo arrastada por soldados para ser vendida como escrava por dívidas de seu pai, um mercador que havia morrido. A jovem então o reconheceu como sendo de sua própria terra e lhe implorou ajuda. O mago tirou a pérola de seu bolso, colocou-a na mão da moça e disse: “Este é o teu pagamento, o último dos tesouros que guardei para o Rei”. Nisso o céu escureceu e as casas começaram a cair, as pessoas fugiam enquanto Artabano e a moça se protegiam debaixo de um telhado: “O que tenho a temer e para que viver se já não há mais esperança de encontrar o Rei? A procura terminou e eu falhei”, pensou ele. No entanto, Artabano estava em paz consigo, pois tinha plena certeza de que vivera da melhor forma que poderia ter vivido e que, se pudesse viver de novo, não teria feito de outra maneira. Outro tremor de terra e uma telha fere sua cabeça. O mago cai no chão, repousa sua 122 cabeça ensanguentada nos ombros da jovem e diz em sua própria língua: “Não meu senhor! Quando te vi com fome eu te dei de comer? Ou com sede eu te dei de beber? Ou quando te vi enfermo ou na prisão eu fui te ver? Por trinta e três anos eu te procurei, mas nunca vi tua face e nem te servi, meu Rei”. Uma voz suave então desce dos céus e diz: “Em verdade vos digo que, quando o fizeste a um destes meus irmãos, a mim o fizeste”. Então uma alegria radiante iluminou a face calma do mago e um longo e aliviado suspiro saiu dos seus lábios. No fim de sua viagem o mago compreendeu que ele havia encontrado Cristo durante toda sua vida32. * * * Além das variações sobre a representação simbólica dos bastiões, existem duas outras interessantes variações que envolvem as diferentes narrativas sobre a viagem dos reis magos, cuja temática é o “deixar alguém para trás”. Uma delas é a que acabamos de apresentar, sobre a existência de um quarto mago que teria sido deixado para trás quando a comitiva de Gaspar, Baltazar e Belchior partiu pelo deserto rumo a Belém. A outra se refere aos próprios três reis magos e narra uma frustrada tentativa dos dois reis brancos de enganarem o rei negro durante a viagem para Belém, de modo a serem coroados em seu lugar. Esta segunda variação me foi relatada pelo folião Luís de Brito, da Companhia Nossa Senhora de Fátima, mas também foi colhida por Oswaldo Elias Xidieh em São Paulo na década de 1960. A malandragem tem desde o começo do mundo, porque o Gaspar e o Baltazar queriam dar um nó no Belchior pra eles serem os mestres, né? Por ele ser preto os outros dois desfizeram do Belchior, mas não adiantou. E parece que foi tudo por milagre, porque ele chegou primeiro e foi coroado. Do fato que Belchior levou incenso, Gaspar levou mirra e Baltazar levou ouro. E quem levou ouro não foi aceito, porque a família de Jesus era pobre e não podia nascer na fortuna. Então os pais do menino Jesus falaram: “Nós nascemos na pobreza e na pobreza nos devemos ficar”. No presépio a gente ainda fala: Levantou o rei chateado // Reclamando mal e insatisfeito // Se eu soubesse ouro eu não tinha trazido // Por ele não ser aceito. Porque o incenso e a mirra foi o que perfumou o menino Jesus, mas o ouro era fortuna, era riqueza. E o menino nasceu na pobreza, então ele não podia aceitar. [...] E não existe esse negócio de quatro reis. Foram só os três. E rei mesmo é só um. Só o Belchior. O Belchior que foi enganado. Inclusive, o Belchior é preto. O Gaspar e o Baltazar são brancos. Eles foram por um caminho e o Belchior foi por outro, pelo caminho certo. Os outros dois erraram o caminho e voltaram onde estava o Belchior e seguiram o caminho. Quando chegaram lá no alto da montanha São José estava 32 Algumas evidências indicam que a vida do apóstolo Lucas pode ter sido a principal inspiração para a criação do personagem Artabano. Assim como ele, Lucas era um médico muito sábio e de coração muito generoso, que ajudava primeiramente os pobres e necessitados ao invés dos ricos e poderosos, além de ter sido o único dos apóstolos que não conheceu Jesus Cristo pessoalmente. Quando criança presenciou junto a Keptah, um de seus instrutores e amigo, a estrela que anunciava a chegada do Messias, e adulto viu o céu escurecer e sentiu a terra tremer no momento da crucificação de Jesus, tal como é descrito na história de Artabano (CALDWELL, 2004). 123 com a coroa pra coroar o Belchior. Aí no que ele coroou eles ficaram sendo os reis magos também. Na linha fala: “Os reis magos do Oriente: o rei Belchior, e Gaspar e Baltazar em companhia”. Então os dois são só companheiros. É igual três amigos, mas o mestre é um só. Inclusive, na linha do presépio vai só um rei. Gaspar e Baltazar são companheiros. E aí por serem três companheiros teve a oração das três pessoas da santíssima trindade, porque senão não tinha também. Porque ninguém anda sozinho. Olha aí o Zé, ele anda comigo. Eu falo: “Vamos ali em cima, você vai de companhia comigo?”. Então os dois foram companheiros de Belchior e também ficaram sendo reis. Porque ninguém anda sozinho. LUÍS DE BRITO, 2018 No tempo em que Jesus nasceu, viviam no mundo três magos, que eram reis e tinham seus reinos dos lados da Arábia. Eles amavam a Deus e eram respeitados pelo povo. Esses magos eram: Melquior, o branco, Gaspar, o caboclo e Baltazar, o negro. Um dia eles estavam trabalhando e, como perceberam no céu certos sinais que só eles entendiam, desconfiaram que o Menino Deus ia nascer. Depois, então, como aparecesse no céu uma grande estrela de rabo comprido, eles se convenceram e saíram pelo mundo à procura do Menino Deus. Os três saíram juntos e assim viajaram muitos dias, até que ouviram dizer que o menino daria uma coroa a quem chegasse primeiro. Então, quando chegaram numa encruzilhada, os dois reis brancos resolveram fazer uma traição ao rei mago preto. Apearam de seus cavalos fingindo muita canseira e disseram: “Baltazar, nós não agüentamos mais esta viagem, por isso achamos bom que você continue sozinho. Tome este braço da encruzilhada, que por ali o caminho é mais curto”. Era mentira: aquele era o caminho mais longo. Baltazar foi e chegou primeiro do que os outros. Quando os outros dois chegaram, já encontraram o rei preto muito feliz com Nosso Senhor no colo e a coroa de presente na cabeça. Quase que morreram de raiva, mas não falaram nada. Três dias depois, resolveram regressar e pelo caminho, como não podiam tomar a coroa de Baltazar, começaram a caçoar com ele. Tanto caçoaram, tanto zombaram, que Baltazar se desesperou e jogou a coroa no primeiro rio por onde passaram. Deus que tudo viu, ficou magoado com os brancos e disse: – “Eu corôo Baltazar por dentro, que dos três, ele que é preto, será sempre o mago mais forte.” (São Paulo) XIDIEH, 1993: 37-44 Assim como o método de análise estrutural nos trouxe interessantes contribuições para analisar o mito de origem das companhias de reis e para as variações existentes em torno da representação simbólica dos bastiões, ele também pode lançar alguma luz para interpretarmos estes dois mitos: a narrativa sobre a existência de um quarto mago que teria sido deixado para trás e a frustrada tentativa dos dois reis brancos de enganarem o rei negro durante a viagem. A primeira constatação que nos salta aos olhos nestas duas narrativas são as inversões de valores morais, éticos e de conduta que elas trazem uma em relação à outra, pois, enquanto no caso do rei negro a temática de “deixar alguém para trás” é revestida pela traição dos dois reis brancos motivada claramente pela cobiça, no caso do quarto rei o tema de “ficar para trás” dá lugar ao seu oposto, sendo revestido de princípios de lealdade (principalmente para com os princípios e valores cristãos), motivada pela solidariedade para com o próximo e, principalmente, pelo desapego dos bens materiais. Enquanto o mago Artabano se desfazia de sua safira, do rubi e 124 de sua pérola (ou de outras pedras preciosas, dependendo da versão) para ajudar os pobres, enfermos e necessitados, os dois reis brancos desejavam roubar a coroa do rei negro. Variação I (três reis magos)  Traição ao rei negro;  Cobiça pela posse da coroa;  Apego aos bens materiais. Variação II (quatro reis magos)  Lealdade aos valores morais cristãos;  Solidariedade para com o próximo;  Desapego aos bens materiais. Se considerarmos estes mitos que trazem como temática a ideia de “um mago deixado para trás” e interpretá-los segundo a conduta humana subjacente em cada um deles, veremos que, dentro de uma lógica estrutural, eles são exatamente opostos um ao outro e, portanto, complementares no sentido de estarem em acordo com uma estrutura mitológica. Uma dentre as várias questões que podem surgir a partir desta interpretação é a seguinte: Sendo o quarto mago quem traz as características que representam os valores cristãos de amor, solidariedade e compaixão para com o próximo, por que ele não é representado na bandeira e não é inserido como personagem de culto e adoração pelos devotos? A partir de uma análise estruturalista, o mago Artabano pode ser interpretado como uma duplicação, uma repetição ou uma extensão do mito “original”, tendo por função principal tornar manifesta a estrutura subjacente do mito e sendo ele próprio um dos elementos responsáveis pela resolução desta aparente contradição, já que uma vez ordenada uma série completa de variantes e permutações, poderíamos aplicar ao mito algum parâmetro de universalidade dentro das leis estruturalistas. Para avançarmos um pouco mais nesta questão é preciso compreender que os três reis magos, embora sejam compostos por três entidades diferentes (Belchior, Gaspar e Baltazar), representam uma única unidade devocional, de modo que, em sua relação com o quarto mago, os três reis acabam por formar uma dualidade que, após uma série completa de permutações, pode então retornar à condição de unidade, ou seja, a um princípio comum de estruturação. Assim, a dualidade representada pelos três reis e pelo quarto mago pode estar relacionada com suas estruturas mais fundamentais, ou seja, com uma série de variantes combinatórias que, dentro da estrutura mítica, desempenha uma mesma função em contextos diferentes. Alguns mitos parecem dedicar-se inteiramente a esgotar todas as modalidades possíveis da passagem da dualidade para a unidade. Quando comparamos todas as variantes do mito de emergência zuñi, podemos extrair uma série ordenável de funções mediadoras, cada qual resultando daquela que a precede por oposição e correlação. LÉVI-STRAUSS, 2008: 244 125 Se nos voltarmos para as Mitológicas fica evidente que a sequência dos mitos não segue um eixo linear e “evolutivo”, mas sim em forma de espiral, onde os diferentes mitos retornam aos antigos resultados, motivo pelo qual Lévi-Strauss (2004: 23-24) classifica sua obra como destituída de começo e fim: “Cada progresso traz uma nova esperança, atrelada à solução de uma nova dificuldade. O dossiê nunca está concluído. [...] Os temas se desdobram ao infinito”. É esta progressão em rosáceas que permite que mitos que já foram examinados subam à superfície e projetem detalhes deixados de lado ou inexplicados, tais como peças de um quebra-cabeça que se coloca à parte até que a obra, quase acabada, delineie em vazio os contornos das peças que faltam, revelando assim onde elas devem ser colocadas. Um estudo mais aprofundado certamente pemitirá a elaboração de quadros, tabelas, equações, funções e colunas de modo a melhor esclarecer as variações dos mitos apresentados, de forma que o que foi exposto aqui não foi propriamente uma aplicação stricto sensu do estruturalisto, mas antes uma modesta tentativa de demonstrar como o método de análise estruturalista talvez possa ser capaz de responder algumas questões que porventura surjam a quem se aventurar na dimensão mítica do universo religioso de culto e adoração aos três reis magos. 126 4. A jornada: “representação” da viagem dos três reis? Um dos foliões que eu sempre encontrava pelas ruas da cidade fora do período do trabalho religioso era o embaixador da Companhia Estrela Guia. Antônio Juscelino de Souza foi um dos últimos embaixadores que conheci durante o primeiro ano de trabalho de campo e sempre se mostrou muito disposto a ajudar com informações sobre as companhias da cidade, principalmente sobre aquelas que já não existem mais: “No que você precisar, pode contar com a gente”, era como costumava terminar nossas conversas. Em uma conversa logo no primeiro dia em que nos conhecemos, ele mencionou o caráter supostamente simbólico e representacional dos giros e sua relação com o nascimento do menino Jesus, com a montagem do presépio pelos devotos e a importância da presença das companhias nas casas por onde passam, possibilitando aos devotos adorarem e pagarem suas promessas aos Santos Reis. Isso que nós fazemos é uma representação do menino Jesus. Que chega nessa época de vinte e cinco de dezembro Jesus está nascendo da Virgem Maria que o Anjo anunciou. Então isso é uma parte que a gente tá fazendo do nascimento de Jesus. Isso é a coisa mais bonita que tem. Todo mundo arma um presépio. Aí chega o bastião, vai lá e saúda o presépio, saúda o dono da casa. Ele tá fazendo uma homenagem. Então essa é a nossa obrigação. Ir nas casas porque as pessoas gostam de fazer uma homenagem e agradecer os três reis santos. ANTÔNIO JUSCELINO DE SOUZA, 2015 Como veremos a seguir, outros foliões também se valem do termo representação para se referir às jornadas das companhias, o que não significa necessariamente que a utilização do termo esteja vinculada aos conceitos que ele possui dentro das ciências humanas e sociais. A questão a se discutir aqui talvez seja o entendimento que se tem acerca desta importante noção dentro da Antropologia, tendo em vista o surgimento de teorias sobre rituais que desconsidera a existência de um fato tido como original e seu suposto simbolismo, teorias que interpretam o ritual e sua “representação” como uma experiência atualizada de algo que tem um sentido renovado a cada evento. O próprio relato do folião Antônio nos parece sugerir isto, pois ainda que afirme que o que fazem se trata de “uma representação do menino Jesus”, logo depois diz que “chega nessa época de vinte e cinco de dezembro Jesus está nascendo da Virgem Maria que o Anjo anunciou. Então isso é uma parte que a gente tá fazendo do [próprio] nascimento de Jesus”. Foi com este mesmo sentido que o folião Osmair Cantarelli apresentou o trabalho religioso de culto e louvor aos Santos Reis, como uma “representação da viagem que os reis fizeram quando foram anunciados que o menino Jesus ia nascer”, afirmando logo em seguida 127 que os foliões vão “procurando o menino Jesus nascido. Como eles foram lá a gente vai, de casa em casa. Onde nós achamos o menino Jesus nós fazemos aquele tipo de adoração”. Esse trabalho nosso que nós fazemos com a companhia de reis é que nós representamos a viagem que os reis fizeram quando foram anunciados que o menino Jesus ia nascer. Eles foram avisados, fizeram aquela viagem até Belém e hoje nós representamos com a bandeira dos Santos Reis e com a companhia. Aí nós vamos procurando o menino Jesus nascido. Como eles foram lá a gente vai, de casa em casa. Onde nós achamos o menino Jesus nós fazemos aquele tipo de adoração, aquela fala que nós fazemos no presépio. E depois nós cantamos saudando o dono da casa. Se a gente ganha algum presente nós levamos e agradecemos. E aonde a gente não ganha a gente tira do que nós ganhamos. O que nós ganhamos naquela casa a gente larga nessa, quando a gente vê que a pessoa vem da humildade. Às vezes a pessoa não tem como dar um presente, aí nós damos uma ajuda do nosso que nós saímos ganhando também. Isso é muito importante33. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2015 Como podemos ver, os relatos podem ser interpretados não como uma “representação” da viagem à procura do menino Jesus feita pelos magos, mas sim como a própria busca em si, diferindo da viagem dos magos apenas naquilo que encontram: um menino Jesus de barro em um presépio ao invés do menino Jesus de carne e osso em uma estrebaria. Um último relato narra com mais detalhes aquilo que está sendo “representado” e foi fornecido pelo folião Luiz dos Anjos Anacleto, que se queixa daqueles que não compreendem o significado do trabalho religioso de culto aos três reis magos e muitas vezes destratam e ofendem os foliões. O relato é interessante porque deixa transparecer a questão dos signos compartilhados entre os devotos e de seus significados, que apesar de lhes serem comuns não são compartilhados pelos demais moradores da cidade. O sentido e o significado que a “representação” tem para cada sujeito envolvido na jornada são proporcionais ao valor e à importância que a ela são atribuídos. Quando Jesus nasceu, em Belém, foram os três primeiros pastores do mundo a ver ele pela primeira vez. O menino Deus, né? Porque eles acreditaram que, quando Jesus nascesse, eles receberiam um sinal. Qual foi o sinal? A estrela, né? A estrela apareceu a eles. Eles tavam dormindo e se levantaram, profetizaram, olharam para o céu e viram a estrela, né? E eles visitaram o menino Deus, porque eles foram seguindo a estrela até a estrela parar na gruta de Belém. Só que isso eles não sabem o significado, né? Que cada um dos três reis saiu da sua cidade levando os seus presentes. Eles esquecem que naquela gruta de Belém, onde nasceu Jesus, chegaram ali os três reis magos do Oriente e cada um levou os seus presentes, né? Ouro, incenso e mirra. Que até hoje eles são usados. Só que eles não entendem isso. Que 33 Alberto Ikeda observou que o procedimento usual é de receber donativos em nome dos Santos Reis, embora existam casos em que ocorre o inverso. Yara Moreira (apud IKEDA, 2011: 112) documenta que “a Folia chega e pede; se a pessoa tem condições dá aquilo que pode. E os foliões vão levando muitas coisas na sua jornada, para o dia do festejo: frango, arroz, tudo isso sai. Mas já aconteceu, e acontece sempre, da gente chegar numa casa que tem escassez daquilo. Aí palhaço já dá a busca, olha e vem avisar. O Capitão autoriza, a Folia canta pr’aquele povo e deixa algo prá eles. Oferece o que tem, comida ou dinheiro. Eles recebem, não dão”. 128 quando Jesus nasceu você pode ver que tá lá os presentes. Tá ali a caixinha de ouro, tá ali a caixinha de incenso, tá a mirra, tá tudo. Só que eles não entendem isso34. LUIZ DOS ANJOS ANACLETO “CÔCO”, 2015 Outros autores também já abordaram esta questão da simbolização e da representação de objetos rituais, seja dentro do catolicismo popular ou fora dele (TURNER, 2005; BITTER, 2008; PEREIRA, 2011). O antropólogo Daniel BITTER (2008: 129), por exemplo, descreve a circulação de objetos rituais nas folias de reis e chama atenção para o fato de que a bandeira é objeto de grande valor simbólico e ritual para foliões e devotos: “ao lado de coroas, altares, móveis, registros, esculturas, relíquias e outros objetos, muitas vezes ocupam lugar central em diversas manifestações religiosas, constituindo meios privilegiados para a intermediação com a ordem supramundana”. Para o autor (2008: 144), o uso da bandeira em inúmeros contextos históricos do catolicismo popular evidencia um modo bem particular dos sujeitos perceberem o objeto dentro de uma ideia de representação, sublinhando os canais de comunicação entre vários planos cosmológicos e reconhecendo que, “para além da mera relação representacional que a bandeira (e também a própria folia) mantém com uma realidade externa imaginária, no contexto de celebração ritual, a bandeira é percebida não propriamente como uma imagem, cópia de uma bandeira supostamente original e mítica, mas como sendo a própria”. É dentro desta abordagem que Luzimar Paulo PEREIRA (2009: 116-117) entende que a bandeira é mais do que uma representação da unidade do grupo religioso ou um simples substituto do santo enquanto entidade ausente (no sentido moderno do termo representação): “Mais do que simples objeto, ela é o santo encarnado, é a materialização de suas virtudes no meio dos seus fiéis. A bandeira se caracteriza pelo poder mágico e religioso que parece carregar consigo”. Se articularmos as interpretações dos autores com os relatos dos foliões veremos que esta noção de “representação”, onde o objeto ou o acontecimento assume o lugar daquilo que está sendo representado, pode ser atribuída tanto aos objetos rituais do catolicismo popular (imagens, bandeiras, coroas, altares, esculturas, registros, relíquias, relicários etc.) quanto à própria jornada das companhias. Muito mais do que uma simples analogia ou uma emulação da viagem realizada pelos magos em um passado longínquo, a jornada das companhias parece assumir o próprio lugar do trajeto feito pelos magos, com o mesmo objetivo e com o destino já traçado pelos profetas das escrituras sagradas: o encontro com o filho de Deus. 34 BRANDÃO (1981: 24) cita um mestre de Poços de Caldas que “se espanta que muita gente não compreenda o que fazem, e que alguns jovens, na passagem do terno, debochem de sua gente e principalmente de sua farda, na verdade grotesca dentro de uma Folia, e muito mais pra congado do que pra Santos Reis”. 129 4.1. As noções de representação nas ciências sociais Ainda que a noção de representação tenha sentidos diversos dentro da Antropologia (e de certa forma também entre os foliões), ela nos permite uma reflexão acerca do simbolismo enquanto elemento ritualístico que “assume o lugar da coisa representada”. Em uma parcela considerável da literatura antropológica, principalmente aquela ligada ao estudo das religiões, existem discursos que apontam para uma noção de simbolização ou representação que, por muito tempo, foi entendida como indefectível para se compreender a realidade social e os fenômenos religiosos (DURKHEIM, 1996; LÉVI-STRAUSS, 1976; GEERTZ, 2008). As companhias deste trabalho possuem igualmente uma infinidade de objetos e práticas rituais que, de alguma forma, “simbolizam” ou “representam” uma dimensão imaterial, cósmica, sobrenatural e/ou espiritual. No caso do trabalho religioso de culto aos Santos Reis, a própria jornada das companhias assume um caráter supostamente simbólico e representacional, ainda que, como procuramos demonstrar, os relatos de alguns foliões nos sugerem que ela deva ser interpretada como a própria jornada dos magos em busca do menino Jesus. Embora seja frequentemente utilizada nos estudos sociais, esta noção de simbolização e representação sofreu algumas tranformações no percurso da disciplina. Um primeiro ponto a se considerar diz respeito à necessidade de se ponderar o ato das companhias saírem pelas ruas tendo como motivação unicamente um elemento de ordem mítica e representacional, já que a jornada pode ser resultado de fenômenos multicausais de ordem social, econômica e até mesmo política, os quais podem intervir nas práticas sociais dos foliões e influenciar a lógica motivacional dos giros, dissolvendo uma noção de representação de uma viagem mítica como exclusivamente responsável pela jornada. Em outras palavras, sair pelas ruas pode ser um ato por si só, onde os itinerários percorridos são rituais com toda uma carga subjetiva de se propor a fazer algo acontecer, uma necessidade dissociada de motivações míticas. Um segundo ponto, ainda dentro deste paradigma de representação, seria considerar como estas noções foram sendo construídas dentro da disciplina do ponto de vista histórico, especificamente dentro dos estudos de fenômenos religiosos, onde a apropriação de conceitos muitas vezes dicotômicos e dualistas (dimensão simbólica versus dimensão social; mundo imaterial versus mundo material; caráter religioso versus caráter secular; domínio do sagrado versus domínio do profano; representação versus realidade etc.) serviram, mais do que para a análise e interpretação da realidade social, para modelar e cristalizar dogmas e identidades da Antropologia e de outras disciplinas surgidas dentro das ciências sociais. 130 Uma das críticas sobre este paradigma de representação foi realizada pela antropóloga Paula MONTERO (2014), que reconstrói um dialogo entre Claude LÉVI‑SRAUSS e Émile DURKHEIM em torno do totemismo e das formas de pensamento nas culturas consideradas primitivas, revelando como a escola francesa inaugurou uma antropologia do simbólico com viés cognitivista, não hermenêutico e ainda hoje muito presente e influente nos estudos das religiões. Uma abordagem onde o conceito de representação assume centralidade, mas, no entanto, carrega limitações para a compreensão dos fenômenos religiosos contemporâneos. A partir da obra clássica de Émile DURKHEIM (1996), onde o tema da religião se associou a uma noção de representação ainda muito arraigada nos estudos antropológicos, a autora (2014: 128) afirma que o sociólogo francês interpretou o totemismo como uma forma elementar de religião que, devido à sua simplicidade, permitiria acessar o fundamento de toda configuração religiosa como um modo de conhecimento sistemático do mundo a partir de sua divisão nas categorias sagrado e profano, formas primeiras e universais de representação.35 Assim, sacralizar as coisas seria fazer delas o símbolo de algo que está fora delas, onde o símbolo passa então a assumir exatamente o lugar da coisa que está sendo representada, sendo neste sentido que DURKHEIM (1996: 119) entende que “o churinga, o nurtunja e o waninga devem unicamente sua natureza religiosa ao fato de portarem o emblema totêmico. É esse emblema que é sagrado, conservando esse caráter em qualquer objeto em que é representado”. Já na perspectiva de Levi‑Strauss, que imputa à etnologia um valor heurístico no campo das ciências sociais bastante próximo e crítico àquele expressado pela etnologia de Durkheim, sua proximidade com a noção de representação durkheimiana se daria, segundo a autora (2014: 129), pela distinção feita pela perspectiva levistraussiana entre as estruturas de ordem “vividas” (que equivalem à realidade objetiva) e as estruturas de ordem “concebidas” (as representações que os homens fazem de sua realidade), de modo que o parentesco, a organização social, as relações de troca pertenceriam à primeira ordem e a religião e o mito à segunda. Em nosso campo de estudo, por exemplo, estas estruturas poderiam ser facilmente 35 Durkheim dá especial atenção aos processos de simbolização, colocando a noção de “representações coletivas” no centro de sua teoria do conhecimento. O primeiro sistema de representações que o homem teria construído para si seria o religioso. Desse modo, segundo Durkheim, as “crenças religiosas” nada têm a ver com a ideia de deus ou de vida eterna, mas dizem respeito a uma representação do mundo que tem universalmente um caráter dual e oposto. O totemismo, essa religião sem deus, seria um caso exemplar para demonstrar a tese de que o traço distintivo do pensamento religioso é o de representar o mundo “em dois domínios, um que compreende tudo o que é sagrado, e outro que compreende tudo que é profano”. Neste sentido, as crenças, os mitos, lendas etc. seriam “sistemas de representações” que expressam a natureza das coisas sagradas, as suas virtudes, os poderes que lhes são atribuídos e as suas relações com as coisas profanas” (MONTERO, 2014: 128). 131 associadas ao sistema contratual do trabalho religioso já apontado por BRANDÃO (1981) e às variadas representações que os bastiões fazem do mito, respectivamente. Quando Lévi‑Strauss inverte estes pressupostos durkheimianos e propõe uma teoria simbólica da sociedade ao invés de uma teoria sociológica do simbolismo, acaba por tratar as culturas estudadas como ponto de partida para um modelo a ser construído pelo observador ao invés de um conjunto de dados a serem descritos, colocando a questão do simbolismo animal e concluindo que os fenômenos totêmicos traduzem uma cesura entre a ordem da natureza e da cultura. “Ao privilegiar o tema das classificações primitivas, Levi-Strauss privilegia a vertente durkheimiana de uma teoria do conhecimento em detrimento de uma teoria da significação na qual o símbolo está no lugar da coisa representada” (MONTERO, 2014: 135). Há de se notar aqui, portanto, uma diferença significativa no uso da ideia de representação pelos dois autores. Em ambos os casos o conceito de representação remete a uma concepção em dois níveis: o das imagens mentais tomadas como símbolos e signos e o daquilo a que elas remetem. Enquanto para Durkheim as imagens remetem às forcas sociais de coesão (a ordem dos fatos), para Levi‑Strauss elas remetem a regras de tradução (a ordem da significação). No entanto, se aproximarmos os dois autores a partir de suas teorias do conhecimento, perceberemos certa similitude quanto ao entendimento das representações como uma porta de acesso aos modos universais do funcionamento da mente humana. Se para Durkheim as categorias são os instrumentos universais do pensamento humano, para Levi‑Strauss o pensamento mítico opera com os procedimentos do espírito humano, também eles universais; sua análise nos permite descrever com lente de aumento a natureza desses mecanismos universais de pensamento e como eles operam de modo geral. MONTERO, 2014: 135 A autora (2014: 138-40) também traz para análise o que ela diz ser uma “antropologia religiosa” praticada por Clifford GEERTZ, onde o antropólogo conceitua o termo disposições como sendo o conjunto de habilidades, hábitos ou inclinações para se executar certo tipo de ato e experimentar certos sentimentos em determinadas situações. Neste sentido, os sistemas de símbolos religiosos induziriam uma disposição religiosa nos sujeitos por remeterem a uma ideia geral de ordem do mundo e do cosmos, conclusão que o levou a interpretar a percepção de mundo dos nativos a partir dos vários modos como utilizam seus símbolos. Como crítica a esta interpretação, a autora apresenta uma elaboração teórica proposta pelo antropólogo Talal ASAD, segundo o qual Geertz retoma a ideia de símbolo como representação de forma muito próxima à abordagem durkheimiana e, embora pretenda ir contra a abordagem “racionalista” de Levi‑Strauss ao introduzir a questão do conhecimento do ponto de vista do nativo, mantém 132 certo privilégio da abordagem cognitivista dos símbolos religiosos, presente tanto no conceito de representação de Durkheim quanto de Levi‑Strauss36. São os processos de autoridade – os discursos teológicos, litúrgicos e, eu acrescentaria, os discursos antropológicos – que criam a relação entre práticas, enunciados, disposições e as ideias cósmicas de ordem. Os discursos religiosos criam espaços religiosos por meio de manuais, proibições, autorizando ou não relíquias e santuários, compilando vidas de santo, reconhecendo milagres etc. A igreja medieval, por exemplo, tinha a necessidade de distinguir o sagrado e o profano não para controlar as convicções, mas para dominar as práticas. Segundo Asad, a ideia de convicção é tributária da emergência da modernidade e da ciência. O problema da teoria da religião de Geertz, ao supor que todo símbolo religioso é um veículo de acesso a significações universais, tais como o desejo de ordem (como propuseram também, cada um a sua maneira, Durkheim e Levi-Strauss), é que a teoria antropológica não se distingue do discurso de qualquer atividade evangelizadora. MONTERO, 2014, 141 O que podemos observar nestas teorias antropológicas é uma constante e insistente associação entre o conceito de representação e o domínio do sagrado, como se estas duas coisas não pudessem ser dissociadas uma da outra. Neste contexto, algo que consideramos importante apontar aqui é a possibilidade de dissociar as noções de representação da esfera religiosa, pois, da mesma forma que a representação pode estar presente em um fenômeno que não seja sagrado ou religioso, o sagrado pode estar presente em rituais e fenômenos que não se valem da representação. Ou seja, não é porque não representa que o sagrado não pode estar presente. Em muitos trabalhos (sobretudo os estruturalistas) e mesmo nesta pesquisa, pode-se muito bem “desacreditar” da representação mesmo acreditando naquilo que os foliões acreditam, pois, a partir do momento em que o trabalho ritual se transforma em um “aqui e agora” e assume o sentido (e não uma representação) de algo importante, ele pode deixar de ter uma acepção simplesmente narrativa e externa ao acontecimento em si. É por este motivo que os foliões dizem que “isso é uma parte que a gente tá fazendo do [próprio] nascimento de Jesus” e que vão literalmente “procurando o menino Jesus nascido. [...] Onde nós achamos o menino Jesus nós fazemos aquele tipo de adoração”. 36 “Já o pensamento antropológico, tomando de empréstimo dos classicistas a ideia de tabu, termo por meio do qual esses pensadores interpretavam as religiões antigas, e dos teólogos a ideia de religião verdadeira, instaurou a oposição sagrado/profano como a essência universal do religioso. Assim, enquanto a crítica iluminista exigia o desmascaramento das ideias religiosas, o pensamento antropológico transformava os fetiches e tabus em essência do sagrado. [...] Talal Asad propõe uma noção não cognitivista de símbolo: para ele, o símbolo não deve ser tomado como objeto/evento que serve de veículo para um significado na mente, mas como um conjunto de relações entre objetos. O que o antropólogo deve se perguntar seria, portanto, como essas relações se formaram e como tal formação se relaciona com a variedade das práticas. Para esse autor, a formação dos símbolos como resultado das relações entre objetos depende dos contextos sociais” (MONTERO, 2014: 139-140). 133 Por fim, talvez seja interessante mencionar um conceito que Glaura Lucas encontrou entre congadeiros das irmandades de Nossa Senhora do Rosário de Contagem (Arturos) e do Jatobá, em Minas Gerais, que em sua pesquisa está descrito como “pôr sentido”. Pôr sentido é colocar a atenção necessária para a construção do aprendizado e para que o conhecimento se fixe na memória da mente, do corpo e do espírito. Compondo esse conhecimento estão conteúdos míticos, históricos, éticos e estéticos, os gestos normativos correntes, além de conteúdos secretos, aos quais os congadeiros se referem como os fundamentos do Reinado. É, pois, colocar-se disponível para receber uma gama de significados e para agir em conformidade com eles. Para um capitão, pôr sentido é então buscar o recurso apropriado e lançar mão dele para cumprir as funções rituais de acordo com os preceitos, seus motivos e significados, como, por exemplo, para puxar uma rainha e fazer cumprir a lenda [...]. O sentido se traduz também como fé, e pôr sentido é agir (de acordo com o conhecimento) focando a mente e o coração nos símbolos dos valores congadeiros, garantindo assim “o poder do canto” – e demais atos rituais – mesmo que ‘seja um verso muito simples, muito singelo’. Na lenda está a síntese dos valores, e seus protagonistas constituem os alvos da fé, para quem se volta a atenção [...]. LUCAS, 2005: 133 O fato dos devotos “porem sentido” em seus objetos e jornadas sagradas não significa que estejam necessariamente fazendo uma representação, segundo entende algumas correntes antropológicas. Assim, o “pôr sentido” (no caso dos congadeiros) ou o “representar” (no caso dos foliões) não seria o mesmo que simbolizar ou representar de fato, mas estaria relacionado com uma intensidade devocional que talvez apenas o ritual seja capaz de produzir. 134 – PARTE II – AS RELAÇÕES SOCIAIS Todo o meu modo de pensar e pensar o material substantivo deste trabalho flui ao longo dele; nenhuma teoria, de início e, muito pouco, posteriormente, se colocou como conduto ou como forma à aproximação minha do objeto: a coisa veio a mim. OSWALDO ELIAS XIDIEH, 1967 135 5. Os preparativos para o trabalho religioso Quando o final do ano se aproxima os moradores de Alfenas e das cidades vizinhas, já habituados com a rotina anual da região, podem perceber claramente uma movimentação bem diferente em alguns pontos da cidade. O murmúrio que se espalha pelas comunidades rurais e pelos bairros mais periféricos e marginais do município anuncia que estão sendo iniciados os preparativos para o trabalho religioso de culto e louvor aos três reis magos, o que geralmente acontece entre os meses de outubro e novembro, que é quando os foliões são recrutados pelos responsáveis e organizadores das companhias para reuniões, ensaios e em alguns casos para divulgar e definir as casas onde serão realizadas as chegadas para os almoços e jantares37. Os encontros que antecedem a saída das companhias de reis podem facilmente passar despercebidos para a grande maioria dos moradores da região, o que quase sempre acontece, já que é preciso fazer parte de algum ponto desta rede de relações sociais para estar informado do que está acontecendo longe dos olhares dos moradores mais desavisados da cidade. Em outras palavras, é preciso ser um folião, devoto, promesseiro, trabalhar em alguma instância da gestão municipal relacionada à cultura ou então ser um motorista da prefeitura para estar totalmente por dentro dos preparativos que antecedem o trabalho religioso. Enquanto que os foliões entram em contato com devotos e promesseiros para negociar os almoços, jantares e as promessas a serem cumpridas pelas companhias durante os doze dias de trabalho, os gestores culturais da administração pública, que no caso de Alfenas geralmente é o superintendente de cultura, são insistentemente procurados pelos responsáveis e organizadores das companhias para fornecerem o transporte que levará os foliões para os diversos bairros da cidade durante os doze dias de jornada dos grupos. Estes, por sua vez, recrutam os motoristas que trabalham no transporte escolar (e que estariam de férias nesta época do ano) para servir às companhias da cidade como motoristas, de modo que, uma vez inserido neste meio social, é preciso estar realmente bastante distraído para não perceber os preparativos que antecedem a saída dos grupos de culto e adoração aos Santos Reis no município e na região. 37 Como acontece em muitas regiões do país, as companhias de reis do sul de Minas Gerais geralmente saem para a jornada na manhã do dia 25 de dezembro, senão com todas, ao menos com a grande maioria das casas onde farão as chegadas dos almoços e jantares definidas. Carlos Rodrigues Brandão (1981: 25-26) observou que “antes de a Companhia de Santos Reis sair pela porta da casa onde foliões se reúnem na noite de 31 de dezembro, todos sabem por onde vão passar, em que casas vão parar e em quais vão comer e dormir. Assim também os moradores. Em cada morada camponesa sabe-se o dia da passagem da bandeira e ela é esperada no seu dia, sobretudo nos pousos, onde desde a véspera se começa a preparar a comida. Em Caldas, como em outras cidades de Minas e de Goiás, quando eu me separava da Companhia e precisava reencontrá-la no dia seguinte, perguntava a um morador de beira de estrada. Ele sabia informar a direção e se arriscava a indicar a casa onde ela estaria cantando por aquelas horas”. 136 Dia nove o prefeito vai dar almoço pra todas as companhias de reis lá na Casa da Cultura. Que nós fazemos reunião durante o período que nós vamos ensaiar. Porque quando nós vamos sair com a companhia de reis tem reunião. Ele liga pra todas as companhias pra fazer participação, pra saber quem vai sair e pra onde vai, pra ele fazer o relatório, arrumar motorista e dar as conduções pra viajar. Ele oferece ajuda nessa parte e dá o almoço, se vocês quiserem ir lá conferir, dia nove ele tá lá junto. Ele segura a bandeira e almoça com o pessoal lá. Fora de política e de religião ele ajuda. Não ajuda mais porque toda prefeitura tá escassa, né? Já não tem onde andar. Os uniformes, Deus e Nossa Senhora ajudam. Uma loja ajuda um poquinho, outro dá cem reais, cinquenta, e nós compramos. Cada um dá uma ajuda de um lado e nós vamos ajeitando conforme o que necessita. E Deus e Nossa Senhora vão ajudando, dando saúde pra gente. E a gente também banca, põe do bolso da gente também. Porque isso aí, igual eu falei pra você, os lugares que nós vamos sair é lugar muito humilde. Mas a humildade trouxe isso pra gente, sabe? É em benefício de uma coisa que não existe de acabar. A pessoa não pode pensar só no dinheiro pra responder felicidade. Você tem que ter o dinheiro teu também na religião. Faz parte. O dinheiro da gente não é só pra gente fantasiar e ficar bonito não. Tem que participar com Deus e com a religião. Faz parte. Então a gente contribui também, cada um de nós contribuimos um poquinho. Então nós fazemos isso aí. Ou ele ajuda, ou eu ajudo ou o outro ajuda. Tem muita gente que fala: “Eu quero ganhar meu dinheiro e não preciso da bandeira dos Santos Reis”. Não, precisa sim. Tem que ter ajuda de Deus, dos três reis santos e de Nossa Senhora Aparecida. Porque faz parte da comunidade. Tudo que você faz um poquinho de cada lado chega lá na frente. JOSÉ ROBERTO, 2016 Foi em meados de outubro de 2015 que marquei um encontro no mercadão municipal de Alfenas com o folião Miguel Geraldo, responsável pela Companhia Santa Bárbara, para tentar comparecer a uma dessas reuniões que antecedem o trabalho religioso, onde geralmente também acontecem os ensaios dos foliões. Infelizmente não consegui, pois as reuniões e os ensaios de sua companhia estavam sendo realizados aos sábados e na época não era possível que eu estivesse presente neste dia da semana. Ao contrário dos foliões que eu já conhecia na cidade, por serem também cantadores em duplas caipiras (a exemplo do João Benedette e do Miguel Rodrigues, que formam a dupla João do Carro & Boiadeiro; ou dos irmãos Francisco Noel e Vitor Noel, que formam com outros músicos o renomado Trio Coração de Ouro; entre outros), aquele foi meu primeiro contato com o folião e organizador Miguel Geraldo. O folião responsável por organizar a companhia de reis não precisa necessariamente ser seu capitão, como quase nunca é. Este folião geralmente fica responsável por recrutar os demais foliões quando se aproxima o período de saída dos grupos, marcar ensaios e reuniões, agendar os almoços e jantares, agendar as casas dos devotos que têm promessas para serem cumpridas, entre outras atividades “burocráticas”. Seu Miguel é um desses foliões, que muito embora se arrisque como cantador, na maioria das vezes sequer participa da cantoria, mas faz questão de andar todos os dias da jornada com o uniforme da companhia e de seguir os foliões cantadores e bastiões por onde forem, ainda que não seja cantador e nem instrumentista. 137 À frente, Seu Miguel, organizador e responsável pela Companhia Santa Bárbara, seguido do embaixador Odair Jovino “Bicudo”, que carrega seu violão. Após a longa conversa que tivemos naquele primeiro encontro no mercadão municipal da cidade, onde pudemos nos aproximar e criar certa intimidade, ele me disse que precisava “ir embora porque a mulher está esperando”. Ofereci então uma carona até sua casa, situada na comunidade rural dos Bárbaras, o que ele aceitou com muita alegria e gratidão, tendo sido nesta ocasião que fiz minha primeira visita à comunidade e onde pude conhecer muitos outros foliões. Quando estive em sua casa, Seu Miguel me mostrou algumas fotografias antigas da Companhia Santa Bárbara, ocasião em que também tive a infelicidade de recusar uma xícara de café oferecida por sua esposa enquanto via as fotos, o que gerou certo desconforto para o folião e constrangimento para mim, fazendo com que eu me arrependesse de ter recusado o café oferecido: “Acho que você não gostou muito de vir na minha casa, nem quis tomar um café. Você não toma café em casa de gente pobre, né?”, brincou comigo, mas com um tom de seriedade, no que tive que me esclarecer e convencê-lo de que não se tratava daquilo. Depois daquele primeiro encontro ele ainda me colocou em contato com muitos outros foliões do município, e a ele sou muito grato pela ajuda e pela amizade tão verdadeira que me ofereceu. Outro folião com quem tive um primeiro contato neste mesmo mês, coincidentemente também um folião não cantador que fica apenas responsável pela parte mais “burocrática” do trabalho, foi o Rosário Rosa, mais conhecido como Loro e organizador da Companhia Estrela 138 do Oriente. Diferente do Seu Miguel, Loro sequer se arrisca durante a cantoria quando sua companhia entra para cantar em alguma casa: “Sou muito devoto, mas cantar não é comigo. Gosto mais é de correr atrás das coisas e de ouvir os foliões cantando mesmo”. Ao contrário de outros foliões, que além de serem organizadores e responsáveis por suas companhias são também instrumentistas ou cantadores, pode-se dizer que Loro não é um folião “strictu sensu” em sua companhia, pois em nenhum momento tive oportunidade de vê-lo cantar, tocar algum instrumento ou se fantasiar de bastião. No entanto, foi ele quem carregou durante o trabalho religioso de 2015-2016, com grande paixão e devoção, a bandeira dos Santos Reis nas mãos e os foliões em sua Kombi branca e em seu Fiat Uno antigo, ambos sujos de terra devido às travessias pelas estradas de chão batido, pois mora em um sítio na zona rural do município. Na jornada de 2016-2017 Loro conseguiu um micro-ônibus com a prefeitura para transportar seus foliões, mas em 2017-2018 ele não saiu com sua companhia de reis por falta de embaixador. Foi pelo telefone e ainda sem conhecê-lo pessoalmente que marcamos nosso primeiro encontro em outubro de 2015 no Conservatório Municipal para conversarmos, para negociar minha presença junto de sua companhia durante os doze dias do trabalho religioso e para pedir sua autorização para realizar os registros audiovisuais. À esquerda um ajudante da companhia segura um frango que havia acabado de ser ofertado por uma devota durante a jornada de 2016-2017; à direita, o folião Rosário Rosa, o Loro. 139 Sua companhia tem como tradição sempre fazer a saída no primeiro dia da jornada de seu sítio, localizado na zona rural de Alfenas. Esta tradição do grupo me foi contada neste nosso primeiro encontro, seguida de uma negociação de como faríamos para nos encontrar logo na manhã do dia 25 de dezembro de 2015. As reuniões da Companhia Estrela do Oriente também estavam sendo realizadas aos sábados, de modo que também não pude comparecer aos ensaios dos foliões. Fomos então conversando por telefone enquanto se aproximava o dia de saída da companhia e decidimos nos encontrar na manhã de Natal, antes mesmo de irmos ao seu sítio. O encontro com esta companhia na manhã do dia 25 de dezembro foi o primeiro com o intuito de colher dados para este trabalho, agora de forma mais sistemática e já dentro do período que o calendário religioso estabelece para a saída das companhias de reis. 5.1. A saída da Companhia Estrela do Oriente No dia 25 de dezembro de 2015 acordei às cinco horas da manhã para o primeiro dia de trabalho de campo “sistemático” junto às companhias de reis de Alfenas. Estava em Porto Ferreira, cidade do interior de São Paulo distante aproximadamente 230 quilômetros da cidade sul-mineira. Eu havia passado a noite anterior com meus familiares e foi de lá que segui para Alfenas naquela manhã de Natal. Como programado, eu sabia que não passaria o almoço de Natal com minha família, e não foram poucos os questionamentos e esclarecimentos que tive que dar aos familiares a respeito da necessidade de estar em Alfenas naquela manhã de Natal, ao lado de inúmeros pedidos para que eu deixasse a viagem para a manhã do dia seguinte. Eu já havia combinado com o Loro de encontrá-lo em Alfenas às oito horas da manhã, de modo que não havia como adiar minha viagem, e enquanto todos em casa ainda dormiam “naquela manhã venturosa em que Jesus nasceu”, parti para o compromisso que havia assumido com as companhias de reis, com este trabalho e, principalmente, comigo mesmo. Durante a viagem, exatamente a meio caminho entre Porto Ferreira e Alfenas, passei pela cidade de Arceburgo, primeira de Minas Gerais na divisa nordeste com o estado de São Paulo. Minha passagem por aquela cidade foi para pegar o cinegrafista Cleiton Custódio Ferreira, que me acompanhou durante os dois primeiros anos de trabalho de campo fazendo os registros audiovisuais das companhias de reis enquanto eu fazia os registros do áudio e conversava com os foliões. Foi com ele que vivi os momentos mais dramáticos e emocionantes desta experiência. Como dito, eu havia combinado de encontrar Loro antes que ele pegasse os foliões em sua Kombi para fazer a saída de seu sítio, situado na comunidade rural da Laje e próximo às 140 comunidades rurais Esteves e Matão. Era o local de onde a companhia iria sair. Eram quase nove horas da manhã quando chegamos ao local onde ele me disse que passaria para pegar os últimos foliões antes de seguirem para o Sítio da Lage. Na chegada já avistamos de longe um pequeno grupo uniformizado em posse de alguns instrumentos e assim que descemos do carro me apresentei como amigo do Loro, dizendo que passaríamos alguns dias junto do grupo para fazer um trabalho sobre as companhias da cidade e pedindo autorização para fazer os registros audiovisuais de todos durante os dias que estaríamos com eles. Naquele dia conheci o capitão Alexsandro Vitório, que naquele ano embaixou para a companhia do Loro, pois até então eu conhecia apenas os responsáveis pelas companhias e somente um ou outro folião. Sandro, como é mais conhecido, é um dos filhos do capitão Divino Vitório dos Santos, da Companhia dos Santos Reis, e foi ele quem me ofereceu um café passado na hora enquanto esperávamos Loro, que em poucos minutos chegou já com alguns foliões dentro de sua Kombi: “Desculpa a demora gente, mas eu aproveitei que era caminho e já vim catando uns foliões”. A Companhia Estrela do Oriente em frente à Casa de Cultura de Alfenas no dia 09 de janeiro de 2016. Após os foliões terem se acomodado na Kombi seguimos para outro ponto da cidade para buscar o restante dos instrumentos e outros foliões, antes de seguirmos para o Sítio da Lage. Uma das casas onde paramos e onde registrei o primeiro relato de um milagre realizado pelos Santos Reis foi do folião Tião Uca, que estava em dúvida se acompanharia a companhia 141 naquele ano ou não, pois não tinha conseguido ninguém para ficar com sua mãe e teria que deixá-la sozinha. Seu relato foi um dos poucos colhidos onde a promessa feita ao santo não está somente relacionada a enfermidades, mas também ao recebimento da aposentadoria sua e de sua mãe, embora seja carregado do mesmo teor devocional e religioso. Eu tenho uma fé comigo tão grande, recebi uma benção tão grande dos três reis santos. Quando eu fui pra Belo Horizonte no hospital de lá, quando eu entrei dentro do hospital, assim, tinha a imagem dos três reis. Eu saio em companhia de reis desde idade dos doze anos, tô com setenta e cinco anos. Companhia de reis, rezando pras almas, companhia do divino. Falou que tá nessa parte é comigo. E tudo quanto eu peço pros três reis santos eu sou valido. Aí achei um médico aqui que me alumiou pra Belo Horizonte e fiquei noventa e seis dias internado lá, mas tamém voltei são, graças a Deus. É uma benção que eu recebi então fiz essa intenção que eu tenho. Enquanto vida eu tiver vou acompanhar os três reis santos e tratar da companhia aqui dentro de casa. A aposentadoria da mãe também tava uma coisa enroscada, sabe? Quando foi pra ela aposentar o pessoal aqui dentro de casa encolheu tudo. “Isso não vai dar certo, não vai dar certo”. Conversei com a Luzia. A Luzia deu uma força pra ela, que ela é juíza, sabe? A dona dessa casa aqui é juíza. Conversei com ela e ela falou: “Cadê o Célio, seu patrão?” Cheguei, peguei o documento da mãe, cheguei lá e o Célio assinou. Pus na mão dela, chegou lá faltou mais outra assinatura do Célio. O Célio voltou e assinou no mesmo mês. Ele morreu, sabe? Deus tem a alma dele num bom lugar. O meu documento e o da minha mãe é assinado pelo Célio. E ela também fez o maior esforço, a Luzia. E os de casa mesmo encolheram. “Ah, não vai dar certo, não vai dar certo”. Falei: “Não vai dar certo por que, uai? Pois o meu deu certo o da mãe também dá”. E deu certo e não deu trabalho de nada. E estamos aqui, graças aos três reis santos. TIÃO UCA, 2015 Enquanto eu conversava com o folião e com sua mãe, os demais foliões afinavam seus instrumentos e experimentavam os uniformes novos38. Os bastiões faziam os últimos ajustes em suas máscaras e um dos instrumentistas picava o fumo de corda para acender um palheiro. Assim que tudo ficou pronto partimos em direção ao Sítio da Lage, ansiosos para registrar a primeira saída da companhia naquele ano. O sítio, de propriedade do Loro, ficava em direção à cidade vizinha de Machado, mas ainda no município de Alfenas, de modo que tivemos que andar um trecho na rodovia e outro, um pouco maior, em uma estrada de terra. Às margens da 38 Téo AZEVEDO (2007: 36-37) observou que, no Norte de Minas e na região do Vale do Jequitinhonha, existem muitas companhias que não saem uniformizadas, embora muitos foliões utilizem uma toalha ou fita branca como adereço. Segundo ele, “a toalha branca representa a pomba da paz, Deus, divino espírito santo, a pureza, a fé cristã e é o símbolo sagrado do Menino Jesus. Na falta da toalha, todo folião deve, ao menos usar uma fita branca na viola ou no pescoço”. Alberto IKEDA (2011: 80) observou que, nas folias de reis de Goiânia, as toalhas que os foliões levam sobre o pescoço são chamadas de divisa de folião (distingue aqueles que fazem parte do grupo): “a toalha é implemento presente e importante nos grupos de folia, sendo usada por todos os seus membros. São sempre brancas e, na maioria das vezes, trazem bordadas inscrições alusivas à devoção. Usam- na dobrada em quatro (no comprimento). Por ser também um símbolo sagrado, não pode ser utilizada na forma convencional. Alguns depoimentos sobre o significado dessas toalhas mostram bem sua importância”. No município de Alfenas e na região como um todo, embora todas as companhias saiam sempre uniformizadas, os foliões da Companhia Nossa Senhora de Fátima são os únicos que utilizam essas fitas brancas no pescoço. 142 estrada encontrávamos sítios com cultivo de alimentos variados, como o plantio da laranja e em especial a cultura do café, que sempre predominou na região, mas que nos últimos anos vêm cedendo espaço para a cana-de-açúcar, devido principalmente à atividade sucroalcooleira iniciada na década de 1970 pela Usina Monte Alegre, instalada na cidade de Monte Belo, a cerca de 60 quilômetros de Alfenas. A chegada dos foliões e dos bastiões no alpendre da casa do Sítio da Laje. A entrada para o sítio se deu por uma das dezenas de porteiras que existem na beira da estrada e, assim que passamos a porteira, pegamos um declive acentuado que dava de frente a um celeiro com alguns cavalos que pareciam nos dar boas vindas ao sítio de seu proprietário, tendo ao fundo uma boa porção de terra recém-arada e, um pouco mais distante, uma grande plantação de laranja rodeada por uma mata e pelas montanhas do sul de Minas Gerais. Assim que descemos do carro começamos a preparar o equipamento para as gravações, enquanto os foliões faziam os últimos ajustes nos instrumentos e tomavam um gole de café ou de vinho antes de iniciar a cantoria. Fui fazer uma visita ao alpendre da casa quando avistei o presépio montado antes da porta que dava acesso à sala, com as figuras dos reis magos, dos pastores, dos animais da estrebaria e, ao centro, o menino Jesus de braços abertos. Foi uma visão quase que psicodélica, pois ao lado dos principais personagens do presépio figuravam brinquedos em miniatura, como alguns carrinhos e um helicóptero, dinossauros e um rinoceronte, um mordedor infantil em forma de ursinho, soldadinhos de chumbo, alguns bonecos lego, uma 143 tartaruga, um motoqueiro sem sua moto, um pinóquio de madeira, entre outros objetos que, aparentemente sem sentido para aquela situação, tiveram seu significado revelado depois de uma observação mais detalhada. Todos estes objetos e seres inanimados, incluve os carrinhos em miniatura, estavam voltados para a manjedoura, onde se encontrava o menino Jesus com os braços abertos, como que prestando homenagem, louvor e adoração ao filho de Deus. Logo abaixo da manjedoura havia uma nota de dois reais e algumas moedas doadas por um devoto, que já havia deixado seu ajutório para a festa que seria realizada ali mesmo na casa do Loro, no primeiro sábado depois do dia dos Santos Reis, que naquele ano caiu no dia 09 de janeiro. O celeiro do Sítio da Lage. Enquanto as galinhas ciscavam com seus pintinhos pelo celeiro, por baixo da carroça e mesmo pelo alpendre da casa, o embaixador Sandro conferia a afinação dos instrumentos dos foliões, tendo como base o acorde de dó maior que era dado pelo sanfoneiro do grupo, embora alguns foliões preferissem ficar responsáveis pela afinação do próprio instrumento. Enquanto filmávamos algumas garças andando por entre as patas das vacas no pasto do sítio fui avisado pelo Loro que eles iriam dar início ao trabalho. Seguimos para o alpendre da casa, que era de onde a companhia iria fazer sua saída, e ficamos a postos aguardando o começo da cantoria. Antes, no entanto, o capitão Sandro fez algumas observações gerais, pois, como queria que todos saíssem na gravação, pediu para que os foliões cantassem bem afinados. O sanfoneiro Batista, que estava um pouco afastado do grupo, foi o primeiro a ser advertido pelo capitão: 144 “Batista, sai daí senão você não aparece na filmagem. É pra aparecer cada um. Se o senhor ficar ali a câmera não pega. Fica aqui que pega todo mundo”. Logo depois foi a vez de um dos bastiões: “Ô bastião, põe a máscara que já vai começar”. E, por fim, a divisão das vozes dos foliões que ainda não tinham sido definidas: “O respondedor vai ser o Alpino e o Tião vai cantar pra trás com o Cassinho. O Polica canta de ajudante. Vamos cantar bem afinados hein pessoal”. Logo depois das instruções do capitão Sandro vieram as palavras do Loro, seguidas da reza de um Pai Nosso e duas Aves Maria: Gente, vamos fazer a oração do dia pro nosso Deus e pros três reis santos, pra que eles sejam nossa luz. Nós vamos sair com a companhia neste momento e temos que pedir pra Deus e pros três reis santos pra iluminar o nosso caminho e o caminho de todos que não estão aqui presentes também. Então nós vamos fazer uma oração do dia pra conversar com Deus. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. Amém! [Pai Nosso] [Ave Maria – 2 vezes] Nós vamos pedir a Deus que nós vamos fazer essa jornada, vencer mais essa jornada de doze dias. Se Deus quiser. Que os três reis santos seja a guia de todo mundo, principalmente dos moços que estão aqui, estão filmando. Que os três reis iluminem o caminho deles em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Então vamos começar. Já pode fazer a anunciação bastião. ROSÁRIO ROSA “LORO”, 2015 Anunciação (declamado) 1. Oh, que encontro tão bonito Os meus três reis encontrou Encontrei Nossa Senhora E também Nosso Senhor 2. Deus que salve a casa santa Onde que Deus fez sua morada Aqui mora o Calix Bento E a hóstia consagrada 3. Em vinte e cinco de dezembro Da meia-noite para o dia Os anjos anunciaram O nascimento do Messias 4. Dom Brechó, Dom Baltazar Dom Gaspar e companhia Adorando ao Rei do mundo O menino que nascia 5. Tendo os três reis ajoelhados E ofertado ao Deus menino Entregaram os seus presentes Mirra, incenso e ouro fino 6. Os três reis aqui despede De Belém para o Oriente Nossa Senhora deixa a bênção E agradece os seus presentes 145 Hino de reis (cantado) Gritos dos bastiões 1. Ai na hora que Deus começa ai ah Ai! Ai na hora que Deus começa ah ai ah Ai os três reis vai começar ai ah Ai os três reis vai começar ah ai ah Ai! Ai na hora que Deus começa ai ah Ai! Tá bunito! Ai na hora que Deus começa ai ah Ai os três reis vai começar ah ai Ai os três reis vai começar ah ai ah Tá bunito! 2. Raiou uma estrela no Oriente ai ah Ai ai ai! Raiou uma estrela no Oriente ai ah Ai ela vai na nossa frente ai ah Ai ai ai! Ai ela vai na nossa frente ah ah ai ah Raiou uma estrela do Oriente ai ah Raiou uma estrela do Oriente ai ah Ai ai ai meu Deus! Ai ela vai na nossa frente ah ai Tá bunito! Ai ela vai na nossa frente ah ai ah Ai ai ai! 3. Ai vai sair a companhia ai ah Ai vai sair a companhia ai ah Ai no caminho de Belém ai ah Ai no caminho de Belém ah ai ah Ai vai sair a companhia ai ah Ai vai sair a companhia ai ah Ai no caminho de Belém ah ai Ai no caminho de Belém ah ai ah Ai ai ai! 4. Ai vou cantar para a patroa ai ah Ai vou cantar para a patroa ai ah Ai ai ai! Ai e também pra sua família ai ah Tá bunito! Ai e também pra tua família ai ah Ai vou cantar pra sua senhora ai ah Ai vou cantar pra sua senhora ai ah Tá bunito! Ai e também pra sua família ah ai Ai e também pra sua família ah ai ah 5. Ai já ficou abençoada ai ah Ai já ficou abençoada ai ah Ai a família e a morada ai ah Ai ai ai! Ai a família e a morada ai ah Ai já ficou abençoada ai ah Ai ai ai! Tá bunito! Ai já ficou abençoada ai ah Ai ai ai! Ai a família e a morada ah ai Ai a família e a morada ah ai ah Ai ai ai! 6. Ai vou pedir a permissão ai ah Ai ai ai meu Deus! Ai vou pedir a permissão ai ah Ai pra entrar na sua morada ai ah Ai ai ai! Ai pra entrar na sua morada ai ah Ai vou pedir a permissão ai ah Ai ai ai! Ai vou pedir a permissão ai ah Ai pra entrar na sua morada ah ai Ai ai ai! Ai pra entrar na sua morada ah ai ah 146 7. Ai a família em outras mãos ai ah Ai a família em outras mãos ai ah Ai ai ai! Ai vou cantar para o senhor ai ah Ai vou cantar para o senhor ai ah Ai a família em outras mãos ai ah Ai a família em outras mãos ai ah Ai vou cantar para o senhor ah ai Ai vou cantar para o senhor ah ai ah 8. Ai a família religiosa ai ah Ai a família religiosa ai ah Ai os três reis já perdoou ai ai Ai os três reis já perdoou ah ah ai ah Ai a família religiosa ai ah Ai a família religiosa ai ah Ai os três reis já abençoou ah ai Ai os três reis já abençoou ai ah 9. Ai vou cantar para a senhora ai ah Ai vou cantar para a senhora ai ai Ai segurando o rei da glória ai ah Ai segurando o rei da glória ai ah Ai vou cantar para a senhora ai ah Ai vou cantar para a senhora ai ah Ai segurando o rei da glória ai ah Ai segurando o rei da glória ai ah 10. Ai os três reis vai lhe guardar ai ah Ai os três reis vai lhe guardar ai ah Ai o milagre vai ficar ai ah Ai o milagre vai ficar ai ah Ai os três reis vão lhe guardar ai ah Ai os três reis vão lhe guardar ai ah Ai o milagre vai ficar ah ai Ai o milagre vai ficar ah ai ah Finalizado o hino de saída da companhia a esposa do Loro ofereceu um café da manhã aos foliões e uma garrafa de vinho branco para aqueles que não quiseram tomar o café. Após todos terem se alimentado a companhia fez, segundo um dos foliões, uma tiradinha antes de seguirem para a cidade, onde a companhia ainda iria cantar em algumas casas antes de fazer sua primeira chegada para o almoço naquele ano: “Vamos fazer uma tiradinha aqui, né?”, perguntou um dos foliões ao capitão. “Vamos, mas só uma tiradinha”, ele respondeu. E foi nessa tiradinha que vi um dos procedimentos rituais que iria rever durante os três anos de trabalho de campo em todas as companhias da cidade: a passagem debaixo da bandeira. Loro a empunhou na saída do alpendre enquanto os bastiões pulavam, dançavam e gritavam ao som dos instrumentos. Em seguida, o capitão Sandro improvisou os seguintes versos. 147 1. Ai os três reis vão viajar ai ah Ai os três reis vão viajar ai ah Ai no caminho de Belém ai ah Ai no caminho de Belém ai ah Ai os três reis vão viajar ai ah Ai os três reis vão viajar ai ah Ai no caminho de Belém ai ah Ai no caminho de Belém ai ah 2. Ai vai sair a companhia ai ah Ai vai sair a companhia ai ah Ai São José e Virgem Maria ai ah Ai São José e Virgem Maria ai ah Ai vai sair a companhia ai ah Ai vai sair a companhia ai ah Ai São José e Virgem Maria ai ah Ai São José e Virgem Maria ai ah Assim que acabou a cantoria o capitão Sandro anunciou que “agora nós vamos passar debaixo da bandeira com Deus e Nossa Senhora”. Enquanto Loro ainda segurava a bandeira dos três reis santos, os foliões começaram um a um a beijá-la e esfregá-la em suas testas, para depois então passarem por debaixo dela fazendo o sinal da cruz. Aqueles foliões que usavam algum chapéu ou boné na cabeça os retiravam, como forma de respeito ao santo. A passagem era solene e o semblante de cada folião deixava transparecer toda sua devoção e fé. Nos dois anos seguintes de trabalho de campo não conseguimos acompanhar a saída de nenhuma outra companhia no primeiro dia de jornada, pois em 2016 chegamos ao final da tarde do dia 25 e em 2017 chegamos para o almoço no dia 26, sendo impossível afirmar que as práticas rituais realizadas pelos foliões naquele dia são realizadas de forma idêntica pelas demais companhias da cidade ou da região durante o primeiro dia de jornada. Esta afirmação se torna ainda mais questionável se considerarmos que cada uma das diferentes companhias possui particularidades para a saída inicial que, inclusive, podem variar bastante de um ano a outro. No entanto, longe de ter como objetivo a construção de um “modelo ideal” weberiano de companhia, se mostra pelo menos curiosa a presença de procedimentos muito similares em outras companhias da cidade e mesmo em outras regiões do país. Quando acompanhamos a saída da Companhia dos Noel na tarde daquele mesmo dia, pudemos notar grande semelhança em praticamente todos os procedimentos rituais de saída daqueles dois grupos. Alberto Ikeda também descreveu etapas rituais muito parecidas entre as folias de reis de Goiânia e Luzimar Paulo Pereira descreveu procedimentos bastante similares entre os foliões de reis de Urucuia, 148 onde a retirada se refere ao ritual de saída dos grupos daquela região e tem uma função social muito parecida dentro da jornada com a realizada pelas companhias deste trabalho39. 5.1.1. A descoberta da estrutura musical dos hinos de reis A captação de som direto da Companhia Estrela do Oriente naquele primeiro dia foi sem dúvida a pior de todas as realizadas durante os três anos de trabalho de campo. Como eu ainda desconhecia a forma musical tão bem estruturada que existe por trás dos hinos de reis, não tinha a menor consciência de que as vozes se sobrepunham em camadas e que os foliões cantadores entravam cada qual com sua voz um após o outro. Logo após o primeiro impacto decorrente de minha tomada de consciência do que de fato acontece em um hino de reis, do ponto de vista da estrutura musical, comecei a pensar se a forma como eu concebia a cantoria dos foliões não seria a mesma com que muitos moradores da cidade não devotos olham para as companhias, e não apenas em relação à música, mas também em relação aos foliões e ao trabalho religioso como um todo, como sendo algo destituído de ordem, forma, estrutura e organização do material sonoro e humano. Somente depois de seguir os foliões por algumas casas é que me dei conta da estrutura musical dos hinos, ou seja, de que um dos foliões entra cantando sozinho e, quando para de cantar, é seguido por outro que repete sua melodia junto com mais dois foliões e outros dois que finalizam o ciclo do hino. Como naquele primeiro dia de trabalho de campo eu sequer sabia as funções que cada cantador possuía na companhia, a não ser do capitão, a estrutura musical dos hinos ainda não estava clara em minha mente e me via totalmente destituído de uma preciosa ferramenta para observação e análise. Esta situação “à deriva” me fez passar muito tempo com o microfone pairado em posições totalmente inúteis, geralmente a uma distância exagerada sobre a cabeça dos foliões, quando o melhor a fazer seria direcioná-lo para cada voz nova que se sobrepunha à voz anterior. Levei certo tempo para perceber que o embaixador sempre parava de cantar na repetição da estrofe para dar lugar ao respondedor, ao ajudante e ao contrato, e que quando 39 Alberto IKEDA (2011: 77-78) observou que “na cerimônia de saída (1° dia) realizam-se as rezas (terço) diante de um altar com as imagens dos santos de devoção do dono da casa e/ou com a figura do Menino Deus, onde se coloca acima a bandeira da Folia. Acontecem também discursos; agradecimentos à participação dos foliões; orientações do líder dos foliões, sobre os procedimentos esperados durante as jornadas; avisos gerais; entrega das toalhas (divisa de fulião), que os foliões levam por sobre o pescoço; e a cantoria de saída. É comum após a retirada da bandeira do altar os foliões beijaram-na e passaram debaixo desta”. Luzimar Paulo PEREIRA (2011: 135) também observou que “a retirada é um dos eventos mais aguardados dos festejos de folia em Urucuia. Realizada na moradia dos imperadores para demarcar ao início oficial dos acontecimentos, ela pode ser descrita como um conjunto de pequenos cerimoniais religiosos que ocorrem durante parte de um único dia”. 149 isso acontece o ideal seria redirecionar o microfone; e que depois destes entram outras duas vozes, exigindo então um novo redirecionamento do microfone; ou então que, independente do local para para onde eu estivesse direcionando o microfone, alguns instrumentos sempre iriam se sobressair e “clipar” a gravação, como é o caso do acordeom, do pandeiro e da caixa. A cada casa que os foliões entravam para cantar eu fazia uma nova descoberta sobre a estrutura dos hinos de reis, sendo os primeiros dias de trabalho de campo os mais reveladores do ponto de vista musical, pois foi quando aprendi a lidar com alguns impasses técnicos. O material audiovisual que acompanha esta tese, por exemplo, além de servir como suporte para as transcrições, também evidencia os progressos na captação de áudio ao longo da pesquisa, algo que pode ser percebido pela qualidade dos vários registros, pois são todos da primeira semana de campo e possuem uma sutil diferença entre os primeiros e últimos dias da jornada. 5.2. O primeiro almoço com os foliões Almoçar e jantar com os foliões não era algo que estava no planejamento do trabalho de campo quando iniciei a jornada com as companhias. No entanto, já no primeiro dia de giro fomos impedidos pelos foliões da Companhia Estrela do Oriente de deixar a casa onde seria oferecido almoço aos foliões e onde a companhia havia acabado de fazer sua chegada. Assim que terminamos de fazer os registros audiovisuais e algumas entrevistas, informei ao Loro e aos demais foliões que iríamos almoçar em algum lugar e que depois entraríamos em contato para acompanhá-los novamente: “Ah, se vocês forem não precisam nem voltar. Vocês podem tirar essas mochilas das costas que vocês vão almoçar é com a gente. Ou vocês almoçam com a gente ou não precisam mais voltar”. E foi diante daquela oferta irrecusável que acabamos almoçando com os foliões, um almoço que, como todos os outros, foi marcado pela fartura de comida e bebida que havia sido preparada com muita dedicação pelas cozinheiras. Depois de “perder a vergonha” no almoço daquele primeiro dia, nos outros onze dias de jornada que se seguiram e durante os três anos de trabalho de campo não recusamos mais nenhuma refeição, tanto no almoço quanto no jantar. Foi a partir desta primeira refeição que tomei conhecimento de um dos vários preconceitos sofridos pelos foliões, que diz respeito justamente à alimentação e especificamente a um prato considerado, tanto pelos devotos quanto pelos foliões, como sendo típico do trabalho religioso de culto aos Santos Reis: o macarrão vermelho. 150 5.2.1. O preconceito com o macarrão vermelho Quase sempre que eu comentava com alguém que estava acompanhando a jornada das companhias e que este “acompanhar” implicava também em almoçar, jantar e às vezes até em tomar café junto com os foliões, o comentário que eu ouvia era quase sempre o mesmo: “Ah, então você já está enjoado de comer macarrão vermelho”. Para muitos moradores da cidade o macarrão vermelho é um dos principais símbolos do trabalho religioso, tal como o presépio e a própria bandeira dos três reis santos. Há muitos anos o macarrão vermelho é considerado o prato principal oferecido pelos devotos aos foliões, sendo ele o único prato que o dono da casa não pode deixar faltar em sua mesa. Alguns foliões me contaram que antigamente o macarrão vermelho era a única refeição oferecida aos foliões em algumas casas, devido ao baixo custo para seu preparo aliado à necessidade financeira de alguns devotos, tendo se tornado hoje um prato típico do trabalho religioso, ainda que na grande maioria das casas por onde passei ele divida a mesa com uma diversidade muito grande de comida. No entanto, além de ser considerado um prato típico pelos devotos e foliões, o termo macarrão vermelho também é utilizado por muitos outros moradores de forma depreciativa e preconceituosa para se referir aos foliões que almoçam e jantam na casa dos devotos, muitas vezes associado à indigência e à vagabundagem. O folião Luís dos Anjos Anacleto “Coco”, da Companhia Estrela Guia, me deu o seguinte relato sobre o macarrão vermelho: Esse preconceito de antigamente tem muito hoje ainda. Ainda tem preconceito até hoje. Às vezes nós saímos numa labuta dessas aí e a gente é até condenado pra falar a verdade. Eles xingam. Muitos xingam a gente de turma de fila-bóia, cambada de vagabundo. Se for pra falar tem que falar o que é certo. Chamam a gente de pingaiada. E não é bem assim não. Muitos batem a porta na cara da gente, chamam a gente de macarrão vermelho. A gente aguenta isso tudo aí40. LUÍS DOS ANJOS ANACLETO “COCO”, 2015 O folião Macionil Viana, também da Companhia Estrela Guia, esclareceu que existe uma visão distorcida da população em relação aos foliões, já que muitos julgam que os foliões 40 Noutras regiões do país outros termos possuem o mesmo teor pejorativo que o termo macarrão vermelho possui entre foliões sul-mineiros. Téo AZEVEDO (2007: 91) menciona, por exemplo, os fura-sacos no norte de Minas e na região do Vale do Jequitinhonha, termo utilizado para designar aqueles que, não sendo foliões, acompanham o grupo para comer e beber do que é oferecido pelos devotos e também para dançar os lundus nos intervalos do ritual. Um dos cantos do violeiro leva o título Fura-saco e traz os seguintes versos: “Fura-saco é uma classe // Que tem muito no sertão // E deve ser bem tratado // Pois todo mundo é irmão // Tem quem chame de Jacinto // Até mesmo de serrote // Também derruba reboque // Uma raça muito forte // Acompanha a folia // Com respeito e tradição // Nas horas de comilança // Come mais do que leão // Não tem comida no mundo // Que aguente a turma, rapaz // Na Folia até engorda // Uns vinte quilos a mais” (2007: 129-130). 151 saem pelas ruas unicamente para filar-bóia na casa dos outros, desconsiderando a relação que existe entre os devotos que têm suas promessas para pagar ao santo e as companhias, únicas confraternizações dotadas de autoridade para fazer o pagamento das promessas. Às vezes nós estamos jantando em uma casa e chega outro pessoal: “Ô, vocês tem almoço ou janta pra amanhã? Eu queria dar uma janta pra vocês”. Então é o povo que convida a gente pra jantar. Porque às vezes as pessoas acham que nós saímos pra pedir um rango, um almoço, uma janta. Mas são as pessoas que conhecem as companhias de reis que oferecem a janta e o almoço. MACIONIL VIANA, 2015 O folião Divino Vitório dos Santos, da Companhia dos Santos Reis, também comentou sobre os boatos que são criados por pessoas que desconhecem os propósitos sagrados do giro e do trabalho religioso, onde as refeições oferecidas pelos devotos são para cumprimento de promessas por milagres e graças alcançadas, pela fé que a comunidade de fiéis possui nos três reis santos e para que não deixem que a tradição acabe. Segundo o embaixador, nada do que a companhia faz tem a ver com o suposto interesse em comer macarrão vermelho. Tem que pedir com orgulho. Com fé. Que nem nós estamos aqui ó. Nós estamos saindo e nós nem sabemos se... Às vezes a gente anda doze dias e às vezes não tira nem pra fazer uma festa. Mas a nossa fé tá é nos Santos Reis. Se não tirou não tirou. Não é isso? Como é que nós vamos saber que nós vamos sair pra rua, se nós vamos ganhar dinheiro, ganhar comida, ganhar pouso. Às vezes não ganha nada. Então é Deus que tá abençoando a gente. Tem nego que fala: “Ah, fulano tá saindo atrás de macarrão”. Não tem nada de macarrão. Macarrão você come na tua casa. Você tá saindo atrás da tradição, senão acaba. E nós aqui estamos cumprindo uma coisa muito bonita. Antigamente tinha preconceito demais da conta. O povo chamava os folião de macarrão vermelho, fila-boia. Tinha demais. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 Esta imagem distorcida e errônea dos verdadeiros propósitos da jornada assimilada por alguns moradores, que a associam de forma pejorativa ao macarrão vermelho, geralmente são construídas por pessoas que não são devotas dos Santos Reis e desconhecem por completo os valores morais dos foliões e o conteúdo sagrado e devocional do trabalho religioso. Este tom depreciativo com o qual algumas pessoas se referem aos foliões se deve, em grande parte, a boatos de que os foliões se aproveitariam da bondade dos devotos para se alimentarem de graça em suas casas, não passando assim de “mortos de fome” e “filas-boias”. Existem de fato pessoas que, não sendo foliões e muitas vezes sem ter o que comer em suas casas, aproveitam para almoçar e jantar na casa do devoto que está oferecendo comida para a companhia. No entanto, estes casos são de conhecimento dos devotos, que na maioria dos casos preparam as 152 refeições não apenas para os foliões, mas para todos aqueles que quiserem chegar e comer, consumando o ciclo de dádivas mencionado por Brandão (1981), onde muito mais do que ser uma conduta espontânea, livre e arbitrária por parte dos devotos, estes sujeitos estariam presos a toda uma sequência de regras e obrigações, amarrados a uma corrente simbólica de trocas baseada em pedir, dar, receber e retribuir. 5.3. A primeira baixa de um folião Como já foi dito, embora as relações entre os foliões das diversas companhias sejam, na maior parte do tempo, marcadas por um tom amistoso e harmonioso, em alguns momentos elas assumem um caráter de disputas e negociações em momentos de tensão e conflitos. No contato que tive com os foliões da Companhia Estrela do Oriente naquele primeiro dia de trabalho de campo, consegui criar uma relação cordial e bastante harmoniosa com todos eles, mas em especial com um de seus cantadores, que por seu bom humor e pelo tom divertido de suas falas logo me cativou de forma especial, de modo que passei a dedicar um pouco mais de tempo e atenção à sua pessoa naquele primeiro dia de jornada. Mas meu interesse na figura daquele folião também se devia ao fato dele ser o único violeiro na companhia, algo que me chamou bastante atenção e que me motivou a passar um bom tempo conversando sobre o instrumento e sobre o repertório que ele costumava tocar em sua viola caipira. Após aquele primeiro contato com a Companhia Estrela do Oriente, ocorrido naquela manhã de Natal, passei a seguir outras companhias pela cidade, acompanhando na tarde do dia 27 de dezembro de 2015 a Companhia Sagrado Coração de Jesus até sua chegada para a janta. Após jantar com os foliões ao fim do terceiro dia de jornada naquele ano segui até meu carro, quando me encontrei pelo caminho com o violeiro da Companhia Estrela do Oriente com quem eu havia me simpatizado, sentado com alguns amigos em frente a um bar próximo ao local onde a outra companhia havia feito sua chegada. Assim que o vi fui conversar com ele e a primeira pergunta que fiz foi se ele não devia estar com os foliões de sua companhia. A resposta, para minha surpresa, revelou que o campo de atuação das companhias muitas vezes pode ser marcado por um ambiente de disputas de ego que transcende os propósitos sagrados e devocionais do trabalho religioso. Segundo a versão do violeiro, ele deixou sua companhia por conta de uma desavença com outro folião, pelo fato de eu ter demonstrado maior interesse em sua pessoa por ele ser o único violeiro da companhia. 153 Eu falei: “Não companheiro, não é assim não. Isso não tem nada a ver”. Daí ele falou: “É, mas o jornalista gostou mais do senhor do que da gente”. Eu falei: “Aí já não sei. Mas o senhor não deu aparência, ficou lá com a cara fechada. O cara tem que ser conversador se for violeiro”. Ele ficou com ciúmes porque você conversou mais comigo do que com ele por causa da viola, porque ele não tava tocando viola. Ele falou: “Só você que tem viola”. Vou chamar o Amaral aqui pra te contar a história dele. Eu comecei a tocar viola o Amaral era criança ainda, mas um dia eu dei uma viola na mão dele e hoje ele é o rei da viola, toca muito mais do que eu. Mas eles não me expulsaram da companhia, eu que quis sair porque ele veio me falar: “O jornalista ficou achando que você toca viola mais do que a gente, porque ele ficou lá no canto conversando com você”. Eu falei: “Não gente, não é assim não. Cada um toca o que sabe”. Olha o Amaral aqui do meu lado, toca muito mais que eu. Eu ensinei umas posições pra ele e hoje ele toca muito mais do que eu. É o rei da viola. Então eu falei: “Vou parar de sair com a companhia. Vou parar com isso daí”. FOLIÃO VIOLEIRO, 2015 A segunda vez que me encontrei com a Companhia Estrela do Oriente naquele ano foi no dia 28 de dezembro de 2015, um dia após ter me encontrado por acaso com o violeiro que havia provocado ciúmes em alguns foliões da companhia. O folião violeiro, portanto, já não estava mais junto da companhia. Na jornada do ano seguinte os foliões da companhia eram basicamente os mesmos do ano anterior, mas ainda sem a presença do violeiro com quem eu havia me simpatizado, pois naquele ano ele não havia saido com nenhuma das companhias da cidade. No terceiro e último ano de trabalho de campo, ou seja, na jornada de 2017-2018, a Companhia Estrela do Oriente não saiu em jornada por falta de embaixador, sendo que seus foliões se dividiram e foram ajudar outras companhias da cidade. Era um sábado, dia 06 de janeiro e dia dos Santos Reis, quando entrei em contato com o bastião Rafael Nunes, um dos organizadores da Companhia Filhos da Cambraia, para saber se eu poderia seguir sua companhia naquela última tarde de jornada antes da chegada das companhias e da entrega da bandeira. Combinamos de nos encontrar em um bar próximo à sua casa para fazer o registro da chegada do almoço. Assim que cheguei ao local combinado, avistei com muita alegria e satisfação o folião violeiro que havia provocado ciúmes nos outros foliões e que eu não via há mais de um ano. Ele estava cantando naquela companhia. Foi um reencontro emocionante que rendeu um bom tempo de conversa. Somente depois de colocar a conversa em dia com meu amigo violeiro fui cumprimentar os demais foliões da companhia, até que me encontrei com o folião que havia ficado enciumado e que havia sido o responsável pela saída do violeiro da Companhia Estrela do Oriente dois anos antes. Por um capricho do destino, eles estavam novamente cantando juntos na mesma companhia. 154 6. Um giro com os irmãos da Companhia dos Noel O primeiro folião da Companhia dos Noel com quem tive contato foi Francisco Noel, organizador e responsável pela companhia. Este contato se deu no início de 2015, portanto, antes de iniciar o trabalho de campo, quando organizei, através do Conservatório Municipal, um evento que nomeei de I Mostra de Viola Caipira e Música Tradicional de Raiz, realizada com sucesso em julho daquele mesmo ano na Universidade Federal de Alfenas. O objetivo da mostra era convidar músicos e grupos tradicionais da cidade e da região para se apresentarem no evento, sendo que, dentre os convidados, estava o Trio Coração de Ouro, grupo de música tradicional dirigido pelo Sr. Francisco Noel que atua durante todo ano fazendo apresentações de música caipira e sertaneja de raiz. O folião Vitor Noel, que também faz parte do grupo ao lado de seu irmão, me contou um pouco sobre a atividade do trio e de seu repertório. Eu canto com meu irmão e com meus companheiros. Não deixo de cantar não. Vou ficando velhinho assim, mas vou até ver no que dá. Vou levando até quando Deus quiser. Logo tenho meu cdzinho de música também. Vou fazer nem que seja sozinho. Se meus irmãos não toparem eu vou gravar sozinho, porque eu tenho meus aparelhinhos lá. Faço primeira e segunda no aparelho, no rádio. Canto aqui, gravo ali e fica até bom. Gosto do estilo do Tonico & Tinoco, do estilo do Tião Carreiro e de todas as duplas boas eu gosto de tá cantando. Tonico & Tinoco e Tião Carreiro foram a maior dupla do rádio e eu imito até bem mais ou menos. É nesse sentido. VITOR NOEL “BATISTINHA”, 2015 Foi ainda no primeiro dia de trabalho de campo em 2015, após termos acompanhado a saída da Companhia Estrela do Oriente na parte da manhã, que nos encontramos, na parte da tarde, com os foliões da Companhia dos Noel. O objetivo era fazer o registo da primeira saída da companhia naquele ano, pois, devido à idade já avançada e às condições físicas dos foliões, eles haviam decidido que fariam os giros somente no período da tarde durante aquela jornada. Nosso encontro aconteceu na casa do Sr. Vitor Noel, um dos Noel que ainda segue a tradição de reis da família. Ao passar pela porta de entrada da casa do folião me vi em um cômodo de cerca de doze metros quadrados, onde havia sete foliões cantadores afinando os instrumentos. Com nossa presença naquela pequena sala seriam então nove pessoas, mais algum bastião que havia ficado do lado de fora e que eventualmente entrava na sala para ver em que etapa se encontrava o ritual de saída da companhia. O procedimento foi muito parecido com aquele realizado pela Companhia Estrela do Oriente, embora mais enxuto, já que os foliões estavam saindo apenas no período da tarde e, portanto, já estavam atrasados para o giro. Estava assim determinada a retirada dos foliões para o trabalho religioso de culto e louvor aos Santos Reis 155 daquele ano: “Agora já pode fazer a adoração”, autorizou Sr. Francico Noel ao folião Geraldo Miranda: “Olha gente, esse é o primeiro dia que nós vamos começar a cantar com os três reis santos. Que eles ajudem todos nós e que todo mundo se entregue um ao outro pra que não haja confusão e que dê tudo certinho. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. Amém”. Meu glorioso Santos Reis, pelo grande sofrimento que vocês tiveram aqui na Terra em companhia do menino Jesus eu vos peço que esteja também junto a mim. Livrai- me meus três gloriosos Gaspar, Baltazar e Belchior. Assim como esconderam o menino Jesus do rei Herodes pelas montanhas e matas eu também quero que me guarde dos meus inimigos, livrando-me na tradição e protegendo nosso corpo do perigo para que nós não sofremos de rouquidão e nem de peito cansado. E seremos guardados sob a divindade do Espírito Santo. Amém. Meu glorioso Santos Reis, pela estrela que vocês seguiram e pelo presente que levaram ao menino Jesus eu vós peço que esteja junto a nós em todos os lugares, trabalhando, viajando, dormindo e em todas as coisas. Amém. [Pai Nosso] [Ave Maria] Meus três reis santos. Rogai por nós. São José. Rogai por nós. Nossa Senhora Aparecida. Rogai por nós. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. Amém. GERALDO MIRANDA, 2015 Franscisco Noel, responsável pela companhia, segura a bandeira em frente à casa de um devoto enquanto conversa com um dos violeiros da companhia. 156 Alguns foliões do grupo, devido à idade já bastante avançada, possuíam problema de audição que ficava bastante evidente para aqueles que estavam de fora ouvindo a cantoria do hino. O sanfoneiro do grupo naquele primeiro dia era um desses foliões, que acompanhou boa parte do hino de reis de saída tocando um tom acima ao que os foliões estavam cantando. Ou seja, enquanto as violas, os violões e as vozes estavam em dó maior, o sanfoneiro fez a maior parte do acompanhamento na sanfona em ré maior, o que lhe garantiu, carinhosamente e sem qualquer intenção de constrangimento, o apelido de “sanfoneiro psicodélico”, dado ao folião pelo cinegrafista Cleiton Custódio. Enquanto tocava sua sanfona um tom acima da cantoria os foliões lhe dirigiam olhares de reprovação, especialmente o Sr. Francisco Noel, responsável e organizador da companhia, que ao final da cantoria fez o seguinte comentário: “Você tem que tocar em dó maior mesmo. Você tá passando pra ré. Tem que tocar no dó mesmo”. Logo no início da jornada daquele ano o sanfoneiro psicodélico teve que deixar o grupo, pois, devido à idade, estava sem condições físicas de continuar a jornada, sendo substituído por outro folião. Para se cantar os hinos de reis, tão importante quanto ter um ouvido musical é possuir uma boa audição, já que problemas auditivos como os decorrentes do avanço da idade podem se tornar um grave problema durante a cantoria, comprometendo seriamente a performance do grupo. Isso acontece porque nas companhias de reis existe um folião responsável por ouvir os versos criados pelo embaixador e “transmiti-los” aos demais foliões, como se fosse um eco ou uma repetição daquilo que foi cantado, para que os demais foliões façam o canto responsorial sobre aquela voz que está substituindo a voz do embaixador. Esta função é a do respondedor, que canta logo após o embaixador ter trovado seus versos, e como os versos são improvisados e o canto dos hinos deve ser feito todo em responsório, é preciso que o respondendor entenda perfeitamente os versos que foram criados pelo embaixador para que ele possa transmiti-los corretamente aos devotos junto com os demais foliões. Mas o entendimento dos versos trovados pelo embaixador não é importante apenas para o respondedor, mas também para todos os outros foliões que irão reproduzi-los, para o dono da casa e para os devotos que estão presentes, que sempre estão ouvindo cada palavra com o máximo de atenção. São inúmeros os casos em que os foliões cantadores repetem os versos diferentes daqueles que foram criados pelo embaixador, ainda que durante as trovas fique evidente em seus semblantes um alto grau de concentração, atenção e de preocupação quando estão tentando entender ou decifrar as palavras dos versos improvisados. E ainda que muitos foliões compreendam os versos diretamente do embaixador, é de responsabilidade do 157 respondedor repetir os versos corretamente e fazer a mediação entre os versos criados pelo embaixador e os devotos. Em outras palavras, se o respondedor cantar versos diferentes do que foi criado, o hino pode se transformar em um “telefone sem fio”, chegando ao final da cantoria versos totalmente diferentes daqueles trovados pelo embaixador.41 Ao conversar sobre esta importância de compreensão dos versos com o folião Vitor Vicente Borges, que embaixou para a Companhia dos Noel durante dois anos seguidos, ele me disse o seguinte: Pra cantar reis você tem que fazer a rima certa. Se a pessoa destrovar desanda pra trás. Tem que ser trova por trova. Se o cara faz o verso truncado todo mundo pra trás vai ver que tá errado. O negócio é bolar a rima na hora. Tem que fazer o verso certinho pra trovar pra não dar erro pra trás. E outra coisa, se o capitão cantar um verso e o respondedor responder errado, aí complica tudo. Se o respondedor errar o que o capitão cantou sai tudo errado. As vozes é a do embaixador. O povo fala capitão, mas não existe capitão. Capitão é só do exército, né? É o embaixador da companhia de reis. Mas o povo daqui também não fala companhia, fala folia, né? Lá no estado de São Paulo e no Paraná é companhia. Aqui em Minas se fala muito em folia de reis. Mas não é folia de reis, é companhia de reis, porque tá falando de uma equipe junto trabalhando, né? Aí tem o embaixador, o respondedor, o ajudante, o contrato e o meia. Dá cinco vozes. Tem gente que canta com seis vozes e a talha. A talha é a sétima voz e a sexta é o fineiro. Nós não cantamos com fineiro, nós cantamos com cinco vozes só. O fineiro é a sexta voz e a talha é acima de seis. Antigamente tinha o cacetão, mas hoje o povo não aguenta mais. Era a mais alta de todas. Acima de tudo. Acima da talha. VITOR VICENTE BORGES, 2018 Associada a esta necessidade de compreensão dos versos está um recurso performático bastante explorado nos hinos de reis: a dinâmica. Ainda que a sobreposição gradual das cinco, seis ou sete vozes promova naturalmente uma graduação na intensidade e uma amplitude de dinâmica no hino de reis, desde o momento em que o embaixador entra cantando sozinho até o momento em que todas as vozes estão cantando juntas, os foliões instrumentistas costumam seguir esta dinâmica da textura vocal aumentando a intensidade de seus instrumentos. E entre todos os instrumentos de uma companhia, a sanfona é sem dúvida aquele que possui a maior projeção sonora, sendo necessário que o sanfoneiro seja sensível e perspicaz, no sentido de não extrapolar na intensidade enquanto os foliões estão tentando ouvir e compreender aquilo que está sendo trovado pelo embaixador. Igual eu falo: sanfoneiro de folia de reis tem de mais, né? Mas que toca certo mesmo é muito pouco. O sanfoneiro é o seguinte: na hora que o embaixador tá embaixando ele é obrigado a abaixar o volume da sanfona pros foliões pra trás escutar o que o embaixador tá cantando. A hora que todo mundo pegar as vozes certinha, na hora que for entrar o ajudante e o contrato, aí ele pode levantar um pouco a voz da 41 Alberto IKEDA (2011: 77) observou que, em algumas folias de Goiânia, “as cantorias do coro – resposta – em muitas estrofes não reproduzem os versos integralmente; fazem praticamente imitação da sonoridade ouvida”. 158 sanfona pra ajudar o fineiro e o contrafino pra trás, sabe? Pra fazer aquele órgão. Mas na hora que tiver embaixando já tem que abaixar um pouquinho, fazer só um fundo. Só a base embaixo. Mas tem sanfoneiro que já rasga a sanfona numa altura ali que você fica vendo os cantadores pra trás dizendo: “Eu não escutei o verso. Que verso que foi?” É o sanfoneiro que aumentou o volume. SEBASTIÃO FELICIANO, 2018 O embaixador Paulo Mathias toma um café ao lado do contrato Joaquim Macedo. Na jornada de 2015-2016 a Companhia dos Noel estava sendo embaixada pelo folião Paulo Mathias, tio do embaixador Adriano Nogueira, da Companhia Sagrado Coração de Jesus: “O Paulo Mathias, não é porque é meu tio, mas todo mundo tem respeito. Entre nós foliões e embaixadores a gente brinca, fala que ele é a lenda viva, porque dos embaixadores antigos ele é o único que tá vivo. É um cara sensacional que conta muitas histórias pra gente”. Foi no dia 06 de janeiro de 2016, no último dia daquele primeiro ano de trabalho de campo, que presenciei um dos vários momentos onde se deu uma grande falta de compreensão dos versos criados pelo embaixador Paulo Mathias. Já com o “sanfoneiro psicodélico” substituído, a companhia agradecia o almoço oferecido por um devoto quando observei o quão diferentes 159 eram os versos cantados pelo embaixador daqueles cantados pelo respondedor e pelos demais foliões. Abaixo, alguns exemplos desta transformação dos versos: Versos do embaixador Versos do respondedor Ainda falta agradecer Ainda falta agradecer O presente da família O presente na bandeira Me contou pra ir com Deus Me contou pra ir com Deus Com o pedido de Maria Filho da Virgem Maria Está cumprindo sua promessa Já cumpriu sua promessa Filha da Virgem Maria Com o menino que nascia 6.1. As relações de parentesco e o casamento das vozes Ainda que a condição de companhia mais antiga da cidade seja sustentada por algumas companhias, dentre as quais a Companhia dos Santos Reis, que exalta como um dos principais personagens da tradição de reis no município seu folião fundador Jorge Lourenço, me parece que a Companhia dos Noel é, senão a mais antiga, aquela que divide com a Companhia dos Santos Reis o título de “uma das mais antigas da cidade”. Esta companhia foi criada pelo Sr. Noel, avô dos irmãos Francisco e Vitor Noel, que assumiram a companhia após o falecimento do avô e do pai, dando assim continuidade à tradição da família. De fato, ao que tudo indica, a Companhia dos Noel parece ser realmente a mais antiga da cidade, com noventa e oito anos de atividade, e de todas as companhias que acompanhamos é a que tem os foliões cantadores com idade mais avançada. A tradição de companhias de reis formadas somente por irmãos é realmente muito forte na região, e pode ser discutida a partir do caso da Companhia dos Noel. A nossa companhia deve ter uns noventa e seis anos. Mudaram os companheiros, né? Que antigamente era só família mesmo, sabe? Meu pai, meu irmão tirava, o outro irmão meu que faleceu respondia, o outro que ele ajudava, outro cantava contrato, e os outros dois irmãos meus. Ainda tenho um irmão vivo, canta demais, mas esse não quis cantar mais, abandonou. Ele deu a preferência mais a mulher dele, sabe? A mulher é muito ciumenta e não quis deixar ele cantar. Mas é da família também. Esse também é meu irmão, o dono da casa aqui. Esse cantou com a gente uns dois anos e não quis também não. Mas é da família também. Se ele continuasse ficavam três né, na companhia. E com o outro quatro. Tinha morrido dois. FRANCISCO NOEL “MOEIRINHA”, 2015 Nós cantamos desde de petitico com meu pai e um tio meu que chamava Zé Ananias. Então desde sete, oito anos eu acompanho meu pai. Aprendi a cantar fineiro e dali pra cá foi indo, cantando. Eu tinha sete anos de idade, hoje eu tô com setenta e oito. Pensa bem, faz tempo, né? Sempre cantando. Eu só tive um tempo sem cantar que eu tive morando em São Paulo, mas meus irmãos continuavam a 160 companhia aqui em nome do meu pai: família do Noel. Que meu pai era muito conhecido, a Companhia do Seu Noel. Então ficou o nome: Companhia dos Noel. E nós estamos cantando aí até hoje. Eu com meu irmão nós estamos se virando na peteca. Teve algum irmão que largou, não quis mais sair junto com a gente. Mas eu e ele estamos seguindo a tradição e honrando o nome do meu pai: família dos Noel. VITOR NOEL “BATISTINHA”, 2015 A família Noel: no centro e à direita os irmãos Franscisco Noel e Vitor Noel, respectivamente, que na jornada de 2016-2017 tiveram ajuda de seu irmão Rosário Noel, à esquerda. Além da Companhia dos Noel, quase todas as companhias da cidade possuem relações de parentesco, seja dentro da própria companhia ou entre uma companhia e outras. Esta forte presença de parentes nas companhias da cidade e da região, principalmente de irmãos, pode ser um reflexo das consequências que levaram também as duplas caipiras dos discos a terem sido formadas em sua grande maioria por irmãos42. Como resquício de uma prática comum 42 Se olharmos para as duplas caipiras mais tradicionais (muitas das quais foram responsáveis pelas gravações dos primeiros discos de música caipira a partir de 1929), veremos que uma grande quantidade era formada por parentes, em sua maioria compostas por primos e irmãos. Estas relações de parentesco podem ser observadas de forma bastante clara tanto no caso das primeiras duplas, que gravaram de 1929 a 1960, quanto no caso das duplas que surgiram a partir da década de 1970. Se fizermos um breve panorama histórico das duplas que estiveram em maior evidência nos programas de rádios e televisão do período, veremos que muitas delas eram formadas por parentes: irmãos, primos, casais, pais e filhos etc. Como exemplos temos os quatro irmãos das duplas Zico & Zeca e Liu & Léu, que eram também primos dos irmãos da dupla Vieirinha & Vieirinha; além dos irmãos das duplas Zilo & Zalo, Lourenço & Lourival, Tonico & Tinoco, Pena Branca & Xavantinho; Irmãs Galvão; os casais Cascatinha & Inhana e Nhô Belarmino & Nhá Gabriela; os filhos que vieram a formar dupla com seus pais para substituir os tios que haviam falecido, como é o caso da dupla Tinoco & Tinoquinho e Zeca & Zico Filho, entre outros exemplos. Com a transferência dessas famílias do interior de São Paulo para a capital, 161 nas antigas roças e comunidades rurais, estas relações de parentesco podiam ter como objetivo o mantenimento e a perpetuação de uma tradição familiar. Há ainda quem defenda a utilização desta prática devido a fatores fisiológicos, para que as vozes das crianças pudessem timbrar e casar perfeitamente, provavelmente pela semelhança das cordas vocais entre dois irmãos. No entanto, o mais interessante é que, entre os foliões de reis, este argumento ainda se faz muito presente. Para muitos deles, a forte presença de parentes nas companhias da região se justifica pelo fato das vozes “casarem direitinho”. Sobre este casamento das vozes, Maria Aparecida, que recebeu a Companhia dos Noel em sua casa em 2015, me disse o seguinte: É muito diferente de hoje pra antigamente, mas não é diferente porque... É que a nossa companhia era só os irmãos. Era só irmão. Então as vozes davam muito certinho, sabe? Igual essa mesmo que passou aqui, a Companhia dos Noel. Essa aqui também era só de irmãos. Era a companhia mais bonita que tinha na cidade. Desde eu criança, que eu então me lembro, era muito bonita essa companhia que passou aqui. Mas aí foram morrendo né, os irmãos tudo. Agora ele tem que chamar os amigos pra ajudar. Mas tem muitos anos também essa aí. A minha também era só de irmãos. Só os irmãos. Seis irmãos. As vozes casavam. Dava certinho. MARIA APARECIDA, 2015 As duas companhias a que Dona Maria está se referindo é a Companhia dos Noel, que em sua origem era formada apenas por parentes (primeiro a geração do avô, depois a geração do pai e, por fim, de seus seis filhos), e a companhia de sua própria família, que também era formada apenas por irmãos. Como nos hinos de reis são utilizadas até sete vozes, cada um dos irmãos ficava responsável por uma das vozes, formando então o que alguns foliões costumam chamar de cordão de vozes, que, segundo me disseram, timbravam ou casavam perfeitamente entre uma voz e outra. No caso da Companhia dos Noel, apenas quatro dos seis irmãos ainda estão vivos e, destes quatro, dois pararam de cantar, obrigando os outros dois que ainda levam a tradição adiante a chamar outros cantadores para completar o número de foliões. O folião Vitor Vicente Borges, embaixador da Companhia dos Noel durante as jornadas de 2016-2017 e 2017-2018, me contou que sua antiga companhia também era formada entre familiares. Era meu pai e três irmãos, nós éramos antigamente. Isso foi na década de setenta pra trás. Em oitenta e sete papai faleceu, mas ele já não tava cantando mais. Meus irmãos também largou mão e ficou só eu. Só eu segui na música. Ainda foi dupla eu com meu irmão pra cima de mim, mas depois meu irmão começou a tomar muito guaraná. Agora ele não bebe mais, faz vinte e cinco anos que ele não bebe. Ele não canta mais, só canta na casa dele por brincadeira só. Quem leva a música a sério na minha família sou só eu só. Eu gosto da música. Voz de irmão não tem outra. Não tem igual. A coisa principal de uma dupla é ser irmão, porque um já conhece o parece que estas duplas levaram consigo uma prática que aparentemente era bastante comum no universo das antigas comunidades rurais, onde os pais colocavam filhos e primos para cantarem juntos. 162 pensamento do outro, né? Se um tá fazendo a segunda e vê que a música tá alta já muda pra primeira pra ajudar o outro, né? Pra arrumar parceiro pra cantar hoje tá a coisa mais difícil. É mais fácil achar dinheiro na rua do que arrumar parceiro bom. Quando dá certo vem um problema e atrapalha outra vez. Repara que uns bebem e outros mexem com a droga, né? Música e volante não pode ter bebida no meio. Uma vez, foi em mil novecentos e oitenta e dois, eu fui num show do Jacó e Jacozinho lá em Bragança Paulista. Se você visse os dois irmãos cantar um com o outro. Eles eram em oito irmãos. O mais velho morreu no começo da carreira dele. Se você visse a cena que eles fazia nos programas deles, eles cantando um com o outro assim no palco, no circo. Havia circo naquela vez, né? Se fazia show em circo e eles fazia as paródias deles: “Vamos fazer uma brincadeira com o violão aqui”. O Jacó jogava a viola pro Jacozinho e o Jacozinho jogava o violão pro Jacó. Passava um por cima do outro e eles continuavam tocando com as costas viradas, um sem ver o outro. Os homens eram fora de sério viu. Foi-se embora tudo. Acabou. Hoje tem só os sobrinhos. Liu e Léu, Vieira e Vieirinha, Zico e Zeca eram parentes. Zico e Zeca com Liu e Léu eram irmãos. Eles são lá de Santa Cruz das Palmeiras. É perto de Porto Ferreira e Pirassununga, lá perto da sua terra natal. VITOR VICENTE BORGES, 2018 O tema das relações de parentesco poderia nos render alguns capítulos inteiros neste trabalho, principalmente se, como fizemos com o tema do estruturalismo, o articulasse com a obra clássica de Lévi-Strauss (1982) sobre o assunto. No entanto, não será possível fazer aqui mais do que algumas considerações gerais. A tradicional relação de parentesco entre foliões é mediada, segundo alguns relatos, quase que pela noção biológica de hereditariedade, algo que pode ser observado pela ideia de que a tradição de reis “está no sangue” dos foliões. Eu sou músico faz uns quarenta anos, né? Mexo com música de fazer baile minha vida inteirinha. Minhas filhas são todas musicistas. E eu sou filho de folião também, só que essa tradição de folia de reis não entrava no meu sangue ainda, né? De uns dez anos pra cá que o Zé Ailton já saía há muitos anos e sempre me convidando pra sair com eles. Eu nunca me interessei. Mas como eu gosto muito de coisa bem feita, de coisa bonita, de coisa bem feitinha, sou exigente nessa parte aí, eu sou um cantor eclético, então mexo com todo tipo de música e sempre gostei de coisa bem feitinha. E fui uma vez num ensaio com eles e gostei demais. Aí a partir desse dia, que já tá fazendo sete anos, comecei a sair. Primeiro com a companhia que acabou, sai quatro anos com a companhia que acabou. Foi saindo os foliões, foi saindo os membros, foi saindo e acabou parando. E depois eu comecei com eles e tá fazendo sete anos que eu estou com eles já. Teve um ano que eu não pude sair, que eu tive um acidente e não pude sair. O resto eu continuei. [...] Eu acho que entrou no sangue a vou ficar até o dia que não der mais, só se tiver que parar mesmo. Mas por minha vontade não, só se for um fato que acontecer na vida, uma doença, se eu morrer. Mas do mais é pro resto da vida, que eu gosto demais dessa parte de companhia de reis. JOSÉ VICENTE CASSIMIRO, 2015 Notemos que o fato das filhas do folião serem musicistas é justificado por ele, ainda que indiretamente, devido a uma linhagem hereditária e a uma tradição familiar: “Eu sou filho de folião também, só que essa tradição de folia de reis não entrava no meu sangue ainda”. Sua falta de interesse e recusa (supostamente o domínio da cultura) em aceitar uma tradição que 163 parecia estar em “seu sangue” (supostamente o domínio da natureza), mudou completamente quando saiu pela primeira vez em uma companhia de reis e deixou que a tradição “entrasse em seu sangue”. Uma vez tendo se dado conta de que a tradição “entrou no seu sangue” (ou que já estava lá, pois é “filho de folião também”), José Vicente diz que pretende “ficar [na companhia de reis] até o dia que não der mais. Só se tiver que parar mesmo. Se eu morrer”. Esta ideia de que a tradição de reis (e com ela uma aptidão musical) “está no sangue” dos foliões passa um caráter hereditário de sua ligação com a tradição (de caráter “universal” e dentro do campo levistraussiano de natureza), justificando a inclinação à perpetuação da tradição pelas gerações mais novas para além da dimensão puramente cultural e social (de caráter normativo e dentro do campo levistraussiano de cultura), mas também para aspectos biológicos. O complexo quadro com uma possível “estrutura do parentesco” dos foliões, que poderia ser elaborado a partir deste pressuposto teórico, precisaria levar em consideração um conjunto de elementos e variáveis que infelizmente não foram coletados durante a pesquisa. 6.2. A tradição e a quebra do regulamento Como foi dito, existe no trabalho religioso de culto e louvor aos Santos Reis todo um sistema de códigos (de conduta, musical, textual, performático etc.) que deve ser dominado e respeitado ao menos pelos foliões mais experientes. Este sistema geralmente vem associado a uma forma de sociabilidade específica e a uma série de regras, restrições e tabus existentes tanto durante a prática musical quanto fora dela, que os foliões devem, senão tentar obedecer, ao menos ser conscientes em relação a ela. O relato do devoto Zeca, que recebeu os foliões da Companhia dos Noel durante a jornada de 2015-2016, reflete bem a existência de um padrão ou de uma regra “primitiva” que, segundo alguns devotos, deve ser obedecida à risca para que a companhia não modifique a tradição, não comprometa os propósitos sagrados da jornada e não decepcione os devotos que aguardam ansiosos o cumprimento da tradição. Eu acho que tem que obedecer a regra primitiva, né? Igual vocês tão fazendo. Porque se modificar estraga tudo, né? E aí vocês tão dentro do padrão, certinho, né? E obedecendo todas as regras da folia de reis. A turma muito competente, colocando as vozes tudo nos lugares certinho. Não tá tendo erro não. Eu queria até que vocês fossem lá no Cleber, pra vocês cantar lá que ia fazer um sucesso. Ia ser bom até pra Minas Gerais. Ele dá muito valor nessa música raiz, a música de reis e tudo mais. Que quando você vê uma folia de reis cantando lá é coisa fajuta. Quer uma coisa verdadeira, uma coisa pura igual a turma de vocês tão apresentando? Então eu queria que vocês fossem lá. Se vocês forem dá uma ligadinha pra cá pra gente ficar ligado. ZECA, 2015 164 Embora existam as regras ditadas pela tradição, muitos devotos fazem “vista grossa” para alguns deslizes cometidos pelos foliões em relação ao cumprimento estrito destas regras, embora não sejam raros os casos em que tanto os promesseiros quanto os capitães ficam em constante vigília para ter certeza que os regulamentos da tradição estão sendo seguidos pelos foliões. Os termos regulamento e fundamento, embora não apareçam com muita frequência nos relatos, parecem designar tudo que está sendo realizado dentro da tradição. José Roberto, da Companhia Filhos da Cambraia, observa que “todos nós temos uma raiz e temos um fundamento do porque da companhia de reis, uma coisa que vai ficando assim pra sempre”. O folião Osmair Cantarelli, justificando as várias denominações religiosas, diz que “cada um interpreta [a Bíblia] de um jeito, abre uma igreja e põe uma lei: aqui não pode beber e não pode fumar. É a lei da igreja. A nossa católica tem também o nosso regulamento43”. Um dos vários exemplos destas regras e códigos de conduta dentro da prática religiosa de culto aos Santos Reis pode ser observado pela relação que os bastiões passam a ter com a bandeira quando entram na casa de um devoto, pois, assim que a bandeira é entregue pelo bandeireiro ao dono da casa, fica expressamente proibido aos bastiões se virarem de costas para ela enquanto a companhia está cantando, devendo então se posicionar de frente para a bandeira segurada pelo devoto e de costas para os foliões. No entanto, esta regra nem sempre é obedecida e pode ser facilmente quebrada, principalmente pelos bastiões mais jovens e inexperientes que ainda estão em processo de aprendizagem. Outra restrição diz respeito à relação existente entre os agradecimentos e as promessas feitas pelos devotos, pois sempre que uma companhia canta na casa onde está sendo paga uma promessa, cujo pagamento geralmente é um almoço ou jantar, fica proibido aos foliões cantar ao devoto em forma de agradecimento pela refeição ou por algo que tenha sido ofertado como forma de pagamento pela promessa. O embaixador Divino Vitório dos Santos, da Companhia dos Santos Reis, me disse que “promessa não pode agradecer. Se você faz uma promessa de dar uma comida você tem que cumprir ela, receber a bandeira de joelho na porta. Outra ora é promessa só de dar comida, ou promessa de dar um dinheiro. [...] Promessa nenhuma pode agradecer”. O embaixador Adriano Nogueira, da Companhia Sagrado Coração de Jesus, na 43 Outros autores identificaram estes mesmos termos em suas etnografias. Luzimar Paulo PEREIRA (2011, 112) observou que “a noção abarca todo um repertório de cantos, mitos, exegeses nativas e regras cerimoniais parcialmente compartilhados pelos foliões, mas controlado pelo seu líder ritual” e que remete “às ideias de fundação, base, sustentação, além de ser derivado daquilo que é fundante, fundador, original e primevo”. Daniel BITTER (2010, 35-36) também menciona o termo fundamento como sendo “um conjunto de práticas e saberes considerados primordiais, absolutos e oriundos de um espaço-tempo imaginário. Esse conhecimento vem do princípio do mundo, frequentemente coincidente com o tempo do nascimento de Jesus. [...] um princípio sagrado, divino, que não pode sofrer contestação, tornando-se objeto do consentimento geral”. 165 chegada para um almoço que havia sido oferecido aos foliões como pagamento de promessa, me disse que a companhia “fez o canto para cumprir a promessa e depois fez uma despedida da bandeira. Quando o almoço ou o jantar é promessa, a gente faz só um cântico de louvor aos Santos Reis, abençoando a família e a casa”. No dia 04 de janeiro de 2016, em uma casa onde estávamos com a Companhia Filhos da Cambraia, a devota que recebeu os foliões para pagar sua promessa perguntou ao capitão se ele não cantaria o agradecimento pela janta. Com muita educação ele explicou à devota o motivo pelo qual não poderia atender seu pedido. Dona Kátia, deixa te falar uma coisa bem certinha pra senhora e pro seu esposo: Olha, existe uma coisa aí. A senhora deu a janta em benefício à promessa, então vou deixar uma coisa bem clara pra senhora. É uso nosso. Os antigos também acompanhavam e eu acompanho, mas muitos não acompanham. Mas como a tradição vem dos antigos, eu deixo bem explicado pra senhora, como a senhora é a primeira vez. Na promessa a senhora fez a intenção sua de dar uma janta em benefício aos Santos Reis. E existe uma coisa na tradição antiga que a janta do benefício o mestre de chegada não agradece. Mestre assim, eles falam que mestre sou eu. Seria eu o mestre de vocês, mas o mestre dessa companhia aqui é Cristo e o Divino Espírito Santo. E ele não agradeceu. Ele não agradece. A senhora insistiu pra eu agradecer então eu fiz a despedida da bandeira. A despedida tá feita. Agora através do agradecimento nós vamos agradecer a senhora com oração, porque é o certo. Que Jesus deu o pão e ele já tá lá. Nós temos que pedir a Deus e eu acho que o certo é isso. Então fica bem claro porque às vezes tem muitos que falam: “Ah ele não agradeceu a janta daquela senhora que ela deu com boa vontade”. Então eu deixo bem explicado porque amanhã ou depois vem falar que nós fomos embora e não agradecemos. E eu não gosto desse tipo de coisa. Então eu deixo bem explicado: O agradecimento não existe na promessa. A promessa sua já está entregue e o agradecimento da janta, ao invés de nós agradecermos cantando através do hino, nós agradecemos rezando. O giro nosso é esse, porque não tem o agradecimento da janta. E eu não vou sair batido sem explicar pra dona da casa, pra depois você falar que nós não agradecemos sua janta. LERI ALVES FERREIRA, 2016 Um pouco surpreso com aquela resposta, pois era a primeira vez que presenciava uma situação daquela, assim que a companhia deixou a casa da devota fui ter uma conversa com o embaixador para tentar descobrir um pouco mais sobre aquela proibição ditada pela “tradição dos antigos” e tentar entender um pouco melhor sobre sua motivação. Ao ser indagado, ele me reforçou a explicação que havia dado para a devota: Ela deu a janta que é a promessa dela, então existe uma coisa que não tem agradecimento. Não existe isso aí. Que Jesus já deu o pão e nós temos mais é que pedir e agradecer a Cristo. Então da promessa que ela fez o nosso agradecimento é uma oração. Agora, é a tradição de trás, a antiga, né? Que tem o velho e o novo testamento. Então nós seguimos isso aí. Agradecer a oferta faz parte da tradição. Porque se a pessoa dá uma oferta e nós saímos sem agradecer tá errado, né? Só que a janta é da promessa, aí não existe agradecimento da janta. A gente agradece diferente, mas não a janta. Aí já agradecemos diferente. LERI ALVES FERREIRA, 2016 166 Apesar dos exemplos mencionados, que sugerem uma tradição inflexível e com regras invioláveis, veremos que ela é muito mais dinâmina e transigente do que parece e com regras e regulamentos que podem ser, senão quebrados, ao menos negociados pelos foliões. O folião João Santana, por exemplo, ao criticar um companheiro por sair com sua companhia fora do período ditado pela tradição para realização do trabalho religioso, me disse que: A companhia do Keka não segue os reis conforme é preciso não. Ele sai fora da época. Sai caçando recursos. É o meio de vida deles, né? A companhia dele foi presa esses dias pra trás. Foi ele e a família, o povo dele. Prenderam o carro dele. Já tava fazendo mais de um mês que ele tava com a companhia de reis fora do tempo. Ficaram mais de um mês saindo com a companhia de reis fora da época. Ele faz isso aí mesmo. E não pode. Reis é do dia vinte e cinco de dezembro até dia seis de janeiro. A regra é essa. A companhia dele é a única que toca o ano inteiro. E o ritmo que ele faz é batidão, foge da tradição. Mas não sei né, é meio difícil da gente falar. Eu nunca cobrei pra mexer com essas coisas nem nada assim. Saio toda a vida acompanhando como religião. Porque isso é uma coisa que vem do começo do mundo, né? Os três reis. A gente não pode abusar muito não. JOÃO SANTANA, 2015 Uma das justificativas apresentadas pelo folião que, a princípio, infringiu as regras da tradição, é de que existe um grande número de devotos que ficam sem pagar suas promessas pela pouca quantidade de companhias de reis na cidade, de forma que não seria justo que estes devotos ficassem mais um ano inteiro esperando para terem suas promessas pagas. Não sei de onde vem essa tradição que só pode sair do dia vinte e cinco ao dia seis. O povo que põe isso na mente, porque não existe isso não. Eu já fui pra Carmo do Rio Claro e as companhias de reis lá cantam em final de janeiro. É o povo batendo carnaval e o povo cantando reis. Já fui pra Campo do Meio e é assim tamém. Não existe isso não. Hoje existe é assim ó: Se você tem uma promessa de seis dias pra pagar, então eu vou lá cumprir. Se alguém chegar em mim e falar que precisa cumprir uma promessa de seis dias eu tô aqui pra cumprir a promessa e não interessa onde você mora. Uma vez um rapaz pagou pra gente condução e estadia na casa dele pra ficar oito dias lá. Dorme lá, come lá e vai pras roça. Promessa é dívida. Agora se ele liga pra não ir eu não vou. Só que não existe essa página de falar que é só até o dia seis. Vou contar uma passagem pra você: Uma vez a gente tava cantando aqui em Campos Gerais, era dia oito de janeiro, aí um rapaz perguntou se a gente não queria tomar um café na casa dele. Nós fomos na casa dele. Chegando lá, o que ele fez? Encheu a gente de pergunta tipo humilhando e falando que a gente tava fora da época. Eu falei: “Senhor, o senhor chamou a gente pra tomar um café aqui na sua casa e nós viemos de bom coração. Agora se o senhor não quiser dar o café não precisa dar, mas também não precisa humilhar. Que nós não pedimos nada pro senhor, o senhor que ofereceu. E outra, nós estamos aqui ó. Recebe quem quer. Nós não viemos aqui pra entrar na casa dos outros obrigados não”. Daí ele disse que tava brincando. Falei que aquilo não era brincadeira que se faça, porque ele que convidou e depois quis se engrandecer pra cima da gente falando que já tinha passado do dia e da hora. Não é assim não. Eu sei que passa da hora se você chegar em qualquer lugar e encontrar o lugar fechado. Mas você não vê a gente chegar batendo no portão e pedindo pra pegar a gente. Não. Nós vamos passando e tocando. A pessoa abre o 167 portão, se gostou chama. Às vezes a companhia tá longe e o povo chama: “Volta aqui”. Nós temos que voltar. Não é só seguir. Tem folião que vai só pra frente, mas os reis, quando eles andaram, eles voltaram também. [...] O tempo é muito pouco também. Porque o povo tá saindo muito pouco e muita gente não tem aquele dia pra cumprir, então eles deviam prorrogar mais uns seis dias. Vamos supor, paga uma promessa aqui e depois vai lá no Buraco Quente e paga outra. Vai no outro, paga outra e aí encerrou. Então eles tinham que prorrogar mais uns dias. Devia ser o mês todo de janeiro. Nós vamos até sábado dia nove porque nós vamos ter o almoço lá na cultura e a chegada minha vai ser aqui nos Campos Elísios, no Taparica. Tamo fazendo essa jornada. Tamo lutando pra ver se Deus manda mais união, mais irmandade, porque as coisas mais unidas são mais bonitas. [...] Lá em Alterosa tem um rapaz lá que chama Vinga Correnteza, um embaixador que conheceu a gente na época que nós fomos cantar lá. Esse rapaz ele sai pra todo lado. Ele cumpre promessa pra Mococa, pra região do sul de Minas aqui. Ele não para. Você pode ir lá o ano inteiro que ele tá embaixando reis. Ele só embaixa. Acaba a companhia de reis, ele descansa dois dias e pega outra promessa. Em Alterosa também sai companhia de reis em janeiro, fevereiro e março. Sai o ano inteiro ali. Em Areado sai também. Em Campo do Meio tem a companhia do povo lá que sai também em março. As companhias aqui em Alfenas não sai fora da época, só sai nesse período. Mas é igual eu falei pra você outro dia, aqui em Alfenas tem umas companhia de reis que chama ignorância. Olha bem, eu vou fazer uma pergunta pra você e você vai responder pra mim: Santo você acredita só naquele dia ou todo dia? Tá a pergunta. Porque se você acreditar só naquele dia, então só vai naquele dia o santo lá na tua casa, não vai mais não. Então o que existe hoje? Se você tem uma promessa e chega dia seis, encerrou as companhias de reis. Aí você vai atrás de outras companhias de reis, vai atrás do Tinho, vai atrás da Consolita, vai atrás de outra e fala que tem uma promessa e quer pagar ela dia dez. Eles não vão. Mas vem atrás da minha que nós vamos. Sabe por causa de quê nós vamos? Porque a tua promessa você vai ter que cumprir ela. Agora você vai atrás deles lá eles falam: “Ah, eu só canto até dia seis”. Eu fico bobo de ver. Quer dizer que se no meio do ano alguém quiser dar comida pra alguma companhia eles não podem ir lá pagar uma promessa? Não é assim não. GASPAR RIBEIRO “KEKA”, 2016 Além disso, a Companhia da Irmandade também é conhecida pela sua batida “fora da tradição”, que alguns chamam de batidão. Trata-se de um ritmo mais alegre e muito diferente daquele que é tocado pelas outras companhias, havendo inclusive boatos de que a preferência por este ritmo se deve porque a companhia fica menos tempo nas casas e assim pode atender uma quantidade maior de devotos. No entanto, o embaixador Keka se justifica dizendo que: [...] Isso aí veio lá do Cavaco. A turma foi cantar lá, chegou lá ficararam roucos e aí pra não parar a companhia de reis nós pegamos e cantamos em quatro vozes. Começamos a bater esse ritmo e a turma gostou. Nós chegamos aqui em Alfenas e a turma começou a gostar e daí nós ficamos nele, porque nós cantamos em outras toadas também, mas só que a minha preferência é mais essa. Nós temos vários agradecimentos. Tem o Angola, o Lá Maior. Só que como a gente tá nessa toada que é mais animada, nós preferimos ficar nela, deixando ela quetinha sem mexer. [...] A gente variou o ritmo porque tava cansado de muita toada igual. A gente foi vendo as toadas que o povo gostou. A gente canta outras toadas também, mais leves. Só que nós habituamos mais com essa, que é uma toada mais alegre, mais divertida. É uma toada que a pessoa não para, não fica parada, né? A gente tá tocando e o povo fica mexendo com o corpo, os bastião, a gente. Essa toada pra gente é a melhor toada que tá tendo. [...] A companhia de reis é igual um padre que tá rezando uma missa lá. Se ele rezar muito devagar o povo dorme e não sabe o que o padre tá falando. 168 Então quando o padre entra animado igual o padre Marcelo todo mundo fica lá chacoalhando, batendo palmas e prestando atenção. A companhia de reis é assim. GASPAR RIBEIRO “KEKA”, 2016 O folião Marquinho Didico defendeu a postura do capitão e me explicou que a escolha de um ritmo mais animado para se cantar o hino de reis não foge necessariamente da tradição: Da família toda, de primos e tios, sobrou a tradição pro Keka, que é o capitão. Ele que veio desde criança aprendendo e vendo a tradição, como funciona. A gente saía antigamente num ritmo mais lento e ele que pensou nesse ritmo mais animado, que as pessoas gostam mais. Da tradição ele tirou uma coisa mais rápida um pouco, mas nunca perdendo a característica. Diferenciado. Todo mundo aplaude, mas sem fugir da tradição. MARQUINHO DIDICO, 2016 A tradição também pode deixar de abranger a macroestrutura do trabalho religioso, representado pelos vários municípios da região, para se voltar à microestrutura dos bairros rurais. O folião Odair Jovino “Bicudo”, por exemplo, justificou o fato da festa de entrega da bandeira de sua companhia não ter sido realizada no dia dos Santos Reis dizendo que “o certo era a gente parar no dia seis uma hora da tarde. Só que nós não fizemos a chegada, fizemos a chegada hoje. É contra a dança, mas é a tradição daqui do bairro, entendeu?”. Outros dois exemplos que relacionam a tradição com a quebra dos seus regulamentos é a execução dos instrumentos de percussão quando são solicitados versos aos falecidos e o consumo de bebida alcoólica durante a jornada. São regras que, embora sejam recorrentes nos discursos nativos, nem sempre são seguidas à risca pelos foliões. Assim, os descumprimentos das regras nem sempre são vistos com maus olhos ou ares de reprovação, demonstrando certa flexibilidade no que diz respeito à obediência cega aos regulamentos e tolerância dos foliões sistemáticos para com aqueles que não seguem piamente os fundamentos da tradição. 6.2.1. O consumo da cachaça Assim como existem prescrições bem definidas no que diz respeito à estrutura musical dos hinos de reis, existem também regras que envolvem outros aspectos da cantoria, como a instrumentação utilizada para cada tipo de situação e determinadas ocasiões em que se pode ou não proceder com uma etapa específica do trabalho religioso. Estas restrições, que mais se assemelham a tabus e ainda que sejam ditadas pela tradição, revelam um sistema dinâmico e flexível de negociações sobre algumas práticas, cabendo assim o levantamento de discussões 169 sobre os porquês se deve ou não realizar determinada atividade desta ou daquela maneira. O consumo de bebidas alcoólicas durante os doze dias de trabalho religioso é uma das práticas que reflete este campo dinâmico e heterogêneo de condutas éticas e de negociações com a tradição, pois, enquanto alguns foliões obedecem este regulamento abdicando do consumo de bebidas alcoólicas durante a atividade religiosa, outros relativizam sua proibição. A Companhia dos Noel sob um arco após um almoço no dia 06 de janeiro de 2016. O folião Francisco Noel, por exemplo, relembra já com seus oitenta e poucos anos que antigamente seu avô e seu pai paravam de consumir qualquer tipo de bebida alcoólica no dia quinze de dezembro, ou seja, dez dias antes de iniciar a jornada das companhias, voltando a beber apenas depois do dia seis de janeiro. Os irmãos Noel são alguns dos poucos foliões que obedecem à risca a tradição no que diz respeito ao consumo de bebidas alcoólicas. Outros foliões, no entanto, dizem que a bebida em si não vem a ser um problema para os Santos Reis, desde que o consumo seja feito com moderação. O embaixador Antônio Juscelino de Souza me disse que “beber uma cervejinha na hora do almoço e na hora da janta não tem nada a ver. Mas não pode é o folião ficar cambitiando atrás da companhia que é muito feio”. Atualmente 170 esta restrição parece estar mais relacionada com a preocupação da forma como as companhias podem ser vistas pelos moradores do que de fato com um tabu de ordem espiritual, afinal de contas, é a boa imagem passada pelos foliões que dá a garantia de que os devotos das casas por onde a companhia passa vão pegar a bandeira. Quando você vê uma companhia de reis andar bem organizadinha todo mundo gosta. Mas se tiver cachaçada e palhaçada ninguém pega. Aí pega só a bandeira, porque a bandeira não tem nada a ver. Então tem que andar certinho e bonitinho da saída até a chegada, porque aí um fala pro outro: “Olha, a companhia do fulano é boa. Ah, a outra não presta porque tá assim e assim”. Esse que é o problema. ANTÔNIO JUSCELINO DE SOUZA, 2015 A gente sai porque gosta, mas a gente é xingado. O almoço é duas, três horas da tarde. A janta tem dia que nós chegamos a jantar dez horas e ainda tomamos esses nomes. Nós somos criticados. Chamam a gente de vagabundo, cachaceiro, pingaiada. A gente toma esses nomes todos na cara, mas só os três reis é que sabem que nós não somos isso não, que nós somos uma turma de devotos dos três reis santos, essa é que é a verdade. Uma turma de devotos. Graças a Deus isso que eles falam da gente não é verdade, porque chega nessa época é a época da nossa devoção. LUIZ DOS ANJOS ANACLETO “CÔCO”, 2015 Além das proibições em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, existe também um preconceito em torno da ideia de que os foliões são cachaceiros que ficam perambulando pelas ruas em troca de comida. No entanto, ainda que existam aqueles foliões que exageram um pouco na bebida, quando o embaixador ou o organizador percebe que o sujeito não está comprometido com o trabalho religioso, logo o dispensa da companhia. O folião José Vicente Cassimiro, por exemplo, me disse que “até uns dois dias atrás tinha um tala com a gente, mas ele bebia muito então nós dispensamos ele”. Neste mesmo sentido, o folião Sidinei Benedette me disse que “tem que fazer um apelo pras pessoas que tem má intenção com as companhias de reis, que acha que a gente sai pra fazer bagunça e beber cachaça. Não tem nada disso não”. 6.2.2. O silêncio do universo O silêncio do universo é quando a pessoa morre, né? Então não pode fazer barulho com a caixa, porque a caixa ela é cativeiro. Entendeu? Ela é cativa. Então por causa desse silêncio o certo é até o caboclo nem cantar, mas rezar. Entendeu? Por isso que se chama silêncio do universo. A pessoa pede pra gente cantar e a gente canta, mas não é o certo. O certo é rezar. O Pai Nosso e a Ave Maria é o certo de rezar pra quem falece. Então muita gente manda cantar e a gente canta pra pessoa não ficar descontente, né? Mas o certo é só rezar o Pai Nosso e a Ave Maria. O silêncio do universo foi quando Jesus também faleceu, né? Quando entregou o espírito na mão do Pai. Aí todo mundo ficou em silêncio, um silêncio muito profundo. Pode ver que em todos os velórios que a pessoa vai a pessoa fica quieta, né? Às vezes chora. Esse silêncio é chamado silêncio do universo, porque quando a gente entrega o espírito 171 pro Pai ele já recebeu. Nossa matéria vai pra baixo da Terra, mas o espírito sobe pra junto de Deus. Por isso dos três presentes: a mirra, o incenso e o ouro. O ouro é só o rei quem pode dar e o incenso incensou o altar de Jesus. Agora a mirra significa que nós somos mortais. A mirra representa a mortalidade do ser humano conforme a mortalidade de Jesus. A mirra significa: somos mortais44. OSWALDO LUÍS DE BRITO, 2018 A primeira vez que vi e deixei de ouvir os foliões responsáveis pela percussão (caixa e pandeiro) foi no dia 26 de dezembro de 2015, segundo dia de trabalho de campo. Era a última casa onde a Companhia dos Bárbaras iria cantar antes de fazer sua chegada para o almoço na comunidade rural dos Bárbaras, quando o embaixador Bicudo decidiu fazer uma homenagem ao pai de um devoto no meio do hino de reis, que fora seu amigo e que havia falecido alguns anos atrás. Após o embaixador concluir a frase “Vou cantar para o seu pai”, os foliões que tocavam a caixa e o pandeiro perceberam que ele iria fazer uma homenagem ao falecido e imediatamente pararam de tocar seus instrumentos de percussão, retomando o toque somente no interlúdio instrumental do final do hino. O verso cantado por Bicudo naquela ocasião foi: Vou cantar para o seu pai Que há tempo faleceu Ele foi morar com Deus E com os três reis que ele serviu A Companhia Santa Bárbara é uma das companhias que possui dois embaixadores, que ficam revezando entre si a função de respondedor. Salvador Pereira, o outro embaixador que estava respondendo no momento em que isto aconteceu, recebeu do capitão Bicudo um sinal feito com a cabeça e logo em seguida dirigiu um olhar de reprovação aos foliões que estavam tocando o pandeiro e a caixa, indicando que se tratava de um canto para um falecido 44 A mirra marcou o início e o fim da passagem de Jesus pela Terra. Além de ter sido um dos presentes ofertado pelos magos quando de seu nascimento, ela foi misturada ao vinho a fim de dar-lhe um efeito narcótico e assim aliviar suas dores quando estava na cruz (tal como era utilizada para diminuir os sofrimentos de soldados feridos na antiguidade): “E deram-lhe a beber vinho com mirra, mas ele não o tomou” (Marcos 15:23). A mirra também foi uma das especiarias colocadas por Nicodemos no corpo de Jesus quando de seu sepulcro, tal como era praticado pelos judeus nos sepultamentos: “E foi também Nicodemos (aquele que anteriormente se dirigira de noite a Jesus), levando quase cem arráteis de um composto de mirra e aloés” (João 19:39); provavelmente auxiliado por Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago: “E as mulheres, que tinham vindo com ele da Galiléia, seguiram também e viram o sepulcro, e como foi posto o seu corpo. E, voltando elas, prepararam especiarias e unguentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento” (Lucas 23:55,56). Além destas passagens do novo testamento, a mirra também é mencionada no livro do Êxodo como óleo de unção para o tabernáculo: “Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo: Tu, pois, toma para ti das principais especiarias, quinhentos ciclos da mais pura mirra, e de canela aromática a metade, a saber, duzendos e cinquenta sicos, e de cálamo aromático duzentos e cinquenta siclos” (Êxodo 30:22,23); e em outros livros do antigo testamento (Ester 2:12; Cânticos 5:1,5,13; entre outros). A raiz hebraica da palavra significa fluir, e atualmente a resina que se obtém de seus caules é utilizada na preparação de medicamentos devido às suas propriedades anti-sépticas. 172 e que eles deviam então parar de tocar os instrumentos. Em uma conversa com o capitão da Companhia dos Santos Reis sobre este assunto, ele me disse o seguinte: Se chegar numa casa e eles quiser que canta pra um falecido, pra uma pessoa que já morreu, pelo certo o pandeiro e caixa não pode ter. É só o instrumental alí e a voz. E na maioria das casas, nas roças e aqui na cidade, na maioria das casas pedem pra cantar pros falecidos: mãe, pai, tio, sobrinho, tia. Nas roças e aqui na cidade. E não pode ter esse acompanhamento de caixa e pandeiro, que aí fica fora da tradição, né? Aí já é contramão. E pode cantar até dentro do velório se a pessoa morreu e é folião. Meu irmão quando morreu ele era folião e nós cantamos dentro do velório. Mas aí você chega na casa: “Ah, não vai cantar porque meu pai morreu”. Eu acho bobagem, porque se o pai dele morreu porque gostava aí é que ele devia fazer o que o pai dele gosta. Que se tá cantando aqui o pai dele tá vendo nem que estiver lá em cima. Entendeu? Ou você não quer que canta ou você não fica com essa desculpa que o pai morreu. Não é isso? Eu acho isso errado. Meu pai gostava demais da conta. Minha família tudo é folião. Meus meninos tudo é folião. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 * * * A vontade de saber mais sobre os motivos da restrição de se executar instrumentos de percussão quando um devoto pede versos para algum parente falecido me proporcionou um dos momentos mais emocionantes de todo trabalho de campo. Quando me mudei para Alfenas em 2011, para dar aula no Conservatório Municipal, um dos meus primeiros alunos de violão foi também aquele com quem tive a oportunidade e o privilégio de alimentar e desenvolver uma profunda e verdadeira amizade. Geraldo Donizette Alves, que também era conhecido como Pacheco, tinha 53 anos quando nos conhecemos e desde a primeira conversa tivemos grande identificação e posteriormente uma grande amizade. Geraldo era um típico caipira, conhecedor profundo das coisas do mato e da roça, além de também ser dono de uma linda voz e um talentoso violonista. Quando ingressei no doutorado ele foi um dos primeiros a ficar sabendo e, para minha surpresa, me contou que havia sido cantador de reis durante muitos anos junto de pai, passagem esta de sua vida que até então eu desconhecia. Nascido em família de foliões, além do pai ele também já havia cantado junto de seu tio Zé Leal, embaixador da Companhia Sagrado Coração de Jesus, e de seu primo, o folião Osmair Leal Cantarelli, responsável pela Companhia Reis do Oriente. Geraldo havia parado de cantar reis após a morte de seu pai em 2002, mas assim que soube que eu estava fazendo este trabalho, tratou logo de inserir histórias suas como folião em nossas aulas de violão no conservatório. Ele foi o primeiro folião a me explicar de modo mais sistemático a estrutura e a divisão das vozes durante a cantoria dos hinos, pois ele havia cantado em praticamente todas 173 as funções. Embora eu frequentasse sua casa toda semana e passássemos muito tempo juntos pescando, esta proximidade fez com que eu não me preocupasse em gravar nossas conversas sobre as vozes e sobre as cantorias dos hinos, pois pretendia fazer isso quando estivesse mais próximo do fim da pesquisa. Geraldo faleceu no dia 01 de abril de 2017, vítima de um câncer já em estágio avançado que o levou em menos de dez dias depois de descoberta a doença. Na tarde do dia 29 de dezembro de 2017, enquanto acompanhava a Companhia dos Noel pelas ruas da cidade e após parar em um bairro para que a companhia cantasse nas casas de alguns devotos, comecei a conversar com o folião Geraldo Miranda sobre as restrições que envolvem a execução dos instrumentos de percussão (caixa e pandeiro) quando algum devoto solicita um canto para um parente falecido. Ele me explicou que o correto, segundo a tradição, seria não tocar nem a caixa e nem o pandeiro se os versos são pedidos aos falecidos, mas que existem muitos foliões que têm o costume de tocar: “o Chico aí que tá puxando a companhia tá tocando. Eu não falo nada não, deixo quieto. Mas geralmente nós não tocamos a caixa. A caixa e o pandeiro nós não tocamos. Muitas companhias não tocam. É uma tradição”. Com o objetivo de me mostrar que o caixeiro da companhia tinha outra interpretação sobre esta tradição, o folião pediu para que eu “ficasse de olho” no caixeiro, pois naquela rua onde nós estávamos havia uma devota que certamente pediria para a companhia cantar para o filho que havia falecido naquele ano. Na segunda casa daquela rua em que a companhia entrou para cantar o embaixador improvisou os seguintes versos: Ai os três reis em sua casa Nessa hora de alegria Ai vem trazer uma benção Ao senhor e à família Assim que a companhia terminou de cantar o hino, a devota tomou a bandeira de seu marido e pediu para que o bastião avisasse o embaixador que ela gostaria que ele cantasse uns versos para seu ex-marido e para seu filho falecidos, também foliões. Como os bastiões desta companhia geralmente são muito jovens, aquele que ficou encarregado de passar a informação ao embaixador acabou transmitindo a informação errada, pedindo para que ele cantasse versos para o irmão falecido da dona da casa, no que o embaixador cantou os seguintes versos: Ai segurou nossa bandeira Alembrou do seu irmão Ai seja onde ele estiver Ai dos três reis tem a benção 174 Como sempre procurei estar bem próximo dos foliões, logo que eles acabavam de cantar e saíam da casa de algum devoto eu já seguia atrás deles, de modo que, com exceção das chegadas para o almoço, onde o tempo de permanência nas casas é mais prolongado, eu raramente fazia entrevistas com os devotos, principalmente para não perder as conversas entre os foliões e para não perder a companhia de vista. Naquela casa onde a companhia estava não seria diferente, pois logo que os foliões saíssem da casa eu sairia atrás deles. Mas antes, assim que os foliões terminaram de cantar, eu presenciei a seguinte repreensão da dona da casa a um jovem bastião da companhia: “Você não falou nada dos três reis, viu? Você não falou nada bonito pra mim. Eu gosto que fala ao menos um verso do nascimento de Jesus, porque eu também conheço. Você tá precisando estudar bastião, precisa ir pra escola. Você tá muito miúdo. É muito novinho”45. O seu marido, tentando colocar os “panos quentes” na situação para que não ficasse tão chata e desagradável para o jovem bastião, explicava para a esposa: “Calma mulher, ele é novo. É de novo que se aprende. Tem que aprender é de novinho”. Logo que os foliões se despediram do casal de devotos e saíram da casa eu fiz o mesmo e segui a companhia para uma das casas vizinhas, onde os devotos já estavam aguardando a companhia. Ao entrar na casa vizinha senti que deveria voltar na casa anterior para conversar com aquele casal. Voltei e eles ainda estavam conversando sobre os poucos versos declamados pelo bastião e como os bastiões de hoje não eram mais como os de antigamente. Aproveitei aquela discussão para emendar uma conversa com aquele senhor, Sr. Ascendino Marcelino da Silva e mais conhecido na cidade como Zinho. Ele me contou que gosta muito das cantorias de reis e que é natural da cidade de Teófilo Otoni, nordeste de Minas Gerais, tendo chegado a Alfenas em 1981. Em seguida fui conversar com sua esposa, Sra. Maria Joana Alves, e lhe perguntei sobre o pedido que ela havia feito para que a companhia cantasse para seu irmão, como havia sido registrado nos versos do embaixador, no que ela me corrigiu: “Ele cantou errado. Eu pedi os versos pro meu ex-marido e pro meu filho que eram foliões. Meu marido faleceu faz quinze anos e meu filho faz oito meses. Eu não sei se você conhece o Zé Leal, lá 45 É realmente interessante, e muitas vezes impressionante, a demasiada atenção e apreensão dos devotos para com os versos que estão sendo cantados pelos foliões. Em outra situação com a Companhia dos Noel, durante o giro de 2015-2016, um devoto que recebeu a companhia se queixou pelo fato dos foliões terem se esquecido de cantar um verso para a família reunida. O embaixador Paulo Mathias, que achou que a ausência do verso passaria despercebida, persuadiu o devoto: “Vamos almoçar primeiro, depois a gente canta”. Carlos Rodrigues BRANDÃO (1981: 28-29) observou que “às vezes as coisas precisam ser ditas com todas as precisas palavras. Um homem ofertou 40 cruzeiros (quantia rara). O mestre se enganou e «agradeceu 30 cruzeiros». O bastião corrigiu ao pé do ouvido: foi 40 que o homem deu, o homem deu foi 40. O mestre respondeu, enquanto os foliões cantavam a «resposta»: eu sei, depois eu agradeço mais 10, e emendou uma quadra adicional: Na quantia eu errei // Ela foi mais 10 cruzeiros // Deus que ajude este senhor // Ele é um homem verdadeiro”. 175 da Fama. É meu irmão. Ele é capitão também”. Como eu sabia que meu amigo Geraldo era sobrinho do Zé Leal, deduzi que ele seria parente daquela senhora, talvez sobrinho. Comentei com ela que desde que me mudei para Alfenas, meu melhor amigo havia sido o Geraldo Pacheco, perguntando qual era a relação de parentesco entre eles, no que ela me respondeu: É meu filho. O que faleceu faz oito meses. Foi pra ele que eu pedi os versos. Sou mãe do Geraldo. Eu não acredito que meu filho morreu. Pra mim ele ainda tá vivo. Foi muito de repente e muito instantâneo. Ele tava conversando tudo bem. Quando foram operar viram que era um câncer. Morreu na hora. Vou te contar. A gente passa por uma vida que só Deus sabe. Eu fico com a cabeça ruim de tanto pensar. Esses dias eu tava tão ruim da minha cabeça que eu falei pro meu véio: “Vamo lá pra roça pra mim pescar”. Pra ver se melhora, porque pescar é bom pra cabeça, né? Eu cheguei lá foi só jogar o anzol que lembrei dele. Ah, não tem jeito não. Todo lugar que vai não tem jeito não. Ele gostava demais de pescar. MARIA JOANA ALVES, 2017 Os foliões da Companhia dos Noel na casa de Maria Joana Alves, mãe de meu amigo Geraldo; logo atrás, seu esposo Ascendino Marcelino da Silva observa atentamente a trova dos versos. Aquele momento do trabalho de campo pode ser descrito por aquilo que Roberto Da Matta (1978: 27-28) chamou de anthropological blues, “de incorporar no campo mesmo das rotinas oficiais, já legitimadas como parte do treinamento do antropólogo, aqueles aspectos extraordinários ou carismáticos, sempre prontos a emergir em todo relacionamento humano”. A mãe do meu amigo Geraldo, naquele momento em prantos e emocionada pelas lembranças do filho, me deu um forte abraço em busca de consolo pela sua perda, ao qual eu correspondi 176 com muita emoção, alegria e juntando minhas recordações e saudades às dela. A emoção de encontrar e conhecer a mãe do Geraldo, que até então eu não conhecia, se estendeu ainda por uma longa conversa, onde tive oportunidade de ouvir alguns milagres que os três reis santos já realizaram em sua dolorosa vida. Uma vida marcada por perdas e sofrimentos. Perdi um filho e quase que eu perco o outro também, o Gentil. Eu tenho uma promessa. Eu vou cumprir ano que vem agora, se Deus quiser. Porque graças a Deus ele tá recuperando bem, né? Ele tá bom, tá andando sozinho já. Graças a Deus. Os três reis santos me ajudou muito, então eu vou sair com a companhia de reis. Eu tô achando bonito ela [a Letícia, minha irmã] gravando. Eu quero arrumar também pra gravar quando eu sair. A hora que eu for sair pro meu filho eu vou arrumar também alguém pra gravar. O ano que vem vou arranjar uma companhia pra sair por promessa do Gentil. [...] Você vê: um foi e o outro quase foi também. E fora a mais velha minha que foi também. Essa era a mais velha. Morreu de câncer também. Não é fácil não filho. Não é fácil não. Só Deus sabe o que a gente passa. A gente ver um filho da gente criado no caixão é muito triste. Essa luta eu não imaginava na minha vida. Agora que eu tô melhorando um pouco. Mas tem dia que eu sinto tanta falta dele. Essas horas a gente se sente mal. É dor no peito, dor na nuca, coisaiada. Nossa! Tem dia que eu não tô podendo parar em pé. Mas Deus tem dó de mim e deixou eu esse restinho porque eu ainda preciso ajudar meu filho, né? Que ele não tá ainda no normal dele. Tá faltando um pouco ainda. Mas Deus vai curar ele. Se Deus quiser. Então a gente fica nessa esperança, né? Que Deus cura ele. Ele vem todo dia aqui na minha casa. Agora ele tá andando sozinho pra rua. Já tá andando sozinho, graças a Deus. Eu tenho muita fé nos três reis santos porque uma vez me deu um inchaço na cabeça. Minhas orelhas ficaram desse tamanho assim, ó. Os três reis santos me deu vida. Eu tenho até o retrato aí de quando eu saí com a companhia também e fiz minha festa. Aí eu pedi pro meu filho também, o Gentil. Eu tava grávida dele de seis meses quando me deu esse inchaço no rosto. Em vez de inchar o corpo inchou foi a cabeça. Aí eu fiquei muito mal porque eu tava grávida dele. Os médicos daqui tavam me tratando sinusite e não tinha condição. Meu ex-marido trabalhava em Furnas. Então o patrão dele falou: “Você vai levar ela lá em Furnas. Lá nós temos hospital, tem os médicos e tem tudo lá. Você vai levar ela lá. E amanhã eu vou dar o carro pra você levar ela”. Aí no outro dia ele deu o carro e meu ex-marido me levou pro hospital de Furnas, sabe? Até o médico que me tratou lá chamava Natanael. Doutor Natanael. Ô doutor bom! Só de ele pôr o negócio de pressão em mim ele já falou: “O que os médicos de lá falou que a senhora tinha?” Eu falei que tava com sinusite. Ele falou: “Se a senhora tivesse ficado lá eles tinham te matado. A senhora tá com mancha de inflamação nos rins”. Meu rosto ficou um mundo de inchado. Aí eu fiquei lá internada. Fiquei mais de um mês lá. Aí eu já tinha feito a promessa pros três reis santos, né? Que tivesse dó de mim, que me iluminasse e que não deixasse meu filho morrer não. Quando eu voltei eu já tava toda desinchada. Aí ele não deixou eu comer sal. Passei mais de um mês sem ver sal. Aí me fizeram o tratamento. Passou dois meses eu ganhei o Gentil, que é esse. Tadinho. Os três reis santos já deu uma vida pra nós e agora vai dar outra pra ele. Porque meu filho não pode falecer, porque eu já tinha perdido um. Como é que eu ia fazer? Agora eu tenho que cumprir. Graças a Deus ele tá aí. Tá quase bom. Se Deus quiser ele vai ficar como ele era de novo. A cabeça dele falta um pouquinho ainda. Mas ele já tá andando sozinho, já sabe conversar, sabe falar com os outros, conhece todo mundo. Até ler e escrever ele já tá escrevendo. Deus é muito bom pra gente. Nossa Senhora. Graças a Deus meu filho tá bom. Ele vem todo dia aqui em casa. Todo dia cedo ele tá entrando aí: “Mãe, cadê a senhora?”. MARIA JOANA ALVES, 2018 177 Curiosamente, na casa da Sra. Maria Joana Alves o caixeiro da Companhia dos Noel não tocou a caixa, contrariando o que havia sido predito pelo folião Geraldo Miranda. De fato, existe entre os foliões de reis do sul de Minas Gerais, ao lado de um respeito com as regras e regulamentos da tradição, uma grande variedade de interpretações em relação às suas práticas musicais. O folião Vitor Vicente Borges já havia me dito que “um quer saber mais do que o outro, mas na verdade tá todo mundo aprendendo”, assim como o embaixador Tiãozinho já havia me alertado que “cada embaixador leva de um jeito. É a linhagem que você aprende”. Estas diferentes abordagens em relação ao tocar ou não os instrumentos de percussão quando se canta aos falecidos, ao consumo ou não de bebidas alcoólicas, ao agradecer ou não as refeições quando elas são oferecidas como pagamento de promessas, ao sair ou não com a companhia fora do período da jornada, ao incorporar ou não ritmos mais ligeiros no hino de reis, entre outras práticas que se situam entre a tradição e a “desobediência” de seus preceitos, nos revela que o universo das companhias é muito mais heterogêneo, dinâmico e negociável do que geralmente se pressupõe, assim como a linha que separa o que está dentro da tradição daquilo que supostamente está fora dela é muito mais tênue do que podemos imaginar. 6.3. A música sertaneja raiz Como pudemos observar nos relatos de alguns foliões da Companhia dos Noel, existe uma forte identificação e apreço dos foliões de reis pela chamada música caipira tradicional e pela música sertaneja raiz. Vitor Noel, por exemplo, me contou que gosta muito “do estilo do Tonico & Tinoco, do estilo do Tião Carreiro e de todas as duplas boas [...]”. O embaixador da companhia, Vitor Vicente Borges, também me disse que, certa vez, foi “num show do Jacó e Jacozinho lá em Bragança Paulista” e demonstrou todo seu conhecimento sobre as relações de parentesco das antigas duplas caipiras. O folião Vitor Domingos Tibúrcio, ao me explicar os motivos de sua companhia não cantar o agradecimento angola, disse que “o angola é aquele batidão de Moreno & Moreninho”. Ou seja, a relação que os foliões possuem com o universo da música caipira e sertaneja de raiz realmente é muito forte, algo que pode ser constatado pelo fato de que, sempre nos momentos de pausa e nos intervalos das cantorias dos hinos de reis, eles sempre cantam músicas deste cancioneiro. Entre as companhias de reis estudadas, a ideia de que estes dois universos (dos hinos de reis e da música caipira) pressupõem uma separação dos domínios sagrado e profano não se aplica, já que a produção e as atividades musicais dos foliões se apresentam de forma muito 178 mais híbrida, dinâmica e heterogênea do que termos como sagrado e profano são capazes de categorizar. O fato de existirem diferenças de repertórios, de condutas sociais e a formulação de categorias que sugerem uma divisão estanque destas dimensões na prática dos foliões, não deve nos levar à afirmação de que as jornadas estejam associadas exclusivamente à prática sagrada e que as cantorias de música caipira sejam “desvios”, pelo fato de esterem associadas à dimensão profana e supostamente destituídas de caráter sagrado. As performances e condutas sociais dos bastiões, que pulam, gritam, dançam, fazem suas estripulias, resolvem as amarrações e às vezes são até castigados pelos devotos e donos das casas, refletem uma dimensão lúdica e até mesmo agonística que ocorre onde muitos chamariam de domínio do sagrado, enquanto que a própria existência de uma restrição ou moderação no consumo de álcool sugere que, mesmo quando os foliões estão na rua cantando suas modas de viola, eles não podem vivenciar por completo o domínio do profano. Como a dimensão sagrada e mágico-religiosa da prática devocional possui um constante diálogo com o regionalismo da música caipira e sertaneja de raiz, onde os hinos de reis são dinamizados por um processo catalizador e aglutinador destas diferentes práticas sociais e musicais, se torna inviável apresentá-las de forma separada uma da outra, ainda que categorias como sagrado e profano possam ter utilidade para um recorte empírico mais geral antes de nos proporcionar uma melhor compreensão das relações que estas práticas possuem entre si. Se de um lado prevalece um caráter mais introspectivo, de seriedade devocional e de respeito religioso, imprimido nos foliões e devotos através dos hinos de reis e aproximando-os do universo religioso e sagrado do cristianismo, este mesmo caráter é incutido nos foliões de reis quando eles estão executando modas de viola com letras trágicas, por exemplo. Por outro lado, da mesma forma que o caráter mais jocoso, lúdico e descontraído de muitas músicas do segmento caipira e sertanejo que versam sobre as relações profanas e cotidianas dos foliões estão presentes em gêneros como o cururu, a querumana e outros gêneros com letras mais extrovertidas, este caráter também pode ser observado em diversos momentos pelas práticas e pelas posturas dos bastiões das companhias, que muitas vezes beiram uma dimensão profana do trabalho religioso. É neste sentido que o caráter e as diferentes dimensões do fazer musical e artístico transitam entre os foliões de reis independente do repertório que estejam tocando, trazendo para seus praticantes concepções artísticas distintas nas suas formas de apresentação performática, mas dentro de ambos os universos de representações e significados. Foram inúmeras as situações onde a prática religiosa dos hinos de reis aconteceu lado a lado com a prática da música caipira e sertaneja de raiz. Uma destas situações aconteceu 179 enquanto seguia a Companhia Sagrado Coração de Jesus na tarde do dia 30 de dezembro de 2016, ocasião em que os foliões foram cantar na casa de um conhecido fazendeiro da cidade. Assim que a companhia terminou o hino de reis o fazendeiro “alugou” a companhia para que ela passasse a tarde em sua fazenda tomando algumas cervejas e tocando músicas caipiras e sertanejas de raiz. Na ocasião estava presente a dupla Campanário & Caminhense, formada por uma das personalidades mais importantes do universo da música sertaneja e sem dúvida uma das mais conhecidas na cidade: o violonista Jair Campanário. O violonista é famoso por seu virtuosismo técnico no instrumento e por ter sido durante treze anos violonista oficial da dupla Milionário & José Rico, com quem viajou por todo o país e com quem tem dezenas de músicas gravadas. Naquela tarde tive o privilégio de estar ao seu lado quando cantou reis pela primeira vez na vida: “Você sabe que eu nunca tinha visto um reizado na minha vida? [...]. Vim, acabei cantando umas modas e de repente estou aqui na folia cantando também. Reis”. Ainda que não seja folião de reis, o relato de Campanário é importante porque reflete bem a profunda relação que existe entre o universo das companhias de reis e universo das duplas caipiras, já que todo folião de reis geralmente também é cantador de música caipira e sertaneja. E ainda que nem todo cantador de música caipira seja necessariamente um folião de reis, existe um forte sentimento de pertencimento que sempre aproxima os sujeitos destes dois universos, sentimento este que dinamiza tanto os discursos e repertórios que representam um suposto universo profano da música caipira e sertaneja quanto os que representam o universo aparentemente sagrado do trabalho religioso de culto aos Santos Reis. Este forte sentimento de pertencimento também evidencia o importante papel catalizador, articulador e aglutinador destas diferentes práticas musicais, sendo a partir desta constatação que podemos discutir sobre os espaços destinados às práticas profanas e sagradas, demonstrando que as dualidades que pressupõem incompatibilidade de práticas distintas nem sempre são verificadas in loco. No caso de nosso campo de estudo, por inúmeras vezes vimos os foliões cantando e tocando suas modas-de-viola, pagodes, cururus, cateretês, querumanas e outros gêneros do cancioneiro caipira e sertanejo enquanto os bastiões declamavam as longas anunciações do nascimento de Jesus para o devoto e dono da casa. É neste sentido que o regionalismo típico das duplas caipiras, muitas vezes associado exclusivamente ao universo profano, se manifesta ao lado de uma dimensão que se pretende universal, como são as práticas musicais sagradas e religiosas do culto aos Santos Reis. São repertórios distintos que se mesclam o tempo todo na dinâmica do trabalho religioso, de modo que, em alguns casos, se torna difícil distinguir uma dimensão exclusivamente sagrada de uma dimensão exclusivamente profana, pois da mesma 180 forma que podem prevalecer o caráter introspectivo, de seriedade devocional e de respeito religioso na execução de uma moda de viola, pode prevalecer um caráter jocoso, lúdico e descontraído nas estripulias que os bastiões fazem quando caminham pelas ruas.46 46 Alberto IKEDA (2011: 15), por exemplo, observou que entre os grupos que acompanhou quando de seu estudo sobre as folias de reis na cidade de Goiânia na década de 1990, práticas musicais consideradas do universo profano, como o samba, sempre eram realizadas nos intervalos das práticas musicais do universo sagrado: “Um dos grupos era composto por migrantes do interior da Bahia. Estes, além da integrativa atividade devocional- religiosa, do âmbito do sagrado, também praticavam em alguns momentos o samba, característico do interior baiano de onde provinham, em determinados momentos do seu ‘giro’ (percurso), sobretudo após as refeições, que, centrado nesta atividade cuja aparência primeira era somente o entretenimento, igualmente propiciava uma importante interação, identificação e distinção social na comunidade, sobretudo entre membros migrantes da mesma região. Assim, duas expressões comumente compreendidas como antagônicas, uma profundamente religiosa e outra profana, se complementavam no grupo, nos mesmos espaços dos cultos, aproximando, por sua vez, simbolicamente, os reis (magos, neste caso) e o povo, daí o título escolhido. Afinal, nas culturas tradicionais também os deuses estão comumente bem mais próximos dos homens”. 181 7. Uma mulher no comando: a Companhia Nossa Senhora de Fátima Embora eu já conhecesse alguns foliões há algum tempo antes de iniciar o trabalho de campo, principalmente aqueles ligados às duplas caipiras da cidade e da região, outros foliões eu passei a conhecer apenas alguns dias antes do início da jornada de 2015-2016 ou depois de já ter iniciado o giro das companhias. A organizadora e responsável pela Companhia Nossa Senhora de Fátima foi uma das foliãs que conheci poucos dias antes de iniciar o trabalho de campo, cujo encontro aconteceu em sua própria casa, no bairro Vila Esperança. Não conhecia Dona Consolita pessoalmente, de modo que entrei em contato por telefone para agendar uma visita para conversarmos e negociar minha presença junto à sua companhia nos doze dias de jornada daquele ano. Esta primeira visita feita em sua casa me deixou bastante impressionado pela quantidade de imagens de santos e objetos relacionados ao catolicismo presente em sua sala, um verdadeiro santuário de culto aos santos católicos para muito além dos Santos Reis, o que pode ser observado pelo próprio nome de sua companhia. Além do respeito e da admiração que os demais foliões da cidade têm pela Companhia Nossa Senhora de Fátima, este sentimento se estende para a figura da própria Dona Consolita, por conhecerem as dificuldades que ela enfrenta para manter a companhia ativa todos os anos desde que seu irmão faleceu no ano de 2009. Foi seu falecido irmão Albertino, conhecido na cidade como Libertino, quem fundou a companhia e também quem passou a responsabilidade de manter viva a tradição para a irmã, através de um pedido feito alguns dias antes de falecer. Faz vinte e cinco anos que eu saio com a companhia, mas eu nasci nisso. No tempo do meu pai a gente saía todo ano, depois eu saí fora daqui de Alfenas. Agora eu voltei e já faz vinte e cinco anos que eu tô junto com essa turminha aqui. Tem o sanfoneiro que tá com trinta e sete anos nessa companhia. Tem o Zé Rosa e o Tadeu que tá desde criança, que era da companhia do meu irmão. Agora faz seis anos que meu irmão faleceu e eu tô seguindo sem ele. [...] O desejo dele era que a companhia nunca ficasse um único ano sem sair, ele fez o pedido pra mim uns dias antes de morrer. Depois que ele morreu eu juntei os folião e disse que a gente ia continuar. É a promessa que eu fiz pra ele. E vou levando. MARIA CONSOLITA, 2015 Uma característica importante da Companhia Nossa Senhora de Fátima, que de certa forma lhe confere singularidade em relação às demais companhias da cidade, diz respeito ao fato de possuir em sua formação a maior quantidade de foliões de fora da cidade, algo que decorre, entre outros motivos, do falecimento de alguns de seus antigos foliões e também da falta de interesse da geração mais nova. Estes foliões, todos eles da cidade vizinha de Monte Belo, vêm para Alfenas todos os anos para ajudar Dona Consolita a cumprir a jornada de sua 182 companhia e assim manter a promessa que fez a seu irmão, algo que tem um alto custo para a foliã e devota, já que cabe a ela pagar os deslocamentos dos foliões entre uma cidade e outra e as diárias destes foliões para que eles possam se manter na cidade pelos doze dias do trabalho religioso. Nesta demanda, de trazer foliões da cidade vizinha, Dona Consolita conta todos os anos com a ajuda de Oswaldinho, seu ex-companheiro e um dos embaixadores da companhia. É ele quem recruta todos os anos dois de seus irmãos, Vicente e Luís de Brito, e o embaixador Carlos Antônio Aparecido Donizette, que saem da cidade de Monte Belo exclusivamente para ajudar a Companhia Nossa Senhora de Fátima nos doze dias de trabalho religioso. Além de mim tem o Luís, o Leandro, o Alessandro e o Oswaldinho. O mais caçula também é embaixador, o Alessandro. Tem vinte e oito anos e é embaixador. Ele e o Oswaldinho. Mas o Alessandro sai em outra companhia lá em Monte Belo, porque nós somos de Monte Belo, né? Então a gente sai de lá pra ajudar o Oswaldinho aqui, porque aqui faltam foliões. E tem o João também, mas o João não gosta de cantar. Só quer saber de bater caixa. [...] Antigamente era só irmão. Nós também somos cinco cantadores na minha casa. Somos cinco irmãos. Antigamente era até voz de quinta, né? Eles falam voz de sexta, mas não é sexta. É voz de quinta porque tem o que ajuda, né? Tem o embaixador, o que ajuda, o respondão, né? Aí depois vem o contrateiro, depois o que canta quatro, depois o cinco e depois o seis. Muitos falam voz de seis, mas tirando o ajudante dá voz de cinco. Porque o que ajuda tanto faz ajudar como não ajudar, porque o contrato cobre a voz dele. Igual tá lá meu irmão cantando a voz de contrato, então se eu fosse cantar minha voz teria que cobrir a voz daquele que tá no meio lá. Aquele do meio tanto faz, ele tá no meio ali ajudando como não tá que dá na mesma coisa. E depois do contrafino e do fineiro tem outra voz também, uma voz mais fina do que a minha: a voz de sete. É a tala que eles falam, a voz mais fininha que dá pra trás. Aquele último grito. Então seria até mais bonito se tivesse a tala aqui junto, ia ser mais alto. Mas quando a gente cantava em irmãos ia só até a quinta voz. VICENTE DE BRITO, 2017 Os irmãos Luiz de Brito, Oswaldo de Brito e Vicente de Brito, mineiros de Monte Belo. 183 7.1. As mulheres nas companhias Maria Consolita, a rainha das companhias de reis do Brasil. 184 Alguns foliões dizem que antigamente a participação das mulheres nas companhias era bastante restrita e até mesmo proibida, tendo como argumento o fato de que os três reis magos não teriam levado suas esposas na viagem pelo deserto para encontrar o menino Jesus. Neste sentido, dizem alguns que a presença feminina nas companhias poderia deturpar o significado simbólico de “representação” da viagem original realizada pelos três reis magos. No entanto, apesar das mulheres sempre terem estado presentes neste trabalho religioso como cozinheiras, preparando os almoços e jantares para os foliões, atualmente elas têm assumido funções que antigamente eram designadas somente aos homens, como as de bastianas, cantadoras e foliãs reponsáveis e organizadoras pelas companhias. Assim, se mostra importante falar um pouco destas transformações sociais e sobre as funções que vêm sendo ocupadas pelas mulheres, a começar pela própria Dona Consolita, cuja dedicação para manter viva a tradição de reis da companhia de seu irmão lhe rendeu o título de “rainha das companhias de reis do Brasil”. A homenagem que eu recebi foi no dia vinte e dois de novembro, dia da consciência negra. O senhor Afonso veio lá de Niterói, que ele tem uma editora lá, e me coroou com uma coroa como a rainha das companhias de reis do Brasil, porque a única mulher que comanda companhia de reis sou eu. Eu com vinte e seis anos aqui em Alfenas seguindo essa companhia junto com meu irmão, e agora oito anos sem ele. Eu vou seguindo como posso. MARIA CONSOLITA, 2017 A bastiãzinha Camile Vitória Novaes de Oliveira, com apenas treze anos, já se destaca entre os garotos da Companhia Nossa Senhora de Fátima. 185 Uma das bastiãzinhas da companhia é sobrinha de Dona Consolita, e com apenas treze anos Camile Vitória Novaes me contou que já faz dois anos que sai com a companhia de sua tia: “Sou sobrinha da Consolita. Eu acho muito bom porque eu gosto desde pequena. Gosto de representar os três reis santos. Meu irmão também é bastiãozinho, ele descansa cedo e sai de tarde. Meu tio também é folião, irmão da Consolita”. A Companhia Reis do Oriente também possui entre seus foliões a bastiãzinha Maria Vitória Fagundes de Melo, sobrinha do folião João Franciso Dias Sobrinho: “Faz três anos que eu trago ela pra sair com a companhia. O Cantarelli pediu uma força pra mim e eu vim dar uma força pra ele com muita satisfação, porque cantar pra Jesus é muito bom”. As funções de bastiana e de bastiãzinha são bastante ocupadas pelas mulheres, sendo poucas as companhias que não possuem suas representantes femininas nestas funções. No caso das bastiãzinhas, existe um claro desejo dos foliões mais velhos de que no futuro elas se tornem uma bastiana capaz de declamar versos improvisados, uma foliã cantadora ou até mesmo uma embaixadora. Ainda que das treze companhias deste trabaho a única que possui uma foliã cantadora seja a Companhia da União, pude ouvir alguns relatos que evidenciam uma forte presença de mulheres nesta função. A devota Maria Aparecida, que recebeu a Companhia dos Noel em sua casa, me contou que quando era criança saía com a companhia de seu pai e cantava junto com os homens: “Eu cantava e às vezes minha irmã ia junto e cantava também. E tinha minha sobrinha que também cantava. Era bom demais. Agora acabou. Só tem saudade”. No entanto, a presença das mulheres não se restringe às companhias de reis, mas também se faz presente em outros rituais do catolicismo popular, sendo alguns deles destinados exclusivamente a elas e nos quais a participação dos homens é terminantemente proibida, como acontecia com as pastorinhas, que já não existe mais na cidade. O embaixador da Companhia dos Santos Reis me contou sobre o fim da tradição das pastorinhas e sobre a qualidade vocal das companhias formadas por mulheres no município vizinho de Carmo do Rio Claro. Tem as pastorinhas também, que aqui nem sai mais. Mas saía. Lá no Carmo do Rio Claro sai mais de trinta, quarenta mulheres. Tem companhia de reis só de mulher. Se você visse a companhia de reis que eu vi lá no Carmo do Rio Claro só de mulher. São duas embaixadoras, elas embaixam em dueto fazendo segunda uma pra outra. É a coisa mais linda do mundo. Quando eu parei com a companhia perto delas, que eu vi elas cantando, deu vontade até de juntar os instrumentos e ir embora. Não tinha nem como cantar perto daquele povo. Tava muito afinado. É violino, é bandola, é cavaquinho, é pandeiro. Agora a gente é com dois, três violãozinho. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 186 A bastiãzinha Maria Vitória Fagundes de Melo, sobrinha de um dos foliões da Companhia reis do Oriente. Por fim, cabe mencionar a função das mulheres como cozinheiras e responsáveis pelos almoços e jantares oferecidos às companhias, pois sem elas os foliões não se alimentariam e o trabalho religioso sem dúvida não aconteceria. É bastante comum vermos uma companhia se retirar da casa onde almoçou ou jantou quando o devoto que recebeu os foliões, geralmente repreendido por alguma mulher da casa, os chama de volta para cantar em agradecimento ao trabalho das cozinheiras. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a Companhia da Irmandade, quando cantou na casa do devoto Fabinho. A companhia já estava se retirando quando sua esposa o fez chamar os foliões de volta para cantar alguns versos para as cozinheiras. Minha esposa quem fez tudo bem dizer. Ela tem razão de pedir esse verso. Ela tá certa de me cobrar esse verso porque ela tá desde ontem trabalhando aqui pra sair essa comida. Se não fosse ela não saía nada. Só que eu expliquei pra ela mais cedo agora o seguinte, que os três reis santos é complicado. Porque eu bem dizer não faço nada, só tenho nome porque o almoço é na casa do Fabinho. Ela quem faz tudo. Já falei pra ela ficar tranquila porque o que ela fez eles tão vendo. FABINHO, 2016 187 Bom, eu nem devota era. Quando eu casei que a gente começou a fazer. Eu e a minha cunhada, que nós duas quem fazemos a comida todo ano, porque a gente espera mais a folia de reis do que eles. E esse ano teve mais gente ajudando aqui, a gente teve a ajuda de muita gente ontem pra sair o almoço hoje. A gente começa no dia anterior preparando tudo e temperando. E no dia que a companhia chega nós começamos seis horas da manhã cozinhando. É trabalhoso, mas é gratificante. E a gente só tem a agradecer aos três reis. MIRIAN, 2016 Uma cozinheira que recebeu a Companhia dos Santos Reis durante a jornada de 2017- 2018 ressaltou o quão trabalhoso é o preparo das refeições aos foliões. Esse ano as cozinheiras foram eu, a Cleidinéia, a Neide, a Kelly e a Fia, que é a dona da casa. São as cozinheiras de hoje que fez com o maior carinho. É o maior prazer meu. Todo ano eu ajudo a fazer. Teve janta na minha casa semana passada, dia vinte e seis. É um prazer, faço com o maior carinho a comida. Hoje a gente começou oito e meia, mais ou menos, que começou a preparar. Picar os legumes, cozinhar o feijão [...]. Ontem nós picamos as batatas, as cenoura, as outras coisas nós picamos ontem à noite. Agora hoje a gente cozinhou o feijão e preparamos pra cozinhar as coisas. NARCILENE, 2018 No dia 28 de dezembro de 2015, no primeiro ano de trabalho de campo, a Companhia Estrela do Oriente cantou os seguintes versos depois de jantar na casa de um devoto: Nós já vamos agradecer Quem tratou dos folião Perguntou Nossa Senhora Quem tratou dos folião? Respondeu meus três reis santos Foi os filhos da benção Os trabalhos das cozinheiras E o milagre da bandeira No dia 06 de janeiro de 2016, a Companhia dos Noel cantou os seguintes versos: Perguntou Nossa Senhora Quem tratou dos folião? Respondeu meus três reis santos Foi os filhos da benção Que almoço abençoado Que vós deu para a companhia Já ficaram abençoado Filhos da Virgem Maria Ainda falta agradecer O trabalho das cozinheiras Nóis despede da bandeira Filho da Virgem Maria. 188 No dia 03 de janeiro de 2016, depois de ser chamada de volta pelo devoto Fabinho, a Companhia da Irmandade cantou os seguintes versos para agradecer as cozinheiras: Ai a bandeira no seu quarto Ai a bandeira no seu quarto Ai traga ela, por favor Ai traga ela, por favor Ai ela é nossa sentinela Ai ela é nossa sentinela Ai nóis não pode cantar sem ela Ai nóis não pode cantar sem ela Ai é pra nós agradecer Ai é pra nós agradecer Ai a sua boa vontade Ai a sua boa vontade Ai perguntou Nossa Senhora Ai perguntou Nossa Senhora Ai quem tratou dos folião? Ai quem tratou dos folião? Ai respondeu meus três reis santos Ai respondeu meus três reis santos Ai foi a filha da benção Ai foi a filha da benção Ai pro senhor o que é seu Ai pro senhor o que é seu Ai meus três reis vêm abençoar Ai meus três reis vêm abençoar Ai o milagre da bandeira Ai o milagre da bandeira Ai vai ficar pras cozinheiras Ai vai ficar pras cozinheiras Neste mesmo dia, o embaixador Carlos Antônio Aparecido Donizette, da Companhia Nossa Senhora de Fátima, fez a seguinte oração de agradecimento pela janta que estava sendo oferecida pelo casal de devotos e pelo trabalho das cozinheiras. Nessa hora pedimos silêncio A todos os que forem devotos Porque esta mesa representa A mesa dos doze apóstolos Numa quinta-feira santa Jesus fez sua última ceia Na mesa dos doze apóstolos Os Anjos todos ali rodeiam 189 Mas nós não somos os doze apóstolos Mas fizemos comparação A água se torna carne E o vinho se torna o pão Mas a água foi aprovada Pra depois da refeição Deus lhe pague essa bela janta Que o senhor deu pra companhia O que se faz aqui na Terra Lá no Céu recebe um dia Vamos agradecer também A sua bela mistura Vou pedir pra Deus do Céu Pra lhe dar muita fartura Recompensa dos Santos Reis Lá do Céu chega muito bela Abençoa os seus pratos Seu fogão e as panelas Meu senhor dono da casa Deus do Céu mandou falar O alimento na sua casa Ele não vai deixar faltar Ele não vai deixar faltar Nesta hora abençoada Deus do Céu coloque um Anjo Em cada canto dessa morada Em cada canto dessa morada Toda hora e todo dia Vou pedir pros Santos Reis Pra proteger sua família Terminando esta oração Nessa hora verdadeira Vamos dar uma salva de palmas Pra vocês que são cozinheiras Eu e já toda a companhia Que belo gesto que vós tem Se Deus do Céu ficou contente Quem lhe agradece é Santos Reis Eu joguei com São Francisco Na mesa da refeição Ele ganhou na sala E nós ganhamos a salvação São Francisco das Chagas É o pai da pobreza Dai todo ano a esta família O que por em cima dessa mesa Santos Reis. Rogai por nós. Nossa Senhora. Rogai por nós. Divino Espírito Santo. Rogai por nós. 190 E todos os santos. Rogai por nós. Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado. Em cima dessa mesa Tem um pingo de orvalho Pras senhoras cozinheiras Deus lhe pague o seu trabalho CARLOS ANTÔNIO APARECIDO DONIZETTE, 2016 À frente, o embaixador Carlos Antônio Aparecido Donizette, responsável pelos versos para as cozinheiras; todos os anos ele sai de Monte Belo para ajudar Dona Consolita com sua companhia. 7.2. O trabalho dos foliões Chega na época de companhia de reis, de sair, a pessoa não consegue dispensa do serviço de jeito nenhum. Não consegue. Aí o que acontece, até aqueles foliões que saiu a vida inteira, ele tem a fé, não é que ele perdeu a fé, mas ele tem que comer também. Então muitos pais de família não podem largar do serviço pra sair com a companhia. MARQUINHO DIDICO, 2016 Quando coincide o dia da folga de final de ano do trabalho com os dias do giro os foliões dizem: “Todo ano dá certo. Na época certinha o serviço termina e a gente dá certo de sair na companhia. Todo ano”. Já é por eles mesmo que acontece, pelos três reis. Todo ano dá certinho. A gente já trabalha pedindo pra eles abençoarem esse lado de dar os dias certos, pra não ter serviço e a gente sair na companhia. ADRIANO DA SILVA, 2018 191 Quando eu era mais novo e trabalhava com meu pai, aí nóis trabalhava por nossa conta própria. Aí nóis saía. Aí depois eu comecei a trabalhar na Ipanema, e lá eu perdi o serviço por causa de companhia de reis também. Eu era fiscal lá. Eles tavam apanhando laranja eu cheguei perto do gerente e falei pra ele: “Oh moço, tal dia eu vou sair com a companhia de reis”. Ele disse: “Não, você não pode que você tem serviço”. Eu falei: “Mas porque não? Eu vou sair. Depois você vê o que vocês vão fazer comigo”. Quando eu voltei eles me mandaram embora. Daí eu entrei na prefeitura. Faz vinte e cinco anos que eu tô na prefeitura. Há uns vinte e três anos atrás eles deixavam eu sair, mas de uns três anos pra cá que eles não deixam mais não. A prefeitura não deixa eu sair mais. O que que eu fiz? Eu tenho férias prêmio, tirei férias dia vinte e oito e vou até o dia vinte e oito agora. Nóis canta reis e depois eu vou descansar um poco. Agora tem muitos aqui que trabalha por conta própria, tem muitos que é aposentado. Aqui pobre todo mundo é. Mas é todo mundo rico. Todo mundo é pobre, mas milionário. Todo mundo. MIGUEL RODRIGUES, 2016 Eu trabalho registrado, só que eu deixei minhas férias pra tirar no dia vinte. Minhas férias vencem em março, aí venceu em março do ano passado e eu deixo pra tirar elas dia vinte pra poder sair com a companhia. Mas dois empregos meus eu perdi por causo da companhia. Eu era retireiro e o patrão falou: “Ah, você não pode sair, não pode largar o emprego”. Eu respondi: “Eu já avisei que se não arrumar outro pra por no meu lugar, chegou dia vinte e cinco eu vou embora pra companhia de reis. Depois se não arrumar e quiser me dar o emprego de novo eu volto”. Ele falou: “Ah, mas não tem jeito, vou ter que por outro”. Então põe. Chegou na época da companhia de reis se lá não me desse férias eles iam se virar, porque eu não ia abandonar a companhia. Se der certo assim dá, agora se não der... OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2015 Como já foi apontado por outros autores47, existe uma clara incompatibilidade entre o trabalho assalariado que os foliões exercem durante o ano e o trabalho religioso exercido nos doze dias de culto e adoração aos três reis santos. Isso acontece porque, quando os foliões que estão na ativa não são dispensados de seus serviços para sair com suas companhias, eles têm apenas duas opções: trabalhar durante o dia e ir ao encontro da companhia no final da tarde; 47 O violeiro Téo AZEVEDO (2007: 03) conta que seu pai, por vários anos e em diversas regiões, foi garimpeiro de cristal, tendo com ele uma grande tropa de homens e animais para trabalhar em qualquer lugar do Norte de Minas Gerais e na região do Vale do Jequitinhonha, mas “quando chegava a época de reis, ele largava tudo, dava férias aos camaradas e procurava uma Folia para participar”. Alberto IKEDA (2011: 85) observou que em Goiânia existe “o problema de compatibilização entre o trabalho e a participação nas Folias, já que são vários dias de jornada. Alguns foliões conseguem soluções como: pedido prévio de férias na época das jornadas ou a simples falta ao trabalho enquanto outros têm participação na Folia em determinados dias ou horas, que intercalam com o trabalho profissional. Tudo no sentido de ‘cumprir a devoção’”. Neste mesmo sentido Carlos Rodrigues BRANDÃO (1981: 24) observou que “Mestre Agostinho tem dificuldades em manter o seu pessoal em ordem como antigamente, na roça. Afinal, folia é coisa muita fé, insiste ele. No almoço do domingo em casa de um conhecido, dois foliões ficaram bêbados, deram trabalho e terminaram deixando o mestre irritado. Mas o pior é que os seus foliões, jovens em maioria, eram sempre empregados de alguma coisa, o que tornava impossível fazer com que a Folia girasse o dia todo, como sempre foi. Entre Natal e Reis eles se reuniam aos sábados (depois do almoço) aos domingos (o dia todo). Nos outros dias úteis eles fazem a jornada por umas poucas horas entre o fim da tarde e o começo da noite. Pela cabeça de Mestre Agostinho e de alguns dos seus companheiros mais velhos não cabia a idéia de que a bandeira dos Três Reis Santos pudesse sair por algumas horas, em alguns dias. Ele me lembrou costumes de sua roça de origem: «saiu em jornada, tá na jornada; só acaba quando acabar no dia 6 e é direto pra Santos Reis. Agora, onde já se viu?»”. 192 ou abandonar o trabalho e procurar outro emprego quando a jornada termina. Sobre a primeira destas situações o folião João Batista me disse que “[...] tá faltando uns folião nosso aqui hoje, porque tem uns que trabalha e vem só no final da tarde”. Com a mesma justificativa o capitão Gaspar Ribeiro “Keka” me disse que “quem trabalha registrado, por exemplo, se eles dão ordem pra sair eles vem acompanhar, quando não dão eles vem na folga de final de tarde”. Já sobre a segunda situação, o folião Licínio me disse o seguinte: “eu mesmo não posso trabalhar registrado que eu vazo do trampo. Se não me der férias eu pulo fora pra sair na companhia”, e seu companheiro, o folião Valter, me contou que prefere “perder o emprego do que perder a companhia. Já me aconteceu isso e não faz falta pra gente não, porque depois Santos Reis arranja outro”. A escolha entre perder o emprego ou a jornada é algo que de fato preocupa muitos foliões, existindo inúmeros relatos que descrevem esta situação. Quando me encontrei com o folião Osmair Cantarelli durante a jornada de 2016-2017, sabendo que ele havia acabado de ser eleito prefeito do município de Fama, perguntei se ele não devia estar em seu gabinete na prefeitura ao invés de fazendo o giro com sua companhia. A resposta que ele deu foi que havia assumido o cargo de prefeito no dia primeiro, mas que só estaria presente de fato no gabinete após o dia seis de janeiro, depois que terminasse a jornada das companhias: “De que adianta eu ser prefeito da cidade se eu não cumprir minha promessa que eu tenho com os Santos Reis? Se não cumprir o compromisso que tenho com ele como é que eu vou dar conta de cumprir o compromisso que eu tenho com o povo lá na cidade?”. A Companhia Nossa Senhora de Fátima, com Dona Consolita à esquerda empunhando sua bandeira. 193 Ainda que a perda do emprego não assuste alguns foliões (principalmente quando eles consideram o risco de desagradar Santos Reis, algo que pode ser ainda mais perigoso), existe a possibilidade de alguns deles receberem pelos dias que saem junto das companhias, e ainda que nenhum folião goste de assumir declaradamente que paga ou recebe alguma quantia em dinheiro para fazer os giros, justamente por desviar o propósito sagrado, devocional e não remunerado do trabalho religioso, existem alguns casos onde estes pagamentos são feitos. O folião Fábio, por exemplo, que cuida da parte financeira da Companhia Sagrado Coração de Jesus, me disse que sua companhia tem a graça dos foliões não cobrarem para fazer a jornada: Eu tô administrando essa parte financeira da companhia já há quatro anos, junto com o Vicente e o Tiãozinho aqui. E o dinheiro arrecadado é o seguinte: a gente soma, faz a parte da despesa, que é gasolina, alguma coisa que tem que comprar pros folião, e no final o montante a gente direciona pra festa do dia seis. No pagamento pros folião nós temos essa graça de ninguém receber. O pessoal sai por devoção, por gostar do que faz. Essa parte a gente tem esse prazer de sair todo ano por amor. Ninguém estipula um valor que quer receber. Não tem isso. Ninguém sai por dinheiro não, a gente sai por gosto e por amor aos Santos Reis, por devoção. A gente tem o prazer de cumprir as promessas que o pessoal faz. FÁBIO DONIZETE ALEXANDRE, 2016 Quando a companhia não tem despesas para pagar os foliões, esse dinheiro é repartido entre a igreja e a festa de chegada, ou seja, quanto menos dinheiro a companhia gastar com os foliões mais dinheiro sobra para a festa. Por esse motivo, geralmente as festas das companhias que não precisam pagar seus foliões são mais grandiosas e seu público muito mais numeroso. A festa de chegada e entrega da bandeira feita pela Companhia Santa Bárbara, por exemplo, é considerada por muitos como a maior festa de todas as companhias, sendo que um dos fatos que possibilita que essa festa seja feita para mais de mil pessoas é justamente o fato de seus foliões não cobrarem para sair durante os doze dias de trabalho religioso. Tem companhia de reis aqui em Alfenas que sai e os foliões às vezes cobram o dia. Então não tem nem condições do dono da companhia pagar uma festinha. Não tem nem condições. Agora aqui nos Bárbaras não. Aqui nos Bárbaras nós saímos por devoção mesmo e todo mundo ajuda, coopera e ninguém cobra nada. Então aqui na região quem faz festa de reis mesmo que eu conheço é aqui nos Bárbaras, porque o povo aqui coopera e ninguém cobra nada mesmo. Então é tudo devoção e amor mesmo um com o outro. Porque tem várias companhias de reis boas na cidade, até já participei de algumas. Só que o pobrema lá é que não tem como eles fazer uma festa, né? Não tem como. Chega o dia da chegada, entrega a bandeira e vai cada um pra sua casa. Não tem como. E aqui não. Aqui graças a Deus o povo ajuda, coopera e faz festa até hoje. Então enquanto eu puder ir ajudando eu vou ajudar porque pra mim é uma coisa muito significativa com a minha fé que eu tenho nos três reis santos. DONIZETI DE LIMA MESSIAS, 2015 194 Os foliões João Santana (cavaquinho), Tadeu (caixa) e Zé Messias (sanfona) da Companhia Nossa Senhora de Fátima tocam em frente à casa de uma devota que havia acabado de receber a companhia. Ainda que na maioria dos casos o dinheiro arrecadado durante a jornada vá para a festa de entrega da bandeira e para a capela dos Santos Reis, existem companhias que destinam parte do valor arrecadado para ajudar seus foliões, o que pode gerar alguns questionamentos e desconfortos dentro da companhia, motivo pelo qual muitos foliões não gostam muito de falar sobre o assunto. Mas embora esta prática seja mal vista por alguns, outros simplesmente não se importam em falar sobre essa questão. Dona Consolita é uma dessas foliãs, que diante das dificuldades para encontrar foliões dentro da cidade para substituir os antigos foliões de seu irmão, não pensou duas vezes e recrutou quatro foliões da cidade vizinha de Monte Belo para garantir a saída da companhia, ainda que tenha que arcar com algumas despesas. Isso é algo que ela faz com muito orgulho, pois cumprir a promessa feita ao seu irmão é mais importante do que os custos que tem com seus foliões.48 Mas Dona Consolita é uma das raras exceções, 48 Sobre este pagamento dos foliões, Carlos Rodrigues BRANDÃO (1981: 25) faz a seguinte observação: “Todos os mestres com quem conversei no Sul de Minas garantem que saem por voto ou por devoção, nunca por interesse. Todo o dinheiro que recebem pelo caminho é gasto na festa do dia 6 ou é entregue aos pobres, como em Caldas. Nenhum deles imagina que um folião possa «pôr preço pra trabalhar pra Santos Reis», como um deles me dizia com espanto. Mas em Campestre um velho camponês acha que a Folia de Reis vai acabar, «não demora». Antes havia condições ideais nos lugares («na roça») e nas pessoas (na «gente da roça»). Agora, sobretudo na cidade, tudo é difícil e mesmo alguns mestres de Folia começam a passar do trabalho pros Reis, pra trabalho por dinheiro: «Machado, Campestre, antigamente nós ia muito em festa, pras beiras, pros fundos. Roça tem muita economia. Hoje tá difícil, principalmente na cidade. Folia de Reis antes não tinha preço (não era paga). Hoje, se o festeiro quer Folia ele tem que ajustar com os companheiros. Os folião quer ganhar por dia 195 pois geralmente os foliões não gostam de associar a jornada ao pagamento dos foliões, já que o ideal seria que todos saíssem pela fé e devoção no santo. Em muitos relatos fica claro que, mesmo que oficialmente os foliões não recebam para fazer a jornada, o grupo sempre ajuda aqueles que deixaram seus empregos ou que estão passando por alguma necessidade. Nós aqui somos uma comunidade. Aqui é com respeito. Nós somos parte da religião. Tem um aqui que tava trabalhando de pedreiro e largou pra ajudar a gente. O sanfoneiro que tá com a gente também. Eles estão contribuindo com a bandeira dos três reis santos, mas falar que eles ganham e tem salário pra isso, não tem não. Uma ajuda às vezes a gente dá. Nós vamos fazer a chegada lá e se alguém estiver precisando nós vamos dar uma cesta básica ou uma granginha pra um ou pra outro. Se estiver precisando. Mas salário não tem não. E eu acho que não pode ter. Religião não pode ter salário. É uma participação. Uma união. E a união faz a força. E se você pagar você tem como cobrar do cara, né? “Olha, hoje você chegou atrasado no serviço hein”. JOSÉ ROBERTO, 2016 Esta ajuda oferecida, principalmente aos foliões mais necessitados, nunca é vista como o pagamento de um salário, ou seja, como um compromisso entre empregador e empregado, mas sim como uma retribuição por terem deixado seus empregos para se juntar à companhia ou mesmo por estarem alguns deles desempregados. Assim, pude encontrar esta prática em um número relativamente grande de companhias, muitas delas aliando esta prática com a tradição de destinar parte do dinheiro para a festa de chegada e para a igreja dos Santos Reis. Uma prática que, por complementar a renda dos foliões, muitas vezes é vista como natural e até mesmo necessária para manutenção e perpetuação da tradição. Eu mesmo saí uma vez pra mim e fiz a festa lá em casa. Paguei a turma toda e aí me sobrou lá. Há uns quatro anos atrás me sobrou trezentos e cinquenta reais livrinho de tudo que eu fiz com a companhia de reis. Cheguei na porta da igreja e o padre tava lá. Ele tava fechando a igreja. Tava o padre e mais um. Eu cheguei com os trezentos e cinquenta no bolso pra fazer a doação. Ele tava saindo. Aí eu subi um degrau da escada e ele conversando no último ali pra entrar pra dentro. Falei pra ele: “Ó, tava querendo dar um cheguinho dentro da igreja, que preciso fazer um negócio aí”. Ele falou: “Mas que é que você tem que fazer? É muito urgente? Que nós estamos fechando”. Falei: “Não, é que eu saio com folia de reis, então o dinheiro que sobrou da companhia de reis eu vim fazer uma doação”. Na mesma hora ele deu meia lua, foi lá e abriu a igreja. Eu fui lá, pus dentro do cofrinho, fiz minhas orações, saí e fui embora. Ele ficou lá. Aí né, não sei o que aconteceu. Mas eu fiz a minha parte, né? Só que se eu não tivesse falado que ia fazer uma doação ele não ia deixar eu entrar dentro da igreja não, que ele já tinha fechado a igreja. Que hoje tá tudo mudado. Mudou tudo. GILBERTO GERALDO DOS REIS, 2015 fica muito caro. Antigamente matava frango, leitoa e dava pra todo mundo comer. Hoje eles mata porco, frango, leitoa e manda pra pagar os companheiros (os foliões)»”. 196 7.3. O auxílio do poder público As relações que os foliões possuem com o poder público, principalmente aqueles que são responsáveis pelas companhias, podem variar bastante e geralmente variam conforme a ajuda que sua companhia recebe para realizar a jornada, podendo ser uma relação amigável ou bastante tensa. A ajuda que os foliões esperam da prefeitura pode ser feita de diversas formas e está relacionada a uma infinidade de ações de fomento, como, por exemplo, o fornecimento de uma condução para realização da jornada, a doação de uniformes e instrumentos musicais, a existência de um responsável pelos assuntos relacionados à cultura tradicional na Secretaria de Educação e Cultura, entre outros. A partir dos relatos de alguns foliões, percebemos que não são poucas as tensões que se estabelecem entre as companhias e o poder público, sendo que até mesmo os padres são mencionados como responsáveis pela falta de incentivo para que as companhias cumpram sua jornada. Alguns foliões criticam, por exemplo, o fato dos padres não divulgarem o trabalho religioso das companhias nas missas a fim de conscientizar os fiéis que desconhecem os propósitos da jornada e têm uma visão negativa dos foliões quando estes andam pelas ruas. No entanto, a principal crítica recai mesmo sobre a administração pública, sendo Dona Consolita uma de suas principais críticas e questionadoras. Além das despesas que tem com seus foliões, Dona Consolita também teve gastos com o aluguel de um furgão particular para as jornadas de 2015-2016 e 2016-2017, quando não teve assistência da prefeitura para o transporte. Quando a encontrei no dia 26 de dezembro de 2015, ela estava indignada pelo fato de não ter conseguido com a prefeitura um veículo para transportar seus foliões naquele ano, muitos deles em idade já bastante avançada. Segundo ela, não cabiam todos seus foliões no veículo que a prefeitura havia oferecido e o motorista havia se negado a fazer duas viagens entre um bairro e outro, já que não era possível levar todos os foliões em uma única viagem. Cheguei ao seu encontro no exato momento em que ela discutia pelo celular com algum funcionário da prefeitura sobre esta questão da ajuda com o transporte, que ela acabou por abrir mão naquele e no próximo ano, voltando a aceitar o auxílio da prefeitura com transporte somente na jornada de 2017-2018, desta vez com a oferta de um micro-ônibus. Contudo, naqueles dois primeiros anos foi preciso que ela alugasse um veículo particular toda vez que precisava se deslocar com os foliões para algum bairro muito distante da cidade. De todos os responsáveis pelas companhias, Dona Consolita talvez seja quem possui uma relação mais conflituosa com o poder público. 197 Esta questão é uma das principais críticas dos foliões aos prefeitos, motivo pelo qual algumas companhias sequer recorrem aos funcionários da prefeitura para pedir auxílio com transporte, por já terem tido alguma experiência desagradável com a solicitação. Na jornada de 2015-2016, por exemplo, além da Companhia Nossa Senhora de Fátima, a Companhia dos Noel, a Companhia dos Benedette, a Companhia Sagrado Coração de Jesus e a Companhia Estrela do Oriente não aceitaram qualquer ajuda da prefeitura. Outro folião bastante crítico da precária e às vezes ausente assistência do poder público municipal para com as companhias de reis é o embaixador Divino Vitório dos Santos, da Companhia dos Santos Reis. Precisa de alguém que se interessasse por isso, não que se aproveitasse igual tão aproveitando da gente. Usam nosso nome pra fazer isso, mas não fazem nada pela gente. Ninguém faz nada. “Ah, nós ajudamos”. Não ajuda nada. É mentira. “Ah, tô ajudando a companhia”. Não tá ajudando nada. Se a gente precisar de uma condução nós temos que pagar do bolso, do contrário não sai mesmo. Se a gente precisar de camisa nós temos que mandar fazer se alguém não doar. Porque a prefeitura não dá nada e ninguém dá nada. A prefeitura tá dando essa condução pra sair aqui na cidade até nem não sei como. É o primeiro ano, porque o ano passado não quis fazer isso. [...] Tudo é resolvido lá na Casa de Cultura, não é? Esse ano nós resolvemos lá na reunião da Casa da Cultura condução pra gente. Marcamos a condução pra ir lá no Campo do Meio. Chegou na última hora eles deram a notícia lá que a condução só podia sair no município. Então tinha que ter conversado isso aí. Pra cantar aqui na cidade não precisa condução, aqui você anda de pé que aqui é pequenininho. Condução é pra sair pra fora, mas não pode sair pra fora de jeito nenhum. Que pra sair pra outra cidade é só condução da saúde, mais nada. Quando era o outro prefeito ele deixava sair pra toda banda. Mas eu vou te falar uma coisa pra você: As condução daqui vai lá em São Paulo buscar recurso pras escolas de samba. São Paulo. Mas pra companhia de reis não vai em lugar nenhum. A turma vai buscar recurso em São Paulo pra escola de samba, e São Paulo é longe. E nós não podemos ir aqui na porta de casa que é Campo do Meio. De todos os prefeitos só dois ajudaram as companhia de reis. O resto ninguém fez nada. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 Ainda sobre esta questão do transporte, outra crítica que muitos foliões fazem à forma como ele é oferecido pela prefeitura se deve ao fato de que, mesmo fornecendo condução para transportar as companhias, este transporte é restringido apenas para os limites do município, sendo proibido aos motoristas circularem com as companhias para as cidades vizinhas, algo que, segundo os foliões, prejudica a jornada e o alcance que as companhias poderiam ter na região. A comparação inevitável que alguns foliões fazem quando o assunto são os gastos da prefeitura é com as regalias que existem quando os veículos públicos são utilizados para as atividades do carnaval, por exemplo, havendo para alguns deles uma clara distinção na forma de tratamento que a jornada das companhias recebe em relação ao carnaval. 198 Nós fomos pra Monte Belo e pagamos uma conta de duzentos reais pra levar a gente lá porque a prefeitura não liberou o carro. Aí nós fomos lá num almoço de um senhor que tava com câncer no pâncreas, um fazendeiro muito rico. Aí nós fomos lá. Até falei pra ele: “Ó senhor, o senhor é um cara abençoado, viu? Porque a prefeitura não liberou o carro pra gente vir”. GARPAR RIBEIRO “KEKA”, 2016 O ressentimento que muitos foliões possuem em relação aos recursos destinados para o carnaval é potencializado pelo fato dos preparativos para a festa ocorrerem imediatamente após o fim da jornada, ou seja, logo que os foliões finalizam o trabalho religioso, muitas vezes realizado às penas e com poucos recursos, eles presenciam a aquisição de uma infinidade de materiais, equipamentos e a montagem de uma grande estrutura para um evento que irá durar um terço do tempo de duração da jornada das companhias. O embaixador Gaspar Ribeiro me disse que “pra carnaval eles têm uma estrutura muito forte: tarol, zabumba e mais a liberação de verba lá pra eles. E nós nem pra camisa não temos. Aí o que acontece? Você vê isso que tão vendo aí: uniforme ganhado que eu ganhei do Bento, do Pascoal e da Peixaria Cascata”. Além das despesas com o transporte, outra questão colocada pelos foliões é sobre as despesas com instrumentos musicais, pois tudo relacionado à compra, aos reparos e à manutenção dos instrumentos é pago com dinheiro dos próprios foliões, desde itens considerados baratos, como encordoamentos para viola e violão, até instrumentos cujo valor da manutenção é relativamente caro, como é o caso da sanfona. Eu vou te falar pra você. Não tenho nada contra todos os prefeitos. Atrapalhar a prefeitura não atrapalha, mas não ajuda também conforme é preciso não. Você entendeu? Se eu falar que ajuda eu tô mentindo. Conforme é preciso antigamente ajudava, dava jogo de camisa, dava farda, dava tudo, entendeu? Ajudava. Agora hoje, assim... ajuda, mas pouco. Ajuda pouco, precisava ajudar mais. Porque isso aí é igual ele acabou de falar ali. Nós todos somos trabalhadores, entendeu? Nós não vamos atrás de dinheiro, nós vamos atrás da fé que nós temos com os três reis santos. Só que é aquele negócio, nós não temos como tirar pra nós investir. Se for preciso comprar, por exemplo, uma sanfona, aonde compra? Custa cinco mil reais. Como é que vai comprar uma sanfona dessas? Entendeu? Uma caixa, um pandeiro, uma viola, um violão. Tudo tem preço e é caro. Você pode ver que nossos instrumentos são tudo já bem antiguinho. Por que? Por falta disso. Se a prefeitura chegar e falar: “Uma companhia de reis assim e assim, eu gostei dela. Pra cada ano, no caso, vamos dar uma sanfona, uma caixa e um pandeiro”. É pros três reis santos, então todo mundo é dono. Isso aí nós precisava muito. Se ajudassem a gente ficava muito satisfeito, porque é preciso. Veja bem: Se essa sanfona der um problema aí de estragar. Que tudo estraga, né? Tem que parar. Nós não temos outra, entendeu? Uma caixa é barato, pandeiro é barato. Mas a viola é caro, violão é caro, sanfona é caro. Tudo depende de dinheiro, né? JOSÉ AILTON DE PAULA, 2015 199 Minha sanfona zangô o fole dela. Minha sanfona é uma vermelha cento e vinte. Ela zangô, tá com o fole ruim então é seiscentos reais pra arrumar. Agora o que eu vou fazer? Eu vou tirar o dinheiro daqui pra arrumar a sanfona e deixar os folião sem? Não tem jeito. Então eu vou ter que tirar do meu bolso. Aí que vai acontecer? Ela vai ficar parada por um bom tempo até eu pegar, porque tá lá zangada minha sanfona cento e vinte. Essa sanfona veio de geração pra geração. Ela veio do meu tio pra mim. Então tá lá parada e eu sinto muito de não tá com ela aqui no peito tocando. E a manutenção de uma sanfona é cara. [...] Os gastos com instrumentos é tudo nosso. Inclusive até se a prefeitura ajudasse em instrumento, por exemplo, chegar pra companhia e perguntar se a gente tá precisando de algum instrumento, de uma viola, de um violão, e doasse pra gente. Pra eu tirar do meu bolso não tem como, porque eu tenho minhas filhas e ganho pouco também. Como é que eu vou investir aí seiscentos, oitocentos contos sendo que eu tenho criança também pra cuidar. Então a gente vai levando, esperando alguém que dá um patrocínio pra gente pra que a gente possa ter os instrumentos só pra companhia e deixar guardado. GARPAR RIBEIRO “KEKA, 2016 O único caso de doação de um instrumento musical me foi contado pelo folião Valter, da Companhia da Irmandade. O folião me disse que para conseguir o instrumento teve que apelar diretamente para o prefeito, na época em que era seu empregado. No entanto, neste caso específico, a doação do instrumento deve ser considerada como uma doação da pessoa do prefeito, não como consequência de políticas públicas promovidas pela prefeitura. Quando eu saí com eles o meu sentido toda vez foi viola. O seu Maurílio sempre dava almoço lá no Jardim Aeroporto na casa das irmãs dele. Aí um dia teve uma vaguinha lá, eu peguei e cheguei perto delas e falei: “Escuta, vou fazer um pedido pra vocês: Se por acaso pro ano que vem, se tiver no alcance de vocês, pra vocês doar uma viola pra mim”. Porque eu tava trabalhando pra ele, sabe? Elas falaram: “Não, nós doamos sim. Nós doamos uma viola pro senhor sim. Na hora que tiver faltando uns quinze, vinte dias pra sair o senhor comunica o Maurílio”. Aí eu comuniquei com ele e graças a Deus ele me deu a viola e eu fiquei muito contente, sabe? Porque a gente afinava o violão tipo viola, que tem jeito também. Aí quando eu cheguei que ele me deu a viola eu fiquei na maior alegria. Já faz dois anos já. VALTER DOS REIS, 2016 Assim como muitos foliões criticam a inexistência de ações da prefeitura para doação de acessórios e instrumentos musicais para as companhias, os foliões também criticam o fato de não existirem ações para doação de uniformes. Segundo alguns foliões, nas raras vezes que a prefeitura doou uniformes para as companhias eles tinham validade pelo tempo de gestão do prefeito, ou seja, por quatro anos. O capitão Keka me contou uma dessas situações, em que a prefeitura fez uma doação de uniforme para as companhias, mas alertou que os uniformes deveriam ser usados nos quatro anos da gestão: “Em dois mil a prefeitura deu um uniforme datado de dois mil e quatro. No ano seguinte eu voltei lá pra pedir novamente e eles falaram que o uniforme ainda tava na data de validade. A gente tinha que usar até dois mil e quatro”. 200 É justamente pela ocorrência de situações como essa que as companhias possuem seus colaboradores, devotos que sempre doam uniformes para os foliões, tanto para os cantadores quanto para os bastiões, minimizando os gastos dos foliões com a organização da jornada. O folião José Ailton de Paula, por exemplo, me disse que “o uniforme tem um pessoal que doa, manda fazer e dá pra gente. [...] Até lá de São Paulo tem uma senhora que manda pra gente. Quando ela vem, ela trás. Senão ela manda pelo correio. Todo ano ela dá um jogo”. Muitos destes colaboradores são donos de estabelecimentos comerciais na cidade, mas enquanto alguns fazem questão de aproveitar a oportunidade para fazer propaganda de seus negócios, outros dizem que o apoio deve ser feito de coração, por isso não estampam o nome de seus comércios nos uniformes doados. O devoto Pascoal, que doou um jogo de camisetas personalizadas para a Companhia da Irmandade durante a jornada de 2015-2016, deixou registrado que doaria uma farda para o bastião Nivaldo na jornada de 2016-2017. O ano que vem eu vou dar uma farda pro bastião. Ele vai escolher. Quem escolhe é ele. Ele tem que escolher que jeito que ele vai querer. A cor. E não é questão de pagar, a gente faz de coração. Não é questão de apoio nenhum. Esse apoio que a gente dá também, não me interessa nem um minuto escrever meu nome. Pra que? Eu não sou candidato a nada e não tem motivo nenhum eu escrever meu nome. Faz parte você dar por colaboração e de coração. E eu não preciso explicar lá que fui eu que dei. Tem muita gente que tem comércio na cidade e que dá a camisa pra companhia, mas faz questão de ter a propaganda. Tem gente que gosta de fazer isso. PASCOAL, 2016 Ainda sobre a relação das companhias com a prefeitura, há obviamente os foliões que se mostram mais complacentes com a falta ou a escassez de apoio do poder público, embora estes discursos sejam bastante raros. Geralmente estes foliões justificam a falta de auxílio e de incentivo por parte do poder público devido à crise econômica, minimizando assim a imagem negativa construída pela maioria dos foliões sobre a gestão municipal. Em todo caso, o mais comum são relatos que negam a existência de um incentivo real por parte do poder público, assim como leis que garantam a estrutura necessária para a jornada das companhias. Eu pensava assim, acho que o governo e a prefeitura tinham que ter um kit-cultura, entendeu? Aí chamava o capitão e perguntava o que a gente precisa. Tantos encordoamentos, uma viola, um violão. Se comprar uns violão e deixar no jeito. Se arrumasse dois violões pra cada companhia de reis, o tanto que já ajudaria. Caixa de bater que é o essencial. Um pandeiro. É o kit-cultura que eu penso. Dava certinho, porque tudo nós que temos que comprar. Tudo o capitão que tem que comprar. Eu nunca ouvi falar que eles doaram alguma coisa assim. MARQUINHO DIDICO, 2016 201 Além da falta de apoio, alguns foliões também reclamam de certa desorganização da prefeitura ao lidar com as atividades das culturas tradicionais, como a falta de uma pessoa na Secretaria de Educação e Cultura que seja exclusivamente responsável para tratar de todos os assuntos relacionados às manifestações tradicionais da cultura popular no município. Teria que ter um responsável só por isso. Só pela parte de folclore. Folclore o que é? Não é só congada não. É folia de reis, congo, moçambique, caiapó, olodum, escola de samba. É tudo. Precisa de uma pessoa focada só nessa parte. Tudo que você quer você vai e resolve com o fulâno, ele que vai resolver pra você lá. Se ele vai te dar condução, se você pode comer aqui no centro da cidade. Mas hoje você não sabe com quem você fala. Você vai na prefeitura e eles falam: “Ah, eu não sei de nada”. JOSÉ AILTON DE PAULA, 2016 Como acontece em algumas cidades vizinhas, antigamente as companhias precisavam tirar uma licença, uma espécie de alvará para poderem fazer o giro nos bairros e cantar nas casas dos devotos. Embora esta licença não seja mais exigida pela prefeitura, algo que poderia ser entendido como uma menor burocratização para as companhias, alguns foliões entendem que a licença deixava a jornada mais organizada, e que seria importante que houvesse uma maior articulação entre as prefeituras das cidades vizinhas para que entrassem em acordo e elaborassem uma única licença que permitisse o livre trânsito das companhias nas cidades da região. Ou seja, como muitos foliões fazem seus giros nas cidades vizinhas, seria importante para as companhias que a prefeitura voltasse a fornecer esta licença, mas que ela tivesse um reconhecimento e validade intermunicipal. Você sabe o que falta em Alfenas? Eu falo pros outros e os outros não acreditam de eu falar. Precisava de uma pessoa, tipo uma secretaria, que pegasse esse cargo de todas as tradições, de congada, de reis, só dessa parte. Todo ano tinha que ela ir resolver tudo. Tinha que resolver com ela. Licença com ela, uniforme com ela. Mas não tem isso aqui em Alfenas. Aqui não tem. Se nego falar que tem é mentira. Chega na hora, um encosta pro outro. Nem licença não tá tirando mais. De primeiro tinha que tirar licença. De primeiro tirava licença lá na prefeitura e tinha que levar na delegacia pra delegada assinar. Hoje não tem mais isso. Hoje você sai de qualquer jeito, sem licença sem nada. Você entra numa cidade vizinha e se quiserem mandar prender a companhia pode prender. Não tem licença. Eu acho errado. Lá no Carmo do Rio Claro, se a nossa companhia chegar lá a licença daqui não vale lá. Eu já fui lá uma vez. Você tem que tirar a licença de lá, do contrário você não canta numa casa lá. Eles põem você na condução e manda voltar pra trás. E tem que tá uniformizado. Aqui nosso uniforme é só a camisa. Lá é desde a calça, a camisa, até o boné. Eu acho que tinha que ter alguém que se interessasse por isso aqui e que desse essa força pra gente. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2016 Uma última crítica diz respeito ao cadastramento das companhias e de seus foliões na prefeitura. Alguns foliões acreditam que este cadastramento poderia permitir ao poder público 202 contabilizar a quantidade de companhias e de foliões da cidade e, assim, orientar e facilitar a captação de recursos para a jornada, algo que, segundo alguns deles, não acontece. Toda companhia tinha que cadastrar os folião pra quando chegar a roubar alguém. É bom pra todas companhias. Tem mais de dez a vinte companhias que sai por aí e tem umas que não é os folião. Às vezes é alguém que entra na casa e mexe nas coisas dos outro, você entendeu? Que já aconteceu isso. Então nós estamos aqui, nós estamos jantando e o pessoal entra lá pra comer no meio com a gente e você vai saber quem que entrou lá? E se acontecer do nego roubar o celular teu? Vai procurar naquela turma tá na lista ali. Sabe da própria companhia quem que é. Hoje não tendo isso fica difícil. Todos vão ter que pagar por um. Você entendeu? Some uma coisa lá. Não, foi a companhia de fulâno. Ó, vocês são obrigados a pagar. Então eu acho que o certo devia ter isso aí, cadastrar o nome de todo mundo na prefeitura. Fulano, o senhor é o embaixador? Sou. Quem que é seu respondedor? Fulano. Se você tem mais um que é seu respondedor você vai por os dois. Não, só tem um. Tem dois ajudantes? Tenho. Então põe os dois. É esses aqui ó, não pode ter mais que esses aqui na turma de vocês. É quinze, é quinze. Então é quinze. Vou dar as quinze camisas e é essa turma aí. Se eu encontrar um a mais eu mando parar sua companhia. Eu acho que devia ter isso. Porque nos componentes do congado não tem limite? Não tem a ala do não sei do que? A ala do não sei do que? Então nossa companhia também é pouquinha coisa, pouquinha gente, mas devia ter esse controle. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2016 O reflexo da má reputação do poder público entre algumas companhias da cidade pode ser observado em algumas ações político-partidárias dos últimos prefeitos, que revelam uma frustrada tentativa de imbricar as tradições populares do município aos interesses políticos da gestão municipal. Na jornada de 2015-2016, por exemplo, o prefeito ofereceu um almoço para todas as companhias da cidade no dia 09 de janeiro, sendo que, dos onze grupos existentes na época, apenas seis compareceram. No final da jornada de 2016-2017, com a prefeitura já sob nova gestão, foi oferecido um jantar aos foliões como parte das atividades de posse do novo prefeito, sendo que, dos doze grupos (havia um a mais), apenas oito compareceram. No final da jornada de 2017-2018 foi oferecido novamente um jantar com o objetivo de reunir todas as companhias do município, mas, desta vez, com apenas quatro dos doze grupos da cidade. 203 8. A Companhia Reis do Oriente e a Companhia Sagrado Coração de Jesus Era um domingo, dia 27 de dezembro de 2015, quando encostei o carro para tomarmos um café com os foliões da Companhia dos Benedette no município de Fama. Saímos cedo de Alfenas naquele dia para encontrar os foliões antes que eles entrassem na Rádio Fama FM, onde cantariam ao vivo para os ouvintes. Chegamos tão cedo que, quando liguei para o Sidnei Benedetti para perguntar se estávamos atrasados e em que local deveríamos nos encontrar, ele disse que nem haviam terminado de tomar o café ainda, nos convidando então para tomar um café junto com os foliões na casa de um devoto. O objetivo naquela manhã era registrar os foliões dentro do estúdio da rádio, pois até então tínhamos seguido os foliões somente pelas ruas da cidade e dentro da casa dos devotos. Seria uma experiência nova e interessante. Assim que os foliões terminaram o café nos dirigimos para a rádio onde aconteceria a gravação. Chegamos cedo também na rádio, pois ainda havia uma companhia gravando no estúdio e outra do lado de fora indo embora, pois havia acabado de finalizar sua gravação, de modo que teríamos que esperar um pouco até chegar nossa vez. Enquanto aguardava comecei a sondar sobre aquelas outras duas companhias que estavam ali, pois não conhecia nenhuma delas. A que estava dentro no estúdio era a Companhia Sagrado Coração de Jesus, de Fama, organizada por José Leal Filho, o Zé Leal. A que tinha acabado de deixar o estúdio e já sumia de nosso campo de visão era a Companhia Reis do Oriente, também de Fama, organizada por Osmair Leal dos Reis, o “Cantarelli”, filho de Zé Leal que em 2016 se elegeria prefeito de Fama. Até aquele momento eram onze as companhias que faziam parte deste trabalho, mas em alguns minutos aquelas duas companhias que eu tinha acabado de encontrar passariam também a integrar esta pesquisa ao lado das companhias de Alfenas. Saí em passo rápido, às vezes correndo, para ir atrás da Companhia Reis do Oriente, já que a Companhia Sagrado Coração de Jesus havia acabado de entrar na rádio e eu ainda teria tempo para conversar com seus foliões depois da gravação. Encontrei a companhia cantando na casa de um devoto e fiquei do lado de fora aguardando. Assim que os foliões terminaram de agradecer a oferta entrei na casa e pedi para que um folião me apresentasse o responsável e organizador da companhia. Neste momento topei de frente com o folião Miguel Rodrigues, o Boiadeiro da dupla João do Carro & Boiadeiro, que eu já conhecia atráves da dupla, mas que não sabia que também era folião: “Aou menino, você aqui? Que bom te ver. O que você tá fazendo aqui?”. Depois de uma rápida explicação pedi para que ele me apresentasse o folião responsável pela companhia: “Ele tá saindo aí, tá terminando de conversar com o dono da 204 casa”. Foi assim que eu conheci o Osmair Cantarelli, um dos vários “homens de boa vontade” que encontrei durante o trabalho de campo e que muito me ajudou com a pesquisa. Em outra ocasião, quando lhe perguntei qual era sua função na companhia, ele me disse o seguinte: Eu sou coordenador, o que organiza a companhia de reis. Eu marco os almoços. As pessoas vêm até mim, as pessoas que querem cumprir uma promessa com um almoço ou uma janta. Então eu fico marcando e marco o giro da nossa companhia de reis. Eu até não canto não, tô dando uma ajuda ali porque tá faltando um folião nosso que foi no médico. Eu tô só mais agradecendo, fazendo a voz de cinco aqui hoje. Mas só ajudando, eu não nasci pra cantar não. Nasci pra organizar mesmo. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 Ainda que atualmente seja apenas o responsável e organizador de sua companhia, Cantarelli também já atuou por muitos anos como bastião, e me contou parte de sua história na função e os motivos pelos quais não se tornou um cantador, dada as dificuldades desta função. O folião me disse que existe uma aparente facilidade de se cantar os hinos de reis, imputada principalmente por aqueles que passam pelas ruas e que muitas vezes manifestam certo desdém pelos foliões. O desconhecimento da rigidez com a qual a estrutura formal da cantoria é construída, bem como dos preceitos existentes por trás de cada voz e da obediência ortodoxa por parte dos foliões às regras musicais do hino, são coisas que, de fato, não podem ser captadas por aqueles que veem e ouvem os foliões casualmente cantando pelas ruas. Depois de ser autorizado pelo Cantarelli para seguir sua companhia por alguns dias e fazer alguns registros audiovisuais, anotei seu contato de telefone e voltei correndo para a rádio na esperança de ainda conseguir encontrar seu pai. Antes de chegar avistei os foliões da Companhia Sagrado Coração de Jesus percorrendo as ruas do bairro para cantar em algumas casas, pois haviam acabado de deixar a rádio. Aguardei os foliões do lado de fora da casa e assim que eles foram saindo perguntei quem era o Zé Leal, organizador e responsável pela companhia. Após uma rápida conversa fomos autorizados também por ele para seguir sua companhia na jornada daquele e de outros anos: “Vocês podem ficar com a gente o tempo que quiser, pra gente vai ser uma alegria ter vocês junto da gente”. Este foi o contexto em que conheci estas duas companhias que, embora não estivessem no projeto de pesquisa inicial, foram incorporadas posteriormente ao trabalho. Embora sua presença na pesquisa seja importante por vários motivos, existe um que parece ser o principal, por evidenciar uma questão crucial no sistema de rotatividade e trânsito dos foliões entre as várias companhias da região. Esta questão se refere à solidariedade que as várias companhias 205 possuem umas com as outras, no que diz respeito à cooperação para que todas cumpram suas jornadas e, consequentemente, para que perpetuem e matenham viva a tradição. Companhia Sagrado Coração de Jesus (Fama, MG) 8.1. A multiplicação das companhias e a solidariedade entre os foliões A Companhia Sagrado Coração de Jesus foi, durante muitos anos, a única companhia do município de Fama, e sua história, de certa forma, reflete o quanto o campo de atuação dos foliões é dinâmico, heterogêneo e por vezes marcado por disputas, conflitos e tensões sociais. Esta companhia foi fundada e desde sempre comandada por Zé Leal, folião muito conhecido no município de Fama devido à sua produção de hortaliças e responsável pelo abastecimento de muitas feiras e quitandas da região. Assim como geralmente acontece com as companhias que são formadas entre familiares, Zé Leal tratou de transmitir grande parte de sua devoção e de seu conhecimento sobre o trabalho religioso de culto e adoração aos Santos Reis a seu filho Cantarelli, cujas anunciações são muito parecidas com as suas. Durante muitos anos os dois cantaram juntos, até que durante a jornada de 2012 desavenças entre alguns foliões fizeram com que pai e filho se separassem e seguissem suas devoções em companhias diferentes. Apesar das desavenças e da iminente extinção da única companhia da cidade, a fé que ambos possuem nos Santos Reis aliada à quantidade de devotos que não teriam as promessas pagas naquele ano, caso a companhia deixasse de existir, fez com que tanto Zé Leal quanto 206 Cantarelli arranjassem uma saída para que o município não ficasse sem nenhuma companhia de reis e para que os fiéis e devotos não ficassem a mercê do aparecimento de companhias das cidades vizinhas para que pudessem pagar suas promessas. Dessa forma, sendo a Companhia Sagrado Coração de Jesus a única companhia da cidade, eles decidiram cada qual formar sua própria companhia. A companhia de Zé Leal continuaria com o nome Sagrado Coração de Jesus e ficaria com parte dos integrantes da companhia original, enquanto que Cantarelli teria que arranjar outro nome para sua companhia e teria que buscar outros foliões para completar o número necessário para realizar sua jornada. Em 2016, quatro anos depois de ter sido dissolvido o grupo original e já superadas as desavenças entre pai, filho e os outros foliões, este fato é interpretado por Cantarelli como uma providência dos Santos Reis, que, diante da escassez de companhias na cidade, fez com que a única companhia existente se multiplicasse ao invés de se extinguir, algo que duplicou a capacidade do município em atender os devotos que todos os anos esperam para poder pagar suas promessas. O folião Cantarelli me contou em detalhes como se deu a separação de seu pai e a intervenção do santo para manter viva a tradição de reis na cidade. Essa companhia tá com quatro anos que nós saímos. Tá inteirando quatro anos. A gente saía com a do meu pai, mas depois ele montou a dele lá. A dele é mais velha. A dele é de muitos anos já. Aí nós ficamos com uns foliões, mas ele montou uma pra ele lá com outros foliões novos. Mas tem folião aqui que faz quarenta, cinquenta anos que canta reis. Esse caixeiro era de quando meu pai tava junto. Só que ele levou o nome pra lá e nós tivemos que arrumar um nome pra nossa. Quando separou ele ficou com o nome da antiga. Aí ficou o Japinha, ficou o Divirso aqui e eu. Ficamos dessa companhia dele. O embaixador da nossa companhia era contrato da companhia do meu pai. Ele nunca tinha embaixado antes. Aconteceu que meu pai discutiu com um folião e disse: “Eu vou embora. Vou largar mão”. Ele tava nervoso. Eu falei: “Ó pai, você vai e amanhã você volta com a cabeça firme e nós seguimos”. Só que ele não voltou. Aí chegou no outro dia pra agradecer a janta na casa do homem e nós tivemos que improvisar. Aí fomos atrás do Zé Barbudo que já não saía também porque ele havia descombinado com meu pai e não saía. Aí chegamos lá na casa dele e ele falou: “Se seu pai for eu não vou, que nós já não demos certo. Como amigo eu gosto dele. Gosto muito dele, mas como amigo. Mas na companhia eu não posso. Eu falei que não saía mais. Com ele eu não saio. Se ele estiver lá eu volto pra trás”. Eu falei: “Não, ele não foi Zé. Ele não quer ir mais com a gente. Vamos lá pra você ajudar a gente”. Aí ele foi. Aí chegando lá pegamos ele, que tava no contrato, e pusemos pra embaixar no lugar do meu pai. Aí deu certo. A gente tava com o Totonho. O Totonho é o respondeder dele lá, um morenão. Ele tava respondendo, foi dando uma ajuda pra ele. Aí de repente ele embalou. Agora já tá com quatro anos que ele tá embaixando. E seguiu a companhia de reis. Mas eu acho que isso aí tudo também já foi uma obra feita, porque se tinha uma de repente surgiu duas. Tipo um ovo de duas gemas. De repente rachou e fez duas. Hoje tem duas na cidade. Quer dizer que ao invés de acabar aumentou uma. E não tem rivalidade de uma com a outra. Conforme se diz, na hora do mais aperto é que você consegue uma boa saída. A hora que a gente tava mais apertado, achando que ia acabar, que não ia ter mais companhia em Fama, acabou surgindo duas. Aumentou uma. Aumentou a nossa. A dele continuou com outros componentes que ele arrumou em Alfenas e a nossa ficou com o que tinha. Veio o Miguel, veio o André, o João Cândido, que acho que hoje 207 ele sai do hospital, se Deus quiser. Na chegada ele já vai tá lá com a gente, nem que seja sentado. E o caminho foi esse. Acabou aumentando uma cidade. Quer dizer que foi uma coisa que parece um encaixe pra ter duas. Agora o destino é esse aí, até quando Deus quiser nós vamos indo. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 Surgida do desmembramento da Companhia Sagrado Coração de Jesus, a Companhia Reis do Oriente até hoje tem sua composição prejudicada pela falta de foliões, o que muitas vezes coloca em risco a concretização do trabalho religioso e consequentemente o pagamento das promessas dos devotos. Isso faz com que em algumas jornadas Osmair Cantarelli precise recorrer às companhias de Alfenas que estão com foliões sobrando para completar o número de cantadores em sua companhia. Há uma crença entre os foliões de que os Santos Reis não atuam apenas fazendo milagres e atendendo pedidos dos devotos, mas também por vontade própria em algumas situações, ainda que nenhum devoto tenha feito qualquer tipo de pedido ou promessa ao santo, principalmente se for para ajudar seus foliões. É um destes casos que Cantarelli me contou enquanto recordava que sua companhia quase não pôde fazer a jornada de 2015-2016 por falta de foliões, até que, graças a uma intervenção milagrosa do santo, foi possível reunir o número de foliões necessários para a saída da companhia. As pessoas já ficam te marcando. Tem gente já falando: “Oh, o ano que vem você marca, põe meu nome pra eu dar comida”. Então quer dizer que é um pensamento positivo. Eles estão contando com isso o ano que vem. Se faltar um folião ou dois e não tiver jeito de sair eles não quer saber. Porque nós saimos esse ano era uma hora da tarde. Eu tinha desmarcado o almoço do primeiro dia e a janta do segundo dia. Eu tinha desmarcado por motivo que um folião foi internado jogando mata-mato, o irmão do André. Tava tudo certinho pra nós saírmos. Ele foi internado um dia antes. E o outro barbudo que tava com a gente também tava com um problema de pulmão, jogando veneno sem nada intoxicou. Ah, não vai sair. Cedo eu esperando tudo certinho pra sair, arrumamos tudo, enfeitamos a bandeira, minha esposa arrumou uniforme. Aí chegou, quando vê, ligaram: “O Joãozinho foi internado e o André não vai sair”. André é o fineiro, e como o irmão dele tava internado ele também não ia sair porque ia precisar dele. Aí fomos, encontrei com o Miguel, cheguei lá e sentamos: “Então fazer o que? Não vai sair?” Aí eu pensei: “Ah, tá difícil”. Falei pra ele: “Vou chegar lá em casa então, vou pegar umas varas de anzol, vou pra beira de um córrego e vou ficar até acabar as folias de reis”. Aí bom, saímos nós três. Aí veio na cabeça e falei: “André, vamos ver ele lá no hospital?”. Ele falou: “Vamos”. Aí parece que os Santos Reis já entraram pro meio. Aí arrumamos um carro e chamamos o Marcelo: “Agora mesmo nós vamos lá”. Aí eu, ele e o Miguel chegamos lá. Chegamos e a sobrinha dele chegou. Aí eu falei: “O André não quer sair que ele tá achando que o Joãozinho vai precisar dele aqui no hospital. Vê o que você faz pra gente. Vai parar a companhia de reis. Já desmarquei almoço. Ela falou: “Não, vou conversar com o tio André lá”. Aí ela entrou, que nós não podia entrar como acompanhante. Ela falou: “Não tio André, o tio João tá aqui e nós vamos cuidar do tio João. Se o senhor não for vai parar a companhia e o tio João não vai achar bom também. Ele tá doente aqui. Ele não vai achar bom. Ele vai achar bom a companhia de reis seguir. O senhor vai e nós cuidamos dele aqui”. Aí ele saiu com outro pensamento. Aí que ele saiu com o pensamento que ia sair eu já liguei aqui na Fama e mandei perguntar pro rapaz se dava pra ele fazer o almoço ainda, que não 208 precisava ser mais tarde não que nós ia sair sim. Aí ele ligou: “Não, dá sim pra fazer o almoço”. Aí eu liguei pro Miguelzinho confirmando a janta do outro dia. Nisso a mulher que ia dar a janta naquele dia já tinha ido lá em casa: “Não, fala pro Cantarelli que não pode, pra ele então juntar a turma pra ir lá em casa jantar que eu vou fazer a janta. Não precisa cantar, não precisa nada. Só pra jantar”. É a Dona Maria. Aí liguei pra minha mulher e minha mulher já falou pra ela: “Não, ele vai saí sim. Deu certo de sair”. E ela gosta demais. Todo ano ela já faz. Acho que já deve fazer uns cinquenta anos que ela trata de companhia de reis. Ela ficou muito alegre. Já ficamos tudo alegre. Aí viemos embora. Juntamos a turma e era quase uma hora da tarde que nós fomos sair. Já fomos direto pro almoço que tava marcado e de lá até agora tá seguindo, desse jeito com essa turma aí. E não parou não. Foi assim que aconteceu isso aí, mas quase que a gente não sai. Aí já veio na minha cabeça: “Eu não vou nem esperar companhia de reis lá em casa. Vou pescar”. Como é que você vai receber companhia de reis num ano que você tá preparado pra sair com a tua e não sai? Falei: “Ah, agora eu tenho um ranchinho, vou ficar lá até o dia seis, pra se passar companhia de reis lá em casa eu não ver”. Aí depois deu certo. Agora eu vou pro ranchinho só a hora que eu chegar lá. Se Deus quiser. Mais foi os Santos Reis que entrou pro meio, senão não saía. [...] Mas vê se não é por conta dos Santos Reis. Os Santos Reis já sabia que o Zé ia ficar com problema do pulmão e o Joãozinho ia passar problema no último dia. Os Santos Reis falou: “Vou tirar o Miguel de lá e vou por senão o Cantarelli não sai”. E os Benedette tão rodando a mesma coisa. Quem sabe se não é? Eu não posso falar. E se o ano que vem a minha companhia tiver sobrando folião o Miguel volta pros Benedette porque a minha não vai parar. Então isso tudo é um dom de Deus. Esse ano o Miguel saiu com a gente porque tava faltando folião pra gente e os Benedette também saiu porque eles tinham sobrando. Que aconteceu? As companhias tão tudo andando a mesma coisa. O Miguel completou aqui e não parou nenhuma. Que adianta você ter dez lá e o outro tá faltando dois, três e você não poder passar pro outro? O dia que sobrar aqui vai faltar lá e nós vamos mandar um pra lá também. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 Para além das relações de parentesco, existe entre a grande maioria das companhias da região uma coesão grupal e um sentimento de parceria e solidariedade muito forte, que talvez possua alguma relação com a história do mago Artabano. Os vários níveis de solidariedade e companheirismo, tão característicos de uma confraternização de fé, podem ser observados de várias formas, mas parece ficar mais evidente quando o assunto é o empréstimo de foliões de uma companhia à outra, ou seja, quando alguma companhia não consegue atingir o número de foliões necessários para fazer sua jornada, sendo então ajudada por outra companhia que tem foliões cantadores de sobra. Esta situação é bastante comum entre as companhias e pode ser motivada por diversos fatores, mas principalmente devido ao falecimento ou adoecimento de foliões que, de um ano para outro, deixam de fazer parte do grupo. Na situação específica da jornada de 2015-2016, além do fato da Companhia Reis do Oriente ter sido formada a partir de um desmembramento de outra companhia, alguns de seus foliões estavam hospitalizados, o que fez com que o folião Cantarelli tivesse que pedir um folião emprestado para a Companhia dos Benedette, para que então pudesse fazer seu giro com a quantidade de foliões necessária para se realizar as cantorias dos hinos de reis. O folião Miguel Rodrigues, que foi emprestado 209 para a Companhia Reis do Oriente na jornada daquele ano, me contou como se deu este empréstimo e como são amistosas as relações entre as duas companhias. Que eu saio na companhia do Cantarelli é o primeiro ano. Eu ajudava antes os Benedette a sair. Os Benedettes sempre saíram dia vinte e cinco, mas às vezes eles saem dia vinte e oito, dia trinta. Aí eu cantava com o Cantarelli até eles saírem. Agora esse ano é o primeiro ano que eu saio todos os dias com o Cantarelli. Mas é igual eu falei pro Cantarelli, esse ano eu vou ajudar porque é promessa da minha sobrinha, a Dulce. Ela falou: “Tio, eu quero que o senhor vai ajudar”. Eu falei: “Vou, pode contar comigo esse ano”. Agora não é que eu sou dos Benedette, porque as companhias pra gente aqui é tudo uma só. Eu já cantei pro Zé Leal, pro Cantarelli, mas a que eu aprendi a cantar e me ensinaram foram os Benedettes. Agora o ano que vem é outro assunto. Quem sabe é Deus. Nós nem sabemos se vamos tá vivo. Mas se Deus quiser a gente tá vivo. Mas se nós tudo estiver vivo é provável que eu tô na outra. Não na outra, nos Benedette, que é a nossa também. Porque aqui ninguém é contra ninguém não. MIGUEL RODRIGUES, 2016 Foliões da Companhia Sagrado Coração de Jesus descarregando os instrumentos antes de cantar na casa de um devoto durante a jornada de 2016-2017; logo atrás dos foliões, o embaixador Zé Leal. O folião Luiz dos Anjos Anacleto, da Companhia Estrela Guia, também já saiu em outras companhias e reforça a existência de um sentimento de solidariedade e cooperação que agrega as várias companhias da cidade, ressaltando inclusive a importância do empréstimo de foliões entre elas para que todas possam fazer sua jornada. 210 Nessa companhia é o segundo ano e eu tô gostando demais, mas eu comecei mesmo foi na companhia do Sebastião Feliciano com cinco anos de idade e como bastiãozinho. Só na companhia do Sebastião Feliciano eu fiquei quarenta e seis anos, então eu tô com quase cinquenta anos de companhias de reis. Essa outra companhia quem comanda ela hoje é o sobrinho do Tião Feliciano, o Keka. É uma companhia muito boa da qual eu participei muito. Gostei demais e ainda gosto, lá todos são meus amigos. As companhias são tudo uma ligada com a outra, porque os três reis são um só, né? Então às vezes um deixa uma companhia pra ir ajudar a outra. Às vezes falta um folião numa companhia e o outro pede. Às vezes tá sobrando um numa e ele passa pra ajudar a outra e assim é tudo ligado, né? Um sempre ajuda o outro. [...] Agora também tem uma coisa: Tem certas companhias também que às vezes quer se aparecer mais do que os outros, né? Existe isso aí também. Quer ser mais grande. Às vezes não gosta muito de entrar nas casas dos pobres e campeia só casa mais grande pra entrar. Tem isso também. E existe rivalidade entre umas companhias. Às vezes uma quer ser mais bonita que as outras e isso aí eu acho que não devia acontecer não, porque os três reis são um só. Isso aí é ruim também, mas há sim uma rivalidade. Tem companhia que às vezes quer ter um uniforme mais bonito que os outros. Que nem nós aqui mesmo. Nós usamos só a camisa, mas tem companhia que é uniforme completo. Camisa, calça, gravata. Tem isso tudo aí. LUIZ DOS ANJOS ANACLETO “CÔCO”, 2016 A Companhia dos Noel é uma das companhias que, devido à idade avançada de seus foliões, aos irmãos que faleceram e aqueles que pararam de cantar nos últimos anos, teve que buscar reforço entre amigos para completar o número de foliões. O folião Joaquim Macedo, que aos noventa anos de idade ainda canta na voz de contrato, foi um destes reforços que saiu pela primeira vez com a companhia na jornada de 2015-2016. O embaixador Paulo Mathias é outro folião que também veio ajudar a companhia a fazer sua jornada naquele ano. A primeira companhia eu tinha treze anos. Eu tô com setenta e cinco. Faz a conta. Sessenta e dois anos embaixando reis. Sempre embaixando. A primeira companhia de reis que eu embaixei foi a companhia da minha mãe, a maior festeira da praça de Alfenas. Eu embaixava pra ela. Aí ela faleceu e eu passei a embaixar pro meu irmão. Depois que minha mãe foi embora acabou, fiquei três anos fora de embaixar reis. Aí fui embaixar a companhia do meu irmão. Meus irmãos faleceram, meus amigos, meus foliões morreram tudo, meus cunhados, sanfoneiros bons. Morreram muitos amigos lá. Essa viola que eu tô embaxando é do meu irmão. Com os Noel é o primeiro ano que tô embaixando a companhia deles. Mas embaxei reis em São Paulo, Itajubá, Três Corações. Embaixei reis pro mundo inteiro. PAULO MATHIAS CARDOSO, 2016 8.2. A lenda do fazendeiro malvado e seu boi brabo Na manhã do dia 05 de janeiro de 2016 liguei para o Cantarelli para agendar uma data para acompanhar sua companhia antes do fim da jornada daquele ano, ficando combinado de nos encontrar em uma conhecida ponte de madeira que fica na zona rural entre os municípios de Alfenas e Fama. Esta ponte fica em uma bifurcação que liga três estradas e, de um lado da bifurcação, havia uma cerca que separava a estrada de um pasto. Um pouco adiante podíamos 211 ver, depois da cerca e já dentro do pasto, uma construção abandonada com uma caixa d’água sobre ela, e à beira da cerca várias placas que indicavam os rumos para os vários pesqueiros existentes na região. Do outro lado da bifurcação, mais próximo da ponte que era nosso ponto de referência, havia uma pequena e antiga colônia aparentemente desativada, mas onde ainda moravam algumas famílias, e ao lado um grande celeiro, este sim totalmente abandonado. Já fazia cerca de quinze minutos que estávamos ali quando chegaram os foliões da Companhia Reis do Oriente em uma Kombi e um furgão, mas sequer desceram dos veículos. Assim que o motorista que vinha na frente nos viu ele deu uma buzinada e acenou com a mão para seguí-los. Entramos no carro e seguimos os foliões em uma viagem memorável pelas zonas rurais entre os municípios de Alfenas e Fama, onde os acompanhamos por toda manhã cantando em vários sítios daquela região. Após ter cantado pela manhã toda, a companhia se dirigiu para a casa do devoto Márcio Alves Esteves, que naquele dia estava oferecendo pela primeira vez um almoço para a companhia para “manter a tradição de seu pai”, já que não havia nenhuma promessa a ser paga de sua parte. Antes, porém, seu vizinho de frente, que assistia os foliões descerem dos veículos e prepararem os instrumentos para fazer a chegada, gritou perguntando se eles não poderiam cantar em sua casa antes da chegada, pedido este que foi atendido imediatamente, embora os foliões estivessem famintos e cansados. A Companhia Reis do Oriente em frente à casa do devoto Márcio Alves Esteves, que ofereceu o almoço aos foliões naquele dia “para manter viva a tradição do pai”. 212 Assim que terminaram de cantar para aquele devoto, os foliões retornaram para a casa onde seria oferecido o almoço, em um procedimento ritual muito parecido com o qual haviam acabado de fazer. Naquela chegada não havia sido preparado nenhum arco e nem as famosas amarrações, tendo sido uma cerimônia religiosa bastante simples e o ritual constituído apenas de seus elementos mais básicos: a bandeira, o presépio e os agentes portadores e responsáveis por cada um deles: os foliões e o devoto. O bandeireiro novamente foi o primeiro a chegar, e assim que chegou à entrada da casa entregou a bandeira ao devoto, que já os aguardava na calçada. Não havia ninguém à espera da companhia além do casal com seus filhos pequenos, algum parente e algumas crianças do bairro, de modo que foi uma chegada muito diferente daquelas onde toda a vizinhança se aproxima para receber a companhia e almoçar junto com os foliões. O relógio da sala onde a companhia cantou marcava exatamente uma hora e vinte cinco minutos quando os foliões começaram a cantoria, desta vez sem que o Cantarelli tivesse feito a anunciação, encurtando o ritual. Assim que os foliões terminaram a parte instrumental do hino naquela tarde, o embaixador Vicente Rocha improvisou os seguintes versos: Ai santo, santo dono da casa Ai santo, santo dono da casa Ai e também sua família Ai e também sua família Ai vem trazendo a boa sorte Ai vem trazendo a boa sorte Ai os três reis tão bons tá aqui Ai os três reis tão bons tá aqui Ai meu senhor dono da casa Ai meu senhor dono da casa Ai os três reis mandou falar Ai os três reis mandou falar Ai se tiverem mais devotos Ai se tiverem mais devotos Ai pra bandeira segurar Ai pra bandeira segurar Ai já cantamos pro senhor Ai já cantamos pro senhor Ai agora é pra sua senhora Ai agora é pra sua senhora Ai os três reis vai dar saúde Ai os três reis vai dar saúde Ai todo dia e toda hora Ai todo dia e toda hora Ai senhor e dono da casa Ai senhor e dono da casa Ai os três mandou falar Ai os três mandou falar 213 Ai pra parar os instrumentos Ai pra parar os instrumentos Ai pra nós ir almoçar Ai pra nós ir almoçar Os foliões na casa do devoto Márcio Alves Esteves, onde foi oferecido o almoço naquela tarde. Após o almoço e antes de cantarem o agradecimento, todos os foliões da companhia se dirigiram para fora da casa e arranjaram um lugar para tirar um cochilo, antes de começarem o turno de visitas do período da tarde até a chegada para a janta. Do lado da casa onde haviam acabado de cantar havia um terreno baldio, com algumas árvores e uma vegetação alta e bem tratada devido ao período das chuvas de dezembro. Apenas o resto de uma cerca separava a calçada do acesso ao terreno, onde alguns foliões trataram logo de deitar e em poucos minutos já estavam roncando. Foi naquele intervalo entre o almoço e o agradecimento que tivemos uma das conversas mais interessantes com o Osmair Cantarelli e com o Miguel Rodrigues, sendo também naquele final de jornada do primeiro ano de trabalho de campo que ouvimos do Miguel a lenda do fazendeiro malvado, que eu ouviria mais algumas vezes da boca de outros foliões durante as jornadas dos próximos anos. 214 Tem uma história também. Diz que tinha um fazendeiro e ele não acreditava em nada. A companhia de reis passava na fazenda dele, mas ele não gostava nem que passava na fazenda dele. Ele dizia que estorvava as vaca dar leite e falava: “Aquela turma tá pulando pra quê?” O pessoal falava: “São os três reis”. E ele respondia: “Que três reis rapaz. Não existe isso não”. Aí um dia ele falou: “Vamos ver se esses três reis são bons mesmo. Eu vou prender esse boi no curral e vou chamar a companhia de reis aqui pra dar esse boi de presente. Se eles conseguirem levar o boi eu vou passar a acreditar nesses três reis”. Tinha um boi lá que investia pra caramba. Aí chegou lá no curral que o boi até babava de tão brabo que ele tava. Aí chegaram os bastião. Chegou a companhia de reis: “Ô patrão, tudo bem?” Ele que tinha mandado chamar, porque o povo sabia que ele não gostava: “Vem pra cá!”. Ele chamou. O povo entrou e começaram a cantar. Depois ele mandou chamar o capitão e falou: “Eu tenho um presente pra vocês, tá lá no curral. Pega lá. É aquele boi. Mas eu quero que esse bastião vestido de vermelho vai lá buscar. E se é presente vocês vão ter que levar”. Diz que criação não gosta de vermelho, né? Aí o bastião chegou e falou: “Ô patrão, mas não é possível levar esse boi. Esse boi vai pegar a gente. O boi é brabo patrão”. Ele falou: “Não é brabo não. Se eu tô falando pra pegar, pode pegar”. O bastião pediu um pedaço de corda. Ele deu um pedaço de corda curtinha e mandou buscar o boi. O bastião chegou, foi pro lado do boi e o boi foi abaixando a cabeça. Ele passou a corda no pescoço do boi, puxou e o boi acompanhou ele. Aí todas as casas que eles cantavam ele soltava o boi no pasto e ninguém conseguia chegar perto do boi. Aí o patrão passou a acreditar. Então, tem muita gente que tem que ver pra crer, né? Igual São Tomé, tem que ver pra crer. Porque se acreditar existe milagre. Eu acredito. Agora tem muita gente que não crê e não acredita. Acha que é bobagem. E não é, né? Agora cada um tem o seu jeito de ver, de acreditar, de entender. Tem muita coisa que serve pra você e não serve pra mim. E tem coisa que serve pra mim e não serve pra você. É igualzinho música. Às vezes eu faço uma música, o outro escuta e fala: “Ó, que música bonita”. E outro fala: “Ah, isso não vale nada”. Não é verdade? E assim é a vida nossa menino. Gosto não se discute. E religião também não. MIGUEL RODRIGUES, 2016 Depois de três anos de trabalho de campo, eu pude ouvir esta lenda da boca de muitos outros foliões. O folião Luís de Brito, da Companhia Nossa Senhora de Fátima, me contando sobre as origens das companhias de reis, disse que “o primeiro milagre diz que foi quando um fazendeiro deu um boi. O boi era brabo, mas o fazendeiro se arrependeu depois que o boi se pôs de joelho no chão. Então o fazendeiro pediu perdão pros Santos Reis”. Já o folião Rosário Rosa, da Companhia Estrela do Oriente, me contou que este foi um fato que aconteceu com ele e com sua companhia “na fazenda do João Paulinho”: Nós fomos passando e ele já estava com um boi fechado lá dentro do rancho. Então ele mandou chamar a gente pra cantar, mas ele já estava com o pensamento todo virado. Quando os folião atravessou a porteira do curral da fazenda ele soltou o boi. Quando ele soltou lá o boi veio que veio mesmo. Eu peguei e ajoelhei na frente do boi com a bandeira, o boi destacou, parou e eles atravessaram. Eu fui e conversei com o boi. O boi levantou e entrou dentro do rancho. Ninguém acreditou. Porque o que manda é a coragem e a fé que a gente tem. O bicho pode ser bravo, mas se você tiver fé você consegue. ROSÁRIO ROSA “LORO”, 2018 215 Já o folião Oswaldinho, da Companhia Nossa Senhora de Fátima, jura que este foi um fato que aconteceu “lá no Carlos Augusto”: Teve uma folia de reis que passou lá e tinha um fazendeiro que tinha um boi que era muito bravo. Um dia ele falou: “Eu quero ver aquela cambada de vagabundo passar aqui”. Ele soltou o boi no corredor que o boi pegava até a sombra. Quando os folião foi passar o boi ficou deitado que nem ligou. O bastião teve até que cutucar o boi com a espada pra ele sair do meio caminho. O boi nem ligou pra turma. Então o fazendeiro fez voltar com a bandeira pra cantar na fazenda dele. O nome dele era Carlos Augusto, lá de Cabo Verde. Ele fez voltar a bandeira pra trás pra cantar lá. E o boi era bravo demais, mas não fez nada. Nem levantou. OSWALDO LUÍS DE BRITO, 2018 O folião Miguel Rodrigues me contando a história do fazendeiro malvado com seu boi bravo, enquanto dois foliões descansam após o almoço e antes de começarem o turno da tarde no giro daquele dia. Esta lenda do fazendeiro malvado pode ser estendida para muitas outras histórias que são contadas pelos foliões, onde podem assumir um caráter de lenda ou de fato verdadeiro, dependendo do folião que as conta. Uma dessas histórias é a de um boi que comeu a bandeira do mastro após os foliões terem se embriagado de cachaça49. 49 Alberto IKEDA (2011: 100) cita a mesma lenda, registrada em Goiás: “A folia parou na estrada, perto de uma fazenda, para rápido descanso. A bandeira foi deixada junto da cerca, sendo que uma vaca comeu o tecido. Ao chegarem na fazenda cantaram: ‘E aqui está o pau da bandeira // E o pano a vaca comeu // O curpado foi de nóis mesmo // Da pinga que nóis bebeu, ai ai’. Outra cantoria: ‘Obrigado meu senhor // Pela oferta que não deu // Pela oferta que não deu // Dá um cheiro (beijo) no bambu // Que a bandeira o boi comeu’”. 216 Isso aí foi um verso que eles inventaram. Dizem que foi acontecido, mas é tipo de uma lenda. Eles saíram com a bandeira dos Santos Reis e pararam no meio do pasto onde tinha uma árvore com uma sombra boa. Abriram o garrafão de pinga lá e trunfaram a beber, né? Quando vê um foi ficando tonto e por fim deitaram todo mundo e resolveram pousar debaixo da árvore. Na hora que eles acordaram no outro dia cedo tava só o pau da bandeira, né? O gado tinha comido tudo a bandeira, porque gado come pano, como tudo quanto é coisa. Aí falaram assim: “Como que nós vamos fazer agora pra seguir de viagem?”. Aí o embaixador falou: “Pode deixar que eu invento o verso. Eu chego lá e peço outra bandeira”. Então onde o verso de folia de reis é tudo inventado da cabeça. Cada um sabe uma linha. Mas o fazendeiro já sabia que eles iam perder a bandeira porque eles estavam bebendo, né? E o gado era bravo. Aí eles chegaram lá e o embaixador falou assim: Meu senhor dono da casa Veja só o que aconteceu Dá esmola para o bambu Que a bandeira o boi comeu Aí o fazendeiro foi lá e trouxe outra bandeira pra eles e falou: “Podem seguir de viagem”. Aí seguiram de viagem e o fazendeiro deu uma oferta. Naquela época não tinha dinheiro, então ele deu uma oferta. Então desde a primeira bandeira já saiu uma oferta, porque eles perderam uma e o fazendeiro deu outra de oferta. Porque se ele não desse, eles não podiam sair. E saíram de casa em casa. A primeira casa que eles passaram foi na do fazendeiro de onde saiu a música do Barrerito, né? Se o santo deles fizesse um milagre o fazendeiro ia dar um boi de estimação. Mas o boi era brabo, né? Aí ele pegou e deu o boi, mas quando foram pegar o boi ele ajoelhou no chão. O boi era brabo, mas não assustou nem nada e ainda acompanhou os cantadores. Aí o fazendeiro falou: “Voltem com a bandeira pra trás”. Aí eles voltaram com a bandeira e o fazendeiro que era ateu falou: “De hoje em diante os Santos Reis é meu protetor”. LUÍS DE BRITO, 2018 O embaixador Tião, da Companhia Sagrado Coração de Jesus, me disse, em tom de brincadeira, que essa é a história de um embaixador antigo de Alfenas que: [...] mamava um cadinho, sabe? Mas não sou eu não viu, é outra companhia aí. Diz que o capitão mamava um cadinho aí ele deitou debaixo de uma árvore meio mamado, o boi veio e comeu o pano da bandeira dele. Aí ele falou: ‘E agora pra seguir com a companhia? Como é que vou fazer? O que é que eu vou fazer?’. Aí chegou com o bambu na mão na casa do pessoal e cantou assim: Meu senhor dono da casa Escuta o que aconteceu Dá esmola pro bambu Que o pano o boi comeu Essa história é contada no Brasil inteiro, quase toda companhia fala ela. Cada um fala de um jeito, mas todas brincam essa brincadeira. Eu acho que foi o parente do Adriano que era esse cara que deixou perder a bandeira. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2018 Ao ouvir a acusação, o capitão Adriano Nogueira tratou logo de esclarecer a situação: “Eles falam que foi o meu tio, o Paulo Mathias, que passou essa situação aí. Você não queria 217 era falar, né Tião? É que ele gosta mesmo de tomar uma, né? Muita gente conta essa história da bandeira e do boi e teve gente que até já falou pra mim: ‘Isso foi cachaçada do seu tio’”. A lenda do boi, assim como muitas outras contadas pelos foliões, envolvem situações inusitadas e engraçadas ocorridas com as companhias e podem estar associadas com a capacidade de improvisação dos capitães. O folião Zé Maria, por exemplo, me contou que quando ele e seu irmão eram pequenos e saíam de bastião, foram “numa roça lá e a mulher deu um pato. Meu irmão pediu um frango, mas a mulher deu um pato. Aí o embaixador criou o seguinte verso”: Minha senhora dona da casa Vai aqui o meu agrado Agradeço a sua oferta Santos Reis quem paga o pato O folião ainda me declarou que “não teve quem não riu da turma” e insistiu que “isso é uma história real”. O folião Oswaldinho também me contou sobre um antigo embaixador da região que era conhecido por ser muito atrapalhado na hora de improvisar os versos. Certa vez este embaixador recebeu como oferta de uma devota e de sua filha um frango e uma galinha, ocasião em que improvisou os seguintes versos: Deus lhe pague a boa oferta Da senhora e da mocinha Da sua filha essa franga E da senhora sua galinha Quem criou esses versos foi o Zé Alfredo, que é lá de Monte Belo. Ele já morreu faz muitos anos. Era um capitão todo atrapalhado. Outra vez ele trovou assim: Vou contar pro meu senhor O que foi que me aconteceu Dá esmola pro bambu Que a bandeira o boi comeu Foi o boi do Antenor Ferreira que comeu a bandeira, mas o folião que fez o verso foi o Zé Alfredo. O povo fala que é lenda, mas não é lenda não. Foi com o Zé Alfredo que aconteceu isso. É verdade mesmo. OSWALDO LUIS DE BRITO, 2018 8.2.1. Um ano de mudanças e o reencontro com os foliões Depois daquela tarde eu só me reencontraria com os foliões da Companhia Reis do Oriente um ano depois, durante a jornada de 2016-2017, pois eles não puderam ir à exibição dos vídeos que eu havia organizado em Alfenas antes de iniciarem a jornada. Já em posse do 218 contato do Cantarelli, liguei para ele no dia 29 de dezembro de 2016 para agendar um dia para seguir sua companhia na jornada daquele ano. Ao conversar com ele pelo telefone e tendo anunciado o motivo da ligação, ele me respondeu: “Onde é que você tá? A gente tá cantando em umas casas aqui nos Bárbaras. Vamos fazer um descanso de meia hora aqui na igreja até dar a hora da gente ir pra chegada do almoço. Vem aqui que vocês já almoçam com a gente”. A distância de onde estávamos até a comunidade rural dos Bárbaras era de aproximadamente quinze quilômetros, cerca de dez minutos apenas, de modo que decidimos partir ao encontro dos foliões. Chegamos primeiro que eles no local combinado para o reencontro: a capela de Santa Bárbara, onde havíamos registrado, na jornada do ano anterior, a festa de chegada e a entrega da bandeira da Companhia Santa Bárbara, no dia 09 de janeiro de 2016. Assim que os foliões chegaram, nos mesmos veículos do ano passado, foram descendo e nos cumprimentando, arranjando logo em seguida algum lugar para deitar. Em pouco tempo cerca de metade da companhia estava dormindo, esperando o horário para fazer a chegada do almoço. Ficamos então conversando com o Cantarelli e com os outros foliões que estavam acordados, e, enquanto o parabenizava por ter sido eleito prefeito de Fama, ele se desculpava por não ter comparecido à exibição dos registros audiovisuais que havia acontecido algumas semanas antes: “Eu tava muito enrolado com esse negócio de eleição rapaz, tava sem tempo pra nada”. Foi então que tive a ideia de ligar meu notebook e exibir o registro que havíamos gravado no ano anterior ali mesmo, em frente à igreja. Os foliões trataram logo de acordar aqueles que estavam dormindo para mostrá-los na filmagem, de modo que apenas um ou outro folião continuou com seu sono. O momento foi bastante emocionante, pois muitos deles nunca haviam se visto cantando. A comoção foi geral. Enquanto alguns discutiam entre si os aspectos musicais do registro, como a afinação e o casamento das vozes, outros aproveitavam para reparar no quanto suas aparências físicas tinham mudado de um ano para outro: “Rapaz, como eu engordei. Não gostei de ver esse vídeo não”, diziam alguns em tom de brincadeira. Ainda que o encontro daquele dia fosse apenas para agendarmos uma data para segui- los em outro dia da jornada, acabamos almoçando com eles e os acompanhando pelo começo da tarde por algumas casas da zona rural de Fama. No meio do giro o Cantarelli vira pra mim e diz: “Amanhã nós vamos atravessar a balsa pra ir cantar lá no Córrego do Ouro. Você já tem companhia agendada pra amanhã? Não quer ir com a gente lá não?”. Eu já tinha ouvido vários relatos sobre a travessia da represa pela balsa e estava ansioso por uma oportunidade de fazer esse trajeto. Um dos primeiros foliões a me falar sobre a travessia da balsa, cujo relato tinha me deixado realmente empolgado para fazer essa travessia, foi o embaixador Gaspar Ribeiro 219 “Keka”, da Companhia da Irmandade: “Nós começamos a tocar dentro da balsa aqui na entrada do porto e fomos parar lá no Barranco Alto. Foi a coisa mais bonita. As canoas todas acompanhando a gente do lado da balsa. Foi uma coisa linda viu”. E naquele mesmo ano eu tinha ouvido do embaixador da Companhia dos Santos Reis o seguinte relato: Quando nós vamos pro Barranco Alto a gente atravessa pela balsa. Aí vamos no Barranco Alto, vamos no Mandassaia, na Serrinha, no Cascalho. Tudo pela balsa. Até sair lá no Barranco Alto. Dali despois se você quiser sair lá pelo lado do Cavaco e não quiser voltar por aqui você vai pelo Cavaco, por Alterosa. Não precisa voltar pela balsa. A balsa tem o horário dela, acabou aquele horário ela não passa mais. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 Foi assim que, sendo motivado pelos relatos de outros foliões e diante daquele convite irrecusável feito pelo Cantarelli, combinamos de nos encontrar na manhã do dia seguinte no Porto de Fama para atravessar a represa e partir rumo aos bairros rurais de Córrego do Ouro. Os foliões da Companhia Reis do Oriente se vendo no notebook apoiado em cima do carro. 8.3. O projeto e a construção da Usina Hidrelétrica de Furnas Foi em meados da década de 1950 que se deu a construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, com o represamento do Rio Grande entre os municípios de São José da Barra e São João Batista do Glória, cujo intuito era suprir a demanda de energia elétrica no país. Iniciado em 1956, o ambicioso projeto de Juscelino Kubitschek fez com que a construção se tornasse a 220 maior obra da América Latina em execução na época, cuja extensão do reservatório obrigou mais de trinta e cinco mil pessoas a desocuparem suas terras cultiváveis, dentre milhares de famílias de pequenos agricultores. A represa de Furnas, como é conhecida, mudou de forma drástica não somente a vida de milhares de moradores da região, mas também boa parte das paisagens montanhosas do sul de Minas Gerais, já que sua extensão afetou diretamente trinta e quatro municípios sul-mineiros. Entre os foliões e moradores da região, as opiniões sobre a construção da represa divergem bastante. Para o folião Valter, por exemplo: [...] a represa atrapalhou um pouco o giro da folia, porque antigamente não tinha esse negócio de travessia de balsa. Por exemplo, se nós quisermos ir cantar no Barranco Alto, nós já temos que ir de balsa. Aí nós pegamos e já vamos direto. Toda vez que nós vamos, vamos pela balsa. Se não quiser pegar aqui tem que pegar lá do outro lado. Por aqui de balsa também já sai em Campo do Meio. Vai tudo de balsa. VALTER DOS REIS, 2016 O grande número de opositores à consolidação do projeto, mesmo após o término de sua construção, fez com que o fechamento do reservatório fosse realizado de forma sigilosa no dia 09 de janeiro de 1961, dando início às operações de fechamento dos dois túneis que desviavam as águas do Rio Grande. O engenheiro Roque Gioacchino Piantino, que conheceu os detalhes que envolvem a história do lago, disse que: [...] houve uma forte resistência do então governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, que tentava postergar o fechamento dos túneis de desvio que formariam o lago. Para que tudo ocorresse com êxito, conforme planejava o governo federal na época, foi necessária uma verdadeira operação de guerra, que contou com a participação da marinha, do exército e até da aeronáutica. PIANTINO apud DELFRARO, 2013 Como o tempo previsto para a inundação dos municípios e vilarejos era de dois anos e levou menos de nove meses, com a água chegando antes do predito, grande parte das famílias foram retiradas às pressas e à força de suas propriedades. Várias cidades ficaram parcialmente ou totalmente encobertas pela água, sendo que algumas tiveram que ser reconstruídas após a inundação. O município de Guapé e a antiga vila de São José da Barra, por exemplo, ficaram submersos por inteiro, e um caos se instalou entre os moradores que se negaram a deixar suas terras, sendo necessária uma intervenção das Forças Armadas. Muitas famílias de pequenos agricultores perderam tudo e inúmeros são os casos de suicídios decorrentes das perdas das terras cultiváveis. Foram quase cinco anos de inundação com transposições de rios, cidades 221 alagadas e lares abandonados desde o fechamento do reservatório até sua inauguração oficial em 12 de maio de 1965, na qual esteve presente o presidente Camilo Castelo Branco. Na época que a represa encheu nós morávamos na roça, aí mudemos pra cidade. Antes da represa era só rio e ribeirãozinho. Aí depois que surgiu essa represa aí ajuntou tudo, né? Aqui tinha o rio Muzambo, o rio Sapucaí. O rio Sapucaí e o rio Machado se encontravam aqui na Fama e caíam tudo num só, sabe? Aí depois que veio Furnas que essa água represou total, aí já veio essas usinaiada, essa bagunça do caramba. Porque nossa água era dessa caixa d’água aí ó, certo? O doutor que doou essa escola aqui ó, Deus ponha a alma dele num bom lugar, chamava doutor Luiz Fernando Salles, ele morava aqui no Jardim São Carlos. Então ele doou a água pra nós, ela vinha do fundo alí ó. De manhã cedo aqui escorria uma água que era a coisa mais linda do mundo, certo? E o nosso fundamento, da água que vinha pra nós, tá tudo debaixo da terra. Jesus, desde que ele fez o mundo, ele deixou água à vontade pro povo. Agora hoje com esse negócio dessas barragens, Furnas, essas coisas, você vê o jeito que tá hoje. Antigamente você trabalhava um dia dava pra pagar água, luz e ainda sobrava dinheiro. Hoje tem que trabalhar duas semanas e tanto pra pagar um talão de água e não tem alternativa, cada vez você paga mais. Quando chega o dia eles não querem saber se o cara tem dinheiro. Vem e corta. Não tem compreensão. Porque a gente tem até o dia trinta pra pagar. Eu graças a Deus nunca deixei cortar o meu. Mas também, comia até passando pra parede pra poder ganhar um dinheirinho e manter a dignidade. VALTER DOS REIS, 2016 A história da represa pode ser dividida em três fases: 1) entre os anos de 1958 e 1970, marcado por contestações de lideranças políticas e religiosas do estado, que defendiam os anseios da população, dos sitiantes e dos fazendeiros que tiveram suas terras desapropriadas; 2) entre os anos de 1971 e 1976, com a utilização da represa como fonte de lazer para alguns moradores, que investiram na construção de ranchos e de casas de campo ao seu redor; e 3) a partir de 1978, com investimentos de empresas privadas a partir de um plano elaborado pelo Governo de Minas em 1975, a fim de explorar seu potencial turístico, como a construção de hotéis fazenda, condomínios, restaurantes, áreas de camping etc. Visando fomentar seu plano de desenvolvimento econômico e industrial, ainda que diante de uma iminente calamidade sócioambiental, Juscelino Kubitschek se valia dos argumentos de que novas possibilidades de exploração econômica seriam instituídas através do turismo e da piscicultura, já que a usina seria responsável por mais de um terço da energia elétrica gerada no país. Embora o projeto tenha iniciado em 1961, a inauguração oficial ocorreu somente em 1965, sendo acompanhada pela criação de empresas estatais para seu gerenciamento, como a Companhia Energética de Minas Gerais e a Central Hidrelétrica de Furnas. Hoje o lago cobre cerca de 1.440 km² com perímetro de cerca de 3.500 Km, se estendendo por 240 Km a leste da barragem através do curso do Rio Grande e por 170 Km ao sul através do curso do Rio Sapucaí. 222 A comunidade rural Barranco Alto, circundada pela represa de Furnas. Ainda que as gerações mais novas tenham sido afetadas de formas bastante diferentes pela construção da represa em comparação com seus antepassados, são os mais velhos que ainda guardam muitas lembranças desse período, algo refletido nos relatos de alguns foliões e na experiência decorrente do isolamento de algumas comunidades rurais. Antes da inundação o trânsito entre as comunidades rurais e mesmo entre estas e a cidade era mais fácil, podendo ser feito em alguns minutos de caminhada ou a cavalo, permitindo uma maior interação social e cultural entre os moradores. Após o represamento das águas do Rio Grande, vários bairros rurais ficaram isolados do restante da cidade, inviabilizando o trânsito dos moradores para outras comunidades e para a cidade, trazendo algumas consequências sociais e culturais, já que sem as balsas este trajeto só pode ser feito através da rodovia, contornando a represa e percorrendo algumas dezenas de quilômetros a mais. Na comunidade rural Serrinha, por exemplo, os moradores podiam transitar facilmente tanto para as comunidades rurais quanto para a cidade, em um trajeto de poucos minutos. Com a inundação o trajeto só pode ser feito por meio das balsas ou de automóvel, percorrendo dezenove quilômetros de estrada de terra até o município de Alterosa e mais quarenta e cinco de rodovia até Alfenas. Mas também existem aqueles que, mesmo sendo mais velhos e tendo vivenciado a inundação na época em que ainda eram crianças, entendem a represa de forma muito positiva, 223 contrastando com aqueles relatos que evocam o drama das famílias afetadas e desapropriadas pela inundação. O relato do capitão da Companhia Sagrado Coração de Jesus, por exemplo, deixa transparecer uma ideia de que a represa não afetou tanto assim o giro das companhias, algo justificado pela vontade e pela fé que os foliões possuem nos Santos Reis. Eu vi a represa enchendo, eu tive esse privilégio porque a gente morava perto dos Rocha. Mas eu acho que a represa não interfere muito no giro das companhias não, porque é aquela coisa, tem a vontade e a fé. Então se tem a represa, a represa é da natureza. Tem barco, tem canoa, então não vai interferir. Se não dá pra ir de barco e não dá pra ir de canoa, pega uma condução, vai por cima e atravessa pra lá. Isso não interfere não, você entendeu? A represa pra nós hoje na nossa região é alegria. Aliás, tá todo mundo triste com a falta da represa, com essa seca. Já acostumou com a represa. Quando a represa subiu eu tinha oito pra nove anos de idade, então a represa já faz parte da nossa história. Na época que a represa subiu, quem tinha uma idade boa ficou muito triste, porque a pessoa tinha arrozal e aquelas coisas todas lá na vargem e a represa veio e foi engolino tudo, né? Mas hoje se você perguntar pra qualquer um eles vão sentir falta. Porque ela subiu, o pessoal acostumou e ela tá fazendo parte da vida do pessoal. Hoje a represa pra nós é alegria. Quando subiu foi um susto, mas isso foi só na época. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2016 Atualmente são as balsas que minimizam os impactos sociais e culturais provocados pelo isolamento de algumas comunidades, se apresentando como alternativa para locomoção tanto entre as próprias comunidades quanto para a cidade. A responsabilidade pelo serviço e pela manutenção das balsas é feita pelas prefeituras em parceria com a empresa Eletrobrás Furnas, que atende tanto o transporte de veículos quanto de pessoas. Hoje, mais de cinquenta anos após a formação da represa, a falta de uma vivência dos dramas sociais dos moradores que foram desalojados de suas casas na época, aliada à política de esquecimento no país, faz com que as gerações mais novas encarem a represa com grande naturalidade e até mesmo de forma muito positiva, visão esta que às vezes se apresenta de forma bastante diversa quando os interlocutores são as pessoas mais velhas da região. 8.3.1. Atravessando o “mar de Minas” com a companhia A primeira vez que atravessei a represa de Furnas pela balsa eu devia ter uns doze anos de idade. A travessia foi realizada na Balsa do Porto, instalada em Carmo do Rio Claro, tendo como destino a famosa Ponte Torta, um dos cartões postais da zona rural do município e onde eu costumava pescar com meu pai quando íamos visitar alguns parentes nas férias escolares. Apesar de muito jovem, me recordo de sempre ver um ou outro violeiro tocando sua viola no alpendre de sua casa na zona rural, enquanto seguíamos em direção à ponte que 224 liga Carmo do Rio Claro ao município vizinho de Ilicínea. Este foi um trajeto feito por vários anos seguidos, até que parei de visitar a cidade de Carmo quase vinte anos atrás. Um segundo momento de travessia da represa pela balsa foi em 2012, quando estava elaborando o projeto de pesquisa para este trabalho e fiquei sabendo que a secretária do conservatório onde dou aula possuía um tio que era um dos mais antigos foliões de reis da região. Tratei logo de ir fazer uma visita ao Sr. Manoel de Oliveira Terra, folião e violeiro nascido em 1933 e desde sempre morador da comunidade rural Mandassaia, mas para visitá-lo foi preciso atravessar a represa através da Balsa da Harmonia, que liga o município de Alfenas aos bairros rurais que foram isolados pela represa, como Barranco Alto, Serrinha, Cascalho e Mandassaia. Mas esta nova travessia da represa que eu faria junto da Companhia Reis do Oriente não seria nem pela Balsa do Porto, que liga Carmo do Rio Claro a Ilicínea, e nem pela Balsa da Harmonia, que liga Alfenas aos seus bairros rurais, mas sim pela Balsa de Fama, que liga o município de Fama a Córrego do Ouro, um pequeno distrito de Campos Gerais. Acordamos cedo naquele dia e, logo que saímos de Alfenas e pegamos a estrada rumo à cidade de Fama, liguei para o Cantarelli, pois queria ter certeza que conseguiríamos fazer a travessia da balsa com a companhia e que, assim como o quarto mago Artabano, não seríamos deixados para trás pelos foliões. O local de nosso encontro era a casa do Cantarelli, pois de lá seguiríamos todos juntos para o porto. Ao chegar os foliões já estavam nos esperando, mas ainda tivemos tempo de tomar um café fresco antes de partir para a beira da represa. Era por volta das oito horas da manhã quando, já no porto da Balsa de Fama, avistamos a balsa que vinha em nossa direção sobre as águas da represa com três carros sobre ela. Assim que a balsa aportou e os carros começaram a descer, o Cantarelli se aproximou da represa e quatro garças que estavam logo à nossa frente voaram assustadas para longe dali. Naquele dia a companhia estava com doze integrantes (dois violeiros, quatro violonistas, um caixeiro, um bandeireiro, dois bastiões, um bastiãozinho e o Cantarelli), mas ainda assim estava desfalcada, pois estava sem pandeirista e sem sanfoneiro. O transporte era a Kombi de sempre e um Fiat Uno, desta vez sem o furgão que também costumava ser utilizado para o transporte dos foliões. Enquanto cinco foliões subiam na balsa a pé, os veículos manobravam para entrar na balsa com o restante dos foliões dentro, três na Kombi e quatro no Fiat Uno. A orientação do senhor que coordenava a entrada na balsa era para que os veículos entrassem de ré, pois assim facilitaria nossa saída quando chegássemos ao destino. Aquelas quatro garças, que assustadas tinham voado para longe dali, se juntaram com outras cinco que já estavam sobre um telhado em uma antiga instalação ao lado do porto e na beira da represa, acompanhando desconfiadas 225 e atentamente a movimentação dos carros e o caminhar dos foliões. A Kombi foi a primeira a entrar na balsa, seguida de outros dois veículos, do Fiat de um dos foliões e do meu carro. Em poucos minutos começamos a nos distanciar da margem da represa. Tão logo desaportamos, outro carro chegou em velocidade para tentar pegar a balsa ainda naquele horário, mas já era tarde demais. Seria preciso esperar seu retorno. O bastião da Companhia Reis do Oriente com seu colete salva-vidas: segurança acima de tudo. Do lado direito da balsa ficava a cabine do motorista, enquanto que do lado esquerdo ficavam dezenas de coletes salva-vidas sob um espaço coberto, onde os foliões se ajuntaram para se proteger dos raios do sol e do intenso calor que fazia naquela manhã. Um pouco mais à frente havia uma coluna, sobre a qual estavam dois botes salva-vidas, e, mais ao final do corredor, podia ser lido o nome daquela embarcação, escrita em cor vermelha sobre um fundo branco: Balsa Araúna. Enquanto fazíamos a travessia, o bastiãozinho observava a paisagem à frente com seu binóculo, onde a balsa iria aportar em Córrego do Ouro. Era uma paisagem dominada pela plantação de laranja e café, mas onde também podíamos ver algumas casas um pouco mais afastadas da represa e a região montanhosa do sul de Minas. Assim que chegamos a Córrego do Ouro pegamos uma estrada de terra em direção às casas da zona rural que ficavam mais próximas do porto, pois era ali que os foliões iriam dar início ao trabalho religioso naquele dia. A primeira casa onde a companhia parou para cantar era de um dos foliões, o cantador e violeiro Valter Rodrigues. Como o folião tem o costume 226 de deixar a chave de sua casa com seu vizinho, logo que chegamos ele foi buscar a chave para que a companhia pudesse cantar dentro de sua casa. Enquanto o folião Valter sumia na estrada em meio a uma plantação de milho e de mandioca, o folião Cantarelli conversava com alguém pelo telefone para saber do pandeirista da companhia: Alô, Zelão? Onde é que teu primo tá? Além dele não vir ele não trouxe o pandeiro pra gente. Ele tirou o pandeiro da Kombi ontem. Nós já estamos aqui em Campos Gerais já, depois você fala pra ele dar um jeito de trazer o pandeiro pra gente aqui em Campos Gerais, aqui na serra. Fala pra ele dar um jeito porque ele não firma, ele não vai. Ele nem é folião e nem não é, mas ele pega o instrumento, não avisa que não vem, não fala nada e vai pra Alfenas. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 Assim que desligou o telefone ele deu a notícia aos demais foliões: “O pandeiro não vem, o primo do Zelão tá lá pra Alfenas”. Neste momento chega o folião Valter Rodrigues, que havia ido buscar a chave de sua casa com o vizinho para que a companhia pudesse fazer a cantoria: “Cantarelli, nada feito. Meu vizinho não tá em casa. Mas ele nunca sai rapaz, não sei o que aconteceu. É impressionante. Sinto muito, vocês me desculpem”. Sem perder o bom humor e a oportunidade de zombar do folião, o Cantarelli foi logo provocando: “Que homem prevenido você, hein? Como é que você não tem a chave da tua casa? Não tem como fazer chave reserva né? É difícil demais fazer uma cópia reserva da chave, né? O ano que vem você faz. Vamos cantar em outro lugar então”. O folião desprevenido, bastante sem jeito, sugeriu: “Vamos cantar aqui mesmo. Se não tiver problema a gente canta aqui do lado de fora. Não tem erro não. Eu não sei se pode cantar em cima do terreiro ou se é só dentro de casa. Mas se não tiver problema então me dá a bandeira que eu quero segurar”. Enquanto os foliões iam se posicionando para a cantoria, o Cantarelli continuava reclamando: “Se a gente dependesse de alguma coisa pra comer que tá lá dentro da casa a gente tava lascado. Cadê a pinga pra gente beber? O pandeireiro ficou pra trás, a chave da casa ele não tem e agora a pinga tá trancada lá dentro da casa. Tá tudo achatado hoje”. Antes mesmo que o Cantarelli terminasse de reclamar os foliões já estavam tocando os violões com o acompanhamento da caixa, sem sanfona e sem pandeiro. Com todos os foliões debaixo de uma cobertura improvisada, para se proteger dos raios do sol e minimizar o calor forte que fazia naquela manhã, o embaixador Vicente Rocha aproveitou que o Cantarelli estava zombando do Valter e trovou alguns versos recomendando que o folião azarado, que não tinha a chave da própria casa, se benzesse: 227 Ai na hora que Deus começa Ai na hora que Deus começa Ai nós já vamos começar Ai nós já vamos começar Ai benze o corpo folião Ai benze o corpo folião Ai pra viagem continuar Ai pra viagem continuar Ai o três reis está contente Ai o três reis está contente Ai os folião ele encontrou Ai os folião ele encontrou Ai vem trazer vida e saúde Ai vem trazer vida e saúde Ai a sua morada abençoou Ai a sua morada abençoou “Tá satisfeito Valter? Pode agradecer?”. “Tô muito satisfeito, já pode agradecer”. Ai o presente que vós deu Ai meus três reis lhe agradece Ai o presente que vós deu Ai meus três reis lhe agradece Ai já benzeu tudo o que é seu Ai o seu nome nunca se esquece Ai já benzeu tudo o que é seu Ai o seu nome nunca se esquece A Companhia Reis do Oriente e, ao fundo, o Cantarelli inconformado com o folião sem a chave da casa. 228 Depois que a companhia terminou o agradecimento, enquanto o Cantarelli continuava reclamando do folião que tinha levado o pandeiro embora e da pinga trancada dentro da casa, “tão perto e tão longe”, dois foliões da companhia começaram a cantar a música Sonho Alto, da dupla Milionário & José Rico. Logo em seguida chegou um devoto que morava próximo dali e que tinha ouvido a cantoria de sua casa. Enquanto ele beijava a bandeira os dois foliões começaram a música Velha Porteira, da dupla Lourenço & Lourival, e assim que os foliões terminaram de cantar, o devoto que tinha surgido repentinamente disse: “Eu quero que vocês cantem pra mim, porque eu tenho uma esmola pra dar pra vocês. Mas eu gosto de ver pedir”. O Cantarelli então avisou o capitão: “Vamos cantar pedindo um presente pra ele”. Ai os três reis tá viajando Ai os três reis tá viajando Ai na sua mão ele veio parar Ai na sua mão ele veio parar Ai vem pedir a vós um presente Ai vem pedir a vós um presente Ai pro menino Deus levar Ai pro menino Deus levar “Beleza pura, melhor do que isso não tem. Eu vou dar a esmola agora, tá aqui. É o bastião que pega, né? Aê bastião! Tô muito satisfeito. Já pode agradecer. Tá aqui a esmola”. Após cantarem o agradecimento pela oferta e antes mesmo que os foliões terminassem a “coda” instrumental após o último verso, o Cantarelli já estava reclamando novamente: E pensar que tem pinga ali dentro. Não tem como varar pela janela pra gente beber uma pinga? Ou então arrebentar esse cadeado e depois a gente compra outro? Quando eu esqueço a chave de casa e tô com vontade de beber uma pinga eu arrebento o cadeado e depois compro outro. A gente passa um ano sem vir aqui e quando vem não entra. Quando vem a porta tá fechada. A gente vai quebrar essa janela sua. Mas o ano que vem eu vou fazer uma cópia da chave pra você Valter. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 Aquela ainda era a primeira casa de um dia inteiro de giro, que acompanhamos até a chegada para o almoço. Em cada casa que a companhia parava o Cantarelli fazia questão de nos lembrar da pinga trancada e do folião que não tinha a chave da própria casa: “Pode ficar despreocupado Valter, que no ano que vem eu vou fazer uma cópia da chave pra você”. 229 – PARTE III – O PROCESSO PEDAGÓGICO No Brasil continuamos a pensar as populações que vivem no campo e as populações que vivem na cidade como duas humanidades divididas por um instransponível abismo. Ignoramos completamente a extensa e profunda presença da cultura camponesa e rural mesmo em metrópoles presumidas como modernas e completamente urbanas [...] Os universitários acreditam que a informação que não chega no meio acadêmico não existe, é irrelevante ou é falsa. Criou-se uma ilusão (principalmente na mente do estudante pobre ou de classe média baixa) que o ingresso na universidade é o sétimo céu da cultura e que não existe mais nada fora disso. JOSÉ DE SOUZA MARTINS, 2004 230 9. Os bastiõezinhos da Companhia Sagrado Coração de Jesus O trânsito de alguns foliões entre as diversas companhias da cidade e mesmo da região é relativamente intenso entre um ano e outro e, às vezes, até mesmo dentro do período de uma mesma jornada. É comum vermos foliões saindo cada ano em uma companhia diferente, pelos mais diferentes motivos, desde desavenças com os antigos companheiros até sendo motivados para ajudar alguma companhia que está com falta de folião. Há ainda os foliões que se sentem à vontade para trocar de companhia a cada ano por não possuírem um vínculo ou sentimento de pertencimento muito arraigado em determinada companhia, fechando sua saída com aquela que lhe faz o convite primeiro. Foi durante o primeiro ano de trabalho de campo, no dia 30 de dezembro de 2015, que conheci o bastiãozinho Álvaro Silva Nogueira, que, apesar de ser filho do embaixador da Companhia Sagrado Coração de Jesus, naquele ano estava saindo com a Companhia dos Santos Reis. Quando encontrei o pai do bastiãozinho dois anos depois, já no último ano de trabalho de campo, perguntei sobre o trânsito do filho entre uma companhia e outra e se os foliões geralmente possuem algum sentimento de pertencimento a determinado grupo, ainda que saiam em outras companhias. [...] na maioria das vezes sim, mas tem a questão da amizade. Como eu te disse antes, nós temos muitos amigos que têm companhias. O pessoal lá dos Santos Reis gosta muito do meu filho. Eu também já saí alguns anos lá ajudando eles. O pessoal lá gosta muito dele. Ele começou a sair lá. Mas pelo fato de eu estar aqui ele quer estar junto com o pai, então acabou vindo pra cá. E por causa dos amigos também. ADRIANO NOGUEIRA, 2018 Na verdade, quando conheci Álvaro, ele já não era mais um simples bastiãozinho, mas estava em uma fase de transição entre a condição de bastiãozinho para a de bastião, pois já tocava pandeiro e declamava longos versos em frente ao presépio. Toda companhia deve necessariamente possuir seus bastiões, figura indispensável para o trabalho religioso de culto e adoração aos três reis magos, pois, como me disse o folião Luís de Brito, “se não tiver palhaço não tem companhia de reis. Aí é companhia do Divino”. Mas é preciso chamar atenção para a figura do bastiãozinho, personagem que é tão importante para a existência e perpetuação das companhias quanto o próprio bastião, pois, embora estes dois personagens pareçam ser o mesmo, não são e tampouco têm a mesma função nas companhias. A importância dos bastiõezinhos reside principalmente no fato de que nele são depositadas muitas das esperanças dos foliões de que a tradição nunca deixe de existir. São crianças que, a partir dos dois anos de idade, passam a acompanhar os pais na jornada, ainda que, em muitos 231 casos, seus pais não sejam foliões, mas apenas devotos que levam seus filhos desde pequenos para incentivá-los na esperança de que futuramente se tornem foliões. Começando desde pequenas, muitas vezes as crianças passam a integrar o grupo como músicos já com oito ou nove anos de idade, geralmente tocando pandeiro, caixa ou fazendo a voz conhecida como tala. Não são poucos os foliões que começaram nesta função, sendo a partir desta condição que muitos passaram a ocupar outras funções nas companhias. O folião José Reis Garcia, respondedor da Companhia Filhos da Cambraia, me contou sobre as etapas pelas quais passou desde que começou a sair em jornada com outros foliões: “Eu desde oito anos que participo como bastiãozinho. Depois me tornei bastião, um pouco mais velho. Hoje tô como respondedor do capitão”. O folião Luiz dos Anjos Anacleto, o Côco, da Companhia Estrela Guia, é outro que também começou como bastiãozinho: “Eu comecei mesmo foi na companhia do Sebastião Feliciano, com cinco anos de idade e como bastiãozinho”. Podemos dizer que o bastiãozinho é um aspirante a bastião e que, caso tenha interesse, posteriormente pode pleitear outros cargos na companhia, seja cantando ou tocando algum instrumento. O bastião Álvaro Silva Nogueira, então com onze anos em 2015, caminha debaixo de chuva após ter declamado alguns versos na casa de uma devota junto da Companhia dos Santos Reis. 232 Segundo palavras do próprio Álvaro, quando o encontrei dois anos depois saindo junto de seu pai na Companhia Sagrado Coração de Jesus, seu interesse pela função de bastião se deu “desde os sete anos, quando eu via os bastiões da folia de reis do meu tio falar. Eu falava pro meu pai que eu sempre tinha vontade de aprender. Aí como ele tem no computador dele, ele me passou alguns versos pra estudar. Eu estudo em casa”. Segundo seu pai, que na jornada de 2017-2018 já estava cantando com o filho: [...] esse ano ele fez uma coisa que eu acho que foi um processo bem interessante de aprendizagem dele. Eu tenho várias linhas de versos no computador. Não só pra ele, porque eu imprimo e passo pros meninos estudar e aprender. E esse ano ele inovou. Ele pegava e gravava no celular o áudio e quando ele chegava da escola ele punha o fone no ouvido e ia descansar ouvindo pra gravar, e facilitou a gravação dos versos. Ouvindo eu acho que é melhor do que lendo. ADRIANO NOGUEIRA, 2018 Além do Álvaro, a Companhia Sagrado Coração de Jesus possui outros aspirantes a folião, de modo que o caso desta companhia se mostra bastante interessante para discutirmos algumas questões sobre os processos de ensino-aprendizagem dos foliões e sobre a passagem da condição de bastiãozinho para a de folião. Adriano da Silva, o caixeiro e pandeirista desta companhia, também costuma levar a filha Geovana para os giros da jornada, e foi com a voz cheia de orgulho e com a filha nos braços que ele me disse: “Minha filhota já tá vindo, tá aqui me acompanhando. Vai fazer seis anos e já tá saindo de bastiana”. Segundo o embaixador Adriano Nogueira, o jovem Carlos Eduardo Souza Alves, de apenas onze anos (mas que sai com o grupo desde os seis), “é o folião mais novo da turma. De folião ele é o mais novo”. Carlos é filho do contrafino da companhia e é constantemente alvo de comentários positivos e cheios de orgulho por parte dos embaixadores, que comentaram sobre sua passagem de bastiãozinho para a posição de folião: Esse menino tem uma história legal que é o seguinte: criança geralmente tem vontade de ser bastião. Entre dez crianças você pega uma igual a ele. Ele não quer ser bastião, ele quer ser folião. Esse ano ele tá aprendendo a tocar caixa, já tá tocando bem a caixa e pandeiro ele já toca bem. Ele tem essa curiosidade de querer ser folião, apesar da idade. A gente até briga com ele pra não pegar a sanfona em pé porque é pesada, pra pegar a sanfona sentado. Já ensinamos ele a fazer a nota ali pra gente afinar os instrumentos. ADRIANO NOGUEIRA, 2018 233 O jovem Carlos, de apenas onze anos, já usa o uniforme da companhia, toca pandeiro e assim se distingue das outras crianças por não querer mais saber de usar farda de bastiãozinho. O bacana dele é que ele já tem um bom interesse de cantar, sabe? Já fica escutando perto da gente. Mas a gente não tá colocando ele muito pra cantar porque o hino nosso tem umas puxadas longas e o fôlego dele ainda é de criança. Mas a gente vai chegando. Eu acho que daqui uns dois anos ele já tá cantando no meio da gente sossegado, porque vontade ele tem. E tem vontade até no sangue, porque a família dele é tudo folião. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2018 Por outro lado, ainda sobre os bastiõezinhos, é preciso dizer que muitos deles deixam as companhias quando chegam à adolescência, motivados pelos mais diversos fatores: vergonha dos amigos, início dos namoros, falta de tempo por terem outras atividades, perda de interesse e outros motivos relacionados à idade. E sendo eles a única esperança que os mais velhos têm de manterem viva a tradição, esse abandono das atividades como bastiãozinho sempre é algo que preocupa os foliões, como me contou o folião Francisco Noel. Esse bastião aqui é meu sobrinho, os outros dois são vizinhos meu lá, são primos os dois. Esses meninos aqui já não estão começando agora, então eles estão acostumados. Então eu quero manter esses dois meninos com a gente, porque os foliões mais velhos vão acabando, e acabando os novos não continuam. Então eu 234 vou ensinar esses dois meninos pra continuar com a gente aí. Os três aí. Vão ser os bastiões preferidos, né? Que agora os outros já foram tudo. Os outros arrumaram uma namoradinha e abandonaram. Todos os bastiõezinhos da idade dele aqui ó, vai calculando, calculando, chega, arruma uma namorada e casca fora. Esses aí vão continuar, até o fim. Se Deus quiser. Mas eles precisam estudar alguma coisa. Eles estão estudando. Eu já dei a lista pra eles já, pra estudar. Mas é que foi muito pouco tempo, né? Não deu tempo. Eles até falam um pouquinho, mas vão aprender. Se Deus quiser vão ficar muito bom50. FRANCISCO NOEL “MOEIRINHA”, 2015 9.1. Aprender ouvindo e tocando Quando conheci o bastiãozinho Álvaro Silva Nogueira, em dezembro de 2015, ele estava tocando pandeiro na casa de uma devota para ajudar a Companhia dos Santos Reis, que naquele dia estava sem pandeirista. Antes de começar a tocar seu pandeiro, no entanto, ele já havia feito adoração ao menino Jesus em frente ao presépio na casa onde haviam entrado para cantar, ocasião em que declamou este longo trecho sobre o nascimento de Jesus: Hoje faz nove meses Que Maria recebeu Lá pros lado do Oriente A chegada dos três reis Na chegada de Belém Lá na parte do Oriente Encontraram o menino Deus E ficaram todos contentes Na chegada em Belém Que nasceu o menino Deus Pelo poder do Espírito Santo Glória ao Espírito Santo Antes do galo cantar Que o menino Deus nasceu O menino Deus nasceu É o Rei divino de luz A estrela que iluminou E a Deus nos conduz 50 Igor Jorge KIMO (2005: 707) observou em sua pesquisa que “de fato, em todos os Ternos de Folia de Reis, que tive a oportunidade de conhecer, as relações de parentesco estão sempre presentes entre os integrantes do terno. Todos têm histórias de entes queridos que no passado, saíam em folias. No entanto, esta tradição pode ser ocasionalmente adaptada, transformada. [...] Hoje, aos 59 anos (54 anos de Folia), Sr. Joaquim Poló, Mestre e Imperador, diz já ter escolhido o filho que será seu sucessor. Ele deixa explícito o quanto é importante que seus valores permaneçam de pé, mesmo que a vida lhe falte com o passar dos dias”; e também que “cabe a estes detentores do saber popular, a missão de preparar e estimular a sensibilidade dos futuros praticantes do sagrado, aos fundamentos significativos do sistema religioso. Estes mestres devem estar atentos às transformações operadas na sensibilidade estético-musical dos futuros noviços. Caso contrário, o ciclo de reposições pode romper-se, ocasionando o fim da tradição” (2005: 709). 235 Os reis magos do Oriente Através da anunciação Recebeu a notícia Que nasceu a salvação Viajaram pela noite Sem saber a direção Pelas suas migrações cientes Deixaram para trás sua terra e seu Oriente Levando consigo duas coisas: Sua fé e seus três presentes No caminho o rei Herodes Ofereceu à companhia Um dos reis respondeu: Não podemos aceitar Estamos viajando Sem saber a direção E foi neste momento Que a estrela apareceu O orgulho que nóis tiver Ali mesmo se arrependeu E novamente a estrela apareceu Como se fosse uma luz do dia Os três reis foram a caminhar Ao caminho do menino que nascia Rei Herodes não era santo, era malvado Por isso que ensinou O caminho pros três reis Que deu errado Os três reis como era santo Seguiu a Estrela Guia Avistou o menino Deus Naquela velha estrebaria Lá no Céu tem sete Anjo Afinando suas violas Diz que é pra cantar reis Reis cantamos agora Vamos, vamos embaixador Eu quero ouvir a sua voz Lá no Céu canta os Anjo Aqui na Terra canta nóis A falta de quadratura e a ausência de rima em alguns versos demonstra que se trata de um bastiãozinho que ainda está passando por um processo de aprendizagem na companhia e que ainda não domina por completo a arte de improvisar. Nas casas que se seguiram, Álvaro declamou, com algumas poucas variações, estes mesmos versos, o que sugere que seus versos eram em grande parte decorados e que a capacidade de improvisar do jovem bastião ainda não 236 estava plenamente consolidada. No entanto, é decorando os versos que a grande maioria dos bastiõezinhos se inicia na arte de improvisar, começando por fazer pequenas alterações nas estrofes sem alterar o conteúdo da narrativa. A Companhia Sagrado Coração de Jesus no dia 30 de dezembro de 2015. Uma consideração sobre a atuação do jovem bastião naquele ano diz respeito a uma característica encontrada em quase todas as companhias da região, que se refere ao consenso existente entre os mais velhos de deixar os bastiões que estão em fase de aprendizagem a treinar a declamação dos versos nas casas onde as cantorias são menos demoradas, ou seja, onde não está sendo oferecido almoço ou jantar. Este é um momento do giro que tem o claro propósito de preparar os bastiõezinhos para desafios futuros, possuindo em várias companhias uma evidente função pedagógica, pois são exatamente nas casas onde as companhias ficam por um curto período de tempo que os foliões mais velhos deixam os mais novos praticar suas trovas e arriscar algum improviso, enquanto que nas casas onde são oferecidas as refeições os foliões mais experientes geralmente ficam responsáveis pelas trovas e improvisos dos versos. 237 Por outro lado, isto não quer dizer que existem diferentes níveis de importância dados pelas companhias a estas duas situações, como se nas casas onde os foliões fazem as refeições houvesse um tratamento diferenciado do que nas demais, mas sim que, ao contrário, existe um tratamento diferenciado dado à companhia pelos devotos que oferecem um almoço ou jantar aos foliões. Trata-se de uma questão prática e circunstancial que tem, entre outros propósitos, o de fazer com que os devotos sem condições financeiras de oferecer um almoço ou um jantar para a companhia não fiquem sem pagar suas promessas ou mesmo sem receber as bênçãos do santo em sua casa. Ou seja, a rede de solidariedade iniciada entre os foliões nas companhias se estende à comunidade como um todo a partir do momento em que um devoto que alimenta os foliões para pagar sua promessa permite que a companhia chegue até a casa de muitos outros devotos que não irão oferecer almoço ou jantar aos foliões. É dentro deste contexto que o espaço dado aos bastiões mais novos para praticarem suas trovas e improvisos é bastante claro em algumas companhias, revelando um mecanismo social de aprendizagem e iniciação aos rituais do trabalho religioso, onde aqueles que estão começando a aprender e a decorar os enredos com os eventos do nascimento de Jesus e que ainda não improvisam com destreza podem exercitar suas trovas nas casas onde as declamações são mais curtas. Ainda que os foliões geralmente dominem um sistema de códigos (musicais, literários, performáticos etc.) e a relação destes códigos com uma forma de sociabilidade específica, seja durante a prática musical ou fora dela e ainda que associada a uma série de regras, restrições e princípios de estruturação capaz de ser percebida em seus diferentes níveis de complexidade apenas pelos foliões mais velhos e experientes, este sistema pode ser parcialmente deixado de lado quando o que está em jogo é o estímulo à aprendizagem desta gramática nativa por parte de algum jovem bastião. Nestes casos, este complexo vocabulário geralmente é reduzido para a prática dos foliões que ainda estão em processo de aprendizagem. Exemplifico: ao invés de um jovem bastião realizar uma declamação narrando todos os acontecimentos da vida de Jesus, ele pode se restringir apenas às passagens mais significativas, de forma que eventuais deslizes geralmente não acarretam em prejuízo social, artístico ou moral para o grupo. Isso acontece porque a prática constitui uma importante ferramenta na formação de novos foliões e na relação de confiança e respeito que é estabelecida com os foliões mais velhos. É interessante ainda observar que estes mecanismos e este processo de aprendizagem podem ocorrer de forma semelhante em outras regiões do país e com outros grupos religiosos associados à noção de folia, onde “toda a instrução musical de um folião, por exemplo, passa pela observação e imitação, processos que priorizam a experiência musical em sua forma mais 238 concreta, em despeito de abstrações ou de sistemas de teorização (ROSSE, 2009: 112), e também onde “esta organicidade buscada na transmissão de tradição e conhecimento musical possui ressonâncias no plano da performance. Não se aprende música isoladamente, mas na vivência do ritual” (KIMO, 2005: 707). O folião José Ailton de Paula, da Companhia dos Santos Reis, me deu o seguinte relato sobre esta situação: Daqui a pouco nós vamos, né? Se não deixar eles agora entrar no meio da gente não incentiva eles. Aí não incentiva: “Ah, eu não... Meu pai não me ensinou”. Tem que ir fazendo, que é aí que eles vão aprendendo. Eu aprendi, mas porque que eu aprendi? Porque eu saio com meu pai desde a idade de onze anos. Meu pai foi embora e eu tô aqui. Agora tem meu neto de bastião, dois netos meu de bastião, né? Tem meu filho que canta, só que não tá aqui junto com a gente porque tá em serviço e não tem condições mais. Mas sempre a gente vem vindo. Se um dia eu faltar meu neto tá aqui pra me representar. É onde que não para. Diminuiu bem, mas parar não pode. E não para não, né Gilberto? É uma coisa de muitos anos, né? Mas não para por esse motivo. Que sempre são três bastião e sempre tem que ter um a mais pra ir incentivando. Cantador sempre tem que ter a mais pra ir incentivando. O moleque tem que ir junto pra ir se acostumando. Se ele não sair um bastião sai um cantador. JOSÉ AILTON DE PAULA, 2017 9.2. Uma comunidade de prática Esta instrução musical de um folião, que passa pela observação, pela imitação e que se consolida na vivência coletiva do trabalho religioso, seja na aprendizagem para se tocar algum instrumento ou para se decorar e improvisar versos, pode ser metodologicamente associada ao conceito de comunidade de prática (CoPs), elaborado e desenvolvido por Jean Lave e Etienne Wenger. Inspirado na Antropologia e em outras disciplinas e teorias sociais, o conceito tem buscado uma explicação para a aprendizagem humana a partir de relatos de natureza social que possam ser interpretados dentro dos estudos sobre a teoria da aprendizagem, ou seja, uma forma de se referir aos processos de aprendizagem onde os envolvidos possuem um interesse comum, priviliegiando assim a própria natureza relacional do ser humano. Uma comunidade de prática pode ainda ser interpretada como dotada de uma natureza sistêmica (um sistema social simples, mas que se torna complexo se articulado com práticas que se interelacionam), onde o processo de ensino-aprendizagem passa pelas várias dimensões sociais aos quais os sujeitos estão relacionados. Segundo Wenger (2010), a aprendizagem envolve relações sociais que vão muito além da relação entre mestre e aprendiz, sendo neste sentido que uma comunidade de prática pode ser compreendida como um sistema de aprendizagem social, onde pessoas que compartilham voluntariamente de um mesmo interesse trocam informações e conhecimento com o objetivo 239 de manter ou transformar uma comunidade de forma coletiva. O tradicional mutirão caipira, por exemplo, praticado em muitos bairros rurais, reflete um interesse comum da comunidade que mantem as pessoas conectadas e as une para uma ajuda mútua baseada em aprendizado e desenvolvimento pessoal, sendo um claro exemplo dos resultados sociais e econômicos a que se pode chegar uma comunidade de prática. A interação social, que deve estar calcada em uma participação e reificação efetivas dos sujeitos, faz com que o processo de aprendizagem coletiva crie uma história social do aprendizado, ou seja, que ao longo do tempo a história de aprendizagem se torne uma estrutura social informal e dinâmica entre os participantes através da negociação ativa e dinâmica de significados, para que eles se utilizem do repertório de recursos acumulados pela comunidade ao longo dos anos para resolução de problemas, articulando suas ideias individuais aos anseios coletivos. Ainda que cada grupo deste trabalho possa ser interpretado como uma comunidade de prática, é preciso atentar para o fato de que uma comunidade de prática deve necessariamente estar inserida em sistemas mais amplos de aprendizagem social, de modo que não sejam vistas como comunidades isoladas, mas pertencentes a sistemas sociais que envolvem outros grupos. Ou seja, uma vez integrando uma ampla estrutura de transmissão de conhecimento baseada na participação de seus foliões nas diversas dimensões da vida social que envolvem o trabalho religioso de culto e adoração aos três reis magos (atividades políticas, de lazer, educativas, reflexivas, religiosas e até mesmo aquelas consideradas profanas), as várias companhias da região acabam por produzir artefatos materiais e simbólicos que refletem suas experiências compartilhadas, em torno da qual organizam sua participação na comunidade. A confecção das máscaras dos bastiões, por exemplo, que além de ser uma habilidade que pode ser transmitida de pai para filho também pode ser consequência de um aprendizado coletivo apreendido pelo folião a partir de sua inserção no grupo, reflete a capacidade da comunidade de fazer com que os sujeitos apreendam o mundo dentro de um processo de desenvolvimento, negociação e compartilhamento de conhecimento, seja de forma consciente ou inconsciente. E ainda que um participante integrado à comunidade siga um procedimento para a realização de determinada tarefa, este procedimento nunca lhe será ditado de fora, pois independente daquilo que vem do exterior da comunidade com o objetivo de moldar, ditar, ou orientar a conduta de seus sujeitos, suas práticas sempre refletirão um direcionamento de signos e significados ditado por aqueles envolvidos no processo. É neste sentido que podemos dizer que uma comunidade de prática possui vida própria, onde o aprendizado informal tende a produzir um sistema social como consequência da prática coletiva. 240 Outra característica do conceito verificável nas companhias de reis é o fato de que seus limites não são etários ou geográficos, de forma a garantir plenas condições de efetivação dos processos de ensino-aprendizagem coletivos. Ao não restringir a participação dos sujeitos por faixa etária, a comunidade faz com que a produção de sua própria prática dialogue de maneira mais eficaz com o sitema como um todo, fazendo com que as formas particulares de trânsito e negociação dos diversos elementos materais e simbólicos que constituem a identidade social de cada grupo encontre ressonância nos diversos agentes do sistema. A relação entre adulto e criança de forma horizontal e “não hierárquica” contribui para que o compartilhamento de um mesmo interesse ou de um problema a se enfrentar aproxime de forma mais efetiva os sujeitos interessados em desenvolver conhecimento, aprimorar uma técnica ou uma prática em torno deste objetivo, como tocar algum instrumento, aprender a dominar um repertório de versos ou mesmo a arte da improvisação. A retenção e troca de conhecimento entre os mais experientes e os mais jovens, proporcionada pelas comunidades de prática, fortalece a rede social no qual estão inseridos através, por exemplo, da economia de tempo e recursos (duas coisas escassas aos foliões), aprimorando continuamente o processo de aprendizagem. O fato de alguns foliões evitarem os termos capitão e mestre para se referir aos foliões responsáveis por criar e embaixar os versos da cantoria, reflete esta ausência de hierarquia que em muitas companhias acaba por consolidar a relação harmoniosa e amistosa do grupo51. Em uma conversa que tive com o folião Vitor Vicente Borges, embaixador da Companhia dos Noel, ele me disse que nas companhias “não existe capitão. Capitão é só do exército, né? É embaixador o da companhia de reis”. O folião Leri Alves Ferreira, embaixador da Companhia Filhos da Cambraia, também me disse neste mesmo sentido que “eles falam que mestre sou eu. Seria eu o mestre de vocês, mas o mestre não sou eu. O encarregado de levar a cantoria sou eu. Mas o mestre da companhia mesmo é Cristo e o Divino Espírito Santo52”. Existe, entre muitos foliões, a plena consciência de que é a soma do conhecimento de todos que produz o resultado final do trabalho religioso, o que pode justificar a analogia que 51 Uma das críticas que o conceito recebeu quando de sua disseminação nas teorias da aprendizagem se referia à falta de discussão e ênfase do autor em questões relacionadas ao poder, que foi posteriormente distinguida em duas formas: responsabilidade vertical e responsabilidade horizontal. Segundo WENGER (2000: 188): “a common line of critique is that the concept of communities of practice, especially in its later formulations in my own work, does not place enough emphasis on issues of power. The term community here risks connoting harmony and homogeneity rather than disagreement and conflict, even though it is not the intention. The self- generating character attributed to communities of practice may seem to obscure the degree to which they are influenced and shaped by their context, be it institutional, political, or cultural”. 52 Oswaldo Elias XIDIEH (1993: 114) observou em seus estudos que, entre os indivíduos das comunidades rurais predominam “sentimentos rústicos de justiça e de igualdade, segundo os quais há ou deve haver, entre as criaturas, uma situação nivelada de direitos e obrigações perante a vida e perante os homens, de modo a anular toda e qualquer possibilidade de distância e de hierarquização muito acentuada de status e funções”. 241 muitos fazem entre as companhias de reis e as cordas do violão ou da viola caipira, tendo em vista que qualquer destes instrumentos com uma única corda se torna impraticável. É neste sentido que as companhias, tal qual uma comunidade de prática, desenvolve seus processos de aprendizagem e de geração de conhecimento atráves de um ambiente interativo de vínculos sociais e afetivos (às vezes de tensão e conflito) que fluem e ultrapassam todas as fronteiras por diferentes colaboradores em torno de um mesmo projeto. As novas tecnologias digitais, em particular o aumento das mídias sociais, igualmente promove um arcabouço maior de ferramentas para que um desafio imposto à comunidade seja superado ou um problema sanado, assim como a consolidação do processo de transmissão do conhecimento e dos diversos tipos de aprendizagem, inclusive a musical. Este é outro ponto de articulação entre uma comunidade de prática e as companhias de reis deste trabalho, o que pode ser exemplificado pela utilização das tecnologias digitais pelo jovem bastião Álvaro, que inovou neste ano ao pegar as linhas de versos que o pai tinha no computador e as gravar no celular para ouvi-las depois que chegava da escola. Segundo o pai do garoto, “foi um processo bem interessante de aprendizagem dele”. Ao utilizar suportes tecnológicos digitais (de forma presencial, eletrônica ou híbrida, onde se dá a troca de conhecimentos entre colaboradores com conhecimentos e experiências distintas), os foliões mais instruídos do ponto de vista tecnológico e mais familiarizados com estes suportes digitais podem transmitir os resultados e benefícios de sua utilização a outros participantes da comunidade. A transmissão de conhecimento via tecnologias digitais, longe de padronizar o processo de aprendizagem (o que seria contrário à prática improvisatória dos foliões), se mostra como ferramenta facilidatora para a consumação das etapas do processo de aprendizagem: o domínio (sujeitos com interesses em comum se distinguem daqueles que não são membros da comunidade), a própria comunidade (cujos membros participam em conjunto e de forma colaborativa dos processos de aprendizagem e de produção de conhecimento), e a prática em si (o conhecimento e as competências adquiridas são compartilhados entre todos). Uma última questão diz respeito à identidade no processo de aprendizagem, uma vez que o objetivo da integração do sujeito à comunidade não é necessariamente um deslocamento de sua identidade, mas sim uma ênfase no indivíduo como partícipe social da comunidade. É este caráter flexível e abrangente das comunidades em relação à formação da identidade que permite aos sujeitos trazerem novos elementos para serem avaliados por seus pares, ainda que tenham que negociar com a comunidade para saber se ela adotará ou rejeitará a contribuição. 242 A reivindicação de competência do sujeito diante da comunidade53 (um momento crucial do processo de aprendizagem, que pode ser exemplificado nos momentos em que os bastiões menos experientes estão praticando suas trovas com o objetivo de demonstrar aos mais velhos que são dignos de pertencerem ao grupo) pode causar sua identificação ou a desidentificação com a comunidade em vários sentidos. Sendo central na teoria de Etienne Wenger (2000), o conceito de identidade acrescenta uma dimensão de dinamismo e imprevisibilidade à prática na medida em que cada membro se esforça para encontrar um espaço na comunidade ou então cria situações que podem levar à sua exclusão dela. Enquanto seguia a Companhia Filhos da Cambraia durante a jornada de 2015-2016, presenciei a seguinte conversa entre quatro foliões que se referiam a um bastiãozinho que, embora estivesse junto com a companhia pelas ruas, não apareceu em frente ao presépio para fazer a declamação dos seus versos. Pedrinho: Uai, vocês estão esperando o bastião ainda? Eu chamei e ele não veio. Roberto: Ô bastião, anda logo bastião [gritando]. Pedrinho: O bastião disse que não vai vir não, pode tocar o pau vocês aí. Roberto: Fala pra ele que se ele não vier agora que é pra tirar a farda e ir embora. Leri Alves: Desde o ano passado que a gente tá falando pra ele uai. Devanir Amaro: Ô Pedrinho, o Roberto tá falando pra ele que se ele não vier que de tarde é pra ele tirar a farda e ir embora. Roberto: De tarde não, agora. Pedrinho: Ô bastião, o Roberto falou que se você não vier é pra você cascar fora. Leri Alves: Ele leva na brincadeira, nós não estamos brincando não. Pedrinho: Ele ficou brabo, já tá tirando a farda. Não vai vir mesmo não. Os modos de identificação do sujeito dentro de uma comunidade de prática devem ser acionados levando-se em consideração os aspectos mais amplos do sistema de aprendizagem, como, por exemplo, os diversos municípios da região onde as companhias atuam. Na medida em que as companhias negociam sua participação em sistemas sociais mais amplos, se mostra necessário que haja engajamento (o que Wenger [1998] chamou de modos de pertencimento e, posteriormente [2000], de modos de identificação), imaginação (ao nos relacionarmos com o mundo também estamos construindo uma imagem do mundo que nos ajuda a entender como pertencemos ou não a ele) e alinhamento (nosso envolvimento na prática raramente é efetivo, 53 Segundo WENGER (2010: 189), “the concept of community of practice yields an inherently ‘political’ view of learning, where power and learning are always intertwined and indeed inseparable. The only glimmer of optimism that the theory affords in regard to power is that practice, even under circumstances of utter control and mandates, is the production of a community through participation. This local production implies a notion of agency in the negotiation of meaning, which even the most effective power cannot fully subsume. It is a small opening, a crack that represents a limitation to the application of power: the creation of a practice takes place in response to power, not as an outcome of it. Similarly the concept of modulation of identification locates relations of power in the active production of identity. Again it is a kind of theoretical crack in the concrete through which the negotiation of meaning allows for an experience of agency in learning”. 243 mas também pode ser uma maneira de explorar um limite se podemos ter acesso suficiente à prática). Assim, a própria identidade pode se tornar um sistema, no sentido de uma trajetória que reflete nossa jornada dentro da comunidade ou mesmo nossas transições entre diferentes comunidades, incorporando o passado e o futuro à nossa experiência do presente. No caso do bastiãozinho que não compareceu para declamar os versos, houve uma falta ou uma quebra de identificação com o sistema que interfeririu de forma decisiva em sua responsabilidade social e participação coletiva. O conceito de aprendizagem da cidadania desenvolvido por Wenger (2010) refere-se, neste sentido, à uma postura ética de como investimos nossas identidades à medida que pertencemos ou que decidimos que queremos pertencer à uma comunidade. Trata- se de uma dimensão pessoal e ética relacionada com a decisão de saber se queremos ou não aprimorar nossa capacidade de aprendizagem e nosso raio de participação na comunidade. Jovens bastiões da Companhia Filhos da Cambraia durante a jornada de 2015-2016. 244 10. Um giro em família com a Companhia dos Benedette Como a jornada não fica circunscrita apenas ao município de Alfenas, mas abrange outros da região, tive oportunidade de seguir algumas companhias pelas cidades de Fama, Paraguaçu, Machado, Areado e Córrego do Ouro (distrito do município de Campos Gerais). Era uma segunda-feira, dia 02 de janeiro de 2017, e eu havia combinado com os foliões da Companhia dos Benedette de segui-los pela manhã daquele dia até a chegada para o almoço, que seria realizada em Paraguaçu. Meu principal interesse era registrar uma chegada onde houvessem várias amarrações, e o bastião Wolney Vieira já havia me alertado que o devoto que havia oferecido o almoço para os foliões naquele dia era famoso por sempre apresentar muitas amarrações para a companhia. Naquele dia cheguei atrasado, mas ainda em tempo de seguir a companhia cantando em algumas casas antes da tão aguardada chegada para o almoço. Na última casa onde a companhia cantou antes de fazer sua chegada houve uma parada para descanso um pouco mais longa, pois, além de todos já estarem cansados, era a casa de um casal de devotos amigos dos foliões. Como já estávamos próximos da hora do almoço, quase todos recusaram os pedaços de bolo oferecidos pela devota, embora muitos foliões estivessem segurando cada qual um copo na mão, dentro dos quais haviam colocado sua bebida de preferência para a ocasião: café, água ou cachaça, esta última com o objetivo de “abrir o apetite para a bóia”, segundo me diziam alguns. O trajeto até a casa do promesseiro que estava oferecendo almoço naquele dia foi feito, como era de costume da companhia, nos carros dos próprios foliões, tendo em vista que esta é uma das companhias que não tem o hábito de solicitar ajuda com transporte na prefeitura54. Era quase uma hora da tarde quando os foliões estacionaram seus carros algumas dezenas de metros distante da casa do devoto para fazer a chegada para o almoço, onde muitas pessoas já aguardavam na calçada segurando seus celulares nas mãos para fazer o registro da chegada. 54 No entanto, para a jornada realizada neste último ano (2017-2018), o folião Sidnei Benedetti, responsável pela companhia, recebeu uma proposta para transportar seus foliões no veículo da prefeitura: “Eles queriam dar uma Kombi pra gente e só até às cinco da tarde. Eu falei que pra gente não adianta. Tem que ser um micro- ônibus e tem que ir até de noite, na hora que sai da janta. Senão vamos de carro, já estamos acostumados”. Somente depois de muita negociação o folião aceitou o transporte que havia sido oferecido pela administração pública: “Faltava um dia pra companhia sair e não tinha nada certo ainda. Acordei seis horas da manhã um dia antes e fiquei lá na porta da prefeitura esperando eles. Consegui o micro-ônibus, mas vamos ter que dar um dinheiro pro motorista ficar até de noite com a gente, porque o horário dele é só até as cinco, né? Mas compensa, vai sair mais barato do que indo de carro. Vamos economizar”. 245 Chegada da Companhia dos Benedette na cidade de Paraguaçu no dia 02 de janeiro de 2017 Uma das características desta companhia é o fato dela ser uma das poucas companhias de Alfenas que ainda é composta, em sua grande maioria, por parentes, sendo que apenas um único folião não é membro da família dos Benedette. Assim como a Companhia dos Noel, esta companhia também leva na bandeira o nome da família, e por isso quase sempre faz sua jornada com a mesma quantidade de foliões: oito instrumentistas (dois violões, duas violas, sanfona, pandeiro, caixa e afoxé), três bastiões mais velhos e três bastiãozinhos. A companhia de reis dos Benedette foi fundada pelo meu irmão José Benedette há sessenta e cinco anos. Eu participo dela há cinquenta e cinco anos e durante todo esse período já se foram muitos foliões. Muitos foliões já passaram por essa companhia. Dos Benedette mesmo já morreu meu irmão Zé Benedette e tem outro irmão meu que já não participa mais por problema de saúde. E fica aí pra geração mais nova. Tem sobrinho, cunhado e primo que não deixa a peteca cair. Mas tá difícil, até porque a molecada hoje não tá querendo muito esse estilo de música não. Sei lá. A mentalidade deles é outra, né? Mas nós estamos aí na luta e não vamos deixar a peteca cair não. Você vê que há sessenta e cinco anos foi fundada a companhia de reis e eu há cinquenta e cinco milito aí na companhia de reis. Já fui encarregado e agora passei pro meu sobrinho Sidnei. E nós vamos continuar. JOÃO BENEDETTE, 2015 Aqui tá um pouco dos Benedette que ainda restam. Vocês estão vendo aí que são pais, filhos, irmãos e netos. São os Benedettes que ainda restam. Tinha mais Benedettes, igual o Raimundo Benedette que não tá saindo por problema de coluna. Tinha o Pedro Benedette, que parou de sair por problemas também. Então essa tradição da companhia de reis dos Benedette que já há sessenta e cinco anos que ela não pode deixar de existir. SIDNEI BENEDETTI, 2015 246 Apesar da tradição desta companhia ser o fato dela sempre ter sido formada apenas por membros da família, nos últimos anos o grupo abriu espaço para que outros foliões integrem a companhia, garantindo sua existência e a perpetuação da tradição. Pelo fato da companhia já estar na quarta geração de foliões e muitos deles já terem falecido, o convite a foliões de fora da família para ajudarem a perpetuar a tradição começa aos poucos a aparecer. João Silvino é o único que não faz parte da família, mas vem substituindo alguns foliões que, por já estarem com uma idade bastante avançada, não têm mais condições de sair caminhando por doze dias pelas ruas da cidade: “Vim, fiquei e tô aqui. Agora pra eu parar de sair só se eles pararem”. 10.1. O arco de bambu e a corrente de papel crepom A chegada para aquele almoço aconteceu em uma data sugestiva para os foliões: 02 de janeiro de 2017. Como o ano acabava de começar, era de se esperar que o bastião Wolney ou o embaixador João Benedette se aproveitassem das rimas das palavras dezessete e Benedette para improvisar alguns versos de saudação à família antes de anunciarem o nascimento do menino Jesus. Como de costume, havia em frente da casa, além de familiares do dono da casa, vizinhos, amigos e mesmo alguns curiosos do bairro. A companhia parou algumas dezenas de metros distante do portão e logo após o estrondo do primeiro rojão seguiu tocando em direção ao primeiro arco, onde havia uma corrente feita de papel para barrar a entrada dos foliões e obriga-los a declamar versos e cantar para os devotos. Enquanto os instrumentistas tocavam um forró, os bastiõezinhos faziam suas estripulias gritando, dançando e dando cambalhotas na rua. Logo seria preciso passar pelo primeiro arco que havia sido montado pelo dono da casa. Os famosos arcos, sob os quais as companhias devem passar antes de entrar nas casas, geralmente são feitos de bambu ou de folhas de coqueiro, onde são esticadas fitas ou correntes coloridas feitas de tecido ou de papel crepom55. O primeiro arco costuma ser montado do lado de fora, acima do portão que dá acesso ao interior da casa, sendo preciso que o bastião ou o embaixador faça uma saudação ou uma anunciação em cada arco antes que a companhia seja autorizada pelo dono da casa a seguir sua jornada até o local onde está o presépio com os três 55 Existem procedimentos rituais análogos aos três arcos em outras regiões do país. Em Goiânia, por exemplo, Alberto IKEDA (2011: 93) verificou a presença da cerimônia dos arcos, que “consiste da colocação de três arcos (geralmente de bambu), no caminho de chegada da folia até a porta da casa sendo que em cada arco a folia para e realiza longas cantorias e pede passagem. A concessão da passagem (pelos donos da casa) se faz pelo rompimento de ‘correntes’ (de papel crepom ou fitas) que são colocadas como obstáculos junto a cada um dos arcos [simbolizando] as dificuldades que os Reis Magos tiveram no caminho para Belém”. 247 reis magos adorando o menino Jesus. Com os ramos das varas de bambu ou com as folhas de coqueiro entrelaçadas uma nas outras, o promesseiro e dono da casa costuma esconder neles ofertas em dinheiro para que os bastiões peguem, sendo considerado falta de educação que os bastiões peguem qualquer oferta sem antes declamar alguns versos para o dono da casa e para sua família. A revista dos arcos, que pode durar apenas alguns minutos ou mais de uma hora, dependendo da quantidade de arcos preparados, geralmente vem seguida de uma cantoria dos foliões cantadores. A corrente, que impede que a companhia siga sua caminhada sem proceder todas as etapas do ritual, deve ser cortada pelos bastiões após estes pedirem ofertas em versos improvisados e rimas ao dono da casa. A chegada ao primeiro arco naquele dia foi seguida de alguns versos declamados pelo bastião e, posteriormente, de outros criados pelo embaixador. Nós da companhia de reis Da Companhia dos Benedette Desejamos pro senhor e pra família Um feliz dois mil e dezessete Os três reis saiu de viagem Pra cumprir o seu destino Batendo de porta em porta Procurando o Deus menino Guiado por uma estrela Que surgiu lá no Oriente Para encontrar o Deus menino E ofertar os seus presentes Hoje eles estão no mundo Para cumprir a sua missão Visitando todos os devotos Vindo trazer a santa benção Pra saudar este lindo arco E a sua bendita morada Eu vou pedir pro meu capitão Hino de reis (cantado) Ai boa tarde dono da casa ai ai Ai boa tarde dono da casa ai ai Ai como vai sua família? ai ai Ai como vai sua família? ai ai Ai como vão de dois mil e dezessete? ai ai Ai como vão de dois mil e dezessete? ai ai Ai com certeza com alegria ai ai Ai com certeza com alegria ai ai Os arcos geralmente são encontrados somente nas casas dos devotos que, por estarem pagando alguma promessa ao santo, estão oferecendo almoço ou jantar para a companhia. Nas 248 casas onde as companhias cantam rapidamente enquanto fazem o giro pelos bairros da cidade, nas quais os moradores geralmente são “pegos de surpresa” com a chegada dos foliões, estes arcos não são preparados, sendo, portanto, ocasiões onde os vários elementos simbólicos que compõem o ritual de chegada são dispensados, sem, no entanto, minimizar a gratificação pela benção que igualmente é recebida por estes devotos. Assim como os demais elementos rituais do trabalho religioso, os arcos possuem significado e simbolismo próprio, e são encontrados nas casas em número de um, dois, três ou até mesmo quatro, sendo que a presença de um ou dois arcos é mais comum, já que a quantidade de arcos costuma refletir a condição financeira do devoto que está recebendo a companhia. Naquele dia, antes dos bastiões mais novos serem autorizados a revistar o primeiro arco para procurar as ofertas em dinheiro, foi preciso que o bastião mais experiente saísse de algumas amarrações propostas pelo dono da casa. 10.1.1. A primeira amarração: a vitória dos Santos Reis Ao chegarem na casa os foliões encontraram, na calçada e bem em frente ao portão, as letras VSR formadas com pétalas de rosas brancas e vermelhas. Assim que o embaixador João Benedette finalizou a saudação do primeiro arco em forma de cantoria, o bastião Wolney, que já tinha avistado a sigla no chão, se ajoelhou sobre as três letras formadas por pétalas de rosa e, em alto e bom som, declamou as seguintes quadras: Com “V” eu escrevo “Vitória” Viva a vida que Deus lhe deu Viva os três reis santos E viva o filho de Deus Com “S” eu escrevo “Santo” E também escrevo “Santidade” Pai, Filho e Espírito Santo As três pessoas da santíssima trindade Com “R” eu escrevo “Reis” E não pode ser diferente Os maiores reis do mundo São os três reis do Oriente Meu senhor dono da casa Pro senhor eu quero falar Se o senhor nos dá licença Dessas flor nós atravessar As amarrações consistem basicamente em objetos ou enigmas elaborados com letras do alfabeto pelo dono da casa que, embora aparentemente não tenham nenhum significado ou 249 um significado relativamente vago, faz alusão ao significado de uma palavra inteira, podendo também consistir em imagens e símbolos dotados de significados específicos dentro do ritual. São “peças” pregadas pelo dono da casa com o objetivo de fazer os bastiões ou o embaixador se enrolarem durante a trova dos versos nas anunciações, fazendo-os passar por um momento de constrangimento que, no fundo, possui mais um caráter jocoso do que de coação. A noção de amarração está totalmente atrelada à anunciação, pois geralmente também recai ao bastião a responsabilidade de desamarrar a companhia caso ela fique amarrada por alguma sigla ou algum objeto não decifrado pelos foliões.56 Estas charadas que os bastiões devem decifrar, citando passagens bíblicas para que a companhia possa seguir seu caminho dentro da casa e chegar até o presépio, coloca à prova o conhecimento das escrituras sagradas por parte dos bastiões e embaixadores, assim como suas capacidades de improvisação. Em cada arco pode haver uma amarração, na forma de imagem de flores no chão ou em alguma pergunta que o dono da casa faça à companhia. A sigla VSR feita com flores abaixo do arco, por exemplo, pode significar Viva ou Vitória dos Santos Reis, a sigla VNSA pode significar Viva Nossa Senhora Aparecida, a sigla VJC pode significar Viva Jesus Cristo, e assim por diante. Ao serem encontradas estas siglas debaixo de cada arco, é preciso que o bastião ou o embaixador declame um verso para cada letra formada no chão. Lá em Fama tem um primo nosso que todo ano ele tenta amarrar a gente. Você chega lá e ele põe um tanto de arco lá e escreve as letras VSR. O bastião tem que falar Viva Santos Reis. Tem que falar o que é o significado do V, do S e do R. E depois que a gente já acabou de cantar ele fala: “Mas já cantou tudo?” Então ele põe a estrela pra gente cantar e falar da estrela. E enterra o dinheiro no chão. E sempre ele aparece com um personagem diferente. Teve um ano que ele apareceu com uma moça vestida de Nossa Senhora e falou: “Eu quero saber quem que é ela”. Aí é mole pra gente, né? Somos tudo macaco velho já. Um pouco o bastião falou e um pouco eu cantei representando Nossa Senhora. Então ele tenta amarrar a gente, mas se for 56 Luzimar Paulo PEREIRA (2011: 283-84) observou, entre as folias de Urucuia, a existência de elementos rituais e procedimentos muito similares às amarrações dos foliões do sul de Minas Gerais, que ele chamou de sinais: “Os sinais implicam, ao mesmo tempo, uma atividade seletiva e extremamente agonística. Não se trata apenas de cumprir ritualmente um determinado cerimonial voltado para o pagamento de um voto e para a garantia de proteção ao rebanho de um doador. Com as sinalizações o morador pode estabelecer um critério pessoal para selecionar o grupo ao qual vai ofertar o animal. A realização desses autênticos ‘desafios’ exige dos cantadores o conhecimento do fundamento religioso das folias e uma atenção especial durante a execução dos rituais. Foliões mais atentos e experientes poderão reconhecer as marcas. Os mais novos e desatentos precisam aprender a observá-las (caso não consigam atentar para sua existência, podem ser até ralhados pelo morador). Tudo se transforma num jogo em que pistas são dadas e exigem a interpretação correta dos cantadores (notadamente do capitão e seu alferes). A natureza agonística dos sinais é uma forma de colocar à prova o grupo de cantadores diante do conhecimento e da sagacidade do morador. Os procedimentos, como verdadeiros jogos, estabelecem, ao final de tudo, os vencedores e os vencidos. Talvez não seja por outra razão que esses mesmos sinais também possam gerar desentendimentos (‘botá sinal é coisa de morador ignorante’). Uma das possíveis interpretações para sua presença é a ideia de que o doador está querendo dificultar a ‘saída do boi’: ela dá, mas sem vontade alguma de dar (‘ele quer prender o boi’)”. 250 dentro do regulamento e daquilo que tá na Bíblia e na escritura sagrada, não vou dizer não, mas não é fácil de amarrar a gente não. É difícil. JOÃO BENEDETTE, 2016 Companhia dos Benedette em frente à Rádio Fama FM, no dia 27 de dezembro de 2015. 10.1.2. A segunda amarração: o Anjo Gabriel e a Virgem Maria Assim que terminou a declamação para a primeira amarração, o bastião Wolney olhou mais de perto o arco formado de bambu e avistou, pendurado na parte mais alta do portão que dava acesso à casa, a imagem de um Anjo, abaixo da qual estava a corrente, cujos anéis eram feitos com papéis de cores variadas. Do lado direito do portão, para quem estava do lado de fora da casa, havia uma imagem da Virgem Maria sobre um altar, situada à alguns metros do arco e do outro lado da corrente. Ao avistar estes quatro objetos (o arco, a corrente, o Anjo e a Virgem), o bastião Wolney improvisou os seguintes versos adorando a imagem, anunciando o nascimento do menino Jesus, solicitando a reitrada do Anjo e pedindo uma tesoura ao dono da casa para que pudesse cortar a corrente que bloqueava o caminho de sua companhia. Com “M” eu escrevo “Maria” A nossa mãe protetora Para dar exemplo à humanidade Colocou seu filho em uma manjedoura Então eu vou lhe pedir, por favor De me emprestar a sua tesoura 251 Sua casa é Belém Seu terreiro é o Oriente Eu vou pedir a sua licença Pra cortar essa linda corrente Meu senhor dono da casa Pro senhor eu quero falar Se nesse arco tem presente Para o bastião poder procurar Nesse momento do Anjo Gabriel anunciando a Maria foi assim: No sexto mês Deus enviou de novo o Anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré a uma virgem desposada e um homem chamado José da casa de Davi. E o nome da virgem era Maria. Chegando o Anjo lhe disse: “Salve, oh cheia de graça. O Senhor está contigo”. Maria se perturbou, não sabia de onde vinha significante saudação. Mas o Anjo lhe disse: “Não temas Maria, pois achaste graça diante de Deus. Você ficará grávida e dará luz a um filho, a quem porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado o filho do Altíssimo. Ele sentará no trono do seu pai Davi e reinará eternamente na casa de Jacó. E seu reinado não terá fim”. Maria disse ao Anjo: “Mas como pode ser, se não conheço homem?” Mas o Anjo disse: “O Espírito Santo descerá sobre ti, te cobrirá com sua sombra e você ficará grávida. E o ente querido que nascerá de ti será chamado Filho de Deus”. E o Anjo disse ainda: “Maria, a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, porque para Deus nenhuma coisa é impossível.” E disse Maria ao Anjo: “Eis-me aqui escrava do Senhor, faça de mim segundo a tua palavra.” E a partir deste momento o Anjo se afastou de Maria e ela muito feliz foi ficar com Isabel por três meses até o nascimento de João Batista. Meu senhor dono da casa, Pro senhor eu quero falar Por favor, do Anjo se retirar Pode levar e colocar ele no altar Nesta hora que aqui está Vou pedir licença pro primeiro arco atravessar Pra lá perto da Virgem Maria Nós então poder chegar Após cortar a corrente, solicitar a retirada do Anjo e pedir licença para atravessar o arco, Wolney sinalizou para o embaixador que já havia finalizado sua parte, seguindo em direção à imagem da santa para colocá-la em seu colo. Neste momento, João Benedette deu prosseguimento à viagem dos reis magos cantando os seguintes versos junto de seus foliões. Hino de reis (cantado) Ai os três reis seguem viagem ai ai Ai os três reis seguem viagem ai ai Ai uma imagem vamos saudar ai ai Ai uma imagem vamos saudar ai ai Ai eu te saúdo sagrada mãe ai ai Ai eu te saúdo sagrada mãe ai ai Ai Nossa Senhora aqui está ai ai Ai Nossa Senhora aqui está ai ai 252 Anunciação (declamado) Que encontro mais bonito Meus três reis fez nesta hora Encontro a Virgem Santa A nossa mãe, a nossa senhora Meu senhor dono da casa Para o senhor eu quero falar Se o senhor me dá licença Da imagem eu poder pegar Muito bem patrão, eu queria pedir licença pro senhor pra gente falar um pouco da mãe. Na viagem dos reis a gente sempre fala do filho de Maria. Agora nós vamos falar de Maria. Pra mim falar de Maria, vamos relembrar aqui o que a mãe faz pra nós. Não é mesmo? O que a mãe faz pra nós, meus irmãos? Carrega nós nove meses no seu ventre. A mãe depois que dá a luz a nós nos dá a primeira alimentação. A mãe que nos ensina a andar, o primeiro passinho é a mãe que nos ensina. A mãe que nos ensina na primeira alimentação, os primeiros passinhos. A mãe que nos ensina tudo, praticamente a caminhar. A mãe que nos dá a roupinha, que nos troca, que nos alimenta, que vê nós crescer com aquele amor. Tudo é mãe. Tudo é a mãe. A mãe é que manda nós pra escola, a mãe que nos dá educação, que nos ensina o que é certo e o que é errado no tempo da escola. No tempo da mocidade, a mãe quantas vezes fica sem dormir esperando o filho chegar. Isso tudo é a mãe que faz. Passa a noite sem dormir com nós. E nós depois de grande será que nós chegamos pra nossa mãe dizendo: “Mãe, eu te amo mãe. Obrigado por eu existir.” Será que nós fazemos isso meus irmãos? Será que nós agradecemos a nossa mãe por nós ser dado gente? Será que nós fazemos isso pra mãe? Abraçar nossa mãe todo dia e beijar e acariciar ela e dizer: “Obrigado minha mãe, muito obrigado por eu existir mãe. Se não fosse a senhora eu não existiria. Será que nós fazemos isso, meus irmãos? Ou simplesmente passamos batido? Mas não podemos nos esquecer da mãe. A mãe é tudo isso pra nós e muito mais. Mas meus irmãos, quem tem sua mãe diga pra ela todo dia “Eu te amo”. Não tenha vergonha de falar “Eu te amo”. Porque a mãe é quem nos dá a vida. Mas meus irmãos, quem não tem sua mãe e quem não pediu perdão pra sua mãe, Jesus deixou essa mãe pra nós. Lá na cruz ele entregou essa mãe pra nós. Dizendo lá: “João, eis aí tua mãe”. “Mulher, eis aí teu filho”. Jesus é tão bom pra nós que ele deu a mãe dele pra nós. Sabe porque meus irmãos? Pra nos ajudar. Pra nós pedir pra ela tudo que nós quiser pedir pra essa mãe, que intercede por seu filho Jesus lá no céu. Então, meus irmão, aqui é tempo. Toda hora é tempo de pedir pra essa mãe. “Mãe, eu te amo minha mãe”. Reza a Ave Maria pra Nossa Senhora. Entrega seu filho, entrega seu esposo, teu ente querido, quem quiser pra essa mãe aqui que ela entrega pra Jesus. Essa mãe aqui, depois do amor de Deus, é o amor de Maria. Essa mãe aqui, ó. Essa mãe intercede por nós todos. É a mãe, meus irmãos. Tudo isso aqui é a mãe. Então, meus irmãos, vamos rezar com fé uma Ave Maria. Ave Maria cheia de graça O Senhor é convosco Bendita sois vós entre as mulheres Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus Santa Maria, mãe de Deus Rogai por nós, pecadores Agora e na hora de nossa morte Amém. Ó incomparável Senhora da Conceição Aparecida, mãe de meu Deus, rainha dos Anjos e advogada dos pecadores. Refúgio e consolação dos aflitos e atribulados. Ó virgem santíssima cheia de poder e bondade, lançai sobre nós um olhar favorável para que sejamos socorridos em todas as necessidades que nós a chamamos. Lembrai-vos da mãe Aparecida, como tem a vós recorrido e invocado vosso santíssimo nome implorando singular proteção por vós abandonado. Animado com a 253 desconfiança a vós recorro hoje e para sempre como minha mãe e protetora que me guia na hora da morte. Amém. Ó mãe querida, venho pedir neste momento a proteção dessa família, ó mãe. A todos que estão presentes, visita ó mãe, todas as casas do pessoal que tá aqui, ó mãe. Eu tenho certeza que eles estão com fé. E a senhora mãe, quer a proteção que vai a casa de cada amigo que está aqui presente. Proteja a família que está dando alimentação pra minha companhia de reis mãe querida. Aos foliões, aos irmãos bastião e a todos, mãe querida, a todos que estão presentes. Obrigado, muito obrigado mãe. A minha família, tudo mãe querida. Nós te amamos mãe. A quem quiser fazer pedido minha gente, peça. A mãe está presente aqui neste momento. Muito obrigado mãe. Pai nosso que estás no céu Santificado seja Vosso Nome Venha a nós o vosso reino Seja feita a vossa vontade Assim na terra como no Céu O pão nosso de cada dia nos dai hoje Perdoai as nossas ofensas Assim como perdoamos a quem nos tem ofendido Mas não nos deixai cair em tentação Mas livrai-nos do mal. Amém. Viva Nossa Senhora Aparecida. Amém! 10.1.3. A terceira amarração: o cruzeiro e a estrela guia Após rezar o Pai Nosso, o bastião Wolney deu continuidade ao ritual para prosseguir o trajeto rumo ao presépio onde estavam os três reis magos com o menino Jesus, tendo avistado, uns poucos metros à frente, um cruzeiro no chão feito todo com pétalas de rosas. Embora na ocasião daquela chegada o cruzeiro estivesse sozinho, em muitas chegadas ele costuma estar acompanhado de um coração, feito também com pétalas de flores. O cruzeiro representa a cruz na qual Jesus foi crucificado e o coração seu amor pela humanidade. Assim como é feito nos arcos, o dono da casa sempre coloca alguma oferta sob o cruzeiro e o coração, geralmente moedas que devem ser recolhidas antes da companhia seguir seu trajeto até o presépio. Naquele momento, os três bastiõezinhos da companhia, cujas idades variavam entre cinco e sete anos, tomaram a frente do bastião mais velho e se ajoelharam sobre o cruzeiro, de forma que era impossível identificar se aquela era uma posição de prece ou de preparação para a “caça” às moedas que estavam escondidas debaixo das pétalas de rosa. Apenas um dos bastiõezinhos estava com a máscara cobrindo seu rosto, e logo atrás do bastião Wolney havia um segundo bastião mais velho, empunhando a bandeira com fitas multicores trazendo, no centro, a imagem dos três reis magos montados em seus camelos. Por último, atrás de todos eles, estavam os foliões cantadores e instrumentistas da companhia, esperando uma “deixa” para iniciar a cantoria. Com todos a postos, Wolney prosseguiu com os seguintes versos: 254 Ao chegar em sua casa Encontramos uma cruz Ela aqui nos representa O calvário de Jesus Essa cruz é uma cruz sagrada Onde Jesus padeceu Para redimir os nossos pecados Vou falar neste cruzeiro Como foi naquele dia Jesus Cristo no calvário Muita gente ali reunia Jesus Cristo agonizava Mas seus braços ele abria Pedindo pra Deus perdoar Os pecados que na Terra o povo fazia Faziam suas orações Para aquele que morria Mas que ele ia voltar Somente uma que sabia Entre todos que ali estavam Estava a Virgem Maria Que pedia pra Deus perdoar Os pecados que na Terra os homens faziam Meu senhor dono da casa Pro senhor eu quero falar Se o senhor nos dá licença Desse cruzeiro nós desmanchar O cruzeiro e o coração de flores: símbolos da crucificação de Cristo e de seu amor pela humanidade. 255 Antes mesmo de ser concluído o último verso, os três bastiõezinhos já haviam iniciado o desmanche do cruzeiro de flores. Em um primeiro momento não é realizado o recolhimento das moedas, mas sua separação das pétalas e seu ajuntamento em separado, para facilitar seu recolhimento depois de autorizado pelo dono da casa. Assim que os bastiõezinhos separaram as moedas das pétalas e as ajuntaram umas sobre as outras, o bastião Wolney deu o seguinte conselho: “Agora vocês levantam e cada um vai falar um versinho pro dono da casa pra vocês poderem pegar os cobres”. Abaixo, alguns versos criados pelos bastiõezinhos naquele dia: Senhor dono da casa O bastião aqui é vira lata Posso pegar essa prata? Senhor dono da casa O bastião aqui é mudo Deixa eu pegar tudo? Senhor dono da casa O bastião é bonitinho Deixa eu pegar um dinheirinho? O caráter pedagógico e instrutivo desta parte do ritual aparece em muitas companhias, ainda que com certa esporadicidade em algumas delas. No caso da Companhia dos Benedette, que nos três anos de trabalho de campo teve em sua formação os três bastiõezinhos, a figura do bastião Wolney é de extrema importância no processo de aprendizagem das crianças, cujos olhos atentos sempre captam grande parte dos versos por ele improvisados, ainda que mais com olhares de curiosidade e admiração do que de aprendiz. Wolney sem dúvida é a principal referência dos mais jovens, pois, como ele mesmo me disse sobre sua função, “na companhia de reis tem que ter alguns que tem que ter sabedoria pra poder dar exemplo pros mais jovens”. As flores têm um valor especial para muitas companhias de reis57 da região, pois são de suas pétalas que são feitos os símbolos das amarrações a serem decifrados: as siglas com as iniciais de alguma palavra, o abecedário, o coração, o cruzeiro, bem como os enfeites do arco e muitas vezes do presépio onde está o menino Jesus em companhia dos três reis magos. Após o bastião Wolney ter pedido autorização ao devoto para que os bastiõezinhos desmanchassem o cruzeiro de flores e assim que todas as moedas foram recolhidas, ele perguntou ao dono da casa: “Posso continuar patrão?”. Ao receber uma resposta afirmativa e ser autorizado a dar continuidade ao ritual, o bastião declamou os seguintes versos: 57 Téo AZEVEDO (2007: 50) observou que no norte de Minas “é comum os donos das casas jogarem flores por cima da Folia, quando o Terno está se despedindo. Estas flores têm dois significados: saudar a apresentação do Terno e testar os foliões para ver se eles sabem agradecer pelas flores, improvisando versos”. 256 Eu pra falar de flores Não faço objeção Elas trazem alegria Tristeza e recordação Mas de uma forma geral Elas são muito queridas Porque estão presente Em toda etapa da vida No tempo da infância No dia do professor Pra querida professora O menino leva uma flor As flores exalam perfume Enfeitam nossa morada Num vaso em cima da mesa E no jardim da entrada No tempo da mocidade Ela simboliza o amor Pra mulher ou namorada Se manda um buquê de flor Na realização de um sonho No dia do casamento Onde une duas almas No ato do sacramento O noivo impaciente Todo cheio de emoção A noiva entra na igreja Trazendo um buquê na mão Os padrinhos e os convidados O padre fazendo prece A igreja toda enfeitada de flores Na vida jamais esquece Em um dia especial Para louvar o Senhor Na hora da oração Se enfeita o altar de flor Quando um ente querido Vai pra outra dimensão Se colhe um monte de flores Para enfeitar o seu caixão O enfeite daquelas flores São enfeites de tristeza Que enche a alma de dor Mas com o passar do tempo Com a alma mais confortada Se manda flores na campa Daquela pessoa amada 257 Cada um de nós Também somos flores No jardim do Criador O riso de uma criança É uma dádiva concebida São pétalas de flores Na primavera da vida Por isso não pise em flores Respeita quem as fez Conservando a tradição Quero Viva aos Santos Reis Após gritar “Viva aos Santos Reis” o bastião Wolney, com todas as pétalas nas mãos, as jogou para cima sobre os foliões e demais devotos presentes, declamando logo em seguida os seguintes versos para se aproximar ainda mais do presépio: Meu senhor dono da casa Pro senhor eu quero falar Se o senhor nos dá licença De no segundo arco nós aproximar Nós estamos viajando Para Belém vindo do Oriente O patrão nos dá licença De cortar essa corrente? Ao chegar em sua casa Encontrei um arco todo florido Eu pergunto para o senhor Se neste arco tem presente escondido? Quando um devoto prepara muitos arcos para a companhia, nem sempre são colocadas ofertas escondidas em todos eles, de modo que para ganhar tempo e para que os bastiõezinhos não procurem ofertas em vão, geralmente um dos bastiões mais velhos declama algum verso para saber se naquele arco pelo qual a companhia irá passar existem presentes escondidos. O objetivo agora é revistar os ramos entrelaçados do arco feito de bambu à procura das ofertas escondidas. Assim que um dos bastiõezinhos se aproximou do arco, avistou uma nota de dez reais que estava aparecendo e esticou o braço para pegá-la, sendo então advertido pelo dono da casa: “Espera lá bastiãozinho, pra você tirar o dinheiro tem que falar um verso”. Neste momento, os bastiões mais velhos se afastaram do segundo arco e deixaram apenas os três bastiõezinhos encarregados de declamar versos e de retirar as ofertas escondidas. Abaixo, mais alguns versos declamados pelas crianças da companhia naquele dia: 258 Senhor dono da casa Sei que tens bom coração O senhor me dá licença De pegar esta oferta com a mão? Senhor dono da casa Deus é nosso pai Jesus Cristo nosso irmão Posso tirar a oferta com a mão? Minha senhora dona da casa Quero chegar perto do macarrão A senhora me dá licença De pegar esta oferta com a mão Estou com vontade de comer Arroz, feijão e macarrão Peço licença pra senhora Pra arrebentar a corrente com a mão Senhor dono da casa Eu quero comer arroz O senhor me dá licença De pegar essa nota de dois? Os três bastiõezinhos da Companhia dos Benedette. Enquanto as crianças treinavam seus versos, o embaixador João Benedette ponteava na viola a melodia de uma conhecida música do cancioneiro caipira, acompanhado no violão por outro folião. A última nota do arco estava tão bem entrelaçada entre os ramos de bambu que 259 um dos bastiõezinhos não conseguia nem tirá-la e nem formular algum verso para pedir ajuda a um adulto, de modo que um dos bastiões mais experientes teve que interceder por ele com a seguinte estrofe: Senhor dono da casa O nosso bastiãozinho não sabe falar O senhor me dá licença De eu pegar a oferta em seu lugar? Outro importante elemento simbólico do ritual é a Estrela Guia, que segundo a crença cristã anunciou, orientou e guiou os magos pelo deserto até a estrebaria onde havia nascido o menino Jesus. Antes de seguir em direção ao terceiro e último arco da casa, o bastião Wolney avistou uma estrela dourada pendurada acima do segundo arco que, conforme rodava ao sabor do vento, revelava que era feita de papelão. Era preciso que novos versos fossem declamados para a estrela, antes que os foliões seguissem sua jornada ao encontro do menino Jesus. Meus três reis está assim Estampado na bandeira Ao chegar na sua casa Encontramos uma estrela Quem profetizou a estrela Foi o profeta Balaão Vou pedir a sua licença Pra tirar ela com minha mão Meus três reis está viajando Acompanhando a santa luz Vou pedir a sua licença Pra chegar no terceiro arco Pra depois visitar o menino Jesus Os três reis estão viajando E aqui no segundo arco ele está Vou pedir a sua licença patrão Pra do terceiro arco nós se aproximar Minha senhora dona da casa Os três reis mandou falar Se a senhora nos dá licença Dessa corrente a gente cortar Pro menino Jesus ir visitar Ao chegarem ao terceiro arco os bastiões não encontraram dinheiro, imagens de santos e nem símbolos ou siglas formadas com pétalas de flores, mas uma Bíblia, que estava aberta sobre uma mesa alguns metros antes do presépio. Era a última amarração daquela chegada. 260 Nós chegamos na sua casa Com muita alegria nessa linda união Encontramos a Bíblia Sagrada Que é o caminho da nossa salvação Vou pedir a sua licença E pegar ela com a minha mão Eu queria falar um minutinho da atenção de vocês sobre esse livro sagrado. Pra mim chegar onde que eu quero eu tenho que falar uma historinha. Dizem que existiu um homem que ganhou uma pedra de ouro da madrinha dele, uma pedra grande de ouro. E depois ele casou e guardou aquela pedra de ouro. Ele casou e depois ficou desempregado, passando dificuldade na vida. E de vez em quando ele ia lá, pegava aquela pedra de ouro, olhava e guardava. Mas passando dificuldade. Os filhos doentes, ele doente. E olhava aquela pedra de ouro, de vez em quando olhava, mas não tinha coragem. E assim meu patrão, se ele vendesse aquela pedra de ouro ele resolvia todos os problemas dele, todas as dificuldades dele. Mas ele olhava só e guardava aquela pedra de ouro. É nesse ponto que eu queria chegar, patrão. Que todos nós aqui, nós temos em casa uma Bíblia Sagrada. Isso aqui é a pedra de ouro que nós temos em casa. E quantas vezes nós passamos por uma dificuldade e não temos coragem de abrir essa Bíblia aqui pra ler cinco minutos. Muitas vezes nós não temos essa coragem igual aquele homem que tinha aquela pedra de ouro lá. Ele não tinha coragem de vender aquela pedra de ouro. Porque se ele vendesse resolvia tudo. E nós, muitas vezes, se nós lêssemos dois, três minutos, resolvíamos muitos problemas da vida. Mas não temos coragem. Esse aqui é o resumo de toda nossa vida. Tá aqui. Todo mundo que quer uma solução tá nessa palavra de Deus Sagrado. Isso aqui é a vida de todo mundo. Tá aqui ó. Foi escrito pelos profetas e pelos apóstolos. Tá tudo aqui. A verdade e a vida. Tudo tá aqui. Mas eu vou continuar. Jesus Cristo, quando andou pelo mundo Tinha seus seguidores Eram pessoas humildes A maior parte pescadores Eles estavam sempre a postos A ser seus colaboradores Era Pedro, Tiago e João André, Felipe e Bartolomeu Levi, Tomé e Simão E tinha Tiago, filho de Alfeu Tinha Judas Iscariotes E o outro era Judas Tadeu Por onde o mestre andava Pregando amor e paz Uma grande multidão Seguia andando atrás Jesus resolveu repousar Saiu e foi pra encosta do monte Subiu no monte que havia ali por perto E o sermão da montanha Resolveu fazer num campo aberto “Feliz os que choram Porque serão consolados Os que têm sede de justiça Porque serão saciados Os mansos verão a Terra E os puros verão Deus ao seu lado” 261 Um dos discípulos chegou pra Jesus e disse: “Mestre, mande o povo embora Porque está ficando tarde E o tempo avança em hora E não temos comida Para dar pro povo agora” Jesus olhou pra multidão E teve dó dos pequeninos “Se eu tivesse alguma coisa Pra dar pra esses meninos Pois na sua própria terra Eles também são peregrinos” O discípulo trouxe um cesto E pôs sobre o manto de linho Depois, erguendo a toalha Disse ao mestre com carinho: “Mestre, o que temos é cinco pães E dois peixinhos” Jesus ergueu a mão e olhou para o céu Pediu pra que Deus Pai abençoasse aqueles pães E pediu pros discípulos Que repartisse com a multidão Ninguém ficou sem comer Todo mundo saciado E ainda recolheram doze cestos Dos pedaços que sobraram Assim, patrão, sucessivamente Quando alguém convidava Jesus para um jantar Os apóstolos também iam E quanto mais gente chegava Mais a comida rendia Jesus foi pra Jerusalém Houve um grande clamor As pessoas o recebiam Jogando ramos de flor e dizendo: Feliz é aquele que vem Em nome do Senhor Um grande jantar de Páscoa Alguém lhe oferecia Mas Jesus vendo que seu caso Nenhum outro beberia Foi naquela santa ceia Que institui a eucaristia Jesus tem que partir o pão Depois de glorificado Deu aos discípulos, dizendo: Este é meu corpo Que por vós é dado Será para todo homem Para remissão dos pecados 262 Depois pegou o cálice Depois de dar glória Deu aos seus discípulos, dizendo: Este é o meu sangue Tomai e bebei agora Toda vez que fizer isso Fazei em minha memória Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo Para sempre seja louvado Amém! Agora patrão Eu vou pedir pro senhor Em nome dos três reis E também de São João Eu vou pedir licença Pra entrar no seu salão E guiado por uma estrela Que surgiu lá no Oriente Eu vou pedir sua licença Pra visitar o menino Jesus Pra fazer a adoração Com um aceno com a cabeça, o bastião Wolney avisou ao embaixador que ele já podia trovar alguns versos para fazer a chegada ao presépio. Neste momento, os três bastiões mais velhos e os três bastiõezinhos se ajoelharam e, caminhando de joelhos, se dirigiram até o local onde estava o menino Jesus, que ainda estava distante dos foliões cerca de oito metros. Atrás dos bastiões vinham os cantadores e instrumentistas entoando os seguintes versos: Segue, segue meus três reis oi larai Vão seguindo devagar oi ai Vamos chegar em Belém oi larai oi larai Onde o menino está oi ai Já chegamos em Belém oi larai Onde o menino está oi ai Os três reis se ajoelharam oi larai oi larai Pra seus presentes ofertar oi ai Cercada pelos devotos, a companhia se aproximou do presépio e o bastião Wolney colocou a Bíblia abaixo da manjedoura onde estava o menino Jesus. Assim que os foliões terminaram de cantar o sanfoneiro começou a tocar a melodia de Noite Feliz, enquanto os bastiões mais velhos, revesando entre si, declamavam versos anunciando o nascimento do menino Jesus. Os três reis magos, ali presentes na bandeira carregada por um dos bastiões, haviam finalmente terminado sua jornada e chegado em Belém para adorar o filho de Deus. 263 10.2. O recebimento de versos Uma conduta dos devotos digna de ser mencionada é o desejo de receberem a maior quantidade possível de cantos e versos das companhias dentro de suas casas. Os três arcos, as correntes, as siglas desenhadas com pétalas de flores, os cruzeiros e os corações de flores, as imagens da Estrela Guia ou do Anjo penduradas nos arcos, as figuras da Virgem Maria ou de Nossa Senhora, entre outros elementos simbólicos encontrados no trajejo percorrido desde o momento em que a companhia chega à casa do devoto até o local onde está o menino Jesus, tem, entre suas funções, fazer com que a companhia permaneça na casa do devoto pelo maior tempo possível, sendo este um dos principais motivos pelos quais os devotos se dedicam tanto aos preparativos para a chegada das companhias para um almoço ou jantar. Até mesmo um simples café da manhã pode ser preparado com a intenção de que a companhia passe a manhã toda na casa do devoto, já que nos cafés da manhã não são utilizados os elementos simbólicos e ritualísticos dos almoços e jantares, de modo que o anfitrião deve então pensar em alguma alternativa para “prender” ou “amarrar” a companhia em sua casa. [...] cada um fala de um significado do arco. O pessoal fala que é tipo na entrada na gruta de Belém. Você chega numa casa tem um arco, mas tem pessoa que tem três. Então isso vai muito do gosto. Porque o pessoal quer ver a companhia cantar, então põe a gente pra cantar em dois ou três arcos que é pra segurar a companhia. Mas é pra companhia cantar mesmo, pra ficar bonito. Lá atrás nos antigos eles falavam que simbolizava a entrada da gruta. Essa parte de arco e coração é tudo simbolismo. É mais mesmo pra animar e ficar mais bonita a chegada. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2018 Outra prática que tinha o objetivo de fazer com que as companhias passassem o maior tempo possível em suas casas é a prisão dos bastiões. Embora seja uma prática já em desuso, ouvi de muitos foliões referências aos tempos antigos, em que os bastiões eram presos e recebiam castigos para que os donos das casas recebessem a maior quantidade de cantos e versos possível. Isso também podia ser observado nos casos em que os bastiões não levavam seu ofício com seriedade, já que certas atitudes podiam fazer com que eles entrassem em apuros e recebessem, além de uma prisão temporária em algum dos cômodos da casa, uma boa sova do devoto. Alguns destes castigos foram contados pelos foliões Miguel Rodrigues e Wolney Vieira, que relembraram até com certo saudosismo estas práticas envolvendo tanto as prisões quanto os castigos físicos que os bastiões costumavam receber antigamente. 264 Tem as histórias de castigar os bastião, de prender no quarto. Até tem uma história do sobrinho do João Benedette, de uma vez que nós fomos pra Fama na casa da Elza do Rossi. Trancaram o bastião num quarto lá pra judiar dele, mas deu errado. Largou ele perto de um saco de açúcar lá, depois foi ver ele tinha derrubado mais da metade do saco de açúcar. Nunca mais prenderam o bastião na vida. Essa história é do meu tempo. Tem muita história dos fazendeiros que judiavam e batiam nos bastião. Mas não era encenação não. Eles batiam mesmo, desciam o cacete. MIGUEL RODRIGUES, 2016 O povo hoje já tá mais educado, mais evoluído, né? Que o povo antigamente se é pau é pau, se é pedra é pedra. Mas hoje não, hoje leva tudo na brincadeira e assim vai. Antigamente prendia a bandeira, roubava a máscara do bastião, prendia o bastião no quarto e pegava o bastião de reio, de pau. O Zeca da Tereza descia o cacete nos bastião, metia o reio, batia mesmo. O Zé Côro lá da Fama uma vez me deu uma bambuzada na canela que eu tenho a marca até hoje do bambu. Ele batia o bambu pra fazer os bastião pular e eu não pulei rapaz. Ele me deu uma bambuzada que eu achei que ia quebrar minha perna. Antigamente o povo era mais doido, agora hoje tá mais evoluído, o povo tá mais conscientizado. Antigamente, sei lá, era mais bagunçado. O povo gostava muito de bagunça. Meu pai mesmo, que gostava demais da conta, ele dava rasteira e derrubava o bastião, beliscava o bastião, amarrava um bastião no outro, jogava água nos bastião, prendia o bastião no quarto. Mas o bastião também fazia de tudo no quarto, pegava os perfumes das mulheres e jogava no corpo. Uma vez me prenderam numa casa aqui em Alfenas e eu entrei num quarto, numa dispensa que tinha açúcar, banana e muita coisa de comer. E eu peguei cacho de banana e peguei tudo lá. Aí depois o capitão teve que cantar pra me soltar. Senão a gente fica preso, sabe? A hora que me soltaram de lá eu tava com aquela carga nas costas. O que eu podia levar era meu. Então era muito divertido. Hoje em dia já tá bem mais leve, já não tem mais isso. O povo prendia os bastião pra fazer o capitão cantar. Eles queriam era ver a companhia cantar. WOLNEY VIEIRA, 2016 Apesar de existir, entre a grande maioria dos devotos, este desejo de receber cantos e versos em suas casas, existem aqueles que não fazem muita questão de que a companhia fique muito tempo em sua casa, embora estes casos sejam bastante raros. Durante o último ano de trabalho de campo alguns foliões da Companhia dos Noel estavam passando por problemas de saúde e, por isso, se locomoviam com bastante dificuldade pelos bairros da cidade. O folião Geraldo Miranda, por exemplo, havia sofrido um enfarte há cerca de cinco meses e também estava com um dedo do pé encravado, de modo que, para caminhar poucos quarteirões, todos os foliões entravam na van e se dirigiam motorizados para as casas onde sabiam que algum devoto poderia receber a companhia. Quando chegavam, um dos foliões descia do veículo e perguntava ao dono da casa se ele gostaria de receber a companhia ou não. No dia 29 de dezembro de 2017 presenciei a seguinte cena: O folião Francisco Noel desceu da van, foi até a casa de uma devota conhecida e bateu palmas. Assim que a dona da casa saiu, o folião perguntou: “A senhora gostaria de receber nossa companhia de reis?”. A devota então respondeu: “Vocês não vão demorar muito pra cantar não, né?”. Um pouco sem graça com a situação, o folião respondeu: “Se a senhora quiser pode só pegar a bandeira”. A 265 devota então aceitou: pegou a bandeira, levou-a para dentro para abençoar os cômodos de sua casa e em menos de três minutos já estava de volta para devolvê-la, sendo engregue pelo vão do portão ao folião que estava aguardando na calçada58. Embora este não seja o único caso, situações como esta são raras, pois o mais comum é que os foliões sempre sejam convidados para entrar na casa dos devotos e tomar um demorado café, de modo que fiquem na casa pelo maior tempo possível, como me contou um devoto e amigo da Companhia dos Benedette. Na verdade eu queria até ter um momento pra gente tá falando sobre isso. Primeiro que eu, como meu padrinho aqui, a gente que opera do coração e faz quatro pontes de safena precisa tomar certo cuidado pra emoção não tomar conta na fala e a gente sofrer mais, porque as pessoas que são cardiopatas tem sempre uma recomendação de não se emocionar. Onde vai ter estresse não falar. Onde vai se emocionar muito não falar e evitar. Enfim, evitar fazer força e grandes esforços físicos. Mas têm umas coisas que tá na gente, tá no sangue da gente e eu sou testemunha disso, do que já falaram aqui e quero reforçar. A história da nossa família. O povo fala: “Ah, eu não gosto porque era gosto do meu pai”. Na verdade a gente não é assim. Nós temos nossos valores e foi muito legal quando meu pai recebia e antes dele o meu avô, que era o João Mané lá da Ponte das Amoras. Ele tinha um prazer de receber e fazia grandes festas. E meu pai se criou naquele meio lá e gostava. O João Benedette, a gente lembra que ele começou a cantar reis ainda muito jovem, virou embaixador, ou capitão que a gente fala, e foi um expoente e ainda é de muito tempo. Teve uma época aí que o João Benedette, quando cantava reis, era o top, né? Era um fenômeno. Isso há trinta, quarenta anos atrás. Hoje ele já tá com sessenta e oito anos. Então é essa tradição aí. Ela é muito gostosa. É o momento que eu encontro meus primos e os meus tios. Isso aí tem um valor enorme pra gente. Nós fazemos essa mesa de café pra ver se eles comem tudo. Porque se eles forem comer tudo eles ficam o dia inteiro comendo. Então o prazer nosso é que eles fiquem aqui o dia inteiro e cantem. É essa convivência saudável, né? FERNANDO MANOEL, 2017 Este desejo de que a companhia fique o dia inteiro em sua casa é compartilhado pela maioria dos devotos e está atrelado às amarrações que são feitas pelos anfitriões, cujo objetivo é o de segurar a companhia pelo maior tempo possível cantando e declamando versos. Ao que tudo indica, o ideal parece ser que as amarrações sejam feitas somente com passagens bíblicas do novo testamento. No entanto, para aumentar a possibilidade de amarrar os foliões e fazer com que as companhias fiquem mais tempo em suas casas, muitos promesseiros se utilizam de passagens do antigo testamento e, em alguns casos, até de objetos e referências que não possuem muita relação com as escrituras sagradas, sendo este artifício interpretado por alguns foliões como uma “trapaça”, ou seja, uma forma “desleal” de se jogar com a tradição. 58 Alberto IKEDA (2011: 79) observou que, também entre os foliões de reis em Goiânia, “no tocante ainda aos aspectos rituais, a bandeira por ser o símbolo máximo do culto aos Reis Magos é sempre o centro das atenções e reverências, sendo comum que seja levada (pelos próprios moradores) aos vários aposentos da casa, sendo passada por cima dos mobiliários, como forma de benzimento. Da mesma forma, nas ruas é normal que transeuntes a beijem e se benzam tomando nas mãos as fitas que sempre pendem dela”. 266 Conforme os foliões passam a conhecer melhor seus anfitriões, algo que pode demorar vários anos de jornada para acontecer, alguns passam a ficar mais famosos e conhecidos entre os foliões devido às suas amarrações, fazendo com que muitos bastiões, mesmo aqueles mais experientes, fiquem apreensivos com a possibilidade de ter sua companhia amarrada. Por isso, alguns foliões (principalmente o bastião e o embaixador, a quem recai a responsabilidade de desamarrar as companhias) procuram fazer um preparo especial e uma revisão das passagens bíblicas quando sabem que vão cantar na casa de algum devoto famoso pelas suas amarrações. Alguns foliões chegam até a evitar cantar nestas casas, para que não corram o risco de ter sua companhia amarrada e para que não passem por um momento de constrangimento pela falta de conhecimento de algumas passagens das escrituras sagradas. Se você quiser ler algum livro eu tenho algum livro lá viu. Se quiser ler pra ficar mais por dentro. Só que depois você não vai amarrar nóis não hein. Nóis fala amarrar assim, que às vezes a pessoa fala em amarrar, que às vezes a pessoa faz uma semelhança lá de qualquer coisa e a gente não sabe. Fica assustado com aquilo. Então a gente fala amarrar. Mas graças a Deus nunca aconteceu ainda não. Muita gente às vezes lê uma passagem lá, por exemplo, da viagem dos reis, e depois quando a gente vai chegar na casa dele ele faz lá uma semelhança com aquilo que ele estudou, né? Por exemplo, pega uma passagem lá, o outro vai vestido de rei Herodes, vai vim interrogar a gente, perguntar. E se a gente não souber? Por exemplo, eu vou chegar naquela casa de baixo, vou ir lá e tem um caboclo vestido de Herodes: “Ô fulâno, pra onde vocês tão indo? Que vocês tão fazendo? O que vocês vão fazer? Eu também quero ir viajar com vocês”. A gente vai falar o que pra ele? Tem que saber! Eu me alembro de uma passagem, eu era bem novo ainda, faz muitos anos isso, faz mais de vinte anos, de um senhor que até é cunhado do Benedette. O João Mané Filho. Então todo ano nóis passava lá e ele fazia uma coisa diferente pra poder amarrar nossa companhia de reis. E ele era muito famoso nesse negócio e as companhias de reis corriam de lá. Não era qualquer companhia de reis que ia lá. E nóis ia e ele sempre fazia coisa diferente, sempre fazia coisa diferente. E na época eu era novo ainda, eu tava estudando. Mas esse aqui, o capitão, sempre soube muito e sabe até hoje. Então eu aprendi muito com ele e depois comecei a ler pra ajudar ele também, né? Aí eu lembro que um dia rapaz, nóis tava pra chegar lá e tava aquela turma de gente. Nóis ia chegar de noite, dava essa hora assim e nóis chegava de noite. E aquele pessoal. E nóis foi cantar numa casa pra baixo da casa dele e aquela turma de criança lá. E o pessoal chegava pra mim assim: “Ê bastião, você tá fodido hoje. Você tá perdido. O João Mané fez uma coisa lá que você não vai adivinhar o que é. Você não vai adivinhar. Você não vai falar. Você vai ver só.” Ah, mas o que será? Aqui ó, eu te dou umas balas se você me falar o que tá escrito lá. Aí ele falou: “É rapaz. Eu vi lá rapaz. Vi por debaixo dos panos lá e assim ó, tem um tipo de um arco lá. É um arco”. Aí esse compadre meu aqui tinha acabado de fazer um encontro de casais e eu falei com ele: “Ó compadre, o João Mané fez um negócio lá e eu acho que deve ser o arco da aliança. Mas eu não sei sobre isso, isso aí é do antigo testamento”. Meu compadre falou: “Não, eu acabei de fazer um encontro de casais lá e teve uma irmã lá que me explicou muito bem o que é o arco da aliança.” E ele falou pra mim no meu ouvido e eu cheguei lá. E o João Mané tava todo lá. E aquele povão. Muita gente, sabe? Hoje é hoje, né? Cheguei lá e como meu compadre tinha me falado e me explicado direitinho o que era eu cheguei lá tranquilo. Depois que eu terminei de falar o João Mané falou: “Onde você aprendeu isso aí bastião?” Por isso que nóis tem que ser unido, né? Sempre um ajudando o outro. [...] Teve um ano que eu lembro também, faz muitos anos já e eu não esqueço disso, tinha uma caixinha de sapato entre o primeiro e o segundo arco. E eu muito 267 jovem ainda, muito crianção, andava com um porretinho. E cutucava aquela caixinha pra cá e cutucava pra lá com medo de abrir aquela caixa. Não sabia o que tinha dentro. E aquela caixinha tampada. Aí falei um verso pra poder abri a caixinha. Tive que falar um tanto de versos e com muito custo ele deixou eu abrir a caixinha. Aí fui abrir a caixinha de sapato e tinha Jesus Cristo dentro da caixinha. Olha o que o homem faz. E eu já tinha batido naquela caixa com o porrete pra lá e pra cá e não sabia que Cristo tava dentro daquela caixa. WOLNEY VIEIRA, 2016 Se por um lado as amarrações têm o objetivo de fazer com que as companhias fiquem o maior tempo possível nas casas dos devotos, por outro, elas também possuem uma função pedagógica bastante clara para os jovens bastiões e para os embaixadores. Quanto mais jovens e inexperientes forem os bastiões e os embaixadores, mais fácil fica para que os promesseiros e devotos consigam amarrar sua companhia, já que entre os foliões mais velhos e experientes a vivência de vários anos com situações desse tipo quase sempre permite que eles decifrem os enigmas e saiam das amarrações com certa facilidade. Faz cinquenta e cinco anos que eu saio. Não lembro se era o segundo ou terceiro ano que eu tava saindo na companhia de reis. Nós fomos passar lá na fazenda do Jorge Reis, nem água de Furnas tinha ainda, lá no Zé Maleiro. A Sandra mulher dele gostava muito de fazer amarrio com companhia de reis. Eu pensei: “Essa mulher vai me amarrar hoje”. E não é que ela me amarrou mesmo? Uma coisa simples rapaz. Um peixe. Nós íamos almoçar na casa dela, chegamos lá e tinha um peixe grande desenhado no chão coberto com flor. Quem via falava que era um peixe escrito. O bastião era o Tarsino e o Zé Coro. O Zé Coro era bem sabido também, mas não conseguiu falar. E veio pra mim que era o capitão. Eu era o terceiro ano, novato ainda. Falei: “Ah Sandra, agora você vai me desculpar. Eu sou o terceiro ano que saio em companhia de reis e não tenho muito conhecimento. Tô estudando ainda e não sei o que é não. Aí ela falou: “Eu queria que vocês cantassem, mas já que vocês não vão cantar eu vou falar. Sabe o que é o desenho desse peixe aqui? Se alguém da companhia souber pode falar. Alguém sabe? Isso aí é o símbolo do catolicismo. Já podem entrar pra dentro pra vocês almoçarem”. Olha pra você ver, não soubemos falar. Um peixe lá no chão e ela disse que era o símbolo do catolicismo. Ela é religiosa, tinha estudado mais do que eu. Eu era moleque na época ainda, né? JOÃO BENEDETTE, 2016 São as amarrações que obrigam os jovens embaixadores e os bastiões a estudarem as escrituras sagradas e se preparar para os desafios que serão feitos pelos devotos. A sobrinha do embaixador da Companhia dos Benedette me contou que seu pai fazia grandes amarrações para as companhias que recebia em sua casa para os almoços e jantares, de modo a obrigar os bastiões e embaixadores a estudarem a Bíblia antes das chegadas. Angela Silva brinca que, “se tivesse nascido homem, com certeza seria um bastiãozinho desses”. O bastião Wolney, assim como os demais foliões da companhia, guardam muitas lembranças dos ensinamentos que as amarrações de seu pai trouxeram para cada um deles. 268 Uma vez nós passamos aqui e ele fez três cravos. Colocou um círculo de flor e três cravos. Aí ele falou: “Ó bastião, eu quero saber os nomes dos reis e da onde que eles vieram”. E aí nóis não sabia. E até tinha outro bastião que tava sempre com nóis e a gente pensou: “Será que o bastião sabe?” Mas não sabia. Então ele falou: “Vocês podem passar pra ir pro presépio, mas no ano que vem eu quero saber”. Aí eu fui perguntar pra ele: “Senhor, explica pra mim de que jeito que é”. Ele falou: “Pega um livro e lê. Lê a Bíblia”. Eu falei: “Tá bom”. E aí naquele ano fazia uns cinco ou seis anos que eu tava saindo já, sabe? Daí eu cheguei lá em casa e liguei lá em Paulínia, São Paulo, pra pegar livro. Liguei no Rio de Janeiro pra consultar, pra pegar livro pra aprender. Aí peguei um livro que chamava O mártir do Gólgota. Esse livro não tem pra ele. É um livro do tamanho de uma Bíblia. Esse livro tem tudo, sabe? Desde os profetas, que começa lá na profecia do profeta Isaías, e vai até a morte de Cristo. E teu pai foi o incentivador pra eu aprender um tanto de coisa, graças a Deus. Então eu me sinto muito orgulhoso disso, que se não fosse seu pai. Eu não sei muito, mas o que eu sei eu devo a ele e a vocês. O seu pai foi um grande incentivador da gente, sabe? Ele foi um dos meus incentivadores a ser bastião e aprender. Porque cada vez que passava aqui ele fazia uma história diferente, sabe? E com aquilo eu fui percebendo que tinha que ler pra sair numa companhia de reis, porque a companhia de reis não é só você sair não. Você tem que saber o que tá fazendo. Levar alegria e levar o evangelho na viagem dos reis, pregar o nascimento de Jesus a todos os corações. Renascer Cristo no coração do povo. E o que é Cristo? É o amor. Então nós cantamos falando versos e nós levamos o amor. E isso que ele incentivava nós a fazer. Então pra você sair na companhia de reis você tem que saber alguma coisa. Porque você não pode sair assim a torto e direito não, falando besteira. Porque isso aqui é uma pregação do evangelho, do nascimento de Jesus. Então isso aí o seu pai que já se foi e está na glória deixou comigo, deixou com nós aqui de quando nós era mais novo. E graças a Deus estamos aí. Aprendemos muito com ele, graças a Deus. WOLNEY VIEIRA, 2018 As amarrações não devem ser interpretadas apenas como enigmas a serem decifrados para testar o conhecimento e a capacidade de improvisação dos bastiões e embaixadores, pois assumem pelo menos outras duas dimensões: 1) como elemento motivacional no processo de aprendizagem e de aquisição de conhecimento pelos foliões menos experientes, e; 2) como ferramenta do devoto para fazer com que a companhia passe o maior tempo possível em sua casa. Neste sentido, os arcos, as imagens de santos, o cruzeiro e o coração de flores, entre tantos outros elementos simbólicos que o devoto apresenta à companhia, concorrem para que o tempo não cronológico do universo sagrado se manifeste dentro da casa do devoto e faça com que sua relação com os foliões se prolongue ao “infinito”, tanto no decorrer dos anos quanto nos poucos minutos que a companhia permanecerá dentro de sua casa. 269 11. O encontro da Companhia da Irmandade com a Companhia Estrela Guia Era manhã do dia 04 de janeiro de 2017, antepenúltimo dia de jornada do segundo ano de trabalho de campo. Como já havia se passado duas jornadas desde o início da pesquisa, eu acreditava já ter registrado, senão tudo, a grande maioria dos principais eventos cerimoniais do trabalho religioso das companhias de reis da região. Foi neste dia que, ao me explicar para um devoto o motivo das gravações e a proposta do trabalho, ouvi dele a seguinte frase: “Vai ter um encontro hoje aí, tá sabendo? Se você tá fazendo um trabalho sobre os reis então você tem que ir nesse encontro”. Ainda sem entender muito bem do que se tratava o tal encontro, pedi uma explicação mais detalhada ao devoto, que me disse que duas companhias da cidade iriam se encontrar: “Vai ser lá na estrada que vai pra balsa da Harmonia. A companhia do Tinho vai se encontrar com a companhia do Keka”. Já fazia quase dois anos que eu estava seguindo as companhias e conversando com os foliões, mas ainda não tinha sequer ouvido falar do tal “encontro de companhias”. Assim que tomei conhecimento do evento, desmarquei o compromisso que tinha com outra companhia para a chegada do almoço daquele dia e liguei para o folião João Vitor, o Tinho, responsável pela Companhia Estrela Guia, no que ele me confirmou que sua companhia iria se encontrar com a Companhia da Irmandade, do Gaspar Ribeiro, o Keka. Só depois de algum tempo me dei conta de que ele já havia me avisado sobre o tal encontro, mas na ocasião achei que fosse um encontro qualquer, como os que ocorrem todos os dias na cidade quando duas companhias que estão cantando no mesmo bairro se cruzam por acaso, se cumprimentam e depois seguem seu itinerário sem interferir uma no trajeto da outra. Em todos os casos que presenciei estes encontros, quando uma companhia não conseguia fazer um desvio para não atrapalhar o giro alheio, os foliões se cumprimentavam cordialmente e em seguida seguiam seu trajeto como se nada tivesse acontecido, bem diferente do que costuma ocorrer em outras regiões do estado59. 59 Sobre as práticas sócio-musicais dos foliões do norte de Minas Gerais e da região do Vale do Jequitinhonha, Téo AZEVEDO (2007: 43) observou que “um Terno de Folia de Reis não pode cruzar o caminho do outro, e se isso acontecer haverá um desafio de versos dentro das escrituras e o Terno que desistir do desafio ou perder nos versos terá que entregar o Quadro de Reis ao outro Terno”. Neste mesmo sentido, Luzimar Paulo PEREIRA (2011: 209-210) observou que, entre os foliões urucuianos, os encontros entre duas companhias são, na medida do possível, cuidadosamente evitados: “Numa ocasião, por exemplo, quando percebeu que sua equipe de trabalhos rituais poderia esbarrar com outro grupo de foliões apenas poucas casas à frente, um capitão urucuiano mandou um portador para avisar ao chefe do terno rival que não gostaria de fazer o encontro que muitos já davam como certo. A resposta foi positiva. Tanto quanto o primeiro, o segundo também não desejava levar adiante o possível encontro entre os grupos. As razões alegadas pelo primeiro capitão eram de ordem prática: a complexidade ritual de um evento desse tipo poderia atrasar o programa do giro para ambos os ternos. Os foliões que eu estava acompanhando, em especial, tinham que chegar ao seu pouso antes do 270 A Companhia da Irmandade, reunida para o giro na manhã do dia 03 de janeiro de 2016. Este “encontro de companhias”, no entanto, era um evento diferente, pois se tratava de um encontro previamente agendado pelos responsáveis das duas companhias, que decidiram, por vontade própria ou do dono da casa, fazer suas chegadas juntos naquele almoço. Ainda que aquele encontro tenha sido promovido por foliões amigos que possuem uma boa relação entre si, ele possui claramente um caráter de “disputa”, revelado principalmente através da figura de seus bastiões. São eles que, quando se encontram, trovam versos improvisados para demonstrar uma maior capacidade de criação a partir das amarrações que são propostas pelo dono da casa, cujo objetivo é “derrotar” seu oponente, embora a vitória seja simbólica e não propriamente para desmoralizar ou denegrir a reputação do outro. As disputas improvisatórias entre os bastiões de duas companhias, ao que tudo indica, são relativamente raras e não acontecem todos os anos, motivo pelo qual o evento geralmente é aguardado com ansiedade pelos devotos, foliões e por aqueles que moram próximo ao local amanhecer. Parar, naquele momento, para a efetivação de um encontro significaria romper um acordo estabelecido com o dono da casa que os estava esperando”. 271 da disputa. Para efetivação destes encontros é preciso que as duas companhias estejam com a mesma data vaga em suas agendas, ou seja, que elas não estejam comprometidas em pagar a promessa de algum devoto. Quando estes encontros acontecem, o evento impede que algum devoto que aguarda uma vaga para oferecer um almoço aos foliões tenha sua promessa paga, já que duas companhias diferentes estão envolvidas em uma mesma chegada. A Companhia Estrela Guia, após almoçar na casa de uma devota na tarde do dia 29 de dezembro de 2015. Assim que descobri o local onde aconteceria o encontro, segui ansioso para o evento, que seria realizado próximo à represa em uma casa na beira da estrada que leva até a Balsa da Harmonia, ou seja, o encontro teria como cenário de fundo os sítios e ranchos situados à beira da represa de Furnas. Assim que deixei a cidade ainda foi preciso percorrer cerca de dez quilômetros de estrada de terra, um trajeto onde pude avistar garças e tucanos em meio à uma vegetação típica dos rincões do estado. Conforme me aproximava do local avistava alguns foliões que haviam se desgarrado do grupo. Ao longe avistei o folião Luiz Anacleto junto do Macionil Vianna em frente ao Bar do Chibata, esperando os companheiros que haviam ficado para trás. O bastião Tinho já estava a postos aguardando os companheiros. Alguns minutos depois de ter chegado ao local, já havia me encontrado e cumprimentado todos os foliões da Companhia Estrela Guia, mas ainda não havia nenhum sinal da Companhia da Irmandade. 272 Os foliões da Companhia Estrela Guia aguardam os foliões da Companhia da Irmandade para o encontro. Na margem direita da estrada havia grandes árvores e alguns pés de eucalipto, onde os moradores vizinhos aguardavam na sombra a chegada da segunda companhia, que quase vinte minutos depois de minha chegada ainda não tinha aparecido. A demora me obrigou a fazer uma breve visita ao Bar do Chibata, onde já estavam vários foliões da Companhia Estrela Guia. O calor do mês de janeiro foi refrescado com uma cerveja e, entre um assunto e outro trocado com o pessoal do bar, foram chegando os foliões da Companhia da Irmandade. Os primeiros a chegar foram o Wilson e o Marquinho Didico, mas logo atrás vinham todos os demais. Os bastiõezinhos das duas companhias, que brincavam com as outras crianças do bairro, provavelmente não faziam ideia do encontro que estava prestes a acontecer. Embora não houvesse de fato um clima de tensão, era evidente que não se tratava de uma chegada qualquer, pois transparecia nos semblantes de alguns foliões certa preocupação, talvez mais pelo desejo de “querer fazer bonito” para a outra companhia e para o dono da casa do que pela “disputa” em si. No entanto, entre todos os foliões existia um que estava bastante inquieto e aparentemente preocupado com a situação, algo que podia ser claramente percebido pelo seu olhar. Tratava-se do jovem bastião da Companhia da Irmandade, que em alguns instantes travaria uma batalha de rimas e trovas improvisadas com um dos bastiões mais experientes da região: o Tinho, responsável e organizador pela Companhia Estrela Guia. 273 Um folião da Companhia Estrela Guia aguarda os demais companheiros em frente ao Bar do Chibata. O capitão Keka foi o último folião da Companhia da Irmandade a chegar, trazendo em seu peito sua sanfona cento e vinte baixos e no rosto um semblante de paz e tranquilidade. Já com muitos anos de folião e com toda sua experiência como capitão, ele sabia, no fundo, que aquele encontro não passaria de uma “reunião entre amigos”, uma desculpa para se encontrar com os companheiros da outra companhia, colocarem a conversa em dia e almoçarem juntos. Mas o bastião de sua companhia não parecia possuir esta mesma consciência, pois andava de um lado para o outro como que querendo escapar daquela situação na qual fora colocado. Mas não havia mais como fugir, pois só estava faltando o capitão Keka chegar para se iniciarem os trabalhos. Assim que o Keka desceu da Kombi o dono da casa foi buscar os rojões e os foliões das duas companhias, que até então estavam conversando e interagindo no Bar do Chibata, saíram cada qual para um lado da estrada: do lado direito da casa onde aconteceria a chegada se posicionaram os foliões da Companhia da Irmandade, e do lado esquerdo, um pouco mais distante da entrada da casa, os foliões da Companhia Estrela Guia. Assim que o dono da casa soltou o primeiro rojão os foliões de ambas as companhias começaram a tocar seus instrumentos para seus bastiões dançarem. À frente da Companhia da Irmandade vinha um jovem folião segurando uma bandeira com a imagem dos três reis magos atravessando o deserto sobre seus camelos, enquanto que à frente da Companhia Estrela Guia estava um bandeireiro bem mais velho, folião na companhia já há muitos anos, segurando sua bandeira em cuja estampa se podia ver a imagem dos três reis magos ajoelhados em frente a 274 uma manjedoura com o menino Jesus nascido. Nesta última bandeira, havia ainda os seguintes dizeres, logo abaixo da imagem dos magos: “Deus nos proteja. Glória a Deus nas alturas”. Vários rojões foram disparados depois daquele primeiro, alguns pelos próprios foliões. O ritmo tocado pelas duas companhias, talvez por coincidência, era o mesmo: o famoso forró, ou corta-jaca, tocado nas ruas para os bastiões dançarem, pularem e fazerem suas estripulias. Enquanto as duas companhias não se aproximavam uma da outra, muitos carros e caminhões iam passando pela estrada, de modo que nestes momentos os foliões saíam da rua para poder dar passagem, com as crianças sendo sempre supervisionadas mais de perto pelos adultos. Os moradores que estavam assistindo a cena logo se juntaram aos bastiões para também dançar e pular ao som das sanfonas. Enquanto as companhias iam caminhando de frente uma à outra, seus bastiões se misturavam uns aos outros gritando e dançando juntos, de modo que já era impossível distinguir e identificar os bastiões de cada uma delas. Em alguns instantes aquelas duas companhias se tornariam uma só. 11.1. O duelo de improviso dos bastiões A aproximação dos bandeireiros das duas companhias marcou o encontro de duas gerações, pois de um lado havia um jovem folião, de aproximadamente doze anos, e de outro um senhor já com seus cinquenta e poucos anos. Conforme as companhias se aproximavam e o som de suas sanfonas e percussões se misturavam um ao outro, os bandeireiros iam ficando cada vez mais próximos, até que pararam alguns centímetros um do outro empunhando cada qual sua bandeira. Neste instante um dos sanfoneiros puxou uma cadência anunciando que a música iria parar. Foram quase dez minutos de estripulias entre o estrondo do primeiro rojão e o cessar de som dos instrumentos. Assim que os foliões pararam de tocar, os dois bandeireiros fizeram um aceno com a cabeça, em um gesto de cumprimento, e trocaram as bandeiras entre si. Enquanto isso, alguns foliões da Companhia da Irmandade, que haviam chegado “em cima da hora”, aproveitavam a pausa dos istrumentos para cumprimentar os companheiros da outra companhia, que ainda não tinham tido oportunidade de encontrar pelo local. Os dois bastiões se preparavam para iniciar o duelo de improviso, que teve início apenas alguns segundos após os foliões terem parado de tocar, com o bastião Tinho improvisando os seguintes versos: Oh que hora tão bonita Essa hora é verdadeira Vejam que coisa maravilhosa O encontro de duas bandeiras 275 Vou saudar sua bandeira Com amor e alegria Também saúdo o seu bastião E toda sua companhia A bandeira em nossa frente É sinal de muita fé Aqui está nosso Jesus O bom Jesus de Nazaré Eu já dei minhas palavras Com amor e devoção Agora eu quero ouvir As palavras do seu bastião O bastião da Companhia da Irmandade, consciente do desafio e da responsabilidade que tinha pela frente, pediu ajuda ao Deus do Céu por duas vezes, uma antes de começar seus versos e outra depois que terminou. Ainda que ele pudesse se valer de alguns versos prontos nessa parte do desafio, seria preciso apresentar sua capacidade de trovar versos improvisados nas próximas etapas da chegada, conforme fosse encontrando as amarrações no percusso que faria pela casa do devoto até chegar ao presépio onde estava o menino Jesus. [Ai meu Deus do Céu] Quatro mil e quatro anos Numa era já falada Que veio o Anjo Gabriel Com sua divina embaixada Falou visualmente Por Maria imaculada Oh Maria imaculada Nove meses e seus ministros Vinte e cinco de dezembro Foi nascido Jesus Cristo Vinte e cinco de dezembro Quando Cristo já nasceu Os galos cantavam E os pássaros respondeu Dando o sinal em Belém Que o menino Deus nasceu [Ai meu Deus do Céu] Assim que o jovem bastião terminou seus versos, os foliões de sua própria companhia, percebendo que ele não “devolveria” os versos para o outro bastião, trataram de iniciar o hino de reis. Logo que os foliões começaram a tocar seus instrumentos todos os bastiões da outra companhia se ajoelharam e tiraram suas máscaras, em um sinal de respeito aos companheiros 276 e de adoração aos três reis santos. As duas companhias constrastavam em vários sentidos. Em primeiro lugar, porque enquanto os foliões de uma cantavam, os outros ouviam atentamente os versos que eram improvisados, principalmente o embaixador, que logo deveria fazer uma saudação à altura para os companheiros. Em segundo lugar porque, enquanto os foliões da Companhia Estrela Guia estavam todos com um mesmo uniforme, os foliões da Companhia da Irmandade estavam cada qual com o uniforme de um ano diferente, portanto, cada um de uma cor (laranja, azul, vinho, vermelho e verde), e o capitão Keka apenas com uma camisa branca. Os versos improvisados por ele, diferentemente do que sempre acontece nas chegadas para o almoço e jantar, onde os primeiros versos devem ser trovados para saudar o dono da casa, desta vez eram pra saudar os devotos presentes e, principalmente, os bastiões e foliões da outra companhia. Estes foram os primeiros versos trovados pelo capitão da Companhia da Irmandade, em um profundo sinal de amizade, respeito e admiração. Ai vou saudar todos vocês Ai vou saudar todos vocês Ai no mês de Santos Reis Ai no mês de Santos Reis Ai vou saudar os seus bastião Ai vou saudar os seus bastião Ai e também seus folião Ai e também seus folião Ai no caminho que vós vai Ai no caminho que vós vai Ai iremos nós também Ai iremos nós também Assim que os foliões terminaram o hino, os foliões da outra companhia, comandados pelo sanfoneiro, começaram a tocar seus instrumentos para que o capitão Antônio Juscelino respondesse e também fizesse sua saudação. Assim que terminou os versos, um novo desafio foi proposto pelo bastião Tinho para o jovem bastião da Companhia da Irmandade. Hino de reis (cantado) Ai vou saudar o embaixador a-ai ah Ai vou saudar o embaixador a-ai ah Ai e também sua companhia a-ai ah Ai e também sua companhia a-ai ah Ai é da mesma religião a-ai ah Ai é da mesma religião a-ai ah Ai os Anjos ficou alegre a-ai ah Ai os Anjos ficou alegre a-ai ah 277 Saudação (declamado) Vou saudar essa bandeira Em nome de Deus primeiro Primeiro eu saúdo o menino Deus Que é o nosso Rei tão verdadeiro Já saudei o menino Deus Com amor e muita fé Vou saudar Nossa Senhora Maria de Nazaré Salve salve esta hora Esta hora de emoção Eu saúdo São José Que é o nosso rei da salvação Salve salve neste dia Este dia que Deus fez Agora eu quero um Viva Pro divino Santos Reis Já saudei sua bandeira Neste solo sagrado e bendito E pra saudar a minha bandeira Seu bastião agora fala bonito? Vou pedir sua licença Neste dia que Deus fez Me dá licença de levantar Deste chão em nome de Santos Reis Neste momento, as duas companhias estavam prestes a atravessar o primeiro e único arco da chegada, que estava enfeitado com flores amarelas e emoldurava o portão de entrada da garagem, possuindo em suas extremidades uma fita verde que, ao mesmo tempo em que barrava a entrada da companhia na casa, separava o espaço público do privado60. Enquanto o bastião da Companhia da Irmandade dava um jeito de enfiar a mão por debaixo da máscara para coçar sua cabeça, pensando em algum verso, os devotos e moradores da comunidade que estavam ali presentes o incitavam e o motivavam a dar uma resposta à altura para o bastião Tinho. Entre gritos de “Vai lá bastião”, “Quero ver os versos”, “Mostra pra ele que você 60 Pelo menos no período que compreende o trabalho religioso, a noção entre “público” e “privado” entre os foliões e devotos no sul de Minas Gerais é muito parecida com aquela observada por Luzimar Paulo PEREIRA (2009: 25-26) entre os foliões de Urucuia, norte do estado: “Nos festejos deste tipo são as pessoas sagradas (representadas nas bandeiras que os devotos empunham ao longo das caminhadas) que viajam, levando consigo seus fiéis, ao mesmo tempo em que atravessam ruas para se encontrarem com outros devotos em suas próprias moradias (Da Matta, 1978). Ao longo dos acontecimentos, os espaços públicos e privados se fundem, os comportamentos se modificam e os valores religiosos e cotidianos permanecem em constante tensão. Os deslocamentos espaciais aproximam a “casa” e a “rua”, o “trabalho” e a “devoção”, a “diversão” e a “permissividade”, o “sagrado” e o “profano” (que, no limite, articulam todas as demais oposições), etc.”. 278 também fala bonito” e outros que, ao invés de encorajar, o inibiam, o jovem bastião “travou” e se calou diante dos devotos, deixando que um segundo bastião da Companhia Estrela Guia, que não fazia parte do duelo, tomasse as palavras e encerrasse aquela etapa do ritual. Ao chegar na sua casa Seu terreiro floresceu Isso é uma notícia Que o menino Deus nasceu Os três reis chegou cansado No seu terreiro ele parou Perguntando ao dono da casa Como vai e como passou? Como vai e como passou O senhor e sua família? Aqui está os três reis santos E toda nossa companhia Meu senhor dono da casa Eu vi a fé que vós tem Tudo isso é semelhança Dessa chegada em Belém Entre cravos, rosas e lírios Para mim é um dom profundo Eu falo em homenagem Ao Salvador desse mundo Meu senhor dono da casa Já mostrou sua religião Vou pedir sua tesoura Pra cortar essa corrente no portão Meu senhor dono da casa Nessa hora tão contente Vou pedir sua licença Pra revistar esse arco da frente Após a revista do arco, um terceiro bastião, que ainda não havia declamado nenhum verso, foi chamado para fazer o recolhimento da oferta que estava escondida entre seus ramos entrelaçados. O bastão da Companhia da Irmandade parecia já ter desistido do duelo, pois os bastiões da Companhia Estrela Guia logo começaram a declamar em seu lugar. Essa oferta não é minha E nem também de vós será É um presente dos três reis Mas é o bastião quem vai levar O senhor me dá licença patrão? 279 Após a oferta ser recolhida do arco, os bastiões seguiram mais alguns passos e viram logo à frente um coração no chão, que desta vez não era feito somente de pétalas e flores, mas também de folhas, o que lhe dava uma coloração predominantemente verde. O bastião Tinho, que já havia declamado a maior parte dos versos até aquele momento, se ajoelhou na frente do coração de folhas e declamou mais alguns versos. O duelo estava quase vencido. Já saudamos o seu arco Bem em frente do portão Pra saudar o seu letreiro Vai falar o pai bastião Eu cheguei em sua casa Eu cheguei com muito respeito Dá licença meu senhor Vou saudar um coração fora do peito Olhando este coração De tristeza me arrepia Me alembro do sofrimento Da santa Virgem Maria Maria vendo seu filho Para ser crucificado Seu coração sofria com ela Bem ao seu lado Eu dizendo estas palavras Ricas e cheias de amor Dá licença meu senhor Pra nós desmanchar o coração de flor 11.1.1. O abecedário e outras amarrações Assim que os bastiões desmancharam o coração de folhas que jazia no chão, um pouco mais à frente eles encontraram outra amarração, que seria o antepenúltimo desafio entre eles. O abecedário foi uma amarração que durante os três anos de trabalho de campo eu só pude ver naquela ocasião, e consiste basicamente no fato do dono da casa colocar, em algum ponto do trajeto que a companhia faz até o presépio, um alfabeto completo para que os bastiões trovem um verso para cada letra. Segundo ouvi dos foliões, as letras do alfabeto geralmente são feitas de pétalas de flores ou são inscritas no chão de terra batida, no entanto, naquela ocasião as letras haviam sido escritas com tijolo em uma área cimentada já dentro da casa. Ainda que esta amarração possa ser encontrada quando a companhia faz sua chegada sozinha, ficando a cargo de um único bastião a declamação de todos os versos, quando acontece um encontro de duas companhias o ideal é que cada bastião trove alternadamente uma estrofe para cada duas 280 letras, de forma ininterrupta e sem titubear. Aquele que se enrolar e não conseguir declamar os versos perde o desafio. Naquele dia, após uma longa pausa do Tinho ao terminar as letras “A” e “B”, ele percebeu que seu oponente não prosseguiria e terminou o abecedário sozinho. Jesus Cristo veio ao mundo Destinado a sofrer Vou falar da sua vida Nas letras do ABC Com A eu escrevo “agora” Assim disse Sirineu Com B escrevo “Belém” Onde o menino Jesus nasceu Com C escrevo “caminho” Dos três reis verdadeiros Com D escrevo “Davi” Nosso governador primeiro Com E escrevo “estrela” Que ilumina nossa guia Com F eu escrevo “filho” Da Virgem Santa Maria Com G eu escrevo “glória” Glória ao Pai nosso divino Com H eu escrevo “hora” Que nasceu Jesus menino Com J escrevo “Jesus” Precisamos adorar Com L eu escrevo “lembrança” Quando os três reis passou Também vem na minha lembrança Quando eles voltou Com M escrevo “Maria” Menino e São José Com N escrevo “Nossa Senhora” Da cidade de Nazaré Com O eu escrevo “oferta” Que os três reis oferecia Com P escrevo “pessoa” Da divina santidade Com Q escrevo “queremos” Todas com a mesma santidade Com R escrevo “reis” E o rio de Jordão Com S escrevo “se lembro” Daqueles tempos profundos Com T escrevo “tempo” Que Jesus veio ao mundo 281 Com U escrevo “união” Um exemplo que Deus fez Com V eu escrevo “vida” De Jesus e Santos Reis Com X eu escrevo “xoupana” Que na Terra Deus conduz Com Z eu escrevo “Zacarias” Um profeta de Jesus Eu falei de cada letra Com o valor que cada tem Eu falei em nome do Pai E do Espírito Santo. Amém! Após concluir os versos, o bastião Tinho foi ovacionado pela multidão presente com uma salva de palmas e gritos de “Viva o bastião”, “Agora sim” e “Que coisa linda”. Logo em seguida os foliões da Companhia Estrela Guia deram continuidade à cantoria entoando versos dedicados ao dono da casa. Alguns passos adiante os bastiões viram uma estrela no chão que, assim como aquele coração, era formada por pétalas, flores e folhas. Esta também foi a única ocasião em que presenciei uma estrela no chão, pois geralmente elas são penduradas na parte mais alta do arco, simbolizando a estrela que guiava os três reis magos. Hino de reis (cantado) Ai os três reis seguiu viagem Ai os três reis seguiu viagem Ai e parou em seu cruzeiro Ai e parou em seu cruzeiro Ai boa tarde dono da casa Ai boa tarde dono da casa Ai como vai sua família Ai como vai sua família Anunciação (declamado) Procurando seus devotos Meus três reis santos viajou Nessa Terra abençoada Sua morada ele encontrou Como vai sua família Como que passou de ano? Os seus filhos e seus parentes Como é que estão passando? Deus lhe salve linda estrela Que brilhou na escuridão No ponto da zero hora Pra fazer a saudação 282 A estrela clareosa Iluminava o Salvador Na chegada até Belém Aquela estrela clareou Vou falar pro dono da casa Vou falar mais uma vez O senhor me dá licença Pra desmanchar isso em nome dos Santos Reis? Essas flor aqui no chão É sinal de alegria Vou jogar essas flor pra cima E dar viva às duas companhias Assim que a estrela foi desmanchada as duas companhias seguiram para o alpendre da casa, onde estava a última amarração: uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em um altar com o menino Jesus ao seu lado. Os bastiões e os bastiõezinhos chegaram à frente dos foliões cantadores e, antes mesmo de darem início à anunciação, o sanfoneiro da Companhia Estrela Guia saiu do lugar onde estava, atrás dos foliões, e, passando à frente de todos, se aproximou das imagens, tirou seu chapéu da cabeça com a mão esquerda, tocou nas imagens com a mão direita e em seguida fez o sinal da cruz contra o peito. Logo depois chegou o dono da casa, querendo saber se já podiam começar as anunciações. O embaixador da Companhia Estrela Guia perguntou ao seu bastião: “Vai saudar bastião? O patrão tá esperando. Já pode saudar”. Outro bastião queria saber qual seria a ordem das anunciações: “Quem vai começar? Se você quiser eu tento, pode ser?”. O bastião Tinho, que parecia já estar preparado para a anunciação, respondeu: “Você quer falar primeiro? Então pode falar seus versos, depois eu declamo”. Deus te salve linda estrela Que ilumina a escuridão No ponto da meia-noite Pra fazer adoração Deus te salve casa santa Onde Deus fez a morada Onde mora o Calix Bento E a hóstia consagrada E a hóstia consagrada Foi a mãe quem enviou Tenho fé em Deus Que ele é nosso Salvador Vinte e cinco de março Que Jesus foi encarnado Pelo poder do Espírito Santo À Maria foi anunciado 283 Foi nascido Jesus Cristo Para ser o Salvador Foi glorificado pelos Anjos E adorado pelos pastor Por vossa mãe virginal Visitante foi Isabel Que nasceu do Espírito Santo Revelado por Israel Dom Gaspar, Dom Baltazar Dom Brechó em companhia Visitai-me Deus Filho da Virgem Maria Tendo Jesus nascido Na Judéia em Belém Herodes veio perguntar: De onde vem? Venho vindo do Oriente Vou para Belém florescido Foi no ponto da meia-noite Que o Rei do mundo foi nascido Antes que o bastião Tinho assumisse sua parte naquela derradeira etapa do ritual, dois jovens bastiõezinhos ainda se intercalaram declamando as seguintes estrofes: Quatro mil e quatro anos Numa era já falada Veio o Anjo Gabriel Com sua divina embaixada E falou pessoalmente Com Maria imaculada Oh Maria imaculada Nove meses com seu ministro A vinte e cinco de dezembro Foi nascido Jesus Cristo A vinte e cinco de dezembro Quando o Cristo já nasceu Os galos todos cantaram E os pássaros respondeu Dando sinal em Belém Que o menino Deus nasceu Os três reis aqui despede De Belém para o Oriente Nossa Senhora abre os braços Agradecendo seus presentes Como os outros bastiões de sua companhia já haviam feito quase toda a anunciação do nascimento de Jesus, o bastião Tinho arrematou a anunciação apenas com uma homenagem a 284 Nossa Senhora Aparecida, antes dos cantadores finalizarem sua parte do ritual pedindo ao dono da casa para descansar a bandeira em algum cômodo da casa. Oh Senhora Aparecida Que por Deus foi escolhida Padroeira do Brasil Entre cantos e moradas Sempre foi abençoada Pelo poder do nosso Deus Oh Senhora Aparecida Com seus olhos cheios de esperança Protetora dos inocentes Protetora das crianças Oh Senhora Aparecida É uma santa tão querida Eu sempre fui devoto Da Senhora Aparecida Hino de reis (cantado) Ai meu bastião pede a licença Ai meu bastião pede a licença De descansar nossa bandeira De descansar nossa bandeira Vai descansar é no seu quarto Vai descansar é no seu quarto Para nós tornar a voltar Para nós tornar a voltar O bastião Tinho, responsável pela Companhia Estrela Guia. 285 Assim que a Companhia Estrela Guia finalizou sua etapa no ritual, seus foliões foram guardar a bandeira e seus instrumentos em um dos quartos da casa, dando lugar aos foliões da Companhia da Irmandade adorarem a santa e o menino Jesus. À frente da companhia vinha seu bastião principal segurando a bandeira, seguido por mais quatro bastiões que gritavam e dançavam de um lado para o outro conforme o ritmo imputado pelo hino de reis, cantado com os foliões em movimento enquanto se dirigiam lentamente para próximo das imagens. Não era mais possível, para aquele jovem bastião, retomar o desafio, mas ele tinha a oportunidade de encerrar sua participação naquela chegada de forma um pouco mais consistente, já que o Tinho agora estava como mero espectador. Mas antes do jovem bastião declamar seus últimos versos, os foliões ainda fariam a última cantoria daquela chegada. Como acontece nas chegadas, os foliões sempre cantam o que encontram pela frente, fazendo com que os versos sejam uma descrição daquilo que está acontecendo em cada etapa do ritual. No caso desta chegada, onde havia uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, o embaixador Keka primeiro cantou alertando os devotos presentes que seu bastião iria falar e que todos deveriam escutar, depois cantou pedindo para que o bastião pegasse a imagem da santa para que os foliões de sua companhia pudessem beijá-la. Comandados pelo seu capitão, os outros foliões cantadores da Companhia da Irmandade caminhavam em direção à imagem de Nossa Senhora Aparecida e do menino Jesus cantando os seguintes versos e, dessa forma, encerrando a chegada daquele almoço e o encontro das duas companhias. Hino de reis (cantado) Ai vamos, vamos meus profetas Ai vamos, vamos meus profetas No caminho de Belém No caminho de Belém Ai visitar o menino Deus Ai visitar o menino Deus Nesta hora de alegria Nesta hora de alegria Ai meu bastião quem vai falar Ai meu bastião quem vai falar Nós vamos todos escutar Nós vamos todos escutar Anunciação (declamado) Ajoelha meu irmão E faça o sinal da cruz Nesta casa representa O nascimento de Jesus 286 Oh! Que encontro tão bonito Que encontrei nessa hora Encontrei meus três reis santos E também Nossa Senhora Nossa Senhora estava em seu altar Fazendo sua devoção Quando apareceu o Anjo Gabriel Pra fazer anunciação Certo dia, um Anjo chamado Gabriel foi visitar Maria “Maria, você vai ter um neném”, falou o Anjo Ele será filho de Deus, farei de boa vontade o que Deus pedir Foi na casa de Maria e José, o homem com quem Maria ia se casar Estava em Belém quando chegou a hora de nascer o neném Jesus Todas as casas estavam lotadas O único lugar que ela conseguiu ficar foi numa estrebaria Foi lá, entre jumentos e carneiros, que Maria teve seu neném Ela enrolou o neném Jesus em um cobertor E o colocou com cuidado em uma manjedoura cheia de capim Como ela ficou feliz, num país distante alguns sábios viram a estrela brilhar no céu Sabiam que a estrela significava que alguém importante havia nascido Eles seguiram a estrela por muitas noites E finalmente a estrela parou na casa de Maria e José Os sábios conversaram com Maria: “Essa criança que nasceu será um homem muito importante” “Viemos nos curvar diante dele”, então eles deram os presentes. Quatro mil e quatro anos Numa era já falada Veio o Anjo Gabriel Com sua divina embaixada Falou visualmente Por Maria imaculada Oh! Maria imaculada Nove meses com seu ministro Vinte e cinco de dezembro Foi nascido Jesus Cristo Vinte e cinco de dezembro Quando Cristo já nasceu Os galos cantavam E os pássaros respondeu Dando o sinal em Belém Que o menino Deus nasceu Os três reis trouxeram ouro Porque ouro é o rei quem dá Trouxeram incenso e mirra Para o tesouro incensiar Os três reis aqui despede De Belém para o Oriente Nossa Senhora abre os braços Todos os três ficou contente 287 Meu senhor dono da casa Escutai e preste atenção Vou pedir sua licença Pra levantar desse chão Você dá licença patrão? Hino de reis (cantado) Ai vou saudar Nossa Senhora Ai vou saudar Nossa Senhora Ai a Senhora Aparecida Ai a Senhora Aparecida Ai pega ela meu bastião Ai pega ela meu bastião Ai pra nós poder beijar Ai pra nós poder beijar Ai a Senhora Aparecida Ai a Senhora Aparecida Ai padroeira do Brasil Ai padroeira do Brasil Anunciação (declamado) Lá no céu brilhou uma estrela No pé de uma roseira Vou pedir sua licença Pra descansar nossa bandeira 11.2. O verdadeiro vencedor Este capítulo poderia nos render longas discussões sobre a prática improvisatória dos bastiões e sua possível relação com o universo do repente, da embolada, do rap e do hip hop, nos quais surge igualmente uma forte noção de desafio. Embora existam algumas diferenças fundamentais entre os desafios dos repentistas e dos rappers nos duelos de MCs, ambos têm em comum o fato dos oponentes serem, na grande maioria das vezes, parceiros de trabalho que atuam juntos em favor dos espectadores, o terceiro sujeito para quem o suposto duelo está sendo dirigido. Antes de fazer uma comparação com o encontro de companhias que presenciei naquela tarde, talvez seja importante apontar que, embora não tenha sido encontrado nenhum trabalho que aproxime estes universos musicais aparentemente tão distintos um do outro, fora da discussão acadêmica esta aproximação já se mostra como uma realidade61. 61 Muitos exemplos podem evidenciar essa aproximação, como o espetáculo Faça algum barulho, estrelado pela Rui Moreira Cia de Danças em janeiro de 2013. Nele são colocados, no mesmo palco, um palhaço de folia de reis e um artista hip hop, que também é dançarino de break. Segundo Rui Moreira, que interpreta o bastião na peça, “a folia e o break são danças de rua vigorosas”, sendo que um dos principais desafios de interpretação do bastião da folia “nem é a dança ser difícil – e é coreografia complexa –, mas lidar com grande quantidade de 288 No entanto, o que julgamos importante apontar neste momento é o caráter coletivo e colaborativo deste encontro de companhias, muito diferente do que ocorre em outras regiões do estado, como já foi apontado no início do capítulo. É evidente que o fato de não ter sido presenciado nenhum encontro mais truculento entre duas companhias, como os que ocorrem em Urucuia (PEREIRA, 2011) ou na região do Vale do Jequitinhonha (AZEVEDO, 2007), não quer dizer que eles não existam também no sul de Minas Gerais. Mas, no caso específico do encontro que foi presenciado, muito antes de ser uma disputa para saber qual companhia possui o melhor bastião, este encontro tinha como objetivo aproximar dois amigos com suas respectivas companhias e, principalmente, promover um espetáculo para os devotos. Assim, como geralmente ocorre nos duelos dos repentistas e dos rappers, o encontro entre estas duas companhias não foi promovido por oponentes, mas por dois companheiros que professam da mesma fé e que se veem como parceiros de devoção no trabalho religioso em que atuam. Neste sentido, podemos interpretar o encontro promovido pelos foliões Tinho e Keka como um evento que tinha como alvo principal seus “espectadores”, ou seja, os devotos que estavam presentes e para quem o aparente desafio estava sendo dirigido. Em última instância, são eles os principais “vencedores” do desafio, os que verdadeiramente “saem ganhando” com a oportunidade de presenciar tão belo espetáculo. Toda essa orquestração cênica do ritual parece ficar ainda mais clara quando observamos a postura dos foliões das duas companhias após terem cumprido o cerimonial religioso, pois, ao invés de saírem um para cada lado e se separarem durante o almoço, os foliões das duas companhias sentaram-se uns ao lado dos outros para conversar e se divertir. Até mesmo os dois bastiões “rivais” estavam almoçando juntos na mesma mesa. As duas companhias haviam, de fato, se tornado uma só. signos postos pelo personagem. [...] Ele é um protetor da esperança que se renova com o nascimento de um avatar. E desempenhar o papel de protetor da esperança traz enorme responsabilidade”. Outro exemplo de aproximação destes dois universos é o fato das folias de reis e do hip hop terem se tornado Patrimônio Cultural Imaterial de Uberaba (que possui cerca de 160 folias) a partir de um mesmo decreto, publicado e assinado pelo prefeito e pelo presidente da Fundação Cultural do município em 21 de novembro de 2016. Com esta mesma proposta, o Sesc Campinas iniciou sua programação cultural na primeira semana de 2018 com hip hop e folia de reis, com uma apresentação do rapper Paulo Microfonia e com a promoção do Encontro de Bandeiras das Folias de Reis de Campinas. Assim como a folia de reis, o hip hop procura misturar o novo e antigo, o popular e o “erudito”, a poesia e a paródia, sempre articulando música, ritmo e poesia. 289 – PARTE IV – A MUSICOLOGIA DOS FOLIÕES Tanto no estilo paulista como no estilo baiano, os foliões cantam de forma antifônica, ou seja, há uma alternação entre duas configurações vocais ao longo da performance da toada. Mais precisamente, a embaixada é apresentada em terças paralelas pelo embaixador e seu ajudante. Quando esses músicos terminam de cantar, dois cantores “de trás” repetem a embaixada, podendo a resposta ser executada em terças ou sextas paralelas. No estilo mineiro, contudo, usa-se a forma acumulativa, em que uma ou mais vozes se junta à cantoria, sempre num registro mais agudo que os cantores já integrados à toada, produzindo um acúmulo sucessivo de vozes até que se culmina num prolongado acorde maior. SUZEL ANA REILY, 2009 290 12. O hino de reis Um dos bairros urbanos de Alfenas mais afastado do centro da cidade se chama Vista Grande, onde muitas companhias se dirigem para cantar devido à grande quantidade de fiéis que ali residem. Para termos uma ideia da quantidade de devotos naquele bairro, no dia 05 de janeiro de 2018 havia três companhias fazendo a chegada de almoço a apenas algumas casas distantes uma da outra. Eu tinha marcado de seguir pela manhã a Companhia da Irmandade, que iria cantar em um bairro rural próximo à Ponte das Amoras, um dos pontos turísticos da cidade que, com aproximadamente 1.200 metros de extensão, passa por cima de um dos braços sul da represa de Furnas. Logo pela manhã, enquanto ia ao encontro dos foliões, passei pela praça do bairro e avistei o folião João Santana, que ainda não tinha encontrado naquele ano pois ele estava de viagem nos primeiros dias da jornada. Como provavelmente não o veria de novo, pois a jornada estava no fim, parei para ter com ele uma conversa e saber os motivos pelos quais não havia saído com a Companhia Nossa Senhora de Fátima naquele ano. Eu tava de viagem para São Paulo, fui passar o Natal e o Ano Novo na casa da filha, né? E ano passado eu dei muito trabalho pra Consolita. Já tô com quase noventa anos, né? O pessoal tem que ficar me esperando, porque eu fico pra trás. Mas eu fui essa semana cantar um dia com eles, só que tava muito descontrolada a companhia, aí eu vim embora. Tava fora do lance. JOÃO SANTANA, 2018 Com quase noventa anos, João Santana utiliza seu grande guarda-chuva como bengala quando está seguindo a companhia, pois caminha lentamente e com certa dificuldade, ficando sempre um pouco atrás dos foliões. A conversa que tivemos naquela manhã foi debaixo de um suave chuvisqueiro, de modo que precisamos nos esconder dos pingos debaixo de uma grande árvore que havia na praça. E ainda que ele estivesse em posse de seu guarda-chuva, ele não o abriu em nenhum momento, pois, para ele, a principal utilidade de seu guarda-chuva é como bengala. Quando me despedi dele, com a chuva um pouco mais forte, fiquei ainda um tempo na praça observando enquanto ele caminhava até sua casa, debaixo de chuva e com o guarda- chuva fechado na mão direita, apoiando-o no asfalto molhado como se fosse uma bengala. Naquele dia, Sr. João Santana também me deu uma aula sobre como deve ser realizada a abertura das vozes nos hinos de reis. Como ele havia me dito, um dos motivos pelo qual não voltou para cantar com sua companhia naquele ano foi o fato dela estar “muito descontrolada” e um pouco “fora do lance”, motivo pelo qual resolveu não participar do grupo naquele ano. 291 Eu, Zé Messias, João Santana e seu amigo inseparável: o guarda-chuva. Vem o embaixador, o Oswaldinho. Aí depois vem o Seu Nego respondendo, né? Depois veio o Margoso ajudando. Depois vem o Aluísio, que é irmão do Oswaldinho, fazendo o contrato. Até aí cantou muito bem. Aí depois vinha a voz do Zé Messias, mas em vez de vir a voz do Zé Messias veio truncado. Entrou o contrafino, e não pode. O contrafino é o último. O último não, depois vem a tipe, né? Aí entrou o Zé Messias e o Luís largou do contrato, e veio o outro lá na voz do contrato descontrolado. Aí que veio o contrafino lá. Então desigualou o modo de cantar. E em vez de fazer o fino e fazer o contrafino o outro rapaz já cantou a tipe. Aí tira do lance, né? Então foi desse jeito. Eu tô falando o que aconteceu. Então eu cantei com eles e aí eu cheguei e falei pra eles. Foi quinta-feira o dia que eu fui. Aí eu falei pra eles: “Deixa eu falar uma coisa pra vocês: Vocês não incomoda de eu fazer uma escala nisso aí não?” Porque lá eu comandava lá também. “Ah não, mas já tá feito”. A Consolita não conhece nada [sobre a abertura das vozes] direito. Coitadinha, né? Eu falei: faz isso, vem assim até no Luís. Aí entra o Zé Messias que é o sanfoneiro fazendo o fino e eu vou entrar no contrafino. Aí o rapaz que já tava fazendo a tipe ele continuava fazendo a tipe. Porque eu faço a tipe também, que é a derradeira voz. Mas como o rapaz já tava fazendo já tava controladinho. Eles não aceitou, então eu parei. Eles tava colocando o contrafino antes do fineiro. O contrafino vem depois do fineiro, né? Vem o fineiro e depois o contrafino. Depois que vem a tipe, aquela voz que eu cantava, né? É a voz mais alta que tem. É a escala que eu tô falando, um por um vindo do embaixador: embaixador, respondedor, ajudante, contrato, fino, contrafino e a tipe. Aí dá a voz de sete. Até no contrato veio bem. O contrato parou porque entrou o contrafino lá atrás no lugar do fineiro. O fineiro e o contrafino entram junto, mas ele entrou fora do lugar, fazendo outra voz. É gente que não sabe. Aí descontrola. É uma afinação. Você conhece a viola! A 292 viola tem a primeira de cima, que é turinada [oitavada]. Vem a toeira, que também é turinada. Aí depois a outra. E depois é casal. Tudo voz só, né? Então ali tem que fazer aquela parte ali. O reis é uma afinação de viola. JOÃO SANTANA, 2018 A cantoria dos hinos de reis nas várias casas durante os doze dias talvez seja a parte mais importante de todo o trabalho religioso, mais até do que a festa de chegada e entrega da bandeira. O momento da cantoria dos hinos é o ponto máximo das atividades de adoração e louvor aos Santos Reis, pois são os hinos que derramam as bênçãos do santo sobre os devotos e suas famílias e que oficializam, com seus versos, que as promessas foram pagas. Como pode ser observado pelo relato do folião João Santana, as estruturas musicais dos hinos de reis são relativamente fixas e rigorosas, fazendo com que os foliões tenham que obedecer todos os preceitos ditados pela tradição. Como me disse o devoto Zeca, “tem que obedecer a regra primitiva” e colocar “as vozes todas nos lugares certinhos”, pois “se modificar estraga tudo”. Naquele penúltimo dia do último ano de trabalho de campo o folião João Santana me disse, com outras palavras, a mesma coisa que o folião José Vicente Cassimiro havia me dito dois anos antes, logo no início da pesquisa durante a jornada em 2015. Na ocasião, o folião havia feito uma analogia da abertura das vozes dos foliões cantadas nos hinos de reis com as cordas do violão, ao invés da viola caipira. Esse trabalho é folclórico ou musical? Porque se for musical você vai ver. Se você for tentar separar essas vozes, você vai ver que são seis vozes e não tem uma igual a outra. É a harmonia mais linda do mundo. Quando entra assim, fica uma coisa tão perfeita que dá a impressão que tem uma voz a mais cantando. Entram as seis vozes, que já tem, e você nota que é uma harmonia tão perfeita que dá a impressão que tem uma lá embaixo e outra mais acima da nossa que tá cantando ainda. Eu me apaixonei nisso aqui. A companhia certa é isso, as vozes tem que vir igualzinho as cordas do violão. Tem que vir o capitão que puxa os versos, que seria a corda Mi. Depois a outra, que seria a corda Lá. A outra Ré, a outra Sol, a outra Si e a Mizinha. Aí a Mizinha de baixo é que é a tala que o pessoal costuma usar, que é a última voz. Mas aquela a gente não usa. É muito difícil e quase não usa mesmo. Achar sete vozes pra encaixar é muito difícil. Mas é uma coisa tão perfeita que eu nunca vi coisa igual. Nunca. Aí eu encaixei. Já faz sete anos que eu saio com eles. Porque como eu sou músico, por uns dez anos eles me convidaram pra sair, mas eu nunca fui. Aí um dia falei: “Deixa eu experimentar sair com esse povo”. Me apaixonei nisso. Quem gosta de coisa gostosa, deixa eu te falar um negócio pra você, isso é a coisa mais gostosa do mundo. JOSÉ VICENTE CASSIMIRO, 2015 O caráter dos hinos de reis é muito diferente daquela música tocada para os bastiões fazerem suas estripulias quando a companhia está andando pelas ruas, o forró ou corta-jaca, possuindo um caráter mais próximo ao dos cantos de agradecimento: solene, introspectivo e devocional. Embora algumas companhias tenham modificado as características tradicionais 293 dos hinos de reis, geralmente os hinos cantados pelas companhias da região são praticamente os mesmos no que diz respeito à sua estrutura musical, com algumas pequenas variações. A cantoria é toda feita em responsório, com cada uma das vozes entrando uma após a outra e obedecendo à mesma lógica que existe no canto em terças das duplas caipiras, onde um folião está sempre fazendo a primeira voz para o companheiro. Na ordem que entram na cantoria, as vozes parecem ter sido nomeadas já evidenciando qual a função de cada cantador no grupo, sendo elas a do embaixador ou capitão, do respondedor, do ajudante, do contrato, do fineiro e do contra-fino. Algumas companhias possuem uma sétima voz chamada tala ou tipe, sendo esta a mais aguda de todas e geralmente feita por adolescentes. Alguns foliões me disseram que antigamente existia uma oitava voz chamada cacetão, que atualmente não se usa mais.62 Primeiro entra o capitão. Depois entra o respondedor, a segunda voz. Que a primeira entra e a segunda voz é o respondedor. Depois entra o ajudante, que ajuda a primeira e a segunda. Depois o contrato. O pessoal tradicionalmente, vulgarmente chama de contrato, mas, na verdade, musicalmente seria contralto, né? Seria o contralto. Depois entra a minha voz que é o fineiro e a última voz que é o contra-fino. Certas companhias usa ainda outra voz que é a tal de tala. Mas é uma voz que antigamente todo mundo usava, hoje em dia algumas companhias usam. Você que tá fazendo trabalho com outras companhias vai ver que algumas companhias usam ainda e outras já não usam mais, entendeu? Até uns dois dias atrás tinha uma tala com a gente, mas ele bebia muito e nós dispensamos ele. A tala é a última voz, acima do fineiro. Então é uma voz que não são todas companhias que usam, mas ainda tem. Ainda existe essa voz. Depois tem os bastiões, que representa os três reis magos. O bandeireiro, que vai de casa em casa perguntando se quer cantar. Na verdade uma companhia de reis é composta mais ou menos de doze a treze componentes. Entram seis vozes, mais os dois bastiões, bandeireiro e tem esse pessoal que sai pra ajudar. JOSÉ VICENTE CASSIMIRO, 2015 12.1. O cordão e a sobreposição de vozes A companhia entra com o embaixador. O embaixador faz a parte dele e depois o respondedor canta tudo o que ele falou e repete. Daí o ajudante faz a primeira pro respondedor e o contrato faz a primeira pro ajudante. Vem o fino e faz a primeira pro contrato e o contrafino faz a primeira pro fino. E tem a tala, que é a última voz. Aí que dá aquele cordão que fica bonito. PEDRO CAMPOS NOGUEIRA, 2016 62 No que diz respeito à organização das vozes, Suzel Ana REILY (2009: 13) chama atenção para as diferenças entre os estilos paulista, mineiro e goiano: “A principal diferença reside nas formas bastante distintas utilizadas na organização das vozes dos cantores. Tanto no estilo paulista como no estilo baiano, os foliões cantam de forma antifônica, ou seja, há uma alternação entre duas configurações vocais ao longo da performance da toada. Mais precisamente, a embaixada é apresentada em terças paralelas pelo embaixador e seu ajudante. Quando esses músicos terminam de cantar, dois cantores ‘de trás’ repetem a embaixada, podendo a resposta ser executada em terças ou sextas paralelas. No estilo mineiro, contudo, usa-se a forma acumulativa, em que uma ou mais vozes se junta à cantoria, sempre num registro mais agudo que os cantores já integrados à toada, produzindo um acúmulo sucessivo de vozes até que se culmina num prolongado acorde maior”. 294 A ideia de um “cordão de vozes” é muito sugestiva para se referir à relação harmônica que as cinco, seis ou sete vozes possuem dentro do hino de reis, pois representa, de fato, uma sequência sucessiva de eventos sonoros intrinsecamente ligados que, assim como um cordão, não pode ser rompido ou quebrado. Isso fica ainda mais claro quando uma companhia sai com alguma das vozes faltando, o que muitas vezes deixa alguns foliões contrariados. A ausência de uma ou mais vozes pressupõe que os foliões terão que “cobrir” estas vozes com uma maior projeção sonora, para tentar preencher a lacuna e amenizar sua falta durante a cantoria, o que pode causar rouquidão ao final do dia e, principalmente, da jornada. A rouquidão de fato é algo muito comum durante a jornada. O folião Luís dos Anjos Anacleto me disse que os moradores da cidade que veem os foliões pelas ruas “pensam que é fácil. Eu mesmo tô até rouco de cantar e eles pensam que é só sair e andar, mas não é assim não”. O folião Keka, ao me explicar como surgiu sua toada mais animada e bem diferente das outras companhias da cidade, disse que “isso veio lá do Cavaco. A turma foi cantar lá, chegou lá e ficaram tudo rouco. Aí pra não parar a companhia de reis a gente pegou e cantamos em quatro vozes mesmo e começamos a bater esse ritmo. E a turma gostou”. Embora o ideal seja que o hino de reis seja cantado com pelo menos cinco cantadores, muitas companhias nem sempre conseguem atender este requisito. Em uma conversa com os foliões da Companhia dos Santos Reis, eles se queixaram justamente da diminuição na quantidade de foliões na cidade e o quanto a cantoria fica comprometida quando não há o número mínimo de foliões necessário para que se possa fazer a abertura das vozes conforme dita a tradição. Quando começou era um mundo de gente. Companhia de reis quando era na época do Jorge Lourenço eu acho que tinha umas três turmas dessa aqui ou mais. Você acabava de almoçar às vezes e você queria ir pra casa tomar um fôlego, descansar, você podia ir que tinha outro pra cantar no teu lugar. Dois, três contra-fino. Dois, três contrato. Hoje só tem um de cada. Se sair um aqui pra ir no banheiro tem que esperar ele voltar, porque como é que vai cantar? Tem que ficar parado e esperar ele voltar, porque faltando voz não tem jeito. Não tem jeito. A gente não canta. Tem gente que canta, mas não é o certo. Já teve companhia de cantar em três vozes, aquele Paulo Mathias, né? Mas não tem graça. Fica ruim demais. Agora de instrumento, se tirar a sanfona da companhia de reis, cadê o barulho? Aí acabou. Como é que vai fazer? Na janta, uma vez lá na chapada, a gente chegou com quatro. Não tinha condição mais. Não tinha gente. Até foi o Donga e o Vitão. Os dois ficaram doente. Ficaram rouquinho e não saía nada. Até no outro dia a gente ia cantar na rádio. Já tava tudo preparado pra ir, mas não tinha jeito de ir. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2016 295 O embaixador Paulo Mathias, uma “lenda viva” segundo alguns foliões da região. Uma das necessidades de se ter no mínimo cinco foliões para a cantoria dos hinos de reis é porque duas vozes nunca cantam em uníssono, ou seja, cada voz faz uma linha melódica diferente da outra. A falta de foliões, além de fazer com que os demais tenham que compensar a ausência de vozes com uma maior projeção sonora, também ocasiona o empobrecimento da textura musical homofônica em sua plenitude, motivo pelo qual são tão comuns os casos de empréstimo de foliões entre as companhias. Em um hino de reis cada voz é única, de modo que sua estrutura responsorial permite ao ouvinte mais atento distinguir cada uma delas dentro do todo musical: o respondedor fazendo a primeira para o embaixador, o ajudante fazendo a primeira para o respondedor, o contrato fazendo a primeira para o ajudante, o fineiro fazendo a primeira para o contrato, e o contra-fino fazendo a primeira para o fineiro. O sétimo folião seria a voz conhecida como tala ou tipe, a mais aguda do hino de reis.63 63 Na música caipira, onde a cantoria é feita em terças ou sextas paralelas, a chamada primeira voz é sempre a voz mais aguda, enquanto que a segunda voz é sempre a voz mais grave. Na dupla Tião Carreiro & Pardinho, por exemplo, Tião Carreiro faz a segunda voz (mais grave) e Pardinho faz a primeira voz (mais aguda). 296 Nós também somos cinco cantadores na minha casa. Somos cinco irmãos. Antigamente era até voz de quinta, né? Eles falam voz de sexta, mas não é sexta. É voz de quinta porque tem o que ajuda, né? Tem o embaixador, o que ajuda, o respondão, né? Aí depois vem o contrateiro, depois o que canta quatro, depois o cinco e depois o seis. Muitos falam voz de seis, mas tirando o ajudante dá voz de cinco. Porque o que ajuda tanto faz ajudar como não ajudar, porque o contrato cobre a voz dele. Igual tá lá meu irmão cantando a voz de contrato, então se eu fosse cantar minha voz teria que cobrir a voz daquele que tá no meio lá. Aquele do meio tanto faz, ele tá no meio ali ajudando como não tá que dá na mesma coisa. E depois do contrafino e do fineiro tem outra voz também, uma voz mais fina do que a minha: a voz de sete. É a tala que eles falam, a voz mais fininha que dá pra trás. Aquele último grito. Então seria até mais bonito se tivesse a tala aqui junto, ia ser mais alto. Mas quando a gente cantava em irmãos ia só até a quinta voz. VICENTE DE BRITO, 2017 As explicações dadas pelos foliões sobre a organização das vozes nos hinos de reis são diversas, podendo tanto fazer referência à forma de se cantar das duplas caipiras e sertanejas quanto à disposição das cordas do violão e da viola. Alguns foliões ainda argumentam que a estrutura musical dos hinos se baseia na própria origem das companhias de reis, que remonta à viagem feita pelos magos pelo deserto para visitar o menino Jesus. A explicação evidencia a crença de que os três reis magos teriam atravessado o deserto em comitiva, na companhia de companheiros e vassalos para evitar ataques de beduínos e saqueadores, sempre cantando entre si. Esta é apenas uma das interpretações que justifica o fato das companhias usarem cinco, seis ou até sete vozes diferentes em seus hinos, uma representação da cantoria que os três reis magos teriam feito pelo deserto com sua comitiva. São sete vozes, por isso que eu te falo que os reis, quando viajaram, eles saíram cantando em três, mas conforme eles foram andando eles foram evoluindo e o pessoal foi indo com eles. E todo mundo achava uma voz pra cantar ali. Por isso que formaram o grupo que hoje uns chamam de folia de reis, mas pra nós é companhia de reis. Cada um achou uma voz ali, foi entrando no meio e deu certo. Eles saíram em três e de repente eles tavam em sete vozes. E pode cantar até mais, porque as vozes finas podem ser cantadas em duas ao mesmo tempo numa só.64 JOÃO BENEDETTE, 2016 64 Esta interpretação do folião é bastante semelhante com uma apresentada por Suzel Ana REILY (2009: 13), ao observar a predominância do estilo mineiro sobre os estilos paulista e goiano: “Atualmente o estilo mineiro está se tornando cada vez mais comum, deslocando as formas antifônicas que prevaleciam na região. Vale notar que esse estilo articula muito bem com as concepções dos devotos a respeito da jornada dos Reis Magos, que, ao retornarem ao Oriente cantando para anunciar o nascimento de Jesus, foram convertendo os pagãos, integrando-os à família de Deus. Assim, o estilo mineiro pode ser visto como uma representação sonora da missão dos Magos. O embaixador começa proclamando a mensagem dos santos; essa mensagem é, então, apropriada e repetida no próximo estágio, e assim por diante. Quando, finalmente, as verdades dos Magos atingem a todos, o universo social explode num todo harmonioso, representado pelo acorde final da toada”. 297 O folião Sebastião Geraldo, respondedor da Companhia dos Santos Reis. 12.1.1. Do embaixador ao contra-fino E já comentei com você que eu gosto muito de entender um pouco sobre harmonia musical. E essas vozes que são usadas na harmonia das companhias de reis é a coisa mais linda que eu já vi na vida. Eu nunca vi coisa igual em tudo: congada, dupla sertaneja, banda de rock, banda de música, orquestra. Eu nunca vi coisa igual a essas vozes da companhia de reis. A harmonia é tão perfeita que dá pra você definir no mínimo nove vozes, entre instrumentação e vozes diferentes. Já fizeram um estudo. Uma vez veio um estudioso do Rio de Janeiro fazer a entrevista com a gente aqui. Aí colocaram o computador e conseguiram, entre harmonia instrumental e harmonia vocal, eles separaram doze tons diferentes entre os cinco instrumentos e mais as vozes. Doze tons diferentes, doze harmonias diferentes. Então é uma orquestra de vozes e instrumentos, entendeu? Eu sou um estudioso nessa parte. Gosto demais de estudar essa parte de música, me interessei muito e tô com eles até hoje. JOSÉ VICENTE CASSIMIRO, 2015 O embaixador, mestre ou capitão é o folião responsável por criar os versos e dar início à cantoria. Muitos relatos sugerem ausência de hierarquia entre os foliões, mostrando que, de fato, o embaixador não possui autoridade sobre os outros foliões. Esta ausência de hierarquia também pode ser observada pelo fato de algumas companhias possuírem pelo menos dois 298 embaixadores.65 Assim, muito mais do que exercer qualquer tipo de autoridade, o embaixador tem a responsabilidade de conduzir musicalmente a companhia e criar os versos que serão reproduzidos durante a cantoria, além de outras atividades exclusivamente musicais. Este é um dos motivos pelo qual ele raramente fica responsável pela organização do grupo e pelo controle da agenda das casas por onde a companhia irá passar. Na maioria das vezes, estas atividades extramusicais ficam por conta de outro folião, deixando o embaixador livre para cuidar de questões essencialmente musicais. Essa companhia foi fundada pelo meu tio, Jorge Lorenço. Tá fazendo uns dez anos que ele faleceu, aí pegamos ela e começamos a tocar ela. Aqui é um conjunto, todo mundo participa como dono. Não tem dono. Todo mundo é dono. E nós estamos indo aí batalhando, seguindo. Santos Reis e Deus ajudam e nós estamos indo. É custoso, mas estamos indo. Então a gente tá fazendo a força. Você viu o que a gente passa. Você andou com a gente e viu que a coisa não é fácil. ANTONIO CARLOS “BICUDO”, 2015 No entanto, embora o embaixador não possua autoridade sobre os outros foliões, ele claramente possui certa proeminência, algo que pode ser percebido em vários aspectos. A responsabilidade de declamar os enredos narrativos que descrevem os fatos que envolvem o nascimento de Jesus, por exemplo, recai sobre o embaixador em alguns casos, assim como outras responsabilidades que devem ser feitas cantando. Quando uma companhia não possui um bastião experiente capaz de sair das amarrações, quando o dono da casa faz questão que os versos sejam cantados ao invés de declamados ou quando o bastião passa direto pelo presépio, cabe ao embaixador tomar a frente da companhia para realizar as etapas do ritual cantando. Você vê que a pessoa não entende quando a gente tá cantando e a pessoa começa reclamar: “Nossa, mas tá demorando demais”. Uai, mas eu tenho que fazer a sequência. Eu não posso pular etapa. Eu tô aqui pra embaixar. Vinte anos atrás, lá no Pinherinho, na casa do Sr. Chico Lecler, lá na chegada do dia seis, o último dia, o dono da casa falou assim: “Eu não quero nenhum bastião aqui. Eu quero ver você fazer tudo cantado”. Tinha três arcos, só que ele não pôs o coração, não pôs cruzeiro, não pôs nada. E outra coisa, eu tava ralando pra caramba porque eu tava embaixando com uma sanfona de cento e vinte baixos. Qual é peito que aguenta um trem daquele 65 Carlos Rodrigues BRANDÃO (1981: 20) observou que “a Companhia dos Três Reis Santos da Vila Vicentina não difere muito de todas as outras. Ela toca três violões, uma viola, dois cavaquinhos, uma sanfona, um pandeiro e duas caixas. Os cantores, também instrumentistas, fora dois ou três outros, são o mestre (o que propõe e sola os versos), contramestre e contralto (os que respondem, junto com o mestre, a repetição do 2° verso), contraltinho, tiple e contratiple (os que dão a resposta aos versos e prolongam, segundo o tipo de cantoria, os longos gritos finos do final dos versos). No entanto, de modo diferente do que acontece em regra, ela reúne em um só grupo cinco bons mestres de Folia, de tal modo que, em um mesmo dia, todos eles se alternam no comando da cantoria e passam sem muita dificuldade de uma posição de cantador a outra. Um dia, quando Mestre Donquinha já estava muito cansado do esforço de cantar, Mestre Porfírio o substituiu no meio de uma cantoria. Esta foi a primeira vez em que eu vi isso acontecer”. 299 no peito? Entendeu? Eu tava tocando sanfona e embaixando com essa voz minha aí. Aí o que acontece? O que ele fez comigo? Comecei a embaixar. No primeiro arco eu fiz uma homenagem. Quando apareceu o segundo arco apareceu um Anjo, aí eu tive que fazer a parte do Anjo Gabriel que anunciou Nossa Senhora. Mais pra frente apareceu uma menina, uma criança vestida de Nossa Senhora. Depois apareceu uma de São João. Foi aparecendo. Quando eu atravessei o segundo arco aí chegou os três juntos, Nosssa Senhora, o Anjo e o menino Jesus. Tava os três juntos assim pra eu fazer a sequência como se fosse um presépio. Tive que cantar a sequência como se fosse a do presépio. Fiz a sequência do presépio, cheguei lá e tinha um altar. Era a promessa que eu tinha que resolver. Tirei a sanfona, jurei e rezei um terço interinho. Demorei demais da conta. Hoje, se pintar uma coisa desse jeito os cantador pifa, porque não aguenta mais. [...] Mas hoje a gente tem os bastião, então a gente fica à vontade. Mas eu já cheguei a sair com companhia de reis que não tinha bastião. Aí demorava muito pra você chegar na sala da casa, porque ao invés de declamar a anunciação você tinha que cantar e ainda tinha que fazer a sequência toda. O pessoal costumava fazer três arcos e o povo ficava lá esperando. Três arcos e um coração. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2015 Ainda que seja dado um destaque ao embaixador em relação aos demais foliões, já que é ele quem cria os versos, o respondedor é igualmente importante, pois é sobre sua voz que o encadeamento das demais vozes é realizado, como está demonstrado no apêndice do trabalho. Além disso, cabe ao respondedor compreender corretamente os versos criados para reproduzi- los integralmente aos devotos, tendo em vista que os demais cantadores apenas irão sobrepor suas vozes mais próximo do final da cantoria e muitas vezes só entendem os versos que foram criados após serem repetidos pelo respondedor. Quando o respondedor não entende os versos, os demais foliões geralmente também cantam versos diferentes daqueles que foram criados, sendo comum o embaixador perceber que os foliões estão cantando versos diferentes dos que ele criou e dirigir olhares e outros sinais de reprovação durante a cantoria. Eu desde a idade de oito anos eu participo como bastiãozinho. Depois me tornei bastião, um pouco mais velho. Hoje eu tô como respondedor do capitão. Minha função é transmitir a voz do capitão a todas as outras funções e dar continuidade pra fechar as vozes, fazendo uma bela apresentação. Eu acho importante essa união e esse incentivo que nós estamos transmitindo pra comunidade. Hoje em dia a comunidade perdeu muito a referência do que é uma companhia de reis. E hoje levando a bandeira dos três reis, a gente tem como incentivar outros participantes e incentivamos também a sociedade a receber a bandeira dos três reis santos. JOSÉ REIS GARCIA, 2016 A partir do respondedor as vozes dos demais cantadores se sobrepõem umas às outras formando, nos diferentes momentos da cantoria, intervalos de 3ª menor, 3ª maior, 4ª justa, 5ª justa, 6ª menor, 6ª maior e 7ª menor (este último como preparação do acorde de dominante). O contrato, por exemplo, é quem faz a primeira voz para o ajudante, que por sua vez faz a primeira para o respondedor. O fineiro e o contra-fino são as duas vozes mais agudas e entram 300 apenas no último verso de cada estrofe, onde o contra-fino faz a primeira voz para o fineiro, geralmente em intervalos de terças paralelas. A tala ou tipe, embora pouco usada, ainda se faz presente em alguns grupos e consiste em uma única nota, mais aguda que todas, cantada no final do último verso e geralmente feita por crianças ou adolescentes66. O folião Valter, que faz a voz de ajudante na Companhia da Irmandade. Os instrumentos essenciais em uma companhia de reis são a viola caipira, o violão, a sanfona, a caixa e o pandeiro, embora algumas companhias também possuam o cavaquinho, o 66 Além dos foliões cantadores, as companhias no sul de Minas Gerais também possuem o bandeireiro, seu responsável e organizador, eventualmente alguém que fica responsável pelo recolhimento dos donativos ou pela parte financeira etc. Outros autores distinguiram estas e outras funções em companhias de outras regiões do país. Alberto IKEDA (2011: 81), por exemplo, observou em Goiás que “variando de grupo para grupo existem também: ‘alferes’, que carrega a bandeira e recebe as esmolas (em alguns grupos o recebimento das esmolas é feito pelo palhaço); ‘Fiscal’, que cuida da parte disciplinar dos foliões; ‘Regente’, que pode ser responsável pela disciplina ou se encarregar do controle do uso de bebida alcoólica (no geral a pinga) que alguns grupos levam ‘para resolver o problema do pigarro (rouquidão) na voz’, pelos vários dias de cantoria. Folias que giram em regiões rurais costumam manter o ‘Carguerero’ (que carrega a carga = esmolas), também chamados de ‘Malero’ (de mala) e ‘Ajudantes’, para a guarda e o transporte das doações recebidas durante o giro”. 301 bandolim e outros instrumentos de percussão. Seria possível estabelecer uma relação entre a função do cantador com o instrumento pelo qual fica responsável, embora, às vezes, esta relação possa ser quebrada. O folião Vino, por exemplo, me disse que segundo a tradição o ideal seria que o instrumento do capitão fosse a viola caipira, embora em algumas companhias os embaixadores também toquem violão e, às vezes, sanfona. Já os instrumentos de percussão geralmente ficam sob responsabilidade dos foliões que fazem as vozes mais agudas, ou então dos foliões não cantadores. Algo raro de se ver é um capitão tocando sanfona, pois, segundo alguns, o peso do instrumento contra o peito atrapalha na hora de embaixar, já que sua voz deve possuir a maior potência e projeção sonora, para que todos os demais possam entender o conteúdo dos versos. Com exceção da sanfona, a afinação dos instrumentos de cordas não é precisa, pois é na afinação das vozes que se mostra a qualidade da companhia. 12.2. A trova dos versos O verso eu faço é na hora. Conforme você segura a bandeira é conforme eu falo o verso pra você. Isso eu faço é na hora o verso pra você, pra sua senhora, pra sua filha. Do jeito que eu olhar o jeito que você pegou a bandeira o verso quem tem que fazer sou eu. Eu vou escolher é na minha cabeça o que eu vou cantar. Agora tem linha que o caboclo fala de uma vez no presépio, principalmente o bastião. Aí tem que pegar e decorar tudo. Mas do contrário não. O embaixador tem que ser bom de cabeça, se tem uma imagem lá pra saudar ele tem que saber. OSWALDO DE BRITO, 2017 Os versos são tudo criado na hora. Isso é feito da cabeça. É na hora. É muito pouca coisa que, de modo ditado, que cai na Bíblia. Porque principalmente o embaixador, ele tem que prestar sentido em muita coisa, porque ele que tem que fazer os versos e ver o que que tá se passando, né? Vamos supor, nós adoramos o presépio. Aquilo ali é por nossa conta. Nós pedimos esmola. Tudo por nossa conta. Nós temos que fazer aquilo ali. Não é dizer que se carrega na escrita não. É na mente e na hora. JOÃO VIRGÍNIO, 2018 Os versos em cada lugar você canta de um jeito. Não é como uma oração, que você faz aquela ação todo dia. A cantiga de reis tem uma doutrina, é mais ou menos falando em nome de reis. Mas não tem geralmente uma cantiga certa, uma coisa certa. É de um jeito em uma casa e de outro jeito em outra casa. Não tem aqueles versos certinhos pra você cantar não. Você tem que fazer os versos aqui ó [na cabeça]. O embaixador tem que ser bom pra saber cantar. Conforme chega numa casa vai cantar de um jeito. Conforme o jeito que a mulher pede pra cantar. Pede pra um, pede pra cantar pra outro. Então não tem aquela tradição, sabe? Você que tem que fazer o verso naquele momento. Entendeu? Então por isso que tem o embaixador separado, porque não é qualquer um que faz. A base do embaixador não é qualquer um que canta. É poucos que sabe fazer a tradição certinho. É no improviso. Canta de um jeito aqui e canta de outro jeito ali. GERALDO MIRANDA, 2017 302 É muito comum os foliões dizerem que os embaixadores estão trovando versos para os devotos e que os versos dos hinos de reis são sempre trovados. Ainda que este trovar possa ter diferentes significados, o termo geralmente é utilizado como sinônimo de rimar e inventar, ou seja, trovar os versos seria o mesmo que criar versos de improviso de acordo com o que as companhias encontram pela frente nas casas dos devotos. Sobre esse caráter circunstancial das trovas, o bastião Tinho disse que “a maioria é no improviso, a maioria vem da mente mesmo. De cem por cento dos versos que eu declamo noventa vem da mente”. Assim, o que diferencia os bastiões e os embaixadores dos demais foliões é justamente a capacidade de criar versos de acordo com as situações que se apresentam às companhias, cabendo aos demais cantadores “simplesmente” a reprodução dos versos inventados pelo capitão. Nós cantamos no presépio e cantamos na igreja. Agora no dia a dia, nas casas, onde às vezes não tem presépio, o dono pode pedir qualquer coisa: pra cantar pra família reunida, pra ele sozinho, pro tio que tá viajando e ele tá com saudade, pro pai e pro avô que faleceu. Então não tem. Pediu a gente vai cantar. Eu sou embaixador e hoje o Ernani perguntou se a gente tem o esquema montado, o verso pronto, decorado. Então eu disse pra ele que nós não temos. É inspiração do ambiente. Eu vejo o ambiente, e conforme o ambiente é conforme eu faço o verso. É tipo repentista. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2016 Após criar os versos na mente, o capitão trova quase toda a primeira estrofe do hino de reis sozinho, somente na última frase o ajudante e o contrato entram como reforço harmônico na cantoira, com o contrato fazendo a primeira voz para o ajudante. Neste momento, os outros foliões ficam atentos para tentar entender o que está sendo trovado e conseguir reproduzir os versos corretamente. Ao terminar a trova, o respondedor canta repetindo os versos exatamente como foram trovados pelo capitão, que a partir deste momento não canta mais até que chegue a hora de começar uma nova estrofe. É neste período de tempo que o capitão vai pensar e criar os versos da próxima estrofe, enquanto os foliões terminam sozinhos a cantoria do hino (cf. apêndice). Quando falta algum cantador, geralmente é o capitão quem faz sua voz, pois ele é o único que não canta após a trova dos versos e pode suprir sua falta, embora embaixar e ainda fazer uma voz ausente possa comprometer a inventividade, motivo pelo qual os embaixadores sempre possuem alguns versos prontos para esse tipo de situação. Os versos da gente é o seguinte: tem muita coisa que tem na bíblia e tem muita coisa que é improviso. Quando eu tô cantando e respondendo, embaixando e respondendo, não dá tempo de estudar o verso. O que vem na cabeça eu falo. Mas quando ele tá respondendo, aí eu tenho tempo. Eu faço a parte da minha entrada e depois eu passo pra eles. Enquanto eles tão cantando eu tô estudando o verso da frente. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 303 A necessidade de se trovar os versos, de improvisá-los, se deve em grande medida às diferentes situações que se apresentam aos foliões quando eles chegam para cantar nas casas dos devotos. Ao chegar, a companhia costuma ser surpreendida com uma grande quantidade de imagens, símbolos, siglas e pedidos do dono da casa, sendo que para cada situação deve ser elaborado um verso diferente, sempre atendendo o que está sendo solicitado pelo contexto da chegada e sempre fazendo algum tipo de alusão aos três reis magos. Esse é um dos motivos pelo qual os embaixadores não podem cantar somente versos prontos e decorados. O capitão faz o verso, que ele já tem aquela inteligência de fazer os versos. É igual o rumo do degrau da escada, tanto faz o primeiro degrau como o derradeiro o valor é um só. Porque pra você chegar no derradeiro você tem que pisar no primeiro. Agora depois que você chegou lá em cima o derradeiro é o bom da boca? Não é não ué. Você tem que ir devagar. Você pisa nesse, depois pisa nesse, pisa nesse, pisa nesse. Na nossa vida é assim. O bastião, por exemplo, ele tem que tá preparado pra tudo. Ele não sabe o que vai encontrar numa casa. Às vezes ele encontra um cruzeiro, às vezes ele encontra um coração de flor, às vezes os outros jogam umas flor. Mas aquilo ali dentro da companhia de reis tem um significado. Que se você jogar um punhado de flor quando a companhia chega você tá anunciando que você tem um presépio na sua casa. O menino Jesus tá nascido ali dentro da sua casa. Agora quando o bastião faz o verso: Chegando na sua casa Os três reis floresceu Pergunto ao dono da casa Se o menino Jesus aqui nasceu. Aí se ele falar: “Não, eu não tenho o menino Jesus”, que é o presépio. Aí o bastião fala: “Mas o senhor tem o coração”, que é a mesma coisa que o presépio em cima da mesa. Então é o anúncio nosso. Aquela flor tá anunciando o nascimento de Jesus, como se fosse a estrela que guiaram os reis magos até o nascimento do menino Jesus. Em muitas casas nós encontramos esse sinal. Aí o verso do capitão, ele não estuda verso nenhum, ele vai fazendo o verso conforme o que ele encontra. É improvisado. Se ele chegar na tua casa e você falar: “Canta pra Maria minha esposa e pra José seu filho”. Ele tem que fazer um verso nesse sentido. O outro da outra casa já não chama José, já chama outro nome. Tem gente que manda cantar pra quem faleceu, aí ele tem que fazer o verso. O capitão e o bastião tem que fazer os versos improvisados. Lógico que tem que rimar com reis. Sempre com reis. Sempre tem que rimar com a viagem dos reis: Os reis tá viajando Nessa hora verdadeira Receba dono da casa A nossa bandeira. Você chega e fala: Meu senhor dono da casa Filho da Virgem Maria Apresento meus três reis santos E também minha companhia. 304 Então você tá apresentando, você tem sempre que usar o nome dos reis pra rimar. Reis do Oriente. Reis da adoração. Que eles vieram do Oriente e depois foram lá e adoraram o menino Jesus. Quando entra na casa você fala: Na minha bandeira eu tenho Os três reis da adoração Vou pedir sua licença Pra chegar no seu salão E se o senhor tiver o menino Jesus Pra nós fazer adoração Dá licença patrão? Aí você abre as portas da casa com poucas palavras. E assim por diante. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 O entendimento da trova dos versos pelo dono da casa é de extrema importância e está ligado a certa autoridade que ele tem sobre a companhia, no sentido de poder pedir versos ao capitão. Existe uma infinidade de temas possíveis de serem abordados durante a cantoria, uma vez que a tradição não restringe o que pode ou não ser solicitado aos foliões, embora, como me disse o folião Miguel Rodrigues, “você não vai fazer uma promessa à toa, sem precisão. Quando você faz uma promessa é porque você tá precisando”. A maioria dos versos que tive oportunidade de ouvir foi dedicada a filhos e parentes ausentes, a entes queridos já falecidos, pela graça alcançada, pela cura de doenças e enfermidades, para abençoar a família que estava recebendo a companhia e, em alguns casos, até mesmo para os animais. Tem canto pra filho ausente, quando a pessoa, por exemplo, tá ausente, não tá em casa e tá viajando, nego tá lá praquele fim de mundo. A família pede pra cantar pra pessoa que tá lá em São Paulo, Aparecida do Norte, tá internada no hospital. Você tá aqui cantando pra gente lá. Já cantei pra gente lá na UTI. Então eu fico pensando comigo: Eu vou morrer assim. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 O embaixador Tiãozinho, da Companhia Sagrado Coração de Jesus, me contou o caso de uma égua que foi salva através de um pedido feito pelo seu dono aos Santos Reis, mediado pela companhia. A história é significativa porque reflete uma das principais características dos pedidos feitos ao santo: a não existência de restrições para receber sua graça ou um milagre.67 Ontem mesmo teve repetição de um caso de seis anos atrás, que o moço lá do sítio Cantagalo tinha uma égua muito querida, era animal de estimação. E a égua ficou 67 Uma associação com a cantoria do hino de reis para salvar a égua de um devoto pode ser feita com o que Luzimar Paulo PEREIRA (2011: 267) chamou de “saudação do curral, quando cantadores e tocadores devem cantar para saudar e enviar bênçãos ao criatório dos proprietários. A execução dos cerimoniais é importante. Com ele, acreditam os participantes, os animais da fazenda são protegidos pela influência sagrada dos santos, impedindo que ataques de pestes e outras criaturas selvagens afetem os rebanhos”. 305 doente, não sei se caiu num buraco e quebrou o fêmur. Não sei. Ele achou que ia perder a égua e justamente no dia a gente passou com a companhia de reis. Ele falou: “Canta pra minha égua e pede pra que minha égua sare”. E a égua sarou. Passou uns tempos a égua reproduziu e hoje tem uma potrinha bonita lá. E todo ano que a gente passa lá ele fala: “Volta a cantar pra égua que foi a sua oração, o teu canto que fez a minha égua sarar”. Ontem a gente chegou lá pra almoçar na casa da Angela e o Itamar esposo dela falou assim: “Não vai deixar de cantar pra égua, porque se a égua tá viva é porque vocês oraram pela égua”. E eu cantei de novo. O pessoal acha estranho e fala: “Vai cantar pra animal?” A gente tá aqui pra cantar pra todo mundo, porque animal também é da Terra e foi Deus quem colocou. Tem vida. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2016 Por fim, cabe dizer que os versos trovados podem ser divididos em dois grupos: verso reunido e verso individual. O verso reunido homenageia todas as pessoas presentes na casa de uma única vez, sendo cantado dessa forma somente se o devoto autoriza o capitão a fazê-lo, liberando-o da obrigação de cantar um verso para cada uma das pessoas presentes. Já o verso individual é cantado quando o capitão dedica um verso para cada uma das pessoas da casa. Isso depende do dono da casa, porque tem pessoa que gosta demais de companhia de reis ou então vai receber e não tem muito tempo. Às vezes você chega e fala assim: “Você quer um verso reunido pra família ou um verso individual?”. Se for verso individual você vai fazer um verso pra cada um do jeito que o dono da casa pedir. Se for reunido você canta um verso só pra família completa. Agradece e vai embora. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2018 É o dono da casa quem decide qual tipo de verso o embaixador deverá trovar, somente no caso dele não se manifestar a escolha pode ficar a critério do folião. Se a companhia está fazendo seu trajeto pelas ruas, o capitão geralmente escolhe o primeiro, pelo fato de diminuir o tempo de cantoria dentro da casa e liberar a companhia mais cedo para procurar outras casas para cantar. Mas se a companhia está fazendo a chegada de um almoço ou jantar, onde os foliões passam algumas horas na casa do devoto, são mais comuns os versos individuais, já que o dono da casa vai fazer questão de homenagear todos os amigos presentes, os parentes que estão viajando, os falecidos, as cozinheiras, os animais e quem mais estiver por perto.68 68 Aberto IKEDA (2011: 91) observou em Goiás que “a quantidade de estrofes nas cantorias é bastante variada, dependendo de cada situação ou de cada embaixador. Podem ocorrer cantorias de três até quarenta estrofes, conforme registrado nas folias pesquisadas. O número de estrofes se gradua, segundo me parece, conforme a importância do momento; assim, as cantorias das cerimônias de “saída”, da “entrega” ou de “agradecimento pelas refeições” são sempre longas. Da mesma forma a quantidade de estrofes podem variar de casa para casa até pela quantia de esmola recebida, ou se são pessoas amigas dos foliões ou, ainda, se a folia está atrasada para a chegada aos pousos. A impressão que se tem é que muitos mestres de folia passaram a abreviar a quantidade de versos nas cantorias, pelo grande número de casas que visitam na cidade (isto não deve ocorrer nas regiões interioranas onde a densidade populacional é menor)”. 306 Os versos geralmente vêm quase que na hora mesmo, sabe? Vem de repente e vai acontecendo. Não tem nada pronto. É coisa de improviso mesmo. Dependendo da situação que a gente encontra na casa a gente vai fazendo os versos. Às vezes chega na casa e canta de um a um, de dois a dois, pra família inteira. E, por exemplo, se você chegar numa casa e cantar pra dez pessoas fazendo a saudação, então no agradecimento tem que cantar os dez versos a mesma coisa. Conforme canta na saudação tem que cantar no agradecimento. O verso reunido é pra família inteira. Se você chega na casa e o dono quer que canta pra família inteira é um verso só. Agora individual é quando quer que canta de um a um, de dois a dois. Pra cada um na casa tem que fazer um verso diferente. Aí demora mais. CARLOS ANTÔNIO APARECIDO DONIZETTE, 2018 12.2.1. Improvisação e abdução O processo de improvisação dos versos pelos embaixadores, ou seja, o ato de cantar as coisas que encontram pela frente, talvez possa ser interpretado a partir dos cinco elementos estabelecidos por Tim INGOLD (2012) em uma formulação teórica que busca priorizar os “processos criativos” ante as “formas acabadas”: objetos e coisas; vida e agência; materiais e materialidade; improvisação e abdução; rede e malha. Segundo o entendimento do autor, a passagem da condição de objetos para a de coisas ocorre quando algo deixa de figurar nosssa percepção tendo sua utilização no “fluxo da vida” apenas como potencialidade e passa a agir dentro deste fluxo. No caso do trabalho religioso de culto aos Santos Reis, vários elementos do ritual denotam esta passagem. A bandeira, por exemplo, que fica guardada durante o ano na condição de objeto, se transforma em coisa a partir do momento em que deixa o armário e passa a encarnar a entidade santificada nos giros. O mesmo acontece com os instrumentos musicais, que muitas vezes passam o ano todo guardados aguardando o período da jornada para serem tocados, saindo da condição de meros objetos e assumindo a condição de coisas. As imagens do presépio, igualmente guardadas em algum baú ou sobre algum armário durante todo o ano, são retiradas de lá no período da jornada para assumirem sua condição de coisas e serem adoradas e glorificadas. A partir do momento em que um presépio é montado, as imagens nele presentes deixam de figurar em nossa percepção como objetos que podem ser colocados em movimento para tornarem-se o próprio movimento que se resolve na forma de coisas, sendo assim inseridas no fluxo que as trazem à vida. Neste sentido, pensar as imagens dos três reis magos e do menino Jesus apenas como objetos, seria esquecer que elas estão lá para serem cultuadas. As imagens sagradas são, antes e acima de tudo, imagens que devem ser concebidas como “imagens em um presépio para serem adoradas”. O relato de uma devota sobre seu presépio nos evidencia bem esta passagem da condição de objeto para a de coisa. 307 Esse presépio aí... Então, o outro, não é esse aí. Era da minha mãe. Ele deve ter uns sessenta e cinco anos, sabe? Mas aí, depois que a minha mãe morreu, aí eu peguei e comprei esse outro aí. O menorzinho. Então o dela era pequeno, aí eu dei pra minha neta. Esse aí já faz uns cinco anos que eu tenho. Todo ano eu armo. O da minha mãe é armado há uns sessenta e cinco anos, sempre nessa época. É tradição. Então minha mãe falava pra mim: “Quando eu morrer vai ser seu, você vai armar todo ano. E quando você morrer vai passar pra outro da família, mas não pode deixar de armar”. MARIA APARECIDA, 2015 Segundo Tim Ingold, seria neste processo que estaria o que ele chama de problema da agência, quando temos a impressão de que a montagem do presépio é resultado da interação entre o devoto (que arma o presépio) e o próprio objeto (o presépio), cuja ação poderia ser equivocadamente explicada pelo entendimento de que o presépio é dotado de um princípio animador interno (a agência), que o colocaria no fluxo da vida independente da vontade do devoto. Nesta interpretação, “se as pessoas podem agir sobre os objetos que as circundam, então, argumenta-se, os objetos ‘agem de volta’ e fazem com que elas façam, ou permitem que elas alcancem, aquilo que elas de outro modo não conseguiriam” (2012: 33). No entanto, o autor acredita que as coisas se movem porque estão vivas, e não porque possuem agência, sendo esta uma de suas principais críticas: a de se tentar “reanimar um mundo de coisas já morto ou tornado inerte pela interrupção dos fluxos de substância que lhe dão vida”. No ASO [ambiente sem objetos] as coisas se movem e crescem porque elas estão vivas, não porque elas têm agência. E elas estão vivas precisamente porque não foram reduzidas ao estado de objeto. A ideia de que objetos têm agência é, na melhor das hipóteses, uma figura de linguagem, imposta a nós (anglófonos, ao menos) pela estrutura de uma linguagem que exige de todo verbo de ação um sujeito nominal. Na pior, ela tem levado grandes mentes a se enganar de um modo que não gostaríamos de repetir. Com efeito, tomar a vida de coisas pela agência de objetos é realizar uma dupla redução: de coisas a objetos, e de vida a agência. A fonte dessa lógica redutivista é, acredito, o modelo hilemórfico. INGOLD, 2012: 33-34 Os conceitos de objetos e coisas e de vida e agência são cruciais para entendermos as noções de improvisação e abdução propostas pelo autor, sendo este o principal objetivo nesta seção. Ao tentar reverter uma tendência que, segundo ele, compreende os processos criativos “de trás para frente” (começando pelo resultado da “forma acabada” e retrocedendo, a partir dela, aos seus “processos criativos” e à mente de um agente), o autor (2012: 37) critica o que ele entende ser um processo de abdução ou uma operação cognitiva da abdução, ou seja, “uma cadeia de conexões causais que vai do objeto até o agente, através da qual este último pode ser pensando como indexando o primeiro”. Neste sentido, as trovas improvisadas pelos embaixadores na atividade religiosa (consideradas aqui como um trabalho artístico, além de 308 um processo criativo), não seriam objetos criados a partir de ideias preconcebidas, mas sim coisas criadas a partir das forças e fluxos dos materiais que dão forma, orientam e até mesmo “condicionam” a prática improvisatória dos embaixadores, ou seja, tudo aquilo que os foliões inesperadamente encontram pelo caminho. A ideia de “seguir pela jornada criando versos”, assim, não estaria relacionada à ideia de “reproduzir modelos textuais pré-estabelecidos”. “Seguir”, como colocam Deleuze e Guattari (2004, p. 410), “não é o mesmo que reproduzir”: enquanto reproduzir envolve um procedimento de interação, seguir envolve itineração. O (ou a) artista – assim como o artesão – é um itinerante, e seu trabalho comunga com a trajetória de sua vida. Além disso, a criatividade do seu trabalho está no movimento para frente, que traz à tona as coisas. Ler as coisas “para frente” implica um enfoque não na abdução, mas na improvisação. INGOLD, 2012: 38 Esta concepção do autor está associada ao que pudemos verificar no próprio campo de trabalho, onde a prática improvisatória dos embaixadores deve se adequar aquilo que é novo, inesperado e circunstancial. São estes os elementos em torno dos quais as cantorias acontecem e que impossibilitam que o embaixador retroceda nos versos, retomando aqueles cantados nas casas por onde a companhia já passou, sendo inútil a esperança de se valer de algo que já foi dito para ser reaproveitado na nova situação. Cada chegada é um evento novo e o embaixador nunca sabe o que ele vai encontrar pela frente, o que exige dele uma preparação para todas as situações. Os versos são criados de acordo com o número de pessoas na casa, com a situação do devoto, com aquilo que foi preparado para a companhia, com o que foi oferecido durante as refeições etc. Como me disse o capitão Oswaldinho, “conforme você segura a bandeira é conforme eu falo o verso pra você”, ou, segundo as palavras de Tim INGOLD (2012: 38), “improvisar é seguir os modos do mundo à medida que eles se desenrolam, e não conectar, em retrospecto, uma série de pontos já percorridos [...] A vida está sempre em aberto: seu impulso não é alcançar um fim, mas continuar seguindo em frente”. 309 13. “Deus lhe pague a boa esmola”: os vários tipos de agradecimento Foi logo na primeira semana de trabalho de campo que descobri que existem diversos tipos de cantos para se agradecer as ofertas dadas pelos devotos. Após assimilar e desvendar alguns aspectos da estrutura musical dos hinos de reis, tentei descobrir algo sobre os cantos de agradecimento. Este é o último canto que as companhias fazem antes de deixar a casa de um devoto e possui uma grande variedade de melodias e ritmos, embora sua estrutura musical seja a mesma dos hinos de saudação e adoração: a forma responsorial com o capitão sempre trovando os versos iniciais. É no agradecimento que a companhia literalmente agradece o devoto por ter recebido a bandeira e por ter dado alguma oferta para a festa da chegada. Um pouco diferente dos hinos de reis, que têm uma melodia relativamente fixa e pré-estabelecida pela tradição, as melodias dos cantos de agradecimento são muito mais flexíveis e podem variar bastante conforme a vontade do embaixador, que além dos cantos já existentes ainda pode criar novas formas a cada ano. Quando decidi investigar um pouco melhor este tipo de canto, não fazia ideia do quão complexo e difuso seria ordenar e classificar suas várias formas para que constituíssem uma lógica em uma sequência de relatos coerentes e consensuais por parte dos foliões, já que eu acreditava que estes cantos fossem menos diversos e possuíssem um caráter mais uniforme. Das várias formas de agradecimento existentes na região, apresentarei apenas algumas delas, que ficaram mais evidentes nos relatos dos foliões. A primeira pista sobre sua complexidade me foi dada logo na primeira semana de trabalho de campo pelo embaixador Vino, que ao ser perguntado sobre os cantos de agradecimento foi enfático em me dizer que: A companhia que tem mais ritmo de agradecimento é a nossa. Você pode passar por todas as companhias, tem dois tipos de agradecimento ou três. A nossa tem de cinco a seis tipos de agradecimento. E cada ano a gente põe um diferente. O ano passado eu pus um diferente, esse ano eu não pus, nós repetimos ele. Mas estamos sempre pegando um ritmo diferente. Tem de seis a sete tipos. Todas as companhias são dois agradecimentos. Nós temos de seis a sete, e vamos fazer mais um. Eu já pus um diferente no meio da turma aí e eles pegaram. Vamos mudar o ritmo de novo. A que mais tá tendo ritmo aqui é a nossa. Nós cantamos em ritmo de congada, reis, um terço na chegada, Ave Maria. É tipo de um terço. As outras companhias você não vê. Pode ver que não faz. A nossa faz um tipo de um terço, um tipo de congada. Nós fazemos uma mistura de tudo. Tudo é tradição, tudo faz parte dos reis. E tudo afinadinho. Pode ver que até que eu tiro aqui os caras atrás tão tudo certinho. Você já viu alguém cantar esse agradecimento que nós cantamos? O oratório? Eu ainda não vi companhia nenhuma fazer. Se não tiver muito certinho não canta de jeito nenhum. A companhia que faz o oratório é só a nossa, e nós temos vários tipos de agradecimento. Não desfazendo das outras, porque é falta de ensaio às vezes. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 310 Quando ouvi esse relato, mal sabia que os “cinco ou seis” tipos de agradecimento se transformariam em “mais de cem” quando fosse atrás de mais informações sobre este canto de despedida. No entanto, antes de descobrir a existência desta centena de agradecimentos, tentei nomear aqueles que foram aparecendo durante a jornada. A busca só não foi totalmente em vão porque foi atráves desta tentativa de nomeá-los que descobri que esta seria uma tarefa praticamente impossível, por dois motivos principais: porque os agradecimentos geralmente não possuem nomes e porque, quando são nomeados, não há consenso entre os foliões acerca da nomenclatura a ser utilizada para se referir a cada um deles. Foi a partir dos agradecimentos que também consegui observar certo sincretismo no universo religioso dos foliões, uma vez que não são raras as referências feitas à utilização de ritmos de outros trabalhos religiosos nestes cantos, a exemplo das pastorinhas, das rezas para as almas, do congado etc. Como veremos, até mesmo melodias folclóricas que alguns dizem ser da cultura cigana parecem ter sido apropriadas e adaptadas para compor os diversos tipos de agradecimento cantados pelas companhias da região. O que tem é a mistura de ritmo só, porque quando é de reis é de reis. Quando é de congada é outra coisa que se canta, entendeu? Existe, por exemplo, a companhia do Divino, a companhia de São Sebastião, que tem lá em Paraguaçu também e é muito bonita. Às vezes a pessoa vai numa congada, vê um ritmo bonito e coloca o ritmo lá na companhia de reis. Tem umas companhias do Divino que sai muito bonito o ritmo, então a gente procura aquele ritmo e coloca na companhia de reis. Mas é mais o ritmo. Agora, o que fala e os versos que a gente inventa aí já não tem nada a ver uma coisa com a outra. [...] E agradecimento a gente sabe um punhado, mas a gente costuma colocar só uns dois ou três tipos pra ficar mais fácil também, né? A gente não perde muito tempo pra ensaiar, mas se a gente for ensaiar a gente tem uns cinco ou seis agradecimentos diferentes. O angola nós estamos usando direto, estamos usando bastante esse ano. E o outro é o que eu chamo de lá maior, que outros chamam de sol maior. Aí tem o paulistinha. Até tem uns que até o nome eu esqueço. Tem o tradicional, que esse ano nós não cantamos nele nenhuma vez. Uns falam tradicional e outros falam simples. Então tem muitos tipos de agradecimentos. Tem o ai meu Deus. A gente usa mais o angola porque ele é mais rápido, ele puxa o fôlego um pouco mais curto, né? Então a gente usa bastante o angola. E é bonito também, né? Então a gente usa bastante o angola e temos usado bastante o lá maior porque é costume. O pessoal acostumou a cantar nele e ele é muito bonito. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2018 13.1. Uma aula com a Companhia Filhos da Cambraia Antes de ter tido uma verdadeira aula sobre os cantos de agradecimento com os foliões da Companhia Filhos da Cambraia, foliões de outras companhias já tinham me alertado sobre sua diversidade dentro da atividade religiosa. Embora muitos não tenham o hábito de nomear estes cantos, alguns dos exemplos que observei foram nomeados como angola, sol maior (lá 311 maior), oratório, tradicional (simples), paulistinha, ai meu Deus, entre outros. O embaixador Adriano Nogueira, por exemplo, me deu alguns exemplos cantando as melodias e batendo palmas para marcar o pulso, sem a parte em responsório feita pelos demais foliões. Sem seu violão, o capitão me mostrou algumas melodias desses cantos, embora seja provável que as tonalidades dos exemplos não sejam aquelas cantadas na prática, já que foram demonstradas intuitivamente e “de ouvido”. Talvez por isso ele tenha me dado os exemplos em tonalidades tão diferentes umas das outras: o angola em ré maior, o sol maior (lá maior) em sol maior, o tradicional (simples) em si bemol maior e o ai meu Deus em fá maior. “Meu senhor dono da casa // Nós já vamos agradecer”. Esse é o angola. “Ai agradeço a boa oferta. Ai ah”. Esse é o lá maior, que uns chamam de sol maior. Dependendo da posição que você tá, você vai mudar de tom no violão. Se você tiver tocando em ré e aí você vai tocar esse agradecimento, você fala assim: “Vai no lá maior”. Se tiver tocando em dó, você fala: “Vai no sol maior”. É só uma questão de tática pra ficar mais fácil pros foliões identificar o agradecimento, entendeu? O tradicional, ou simples também, é aquele: “Senhora dona da casa // Ai senhora dona da casa // Nós já vamos agradecer”. Esse é o simples ou tradicional. O paulistinha eu nem vou lembrar o ritmo do paulistinha mais. O Ai meu Deus é: “Senhora dona da casa // Nós já vamos agradecer // Ai meu Deus // Nós já vamos agradecer”. Esse é o Ai meu Deus. O oratório tem gente que canta como agradecimento. O Vino lá dos Santos Reis usa ele um pouquinho. Nós quase não usamos ele não, mas o Vino usa bastante e eu acho muito bonito também. Eu já vi e acompanho eles também, são meus amigos lá. E esse aí às vezes ele canta como agradecimento, mas na verdade nem é muito agradecimento. Seria trocando a letra, né? O oratório é para quando você vai cantar na igreja, no lugar onde tem a casa santa. Mas enfim, tudo é válido. ADRIANO NOGUEIRA, 2018 312 Para além das diferentes tonalidades dos exemplos, existe uma relação entre os cantos de agradecimento e os hinos de reis que deve ser mencionada. Como uma seção B dos hinos, os agradecimentos geralmente são cantados na tonalidade do quinto grau em que os hinos de reis foram cantados. Por exemplo, se um hino de reis foi cantado na tonalidade de ré maior, o agradecimento provavelmente será cantado em lá maior; se um hino for cantado em dó maior, seu agradecimento será cantado em sol maior; assim por diante. Foi isso que o folião explicou quando me disse que, “dependendo da posição que você tá, você vai mudar de tom no violão”. Alguns foliões também distinguem os agradecimentos entre antigos e novos, associando este caráter à sua tonalidade. O folião Sandro, que no último ano de trabalho de campo saiu com a Companhia Filhos da Cambraia, fez essa associação entre o caráter dos agradecimentos com suas diferentes tonalidades: “o velho mesmo é em ré, tanto faz se é angolinha ou angolão”. O angola normal é em dó e o agradecimento comum é em lá maior. Então, o angolinha puxa numa posição de violão e o angola puxa na outra, o angolão. Quando fala em agradecimento velho, toada velha, aí já tem outra posição de violão. O agradecimento velho é em ré, tanto faz se é angolinha ou angolão. Depois tem o que é lá maior, outro em dó maior. Depois tem o sol maior, o último agradecimento e que nós estamos agradecendo agora. [...] E tem o angola velho e o angola novo. O angola velho é em sol maior. Aqui ó: “Ai nóis já estamos agradecendo, ah ai lá”. Esse é um. Depois tem o outro angola que dá aqui ó. Esse é outro angola, é o velho: “Nóis já estamos agradecendo a oferta da família, ai larai”. Esse é o outro. Agora tem o em lá maior: “Ai nós já estamos agardecendo. Ai a oferta da bandeira”. Vai da tradição. Depois tem esse outro aqui ó: “Ai nóis já estamos agradecendo. Nóis já estamos agradecendo. A oferta da bandeira. A oferta da bandeira”. Esse aqui é o agradecimento antigo. SANDRO VITÓRIO, 2018 313 Companhia Filhos da Cambraia em frente à paróquia Aparecida no dia 05 de janeiro de 2018. Quando me encontrei com a Companhia Nossa Senhora do Carmo, de Campos Gerais, perguntei aos foliões sobre os agradecimentos cantados pela companhia e no que eles diferem daqueles cantados pelas outras companhias da região. A resposta, que de certa forma revelou a existência de um regionalismo nos cantos utilizados pelos diferentes grupos da região (“esse agradecimento é lá de Alfenas”), também me confirmou que muitos foliões não têm o hábito de nomeá-los e que existe uma infinidade de agradecimentos utilizados em cidades da região relativamente distantes de Alfenas (“lá em Três Pontas mesmo tem muito ritmo”). Tem vários tipos de agradecimentos. Aqui inclusive a gente canta mais os que se torna mais fácil. Então este aqui se torna mais fácil porque ele não precisa parar. Tem o outro que pra poder pegar ele, tem que parar. O que a gente canta é esse aqui ó: “Eu agradeço essa esmola, ai ai”. Não tem nome. E tem outro. Tem uns que eu não guardo, eu não sei. Porque o angola mesmo que eles falam é um estourado, que quando eu embaixo aqui todo mundo pega. Já pega todo mundo junto. É isso o que eu sei do angola. É aquele batidão do Moreno & Moreninho. É o Angola. Aquele lá pra nós não serve, porque nós temos que seguir lento pra poder todo mundo falar os versos igualzinho. Aqui ninguém grita, todo mundo fala as palavras, né? Agora tem caboclo que grita. A gente é acostumado a cantar mais lento, né? Mas esse aqui que nós cantamos não tem nome não. É agradecimento que chama. Agora tem aquele: “Ai nóis já vamo agardecer, ai ai”. Esse agradecimento é bão. Eu sei dele. É lá de 314 Alfenas, da turma lá. Que eu já cantei com eles lá. Nós somos de Campos Gerais. Mas esse agradecimento é de Alfenas. Eu cantei com eles lá. Nós também cantamos ele. Qualquer lugar que sabe cantar tá bom demais. Sabendo ele é o que basta. Mas sempre cada lugar tem um ritmo de cantar. Lá em Três Pontas mesmo tem muito ritmo. Lá tem ritmo que você não entende o que eles tão cantando. Aquela toada que o Tibúrcio tá cantando lá é de Três Pontas. A gente canta ela também, só que ela é muito rápida. Aquela turma que tá cantando aquela toada ali é dos irmãos Dias, de Três Pontas. E vive um folião. Hoje só tem um deles. É embolada. É batidão. Olha lá. Nós também cantamos ela, mas então como faz seis dias que estamos cantando nós passamos por essa que ela é mais calma, entendeu? É mais com jeito. Nossa companhia é a Nossa Senhora do Carmo, que é a padroeira de Campos Gerais. JOÃO VIRGÍNIO; VITOR DOMINGOS TIBÚRCIO, 2018 O capitão Keka também não costuma nomear os cantos, sendo ele próprio autor de um agradecimento que não tem nome e que só é tocado por sua companhia, chamado por alguns foliões de batidão. Sendo um traço característico de seu grupo, esta cantoria é mais animada e bem diferente das demais, existindo inclusive relatos que dizem que um ritmo mais rápido faz com que a companhia fique menos tempo tocando e, assim, pode atender um número maior de casas. O capitão Adriano Nogueira reforçou que “quando você chega numa região onde tem muitas casas pra visitar, aí o pessoal usa esse ritmo mais rápido que eles chamam de batidão ou ligeiro, pra poder atender a todos, pra agilizar e dar tempo de atender a todos”. É o agradecimento velho, né? Esse toque que a gente toca é o agradecimento velho. O lá maior eu não canto porque eles [os foliões] não tocam. É muito alto pras vozes. Aquele que eu cantei na outra casa é o nosso. E tem o paulistinha que a gente fala. Mas o nosso é uma toada que nós trouxemos lá do Cavaco. Aquele lá nós trouxemos do Cavaco. O pessoal ficou rouco e nós fizemos esse agradecimento. Eu vou cantar ele agora, mas ele não tem nome não. A gente que inventou ele lá. GASPAR RIBEIRO “KEKA”, 2018 A grande diversidade de cantos de agradecimento também foi registrada no relato do folião João Batista, que embaixou para a Companhia Filhos da Cambraia no último ano de trabalho de campo. Segundo ele, se considerarmos a quantidade de cantos diferentes que cada folião conhece, o número chegaria facilmente a “mais de cem agradecimentos”. O folião me contou que seu agradecimento preferido é inspirado em melodias da cultura cigana, tendo sido incorporado e adaptado à tradição de reis pelos foliões e, dessa forma, ampliado o repertório de cantos já existente na região. Seu relato é importante porque reflete o quão dinâmico e heterogêneo é este universo religioso, marcado por uma grande variedade de práticas musicais e sobre as quais geralmente não existe consenso por parte dos foliões. A nomeação ou não dos cantos de agradecimento, por exemplo, é uma dessas diferentes formas dos foliões encararem suas práticas musicais e também aparece no relato do folião, com o qual finalizo este capítulo. 315 Tem mais de cem agradecimentos. Eu conheço uns dez. Mas ele sabe um tanto, eu também sei outro tanto, ele também sabe. Todo mundo sabe um tanto. Mas o mais bonito é o dos ciganos: “Nóis já vai agradecer este seu tão bom presente. Ai nós já vamos agardecer este seu tão bom presente, ai”. Esse é dos ciganos, os ciganos que cantam assim. Mais um aqui ó: “Nós já vamos agradecer o presente que vós deu. Nós já vamos agardecer o presente que vós deu. Ai ah, ai ah”. Os agradecimentos não têm nome. Eles não têm nome. Nóis agradece, mas nunca que nóis põe nome. Nome em agradecimento não tem não. Em nenhum. Sabe qual agradecimento que tem nome? Só o Angola. Só conheço o Angola. Tem mais esse aqui também: “Nós já vamos agradecer os três reis é quem mando, ai larai. Nós já vamos agradecer. Ai os três reis foi quem mandou. Ai ai ah”. Esse é antigo. Só que eu canto faz sessenta anos. Aqui em Alfenas eles sabem só essa toada, mas lá em Paraguaçu você pode cantar qualquer toada que o povo sabe. Sabe tudo. Lá tem agradecimento demais. Tem muito agradecimento. O que o pessoal chama de Lá Maior é esse ó: “Ai nós já estamos agradecendo, ai ah. Ai o presente que vós deu, ai ai ah. Nós já estamos agradecendo, ai ah”. Ai o presente que vós deu, ah”. 316 Agora tem gente que chama de Sol Maior, mas é porque eles tá embaixando em Dó. Aí você vai agradecer esse agradecimento ele vai pra Sol. Agora se você tiver embaixando em Ré ele vai cair pra Lá Maior. Você é professor de instrumento, ué? A gente aqui tá conversando com nego teio. É preciso cuidado hein. Cuidado. JOÃO BATISTA, 2018 O folião Pedro Campos Nogueira (à esquerda) conversa com o embaixador João Batista, que segura sua viola. 317 – PARTE V – O FIM DA JORNADA Estamos registrando um Apocalipse. CLEITON CUSTÓDIO, 2015 318 14. A chegada e entrega da bandeira da Companhia Santa Bárbara As companhias de reis de Alfenas geralmente fazem duas chegadas ao final dos doze dias de jornada: uma chegada “simbólica”, realizada na capela dos Santos Reis, e uma oficial, realizada junto à comunidade do bairro ao qual cada uma pertence. É na chegada “simbólica” que deveria acontecer o encontro de todas as companhias da cidade, embora estes encontros sejam raros, já que muitos grupos deixam de comparecer a esta chegada devido ao caráter político-partidário que muitas vezes ela assume. Outra ação que possui esse caráter é o jantar oferecido pelo prefeito, que, como já foi demonstrado, muitas vezes se transforma em uma tentativa frustrada de imbricar as manifestações tradicionais aos interesses políticos. A chegada simbólica que acontece na capela dos Santos Reis dia 06 de janeiro, ainda que às vezes também seja revestida de um caráter político, costuma atrair um número maior de companhias em relação aos almoços e jantares oferecidos pelo prefeito, mas, ainda assim, dificilmente reúne todos os grupos da cidade. E ainda que o veículo oferecido para transportar os foliões durante a jornada seja interpretado por alguns foliões organizadores como um favor prestado que deve ser retribuído com a presença de sua companhia nestes eventos de caráter político, muitas companhias ainda assim deixam de comparecer nestas chegadas. Segundo dita a tradição, não é conveniente que as companhias continuem o trabalho religioso após o dia 06 de janeiro, sendo este o último dia da atividade religiosa. No entanto, existe uma exceção para as chegadas oficiais quando o dia do santo cai no meio da semana, pois, nestes casos, os foliões interrompem suas atividades no dia 06 de janeiro e deixam para fazer suas festas de chegada e a entrega da bandeira no primeiro sábado subsequente. Embora esta mudança de data seja interpretada por alguns como um “descumprimento” da tradição, ela é consensualmente aceita e aprovada por muitos foliões da região, como pude observar na jornada de 2015-2016, quando o dia de Santos Reis caiu em uma quarta-feira. Nós vamos parar na quarta-feira, que eu não sei como é que nós vamos fazer ainda, se vai continuar, se vai parar na quarta e fazer a chegada no sábado. Porque não tem jeito de fazer a chegada quarta-feira. Nós queremos fazer um forrózinho depois. E nossa chegada é bonita. Na casa do irmão desse rapaz aqui o ano passado nós fizemos um festão lá. Fechamos no forró e fomos até tarde da noite. Como é que vamos fazer isso quarta-feira? Tem que fazer sábado. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 As várias festas de chegada e de entrega da bandeira são organizadas cada qual por sua própria companhia e ocorrem em diferentes locais, embora sejam geralmente feitas no mesmo 319 dia e mais ou menos no mesmo horário. A coincidência de data e horário das festas impede, por exemplo, que um devoto compareça em duas festas diferentes durante um mesmo ano de trabalho religioso, devendo então optar por uma delas. Nos últimos dias de jornada consegui acompanhar algumas destas festas de chegada, tanto a simbólica quanto as oficiais. Uma das chegadas oficiais em que compareci foi realizada dia 09 de janeiro de 2016 pela Companhia Santa Bárbara, uma grande festa para mais de mil pessoas e considerada por muitos como uma das maiores festas do município e até mesmo da região. Hoje é o dia final da folia de reis. O final certo mesmo foi dia seis, né? Mas hoje é conforme a gente tem a tradição aqui. Todo mundo tá vendo. A festa é muito boa e é pra todo mundo comer. Mas o certo a gente tinha que ter parado no dia seis uma hora da tarde, certo? Só que a gente não fez a chegada dia seis, fizemos a chegada hoje [dia nove]. É contra a dança, mas é a tradição daqui do bairro. Eu agradeço muito o pessoal que tá aqui, que veio festejar a chegada da gente, os capitães e todo mundo aí. É assim a tradição. Nós fizemos a chegada, entregamos a bandeira na igreja e agora na festa o povão vai jantar. Vamos servir o povão à vontade. ODAIR JUVINO “BICUDO”, 2016 A Companhia Santa Bárbara no dia 09 de janeiro de 2016, dia da chegada e da entrega da bandeira. 320 Apesar de ser “contra a dança”, a festa de chegada e a entrega da bandeira costuma acontecer no primeiro sábado subsequente ao dia de Santos Reis, para que o maior número de devotos possa se reunir em torno da companhia, já que estarão livres de suas obrigações e dos compromissos com seus trabalhos. A comunidade rural dos Bárbaras possui sua própria igreja em homenagem à Santa Bárbara, padroeira do bairro, tendo sido nesta igreja onde foi feita a entrega da bandeira naquele dia. Já era mais de seis horas da tarde quando a companhia se reuniu na comunidade para fazer sua chegada, com todos os foliões já uniformizados e uma quantidade de bastiões muito maior do que costuma levar nos giros: seis bastiões e quatro bastiõezinhos. Naquele ano, a Companhia Santa Bárbara saiu em jornada para cumprir a promessa que um casal morador da comunidade havia feito em favor de seu sobrinho Davi. Lair e Sirlene, tios do garoto, eram os principais responsáveis pela organização da festa. Eu tô cumprindo uma promessa do meu sobrinho. Ele teve um pobrema de saúde e pedi muito aos Santos Reis, que vai curar ele. Que Santo Reis ilumine, porque ele é muito milagroso. Eu já saí três vezes com a companhia de reis cumprindo promessa e todas as três eu fui alcançada. E vou alcançar a do Davi também. Se Deus quiser Santo Reis vai iluminar muito a gente. Até tá a foto dele na bandeira aqui, que Santo Reis vai curar ele. Eu espero que os folião e todo mundo continuem acompanhando a gente como sempre saíram e que a companhia de reis continue assim. Santo Reis é muito milagroso e vai cumprir todas as benção que todo mundo pedir. SIRLENE, 2015 Já havia centenas de devotos próximos à igreja quando a companhia chegou com seus bastiões e com seus foliões tocadores e cantadores, que em pouco tempo já estavam tocando seus instrumentos para os bastiões pularem e dançarem. Naquele dia, foram preparados três arcos para a companhia passar desde sua chegada ao recinto da igreja, onde estava o primeiro dos arcos, até a porta que dava acesso ao interior da igreja, onde tinha sido colocado o terceio e último arco. Em frente ao primeiro arco, tão logo os foliões cantadores terminaram de cantar o hino de chegada, um dos bastiões da companhia declamou os seguintes versos: Este momento é tão bonito Essa hora é tão sagrada São os magos do Oriente Pra fazer a sua chegada Meu amigo Lair Filho da Virgem Maria Pra cumprir sua promessa Foi esta a companhia Entre cravos, rosas e lírios Pra mim é um dom profundo Eu falo em homenagem Ao Salvador desse mundo 321 Eu agora vou pedir Licença pro senhor Pra cortar esta corrente Com carinho e muito amor Depois de cortada a corrente, os cantadores retomaram o toque de seus instrumentos e a companhia seguiu tocando e cantando os versos que eram improvisados pelo embaixador até a chegada ao segundo arco, onde avistaram uma estrela pendurada. Nesta etapa do percurso já havia chegado muitos outros devotos ao local, de modo que a companhia ficava praticamente encoberta por uma multidão que ouvia atentamente os versos que eram trovados pelo capitão e declamados pelos bastiões debaixo dos arcos. O corredor pelo qual os foliões caminhavam separava a igreja, que estava do lado esquerdo da companhia, de um recinto onde havia um grande galpão no qual as cozinheiras terminavam de preparar o jantar que seria oferecido para quase mil pessoas. Com cerca de quatro metros de largura, aquele corredor se tornava estreito para comportar a companhia, seus vários bastiões e a centena de devotos que seguiam atentos os passos dos foliões. Assim que a companhia chegou sob o segundo arco, um dos bastiões retirou a estrela que estava pendurada e declamou: O corredor por onde a Companhia Santa Bárbara passou para fazer sua chegada naquele dia. 322 O caminho dos três reis santos De repente escureceu A Estrela do Oriente Que brilhava desapareceu Mas com a fé dos reis magos Que rei Herodes apareceu Logo atravessaram novamente Apareceu aquela luz Indicando aos três reis santos O nascimento de Jesus Meu amigo Lair Filho da Virgem Maria Passando pelo segundo arco Vai também nossa companhia Ao chegar ao terceiro arco a companhia não parou para que o bastião declamasse seus versos. Os foliões subiram a escada que dava acesso ao interior da igreja cantando e tocando ininterruptamente, trazendo atrás da bandeira uma multidão de devotos que aquela pequena capela não poderia comportar, sendo preciso que uma grande quantidade de fiéis assistisse a entrega da bandeira do lado de fora. Após entrarem na igreja, os foliões cantaram por mais de doze minutos até que o bastião anunciasse o nascimento de Jesus, ao final do qual os foliões cantadores começaram a cantar o hino de despedida dos reis magos, que agora se preparavam para deixar Belém e retornar ao Oriente. Naquela ocasião, o embaixador Jovino Bicudo puxou o canto de despedida com a melodia e a toada do agradecimento sol maior. Ai os treis reis aqui despede ai lá Ai de Belém para o Oriente ai ah Ai os treis reis aqui despede ai ah Ai de Belém para o Oriente ah Nossa Senhora abençoou ai lá Agradecendo o seu presente ai lá Nossa Senhora abençoou ai ah Agardecendo o seu presente ah Ai na saída de Belém ai lá Havia um anjo a avisar ai lá Ai na saída de Belém ai ah Havia um anjo a lhe avisar ah Ai vós desvia de Herodes ai lá Ai que ele vem pra matar ai ah Ai vós desvia de Herodes ai lá Ai que este vem pra matar ah Ai meu amigo eu vou falá ai ah Ai os três reis tinha tramado ai lá Ai meu amigo eu vou falá ai ah Ai os treis reis tinha tramado ah 323 Ai já cumpriu sua missão ai lá Ai todos os três vai abençoar ai lá Ai já cumpriu sua missão ai ah Ai todos os três vai abençoar ah Ai eles vem pra lhe curar ai lá Ai o senhor e seu netinho ai lá Ai eles vem pra lhe curar ai ah Ai o senhor e seu netinho ah Ai todos os três vai lhe guiar ai ah Ai pra seguir no bom caminho ai ah Ai todos os três vai lhe guiar ai ah Ai pra seguir no bom caminho ah Ai meus amigo e folião ai ah Ai os três reis mandou falar ai ah Ai meus amigo e folião ai ah Ai os três reis mandou falar ah Ai se eu faltei com alguma coisa ai lá Ai vocês vão me desculpar ai lá Ai se eu faltei com alguma coisa ai ah Ai vocês vão me desculpar ah Ai meus amigo e meus ouvinte ai lá Ai nessa hora de alegria ai lá Ai meus amigo e meus ouvinte ai ah Ai nessa hora de alegria ah Ai os três reis vem dar a benção ai lá Ai com a Santa Virgem Maria ai lá Ai os três reis vem dar a benção ai ah Ai com a Santa Virgem Maria ah Ai vós despede dos três reis ai lá Ai para o alto ele vai voltar ai lá Ai vós despede dos três reis ai ah Ai para o alto ele vai voltar ah Ai já cumpriu sua missão ai ah Ai todos os três vão pro altar ai lá Ai já cumpriu sua missão ai ah Ai todos os três vão pro altar ah 14.1. Na capela Santa Bárbara Para os devotos e moradores da comunidade, a capela Santa Bárbara é tão ou até mais importante do que a capela dos Santos Reis, pois é nela onde a companhia faz sua chegada e a entrega da bandeira69. A bandeira, este “pequeno altar que passeia pelos campos” (PEREIRA 69 De forma similar ao que ocorreu com a chegada e entrega da bandeira da Companhia Santa Bárbara, Maria Isaura PEREIRA DE QUEIROZ (1968: 110) observou que, “quando vai chegando o dia do padroeiro do bairro, ei- 324 DE QUEIROZ, 1968: 110), é considerada, junto do presépio, o principal símbolo de adoração aos Santos Reis e sempre traz estampada a imagem dos três reis magos atravessando o deserto em seus camelos ou adorando o menino Jesus na manjedoura. É sob a bandeira que os foliões passam esfregando suas cabeças em seu tecido antes de saírem para um dia de giro, assim como as orações pedindo bênçãos e proteção também são direcionadas a ela. Quando chegam até uma casa onde está sendo pago um milagre, a bandeira deve ser entregue ao devoto que, ajoelhado e muitas vezes aos prantos, ouve o hino de reis encoberto ou agarrado ao seu tecido. A bandeira da Companhia Santa Bárbara com a foto do jovem Davi acima dela. A expressão “pegar a bandeira”, utilizada para se referir àqueles devotos que, quando ouvem o som das companhias pelas ruas saem de casa para convidar os foliões para cantar em frente ao presépio, reflete a forte ligação e mediação que ela estabelece entre os Santos Reis e seus fiéis. Esta relação também fica evidente quando os foliões vão “descansar a bandeira” na las que partem deixando a casa fechada. Homens, mulheres, crianças vestem suas melhores roupas, levam na mão os sapatos que não calçarão senão ao chegar perto do núcleo. Todos os que habitam o mesmo bairro rural sentem a obrigação de festejar o patrono. A convergência do grupo todo para a capela, a reunião e a prática em comum tornam-lhes palpável a noção de que pertencem a um mesmo grupo social. Para esta população dispersa, a capela do bairro é por assim dizer o símbolo de um grupo social importante, que ultrapassa e se sobrepõe ao grupo doméstico. Além da solidariedade familiar existe a solidariedade do grupo de vizinhança, que se exprime na ajuda mútua de seus membros e que se exterioriza de maneira concreta e visível na organização das festas religiosas”. Alberto IKEDA (2011: 93) também observou que “o dia ‘da entrega’ é o momento culminante e mais solene do ciclo de Santos Reis. Significa a chegada dos Magos a Belém [...]. As cerimônias ‘da entrega’ são variadas, dependendo do que foi angariado durante as jornadas ou das condições de posse do dono da casa (festeiro) e também da tradição particular de cada grupo”. 325 casa do devoto, pois ela deve ser colocada sobre a cama, não podendo ser colocada em local menos digno e muito menos jogada em qualquer canto. É através de nós em suas fitas que os devotos fazem com que seus pedidos cheguem ao santo, na esperança de terem suas orações atendidas. Ao final da festa, a bandeira geralmente volta para a casa de onde saiu no início da jornada, sendo necessário que suas fitas sejam trocadas antes da jornada do ano seguinte, pois já não há mais espaço para os devotos darem nós e fazerem novos pedidos ao santo. Você encontrava muito amarrada a bandeira. Cada nó daquele ali é uma promessa que a pessoa faz. Cada nó na fita. Muita promessa que eles fazem. O dia que sai a bandeira, todo ano troca as fita. Portanto que você pode ver, tá cheio de fita amarrada ali, tudo cheia de nó. Põe as fita novinha, o dia que chega lá na igreja não tem nem aonde dar nó mais. É tudo que as pessoas pedem de intenção, pedido, as coisas. Faz pedido, sabe? Faz o pedido dando nó, é desse jeito. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 Se a gente tivesse condições numa época dessas, tinha que pegar uma bandeira dessa e levar lá pra Aparecida do Norte e deixar aqueles nozinhos tudo ali, que é promessa do povo. Mas nós não temos como fazer isso, então leva na igreja daqui, entendeu? Ali tem muita promessa que as pessoas fazem, tem muitos pedidos. Tem muitos que guardam a bandeira, não tira os nó nem nada. JOSÉ AILTON DE PAULA, 2015 Tião Lino, morador da comunidade rural dos Bárbaras e devoto dos Santos Reis. 326 Aqui nos Bárbaras, há cento e tantos anos tem essa companhia de reis, do tempo dos meu avós e dos meus tios. É uma tradição que tá trazendo nos Bárbaras e tá firme. Hoje a comunidade tá unida, muito bonita. É uma companhia que traz muito choro, alegria e saudade daquelas pessoas, que sempre a gente recorda dos que faleceu, dos meus avós, dos meus tios, do meu pai. A gente vai trazendo no coração e a gente vai programando essa festa muito maravilhosa que nós estamos trazendo no bairro aqui. Tem nossa capela Santa Bárbara e é uma festa muito maravilhosa que vocês vão ver daqui a pouco. Eu sou nascido e criado aqui, tô com meia meia e vou sair daqui só quando Deus me levar, e os Santos Reis. Agora vou ficar aqui bonito criando esse povo maravilhoso aqui pra gente festejar nosso Santos Reis, nosso protetor, a nossa capela Santa Bárbara e São Sebastião, nosso protetor do nosso bairro dos Bárbaras. TIÃO LINO, 2016 Assim que os foliões terminaram o hino os devotos fizeram uma longa fila e, um a um, passaram por debaixo da bandeira que era segurada pelo bastião em frente ao altar, fazendo o sinal da cruz e esfregando-a na cabeça. Após todos terem passado, os devotos se posicionaram em frente e atrás da bandeira para dar nós em suas fitas. Assim que todos terminaram de fazer suas promessas o bastião a colocou sobre o altar da capela. Ao final da jornada, a bandeira e a companhia haviam retornado para o mesmo lugar de onde tinham saído dia 25 de dezembro. A capela Santa Bárbara. 327 14.2. A capela dos Santos Reis No dia 27 de dezembro de 2017 estive presente em um evento para comemoração do centenário da capela dos Santos Reis de Alfenas, ocasião em que tive o prazer de conhecer e conversar com o pesquisador Affonso M. Furtado Silva, responsável pela ONG Casa de Santos Reis – CSR, cuja sede fica no município de Rio das Flores, Rio de Janeiro. Nascido nesta mesma cidade, Affonso é engenheiro aposentado e membro da Federação do Reisado do Estado do Rio de Janeiro – FRERJA, além de ser ex-integrante do Conselho Estadual de Cultura e autor de alguns livros sobre os três reis magos. Como membro da FRERJA, Affonso desenvolve em parceria com o Conselho Estadual de Cultura um projeto de levantamento dos templos dedicados ao santo construídos no Brasil e no exterior, sendo ele quem intuiu, após uma estadia em Alfenas entre 1997 e 1999 e algumas consultas no Livro do Tombo da Matriz de São José e Dores, que o município possuía o templo dedicado aos Santos Reis mais antigo do período pós-colonial dentre todos os municípios do estado e talvez do país. Sua pesquisa foi baseada em “informações dos Boletins de Arquidioceses e Dioceses, documentações pertinentes e, principalmente, as obtidas dos próprios foliões de reis” (2017: 04), além de “pessoas relacionadas ao Tonico Folia e sua família” (2017: 08). Um dos foliões entrevistados pelo pesquisador foi Jorge Lourenço (1922-1999), fundador da Companhia dos Santos Reis, cujos relatos aliados com os dos antigos moradores apontavam como responsável pela construção da capela o folião Júlio Antônio Souza Dias, popularmente conhecido como Tonico Folia e “um dos mais célebres capitães da cidade” segundo o professor João Batista da Cruz, um dos grandes conhecedores das tradições populares da região. A primeira missa realizada na capela ocorreu em 27 de dezembro de 1917, celebrada pelo Padre João Baptista Van Rooyen, de origem holandesa e membro da Ordem Missionária do Sagrado Coração. A formação humanística, filosófica e teológica do padre, aliada à sua familiarização com lendas e tradições populares de culto aos Santos Reis presentes na cultura europeia (a exemplo do Relicário de Santos Reis existente na Catedral de Colônia, próximo à fronteira com a Holanda, e dos Sternsingers, grupos de pessoas que percorrem as ruas durante o período natalino para entoar cânticos aos Santos Reis), o teria sensibilizado “a adotar um procedimento raro para aquela época, de consagrar a Santos Reis a capela construída pelo Capitão Tonico Folia, atendendo assim, seu desejo: por promessa e/ou pura devoção, como também, diga-se de passagem, os anseios da própria comunidade local” (2017: 07-08). 328 Estávamos, assim, diante da Capela em louvor a Santos Reis mais antiga do século XX, tomando por base o mencionado projeto de levantamento da FRERJA – CSR, o qual apontava, até então, a Capela da Fazenda da Moradinha (município de Batatais – SP), de 1924 e a atual Paróquia de Santos Reis de Montes Claros – MG, de 1932, como as mais antigas do século XX. Cabe ainda ressaltar que as primeiras igrejas consagradas aos Reis Magos no Brasil datam do século XVI, ou seja, no período de colonização do país. Respectivamente: a construída entre 1565 a 1580 no núcleo Jesuítico de aldeia dos Reis Magos, na atual localidade de Nova Almeida (município da Serra – ES), cerca de 20 quilômetros ao norte de Vitória – ES; e a capelinha dos Reis Magos instalada no interior de Fortaleza dos Reis Magos, erigida em Natal – RN no ano de 1598. FURTADO SILVA, 2017: 06 A capela dos Santos Reis de Alfenas durante a chegada simbólica das companhias no dia 06 de janeiro de 2016; à esquerda, em sua configuração original, antes da reforma. O bairro dos Santos Reis, onde fica localizada a capela, pode ser entendido como um centro catalizador que congrega importantes manifestações populares do município, havendo vários relatos que enaltecem a diversidade de tradições mantidas por seus moradores. O relato do capitão da Companhia dos Santos Reis exalta estas qualidades do bairro, como importante espaço mantenedor das tradições populares do município. 329 A turma do bairro dos Santos Reis quantos anos que faz? Tá todo mundo aí da família. É tudo parente. E se não é parente é amigo, é primo. Esse aqui é irmão do Gilberto que tá lá, que é meio primo desse aqui também. Esse aqui é parente do outro capitão velho que morreu, que era tio dele. O Vinícius é sobrinho. É tudo do bairro dos Santos Reis. O que não é dos Santos Reis aqui é só eu com esse aqui e aquele lá. Mas eu posso falar que eu também sou do bairro Santos Reis, eu sou nascido e criado lá nos Santos Reis, eu também sou de lá. Vim pra cá, mas fui nascido e criado lá. Se vocês pegar nossa chegada ali no bairro dos Santos Reis, ali junta mais de mil pessoas pra chegada do almoço. Ali não tem uma casa que não vai comer. É mais de mil pessoas. O caboclo solta a leitoa lá cheia de graxa no meio do povo e é uma festa correndo atrás da leitoa. Mas nossa. É uma festa. Você olha na rua tem mais de mil pessoas, é gente demais da conta. Ali o povo gosta muito. E não é porque é Santos Reis, gosta mesmo. Se for lá já viu. Se vocês pegar a gente ali é festa pra mutirão. Nos outros lugar você vê pouca gente. Vai na chegada dos Santos Reis pra você ver. Pega uma chegada nossa ali. Daqui mais ou menos até lá na esquina de baixo preteja igualzinho pernilongo. O povo gosta. E nós fazemos é bonito mesmo. Nós cantamos bonito. E a hora que para a gente fecha no forró até a hora que não aguentar mais. Acabou. Não tem tempo ruim com a gente não. Tudo aqui é a rapaziada boa, gosta de cantar umas modas. Eu também gosto e esse aqui também gosta. Moda raiz. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 A Companhia dos Santos Reis é mantida pelos sobrinhos do capitão Jorge Lourenço, seu fundador. De todas as companhias do município, a Companhia dos Santos Reis é a única em que todos seus membros são negros ou mulatos, o que reflete a procedência de seus foliões como sendo do bairro dos Santos Reis, cujos moradores sempre foram predominantemente negros. Antigamente o bairro era conhecido como bairro dos Aflitos, devido aos apelidos colocados pelos moradores de outros bairros da cidade, levando-se em consideração principalmente as condições de vida (saneamento básico, condições sociais e econômicas, marginalização etc.) e a alta taxa de mortalidade que o bairro atingiu em determinada época, devido às doenças que 330 eram contraídas pelos moradores e que ainda não possuíam cura. Abaixo, uma descrição do bairro feita pelo professor Pedro Paulo da Cruz, por volta da época de construção da capela: Região periférica da cidade de então – conhecida por Aflitos – era habitada por moradores humildes com predominância da cor negra em sua maioria, alojados em casas rústicas cobertas de sapé. Este local foi, pouco a pouco, se expandindo no entorno da capelinha, com novos arruamentos e moradias mais modernas, moldando o atual bairro. Ao mesmo tempo, o local foi se identificando com o nome do consagrado Padroeiro, Santos Reis.70 PAULO DA CRUZ apud FURTADO SILVA, 2017: 07 O embaixador Vino também me deu alguns detalhes sobre como era sua casa na época em que era criança e ainda morava no bairro dos Santos Reis, cujo relato se aproxima muito do apresentado pelo professor Pedro Paulo da Cruz na primeira metade do século XX: Era uma oca amarela no chão, chão barreado lá de terra. A casa que eu morei lá eles podem falar pra você, era casinha de pau a pique coberta de sapé. Na beira do buracão que tinha de lixo lá, vou te falar. O chão era com oca, aquela oca amarela. Fogãozinho feito com oca amarelinha, você olhava no chão era tudo marelinho. Em cima era coberto de capim barreado com bambu e barro. Não tinha esse negócio de chegar lá e meter fogo naquele capim e queimar a gente lá dentro. Naquele tempo não tinha isso não. Não tinha droga, não tinha essa palhaçada que tem hoje. Eu sei lá rapaz, eu fui criado com cambuquira, berduê e coisa de dar pra porco. Essas comidas. Eu fui criado nisso aí. Eu sou pobre, mas já fui muito mais pobre do que eu sou. Já cheguei não ter o que comer dentro de casa direito, porque era muito filho. Hoje nós não somos pobres mais, hoje nós podemos comer até um ovo. Porque antigamente nem ovo tinha. Era cambuquira, berdue que dava pra porco, quirelinha de arroz e abóbora madura. Hoje a abóbora madura tá mais cara do que a carne. Meu pai dava cada abóbrona pros porco. Hoje o porco come só a casca da abóbora. A gente era muito feliz. Hoje o povo tem tudo e quer mais ainda. É muita ganância. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 Só recentemente os foliões e moradores do bairro tomaram conhecimento e se deram conta da importância histórica da capela, a partir das atividades de tombamento iniciadas alguns anos atrás. Inspirada na igreja dos Santos Reis construída em Portugal no final do século XVI, a versão alfenense da capela tem sido, ao lado da Companhia dos Santos Reis, orgulho para os moradores do bairro. O relato do presidente do Grupo de Consciência Negra de Alfenas deixa transparecer a satisfação de ter nascido e se criado no bairro, já que é lá que muitas companhias do município passam no último dia de jornada. Atualmente a capela dos 70 Sobre a dinâmica e a históra da segregação socioespacial no bairro Santos Reis, consultar: BENTO, Cecília Ricarte; FREITAS, Valdirene de. Estudos sociais urbanos: uma análise da dinâmica e segregação socioespacial do bairro Santos Reis – Alfenas/MG. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Geografia - Licenciatura). Instituto de Ciências da Natureza. Universidade Federal de Alfenas – UNIFAL, 2014. 331 Santos Reis também proporciona uma maior autoestima para os moradores locais e até mesmo uma maior valorização e respeito pelos habitantes do bairro por outros moradores da cidade. A igreja dos Santos Reis é a igreja mais velha do Brasil. Muito pouca gente sabe disso. Até alfenense não sabe disso. A gente deve ter um livro escrito por uma fundação lá do Rio de Janeiro. Ela foi fundada dia vinte e sete de dezembro de mil novecentos e dezessete. Agora em dois mil e dezessete a gente vai interar cem anos. Então a gente fica contente de ter sido nascido e criado por lá. Meu pai e meu avô quase que ajudaram a fazer a igreja dos Santos Reis. E foi por meio do meu pai fazer esse trabalho, o Jorge Lourenço, que a gente vai tocando em frente. A gente também tem uma companhia de reis, que é de lá do bairro e que é comandada pelo meu irmão e o Gilberto, que é sobrinho dele também. Esses meninos são mais novos do que a gente. Eles ficaram incumbidos de fazer esse trabalho da companhia de folia de reis. Eu sou responsável pelo folclore do bairro que tem outras coisas também, outros folclores. Outros tipos de floclore que não é religioso, mas é folclore também, no caso de escola de samba que a gente tem, as pastorinhas e essas coisas que a gente vai levando pra frente pra não deixar morrer. JOSÉ DITO LÁZARO “DECÃO”, 2015 Entre as chegadas simbólicas realizadas pelas companhias na capela dos Santos Reis, a chegada da Companhia dos Santos Reis pode ser considerada como oficial, pois, enquanto as demais companhias estão apenas de passagem e partem para outros locais da cidade logo que terminam de adorar a imagem dos três reis magos presente no interior da capela, a Companhia dos Santos Reis geralmente permanece no bairro para fazer sua chegada oficial e a entrega da bandeira. Esta relação bastante singular que a companhia possui com sua capela faz com que ela possua um significado todo especial para seus foliões. Segundo FURTADO SILVA (2017: 11), trata-se do resultado de uma história envolvendo dois personagens carismáticos, Tonico Folia e o Pe João Baptista Van Rooyen, os quais “plantaram em cimento, pedra e areia suas promessas, devoções e ideais missionários. O tempo se encarregou de fazer florescer para o louvor de Santos Reis, enquanto o povo alfenense retribuiu com imensa gratidão”. 332 15. À procura da Companhia da União Uma das metas a serem cumpridas para o final do primeiro ano de trabalho de campo era acompanhar, registrar em audiovisual e conversar com os foliões de todas as companhias previstas no projeto de pesquisa. Já era dia 05 de janeiro de 2016, primeira terça-feira do ano, um dia ensolarado que marcava meu penúltimo dia de trabalho de campo antes do grande dia de Santos Reis. A quantidade de fotos, relatos, entrevistas e material audiovisual coletado já era grande. No entanto, de todas as companhias do município previstas inicialmente para fazer parte da pesquisa, a única com a qual eu ainda não havia feito nenhum contato e, portanto, não possuía qualquer registro, era a Companhia da União. Esta companhia é conhecida entre as demais pela singularidade de realizar toda sua jornada nas comunidades rurais da região, característica esta importante pelo fato dos bairros rurais concentrarem grande parte da população católica dos municípios. O único contato que eu havia feito com seu organizador tinha sido por telefone, logo no começo da jornada, mas toda vez que ligava para ele e manifestava interesse em seguí-los na chegada para um almoço ou jantar ocorria algum imprevisto: “Amanhã não dá porque a gente vai numa roça que fica muito longe pra você”; “Amanhã vai chover e você pode atolar o carro lá na roça” etc. O Ronaldo Batista, responsável pela Companhia da União, em um primeiro momento pareceu ser daquelas pessoas que somente depois de algum tempo de convivência se permite aproximar de desconhecidos, e ainda assim com algumas ressalvas. No entanto, depois de três anos de trabalho de campo, quando nos encontramos por acaso andando pelas ruas da cidade (eu seguindo a Companhia dos Santos Reis e ele passando em um furgão da prefeitura), ele me gritou de dentro do veículo em movimento enquanto passava pela rua: “E aí Rafael, tudo bem? Vai filmar nossa chegada esse ano! Vai ser bonita!”. Mas como ainda era meu primeiro ano de trabalho de campo e não tinha muito contato com o Ronaldo, fui me conformando com a possibilidade de não me encontrar com os foliões da Companhia da União e tampouco de fazer os registros audiovisuais. Uma das companhias teria que ficar de fora do trabalho. Ainda que existam algumas características que conferem ao município de Alfenas um caráter mais urbano, a exemplo de um ambiente universitário relativamente bem disseminado pela cidade e muito perceptível pela população nativa, pode-se claramente perceber traços rurais fortemente demarcados em vários aspectos. Com cinquenta e seis bairros considerados rurais e tendo seus dois distritos também localizados na zona rural, o município congrega uma considerável parcela da população, responsável inclusive por uma parte significativa de sua 333 economia, nestas comunidades. Muitas delas são inclusive sedes de algumas companhias de reis, a exemplo da Companhia Santa Bárbara, formada por moradores da comunidade rural dos Bárbaras; a Companhia dos Benedette, surgida no bairro rural dos Vianna; a Companhia Estrela do Oriente, cuja sede fica no bairro rural da Lage, entre outras. Mesmo os foliões das companhias “da cidade” possuem grande apreço pelos bairros rurais, motivo pelo qual muitos deles fazem boa parte da jornada por estas localidades, como a Companhia dos Santos Reis. Aquelas roças ali são boas: Mandassaia, Serrinha. Se a prefeitura desse a condução pra gente... É que nós vamos fazer a chegada no sábado. Nós terminamos na quarta- feira, mas nós vamos encerrar pra fazer a chegada sábado. Se a prefeitura desse a condução, a gente ia pegar a turma aqui e ia lá pro Barranco Alto. A gente ia vir só sábado. Mas nós não temos condução pra ir pra lá. Pra pagar carro pra ir pra Campo do Meio nós gastamos. Tivemos que pagar gasolina do nosso bolso. Aí fica caro. Se a prefeitura desse a condução pra sair da cidade a gente ia pro Barranco Alto. Quarta-feira encerrava e na quinta a gente ia lá pro Barranco Alto. Daí sábado a gente vinha pra fazer a chegada. Mas a prefeitura não quer dar condução. Como é que a gente vai fazer? Andar de pé naquela distância a gente não aguenta. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 Meu principal interesse em seguir a Companhia da União se devia ao fato dela realizar sua jornada exclusivamente pelas comunidades rurais do município e da região, algo que sem dúvida seria bastante enriquecedor para o trabalho. Já era o penúltimo dia de trabalho de campo quando, para minha surpresa, recebi uma ligação do folião Ronaldo Bastista por volta das três horas da tarde: “Se você quiser acompanhar a gente na chegada da janta hoje pode vir, porque a gente vai encerrar a jornada hoje. Amanhã não vamos mais sair não, só vamos fazer a chegada e a entrega da bandeira”. A ligação do Ronaldo foi uma grande surpresa, mais um dos vários momentos extraordinários e carismáticos que vivenciei durante a realização deste trabalho. Mas tínhamos pouco tempo, já era mais de três horas da tarde e a chegada para a janta seria mais cedo do que o de costume, por volta das cinco horas. Os horários do café da manhã, do almoço e do jantar nos bairros rurais, assim como o tempo de uma forma geral, são bastante diferentes do que na cidade. Às pressas arrumamos nosso equipamento de gravação e seguimos para o bairro rural que até então eu desconhecia, chamado São Tomé. A chegada da companhia para a janta aconteceria em menos de duas horas. No caminho para o bairro liguei para o responsável pela companhia com quem tinha combinado de me encontrar na janta daquele dia para desmarcar o compromisso, pois teria a última e única oportunidade de me encontrar com os foliões da Companhia da União para conversar e fazer alguns registros audiovisuais. O entusiasmo pela ligação do Ronaldo foi tão grande que até me esqueci de pegar detalhes sobre o horário e o local exato onde deveríamos 334 nos encontrar, e tampouco como chegar ao tal bairro São Tomé, de modo que a única coisa que sabia era o horário aproximado da chegada para a janta e o bairro onde ela aconteceria. Assim que saímos de casa fiz algumas ligações para saber como chegar ao bairro. Após meia hora procurando a estrada que nos levaria até o local, finalmente estávamos a caminho. O acesso ao bairro rural São Tomé podia ser feito de duas formas: seguindo à cidade vizinha de Serrania e, pouco antes de chegar àquela cidade, entrar em uma estrada de terra que existe na beira da rodovia; ou pegando uma estrada de terra próxima a uma das entradas principais de Alfenas e seguir por ela contornando outros bairros rurais. A escolha foi pela segunda opção, de modo que foi preciso parar no meio do caminho algumas vezes (sempre que havia uma bifurcação) para decidir na sorte qual caminho pegar. Após quase uma hora seguindo em frente (às vezes voltando para trás) por aquela estrada desconhecida, finalmente encontrei meu principal ponto de referência, sinal de que já estávamos próximos da casa onde seria feita a chegada da companhia: a ponte São Tomé. Esta ponte, situada em um bairro rural bem distante da cidade, separa duas bifurcações, de modo que existem quatro estradas que levam até ela e, infelizmente, também quatro estradas possíveis de se pegar para sair daquele lugar. Antes de contar com a sorte novamente e decidir qual das outras três estradas pegar para ir ao encontro da companhia, decidi descer do carro para conhecer um pouco melhor aquele lugar de beleza e tranquilidade singulares. O rio que passa por baixo da ponte é o rio São Tomé. As suas águas estavam bastante claras, apesar de ser um período onde as chuvas costumam turvar as águas dos rios. No curso do rio havia uma pequena mata à sua margem direita, que findava algumas dezenas de metros abaixo, e um grande pasto à sua margem esquerda, onde pastavam algumas vacas e cavalos. A cerca de sessenta metros antes de se chegar à ponte, ao final da estrada por onde tínhamos chegado, havia um bar que estava fechado. Um escrito na parede do bar, ao lado da porta de entrada, informava os dias e horários de funcionamento do estabelecimento: “Quarta e quinta a partir das 17h00. Sexta a partir das 16h00. Sábado e domingo a partir das 10h00 da manhã”. Era uma terça-feira e, para nossa tristeza, o bar estava fechado. Mas não tinha como estarmos realmente tristes, pois estávamos em um dos lugares mais bonitos que tínhamos visitado até então e logo nos encontraríamos pela primeira vez com a Companhia da União. Assim que o Cleiton terminou de fumar seu cigarro e que eu terminei minha visita ao rio, seguimos adiante pela estrada. Ao passar pela ponte decidi seguir à direita na bifurcação, de modo que a estrada seguia ladeando o rio no sentido de sua correnteza. Algumas dezenas de metros pela estrada pudemos avistar uma grande várzea, onde o rio se espraiava formando 335 vários braços e onde havia uma grande árvore ao centro, sobre a qual descansavam dezenas de jaburus, ave-símbolo do pantanal. Aquela cena me deixou bastante intrigado, pois sabia que aquela ave era típica das regiões amazônica e pantaneira, de modo que não fazia sentido ver tantas naquele rincão sul-mineiro. Algum tempo depois, quando me informei sobre a presença de jaburus na região, descobri que uma família do bairro trouxe um casal de aves quando fez uma visita ao Mato Grosso, que se adaptaram bem e se reproduziram com certa facilidade na região. Após algumas fotos seguimos pela estrada sem comunicação pelo celular e, portanto, sem certeza de que nos encontraríamos realmente com a companhia. A ansiedade começava a tomar conta quando, a pouco mais de um quilômetro da ponte, avistei na entrada de um sítio um grande arco de bambu enfeitado com flores e, logo abaixo, um cruzeiro feito com pétalas de rosas. Era o sítio onde a companhia faria sua chegada. A busca havia terminado. O cinegrafista Cleiton Custódio fumava um cigarro enquanto eu visitava o rio e decidia qual estrada pegar. 15.1. O encontro e a chegada Uma vez encontrado o local onde a companhia faria sua chegada, não arredamos o pé dali nem um instante, no máximo alguns metros para tirar algumas fotos de um carro de boi abandonado debaixo de uma seringueira e de algumas galinhas d’angola que ciscavam perto da estrada, do outro lado da cerca que separava um sítio de onde estávamos. Durante a espera fiquei pensando os motivos que teriam levado o Ronaldo, que até então parecia estar fugindo 336 da gente, a me ligar e fazer aquele inesperado convite para seguirmos sua companhia naquela chegada para o jantar. Talvez algum folião de outra companhia tenha feito algum comentário sobre o trabalho e os registros que estávamos fazendo e ele não quis deixar sua companhia de fora, ou então tinha ouvido de outros foliões comentários positivos a nosso respeito e resolveu nos dar aquela oportunidade. Apesar de nunca ter descoberto o verdadeiro motivo do convite, o Ronaldo foi o único folião que me ligou algumas vezes depois do fim da jornada para saber se o material gravado já estava editado, pois queria ver e mostrar aos outros foliões. Após cerca de meia hora a companhia chegou. Apresentamo-nos ao Ronaldo e fomos, por ele, apresentados aos outros foliões. Antes de fazer sua chegada para a janta, a companhia ainda iria cantar no sítio vizinho. Seguimos os foliões também até aquela casa, mas foi uma cantoria bem rápida: dois versos para saudar e abençoar a família e dois versos agradecendo a oferta dada, cerca de dez minutos. A cantoria da chegada para a janta seria mais longa, duraria quase uma hora entre a chegada no primeiro e único arco e a chegada até o local onde estava o menino Jesus. O acesso à casa daquele primeiro sítio se dava por entre uma horta, e, em meio aos pés de alface, salsinha, rúcula e couve, descemos um terreno íngreme seguindo os foliões. Foi naquele sítio que também tive minha primeira conversa com o embaixador Wilson. [...] a gente sai nos doze dias só essa turminha que tá aqui. É só nóis mesmo. São seis cantadores. Nós cantamos desde o dia vinte e cinco e não pulamos uma casa. E nós saímos só na roça, só pra cumprir promessa. Mas hoje o povo não tá gostando de cumprir promessa não, né Ronaldo? A gente que cumpre, porque o compromisso nosso é sair todo ano. Então a gente tem que ir com ele, não pode parar. Nossa companhia se chama Companhia da União, porque todo mundo canta então tem que ser unidos, né? E é só família também. WILSON GOMES ALVES, 2016 Saímos daquela casa já para o sítio onde aconteceria a chegada para a janta. Os foliões caminharam algumas dezenas de metros pela estrada rodeados pelas crianças do bairro, que dirigiam olhares curiosos para a câmera e para o equipamento de gravação que carregávamos. Em poucos minutos estávamos em frente ao arco que havia sido montado sobre a porteira que dava acesso ao sítio. Os foliões começaram a tocar o forró alguns metros antes e, caminhando lentamente, se dirigiram para o arco, parando de tocar assim que chegaram ao ponto limite que separava a estrada do sítio do jovem casal, ambos com menos de vinte anos. Ao chegar, Wilson avistou no chão, bem abaixo do arco, um cruzeiro de flores. Ele então se virou para os outros foliões fazendo um aceno com a cabeça, que imediatamente fizeram um movimento em caracol e formaram um semicírculo de frente para o jovem casal. O embaixador ajeitou seus óculos e, empunhando seu violão, trovou os seguintes versos: 337 Ai avistei nesta chegada ai lá Ai avistei nesta chegada ai lá Ai o emblema de uma cruz ai lá Ai o emblema de uma cruz ah ai ah Ai que ficou por semelhança ai lá Ai que ficou por semelhança ai lá Ai lá na morte de Jesus ai lá Ai lá na morte de Jesus ah ai ah Ai se prepare oh meu bastião ai la Ai se prepare oh meu bastião ai la Ai pra ver o que está na frente ai lá Ai pra ver o que está na frente ah ai ah Ai meu bastião pede licença ai lá Ai meu bastião pede licença ai lá Ai pra ver se tem presente ai lá Ai pra ver se tem presente ah ai ah Após ser anunciado pelo embaixador que iria “ver se tem presente”, o jovem bastião, que era filho de um dos foliões, declamou alguns versos ao jovem casal pedindo autorização à dona da casa para desmanchar o cruzeiro de flores que havia no chão, para recolher e levar a oferta em moedas que havia debaixo dele, e, por fim, para revistar o arco de bambu que havia sido montado sobre a porteira. Oh cruz bendita Onde Jesus foi crucificado Recebeu tanta injustiça E também foi maltratado Um cruzeiro para ser bem feito Tem que ser bem preparado Falta o cravo e o martelo Onde Jesus foi cravejado Pelo poder do Espírito Santo Eu peço pra este cruzeiro ser desmanchado Dá licença patroa? Esta oferta não é minha E nem da companhia Esta oferta eu vou levar Para os filhos de Maria Dá licença? Minha senhora dona da casa Filha da Virgem Maria Eu te peço sua licença Pra revistar este arco da guia 338 A Companhia da União em frente ao sítio onde fez sua chegada para a janta na tarde daquele dia. Após o bastião revistar o arco, a companhia seguiu tocando um corta-jaca até a entrada da casa. O Wilson vinha logo atrás, catando pelo chão as moedas que o bastião deixava para trás, enquanto o cachorro do casal, assustado com os bastiões, latia incessantemente seguindo os foliões. O sol já ia se pondo quando avistei no terreno do sítio uma pequena plantação de café com uma densa mata ao fundo e, do outro lado da estrada, a cerca que separava o sítio da propriedade vizinha. Assim que os foliões chegaram no alpendre, o casal parou em frente a porta que dava acesso à sala com a jovem segurando a bandeira nas mãos. A falta de espaço sob o alpendre não permitiu que os foliões fizessem novamente o movimento em caracol, ficando difícil até mesmo a formação em semicírculo. Na mesma posição que a companhia chegou ela permaneceu até entrar no interior da casa. Sob o arco que havia na entrada do sítio a companhia tinha cantado o tradicional hino em dó maior, mas, antes de entrar na casa, ainda que não fosse uma despedida, os foliões cantaram a toada do agradecimento sol maior. Ai os três reis vem de viagem ai ah Ai e aqui ele chegou ai ah Os três reis vem de viagem ai ah Ai e aqui ele chegou ai ah Raiou a estrela e deu sinal ai ah Onde está o Salvador? ai lá ah Uma estrela deu sinal ai ah Onde está o Salvador? ai lá ah 339 Ai meu bastião pede licença ai ah Ai pros três reis que vem chegar ai ah Meu bastião pede licença ai lá Ai pros três reis poder chegar ah Ai pra entrar em sua morada ai ah Ai e sua casa visitar ai ah Pra entrar em sua morada ai ah Ai e sua casa visitar ai ah O embaixador Wilson observando e sendo observado pela sua filha caçula. Assim que os foliões cantaram o verso “para entrar em sua morada”, o embaixador fez um sinal para que o bastião entrasse na sala. Ao passar, a dona da casa o seguiu e, atrás dela, toda companhia. Os foliões entraram na pequena sala um a um tocando seus instrumentos e já retornando para a tonalidade de dó maior. Do lado esquerdo para quem entrava na sala havia uma estante com um televisor e algumas fotografias da família do casal. Do lado direito, em frente a um sofá coberto com uma colcha verde clara, havia uma velha cômoda, onde estava montada uma pequena árvore de natal com um livro ao lado. Naquela humilde morada, onde não havia presépio e nem reis magos, o menino Jesus jazia de braços abertos sobre a Bíblia. 340 16. Algumas interpretações do apocalipse Embora o município de Alfenas seja bastante conhecido na região e no estado devido ao seu notável ambiente universitário e por uma recente vivência cultural marcada por formas de entretenimento que visam atender seus quase sete mil universitários71, existe uma evidente demarcação entre seus espaços rurais e urbanos. Ainda que estas características do município não tenham que ser necessariamente interpretadas a partir da polarização entre rural e urbano, roça e cidade, centro e periferia etc., estas categorias podem evidentemente ser um recurso e um recorte empírico para análise. Uma pessoa que visitasse a cidade por volta das nove horas da noite no dia 07 de outubro de 2016 e passasse por suas principais ruas, encontraria pelo caminho milhares de jovens uniformizados caminhando em direção ao recinto denominado “Espaço Folia”. Os uniformes eram os chamados “abadás”, tais como aqueles utilizados nas micaretas e pelos blocos carnavalescos de Salvador; os milhares de jovens, coincidentemente também chamados de “foliões”, chegavam de várias cidades e estados do país; e o recinto para onde a multidão se dirigia seria em algumas horas palco de um dos maiores carnavais fora de época do país. A 21ª edição do Carnalfenas, como é chamada esta que é a maior festa universitária do estado, reuniu naquele ano mais de “quinze mil pessoas por noite de folia72”. Naquela mesma noite de sexta-feira, quem se arriscasse em atravessar aquela multidão uniformizada e estranha ao convívio dos moradores nativos da cidade, poderia se dirigir para outro ponto da cidade: o bar do Teodorinho. Situado em um bairro periférico e no limiar entre os perímetros urbano e rural, o local reunia naquela mesma noite alguns dos representantes da música tradicional da cidade: violeiros, cantadores e foliões. Além de serem representantes de universos distintos, aqueles dois espaços também refletiam um pouco dos contrastes sociais, econômicos e culturais da cidade. Se de um lado a sensação era a de se estar em uma capital como Salvador em plena terça-feira de carnaval, submetido a tudo o que a situação envolve, de outro, a atmosfera rural daquele bar talvez pudesse nos remeter ao que há de mais peculiar nas comunidades rurais tradicionais em termos culturais e de sociabilidade. 71 Estas formas de entretenimento buscam, em grande medida, atender os estudantes das duas universidades que a cidade possui, embora muitos turistas de regiões vizinhas também visitem a cidade na época das festas. O Carnalfenas, por exemplo, é a maior festa universitária da região e, assim como tantas outras, busca atender a demanda dos universitários por lazer e entretenimento. Outros exemplos de eventos com esta característica na cidade são o Velório do Carneiro, rotulado pelos seus organizadores como “a maior festa Open Bar do país”, e a Federal Fantasy, conhecida entre os estudantes universitários como “a maior festa à fantasia do mundo”. 72 Assim como as pessoas que participam do evento geralmente são chamadas de “foliões”, o evento também é designado por seus organizadores e pela imprensa local como uma “folia”. Ver: http://g1.globo.com/mg/sul- de-minas/noticia/2016/10/carnalfenas-reune-quase-50-mil-pessoas-em-festival-em-afenas-mg.html 341 Esta breve descrição busca apresentar dois dos universos culturais do município aos quais seus moradores estão constantemente sujeitos, tendo em vista que são eventos rotineiros no decorrer do ano. Ao mesmo tempo em que a cidade possui várias manifestações populares tradicionais, como as “folias de reis”, ela também possui outros tipos de “folias” destinadas aos estudantes universitários, que, embora dificilmente se misturem com estas atividades do catolicismo popular, coexistem com elas durante o ano. É neste contexto que, ao olharmos para as atividades religiosas dos foliões de reis enquanto sistema cultural ainda fortemente atrelado às comunidades rurais do município, elas se apresentam em forma de oposição se comparadas com as práticas culturais das “folias universitárias”, que para fins desta análise adotei como sendo exclusivamente da cidade. Antes de desdobrar esta constatação para a questão dos dilemas e impasses dos foliões de reis acerca da manutenção e perpetuação de suas tradições religiosas e sua associação com as relações entre roça e cidade, talvez seja interessante retomar um trecho do relato do folião José Ailton: Igual a vez que a gente tava passando ali perto do Seu Mané da Esmeralda. Aí tinha uma república e eles tava com uma festa lá. Tinha uns quinze estudantes, homem e mulher. Aí a gente tava vindo com a companhia de reis assim, foi um dia de sábado, a gente tava vindo com a companhia umas três, quatro horas da tarde. Nós vindo com a companhia de reis assim e eles lá tomando cerveja tudo. Eles saíram na rua assim pra pegar a bandeira e o bandeireiro não quis entregar. Eu falei: “Pode entregar. Pode entregar”. Eles pegaram a bandeira, pularam pra cima, brincaram, pularam pro meio, fizeram aquela bagunça. Aquela anarquia tudo, entendeu? Aí depois ele falou... Eles nem sabiam o que era pra falar na verdade. Nem daqui eles não eram. Aí a gente explicou pra eles certinho. Um foi lá, pegou dez reais, deu e a gente foi embora [...] JOSÉ AILTON DE PAULA, 2015 O que estou procurando demonstrar com estes exemplos é que, embora estas práticas culturais coexistam “naturalmente”, existe uma evidente defasagem entre sistemas culturais díspares que, em última instância, podem ser atrelados aos pares de oposição mencionados anteriormente (rural e urbano, roça e cidade, centro e periferia etc.), os quais permitem uma interpretação “apocalíptica” baseada nos relatos dos próprios foliões. No entanto, o objetivo aqui não é situar as práticas religiosas dos foliões de reis dentro de um sistema cultural “em vias de extinção” ou como uma “cultura de resistência” frente às novas formas culturais e de sociabilidade emergentes no município (embora esta também seja uma análise possível73), 73 Uma discussão neste sentido poderia nos trazer pelo menos duas interpretações: a primeira seria considerar a supressão das culturas tradicionais por novos sistemas culturais dentro de um processo de mundialização da cultura (ORTIZ, 2003 e 2004; NICOLAU NETTO, 2009); a segunda seria considerar que a força regeneradora e a dinamicidade das culturas tradicionais inviabilizam e não permitem a instauração deste processo. De um lado, a incapacidade das manifestações tradicionais se reestruturarem diante de uma homogeneização cultural 342 mas sim discutir algumas questões acerca das transformações sociais ocorridas nos últimos anos, sempre a partir dos relatos dos próprios foliões e com suas típicas contradições. 16.1. A roça e a cidade A origem da companhia de reis é justamente rural. Urbano é porque a gente mora no ambiente urbano, então a gente canta na cidade. Mas a origem é rural. Eu nasci na roça e mudei com oito anos pra cidade, mas quando eu mudei já era folião de reis. Tinha um aninho só de folião de reis, mas já era. E tô aí com cinquenta e oito anos de idade. Tenho cinquenta e um de companhia de reis e tenho quarenta e tantos de embaixador. Eu, por mim, se não tivesse tanto amigo na cidade, a minha companhia de reis ficava só rural.74 SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2016 Como dito, embora o município de Alfenas possua um caráter relativamente “urbano”, existe uma clara demarcação fronteiriça com seus espaços rurais, que pode ser discutida de forma mais profunda a partir dos relatos de alguns foliões. Muitas das comunidades rurais do município ainda guardam traços dos bairros rurais descritos por autores na década de 1960: a capela como elemento fundamental das comunidades, uma relativa autonomia econômica das famílias, o sentimento de solidariedade e a dispersão geográfica das casas são alguns aspectos que caracterizam estas comunidades. Quando comecei a visitar os bairros rurais do município para familiarização com o campo de trabalho, acreditava que a maior parte dos foliões de reis e de outros trabalhos religiosos do catolicismo popular estaria neles. No entanto, conforme decorrente da atuação de forças assimétricas e da predominância de determinados modos de vida e sistemas culturais sobre outros. De outro, a capacidade de recusa ou negociação dos representantes das manifestações tradicionais com os agentes deste processo, incorporando ou não os modelos dos novos sistemas culturais. 74 Alguns autores defendem que uma divisão entre “catolicismo popular urbano” e “catolicismo popular rural” somente se concretizou de forma mais demarcada depois da chegada da família real portuguesa em 1808. Antes disso, as práticas culturais e religiosas integravam um todo mais ou menos homogêneo, sem uma distinção muito clara de classe e de origem de seus praticantes. Maria Isaura PEREIRA DE QUEIROZ (1968: 107), por exemplo, observou que “durante o período colonial, a civilização brasileira tradicional era uma só, tanto na zona rural quanto nas cidades. Práticas religiosas como a Dança de São Gonçalo eram realizadas nas igrejas de Salvador e de Recife. A transmigração da Família Real Portuguesa em 1808, a modernização urbana decorrente de sua instalação no Rio de Janeiro impeliu pela primeira vez a civilização rústica para o interior; o processo de modernização progredindo cada vez mais, foi ela aos poucos sendo expulsa das cidades maiores, em seguida das pequenas capitais provincianas, para finalmente se refugiar nos vilarejos e povoados”. Outro autor que cita este movimento é Ivan VILELA (2013: 42-44), para quem o processo de romanização foi crucial para que as práticas religiosas do catolicismo popular fossem, aos poucos, sendo impelidas para o interior: “[...] inúmeras manifestações que consideramos tipicamente rurais desde seu surgimento tiveram sua origem nos centros urbanos da colônia, como é o caso da Dança de São Gonçalo, da Folia de Reis e da Folia do Divino, que sempre se fizeram acompanhar da viola. [...] À medida que deliberações de algumas das inúmeras romanizações chegavam ao Brasil, muitos ritos católicos, que aqui iam ganhando forma própria, eram banidos das principais igrejas, mas resistiam mesmo afastados do poder religioso central. Esse ‘catolicismo popular’ carreou ritos como as folias, as danças e as congadas para fora dos centros urbanos”. Segundo estas interpretações, muitas manifestações culturais que hoje acreditamos ter origens rurais possuem, na verdade, origens citadinas. 343 minha rede de contatos se ampliava, fui percebendo que uma parcela considerável (talvez a maioria) dos representantes da cultura tradicional, na verdade, reside na cidade, embora eles estejam em constante contato com estas comunidades rurais devido aos fortes laços que todos possuem com os modos de vida e de sociabilidade das zonas rurais do município e da região. Casas geograficamente dispersas na comunidade rural dos Bárbaras. No caso das companhias de reis, o trânsito de algumas delas entre a roça e a cidade se mostra tão intenso que se torna praticamente impossível rotulá-las como sendo propriamente urbanas ou rurais. Com exceção daquelas que fazem sua jornada exclusivamente pelas roças e podem ser classificadas como rurais, para a grande maioria delas esta afirmação categórica se mostra inviável de se fazer. É neste sentido que a drástica diminuição na quantidade de grupos nos últimos anos não pode ser associada exclusivamente às dicotomias entre rural e urbano, roça e cidade etc. A noção de “resistência cultural”, embora fluída e imprecisa para se referir à prática religiosa dos foliões, talvez possa ser considerada no sentido de existirem posturas excludentes que ocorrem em alguns pontos do município, a fim de contrapor as diferentes realidades sociais e conhecer melhor o contexto onde se deu a pesquisa. Assim, as posturas ideológicas que demarcam de forma mais acentuada os diferentes universos de atuação dos foliões também devem ser descritas, pois, assim como existe uma clara demarcação territorial entre roça e cidade para os foliões, ela também existe para os demais moradores da cidade. 344 Esta forte demarcação territorial é responsável, entre outras coisas, por fazer com que algumas companhias optem por realizar toda sua jornada ou grande parte dela somente em um destes espaços. A Companhia da União, por exemplo, é uma das companhias que faz sua jornada exclusivamente pelas comunidades rurais, enquanto que a Companhia Nossa Senhora de Fátima, motivada por outros fatores, faz a maior parte de sua jornada dentro da cidade. Existem algumas diferenças entre fazer a jornada pela roça e pela cidade, como a necessidade de um melhor preparo físico dos foliões para andar pelos bairros rurais, além das adversidades encontradas, que não são poucas: automóveis atolados na lama em caso de chuva, horários restritos para fazer a travessia da balsa, dificuldade de comunicação em caso de acidentes etc. Porque a palavra do homem eu acho que ela não pode ser quebrada. Eu acho que o homem tem que ter uma palavra. Se você falar uma palavra pra mim: “Olha, vem aqui na minha casa tal dia que o almoço é teu”. Mas pode acontecer um imprevisto, como já aconteceu comigo, de uma janta tá marcada. Olha onde que eu tava. Eu tava lá perto de Alterosa, em Santa Cruz das Sete Facadas. Nós entramos cantando numa janta lá em Alterosa e a janta era oito horas da noite. E nós fomos pra lá rapaz, e caiu um pé d’água sete e meia da noite. Eu tava num Opala e numa Caravan. Caiu um pé d’água, rapaz do céu. Eu falei: “Meu Deus do céu, e agora?” E esses carros atolaram no caminho e não iam. E as horas passavam. Eu falei: “Meu Deus do céu, nove e meia”. E os carros não tavam saindo. Nós descemos todo mundo e fomos empurrando os carros. Eram dez horas quando conseguimos soltar um carro e dez e meia quando a gente conseguiu soltar o outro. Olhava daqui pra baixo era só barro e lama. Tava todo mundo tudo cheio de barro. Aí pegamos a estrada e chegamos lá na janta. Chegamos lá na janta a mulher tava tão preocupada com a gente que aquela multidão que tava lá já tava repartindo a comida. Nós chegamos ela falou: “Nossa, pensei que vocês não vinham mais”. Eu falei: “Senhora, vou falar uma coisa pra senhora: O que aconteceu com a gente eu não queria que acontecesse não. Olha pra senhora ver: choveu, o carro atolou e o telefone não pegava. Olha o jeito que nós estamos. Mas nós viemos cumprir nossa obrigação”. A mulher foi tão compreendida com a gente que ela falou: “Olha gente, vamos fazer o seguinte: canta e se vocês quiserem tomar banho vocês tomam. A casa é de vocês. E podem posar aqui, vocês não vão embora hoje”. GASPAR RIBEIRO “KEKA”, 2015 Apesar das adversidades, existe um fator motivacional para que as companhias façam parte dos seus giros ou toda sua jornada nas roças, que diz respeito ao aumento no número de evangélicos e ao maior ceticismo religioso existente na cidade, algo que tem contribuído nos últimos anos para que algumas famílias deixassem de receber as companhias em suas casas, tendo em vista que este acolhimento geralmente é feito pelos católicos. Como relatou o folião Cantarelli, “na cidade você encontra mais de outra religião do que na roça. Na roça o povo ainda tá firme com a religião católica”. Ou seja, apesar das adversidades, alguns foliões dizem que o esforço pode ser compensador por se cantar em um número maior de casas, devido à forte presença do catolicismo nos bairros rurais, já que outras denominações religiosas ainda 345 não se difundiram de forma expressiva nestas áreas. Alguns foliões também argumentam que a recepção nas comunidades rurais tende a ser mais calorosa e “sem muita frescura”, diferente do que acontece em algumas casas na cidade. Na roça você não pula uma casa. Nós fomos pras roças esses dias pra trás, pergunta pra ele ali. Pra gente vir embora deu o que fazer pro povo largar a gente e deixar vir embora. Não deixava a gente vir. Uma casa aqui, outra ali, o povo esperando aqui e já tinha nego esperando. Se você pulasse uma casa eles vinham atrás de você. Aqui na cidade eles correm de você. Lá na roça eles correm atrás de você. Lá na roça não tem casa. Pergunta pra eles aqui como é que é lá na roça. Canta muito. Anda muito, mas canta demais. Nós fomos ali no município de Campos Gerais pra Campo do Meio, naquele miolo ali. É mais município de Campos Gerais do que de Campo do Meio, mas na hora de vir embora a gente sai lá por Campo do Meio. Naquelas roças ali eu vou te falar pra você. Canta demais. Pergunta pra ele aí o tanto que a gente cantou. Horário de ir dormir lá é duas horas da madrugada. A gente jantava meia- noite, uma hora e fechava no forró. Ia até duas horas da manhã. Seis horas a gente tava rodando, cantando de novo. Aqui na cidade pra você sair dez, onze horas da manhã dá o que fazer. Deu sete, oito horas da noite já tem que parar. [...] E pra começar, na cidade eles falam: “Ah, não vai cantar aqui não que você vai sujar minha casa de barro”. Você chega lá na roça a casa tá encerada, aquele piso brilhando e você tem que entrar com barro e tudo pra dentro. Eles não deixam você nem tirar o sapato pra fora. Aqui na cidade eu não vou falar que são todas casas, porque tem muita casa boa, mas tem casa aqui que nossa. Com chuva você não canta. Só se for do lado de fora. Você não entra pra dentro. É orgulho. Eu acho que isso aí é orgulho. E eu não posso falar, porque na minha época não tinha isso. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 Uma última questão sobre as diferenças entre o giro feito dentro da cidade e nas roças diz respeito aos gastos com combustível quando o trajeto é feito com veículos dos próprios foliões, já que muitos bairros rurais ficam relativamente distantes. Se na cidade é possível atender um grande número de casas próximas umas das outras sem que seja necessário um longo deslocamento, nas roças é preciso andar alguns quilômetros para se chegar às casas dos devotos, principalmente se as balsas que atravessam a represa não estiverem funcionando. As coisas feitas pela fé nada segura. Se você tem fé, é igual você tá no teu trabalho. Se você tem fé você corta estrada e vai pra todo lado e pronto. Agora, se você não tem fé, você tem medo até de entrar no teu carro e caminhar. Agora, na frente dos três reis santos, a gente enfrenta chuva. Às vezes não come. Às vezes não arruma pouso. Então a gente passa uns momentos meio difícil, mas não deixa de levar a mensagem pro povo. Sempre a gente tá ali. Nós já passamos pela Serrinha, Barranco Alto, Areado, Alterosa, Divisa Nova, Paraguaçu, Cavaco, Conceição da Aparecida. Então nós já andamos por vários lugares, mas quando nós andamos na época era tudo através da condução minha e do meu genro. Então nós conhecemos esses trajetos tudo através dos nossos carros. [...] Como é que você vai deslocar daqui pra frente de Monte Belo dezoito quilômetros? Ir lá pra você almoçar e voltar. Você vai ter gasto. Então as pessoas tem que entender que nós não vamos tanto pelo gasto. Nós vamos pela fé. GASPAR RIBEIRO “KEKA”, 2015 346 16.1.1. O centro e a periferia Uma vez demarcados os espaços do município e antes de relacioná-los com a questão da diminuição no número de companhias na região, se mostra importante tratarmos de outra polarização, baseada na forma como os foliões percebem a recepção de suas atividades pelos moradores da cidade. Esta recepção (ou a percepção que os foliões têm dela), além de revelar a forma como as companhias se comportam nos espaços da cidade e como os foliões veem a si mesmos no contexto de sociabilidade da jornada, também demonstra uma sutil consciência sobre a divisão entre centro e periferia, sendo que uma das questões importantes a se discutir é a aceitação de suas atividades religiosas especificamente dentro da cidade. A divisão do espaço urbano entre centro e periferia pode ser percebida tanto nas atividades das duplas caipiras quanto na jornada das companhias. Mas especificamente no caso dos foliões, a cidade parece ficar mais claramente dividida no que diz respeito aos espaços destinados às práticas religiosas, uma divisão bem acentuada que, muitas vezes, reflete a tensa e conflituosa relação entre foliões, moradores, comerciantes e poder público. Antigamente a gente ia até lá na praça, lá no centro da praça, e tinha que apresentar naquele coreto lá. Hoje não vamos mais. As companhias de reis são proibidas de subir lá pra cima. É igualzinho carroça, não pode andar lá no centro mais. Mudou. Só pros fundos agora. É porque eles acham que a gente tá atrapalhando. Se nós vamos lá pra cima eles mandam afastar a gente pra baixo. E a religião, como é que fica? Então o que é que a igreja tá fazendo lá em cima? DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 Outra questão que reflete esta tensa e conflituosa relação de algumas companhias com a administração municipal, diz respeito aos espaços destinados às companhias quando estas são convidadas para alguns eventos da prefeitura, além de situações que envolvem os almoços e jantares oferecidos aos foliões. Segundo o capitão Vino, a oferta de refeições pelos devotos também aparece atrelada à questão dos espaços físicos da cidade, já que, segundo ele, em alguns casos é proibido oferecer um almoço ou jantar aos foliões no centro da cidade: Vai na prefeitura e fala que você vai fazer comida pro folclore da cidade. O prefeito não aceitou a turma comer lá em cima. O prefeito não aceitou lá em cima e disse: “Não pode não. Só se for no trem de louco ali perto do sacolão”. Só tem perturbado lá. A gente teve que comer lá no meio dos perturbado. Eu acho isso errado. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 347 Além da administração municipal, alguns comerciantes também são mencionados como responsáveis pelo impedimento das companhias transitarem pelas regiões centrais da cidade, sendo o incômodo dos lojistas e até mesmo dos moradores e transeuntes um elemento inibidor para a presença dos foliões nestes espaços físicos. Antigamente a gente cantava lá na conchinha da praça. A gente saía lá da praça. Hoje não pode entrar nem lá no centro mais. Atrapalha o movimento lá em cima. Atrapalha os comércios. Aqui da cidade não tem ninguém cantando lá na praça. Vai lá pra você ver. Só se for de fora, porque daqui não é não. Porque daqui nem lá na praça não vai mais. E não é só que o prefeito não deixa, é que o povo lá é uma ignorância. Antigamente fechava a praça de gente pra ver nóis. Hoje se você for lá o povo que tiver sentado vai embora. Fica só você lá na concha. Os donos dali, daquelas lojas e dos comércios acham que tá atrapalhando. E é uma coisa rapidinha. JOSÉ AILTON DE PAULA, 2015 Durante todo trabalho de campo não presenciei nenhuma companhia no centro da cidade ou próxima à praça da matriz, pois os giros que acompanhei foram todos realizados em bairros periféricos e pelas comunidades rurais. No entanto, alguns foliões me disseram que até chegaram a cantar nas regiões centrais, mas apenas para apresentar aos comerciantes que são devotos os uniformes doados, ou seja, aos patrocinadores. Segundo alguns foliões, quando a companhia ganha um jogo de uniforme ela deve vestí-lo e apresentá-lo a quem fez a doação no primeiro dia de uso, e como alguns doadores são comerciantes, os foliões ficam obrigados a visitar o doador para agradecer. Em 2015, por exemplo, o capitão Keka me disse que cantou “lá no presépio da praça, na farmácia do Bento e dentro do mercadão. Eu todo ano o meu giro que eu faço é esse por causa das camisas que ele me dá, então tem de ir lá apresentar pra ele. Cantamos na farmácia, no mercadão, no presépio da praça e saímos na Rua João Paulino”. A partir dos relatos, parece ter ficado claro a existência de uma demarcação territorial bastante acentuada na cidade quando o assunto são os lugares nos quais as companhias podem ou não cantar. Quando chega o período da jornada, tanto a mentalidade dos foliões quanto dos moradores, comerciantes e gestores municipais, dividem os espaços físicos da cidade entre aqueles onde são permitidos aos foliões transitarem e aqueles onde o trânsito é restrito ou até mesmo proibido. A ideia de um incômodo que tira os moradores e lojistas de suas ordinárias vivências cotidianas ou de uma perturbação que tira a cidade de seu fluxo habitual, parece já fazer parte da concepção dos foliões quando estes relatam suas experiências com as cantorias nas diferentes áreas urbanas. Uma perturbação da paz e da tranquilidade das áreas residenciais e comerciais que, na realidade, não existe. 348 16.2. A diminuição no número de companhias Quando saía companhia antigamente saía umas trinta companhias ou mais. Daí pra mais. Agora tem em torno de umas oito, por aí. Porque vai acabando. Antigamente você pegava um bairro desse aqui ó, em uma semana você não fazia esse bairro aqui. Hoje você não gasta um dia pra fazer ele. A cidade nossa aqui olha, companhia de reis aqui não fazia com doze dias. Hoje você faz com três, quatro dias. Porque mudou a religião. [...] Antigamente não, você pegava uma rua dessa aqui e pra você chegar lá embaixo você chegava só de tarde. Hoje você não gasta cinco minutos pra fazer ela. Mudou tudo. Agora acabou e tá acabando cada vez mais. Só tem oito companhias e não tem mais aquelas festas bonitas que tinha lá no bairro dos Santos Reis, com palco, palanque, tudo onde ia as companhias. Cadê? Acabou. Não tem mais ué. Os troféus, os prêmios. Não tem mais. As companhias chegam lá e tem umas que nem na igreja não vai. A nossa sai da igreja e chega na igreja. E as outras companhias nem lá não vão. [...] Tinha um palco pra fazer a doação, dava bezerro. Hoje não dá nada. Hoje mudou. Acabou tudo. Você vê que os folião de antigamente pra hoje mudou muita coisa. Não tem nem cabimento. Se eu fosse falar pra você desses quarenta anos de jornada que eu tô aí. Vai chegar um ponto daqui uns dias que a gente não canta mais aqui em Alfenas. As casas que o povo gostava muito: “Ah, morreu meu parente”. E não pega nem a bandeira. Eu acho que não tem nada a ver uma coisa com a outra. O dia que meu irmão morreu, que ele era folião, nós cantamos lá dentro do velório pra ele. Quem gosta até depois de morto gosta. Hoje eu não tô entendendo o povo. A religião mudou, né! DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 Antes de discutirmos algumas das contradições que surgem a partir da comparação dos relatos de alguns foliões, é preciso reconhecer que a diminuição na quantidade de companhias no município e na região é algo real e que, de fato, preocupa os foliões mais velhos. Ou seja, muito antes de ser uma apologia a um discurso apocalíptico de base folclorista, que tem como pressuposto o fim da tradição e que direciona as culturas populares para um passado distante, como se não existissem no presente com formas próprias de atualização e permanência, existe nos relatos de alguns foliões, além de dados numéricos e estatísticos concretos, uma evidente preocupação com o fim da tradição de reis na região. Só de capitão de reis que eu lembro que morreu tem o Zé Pererinha, Sebastião Feliciano, Geraldo Bartolino, Acácio Marcolino, Netinho Ramos, Seu Noel, Pedro Joana, Joaquim Joana, João Cacheado, Zé Cacheado, Libertino, Zé Ananias, Zé do Nhô, Zico Prudêncio, Antônio Prudêncio, Jorge Lourenço. Cada um comandava uma companhia diferente. Só aqui já tá dando o dobro de companhia que tem hoje. Isso só da cidade, não contando as das roças. Lá nos Bárbaras tinha o Manuel Macego, o Dimisciano. Antigamente tinha tantas companhias de reis na roça que não tinha nem jeito de contar. Tinha nos Bárbara. Nos Viana tinha três e agora só tem uma. Nos Rocha tinha um punhado e agora não tem mais nada. No Matão tinha umas três ou mais. No Mandassaia tinha. Em Paraguaçu. Tinha muita companhia de reis, mas do povo mais antigo acabaram quase tudo. Eu fico bobo de ver que antigamente na cidade era festa de São Sebastião em janeiro. As alvoradas de manhã cedo, quatro e meia, cinco horas da manhã, batia o sino com a orquestra que era a coisa mais linda do mundo. Acabou tudo. Hoje acabou o congo, o caiapó, a companhia do Divino Espírito Santo. Acabou tudo. VALTER DOS REIS, 2016 349 Ainda que segundo a interpretação de alguns foliões o fim da tradição de reis seja uma tragédia anunciada, sua possível extinção certamente decorreria de fatores multicausais, e não apenas da extinção dos bairros rurais e de outras formas de agrupamentos sociais tradicionais, como sugerem alguns autores. Isso parece ser bastante claro quando constatamos que muitas manifestações tradicionais ainda sobrevivem em cidades urbanizadas e até mesmo em grandes metrópoles. Neste sentido, talvez o importante seja chamar atenção para algumas contradições desta abordagem apocalíptica nos relatos de alguns foliões, como, por exemplo, quando se referem à quantidade de devotos que aguardam os foliões passarem em suas casas, pois, se a diminuição de companhias é algo incontestável, em alguns relatos ela não vem acompanhada de uma diminuição no número de devotos, pelo menos não na mesma proporção. Se você tem um almoço pra dar, então você vai avisar porque aqui tem várias companhias. Portanto você pode perguntar sobre isso. Porque vai ficar comida pra trás, porque não tem como você pegar. Você vê, eu tô com a agenda cheia. Inclusive nós vamos ter um café aqui, um almoço e uma janta. Então às vezes a gente pega pela pessoa que tá com aquela promessa, que ela fica com aquele peso ali: “E se eu não pagar essa promessa?”. Então vem atrás da companhia minha e às vezes não tem como. Vai na outra e a outra tem. Então quando sobra vaga a pessoa já tá querendo. A minha companhia já começa a pegar nesse ano almoço pro ano que vem. Esse almoço de hoje já tá marcado de novo pro ano que vem. Então as minhas vagas tão tudo assim. Não tá tendo. Tem pouca companhia pra muita promessa pra pagar. GASPAR RIBEIRO “KEKA”, 2015 Ao mesmo tempo que a diminuição no número de companhias nos últimos anos revela uma incapacidade de atender as casas dos devotos que continuam firmes em suas crenças, ela também revela a desproporcionalidade entre a diminuição na quantidade de companhias e de devotos. Esta seria uma aparente contradição do campo em estudo, pois, enquanto o capitão Vino me diz que a jornada vai acabar porque antigamente as companhias levavam uma tarde toda para cantar em uma rua onde “hoje você não gasta cinco minutos”, o embaixador Keka argumenta que está com a agenda tão cheia que “vai ficar comida pra trás”. Tem lugar que nós não fomos ainda. Se não ir depois quando a gente se encontrar por acaso eles falam: “Esse ano vocês não passaram lá na minha casa. A gente esperou. Esse ano você não pediu comida lá em casa. Nós esperamos vocês”. Hoje mesmo a tarde nós vamos passar numa casa que a primeira coisa que ele vai falar é: “Mas porque que você não veio pedir comida aqui em casa? Tava esperando pra dar comida”. Lá no Japão. Vou ter que falar: “Não Sr. Antônio, eu tinha muita promessa pra cumprir. Nesse ano tive que pular sua casa”. Vou ter que sair dele assim. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 350 Embora esses relatos se refiram a duas situações bastante distintas da jornada (as casas onde as companhias param rapidamente para cantar e aquelas onde são oferecidos os almoços e jantares), eles não deixam de revelar algumas contradições. Se de um lado existem relatos que evidenciam uma redução no número de devotos que recebem os foliões em suas casas de forma passageira, de outro, há aqueles que demonstram certa vitalidade da tradição na cidade, fazendo com que muitas vezes os foliões tenham que recusar ofertas de almoços e jantares. Outra contradição aparece no argumento de que a tradição pode desaparecer devido à adoção de novas religiões pelos moradores que antigamente eram católicos. Alguns autores chegaram a afirmar que a modernização e a urbanização das cidades provocaria uma maior racionalização da sociedade, relegando as práticas do catolicismo popular até sua extinção. A ideia central desse argumento aparece no relato do embaixador Vino, quando me disse que “a religião mudou”. São relatos que sugerem que a diminuição na quantidade de companhias na região está relacionada à conversão dos antigos devotos a outras denominações religiosas. Na cidade você encontra mais de outra religião do que na roça. Na roça o povo ainda tá firme com a religião católica. [...] Tudo que você faz em riba da Terra existe uma palavra que mata tudo: interpretação. Se vem descendo um grupo ali batendo uma coisa eu posso interpretar ele de vários jeitos. Assim também eu acho que é a religião e a palavra de Deus. Se você ler a palavra de Deus, conforme o jeito que você interpreta você segue de um jeito. Eu acho que na minha cabeça o sentido de existir várias igrejas eu acho que é nesse sentido, de interpretar a Bíblia. Um interpreta de um jeito e abre uma igreja e põe uma lei: “Aqui não pode beber e não pode fumar”. É a lei da igreja. A nossa católica tem também o nosso regulamento. As outras igrejas têm uns que sai também falando que tá errado a católica, que você tem que vim pra essa que essa é a salvação. Agora, nós não vamo na casa de nenhum de outra igreja pra falar pra voltar pra nossa. Eles já foram nosso, que são poucos os que nascem nessas igrejas novas. Várias pessoas já foram da católica e mudaram. Mas de hora nenhuma nós chegamos com a bandeira pra falar: “Não, você fez errado de ter mudado. Volta de novo pra católica”. Agora eles querem tirar a gente da católica pra seguir a interpretação deles. OSMAIR LEAL DOS REIS “CANTARELLI”, 2016 Antigamente em um dia a gente não fazia um bairro ou uma avenida. Esse bairro da Vista Grande mesmo. Se a gente entrasse hoje nele, até depois de amanhã a gente tava cantando aqui ainda. Hoje a população tá acabando. [...] Antigamente o povo era mais religioso. Hoje você vê que as igrejas espalharam. Aqui na rua de cima mesmo você pode ver que tem uma igreja Assembléia. No bairro onde que eu moro tem várias igrejas. Então o povo hoje tá se confundino. Tá misturando uma religião na outra. Então tá despertando pouco do conhecimento da palavra dos três reis. GASPAR RIBEIRO “KEKA”, 2016 A contradição, neste caso, surge quando comparamos estes relatos com aqueles em que a transferência dos hábitos religiosos católicos para os de outras denominações religiosas não parece ser determinante para o fim da tradição. Se uma mudança de orientação religiosa 351 não implica necessariamente um abandono da prática de receber as companhias, como sugere alguns relatos, então a diminuição de católicos no município, ainda que seja verdadeira, muito pouco ou nada tem a ver com o fato de muitos moradores deixarem de receber os foliões em suas casas. Ou seja, apesar desta mudança de orientação religiosa, em parte decorrente da disseminação do espiritismo e da proliferação de igrejas evangélicas no município, existem casos de famílias não católicas que recebem as companhias apenas por educação. Essa atitude está associada à ideia de que os foliões podem ser recebidos apenas por tradição, mas não por religião, pois ainda que o dono da casa tenha uma orientação religiosa distinta, ao receber os foliões ele estaria ajudando a perpetuar a tradição de reis na cidade. Eu conheço uns crentes lá na roça que nós fomos lá: “Nós somos crentes, nós não cantamos aqui. Mas se vocês quiserem entrar e tomar um café”. Quer dizer que eles não estão desfazendo da gente. Entendeu? Eles dão até café pra gente. Agora tem lugar que você aponta lá e eles batem até a porta. A gente aponta lá e eles fecham a porta, fecham a janela. Eu acho isso errado. DIVINO VITÓRIO DOS SANTOS “VINO”, 2015 E lá em casa é assim: eu sou católico e minha mulher é evangélica. Os crentes vão lá e eu compro quitanda, faço um café, trato deles e eles fazem as orações deles lá. A minha família também ajunta a minha turma. Vão lá e rezam o terço na minha casa. Nós não temos críticas um com o outro. Ela é evangélica, eu sou católico e nós nos amamos há cinquenta e três anos. HÉLIO ALVES DE LIMA, 2017 De certa forma, a perpetuação das companhias depende das pessoas que todos os anos as recebem em suas casas, seja para pagar suas promessas ou para manter viva a tradição. Já vimos que os moradores podem se relacionar com as companhias recebendo seus foliões por religião, quando precisam quitar alguma dívida com o santo, ou por tradição, quando não há dívida a ser paga. No segundo caso, nem é preciso que o anfitrião seja devoto. Ainda assim, muitos se queixam da diminuição no número de pessoas que recebem as companhias em suas casas, motivo pelo qual existem pedidos para que os moradores que não quiserem receber os foliões por religião, que os recebam apenas para que possam manter suas tradições religiosas. Nós temos uma folia de reis aqui já há muitos anos que vem de uma tradição dos nossos avós e vem passando de geração pra geração. Estamos batalhando até a data de hoje e se Deus quiser nós vamos continuar. Ver se conseguimos incentivar essa molecada porque a molecada num tá querendo mais não, tão achando meio estranho. [...] A companhia de reis é uma tradição muito antiga. Isso vem desde o começo do mundo, da época que os reis magos visitaram Jesus. Inclusive, a dupla Chitãozinho & Xororó e a Fafá de Belém pediram na televisão pra quem não receber por religião pra receber pelo menos por tradição. Muita gente não tá gostando de receber. MIGUEL GERALDO, 2015 352 Além da postura dos devotos em relação às companhias, existe também a ideia de que os foliões podem fazer uma jornada por religião ou por tradição, havendo situações distintas que definem o contexto no qual as jornadas são realizadas. Quando uma companhia sai por religião, a jornada tem o propósito de alcançar uma graça ou pagar uma promessa do devoto, podendo ser do próprio folião da companhia. Este foi o caso da devota Sirlene, que solicitou à Companhia Santa Bárbara que fizesse sua jornada para alcançar um milagre em favor de seu sobrinho. Mas se a companhia sai por tradição, o objetivo da jornada é apenas manter viva a tradição, já que não há nenhuma graça a ser alcançada e nenhuma promessa a ser paga. É muito difícil acontecer porque sempre tem alguma promessa. Mas normalmente quando não tem alguém, pra não parar a turma a gente sai por tradição. Porque se não tem uma promessa um vai pra outra companhia e vai dispersando os companheiros. Então pra segurar os companheiros juntos, que já tá muito junto, aí a gente sai por tradição, entrega na igreja e faz qualquer coisa desse tipo. SEBASTIÃO ANTÔNIO DOS SANTOS, 2018 Porque nós saímos assim, por exemplo, quando tem alguém que tem uma promessa de sair com a companhia, eles vêm atrás da gente e nós vamos sair pra cumprir a promessa deles. Quando não tem a gente sai por tradição. Mas parar não para, de um jeito ou outro a gente sai. Se ficar um ano sem sair acabou. Aí não sai mais. JOSÉ AILTON DE PAULA, 2015 Um dado importante seria saber a porcentagem das jornadas feitas por religião e por tradição durante o período de trabalho de campo, já que existem motivações distintas entre estas práticas. Infelizmente não foi possível obter esses dados, que poderiam ser relacionados com a diminuição na quantidade de companhias na cidade e esboçar uma projeção no que diz respeito à perpetuação da tradição de reis em um futuro próximo. Mas o que ficou claro foi a demanda de mais companhias por parte daqueles devotos que, tendo contraído dívidas com o santo, precisam pagar suas promessas oferecendo um almoço ou um jantar aos foliões. Ainda que existam relatos que interpretem as mudanças do tempo e as transformações sociais com uma visão apocalíptica, associando o fim das jornadas à disseminação de novas formas de lazer e de entrenimento, ao desapego dos mais jovens pelas culturas tradicionais, à crescente diminuição no número de companhias e à propagação de denominações religiosas que vão de encontro às práticas do catolicismo popular, segundo os foliões mais otimistas, a tradição de reis ainda deverá perdurar por um longo tempo no município e na região. 353 Considerações finais Como espero ter demonstrado, o trabalho religioso dos foliões se vê marcado por uma dualidade que, embora natural das relações sociais, assume uma dimensão singular durante as jornadas. As tensões e os conflitos sociais existentes entre foliões, devotos, moradores e poder público, parecem surgir para que o caráter solidário e altruísta desta atividade devocional seja manifesto circundado de uma áurea sagrada, ainda que em um campo dinâmico, heterogêneo, contraditório e disputado. No decorrer das jornadas pudemos observar esta característica, por exemplo, quando o sistema de trocas e de reciprocidade, tão acentuado nos estudos sobre esta atividade religiosa, é potencializado através de uma “doação”. É isto que acontece quando os foliões deixam nas casas dos devotos que estão passando por alguma necessidade financeira os mantimentos recebidos dos moradores mais abastados, sem receber deles nenhuma oferta material ou ajutório para a festa de chegada. Nestes casos, a “doação” é dupla, pois além dos mantimentos também são deixadas as bênçãos do santo, tanto na forma de versos cantados quanto através da bandeira que é levada para os cômodos da casa do devoto. A própria noção de macarrão vermelho articula esta dualidade, do caráter conflituoso da jornada com sua dimensão solidária, pois, ao mesmo tempo em que muitos foliões sofrem algum tipo de preconceito por parte dos moradores não devotos a partir desta noção, é ela que simboliza a dimensão coletiva e a gratuidade dos almoços e jantares que são oferecidos aos foliões e a todas as pessoas que comparecem às chegadas, sejam elas devotas ou não. Se para aqueles que desconhecem ou não compreendem o propósito fraternal da atividade religiosa os macarrões vermelhos são os próprios foliões, para os devotos que recebem as companhias em suas casas os macarrões vermelhos são as pessoas que vão até os almoços e jantares para se alimentarem gratuitamente com suas famílias, muitas vezes por estarem passando por alguma dificuldade financeira. Esta dupla e complementar dimensão da noção de macarrão vermelho revela a dinamicidade e a capacidade de ajustamento social da jornada quando se coloca em questão um dos propósitos fundamentais desta atividade sagrada: a cooperação fraternal. Vimos também que as relações de parentesco possuem um papel crucial nas jornadas, tanto para a constituição musical dos hinos de reis, fundada na ideia de casamento de vozes ou de cordão vocal, quanto para a perpetuação de uma tradição que evidencia ter sua origem em laços exclusivamente familiares. Neste sentido, a cooperação fraternal entre foliões, devotos e comunidade, mencionada anteriormente, pode ser interpretada como uma extensão da rede de sociabilidade e de comprometimento familiares, onde um estranho e desconhecido passa a ser 354 visto literalmente como um irmão pelos foliões e devotos. O que a convivência de campo nos demonstrou é a existência de uma extensa rede de solidariedade e colaboração que, ainda que em um estágio embrionário, transcende em muito as relações mais ordinárias da coexistência humana, se aproximando assim das relações familiares e de ordem fraternal. Quando nos voltamos para a estrutura musical dos hinos de reis, podemos novamente enxergar o caráter coletivo e colaborativo das companhias e sua importância na sobreposição de vozes dos cantadores. E aqui surgem novas e aparentes contradições, pois, ainda que a função de cada cantador seja crucial no responsório para uma plena consolidação do canto e, consequentemente, para acesso aos seus propósitos sagrados, este aspecto musical mostrou ser subserviente a uma coletividade ainda maior de devotos que, ao mesmo tempo que integra os foliões, condiciona suas práticas musicais para a rede de promessas que as companhias devem atender. Assim, no que se refere à execução dos hinos de reis e dos cantos de agradecimento com suas estruturas musicais plenas, se mostrou clara a existência de uma articulação entre o que é imprescindível segundo a tradição (no mínimo cinco vozes, três bastiões e determinados instrumentos musicais) e o que está disponível aos foliões (às vezes três cantadores, um único bastião e escassos instrumentos musicais), dando lugar ao que se torna apenas possível de ser realizado. Neste sentido, existe uma preeminência das visitas e do compromisso em pagar as promessas dos devotos que, muitas vezes, coloca a estrutura musical em segundo plano. * * * Ao mesmo tempo em que estas considerações buscam sintetizar o que foi vivenciado na experiência etnográfica e lançar eventualmente alguma conclusão sobre as relações sociais dos sujeitos e sobre o campo de pesquisa como um todo, elas também refletem uma profunda transformação de meu olhar para as companhias de reis da região estudada desde que comecei este trabalho. Uma transformação gradual, porém constante, que teve a experiência de campo articulada com teorias sociais como o principal mecanismo responsável por sua consolidação. É neste sentido que tanto a síntese do que foi vivenciado quanto as conclusões a que cheguei apontam para a mesma direção que esta transformação de meu olhar. Quando comecei a esboçar o projeto para esta pesquisa eu havia formulado, no plano das hipóteses e sabe-se lá por qual motivo (talvez por influência de pressupostos folcloristas), uma ideia de que as tradições musicais da cultura popular, da qual as atividades religiosas de culto e adoração aos Santos Reis fazem parte, estavam em vias de extinção. Esta interpretação 355 cataclísmica das tradições populares sempre esteve presente em grande parte da literatura à qual tive acesso e, em certo sentido, na forma como dirigia meu olhar para estas tradições. Sempre navegando ao sabor destas interpretações (muitas vezes à deriva, é verdade), institui, como hipótese e logo no início da pesquisa, um discurso apocalíptico que vigorou pelo menos até o exame de qualificação, reproduzindo a máxima categórica dos folcloristas de que as tradições iriam acabar. E talvez acabem mesmo, mas da forma como a conhecemos, de modo que a ideia de fim passa a fazer mais sentido quando a substituímos pela de transformação. Como vimos, existem no decorrer deste trabalho algumas insinuações (minhas, mas realizadas a partir da experiência etnográfica) sobre uma força transformadora e regeneradora que move as companhias de reis para uma perpetuação e permanência em um futuro próximo dado como certo. O próprio mito de origem dos foliões se coloca como fonte motivadora para a manutenção da tradição de reis na região, onde toda uma forma específica de utilização dos símbolos e das representações simbólicas sustentam sua legitimidade atual e a necessidade de sua perpetuação, a partir de referências ao momento fundacional de sua criação e em relação à lógica na qual se encontram. Esta sina de manter viva e perpetuar a tradição, alicerçada na fé e na devoção que os foliões possuem nos Santos Reis, também pôde ser observada através de duas situações complementares: de um lado, no ímpeto que os foliões organizadores possuem em fazer com que suas companhias façam suas jornadas todos os anos, a ponto de irem buscar foliões nas cidades vizinhas ou pedirem foliões emprestados para outros grupos da região; de outro lado, vimos que quando se aproxima o período da jornada, muitos foliões renunciam ao trabalho assalariado, à estabilidade em seus empregos e às suas famílias para se dedicarem ao trabalho religioso. Até mesmo momentos de crises e conflitos nas relações se transformam em solidariedade quando a jornada se aproxima, evidenciando que o interesse coletivo em manter e perpetuar a tradição está acima das vontades e dos orgulhos individuais. No entanto, a maior evidência do quanto esta tradição ainda pode estar longe de acabar está no processo de ensino-aprendizagem dos jovens bastiõezinhos, atividade que os foliões mais velhos acompanham de perto e com muito entusiasmo. Apesar do receio de que as novas gerações não deem continuidade na tradição, o que presenciei foi uma vitalidade dos novos foliões e, na maioria dos casos, um interesse e comprometimento verdadeiros com a tradição de reis e com a perpetuação do ofício religioso desempenhado atualmente pelos seus pais, tios e avós. Neste processo, os devotos que recebem as companhias em suas casas possuem um papel importante, pois são os arcos de bambu, os presépios, as anunciações, as amarrações e outros elementos simbólicos do ritual preparados pelo dono da casa que asseguram um efetivo 356 contato dos mais novos com a prática ritualística da tradição de reis e, por conseguinte, com a improvisação e o princípio declamatório dos versos, fundamentais para que eles possam dar continuidade na tradição tendo como base a prática de seus antepassados. Aqui entra uma das chaves interpretativas destas considerações, de que, por mais que haja um esforço coletivo para manutenção da tradição, ela não será reproduzida pelas futuras gerações tal como fora apreendida. A própria transferência de parte da jornada e da sede de muitas companhias do campo para a cidade nos evidencia uma transformação em curso que, embora ainda esteja em seu estágio preambular, pode ser muito mais profunda do que somos capazes de perceber e projetar. Ainda que nos últimos anos os foliões tenham assistido a uma vertiginosa e inegável diminuição na quantidade de companhias na região e que muitos relatos sugiram uma relação deste processo com o papel desempenhado pelas comunidades rurais e por seus antigos moradores na vitalidade e manutenção da tradição de reis, ela não parece assombrar a grande maioria dos devotos, e isso por um motivo que me parece bastante claro. Existe entre a grande maioria dos foliões uma clara consciência acerca da capacidade de transformação e, mais que isso, de adaptação da tradição aos novos tempos. Neste sentido, a questão da continuidade e da resistência cultural associada aos processos de ressignificação e às transformações culturais se mostrou um tema recorrente em alguns relatos, como pôde ser exemplificado com o caso da companhia que virou duas, ainda que com menos foliões do que a companhia original, ou então de companhias que saíram com apenas três ou quatro vozes e apenas cinco ou seis integrantes (menos da metade do que dita a tradição), nos sugerindo que, ainda que um dia as companhias de reis se extingam por completo, ainda veremos grupos de apenas dois ou três cantadores cumprindo as promessas dos devotos. A vitalidade nas relações entre foliões e devotos pôde ser demonstrada pelo fato de haver muito mais devotos esperando que suas promessas sejam pagas do que companhias disponíveis para pagar essas promessas, fazendo com que os foliões nem sempre consigam atender a todos os pedidos para passar nas casas e com que algumas companhias tenham que recusar ofertas de almoço e jantar. É possível que dentro de alguns anos todos estes impasses e contradições da jornada das companhias estejam dentro de uma nova lógica e atendendo a novas demandas da classe de devotos, algo que já pode ser percebido por transformações que vêm ocorrendo no sistema estrutural da atividade religiosa. Os processos de industrialização, modernização e mundialização da cultura parecem já ter imprimido na mentalidade de muitos foliões a necessidade e importância de se adequar aos novos tempos, o que pôde ser percebido através do ajustamento social entre campo e cidade. A capacidade de preservar e perpetuar a 357 tradição de reis na região através das ressignificações culturais e, talvez até mais do que isso, das apropriações, expropriações e reapropriações contínuas de seus elementos simbólicos, parece permitir aos sujeitos uma constante atualização de suas práticas religiosas entre sua transitoriedade e sua permanência. E, neste sentido, muito antes de ser um aspecto negativo, tais mudanças são os elementos responsáveis por sua manutenção. Neste cenário de mudanças e transformações, o mais provável é que as atividades religiosas de culto e adoração aos Santos Reis nunca desapareçam por completo, mas que sejam reatualizadas em novos quadros estruturais e em novas lógicas sociais, de modo que, ainda que as jornadas religiosas deixem de existir tal como existem nos dias de hoje, estas certamente servirão de referência para as jornadas futuras. Este perpetuum mobile que hoje se apresenta tão evidente e que liga o passado, o presente e o futuro desta prática religiosa, pôde ser evidenciado a partir dos relatos de alguns devotos, como quando o folião José Ailton me disse que, “se um dia eu faltar, meu neto tá aqui pra me representar. É onde que não para”, ou então quando o folião Vitor Batista dos Santos me deu este belíssimo relato: A tradição não tem fim. Ainda vai diminuir muito, porque já diminuiu muita companhia. Mas acabar tudo não acaba. Vai diminuindo aqui, mas aumenta ali. Diminui aqui, aumenta ali. Morre um folião aqui, mas nasce outro folião ali. Muita gente morre, depois surge gente nova. Muitos não sabem muito bem como, e nem eu sei. Só sei que a gente vai tocando o barco. VITOR NOEL “BATISTINHA”, 2016 Em janeiro de 2016, no último dia de jornada e durante a festa realizada no bairro rural dos Bárbaras, me encontrei com o embaixador Tiãozinho, da Companhia Sagrado Coração de Jesus. Na ocasião, ele me falou da importância que a comunidade teve no seu processo de aprendizagem, das amizades cultivadas ali e do carinho que possui pelos moradores, motivo pelo qual estava prestigiando a chegada e a entrega da bandeira dos companheiros foliões. Ao final da nossa conversa, deixando transparecer toda sua convicção de que esta tradição nunca terá fim e já renovando suas energias para a jornada do próximo ano, ele me disse o seguinte: “E hoje, a convite do Bicudo e do Miguel, eu vim prestigiar essa entrega maravilhosa com o carinho que eu tenho por esse povo e por esse lugar. Então é isso, agora é festejar e descansar, porque se Deus quiser dia vinte e cinco de dezembro tá próximo, pra começar tudo outra vez”. 358 Referências bibliográficas AFONSO, Cátia Alexandra. Cristianismo e Mitraísmo na Roma Antiga (aspectos comparativos, sécs. I-IV). Mestrado em História e Cultura das Religiões; Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: Portugal, 2012. 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Da teoria ao trabalho de campo. Campinas: Editora Papirus, 1998. 365 GLOSSÁRIO Santos Reis ou três reis magos: Santidade do catolicismo popular baseada nos magos que visitaram o menino Jesus e o presentearam com ouro, incenso e mirra, conforme passagem descrita no evangelho de Mateus, que fundamenta a crença dos devotos nos Santos Reis; na cultura popular, deu origem às personagens de Gaspar, Baltazar e Belchior (ou Melchior). Devotos: Aqueles que têm suas crenças religiosas baseadas no cristianismo e acreditam nos Santos Reis como entidade sagrada e em Jesus Cristo como sendo o Filho de Deus. Companhia de reis ou folia de reis: Grupo de devotos dos Santos Reis que se reúnem todos os anos para anunciar o nascimento de Jesus Cristo e pagar as promessas de outros devotos. Jornada: Período da atividade religiosa de culto e adoração aos Santos Reis, iniciada no dia 25 de dezembro e findada no dia 06 de janeiro, quando é comemorado o dia dos Santos Reis. Retirada ou saída: Momento em que uma companhia de reis sai para fazer sua jornada. Giro ou itinerário: Trajetos que as companhias de reis fazem diariamente durante a jornada. Folião: Quem integra como instrumentista, cantador ou dançarino uma companhia de reis. Promesseiros: Aqueles devotos que oferecem uma refeição aos foliões durante o almoço ou jantar para pagar dívidas de milagres recebidos e de promessas contraídas com os Santos Reis. Chegadas: Momentos em que uma companhia de reis chega na casa de um devoto para pagar sua promessa aos Santos Reis, onde são oferecidos os almoços e os jantares aos foliões. Bastião: Aquele que, dentre os foliões, integra uma companhia de reis como dançarino; sua função também é a de declamar versos sobre o nascimento de Jesus Cristo nas chegadas. Bastiõezinhos: Crianças que participam de uma companhia de reis com certa neutralidade, ficando desobrigadas de cantar, tocar ou declamar versos durante a atividade religiosa. Embaixador, capitão ou mestre: Aquele que embaixa, que cria os versos de improviso e dá inicio à cantoria dos hinos de reis e dos cantos de agradecimento. Embaixar ou Trovar: Ato de elaborar versos de forma improvisada, que posteriormente serão repetidos em forma de responsório pelos demais foliões cantadores de uma companhia de reis. Canto responsorial: Canto estruturado de forma que um grupo de cantadores repete o que foi cantado primeiramente por um cantor solista, em uma espécie de imitação ou resposta. Destrovar: Criar versos inapropriados para determinada ocasião ou cantar versos diferentes daqueles que foram criados pelo embaixador. Hinos de reis: Canto de louvor e adoração aos Santos Reis, onde também são cantados versos para saudar, abençoar e cumprir as promessas dos devotos. 366 Canto em terças ou sextas: Canto homofônico a duas vozes com intervalos harmônicos de terças ou sextas diatônicas (maiores ou menores), realizadas de forma paralela uma à outra. Fazer a primeira: fazer a voz mais aguda de um canto em terças ou sextas paralelas. Fazer a segunda: fazer a voz mais grave de um canto em terças ou sextas paralelas. Respondedor: Folião cantador que substitui o embaixador após este ter embaixado os versos. Ajudante: Folião cantador que faz a primeira para o respondedor quando este está cantando. Contrato: Folião cantador que faz a primeira para o ajudante quando este está cantando. Fineiro: Folião cantador que faz a primeira para o contrato quando este está cantando. Contra-fino: Folião cantador que faz a primeira para o fineiro quando este está cantando. Tala: A voz mais aguda do hino de reis, cantada ao final de cada estrofe com uma única nota. Canto de agradecimento: Canto de despedida antes da companhia de reis deixar a casa de um devoto; tem o objetivo de agradecer ao devoto pela oferta dada para a festa da chegada. Anunciação: Versos declamados pelos bastiões narrando, geralmente de forma cronológica, os acontecimentos que envolvem o nascimento de Jesus Cristo: a anunciação feita pelo Anjo Gabriel a José e a Virgem Maria, a visita dos reis magos ao menino Jesus, a perseguição da família sagrada pelos soldados do rei Herodes, sua fuga para o Egito etc. Amarração: Enigmas elaborados com objetos e letras do alfabeto pelos devotos que recebem as companhias de reis em suas casas, para que os foliões e bastiões cantem e declamem a maior quantidade de versos possível; embora aparentemente não tenham significado, as letras dos enigmas fazem alusão ao significado de uma palavra inteira, podendo os enigmas também consistir em imagens e símbolos dotados de significados específicos dentro do ritual. Desamarrar: Decifrar os enigmas elaborados pelo dono da casa para que a companhia de reis possa seguir sua jornada até o presépio onde está o menino Jesus. Arcos: Demarcam a passagem de uma etapa do ritual à outra e geralmente são construídos de bambu ou de folhas de coqueiro; sob eles são feitas as amarrações para se declamar os versos. Abecedário ou letra do ABC: Um dos vários tipos de amarração, que consiste em declamar versos improvisados sobre a vida de Jesus Cristo para cada uma das letras do alfabeto. Festa de chegada e entrega da bandeira: Momento em que a companhia de reis, após doze dias de jornada, entrega a bandeira do santo em alguma casa ou igreja para findar a celebração do nascimento de Jesus Cristo, sempre com uma grande festa para todas as pessoas presentes. 367 APÊNDICE A – TRANSCRIÇÃO 368 369 370 APÊNDICE B – CONTEÚDO DO DVD Minutagem Nome da companhia Canto 00:00:00 Companhia Estrela do Oriente (Alfenas) Hino de Reis 00:05:07 Companhia dos Noel (Alfenas) Hino de Reis 00:09:32 Companhia Santa Bárbara (Alfenas) Anunciação / Hino 00:14:04 Companhia Nossa Senhora de Fátima (Alfenas) Hino de Reis 00:19:02 Companhia Sagrado Coração de Jesus (Fama) Agradecimento 00:21:53 Companhia Reis do Oriente (Fama) Agradecimento 00:26:50 Companhia dos Benedette (Alfenas) Hino de Reis 00:31:34 Companhia Filhos da Cambraia (Alfenas) Hino de Reis 00:36:30 Companhia da Irmandade (Alfenas) Hino de Reis 00:40:48 Companhia Estrela Guia (Alfenas) Anunciação / Hino 00:44:10 Companhia Sagrado Coração de Jesus (Alfenas) Hino de Reis 00:49:04 Companhia dos Santos Reis (Alfenas) Hino / Anunciação 00:55:40 Companhia da União (Alfenas) Hino de Reis