UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS Nas cacimbas do Rio Pardo: um estudo léxico-cultural Vander Lúcio de Souza Belo Horizonte 2014 Vander Lúcio de Souza Nas cacimbas do Rio Pardo: um estudo léxico-cultural Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como parte dos requisitos para a obtenção do grau de Doutor em Linguística. Área de Concentração: Linguística Teórica e Descritiva. Orientadora: Professora Doutora Maria Cândida Trindade Costa de Seabra Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG 2014 Aos meus filhos Arthur e Thaís, que mais esse passo dado em minha vida acadêmica sirva de estímulo para seguirem sempre mais nos estudos e nas oportunidades que a vida possa lhes oferecer. À minha esposa Líliam Carla, sempre presente em todos os momentos, me apoiando na construção da minha vida profissional e acadêmica. AGRADECIMENTOS Primeiramente a Deus, por ter me dado saúde, força e persistência para levar este Projeto até o final. À Profª Drª Maria Cândida Trindade Costa de Seabra, que mais uma vez depositou seu voto de confiança na minha pessoa e no escopo inicial de pesquisa apresentado. Agradeço sinceramente pela valorosa orientação neste trabalho e incentivo constante que tem me dispensado para alçar novos voos na minha vida profissional. A todos os professores e colegas da Pós-Graduação, pela amizade e pelo entusiasmo que me dispensaram, contribuindo para que esta jornada se tornasse mais tranquila. Ao colega Humberto Mendes, pela amizade e pela assessoria técnica prestada na elaboração desta tese. Aos coordenadotes do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos – FALE/UFMG, que acreditaram na nossa proposta viabilizando este Doutorado. Ao corpo técnico da secretaria do Poslin, em especial à Graça e Malú, que muito nos ajudaram em relação aos aspectos formais dessa pesquisa. Aos adoráveis entrevistados, sempre alegres e receptivos, recebendo-nos como se fôssemos de casa. Vocês contribuíram imensamente não só para esta pesquisa, mas também oferecendo-nos lições de vida e histórias de superações. Aos parentes e amigos de Águas Vermelhas – ponto de partida para as viagens às localidades pesquisadas – que muito nos ajudaram durante os trabalhos de campo, em especial à Enilsa, Odete, Nalva e ao meu amigo Kal, companheiro nas minhas andanças pelas trilhas e estradas da região pesquisada. Aos nossos familiares, esposa, filhos, pais e irmãos, que, mesmo, muitas vezes, sentindo nossa ausência, souberam comprender a importância deste nosso trabalho. Aos colegas de trabalho, que deram sua colaboração para que este Doutorado se tornasse realidade. Finalmente, a todos aqueles que de alguma forma nos incentivaram e encorajaram a seguir firme nesta tarefa, nossa eterna gratidão. RESUMO Este estudo busca realizar um estudo descritivo do léxico presente em nove municípios da região Norte de Minas Gerais, quais sejam: Águas Vermelhas, Berizal, Ninheira, Taiobeiras, Indaiabira, São João do Paraíso, Rio Pardo de Minas, Santo Antônio do Retiro e Montezuma, todos banhados pela Bacia do Rio Pardo. Historicamente esse rio é considerado por estudiosos um dos principais cursos hídricos para a interiorização do europeu no estado de Minas Gerais desde o século XVII. A região pesquisada ainda se mostra importante historicamente por estar inserida em um antigo caminho de boiadeiros e tropeiros que vinham da Bahia e Pernambuco para abastecer as cidades mineradoras do centro-sul do estado a partir de início do século XVIII. Nesse ambiente regional, nosso objetivo geral foi realizar uma análise léxico-cultural, tendo como foco a estreita relação entre língua, sociedade e cultura. O estudo fundamentou-se nos pressupostos teórico-metodológicos da Antropologia Linguística (Duranti e Hymes), Sociolinguística (Labov e Milroy), Lexicologia e Lexicografia (Matoré e Biderman), focalizando o léxico, sobretudo, nas perspectivas diatópica e diacrônica. Seguindo o modelo laboviano, partimos do presente, ao coletar nossos dados por meio de 53 entrevistas com pessoas, de baixa escolaridade, cuja idade se aproxima de 70 anos, residentes nos municípios já citados. Posteriormente essas entrevistas foram transcritas apoiando-se em regras pré-estabelecidas para serem submetidas a análises. Em seguida, voltamos ao passado ao consultar dicionários do século XVIII (Bluteau), XIX (Morais), primeira metade do século XX (Laudelino Freire), retornamos ao presente, consultando dicionários editados no século XX, com objetivo de estabelecer comparações entre esses períodos. Identificamos casos de retenções linguísticas e arcaísmos, mudanças linguísticas ao longo do tempo, regionalismos, influências lexicais da Bahia e de outros estados da região nordeste do país, bem como a influência das redes sociais para a formação de parte do léxico da região. A análise qualitativa e quantitativa dos dados demonstrou a existência de um vocabulário que resgata aspectos históricos, sociais e culturais do povo da região pesquisada, demonstrando que a partir do estudo do léxico, um dos pilares da língua, podemos conhecer grande parte dos hábitos e tradições de uma sociedade. Palavras-chave: Léxico. Cultura. Minas Gerais. Bacia do Rio Pardo. Variação. Retenção. ABSTRACT This study aims to conduct a descriptive study of this lexicon in nine counties in the north of Minas Gerais, which are: Águas Vermelhas, Berizal, Ninheira, Taiobeiras, Indaiabira, São João do Paraíso, Rio Pardo de Minas, Santo Antônio do Retiro and Montezuma , all bathed in the Pardo River Basin. Historically this river is considered by scholars a major water courses for the internalization of Europe in Minas Gerais state since the seventeenth century. The researched area still shows important historically to be inserted in an old way of cattlemen and drovers coming from Bahia and Pernambuco to supply the mining towns of the south-central state from the early eighteenth century. In this regional environment, our overall goal was to perform a lexical-cultural analysis, focusing on the close relationship between language, society and culture. The study was based on the theoretical and methodological assumptions of linguistic anthropology (Duranti and Hymes), Sociolinguistics (Labov and Milroy), Lexicology and Lexicography (Matoré and Biderman), focusing on the lexicon, especially in diatopical and diachronic perspectives. Following the laboviano model, we start from the present, to collect our data through interviews with 53 people with low education, whose age approaching 70 years, residents in the cities already mentioned. Subsequently these interviews were transcribed relying on pre-established to be subjected to analysis rules. Then we went back to the past to consult dictionaries of the eighteenth century (Bluteau), XIX (Morais), first half of the twentieth century (Laudelino Freire), we return to the present, consulting dictionaries published in the twentieth century, in order to make comparisons between these periods . We identified cases of linguistic archaisms and retentions, language changes over time, regionalisms, lexical influences of Bahia and other states in the northeastern region of the country, as well as the influence of social networks to form part of the lexicon of the region. Qualitative and quantitative analysis of the data demonstrated the existence of a vocabulary that rescues historic, social and cultural rights of the people of the area surveyed aspects, demonstrating that from the study of the lexicon, one of the pillars of the language, we know much of the habits and traditions of a society. Keywords: Lexicon. Culture. Minas Gerais. Rio Pardo Basin. Variation. Retention. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 – Modelo simplificado de rede social ................................................................. 52 LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO 1 – Percentual de lexias dicionarizadas e não-dicionarizadas ............................ 476 GRÁFICO 2 – Número de vocábulos em cada dicionário ................................................... 478 GRÁFICO 3 – Distribuição por função gramatical ............................................................. 479 GRÁFICO 4 – Origem das lexias ....................................................................................... 483 GRÁFICO 5 – Marcação diatópica .................................................................................... 484 GRÁFICO 6 – Arcaísmos e retenções ................................................................................ 487 GRÁFICO 7 – Distribuição percentual dos casos de mudança e manutenção linguística .... 494 LISTA DE MAPAS MAPA 1 – Municípios pesquisados ..................................................................................... 16 MAPA 2 – Povos indígenas que viviam em Minas Gerais no século XVI............................. 21 MAPA 3 – Mapa das entradas, caminhos e bandeiras em Minas Gerais. ............................... 24 MAPA 4 – Planta Geográfica do Continente que corre da Bahia de Todos os Santos até a Cap. do Espírito Santo e da Costa do mar até o Rio São Francisco ............................................... 26 MAPA 5 – Região pesquisada .............................................................................................. 30 MAPA 6 – Munícipios banhados pelo Rio Pardo ................................................................. 31 LISTA DE QUADROS QUADRO 1 – Variação lexical na região ........................................................................... 493 QUADRO 2 – Comparativo entre regiões .......................................................................... 496 QUADRO 3 – Distribuição dos campos lexicais ................................................................ 502 LISTA DE TABELAS TABELA 1 – Resultado por regiões comparadas................................................................ 499 LISTA DE ABREVIATURAS 1 (A) – encontrado no Aurélio (n/A) – não encontrado no Aurélio Adj. – adjetivo ADJsing – adjetivo singular Adv. – advérbio Afr. – africanismo AL – Alagoas Al. – alemão ALEMIG – Atlas Línguístico do Estado de Minas Gerais Ant. – antigo APM – Arquivo Público Mineiro Ár. – árabe Art. – artigo BA – Bahia Cap. – Capitania Cast. – castelhano Cf. – confira Conj. – conjunção Contr. – controversa Der. – derivado Entr. – entrevistador Esp. – espanhol F – fraseologia Fac. – facilitador Fr. – francês GO – Goiás Gr. – grego Inf. – informante Ing. – inglês Interj. – interjeição It. – italiano Lat. – latim Loc. – locução Mal. – malaio MG – Minas Gerais N – norte n/e – não encontrado NCf – nome composto feminino NCm – nome composto masculino NE – Nordeste Nf – nome feminino Nm – nome masculino obs. – observação ORG. – organizador (a) 1 Essa lista se refere às abreviaturas utilizadas no texto e nas fichas lexicográficas, embora não tenha sido registrado nesse espaço aquilo que seja específico dos dicionários consultados. Orig. – origem PB – português brasileiro PIB – Produto Interno Bruto Prep. – preposição Pron. – pronome Prov. – provençal RJ – Rio de Janeiro RS – Rio Grande do Sul S – Sul s. – século SP – São Paulo Spl – substantivo plural Ssing – substantivo singular Terc. – terceiro V – verbo Vulg. – vulgar LISTA DE ABREVIATURAS UTILIZADAS NO GLOSSÁRIO (A) – dicionarizado no Aurélio (n/A) – não encontrado no Aurélio (n/d) – não dicionarizado [V] – verbo ADJsing – adjetivo singular ADV – advérbio Afr. – africanismo Al. – alemão Ár. – árabe Arc. – arcaico Art. – artigo Bras. – brasileirismo Cast. – castelhano Cf. – confira Conj. – conjunção Entr. – entrevistador Esp. – espanhol Ext. – extensão F – fraseologia Fac. – facilitador Fr. – francês Ger. – germânico Gr. – grego Hibr. – hibridismo Ind. – indigenismo Inf. – informante Ing. – inglês Interj. – interjeição It. – italiano Lat. – latim Loc. – locução Lus. – lusitanismo Mal. – malaio MG – Minas Gerais NCf – nome composto feminino NCm – nome composto masculino Nf – nome feminino Nm – nome masculino Pop. - popular Port. – português Prep. – preposição Pron. – pronome s. – século Spl. – substantivo plural Ssing – substantivo singular Subst. – substantivo Tam. – tamul Var. – variante ~ – variação > – deriva do ou deriva para SUMÁRIO INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 16 CAPÍTULO 1 – ASPECTOS HISTÓRICOS DA REGIÃO NORTE DE MINAS .......... 21 1.1 Primeiros habitantes .................................................................................................... 21 1.2 Caminhos e povoamento da região norte de Minas Gerais ........................................ 27 1.3 A formação de vilas ...................................................................................................... 28 1.4 Sobre a região pesquisada ............................................................................................ 30 1.5 Breve histórico e dados socioeconômicos dos municípios da Bacia do Rio Pardo ..... 32 1.5.1 Rio Pardo de Minas .................................................................................................... 32 1.5.2 São João do Paraíso ................................................................................................... 33 1.5.3 Águas Vermelhas........................................................................................................ 34 1.5.4 Montezuma ................................................................................................................. 36 1.5.5 Taiobeiras ................................................................................................................... 37 1.5.6 Santo Antônio do Retiro ............................................................................................. 38 1.5.7 Indaiabira ................................................................................................................... 39 1.5.8 Berizal ........................................................................................................................ 40 1.5.9 Ninheira ..................................................................................................................... 40 CAPÍTULO 2 – CULTURA, LÍNGUA E SOCIEDADE .................................................. 42 2.1 Cultura.......................................................................................................................... 42 2.2 Língua e Sociedade ....................................................................................................... 45 2.2.1 Sociolinguística .......................................................................................................... 47 2.2.1.1 Redes sociais e mudança linguística ....................................................................... 50 2.2.2 Léxico ......................................................................................................................... 53 2.2.2.1 Campos lexicais ...................................................................................................... 57 2.2.3 Léxico e cultura .......................................................................................................... 62 2.2.4 Regionalismos ............................................................................................................ 65 2.2.5 Português rural .......................................................................................................... 68 2.2.5.1 Rural x Urbano ....................................................................................................... 71 2.2.5.2 Rural x Caipira ....................................................................................................... 74 2.2.5.3 O dialeto rural no Norte de Minas ......................................................................... 75 CAPÍTULO 3 – PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS .......................................... 78 3.1 Coleta do corpus ........................................................................................................... 78 3.2 Sobre as transcrições .................................................................................................... 80 3.3 Constituição do corpus ................................................................................................. 82 3.3.1 Elaboração de fichas lexicográficas ........................................................................... 82 3.4 Glossário ....................................................................................................................... 86 CAPÍTULO 4 – APRESENTAÇÃO E DESCRIÇÃO DOS DADOS ............................... 91 4.1 Transcrições ................................................................................................................. 91 4.2 Fichas Lexicográficas ................................................................................................... 92 CAPÍTULO 5 – ANÁLISE DOS DADOS ....................................................................... 475 5.1 Lexias dicionarizadas e não dicionarizadas .............................................................. 475 5.2 Número de lexias presentes em cada dicionário ........................................................ 477 5.3 Classificação gramatical ............................................................................................ 478 5.4 Origem ........................................................................................................................ 480 5.5 Traços diatópicos ........................................................................................................ 483 5.6 Traços diacrônicos ..................................................................................................... 486 5.7 Variação, manutenção e mudança linguística ........................................................... 492 5.8 A influência das redes sociais e a norma no léxico da região .................................... 494 5.9 Comparando regiões do estado de Minas Gerais ...................................................... 496 5.10 Formação de palavras e outros destaques ............................................................... 500 CAPÍTULO 6 – CAMPOS LEXICAIS ........................................................................... 502 6.1 Macrocampo Natureza ............................................................................................... 504 6.1.1 Campo léxico: Flora ................................................................................................. 504 6.1.2 Campo léxico: Fauna ............................................................................................... 507 6.1.3 Campo léxico:Água .................................................................................................. 509 6.1.4 Campo Léxico Espaço físico ..................................................................................... 510 6.1.5 Campo léxico: Relação espacial ............................................................................... 512 6.1.6 Campo léxico: Tempo ............................................................................................... 513 6.2 Macrocampo Sociedade ............................................................................................. 514 6.2.1 Campo léxico: Agentes humanos ............................................................................. 514 6.2.2 Campo léxico Estado ................................................................................................ 518 6.2.3 Campo léxico: Saúde ................................................................................................ 522 6.2.4 Campo léxico: Crenças /Costumes ........................................................................... 523 6.2.5 Campo léxico: Riqueza material ............................................................................... 525 6.2.6 Campo léxico: Comida / Bebida ............................................................................... 533 6.2.7 Campo léxico: Quantidade ....................................................................................... 535 6.2.8 Campo léxico: Partes do corpo ................................................................................. 537 6.3 Macrocampo: Atitudes ............................................................................................... 538 6.3.1 Campo léxico: Vontade/Ação ................................................................................... 538 6.3.2 Campo léxico Sentimento/comportamento ............................................................... 547 6.3.3 Campo léxico: Causalidade/Resultado ..................................................................... 549 6.3.4 Campo léxico: Relação ............................................................................................. 552 CAPÍTULO 7 – GLOSSÁRIO ........................................................................................ 555 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 606 REFERÊNCIAS ............................................................................................................... 612 ANEXOS * * Os textos que constituem os corpora deste trabalho, resultado de transcrições de entrevistas orais, encontram-se em CD-ROM, anexo, integrando o Capítulo 4 desta Tese. 16 INTRODUÇÃO Desde 2008, quando da defesa de minha Dissertação de Mestrado, intitulada Caminho do boi, caminho do homem: o léxico de Águas Vermelhas – Norte de Minas, a ideia de ampliar a área territorial estudada começava a fazer parte de meus projetos. Àquela época, um dos questionamentos era até que ponto o vocabulário coletado em Águas Vermelhas e, por conseguinte, a cultura local poderiam ser comuns aos habitantes do entorno dessa região, isto é, aos habitantes dos municípios vizinhos. Propusemo-nos, então, como Projeto de Doutorado, avançar sobre a área já estudada e abarcar a microrregião de Salinas com o objetivo de descrever o léxico coletado em longas conversas realizadas com moradores dos municípios dessa região que compõem a Bacia do Rio Pardo, quais sejam: Águas Vermelhas, Berizal, Indaiabira, Montezuma, Ninheira, Rio Pardo de Minas, Santo Antônio do Retiro, São João do Paraíso e Taiobeiras. Evidentemente, essa não foi uma tarefa fácil, dada à grande extensão territorial, mas realizamos 53 entrevistas orais, melhor dizendo, ouvimos muito e falamos pouco com 53 moradores da região. MAPA 1 – Municípios pesquisados Águas Vermelhas (2006-2008) Microrregião de Salinas (2010-2014) Fonte: ÁGUAS VERMELHAS, 2007.2 Fonte: MICRORREGIÃO DE SALINAS, 2014.3 A opção em utilizar a Bacia do Rio Pardo como marco territorial para a realização de um estudo linguístico está na importância histórica desse rio não só para os municípios citados, como também para todo o estado de Minas Gerais. Foi subindo as correntezas dessas 2 http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81guas_Vermelhas. 3 http://pt.wikipedia.org/wiki/Microrregi%C3%A3o_de_salinas. 17 águas que os primeiros desbravadores portugueses chegaram ao território mineiro, conforme aponta Vasconcelos (1944) e outros renomados historiadores. Somado à importância do Rio Pardo, há que se mencionar, ainda, outro aspecto histórico que trouxe consideráveis reflexos para o léxico da região norte-mineira, qual seja, ter sido essa a rota de tropeiros e boiadeiros que ligava os estados do Nordeste às regiões mineradoras de Minas Gerais ao longo dos séculos XVIII e XIX e essas ao estado de São Paulo. Acredita-se, pois, que os resultados desta pesquisa podem trazer contribuições relevantes para o conhecimento da língua portuguesa, em especial do léxico, com interesse para a dialetologia e a sociolinguística, pois os municípios analisados estão localizados em uma região afastada dos grandes centros urbanos, além de se situarem em uma área limítrofe com o estado da Bahia. A partir do exposto, apresentamos um estudo linguístico, abrangendo a região citada, tendo como suporte o tripé léxico, cultura e sociedade. Cobrindo mais essa região, procuramos contribuir para a ampliação dos estudos lexicais em Minas Gerais, no caso, com dados orais registrados em entrevista de campo, por meio de gravações. O trabalho fornecerá, pois, ao Projeto Léxicos Regionais (FALE/UFMG) mais uma parcela de vocabulário regional. Em virtude das características históricas, econômicas e socioculturais dos nove municípios pesquisados, aventaram-se algumas hipóteses que nortearam esta tese: a) em virtude do isolamento e do distanciamento dos municípios da região da Bacia do Rio Pardo em relação aos grandes centros urbanos – nesse caso, Salvador e Belo Horizonte como os mais próximos – considerados centros de inovação linguística, esperava-se obter casos de retenções linguísticas no léxico local; b) em razão de os municípios pesquisados estarem muito próximos ou fazendo fronteira com o estado da Bahia, influências de falares baianos – sobretudo no nível do léxico – poderiam ser encontradas na língua dos falantes entrevistados; c) levando-se em conta que o léxico pode revelar aspectos históricos, sociais e culturais de uma língua, esperava-se que o vocabulário apresentado pelos entrevistados – habitantes da região, com idade superior a 70 anos e de baixa escolaridade – pudesse mostrar a estreita relação entre língua e cultura, em especial, à cultura do gado, tão presente na vida de grande parte dos moradores, bem como a relação entre o Rio Pardo e os habitantes que dele se beneficiaram e se beneficiam; d) historicamente, por ter sido uma região povoada, em tempos pretéritos, por tribos indígenas e identificada com o uso do trabalho escravo nas fazendas, contava-se encontrar 18 unidades lexicais que fossem de origem indígena ou africana, ou que designassem coisas ou objetos que fizessem parte da cultura desses povos; e) uma vez que a maioria dos entrevistados é de origem rural e com o perfil descrito, ou seja, teoricamente menos imune a influências linguísticas, esperava-se encontrar unidades lexicais que comprovassem um linguajar tipicamente regional, contrastando com o vocabulário usual dos centros urbanos. Diante do exposto, elegemos como objetivos específicos: a) realizar levantamento do vocabulário encontrado na região, por meio de entrevistas orais; b) descrever o léxico coletado nessas entrevistas; c) procurar relacionar os dados coletados à história e à cultura locais para posterior auxílio à análise do corpus; d) procurar vestígios de vocabulários setecentistas e oitocentistas que pudessem se configurar como casos de retenção linguística ou até mesmo casos de arcaísmos lexicais; e) comparar os resultados da pesquisa com outros dados de pesquisas já realizadas em território mineiro, com a mesma metodologia, realizados por Souza (2008), Ribeiro (2010), Freitas (2012), Miranda (2013) e Cordeiro (2103); f) agrupar as lexias encontradas em campos léxicos; g) elaborar um glossário, constituído pelo corpus coletado e selecionado; h) contribuir, por meio do material coletado, para a criação de um banco de dados que auxiliará futuras pesquisas linguísticas e culturais na região. A fim de atender aos objetivos propostos, este estudo se constitui em 7 capítulos: No capítulo 1, Aspectos Históricos da Região Norte de Minas, descrevemos sucintamente a história do povoamento da região norte de Minas Gerais – as primeiras entradas e bandeiras ainda no século XVI e o processo de colonização e povoamento da região – seguida de uma breve descrição socioeconômica e cultural dos municípios pesquisados que pudessem contribuir para a análise linguístico-cultural. No capítulo 2, Cultura, Língua e Sociedade, apresentamos, de início, as duas escolas de pensamento – a francesa e a alemã – acerca do que era concebido como cultura no século XIX, bem como outras definições de renomados estudiosos sobre o tema, chegando à proposta de Duranti (2000), adotada como referência para este estudo. Na seção 2.2, Língua e sociedade, foram abordados alguns conceitos relacionados à língua, tais como idioleto, falar, dialeto e alguns tópicos relacionados à variação e à mudança linguística e à teoria de redes sociais de J. Milroy (1992). A seguir, na seção 2.2.2, há uma descrição sucinta do 19 desenvolvimento dos estudos lexicais ao longo do tempo, acrescido de alguns conceitos e definições relacionados a esse tema, além da abordagem da teoria dos campos lexicais. Mais adiante, na seção 2.2.3, retoma-se o tema dos estudos lexicais, dessa vez a partir de uma abordagem relacionando léxico e cultura a partir do século XIX, destacando-se os estudos de Duranti (2000) e Hymes (1964). Como suporte teórico para análise do corpus, foram abordados os conceitos de região e regionalismo na seção 2.2.4, sendo, na seção seguinte, tratados alguns aspectos linguísticos que caracterizam o português rural e algumas questões levantadas por alguns estudiosos sobre os termos rural, urbano e caipira. Por fim, apresentamos um esboço de como se deu a formação do dialeto rural no norte de Minas Gerais, em contraponto ao dialeto rural de outras regiões, a partir de dados históricos. O capítulo 3, Procedimentos metodológicos, discorre sobre questões metodológicas relacionadas aos aspectos práticos que contribuíram para o levantamento e a análise dos dados desta pesquisa, tais como a coleta do corpus, o processo adotado para a transcrição das entrevistas, além dos critérios utilizados para a escolha dos vocábulos selecionados. Nesse capítulo, descreve-se, ainda, o modelo de ficha lexicográfica utilizado para posterior análise linguística e a justificativa pela opção das obras constantes dessas fichas. A fim de dar sustentação teórica à elaboração de um glossário apresentado ao final desta tese, alguns conceitos, definições e procedimentos da prática lexicografia hodierna também foram tratados nesse capítulo. No capítulo 4, Apresentação e descrição dos dados, apresentamos, em um CD- ROM (anexado logo no início desse capítulo), as transcrições das 53 entrevistas realizadas nos nove municípios banhados pela Bacia do Rio Pardo. Somam-se a essas entrevistas as 562 fichas lexicográficas que se constituem das lexias extraídas do corpus, fichas essas que contêm todas as informações que darão suporte à análise linguística, às análises quantitativa e qualitativa, ao estudo dos campos lexicais e ao glossário, realizadas nos capítulos seguintes. No capítulo 5, Análise dos Dados, expomos o estudo detalhado dos 562 vocábulos selecionados, referentes a aspectos gramaticais, às lexias presentes em cada dicionário consultado e à origem dos vocábulos. Após essa análise, segue-se uma apresentação das principais marcas diatópicas do vocabulário analisado, tais como lusitanismos, regionalismos e brasileirismos. A seguir, tratamos dos aspectos relacionados à diacronia, ou seja, foram delineados os casos de retenções linguísticas e arcaísmos encontrados entre os vocábulos constantes das fichas lexicográficas. Na sequência, apresentamos uma análise dos casos de variação, manutenção e mudança linguística presentes nas fichas, levando-se em consideração as informações dos seis dicionários consultados. 20 Outro aspecto tratado nesse capítulo é a teoria de redes sociais de Milroy (1992), teoria essa que explica, em parte, a formação do léxico encontrado nos municípios pesquisados. Soma-se ao exposto um quadro comparativo entre o vocabulário coligido na região da Bacia do Rio Pardo com dados de outras pesquisas acadêmicas em outras regiões do estado de Minas Gerais, sob a tutela da mesma orientadora deste trabalho. Finalmente, foram analisados alguns aspectos morfológicos que se mostraram mais evidentes entre os vocábulos pesquisados. O capítulo 6, Campos lexicais, apresenta um estudo descritivo de cada um dos vocábulos a partir da noção de campos lexicais. Para tal, as lexias foram divididas em três macrocampos – natureza, sociedade e atitudes –, os quais, por sua vez, foram reorganizados em campos léxicos, procurando reunir todos os vocábulos segundo redes de significações. No capítulo 7, Glossário, apresentamos o vocabulário extraído das fichas lexicográficas, com os seguintes dados linguísticos: a) variantes, quando houver; b) se o vocábulo é ou não dicionarizado; c) informações gramaticais; d) origem e datação, quando houver; e) definição; f) abonação; g) localização no corpus; h) remissões, quando houver. Em Considerações Finais, encerramos a pesquisa com os resultados encontrados a partir das análises realizadas e retomamos as informações a respeito da história e cultura da região, relacionando o léxico dos habitantes dos municípios que compõem a Bacia do Rio Pardo aos aspectos socioculturais da região em análise. Finalmente, nas Referências, segue-se a relação das obras que deram suporte ao presente estudo. 21 CAPÍTULO 1 – ASPECTOS HISTÓRICOS DA REGIÃO NORTE DE MINAS 1.1 Primeiros habitantes Há poucos registros acerca dos povos que habitaram a região Norte de Minas antes da chegada do homem europeu. Há, também, poucos estudos sobre os hábitos desses povos, uma vez que não há consenso entre historiadores e antropólogos sobre as tribos que habitaram essa região. A única certeza é a de que no Norte de Minas havia índios de etnias variadas e negros fugidos da escravidão. Capistrano de Abreu (1963) enumera alguns povos indígenas que habitavam as margens do Rio São Francisco antes da chegada do homem branco. Segundo ele, na região existiam numerosas tribos pertencentes ao tronco Cariri, outras do tronco dos Caribas, como os Pimenteiras, e ainda do tronco dos tupis, caso dos Amoipiras. Excluindo esses, outros povos indígenas são citados por Campos e Faria (2005). MAPA 2 – Povos indígenas que viviam em Minas Gerais no século XVI Fonte: CAMPOS; FARIA, 2005, p.25. De acordo com o mapa apresentado por esses autores, pode-se verificar a existência de grupos indígenas que habitavam a região norte de Minas Gerais no século XVI: 22 Cariris, Cururus, Caiapós, Coroxopós, Catiguçus e Formigas. A lista de povos é ampliada por Costa (2006), um antropólogo estudioso da cultura no Norte de Minas. Segundo suas pesquisas, antes da chegada do europeu, várias sociedades indígenas coexistiam nessa região. Entre elas, destacam-se os Abatirá, que viviam à margem direita do São Francisco; os Amoipira que viviam à margem esquerda desse rio; os Kariri que desceram do Ceará e se misturaram com os Kayapó na região de Januária; os Catiguaçu que habitaram as terras entre o São Francisco e o Jequitinhonha; os Catolé, situados entre o Rio Pardo e o Verde Grande; os Pataxó que corriam entre o São Francisco e o Jequitinhonha; os Piripiri que habitaram a foz do Rio Gorutuba. Ainda que tenha citado essas várias sociedades indígenas, Costa afirma não ser possível descrever seu modus vivendi por falta de estudos mais aprofundados sobre esses povos. Ainda segundo Costa (2006, p.13), antes mesmo da chegada dos portugueses à região, já havia ―pequenos agrupamentos de africanos e seus descendentes que, fugindo da escravidão, deram origem a quilombos‖. De acordo com esse pesquisador, os grupos de africanos se localizavam, principalmente, no interior da floresta de caatinga, próxima aos vales do Rio Verde Grande, onde cultivavam mandioca, milho, arroz, feijão e fava, além de outros produtos. No que tange à presença de povos de origem africana na região pesquisada, Salomão de Vasconcelos (1944, p.12) menciona a existência de escravos fugitivos na região antes da chegada dos bandeirantes: Alude ainda Antonil ao velho arraial de Morrinhos como já existido em 1711. Daí partiam, diz ele, os caminhos margeantes do São Francisco e do rio Verde. Ora, esse povoado – o 1º desse nome era verdadeira atalaia contra os bugres e os furtadores de gado, ciganos e negros fugidos, que infestavam desde épocas remotas toda a região lindeira com a Bahia. Salvo a certeza de que os primeiros habitantes da região norte de Minas Gerais foram os nativos, as páginas da História de Minas Gerais, em seus textos oficiais, citam as bandeiras em busca do ouro, a partir de 1674, como o início efetivo da ocupação do território mineiro. Entretanto, não se pode duvidar de que, muito antes desses desbravadores paulistas pisarem essas terras e navegarem pelos rios desse estado, já os baianos e os pernambucanos andavam pela região, conforme narra Vasconcelos (1944, p.10): Antes, com efeito, que o almocrafe de Fernão Dias, de Miguel Garcia de Almeida, de Bartolomeu Bueno de Siqueira... rangesse promissor nos cascalhos da Itacambira, do Itatiaia, do Ribeirão do Carmo, do Sabará e do Itacolomi; quando os ―calçudos‖ 23 do sul mal começavam de sortir de malotagem os seus surrões e aprestar as monções para madrugarem à tona do Tieté e do Paraíba, rumo ao sertão do ouro e dos seixos verdes – já os baianos e os pernambucanos, cedendo ao passo tardo, mas seguro, dos seus rebanhos... sulcavam de trilhos e de corredores todo o vale imenso do rio Verde, do rio Pardo, do São Francisco e do Jequitinhonha, em busca dos altiplanos verdejantes do rio das Velhas e do Paraopeba. Historiadores renomados dão prova de que Francisco Bruza de Spinosa e Aspicuelta Navarro (em 1554) foram os primeiros desbravadores que percorreram as terras mineiras. Abreu (1982, p. 280) faz referência a uma dessas viagens: ―O padre Navarro refere- se a uma entrada que fez ao sertão nos primeiros tempos de Duarte da Costa (pois a 24 de junho de 1555 já passava de ano e meio) com doze portugueses, e em que andou pela terra 350 léguas‖. Mais adiante, nessa mesma página, Abreu cita o provável caminho percorrido por Spinosa e Navarro, descrevendo que partiram de Porto Seguro e, após longo trecho, alcançaram o Rio Jequitinhonha; subiram pelas correntezas desse rio chegando à região do Itacambira. Em seguida, rumaram até o Rio São Francisco ou mais provavelmente ao Rio das Velhas. Essa rota descrita por Abreu torna-se mais clara a partir de um mapa apresentado por Vasconcelos (1944), no qual o autor delineia as várias rotas das entradas e bandeiras no território mineiro, conforme se ilustra a seguir: 24 MAPA 3 – Mapa das entradas, caminhos e bandeiras em Minas Gerais. Fonte: VASCONCELOS, 1944, p.345. Vasconcelos acrescenta, ainda, que entre 1554 e 1555, após chegar ao Rio São Francisco, Navarro e Spinosa rumaram em direção a um local onde hoje se situa o município mineiro de Montes Claros, seguindo para nordeste até o Rio Pardo. Navegando por esse rio alcançam a Bahia. Ainda nessa mesma obra, entre as páginas 11 e 18, Vasconcelos cita vários autores e obras que comprovam a anterioridade das investidas de outros desbravadores, antes da Bandeira de Fernão Dias, ao território mineiro. Sabe-se, entretanto, que esses primeiros desbravadores que passaram por essa região não deixaram nenhum núcleo de povoamento, mas os caminhos trilhados por eles serviram de rotas, tempos mais tarde, aos desbravadores oriundos do nordeste do país, principalmente baianos e pernambucanos e, ainda, aos portugueses, oriundos do norte de Portugal, que aportavam na Bahia com destino a Minas Gerais. Ademais, esse caminho antigo serviu de rota para os tropeiros que transitavam com suas boiadas em direção norte-sul do país, com o objetivo principal de abastecer as regiões mineradoras do centro-sul. Dá-se, desse modo, o início do povoamento na região, com 25 algumas populações se fixando em torno do ―caminho do boi‖, construindo fazendas ou ―currais‖. Conquanto a região norte do estado de Minas tenha tido incursões bem antes da região centro-sul, é certo que essas não tiveram caráter civilizatório, não tendo o homem lá se fixado, visto que essa região não experimentou o desenvolvimento econômico e social do centro-sul. Enquanto, mais ao centro e sul do estado, as vilas e cidades foram se desenvolvendo com a fixação do homem ao solo, em decorrência da exploração do ouro, na região norte, em face da atividade da criação de gado, houve predominância das fazendas ou ―currais de gado‖. Ao tratar da ocupação do estado de Minas, não resta dúvida de que, dessas investidas dos desbravadores em território mineiro, os rios serviram como a principal via de acesso às várias regiões do estado, dada a dificuldade do homem em transpor regiões tão montanhosas, cheias de escarpas, com florestas fechadas, onde em muitos trechos mal se via a luz do sol. Além disso, havia o receio dos desbravadores de serem atacados de surpresa, em território desconhecido, por tribos indígenas. A exploração do território a partir dos rios trazia ganhos significativos: a certeza de ter água e comida, menor desgaste físico do grupo, velocidade maior em desbravar a área e maior segurança para os membros, visto que do rio os exploradores poderiam avistar melhor a presença do inimigo. Em face do exposto, fica claro que a hidrografia do território mineiro contribuiu de forma significativa para a interiorização do europeu. Com rios extensos e caudalosos como o São Francisco, Jequitinhonha, Doce, Araçuaí, Verde Grande, e outros como o Rio Pardo e Rio das Velhas, citando apenas aqueles das regiões mais ao centro-norte do estado, o território mineiro foi rapidamente sendo descoberto e mais tarde iniciado o processo de exploração e colonização. No Norte de Minas Gerais, os rios São Francisco, Verde Grande e Pardo foram de assaz importância para o povoamento da região. Ao longo de suas margens surgiram várias rotas de comércio, a partir do século XVIII, oriundas da Bahia e Pernambuco, para abastecer as regiões mineradoras mais ao sul, bem como as fazendas de gado situadas mais ao norte do estado. Em se tratando do Rio Pardo, verifica-se, a partir do mapa a seguir, que esse rio serviu como uma importante via de ligação, em princípios do século XVIII, entre a região litorânea situada ao sul da Bahia e as Comarcas de Minas Novas e Serro Frio, situadas próximas ao Rio São Francisco, no sertão mineiro. 26 MAPA 4 – Planta Geográfica do Continente que corre da Bahia de Todos os Santos até a Cap. do Espírito Santo e da Costa do mar até o Rio São Francisco Fonte: APM, [17..] . Às margens do Rio Pardo, foram surgindo diversos pontos de parada para descanso dos viajantes, os quais, tempos depois, tornaram-se pequenos núcleos de povoamento, contribuindo para a ocupação definitiva da região. Conclui-se, portanto, que o ―caminho do boi‖ e o ―caminho das águas‖, principalmente através dos rios São Francisco, Verde Grande, Gorutuba e Pardo, possibilitaram o desbravamento, a ocupação e o desenvolvimento da região norte desse estado. 27 1.2 Caminhos e povoamento da região norte de Minas Gerais A fixação do homem na região norte de Minas Gerais, mais especificamente às margens do São Francisco, é quase tão antiga quanto sua fixação no solo da Região do Carmo (SEABRA, 2004). Segundo Diogo de Vasconcelos (1918), o Mestre de Campo Matias Cardoso, após acompanhar Fernão Dias em sua expedição à Região do Carmo, foi convidado pelo governo da Bahia a combater os índios naquela Capitania em 1690. Matias Cardoso chegou à planície do Rio Verde, às margens do Rio São Francisco, nesse mesmo ano, onde assentou um arraial que levou seu nome. Em outra obra, Diogo de Vasconcelos (1974, p.13) mostra a antiguidade desse arraial fundado por Matias Cardoso: ―Depois dos arraiais fundados por Fernão Dias em caminho do paiz das esmeraldas, foi este de Mathias Cardoso o mais antigo do nosso território‖. A respeito da importância da figura de Matias Cardoso para a história do Norte de Minas, Costa (2006, p.15) salienta que ―a chegada da bandeira anônima paulista capitaneada por Mathias Cardoso de Almeida constitui-se, pois, como o evento fundante da sociedade pastoril situada no atual Norte de Minas‖. Um importante ponto a destacar é que o Norte de Minas, já no período dessas incursões, não se constituía de terras devolutas. Segundo Miranda (1997), por carta de Sesmaria, de 26 de outubro de 1652, registrada em Salvador – BA, o rei de Portugal, D. João IV, doou ao Mestre de Campo e Capitão Antônio Guedes de Brito uma Sesmaria localizada ao lado direito do Rio São Francisco, paragens hoje conhecidas como Norte de Minas. Posteriormente, Antônio Guedes de Brito adquiriu outra Sesmaria, e em 1684 ganhou uma terceira, tornando-se, então, dono do maior latifúndio da Colônia, com 160 léguas de extensão, a qual abrangia parte da Capitania da Bahia e todo o Norte de Minas. Após sua morte, todo o seu patrimônio ficou reconhecido como a dinastia da Casa da Ponte. Além de Matias Cardoso, uma figura que contribuiu muito para o povoamento do Norte de Minas foi Manuel Nunes Viana. Segundo Diogo de Vasconcelos (1918), Manoel Nunes Viana, ainda moço e ambicioso, obteve de D. Izabel Maria Guedes, filha sucessora de Antônio Guedes de Brito, procuração para representá-la em seus direitos e tomar conta do vasto latifúndio deixado como herança. Após conseguir junto ao Governador Geral ser investido da autoridade de Mestre de Campo, Manoel Nunes Viana partiu para o sertão com o objetivo de expulsar os índios e outras pessoas que estivessem ocupando suas terras. Mais tarde, com as notícias do descobrimento do ouro em Sabará, Viana deixou o São Francisco e 28 foi atrás de novas oportunidades nessa região. Percebendo a necessidade da população local por gêneros de todo tipo e sendo profundo conhecedor das rotas para a Bahia, Manuel Nunes Viana tornou-se grande mercador, acumulando em pouco tempo riqueza e poder político na região, envolvendo-se como um dos principais personagens no episódio dos Emboabas, conforme aponta Diogo de Vasconcelos (1974). A despeito de toda a importância da figura de Manuel Nunes Viana na região mineradora, o que mais interessa aqui é sua importância na dinamização dos caminhos ligando a região mineradora à Capitania da Bahia, contribuindo para o povoamento do Norte de Minas. Através das vastas possessões de D. Isabel Guedes, das quais ele tomava conta e ainda das suas extensas fazendas ao longo do São Francisco, passava o gado oriundo da Bahia e Pernambuco. Essa rota permitiu a criação de um promissor negócio na região, conforme cita Diogo de Vasconcelos (1974, p.36): ―Uns compravam, outros vendiam. Os tropeiros ganhavam no transporte das boiadas e pelo caminho os fazendeiros tiravam rendoso aluguel dos pastos de engorda e descanso das reses‖. É importante aqui destacar que esse comércio de gado entre a região mineradora e as Capitanias da Bahia e de Pernambuco era permitido, conforme aponta Zemella (1990, p.72): ―Só o comércio de gado era permitido, atendendo ao fato de que o mercado paulista ou o do Rio de Janeiro não se achavam em condições de abastecer de carne as cidades mineiras‖. Como se deduz, Manuel Nunes Viana teve importante participação no processo de ocupação do Norte de Minas, principalmente através das extensas fazendas de criação de gado e das rotas de comércio que se desenvolveram ao longo dessas fazendas e que deram a região o nome de Currais da Bahia. Ressalta-se, ainda, outros nomes de grande importância nesse processo, como João Peixoto Viegas e Antônio Gonçalves Figueira, ambos citados por Capistrano de Abreu (1963), bem como Domingos Dias do Prado e Januário Cardoso, esses citados por Salomão de Vasconcelos (1944). 1.3 A formação de Vilas Diferentemente das regiões mineradoras do sul que tiveram suas vilas formadas a partir do advento do ouro, com a fixação do homem ao solo, no Norte de Minas, a maioria das vilas teve como elemento propulsor a criação do gado. Foi a partir dos ―currais de gado‖ que surgiram os primeiros povoados e, mais tarde, os municípios. Diégues Jr. (1960, p.150) 29 discorre sobre a importância do gado no processo de povoamento da região: ―Com o gado e as atividades que lhe eram relacionadas... as populações foram se fixando... os currais e fazendas de gado alastraram-se, tornando-se também centros demográficos e sociais...‖. É importante salientar que os povoados e vilas da região norte experimentaram um crescimento bem aquém se comparado àqueles das regiões do Sul. Enquanto ao sul a riqueza do ouro permitiu um grande desenvolvimento do espaço urbano, com construções grandes e vistosas, igrejas suntuosas e recheadas de ouro, prédios públicos que foram sede de importantes personalidades da vida política da época, no Norte a riqueza do gado concentrou- se nas mãos de poucos e estes se preocuparam apenas em aumentar seus latifúndios. A maioria das vilas e cidades foi surgindo apenas em face dos pousos de tropas que por ali passavam, o que permitiu o comércio entre essa região e alguns municípios da Bahia. A região norte que já estava inicialmente isolada entre a Capitania da Bahia e a Capitania de São Paulo, mais tarde, com a perda de importância da rota comercial da região mineradora com a Bahia, em prol da nova rota de comércio para o Rio de Janeiro, conhecida como ―caminho novo‖, fica esquecida de vez. Outra razão desse lento e fraco desenvolvimento das vilas e cidades do Norte de Minas é que não havia um Estado forte e presente que organizasse a vida social e econômica como no sul. Do mesmo modo, as relações sociais verificadas nas formações urbanas no sul do estado foram mais democráticas, resultando em diversas classes sociais. No Norte de Minas a realidade era bem diferente: havia apenas a figura do fazendeiro e a do vaqueiro, o que resultava numa relação desigual entre as partes. A diferença entre a realidade das duas regiões, Norte e Centro-Sul de Minas, é tão visível que Costa (2003, p.289) afirma em sua tese que para falar de Minas Gerais ―há que se recorrer aos dois signos que informam sua realidade social: Minas Gerais e Sertão Mineiro‖. Quanto aos primeiros núcleos de povoamento da região norte de Minas Gerais, pode-se destacar o arraial de Morrinhos como o primeiro da região norte, arraial esse fundado por Matias Cardoso ainda no século XVII, conforme citado por Salomão de Vasconcelos e vários outros historiadores. Mais tarde, ainda na primeira metade do século XVIII, surgiram os arraiais de Brejo do Amparo (atual Januária), São Caetano do Japoré (atual Manga), Paracatu e Santo Antônio da Manga (atual São Romão). Na segunda metade do século XVIII surgem novos arraiais, entre eles, Formigas (atual Montes Claros), Serrinha (atual Grão Mogol) e Rio Pardo (atual Rio Pardo de Minas). A partir do século XIX surgem vários povoados que depois de serem elevados a município, destacam-se na região, como Santo 30 Antônio das Salinas (Salinas) e Vila Nova do Jequitaí (Bocaiúva), conforme afirma Barbosa (1995). 1.4 Sobre a região pesquisada Situada ao norte de Minas Gerais, fazendo divisa ao norte com o estado da Bahia e a sudeste com o Vale do Jequitinhonha, a região compreendida pelas localidades banhadas pelo Rio Pardo perfaz um total de nove municípios: Santo Antônio do Retiro, Montezuma, Rio Pardo de Minas, Indaiabira, Taiobeiras, Berizal, São João do Paraíso, Ninheira e Águas Vermelhas. Os dois mapas a seguir apresentam a mesorregião Norte de Minas e a microrregião de Salinas onde localizam os nove municípios descritos: MAPA 5 – Região pesquisada Fonte: NORTE DE MINAS, 2007. 4 Fonte: MICRORREGIÃO DE SALINAS, 2014.5 O mapa a seguir apresenta com mais detalhes o Rio Pardo e os municípios banhados pelas suas águas: 4 http://pt.wikipedia.org/wiki/Norte_de_Minas. 5 http://pt.wikipedia.org/wiki/Microrregi%C3%A3o_de_salinas. 31 MAPA 6 – Munícipios banhados pelo Rio Pardo Fonte: IBGE, 2005.6 Legenda:1. Montezuma; 2. Santo Antônio do Retiro; 3. Rio Pardo de Minas; 4. Indaiabira; 5. Taiobeiras; 6. Berizal; 7. São João do Paraíso; 8. Ninheira; 9. Águas Vermelhas. Esses nove municípios ocupam uma área total de 12.041, 044 km², com uma população de aproximadamente 130.991 habitantes, segundo dados do IBGE de 2010. As três cidades de maior população são Taiobeiras (30.986 hab), Rio Pardo de Minas (29.719 hab) e São João do Paraíso (22.635 hab), as quais apresentam também o melhor índice de desenvolvimento humano (IDH) dentre os nove municípios citados – 0.69, 0.63 e 0.64 respectivamente – muito distante da média do IDH dos municípios da região metropolitana de Belo Horizonte que está em torno de 0.80. A economia da maior parte dos municípios tem como suporte a pecuária e a atividade extrativa, a partir do plantio de grandes áreas de eucaliptos e a produção de carvão vegetal para abastecer as indústrias siderúrgicas da região de Sete Lagoas e Belo Horizonte. Recentemente foi descoberta uma importante jazida de minério de ferro e manganês no município de Rio Pardo de Minas, jazida essa comparável a do quadrilátero ferrífero, o que pode mudar o perfil econômico da própria cidade e das cidades vizinhas. Como em muitas outras cidades do Norte de Minas, a infraestrutura da maior parte dos municípios é bastante precária. Algumas cidades sequer têm acesso por rodovia asfaltada, o que afeta o escoamento da produção agrícola desses municípios. Se o governo investisse maiores recursos na infraestrutura e a iniciativa privada, por sua vez, gerasse maiores oportunidades de 6 http://www.ibge.gov.br/mapas_ibge/mapasinterativos. 32 crescimento da região com a implantação de indústrias, o cenário futuro poderia ser bem diferente do atual. 1.5 Breve histórico e dados socioeconômicos dos municípios da bacia do Rio Pardo A região onde se situam os municípios da bacia do Rio Pardo foi concedida como sesmaria (MIRANDA, 1997), pelo rei de Portugal, ao Conde da Ponte – Manoel de Saldanha da Gama Melo e Torres Guedes Brito – e a sua esposa, Condessa Joaquina de Castelo Branco. Com o passar do tempo essas terras foram sendo divididas, seja por meio de venda de glebas, seja como pagamento aos empregados das inúmeras fazendas de gado que foram se formando ao longo da história, ou ainda por doações às pequenas comunidades que se formavam, sobretudo em benefício de algum padroeiro da igreja católica. Em ordem histórica segue-se, de forma resumida, como se deu a formação dos atuais municípios pesquisados e alguns dados socioeconômicos. 1.5.1 Rio Pardo de Minas O município mais antigo da região pesquisada é Rio Pardo de Minas. Segundo Barbosa (1995), a freguesia foi criada em 1740, subordinada ao bispado da Bahia, sendo das mais antigas paróquias de Minas. Durante o século XVIII as terras do atual município estiveram ligadas à antiga Comarca de Sabará, depois à Comarca do Serro e, posteriormente, ao município de Minas Novas. A então freguesia é elevada à condição de vila em 13 de outubro de 1831, com o nome de Rio Pardo. A vila de Rio Pardo passou à categoria de cidade pela lei nº 1887, de 15 de julho de 1872. A atual denominação Rio Pardo de Minas lhe foi auferida em 31 de dezembro de 1943. Foi sede de vários municípios da região, dentre eles Monte Azul, Espinosa, Salinas, Taiobeiras, São João do Paraíso, Indaiabira, Montezuma, Santo Antônio do Retiro e Vargem Grande do Rio Pardo. De acordo com o IBGE (2012) 7 , o município contava com uma população de 29.099 habitantes, segundo o censo de 2010, frente a uma população de 48.800 moradores no 7 http://www.ibge.gov.br/cidadesat. 33 ano de 1991, quando veio decrescendo até o censo de 2007, quando contava com aproximadamente 28.000 habitantes. Do total dos seus habitantes, 40,2% residiam no meio urbano, contra 59,8% no meio rural. O produto interno bruto (em mil reais) do município, em 2010, fechou em 147.837, sendo puxado pelo setor de serviços com 87.760, seguido do setor agropecuário com 47.875 e, por último, o setor industrial com 12.212. O setor de serviços oferece um número razoável de empregos à região, com um comércio que atende as principais necessidades dos seus moradores. O setor industrial, apesar da pouca expressividade, certamente será o pilar da economia do município em um futuro próximo – caso haja investimentos do governo e do setor privado – em razão da descoberta de uma grande jazida de minério de ferro, com um potencial de 10 milhões de toneladas, o equivalente a um novo quadrilátero ferrífero. A produção agrícola do município não é expressiva, em comparação com outras regiões do estado, em razão de suas terras apresentarem um relevo acentuado, com a incidência de muitas rochas e ainda pela alta salinidade do solo em algumas áreas. Os principais cultivos agrícolas são cana-de-açúcar, mandioca, arroz, feijão, milho, café e frutas. Desde a década de 90 as plantações de eucalipto vêm tomando o espaço de outros cultivos, o que tem gerado grande mudança na paisagem, mas, em contrapartida, gerou 58 milhões de reais ao município na produção de carvão. O setor da agropecuária não é dos mais fortes da região, contando, à época, com um efetivo de 8.202 cabeças de bovinos e 2.981 de suínos. Em relação à educação, verifica-se que 4.852 pessoas de quinze anos ou mais não sabiam ler e escrever, o que representava um percentual de 23,4% de analfabetos nessa faixa etária. 1.5.2 São João do Paraíso As terras pertencentes ao atual município de São João do Paraíso, embora já estivessem bem povoadas desde final do século XVIII, demorou a ter esse reconhecimento, sendo o povoado elevado à condição de distrito de Rio Pardo de Minas em 1833, de acordo com Barbosa (1995). Em 1888, Raimundo Meireles fez doação de um terreno a Nossa Senhora da Saúde, onde se ergueu a capela de São João Batista, sendo constituído ao seu redor o arraial da Raposa, primeiro nome do município. Por meio do decreto-lei nº 158, de 31 de dezembro de 1943, o então distrito fora elevado a condição de município, desmembrando- se de Rio Pardo de Minas. O município contava com uma população de 22.319 habitantes segundo censo do IBGE de 2010, sendo que desses 45,9% eram residentes na área urbana e 34 54,1% na zona rural. Assim como Rio Pardo de Minas, sua população decresceu desde o censo de 1991, quando contava com 28.919 habitantes, voltando a crescer, de forma bem moderada, a partir de 2007 quando contabilizou uma população de 21.839 habitantes. O produto interno bruto (em mil reais) do município foi de 93.730, segundo censo de 2010 e, de forma similar a outros municípios da região, foi puxado pelo setor de serviços com 66.138, seguido pelo setor agropecuário com 16.225 e, por último o setor industrial com 11.367. A cidade considerada ―a terra do doce de marmelo‖ é grande exportadora do óleo de eucalipto, bem como de carvão vegetal para abastecer as indústrias siderúrgicas de Sete Lagoas e Belo Horizonte, tendo gerado uma receita de 16,5 milhões de reais para o município em 2010. A produção agrícola do município gira em torno da plantação da cana-de-açúcar, milho, arroz, feijão, mandioca e algumas espécies de frutas. O setor agropecuário contava à época com um efetivo de 9.164 cabeças de bovinos e 4.451 cabeças de suínos. Um dado sobre a educação a apontar é o alto índice de analfabetos no município: 27,6% dos habitantes na faixa etária de quinze anos ou mais são analfabetos, ou seja, 4.621 pessoas no ano de 2010. 1.5.3 Águas Vermelhas As terras que hoje fazem parte do município de Águas Vermelhas pertenceram ao Conde da Ponte – Manoel de Saldanha da Gama Melo e Torres Guedes Brito – e a sua esposa, condessa Joaquina de Castelo Branco. Em 1821, o casal vende parte dessa terra à Joaquim Gomes Quaresma, o qual, em 1º de janeiro de 1844, faz doação da propriedade ao padroeiro São Sebastião. O povoado, que surgiu de um ―curral‖ as margens do rio Mosquito, tinha a denominação de São Sebastião de Águas Vermelhas, pertencendo, àquela época, ao município de Rio Pardo. De acordo com Barbosa (1995), em 1863, o povoado foi elevado a distrito, mediante a lei de nº 1169, de 27 de novembro daquele ano, passando a se chamar Água Vermelha. Em 1880, passou a fazer parte do município de Salinas, quando passou a figurar com o nome de Águas Vermelhas (no plural). O município foi criado em 1962, pela lei de nº 2764, de 30 de dezembro daquele ano. A respeito da origem do nome ―Águas Vermelhas‖, alguns moradores mais velhos afirmam que isso se deve às águas ferruginosas do Córrego Boa Esperança, o qual deságua no Rio Mosquito. Em relação ao nome desse rio, alguns poucos moradores afirmam que ele foi 35 assim nomeado por ter sido encontrado em suas águas um minúsculo diamante, o qual foi comparado aos olhos de um mosquito pelo seu tamanho e brilho. Historicamente, junto com alguns municípios vizinhos, está inserida em uma das regiões de incursões mais antigas, senão a mais antiga de Minas Gerais – a rota de entradas e bandeiras do norte e, também na rota dos tropeiros que vinham da Bahia, trazendo suas boiadas. Constitui-se, por isso, de vários traços comuns à região caracterizada por Diégues Jr. (1960, p.19) como a ―região cultural do gado‖. Embora a formação do distrito seja relativamente nova, a região onde se situa Águas Vermelhas já era bem conhecida dos tropeiros que vinham da região de Montes Claros, Araçuaí, Salinas e outras, para municípios da Bahia, como Encruzilhada, Jequié, Feira de Santana, desde meados do século XIX. Esse caminho era conhecido como ―estrada do boi magro‖. Segundo dados do IBGE (2010), o município de Águas Vermelhas contava com uma população de 12.722 habitantes, sendo que cerca de 2/3 desses moravam na zona urbana. O produto interno bruto (em mil reais) naquele ano foi de 82.202, da mesma forma com o setor de serviços puxando a economia do município, seguido da agropecuária e indústria, com valores respectivos de 63.121, 11.662 e 7.419. Em relação aos produtos agrícolas, dados do IBGE de 2010 apontam a mandioca como o principal produto de plantio da região, seguido do feijão, milho, frutas e o café. O setor de comércio e serviços é bastante tímido, mas têm-se buscado linhas de financiamento junto às entidades do governo para dinamizar a economia do município. Quanto à atividade industrial, as principais indústrias são ligadas ao beneficiamento de produtos agrícolas, principalmente a mandioca e a cana-de-açúcar, além de produtos derivados do leite. Sendo assim, os principais produtos são: rapadura, aguardente de cana, manteiga, queijo, requeijão, polvilho e a farinha de mandioca. Esta última é vendida em grande parte para estados do Nordeste. Outro produto gerado pela indústria local é o carvão vegetal, extraído principalmente das matas nativas e que durante muito tempo propiciou emprego para uma boa parte da população. Não se pode deixar de mencionar que a derrubada das matas para a produção de carvão trouxe sérios problemas ambientais para a região. Hoje, devido ao maior rigor da fiscalização de áreas do meio ambiente, a atividade vem perdendo força, mas as plantações de eucalipto que se mostram ampliadas nas fazendas tende a ocupar parte dessa mão-de-obra excedente. O setor agropecuário é bem desenvolvido, confirmando a tradição da região nessa atividade, com um efetivo de 15.826 cabeças de gado, gerando boas divisas para a economia da cidade. No que tange à educação, verifica-se pelos índices do 36 IBGE de 2010 que 2.539 pessoas acima de 15 anos eram analfabetas, o que representava um percentual geral de 27,6% dos habitantes dessa faixa etária do município. 1.5.4 Montezuma De acordo com Barbosa (1968), o início do povoamento da região se deu ―nos albores do século XIX‖, na fazenda da Tabúa. Entretanto, a formação do arraial dá início com a descoberta de fontes de águas termais em meados do século XIX, correndo a fama de suas águas milagrosas. Em 1880, foi sancionada a lei nº 2.603 abrindo crédito para a construção de um estabelecimento balneário nas águas medicinais do povoado, então denominado Águas Quentes, o qual pertencia ao município de Rio Pardo. A lei, no entanto, não entrou em execução. Em 30 de outubro de 1890, por meio do decreto nº 224, fora criado o distrito de Santana da Água Quente. Por um decreto-lei de 1938 a denominação do município fora reduzida para Água Quente, sendo que em 1943, por outro decreto-lei, o nome foi novamente alterado, passando a ser denominado Montezuma, o que permanece até os dias atuais. Segundo fontes históricas do IBGE (2010) o distrito de Montezuma é elevado à condição de município em 27 de julho de 1992, desmembrando-se de Rio Pardo de Minas. Segundo essa fonte, a origem do nome Montezuma é uma homenagem ao Visconde de Jequitinhonha, jornalista muito atuante na independência da Bahia, participando ativamente ao lado das tropas baianas contra o poder português. Após a independência do Brasil, o Visconde, dando uma mostra de seu nacionalismo, muda seu nome de Francisco José Gomes Brandão para Francisco Gê Acaiaba de Montezuma, sendo que Gê representava as tribos do Brasil Central, Acaiaba, de uma bela lenda diamantinense de uma árvore sagrada e, Montezuma em homenagem ao imperador asteca. De acordo com o senso do IBGE de 2010 a cidade contava com uma população de 7.464 habitantes, dos quais apenas 41,3% residentes no meio urbano, contra 58,8% de moradores na zona rural. A população do município vem apresentando um crescimento moderado desde o censo de 1996, quando então contava com uma população de 6.582 habitantes. Quanto aos seus dados econômicos, o PIB (em mil reais) do município em 2010 foi de 28.704, dos quais 20.279 estavam relacionados ao setor de serviços. Um destaque na geração de renda do município é a agricultura que apresentava uma área plantada superior a alguns municípios da região, com destaque para a produção de feijão, cana-de-açúcar, milho e 37 mandioca. O setor agropecuário contava com um efetivo de 8.135 cabeças de gado e 1.569 de suínos. A respeito dos índices de analfabetismo no município, verifica-se que 1.198 habitantes de quinze anos ou mais não sabiam ler e escrever, o que equivale a 22,6% dessa faixa de idade da população do município. 1.5.5 Taiobeiras O distrito de Bom Jardim das Taiobeiras, pertencente a Rio Pardo de Minas, foi criado em 30 de agosto de 1911. Em 1923, quando já era distrito de Salinas, teve seu nome alterado para Taiobeiras, sendo que, em 1953, o distrito foi elevado à cidade, desmembrando- se de Salinas. O nome da cidade se deve a uma planta nativa abundante na região: a taioba. Segundo fontes históricas do IBGE (2010), o município cresceu a partir de um entroncamento de tropeiros e viajantes que percorriam as estradas entre Teófilo Otoni e municípios do sertão da Bahia e a outra estrada que seguia para Brejo das Almas (atual Francisco Sá) e Montes Claros. O início do povoado se deu com a construção de uma capela e de um cemitério, pelo fazendeiro Vitoriano Pereira da Costa. Com a bênção do cemitério pelo padre Espiridião Gonçalves dos Santos, da paróquia de Rio Pardo de Minas, foi erguido um cruzeiro no local, no ano de 1875. A partir de 1900, com a morte de Vitoriano e a venda do terreno, diversos fazendeiros se uniram e deram início às primeiras construções do povoado. De acordo com censo do IBGE de 2010 o município contava com uma população de 30.917 habitantes, sendo, portanto, o mais populoso dentre os nove pesquisados. Do total da sua população 81,1% estavam concentrados no meio urbano, contra apenas 18,9% dos residentes no meio rural. Diferentemente dos municípios anteriores, sua população vem aumentando desde o ano de 1996, quando contava com 25.654 habitantes. É também o município com o maior PIB (em mil reais) dentre os nove, com o valor de 152.557. O setor de serviços era e continua sendo o melhor dentre os nove municípios, contando com um comércio crescente e variado, atendendo não só ao município como também a outros vizinhos. A agricultura se baseia no plantio principalmente do café, milho, feijão, frutas, cana, mandioca e fava. O setor agropecuário de Taiobeiras é o mais expressivo da região com um efetivo de 19.331 cabeças de gado e 3.919 cabeças de suínos. A produção de carvão vegetal é um dos destaques da economia do município, com a geração de quase 20 milhões de reais. A indústria se baseia 38 principalmente no beneficiamento dos produtos agrícolas e da agropecuária, na extração do eucalipto e produção de carvão e fabricação de móveis. Um fato curioso a ressaltar é que, embora conte com uma boa produção de cana- de-açúcar, boa parte da cachaça produzida no município é engarrafada em estabelecimentos do município vizinho, Salinas, devido à fama na produção dos melhores destilados da cana a nível nacional. No que tange à educação, do total de 30.917 habitantes em 2010, 4.077 não sabiam ler e escrever, o que representa um percentual de 17,7% dos habitantes na faixa de quinze anos ou mais. 1.5.6 Santo Antônio do Retiro Segundo fontes históricas do IBGE, o atual município de Santo Antônio do Retiro surgiu a partir da formação de um povoado, em 1935, com o nome de Retiro. Em 1950, é inaugurado o primeiro prédio escolar, com o nome de Escola Estadual José Cantídio de Santo Antônio do Retiro, nome em homenagem ao santo padroeiro, Santo Antônio. Nessa época o vilarejo pertencia a Rio Pardo de Minas, vindo a elevar-se a categoria de distrito em 12 de dezembro de 1962, sendo que em 21 de dezembro de 1995 é oficializado como município, emancipando-se de Rio Pardo de Minas. A população do município contava, segundo o censo de 2010, com 6.955 habitantes, tendo apresentado um dos menores crescimentos dentre os nove pesquisados, visto que no censo de 2000 contabilizava 6.655 habitantes e no censo de 2007, 6.817 moradores. Ao contrário dos municípios já citados, os quais retêm boa parte da população no meio urbano, Santo Antônio do Retiro apresentava um índice de apenas 22,9% de população na zona urbana, contra 77,1% dos seus habitantes no meio rural. Está, dentre os municípios pesquisados, com um dos menores índices de PIB (em mil reais), com 25.072, sendo que 19.817 relativos ao setor de serviços. A opção pelos produtos cultivados segue os mesmos dos demais municípios vizinhos, ou seja, mandioca, milho, cana-de-açúcar e feijão. O setor agropecuário contava com um efetivo de 2.450 bovinos e 833 cabeças de suínos. Em relação à educação, um dado revelado pelo censo de 2010 é que, dentre os 6.955 habitantes, 1.525 pessoas com idade de 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever, ou seja, um percentual de 31,4% de analfabetos, o terceiro mais alto dentre os nove pesquisados. 39 1.5.7 Indaiabira O município de Indaiabira nasceu, em 1908, a partir de um povoado formado na fazenda Palmeiras do Bom-fim, posse de um rico proprietário de terras chamado Francisco Xavier de Barros, o qual doara parte do terreno para a formação de Coqueiros, primeira denominação do lugarejo. Em 1938, o povoado é elevado à condição de distrito, por meio do decreto-lei nº 148, subordinado ao município de Rio Pardo de Minas. Por novo decreto-lei, em 1943, a denominação de Coqueiros passa à Indaiabira, o qual tem a seguinte origem: Indaia, do tupi ini‟ya ―fruto de fios‖ e bira ―designação comum de várias palmeiras‖. Em 1995, por meio da lei estadual nº 12.030 de 21 de dezembro, o distrito de Indaiabira é elevado à condição de município, sendo desmembrado de Rio Pardo de Minas. Desde 1999 o município conta com outro distrito além da sede, com denominação de Barra de Alegria. A respeito dos seus dados econômico-sociais, Indaiabira contava com uma população, em 2010, de 7.330 habitantes, dos quais apenas 37,4% residentes na zona urbana, contra 62,6% de residentes na zona rural. Diferente de outros municípios vizinhos cuja população tem diminuído desde o censo de 2000, Indaiabira mantém uma população estável, entre 7.300 a 7.500 habitantes no período mencionado. No que diz respeito à economia, ainda de acordo com os dados de 2010, o PIB (em mil reais) do município naquele ano foi de 32.001, com a maior parte representada pelo setor de serviços, com 21.461. O comércio do município, até por contar com uma população na sede bem diminuta, é bem reduzido, não atendendo a muitas das necessidades de seus habitantes, os quais geralmente viajam à Taiobeiras para adquirir os produtos de que necessitam. A produção agrícola do município é sustentada principalmente pelo cultivo do milho, feijão, cana-de-açúcar, café, arroz e mandioca. A pecuária, por sua vez, contava com um efetivo de 5.226 cabeças de gado e 1.847 de suínos. Em relação ao índice de analfabetismo entre as pessoas acima de quinze anos de idade, os dados revelam que 1.723 pessoas não sabiam ler e escrever, o que perfaz um total de 32,1% da população com essa faixa etária, o segundo mais alto dentre os nove municípios pesquisados. 40 1.5.8 Berizal Os primeiros habitantes das terras onde hoje se situa o município de Berizal foram negros escravos foragidos do sertão da Bahia ou libertos da escravidão. Construída as primeiras casas, os habitantes edificaram uma pequena igreja para o santo padroeiro, São Sebastião. Tempos depois, as terras onde fora erguido o povoado são doadas ao santo padroeiro por Clementina, uma negra que tinha recebido por herança as terras do pai. O povoado que, inicialmente, fora nomeado por Curral de Varas, então pertencia ao município de Salinas até meados do século passado, quando em 1953, com a emancipação de Taiobeiras do município de Salinas, por um acordo, o povoado passa a pertencer àquele. Em 1962, por meio da lei de nº 2764 de 30 de dezembro, o povoado é elevado à condição de distrito e muda de nome, passando a se chamar Berizal, nome dado pelo Padre Jaime, pároco de Pedra Azul. Segundo depoimentos dos próprios entrevistados o nome Berizal é uma aglutinação de ―beri‖ da palavra ―brejo‖ com a terminação ―zal‖ de arrozal, o que é explicado pelas plantações de arroz nos brejos próximos ao distrito. Em 21 de dezembro de 1995, por meio da lei estadual nº 12030 Berizal é elevada à condição de município, desmembrando-se de Taiobeiras. No que tange aos dados socioeconômicos, o município contava com uma população em 2010, segundos dados do IBGE, de 4.370 moradores, dos quais 56,9% residentes no meio urbano, contra 43,1% residentes em domicílio rural. O PIB (em mil reais) do município em 2010 fora de 17.179, sendo 12.903 do setor de serviços. Em relação à produção agrícola, os dados do IBGE revelam que os principais produtos cultivados em ordem de área plantada eram o feijão, o milho, o café, a mandioca, frutas e a cana-de-açúcar. Curiosamente, o arroz que deu nome ao município não constava da lista de produtos. O setor agropecuário contava com um efetivo de 9.041 cabeças de gado e 733 de suínos. Em relação à educação, os dados revelam que entre os habitantes acima de 15 anos, 801 não sabiam ler e escrever, o que equivale a 24,8% da população nessa faixa de idade. 1.5.9 Ninheira O povoado de Ninheira surgiu a partir da construção das primeiras casas em 1957, então sob o domínio de São João do Paraíso. O povoado recebeu esse nome em razão de uma grande árvore existente no centro do povoado, àquela época, a qual tinha em seus galhos 41 inúmeros ninhos, por isso esse nome. Em 21 de dezembro de 1995, por meio da lei estadual 12.030, é elevado à condição de município, quando então foi desmembrado de São João do Paraíso. De acordo com o censo do IBGE de 2010, o município contava com uma população de 9.815 habitantes, dos quais apenas 26,7% residentes na zona urbana, contra 73,3% dos habitantes vivendo na área rural, sendo, portanto, aquele com o menor número de habitantes, dentre os nove pesquisados, morando na sede. Sua população mantém-se estável desde o censo de 2000, apresentando uma média entre 9.500 a 10.500 habitantes. O PIB (em mil reais) do município em 2010 foi de 42.348, sendo o setor de serviços que mais contribuiu para esse número, com o valor de 28.531. Em razão do reduzido número de habitantes vivendo na cidade, o comércio é razoável e não atende todas as demandas da população, sendo necessário o deslocamento de seus habitantes para a antiga sede: São João do Paraíso. A agricultura é baseada principalmente no cultivo de café, mandioca, milho, feijão e cana-de-açúcar. Entretanto, em razão da seca que assola a região quase todos os anos, o cultivo de alguns gêneros como milho e feijão permitem a colheita de apenas pouco mais de 10% da área plantada. Em contrapartida, a pecuária tem mostrado bom desempenho, com um efetivo de 10.145 bovinos e 1.568 suínos, número superior a alguns dos outros municípios. A atividade de extração e produção de carvão tem gerado boas divisas para o município, com uma participação de três milhões de reais no PIB. No que tange à alfabetização, verifica-se pelos dados do IBGE que 34,3% dos habitantes com quinze anos ou mais de idade não sabiam ler e escrever, o índice mais alto entre todos os nove municípios pesquisados, o que demonstra a ineficiência do poder público nesses rincões de nosso estado. Após focalizar aspectos históricos e socioeconômicos dos municípios da região Norte de Minas, onde foram realizadas as entrevistas, necessárias para embasar um estudo léxico-cultural, passamos ao capítulo 2, quando trataremos dos pressupostos teóricos que estruturam esta pesquisa. 42 CAPÍTULO 2 – CULTURA, LÍNGUA E SOCIEDADE 2.1 Cultura Ainda que seja uma palavra tão usual, sobretudo no mundo moderno, e tão presente no cotidiano das sociedades, seja de qual região for, a definição de cultura não é algo fácil como se imagina à primeira vista. Em um país de dimensão tão vasta e com grande variedade étnica como o Brasil, a cultura apresenta-se sob inúmeras ―roupagens‖, levando, por conseguinte, a diversas concepções. Segundo Cunha (1986, p. 233), o vocábulo cultura, na acepção de ―civilização‖, vem do alemão kultur, através do francês culture. De acordo com Laraia (1986), essa palavra teria sido criada na segunda metade do século XIX, a partir de uma síntese entre os vocábulos kultur e civilization, simbolizando, na acepção alemã, os aspectos espirituais de uma comunidade, ao passo que para os franceses se referia às realizações materiais de um povo. Ainda de acordo com Laraia (1986, p.25), posteriormente, o termo teria sido sintetizado no inglês culture por Edward Taylor, quando passa a representar todas as realizações humanas. Desse modo, surgia o primeiro conceito etnográfico do termo cultura, o qual, para Taylor, estaria relacionado a ―um todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.‖ (LARAIA, 1986, p.25). À época da criação do vocábulo, no século XIX, a noção de cultura na Alemanha guardava certa similaridade com o pensamento francês, pois nessa época a aristocracia alemã via a cultura na acepção de civilização, buscando imitar as maneiras civilizadas da corte francesa. A partir de uma crescente crítica dos intelectuais burgueses na França frente aos hábitos da corte alemã, o qual era tido como imagem de cultura, passa a haver um choque entre essa linha de pensamento e outra linha que via a cultura como algo mais profundo, que contribui para o enriquecimento intelectual e espiritual. Toma corpo, a partir de então, as duas linhas de pensamento que passariam a fazer parte dos estudos envolvendo a noção de cultura, sobretudo no âmbito das ciências sociais. A partir desse rompimento, surge a linha francesa, também denominada universalista que, por sua vez, entende a cultura como característica do gênero humano, em contraponto à escola alemã, essa visualizando a cultura como um conjunto de características 43 artísticas, morais e intelectuais que constituem o patrimônio de uma nação, indicando, portanto, uma visão particularista do termo. Partidário da escola francesa, Taylor reconhece a cultura como algo relacionado ao aprendizado, em oposição à ideia de cultura como algo biológico, nato dos seres humanos. Entretanto, embora sectário da linha universalista da escola francesa, Taylor defendia o princípio do evolucionismo, segundo a tese de que haveria uma escala evolutiva do progresso cultural. De acordo com esse princípio, as sociedades primitivas deveriam percorrer um longo caminho para chegar ao patamar das sociedades civilizadas. Em oposição às ideias evolucionistas de Taylor, Franz Boas, considerado como o pai da Etnografia, surge como um dos principais pesquisadores a influenciar no conceito contemporâneo de cultura. Ao realizar pesquisas de campo diretamente com sociedades tidas como primitivas na América do Norte, Boas conclui que a diferença fundamental entre as diversas civilizações ou até mesmo entre grupos humanos era de ordem cultural, não derivada, portanto, de raça ou influência do meio físico em que estas residiam. A partir desse ponto de vista, a cultura deixa de ser tomada como um referente único, representante de um modelo universal, ao contrário, é vista como algo plural, com as especificidades singulares de cada grupo ou sociedade. Passados quase um século e meio desde o surgimento da acepção de cultura utilizada por Taylor, o conceito para essa palavra ainda carece de uma definição nítida, em face do grande número de aceitações, utilizações e perspectivas de análises, decorrentes, muitas vezes, das várias áreas de estudo que abarca o tema, cada qual com uma visão de acordo com o seu foco de análise, como é o caso da Antropologia, Sociologia, História, Comunicação, Administração, Economia etc. Outra razão que contribui para essa multiplicidade de conceitos é o uso dessa palavra em diferentes campos semânticos, substituindo outros vocábulos como ―mentalidade‖, ―espírito‖, ―tradição‖, ―ideologia‖, acrescido ainda a outros usos contemporâneos como ―cultura de massa‖, ―cultura popular‖, ―cultura nacional‖, ―cultura política‖, ―cultura empresarial‖, ―cultura de germes‖, ―cultura virtual‖ etc., e mais recentemente, com o avanço das redes sociais, o termo ―cibercultura‖. Em face dessa pluralidade de acepções que o termo carrega, vários foram os conceitos empregados pelos estudiosos em relação ao tema. Para Durkheim (1912 apud NARDI, 2002, p.4): a cultura é um processo interativo, composto de traços culturais que interagem uns com os outros, formando novas permutações, combinações e sínteses. Eles [os fatos 44 sociais, os traços culturais] atraem-se uns aos outros, repelem-se, dividem-se e se multiplicam. Recorrendo novamente a Laraia (1986), faz-se mister mencionar algumas definições de renomados estudiosos, trazendo diferentes abordagens, sobre o que seja cultura. Concebendo-a como um sistema cognitivo, Goodenough (1957) afirma que a ―cultura é um sistema de conhecimento; consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de uma sociedade‖ (apud LARAIA, 1986, p.61). Outro importante estudioso, Lévi-Strauss (1976), vê a cultura como sistemas estruturais, definindo-a como ―um sistema simbólico que é uma criação acumulativa da mente humana‖ (apud LARAIA, 1986, p.61). Há ainda outros pensadores que a defendem como um sistema de símbolos, dentre os quais Geertz (1966) e Schneider (1968), para os quais a ―cultura deve ser considerada não um complexo de comportamentos concretos, mas um conjunto de mecanismos de controle [...] para governar o comportamento‖ (apud LARAIA, 1986, p.62). Diante da multiplicidade de interpretações e usos do termo cultura, optamos por nos valer da posição adotada por Duranti (2000) que critica a noção totalizadora empregada para o termo. Segundo ele, essa visão de cultura que procura restringir toda a amplidão de significados do termo em apenas um único conceito, reduz as complexidades sócio-históricas a meras caracterizações, escondendo as contradições morais e sociais que existem no meio das comunidades. Assim sendo, Duranti, contrapondo a ideia de revisar as diferentes teorias de cultura propostas pelos antropólogos, procura expor seis teorias acerca do assunto em que a linguagem desempenha um papel decisivo: a) a cultura como algo distinto da natureza: a cultura é aprendida e transmitida de geração em geração mediante a comunicação linguística. Dessa forma, ninguém nasce com uma cultura internalizada, mas, ao contrário, adquire-a por meio das pessoas com quem convive; b) a cultura como conhecimento: se a cultura se adquire mediante o aprendizado, isso implica dizer que grande parte dela é obtida por meio do conhecimento de mundo, conhecimento que é compartilhado entre os membros de uma comunidade; c) a cultura como comunicação: a cultura conecta indivíduos, grupos, situações e objetos com outros grupos, situações e objetos. Nessa perspectiva, a comunicação não apenas representa, mas também indica alguma coisa, pressupõe, deduz; d) a cultura como um sistema de mediação: segundo essa visão, o homem utiliza-se de ferramentas para produzir um trabalho ou interagir com o mundo social ou físico. Nesse caso, 45 a cultura inclui tanto os objetos materiais como as ferramentas de trabalho e também os sistemas de crenças e códigos linguísticos como mediadores entre o homem e seu entorno; e) a cultura como um sistema de práticas: a cultura não é algo simplesmente externo ao indivíduo (como os rituais ou símbolos que têm herdado os membros antigos da sociedade), nem algo simplesmente interno (por exemplo, a mente individual). Ela existe por meio de uma prática rotineira que inclui as condições materiais e, também, pela experiência dos homens no seu meio familiar; f) a cultura como um sistema de participação: essa ideia se relaciona à ideia de cultura como um sistema de práticas, na medida em que parte do pressuposto de que a comunicação verbal é de natureza inerentemente social, coletiva e participativa. Fazer uso de uma língua significa participar em interações com o mundo ao redor das pessoas. A cultura é, nessa medida, um sistema de participação em que os indivíduos de uma comunidade compartilham os recursos existentes como as crenças, a linguagem, os costumes etc. Diante das teorias expostas por Duranti, conclui-se que é muito complexa uma definição totalizadora de cultura. A partir dessas seis teorias pode-se concluir que a linguagem desempenha um papel decisivo em uma sociedade, daí a proposta de um estudo em que se correlacionam língua, cultura e sociedade. Só assim entender-se-á, de forma mais aclarada, como um sistema linguístico é utilizado por uma comunidade. 2.2 Língua e Sociedade A principal característica que distingue o homem dos demais seres da natureza é a faculdade da linguagem. Esse recurso permite ao ser humano, por meio de sua voz, articular sons com significado e, através da sua racionalidade, organizá-los como linguagem. É por meio dessa linguagem que ele se relaciona com os seus pares, ora para externar seus sentimentos, dúvidas e medos, ora para organizar as regras de convivência entre os indivíduos do seu grupo ou ainda transmitir o conhecimento adquirido através do tempo. Ao tratar do termo linguagem, não se alude aqui apenas à capacidade de fala do indivíduo. Como bem define Cunha (1980, p.15), a linguagem é um conjunto complexo de processos – resultado de uma certa atividade psíquica profundamente determinada pela vida social – que torna possível a aquisição e o emprego concreto de uma língua qualquer. Usa-se também o termo para designar todo sistema de sinais que serve de meio de comunicação entre os indivíduos. 46 Em geral, o termo linguagem é muitas vezes confundido com uma de suas realizações: a linguagem falada ou articulada, ou seja, a língua. Diferentemente da linguagem, que pode ser expressa não apenas pela fala humana, a língua é um sistema gramatical criado pelo homem, o qual compreende uma organização de sons específicos e que se distingue de outras por aspectos morfofonêmicos e por padrões frasais. Por ser uma criação do homem e representar as coisas criadas por esse – sejam materiais ou não materiais – e, ao mesmo tempo, um produto da heterogeneidade dos membros de uma sociedade, ela não é imutável. Uma característica essencial de qualquer língua é que ela é organizada por regras e interiorizada pelos membros que dela se utilizam para interagir com seus pares. Entretanto, em detrimento da diversidade psíquica e social dos indivíduos, verifica-se que essas regras, em função de fatores diversos, nem sempre são seguidas, contribuindo para a criação de formas não-padrão. Ao conjunto dessas formas concretas de uso que assumem tonalidades divergentes das demais, seja na fonologia, morfologia, sintaxe ou no léxico, dá-se o nome de variável linguística, ao passo que a cada uma dessas formas diferentes dá-se o nome de variante linguística. É a soma dessas pequenas alterações que vão se formando na língua que resulta na formação de outras subcategorizações dessa como o idioleto, os falares, os dialetos e a língua nacional. No que tange à essas realizações da língua, o idioleto, termo cunhado pelos linguistas norte-americanos segundo Câmara Jr. (1970, p.222), é aquela variedade que está relacionada ao estilo de cada indivíduo, ou seja, o falante, ao transmitir alguma mensagem, deixa transparecer ao seu interlocutor algumas características linguísticas que o distingue de outros ou o insere num determinado grupo com os mesmos traços. O falar, por sua vez, estaria relacionado às realizações linguísticas de determinada região, conforme Câmara Jr. (1970, p.175). Segundo Cunha (1980, p.16), ―falar é a peculiaridade expressiva própria de uma região e que não apresenta o grau de coerência alcançado pelo dialeto‖. Assim sendo, há o falar carioca, o falar mineiro, o falar baiano etc. Zágari (1998, p.33), ao tratar do Atlas Linguístico de Minas Gerais, afirma que ―o que Minas apresenta são falares, isto é, realizações linguísticas de agrupamentos humanos que podem ser associados a uma pronúncia característica, a um ritmo de fala e a uma que outra definida escolha de um item lexical.‖ Esse autor ainda complementa sua definição (1998, p.33) com outra de Câmara Jr., o qual assume que o falar ―são línguas de pequenas regiões, por meio de um território linguístico dado, que se distinguem uma das outras por oposições superficiais dentro do sistema geral de oposições fundamentais que reúne todas numa língua comum.‖ 47 O dialeto, por sua vez, estaria relacionado às variedades linguísticas de uma região maior, mas que não alcançam o status político de língua. Em face do exposto e seguindo a terminologia adotada por Zágari e por pesquisadores do ALEMIG será adotado nessa pesquisa o termo falar para aquelas variações linguísticas relativas a regiões menores dentro de um dado território linguístico, como é o caso da divisão proposta para Minas Gerais, ou seja, o falar mineiro, o falar paulista, o falar baiano. A língua, por sua vez, poderia ser tomada a partir da definição de língua histórica por Bechara (2009, p.37), que assim a entende: ―produto cultural histórico, constituída como unidade ideal, reconhecida pelos falantes nativos ou por falantes de outras línguas, e praticada por todas as comunidades integrantes desse domínio linguístico.‖ Ademais, esse autor ainda afirma que, dadas as várias tradições linguísticas, bem como a variedade da sua extensão geográfica e limites territoriais, a língua histórica nunca é um sistema único, mas um conjunto de sistemas. 2.2.1 Sociolinguística Conquanto no dia a dia as pessoas não tenham consciência de que a sua língua está continuamente em processo de mudança, é fato que as línguas variam e mudam com o tempo. Diferentemente dos estudos linguísticos nos séculos XVII e XVIII, os quais abordavam a língua como uma realidade estável e organizada, e dos estudos históricos do século XIX, Saussure, rompendo radicalmente com a tradição dos neogramáticos, estabeleceu que os estudos nessa área devessem ser analisados sob duas dimensões: a histórica (diacrônica) e a estática (sincrônica). Na primeira dimensão estão as variações e mudanças por que passa uma língua; na segunda, as características da língua vista como um sistema estável em um espaço de tempo determinado. Saussure acreditava que era possível enfocar a língua em cada um desses sistemas, apesar de dar prioridade à pesquisa sincrônica em detrimento da pesquisa diacrônica. Para esse linguista, as mudanças da língua no tempo nunca afetam, globalmente, um sistema linguístico, uma vez que não há uma transformação total de um sistema x para um sistema y, mas alterações de valor de elementos de um sistema, levando o mesmo a rearranjos. Ele ainda entendia que a imobilidade total das línguas não existe e defendeu por diversas vezes que as línguas estão em permanente transformação. 48 A doutrina de Saussure alcançou repercussões extraordinárias para os estudos descritivos. Todavia, para os estudos linguísticos, só a partir dos estudos sociolinguísticos, como área de investigação, que o estudo da variabilidade linguística ganha força. A preocupação central dos estudiosos da Sociolinguística é mostrar a relação entre as variações linguísticas observáveis em uma comunidade e as diferenças existentes na estrutura social dessa mesma comunidade. O objeto da Sociolinguística é o estudo da língua falada em seu contexto social, ou seja, em situações reais de uso, como afirma Labov (1972, p.184) 8 : ―parece bastante natural que os dados básicos para qualquer forma de linguística geral seria a linguagem como ela é usada pelos falantes nativos um com outro na vida do dia a dia.‖ (tradução nossa) Em detrimento de analisar a língua apenas em seus aspectos internos, como faz o Estruturalismo ou por meio da idealização da língua como trata o Gerativismo, a Sociolinguística analisa a língua na comunidade de fala. Dessa forma, essa comunidade se caracteriza por um agrupamento de pessoas que falam de maneiras distintas, embora orientadas por um mesmo conjunto de regras. Vê-se, desse modo, que a grande contribuição da Sociolinguística é sua visão da língua como um sistema heterogêneo em que atuam fatores de natureza linguística e extralinguística, abordadas dentro de uma teoria e metodologia bem definida. Assim sendo, a Sociolinguística parte do pressuposto de que toda língua é passível de sistematização; de que a variação é inerente ao sistema e de que há uma forte relação entre a língua e a sociedade em que ela se insere. As variedades linguísticas podem ser originadas por diversos fatores segundo os sociolinguistas, entre eles regiões diferentes, idade, sexo, escolaridade etc. Desse modo, pode haver a variação diatópica, que estaria relacionada a origens geográficas diferentes; a variação diastrática, a qual estaria relacionada a classes sociais diferentes; a variação diafásica, que estaria relacionada ao universo do discurso; a variação diacrônica, que se refere à variação no tempo; a variação estilística ou de registro, que se refere ao uso de estilos ou registros diferentes pelo falante. Em se tratando da diferença diafásica, um enfoque que será tratado ao longo da presente pesquisa, tanto na análise dos dados quanto na abordagem prática a partir da elaboração de um glossário, é a distinção entre língua falada e língua escrita. Em todas as sociedades modernas mais evoluídas a língua escrita ocupa lugar de destaque, sendo considerado o modelo de linguagem a ser seguido por todos os membros que dela fazem uso. 8 ―It seems natural enough that the basic data for any formo f general linguistics would be language as it is used by native speakers communicating with each other in everyday life‖. 49 Conquanto não se possa negar a importância da língua oral, posto que, é a partir dela que o indivíduo adquire e exprime as primeiras palavras da sua língua, é fato que ela apresenta grandes limitações, conforme aponta Biderman (1998a). Talvez a maior delas seja a ausência de suporte físico para sua materialização. Em outras palavras, a fala, levando-se em conta o seu uso no cotidiano, após dita, se perde para sempre. Em contrapartida, a língua oral apresenta dois traços que contribuem sobremaneira para a vivacidade da língua: ser criativa e variável, conforme aponta Biderman (1998a). É, portanto, a língua oral a principal responsável pelas mudanças porque passam as línguas naturais. Por outro lado, a escrita desempenha um papel fundamental para a língua, pois ao exercer o papel de guardiã da herança cultural e literária do idioma, impondo a rigidez que lhe é própria, contribui para a continuidade do cerne dessa língua ao longo da sua história. Outra contribuição da escrita é a possibilidade de expansão do vocabulário da língua por parte do indivíduo, posto que a modalidade oral, salvo seu aspecto criativo como mencionado, é caracterizada no seu cotidiano pelo reduzido emprego do léxico de uma língua. É fato que os falantes de uma língua, em regra geral, não dominam mais que 4 ou 5 mil palavras e comunicam-se perfeitamente com cerca de 800 a 1500. Diante da importância de uma e de outra, o que deve ser posto em relevo é que elas se complementam e, nem uma ou outra deve ser considerada a certa ou errada. Em relação às variedades linguísticas, elas são tratadas sob o aspecto valorativo, ou seja, constata-se a existência de duas variedades: a variedade padrão ou de prestígio e a variedade não padrão. A variedade padrão é aquela socialmente mais valorizada, alcançando mais prestígio dentro de uma comunidade, sendo normalmente utilizada pelas altas classes sociais. A variedade não padrão seria aquela mais utilizada no convívio familiar, nas relações informais etc. Segundo Alkimim (2000), a variedade dita padrão não detém propriedades que lhe garantam ser melhor que as demais variedades. Na verdade, a padronização é historicamente definida, ou seja, uma forma determinada como padrão em uma época pode deixar de sê-lo em outra. Outra distinção importante que deve ser ressaltada é quanto aos termos mudança linguística e variável estável. Quando se fala que ocorreu uma mudança linguística em determinado aspecto da língua, pressupõe-se que em um determinado momento a língua manifestava duas variantes para um mesmo fenômeno linguístico, coexistindo em um mesmo espaço. Com o passar do tempo, mas não necessariamente, a variante mais recente toma o espaço da mais antiga na comunidade de fala, passando a ser a única forma utilizada pelos falantes. Conclui-se, portanto, que houve uma mudança linguística. A variável estável, por sua 50 vez, remete à coexistência de duas formas linguísticas em um mesmo tempo e espaço, sem que uma prevaleça sobre a outra. Retomando a questão da relação entre variação e mudança linguística, assim afirma Camacho (2000, p.56): Toda mudança é o resultado de algum processo de variação, em que ainda coexistem a substituta e a substituída, embora o inverso não seja verdadeiro, isto é, nem todo processo de variação resulta necessariamente numa mudança diacrônica, caso em que a variação é estável e funciona como indicador de diferenças sociais. 2.2.1.1 Redes sociais e mudança linguística O termo rede social é usado na Sociolinguística para demonstrar os contatos linguísticos que uma pessoa mantém com outras. Na análise das redes sociais, Milroy (1992) considera que existe um núcleo estável de pessoas que, mesmo sem morar em uma mesma comunidade, mantém contatos entre si e se ―contaminam‖. Milroy (1992, p.36) não estuda a mudança linguística – ou a sua manutenção – a partir do grupo, como ele mesmo afirma: Labov tem afirmado que o local da mudança não está no falante individual, mas no grupo, ou no mínimo que nós temos que procurar no comportamento do grupo. O que está implicado aqui é mais específico que isso: é que a mudança linguística está localizada na interação do falante e é negociada entre os falantes no curso da interação, tal como outros aspectos do discurso são negociados entre eles.9 (tradução nossa) A grande contribuição de J. Milroy para os estudos sociolinguísticos é o tratamento que ele confere à mudança linguística a partir da interação entre os falantes. Segundo ele, é a partir dessa interação e das normas construídas em consenso por um grupo ou comunidade que as mudanças podem ou não ocorrer. Tal como Labov, uma das preocupações de James Milroy em sua teoria é que os dados linguísticos coletados para uma pesquisa não devam ser retirados da língua padrão, mas sim de dados da linguagem vernacular, tal como ele faz em Belfast. Desse modo, Milroy (1992, p.59) ressalta a importância daquelas variedades mais distantes da norma: ―Quanto 9 ―Labov has argued that the locus of change is not in the individual speaker, but in the group, or at least that we have to look for it in group behavior. What is implied here is more especific than that: it is that linguistic change is located in speaker-interaction and is negotiated between speakers in the course of interaction, much as other aspects of discourse are negotiated between them‖. 51 mais distante a variedade está da norma padrão, mais importante torna-se sua prévia descrição.‖ 10 (tradução nossa) Um ponto importante para Milroy em sua teoria diz respeito ao conceito de norma, que para ele difere do tradicional. Segundo ele, norma deve ser entendida como um padrão linguístico consensual entre os falantes de determinado grupo. Desse modo, a norma de uma comunidade difere da norma padrão de uma língua, visto que essa é mais uniforme, ao passo que aquela é, na maioria das vezes, variável, conforme afirma esse autor (1992, p. 82). A partir dessa visão da norma como consenso, Milroy destaca que as mudanças linguísticas ou a manutenção de determinadas características linguísticas são resultado de um ―acordo‖ entre os participantes de um grupo ou comunidade. Nesse caso, a mudança linguística não seria resultado de fatores externos ao grupo, como escolaridade, classe social, mas resultado de fatores internos a ele. Nesse ponto reside a diferença fundamental entre a proposta de Milroy e de Labov. Para o primeiro, os fatores idade, sexo e área são considerados fatores internos, pois têm um caráter universal. Para Labov, esses fatores sociais vistos como internos por Milroy, seriam vistos como externos. Na concepção de Milroy, o social está implícito na língua, e as diferentes normas carregam um significado social, ao passo que Labov concebe as duas coisas como distintas, embora valorize o social na sua análise. Outra grande contribuição de Milroy para a linguística é a abordagem da noção de rede social. De acordo com sua proposta o importante no estudo da língua é o indivíduo e suas relações com os demais, visto que, diferentemente de classe social, escolaridade, ou outros fatores externos tratados nos estudos linguísticos, as situações de contato são universais (1992, p. 85). Outra questão apontada por ele é o fato de que, embora a variável social tenha sido a principal variável na Sociolinguística, alguns linguistas perceberam que alguns grupos sociais não são diferenciados por classe e, ainda assim, apresentaram diferenças linguísticas. A respeito da teoria de redes sociais, Milroy destaca que ela é caracterizada por laços fracos ou fortes entre seus membros, características essas que pode restringir ou favorecer uma mudança linguística. O esquema a seguir ilustra um modelo de rede social: 10 ―The further away the variety is from mainstream norms, the more important this prior description becomes‖. 52 FIGURA 1 – Modelo simplificado de rede social Fonte: Composição do autor. A figura anterior representa duas redes sociais, rede A e rede B, compostas por seus membros simbolizados pelas letras de a a h. As linhas contínuas e tracejadas representam os contatos que cada membro mantém com outros da sua rede ou com uma rede externa. Os laços fortes são simbolizados pelas linhas contínuas, ao passo que os laços fracos são identificados pelas linhas tracejadas. Os elementos c da rede A e g da rede B servem como pontes entre as duas redes e geralmente a ligação entre eles são identificadas por interações fracas, mas isso não é regra, podendo ser o contrário. Embora representada apenas uma ponte, qualquer indivíduo de qualquer grupo também pode servir de ponte com outras redes não representadas na ilustração. Outras duas características muito importantes no estudo de redes sociais de Milroy estão relacionadas à densidade e à multiplexidade da rede. A densidade de uma rede pode ser medida a partir do número de interações que cada indivíduo do grupo mantém com outros. A partir da ilustração apresentada pode-se visualizar que inúmeras outras ligações podem ser realizadas entre os membros de cada rede. Um aspecto a considerar sobre a densidade de uma rede social é que quanto maior for essa densidade maior será a tendência de homogeneização das características dessa rede. A multiplexidade, por sua vez, estaria relacionada aos tipos de ambientes em que cada membro pode interagir com os demais, ou seja, um membro de uma rede pode interagir com um vizinho, que por sua vez também é colega de trabalho ou frequenta a mesma igreja etc. A tendência comum é que um falante procura se expressar de modo diferente de acordo com o ambiente em que ele se apresenta. Em situações em que os indivíduos em contato dividem vários ambientes em comum a tendência é uma 53 homogeneização da linguagem. Em situações como essa os membros de uma rede preferem utilizar uma norma comum aos demais colegas com quem se relaciona a fazer uso de uma norma externa. Da mesma forma que a densidade, quanto maior a multiplexidade da rede maior será seu caráter homogêneo. Uma conclusão de Milroy que corrobora este estudo que estamos desenvolvendo é que a pressão para manter uma linguagem vernacular é muito mais forte em pequenas comunidades onde quase todas as pessoas conhecem os demais e dividem vários ambientes em comum, ou seja, trabalham juntos, frequentam a mesma igreja, participam conjuntamente de eventos culturais e religiosos etc. Outra característica dessas pequenas comunidades que contribui para a formação de redes sociais fortes é a baixa rotatividade das pessoas que entram e saem dessas localidades. Ainda a respeito das redes sociais, Milroy destaca que muitas vezes essas redes são homogêneas no que tange à classe social, idade, etnia e outras variáveis. Chambers (1995) sugere que a diferença entre o sistema de classes e as redes sociais, em relação aos mecanismos de normatização, tem a ver com a proximidade do indivíduo ou a proximidade da sua influência. Essa noção de rede social é essencial para entendermos a manutenção lexical presente nas comunidades estudadas neste trabalho. 2.2.2 Léxico É de conhecimento dos estudiosos da língua, mas não só entre esses que, dentre as várias áreas do estudo da linguagem, o léxico é um dos seus pilares que melhor retrata a realidade linguística, cultural e social de uma comunidade. É por meio da palavra que os indivíduos de uma comunidade expressam suas ideias e também dos seus pares, bem como todo conhecimento adquirido e acumulado ao longo da história de seu povo. Desse modo, quando uma comunidade se serve de vocábulos que expressam ou tentam expressar sua maneira de ver e sentir o mundo, ela passa a constituir uma espécie de documento vivo de sua própria história como, também, de toda a sociedade e cultura que a regem. Assim sendo, é compreensível o fato de, desde a antiguidade, a palavra ter sido sempre foco de atenção. A relação entre as coisas e os ―nomes das coisas‖, há muitos séculos, constitui-se objeto da reflexão dos homens. Vários estudiosos sempre procuraram dar 54 respostas à questão: qual a relação entre as palavras e aquilo que denotam? Essas e muitas outras questões relativas à palavra permitiram que se desenvolvesse no âmbito dos estudos linguísticos o estudo científico do léxico. Segundo Mounin (1968), já os escribas acádios, a fim de facilitar a leitura de textos sagrados sumérios, elaboravam dicionários bilíngues, em que figurava o ideograma sumério, sua transcrição fonética e tradução em acádio. Algumas vezes, além da tradução, constavam até explicações mediante um sinônimo ou definição da palavra, constituindo-se a gênese dos estudos lexicográficos. Os acádios também já tinham consciência da variedade linguística das palavras, como cita Mounin (1968, p.56): Têm-se formade léxicos nos quais aparecem registradas, uma junta a outra, estas duas formas distintas, que eles denominavam a eme-sal e a eme-ku. Porém não se sabe se se trata de dialetos geográficos ou, pelo contrário, se o eme-ku é um dialeto ―social‖, usado especificamente no âmbito religioso. 11 (tradução nossa) A reflexão linguística no que tange ao léxico também era comum entre os gregos. Esses consideravam a palavra como a unidade significativa de articulação do discurso, conforme aponta Biderman (1978). Um dos grandes estudiosos gregos nessa área foi Dionísio da Trácia (séc. II a.C.) que, além de dar continuidade às ideias de Platão e Aristóteles sobre as partes da oração e a estrutura da frase, mostra em sua obra a tomada de consciência frente ao envelhecimento da língua dos antigos poetas como Homero, destacando os arcaísmos e as diferenças dialetais frente à língua grega comum, conforme Mounin (1968). Por sua vez, mas não de forma diferente, os estudiosos da língua no mundo romano aceitaram e aplicaram ao latim, em linhas gerais, as mesmas ideias que os gregos haviam desenvolvido em seus estudos. Segundo Câmara Jr . (1979, p.20), ―o objetivo principal da gramática latina foi o que vimos chamando de ‗o estudo do certo e errado‖. Esse objetivo estava aliado à necessidade de manter a unidade política do império por meio da língua face à ampliação contínua dos seus limites. O foco de estudo da linguagem no ―certo e errado‖ e em uma visão filosófica percorreu toda a Idade Média. A partir do Renascimento e da descoberta pelos europeus de um vasto número de línguas exóticas do Oriente Médio, Costa Africana, Américas e Ásia, começaram a surgir vários glossários despertando um interesse entre os estudiosos pelos aspectos que diferenciavam uma língua da outra, principalmente no tocante à forma, 11 ―Han formado léxicos em los que aparecen registradas, uma junto a outra, estas dos formas distintas, que ellos denominaban la eme-sal y la eme-ku. Pero no se sabe si se trata de dialectos geográficos o, por el contrario, si el eme-ku es um dialeto ‗‘social‘, usado específicamente en el ámbito religioso‖. 55 conforme cita Weedwood (2002). É esse estado de coisas o verdadeiro embrião para os estudos lexicais comparativistas. No século XIX, os estudos lexicais orbitavam em torno da história das palavras e sua comparação com vocábulos de outras línguas, bem como do estudo de seus aspectos fonológicos e formais. Posteriormente, o foco principal de análise das unidades lexicais passa a se concentrar nos estudos semânticos, destacando-se a Semântica Evolutiva, a qual, como o próprio nome alude, tratava da evolução do significado das palavras no decorrer do tempo. A dificuldade maior enfrentada pelos pesquisadores dessa área era explicar por que uma palavra apresentava grande diferença de significação em relação ao seu étimo. Daí a afirmação, por parte desses pesquisadores, de que toda palavra tem sua própria história. Ao final desse período, Hugo Schuchardt 12 se destaca dos seus pares, quando procura estudar o significado das palavras por meio das coisas que elas representam. Segundo Borba (1972, p.159), a metodologia proposta por Schuchardt, denominada ―palavras e coisas‖ (Worter und Sachen), tinha como base uma análise meticulosa da história e distribuição geográfica dos objetos da cultura material de um povo e o vocabulário respectivo para designá-los. Segundo essa teoria, existiria uma relação direta entre as duas partes, isto é, conhecendo bem as coisas, descobria-se, com maior facilidade, a origem dessas palavras. Não obstante ter contribuído para aos estudos lexicais, essa teoria foi deixando de ser aplicada, visto que, muitas vezes, a ideia expressa pelo significante é muito mais complexa e, às vezes, abstrata. Posteriormente, surge um novo método: a Geografia Linguística. O precursor desse estudo foi Gilliéron (1895), responsável pelo levantamento e mapeamento dos vários dialetos encontrados em grande parte da França. Esse trabalho, de caráter empírico, possibilitou a constatação da complexidade da evolução linguística: área móvel dos falares, entrecruzamento de isoglossas e acidentes imprevisíveis que atingem as palavras. Trata-se, portanto, de um estudo sistemático de interpretação de dados coletados em uma determinada área geográfica, possibilitando a elaboração de mapas a partir dos traços linguísticos dialetais dos falantes. Vários outros trabalhos se seguiram a esse, sempre utilizando ou adaptando o método geográfico, dentre eles o seu mais célebre trabalho, o Atlas Linguístico da França (A. L. F.), concluído em 1910. O século XX traz novas luzes para o estudo do léxico. A partir das ideias de Ferdinand de Saussure (1916), a língua passa a ser vista sob a ótica social, reconhecendo-se 12 Romanischen Etymologien, de 1899. 56 que a língua muda face às mudanças ocorridas na sociedade. Entretanto, mesmo reconhecendo a natureza social da mudança linguística, o falante não é levado em conta nas análises propostas pelos estruturalistas. A grande contribuição de Saussure aos estudos lexicais é a sua abordagem vista sob a perspectiva de sistema. Nessa vertente, o léxico é visto como um conjunto organizado de itens lexicais com valores próprios, relacionados, por sua vez, com outros elementos. Nas palavras de Robins (1983), cada elemento linguístico define-se em função dos outros e não de modo absoluto. É a partir da década de 50, com a obra La méthode em lexicologie, de Georges Matoré (1953), seguindo ainda a linha estruturalista, que os estudiosos passam a considerar os aspectos sociais no estudo do léxico. Matoré (1953) via a Lexicologia como uma disciplina sociológica e considerava a palavra não como um objeto isolado, mas como parte de uma estrutura social. Segundo esse linguista, o léxico é um fato social, sendo considerado o espelho de uma sociedade. Dissociado da vida social a linguagem não encontra expressão. Matoré (apud OLIVEIRA, 1999, p. 44) ainda conclui que: (...) ao constatar a impossibilidade de dissociar na linguagem a forma de conteúdo, a lexicologia se fundamentará não sobre formas isoladas, mas sobre conjuntos de noções, a estrutura e as relações sendo explicadas pelos fatos sociais, dos quais os fatos do vocabulário são ao mesmo tempo o reflexo e a condição. Por meio desse viés, o léxico de uma língua desvela características peculiares do local onde se vive como, também, das crenças e costumes de um grupo social. No ato de nomear, conservando ou criando palavras, ou mesmo no ato de se comunicar, é que se evidencia a importância do léxico e o seu papel como elemento revelador de aspectos socioculturais de uma comunidade. Ademais, ao fazer parte do universo social o léxico, diferentemente da gramática da língua, é um sistema aberto e em constante expansão, sendo, portanto, impossível de cristalizar-se, a não ser que a língua morra. Essa relação entre léxico e sociedade é também explorada por Biderman (1978, p.139): Qualquer sistema léxico é a somatória de toda experiência acumulada de uma sociedade e do acervo da sua cultura através das idades. Os membros dessa mesma sociedade funcionam como sujeitos-agentes no processo de perpetuação e reelaboração contínua do léxico de sua língua. Ainda discorrendo sobre a estruturação do léxico, não se pode deixar de mencionar os estudos de Kurt Baldinger (1970) sobre o significado, mais especificamente, 57 sobre a teoria dos campos semasiológicos e onomasiológicos. Para Baldinger, enquanto a Onomasiologia representa a face das designações (nomes das coisas reais ou abstratas), a Semasiologia representa a face das significações (os significados), constituindo assim dois enfoques do fenômeno léxico-semântico, ao mesmo tempo, opostos e complementares. Para ilustrar melhor essa dualidade do significado, Biderman (1978, p.156) faz uma relação entre esse modelo proposto por Baldinger e a teoria da comunicação: A Onomasiologia visualiza os problemas sob o ângulo do que fala, daquele que deve escolher entre diferentes meios de expressão. A Semasiologia focaliza os problemas sob o ângulo do que ouve, do interlocutor que deve determinar a significação da palavra que ele entende dentre todas as significações possíveis. A partir da ideia de se trabalhar o léxico na perspectiva de sistema, aliando os estudos lexicais aos estudos semânticos, surge, entre os linguistas, a noção de ―campos linguísticos‖. Nas palavras de Niklas-Salminen (1997, p.40): Isso significa que no conjunto do léxico se descrevem subconjuntos organizados, de microssistemas lexicais, em que os elementos possuem um denominador comum. [...] Um sistema não é, portanto, uma simples coleção de unidades, mas implica relação e organização. Os microssistemas lexicais são habitualmente chamados ‗campos semânticos.13 (tradução nossa) Esse propósito de tratar o léxico na perspectiva de sistema torna o estudo mais realista, visto que um item lexical não é apenas a relação de um som a um conceito. Na verdade, a palavra tomada de forma isolada só adquire significado diante de um conjunto de oposições com outras que fazem parte do mesmo campo. 2.2.2.1 Campos lexicais Em qualquer sistema linguístico, o conjunto de lexemas que cobre uma área conceitual é um campo lexical. Consequentemente, esses lexemas, que estão relacionados entre si pelo significado, dão origem à estrutura do campo lexical. O campo lexical, por sua 13 ―Cela signifie que dans l‘ensemble du lexique se dessinent dês sous-ensembles organisés, dês microsystèmes lexicaux dont lês éléments possèdent un dénominateur commun. […] Un système n‘est donc pas une simple collection d‘unités, mais implique relation et organisation. Les micro-systèmes lexicaux sont habituellement appelés ‗champs sémantiques‘‖. 58 vez, representa um subconjunto do léxico de uma língua, ao passo que a totalidade dos campos lexicais constitui o vocabulário dessa língua. (DUBOIS et al., 1993) O agrupamento de palavras em campos parece ter sido objeto de reflexão desde a época dos sumérios e acádios, os quais teriam levantado uma lista de palavras denominada ―a ciência das listas‖, conforme cita Mounin (1968, p.56). Essas palavras foram agrupadas seguindo uma classificação semântica em que apareciam nomes de animais, pássaros, divindades, nomes de ofícios e de objetos, todos dentro de um mesmo campo. Como desenvolvimento de novas disciplinas e linhas teóricas na Linguística, a partir do século XIX, vai tomando força a noção de organização do léxico. Os estudos na área da Semântica, seja de forma sincrônica ou diacrônica, mostraram a relação de sentido entre vários itens lexicais, os quais poderiam fazer parte de um mesmo subgrupo do léxico. A Geografia Linguística, por sua vez, também mostrou que por meio dos diferentes dialetos encontrados numa determinada região era possível mostrar distintas formas ou nuanças diferentes para um mesmo conceito, o que evidencia que o léxico pode ser sistematizado. Entretanto, conforme tratado em 2.3, é a partir do Estruturalismo que o léxico passa a ser definitivamente estudado numa perspectiva de sistema. Saussure (1970) foi o primeiro estudioso a desenvolver, com rigor científico, pontos referentes às relações estabelecidas entre as palavras. Afirma esse autor que qualquer palavra pode servir de ponto de partida para a estruturação de séries associativas, que têm por base estrutural a afinidade de sentidos. Para Saussure (1970, p.146), os termos de uma família associativa não se apresentam, nem em um número definido, nem em uma ordem determinada‖ e que ―um termo dado é como o centro de uma constelação, o ponto onde convergem outros termos coordenados, cuja soma é indefinida. Esses princípios teóricos foram, posteriormente, ampliados por Charles Bally, o qual propôs, em sua concepção associativa de campo, a existência de constelações de palavras, dentre as quais eram estabelecidas esferas de relações múltiplas, configuradas por semelhanças entre significantes ou entre significados, por contiguidade física dos objetos representados ou por proximidade culturalmente determinada. (BALLY, apud HERNÁNDEZ, 1989). Mostra-se também importante a contribuição de Trier (1934). Esse linguista buscou fundamentos nos princípios teóricos estabelecidos por Humboldt (noção de articulação), por Saussure (ideia de sistema) e, também, por Weisgerber (noção de estrutura). Segundo sua posição teórica, o estudo referente à segmentação da linguagem em campos 59 representaria uma das maiores contribuições à teoria do significado. A proposta teórica de Trier considera o vocabulário de uma língua como uma massa léxica semanticamente articulada e estruturada em campos lexicais que podem estar vinculados entre si por relações de coordenação ou de hierarquia. A grande contribuição de Trier, segundo Câmara Jr. (1979), é que esse autor procurou mostrar que o significado de uma forma linguística, inserido em um campo associativo, depende do significado das outras formas colocadas nesse mesmo campo. Mediante um estudo diacrônico da língua alemã 14 , Trier mostrou que o vocabulário, assim como a visão de mundo sobre o conhecimento mudou ao longo do tempo, e que essa mudança nos limites de um conceito acarretou uma mudança dos conceitos vizinhos e das palavras que os exprimem. Dessa forma, Trier mostra que as palavras, além de poderem ser agrupadas em campos linguísticos, dependem uma das outras dentro desse sistema. Ao resumir o pensamento de Trier com referência à teoria dos campos, Vilela (1979, p.45) pondera que o léxico de uma língua não está ordenado num Thesaurus segundo critérios arbitrários e extralinguísticos, mas em estruturas articuladas, de acordo com as regras da própria língua em questão e as palavras interligam-se significativamente; por outro lado, as palavras não se ligam diretamente ao léxico total, mas integram-se em conjuntos parciais cujo somatório é o léxico total. Georges Matoré, também citado na seção 2.3, é outro autor que trabalhou o léxico sob o enfoque de sistema. Matoré propôs um estudo a partir dos campos nocionais, ou seja, um estudo a partir de palavras-chave que comandariam outras dentro de um campo escolhido. O diferencial do trabalho de Matoré é que ele busca um enfoque sociológico por meio do estudo do vocabulário. Guiraud (1972, p.93) assim trata a diferença entre Trier e Matoré: ―Trier estuda antes de tudo a vida espiritual e moral com a finalidade de atingir ‗o espírito‘ de uma nação e de uma época, enquanto Matoré interessa-se principalmente pelo substrato material, econômico, técnico e político do léxico.‖ A concepção de Matoré se fundamenta na possibilidade de discernir uma organização de conceitos próprios de uma sociedade, em uma época, estudando as palavras documentadas em textos que representam esse período. Segundo sua posição teórica, o léxico é a expressão da sociedade, refletindo, portanto, fatos de caráter sociológico. Segundo sua teoria lexicológica (1953), cada um dos períodos históricos é caracterizado por palavras- testemunhas, ou seja, neologismos cujo nascimento, em um dado período e numa dada 14 O léxico alemão, de 1931. 60 comunidade linguística, são determinados por situações de ordem social e econômica, totalmente novas. Se as palavras-testemunhas forem muito numerosas, será preciso escolher as palavras-chave, caracterizando o período em questão. Ressalta esse estudioso que as palavras-chave constituem o cerne do campo nocional, caracterizando a sociedade da época. Os trabalhos desenvolvidos por Matoré, tanto pela sua originalidade como pela sua preocupação metodológica, consagraram a importância da noção de ―campo linguístico‖ conforme reconhece Guiraud (1972, p. 97). Outra noção que deve ser abordada é a de campos lexicais, tratada por Geckeler (1976), o qual retoma pontos da teoria proposta por Coseriu e aplica em sua análise. Ao tratar da noção de campos lexicais, Geckeler (1976, p.297) utiliza-se do conceito de lexema  ―uma unidade de conteúdo lexical expressa no sistema linguístico.‖ (tradução nossa). Assim entendido, o lexema deve ser considerado como uma unidade léxica abstrata de uma língua e que pode fazer parte de um ou vários campos lexicais. Ainda sobre os campos lexicais, Abbade (2011, p.1332) descreve que eles ―representam uma estrutura, um todo articulado, onde há uma relação de coordenação e hierarquia articuladas entre as palavras que são organizadas à maneira de um mosaico: o campo léxico‖. Segundo Abbade (2011, p.1332), no interior de um campo léxico as palavras dependem uma das outras e adquirem um significado a partir da estrutura desse campo léxico. Desse modo, uma palavra só vai adquirir um significado dentro de um campo lexical. Segundo Coseriu (1977, p.135), a organização das lexias em um campo léxico se dá a partir de um elemento comum: o campo semântico. É, portanto, o campo semântico que define e estrutura os constituintes de um campo lexical. Assim, como há o campo léxico organizado em torno de um campo semântico, também poderá haver subconjuntos desse campo léxico reorganizado em subcampos, onde os vários itens lexicais se opõem entre si por diferenças mínimas de conteúdo. Ainda tratando dos campos lexicais, Coseriu (1977, p.136) afirma que eles não estão organizados necessaraimente em subdivisões, podendo apresentar somente arquilexemas (unidade léxica que representa um conjunto de traços semânticos comuns a vários elementos de um campo lexical). Outra característica dos campos lexicais é que entre eles pode haver interferências, posto que eles não representem uma classificação homogênea, mas várias classificações simultâneas. A partir dessa estruturação dos campos léxicais Coseriu (1977) chama a atenção para o fato de o léxico de uma língua não se configurar como uma estrutura plana, ao 61 contrário, ele possui lacunas, podendo ser comparado a um prédio de vários patamares, evidenciando vários campos. Recorrendo mais uma vez à Abbade (2011, p.1335), a lexemática (semântica estrutural) é uma ciência cujo objeto é o significado léxico. Portanto, na lexicologia e no estudo do léxico sob o enfoque dos campos lexicais só vai interessar o estudo de palavras de conteúdo semântico. Desta forma, palavras sem conteúdo semântico como artigos, algumas preposições, pronomes, conjunções, não são objetos de estudo. Outra grande contribuição para a noção de sistemas lexicais diz respeito ao armazenamento do léxico na memória do falante, proposto por Biderman (1978). Embora reconhecendo que a forma como se dá esse armazenamento do léxico pelo falante seja desconhecida, ela reconhece a existência de processos mnemônicos na memória do falante, que, de forma ordenada, fornece várias palavras de um mesmo subsistema léxico ao indivíduo. Biderman (1978) cita como processo mnemônico mais comum o modelo binário de oposição: bom/mau; bonito/feio etc. Ainda segundo essa linguista, há também outras associações semânticas evocadas pela memória como vocábulos antônimos, sinônimos, semelhantes formalmente e de significações contíguas. Essas associações estabelecidas na mente do falante parecem resultar de uma estruturação do léxico em redes semânticas, as quais, segundo a autora, parecem resultar de duas operações complementares: a) o conhecimento de mundo e da taxionomia que uma língua atribui a uma mesma realidade; b) o esforço cognitivo pessoal de armazenar e catalogar os itens lexicais. Biderman (1981) propõe também uma relação entre essas redes semânticas evocadas pela memória e os campos léxicos. Segundo a autora (1981, p.139), uma rede semântica é composta da integração estruturada de vários campos léxicos. Um campo léxico integra uma rede semântica juntamente com muitos outros campos léxicos. As palavras nucleares dentro de um campo léxico provavelmente são as palavras mais frequentes dentre as palavras de conteúdo léxico. Podem também constituir os primitivos léxicos de uma língua, sendo por isso, as primeiras palavras significativas que um indivíduo aprenderia. Os estudos referentes aos campos 15 , desenvolvidos pelos diferentes autores aqui apresentados, mostram, pelo menos em parte, enfoques linguísticos e extralinguísticos. Mesmo sabendo que a linguística estrutural se apoia em critérios formais, na determinação 15 Tendo em vista a variedade de termos empregados pelos pesquisadores, no que diz respeito à denominação dos campos (semânticos, léxicos, associativos, nocionais), preferimos adotar a designação campo léxico por entendermos que esta é a terminologia que melhor se ajusta aos propósitos de nossa pesquisa. 62 dos campos lexicais não se devem desprezar métodos de natureza extralinguística em uma pesquisa de cunho sociocultural. É o que se pode inferir do pensamento de Weisgerber, para o qual ―a maior importância da ideia de campo é a de ter chegado a ser o conceito metodológico central da investigação aplicada ao conteúdo linguístico e, ao mesmo tempo, a chave para a descoberta de uma visão linguística do mundo‖.16 2.2.3 Léxico e cultura Como se pode ver, é inegável o caráter social da linguagem. A certeza dessa assertiva vem do fato de que a língua é o principal instrumento pelo qual a comunidade representa o mundo e expressa suas ideias e experiências. Ao utilizá-la, o indivíduo cria uma realidade que procura representar. É, portanto, por meio da língua, que uma pessoa interage com outras da sua comunidade, fortalecendo os laços sociais desse grupo. A preocupação com o aspecto social da linguagem era já uma realidade para alguns linguistas do século XIX, como William Whitney (1827-1894) e Michel Bréal (1832- 1915), conforme destaca Faraco (1998). No século XX, essa preocupação sociológica ganha mais visão com o advento da chamada Linguística Moderna e com as ideias de Saussure. Ao dar à língua um caráter social, Saussure admite que essa muda, posto que a sociedade muda. Outros estudiosos da língua, entre eles Sapir (1921) e Coseriu (1962), continuaram a tratar dos aspectos sociais da linguagem sob diferentes abordagens, mas foi com o advento da Sociolinguística, no início dos anos 60, principalmente pelos estudos desenvolvidos pelo linguista norte-americano William Labov que esses aspectos passaram a ser sistematizados de forma mais eficaz, aclarando aos seus pares a influência que os fatores externos têm sobre os processos de variação e mudança das línguas. Em face do exposto pode-se concluir que se a língua é um fato social, isso implica dizer que ela é também um fato cultural, pois não há como separar sociedade e cultura. Vista como uma instituição social, a língua é instrumento de difusão da cultura e da ideologia de um povo, pois deixa transparecer o modo de pensar e encarar o mundo num determinado tempo e espaço. É sob essa perspectiva, ou seja, estudando a relação entre língua, sociedade e cultura que surge a Antropologia Linguística ou Etnolinguística. 16 ―La mayor importancia de la idea del campo es la de haber llegado a ser el concepto metodológico central de la investigación aplicada al contenido lingüístico y, al mismo tiempo, la clave para el descubrimiento de una visión lingüística del mundo.‖ (WEISGERBER, 1973, apud GECKELER, 1976, p. 127). 63 Para Duranti (2000), a Antropologia Linguística concebe os falantes, principalmente como ―atores sociais‖, isto é, como membros de comunidades singulares e complexas, articuladas a uma rede entrecruzada de crenças e valores morais, a uma rede cultural. A Antropologia Linguística é, pois, uma área da ciência linguística que, com o apoio de outras áreas como a Dialetologia e a Sociolinguística, uma excelente ferramenta para investigar a língua de uma determinada região. Enquanto alguns estudiosos da língua preocupam-se apenas com o uso da linguagem, os antropólogos linguistas, por sua vez, vão mais além ao visualizarem a linguagem como um conjunto de estratégias simbólicas utilizadas tanto pelo indivíduo como pela sociedade. Nessa perspectiva, os antropólogos linguistas abordam a linguagem associada a temas da investigação antropológica como as políticas de representação, a constituição da autoridade, a legitimação do poder, a socialização, a construção cultural do indivíduo, o contato cultural, a mudança social, dentre muitos outros. A perspectiva de relacionar língua e cultura não é tão recente. O campo da Antropologia Linguística vem sendo construído desde o final do século XIX. Segundo Hymes (1964), quem primeiro tratou do assunto de forma mais relevante foi Sir Edward Taylor, em duas obras: Primitive Culture (1871) e Anthropology (1881). Ainda na Inglaterra, Hymes destaca Malinowski (Classificatory Particles in the Language of Kiriwina, de 1920), que propôs uma pesquisa linguística entre nativos em conexão com um estudo etnográfico. Entretanto, é a partir de Franz Boas (1911) – americano de origem alemã – que os estudos da Antropologia Linguística ganhariam, mais tarde, maior impulso, influenciando novos seguidores como Sapir, Kroeber e Bloomfield. Segundo Hymes (1964), a grande contribuição de Boas foi combinar a escola humanística com os ideais da ciência, desenvolvendo, principalmente, métodos estatísticos para pesquisas de campo. Outra importante contribuição de Boas, segundo Duranti (2000), foi apontar a noção de arbitrariedade das línguas. Boas, mediante seu conhecimento das línguas ameríndias, mostrou que o modo como as línguas classificam o mundo é arbitrário, ou seja, cada língua tem sua própria forma de construir um vocabulário e categorizar suas experiências. Seguindo os estudos de Boas, Edward Sapir (1921) tornou-se o mais famoso investigador da história da Antropologia Linguística. Esse linguista defendia que a língua era uma condição imprescindível para o desenvolvimento da cultura e criticava, veementemente, o fato de muitos considerarem algumas línguas mais primitivas ou limitadas que outras. Segundo Sapir (1969, p.20), ―a trama de padrões culturais de uma civilização está indicada na língua em que essa civilização se expressa.‖ Isso mostra o reconhecimento por parte desse 64 estudioso de que fatores socioculturais se refletem na língua de um povo. Como discípulo de Boas, também defendia a ideia de que cada língua tem uma visão particular de mundo e, consequentemente, cada língua expressa, de forma própria, a sua realidade. Outro importante nome que contribuiu para a Antropologia Linguística foi Benjamin Lee Whorf (discípulo de Sapir), o qual, além de ter reconhecido a relação entre língua e cultura, defendeu que essa relação ocorre de maneira mais profunda. Para Whorf, cada língua expressa no seu léxico e na sua gramática uma classificação dos dados da realidade que lhe é própria, em virtude do seu meio. Essa posição teórica de Whorf, de conceber a gramática como produto direto da cultura, foi muito questionada, embora tenha contribuído para a atual noção de língua e cosmovisão. Certamente, seus estudos deram grande impulso à Etnolinguística, à Antropologia e, consequentemente, à Lexicologia. Contemporaneamente, a Linguística Antropológica vem enfocando, sobretudo, a questão da interação social. Nessa área, a língua é vista como condição e resultado da interação social de pessoas e de comunidades, de culturas e os falantes, principalmente como ―atores sociais‖, em outras palavras, como membros de comunidades que, por sua vez, estão articuladas a um emaranhado de crenças e valores morais, o qual é reconhecido como rede cultural. A Antropologia Linguística se constitui, portanto, como uma excelente ferramenta para investigar a língua e cultura de uma determinada região. Seguindo essa linha de pensamento, o presente estudo se apoia nas teorias de cultura defendidas por Alessandro Duranti. 65 2.2.4 Regionalismos Acreditamos que a cultura de um país constitui-se da soma de variações regionais de microculturas, variações que muitas vezes ocorrem em povos de uma mesma região, ou geograficamente próximos. Faz-se, portanto, necessário, discorrer aqui sobre o conceito de região, uma vez que nosso estudo focaliza a região norte do estado de Minas Gerais. Cunha (1998) discorre sobre as nuances que cercam essa definição. Segundo ele, a denominação região é algo que remonta à época do império romano, quando a palavra latina regione era utilizada para referir-se a áreas que estavam sob o domínio desse império. Entretanto, a palavra regione conceituava também espaço (spatium) e província (provincere). A primeira se referia a áreas de um contínuo ou de espaços isolados, ao passo que a segunda estava relacionada àquelas áreas sob o controle de Roma. Com a decadência do império romano o termo passa a designar os diversos feudos da Idade Média e as áreas administrativas da Igreja. A partir da Idade Moderna o termo torna-se ainda mais abrangente. Uma dificuldade apontada por Cunha (1998) a respeito desse conceito é o fato de o termo poder abarcar desde um quarteirão até um hemisfério. A fim de definir melhor a palavra, o autor busca aproximar os conceitos de região e território, sendo esse último definido por Souza (1995 apud CUNHA, 1998, p.49) como ―o espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder‖. A partir de observações de outros autores, entre eles Haesbaert e Éster, Cunha pondera que essa definição apresenta apenas uma visão político- jurídica e que aspectos culturais e econômicos também devem ser considerados. Diante disso, Cunha conclui que em face do processo de globalização o termo deve considerar ainda aspectos sociais, econômicos e culturais, os quais alteram a todo o tempo a coesão regional, redefinindo suas fronteiras. Diante do exposto, o que se conclui é que a definição de região é algo bem mais complexo e que novas realidades devem ser levadas em consideração no tratamento desse tema. Entre os estudos linguísticos há também abordagens de estudiosos sobre esse conceito. Citamos aqui Isquerdo (2007) que destaca que o próprio caráter polissêmico do termo região demanda reflexão e precisão no conceito. Essa linguista trabalha duas definições para o termo: uma tomando a noção de território geográfico como referência e a outra levando em conta a unidade político-administrativa e cultural dos seus habitantes. A primeira acepção é definida por Ferreira (1999) como ―grande extensão de terreno; território que se distingue dos demais por possuir características (clima, produção etc.) próprias‖. A segunda é assim 66 definida por Houaiss, Villar e Franco (2001): ―território cuja extensão é determinada seja por uma unidade administrativa ou econômica, seja pela similitude do relevo, do clima, da vegetação, seja pela origem comum dos povos que o habitam.‖ Mesmo a partir da segunda definição, que estaria mais diretamente associada aos aspectos humanos e, por extensão, aos estudos linguísticos, a noção de região ainda é relativa, ou seja, ela pode se referir a um município, estado da federação, uma região administrativa do país ou mesmo uma região de fronteira entre nações conforme discutido anteriormente. Outro ponto duvidoso e comum ao tratar do estudo de regionalismos diz respeito a quais são os parâmetros que devem ser utilizados para determinar se um vocábulo é um regionalismo, dialeto ou falar. No caso de um país com tamanha dimensão territorial e constituído a partir de diferentes etnias, resultando em uma grande diversidade linguística entre as suas regiões, como é o caso do Brasil, essa delimitação não é tarefa fácil. Ao buscar uma definição para o termo regionalismo no que tange à língua o que se percebe na maioria dos casos é uma simplificação e uma inconsistência do conceito para abarcar a realidade. Para citar uma definição bem simplista, dado se tratar de uma informação dicionarística e, portanto, não específica da área de Linguística, segue o registro encontrado em Ferreira, Ferreira e Anjos (1999): ―regionalismo sm. Locução peculiar a uma região, ou regiões‖. Outra definição, dessa vez referente a uma obra relacionada aos estudos linguísticos, é encontrada em Câmara Jr. (1970, p.331) que assim define o termo: ―Regionalismo – Em sentido lato, traços linguísticos privativos de cada uma das regiões em que se fala uma dada língua, assim dividida em dialetos‖. Segundo esse linguista, os brasileirismos assim como os lusitanismos são considerados regionalismos em face do léxico comum português e, em se tratando do Brasil, Câmara Jr. reconhece os regionalismos amazônicos, nordestinos, baianos, fluminenses, mineiros, sulistas etc. Ao tomar a definição de Câmara Jr., a primeira vista, o que se depreende é que os regionalismos coincidiriam com um dialeto de uma dada língua. Tomando aqui o termo dialeto como sinônimo de falar, tal proposição que em alguns casos pode ser a regra, em geral não se sustenta, visto que os limites entre um e outro não são coincidentes, dependendo do foco em estudo. Toma-se, apenas a título de ilustração, o caso de um estudo descritivo de uma das regiões de Minas Gerais. Sabendo-se que o estado, em sentido lato comporta três dialetos principais do PB, ou seja, o baiano, o mineiro e o paulista e ainda um quarto, o fluminense na Zona da Mata, dependendo da região em análise, pode ser que haja um intercruzamento de dialetos. 67 A dificuldade em definir o que seja regionalismo em se tratando de estudos linguísticos se pauta numa questão metodológica, tendo em vista que em geral se adota um critério extralinguístico nos estudos, isto é, toma-se a divisão administrativa como único parâmetro de análise. O resultado desse tipo de abordagem é que as fronteiras linguísticas quase sempre não coincidem com as fronteiras administrativas, resultando em dois problemas principais: i) não se tem um resultado realista da extensão das variedades linguísticas pesquisada em um dado território, pois na maioria dos casos as marcas dialetais extrapolam as fronteiras administrativas; ii) em alguns casos, características linguísticas reconhecidas como de outras regiões podem ser incluídas no estudo por adentrar no território, mascarando sua análise. A partir dessa dificuldade em delimitar a questão dos regionalismos linguísticos outras propostas podem ser colocadas em prática. Um aspecto considerado no estudo de regionalismo, em se tratando de língua, é a definição pautada a partir de um critério contrastivo, ou seja, busca-se comparar um vocábulo ou um traço linguístico de determinada região em relação à língua considerada padrão pela sociedade. A partir desse foco, Biderman (2001b, p.134) assim define o termo regionalismo: qualquer fato linguístico (palavra, expressão, ou seu sentido) peculiar a uma ou outra variedade regional do português falado no Brasil, exceptuando a variedade empregada no eixo linguístico Rio/São Paulo, considerada a variedade de referência, ou seja, o português brasileiro padrão, e excluindo também as variedades usadas em outros territórios lusófonos. A adoção desse critério tem sido a tendência adotada nos estudos linguísticos para classificação de brasileirismos, segundo Isquerdo (2007), perspectiva essa adotada por João Ribeiro desde fins do século XIX e também pelos principais lexicógrafos do Brasil em suas obras. Além do critério contrastivo Biderman (2001b) lembra que o termo regionalismo tem sido aplicado em algumas obras lexicográficas quando designa fenômenos ou referentes específicos de uma dada região, procedimento não recomendado, pois se fundamenta na coisa nomeada e não por causa do signo em si. Eis os exemplos citados por Biderman:  Amazônia: boto, curimatá, igarapé, poronga, pororoca;  Sul do Brasil: bagual, bombachas, chimarrão, china, poncho;  Nordeste do Brasil: aipim, caatinga, cajueiro, jangada, macaxeira, marruá;  Pantanal: anhuma, curicaca, seriema, tuiuiú, acuri, aguaçu, canjiqueira, peúva. 68 A partir do exposto, é notório que o segundo critério citado é bem mais prático de ser aplicado, isso em se tratando dos estudos lexicais, visto que o vocábulo em análise retrata algo bem específico da região, mas como lembrado, não é recomendável. A abordagem a partir do critério contrastivo é a opção mais segura, mas, por outro lado, pode esbarrar em resistências de outros estados da federação em aceitar a variedade empregada no eixo Rio-São Paulo como padrão. Entretanto, em abordagens linguísticas de regiões menores, em se tratando de regiões administrativas de um estado, por exemplo, tal critério mostra-se como uma boa alternativa, podendo ser utilizada em muitos casos, mas não de forma categórica, a variedade da capital administrativa como norma a ser comparada. Neste estudo, adotamos esse último critério. 2.2.5 Português rural Quando desenvolvemos uma pesquisa linguística que se refere à fala rural de uma região qualquer, uma questão que normalmente é colocada em discussão é a distinção entre vernáculo rural e língua urbana. De acordo com a proposta de Bortoni-Ricardo (2005, p.35) o vernáculo rural, entendido aqui como dialeto rural, seria aquela variedade rural de determinada região que apresentaria traços especiais na sua gramática (fonética/fonologia, morfossintaxe, semântica, léxico etc.). A língua urbana, por sua vez, incluiria as diversas estratificações da língua usadas no meio urbano, tanto na fala quanto na escrita, podendo ser representadas tanto pelas variedades populares, as quais se aproximam do vernáculo, até a variedade culta. Além dessa polaridade linguística reconhecida no que tange à questão geográfica e social, há que se considerar primeiramente outra, marcada no português brasileiro (PB) por duas realidades: a língua culta e a língua popular. A distinção entre a língua culta e a língua popular é considerada, independente da linha de estudo, resultado em parte do multilinguismo que caracterizou a língua falada no Brasil desde o início do seu processo de colonização. O uso da variedade culta da língua portuguesa no Brasil inicia-se com levas de portugueses que começaram a vir para essas terras na segunda metade do século XVI. Com eles vieram sua língua que, embora falada nas diversas regiões de Portugal e contendo em si as variações linguísticas que qualquer língua 69 natural apresenta, contemplava um caráter homogêneo de língua nacional, ou seja, o português. Essa língua, a princípio, concentrou-se nos principais centros da colônia, nas regiões onde hoje se situam Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Nesses centros urbanos a classe dominante, considerada a possuidora da variedade culta, mantinha um intercâmbio linguístico e cultural com a metrópole portuguesa, mantendo um caráter conservador na sua língua, em sintonia com a língua falada na metrópole além-mar. Esse intercâmbio entre a elite brasileira e a língua portuguesa europeia é citado por Cunha (1976, p.20): [...] de outro, a língua dos doutores e dos padres, dos bacharéis bem-falantes, mosaico de fragmentos do passado literário que essa elite de ―bons latinos‖ aprendia em Coimbra ou nas tradições portuguesas conservadas nos colégios dos jesuítas – ―signum‖ de superioridade cultural e, também, mais do que nunca, da distância social. A variedade popular da língua portuguesa, por sua vez, pode ser explicada por algumas hipóteses, as quais podem ser subdivididas em duas grandes vertentes. Uma que defende que as mudanças ocorridas no PB já eram previstas no seu sistema linguístico e a presença das etnias indígenas e africanas apenas acelerou tais mudanças. Outra que defende que essas duas etnias tiveram papel preponderante para a formação da variedade popular do PB. Entre os defensores da primeira hipótese estão linguistas renomados como Serafim da Silva Neto (1963) e Câmara Jr. (1965), além de linguistas mais contemporâneos como Anthony Naro e Marta Scherre (1993). Esses estudiosos defendem que as mudanças verificadas na variedade popular do PB seguiram uma tendência de deriva própria das línguas naturais, sendo que a presença dos grupos indígenas e africanos apenas acelerou o processo. Como defensores da segunda hipótese está outro grupo de estudiosos, respeitados no meio linguístico como Jacques Raimundo (1933), Renato Mendonça (1935), Gregory Guy (1981, 1989) e Dante Lucchesi (1999, 2001, 2003), dentre outros, os quais defendem que o contato entre essas duas etnias com o europeu resultou na variedade popular do PB. Dentro dessa segunda hipótese há algumas vertentes que ressaltam a formação de crioulos típicos no Brasil, no entanto esse assunto não será tratado aqui. Diante do exposto, não cabe debater qual teoria pode ser considerada aquela que apresenta os fundamentos que melhor explicam a formação da variedade popular do PB. O que deve ser posto em evidência é o fato de que o intercâmbio linguístico entre esses grupos, aliado a uma polaridade social de classes verificada no Brasil desde o início de sua formação, propiciou o surgimento de variedades com características gramaticais especiais, verificadas, 70 sobretudo, na fonética, morfossintaxe e no léxico, tendo ao longo do tempo se distanciado cada vez mais da norma culta do português. Ao retomar a questão da vertente rural do português falado no Brasil é lícito afirmar que essa, em linhas gerais, divide muitos traços com a variedade popular do PB, sobretudo com aquela falada nas cidades interioranas, embora tenha que se reconhecer o caráter conservador da variedade rural em relação à variedade popular das grandes metrópoles. É notório que quanto mais distante dos grandes centros urbanos, sobretudo nas pequenas vilas e zonas rurais do Brasil, as características linguísticas do português falado por seus habitantes são mais conservadoras, característica essa resultante de um isolamento linguístico e cultural em relação às metrópoles, por um longo período. Esse conservadorismo linguístico verificado na variedade rural é marcado, sobremaneira, por traços linguísticos e itens lexicais pertencentes a estratos antigos da língua portuguesa, datados entre os séculos XIII ao XIX, e verificados principalmente no nível fonológico, semântico e lexical. Almeida (2006, p.46), logo na introdução do seu artigo, destaca esse aspecto conservador do falar rural: O falar rural apresenta algumas marcas que evidenciam sua relação com o passado, pois traz, em suas formas diversas, alguns traços da língua portuguesa em sua formação, os quais revelam resquícios de outras línguas, como latim, línguas africanas e línguas indígenas. A fim de evidenciar os traços conservadores do falar rural, Almeida (2006, p.46) lista algumas marcas linguísticas verificadas em seu estudo na zona rural de Londrina, no ano de 2002, embora tenha que se reconhecer que muitas dessas características sejam comuns a outras regiões do Brasil. São arrolados: a) aspectos fonéticos: - monotongação de ei pra e, de ou para o e de ai para a como em de primero, otru e baxo, respectivamente; - iotização como em muié; - alçamento da pretônica, como em nutícia, embora a autora reconheça se tratar de um fenômeno comum a outras variedades do português brasileiro e europeu; - rotacismo: alteração de r para l em trava silábica como em vortei; - alteração da desinência ram para ru e rum como em aprenderu; - alteração de v para b como em braba; - apócope do r como em muié; - síncope como em memu; - aférese como em sistindu; - metátese como é o caso de drobanu; - prótese como em alembrá; b) aspectos lexicais: - uso da expressão pra mó di; c) aspectos sintáticos: 71 - ausência de concordância nominal como em ushomi quase nenhum vai; - ausência de concordância verbal como em nóisveiujuntu; Após listar essas marcas linguísticas a autora reconhece que tais características são resquícios da língua portuguesa antiga e de outras línguas que contribuíram para a formação do falar rural. Além dessas marcas linguísticas citadas há várias outras realçadas em trabalhos de diversos estudiosos que versam sobre a linguagem rural ou caipira, dentre eles, citamos Amadeu Amaral (1976, p.45-67), na obra O dialeto caipira: a) aspecto fonético: - processo de paragoge como em animali, pessoali, sali; - processo de epêntese como em adbençoar, despois; - processo de nasalização como em anté; - processo de assimilação regressiva como em bilro > birro; - processo de dissimilação como em socorrer > sicorrer; - alteração de e para i nasalizado como em inleição, inzempro, inzame; - alteração de l para r em final de sílaba como em quarquer, papér, arma; b) aspecto morfológico: - formação de locução a partir da adição da preposição decomo em de certo, de comer, de junto, de pouco; c) aspecto lexical: - uso de arcaísmos como em luita, luitar, fruita; lumiar;avaluar, repunar, sojigar etc.; - uso recorrente de vocábulos de origem indígena para nomear além da fauna e da flora produtos da natureza, utensílios de uso, alimentos etc.; - uso de expressões típicas como assuntar, bestar, capengar, fuxicar, fuçar, inquisilar, mamparrear, prosear, besteira, boquêra, caipirada, abobado, bernento, catingudo etc. 2.2.5.1 Rural x Urbano Essa diferenciação entre rural e urbano tratada até aqui em seu aspecto exclusivamente linguístico, aparentando algo simples de ser estratificado, na verdade não é o que ocorre na prática. Ao contrário, o tema tem sido objeto de análise de estudiosos de várias áreas do saber, principalmente na Sociologia, Antropologia e Geografia. A única certeza que se tem é o fato de que, a partir de 1970, com o desenvolvimento maior do meio técnico- científico, acompanhado da informatização crescente em todas as áreas, houve uma irradiação desse progresso para além dos grandes centros urbanos, contribuindo para uma maior complexidade da relação socioespacial, tornando-se cada vez mais difícil separar o que é 72 rural e o que é urbano. Soma-se a isso o êxodo rural e a migração para as grandes cidades, cada vez mais presente no Brasil. Diante desse novo cenário, faz-se necessário a busca de contribuições teóricas acerca do termo rural e urbano a partir de autores de diversas áreas do conhecimento. De acordo com Biazzo (2008), os estudos acerca da relação campo/cidade alcançaram maior expressão no campo da Sociologia, desde a primeira metade do século XX, principalmente nos Estados Unidos. As primeiras interpretações sobre o tema eram dualistas, ou seja, visualizavam o rural e o urbano como áreas contrapostas, com características próprias e isoladas. Essa visão dicotômica começa a mudar, segundo Biazzo, com o trabalho de Sorokin, Zimmerman e Galpin (1930), quando essa polarização passou a ser substituída por uma gradação de variações espaciais, compondo o que se chamou de continuum rural-urbano. Essa gradação de variações estava ancorada em traços como ocupação do trabalhador, ambiente, tamanho das comunidades, densidade populacional e homogeneidade / heterogeneidade da população. Essa perspectiva de continuum foi aprofundada nas décadas seguintes, principalmente por Robert Redfield, embora esse estudioso tenha fomentado a ideia de extinção progressiva das sociedades tipicamente rurais. A partir da década de 60 do século passado, com a modernização das técnicas na agropecuária e com os problemas gerados pelas novas relações sócio espaciais, o assunto é também debatido nas áreas de Economia e Geografia. No Brasil, os principais autores que buscaram definir o tema, ancorados na Filosofia e na Antropologia, foram a antropóloga Maria José Carneiro (1998, 2003) e o geógrafo João Rua (2000, 2002), além de outros importantes estudiosos do assunto como Roberto Moreira (2002, 2006), Milton Santos (1988, 1994), Abramovay (2003) e Wanderley (2003). Em vista dessa nova perspectiva da relação rural / urbano, o que deve ser levado em conta é que as duas visões, dicotômica e continuum, não podem, contudo, serem tomadas como certas ou erradas, pois há regiões no mundo em que a industrialização da agricultura e outras mudanças que aproximam o urbano do rural ainda não aconteceram. No caso específico do Brasil, embora ainda existam regiões onde há claramente um contraste nítido entre campo e cidade, de forma geral, pode-se observar a presença do continuum, ou seja, variações graduais entre o rural e urbano, levando-se em conta as novas formas de produção e sobrevivência. Diante das profundas mudanças que vêm ocorrendo, sobretudo com a diversificação econômica e com as mudanças verificadas na sociedade, alavancadas principalmente em razão da influência da informática na vida dos cidadãos, há uma integração cada vez maior entre o urbano e o rural, fazendo com que várias características consideradas 73 até então como exclusivamente urbanas passem a fazer parte também do mundo rural. O que se constata é que o urbano deixa de ser o local exclusivo da indústria, do comércio e dos serviços, com um aumento crescente dos setores secundário e terciário dentro das áreas rurais, verificado pela industrialização da produção agrícola, pelas atividades ligadas ao lazer e ao turismo etc. Mudando o foco de análise da dualidade rural x urbano no que tange à paisagem urbana e passando à questão linguística, verifica-se que, com o estreitamento cada vez maior das relações sociais entre os habitantes do meio rural e urbano, provocados pela modernização dos meios de comunicação, pela democratização da educação, pela industrialização e crescimento do turismo no campo, pelos investimentos na malha viária que interliga os mais longínquos vilarejos às grandes cidades, essa dicotomia rural x urbano torna-se cada vez menos discrepante. Em vista disso, e seguindo a tendência de outras áreas de estudo conforme abordado, uma nova terminologia foi adotada por Bortoni-Ricardo (2004) como uma opção entre o rural e o urbano no que tange aos aspectos da linguagem. Trata-se do continuum de urbanização, propondo a seguinte divisão das variedades linguísticas: <----------------------------------------------------------------------------------------------------------- > VARIEDADES RURAIS ISOLADASÁREA URBANAVARIEDADES URBANAS PADRONIZADAS Em uma das extremidades da linha pontilhada estão as variedades rurais isoladas, representadas pelas comunidades mais distantes dos grandes centros, que não estão expostas às grandes influências urbanas. Mais ao centro há a área urbana, constituída por populações que habitam pequenas vilas ou distritos que sofrem tanto a influência urbana através dos meios de comunicação e novas tecnologias, quanto à influência dos migrantes rurais com suas tradições culturais e linguísticas. Na extremidade oposta a primeira estão as variedades urbanas padronizadas, fortemente influenciadas pelos processos de padronização linguística. Diante do exposto, o que se verifica é que a proposta de Bortoni-Ricardo certamente traduz com mais precisão a realidade linguística presente no português brasileiro, haja vista não haver uma linha divisória que separa o português rural de um lado e o português urbano de outro. Por outro lado, em virtude das mudanças socioeconômicas acentuadas verificadas ultimamente, tanto no campo quanto na cidade, conforme relatado, ainda assim torna-se difícil a delimitação clara e precisa, no que tange ao aspecto linguístico, 74 sobre o que seja considerado rural e urbano. Assim, essa dualidade que tem se mostrado um problema para estudiosos do assunto em seus trabalhos, sobretudo no seu aspecto teórico, carece de novas abordagens que dêem conta de delimitar com mais precisão o tema. 2.2.5.2 Rural x Caipira Merece relevância, também, em se tratando do universo linguístico rural, a distinção entre os termos rural e caipira apontada por Santos (2004). Em seu artigo a autora evidencia que no espaço rural, assim como acontece no meio urbano, há uma diferenciação espacial, ou seja, há o espaço do proprietário (a casa grande do senhor de escravos, o casarão do fazendeiro, a mansão do empresário) e o espaço do trabalhador (a senzala dos escravos, a tapera do roceiro, a habitação do caseiro etc.). O espaço do trabalhador, compreendido aqui como o espaço rural ―pobre‖, é habitado pelo caipira, ou seja, aquela população remanescente das senzalas, dos aldeamentos, dos quilombos, dos canaviais, das plantações de café, das minas de ouro etc. Depreende-se, portanto, que há um espaço maior, compreendido pelo mundo do proprietário e também do trabalhador, nominado rural, sendo, por conseguinte, mais abrangente. O termo caipira, por outro lado, estaria relacionado exclusivamente àquele trabalhador que ocupa o espaço mais humilde. Desta feita, o termo caipira estaria relacionado apenas a uma parte do rural. Essa separação entre rural e caipira apontado por Santos (2004) no que tange ao aspecto sociocultural é importante, pois como salienta a autora (2004, p.2): ―quando se trata de estigma social, preconceito e exclusão, esses atos se referem ao ‗caipira‘, que é apenas uma parte do rural.‖ Conquanto essa distinção entre rural e caipira tenha sido apontada em seu aspecto sociocultural, na verdade o segundo termo que se refere originalmente a uma parcela dos habitantes situados no interior paulista ―acantoado em pequenas localidades que não acompanharam de perto o movimento geral do progresso‖, como aponta Amaral (1976, p.42), designa também um dialeto da língua portuguesa – ao lado do falar mineiro, falar baiano, falar fluminense etc. – falado no interior do estado de São Paulo, leste do Mato Grosso do Sul, sul de Minas Gerais, sul de Goiás e norte do Paraná. Entretanto, deve ser ressaltado que o termo caipira não é o único utilizado para designar o falar dos habitantes das regiões citadas. Outros termos são usuais para designar o mesmo referente, embora haja uma delimitação mais 75 regional, como é o caso de capiau em Minas Gerais, roceiro em Goiás, matuto no Nordeste, caboclo na Bahia etc. Após uma definição mais precisa do que seja considerado caipira em seu aspecto linguístico, seguem alguns traços que definem mais claramente este dialeto em oposição ao falar rural, segundo nossa experiência de falante/ouvinte: - o fonema /r/ assume características alveolares ou retroflexas em posição de final de sílaba ou intervocálica, sendo que em algumas regiões até mesmo no início de sílabas há o /r/ retroflexo como em caro, parada; - há a iotização do ―lh‖ como teia, muié, paia etc; - rotacização do ―l‖ em final de sílaba como em urtimo, paper, arface, chicrete etc.; - concordância verbal marcada apenas no artigo; - nasalização do ―d‖ nos gerúndios: falanu, durminu, correnu etc. Embora tenham sido delineadas algumas características gerais do dialeto caipira e tomado a princípio que esse dialeto seja aquele falado no interior de São Paulo, em contraponto ao falar da capital, novos estudos reconhecem algumas diferenças dentro do próprio dialeto caipira entre regiões do estado de São Paulo. Diante disso conclui-se que da mesma forma que há diferenças linguísticas entre o falar rural nas várias regiões do Brasil, assim também o dialeto rural paulista apresenta variações em virtude de algumas características específicas de algumas regiões. Após essa breve explanação a respeito das diferenças entre os termos rural e caipira, é importante salientar que um ou outro não pode ser tomado aleatoriamente como termos que designam o mesmo referente. Como se vê, trata-se de realidades distintas, devendo, portanto, serem levadas em conta em estudos que abordam a língua do meio rural, mesmo reconhecendo que no âmbito linguístico muitas das características de um são comuns ao outro, o que dificulta na prática tal delimitação. 2.2.5.3 O dialeto rural no Norte de Minas A formação do dialeto rural no Norte de Minas se deu de maneira diferente daquele verificado no interior de São Paulo. Mesmo tendo sido formado a partir dos três grupos principais – o índio, o africano e o português – o primeiro e segundo grupo tem origens geográficas diferentes e, além disso, extratos linguísticos diferentes. 76 Em se tratando do Norte de Minas, os principais povos indígenas que habitavam a região antes da chegada do europeu foram citados no capítulo 1 por Capistrano de Abreu (1963) e Costa (2006). No caso de São Paulo, os principais grupos indígenas que entraram na composição racial do paulista foram os Guayanazes, Tamoios, Carijós, Tupinaéz, Patos, e ainda algumas tribos Guaranis conforme relata Irmão José Gregório (1980). No que tange à participação do africano na dialetação no Norte de Minas, essa se deu a partir de grupos linguísticos diferentes daqueles verificados em São Paulo. Enquanto nas terras paulistas o elemento africano era originado na sua grande maioria de Angola e Moçambique, ou seja, pertencente ao grupo Banto, no Norte de Minas a maioria dos escravos eram negros fugidos da Bahia e Pernambuco, os quais, por sua vez, eram provenientes da costa da Guiné, pertencentes ao grupo Sudanês. Castro (2005) apresenta um mapa etnológico africano no Brasil que confirma essa divisão. A contribuição de povos de origem africana, sobretudo desse segundo grupo no território mineiro, é evidenciada ainda pela tese de Coelho (2010, p.73) que demonstra que a maior parte das formações quilombolas no estado de Minas Gerais estão localizadas na região Norte de Minas, grande parte desses fugidos da Bahia. Outros fatores também contribuíram para uma diversificação do extrato linguístico do Norte de Minas, como a atividade econômica, o espaço social e geofísico, a influência das redes sociais externas, dentre outros e que pode ser percebido, sobretudo, no nível lexical. Enquanto no interior paulista houve um maior desenvolvimento econômico, resultante em grande parte da riqueza oriunda da exploração da atividade mineral em terras mineiras e mais tarde com a cultura do café, no Norte de Minas o que sobressaía era apenas a pecuária, mesmo assim realizada de maneira rudimentar. Essa característica econômica está associada diretamente a diversidade social que, por sua vez, mostra sua influência na língua. O espaço social é outro fator que contribuiu para uma dialetação rural diferente, visto que enquanto no estado de São Paulo havia uma classe social mais heterogênea, propiciando um maior intercâmbio e, consequentemente, uma pluralidade linguística, no Norte de Minas havia, a princípio, apenas a figura do fazendeiro e do vaqueiro, o que pode ter contribuído para um conservadorismo na língua. Somente mais tarde com o surgimento das principais vilas é que houve um maior intercâmbio entre o português, o índio – o qual foi expulso de suas terras e obrigado a viver no meio urbano – e os negros ex-escravos que passaram a trabalhar nas terras dos fazendeiros e nas vilas. É notório que mesmo antes do surgimento das vilas houve um intercâmbio entre esses três grupos, pois como relatam os 77 principais historiadores, o próprio índio exerceu atividades nas fazendas, bem como o negro escravo, mas os primeiros de forma menos intensa. O espaço geofísico é outro elemento que traz grande contribuição para o léxico de uma língua. A vegetação característica de cerrado e caatinga, o clima quente e seco, o relevo mais suave, a fauna característica da região, tudo isso se reflete diretamente nos hábitos e costumes das pessoas e, por consequência, no seu vocabulário. As redes sociais externas é outro aspecto que influenciam sobremaneira a língua de uma comunidade ou região. O Norte de Minas, desde o auge da mineração nas regiões mais ao sul do estado, era caminho de tropeiros e boiadeiros que traziam carne e toda a sorte de gêneros da Bahia e Pernambuco a fim de abastecer as populações daquelas regiões, conforme aponta Zemella (1990). Havia ainda a partir do século XIX um comércio bem dinâmico entre as principais povoações do Norte de Minas (Montes Claros, Grão Mogol, Rio Pardo de Minas, Salinas) com povoados da Bahia (Jequié, Feira de Santana, Vitória da Conquista e outros). Essas rotas de comércio possibilitaram um contato linguístico entre os viajantes oriundos dos estados do Nordeste e as populações do norte mineiro, constituindo um extrato linguístico com traços marcantes do falar baiano, o qual foi comprovado por Zágari (1977). Do exposto, pode-se concluir que o dialeto rural norte mineiro apresenta algumas características próprias que o distingue do dialeto rural paulista, o mesmo se dando com o dialeto rural de outras regiões do Brasil, acreditamos. 78 CAPÍTULO 3 – PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 3.1 Coleta do corpus A fim de cumprir o propósito dessa pesquisa, qual seja, de efetuar um estudo léxico-cultural na região dos municípios banhados pelo Rio Pardo, localizados no norte de Minas Gerais, apoiamo-nos, inicialmente, para realização das entrevistas, em metodologia proposta por Labov (1982), ou seja, munidos de um gravador, fomos a campo e gravamos 53 entrevistas. Para a realização das entrevistas foi utilizado um pequeno gravador digital, com o intuito de não desviar a atenção do informante, mesmo esse sabendo do seu uso e autorizando a gravação da conversa. Cabe ainda ressaltar que as entrevistas foram feitas, em quase sua totalidade, na própria casa do entrevistado, em conversa bem informal. Parte dessas entrevistas, quinze para ser mais exato, integrou o corpus da Dissertação de Mestrado defendida por mim em 2008, enquanto as outras 38 entrevistas decorrem de pesquisas de campo efetuadas nos meses de janeiro de 2010 e janeiro de 2011. Para dar conta desse propósito, essas gravações foram realizadas em duas etapas, sempre partindo de Águas Vermelhas (MG), nosso ponto de apoio. Em uma primeira viagem, em janeiro de 2010, foram realizadas entrevistas com moradores de quatro municípios, quais sejam: Berizal, Ninheira, São João do Paraíso e Indaiabira. A segunda jornada ocorreu um ano após a primeira, em janeiro de 2011, sendo entrevistados moradores dos quatro municípios restantes: Rio Pardo de Minas, Taiobeiras, Santo Antônio do Retiro e Montezuma. No que tange à seleção dos locais em que seriam feitas as entrevistas, optamos por trabalhar com moradores de áreas diversas do município, ou seja, tanto das pequenas localidades e distritos, como também da sede de cada município. Dado o fato de que muitos dos entrevistados das sedes viveram a maior parte de suas vidas no meio rural propriamente dito, ou seja, nos sítios e fazendas, e somente nos últimos anos se transferiram para o meio urbano, muitos desses em busca de maior conforto e também de recursos médicos, não verificamos diferenças consideráveis nas suas falas em relação àqueles que não saíram do campo. Realizamos, em média, cinco entrevistas por município. Em relação ao tempo de gravação, não seguimos um padrão pré-definido. Dado o fato de que foram entrevistados colaboradores de 70 a 103 anos de idade, procurou-se respeitar as limitações de cada um. As entrevistas fluíram, então, da maneira o mais natural 79 possível, sendo mais extensas quando o informante estava bem à vontade e, por outro lado, mais breves quando esse não se mostrava tão comunicativo, ou ainda quando percebíamos alguma dificuldade por parte do informante. Diante disso, há entrevistas com duração entre 20 minutos e uma hora de conversa. A realização das entrevistas não constou de um questionário com perguntas previamente estabelecidas, mas por meio de conversas informais foram abordados assuntos relativos à vida no campo, aos hábitos e costumes, à vida social e religiosa, assim como a sua cultura e história locais. Como ensina o linguista português Paiva Boléo (1924 apud SEABRA, 2004, p.61): O explorador de palavras locais ou regionais deve estabelecer bem no seu espírito o fato de que é ele quem deve se adaptar às conveniências do informante e não este às suas. Por conseguinte, servir-lhe-ão todos os lugares para fazer o inquérito, de que o informante esteja à vontade e haja o sossego suficiente. Chamá-los à pensão ou à casa onde habitamos a pretexto de que as casas do povo são pobres e tão pouco asseadas que não nos sentiríamos bem lá, é princípio que se deve por de lado, aceitando-o apenas quando de todo não puder deixar de ser. A escolha dos informantes foi baseada nas normas estabelecidas pelo projeto ―Pelas trilhas de Minas: as bandeiras e a língua nas Gerais‖, projeto da Faculdade de Letras da UFMG, coordenado pela Professora Doutora Maria Antonieta Mendonça de Amarante Cohen e desenvolvido entre os anos de 2003 e 2006. Essas normas preveem que, em condições ideais, o falante deve:  ter idade igual ou superior a setenta anos;  ser oriundo preferencialmente de localidades rurais;  ter nascido ou passado a maior parte de sua vida na região que está sendo estudada;  ter baixo grau de escolaridade ou ser analfabeto. A escolha de tais informantes deve-se ao fato de o vocabulário usado por pessoas enquadradas nesse perfil tender a mostrar um léxico mais próximo ao vernacular, além de revelar possíveis retenções linguísticas. Outra vantagem, advinda da opção por esse perfil de informante, é a possibilidade de obtenção do resgate da história e dos costumes dos moradores da região, contadas por eles mesmos, ou seja, por meio do ponto de vista da comunidade de fala e não apenas se conformando com o que é narrado pelos historiadores e pesquisadores afins. Não se pode deixar de mencionar que os famosos ―causos‖ contados pelo povo mineiro, os quais se prezam como uma importante fonte de informação cultural, são, de praxe, mais facilmente obtidos por meio desse perfil de informante. Concluídas as gravações, apuraram-se os seguintes dados dos informantes: 80  Sexo: masculino 36 (65%) e feminino 19 (35%);  Idade por faixas: 70 a 80 anos: 30 (55%); 81 a 90 anos: 17 (30%); 91 a 100 anos: 7 (13%) e acima de 100 anos: 1 (2%);  Grau de escolaridade: analfabetos: 42 (77%); semianalfabetos: 06 (11%) e ensino primário / fundamental 07 (12%);  Ocupação profissional: lavrador 45 (82%); criador de gado: 5 (9%); comerciante: 02 (3,5%); funcionário público: 02 (3,5%) e mineiro 01 (2%). 3.2 Sobre as transcrições Em uma segunda etapa da pesquisa, transcrevemos todas as entrevistas gravadas. Para a transcrição dessas entrevistas foi adotada também a metodologia proposta pelo já mencionado projeto ―Pelas Trilhas de Minas: As bandeiras e a língua nas Gerais‖ (FALE/UFMG). O modelo de transcrição não se refere a uma transcrição fonética, trata-se de uma transcrição ortográfica, com adaptações. Segundo esse modelo,  a transcrição não pode ser sobrecarregada de símbolos;  deve ser adequada aos fins;  deve permitir a compreensão do significado do texto;  deve respeitar o vocábulo mórfico como unidade gráfica17;  deve permitir ao leitor a criação de uma ―imagem‖ do texto elaborado no plano da oralidade 18 . 1) Não devem ser registrados:  alçamento das postônicas: Ex: aguardenti = aguardente; estropiadu = estropiado  ausência da consoante final dos gerúndios: ex: trabalhano = trabalhando; comeno = comendo (A ideia é que o categórico, não-marcado no dialeto, não precisa ser registrado) 17 Projeto Filologia Bandeirante – Equipe MG – reunião dia 27/11/00, utilizadas pelo projeto ―Pelas trilhas de Minas: as bandeiras e a língua nas Gerais-FAPEMIG-SHA844/2. 18 Ibidem, p.172. 81 2) São registrados:  alteamento/abaixamento das pretônicas, quando for marcado na fala local: Ex: deferente = diferente; imbigo = umbigo; premero = primeiro  as próteses são marcadas ortograficamente, como pronunciadas: ex: izabelê = zabelê; intradição = tradição; alembrar = lembrar  supressão de consoantes, vogais ou mesmo sílabas, são marcadas com o que foi suprimido entre colchetes: ex: mai[s] = mais; ago[ra] = agora  paragoge: é marcada como pronunciada: ex: Mali = mal  iotização, grafada com i: ex: fia = filha; jueio = juelho  aglutinação, com apóstrofo: pr‘aqui = por aqui; co‘a = com a  os pronomes ele, ela, eles, elas, você são grafados como realizados: ex: eis = eles; ea = ela; eas = elas; ocê = você; cê = você  variação fonética do s – é grafada como efetivamente realizada: ex: mermo = mesmo; memo = mesmo  casos de aférese – são registrados como pronunciados: ex: tá = está 3) São marcadas indicações de:  pausa: reticências;  inaudível ou hipótese do que foi ouvido, parênteses simples: ( ). Só usado para um único vocábulo inaudível ou hipotético;  trecho inaudível mais extenso que o vocábulo: ( (trecho incompreensível));  comentários: dentro de parênteses duplo – ( ( ));  sobreposição de fala: { };  discurso direto: ― ‖;  entoação exclamativa: !;  entoação interrogativa: ?;  truncamento: /. 82 3.3 Constituição do corpus Posteriormente, realizamos levantamento de lexias que, acreditamos, refletem a cultura local desses informantes, uma vez que se encontraram presentes em diversas ocasiões durante nossa etapa de gravação, tanto nas entrevistas, quanto em conversas paralelas no local do estudo. Além dessas lexias foram selecionadas aquelas que nos causaram certo estranhamento, tendo em vista não serem comuns em nosso meio (capital mineira) e ainda outras que, à primeira vista, evidenciavam casos de retenções linguísticas. 3.3.1 Elaboração de fichas lexicográficas Concluída, portanto, a etapa das transcrições das entrevistas e selecionado o corpus a ser cotejado, foram constituídas 562 fichas lexicográficas, organizadas em ordem alfabética, contendo informações e descrições. Essas fichas seguem o modelo construído para os trabalhos vinculados ao Projeto Léxicos Regionais (FALE/UFMG). Número da ficha – Lexia encontrada – classe gramatical (Abonação) Registro em dicionários: 1. Bluteau 2. Morais 3. Freire 4. Aurélio 5. Amaral Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖ 1. Souza (2008) 2. Ribeiro (2010) 3. Freitas (2012) 4. Miranda (2013) 5. Cordeiro (2013) Origem: ... (CUNHA, data) Obs: Sobre a ficha, apresentada: 83 a) O primeiro item da ficha é o número de entrada da lexia. Ao lado desse número figura o vocábulo selecionado para análise e, a seguir, sua classe gramatical, segundo o contexto em que se insere. b) Nem sempre foi encontrado o lema constante da ficha lexicográfica nos dicionários consultados. Há ainda variações quanto a gênero, número e ortografia. c) No item ―abonação‖ apresenta-se um recorte da fala do entrevistado, contendo uma amostra contextualizada da lexia em estudo. Ao final da abonação, são identificados o número da entrevista e a linha respectiva em que o vocábulo se insere. d) No que tange ao ―Registro em dicionários‖, optou-se em destacar como o vocábulo é descrito em cada obra. Quando o vocábulo ou variantes não são encontrados em alguma dessas obras, indica-se ―n/e‖ (não encontrado). e) No item ―Léxicos Regionais‖, procurou-se averiguar se a lexia de entrada ou suas variantes, quando houver, é encontrada em dissertações já defendidas, vinculadas a esse Projeto. f) Em relação ao item ―origem‖, o objetivo foi, como mencionado, revelar como se deu a entrada do vocábulo na língua portuguesa, bem como elucidar sua datação e possíveis variantes. g) O último item da ficha é reservado para algumas observações, seja de cunho linguístico ou extralinguístico, que se prestam relevantes para uma análise do vocábulo. Ao elaborar e apresentar essas fichas, registramos informações importantes para posteriores análises. A partir desse quadro é possível verificar se determinada lexia em estudo é ou não dicionarizada por um ou mais autores, ou mesmo por nenhum deles, se é arcaica, se é um brasileirismo etc. A ficha apresentada constitui-se, portanto, como um importante instrumento de auxílio ao pesquisador em seu trabalho de análise e quantificação dos dados. Uma vez definido o corpus para a presente pesquisa, a etapa seguinte foi conferir a lematização desse vocabulário em dicionários contemporâneos de língua portuguesa, em dicionários regionais e em fontes lexicográficas do século XVIII e XIX, com o intuito de observar seu registro em várias obras especializadas ao longo do tempo, procedimento esse que permitiu ao pesquisador desvendar casos de variações e mudanças linguísticas. Para esse fim, foram selecionados: Vocabulario Portuguez e Latino (P. Raphael Bluteau), Diccionario da língua portugueza (António de Morais Silva), Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa (Laudelino Freire), Aurélio Séc. XXI: o dicionário da língua portuguesa (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira) e O Dialeto Caipira (Amadeu Amaral). Além dos dicionários 84 citados, procurou-se averiguar a presença dos vocábulos selecionados em dissertações defendidas em anos anteriores, sobre o léxico mineiro, orientadas pela Profa. Dra. Maria Cândida Trindade Costa de Seabra (UFMG), a saber: Caminho do boi, caminho do homem: o léxico de Águas Vermelhas – Norte de Minas (2008), de autoria de Vander Lúcio de Souza; O vocabulário rural de Passos/Minas Gerais: um estudo linguístico nos sertões do Jacuhy (2010), de Gisele Aparecida Ribeiro; Café com quebra-torto: um estudo léxico-cultural da Serra do Cipó – MG (2012), de Cassiane Josefina de Freitas; O estudo da fraseologia do léxico rural de Sabinópolis – MG (2013), de Vanderlei Martins Ribeiro de Miranda e O vocabulário rural no Vale do Jequitinhonha: estudo do léxico de Minas Novas (2013), de Maryelle Joelma Cordeiro. Finalmente, com o propósito de indicar a origem da lexia encontrada, bem como sua datação e possíveis variantes usuais ao longo do tempo, utilizou-se do Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha. A opção pelo Vocabulario Portuguez e Latino se fez por duas razões principais: ser esta uma obra imprescindível para qualquer estudo mais aprofundado sobre a lexicografia portuguesa, sendo reconhecida como obra de referência pelos estudiosos da área e, afora isso, por contemplar grande parte do léxico da língua portuguesa até meados do século XVIII, expandindo e atualizando aproximadamente em cinco vezes o vocabulário até então dicionarizado, conforme destaca Verdelho (2002). Já o Diccionario da lingua portuguesa, de Antônio de Morais Silva, mesmo sendo considerado por muitos como uma continuidade ao Vocabulario Portuguez e Latino, é uma obra que vai além, por trazer grande número de vocábulos não dicionarizados por Bluteau. Um aspecto relevante a se destacar na obra de Morais em relação à obra de Bluteau é a opção daquele por um leque mais abrangente de obras e autores utilizados como fonte, o que, talvez por influência da igreja àquela época e, ainda, pela censura literária, tenham sido relegadas pelo P. Raphael Bluteau, conforme destaca Murakawa (2006). Destaca-se, ainda, o fato de que o Diccionario de Morais seja considerado, a rigor, como o primeiro dicionário de uso da língua portuguesa, posto que aqueles que o antecederam não podem ser considerados de tal maneira, pois, para a Lexicografia Moderna, um dicionário de uso deve registrar o vocabulário usual mais frequente na língua escrita e oral, bem como destacar os diferentes registros e as variações linguísticas. Em relação aos dicionários contemporâneos, o Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, de Laudelino Freire, foi selecionado por ser considerada obra de referência na primeira metade do século XX no Brasil e, ademais, por tratar-se de um 85 dicionário que contempla grande riqueza vocabular em sua nomenclatura, por incluir muitas locuções, expressões linguísticas e, principalmente, brasileirismos. A preferência pelo Aurélio Séc. XXI: O dicionário da língua portuguesa deu-se por ser este reconhecido como um dicionário padrão da sociedade brasileira, contemplando um vasto repertório lexical, afora a inclusão de grande número de brasileirismos. É um dicionário que, embora conte com algumas limitações, apresenta grande número de abonações de obras variadas, exemplificações a partir da linguagem falada e escrita, indicação de variabilidade linguística no território nacional, além de clareza e concisão nas definições. O dicionário de Amadeu Amaral, O Dialeto Caipira, foi adotado para análise do corpus com o objetivo de comparar itens lexicais usuais dos entrevistados com os lexemas que constam nessa obra e que, por sua vez, são representantes do falar caipira. No que tange às dissertações relacionadas ao falar rural em Minas Gerais, sob a orientação da Dra Maria Cândida. T. Costa de Seabra, a opção por esses trabalhos se deu com o propósito de confrontar os dados da presente pesquisa com aqueles encontrados em diferentes regiões do estado de Minas Gerais, afora a oportunidade de se ter um esboço da distribuição geográfica desse vocabulário em algumas áreas do território mineiro. Por último, a opção pelo Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha, teve como objetivo primordial aclarar a etimologia dos vocábulos, além de trazer a datação aproximada da sua entrada na língua portuguesa, uma vez que parte considerável dos vocábulos selecionados não constava nos dicionários mais antigos. Outro motivo, assaz relevante, é que esse dicionário permitiu ao pesquisador identificar as formas variantes que tais vocábulos adquiriram ao longo do tempo, podendo com isso, averiguar se algumas dessas formas coincidiam com aquelas encontradas no corpus dessa pesquisa. Apresentamos, a seguir, uma dessas fichas preenchidas: 86 29. ANALFABÉTICO [ADJsing] ... eu que aprendi um pouquinho da leitu / da leiturazinha que num era analfabético... (37; 160). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Analfabético ―Adj. De analfabeto + ico. Que não tem alfabeto.‖ 4. Aurélio: Analfabético ―[de analfabeto + -ico] adj. e. ling. 1. V. língua.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: analfabeto ‗que não sabe ler e escrever‘, analphabeto XVII. Do lat. tardio analphabetus, deriv. do gr. analphabetos (CUNHA,1986, p.43). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo encontrado no português europeu, Cf. Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, tendo como definição ―adj. Diz-se das línguas que não têm alfabeto.‖. Depois de constituir as 562 fichas, passamos a realizar análises sociolinguísticas e lexicais. Em seguida, procedemos à elaboração do glossário. 3.4 Glossário A Lexicografia é a área do saber cujo principal propósito é a produção de dicionários. Em todas as sociedades em que a língua escrita ocupa lugar de destaque na produção e perpetuação do conhecimento e na transferência dos costumes e tradições dos seus falantes, a prática lexicográfica é vista como de suma importância, pois o dicionário de língua representa o acervo de toda a riqueza cultural de um povo através do seu vocabulário. De acordo com Krieger (2006, p.141): O dicionário é o lugar formal e unitário de registro do componente léxico de um idioma. Nessa medida, constitui-se em paradigma linguístico modelar dos usos e 87 sentidos das palavras e expressões de uma coletividade linguística, desempenhando o papel de código normativo da língua. O dicionário é, nessa medida, um instrumento de legitimação do léxico de uma língua e goza, portanto, de autoridade no papel de não apenas inventariar o vocabulário dessa língua, mas, sobretudo, o de planificar o seu uso pelos seus usuários. Ao tratar da questão do acervo lexical de uma língua, dialeto, falar ou conteúdo léxico de uma obra qualquer, alguns termos devem ser considerados. O termo obra lexicográfica aborda toda classe de dicionários, vocabulários e glossários. Assim, cada uma dessas designações de uma obra lexicográfica citadas está relacionada a um tipo de repertório léxico. Segundo Barbosa (2001), o termo dicionário está relacionado ao registro do universo de lexemas de uma língua, buscando apresentar suas diferentes acepções e variações diacrônicas, diatópicas, diastráticas e diafásicas. O termo glossário, por sua vez, está relacionado ao repertório de palavras destinado a explicar um texto medieval ou clássico, ou obra de um autor, um texto dialetal ou um repertório de termos técnicos que não pretende ser exaustivo. Por fim, o termo vocabulário designa um conjunto de palavras específico de um falar concreto ou universo discursivo, não lhes cabendo as variações diatópicas e diastráticas. Em geral, o repertório lexical de um dicionário geral de língua reflete a realidade linguística dos centros urbanos, em especial a modalidade escrita, em detrimento das variedades encontradas nas demais regiões. Essa língua dos grandes centros urbanos, que geralmente goza de maior prestígio, é normalmente considerada como modelo padrão em relação a outras variedades e, por isso, a ela é dada a primazia nos dicionários gerais. É fato que o acesso à modalidade padrão do léxico de uma língua é universal. Conforme assinala Esquivel (2001), para o falante de uma variedade não padrão compreender a fala de outro de uma variedade padrão é bem mais fácil que o contrário. Tal fato se deve em parte porque o primeiro tem a seu favor uma série de recursos (televisão, rádio, livros, revistas) que contribui para o seu conhecimento da outra variedade linguística. Em contrapartida ao uso da modalidade padrão da língua nos dicionários gerais, é evidente que, sendo esse dicionário o acervo vocabular de todo os usuários de um determinado espaço geográfico, não figuram nele apenas aquelas modalidades usuais nos grandes centros, mas, também, itens lexicais presentes na fala das pessoas das várias regiões desse território, a bem da verdade, em número bem reduzido se comparado ao primeiro. A questão que suscita indagações de alguns estudiosos dessa área é qual deveria ser a representatividade do léxico não padrão, compreendendo aí o léxico regional, e também a modalidade oral, em um dicionário de língua. A respeito da modalidade oral, assim se 88 posiciona Biderman (1998b): ―Embora esse nível seja menos exigente, menos formal e mais flutuante do que a língua escrita, convém que o dicionário as registre‖. Opinião nesta mesma linha é compartilhada por vários outros estudiosos da Lexicografia. Esquivel (2001, p.32) lembra que a lexicografia tradicional sempre cedeu às fontes escritas, principalmente às literárias, para a criação dos dicionários, dada a autoridade linguística de que gozam os escritores. Entretanto, os lexicógrafos têm sentido a necessidade de complementar as fontes escritas com fontes orais, mediante um planejamento metodológico. Desse modo, a lexicografia moderna tem adotado cada vez mais trabalhos de coleta de dados seguindo as técnicas adotadas pelos pesquisadores da Geografia Linguística ou da Sociolinguística, ou seja, das pesquisas de campo. Uma grande vantagem que a coleta de dados orais apresenta em relação aos dados escritos, segundo Esquivel (Op. Cit., p.47), é que se pode obter do informante, de forma mais rápida, várias informações sobre a unidade léxica, seja linguística ou extralinguística, tais como contextos de uso, exemplificações, atitudes pragmáticas etc. Esse tipo de informação tem sido muito bem avaliado e tem levado cada vez mais ao uso do léxico não padrão nos dicionários de língua. No mundo moderno o reconhecimento das culturas minoritárias vem tomando espaço cada vez maior, seja na política, seja na mídia, seja nos centros irradiadores do conhecimento. Sendo o léxico o principal veículo linguístico revelador da riqueza cultural de um povo, não poderia o dicionário, como o principal instrumento de armazenamento do repertório linguístico, deixar de registrar o vocabulário e, por via indireta, a cultura de todas as regiões do território que abarca, seja a cultura dos grandes centros urbanos, seja a cultura das regiões mais distantes. É por isso que se faz necessária cada vez mais a inclusão do léxico não padrão nos dicionários gerais. Diante da necessidade de registrar um repertório tão extenso e heterogêneo em uma obra lexicográfica e sabendo-se da inviabilidade para tal empreitada, cabe ao lexicógrafo elaborar obras mais específicas que contemplem da melhor maneira o acervo de uma determinada região ou de uma área em questão. Para tal o lexicógrafo deve lançar mão dos principais tipos de dicionários monolíngues, conforme aponta Biderman (1998a): o dicionário de língua que pode se dividir em dicionário padrão e dicionário geral da língua, além de modelos reduzidos como os minidicionários, dicionários escolares e os dicionários infantis; os dicionários analógicos ou ideológicos; os dicionários temáticos ou especializados; os dicionários etimológicos; os dicionários históricos; os dicionários terminológicos (das áreas 89 do conhecimento) etc. Além desses citados por essa lexicógrafa há, ainda, que se mencionar os dicionários regionais, os dicionários dialetais, os dicionários de gírias, dentre outros. Tratando-se da macroestrutura de uma obra lexicográfica, no que tange à seleção das entradas, o que se verifica nas principais obras do gênero relacionadas ao acervo de uma dada língua é uma seleção criteriosa das palavras-entrada. A lexicografia contemporânea preconiza que se faça uso de corpora. A ideia é que esses corpora possam garantir uma representatividade. Acreditamos que cumprimos essa exigência, uma vez que usamos uma metodologia rigorosa para a coleta de dados. Há muitas decisões a se tomar quando se trata da microestrutura de um verbete, ainda mais quando esse verbete retrata a língua em sua modalidade não padrão: a) Em um dicionário reconhecido como padrão de uma língua, as entradas são grafadas de acordo com as normas ortográficas vigentes. Em uma pesquisa de cunho regional, constituída por um corpus representativo da oralidade, como é o caso do estudo que propomos, optamos por lematizar o vocábulo tal como foi transcrito; b) Para os casos em que um lema apresenta variações linguísticas formais reconhecidas na língua padrão, recomenda-se que tais formas sejam apresentadas e separadas por algum recurso gráfico. Essa prática será adotada no glossário proposto quando houver casos de variações linguísticas no corpus utilizado. Para cada variação apresentada será conferida uma abonação, sendo separadas por barra; c) Se determinado vocábulo apresentar duas ou mais acepções, a prática lexicográfica recomenda que estes sejam ordenados seguindo o parâmetro de qual desses vocábulos sejam mais usuais na língua em questão ou mediante a frequência de uso no corpus considerado. Há ainda outros parâmetros adotados pela teoria lexicográfica atual. Diante do exposto, no glossário a seguir, essas acepções virão enumeradas, sendo que da segunda em diante virão logo após a definição completa e abonação da primeira acepção; d) Casos de homonímia que apresentam classes gramaticais diferentes normalmente são tratados como entradas distintas. É este parâmetro que será adotado no glossário proposto; e) A classificação gramatical de um lema deve levar em conta o contexto em que o vocábulo está inserido, mesmo que determinada classificação possa soar estranho ao senso comum; f) A prática dicionarística corrente adota o modelo de que se o verbete for um sintagma ou locução, ele deve ser inserido dentro daquele lema que melhor representa o núcleo central de tal sintagma ou locução. Entretanto, para essa pesquisa, adota-se como convenção que tais 90 formações sejam inseridas como entrada própria, seguindo a ordem alfabética. Tal opção leva em consideração principalmente o aspecto cultural do glossário; g) Em relação à definição do verbete, lançar-se-á mão das principais formas definitórias: analítica, descritiva, ostensiva, enciclopédica, metalinguística, sinonímica etc., Entretanto, como o objetivo é voltado a um trabalho de cunho léxico-cultural, a proposta é priorizar uma definição o mais clara possível e que realce o aspecto sociocultural ao consulente; h) Para aqueles casos em que um vocábulo apresente variação formal e seja tratado como entrada separada, deve haver, ao final do enunciado definitório, uma remissão ao vocábulo com o qual concorre na língua; i) A prática lexicográfica para os dicionários gerais normalmente não faz o uso de exemplos ou abonações para os vocábulos a serem definidos, fato que tornaria inviável a sua construção, devido ao extenso volume que tal obra alcançaria, dado a quantidade de entradas que uma língua pode abarcar. Entretanto, em muitos dicionários regionais ou em dicionários ditos culturais essa prática é mais usual. No glossário que será apresentado se fará o uso de abonações, principalmente por se tratar de uma pesquisa baseada em corpus. A microestrutura com a qual trabalhamos segue o seguinte modelo, lema (grafada em negrito, caixa baixa, inicial minúscula, nomes no gênero masculino, verbos no infinitivo, e tal como pronunciada pelo falante) • variantes, sejam da língua padrão ou não, quando existentes no corpus, também podem constar no verbete • sigla do dicionário pesquisado, entre parênteses, em que foi encontrado o verbete ou se o mesmo não é dicionarizado n/d • classe gramatical • datação: quando for possível • marcas linguísticas (diacrônicas, diatópicas, diastráticas) • definição • abonação • identificação da entrevista e trecho de onde foi extraída a abonação • indicação de remissão, quando for necessário. Exemplifica-se: Urupuca (A) s.f. Armadilha para pegar pequenas aves. Variante de arapuca. ―Ah naquele tempo num tinha o que fazer não... brinquedo era bodocar... fazer urupuca né...‖ (39; 108). Cf. arapuca. O próximo capítulo trata da descrição e análise dos dados catalogados em fichas lexicográficas. 91 CAPÍTULO 4 – APRESENTAÇÃO E DESCRIÇÃO DOS DADOS Neste capítulo, apresentamos as entrevistas transcritas, descrevemos e analisamos os dados retirados do corpus, selecionados a partir dessas entrevistas, realizadas nas áreas rurais da Bacia do Rio Pardo, região Norte de Minas Gerais. 4.1 Transcrições No CD-ROM que acompanha este volume, anexado abaixo, apresentamos as transcrições das 53 entrevistas realizadas. 92 4.2 Fichas Lexicográficas Para fins de sistematização, apresentamos, em fichas, as 562 lexias selecionadas e transcritas conforme mostram as regras já citadas na seção 3.2. Passemos à apresentação e análise das 562 fichas: A 01. ABARRACADO [V] ... daí eles tiveram por aqui abarracado por uns dias e depois sumiu também né? (11; 226). ... cinquenta cem pessoas tudo abarracado lá... (22; 198). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: abarracado p. p. de abarracar. 3. Freire: Abarracado ―adj P. p. de abarracar. Que tem forma ou aspecto de barraca. 2. Alojado em barracas.‖ 4. Aurélio: abarracado adj. Que tem feitio de barraca. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e Origem: barraca ‗construção ligeira, primitivamente feita de barro‘, s. XVII (CUNHA, 1986, p.100). 02. ABASTAR [V] É... abasta até ali... num precisava falar nada demais... abastava falar: Ê diabo mas fulana... a mulher de fulana é bonita! (2; 380). ... abasta ocê ficar um tempo aí e ir assuntando e andando aí devargazinho e assuntando procê ver... (50; 519). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Abastar ―v. at. Bastecer, prover bastantemente do necessário alguma pessoa.‖ 2. Morais: abastar ―v. at. Bastecer, prover bastantemente do necessário alguma pessoa. Ser bastante, sufficiente.‖ 93 3. Freire: Abastar ―v.r.v. De a + basto + ar. Prover do que é bastante ou necessário, abastecer, fornecer, fartar.‖ 4. Aurélio: Abastar v.p. Prover-se do bastante ou necessário; abastecer-se. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de bastar. Abastar ‗abastecer-se‘, séc. XIII, (CUNHA, 1986, p. 101). 03 – ABRIDA [V] ...mas essa rodagem num era aqui não... era aqui nessa rua que desce ali... abrida de chibanca... (4; 197). Pois é... isso foi abrida de chibanca... (4; 199). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: abrido ―p. ant. de abrir. Dizemos hoje aberto.‖ 3. Freire: Abrido ―Adj. P. p. de abrir. Des. O mesmo que aberto. Obs: é forma regular, mas completamente desusada, substituída pelo particípio irregular aberto.‖ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de abrir ‗descerrar, desunir, iniciar‘, séc. XIII. Do lat. aperire, (CUNHA,1986, p.5). ______________________________________________________________________ Obs: Trata-se de um caso de retenção linguística. 94 04. ACÁ [ADV] ... tudo era mato... acá tinha uma casinha nesse ponto... (53; 06). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: A cá. ―v. cá.‖ ―Cá, adv. Neste lugar. Este adv. Tem significação semelhante à de aqui; mas não é tão demonstrativo‖ 3. Freire: Aca. ―Adv. Ant. 1. Cá, para cá. // 2. Aqui, neste lugar: ―Já devia estar bem longe de acá.‖ (V. de Taunay).‖ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Acá (n/d) adv. Neste lugar. “... tudo era mato... acá tinha uma casinha nesse ponto.” (Entr. 15; linha 6). 2. Ribeiro (2010): Acá (n/A) [adv.] Lat. Neste lugar. Aí ele trouxe pra cá, fico muito tempo aqui. De vez em quando a menina vinha acá vê o Bob. (Entr. 1, 160). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Cá. ―adv. ‗neste lugar, aqui‘ / XIII, aca XIII, acaa XIV, aqua XIV / Da var. ant. aca, derivado do lat. eccum hac ‗eis aqui‘ No Port. Med. as vars. aca e aco (< lat. eccum hoc) concorriam com aqui e cá; v. aqui.‖ (CUNHA, 1986, p.130). ______________________________________________________________________ Obs.: Arcaísmo. 05. ACISMADA [ADJsing] ... tinha aquelas pessoas mais acismadas e tem esse... acho que era pouca fé em Deus... (19; 324). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e 95 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: de cismar ‗andar absorto em pensamentos, preocupar-se, desconfiar‘, 1873 (CUNHA,1986, p.186). ______________________________________________________________________ Obs: Trata-se de um caso de Prótese 06. ADBENÇOAR [V] Deus que adbençoa o senhor também... (41; 236). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Adbençoar (n/d) v. Conceder proteção a alguém. Variante de abençoar (abençoa > adbençoa – redução de ―há de abençoar‖) “Deus que adbençoa o senhor também...” (Entr. 3, linha 228). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de abençoar s. XVI (CUNHA, 1986, p.106). 07. ADIVINHANÇA Nf [Ssing] É aí... aí é adivinhança né?... aí é preciso fazer uma adivinhança. (48; 374). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: advinhánça ―s.f. ant. v. adivinhação‖ 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 96 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: de adeuynhança, séc. XIV, adeuinança, séc. XIV (CUNHA, 1986, p.15). ____________________________________________________________________ Obs: caso de arcaísmo. 08. ADOAR [V] ... cada um deles adoaram 15 hectares de terra pra... pra co / pra o município... (09; 10). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de doar ‗transmitir gratuitamente a outrem, dar, conceder‘, séc. XIII, do lat. donare, de donum ‗presente, oferta‘, deriv. de dare (CUNHA, 1986, p.274). ______________________________________________________________________ Obs: Em Morais: há o registro do substantivo adoação, registrado como antiquado. 09. ADOBO / ADROBO Nm [Ssing] ... quando tinha uns poço de água... fizemos um mucado de adobo... essa casinha aqui é de adobo dos Souza... (3; 09). Pra fazer a casa eu mesmo fazia... fazia adrobo... (7; 343). ... aquele mercado lá... era de adobo... de adobo... a igreja era de adobo... aquilo tudo era de adobo... (13; 05). ... a minha casa lá em cima ela é feita de adrobo... (38; 184). ... a casa era feita de tição porque a casa é feita assim né com os adrobo... e ês conheceu o adrobo era assim... (38; 186). Agora hoje mudou porque é de adobo né?... (39; 417). ... tudo feito em barro... nem adobo num tinha... que hoje tem adobo tem bloco tijolo né? (40; 112). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Adobe, adobe. ‗Especie de ladrilho grosso, não cozido ao fogo, mas 97 seco ao sol.‘ 2. Morais: Adòbe ‗s.m. tijolo de barro quadrado cujas casas são de adobes.‖ 3. Freire: Adobe ‗s.m. ár. At-tob. Tijolo grande, não queimado; tijolo cru.‘ 4. Aurélio: Adobe¹ ‗[Do ár. At-tub ‗tijolo cru‘ ‗ladrilho‘] s.m. 1. Pequeno bloco semelhante ao tijolo, preparado com argila crua, secada ao sol, e que também é feito misturado com palha, pra se tornar mais resistente; tijolo cru.‘ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Adobo• (A) •Nm [Ssing] •Ár.•Tijolo de argila misturado com palha e cozido ao sol.• Adobo cê sabe que que é né?[...] Pra fazê parede, adobo que chama.[...] As casa, a maió parte era feita de pau-a-pique e adobo. (Ent. 5, linhas 33, 40, 43) 3. Freitas (2012): ADOBE • (A) • Nm[Ssing] • Ár. • Tijolo feito de argila, seco ou cozido ao sol, geralmente acrescido de capim ou palha, para torná-lo mais resistente. ―Fui embora pra casa de mamãe lá ê fez dois cômodo no Papagai num terreno que ê comprô...aí fez menina um trenzinho assim de adobe...” (Ent.06,linha 139) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... ‗adobe¹ s.m. ‗tijolo de argila misturado com palha e cozido ao sol‘ / 1562, /do ár. At-tub‘ (CUNHA, 1986, p.16). 10 . ADONDE [ADV] ... ele chegava adonde tava os outros e... (1; 193). ... adonde que tem essas casa com aquela outra rua de lá... (36; 300). ... num sei adonde que tá chuvendo... num sei adonde que diz que o sol tá quente... (44; 381). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Adonde. ―Adverbio local. Adonde vas? Duo abis? Quo te agis? Terent. Vid. Donde‖ 2. Morais: Adonde. ―é erro. Ver aonde; sendo a, prep. Junto a palavra relat. Onde: v.g. o lugar aonde estou, i. e., no qual estou. Em adonde, junta-se de a a perissologicamente: o mesmo é de d‘onde.‖Tomei adonde saira‖ é correto, i.e., tomei, ao lugar d‘onde saira.‖ 3. Freire: Adonde. ―adv. Ant. O mesmo que aonde: ―Irei adonde os fatos ordenaram‖ (Dic. Acad. Lisb.). // 2. Ant. e Pop. O mesmo que onde: ―Uma ilha nas partes do Oriente, adonde o duro inverno os campos reverdece alegremente‖ (Dic. Acad. Lisb.). ―Adonde você já viu falar em paqueiro que não acoe tatu...?‖ (Valdomiro Silveira)‖ 4. Aurélio: Adonde. ―Adv. Ant. Pop. 1. Aonde: ―esse caminho/ Bem sei adonde vai‖ (Fr. Agostinho da Cruz, Obras, p. 1918; ―—De noite a gente come. / -- Aonde? / -- Não sei.‖ (Bariani Ortêncio, Vão dos Angicos, p.103.‖ 2. Onde: ―Se eu fosse as pedras morenas / Lá da serra adonde estás / As pedras seriam penas, / As penas que tu me 98 dás...‖ (Augusto Gil, O craveiro da Janela, p. 14); ―—Mas o que é que anda fazendo? / Procurando serviço. Será que ocê, que conhece tudo aqui pra vila, sabe adonde tem?‖ (Amadeu de Queirós, João, p. 15). Interj. 3. Bras. Pop. Qual! Não é possível: Pode me emprestar algum dinheiro? / -- Adonde meu amigo!‖ 5. Amaral: Adonde ―onde, adv. / Só nas partes mais altas pareciam / Uns vestígios das torres que ficavam, / Adonde a vista o mais que determina / É medir a grandeza co‘a ruína. (G. P. de Castro, ―Ulisséia‖). Também no Norte do Brasil persiste esta forma: Eu ante queria sê / a pedra adonde lavava / sua roupa a 98avandera. (Cat., ―Meu Sertão‖)‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Adonde (A) adv. Em que lugar. Variante de aonde. “... num sei adonde que tá chuvendo... num sei adonde que diz que o sol tá quente...” (Entr. 6, linha 365). 2. Ribeiro (2010): Adonde (A) [adv.] . Em que lugar. Variante de aonde. Eu vou vê adonde minhas galinha tá. (Entr. 15, 326). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: onde ‗em que lugar‘ séc. XIII. Do lat. unde. Aonde XIII (CUNHA,1986, p.561). _____________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo, aparece na literatura em prosa do s. XIV – Milagres de Santo Antonio de Lisboa (Revista Lusitana XV (1912), conforme cita Joseph Huber em Gramática do Português Antigo, 1986, p.255. 11. ADUCAR [V] ... trabalhei muito... aduquei meus filho tudo... (44; 208). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Aducar (n/d) v. Dar escolaridade a uma pessoa. Variante de educar (educar > aducar – caso de dissimilação). “... trabalhei muito... aduquei meus filho tudo... tem filho formado...” (Entr. 6, linha 200). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 99 _____________________________________________________________________ Origem: educar s. XVII. Do lat. educare (CUNHA, 1986, p.284). 12 – ADVERTIR [V] ... mas quase todo dia tinha uma festinha... pro povo advertir... (50; 299). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: divertir ‗distrair, desviar, recrear‘, séc. XVI. Do lat. divertere ‗ir-se embora, afastar-se‘, de vertere (CUNHA, 1986, p.272). ______________________________________________________________________ Obs: Prótese 13 – AFUNDAR [V] ... mas isso aqui foi afundada / ele que afundou isso aqui... (1; 18). ... quem afundou esse entroncamento aqui foi Ezequiel... (4; 207). ... toda vez que tem reunião aqui é citado o nome dele... porque quem afundou isso aqui foi ele... (4; 400). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: fundar, s.XIII. Do lat. fundare. (CUNHA, 1986, p.372). 100 ______________________________________________________________________ Obs: Prótese. 14. AGREGADO Nm [Ssing] ... mas meu avô pegou a fazenda e vendeu... e nós ficou morando de agregado do patrão... (2; 24). É... nós morava de agregado do povo... nós morava no irmão de meu pai... (7; 43). ... quem tinha suas fazenda dava a pessoa pra morar de agregado... (42; 617). ... meu pai nunca pessuiu terra não... sempre nós morava... como se diz... de agregado né? (43; 132). ... meu pai morava de agregado... eu morei de agregado até a pouco tempo... até pouco tempo eu morei de agregado... da onde eu saía tava de agregado pra vim pr‟aqui né?... (43; 132-135). Registro em dicionários: 1. Bluteau: aggregado – ‗particípio do verbo agregar; subst. ajuntamento, ou união de muitas cousas para a composição de uma só‘ 2. Morais: aggregádo – ‗part. pass. de agregar; subst. união, ajuntamento de partes de um todo. O todo que resulta de cousas agregadas, ou da união de quesquer partes integrantes. (...)‘ 3. Freire: agregado ou agregado – ‗s.m. Lavrador pobre que, em falta de terras próprias, se estabelece nas fazendas alheias, com permissão dos proprietários, mediante condições que variam de um lugar para outro (...)‘. 4. Aurélio: agregado ‗9. Bras. Lavrador pobre estabelecido em terra alheia mediante certas condições. 10. Bras. NE. Aquele que vive em fazenda ou engenho alheio, cultivando certa porção de terra e prestando serviço ao proprietário alguns dias por semana, mediante remuneração; morador.‖ 5. Amaral: agregado – ‗s.m. indivíduo que vive em fazenda ou sítio, prestando serviços avulsos, sem ser propriamente um empregado.‘ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Agregado (A) s. Trabalhador rural que vive em terras que não são de sua propriedade. “... quem tinha suas fazenda dava a pessoa pra morar de agregado...” (Entr.4, linha 597). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Agregado Nm. [Ssing] Lat > Port. Trabalhador rural que vive em terras que não são de sua propriedade. Inf.: Eu nunca tive um terreno pra morá não... assim meu não... / Entr.: Mora é de? / Inf.: Assim de agregado né?...” (Entr.10, linha 43). 5. Cordeiro (2013): ‗Agregado Nm. [Ssing.] Infor.: ‗Eu nunca tive um terreno pra morá não... assim meu não... / Entr.: Mora é de? Infor.: Assim de agregado né?... (Entr 10, linha 43). _____________________________________________________________________ Origem: agregar ‗reunir, associar, acumular‘, séc. XV. Do lat. aggregare (CUNHA, 1986, p.22). 101 ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (NE) (Cf. Aurélio nesta ficha). 15. AGRESTE Nm [Ssing] ... o Ezequiel morava numa choupaninha fechada assim de agreste... de pindoba... (4; 216). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Agreste ―adj. campestre, mentesinho, do campo, do campo. F. rustico.‖ 2. Morais: Agreste ―adj. campestre, montesinho, do campo. S. f. rústico. S. o camponez.‖ 3. Freire: Agreste ―Adj. Lat. agrestis. Que pertence ao campo ou a seus habitantes; campestre, campesino. 2. Bot. Que germina ou se cria naturalmente, sem cultivo; silvestre.‖ 4. Aurélio: Agreste do lat. agreste. Adj2g. 1. Relativo ao campo ou agro, sobretudo quando não cultivado; campestre. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: agreste ‗relativo ao campo‘ s. XVI. Do lat. agrestis –e. (CUNHA, 1986, p.22). 16. ÁGUA-INGLESA NCf [Ssing + ADJsing] ... saúde das mulher é Água-inglesa... num tinha melhorado... num tinha nada... era só esses remédio viu?... (44; 422). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Água de Inglaterra. ―s.f. Lus. Cozimento da casca da quina, usado em medicina como febrífugo‖ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Água inglesa (n/d) s. Espécie de remédio indicado para mulheres que tiveram filho recentemente. Usado para combate a anemia e, também, como tônico revogorante. “... e tinha a resina que vendia né... aguardente... (carnevan) pra pereba né... e bebia né... saúde das mulher e água inglesa...” (Entr. 6, linha 404). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 102 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: água + inglês. Água (latim) + inglês (do fr. ant. englais) 17. ALADIM Nm [Ssing] ... e quando foi ficando mais tempo ês compraram um... como é que é / aladim que ês chama. (3; 401). Aladim... aquele alumiava bem... pendurava assim na casa e alumiava uma sala bem alumiado... é chamava aladim. (3; 403). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Aladim ou Aladino (em árabe: ʻAlāʼ ad-Dīn, literalmente "nobreza da fé") é um personagem fictício do conto de origem árabe conhecido como Aladim e a Lâmpada Maravilhosa. (Guérios, 2004). 18. ALAMBIQUE Nm [Ssing] ... engenho... pra fazer rapadura...alambique... (28; 423). Registro em dicionários: 1. Bluteau: alámbique, almbique, vid lambique. ‗Lambique ou alambique – Vaso em que por meio da sublimação & destilação se tira a substancia de varias materias, como flores, ervas, vinhos e outros licores.‘ 2. Morais: Alambique s.m. Vaso, que consta de recipiente, onde se põe o que há de distillar-se, e de cabeça, ou capitel, onde se ajunta o vapor, que condensado em líquido sahe polos canos, ou gargalos. 3. Freire: ‗aparelho de metal empregado na destilação.‘ 4. Aurélio: Alambique [Do gr. ámbyx, ‗vaso de beira levantada‘, pelo ár. al - anbCq, ‗vaso de cobre, ou de vidro, em que se destilam ervas, flores e licores‘.] S. m. 1. Aparelho de destilação, constituído por uma caldeira na qual se depositam os materiais por destilar, e onde se desprendem e acumulam os vapores que, por meio de uma tubulação especial, chegam ao condensador, e aí tornam, pelo resfriamento, ao 103 estado líquido; destilador. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): LAMBIQUE • (A) • Nm[Ssing] • Gr. • Aparelho próprio para destilação usado na produção de água ardente. • ―Punha o dinhêro lá tinha lambique tinha tudo cuntuá era home forte escondeu dinhêro morreu quano os menino foi oiá cê viu foi cinza...foi embora tudo virô cinza” (Ent. 11, linha 175) 4. Miranda (2013): Alambique (A) Nm. [Ssing] Ár > Port. Aparelho próprio para destilação usado na produção de água ardente. “... cabava de encher o cocho... ela fervia a tempo de podê derramá... das cana saía a cachaça... e lá dentro do alambique ficava a borra lá...” (Entr.8, linha 127). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Alambique ‗aparelho para destilação‘ XVI. Do Gr. ámbix –ikos. Pelo ár. al – „ambīq. (CUNHA, 1986, p.25). 19. ALEIVOSIA Nf [Ssing] O povo diz que existe mas eu acho que no meu pensar... aquilo é uma aleivosia que o povo tem na cabeça... (23; 215). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Aleovosia ―s.f. traição, infidelidade, maquinação contra a vida, ou pessoa de alguém, seus bees, e honra com mostras, de amizade.‖ 2. Morais: Aleivosia ―s.f. Traição, infidelidade, maquinação contra a vida, ou pessoa de alguém, seus bees, e honra com mostras, de amizade.‖ 3. Freire: Aleivosia ―s.f. De aleivoso + ia. Fingimento de amizade. 2. Traição, dolo, fraude. 3. Crime cometido com falsas demonstrações de amizade.‖ 4. Aurélio: Aleivosia s.f. 1. Traição, perfídia, deslealdade. 2. Dolo, fraude. 3. Falsa acusação; calúnia. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: aleive s.XIII ‗ant. traição‘ ‗calúnia, injúria‘, aleivosia s.XIV. De orig. controv. (CUNHA, 1986, p.28). 104 20. ALEMBRAR [V] ... meu bisavô eu ainda alembro dele... (2; 311). ... mas meu marido alembra que o pai dele escondeu no mato com ele e tudo... (4; 171). Entr.: A senhora lembra se o pessoal aqui contava caso de assombração... alguma coisa assim?” Inf.: “Se eu alembro? (4; 269). Aí eu alembro disso... eu num morava aqui não... (6; 338). ... eu alembro... eu era rapaz nessa época... (6; 351). ... a hora que essa escuridãoi apareceu moço eu alembro... (8; 272). ... ocê alembra?... vinha uma menina com medo... (10; 133). Não... isso aí eu num alembro não né?... num alembro não... não num alembro não... Entr.: “É?” Inf.: “Não... isso aí não... eu num alembro não.” (11; 237-244). Não não... aqui eu num alembro não. (11; 249). É... de trinta e nove eu ainda alembro... (12; 85). ... se a gente for contar é muita coisa né?... num alembro nada mas a pessoa vai perguntando e a gente vai alembrando né? (12; 451). Entr.: Aqui já teve escravo? Inf.: Escravo? Entr.: É. Inf.: Eu num alembro disso não. (13; 158). Entr.: A senhora lembra como que era o rio aqui quando s senhora...” Inf.: “Alembro... o rio tinha muita água. (14; 110). Inf.2: “O clavinote era da casa... ocê num alembra que pai tinha uma... clavinote... clavinote... bacamarte... (15; 170). ... já foi do meu tempo... eu já alembro. (15; 255). Que eu sou de trinta e três... eu alembro da fome... (15; 261). Inf.2: Mamãe tinha dia... um dia mesmo eu alembro das minhas irmã... (16; 148). ... e puxando assim e molhando com azeite... cê alembra assim? (16; 449). É eu alembro... sou desse tempo... (16; 480). Teve... (trecho incompreensível)... mas alembro. (17; 157). Não... eu num alembro não. (17; 286). Óia eu num alembro dessas fruta que encontrava não sabe?... (19; 401). Ês fala dos revoltoso mas isso aí eu num alembro não. (20; 98). ... no princípio aí o que aconteceu mas eu num alembro não. (20; 104). ... de primeiro do tempo que eu alembro... (21; 173). Até hoje eu alembro... (31; 28). Entr.: Mas que já teve já. Inf.: Já... eu alembro. (31; 152). Alembro... isso aí eu alembro. (31; 181). ... mas disso eu alembro tudo né? (31; 299). ... eu num tou alembrando mais não... (34; 47). ... pai mesmo era cozinheiro de festa... e alembro como hoje... (35; 73). ... e eu hoje num tem nada que eu num alembre de fazer... (36; 46). Eu num alembro não... eu num alembro dessas coisa não. (36; 239). ... quando eu alembrava da escola eu chegava a chorar... (38; 38). Não... num alembra não... chama Rio Pardo. (39; 386). ... eu acho que já mas agora num tou alembrando não... (40; 167). ... com o tempo assim tem hora que a gente alembra... (40; 617). ... eu num esqueço não... de vez em quando eu alembro... (44; 401). Eu alembro... um mucado eu alembro... tinha uma casa velha ali... (45; 10). Entr.: O senhor lembra de um tal de eclipse? Inf.: Alembro! Entr.: É? Inf.: Alembro!... (45; 308-310). 105 Se eu alembro?... alembro... (46; 113). É vi... eu ainda alembro... alembro dessas coisa... (46; 192). ... agora que eu num tou mais alembrando né?... (46; 244). Aqui ficou escuro?... alembro meu filho... isso eu alembro... (46; 251). ... e eu vi isso tudo... e eu bem cantando... eu alembro. (46; 263). ... mais agora eu num alembro mais nem uma terça pra falar pr‟ocê... (46; 294). ... eu alembro desse tempo. (47; 54). Só na hora do voto... o governo / que ele alembra do pobre... (48; 18). Entr.: ... a senhora lembra como foi o casamento? Inf.: Ah eu alembro. (51; 145). Entr.:... revoltosos... a senhora lembra? Inf.: Passou... isso alembro. (51; 267). Ah... isso aí eu num alembro mais não... (52; 127). ... a casa mais antiga que eu alembro é a casa do Recreio... que eu bem alembro mesmo é a casa do Recreio. (52; 261). ... eu num alembro disso não mas minha mãe falava... (52; 368). ... num alembro mais como é que o povo cantava não... (52; 397). Vem nada... uns já sumui pra lá... nem alembra... (52; 472). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Alembrar. ―Vid. Lembrar.‖ 2. Morais: Alembrado, alembrança. ―&c. v. lembrado, lembrança, lembrar.‖ 3. Freire: Alembrar. V.r.v. O mesmo que lembrar: ―Mais estancas cantara esta sirena em louvor do ilustríssimo Albuquerque, mas alembrou-lhe u‗a ira que o condena, posto que a fama sua o mundo cerque‖ (Camões). ―Alembra-me que outrora... conheci um corício em anos já maduros, dono duma chãzinha ali desamparada‖ (Castilho). 4. Aurélio: Alembrar. ―[De a-4 + lembrar.] V.t.d. / V.t. d. e i. / V. p. Ant. Pop. 1. Lembrar: ―encanecidos‖ Pescadores de outrora alembram com saudade / As pescarias‖ (Vicente de Carvalho, Versos da Mocidade, p.124)‖ ; ―Algumas vezes eu me alembro duma / tarde na roça‖ (Gilberto Mendonça Teles, Sociologia Goiana, p. 34).‖ 5. Amaral: Alembrar: ―lembrar, v. || Esta prótese vem de muito longe na história da língua, e ainda é pop. Alembrava-vos eu lá? (Gil V., ―Auto da Índia‖)‖. 106 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Alembrar (A) v. Trazer lembranças à memória. Recordar-se. Variante de lembrar (lembrar > alembrar – caso de prótese). "Eu alembro... um mucado eu alembro...” (Entr.7, linha 9) 2. Ribeiro (2010): Alembrar (A)•[V] •Lat.•Recordar, vir à lembrança.• Cê num alembra dela não. Ele era muito chique. (Ent. 10, linha 332) 3. Freitas (2012): ALEMBRAR • (A) • [V] • Lat > Port • Trazer algo à memória, recordar, relembrar. Variante de lembrar • ―Ele era fei menina em vida ô num alembro dele não mais diz que ê era fei demais muito fiuzim...” (Ent. 06, linha 375) • (alembrar~lembrar: caso de prótese) 4. Miranda (2013): Alembrar (A) [V] Lat > Port. Trazer algo à memória, recordar, relembrar. Variante de lembrar. “... eu ainda tenho uma meio lembrança de tropa... cê num alembra de tropa não né?...” (Entr.2, linha 5) (Alembrar~lembrar: caso de prótese). 5. Cordeiro Alembrar (A) [V] Port. (CUNHA 1986) Lembrar, recordar, trazer à memória. Variante de lembrar. ―Eu nem sei se ele alembra não que ele era tava pequeno. Capaz que ele nem alembra‖. (Entr.1, linha 92) (Caso de prótese). ______________________________________________________________________ Origem: lembrar ‗trazer à memória, fazer recordar, notar, advertir‘, s.XV, membrar XIII, nembrar XIII etc. do lat. memorare (CUNHA, 1986, p.469). ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo, encontrada na obra de Gil Vicente, conforme cita acima Amaral (1976). 21. ALEVANTAR [V] ... quebrei o resguardo... mas eu alevantei inflada de camisa... (41; 110). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Alevantar com os mais Vid levantar Levantar coisa caída. Levantar do chão. 2. Morais: Alevantár. ―v. levantar. Cast.2. 161. a náo carregava de poupa, e alevantava de proa. Neutramente. Cujas migalhas me criarão, e os benefícios alevantarão do poo em que nasci. Ined. 3.9.‖ 3. Freire: Alevantar. ―v.r.v. De a + levantar. Levantar, erguer (tr. Dir.; bitr., com prep. a, em; pr. ; com prep. de): ―O menor incêncio bastaria para alevantar as chamas‖ (Herculano). ―Alevantem uma oração fervorosa ao senhor‖ (Id.). ―O olhar celeste alevantando aos ramos do salgueiro‖ (Machado de Assiz)‖ 4. Aurélio: Alevantar. ―[De a-4 + levantar] V.t.d. / V.p. 1. levantar-se: ―E um pássaro, com as asas espalmadas, / o vôo alevantou‖ (Múcio Teixeira, Brasas e Cinzas, p. 84); ―Este Povo ressurge e novas forças, / Muito embora contrárias, se alevantam.‖ (Teixeira de Pascoais, D. Carlos, p.18); ―Quando o dia se alevanta, / Virgem Santa! / fica assim de sabiá.‖ (Heckel Tavares e Luís Peixoto, na canção Casa de Caboclo.)‖ 107 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Alevantar (A) v. Colocar-se de pé. Variante de levantar (levantar > alevantar – caso de prótese). "... quebrei o resguardo... mas eu alevantei inflada de camisa...” (Entr.3, linha 105) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): ALEVANTAR • (A) • [V] • Lat > Port • Colocar ou colocar-se de pé, elevar-se. Variante de levantar. • ( ―Com deus me deito com deus me alevanto...com a graça divina e o sinhô isprito santo” (Ent.01, linha 333) • (alevantar~levantar: caso de prótese) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Alevantar, s. XIII. De levantar (CUNHA, 1986, p.472). ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo conforme Cunha (1986). 22. ALFORRIDÃO Nf [SSING] ... acho que escrava mesmo legítima ela num era mas tinha os filho dela... quis virar médico... mas já nasceu na alforridão... era forro. (8; 222). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ____________________________________________________________________ Origem: de alforria ‗liberdade concedida ao escravo‘ séc. XV. Do ár. al-hurrua (CUNHA, 1986, p.30). _____________________________________________________________________ Obs: Variante de alforria. 23. ALGIBEIRA Nf [Ssing] ... eu tenho aqui na algibeira aqui porque se eu precisar viajar eu já num esquento... (22; 517). 108 Registro em dicionários: 1. Bluteau: Algibeira ―s.f. bolso no vestido, onde se guarda alguma coisa.‖ 2. Morais: Algibeira ―s.f. bolso no vestido, onde se guarda alguma coisa.‖ 3. Freire: Algibeira ―s.f. Ár. al-jeiba. Bolso ou bolsa que faz parte integrante do vestuário. 2. Pequena bolsa separada do fato, que as mulheres do povo prendem à cinta por baixo dos vestidos.‖ 4. Aurélio: Algibeira ―[do ar. Al-ga-bay Ra ‗pequena tábua‘ ‗bracelete‘ ‗saco de couro‘] . S.f. 2. Pequena bolsa em forma de saquinho que as mulheres prendiam à cintura, em geral, por baixo dos vestidos ou aventais.‘ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: algibeira ‗bolso‘, 1813. Do ant. aljaveira (< aljav-a + -eira) (CUNHA, 1986, p.30). 24. ALTURA Nf [Ssing] ... até uma altura pra baixo capaz de já tá seco... (11; 104). ... brincava bastante até uma altura... até uma altura eu brinquei... (43; 04). ... agora... quando deu de uma altura pra cá... cresceu o movimento... (43; 225). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Altura. ―[De alto² + -ura.] S.f. 7. Momento, instante: A certa altura do discurso a emoção embargou-lhe a voz‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Altura (A) s. Época da vida, idade. “... brincava bastante até uma altura... até uma altura eu brinquei...” (Entr. 5, linha 4). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: altura s. XIII. Do lat. tardio *altura, de altus. A forma altor ‗altura‘ documenta-se no séc. XVI. (CUNHA, 1986, p.36). 25. ALUMIAR [V] 109 ... e tinha gente que alumiava com a candeia de azeite... (3; 397). ... mas alumiava muito mal porque o azeite é fraco... (3; 399). Aladim... aquele alumiava bem... pendurava assim na casa e alumiava uma sala bem alumiado... é chamava Aladim. (3; 403). ... aí pisava mamona pra fazer azeite pro povo né?... que de primeiro alumiava... (10; 34). Aquele tempo era alumiado com azeite... (34; 281). ... depois quebrava aquele pedaço e jogava lá pra alumiar... (34; 284). ... e agora quando tinha o criosene alumiava era isso... isso amanheceu o dia alumiando... (36; 247-249). ... um candieirão de barro assim cheio de azeite pra poder ilumiar a noite... alumiar é com isso sabe? (37; 199). ... naquele tempo num tinha vela... alumiava com azeite e cera do mato né?... (44; 17). ... ainda punha ele pra alumiar assim os peixe dentro d‟água... (44; 322). ... comprava uma meia de querosene... uma garrafa... pra alumiar assim quando chegar uma gente né?... (44; 336). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Alumiar. ―Fazer luz. Quando se, falla no sol, em huma tocha, em huma, candéia, &c.Alicui illucere. Plaut. Aliquem, ou aliquid illuminare. Plin. Hist. Ou ilustrare. Horat. O sol alumiava todo o mundo. Sol omnia claríssima luce collustrat. Em outro lugar diz, quippe qui inmenso mundo tam longe, late que colluceat. A luz deste castiçal alumea o templo. Collucet templum fulgore candelabri. Cic.‖ 2. Morais: Alumiár. ―v.ar. Dar luz, acclarar. Fez Deos luminarias no ceo... para que resplandeção no ceo, e allumiem a terra.Vasc. Sitio, D. 2, f. 90.‖ 3. Freire: Alumiar. ―v.r.v. Lat. hisp. Adluminare. Dar luz a (tr. dir.): ―Um sol amarelado, luz de fogueira, alumiava sinistramente as terras‖ (C. Neto) // 2. Pôr claridade em, iluminar (tr. dir., pr., bitr., pr. ou tr. Ind. , com prep. com; intr.): ―Duas tristes luzes alumiavam aquela pequena sala‖ (Machado de Assiz). ―A luz viva de muitas tochas alumiou subitamente as escadarias‖ (Herculano).‖ 4. Aurélio: Alumiar. ―[Do lat. iluminare.] V.t.d. 1. Dar luz ou claridade suficiente a; iluminar, (desus.) aluminar: ―A lamparina alumiava o seu quarto de dormir.‖ (Machado de Assis, Esaú e Jacó, p. 258); ―Leitor, foi um relâmpago. Tão depressa alumiou a noite, como se esvaiu‖ (Id., Dom Casmurro, p. 200)‖ 2. Dar lume a; acender, (desus.) aluminar. 3. Dar claridade, brilho, vida, a; iluminar: ―Um sorriso alumiou o rosto da enferma sobre o qual a morte batia a asa eterna‖ (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, p.78). 4. Fig. Instruir, ilustrar, esclarecer; iluminar. V. int. 5. Dar ou espargir luz, claridade; iluminar: ―É a luz mais benigna que o sol; porque o sol alumia, mas abrasa: a luz alumia, e não ofende.‖ (P.e Antônio Vieira, Sermões, I, p. 250). 6. Bras. Reluzir, rebrilhar, resplandecer.V.p. 7. Ficar iluminado; iluminar-se. 8. Ilustrar-se, instruir-se; iluminar-se.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Alumiar (A) v. Tornar claro um local. Variante de iluminar 110 (*iluminar > ilumiar > alumiar – caso de síncope e dissimilação). Cf. lumiar. “... naquele tempo num tinha vela... alumiava com azeite e cera do mato né...” (Entr. 6, linha 15). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Alumiar (A) [V] Port. (CUNHA, 1986) Iluminar, acender uma luz. Variante de iluminar. ―Comprava a querosene e enchia a lamparina e punha o pavio e alumiava‖. (Entr.9, linha 125). ____________________________________________________________________ Origem: ... Alumiar. ―iluminar.‖ ―iluminar vb. ‗derramar luz sobre, tornar claro‘ ‗fig. Esclarecer, ilustrar‘ ‗ornar com iluminuras‘ 1530. Do lat. illuminare // alumiador / alomeador XIV. alumeador XV // alumiamento / alomeameto XV // alumiar / -mear XIII / Do lat. *alluminare // iluminação / illu- XVI / Do lat. illuminatio –onis // iluminado 1530 // iluminador XVI // iluminante / illu- 1881 // iluminativo XVII // iluminismo / illu- 1844 / Do fr. illuminisme // iluminura 1530. ― (CUNHA, 1986, p.425). ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo conforme Cunha (1986). 26. ALVO [ADJsing] ____________________________________________________________________________ ... mas a folha dele é larga e as costa dele é alva... alvinha né?... agora a frente dele é mais escura... quando o vento bate ele droba assim e a gente vê alvinha que só vendo... (2; 434). Rama de ( )... porque a ( ) tem as folha / as costas é alva... é branquinha. (3; 307). Outro dia diz que teve um branco... foi uma horinha só... mas / meio dia / uma água corria assim que tava chuvendo... o céu alvinho... (10; 133). ... bem alvinha pra rapar pra fazer um cafezinho né?... (40; 104). ... a água vinha... aquela água alvinha... (40; 154). ... tava que nem uma prata... alvinha... todo mundo bebia água desse rio... (50; 71). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Alvo. ―Branco. Albus, a, um. Cic. Candidus, a, um. Plin. Hist. Vid. Branco.‖ 2. Morais: Alvo ―adj. muito branco.‖ 3. Freire: Alvo ―Adj. Lat albus. Branco, claro. 2. Cândido, límpido, puro.‖ 4. Aurélio: Alvo ―adj. Branco, claro. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Alvinha (n/d) adj. Que é clara, límpida, transparente. “... afundava... a água vinha... aquela água alvinha...” (Entr. 2,linha 151). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Alva¹. ―sf. ‗primeira claridade da manhã‘ XIII. Do lat. Alba, fem. Sing., ou neutro 111 coletivo de albus ‗alvo, branco‘. Diretamente do lat. Alba, documenta-se, em 1871, o voc. Alba ‗canção poética trovadoresca, cantada ao romper da manhã‘ // albente XX / albescente XX. Do lat. Albescens –entis // alvação / XVI, aluaçaão XV // alvacento XVI // alvadio XVI / cp. Alvo.‖ (CUNHA, 1986, p.36) ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo corrente no português europeu. Cf.: Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo encontrado na definição de nº 6 como ―muito branco‖. 27. AMARRAR-VAQUEIRO NCm [V + Ssing] ... tem um tal amarrar-vaqueiro... uma rama do mato... muita gente ia viajando e via ele na estrada com aquele / que ele dava e o vento batia e virava assim a rama... (2; 426). Entr.: Que planta que era? Inf.: Era uma rama... chamava amarrar-vaqueiro. Entr.: Amarrar vaqueiro”. Inf.: É.. é uma rama... mas a folha dele é larga e as costa dele é alva... (2; 432). Tudo mato... isso aqui ó... isso aqui era um amarrar-vaqueiro estirado aqui ó... (37; 335). ... e tinha é uns ferrão de amarrar-vaqueiro... a cidade hoje tudo tem ferrão de amarrar-vaqueiro no mato. (38; 84). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: amarrar, do fr. amarrer, deriv. do m. neerl. aanmarren. / vaqueiro – do latim vacca. (CUNHA, 1986, p.38) 28. AMONTAR [V] ... arranjava uma vara... e amontava... e aí agora saía galopeando pelo meio da estrada... (43; 21). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Amontado ―part. pass. de amontar-se.‖ 2. Morais: n/e 3. Freire: Amontar ―v.r.v. De a + montar. 3. O mesmo que montar.‖ 4. Aurélio: Amontar ―v.t.i. 1. Elevar-se, montar.‖ 5. Amaral: n/e 112 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Amuntar / muntar (A) [V] Port. (CUNHA 1986) Por-se sobre um animal, montar. Variante de montar. ―E eu chiano lá na cama, rolano lá. Sangue istrebosrdano em todos os fi de cabelo. É. Com poco ele chegô, que resolveu. Ele resolveu. Pontô um rapaz amuntado num cavalo lá, aonde eu tava falano.‖ (Entr.6, linha 26). _____________________________________________________________________ Origem: de montar ‗armar, aprontar para funcionar‘ s.XIII. Do lat. vulg. montare (CUNHA,1986, p.531). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo corrente no português europeu, Cf. Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo encontrado na 4ª definição como ―v. intr. Montar‖. 29. ANALFABÉTICO [ADJsing] ... eu que aprendi um pouquinho da leitu / da leiturazinha que num era analfabético... (37; 160). Registro em dicionários: 6. Bluteau: n/e 7. Morais: n/e 8. Freire: Analfabético ―Adj. De analfabeto + ico. Que não tem alfabeto.‖ 9. Aurélio: Analfabético ―[de analfabeto + -ico] adj. e. ling. 1. V. língua.‖ 10. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 6. Souza (2008): n/e 7. Ribeiro (2010): n/e 8. Freitas (2012): n/e 9. Miranda (2013): n/e 10. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: analfabeto ‗que não sabe ler e escrever‘, analphabeto XVII. Do lat. tardio analphabetus, deriv. do gr. analphabetos (CUNHA,1986, p.43). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo encontrado no português europeu, Cf. Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, tendo como definição ―adj. Diz-se das línguas que não têm alfabeto.‖. 30. ANDU Nm [Ssing] ... quebrando andu e o balaio cheio de trem... (8; 378). ... vinha aqui pra feira pra poder ver se arranjava... um andu... feijão bem nem falava... era fava... muito feijão catador... (19; 224). 113 ... até que o andu / o andu ocê conhece. (19; 228). O andu eu gosto muito mas o feijão catador eu como mas... a fava eu gosto muito da fava. (19; 230). ... nós plantava as mesma coisa de hoje... era manaíba... feijão... milho... é cacatua... andu... (43; 104). ... e se fosse gripe... tem o suco do algodão do andu. Entr.: Andu também? Inf.: É... andu também. Entr.: Andu num é só pra comer então não? Inf.: Não!... é a folha do andu... num é o caroço não. (48; 449-453). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Andu. ―s.m. Bras. Um legume vulgar, que nasce em um arbusto, tem flores amarelas, e de cada flor sai uma vagem.‖ 3. Freire: Andu s.m. Planta da família das leguminosas – papilionáceas, cujas sementes são comestíveis (Cajanus indidicus, Spreng) || 2. Fruto ou semente dessa planta. 4. Aurélio: Andu. ―S. m. Bras. 1. Fruto do anduzeiro; guando, guandu, feijão- guando.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Andu (A) s. Espécie de um legume ou vagem, de cor esverdeada, arredondada, similar a uma ervilha. “Nós plantava tudo né... nós plantava as mesma coisa de hoje... era manaíba...feijão... milho... é cacatua... andu...” (Entr.5, linha 102) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): ANDU • (A) • Nm[Ssing] • Afr.• Semente do anduzeiro, similar a um feijão. • ―Ah armoço andu podre chei de bicho grudura de boi farinha de mãidoca arrozi daquele arroz vermei cê pudia sentá na testa dum qu‟ê caía de costa” (Ent.07, linha 250) • 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Andu (A) Nm [Ssing] Afr. Fruto comestível do anduzeiro, que se assemelha a um feijão arredondado e verde. ―E vô fala muié num fia algodão, muié num aproveita um aigodão na roça, muié num aproveita um andu, uma coisa assim da roça.‖ (Entr.7, linha 304). ______________________________________________________________________ Origem: Andu. (banto) (BR) s.m. fruto do anduzeiro (Cajanus Indicus Lin), leguminosa, espécie de lentilha. Var. ervilha-d (e)-angola, ervilha-do-congo, guandu.C.f. macundê. Kik./Kimb/Umb. Wandu, guandu.n/e (Castro, 2001) ______________________________________________________________________ Obs: Africanismo, conforme Castro (2001). 31. ANIMAL-SOLTEIRO NCm [Ssing + ADJsing] ... um viajante que vendia pra nós vinha chegar a mercadoria com animal... com tropa... né tinha um animal-solteiro... sem carga... botava uma boneca na cabeça... é o da guia... (15; 34). 114 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: animal ‗ser vivo organizado, dotado de sensibilidade e movimento‘ ‗particularmente, em oposição ao homem, ser irracional‘ s.XIV, animalla XIII, animalha XIV, animália XIV, alimária XIV, alymaria XV etc. do lat. animal. (CUNHA, 1986, p.50). / solteiro ‗que ainda não se casou‘ s.XVI, solteyro XIII. forma divergente popular de solitário, do lat. solitarius –a –um. Ver em só. (CUNHA, 1986, p.729). ______________________________________________________________________ Obs: 32. ANTÃO [ADV] ... antão o tempo no domingo era esse... (1; 96). ... tudo escondido lá pro mato... antão... quando chegava bem longe... (1; 151). ... naquela praça do jardim ali que tem o mercado... antão a feira... a feira era do mercado... (21; 51). ... mulher tinha medo tamem... antão teve uma vez que meu pai chegou em casa... (21; 54). ... foi prefeito também... que era o vice ( )... antão ele... (21; 67). ... antão aquele prefeito o povo gavava muito dele... (21; 69). ... antão aquela situação era uma situação... (21; 158). ... antão ele fazia umas cerquinhas de vara muito bem feita... (22; 32). ... pra baixo da ilha né?... e antão... mas fui criado aí dentro do veredão... (23; 16). ... antão armava uma corda também no pau e ficava... (23; 52). ... Ocê agrada desse rapaz?... antão o casamento tá trato... (23; 67). ... e antão é assim... e aí tem que ir... (23; 305). ... e antão meu pai falava... (23; 323). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Antão. Adv. Lat. intunc. Pop. O mesmo que então. 4. Aurélio: Antão. Adv.. 1.Ant. Pop. Então: ―já voltava para o Zeca Estevo, num passo ondulado e mole, quando este quis saber o nome da doença: ―— Antão, meu 115 patrão velho, o que é que eu tenho? (Valdomiro Silveira, Os Caboclos, p. 71.) 5. Amaral: Antão. Então, ad.: – Antão ela reparou bem em mim, não disse mais nada, e saiu adiante. (V. S.) |Filhos forão, parece, ou companheiros, E nella antão os incolas primeiros. (Camões, ―Lus.). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Antão• (A)• [Adv] • (n/e) • O mesmo que então.• Aí, antão eu acho que o meu pai/ a minha mãe é que tava certa e meu pai tava errado. Porque meu acho que eu ia ficá feinho. (Ent. 2, linha 13) 3. Freitas (2012): ANTÃO • (A) • [Adv] • Lat > Port • O mesmo que então. • ―A madêra ficava perfeita toda antão ês tirava as madêra e fazia a tal cerca de tisôra...já viu falá?” (Ent. 04, linha 422) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Antão (A) [Adv] Port. (CUNHA 1986) O mesmo que então. ―Eu que eu fiava no fus né? Tinha o fus de fiá algodão. Antão pegava e colocava no vidro, colocava assim e eu ia fiano‖. (Entr.2, linha 116). ______________________________________________________________________ Origem: Então. Adv. Nesse ou naquele tempo, momento ou ocasião/entõ XIII, enton XIII etc./Do lat. in tunc. (CUNHA, 1986, p.301). ______________________________________________________________________ Obs: Caso de retenção linguística. 33. ANTÉ [Prep.] ______________________________________________________________________ ... e evai... anté que tá / hoje tá nessa posição... (1; 17). Ó naquela época a brincadeira de menino é... anté / anté que a brincadeira era muito pouca... (1; 74). ... anté nesse tempo de 39 num usava esse negócio de... de energia não... (2; 163). ... mas um escuro leve com coisa que era noite... foi levando assim leve anté... terminou... (6; 347). ... ela morreu anté ni Nanuque. (18; 241). ... tá lá na garage anté hoje... (18; 346). ... tudo quanto há é tudo por conta da gente... anté o horário... (20; 65). ... anté pouco tempo aqui ainda tinha essa brincadeira de... delas fazer a rodinha de menina... (22; 58). ... fui caçador por muitos anos... anté faz um tempão... (22; 259). Era... e anté hoje graças a Deus... (23; 44). ... agora tem de deixar o dia todo assim ó... anté torrar a farinha... (39; 45). ... anté o policiamento daqui / foram tudo acompanhar... (50; 480). Foi a vida toda anté / apareceu esse sofrimento ni mim... (52; 100). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 116 3. Freire: Inté. Prep. Ant. e pleb. O mesmo que até. 4. Aurélio: Inté. Prep. Ant. Pop. 1. Até: Inté veludos e crinolinas, sutaches e aljofres eram encontradiços nas vendas. (Nélson de Faria, Cabeça Torta, p .8). 5. Amaral: Inté até, prep e adv. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Anté (A) Prep. Limite em um espaço de tempo. Variante de até (até > inté – caso de alçamento com nasalização). Cf. anté “... ( ) qu‟eu tou aí com Deus... inté hoje... ainda vejo muita coisa...” (Entr.8, linha 284). 2. Ribeiro (2010): Inté • (A) • [Prep] • Limite em um espaço de tempo. Variante de até (até > inté – caso de alçamento com nasalização). • Ah! Cidade é uma baruieira danada, né? Às veiz a gente ta durmino, acorda inté assustada, né? (Ent. 12, linha 206) 3. Freitas (2012): ANTÉ • (n/d) • [Prep] • (n/e) • Limite em um espaço de tempo. Variante de até. • ―Ti (M...) trabaiô anté no dia dea morrê é anté no dia dea morrê capinano a semente de mi dela ali ó deitô pra discansá diz que pôs a mãozinha assim ó aí ea fechô o oi deus levô ela” (Ent.06, linha 217) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: até ‗indica limite a que se chega no espaço, no tempo, na ação, na quantidade ou intensidade‘, ata XIII, ate XIII, ataa XIV etc. do ár. hatta (CUNHA, 1986, p.79). ______________________________________________________________________ Obs: Variante de inté e até. 34. ANTIGÓRIO [ADJsing] ... nós já vai pr‟aquele caminho antigório que era... (48; 334). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Antigório (n/d) adj. Que é antigo, distante no tempo. Variante de antigo (antigo > antigório – caso de paragoje). “... nós já vai pr‟aquele caminho antigório que era...” (Entr. 10, linha 328). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 117 ______________________________________________________________________ Origem: antigo ‗que existe há muito tempo‘ ‗velho‘, s. XIII, antigoo XIV. Do lat. antiquus, através da var. antigoo; o fem. lat. antiqua deu origem à var. Port. antigua (já documentada em textos do lat. bárbaro do séc. X e ainda comum em textos portugueses dos sécs. XV e XVI (CUNHA,1986, P.53). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo encontrado no português europeu, Cf. Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo definido como ―adj. um pouco antigo‖. 35. ANTONCE [ADV] ... o João era dirigidor do carro... antonce ficou / as máquinas que tinha de primeiro era essas... (21; 100). ... não é nada... antonce eu me criei aqui... (29; 13). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Entonces. ―Vid. entao.‖ 2. Morais: Entònces. ―v. Então. Men. E Moça, 2. F.15.‖ 3. Freire: Entonce. ―adv. O mesmo que entonces.‖ ―Entonces, adv. Do cast. ant. O mesmo que então.‖ 4. Aurélio: Entonce. ―[Do lat. vulg. *intunce.] Adv. Bras. Pop. Arc. 1. Então. [Var.: entonces.] ‖ 5. Amaral: ‗antãoce, antonce, intonces, outras formas de então. // Cp. O arc. entonces (...) Inf. D. Pedro, Livro da Virtuosa Benfeiotria.‘ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): ―Entonce era assim... o pai de família ficava procurando aí ( ) trabalhador coisa e tal né...‖ (Entr.1, linha 160) ―...alumiava com azeite e cera do mato né... entonce... aquela rua lá...‖ (Entr.6, linha 16) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Antonce (A) [ADV] Lat > Port O mesmo que então. “Sirviço demais... agora num tou guentando mais... mas eles num gosta de ficá sem o plantio dele... vai antonce eu num falo com ele que eu num planto que eu num guento... eu num guento mais...” (Entr.9, linha 10) 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: então ‗nesse ou naquele tempo, momento ou ocasião‘. No Port. med. documentam-se, também, as formas entonce (...). (CUNHA, 1986, p.301). ______________________________________________________________________ Obs: O vocábulo antonce é uma variante do arcaísmo entonces, conforme Amaral (1976). 36. ANTONTE [ADV] ... eu fui lá antonte e fui ontem. (49; 265). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Antontem. ―O dia antes da vespora do dia, em que estamos. Nudius 118 tertius. Cic. 3.de Nat. 38. Esta palavra se poem a modo de advérbio, sem mudança alguma, como se se dissera. Nunc dies tertius est, à saber, hoje he o terceyro dia.‖ 2. Morais: Antóntem. ―Adv. No dia anterior a hontem.‖ 3. Freire: Antontem. ―adv. De ante + ontem. Pop. O mesmo que anteontem.‖ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Antonte. ―ante-óntem, adv. // V. ante. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Antonte (n/d) adv. O dia que antecede ao de ontem. Variante de anteontem (anteontem > antontem > antonte – caso de síncope e apócope). “Essa semana mesmo eu fui lá duas vezes... eu fui lá antonte e fui ontem.” (Entr. 11, linha 259). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: de anteontem, de ante + ontem / oonte S. XIII / Do latim ad noctem ______________________________________________________________________ Obs: O vocábulo antonte é forma antiga. Cf. Bluteau e Morais. 37. APARRAMBADO [ADJsing] Nm [Ssing] ... o pior é que ele... que ele sente aparrambado... que meus filho é dez filho. (43; 150). É dez filho... ele tinha um aparrambado de menino pequeno ainda... (43; 153). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Aparrambado (n/d) s. Grande quantidade, muitos. “É dez filho... ele tinha um aparrambado de menino pequeno ainda... ainda tinha um tanto né...” (Entr. 5, linha 150). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e 38. APRUMAR [V] Inf.2: ... ocê pode matar a sede... ocê aprumeia um copo assim e num precisa nem 119 repetir... ocê pode beber. (15; 464). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Aprumar ―v.r.v. De a + prumo + ar. Levantar a prumo ou em linha vertical.‖ 4. Aurélio: Aprumar ―v.t.d. 1. Pôr a prumo; pôr vertical. V.p. 4. Endireitar-se, empertigar-se.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... aprumar s. XVIII, de prumo s. XVI (CUNHA, 1986, p.643). 39. APURAR [V] ... a gente relava a mandioca e colocava numa gamela né?... e espremia na mão... cessava numa peneira e aí agora ia lá pra azedar... com três quatro dias / ocê cuava num pano... aí tirava a goma apurada né? (11; 162). ... aí pegava a panela grande e coloca aquele óleo dentro e fritava pra tirar a água pra apurar só o óleo... (39; 63). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Apurado ―p. pass. de apurar.‖ 2. Morais: Apurado ―p.p. de apurar.‖ 3. Freire: Apurar ―v.r.v. De a + puro + ar. Tornar puro, purificar. 3. Escolher, deixando o pior; fazer seleção de.‖ 4. Aurélio: Apurar ―v.t.d. 1. Tornar puro; livrar de impureza; purificar.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Apurar (A) [V] Port. (CUNHA 1986) Tornar mais concentrado, mais puro. ―O açúca é assim de jeito que a rapadura a gente tem que apura a garapa‖. (Entr.9, linha 41). ______________________________________________________________________ Origem: apurar, s. XIV. Do lat. med. appurare. De puro s. XIII (CUNHA, 1986, p.648). 120 40. ARACONGA Nf [Ssing] Tinha tatu veado cotia paca... papagaio... é... araconga. (1; 101) Não?... araconga é pássaro do mato. (1; 105). É... araconga é pássaro do mato. (1; 107). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e Origem: araponga ‗pássaro da fam. dos cotingídeos‘ guigraponga c1584. Do tupi uira‟pona (uira ‗ave‘ + pona ‗sonante‘ (CUNHA, 1986, p.63). 41. ARANHAR [V] ... e nunca deixei também de tá aranhando meu servicinho... eu tanto aranho aqui dentro de casa que ainda tem hora... por fora que eu ainda faço ainda um servicinho pra uma pessoa. (46; 153). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Aranhar. ―v. intr. De aranha + ar. Andar vagarosamente, não ter pressa.‖ 4. Aurélio: Aranhar. ―[De aranha + -ar2.] V. int. Bras. S. 1. Andar vagarosamente, como a aranha. 2. Tardar, remanchar, na execução de um serviço.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Aranhar (A) v. Trabalhar vagarosamente, trabalhar sem pressa. “... e nunca deixei também de tá aranhando o meu servicinho não...” (Entr. 8, linha 149). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: aranha ‗animal artrópode aracnídeo, da ordem dos araneídeos‘, séc. XIV, 121 aranna XIII. Do lat. aranea (CUNHA, 1986, p.62). _____________________________________________________________________ Obs: Vocábulo encontrado também no português europeu, Cf. Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo definido como ―v. intr. 2. Não ter pressa na execução de um serviço.‖. 42. ARANQUà Nf [Ssing] Entr.: O que que tinha nesses mato aí de bicho... de ave?” Inf.: “De pena?” Entr.: “É.” Inf.: “Jacu... aranquã... zabelê... juriti... papagaio... lambu... cadorna... xorró... priquito... (6; 45). Ela é vermelhinha assim... uma frutinha vermelhinha que só come só jacu aranquã... essas coisa que come ela. (18; 578). A aranquã é menos mas o jacu é desse tamanho. (18; 584). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Araquã ou Araquan ―s.m. O mesmo que aracuã.‖ / Aracuã ―s.m. tupi- guarani. Ará, de guará + água. Espécie de galináceo semelhante ao jacu, de que difere por ter uma linha de penas na garganta (Ortalis squamata).‖ 4. Aurélio: Aranquã ―s.m. e f. Bras. MT. Zool. 1. V. araquã.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Aracuã (A) Nm [Ssing] Ind. Ave semelhante ao jacu. ―Pegava era aquela aracuã que tem po mato‖. (Entr.9, linha 166). ______________________________________________________________________ Origem: Aracuã. s. f ‗nome comum a diversas aves da fam. dos cracídeos, aparentadas com o jacu‘| 1928, aracoá 1587, aracoã c 1594, haracoa 1618, aracoa 1624, aracoam c 1631. etc. | do tupi ara‟kųã. (CUNHA, 1986, p. 62). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 43. ARAPUCA Nf [Ssing] Entr.: ... tinha uns negócio pra pegar passarinho... que tinha uma portinha. Inf.: Arapuca. Entr.: É... fazia arapuca? Inf.: Tinha arapuca... (6; 32-36). Ah naquele tempo pegava era... de arapuca naquele tempo... (18; 139). ... pegava... fazia arapuca e enchia com fava de farinha... (19; 122). E fazia uma quebrinha... fazia arapuca pra pegar lambu a priá... (21; 187). ... fazia arapuca e armava tamém... panhava aquele tanto de pau pra fazer arapuca... (21; 190-191). Ah tinha o chamado arapuca... arapuca é um quadro de madeirazinha... (22;271). ... aí vai enchendo de pau... aí forma a arapuca... arapucona assim... (22; 274). 122 ... quando a caça ia debaixo dessa arapuca beber a água... (22; 278). ... mais no mais quando num era de arapuca era matando no... com a espingarda... (22; 283). ... num tinha tempo pra fazer arapuca... num tinha tempo de caçar... (32; 83). ... quando inventava fazer uma arapuca o pai chegava e sentava o pé... (32; 84). ... aí arrastou igual uma arapuca... (42; 698). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Arapuca. ―s.f. Tupi guira + puc. Armadilha para caçar pássaros, feita de talas, juncos, em forma de cestos, gaiolas ou paneiros; alçapão. 4. Aurélio: Arapuca. ―[Do tupi.] S.f. Bras.1.Armadilha para apanhar pássaros pequenos, formada de pauzinhos cada vez mais curtos, dispostos em forma piramidal; urupuca: ―Os braços roliços de fora, o colo trigueiro à vista, armando arapucas aos pássaros pela aba do morro.‖ (Herman Lima, Tijipió, p.123). 2. Por Ext. Cilada, armadilha.‖ 5. Amaral: Arapuca. ―urupuca, s.f. _ armadilha para apanhar pássaros, feita de pequenos paus arranjados horizontalmente e em forma de pirâmide. // B. Rodrigues registra ―arapuca‖ e ―urapuca‖, do nheengatu.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Arapuca (A) s. Armadilha feita de pequenos pauzinhos em forma de pirâmide para apanhar pássaros. Cf. urupuca. “... amarrou uma corrente lá no carrinho lá e nos boi... aí arrastou igual uma arapuca.” (Entr. 4, linha 675). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Arapuca. ―sf. ‗armadilha para apanhar pássaros‘ 1865; ‗ext. negócio suspeito‘ 1872. Do tupi *ara‟puka ― (CUNHA, 1986, p.63). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 44. ARCO-DA-VELHA NCm [Ssing + {Prep + Ssing}] Ah brincadeira então eu vou falar procê... agora vai sair coisa do arco-da-velha... (6; 09). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Arco da Velha ―s.m. pop. O mesmo que arco-íris. 2. Diz-se de cousas ou fatos espantosos ou inverossímeis ‗cousas do arco da velha‘‖. 4. Aurélio: Arco-da-velha ―s.m. pop. 1. V. arco-íris.‖ 5. Amaral: Arco-da-véia, arco da velha, ―s.m. arco-íris. Paiva, nas ―Inferm. da 123 língua‖ (séc. XVIII), coloca este termo entre os que cumpre evitar. No Brasil é corrente a frase ―coisas do arco-da-velha‖, por ―coisas extraordinárias, surpreendentes‖.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: arco ‗porção de uma curva compreendida entre dois pontos‘ s.XIV; ‗arma para arremessar setas‘ XIII. do lat. arcus –us. (CUNHA, 1986, p.64). / velho ‗remoto, antigo, idoso, antiquado, gasto pelo uso‘ s.XIII. do lat. vetulus, dim. de vetus –eris (CUNHA, 1986, p.813). 45. ARRANCHAR [V] ... e o para-terra é o governo que compra e arrancha o povo né?... então tem esse povo arranchado aí... tem bastante gente... (1; 54) ... e ele entrou debaixo de um pau e arranchou... (1; 68). ... passarinho arranchou tudo nuns galho de pau... (8; 286). ... ês chegava na casa e matava um porco... matava galinha... matava gado... e arranchava né?... diz que arranchava mesmo assim... (31; 166-167). ... tinha um mucado arranchado sabe? (37; 227). ... hoje eu tou arranchado aqui... como tou até hoje... (43; 60). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Arranchar ―derivação do francêz arranger. Vai o mesmo que distribuir, ou dividir em ranchos.‖ 2. Morais: Arranchar ―v.at. arranchar alguém; dar-lhe rancho, pousada, albergá-lo; dar-lhe sítio para vivenda, e lavouras. Distribuir em ranchos.‖ 3. Freire: Arranchar ―4. Fixar morada, aboletar-se (pr. ou tr. Ind. , com prep.. em). 5. Estabelecer pouso provisoriamente (pr.; intr..; pr. ou tr. indir., com prep.. em).‖ 4. Aurélio: Arranchar ―v.t.d. 1. Reunir em ranchos. 4. Estabelecer-se provisoriamente.‖ 5. Amaral: Arranchar ―v.i. armar barraca, ou ‗rancho‘; estabelecer-se provisoriamente; fig. hospedar-se sem cerimônia (com alguém).‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Arranchar (A) v. Estabelecer, morar. “... hoje eu tou arranchado aqui... como tou até hoje...” (Entr. 5, linha 58). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): ARRANCHAR • (A) • [V] • Lat > Port • Alojar, estabelecer provisoriamente. • ―Mangangá miudinho tinha um grande né...ês arrancharo tudo lá dentro mais era cada um que gimia parece que tava cantano” (Ent.04, linha 383) 4. Miranda (2013): n/e 124 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: arranchar ‗reunir em ranchos‘ ‗dar pousada‘ 1813 (CUNHA, 1986, p.662). 46. ARREADO DE CANGAIA NCm [Ssing + {Prep + Ssing}] ... era carga e mais cargas... lote de burro... o arreado de cangaia... (43; 484). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Arreio. ―Arreio ou arreyo. Adereços ordinarios do cavalo. V. G. arriata, cabeçadas, sustinentes, frontal, cirgola, rédeas, panno da silha, rabicho etc. Jaezes saõ arreios de maior preço, & primor.‖ 2. Morais: Arreio. ―sm. peça de adornar, enfeitar, adereçar a pessoas, casas, &c. / Hoje dizemos arreyos, das peças que adereção as bestas de serviço, cargas, carruages, e dos coches, seges, &c.‖ 3. Freire: Arreado. ―adj. P. p. de arrear¹. Que tem os arreios. // 2. Enfeitado, ataviado.‖ 4. Aurélio: Arreio. ―[Dev. de arrear.] S. m. 1. V. arreamento (3). 2. Conjunto de peças necessárias ao trabalho de carga do equídeo. [Tb. us. no pl., nessas acepç.] 3. Enfeite, ornamento, adorno.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Arreado de cangaia (n/d) s. Conjunto de adereços utilizados em cavalos, bestas e mulas para o trabalho de carga. “... amarrava carga e mais cargas... lote-de-burro... o arreado de cangaia...” (Entr. 5, linha 472). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Arreio. ―v. arrear‖ ―arreio sm. ‗conjunto de peças necessárias ao trabalho de carga do equídeo‘ ‗adorno‘ / -yo 1572.‖ (CUNHA, 1986, p.70). Cangalha. 1813. Do céltico *cambica, madeira curva. Do céltico* > latim > português. (CUNHA, 1986, p.146). 47. ARRESISTIR [V] ... tinha umas dona que num arresistia... aquelas morria... (21; 268). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 125 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: resistir, s.XIV, resistyr XIV, rresistir XV, registir XV. Do lat. resistere (CUNHA, 1986, p.679). _____________________________________________________________________ Obs: Prótese. 48. ARRIBAR [V] ... o sujeito arribava cedo... viajava... meio dia derrubava pra ele almoçar e dar lombo os animal... tornava arribar outra vez... meio dia... e tocava... (43; 497-499). ... cê vai assuntando ó... ele arribou cedo e viajou... meio dia derrubou... e tornou arribar outra vez meio dia / de tarde... ele chegou aqui e derrubou... dormiu... amanhã ele torna a arribar e toca... (43; 502-504). ... fazia armadilha de cá e agora arribava aquela vara e armava... (45; 263). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Arribar. ―Levantar arriba. Vid. Levãtar. Vinte homens não podiaõ arribar, este peixe ao convez. Man. Sever. De Faria, disc. Var. 27.‖ 2. Morais: n/e 3. Freire: Arribar. ―v. r. v. Lat. adripare. 5. Subir ou chegar ao cimo de algum lugar (tr. Ind. , com prep. a; intr.): ―Toca de um monte a testa levantada, que faz coluna ao céu co‘as penhas graves, a que co‘a leve pena exercitada podem mal arribar ligeiras aves‖ (Dic. Acad. Lisb.)‖ 4. Aurélio: Arribar. ―[De ar-1 + riba + -ar2.] V. t. c. 3. Subir ou chegar ao cimo de algum lugar.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Arribar (A) v. Levantar, erguer. “... fazia armadilha de cá e agora arribava aquela vara e armava...” (Entr. 7, linha 259). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... riba, arribar ‗chegar ao porto‘ s.XIII. Do lat. arripare (CUNHA, 1986, p.684). ______________________________________________________________________ Obs: Arribar é vocábulo antigo, conforme vê-se em Bluteau:. 49. ARRIEIRO Nm [Ssing] ... bota um lote de burro nesse asfalto e vê se ele acha quem vai trabalhar de arrieiro. 126 (43; 519). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Arrieiro. ―O que vive de guiar bestas de alquile. Mulio, onis. Masc. Iuven. Sêneca lhe chama Mulio perpetuarius, porque sempre anda com mus.‖ 2. Morais: Arriéiro. ―sm. Homem, que aluga, e acompanha as bestas de estrada, de cavalgar.‖ 3. Freire: Arrieiro. ―s.m. De arreeiro. O mesmo que arreeiro. // 2. Indivíduo que inspeciona e cura os animais da tropa.‖ 4. Aurélio: Arrieiro. ―[Do esp. arriero.] S. m. 1. Arreeiro1 (q. v.): ―O arrieiro decidiu aliviar o burro da carga‖ (Braga Montenegro, As Viagens, p. 164).‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Arrieiro (A) s. Aquele que trabalha com tropas de burro, tropeiro. “... bota um lote-de-burro nesse asfalto e vê se ele acha quem vai trabalhar de arrieiro.” (Entr. 5, linha 507). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ...arrear, ―arrieiro / arreeiro XVII.‖ (CUNHA, 1986, p.70). 50. ASSOMBRAMENTO Nm [Ssing] Isto é assombramento... fica assim ó... diz que foi uma mãe que jogou uma praga pro filho... (10; 201). ... o povo contava muito esses caso de assombramento né? (42; 566). Acompanhava ele né?... mode... pra mode fazer assombramento... (42; 579). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Assombramento. ―Espanto causado do medo. Terror, is. Masc. Cic.‖ 2. Morais: Assombramento. ―s.m. Acção de asombrar; Sombra, feição; susto, espanto.‖ 3. Freire: Assombramento. ―s.m. De assombrar + mento. 2. Terror, susto, pavor. // 3. Assombro, admiração, pasmo: ―Foi enorme o assombramento causado por essa revelação‖ // 5. Atordoamento causado por grande comoção: ―O estalar do raio causou um assombramento geral: parecia que o céu se desmoronava‖. 4. Aurélio: Assombramento. ―[De assombrar + -mento.] S. m. 1. V. assombração.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Assombramento (A) s. O mesmo que assombração, fantasma. “... eu nunca vi não mas... o povo contava muito esses caso de assombramento né...” (Entr. 127 4, linha 547). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ...sombra, ― assombramento XVI‖ (CUNHA, 1986, p.735). 51. ASSUCEDER [V] ... ia lá e ficava na casa... se assucedesse ês vim ali ela num vinha... (2; 367). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Assuceder ―v. intr. De a + suceder. Pop. O mesmo que suceder‖ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: suceder ‗dar-se algum fato‘ ‗acontecer, ocorrer‘, subceder XIV, soceder XIV. Do lat. succedere (CUNHA,1986, p.740). 52. ASSUNTAR [V] ... e era conhecido dele... e ele já tinha ido lá assuntar ele... (2; 273). ... a Maria nunca ouvi não porque eu fui na feira assuntar... assuntar a reunião do povo... (21; 89). ... vinha cá na casa mais botava algum de espia pra assuntar... (21; 311). Pois é... cê vai assuntando ó... ele arribou cedo e viajou... (43; 502). ... depois a gente foi assuntando assim e guardando aquilo... (50; 04). ... agora ocê fica aqui uns tempo e assunta pr‟ocê ver... (50; 518). ... abasta ocê ficar um tempo aí e ir assuntando e andando aí devargazinho e assuntando procê ver... (50; 519). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Assuntar ou assumptar. ―v. r. v. De assunto + ar. Prestar atenção a (tr. dir.): ―Assuntando, através da telha vã do quarto, a obscura claridade da noite‖ (Afrânio Peixoto) // 2. Considerar, meditar (tr. ind, com prep. em): ―Assim pensou, assuntando no caso‖ (Afrânio Peixoto). // 3. Verificar, apurar (tr. dir..): ―Que foi o que 128 você assuntou?‖ (V. de Taunay) // 4. Vigiar, tomar conta de alguma cousa (intr.): ―Eu fico por aqui a assuntar, para que não façam barulho‖ (Afrânio Peixoto)‖ 4. Aurélio: Assuntar ―[De assunto + -ar2.] Bras. V. t. d. 1. Dar ou prestar atenção a; observar: ―Ia para a loja de seu Bernardino, ficava assuntando os fregueses que por ali faziam ponto‖ (Autran Dourado, O Risco do Bordado, p.14); ―De olhos sem luz, imóveis, vagos, cedo / já me não vês, nem me ouves, nem me assuntas‖ (Da Costa e Silva, Sangue, p. 65). V. t. i. 2. Prestar atenção. 3. Considerar, meditar. 4. Informar-se sobre, observando e/ou indagando. V. int. 5. Escutar ou olhar; observar; espreitar: ―Assuntaram algum tempo, mas ouviram logo outro ruído igual‖ (Afonso Arinos, Pelo Sertão, p. 131); ―Assuntei. A noite estava turva, o céu sem lua, aqui e ali picado de estrelinhas‖ (Hugo de Carvalho Ramos, Tropas e Boiadas, p. 5). 6. Meditar, refletir, pensar.‖ 5. Amaral: Assuntar. ―v.i. – escutar refletindo, considerar, observar: Pois ensilhe o seu ―bicho‖ e caminhe como eu lhe disser. Mas assunte bem, que no terceiro dia de viagem ficará decidido quem é ―cavoqueiro‖ e embromador‖. (Taun., ―Inoc.‖).‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Assuntar (A) v. Prestar atenção; observar . “Pois é... cê vai assunatndo ó... ele arribou cedo e viajou...” (Entr. 5, linha 490). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: assumir, assuntar. ―vb. ‗prestar atenção, sondar‘ / assumptar 1899.‖ (CUNHA, 1986, p.77). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, Cf. Aurélio acima. 53. ATROPELAR [V] ... eu já fui atropelado por um ladrão... eu requeri ele... o que eu fui atropelado por gente do olho grande querendo tomar o que eu tinha... (48; 312). Bandido?... não... já fui atropelado... bandido entrou na minha casa... Deus me ajudou que eu requeri ele... (48; 326). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Atropelado. ―Opprimido. Anda o senado atropellado, & sem authoridade. Senatus oppressus est, & afflictus. Cic. Neste proximo verão, verás a triste Itália, atropellada dos escravos. Conculcari astate proxima miseram, Italiam videbis a mancipis. Cic. Somos as mais atropellados. Sunt nulli, quibus ônus tantum incumbat.‖ 2. Morais: Atropelládo. ―p. pass. de atropellar; / fig. Atropellado dos mares, e dos ventos; atormentado. Amaral:, 5. / Perseguido, trabalhado. Paiva, serm.I, f.5. ―Se todos os maos andassem atropellados‖.‖ 3. Freire: Atropelado. ―adj. P. p. de atropelar. 3. Perseguido, atormentado.‖ 4. Aurélio: Atropelado. ―[Part. de atropelar.] Adj. 1. Que sofreu atropelamento 129 (1). 2. Desordenado.‖ ―Atropelar [De a-2 + tropel + -ar2.] V. t. d. 1. Fazer cair, derrubar, por impacto, passando ou não por cima e em geral machucando, provocando contusões leves ou graves. 2. Dar, ao passar, encontrão violento em; empurrar, empuxar. 3. Desprezar, preterir, postergar. 4. Atormentar, torturar, afligir, mortificar: Problemas numerosos o atropelam. 5. Falar ou agir abruptamente, como que atropelando.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Atropelar (n/d) v. Roubar, furtar. “... eu já passei na barba da morte porque... eu já fui atropelado por um ladrão... eu requeri ele... o que eu fui atropelado por gente de olho grande querendo tomar o que eu tinha...” (Entr. 10, linha 307). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: tropel, atropelar ‗fazer cair, derrubar, por impacto‘, atropellar XIV (CUNHA, 1986, p.794). _____________________________________________________________________ Obs: Na acepção figurada de Morais: esse vocábulo se aproxima muito do sentido do contexto encontrado, podendo, portanto, ser considerado uma retenção linguística. 54. ATURAR [V] ... o sol saiu... apresentou uma manchinha preta e essa manchinha foi ficando ficando até que tapou tudo... mas num aturou muito não... (10; 129). Ele caiu... ele ainda aturou dez dias... que ele bateu a cabeça e fez um corte assim na cabeça... ele aturou dez dias ainda. (20; 171-174). ...Õ homem deixa de beber pr‟ocê aturar mais... já num tá dando no couro mais... (50; 332). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Aturar. Perseverar, continuar em algum exercício, sofrer com paciência. 2. Morais: Aturar, v.ar. Contituar em fazer, ou sofrer alguma acção penosa, molesta: v.g. aturar o fogo do inimigo; aturar o inverno, os calores do Sol, no passeyo molesto, na penitencia. V. de Suso, 28. Não lhe pode aturar o passo, que levava. 3. Freire: Aturar v.r.v. Lat. indurare 6. Continuar, persistir, perseverar (129e. Ind. , com prep. A, em): ―Não lhe atura criado mais quinze dias‖ (Aulete) 4. Aurélio: Aturar [Do lat. *atturare, por *addurare Port • Subsistir por um período de tempo em determinada situação. • ―A baiana falô que ia arrumá um reiméido num lugá pra ele ê sarô mais atacô o coração num aturô mais” (Ent.06, linha 400). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Aturar (A) [V] Port. (CUNHA, 1986) Continuar a existir por certo tempo, em algum estado ou situação. ―Tinha aqueles bacião antigo eu tou contano ela ali. Aqueles bacião de zinco né? Aquele trem aturava anos e anos.‖ (Entr.8, linha 201). ______________________________________________________________________ Origem: aturar ‗sofrer, suportar‘ ‗perseverar‘ s.XIII. Do lat. obtunare (CUNHA, 1986, p.83). 55. AVEXADO [ADJsing.] ... eu nunca namorei... eu muito avexado... (42; 59). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Avexado. ―V. vexado. Christanda-, de muy avexada dos Infieis. Barros. Fol. 122, col.2.‖ 2. Morais: Avexado. ―v. sem A, V. de Suso, c.22 ―E serás cruelmente avexado‖. 3. Freire: Avexado. ―adj. P. p. de avexar. Humilhado, envergonhado, vexado.‖ 4. Aurélio: Avexado. ―[Part. de avexar.] Adj. 1. V. vexado: ―Adão, o arrependido, e a arrependida / Eva, ei-los avexados, ante o iroso / Bíblico Deus‖ (Raimundo Correia, Poesias, p. 21)‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Avexado (A) adj. Que é envergonhado, acanhado. “... se eu gostei das menina... eu nunca namorei... eu muito avexado...” (Entr. 4, linha 56). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... vexar ‗atormentar, molestar, maltratar, humilhar‘ séc. XVI. Do lat. vexare (CUNHA,1986, p.819). 56. AVULTADO [ADJsing.] ... tem hora que a gente vai com o dinheiro mais avultado pro armazém ou prum açougue... (46; 189) Registro em dicionários: 131 1. Bluteau: Avultar. ―Fazer vulto. Parecer grande à vista. Maiorem, altiorem, crassiorem videre. (Fallando em cousa, que avulta na grandeza, ou altura, ou na grossura, &c.) Huma quase infinita multidão de cavalaria, & de infantaria, que avulta muito mays, do que he na realidade. (...). 2. Morais: Avultado. ―p. pass. De avultar. Coisa que tem volume grande. / Fig. Sommas avultadas; grande: rendas.‖ 3. Freire: Avultado. ―adj. P. p. de avultar. Que tomou vulto. // 4. Grande, considerável: A jugada, o tributo direto mais avultado, que pesava sobre os pequenos agricultores‖ (Herculano)‖. 4. Aurélio: Avultado. ―[Part. De avultar.] Adj. 2. Intensificado, aumentado. 3. Grande, volumoso, considerável, avultoso, avultante.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Avultado (A) adj. Relativo a volumoso, quantidade maior. “... tem hora que a gente vai com o dinheiro mais avultado pro armazém ou prum açougue e... e... num dá pra nada...” (Entr.8, linha 183) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Avultado (A) Nm [ADJsing] Lat > Port Que se refere a uma quantidade maior; volumoso. “O sali ele comprava mais avultado... comprava cinquenta saquinho de sal... porque ele tinha muito boi... muita vaca mesmo... tinha muita vaca mesmo...” (Entr.6, linha 405) 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: vulto. Avultado s.XVII. (CUNHA, 1986, p.829). 57. AZABUMBA Nm [Ssing] ... foi cantar Reis lá com meu avô... tinha uma caixa... aquele tal de... azabumba... azabumba... chanteiro... cambeta... e violão. Entr.: Chama o que?... assabumba? Inf.: Azabumba. Entr.: Azabumba. Inf.: Azabumba. (13; 353-357). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Zabumba ―sm e f. 1. V. bombo.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 132 ______________________________________________________________________ Origem: zabumba ‗bombo‘. Vocábulo de origem africana (CASTRO, 2001) B 58. BACAMARTE Nm [Ssing] Inf.2: O clavinote era da casa... ocê num alembra que pai tinha uma... clavinote... clavinote... bacamarte... (15; 171). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Bacamarte ―s.m. arma de fogo, de cano curto, e largo, reparada em coronha.‖ 2. Morais: Bacamárte ―s.m. arma de fogo, de cano curto, e largo, reparada em coronha.‖ 3. Freire: Bacamarte ―s.m. Arma de fogo de cano curto e largo.‖ 4. Aurélio: Bacamarte ―[do fr. braquemart] s.m. 1. Arma de fogo de cano curto e largo, reforçada na coronha.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: bacamarte ‗antiga arma de fogo, de cano curto e largo, reforçada na coronha‘, s. XVII‖ (CUNHA, 1986, p.91). 59. BADOCAR [V] ... tinha lugar que / divertia sabe?... pros mato badocar... (37; 114). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 133 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de bodoque. Segundo Cunha (1986, p. 115), ―o voc. Port. talvez remonte , com visível extensão de sentido, ao ar. bunduq ‗noz, avelã‘ ‗bala de espingarda‘, deriv. Do grego pontikón ‗ (noz) pôntica‘. 60. BADOQUE Nm [Ssing] ... então quando era no domingo era os badoque... (1; 87) É... nos domingo era os badoque... (1; 89) Os badoque é feito de pau... (1; 91). ... quando era dia de domingo juntava a turma... fazia uns badoque. (2; 193). ... todo mundo sabia fazer um badoque... hoje é estilingue. (2; 195). ... mas naquele tempo era badoque... mas é num é do jeito do estilingue não. (2; 197). ... ali ponhava um bolso aqui... aqui ocê ponhava a bala d‟um badoque... (5; 83). ... eu com doze ano de idade moço eu andava com um badocão grande assim... de primeiro / agora é estilingue né?... naquele tempo era badoque... badoque desse tamanho assim e o embornal de pedra assim... (13; 97). Entr.: O badoque era diferente do estilingue de hoje? Inf.: “Muito diferente... o badoque... o badoque... o badoque é um tipo de flecha. (13; 101). ... fazia uma maia... pra matar passarinho... de primeiro era assim... hoje tá usando estilingue... mas naquele tempo não... era o badoque. (15; 70). Eu brincava com badoque.” Entr.: Badoque? Inf.: Era... passava a mão num badoque e ia matar passarinho no mato... passava a mão num badoque e amanhecia o dia... quando o dia amanhecia de madrugada... eu pegava o meu badoque e ia olhar arroz... (16; 198-204). - Ô pai nós vamo matar passa / nós vamo pirotar passarinho... de badoque. (21; 177). De badoque... tinha os badoque... ia pro carrasco... era brincar no carrasco... matando os passarinho... (21; 179). Entr.: Pirotar que o senhor fala é o que? Inf.: Com badoque. (21; 185). - Ó meu fio espingarda ocês num panha não que é muito perigoso... mas um badoquinho... (21; 193). Entr.: Ocês usava o que? Inf.: Um badoque. Entr.: Ah badoque. Inf.: Badoque... o periquito descia... (37; 103-105). Entr.:... o senhor caçava também? Inf.: Caçava. Entr.: É mesmo! Inf.: Era badoque. Entr.: Ah! Inf.: Era badoque de linha. (45; 249-254). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Bodóque. ―sm. Arco com duas cordas, e uma rede no meyo, na qual se poe a balla, ou pellouro de barro, com que se atira.‖ 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Badoque. ―[Var. de bodoque.] S. m. Bras. AL 1. V. atiradeira.‖ 5. Amaral: Bodóque. ―s.m. – arco, quase idêntico ao com que os índios atiram frechas, mas de pequenas proporções (cinco, seis, oito palmos), usado para arremessar pelotas de barro, à caça de passarinhos: E o caboclo perdeu meio dia de serviço para fazer o bodoque, bem raspado com um caco de vidro que levou da cidade, encordoando-o com corda de linha ―clark‖ encerada a capricho, rematando com gosto de artista a obra, desde o cabo até a malha‖. (C. P.) // O ―Novo Dic.‖ Dá como ant., 134 significando ―bola de barro, que se atirava com besta‖ e aponta-lhe o étimo no ar. ―bandoque‖. – V. pelóte.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Badoque (A) s. Atiradeira; variante de bodoque (bodoque > badoque – caso de dissimilação). “Entr.: Quando o senhor era pequeno o senhor caçava também? / Inf.: Caçava. / Entr.: É mesmo? / Inf.: Era badoque / Entr.: Ah! / Inf.: Era badoque de linha.” (Entr. 7, linha 250). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Bodoque. ―sm. ‗arco para atirar bolas de barro endurecidas ao fogo, pedrinhas etc.‘ 1813. O voc. Port. talvez remonte, com visível ext. de sentido, ao ár. Bunduq ‗noz, avelã‘ ‗bala de espingarda‘, deriv. Do gr. Pontikón ‗ (noz) pôntica‘.‖ (CUNHA, 1986, 115). _____________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (AL) Cf. Aurélio acima. 61. BAGACEIRA Nf [Ssing] ... quando foi assim num espaço de uma hora mais ou menos galo cantou jegue urrou... e uma bagaceira... aí nós viu começando a clarear né? (6; 349). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Bagacèira s. f. O lugar onde se lança, e ajunta o bagaço, v.g. das canas moídas, ou espremidas nos engenhos d‘assucar. 3. Freire: Bagaceira s.f. 2. Monte de bagaço, arrumado debaixo de coberta enxuta, ou amontoado no campo ao sol nos engenhos de açúcar. 3. Pátio das fazendas onde são depositados os detritos da cana moída. 4. Aurélio: Bagaceira [De bagaço + -eira.] S.f. 5.Bras. Local próximo ao engenho de açúcar onde se junta o bagaço de cana; bagaceiro. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): BAGACERA • (A) •Nf[Ssing] • Lat > Port • Grande quantidade de bagaço de cana. • ―Oiava debaxo da fornáia aquês trem véi tudo que tinha aqueas bagacera véia dento da fornáia de cuzinhá garapa” (Ent.04, linha 162) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ 135 Origem: ... bagaceira s.XVIII. De baga s.XV. Do lat. baca (CUNHA, 1986, p.92). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, Cf. Aurélio acima. 62. BANDA Nf [Ssing] ... a gente chegava lá e achava aqueles cabelão da banda de fora da carneira... (4; 310). ... quem tem hoje tem que criar na manga... num pode criar na banda de fora. (31; 405). ... comia uma colherzinha de fava um dia... o outro dia comia uma banda de cuscuz com garapa de cana... (32; 11). ... queimou a casa... ficou só uma banda... (53; 199). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Banda. Parte, ou lugar. De huma, & outra banda. Utrinque. Ex. utraque parte. Da outra banda, defronte. Ex adversa parte. A prya da banda de alem. Ulterior ripa. A prai da bãda de aque. Ripa citerior. Vid. Parte. Vindo á banda, diz Francisco de Sá de aquelle, que claramente se mostra inclinado para alguma coisa. 2. Morais: Bánda. S.f. Lado: v.g. desta banda, d‘aquela. (Ital. Banda). 3. Freire: Banda. S.f. B. lat. Banda, do gót. Parte lateral; lado. 4. Aurélio: Banda . [Poss. do provenç. Banda, ‗lado‘, < gót. Bandwa, ‗estandarte‘.] S.f. 1. Parte lateral; lado: Caminhava pela banda da estrada. 2.V. lado (7): Foi excluído da chapa do partido porque passou para a banda dos dissidentes. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Banda (A) Nf. [ssing.] . Prov. Lado. A pessoa chega na porta e oia aquilo lá já é uma sombração. Porque o pé do difunto fica anssim pra banda da porta ó. (Entr. 4, 22). 3. Freitas (2012): BANDA~EM BANDA • (A) • Nf[Ssing] • cont • O mesmo que lugar. • “A hora que ocês passô pra cá tem um barzim assim de uma banda né?” (Ent. 05, linha 57) • “Falei “a só pode tá atrás da cabeça daquele toco ali ó num tá em banda ninhuma” o trem tá gemeno” (Entr.04, linha 369) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... banda ‗lado, parte, margem‘ bamda s.XV. De orig controv. (CUNHA, 1986, p.96). 63. BARRA-VAQUEIRO NCm[V + Ssing.] ... se o vento dava numa rama de barra-vaqueiro ela fazia assim e mostrava o lado branco. (34; 178). Registro em dicionários: 136 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: barrar s.XVI, de barro (CUNHA, 1986, p.100). / vaqueiro vaqueyro s.XIII, de vaca. (CUNHA, 1986, p.808). 64. BARRER [V] ... barria com a... barria com a... barria com uma vassoura daquela de assa-peixe... (16; 673). ... lavo uma roupa lavo um prato barro casa... barro terreiro. (46; 09). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Barrer. ― (Com os mais.)Vid. Varrer. O author da Ortographia Portugueza, nas suas advertencias, impressas no fim do seu livro, dez, que se há de escrever Varrer & não barrer‖ 2. Morais: n/e 3. Freire: Barrer. ―v. r. v. Ant. e pop. O mesmo que varrer.‖ 4. Aurélio: Barrer. ―V. t. d. V. t d. e i. V. int. Ant. Pop. 1. Varrer.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Barrer (A) v. Varrer, limpar com vassoura. Variante de varre (varrer > barrer – caso de bilabialização). “... lavo uma roupa lavo um prato barro casa... barro terreiro...” (Entr. 8, linha 9). 2. Ribeiro (2010): Barrer (A) [v.] . Lat. Ato ou efeito de tirar lixo usando a vassoura. Ontem ele teve aqui pirguntando se nóis queria barrer. (Entr. 1, 36). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Varrer. Vb. ‗limpar (com vassoura) XIII. Do lat. verrere. (CUNHA, 1986, p.812). ______________________________________________________________________ Obs: Caso de retenção linguística. 65. BARROCA Nf [Ssing] 137 ... o carro virou... também caiu dentro de uma barroca... caiu dentro de uma barroquinha mas num chegou a machucar ninguém não... (42; 686-688). Barroca... tinha barroca... pra andar de carro pulava daqui pulava dali... Entr.: Barroca é buraco? Inf.: É buraco... onde valava as enxurrada né?... (43; 186). Oito casinha... e aqueles barrocão dentro daquele matão... (48; 192). ... era um areão... era barroca só... (53; 08). ... tinha um mercado... e aí as barroca em roda... (53; 10). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Barroca. ―Barrôca. Covas, que fazem as agoas impetuosas. Povea vebementi aquarum impetu. Por a terra ser, huma barroca em lugar de muro. Barros, i. Dec. Fol.162. col.3.‖ 2. Morais: Barróca. ―Monte ou rocha de barro, piçarra.‖ 3. Freire: Barroca. ―s.f. 4. Escavação natural proveniente das erosões.‖ 4. Aurélio: Barroca. ―[De barro.] S. f. 1. Monte de barro ou de piçarra; barroco. 2. Bras. Cova feita por enxurradas; barranco, barroco. 3. Despenhadeiro, grota, precipício. [Pl.: barrocas. Cf. barroca (ô) e barrocas (ô), flex. Do adj. Barroco.] ‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Barroca (A) s. Vala, buraco. “... o carro virou... também caiu dentro de uma barroca...” (Entr. 4, linha 664). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ...barro. ―barroca sf. ‗monte de barro‘ XIII‖ (CUNHA, 1986, p.100). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo Cf. Aurélio acima. 66. BATISTÉRIO Nm [Ssing] ... só o padre que dava batistério... (50; 03). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Baptisterio. ―Baptisterio ou bautisterio. He huma capella, ou arca com grades de pão, junto as portas principais da parte de dentro das igrejas, à mão esquerda dos que entrao pella porta, em que está a Pia Baptismal.‖ 2. Morais: n/e 3. Freire: Batistério ou Baptistério. ―s.m. gr. baptisterion. Lugar onde está a pia do batismo. // 2. Pequena capela à entrada das igrejas. // 3. Certidão de batismo.‖ 4. Aurélio: Batistério. ―[Do gr. baptistérion, pelo lat. baptisteriu.] S. m. 1. Lugar onde se acha a pia batismal. 2. Bras. Pop. Certidão de batismo.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 138 1. Souza (2008): Batistério (n/d) s. A cerimônia de batismo, batizado. “... o povo era tão simples... todo mundo... só o padre que dava batistério...” (Entr. 12, linha 3). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Batismo. batistério gr. ‗lugar em que se acha a pia batismal‘ / bap- XVI / Do lat. baptisterium –ii, deriv. do gr. Baptisterion ‗casa de banho‘ ‗batistério‖ (CUNHA, 1986, p.102). 67. BEIÇO Nm [Ssing] ... sapecava aquele trem e comia sem Sali... quebrava aquilo no beiço...” (1; 143). ... - Prega um beiço dela aí na porta! (1; 164). É... - Prega o beiço dela aí na porta! (1; 166). ... pegou o beiço da velha e pregou um prego... o beiço da velha na na... Entr.: Na porta. Inf.: E um falou pra velha: -Vamo fazer um buraco nela.... ela arrancou um pedaço do beiço e saiu correndo... (13; 233-237). ... pegou um prego e pregou o... o beiço da 138eia no portal da porta... (21; 319). ... ele pegou um velho e pregou o beiço na porta... (44; 287). Sim... com prego pregado nos beiço. (47; 172). ... parece que pregou o beiço do velho lá numa parede ó... (50; 200). ... pegava um camarada... pregava um prego no beiço... (50; 226). ... -vou passar esse canivete no beiço.... (50; 229). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Beiço ―s.m. lábio, a borda da boca, que cerrada cobre os dentes.‖ 2. Morais: Beiço ―s.m. lábio, a borda da boca, que cerrada covre os dentes.‖ 3. Freire: Beiço ―Cada uma das duas partes exteriores e carnudas situadas adiante dos dentes de ambas as maxilas e que formam o contorno da boca.‖ 4. Aurélio: Beiço ―sm.1. Lábio.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Beiço (A) Nm [Ssing] Obs. Lábio. ―Aí no outro dia os bicho amanhecia dipindurado, o piau. O que come... o que viesse comê a mandioca né? Então ele ia roeno roeno. A hora que dava no... pegava po beiço né?‖ (Entr.3, linha 361). ______________________________________________________________________ Origem: ... beiço ‗lábio‘ s.XIII. De orig. obscura (CUNHA, 1986, p.104). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo também encontrado no português europeu, Cf. Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo definido como ―s.m. 1. Cada uma das partes carnudas que 139 formam a entrada da boca.‖ 68. BEIJU Nm [Ssing] ... a semana toda fazia farinha... fazia beiju... fazia beiju de... massa de fazer beiju de goma... pegava a goma e sentava assim na pedra no forno... quando ela virava saía os beiju mais gostoso... (7; 365). Ah aquilo nós vivia daquilo... comia farinha aquele beiju né? (12; 247). ... e a mandioca relada ali... ali torcia num pano... botava a bacia ali e mexia... fazia aquele beiju... (12; 269). ... botava a panela no fogo lá e botava aquela massa e tratava ela ali... mais logo ele virava ele... encarcava... assava aquele beiju e botava lá... muita gente até chumbava porque a mandioca era forte. (12; 278). ... tinha a mandioca nós fazia a farinha né?... fazia o beiju né?” Entr.: “Beiju também?” Inf.: “É... beiju biscoito né? (27; 499-501). ... moleque empanzinava de fava de noite com beiju... (32; 158). ... quando chegava em casa ia caçar um pé de mandioca... que ela tava dormindo... relar no ralo e fazer o beiju... (38; 170). ... nós fazia aqueles forno de areia né?... e fazia aqueles beiju dentro... (53; 52). É... a areia era os beiju... (53; 55). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Beiju. ―Beijù. (Termo do Brasil). As raizes verdes da mandioca depois de limpas, partemse em diversos pedaços; & estes se poem a secar ao sol, depois de seca, pizãose em hum pilão, & faz-se farinha, a que os indios chamão Typyrati, os Portugueses farinha crua. Desta fazem os beijús, que são huns pequenos bolos alvissimos, & delicadissimos, que he o comer mais mimoso, ou em quantomolles, & frescos, ou depois de duros, & torrados. (...)Beijù. Crastulum, ex subacta mandiocae radicum farina.” 2. Morais: Beiju. ―sm. Massa de tapioca, ou de farinha de pão, applanada, e cosida no forno, fica a modo de coscorões.‖ 3. Freire: Beijú. ―s.m. Do tupi-guar. Espécie de filhó, feita de tapioca ou de massa de mandioca e também chamada miapiata ou mal-casado.‖ 4. Aurélio: Beiju. ―[Do tupi.] S. m. Bras. Cul. 1. Bolo de massa de tapioca ou de mandioca, do qual há numerosas espécies. [Sin.: beijuaçu ou beijuguaçu, beijucica ou beijuxica, beijucuruba, beiju-membeca, beiju-moqueca ou beiju-poqueca, beijuteica, biroró, malcasado, sarapó, sola e tapioca.Var.: biju.] ‖ 5. Amaral: Biju. ―s.m. – placa de farinha de milho, ou mandioca, que se despega do fundo do ―forno‖, ao fazer-se a farinha, sem se esfarelar com o resto desta. // Existe em todo o Br., sob essa forma e sob a forma beju, com significados vários. Escreve-se geralmente ―beijú‖, ou por ligá-lo a ―beijo‖, ou porque realmente se guarda a tradição da sua origem indígena, que dizem ser a verdadeira. B. Rodr. registra ―beyu‖, nhengatú, e ―meyu‖, língua geral. B. R. e outros apontam vocábs. semelhantes, tupinambás etc.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Beiju (A) s. Massa de farinha de mandioca cozida no forno e 140 servida em formato ded placas do tamanho da palma da mão e bem crocantes. “... aqui era um areão só... nós fazia aqueles fornão de areia né... e fazia beiju dentro...” (Entr.15, linha 52). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Beiju sm. ‗bolo de farinha de mandioca‘ / c1584, beijú a 1576, bejú 1618 etc. / Do tupi me‟iu.‖ (CUNHA, 1986, p.104). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 69. BERRANTE Nm [Ssing] Imagina o berrante dês num é do modo daqueles que tem hoje... que o dês era o... era só o chifre de um gado mesmo... (27; 407). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Berrante ―s.m. 6. Bras. MG GO buzina de chifre com que os boiadeiros tangem o gado.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... berrante s.XX, de berrar s. XVI‘ (CUNHA, 1986, p.107). ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo, Cf. Aurélio,1999. 70. BESTAGEM Nf [Ssing] ... que bestagem... oh engano... (8; 110). ... agora eu num tive medo não porque eu tenho muita fé em Deus e num tive medo dessa bestagem não. (8; 273). -Ah isso aí ocê num vê nunca... isso é bestagem! (18; 507). ... quando nós junta conversando bestagem... nós morre de rir né? (44; 460). ... o médico falou: - Deixa de bestagem dona Maria!... (45; 350). ... eu falei: - Qual minha filha!...deixa de bestagem!... num tem bicho não!... isso é bestagem.... (45; 449). ... - Como é que eu saio aqui de noite e nunca vi bicho... isso é bestagem suas.... (45; 451). 141 ... - Nada!... bestagem!... (45; 452). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Bestagem. ―s.f. O mesmo que besteira.‖ 4. Aurélio: Bestagem. ―[De besta (ê) + -agem2.] S. f. Bras. 1. Besteira, bestice. [ V. asneira (1).] ‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Bestagem (A) s. Besteira, asneira. “... o médico falou: “Deixa de bestagem dona Maria!... o homem num vai morrer não!...” (Entr. 7, linha 345). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: besta ‗animal de carga‘, séc. XIII. Do lat. bestia (CUNHA,1986, p.107). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, Cf. Aurélio acima. 71. BESTALHADA Nf[Ssing] ... naquele tempo num usava essas bestalhada de trem assim não... (6; 155). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: besta ‗animal de carga‘, séc. XIII. Do lat. bestia (CUNHA,1986, p.107). ______________________________________________________________________ Obs: Variante de bestagem. 72. BESTAR [V] Ah brincava de / bestano na área lá pegando lontra. (3; 50). ... quando tinha precisão saía bobo bestando não...mas quando tinha precisão... as vez 142 morria gente lá e eu saía lá na roça onde morava... (19; 293). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Bestar ―v. intr. De besta + ar. Andar a esmo. 2. Vadiar.‖ 4. Aurélio: Bestar ―v. i. Bras. 1 dizer asneiras. 2. Praticar inconveniências. 3. Vaguear.‖ 5. Amaral: Bestar ―v.i. dizer asneiras.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: besta ‗animal de carga‘, séc. XIII. Do lat. bestia (CUNHA, 1986, p.107). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, Cf. Aurélio acima. 73. BICHO DA CARNEIRA NCm[Ssing+{Prep+Art.}+Ssing] ... ela falou: “_ É o bicho da carneira! (44; 491). O povo fala que tem... esse bicho da carneira... (46; 215). ... que diz que era assim... que bicho da carneira / que foi só dois... (46; 219). ... e diz que o bicho da carneira... também diz que foi a mãe que excomungou o filho... (46; 221). Tem um tal de um homem de Pedra Azul que chama (nome)... diz que ele chama bicho da carneira... (47; 107). ... topou mais ele ali na ponte... um jegue... o bicho da carneira... (50; 277). ...- O bicho da carneira é isso aí ó... (50; 286). ... - pois aí... ele era um cachorro e agora virou um urubu... aí ele aí...... era o bicho da carneira... (50; 290). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Bicho da carneira (n/d) s. Caso de assombração difundido em Pedra Azul (MG). Trata-se de um falecido que reaparece para as pessoas em forma de bichos como cachorro, porco, jegue etc. “O povo fala que tem... esse bicho da carneira... os povo fala isso...” (Entr. 8, linha 209). 2. Ribeiro (2010): n/e 143 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: bicho + carneira (do latim vulgar bestius + do latim *carnariu) Carne - carneiro – sepultura 1813. (CUNHA, 1986, p. 157) 74. BICHO DA FORTALEZA NCm[Ssing+{Prep+Art.}+Ssing] ... tanto outro tempo aparecia outra assombração aqui... tem bicho que era um bicho da Fortaleza... (4; 279). Era... bicho da Fortaleza... mas disse que foi um bicho... Entr.: Como que chamava esse bicho? Inf.: Chamava bicho da Fortaleza. Entr.: Bicho da Fortaleza. Inf.: Bicho da Fortaleza... porque lá era Fortaleza... hoje é cidade de Pedra Azul né? (4; 286- 290). Tinha... tinha cabelo... do homem... do bicho da Fortaleza... chamava bicho da Fortaleza... (4; 306). Entr.: Tinha um caso de assombração que o pessoal de Pedra Azul conta. Inf.; ... aqui em Berizal mesmo já chegou a vim. Entr.: Como é que é o nome dele? Inf.; ... chama aqui é o bicho da Fortaleza né? (22; 390-393). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: bicho + fortaleza (do latim vulgar bestius + do latim fortis) (CUNHA, 1986) ______________________________________________________________________ Obs: Variante lexical de bicho da carneira e bicho de Pedra Azul. 75. BICHO DE PEDRA AZUL NCm[Ssing+{Prep+Art.}+Ssing] É... e tinha o bicho de Pedra Azul também que era desse mesmo. (1; 397). É... o bicho de Pedra Azul... esse daí era um bicho que andava por todo canto né? (1; 399). ... ficou com o nome de bicho de Pedra Azul. Entr.: Ah... bicho de Pedra Azul? Inf.: É bicho de Pedra Azul. (16; 590-593). Pois é... e num é mentira não. Entr.: Bicho de Pedra Azul. Inf.: É bicho de Pedra Azul. (16; 599). Entr.: Uma assombração... um povo lá de Pedra Azul... Inf.: É... o bicho de Pedra Azul... falava nesse bicho... (23; 222). 144 ... um tal de bicho de Pedra Azul... um bicho de Pedra Azul que saía da carneira... (40; 597). ... ês falava que esse bicho de Pedra Azul chamava bicho de Pedra Azul né?... (40; 602). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: bicho + pedra + azul (do latim vulgar bestius + do latim + do fr. azur) (CUNHA, 1986). ______________________________________________________________________ Obs: Variante de bicho da carneira e bicho da Fortaleza. 76. BIRRO Nm [Ssing] Mexia com almofada... tocando o birro. Entr.: Tocando o que? Inf.: Tocando birro. Entr.: Ah bilro. Inf.: É fazia o birro e fazia renda... (13; 404-408). ... e a renda fazia nas almofada... uma almofadinha... batia os birro... esse dia eu falei com as menina que eu mandei fazer uns birro e mostrei pra eles como é que era a renda antigamente... (14; 156). ... quando ês enfezava com nós pegava as almofada e saía chutando elas... os birro enrolava tudo... (14; 170). É... minha avó tinha uma almofadona... ( ) com birro. (16; 478). ... lá tinha uma almofada e uns birro véio... (18; 226). ... fazia um maletão assim de pano e agora enchia de paia de banana... e ficava trocando os birro. (18; 230). Sim... chamava birro... (18; 232). ... ela fazia renda que ela batia os birro... que tinha os birro... (19; 347). ... aí fazia aquelas almofadona e aí montava os birro e fazia renda... (22; 62). ... que eu num sei quantos birro daquele proce trocar... (22; 69). ... tinha uns pauzinho né?... agora que / que ês falava birro né? (36; 168). É chamava birro... aí agora eu aprendi... (36; 171). ... de primeiro quando eu fazia os birro... o cara lá que fazia os birro... (44; 68). ... ensopou o cimente e fiço cinco dúzia de birro... (44; 72). ... o birro eu vou mostrar ocês... (44; 93). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Bilro. ―De fazer rendas. Fusus tescendis e lino, vel ex auro, vel ex 145 argento denticulatis operibus.‖ 2. Morais: Bilro. ―sm. Peça de fazer renda; é a modo de fuso, com mais barriga.‖ 3. Freire: Bilro. ―s.m. Lat. pílula. Utensílio semelhante a um pequeno fuso ou a uma pêra, e com o qual se fazem rendas ou obras de cabelo.‖ 4. Aurélio: Birro². ―birro2 S. m. 1. Bras. N. Bengala pesada e grossa. 2. V. cacete (1).‖ ―Bilro ―[De or. controversa.] S. m. 1. Peça de madeira ou de metal, semelhante ao fuso (1), usada para fazer rendas de almofada: ―Era o branco da linha, e a renda que lhe dá / graça e forma, ao crescer sob os bilros cantantes.‖ (Valdemar Lopes, Elegia para Joaquim Cardoso, p. 9).‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Birro (n/d) s. Peça usada para fazer rendas de almofada. Variante de bilro (bilro > birro – caso de assimilação regressiva). “Agora eu num faço... de primeiro quando eu fazia os birro...” (Entr. 6, linha 65). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Birro. ―s.m. ‗cacete, bordão‘ ‗barrete‘ 1813. De origem obscura.‖ ―Bilro s.m. ‗peça semelhante ao fuso, usada para fazer rendas de almofada‘ 1813. De origem controvertida.‖ (CUNHA, 1986, p.111). 77. BISUNGAR [V] Mulher quando tinha criança tinha que valer com azeite... embrulhava ela lá... tinha uma parteira... vinha e bisungava essa mulher com azeite e Deus ajudasse dava tudo certo... (6; 365). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Ungir - do latim ungere //besuntar 1813; v. bis//unção ‗ato ou efeito de ungir‘ (CUNHA, 1986, p. 803) 146 78. BODOCAR [V] ... gostava muito de... de ir pro rio pescar... pegar uns peixinho... bodocar... o senhor conhece um bodoque? (30; 24). Pois é... bodocar... botava umas capanguinha de pedra né?... onde que fosse saía bodocando... (30; 26-27). Ah naquele tempo num tinha o que fazer não... brinquedo era bodocar... (39; 108). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Bodocar (n/d) v. Ação de atirar com bodoque. “Ah naquele tempo num tinha o que fazer não!... brinquedo era bodocar... fazer urupuca né...” (Entr. 1, linha 101). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de bodoque ‗arco para atirar bolas de barro endurecidas ao fogo, pedrinhas etc.‘, 1813. O vocábulo Port. talvez remonte, com visível extensão de sentido ao ár. bunduq ‗noz, avelã‘ ‗bala de espingarda‘, deriv. do gr. pontikon ‗noz pôntica‘ (CUNHA, 1986, p.115). 79. BODOQUE – Nm [Ssing] ... fazia um bodoque... lavrava um pau de um lado e d‟outro e entortava e amarrava um cordão... (15; 67). ... gostava muito de... de ir pro rio pescar... pegar uns peixinho... bodocar... o senhor conhece um bodoque? (30; 24). ... tinha um arco assim... bem igual um bodoque... (47; 145). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Bodoque ―s.m. arco com duas cordas, e uma rede no meyo, na qual se Poe a balla, ou pellouro de barro, com que se atira.‖ 2. Morais: Bodóque. ―sm. Arco com duas cordas, e uma rede no meyo, na qual se poe a balla, ou pellouro de barro, com que se atira.‖ 3. Freire: Bodoque ―s.m. Ár. bondok. Arco com duas cordas e uma rede ou couro no meio da qual se Poe a bola de barro, pedra ou chumbo, com que se atira.‖ 4. Aurélio: Badoque. ―[Var. de bodoque.] S. m. Bras. AL 1. V. atiradeira.‖ 5. Amaral: ‗arco (...) de pequenas proporções, usado para arremessar pelotas de barro, à caça de pasarinhos. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 147 1. Souza (2008): Badoque (A) s. Atiradeira; variante de bodoque (bodoque > badoque – caso de dissimilação). ―Entr: Quando o senhor era pequeno o senhor caçava também?/ Inf: Caçava. / Entr: É mesmo! / Inf: Era badoque ( (risos)) / Entr: Ah! / Inf: Era badoque de linha.‖ (Entr.7, linha 250) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Bodoque (A) Nm [Ssing] Ár > Port Também chamado de atiradeira ou estilingue, é utilizado, principalmente para a caça aos passarinhos. Feito com uma forquilha de árvore, tiras de borracha e um pedaço de couro. “Entr.: Mas é... na época que... o senhor era criança... quês brincadeira que tinha?... / Inf.: Aqui... nós brincava aqui de bodoque...ocê conhece?” (Entr.8, linha 75) 5. Cordeiro (2013): Bodoque (A) Nm [Ssing] Ár. Arco feito de pau que serve para atirar bolas de barro ou pedras. ―Bodoque é feito de pau. A mesma coisa de estilingue só que ele é de madeira‖. (Entr.12, linha 543) ______________________________________________________________________ Origem: de bodoque ‗arco para atirar bolas de barro endurecidas ao fogo, pedrinhas etc.‘, 1813. O vocábulo Port. talvez remonte, com visível extensão de sentido ao ár. bunduq ‗noz, avelã‘ ‗bala de espingarda‘, deriv. do gr. pontikon ‗noz pôntica‘ (CUNHA, 1986, p.115). 80. BOIADEIRO Nm [Ssing] ... era boiadeiro... o boiadeiro é que toca / tocava o gado na estrada... (43; 551). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Boiadeiro. ―sm. Pastor de manada de bois. V. vaqueiro.‖ 3. Freire: Boiadeiro. ―s.m. Condutor de boiada; capataz de gado. // 2. Comprador de gado para revender.‖ 4. Aurélio: Boiadeiro. [De boiada + -eiro.] Substantivo masculino. 1.Tocador de boiada. 2.Capataz de gado. 3.Bras. Comprador de gado para revenda. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Boiadeiro (A) s. Indivíduo que guia os bois nas estradas para alcançarem novas pastagens ou serem vendidos nos mercados. “... era boiadeiro... o boiadeiro é que toca / tocava o gado na estrada...” (Entr. 5, linha 539). 2. Ribeiro (2010): Boiadero (A). Nm. [ssing.] . Lat. Indivíduo que guia os bois nas estradas para alcançarem novas pastagens ou serem vendidos nos mercados. Ah tinha aqueles boiadero que passava lá... (Entr. 14, linha 273). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Do lat. bovem. ―1899‖ (CUNHA, 1986, p.115). 148 81. BOIADO Nm [Ssing] ... que era muito gado... e tinha umas pessoa que sabia dar um boiado bonito... vaqueiro daqui dava uns boiado que oh chegava a estrondar. (27; 403). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Boiado ―p.p. de boyar. V. aboyado.‖ 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de origem latina. Derivação regressiva de aboiar (CUNHA, 1986, p.115). 82. BOIAR [V] Guieiro de boi... guia os boi... lá é candieiro... no sul de Minas é. Entr.: É... eu num sabia disso não. Inf.: Eu já boiei no Paraná... (28; 180). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Aboiar³ ―v. i. Bras. Prov. Port. 2. Guiar uma boiada com canto monótono e triste.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Aboiar ‗guiar os bois com um canto triste‘ 1899 (CUNHA, 1986, p.115). 83. BOI-JANEIRO NCm[Ssing+ADJsing.] ... foi o Reis... não... foi o boi-janeiro que passou aqui. (40; 230). As músicas do boi-janeiro eu nem sei... ô meu Deus essas aí é que eu num lembro como canta a música do boi-janeiro... (40; 242). ... -Ô vovó quero ver o boi-janeiro... quero ver o boi-janeiro... (40; 259). 149 O boi-de-janeiro é novo né?... depois que eu vim pr‟aqui é que eu vim conhecer esse negócio desse boi-de-janeiro né? (42; 167). Boi-janeiro... é justamente... é incluído dentro dessa época. (43; 375). Esse boi-janeiro é um homem... que gente coloca dentro de / faz um caixão de vara... como se fosse / como essa mesa né?... (43; 379). Tem... é... eles faz o boi-janeiro sim... (44; 344). O boi-janeiro... era pra ter muita coisa aqui... (44; 358). Tem... o boi-janeiro... agora o boi-janeiro num acabou não... (45; 217). É a que acompanha o boi-janeiro... (45; 223). ... tem uns moço aí que faz um tal boi-janeiro... e a tal Maria Tereza... (46; 163). Tem... tem... o boi-janeiro. (47; 85). ... era uma espécie de um boi mesmo... e aí / isso / faz o boi-janeiro... (47; 87). O boi-janeiro? Entr.: É. Inf.: Aqui tem... Maria... me espanta... (50; 340). ... será possível /que esses menino tá sabendo que é boi-janeiro... (50; 348). ... mas é bonito o boi-janeiro... (50; 350). O povo fazia Maria Tereza boi-janeiro... e saía nas rua. (53; 225). ... e o boi-janeiro né?... havia essas festa aí... (53; 227). Vestia e saía andando pelas rua com essa Maria Tereza e o boi-janeiro e o povo atrás. (53; 230). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Boi-janeiro (n/d) s. Indivíduo que se veste de boi e sai pelas ruas, seguido pelas pessoas, no mês de janeiro. “Vestia e saía andando pela rua com essa Maria Tereza e boi-janeiro e o povo atrás.” (Entr. 15, linha 230). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: boi s.XIII. do lat. bovem (CUNHA, 1986, p.115). / janeiro s.XIII. do lat. januarius. (CUNHA, 1986, p.453). 84. BONECA Nf [Ssing] ... tá tudo crescidinho assim esperando secar... e já tá todo empenduado já com as boneca. (45; 297). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Boneca. ―7. Espiga de milho antes de estar granada; panícula do milho 150 em flor.‖ 4. Aurélio: Boneca. ―[Do esp. muñeca, poss.] S. f. 7. Bras. A espiga de milho ainda em formação.‖ 5. Amaral: Boneca. ―s.f. – espiga de milho nova: ―Vieram as chuvas a tempo, de modo que em janeiro o milho desembrulhava pendão, muito medrado de espigas. Nunes não cabia em si. Percorria as roças contente da vida, unhando os caules polpudos já em pleno arreganhamento da dentuça vermelha e palpando as bonecas tenrinhas a madeixarem-se duma cabelugem louro-translúcida‖. (M.L.) Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Boneca (A) s. Espiga de milho ainda nova. “... tá tudo crescidinho assim esperando secar... e já tá todo empenduado já com as boneca.” (Entr. 7, linha 292). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Boneca ‗figura de trapo, louça, plástico etc., que imita uma forma feminina e serve como brinquedo de criança‘, s.XVII, moneca XIV. Tal como o cast. muneca, de origem controvertida, provavelmente pré-romana. (CUNHA, 1986, p.118). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo conforme o Aurélio:. 85.BONINA Nf [Ssing] -Ó tem uma planta do mato que chama bonina... (09; 195). ... aplicou duas penicilina nela... ela né... e isso aí e deu o chá de bonina... chá de bonina... pois ela recuperou... e sarou com o chá de bonina... (09; 198-199). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Bonina ―s.f. florzinha mimosa do campo.‖ 2. Morais: Bonina ―s.f. florzinha mimosa do campo.‖ 3. Freire: Bonina ―s.f. Planta da família das compostas, também chamada bela margarida, margarida dos prados. (Bellis perennis).‖ 4. Aurélio: Bonina ―[do esp. bonina] . S.f. bot. 1. V. bela-margarida. 2. V. maravilha (5).‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... bonina ‗planta ornamental da família das compostas, também conhecida 151 como margaridinha‘ 1572. Do cast. bonina (CUNHA, 1986, p.118). 86. BOQUEIRÃO Nm [Ssing] ... se o senhor vê os buquerões que tem lá feito pelos escravos tirando ouro e essas coisas... (26; 240). ... lá tem cada buquerão de uma légua todo escavado e a terra toda jogada na cabeça pra fora... (26; 243). ... quem deixou escrevido lá naquela pedra onde que tinha aquele buqueirão dês... (32; 249). ... aqui tinha uma vizinha no boqueirão que vacinava o gado... (44; 255). Quando tinha fazenda boa nós ia pro fundo do boqueirão... (44; 283). ... fui aí num boqueirão... eu tinha roça... três roça num boqueirão aí... (45; 356). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Boqueiram. ―Boqueirão. Cova grãde & profunda. Caverna. Baratbrum, i. Neut. Virg.‖ 2. Morais: Boqueirão. ―sm. Quebrada, aberta, como grande boca, em muro, vallo, ou qualquer defesa.‖ 3. Freire: Boqueirão. ―s.m. 3. Saída larga para um campo, depois de uma estrada apertada ou de um desfiladeiro.// 5. Quebrada entre montes, rotura larga em valados ou em muralhas de defesa. // Cova grande e profunda.‖ 4. Aurélio: Boqueirão. ―[De boqu (i)- + -eirão.] S. m. 2. Abertura em costa marítima, rio ou canal. 3. Covão (1). 5. Quebrada de serra. 6. Foz de um rio. 7. Bras. N.E. Abertura ou garganta na serra, onde corre um rio. 8. Bras. MA Braço de mar, entre uma ilhota e a costa esbarrancada. 9. Bras. BA Terreno úmido e fértil, bom para a cultura de cacau. 10. Bras. S. V. brechão. 11. Bras. RS Saída larga para um campo, após uma estrada estreita ou um desfiladeiro.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Boqueirão (A) s. Abertura larga entre montes onde o terreno é propício ao cultivo de roça. “... fui aí num boqueirão... eu tinha roça... três roça num boqueirão aí...” (Entr. 7, linha 351). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Buqueirão (A) Nm [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Abertura ou boca de um rio ou canal, escavação profunda e ampla. ―Perto de Turmalina. Aí pá gente descê nesse lugá era uma serra dum lado e ota de oto. A gente descia num buqueirão de um metro por aí passano em cima né?‖ (Entr.3, linha 28). ______________________________________________________________________ Origem: ... Boqueirão. ―v. boca‖ ―boqueirão sm. ‗abertura de costa marítima, rio ou canal‘ XVI‖ (CUNHA, 1986, p.118). 87. BOTAR [V] ... onde que eles encontrava uma rês passava fogo nela e botava no chão... (1; 140). 152 ... ele botou o facão nessa rama e cortou tudo... (2; 452). ... aí nós brincava com essas bonequinha... brincava brincava... botava no fundo de cabaça... (4; 95). ... falou com a mãe pra me botar esse nome... (5; 94). ... e nós botava esses sabuco com chifrinho... (6; 21). ... botava as coisa no meio da rua também que num cabia... (7; 104). ... e pegava dois boi e botava nos carrinho e saía puxando... (8; 46). ... tinha uma chacrona de café e eu ia botar o café pra secar... (10; 24). ... meu pai num botou nós na escola não... (11; 73). Ês mudou o nome... botou Indaiabira. (12; 136). ... quando eu comecei negociar... que naquele tempo eu botei uma venda... hoje ês fala mercearia... naquele tempo era venda... eu botei a venda... (15; 32). ... tinha um animal solteiro... sem carga... botava uma boneca na cabeça... é o da guia... (15; 35). Inf.2: ... botava água na panela e botava o sal e o alho e fazia aquele pirão... (16; 110). ... era aquele óleo diesel de caminhão... botava na lamparina... (17; 121). ... lá botou o nome Ninheira por causa d‟um pau que tem até hoje na frente da casa velha... (18; 04). ... quando a pessoa dava por fé que ês tava caçando ês botava o jagunço atrás... (21; 26). ... botava uma redinha assim com uma fita de palha... (22; 42). ... fazer o cavalo de pau... botava e andava... brincano... (23; 50). ... botava o querosene e a puxada lá... e ilumiava... (24; 269). ... tudo era mato... ou era mangueiro de botar animal... (25; 17). Na cangaia... botava duas buraca dum lado... (25; 179). ... e pra cantar nós botava criosene no eixo dele... (27; 45). ... e botar aqueles negro pra trabalhar... (30; 279). ... matava porco e botava lá com os pão e ia comer... (31; 196). ... quando ocê botava a cangalha nele ele deitava no chão. (32; 111). ... botava uma buraca d‟um lado e do outro da mula ou no burro ou no cavalo... (34; 158). ... a outra vei e prometeu pra mim botar um dente nessa menina... (35; 131). ... e me botava lá e armava um lençol por riba... (36; 27). ... ela botou a língua assim pra fora assim ó... (37; 47). ... minha mãe me panhou e botou pra ir olhar menino... (38; 36). ... botava ele por cima como aquilo ali ó... (39; 34). ... fiquei dois anos na casa até botar ele no buraco... (40; 95). ... e queimou... e botou manaíba... e plantou roça... (41; 48). ... nunca botava / panhar um professor dentro de casa... (42; 189). ... ele ia fazer aquelas cancela pra botar nas divisão dos curral... (43; 15). ... e botava as candeia pra lumiar. (44; 15). ... e botava de comer lá / colocava de comer lá dentro do / daquele negocinho... (45; 263). ... nós tudo fraquinho... ele num podia botar um camarada... (45; 270). ... botava um bocado de remédio pra cozinhar... (46; 87). ... ele teve o sitiozinho dele... botava nós todos pra trabalhar... (48; 41). ... e de primeiro os pais... os pais que botava um professor na casa... (49; 39). ... pregava na coisa da porta e botava um canivete junto... (50; 227). ... arranjou um companheiro que botou pra tocar boiada na estrada... (51; 38). .. lá pro mato tinha um negócio que chamava tal gangorrinha que botava um 153 pauzinho... (52; 383). ... tinha um lugar de botar candieiro... (53; 37). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Botar ―v. at. Lançar, expellir com força, por. Sahir para fora.‖ 2. Morais: Botar ―v. at. Lançar, expellir com força, por. Sair para fora.‖ 3. Freire: Botar ―v.r.v. B. Lat. botare, do germ. Pôr. 2. Lançar fora, atirar.‖ 4. Aurélio: Botar ―v.t.d. 1. Lançar fora; espelir. 2. Vestir, calçar, pôr. 3. Preparar, arranjar. 6. Guardar, depositar. 7. Fazer entrar, introduzir.‖ 5. Amaral: Botar ―v.t. sinon de pôr, de uso preponderante em todas as acepções: botar a mão, botar o feijão no fogo, botar ovo, botar as tripas pela boca, botar dinheiro no banco.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Botar ‗deitar em, lançar fora, pôr, colocar‘ s.XIV. Do a. fr. boter. (CUNHA, 1986, p.120). 88. BOTAR / POR / TIRAR SENTIDO Loc. Verbal [V+Ssing.] ... quando ês olhou o cigano chegou e passou a mão naquele freio e lá vai saindo... o preto velho que tava ajudando botar sentido... - Panhou panhou os arreio do homem! (1; 547). ... botaram duas mulher solteira pra botar sentido... (44; 475). ... ele saía viajando... pra São Paulo... desde rapazinho... mas só punha sentido ni mim... (8; 85). ... apontou uma luzinha na esquina da casa lá... uma luzinha verdinha... ele disse que tirou o sentido assim... (1; 437). ... que ele olhou assim... que ele tirou o sentido mais um pouquinho... quem é desceu e sentou na cama... (1; 439). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Botar sentido (n/d) loc. verb. Prestar atenção; observar ou escutar algo cuidadosamente. “... botaram duas mulher solteira pra botar sentido...” (Entr. 6, linha 456). 2. Ribeiro (2010): n/e 154 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: botar + pòr + tirar + sentido (do a. fr. boter + latim ponere + de origem desconhecida tirar + latim sentire) (CUNHA, 1986, p.120). 89. BRABO [ADJ.sing] ... então foi criado dessa maneira assim... mais brabo. (1; 99) ... pelas aquela época braba d‟um tal trinta e nove... (1; 119). ... foi uma época braba... muito braba né?... é foi uma era muito braba nos começo da vida da gente... era uma dificulidade braba... (1; 121). ... porque os home era muito brabo... (1; 139). ... num era um tipo de gente não... era umas fera braba né? (1; 179). ... colocaram esse nome Taiobeira... é taioba braba do mato... (4; 390). ... ele caminhava muito... ele tinha uma ferida braba na perna aqui ó. (5; 96). ... ês vinha cá pra rua... o índio brabo... que tem o brabo e / hoje é manso né? (8; 67). ... um homem sistemático moço... terrível... e brabo... e brabo e brabo brabo mesmo... ele num aceita Reis... e ele é brabo brabo mesmo... (13; 363-365). Mucunã... é uma raiz braba do mato... arrancava a batata assim e comia. (15; 236). É... é uma / é brabo também do mato... (15; 268). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Braba. s.f. Mulher de condição áspera. 3. Freire: Braba. adj. De bravo. O mesmo que bravo. 2. Denso, selvagem (falando do mato). 3. Que causa dano; nocivo, prejudicial. 4. Irado, sanhudo. 5. Rixoso, brigador. 6. Recém-vido. 7. Inexperiente. 8.Grosseiro. Obs.: ―Toma-se bravo por corajoso, magnífico, áspero, ferino; brabo só é tomado no mau sentido.‖ (Odorico Mendes) 4. Aurélio: Brabo. adj. 1. Bras. V. Bravo (1 e 2). Bravo. adj. 1. Corajoso, intrépido. 2.V. colérico (2) [Var., nessas acepç.:brabo] 3. V. bravio (1 a 3) 4. Muito agitado, tempestuoso. S.m. 5. Homem bravo (1). 5. Amaral: Brabo. q. - zangado, zangadiço, colérico; bravio (animal); denso, selvagem (mato). | Mais ou menos corrente no Bras. todo. Diz S. Lopes, no conto ―Trezentas onças. (R. G. do S.)‖ ―... sujeito de contas mui limpas e brabo como uma manga de pedras...‖ - Esta forma não parece mera variante de ―bravo‖, que é de importação francesa por um lado, e italiana por outro. Tirou-a talvez a língua, diretamente, de bárbaro, através da forma bárboro, com dissimilação do segundo a, que facilitou o encurtamento do vocáb. Bárboro encontra-se nos antigos; por ex., em D. João de Castro: ―E asi me sertifiquei da longura que ha do brazil ao cabo da boa esperança e nisto estou tão costamte que me atreverey a o fazer confesar a omens barboros e a outros de gramde enjenho.‖ (Carta ao Rei, em ¯Dom J. de C.. por M. de S. Pinto). A própria forma brabo, tal qual, se encontra na Eufros.., p. 147. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 155 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Braba (A) • Nf [Ssing] • Lat.• Nervosa, colérica.• As vaca lá de casa era braba e num era uma só não. Tinha vaca lá que invistia até na sombra. ... Jogava nóis nos chifre da vaca braba. (Ent. 11, linhas 221 e 259) 3. Freitas (2012): BRABO • (A) • [Adj] • Lat > Port • Nervoso, colérico. Variante de bravo. • ―Pegava boi lá...boi brabo juntô um puxano na frente ôtro tocano atrás” (Ent.05, linha 18) • (brabo~bravo: caso de degeneração). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Bravo. Adj. ―feroz, selvagem‗Do lat. barbarus‖ (CUNHA, 1986, p.122). 90. BRAMURA Nf [Ssing] ... pegou os revoltoso andava na frente fazendo bramura... (42; 467). ... armado de fusível tudo... então os revoltoso num chegou... eles fizeram muita bramura aí.” Entr.: “É?” Inf.: “É... fizeram muita bramura aí... (42; 471-473). ... quando eu era menino eu recordo de alguma coisa... e eu fazia bastante bramura né?... (43; 04). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Bramura (n/d) s. Bagunça; diabrura. “... eles passou só naqueles meio aí do berizal aí ó... eles fizeram muita bramura aí.” (Entr. 4, linha 456). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: bramar – ‗berrar, rugir, bradar‘ XIX. De uma raiz bram-, comum a todas as línguas românicas meridionais e a muitas germânicas e indo-europeias // brama XVI. Der, regressiva de bramar // bramido XVI // bramir ‗bramar‘ 1572. (CUNHA, 1986, p. 122) 91. BRAVAR [V] É... e ainda saiu bravando aí... (42; 502). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 156 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Bravar (n/d) v. Gabar; sentir-se superior. “É ... e ainda sai bravando aí... isso porque ele num disse nada né... dissessse qualquer coisa... ainda saiu gabando...” (Entr. 4, linha 485). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: gabar – ‗jactar-se, vangloriar-se‘ XIII. Do a. prov. gabar, derivado do a.fr. gaber e, este, do escandinavo gabb ‗mentira‘ (CUNHA, 1985, p. 374) Obs.: Forma estropiada de gabar. 92. BRENHA [ADJsing.] ... aqui quem tivesse sua vaquinha aqui deveria pegar ela e esconder numa mata bem brenha... (1; 136) Registro em dicionários: 1. Bluteau: Brenha ―s.f. terra quebrada entre penhas, povoada de silvados.‖ 2. Morais: Brènha ―s.f. terra quebrada entre penhas, povoada de silvados.‖ 3. Freire: Brenha ―s.f. Cast. brena. Mata espessa e emaranhada; matagal.‖ 4. Aurélio: Brenha ―[de origem pré-romana possiv.] s.f. 1. Mata espessa e emaranhada; matagal.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... brenha ‗matagal‘ s.XVI. De orig. desconhecida (CUNHA, 1986, p.123). 93. BREU Nm [Ssing] ... mas escureceu assim que virou um breu... (1; 577). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Breo ―s.m. betume artificial composto de pez, sebo, resina, e outros ingredientes, com que se untão as náos, e as enxárcias, para as preservar da chuva, &c.‖ 2. Morais: Breo ―s.m. ou antes breu. Betume artificial, composto de pez, sebo, resina, e outros ingredientes, com que se untão as náos, e as enxárcias, para as 157 preservar da chuva, &c.‖ 3. Freire: Breu ―s.m. Fr. brai. Pez negro. 2. Substancia sólida análoga AP pez negro, que se obtém pela destilação do alcatrão da hulha.‖ 4. Aurélio: Breu ―[do fr. brai < gaulês *braça] . S.m. 4. Fig. Escuridão, trevas.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... breu ‗substância semelhante ao pez negro, obtida pela evaporação parcial ou destilação da hulha ou outras matérias orgânicas‘ s.XIV. Do fr. brai, deriv. do gaulês *bracu (CUNHA, 1986, p.123). 94. BROCOTÓ Nm [Ssing] ... qu‟eu num guento mais ir nesses brocotó... mais caçar essas coisas... (42; 379). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Brocotó. ―s.m. Tupi mboru + cotog. 2. Solo ressecado das baixadas, no período da estiagem, com montículos de terra, mais ou menos friáveis. // 3. Lugar cheio de morros e grotas; graguedo. // 4. Terreno desigual, com altos e baixos. // 5. Mato seco impenetrável.‖ 4. Aurélio: Brocotó. ―S. m. Bras. 1. V. borocotó.‖ ―Borocotó [Do tupi.] S. m. Bras. 1. Terreno escabroso, com muitos altos e baixos, escavado ou obstruído de pedras. 2. Sulco irregular aberto por águas pluviais em ruas sem calçamento. [Var.: brocotó.] ‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Brocotó (A) s. Terreno ruim, muito irregular, de mata seca e que dificulta o caminhar. “... hoje que eu num vou mais... que eu num guento mais ir nesses brocotó... mais caçar essas coisas...” (Entr. 4, linha 368). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: indígena (tupi). _____________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 158 95. BRUACA Nf [Ssing] ... dez animal de carga... uma pessoa com / levava um ( ) pra queimar as bruaca... pra queimar as bruaca... que um só se panhasse a bruaca e saísse pra panhar outra aquela gaia rodava e saía prum lado... ia dois... um pra botar a bruaca e outro pra queimar enquanto aquele outro panhava... a bruaca... (21; 273-275). ... sentava a rapadura no espinhaço do animal... dentro das bruaca e / das cangaia e das bruaca e ia pondo rapadura. (21; 281). ... essas enxurrada passava nas bruaca... desvalorizava essas rapadura... até uma coisa... eu compro as rapadura da camada de baixo das bruaca... (21; 298-300). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Bruaca. S.f. Saco de couro cru, para condução de mercadorias e outros objetos sobre bêstas. 4. Aurélio: Bruaca. [De burjaca, com metátese (*brujaca) e síncope.] S.f. Bras. 1.Saco ou mala de couro cru, para transporte de objetos e mercadorias sobre bestas. [Var., MG: buraca2.] 2.Bolsa de couro. [Cf. (nessas acepç.) priaca.] 5. Amaral: Bruaca. S. f. – surrão, saco de couro trazido por viajantes a cavalo. Também se aplica, insultuosamente, a mulheres. | Rub. Dá ―buraca, ― pequeno saco de coiro que usam os tropeiros de Minas. Lass. Colheu no R. G. do S. forma idêntica à paulista, definindo-a ― alforge de couro para condução de diversos objetos em cavalgaduras. – O Novo Dic. regista o Port. Burjaca, saco de couro de caldeireiros ambulantes, t. de origem cast. É claro que a forma brasil. Se relaciona com essa; mas como explicar o desaparecimento de J? Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Bruaca • (A) • Nf [Ssing] • Cast. • Saco de couro cru para transporte de objetos e mercadorias sobre bestas.• INF.: Comprava/ ês usava/ deles é a bruaca que era pra guardá as comida ( ). PESQ.: Bruaca? INF.: É um caxote quadrado cuberto cum coro de boi. ... Intão usava essas bruaca. Eu cheguei a cunhecê bruaca. Cheguei a vê. Num sei/ hoje/ num sei mais aonde tem mais. (Ent. 14, linhas 315 e 321 ) 3. Freitas (2012): BRUACA • (A) •Nf[Ssing] • Cast. • Saco de couro cru para transporte de objetos e mercadorias sobre bestas. • ―Aqueas bruaca né...bruaca de côro...aí inchia a bruaca...punha saco dent‟ da bruaca um pegava e falava...“traz gente”” (Ent.09, linhas 05 e 06) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ‗antigo saco de couro usado pelos caldeireiros ambulantes‘ / 1813. Do castelhana burjaca bolsa de mendigo ou peregrino, de origem incerta // bruaca ‗saco ou 159 mala para transporte de objetos ou mercadorias sobre bestas‘ 1844. (CUNHA, 1986, p. 128). _________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo. Cf. Aurélio acima. 96. BUCHO Nm [Ssing] É um passarinho. Entr.: Chama xorró. Inf.: É... mansinha... nego picava bala que só ficava bucho. (6; 67). Caminhando oito léguas de criança a pé ainda com o bucho nas costa... (38; 08). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Bucho ―s.m. o estomago, ou ventrículo dos animaes quadrúpedes, e peixes, e aves.‖ 2. Morais: Bucho ―s.m. O estomago, ou ventrículo dos dos animáes quadrupedes, e peixes, e aves.‖ 3. Freire: Bucho ―s.m. Estômago do peixe e dos outros animais, menos das aves. 4. Pop. O estômago do homem.‖ 4. Aurélio: Bucho ―sm. 1. Zool. Estomago dos mamíferos e dos peixes. 2. Pop. o estômago do homem. 3. Bras. pop. v. barriga.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... bucho ‗estômago dos mamíferos e dos peixes‘ s.XIV (CUNHA, 1986, p.126). Obs: Vocábulo também corrente no português europeu, pois consta no Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo definido como ―s.m. 2. [informal] Estômago do ser humano = barriga,‖. 97. BURACA Nf [Ssing] ... aí ele foi... daí com poucas horas ele chegou... uma buraca de adubo... (4; 331). Entr.: Como que era trabalhar com tropa? Inf.: Com tropa... botava a burrada aí e cangaia e buraca... pra ir buscar rapadura feijão arroz... (6; 78). Tem a buraca. Entr.: Chama como? Inf.: Buraca. Entr.: Buraca? Inf.: Era... é e o arreio é a cangaia. Entr.: Ah... então colocava / tinha a cangaia e tinha... Inf.: Tinha a cangaia e tinha a buraca. (20; 182-188). ... mas tem a buraca também... chama buraca de couro... essa aí que meu pai fazia demais... buraca bem feita... (22; 543-544). ... eu aprendi a fazer mas num cheguei a fazer a buraca... eu não... a cangaia eu aprendi e fazia mas a buraca de couro que é complicado... (22; 549-550). ... que ia dobrando dobrando dobrando e fazia a buraca... (22; 553). ... e também era cavalo... cacunda de cavalo... cangalha... buraca... (23; 133). ... ês mesmo fazia a cangaia... buraca ês mesmo costurava com couro de boi... (23; 409). 160 Na cangaia... botava duas buraca dum lado... (25; 179). ... tinha as carga assim... é igual uma buraca... (30; 79). Tinha umas buracona... tinha vez que agente colocava vinte e cinco rapadura numa buraca... (30; 84-85). ... agora a gente pegava uma buraca d‟um lado e do outro lado outra e saía puxando aquele... (30; 86). Entr.: E pra carregar esses trem em cima dos burro varregava ni que? Inf.: Bom... ni buraca. Entr.: Ah buraca. Inf.: Ocê já viu buraca? Entr.: Já... já vi. Inf.: Pois é... buraca é couro... eu fabriquei muito. (33; 147-151). ... apoiava na cacunda do cavalo ou do burro e panhava a buraca de um lado... (33; 56). Eu vendia carne aqui... tocando uma mula de cangaia que tinha umas buraca... (34; 13). ... botava uma buraca d‟um lado e do outro da mula ou no burro ou no cavalo... (34; 158). ... tinha uma cangaia e as buraca. (37; 244). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Buraca ―s.f. O mesmo que bruaca.‖ 4. Aurélio: Buraca ―[de bruaca, com metátese] . S.f. Bras. MG. 1. Pequeno saco de couro usado pelos tropeiros.‖ 5. Amaral: Bruaca. S. f. – surrão, saco de couro trazido por viajantes a cavalo. Também se aplica, insultuosamente, a mulheres. | Rub. Dá ―buraca, ― pequeno saco de coiro que usam os tropeiros de Minas. Lass. Colheu no R. G. do S. forma idêntica à paulista, definindo-a ― alforge de couro para condução de diversos objetos em cavalgaduras. – O Novo Dic. regista o Port. Burjaca, saco de couro de caldeireiros ambulantes, t. de origem cast. É claro que a forma brasileira se relaciona com essa; mas como explicar o desaparecimento de J? Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ‗antigo saco de couro usado pelos caldeireiros ambulantes‘ / 1813. Do castelhana burjaca bolsa de mendigo ou peregrino, de origem incerta // bruaca ‗saco ou mala para transporte de objetos ou mercadorias sobre bestas‘ 1844. (CUNHA, 1986, p. 128). ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo. Cf. Aurélio acima. Os dicionários, em geral, registram a variante bruaca. 161 C 98. CABAÇA Nf [Ssing] ... botava no fundo de cabaça... ocê já ouviu falar ni cabaça? (4; 95). ... aí era essas cabacinha assim... (4; 97). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Cabaça. Especie de abobara de carneyro; para a parte do pé, tem figura de pêra, & fazendo huma como garganta, se alarga em hum bojo. 2. Morais: Cabaça. S.f. Espécie de abobora, que tem a figura de pera. 3. Freire: Cabaça. S.f. Fruto de uma planta da família das cucurbitáceas, em forma de pêra ou de um 8, cujos dois bojos desiguais são separados por um colo mais ou menos estreito.//2. Vasilha formada pela casca inteira e seca desse fruto.//3. Qualquer vaso do feitio daquele fruto. 4. Aurélio: Cabaça. [De or. Pré-romana, poss.] Substantivo feminino. 1.Bot. V. cabaceiro-amargoso. 2.V. porongo1 (1 e 2): ―Uma cabaça foi posta contra os seus lábios, e bebeu dela, avidamente.‖ (Eça de Queirós, Últimas Páginas, p. 317.) 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Cabaça• (A)•Nf [Ssing] • Desc.• Vasilha formada pela casca inteira e seca do fruto de uma planta conhecida como cabaça.• INF. 1: Cuié de pau e a foia de cabaça né? PESQ.: Cabaça é aquele?... INF. 1: Cabaça é aquela abroba que a gente num come. PESQ.: Aquela dura? INF. 1: É. PESQ.: Que serve de enfeite? INF. 2: Não, a foia da cabaça eu num lembro não. Eu lembro é da ( ). (Ent. 1, linhas 452, 454 e 458) 3. Freitas (2012): CABAÇA • (A) • Nf[Ssing] • desc. •Vasilha formada pela casca inteira e seca do fruto de uma planta conhecida como cabaça. • ―Povo fazendêro aí trocava terra por uma cabaça de melado azedo‖ (Ent.11, linha 198) 4. Miranda (2013): Cabaça (A0 Nf [Ssing] desc. Vasilha proveniente da casca inteira e seca do fruto de uma planta conhecida como cabaça. “Ês usa mais né Claudio... tem a cabaça... mas hoje em dia a gente num vê cabaça mais não... a gente planta... mas ela num dá...” (Entr.2, linha 199) 5. Cordeiro (2013): Cabaça (A) Nf [Ssing] desc. Fruto do cabaceiro, de casca dura e impermeável, usado como recipiente. ―Buscava a água no pote, buscava água na cabaça‖. (Entr.12, linha 386). ______________________________________________________________________ Origem: ... cabaça ‗vasilha‘ s.XV, cabaacha XIII, cabaaça XV. De orig. desconhecida (CUNHA, 1986, p.130). 99. CABOCLO Nm [Ssing] ... num sei se foi Pedro Alvares Cabral ou D. Pedro II que vei conquistar... vei 162 conquistar os caboclo... vei conquistar os indio (16; 539). ... meu pai era folgado engraçado a caboclo... a mãe dele foi pegada até de cachorro... meu pai era caboclo... ele era (enrascado) a caboclo... ele era um rapaz caboclo... (46; 108-111). ... se ele num fosse buscar nós comia sem sal que nem caboclo. (50; 38). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Caboclo. ―s.m. Indígena brasileiro de cor acobreada. // 2. Mulato cor de cobre, descendente de bugres. // 3. Homem do sertão, de cor morena acobreada; caipira, roceiro, sertanejo.‖ 4. Aurélio: Caboclo¹. ―caboclo1 (ô). [Do tupi.] S. m. Bras. 1. Mestiço de branco com índio; cariboca, carijó. 2. Antiga denominação do indígena. 3. Caboclo1 (1) de cor acobreada e cabelos lisos; caburé, tapuio. 4. V. caipira (1)‖ 5. Amaral: Cabocro. ―s.m. – mestiço de branco e índio. // os vocabularistas registam outras formas, estranhas a S.P.; cabôco‖, cabôclo‖, ―cabouculo‖ etc. De ―curiboca‖? De cabouco?‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Caboclo (A) s. Índio ou descendente de índios. “... meu pai era folgado (engraçado) a caboclo... a mãe dele foi pegada até de cachorro... meu pai era caboclo...” (Entr. 8, linha 107). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Caboclo. ―sm. ‗índio, mestiço de branco com índio‘ ‗indivíduo de cor acobreada e cabelos lisos‘ / 1781, cauoucolo 1645, cabocolo 1648 etc. / Do tupi *kari‟uoka (< kara‟iua ‗homem branco‘ + ‗oka ‗casa‘)‖. (CUNHA, 1986, p.131). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 100. CABOCLO-PRETO NCm [Ssing+ADJsing] É... tinha um tali caboclo-preto... quina. Entr.: Quina. Inf.: É.. esses remédio que nós tomava. Entr.: Caboclo-preto é uma planta que tinha no mato. Inf.: Não... é uma árvore... uma árvore. Entr.: Uma árvore? Inf.: É... um pau... o pessoal chama caboclo... e ele era preto mas o bicho marga... (30; 225-231). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e 163 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: caboclo ‗índio, mestiço de branco com índio‘ ‗indivíduo de cor acobreada e cabelos lisos‘ 1781, cauouculo 1645, cabocolo 1648 etc. do tupi *kari‘uoka (CUNHA, 1986, p.131). / preto ‗negro‘ s.XIII. do lat. *prettus, por pressus (CUNHA, 1986, P.634). 101. CABRA Nm [Ssing] ... ô meu pai do céu... ês passaram um tiro num cabra... ele chama (nome)... (37; 286). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Cabra ―s.f. Animal quadrúpede dos menores, cornigero, fêmea do bode, ou cabrão; há cabras domesticas, e outras bravias, e montezes... / O filho ou filha de pai mulato, e mãe preta, ou as avessas.‖ 2. Morais: Cabra ―s.f. Animal quadrupede dos menores, cornigero, femea do bode, ou cabrão; há cabras domesticas, e outras bravias, e montezes.... / O filho ou filha de pái mulato, e mãi preta, ou às avessas.‖ 3. Freire: Cabra ―s.m. Mulato. 2. Indivíduo valente ou provocador. 3. Qualquer indivíduo.‖ 4. Aurélio: Cabra ―[do lat. Capra] . S.m. 6. Bras. Mestiço de mulato e negro. 10. Indivíduo, sujeito.‖ 5. Amaral: Cabra ―s.m. mulato ou mulata. No Nord. do país este t. é de uso mais corrente, com ligeiras variantes.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... cabra ‗bras. Mestiço de mulato e negro‘ ‗indivíduo, sujeito‘ s.XX. Do lat. Capra (CUNHA, 1986, p.132). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo. 102. CACATUA Nf [Ssing] ... nós plantava as mesma coisa de hoje... era manaíba... feijão... milho... é cacatua... (43; 104). 164 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Cacatous. ―s.m. Pl. Papagayos brancos.‖ 3. Freire: Cacatua. ―s.f. Mal. Kakatuava. Ave trepadora, da família dos papagaios.‖ 4. Aurélio: Cacatua. ―[Do tax. Cacatua < mal. kakatEwa.] S. f. Zool. 1. Gênero de psitacídeos maiores que o papagaio, cuja plumagem pode ser branca, ou branca com manchas róseas, acinzentada, vermelha, ou negra, conforme a espécie. Têm o bico volumoso, a cauda curta, e um penacho grande e erétil. 2. Qualquer espécie desse gênero como, p. ex., a Cacatua sulphurea. 3. Qualquer espécime desse gênero. [Var. (pop.): catatua.] ‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Cacatua (A) s. Espécie de ave branca, da família dos papagaios. “... era manaíba... feijão... milho... é cacatua...” (Entr. 5, linha 101). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... cacatua ‗espécie de papagaio branco das MOLUCAS‘ s.XVII, çagatua XVI. Do Mal. Kakatuwa (CUNHA, 1986, p.133). 103. CACAU Nm [Ssing] ... falava uma vez só... e gente chegava a mijar de medo... assim que eu fui criada. Entr.: Só falava uma vez né? Inf.: Era só uma vez... se não compreendesse o cacau descia. (38; 54-56). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... Cacao s.XVII. Do cast. cacao, deriv. do nauatle kakawa. (CUNHA, 1986, p.133). ______________________________________________________________________ 165 Obs: O mesmo que coro, surra. 104. CACETINHO Nm [Ssing] ... eu falei: - Não... ocê pode ir rompendo que eu vou com o cacetinho e Deus me ajuda que eu chego lá. “... aí ela rompeu... (45; 383). ... quando ela chegou aqui eu também cheguei... mas com o cacetinho..” (45; 386). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Cacete. ―s.m. 2. Bordão grosso em uma das extremidades; moca. // 3. Bengala‖ 4. Aurélio: Cacete. ― (ê). [Dim. de caço (por alusão ao cabo), poss.] S. m. 1. Pedaço de pau com uma das pontas mais grossa que a outra; biriba, birro, bordão, buduna, cachamorra, cacheira, manguara, moca, porrete, quiti.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Cacetinho (A) s. Bastão de madeira, bengala. “... ocê pode ir rompendo que eu vou com o cacetinho e Deus me ajuda que eu chego lá...” (Entr. 7, linha 377). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cacete ‗bordão, porrete‘ 1831. Talvez dim. de caço ‗vasilha com cabo, em alusão à pequena dimensão do cabo (CUNHA, 1986, p.133). 105. CACHIMBAR [V] ... ela era morena... ela andava assim... meio cachimbando né?.. (44; 388). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Cachimbar (n/d) v. Mancar; andar meio torto. “... ela era morena... ela andava assim... meio cachimbando né...” (Entr. 6, linha 372). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 166 ______________________________________________________________________ Origem: Africanismo, do banto. Fumar cachimbo, fumegar, lançar, exalar vapores. (CASTRO, 2001, p. 186) 106. CACIMBA Nf [Ssing] ... porque a água lá era de cisterna... de cisterna não de cacimba... Entr.: Água de cacimba? Inf.: É... era de cacimba... a gente abria um buraco assim no chão ó... num era cisterna não... (4; 241-243). É... chamava cacimba... porque hoje não... tem é cisterna né?... de primeiro era cacimba... (4; 246). ... aí né deu essa seca lá em casa... foi bebendo nessas cacimba... (4; 251). ... dentro desse rio desse rio fundão aí desse modo secou a savana aí e o povo fazia cacimba porque num tinha areião não... só aí que ês fazia cacimba pra arrancar uma aguinha muito fulo... (27; 446). ... ninguém fazia panhar água em cacimba... só panhava no rio... (50; 70). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Cacimbas. ― (Termo do Brasil) Assim chamão humas covas, que como pequenos poços abrem junto do mar, para tirarem água doce, que como tão vizinha da salgada fica ainda demasiadamente salobra, & apenas de serviço para o uso mais ordinário. Sahião, por agua as cacimbas do Recife. Britto, Guerra Brasilica, pág. 186. Os nossos, co o lodo dos charcos, & com as cacimbas das prayas. Vieira, Tom. 8. 547.‖ 2. Morais: Cacimba. ―sf. Cova que se faz em lugar humido, para nella se ajuntar agua, que reçuma; fazem-se junto as prayas e lenteiros.‖ 3. Freire: Cacimba. ―s.f. Quimb. Quixima. Cova feita no leito seco dos rios temporários ou na areia e terrenos úmidos, para recolher água para usos domésticos.‖ 4. Aurélio: Cacimba¹. ―[Do quimb. Kixima] S.f. 3. Bras. NE. Escavação em baixadas úmidas ou no leito de um rio, no qual a água se acumula como num poço.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Cacimba (A) s. Cova feita em lugares úmidos onde se acumula água. ―Esse rio... ele era um rio muito limpo... ninguém fazia panhar água em cacimba... só panhava no rio...‖ (Entr.12, linha 68) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Cacimba (A) Nf [Ssing] Afric. Cova feita em lugares úmidos onde se acumula água. “comia lá pros mato... outra hora... chegava num rancho aí... debaixo de uma árvore... ficava pro ali ( )... vinha a madrugada... arrancava que lá pra fora antigamente num tinha ( )... trinta ou quarenta légua pra passá num Corguinho aí... mas as água tudo aqui do ( ) pra lá tinha que tirá na / na / na cacimba...” (Entr.4, linha 94) 5. Cordeiro (2013): Cacimba (A) Nf [Ssing] Afr. Poço cavado no chão para retirar água do solo. ―Nem caneca tinha. Coité ma fia. Aí eis já fizero uma cacimba assim grande. Ela enchia, ficava mesmo limpinha.‖ (Entr.1, linha 107). ______________________________________________________________________ 167 Origem: ... cacimba ‗cova que recolhe a água dos terrenos pantanosos‘ ‗poço‘, s.XVII, quicima s.XVI, do quimb. Ki‟sima (CUNHA, 1986, p.134). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo. 107. CACUNDA Nf [Ssing] ... chegava lá fazia nossas feirinha e botava na cacunda... (4; 189). ... levava daqui a carne pra jequié e o cara ficava aqui esperando um café... era o café e o sal... é o café e o sal... e se num / e na cacunda de burro... é na cacunda de burro... e virava pra jequié. (5; 05). ... ela tava menina pequena que a irmã dela pegou ela e escanchou ela na cacunda e saiu correndo pro mato... (15; 176). ... e cortava aqui e chegava e sentava até vender a conta de fazer a feira... e tornava a voltar na cacunda até chegar. (18; 73). ... fui a pé levando o papai na cacunda... (20; 177). Com o papai na cacunda... levava coisa assim... (20; 179). ... e também era cavalo... cacunda de cavalo... (23; 133). ... mas a cacunda num tinha couro mais também não. (32; 120). ... ponhava cinquenta rapadura na cacunda... (32; 123). ... apoiava na cacunda do cavalo ou do burro e panhava a buraca de um lado... (33; 155). ... e ês lá só me castigava no serviço e eu com o menino na cacunda... (38; 38). ... me leva na privada ó... na cacunda... (41; 06). ... que eu carreguei até na minha cacunda. (42; 88). ... carreguei ela na minha cacunda né? (42; 92). ... pois ele passou eles tudo na cacunda... (42; 496). A turma de revoltoso... passou eles tudo na cacunda... (42; 498). ... porque num tinha condição de fazer outra coisa né?... tudo na cacunda... (45; 50). ... e puxou a taca na cacunda do velho... (50; 198). ... atirava na cacunda de um porco... (50; 232). ... cortava a espinha assim e partia o porco no meio... só tirava a cacunda... (50; 233). ... os menino sobe na cacunda desse ( ) e sai doido nessa rua aí... (50; 349). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Cacunda. ―s.f. Corr. de carcunda. Costas, dorso.‖ 4. Aurélio: Cacunda. ―[Do quimb. Kakunda.] S.f. Bras. 1.Dorso, costas. [Sin. (bras.): canastra.] ‖ 5. Amaral: Cacunda. ―s.f. – costas: ―... e ela se ponhou outra vez de cacunda, que é como dormia quase que a noite inteirinha. (V. S.). – ―Para dor de peito que responde na cacunda, cataplasma de jasmim de cachorro é porrete. (M. L.). // Orig. afric., como querem alguns, ou simples corrupt. De corcunda, passando por carcunda, como querem outros.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Cacunda (A) s. Costas, dorso. “...por fim eu casei foi com esta aí... minha prima carnal aí...porque... que eu carreguei até na minha cacunda.” 168 (Entr.4, linha 83) 2. Ribeiro (2010): Cacunda• (A) • Nf [Ssing] • Afr.• Costas, dorso.• PESQ.: E a água? Tinha água encanada ou não? INF. 1: Não. Era do corgo mia fia. PESQ.: Mas como fazia pá buscá? Ia no corgo? INF. 1: Era na cacunda mia fia. (Ent. 9, linha 214 ) 3. Freitas (2012): CACUNDA • (A) • Nf[Ssing] • Afr. • Costas, dorso. • ―Fui caçá tatu tava com uma espingarda vinte e oito na cacunda” (Ent.02, linha 275) 4. Miranda (2013): Cacunda (A) Nf [Ssing] Afric. Costas, dorso. “Pois é... que antigamente havia é tropa... num havia caminhão... nem nada... havia era tropa... tudo na cacunda dos burro.” (Entr.2, linha 8). 5. Cordeiro (2013): Cacunda (A) Nf [Ssing] Afr. Costas, dorso. ―Levava na mão, na cacunda um pau aqui e oto aqui ó e ocê escorava no banguê assim‖. (Entr.3, linha 671). ______________________________________________________________________ Origem: Africanismo, do banto. Costas, dorso; corcova, giba. (CASTRO, 2001, p. 188). 108. CADÊ [Pronome] ... eu quero saber cadê... eu quero saber cadê o que eles ajuda as pessoa... (5; 259). - Uai mulher cadê o bicho? (6; 314). - Ah meu Deus... cadê o homem! (8; 159). ... diz que ês perguntou a velha: -Cadê o povo daqui velha? (13; 231). ... ês já foi e perguntou: - Cadê o povo daqui? (13; 241). ... ês perguntou: - Cadê?... quem é que dá notícia de (nome) aqui?.. (15; 151). ... o povo quando viu o avião diz que era onça vindo pegar gente... tinha gente que escondia até dentro do forno de fazer biscoito... dentro dos forno... cadê a onça... (16; 532). ... agora quando chegava... cadê o caderno era pouco... (21; 169). ... ninguém conhecia acalipe... cadê acalipe?... cadê nada e passou cinco ano sem chover... (27; 439). ... que ês arranjou uma folha pra comer... cadê... e a lavoura... cabou... (27; 452). ... e cadê esse dinheiro também pra pagar imposto de tudo que é jeito... (38; 143). ... e o povo: - Cadê dinheiro!... (40; 239). ... cadê que essa Águas Vermelha tá chuvendo! (44; 382). ... amanheceu o dia né?... ele foi embora... cadê esse pobrezinho... (44; 398). ... ela falou: - Cadê a menina?... (44; 430). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Cadê. Bras. Fam. Pop. 1. V. quede²: ―Ó Fulô? Ó Fulô? / Cadê meu lenço de rendas, / Cadê meu cinto, meu broche, / Cadê meu terço de ouro / Que teu Sinhô me mandou?. (Jorge de Lima, Obra Completa, 1, p.293). 5. Amaral: n/e 169 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Cadê (A) Pron. Interrog. Onde está; quede. “...ela falou: „Cadê a menina?... ela passou melhor?‟...” (Entr.6, linha 411) 2. Ribeiro (2010): Cadê• (A) • [Pron] • (n/e) • Onde está; quede.• Eu cheguei, pelejei pa tirá esse gado. Cadê se dá jeito d„eu tirá. Aí chegô um cumpade meu e ajudô a tirá o gado da horta. (Ent. 15, linha 629) 3. Freitas (2012): CADÊ • (A) • [Pron] • (n/e) • Onde está; quede. • ―Eu falei “ah nêgo cê vai derrobá esse coqueiro pra mim”...ê disse “cadê a foice?”” (Ent.04, linha 106). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: portuguesa (que é de > quede > cadê). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo. 109. CAGAITEIRA Nf [Ssing] ... a jabuticaba tinha muito... essas era do mato mesmo... essas as vez encontrava as vez e ela tinha muito... ela a cagaiteira que é muito azeda... Entr.: Cagaiteira? Inf.: É... a jabuticaba é muito doce... a cagaiteira já era azeda... (19; 408-410). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Cagaiteira ―s.f. Árvore frutífera da família das mirtáceas (Stenocalyx dysentericus).‖ 4. Aurélio: Cagaiteira ―s.f. Bras. CO Bot. 1. Árvore da família das mirtáceas (Eugenia Dysenterica), abundante nos cerrados, de folhas longas e coriáceas, flores pequenas, alvas e dispostas em curtas inflorescências cimosas e sujos frutos são bagas amarelas, muito sucosas, agradáveis de comer, mas que, comidas em excesso, produzem disenteria.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cagar + (t) + -eira. Do latim cacare + sufixo –eira. ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo. 170 110. CAINDO PRA IDADE Loc. Verbal [V + Prep + Ssing] ... hoje / a gente fica caindo na idade... aposentou né? (18; 512). ... depois que eu fui caindo pra idade aí eu não trabalhei mais não... (46; 07). ... porque a gente vai caindo pra idade... (46; 244). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Caindo pra idade (n/d) loc. verb. Envelhecendo, adquirindo mais idade. “... enquanto eu tava aguentando eu ainda tava trabalhando... depois que eu fui caindo pra idade aí eu num trabalhei mais não.” (Entr. 8, linha 7). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cair ‗ir ao chão‘ s.XIV, caer XIII. do lat. cadere (CUNHA, 1986, p.137). / idade ‗número de anos de alguém ou de alguma coisa‘ ‗época da vida, época histórica, tempo‘ s.XIV, ydade XIII, jdade XIII etc. do lat. aetas –tatis (CUNHA, 1986, p.422). 111. CAIR NO MUNDO LOC. VERBAL [V + Prep + Ssing] ... e a panela de feijão com toicinho tava lá brobrolhando... pra comer amanhã seis horas pra tornar a cair no mundo. (6; 124). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Cair no mundo ―loc. verb. Fugir, desaparecer.‖ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cair ‗ir ao chão‘ s.XIV, caer XIII. do lat. cadere (CUNHA, 1986, p.137). / mundo ‗o universo‘ s.XIII. do lat. mundus –i (CUNHA, 1986, p.539). 171 112. CAITITU Nm [Ssing] ... aqui nós caçava aqui era viado era como é que é... tinha muito caititu nesse tempo... (2; 222). Os outros bichos que tinha na mata aí tinha era veado era caititu... é jacu zabelê... (5; 209). Só num tinha jacu... macuco... tinha cutia... tatu... caititu... (16; 370-373). Aqui era veado jacu... essa cutia caititu onça... (18; 180). ... naquele tempo era onça... o porco queixada... o caititu... (23; 109). Ó jacu... caititu... zabelê... o porco queixada... (23; 361). ... tinha muita caça de pena aqui... veado... catitu... (42; 305). Tinha jacu... tinha izabelê... tinha caititu... (43; 662). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Caititú. ―s.m. Mamífero paquiderme, também chamado porco do mato, queixada, tajacutirágua (Tajassu tajassu, Lin.): ―e as ramarias taladas, as ervas altas amolecidas em sulcos, assinalavam a passagem das antas ou das varas vorazes dos caititús‖ (C. Neto)‖ 4. Aurélio: Caititu. ―[Do tupi.] S. m. Bras. 1. Zool. Mamífero artiodáctilo, taiaçuídeo (Tayassu tajacu), da região cisandina da América do Sul. Pelagem anelada de branco, ou amarelo e negro, ou castanho-claro, resultando numa coloração rosada; linha de longos pêlos no pescoço, e patas pretas, com faixa característica em forma de colar branco cingindo o pescoço até os ombros. [Var.: caitatu, caitetu, taititu. Sin.: cateto, tateto, pecari, e (impr.) porco-do-mato.] ‖ 5. Amaral: Caititú. ―catêto, tatêto, s.m. – espécie de porco do mato, ―Dicotyles torquatus‖. – Tupi‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Caititu (A) s. O mesmo que porco do mato. “Tinha jacu... tinha izabelê... tinha caititu...” (Entr. 5; linha 650). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Caitetu. ―sm. ‗porco do mato da fam. Dos taiaçuídeos‘ / taiaçetu 1610, tahitetu 1618 etc.;cahetatu 1730, caititu 1789 etc. / Do tupi taite‟tu; v. Taiaçu.‖ (CUNHA, 1986, p.137). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 113. CALABREAR [V] ... diz que o povo ia lá e calabreava esse túmulo de cimento... (4; 303). ... diz que ês ia lá e calabreava aquela carneira ali... mais um pouco e aquela carneira rachava... (4; 307). 172 ... ês tornava a ir e tornava a calabrear... em poucos dias essa carneira rachava... (4; 308). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Calabrear ―v. at. Adubar vinhos, misturar diversas sortes delles. Temperar, ordenar. Confundir; perverter.‖ 2. Morais: Calabreár ―v. at. Adubar vinhos, misturar diversas sortes delles. Temperar, ordenar. Confundir; perverter.‖ 3. Freire: Calabrear ―v. tr. dir. Adulterar (vinhos). 2. Mudar para pior; perverter. 3. Enganar, fazendo troca dolosa; lograr.‖ 4. Aurélio: Calabrear ―[do top. Calábria + -ear v. calabreada] . V.t.d. 2. Por ext. temperar, adubar. V.t.d. e i. 5. Mudar, transformar.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Segundo Aurélio, do top. Calábria + -ear. v. calabreada. ______________________________________________________________________ Obs: vocábulo antigo, embora não apresente a acepção do contexto. 114. CALUNDUM Nm [Ssing] ... isso aqui era só mato... aquele matagal... só tinha aqueles calundum... (40; 51). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Calundum (n/d) s. Espécie de arbusto encontrado geralmente no cerrado e na caatinga. “... isso aqui era só mato... aquele matagal... só tinh aqueles calundum...” (2; linha 50). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: calundu. Africanismo, do banto (CASTRO, 2001, p. 192) 173 115. CAMA DE VARA NCf [Ssing. + Prep + Ssing.] ... e era no chão assim... fazia a caminha-de-vara... fazia uma esterona de paia de bambu... (12; 332). ... a cama era de palha... tinha cama de vara... eu dormia na cama de vara... Entr.: No couro de boi ou então na cama de vara. Inf.: Era... é cama de vara. (16; 454-457). Em cama de vara... hoje tem muita... quem quer saber disso... (18; 552). ... cansei de ver... a cama de vara... um jitalzinho de vara... (23; 341). ... pega esse travesseiro e essa cama de vara aqui... (23; 351). ... aqueles pobre num tinha cama não... ês pegava e fincava uns ganchinho assim... e outro aqui e outro lá e outro lá... Entr.: Era cama de vara. Inf.: É cama de vara que chamava. (30; 169-178). ... o lobisomem uma ocasião eu tava deitado numa caminha-de-vara aqui... (32; 271). É... e cama de vara... com umas teinha velha de tapuia... (45; 59). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Cama de vara (n/d) s. Cama rústica feita de varas. ―É... e cama de vara... com umas teinha velha de tapuia..” (Entr. 7, linha 57). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cama ‗lugar onde se pode deitar e/ou dormir‘ s.XIII. do lat. hisp. cama. (CUNHA, 1986, p.142). / vara ‗ramo fino e flexível‘ s.XIII. do lat. vara (CUNHA, 1986, p.811). ______________________________________________________________________ Obs: No dicionário de Laudelino Freire: há o vocábulo cama de varas , porém com outra acepção, referindo-se ao ‗trabalhador rural jornaleiro‘. 116. CAMARADA Nm [Ssing] ... e quando o camarada pensava ainda não o casamento já tava adiado né? (1; 206). ... as vez o camarada assim que era de longe... juntava dois três quatro companheiro... (1; 325). ... e eu pus dois camarada...pra carregar água durante dois meses... (3; 13). ... rama de mandioca... era só isso... fava aí era pouca também... plantava com um camarada mas era coisa pouca. (3; 118). Aqui na região mesmo eu num vi falar que tinha escravidão não... de fazendeiro judiar com o camarada e coisa e tal... (3; 171). ... o velho limpava debaixo e camarada e filho dele deitava tudo lá... (5; 170). ... aí um dia um camarada daqui foi trabalhar pra nós lá... (5; 175). 174 - Seus camarada tá me aborrecendo! (8; 349). ... agora um camarada ficava de um lado e outro do outro... (39; 24). ... o camarada ia fazer uma casa né?... (39; 403). Aí era fácil o camarada já fazer a casa né?... (39; 419). ... fazia um copo duplo e o camarada quebrava aquilo... (39; 510). ... nós ia sameando manaíba e ia plantando mais os camarada. (41; 20). ... e afinal de contas um camarada me... me inutilizou ela... (42; 140). ... nós tudo fraquinho... ele num podia botar um camarada... (45; 270). ... meu marido trabalhava ni carvoeira... nós que era os camarada dele... (46; 05). ... se pagar um camarada todo dia dez quinze conto pro camarada a lavoura num dá pra pagar... (48; 485). ... pegava um camarada... pregava um prego no beiço... (50; 226). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Camarada. ―Camarada. Derivase de camara, ou de cama; & valo mesmo que companheiro de casa, & mesa, & he particularmente usado entre gente de guerra, & soldados, alistados na mesma compahia, ou que vivem no campo, ou arrayal de baixo da mesma tenda.‖ 2. Morais: Camarada. ―sf. Vivenda, e conversação de pessoas no mesmo rancho, ou câmara, nos navios e quartéis.‖ 3. Freire: Camarada. ―s.m. 8. Indivíduo empregado nos serviços de campo ou das fazendas‖ 4. Aurélio: Camarada. [Do fr. camarade.] Substantivo masculino. 8.Bras. Indivíduo empregado em serviços avulsos, nas fazendas. 5. Amaral: Camarada. ―s.m. – indivíduo que, nas fazendas, está encarregado de vários serviços; trabalhador de roça.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Camarada (A) s. Indivíduo empregado para serviços variados nas fazendas. “... então quando eu morava mais meus pais... quando era no tempo de fazer roça... ele num / era fraquinho... nós tudo fraquinho... ele num podia botar um camarada...” (Entr. 7, linha 267). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Camarada (A) Nm [Ssing] Fr. Trabalhador temporário em propriedade rural. ―De tarde jantava. A gente punha camarada pra trabaiá por dia era assim‖. (Entr.7, linha 97). ______________________________________________________________________ Origem: ... Camarada. ―camarada s2g. ‗companheiro‘ XVI. Do fr. camarade, deriv. do cast. camarada.‖ (CUNHA, 1986, p.142). 117. CAMPA Nf [Ssing] ... chamava campa... põe o candeeiro de um lado... põe um trem do outro e deixa encher de coisa. (53; 38). Entr.: As malas chamava campa? Inf.: Chamava campa. (53; 43). 175 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Campa (n/d) s. Espécie de mala antiga, usada pelos vendedores ambulantes. “As mala tinha... tinha um lugar de botar candieiro... botar tudo pra sair vendendo... era diferente... a outra era mais diferente um pouco... chamava campa... põe o candieiro de um lado... põe um trem do outro e deixa encher de coisa.” (Entr. 15, linha 38). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: do latim tardio campana (CUNHA, 1986, p. 144) 118. CAMPESTA Nf [Ssing] Aí virou essa campesta aí desse jeito aí ó... num chove... (43; 691). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Campesta (n/d) s. Campo de vegetação rala e seca. “Aí virou essa campesta desse jeito aí ó... num chove...” (Entr. 5, linha 678). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: do latim campester (CUNHA, 1986, p. 145). 119. CANCELA Nf [Ssing] ... e lá no fundo tinha um cercado... bem feito e tinha uma cancelinha... (6; 286). ... meu negócio era fazer curral de pau... e cancela... (43; 07). ... até nessa época eu não sabia fazer as cancela né?... (43; 14). ... ele ia fazer aquelas cancela pra botar nas divisão dos curral... (43; 15). ... era bem pequenininho e tinha as cancelinha assim ao redor... (44; 14). 176 Registro em dicionários: 1. Bluteau: Cancella. ―Clausura de paos, alguma cousa afastados, que deixando o ar, & a vista livre, impedem a entrada. Cancelli, orion. Masc. Plin. Cancela de fazendas, hortas, pomares, &c. He uma porta de paos no comprido, de peralto, & entre hum, & outro de vão de meyo palmo, com travessas, aonde estes paos se mettem. Tem fechadura, & chave de pao. A fechadura tem dentes dentro, que quando se mette a chave, encaixão nos dentes dela, & de mais tem hum pao com faces, & moças onde encaixão os dentes, que estão dentro da fechadura, para se não abrir, senão com a chave, que as levanta. Janua ex cancellis, ou clatbris. Nas suas exercitações sobre Solino, p. 927.col.2, chama Salnasio a este gênero de portas, Fores cancellatae, ac reticulatae. Também lhe podemos chamar Clatbrata porta, ae, fem.‖ 2. Morais: Cancella. ―sf. Porta de grades de pao.‖ 3. Freire: Cancela ou cancella. ―s.m. Lat. cancelli. Porta gradeada, de ferro ou Madeira.‖ 4. Aurélio: Cancela. ―[De cancelo (ê).] S. f. 1. Porta gradeada, em geral de madeira e de pequena altura; porteira.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Cancela (A) s. Portão, geralmente feito de ripas ou tábuas distanciadas uma das outras. “... meu pai depois que chegava da roça... de tardinha... ele ia fazer aquelas cancela pra botar nas divisão do curral...” (Entr. 5, linha 15). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Do latim cancellus. Cancela. ―cancela sf. ‗porteira‘ / -lla XVI‖ (CUNHA, 1986, p. 146). 120. CANDEIA Nf [Ssing] ... pegava aquela vasilhinha de barro... que ês chamava... como é que chamava... era lamparina... é candeia... (2; 160). ... ninguém viu nada nada nada... a candeia de / tinha apanhado uma comida pros menino... (2; 337). ... e tinha gente que alumiava com a candeia de azeite... tinha uma candeia de barro... (3; 397). ... criei meus filhos lumiando com candeia de azeite... (4; 12). ... uma mulher que criava uma criança lumiava era com a candeinha de azeite... (4; 428). ... e quando a energia acaba a gente tem que tá com a candeinha preparada... ou vela ou a lamparina... (4; 447). ... e passava a cera... e acendia com a candeia de cera. (16; 441). Candeia de cera... o senhor conhece o que é cera? (16; 443). É .. aquelas candeia é... daquelas que ocê botava azeite também... (16; 445). 177 É... candeia de cera... botava uma candeia de cera... (16; 453). ... naquele tempo era só azeite que via... aquelas candeinha de barro... (18; 489). ... aí faz os biquinho da candeia e fazia e agora enchia... (18; 489). ... fazia uma puxada de algodão e ponhava na candeia de azeite e ponhava na lamparina e ponhava o querosene ou óleo... era assim. (20; 141). .. ah outra coisa também... que tinha a candeia... aquela vasiinha de barro... (21; 433). ... agora pomeava aquela candeia de azeite e tinha ir pra venda panhar o azeite e botar na candeia... no bico da candeia... o dia de uma festa chamava uma véia de prontidão pra ticar a candeia... as véia sentava e botava aquela candeia em cima do... em cima duma gamela né?... ficava aquelas candeinha em cima das gamela... agora aquelas véia ficava de prontidão enchendo aquelas candeia... (21; 432-439). Candeia de azeite... de mamona... (23; 376). Era a candeia de azeite. (23; 380). ... e agora trazia o algodão e panhava na no... como é que é... na tigela de barro... e molhava e acendia... chamava candeia. (33; 323). ... e botava numa candeia... e botava fogo... (34; 283). Entr.: É... não tinha luz. Inf.: Candeia de azeite... (35; 159). ... pra num gastar muito criosene... era a candeia de azeite no dizer... (36; 249). ... e botava as candeia pra lumiar. (44; 15). É... candeia... naquele tempo num tinha vela... (44; 17). ... e eu tenho uma candeia aí... de volta eu comprei uma candeia... (44; 20). ... agora eu vou panhar a candeia... ó uma candeinha aqui ó... (44; 46). Candeia que iluminava o prédio... (44; 49). ... a candeia nossa era candeia de cera ou então de mamona. (45; 50). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Candea. Candea de garavato. He uma candea pequena sem pe, & que tem hum ganchosinho, donde se pendura. 2. Morais: Candeia. Sf. Ant. vela. Vaso de metal para luz; e a luz: v.g. ―apagar a candeia 3. Freire: Candeia. ―s.f. Lat. Candela. Vaso de barro ou de folha que se usa suspenso da parede ou do velador e em que se coloca azeite ou querosene para alimentar a luz na torcida que sai por um bico do mesmo vaso: ―Pelas frestas das casas contíguas às de Álvaro Pires bruxuleava o clarão das candeias e tochas‖ (Herculano). 4. Aurélio: Candeia. [Do lat. Candela, ‗vela de sebo ou de cera‗.] S.f. 1.Pequeno aparelho de iluminação, que se suspende por um prego, com recipiente de folha-de- flandres, barro ou outro material, abastecido com óleo, no qual se embebe uma torcida, e de uso em casas pobres; candela, candil: ―Leva a candeia e vê se os alumia. (Domingos Carvalho da Silva, Liberdade embora tarde, p. 34.) [Cf. lamparina (2).] 5. Amaral: Candeia s. f. – árvore da fam. das Linanteias. Há grande e mirim, | O nome provém de que o pau é facilmente combustível, dando uma luz viva. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Candeia (A) s. Objeto usado para iluminação, geralmente feito de barro, e alimentado por azeite ou cera do mato. “É... candeia... naquele tempo num tinha vela... alumiava com azeite e cera do mato né...” (Entr.6, linha 15) 178 2. Ribeiro (2010): Candeia• (A)• Nf [Ssing] • Lat.• Objeto usado para iluminação, geralmente feito de barro, e alimentado por azeite ou cera do mato.• E o oto é candeero. O candeero é esse/ é acendia/ chamava candeia. Uma peça de ferro assim feita de/ feita na ferraria. Intão punha um pavio grande nela e enchia de azeite. ... Candeia... (Ent. 14, linhas 212 e 217) 3. Freitas (2012): CANDEIA • (A) • Nf[Ssing] • Lat > Port • Objeto usado para iluminação, geralmente feito de barro, e alimentado por azeite ou cera do mato. • ―Quano ele entrô que bateu com o oi ne mim menina ê virô cada candeia desse tamãe com o oi assim” (Ent.09, linha 162) 4. Miranda (2013): Candeia (A) Nf [Ssing] Port. Utensílio usado para iluminação, geralmente feito de barro, e alimentado por azeite ou cera do mato. “De querosene jacaré... é... querosene jacaré... lumiava era com querosene... com querosene... ou então com candeia de azeite... candeia ocê sabe o que é num sabe?” (Entr.6, linha 462). 5. Cordeiro (2013): Candeia (A) Nf [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Objeto de iluminação que se pendura à parede e funciona com a queima de um pavio embebido em óleo ou querosene. ―Fazia um negócio, uma candeia assim e punha um pavi. Moiava com azeite e ficava lumiano‖. (Entr.8, linha 267). _______________________________________________________________________ Origem: ... Candeia sf. ‗pequeno aparelho de iluminação, abastecido com óleo‘ vela de cera‗ / XVI, candea XIII / Do lat. Candela. (CUNHA, 1986, p.146). 121. CANDIEIRO Nm [Ssing] ... muita gente mais que podia comprava criosene... tinha aquele vidrinho feito / um candieiro... chamava candieiro... tinha as asinha de pegar o vidrinho... (3; 394). Era difícil... depois de passar disso inventaram um tal de fifó... chama candieiro. (6; 145). ... não... candieiro não... a outra... de barro... (6; 153). ... o tal fifó que eu tava falando candieiro né?... acendeu a praga do candieiro e a mulher ficou com o candieiro aceso... (6; 307). ... aqui era tudo na lamparina... lá em casa tinha candieiro... (18; 483). Com candieiro... chamava candieiro... uns dava o nome fifó... uns dava o nome lamparina... candieiro... (22; 355-356). ... aí molhava aquela puxada e aí aquele candieiro ficava aceso... (22; 359). Entr.: Tinha uma svasilhinha também. Inf.: É... tem. Entr.: Como é que chamava? Inf.: É candieiro. (31; 221). ... depois apareceu o criosene... aí já chama candieiro né? (33; 325). ... fazia os candieiro assim de água... a gente fazia aquele biquinho onde colocava aquela puxada... (36; 253). ... um candieirão de barro assim cheio de azeite pra poder ilumiar a noite... (37; 199). Uma lamparina velha assim... dentro de uma era azeite... outros era... um candieirão ó... lamparina... (37; 393). ... botava o candieiro assim... na janela... (44; 486). ... com os candieiro aceso assim ó... (45; 192). ... tinha um lugar de botar candieiro... (53; 37). ... põe o candieiro de um lado... põe um trem do outro... (53; 38). 179 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Candeeiro. S.m. De candeia + eiro. Vaso de várias formas, em que se coloca azeite, querosene ou gás inflamável para iluminação. 4. Aurélio: Candeeiro. [De candeia1 + -eiro.] Substantivo masculino. 1.Aparelho de iluminação, alimentado por óleo ou gás inflamável, com mecha ou camisa incandescente; lampião, leocádio: ―Acendia, tão logo anoitecia, um candeeiro de querosene‖ (Povina Cavalcanti, Volta à Infância, p. 18)‖ 5. Amaral: Candiêro1 s. m. – lamparina de lata, com torcida, e que se alimenta com azeite ou querosene. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Candieiro (A) s. Objeto usado para iluminação, geralmente feito de metal, e alimentado por óleo ou gás. “É... hoje é... e antigamente ocê amanhecia o dia aí tranquilo... com os candieiro aceso assim ó...” (Entr. 7, linha 188). 2. Ribeiro (2010): Candeero (A) Nm [Ssing] Lat. Objeto usado para iluminação, geralmente feoto de metal, e alimentado por óleo ou gás. ―E o outro é candeero. O candeero é esse / é acendia / chamava candeia. Uma peça de ferro assim feita de / feita na ferraria. Intão punha um pavio grande nela e enchia de azeite.‖ (Entr.14, linha 212). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Candiero (A) Nm. [Ssing] Lat > Port. Objeto usado para iluminação, geralmente feito de metal, geralmente alimentado por óleo ou gás. ―Que eu tenho uma ali... se Ocê num sabe eu vou mostra ocê... candeia... candieiro... com azeite... eu já tive muito azeite aqui...‖ (Entr.6, linha 465). 5. Cordeiro (2013): Candiero (A) Nm [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Objeto utilizado na iluminação, geralmente feito de metal e alimentado por gás ou óleo. ―Es fazia de barro. Era. Lá em casa usava era sempre usava era essa que ês trata de candieiro‖. (Entr.12, linha 369). ______________________________________________________________________ Origem: ... Candeeiro. Do lat. candela. ―Século XIV‖ (CUNHA, 1986, p.146). 122. CANGA Nf [Ssing] ... aí pegava uma parelhona de boi... enfiava a canga no cangote do bicho... (39; 614). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Canga. ―He hum pao grosso com faces, o qual puxão os boys, para levare o carro, com os pescoços numas travessas, a que chamão cangalhos. Jug. i. Neut. Cic.‖ 2. Morais: Cánga. ―sf. O jugo, com que se jungem os bois para a lavoira.‖ 3. Freire: Canga. ―s.f. Jugo de madeira, com que se prendem os bois para o trabalho.‖ 4. Aurélio: Canga. [Do celta *cambica, ‗madeira curva‘, poss.] Substantivo feminino. 1.Peça de madeira que prende os bois pelo pescoço e os liga ao carro, ou ao 180 arado; jugo: ― um boi magro .... esticava o pescoço esfolado pela canga e mugia. (Coelho Neto, Sertão, p. 79). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Canga (A) s. Peça de madeira que une os bois pelo pescoço e é acoplada ao carro de boi. “... chama carro de boi... aí pegava uma parelhona de boi... enfiava a canga no cangote do bicho...” (Entr. 1, linha 577). 2. Ribeiro (2010): Canga• (A)• Nf [Ssing] • Cel.• Peça de madeira que une os bois pelo pescoço e é acoplada ao carro de boi.• Laçava, marrava, punha uma cangaia no pescoço dele assim. Ele ficava dereiano caquela cangaia até tirá corda do pescoço pá depois pô a canga. (Ent. 4, linha 141) 3. Freitas (2012): CANGA • (A)• Nf[Ssing] • Cel. • Peça de madeira que une os bois pelo pescoço e é acoplada ao carro de boi • “Sabe que que nós teve que fazê? tirô as canga dos boi dexô os boi imbora e trepô ... era rancho trem di cumida tava tudo lá dento sabe? Que que nós fez ... nós teve que trepá no pau a inchente tapô tudo” (Ent. 11, linha 05) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Canga¹. ― ‗peça de madeira que prende os bois pelo pescoço e os liga ao carro ou ao arado‘ 1813. Provavelmente do célt. *cambica ‗madeira curva‘, de cambus ‗curvo‘. (CUNHA, 1986, p.147). 123. CANGAIA Nf [Ssing] Entr.: Como que era trabalhar com tropa? Inf.: Com tropa... botava a burrada aí e cangaia e buraca... pra ir buscar rapadura feijão arroz... (6; 78). ... o cara bota uma cangalha no burro / hoje não porque já acabou... e o cara ainda botava essa cangalha ainda e apertava bem apertado e encostava numa carga aí pesada. (15; 124). Tem a buraca. Entr.: Chama como? Inf.: Buraca. Entr.: Buraca? Inf.: Era... é e o arreio é a cangaia. Entr.: Ah... então colocava / tinha a cangaia e tinha... Inf.: Tinha a cangaia e tinha a buraca. (20; 182-188). ... e os animal só vivia no espinhaço... as costela pelada de tanta ( ) de cangaia... (21; 46). ... sentava a rapadura no espinhaço do animal... dentro das bruaca e / das cangaia e das bruaca e ia pondo rapadura. (21; 281). ... mas de couro eu faço de tudo... trança para colocar numa cangaia de burro né?... (22; 531). ... aí colocava na cangaia do burro... que a cangaia do burro pé feita de duas partes né?.. (22; 541-542). ... a cangaia eu aprendi e fazia mas a buraca de couro que é complicado... (22; 549). ... e também era cavalo... cacunda de cavalo... cangalha... buraca... (23; 133). ... ês mesmo fazia a cangaia... buraca ês mesmo costurava com couro de boi... (23; 409). ... tirava a cangaia do burro e segurava o burro... (23; 420). 181 Na cangaia... botava duas buraca dum lado... (25; 179). ... agora tinha uma cangaia assim... de pau... uns pedaço de pau com umas capa... (30; 85). ... quando ocê botava a cangalha nele ele deitava no chão. (32; 111). ... quando ele tirou a cangalha dos burro / chamava cangalha... o fiscal chegou nele... (32; 114). ... que ocê chegar aqui com esses burro com essas ( ) com essas cangalha eu vou lhe multar... (32; 116). ... é que as cangalha fazia aquelas pisadura e le senta rapadura... (32; 122). ... tinha aquela cangaia... num sei se ocê conhece... apoiava na cacunda do cavalo... (33; 155). Eu vendia carne aqui... tocando uma mula de cangaia que tinha umas buraca... (34; 13). ... meu tio nunca montou numa cangaia... e eu já montei e foi muito... ocê num sabe o que é a cangaia. (34; 155). ... ele dava vinte facão nas cangalha das vaca tudo...‖ (37; 46). ... outro em riba d‟uma cangalha com a carga... (37; 231). ... tinha uma cangaia e as buraca. (37; 244). ... as vez a gente fica até olhando como é que carregava as coisa naquele burrinho... com aquela cangaia... (37; 250). ... de tanta quentura e aquelas coisa pesada no lombo... agora arreava aquela cangaia... (37; 273). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Cangalhas. ―s.f. Armadilha de paos, q fromaõ como huma grade larga, para sustentar as quartas, que os Aguadeiros carregaõ nas bestas.‖ 2. Morais: Cangalhas. S.f. Pl. Duas como canastras de grades de páo, que se acommodaõ no seladouro das bestas, pendendo de cada lado duas, para estas cargas. 3. Freire: Cangalhas. S.f. pl. Armação que se coloca sobre o dorso das bestas e em que se sustenta e equilibra a carga de um e outro lado. 4. Aurélio: Cangalhas. [Pl. de cangalha.] S.f. Pl. 1.Armação de madeira ou de ferro em que se sustenta e equilibra a carga das bestas, metade para um lado delas, metade para o outro; cangalha. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Cangaia• (A)• Nf [Ssing] • Cel.• Armação de madeira ou de ferro e que se sustenta e equilibra a carga das bestas, metade para um lado delas, metade para o outro lado.• Laçava, marrava, punha uma cangaia no pescoço dele assim. Ele ficava dereiano caquela cangaia até tirá corda do pescoço pa depois pô a canga. (Ent. 4, linhas 140 e 141) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): CANGAIA • (A) • Nf[Ssing] • Cel. • Armação de madeira ou de ferro em que se sustenta e equilibra a carga das bestas, metade para um lado delas, metade para o outro lado. • ―Sabe quanto que nós vindia? Oito mil réis o saco...oito eu 182 tem muita coisa aí resto de cangaia coisa que eu vendi com essa farinha desse preço comprei cangaia essas coisa era um home que vinha lá de Taquaraçu com a tropa dele comprava nossa farinha‖ (Ent.04, linhas 402 e 403) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Cangaia (A) Nf [Ssing] Cel. Armação que se coloca no lombo dos animais feito em madeira e compartimentos laterais para armazenar cargas. ―Ele contando que um dia ele pôs a cangaia no burro e foi quando chegô lá no, na casa do home lá banado do Jequitinhonha‖. (Entr.5, linha 162). ______________________________________________________________________ Origem: ... Cangalhas. 1813, provavelmente do célt. *cambica ‗madeira curva‘, de cambus ‗curvo‘ (CUNHA, 1986, p.147). 124. CANGAR [V] ... tinha a atiradeira e cangava os boi e laçava aquelas atiradeira nas ( ) e os boi saía andando... (21; 402). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Cangar ―v. at. Jungir com a canga os bois. F. exp. Enganar alguém.‖ 2. Morais: Cangár ―v. at. Jungir com a canga os bois. Fig. E ch. Enganar alguém.‖ 3. Freire: Cangar ―v.r.v. de canga + ar. sujeitar à canga, jungir.‖ 4. Aurélio: Cangar ―[de canga + -ar] v.t.d. 1. Jungir à canga.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 6. Ribeiro (2010): n/e 7. Freitas (2012): n/e 8. Miranda (2013): n/e 9. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Canga¹. ― ‗peça de madeira que prende os bois pelo pescoço e os liga ao carro ou ao arado‘ 1813. Provavelmente do célt. *cambica ‗madeira curva‘, de cambus ‗curvo‘. (CUNHA, 1986). Encangar 1813. (CUNHA, 1986, p.147) 125. CÂNHO Nm [Ssing] Eu mexia com uma rocinha né?... era plantar milho feijão arroz canho né?... (11; 49). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Canamo ―s.m. Especie de planta, da qual se fazem filasticas, para cordoalha.‖ 2. Morais: Cànamo ―Especie de planta, da qual se fazem filasticas, para cordoalha.‖ Cànemo ―v. canamo.‖ 3. Freire: Canamo ―s.m. o mesmo que cânhamo.‖ 4. Aurélio: Cânhamo ―[do esp. canamo] s.m. Bot. 1. Planta herbácea da família das canabidáceas (Canabis sativa), cultivada em muitas partes do mundo.‖ 5. Amaral: n/e 183 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... cânhamo ‗planta da fam. das moráceas‘ s.XVI, caname s.XV, canemo s.XVI. Do cast. cáñamo, deriv. Do lat. Hisp. cannabum (Cannabis –is) (CUNHA, 1986, p.147). 126. CANJERANA Nf [Ssing] Entr.: Que fruta que era comum aqui? Inf.: Aqui é essa... jaboticaba... tinha uma canjerana. Entr.: Canjerana? Inf.: É... tem essa... fruta pra passarinho... (18; 573). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Canjerana ―s.f. Planta da família das meliáceas, de boa madeira de construção, também chamada cajarana, canjarana, caiarana, cedro-canjerana e cedro-ná (Cabralea canjerana).‖ 4. Aurélio: Canjerana ―[de origem indígena] s.f. Bras. Bot. 1. Designação comum à várias espécies do gênero Cabralea, da família das meliáceas, de madeira vermelha, aromática e fácil de trabalhar.‖ 5. Amaral: Canjarana, canjerana, cajarana ―s.f. árvore da fam. das meliáceas...‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... canjerana ‗planta da fam. das meliáceas‘ 1869, cangirana 1763. Do tupi *akaia‟rana < aka‟ia ‗cajá‘ + ‗rana‘ ‗semelhante‘ (CUNHA, 1986, p.148) ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 127. CANTADOR DE REIS NCm [Ssing +Prep. + Spl] Entr.: Aquele pessoal antigo que vinha com os instrumento e cantava... Inf.: Tem ainda... agora no Natal mesmo cantou... aqui meu irmão era cantador de Reis... depois que meu irmão morreu cabou... num canta Reis mais não... (7; 281). Isso aqui de primeiro passou uns cantador de Reis também... (49; 118). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 184 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cantador s.XIV, de cantar. (CUNHA, 1986, p.148). / Rei ‗soberano que rege ou governa um estado monárquico‘ s.XIV, rey XIII, rrex XIV. Do lat. rex regis (CUNHA, 1986, p.672). 128. CANTAR REIS Loc. verbal [V + Spl] Entr.: Eu falo assim um povo que vai de casa em casa pra... Inf.: Eu canto Reis... aqui agora num tem não. (2; 469). Cantar Reis?.. onde nós morava cantava muito... (3; 260). ...aqui meu irmão era cantador de Reis... depois que meu irmão morreu cabou... num canta Reis mais não... canta assim em frente de um presépio... e agora num cantou lá... Sebastião tem uma casinha pra frente... ali cantou... cantou o Reis... foi muito bonito... cantou contradança. (7; 281-283). ... meu irmão faz muita falta pra gente aqui... que ele cantava Reis nesssas roça aqui... (7; 293). ... eu mesmo fui tocador de festa de reis... e cantar Reis. (12; 426). ... o povo ia ( ) e cantando Reis... cantando Reis... seis dia... de primeiro de janeiro / três de janeiro até o dia cinco a seis o povo cantava Reis... cantava Reis... (13; 338- 340). ... e ele era daqui do Areião e tinha um homem aí um tal de (nome)... e cantava Reis... o pessoal gosta muito de cantar Reis... e meu avõ gostava de cantar Reis também... aí foi pra lá numa festinha... foi cantar Reis lá com meu avô... (13; 349). ...- Não nós num pode parar!... - Vamo ver!... cantou o Reis... - Viva o Santo Reis!... viva o dono da casa!... ele agradeceu e num acendeu a luz... foi a única casa que reclamou Reis... (13; 368). ... todas cantada do Reis que cantou Reis e agradeceu Reis e cantou contradança... tem a contradança... aí enfezaram enfezaram enfezaram... pode cantar (nome)... pode cantar (nome)... (13; 387). Cantar Reis. Entr.: Ah sei. Inf.: Até hoje... até hoje tem. Entr.: Ainda tem ainda? Inf.: Ês sai nas casa batendo caixa e cantando Reis... (16; 613-617). ... o dia que ia cantar o Reis... que era a quermessa... nós ia pra lá... (16; 648). É... cantando Reis pras casa. (17; 308). ... lá na região dela cantava Reis demais. (22; 577). ... cantava Reis com aquelas gaita... era bonito demais o Reis com gaita né?... (22; 582). Tinha... cantava Reis nas casa... tudo quanto era casa... (25; 143). ... hoje cabou... tinha o reizeiro também que cantava Reis... (27; 363). Entr.: ... pessoas que vinham cantar nas casas também... num tinha? Inf.: Cantar 185 Reis... cantava... com as caixa... viola... sanfona. Entr.: Ah o senhor participava também? Inf.: Não... eu num cheguei cantar... cantar Reis não. (30; 357-359). ... tomava uma cachaça danada... e cantava Reis a noite intirinha... (32; 227). ... aquele mais velho chamava o povo tudo da região assim ó... e rezava um terço e ia cantar Reis... (32; 375). ... mas isso é o final do ano... Santo Reis... cantava Reis nas casa. (33; 288). É cantando Reis... nesse novo ano diz que cantaram Reis aqui em algumas casas salteadas... (33; 292). ... tinha os cantos dos Reis... aqui ainda esta semana tiveram cantando Reis aí... (34; 211). É... até hoje ês ainda canta Reis... até hoje ês ainda canta Reis... (36; 196). ... põe as lapinha pra cantar um Reis... o povo vem cantar na lapinha também. (37; 314). ... mas a gente chama ês e ês canta o Reis no presépio. (38; 161). ... a gente tinha umas gaitinha de cantar... pra cantar o Reis... (40; 286). Se eu cantava o Reis? Entr.: É. Inf.: Não... eu nunca cantei o Reis não. (42; 163-165). ... aqui mesmo tinha um pessoal ali por riba que canta Res... (46; 162). ... mas eles num vei cantar Reis aqui na minha casa não... (46; 166). Festa de Reis... é... eles canta o Reis seis dias... (47; 76). Eles vai nas casa cantando Reis. (47; 79). Ia... na casa da pessoa pra cantar o Reis e ganhar o dinheiro... (48; 289). ... cantava Reis aqui nas casa... um cunhado meu vinha cantar Reis aqui. (49; 120). ... pra ir lá no Jacu cantar Reis lá na casa de meu pai... (50; 305). Cantava Reis... mas dançava... vadiava... (50; 314). ... eles ia nas casa cantando Reis... cantando Reis e... (51; 281). ... mais era reza... rezava e cantava o Reis... (52; 425). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Cantar os Reis ―loc. verb. Cantar pelas portas, por ocasião da Epifania, em honra do Menino Jesus.‖ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cantar ‗executar com a voz um trecho musical‘ s.XIII. do lat. cantare (CUNHA, 1986, P.148). / Rei ‗soberano que rege ou governa um estado monárquico‘ s.XIV, rey XIII, rrex XIV. Do lat. rex regis (CUNHA, 1986, p.672). 129. CAPADO Nm [Ssing] ... ês chegava aqui... aqueles capadão gordo... naquele tempo tinha fartura demais... 186 atirava na cacunda de um porco... (50; 231). ... matava aqueles capadão gordo pra jogar nas feijoada... (50; 320). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Capado. ―Filho da cabra, já mayor, passando de anno, ordinariamente são capados. 2. Morais: Capado. ―Substantivamente se entende do porco, e talvez do bode, castrados, e dos homens capados. 3. Freire: Capado ―s.m. porco grande, cevado.‖ 4. Aurélio: Capado. [Part. De capar.] Adjetivo. S.m. 3.Bras. Porco castrado que se destina a engorda. 5. Amaral: Capado s.m. Porco castrado. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Capadão (A) s. Porco grande e castrado para engorda. “... ês chegava aqui / aqueles capadão gordo / naquele tempo tinha fartura demais... atirava na cacunda de um porco...” (Entr.12, linha 227) 2. Ribeiro (2010): Capado • (A)• Nm [Ssing] • Lat.• Porco grande e castrado para engorda.• Ingordava o capado. Matava o capado tinha a carne e tinha a gurdura. E o mantimento todo tanto que cuía num vindia não. Punha na tuia lá no canto. (Ent. 11, linha 113) 3. Freitas (2012): CAPADO • (A) •Nm[Ssing] • Lat > Port • Porco grande e castrado para engorda. • ―Nós ingordava poico trazeno mãindoca na cabeça assim pareceno chifre de boi jogava no terrêro é poica é capado cumia engordava que nós num passava farta de toicinho” (Ent.09, linha 449) 4. Miranda (2013): Capado (A) Nm. [Ssing] Lat > Port. Porco grande e castrado para engorda. ―... lá no ingenho... nós ia pô comê pros capado...‖ (Entr.3, linha 42). 5. Cordeiro (2013): Capado (A) Nm [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Porco castrado para engorda. ―Ficô aqui uns dois ano. Trabaiô dois ano ou três trabaiano de fiscal, arrecardano dinheiro pra prefeitura. Quem vindia um capado aí tinha que pagá ele‖. (Entr.12, linha 193). ______________________________________________________________________ Origem: ... Capado. ―v. capão¹ ―capão¹ sm. ‗galo castrado‘ XIII. Do lat. *cappō – ōnis (class. Cāpō –ōnis) (CUNHA, 1986, p.150). 130. CAPANGA Nm [Ssing] - vamo pegar ele!... chegou lá chamou os capanga dele... meu pai era um deles... (6; 220). ... aí chega lá os capanga pega o (nome) e levou... (6; 224). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Capanga ―s.m. valentão assalariado para proteger uma pessoa; guarda- 187 costa.‖ 4. Aurélio: Capanga ―[de origem africana] s.m. 4. BA MT valentão que se coloca ao serviço de quem lhe paga.‖ 5. Amaral: Capanga ―s.m. indivíduo assalariado para guarda e defesa de alguém; guarda-costas.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: do banto, africanismo. ‗Guarda-costas, jagunço‘. (CASTRO, 2001, p. 200) ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo conforme o Aurélio acima. 131. CAPANGA Nf [Ssing] ... duas capanga nos canto tudo CHEIA de dinheiro que ês deixou... (8; 352). Pois é... bodocar... botava umas capanguinha de pedra né?... onde que fosse saía bodocando... (30; 26-27). ... quando pensava que não enchia a capanga... (42; 308). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Capanga. ―s.f. Pequena bolsa que se leva a tiracolo; bocó: ―pôs-se a remexer numa capanga de baeta a tiracolo‖ (Afrânio Peixoto).‖ 4. Aurélio: Capanga. ―[De or. Afr.] S. f. 1. Bras. Espécie de bolsa pequena que os viajantes usam a tiracolo para conduzir pequenos objetos.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Capanga (A) s. Espécie de bolsa rústica, geralmente de couro, que os caçadores levam quando saem para caçar. “... a pessoa panhava uma espingarda... dava uma voltinha...quando pensava que não enchia a capanga...” (Entr.4, linha 298) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): CAPANGA • (A) •Nf[Ssing] • Afr. • Espécie de bolsa rústica geralmente de couro. • ―Punha os trem tudo na capanga pa juntá pa pô no carguêro de madugada” (Ent.06, linha 389) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ 188 Origem: do banto, africanismo. ‗pequena bolsa que se leva a tiracolo‘. (CASTRO, 2001, p. 200) ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo de origem africana. 132 .CAPIM DA LAPA NCm [Ssing + {Prep. + Art.} + Ssing] ... era um chá de de de... de flor de algodão... um chá de de de... de capim da lapa... (16; 419). ... e até hoje ainda usa remédio do mato... usa folha de manga... aqueles capim que a gente trata ele de capim da lapa... (18; 97). Ah isso é chá de hortelã... chá de erva-cidreira... chá de capim da lapa... (19; 83). ... aqui a gente faz chá de erva cidreira... chá do capim santo que a gente trás aquele capim da lapa... (40; 659). ... agora erva cidreira e capim da lapa eu tenho muito aqui. (40; 664). ... agora o capim da lapa ocê pode plantar ele em riba d‟um lajedo... (40; 686). Entr.: Outras plantas também que fazia chá.” Inf.: “Tinha... erva cidreira... esse capim da lapa... (45; 248). ... tem alevante... tem erva cidreira... tem o capim da lapa que a gente chama. (49; 180). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: capim ‗nome de diversas plantas da família das gramíneas e das ciperáceas; erva, mato em geral‘ 1618. Do tupi ka‟pii (CUNHA, 1986, p.150). / lapa ‗grande pedra ou laje que forma um abrigo natural‘ s.XIV. Do lat. lus. lapa, deriv. do pré-celtico lappa ‗pedra‘ (CUNHA, 1986, p.465). 133. CAPIM SANTO Nm [Ssing] ... hortelã... erva cidreira... manjericão... tudo / esses que nós precisava... sempre usa pra poder tomar... capim santo... tem o capim... usa pra toda gripe... (7; 188). ... aqui a gente faz chá de erva cidreira... chá do capim santo que a gente trás aquele capim da Lapa... (40; 658). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 189 3. Freire: Capim santo ―s.m. bot. O mesmo que capim de cheiro.‖ 4. Aurélio: Capim santo ―s.m. Bras. Bot. 1. V. capim cheiroso.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: capim (do tupi) + santo (latim) (CUNHA, 1986). _____________________________________________________________________ Obs.: capim-santo – variedade de dandá. Campim-santo, alusivo às propriedades medicinais da erva tida como antiespamódica e antiflatulenta. (CASTRO, 2001, p.201). 134. CAPOEIRA Nf [Ssing] ... isso aqui a gente encontrava pedaço de gente aí pra essas capoeira no município... (5; 326). ... tem perdiz... tem essa izabelê... essas coisa tudo tem nessas capoeira... que elas gosta muito de capoeira. (18; 590). ... aí nós ia pro mato... a capoeira assim... nós cortava a lenha... (39; 128). ... isso aqui era um capoeirão... isso aqui era matão... (42; 147). ... isso aqui era um matão... aquela capoeira esquisita que tinha aqui tudo. (52; 233). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Capueira. ―s.f. Tupi-guar. Capuera. Floresta que substitui a mata secular depois de ser esta derrubada. 2. Mata que se roça ou derriba para lenha, para cultivar a terra ou para qualquer outro fim. 3. Roça abandonada. 6. Mato miúdo.‖ 4. Aurélio: Capoeira². ―capoeira2 [Do tupi = ‗mata que foi‘.] S. f. 1. Bras. Terreno em que o mato foi roçado e/ou queimado para cultivo da terra ou para outro fim. 2. Bras. Santom. Mato que nasceu nas derrubadas de mata virgem.‖ 5. Amaral: Capuera. ―s.f. – mato que nasceu em lugar de outro derrubado ou queimado. // De ―caapuanuera‖, mato isolado que foi, antigo mato virgem. – A forma culta é capoeira, assimilada a palavra já existente na língua.‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Capoeira (A) s. Lugar onde o mato cresceu após a derrubada da mata original. “...isso aqui era um matão... esquisito... que tinha aqui... aquela capoeira esquisita que tinha aqui tudo.” (Entr.14, linha 229) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): CAPUERA • (A) • Nf[Ssing] • Ind. • Lugar onde o mato cresceu após a derrubada da mata original. • ―Bateu uma catinga de enxofre um trem fez um ridimuim lá que saiu troceno a capuera toda” (Ent.09, linha 232) 190 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Capoeira². ―sf. ‗terreno onde já houve roça e que foi reconquistado pelo mato‘ / 1577, capuera 1579, quapoeira 1581, copuera c1584 etc. / Do tupi ko‟puera (< „ko ‗roça‘ + „puera ‗que já foi‘)‖ (CUNHA, 1986, p.151). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 135. CARABINA Nf [Ssing] O armamento deles era... era clavinote.” Entr.: “Clavinote?” Inf.: “É clavinote que chamava.” Inf.2.: “Não... arma pesada... arma deles tinha outro nome... era carabina... clavinote não... clavinote é chumbeira... era da casa ali. (15; 167). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Carabina ―s.f. Arma de fogo, mais curta que a espingarda.v. caravina.‖ 2. Morais: Carabina ―s.f. Arma de fogo, mais curta que a espingarda. V. caravina. No regulamento da cavallaria vem clavina.‖ 3. Freire: Carabina ―s.f. cast. carabina. Espingarda curta e estriada.‖ 4. Aurélio: Carabina ―[do fr. carabine] s.f. 1. Espingarda estriada; fuzil.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... carabina ‗tipo de espingarda‘, s.XIX. Do fr. carabine, de carabin ‗antigo soldado de cavalaria ligeira, armado de carabina‘. (CUNHA, 1986, p.152). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo em desuso. 136. CARAPINA Nm [Ssing] ... aí quando foi um dia a mulher veio pr‟aqui trabalhar... num sei se foi carapina... (10; 188). ... os caxão era feito era lá... os carapina lá mesmo que fazia. (19; 297). ... e as portas... arrumava um carapina... (39; 423). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Carapina. ―s.f. O mesmo que carpinteiro: ―o vigário no meio do povo, guiando os cânticos religiosos enquanto os carapinas, ajoelhados devotamente, serravam o tronco‖ (C. Neto). ―O Teixeirinha Maneta era um carapina ruim inteirado, que vivia de biscates e remendos‖. (Monteiro Lobato).‖ 191 4. Aurélio: Carapina. ―[Do tupi.] S. m. Bras. 1. V. carpinteiro (1). [Var.: carpina.] ‖ 5. Amaral: Carapina. ―s.m. – carpinteiro ordinário: ―... o Teixeirinha Maneta era um carapina ruim inteirado, que vivia de biscates e remendos‖. (M. L.)‖ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Carapina (A) s. Aquele que trabalha com a madeira; carpinteiro. “Era de madeira e barro... o sujeito enchia de madeira assim e embarriava né... e as portas... arrumava um carapina...” (Entr. 1, linha 398). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Carapina. ―sm. ‗carpinteiro‘ 1623. Do tupi kara‟pina.” (CUNHA, 1986, p.154). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 137. CARGUEIRO Nm [Ssing] ... de primeiro o carro quase num existia não né?... era o lombo de burro... tinha as carga né?... aqueles cargueiro... (1; 317). ... aí na hora que nós cheguemo lá e derrubamo estes cargueiro lá... (1; 359). ... caminhão carro num entrava aqui porque num passava... isso era cheio de buraco lá... e quando chovia acabou... aí agora / nós tirava as coisa pra fora daí era de cargueiro. (12; 18). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Cargueiro s.m. animal que transporta carga sobre o dorso. 4. Aurélio: Cargueiro [De carga + -eiro.] S. m. 2. Besta de carga. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Carguero• (A)• Nm [Ssing] • Cast.• Animal que transporta carga sobre o dorso.• Meu pai tinha uma ( ) tinha um carro de boi. Lá na roça num havia carguero. Num tinha caminhão, num tinha/ pra transportá as coisa tinha era carguero. (Ent. 14, linha 165) 3. Freitas (2012): CARGUERO • (A) • Nm[Ssing] • Lat > Port • Animal que transporta carga sobre o dorso. • ―Ê passava a carga pro caminhão e eu vortava com os carguêro pra trás” (Ent.04, linha 263) 4. Miranda (2013): Carguero (A) Nm. [Ssing] Lat > Port. Animal que transporta carga sobre o dorso. “... trazia os bezerrinho no cargueiro... de lá do quilombo até 192 aqui...‖ (Entr.3, linha 516). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Carg.a, -o, -osear, -oso, -ueiro CA.RRO. Latim > português (CUNHA, 1986, p.156). 138. CARNE DE SOL NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] ... vendendo requeijão vendendo carne... vendia carne cheirosa. Entr.: Carne cheirosa? Inf.: Carne de... carne de sol né? Entr.: Ah carne de sol. Inf.: É carne de sol... uma carne cheirosa... (20; 78-80). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Carne ―... carne de fumo; secca ao fumeiro, para conservar-se, e comer- se. a de tassalbos é secca ao sol, ou a fumo.‖ 3. Freire: Carne de sol ―s.f. Carne de vaca ligeiramente salgada e seca ao sol; carne de vento, carne do Ceará, carne do sertão.‖ 4. Aurélio: Carne-de-sol ―s.f. Bras. N NE 1. Carne levemente salgada e seca ao sol; carne-de-vento; carne-do-sertão.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: carne ‗tecido muscular, animal ou humano‘ ‗ o corpo, a matéria, em oposição ao espírito, à alma‘ s.XIII. do lat. caro carnis (CUNHA, 1986, p.157). / sol ‗centro do sistema planetário em torno do qual giram a terra e os demais planetas‘ ‗estrela que é o centro de um sistema planetário‘ s.XIII. do lat. sol solis (CUNHA, 1986, p.732). 139. CARNEIRO Nm [Ssing] / CARNEIRA Nf [Ssing] ... diz que ês ia lá e calabreava aquela carneira ali... mais um pouco e aquela carneira rachava... (4; 307). ... ês tornava a ir e tornava a calabrear... em poucos dias essa carneira rachava... a gente chegava lá e achava aqueles cabelão da banda de fora da carneira... (4; 308). ... foi acontecido isso... aí ele virou e foi e saiu da carneira dele... deixar de fazer a sepultura de terra e fizeram uma carneira... a mulher: _ Agora ele num sai!... com pouco ele pegou a rachar a carneira e saiu... (22; 413-415). ... foi cemitério isso aqui... que o povo antigo fazia esses carneirinho né?... (40; 129). Entr.: Falava carneirinho? Inf.: É... falava carneirinho... enterrava o povo e levantava aquelas carneirinha... chamava carneirinha... (40; 131). ... um tal de bicho de Pedra Azul... um bicho de Pedra Azul que saía da carneira... (40; 597). ... assim o povo conta... quando ele tava virando bicho... pocou o carneiro... pocou o 193 carneiro... ês foram lá e remendou... tornou pocar... (43; 581). ... o padre mandou que ês juntasse lenha e cobrisse o carneiro... a carneira com feixe de... de lenha e pusesse fogo. (43; 584). ... aí moço diz que todo ano essa carneira pocava e saía aquele fio de cabelo na / no caixão da carneira né? (45; 477). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Carneiro de Ossos. Sepultura. Neste sentido. Deriva-se de carnarium, que se acha em autores antigos por sepultura, mas he usado só na baxa latinidade (...). Por carneiro, entendemos uma sepultura comnua, em que se metem, & se confundem hum com os outros os ossos dos defuntos. 2. Morais: Carneiro d‘ossos. Cova vasia de terra, onde se mettem caixões de defuntos. 3. Freire: Carneiro. S.m. B. lat. carnarium. Casa subterrânea abobadada onde os cadáveres eram sepultados; cripta: ‗Quatro sergentes haviam pegado no esquife, e a comunidade encaminhou-se em duas alas para os degraus do carneiro‘ (Herculano) (...) 2. Ossuário: ‗Apoiou a testa nos frios varões de ferro e mergulhou os olhos queimados de lágrimas por entre os carneiros humildes em busca do que lhe escondia Cristina‘ (Monteiro Lobato). ‗É verdade que, em 1792, foi trasladado a Nogent o carneiro que continha as duas ossadas no Paracleto, e viu-se que uma grossa lâmina de chumbo os separava‘ (Camilo). 3. Jazigo, sepulcro. 4. Cemitério. 4. Aurélio: Carneiro². [Do lat. vulg. Carnariu.] S.m. 1.Gaveta ou urna, nos cemitérios, onde se enterram cadáveres. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Carneira (A) s. Cova, lápide da sepultura. ... aí o moço diz que todo ano essa carneira pocava e saía aquele fio de cabelo na / no caixão da carneira né. (Entr. 7, linha 470). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Carneiro. 2.‗sepultura‘ 1813. Do lat. vulg. Carnariu (cláss. Carnarium ‗gancho onde se pendura a carne‘). (CUNHA, 1986, p.157). 140. CARPIAR [V] ... e os menino novinho quando ia nascer dente era carpiar... um tal de focinho de boi... um carrapicho que faz um picão... (14; 100). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Carpear v. carmear. Carmear v. at. Desfazer os nós da lã, e limpá-la, para ir a carduçar. 2. Morais: Carpeár v. carmear. Carmear v. at. Desfazer os nós da lã, e limpá-la, para ir a carduçar. 194 3. Freire: Carpiar v. tr. dir. O mesmo que carmiar. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: carpear ‗desfazer os nós da lâ‘ 1844. Do lat. *carpeare, de carpere ‗arrancar, colher, tosquiar‘ (CUNHA, 1986, p.158). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo antigo. 141. CARRANCISMO Nm [Ssing] ... então isso é o qu‟eu quero dizer... mais carrancismo pra trás que eu não alcancei... (43; 441). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Carrànca. sf. O semblante triste, carregado, cenho. 3. Freire: Carrancismo. s.m. Rotinismo. 4. Aurélio: Carrancismo. [De carrança + -ismo.] S. m. 1. Modo de proceder do carrança. Carrança Adj.2g. s.2g. 1. Diz-se de, ou pessoa apegada ao passado. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Carrancismo (A) s. Apego ao passado; aversão à mudança. O filho quer ensinar o pai... e de primeiro num tinha isso né... então isso é o que eu quero dizer... mais carrancismo pra trás que eu não alcancei... (Entr. 5, linha 432). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: carranca ‗semblante sombrio, fechado, com aspecto de mau humor‘ s. XVI. De origem obscura (CUNHA, 1986, p.159). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo corrente no português europeu, pois consta no Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo definido como s.m. Gosto ou apego pela rotina. 142. CARRASCO Nm [Ssing] ... mas já enfrentei dormir até debtro de carrascão aí... dentro de carrascão... (1; 64) ... ele pôs as coisa dentro desse carrascão... e ele entrou debaixo de um pau e 195 arranchou... (1; 68). ... porque ocê sabe que o lugar que num tem muito carrascão e o povo perseguiu muito é pouco... mas tinha... perdiz... (3; 222). ... mas tem algum fazendeiro no recanto aí que umas moita de carrasco... (3; 237). ... foi um esparramo... num tinha onde ( )... o povo no carrasco... (8; 320). ... naquele tempo tinha muito mato né?... o povo entrava nas cabeceira e saía pros carrasco... (11; 211). ... mas quando o povo sabia que ês evinha caía tudo no carrasco... (11; 227). ... aquelas mata lá onde é de (nome)... tudo carrascão... hoje a mata cabou... (13; 471). ... aqui em cima tudo era mato... era era um carrascão grande... (14; 09). ... nada disso num tinha do meu conhecimento quando eu mudei praqui... tudo era mato... carrasco. (14; 13). Inf.2: Bom no campo... no carrasco aí é... a madeira de lei que tinha é sicupira. (15; 429). Inf.2: É... e a do carrasco a madeira que ainda tem até hoje em alguma reserva aí é a braúna. (15; 436). Inf.2: ... que ês vieram aqui... ês ponharam o... derrubou esse mato daqui na virada aí que era só carrascão... (15; 442). De badoque... tinha os badoque... ia pro carrasco... era brincar no carrasco... matando os passarinho... (21; 179). ... fazia / a cerca era ( ) dentro daqueles carrasco... (21; 221). ... co‟esse negócio de desmatamento ele foi aterrando muito o rio... vai acabando com as coisa da gente... acabou com os carrasco. (24; 73). É acabando com os carrasco... fazendo carvão. (24; 75). ... pra lá pra riba num tinha nada... era carrasco. (25; 13). Outra hora ês põe hora num carrasco... num lugar que ês fala cerrado... (28; 341). Isso aqui tudo era mato... era tudo mato... carrasco. Entr.: Tudo carrasco? Inf.: Era... cararsco de ( )... e tudo... (31; 272-274). ... o povo pegou as casa e trancou tudo... foi pra sede e voltou pro carrasco... (32; 184). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Carrasco s.m. Especie de sarça sempre verde, de tronco, e madeira mui forte, alias carrasqueiro. / Algos. 2. Morais: Carrásco s.m. Especie de sarça sempre verde, de tronco, e madeira mui forte. / Algoz, verdugo. 3. Freire: Carrasco s.m. Mata anã cujos ramos duros e esguios raramente se elevam a mais de um metro de altura; carrascal, carrasqueiro, carrasquenho. 4. Aurélio: Carrasco [do rad. pré-romano karr] s.m. Bras. 2. Bot. Mata anã, de arbustos de caule e ramos duros e esguios. 3. Bot. Formação vegetal nordestina, mais, enfezada e áspera do que a caatinga; carrascal, carrascão, carrasqueiro, carrasquenho. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 196 5. Cordeiro (2013): n/e Origem: ... carrasco ‗mata anã, de arbustos de caule e ramos duros e esguios‘ s. XVI. De uma raiz pré-romana karr-. (CUNHA, 1986, p.159). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo. 143. CARREIRA / CARRERÃO Nm [Ssing] / Nf [Ssing] ... largou as foice tudo no meio onde que tava e tchau... foi um carrerão... (5; 183). ... eu soltava o cachorro por nome Trovão e ês arrochava arrochava e ês solta... ele dava a primeira carrera... quando ele dava a primeira carrera... tinha uma cadela com o nome Sanja... uma cadelona... aí eu acompanho ela correndo... aí quando ela / o Trovão dava a primeira carrera eu soltava Sanja... (5; 198). ... levava aquela pedra fazendo força... quando chegava no descambo ês soltava aquela pedra lá de cima... só pra ver a carreira da pedra correr nessas montanha... (21; 126). ... com pouco ele chegou aqui na carreira... (40; 604). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Carreira. O movimento de quem corre certo espaço de lugar.[?] Nent. Cic. Dar uma carreira. 2. Morais: Carréira. O movimento do que corre, ou móvel. 3. Freire: Carreira. s.f. Corrida veloz. 4. Aurélio: Carreira. [Do lat. vulg. carraria, i. e., via carraria, 'caminho de carro'.] S. f. 1. Corrida veloz; correria: Veio numa carreira para chegar a tempo. 5. Amaral: Carrêra². s.f. – ato de correr. De -; a correr. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Carreira (A) s. Corrida, correria. ... ele passou pra essa beira de córrego... e foi lá pra praça né... com pouco ele chegou aqui na carreira... (Entr. 2, linha 566). 2. Ribeiro (2010): Carrerão (A) Nm [Ssing] Lat. Corrida, correria. Dipois que nóis viu que aquilo era uma coisa diferente, nóis largo mão de jogá pedra e finco num carrerão só... (Entr.8, linha 85). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: carreira ‗caminho‘ s.XIII, carreyra XIII. Do lat. vulg. *carraria, de via carraria ‗caminho de carros‘ (CUNHA, 1986, p.159). 144. CARREIRO Nm [Ssing] Aqui moço... aqui era um carrero... a onça topava a gente aqui na estrada ó. (16; 87). ... estrada tinha era um carrero... aqui era quatro casinha... (23; 17). ... daqui em Taiobeiras num tinha estrada... era só um... um carreirinho... (23; 395). ... essa saída pra Divisa também era um carrero... (43; 191). Registro em dicionários: 197 1. Bluteau: Carreiro. Caminho estreito por onde anda a gente de pé. Semita, ae. Fem. Cic. Callis, is. Masc. Virg. 2. Morais: Carrèira. sf. O lugar por onde se corre a pé, ou a cavalo. 3. Freire: Carreira. s.f. Corrida veloz. 2. Caminho de carro. // 3. Estrada pouco larga; carril, carreiro. 4. Aurélio: Carreiro. [De carro + -eiro.] S.m. 2. Caminho estreito; atalho, vereda, carreira: Arrimando-se ao bordão, subiu o carreiro íngreme que levava ao castelo (Gustavo Barroso, Liv. dos Milagres, p. 102). 3. Caminho entre fileiras de plantas. 4. V. carreira (4). 5. Amaral: Carrêro. carreirinno, s.m. – caminho estreito, trilho. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Carreiro (A) s. Estrada, caminho; trilha feita no mato. Num tinha rodagem não... o povo fazaendo aqueles carreiro velho... (Entr. 1, linha 348). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Carrero (A) Nm [Ssing] Port (CUNHA, 1986) Caminho estreito. Que eu óio que não ó o bitelo do jiricuçu trevessando no meio do carrero. (Entr.5, linha 319). ______________________________________________________________________ Origem: ... Carreira. sf. ‗caminho‘ / XIII, -eyra XIII / Do lat vulg. *carraria, de via carraria ‗caminho de carros‘. (CUNHA, 1986, p.159). 145. CARRISQUEIRO Nm [Ssing] ... e o mercado que tem era de balaústre... era aquele carrisqueiro de madeira. (21; 47). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Carrasqueria s.f. Balsa, matagal de carrasqueiros. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Carrisqueiro v. carrasco. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: carrasco ‗mata anã, de arbustos de caule e ramos duros e esguios‘ s.XVI. De uma raiz pré-romana karr- (CUNHA, 1986, p.159). 198 146. CARRO DE BOI NCm [Ssing + Prep. + Ssing.] ... porque no tempo que nós mudou pr‟aqui acho que já tinha uns carrinho né?... mas mais era da roça... da roça... vinha acavalo carro de boi. (14; 139). ... todo mundo que quisesse pegar uma água pra beber era pra construir e é tudo tem que buscar nas costa ou no lombo de burro ou no carro de boi. (15; 326). Ah era carga de animal e o carro de boi. (19; 24). Vinha aqui de carro de boi ou animal... (19; 28). ... aqui pra Candeúva ou (nome) a gente ia as vez de carro de boi. (19; 29). Era de carro de boi... e a farinha a gente... quando era mais pequeno a gente vendia aqui mesmo. (19; 31). ... num tinha condução... trazia era de carro de boi. (19; 77). ... e pois nós vinha pr‟aqui era ir no rio porque num tinha água lá no sítio... as água aqui vinha de carro de boi... (19; 425). ... e aqui era construção era tudo construído panhado água de carro de boi... (19; 429). ... e carro de boi trazia esses tambor dágua pra gente. (19; 430). ... não tinha carro de boi... num tinha carroção... (23; 134). Carro de boi e animal... era isso... nem charrete num tinha. (25; 252). É... no carro de boi... trazia praqui no carro de boi... (27; 35). ... nós mexia com um carrinho de boi... (27; 44). Num tinha condições de comprar o jipe... cobrava imposto de carro de boi... (28; 423). ... eu já trabalhei com carro de boi... já trabalhei muito... carro de boi eu tinha... carro de boi. (29; 92-93). ... ficava lá com meu carro de boi... panhava roça de mandioca... piava lenha... de carrear no carro de boi... (29; 98-99). ... a gente levava até em carro de boi... num tinha nada pra andar... (29; 139). Ah carro de boi. Entr.: Carro de boi. Inf.: É... tinha carro de boi... (33; 403-405). Tinha... tinha carro de boi. (33; 412). ... num podia passar... com pouco eu... eu cortei o pé com um carro de boi... (36; 120). ... os carro que tinha era mais só carro de boi moço. (37; 54). Era carro de boi... a gente usava mas era carro de boi... tirar as cana da roça... é mantimento... era carro de boi... tudo vinha assim mais em carro de boi... (37; 56-58). ... fazia um carro de madeira... chama carro de boi... (39; 613). ... evinha mais um companheiro... o carro de boi carregado de milho... (45; 311). ... mas eu vi aquele carro de boi carregado de milho... (45; 318). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Carro. Carruagem de carga tirada por boys. Consta de leito, chaveiros, fueiros, chamaceiras, mesas, cadeas, cavalares, gatos, burros, xalmas, pernas, rodas, rodeiras, cainbas, eixo, tamoeiros, relhos, brochas, canga, cangalhos, &c. 2. Morais: Carro. S.m. Instrumento de carregar; consta de rodas, leito, apeio, &c. é tirado por bois, ou cavallos. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Carro de boi. S.m. 1. Carro (1) movimentado ou puxado, em geral, por uma ou mais parelhas de bois, e guiado por carreiro (1). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 199 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Carro de Boi• (A)• NCm [Ssing + 199rep. + Ssing] • Lat.• Carro movimentado ou puxado, em geral, por uma ou mais parelhas de bois, e guiado por carreiro.• PESQ.: O sinhor fazia o quê? INF. 1: Mixia cum carro de boi, candiero. (Ent. 9, linha 11) 3. Freitas (2012): CARRO DE BOI • (A) NCm [Ssing+199rep.+Ssing] • Lat > Port • Carro movimentado ou puxado, em geral, por uma ou mais parelhas de bois, e guiado por carreiro. • Passava com o carro de boi lotado de arroz ... nós passava de baixo dele ... é ... eu tô com setenta e dois ano (Ent.11, linha 57) 4. Miranda (2013): Carro de boi (A) NCm. [Ssing + prep.. + Ssing] Lat > Port. Carro feito de madeira, movimentado ou puxado, em geral, por uma ou mais parelhas de bois, e guiado por carreiro. É no carro todo tipo de coisa de puxá no carro é com os bois né... no carro de boi era com os boi... mio... feijão... cana... lenha... (Entr.1, linha 320). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Carro. Sm. ‗veículo de transporte terrestre‘ XIII. Do lat. Carrus. (CUNHA, 1986, p.159). 147. CASCAR NO CERRADO loc. Verbal [V + {PRP + Art.} + Ssing] ... aí jogava duas moeda lá no chão e largava lá e cascava no cerrado com outro... (1; 493). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cascar ‗tirar a casca de‘ s.XVI. do lat. *quassicare, de quassare ‗sacudir, quebrar‘ (CUNHA, 1986, p.161). / cerrado çarrado s.XIII, sarrado XIII. De cerrar. (CUNHA, 1986, p.174). 148. CASCAR FORA Loc. Verbal [V + ADV.] ... ele foi embora com mãe me ganhando... ele cascou fora e foi embora e largou ela. (36; 295). 200 Registro em dicionários: 1. Bluteau: Cascar v. at. Chulo, dar v.g., cascou-lhe hum bofetão. 2. Morais: Cascar v. at. Ch. Dar: v.g. cascou-lhe um bofetão. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: cascar ‗tirar a casca de‘ s.XVI. do lat. *quassicare, de quassare ‗sacudir, quebrar‘ (CUNHA, 1986, p.161). / fora ‗na parte exterior‘ s.XIII, foras XIII. do lat. foras (CUNHA, 1986, p.364). ______________________________________________________________________ Obs: Em Bluteau: e Morais: há o registro de cascar com o significado de dar, o que vai ae encontro da locução cascar o fora, ou seja, dar o fora. 149. CATINGA Nf [Ssing] ... cabou as mata!... é tudo / só virou sertão velho que nem as catinga cabou... (45; 286). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Catinga. s.f. Tupi caá + tininga. Mata enfezada de árvores pequenas e de folhas frágeis, tortuosas e um tanto raras: Só se distinguia a ondulação da catinda (J. A. de Almeida) // 2. Zona em que a vegetação é formada por essa mata. 4. Aurélio: Catinga. catinga2 S. f. Bras. 1. V. caatinga. [De caa- + -tinga.] S. f. 1. Bras. Tipo de vegetação característico do Nordeste brasileiro, mas que alcança o N. de MG e o MA, formado por pequenas árvores, comumente espinhosas, que perdem as folhas no curso da longa estação seca [entre elas ocorrem numerosas plantas suculentas, sobretudo cactáceas] : Andou como renegado no mato, furando as caatingas, farejando grotas (José Lins do rego, Usina, p.21). 2. Bras. Zona cuja vegetação é de caatinga. 3. Bras. Amaz. Formação vegetal rarefeita, constituída por árvores de porte reduzido. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Catinga (A) s. Região onde a vegetação é caracterizada por árvores baixas e retorcidas, com poucas folhas e espinhentas. ... cabou as mata!... é tudo / só virou sertão velho que nem as catinga cabou... (Entr. 7, linha 281). 201 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Catinga. sf. ‗tipo de vegetação característica dos sertões do Nordeste do Brasil‘ / c1584, catinga 1587 etc. / Do tupi kaa‟tina < ka‟a‟ ‗mato‘ + ‗tina‘ ‗branco‘ (CUNHA, 1986, p.166). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo. 150. CATINGUEIRO Nm [Ssing] ... caçava viado... tinha um / nós falava catingueiro... aqui ês num gosta de falar não. (2; 213). Negócio de viado falava catingueiro... e lá no Paraná num chama nem catingueiro num chama. (2; 215). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Catingueiro s.m. 2. Espécie de veado, também chamado veado-virá, guaçú-birá, suaçú-catinga e virote. 4. Aurélio: Catingueiro [de catinga + -eiro] Bras. S.m. 3. Zool. Veado-mateiro. 5. Amaral: Catingueiro q. serve de designar carta espécie de veado pequeno do campo, e certa espécie de capim. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: catinga (banto) + eiro (português) – Híbrido (africano + português). (CASTRO, 2001, p. 206.) ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo. 151. CATITA Nm [Ssing] ... dava umas pereba nas pernas do povo... chamava catita... Entr.: Catita? Inf.: É chamava... apelido de catita... (39; 654-656). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e 202 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Catita (n/d) s. Feridas que aparecem no corpo das pessoas. A pessoa adoecia... ficava esmagrecendo... dava umas pereba nas pernas do povo... chamava catita... (Entr. 1, linha 617). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ...n/e 152. CATRE Nm [Ssing] ... aí empreitar as peça pra ele... catre e mesa e tudo... (23; 350). Entr.: ... tinha as camas... como é que era? Inf.: Tinha tudo... era cate. Entr.: Cate... como que é isso? Inf.: Cate é feito de madeira... igual essas cadeira aí ó... e corriava de couro. (31; 228-230). Entr.: Pra dormir o senhor dormia ni que? Inf.: Nós dormia no cate... chama cate encorriado... a mãe enchia de de... de palha de banana... e dormia no cate... cate encorriada. (33; 356-358). ... tira a paina e enche aquele colchão... tinha os catre de correia... hoje cabou tudo. Entr.: Catre de correia?‟ Inf.: Catre... era encorreado de couro de gado... (34; 252- 255). ... foi criado tudo dormindo ni cama... de catre... (34; 258). Entr.: Ocês dormiam era ni que? Inf.: Ni catre de madeira. Entr.: Catre de madeira? Inf.: Catre de correia... de couro de gado... eu ainda tenho um catre... o catre que era da minha mãe... eu ainda tenho um catre... ele era um catre desses de correia... eu tinha um catre que era largão... (36; 261-266). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Catre s.m. Leito de pés baixos, tem de lona a parte onde se lança o corpo; Os pés dobrão-se, e apertão-se com cilhas, quando se arma; camilha. 2. Morais: Catre s.m. Leito de pés baixos; tem de lona a parte onde se lança o corpo; os pés dobrão-se, e apertão-se com cilhas, quando se arma; camilha. 3. Freire: Catre s.m. cast. catre. Leito tosco e pobre. 4. Aurélio: Catre [do mamaliala kattil] s.m. 2. Leito tosco e pobre; grabato. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Catre (A) Nm [Ssing] Afr. Cama rústica. Cumpade Z A eu morei lá muitos ano tinha os catre de correia que ele dexô, que ele pôs lá pra mim. (Entr.8, linha 135). ______________________________________________________________________ 203 Origem: ... catre ‗leito tosco‘, catel s.XVI, catele XVI, catle XVI etc. Do tam. kattil ‗cama, sofá‘, relacionado com o sânscrito khatva ‗leito, catre‘. (CUNHA, 1986, p.166). 153. CATUÁ Nm [Ssing] ... acabou as braúna eles voltou nas madeira... catuá... madeira tudo forte também... (42; 296). ... tinha braúna... tinha caboclo... tinha catuá.... que era as madeira de lei que tinha né?... (43; 656). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Catuá s.m. Árvore da família das meliáceas, de madeira muito apreciada. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Catuá (n/d) s. Espécie de árvore, de madeira muito apreciada. ... tinha braúna... tinha caboclo... tinha catuá... que era as madeira de lei que tinha né... (Entr. 5, linha 644). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: tupi /indígena. 154. CAUSO Nm [Ssing] E agora eu até lembro de um causo que / e num foi do meu tempo não... (13; 346). ... pra nós aqui foi... que ês contava causo dos... (15; 275). ... pai diz que contava causo que o finado meu avô contou... (15; 279). ... eu pra minha idade eu nem posso contar meus causos... (33; 55). ... tocando burro de carga como nós tava contando o causo né? (33; 171). ... já vi falar... os meus criador contava os causo... (33; 224). Então... o causo é isso... (33; 328). ... nós tá contando um causo... (33; 361). ... então o causo meu foi esse... (40; 697). ... porque num tem outro causo aqui a não ser carvão. (45; 282). ... porque se fosse um causo deles sofrer... (45; 293). ... quando falava um causo desse: - Ah vamo morrer tudo!... (45; 315). ... eu falei: - Olha se o causo for de morrer vão ver... (45; 370). ... quando eles quer fazer um trabalho difícil sobre causo da cidade... (45; 428). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Causo. s.m. Pop. História, lenda, conto, ocorrência: e conta cada causo de deixar a gente pasma (Valdomiro Silveira) 204 4. Aurélio: Causo. [Var. pop. de caso.] S. m. Bras. Pop. 1. Conto, história, caso: _ Joaninha Vintém conte um causo (Raul Bopp, Putirum, p. 73). 5. Amaral: Causo. caso, s.m. – fato, ocorrência, anedota: Vô lê contá um causo. // Encontra-se em Gil Vicente., muitas vezes, caiso, como se encontra aito por auto. Terá a nossa forma dialetal relação com a Vicentina, ou tratar-se-á de mera influência de causa? Cp. A loc. Por causo de = por causa de. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Causo (A) s. História, conto, fato. ... essa meninada aí da escola... quando eles quer fazer um trabalho difícil sobre causo da cidade... eles vem praqui... (Entr. 7, linha 421). 2. Ribeiro (2010): Causo (A) Nm [Ssing] Lat. História, conto, fato. Pesq: Conta um caso engraçado... Inf: Mais causo eu num sei né fia? (Entr.9, linha 247). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e Origem: Causo – caso ‗acontecimento, fato, sucesso, ocorrência‘ s.XV. do lat. casus (CUNHA, 1986, p.162). 155. CEVEIRO Nm [Ssing] ... é o que ês mais matava aqui era jacu... fazia o ceveiro... matava jacu... Entr.: Ceveiro era a armadilha? Inf.: Não... ês punha a ração... punha a ração por cima ali né?... aí quando dava o horário sempre que ês vem comer fica escondido... e faz uma chocha... chama chocha o negócio de tampar... quando o bicho chega ês atira. (28; 335-339).). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Cevador s.m. O que ceva animaes. 2. Morais: Cevador s.m. O que ceva animaes. 3. Freire: Ceveiro s.m. Lugar onde se põe ceva para a caça; Lugar onde se põe comida afim de atrair peixes e pescá-los. 4. Aurélio: Ceveiro [de ceva + -eiro] s.m. Bras. 1. Lugar onde se põe ceva para a caça. 5. Amaral: Cevêro s.m. lugar onde se faz ceva para habituar a caça a frequentá-lo. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e Origem: ceva. céua s.XVI. der. regress. de cevar, do latim cibare (CUNHA, 1986, p.175). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo. 205 156. CHANHA Nf [Ssing] ... hoje num tem namoro... de jeito nenhum... hoje tem é chanha... namoro num tem... (8; 75). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Chanha ‗[de sanha, possiv.] s.f. Bras. PB pop. 1. V. coceira. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: sanha - do latim insânia, com aférese da sílaba inicial. (CUNHA, 1986, p.704) 157. CHANTEIRO Nm [Ssing] ... tinha aquela caixa... aquele tal de... azabumba... azabumba... chanteiro... cambeta... e violão. (13; 353). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... n/e 158. CHELEPADA Nf [Ssing] ... então eu num queixo da / do / das chelepada que eu ganhei... (1; 246). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 206 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e ______________________________________________________________________ Obs.: Provavelmente origem onomatopaica 159. CHILEPAR [V] ... e a moça também de dentro da casa pra ver o rapaz era assim... pelo buraquinho... e se fosse em contrário e gostava e o pai pegava e... chilepava. (15; 84). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: n/e ______________________________________________________________________ Obs: Provavelmente origem onomatopaica 160. CHIMANCO Nm [Ssing] Fazia biscoito moço... fazia biscoito tudo na palha de bananeira. Entr.: Na palha de bananeira? Inf.: É... era assim... fazia aquelas paiona de bananeira assim ó... e fazia os chimanco... que era dessa grossura... mas era gostoso. Entr.: Chimanco? Inf.: É... fazia aqueles biscoitão dessa grossura... aqueles chimancão grosso assim... e num tinha um que comia um biscoito só. (16; 664-667). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 207 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e 161. CHIMBAR [V] ... que ela é meio adoentada... passa chimbando uma perna... (40; 268). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Chimbar (n/d) v. Mancar; andar meio torto. Cf. Cachimbar. ... quando ela vai fazer exame... que ela é meio adoentada... passa chimbando uma perna... (Entr. 2, linha 263). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: n/e Obs.: provavelmente é caso de aférese de cachimbar. 162. CHINCHEIRO / CHINCHERRO Nm [Ssing] Era... aqui tinha o tropeiro que havia três tipo... a burrada na estrada... batendo o chincherro... aquilo dalã dalã dalã. Entr.: Batendo o que? Inf.: Ba / era um gangorro um chincherro. (27; 383-387). ... e saía com a tropa... tinha vez que os pessoal falava: _ Ó hoje nós tamo satisfeito ó... o chincheiro batendo dessa altura... vai chegar sal pra nós. (28; 76). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 208 3. Freire: Cincerro s.m. Cast. Cencerro. Campainha grande, ao pescoço do animal que serve de guia aos outros: ouvia-se de quando em quando o cincerro de um cavalo (Afrânio Peixoto 4. Aurélio: Cincerro (ê). [Do esp. Plat. Cencerro.] S. m. Bras. MG S. 1. Campainha grande pendente do pescoço da besta que serve de guia às outras: Os cincerros tilintavam sempre, marcando o passo cansado das bestas. (Lúcio Cardoso, Maleita, p. 14.) 5. Amaral: Cincêrro, s. m. – campana que se coloca ao pescoço das madrinhas de tropa, das vacas leiteiras etc. | Usado em todo o sul do Bras. – Do cast. Cencerro. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): CINCERRO • (A) • Nm[Ssing] • Cast. • Pequeno sino que se pendura no pescoço de certos animais. • Cheguei lá na porta assim vei treis bicho ne mim e vei assim pilililimpilim bateno cincerro...bateno um guizo (Ent.04, linha 162). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Cincerro sm. ‗campanhia grande pendente do pescoço da besta que serve de guia às outras‘ 1899. Do cast. Cencerro, de formação onomatopaica, talvez deriv. do basco zinzerri. (CUNHA, 1986, p.183). ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (MG). 163. CHOÇA /CHOCHA Nf [Ssing] ... mais no mais quando num era de arapuca era matando no... com a espingarda... dentro da choça... a caça saía e a gente atirava e matava né? (22; 283). .. é o que ês mais matava aqui era jacu... fazia o ceveiro... matava jacu... Entr.: Ceveiro era a armadilha? Inf.: Não... ês punha a ração... punha a ração por cima ali né?... aí quando dava o horário sempre que ês vem comer fica escondido... e faz uma chocha... chama chocha o negócio de tampar... quando o bicho chega ês atira. (28; 335-339).). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Choça s.f. Cabana rústica, colmada. / Casa humilde. 2. Morais: n/e 3. Freire: Choça s.f. Lat. plutea. Cabana feita de ramos de árvore ou de colmo; choupana. 2. Habitação rústica, humilde. 4. Aurélio: Choça s.f. 1. V. cabana. 2. Habitação humilde, pobre. 3. Gír. Prisão, cadeia. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 209 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... choça ‗cabana‘ ‗habitação humilde, pobre‘ s.XIII. De orig. obscura. (CUNHA, 1986, p.179). 164. CHORRÓ Nf [Ssing] Entr.: O que que tinha nesses mato aí de bicho... de ave? Inf.: De pena? Entr.: É. Inf.: Jacu... aranquã... zabelê... juriti... papagaio... lambu... cadorna... chorró... priquito... (6; 45). Ah hoje ocê trabalha um ano aí e ocê num vê uma chorró. (6; 60). Uma chorró é uma bicha que sobe num pauzinho... uma bicha que fica parãparãparã. Entr.: Ah é um passarinho! (6; 62). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Choró-choró s.m. Ornit. Ave do Ceará (Thanophilus leachi). 4. Aurélio: Chorró s.m. Bras. NE Zool. 1. Designação onomatopéica de aves passeriformes fornicarídeas, gen. Thamnophilus. [var. choca] . 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: designação onomatopaica. ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (NE). 165. CHUMBADO [ADJ.] ... porque ês falava que tinha um chumbado e eu falei: _ Quem atirou nele?... _ Ninguém!... ocê já tá embriagado... (3; 388). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Chumbado. O que está bêbado, de sorte que se move pesadamente. 3. Freire: Chumbar. v. r. v. De chumbo + ar. 16. Pop. Embriagar (Tr. dir.) 4. Aurélio: Chumbar. V. t. d. e i. 11. Embebedar, embriagar. 5. Amaral: n/e 210 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: chumbo s.XIII, chunbo XIII etc. do lat. plumbum (CUNHA, 1986, p.180). Chumbado. ‗embriagado‘ 1858‘ (CUNHA, 1986, p.180). 166. CHUMBALHADA Nf [Ssing] ... tomava azeite e remédio de horta... cozinhava lá uma chumbalhada doida... casca de / pó de tudo quanto é coisa ia... (13; 293). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: chumbo s.XIII, chunbo XIII etc. do lat. plumbum (CUNHA, 1986, p.180). Chumbado. ‗embriagado‘ 1858‘ (CUNHA, 1986, p.180). 167. CHUMBAR [V] ... ês lá bebia uma e ficava tudo... ês falava que chumbava e aí eu fui tirar o resultado e era embriagado... (3; 387). ... botava a panela no fogo lá e botava aquela massa e tratava ela ali... mais logo ele virava ele... encarcava... assava aquele beiju e botava lá... muita gente até chumbava porque a mandioca era forte. (12; 278). ... uns bebia aqueles que chumbava ês tirava e ia levando pra outra casa... (12; 394). ... de vez em quando tomava uma pinguinha... mas num bebia que nem hoje pra chumbar não... (39; 493). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Chumbar. v. r. v. De chumbo + ar. 16. Pop. Embriagar (Tr. dir..) 4. Aurélio: Chumbar. V. t. d. e i. 11. Embebedar, embriagar. 5. Amaral: n/e 211 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Chumbar (A) v. Embriagar, embebedar. ... o povo de vez em quando tomava uma pinguinha... mas num bebia que nem hoje pra chumbar não... (Entr. 1, linha 465). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: chumbo s.XIII, chunbo XIII etc. do lat. plumbum (CUNHA, 1986, p.180). Chumbado. ‗embriagado‘ 1858‘ (CUNHA, 1986, p.180). 168. CLAVINOTE Nf [Ssing] O armamento deles era... era clavinote. Entr.: Clavinote? Inf.: É clavinote que chamava. Inf.2.: Não... arma pesada... arma deles tinha outro nome... era carabina... clavinote não... clavinote é chumbeira... era da casa ali. Inf.1: Era da mesma grossura o clavinote. Inf.2: O clavinote era da casa... ocê num alembra que pai tinha uma... clavinote... clavinote... bacamarte... (15; 164-170). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Clavina s.f. Arma de fogo mais curta, que a espingarda. 2. Morais: Clavina s.f. Arma de fogo mais curta, que a espingarda. 3. Freire: Clavinote s.m. Pequena clavina. 4. Aurélio: Clavinote [de clavina + -ote] s.m. Bras. 1, pequena clavina. 5. Amaral: Cravinote, clavinóte s.m. certa espécie de carabina pequena. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: De carabina > *carbina > cravina > clavina. Clavina 1716.Do francês carabine (CUNHA, 1986, p. 152) ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo. 169. COBRE Nm [Ssing] É... réis... assim dez réis é um vintém... dez vintém é um cobre... dez... dois cobre é um tostão... dez tostão é um mil réis. (27; 52-57). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Cobre s.m. Metal avermelhado, quando está puro. 2. Morais: Cóbre s.m. Metal avermelhado, quando está puro. 3. Freire: Cobre s.m. 2. Moeda desse metal. 3. Pop. dinheiro. 4. Antiga moeda 212 brasileira de 40 réis. 4. Aurélio: Cobre ‗[do lat. cupru] s.m. 3. Por ext. moeda. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... cobre ‗ext. moeda‘ XIII. Do lat. cuprum –i. (CUNHA, 1986, p.191). 170. COIVARA Nf [Ssing] ... ele saía catando os carocinho de fava naquelas coivara pra cozinhar. (18; 404). No meio da coivara... sim... no meio da roça lá. (18; 407). ... queimava um par de lenha queimando... coivarão... (23; 383). ... ês jogava os cavaco tudo em cima... das coivara né?... (44; 267). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Coivara. s.f. Guar. Có + ibá. Montinho de galhos ou gravetos, incompletamente queimadosna roça, a que se deitou fogo, e que se juntam para serem reduzidos a cinzas: O fogo foi uma faísca da coivara (J. A. de Almeida). 4. Aurélio: Coivara. [Do tupi.] S. f. 1. Bras. Restos ou pilha de ramagens não atingidas pela queimada, na roça à qual se deitou fogo, e que se juntam para serem incineradas a fim de limpar o terreno e adubá-lo com as cinzas, para uma lavoura. [Cf. paulama (2).] 5. Amaral: Coivara. s.f. – paus meio carbonizados que restam de uma queimada: Assaltava, aqui, um monte de coivara velha; além, o sapê... (C.P.). // Do tupi co-ybá, mato seco, gravetos. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Coivara (A) s. Terreno coberto de galhos e troncos que restaram de uma queimada. ... ês jogava os cavaco tudo em cima... das coivara né... (Entr.6, linha 258). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): COIVARA • (A) • Nf[Ssing] • Ind. • Terreno coberto de galhos e troncos que restaram de uma queimada. O home bateu bateu pra quemá sapecaro o trem que o trem deu muita coivara aí fez a...arrumô a roça quas todo (Ent. 03, linha 113) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Coivara (A) Nf [Ssing] Ind. Restos de galhos ou gravetos 213 remanescentes de queimadas na roça que são unidos para serem reduzidos a cinza com a qual se faz a decoada. O sabão a gente quebrava a mamona, cascava, punha na panela, incestava a cinza. Buscava a cinza onde é que tinha e saía pro mato pra fazê coivara... (Entr.7, linha 171). ______________________________________________________________________ Origem: ... Coivara. sf. ‗técnica indígena, ainda hoje empregada no interior do Brasil, que consiste em pôr fogo em restos de mato, tronco e galhos de árvores para limpar o terreno e repara-lo para a lavoura; terreno coberto de galho e troncos quebrados‘ / 1863, coibara c1607 / De provável origem tupi. (CUNHA, 1986, p.194). 171. COM COISA Locução conjuntiva [Prep. + Ssing] ... quando ele olhou que tava aquele trem com coisa que tava meio deitada... (2; 448). ... o bicho tava com o bico tudo assim... com coisa que é um piru... (6; 158). ... e aquilo foi escurecendo... mas um escuro leve com coisa que era noite... (6; 346). Aí escureceu... via as estrela com coisa que era noite hoje... (18; 331). ... e o mundo ia ser iluminado com coisa que / era / que nem a luz do dia... (18; 497). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: com ‗prep. s.XIII. do lat. cum (CUNHA, 1986, P.197). / coisa ‗aquilo que existe ou pode existir‘ ‗objeto inanimado‘ cousa XIII, coussa XIII, coysa XVI. Do lat. causa (CUNHA, 1986, p.194). 172. COME E BEBE Loc.substantiva [V + Conj. + V] ...fazia um forró.. um churrasco né? Entr.: Ah...sei. Inf.: Um come e bebe... (42; 118). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Comes. s.m. pl. Comidas. // Obs.: us. Somente na loc. comes e bebes. 4. Aurélio: Comes. [Dev. De comer.] s.m. pl. 1. Us. Na loc. s. comes e bebes. Comes e bebes. Pop. Fam. 1. Comidas e bebidas: Os comes e bebes... difundiam-se pelo acampamento em regozijo (Melo Morais: Filho, Festas e Tradições Populares do Brasil, p. 151) 214 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Come e bebe (n/d) s. Festa ou encontro de amigos, regada de comida e bebida. ... fazia um forró... um churrasco né. / Entr.: Ah... sei. Inf.: Um come e bebe e aquelas brincadeira né... (Entr.4, linha 112). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: comer ‗ingerir alimentos‘ s.XIII. do lat. comedere (CUNHA, 1986, p.198). / beber ‗engolir líquido, ingerir‘ s.XIV, beuer XIII. do lat. bibere (CUNHA, 1986, p.103). 173. COMER BOCA Locução verbal [V + Ssing] ... mas num tinha essa história de abraçar beijar que nem eu vejo agora... comer boca como diz assim... ah! Comer boca!... (46; 53). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Comer boca (n/d) loc. verb. O mesmo que beijar na boca. ... mas num tinha essa história de abraçar beijar que nem eu vejo agora... comer boca como diz assim... (Entr. 8, linha 52). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: comer ‗ingerir alimentos‘ s.XIII. do lat. comedere (CUNHA, 1986, p.198). / boca ‗cavidade na parte inferior da face por onde os homens e outros animais ingerem os alimentos, e ligada com os órgãos da fonação e da respiração‘ s.XIII. do lat. buccam (CUNHA, 1986, p.114). 174. COMETA Nm [Ssing] ... viajava tocando boi... e esses cometa vinha de fora trazendo sal... trazendo num sei o que... sal e roupa pano e essas coisa. Entr.: Chamava cometa? Inf.: Cometa. Entr.: Ah! Inf.: Cometa. (13; 41-46). ... num sei se era cometa que chamava... eu sei que vinha um na frente... pois aí ia a cavalaria trás... os burro carregado... (15; 39). 215 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Cometa s.m. 3 Cobrador viajante, caixeiro-viajante. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Cometa astro de luminosidade fraca, que gira em torno do sol, e em muitos dos quais forma-se uma longa cauda‘ s.XIV. Do lat. cometa, derivado do gr. kometes. (CUNHA, 1986, p.198). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo encontrado no Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo definido como s.m. 3. [Brasil] Cobrador viajante.. 175. COM POUCO Locução adverbial [Prep. + ADV] ... ele foi descendo... com pouco tá lá lonjão... (1; 392). ... num deu nada e o povo foi sofrendo... foi sofrendo... com pouco deram pra arrancar uma raiz... (2; 46). ... era o ganho era aquele... foi indo... com pouco foi um réis... com pouco de um réis foi pra mil e quinhentos... (2; 237). ... e com pouco quando bem amanheceu o dia... (2; 331). ... quando eu cheguei com pouco o tempo deferençou... com pouco fez assim que nem pagar uma luz (2; 335). ... ês tava comendo com pouco aquilo fez vupt... (2; 338). ... e com pouco clareou outra vez e ficou claro... (2; 344). ... nós tava lá com pouco clã / vem ela com aquele cuidado com o filho... (2; 513). ... aí depois pegou a aparecer carro... com pouco moto... (4; 194). ... foi bebendo nessas cacimba... bebendo... com pouco a água virou lama... (4; 251). ... num tinha criosene num tinha nada... com pouco apareceu luz elétrica em tudo que é lugar né? (4; 439). ... com pouco eu vi uma zuada assim... (8; 379). ... com pouco foi amarelando o tempo... com pouco apresentou / o sol saiu... (10; 127). ... com pouco esse chiqueirinho bateu lá... falei: _ O coisa evem cá... falou: -Não!... era os porco... com pouco botou o pé... (10; 183). ... depois o tempo demudou sabe?... começou assim amarelando... e foi foi foi... com pouco escureceu né? (11; 276). ...um irmão meu tava até numa chácara panhando café pra cá...e com pouco foi escurecendo escurecendo...com pouco tampou...a gente só via os grilozinho... (12; 351). ... judiava com os escravo... judiava judiava judiava... diz que com pouco ês vendia / um homem branco comprava eles lá onde ês tava... (13; 172). 216 ... com pouco chegou os revoltoso... (13; 253). Inf.2: ... e aí trazia o povo... com pouco já começou vender... (16; 20). ... num vai acabar nada moço... aí com pouco foi clareando... (16; 527). ... mas num tinha sombra... com pouco sumiu... (16; 566). ... um homem no meio da estrada aqui... com pouco sumia... (17; 141). ... é outra hora vinha aquela ventania... com pouco surgia uma coisa branca lá na frente né? (18; 259). ... aí com pouco o carrão vei... feito de pau... (18; 345). Melhorava... com pouco foi / era melhoral... diz que era pra febre... (20; 148). ... com pouco ele pegou a rachar a carneira e saiu... (22; 415). ... com pouco chegava eu com... três quatro saco de feijão... (24; 152). ... entrou por baixo da terra ó puxando cristal...com pouco a terra desabou... (33; 270). ... eu conheci as letras... com pouco eu fui entendendo a carta... (34; 130). ... num podia passar... com pouco eu... eu cortei o pé com um carro de boi... (36; 120). ... era só mato... com pouco foi aparecendo gente fazendo casa. (36; 302). ... com pouco pensou que não ele adoeceu aí coitadinho... (36; 328). ... ia... com pouco cada pessoa vinha de novo... (39; 176). ... aí melhorou um pouquinho... com pouco o negócio de carvoeira... (39; 367). ... com pouco foi aparecendo esse negócio de prefeito... (39; 374). ... e com pouco apareceu o rádio... (39; 602). ... com pouco ela entrou lá dentro... (39; 607). ... com pouco ele chegou aqui na carreira... (40; 604). ... quando ele pensou que não... e com pouco chegou dois... (42; 530). ... o pai logo traz um carro... com pouco traz uma bola... com pouco já traz... (43; 24). ... com pouco aparecia uma família que queria lecionar os filho... (43; 81). ... foi chegando gente de fora... com pouco veio a prefeitura... (43; 213). ... e dali foi foi foi... com pouco já levaram lá pra baixo... (43; 214). ... com pouco ele deixa... um caminho pra trás né?... (43; 437). ... foi fechando fechando fechando... com pouco escureceu... (45; 319). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Com pouco (n/d) loc. adv. Daí a pouco, logo depois. ... ele passou pra essa beira do córrego... e foi pra lá pra praça né... com pouco ele chegou aqui na carreira... (Entr. 2, linha 565). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Com pouco (n/A) [Loc. Adv.] Port. O mesmo que daqui a pouco, ou daí a pouco. A rapadura a gente moía a cana... cabava de moê levava pra tacha pra podê ( ). Com poco ( ) ela dava conta de subi... batia ela... ela descia... (Entr.8, linha 134). 217 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: com ‗prep. s.XIII. do lat. cum (CUNHA, 1986, P.197). / pouco ‗em pequena quantidade‘ s.XIII. do lat. paucus –a –um (CUNHA, 1986, p.627). 176. COMUNISMO Nm[Ssing] ... nunca mais eu vejo falar na revolta... o comunismo disse que era pra entrar né?... mas o comunismo num tinha nenhum sentido... que nem hoje tá é comunismo. (4; 172). ... é toda vida falava... vai ter o comunismo... mas o comunismo é esse que tá hoje né? Entr.: Comunismo que a senhora fala seria o que? Inf.: É esse povo desvagado que tá no mundo... essa safadesa. (4; 176). ... ela casava quase sem ver o namorado... né igual hoje não... mas hoje virou comunismo. (45; 102). ... tinha a festa do comunismo. Entr.: Festa do comunismo? Inf.: Sim. Entr.: Como que era isso? Inf.: É a festa do comunismo... nós ia tudo... chegava lá era uma cachaçada... era um pau de fora a fora... era bater nuns os outros aleijando e brigando... (48; 263-268). ... esse povo num vai aceitar... num vai aceitar o comunismo... num vai aceitar voltar praquela lei Antígona aquele sofrimento... (48; 344). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Comunismo (n/d) s. Bagunça, briga, confusão. ... tinha a festa do comunismo. / Entr.: Festa do comunismo? / Inf.: Sim. / Entr.: Como que era isso? / Inf.: É a festa do comunismo... nós ia tudo... chegava lá era uma cachaçada... era um pau de fora a fora... era bater uns nos os outros aleijando e brigando... a festa só acabava em briga. (Entr. 10, linha 259). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Comunismo. sm. ‗sistema econômico e social baseado na propriedade coletiva‘ / -mm 1873 / Do fr. Communisme. (CUNHA, 1986, p.202). 177. CONTO Nm [Ssing] ... tem um aí que custa vinte e dois conto... (18; 101). ... hoje tá custando trezentos quatrocentos quinhentos conto... (18; 531). ... que vendia vinte e cinco mi réis... era conto... (34; 217). ... dez arroba de fumo por oitocentos conto... oitocentos... é oitocentos conto... (34; 218 301). ... que eu tinha vendido dez arroba de fumo por oitocentos conto... mas naquele tempo oitocentos conto era muito dinheiro mesmo. (34; 305). ... o médico me operou... me cobrou setenta conto... setenta mile continho... setenta conto chamava mile naquele tempo... (48; 158). ... diz que custava três mil conto... (48; 168). ... se pagar um camarada todo dia dez quinze conto pro camarada a lavoura num dá pra pagar... (48; 485). ... o jogo de sofá custa cinquenta conto ele fala: _ É quinhentos conto... é quinhentos conto.... (48; 501). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Conto. Numero. Naõ he outra cousa mais que Milhão, a saber, dez centos mil, com esta diferença, que conto se diz de reis, & Milhão de cruzados, & outras cousas. 2. Morais: Conto. Milhão, ou dez vezes cem mil: mas dizemos de ordinário um conto de réis, e um milhão de cruzados, de libras tornezas, ou esterlinas. 3. Freire: Conto. s.m. Lat. computus. O mesmo que conto de réis: Não obstante, insistiu na ideia para liquidar os seus haveres contados por centenas de contos (Camilo). 4. Aurélio: Conto¹. conto1 [Do lat. computu, por via popular.] S. m. 1. Conta, cômputo, número. 2. Lus. Mil escudos. 3. Obsol. Conto de réis: Pois o rapaz me pediu três contos e quinhentos pelo rádio, você já viu? (José Carlos Cavalcanti Borges, O Assassino, p.22). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Conto (A) s. Dinheiro, moeda sem valor específico. ... se pagar um camarada todo dia dez quinze conto pro camarada a lavoura num dá pra pagar. (Entr. 10, linha 478). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: contar ‗relatar, narrar‘ ‗calcular, computar‘ s.XIII. do lat. computare (CUNHA, 1986, p.210). 178. CONTRADANÇA Nf[Ssing] ... canta assim em frente de um presépio... e agora num cantou lá... Sebastião tem uma casinha pra frente... ali cantou... cantou o Reis... foi muito bonito... cantou contradança. (7; 283). Entr.: Como que é essa contradança? Inf.: Contradança depois que canta o Reis sai cantando as cantiga... (7; 287). É... canta muito... elas canta muito contradança. (7; 290). ... todas cantada do Reis que cantou Reis e agradeceu Reis e cantou contradança... tem a contradança... aí enfezaram enfezaram enfezaram... pode cantar (nome)... pode 219 cantar (nome)... (13; 387). Entr.: ... tinha umas festa do pessoal cantar também num tinha? Inf.: Tinha... toda vida tinha festa assim de contradança... (16; 609). Tinha contradança... a hora que terminava o Reis o dono da casa abria a casa e nós fundava dentro pra fazer a contradança... (16; 628). ... entrava pra dentro da casa e cantava a contradança... (19; 379). É... esse mês canta um Reis lá... ês cantaram esses dias pra trás... mas eu vou te falar moço... uma contradança... Entr.: Como que é a contradança? Inf.: A contradança é bater / os quatro companheiro... seis companheiro marcando assim e fazendo a roda e cantando... (37; 304-307). ... e os nego cantando e pulando moço... fazendo / ( ) contradança... (39; 491). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Contradança s.f. Dança figurada de quatro, seis, oito, ou mais pessoas. 2. Morais: Contradança s.f. Dança figurada de quatro, seis, oito, ou mais pessoas. (do inglês country-dance, dança campezinha). 3. Freire: Contradança s.f. Fr. contredance, do ingl. Country-dance. Dança de quatro ou mais pares, defrontando uns com os outros; quadrilha. 4. Aurélio: Contradança ‗[do fr. contredance] s.f. 1. Dança de caráter rústico, de quatro ou mais pares que se defrontam e executam uma série de movimentos contrários. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: contradança, s.XIX. Do fr. contredance, adapt. do inglês por etimologia popular, country-dance ‗dança campestre‘. (CUNHA, 1986, p.212). ______________________________________________________________________ Obs: Contrariando a informação encontrada em Cunha, o vocábulo era dicionarizado em Bluteau e em Morais. 179. CORANA Nf [Ssing] Entr.: Que fruta que era comum aqui? Inf.: Aqui é essa... jaboticaba... tinha uma canjerana. Entr.: Canjerana? Inf.: É... tem essa... fruta pra passarinho... tem uma tal de corana. Entr.: Corana? Inf.: Ela é vermelhinha assim... uma frutinha vermelhinha que só come só jacu aranquã... essas coisa que come ela. (18; 575). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Corana s.f. Planta solanácea (Cestrum auriculatum). 4. Aurélio: n/e 220 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e 180. CORESMA Nf [Ssing] ... Pois é... tinha mesmo... nó quando era assim na coresma... ô tinha vez quando era na sexta feira santa... (18; 278). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Coresma v. quaresma. 2. Morais: Corésma v. quaresma. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Coresma ‗s.f. ant. pop. 1. V. quaresma. 5. Amaral: Coresma, quaresma s.f. forma arc. e pop. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... quaresma s.XIII, quaraesma XIII, quareesma XIV, coresma XV. Do lat. tardio quadragésima, através de quaraesima. (CUNHA, 1986, p.650). ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo. 181. CORGO Nm [Ssing] ... no fundo da casa tinha um córgo... um corgão seco... (2; 516). ... os home tava tudo em frente do córgo... aí nós foi e chegou lá entremo debaixo desse... dessa barroca... desse córgo e fiquemo... (2; 518). ... dois desceu nesse córgo... e o córgo era água limpa... (2; 521). ... panhava né?... é aqui nesse córgo aqui... (11; 333). ... tinha um córgo que já vem... chama córgo Cambeta... então esse córgo caia aqui na / na beira desse córgo era um lagoão... (22; 20-22). ... porque tinha o córgo aqui mas sempre ia no rio lavar roupa... a água era melhor né?... do que a do córgo né?... também tinha o córgo toda vida... um córgo cheio toda vida né?... (22; 203-206). ... pegava aqui nos barranco do córgo aqui... isso aqui era um córgo... (22; 238). ... porque esse córgo aqui era... era um rio né?... (23; 93). 221 É... é... não... é o córgo. (23; 162). ... as água tá curta... mas é mais curta mas tem... aqueles corgozinho que... ainda tinha uns corgozinho que caía dentro do Pardo né?... (24; 112-113). ... aqui tinha um córgo assim... atravessava um pau assim... (30; 127). ... né porque o córgo / a água do córgo que passa aí é vermelha... (53; 159). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Corgo. s.m. Pop. O mesmo que córrego. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Córgo córrego s. m. - riacho. | F. J. Freire: dá o t. como antiq. e equivalente 'a ―regueiro‖. Ad. Coelho, na ―Ling.‖, dá esta palavra entre as que ― estão realmente caídas em desuso ou vivem só como termos provinciais. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Corgo• (n/A)• Nm [Ssing] •Lat.•Riacho• É. Aí ês rezava, cantava, pidia um pai-nosso e umas três ave-maria 221ás arma. E tale coisa. E diz que num pudia incontrá. Aí se tivesse ota turma rezano de lá do corgo... (Ent. 13, linha 437) 3. Freitas (2012): CORGO • (n/A) • Nm[Ssing] • Lat > Port • Riacho • Fui lá no corgo tomei bãim passei um trem na cabeça assim o sangue taiô (Ent.02, linha 106) 4. Miranda (2013): Córgo (n/A) Nm [Ssing] Lat > Port. Curso dágua de pequena largura, variante de córrego. ... num tinha criação de gado... num tinha terreno... morava no terreno de J. Mortimer aí ó... na beira do Guanhães... aonde o córgo do jacaré despeja no Guanhães. (Entr.1, linha 542). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Córrego. sm. ‗riacho‘ XVI. Do lat. *corrugus. (CUNHA, 1986, p.219). ______________________________________________________________________ Obs: Caso de retenção linguística conforme Amaral. 182. CORONEL Nm [Ssing] É... aquele tempo era coronel...falou tá falado... mandou chamar tinha de ir... (6; 207). ... a casa é inté ali... que é a sde do coronel... (48; 187). ... como coisa que ele é um coronel... _ Fica corno!... tá pensando que coronel num morre!... governo morre... quanto mais coronel!... (50; 441). Era coronel daqui... era a casa que eu tou te falando... (50; 479). Cabou negócio de coronel... cabou... (50; 499). ... chegou o... o coronel José Venâncio... esse aí foi o chefão daqui... (53; 183). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Coronel s.m. O official de mayor patente, e chefe de um regimento. 2. Morais: Coronél s.m. O official de mayor patente, e chefe de um regimento. 222 3. Freire: Coronel. s.m. Ital. colonello. 2. Chefe político, no interior do Brasil. 4. Aurélio: Coronel. coronel1 [Do fr. colonel.] S. m. 4. Bras. Chefe político, em geral proprietário de terra, do interior do Brasil. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Coronel (A) s. Chefe político no interior do Brasil e geralmente detentor de grandes riquezas em sua região. Cabou negócio de coronel... cabou... (Entr. 12, linha 486). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Coronel¹. s.m. ‗posto da hierarquia militar‘ 1813. Do fr. Colonel, deriv. Do it. Colonello ‗comandante de uma coluna‘. (CUNHA, 1986, p.219) 183. CORRER VIADO Locução verbal [V + Ssing] ... eu gostava de quando eles ia... quando ês ia correr viado... aqui tinha dois cachorro ensinado... (5; 194). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: correr s.XIII. do lat. currere (CUNHA, 1986, p.219). / veado s.XIV. do lat. venatus –us ‗caça‘ (CUNHA, 1986, p.813). 184. CRIOSENE Nm [Ssing] ... muita gente mais que podia comprava criosene... tinha aquele vidrinho feito / um candieiro... chamava candieiro... tinha as asinha de pegar o vidrinho... e enchia de criosene... (3; 393-395). ... criei meus filhos lumiando com candeia de azeite... num havia criosene... (4; 13). ... num tinha esse negócio de luz não... num tinha criosene num tinha nada... (4; 439). ... depois quando num tinha a luz elétrica em tudo que quanto era lugar era criosene... que a gente comprava era lata de criosene para lumiar... (4; 441). 223 ... trás aí um alamparina pra ele ver... botava criosene... agora eu tou sem criosene eu num sei o que vou fazer... (4; 444-446). ... é o criosene eu botava nesse funilinho aí ó... (4; 456). ... que era só negócio de criosene... e lamparina... (17; 117). ... e pra cantar nós botava criosene no eixo dele... (27; 45). ... é a lamparina que a gente tinha era essa... nem o criosene num tinha. (27; 478). ... depois apareceu o criosene... aí já chama candieiro né? (33; 325). Entr.: Ah candeia? Inf.: É... azeite e criosena. (35; 161). Lamparina... lamparina... o povo fazia lamparina de vidro né?... agora nós comprava o criosene e panhava na lamparina com a... (36; 244). ... pra num gastar muito criosene... era a candeia de azeite... (36; 249). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... querosene ‗líquido resultante da destilação do petróleo‘. Kerosene 1873. Do fr. kérosène, do gr. keros ‗cera‘. (CUNHA, 1986, p.654) 185. CULIAR [V] ... e quando foi um dia nego culiou... (42; 427). ... aí eles culiou mais o outro moço... (42; 430). ... era praticamente coliado moço... (42; 513). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Culiar (n/d) v. Combinar, ajustar, coligar. ... aí eles culiou mais o outro moço... (Entr. 4, linha 417). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 224 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e 186. CUMA / CUME / CUMO [Conj.] ... nós num tinha nada... e cumo num tem até hoje... (4; 08). Entr.: ... e o senhor costumava ir nadar ir no rio pra pescar? Inf.: Cuma cumpade?... num ia não! (32; 67). Entr.: O senhor lembra falar de um povo... Inf.: Cuma é? (34; 223). Entr.: ... quando o senhor era pequeno ocês dormia em que? Inf.: Cuma é? (34; 243). Entr.: Pra ganhar neném como que era? Inf.: Cume? (41; 79). Fac.: ... pra responder as pergunta pra ele. Inf.: Cume? (41; 233). Entr.: E aonde o senhor foi casar então? Inf.: Cuma? (42; 83). Entr.: ... como era esse rio? Inf.: Cuma? (50; 66). Entr.: Porque esse rio aí chama Rio Mosquito? Inf.: Cuma? (50; 79). Entr.: ... e como que era pra namorar antigamente? Inf.: Cuma? (50; 146). Entr.: ... os pais do senhor já contou que tinha escravo aqui na região? Inf.: Cuma? (50; 180). Entr.: ... que fala de um tal de bicho da carneira. Inf.: Cuma? (50; 275). Entr.: Como é que era? Inf.: Cuma? (50; 409). Entr.: O senhor já teve medo de alguma coisa? Inf.: Cuma? (50; 428). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Cuma ~cume (n/d) pron. Interrog. Variante de como. Entr.: E o rio aqui... como era esse rio? / Inf.: Cuma? (Entr. 12, linha 64). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Cume / cumo (n/d) [Conj] Port. (CUNHA, 1986) O mesmo que como. O pinhão é cumo diz. É igual a mamona mesmo. Discascava aquilo e punha dentro dum balde... (Entr.9, linha 138). ______________________________________________________________________ Origem: como conj. ‗da mesma forma que‘. Adv. ‗de que maneira‘ s.XIII. do lat. vulg. como, class. quomodo (CUNHA, 1986, p.199). ______________________________________________________________________ Obs: É vocábulo considerado antigo de acordo com Gladstone Chaves de Melo, em A língua do Brasil, 1975, p.113. 187. CUMÊ Nm [Ssing.] ... aí pegava / botava / pedia uma janta... pedia cumê pra dez homem... pedia cumê pra 225 dez homem... aí deixava aquele cumê lá pra pagar... e sumia... (16; 604). Dá... dá o cumê... dá de beber... (23; 251). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Comer. s.m. O que se come. / Comeres, viandas. 2. Morais: Comer s.m. O que se come. A refeição que se toma entre dia. 3. Freire: Comer. S.m. Comida, alimento. || 2. Refeição usual. 4. Aurélio: Comer . [Do lat. Comedere, pela var. vulg. *comere.] S.m. 20.Comida (1 e 3). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Cumê• (A)• Nm [Ssing] • Lat.• Comida.• Quando eu vô lavá aquê tanto de trem cum coisa que feiz cumê prum povão. Agora é bão. Nóis vai pus café. Só faço arroiz, feijão e carne. (Ent. 12, linha 30) 3. Freitas (2012): CUMÊ • (A) • Nf[Ssing] • Lat > Port • O mesmo que comida. • Lá em casa era muito menino era nove...tinha que fazê as panelada de cumê...tinha dia que mamãe fazia uns cumê engraçado né um mamão com aquê trem...tinha dia que num discia não (Ent.03, linha 133). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: comida ‗o que se come‘1570. De comido, part. de comer (CUNHA, 1986, p.198). 188. CUNZINHAR [V] ... quando tinha o feijão ocê panhava ele de noite pra cunzinhar... ocê cunzinhava a noite inteira... (4; 71). ... o peão chegava num pouso... derrubava a tropa... botava num mangueiro... ia cunzinhar panela de feijão... (6; 119). ... pegava uma mandioca e cortava e cunzinhava... (21; 231). ... lá cunzinhava / pegava aquelas lenhazinha e lascava lá e cunzinhava... (32; 184). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 226 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... cozinhar ‗cozer‘ XIV. Do lat. tardio cocinare, cláss coquinare. (CUNHA, 1986, p.224). 189. CURIANGO Nm[Ssing] Aqui cabou o peixe... aqui cabou o curiango... cabou a voz da lua... cabou a joana de barro... (27; 153). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Curiango s.m. Ave noturna do Brasil, do bico muito largo e fendido, da família dos caprimúlgidas; bacurau.  2. Nome comum a três aves da família dos caprimúlgidas, também chamadas curiangu. 4. Aurélio: Curiango [Do quimb.] S. m. Bras. Zool. 1. Ave caprimulgiforme, caprimulgídea (Nyctidromus albicollis), uma das mais comuns, distribuída desde o S. do México até o N.E. da Argentina, de coloração pardo-amarelada finamente pintada de preto e com manchas pretas maiores, rêmiges pretas com fita branca. 5. Amaral: Curiango curiangú, s.m. ave noturna do gen. Caprimulgus: ‗A noite caía de vagarinho (sic) e os curiangos começavam a cantar pelas estradas‘ (C.P.). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): CURIANGO • (A) • Nm[Ssing] • Afr. • 1. Pequena ave negra de hábitos noturnos. 2. Tipo de cantiga acompanhado por dança de roda • (R...) me levô numa festa aqui na Vage Bunita a note intera dançano o curiango ea pôs nome ne mim de curiango ( (risos)) ea botô porque eu gostava do curiango...curiango da mata envem vem matá meu bem curiango da mata envem mais só cê veno aquli era gostoso demais a gente pruveitô hoje ó tem essas bobajada (Ent.03, linha 189). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: do banto. Africanismo (CASTRO, 2001, p. 216) 190. CURICA Nm[Ssing] ... piaba piau traíra curica curimatá... tilapa não... (6; 381) Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Curica s.m. o mesmo que ajurú-curau. / Curica pequeno s.m. ave psitacídia (Didascalus brachiurus). 227 4. Aurélio: Curica [do tupi] s.f. 1. Bras. Zool. 1. Ave psitaciforme, psitacídea (Eucinetus barrabandi), da Amaz. De coloração verde, cabeça, garganta e ponta de caudas pretas, faces e encontros alaranjados, peito amarelo-oliváceo. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... curica ‗variedade de papagaio‘, coríca s.XVI, coriqua XVII. Do tupi ku‟ruka. (CUNHA, 1986, p.235). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. Não foi encontrado o vocábulo na acepção de peixe, mas apenas ave. 191. CURISCO Nm[Ssing] Essa espingarda eu já matei duas capivara com um tiro só... e elas era um curisco (15; 285). Ó morreu um mucado aqui!... ó lá onde que desceu um curisco... (50; 462). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Corisco s.m. De coriscar. Faísca elétrica.  2. Centelha que rasga as nuvens eletrizadas, sem que se ouçam trovões: Volteavam em redor de minha inteligência uns corpos, em redor de minha inteligência uns corpos, ora negros como o recesso dos abismos, ora ígneos como as fitas dos coriscos (Camilo) 4. Aurélio: Corisco [Dev. De coriscar.] S. m. 1. Faísca Elétrica. 2. Centelha que fende as nuvens eletrizadas sem se ouvirem trovões. [Sin. Pop. (nesta acepç., no RS): mandado-de-deus ou apenas mandado. ] . 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): CURISCO • (A) • Nm[Ssing] • Lat > Port • Faisca elétrica. O mesmo que raio. • Num sobrô nem uma muenda pra contá caso...quebrô as treis muenda rachô como se fosse um curisco que caiu nele (Ent.02, linha 192) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Corisco (A) Nm [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Faísca elétrica na atmosfera, raio, relâmpago. O que eu já passei medo vindo da roça lá no... distância 228 de cinco quilômetro foi tempestade. Isso aí eu já passei medo. Corisco caía ni mim, em roda de mim todo canto. (Entr.3, linha 809). ______________________________________________________________________ Origem: ... Coriscar vb. ‗brilhar como corisco‘ ‗faiscar, relampejar‘ XVI. Do lat. Coruscāre  corisco XIII. Der. regress. de coriscar. Cp. CORUSCAR. (CUNHA, 1986, p.217). 192.CURTUME Nm[Ssing] ... tem uma casa d‟um curtume que fica lá em baixo... cubriu a casa do curtume... foi uma enchente perigosa né? (11; 113). É... mexe até hoje... tem um velho lá que tem um curtume. (11; 118). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Curtume s.m. Ação de curtir couros; curtimento. 3. Substancia com que se curte. 4. Lugar em que se faz o curtimento de peles. 4. Aurélio: Curtume [de curtir + -ume] s.m. curtimento de couros, peles etc. 3. Estabelecimento onde se curtem couros. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Curtume (A) Nm. [Ssing] Cont. Lugar onde se curte o couro. Mas o de carneiro quem sabia alvejá era ne lugá onde aí... tinha as fábrica e o curtume próprio daquilo (Entr.1, linha 313). 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: De origem controvertida. Curtume ‗curtimento (de couros, peles etc.)‘, ‗estabelecimento onde se curtem couros‘ 1844. (CUNHA, 1986, p.235). 193. CUSCUZ Nm[Ssing] ... um dia fazia um cuscuz outro dia fazia um angu fazia uma pomonha... (19; 435). ... comia uma colherzinha de fava um dia... o outro dia comia uma banda de cuscuz com garapa de cana... (32; 11). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Cuscuz s.m. Massa reduzida a graozinhos, que se come cozida ao vapor da água quente. 2. Morais: Cuscuz s.m. Massa reduzida a graozinhos, que se come cozida ao vapor da água quente. 3. Freire: Cuscuz s.m. Berb. Kuskus. Bolo feito de farinha de milho ou de arroz e cozido ao vapor de água fervente. 4. Aurélio: Cuscuz [do ar. kuskus] s.m. 1. Bras. Cabo-verd Guin. Cul. Iguaria feita 229 de farinha de milho (em geral graúda) cozida ao vapor.‘ 5. Amaral: Cuscuz s.m. espécie de bolo de farinha, cozinhado em forma ao bafo da água quente. Frequentemente se adicionam à farinha camarões, peixe ou galinha, palmito e vários temperos. Encontra-se em Gil V. (Juiz da Beira). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... cuscuz ‗iguaria feita de farinha de milho ou de farinha de arroz etc., cozida no vapor‘ s.XVI, coscus XV, cuscus XVI. Do árabe. kuskus. (CUNHA, 1986, p.236). D 194. DAÍ [ADV] ... daí chegou nessa condição de hoje que tá bem desenvolvido né?... (1; 23) ... daí dipois o... / ele vendeu a fazenda... (1; 51). ... e aí fiquei... daí que uma menina minha casou com um moço viúvo... (2; 62). ... e daí foi embora também pra São Paulo todo mundo... (2; 89). ... parecia uma rede... subia e descia... daí quando chegou lá... (3; 311). ... aí ele foi... daí com poucas horas ele chegou... (4; 331). ... e daí depois ponharam umas escolinha também na roça... (19; 104). ... daí é que começou a sair pra fora ni chuva... (25; 45). ... daí quando foi mais tarde... (40; 404). ... e eu fiquei com essa menina aí sofrendo... daí a minha sobrinha... (40; 477). ... daí eu falei eu não podia sair... (40; 494). ... daí eu vim... chegou aqui com essa menina... (40; 518). E daí eu comecei... (40; 782). ... daí começou a aparecer os médico... (43; 275). ... só teve uma turma de cigano que chegou aqui e invadiu a rua né?... daí saíram... (44; 301). ... ele fala que é pra comer... os parente comer... daí comer numa redondeza de dez léguas... (44; 478). ... dinheiro que eu já ganhei foi assim... e daí foi aumentando aumentando... (45; 184). Bom e daí... daí meu marido resolveu comprar essa terra aqui... (49; 14). ... daí ele ia lá pra casa... (49; 61). ... eu nasci foi nas mata pra lá... daí quando nós veio praqui já tinha Águas Vemelhas... (49; 258). ... daí Deus ajudou e minha mãe foi rezando e botava nós pra rezar... (52; 413). ... daí agora que Deus ajudou que parou tudo... (52; 434). Daí num tinha esse negócio de beijar... era de longe. (53; 74). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 230 3. Freire: Daí ou dahi contr. Combinação da preposição de com o adv. aí. 4. Aurélio: Daí [contr. da prep. de com o adv. aí] . 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... daí ‗contr. da prep. de com o adv. aí / dy s.XIV, di XIV, dj XIV. (CUNHA, 1986, p. 239). 195. DA MODA Locução substantiva [{Prep. + Art.} + Ssing.] Tá vendo da moda que era antigamente. (16; 154). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: modo ‗maneira, forma, método, disposição‘ s.XV. do lat. modus (CUNHA, 1986, p.526). 196. DANADO [ADJ.] ... matava boi matava vaca... um festão danado né? (1; 255). ... quando é lá um belo tempo o danado vai e morre né?... o danado vai e morre... (1; 432). ... que bateu uma friajona danada né? (1; 443). ...É meu filho mas a ciganada hoje teve aqui e foi um aperto danado... (1; 542). ...jogou na rua...prendeu ele...judiou com ele né?...e foi um desmantelo danado né?... (11; 225). É um porco do mato. Entr.: Ah... Inf.: O danado chegar numa roça de mandioca ele num deixa um pé. (18; 187). ... a veia tinha uma inteligência danada... fazia renda fazia crochê... fazia tudo. (18; 232). ... muita gente correu nessa descida... danada... de lá pra cá corria... (18; 261). 231 ... levava o arroz com casca e trazia limpo... era um sofrimento danado... (23; 411). ... trinta e nove deu uma fome danada... (25; 162). ... tomava uma cachaça danada... e cantava Reis a noite intirinha... (32; 227). ... matava e enterrava lá mesmo... num ligava não... uma vida danada. (32; 366). ... agora antigamente era só no cavalo... cavalaria danada e negociando... (37; 229). ... eu toda vida... eu era a mais danada né?... (40; 332). ... mas como eu era mais danada... (40; 340). ... foi dançar... mais uma sobrinha minha que era danada... (40; 401). ... mas eu já tou tão danada porque esses dias eu tava lá... (40; 793). ... era um cidadão armado com um fusilão danado... (42; 523). ... esse danado é meio sem vergonha... bota ele pra dentro e fecha o portão... (45; 420). ... que eu tenho um medo do erro danado... (48; 305). ... era cantando e batendo o pandeiro... e o bumba... e aquela folia danada. (52; 322). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Damnado part. pass. de damnar. / Condenado ao inferno. / Apaixonado, mal disposto contra alguém, de mao animo, e mao intencionado. 2. Morais: Damnado (p.pass. de damnar. / Condemnado ao inferno. / Apaixonado, mal disposto contra alguem, de mao animo, e mao intencionado. 3. Freire: Danado ou damnado adj. p. pass. de danar. Zangado, furioso, raivoso. 2. Esperto, hábil, jeitoso. 4. Maldito, condenado. 4. Aurélio: Danado adj. 1. Amaldiçoado. 2. Irado. 4. Mau. 5. Fam. Travesso. 5. Amaral: Danado q. zangado, furioso; duro, malvado; teimoso; ágil, forte, esperto; hábil, finório. Acrescenta-se frequentemente um modificador: ‗danado de bão, de brabo, de experto, de teimoso‘. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Danado s.XIV. Do lat. damnatus, part. pass. de damnare. (CUNHA, 1986, p.239). ______________________________________________________________________ Obs: O mesmo que grande, vultoso; amaldiçoado; esperto, hábil. 197. DANAR [V] ...Sai fedaputa ocê num tem o que fazer!... vai pro quinto dos inferno!... e ês danaram a rir... (13; 377). ... aí num sei como que eu fiz... danou com medo de... porque tinha um boi que deitava em riba da ponte sabe? (36; 123). É... aqui danou a chorar né?... (44; 374). ... aquelas conversa antiga né?... nós danava a rir... (45; 88). Registro em dicionários: 232 1. Bluteau: Damnar v. at. Corromper fizica, ou moralmente. / Fazer damno, offender, molestar. Deitar a peder, arruinar. Causar a raiva, doença. 2. Morais: Damnar v. at. Corromper física , ou moralmente. Fazer damno, offender, molestar. Deitar a perder, arruinar. Causar a raiva, doença. 3. Freire: Danar ou damnar v.r.v. lat. damnare. Causar dano a , prejudicar. 4. Aurélio: Danar a Bras. 1. Pôr-se, começar. / Danar 1. Causar dano a; prejudicar, estragar, adulterar, danificar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... Danar ‗vb. ‗prejudicar, irritar‘ ‗comunicar a hidrofobia, encolerizae‘ XIII. Do lat. damnare.‘ (CUNHA, 1986, p.239). ______________________________________________________________________ Obs: danar significando começar. 198. DANURA Nf [Ssing.] ... esse povo ês fazia muita danura... destruía muita coisa... (19; 198). Registro em dicionários: 1. Bluteau: 2. Morais: Damnação s.f. Condemnação. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Danura [de danado + -ura] s.f. Bras. GO fam. 1. Travessura, diabrura, danação. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: danado s.XIV. Do lat. damnatus, part. pass. de damnare (CUNHA, 1986, p.239). ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (GO) conforme o Aurélio acima. 199. DAR NO COURO Locução verbal [V + {Prep. + Art. + Ssing}] ... - Õ homem deixa de beber procê aturar mais... já num tá dando no couro mais... 233 (50; 332). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Dar no couro Bras. RJ SP Gír. Fig. 1. Acertar plenamente. 2. Servir, satisfazer plenamente determinado objetivo. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: dar s.XIII. do lat. dare (CUNHA, 1986, p.239). / couro s.XIV, coiro XIII, coyro XIII. do lat. corium (CUNHA, 1986, p.223). ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (RJ, SP) conforme Aurélio. 200. DAR O FORA Locução verbal [V + Art. + ADV] ... o cara bateu ni mim e eu caí... o cara deu o fora... (7; 315). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Dar o fora loc. verb. Fugir, ir embora. 2. Quebrar um trato. 4. Aurélio: Dar o fora 1. Ir-se embora; arrancar-se, raspar-se. 2. V. fugir. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: dar s.XIII. do lat. dare (CUNHA, 1986, p.239). / fora s.XIII, foras XIII. do lat. foras (CUNHA, 1986, p.364). 201. DAR POR FÉ Loc. Verbal [V + {Prep. + Art. + Ssing}] ... se ele dar por fé de um caçando lá... dá queixa logo. (20; 18). ... quando a pessoa dava por fé que ês tava caçando ês botava o jagunço atrás... (21; 26). ... quando deu por fé tava aquela fogueira medonha... (42; 433). 234 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Dar fé de. loc. verb. Ver, notar. 4. Aurélio: Dar por fé. Dar por fé. 1. Afirmar como verdadeiro; certificar. Garantir, por encargo legal, a verdade ou autenticidade do conteúdo de um documento ou relato; portar por fé. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Deu por fé (n/d) loc. verb. Perceber, notar. ... fizeram aquele rebuçado de capim... botou fogo... e o fogo trançou nesse paiol... quando deu por fé tava aquela fogueira medonha... (Entr. 4, linha 419). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Dar fé (A) [Fras] Port. (CUNHA, 1986) Notar, perceber. Menina, pois quem trabaia na roça quase volta e meia. Se ocê num dá fé cê tá vendo ele. (Entr.10, linha 333) ______________________________________________________________________ Origem: dar s.XIII. do lat. dare (CUNHA, 1986, p.239). / por s.XIII. do lat. tardio por, forma metatética do cláss. pro, (CUNHA, 1986, p.623). / fé s.XIII, fee XV. Do lat. fides (CUNHA, 1986, p.351). 202. DE BITUCA Locução adverbial [Prep. + ADV.] ... quando o soldado chegou lá onde tá ele ele tava de cá meio de bituca já olhando lá... (15; 150). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... n/e ______________________________________________________________________ Obs: O mesmo que ‗à espreita‘. 235 203. DE CERTO Locução adverbial [Prep. + ADV.] Sim senhor... de certo eu tenho sangue de índio... (8; 60). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: De certo loc. adv. Com certeza. 4. Aurélio: Decerto [de de + certo] adv. 1. Com certeza; por certo, certamente. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de ‗prep. S.XIII. do lat. de (CUNHA, 1986, p.240). / certo ‗resolvido, decidido, correto‘ s.XIII. do lat. certus (CUNHA, 1986, p.174). 204. DE COMER Locução substantiva [Prep. + Ssing.] ... ele chegava numa casa e pedia de comer... (4; 294). ... nesse tempo eu andava trabalhando pros outros pra dar de comer aos filho... (4; 322). ... o padre benzeu naquilo... jogou ni / terra no de comer do padre... (10; 205). ... levava pros pilão e pisava... pra fazer de comer pros fio... (21; 230). ... aí... jogou esse de comer tudo pra lá e fez essa nega fazer outros de comer... (42; 448). ... tem de comer pra ele aí... tem alimento pra ele aí... (42; 538). ... cê tem que dar aquelas coisa pra dar de comer aquele povo né?... (43; 372). ... e botava de comer lá / colocava de comer lá dentro do / daquele negocinho... (45; 264). ... quinhentos réis por dia pra dar de comer pros irmão mais novo... (48; 123). ... mas não faltou de comer... ninguém morreu de fome... (50; 21). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Comer. Tomar a refeição. ...Nos primeyros dias naõ se há de dar de comer ao doente. Abstinendus a cibo primus diebus est aeger Cels.; ... Levar de comer a alguém. Cibum alicui ferre. Cic.; ... Fazer de comer; ... Dar bem de comer a alguém, regalando-o com boas iguarias. Alicui mensam conquisitissunis epulis estruere. Cic. 2. Morais: Comer. sm. O que se come. Seu comer son carnes crudas. C. cartas. he do seu comer, i. e., coisa do seu gosto. A refeição que se toma entre dia: v.g. a cada comer beberá uma vez de vinho. 3. Freire: Decomer. s.m. Alimentação.// 2. Farnel, comida. 4. Aurélio: De comer. [De de + comer.] S. m. 2 n. Bras. Pop. 1. Coisa de comer; alimento, comida: Com o cheiro do de-comer seu estômago roncava (Bernardo Élis, 236 Veranico de janeiro, p.47) 5. Amaral: De-cumê (r). s.m. – comida, provisão de comida: Eu ganho dois mi- réis i mais o de-cumê. // Af. Taun. Regista decomer, farnel, como t. cearense, abonado com o romance Luzia Homem; mas é também paulista. – muito compreensível esta substantivação de uma locução que, em certas frases, devia soar a ouvidos rudes como um apelativo: Dar de comer a alguém etc. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): De comer (A) s. Comida, provisão de comida. ... aí... jogou esse de comer tudo pra lá e fez essa nega fazer outros de comer... (Entr. 4, linha 434). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): De cumê (A) NCm [Prep + Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Comida, alimento. Difícil. O de cumê num faltava não. (Entr.11, linha 122). _____________________________________________________________________ Origem: de ‗prep. S.XIII. do lat. de (CUNHA, 1986, p.240). / comer ‗ingerir alimentos‘ s.XIII. do lat. comedere (CUNHA, 1986, p.198). 205. DECUMENTAR [V] Quer tomar o dinheiro... e deixa ês cativo aí... decumenta o nome deles... (48; 505). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _______________________________________________________________________ Origem: ... Documento sm. ‗título ou diploma que serve de prova, declaração escrita para servir de prova‘ XV. Do lat. Documentum –i, de docēre.  documentar 1802. Do fr. Documenter  (CUNHA, 1986, p.274). 206. DECUMENTO Nm [Ssing] ... eu fui pelo SUS... me pediu os decumento... eu mandei os decumento pra lá... (48; 170). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Documento Documentos (Termo forense). Papéis, com que nas 237 demandas se prova a sua razão. Litis instrumenta, orum. Neut. Quintil. Alguns usão da palavra documentum, mas a palavra instrumentum he mais própria porque sempre suppoem provas escritas. Ajuntar documentos. 2. Morais: Documènto s.m. Instrumento, que serve de instruir o processo e provar que nelle se allega. 3. Freire: Documento s.m. Lat. Documentum. Declaração escrita para servir de prova ou título. 4. Aurélio: Documento [Do lat. Documentu < lat. Docere, ‗ensinar‘, ‗mostrar‘.] S.m. 2. Escritura destinada a comprovar um fato; declaração escrita, revestida de forma padronizada, sobre fato (s) ou acontecimento (s) de natureza jurídica. 5. Amaral: Decumento, Dicumento, documento, s. m. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): DICUMENTO • (A) • Nm[Ssing] • Lat > Port • Escritura destinada a comprovar um fato. O mesmo que documento. • É ruim quano se num vê nada pro cê assiná tem que marcá o dedo mas tem muitos dicumento que gasta tempo dedo tamém né? (Ent.11, linha 135) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Documento s.m. ‗título ou diploma que serve de prova, declaração escrita para servir de prova‘ XV. Do lat. Documentum –i, de docēre.  documentar 1802. Do fr. Documenter  (CUNHA, 1986, p.274). 207. DEFERENÇA Nf [Ssing] ... a deferença que tinha... naquele tempo é porque num tinha fazendeiro que tinha repartição aqui pra dentro... (2; 280). ... e o trem vai desenvolvendo e ocê quase num vê assim deferença... tudo que era e hoje o que é a deferença é muito grande... (19; 87). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Deferença, diferença s.f. desacordo, estremecimento. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 238 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Diferença ‗s.XV, defferença XIV, deferença XIV, differeçia 1570. Do lat. differentia. (CUNHA, 1986, p.264). ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo conforme Cunha. 208. DEFERENÇAR [V] ... com pouco o tempo deferençou... pegou deferençar... (2; 335). Hoje deferençou tudo. (34; 220). ... daí a pouco foi deferençando o tempo... foi deferençando deferençando deferençando... (45; 323). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Deferençar (n/d) v. Modificar, mudar. Variante de diferenciar (diferenciar > deferençar – caso de assimilação e síncope). ... no escuro nós num via não... aí foi... moço... daí a pouco foi deferençando o tempo... foi deferençando deferençando deferençando... até a hora que nós enxergou a lux do dia. (Entr. 7, linha 318). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Diferençar vb. ‗diferenciar‘, differençar XVI. (CUNHA, 1986, p.264) 209. DEFERENTE [ADJ] ... mais essas ave mais deferente... é tem o papagaio... (3; 224). ... e assim era as brincadeira dos menino... hoje tá tudo deferente... (8; 48). ... as comida num era assim deferente... (14; 34). Ah o namoro era muito deferente de hoje em dia né? (20; 50). Tinha que ir na casa do pai... era deferente de hoje ó... (35; 54). ... as coisa nesse mundo anda muito deferente... (44; 379). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Deferente deferente² adj.2g. ant. pop. 1. V. diferente.‘ 239 5. Amaral: Deferente, diferente q. inimizado, estremecido com: ‗Vacê parece que anda meio deferente cum seu Pedro?‘. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Deferente (n/A) [Adjsing] Port. O mesmo que diferente; inimizado. Hoje te umas missa aí... as missa tudo deferente... o tipo dos padre celebrá é outro... tudo deferente que era... (Entr.1, linha 344). 5. Cordeiro (2013): Deferente (A) [Adj] Port. (CUNHA, 1986) Diverso, distinto. Variante de diferente. Não. Lá Gangorra é município de Berilo. Agora eu morava num coigo deferente que era município de Chapada, mas tudo pertim de Gangorra. (Entr.9, linha 9). Origem: ... Diferente ‗differente XVI. Do lat. differens –entis, part. pres. de differre. (CUNHA, 1986, p.264). ______________________________________________________________________ Obs: Forma antiga, conforme o Aurélio acima. 210. DE GRANDE Locução adverbial [Prep. + ADV] ... eu fui criado aí... depois de / agora de grande que eu peguei entrar na Mobral... (12; 37). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de ‗prep. S.XIII. do lat. de (CUNHA, 1986, p.240). / grande s.XIII. do lat. grandis (CUNHA, 1986, p.393). 211. DE JEITO Locução adverbial [Prep. + ADV] ... de jeito que hoje eu num tenho leitura nenhuma... (38; 39). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 240 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Ao jeito de 1. Ao modo de; à maneira de. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: de ‗prep. S.XIII. do lat. de (CUNHA, 1986, p.240). / jeito s.XIII, geyto XIII. do lat. jactus –us (CUNHA, 1986, p.454). 212. DE JUNTO Locução adverbial [Prep. + ADV] - Ó ocê parou de juntinho da namorada! (1; 227). - Ocê tava de juntinho da namorada! (1; 228). ... só podia vim de junto dos pais... se os pais tivesse de junto olhando né? (1; 238). ... e a flexa voltava e caía aí de juntinho dele a flexa de novo. (5; 39). Tinha um ninho... tinha um pau e tinha um ninho de ninheira... e ele fez a casa de juntinho desse pau... (17; 252). ... as vez a gente sentava de junto dela e ficava observando ela... (19; 349). ... a gente ficava de junto dela e ficava vendo ela... (19; 351). ... e os menino tinha que ficar de junto ó de joelho... (21; 389). ... a moça que eu encostava de junto dela foi a que eu casei... (21; 479). É... tudo eu... tudo eu já andei... eu já pessuí lugar lá no Mato Grosso...de junto do Rio Pinheiro... (27; 100). ... de juntinho da casa aonde a minha filha mora... (27; 172). ... construíram essa casinha aqui de junto... o pai morava nessa outra vizinha aí... (43; 139). ... uma enfusada morou aqui de junto da gente ó... (44; 408). ... num tinha direito de ficar de junto uns dos os outros não... (50; 150). ... quem falou que ocê ia de junto dela... (50; 157). ... ficou de junto uns aos outros muitas horas. (52; 54). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: De. 13. Combina-se com certas preposições, como sobre, sob, entre e outras a que o sentido permitir: De sobre as casas. De entre o arvoredo. Saiu de junto dele. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1.Souza (2008): De junto (n/A) loc. adv. Junto, próximo. ... uma enfuzada morou aqui de junto da gente ó... (Entr. 6, linha 390). 2. Ribeiro (2010): n/e 241 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de ‗prep. S.XIII. do lat. de (CUNHA, 1986, p.240). / junto s.XIV. do lat. junctus, part. pass. de jungere ‗jungir, juntar‘ (CUNHA, 1986, p.458). 213. DE LASCAR O CANO F [Prep. + V + Art. Subst.] ... agora aquela festa era de lascar o cano... matava boi matava vaca... (01; 254). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: De lascar Bras. Fam. 1. Profundamente desagradável, ou irritante, ou decepcionante etc. Dos diabos. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: composta por palavras de origem portuguesa. 214. DEMUDAR [V] ... eu fui pra casa do meu cunha do né?... e esperando chegar aquela hora né?... depois o tempo demudou sabe?... começou assim amarelando... (11; 275). É mas o povo hoje... nessa época de hoje tá demudano as coisa... (23; 261). ... hoje tá demudado né?... hoje tá muito demudado pro povo... (36; 150). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Demudar-se Perder a sua cor natural por qualquer cousa, que commove, e perturba o animo. 2. Morais: Demudar-se v. recipr. Mudar de cor, e outros accidentes por doença, desmayo, temor, sobressalto, com perturbação de animo. 3. Freire: Demudar v.r.v. Lat. demutare. Mudar, transformar, modificar, alterar. 4. Aurélio: Demudar [do lat. demutare] v.t.d. 1. Tornar diferente do que era; modificar, transformar, alterar, mudar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 242 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: demudar ‗mudar, tornar diferente do que era, transformar, perturbar, alterar‘ s.XIV. Do lat. demutare, de mutare. (CUNHA, 1986, p.246) 215. DEMUNDANÇA Nf [Ssing] ... mas sabia esperando a hora da demundança... com poucas horas eu vi / pegou a amarelar... foi amarelando assim... (8; 277). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: demudar ‗mudar, tornar diferente do que era, transformar, perturbar, alterar‘ s.XIV. Do lat. demutare, de mutare. (CUNHA, 1986, p.246). 216. DE NADA Locução adverbial [Prep + Ssing.] Entr.: ... eu agradeço muito o senhor. Inf.: De nada. (3; 413). Entr.: Eu agradeço a senhora pelas explicações... Inf.: De nada. Entr.: Muito obrigado. Inf.: De nada. (4; 466-468). Entr.: Era isso mesmo que eu queria saber... eu agradeço ao senhor. Inf.: De nada meu patrão. (6; 403). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 243 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de ‗prep. S.XIII. do lat. de (CUNHA, 1986, p.240). / nada ‗pron. nenhuma coisa‘ ‗adv de modo nenhum‘ ‗sm a não existência, ninharia‘ s.XIII. do lat. (res) nata ‗coisa nenhuma‘ (CUNHA, 1986, p.543). Significa ―de modo nenhum‖ 217. DE POUCO Locução adverbial [Prep. + ADV] ... energia tem de pouco tempo... poucos anos pra cá... (2; 163). ... num cabou com tudo porque entrou a Florestal agora de poucos tempo... (3; 233). ... aí meu tio morreu... morreu agora de pouco... (6; 340). ... eu tinha brinquedo dele até de pouco tempo. (24; 15). ... foi... de pouco tempo pra cá... (42; 14). ... agora mesmo... de pouco que choveu... (46; 120). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): De pouco (n/d) loc. adv. Há pouco, agorinha. Era bonito... ocê vê quando o rio enche fica um trem bonito... agora mesmo... de pouco que choveu... (Entr. 8, linha 119). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de ‗prep. S.XIII. do lat. de (CUNHA, 1986, p.240). / pouco ‗em pequena quantidade‘ s.XIII. do lat. paucus –a –um (CUNHA, 1986, p.627). 218. DE PRIMEIRO, DE PRIMEIRÃO Locução adverbial [Prep. + Ssing] Passava mas era... de primeiro o carro quase num existia não né?... (1; 316). ... de primeiro num usava carro... (2; 118). Num tá usando mais não... agora de primeiro usava. (2; 473). ... de primeiro passava / passava porque o povo saía de lá... (3; 138). ... aqui tinha muita tropa de primeiro... hoje cabou... (3; 145). ... município de Rio Pardo... que fica perto deIndaiabira... que era Coqueiro de primeiro. (3; 155). ... agora de primeiro onde nós morava era todo ano... (3; 262). ... é esse mesmo... ês cantaram aí... mas tá acabando... de primeiro era demais... (3; 272). É que o forno de primeiro... ocê já ouviu falar... (3; 331). E na escola também de primeiro o povo soletrava... de primeiro fazia o A com B beabá... de primeiro era soletrado... de primeiro era tudo soletrado... (3; 361-366). ... eu morei em três família... de primeiro num vinha aqui... (4; 232). 244 ... porque hoje não... tem é cisterna né?... de primeiro era cacimba... (4; 246). ... de primeiro saía comendo as criação dele... (4; 297). Hoje em dia tem só é granfinagem... mas de primeiro não. (4; 423). ... aquilo rendeu de primeiro... o povo pagava o débito quando morria... (5; 308). ... eu tenho medo ainda mas eu num... de primeiro eu tinha... (7; 144). ... aí pisava mamona pra fazer azeite pro povo né?... que de primeiro alumiava... (10; 34). ... pai de primeiro num deixava a filha sair... (10; 42). ... mas num deixava ninguém aprender... de primeiro nem as moça. (10; 51). ... de primeiro não... ficava até ano na cama... (10; 92). De primeiro era... crochê eu num fazia... (10; 120). ... de primeiro andava a ter chuva... plantava um prato de feijão e num perdia... (10; 226). ... e era tudo isolado... de primeiro nós trabalhava muito... (12; 42). ... de primeiro trabalhava era de sol a sol... (12; 367). ... eu com doze ano de idade moço eu andava com um badocão grande assim... de primeiro / agora é estilingue né?... (13; 97). ... o casamento de primeiro as festinha nas roça era tocado sanfona e fazia a chegada... (14; 77). ... que num tinha carro... de primeiro... e vinha aquela turmona de cavalo... (14; 78). ... de primeiro era... só uns tecia mas acho que o povo meu num fazia não... tial... tial que faz pano. (14; 148). ... fazia uma maia... pra matar passarinho... de primeiro era assim... hoje tá usando estilingue... mas naquele tempo não... era o badoque. (15; 69). Era difícil... de primeiro o trem era ( ). (15; 273). ... mas de primeiro os branco botava... botava os pobre dos negro pra sofrer... (16; 336). ... de primeiro num tinha avião nesse tempo não... (16; 534). ... fazia no São João... viu?... que de primeiro era no dia de ano... (16; 681). Eu num conhecia ela... eu conheci ela de primeirão... (17; 52). De tropa de animali... de primeirão. (17; 68). Aqui primeirão tinha... mas depois cabou tudo... (17; 70). Não... eu ia de primeirão quando já era pequeno... (17; 194). Tinha... de primeirão tinha... mas agora não... (17; 234). ... de premerão a filha casava é quase sem encontrar o noivo... (17; 291). ... aqui de primeiro num tinha estrada não... (18; 199). ...eu pelo menos eu tenho plantado... mas do premerão aqui pra nós luitar aqui... (18; 393) ... num canta que num tem gente que cantava de primeiro... (18; 429). Ô... de primeiro nós dormia era em / eu num posso esconder o que já aconteceu comigo né? (18; 548). ... mas num é que nem de premero... que de premero tinha uma divução que a gente tinha... (19; 373). ...e os reizeiro ainda tem também mas agora é pouco...de primeiro tinha muito... (19; 377). ... ninguém viu uma carne assim cheirosa que nem era de primeiro não né? (20; 81). ... o João era dirigidor do carro... antonce ficou / as máquinas que tinha de primeiro era essas... (21; 100). ... a lei de primeiro do jeito que era... (21; 133). ... de primeiro do tempo que eu alembro... (21; 173). 245 De primeiro a gente fincava quatro forquilha... (21; 443). ... quando era eu eu que arrumava essa sanfona de primeiro... (21; 468). ... hoje eu já num tenho mais perna pra isso mas de primeiro eu saía daqui pra ir em Águas Vermelhas... (22; 424). ... aqui de primeiro ocê encontrava dez folia de Reis cantando dentro da cidadezinha né? (22; 566). ... de primeiro num tinha casa... depois é que foi enchendo... (25; 18). ... tinha um tali de lobisomem de primeiro quês falava... (25; 129). ... porque de primeiro ninguém acreditava ni verdura... (25; 212). ... porque de premero... de premero aparecia... (27; 312). ... que aqui de primeiro chovia mesmo. (27; 432). ... porque de primeiro era muita gente pra cuidar... (27; 537). ... gente de primeiro num é esse tanto não... gente de primeiro é pouco... (30; 94). ... aqui de primeiro essa / isso aqui foi um vaqueiro que descobriu. (30; 107). É a gente pescava... de primeiro... pescava muito. (30; 161). ... aquelas cobertona de algodão... e também de primeiro era assim... (30; 169). ... de primeiro era duro meu filho... (30; 186). ... a gente pra viver de primeiro meu amigo era um sofrimento viu. (30; 338). ... tinha ouro de primeiro também. (30; 376). ... de primeiro aparecia mas de uns tempo pra cá num apareceu mais... (30; 391). ... de primeiro o povo contava que tinha muita assombração... (30; 392). ... mas de premero minha vida foi sofrida... (32; 50). Ó namoro de premero... uns anos pra trás... era assim... (32; 56). ... a vida de primero era sofrida... (32; 79). ... agora acabou tudo mas aqui de primero só mexia com lombo de burro... (32; 110). É foi uma vida muito sofrida de premero... (32; 126). ... que a panela que tinha de primeiro era só panela de barro... (32; 138). Na proximidade aqui de primeiro tratava de Água Quente. (32; 208). Mas que o povo de premero fazia muita festa... (32; 219). ...isso aí era divertido...aí parece uns rezeiro mas num é igual de premeiro não... (32; 230). ... num é como era de primeiro não. (32; 233). Conta ué... de primeiro tinha muito... (32; 269). Bom de primeiro tinha... tinha. (33; 69). ... a vida de primeiro era sofrida... mas o povo de primeiro parece que tinha mais saúde do que hoje num tem? (33; 339). Ué de primeiro vem de lá né?... (36; 96). Ah tinha de primeiro tinha...de primeiro a gente ia nos rio ês falava em tatu... (36; 103) ... num é como de primeiro e tudo que a cidade cresceu né?... (38; 160). ... de primeiro tinha né? (39; 475). ... de primeiro era dez onze quinze filho... (39; 570). ... que o namoro de primeiro... se a gente fosse namorar... (40; 335). ... de primeiro num tinha isso não... (40; 389). ... era as brincadeira né?... de primeiro que... eu fui criado assim né?... (42; 35). O forró... de primeiro... num tinha esse negócio de... mulher num dançava não... (42; 106). ... uns tempo pra cá... mas de primeiro... antigamente... (42; 171). ... tá tendo muita facilidade que num tinha de primeiro né?... (42; 611). ... aqueles velhão montado numa manta velha... encruada... que tinha de primeiro 246 né?... (43; 80). Aquele óleo mais grosso que tinha de primeiro né?... (43; 200). Ficou pior... porque de primeiro moço... (43; 279). ... e de primeiro fazia tudo aí ó... (43; 282). ... e vai lá pro clube né?... e de primeiro num tinha... (43; 333). ... que de primeiro... se nós dois tivesse conversando aqui... (43; 424). O filho quer ensinar o pai... e de primeiro num tinha isso né?... (43; 440). ... que de primeiro num botava cadeira pra ninguém sentar não... (43; 465). ... de primeiro era tirado e... especado na vara pra secar... (43; 467). ... que de primeiro num tinha isso não moço... (43; 480). ... de primeiro... de primeiro... nós ia daqui pra Divisa a pé... (43; 481). ... a roupa de primeiro era uma calcinha apertada... (44; 10). ... porque de primeiro tinha muito ouro né?... (44; 42). ... e tem o tear de tecer o pano ó... que o povo vestia de primeiro né? (44; 61). ... de primeiro quando eu fazia os birro... (44; 68). ... de primeiro fazia a roupa com isso né?... (44; 81). ... porque de primeiro a mudernagem ia e podia confiar... (45; 194). ... uma sanfona e um violão... era bonito de primeiro. (45; 202). ... de primeiro eu vou dizer pro senhor... (45; 283). ... porque de primeiro num tinha essa história de médico né?... (46; 88). ... a vida nossa de primeiro era melhor... (46; 178). ... de primeiro era mil réis... (46; 180). Mas de primeiro era mais fácil... (46; 187). ... de primeiro trabalhava só pra enricar eles... (48; 495). ... de premero num tinha nada disso. (49; 06). ... boneca de primeiro o povo gostava muito de fazer boneca e brincar né?... (49; 23). ... de premero a gente brincava com essas boneca de pano... de premero a gente tinha de aprender fazer o feitio de uma roupa... (49; 26). ... e de primeiro os pais... os pais que botava um professor na casa... (49; 39). ... os pais de primeiro escutava os filho namorar mas agora... (49; 67). ... mas de primeiro era um feirão em Águas Vermelhas... (49; 76). ... que de primeiro as coisa era muito difícil... agora não que as coisa tá fácil... mas de primeiro era difícil. (49; 86). ... quando faz uma festa vem aquele bando de gente... agora de primeiro não... (49; 103). Isso aqui de primeiro passou uns cantador de Reis também... (49; 118). ... de primeiro tinha que beber coisa do mato mesmo... (49; 175). ... mas de primeiro era difícil. (49; 178). Tinha assombração de primeiro aqui não. (49; 213). Hoje tá bom... porque de primeiro era bom também... (50; 396). ... num dou jeito mais modo eu contar caso que nem eu contava de primeiro não. (52; 429). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: De primeiro. loc. adv. Primeiramente, antes de tudo ou de todos: de primeiro, Vasco Fernandes a puras bombardas impedia que o abordassem (Aulete) // 2. Antigamente. 247 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): De Primeiro (n/A) loc. adv. Antigamente; outrora. O forró... de primeiro... num tinha esse negócio de... de... mulher num dançava não... (Entr.4, linha 100) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): DE PRIMERO • (n/A) • [Loc. Adv] • (n/e) • Antigamente; outrora. De primêro era no pilão né...pilão igual esse aí ó...ca gente socava...agora tem o aranholi enche o tambori e roda pa podê tirá o azeite (Ent.01, linha 08) 4. Miranda (2013): De primeiro (n/A) [Loc. Adv] (n/e) Antigamente; outrora. ... as festa de primeiro tinha muito cumê... até as eleição de primeiro tinha cumê... (Entr.2, linha 134). 5. Cordeiro (2013): De primero (n/A) [Loc. Adv.] Port. (CUNHA, 1986) Antigamente, há muito tempo atrás. No chapadão aí de primero tinha gente que vinha lá do e ia andano com poço cê via aquele home pontano... (Entr.5, linha 395). ______________________________________________________________________ Origem: de ‗prep. S.XIII. do lat. de (CUNHA, 1986, p.240). / primeiro s.XIII. do lat. primarius –a –um (CUNHA, 1986, p.634). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo antigo. Amadeu Amaral: cita de primeiro como exemplo de locução arcaica (p.57). O número de ocorrências e o número de usuários denota se tratar de uma locução usual na região entre a faixa de idade pesquisada, suplantando a variante antigamente. 219. DEREITO Nm[Sing.] Inf.2: ... num levou um minuto dereito pontou uma flechazinha do sol do outro lado... (15; 368). ... quando eu necessitar uns dereito pra mim... (48; 100). ... se ocês quer levar eu pra autoridade ocês leva e ainda age dereito... (48; 112). ... meus dereito eu não dou não vendo e nem peço... (48; 114). ... agora... se eu tou em riba dos meus dereito... (48; 307). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Dereyto Vid direyto. 2. Morais: Dereito e, deriv. V. Direito. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Dereito [Do lat. vulg. *derectu.] Adj. S. m. Ant. Pop. 1. Direito. 5. Amaral: Dereito, direito, q. | Diz L. de Vasc. Nas suas Lições, referindo-se à linguag. Arcaica: A forma corrente era dereito, representada hoje na voz do povo em algumas regiões por dreito; cf. esp. derecho. E diz J. J. Nunes, referindo-se a i átono proveniente de i breve latino: na linguagem desafetada, embora se escreva i, há tendência para pronunciar e: assim se diz imperador e emperador, imbigo e embigo, 248 infusa e enfusa etc. É de crer que a influência erudita tenha tido parte na transformação do e em i, a julgar pela pronúncia atual de direito, v. g. e a arcaica dereito. – Cp. Dereitura, endereitá®, desposto etc. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): DERÊTO • (A) • [Adj] • Lat > Port • Sem erros; correto. O mesmo que direito. • O vento batia na boca do vido e fazia assim u u u e eu com a ideia quente lembrano pensano que era o home que tava gritano né peguei corrê ah quano eu corri aí que ê grito derêto (Ent.05, linha 130) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Direito adj. ‗justo, correto‘ | XIV, dereito XIV, dereyto XIII. (CUNHA, 1986, p.268). _____________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo conforme Cunha. 220. DERRADEIRO [ADJ.] ... e aí agora apareceu tomem um posto de saúde agora derradeiro... (3; 26). Quando era a filha derradeira enfeitava a panela... (4; 408). ... agora depois que casava a caçula... a derradeira que casava... agora essa daí quando ela casava quebrava a panela... (4; 410). ... quando eu vim pr‟aqui eu vim primeiro e ele derradeiro... (10; 179). ... do tempo meu pra cá fomona perigosa... num teve mais não... a derradeira foi essa de trinta e nove... (15; 275). Entr.: ... a última filha casava... tinha um negócio que fazia diferente. Inf.2: Ah era... era quebrar panela. Entr.: Isso. Inf.2: Era... a derradeira filha que casava. Inf.1: Isso aí eu conheci também... e agora tá usando ainda... quando casa a derradeira filha o povo quebra panela. (15; 487-491). Inf.2: ... num tem nem um ano... que ês casou uma filha derradeira... uma caçula... (15; 503). Inf.2: ... vai casando fica a derradeira... aí a derradeira ês faz essa festa. (15; 515). ... aí quando foi o derradeiro que é um menino que é caçula... (36; 115). ... a derradeira que eu criava pertinho desses menino que eu criei... (40; 422). É... quando casa derradeira tinha esse uso... (51; 157). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Derradeiro. ultimo. Exstremus, a,um. Cic. Vid. Ultimo. 2. Morais: Derradèiro. adj. Ultimo, final. 3. Freire: Derradeiro. adj. Que fica ou vem atrás ou depois; o último, o restante. // 2. Final, extremo. 4. Aurélio: Derradeiro. [Do lat. vulg. *derretrariu, derratrariu < lat. retro, ‗para trás‘.] Adj. 1. Que vem atrás; que está depois; último. 2. Extremo, final; último: 249 Aplicaram tal medida como derradeiro recurso. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Derradeira (A) adj. Relativo a última, a mais nova. É... quando casa derradeira tinha esse uso... num sabe não? (Entr. 13, linha 152). 2. Ribeiro (2010): Derradero (A) Nm [Ssing] Relativo ao último, ao mais novo. Mais o derradero acabou limpinho. Um bunito terrero assim limpinho. (Entr.1, linha 22) 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Derradeiro (A) [Adj] Port. (CUNHA, 1986) O último. Parece que eu num tinha bem juízo não. Quando eu risulvi casá foi de uma vez. Que eu num queria deixá aquele derradeiro iscapuli não. (Entr.11, linha 165). ______________________________________________________________________ Origem: ... Derradeiro. adj. ‗último, extremo‘ XIV. Do lat. *derratarius, de *derretrarius, de retro ‗para trás‘. (CUNHA, 1986, p.248). 221. DESAPEAR [V] ... quando chegou num ponto assim que era pra ele desapiar... falou: _ Desapeia aqui... desapeia aqui! (1; 415). ... porque tinha lugar que precisava desapiar do cavalo porque ocê num podia passar... (23; 396). ... aí eu falei: - Ô fulano vamo desapiar!... (45; 321). ... do dito que veio na casa... desapiou na cabeceira da cama... (50; 256). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Desapear v.r.v. o mesmo que apear. 4. Aurélio: Desapear. [De des- + apear.] V. t. d. / V. t. d. e i. / V. int. / V. p. 1. V. apear: A montaria mal se encostara à cerca de limão-brabo, e o cavaleiro já desapeava (Mário Palmério, Chapadão do Bugre, p.5). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Desapiar (A) v. Descer de; apear. ... aí eu falei: Ô fulano vamo desapiar... (Entr. 7, linha 316). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: apear s.XVI e este de pé. (CUNHA, 1986, p.588). des- + apear. 222. DESBANDAR [V] 250 ... outra hora cai de cima d‟um cavalo... que lá em casa ês desbanda... monta num cavalo e sai correndo a rês aqui ó... (16; 716). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Desbandar v. tr. dir. Lus. O mesmo que debandar. 4. Aurélio: Debandar [de de + bando + -ar] v.t.d. 1. Pôr em fuga desordenada. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... desbandar ‗pôr em fuga ou fugir desordenadamente‘ 1881. De bando. (CUNHA, 1986, p.96). _____________________________________________________________________ Obs: Este vocábulo é também um lusitanismo segundo Freire. 223. DESCABELAR [V] ... com quarquer coisinha que eu fazia ele descabelava minhas costa tudo de taca... (32; 46). ... caiu e bateu n‟uns pau assim... descabelou os pau tudo e bateu... (42; 675). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Descabellar v. at. Desconcertar os cabellos, o toucado, penteyado. 3. Freire: Descabelar ou Descabellar v.r.v. Tirar os cabelos a. 2. Arrancar os cabelos; arrepelar-se. 3 Irritar-se. 4. Aurélio: Descabelar [de des+cabelo+-ar] v.t.d. 1. Tirar ou arrancar os cabelos a. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cabelo ‗conjunto de pelos da cabeça humana‘ s.XIII, cabello XIV. Do lat. capillum (CUNHA, 1986, p.131). De des- + cabelo + -ar. ______________________________________________________________________ Obs: Em Cunha há o adj. descabelado, descabellado s.XV. 251 224. DESCADEIRADO [ADJ.] ... por isso que eu tou sofrendo agora... em riba da cama descadeirada... (41; 04). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Descadeirar Vid derrear. 2. Morais: Descadeirado p. pass. de descadeirar. Descadeirar v. at. Derreyar. 3. Freire: Descadeirado adj. De descadeirar. 4. Aurélio: Descadeirado [part. de descadeirar] adj. Bras. 2. Por ext. diz-se de quem, por qualquer enfermidade, tem dor nas cadeiras. 4. Por ext. fatigado, cansado. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... descadeirado, s.XIX. De cadeira. (CUNHA, 1986, p.135). 225. DESCAMBO Nm[Ssing] ... ninguém viu falar mais ni revoltoso... mas... mas ês fazia um... um descambo no mundo... era matando gado dos outros... (2; 534). ... levava aquela pedra fazendo força... quando chegava no descambo ês soltava aquela pedra lá de cima... só pra ver a carreira da pedra correr nessas montanha... (21; 125). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cambar ‗‘trocar‘ ‗entortar as pernas ao andar‘ s.XIII, e este de cambiar (CUNHA, 1986, p.143). De des- + cambar. _____________________________________________________________________ Obs: Acepções: 1. Estrago, prejuízo. 2. Despenhadeiro. 252 226. DESCAMBAR [V] ... e meu meu irmão me garrou... e suor descambou... e suor descambou... (1; 375). ... e aquele calorão batendo e suor descambando... (1; 387). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Descambar Cahir escorregando. / Trocar, vender. 2. Morais: Descambar v. n. Cair escorregando. Escambar. 3. Freire: Descambar v.r.v. De des + cambar. Cair para o lado. 3. Descer rapidamente. 4. Aurélio: Descambar [de dês + cambar] v. int. 1. Cair, desabar, tombar. V.t.i. 4. Passar a pior, descair, degenerar.v.t.c. 6. Descer, declinar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: cambar ‗‘trocar‘ ‗entortar as pernas ao andar‘ s.XIII, e este de cambiar (CUNHA, 1986, p.143). De des- + cambar. 227. DESCAUSO Nm[Ssing.] ... nem um posto de saúde num tinha direito... era um descauso... (26; 283). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... descaso ‗desatenção, desprezo‘ s.XIX. (CUNHA, 1986, p.251). 228. DE SEMPRE Locução adverbial [Prep. + ADV.] ... quando eu aposentei foi em Rio Pardo... aí de sempre eu ia lá... (29; 69). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 253 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de ‗prep. S.XIII. do lat. de (CUNHA, 1986, p.240). / sempre ‗em qualquer ocasião‘ ‗em todo tempo‘ s.XIII. do lat. semper (CUNHA, 1986, p.714). 229. DESGRAMADA Nf [Ssing.] / DESGRAMADO Interj. Inf.2: É uma bagunça desgramada. (15; 508). ... ela é hoje a esposa de (nome) de... desgramado... de... como é que chama... (18; 11). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Desgramado [de dês + grama + -ado] adj. s.m. Bras. Pop. 1. Diz-se de, ou indivíduo desgraçado. 5. Amaral: Desgramado palavra insultuosa muito generalizada, não figura no vocabulário. Empregado também no sentido de duro, impiedoso, sinônimo de danado. (p.30). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: de des- + grama + -ado cf. Aurélio acima. Português (CUNHA, 1986, p.392). 230. DESMANTELAR [V] ... que ês era um povo assim muito desaforado... onde ês chegava ês desmantelava tudo... (11; 212). ... depois que foi aumentando as casa desmantelou a lapinha... da igrejinha desmantelou a igreja... (53; 05). ... e o grupo escolar do lado da igreja... porque aquela desmantelou... fez uma grande né?... a pequena desmantelou e tinha o grupo que era mais do lado... aí desmantelou o grupo... desmantelou a igreja... (53; 12-13). 254 ... foi fazendo casa... fazendo casa... aí desmantelou tudo... (53; 18). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Desmantelar. huma cidade. Derrubar os muros que lhe servião como de manto para a cobrir. Oppidi mania, ou muros diruere, (ruo, roi, rutum), ou disficeri, (cio, feci, fectum), muris urbem nudare. (o, aui, atum). Se o inimigo com sua bateria, desmantelar um dos flancos. Methodo Luft. Pág.161. 2. Morais: Desmantelar. v. at. Derribar a fortificação, que cobre a praça: v. g. desmantelar um de nossos flancos. Desmantelar a cidade. Demolir as fortificações. Freire:, L. 2. 3. Freire: Desmantelar. v. r. v. Fr. démanteler. Demolir, arruinar (as muralhas de uma praça de guerra) (254ê. Dir.): Se eu pudesse desmantelar as muralhas, invadir a cidade. Não posso. (C. Neto). // 3. Desmanchar, descompor. // 5. Demoronar-se, vir a baixo. 4. Aurélio: Desmantelar [De des- + mantel + -ar2.] V. t. d. 1. Demolir, arruinar, derribar (muralha, fortificação, parede etc.) 2. Separar as peças de, desarranjando o todo. 3. Desorganizar, desarranjar; transtornar. V. p. 4. Vir abaixo; desmoronar- se, ruir. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Desmantelar (A) v. Desmanchar, destruir. ... essa lapinha era do mato... tinha o cruzeiro... depois que foi aumentando as casa desmantelou a lapinha... (Entr. 15, linha 4). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Desmantelar. v. mantel desmantelar XVII. Adapt. Do fr. Démanteler, do a. fr. Manteler, deriv. do ant. mantel (atual manteau) e, este, do lat. mantēllum, dimin. De mantum. (CUNHA, 1986, p.255). 231. DESMANTELO Nm[Ssing.] ... jogou na rua... prendeu ele... judiou com ele né?... e foi um desmantelo danado né?.. (11; 225). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Desmantelo s.m. Ato ou efeito de desmantelar. 4. Aurélio: Desmantelo [deverbal de desmantelar] s.m. 1. Desmantelamento. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 255 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: Desmantelar. v. mantel desmantelar XVII. Adapt. Do fr. Démanteler, do a. fr. Manteler, deriv. do ant. mantel (atual manteau) e, este, do lat. mantēllum, dimin. De mantum. (CUNHA, 1986, p.255). 232. DESPENSA Nf [Ssing.] ... fui lá no quarto / na despensa e num vi nada... (7; 134). ... ela num deixava que nós menina entrasse na dispensa... porque era dispensa né?... (40; 314). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Despensa. Casa em que se goardão certas provisoens, & mantimentos.Cella penaria. No Cicero de Grutero está penaria, no livro de Senec. Semper enim boni, assiduique Domim referta cella vinaria, olearia, etiam penaria est. Em Suetonio, na vida de Augusto, cap.6, se 255e cellae penuariae; mas adverte Beroaldo, que o antigo grammatico Caper, queria, que se dizesse, penaria, & não penuaria. 2. Morais: Despènsa. sf. Casa, onde se recolhe o mantimento, ucharia. 3. Freire: Despensa. s.f. Do lat. depensus. Casa ou armário, em que se guardam provisões culinárias ou gêneros alimentícios, para uso doméstico; copa. 4. Aurélio: Despensa. [Do lat. dispensa.] S. f. 1. Repartimento de casa, navio, escola, hospital etc., onde se guardam mantimentos. [Cf. dispensa, do v. dispensar e s. f.] 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Dispensa (A) s. Compartimento ou cômodo da casa onde se guardam alimentos. Variante de despensa (despensa > dispensa – caso de dissimilação). ... então ela num deixavaque nós menina entrasse na dispensa... porque era dispensa né... e era muitacarne. (Entr. 2, linha 305). 2. Ribeiro (2010): 3. Freitas (2012): 4. Miranda (2013): Dispensa (A) Nmf. [Ssing] Port. Compartimento ou cômodo da casa onde se guardam alimentos. E antigamente... antigamente as dispensa do Serro era aqui... hoje a dispensa do Luca é no Serro... (Entr.7, linha 165). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Despensa. v. despender sf. ‗ant. despesa‘ XIV; ‗compartimento de uma casa onde se guardam mantimentos‘ XVI. Do lat. dĭspensa, part. pass. de dĭspěnděre. (CUNHA, 1986, p.256). 256 233. DESPOIS / DISPOIS / DIPOIS [ADV.] ... daí dipois o... o... ele vendeu a fazenda... (1; 51). ... aí dispois que ela casou eu fui pra lá... (2; 63). ... agora despois de eu velho... de eu grande... aí eu caçava... (2; 211). ... dipois que ele conheceu aquele / letra do abc... (2; 264). ... dispois que entrou o povo fazendo carvão... num cabou com tudo porque entrou a Florestal... (3; 231). Escola aqui... num tinha nesse tempo... despois de uns tempo em diente que pareceu a escola aqui na rua... (12; 55). E dipois aí que pegou a ir de carro... (19; 278). E dipois já começaram arranjar esses tintório já vindo de fábrica... (19; 358). ... mas acabou tudo né?... aí dipois foi... foi adiantando... (23; 273). ... arroz não que agora dipois que / cabou negócio de máquina... (23; 296). ... ainda conheci... dispois... foi logo quando cheguei aqui no Rio Pardo. (26; 152). ... e dipois eu cacei mas... (30; 321). ... aí me largou no mundo aí... dispois eu casei né?... (36; 34). ... agora despois que o povo acabou com a floresta virou essa campina... (42; 291). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Despois. ou depois. Vid. No seu lugar. 2. Morais: Despòis. v. depois. Como preposição, despois certo tempo. Ord. Af. 5. F. 380. Ao modo castelhano. 3. Freire: Despois. adv. O mesmo que depois. 4. Aurélio: Despois. Adv. Ant. Pop. 1. Depois: Primeiro tratarei da larga terra, / Despois direi da sanguinosa guerra. (Luís de Camões, Os Lusíadas, III, 5). 5. Amaral: Despois. adv. // Frequentemente se apocopa: despoi; também não é raro aferesar-se: espois; e às vezes dão-se os dois fatos conjuntamente: espoi; tudo depende, como em tantos outros casos, da pressa com que se fala, e da posição do voc. Na frase: Inté despois – Espoi mais vô lá. // Despois é forma arcaica, que se encontra em Camões, entre outros clássicos, já em concorrência com a que veio prevalecer. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Despois (A) adv. Que vem logo a seguir. Variante de depois (depois > despois – caso de epêntese). ... agora despois que o povo acabou com a floresta virou essa campina... (Entr. 4, linha 282). 2. Ribeiro (2010): Dispois (A) adv. Lat. Que vem logo a seguir. Variante de depois (depois > despois – caso de epêntese). Dispois eu vim na / assisti uma peça na Ventania. (Entr. 15; 464). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... depois ‗em seguida, posteriormente‘ XIII. Do lat. depost (que deu origem às ant. vars. depos XIII, depus XIII); o i ainda não foi suficientemente explicado. (CUNHA, 1986, p.248). ______________________________________________________________________ Obs: Despois é arcaísmo, encontrado na obra de Camões conforme cita o Aurélio. 257 Consta ainda, no Cancioneiro da Ajuda (2069 e 3565). 234. DESTIORADA [ADJ.] Agora não... as mata já tudo destiorada... tá tudo desmatada... porque essa firma que entrou aí aonde tinha aqueles mato bom... uai ês destiorou né? (33; 109-110). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: deteriorar 1813, do fr. deteriorer, deriv. do lat. deteriorare (CUNHA, 1986, p.258). ______________________________________________________________________ Obs: O vocábulo é corruptela de deteriorada. 235. DESVAGADO [ADJ] Entr.: Comunismo que a senhora fala seria o que? Inf.: É esse povo desvagado que tá no mundo... essa safadeza. (4; 180). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: vagar ‗andar sem destino, errar, vaguear‘ s.XV, uaguar XIV. Do lat. vagari (CUNHA, 1986, p.808). De des- + vagar. 258 236. DEVERA [ADV.] ... diz que parecia ês aí e tudo aí... mas num sei se é devera. (17; 137). ... só pegava na mão da moça o dia que ia sair pra casar... isso eu lembro de vera. (18; 157). ... pois foi ele... foi ele devera... (50; 280). ... eu vi falar nele devera... mudou pra lá. (50; 531). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Deveras. Verdadeiramente. Sem ficção. Ex animo, ou bonafide. Terent. 2. Morais: Devéras. v. véras. 3. Freire: Deveras. adv. De de + veras. Verdadeiramente, realmente: É deveras lamentável esse caso da absorção do gênio do bom gosto pela clínica (C. Neto). 4. Aurélio: Deveras. [De de + veras.] Adv. 1. A valer; verdadeiramente, realmente; muito, em alto grau: Tu crê deveras nessas cousas? (Machado de Assis, Várias Histórias, p.4). [Cf. deveras (ê), do v. dever. ] 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Devera (n/d) adv. Realmente, com certeza. Variante de deveras (deveras > devera – caso de apócope). ... Ô meu filho foi ele... ele representa que nem um cachorro... ele representa que nem um porco... representa que nem um jegue... Ô pois eu topei um jegue... e lá num tinha jegue... pois foi ele... foi ele devera... (Entr.12, linha 275) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): DIVERA • (A) • [Adv] • Lat > Port • Realmente, com certeza. O mesmo que deveras. • TER.: coitada essa muié já judô ieu demais menina esse trem aí já me judô panhá café quano ô tô panhano café ô vejo ea gritano da minha oreia...ea já tabaiô INF.: tabaiei divera...minha vida era só tabaiá fora num parava den‟ de casa não (Ent.10, linha 86) 4. Miranda (2013): Divera (A) [Adv] Lat > Port. Realmente, com certeza. O mesmo que deveras. Ah... isso aí é divera... igual cana... cana cê plantô ela... cê bota a primeira capina nela... ali ele vai só... (Entr.10, linha 74). 5. Cordeiro (2013): Divera (A) [Adv] Port. (CUNHA, 1986) De verdade, realmente, com certeza. Variante de deveras. Se ocê pô a pedra de um lado dizeno o povo que é divera. (Entr.7, linha 351). ______________________________________________________________________ Origem: ... Deveras. adv. ‗a valer, verdadeiramente‘ XVI. De de + veras (v. verdade). (CUNHA, 1986, p.259). 237. DIACHO [Interjeição] ... montou numa bestona bonita diacho!... (42; 493). ... falou: - Ê diacho!... agora nós num / como é que nós passa nesse rio?... (42; 494). ... mesmo na beira do rio aí em cima... perto de... de... diacho! (46; 34). 259 ... o doutor falou assim: - Ê diacho!... (50; 324). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Diácho. sm. T. vulgar. Diabo. 3. Freire: Diacho. s.m. Pop. O mesmo que diabo. 4. Aurélio: Diacho. [F. eufêmica de diabo.] (...)Interj. 2. Diabo (7). 5. Amaral: Diacho. s.m. – forma supersticiosa de diabo, palavra cuja pronunciação perfeita, ou mesmo imperfeita, se evita. // Cp. Dianho, demo, tinhoso, sujo, rabudo etc. – Parece que é corrente também em Port. , onde houve ainda uma forma, decho, que se encontra em Gil Vic., Barca do Purg.: Esta noite é dos pastores / E tu, decho, estás em seco Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Diacho (A) interj. Diabo. ... e chegou lá na beira do rio... revoltoso encheu... falou: Ê diacho... agora nós num / como é que nós passa nesse rio? (Entr. 4, linha 477). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e Origem: Diacho – forma eufêmica de diabo Cf. no Aurélio acima. 238. DIZER MISSA Locução verbal [V + Ssing.] ... e chamava o pai pra dizer missa ou oração... (46; 241). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Dizer missa. Celebrar o sacrifício da missa. [...] . 2. Morais: Dizèr. Celebrar: v. g. dizer missa. 3. Freire: Dizer. 14. Celebrar (missa) [...] . 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Dizer missa (n/A) loc. verb. Rezar. ... e chorando... e chamava o pai pra dizer missa ou oração... (Entr. 8, linha 233). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: Dizer missa – dizer ‗expor, exprimir por palavras, proferir, enunciar‘ s.XIII. Do lat. dicere (CUNHA, 1986, p.273). [...] s.XIII. do lat. tardio missa, substantivação do fem. de missus, part. pass. de mittere ‗enviar‘. O termo foi retirado da expressão ite missa est ‗ide, (as preces) foram enviadas‘ com a qual o celebrante termina a missa 260 (CUNHA, 1986, p.524). ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo, consta em Chronicas breves e memórias avulsas de Santa Cruz de Coimbra, de autoria de Duarte Galvão (1505), Cf. (Portugaliae Monumentae Historica, Códice 79, vol. 1, fol. 28). 239. DORMIDOR Nm[Ssing.] ... nesses um minute a gente viu as estrela... galinha gritava lá pro... ia dormir / subir no dormidor... mas foi coisinha ligeiro. (3; 323). ... galo bateu o sovaco e subiu pra cima do dormidor e ficou ali... (5; 356). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... dormidor s.XIII. (CUNHA, 1986, p.277) ______________________________________________________________________ Obs: O mesmo que poleiro. 240. DRUMIR [V] ... caminhava a noite toda... e drumia ni casa sozinho lá pra roça... (2; 403). Descançava... e nós ia drumir um pouquinho... (6; 123). Aí dava pra assombrar que...a gente tá drumindo e o trem tá atentando a gente... (10; 208). ... tem dia de noite que eu num posso nem drumir... tomo remédio de controle e diz que é pra deitar e drumir... tem hora que eu num posso nem drumir... (36; 335). ... cabou mulher... eu num drumo... eu num como... (46; 47). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 261 2. Ribeiro (2010): Drumir (n/d) [V] Lat. Deixar de estar acordado, descansar no sono. Invadiu o rancho que num tinha lugá ninhum pra drumi. (Entr.2, linha 150). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Dormir XIII. Do lat. dormire.‘ (CUNHA, 1986, p.277). ______________________________________________________________________ Obs: Forma alterada de dormir. E 241. EM ANTE Locução adverbial [Prep. + ADV] ... mas isso aqui em ante de passar pra cidade era muito ruim a estrada... (12; 88). Ah em antes de ter carro eu / essa época eu num alcancei não... (17; 63). ... em ante deu inteirar / o dia que eu inteirei dezesseis ano eu casei... (32; 21). ... mas em ante dessa barragem aí esse rio dava enchente de fazer medo viu? (42; 241). ...- Deixa eu fazer em ante deu morrer!... (44; 70). ... a gente só via o rio direito quando dava uma enchente... em ante dessa barragem... (45; 134). ... - Ô meus filhos é tantas horas aqui que ocês num vem... em ante num passar não!... (45; 313). Ah isso aí a gente imagina em ante da morte né? (49; 343). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Em antes loc. adv. O mesmo que dantes ou antes. 4. Aurélio: Antes. [Da prep. Ante, com s paragógico, por infl. de advérbios como depois, mais e menos.] Adv. 1. Em tempo anterior . 2. Dantes; antigamente. / Em antes. 1. Dantes. Em antes de. 1. Antes de. 5. Amaral: In antes. Em antes, loc., usada as vezes pela forma simples ―antes: ―Estive lá ainda em antes que ele chegasse. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Em antes (n/A) loc.adv. Antes, anteriormente. ... mas em ante dessa barragem aí esse rio dava enchente de fazer medo viu? (Entr.4, linha 231) 2. Ribeiro (2010): Em antes• (n/A)• [loc. adv] • Antes, anteriormente.• Eu vô fazê só mais uma verdura e o arroiz. É iguale ieu. Se eu fô fazê, tem o arroiz pronto, se o L. num fô sai trabuçano em antes do armoço, ieu isquento aquele ali que eu fiço onti. (Ent. 13, linha 10) 3. Freitas (2012): IM ANTE • (n/A) • [Loc. Adv] • (n/e) • Antes. • pegô e deu uma foiçada no pé do coquêro levantô a foice deu ôtra foiçada im ante de enterá a tercera eu falei o nêgo vem cá cê num vai fazê nada não cê vai ficá vigiano é (D...) aqui ó 262 (Ent.04, linha 109) 4. Miranda (2013): Em ante (n/A) [Loc. Adv] Port. Antes, anteriormente. ... depois que passo muito tempo em ante da polícia chega é que ele escapuliu... (Entr.3, linha 191). 5. Cordeiro (2013): Em ante (n/A) [Loc. Adv] Port. (CUNHA, 1986) Antes, anteriormente, na frente. Quando cê chegava na boca da ilha em ante dos pexe... os pexe tava pra baixo a uma distancia com daqui muito mais... (Entr.12, linha 418). _____________________________________________________________________ Origem: em ‗prep. S.XIII. do lat. in (CUNHA, 1986, p.289). / antes ‗anteriormente‘ s.XIII, ante XIII. do lat. ante, com –s adverbial (como em depois, mais, menos etc.) (CUNHA, 1986, p.53). 242. EMBORNAL Nm[Ssing.] ... mas num era venda não... coisinha de embornal... (1; 16). ... ali era o embornal d‟ocê colocar a bala... (5; 83). ... naquele tempo era badoque... badoque desse tamanho assim e o embornal de pedra assim... (13; 97). ... tinha um embornal lá dessa altura assim... trazia cheinho de jacu e izabelê... (13; 478). Matava e chegava aqui... chegava a torcer assim... aquele embornalzão... chegava aqui e jogava... (13; 482). ... ele leva o sapato dentro de um embornali... (21; 366). ... quando chega de volta naquele mesmo lugar tirava o sapato... colocava no... no embornalzinho e saía de a pé. (21; 371). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Embornál, ou Ambornal s.m. Saco, em que se dá cevada, ou milho às bestas, mettendo-lho no focinho. 3. Freire: Embornal s.m. De em + bornal. Saca em que se dá cevada ou milho às bestas, para o que se lhe prende em torno da boca. 4. Aurélio: Embornal¹ [de em + bornal] s.m. 2. Bras. Saco ou bolsa geralmente usada a tiracolo para transportar alimentos, ferramentas etc. bornal. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... embornal s.XIX, de bornal. (CUNHA, 1986, p.291). 243. EMBUÇADO [ADJ.] ... num couro daquele dormia quatro cinco menino... tudo embolado... embuçado com uma coberta só... (43; 472). 263 Registro em dicionários: 1. Bluteau: Embuçado. com a capa. O que tem parte do rosto coberto com a capa. Pallio frontem involvens. Embuçado. Coberto de hum veo, ou cousa semelhante. Velatus, a, um. Cic. 2. Morais: Embuçádo. p. pass. de embuçar. Coberto com veo. 3. Freire: Embuçado. adj. P. p. de embuçar. Que se embuçou: E somente de vez em quando uma ou outra mulher, encolhida de frio e embuçada no mantel até a altura dos olhos, pisava as sujas e mal unidas calçadas (Rebêlo da Silva) 4. Aurélio: Embuçado. [Part. de embuçar.] Adj. 1. Rebuçado (3). Rebuçado. [Part. De rebuçar.] Adj. 3. Encoberto com rebuço; embuçado. 4. Escondido, oculto 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Embuçar (A) v. Cobrir, enrolar. ... num couro daquele dormia quatro cinco menino... tudo embolado... embuçado com uma coberta só... (Entr. 5, linha 461). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Embuçado. v. boca embuçado XVI // embuçar vb. ‗cobrir o rosto até os olhos‘ ‗disfarçar, encobrir‘ XVI. (CUNHA, 1986, p.291). 244. EMBUNECAR [V] ... o milhozinho tá desse tamanho ó... já tá empeduando e embunecando. (46; 129). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Embonecar. v. r. v. De em + boneca + ar. 2. Criar boneca ou espiga (o milho) (intr.): Plantei o milho num mês e no outro embonecou (Afrânio Peixoto). 4. Aurélio: Embonecar. [De em-2 + boneca + -ar2.] V. int. 3. Bras. Criar bonecas ou espigas (o milho); bonecar: Os milhos nessa época embonecavam (Alberto Rangel, Sombras n‘Água, p.214). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Embunecar (A) v. Formar espigas. É... o milhozinho tá desse tamanho ó... já tá empenduando e embunecando. (Entr. 8, linha 127). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 264 ______________________________________________________________________ Origem: ... Boneca. embonecar 1813 (CUNHA, 1986, p.118). 245. EMPAPUAR [V] ... ficava lá no panelão e mexendo mexendo mexendo até ficar empapuando... (4; 433). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Empapar Embeber de sorte, que fique quase como papas. 2. Morais: Empapar v. at. Embeber bem algum corpo poroso em liquido, que fique lentejando, e merejando como papas. 3. Freire: Empapar v. tr. dir. De em + papo + ar. Encher o papo a. 2. Inchar, entumecer. 4. Aurélio: Empapar [de em + papa + -ar] v.t.d. 1. Cobrir de papas. 2. Tornar mole; encharcar, ensopar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... empapar s.XVII. De papar. (CUNHA, 1986, p.292). 246. EM RODA Locução advérbial [Prep. + ADV] ... aí fez o mercadinho... assim só de pedaço de pau... fez a ferinha... num tinha nada em roda nem nada... (16; 19). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Em roda loc. adv. O mesmo que à roda. / Em roda de loc. prep. O mesmo que à roda de. 4. Aurélio: De roda 1. Em volta. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Em roda (n/d) [Loc. Adv] Ao redor, em volta. Agora as pessoa populares, a gente dá vorta ali em roda cos namorado. (Entr.10, linha 216) 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Em roda (n/A) [Loc. Adv] Port. (CUNHA, 1986) Ao redor, em volta. Quando os cachorro latia no mato que vinha partino pro lado do reberão, porque ela vem cirquim do reberão né? Aí ele já ficava em roda do reberão. (Entr.3, 265 linha 300). ______________________________________________________________________ Origem: em ‗prep. S.XIII. do lat. in (CUNHA, 1986, p.289). / roda s.XIV. do lat. rota – ae (CUNHA, 1986, p.687). 247. ENCACIMBAR [V] ... esse vem... pega lá com o Mário e vem pr‘aqui tudo e encacimba. (50; 89). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Encacimbar (n/d) v. Formar cacimbas; formar poços de água ao lado do rio. Entr.: Rio Pardo? / Inf.: Esse lá é respeitado... esse vem... pega lá com o mar e vem praqui tudo e encacimba... (Entr. 12, linha 87). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: africanismo – cacimba ‗cova que recolhe a água de terrenos pantanosos‘ ‗poço‘ 1675, quicima 1575. Do quimb. ki‟sima (CUNHA,1986, p.134). De en- + cacimba –ar. 248. ENCARAMUÇADA Nf [Ssing.] ... agora ainda eu tive uma tontura aí que eu fiquei ruim... andei ruim encaramuçada... (35; 22). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Escaramuçada s.f. O mesmo que escaramuça. 4. Aurélio: Escaramuçada [de escaramuçar + -ada] s.f. RS 1. V. escaramuça.‘ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de escaramuçar + -ada. 266 _____________________________________________________________________ Obs: Forma alterada de escaramuçada. 249. ENCARCAR [V] ... botava a panela no fogo lá e botava aquela massa e tratava ela ali... mais logo ele virava ele... encarcava... assava aquele beiju e botava lá... muita gente até chumbava porque a mandioca era forte. (12; 278). ... o médico me viu com esse pé inchado lá: _ O senhor tá com o pé inchado.... eu falei: - Não senhor doutor!... ele: _ Tá!... puxou... num confiou em mim... puxou a calça até cá em cima... encarcou... (42; 375). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Encarcar (n/d) v. Encalacrar-se; se dar mal (encalacrar > encacrar > encarcar – casos de síncope e hipértese). ... o médico me viu com esse pé inchado lá... É senhor (nome) o senhor tá com o pé inchado!... eu falei: Não senhor doutor... ele: Tá... puxou ... num confiou em mim... puxou a calça até cá em cima... encarcou... (Entr. 4, linha 363). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... encalacrar s.XIX. De calacre ‗calote‘ ‗apuros em matéria de dinheiro‘ s.XIX. (CUNHA, 1986, p.295). ______________________________________________________________________ Obs: Forma alterada de encalacrar. 250. ENFEZAR [V] ... aí tem vez que nós brigava só vendo eu mais ela... aí que que ela fazia... ela enfezava e ia lá minha frente e rançava... (4; 103). ... e o velho enfezou e foi lá na casa dele... (8; 312). ... todas cantada do Reis que cantou Reis e agradeceu Reis e cantou contradança... tem a contradança... aí enfezaram enfezaram enfezaram... pode cantar (nome)... pode cantar (nome)... (13; 388). ... quando ês enfezava com nós pegava as almofada e saía chutando elas... os birro enrolava tudo... (14; 169). ... ocê namorava é por aqui... por um buraco de uma porta... a moça espiava o rapaz na moita... num podia conversar não... num podia que o véi infesava... (16; 500). ... aí um cunhado meu pegou caçoar de minha letra e eu fui e enfezei e num fui mais... (34; 128). ... era armado... botava fogo... qualquer coisa enfezava ês... (53; 204). 267 Registro em dicionários: 1. Bluteau: Enfezar (Termo do vulgo) Enfadar muyto. Encher de cólera. 2. Morais: Enfezár v. at. Encher de fezes o que estava limpo. / Enfezár vulg. enfadar muito, fazer encolensar. 3. Freire: Enfezar v.r.v. De fezes. Causar fezesc a. 3. Enfastiar, agastar, enfadar, impacientar, irritar. 4. Aurélio: Enfezar ―vtd 2. Irritar. Int. e p. 3. Irritar-se.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de etimologia desconhecida (CUNHA, 1986, p.298) ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo encontrado no português europeu, pois consta no Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo definido como v. tr. e intr. 4. Amofinar.. 251. ENFORNADO [ADJ.] ... lá que ocê enfornou... lá ocê fica enfornado!... (50; 521). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Enfornádo p. pass. de enfornar. 3. Freire: Enfornado adj. p. p. de enfornar. Metido no forno. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: latim > português. Forno ‗recipiente para cozer alimentos‘ sXIII. Do lat. furnus (CUNHA, 1986, p.365). De em- + forno + -ado. 252. ENFORNAR [V] ... lá que ocê enfornou... lá ocê fica enfornado!... (50; 521). Registro em dicionários: 268 1. Bluteau: Enfornar Metter no forno. Enfornar o pão. 2. Morais: Enfornár v. at. Metter no forno. 3. Freire: Enfornar v. tr. dir. B. Lat. infurnare. Meter no forno. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Enfornar (n/d) v. Esconder-se; isolar-se. ... Ah agora que ocê veio saber?... lá que ocê enfornou... lá ocê fica enfornado... (Entr. 12, linha 508). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: latim > português. Forno ‗recipiente para cozer alimentos‘ SXIII. Do lat. furnus (CUNHA, 1986, p.365). De em- + forno + -ar. 253. ENFUAZADO [ADJ] ... meu pai veio aqui e tinha um cavalo muito enfuazado... (42; 646). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Enfuazado (n/d) adj. Bravo, arredio. ... meu pai veio aqui e tinha um cavalo muito enfuazado... (Entr. 4, linha 625). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e 254. ENFUSADO [ADJ] ... o danado vai e morre... isso depois de muitos anos... o enfusado lçá pega e morre... (1; 433). ... uma enfusada morou aqui de junto da gente ó... é enfusada... (44; 407). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 269 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Enfusada (n/d) adj. Diz-se de pessoa mal amada, de gênio ruim. ... uma enfusada morou aqui de junto da gente ó... (Entr. 6, linha 390). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... n/e ______________________________________________________________________ Obs: Em Freire: há o vocábulo enfusar com a acepção de encalhar. 255. ENFUSAR [V] E pobre de (nome) casou com uma tal de (nome) e enfusou né?... (44; 407). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Enfusar. v. r. v. O mesmo que encalhar. 4. Aurélio: Enfusar. [Do esp. enfusar, ‗atolar‘; ‗afundar‘, poss.] V. int. Bras. BA 1. Encalhar (3). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Enfusar (A) v. Se dar mal; dar com os burros n‘água. E pobre de (nome) casou com uma tal de (nome)... e enfusou né... (Entr. 6, linha 390). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e. 256. ENGEADO [ADJ] ... quando deu por fé tava aquela fogueira medonha... mas num teve mais jeito de sair... morreu engeado lá né? (42; 434). Morreu engeado... mas também pegaram esses nego moço... (42; 436). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Engelhar-se o trigo He fazerse o grao muyto enxuto, e mirradinho, ainda mais de centeio. 2. Morais: Engelhado p. pass. de engelhar. Rugoso, encolhido com rugas. Fig. Emleyado, encolhido, acanhado. 270 3. Freire: Engelhado Adj. p. p. de engelhar. Que tem gelhas; enrugado, murcho. 4. Aurélio: engelhar v.t.d. 1. Enrugar. 2. Contrair, murchar. Engelhado adj. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... ‗engelhado XVI, de gelha ‗sf. Grão de cereais com tegumento enrugado‘ ‗ext. ruga‘ (CUNHA, 1986, p.299). ______________________________________________________________________ Obs: Forma alterada de engelhado. 257. ENGRAÇAR [V] ... aquele rapaz via aquela moça e engraçava naquela moça... (2; 356). ... cê quer falar com a fia de fulano ou com fulano se ele quer que aquela menina / que a fia dele quer casar comigo... eu engracei nela... (2; 359). ... as vez o pai trazia três quatro moça e o rapaz tinha que escolher no meio daquelas uma... mas aí ele engraçava ni uma né?... ele engraçava naquela e casava né?... podia até acontecer mas sempre quando ele trazia ele engraçava ni uma daquelas né?... (22; 108-111). ... meu pai era folgado engraçado a caboclo... (46; 108). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Engraçar v. at. Acompanhar de graça, galantaria. Engraçar-se com alguém; metter-se em sua graça, e benevolência. 3. Freire: Engraçar v.r.v. De em + graça + ar. 3. Ver com bons olhos; simpatizar, agradar-se. 4. Aurélio: Engraçar [de em + graça + -ar] v.p. 5. Bras. Simpatizar, agradar-se, gostar. 6. Gír. Tomar confiança indevida; desrespeitar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... engraçar s.XIV. De graça. (CUNHA, 1986, p.299). 258. ENGRAMAR [V] 271 ... só fica na cova do capim... o capim não engrama... (43; 291). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Engramar (n/d) v. Crescer, tornar-se grama. ... o primeiro ano ele sai aquela força... o gado comeu... cabou... volta pra terra... só fica na cova do capim... o capim não engrama... (Entr. 5, linha 286). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de grama s.XIV. do lat. *gramma (<*gramna), de gramina, nom. pl. de gramen –inis (CUNHA, 1986, p.392). De em- + grama + -ar. 259. ENGUENTADA Nf [Ssing] ... remédio de horta era... era... mentraço... fazia assim aquela enguentada e cozinhava pra gente beber. (46; 98). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Enguentada (n/d) s. Raizada; mistura de várias plantas medicinais. ... e era tudo quanto é remédio... remédio de horta... era mentraço... fazia assim aquela enguentada e cozinhava pra gente beber. (Entr. 8, linha 97). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... n/e 260. ENRABAR [V] ... - Quero ver o boi janeiro. Eu falei: _ Evem lá em baixo....e ela correu... juntou e enrabou essa menina... (40; 260). 272 Terc.: O boi e a Maria Tereza né? Inf.: É... enraba a gente... (44; 352). ... ele andava aqui... feito uma roda de carretão... dois olhão assim... enrabando os cachorro. Entr.: Enraba os cachorro? Inf.: É... enraba os cachorro... (44; 480-482). Entr.: E os moleque... tem medo? Inf.: Os moleque... do boi tem porque o boi enraba. Entr.: Ah é! Inf.: Enraba os moleque. (45; 229-231). Falava que enrabava gente... o povo tudo escondia... (49; 140). ... mas faz do jeitinho do boi... bota o chifre... bota tudo... ele enraba a gente / chifrando os menino... (50; 345). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Enrabar. v. tr. dir. De em + rabo + ar. 6. Andar sempre junto ou atrás de (outrem). // 7. Perseguir de perto na carreira. 4. Aurélio: Enrabar. [De en-2 + rabo + -ar2.] V. t. d. 1. Bras. S. Perseguir de perto, na carreira: O vaqueiro enrabou o animal, até que o laçou.. 2. Bras. S. P. ext. Acompanhar (outrem) persistentemente; andar no encalço de. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Enrabar (A) v. Perseguir; correr atrás. Entr.: E os moleque tem medo? / Inf.: Os moleque... do boi tem porque o boienraba. (Entr. 7, linha 225). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: rabo ‗cauda‘ ‗prolongamento da coluna vertebral de certos mamíferos‘ s.XIII. do lat. rapum –i ‗nabo‘ (CUNHA, 1986, p.659). De em- + rabo + -ar. ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (S), conforme Aurélio. 261. ENTENDER POR GENTE Locução verbal [V + Prep. + Ssing.] ... desde quando eu entendi por gente eu conhecia o doutor... (13; 288). ... quando eu tava com dez ano de idade... me recordo né?... então... essa palavra... quando eu entendi por gente... eu já achei ela né?... (42; 332). ... esse rio é Mosquito / de quando eu me entendi por gente... (43; 229). ... eu num cheguei a ver isso não... mas eles contava... eu já me entendi por gente... (47; 175). Eu entendi por gente aqui... mas nasci na Bahia. (50; 13). Desde quando eu entendi por gente eu já conheci por nome Mosquito... (50; 83). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Entender. Desde que me entendo; i.e., desde que tenho uso de razão. 3. Freire: Entender. v. r. v. Lat. intendere. 28. Ter uso da razão (pr.): Desde que me entendo. 273 4. Aurélio: Gente. Entender-se de gente. 1. Começar, a criança, a ter percepção, noção das coisas, do mundo, da vida; entender-se por gente: A velha Janoca, a minha avó, desde que me entendi de gente não tinha olhos para tomar conta das coisas. (José Lins do Rego, Meus Verdes Anos, p.15). / Entender-se por gente. 1. Entender-se de gente. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Entender por gente (A) loc. verb. Passar a ter consciência das coisas. Fazer uso da razão. Desde quando eu entendi por gente eu já conheci por nome Mosquito... (Entr. 12, linha 81). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Intender por gente (A) [Fras] Port. Passar a ter consciência das coisas. Fazer uso da razão. Toda a vida que eu intendi por gente aqui nesse Corgo Doce... ali é lugar de horta... (Entr.1, linha 85). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: entender s.XIII. do lat. intendere (CUNHA, 1986, p.302). / gente s. XIII. do lat. gens gentis (CUNHA, 1986, p. 383). 262. ENTONCE [ADV] Entonce era assim... o pai de família ficava procurando aí... (39; 172). ... entonce meu avô e meu pai deixou o grupo... (44; 12). ... entonce... aquela rua lá... aquela casa lá... (44; 18). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Entonces. Vid. Entaõ. 2. Morais: Entònces. v. Então. Men. e Moça, 2. f.15. 3. Freire: Entonce. adv. O mesmo que entonces. Entonces, adv. Do cast. ant. O mesmo que então. 4. Aurélio: Entonce. [Do lat. vulg. *intunce.] Adv. Bras. Pop. Arc. 1. Então. [Var.: entonces.] 5. Amaral: Antãoce. Antonce, intonces, outras formas de então. // Cp. O arc. entonces: E do acabamento do livro eu dey encomenda ao lecenceado frey João uerba meu conffessor fazendo per outrem o que de acabar per my entonces era ambargado. (Inf. D. Pedro, Livro da Virtuosa Bemfeitoria). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Entonce (A) adv. Então, nesse caso. Entonce era assim... o pai de família ficava procurando aí trabalhador coisa e tal né... (Entr. 1, linha 160). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 274 ______________________________________________________________________ Origem: Então. adv. ‗nesse ou naquele tempo, momento ou ocasião / entõ XIII, enton XIII etc. / Do lat. ǐn tǔnc. No Port. Méd. documentam-se, também, as formas entonce ( português). ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (NE), conforme o Aurélio acima. 265. ESPARRAMO Nm [Ssing] ... quando chegou o revoltoso... todo mundo correndo... eu só vi mulher panhando feijão frevendo... tudo numa casa só... foi um esparramo... (8; 319). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Esparramo s.m. Ato ou efeito de esparramar. / Esparrame s.m. De esparramar. 2. Espalhamento, debandada, dispersão. 3. Agitação, rixa, escândalo. 4. Aurélio: Esparramo [dev. de esparramar] s.m. Bras. 1. V. esparrame. 5. Amaral: Esparramo s.m. ato ou efeito de esparramar; desordem, confusão. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: esparramar ‗espalhar, dispersar, derramar‘ s.XX. de etimologia obscura (CUNHA, 1986, p.321). dev. de esparramar. _____________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 266. ESPECAR [V] ... que o couro de boi... de primeiro era tirado e... e especado na vara pra secar... (43; 468). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Especado. adj. P. p. de especar. Sustido por espeques. Especar, v. r. v. 276 Amparar com espeques ou escoras (tr. dir. e intr.): tomar da foice, subir ao morro, cortar a canjerana, atorá-la, baldeá-la e especar a parede (Monteiro Lobato). 4. Aurélio: Especar. [De espeque + -ar2.] V. t. d. 1. Suster com espeque; amparar, escorar. V. int. 2. Ficar parado; estacar. V. p. 3. Escorar-se, encostar-se. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Especar (A) v. Espetado; dependurado. ... e agora botava aqueles corão de boi / que o couro de boi... de primeiro era tirado e... e especado na vara para secar. (Entr. 5, linha 457). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Especar. v. espeque. espeque sm. ‗alavanca‘ ‗peça de madeira com que se escora qualquer objeto‘ XVI. Do fr. Anspect, deriv.. do neerl. Ant. Handspaecke (hoje handspaak) // especar 1881. (CUNHA, 1986, p.322). 267. ESPIAR [V] ... dessa distância aqui já tava passando de bom né?... as outra era espiada... a moça chegava bem... espiava ele assim... olhava o rapaz lá... (1; 229). Já... já fui uma vez... é mas não pra olhar... fui só pra espiar. (4; 454). ... ocê namorava é por aqui... por um buraco de uma porta... a moça espiava o rapaz na moita... num podia conversar não... num podia que o véi infesava... (16; 499). ... que primeiro uma moça pra casar só pegava no mão do rapaz quando é... ela ia sair pra casar...ficava ispiando era assim nos buraco... (18; 155). ... aí cê chegava lá na casa assim a moça lhe espiava pelo buraco da parede... (32; 59). ... agora os outros num vai fazer conta nem de vir me espiar... (41; 08). ... panhava eu e nós ia numa festa... só espiava... (41; 171). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Espiar. Observar o que se passa. Observare, ou Speculari. Cic. 2. Morais: Espiár. v. at. Estar sem ser visto, notando o que alguém faz, ou sem o dar a entender, observando as suas acções, ditos, passos, &c. 3. Freire: Espiar. v. r. v. Ant. al. Spehon. Vigiar secretamente (o que alguém faz ou diz). // 3. Observar muito atentamente. 4. Aurélio: Espiar¹. espiar1 [Do gót. Spaíhôn.] V. t. d. 4. Bras. Cabo-verd. Observar, olhar. V. int. 8. Observar, olhar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Espiar (A) v. Ver; visitar. ... trabalhei pros outros demais... agora os outros num vai fazer conta nem de vir me espiar ao meno. (Entr. 3, linha 7). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 277 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Ispiar (A) [V] It. Olhar, observar. ... um trem me mordeu aqui de noite, ispia procê vê. (Entr.11, linha 286). ______________________________________________________________________ Origem: ... Espiar¹. vb. ‗observar secretamente‘ XVI (CUNHA, 1986, p.323). 268. ESPRITAL Nm[Ssing.] É... as vez tá morrendo no ispritali e vindo pra cá. (10; 238). ... e num tinha negócio de correr pro esprital não. (21; 262). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... hospital XIII, espital XIII, spital XIII, esprital XIV etc. Do lat. hospitalis. (CUNHA, 1986, p.416). ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo, conforme Cunha. 269. ESPRITAR [V] ... as alma?... eu já vi... eu já vi... aí eu pedi ês pra botar ês no lugar... pra ês num vim aonde tá eu... nem eu e nem um teve coragem de... mas espritou... (35; 129-134). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 278 ______________________________________________________________________ Origem: espírito ‗parte imaterial do ser humano, alma‘ s.XIII, spirito XIII, esperito XIII etc. Do lat. spiritus –us (CUNHA, 1986, p.324). De espírito + -ar. 270. ESPRITO Nm[Ssing.] Entr.: Diz que tinha um que morreu que virava bicho. Inf.: Virava... é o esprito malino. (10; 195). ... a morte será assim... que eu num sei do segredo de Deus... mas que haver o esprito que Deus te pôs e vai receber... que haver aquele esprito que Deus pôs em nós e vai receber... que o esprito tá aí / a carne morreu né?... que haver aquele esprito... (48; 377-379). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Espríto, por espírito. 3. Freire: Esprito s.m. pop. O mesmo que espírito. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): ISPRITO • (A) • Nm[Ssing] • Lat > Port • Alma. O mesmo que espírito. • Com deus me deito com deus me alevanto...com a graça divina e o sinhô isprito santo (Ent.01, linha 333) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Espírito ‗sm. Parte imaterial do ser humano, alma‘, XIII, spirito XIII, esperíto XIII etc. Do lat. spiritus – us.‘ (CUNHA, 1986, p.324). ______________________________________________________________________ Obs: Amadeu Amaral: cita o vocábulo isprito como caso de síncope, ao lado de pêsco, musga, jeromo, rídico. (p.53) 271. ESPULETADO [ADJ] ... nego era meio espuletado também... (42; 429). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 279 1. Souza (2008): Espuletado (n/d) adj. Característica de quem é endiabrado; espertalhão. ... espera aí que ocê me paga... nêgo... nêgo era meio espuletado também... (Entr. 4, linha 416). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: espoleta ‗escorvas das bocas-de-fogo‘ ‗peça que serve para inflamar a carga dos projetis ocos‘ 1813. Do it. spoleta (CUNHA, 1986, p.324). De espuleta + -ado. 272. ESTAMBO Nm[Ssing.] ... eu dormia com uma espingarda de dois cano no estambo ó... (5; 168). ... eu fui chegando e saltei a frente assim... taquei o estambo na porta e abri as porta... (8; 383). ... e uma coisa o assa-peixe que é uma coisa amargoso pra estambo... (27; 283). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Estamago Vid estomago. 2. Morais: Estamágo v. estomago. 3. Freire: Estambo s.m. pop. Estômago. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Estâmego, estâmago, estamo, estombo, estômago s.m. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3.Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Istambo (A) Nm [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Órgão situado na parte superior do abdome, entre o esôfago e o duodeno, responsável por parte da digestão dos alimentos. Variante de estômago. A gente comia aqueles pedação de rapadura e batia água no estambo. (Entr.3, linha 437). _____________________________________________________________________ Origem: estômago s.XVI, de estoma. estamago XIV. Do lat. stomachus –i, deriv. do gr. stomachos (CUNHA, 1986, p.332). ______________________________________________________________________ Obs: Em Freire: há as variantes estambo e estamago. 273. ESTOPORO Nm[Ssing.] Hoje nem usa mais... pra estoporo... antigamente eles falava estoporo mas hoje num é... é derrame... é o mesmo derrame de hoje é o estoporo antigamente... (15; 207-208). É pra estoporo?... mas antigamente era estoporo... hoje fala derrame. (15; 215). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 280 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e 274. ESTRIPULEIRO Nm[Ssing.] ... e tinha um velho que era muito estripuleiro... vivia cansado... (10; 180). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: estripulia ‗tropelia‘, estrepelia 1844. De tropel (CUNHA, 1986, p.794). De estripulia + -eiro. 275. ESTUÇAR [V] ... quem morre num volta cá mais não... que isso aí é obra do diabo que ele estuça pra vim... vem atentar... (12; 459). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Estuchar v.r.v. De estuche + ar. Picar, aguçar. 2. Introduzir (ferro ou torno aguçado) em algum orifício. 3. Obrigar com empenhos. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 281 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: estuchar ‗colocar com força, em um orifício, peça de ferro ou de madeira, que serve de cunha‘1813. Talvez de atochar com troca de prefixo (CUNHA, 1986, p.335). F 276. FAVA Nf [Ssing.] ... rama de mandioca... era só isso... fava aí era pouca também... (3; 117). ... era essa tropa aí que puxava carne pra lá e trazia fava café e essas coisa... (5; 26). ... o dia todo... com um meio litro de fava pra comer... meio litro de fava. (16; 144). Eu plantava arroz... eu plantava feijão... eu plantava fava... (16; 214). ... aqui quando ês cortaram tinha um mantimento que chamava fava. (18; 401). ... ele saía catando os carocinho de fava naquelas coivara pra cozinhar. (18; 404). ... pegava... fazia arapuca e enchia com fava de farinha... (19; 122). ... vinha aqui pra feira pra poder ver se arranjava... um andu... feijão bem nem falava... era fava... muito feijão catador... (19; 225). O andu eu gosto muito mas o feijão catador eu como mas... a fava eu gosto muito da fava. (19; 230). ... era o arroz só que era difícil... comia fava margosa... botava as fava / as vez fava né?... (21; 235). ... comia uma colherzinha de fava um dia... o outro dia comia uma banda dec cuscuz com garapa de cana... (32; 11). ... aí eu pegava aqueles peixinho... fritava e dava os menino pra comer com uma colherzinha de fava... (32; 72). ... moleque empanzinava de fava de noite com beiju... (32; 158). ... aí num dá feijão não... só dá feijão catador... é fava... (46; 134). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Fava Os que derivão este nome do verbo grego phagein, comer, dão por razaõ, que a fava e o legume de que se come mais. 2. Morais: Fáva s.f. Legume maior, que o feijão, que nasce em vages grossas, delas muitas amargosas, e outras medicinaes. 3. Freire: Fava s.f. Lat. faba. Bot. Planta hortense da família das leguminosas, de sementes e vagens comíveis. 2. A vagem e a semente desta planta. 4. Aurélio: Fava ―sf. Bot. Planta das leguminosas, hortense, medicinal, cujo fruto é uma vagem viscosa, comestível.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 282 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: fava ‗planta da família das leguminosas‘ ‗a vagem ou semente desta planta‘ s.XIII. Do lat. faba. (CUNHA, 1986, p.351). 277. FAVACA Nf [Ssing.] Tem favaca... desses aí ocê num conhece... aqui tem favaca... artelã ocê num conhece também não. Entr.: Conheço. Inf.: Tem essa favaca... hortelã... (7; 184-187). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... alfavaca ‗planta hortense da fam. das labiadas s.XVIII, alfavega XIV, alfauava XVI. Do ár. hisp. al- habaqa. (CUNHA, 1986, p.29). ______________________________________________________________________ Obs: Aférese de alfavaca. 278. FAZER A BANCA Locução verbal {V + Art. + Ssing] ... eu dei muito lucro aos fazendeiro tudo... dei lucro / todo canto eu fazia a banca pra eles... (48; 243). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire:n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Fazer a banca (n/d) loc. verb. Dar lucro. ... eu num trabalhei em terra minha também não... terra dos outros... eu dei muito lucro aos fazendeiro tudo... dei lucro / todo canto eu fazia a banca pra eles... (Entr. 10, linha 239). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 283 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: fazer ‗executar, realizar, fabricar‘ s.XIII. do lat. facere (CUNHA, 1986, p.351). / banca ‗assento‘ s.XVI. do lat. banca. ver em banco (CUNHA, 1986, p.96). 279. FEIJÃO-CATADOR NCm [Ssing. + ADJ] ... numas terras que pai tem aqui que até hoje ele num vendeu e que nós trabalha... que tá dando esse catador aqui ( (mostra o feijão que ele estava catando))... (5; 327). ... vinha aqui pra feira pra poder ver se arranjava... um andu... feijão bem nem falava... era fava... muito feijão-catador... (19; 225). O andu eu gosto muito mas o feijão-catador eu como mas... a fava eu gosto muito da fava. (19; 230). ... nessa terra aqui eu tenho visto falar só de feijão-catador... (19; 234). ... minha esposa tinha uns parente lá que lá só produzia mesmo o feijão-catador... (19; 238). ... aí num dá feijão não... só dá feijão-catador... é fava... (46; 134). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Feijão-catador (n/d) s. Tipo de feijão. ... aí num dá feijão não... só dá feijão catador... é fava... agora o milho... (Entr. 8, linha 131). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Feijão-catador (n/d) NCm [Ssing + Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Tipo de feijão, também conhecido como feijão de corda ou feijão-fradinho. Tem o feijão-catador, de corda né? Andu que faz as farofa. (Entr.8, linha 364). ______________________________________________________________________ Origem: feijão feijões pl. s.XIII. do lat. faseolus –i (CUNHA, 1986, p.352). / catar s.XIII. do lat. captare (CUNHA, 1986, p.165). 280. FESTA DE REIS NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] Tinha festa de Reis... (41; 180). ... nós nunca gostou de festa de Reis não. (41; 180). ... todo ano tinha festa de Reis né?... (42; 152). ... no dia seis era o dia da festa... de Reis... (42; 154). Ah!... tinha... tinha... festa de Reis né? (43; 343). Entr.: ... tem um pessoal que vai na casa cantar. Inf.: É Reis. Entr.: Reis? Inf.: É... festa de Reis. (45; 199). Festa de Reis... é... eles canta o Reis seis dias... (47; 76). 284 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: festa s.XIII. do lat. festa (CUNHA, 1986, p.355). / Rei s.XIV, rey XIII, rrex XIV. Do lat. rex regis (CUNHA, 1986, p.672). ______________________________________________________________________ Obs: Em Freire: há o vocábulo Festa do Divino, com a mesma acepção de Festa de Reis. 281. FIFÓ Nm [Ssing.] Era difícil... depois de passar disso inventaram um tal de fifó... chama candeeiro. (6; 145). ... o tal fifó que eu tava falando candeeiro né? (6; 306). Com candeeiro... chamava candeeiro... uns dava o nome fifó... uns dava o nome lamparina... candeeiro... (22; 355). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Fifó s.m. Candeeiro de folha de Flandres; bibiano. 4. Aurélio: Fifó s.m. Bras. BA MG 1. Pequeno lampião a querosene, com torcida e sem manga de vidro. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (BA, MG), conforme Aurélio. 285 282. FIINHO DE IMBIGO NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Entr.: Não tinha médico. Inf.: Não... mas a gente era pegada com Deus e Nossa Senhora... Deus me ajudou que eu tenho um lote de fiinho de imbigo... (35; 185). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: filho s.XIII. do lat. filius filia (CUNHA, 1986, p.357). / umbigo s.XVI, embiigo XIII, ymbiigo XIV, embijgo XIV etc. do lat. umbilicus –i (CUNHA, 1986, p.802). 283. FINADO Nm[Ssing.] ... já vi contar muito caso daqueles homem que tinha coragem / o finado... meu... meu sogro... (3; 301). ... aqui num tinha escola... a escola era... era o finado meu avô... (5; 85). ... a irmã dela botou ela nas costa... a finada (nome)... (15; 183). ... pai diz que contava causo que o finado meu avô contou... (15; 279). ... aqui o finado (nome) o povo dele já morreu mucado... (18; 293). ... que a água tava caindo na biqueira e a finada minha mãe lavando roupa... (18; 354). ... chamava até véi (nome)... ele e o finado (nome)... (18; 377). ... levava no chapéu... que nem o finado meu sogro mesmo... (18; 382). ... o finado meu pai e esses outros... (18; 518). ... o finado meu pai trabalhava a semana tudo por cinquenta... (18; 521). Eu já / o finado / eu mesmo quando eu cheguei praqui... (18; 527). ... era a finada (nome)... (nome)... a finada (nome)... que morreu com vinte e um ano. (20; 40). ... tinha um homem aqui que era farmacete... o finado (nome)... (31; 125). A finada mãe correu mais... (31; 157). ... o finado (nome)... o segundo marido meu também correu... (31; 168). ... eu ia lá na rua pra comprar... na mão do finado (nome)... (31; 185). ... aqui na terra do finado (nome) tinha... tinha marcela... (31; 240). ... isso aí é do tempo do finado (nome) meu pai... (32; 345). ... até quando eu vim pra essa casa... com a companhia do finado (nome)... (43; 134). ... mesmo na casa do... do finado Pacífico que morava no Gato... (49; 72). ... o finado Juca Venâncio foi enterrado lá ó... (53; 17). Era a finada Jove. (53; 112). 286 ... desse eu sei... o finado Nem Costa... (53; 182). ... festona... no tempo do finado Monsenhor Jaime... (53; 213). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Finado. (Palavra antiga). Defunto, morto. O que poz fim a vida. Defunctus. Plin. Vita defunctus. Virgil. 2. Morais: Finádo. p. pass. De Finar. Morto. 3. Freire: Finado. adj. P. p. de finar. Morto, falecido. 4. Aurélio: Finado. [Part. De finar.] Adj. 1. Que se finou. S. m. 2. Indivíduo que faleceu; defunto, falecido. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Finado (A) s. Pessoa que faleceu, morto. ... o finado Juca Venãncio foi enterrado lá ó... (Entr. 15, linha 16). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Finado. v. fim finado XIV (CUNHA, 1986, p.358). 284. FINDILIZAR [V] ... tem gente que num acredita que o século findiliza... (42; 319). ... o primeiro século foi findilizado com fogo... o segundo foi findilizado com água... (42; 325). ... e o século vai ser findilizado com fome... (42; 332). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Findilizar (n/d) v. Finalizar, terminar. ... isso já aconteceu duas vezes né... o primeiro século foi findilizado com fogo... o segundo foi findilizado com água... pois bom... esse agora... diz que é com fome... peste e guerra né. (Entr. 4, linha 316). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: finalizar s.XVIII. de fim. (CUNHA, 1986, P.358). 287 285. FIXA Nf [Ssing.] Tá a fixa da porta... olhava assim um olho lá e olhava de cá... (37; 152). Ela olhava pela fixa da porta... e ocê de cá... (50; 150). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Fixa. de machafemea. A parte que entra na madeira. 2. Morais: Fixa. sf. A parte da machafemea, que se entra na madeira, cravada na umbreira. 3. Freire: Fixa. s.f. Lat. Fixus. Parte da macha-fêmea que se embute na Madeira. // 5. Travessa levemente despontada que se encaixa na parte posterior das portas e janelas não engradadas, para manter unidas as tábuas de que são formadas. 4. Aurélio: Fixa. (cs). [F. subst.. do adj. Fixo.] S. f. 2. Parte da dobradiça que se embute na madeira. 3. Bras. N.E. Travessa levemente despontada que se encaixa na parte posterior das portas e janelas não engradadas, a fim de manter-lhes unidas as tábuas. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Fixa (A) s. Buraco ou fresta junto à travessa da porta. Ela olhava pela fixa da porta... e ocê de cá... (Entr. 12, linha 48). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Fixa. sf. 1813. Do lat. fixa, fem. de fixus (CUNHA, 1986, p.360). 286. FOCINHO-DE-BOI NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] ... e os menino novinho qua ndo ia nascer dente era carpiar... um tal de focinho-de- boi... um carrapicho que faz um picão... (14; 100). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Focinho de burro s.m. Espécie de antirrino (Anthirrinyum majus). 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 288 _____________________________________________________________________ Origem: focinho s.XVI. do lat. *faucinus, deriv. de faux ‗garganta‘ (CUNHA, 1986, p.363). / boi s.XIII. Do lat. bovem (CUNHA, 1986, p.115). 287. FOFAR A MADEIRA Locução verbal [V + Art. + Ssing.] ... uma tal palmatória... _ Bota a mão aí!... nós botava a mão e macetava... onde tava aquela maloca de bruto... / que ele era um velho que era tio meu... chamava tio (nome)... e nós pegava... fofava a madeira... era pior quando chegava lá em casa e o pai nosso dava ni nós... (6; 175). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: fofo s.XVI. Palavra onomatopaica (CUNHA, 1986, p.363). / madeira s.XIII. do lat. matéria, de mater ‗mãe‘ ‗tronco das árvores‘ (CUNHA, 1986, p.488). ______________________________________________________________________ Obs: O mesmo que bater (com palmatória). 288. FOLIA DE REIS NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] ... lá em casa mesmo as vez passava cinco seis folia de Reis. Entr.: Ah folia de Reis. Inf.: Chamava folia de Reis... ês canatava muito lá... (3; 266). ... de vez em quando eu pego eles cantando aqui... cantando nos presépio só... nem mais folia de Reis aqui tem... aqui de primeiro ocê encontrava dez folia de Reis cantando dentro da cidadezinha né? (22; 564-566). Canta o Reis também... é folia de Reis. (23; 236). Tem tem tem... como tem aí na televisão aí nessas cidade grande... aquelas folia de Reis no Ceará... (23; 240). ... aqui tinha tudo... tinha folia de Reis... (26; 409). ... teve um presépio aqui em casa... quando veio / a folia de Reis veio aqui... (26; 411). Antigamente a diversão era... era folia de Reis né?... (39; 664). Eles canta assim nas rua... nas casa da gente... aquela folia de Reis... chama folia de Reis né? (40; 224). ... todo ano tinha festa de Reis né?... tinha os rezeiro que saía no dia primeiro... e saía com o Reis / uma folia de Reis... (42; 153). Tinha as folia de Reis... de rezeiro... que cantava... (42; 175). Aqui nós trata de folia de Reis. Entr.: Folia de Reis. Inf.: Folia de Reis. (43; 345-347). ... que folia de Reis o senhor num tem quantidade de ganhar... (43; 367). 289 ... saía aquela bandeira... saía a folia de Reis com aquela bandeira... (43; 392). Entr.: E aqui tinha folia de Reis também? Inf.: Reis? Entr.: É. Inf.: Tinha... tinha folia de Reis. (53; 219-221). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Festa. s.f. Lat. Festa. Festa dos reis, s.f. O mesmo que dia de reis. 4. Aurélio: Folia. [Do fr. Folie.] S. f. 4. Lus. Nas Beiras, procissão de homens que cantam em louvor do Espírito Santo. 5. Bras. Grupo de rapazolas, vestidos de branco, que pedem esmolas para a festa do Espírito Santo ou dos Reis, e cantam ao som de violões, cavaquinho, pandeiro, pistom e tantã1. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Folia de Reis (n/d) s. Agrupamento de homens que saem pelas ruas no mês de janeiro, vestidos de branco e cantando, dançando e orando em homenagem ao dia de Reis. Eles canta assim nas rua... nas casa da gente... aquela folia de Reis... chama folia de Reis né. (Entr. 2, linha 219). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: folia ‗dança rápida ao som do pandeiro‘ ‗folgança ruidosa, pândega‘ s.XVI. do fr. folie (CUNHA, 1986, p.363). / Rei s.XIV, rey XIII, rrex XIV. Do lat. rex regis (CUNHA, 1986, p.672). 289. FORRA Nf [Ssing.] ... aí ela deu a forra pros negro... (50; 188). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Forra (n/d) s. Liberdade; alforria. ... aí ela deu a forra pros negro... foi que os negro num ficou sendo escravo mais... (Entr. 12, linha 186). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ 290 Origem: forro² ‗liberto, alforriado‘ s.XIV. do ár. hurr (CUNHA, 1986, p.365). 290. FORRÓ Nm [Ssing.] ... e dançava muito forró esse dia e tudo... (1; 257). Entr.: O que que tinha de bom nessas festas? Inf.: É só biscoito... feijão arroz e carne e pronto... e o forró. (38; 65). De vez em quando eu ia num forrozinho. (42; 102). O forró... de primeiro... num tinha esse negócio de... mulher num dançava não... (42; 106). Um forró... fazia um forró... um churrasco né? (42; 116). ... aí mesmo que eu num perdia um forró... (42; 125). ... chegava nessa outra casa tava outro forró... (43; 324). ... e nas roça todo mundo fazia forró né?... nós tratava de forró né?... (43; 334). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Forró s.m. pop. Baile de gente ordinária. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... ‗forró s.XX. Prov. redução de forrobodó.‘ (CUNHA, 1986, p.365). 291. FORRAR [V] ... nesse tempo mamãe já era moçona... que ela lembra o dia que forrou... que foi aquele festão. (44; 272). O dia que ês forrou. Entr.: Que teve a... Inf.: Que ês fez festa.. que fizeram festa. Entr.: Que teve a libertação dos escravos? Inf.: Sim... e forrou ês né?... era escravo. (44; 274-278). ... ela ficou branca... ela deu / forrou os negro. (50; 191). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Forrar um escravo ‗Darlhe carta de alforria. Darlhe liberdade.‘ 2. Morais: Forrar um escravo ‗Dar-lhe alforria‘ 3. Freire: Forrar ‗v. r. v. De forro + ar. Tornar forro ou livre; dar alforria a; pôr em liberdade; resgatar (tr. dir.; bitr., com prep. De).‘ 4. Aurélio: Forrar² ‗[De forro² + -ar] v.t.d. e i. 1. Tornar forro ou livre; alforriar.‘ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 291 1. Souza (2008): Forrar (A) v. Libertar; dar alforria. ... nesse tempo mamãe já era moçona... que ela lembra o dia que forrou... que foi aquele festão. (Entr. 6, linha 262). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... forrar s.XIII. (CUNHA, 1986, p.365). 292. FRACO [ADJ] ... e num era só fazendeiro não que tinha gente fraco também... (2; 233). ... os patrão deles... as vez comprava / tinha uma mulher fraca ou qualquer coisa... tinha aqueles menino... ês comprava aqueles menino pra poder criar... (2; 302). E o meu pai que era mais fraco fazia a festa mais pouco... (3; 99). ... mexi um tempo... pra ajudar o marido criar os filho... ele era fraco... esse homem era fraco... (4; 07). ...era um tempo muito pobre...tinha muito fraco...os pais de família coitado... (8; 202). Tinha não... aqui o povo tudo era fraco. (17; 89). É... tinha a religião de gente fraco... só trabalha mesmo pra comer. (17; 91). ... se a cidade é fraca que num tem condições de ter um especialista... (33; 215). ... meu marido num / é fraco também... só veve trabalhando... na roça num dá nada não... (36; 35). ... e criei e casei e meu marido era fraco... (36; 71). ...era fraquinho...nós tudo fraquinho... ele num podia botar um camarada... (45; 270). ...aqui era tão fraco moço...fraquinho...tinha uma serraria ali embaixo... (45; 334). ... o pessoal do campo / todos eles são fraco... (48; 33). ... tá precisando de uma providência séria do governo... pra o governo conhecer que essa nação é fraca... (48; 35). ...aqueles pobre de espírito...mas um fraco...um fraco rico de espírito que nem eu... (48; 83). ... eu mesmo vi fraco e nunca pude comprar um sítio... (48; 238). ... aqueles fraquinho dava um frango uma dúzia de ovo... (48; 281). ... o mais grande querendo sentar na cabeça do mais fraco. (48; 351). ... registrava como filho deles... e tomava muitos pobrezinho... muitos fraquinho tomava. (48; 361). E hoje a revolta tá por isso... que eu sou fraco e tem meu filho... (48; 363). ... hoje a nação fraca... a nação fraca só num tá debaixo de uma laje / agradece Deus primeiramente... (48; 478). ... o fraco aqui... o fraco aqui tá sem caminho... num tem caminho de negociar e nem trabalho... (48; 481). ... então o povo fraco tá sem poder viver hoje. (48; 490). ... porque os pai da gente era fraquinho / tomem trabalhava muito na roça. (52; 197). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Fraco Covarde, pusilamine. O que não tem valor. 2. Morais: Fraco adj. Debil, de pouca força, e sustância. 3. Freire: Fraco adj. Lat. flaccus. 14. Mal guarnecido ou que tem poucas condições de resistência. 292 4. Aurélio: Fraco [do lat. flaccu] adj. 11. Mal guarnecido; pouco defendido; falho de recursos. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Fraco XIII. Do lat. flaccus.‘ (CUNHA, 1986, p.367). 293. FREGUESIA Nf [Ssing.] ... ele foi dono da paróquia aqui por muitos anos... a freguesia dele aqui comandou por mais / por sessenta ano calculado né?... (22; 15). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Freguesia A igreja parochial. 2. Morais: Fréguezia s.f. Igreja parochial. O uso de ir comprar a certa parte. As pessoas afreguesadas. 3. Freire: Freguesia ou freguezia s.f. 4. O distrito de uma paróquia. 5. A igreja paroquial. 6. Todos os fregueses de uma paróquia; os paroquianos. 4. Aurélio: Freguesia [de freguês + -ia] s.f. 1. Povoação, sob o aspecto eclesiástico. 2. O conjunto dos paroquianos. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... freguesia s.XIII. De freguês. (CUNHA, 1986, p.368). 294. FREVER [V] ... eu só vi mulher panhando feijão frevendo... (8; 318). ... panhava numa panela de ferro assim ó e a hora que aquilo frevia aquele azeite subia aquele óleo... (33; 318). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Ferver estar em grande agitação, trabalho ou ação. 3. Freire: Ferver v.r.v. Lat. fervere. 12. Concorrer em grande número; amontoar- se, aglomerar-se (intr.): tocam a arma, feve a gente, as lanças e arcos tomam, tubas 293 soam (Camões). 4. Aurélio: Ferver: [Do lat. fervere.] V. int.7. Excitar-se, inflamar-se, exaltar-se, espumar, fervilhar: No comício, a multidão fervia. 10. Animar-se, estimular-se, excitar- se: A discussão fervia. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): 3. Freitas (2012): FREVER • (A) • [V] • Lat > Port • Agitar-se, excitar-se, animar- se. • Quano foi de note...nós freveu na festa tava um trem doido ( (risos))mais o trem tava bão demais (Ent.04, linha 259). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Ferver vb. s.XIII. Do lat. fervēre. (CUNHA, 1986, p.354). 295. FRUITA Nf [Ssing.] ... e o travesseiro era de marcela... d‟uma... d‟uma fruita macia... (21; 448). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Fruita Vid fruta. 2. Morais: Fruita s.f. v. fruta. 3. Freire: Fruita s.f. Ant. Fruta. 4. Aurélio: Fruita s.f. 1. Ant. pop. fruta. 5. Amaral: Fruita fruta, s.f. Este t apresenta a curiosa particularidade de poder, sem determinante, referir-se especialmente à jaboticaba: ‗Estamo no tempo das fruita; daqui a poco havemos de i pro mato a percura dela.‘ A forma é arc. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... fruta s.XVI, fructa XIV, fruyta XIV, froyta XIII. Do lat. vulg. fructa. (CUNHA, 1986, p.370). _____________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo, conforme Cunha. 296. FUGAR [V] ... -Olha... nós num tem negócio de boiada não... suas estrada é aquela... ocê vai e sai 294 daqui agora senão ocê morre!... aí eles fugou e num comprou boi e num comprou nada... (5; 108). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Fugar v. tr. dir. Lat. fugare. Des. Pôr em fuga; afugentar. 4. Aurélio: Fugar [de fuga + -ar] v.t.d. desus. 1, pôr em fuga; afugentar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: fuga s.XVII. do lat. fuga (CUNHA, 1986, p.370). De fuga + ar. ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo em desuso de acordo com os dicionários consultados. 297. FULO [ADJ] ... só aí que ês fazia cacimba pra arrancar uma aguinha muito fulo... (27; 446). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Fulo adj. diz-se do preto, e do mulato, que não tem a sua cor bem fixa, mas tirante a amarello, ou pallido. 3. Freire: Fulo adj. Lat. fulvus. 3. Fam. Muito zangado, irritado, furioso. 4. Aurélio: Fulo¹ [do lat. fulvu, por via popular] adj. 2. Irritadíssimo, genioso; colérico. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: fulo s.XVIII, de fulvo. do lat. fulvus (CUNHA, 1986, p.371). ______________________________________________________________________ Obs: No contexto da entrevista, carrega a acepção de pouco, diminuto, reduzido. 298. FUNDAR [V] ... funda naquela terra macia e aquele calor da terra de baixo por cima... (5; 328). ... preto quando acha uma entrada ele funda... e o branco ainda fica meio lá meio cá... (6; 215). 295 ... ele panhava a chave e fundava no quarto dele e o velho de lá com o olho... (8; 108). Tinha contradança... a hora que terminava o Reis o dono da casa abria a casa e nós fundava dentro pra fazer a contradança... (16; 629). É os caminhãozão... aquilo nós fundava e entrava dentro do trem... (16; 733). ... lá em Monte Azul o primeiro avião que passou lá teve muita gente que fundou debaixo da cama dizendo que o mundo ia acabar... (26; 165). ... carregava uma tropa de cinco ou seis animal... e fundava aí. (39; 338). ... aí moço o povo fundou nesses mato... (39; 362). ... entrava no mato de cipó assim e fundava naquele mato... (39; 682). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Fundar v. at. Lançar os fundamentos, alicerces. [...] . Fundar n. A arvore funda muito, i.e. lança as raízes profundamente. 3. Freire: Fundar v.r.v. Lat. fundare. 11. Penetrar muito interiormente; lançar-se raízes profundas. 4. Aurélio: Fundar [do lat. fundare] v.t.d. 5. Tornar profundo; profundar, escavar. V. int. 13. Penetrar no solo; profundar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Fundar (n/d) v. Ir ao fundo. Variante de afundar (afundar > fundar – caso de aférese). Ele faz um boi direitinho de pano... e um funda debaixo e sai na rua... (Entr. 2, linha 229). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... fundar s.XIII. Do lat. fundare. De fundo. (CUNHA, 1986, p.372). G 299. GALARDÃO Nm [Ssing.] ... vai ganhar galardão de Deus... vai ganhar galardão com Deus... (48; 380). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Galardam. Remuneração. Premio. Vid. Nos seus lugares. Derivase do francez Gaerdon. Atigamente diziaõ os francezes Guerredon, voz compostas destas duas Guerre & don como quem dissera dom de guerra; & era o dom, ou premio que se dava a gente de guerra, a que (segundo Suetonio, e outros 295utores) os Romanos chamavaõ Donativum. Hoje o Guerredon, ou Gerdon dos francezes, & o nosso galardão, se tomaõ por qualquer premio, paga, ou recompensa. Vos há Deos de dar o galardão, & premio de todos os trabalhos. Lobo, Corte na Aldea 124. 2. Morais: Galardão. sm. Remuneração, premio. 296 3. Freire: Galardão. s.m. Ant. Alt. al. wilardon. Recompensa de serviços importantes. // 2. Prêmio, glória. 4. Aurélio: Galardão. [Do gót. * wRthralaum, *wedarlgaun, pelo romance antigo *gwelardaum (com metátese), e pelas f. (Port. Ant.) galardom, gualhardom.] S. m. 1. Recompensa de serviços valiosos; prêmio. 2. Honra, glória. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Galardão (A) s. Recompensa; honra, glória. ... esse sofrimento que eu tou falando... vai ganhar galardão de Deus... (Entr.10, linha 373). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Galardão. sm. ‗recompensa de serviços valiosos, prêmio, glória‘ / XV, -dom XIII, -don XIII etc. / De origem germânica. (CUNHA, 1986, p.375). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo antigo, segundo Freire. 300. GALINHA-DE-BENDEGÓ Nf [Ssing.] ... eu levava umas galinha pra casa de madrinha (nome) pra comer com feijão... levei a galinha pra lá... a galinha-de-bendegó... levei pra lá uma galinha-de-bendegó. Entr.: Bendegó? Inf.: galinha-de-bendegó é que tem o pescoço pelado. Entr.: Ah sei... então chama bendegó. Inf.: galinha-de-bendegó... (13; 391-396). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: galinha s.XVI. do lat. gallina. Ver em galináceo (CUNHA, 1986, p.376). / bendegó ‗do topônimo Bendengó, município da Bahia‘. 301. GAMELA Nf [Ssing.] ... pegava aquelas cuia... gamela... fazia aquelas gamelinha de barro... (6; 155). ... a gente relava a mandioca e colocava numa gamela né? (11; 160). 297 E esse aqui... essa raiz de pau aqui ele tirou... tirou duas gamela de bater rapadura bem grande assim ó... (20; 209). .... as véia sentava e botava aquela candeia em cima do... em cima duma gamela né?... ficava aquelas candeinha em cima das gamela... (21; 437-438). E outras gamelinha redonda assim?... eu enchia de comida e ia levar na roça... (31; 318). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Gamella. Vaso de pao concavo, ou tronco vasado, comprido em que comem os porcos. // gamella também he outro vaso de pao cavado em redondo, largo, & pouco fundo, em que as molheres costumaõ trazer maos de carneiro. 2. Morais: Gamella. s.f. Vaso de páo como alguidar, ou côncavo por igual em redondo para banhos, ou lavar o corpo; para dar de beber as bestas, &c. 3. Freire: Gamella. s.f. Lat. camella. Vasilha em forma de tigela muito grande ou alguidar, ordinariamente de madeira, em que se dá a comer aos porcos e outros animais, e serve também para banhos, lavagens e outros fins. 4. Aurélio: Gamela². Gamela² [Do lat. vulg. *gamella, cláss. Camella, ‗certo vaso de madeira‘.] S.f. 1. Vasilha de madeira ou de barro, com a forma de alguidar ou de escudela grande, us. Para lavagem (4) e/ou para dar comida aos animais domésticos. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Gamela (A) s. Utensílio, geralmente de madeira ou barro, em forma de tigela, usado para lavar alimentos ou mesmo para servi-los. ( ) lá na parambeira / o machado tenho / pra cortar madeira / pra fazer gamela pra vender na feira / pra comprar sapato pra dançar rancheira... (Entr.6, linha 136) 2. Ribeiro (2010): Gamela • (A) • Nf [Ssing] • Lat. • Utensílio, geralmente de madeira ou barro, em forma de tigela, usado para lavar alimentos ou mesmo para servi- los. • PESQ.: Cortava a árvore? INF. 2: Fazia uma gamela lá. (Ent. 1, linha 419) 3. Freitas (2012): GAMELA • (A) • Nf[Ssing] • Lat > Port • Utensílio, geralmente de madeira ou barro, em forma de tigela, usado para lavar alimentos, para servi-los ou até mesmo para tomar banho. • No torcê a massa aquela água vai...o purví vai assentano ô numa gamela ô no tacho que parô ea o pruví vai assentano...no fundo (Ent.01, linha 156) 4. Miranda (2013): Gamela (A) Nmf [Ssing] Lat > Port. Utensílio, geralmente de madeira ou barro, em forma de tigela, usado para lavar alimentos, para servi-los ou até mesmo para tomar banho. Gamela é aquele trem... qué vê ( (procura o utensílio))... gamela de pau é isso... (Entr.2, linha 196). 5. Cordeiro (2013): Gamela (A) Nf [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Vasilha de barro ou de madeira usada para lavar objetos ou servir comida. Tomava banho no que? Na gamela. Nem bacia tinha. Na gamela. (Entr.1, linha 139). _______________________________________________________________________ Origem: Gamela. sf. - espécie de alguidar feito de madeira XIII. Do lat. camella, dimin. de caměra vaso para beber (CUNHA, 1986, p.377). 298 302. GANGORRO Nm [Ssing.] Era... aqui tinha o tropeiro que havia três tipo... a burrada na estrada... batendo o chincherro... aquilo dalã dalã dalã. Entr.: Batendo o que? Inf.: Ba / era um gangorro um chincherro. (27; 383-387). ... botava naquele animal que ia na frente... que tinha / chamava madrinheiro... quer dizer o da frente. Entr.: Ah... madrinheiro. Inf.: É... e ele tem um gangorro e ia batendo... (27; 393-395). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e ______________________________________________________________________ Obs: O mesmo que sineta. Variante de cincerro. 303. GARAPA Nf [Ssing.] ... e ponhava a pinga nos cochão... a garapa... porque que tinha é coxo... ia lá e ponhava pra ferver no alambique... (3; 382). ... agora ia destilando... aquela garapa ia saindo a pinga destilada... o suor da garapa subia pra riba... (21; 414). ... ponhava o fogo debaixo daquele panelão e agora a garapa num / ela num fervia não... (21; 416). ... comia uma colherzinha de fava um dia... o outro dia comia uma banda de cuscuz com garapa de cana... (32; 12). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Garapa. S.f. Bebida feita de calda, ou melaço com água, e limão no Brasil. 3. Freire: Garapa. S.f. Bebida refrigerante que se extrai da cana de açúcar. 4. Aurélio: Garapa. [Der. regress. Do esp. garapiña < esp. garapiñar, ‗solidificar um líquido, de modo a formar grumos‗.] S.f. Bras. 1.Bebida refrigerante, de mel ou de açúcar com água, a que algumas vezes se adicionam gotas de limão; jacuba. 5. Amaral: Garapa, Guarapa. S. f. – caldo de cana de açúcar. | É t. também corrente no Norte do Br., com ligeiras variantes. Parece que a ideia central é a de bebida melosa. 299 Em Angola, seg. Capelo e Ivens, citados por B. – R., designa uma espécie de cerveja de milho e outras gramíneas. O fato de ser o t. conhecido há séculos no Br., e também na África, parece indicar que é de importação lusitana. Talvez originado do fr. grappe, ou do it. grappa. Garcia, seguindo a B. Caetano, dá-lhe étimo tupi-guarani. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Garapa • (A) • Nf [Ssing] • Cont. • Bebida proveniente da cana- de-açúcar. • Chegava de madrugada ( ) ficava pono o cavalo no ingenho, um punha a cana e o otro tocava o cavalo. Chegava manhecia o dia aquela caxa grande cheia de garapa. Punha nas caxa e ia apurá‖ (Ent. 5, linha 320) 3. Freitas (2012): GARAPA • (A) • Nf[Ssing] • cont. • O sumo da cana usado como bebida e para produção de derivados da cana. • Oiava debaxo da fornáia aquês trem véi tudo que tinha aqueas bagacêra véia dento da fornáia de cuzinhá garapa aquês trem véi tudo (Ent. 04, linha 362) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Garapa (A) Nf [Ssing] Cont. Caldo de cana. Eles fazia e muía a cana. Quando a garapa vinha escumano no tacho punha mutamba até quando ês parava tinha que por azeite e aí despejava quiando dava ponto... (Entr.4, linha 114). _______________________________________________________________________ Origem: ... Garapa. Sf. Bebida formada pela mistura de mel ou açúcar com água o caldo de cana XVI. De origem controversa. Em 1638, em carta escrita da Bahia, lê-se: Vinho de assucar[aguardente de cana-de-açúcar] a q cá chamão garapa[...] . (CUNHA, 1986, p.378). 304. GARRANCHO Nm [Ssing.] ... tinha muitos lugar que nós tinha que puxar o cavalo porque num podia passar debaixo dos pau... dos garrancho... (12; 16). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Garrancho Enfermidade no casco dos pés, ou mãos do Cavallo. 2. Morais: Garrancho s.m. Doença, que vem ao casco das bestas. Ramo de paos e arbustos tortuosos. 3. Freire: Garrancho s.m. Esp. garrancho. 2. Arbusto tortuoso. 3. Ramo tortuoso de árvore. 4. Aurélio: Garrancho [do esp. garrancho] . S.m. 2. Ramo tortuoso de árvores. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 300 ______________________________________________________________________ Origem: garrancho s.XVII. Prov. do cast., do cruzamento de garra com gancho. (CUNHA, 1986, p.379). 305. GAVAR [V] ... que o comércio era atrasado proque os prefeito num tinha disposição de sair né?... antão aquele prefeito o povo gavava muito dele... (21; 69). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Gabar Dar louvores. 2. Morais: Gabar v.a t. Louvar, elogiar. Gabar-se louvar-se, jactar-se de partes que se não possuem, ou das que se possue. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Gavava v.t.d. e v.p. pop. 1. V. gabar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... gabar, do francês gaber. 1881. (CUNHA, 1986, p.374). 306. GENGIROBA Nf [Ssing.] Nós tomava era noz-moscada gengiroba folha de laranja... (41; 225). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Gengiroba (n/d) s. Planta medicial, tomada em forma de chá. Nós tomava era noz-moscada gengiroba folha de laranja... esse era o remédio nosso... (Entr. 3, linha 217). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e 301 307. GENTIO Nm [Ssing.] ... por aqui tinha um viajante... esse gentio eu conheci ele... (11; 28). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Gentio Pagão. / Gentio gente baixa, popular. 2. Morais: Gentio adj. Barbaro idolatra, pagão. O gentio subst.. A gente que serve o gentilismo, Barbara. It. A gentalha, plebe. 3. Freire: Gentio s.m. 2. Pop. Grande quantidade de gente. 4. Aurélio: Gentio¹ [do lat. genetivu] s.m. 1. Para os hebreus, o estrangeiro. 3. Por ext. índio. Gentio² [de gente + -io] s.m. pop. 1. Grande porção de gente; multidão. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... gentio ‗grande quantidade de gente‘, s.XVI. (CUNHA, 1986, p.383). 308. GERAIS Nm [Spl.] ... ele gritava nesses gerais... igual um guará... (4; 276). O gado ês já soltava no campo... chamava gerais né? Entr.: Gerais. Inf.: Gerais... (21; 211-213). ... outro dia no lugar que eles mataram ele aí no gerais... (42; 542). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Gerais ou Geraes s.m. PL. Lugares ermos, longínquos, onde não costuma penetrar gente. 2. Lugar virgem, coberto de mato. 3. Campos do planalto central do Brasil. 4. Aurélio: Gerais [de campos gerais] s.m. pl. Bras. 2. Lugares desertos e intransitáveis, no sertão do Nordeste. 4. Campos extensos, inaproveitados e desabitados; campos gerais. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: redução de campos gerais conforme o Aurélio acima. 302 ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme Aurélio. 309. GRÃO-DE-BURRO NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] ... porque os passarinho fazia muito ninho no pau... o pau é um grão-de-burro... dava aquela fruta amarela... (5; 51). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e Origem: grão s.XIII, graao XIV. Do lat. granum (CUNHA, 1986, p.393). / burro s.XIV. do lat. burrus ‗ruço, vermelho‘ (CUNHA, 1986, p.128). ______________________________________________________________________ Obs: Em Freire: há as entradas grão de bode e grão de cavalo. 310. GRÃO-DE-GALO NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] ... pra refresco avelano... quer ver... o grão-de-galo né?... (27; 282). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Grão de galo s.m. Planta da família das ulmáceas, também chamada juá miúdo e vurapiá (Celtis iguaneus). 4. Aurélio: Grão-de-galo [de grão + de + galo] s.m. Bras. Bot. 1. V. abutua. 2. V. babosa branca. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Grão-de-galo (A) NCm [Ssing + prep.. + Ssing] Port. Espécie de árvore frutífera. ... naquela época num tinha merenda não... tinha aquelas fruta... ingá... ingá dava cada bagem assim... grão-de-galo... acabô tudo rapaz... (Entr.5, linha 191). 303 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: grão s.XIII, graao XIV. Do lat. granum (CUNHA, 1986, p.393). / galo s.XIII. do lat. gallus. Ver em galináceo. (CUNHA, 1986, p.376). ______________________________________________________________________ Obs: Este vocábulo é variante de juá meirinho, apontada em outra ficha deste estudo. 311. GUIEIRO Nm [Ssing.] ... agora quando era gadinho mais pouco ia um guieiro... (28; 166). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Guiador Vid Guia. 2. Morais: Guiador s.m. O que guia. O que dirige, aconselha. 3. Freire: Guieiro s.m. Aquele que vai à frente, guiando (falando-se especialmente de um animal que vai adiante de um rebanho). 4. Aurélio: Guieiro [de guiar + -eiro] s.m. 2. Bras. Indivíduo que guia bois. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: guia s.XV. De guiar (CUNHA, 1986, p.400) De guiar + -eiro. ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 312. GUISADO Nm [Ssing.] Ah a gente brincava de fazer uns guisadinho... arrumava umas panelinha pequena e fazia um guisado e diz que tava fazendo comida. (20; 04). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Guisado p. pass. De guisar. [...] . Part. e subst.. Comer feito: v.g. o comer está guisado: tenho para darvos um guisado. 3. Freire: Guisado s.m. De guisar. Iguaria com refogado. 4. Aurélio: Guisado [subst., do part. de guisar] s.m. cul. 1. Preparação culinária com refogado. 2. Ensopado. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 304 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... guisado, s.XIII, guysado XIV. De guisa ‗maneira, modo, feição‘. (CUNHA, 1986, p.400). 313. GURITA Nf [Ssing.] Entr.: Diz que pra trazer as coisa pagava imposto? Inf.: Pagava... Entr.: Diz que tinha gente que escondia. Inf.: Escondia... escondia muito. Entr.: É? Inf.: É mais... a gente pra andar no claro... que tinha muitas... as gurita pra gente passar pro (nome)... Nova Conquista também... (18; 50). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Gurita Vid guarita. 2. Morais: n/e 3. Freire: Gurita s.f. pop. O mesmo que guarita. 4. Aurélio: Gurita [alt. de guarita] s.f. pop. 1. guarita. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... guarita s.XVI, gurita XVI. Possiv. Do it. garitta, com influência de garida. (CUNHA, 1986, p.399). ______________________________________________________________________ Obs: O vocábulo gurita carrega a acepção de ‗posto fiscal‘ no contexto acima. H 314. HARMÔNICA Nf [Ssing.] ... ele contava e falava... toca violão toca harmônica lá dentro da lagoa... (32; 260). Entr.: O que que é essa harmônica? Inf.: Harmõnica é esses... de fole. Entr.: Ah sei. Inf.: Pezinho de bode... essa oitenta... cento e vinte. (32; 265-267). Era festa de tocação de harmônica... nem violão num tinha... era tocar harmônica. Entr.: Harmônica? Inf.: É sim... harmônica... nesse tempo as festa daqui era assim... num era com toque de violão não. (52; 114-116). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Harmônica. s.f. fem. de harmônico. Instrumento de música que consiste numa espécie de caixa de ressonância com lãminas de vidro, que se tocam com uma 305 baqueta; marimba. // 2. Harmônio portátil. // 3. Pequeno instrumento de foles, espécie de órgão portátil. 4. Aurélio: Harmônica. [Do ingl. harmonica ‗instrumento musical inventado na Alemanha e aperfeiçoado por Benjamin Franklin (1716-1790)‘.] S. f. 1. Instrumento musical: caixa de ressonância provida de lâminas de vidro de comprimento desigual que são vibradas com uma baqueta. [Cf. copofone. ] 2. V. gaita (2). 3. V. concertina. 4. Bras. Espécie de acordeão (1). 5. Amaral: n/e ______________________________________________________________________ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Harmônica (A) s. Instrumento musical. O mesmo que sanfona, acordeão. Era festa de tocação de harmônica... nem violão num tinha... era tocar harmônica. (Entr. 14, linha 111). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Harmônica. Harmônica sf. 1881. / Do ing. harmonica instrumento e nome adaptados por Benjamin Franklin, em 1762, do al. Harmonika, deriv. do lat. harmonǐca, fem. de harmonǐcus. (CUNHA, 1986, p.403). I 315. ILUMIAR [V] ... botava o querosene e a puxada lá... e ilumiava... as esquina só né?... só nas esquina... mas ilumiava longe... (24; 269-270). Num tinha nada... ilumiava com querosene... (31; 209). ... um candieirão de barro assim cheio de azeite pra poder ilumiar a noite... (37; 199). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Illuminar Alumiar. 2. Morais: Illumiar v. at. V. illuminar. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: iluminar 1530. Do lat. illuminare (CUNHA, 1986, p.425). _____________________________________________________________________ 306 Obs: Caso de retenção linguística. 316. IMBIGO Nm [Ssing.] ... ela veio e cortou o imbigo dele... (4; 43). ... quando dava tempo de buscar a parteira bem... quando num dava era ele mesmo... cortava o imbigo da criança. (16; 472). ... ninguém tinha nada né?... cortava o imbigo... ninguém tinha nada... (44; 446). ... quando eles cortava imbigo a gente fazia era azeite... pra passar no imbigo... aí com três dia... quatro... o imbigo caía... (47; 124). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Umbigo. Embigo. Vid no seu lugar. O primeiro parece mais próprio pela analogia, que tem com umbilicus, que em latim significa o mesmo. Porém o uso he por embigo. 2. Morais: Umbigo. V. Embigo, como se diz ordinariamente. 3. Freire: Umbigo. s.m. Cicatriz no meio do ventre, originada pelo corte do cordão umbilical. 4. Aurélio: Umbigo. [Do lat. umbilicu, pela f. *umbiigo.] Substantivo Masculino 1. Anat. Cicatriz no meio do ventre, originada pelo corte do cordão umbilical. 2. Bot. Formação mais ou menos desenvolvida que se nota no centro e na base de certos frutos, como, p. ex., a laranja-da-baía. 5. Amaral: Imbigo. s.m. //Embigo é forma popular. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Imbigo (n/A) s. Cicatriz produzida pelo corte do cordão umbilical. Variante antiga de umbigo (Umbigo > imbigo – caso de assimilação). ...quando eles cortava imbigo a gente fazia era azeite... ( ) pra passar no imbigo... e era assim... aí com três dia... quatro... o imbigo caía.. (Entr.9, linha 123) 2. Ribeiro (2010): Imbigo • (n/A) • Nm [Ssing] • Lat. • Cicatriz produzida pelo corte do cordão umbilical. Variante antiga de umbigo (Umbigo > imbigo – caso de assimilação). • Aí fazia tamém um de pô no imbigo/redondinho/vai as tirinha por riba/sabe como a mãe fazia aquilo/fazia pos quarto iscondida. Enfiava de baixo da cama. Óia o tanto que nóis era bobo. (Ent. 1, linha 575) 3. Freitas (2012): IMBIGO • (A) • Nm[Ssing] • Lat > Port • Depressão cutânia localizada no centro do abdômem. O mesmo que umbigo. • O menina mais num tem muitos ano que ea morreu... (T...) cortô o imbigo do (L...) que ti (M...G...) quebrô o braço e num pode vim assim mesmo ea brigo de ciúme que os premero é pirigoso (Ent. 06, linha 146) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Imbigo (A) Nm [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Cicatriz arredondada, deprimida ou saliente, formada no meio da barriga pelo corte do cordão umbilical. Variante de umbigo. Hoje eu tô essa sonsa aqui, mais eu alembro disso tudo. Eu comia imbigo de banana, angu de banana. (Entr.11, linha 98). _____________________________________________________________________ Origem: ... Umbigo. sm. XVI, embiigo XIII, ynbiigo XIV, embijgo XIV etc. / Do lat. 307 umbilicus –i. (CUNHA, 1986, p.802). ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo, conforme Cunha (1986). 317. INGRUJIR [V] ... a pele da gente ficava tudo ingrujido como feijão dentro da água...ingrujia tudo... (30; 119). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e 318. INGRUJIDO [ADJ] ... a pele da gente ficava tudo ingrujido como feijão dentro da água...ingrujia tudo... (30; 119). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: n/e 319. INSIGÊNCIA Nf [Ssing.] 308 ... foi cabando a influência... e veio essas insigência da Florestal... (5; 214). Não... hoje num pode não... a insigência tá muito né? (18; 142). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: alt. de exigência. in- + (e)xigência. ______________________________________________________________________ Obs: Amadeu Amaral: dá exemplos de alteração de e por i nasalizado como em inzame, inguá, inzempro, inleição (p.49). 320. INTÉ [Preposição] ... foi escurecendo e clareando... foi clareando clareando... inté clareou outra vez... (5; 358). ... que (nome) ganhou pra ser... pra prefeito... já continua... tá inté agora. (17; 57). Plantava arroz feijão milho mandioca... e inté hoje ele tem a rocinha lá... (20; 43). ... punha a lata em cima da cabeça... tou com galo inté hoje ainda. (20; 261). ... mas que eu gosto eu gosto... inté hoje. (37; 52). ... que eu tou aí com Deus... inté hoje... ainda vejo muita coisa... (46; 294). ... meu pai comprou uma casa dentro do arraial... a casa é inté ali... (48; 187). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Inté. prep. Ant. e pleb. O mesmo que até. 4. Aurélio: Inté. Prep. Ant. Pop. 1 .Até: ‗Inté veludos e crinolinas, sutaches e aljofres eram encontradiços nas vendas.‘ (Nélson de Faria, Cabeça Torta, p .8). 5. Amaral: Inté. até, prep. e adv. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Inté (A) Prep. Limite em um espaço de tempo. Variante de até (até > inté – caso de alçamento com nasalização). Cf. anté. ... ( ) qu‟eu tou aí com Deus... inté hoje... ainda vejo muita coisa... (Entr.8, linha 284). 2. Ribeiro (2010): Inté • (A) • [Prep] • Limite em um espaço de tempo. Variante de até (até > inté – caso de alçamento com nasalização). • Ah! Cidade é uma baruieira 309 danada, né? Às veiz a gente ta durmino, acorda inté assustada, né? (Ent. 12, linha 206) 3. Freitas (2012): INTɹ • (A) • [Prep] • (n/e) • Expressa um limite de tempo. O mesmo que até • PESQ.: E era muita gente que tinha?muita gente naquele tempo que tinha o bichinho? INF.: Inté hoje por aqui tem...tem...tem por aqui mesmo tem uns treis ou quatro que tem ele no vidro aí (Ent.11, linha 159) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: alt. de até. in- + (a)té. 321. INTENDÊNCIA Nf [Ssing] ... nessa época o mercado chamava intendência. Entr.: Intendência? Inf.: É intendência... então fizeram uma intendência ali de folha de coco. (9; 13-15). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Intendencia s.f. Officio de intendente. 3. Freire: Intendencia s.f. De intender + ência. Direção ou cargo de intendente. 2. Repartição ou edifício em que o intendente exerce as funções. 4. Aurélio: Intendência [adapt. do fr. intendance] s.f. 1. Cargo ou direção de intendente. 2. Edifício ou repartição onde o intendente exerce as suas funções. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... intendência s.XIX. Do fr. intendance. (CUNHA, 1986, p.440). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo em desuso. 322. INTERTENENTE [ADJ.] ... que meu pai num deixava os filho dele brincar... tanto ele era muito intertenente... e minha mãe ainda era mais intertenente... eu apanhava igual cachorro... (32; 45). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e 310 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e 323. INTIRIÇADO [ADJ] ... chegou lá eu tava intiriçado em riba da cama sem poder andar... (45; 364). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Inteiriçado. de frio. Derivase do italiano interizzito, que significa o mesmo. inteiriçarse, Entesarte como o pano molhado, quando faz muyto frio. Frigore rigere (geo, gui, fem. supino) ou rigescere. E os vestidos, se inteirição. Coita sobre Virgil. 107. Explicando este author o seu ditto, acrescenta logo, tal he o frio, que os vestidos no corpo se fazem hirtos, de modo que mais parece, que se podem quebrar, que cortar. 2. Morais: Inteiriçado. p. pass. de inteiriçar-se. inteiriçar-se com frio:ficar hirto, sem movimento. 3. Freire: Inteiriçado. adj. Hirto. 4. Aurélio: Inteiriçar. [Cruz. Do Port. ant. enterir, ‗ficar transido de frio, sem movimento‘, com inteiro.] V. t. d. 1.Tornar inteiriço ou hirto; entesar. V. p. 2. Ficar hirto; entesar-se: O corpo inteiriçou-se no primeiro arranco. (João Alphonsus, Pesca da Baleia, p.34) 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Intiriçado (n/d) adj. Relativo a teso, rígido. Variante de inteiriçado (inteiriçado > intiriçado – caso de monotongação). ... chegou lá eu tava intiriçado em riba da cama sem poder andar pra terra nenhuma... (Entr. 7, linha 358). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Inteiriçar v. integrar inteiriçar, XVII (CUNHA, 1986, p.440). 324. INTRADIÇÃO Nf [Ssing.] ... era uma coisa assim que tinha aquela intradição... (43; 397). ... aconteceu que num aprenderam... num aprenderam essas intradição e nem seguiu as intradição velha... (43; 402). ... pra ver se não acaba a intradição da igreja né?... (43; 408). ... aí chega... num tem intradição nenhuma... (43; 413). 311 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Intradição (n/d) s. Transmissão de lendas e costumes através das gerações. Variante de tradição (tradição > intradição – caso de prótese). É... os mais velhos foram morrendo... uma parte da meninada / aconteceu que num aprenderam... num aprenderam essas intradição e nem seguiu as intradição velha... (Entr. 5, linha 393). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: alt. de tradição. in- + tradição. ______________________________________________________________________ Obs: Amadeu Amaral: dá exemplos de alteração de e por i nasalizado como em inzame, inguá, inzempro, inleição (p.49). 325. INTRÁS [ADV.] Intrás dessa rua tem um córrego. (51; 81). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Intrás (n/d) adv. Na retaguarda, após. Variante de atrás (atrás > intrás – caso de alçamento com nasalização). Intrás dessa rua tem um córrego. (Entr. 13, linha 79). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: alt. de atrás, in- + (a)trás. 326. INVERNADA Nf [Ssing.] ... eles conta caso de... de... de invernada de boi que ficava na indaga... (43; 558). 312 ... dá estória de contar... boi valente... boi de invernada difícil né? (43; 561). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Invernada. s.f. De inverno + -ada. 3. Pastagem convenientemente cercada de obstáculos naturais ou artificiais, onde se deixa ficar o gado para descansar e recuperar as forças. 4. Aurélio: Invernada². invernada2 [Do esp. plat. Invernada.] S. f. Bras. 1. Designação comum a certas pastagens rodeadas de obstáculos, naturais ou artificiais, onde se guardam equídeos, muares e bovinos, para repousarem e recobrarem as forças. 5. Amaral: Invernada. s.f. – pastagem onde se deixam descançar e refazer os animais equinos e bovinos, após viagem extensa ou longo tempo de serviço. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Invernada (A) s. Pastagem cercada para dar descanso aos cavalos, bois, vacas e bezerros após longa jornada de trabalho. ... acontecia dá caso... dá estória de contar... boi valente... boi de invernada difícil né. (Entr. 5, linha 548). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: Invernada sf. Pasto para o gado durante o inverno 1881. Do esp. plat. invernada, do cast. invernadero. (CUNHA, 1986, p.444). 327. ISTURDIA [ADV] ... isturdia eu tava em Belo Horizonte... (32; 322). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Átru-dia outro-dia, loc. Adv. de tempo: ‗Atrudia estive em sua casa i não le achei‘. Também há isturdia, que, com variantes (siturdia) é comum em quase todo o Brasil, notadamente no Nordeste. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Isturdia (n/d) [Adv] (n/e) Outro dia. Isturdia ainda falei no café a sariema tá advinhano chuva. (Entr.13, linha 328). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 313 ______________________________________________________________________ Origem: alt. de outro dia. J 328. JABU Nm[Ssing.] ... puxou os ovos do corno pra cá e marrou aquilo que aquilo chega que tá igual um jabu... (6; 231). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: jaburu ‗ave de grande porte das famílias dos ardeídeos, dos ciconídeos‘, 1618, jaboru 1587 etc. do tupi iamu‟ru (CUNHA, 1986, p.451). 329. JACU Nm[Ssing.] Ela parece um jacu só que ela é mais pequeninha. (1; 109). Ela é mais pequena e compridinha... e o jacu é grande. (1; 111). ... mas tinha... perdiz... até hoje tem... é jacu... lambu... envergadeira... (3; 223). Os outros bichos que tinha na mata aí tinha era veado era caititu... é jacu zabelê... (5; 209). ... negócio de jacu zabelê vivia tudo nesse rio aqui... (5; 211). Entr.: O que que tinha nesses mato aí de bicho... de ave? Inf.: De pena? Entr.: É. Inf.: Jacu... aranquã... zabelê... juriti... papagaio... lambu... cadorna... xorró... priquito... (6; 45). É tem muito bicho... tem muito jacu... izabelê... raposa viado onça... (7; 258). E tinha até jacu... tinha jacu izabelê... _ Vamo matar izabelê!... até jacu tinha nesse mato aí. (13; 468). ... tinha um embornal lá dessa altura assim... trazia cheinho de jacu e izabelê... (13; 479). Inf.1: Depois que ês inventou esse negócio aí de Florestal aí cabou. Inf.2: Depois jacu... zabelê... (15; 388). Inf.2: ... agpra ês ficaram encurralado naquelas moitinha de mato... jacu mesmo quais tá de extinção... (15; 408). Só num tinha jacu... macuco... tinha cutia... tatu... caititu... (16; 370-373). Num tinha não... lá em casa num tinha jacu não. (16; 387). Jacu tem é aqui em Minas Gerais. (16; 389). 314 Tinha essa zabelê... tinha jacu... (17; 239). Aqui era veado jacu... essa cutia caititu onça... (18; 180). Ela é vermelhinha assim... uma frutinha vermelhinha que só come só jacu aranquã... essas coisa que come ela. (18; 577). É um passarinho... é igual um jacu. (18; 582). A aranquã é menos mas o jacu é desse tamanho. (18; 584). ... jacu... o que ainda tem aqui que de vez em quando tem é perdiz... tem essa izabelê... (18; 588). ... ocê andava nessas estrada era tatu trevessando de um lado pra outro... era jacu pulando de uma árvore pra outra... (19; 137). Ah tem a zabelê tem o jacu tem a cutia... (22; 256). ... a noite trazia um bando dessas caça... era o jacu erta a zabelê era cutia... (22; 264). ... aí a gente puxava a corda... as vez ficava oito dez jacu ali dentro... (22; 280). Era jacu... izabelê... essas coisa... o macuco... vinha tudo aqui na porta... (23; 111). Ó jacu... caititu... zabelê... o porco queixada... (23; 361). ... tinha muita muita muita caça... muita codorna... perdiz... zabelê... jacu... (26; 98). ... era uma trilha... e então jacu ficava sangrando... (26; 100). É jacu... é o que ês mais matava aqui era jacu... fazia o ceveiro... matava jacu. (28; 335). Tinha muito... jacu veado... tinha demais. (30; 194). Tem cadorna... tem lambu... tem jacu... tem veado... (31; 254). É existia... bicho de pena... jacu izabelê codorninha nambuzinha... exixtia. (33; 98). ... tinha veado tinha zabelê jacu... mas hoje acabou tudo... (34; 89). ... lá no meu ( ) tinha muito jacu... um pássaro que chama jacu... (37; 125). ... era lugar da gente matar caça aí ó... caçador matar izabelê... matava jacu... (42; 148). ... quando pensava que não enchia a capanga... era izabelê... era jacu... (42; 308). E o jacu é um frango... um frangão... (42; 314). Tinha jacu... tinha izabelê... tinha caititu... (43; 662). ... pegava um canto de mata aí e jacu... ocê ficava com medo da jacuzada... o jacu é um passarinho grande... o jacu é um passarinho grande assim... (43; 666). ... e o jacu... quando ocê acaba de tirar a pena dele é... bicho dessa grossura. (43; 669). ... tinha jacu... tinha izabelê... tinha juriti... tinha a lambu... (43; 701). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Jacú. s.m. Ave do Brasil, de caça, da família das galináceas, e de que há várias espécies. 4. Aurélio: Jacu. [Do tupi.] S. m. Bras. 1. Zool. Designação comum a várias aves galiformes, cracídeas, gênero Penelope, frequentes nas matas primitivas do Brasil. Alimentam-se, sobretudo, de frutas e folhas. 5. Amaral: Jacú. s.m. – designa várias espécies do gen. Penélope. Tupi. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Jacu (A) s. Ave de caça que se assemelha a uma galinha, mas ao contrário destas, vivem nas árvores. Possuem a cauda e o corpo alongados e o bico curto, se alimentando de folhas e frutos. Pegava um canto de mata aí e jacu... ocê 315 ficava com medo da jacuzada... (Entr. 5, linha 654). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Jacu (A) Nm [Ssing] Ind. Ave de caça que se assemelha a uma galinha, mas ao contrário destas, vivem nas árvores. Possui a calda e o corpo alongados e o bico curto, alimenta-se de folhas e frutos. Tinha... tinha... o parmito dá fruta... oia os cacho aí cheio de fruta... tem um que é cumê dos jacu... os jacu gosta muito de cumê ele. (Entr.1, linha 290). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Jacu. sm. ‗ave galiforme da fam. dos cracídeos‘ 1576. Do tupi ia‟ku (CUNHA, 1986, p.452). 330. JACUBA Nf [Ssing.] ... botava o arroz botava o moio de mandioca... as jacuba ficava por cima. Entr.: Jacuba? Inf.: Jacuba... é o cortar a mandioca colhida... (21; 232-234). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Jacuba s.f. Bebida preparada com água, farinha de mandioca e açúcar ou mel. 2. Café com farinha de mandioca. 4. Aurélio: Jacuba s.f. 1. Bras. Refresco ou pirão feito com água, farinha de mandioca, e açúcar ou mel, e por vezes temperado com cachaça. [chibé no AM; tiquara e chibé no PA e MA; gonguinha em PE; em vários estados do NE, sebereba.] . 5. Amaral: Jacuba s.f. mistura de açúcar, ou rapadura com farinha e água. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: Jacuba é um termo que Houaiss (2001) explica como: ―1. Papa de farinha de mandioca preparada com mel, açúcar ou rapadura, a que se acrescenta, por vezes, leite ou cachaça e que também se dilui com água e sumo de limão, para servir como refresco. 2.Café quente engrossado com farinha de mandioca. De origem duvidosa, Pereira da Costa (DVB) cita Rohan, que levanta a hipótese de o vocábulo provir do tupi „jecuacuba‟ e do guarani „jecoacu‟, significando ‗jejum‘, pois ‗em falta de pão de trigo, é provável que os jesuítas sujeitassem seus penitentes, em dias de jejum, ao uso da farinha de mandioca molhada em água fria‖; há autores que vêem em ‗jacuba‟ uma alteração do tupi y-acub, segundo o autor do DVB, para VERÍSSIMO a palavra é de origem africana; fonte histórica jacúba‖. Para Hollanda (1946, p.141) ―a farinha servia não só para as refeições principais, mas ainda, se de milho, para o preparo da jacuba, beberagem indefectível nessas jornadas.‖ 316 Fica por esclarecer a questão se é de etimologia africana ou indígena. Será classificada aqui como um brasileirismo, conforme sugere Martins (2001): ―brasileirismo, regionalismo, popular. Refresco ou pirão feito com água, farinha de mandioca, açúcar ou mel e por vezes temperado com cachaça.‖ (SEABRA, 2004, p. 218) 331. JAGUNÇO Nm[Ssing.] ... quando a pessoa dava por fé que ês tava caçando ês botava o jagunço atrás... (21; 26). ... vinha e vortava e o jagunço atrás... (21; 31). Ah tinha... tinha jagunço aí. (33; 243). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Jagunço s.m. Valentão, guarda-costas, capanga. 2. Sertanejo, provinciano. 3. Cangaceiro, matuto aguerridoe valente. 4. Aurélio: Jagunço [de zaguncho (q.v.), poss.] s.m. 1. Bras. v. capanga. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Jagunço (A) Nm [Ssing] Inc. Capanga, assassino de aluguel. Ranjô dois jagunço pego e mato essa Companhia de Reis tudo. (Entr.2, linha 215). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... jagunço ‗orig ‗arma de defesa‘ ‗ext. o indivíduo que a manipula, cangaceiro‘ s.XIX. Talvez de zaguncho ‗arma do s. XVI‘. (CUNHA, 1986, p.452) 332. JARDIM-DE-DEUS Nm [Ssing. + Prep. + Ssing.] ... era rama do mato... chama jardim-de-Deus... eu plantei muito jardim-de-Deus. (8; 365). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 317 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: jardim s.XIII. do fr. jardin, do antigo jart, deriv. do frâncico *gard (CUNHA, 1986, p.453). / Deus s.XIII. do lat. deus dei (CUNHA, 1986, p.259). 333. JEGUE Nm[Ssing.] Panhava trazer água num jegue. (1; 9). É... trazia num jegue... (1; 11). ... ele panhava água lá num jegue... o / a pessoa dava ele um jegue... (1; 20) ... pra trazer a água de a meia porque ele num tinha um jegue... dava ele um jegue e os vazião... (1; 21). ... então aquilo ficou esse bicho aí e ele foi aparecendo no sistema de um jegue... ele aparecia no sistema de um cachorro... (1; 410). ... eu só perdôo ele depois que ele vier urrando que nem um jegue três vezes... (1; 460). ... agora assombração de ver assim... de ver as coisa assim era / todo mundo via... aqui um jegue... um cachorro passava ali... (5; 312). É... uma tropa... botava jegue velho na estrada... (6; 110). ... quando foi assim num espaço de uma hora mais ou menos galo cantou jegue urrou... (6; 349). ... se ocê num vê um cachorro um jegue ou qualquer coisa... (45; 490). O casamento... nós todos de jegue... num mundo véi de jegue... (48; 422). ... meu irmão topou com ele aqui... um jegue... topou mais ele ali na ponte... (50; 277). ... topou mais ele ali na ponte... um jegue... o bicho da carneira... (50; 277). ... representa que nem um jegue... _ Õ pois eu topei um jegue!... e lá num tinha jegue... (50; 280). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Jegue s.m. Mulo. 2. Jumento, burrico. 4. Aurélio: Jegue [do ing. jackass] s.m. Bras. N NE CO 1. Zool. V. jumento. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... jegue ‗jumento‘ s.XX. Do ing. jackass ‗burro‘. (CUNHA, 1986, p.454). ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (N, NE, CO) conforme o Aurélio:. 334. JEQUI Nm [Ssing.] ... fazia aquele negócio de madeira... de vara... o jequi... colocava... aí... Entr.: Ah fazia um jequi? Inf.: É jequi... colocava naquele bracinho onde a água represava... o peixe ia e enchia né? (23; 102-104). 318 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Jequi s.m. Espécie de nassa. 4. Aurélio: Jequi [do tupi] s.m. 1. Bras. NE cesto para pesca, muito oblongo, afunilado, feito de varas finas e flexíveis; cacuri. 5. Amaral: Giqui s.m. certo aparelho de apanhar peixe. Tupi. / Juquiá s.m. espécie de cesto para apanhar peixes. Tupi. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Jiqui (A) Nm [Ssing] Ind. Cesto arredondado e afunilado, de varas finas e flexíveis, para apanhar peixe. O jiqui ele é cumprido, grosso... uma roda de... cumprido. Ali é... um pexe entra na boca... (Entr.3, linha 352). _____________________________________________________________________ Origem: ... jequi ‗rede de malhas utilizado em pescarias‘, gequi s.XIX, jequy XIX. Do tupi ieke‟i. (CUNHA, 1986, p.454). ______________________________________________________________________ Obs: Amaral: cita o vocábulo jiqui como nome de utensílio de origem tupi (p.60). 335. JIRAU / JIRAUZÃO Nm[Ssing.] ... tinha um jirauzão assim... tinha um jirau assim no fogão... (2; 142). E bota as furquilha assim... as quatro furquilha assim e bota a travinha... e bota as varinha assim ó... um jirauzinho... assim em riba. (12; 336). ... cansei de ver... a cama de vara... um jirauzinho de vara... (23; 341). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Jirau s.m. 3. Palanque, dentro de casa, entre o pavimento e o teto, para arrumação de objetos vários. 4. Aurélio: Jirau [Do tupi.] S. m. Bras. 1. Estrado de varas sobre forquilhas cravadas no chão, us. Para guardar panelas, pratos, legumes etc.: Em frente, ou no chão, ou sobre um jirau de madeira, vasos, paneiros, pedaços de panelas, restos de potes, cheios de flores. (José Veríssimo, Cenas da Vida Amazônica, pp. 342-343.) 5. Amaral: Jirau, s. m. – estrado de varas ou tábuas, colocado sobre esteios, ou na parte superior de uma parede, para nele se depositarem objetos quaisquer, ou para se fazer algum serviço, como de serra, que demande altura para o competente manejo. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 319 3. Freitas (2012): JIRAU • (A) • Nm[Ssing] • Ind. • Armação de madeiras dispostas sobre forquilhas que pode ser utilizada como cama ou como depósito para utensílios domésticos. • Eu chuchava lá pa casa do ...da dona dele chegava lá tinha aquela purção de cama de jirau assim ó „quea purção cada cama tinha um balaím d‟buneca dibaxo (Ent. 06, linha 286) 4. Miranda (2013): Jirau (A) Nm [Ssing] Ind. Armação de madeiras dispostas sobre forquilhas que pode ser utilizada como cama ou como depósito para utensílios domésticos. agora pegava a forma... que tá lá em cima do jirau... e pega isso aqui ó fez o jirau e pôs a forma aqui... (Entr.6, linha 441). 5. Cordeiro (2013): Jirau (A) Nm [Ssing] Ind. Estrado usado como suporte de cama. Cama não que não havia nem cama. Cê fazia assim aquele jirau e pegava e punha as pessoa dentro e saía carregano. (Entr.7, linha 24). _____________________________________________________________________ Origem: ... Jirau s.m. ‗espécie de estrado‘ 1587, iurao c 1596, juraó 1627 etc.  Do tupi iu‟ra. (CUNHA, 1986, p.455). 336. JUÁ-MEIRINHO NCm[Ssing. + ADJ] ... tinha uma moita de juá assim no fundo da casa... um juá-meirinho. (4; 338). Entr.: Um juá de que que a senhora falou? Inf.: Um juá-meirinho... um juá-meirinho. Entr.: Meirinho? Inf.: Sim... meirinho... um juá-meirinho. (4; 341-344). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Juá-mirim s.m. Planta da família das ramnáceas, também chamada grão de galo (Zuzyphus undulata). 4. Aurélio: Juá-mirim [de juá + mirim] s.m. Bot. 1. Arvoreta da família das mircináceas (Rapanea ovalifolia), de folhas oblongas e ásperas, flores inconspícuas, dispostas em umbelas, com pontuações rubras, fruto drupáceo, e de cuja madeira se fazem pequenas obras e carvão. Ocorre do ES a SP. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: tupi; alt. de juá-mirim. _____________________________________________________________________ Obs: Este vocábulo é variante lexical de grão-de-galo. 337. JUNÇA Nf [Ssing.] ... outro chá que agente tomava... junça. (19; 84). 320 Registro em dicionários: 1. Bluteau: Junça ou junca cheirosa. Especie de junco, cuja raiz lança bom vheiro. 2. Morais: Junça s.f. Especie de junco, officinal. 3. Freire: Junça s.f. Do b. lat. juntia. Planta da família das ciperáceas (Cyperus esculentus). 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... junça s.XIII. Do lat. juncea. (CUNHA, 1986, p.458). L 338. LABUTAR [V] ... é quem aprende a labutar com a criação né?... tem o jeito de riar / de labutar com a criação... (1; 313). Buscava água pra labutar e beber... (14; 126). ... e já o rio já era pro povo banhar e panhar água pra labutar... (14; 130). Lavava roupa panhava pra beber... e tomava banho e... labutava... era um rio de areião... (43; 223). ... eu bebia e panhava e labutava e todo movimento era feito aí... (43; 284). ... aquele couro era pra labutar em casa de roda... era para labutar em casa de moagem de cana... (43; 469). ... uns conhecidos que labutava aqui... (43; 577). ... aí nós tava até na casa da roda labutando com farinha... (46; 252). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Labutar. Lidar. Trabalhar daqui, dali. No seu commento da canção 15. De Camoens, Estanc.7, diz Man. De Faria, que catar por buscar, & labuatr por lidar, são palavras de Lisboa, & juntamente estranha muito, que em hua Corte, tam presumida de fallar bem, se usem palavras tam impróprias, & grosseiras. Mas hoje sao pouco usadas as ditas palavras. Vid. Lidar. (E com as mesmas ansias; com que estava labutando. Vasconc. Vida do Padre Joaõ de Almeida, pág.130.) 2. Morais: Labutar. v. n. Lidar, trabalhar, lutar. 3. Freire: Labutar. v. r. v. Lat. laborare. Trabalhar penosamente e com perseverance (intr.; tr. Ind. , com prep. Em, por): Vivemos labutando. Labutamos na cratera de um inferno (Rui). 4. Aurélio: Labutar. [De labor, poss.] V. int. 1. Trabalhar duramente e com perseverança; lidar, laborar. 2. Esforçar-se, empenhar-se. / V. t. d. 3. Levar, suportar, 321 viver. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Labutar (A) v. Trabalhar duro em uma atividade repetitiva. ... aí nós tava até na casa da roda labutando com farinha e eles tava relando mandioca... (Entr. 8, linha 244). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): LABUTAR • (A) • [V] • Lat > Port • Trabalhar duramente. • Minha mãe já tinha falecido...já tinha... ah já tinha bem tempo já essa epra né...e eu/labutava mesmo num tinha tempo pa nada não (Ent. 01, linha 115) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... Labutar. v. labor labutar / lavutar XVI / O termo, que parece de criação vernácula, talvez se tenha originado do cruzamento de lab (or) com (l)utar, dada a sua acepção ‗trabalhar penosamente e com perseverança‘. (CUNHA, 1986, p.461). 339. LAMBU Nm [Ssing.] ... matar passarinho... matar lambu... (1; 96). Entr.: E ocês caçava o que? Inf.: Lambu... esses trem... passarinho... tudo caçava. (2; 209). ... mas tinha... perdiz... até hoje tem... é jacu... lambu... envergadeira... (3; 223). Entr.: O que que tinha nesses mato aí de bicho... de ave? Inf.: De pena? Entr.: É. Inf.: Jacu... aranquã... zabelê... juriti... papagaio... lambu... cadorna... xorró... priquito... (6; 45). Inf.2: ... ainda tem algum... mas é muito pouco... zabelê lambu... lambu de três qualidade... lambu do pé roxo... do pé vermelho e a outra do pé roxo mas bem miudinha... (15; 411). ... fazia arapuca pra pegar lambu a priá... (21; 187). ... é difícil a gente ver uma Joana de barro cantar ou a lambu ou qualquer coisa assim... (27; 155). Tem cadorna... tem lambu... tem jacu... tem veado... (31; 254). ... tinha jacu... tinha izabelê... tinha juriti... tinha a lambu... (43; 701). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Lambu: S.m e f. Bras. PB Zool. 1. V. inhambu: Também falam da caipora que pegou um sujeito na estrada, um tal de Pepé, caçador de lambu (José Lins do Rego, Fogo Morto, p. 63). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Lambu (A) s. Ave de caça, sem cauda, de pernas curtas e fortes, também conhecida como inhambu, nambu inambu. ... na época que tinha aqui... tinha 322 jacu... tinha izabelê... tinha juriti... tinha a lambu... (Entr. 5, linha 688). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Lambu (A) Nm [Ssing] Ind. Tipo de ave. Uai era tudo quanto era trem uai. Lambu, jacu, paca, cutia, tatu. (Entr.5, linha 235). ______________________________________________________________________ Origem: de Inambu – Vars. Inhambu nhambu, nambu. De y-nhaãbu, o que anda ou corre a prumo. (Silveira Bueno, 1998) ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (PB), conforme o Aurélio acima. 340. LAMPARINA Nf[Ssing.] ... pegava aquela vasilhinha... de barro... que ês chamava... como é que chamava...era lamparina... é candeia... (2; 160). ... tinha duas três quatro lamparina né?... e tinha gente que alumiava com a candeia de azeite... (3; 396). ... ainda tem uma lamparina na casa porque a hora que pagar / faltar va luz ele cende a lamparina... e quando num tem lamparina uma vela. (3; 407). ... todo mês eu comprava uma lata de dez litro pra lumiar lamparina... lamparina ainda tem aqui... trás aí uma lamparina pra ele ver... a gente mandava fazer as lamparina... e quando a energia acaba a gente tem que tá com a candeinha preparada... ou vela ou a lamparina... (4; 443-448). Ah era com lamparina... com vela... com lamparina de aze / de óleo... (7; 337). ... que era só negócio de criosene... e lamparina... (17; 117). ... era aquele óleo diesel de caminhão... botava na lamparina... (17; 121). ... aqui era tudo na lamparina... lá em casa tinha candeeiro... (18; 483). ... saía mais ele com a lamparina... (20; 28). Entr.: ... antes de chegar a luz... como é que era aqui... como que fazia? Inf.: Ah é lamparina né? (20; 136). ... fazia uma puxada de algodão e ponhava na candeia de azeite e ponhava na lamparina e ponhava o querosene ou óleo... era assim. (20; 141). Com candieiro... chamava candieiro... uns dava o nome fifó... uns dava o nome lamparina... candieiro... (22; 356). Entr.: Tudo antes era na base de... Inf.: Era lamparina. (24; 261). Era lampião... lamparina... eu ainda lembro daquilo... (24; 267). ... é a lamparina que a gente tinha era essa... nem o criosene num tinha. (27; 477). É... até hoje eu tenho as lamparina aí. (31; 211). Eu tenho minha casa lá na roça... e tenho a lamparina aqui... (31; 225). Lamparina... lamparina... o povo fazia lamparina de vidro né?... agora nós comprava o criosene e panhava na lamparina com a... com as / como é que chama?... que panhava na lamparina... (36; 243-245). ... descaroçava e fazia aquelas puxada e panhava na lamparina... (36; 247). ... quando eu ganhava menino era a lamparina que tinha lá... (36; 248). Lumiava com as lamparina. Entr.: É... lamparina né? Inf.: Uma lamparina velha assim... dentro de uma era azeite... outros era... um candieirão ó... lamparina... (37; 390-393). ... pra num gastar lamparina de azeite... (38; 52). Tinha não... era uma lamparininha de azeite... (38; 137). 323 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Lamparina. S.f. De lâmpada. Aparelho composto principalmente de um reservatório onde se contém azeite ou outro líquido apropriado, e munido de torcida que se acende para alumiar. 4. Aurélio: Lamparina .[Do esp. lamparilla.] S.f. 1.Pequena lâmpada. 2.Pequeno recipiente com um líquido iluminante (óleo, querosene etc.) no qual se mergulha um pequeno disco de madeira, de cortiça ou de metal traspassado por um pavio que, aceso, fornece luz atenuada; luminária: ―no pequenino oratório florido, a lamparina de azeite coava a sua luz longínqua para um crucifixo doloroso (Enéias Ferraz, Adolescência Tropical, p. 15). [Cf. candeia1 (1).] . 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Lamparina • (A) • Nf [Ssing] • Cast. • Pequeno recipiente com um líquido iluminante (óleo, querosene etc.) no qual se mergulha um pequeno disco de madeira, de cortiça ou de metal traspassado por um pavio que, aceso, fornece luz atenuada; luminária. • O que eu sei contá é no começo da vida da gente na roça, era muita dificuldade. Lá num tinha nada, num tinha luz num tinha nada. E era tudo cum lamparina de querosene. (Ent. 5, linha 6) 3. Freitas (2012): LAMPARINA • (A) • Nf[Ssing] • Cast. • Pequeno recipiente com um líquido iluminante (óleo, querosene etc.) no qual se mergulha um pequeno disco de madeira, de cortiça ou de metal traspassado por um pavio que, aceso, fornece luz atenuada. • Foi caçá tatu ando por esses arto fora desceu lá trás no capão de lá caçano tatu com gaiola e inxadão lamparina chucho tudo tava com ês (Ent. 09, linha 199). 4. Miranda (2013): Lamparina (A) Nmf [Ssing] Port. Pequeno recipiente com um líquido iluminante (óleo, querosene etc.) no qual se mergulha um pequeno disco de madeira, de cortiça ou de metal transpassado por um pavio que, aceso, fornece luz atenuada. lamparina é com querosene e com candieiro... quem não tinha candieiro e nem querosene e num tinha dinheiro pra compra... lumiava era com taquara... (Entr.6, linha 466). 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... Lamparina. 1858. Do cast. lamparilla. (CUNHA, 1986, p.463). 341. LAPINHA Nf[Ssing.] ... cantou naquela dali... toda casa canta... onde tem as lapinha. Entr.: As lapinha? Inf.: ... põe as lapinha pra cantar um Reis... o povo vem cantar na lapinha também. (37; 312-315). Uma lapinha... aqui fazia muito mas num é todo que faz mais não... um mucado é crente. (37; 319). 324 ... que tem lá aquela igrejinha / aquela lapinha que teve... (40; 179). ... depois que foi aumentando as casa desmantelou a lapinha... (53; 05). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Lapa. Concavidade na costa do monte, pouco profunda. Specus [ ] profundus. In montis declivitate cavum,i. Neut. Ou parum altus in monte recessus. Pois diz Marcial, Lati in collibus recessus, (As lapas, as concavidades, Cunha, Bispos de Braga, 347.) 2. Morais: n/e 3. Freire: Lapinha. s.f. De lapa¹. Presepe ou nicho que se arma para a festa do Natal. 4. Aurélio: Lapa¹. lapa1 [Do voc. Pré-céltico lappa, ‗pedra‘, poss.] S. f. 1. Grande pedra ou laje que forma um abrigo. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Lapinha (A) s. Laje natural ou de cimento e que forma um abrigo. É... e o de lá debaixo daquele túnel... que tem lá aquela igrejinha / aquela lapinha que teve... ali é São Vicente... (Entr. 2, linha 176). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... Lapa. sf. ‗grande pedra ou laje que forma um abrigo natural‘ XIV; Do lat. lus. Lapa, deriv. do pré-céltico lappa ‗pedra‘. // lapinha 1844. (CUNHA, 1986, p.465). ______________________________________________________________________ Obs: No contexto das entrevistas acima carrega a acepção de presépio. 342. LEGALISTA Nm[Ssing.] ... era desses legalista que chamava né?... Entr.: Legalista? Inf.: Legalista... os que andava perseguindo os revoltoso era assim... (42; 511-513). Os legalista era os que... que... Entr.: Perseguia. Inf.: Perseguia ês né? (42; 517). ... e saiu um da turma moço... era um desses legalista... (42; 523). ... passou esses legalista que ês teve aqui... (42; 559). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Legalista. adj. Relativo às disposições legais. // Legalista, s.m. Aquele que pugna pela observância das leis ou pelo governo legal. 4. Aurélio: Legalista [De legal + -ista; fr. légaliste.] Adj. 2 g. 1. Relativo à lei, às normas legais. 2. Diz-se de quem pugna pelo respeito às leis ou pelo governo legal. / S. 2 g. 3. Pessoa legalista (2). 5. Amaral: n/e 325 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Legalista (n/d) s. Designação dada pelos habitantes locais às tropas do governo federal que estavam no encalço da Coluna Prestes em 1926. Legalista... os que andava perseguindo os revoltoso era assim... (Entr. 4, linha 496). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Legalista. v.lei legalista 1899. Do fr. légaliste (CUNHA, 1986, p.468). 343. LÉGUA Nf [Ssing.] ... tacava nas costa e viajava duas três quatro légua pra levar pra casa... (1; 322). ... mas trabalhava na roça... daqui lá tem uma légua... (2; 111). ... pra namorar... namorar com mulher / tou te contando... de meia légua... né de perto não... (4; 123). ... daqui lá dá uma légua e meia mais ou menos... (5; 183). ... vinha pessoal de longe... num sei quantas léguas... (8; 133). ... num tinha escola lá pra São João... três légua... (10; 49). Os bois que arrastava... do mato lá pra botar no carro... tinha duas légua... (16; 238). ... ele andava setenta e tantas légua numa noite... (16; 584). Vinha!... ele andava setenta légua ês fala... (16; 601). ... eu saía daqui setenta e duas légua na mata lá... (18; 29). ... morava aqui no canto... oito légua daqui lá. (18; 453). ... são seis légua... mas aí agora já trata como quilômetro né?... (18; 471). ... daqui a umas cinco seis léguas ia animais daqui... (22; 134). ... daqui a cinco seis oito léguas fabricava rapadura... (22; 160). É o rio fica daqui a meia légua... fica daqui a... Entr.: A meia légua. Inf.: A meia légua... (22; 190-192). ... daqui a uma légua e pouco. (22; 200). ... daqui lá era dez léguas... (22; 425). ... - A minha mãe a senhora vai ver uma pessoa que morreu a mili légua?... mais de mili légua?... (22; 431). ... o nascente dele é daqui quatorze légua ou quinze mais ou menos... e esse outro não... é apenas três léguas... (26; 213). ... lá tem cada buquerão de uma légua todo escavado e a terra toda jogada na cabeça pra fora... (26; 243). ... pra lavar o cascalho a uma distância de mais uma légua. (26; 249). ... ele nasce daqui quatorze léguas. (26; 354). ... quando chega aqui uma distância de umas quatro léguas eles reúnem tudo... (26; 364). ... esse Traçadal ele fica aqui... depois daqui três légua. (26; 368). ... umas duas légua e meia mais ou meno... (29; 08). ... aqui perto... duas légua e meia... (29; 11). ... a gente saía daqui até Monte Azul... tem dez légua... (30; 77). ... uma légua de noite... o velho só calçou a precata pra ir embora... (37; 196). Caminhando oito léguas de criança a pé... (38; 08). Não... o Rio Pardo é duas léguas. (39; 243). ... assim pra meia légua de distância... (39; 683). 326 ... caminhei mais de uma légua com essa daqui... (40; 474). .. mas ir lá dá uma légua... uma légua / uma légua boa... (42; 689). ... ele fala que é pra comer... os parente comer... daí comer numa redondeza de dez léguas... (44; 478). Eu nasci aqui embaixo... daqui a três léguas... (45; 32). ... montava um cavalo e ia buscar uma légua duas légua. (48; 438). ... saía gente de duas légua daqui da beira do rio... (50; 305). ... duas légua e tanto só de mato... (50; 307). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Legoa Espaço de caminho, que tem differente comprimento, conforme as diffrentes medidas etinerárias das naçõers. 2. Morais: Legoa s.f. Medida itinerária que contem 3x755 passos geométricos. 3. Freire: Légua s.f. Lat. leuca. Medida etinerária cuja extensão varia de povo para povo. 4. Aurélio: Légua ‗s.f. Medida itinerária equivalente à 6000 m. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Légua (A) Nf [Ssing] Lat. Antiga unidade brasileira de medida itinerária, muito usada no meio rural, equivalente a 3000 braças, ou seja, 6600 m. Naquele tempo ês falava era légua. Era seis légua. E seis légua hoje é trinta e seis quilômetro. (Entr.14, linha 259). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... légua ‗medida itinerária‘ s.XIII, legoa XIII. Do lat. tardio leuga (leuca), de origem céltica. (CUNHA, 1986, p.468). 344. LITRO Nm[Ssing.] E o feijão foi pra dois mi réis o litro... (13; 82). ... três quatro saco de feijão... era três litro era um saco... Entr.: É? Inf.: vende no litro. (24; 154-157). É... plantava três litro de feijão e colhia uma saca né? (39; 237). ... teve uma vez que eu plantei aqui três litro de feijão... (39; 238). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Litro s.m. B. Lat. litra. Unidade das medidas de capacidade, correspondente ao espaço de um decímetro cúbico. 4. Aurélio: Litro [do fr. litre] s.m. 1. Unidade de medida de capacidade, igual a um decímetro cúbico. 5. Amaral: n/e 327 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... litro 1844. Do fr. litre, do fr. ant. litron, deriv. do lat. med. litra e, este, do gr. lítra ‗peso de doze onças‘. (CUNHA, 1986, p.478). 345. LOTE DE BURRO NCm[Ssing. + Prep. + Ssing.] ... quando eu vi falar muito muito que passava desse jeito era uns dez ou abaixo... porque chamava um lote / de dez era um lote. (3; 160). ... era uma tropa bonita né?... era uns burro tudo grande né?... bem arriados né?... trazia um lote de burro... acho que é uns doze burro... (11; 33). Um lote de burro... nós era de quatro cinco... cada um levava um ou levava dois... (18; 67). ... era carga e mais cargas... lote de burro... o arreado de cangaia... (43; 484). ... outra coisa difícil que tinha... quem trabalhava com lote de burro... o lote de burro o senhor entende o que é né? (43; 492). ... bota um lote de burro nesse asfalto e vê se ele acha quem vai trabalhar de arrieiro. (43; 519). ... meu pai... quando morreu... ele deixou um lote de burro pra mim... (44; 224). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Lote. s.m. Gót. Hlauts. 11. Cada grupo de sete cargueiros, com um condutor, em que se dividem as tropas de carga, no Brasil. 4. Aurélio: Lote¹. lote1 [Do fr. lot.] S. m. 12. Bras. Cada grupo de animais cargueiros, em geral de sete, com um condutor, em que se dividem as tropas de carga: Sua tropa de três lotes – cada lote dez burros! – era a melhor que batia o sertão aquém de Jacobina (Nélson de Faria, Cabeça-Torta, p.7). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Lote de burro (n/d) s. Cada conjunto de dez animais cargueiros em que se dividem as tropas de carga. ... meu pai... quando morreu... ele deixou um lote-de-burro pra mim... é dez burro arreado né... é dez burro... (Entr. 6, linha 216). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Lote (de burro) (A) Nm [Ssing] Port. Cada conjunto de dez animais cargueiros em que se dividem as tropas de carga. É... onze burro era um lote... que falava... que era um lote. (Entr.2, linha 24). 5. Cordeiro (2013): n/e 328 Origem: lote s.XV. do fr. lot, deriv. do frâncico *hlot ‗herança‘ (CUNHA, 1986, p.481). / burro s.XIV. do lat. burrus ‗ruço, vermelho‘ (CUNHA, 1986, p.128). 346. LUBRINAR [V] ... aí tava lubrinando e eu peguei e tinha feito a farinha... (36; 345). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e _____________________________________________________________________ Obs: No dicionário de Laudelino Freire: há o substantivo lubrina com o significado de neblina; chovisco fino em brumas. 347. LUITA Nf [Ssing.] ... mas era desse jeito... aquela luita era pesada... (21; 223). ... mas a luita era assim... (21; 237). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Luita. por Luta. Resend, Cron. F. II. C. 208. Antiq. Luitar. B. 3. 7. 3. V. Lutar. 3. Freire: Luita ‗s.f. Ant. O mesmo que luta. 4. Aurélio: Luita [do lat. lucta, com vocalização] s.f. arc. 1. Luta. 5. Amaral: Luita luta, s.f. Forma arcaica em que o i representa o c primitivo. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... luta s.XVI, luita XIII. Do lat. lucta –ae. (CUNHA, 1986, p.483). 329 ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo, conforme Cunha. 348. LUITAR [V] ... eu pelo menos eu tenho plantado... mas do premerão aqui pra nós luitar aqui... (18; 393). ... e eu fui luitando com isso... luitando luitando até Deus me ajudou que eu tou aqui... (45; 352). ... era luitando com a idade de oito ano... pra ganhar quinhentos réis... (48; 140). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Luita. por Luta. Resend, Cron. F. II. C. 208. Antiq. Luitar. B. 3. 7. 3. V. Lutar. 3. Freire: Luitar. v. r. v. O mesmo que lutar. 4. Aurélio: Luitar. [Do lat. luctare, com vocalização.] V. int. Arc. 1. Lutar1. 5. Amaral: Luitár. Aluitar, lutar, v.i. // Forma arc. : ... que nos ajudavam deles a acaretar lenha e meter nos batees e lujtavam com os nossos... (Caminha). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Luitar (A) v. Trabalhar duro. (luctare > luitar > lutar). ... e eu fui luitando com isso... luitando luitando até Deus me ajudou que eu tou aqui... (Entr. 7, linha 347). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... Lutar¹. luitar XIII / Do lat. *luctāre, por luctāri . (CUNHA, 1986, p.483). ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo conforme Cunha. 349. LUMIAR [V] ... e aí agora mudava... se valesse ( ) lumiava com aquilo... (2; 162). ... diz ele que ia ia ia... de noite... e tava um escuro e a lua num lumiava... (2; 448). ... fazia a puxada de algodão... e ponhava e lumiava... (3; 395). ... a candeia tinha um biquinho e pegava e lumiava... (3; 399). ... criei meus filhos lumiando com candeia de azeite... (4; 12). ... uma mulher que criava uma criança lumiava era com a candeinha de azeite... (4; 428). ... pra engarrafar... pra lumiar... e num foi um só não... era todo mundo... era de fazenda de gado... tudo lumiava com isso... (4; 437). ... que a gente comprava era lata de criosene pra lumiar... lata de vinte e cinco litro... todo mês eu comprava uma lata de dez litro pra lumiar lamparina... (4; 443). ... que essa é de cobre... quando areia ela fica lumiando que só vendo. (4; 450). Ah era com lamparina... com vela... com lamparina de aze / de óleo... azeite... era isso que lumiava... (7; 338). ... que era só negócio de criosene... e lamparina... lumiando com isso aí... (17; 117). 330 ... tem outras casa ali em riba que num tem... lumeia era com luz. (17; 119). ... pois assim é que nós lumiava. (27; 483). ... ês emrolava assim aquele biscoitão e trevessava na vasilha e subia pra lumiar de noite. (33; 333). Lumiava com as lamparina. (37; 390). ... era uma lamparininha de azeite... outra hora caçava cera no mato... fazia um cordão e passava pra lumiar... era assim também e lumiava ali na beira da cama e deitava. (38; 138). ... e botava as candeia pra lumiar. (44; 15). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Lumiar. v. at. V. Allumiar. Arraes, 3. 10. O sol lumia. E 3.3. lumiar o entendimento. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Alumiar [Do lat. iluminare.] V. t. d. 1. Dar luz ou claridade suficiente a; iluminar, (desus.) aluminar 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Lumiar (n/A) v. Tornar claro algum lugar. Variante antiga de alumiar (alumiar > lumiar – caso de aférese). Cf. alumiar. ... era bem pequenininho e tinha as cancelinha assim ao redor... e botava as candeia pra lumiar. (Entr.6, linha 13) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): LUMIAR • (n/A) • [V] • Lat > Port • Tornar claro algum lugar. O mesmo que alumiar. • Tava iscuro né tirei o fósfo lumiei assim ó tava aquê cuê de bicho pro chão fora (Ent. 04, linha 294) 4. Miranda (2013): Lumiar (n/A) [V] Lat > Port. Tornar claro algum lugar; o mesmo que alumiar. E pra lá tem muita... esses lugá que tem muita pedra... tem cristal é onde disse que tem oro né... ês fala que tem diamante... disse que é uma pedra muito clara que disse que de noite... aonde que tem a pedrinha dela descoberta na terra... ela lumeia feito estrela. (Entr.1, linha 519). 5. Cordeiro (2013): Lumiar (A) [V] Port. (CUNHA, 1986) Espalhar luz, clarear. Variante de iluminar. Fazia um negócio, uma candeia assim e punha um pavi. Moiava com azeite e ficava lumiano. (Entr.8, linha 267). ______________________________________________________________________ Origem: Iluminar alumiar | -mear XIII | do Lat. *allūminātĭo. (CUNHA, 1986, p.425). ______________________________________________________________________ Obs: Variante popular de iluminar, tal qual ilumiar, alumiar. M 350. MACETAR [V] ... uma tal palmatória... _ Bota a mão aí!... nós botava a mão e macetava... (6; 173). ... pegava a mamona... catava e macetava... (23; 377). 331 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Macetar v. tr. dir. De macete + ar. Bater com macete em. 4. Aurélio: Macetar¹ [de maceta ou de macete + -ar] v.t.d. 1. Bater com a maceta ou com o macete em. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... macetar s.XX. De maça ‗clava‘ ‗pilão‘. (CUNHA, 1986, p.486). 351. MACUCO Nm [Ssing.] Ah mas na mata lá na Bahia lá tinha... tinha tudo quanto é caça... macuco. Entr.: Macuco? Inf.: Só num tinha jacu... macuco... tinha cutia... tatu... caititu... (16; 370- 373). Era jacu... izabelê... essas coisa... o macuco... vinha tudo aqui na porta... (23; 111). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Macuco s.m. Pássaro também conhecido por melro das rochas (Monticola saxatilis). 2 Nome comum a diversas aves da família dos tinamidas. 4. Aurélio: Macuco [do tupi] s.m. Brás. 1. Designação comum às aves tinamiformes, tinamídeas, gênero Tinamus, com cauda pequena, escondidas pelas penas das coberteiras, e parte posterior do tarso áspera. [var. macuca; sin tona] . 5. Amaral: Macuco s.m. designa várias espécies da fam. ‗Tinamidae‘. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... macuco ‗macucaguá‘ 1783. Der. regres. de macucaguá. (CUNHA, 1986, p.487). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 352. MADRINHEIRO Nm [Ssing.] 332 ... botava naquele animal que ia na frente... que tinha / chamava madrinheiro... quer dizer o da frente. (27; 393). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Madrinheiro s.m. O rapaz que anda na égua-madrinha para regular o tempo da marcha da tropa. 4. Aurélio: Madrinheiro [de madrinha + -eiro] s.m. Bras. S. 1. O rapaz que anda na égua madrinha com o fim de regular o tempo da marcha da tropa ou da tropilha. 5. Amaral: Madrinha s.f. égua que vai à frente de uma tropa, levando cabeçada e guizos, a servir de guia aos outros animais. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: madrinha 1813. Do lat. med. *matrina, dim. de mater. Ocorre madrina no lat. lusitânico do s.XII (cunha, 1986, P.488). De madrinha + -eiro. _____________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme Aurélio. 353. MAFABETO Nm [Ssing.] Ocês me desculpem que eu sou mafabeto... num sei a ler... (41; 238). ... fiquei mafabeto... eu fiquei mafabeto por isso... (48; 121). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Mafabeto (n/d) s. Pessoa que não foi escolarizada (*mal + alfabeto > malafabeto > mafabeto). ...da minha profissão... fiquei mafabeto... eu fiquei mafabeto por isso... porque no meu tempo num deu pra estudar... (Entr. 10, linha 121). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: alt. de analfabeto. 333 ______________________________________________________________________ Obs: No dicionário de Laudelino Freire há o substantivo mafabé que designa o indivíduo sem préstimo algum. 354. MAIA Nf [Ssinf.] ... põe um cordão e põe uma maia naquilo ali pra jogar pedra pra matar passarinho né? (1; 93) ... e ocê fazia uma maiazinha assim... e agora atirava pedra assim...eu matava muito passarinho... (13; 105). ... fazia um bodoque... lavrava um pau de um lado e d‟outro e entortava e amarrava um cordão... fazia uma maia... pra matar passarinho... (15; 68). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... malha¹ ‗s.f. ‗trança de fio ou metal com que se faziam armaduras‘ sXIII. Do fr. maille e, este, do lat. macula. (CUNHA, 1986, p.492). 355. MÂINHA Nf [Ssing.] . Entr.: O que que fazia da mandioca? Inf.: Mãinha fazia farinha. (17; 198). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ 334 Origem: forma alt. de mãezinha. De mãe + -inha. _____________________________________________________________________ Obs: Forma alterada de mãezinha, usual no falar baiano. 356. MAIS [Preposição] ... eu trabalhei aqui mais ele uns vinte e tantos anos... (1; 51). ... pra levar pra casa pra comer mais os filho. (1; 322). ... fui morar mais um moço ali no... ali num lugar chamado... (2; 59). ... e tem uma que mora mais eu e a outra que mora ali... (2; 92). ... aquela moça quando ela saía mais o pai e a mãe... (2; 355). ... e meu pai foi pro mato mais as outra mais velha... (2; 506). ... panhou meu avô pra mode meu avô ir mais ele... (2; 529). ... quando eu fui criada mais uma / cabei de criar mais uma madrinha minha... (4; 113). Ô moço... a brincadeira minha mais os colega era assim... (5; 77). ... andei até tirando umas pedrinha mais esse Almeida aí... (5; 140). ... fui trabalhar mais eles... foi aí que eu fui operado... (5; 151). ... e quando eu trabalhava sozinho mais o meu sócio... (5; 154). ... aí eu num fui mais não... fiquei aqui mais minha irmã. (7; 39). ... o meu sobrinho morava mais nós... (7; 132). ... minha mãe saía mais meu pai pras roça... (8; 92). ... minha mãe saía mais meu pai pra fazer farinha... (8; 94). ... eu mexia é com fazenda mais mãe... (8; 120). ... esse que eu tou falando que é meu avô... morava mais Capitão Custódio... (8; 211). ...a velha viúva vendeu a terra com a casa e foi embora pra São Paulo mais os filho...aí o (nome) dormiu lá e foi pra Maravilha pra casa da sogra mais a mulher... (10; 181). ... já gosto mesmo de conversar mais uma pessoa assim porque... (12; 271). ... até ia na casa dos pais mas era difícil a moça sair lá e ficar mais ocê conversando ali... não... porque se eu saísse ficava nós de pé lá e... e ocê conversava mais os pai... (12; 376). ... aí foi mais ele pra casa... (15; 144). Inf.2: Meu irmão ia mais ele. (16; 138). ... aí meu avô um dia foi trabalhar mais um cara e ês botou uma cuia de mel assim na cabeça do outro cara... (16; 287). ... eu ia mais o meu pai lá no São João... e eu ia mais ele... (17; 194). ... eu trabalho muito mais ele lá... (18; 12). ... senta mais a moça... aí ês fala o que eles quer. (18; 149). ... saía mais ele com a lamparina... (20; 27). ... e naquele tempo se namorava uma moça mais um rapaz... (22; 81). ... depois um senhor foi discutir mais ele... (28; 198). ... num podia namorar assim sentado mais o rapaz e namorar não. (31; 57). ... num via namorar aí sentado mais o rapaz igual eu tou mais o senhor aqui ó... (31; 59). ... aí ês ficou mais eu... (31; 103). ... quando eu nasci ele me largou aí mais mãe... (36; 17). ... eu fiquei mais a mãe... (36; 30). ... trabalhava mais ele... (39; 131). ... vinha os pais mais a moça na casa... (39; 177). ... foi dançar... mais uma sobrinha minha que era danada... (40; 401). 335 ... aquele tanto de velho... vai passear com nós... dança mais nós... (40; 739). ... eu ganhava com os menino que ficava mais eu... (41; 90). ... esse velho mesmo que morou mais nós... (42; 424). ... aí eles culiou mais o outro moço... (42; 430). ... trabalhava mais eles na Divisa... (43; 143). ... hoje se o senhor por um menino pra dormir mais o outro... ele já num quer mais dormir mais o outro... (43; 473). ... e veio um amigo dele aqui mais ele e pediu o pandeiro... (44; 110). ... em 61 eu fui tirar as madeira mais um homem... (45; 67). ... eu participava porque eu ia mais eles né? (45; 213). ... então quando eu morava mais meus pais... (45; 269). ...evinha mais um companheiro... 335vinha mais um companheiro... o carro de boi carregado de milho... ni seca né?... aí nós evem... (45; 310-312). ... que ela ficava mais nós... ela ficava mais nós que ganhava as criança e ainda ficava mais as outras fora... (46; 101). ... largava uma dentro de casa... dentro de casa mais ele... e eu saía mais as outras para trabalhar... (46; 145). ... que eu morava mais uma mulher... (46; 251). ... aí a mulher que eu morava mais ela... (46; 266). ... tinha uma menina que morava mais eu... (46; 277). ... e num teve uma que ficasse mais eu... quem deu de ficar mais eu é esse meu filho... (46; 279). ... e tem hora que eu fico aqui dentro de casa mais eles... (46; 285). ... esse aí... eu ficava aqui mais ele... (46; 286). ... tanto filho que eu tenho e eu fico aqui mais Deus e esse menino... (46; 287). ... uma vez eu fiquei numa casa... mais ele na casa... (49; 73). ... ocê tá conversando mais ele ali... (50; 152). ... meu irmão topou com ele aqui... um jegue... topou mais ele ali na ponte... (50; 277). ... e teve mais gente que topou mais ele aqui. (50; 292). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Mais. [Do lat. magis] Prep. 10. Pop. Em companhia de; com: E jornadeio em fantasia / Essas jornadas que eu fazia / Ao velho Douro, mais meu pai. (Antônio Nobre, Só, p.38) 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Mais (A) prep. Com; em compahia de. É... esse velho mesmo que morou mais nós... (Entr. 4, linha 412). 2. Ribeiro (2010): Mais (A) [prep.] Lat. Com, em conpahia de. E eu mais os meus irmão que era piqueno pra nóis num tinha nada mio do que cume rosca, pão, forró. (Entr.14, linha 222). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 336 _____________________________________________________________________ Origem: mais ‗designativo de aumento, de grandeza ou comparação‘ s.XIII, mays XIII. Do lat. magis, raiz mag-, a mesma de magnus (CUNHA, 1986, p.490). 357. MAIS POUCO Locução adverbial [Prep. + ADV] E o meu pai que era mais fraco fazia a festa mais pouco... (3; 99). ... tem muito pouco... mas tinha... é ficou mais pouco mas tem. (3; 215). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: mais s.XIII, mays XIII. do lat. magis, raiz mag-, a mesma de magnus (CUNHA, 1986, p.490). / pouco s.XIII. do lat. paucus –a –um (CUNHA, 1986, p.627). 358. MALACACHETA Nf [Ssing.] ... aí aquelas malacacheta que tinha... Entr.: Malacacheta? Inf.: Malacacheta. Entr.: O que é isso? Inf.: Era uma ( ) que tem no chão aí ó. Entr.: É uma folha? Inf.: Não... num é folha não... é como sendo duas capinha de coisa... chamava malacacheta. Entr.: Malacacheta. Inf.: É... na mata tem muito. Entr.: É tipo um... Inf.: É assim... tipo um / as capa dela eu sei... é pequenininha... tem grande. Entr.: Espinho? Inf.: Num é espinho não... é... é aquelas capa... chama malacacheta. (18; 315-329). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Malacacheta v. mica ou talco. 3. Freire: Malacacheta s.f. O mesmo que mica. 4. Aurélio: malacacheta s.f. Bras. Min. mica. 5. Amaral: Malacaxeta s.f. mica. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ 337 Origem: ... malacacheta ‗mica‘ 1813. De orig. desconhecida. (CUNHA, 1986, p.491). 359. MALINAR [V] ... e era... era matando passarinho... era malinando dentro desse rio velho aqui ó... (5; 84). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Malignar Viciar. Infundir uma má qualidade moral. Malignar o animo, a intenção. Malignar com mãos conselhos os bons íon tentos de alguém. 2. Morais: Malignar v. at. Fazer maligno o que era benigno. Fazer Mao moralmente. V. n. Fazer maligno. 3. Freire: Malinar v. intr. Fazer travessuras. 4. Aurélio: Malinar [de malino + -ar, var. de malignar] Bras. v. t. Ind. 1. Atenazar. V.int. 2. Fazer travessuras (as crianças). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... malignar 1813. Do lat. malignare. (CUNHA, 1986, p.492). ______________________________________________________________________ Obs: O verbo malignar já constava em Bluteau, contrariando a informação do Cunha. 360. MALINO [ADJ] Entr.: Diz que tinha um que morreu que virava bicho. Inf.: Virava... é o esprito malino. (10; 195). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Maligno Ou malino. Inclinado a fazer mal. 2. Morais: Maligno adj. ou malino. Mao, de má qualidade. 3. Freire: Malino ‗adj. Forma ant. de maligno. 2. Travesso. 4. Aurélio: Malino [var. de maligno] adj. 1. Ant. pop. maligno. 2. Bras. pop. travesso, traquinas (diz-se de crianças). S.m. 3. Bras. pop. v. diabo. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ 338 Origem: ... maligno s.XIV, malino XIV. Do lat. malignus. (CUNHA, 1986, p.492). ______________________________________________________________________ Obs: Amadeu Amaral: cita o vocábulo malino como exemplo de arcaísmo de forma (p.56). 361. MANAÍBA / MANAÍVA Nf [Ssing.] Mexia plantando feijão... milho... manaíba... chovia nós plantava né? (7; 41). Entr.: Lá na roça ocês plantava o que? Inf.: Era mais era manaíva né?... (36; 39). ... nós ia sameando manaíba e ia plantando mais os camarada. (41; 20). Plantava manaíba. (41; 22). ... e queimou... e botou manaíba... e plantou roça... (41; 48). ... nós plantava as mesma coisa de hoje... era manaíba... feijão... milho... é cacatua... andu... (43; 103). Entr.: O que é manaíba? Inf.: Manaíba é o pé da mandioca. (43; 106). ... eu planto manaíba e é tudo. (49; 246). Eh ele num conhece o que que é manaíba não! Entr.: Conheço não. Inf.: É pois é... a mandioca é da manaíba... (49; 250-252). Plantava arroz... plantava manaíba na beira do brejo. Entr.: Plantava o que?... manaíba? Inf.: Manaíba. (52; 21-23). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Manaíba/maniva. [Var. de maniva, do tupi.] S. f. Bras. Bot. 1. Tolete do caule do aipim ou da mandioca, cortado para plantio; muda de aipim ou de mandioca. / [Do tupi.] S. f. Bras. N. N.E. 1. Manaíba. 2. Bot. V. mandioca (1 e 2). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Manaíba (A) s. O caule da mandioca. A parte que se planta. É pois é... a mandioca é da manaíba... depois planta... agora aí dá a mandioca... (Entr. 11, linha 246). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Manaíba (A) Nf [Ssing] Ind. Raiz comestível. O mesmo que mandioca. E nóis era da roça com a inxada na cacunda prantano manaíba, prantano cana, prantano feijão (Entr.11, linha 66). _____________________________________________________________________ Origem: ... Manaíba. sf. ‗pé de mandioca‘ / mandiiba c1607, baniba 1616, manaíba 1663 etc. / Do tupi mani‟iua. (CUNHA, 1986, p.493). _____________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 362. MANDACARU Nm [Ssing.] ... e nossos irmão foi pescar... aquele mandacaru... o senhor conhece? Entr.: 339 ―Mandacaru... já vi falar.‖ Inf.: ―Secava... ainda punha ele pra alumiar assim os peixe dentro d‘água...‖ (44; 320). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Mandacaru ―sm. Bras. Bot. Cacto de porte arbóreo.‖ 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Mandacaru (n/d) s. Espécie de peixe. ... e nossos irmão foi pescar... aquele mandacaru... o senhor conhece?... (Entr. 6, linha 307). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... mandacaru ‗planta da fam. das cactáceas‘, a) modurucu 1587, mandacaru 1702 etc. B) janamacara 1618, iamandacaru 1618, iamacarú 1663 etc.; c) comanacaru c1631, comandacaru c1631. Do tupi iamanaka‟ru . (CUNHA, 1986, p.494). _____________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 363. MANDRUSCADA Nf [Ssing.] ... quando a gente adoecia fazia chá de remédio... chá de folha de laranja erva cidreira... mandruscada... muito chá pra dá... e até hoje o povo dá chá. (7; 165). É uma frutinha que a gente compra... é comprada. Entr.: Ah é uma frutinha? Inf.: É assim feita um coquinho. Entr.: Chama mandruscada. Inf.: É chama mandruscada... o senhor num conhece não. (7; 180). ... fervia uma água... botava ali umas mandruscada dentro... (39; 508). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Mandruscada (n/d) s. Mistura de ervas para fazer chá; raizada. É... óleo de mamona... ia lá pegava o óleo... fervia uma água... botava ali umas mandruscada dentro... botava um pouco de fedegozão... fazia um copo duplo e o camarada quebrava aquilo. (Entr. 1, linha 480). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 340 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e. 364. MANGA / MANGUEIRO Nf [Ssing.] / Nm [Ssing.] ... chegava no meio de uma manga e matava a rês de qualquer um... (1; 406). ... mas num faltava... os porco tava aí no mangueiro... (2; 143). ... mas cada um tinha uma mangueirinha assim ao redor da casa... (2; 286). ... o peão chegava num pouso... derrubava a tropa... botava num mangueiro... ia cunzinhar panela de feijão... (6; 118). ... vinha pessoal de longe... num sei quantas léguas... passava tudo conhecido... pousava lá pra dentro e botava lá tudo no meio da manga... (8; 134). ... tinha manga lá e ês botava animal na manga. (8; 174). Botava os animais na manga e dormia... (8; 178). Tirava assim de uma manga pra outra tirava... tocando né?... que as vez já tinha uma manga lá pra beira do rio Pardo... pra cá... tocava mas a cavalo né? (12; 71). ... hoje não que virou tudo manga né? (18; 445). ... naquele tempo os fazendeiro punha aquela turma na base do braço né?... pra roçar uma manga pra fazer uma cerca... (19; 168). ... chegava e ficava junto... arranjava manga pra por os animal... (19; 284). ... tudo era mato... ou era mangueiro de botar animal... (25; 17). ... ia na manga e pegava um gado e laçava e sangrava... (31; 172). ... quem tem hoje tem que criar na manga... num pode criar na banda de fora. (31; 404-405). ... montava nos cavalo e ia correr dentro da manga pra aprender andar montado. (35; 16). ... ele fazia um caçar os outro três hora da manhã na manga... (37; 73). ... seis horas já chegava e tinha a manga pra por os animali... (37; 255). ... e ia lá longe no mangueirão... e ia tocando o animal assim... (39; 139). ... o terreno num guenta pasto... cê faz aquela manga... planta e arruma e tal... o capim / o primeiro ano ele sai aquela força... (43; 289). Até ali eu conheci aquilo ali... uma manga só de capim... (43; 299). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Manga. s.f. Pastagem cercada, onde se guardam cavalos e bois. 4. Aurélio: Manga4. manga4 [Do esp. plat. Manga.] S. f. 3. Bras. CE à BA MG a GO Pastagem cercada onde se guarda o gado. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Manga (A) s. Pastagem cercada próximo a casa da fazenda, especialmente preparada para guardar o gado. Até ali eu conheci aquilo ali... uma manga só de capim... (Entr.5, linha 293). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 341 4. Miranda (2013): Manga (A) Nmf [Ssing] (n/e) Pastagem cercada próxima a casa da fazenda, especialmente preparada para guardar o gado. É... lá tinha a manga lá... lá tinha os cocho de pô comida pros porco de engorda... agora os de cria era outra manga separada... (Entr.3, linha 46). 5. Cordeiro (2013): Manga (A) Nf [Ssing] Esp. Plat. Pastagem cercada onde se recolhem animais. Trazia caixa de maxixe. Que aqui em cima prantava, mas num dava e lá na fazenda até no mei das manga, cê tava no mei das manga e tava trupicando ni maxixe. (Entr.5, linha 96). ______________________________________________________________________ Origem: do esp. plat. manga (Cf. no Aurélio acima) 365. MANGABA Nf [Ssing.] ... tava passando aí que mangaba é um remedão pra pressão né? Entr.: Mangaba... Inf.: Essa mangaba... ela é do mato. Entr.: Aqui tem na região? Inf.: Tem... tem muito. Entr.: Mangaba. Inf.: Mangaba... é... ela é... ela é... o senhor conhece... num conhece? (11; 180-186). ... o fogo ia e entrava nos piquizeiro rebuscando e queimava aqueles produto... mangaba que tinha. (21; 215). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Mangaba Fruto da mangabeira, plãta do Brasil. 2. Morais: Mangába s.f. Fruto da mangabeira. 3. Freire: Mangaba s.f. O fruto da mangabeira. 2. A mangabeira. 4. Aurélio: Mangaba [do tupi] s.f. Bras. 1. O fruto da mangabeira. Baga do tamanho de um limão, polposa e doce. 5. Amaral: Mangaba, mangava, s.f. fruto da mangabeira. Do tupi. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... mangaba ‗planta da fam. das apocináceas, cujo fruto é muito apreciado‘ c1584. Do tupi ma‟naua. (CUNHA, 1986, p.495). _____________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 366. MANIVA Nf [Ssing.] ... já plantei cana e... maniva... maniva... plantei muita farinha... (1; 272). ... aqui quando eu morava ali embaixo eu plantava milho eu plantava feijão plantava maniva... (2; 106). ... que num podia plantar arroz eu plantava feijão milho mandioca maniva... (2; 108). Era milho feijão maniva né? (18; 167). ... é planta mulho arroz feijão maniva e... (23; 296). E nem sei... é feijão... na roça dava muita maniva. (24; 172). 342 ... era trabalhar na roça... fazer roça... plantar feijão... maniva... (39; 04). ... quem mais plantava feijão milho e maniva né?... (39; 08). Milho feijão arroz né?... tudo plantava... cana maniva... Entr.: Maniva? Inf.: Maniva é a ram ade mandioca... (39; 10-12). Eu planto maniva milho feijão... (39; 324). Era milho feijão... é mandioca... maniva... era o que nós tinha. (45; 44). Entr.: E na roça ocês plantava o que? Inf.: Era milho... era maniva. (47; 153). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Maniva. sf. t. do Bras. O páo cuja raiz é a mandioca, de que se faz farinha; dos trços delle plantados nos matombos se reproduz a mandioca. 3. Freire: Maniva. s.f. Tupi mani-iva. Planta da família das euforbiáceas, conhecida por maniveira e mandioca brava (manihot utilíssima, Pohl.) 4. Aurélio: Manaíba/maniva. [Var. de maniva, do tupi.] S. f. Bras. Bot. 1. Tolete do caule do aipim ou da mandioca, cortado para plantio; muda de aipim ou de mandioca. / [Do tupi.] S. f. Bras. N. N.E. 1. Manaíba. 2. Bot. V. mandioca (1 e 2). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Maniva 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: do tupi mani-iva conforme Freire acima. ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 367. MANJOLO / MONJOLO Nm [Ssing.] ... porque pra abrir precisa dum certo monjolo... aí o barro batia... (3; 14). ... café pisava no pilão... arroz pisava no pilão... café pisado no manjolo... pisava o café no manjolo... torrava esse café e depois pisava no pilão. (13; 411). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Monjolo s.m. Forma imprópria de munjolo. 4. Aurélio: Monjolo¹ [do quimb.] s.m. 3. Bras. MG S. 1. Engenho tosco, movido a água, usado para pilar milho e, primitivamente, para descascar café. 5. Amaral: Munjolo s.m. engenho rústico, movido por água e destinado a pilar milho. A forma corrente entre a gente culta é monjolo. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 343 2. Ribeiro (2010): Munjolo (A) Nm [Ssing] Afr. Engenho movido a água, usado para pilar milho e, primitivamente, para descascar café. E a farinha punha lá no munjolo. O munjolo macetava o mio até virá fubá. (Entr.11, linha 124). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Munjolo (A) Nm [Ssing] Afr. Engenho tosco, movido à água, usado para pilar milho e, primitivamente, para descascar café. É... no pacotinho cê qué vê?... vô te mostra ocê... no pacotinho vem escrito farinha de munjolo... mas é de mio né... (Entr.7, linha 134). 5. Cordeiro (2013): Monjolo (A) Nm [Ssing] Afr. Árvore de casca espinhosa e madeira dura e parda. Ingem tudo de pau, ingem antigo. Fazia tudo de madeira lá de, de angico e de monjolo. (Entr.12, linha 141). ______________________________________________________________________ Origem: ... monjolo ‗engenho tosco movido a água, empregado para pilar milho e, a princípio, no descascamento do café‘ s.XX. Prov. orig. afric. (CUNHA, 1986, p.530). _____________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (MG, S), conforme o Aurélio acima. 368. MANTIMENTO Nm [Ssing.] ... essas coisa... pra pegar o mantimento da roça né?... (23; 134). ... a gente usava mas era carro de boi... tirar as cana da roça... é mantimento... era carro de boi... (37; 57). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Mantimento Alimentos necessários para o sustento da vida. 2. Morais: Mantimento s.m. Os comeres, viveres, vitualhas, alimento. 3. Freire: Mantimento s.m. De manter + mento. Alimento, víveres; o que é necessário para a alimentação de alguém. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... mantimento s.XIV. De manter. (CUNHA, 1986, p.497). 369. MARAMBAIA Nf [Ssing.] ... eu faço ponto de cruz... eu faço bordado... eu faço marambaia. (44; 25). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Marambalha. s.f. Renda de crivo do Norte de Minas Gerais. 344 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Marambaia (n/A) s. Espécie de renda produzida no Norte de Minas. ... faço franja... faço ponto de cruz... eu faço bordado... eu faço marambaia... (Entr. 6, linha 22). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e _____________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (Norte de Minas), conforme Freire. 370. MARIA TEREZA NCf [ Ssing +Ssing] Tem a Maria Tereza. Entr.: Maria Tereza?... o que que é Maria Tereza? Inf.: Maria Tereza é uma mulherzona alta vestida... (45; 219-221). Mas eles num importa não... e Maria Tereza num passa nessa porta. (45; 233). ... tem uns moço aí que faz um tal boi janeiro... e a tal Maria Tereza... (46; 163). O povo fazia Maria Tereza boi janeiro... e saía nas rua. (53; 225). Maria Tereza era uma mulherzona vestida de... faz uma mulherona... vestia uma saiona... (53; 227). Vestia e saía andando pelas rua com essa Maria Tereza e o boi janeiro e o povo atrás. (53; 230). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Maria Tereza (n/d) s. Fantasia grande de mulher, usada por alguém com a finalidade de sair pelas ruas desfilando, em festa local. Maria Tereza era uma mulherona vestida de... faz uma mulherona... vestia uma saiona e o boi janeiro né... havia essas festa aí... (Entr. 15, linha 227). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: Maria ‗do antrotopônimo Maria‘ / Tereza ‗do antropotônimo Tereza‘. 345 371. MATA-BURRO NCm [V + Ssing.] ... tinha o... mata-burro que ês falava né?... tinha uma porteira de um lado e tinha um mataburro do outro lado... era um mata-burro né?... as pessoas quisesse passar um animal... e cá era pra passar gente de a pé... mata-burro... então se o animal forçou ali pra passar caía... (21; 32-34). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Mata-burro s.m. Ponte de traves espaçadas para impedir a passagem de animais. 2. Fosso escavado na boca dos cortes ou das porteiras, para evitar a entrada de animais. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e 372. MATUTAGEM Nf [Ssing.] ... era buscar alecrim... esse outro... arruda... essas coisa e fazia uma matutagem assim misturada com esterco de gado... (48; 442). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Matutagem. s.f. O mesmo que matalotagem. 4. Aurélio: Matutagem². matutagem2 S. f. Bras. N.E. Pop. 1. V. matalotagem. matalotagem [Do fr. matelotage.] S. f. 4. Fig. Montão de coisas confusas; amálgama, salgalhada. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Matutagem (A) s. Massa feita de mistura de raízes com esterco de gado, usada, amarrada, junto ao corpo, em locais doloridos. ... se ela tivesse sofrendo de resfriagem... era buscar alecrim... esse outro... arruda.... essas coisa e fazia uma matutagem assim misturada com esterco de gado... passava nesses trem tudo... e botava um pano... e botava em riba daquela dor... (Entr. 10, linha 436). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 346 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: francês (Cf. o Aurélio acima) 373. MAXIXE Nm [Ssing.] ... eu já trabalhei um dia ni Espinosa... quinze dia... comendo maxixe sem gordura e sentado... (32; 51). ... tinha muita muranga... melancia quiabo maxixe... (47; 155). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Maxixe s.m. Fruto de uma planta curcubitácea Cucunis anguria). 4. Aurélio: Maxixe sm. Bras. O fruto do maxixeiro. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... maxixe ‗fruto do maxixeiro‘, planta da fam. das cucurbitáceas 1730. Do quimb. ma‟sise. (CUNHA, 1986, p.508). ______________________________________________________________________ Obs: Africanismo. 374. MEADA Nf [Ssing.] Entr.: ... aqui o pessoal mexia com criação de gado também? Inf.: Não. Entr.: Não né? Inf.: Nessa meada não... (7; 120). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Meádo v. meiado. 3. Freire: Meado s.m. O meio, a parte média.‘ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ 347 Origem: ... meada s.XV. De médio. (CUNHA, 1986, p.509). 375. MEIRINHO [ADJ.] Inf.2: É que chamava de bandeira... e esse é o tamanduá meirinho que ês fala que é o... que é o melete. (15; 400). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Meirinho He derivado de maiorinus, palavra corrupta do latim maior. 2. Morais: Meirinho s.m. Official de justiça, que prende, cita, penhora, e executa outrops mandados judiciais. Meirinho: insecto que vive de moscas, que caça. adj. Lã de ovelha meirinha, i.e., de ovelhas que mudão de pasto, nas estações do inverno, e verão, andando hora nos pastos do monte, ou dos baixos. 3. Freire: Meirinho s.m. Contr. de maiorinho, dim. de maior. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: latim > português. 376. MELADO Nm [Ssing.] ... fazia o melado fazia a rapadura né?... (39; 20). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Melado Chamão os do Brasil ao licor da canna moída,que corre para as caldeiras, & com a força do fogo se reduz a seu ponto. Este depois de lançado nas formas, he coalhado, não he mais melado, he assucar. 2. Morais: Melado s.m. No Brasil, o caldo da cana de assucar, limpo da caldeira, e pouco grosso; depois passa as tachas onde se engrossa mais, e se diz mel d‟engenho: o liquido, que se distilla do melado na casa de purgar, chama-se mel de furo; e quando sai claro do assucar, quase purgado, mel de barro. 3. Freire: Melado s.m. Calda ou sumo que a cana doce deposita na caldeira. 4. Aurélio: Melado¹ [De mel1 + -ado¹.] S. m. 4. Bras. N.E. A calda grossa do açúcar, de que se faz rapadura; mel. 5. Amaral: Melado, s.m. - caldo de cana engrossado, no engenho; por ext., sangue que se derrama: Tomô uma pancada na cabeça; foi só melado... Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 348 3. Freitas (2012): MELADO • (A) • Nm[Ssing] • Lat > Port • A calda grossa do açúcar. • Cê põe no cocho no lugá de batê a rapadura enche aquê ê dexa lá...e dexa lá com dois dia cê pega aquê melado...põe na forma...cê põe ê lá enche as fôrma tudo agora trazia o barro de têia trazia aquê barro mole de teia forrava ê assim. (Ent. 11, linha 196) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... melado ‗mel grosso do açúcar de que se faz a rapadura‘ 1813. (CUNHA, 1986, p.510). ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (NE), conforme o Aurélio acima. 377. MELEPO / MELETE Nm [Ssing.] Ni caça já tinha um bicho perigoso. Entr.: É? Inf.: Viado... cutia... tatu... paca... melepo... gambá... tatu. (6; 54). Inf.2: É... melete tinha muito nesse campo aí. Entr.: Como é que chama? Inf.2: Melete. Entr.: Melete? Inf.2: É... melete é um tamanduázinho pequeno... porque o grande é daquele com o rabão fachudo né? (15; 391-395). Inf.2: É que chamava de bandeira... e esse é o tamanduá meirinho que ês fala que é o... que é o melete. (15; 401). Inf.1: ... depois que inventou negócio da polícia florestal ninguém comeu melete... (15; 402). Inf.2: ... que o réptil que tem aqui nesse mato aí é esse melete que quebrou agora... (15; 409). ... tinha preguiça... tinha veado... melete... tamanduá... (24; 92). Melete... melete é um marrom com uma lista nas costas assim... com um fucinhão... come formiga. Entr.: Ah tipo um tamanduá. Inf.: É... era um tamanduá pequeno... (24; 95). ... tinha tatu tinha melete... tinha veado... (35; 148). ... ia pro mato caçar veado tatu... melete... (35; 151). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Melete s.m. Espécie de tamanduá. 4. Aurélio: Melete s.m. Bras. zool. 1. V. tamanduá-colete. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Melete (A) Nm [Ssing] (n/e) Espécie de tamanduá. A gente cumia muita coisa. Bicho do mato né? Matava melete, bandeira memo. Matava tudo. (Entr.3, linha 301). 349 _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 378. MEMO [ADJ] ... na casa de meu tio memo chegou ( ) amarrado... (8; 345). ... aí saía uma festa... meu pai memo era um que era disso... (12; 399). ... eu memo eu quebrei esse osso do braço aqui ó com uma pancada... (32; 144). Vinha nada... era pra roça memo. (32; 372). É... era lá pra roça memo... (32; 374). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Mermo, mesmo adj. det.: ‗Conto mermo pra nho pai.... Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... mesmo s.XIII, meesmo XIII. Do lat. vulg. *metipsimus. (CUNHA, 1986, p.515). 379. MINADOR Nm [Ssing.] ... quando cabava a água ali o povo ia acompanhando a água... a água ia subindo o cara subindo atrás... até ir no minador buscar... (15; 334). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Minador O engenheiro que faz minas. 2. Morais: Minador s.m. Ingenheiro que faz minas. 3. Freire: Minadouro s.m. De minar + douro. Nascente de um ribeiro ou córrego. 4. Aurélio: Minador² s.m. Bras. 1. V. minadouro / minadouro s.m. Bras. 1. Olho dágua, quase sempre nascente, de um ribeirão ou de um córrego, ou de um fundo de grota. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 350 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de mina (latim > português). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 380. MIUCHO [ADJ] ... aqueles caminhãozinho antigo... miuchinho né?... (42; 673). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Miuchinho (n/d) adj. Que é simples; pequeno. ... é... um caminhãozinho... um chevizinho... aqueles caminhãozinho antigo... miuchinho né... num é esses carrão que tem hoje não... (Entr. 4, linha 651). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... miúça ‗fragmento‘ s.XVII. Do lat minutia. (CUNHA, 1986, p.525). 381. MOCÓ Nm [Ssing.] ... aqui tem uma variedade de ave... tem demais... tem mocó... tem zabelê... até que as zabelê acabou quase... (26; 91). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Mocó s.m. 2. Animal roedor, da família dos caviideos, semelhante ao coelho, mas maior e sem orelhas nem cauda. 4. Aurélio: Mocó [do tupi] s.m. 1. Bras. zool. Roedor caviídeo (Kerodon rupestris), semelhante à cobaia. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 351 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... mocó ‗mamífero roedor da fam. dos cavídeos‘ 1789, moquô 1618, do tupi mo‟ko. (CUNHA, 1986, p.526). ______________________________________________________________________ Obs: O vocábulo mocó na acepção de ave não foi encontrado. Indigenismo. 382. MODE / MODO/ PRA MODE [ADV.] ... pra mode mostrar fazendeiro né? (1; 145). ... aquela sinhá já panhava e dava um torresmo ele pra mode ele comer... (1; 193). -Pra mode ocês ver o cheiro do torresmo que sinhá me deu!... (1; 195). ... desde o tempo de criança quando eu tinha oito anos que o pai já levava pra roça mode tá catando matinho... (1; 267). ... juntava dois três quatro companheiro pra mode ir tudo junto... (1; 326). ... que eu ia levar mesmo mode a gente temperar um café... (1; 426). ...- Fala pra mode ver!... ele pegou e falou assim... (1; 446). ... ah moço mas agora pra mode de arrancar aquele dinheiro... (1; 487). ... aí eu fui pra Mata mode ficar lá mais as duas menina... (2; 31). ... e tinha a cana pra modo eu beber o meu café ou chupar... (2; 112). ... e agora levava e vendia pra mode / baratinho pra nós fazer... (2; 121). ... criava um porco... pra mode ninguém reclamar outra coisa né? (2; 139). ... num ficou pra mode gente / fazendeiro tomar conta... (2; 293). ... panhei um mio pra mode dá uns porco e cheguei... (2; 334). ... e deixou lá pra mode todo mundo ver... (2; 452). ... escondeu tudo no mato pra mode ês poder... (2; 478). ... panhou meu avô pra mode meu avô ir mais ele... (2; 529). ... se ês chegar na cidade pra mode invadir... vai dar é fogo... (2; 543). ... que nós tinha umas bonequinha mode eu e minha irmãzinha brincar assim... (4; 93). ... ele me ponhava no carro modo eu botar os cachorro pra ele pra ês ir pra tocaia... (5; 196). Tinha um deles aí que virava um toco lá modo num pagar imposto...e fazia muita coisa pra num pagar imposto. (13; 28). Pra mode trazer as coisa pra Ninheira? (17; 59). ... pra mode / um metro de altura nós subia... (21; 111). ... o povo pegava e escondia lá em cima... pra mode do revoltoso... (21; 315). ... que ês num pregava de tudo não... mode ela num arrancar deixava uma ponta... (21; 325). O rio aí tinha / ês usava assim pra mode / ês botava umas ponte de madeira... (21; 420). ... e panhei uma carta e tava dando uma fia minha pra mode ela vim pra ela vê... (27; 73). - Pois ocê me sede o mato pra modo eu fazer carvão que eu pago uma renda pr‟ocê. (27; 164). ... eu tinha vontade de ter um casal mode dos quem e vê... (27; 197). ... que quando acabava aqui ia ni Montes Claros de burro por mode trazer coisas de Montes Claros aqui... (30; 301). ... acho que é modo a carestia que tá demais pros pobre né? (35; 153). ... se fosse mode eu fazer mas eu num guento mais... (36; 47). ... - Quieta aí mode eu panhar o menino!... (36; 128). ... agora ês tão falando de eu ir em Montes claros mode fazer outros exames... (36; 352 184). ... pra mode amanhecer acendida lá... (36; 255). ... pra mode num cair poeira nem cisco... (36; 354). ... eu vim cá pra mode mexer com a goma... (36; 356). ... eu já plantei feijão aqui pra mode eu colher saco por prato né? (39; 235). ... tomava um trago aqui pra mode ficar alegre né? (39; 494). ... mode os revoltoso não atacar né? (39; 686). ... meu Jesus tá me dando conformo... modo eu leva ó... (41; 25). ... chegava na roça num guentava pegar uma enxada mode trabalhar... (42; 38). Ah... era escondido né?... é... pra mode... (42; 48). ... pra resolver... mode eu namorar a outra menina... (42; 78). ... parece que num era... pra mode... casar com nenhuma delas... (42; 97). ...deixa ele tomar ao meno um café... modo por ele poder ir... (42; 538). Acompanhava ele né?... mode... pra mode fazer assombramento... (942; 579). ... meu dinheiro dá muito mode eu comer... (44; 220). ... que ela levava um carrinho de mão modo eu tirar uma lenhazinha... (45; 379). ... o tempo que eu vou pra lá pra modo desse povo tá caçoando de mim... (46; 16). ... pra mim tomar... pra mode poder... pra mode me controlar... (46; 48). ... ela num tá aí pra mode ela poder... (46; 237). ... de vez em quando ês solta lá... por mode maneirar lá a represa... (50; 119). ... falava: _ Eu mode esperar aqui?... (50; 228). ... num dou jeito mais modo eu contar caso que nem eu contava de primeiro não. (52; 429). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Por modo que loc. adv. O mesmo que de modo que. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Mode ~ Modo (n/d) adv. A fim de; para. ...me escreveu pra tornar a voltar lá... pra resolver... mode eu namorar a outra menina... (Entr.4, linha 75) ... que ela levava um carrinho de mão modo eu tirar uma lenhazinha prali... (Entr.7, linha 373) 2. Ribeiro (2010): Mode • (n/d) • [Adv] • (n/e) • A fim de; para. • ...aquê roxo, pá mode não sentá musquito... (Ent. 1, linha 140) 3. Freitas (2012): MODE • (n/d) • [Adv] • (n/e) • A fim de; para. • Ea tava com a manguarinha ea catucô ea assim com a varinha catucô a égua com a varinha pelejo mode a égua levantá a égua num quis levantá não (Ent. 02, linha 211) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Pra mode / pro mode (n/d) [Loc. Adv] Port. (CUNHA, 1986) Para, pelo modo. Agora vô pegá um cavaco que eu sei dele ali pra mode eu pô aqui em riba dessa lata e assá esse bolo digerim. (Entr.11, linha 255). ______________________________________________________________________ Origem: latim ‗modus‘. 353 ______________________________________________________________________ Obs: Amaral: sugere que mode vem da locução por amor de (p.81), sendo essa locução usual em obras do século XIV a XVI, conforme cita Mattos e Silva (2002, p.234). 383. MONTOEIRO Nm [Ssing.] ... eu amanhecia assim ó... com aquele montoeiro de travesseiro... (46; 291). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Montoeira. ‗s.f. De montão. Grande quantidade. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Montoeiro (n/A) s. Montão; quantidade. ... e tinha noite que dava falta de ar... eu amanhecia assim ó... com aquele montoeiro de travesseiro... (Entr. 8, linha 282). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: monte s.XIII. do lat. mons montis (CUNHA, 1986, p.531). De monte + -eiro. 384. MOQUEAR [V] Fazia gaita de taboca tirada do mato... moqueava a galha de taboca e fazia... as gaita... (16; 632). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Moquear v. tr. dir. De moquém. Secar (carne) sobre o moquém, para conservar. 4. Aurélio: Moquear [de moquém + -ar] v.t.d. 1. Bras. N Secar a carne ou o peixe no moquém, para conservá-los. 2. Bras. S. Assar a carne em moquém. 5. Amaral: Moquear v.t. assar a fogo brando, para se conservar a carne. Do tupi ‗mocaê‘, secar, assar. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ 354 Origem: ... moquear s.XIX. De moquém. (CUNHA, 1986, p.531). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo (Cf. Amaral) e Regionalismo (N, S), conforme o Aurélio acima. 385. MOTA Nf [Ssing.] ... a gente num achava um carro pra andar... num tinha mota num tinha bicicleta num tinha nada nada nada... (4; 186). ... num tinha mota... num tinha carro... (32; 94). ... hoje vem de carro... vem de mota... (34; 190). ... só o que eu tenho novidade comigo foi um acidente de garupa de mota sabe? (37; 371). ... mas bateu na mota dele... mas foi a conta eu caí assim... (37; 381). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Mota³ s.f. lus. 1. V. motocicleta. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: Red. de motocicleta. _____________________________________________________________________ Obs: O vocábulo mota é um lusitanismo, conforme o Aurélio acima. 386. MUCADO / MUCADINHO Nm [Ssing.] ... que acho que ele tinha um mucado de filho... (2; 271). ... quando tinha uns poço de água... fizemos um mucado de adobo... (3; 09). ... eu quando eu tava com uma menina e ela namorou um mucado de tempo... (4; 126). ... agora mesmo um mucadinho veio cá e era pra ir lá e num foi ninguém... (4; 459). Que dizer que essas coisa antiga... daqui uma parte eu sei de um mucado. (5; 74). Ó tirava quartzo rosa... tirava uma pedra courada... tirava... um mucado de coisinha... (5; 153). ... eu fui casado duas vezes... eu tenho um mucado de gente de menor... (5; 255). ... aí a menina e um mucado deles lá... (5; 287). ... quando é um dia ela tava em casa... passou um mucado de tropeiro... (8; 160). ... escritura tudo em meu nome aí... vendi pra arrumar um mucado... (12; 129). ... mas de criança tem doze filho criado... tem um mucado... (12; 176). ... e a roupa boa eles pegaram... um mucado de roupa... (13; 259). ... lavava com barbatimão... óleo de piqui... ponhava nela... e aí um mucado de coisa né? (15; 229). ... diz que veio um cara de lá com uma família de gente com um mucado de fiinho... 355 (15; 280). Eu tive um mucadinho mas é... o povo aí robou tudo... (16; 219). Nós juntava um mucado de menino e é brincando com vadiaçãozinha de... carrinho... (17; 27). Ah um mucado de gente falava aí... (17; 136). Um mucado ficou com medo. (17; 165). É... um mucado fazia renda aí... (17; 176). ... aqui o finado (nome) o povo dele já morreu mucado... (18; 294). ... é com um mucado de tempo que a gente vai falar né? (18; 510). ... mucado de coisa né?... que eu nem lembro de tanta fruta né?... (18; 572). ... hoje ele tem a serra... um mucado de serra aí mas naquele tempo... (20; 14). ... e antes deu casar eu fui também um mucado de vez... (20; 165). ... é prego grande... deixava um mucado sem pregar... (21; 326). ... já morreram mucado... e outros tá vivo... (24; 209). ... eu tinha um mucado de companheiro... (27; 43). É... aonde tiraram um mucado de diamante... (28; 298). ... pegava um mucado de raiz de pau assim... (32; 135). ... diz que ês escreveu lá um mucado de coisa... (32; 242). ... onde é que ês ficou lá ês escreveu um mucado de coisa... (32; 254). ... ota hora pegava um mucado de... da cera... (32; 309). ... quando chegou um mucado de cigano lá nessa casa... chegou um mucado de cigano... (36; 349). ... revoltoso em vinte e nove matou um mucado de gente... (37; 08). Antigamente tinha um mucado de remédio moço... (37; 177). ... tinha um mucado arranchado sabe? (37; 227). Uma lapinha... aqui fazia muito mas num é todo que faz mais não... um mucado é crente. (37; 319). É... eu fiquei morando ali um mucado de tempo... (40; 31). ... ontem de noite eu lembrei de um mucado de coisa assim... (40; 619). ... eu namorei um mucado de moça... (42; 85). ... mais esse povo mais antigo... que ainda alcançou um mucado de tempo bom... (42; 329). ... e tirei pra mim e tomei um mucado de tempo aí... (42; 396). ... a nega ia matar um mucado de gente né?... (42; 448). ... explorou ele ali um mucado... (42; 534). Agora esse povo que tem aí ó... mucado tudo é novo né?... (44; 34). ... levava cama pra dormir... ficava um mucado pra cá né?... (44; 284). ... a maior parte aposentaram né?... um mucado cortou... (44; 305). ... tenho neta... bisneta e tataraneta... um mucado foi tudo criado em São Paulo... (44; 334). Eu alembro... um mucado eu alembro... tinha uma casa velha ali... (45; 10). Ah era um mucado de homem... (45; 201). ... os rezeiro vinha de Pedra Azul... um mucado... (46; 161). ... juntava aquele mucado de menina... (49; 22). ... eles solta praqui um mucado... mas tem muita água. (50; 120). ... - Ó morreu um mucado aqui!... ó lá onde que desceu um curisco... (50; 462). ... tava morto um mucado... (50; 463). Porque já tomaram um mucado de dinheiro da gente velha aqui... (50; 514). ... tive um mucado... mas um morreu com vinte... (51; 116). ... morreu pra lá um mucado... morreu aqui mesmo... esse irmão ainda conheci... (51; 356 185). ... ela correu pro mato com um mucado de filho dela... (52; 134). ... já é casa velha... um mucado dela tá aí. (52; 266). ... papai levou um mucado de gente pro mato... (53; 192). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Mucadiquinho ‗s.m. Pedaço, um pouco, bocadinho. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Mucado (n/d) pron. Tanto; quantidade indefinida. ... eu namorei um mucado de moça... (Entr.4, linha 81) É... eu fiquei morando ali um mucado de tempo... (Entr.2, linha 31) 2. Ribeiro (2010): Mucado • (n/d) • [Pron] • (n/e) • Tanto; quantidade indefinida. • Eu lavei um mucado cedo das panela. (Ent. 13, linha 74) 3. Freitas (2012): MUCADO~MUCADIM • (n/d) • Nm[Ssing] • (n/e) • Tanto; quantidade indefinida. • Depois que eu casei moro aqui...até hoje...tem um mucado de ano (Ent. 01, linha 175) • Mais graças a deus mais foi pra treiná com os serviço né porque nem tanto a gente vindia né...porque fazia poco num dava conta de fazê muito de uma vez...ia fazeno os mucadim mas o purví era dessas duas dona que eu to falano (Ent. 01, linha 280). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Mucado (n/d) [Pron] (n/e) Um pouco, uma pequena quantidade. Variante de bocado. Secá um mucado daquela água né? Quando ela tá poca punha dicuada. (Entr.3, linha 569). Origem: Alteração de bocado. Do latim buccam. 387. MUCUNà / MANCUNà Nf [Ssing.] ... teve uma época teve uma crise aqui... fazia farinha de mancunã. Entr.: Mancunã? Inf.: Mancunã... é... dá uma fruta redonda assim... (5; 28-30). ... as mães arrancava raiz de mucunã pra fazer farinha. Entr.: Mucunã? Inf.: Mucunã... é uma raiz braba do mato... arrancava a batata assim e comia. (15; 234- 236). ... a mãe dele quando tinha uma crise ela arrancava a raiz de mucunã e batia na rama num balde de água pra tirar uma goma pra fazer mingau pra dar os filho. (34; 110). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Mucunã s.f. Bot. 1. O mesmo que mucuna. 2. O mesmo que café do Pará. 3. Planta da família das leguminosas-papilionáceas (Dioclea malacocarpa). 4. Aurélio: Mucunã [do tupi] s.f. Bras. Bot. 1. V. mucuna. 5. Amaral: n/e 357 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... mucunã ‗planta da fam. das leguminosas‘ mucuná 1587, maquna 1618 etc. Do tupi muku‟ná. (CUNHA, 1986, p.537). _____________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 388. MUDERNAGEM Nf [Ssing.] ... agora nessa mudernagem de hoje não... todo mundo veve bem... (4; 27). ... todo mundo andava podado... depois pegou essa mudernagem aí... tem o que... nada... nada... num aceita aqueles trem do tempo antigo. (6; 269). ... essa mudernagem que tem hoje... tudo fraco né?... (23; 206). ... agora olha nessa mudernagem... que meu filho também é novo... essa mudernagem de hoje... (31; 65). ... a modernagem de hoje num obedece né?... (33; 24). ... muita gente num tá / que num alcançou aqueles tempo / essa mudernagem né?... mais esse povo mais antigo... (42; 328). ... isso aqui já foi bom moço... agora depois dessa mudernagem... agora / d‟agora porque de primeiro a mudernagem ia e podia confiar... (45; 194). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Mudernagem (n/d) s. Juventude; mocidade. ... é o que nós tomo enxergando... muita gente num tá / que num alcançou aqueles tempo... essa mudernagem né... mais esse povo antigo... (Entr. 4, linha 319). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ____________________________________________________________________ Origem: moderno 1572. Do lat. tardio modernus, de modus, calcado em hodiernus, de hodie ‗hoje‘ (CUNHA, 1986, p.526). De moderno + -agem. 389. MULAMBO Nm [Ssing.] ... tudo o que tinha... com os mulambo que tinha... que a gente num tinha roupa... tinha 358 era mulambo... e com o pé no chão. (38; 09-10). ... fazia o parto dela... fazia a... a / um mulambo mode por a criança... (48; 436). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: Do banto. Cf. CASTRO, 2001, p. 292. 390. MUNTAR O PAU Locução verbal [V + Art. + Ssing.] ... se facilitar... munta o pau na gente e toma o dinheiro. (50; 512). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: montar s.XIII. do lat. vulg. montare (CUNHA, 1986, p.531) . Ver em monte. / pau s.XIII. do lat. palus –i (CUNHA, 1986, p.587). 391. MURINGUINHA Nf [Ssing.] ... foi lá e apanhou uma muringuinha... cheia d‟água... e o copo... (1; 161). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Moringue s.m. Bilha ou garrafão de barro para água. 2. O mesmo que 359 quartinha.‘ 4. Aurélio: Moringa¹ [do quimb. muringi] s.f. 1. Bras. Garrafão ou bilha de barro para conter e refrescar a água. [sin. quarta, quartilha e quartinha (NE e RS); Bilha (MA e MG)] . 5. Amaral: Moringue s.f. vaso de barro com gargalo, para água. A forma ‗moringa‘ é estranha ao dial. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Muringa (A) Nf [Ssing] Afr. Tipo de abóbora. É muringa. Em vez de falá marimba era muringa né? Aí a gente cumia isso né? (Entr.3, linha 67). _____________________________________________________________________ Origem: Do banto (quimbundo). Cf. CASTRO, 2001, p. 289. ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme Aurélio. 392. MURUNDUM Nm [Ssing.] ... agora tem um murundum de terra na beira do poço... (21; 117). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Murundú ‗s.m. Quimb. mu + lund. Montão de cousas misturadas. 2. Montículo.‘ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Murundú s.m. montão de coisas. Alt. do bundo ‗mulundu‘, monte. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: Do banto (quimbundo). Cf. CASTRO, 2001, p. 293. N 393. NAMBU Nm [Ssing.] É existia... bicho de pena... jacu izabelê codorninha nambuzinha... exixtia. Entr.: Ihambu?... o senhor falou ihambu?... lambu né? Inf.: Nambu. Entr.: Ah nambu. Inf.: Nambu... é porque a nambu tem de duas qualidade num tem?... tem a nambuzinha pequena e tem a nambu do pé roxo. (33; 98-103). 360 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Nambú s.m. 2. Espécie de perdiz, de bico encarnado sem rabo.‘ 4. Aurélio: Nambu bras. s.m. e f. 1. Zool. V. inhambu. 5. Amaral: Nambu s.m. o mesmo que inambú, inhambu. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: tupi. _____________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme Aurélio. Forma variante de lambu. 394. NA MOITA Locução adverbial [Prep. + Ssing.] ... ocê namorava é por aqui... por um buraco de uma porta... a moça espiava o rapaz na moita... num podia conversar não... num podia que o véi infesava... (16; 499). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Na moita bras. 1. À espreita; na expectativa. 3 . Às escondidas, às ocultas, à sorrelfa. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: na ‗contr. da prep.. em com o art. pron.‘ s.XIII (CUNHA, 1986, p.543). / moita, mouta s.XIII. De origem obscura (CUNHA, 1986, p.527). ______________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 395. NAMORISCADA Nf [Ssing.] ... agora depois de velho de vez em quando a gente dá uma namoriscada por aí né?... (15; 79). 361 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Namoriscar v. r. v. O mesmo que namoricar. 2. Ter vários namoricos. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e ______________________________________________________________________ Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: namoro 1881 (CUNHA, 1986, p.544). De namoro + -iscada. ______________________________________________________________________ Obs: Em Morais: há namoramento s.m. O acto de namorar. 396. NEM VÊ Locução adverbial [Conj. + V] ... até cerâmica ela colocou no fogão... mas tem um pouquinho de lenha... num fica sem ele nem vê. (22; 350). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: nem ‗e não, não alternativamente‘ nen s.XIII, ne XIII etc. do lat. nec (CUNHA, 1986, p.546). / ver s.XIII. do lat. videre (CUNHA, 1986, p.815). ______________________________________________________________________ Obs: Locução variante de de jeito nenhum. 397. NI [Preposição] ... o senhor já ouviu falar ni Messenha? (1; 47). ... num falava ni saco falava em alqueire... (2; 132). ... caminhava a noite toda... e drumia ni casa sozinho lá pra roça... (2; 403). ... graças a Deus até hoje... ninguém viu falar mais ni revoltoso... (2; 533). 362 ... o caçula... tá ni Indaiatuba. (3; 59). Trabalhava ni roça né? Entr.:Na lavoura. Inf.:Ni lavoura toda vida... (3; 105). ... tinha alguma escória ni alguma fazenda aí... (3; 248). Eu / minha vida / morava aqui ni roça... (4; 05). ... nunca fui ni hospital nem pra tomar vacininha aqui... (4; 30). ... botava no fundo de cabaça... ocê já ouviu falar ni cabaça? (4; 95). ... se imagina... de Taiobeiras ni Berizal... (4; 201). Já ouviu falar ni Ezequiel? (4; 209). ... porque num morava ni fazenda... num morava ni comércio... e eu criei... morei só ni família... (4; 231). ... nós morava ni Medina... quando nós viemo de 362nte362a pra cá eu era menina pequena ainda... (4; 387). ... ali ni / quem vai pra Ninheira... Ninheira num era Ninheira... (5; 49). Desde pequeno eu num fui ni escola não... (5; 137). ... eu já joguei aqui ni... ni Encruzilhada... já joguei em Montes Claros... (5; 218). Entr.: E bicho de caça mesmo tinha o que? Inf.: Ni caça já tinha um bicho perigoso. (6; 52). ... era pior quando chegava lá em casa e o pai nosso dava ni nós... (6; 175). ... tava lá no outro quarto meu filho... no quartinho... e eu mais a mulher ni outro... (6; 298). ... aquela monstra lá encarada ni mim na porteira... (6; 298). ... hoje mulher pra parir é ni médico... (6; 366). ... ele já morreu... morava ni Rio Pardo. (7; 121). ... quando tinha um carro... ainda bem que o carro era pequeno... bateu ni mim e eu caí... o cara bateu ni mim e eu caí... mas o carro na hora que bateu ni mim tudo é carro pequeno... (7; 309-315). ... ele saía viajando... pra São Paulo... desde rapazinho... mas só punha sentido ni mim... (8; 85). ... nunca fui moça de levantar e por a mão no ombro dele... e enm ele pôs ni mim... (8; 115). Era... olha... ni toda parte passava... (8; 170). ... botava ni tacho... no óleo... e engenho de ferro... (10; 34). ... é ni carro... depois que inventou o carro acabou o tropeiro... (10; 80). ... agora num tinha um médico né?... a gente via falar ni médico lá pra Montes Claros... (11; 166). ... só teve um aqui ni Rio Pardo... (11; 215). ... porque tudo quanto precisava era ni Rio pardo... (11; 312). Mineiro... nasci ni Minas... município de Indaiabira mesmo. (12;164). ... pois é ocê pode ir lá atirar ni mim que eu vou lá arrancar mandioca... (15; 302). Inf.2: E eu... eu que eu sei... ia lá ni (nome) com as lata na cabeça... (16; 124). Inf.2: ... ou ia na vargem do (nome)... ou ia lá no (nome)... ou lá ni (nome)... (16; 128). ... peguei o trem de ferro ni ni... ni Montes Claros... (16; 723). É que eu trabalhei ni lavoura. (17; 14). Vinha!... tudo armado!... iche... era tudo armado... tudo ni animal... (18; 212). ... ela morreu 362nte ni Nanuque. (18; 241). ... agora já meus filho eu já trouxe ni médico... (19; 76). ... pegava rapadura pra vender ni Candiúva... (21; 38-40). ... jogar pirosca ni pasarinho... (21; 183). ... mas aí ele engraçava ni uma né?... ele engraçava naquela e casava né?... podia até acontecer mas sempre quando ele trazia ele engraçava ni uma daquelas né?... (22; 363 108-111). ... daqui ó ni... de de Divisa de... daqui na Divisa. (23; 391). Eu trabalhei ni... muita coisa... (24; 164). ... daí é que começou a sair pra fora ni chuva... (25; 45). Acreditava ni... ni animali... (25; 119). Buscava da Bahia... buscava na... ni Montes Claros pra lá... (25; 166). ... e olha transportava as pessoas até ni rede... (26; 131). ... eu prestava atenção ni tudo... (26; 158). ... quem é que falava ni... numa boneca dessa de plástico... quem é que falava ni um rádio... quem é que falava ni... numa televisão... (27; 70-71). ... mas eles pode vê na lá na televisão lá ni algum lugar. (27; 198). ... ou então voltar aqui ni Riacho dos Machado... (28; 36). ... pegava frete ni Espinosa... pegava frete ni Montes Claros... (28; 56). ... eu morava ni Porteirinha... eu já guiei boi... (28; 173). ... que quando acabava aqui ia ni Montes Claros de burro... (30; 301). ... mulher ganhava menino e num ia ni médico. (31; 136). ... aqueles tempo pai batia ni filho pesado mesmo... (32; 47). ... quebrei a cabeça aqui ó... num fui ni médico... (32; 145). ... e batia ni gente e matava gado... (34; 228). ... foi criado tudo dormindo ni cama... de catre... (34; 258). Cê num tem andado ni roça não né? (36; 13). Ó eu num ia em lugar nenhum ni médico nenhum... (36; 112). ... ela vai a... ni Montezuma... pelo chão... (37; 357). Era... era ni burro... a gente ia de a pé atrás né?... (38; 131). ... que ela dormia na casa da patroa... lá ni (nome)... (40; 371). ... como é que foi dar essa doença ni mim... (40; 565). ... subia ni mim conversando comigo... (41; 144). Eu nunca fui ni festa... (41; 170). ... eu num passei ni casa de ninguém... (41; 201). ... ... num tou interessado ni vaca dela não!... (42; 70). ... o irmão (nome)... que mora até ni... lá no Pará... (42; 111). ... fui lá... lá no Antônio Reis e comprei... ni Cachoeira... (42; 132). ... enterrava ni pote de barro... (42; 574). ... toda vida eu só trabalhei ni roça... (43; 76). ... eu nunca fiquei ditada ni cama... (44; 447). ... meu marido trabalhava ni carvoeira... (46; 05). Agora... ni festa meu filho... eu num sei explicar pr‟ocê... (46; 11). ... mas na hora que saía ó ni nós... é batia ni nós. (46; 63). ... num vou ni festa num vou ver nada... (46; 69). ... todo mundo agoniando ni mim... (48; 161). ... trabalhava ni... ni lugar de brejo de plantação. (52; 19). Peguei trabalhar ni casa de família... (52; 95). ... apareceu esse sofrimento ni mim e eu parei de trabalhar. (52; 100). ... só numa casa só... ni outra eu trabalhei mais pouco... (52; 103). ... eu fui ni Montes Claros... (52; 212). ... porque ês quer é botar gasolina ni mim e botar fogo... (52; 486). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 364 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: preposição ‗em‘. 398. NICA Nf [Ssing.] ... que eu cansei de pegar dinheiro dele e comprar pão... nunca voltou uma nica... nunca voltou uma nica velho... (5; 64). Inf.2: ... ês põe um pouquinho de dinheiro... uma nica... uns doce... (15; 501). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Nica s.f. Corr. Lat. nihil. Fam. 1. Cousa insignificante; bagatela. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... nica ‗impertinência, ninharia, rabigice‘ XIX. De étimo obscuro. (CUNHA, 1986, p.548). 399. NOVATA Nf [Ssing.] ... a novata pode até acompanhar... mas o povo de meia idade que tem a nação / de meia idade pra trás né?... (48; 342). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Novato. Estudante novo, do primeiro anno. He termo usado na universidade. Recens in gmnasio auditor, is. Masc. 2. Morais: Novato. sm. Estudante novel da universidade. Fig. Rude, imperito. 3. Freire: Novato. s.m. Estudante novel; noviço, aprendiz, calouro, principiante. // 2. Estudante que frequenta o primeiro ano de qualquer faculdade em Coimbra. // 3. Indivíduo inexperiente, ingênuo. 365 4. Aurélio: Novato. [Do lat. novatu.] S. m. 1. Estudante novel; calouro. 2. Aluno do primeiro ano de qualquer faculdade. 3. Principiante, aprendiz, noviço. 5. Bras. Alcunha dada aos portugueses, no extremo S., no período colonial. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Novata (n/d) s. Juventude; mocidade. ... aqueles povo mais velho assim que nem eu... envergonhoso... a novata pode até acompanhar... mas o povo de meia idade que tem a nação / de meia idade pra trás né... esse povo num vai aceitar... (Entr. 10, linha 336). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Novato (A) [Adj] Port. (CUNHA, 1986) Pessoa jovem, nova. Que essas pessoas novato num sabe afoga uma cumida direito né? (Entr.2, linha 155). ______________________________________________________________________ Origem: ... Novato. v. novo novato XVII. Do lat. novātus –a (CUNHA, 1986, p.552). O 400. OFENDER [V] ... e eu fumava um cigarro moço!... e o cigarro me ofendia demais... fumava um cigarrinho... me ofendia demais... (42; 385). ... tomei uma pancada nesse olho / perdi as / ofendeu o olho... (48; 154). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Offender Fazer aggravos a alguém. 2. Morais: Offender v. at. Fazer mal físico. Não guardar a obrigação moral de justiça, de urbanidade, ou civilidade. 3. Freire: Ofender v.r.v. Lat. offendere. 4. Causar mal físico a si mesmo. 6. Prejudicar, lesar. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... ofender ‗injuriar, ferir, chocar‘, offender XVI. Do lat. offendere. (CUNHA, 1986, p.557). 401. OFÍCIO Nm [Ssing.] 366 ... caiu um sereninho... aí ela começou rezar ofício... rezou duas coroa do ofício... (7; 199). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Officio Officio de Defuntos, preces por o bem de suas almas. 3. Freire: Ofício de defuntos s.m. Preces pelo descanso eterno das almas dos mortos. 4. Aurélio: Ofício [Do lat. officiu, ‗dever'.] S.m 7.Conjunto de orações e cerimônias religiosas. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): OFÍÇO~OFICI • (A) • Nm[Ssing] • Lat > Port • Conjunto de preces pelo descanso das almas dos mortos. • Ela era diferente...de tudo...ela pá morrê ela chamô...pidiu a neta dela pa pidi nós pa i lá rezá o ofíço que era a única coisa que tava pricisano pra ela parti era um ofíço pos nego largá a fazenda. (Ent. 03, linha 59) • Ea via os nego passá de corrente ...no suaio...aí pidiu..aí nós fomo lá e rezô o ofíci pra ea (Ent. 03, linha 59). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... ofício XIV, officio XIII. Do lat. officium –i. (CUNHA, 1986, p.558). 402. O PAU MOÍA F [Art. + Ssing. + V] E cantava assobiava e o pau tava moendo. (39; 77). ... Machado tem duas ou três farinheira à força... aí (botei lá) o pau mói... (39; 153). Entr.: E tinha Reis também? Inf.: Tinha... e o pau moía né?... (39; 464). ... cantava cantava cantava no presépio... o pau moía. (40; 200). ... e sai na rua a cantar e o pau moendo... (40; 235). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): O pau moendo (n/d) Fraseologia. Prosseguimento de alguma coisa; continuidade de algo. Ele faz um boi direitinho de pano... e um funda debaixo e sai na rua... e sai na rua a cantar e o pau moendo... (Entr. 1, linha 71). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 367 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: pau s.XIII. do lat. palus –i (CUNHA, 1986, p.587). / moer s.XIV. do lat. molere (CUNHA, 1986, p.527). 403. O TREM NUM PRESTOU NÃO F [Art. + Ssing. + {Prep. + Art.} + V + ADV.] ... tava lá no outro quarto meu filho... no quartinho... e eu mais a mulher ni outro... e rapaz o trem num prestou não... (6; 298). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e Origem: trem ‗orig. conjunto de objetos‘ ‗carruagem‘ s.XVII; ‗bras. Comboio‘ s.XX. do fr. train, deriv. de trainer (CUNHA, 1986, p.786). / não s.XV, non XIII, nõ XIII etc. do lat. non (CUNHA, 1986, p.544). / prestar s.XIII. do lat. praestare (CUNHA, 1986, p.633). P 404. PAIOSCA Nf [Ssing.] ... inventou essa... essa paiosca aí em baixo né?... e aí a festa de São João é inaugurada lá... (43; 329). É no campo...inventaram essa paiosca aí... fizeram esse promo lá de palha... (43; 331). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Paiosca (n/d) s. Espécie de cabana coberta de palha; palhoça. É no campo... inventaram essa paiosca aí... fizeram esse promo lá de paia e já tem esse outro novo aqui... (Entr. 5, linha 325). 368 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: Paiosca é corruptela de palhoça. 405. PAMONHA Nf [Ssing.] ... o milho... tirava ali e fazia de pamonha... fazia pamonha... (13; 88). ... um dia fazia um cuscuz outro dia fazia um angu fazia uma pomonha... (19; 436). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Pamonha s.f. Espécie de bolo feito de farinha, com açúcar e leite. 2. Papa de milho moído, um tanto consistente, assada ao forno em folhas de bananeira. 4. Aurélio: Pamonha sf. 1. Bras. Espécie de bolo de milho verde, cozidas em folha de milho ou de bananeira. 5. Amaral: Pamonha s.f. espécie de bolo de milho envolto em folhas de bananeira; fig. palerma. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: n/e. 406. PANO DE BUNDA NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] ... comprava os pano de bunda... quando chegava o dia fazia aquela festa bonita né?... (39; 184). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Pano de bunda (n/d) s. Roupa de casamento; enxoval. ... marcava o dia da data né... um padre era difícil na época pra vim aqui... de quatro em quatro meses... aí comprava os pano de bunda... quando chegava o dia fazia aquela festa 369 bonita né. (Entr. 1, linha 171). 2. Ribeiro (2010): Paninho de bunda (n/d) NCm [Ssing + prep + Ssing] (n/e) Fralda de bebês. Aí tinha que tirá/ ês falava paninho de bunda, hoje é fraudinha. (Entr.1, linha 573). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: pano ‗qualquer tecido, fazenda‘ s.XIII. do lat. pannus –i (CUNHA, 1986, p.577). bunda ‗as nádegas e o ânus‘ 1871. Do quimb. „muna (CUNHA, 1986, p.128). 407. PARABEL Nf [Ssing.] ... ele fazia arma... ele fazia fuzil... ele fazia mosquetão... fazia parabel... (5; 62). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e ______________________________________________________________________ Obs: Refere-se a parabellum, pistola luger P08, de fabricação alemã. 408. PARAMBEIRA Nf [Ssing.] ... cachorro acuando tattu naquelas naquelas parambeira... (20; 27). ... depois que sobe essas parambeira... que sai lá em cima... (43; 654). ... e com essa perna quebrada eu fui assim na parambeira... (45; 357). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Perambeira. s.f. Precipício, abismo. 4. Aurélio: Pirambeira. S. f. Bras. 1. V. perambeira. Perambeira S. f. Bras. 1. Precipício; abismo: Quando a noite fechou deveras..., só Noss‘enhor sabe porque não acompanhei o compadre para o outro mundo, rodando por alguma perambeira. (Afonso Arinos, Histórias e Paisagens, p.12) 5. Amaral: n/e 370 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Parambeira (n/d) s. Precipício, abismo. Variante de pirambeira (pirambeira > parambeira – caso de assimilação). ... e com essa perna quebrada eu fui assim na parambeira... (Entr. 7, linha 352). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Parambera (A) Nf [Ssing] Obs. Despenhadeiro, abismo, precipício. Outra hora levava os menino e amarrava pras perna debaixo pra eles num rolá nas parambera. (Entr.11, linha 203). ______________________________________________________________________ Origem: ... Pirambeira. sf. ‗bras. Precipício, abismo‘ XX. De etimologia obscura. (CUNHA, 1986, p.608). 409. PARA-TERRA NCm [ V + Ssing.] ... veio um pessoal aí que chama para-terra né?... porque tem os sem-terra e tem os para-terra né?... os sem-terra é invadido... e o para-terra é o governo que compra e arrancha o povo né? (1; 53). Os sem-terra... os para-terra... naquele tempo fazia as mesmas coisas... (22; 324). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: para XVI, pera XIII. Do lat. per ad, através da var. ant. pera, muito frequente em textos portugueses medievais (CUNHA, 1986, p.578). / terra ‗território, região‘ ‗solo, chão‘ s.XIII. do lat. terra (CUNHA, 1986, p.766). 410. PARELHA DE BOI NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] ... então eu tinha uma parelha de boi... uns boizinho muito fraco... (3; 07). ... e nós botava esses sabuco com chifrinho... e ficava um de um lado e de outro e falava que era uma parelha de boi... (6; 22). ... botava um sabuco... saía puxando... lá dizendo que era parelha de boi... (6; 24). Não... mexia com uma parelha de boi... (27; 30). É... uma parelha de boi pro trabalho sempre a gente tinha... (27; 32). ... fazia um carro de madeira... chama carro de boi... aí pegava uma parelhona de 371 boi... (39; 613). ... com uma parelha de boi é mesmo que um caminhão hoje... (39; 617). ... aí tinha um velho lá... tinha uma parelha de boi muito grande... (42; 695). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Parelha. Duas cousas iguaes. Duas cousas da mesma especie. Par, is. Neut. (Da ovelha, & do leao se fez huma parelha tao igual. Vieira. Tomo 5.176.) 2. Morais: Parelha. sf. Um par: v.g. numa parelha de bestas. 3. Freire: Parelha. s.f. Lat. parilia. Um par (falando de alguns animais, especialmente de cavalos e muares). 4. Aurélio: Parelha. (ê). [De parelho.] S. f. 1. Par de alguns animais, em especial muares e cavalares. [Cf. par (10) e junta (4).] 2. Par (14). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Parelha (A) s. Par de alguns animais, em especial de gado e cavalos. ... tinha uma parelha de boi muito grande... uns boião esgueirado... (Entr. 4, linha 673). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: parelha ‗ant. mulher legítima‘ ‗par‘ s.XIII, parella XIII. do lat. vulg. *pariculus –a, dim. de par (CUNHA, 1986, p.582). / boi s.XIII. Do lat. bovem (CUNHA, 1986, p.115). 411. PARENTAGEM Nf [Ssing.] ... minha família tá tudo aqui... a não ser a parentagem... mãe já morreu... pai já morreu... avó morreu... (8; 33) Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Parentagem s.f. pop. O mesmo que parentela. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: parente ‗pessoa que em relação a outras pertence à mesma família, quer pelo 372 sangue, quer pelo casamento‘ s.XIII. do lat. parents –entis (CUNHA, 1986, p.582). De parente + -agem. 412. PATACÃO Nm [Ssing.] ... e ali naquele meio tinha umas moeda de ouro... tinha uns patacão novecentos e sessenta. Entr.: Patacão novecentos e sessenta? Inf.: É... é de prata... tinha aqueles patacão novecentos e sessenta... é um patacão bonito... o sujeito panhava esses patacão... (30; 313-318). ... que era o dinheiro que tinha... é patacão de prata que eu conheci... (42; 572). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Patacão. Moeda. Antigamente no Reyno de Portugal, & suas conquistas houve patacões de cobre, & patacões de prata. Mandou ElRey D. Joaõ III. Bater o patacão de cobre, que pezava cinco oitavas, & valia dez reis. Tinha de huma parte o circulo real coroado, na orla Joam III, Port. [ ] . Da outra um X, & na orla, Rex quintusdecimus. Denotava o X o preço do seu valor. Chamou-se patacão pela semelhança que tinha com os patacoens de prata castelhanos. ... 2. Morais: Patacão. sm. Moeda de cobre de peso de 5/8: valia dez reis em tempo de D. João III. No de D. Sebastião vierão a valer 3. Reis; no do Prior do Crato tornarão a subir a dez reis. 3. Freire: Patacão. s.m. Moeda de cobre do tempo de D. João III. // 2. Antiga moeda brasileira; pataco. 4. Aurélio: Patacão. [Da mesma or. Incerta que o esp. patacón.] S. m. 1. Designação comum a várias antigas moedas portuguesas, brasileiras, espanholas e sul- americanas. 2. Antiga moeda portuguesa, de cobre, do valor de 40 réis, que, com o tempo, passou a chamar-se pataco. 3. Bras. Moeda antiga, de prata, de dois mil-réis. [No RS, pelo menos, a palavra designava 372b. As cédulas de igual valor.] 5. Amaral: Pataca. s.f. – 320 réis. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Patacão (A) s. Moeda antiga de prata usada no Brasil. ... enterrava prata e ouro naquele tempo... que era o dinheiro que tinha... é patacão de prata que eu conheci... (Entr. 4, linha 552). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Patacão (A) Nm [Ssing] Prov. Antiga moeda de cobre. Era uma notona grande né? Outra hora era um patacão né? (Entr.12, linha 197). ______________________________________________________________________ Origem: ... Pataca. sf. ‗moeda antiga de prata, do valor de 320 réis‘XVI. Provavelmente do prov. patac // patacão XVI. (CUNHA, 1986, p.585). 413. PAU Nm [Ssing.] ... e ele entrou debaixo de um pau e arranchou... soltou o machado ali ao redor... (1; 68). ... Ninheira num era Ninheira... é até um pau que tem lá... chamava Ninheira mas a 373 Ninheira... a ninheira nem o pau chama ninheira... porque os passarinho fazia muito ninho no pau... o pau é um grão de burro... dava aquela fruta amarela... (5; 49-51). Entr.: Então o nome Ninheira é por causa desse... Inf.: É por causa desse pau aí... (5; 56). Eu cansava de tá dormindo com a lua bonita e tinha uma... uns corujão daqueles grandão... sentava no pau e ficava chamando... (imita a ave) (5; 174). ... passarinho arranchou tudo nuns galho de pau... (8; 286). ... vai e pegou esse velho e passou um pano no pescoço / uma fita ou uma corda e pendurou numa galha de pau... (8; 333). ... ele subiu assim num galho de pau... tinha um pau que atravessava o rio... ia até lá no meio do rio né?... ele foi naquele tal galho de pau... (11; 324). ... tinha muitos lugar que nós tinha que puxar o cavalo porque num podia passar debaixo dos pau... dos garrancho... (12; 16). Só chá e remédio de / raiz de pau... remédio de... rama de horta... (13; 298). Inf.2: derrubou esse mato daqui na virada aí que era só carrascão... de madeira... tinha bastante... tudo quanto era qualidade de pau. (15; 443). Porque quando o moço fez essa casa lá tinha um pau... esse pau tinha / uma ninheira veio e fez um ninho... (17; 248). Tinha um ninho... tinha um pau e tinha um ninho de ninheira... e ele fez a casa de juntinho desse pau... (17; 252). ... botou o nome de Ninheira acho que porque desse pau que tinha lá com esse ninho. (17; 257). ... lá botou o nome Ninheira por causa d‟um pau que tem até hoje na frente da casa velha... (18; 04). ... outra hora num era... que tem até a folha d‟um pau aqui ó... (18; 261). Tudo fechado... serrote... esse... como é que chama?... outro pau é... Entr.: Serrote é nome de um pau? Inf.: É... é nome de um pau... esse... que passarinho / juá. (18; 564- 566). É... isso aqui mesmo é feito de uma raiz de pau. (20; 199). E esse aqui... essa raiz de pau aqui ele tirou... tirou duas gamela de bater rapadura bem grande assim ó... (20; 209). ... quando formou Taiobeira por causa de um pau que chamava taioba... eles também fazia a feira debaixo daquele pau ali... (22; 168). As primeiras casas de Taiobeira foi um pau chamado taioba né? (22; 171). ... era vê uma raiz de pau lá e... ficava por isso mesmo. (27; 271). Tudo... era beber uma raiz de pau e pronto. (27; 275). Entr.: Caboclo preto é uma planta que tinha no mato. Inf.: Não... é uma árvore... uma árvore. ENTR.: Uma árvore? Inf.: É... um pau... o pessoal chama caboclo... e ele era preto mas o bicho marga... (30; 225-231). ... pegava um mucado de raiz de pau assim... (32; 135). ... mas foi criado tudo numa rede debaixo do pau pra eu poder trabalhar pra criar ês. (38; 134). ... enfrentar uma mata pra fazer roçaria... derrubar pau dessa grossura... (39; 355). ... tinha muita madeira... um pau chamado braúna... (39; 361). ... cortando pau jogando pra fora e escavando de chibanca e arrancando toco... (39; 378). Izabelê... é um pássaro tipo uma galinha... ela num senta em pau não... (43; 674). Doente?... era raiz de pau. (45; 238). ... criava nós era com raiz de pau. (45; 242). Era... fazia o chá de raiz do pau... e dava nós pra beber. (45; 244). 374 Registro em dicionários: 1. Bluteau: Pao Diz-se genericamente de qualquer lenha, e madeyra. 2. Morais: Páo s.m. Lenho, madeira. Bordão, cajado. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Pau [do lat. Palu] s.m. 12. Afric. Bras. NE pop. Qualquer árvore. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... pau ‗qualquer pedaço de madeira‘ XIII. Do lat. palus –i. (CUNHA, 1986, p.587). 414. PAU-DE-ARARA NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] ... as vez uma condução pequena tem... tinha era o pau-de-arara. Entr.: Pau de arara? Inf.; É... nós foi no pau-de-arara lá e pegava o trem... o senhor conhece o que é pau- de-arara? (16; 728-730). ... mas era de caminhão. Entr.: Caminhão? Inf.: pau-de-arara... (20; 167). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Pau-de-arara bras. s.m. 3. Caminhão coberto, com varas longitudinais na carroceria, as quais os passageiros se agarram, e usado principalmente no transporte de retirantes nordestinos para SP, MG e RJ. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: pau s.XIII. do lat. palus –i (CUNHA, 1986, p.587). / arara ‗nome comum a diversas aves de grande porte da família dos psitacídeos‘ 1576. Do tupi a‟rara (CUNHA, 1986, p.63). 415 . PÉ-DE-ÁRVORE NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Ali na praça... só tinha coqueiro... pé-de-árvore... pé de jenipapo... (45; 29). 375 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: pé s.XIII, pee XIII. do lat. pes pedis (CUNHA, 1986, p.588). / árvore s.XIII. do lat. arbor –oris (CUNHA, 1986, p.74). 416. PÉ DE BODE NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Entr.: Sanfona... tinha umas menorzinha também né? Inf.: É... tinha menor... essa é 80 baixos. Entr.: Aquelas pequena chamava como? Inf.: Pé de bode. Entr.: Ah... pé de bode. Inf.: Pé de bode... eu zuei com uma trinta e cinco anos... (21; 463-465). Entr.: O que que é essa harmônica? Inf.: Harmõnica é esses... de fole. Entr.: Ah sei. Inf.: Pezinho-de-bode... essa oitenta... cento e vinte. (32; 265-267). É... aprendi mexer / tocar sanfoninha... pé de bode... (42; 127). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Pé de bode. S. m. Bras. N.E. MG 1. Sanfona de oito baixos. [Pl.: pés- de-bode.] 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): pé de bode (A) s. Instrumento musical. Pequena sanfona de oito baixos, bem mais simples que um acordeão. É... aprendi mexer / tocar sanfoninha... pé de bode. (Entr. 4, linha 121). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: pé s.XIII, pee XIII. do lat. pes pedis (CUNHA, 1986, p.588). / bode ‗o macho da cabra‘ ‗caprino em geral‘ s.XVI. de origem incerta. (CUNHA, 1986, p.114). _____________________________________________________________________ 376 Obs: Regionalismo (NE, MG), conforme o Aurélio acima. 417. PÉ-DE-PAU NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] ... mas aquilo era um pé-de-pau. (18; 263). É velano... o pé-de-pau chama até velano... (18; 267). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: pé s.XIII, pee XIII. do lat. pes pedis (CUNHA, 1986, p.588). / pau s.XIII. do lat. palus –i (CUNHA, 1986, p.587). ______________________________________________________________________ Obs: Variante de pé-de-árvore. 418. PEDIR UM ARROGO Locução verbal [V + Art. + Ssing.] ... tem me servido porque ao menos me livra de pedir um arrogo... livra / como eu já pedi muito né?... livra deu pedir um arrogo pra uma assinatura... (43; 90-91). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Arrogar. Attribuir, appropriar, pretender, que he cousa nossa própria. Arrogarse títulos, honras, glórias. Sibi arrogare, tribuere, assumere, vindicare, com accusativo. Cicero em 376ários lugares. Muitos se arrogarão horas sobre natu, racs. Macedo Dom. sobre a fortuna, p.50. 2. Morais: Arrogar. v. at., tomar, ou exigir a qualidade, o direito, foro, que não compete a alguma pessoa. 3. Freire: Arrôgo. s.m. De arrogar. Des. O mesmo que arrogância. Arrogar, v. r. v. Lat. arrogare. Tomar como sendo seu, apropriar-se de (Tr. Dir.; bitr., com prep. A, para): Arrogando a Cúria romana os direitos da soberania temporal (Morais:). 4. Aurélio: Arrogo. (ô). [Dev. De arrogar.] S. m. Desus. 1. V. arrogância. [Pl.: arrogos (ô). Cf. arrogo, do v. arrogar.] 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Pedir um arrogo (n/d) loc. verb. É o mesmo que pedir arrego; dar-se por vencido. ... e este tantinho que eu aprendi tem se servido... tem me servido 377 porque ao menos me livra de pedir um arrogo. (Entr. 5, linha 88). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: pedir s.XIII. do lat. petere, com mudança de conjugação (CUNHA, 1986,p.590). / arrogo s.XIII. do lat. rogare (CUNHA, 1986, p.689). 419. PELO MENO Loc. Adverbial {Prep. + ADV] ... eu pelo meno um castigo que meus pais me deu... (1; 242). ... eu pelo meno a hora que eu fui vendo... a hora que eu fui vendo começou a escurecer... (1; 580). ... agora aondé que ela dá pra arrancar ela ocê tem que cavar pelo meno um metro de fundura. (15; 240). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Pelo menos loc. adv. Calculando pelo mínimo. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: pelo ‗contr. da prep. per com o pron. lo s.XIII (CUNHA, 1986, p.592). / menos ‗em quantidade ou intensidade menor‘ s.XIV, meos XIII. Do lat. minus (CUNHA, 1986, p.512). 420. PEQUI Nm [Ssing.] Tinha pequi também... e ainda tem nos canto né? (21; 220). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Pequi s.m. Planta da família das cariocaráceas, também conhecida por pequiá (Caryocar brasiliensis). 2. O fruto dessa árvore. 4. Aurélio: Pequi¹ [do tupi] s.m. bras. C. Bot. 1. Árvore da fam. das cariocaráceas (Caryocar brasiliense), muito grossa e própria dos cerrados. Tem folhas trifolioladas, e tomentosas, flores enormes com muitos estames compridos, frutos drupáceos, oleaginosos e aromáticos, estimados como condimento para arroz e para fabricar licor, madeira amarelada, que também poderia ser utilizada. [sin. Pequizeiro] . 2. O fruto do 378 pequi. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... pequi ‗planta da fam. das cariocaráceas‘ c1594 etc. Do tupi pe‟ki. (CUNHA, 1986, p.594). _____________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 421. PEREBA Nf [Ssing.] Entr.: Tinha gente que dava uma ferida na perna... Inf.: Dava... pereba. Entr.: Pereba? Inf.: Dava uma pereba na perna e tratava com casca de mamona... pisava na mamona e botava em cima da pereba... (16; 422-425). Ácido sulfúrico... botava pra poder tratar a pereba. (16; 429). É ochi... quando botava em cima da pereba dava pulo... (16; 431). ... dava umas pereba nas pernas do povo... chamava catita... (39; 653). É chamava... apelido de catita... hoje aparece uma pereba... (39; 656). ... e tinha a resina... que vendia né?... aguardente... (carnevan) pra pereba né?... (44; 422). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Pereba s.f. Guar. Pereb. Sarna. 2. Erupção herpética. 3. Pequena ferida.. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... pereba ‗ferida, chaga‘ pa- 1749. Do tupi pe‟reua. (CUNHA, 1986, p.595). ______________________________________________________________________ Obs: Este vocábulo consta no Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo definido como s.f. [Brasil] Designação de vários tipos de lesões na pele.. Indigenismo. 422. PERRENGUE [ADJ] ... um dia eu tava aí perrengue aí... eu já tava com um reumatismo nas minhas pernas 379 moço... (42; 358). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Perrengue adj. Frouxo, desalentado, fraco, alquebrado. 4. Aurélio: Perrengue [do esp. perrengue] adj. 2g. 2. Bras. fraco, desalentado; lerdo. 5. Amaral: Perrengue q. alquebrado, moleirão, imprestável (homem). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... perrengue ‗covarde, medroso, fraco‘ 1844. Do cast. perrengue. (CUNHA, 1986, p.599). 423 . PESSUIR [V] ... nós morava em fazenda... a gente nunca pessuiu um palmo de terra... (4; 65). É... tudo eu... tudo eu já andei... eu já pessuí lugar lá no Mato Grosso...de junto do Rio Pinheiro... (27; 100). ... meu pai nunca pessuiu terra não... (43; 131). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Pissuí. possuir, v.t. – adquirir, comprar: ... senão quando u‘a galinha já esporuda que eu pissuí no levantá aquele rancho... (V.S.) // Quanto à forma, veio ela, muito provavelmente, de Port. , haja vista ao galego pessuir (L. de Vasc., Textos). Quanto ao sentido, esse acreditamos que resultou de evolução realizada aqui. Para exprimir a ideia do nosso possuir, usa o caipira de ter ou de algum circunlóquio. Ao Nordeste, a aceitar-se como documento válido um verso de Cat. , o verbo conserva o sentido castiço: Era rico, apois pissuia / uma furtuna de gado. (Quinca Micuá). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Pessuir (n/A) v. Ter; adquirir; comprar. ... meu pai nunca pessuiu terra não... (Entr.5, linha 129) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Pissuir (n/A) [V] Port. Ter; adquirir; comprar. como eu tinha um livro até / Gerardo eu não sei se pissuiu ele... (Entr.4, linha 64). 380 5. Cordeiro (2013): Pissuir (n/A) [V] Port. (CUNHA, 1986) Ser dono, ter posse de alguma coisa, poder comprar. Variante de possuir. Agora ela ia trabaiá mais o marido pra podê pissuí. (Entr.11, linha 182). ______________________________________________________________________ Origem: ... Possuir. vb. ‗ter ou reter em seu poder‘ / pesoir XIII, pussuyr XIII, pusuir XIII, possoir XIV, pessoyr XIV / Do lat. possīdere. (CUNHA, 1986, p.626). ______________________________________________________________________ Obs: Arcaísmo conforme se vê em Cunha. 424. PESTIAR [V] ... deu um eclipe e pestiou assim... da hora que o sol saiu um pouco né... e foi tampando... tampando... (44; 363). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: peste XVI. do lat. pestis –is (CUNHA, 1986, p.601). De peste + -ar. 425. PIAR [V] ... ficava lá com meu carro de boi... panhava roça de mandioca... piava lenha... de carrear no carro de boi... (29; 98). ... ia no mato pegar madeira... piava a madeira... (39; 404). ... pegou essa nega moço e piou... titou a roupa dela todinha e piou ela bem piada... amarrou as mãos... amarrou as pernas... (42; 453). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Pear Impedir o movimento dos pés. Embaraçar o caminho com cousas que pegão nos pés. 2. Morais: Pear v. at. Por peã, prender com Ella as bestas. Impedir o passo. 3. Freire: Pear v. tr. dir. De peia + ar. Lançar peias a; prender com peias. 4. Aurélio: Pear v.t.d. 1. Prender com peias. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 381 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Piar (A) [V] Onomat. Ato de prender com cordas, amarrar. ... tirava lático de cabresto pra piar vaca... pô os bezerrinho pra mamá... (Entr.3, linha 505). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... pear s.XIII. De peia ‗grilhão‘ ‗prisão de corda ou de ferro que segura os pés das bestas‘ s.XIII. Do lat. pedica –ae. (CUNHA, 1986, p.589). 426. PICADA Nf [Ssing.] Num tinha estrada. Entr.: Era só... Inf.: Era só aquele picadão... (23; 391). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Picada s.f. Caminho estreito, que se faz por entre mato, derribando algumas arvores. 3. Freire: Picadão s.m. De picada. Grande passagem aberta através do mato. 4. Aurélio: Picada¹ [de picar + -ada] s.f. bras. Ang. Cabo verd. Guin. Moç. Santom. Atalho estreito, aberto no mato a golpes de facão; pique. 5. Amaral: Picada s.f. passagem aberta através do mato. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Picada (A) Nf [Ssing] Port. Abertura feita na mata fechada para permitir a passagem. Quema feito um condenado... mas cada palma dessa grossura... tava abrindo a picada... e eu passei a mão num martelo... (Entr.8, linha 73). 5. Cordeiro (2013): Picada (A) Nf [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Caminho aberto na mata fechada feito com golpes de facão ou foice. Quando eu chego lá nu lugar definitivo es tinha abrido a picada. (Entr.5, linha 379). ______________________________________________________________________ Origem: ... picada s.XIV. De picar. (CUNHA, 1986, p.602). 427. PICAR A MÃO Locução verbal [V + Art. + Ssing.] ... ele vinha ganhar o dinheiro da gente lá... chegava lá ele picava a mão em riba do olho dele... (6; 167). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e 382 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: picar s.XIV. voc. de origem expressiva, que deve remontar, provavelmente, ao lat. vulg. *piccare, de *piccus, forma expressiva de picus (CUNHA, 1986, p.602). / mão s.XIII. do lat. manus –us (CUNHA, 1986, p.498). 428. PICUMà Nm [Ssing.] ... mas o picumã eu vi na mata daqui... (16; 12). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: do tupi apeku‟mã. (CUNHA, 1986, p. 603). 429. PILÃO Nm [Ssing.] ... aí agora pisava aquilo... descascava aquilo... batia no pilão depois cortava assim... (2; 50). ... torrava aquela mamona mal torrada e levava no pilão e pilava... (4; 432). ... e desgraçava no pilão pisando mamona pra fazer um tal azeite... (6; 140). E a gente pisava né?... pisava ele no pilão... (11; 153). ... café pisava no pilão... arroz pisava no pilão... café pisado no manjolo... pisava o café no manjolo... torrava esse café e depois pisava no pilão. (13; 410-413). ... lá em casa tinha um pilãozão assim... (19; 152). ... levava pros pilão e pisava... pra fazer de comer pros fio... (21; 230). ... colocava nas costa e pisava no pilão. (31; 198). Pisava no pilão... café... (31; 200). É... pisava tudo no pilão... e até hoje eu tenho o pilão. (31; 202). ... ora que arranjava um cafezinho era aquela casca que tinha que pisar no pilão... (32; 32). ... pegava uma mamoninha e passava assim na panela quente e panhava num pilãozão... um pilãozão assim ó de madeira... e pisava aquela mamona no pilão... (33; 383 317). ... pegava a mamona graúda e descascava e ponhava no pilão e pisava e panhava um pouco de algodão encaroçado... (33; 329). ... pegava no pilão e socava... pilãozão assim pá pá pá... (39; 57). ... pra cuidar do arroz era pisado... no pilão... (52; 200). ... era tudo pisado no pilão... o café era pisado tudo no pilão... tinha um pilão pra pisar naquele café... (52; 202-203). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Pilaõ. Instrumento com que se pila. Pilum, i. Neut. Plin. Na sua Hist. Das Plantas do Brasil, liv. I. cap.II, diz que os portuguezes chamaõ pilao ao vaso de pilão a modo de pilao o almofariz em que pilao o gergelim. 2. Morais: Pilão. sm. Máo do gral. No Brasil, o gral de pilão rijo, onde se pila, e descasca o arroz, milho, &c. 3. Freire: Pilão. s.m. De pilar. Mão do gral. // 5. Gral de madeira rija, onde se descasca e tritura café, milho etc. 4. Aurélio: Pilão. [De pilar2 + -ão2.] S. m. 2. Maço dos moinhos onde se pisa o papel, a casca de carvalho, a massa da pólvora etc. 3. Designação comum a diversos instrumentos que servem para bater, triturar, calcar. 7. Afric. Bras. Gral de pau rijo, us. Para descascar e triturar arroz, café, milho etc. 5. Amaral: Pilão. s.m. – gral de madeira, em que se pila a canjica, a paçoca etc. // Pilão, t. Port. , que passou aqui a designar o gral, é propriamente o pau com que se pila. A este chamam aqui mão de pilão. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Pilão (A) s. Espécie de vaso de madeira onde se pila e descasca arroz, milho, café etc. ...agora a gente compra é o saco de arroz limpinho... e nesse tempo num era meu filho... era tudo pisado no pilão... o café era pisado tudo no pilão pra poder beber... (Entr.14, linha 198) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Pilão (A) Nm. [Ssing] Fr. Espécie de vaso de madeira onde se pila e descasca arroz, milho e café. A o pilão ali... ali... a o pilão ali...o pilão lá soca / soca / agora não...mas socava arroz... mas soca café...soca amendoim pra fazê paçoca... (Entr.2, linha 215). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Pilão. v.pilar² pilão / pilões pl. XVI / do fr. pilon. (CUNHA, 1986, p.604). 430. PINDOBA Nf [Ssing.] ... o (nome) morava numa choupaninha fechada assim de agreste... de pindoba... (4; 216). ... eu morei muito numa casinha feito rancho... beirando o chão de pindoba... (12; 327). Registro em dicionários: 384 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Pindoba s.f. Guar. Pind-ob. Palmeira elegante, cujas folhas servem para a cobertura dos ranchos, taperis e tejupares (Attalea humilis). 4. Aurélio: Pindoba [do tupi] s.f. bras. Bot. 1. Palmeira de belo porte (Attalea compta), que compõem amplos palmeirais em certas regiões do CO e apresenta nozes muito duras, com algumas sementes, ricas em óleo utilizável. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... pindoba ‗palmeira da subfam. das cocosoídeas‘, 1585. Do tupi pi‟noua. (CUNHA, 1986, p.605). _____________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 431. PINTAR E BORDAR Locução verbal [V + Conj. + V] ... foi na casa dele... pintou e bordou... tomou essa... essa besta dele... (42; 500). ... naquele tempo eles matava gente... pintava e bordava... (44; 289). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Pintar e bordar bras. fam. 1. V. pintar o sete. 2. Deitar e rolar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: pintar s.XIII. do lat. pinctare, de *pinctus, part. de pingere (CUNHA, 1986, p.606). / bordar s.XVI. no Port. med. ocorrem borlado XIV, borladura XIV, e borlar XV, nas acepções de bordado, bordadura e bordar, respectivamente (CUNHA, 1986, p.119). 432. PIPIRI Nm [Ssing.] É... tico-tico... sofrer... é... é... o que... rolinha... é bentivi... pipiri. (6; 50). 385 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Pipiri s.m. Planta herbácea da família das ciperáceas, do Brasil, a qual vegeta nos pântanos (Rhynchospora storea). 4. Aurélio: Pipiri [do tupi] s.m. bras. Bot. 1. Erva graminiforme, da fam. das ciperáceas (Rynchospora cetácea), que preenche densamente áreas alagadiças. Fixa-se por meio de um rizoma, e tem longas folhas coriáceas, lineares e pontudas, e flores insignificantes, reunidas em panículas bracteadas. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e ______________________________________________________________________ Obs: Na acepção de ave, não foi encontrado o vocábulo. Indigenismo. 433. PIQUIZEIRO Nm [Ssing.] ... o fogo ia e entrava nos piquizeiro rebuscando e queimava aqueles produto... mangaba que tinha. (21; 215). ... e depois isso aqui tudo era lote vazio... carca de arame... piquizeiro... (26; 21). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Pequizeiro s.m. Bot. Árvore da família das cariocaráceas (Caryocar brasiliensis). 4. Aurélio: Pequizeiro [de pequi + -eiro] s.m. bras. Bot. 1. V. pequi. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... pequizeiro s.XX. (CUNHA, 1986, p.594). _____________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 386 434. PIROSCA Nf [Ssing.] - Ô pai nós vamo... nós vamo pirotar pasarinho!... jogar pirosca ni passarinho... (21; 183). - Ó meu fio espingarda ocês num panha não que é muito perigosa... mas um badoquinho... ocês num jogando pirosca num aos outros tá certo... cês num pode jogar pirosca nun aos outros... (21; 194). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Pirosca s.f. Espécie de jogo infantil. 4. Aurélio: Pirosca s.f. bras. MG 1. V. gude. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... n/e ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (MG) conforme o Aurélio acima. 435. PIROTAR [V] - Ô pai nós vamo matar passa / nós vamo pirotar passarinho... de badoque. (21; 176). - Ô pai nós vamo... nós vamo pirotar pasarinho!... jogar pirosca ni passarinho... (21; 183). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... n/e 387 436. PISA Nf [Ssing.] ... os pais ainda dava uma boa pisa nela e ia o pai também dele e dava uma boa pisa nele também... (1; 215). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Pisa s.f. t.vulgar. Pancadas, com que se pisa o corpo: v.g. dar-lhe uma pisa. 3. Freire: Pisa s.f. 3. Sova, tunda. 4. Aurélio: Pisa [dev. de pisar] s.f. 2. V. surra. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... pisa, 1844. De pisar. (CUNHA, 1986, p.609). ______________________________________________________________________ Obs: Na obra de 1813 de Morais: o vocábulo era registrado, contrariando a informação do Cunha. 437. PITI Nm [Ssing.] ... mas mãe era durinha igual um piti... (40; 458). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Piti. s.m. Bot. O mesmo que cipó de alho. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Piti (n/A) s. O cipó do alho. Eu acho que ela tinha mesmo cem ano... mas mãe era durinha igual um piti... (Entr. 2, linha 433). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... n/e 438. PITIMBADO [ADJ.] ... e ainda num sarei não... tou aí ainda pitimbado. (45; 90). 388 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Pitimbado. [De pitimba + -ado1.] Adj. Bras. 1.Que tem pitimba; achacado, indisposto. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Pitimbado (A) adj. Enfermo; sem vigor físico. ... é moço eu já sofri na minha vida... e ainda num sarei não... tou ainda pitimbado... (Entr. 7, linha 88). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de pitimba + -ado (cf. Aurélio acima). _____________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 439. PLATAFORMA Nf [Ssing.] ... aqui mesmo perto aqui mesmo tiraram um pote de dinheiro... aí... e parecia muita muita plataforma nessas estradfa aí naquele tempo... (42; 584). Eu tive medo... quando teve uma vez apareceu uma plataforma perto da casa da gente... nós correu... o povo quase morre de medo... mas minha mãe cabou tudo com reza. (52; 406). ... uma plataforma... jogando pedra fazendo coisa... aí minha mãe falou tudo rezando... quando nós foi rezando / de repente desapareceu da casa nossa graças a Deus. (52; 409). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Plataforma. s.f. Fr. plate-forme. 12. Pop. Simulacro, aparência. 4. Aurélio: Plataforma. [Do fr. plate-forme.] S. f. 11. Fig. Pop. Aparência, simulacro. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Plataforma (A) s. Fantasma; assombração. Eu tive medo... quando teve uma vez apareceu uma plataforma perto da casa da gente... nós correu... o povo quase morre de medo... mas minha mãe cabou tudo com reza. (Entr. 14, linha 398). 2. Ribeiro (2010): n/e 389 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: do fr. plate-forme. 440. POCAR [V] ... assim o povo conta... quando ele tava virando bicho... pocou o carneiro... pocou o carneiro... ês foram lá e remendou... tornou pocar... (43; 581). ... aí moço diz que todo ano essa carneira pocava e saía aquele fio de cabelo na / no caixão da carneira né? (45; 477). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Pocar. [Do tupi = ‗arrebentar‘, de or. Onom.] V. int. Bras. Pop. 1. V. pipocar (1). / V. t. d. 2. Bater com força em; rebentar. [Conjug.: v. trancar. Normalmente é defect., só conjugável nas 3as pess.] 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Pocar (A) v. Rachar; estourar; pipocar. ... aí moço diz que todo ano essa carneira pocava e saía aquele fio de cabelo da / no caixão da carneira né. (Entr. 7, linha 470). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de origem onomatopaica conforme o Aurélio acima. ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 441. POCAR NO MUNDO Locução verbal [V + {Prep. + Art.} + Ssing.] ... e entregava pra nós aquele toquinho de enxada e agora pocava no mundo... (45; 275). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 390 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: pocar ‗do tupi ‗arrebentar‘ de origem onomatopaica (AURÉLIO, 1999). / mundo ‗o universo‘ s.XIII. do lat. mundus –i (CUNHA, 1986, p.539). 442. PONHAR [V] ... pegava e ponhava na outra e ia tocando até a bagaça ficava enxuta e jogava fora e tornava a bater outra... e ponhava a pinga nos cochão... a garapa... porque que tinha é coxo... ia lá e ponhava pra ferver no alambique... ês ponhava a vasilha pra aparar... (3; 381-385). ... fazia a puxada de algodão... e ponhava e lumiava... (3; 395). ... fazia direitinho e ponhava o azeite... e ponhava uma puxada dentro... (3; 398). ... ali fazia aquela camisona... ali ponhava um bolso aqui... aqui ocê ponhava a bala d‟um badoque... (5; 82). ... ele me ponhava no carro modo eu botar os cachorro pra ele pra ês ir pra tocaia... (5; 196). ... e arranjava um mamão e fincava uns pauzinho... e ponhava dentro daquele curral assim e fazia aquela vaca... (13; 95). ... eles chegaram e comeram comeram... comeu carne de a vontade... comeu carne e ponhou dentro do saco pra levar pra eles pra comer na estrada... (13; 257). ... que tinha animal demais raposa aqui que ponharam o nome São João da... ponhou Raposa... (13; 271). Entr.: Com farinha o que mais que fazia? Inf.: Ponhava dentro do feijão... (13; 423). ... arrumava um professor e ponhava numa casa pra ensinar os menino. (14; 47). ... arrumava uma pessoa que sabia ler e escrever né?... e ponhava pra / depois foi ino... (14; 50). ... lavava com barbatimão... óleo de piqui... ponhava nela... e aí um mucado de coisa né? (15; 229). Inf.2: ... que ês vieram aqui... ês ponharam o... derrubou esse mato daqui na virada aí que era só carrascão... (15; 442). Inf.1: ... eu falei que foi ladrão que tirou e ponhou lá... (15; 477). ... depois ês arranjaram um professor... ponharam lá pra ensinar a gente... (19; 58). ... e daí depois ponharam umas escolinha também na roça... (19; 104). ... e ponhei esse padrão aqui e ele ficou ficou ficou... (19; 246). ... elas então comprava e ponhava numa água fervendo lá... e pintava / ponhava a roupa da cor que queria... (19; 359). ... depois ês ponharam uma aguinha da prefeitura mas num ponhou em todas as casa... (19; 426). ... depois que ponharam essa aguinha vinha pra mim aqui... (19; 428). ... fazia uma puxada de algodão e ponhava na candeia de azeite e ponhava na lamparina e ponhava o querosene ou óleo... era assim. (20; 140). ... ês marrava aquele saco de coisa e ia ponhá dentro das mala... (21; 71). ... e enxugava né bem enxutinho... ponhava cebola pimenta do reino... (21; 234). ... o animal sofria... ponhava a carga do animal... (21; 276). 391 ... ponhava o fogo debaixo daqueles panelão... (21; 416). ... e tinha um tal de (nome) que ês ponharam o nome dele de (nome)... (30; 132). _ Não mas ocê tem que ponhar os seus filho pra estudar! (32; 73). ... ponhava cinquenta rapadura na cacunda... (32; 123). ... ês ponhava assim um couro no chão... (32; 215). ... passava assim num pano e enrolava e ponhava fogo e fazia aquele pastelão assim ó... (32; 309). ... fazia um oratório e ponhava um santo dentro e acendia uma vela e rezava o terço. (32; 369). ... pegava a mamona graúda e descascava e ponhava no pilão e pisava e panhava um pouco de algodão encaroçado... (33; 328). ... ponhava uma mesinha lá dentro do quarto e panhava... (36; 252). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Ponhar v.r.v. pop. O mesmo que pôr. 4. Aurélio: Ponhar [de ponho, 1ª pes. do sing. Pres. Ind. de pôr, + -ar] v.t.d.; v.t.d. e c.; v.t.d. e i. bras. S. CO pop. 1. Pôr. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Punhar (n/A) [V] Port. (CUNHA, 1986) Por, colocar. Catava, lavava e punhava no fogo e tacava fogo. (Entr.11, linha 36). _____________________________________________________________________ Origem: por s.XIII. do lat. tardio por, forma metatética do cláss. pro (CUNHA, 1986, p.623). _____________________________________________________________________ Obs: Forma variante de pôr. 443. POR ACAUSO Locução Adverbial [Prep + Ssing.] ... se por acauso um dia a água fracassar nós vamo ficar sem água... (26; 78). ... era assim né?... por acauso... as vez um resolvia e matava um gado... (27; 496). ... se por acauso um dia a água fracassar nós vamo ficar sem água... (26; 78). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Acauso: V. acaso. 4. Aurélio: Acauso: sm. Bras. Pop. 1. Acaso. 5. Amaral: Acauso: s.m. casualidade: ‗Isso se deu por acauso‘. V. causo. (p.84). 392 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: por s.XIII. do lat. tardio por, forma metatética do cláss. pro (CUNHA, 1986, p.623). / acaso s.XV. do lat. casus (CUNHA, 1986, p.162). 444. PRA DANÁ Locução Advérbial [Prep. + V] ... mas aqui tem uma família... gente boa pra daná... (24; 320). ... lá onde eu moro tem um rio chamado Rio Mosquito... tem peixe pra daná... (43; 231). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Pra danar bras. pop. 1. Muitíssimo; extraordinariamente. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: para XVI, pera XIII. Do lat. per ad, através da var. ant. pera, muito frequente em textos portugueses medievais (CUNHA, 1986, p.578). / danar ‗prejudicar, irritar‘ ‗comunicar a hidrofobia, encolerizar‘ s.XIII. do lat. damnare (CUNHA, 1986, p.239). _____________________________________________________________________ Obs: em abundância. Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 445. PRATO Nm [Ssing.] ... de primeiro andava a ter chuva... plantava um prato de feijão e num perdia... (10; 226). ... muita gente vende no quilo aí ó mas tem umas veinha que: _ É tanto o quilo!... dá dois quilos e seiscentas... o prato. (24; 162). ... eu já plantei feijão aqui pra mode eu colher saco por prato né? Entr.: Saco por prato? Inf.: É... plantava três litro de feijão e colhia uma saca né? (39; 236). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 393 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Prato (n/d) Nm [Ssing] Port. Antiga unidade de medida para cereais e grãos. porque antigamente vendia tudo era nas... nos pratos... media... nas quartas e nos pratos... hoje é tudo é quilo... (Entr.6, linha 124). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... prato s.XV. Do fr. plat, deriv. do lat. vulg. *plattus e este do gr. platys. (CUNHA, 1986, p.628). 446. PRECATA / PRECATONA Nf [Ssing.] ... foi foi chegando um cara com uma precata que era do tamanho de uma banda de coro de boi né? (1; 366). ... mas a precata acho que era desse tamanho... (1; 374). ... falava que num ia no outro dia... fazia uma precata pra mim... (13; 123). ... precata num usava o... hoje é havaiana... orelha de / queixada de boi né?... fazia aquelas precatona bem forrada... (23; 135-136). ... sapato num existia... era pracata. Entr.: Precata. Inf.: Pracata de pneu... ocê comprava um pneu e fazia aquelas pracata e punha no pé pra ir pra roça pro passeio né?... (33; 377-379). ... uma légua de noite... o velho só calçou a precata pra ir embora... (37; 196). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Alpercata s.f. Ár. albargat. O mesmo que alparca. 4. Aurélio: alpercata [do ár. Al-balga (t) ou al-bulga (t), ‗chinela‘, ‗babucha‘] s.f. 1. Sandália sem salto que se prende ao pé por tiras de couro ou de pano; loré. [var e form. paral.: albarca, alparca, alparcata, alpargata, alpergata, apragata, paragata, pracata, pargata, pragata.] . 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Precata (n/d) Nf [Ssing] (n/e) Chinelo feito de pneu. As precata. Sabe o que é precata?... Precata é aquela arca de arreio. (Entr.5, linha 197). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Precata (n/d) Nf [Ssing] (n/e) Chinelo feito com tiras de couro. A gente tratava precata. Fazia aques precatinha de coloca no pé. (Entr.2, linha 124). _____________________________________________________________________ 394 Origem: ... alparcata ‗tipo de calçado‘ s.XVII, alpargata XVII. Do ár. hisp. ál- pargat, pl. de al- parga, de orig. pré romana. (CUNHA, 1986, p.35). 447. PRECISÃO Nf [Ssing.] ... sofria muita precisão sabe... meu pai era doente... (7; 13). ... minha mãe trabalhava pra por as coisa dentro de casa... e assim mesmo a gente passava precisão. (7; 28). ... quando tinha precisão saía bobo bestando não...mas quando tinha precisão... as vez morria gente lá e eu saía lá na roça onde morava... (19; 293). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Precisão s.f. Necessidade, obrigação, violência, constrangimento, que se soffre. 3. Freire: Precisão s.f. lat. praecisio; praecisionem. 2. Falta ou carência de alguma cousa necessária ou útil. 3. Necessidade, urgência. 4. Aurélio: Precisão do lat. praecisione] s.f. 1. Carência daquilo que é preciso, necessário ou útil. 2. Urgência, necessidade. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... precisão s.XVII. Do lat. praecisio –onis. (CUNHA, 1986, p.629). 448. PRECURAR [V] ... até as galinha precurou o puleiro né? (1; 574). Aqui mesmo no meu tempo quando eu vi pricurar nunca... que é os carreteiro né?... que veio pricurar aqui eu num vi não... onde nós morava tinha algum que pricurava mas é cristal... (3; 241). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Precurar v.r.v. Forma popular de procurar. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Precurar, percurar, pricurar, procurar v.t. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 395 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: forma alt. de procurar. Procurar S.XIV. do lat. procurare (CUNHA,1986, p.636) 449. PREGUNTAR [V] É... preguntava ela: _ Cê olha ele... ocê quer casar com ele?... (23; 81). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Preguntar v.r.v. Lus. O mesmo que perguntar. 4. Aurélio: Preguntar v.t.d.; v.t.d. e i.; v.t.i.; v. bit. i.; v. int.; v. p. lus. pop. 1. Perguntar. 5. Amaral: Preguntar, proguntar, perguntar v.t. há grande discussão entre os sabedores sobre a etimologia do Port. ‗perguntar‘ (como alguns querem) ou ‗preguntar (como querem outros). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... perguntar ‗interrogar, inquirir, indagar‘ XIII, preguntar XIII. Do lat. *praecunctare, de percontare. (CUNHA, 1986, p.596). 450. PREMERO [ADV.] ... quando a gente vai matar uma galinha premero a gente pega o pescoço e troce e tira as pena e e pega a faca e bate né? (6; 237). Chamava Coqueiro... e premero antigamente era Palmeira... (12; 141). ... lavava em nove água... lavava na água premera... depois tornava lavar aquela outra. (15; 250). Bom quando eu fui... premero tinha uma casa... (17; 04). ... a premera que eu peguei a gostar dela que eu casei... (17; 45). ... toda vida tive... premero num era que nem hoje... (19; 302). ... de vez em quando conta esses caso assim... premero era... falava uns caso / premero era muito difícil cê contar assim esse caso... (19; 306). ... e aí o premero que ele matou foi a família desse fazendeiro... (22; 446). ... minha premera mulher mesma morreu em Belo / tratando em Belo Horizonte... (22; 480). ... premero vai nos presépio né?... (23; 246). O premeiro emprego meu foi limpar rio. (45; 413). ... foi o premeiro emprego meu... (45; 417). 396 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Premero primeiro, det. num. ... o qual foi traslado em tempo do mui esforçado rey dom Iohão de boa memorea o premeiro deste nome em Portugal... (Fern. De Oliv., seg. Ad. Coelho). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Premero (A) [Adv] Port. (CUNHA, 1986) Antes. Caba de fazê esse serviço aqui premero. (Entr.6, linha 16). ______________________________________________________________________ Origem: forma alt. de primeiro. Primeiro s.XIII. do lat. primarius –a –um (CUNHA, 1986, p.634). 451. PREMESSA Nf [Ssing.] ... aquilo é uma premessa que a gente faz... faz uma premessa aí pra ficar livre de qualquer um problema lá né?... (1; 512). É... eu ia pagar premessa... e a gente ia lá cumprir né? (49; 294). ... foi e fez premessa... que ela aleijasse a perna dela... (50; 186). ... ele tem que vir aqui pedir perdão e pedir quem paga aquela premessa... se ocê fizer uma premessa e não cumprir... (50; 271-272). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... promessa XIII, promissa XIV. Do lat. med. promissa. (CUNHA, 1986, p.639). 452. PRIÁ Nf [Ssing.] 397 ... fazia arapuca pra pegar lambu a priá... (21; 187). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Preá s.f. Animal do Brasil, que tem exteriormente na barriga uma bolsa, onde recolhe os filhinhos; é como um rato grande, de pello negro. 3. Freire: Preá s.m. Mamífero roedor, semelhante à cobaia (Cavia aperea). 4. Aurélio: Preá [de apereá, com aférese e síncope] s.m. e f. 1. Bras. zool. Designação comum às espécies de mamíferos roedores caviídeos, gen. Cavia, esp. a Cavia aperea, que ocorre de PE para o S. 2. Bras. zool. Designação comum a três espécies do gen. Galea, comuns no N e no NE, de dorso manchado de amarelo-sujo e preto, variando com as espécies, e superfície ventral branca, tendente ao amarelo-sujo. [sin. Nessa acepç.: bengo] . 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Piriá (A) Nf [Ssing] Ind. Mamífero roedor; vive à beira de córrego, lagoas e rios, alimentando-se de gramíneas. ... no brejo... bichinho essas do brejo aí... eas gosta do brejo... é essas aí... é as piriá... (Entr.1, linha 254). 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... preá ‗nome comum a várias espécies de mamíferos roedores da fam. dos cavídeos, do gen. Cavia e Galea, a) aperiá 1587, b) peria 1730, periá 1‘730; c) preá a1696, prehá 1817. Do tupi apere‟a; a cadeia evolutiva é a seguinte: tupi apere‟a > Port. apereá > a pereá > preá. (CUNHA, 1986, p.628). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 453. PUXADA Nf [Ssing.] ... é candeia... chegava e enchia aquilo... fazia aquela puxada de algodão... (2; 161). ... chamava candieiro... tinha as asinha de pegar o vidrinho... e enchia de criosene... fazia a puxada de algodão... (3; 395). ... aquele trem velho lá com um bico lá e enchia de azeite... pegava o algodão... fazia uma tal puxada... (6; 139). Entr.: Candieiro? Inf.: Aí faz uma puxada de algodão... e coloca... e agora azeite... (18; 488). ... fazia uma puxada de algodão e ponhava na candeia de azeite e ponhava na lamparina e ponhava o querosene ou óleo... era assim. (20; 140). ... candieiro... tudo era o coisinha... feito uma latinha com o bico... agora ocê botava a puxada de algodão né? (22; 357). ... aí molhava aquela puxada e aí aquele candieiro ficava aceso... (22; 359). ... e tu fazia uma puxada de algodão desse tamanho... trucida e botava ali... (23; 377). ... botava o querosene e a puxada lá... e ilumiava... (24; 269). ... fazia uma puxadona de algodão e botava num prato de barro.. (27; 486). 398 ... que panhava na lamparina... puxada de algodão... e plantava algodão né?... quando dava e guardava... descaroçava e fazia aquelas puxada e panhava na lamparina... (36; 245). ... fazia os candieiro assim de água... a gente fazia aquele biquinho onde colocava aquela puxada... (36; 253). ... fazia aquele monte de puxada e panhava nessa vasilha e ficava lá... (36; 257). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: de puxar s.XIII. Do lat. pulsare. (CUNHA, 1986, p.649). ______________________________________________________________________ Obs: O mesmo que pavio. Q 454. QUARTÃO Nm[Ssing.] ... e os quartão da rês largava tudo aí... (1; 143). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Quarto de carneiro Em alguas partes há carneiros de cinco quartos. 2. Morais: Quartão s.m. Medida de liquidos, que leva 3 canadas, ou a quarta parte de hum almude. 3. Freire: Quarto s.m. 18. Parte superior da coxa e lateral dos quadris.. 19. Mão e perna de uma rês, desde a metade do lombo na altura até metade da barriga na largura. 4. Aurélio: Quarto [do lat. quartu] s.m. 8. Mão e perna de uma rês considerada até a metade do lombo (altura) e até a metade da barrioga (na largura). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012):n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 399 ______________________________________________________________________ Origem: quarto s.XIII, do latim quartus –a –um. 455. QUEBRA Nf[Ssing.] E fazia uma quebrinha... fazia arapuca pra pegar lambu a priá... (21; 187). ... cada um fazia três quatro quebra. Entr.: Quebra era armadilha né? Inf.: É armadilhazinha... (21; 188). Tinha... tinha... fazer quebra também no mato. Entr.: Fazer quebra? Inf.: É... pra pegar / o laço... fazer uma quebra aqui... aquela armadilha... (45; 260-262). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Quebra (n/d) s. Armadilha; engenho para pegar pequenos animais. Tinha... tinha... fazer quebra também no mato. Entr.: Fazer quebra? / Inf.: É pra pegar o laço... pegar / fazer uma quebra aqui... aquela armadilha... pegava aquela vara comprida assim... fazia armadilha de cá e agora arribava aquela vara e armava. (Entr. 7, linha 256). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: quebra ‗ato ou efeito de quebrar‘ ‗desfalque‘ s.XV (CUNHA, 1986, p.652). 456. QUEBRANTE Nm [Ssing.] ... tinha aquelas veia entendida que rezava... rezava quebrante... (8; 373). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Quebranto Olhado, quebranto e fascinação são três nomes, que significao o mesmo. Olhado denota a causa, quebranto denota o effeito, e fascinação, que significa hua e outra cousa, porque se deriva de fascinare, e fascinare se deriva do verbo grego baskainen, ou phaesikainein, que vai o mesmo que, matar com a vista. 2. Morais: Quebránto s.m. Doença, quebrantamento do corpo, que dizem proceder de olho máo, desfalecimento do animo por doença, tristeza, desastre. 3. Freire: Quebranto s.m. De quebrantar. Mau olhado; doença, desfalecimento do corpo ou mal que segundo a crendice popular se comunica pelo olhar de certas pessoas e especialmente dos feiticeiros à scrianças e aos animais. 4. Aurélio: Quebranto [dev. de quebrantar] s.m. 2. Resultado mórbido que, segundo a superstição popular, o mau-olhado de certas pessoas produz em outras. 5. Amaral: n/e 400 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... quebranto ‗tristeza, sofrimento‘ s.XIII. De quebrantar. (CUNHA, 1986, p.652). 457. QUEBRADURA Nf [Ssing.] ... ficava saindo cabelo daquelas quebradura... (43; 583). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Quebradura Quando alguma cousa inteyra se quebra. / Vid fratura. 2. Morais: Quebradura s.f. O acto de quebrar, ou quebrar-se. Quebra. 3. Freire: Quebradura s.f. De quebrar + dura. Quebra. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: quebrar s.XIII. do lat. crepare (CUNHA, 1986, p.652). De quebrar + -dura. 458. QUEBRAR [V] ... fazia um copo duplo e o camarada quebrava aquilo... (39; 510). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: quebrar, do latim crepare (CUNHA, 1986, p. 652). 401 ______________________________________________________________________ Obs: O mesmo que beber, virar. 459. QUEBRAR PANELA Locução Verbal [V + Ssing.] ... agora depois que casava a caçula... a derradeira que casava... agora essa daí quando ela casava quebrava a panela... (4; 410). Entr.: ... a última filha casava... tinha um negócio que fazia diferente. Inf.2: Ah era... era quebrar panela. Entr.: Isso. Inf.2: Era... a derradeira filha quie casava. Inf.1: Isso aí eu conheci também... e agora tá usando ainda... quando casa a derradeira filha o povo quebra panela. (15; 487-491). ... como era festa antigamente né?... fazia festa. Entr.: Festona mesmo. Inf.: Quebrava panelas. Entr.: Quebrava... Inf.: Que a caçula... Entr.: Quebrava panela? Inf.: É... que num tinha uma festa que num quebrava panela... era isso que existia. Entr.: Num sabia disso não. Inf.: É... quando casa derradeira tinha esse uso... (51; 147-157). Quebra a panela... forma aquelas roda e põe a panela que / tudo que vai na festa coloca dentro. (51; 163). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ____________________________________________________________________ Origem: quebrar s.XIII. do lat. crepare (CUNHA, 1986, p.652). / panela s.XIII. do lat. vulg. *pannella, de panna (CUNHA, 1986, p.576). 460. QUEDAR [V] ... aqueles nego que fumava... quedava um ali e me caçava uma pedra... a hora que ês queria acender um cigarro... (32; 312). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Quedar v.n. Restar. Aquietar, descontinuar. 3. Freire: Quedar v.r.v. Lat. quietare. Demorar-se num ponto ou lugar; ficar ou estar quiedo. 4. Aurélio: Quedar [do lat. *quetare, por quietare, ‗fazer descansar‘] v. int. 1. Estar quedo; ficar ou deter-se em um lugar; estacionar-se; conservar-se; parar. V. pred. 2. Permanecer; conservar-se. V. p. 3. Ficar, deter-se, conservar-se, quedar. 5. Amaral: n/e 402 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: do lat. *quetare, por quietare ‗fazer descansar‘ conforme o Aurélio acima. 461. QUEDÊ [Pron.] ... foi saí daí e mora no Paraná... quedê... e lá no Paraná... (27; 456). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Quedê bras. fam. pop. 1. V. quede. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: alt. de cadê. ______________________________________________________________________ Obs: Variante de cadê. 462. QUE NEM Locução conjuntiva [Pron. + Conj.] ... então o menino num tinha tempo de andar... assim que nem hoje anda não... (1; 76) ... se o sujeito chegasse e... que nem tá aqui... se tivesse condição de a namorada encostar assim que nem tá ali... (1; 224). ... num era assim tão fácil que nem / que nem / que tem é hoje não... (1; 263). ... num é que nem hoje não que... (1; 295). ... isso aqui que nem eu tou falando começou com um rancho aqui. (1; 345). ... ele chegava numa pensão que nem fosse uma pessoa né? (1; 401). ... Zé eu só perdôo ele depois que ele vier urrando que nem um jegue três vezes... (1; 460). ... e o paiol encostadinho que nem quase tá esse carro... (1; 559). ... conheci escravo mas que foi escravo... mas que eu visse não... que nem meu avô... (2; 311). ... com pouco fez assim que nem pagar uma luz... (2; 336). ... o casamento era a mesma coisa... que nem é hoje... (2; 386). ... quando cabava as criação dele saía comendo assim no mundo... que nem aconteceu 403 em muitos lugar... (4; 299). ... ontem mesmo eu tava falando pros menino... sofrer que nem eu já sofri... (6; 76). ... eu tenho muito medo assim de ladrão né?... que nem esses dias deu ladrão aqui roubando... (7; 145). Mandava vir de São João... que hoje tá bom que tem uma rodagem que nem essa aí... (8; 132). ... a gente quase num namorava não né?... é as vez que nem eu mesmo... logo casava também né?... num é que nem hoje. (11; 77-79). Que nem a gente mesmo criava um gadozinho lá na roça... (11; 89). ... tinha muita água... agora ultimamenmte tem pouca né?... que nem esse ano mesmo ele / era bem natural do rio... (11; 103). ... eles faz que nem aqui em Indaiabira... (11; 133). Até hoje... só dá assim que nem agora... (12; 296). ... hoje tá uma glória de Deus... que nem eu falo pra eles... nós tá tudo rico né? (18; 77). ... levava no chapéu... que nem o finado meu sogro mesmo... (18; 382). ... um véi graças a Deus que nem eu... (18; 391). ... e o mundo ia ser iluminado com coisa que / era / que nem a luz do dia... (18; 497). ... contava era no lápis... num era que nem na maquininha... (19; 62). ... toda vida tive... premero num era que nem hoje... (19; 302). ... já era previsto... que nem ês contava... (19; 316). ... mas num é que nem de premero... (19; 373). ... porque num deu oportunidade... e outros... que nem nós mesmos... (20; 64). ... ninguém viu uma carne assim cheirosa que nem era de primeiro não né? (20; 81). ... aqui em São João do Paraíso tá que nem uma bucha de laranja... (20; 284). ... num tinha que nem hoje padaria tem tudo... (21; 240). ... num casava assim que nem hoje um rapaz casa e ele num tem nada... (22; 115). ... fazia aquelas canoona na beira e... que nem esses bote que tem hoje em dia... (23; 132). ... o povo falava assim que ele vinha que nem um cachorro... vinha que nem um touro... vinha que nem um cavalo... (23; 230-231). ... mas nesses outro lugar que nem eu vejo... (23; 256). ... mas num tinha carro também que nem hoje tem... (36; 287). ... ó que nem aqui mesmo... eu pago rede de esgoto... (38; 142). ... mas a gente sofria demais naquele tempo... num era que nem / até quando foi criado... (40; 365). ... mas num tinha essa história de abraçar beijar que nem eu vejo agora... comer boca como diz assim... ah! Comer boca!... (46; 53). ... tivesse uma pessoa que nem cê chegou aqui... (46; 61). ... que as vez tinha ali uma mulher que era mais entendida... que nem a minha mãe... (46; 100). ... nunca nós usasse panhar água... que nem agora... era no rio... (46; 114). ... ele entrevou... ficou que nem essa taba ó aí... (46; 148). ... as coisa num era cara que nem tá sendo agora... (46; 179). ... um fraco rico de espírito que nem eu... (48; 83). ... é que nem eu dizer pro senhor... (48; 315). ... aqueles povo mais velho assim que nem eu... (48; 342). ... antigamente num era que nem hoje em dia não né?... (49; 55). ... se ele num fosse buscar nós comia sem sal que nem caboclo. (50; 38). ... tava que nem uma prata... alvinha... todo mundo bebia água desse rio... (50; 71). 404 ... mas uma traíra boa que nem era... num come mais não... (50; 97). ... assim de lado... que nem vaca quando quer pegar juriti. (50; 153). ... aí tinha um velho... que nem esse velho Bráulio aí... (50; 195). ... ele representa que nem um cachorro... ele representa que nem um porco... representa que nem um jegue... (50; 279). ... porque ninguém achava que nem agora... (52; 200). ... é mesmo que ocê vê / quais que nem a cantiga do Reis. (52; 394). ... num dou jeito mais modo eu contar caso que nem eu contava de primeiro não. (52; 429). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Que nem conj. Mais do que; como, do mesmo modo que. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: que ‗conj. Integrante s.XIII. do lat. quia ( > a. Port. qua e ca); - conj. Comparativa XIII. Do lat. quam (CUNHA, 1986, p.652). / nem ‗e não, não alternativamente‘ nen s.XIII, ne XIII etc. do lat. nec (CUNHA, 1986, p.546). 463. QUERMESSA Nf [Ssing.] ... o dia que ia cantar o Reis... que era a quermessa... nós ia pra lá... (16; 648). ... em festa aqui eu fazia sucesso em quermesse... (40; 342). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais:n/e 3. Freire: Quermesse. s.f. Feira paroquial, feira anual celebrada com grandes folguedos populares, na Holanda. // 2. Quadro que representa essa feira. // 3. Bazar com leilão de prendas, ao ar livre. 4. Aurélio: Quermesse. [Do flamengo kerkmisse, pelo fr. kermesse.] S. f. 1. Feira paroquial que era celebrada anualmente nos Países Baixos, com grandes folguedos populares. 2. Bazar ou feira beneficente, em geral com leilão de prendas. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Quermesse (A) s. Festa geralmente ao ar livre, com leilão de prendas em benefício da paróquia. ... em festa aqui eu fazia sucesso em quermesse... (Entr. 2, linha 331). 405 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Quermesse. sf. ‗feira paroquial, anual, realizada nos Países Baixos‘ ‗bazar ou feira beneficente‘ / kermesse 1881 / Do fr. kermesse, deriv. do flamengo kerkmisse. (CUNHA, 1986, p.654). 464. QUESTà Nf [Ssing.] ... eu ia muito no Rio Pardo. Entr.: É? Inf.: Negócio de questã dos outros né? (18; 460). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Questã ou questan s.f. pop. O mesmo que questão. 4. Aurélio: Fazer questão de 1. Exigir de si mesmo ou de outrem; não transigir em. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... questão ‗pergunta, interrogação‘ ‗tese, assunto‘, questom XIV, questam XIV. Do lat. quaestio –onis. (CUNHA, 1986, p.654). 465. QUIABENTO Nm [Ssing.] ... essa avenida era quiabento... era quiabento... cercada / cada lote das pessoas aqui era cercada de quiabento. Entr.: Quiabento... o que é isso? Inf.: Quiabento era uma cerca de espinho. Entr.: Ah chamava quiabento? Inf.: É... quiabento... as cerca era tudo cheio de espinho. Entr.: Ah sei. Inf.: Então a avenida era desse jeito... ela num tem ( )... era quiabento... (21; 12-19) Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Quiabento s.m. Bot. O mesmo que cacto rosa. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 406 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: quiabo ‗fruto capsular cônico, verde e peludo, produzido pelo quiabeirocomum‘ 1730 . de etimologia incerta (CUNHA, 1986, p.654). De quiabo + - ento. 466. QUINA-BRABA NCf [Ssing. + ADJ] Inf.2: ... quina... pra gripe... a quina... quina-de-vara. Inf.1: Tem outra quina-braba... (15; 200-201). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Quinaquina He a casca de huma arvore do Peru, que na província de Quitto, nasce em huns montes, perto da cidade de Loxa. 2. Morais: n/e 3. Freire: Quina Brava s.f. Planta da família das melastomatáceas (Miconia Wildenovii). 4. Aurélio: Quina² [de quinaquina] s.f. bras. pop. 1. Arvoreta da fam. das rubiáceas (Cinchona ledgeriana), originária do Peru e notável por suas propriedades antitérmicas. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: quina³ ‗arvoreta da fam. e notável por suas propriedades antitérmicas‘ 1844. Do cast. quina, de quina quina, derivado, prov. do quíchua kina-kina. (CUNHA, 1986). 467. QUINA-BRANCA NCf [Ssing. + ADJ] Ué... jurubeba... pra tudo... quina-branca... essa quina-de-papagaio... fidegozinho... era o remédio era esse... (32; 154). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Quinaquina He a casca de huma arvore do Peru, que na província de Quitto, nasce em huns montes, perto da cidade de Loxa. 2. Morais: n/e 3. Freire: Quina branca s.f. O mesmo que falsa quina. 4. Aurélio: Quina-branca [de quina² + o fem. Do adj. branco] s.f. bras. Bot. 1. V agoniada. 5. Amaral: n/e 407 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... quina³ 1844 (CUNHA, 1986, p.656) + branco ‗da cor da neve, do leite etc.‘ s.XIII. do germ. blanck (CUNHA, 1986, p.122). 468. QUINA-DE-PAPAGAIO NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] Ué... jurubeba... pra tudo... quina-branca... essa quina-de-papagaio... fidegozinho... era o remédio era esse... (32; 154). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... quina³ 1844 (CUNHA, 1986, p.656) + papagaio ‗ave da família dos psitaciformes, que imita a voz humana‘, papagay s.XIII. de etimologia obscura (CUNHA, 1986, p.577). 469. QUINA-DE-VARA NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] Inf.2: ... quina... pra gripe... a quina... quina-de-vara. Inf.1: Tem outra quina-braba... (15; 200-201). Pra fazer o chá... é boldo... erva doce... e remédio mais do mato... é quina-de-vara... é quina-de-veado... (27; 280). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 408 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... quina³ 1844 (CUNHA, 1986, p.656) + ‗ramo fino e flexível‘ s.XIII. do lat. vara (CUNHA, 1986, p.811). 470. QUINA-DE-VEADO NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] Pra fazer o chá... é boldo... erva doce... e remédio mais do mato... é quina-de-vara... é quina-de-veado... (27; 280). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... quina³ 1844 (CUNHA, 1986, p.656). + veado ‗mamífero arctiodátilo, da família dos cervídeos‘ s.XIV. do lat. venatus, -us (CUNHA, 1986, p.813). R 471. RABEIRA Nf [Ssing.] ... uma vez ia numa festa... gostava ali e tudo mas era na rabeira da mãe... os pais era uma coisa muito segura né? (12; 378). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Rabeira s.f. De rabo + eira. P. us. 7. Parte traseira de um veículo. 8. Cauda do vestido. 4. Aurélio: Rabeira [de rabo + -eira] s.f. 6. Bras. prov. Port. A parte traseira de um veículo. 5. Amaral: Rabêra s.f. a parte traseira de um veículo. 409 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: rabo ‗cauda‘ ‗prolongamento da coluna vertebral de certos mamíferos‘ s.XIII. do lat. rapum –i ‗nabo‘ (CUNHA, 1986, p.659). De rabo + -eira. 472. RAIZEIRO Nm [Ssing.] Inf.2: Era raizeiro... tinha os curador chamado. Inf.1: Tinha os curador... arrancava raiz de muito chão... (15; 198). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Raizeiro s.m. 2. Curandeiro que trata de doenças com raízes vegetais. 4. Aurélio: Raizeiro [de raiz + -eiro] s.m. bras. NE MG 1. Curandeiro que trata doenças valendo-se de raízes vegetais. [sin.: raizista (MG), remedista (MG), doutor-de- raiz (AL, BA). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Raizero (A) Nm [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Curandeiro que trata de doenças usando raízes. Eu viajava sempre pra Turmalina e um dia então eu fui pra Turmalina e chegô lá um home me ensinou. Até um raizero lá. (Entr.5, linha 128). ______________________________________________________________________ Origem: raiz bot. s.XIII. do lat. radix –icis (CUNHA, 1986, p.661). De raiz + -eiro. ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (NE, MG), conforme o Aurélio acima. 473. RALAR [V] Ué mas num adiantava ralar não... perto do pai... tinha que aceitar. (6; 197). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Ralar v.r.v. De ralo + ar. 3. Vexar, atormentar, afligir, amofinar. 4. Aurélio: Ralar [de ralo + -ar] v.t.d. 3. Fig. Atormentar, amofinar, inquietar, afligir, consumir. 410 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ralo ‗crivo da peneira‘ s.XVII; ‗lâmina com orifícios para coar líquidos‘XVI. Do lat. rallum –i ‗raspador‘ (CUNHA, 1986, p.662). De ralo + -ar. Obs.: Na entrevista, o sentido é reclamar. 474. RAMO FRACO Ncm [Sing. + ADJ.] ... meu pai era um ramo fraco... só tinha a graça de Deus... (42; 682). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Ramo fraco (n/d) s. Pessoa pobre, sem riqueza material. ... meu pai era um ramo fraco... só tinha a graça de Deus... (Entr. 4, linha 660). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ramo s.XIII. do lat. ramus –i (CUNHA, 1986, p.662). / fraco s.XIII. do lat. flaccus (CUNHA, 1986, p.367). 475. RANCHEIRA Nf [Ssing.] Tudo sei dançar... revoltosa... tuinga / ninguém dança nais né... rancheira / esse povo mais novo aí... ( ) ensinar lá no sindicato né... pra dançar lá no festival... (44; 112). ... eu sei cantar rancheira... sei cantar tuinga né?... (44; 116). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Rancheira. s.f. 2. Música de dança campestre de origem hispano- americana, muito usada pelos gaúchos, que a trouxeram para os salões. 4. Aurélio: Rancheira. [Do esp. plat. Ranchera.] S. f. Bras. 1. Dança popular, de compasso ternário, originária da Argentina, comum no RS e mais tarde divulgada nos 411 salões. 2. A música dessa dança. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Rancheira (A) s. Dança popular na região. ... tudo sei dançar... revoltosa... tuinga / ninguém dança mais né... rancheira... (Entr. 6, linha 106). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e Origem: ... Rancheira. sf. ‗dança popular‘ XX. Do cast. ranchera. (CUNHA, 1986, p.662). 476. RANCHO Nm [Ssing.] ... quem começou a fundar isso aqui foi um cara... e veio e fez um rancho aqui... fez um rancho aqui... (1; 5). ... isso aqui que nem eu tou falano começou com um rancho aqui. (1; 345). ... era como um rancho velho assim... de mato... (2; 502). ... chegava lá no meio do mato limpava uma área bem grande... e fazia um rancho pra lá... (39; 684). ... muita gente mudou pro mato... fez rancho dentro da mata né?... (42; 480). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Rancho sm. palavra castelhana mas quer dizer pousada. 2. Morais: Rancho Sm.. Casa ou tenda movível que se faz pelos caminhos. 3. Freire: Rancho S.m. Esp. rancho. 14. Habitação tosca, de palhas. // 15. Habitação rústica do pessoal de campo e do seringal. 4. Aurélio: Rancho. [Do esp. rancho.] S.m 2. Acampamento ou barraca para abrigar rancho (1); ranchada. 8. Bras. Casa ou cabana no campo, nas roças, em canteiro de obras etc., para abrigo provisório ou descanso dos trabalhadores. 9. Bras. Casa pobre, da roça; choça, ranchinho. [Dim. irreg.: ranchel.] . 5. Amaral: Rancho. S.m. – cabana, geralmente de sapé, que se faz nas roças para abrigo de trabalhadores; casa rústica sem compartimentos; telheiro ou cabana para abrigo de viajantes, à beira das estradas; por ext., casa pobre. // T. geral no Br. Usa-se no R. G. do Sul.: ―... dos fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que atravessou... (S.L.). Usa-se no Nordeste: Na barranca do caminho / abandonado, um ranchinho / entre o mato entonce viu. (Cat.) Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Rancho (A) s. Cabana provisória feita no mato ou nas roças, geralmente de palha. ... muita gente mudou pro mato... fez rancho dentro da mata né... (Entr. 4, linha 464). 2. Ribeiro (2010): Rancho • (A) • Nm [Ssing] • Esp. • Cabana provisória feita no mato ou nas roças, geralmente de palha. • Aí desceu ieu e ocê até na porta do rancho pegado na mão. Foi ou não foi? (Ent. 2, linha 140) 412 3. Freitas (2012): RANCHO~RANCHIM • (A) • Nm[Ssing] • Esp. • Cabana provisória feita no mato ou nas roças, geralmente de palha. • Morei por todo lado da vida depois vortava pro ranchim de novo aí fui ganhá a (N...) aí no mesmo rancho aí (Ent. 06, linha 152). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e Origem: ... rancho ‗grupo de pessoas em passeio, marcha, jornada ou trabalho‘ ‗refeição para soldados ou presos‘ s.XVI. Do cast. rancho, deriv. do verbo rancharse, e este, do fr. se ranger. (CUNHA, 1986, p.662). 477. RAPADURA Nf [Ssing.] ... tinha cana tinha rapadura... ocê ia lá pra Taiobeiras e ocê comprava dez rapadura... por um mi réis... (2; 140). Entr.: Como que era trabalhar com tropa? Inf.: Com tropa... botava a burrada aí e cangaia e buraca... pra ir buscar rapadura feijão arroz... (6; 78). ... outra hora nós panhava rapadura e levava e fazia feijão né? (6; 92). ... o açúcar era mais difícil... era mais era rapadura... rapadura... e cachaça num faltava... (8; 125). ... o que mais plantava lá era cana... fazia rapadura... naquela época rapadura tinha uma aceitação muito boa né?... a gente fazia rapadura... trazia pr‟aqui e vendia... tinha vários caminhoneiros que transportava a rapadura pra Montes Claro Janaúba né?... (11; 50-53). ... dá uma farofa muito gostosa com rapadura e farinha... (11; 149). ... quebrava o coco e tirava a gema né?... pisava com farinha e rapadura... (11; 153). ... alguns já tinha o engenho pra fazer rapadura... (12; 259). ... olha eu tenho um tio com o nome de ( )... trabalhava com tropa de dois quatro seis oito até dez animal de carga... carregando rapadura... levando rapadura pra muitos lugares... (13; 16). ... ês levava lá... levava a rapadura... pagava o frete ainda... (13; 24). Daqui ia rapadura café... ia café rapadura e queijo... (13; 34). ... ele já cansou de fazer isso... tocar tropa levando rapadura pra Candeúba. (15; 127). Inf.2: ... e fazia rapadura... aí ele pegou aqueles pedacinho... mamãe cortou e cada um de nós comeu um pedacinho... (16; 151). Eles carregava rapadura... era feijão... era farinha... (17; 73). ... que o mundo ia ser cortado na / igual uma rapadura né? (18; 494). ... produzia rapadura e plantava horta... (19; 16). Entr.: O que produzia aqui? Inf.: É rapadura... café... pinga... teve um tempo aí que teve muita fartura... mas tá acabando... café rapadura... (20; 89-91). E esse aqui... essa raiz de pau aqui ele tirou... tirou duas gamela de bater rapadura bem grande assim ó... (20; 209). Tinha muito tropeiro...pegador de rapadura... pegava rapadura pra vender ni Candiúva... (21; 40). ... sentava a rapadura no espinhaço do animal... (21; 280). Eu mesmo aconteceu que eu comprava a rapadura / um dia eu comprei uma rapadura aqui pra levar pra Candiúva... eu comprei quatro carga de rapadura... eu toquei um dia com uma carga de rapadura aqui... (21; 283-290). ... essas enxurrada passava nas bruaca... desvalorizava essas rapadura... até uma coisa... eu compro as rapadura da camada de baixo das bruaca... (298-300). 413 ... vendia o feijão o arroz a farinha a rapadura... (22; 158). ... rapadura as vez vinha até oitenta cem cargas tudo em lombo de burro... daqui a cinco seis oito léguas fabricava rapadura... (22; 159-160). Demais... rapadura... farinha... muita fruta... (24; 146). Era pra todo canto... pra Bahia todinha... era rapadura... farinha pra Guanambi... rapadura e farinha... goma... é uma tapioca que chama. (24; 214-215). Transportava daqui pra lá café rapadura farinha... e de lá pra cá sal... (28; 64). ... engenho... pra fazer rapadura...alambique... (28; 423). ... carga aí de rapadura... levava de cá pra lá... (29; 81). ... ainda tem...a rapadura mesmo num acaba... (29; 85). ... eu moí muita cana... fazia mel fazia rapadura... (30; 61). ... fazia aqueles tachão de... fazia rapadura... fazia as rapadura assim de tudo quanto era jeito... (30; 64). ... outra hora nós levava rapadura pra vender... (30; 79). ... tinha vez que agente colocava vinte e cinco rapadura numa buraca... (30; 84). ... levava rapadura levava feijão levava farinha... (32; 109). ... e ele levou dez burro carregado de rapadura... (32; 114). ... é que as cangalha fazia aquelas pisadura e ele senta rapadura... (32; 122). ... ponhava cinquenta rapadura na cacunda... (32; 123). ... num tá fabricando rapadura no engenho moído de cana mais não. (33; 113). ... chegava lá e vendia o feijão e se fosse a rapadura vendia a rapadura... (33; 172). ... panhava num tacho de ferro e produzia a rapadura... aí a rapadura era pra fazer café... (33; 408-409). ... aqui mesmo eu tinha um canavial de cana... fiz rapadura aí muito tempo... (34; 37). ... cortava umas caninha lá na roça... e moía pra fazer aquelas rapadura... (36; 73). É... é... e fazia rapadura de cana... (39; 14). ... tinha a cana pra fazer rapadura pra tomar o café... (39; 18). ... fazia o melado fazia a rapadura né?... (39; 20). ... e o povo da roça vinha com aqueles cavalinho de carga... trazendo farinha feijão rapadura... (40; 103). ... mas tem aqui uma rapadura ou duas... (43; 364). ... e amarrava farinha amarrava rapadura e tocava... (43; 484). ... num tinha açúcar pra nós... o caldo nosso era só rapadurão. (45; 57). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Rapadura O que se tira rapando. Vid. raspadura. 2. Morais: Rapadúra s.f. O que se tira rapando; raspas. Massa dura de assucar ainda não purgado, ou de mascavado coagulado, na qual se lanção amendoins, usada no Brasil, talvez sem os amendoins. 3. Freire: Rapadura s.f. De rapar + dura. 3. Torrão de açúcar mascavo, solidificado em forma de tijolo. 4. Aurélio: Rapadura [de rapar + -dura] s.f. 2. Bras. açúcar mascavo, em forma de pequenos tijolos. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Rapadura (A) Nf [Ssing] (n/e) Produto da cana de açúcar 414 confeccionado em forma de pequenos tijolos. Uai, fazia rapadura, fazia açúca. (Entr.11, linha 232). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... rapadura ‗rapadela‘ ‗açúcar mascavo em forma de pequenos tijolos‘ 1844. (CUNHA, 1986, p.663). _____________________________________________________________________ Obs: Na edição de Morais de 1813, o vocábulo já estava registrado. 478. RAPARIGA Nf [Ssing.] ... naquele tempo moça nenhuma bebia... se bebesse era rapariga... (24; 20). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Rapariga. moçasinha. Puella, ae. Fem. Cic. 2. Morais: Rapariga. sf. Moçazinha. 3. Freire: Rapariga. s.f. 2. Mulher que está no período intermédio da infância e da adolescência; mulher moça. // 3. Moça do campo; moça rústica. // 4. O mesmo que donzela. // 5. Pej. O mesmo que amásia ou meretriz. 4. Aurélio: Rapariga. S. f. 1. P. us. No Brasil. Mulher nova; moça. 2. P. us. No Brasil. Adolescente do sexo feminino. 3. Lus. Moça do campo. 4. Bras. N. N.E. MG GO Amante2 (6) ou concubina. 5. Bras. N. N.E. MG GO Meretriz. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Rapariga (A) s. Mulher nova; moça. ... quando foi de noite meu marido foi ( ) comprar um açúcar e uma rapariga veio e ( ) quebrei o resguardo... (Entr. 3, linha 105). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... rapariga ‗mulher moça‘ s.XIII. De etim. controversa. (CUNHA, 1986, p.663). ______________________________________________________________________ Obs: No contexto da entrevista o vocábulo rapariga carrega a acepção de meretriz. Regionalismo (N, NE, MG, GO) conforme o Aurélio acima. 479. RASTEL Nm[Ssing] Rastel né? Terc.: Rastel. Inf.: A gente tava vindo da lagoa e fazia aquele rastel pronto pra puxar os peixe... (39; 253-255). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 415 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Rastel (n/d) s. Espécie de rede para tirar os peixes da água. A gente tava vindo da lagoa e fazia aquele rastel pronto pra puxar os peixe... (Entr. 1, linha239). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... n/e 480. REIS Nm [Ssing.] ... é... aquilo é bonito... aqui canta os Reis... (1; 512). Entr.: O pessoal conta aí que tinha um grupo que ia de casa em casa pra cantar. Inf.: Ah é Reis. (3; 258). Entr.: ... aqui na região também tem um pessoal que vai de casa em casa na época de dezembro ou janeiro... cantar... tem isso ainda? Inf.: Cantar como... reizeiro... Entr.: Rezeiro. Inf.: É Reis. (6; 248). Entr.: Como que é essa contradança? Inf.: Contradança depois que canta o Reis sai cantando as cantiga... (7; 287). É tudo quanto era festa... Reis... eu tocava muito nessas festa. (12; 423). ... _ Ocê num canta não!... ele num aceita Reis... (13; 365). ... _ Não nós num pode parar!... _ Vamo ver!... cantou o Reis... _ Viva o Santo Reis!... viva o dono da casa!... ele agradeceu e num acendeu a luz... foi a única casa que reclamou Reis... (13; 370). ... todas cantada dos Reis que cantou Reis e agradeceu Reis e cantou contradança... (13; 387). Tinha contradança... a hora que terminava o Reis o dono da casa abria a casa e nós fundava dentro pra fazer a contradança... (16; 628). ... agora no dia mesmo do encerramento do Reis tinha tinha tinha o terço. (16; 641). Entr.: O que que ia? Inf.: As galinha que o Reis ganhava né? (16; 646). Negócio de Reis ou não? (17; 300). Entr.: Como é que chamava mesmo? Inf.: Diz que chama Reis. (17; 306). ... outra época era de dia... que tem o Reis mais São Sebastião sempre é de dia né? (18; 425). ... ês cantava o Reis lá nos canto... (19; 379). O Reis... o Reis... esse é tradicional... ês vem pela vinda de Cristo né?... já veio o Reis... (22; 563). ... Montes Claros tem a tradição de Reis... lá ainda tem muita gente naquele ao redor ali que canta Reis. (22; 570). ... era bonito demais o Reis com gaita né?... a gente tocava primeiro o Reis na gaita e depois entrava ês cantando né?... eu já ajudei... já fui rezeiro também... o Reis é uma tradição. (22; 582-584). 416 ... agora aqui em Berizal acabou o Reis... (22; 586). São vinte e cinco versos tirados pela profecia sagrada... mas hoje por exemplo as pessoas vai cantar aí...canta quatro versinho e acabou o Reis... num sabe né?... fala umas oito dez palavra ali do Reis... é o máximo... aí acabou o Reis... (22; 591-592). ... e aí colocava numa tabuleta de papelão e aí saía com ele no Reis... era um Reis mais comprido mais bonito né?... Reis é tradição mesmo. (22; 598-601). Canta o Reis também... é folia de Reis. (23; 236). ... ninguém vê cantar mais o Reis... (27; 368). ... hoje fosse chegar um Reis numa casa ês num aceita... (32; 231). ... se quiser escutar o Reis ês grava ele lá... (32; 232). ... dois tio e tinha dois parceiro Reis que cantava... (34; 200). ... tinha os cantos dos Reis... aqui ainda esta semana tiveram cantando Reis aí... (34; 211). ... ocê fala é Reis né?... os Reis. (36; 193). É... esse mês canta um Reis lá... (37; 303). ... na hora que começa o Reis... é bonito viu?... eu apreceio muito... eu gostei muito do Reis... (37; 321). Tinha... cantando assim do Reis...o presépio nós fazia... (38; 158). ... e aí ês entra na casa da gente: _ Ocês aceita o Reis?... (40; 228). ... foi o Reis... não... foi o boi janeiro que passou aqui. (40; 230). ... agora eu num tenho é as reza... as cantiguinha dos Reis não... (40; 287). ... todo ano tinha festa de Reis né?... tinha os rezeiro que saía no dia primeiro... e saía com o Reis... (42; 153). É... tem alguns... quem canta é os Reis né? (43; 358). Entr.: ... tem um pessoal que vai na casa cantar. Inf.: É Reis. (45; 197). ... agora o dos Reis eu gosto mas eles num vei cantar Reis aqui na minha casa não... (46; 166). Tinha o Reis. Entr.: Ah! Tinha o Reis. Inf.: Tinha o Reis... todo ano tinha um rezeiro que vinha cantar... (48; 278-280). Se num tivesse nada ês... ês... batia o Reis pro lado de fora... (48; 294). ... _ Ó meu senhor... vai aceitar o Reis?... (48; 295). ... o Reis o povo tá querendo contar... contar... cantar mais... (50; 357). Quer que paga imposto... pagar imposto de um Reis gente!... (50; 360). É... pagava o Reis... era tão bonito... (51; 283). ... o povo passava cantando esse Reis... (52; 311). ... meu pai era um rezeiro que o povo gostava muito do Reis dele. (52; 326). ... é mesmo que ocê vê / quais que nem a cantiga do Reis. (52; 394). A cantiga do Reis é como meu pai / que o povo cantava... (52; 397). Entr.: E aqui tinha folia de Reis também? Inf.: Reis? Entr.: É. Inf.: Tinha... tinha folia de Reis. (53; 219-221). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Reis s.m. pl. relig. 1, v. dia de reis. 5. Amaral: Reis, rei s.m. ‗Evem vindo o reis! Exclamou a atalaia‘. Corrut. generalizada, por todo ou quase todo o país, entre a gente inculta. Deve-se provavelmente à influência de ‗réis‘. 417 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: rei s.XIV, Rey XIII, rrex XIV, do lat. rex Regis (CUNHA, 1986, p.672). ______________________________________________________________________ Obs: No dicionário de Laudelino Freire: há a entrada reisada com a definição de espécie de representação ou folgança popular, com que se festejam os Santos Reis. 481. RÉIS Nm [Ssing.] - Eu quero... quinhentos réis! (1; 429). ... e fala com ela que lhe entrega um mi réis pra mim pagar o copo de mel... porque eu comprei foi por quinhentos réis... mas ocê fala com ela que lhe dá um mi réis... (1; 451). ... ocê comprava dois saco de farinha por cinco reais... cinco mil réis... (2; 129). ... ocê ia lá pra Taiobeiras e ocê comprava dez rapadura... por um mi réis... (2; 141). ... era o ganho era aquele... foi indo... com pouco foi um réis... com pouco de um réis foi pra mil e quinhentos... (2; 237). ... naquele tempo chamava era quinhentos réis... (2; 241). ... e eu contei esse tanto de coisa aqui e num sai nem um mi réis... (risos)... (6; 354). ... mi réis passou a cruzeiro... mi réis mi réis cabou... (13; 64). E o feijão foi pra dois mi réis o litro... num tinha num tinha... dois mi réis num tinha feijão pra comprar... (13; 82). ... uns dava um mi réis outros dava dois... (13; 339). ... a primeira vaca que eu matei aqui custou vinte mi réis... Entr.: Vinte mil réis? Inf.: Vinte mi réis uma vaca de doze arroba... vinte mi réis... (18; 528-530). ... ele tornou a cobrar outra vez... lá já foi dois mi réis... (21; 294). ... tudo que ocê pensou na vida pra caçar um mi réis eu corri atrás. (26; 61). ... dinheiro pra ocê ver um... réis era dinheiro. Entr.: Réis? Inf.: É... cê sabe o que é réis? Entr.: É eu já ouvi falar. Inf.: É... réis... assim dez réis é um vintém... dez vintém é um cobre... dez... dois cobre é um tostão... dez tostão é um mil réis. (27; 52-57). ... foi o ano que trocou o mi réis pra cruzeiro... (28; 172). É... vendia uns quinhentos réis... (30; 89). É quinhentos réis... um mi réis... cinco mi réis a carne. (30; 91). ... a gente panhava assim no saco cinquenta réis cem réis vinte réis... (30; 309). ... trabalhar um dia era um mil réis... (34; 114). ... que vendia vinte e cinco mi réis... era conto... (34; 216). ... por noite moço pagamo quatro mi réis... mi réis... (37; 167). ... duzentos e cinquenta mi réis... vendi uma vaca bonita... (42; 135). ... pra guardar umas ma´quina antiga que eu comprei... cento e dez mil réis né? (44/ 88). ... enchia um tanque daquele pra ganhar um mi réis... (45; 336). ... de primeiro era mil réis... ocê ia as vez com vinte mil réis... (46; 181). ... eu fiquei com oito anos de idade trabalhando a quinhentos réis por dia... quinhentos réis por dia pra dar de comer pros irmão mais novo... (48; 123). 418 ... eu ganhava três mi réis por semana... e trabalhava de segunda a sábado pra ganhar três mi réis... eu dava a minha mãe os três mi réis pra fazer a feira... guardava quinhentos réis pra mim... na outra saemana eu guardava um mi réis pra eu comprar uma muda de roupa pra mim... (48; 126-129). ... era luitando com a idade de oito ano... pra ganhar quinhentos réis... (48; 141). ... aqueles fraquinho dava um frango uma dúzia de ovo um mi réis... (48; 281). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Reis. Moeda bayxa de Portugal. He abreviatura de reaes, (como advertio o commentador de Camoes sobre o cant. 3. Oyt. 46.)... 2. Morais: Réis. sm. pl. reaes. A ultima espécie de moeda, e ideial, em que se resolve o dinheiro, e de que usamos no nosso modo de contar: vinte réis. 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Réis. S. m. pl. 1. Pl. de real2 (3). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Réis (A) s. Moeda usual no início do século passado; plural de real. ... de primeiro era mi[l] réis... ocê ia as vez com vinte mi[l] réis ou quinze ou o quanto que for... (Entr.8, linha 176) 2. Ribeiro (2010): Réis (A) Nm [Ssing] Lat. Moeda usual no início do século passado. Se ocê faiz um truque numa pessoa cum deiz mi réis cê toma um prejuízo de 40. (Entr.2, linha 257). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Réis (A) Nm [Spl] Port. Moeda usual no início do século passado; plural de real. Porque de primeiro a gente tinha... era um mil réis... era dez tostões... qué dizê... dez cem réis... (Entr.6, linha 28). 5. Cordeiro (2013): n/e ____________________________________________________________________ Origem: ... Réis. v.rei réis pl. plural. ‗real²‘ XVIII. (CUNHA, 1986, p.672). 482. REIZEIRO / REZEIRO Nm[Ssing.] ... ah era os rezeiro... era rezeiro... que tinha e até hoje tem... os rezeiro faz uma quadrilha assim... faz uma quadrilha de gente viola caixa pandeiro... (1; 500). Entr.: ... aqui na região também tem um pessoal que vai de casa em casa na época de dezembro ou janeiro... cantar... tem isso ainda? Inf.: Cantar como... reizeiro... Entr.: Rezeiro. Inf.: É Reis. (6; 248). Entr.: Tem um pessoal que passa nas casa cantando. Inf.: Cabou isso. Entr.: Acabou... como é que... Inf.: Rezeiro. Entr.: Rezeiro? Inf.: Cabou... num canta mais não.. (10; 154). Entr.: Ah então tinha festa de Reis? Inf.: Tinha... que era reizeiro... seis noite assim andando... (12; 425). Entr.: ... e aquele povo que saía de casa em casa cantando? Inf.: Tinha rezeiro que só ocê ver. Entr.: Rezeiro? Inf.: Rezeiro... rezeiro o povo cantava de casa em casa... (13; 335-337). Entr.: ... tinha umas festas aqui... o pessoal ia cantando nas casas... Inf.: É reizeiro. (18; 412). 419 Entr.: ... tinha uma tradição aí que o pessoal ia de casa em casa pra... cantar. Inf.: Era reizeiro num é? Entr.: Reizeiro? Inf.: Era... isso hoje ainda pinta... (19; 371). ... e os reizeiro ainda tem também mas agora é pouco... (19; 376). E depois que eu moro aqui já vieram rezeiro aqui... (19; 384). ... quando eu conheci já era os rezeiro... (19; 388). Entr.: O pessoal fala de uma tradição que aqui tem... que o povo que vem re / cantar nas casas. Inf.: Ah... rezeiro. (22; 561). ... eu mesmo já fui... eu também já fui rezeiro... (22; 575). ... eu já ajudei... já fui rezeiro também... o Reis é uma tradição. (22; 582-584). ... hoje cabou... tinha o reizeiro também que cantava Reis... (27; 363). Aqui num tem... que hoje num tem mais reizeiro... ninguém vê mais cantar o Reis... (27; 367). Entr.: E tinha aqueles que vinha cantar nas casas também num tinha? Inf.: Tinha... os rezeiro. (31; 348). ... teve bastante dos rezeiro aí... Entr.: É bonito viu. Inf.: É... vê os rezeiro. (31; 370). Tinha!... festa... tinha reizeiro...‟ (32; 214). Cantava os rezeiro... chamava longe e os rezeiro vinha... (32; 226). ... isso aí era divertido... aí parece uns rezeiro mas num é igual de premeiro não... (32; 230). ... agora Deus é tão bom que eu vejo os rezeiro cantar assim pro promessa que ês faz... (38; 159). ... todo ano tinha festa de Reis né?... tinha os rezeiro que saía no dia primeiro... (42; 152). Tinha as folia de Reis... de rezeiro... que cantava... era só seis rezeiro tomem né? (42; 175). Entr.: Aqui tinha folia de Reis? Inf.: Folia?... tem. Entr.: Como que era? Inf.: tinha a de Pedra Azul por lá... os rezeiro vinha de Pedra Azul... (46; 161). Tinha o Reis... todo ano tinha um rezeiro que vinha cantar... (48; 280). ... tinha isso... tinha essa turma de rezeiro. (48; 283). Os rezeiro vinha era de fora e os pessoal era daqui. (48; 285). Os rezeiro vinha de fora buscar dinheiro na mão deles. (48; 287). ... mas que eu acompanhava o rezeiro acompanhava. (52; 316). ... meu pai era um rezeiro... era um rezeiro. (52; 324). ... meu pai era um rezeiro que o povo gostava muito do Reis dele. (52; 326). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Reiseiro s.m. De reis. Lus. Aquele que, com toques ou descantes, festeja o dia dos Santos Reis, e às vezes o Ano-Bom e o Natal. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Rezeiro (n/d) s. Aquele que canta na festa de Reis. Tinha o Reis... todo ano tinha um rezeiro que vinha cantar... saía de casa em casa cantando... (Entr. 10, linha 276). 2. Ribeiro (2010): n/e 420 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: de reis + -eiro. / rezeiro – de rezar + -eiro. _____________________________________________________________________ Obs: Lusitanismo, conforme o dicionário de Laudelino Freire. 483. RELAR [V] Nós pega e rela ela... e põe na vasilha... e põe o remédio... (7; 169). ... uns serve pra comer na comida... relar na comida pra comer... (7; 173). ... a gente relava a mandioca e colocava numa gamela né? (11; 160). ... até hoje nós tem isso aí de ralar milho quando nós resolve relar o milho aí pra fazer mingau e angu... rela no ralo assim o milho verde... e a mandioca relada ali... (12; 267). ... tipo uma mandioca... mas num dava pra relar não... (15; 244). ... quando chegava em casa ia caçar um pé de mandioca... que ela tava dormindo... relar no ralo e fazer o beiju... (38; 170). É relando mandioca... (39; 146). Isso aqui foi um motor de relar mandioca. (45; 393). ... o motor de relar mandioca o senhor sabe que tem aquela velocidade terrível... (45; 395). ... e eles tava relando mandioca e nós observando a roda... (46; 252). ... aí ele veio e mandou outro parar com a roda... de relar mandioca... (46; 255). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Relar v. tr. dir. O mesmo ou melhor que ralar; importunar, apoquentar. 4. Aurélio: Relar [var. de ralar] v.t.d. 1. V. ralar. V. int. 4. V. ralar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ralar ‗passar no ralador‘ 1813. (CUNHA, 1986, p.662) 484. RENCA Nf [Ssing.] ... o guará queria tomar o menino pra comer... passava assim aquela renca de homem e num tinha coragem nem de panhar uma pedra pra jogar... (38; 106). ... ih mas só ocê ver a renca de gente que vai atrás. (45; 227). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Renque. Parece derivado da palavra franceza rang, ou como quer Duarte Nunes do Liaõ, no seu livro da Origem da Língua Portugueza, pág.83, de rench, 421 que (segundo a informação do dito author) nos antigos poetas francezes, particularmente os provençaes, vai o mesmo que tea [ ] , donde dizemos das cousas postas em ordem, ou ala, estarem em renque. 2. Morais: Rénque. sf. Ala, serie, linha, fileira. Castan. L.5. c. 75. E L. 6. C. 25. postos em renque de huma parte e da outra. 3. Freire: Renque. s.m. Ant. alt. alemão Hring. Alinhamento, fileira. // 2. Disposição de cousas ou pessoas na mesma linha. 4. Aurélio: Renque. [Do frâncico *hring, ‗círculo‘, pelo cat. Renc, ‗fila‘.] S. m. e f. 1. Disposição de coisas ou de pessoas na mesma linha; ala, fileira, alinhamento, série: (...) Ao pé de uma das colunas de pedra, que subindo ao teto se dividiam como os ramos de uma palmeira em artesões de castanho, os quais... pareciam sustentar a renque de lampadários gigantes pendentes da escura profundesa daquelas voltas; - ao pé de uma destas colunas, ... três personagens falavam também havia largo tempo (Alexandre Herculano, O Bobo, p.41). [P. us. No fem. Var., pop.: renga.] 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Renca (n/d) s. linha, fileira, alinhamento de pessoas ou coisas. Variante de renque. Vai... ih mas só ocê ver a renca de gente que vai atrás. (entr. 7, linha 223). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... Renque. s.m. e f. ‗ala, fileira, série, alinhamento‘ XVI. Do cat. Renc, deriv. do frâncico *hring. (CUNHA, 1986, p.676). 485. REQUERER [V] ... ele foi e requereu ela / o que que ela queria... (42; 593). ... eu já fui atropelado por um ladrão... eu requeri ele... o que eu fui atropelado por gente do olho grande querendo tomar o que eu tinha... (48; 312). Bandido?... não... já fui atropelado... bandido entrou na minha casa... Deus me ajudou que eu requeri ele... (48; 326). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Requerer alguem ou contra alguém. Accusallo. Requerer contra alguem, que governando levou o alheyo, ou roubou o publico. 2. Morais: Requerer. Pedir em juízo. Requerer alguem de algum crime, acusa-lo em juízo. 3. Freire: Requerer. v.r.v. Lat. requirere. Pedir ao governo ou aos poderes públicos por meio de petição (o que pode ou deve ser concedido) (Dir.; bitr. Com prep. A, de, para): Terminava, pedindo a el-rei não o culpasse por ter vindo a Roma e por continuar requerer o perdão dos cristãos-novos (Herculano). 4. Aurélio: Requerer. [Do lat. vulg. *requaerere.] V. t. d. 1. Pedir, solicitar, por 422 meio de requerimento. 2. Encaminhar (petição) a autoridade ou pessoa em condições de conceder o que se pede. 3. Pedir em juízo; impetrar ação de. V. t. d. e i. 9. Pedir, solicitar, instar, rogar. 10. Pedir por meio de requerimento. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Requerer (A) v. Denunciar alguém por algum crime. ...bandido entrou na minha casa... Deus me ajudou que eu requeri ele... (Entr. 10, linha 321). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Requerer. vb. ‗pedir, solicitar, por meio de requerimento‘ XIV. Do lat. vulg. rěquaerěre (cláss. Requīrěre) (CUNHA, 1986, p.678). 486. REVOLTOSO Nm[Ssing.] Entr.: Dizem que tinha um povo que passava por aqui tomando tudo de todo mundo. Inf.: Chamava revoltoso. (1; 130). É... é ci / o revoltoso é maldade né?... é o revoltoso num é ladrão não... o revoltoso é / chama revoltoso porque era um povo bravo... (1; 536). Entr.: Quem que era esse povo... como que chamava? Inf.: Revoltoso. Entr.: Ah revoltoso. Inf.: É... chamava revoltoso... aí vinha aquela chusma... (2; 480). ... e teve a revolta... os revoltoso né? (3; 187). ... o revoltoso... o revoltoso... evem aquela turma de gente... (8; 314). ... nós tava tudo no mato escondido... quando chegou o revoltoso... todo mundo correndo... (8; 318). _ Me chama cidadão não!... me chama revoltoso... mas não sou cigano... num sou cidadão! (8; 335). Hum?... revoltoso é... diz que ficava uns três meses no mato escondido... que os revoltoso tomasse conta do lugar roubando... fazendo muita coisa. (10; 103). Entr.: O pessoal conta também que teve um... um povo que saiu saqueando aqui... Inf.: Os revoltoso. (11; 203). ... acho que botou uma trincheira lá no lugar e matou um ou dois né?... desses revoltoso né? (11; 217). No tempo do revoltoso... eu tenho uns irmão meu que foi nascido naquela época... (12; 159). Ah naquele tempo do revoltoso é... foi ante d‟eu nascer... (12; 181). ... então ês saiu naquele tempo... saiu os revoltoso é panhando as coisa comendo... e foi o revoltoso... é o tempo da revolta... dos revoltoso né? (12; 184-188). ... quando teve essa revolta eu num lembro não... ês é que conta... quatro revoltoso que passaram aqui e roubava roubava roubava... (13; 226). ... com pouco chegou os revoltoso... chegou o revoltoso... o revoltoso / o povo correu tudo. (13; 253). ... no tempo dos revoltoso... ês contava que corria pro mato né?... (14; 177). Entr.: ... tinha um pessoal que passava por aqui tomando tudo de todo mundo... Inf.: Ah isso aí vai mais tempo ainda... é o revoltoso. (15; 132). ... todo mundo correu e ele num quis correr não... ficou na casa... aí a turma chegou... 423 os revoltoso... (15; 140). Inf.2:... botou ela nas costas e correu pra cabeceira pra cima. Inf.1: Com medo do revoltoso. Inf.2: Com medo do revoltoso... (15; 185). Uns bandido? Entr.: É umas pessoa que... Inf.: Era os revoltoso. Entr.: Revoltoso? Inf.: É... era os revoltoso. Entr.: E o que que esse povo fazia? Inf.: Os revoltoso? (16; 311-317). Eu vi falar que era batendo... chamava revoltoso né? (17; 98). ... quando vinha / evem revoltoso aí... caía todo mundo pro mato... (18; 200). Esses ês tem o nome de revoltoso. (19; 193). ... que ês ainda fala: _ Eu sou do revoltoso!... muitos num falava nada o que foi desses revoltoso... (19; 202). Ês fala dos revoltoso mas isso aí eu num alembro não. (20; 98). ... eu vi falar assim que os revoltoso que passou... (20; 102). Entr.: ... o senhor ouviu falar de um povo que teve aqui na região batendo em todo mundo? Inf.: Revoltoso. (21; 303). ... o povo pegava e escondia lá em cima... pra mode do revoltoso... (21; 315). ... o revoltoso fez uma malvadeza... (21; 319). ... e nesse tempo deu o nome revoltoso... (22; 441). ... aí deu o nome revoltoso né?... foi por isso que teve essa revolta né? (22; 451). ... revolução de trinta... é aquele pessoal lá do Rio Grande do Sul... e saía uma turma atrás... dos revoltoso que chamava. (24; 196). Entr.: Que povo era esse... como que era chamado? Inf.: Revoltoso. (25; 225). ... ês levava telha pra dormir no mato com medo do... desse povo... revol / chamava revoltosos né? (26; 235). ... os revoltoso evinha o povo ficava com medo pegava o dinheiro e enterrava. (27; 322). É... o revoltoso evinha... (27; 330). Teve que esconder porque o revoltoso era uma turma de gente valente... (27; 333). Mas num era deles... é dos revoltoso. Entr.: Então os soldados ficava atrás dos revoltoso. Inf.: É... dos revoltoso... (28; 247-249). Foi é... lembro disso... é... revoltoso. Entr.: Revoltoso? Inf.: É... chamava revoltoso. (30; 286-288). ... ia na manga e pegava um gado e laçava e sangrava... e ia comer... esses tal de revoltoso. (31; 173). Passou... ês teve aqui um longo tempo... chamava revoltoso... (32; 180). ... esse negócio jagunçaria... que é que o senhor sabe até mais do que eu... Lampião... revoltoso... cigano né? (33; 226). Ah revoltoso é desses que / naquele tempo / aqui mesmo muitos anos existia aqui... ês tinha umas casinha aqui... o revoltoso arrumava aí uma peãozada aí e saía fazendo bagunça nas casa de família... Lampião... o revoltoso... (33; 234-236). ... tinha as mulher que tava pra ganhar neném... que ganhava neném no mato... com medo dos revoltoso. (33; 239). ... revoltoso em vinte e nove matou um mucado de gente... (37; 08). ... e aí a revoltosa passava assim... (37; 13). ... assombração é essa aí do revoltoso... (37; 279). ... e fazia um rancho pra lá... que o revoltoso tá lá em tal lugar... (39; 684). ... mode os revoltoso não atacar né? (39; 687). ... uns tal de trem que chamava revoltoso... (40; 442). Teve... o revoltoso eu conheci. Entr.: É? Inf.: É... o revoltoso eu... num cheguei a ver eles não... os revoltoso mesmo num passou aqui não... (42; 463-466). 424 ... pegou os revoltoso andava na frente fazendo bramura... (42; 467). ... então os revoltoso num chegou / passou aqui não... (42; 470). ... agora os revoltoso... eles ia roubando o que tinha nas casa tudo... (42; 484). ... revoltoso encheu... falou: _ Ê diacho!... agora nós num / como é que nós passa nesse rio?... (42; 493). A turma de revoltoso... passou eles tudo na cacunda... (42; 498). ... esse ainda num era o revoltoso não... (42; 511). ... os que anda perseguindo os revoltoso era assim... (42; 513). ... o dia que os revoltoso saía daqui ês tava aqui... (42; 514). ... isso aí eu lhe conto as histórias desses revoltoso... porque nessa época do revoltoso... de 1926... foi a época do revoltoso... meu pai contava caso desses revoltoso... (43; 529-532). ... assim que foi a... assim que foi a trama do revoltoso... (43; 543). ... o povo revoltoso fez coisa! (44; 284). Agora eu só num vi os revoltoso né?... (46; 207). ... tinha um marido de uma prima minha que tinha até uma mula que o revoltoso deu ele. (47; 176). ... tinha os revoltoso que invadia mesmo... tinha os revoltoso... depois dos revoltoso tinha os cigano... o revoltoso vinha destruindo panhando... (48; 223). Isso aí... de revoltoso... eu era molecote. (48; 231). ... teve cigano e teve revoltoso né?... o cigano não... mas o revoltoso... tinha que esconder no mato. (49; 141-142). ... e esses revoltoso evem evem... (50; 219). ... o homem saiu e encontrou o revoltoso... a / o revoltoso lá em pé... (50; 243). ... e ele pensou que era um macho... era uma revoltosa. (50; 246). ... minha mãe contou que quando os revoltoso veio no mundo... (52; 361). ... foi dormir no mato por conta desse revoltoso. (52; 363). ... aí levaram pro mato... e revoltosos / esses revoltosos voltou... (53; 193). ... pôs fogo em tudo aí / os revoltosos... (53; 195). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Revoltoso (n/d) s. Nome que se dá na região de Águas Vermelhas à Coluna Prestes que por lá passou no ano de 1926, causando pavor e morte aos moradores. ... pegava as coisa e escondia o povo tudo lá dentro daquela mata... mode os revoltoso não atacar né. (Entr. 1, linha 649). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: revolta ‗ato ou efeito de revoltar-se‘ ‗rebelião‘, reuolta s.XIII. fem. 425 substantivado de revolto (CUNHA, 1986, p.684). De revolta + -oso. 487. REZADEIRA Nf [Ssing.] Entr.: Aqui dona (nome) já / tem esse pessoal que vai de casa em casa cantando? Inf.: Tem Entr.: E como que chama eles mesmo? Inf.: É as rezadeira... (7; 271). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Rezador Aquelle que reza muyto, ou cujo officio He rezar. 2. Morais: Rezador s.m. O que reza muito. 3. Freire: Rezador adj. e s.m. De rezar + dor. O que reza. 2. Curandeiro. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... rezador s.XVII, de rezar. (CUNHA, 1986, p.684). 488. DE / EM / PRA RIBA Locução Adverbial [Prep. + Subst.] ... ês pegava ele e jogava em riba do cavalo em pelo... (1; 145). ... veio aqui em baixo pra dentro... voltou lá em riba da casa... (1; 381). ... ele deu sinal o carro parou... ele subiu em riba do carro... (1; 413). ... que ela vai lá em riba do cercado e fala com (nome) que ela me perdoa o farso... (1; 448). ... eu adquiri essa cota aqui pro riba da casa aqui... (2; 82). ... era assim pra riba e pra baixo... ia pra Berizal comprar farinha... (2; 122). ...quando foi um dia um pião que morava lá em riba... (2; 441). ... aí quando escureceu o galo bateu asa... subiu pra riba dos pau... (4; 346). ... ele vinha ganhar o dinheiro da gente lá... chegava lá ele picava a mão em riba do olho dele... (6; 167). ... manda panhar o evangelho e trás que eu ponho a mão de riba do evangelho sem medo do inferno. (8; 116). Fazia o que eles interessava... matando gente... botando em riba dos cavalo... (10; 108). ... ele saiu por riba da casa e a mulher saiu... (10; 189). Passou na televisão aí ó... a água passou por riba... (10; 251). E bota as furquilha assim... as quatro furquilha assim e bota a travinha... e bota as varinha assim ó... um jiralzinho... assim em riba. (12; 336). ... já a meninada e a gente dormia assim no chão... em riba de uma esterona. (12; 338). ... aqueles menino era gordo... muitos só vestia uma calcinha quando tava de dez anos pra riba... (12; 342). ... sentava a panela no chão ali e ficava espalhado... o povo fechava em riba catando esses trem... (12; 412). ... hoje tem maconheiro por aí pra riba e pra baixo roubando... (15; 343). 426 ... levava pro povo rematar lá... quando falava: _ Tanto... é tanto.... o outro falava mais pro riba... (16; 658). ... tem outras casa ali em riba que num tem... lumeia era com luz. (17; 119). ... ali pra riba... daquela rua ali do banco pra riba... (21; 07). ... e cortava um galho daquela madeira e sentava em riba... (21; 120). ... fazia um moio pra botar pro riba do arroz... (21; 231). ... ponhava cebola pimenta do reino... ali sameava por riba né? (21; 235). ... e cortava aquelas ponta das foia e levava em riba do fogo... quando esquentava bem quente pegava e jogava em riba da cabeça daquela pessoa... (21; 340-341). ... o suor da garapa subia pra riba... subia pra riba e destilava a pinga... (21; 415). ... elas sentava de coque e panhava o pote e botava em riba da cabeça... (21; 427). ... aí ês enchia aqueles trabesseirão e botava em riba daqueles colchão... (21; 449). ... pra lá pra riba num tinha nada... era carrasco. (25; 13). ... e lá em riba tá maior do que aqui. (25; 46). É... jogava uns forro em riba d‟umas coisa... (27; 430). ... lá ondé que subindo tem o sindicato pra riba... (27; 511). ... hoje é um adoecero que uma gripe vem por riba da outra... (31; 132). ... e a gente montava em riba e ia pra feira... (34; 159). ... e botava o colchão em riba... e dormia... (34; 256). ... outra hora botava um couro no chão e botava um colchão em riba e dormia... (34; 257). ... e me botava lá e armava um lençol por riba... (36; 28). ... aí num sei como que eu fiz... danou com medo de... porque tinha um boi que deitava em riba da ponte sabe? (36; 124). ... o menino tava em riba do carro... e eu evinha... quando eu levei o pé o carro passou pro riba dessa junta aqui... (36; 129). ... tinha hora que ela saía do tear que tecia aquele pano né?... e eu quando ela saía eu pulava em riba do tear... (36; 163). ... outro em riba d‟uma cangalha com a carga... (37; 231). Descanso que faz no chão... courão pro riba assim da cabeça... (37; 262). ... as rodagem tá uma em riba da outra... (37; 290). ... eu pegava o serrotão e serrava o dia inteiro e o moço lá em riba... (38; 192). ... marrava de vara de riba em baixo... (39; 407). ... e ali em riba ele fez uma árvore de natal. (40; 219). ... deixava tudo em riba das fornainha ó... (40; 310). ... agora o capim da lapa ocê pode plantar ele em riba d‟um lajedo... (40; 686). ... por isso que eu tou sofrendo agora... em riba da cama descadeirada... (41; 04). ... eu trabalhei muito foi ali em riba ó... (41; 47). ... em riba d‟umas pinguela de pau né?... (42; 207). ... segurou esse cavalo e esse cavalo... em tempo de tombar e cair e estrepar ele... derrubar ele em riba da... da... (42; 650). ... subiu tudo por riba da prensa... (44; 371). ... e cá pra riba naquela fila tinha uma casa de... tinha a casa de Dió... (45; 16). ... o rio vai voltando lá pra riba. (45; 136). ... tá em riba da cama aí mas ainda tá vivo... (45; 338). ... que eu caí em riba... (45; 359). ... e caí de costa em riba dessa moita de espinho... (45; 362). ... chegou lá eu tava intiriçado em riba da cama sem poder andar... (45; 364). ... é que essa menina tava assombrada ali em riba. (45; 455). ... aí ele deu uma doença e caiu em riba da cama... (45; 466). 427 ... deu essa doença e caiu em riba da cama... (45; 467). ... aí o meu marido adoeceu...foi por riba da cama... (46; 144). ... foi indo ele... ele foi em riba da cama... (46; 148). ... quando ela pensava que não... tava em riba da mesa... (46; 236). ... botava em riba de casa... botava em riba de pau... (46; 239). ... uma deitada pra baixo outra pra riba assim... (46; 270). ... já tem precisado dessa cidade em riba de mim... (48; 101). ... que eu sou um rico em riba da minha honra... (48; 115). ... quando é agora eu mando meus documentos lá pra riba... o SUS... (48; 163). ... agora... se eu tou em riba dos meus dereito... (48; 307). ... botava num pano... e botava em riba daquela dor... (48; 443). ... quando ocê panhar lá em riba... isso vai pra riba? (48; 472). ... levava em riba de ombro de homem... (51; 233). Em riba de animal num podia levar... (51; 238). ... eu sofri uma febre muito perigosa... fiquei em riba da cama... (52; 152). ... tem uma casa lá pra riba que chamava recreio... (52; 253). Registro em dicionários: 1. Bluteau: De riba.. De lugar alto. Cousa de riba. Supernus, a, um. Plin. Algua vezes se diz, Superus, a, um. 2. Morais: De riba. i. e., do alto para baixo, de cima. A riba, a cima; v.g., ir a riba, ir a cima. 3. Freire: Riba. s.f. Lat. ripa. Margem elevada de rio. // 2. Arriba, ribanceira. riba, adv. Em cima. 4. Aurélio: Riba. [Do lat. ripa.] S. f. 1.Margem alta de rio; ribanceira; ribeira, arriba. 2. Pop. A parte mais elevada; cima: Tiravam as colchas de seda de riba dos cestos (Vitorino Nemésio, O Mistério do Paço do Milhafre, p.45) 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Riba (A) adv. Em cima de algum lugar. ... passando arreio nas costa... em riba dumas pinguela de pau né. (Entr. 4, linha 200). 2. Ribeiro (2010): Riba (A) adv. Em cima de algum lugar. No caminho que nóis ia pra escola e o papai taiava, tirava por riba e fazia aquele coro de árve, pingava aquilo ali ó... (Entr. 1; 407). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Em riba (A) [Loc. Adv] Port. (CUNHA, 1986) Em cima, sobre alguma coisa. Tinha que ser muito mio. Tinha quatro cinco roça pra todo canto. Grota cheia de mio. De baixo e em riba. (Entr.3, linha 156). ______________________________________________________________________ Origem: ... Riba. sf. ‗ribeira, margem‘ XIII. Do lat. rīpa –ae. (CUNHA, 1986, p. 684). 489. RIBAR [V] ... e ribou os cavalo lá na frente dele... (15; 161). ... quando ele ribou pegou no meu cabelão... (40; 355). 428 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Ribár v. antiq. V. derribar. Ribar as casas. 3. Freire: Ribar v. intr. Obs. O mesmo que derribar. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... arribar ‗chegar ao porto‘ s.XIII. Do lat. arripare. (CUNHA, 1986, p. 684). ______________________________________________________________________ Obs: Há o registro do verbo em Morais:, mas com outra acepção, divergente de subir. 490. RIBUÇADA [ADJ] ... eu já morei muito em casa de enchimento... ribuçada com paia de coqueiro. Entr.: É... ribuçada? Inf.: É ribuçada com paia de coqueiro... chama até palmeira. Entr.: Casa de enchimento que o senhor fala como é que é? Inf.: É tudo... de madeira... fazia a casinha e armava e ribuçava com paia de coqueiro... (18; 536-540). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Rebuçado. Metaforicamente. Disfarçado, oculto, dissimulado. Vid. Nos seus lugares. (Estes são os sucessos mais importantes, que pude descobrir dos portuguezes, bem rebuçados na enveja de Tito Lucio.Mon.lusit. tom.1.fl.8.col.1. 2. Morais: Rebuçado. p. pass. de rebuçar. Rebuçada com huma fina beatilha. Fig. Encoberto, dissimulado, dito. 3. Freire: Rebuçado. adj. P. p. de rebuçar. Embuçado, oculto, disfarçado, meio encoberto. 4. Aurélio: Rebuçado. [Part. de rebuçar.] S. m. 1. Bala1 (3) à qual se acrescentam essências de frutas ou de plantas, e que geralmente é embrulhada em papel. 2. Fig. Aquilo que se faz ou diz com esmero. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Rebuçado (n/d) s. Maço; molho; feixe. ... riscou fogo no paiol de milho mais embaixo... fizeram aquele rebuçado de capim... (Entr. 4, linha 418). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Rebuçado. v.boca rebuçado XVI (CUNHA, 1986, p.114). 429 _____________________________________________________________________ Obs: sentido de encoberta. 491. RIBUÇAR [V] ... e eu botei a goma e ribucei com as toalha de mesa sabe?... (36; 354). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Rebuçarse Cobrir algua parte do rosto com a capa, lançandoa sobre o rosto. / Dissimular, desfarçar. 2. Morais: n/e 3. Freire: Rebuçar v.r.v. De re + embuçar. Cobrir com capa ou com rebuço. 2. Velar ou cobrir parte da face. 3. Esconder, velar, cobrir ou envolver à maneira de manto ou véu. 4. Aurélio: Rebuçar [de re + (em)buçar] v.t.d. 2. Esconder, ocultar, velar. V. p. 5. Disfarçar-se, dissimular-se. 6. Esconder-se, ocultar-se. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Ribuçar (A) [V] Port. (CUNHA, 1986) Cobrir. ... aqui subia em cima de teiado e travava os muro duma casaincarbá e enripava e ribuçá e tudo. (Entr.5, linha 204). ______________________________________________________________________ Origem: ... rebuçar ‗embuçar‘ s.XVI. (CUNHA, 1986, p. 114). 492. RISCAR NO MUNDO Locução verbal [V + Prep. + Ssing.] ... ele subiu em riba do carro... e riscou no mundo... ele riscou no mundo... (1; 414). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: riscar s.XVI, riscado part. XIV. Provavelmente do lat. resecare ‗cortar 430 separando, remover‘ (CUNHA, 1986, p.686). / mundo ‗o universo‘ s.XIII. do lat. mundus –i (CUNHA, 1986, p.539). ______________________________________________________________________ Obs: No dicionário de Freire acima há a locução riscar estrada com o mesmo sentido de riscar no mundo. 493. RODAGEM Nf [Ssing.] ... essa estrada aqui essa rodagem aqui... mas essa rodagem num era aqui não... era aqui nessa rua que desce ali... abrida de chibanca... (4; 196). ... diz que esse trem andava aqui nessa rodagem... diz que quem andou primeiro nessa rodagem aqui foi ele... mas diz que em toda rodagem... se tinha alguma rodagem... o primeiro que passava na rodagem era ele. (4; 281-284). Mandava vir de São João... que hoje tá bom que tem uma rodagem que nem essa aí... (8; 132). ... pra todo lado que tinha estrada... rodagem... passou... (8; 315). ... tudo em lombo de animal porque num tinha rodagem... (22; 163). ... isso tudo era mato... tinha uma trilha de cavalheiro... num existia rodagem... (26; 16). ... aqui eu passei quando era rodagem... era uma trilha... (26; 100). ... e num tinha rodagem pra Mato Verde não... (28; 32). ... ês fez a rodagem pra Mato Verde de enxadão... (28; 441). ... as rodagem tá uma em riba da outra... (37; 290). ... num tinha rodagem nenhuma... tinha só trinta animal... (37; 293). ... daqui pra Águas Vermelhas num tinha rodagem não. (39; 370). Entr.: Num tinha estrada nenhuma. Inf.: Num tinha rodagem não... (39; 372). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Rodagem (n/d) s. Estrada de carros, rodovia. ... daqui pra Águas Vermelhas num tinha rodagem não. (Entr. 1, linha 346). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... rodagem ‗conjunto de rodas de um maquinismo‘ s.XX. (CUNHA, 1986, p.688). 494. ROMARIA Nf[Ssing.] ... já fui em Bom Jesus quando eu morava na roça... eu fui lá a cavalo duas vezes... meu pai fazia a romaria... (19; 271). 431 Registro em dicionários: 1. Bluteau: Romaria Devota e santa peregrinação, assim chamada, de Roma. 2. Morais: Romaría s.f. Peregrinação devota à terra Santa, ou casa de algum Santo, a Meca. 3. Freire: Romaria s.f. De romeiro. Peregrinação religiosa; jornada de pessoas devotas a um lugar sagrado ou de caráter religioso. 4. Aurélio: Romaria [do top. Roma (Itália), centro de peregrinações cristãs, + - aria] s.f. 1. Peregrinação a algum local religioso. 2. Reunião de devotos que participam de uma festa religiosa. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... romaria ‗peregrinação‘ s.XIII, romeria XIII. (CUNHA, 1986, p.689). 495. ROMPER [V] ... num vou voltar não... rompi pensando que era outra coisa... eu tava com o facão na cintura... (2; 422). _ Pois é... mas hoje eu quero ver... rompeu... diz ele que ia ia ia... de noite... (2; 447). ... aí ele chegou... ele rompeu... tirou o facaozão da cintura e rompeu... quando chegou lá uma rama... (2; 451). ... o carro num pode romper diante dos bois... (4; 262). ... aí o corujão cantou assim... laaauuu... aí ele disputava assim e tornava a romper... (5; 180). ... e ês mandava uma pessoa romper na frente e ês ficava pra trás... (13; 61). Inf.2: Mas aí foi rompendo rompendo... e aí fez a construção... (16; 30). Inf.2: ... num tinha aluz a noite toda não... aí foi rompendo... foi rompendo... aí (nome) fez esse mercado e aí ele num ganhou mais... (16; 75). Isso aqui moço de pri / se romper aqui... com mais / daqui a sessenta noventa dia nós num mora aqui... (16; 170). ... era aquela rua... tomem... ela num rompia muito lá pra baixo não... ali ela rompia poca coisa no rumo do banco véi... (21; 06). ... eu falei: _ Não... ocê pode ir rompendo que eu vou com o cacetinho e Deus me ajuda que eu chego lá.... aí ela rompeu... (45; 383-384). ... eu falei: _ Não... vá rompendo e eu lhe acompanho.... (45; 385). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Romper Romper pelo meyo da gente. Romper pelos inimigos, passar pelo meyo delles. 2. Morais: Romper. Cortar, atravessar, sem descontinuar. 3. Freire: Romper. v. r. v. Lat. rumpere. 9. Entrar violentamente por; abrir caminho através de; penetrar com violência (tr. dir.): E vê-lo estendendo trilhos pelos 432 sertões, através de montanhas, por sobre rios, rompendo selva para levar vida aos desertos (Coelho Neto). // 10. Atravessar, penetrar. 4. Aurélio: Romper. [Do lat. rumpere.] V. t. d. 7. Abrir caminho por; passar pelo interior de; atravessar. 8. Dar princípio a; principiar, iniciar. / V. int. 25. Principiar, começar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Romper (A) v. Andar na frente; sair antes de outra pessoa. ... eu falei: Não... ocê pode ir rompendo que eu vou com o meu cacetinho e Deus me ajuda que eu chego lá... (Entr. 7, linha 377). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... romper ‗destroçar, rasgar‘ s.XIII. Do lat. rumpere. (CUNHA, 1986, p.690). 496. ROSÁRIO Nm [Ssing.] ... aí levou o rosário dentro... levou vela benta... tudo bento... (13; 151). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Rosario Cento e cincoenta contas à honra da Virgem Nossa Senhora, e compõe três terços, cada hum de cincoenta Ave Marias e cinco Padre Nossos em cada terço. 2. Morais: Rosário s.m. Contas, que Marcão os padrenossos, e avemarias que rezamos. Hum rosário são 150 avemarias, e 15 padrenossos. 3. Freire: Rosário s.m. 2. Vulg. O terço. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... rosário, rosairo s.XVI. Do lat. ecles. rosarium. (CUNHA, 1986, p.690). S 497. SAMEAR [V] ... ponhava cebola pimenta do reino... ali sameava por riba né? (21; 235). ... nós ia sameando manaíba e ia plantando mais os camarada. (41; 19). 433 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Samear v. tr. dir. pop. O mesmo que semear. 4. Aurélio: Samear [de semear, com dissimilação] v.t.d.; v.t.d. e i.; v. int. ant. pop. 1. Semear. 5. Amaral: Samear, semear v.t. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... semear ‗plantar‘ ‗disseminar, propagar‘ s.XIII. Do lat. seminare. (CUNHA, 1986, p.713). _____________________________________________________________________ Obs: Vocábulo antigo, de acordo com o Aurélio acima. 498. SANTO REIS NCm [Ssing. + Ssing.] Entr.: A senhora gostava? Inf.: Gostava que era de Deus né?... Santo Reis é de Deus... (10; 160). ... - Não nós num pode parar!... - Vamo ver!... cantou o Reis... - Viva o Santo Reis!... viva o dono da casa!... ele agradeceu e num acendeu a luz... foi a única casa que reclamou Reis... (13; 368). Ês sai nas casa batendo caixa e cantando Reis... isso é no dia que eu nasci... no dia do Santo Reis que eu nasci. (16; 618). Nasci no dia de Santo Reis... o dia que eu nasci o Santo Reis chegou lá em casa. (16; 620). ... um dava uma galinha outro dava... dava uma coisinha pro Santo Reis... (16; 638). Canta... agradece ao Santo Reis. (23; 249). ... mas isso é o final do ano... Santo Reis... cantava Reis nas casa. (33; 288). ... acaba de falar a festinha lá e reza o terço lá pra Santo Reis... (33; 294). ... ês faz uma festa... uma festa de Santo Reis por mês... (37; 300). ... saía a folia de Reis com aquela bandeira... com aquele padroeiro do lugar... ou então do mesmo Santo Reis... (43; 393). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 434 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: santo s.XIII. do lat. sanctus –a –um (CUNHA, 1986, p.704). / Rei s.XIV, rey XIII, rrex XIV. Do lat. rex regis (CUNHA, 1986, p.672). ______________________________________________________________________ Obs: Embora este vocábulo não aparece como entrada no dicionário de Laudelino Freire acima, ele consta na definição de reiseiro. (Cf. a ficha 490). 499. SARIEMA Nf [Ssing.] Como é que chama a colorida?... é... sariema?... ou ema? Entr.: Ah tinha ema também? Inf.: Sariema aqui tinha...e hoje ainda tem... (16; 391-393). A sariema né?... a sariema tinha bastante... hoje... hoje ocê vê uma sariema cantando pode pagar aí o que quiser pra um cantar da sariema que num vê. (27; 181-182). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Sariema s.f. O mesmo que ciriema. (sic) 4. Aurélio: Sariema [do tupi ‗crista em pé‘] s.f. Bras. zool. 1. V. seriema. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... seriema ‗ave gruiforme da fam. dos cariamídeos‘ 1751, siriema 1618. Do tupi sári‟ama. (CUNHA, 1986, p. 717). _____________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 500. SE LASCAR Locução verbal [Pron. + V] ... ali era na base do sofrimento... o cara se lascava... (6; 136). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e 435 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: se s.XIII. do lat. se (CUNHA, 1986, p.709). / lascar s.XVI, de lasca s.XVI. de origem incerta (CUNHA, 1986, p.466). 501. SELEIRO Nm[Ssing.] ... trabalhava porque eu trabalho em profissão de couro né?... eu sou seleiro... (22; 261). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Selleiro Official que faz sellas. 2. Morais: n/e 3. Freire: Seleiro s.m. Fabricante ou vendedor de selas. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: sela ―arreio de cavalgadura, o qual constitui assento sobre que monta o cavaleiro‘ s.XIII, sella XIV. Do lat. sella (CUNHA, 1986, p.712). 502. SICORRER [V] ... aqui tava ruim mas diz que ia ser uma seca muito grande né?... mas o povo aqui sicorria aqueles que chegava né?... (11; 142). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 436 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... socorrer s.XIII, subcorrer XV. Do lat. succurrere. (CUNHA, 1986, p.731). 503. SINHÁ Nf [Ssing.] ... porque as vez aquela / chamava sinhá né?... aquela sinhá já panhava... (1; 192). - Pra mode ocês ver o cheiro do torresmo que sinhá me deu!... (1; 195). ... a sinhá... pegou esses nego... matou... (42; 436). ... aí deu de ir embora... e a sinhá esperou... (42; 442). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Sinhá. s.f. Pop. O mesmo que senhora. 4. Aurélio: Sinhá. [De sinhô.] S. f. Bras. Pop. 1. Tratamento dado pelos escravos a sua senhora; siá: Conheceram (as negras) muito dono: / Embalaram tanto sono / De tanta sinhá gentil! (Gonçalves Crespo, Obras Completas, p.352) 5. Amaral: Sinhara. sinhá, formas enclíticas e pronominais de senhora. V. Sinhor. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Sinhá (A) s. Feminino de sinhô; a dona da fazenda. ... pegaram esses nego moço... a mulher a patroa... a sinhá... (Entr. 4, linha 422). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: sinhá < senhora. _____________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 504. SUCEDER [V] ... aí Joana falou: _ Sucedeu qualquer coisa!... (50; 454). ... o que tá sucedendo aqui já tá pior que São Paulo. (50; 510). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Succeder Acontecer. 2. Morais: Succeder Vir posterior em ordem, em tempo. Acontecer. Seguir-se... 3. Freire: Suceder v.r.v. Lat. succedere. Vir ou acontecer depois; seguir-se. 2. Vir depois ou após outra cousa. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 437 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... suceder ‗dar-se algum fato‘ ‗acontecer, ocorrer‘, subceder XIV, soceder XIV. Do lat. succedere. (CUNHA, 1986, p.740). ______________________________________________________________________ Obs: Vocábulo em desuso. 505. SUJEGAR [V] ... ele ficava de lá e num queria entrar... me sujegou... e eu ficava ali e era aquele calorão... (1; 386). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Sujigar v. tr. dir. pop. Dominar, prender, vencer, subjugar. / Sujugar v. tr. dir. Sujeitar, dominar. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Sojigar, sojigar, subjugar v.t. Formas arcaicas, ainda populares em quase todo o Brasil. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013):n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: subjugar, sujugar XIV, sojugar XIV etc. do lat. subjugare. De jugo (CUNHA, 1986, p.457). ______________________________________________________________________ Obs: Apesar de leve alteração fonética, é um arcaísmo conforme Amaral acima. 506. SUJIGADA [ADJ] ... pegou um prego e pregou o... o beiço da véia no portal da porta... quando chegou a veinha tava... tava lá sujigada... (21; 322). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 438 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: subjugada, de jugo ‗fig. Submissão, opressão, autoridade‘ s.XIV. do lat. jugum (CUNHA, 1986, p.457). 507. SUMITÉRIO Nm[Ssing.] ... e panhou esse milho e levou pra junto desse sumitério e descascou aquele monte de milho... (1; 560). Entr.: É... mas a gente vai pra onde? Inf.: Pro sumitério ali... o sumitério a gente enxerga daqui. (10; 236). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Çumitério, cemitério s.m. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... cemitério, cymiteiro, s.XIII, zemiterio XIII, cemeterio XIV, cimiterio XV etc. Do lat. coemeterium –i, deriv. do grego koemeterium. (CUNHA, 1986, p.170). 508. SURA [ADJ] ... uma galinha sura... ocê via uma galinha sura... via uma izabelê né? (42; 312). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Suro. adj. Derrabado naturalmente, sem cauda: v.g. galinha sura, tem-se por mais amigas dos galos; poedeiras, e criadeiras. 3. Freire: Suro. adj. cast. zuro. Que não tem rabo; derrabado. 4. Aurélio: Suru. [ V. suro.] Adj. 2 g. 1. Bras. Zool. Diz-se de animal sem cauda ou que só tem o coto da cauda; suri, suro, surote, bicó, cotó, sabuco, nambi, pitoco, rabi, rabicó, torado. [Fem.: sura.] 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 439 1. Souza (2008): Sura (A) adj. Que não tem cauda ou que apresenta somente o cotó. É... uma galinha sura...ocê via uma galinha sura... via uma izabelê né. (Entr.4, linha 303) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Sura (A) Nf [Adjsing] (n/e) Que não tem cauda ou que apresenta somente o cotó. Num tem rabo nenhum... não... é igual essas galinha sura... (Entr.1, linha 108). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: do castelhano zuro. 509. SUVERTER [V] ... tá namorando e num tem casamento nem trato e nem nada... já munta numa casa do amor mais ele sozinho... suverte aí no mundo... (2; 374). ... de lá meu avô voltou e ês trevessou o Rio Pardo e suverteu pra lá... (2; 532). ... olhava lá... tava aquele dia... sorvertia pra lá... (6; 188). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Suverter v. intr. Subverter-se, desaparecer. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: Soverter, suverter, subverter v.t. e i. desaparecer como por encanto; sumir de repente; sumir-se. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: subverter ‗orig. voltar de baixo para cima‘ ‗ext. destruir, aniquilar‘ s.XVI, soverter 1568. Do lat. sub-vertere. De verter (CUNHA, 1986, p.818). ______________________________________________________________________ Obs: caso de retenção linguística, conforme Cunha. T 510. TABA Nf[Ssing.] ... pegava aqueles foião tudo e botava na taba... (12; 266). ... ele entrevou... ficou que nem essa taba ó aí... (46; 148). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 440 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... tábua ‗orig. mesa‘ ‗ext. peça plana de madeira‘, taboa s.XIII, tavola XIV, tabla XIV. Do lat. tabula. (CUNHA, 1986, p.749). 511. TABOCA Nf[Ssing.] ... agora ês pregava tábua com / pregava com uma tal vara que chama taboca... (1; 372). ... a hora que terminava o Reis o dono da casa abria a casa e nós fundava dentro pra fazer a contradança... tocando gaita e / tocando gaita de taboca... ocê conhece o que é taboca? (16; 629). Fazia gaita de taboca tirada do mato... moqueava a galha de taboca e fazia... as gaita... (16; 632). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Tabocas (Termo do Brasil) São huas canas bravas, mais grossas que as de Portugal, rodeadas de puas, tão agudas e folidas, que as não desponta qualquer opposição. 2. Morais: n/e 3. Freire: Taboca s.f. Planta da família das gramíneas, espécie de bambu brasileiro (Guadua angustifólia). 4. Aurélio: Taboca¹ [do tupi] s.f. 1. Bras. Bot. Bambu, taquara. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... taboca ‗taquara‘ 1648. Do tupi ta‟uoka. (CUNHA, 1986, p.748). ______________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 441 512. TACA / TACONA Nf[Ssing.] ... e levava uma tacona assim... pá... talacava naquele cavalo e no sujeito tamém que tava em cima... (1; 147). ... quabdo chegava bem longe depois que tivesse ganhado bem taca e tudo... (1; 152). Entr.: Pisa que o senhor fala era... Inf.: Taca...taca... pegava um... pegava o noivo que ia casar amanhã... pegava ele hoje e esclerosava ele na taca que ficava os sinali tudo... (1; 221). ... com quarquer coisinha que eu fazia ele descabelava minhas costa tudo de taca... (32; 47). ... quando ês pegava uma pessoa que via na estrada ês pegava ele pra mostrar as casa tudo... e ainda era tomando taca ainda... (32; 176). ... ês chegava e marrava ele no pau... e metia a taca... metia a taca... (32; 193). ... aí veio um lá... com uma taca cheio de argola sacudindo assim... (50; 197). ... e puxou a taca na cacunda do velho... (50; 198). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Taca. s.f. Correia, o mesmo que manguá. // 2. Fasquia de madeira, em forma de bordão, presa por uma correia ao pulso, empregada para esbordoar os escravos. 4. Aurélio: Taca¹. taca¹ [F. aferética de ataca, poss.] S. f. Bras. 1. Pancada, bordoada. 2. Relho, mangual: O rapazola... estalou a taca. A Faísca amiudou o passo puxando a tropa. (Coelho Neto, Banzo, p.83). / u Meter a taca em. Bras. Fam. 1. Meter o pau em (2). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Taca (A) s. Espécie de bastão cheio de argolas usado para surrar os escravos. ... aí veio um lá... com uma taca cheio de argola sacudindo assim... Porque que esse ( ) num panha?... e puxou a taca na cacunda do velho... (Entr.12, linha 195) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): TACA • (A) Nf[Ssing] • cont. • Espécie de chicote de couro achatado e cabo de madeira. • Cortei esse burro na taca quano chegô perto da moça eu fui e levei a mão pra pegá no braço da moça o pai dela grito num faz isso c‟ela não que ocê me mata ela (Ent. 02, linha 130) 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e. _____________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 513. TADINHO Nm[Ssing.] ... os pobre tadinho passava muito apurado... comia fazia a farinha... (12; 249). 442 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: coitado ‗desgraçado, mísero, infeliz‘ s.XIII, coytado XIII. Part. do ant. coitar (documentado também no s.XIII), deriv. do lat. vulg. *coctare, de *coctus, por coactus, part. de cogere ‗obrigar‘ (CUNHA, 1986, p.194). deriv regress. de coitadinho. 514. TALACAR [V] ... e levava uma tacona assim... pá... talacava naquele cavalo e no sujeito tamém que tava em cima... (1; 148). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: n/e. _____________________________________________________________________ Obs: Conquanto não há o registro do verbo talacar no dicionário de Laudelino Freire:, há o substantivo talaço, sendo definido como pancada ou surra com o chicote ou tala. 515. TÁ NO CU DA COBRA F [V + Prep. + Ssing. + Prep. + Ssing.] ... eu falei: -Pois é a desgraça mesmo!... rapaz entrei pra dentro e falei pra mulher: - Nós tá aqui no cu da cobra... porque a bicha num tem cabeça.... (6; 300). ... se num fosse a barragem nós tava no cu da cobra. (6; 397). Registro em dicionários: 443 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: estar s.XIII. Do lat. stare (CUNHA, 1986, p.328). / cu ‗ânus‘ s.XIV. do lat. culus –i (CUNHA, 1986, p.231). / cobra ‗designação popular dos ofídios em geral‘, coobra XIII, coovra XIII. Do lat. tard. colobra (cláss. coluber colubra) (CUNHA, 1986, p.191). 516. TAPIOCA Nf[Ssing.] Era pra todo canto... pra Bahia todinha... era rapadura... farinha pra Guanambi... rapadura e farinha... goma... é uma tapioca que chama. (24; 215). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Tapióca s.f. Bolo feito de gomma de mandioca, meyo seca, cosido no forno de cozer a farinha. 3. Freire: Tapioca s.f. Fécula da raiz da mandioca. 2. Beiju com uma camada de côco ralado no interior. 4. Aurélio: Tapioca [do tupi ‗sedimento‘ ‗coágulo‘] s.f. 1. Bras. Beiju que tem no interior uma camada de coco ralado. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... tapioca ‗fécula alimentícia da mandioca‘ 1587. Tapioqua 1618 etc. Do tupi tipi‟oka. (CUNHA, 1986, p.755). _____________________________________________________________________ Obs: Indigenismo. 517. TEAR / TIAR / TIAL Nm [Ssing.] Cê sabe como que é a roda né?... tem uma... no Zé tem ela... pode ir lá que tem... ela 444 tem / ela fazia tear / trançava tear / trançava uma caixa... (16; 487). ... ela / fazia tear fazia cobertor né?... uns cobertozão de linha... ela fazia... batia nos tear tudo. (18; 236). ... fazer a linha pra fazer o cobertor... fazer as / antigamente os home vestia as roupa de algodão... pra trabalhar na roça... no tial. Entr.: Ah no tear que fazia né? Inf.: No tear que faz... deve que ocê já viu passar na televisão né? (20; 130). ... a primeira mulher era daqui ó... ela teceu pano muito... de tear. (34; 272). ... tinha hora que ela saía do tear que tecia aquele pano né?... e eu quando ela saía eu pulava em riba do tear... (36; 163). ... e tem o tear de tecer o pano ó... (44; 61). ... fazia isso... no tear foi deus que fez pra ela... eu vi na televisão esses dias um tear né?... (44; 84). ... que acho que tem um tear e tem uma em Itamarati... (44; 86). ... num tinha roupa não... a velha mamãe mandou tecer no tial... tial de mão... (5; 78). ... ficava até meia noite ali fiando aquele algodão... fiava aqueles trem... lá tinha uma tecelona... lá tinha um tial... chamava tial... tecia aquelas roupa... 912; 318). ... de primeiro era... só uns tecia mas acho que o povo meu num fazia não... tial... tial que faz pano. (14; 149). ... minha avó mesmo fiava... cada novelão desse tamanho... diz que era pra fazer cobertor... mandava pro tial pra poder fazer cobertor... (14; 155). ... nós já usamos muitas camisa muitas calça que ela fiava e ela mesma / tinha o tial também que fazia o pano... (19; 337). ... fazer a linha pra fazer o cobertor... fazer as / antigamente os home vestia as roupa de algodão... pra trabalhar na roça... no tial. Entr.: Ah no tear que fazia né? Inf.: No tear que faz... deve que ocê já viu passar na televisão né? Entr.: Isso... isso é. Inf.: Pois é... isso eu vi... tecer linha no tial... (20; 128-133). Ela tinha o tial... tecia pano...coberta... ela fazia no tial de de... (22; 329-330). ... já vinha assim e ocê tornava a passar a linha... ficava toda trançada... chamava era tial. (22; 337). ... tinha roda de... de fiar linha... o tiar de tecer linha... (23; 142). Entr.: As mulheres mexia também com... com... Inf.: Tial... tinha o tial. (30; 325). ... amarrar aquilo tudo e tecer... tinha o tial... era duas madeira... (30; 333). Entr.: ... as mulheres mexia muito com... fazer pano essas coisas? Inf.: Fazia... chamava tiar. (32; 291). Fazia um novelão grande... a minha avó chamava urdir... urdia aquilo... ocê lembra disso... chamava tial né? Entr.: Chamava tial? Inf.: Chama tial... chama tial o negócio de fazer linha né? (39; 90-92). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Tear O engenho, com que se faz o tecelão, as suas teas. 2. Morais: Teár s.m. Maquina, ou engenho que serve de tecer pannos. 3. Freire: Tear s.m. De teia. Aparelho para tecer pano. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Tiare (A) Nf. [Ssing] Lat. Aparelho ou máquina destinadaa produzir tecidos. Pra levar pras tecedera que tinha teare. (Entr. 10, 389). 445 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... tear s.XV, thear XIV. De teia. (CUNHA, 1986, p.760). 518. TENDEPÁ Nm [Ssing.] ... nossa ocê via o que aquele povo faz... atirando e já com o rapaz preso... amarrado... e vai e vai e teve aquele tendepá e o que ês pôde roubar... (8; 323). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Tendepá s.f. Rixa. 2. Vozeria, confusão. 4. Aurélio: Tendepá s.m. Bras. pop. 1. Rixa, briga; contenda. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e. _____________________________________________________________________ Obs: Brasileirismo, conforme o Aurélio acima. 519. TIÇÃO Nm [Ssing.] ... a casa era feita de tição porque a casa é feita assim né com os adrobo... (38; 185). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Tição Pedaço de pao queymado de hua banda. 2. Morais: Tição s.m. Acha de lenha aceza, ou meia queimada. 3. Freire: Tição s.m. Lat. titio; titionem. Pedaço de lenha ou de carvão aceso ou meio queimado. 4. Aurélio: Tição [do lat. tardio titione] s.m. 2. Fig. preto, negro. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ 446 Origem: ... tição ‗pedaço de lenha acesa ou meio queimada‘ ‗fig. Preto, negro‘, tiçom s.XIII. Do lat. titio –onis. (CUNHA, 1986, p.769). 520. TIÇAR [V] ... tiçou lá dentro do buraco e enterrou... (50; 204). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: Atiçar. [Do lat. vulg. *attitiare.] V. t. d. e c. 6. Fig. Pop. Dar; arremeter. 7. Fig. Pop. Atirar, jogar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Tiçar ( (n/d) v. Arremessar, jogar. Variante de atiçar (atiçar > tiçar – caso de aférese). ... daí a pouco tá todo mundo abrindo sepultura... tiçou lá dentro do buraco e enterrou... (Entr. 12, linha 202). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: atiçar ‗espertar, atear o fogo‘ ‗instigar, fomentar‘ s.XV, attiçar XV. De um lat. *attitiare, de titio –onis ‗tição, archote‘ (CUNHA, 1986, p.80). 521. TIMBURÉ Nm [Ssing.] Aqui era corimba... traíra... bagre... piau... lambari... pintado no Corguinho e timburé. Entr.: Timburé? Inf.: Era... aquele peixinho compridinho... (24; 65). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Timboré s.m. O mesmo que aracu, chimboré ou campineiro. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e ______________________________________________________________________ 447 Obs: Amaral: traz o vocábulo chimburé como certo peixe de rio. 522. TIQUINZINHO Nm [Ssing.] ... tudo que tinha na festa botava um tiquinzinho naquela panela... (4; 409). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Tiquinho s.m. Um bocadinho de qualquer coisa. 4. Aurélio: Tiquinho [de tico + -inho] s.m. 1. Pedacinho, pouquinho, poucadinho, bocadinho. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010):n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: tiquinho, tiquin (ho) + -zinho. 523. TOCAIAR [V] ... pegava rapadura pra vender ni Candiúva... e o fiscal tava no pé dele... no tirar daí o fiscal cobrava imposto... se ocê pagava imposto aqui... tinha o tucaiô da / tinha o tucaiadô da estrada... ali na cabeceira do ( )... tocaiava ês... o que livrava num pagava imposto... (21; 43). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Tocaiar ‗v.r.v. De tocaia + ar. Emboscar-se para matar ou para caçar. 2. Estar de espreita. 4. Aurélio: Tocaiar [de tocaia + -ar] v.t.d. 1. Bras. emboscar-se a fim de agredir ou matar (o inimigo ou a caça). 5. Amaral: Tocaiar v.i. fazer tocaia. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Tocaiar (A) [V] Ind. Ficar de espreita afim de atacar ou matar (o inimigo ou a caça). Vigiar animais domésticos para não atacarem o alimento. tucaiá galinha pra não pulá em cima... ih... mas comia tudo... (Entr.7, linha 114) 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ 448 Origem: ... tocaiar s.XX. (CUNHA, 1986, p.773). 524. TOCAR [V] ... ele tocava muita lavoura de arroz... (1; 79). ... pois me criei casei e tocando a lavora até essas época... (1; 268). ... remédio de horta e purgante... tocava azeite nesse povo aí. (13; 299). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Tocar ... tocar os bois; v.g. tocallos com o açoite, vara, aguilhão para que andem, ou se apressem. 3. Freire: Tocar v.r.v. Do germ. Tukkan. Pôr a mão em; pegar, apalpar. 44. Manejar, tratar. 4. Aurélio: Tocar [do lat. vulg. *toccare] v.t.d. 15. Bras. conduzir, tanger o gado. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Tocar (A) [v] Conduzir gado. O L. foi ajudar o T. tocá criação e eu fui a pé e eu acompanhando. 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... tocar ‗pôr a mão em, apalpar‘ ‗ter contato com‘ ‗fazer soar‘ s.XV. De origem onomatopaica, herdada, sem dúvida, do latim vulgar. (CUNHA, 1986, p.773). 525. TOCAR O PAU AFORA F [V+Art.+Ssing.+ADV] ... tem arruda o hortelã o alecrim a erva cideira a folha de laranja e aí... toca o pau afora... toca o pau afora... e se fosse gripe... tem o suco do algodão do andu. (48; 449). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: tocar ‗pôr a mão em, apalpar‘ ‗ter contato com‘ ‗fazer soar‘ s.XV. de origem 449 onomatopaica, herdada, sem dúvida, do latim vulgar (CUNHA, 1986,p.773). / pau s.XIII. do lat. palus –i (CUNHA, 1986, p.587). / afora ‗longe de, para fora de‘ s.XIII; prep.. ‗com excessão de, exceto‘ s.XIII. do lat. afforas (CUNHA, 1986, p.364). 526. TOLIMAR [V] Eu dei uma tontura menina... eu cabei de comer... acho que já tava tarde... o olho ficou assim... se eu tolimasse eu caía. (35; 25). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ...n/e. _____________________________________________________________________ Obs: Em Morais: há o substantivo toleima tolice. 527. TOMAR RUMO Locução verbal [V+Ssing.] ... voltou lá em riba da casa... chegava mão na portinha e tomava rumo... (1; 382). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Tomar rumo loc. verb. Achar emprego ou ocupação. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: tomar s.XIII. De origem incerta. / rumo ‗ (Naut.) cada uma das direções marcadas na rosa-dos-ventos‘ ‗caminho, direção, vereda‘, rrumo XV. Do cast. rumbo, deriv. Do lat. rhombus e, este, do gr. rhombos (CUNHA, 1986, p.694). ______________________________________________________________________ 450 Obs: A acepção do vocábulo encontrado difere daquela apresentada por Freire. 528. TOPAR [V] ... aí vei um homem... vei um homem de lá né?... topou quele... (1; 424). ... cê bota a mão lá... cê topa a cabeça de um prego... (1; 485). ... panhava o que tinha... topava um bicho na estrada aí e matava e comia... (6; 330). ... quando chegou lá em baixo né?... topou um velho... (11; 222). Aqui moço... aqui era um carrero... a onça topava a gente aqui na estrada ó. Entr.: Como é que é? Inf.: A onça topava a gente aqui na estrada. (16; 87-89). ... outra hora cê topa com ele na estrada... ele parecendo / ele anda por aqui tudo... topa ele na estrada... (43; 600). ... meu irmão topou com ele aqui... um jegue... topou mais ele ali na ponte... (50; 277). ... _ Õ pois eu topei um jegue!... (50; 280). ... e teve mais gente que topou mais ele aqui. (50; 292). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Topar. Deriva-se do grego Topazein, que he buscar, & topar, he achar a cousa que andamos buscando, & estendese a qualquer outra cousa, com a qual nos encontramos, aindaque a naõ busquemos. 2. Morais: Topar. v.n. Encontrar com alguem, ou alguma coisa à caso, e imprevistamente, ou de propósito. 3. Freire: Topar. v. r. v. De tope + ar. Encontrar (Tr. dir.): Se eles cá vem, é contar que não deixam nada; diz que metem a saque tudo quanto topam, pois não metem? (Camilo). // 2. Deparar, encontrar (Tr. Ind. Com prep. Com): A curta distância toparam com a cavalgada da rainha (Rebêlo da Silva). 4. Aurélio: Topar. [De top, onom. De um choque brusco, + -ar2.] V. t. d. 1. Encontrar, achar. / V. t. i. 5. Encontrar, achar. 6. Encontrar (-se), deparar. 7. Ir de encontro; encontrar-se, chocar-se. / V. p. 12. Encontrar-se, deparar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Topar (A) v. Encontrar, achar. ... outra hora cê topa com ele na estrada. (Entr. 5, linjha 589). 2. Ribeiro (2010): Topar (A) [v] Onomatop. Deparar, encontrar. De veis em quando eu topo com ela no ki-barato lá. (Entr. 12, 179). 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Topar (A) [V] Onomat. Encontrar, ver, avistar. É só dá a volta nele que a gente topava com ela aí. (Entr.5, linha 342). ______________________________________________________________________ Origem: ... Topar. vb. ‗encontrar- (se) com‘ XIII. De origem onomatopaica. (CUNHA, 1986, p.775). 529. TORAR [V] ... e foi puxar a / abrir a porta devagarzinho assim... e a bicha num tava... e eu falei: - Eu quero torar ela no meio!... (6; 311). 451 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Torar v. tr. dir. de toro + ar. partir em toros. 2. Cortar, fazer em pedaços. 3. Atravessar.‘ 4. Aurélio: Torar¹ [de toro + -ar] v.t.d. 1. Partir em toros. 2. Bras. NE MG Fazer em pedaços; partir, cortar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: toro ‗tronco de árvore abatida, ainda com a casca‘ ‗bot. A parte central, mais grossa, da membrana de um apontuação‘. Do lat. torus –i (CUNHA, 1986, p.777). ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (NE, MG) conforme o Aurélio acima. 530. TORRA Nm [Ssing.] - Ê diabo mas cê tomou torra né? (1; 226). - Ocê tava de juntinho da namorada... ocê tomou torra sujeito! (1; 228). ... tomar torra já é da sua esposa... (1; 234). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Torra ‗s.f. Ato ou efeito de torrar. 5. Censura.‘ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: torra ‗ato ou efeito de torrar‘ 1813. Dev. de torrar (CUNHA, 1986, p.778). 531. TOSTÃO Nm [Ssing.] ... e completou a cidade... e num me pagou um tostão também. (12; 117). Num me pagou não... me peitou o prefeito e tudo... e os vereador... num me pagou um 452 tostão... (12; 121). ... eu já trabalhei cinco dias pr‟um tostão... agora ocê tira a conta pr‟ocê ver... com um tostão... (18; 517). É... réis... assim dez réis é um vintém... dez vintém é um cobre... dez... dois cobre é um tostão... dez tostão é um mil réis. (27; 52-57). Eu cansava de fazer aquele bichinho pra vmim vender... vendia pr‟um tostão... (32; 315). ... eu fabricava... trançava corda laço... pra ganhar o tostão... (33; 159). ... que a gente quando é pobre pra ganhar um tostão arrisca até a vida né?... (33; 269). ... certeza que vem... se ficar devendo um tostão... (50; 269). ... tou precisando de comprar um remédio e num tenho um tostão... e eu num posso ficar sem o remédio mas eu num tenho um tostão... (52; 482). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Tostão. Deriva se do italiano testa, ou do francez teste, que he toda a cabeça. E como em Italia foi chamada testone, & em francez teston, a moeda, em que estava representada a cabeça do principe, que a mandara cunhar, assim em Portugal foi chamada testaõ, & corruptamente tostaõ hua moeda, que el Rey D. Manoel mandou lavrar, da qual porem naõ sabemos de certo que nella estivesse cunhada a cabeça deste príncipe. ... Em Portugal houve tostoens de ouro, & prata. Tostoens, moeda de ouro, lavrou el Rey D. Manoel anno 1517. Tihaõ o preço dos quarto dos portuguezes, segundo parece. 2. Morais: Tostão. sm. Moeda de prata que vale 100 réis. (De teston francez, testom dicerão os antigos). 3. Freire: Tostão. s.m. Ital. testone. Moeda portuguesa de prata, do valor de cem réis. // 2. Moeda brasileira do valor de cem réis. // 3. Quantia de cem réis. 4. Aurélio: Tostão. [Do it. testone, pelo fr. teston, com assimilação.] S. m. 1. Antiga moeda de níquel, de Portugal e do Brasil, que valia cem réis. 2. Bras. V. dinheiro (5). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Tostão (A) s. Designação de moeda em geral; dinheiro. ... deve tá lá embaixo do chão...mas que vem... vem... tenho certeza... certeza que vem... se ficar devendo um tostão... (Entr.12, linha 264) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Tostão (A) Ncm [Ssing] Fr. Moeda antiga equivalente a cem réis. pois é... é mil réis... o que a gente fazia com um tostão era... era cem réis... um tostão... (Entr.6, linha 23). 5. Cordeiro (2013): _____________________________________________________________________ Origem: ... Tostão. sm. ‗antiga moeda portuguesa‘ XVI. Do fr. teston, deriv. do it. Testóne. (CUNHA, 1986, p.778). 532. TRAÇADÁ Nm [Ssing.] 453 O rio aí era sujo... era cheio d‟um mato que a gente enfrentava... traçadá... traçadá... o mato. (40; 150). O Rio Mosquito era... um riozinho estreitinho cheio de traçadá né?... (45; 132). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Traçadá (n/d) s. Planta de folhas compridas e entrelaçadas que cresce normalmente às margens do rio. ... o rio aí era sujo... era cheio dum mato que a gente enfrentava... traçadá... traçadá... (Entr. 2, linha 147). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e 533. TRANSFERIR [V] Meu pai tinha... meu pai transferiu né?... meu pai transferiu três família né?... meu pai transferiu três família... (48; 53). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Transferir (n/d) v. Possuir, adquirir. Meu pai tinha... meu pai transferiu né... meu pai transferiu três famílias né... meu pai transferiu três famílias... (Entr. 10, linha 53). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: transferir ‗deslocar‘ ‗adiar, retardar‘ s.XVI. do lat. *transferere, deduzido de transferre (CUNHA, 1986, p.782). 534. TREM Nm [Ssing.] 454 ... o trem aqui foi sufrido meu amigo... (1; 71). ... as vez ocê tinha bastante coisa mas faltava um trem... (2; 41). ... mais de vinte ano que apareceu esses trem graúdo aqui né?... (03; 19). ... aí agora o povo escondia nos mato... levava os trenzinho que tinha... (04; 167). ... os viado comendo aquele trem. (05; 52). ... aquele trem lá picando pro chão tudo... (06; 27). ... eu vi esses trem lá debaixo que via essas coisa né? (07; 213). Trazia trem pra ela. (08; 137). ... mas o arame e esses trem era muito difícil... (09; 129). ... a gente tá drumindo e o trem tá atentando a gente... (10; 208). ... ganhei os trem foi em setenta e sete... (12; 94). ... cabrito berrava... tinha um trem lá... (13; 148). ... de primeiro o trem era ( ). (15; 273). ... o trem é duro moço... (16; 147). ... aí evinha esse trem zuando lá... (18; 342). ... e o trem vai desenvolvendo e ocê quase num vê assim diferença... (19;87). ... com dois três dias de sol o trem tá seco de novo... (25; 49). ... enchia uma meia de algodão de trem... (26; 32). ... hoje ês tem um trem que eu vou falar. (27; 408). ... vim muitas vez... comprava trem e vendia lá... (28; 52). ... mas agora o trem acabou de vez... o trem tá feio viu. (30; 196). ... tatu passarinho cadorna... esses trem tinha demais. (31; 245). ... era mandioca... era arroze... era esses trem... (35; 114). ... ês falava em tatu... veado e esses trem assim né?... (36; 104). ... e fazia aquele trem pra... fazia o melado fazia a rapadura né?... (39; 20). ... desses trem que eu tou te falando... (40; 120). ... onde é que eu boto um trem... (41; 59). ... chegou e achou ele morto lá... panhou os trem né?... (42;544). ... o trem tudo era devagar né?... (43; 28). ... hoje tá... tá um trem horrível... (45; 115). ... ocê vê quando o rio enche fica um trem bonito... (46; 120). ... o trem aqui era duro... (48; 271). ... aí agora esses trem eu num sei contar... (49; 259). ... pois passou um trem no pescoço dele assim... (50; 212). ... põe um trem do outro e deixa encher de coisa. (53; 39). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Trem. Também ouvi dizer, Trem de cozinha, mas não a pessoa, que se presasse de fallar com propriedade. 2. Morais: Trèm.s.m. A gente, a bagage que acompanha alguém de jornada. 3. Freire: Trem. s.m. Fr. train. 2. O conjunto dos móveis e arranjos de uma casa; mobília. 4. Aurélio: Trem. [Do fr. train.] S.m. 10. Bras. MG C.O. Pop. Qualquer objeto ou coisa; coisa, negócio, treco, troço: ―ensopando o arroz e abusando da pimenta, trem especial, apanhado ali mesmo, na horta.‖ (Humberto Crispim Borges, Cacho de Tucum, p. 186). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 455 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): TREM • (A) • Nm[Ssing] • Fr. • Qualquer objeto ou coisa; negócio, treco, troço. • O marido dela (J...N...) foi mudô pá Pedo Leopoldo inventô de fazê um munho lá...um...um...munho d‟vento era um trem de ar (Ent. 03, linha 67). 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... Trem. sm. Do fr. train. ‗orig. conjunto de objetos‘, XVII. (CUNHA, 1986, p.786). ______________________________________________________________________ Obs: Regionalismo (MG, CO), conforme o Aurélio acima. 535. TREMENDAL Nm [Ssing.] ... na cabeceira dele lá é um tremendal... é um brejo... parece um... é um tremendal... ocê olha assim.... é só pisar e afunda... (23; 433-434). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Tremedal s.m. Terreno ensopado d‘água, lenteiro, brejo; v.g. tremedal de arroz. Como sinônimos; lodaçal, lameiro. 3. Freire: Tremedal ‗s.m. Lat. tremere. Pântano, lameiro, lodaçal.‘ 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: tremedal ‗terreno pantanoso‘ s.XIV, de tremer (CUNHA, 1986, p.786). 536. TROPA Nf [Ssing.] ... tratava uma tropinha só e ia uns dez burro... (1; 326). Isso aí vinha... vinha desse meio aí... num é tropa... (1; 329). ... e pra carregar uma coisa assim... pra... pros campo... tinha que ser na tropa... (2; 120). ... aqui tinha muita tropa de primeiro... hoje cabou... (3; 145). ... eu fiz umas tropinha aí... uns três burro quatro burro cinco burro... (3; 148). Tropa grande eu num vi falar não... (3; 159). Entr.: E quando esse povo vinha de Jequié vinha muito animal? Inf.: Vinha era tropa. Entr.: Tropa? Inf.: Era... era tropa de cinquenta sessenta animal... cem... era essa tropa aí que puxava carne pra lá e trazia fava café e essas coisa... era tropa grande... (5; 23-26). Entr.: Sempre na roça né? Inf.: Roça... tropa. (6; 73). Entr.: Como que era trabalhar com tropa? Inf.: Com tropa... botava a burrada aí e cangaia e buraca... pra ir buscar rapadura feijão arroz... (6; 78). 456 É... uma tropa... botava jegue velho na estrada... (6; 110). ... o peão chegava num pouso... derrubava a tropa... botava num mangueiro... ia cunzinhar panela de feijão... (6; 118). ... tudo quanto era tropa passava tudo na porta da casa de mãe... (8; 172). ... aqui movimentamo era com tropa né?... (11; 22). ... ele vinha com uma tropa sabe?... trazendo um mostruário de mercadoria... (11; 29). Entr.: E era muito burro? Inf.: Era... era uma tropa bonita né? (11; 32). Entr.: E antes dos caminhão era... era os...‟ Inf.: Era as tropa. Entr.: As tropas. Inf.: Antes dos caminhão era as tropa... (11; 55-57). Tropeiro... tinha tropeiro... o povo trabalhava com tropa... olha eu tenho um tio com o nome de ( )... trabalhava com tropa de dois quatro seis oito até dez animal de carga... (13; 14). ... era carregado em lombo de burro. Entr.: Lombo de burro. Inf.: Tropa... tropeiro... tropa tropeiro. (13; 20). ... um viajante que vendia pra nós vinha chegar a mercadoria com animal... com tropa... né tinha um animal solteiro... sem carga... botava uma boneca na cabeça... é o da guia... (15; 34). ... tinha um nome esse animal da frente... e aí a tropa acompanhava né?... (15; 36). ... então nós comprava dele e vinha a tropa trazer... (15; 38). ... ele já cansou de fazer isso... tocar tropa levando rapadura pra Candeúba. (15; 127). De tropa de animali... de primeirão. (17; 68). ... cabou esse negócio de tropa... cabou. (17; 70). Passava... boiada... tropa... (19; 42). ... tinha uma tropazinha que levava o negócio pro ( )... (19; 50). Ah nós dormia tudo na beira de estrada... a gente levava a tropa... (19; 281). ... ia na Bahia com essa tropa de burro... (22; 179). ... pra num vim a tropa batendo sem nada ele trazia o sal... (22; 184). ... essas região tudo levava daqui uma tropa de burro carregada de um alimento e trazia outro né? (22; 188). Entr.: Aui passava tropeiro? Inf.: Era só tropa... só tinha tropa. (24; 136). ... a burrada com a tropa assim... que andava de tropa que num tinha carro de modo nenhum... (27; 396). Tinha... muita tropa... eu mesmo vim de Porteirinha praqui assim com quatro cinco burro... (28; 51). ... e meu pai trabalhava com tropa de vinte burro. (28; 53). ... e saía com a tropa... (28; 76). ... tinha sim senhor... tropeiro... tinha tropa... (29; 79). ... pra vender lá e tudo mais... tropa... hoje em dia tá pouco... (29; 82). Tinha!... tocador de tropa de burro? (32; 105). ... carregava uma tropa de cinco ou seis animal... e fundava aí. (39; 338). É uma tropa... é treze burro. (43; 494). ... aqui já teve muita fartura... tropa e mais tropa entrava na rua da Fé... (50; 25). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Tropa. s.f. Lat. turba. 5. Grande porção de gado ou de bestas de carga, que segue em jornada. 4. Aurélio: Tropa. [Do fr. troupe, 'bando de pessoas ou de animais'.] S.f 6. Bras. 457 Caravana de animais equídeos, especialmente os de carga. 5. Amaral: Tropa. s.f. caravana de bestas de carga, ‗comboio‘; manada de equídeos, quantidade desses animais; fig., corja, cambada (de marotos, de ladrões, de patifes, de estúpedos). Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Tropa (A) s. Caravana de animais, geralmente burros ou bestas, usados para o trabalho de carga. ... aqui já teve muita fartura... tropa e mais tropa entrava ( ) na rua da Fé... panhava um negócio ali e levando pra Bahia. (Entr.12, linha 25) 2. Ribeiro (2010): Tropa • (A) • Nf [Ssing] • Fr. • Caravana de animais, geralmente burros ou bestas, usados para o trabalho de carga. • Ia um tocano os animale, a tropa assim arriada e apiava pa ajudá carregá. (Ent. 4, linha 42) 3. Freitas (2012): TROPA • (A) • Nf[Ssing] • Fr. • Caravana de animais, geralmente burros ou bestas, usados para o trabalho de carga. • Eu fiquei lá bem dizê quas dois mesi muí a cana do cumpá (C...) toda dos vizim tudo lá eu muí tudo com a tropa do cumpá (C...) (Ent. 04, linha 379) 4. Miranda (2013): Tropa (A) Nf [Ssing] Fr. Caravana de animais, geralmente burros ou bestas, usados para o trabalho de carga. Pois é... que antigamente havia é tropa... num havia caminhão... (Entr.2, linha 8). 5. Cordeiro (2013): n/e __________________________________________________________________________ Origem: ... Tropa. sf. ‗conjunto de soldados‘ ‗multidão‘ ‗grande porção de animais‘ XVII. Do fr. troupe, provavelmente deriv. regr. de troupeau, a. fr. tropel ‗rebanho‘ (logo empregado adverbialmente, com o sentido de ‗muito, demasiadamente‘). (CUNHA, 1986, p.793). 537. TROPEIRO Nm [Ssing.] ... e agora levava e vendia pra mode / baratinho pra nós fazer / e tropeiro... (2; 122). Acho que passava tropeiro... só sei que o correio vinha gente com animal pra ir pra São João do Paraíso... tropeiro num tou muito lembrada se passava não... (7; 85). ... quando é um dia ela tava em casa... passou um mucado de tropeiro... (8; 160). ... tropeiro... pois é aqui não... lá da Maravilha que vinha aqui... (10; 78). ... depois que inventou o carro acabou o tropeiro. (10; 81). Compra numas venda né?... arroz... feijão na feira... acabou esse negócio de tropeiro. (10; 84). ... aqui movimentamo era com tropa né?... passava tropeiro ( ) trazendo as coisa né? (11; 22). Tropeiro... tinha tropeiro... o povo trabalhava com tropa... (13; 14). ... era carregado em lombo de burro. Entr.: Lombo de burro. Inf.: Tropa... tropeiro... tropa tropeiro. (13; 20). Teve... tinha tropeiro... ês ia buscar feijão na Bahia. (16; 132). ... quando esses tropeiro daqui quando ia buscar mercadoria lá na Bahia não. (16; 223). ... sentava os filho né?... e os tropeiro podia viajar de pé... (16; 738). ... na roça passava... de vez em quando passava tropeiro... (20; 75). Tinha tropeiro. Entr.: É? Inf.: Tinha muito tropeiro...pegador de rapadura... pegava rapadura pra vender ni Candiúva... (21; 38-40). 458 ... ele era tropeiro aqui também... (22; 180). Tudo era tropeiro... eu um dia vou / isso é muito bom... (26; 155). Era... aqui tinha o tropeiro que havia três tipo... (27; 382). ... e os outros filhos daqui também tinha os tropeiros filho daqui... (28; 75). Foi o (nome) que colocou lá porque era do tropeiro que ia chegando... pra ver quem era o tropeiro... (28; 81-82). ... tinha sim senhor... tropeiro... tinha tropa... (29; 79). Não... existia tropeiro... agora parou... (33; 140). Já andei... e eu já fui até tropeiro. (33; 168). Vinha... ah vinha... vinha bastante tropeiro. (33; 177). É tropeiro tinha... tinha que fazer salseiro era lá... (38; 127). ... era o canoeiro que viaja pro rio... era o tropeiro que é esse... (43; 549). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Tropeiro. s.m. De tropa. 2. Aquele que conduz bestas de carga ou manadas de gado grosso, como cavalos e bois. 4. Aurélio: Tropeiro. [De tropa + -eiro.] S. m. 1. Bras. Condutor de tropa (6); arrieiro, bruaqueiro. 2. Bras. RS Indivíduo que compra e vende tropas de gado, de mulas ou de éguas. 5. Amaral: Tropêro. s.m. – negociante de animais equídeos, que viaja com eles; condutor de tropa de equídeos. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Tropeiro (A) s. Condutor de tropas de carga; arrieiro. ... era esses homem... era o canoeiro que viaja pro rio... era o tropeiro que é esse... o homem que eu tou contando que derrubava os burro... (Entr.5, linha 537) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): TROPÊRO • (A) • Nm[Ssing] • Fr. • Condutor de tropas de carga. • Os tropêro que passava e vinha de longe vino né...era as posada que tinha né ês passava nesses lugá e ranchava (Ent. 08, linha 283) 4. Miranda (2013): Tropeiro (A) Nm [Ssing] Fr. Condutor de tropas de carga. Tropero é que comprava... e ia lá pro Curvelo afora... Diamantina... (Entr.6, linha 393). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Tropeiro. v. tropa tropeiro 1844 (CUNHA, 1986, p.793). 538. TRUCISCO Nm [Ssing.] ... aí peguei arrancar o trucisquinho né?... o trucisco é uma raiz que tem nesses mato aí... (42; 362). ... peguei a usar / a tomar o trucisquinho na cachacinha... (42; 365). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Trochisco. ou trocisco (termo pharmaceutico) Deriva-se do grego Trochiscos, que quer dizer roda pequena, porque daõ ao trochisco a figura de hum 459 bolinho redondo, a modo de Tremoço, e facil de rodar. Sem embargo de que se fazem trochiscos, em forma de triangulo, & outras figuras. He medicamento composto de hum, ou de muitos ingredientes, reduzidos a hum pó muito subtil, incorporados, & amassados com agoa distilada, ou com vinho, ou com vinagre, ou com outro licor. 2. Morais: Trociscos. sm. pl. farm. Massa medicinal feita em rodinhas, ou pastilhas. 3. Freire: Trocisco. s.m. De troço. Ant. Pequeno troço, fragmento.‘ Trocisco, s.m. Lat. trochiscus. Medicamento sólido, composto de substâncias pulverizadas e com forma cônica, piramidal, cúbica etc. 4. Aurélio: Trocisco. [Do gr. trochískos, 'pastilha redonda', pelo lat. trochiscu.] S. m. Farm. Desus. 1. Designação de medicamentos apresentados sob forma de pastilha, de cone etc.; morsolo. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Trucisco (n/d) s. Raiz usada como remédio. ... aí peguei arrancar o trucisquinho né... o trocisco é uma raiz que tem nesses mato aí... (Entr. 4, linha 351). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Trocisco. sm. ‗tipo de preparação farmacêutica‘ 1813. Do fr. trochisque, deriv. do lat. tard. trochiscus e, este, do gr. trochískos. (CUNHA, 1986, p.792). 539. TRUPICAR [V] ... a gente saía era trupicando nesse trem... era trupicando aí ó... (6; 56). ... que aqui mesmo a gente tá tropicando neles aí na rua... (40; 734). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Tropicar. v.n. Tropeçar, e ir cahindo; v.g. este burro tropica, t. vulgar. 3. Freire: Tropicar. v. intr. Tropeçar muitas vezes (falando de bestas). 4. Aurélio: Tropicar. [Do arc. tropigo, 'hidrópico' (v. trôpego), + -ar².] V. int. 1. Tropeçar numerosas vezes: Sem botar reparos ao chão em que pisam, tropicando em raízes, formigueiros, buracos de tatus, cavalos correm, rebatendo fujões. (Nélson de Faria, Tiziu e outras Estórias, p.208) 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Tropicar (A) v. É o mesmo que tropeçar. ... que aqui mesmo a gente tá tropicando neles aí na rua... (Entr.2, linha 688) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): TRUPICAR • (A) • [V] • arc. • Dar topada com o pé. O mesmo que tropeçar. • De noite ia na cuzinha tava trupicano ne menino (Ent. 04, linha 127). 460 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Trupicar (A) [V] Port. (CUNHA, 1986) Tropeçar muitas vezes seguidas. Cê tava nos mei das manga e tava trupicando ni maxixe. (Entr.5, linha 96). ______________________________________________________________________ Origem: ... Tropicar. v. trôpego tropicar vb. ‗tropeçar numerosas vezes‘ 1813. Liga-se, provavelmente ao arc. *tropigo ‗trôpego (CUNHA, 1986, p.794). 540. TUCAIADÔ Nm [Ssing.] ... e o fiscal tava no pé dele... se ocê pagava imposto aqui... tinha o tucaiô da / tinha o tucaiadô da estrada... ali na cabeceira... (21; 42). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Tocaieiro ‗adj. e s.m. Diz-se de um assassino que arma tocaias. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: tocaia ‗orig. pequena casa rústica em que o índio se recolhia sozinho para aguardar a oportunidade de atacar o inimigo ou matar a caça‘ a1667; ‗esconderijo em que se acolhe o caçador para espreitar a caça‘ ‗ext. ação de espreitar o inimigo, emboscada‘ 1872. Do tupi to‟kaia (CUNHA, 1986, p.773). De tocaia + -ador. U 541. UAI [Interjeição] Entr.: E esse povo fazia o que? Inf.: Uai fazia / chegava e invadia o povo... (3; 194). Entr.: O pai deixava namorar? Inf.: O pai? Entr.: É. Inf.: Uai moço quando a gente começou a namorar a gente já tinha de vinte e cinco anos pra dentro... (5; 129). _ Uai mulher cadê o bicho? (6; 314). Entr.: E o senhor já viu falar se já teve... passando tropeiro aí... Inf.: Uai... eu via falar né? (11; 21). Entr.: ... o senhor brincava de que? Inf.: Uai lá na roça a gente... a gente vivia sozinho... quase num brincava não. (11; 63). Entr.: E pra espremer essa mandioca fazia com que? Inf.: Uai espremia na mão... (11; 160). Entr.: E ele contava como que foi? Inf.: Uai quando ês chegava num lugar... (11; 209). Entr.: O namoro como que era?... era muito difícil? Inf.: Uai o namoro era como diz... ficava um sentado de lá e outro de cá... (14; 68). Uai a gente pegava e tirava aquela casca e colocava uma casquinha... (30; 236). 461 Entr.: Tomava ele... sarava mesmo. Inf.: Uai sarava. (30; 240). ... porque essa firma que entrou aí aonde tinha aqueles mato bom... uai ês destiorou né? (33; 109-110). Uai bom fica... mas isso é o final do ano... (33; 288). Uai ele gostava da moça e... falava com os pais... (34; 71). Uai morria era muita gente... (35; 60). Uai... é usura né?... (42; 294). Uai... com razão coitadinho. (50; 209). ... isso eu num falo não... mas deve ser uai... (52; 302). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Uai! interj. Lus. O mesmo que ah! Ou oh! 4. Aurélio: Uai interj.. Bras. prov. Port. 1. Exprime surpresa, espanto ou terror. 5. Amaral: Uai!, uiai! intj. de surpresa ou espanto. Deve ser alteração de olhai. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: português 542. URUPUCA Nf [Ssing.] ... brinquedo era bodocar... fazer urupuca né?... (39; 108). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Urupuca s.f. 2. Armadilha para pássaros, o mesmo que arapuca. 4. Aurélio: 5. Amaral: Arapuca. urupuca, s.f. _ armadilha para apanhar pássaros, feita de pequenos paus arranjados horizontalmente e em forma de pirâmide. // B. Rodrigues registra arapuca e urapuca, do nheengatu. Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Urupuca (A) s. Armadilha feita de pequenos pauzinhos em forma de pirâmide para apnhar pássaros. Cf. arapuca. Ah naquele tempo num tinha o que fazer não... brinquedo era bodocar... fazer urupuca né... (Entr. 1, linha 101). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e 462 ______________________________________________________________________ Origem: alt. de arapuca. Do tupi. V 543. VADIAÇÃO Nf [Ssing.] Nós juntava um mucado de menino e é brincando com vadiaçãozinha de... carrinho... (17; 27). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Vadiação s.f. Vida de vadio. 3. Freire: Vadiação s.f. De vadiar + ção. Ato ou efeito de vadiar. 4. Aurélio: Vadiação [de vadiar + -ção] s.f. 1. Ato ou efeito de vadiar. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010):n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: vadiação 1813, de vadio (CUNHA, 1986, p.808). 544. VADIAR [V] ... a casa cheinha de moça trabalhando lá... tudo fazendo farinha... e nós bem vadiando e ês trabalhando... (8; 311). ... mais pequena que esse menino... já pisava um arrozinho... num vadiava quase não... naquele tempo ela era alfaiata... (10; 26). ... a gente brincava é... fazendo vadiação com... vadiando com boi... fazia boinho de barro... essas coisa... que a gente vadiava... (18; 132). ... que ela foi vadiar com a filha do (nome)... (38; 18). ... meu pai num deixava nós vadiar com boneca não... (41; 17). ... meu pai num deixava nós vadiar com boneca não... (41; 19). ... que eu vadiava né?... era as minhas brincadeira... (43; 16). ... aquele povo vai dançar... vai vadiar e fazer coisa... (43; 386). ... mas quase todo dia tinha uma festinha... pro povo advertir... vadiar e tudo... (50; 299). Cantava Reis... mas dançava... vadiava... (50; 314). Já veio vadiar aqui também... é bom... (50; 354). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Vadiar. v. intr. De vadio + ar. 5. Andar em pagodeiras; brincar, divertir- se. 463 4. Aurélio: Vadiar. [De vadio + -ar2.] V. int. 4. Bras. Andar em pagodes; brincar, divertir-se. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Vadiar (A) v. Brincar; divertir. Não... nós nunca fazia boneca não... meu pai num deixava nós vadiar com boneca não. (Entr. 3, linha 16). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: vadiar 1844, de vadio (CUNHA, 1986, p.808). 545. VALAR [V] É buraco... onde valava as enxurrada né?... (43; 188). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Valar ou vallar. v. tr. dir. Lat. vallare. Fazer valas em. // 2. Cercar de valas. 4. Aurélio: Valar². valar2 [Do lat. vallare.] V. t. d. 1. Fazer valas em. 2. Cercar de valas. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Valar (A) v. Escorrer através de valas. É buraco... onde valava as enxurrada né. (Entr. 5, linha 184). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Valar. v. valo valar¹ vb. ‗fazer valas em‘ XI. Do lat. vallāre. (CUNHA, 1986, p.810). 546. VALENÇA Nf [Ssing.] ... a ciganada hoje teve aqui e foi um aperto danado... a valença que eu tinha um amigo meu aqui... (1; 542). Rapaz esse rio era perigoso... era enchente perigosa... hoje não porque hoje aquela barragem né?... segurou a água... e a valença nossa foi a barragem... (6; 388). ... então com essa barragem que ele fez... que segurou / a nossa valença... Deus primeiramente e (nome) que fez essa barragem pra nós. (50; 124). 464 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Valença s.f. De valer. Ant. Fortaleza, poder. / Valencia s.f. De valer. 2. Valia, auxílio, proteção. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: de valia ‗socorro, ajuda‘ s.XIII. ______________________________________________________________________ Obs: Este vocábulo consta no Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, sendo definido como s.f. [antigo] Fortaleza; poder. 547. VAQUEIRO Nm [Ssing.] Tem!... tem vaqueiro aí... todo mundo que tem gado aí mexe... é vaqueiro... tem muito vaqueiro né?... mas vaqueiro num é todo mundo que serve pra ser vaqueiro não... (1; 311). ... se o vaqueiro achar / achasse lá uma rês comida lá num era pra falar que... que viu aquilo não né? (1; 407). ... eu mesmo a gente ia daqui pra mata ajudando o... o vaqueiro... (19; 42). ... que era muito gado... e tinha umas pessoa que sabia dar um boiado bonito... vaqueiro daqui dava uns boiado que oh chegava a estrondar. (27; 403). ... aqui de primeiro essa / isso aqui foi um vaqueiro que descobriu. (30; 107). ... e esse vaqueiro chegou com muita sede e viu aquela aguinha assim... (30; 112). ... o fazendeiro não exigia aquele vaqueiro que olhava né? (43; 129). ... é o vaqueiro do boi né?... aí o vaqueiro chega... (43; 386). ... ficava um vaqueiro sozinho naquele trecho pra cuidar daqueles boi... (43; 559). ... diz que tem dia marcado do vaqueiro arrear o cavalo e deixar amarrado no moirão lá... (43; 596). ... ele ia lá em casa... e ele era vaqueiro... (49; 60). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Vaqueiro. Pastor de gado grosso, como vacas, boys. 2. Morais: Vaqueiro. sm. Pastor, guardador de gado vacum. 3. Freire: Vaqueiro. s.m. Guarda ou condutor de vacas ou de gado vacum. 4. Aurélio: Vaqueiro. [De vaca + -eiro.] S. m. 1. Guarda ou condutor de vacas, ou de qualquer gado vacum. [Sin. Bras.: campeiro (N.E.), casaca-de-couro (PE) e chapadeiro (MG). 5. Amaral: n/e 465 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Vaqueiro (A) s. Guarda ou condutor de gado. ... ficava um vaqueiro sozinho naquele trecho pra cuidar daqueles boi... (Entr. 5, linha 547). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... Vaqueiro. v. vaca vaqueiro / -eyro XIII (CUNHA, 1986, p.808). 548. VAQUEJEIRO Nm [Ssing.] ... ele tava num vaquejeiro... (30; 109). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012):n/e 4. Miranda (2013):n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: do rad. vaqu- + (ej) + -eiro. 549. VAU Nm [Ssing.] ... e o rio cheio direto... num tinha vau... era outro canto mesmo né?... (42; 210). ... de vau na seca... mas vau que a água dava quase na capa das perna em cima do animal... (42; 249). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Vao. A paragem por onde se possa passar hum rio, ou hua lagoa, sem barco, sem nadar, & sem se enlodar. Vadum, i. Neut. Caesar. 2. Morais: Vao. s.m. . No rio, é o lugar onde elle é mais baixo, e se pode vadear. Passar a vau, vadear. 3. Freire: Vau. s.m. Lat. vadum. Sítio do rio onde a água é pouco funda, de sorte que se pode passar a pé ou a cavalo. 4. Aurélio: Vau¹. vau1 [Do lat. vadu.] S. m. 1. Trecho raso do rio ou do mar, onde se pode transitar a pé ou a cavalo. 2. V. baixio (1). 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 466 1. Souza (2008): Vau (A) s. Trecho raso do rio onde se pode passar a pé. Ah... esse rio quando era ocasião das água mesmo...seis meses... ninguém tinha condição de passar nele... num dava vau em canto nenhum né... (Entr.4, linha 198) 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): Vau (A) Nm [Ssing] Port. Trecho raso de um rio onde se pode passar a pé. os filhos de SArgemiro que morava lá pertinho do vau... pertinho do vau ia pra lá pra ajuda nós sartá as criação lá no rio com aquela dificuldade... (Entr.3, linha 515). 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Vau. sm. ‗baixio, trecho raso de rio, lago etc., que se pode passar a pé‘ / uaao XIII / Do lat. vădum. (CUNHA, 1986, p.812). 550. VENDA Nf [Ssing.] ... que ele gostava muito de uns trambiquinho de vender uma pinguinha... mas num era venda não... (1; 15). ... tinha assim certas coisas... outras coisas tinha...valeu da venda dele porque só tinha uma venda aqui nesse Mirandópolis... (4; 81). ... meu irmão ele mora ali... ele tem uma vendinha... ele tem tudo ali... (5; 300). ... a polícia pegou até um na venda roubando... (7; 148). Pois é... a gente compra aí nas venda... (7; 182). ... minha mãe tinha uma venda... (8; 93). ... deixava ele em casa com minhas irmã e eu... tomava conta da venda... (8; 95). ... tudo bebia água lá... be / comprava até na venda... (8; 173). Compra numas venda né?... arroz... feijão na feira... acabou esse negócio de tropeiro. (10; 84). ... ela morava na rocinha lá e tinha uns butequinho... ele teve um no Tabuleiro Alto... uns moradorzinho que tinha lá... um que teve venda... (14; 41). ... quando eu comecei negociar... que naquele tempo eu botei uma venda... hoje ês fala mercearia... naquele tempo era venda... eu botei a venda... (15; 32). É... de venda... depois... foi indo foi indo... eu botei uma lojinha... (15; 54). ... agora pomeava aquela candeia de azeite e tinha ir pra venda panhar o azeite e botar na candeia... (21; 434). Já passou numa casa lá da rua de baixo que tem um pé de coco da venda? Entr.: Sei. Inf.: O meu conhecimento só tinha o pé de coco da venda. (38; 80-82). ... ocê num tá vendo essa venda aí embaixo... (46; 141). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Venda. Taverna de estrada. Estalagem do campo. 2. Morais: Vènda. S.f. Taverna onde se vende. 3. Freire: Venda. S.f. 3. Loja em que se vende. 4. Aurélio: Venda¹.[Do lat. vendita, part. pass. de vendere, ‗vender‗.] S.f. 1.Ato ou efeito de vender; vendagem, vendição. 2.Pequeno estabelecimento comercial onde se vendem artigos variados. 3.Botequim onde se vendem, sobretudo, bebidas a varejo e pequenos artigos, como velas, pilhas, sal etc. 5. Amaral: n/e 467 Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): Venda • (A) • Nf [Ssing] • (n/e) • Pequeno estabelecimento comercial onde se vendem artigos variados. • PESQ.: Aí aparecia lá em casa. Aí meu pai punha um prato de comida pra ele. Aí ele cumia. Aí ele pedia dinhero pra ir beber. Aí meu pai num dava dinhero pra ele não beber. INF. 1: Mais ele pidia nas venda, né? (Ent. 12, linha 681) 3. Freitas (2012): VENDA • (A) • Nf[Ssing] • (n/e) • Pequeno estabelecimento comercial onde se vendem artigos variados. • O pai dele saíu foi lá pás venda quano foi de noite envinha com um quejo falô assim levanta pro cê cumê um pedacim do quejo (Ent. 09, linha 495) 4. Miranda (2013): Venda (A) Nf [Ssing] Port. Pequeno estabelecimento comercial onde se vendem artigos variados. hoje em dia se a gente quiser comer um queijo tem de ir na venda ou então na rua... (Entr. 2, linha 93). 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... venda ‗ato ou efeito de vender‘ s.XIII. (CUNHA, 1986, p.814). 551. VENDEIRO Nm [Ssing] Comida... comida vinha de fora... pra gente comprar certas coisas né pra sustentar... os vendeiro comprava e a gente tinha que comprar na mão dos vendeiro. (7; 99). ... na mão dos vendeiro que a gente comprava... cê podia comprar sem dinheiro e depois trabalhava e pagava... (7; 110). ... tá me esperando... o vendeiro... é... o vendeiro... (50; 338). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Vendeiro. Taverneiro. O Adágio português diz: Ninguém seria vendeiro, senão fosse o dinheiro. 2. Morais: Vendeiro. sm. Homem que tem venda, ou taverna. 3. Freire: Vendeiro. s.m. De venda + eiro. O mesmo que taberneiro. 4. Aurélio: Vendeiro. [De venda + -eiro.] S. m. 1. Dono de venda1 (2 e 3). [Sin.: taberneiro, taverneiro (bras., N.E.), vendilhão e (p. us.) vendelhão.] 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Vendeiro (A) s. Dono de venda. o vendeiro... é... o vendeiro... o velho que eu costumo comprar na mão dele. (Entr. 12, linha 330). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): Vendero (A) Nm [Ssing] Port. (CUNHA, 1986) Proprietário de uma venda, comerciante, taberneiro. Ir lá pesá e entrega o vendero lá, o comerciante pra vende e ele cobrava... (Entr.12, linha 196). _____________________________________________________________________ Origem: ... Vendeiro. vendeiro 1844 (CUNHA, 1986, p.814). 468 _____________________________________________________________________ Obs: O vocábulo vendedor é encontrada desde o s.XIII. 552. VEREDA Nf [Ssing.] ... tinim tinim tinim... e se esse animal soltasse num lugar num perdia o animal... quando ês ia na vereda... (13; 54). ... diz que foi um veredão do mundo aí... até hoje dela diz que tem... num sei quantos alqueire de mata nessa encosta aí... (19; 159). ... pra baixo da ilha né?... e antão... mas fui criado aí dentro do veredão... (23; 16). ... vem até a vereda... pr‟ocê ver essa vereda vem morrer por exemplo ali naquela beira... (25; 71). Registro em dicionários: 1. Bluteau: Vereda Caminho estreito, aberto no meyo de hum campo. / Qualquer caminho estreito pouco trilhado. 2. Morais: Vereda s.f. Caminho estreito, e não estrada real. Fig. O modo, estilo, o modo de vida, os passos, o methodo, ordem. 3. Freire: Vereda s.f. Lat. veredus. Caminho estreito; atalho, senda. 3. Grupo de matas cercadas de campo. 4. Aurélio: Vereda [do lat *vereda < veredu, ‗cavalo de posta‘] s.f. 1. Caminho estreito, senda. 6. Bras. S da Bahia, v. planície. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... vereda ‗caminho estreito, atalho‘ ‗fig. Rumo, direção‘, s.XV. Do b. lat. vereda. (CUNHA, 1986, p.817). 553. VEZADA Nf [Ssing.] ... quando chegou aquela cavalada tudo de uma vezada e ês perguntou:... (15; 150). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Vezada s.f. De vez. Lus. Cada uma das vezes em que se pratica ou sucede qualquer cousa; vez. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 469 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: vez ‗termo que indica um fato na sua unidade ou na repetição‘ ‗ensejo, ocasião‘ s.XIII. do lat. vicis (CUNHA, 1986, p.820). 554. VICHE / ICHE / OCHE [Interjeição] ... eu via falar que teve...inclusive... mas teve... teve viche... nego da Costa que era vendida... (15; 103). Ichi moço!... escravidão tinha em tudo quanto é lugar moço... (16; 274). Entr.: É forte né? Inf.: É ochi... quando botava em cima da pereba dava pulo... (16; 431). Entr.: Esse pessoal então era muito mal? Inf.: Ô iche... esse povo... esse povo era difícil... (18; 205). Vinha!... tudo armado!... iche... era tudo armado... tudo ni animal... (18; 212). ... mas viche eu era acanhado demais... (21; 468). ... viche aqui deu peixe demais... (22; 213). ... toda vida foi muito cheião... e viche... pegava que jogava o anzol e... (22; 239). Era... viche... num esqueço mesmo... (33; 46). ... viche... tinha vez que ficava uma semana dentro... (36; 88). ... viche... o povo que tinha conhecimento com os carro... (36; 212). Se eu tive... oche!... porque que num tive?... (51; 260). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: alt. de virgem. _____________________________________________________________________ Obs: O vocábulo viche trata-se de corruptela de virgem. 555. VINTÉM Nm [Ssing] É... réis... assim dez réis é um vintém... dez vintém é um cobre... dez... dois cobre é um tostão... dez tostão é um mil réis. (27; 52-57). Registro em dicionários: 470 1. Bluteau: Vintem Moeda de prata, no Reyno de Portugal. 2. Morais: Vintem s.m. Moeda de prata, que vale vinte réis. 3. Freire: Vintém s.m. Lat. vinteno. Moeda de cobre, que vale 20 réis. 2. Dinheiro, pecúlio. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... vintém ‗antiga moeda equivalente a 20 réis‘, vintees pl. s.XVI. Do arc. vinteno. (CUNHA, 1986, p.823). 556. VOZ-DA-LUA NCf [Ssing. + Prep. + Ssig.] Aqui cabou o peixe... aqui cabou o curiango... cabou a voz-da-lua... cabou a Joana-de- barro... (27; 153). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: voz s.XIII. do lat. vox vocis (CUNHA, 1986,p.828). / lua ‗satélite natural da terra‘ s.XIV. do lat. luna –ae (CUNHA, 1986, p.481). 557. VULTADO Nm [Ssing] ... aí virou bicho... e ficou na cidade... e o vultado atentando a família... (43; 590). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 471 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Vultado (n/d) s. Fantasma; vulto. ... ele saiu da cova e... aí virou bicho... e ficou na cidade... e o vultado atentando a família e comendo tudo que tinha nas fazenda... (Entr. 5, linha 579). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: vulto ‗orig. rosto, aspecto, semblante‘ ‗ext. figura indistinta, imagem‘ ‗ext. tamanho, volume, porte‘ s.XIV. do lat. vultus –us (CUNHA, 1986, p.8829). X 558. XAVADO [ADJ] .. era tudo xavado.. isso aqui era tudo xavado. Entr.: Só mato. Inf.: É...só mato.. (2; 83). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: n/e 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e _____________________________________________________________________ Origem: ... n/e Z 559. ZABELÊ / IZABELÊ Nm [Ssing] Os outros bichos que tinha na mata aí tinha era veado era caititu...é jacu zabelê... (5; 209). ... negócio de jacu zabelê vivia tudo nesse rio aqui... (5; 211). Entr.: O que tinha nesses mato aí de bicho...de ave? Inf.: De pena? Jacu...aranquã...zabelê...juriti...papagaio...lambu...cadorna...xorró... priquito... (6; 45). É tem muito bicho... tem muito jacu... izabelê... raposa viado onça... (7; 258). 472 ... caça aqui pra nós toda vida foi pouca né?... antigamente tinha muita era izabelê perdiz... (11; 198). E tinha até jacu... tinha jacu izabelê...-Vamo matar izabelê!... até jacu tinha nesse mato aí. (13; 468). ... tinha um embornal lá dessa altura assim... trazia cheinho de jacu e izabelê... izabelê e a pomba verdadeira... (13; 479). Inf.1: Depois que ês inventou esse negócio aí de Florestal aí cabou. Inf.2: Depois jacu... zabelê... (15; 388). Inf.2: ... ainda tem algum... mas é muito pouco... zabelê lambu... (15; 411). Tinha essa zabelê... tinha jacu... (17; 239). ... jacu... o que ainda tem aqui que de vez em quando tem é perdiz... tem essa izabelê... (18; 589). Ah tem a zabelê tem o jacu tem a cutia... (22; 256). ... a noite trazia um bando dessas caça... era o jacu erta a zabelê era cutia... (22; 264). Era jacu... izabelê... essas coisa... o macuco... vinha tudo aqui na porta... (23; 111). Ó jacu... caititu... zabelê... o porco queixada... (23; 361). ... aqui tem uma variedade de ave... tem demais... tem mocó... tem zabelê... até que as zabelê acabou quase... (26; 91). ... quando eu passava a cavalo tinha aqueles piado de zabelê que era a coisa mais bonita do mundo... uma zabelê piava ali e outra respondia aqui... (26; 93-94). ... tinha muita muita muita caça... muita codorna... perdiz... zabelê... jacu... (26; 98). ... mais ou menos umas cinco seis horas da tarde... zabelê cantando pra todo lado... (26; 102). ... quando ês vê que tá bem pisado vai esperar... e a zabelê também... ês marca no pio... a zabelê vem o macho brigar com outro... (28; 343). É a zabelê... ês chama pelo pio. (28; 356). É existia... bicho de pena... jacu izabelê codorninha nambuzinha... exixtia. (33; 98). ... tinha veado tinha zabelê jacu... mas hoje acabou tudo... (34; 89). ...era lugar da gente matar caça aí ó...caçador matar izabelê...matava jacu... (42; 148). ... quando pensava que não enchia a capanga... era izabelê... era jacu... (42; 308). Izabelê é uma franga... galinha do mato né? (42; 310). ... uma galinha sura... ocê via uma galinha sura... via uma izabelê né? (42; 312). Tinha jacu... tinha izabelê... tinha caititu... (43; 662). ... tem umas izabelê também no mato. (43; 672). Izabelê... é um pássaro tipo uma galinha... (43; 674). ... tinha jacu... tinha izabelê... tinha juriti... tinha a lambu... (43; 701). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Zabelê. s.m. Nambú, de corpo e pés vermelhos e de canto melodioso, conhecido por jaó (Crypturus noctivagus). 4. Aurélio: Zabelê S. 2 g. Bras. BA Zool. 1. V. jaó. [Var.: zambelê.] jaó – [Voc. Onom.] S. m. e f. Bras. 1. Designação comum a várias espécies de aves tinamídeas do gênero Crypturellus, especialmente às duas seguintes: C. undulatus e as suas subespécies, do Brasil central, de coloração escura com listras transversais brancas, largas e estreitas, e a C. noctivagus [esta com o sin. de zabelê ] , do PI ao RS, de coloração mais ou menos semelhante à da primeira, coberturas das asas pretas com 473 faixas amarelas, peito castanho, barriga amarelada, nuca e pescoço posterior avermelhado, e cujo piado nostálgico é emitido ger. Ao escurecer, sob a forma de quatro notas características. Como alimento, é dos mais procurados, e sua caça faz-se com o auxílio de um pio especial, de espera. [Var.: juó; sin.: macucau, macucauá.] 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): Izabelê (n/d) s. Ave de caça, bem colorida, de asas pretas com faixas amarelas, peito castanho, barriga amarelada e a cabeça e a parte de trás do pescoço meio avermelhada; jaó. Variante de zabelê (zabelê > izabelê – caso de prótese). Izabelê... é um pássaro tipo uma galinha... ela num senta em pau não... ela vive no chão. (Entr. 5, linha 661). 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: ... Zabelê. s2g. ‗jaó‘ 1899. De origem obscura, talvez se trate de uma formação onomatopéica . (CUNHA, 1986, p.8835). 560. ZUADA . Nf [Ssing] ... quando foi de noite... eu vi aquela zuada assim... aquele / parece que era uma corrente do mundo todo que vinha de lá pra cá moço... (6; 288). ... aí a mulher foi e falou pra mim: _ Cê viu!... tá vendo que zuada é essa? (6; 296). ... com pouco eu vi uma zuada assim... eu disse: _ Ô mãe escuta pr‟ocê ver. (8; 379). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Zoáda s.f. Soada, som forte. 3. Freire: Zoada s.f. Ato ou efeito de zoar. 2. Zumbido, zunido. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: zoar ‗soar fortemente‘ ‗ter som forte e confuso‘ s.XVI. de origem onomatopaica; talvez seja uma alt. de soar ; zoada 1813. (CUNHA, 1986, p.838). 561. ZUAR [V] ... aí evinha esse trem zuando lá... (18; 342). 474 Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: Zoar v.n. Dar som forte. 3. Freire: Zoar v. intr. Corr. De soar. Soar fortemente; fazer zoada, ter som forte e confuso. 2. Zunir, zumbir. 4. Aurélio: zoar v. int. Ter som forte e confuso. 2. Zumbir. 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: zoar ‗soar fortemente‘ ‗ter som forte e confuso‘ s.XVI. de origem onomatopaica; talvez seja uma alt. de soar (CUNHA, 1986, p.838). 562. ZUERÃO Nm [Ssing] ... aqui era roça... aí chegou o eriscope e aquele zuerão... todo mundo correu com medo... (7; 208). ... tinha gente que escondia até dentro do forno de fazer biscoito... dentro dos forno... cadê a onça... aquele zuerão... (16; 532). Registro em dicionários: 1. Bluteau: n/e 2. Morais: n/e 3. Freire: Zoeira s.f. Lus. O mesmo que zoada. 4. Aurélio: n/e 5. Amaral: n/e Registro no Projeto ―Léxicos Regionais‖: 1. Souza (2008): n/e 2. Ribeiro (2010): n/e 3. Freitas (2012): n/e 4. Miranda (2013): n/e 5. Cordeiro (2013): n/e ______________________________________________________________________ Origem: zoeira 1899, de zoar ‗soar fortemente‘ ‗ter som forte e confuso‘ s.XVI. de origem onomatopaica; talvez seja uma alt. de soar (CUNHA, 1986, p.838). 475 CAPÍTULO 5 – ANÁLISE DOS DADOS Após a apresentação e descrição dos dados coletados nos nove municípios banhados pela Bacia do Rio Pardo, no Norte de Minas, seguir-se-á a análise quantitativa e qualitativa das informações obtidas por meio das fichas lexicográficas. Com o intuito de facilitar e sistematizar a leitura dos dados, eles serão apresentados em forma de gráficos e tabelas. Antes ainda de se iniciar as análises, salientamos que os termos vocábulo, lexia e palavra serão tomados nesse estudo como sinônimos, embora reconheçamos as especificidades que cada um desses termos carrega nos estudos lexicais. Diante disso, não serão apresentadas a seguir distinções entre palavra, vocábulo e lexias simples, complexas ou lexias compostas. Outra observação pertinente: os dicionários utilizados nas fichas lexicográficas e citados na seção 3.3.1 serão indicados, nas análises a seguir, pelo nome de seus respectivos autores. 5.1 Lexias dicionarizadas e não dicionarizadas Uma vez realizada a análise das 562 lexias a partir dos dicionários que constam da ficha lexicográfica, constata-se que um número considerável delas, 172 unidades ou 30,7%, não estavam dicionarizadas em quaisquer das seis obras lexicográficas. Ressalta-se aqui que pequenas alterações formais, tais como duplicação de consoantes, utilização de formas antigas como çam e çom e outras que não alteram por demais a grafia do vocábulo não foram levadas em conta como sendo divergentes. Diferentemente, casos em que há processos metafônicos, seja por adição ou subtração, foram considerados distintos e, portanto, tratados como não dicionarizados. Da mesma forma, lexias dicionarizadas com a mesma grafia, mas apresentando acepção diferente daquela pesquisada, foram lançadas como não dicionarizadas. Em alguns casos foram inseridas na ficha lexicográfica algumas lexias dicionarizadas com acepção diferente com o objetivo apenas de se descobrir o étimo e a datação da palavra. A seguir listamos as lexias não dicionarizadas: acismada, adbençoar, adoar, aducar, advertir, afundar, água-inglesa, aladim, alforridão, amarrar-vaqueiro, animal-solteiro, anté, aparrambado, araconga, arriado de cangaia, arresistir, badocar, azabumba, barra-vaqueiro, bestalhada, bicho da carneira, bicho da Fortaleza, bicho de Pedra Azul, bizungar, bodocar, 476 boi-janeiro, botar sentido, bramura, bravar, caboclo-preto, cacau, cachimbar, caindo pra idade, calundum, cama de vara, campa, campesta, cantador de Reis, capim da lapa, cascar no cerrado, cascar fora, catita, chanteiro, chelepada, chilepar, chimanco, chimbar, chumbalhada, com coisa, comer boca, com pouco, comunismo, correr viado, criosene, culiar, cuma, cunzinhar, da moda, de bituca, decumentar, deferençar, de grande, de jeito, demundança, de nada, de pouco, descambo, descauso, de sempre, destiorado, desvagado, dormidor, drumir, empapuar, encacimbar, encarcar, enfuazado, enfusado, engramar, enguentada, esprital, espuletado, estoporo, estripuleiro, favaca, fazer a banca, feijão- catador, festa de Reis, fiinho de imbigo, findilizar, focinho-de-boi, fofar a madeira, folia de Reis, forra, frever, galinha-de-bendegó, gangorro, gengiroba, grão-de-burro, ingrujir, ingrujido, insigência, intertenente, intradição, intrás, jabu, jardim-de-deus, lubrinar, mafabeto, maia, mãinha, mais pouco, mandruscada, Maria Tereza, memo, miúcho, mucado, mudernagem, mulambo, muntar o pau, nem vê, ni, o pau moía, o trem num prestou não, paiosca, pano de bunda, parabel, para-terra, pé-de-árvore, pé-de-pau, pedir um arrogo, pestiar, picar a mão, picumã, pirotar, pocar no mundo, prato, precata, premessa, puxada, quebra, quebrar, quebrar panela, quina-de-papagaio, quina-de-vara, quina-de-veado, ramo fraco, rastel, revoltoso, riscar no mundo, rodagem, Santo Reis, se lascar, sicorrer, sujigada, taba, tadinho, talacar, tá no cú da cobra, tiçar, tocar o pau afora, tolimar, traçadal, transferir, tucaiadô, vaquejeiro, viche, voz-da-lua, vultado, xavado. A porcentagem das lexias dicionarizadas e não dicionarizadas é visualizada no gráfico 1. GRÁFICO 1 – Percentual de lexias dicionarizadas e não-dicionarizadas Fonte: Dados da Pesquisa. 477 5.2 Número de lexias presentes em cada dicionário Conforme se constata a partir do gráfico 1, a maior parte dos vocábulos está registrada nas obras lexicográficas que constam da ficha. Enquanto algumas lexias são registradas em várias obras, outras foram encontradas em apenas uma dessas, talvez por se tratar de um regionalismo, o que ressalta ainda mais o valor das obras tomadas como suporte de pesquisa. Constata-se que o dicionário que contemplou o maior número das lexias presentes no corpus foi o de Laudelino Freire, com 323 vocábulos, o que representa 83% dos vocábulos dicionarizados. Esse grande número de lexias dicionarizadas nesta obra pode ser explicado, de certa forma, por ser essa uma obra que abarca um grande número de regionalismos presentes na primeira metade do século passado em sua nomenclatura. O Aurélio posiciona-se em segundo lugar, com 290 vocábulos encontrados, número que representa 74% das lexias dicionarizadas. O dicionário de Morais segue em terceiro lugar, com 154 lexias dicionarizadas, representando 39% daquelas lexicalizadas. Em quarta posição segue o dicionário de Bluteau, somando 119 lexias, representando 30,5% daquelas dicionarizadas. Em relação a esses dois últimos dicionários, era já esperado que o Morais contemplasse em sua nomenclatura um maior número de vocábulos, haja vista este ser um dicionário que tinha como proposta abarcar todo o repertório dicionarizado até então e incluir em sua obra grande parte do vocabulário acrescido nos quase 100 anos entre a publicação de um e outro. Por último, citamos o dicionário de Amaral, em que foi registrado 92 vocábulos, o que representa 23,5% daqueles dicionarizados. O gráfico 2 apresenta, em números absolutos, quantas lexias, dentre as 390 dicionarizadas, são registradas em cada dicionário. 478 GRÁFICO 2 – Número de vocábulos em cada dicionário Fonte: Dados da Pesquisa. 5.3 Classificação gramatical Em relação à classificação gramatical, a análise das fichas lexicográficas revela que o maior número das lexias selecionadas relaciona-se à categoria dos nomes com um número absoluto de 335 vocábulos, ou seja, 59,6% do total do corpus. A segunda classe de palavras que apresenta o maior número de lexias são os verbos com 114 vocábulos, o que equivale a 20,3% do corpus. Em seguida aparecem os adjetivos com 37 vocábulos, contribuindo com 6,6% das lexias escolhidas e os advérbios com 13 unidades lexicais, o que equivale, em números percentuais, a 2,3% do corpus. Em menor número aparecem as preposições, interjeições e pronomes com 4 (0,7%), 3 (0,5%) e 2 (0,4%) unidades lexicais, respectivamente. A classe gramatical relativa às conjunções apresenta um único vocábulo. 479 GRÁFICO 3 – Distribuição por função gramatical Fonte: Dados da Pesquisa. Além das lexias simples verifica-se que as locuções também se mostram recorrentes no corpus selecionado para análise. Foram contabilizadas 48 ocorrências, o que equivale a 8,5% do total. Desse total de locuções, a maior parte é representada pelas locuções verbais, com 24 unidades léxicas, aqui arroladas: botar sentido, caindo pra idade, cair no mundo, cantar Reis, cascar no cerrado, cascar fora, comer boca, correr viado, dar no couro, dar o fora, dar por fé, dizer missa, entender por gente, fazer a banca, fofar a madeira, muntar o pau, pedir um arrogo, picar a mão, pintar e bordar, pocar no mundo, quebrar panela, riscar no mundo, se lascar, tomar rumo. As locuções adverbiais, relacionadas a seguir, contribuíram com 19 unidades léxicas: com pouco, de bituca, de certo, de grande, de jeito, de junto, de nada, de pouco, de primeiro, de sempre, em ante, em roda, mais pouco, na moita, nem vê, pelo meno, por acauso, pra daná, pra riba. Em menor número estão as locuções substantivas, com três unidades léxicas, quais sejam, da moda, de comer e come e bebe, seguida pelas locuções conjuntivas, representadas por com coisa e que nem. Somando-se às lexias simples e às locuções, há também a presença de unidades lexicais mais extensas no corpus selecionado, representadas pelas expressões que, ao lado das locuções, sintagmas e construções gramaticais, constituem as unidades fraseológicas, ou seja, conjuntos lexicais consagrados pelo uso em uma comunidade linguística. São 5 as expressões 480 ou fraseologismos além das locuções encontradas: de lascar o cano, o trem num prestou não, o pau moía, tá no cu da cobra, tocar o pau afora. 5.4 Origem Há, como era de se esperar, predominância de vocábulos cuja origem é latina ou portuguesa – 337 vocábulos, representados por: abarracado, abastar, abrido, acá, acismada, adbençoar, adivinhança, adoar, adonde, aducar, advertir, afundar, agregado, agreste, água- inglesa, alembrar, alevantar, altura, alumiar, alvo, amarrar-vaqueiro, amontar, analfabético, animal-solteiro, antão, antigório, antonce, antonte, aprumar, apurar, aranhar, arco-da- velha, arreado de cangaia, arresistir, arribar, assombramento, assuceder, assuntar, atropelar, aturar, avexado, avultado, bagaceira, barra-vaqueiro, barrer, barroca, batistério, berrante, bestagem, bestalhada, bestar, bicho da carneira, bicho da Fortaleza, bicho de Pedra Azul, bizungar, boiadeiro, boiado, boiar, boi-janeiro, boqueirão, brabo, bucho, cabra, cacetinho, cadê, cagaiteira, caindo pra idade, cair no mundo, cama de vara, campa, campesta, cancela, candeia, candieiro, canga, cangalha, cangar, cantador de Reis, cantar Reis, capado, cargueiro, carne de sol, carneiro, carpiar, carreira, carreiro, carro de boi, cascar no cerrado, cascar fora, causo, ceveiro, chanha, chumbado, chumbalhada, chumbar, cobre, com coisa, come e bebe, comer boca, cometa, com pouco, conto, coresma, córgo, correr viado, cuma, cumê, cunzinhar, curisco, daí, da moda, danado, danar, danura, dar no couro, dar o fora, dar por fé, de certo, de comer, deferença, deferençar, deferente, de grande, de jeito, de junto, de lascar o cano, demudar, demundança, de nada, de pouco, de primeiro, dereito, derradeiro, desapear, desbandar, descabelar, descadeirado, descambo, descambar, descauso, de sempre, desgramado, despensa, despois, desvagado, devera, diacho, dizer missa, dormidor, drumir, em ante, embornal, embuçado, empapuar, em roda, encaramuçada, encarcar, enfornado, enfornar, engeado, engraçar, engramar, enrabar, entender por gente, entonce, esmagrecer, esprital, espritar, esprito, estambo, estripuleiro, fava, fazer a banca, feijão catador, festa de Reis, fiinho de imbigo, finado, findilizar, fixa, focinho de boi, fofar a madeira, forró, fraco, freguesia, frever, fruita, fugar, fulo, fundar, gamela, gentio, gerais, grão-de-burro, grão-de-galo, guieiro, guisado, ilumiar, imbigo, insigência, inté, intiriçado, intradição, intrás, isturdia, junca, labutar, lapa, légua, luita, luitar, lumiar, macetar, madrinheiro, mafabeto, mãinha, mais, mais pouco, malinar, malino, mantimento, Maria Tereza, mata-burro, meada, meirinho, melado, memo, minador, miúcho, mode/modo, 481 montoeiro, mota, mucado, mudernagem, muntar o pau, namoriscada, nem vê, ni, novata, ofender, ofício, o pau moía, o trem num prestou não, paiosca, para-terra, parelha de boi, parentagem, pau, pé-de-árvore, pé-de-pau, pedir um arrogo, pelo meno, pessuir, pestiar, piar, picada, picar a mão, pintar e bordar, pisa, pitimbado, ponhar, por acauso, pra danar, precisão, precurar, preguntar, premero, premessa, puxada, quartão, quebra, quebrante, quebradura, quebrar, quebrar panela, quedar, quedê, que nem, questã, rabeira, raizeiro, ralar, ramo fraco, rapadura, rapariga, Reis, réis, relar, requerer, revoltoso, rezadeira, rezeiro, (em) riba, ribar, ribuçada, ribuçar, riscar no mundo, rodagem, romaria, romper, rosário, samear, Santo Reis, seleiro, sicorrer, suceder, sujegar, sujigada, sumitério, suverter, taba, tadinho, tá no cu da cobra, tear, tição, tiçar, tiquinzinho, tocaiar, tocar, tocar o pau afora, topar, torar, torra, transferir, tremendal, trupicar, uai, vadiação, vadiar, valar, vaqueiro, vaquejeiro, vau, venda, vendeiro, vereda, vezada, viche, vintém, voz-da-lua, vultado, zoada, zuar, zuerão. Em segundo lugar, em ordem de ocorrências, apresentamos os vocábulos de origem europeia (excetuando-se aí as portuguesas já apresentadas), um total de 56, 10% do total analisado. Destacam-se nessa categoria lexias de origens francesa/provençal e espanhola/castelhano com 28 e 18 unidades léxicas, respectivamente. Em menor número aparecem as origens italiana, inglesa e alemã/gótica:  Francês/ Prov.: arranchar, bacamarte, botar, bravar, breu, carabina, clavinote, comunismo, criosene, decumentar, decumento, desmantelar, desmantelo, destiorada, gavar, intendência, legalista, litro, maia, matutagem, patacão, pilão, plataforma, prato, quermessa, trem, tropa, trucisco.  Cast/Esp – arrieiro, boneca, bonina, bruaca, camarada, canho, chincherro, garapa, garrancho, invernada, jagunço, lamparina, manga, perrengue, rancheira, rancho, renca, sura.  Italiano: coronel, espuletado, gurita, tostão.  Inglês: contradança, harmônica, jegue.  Alemão/Gótico: especar, espiar, galardão. Assim como em todo o território brasileiro, a influência da língua dos indígenas se fez presente também na região estudada. Não fazendo distinção entre troncos, contabilizamos 38 unidades léxicas, representando 6,8% das lexias, a saber: araconga, aranquã, arapuca, beiju, brocotó, caboclo, caititu, canjerana, capoeira, carapina, catinga, catuá, coivara, curica, jacu, jequi, jirau, juá-meirinho, lambu, macuco, manaíba/manaíva, mandacaru, 482 mangaba, maniva, mocó, moquear, mucunã, nambu, pequi, pereba, picumã, pindoba, pocar, priá, sariema, taboca, tapioca, urupuca. Em número menor, contabilizamos 15 vocábulos africanos, representando 2,7% do total das lexias encontradas, representadas por: andu, azabumba, cachimbar, cacimba, cacunda, calundum, capanga, capanga, curiango, encacimbar, manjolo, maxixe, mulambo, muringuinha, murundum. De origem árabe, somam 14 unidades, ou 2,5% de ocorrências: adobo, aladim, alambique, alforriado, algibeira, anté, badoque, badocar, bodoque, bodocar, cuscuz, favaca, forra, precata. De origem asiática há o malaio cacatua e, do malabar tamul, língua do sudoeste da índia, o vocábulo catre. Além da contribuição indígena brasileira já citada, do continente americano destacam-se o vocábulo quina, cuja origem é quíchua, língua indígena do Peru e o vocábulo cacau, do nauatle, língua da América Central. De etimologia incerta e não encontradas contabilizamos 53 vocábulos, representando 9,4% do corpus, a saber: aleivosia, aparrambado, banda, beiço, birro, brenha, cabaça,catita, chanteiro, chelepada, chilepar, chimanco, chimbar, choça,corana, culiar, curtume, enfezar, enfuazado, enguentada, escanchar, esparramo, estoporo, estuçar, fifó,gangorro, gengiroba, ingrujir, ingrujido, intertenente, jabu, jacuba, lubrinar, malacacheta, mandruscada, marambaia,melete, nica, pamonha, parabel, parambeira, pipiri,pirosca, pirotar, piti, rapariga, rastel, taca, tendepá, timboré, traçadal, xavado, zabelê. Salvo os vocábulos elencados, constatam-se outros caracterizados por estruturas morfológicas formadas a partir da junção de morfemas derivacionais a bases mórficas de línguas de origens diversas, ou pela composição de duas bases distintas. É o caso dos hibridismos, os quais serão relacionados a seguir, divididos pela origem de cada uma das suas partes constitutivas:  Português-indígena: caboclo-preto; capim da lapa; capim santo; juá-meirinho; lote de burro; moquear; pau-de-arara; piquizeiro; pocar no mundo; tucaiadô;  Português-africano: cachimbar; catingueiro; encacimbar; pano de bunda;  Português-indo-europeu: badocar; bodocar; botar sentido; bramura; calabrear; clavinote; embonecar; enfusado; enfusar; especar; espuletado; folia de Reis; jardim- de-deus; quina-braba; quina-branca; quina-de-vara; quina-de-veado; tropeiro;  há, ainda, outros hibridismos que ainda causam dúvidas, sendo tratados pelos etimólogos como de origem obscura. Nessa categoria, listamos: carrancismo; 483 carrasco; carrisqueiro; de bituca; galinha-de-bendengó; na moita; pé de bode; quiabento; quina-de-papagaio; se lascar; talacar; tolimar; tomar rumo; O gráfico 4 destaca, em números e porcentagens, essas ocorrências. GRÁFICO 4 – Origem das lexias 0 50 100 150 200 250 300 350 Origem das lexias Portuguesa 337 Européia 56 Indígena 38 Africana 15 Árabe 14 Asiática 02 Américana 02 n/e 53 Hibridismos 45 Fonte: Dados da Pesquisa. 5.5 Traços diatópicos A partir das informações das fichas lexicográficas, verificam-se três grupos de unidades léxicas, segundo sua área geográfica de abrangência: lusitanismos, brasileirismos e regionalismos, conforme pode ser observado no gráfico 5. 484 GRÁFICO 5 – Marcação Diatópica Fonte: Dados da Pesquisa. Por lusitanismo, de acordo com o dicionário Aulete 19 , entende-se ―palavra, expressão ou construção sintática, falada ou escrita, típica dos portugueses‖, considerando-se a acepção linguística do termo. Nesta pesquisa, consideram-se lusitanismosos vocábulos próprios da língua portuguesa europeia, em contraste com aqueles próprios do português do Brasil. Para brasileirismo tomamos como referência a proposta defendida por Oliveira (1999, p.96), segundo a qual esse termo se refere a ―todo fato linguístico, de caráter geral ou regional, que caracterize o português em uso no Brasil, em contraste com o usado na Europa‖. Para essa autora, os brasileirismos abarcam as seguintes categorias: os indigenismos, os africanismos, os brasileirismos semânticos, as formações e derivações brasileiras de base vernácula ou de base híbrida e as lexias de origem próprias dos brasileiros. Para regionalismo, adotamos, em parte, a posição defendida por Biderman (1998a, p.134), que define o termo como: qualquer fato linguístico (palavra, expressão, ou seu sentido) peculiar a uma ou outra variedade regional do português falado no Brasil, exceptuando a variedade empregada no eixo linguístico Rio/São Paulo, considerada a variedade de referência, ou seja, o português brasileiro padrão, e excluindo também as variedades usadas em outros territórios lusófanos. 19 http://www.aulete.uol.com.br. 485 Entendemos como regionalismos variações da língua nacional que adquirem contornos próprios em cada região. A partir dessas definições, o primeiro grupo analisado foi aquele relativo aos lusitanismos, assim considerados conforme os dicionários consultados. O objetivo dessa separação em relação ao português do Brasil foi o de evidenciar o traço diatópico dessas cinco lexias, quais sejam, desbandar, mota, preguntar, reiseiro, vezada. O segundo grupo refere-se aos brasileirismos. Embora a maior parte das lexias seja de formação tipicamente portuguesa, para efeito de análise, seja por sua forma ou pela sua nova acepção, são consideradas palavras de origem genuinamente brasileira. Os indigenismos, seja de origem tupi ou guarani, também estão incluídos neste grupo, conforme a definição apresentada. Os casos de brasileirismos somaram 137ocorrências: agregado, andu, aranhar, aranquâ, arapuca, assuntar, badoque, bagaceira, barroca, beiju, berrante, bestagem, bestar, boiar, boneca, brocotó, bruaca, buraca, caboclo, cabra, cacimba, cacunda, cadê, cagaiteira, caititu, camarada, canjerana, capado, capanga, capanga, capim santo, capoeira, carapina, carne de sol, carrasco, catinga, catingueiro, causo, ceveiro, chanha, chincherro, chorró, clavinote, coivara, cometa, curiango, curica, danar, danura, dar no couro, de comer, de lascar o cano, descadeirado, desgramado, embornal, embunecar, enfusar, engraçar, enrabar, esmagrecer, esparramo, espiar, fifó, fixa, forró, garapa, gerais, grão-de-galo, guieiro, jacu, jacuba, jegue, jequi, jirau, lambu, lapinha, macuco, madrinheiro, mãinha, manaíva/maniva, mandacaru, manga, mangaba, monjolo, marambaia, matutagem, maxixe, melado, melete, minador, mocó, moquear, mucunã, muringuinha, nambu, na moita, parambeira, pau, pau-de-arara, pé de bode, pelo menos, pequi, pereba, picada, pilão, pindoba, pintar e bordar, pipiri, piquizeiro, pirosca, pitimbado, pocar, pra danar, priá, quedê, que nem, quiabento, quina-branca, rabeira, raizeiro, rancheira, rapadura, rapariga, sariema, sinhá, sura, taboca, taca, tapioca, tendepá, tocaiar, torar, trem, tropeiro, uai, urupuca, vadiar. O terceiro grupo, o qual se insere, também, no grupo dos brasileirismos, é composto pelos regionalismos. Foram contabilizados 39 vocábulos das diversas regiões do Brasil, conforme relação a seguir: agregado (NE), aranhar (S), aranquã (MT), badoque (AL), berrante (MG, GO), buraca (MG), cacimba (NE), cagaiteira (CO), capanga (BA, MT), carnedesol (N, NE), chanha (PB), chincherro (MG), chorró (NE), danura (GO), dar no couro (RJ, SP), enfusar (BA), enrabar (S), esmagrecer (NE), fifó (BA, MG), fixa (NE), jegue (N, NE), jequi (NE), lambu (PB), mãinha (NE), manga (NE, NG, GO), monjolo (MG, S), marambaia (MG), matutagem (NE), moquear (N, S), pau (NE), pé de bode (NE, MG), pirosca 486 (MG), ponhar (S, CO), raizeiro (NE, MG), rancheira (RS), rapariga (N, NE, MG, GO), torar (NE, MG), trem (MG, CO), zabelê (BA). Em relação aos regionalismos apresentados, cabe ressaltar que as marcações diatópicas relacionadas a cada vocábulo foram retiradas apenas dos cinco dicionários consultados, o que não exime o fato de que tais vocábulos sejam usuais em outras regiões do país e que outros pesquisadores ou obras registrem tais vocábulos como usuais em regiões divergentes daquelas citadas. A questão dos regionalismos é, por demais, bastante complexa e exige ainda estudos mais aprofundados, principalmente com a contribuição de Atlas Linguísticos. 5.6 Traços diacrônicos Constatamos que um número razoável de vocábulos do nosso corpus parece não ser mais tão usual entre a maioria dos falantes dos grandes centros urbanos. Após essa constatação, para efeito de análise, decidimos dividi-los em dois grupos, formados por: i) Arcaísmos. De acordo com Castro (1991, apud MATTOS E SILVA, 2002, p.29), a data de 1536 seria tomada como limite simbólico entre o período arcaico e o português moderno. Desse modo, consideramos como arcaísmos aqueles vocábulos usuais entre os séculos XIII e XV, os quais, por motivos vários, foram sendo substituídos ao longo do tempo, ficando restritos à linguagem popular ou ao meio rural. ii) Retenções lexicais. Por retenção lexical, tomamos como referência Cohen (1997, 2009) e Cohen e Ramos (2002) que utilizam o termo retenção para caracterizar fatos da língua, presentes em épocas pretéritas, tanto no período arcaico quanto nos séculos posteriores, mas que caíram em desuso no período contemporâneo. Desse modo, as retenções lexicais englobariam os arcaísmos. O gráfico 6 aponta números de ocorrências de arcaísmos e de retenções lexicais em nosso corpus. Salientamos que os arcaísmos se somam, também, às retenções lexicais: 487 GRÁFICO 6 – Arcaísmos e Retenções 0 50 100 150 200 250 300 350 400 marcação diacrônica Total de lexias dicionarizadas 390 Retenções lexicais 44 Arcaísmos 20 Fonte: Dados da Pesquisa. Destacamos: i) Arcaísmos: acá, adivinhança, adonde, alembrar, alevantar, alumiar, coresma, deferença, dereito, despois, dizer missa, entonce, esprital, fruita, imbigo, luita, luitar, pessuir, preguntar, sujegar. ii) Retenções lexicais: abrido, antão, antonce, antonte, arribar, barrer, carpiar, córgo, cuma, deferente, de primeiro, fugar, ilumiar, inté, intendência, lumiar, malino, meirinho, premero, ribar, samear, suceder, suverter, valença. Sobre os arcaísmos, salientamos:  Acá: Morais aponta em seu dicionário a entrada referente a esta lexia na forma de a cá, ou seja, separada graficamente. Por outro lado, Cunha aponta em seu dicionário que o vocábulo acá é variante de aqui e cá desde o português medieval, sendo grafadas das seguintes formas: aca, acaa e aqua. Ainda segundo Huber (1986), esse advérbio consta no Cancioneiro d‟el Rei D. Denis.  Adivinhança: este vocábulo que era considerado já antigo em Morais é registrado em Cunha como forma usual no século XIV, não sendo mais encontrado nos dicionários atuais. Trata-se, portanto, de um caso de arcaísmo.  Adonde: essa lexia, embora não tenha registro de datação no Cunha, é recorrente na literatura em prosa do século XIV, podendo ser citada a obra Milagres de Santo Antônio de Lisboa, conforme observação constante da ficha lexicográfica. Em Morais 488 essa lexia era já apontada como erro e mesmo sendo ainda usual na linguagem popular em regiões mais distantes, conforme citado em Aurélio, é considerada um arcaísmo.  Alembrar: outro vocábulo não dicionarizado em Cunha, mas sabidamente antigo na língua portuguesa, embora ainda seja registrado nos dicionários atuais como forma popular. Amadeu Amaral cita que a forma alembrar aparece na obra de Gil Vicente (cf. a ficha respectiva).  Alevantar: da mesma forma que alembrar, o vocábulo alevantar é antigo na língua portuguesa, conforme pode ser confirmado em Cunha (cf. a ficha respectiva), sendo considerado um arcaísmo.  Alumiar: é considerado arcaísmo, pois é atestado na língua portuguesa desde o século XIII, conforme consta em Cunha, sendo considerado um vocábulo em desuso, segundo Aurélio.  Coresma: essa forma é antiga na língua portuguesa, sendo encontrada no Bluteau. De acordo com Cunha essa variante de quaresma é atestada no século XV, e apontada por Aurélio como forma antiga, sendo, portanto, considerada um arcaísmo. Amaral também dá a forma como arcaica.  Deferença: essa variante de diferença que há muito não é registrada nos dicionários da língua portuguesa, aparece somente na obra de Amaral, sendo apontada por Cunha como um arcaísmo do século XIV.  Dereito: Essa forma, embora apareça dicionarizada em Bluteau e Morais, é dada como antiga na língua portuguesa por Aurélio, e mais que isso, é considerada um exemplo de forma arcaica em Amaral, sendo considerada um arcaísmo também por Cunha.  Despois: Segundo Aurélio essa variante de depois é antiga na língua portuguesa, sendo encontrada na obra de Camões, conforme abonação. Amaral dá a forma como arcaísmo, também citando a obra de Camões como fonte. Huber (1986, p.256) cita que o vocábulo consta no Cancioneiro da Ajuda (2069 e 3565).  Dizer missa: somente o dicionário de Bluteau dá a entrada grafada dessa forma, embora seja encontrada em Morais e Freire no enunciado definitório da entrada dizer. Era uma locução usual no século XV, conforme pode ser visto nas Chronicas breves e memorias avulsas de Santa Cruz de Coimbra 20 . 20Portugaliae Monumentae Historica, códice 79, vol. 1, fol. 28, linhas 19 e 22. 489  Entonce: embora seja dicionarizada em Bluteau e Morais, essa forma é considerada um arcaísmo por Aurélio, sendo documentada desde o século XIII, de acordo com Cunha.  Esprital: conquanto essa variante de hospital não seja dicionarizada em nenhum dos dicionários de língua consultados, é apontada por Cunha como usual no século XIV, sendo, portanto, um arcaísmo.  Fruita: embora essa forma variante de fruta seja dicionarizada em todos os dicionários consultados, é apontada como arcaísmo por Amaral e citada por Cunha como usual no século XIV.  Imbigo: apenas em Amaral essa forma variante de umbigo aparece como entrada, embora os demais dicionários apontem outras variantes. Essa forma que hoje é encontrada geralmente na linguagem popular é apontada por Cunha como usual no século XIV, sendo, igualmente, um arcaísmo.  Luita: essa variante de luta é tida como antiga desde o dicionário de Morais, sendo considerado um arcaísmo tanto por Amaral como por Aurélio, sendo datada do século XIII, de acordo com Cunha.  Luitar: como verbo também é considerada arcaica, tanto por Amaral quanto por Aurélio, seguindo a mesma datação do substantivo.  Pessuir: essa variante de possuir é citada por Amaral na definição da entrada pissuir, sendo considerado um arcaísmo por Cunha, usual no século XIII.  Preguntar: embora o vocábulo ainda seja usual na fala popular em Portugal, conforme Aurélio, trata-se de um caso de arcaísmo comum no século XIII, conforme registrado em Cunha. Em relação ao português do Brasil, essa forma não é dicionarizada, embora, em percentual mais reduzido, ainda seja usual na fala das pessoas mais velhas ou de baixa escolaridade, principalmente em regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos, como ocorre com despois e outras citadas.  Sujegar: formas como sujigar e sojigar são dadas como entrada por Freire e Amaral, respectivamente, sendo que esse último cita o vocábulo como arcaico. Em Cunha ainda há as variantes sojugar e sujugar como usuais no século XIV. Em se tratando das retenções lexicais, salientamos:  Abrido: essa forma era já considerada variante antiga de aberto por Morais, sendo ainda considerada desusada por Freire. Em Aurélio já não é dicionarizada e, portanto, trata-se de um caso de retenção lexical. 490  Antão: por ser tomada como variante antiga pelo Aurélio e encontrada na obra de Camões (1572) é considerada aqui uma retenção lexical.  Antonce: a variante antonce, embora não figure como entrada nos dicionários consultados, é citada por Amaral como variante da forma arcaica entonces. Não sendo mais usual na língua contemporânea, pode-se considerá-la como um caso de retenção lexical, apesar de não ter o registro de seu uso e datação.  Antonte: essa forma dicionarizada em Bluteau e Morais com uma consoante m no final é tratada em Freire como forma popular, ao passo que em Aurélio já não é mais registrada. Trata-se, também, de um caso de retenção lexical.  Arribar: essa forma verbal registrada em Bluteau pode ser considerada um caso de retenção lexical, mesmo sendo ainda atestada como entrada em Aurélio, pois há uma mudança de sentido do vocábulo.  Barrer: essa variante do verbo varrer, registrada em Bluteau e tratada como forma antiga em Freire e em Aurélio, deve ser considerada, por ora, como um caso de retenção lexical, dado o fato de que não há o seu registro em Cunha, o que permitiria afirmar ser ou não um arcaísmo.  Carpiar: esse vocábulo pode ser considerado um caso de retenção lexical, a julgar apenas os dicionários consultados, pois era já dicionarizado desde Bluteau, passando por Morais e Freire e não consta mais como entrada em Aurélio.  Corgo: essa variante de córrego, apontada por Freire como forma popular, é descrita por Amaral como forma em desuso ou antiquada.  Cuma: embora essa variante de como não figure como entrada em nenhum dos dicionários consultados, Melo (1975) considera o vocábulo como antigo na língua portuguesa.  Deferente: conquanto essa forma variante de diferente não apareça lexicalizada em Bluteau e Morais, trata-se de um caso de retenção lexical, tomando como referência o apontamento por Aurélio do vocábulo tratar-se de uma forma antiga e popular.  De primeiro: essa variante de antigamente será tratada aqui como um caso de retenção lexical, embora Amaral a considere um exemplo de locução arcaica. Dado o fato de não haver fontes fidedignas para tal afirmação, o vocábulo será tomado aqui como tal.  Fugar: embora o vocábulo não seja registrado em Bluteau e Morais e ainda não apresente datação, trata-se de um caso de retenção lexical, pois é tratado como um vocábulo em desuso segundo Freire e Aurélio. 491  Ilumiar: essa forma variante de iluminar aparece como entrada em Morais, não sendo mais registrada nos dicionários mais atuais. Trata-se, portanto, de um caso de retenção lexical.  Inté: essa variante da preposição até, de uso popular, é forma antiga na língua portuguesa, segundo Freire e Aurélio, não sendo usual na língua padrão.  Intendência: vocábulo já registrado em Morais e ainda aparece como entrada nos dicionários atuais. Entretanto, para efeito de análise, é considerado aqui como um caso de retenção lexical, dado o fato de ter caído em desuso na língua portuguesa no Brasil, sendo substituído pelo termo prefeitura.  Lumiar: trata-se de mais um caso de retenção lexical, tendo sido registrado como entrada em Morais e não sendo lexicalizado nessa forma nos dicionários mais atuais.  Malino: conquanto seja citado por Amaral como um arcaísmo de forma, esse vocábulo será tomado aqui como um caso de retenção lexical, em razão da falta de dados que confirmem tal informação. É considerado vocábulo antigo em Aurélio.  Meirinho: é considerado um caso de retenção lexical, pois é antigo na língua portuguesa, registrado no Bluteau com a mesma acepção e ainda no Freire, não sendo mais dicionarizado no Aurélio.  Premero: essa variante de primeiro, não registrada nos demais dicionários consultados, é um caso de retenção lexical, pois foi registrada em obra de Fernão de oliveira, conforme citado em Amaral.  Ribar: esse vocábulo, embora tenha sido registrado por Morais e Freire com outra acepção, divergente daquela encontrada no corpus, será tomado aqui como um caso de retenção lexical no que tange a sua grafia.  Samear: embora essa variante de semear tenha sido registrada como entrada em Freire e em Aurélio, trata-se de uma forma antiga e popular na língua portuguesa, sendo, portanto, considerada um caso de retenção lexical.  Suceder: trata-se de um caso de retenção lexical, pois o vocábulo registrado em Bluteau e Morais, e ainda usual até a primeira metade do século passado, não aparece mais como entrada em Aurélio.  Suverter: esse vocábulo é considerado aqui como um caso de retenção lexical, pois embora não tenha sido registrado nos dicionários mais antigos como Bluteau e Morais, aparece como entrada em Freire e em Amaral, ambos da primeira metade do século passado. É considerado vocábulo em desuso, pois não se configura como entrada em Aurélio. 492  Valença: é tomado aqui como um caso de retenção lexical, pois, conquanto não apareça em Bluteau e Morais, é considerado antigo na língua portuguesa, de acordo com Freire. 5.7 Variação, manutenção e mudança linguística Conforme tratado anteriormente, a língua, e em especial o léxico, possui característica dinâmica, o que faz com que muitas palavras passem por mudanças ou passem a ser substituídas ao longo do tempo. Mesmo assim, outras permanecem estáveis. Ao analisar as 390 lexias dicionarizadas, a partir das fichas lexicográficas, verifica-se que um número considerável (44 lexias) são exemplos que retratam casos de variação nos dicionários atuais, conforme relação a seguir: acauso, adivinhança, alembrar, alevantar, alumiar, amontar, aranquã, assombramento, avexado, badoque, bestagem, bodoque, brabo, brocotó, cadê, capim santo, carapina, carreiro, catingueiro, causo, chorró, de certo, desapear, desbandar, diacho, esmagrecer, esparramo, gavar, gurita, jegue, lambu, malinar, malino, manaíba, maniva, mucunã, nambu, parambeira, precata, relar, samear, sariema, urupuca, zabelê. Algumas outras lexias são empregadas de forma variável pelas pessoas da própria região, conforme podemos visualizar no quadro 1. Esta análise pôde ser feita levando em consideração a frequência dessas lexias nas entrevistas e a constatação do seu uso pelos entrevistados. Citamos: adonde, alembrar, alumiar, antão, anté, arapuca, arribar, arrieiro, barroca, bestagem, bicho da carneira, bicho da Fortaleza, bicho de Pedra Azul, bodoque, brabo, bruaca, buraca, cacunda, caititu, candeeiro, carapina, carreira, carneira, com pouco, cuma, de comer, de junto, de primeiro, derradeiro, desapear, desmantelar, despois, festa de Reis, folia de Reis, finado, fraco, grão-de-galo, inté, jegue, juá-meirinho, lambu, lumiar, mais, manaíba, maniva, mudernagem, nambu, pau, pocar, ponhar, premero, relar, riba, rodagem, que nem, topar, zabelê. 493 QUADRO 1 – Variação lexical na região Adonde / aonde / onde Carreira / correria / currião Pau / árvore Alembrar / lembrar Carneira / sepultura Pocar / estourar Alumiar / lumiar /iluminar Com pouco / daí a pouco Ponhar / colocar Antão / então Cuma / cume / cumo Premero / primeiro Anté / até / inté De comer / comida Relar / ralar Arapuca / urupuca De junto / junto Rodagem / carreiro / estrada Arribar / alevantar De primeiro / antigamente Tamém / também Arrieiro / tropeiro Derradeiro / último Topar / encontrar Barroca / buraco / vala Desapear / apear Zabelê / izabelê Bestagem / besteira Desmantelar / desmanchar Botar / colocar Bicho da carneira / bicho da Fortaleza / bicho de Pedra Azul Despois / dipois / depois Candeeiro / fifó Bodoque / badoque Festa de Reis / folia de Reis Fraco / pobre Brabo / bravo Finado / falecido Mais / com Bruaca / buraca Grão-de-galo / juá-meirinho Riba / cima Cacunda / costas Jegue / jumento Que nem / como Caititu / porco do mato Lambu / nambu Trem / coisa Carapina / carpinteiro Manaíba / manaíva / maniva Mudernagem / juventude Fonte: Dados da Pesquisa. Assim como os casos de variação lexical verificados na região, constata-se também um número razoável de vocábulos que representam casos de mudança linguística verificada ao longo do tempo, ou seja, 41vocábulos passaram por processos de mudança ao longo de sua história, seja no sentido ou na forma ou mesmo foram substituídos por outros na língua culta. Essa análise leva em consideração o fato de que alguns dos vocábulos descritos a seguir, mesmo ainda sendo dicionarizados, são descritos pelos próprios autores das obras consultadas como formas antigas da língua. Destacamos: abrida, acá, adonde, advinhança, alembrar, algibeira, antão, antonce, antonte, arribar, barrer, barroca, coresma, córgo, danado, danar, deferença, de primeiro, dereito, despensa, despois, entonce, esprital, fruita, fugar, galardão, guisado, ilumiar, imbigo, inté, intendência, luita, luitar, lumiar, malino, pessuir, premero, ribar, suceder, suverter, sujegar. Em se tratando da manutenção, a análise das fichas revela que em maior número estão os vocábulos que mantiveram a mesma forma e o mesmo sentido desde que foi dicionarizado até os dias de hoje. Esses casos representam 85% das lexias dicionarizadas e somam 330 vocábulos. Além dos casos de mudanças e manutenções linguísticas comprovadas através das análises das fichas, há 20 vocábulos que não foram contabilizados em razão da insuficiência de informações, os quais representam 5% dos casos, conforme pode ser visto no gráfico 7, apresentado a seguir. 494 GRÁFICO 7 – Distribuição percentual dos casos de mudança e manutenção linguística Fonte: Dados da Pesquisa. 5.8 A influência das redes sociais e a norma no léxico da região Conforme tratado na seção 2.2.1.1, J. Milroy (1992) vê a língua como um fato social e, a seguir esta ótica, os estudos linguísticos deveriam ser focados na interação entre os indivíduos de um grupo ou comunidade. É por meio dessa interação entre os indivíduos que se cria um ―consenso‖ que acaba por definir uma norma ou padrão linguístico compartilhado pelos membros desse grupo ou comunidade. Ao analisar o vocabulário que compõe o corpus desta pesquisa verifica-se que há um repertório comum entre os entrevistados, ou seja, há um grupo de palavras que são recorrentes na fala dessas pessoas. Outro ponto a se destacar é o fato de que muitas dessas palavras são variantes não-padrão da língua portuguesa atual, tal como a comparação feita por J. Milroy (1992) acerca das formas não-padrão encontradas na fala das pessoas de Belfast e o médio inglês. Assim, após análise dos vocábulos, e considerando o número expressivo deles na fala dos entrevistados, ou, por outro lado, a ausência de uma variante, considera-se as seguintes palavras como sendo norma na região: alembrar, beiço, beiju, botar, carrasco, com pouco, de primeiro, enrabar, feijão-catador, finado, folia de Reis, fraco, légua, mais, manga, melete, mode/modo, mucado, ni, pau, puxada, que nem, rezeiro, revoltoso, riba, trem. 495 Um segundo tema tratado por J.Milroy e que pode relacionar aos dados obtidos por essa pesquisa é a noção de ―redes sociais‖. Para este autor uma rede social é caracterizada por múltiplas ligações entre seus membros, sendo algumas mais fortes e fechadas e outras mais fracas e abertas, característica essa que pode restringir ou acelerar a mudança linguística. Desse modo, haveria uma relação direta entre a estrutura de uma ―rede social‖ e a mudança linguística e duas consequências poderiam resultar dessa relação. A primeira, considerando o grupo como uma rede social forte e fechada, ou seja, uma rede onde há uma grande interação entre seus membros e reconhecimento da sua variedade linguística, haveria pouca receptividade dos falantes a padrões linguísticos externos e, portanto, menos imune a mudanças linguísticas. A segunda, sendo a rede caracterizada por uma interação fraca entre seus membros e mais aberta às influências externas, teria como consequência uma maior facilidade para que a mudança linguística ali se opere. Do exposto, duas considerações podem ser feitas a respeito do grupo de entrevistados para esta pesquisa: i) a primeira, embora se reconheça o fato de terem sido entrevistados falantes de nove municípios distintos, poder-se-á considerar os nove grupos de entrevistados como sendo uma rede de laços fortes, tanto no interior de cada um desses nove grupos como no conjunto desses grupos, o que se confirma pelo uso comum de lexias pouco usuais no português atual, como é o caso dos arcaísmos e das retenções lexicais apresentadas; ii) a segunda consideração está no fato de que, mesmo sendo esse grupo formado por falantes de nove localidades e sendo considerada uma rede forte, nada impede que casos de influências externas ou inovações possam entrar no sistema linguístico desse grupo, pelo fato de sempre haver indivíduos que mantêm relações externas com outros grupos, servindo de pontes e, como resultado, trazer para dentro da comunidade influências linguísticas. As inovações, por sua vez, seriam resultado da influência de membros do grupo que trazem consigo grande prestígio entre os seus pares, o que acarreta uma aceitação de traços linguísticos por parte da maioria. Com o passar do tempo essas influências externas ou inovações passam a constituir uma norma ―consensual‖ entre seus membros. Ao tratar dessas influências externas, verifica-se a existência de um vocabulário na fala dos entrevistados que se iguala ao vocabulário de falantes de outros estados do Nordeste. Há vários, inclusive reconhecidos pelos autores dos dicionários consultados como regionalismos do Nordeste do Brasil, a saber: agregado, badoque, cacimba, capanga, carne de sol, chanha, chorró, enfusar, esmagrecer, fifó, fixa, jegue, lambu, mãinha, manga, matutagem, pau, pé de bode, raizeiro, rapariga, torar. Para explicar a presença e a 496 manutenção desse vocabulário, poderíamos recorrer à figura do tropeiro que mantinha redes de contato, contribuindo para a existência de uma norma para o mundo rural. 5.9 Comparando regiões do estado de Minas Gerais Nesta seção, propomos comparar, por meio de tabela, o vocabulário encontrado na Bacia do Rio Pardo com os vocabulários coletados em outras regiões de Minas Gerais, apontados anteriormente em cada uma das fichas lexicográficas, no capítulo 4 desta tese. Vejamos a distribuição: QUADRO 2 – Comparativo entre Regiões SOUZA, 2014 Bacia do Rio Pardo-Norte de Minas CORDEIRO, 2013 Minas Novas Vale do Jequitinhonha MIRANDA, 2013 Sabinópolis Vale do Rio Doce FREITAS, 2012 Serra do Cipó Região Central RIBEIRO, 2010 Passos Sul de Minas SOUZA, 2008 Águas Vermelhas Norte de Minas Acá - - - Acá Acá Adobo - - Adobe Adobo Adobo Agregado Agregado Agregado - - Agregado Alambique - Alambique Alambique - - Alembrar Alembrar Alembrar Alembrar Alembrar Alembrar Alevantar - - Alevantar - Alevantar Alumiar Alumiar - - - Alumiar Amontar Amuntar - - - - Andu Andu - Andu - Andu Antão Antão - Antão Antão - Anté - - Anté Anté Anté Antonce - Antonce - - Antonce Apurar Apurar - - - - Arranchar - - Arranchar - Arranchar Aturar Aturar - Aturar Turar - Avultado - Avultado - - Avultado Bagaceira - - Bagaceira - - Banda - - Banda Banda - Barrer - - - Barrer Barrer Beiço Beiço - - - - Bodoque Bodoque Bodoque - - - Boiadeiro - - - Boiadeiro Boiadeiro Boqueirão Boqueirão - - - Boqueirão Brabo - - Brabo Braba - Bruaca - - Bruaca Bruaca Bruaca (continua) 497 Cabaça Cabaça Cabaça Cabaça Cabaça - Cacimba Cacimba Cacimba - - cacimba Cacunda Cacunda Cacunda Cacunda Cacunda cacunda Cadê - - Cadê Cadê cadê Camarada Camarada - - - camarada Candeia Candeia Candeia Candeia Candeia candeia Candieiro Candiero Candiero - Candeero candieiro Canga - - Canga Canga canga Cangaia Cangaia - Cangaia - cangaia Capado Capado Capado Capado Capado capadão Capanga - - Capanga - capanga Capoeira - - Capuera - capoeira Cargueiro - Carguero Carguero Carguero - Carreira - - - Carrerão carreira Carreiro Carrero - - - carreiro Carro de boi - Carro de boi Carro de boi Carro de boi - Catre Catre - - - - Causo - - - Causo causo Chincherro - - Cincerro - - Coivara Coivara - Coivara - coivara Com pouco - Com pouco - - Com pouco Córgo - Córgo Córgo Córgo - Cuma Cume/cumo - - - cuma Cumê - - Cumê Cumê - Curiango - - Curiango - - Curisco Corisco - Curisco - - Curtume - Curtume - - - Dar por fé Dar fé - - - Dar por fé De comer De cumê - - - De comer Decumento - - Dicumento - - Deferente Deferente Deferente - - - De primeiro De primero De primeiro De primeiro - De primeiro Dereito - - Derêto - - Derradeiro Derradero - - Derradeiro Derradeira Despensa - Dispensa - - Dispensa Despois - - - Dispois Despois Devera Divera Divera Divera - Devera Drumir - - - Drumir - Em ante Em ante Em ante Im ante Em antes Em antes Em roda Em roda - - Em roda - Entender por gente - Intender por gente - - Entender por gente Espiar Ispiar - - - Espiar Esprito - - Isprito - - Estambo Istambo - - - - Feijão-catador Feijão-catador - - - Feijão-catador Frever - - Frever - - Gamela Gamela Gamela Gamela Gamela Gamela Garapa Garapa - Garapa Garapa - Grão-de-galo - Grão-de-galo - - - Imbigo Imbigo - Imbigo Imbigo Imbigo Inté - - Inté Inté Inté Isturdia - - - Isturdia - Jacu - Jacu - - Jacu Jagunço - - - Jagunço - Jequi Jiqui - - - - (continua) 498 (comclusão) Jirau Jirau Jirau Jirau - - Labutar - - Labutar - Labutar Lambu Lambu - - - Lambu Lamparina - Lamparina Lamparina Lamparina - Légua - - - Légua - Lote de burro - Lote de burro - - Lote-de-burro Lumiar Lumiar Lumiar Lumiar - Lumiar Mais - - - Mais Mais Manaíba Manaíba - - - Manaíba Manga Manga Manga - - Manga Monjolo Monjolo Munjolo - Munjolo - Melado - - Melado - - Melete Melete - - - - Mode/modo Pra mode - Mode Mode Mode Mucado Mucado - Mucado Mucado Mucado Muringuinha Muringa - - - - Novata Novato - - - Novata Ofício - - Ofício - - Pano-de- bunda - - - Pano-de- bunda Pano-de- bunda Parambeira Parambera - - - Parambeira Patacão Patacão - - - Patacão Pessuir Pissuir Pissuir - - pessuir Piar - Piar - - - Picada Picada Picada - - - Pilão - Pilão - - Pilão Ponhar Punhar - - - - Prato - Prato - - - Precata Precata - - Precata - Premero Premero - - - - Priá - Piriá - - - Raizeiro Raizeiro - - - - Rancho - - Rancho Rancho Rancho Rapadura - - - Rapadura - Réis - Réis - Réis Réis Riba Riba - - Riba Riba Ribuçar Ribuçar - - - - Sura - Sura - - Sura Taca - - Taca - Taca Tear - - - Tiare - Tocaiar - Tocaiar - - - Tocar - - - Tocar - Topar Topar - - Topar Topar Tostão - Tostão - - Tostão Trem - - Trem - - Tropa - Tropa Tropa Tropa Tropa Tropeiro - Tropeiro Tropero - tropeiro Trupicar Trupicar - Trupicar - Tropicar Vau - Vau - - Vau Venda - Venda Venda Venda - Fonte: Dados da Pesquisa. 499 Se somarmos o número de ocorrências em comum entre cada uma das regiões acima destacadas, teremos o resultado apresentado na tabela 1. TABELA 1 – Resultado por regiões comparadas Regiões comparadas Número de vocábulos em comum Bacia do Rio Pardo e Minas Novas 63 Bacia do Rio Pardo e Sabinópolis 46 Bacia do Rio Pardo e Serra do Cipó 56 Bacia do Rio Pardo e Passos 53 Passos e Serra do Cipó 29 Passos e Sabinópolis 16 Passos e Minas Novas 21 Serra do Cipó e Sabinópolis 19 Serra do Cipó e Minas Novas 22 Minas Novas e Sabinópolis 20 Fonte: Dados da Pesquisa. O resultado, que a princípio não causou surpresa, é que o maior número de lexias em comum ficou entre as regiões da Bacia do Rio Pardo e Minas Novas. Acreditamos que isso se deve aos seguintes fatores: i) à proximidade geográfica das duas regiões; ii) ambas estão inseridas em rotas de tropeiros no século XVIII e XIX e, consequentemente, partilham traços comuns de língua oral. Os dados nos apontam, ainda, que há um vocabulário bastante significativo partilhado em todas as regiões já estudadas. Outro estudo comparativo realizado se deu entre a região apresentada nesta pesquisa e a região do Vale do Jequitinhonha (MG) a partir da obra Dicionário do dialeto rural no Vale do Jequitinhonha – Minas Gerais, de Carolina Antunes (2013). Ao comparar as duas obras verifica-se aproximadamente 140 vocábulos em comum, conforme relacionados a seguir: adobro, adonde, alembrar, alumiar, altura, andu, antão, antigório, antonce, antonte, arapuca, arranchar, arribar, arrieiro, assuntar, banda, barrer, barroca, beiço, bestagem, birro, bonina, botar, botar sentido, bruaca, boneca, cacimba, cacunda, camarada, candeia, candieiro, capado, capanga, capoeira, carneira, carrasco, carrasqueiro, carrerão, Carrero, cascar fora, causo, chanha, chumbar, come e bebe, conto, coresma, córgo, com pouco, cume, cometa, cunzinha, dar fé, danado, de cumê, de pouco, de primeiro, derradeiro, despois, destiorar, diacho, desgramado, devera, em roda, facilitar, fava, fedaputa, fifó, finado, frever, fruita, fundar, garapa, gibeira, imbigo, enfornado (infornado), enfusado (infusado), enginhar (inginhar), inté, entender por gente, intiriçado, esmagrecê, espritar, espuletado, jacu, jacuba, jequi, jirau, labutar, lambu, lamparina, légua, luita, luitar, lumiar, aleivosia (luvusia), mãinha, mais, malino, manga, maniva, matutagem, mucado, mudernagem, mulambo, ni, nica, 500 pra danar, parentagem, riba, pau, pé-de-pau, precata, precisão, pereba, picada, pintar e bordar, pessuir, pocar, por mode, prato, quarto, quebrante, que nem, quitanda, rabeira, rancho, rapariga, réis, rebuçar, romper, sinhá, sujigar, suverter, tacar, tamém, ticar, topar, torar, trem, trupicar, tocaiar, venda, vintém, virge, zuera. 5.10 Formação de palavras e outros destaques Algumas características morfológicas e pragmáticas desse vocabulário selecionado nos chamaram a atenção. Destacamos algumas:  Derivações sufixais (acréscimo de sufixo a uma base): adivinhança; alforridão; antigório; badocar; bagaceira; batistétrio; bestalhada; bodocar; boiado; boiar; cachimbar; campesta; chumbado; chumbalhada; danado; descambo; dormidor; enfusado; espritar; espuletado; estripuleiro; miucho; montoeiro; mudernagem; namoriscar; parentagem; puxada; rodagem;seleiro; tiquinzinho; tucaiadô; vadiação; vaquejeiro; vendeiro; vezada; vultado; zuerão.  Derivação parassintética (acréscimo de prefixo e sufixo, simultaneamente, a uma base): desvagado; encacimbar; enfornado; enfornar; engramar.  Derivação truncada (ocorre quando em uma palavra se suprime uma parte): canho, favaca, mafabeto, parabel, tadinho.  A criação de novos vocábulos na língua geralmente origina-se de três processos produtivos de formação de palavras: derivação, composição e onomatopeia. Entretanto, como destaca Rocha (1999, p.99) pode haver também o surgimento de itens lexicais fora dos processos de formação de palavras, embora ele mesmo reconheça que ―casos desse tipo sejam mais raros e assistemáticos‖. Formações desse tipo, chamados de ―geração espontânea‖, por não seguirem as regras de formação de palavras, foram verificadas no corpus analisado, conforme mostramos: aparrambado, bizungar, bramura, calabrear, calundum, chelepada, chilepar, chimbar, ingrujir, ingrujido, mandruscada, pirotar, xavado.  Embora não seja um caso clássico de processo de formação de palavras, é bastante recorrente o acréscimo da vogal a a uma palavra já existente: acismada; acismar; adoar; aducar; advertir; alumiar; amontar; arresistir; assuceder; avexado. 501  Outro caso de acréscimo recorrente no corpus, embora não configurado como caso de processo de formação de palavra, é a formação de vocábulos por meio da adição da preposição de e com antes de uma palavra, como em: de bituca; de certo; de comer; de grande; de jeito; de junto; de nada; de pouco; de primeiro; de sempre; com coisa; com pouco.  A formação de lexias com o substantivo Reis também se mostrou bastante produtiva entre os falantes da região. Eis os casos verificados: Cantador de Reis; cantar Reis; festa de Reis; folia de Reis; Reis; reizeiro; Santo Reis.  Chama a atenção também uma série de variantes para a expressão ir embora, como é o caso das seguintes formações: cair no mundo; cascar no cerrado; cascar fora; dar o fora; pocar no mundo; riscar no mundo. Certamente, tendo como objetivo central destacar esses casos, muitos outros poderiam ser nomeados, mas não vamos nos aprofundar no assunto nesta pesquisa. Realizadas as análises qualitativas e quantitativas propostas, analisadas à luz da teoria da variação e mudança linguística, incluindo-se a noção de redes sociais, trataremos no próximo capítulo dos campos lexicais. 502 CAPÍTULO 6 – CAMPOS LEXICAIS Neste capítulo, propomos uma análise léxico-cultural dos dados coletados a partir da perspectiva de campos lexicais, conforme já mencionado na introdução. Reuniremos, portanto, os dados a partir de uma rede de significação, relacionando entre si elementos linguísticos e extralinguísticos que se mostram preponderantes para a configuração dos significados. Acredita-se que a grande vantagem em analisar os dados ora apresentados, a partir de seu estudo sistematizado por meio de um processo de agrupamento em campos lexicais é o de proporcionar uma melhor visualização de suas unidades léxicas e seus significados diante de um campo maior de observação. Tomando por referência as relações que as 562 lexias coletadas mantêm entre si, foram constituídos três macrocampos com a finalidade de facilitar o tratamento dos dados, conforme pode se ver na tabela a seguir: QUADRO 3 – Distribuição dos campos lexicais Macrocampo Natureza Macrocampo Sociedade Macrocampo Atitudes Campos léxicos: Flora; fauna; água; espaço físico; relação espacial; tempo Campos léxicos: Agentes humanos; estado; saúde; crenças/costumes; riqueza material; comida/bebida; quantidade; partes do corpo Campos léxicos: Vontade/ação; sentimento/comportamento; causalidade/resultado; relação Fonte: Dados da Pesquisa. O macrocampo Natureza divide-se em seis campos lexicais, conforme o quadro 3: a) o campo léxico flora justifica-se pelo grande número de lexias que representam a diversidade da vegetação da região; b) do mesmo modo, o campo léxico fauna dá uma mostra da riqueza da zoologia presente naquela área; c) o campo lexical água reflete as características do Rio Pardo e de seu entorno, como também das espécies que ali habitam; os outros três campos lexicais, espaço, relação espacial e tempo, por sua vez, deixam transparecer através do léxico como o homem da região se relaciona com o mundo físico e temporal. O macrocampo Sociedade subdivide-se em oito campos lexicais: a) o campo lexical agentes humanos busca retratar como os habitantes da região nomeiam seus pares, bem como algumas das profissões exercidas por eles; b) o campo lexical estado revela como o povo da região percebe situações e o estado de coisas em que ele está inserido; c) o campo 503 lexical saúde procura relacionar alguns nomes de enfermidades que afligem a população, bem como os principais remédios para combater esses males; d) o campo lexical crenças/costumes procura retratar, por meio do léxico, parte da cultura dos moradores da região, como suas festas, suas crenças, sua religiosidade; e) o campo lexical riqueza material revela a riqueza material produzida ou vivenciada pelo homem da região, sobretudo aqueles do meio rural; f) o campo lexical comida / bebida revela, por sua vez, os hábitos alimentares e manifestações tradicionais da população; g) o campo lexical quantidade procura mostrar como os habitantes da região quantificam as coisas ao seu redor; h) o campo lexical partes do mundo revela como são nomeadas as formas dos seres vivos pelas pessoas da região. O macrocampo Atitudes foi subdividido em quatro campos lexicais: a) no campo lexical vontade / ação procura-se mostrar como são nomeados os desejos, as necessidades, o trato do homem com as coisas e pessoas ao seu redor.; b) no campo lexical sentimento / comportamento o léxico revela como os habitantes da região demonstra sua disposição afetiva em relação às coisas ao seu redor, bem como se posiciona frente às dificuldades impostas pelo meio em que vive; c) no campo léxico causalidade / resultado o léxico deixa transparecer o vocabulário relacionado às transformações por que passaram as coisas ou pessoas e os resultados dessas ações; d) no campo léxico relação o léxico está associado à ideia de comparação entre objetos, seres ou situações que permeiam as pessoas da região. Uma vez apresentados os três macrocampos e seus respectivos campos lexicais, é notório que há uma estreita relação entre esses diversos campos lexicais, o que permite que um vocábulo possa fazer parte de mais de um grupo. A análise dos dados a partir dessa ideia de campos lexicais permite visualizar melhor a forte relação entre as pessoas da região com o rio e também com toda a natureza ao seu redor, bem como com seus pares, seja através das festas populares, dos seus costumes, crenças, valores etc, revelando, assim, uma sociedade com peculiaridades que se distingue daquelas das demais regiões do estado de Minas Gerais. Na próxima seção, analisaremos cada lexia, inserida no campo lexical que melhor se encaixa, além de sua relação com outros vocábulos desse campo léxico. 504 6.1 Macrocampo Natureza Neste primeiro macrocampo foram reunidos seis campos léxicos, conforme já descritos, os quais refletem os diferentes aspectos físicos que contribuem para o comportamento do homem da região. É a partir desse espaço que as pessoas buscam seu alimento, seu ganha-pão, a cura de suas enfermidades através das plantas, a fim de garantir sua sobrevivência. Além do espaço, há a questão relacionada ao tempo, revelando como as pessoas nomeiam as relações temporais. 6.1.1 Campo léxico: Flora Neste campo léxico foram agrupadas 47 lexias que refletem a flora da região: amarrar-vaqueiro; andu; barra-vaqueiro; boneca; bonina; caboclo-preto; cagaiteira; canho; canjerana; capim da lapa; capim santo; catuá; corana; fava; favaca; feijão-catador; focinho- de-boi; fruita; gengiroba; grão-de-galo; grão-de-burro; jardim-de-deus; juá-meirinho; junça; malacacheta; manaíba; manaíva; mandacaru; mangaba; maniva; maxixe; mucunã; pau; pé-de-árvore; pé-de-pau; pequi; pindoba; piquizeiro; piti; quiabento; quina-braba; quina-branca; quina-de-papagaio; quina-de-vara; quina-de-veado; taboca; traçadá; trucisco. Em um primeiro microcampo destacam-se aquelas lexias que se referem às plantas utilizadas pelas pessoas da região para curar ou aliviar seus males, seja através dos chás, banhos ou outras formas de saber, transmitidas pelas várias gerações. É o caso de caboclo-preto, capim da lapa, capim santo, favaca, focinho-de-boi, gengiroba, jardim-de- deus, junça, mucunã, quina-braba, quina-branca, quina-de-papagaio, quina-de-vara, quina- de-veado e trucisco. O caboclo-preto, muito usado na região com fins medicinais, é também conhecido em outras regiões como cipó-caboclo. Os vocábulos relativos a capim da lapa e ao capim santo são variantes concorrentes na região e aparecem, também, em outras áreas com o vocábulo capim cheiroso. Essas duas variantes usuais na região são assim chamadas por serem comumente usadas pelos romeiros quando vão a Bom Jesus da Lapa. Quanto à favaca, trata-se de um caso de aférese do vocábulo alfavaca, nome de uma planta muito conhecida na produção de chás. O focinho-de-boi, muito utilizado para tratamento de infecções, é também conhecido em outras regiões como amor-do-campo, barba-de-boi e outras denominações. As 505 lexias gengiroba e jardim-de-deus, por sua vez, parecem se tratar de casos de regionalismo, pois não foram encontradas lexicalizadas. Referem-se também a plantas medicinais muito utilizadas como chá. Ao contrário das duas anteriores, a junça é muito conhecida e comum em várias regiões do Brasil, sendo muito utilizada na produção de chás. A lexia mucunã, que apresenta variante local de muncunã, é também conhecida em outras regiões do país por mucuna e considerada um brasileirismo por Aurélio. É também largamente utilizada como chá. Os vocábulos quina-braba, quina-branca, quina-de-papagaio, quina-de-vara e quina-de- veado são denominações de subespécies da quina, sendo que os dois primeiros são dicionarizados, e os demais não. Finalmente, o trucisco, nome de uma raiz utilizada como remédio, não sendo encontrado lexicalizado. Um segundo microcampo é composto pelas plantas que servem de alimento às pessoas daquele meio. É o caso de andu, boneca; cagaiteira, fava, manaíba, manaíva, mangaba, maniva, maxixe, pequi, piquizeiro, piti. O andu é nome de uma vagem muito apreciada na região, principalmente na forma de farofa, e conhecido em outras regiões como guandu ou feijão guando. Outro desse grupo é o vocábulo boneca, o qual designa as espigas novas ainda em formação. O vocábulo, na sua origem, deriva do espanhol muneca, sendo datado na língua portuguesa desde o século XVII. Na acepção de ―espiga de milho‖ não há datação de entrada na língua. Como só é dicionarizado a partir do Freire, possivelmente seja uma criação mais recente, a partir de finais do século XIX ou início do XX. É ainda considerado um brasileirismo por Aurélio.A cagaiteira, por sua vez, é designação de uma árvore frutífera, muito comum em regiões de cerrado e seu fruto quando comido em excesso provoca diarreias, daí a origem do nome. A fava, tal como o andu, é muito utilizada na alimentação dos habitantes da região, e seu nome é antigo na língua portuguesa. Quanto às lexias manaíba, manaíva e maniva, na verdade são vocábulos concorrentes na região, sendo os três muito produtivos na fala dos entrevistados e se originam do tupi mani‟iua. Trata-se do pé-de-mandioca, planta que origina um produto elementar na alimentação da população da região, principalmente na produção de farinha que é um produto indispensável no prato norte- mineiro. Em relação à mangaba, designa um produto encontrado nas poucas áreas de mata da região. Seu nome origina-se do tupi ma‟naua e tem registro desde o século XVI, segundo Cunha. O maxixe é nome de um fruto encontrado nas regiões semiáridas que é considerado comida tradicional entre os nordestinos e também caiu no gosto dos norte-mineiros. Seu nome origina-se do quimbundo ma‟sise, segundo o Cunha. A lexia pequi, derivada do tupi pe‟ki, e pequizeiro, forma híbrida do tupi e português, referem-se a um fruto e sua árvore muito 506 comum nas regiões de cerrado e muito apreciado pela população da região. Finalmente, o piti é o nome dado ao cipó de alho e, entre os dicionários consultados, só tem registro no Freire. O terceiro microcampo refere-se àqueles vegetais que são próprios da natureza e que não servem como alimento ou remédio, mas que tem outras utilidades. É o caso de amarrar-vaqueiro, barra-vaqueiro, bonina, canho, canjerana, catuá, corana, grão-de-galo, juá-meirinho, mandacaru; malacacheta, pau, pé-de-árvore, pé-de-pau, pindoba, quiabento, taboca, traçadá. Os vocábulos amarrar-vaqueiro e barra-vaqueiro são formas concorrentes na região e se referem a uma planta silvestre. Ambos os vocábulos podem ser considerados regionalismos, pois não foram encontrados em nenhum dos dicionários consultados. A bonina refere-se a uma espécie de flor do campo e é conhecida em outras regiões do Brasil como bela margarida ou maravilha. Quanto ao vocábulo canho, trata-se de uma redução de cânhamo, vocábulo muito antigo na língua portuguesa. A canjerana, por sua vez, refere-se a uma árvore de madeira avermelhada muito apreciada na construção. Seu nome é também de origem tupi e data da segunda metade do século XVIII, conforme Cunha. Outra árvore de madeira muito apreciada na construção é o catuá, cujo nome só tem registro em Freire. Da mesma forma que o vocábulo catuá, as lexias corana e quiabento só tem registro em Freire, não tendo sido encontrada a origem das três. Quanto a primeira, trata-se de uma frutinha vermelha que serve de alimento aos pássaros e a segunda é o nome dado a um tipo de cacto rosa. O grão-de-galo e o juá-meirinho são variantes lexicais concorrentes na região, sendo que o primeiro é considerado um brasileirismo por Aurélio. É também conhecido em outras regiões do Brasil como juá-miúdo. O vocábulo mandacaru é de origem tupi, de iamanaka‟ru, conforme o Cunha, tendo sido registrado no Aurélio como um brasileirismo. É mais um vocábulo que retrata muito bem a flora da região. A lexia malacacheta, na acepção encontrada na fala do entrevistado, ou seja, ―qualquer tipo de semente pequena, achatada e de casca dura‖, não é dicionarizada. Pode tratar-se de um regionalismo ou mesmo de um caso de geração espontânea, dado que foi encontrada apenas na fala de um entrevistado. No que tange às lexias pau, pé-de-árvore e pé-de-pau, são lexias concorrentes na região pesquisada e se referem a qualquer tipo de árvore. No entanto, somente a primeira é lexicalizada e, segundo o Aurélio, é um regionalismo do Nordeste. Quanto aos vocábulos pindoba e taboca, trata-se de indigenismos, do tupi pi‟noua e ta‟uoca, respectivamente. São vocábulos já bem antigos no português do Brasil, sendo o primeiro de fins do século XVI e o segundo de fins do século XVII, conforme Cunha. Pindoba refere-se a uma palmeira muito comum, principalmente no CO do país e taboca é o nome comum de bambu ou taquara. Finalmente, traçadá é o nome de um tipo de planta de folhas compridas e entrelaçadas que cresce às margens dos rios. Não 507 encontramos essa lexia dicionarizada e não se trata de um neologismo local, pois foi citado por dois entrevistados. 6.1.2 Campo léxico: Fauna O campo léxico relativo à fauna é composto de 28 lexias: animal-solteiro; araconga; aranquã; cacatua; caititu; capadão; cargueiro; catingueiro; chorró; curiango; galinha-de-bendegó; jabu; jacu; jegue; lambu; macuco; melepo; melete; mocó; nambu; parelha de boi; picumã; pipiri; priá; sariema; tropa; voz-da-lua; zabelê. Este campo léxico pode ser subdividido em dois microcampos, ou seja, um relativo aos mamíferos e outro relativo às aves. Assim, o primeiro grupo é constituído dos vocábulos animal-solteiro, caititu, capadão; cargueiro; catingueiro, jegue; melepo/melete; parelha de boi, priá e tropa. O vocábulo animal-solteiro refere-se ao animal de carga que conduz uma tropa e faz parte da memória cultural de muitos habitantes da região. Essa lexia não foi encontrada dicionarizada. O vocábulo caititu, por sua vez, é de origem tupi e data de início do século XVII, conforme Cunha. Refere-se a uma espécie de porco do mato e era muito comum nas matas da região pesquisada. O vocábulo capadão, por sua vez, é dicionarizado na forma sem aumentativo. A acepção atual, ou seja, referindo-se ao porco castrado, sofreu uma mudança semântica em relação à acepção encontrada no Bluteau, o qual o designava como o filhote da cabra castrado. A origem do vocábulo é capado, possivelmente de capão ―galo castrado‖, usual no século XIII, conforme Cunha. É considerado também um brasileirismo por Aurélio. O vocábulo cargueiro é outro representante desse campo léxico relacionado às tropas. O vocábulo refere-se aos animais que transportam as mercadorias, ou seja, mulas ou bestas. É um vocábulo de origem portuguesa, mais recente na língua de Camões, considerando que não consta em Bluteau e Morais, sendo dicionarizado apenas a partir de Freire. O vocábulo catingueiro é um brasileirismo segundo Aurélio e refere-se a uma espécie de veado do campo. Apresenta como variante lexical os nomes veado mateiro, veado- virá e outras denominações. Da mesma forma, o vocábulo melete também é um brasileirismo segundo Aurélio e tem como variante na região pesquisada a forma melepo. Em outras regiões do Brasil também é conhecido por tamanduá-colete. O vocábulo jegue também se associa a esse grupo, sendo um elemento importante no transporte de carga entre o NE e Minas Gerais no passado e também compondo o cenário das crenças e superstições da região pesquisada. 508 Trata-se de um vocábulo originado do inglês jackass, com entrada na língua portuguesa no século XX. De acordo com Aurélio é um regionalismo do N, NE e CO, sendo bastante produtivo na região, conforme mostrado pelo número de ocorrências. Quanto ao vocábulo parelha de boi, não aparece dicionarizado na forma composta como entrada lexical em nenhum dos dicionários consultados. Entretanto, aparece na forma composta no enunciado definitório de carro de boi em Aurélio, assim mesmo sem hífen. Quanto a sua origem, analisados os vocábulos separadamente, são derivados do latim. Não parece se tratar de um neologismo, pois o vocábulo é corrente na fala de cinco entrevistados, de municípios não vizinhos. A lexia priá, variante de piriá ou preá em outras regiões, refere-se a um mamífero roedor muito comum. O seu registro na língua data de 1587 segundo Cunha. A lexia tropa, por sua vez, certamente é uma das mais representativas da história e cultura da região pesquisada. Trata-se de um vocábulo de origem francesa, de troupe, datado na língua portuguesa desde o século XVII, embora não dicionarizado por Bluteau e Morais. É considerado também um brasileirismo por Aurélio. O microcampo das aves, bem mais expressivo, é composto pelos demais vocábulos desse campo léxico, ou seja, araconga, aranquã, cacatua; chorró; curiango; galinha-de-bendegó; jabu; jacu; lambu; macuco; mocó; nambu; pipiri; priá; sariema; voz- da-lua; zabelê. O primeiro deles, araconga, é uma variante de araponga, e não foi encontrado dicionarizado. Pode se tratar de uma idiossincrasia, pois foi pronunciada por apenas um entrevistado. Refere-se a uma ave silvestre de penas brancas e de pio alto e estridente. Diferentemente do primeiro, o vocábulo aranquã é um indigenismo dicionarizado e apresenta outras formas concorrentes no Brasil como araquã e aracuã. Trata-se de uma espécie de ave semelhante ao jacu, mas um pouco menor. Outro vocábulo dicionarizado é cacatua, cujo étimo é kakatuwa, do malaio, sendo dicionarizado em Morais e nos dicionários mais atuais. Trata-se de uma espécie de papagaio branco. O vocábulo chorró é nome de uma ave muito comum no Ceará, mas que é encontrada também na região. Esse nome é um regionalismo do Nordeste, segundo Aurélio. A lexia curiango refere-se a um pássaro noturno muito conhecido em todo o Brasil. Trata-se de um brasileirismo segundo Aurélio. O vocábulo galinha-de- bendegó não foi encontrado em nenhum dos dicionários consultados, portanto, seu étimo, assim como a área onde o vocábulo é mais comum é desconhecido. Sabe-se, todavia, que o nome Bendegó é um topômimo do sertão baiano. Trata-se da galinha de pescoço pelado. A respeito do vocábulo jabu, trata-se de uma redução de jaburu, vocábulo de origem tupi e datado desde o século XVI na língua portuguesa. Refere-se a uma ave muito comum principalmente no Pantanal e mais conhecida como tuiuiú. Da mesma forma, o vocábulo jacu 509 é bem antigo na língua portuguesa, datando de 1576 conforme Cunha e origina-se do tupi ia‟ku. Refere-se a uma ave muito comum tanto na região como em várias partes do país. Em relação à lambu e nambu, trata-se de lexias variantes e se referem a uma ave de caça muito comum na região pesquisada. O vocábulo lambu é um regionalismo da Paraíba, segundo o Aurélio, e talvez por influência do Nordeste seja mais usual na região. Outras variantes no Brasil para esse nome é inhambu e inambu. O vocábulo macuco designa outra ave da região muito comum em outras regiões do Brasil. O vocábulo é de origem tupi, derivado de macucaguá, e registrado na língua portuguesa desde 1783, segundo Cunha. Quanto ao vocábulo mocó, na acepção de ave, conforme o contexto da entrevista, não foi encontrado dicionarizado. Talvez se trate de um regionalismo. O mesmo caso acontece com o vocábulo pipiri que na acepção de ave também não foi encontrado, mas somente como uma espécie de planta. Outro vocábulo que apresenta variante é sariema, mais comumente dicionarizado como seriema. Trata-se de um brasileirismo de origem do tupi sa‟riama e nomeia uma ave muito comum em diversas regiões do Brasil. Por outro lado há o vocábulo voz-da-lua, relacionado a uma espécie de pássaro na região pesquisada, não sendo encontrada lexicalizada. Por último o vocábulo zabelê, que tem como variante na região a forma izabelê. Trata-se de uma ave de caça muito comum na região. Segundo Aurélio, é um regionalismo da Bahia e apresenta ainda outras variantes como zambelê e jaó. Seu étimo é desconhecido. 6.1.3 Campo léxico: Água Neste campo lexical foram agrupadas nove unidades lexicais, as quais se relacionam de alguma maneira ao Rio Pardo: alva; cacimba; córgo; curica; minador; timburé; traçadá, tremendal; vau. Em um primeiro microcampo as lexias alva, cacimba, traçadá e vau retratam as características da água do rio, bem como do seu entorno. A lexia alva é vocábulo português originado do latim albus e retrata as águas límpidas do Rio Pardo em tempos pretéritos. O vocábulo cacimba, por sua vez, é um regionalismo do Nordeste segundo o Aurélio e refere-se às covas onde se acumula água na beira do rio. O vocábulo é tão comum na região que foi criado o verbo encacimbar. Quanto ao vocábulo traçadá, trata-se de uma denominação dada a uma espécie vegetal muito comum na beira de córregos e rios da região. O vocábulo não foi encontrado lexicalizado nas obras consultadas. Entretanto, há na região um vilarejo denominado Vereda do Traçadal, o que confirma ser comum o uso dessa lexia na região, além 510 do fato de dois entrevistados terem pronunciado tal lexia. Quanto ao vocábulo vau, é antigo na língua portuguesa e origina-se do latim vadum, referindo-se ao trecho raso de um rio. No segundo microcampo as lexias corgo, minador e tremendal relacionam-se a locais em que a água é abundante. O vocábulo corgo, bastante produtivo na região, é uma variante de córrego, sendo considerado um caso de retenção lexical segundo Amaral. A lexia minador, por outro lado, é um brasileirismo usual segundo Aurélio e tem como variante minadouro. Trata-se de uma nascente de um ribeirão ou córrego. Quanto ao vocábulo tremendal, trata-se de uma variante de tremedal, esse já dicionarizado em Morais e ainda nos dicionários atuais. É o mesmo que ―pântano, brejo, lodaçal‖. No terceiro microcampo as lexias curica e timburé, por sua vez, nomeiam peixes na região pesquisada. A primeira não foi encontrada dicionarizada na acepção de peixe, ao passo que timburé é encontrado como entrada no Freire na forma de timboré, apresentando ainda outras lexias variantes para a espécie como aracu, chimboré e campineiro. 6.1.4 Campo Léxico: Espaço físico O campo léxico espaço físico traduz, por meio do léxico, a paisagem, as formações naturais e as transformações provocadas pela atividade humana na região. Assim, foram agrupadas 23 lexias neste campo lexical: agreste; barroca; boqueirão; brocotó; calundum; campesta; capoeira; carrasco; carreiro; carrisqueiro; catinga; coivara; freguesia; gerais; manga; murundum; parambeira; picada; rodagem; sumitério; vaquejeiro; venda; vereda. No primeiro microcampo as lexias agreste, brocotó, campesta, capoeira, carrasco, carrisqueiro, catinga, coivara, gerais, vereda, retratam as características da vegetação da região da Bacia do Rio Pardo. O vocábulo agreste é antigo na língua portuguesa e na acepção encontrada na entrevista refere-se a ―ramo, palha seca‖. A lexia brocotó também é dicionarizada e apresenta a variante borocotó. Designa um terreno ruim, muito irregular e que dificulta o caminhar. Segundo Aurélio é um brasileirismo de origem tupi. O vocábulo campesta, por outro lado, não foi encontrado dicionarizado e refere-se a uma formação vegetal característica das regiões secas. Por ter sido registrada apenas uma ocorrência pode ser que seja um caso de formação esporádica, ou seja, uma nova formação, seguindo as regras de formação de palavras da língua, para satisfazer uma necessidade imediata, conforme define 511 Rocha (1999, p.81). Os vocábulos capoeira, catinga e coivara são dicionarizados e são de origem tupi, referindo-se às características físicas do relevo e vegetação da região. Quanto aos vocábulos carrasco e seu derivado carrisqueiro, ambos são dicionarizados no Aurélio e se tratam de lexias variantes. O primeiro é muito produtivo na região conforme atestado na ficha respectiva. As lexias gerais e vereda também são registradas em Aurélio e na acepção de ―campos ou planícies‖ são considerados brasileirismos. São duas lexias que melhor retratam a formação vegetal da região. No segundo microcampo as lexias barroca, boqueirão, calundum, murundum, parambeira referem-se às características físicas do relevo da região. Os vocábulos barroca e boqueirão são antigos na língua portuguesa. A lexia calundum, ao contrário, não foi registrada em nenhuma das obras consultadas e por ter apenas um registro no corpus pode ser que seja um regionalismo ou mesmo um caso de geração espontânea. O vocábulo murundum foi registrado em Freire e em Amaral na forma murundu e tem origem no quimbundo. Refere- se no contexto da entrevista a um amontoado de terra. Quanto ao vocábulo parambeira, trata- se de um caso de variação linguística, pois foram registradas nos dicionários as formas perambeira e pirambeira. Como houve o registro da variante parambeira na fala dos três entrevistados em que a variável foi pronunciada, parece ser essa forma a norma na região pesquisada. O terceiro microcampo é representado pelas lexias carreiro, freguesia, manga, picada, rodagem, sumitério, vaquejeiro, venda, as quais retratam as transformações provocadas pelo homem no meio em que habitam. As lexias carreiro e freguesia são antigas na língua portuguesa, tendo registro na língua desde o século XIII. São registradas em dicionários desde Bluteau até os dias atuais com Aurélio. O vocábulo manga, no contexto da entrevista, é um regionalismo, segundo Aurélio, e faz parte da cultura material dos habitantes da área rural. O vocábulo vaquejeiro, apesar de também fazer parte da lida do homem do campo na região, não consta em nenhum dos dicionários consultados. A própria formação do vocábulo foge às regras de formação de palavras. Pode se tratar de um caso de geração espontânea. Os vocábulos picada e rodagem são bem próximos semanticamente, sendo que o primeiro denomina uma abertura na mata para passagem humana e o segundo refere-se a uma abertura de estrada para veículos diversos. O primeiro é antigo na língua portuguesa, ao passo que o segundo não tem registro nos dicionários consultados. Em relação à sumitério e venda, relativo a locais erguidos pela mão do homem, o primeiro trata-se de uma variante de cemitério, tendo sido pronunciada por dois entrevistados e está registrada apenas em Amaral 512 (1976), ao passo que o segundo é vocábulo antigo na língua portuguesa, com registro desde o século XIII segundo Cunha (1986). 6.1.5 Campo léxico: Relação espacial Este campo léxico descreve o vocabulário utilizado pelo homem da região para tratar das relações espaciais, tais como: acá; adonde; banda; de junto; em roda; intrás; légua; meada; premero; rabeira; riba. As lexias acá e adonde são advérbios bastante antigos na língua portuguesa e concorreram em alguma época com os vocábulos aqui ou cá e onde, respectivamente. Acá é considerado um arcaísmo de acordo com Cunha, o mesmo sendo dito de adonde, conforme registrado em Huber 21 . O vocábulo banda é antigo na língua portuguesa, sendo registrado desde o século XV até os dias atuais, sendo variante concorrente de lado. Quanto às locuções de junto e em roda, são muito próximos semanticamente, podendo ser vocábulos concorrentes dependendo do contexto. A locução de junto, embora não seja dicionarizada no Aurélio, aparece como exemplo em Freire e é bastante corrente na fala das pessoas, com 17 ocorrências na fala de 10 entrevistados. A locução em roda, por outro lado, apesar de ser dicionarizada, é pouco produtiva, aparecendo somente uma vez nas entrevistas. Quanto ao vocábulo intrás, trata-se de uma variante não dicionarizada de atrás, tendo sido pronunciada uma única vez. O vocábulo légua, diferentemente, é antigo na língua portuguesa, sendo registrado até nos dicionários atuais. É um vocábulo ainda bastante produtivo na região, com 44 ocorrências registradas nas entrevistas. A considerar os dados pesquisados, pode-se afirmar que no meio rural é mais usual que a medida itinerária quilômetro. A lexia meada, na acepção encontrada na entrevista, ou seja, significando ―lugar, local‖, não é dicionarizada, embora seja produtiva na língua informal. O vocábulo premero, variante formal de primeiro e bastante produtivo na região, com 13 ocorrências na fala de oito entrevistados, trata-se de um caso de retenção lexical, não dicionarizado e constando em Fernão de oliveira, segundo Amaral. Em relação a rabeira, trata-se de um vocábulo corrente na língua portuguesa e está dicionarizado nos dicionários mais atuais. Segundo Aurélio, trata-se de um brasileirismo. Outro vocábulo muito produtivo nesse campo lexical é riba, com 83 ocorrências na fala de 29 entrevistados. Trata-se de um vocábulo antigo na língua portuguesa e ainda hoje bastante usual na 21 HUBER, Joseph. Gramática do Português Antigo, 1986, p.255. 513 linguagem popular, sobretudo do meio rural. A considerar os dados dessa pesquisa, é uma variante altamente concorrente do advérbio cima na região pesquisada. 6.1.6 Campo léxico: Tempo O campo léxico tempo é constituído por 16 lexias: altura; anté; antigório; antonte; arco-da-velha, com pouco; de pouco; de primeiro; derradeiro; de sempre; despois; dispois; dipois; em ante; inté; isturdia. As lexias simples altura, anté, inté, antigório, antonte, derradeiro, despois, dipois, dispois e isturdia referem-se a um espaço decorrido no tempo. O substantivo altura carrega o significado de ―idade ou época passada‖ e foi encontrado dicionarizado nessa acepção apenas no Aurélio. Quanto às lexias anté e inté, tratam-se de variantes formais de até, sendo que a primeira não foi encontrada dicionarizada, ao passo que a segunda aparece como entrada nos dicionários mais atuais, embora seja considerada uma variante antiga e popular. Entretanto, mesmo não sendo dicionarizada, anté mostrou-se mais produtiva que inté, com 14 ocorrências da primeira contra sete da concorrente. O vocábulo antigório é outro que não foi encontrado dicionarizado, embora seja previsível sua criação a partir das regras de formação de palavras, ou seja, um substantivo acrescido do sufixo –ório, como em simples > simplório. Quanto ao advérbio antonte é registrado em Bluteau e em Morais, bem como nos dicionários da primeira metade do século passado, podendo ser considerado um caso de retenção lexical, visto não ser mais lexicalizado no Aurélio. O adjetivo derradeiro, variante lexical de último, é bem antigo na língua portuguesa e ainda usual, sendo registrado nos dicionários atuais, como no Aurélio. O vocábulo mostrou-se relativamente produtivo na fala dos entrevistados, com 13 ocorrências em sete entrevistas. A respeito das variantes despois, dispois e dipois, embora não sejam consideradas formas padrões da língua portuguesa, verifica-se o seu uso na fala de 10 entrevistados, com 14 ocorrências. A variante despois, encontrada em todos os dicionários consultados é considerada um arcaísmo, conforme fontes em Amaral e em Aurélio, o que se conclui que os dados anteriores revelam um conservadorismo linguístico na fala dos habitantes da região pesquisada. O vocábulo isturdia, por sua vez, é registrado apenas em Amaral, sendo considerado comum na linguagem popular, sobretudo do meio rural. No que tange às locuções deste campo léxico, o substantivo arco-da-velha é antigo na língua portuguesa, com registro desde o século XVIII, de acordo com o Amaral. No 514 Aurélio não aparece com a acepção do contexto da entrevista, sendo mais produtiva na fala dos mais velhos, o que permite afirmar que logo poderá ser mais um caso de retenção lexical. A locução adverbial com pouco, variante lexical de de repente, embora não seja dicionarizada, mostrou-se muito produtiva na região, com 51 ocorrências na fala de 22 entrevistados. Outra que se mostrou muito produtiva foi a locução adverbial de primeiro, com 141 ocorrências na fala de quase todos os entrevistados. A considerar os dados, pode se afirmar que é mais produtiva que sua variante concorrente antigamente, embora seja lexicalizada apenas em Freire. Em Amaral (1976), não no vocabulário propriamente dito, mas no prefácio (p.57), o autor considera essa locução como arcaica. Quanto às locuções adverbiais de pouco, variante lexical de há pouco, e de sempre, ambas não são dicionarizadas, embora a primeira tenha sido encontrada na fala de seis entrevistados, ao passo que a segunda teve uma única ocorrência. Finalmente, a locução em ante, variante de antes, parece ser usual, pelo menos na linguagem popular, haja vista ter sido dicionarizada em Freire e em Amaral. Os dados revelam certa produtividade na região, com oito ocorrências na fala de seis entrevistados. 6.2 Macrocampo Sociedade Neste segundo macrocampo foram agrupados nove campos lexicais, os quais procuram ressaltar os aspectos humanos da região pesquisada, ou seja, os costumes e valores do seu povo, as relações sociais presentes nas comunidades, a riqueza material e espiritual produzida ou utilizada, os remédios e a culinária, e também algumas visões de mundo em relação à quantidade, estado ou formas dos bens que estão em seu entorno. 6.2.1 Campo léxico: Agentes humanos Este campo léxico é composto por 32 lexias, as quais retratam os principais agentes humanos que são constitutivos da sociedade da região, seja no presente ou no passado, a saber: agregado; arrieiro; boiadeiro; caboclo; cabra; camarada; cantador de Reis; capanga; carapina; cometa, coronel; fiinho de imbigo; gentio; guieiro; jagunço; 515 legalista; madrinheiro; mãinha; mudernagem; novata; para-terra; raizeiro; rapariga; reiseiro; revoltoso; rezadeira; seleiro; sinhá; tropeiro; tucaiadô; vaqueiro; vendeiro. Um primeiro microcampo deste campo léxico diz respeito aos agentes humanos ligados às atividades das fazendas, sendo constituído pelos seguintes vocábulos: agregado, camarada, capanga, jagunço. Os vocábulos agregado e camarada se referem aos trabalhadores das fazendas, diferenciando apenas na relação de cada um com o dono da terra, ou seja, enquanto o camarada é um empregado da fazenda, o agregado é uma pessoa que labuta na terra do fazendeiro sem ser propriamente um empregado. Ambos os vocábulos são brasileirismos, segundo Aurélio, sendo comuns na região, com oito ocorrências para agregado e 19 para camarada. Em relação à capanga e jagunço, se tratam de vocábulos concorrentes na região, se referindo ao ―guarda-costas‖ ou ―matador de aluguel‖. São brasileirismos, segundo Aurélio, sendo que capanga ainda é apontado nesse dicionário como um regionalismo da Bahia e Mato Grosso, o que permite afirmar que se trata de mais um empréstimo da região vizinha. Um segundo microcampo está relacionado aos agentes humanos ligados à lida com o gado, sendo representado pelos vocábulos arrieiro, boiadeiro, cometa, guieiro, madrinheiro, tropeiro, vaqueiro. Em relação à arrieiro e tropeiro, se tratam de vocábulos que dividem o mesmo significado. O primeiro é mais antigo na língua portuguesa, datando do século XVII, segundo Cunha (1986), ao passo que o segundo é um brasileirismo com entrada na língua na primeira metade do século XIX. Embora concorrentes em alguma época pretérita, hoje é bem mais usual o uso do vocábulo tropeiro, o que pode ser confirmado pelo número de ocorrências de ambos no corpus selecionado. Da mesma forma os vocábulos boiadeiro e vaqueiro também são variantes concorrentes, dividindo o mesmo significado, e antigos na língua portuguesa. Embora o segundo se mostre bem mais produtivo que o primeiro na região pesquisada, não se pode afirmar, nesse caso, que isso seja uma realidade no restante do Brasil. Somando-se a essas há também a lexia cometa, dicionarizada em Freire é de origem latina. Refere-se ao caixeiro-viajante, mercador de estrada que transportava suas mercadorias em lombo de burros ou bestas. É considerado um brasileirismo pelo Dicionário Priberan da Língua Portuguesa, obra essa que trata do português europeu. O vocábulo guieiro também é concorrente de boiadeiro e vaqueiro, embora se trate de um brasileirismo, conforme Aurélio, ao contrário dos outros dois que são antigos na língua portuguesa. Quanto ao vocábulo madrinheiro, esse também carrega a mesma acepção de boiadeiro, vaqueiro e guieiro, ou seja, de pessoa que guia animais, contudo está pragmaticamente relacionado à tropa de bestas ou burros e não de bovinos quanto aos outros três vocábulos. 516 Um terceiro microcampo está associado às profissões ou atividades afins, como é o caso de carapina, raizeiro, seleiro e vendeiro. O vocábulo carapina é variante lexical de carpinteiro, sendo antigo na língua portuguesa, datado de 1623, conforme Cunha (1986), embora não esteja registrado em Bluteau e em Morais. É um brasileirismo de origem do tupi kara‟pina. Quanto a raizeiro, trata-se de um regionalismo do NE e MG, conforme Aurélio e concorre com outras variantes no Brasil como raizista, doutor-de-raiz e remedista. O vocábulo representa um agente humano que é parte da cultura da região e que até hoje se vale das raízes para curar seus males. Em relação ao vocábulo seleiro, esse é antigo na língua portuguesa, tendo registro em Bluteau. Embora não esteja registrado em Aurélio é ainda produtivo na língua portuguesa, apesar do seu referente estar escasseando em virtude da industrialização da atividade. O vendeiro é outro vocábulo antigo na língua portuguesa, tendo sido concorrente lexical de taverneiro em tempos pretéritos. Apesar de Cunha (1986) apontar seu registro na língua como 1844, na verdade há um equívoco, pois o vocábulo era já dicionarizado em Bluteau com a mesma acepção. É um vocábulo mais usual fora dos centros urbanos, em razão de ainda haver as vendas somente em pequenos lugarejos. Um quarto microcampo está associado às manifestações religiosas ou crenças, como é o caso de cantador de Reis, reiseiro / rezeiro e rezadeira. Os três vocábulos carregam a mesma acepção e são concorrentes na região, embora o mais produtivo seja reiseiro ou rezeiro com 39 lexias. O único lexicalizado conforme a acepção do contexto foi reiseiro, dado como entrada no Freire e considerado por este um lusitanismo. Uma observação a ser feita quanto as variantes concorrentes reiseiro e rezeiro é sobre sua origem. A primeira, reiseiro, deriva de Reis e, portanto, está relacionada a alguém que canta Reis. A segunda, rezeiro, deriva de rezar, e está relacionada a alguém que reza na folia de Reis. Embora de origens diferentes, a acepção de ambos no contexto é a mesma. Os vocábulos caboclo, cabra, coronel, gentio, legalista, para-terra, rapariga, revoltoso, sinhá, tucaiadô, por sua vez, estão relacionados aos diversos agentes que compõem a sociedade da região em geral, seja no presente ou passado e compõem o quinto microcampo. O vocábulo caboclo é um brasileirismo de origem tupi e registrado na língua portuguesa desde o século XVII, conforme Cunha. No contexto da entrevista significa ―índio ou descendente de índio‖. A lexia cabra é outro brasileirismo na acepção da entrevista, conforme pode ser visto no Aurélio, ou seja, se trata de qualquer sujeito ou indivíduo. A figura representada pelo vocábulo coronel é uma marca cultural não só da região, mas também de muitas cidades no interior do Brasil, em épocas pretéritas. Trata-se de uma lexia antiga na língua portuguesa, embora com o sentido de ―chefe político‖ seja mais recente e considerado 517 um brasileirismo semântico por Aurélio. Em relação ao vocábulo gentio, verifica-se que ele é antigo na língua portuguesa, embora haja uma pequena alteração na acepção em relação ao contexto da entrevista, mas que no fim se trata de um ―indivíduo, pessoa‖. Diferentemente, o vocábulo legalista, embora dicionarizado, se trata de um regionalismo na acepção da entrevista, ou seja, designação dada pelos habitantes locais às tropas do governo federal que estavam no encalço da Coluna Prestes em 1926. É, portanto, um vocábulo que resgata parte da história da região. Quanto ao vocábulo para-terra, o mesmo foi criado em oposição ao substantivo sem-terra e nomeia as pessoas assentadas pelo governo em terras do poder público. Não se trata de um caso de formação esporádica como outros apresentados, visto que esse vocábulo foi pronunciado por dois entrevistados, sendo ainda considerado usual na região, conforme conhecimento do pesquisador. Em relação ao vocábulo rapariga, no contexto da entrevista, trata-se de um regionalismo do N, NE, MG e GO, conforme Aurélio. O vocábulo revoltoso, assim como legalista, embora lexicalizado, é um regionalismo da região pesquisada, pois se refere aos integrantes da Coluna Prestes que por lá passaram no ano de 1926, causando pavor e morte aos moradores. É um vocábulo muito produtivo na região, com 102 ocorrências na fala da quase totalidade dos entrevistados. A lexia sinhá representa outro caso de brasileirismo e também é parte da história e cultura dos habitantes da região. Por fim, o vocábulo tucaiadô, derivado do substantivo tocaia. Não foi encontrado lexicalizado e parece se tratar de mais um caso de formação esporádica. Na acepção da entrevista se trata de ―fiscal da receita, cobrador de impostos‖. Por último, no sexto microcampo, seguem alguns vocábulos que os locais se referem a alguns de seus pares, como é o caso de fiinho de imbigo, mâinha, mudernagem, novata. O primeiro deles, fiinho de imbigo, não foi encontrado lexicalizado e parece se tratar de mais um caso de formação esporádica. Refere-se ao filho do próprio ventre. O vocábulo mãinha, por outro lado, é muito usual na região e trata-se de um empréstimo da Bahia, embora não seja lexicalizado. Trata-se de uma forma alterada de mãezinha. Quanto ao vocábulo mudernagem, trata-se da variante lexical de juventude na região. Conquanto não seja dicionarizado, é bastante usual pelos falantes daquela área, com nove ocorrências na fala de sete entrevistados. O vocábulo novata, também concorrente lexical de juventude, também não é lexicalizado e parece ser mais um caso de formação esporádica. 518 6.2.2 Campo léxico Estado Este campo léxico é constituído por 51 unidades léxicas, as quais traduzem o estado material de coisas ou objetos, como também o estado físico ou psicológico dos agentes humanos ou de outros seres vivos. Eis as lexias: adobe; abarracado; abrida; acismada; alforridão; alvo; analfabético; antigório; aparrambado; arranchado; avultado; bagaceira; bestagem; bestalhada; brenha; breu; chumbado; de bituca; de lascar o cano; descaderada; desgramada; destiorada; desvagado; embuçado; encaramuçada; enfornado; enfuazado; enfusado; engeado; especado; espuletado; estripuleiro; finado; forro; fraco; fulo; garrancho; ingrujido; intiriçado; mafabeto; malino; mulambo; perrengue; pitimbado; ramo fraco; ribuçada; sujigada; sura; tá no cu da cobra; tição; xavado. Um primeiro microcampo a ser analisado neste campo léxico é aquele relacionado ao estado de coisas, objetos ou ao meio ambiente, representado pelos vocábulos adobe; abarracado, abrida, antigório, apurar, avultado, bagaceira, brenha, breu, destiorada, desvagado, embuçado, especar, garrancho, mulambo, tição, xavado. A lexia adobo é originada do árabe at-tub, sendo encontrada na língua portuguesa desde o século XVI conforme Cunha e lexicalizada já em Bluteau. Mesmo estando no século XXI adobo é um vocábulo que ainda retrata a realidade humilde de muitas moradias na zona rural do Norte de Minas e também de outras regiões do Brasil. A lexia abarracado, derivado de barraca, é lexicalizada e refere-se àquilo que está acomodado em barracas. O particípio abrida é forma antiga do verbo abrir e não é mais usual na língua portuguesa, tendo sido substituído pela forma aberta. Trata-se, portanto, de um caso de retenção linguística. Em relação ao adjetivo antigório, não é lexicalizado e parece se tratar de um caso de formação esporádica, em virtude de só ter aparecido uma única vez. O adjetivo avultado é outro que é antigo na língua portuguesa e na entrevista carrega a acepção de ―considerável, volumoso‖. Quanto ao vocábulo bagaceira, embora dicionarizado, não foi encontrado lexicalizado na acepção da entrevista, ou seja, significando ―confusão, agitação, tumulto‖. No entanto, esse não será considerado um caso de formação esporádica, mesmo tendo aparecido em única ocorrência, pois ele é produtivo na região, conforme a experiência de falante / ouvinte do pesquisador. Os vocábulos brenha e breu são antigos na língua portuguesa, embora a acepção de breu do contexto seja mais atual na língua portuguesa, tratando-se de um caso de analogia. Em relação ao vocábulo destiorada, trata-se de uma corruptela de deteriorada. Desvagado é outro vocábulo não dicionarizado e significa ―sem índole, sem pudor‖ na entrevista. Por ter sido 519 registrada apenas uma ocorrência pode ser que seja um caso de formação esporádica. A respeito dos vocábulos embuçado e especar, o primeiro é antigo na língua portuguesa, com registro na língua desde o século XVI, segundo Cunha, ao passo que o segundo é mais recente, com entrada na língua a partir da segunda metade do século XIX. O vocábulo garrancho, tal como embuçado, também é antigo na língua portuguesa, registrado na língua desde o século XVI. Entretanto, na acepção de ―arbustos tortuosos‖, é um pouco mais recente, sendo registrado a primeira vez no Morais. O vocábulo tição é ainda mais antigo, sendo registrada a forma tiçom no século XIII, conforme Cunha. Quanto a mulambo e xavado, ambos não foram encontrados nos dicionários consultados. Entretanto, o primeiro é usual no português brasileiro, sendo apontado como um africanismo por Castro (2001). O vocábulo xavado, por outro lado, parece se tratar de mais um caso de geração espontânea e significa ―fechado, denso‖. O outro microcampo refere-se as estado de pessoas ou outros seres vivos, constituído pelos vocábulos acismada, alforridão, alvo, analfabético,aparrambado, bestagem, bestalhada, chumbado, de bituca, de lascar o cano, descaderada, desgramada, encaramuçada, enfornado, enfuazado, enfusado, engeado, espuletado, estrupuleiro, finado, fraco, fulo, ingrujido, intiriçado, mafabeto, malino, perrengue, pitimbado, ramo fraco, ribuçada, sujugada, sura e tá no cu da cobra. A lexia acismada é uma alteração do adjetivo cismada, sendo o acréscimo da vogal em casos semelhantes comum na região pesquisada. O substantivo alforridão deriva do português alforria e este do árabe al-hurrua, conforme Cunha e carrega a acepção de ―liberdade‖. Esta forma não é lexicalizada e parece ser mais um caso de formação esporádica. Por outro lado o adjetivo alvo, do latim albus, a, um é antigo na língua portuguesa e mostrou-se bem usual na região. Quanto ao vocábulo analfabético, trata- se de um adjetivo não lexicalizado na acepção da entrevista, ou seja, significando ―que não sabe ler ou escrever‖. Com outra acepção foi encontrado em Freire e em Aurélio. O vocábulo aparrambado é outro que não é dicionarizado e parece ser mais um caso de geração espontânea. Nas entrevistas esse vocábulo foi encontrado com duas acepções, sendo como adjetivo e também como nome. Quanto aos vocábulos bestagem e bestalhada, variantes lexicais concorrentes, o primeiro é um brasileirismo, conforme Aurélio, ao passo que o segundo não foi encontrado dicionarizado. Vocábulos como esses e outros derivados de besta são bastante produtivos na região. Em relação ao adjetivo chumbado, verifica-se que é antigo na língua portuguesa, sendo lexicalizado já em Morais. Por outro lado, a locução adverbial de bituca não foi encontrada dicionarizada e sua origem não foi encontrada. Na entrevista tem o sentido de ―à espreita, à espera de alguém‖. No caso da unidade fraseológica de lascar o cano, 520 nenhum dos dicionários consultados contemplou o sintagma, embora seja claro que é formado por vocábulos de origem portuguesa. No contexto carrega o sentido de ―muito bom, estupendo‖. Quanto aos vocábulos descadeirado e desgramado, o primeiro é dicionarizado no Aurélio e considerado um brasileirismo, ao passo que o segundo, nas acepções encontradas não é dicionarizado. O primeiro, embora datado como sendo do século XIX por Cunha, já constava em Morais com a mesma acepção. Já o segundo, com outra acepção, é mais recente na língua portuguesa, sendo dicionarizado apenas em Aurélio e em Amaral, sendo que esse último registra a palavra como não dicionarizada em sua época. A respeito do vocábulo encaramuçada, trata-se de uma alteração de escaramuçada, forma essa dicionarizada em Freire e em Aurélio. Ambas apresentam origem e datação desconhecida. No contexto carrega a acepção de ―fraca, combalida‖. Diferentemente desse, o vocábulo enfornado é de origem conhecida, ou seja, do português forno, oriundo do latim furnus. Embora não seja dicionarizado em Aurélio, aparece em Morais e em Freire e no contexto carrega a acepção de ―escondido, isolado do convívio com outros‖. Quanto aos adjetivos enfuazado e enfusado, ambos não foram encontrados dicionarizados nas obras consultadas e não se sabe sua origem e datação. O primeiro tem o sentido de ―bravo, arredio‖ ao passo que o segundo tem o significado de ―mal amada, encalhada‖. A respeito desse último, há o registro da forma verbal enfusar no Freire. Outro adjetivo não dicionarizado é engeado, forma despalatalizada de engelhado, datado do século XVI e derivada de gelha, conforme registra Cunha. No contexto carrega a acepção de ―enrugado, murcho‖. Outros dois vocábulos não dicionarizados são espuletado e estripuleiro. O primeiro é derivado do português espoleta, derivado do italiano spoleta. O segundo, por sua vez, vem do português estripulia, que por sua vez deriva de tropel, do antigo francês. Em relação a espuletado, embora não seja dicionarizado, é encontrado na linguagem popular. No caso de estripuleiro, parece tratar-se de um caso de formação esporádica, pois, embora criada de acordo com as regras de formação de palavras, não foi institucionalizada. No contexto das entrevistas a primeira carrega a acepção de ―endiabrado; espertalhão‖ e a segunda é definida por ―aquele que faz muita estripulia ou travessuras‖. No que tange às lexias finado, fraco e fulo, as três são dicionarizadas, embora essa última apresente acepção divergente daquela dicionarizada. A lexia finado tem origem no vocábulo fim e é datada do século XIV, conforme Cunha. O vocábulo fraco, por sua vez, vem do latim flaccus. A considerar a frequência de uso desses dois vocábulos nas entrevistas, poder-se-ia tomá-los como norma linguística em relação a falecido e pobre, respectivamente. O vocábulo fulo, datado do século XVIII, deriva do português fulvo e este do latim fulvus. Embora dicionarizado, não carrega a acepção de ―pouco, diminuto, reduzido‖ presente no 521 contexto das entrevistas, ou seja, trata-se de um neologismo semântico. Um caso de geração espontânea nesse campo lexical é ingrujido. Trata-se de uma formação lexical a partir de uma base não conhecida na língua. Não foi encontrada em nenhum dos dicionários consultados e, a considerar as entrevistas, trata-se de uma variante concorrente de engeado. No que tange aos vocábulos intiriçado e mafabeto, ambos não dicionarizados, trata-se de alteração de inteiriçado e analfabeto, respectivamente, vocábulos de origem portuguesa originados do latim. No caso de mafabeto, parece ser uma alteração de *mal + alfabeto > malafabeto > mafabeto. Quanto ao adjetivo malino, trata-se de variante antiga de maligno, datado desde o século XIV, conforme Cunha. Embora Amadeu Amaral considere o vocábulo um arcaísmo de forma, não pode ser considerado como tal, em virtude de ter sido considerado variante usual em dicionários como Bluteau e Morais, somando a isso o fato de ser usual na linguagem popular, conforme o Aurélio. Em relação aos vocábulos perrengue e pitimbado, tratam-se de variantes lexicais na região, carregando o significado de ―fraco, doentio‘. Ambos são dicionarizados, sendo o primeiro datado do século XIX e de origem castelhana, conforme Cunha e o segundo derivado de pitimba, vocábulo de origem desconhecida, e considerado um brasileirismo por Aurélio. Outros dois adjetivos desse campo são ribuçada e sujigada, ambos de origem portuguesa. O primeiro é dicionarizado desde Bluteau, ao passo que o segundo, em razão de ser uma forma mais alterada, não foi encontrado dicionarizado. O adjetivo suro é outro que não é tão recente na língua e, embora não tenha registro de datação, é encontrado desde a obra de Morais. Trata-se de um vocábulo cuja origem é o castelhano zuro conforme Freire. Em Aurélio não há essa indicação e o vocábulo é apontado como um brasileirismo e apresenta outros variantes para o adjetivo. Um dos poucos vocábulos desse grupo da categoria dos nomes é ramo fraco, o qual se refere a ―pessoa pobre, sem recursos‖. Embora não tenha sido encontrado dicionarizado nas obras consultadas, trata-se de um vocábulo formado por palavras de origem latina. Apesar de aparecer uma única vez nas entrevistas, é um nome muito usual na região. Por último a fraseologia tá no cu da cobra, que pode ser definida como ―estar em situação difícil, em apuros‖. Não foi encontrada dicionarizada e, apesar de não se saber a origem da expressão, é constituída por vocábulos de origem portuguesa. 522 6.2.3 Campo léxico: Saúde Este campo léxico é constituído de nove lexias que estão relacionadas às enfermidades das pessoas da região, bem como de alguns remédios para cura desses males. São elas: água-inglesa; catita; chumbalhada; enguentada; mandruscada; matutagem; pereba; perrengue; pitimbado. Entre as enfermidades, sejam físicas ou psíquicas temos: catita, pereba, perrengue e pitimbado. O vocábulo catita refere-se a feridas que aparecem no corpo das pessoas e não foi encontrado em nenhuma das obras consultadas. Parece tratar-se de uma palavra de origem indígena, mas não foi encontrada nenhuma fonte que confirme tal informação. Por outro lado, o vocábulo pereba que também se refere a feridas na pele foi encontrado em Freire e trata-se de um vocábulo de origem tupi, datado desde 1749 conforme o cunha. Quanto aos vocábulos perrengue e pitimbado, são variantes concorrentes na região. O primeiro é de origem castelhana, sendo dicionarizado na língua portuguesa desde 1844 segundo Cunha. É considerado um brasileirismo semântico por Aurélio. O segundo é derivado de pitimba, vocábulo cuja origem é desconhecida. Talvez possa ser uma alteração de pitinga ―branco, claro, sem pintura‘, vocábulo de origem tupi, de pe‟tina < a‟pe ‗casca‘ + tina ‗branco (Cf. CUNHA, 1986, p.611), em razão da ―falta de cor‖ da pessoa que está enferma. É também um brasileirismo segundo o Aurélio. Os remédios ou procedimentos usados para curar os diversos males são representados pelas seguintes lexias: água-inglesa, chumbalhada, enguentada, mandruscada e matutagem. A lexia água-inglesa refere-se a um medicamento muito comum e encontrado nas farmácias da região em tempos pretéritos. Era indicado para mulheres no pós-parto para recompor as forças mais rapidamente ou ativar a memória, segundo consta em Chernoviz (1908). As lexias chumbalhada e enguentada referem-se à mesma coisa, ou seja, trata-se da mistura de várias espécies de plantas para obtenção de chás. São, portanto, variantes lexicais e ambas não são dicionarizadas. O vocábulo chumbalhada, derivado de chumbo, pode ser resultado de uma analogia com chumbado, em razão da mistura que será ingerida. O vocábulo enguentada, por sua vez, parece ser formado a partir do substantivo unguento acrescido do sufixo –ada, passando por um processo de assimilação. Quanto ao vocábulo matutagem, esse também se refere a uma mistura de raízes, porém acrescido de esterco de gado e utilizado como emplastro. Ao contrário dos dois anteriores, é dicionarizado no Aurélio, sendo considerado um brasileirismo. 523 6.2.4 Campo léxico: Crenças /Costumes Este campo léxico, que pode ser subdividido em três microcampos, é constituído por 30 unidades léxicas, quais sejam: assombramento; azabumba; batistério; bicho da carneira; bicho da Fortaleza; bicho de Pedra Azul; boiado; boi-janeiro; causo; contradança; coresma; dizer missa; esprito; festa de Reis; folia de Reis; forró; intradição; lapinha; Maria Tereza; ofício; plataforma; premessa; quebrante; quebrar panela; quermessa; rancheira; Reis; romaria; rosário; Santo Reis; vultado. O primeiro microcampo é composto por aquelas lexias que dizem respeito às superstições das pessoas, aos seus medos e fantasias. É o caso de assombramento, bicho da carneira, bicho da Fortaleza, bicho de Pedra Azul, esprito, plataforma e vultado. O vocábulo assombramento não é recente na língua portuguesa, sendo registrado desde Bluteau. Em Aurélio o vocábulo é considerado uma variante de assombração. Apesar de constar na fala de dois entrevistados, é bem menos produtiva na região que sua concorrente citada. Quanto aos vocábulos bicho da carneira, bicho da Fortaleza e bicho de Pedra Azul, trata-se de um único referente na região, sendo, portanto, nomes concorrentes. Refere-se a um caso de assombração muito conhecido em Pedra Azul e difundido por toda região. Pode ser considerado, portanto, um caso de regionalismo. Da mesma forma, os vocábulos esprito, plataforma e vultado se identificam com a mesma coisa, ou seja, são formas para se referir à assombração, fantasma ou espíritos. O primeiro, de origem latina, tem a forma registrada em Morais e em Freire e trata-se de um caso de síncope de espírito. Quanto ao vocábulo plataforma, é registrado em Freire e em Aurélio e tem origem no francês plate-forme. Embora seja uma palavra rara de se ouvir nesta acepção, foi registrada na fala de dois entrevistados. A variante vultado, por sua vez, conquanto não foi encontrada dicionarizada, tem origem no latim vultus. O segundo microcampo, relacionado aos aspectos religiosos dos habitantes, é composto dos seguintes vocábulos: batistério, coresma, dizer missa, lapinha, ofício, premessa, quebrante, romaria e rosário. O vocábulo batistério, embora tenha sido encontrado dicionarizado, não apresenta a mesma acepção encontrada nas entrevistas, ou seja, com o sentido de ―cerimônia de batismo‖. É palavra de origem latina e é atestada na língua portuguesa desde o século XVI, conforme Cunha. Quanto à coresma, trata-se de um arcaísmo, sendo essa forma registrada no século XV, conforme registro em Cunha. Igualmente é um vocábulo de origem latina. A respeito da locução dizer missa, essa forma é registrada em 524 Bluteau e ainda na definição da entrada dizer em Morais. Embora não tenha sido registrada essa forma como arcaísmo em Cunha, ela deve ser considerada como tal, pois era usual no período arcaico, conforme registro contido no campo obs da ficha lexicográfica. Por outro lado, a lexia lapinha, na acepção encontrada na entrevista, ou seja, como ―presépio‖, só foi lematizada em Freire. Esse vocábulo representa uma tradição antiga dos moradores da região. Outro vocábulo antigo na língua portuguesa é ofício, sendo registrado desde o século XIII, e de origem latina, conforme consta em Cunha. Não é um arcaísmo, pois ainda é usual na língua portuguesa no sentido do contexto, sendo registrado em Aurélio. Por outro lado, a forma premessa, variante de promessa, não foi encontrada dicionarizada. Trata-se de um caso de assimilação dessa última. Igualmente a variante quebrante não tem registro dessa forma nos dicionários consultados, sendo a forma quebranto dicionarizada desde Bluteau, e mais que isso, usual na língua portuguesa desde o século XIII, conforme registro em Cunha. Assim como quebranto, o vocábulo romaria é bem antigo na língua portuguesa, com registro desde o século XIII e registrado nos dicionários desde Bluteau. Esse vocábulo retrata bem a religiosidade dos habitantes da região, que ano após ano partiam para o santuário de Bom Jesus da Lapa a fim de pagar suas promessas. O vocábulo rosário, também de origem latina, é registrado na língua portuguesa desde o século XVI, conforme Cunha. É, portanto, juntamente com premessa e romaria, um vocábulo que traduz com muita exatidão parte da cultura religiosa daquele povo. O terceiro microcampo abarca aquelas lexias ligadas às festas populares e às tradições, como é o caso de azabumba, boiado; boi-janeiro, causo, contradança, festa de Reis, folia de Reis, forró, intradição, Maria Tereza, quebrar panela, quermessa, rancheira, Reis e Santo Reis. O vocábulo azabumba encontrado nas entrevistas é uma alteração de zabumba, vocábulo de origem africana, de acordo com Castro (2001), e com registro em Aurélio. Entretanto não se sabe sua origem e datação. Refere-se a um dos instrumentos de percussão utilizados na folia de Reis. Associado à tradição do berrante está o vocábulo boiado, o qual se refere ao som emitido pelo vaqueiro através daquele instrumento. O vocábulo foi encontrado em Morais, mas com acepção diferente daquela encontrada na entrevista, não tendo data certa de entrada na língua portuguesa. Os vocábulos boi-janeiro e Maria Tereza se referem às manifestações folclóricas dos habitantes da região. Nenhum dos dois apresenta registro nos dicionários consultados, embora aquilo que nomeiam representa manifestações similares ao boi-bumbá e aos bonecos gigantes de Olinda. O vocábulo causo, variante popular de caso, é considerado um brasileirismo pelo Aurélio, considerando-se o aspecto semântico da palavra, pois a considerar a forma, essa é antiga conforme aponta 525 Amaral. Os vocábulos contradança, festa de Reis, folia de Reis, Reis e Santo Reis estão contidos em uma mesma manifestação cultural. Contradança é na verdade uma dança realizada em pares, logo após a apresentação dos reiseiros ao dono da casa. É um vocábulo de origem inglesa, country-dance, que passou ao português via o francês contredance, conforme Cunha. Quanto aos demais, tratam-se de variantes lexicais de um mesmo referente, ou seja, a manifestação popular religiosa que representa, por meio de cantigas e da dança, a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. O vocábulo festa de Reis não foi encontrado como entrada lexical em nenhum dos dicionários consultados, ao passo que a variante lexical festa do Divino seja dicionarizada em Freire. Entretanto, ainda em Freire, na definição do vocábulo festa, há o registro de festa de Reis. O mesmo se dá quanto ao vocábulo folia de Reis, ou seja, como entrada lexical não há registro nas obras consultadas, mas aparece a forma reduzida folia em Aurélio, sendo tratado como brasileirismo na acepção encontrada nas entrevistas. Quanto à frequência nas entrevistas, a variante folia de Reis mostrou ser bem mais produtiva. No que tange à variante Reis, há o registro em Aurélio, embora com ênfase na data ―dia de reis‖ e não na manifestação cultural. Quanto a Santo Reis, não há o registro do vocábulo como entrada lexical, embora apareça em Freire, no enunciado definitório da entrada lexical reisada. Outros dois vocábulos relacionados às tradições festivas das pessoas da região são forró e rancheira. O primeiro aparece dicionarizado apenas em Freire, sendo considerado uma redução de forrobodó por Cunha. O vocábulo rancheira, por sua vez, é dicionarizado em Freire e em Aurélio, sendo que esse último trata o vocábulo como um brasileirismo com origem no castelhano rancheira. Trata-se de um tipo de dança muito comum no Sul do Brasil. Uma tradição ainda preservada pelos habitantes da região é representada pelo vocábulo quebrar panela. Trata-se de uma comemoração por ocasião do casamento da última filha da casa. A origem do termo está no fato de se quebrar uma panela de barro cheia de comida, ao final de uma pequena passeata feita pelos parentes e amigos, e dançar ao redor do que sobrou no chão. Não foi encontrado dicionarizado, podendo ser considerado um regionalismo. O vocábulo quermesse, com pequena alteração, foi encontrado em Freire e em Aurélio, sendo de origem do francês kermesse. Por último, a lexia intradição representa um caso de prótese do vocábulo tradição. 6.2.5 Campo léxico: Riqueza material 526 O campo léxico riqueza material abarca 79 unidades léxicas que dizem respeito à riqueza material produzida ou utilizada pelos habitantes da região pesquisada, assim como também por aquelas lexias relacionadas à toda sorte de coisas encontradas nas fazendas e terras da região. Arrolamos: aladim; alambique; algibeira; arapuca; arreado de cangaia; bacamarte; badoque; berrante; birro; bodoque; bruaca; buraca; cabaça; cacetinho; cama de vara; campa; cancela; candeia; candieiro; canga; cangaia; capanga; carabina; carneira; carro de boi; catre; ceveiro; chanteiro; chincherro; choça; clavinote; cobre; conto; criosene; curtume; despensa; dormidor; embornal; esprital; fifó; fixa; gamela; gangorro; gurita; harmônica; intendência; invernada; jequi; jirau; lamparina; maia; manga; marambaia; mata-burro; monjolo; mota; muringuinha; nica; paiosca; pano-de-bunda; parabel; patacão; pau-de-arara; pé de bode; pilão; pirosca; precata; puxada; quebra; rancho; rastel; réis; sumitério; taba; taca; tear/tial; tostão; urupuca; vintém. Tais lexias, por sua vez, podem ser subdivididas em treze microcampos. O primeiro microcampo está relacionado aos utensílios domésticos, tais como: birro, cabaça, gamela, muringuinha e pilão. Quanto ao vocábulo birro, esse não foi encontrado dicionarizado nessa forma com a acepção de ―peça de fazer renda‖, mas somente com outra acepção. Essa lexia rememora uma atividade muito usual no passado, qual seja, a produção de rendas de bilro, e que sobrevive ainda hoje na região, embora feita por algumas poucas pessoas. A lexia cabaça, de origem desconhecida, datada desde o século XIII conforme Cunha, e dicionarizada desde Bluteau, se refere a um utensílio ainda usado no meio rural na região. Igualmente o vocábulo muringuinha se refere a um utensílio doméstico, sendo considerado um brasileirismo por Aurélio e de origem africana, segundo Castro (2001). Gamela é outro vocábulo relacionado a utensílio doméstico, sendo originado do latim camella e registrado na língua portuguesa desde o século XIII, tendo sido encontrado em todos os dicionários consultados. Outro artefato muito utilizado é representado pelo vocábulo pilão. Trata-se de um vocábulo de origem francesa e corrente na língua portuguesa desde o século XVI. Entretanto, é interessante observar que a acepção que se refere ao pilão feito de grau de pau rijo é tido como usual no Brasil desde Bluteau. Trata-se, portanto, de um brasileirismo. O segundo microcampo refere-se aos móveis como cama de vara, catre, fixa, jirau e tear. O vocábulo cama de vara, não encontrado registrado nos dicionários consultados, representou uma realidade comum, em épocas pretéritas, na vida de trabalhadores rurais na região que não tinham condições econômicas para comprar uma cama decente. O catre é também outra realidade na vida dessas pessoas. O vocábulo relativo a esse móvel é antigo na língua portuguesa, sendo datado desde o século XVI na língua de Camões e tem origem no 527 tamul, língua do sudoeste da Índia. O vocábulo fixa encontra-se dicionarizado desde Bluteau, embora na acepção do contexto da entrevista, ou seja, designando ―travessa despontada que se encaixa na parte posterior das portas e janelas para manter as tábuas unidas‖ apareça somente nas obras de Freire e Aurélio. O vocábulo, originado do latim fixa, é considerado ainda um brasileirismo nesse último dicionário. O vocábulos jirau é outro produto criado pelo homem e usual na região pesquisada. Este vocábulo refere-se a uma espécie de estrado para depósito de utensílios domésticos. É de origem indígena, datado do século XVI. É ainda considerado um brasileirismo por Aurélio. O vocábulo tear é outro que espelha muito bem uma atividade muito comum realizada pelas mulheres da região em épocas pretéritas e que ainda hoje é exercido por algumas poucas pessoas, ou seja, a produção de colchas e outros produtos similares. Esse vocábulo de origem portuguesa e datado na língua desde o século XIV, conforme Cunha, apresenta no corpus as variantes tiar e tial, ambas bastante produtivas. O terceiro microcampo está associado à iluminação, sendo composto pelos seguintes vocábulos: aladim, candeia, candieiro, fifó, lamparina e puxada. A lexia aladim não foi encontrada dicionarizada e se refere a um aparelho de iluminação, similar a um lampião. A origem do nome provavelmente é alusiva à lâmpada maravilhosa de Aladim. Os vocábulos candeia e candieiro são originados do latim, de candela, e são antigos na língua portuguesa. Outro vocábulo relacionado a aparelho de iluminação nas entrevistas é fifó, uma espécie de lampião pequeno a querosene. Segundo o Aurélio, trata-se de um regionalismo da Bahia e Minas Gerais. A origem desse vocábulo não foi encontrada. Ainda como instrumento de iluminação há também a lamparina, referente ao vocábulo de origem castelhana, datado na língua portuguesa como do século XIX, conforme Cunha. Associado ao vocábulo lamparina há o vocábulo puxada, variante lexical de pavio. Trata-se de um vocábulo de origem portuguesa, não dicionarizado na acepção da entrevista, sendo considerado como norma lexical do grupo entrevistado frente à pavio, afirmação essa embasada na alta frequência do seu uso e pela ausência de uso do vocábulo concorrente. O quarto microcampo é representado pelos vocábulos relacionados à caça e à pesca, tais como: arapuca, bacamarte, badoque, bodoque, carabina, ceveiro, choça, clavinote, jequi, maia, parabel, pirosca, quebra, rastel e urupuca. Em relação aos tipos de armas, as lexias bacamarte e carabina foram encontradas dicionarizadas, sendo originadas do francês braquemart e carabine, respectivamente. São vocábulos usuais na língua portuguesa desde o século XVII e XIX, na mesma ordem. Outro vocábulo que se refere a uma arma neste grupo é clavinote, derivada de carabina e registrada na língua portuguesa desde 1716, conforme Cunha. Trata-se de um brasileirismo, conforme Aurélio. Da mesma forma, parabel 528 também nomeia um tipo de arma citado pelos entrevistados. O vocábulo, que não foi encontrado dicionarizado, é na verdade uma forma reduzida de parabellum, nome de uma pistola de fabricação alemã. Quanto à badoque e bodoque, ambas as formas são dicionarizadas e, segundo Cunha, é de origem árabe. Aurélio classifica o vocábulo badoque como um regionalismo de Alagoas. Quanto à datação, há um equívoco, pois Cunha aponta 1813 como sua lexicalização na língua portuguesa, ao passo que em Bluteau já havia o seu registro. Associado ao bodoque há o vocábulo maia, o qual se refere a um pequeno pedaço de couro ou fibra têxtil que compõe esse artefato. Trata-se de uma alteração de malha, vocábulo datado na língua portuguesa desde o século XIII, originado do latim macula. Ainda se tratando de meios de pegar pássaros há a urupuca, cujo vocábulo, variante de arapuca, foi encontrado em Freire e em Amaral, sendo de origem tupi. Como concorrente do vocábulo arapuca há também o vocábulo quebra, nome que se dá a uma pequena armadilha para pegar pássaros. Ao contrário de arapuca, essa variante não foi encontrada dicionarizada. O rastel é um vocábulo relacionado à atividade da pesca, ou seja, refere-se a uma espécie de rede de apanhar peixes. Não foi encontrado dicionarizado. O vocábulo jequi é outro produto associado à pesca e usual na região pesquisada. Nomeia uma espécie de cesto afunilado para apanhar peixes. É de origem indígena, datado do século XIX. É ainda considerado um brasileirismos por Aurélio, sendo um regionalismo do NE. Voltado à caça temos ainda o vocábulo ceveiro, o qual designa o lugar onde se põe ceva para a caça. A origem do vocábulo é o português ceva, sendo considerado um brasileirismo por Aurélio. Apresenta-se como entrada nos dicionários consultados só a partir de Freire. O vocábulo deixa transparecer uma das atividades preferidas pelo homem da região quando não estava ocupado na sua lida diária: a caça. O vocábulo choça, por outro lado, representa originariamente o espaço humilde habitado pelo trabalhador rural. Trata-se, nessa acepção, de um vocábulo antigo na língua portuguesa, datado desde o século XIII por Cunha, embora não se saiba sua origem. Na acepção da entrevista, ou seja, designada como ―o esconderijo no mato feito de folhas e ramos de árvore para esperar a caça‖ é mais recente, encontrada apenas no Aurélio, na acepção de número 3, ou seja, como ―prisão, cadeia‖. O quinto microcampo refere-se às indumentárias utilizadas pelo homem da região. É o caso de algibeira, capanga e embornal. A lexia algibeira foi encontrada dicionarizada em todas as obras consultadas, sendo de origem árabe. Embora em Cunha haja a datação de 1813 para sua entrada na língua portuguesa, o dicionário do Padre Raphael Bluteau, de 1712-1728, já trazia essa lexia. Um item que sempre acompanhou o norte-mineiro, sobretudo os vaqueiros e tropeiros, é a capanga. O vocábulo relativo a esse item é um brasileirismo segundo Aurélio e 529 tem origem africana, conforme Castro (2001). Como vocábulo concorrente de capanga há o vocábulo embornal, também um brasileirismo conforme o Aurélio e datado do século XIX. O sexto microcampo está relacionado às construções de modo geral ou locais específicos como alambique, carneira, curtume, despensa, dormidor, esprital, gurita, intendência, invernada, manga, mata-burro, monjolo, paiosca, rancho e sumitério. A lexia alambique é originada do árabe al-ambiq, sendo encontrada na língua portuguesa desde o século XVI conforme Cunha e lexicalizada já em Bluteau. O vocábulo alambique retrata muito bem a cultura da região, conhecida por produzir as melhores cachaças do Brasil, as famosas aguardentes de Salinas. O vocábulo carneira, do latim carnarium, é registrado na forma masculina desde Bluteau, contrariando a informação de Cunha que data-o de 1813. Esse vocábulo que parece não ser mais tão usual refere-se à sepultura e mostrou-se bem produtivo na região, com 18 ocorrências. Outro local de trabalho é representado pelo vocábulo curtume, relacionado ao local onde se curte o couro. Está presente em Freire e em Aurélio, e segundo Cunha é de origem controvertida, sendo registrado na língua portuguesa desde o século XIX. O vocábulo despensa é outro que designa um local. Encontrado em todos os dicionários consultados, deriva do latim dispensa, particípio passado de dispendere, conforme Cunha. Em Bluteau e Morais refere-se à casa onde guardam certas provisões, ao passo que a partir de Freire há uma pequena alteração semântica, passando a se referir também a um cômodo da casa. Em Aurélio, por sua vez, só é encontrada a acepção relacionada à repartimento de casa, navio, escola etc. Quanto ao vocábulo dormidor, embora tenha sido registrado e datado em Cunha como do século XIII, nenhum dos demais dicionários registraram tal vocábulo como entrada. Na entrevista carrega a acepção de ―poleiro‖. Outro vocábulo que representa um local das fazendas é o monjolo. Nas entrevistas há as variantes manjolo e monjolo. É interessante observar que em Freire a variante monjolo é dada como forma imprópria, ao passo que em Amaral é tida como forma corrente entre a gente culta. É um vocábulo de origem africana, segundo Aurélio e com entrada na língua portuguesa no século XX, conforme Cunha. Outro que designa um local é o vocábulo paiosca. Trata-se de uma alteração de palhoça, e não foi encontrado dicionarizado nas obras consultadas. Ao lado de paiosca há o vocábulo rancho que designa o mesmo referente, ou seja, a cabana provisória feita no mato ou nas roças, geralmente de palha. Diferentemente, esse último é antigo na língua portuguesa, sendo dicionarizado na acepção de ―pousada‖ desde Bluteau. É um vocábulo originado do castelhano rancho, sendo que sua acepção original estava relacionada a grupo de pessoas, conforme Cunha. É, portanto, um vocábulo que passou por uma extensão de sentido ao longo de sua história. Gurita é outro vocábulo que 530 representa um local de trabalho, sendo utilizado por alguns para se referirem aos postos de fiscalização nas estradas. Este vocábulo, cuja origem é o italiano garitta, é dicionarizado dessa forma desde o século XVI na língua portuguesa, conforme Cunha e assim também lexicalizado em Bluteau, Freire e Aurélio. Entre os vocábulos que representam construções urbanas temos esprital, considerado um arcaísmo do século XIV, cuja origem é o latim hospitalis, conforme Cunha. Com essa forma não foi registrado nos dicionários consultados. Outro, não tão antigo na língua portuguesa é o vocábulo intendência, cuja origem é o francês intendance, sendo registrado no português no século XIX. Embora novo na língua portuguesa, caiu em desuso, sendo substituído pelo vocábulo prefeitura. Um terceiro é o vocábulo sumitério, apresentado na sua forma alterada, forma essa registrada apenas em Amaral. Em relação à espaços construídos para guardar os animais temos invernada e manga. O vocábulo invernada designa a pastagem cercada para dar descanso a equinos ou bovinos. É originado do espanhol platino invernada e datado na língua portuguesa a partir de finais do século XIX, conforme Cunha. Um concorrente lexical desse último é o vocábulo manga, o qual designa o mesmo referente. Deriva também do espanhol platino, nesse caso de manga. De acordo com Aurélio é considerado um regionalismo do NE, MG e GO. Por último o vocábulo mata-burro que também está associado à pecuária. Encontrado dicionarizado apenas no Freire, é um hibridismo cuja origem do primeiro nome é incerta. Não tem data definida de entrada na língua portuguesa, possivelmente a partir do século XX com o início de produção dos automóveis e a abertura de estradas. O sétimo microcampo refere-se aos acessórios utilizados na lida com os animais como arreado de cangaia, berrante, bruaca, buraca, campa, canga, cangaia, chincherro e gangorro. Quanto ao arreado de cangaia, esse vocábulo não foi encontrado dicionarizado e se refere ao conjunto dos adereços utilizados em cavalos, bestas e mulas para o trabalho de carga. Outro vocábulo desse grupo é canga, originado do latim pelo celta *cambica. Embora datado do século XIX na língua portuguesa segundo Cunha, é dicionarizado na obra de Bluteau.Ao lado desse há também o vocábulo cangaia, que se relaciona ao mesmo referente, sendo de origem latina e presente no português desde o século XIX segundo Cunha. É um vocábulo que se mostrou bastante produtivo nas entrevistas. Outros dois desse microcampo são os vocábulos bruaca e buraca, variantes lexicais concorrentes na região, ambos dicionarizados, sendo o segundo bem mais produtivo na fala dos entrevistados. O vocábulo bruaca deriva do castelhano burjaca segundo Cunha e faz parte da língua portuguesa desde a primeira metade do século XIX. O vocábulo concorrente buraca, metátese de bruaca, é considerado um regionalismo de Minas Gerais, segundo Aurélio, e não tem datação de 531 entrada na língua portuguesa. Ambos se referem a ―saco de couro cru ou mala, utilizados para o transporte de mercadorias sobre bestas‖. Ao lado da bruaca e buraca temos outro artifício para carregar as coisas nas mulas. Trata-se da campa. O vocábulo campa, relacionado a uma espécie de mala utilizada pelos caixeiros-viajantes, não foi encontrado dicionarizado, e tem origem no latim campana. A lexia chincherro e sua variante chincheiro nas entrevistas também estão associadas à lida com as tropas. Referem-se a uma espécie de sineta que vai dependurada no pescoço do animal que vai à frente da tropa. Essas duas lexias são, na verdade, uma alteração de cincerro, lexia de origem castelhana, de cencerro, com entrada na língua portuguesa desde finais do século XIX e dicionarizada a partir de Freire. Aurélio considera o vocábulo cincerro um regionalismo de Minas Gerais, contrariando a informação de Amaral que dá o vocábulo como usual na região sul do Brasil. Ao lado de chincheiro há também a sua variante lexical na região, o vocábulo gangorro, também relacionado à sineta. Não foi encontrado dicionarizado. Parece se tratar de uma analogia à gangorra, ou seja, algo que balança de um lado para outro. Finalmente o vocábulo berrante, de origem portuguesa e com data de entrada na língua portuguesa no século XX, conforme Cunha. É considerado um regionalismo de Minas Gerais e Goiás por Aurélio. O oitavo microcampo diz respeito aos meios de transportes utilizados pelo homem da região. Como representantes desse microcampo temos as lexias carro de boi, mota e pau- de-arara. O vocábulo carro de boi é dicionarizado na forma composta apenas em Aurélio e consta na entrada relativa a carro com essa mesma acepção desde Bluteau, sendo originado do latim carrus. Quanto ao vocábulo mota, trata-se de uma redução de motocicleta, sendo considerado um lusitanismo conforme o Aurélio. A respeito da lexia pau-de-arara, trata-se de um brasileirismo de origem hibrida do latim (palus -i) e indigenismo (a‟rara). Esse vocábulo representou ou ainda representa uma realidade do transporte de muitas pessoas oriundas sobretudo dos estados do nordeste do Brasil em busca de melhores condições de vida na região sudeste do país. O nono microcampo deste campo léxico está representado pelos instrumentos utilizados pelas pessoas da região em seus momentos de lazer. É o caso das lexias chanteiro, harmônica e pé de bode. O vocábulo chanteiro não está registrado em nenhum dos dicionários e não se mostrou produtivo, tendo apenas uma ocorrência. Trata-se de uma alteração de pandeiro. Diferentemenete, o vocábulo harmônica foi encontrado na fala de dois entrevistados de municípios diferentes. Trata-se de um empréstimo do inglês que, por sua vez, veio do alemão. Refere-se ao acordeão ou sanfona. Como variante lexical de harmônica há no corpus a lexia pé de bode, dicionarizada em Aurélio e considerada um regionalismo do NE e 532 MG. O vocábulo se refere a uma pequena sanfoninha de oito baixos, muito utilizada nas festas da região em épocas passadas. O décimo microcampo agrupam aquelas lexias que se referem às moedas como cobre, conto, nica, patacão, réis, tostão e vintém. A respeito dos vocábulos cobre e conto, ambos são dicionarizados em Aurélio e em Freire, com origem no latim. O primeiro refere-se a uma antiga unidade monetária muito comum no passado, equivalente a 40 réis, ao passo que o segundo está relacionado a dinheiro, sem valor específico. Assim como o vocábulo conto, nica também se refere a dinheiro, em especial de valor bem reduzido. Esse vocábulo é registrado apenas em Freire, com a acepção de ―coisa insignificante, bagatela‖. O vocábulo é datado como do século XIX e de origem obscura por Cunha. No que tange aos vocábulos patacão, réis, tostão e vintém, esses se referem a unidades monetárias usuais no Brasil em épocas pretéritas. Enquanto patacão é de origem provençal, tostão é de origem italiana e réis e vintém de origem portuguesa. O décimo primeiro microcampo diz respeito aos produtos criados e utilizados pelo homem da região, representados pelos vocábulos cacetinho, cancela, criosene, marambaia, taba e taca. A lexia cacetinho, diminutivo de cacete, dicionarizado no Aurélio, apresenta várias outras variantes lexicais, conforme descrito por esse dicionário e é datado do século XIX, conforme Cunha. Outro que tem origem no latim é cancela, de cancellus, registrado na língua portuguesa desde o século XVI, conforme Cunha, e retrata uma realidade assaz comum no meio rural. Um vocábulo desse grupo que se apresenta sob uma forma alterada e mesmo assim registrado na fala de 6 entrevistados foi criosene. Trata-se de corruptela de querosene, vocábulo de origem francesa registrado no português desde a segunda metade do século XIX. Um produto resultante da lida de muitas mulheres da região é representado pela lexia marambaia, forma alterada de marambalha, dicionarizada apenas no Freire, sendo considerado um regionalismo do Norte de Minas. Trata-se de uma espécie de renda produzida na região. Não há informações sobre sua datação e etimologia. A respeito dos vocábulos taba e taca, o primeiro é uma alteração de tábua e não foi registrada dessa forma em nenhum dos dicionários consultados. É mais comum na linguagem popular, tendo como forma concorrente a variante talba. O segundo, por sua vez, é considerado um brasileirismo por Aurélio e sua origem e datação não foram encontradas. Sua lexicalização na língua portuguesa é mais recente, se se considerar os dicionários em que foram encontradas. Em relação à acepção do vocábulo, trata-se de uma espécie de bastão cheio de argolas para surrar os escravos. 533 O décimo segundo microcampo refere-se ao vestuário. É o caso de pano de bunda e precata. O primeiro se refere às peças que compõem o enxoval de casamento, seja masculino ou feminino. O vocábulo, apesar de não dicionarizado, foi encontrado em outro trabalho citado na ficha lexicográfica, embora com outra acepção, ou seja, no sentido de ―frauda‖. Quanto a sua origem, trata-se de um hibridismo de português e africano, conforme ficha relativa ao vocábulo. Em relação a precata, trata-se de uma alteração de alpercata, vocábulo originado do árabe al-pargat e datado na língua portuguesa desde o século XVII, conforme Cunha. Aurélio cita várias formas variantes desse vocábulo (Cf. ficha 446). Refere- se a um chinelo rústico feito com tiras de couro e foi produtivo na fala de cinco entrevistados. O décimo terceiro microcampo está associado aos brinquedos utilizados pelas crianças, representado por apenas um vocábulo: pirosca. Esse vocábulo foi encontrado dicionarizado em duas obras, em Freire e em Aurélio. Entretanto, em Freire a acepção está associada ao jogo infantil com bolas de gude, ao passo que em Aurélio a acepção é relacionada à bola de gude em si mesma, concordando com a acepção do contexto das entrevistas. É considerado um regionalismo por Aurélio, e sua origem é desconhecida. 6.2.6 Campo léxico: Comida / Bebida Este campo léxico, constituído de 16 vocábulos, espelha por meio de suas lexias a comida e bebida, bem como o local de preparo desses alimentos. Destacamos: beiju; carne de sol; chimanco; come e bebe; cumê; cunzinhar; cuscuz; de comer; garapa; guisado; jacuba; mantimento; melado; pamonha; rapadura; tapioca. Os vocábulos beiju e tapioca são variantes lexicais que se referem à ―fécula da mandioca cozida ao forno e servida na forma de placas bem finas‖. Ambos os vocábulos são de origem indígena, de me‟iu e tipi‟oka e com entrada na língua portuguesa no século XVI, conforme Cunha. Na região o vocábulo beiju é bem mais produtivo que tapioca, conforme o registro nas entrevistas. Outro vocábulo que representa uma marca registrada do Norte de Minas e da região pesquisada é carne de sol. De acordo com Aurélio, o vocábulo é um regionalismo do Norte e Nordeste e apresenta outras variantes lexicais como carne de vento, carne do Ceará, carne do sertão. Quanto à grafia do vocábulo, vê-se que em Freire não há a utilização do hífen entre os constituintes do nome, ao passo que em Aurélio há a inserção desse recurso. Consultando o VOLP, verifica-se que a forma indicada é sem o uso do hífen. 534 Em relação ao vocábulo chimanco, parece se tratar de um caso de ―geração espontânea‖, ou seja, uma criação neológica fora dos processos de formação de palavras. O uso do vocábulo por apenas um entrevistado reforça a ideia de que seja um neologismo. Na entrevista chimanco refere-se a ―biscoito grande, de queijo ou polvilho‖. Outro caso desse grupo não dicionarizado como entrada lexical é a locução come e bebe. Esta locução substantiva, encontrada somente na forma plural comes e bebes é encontrada na fala do entrevistado para se referir a ―festa ou encontro de amigos regrada a comida e bebida‖. Além de come e bebe há outra designação geral para comida nas entrevistas. É o caso de cumê, alteração de comer, forma essa antiga na língua portuguesa, dicionarizada desde Bluteau. Outro vocábulo registrado nas entrevistas com a forma alterada em relação à forma padrão é o vocábulo cunzinhar, variante local de cozinhar e encontrado na fala de quatro pessoas. Quanto ao vocábulo cuscuz, trata-se de um brasileirismo na acepção de ―bolo de farinha de milho‖, conforme o Aurélio, sendo de origem árabe, de kuskus, e com entrada na língua portuguesa desde o século XV, conforme Cunha. Em Amaral há a indicação de que o vocábulo consta na obra de Gil Vicente, certamente na acepção encontrada em Bluteau e Morais que denota uma alteração semântica em relação àquela registrada em Aurélio. A locução de comer é concorrente lexical de cumê e foi encontrada lexicalizada nos dicionários mais recentes. Trata-se de um brasileirismo de uso popular segundo Aurélio. Na região pesquisada essa forma é bem mais produtiva que sua variante cumê, conforme pode ser verificado pelo número de abonações nas fichas. A respeito da lexia garapa, trata-se de um vocábulo corrente na língua portuguesa desde o século XVI, segundo Cunha, embora não tenha sido dicionarizado em Bluteau. Em Morais o vocábulo é apontado como um brasileirismo, assim como no Aurélio. Quanto a sua origem, não se sabe com exatidão sua etimologia. Quanto a guisado, o vocábulo encontra-se dicionarizado desde Morais, mas é antigo na língua portuguesa, originado do português guisa ―maneira, modo, feição‖ e datado do século XIII, conforme Cunha, embora, certamente, àquela época apresentasse outra acepção. Outra marca registrada que faz parte dos costumes alimentares do norte-mineiro, embora apareça na fala de apenas um entrevistado, é representada pelo vocábulo jacuba. Trata-se da tradicional farinha com rapadura, acepção essa presente no contexto das entrevistas e melhor espelhado em Amaral. O vocábulo é considerado um brasileirismo por Aurélio e apresenta algumas variantes em outras regiões do Brasil como chibé, gonguinha, sebereba. Quanto à origem do vocábulo, não se sabe certamente se é um indigenismo ou africanismo. Em relação ao vocábulo mantimento, trata-se de uma designação genérica de alimento ou víveres necessários ao sustento do homem. É um nome de origem portuguesa, de manter, e datado na língua 535 desde o século XIV, conforme Cunha. Apesar de muito usual no passado, parece que esse vocábulo tem se mostrado menos produtivo hodiernamente, sobretudo no meio urbano. O melado é outro produto muito utilizado pelas pessoas da região. O vocábulo referente a esse produto é antigo na língua portuguesa sendo dicionarizado desde o Bluteau. É considerado um brasileirismo pelo Aurélio e também reconhecido pelo Bluteau como um vocábulo usual no Brasil. Outro vocábulo desse grupo que não se sabe sua origem e datação na língua portuguesa é pamonha. A considerar sua entrada apenas nos dicionários mais recentes, possivelmente seja do século XX. É mais um caso de brasileirismo, segundo Aurélio. Finalmente, como região tradicional da cultura da cana-de-açúcar, a rapadura é também uma marca da tradição alimentar do norte-mineiro. O vocábulo relativo a esse produto é um brasileirismo de acordo com Aurélio e encontra-se dicionarizado desde Morais. É datado como entrada na língua portuguesa por Cunha como 1844, embora na edição de 1813 de Morais o vocábulo já se encontrasse lexicalizado. Em Bluteau esse vocábulo já constava como entrada lexical, embora ainda com a acepção usual em Portugal. 6.2.7 Campo léxico: Quantidade Este campo léxico é constituído pelas lexias que estão relacionadas à quantificação de gente, animais ou objetos e constitui-se de 13 vocábulos, os quais são relacionados a seguir: avultado; danado; litro; légua; lote de burro; mais pouco; montoeiro; mucado; pra daná; prato; renca; tiquinzinho; vezada. O adjetivo avultado, dicionarizado desde Morais nas obras consultadas, é antigo na língua portuguesa e com entrada na língua desde o século XVII, sendo derivado do português vulto, conforme Cunha. Nas entrevistas tem o sentido de ―em maior quantidade ou valor‖. O adjetivo danado tem como uma de suas acepções nas entrevistas o significado de ―grande, vultoso, demasiado‖. É um vocábulo lexicalizado desde Bluteau, embora na acepção acima não seja encontrado em nenhum dos dicionários. Esse vocábulo é datado do século XIV na língua portuguesa, sendo originado do latim damnatus. Mesmo nessa acepção mostrou-se bem produtivo nas entrevistas, sendo encontrado na fala de nove entrevistados. O vocábulo litro, de origem francesa, de litre, é lexicalizado na língua portuguesa desde 1844, sendo encontrado em Freire e Aurélio. É uma unidade de medida ainda muito usual entre as pessoas da região para quantificação de grãos, sobretudo o feijão. Outro ainda muito usual na região é 536 o vocábulo légua, antigo na língua portuguesa (s.XIII) e com origem no latim tardio leuca, conforme Cunha. A julgar a grande frequência de uso nas entrevistas e a presença na fala de quase todos entrevistados, pode-se considerá-lo a variante de prestígio em relação ao vocábulo quilômetro. O vocábulo lote de burro refere-se a ―cada conjunto de dez animais cargueiros em que se dividem as tropas de carga‖. Nessa acepção é considerado um brasileirismo por Aurélio e lexicalizado também por Freire, embora a forma composta não conste como entrada lexical. Trata-se de um hibridismo formado por um vocábulo de origem francesa (lote < lot) e outro de origem latina (burro culigar > culiar). Na entrevista está com o sentido de ―combinar, ajustar‖. O verbo danar, por outro lado, é antigo na língua portuguesa, datado desde o século XIII e originado do latim damnare. Entretanto, na acepção das entrevistas, está dicionarizado apenas no Aurélio e considerado um brasileirismo. Mesmo com esse sentido parece ser produtivo na região, pois está presente na fala de quatro entrevistados. A respeito da locução verbal dar no couro, trata-se de um regionalismo do Rio e São Paulo, conforme o Aurélio e traz o sentido de ―servir bem a determinado fim; satisfazer‖. Outra locução verbal dicionarizada no Aurélio é dar por fé, embora a acepção encontrada nas entrevistas seja mais próxima daquela encontrada em Freire, ou seja, ―ver, notar, perceber alguma coisa‖. Essa locução também parece ser de uso comum na região, pois foi encontrada 544 na fala de três entrevistados. Quanto aos vocábulos decumentar e deferençar, ambos representam casos de assimilação (documento > decumento; diferenciar > diferençar), sendo que esse último ainda sofreu uma síncope. A forma decumentar aparece em Amaral, ao passo que diferençar não está dicionarizada, embora a forma diferençar tenha sido registrada no século XVI, conforme Cunha. Em relação ao verbo demudar verifica-se que está dicionarizado nas obras consultadas, sendo antigo na língua portuguesa e derivado do latim demutare. A lexia desapiar é uma variante de apear, caso esse em que o prefixo des- não alterou o sentido da palavra original. Está lexicalizado em Freire e em Aurélio. Quanto ao verbo descabelar, verifica-se que esse está dicionarizado desde Morais. Entretanto, verifica-se também que na acepção das entrevistas, ou seja, com o significado de ―escalavrar, esfolar; açoitar‖ não há o seu registro. Trata-se, portanto, de uma extensão de sentido adicionada ao vocábulo original. Em relação à drumir e frever, casos de metátese de dormir e ferver, não há o registro nas obras consultadas. Trata-se de um caso comum na língua portuguesa e também na fala dos entrevistados. O vocábulo embonecar está relacionado ao processo de formação de espigas no milho. Esse vocábulo originado de boneca é um brasileirismo segundo o Aurélio e tem registro na língua portuguesa a partir do início do século XIX. Quanto à empapuar, trata- se de uma alteração de empapar, forma essa dicionarizada desde o século XVII, conforme Cunha. O vocábulo emcacimbar é outro não dicionarizado. Trata-se de uma formação parassintética a partir de cacimba, vocábulo esse de origem africana, do quimbundo ki‟sima e presente no português desde o século XVI, conforme Cunha. Na entrevista está com o sentido de ―formar poços de água ao lado do rio‖. O verbo encarcar também não está dicionarizado nas obras consultadas. É resultado de alterações (síncope e hipértese) sofridas pelo verbo encalacrar (encalacrar > encacrar > encarcar). O verbo encalacrar, presente no português a partir do século XIX, por sua vez, origina-se de calacre ―apuros em matéria de dinheiro‖, conforme Cunha. Na entrevista está com o sentido de ―se dar mal‖. O verbo enfezar, por outro lado, é mais comum na língua portuguesa e mostrou-se também produtivo na região pesquisada com nove ocorrências na fala de sete entrevistados. Trata-se de um vocábulo antigo no português, com registro a partir do Bluteau, embora não se saiba seu étimo. O verbo enfornar, apesar de registrado no Bluteau, Morais e Freire, não é dicionarizado na acepção encontrada na entrevista, ou seja, como ―esconder-se; isolar-se do convívio com outras pessoas‖. Há, portanto, uma extensão de sentido em relação ao vocábulo original. O verbo enfusar, apesar de também estar dicionarizado, apresenta uma leve alteração de sentido em relação à acepção dada pelo Aurélio e considerada um regionalismo da Bahia. Na entrevista o sentido do vocábulo é ―se dar mal em alguma atitude ou decisão tomada‖. Diferentemente, os 545 vocábulos engraçar e escanchar encontrados nas entrevistas traz as mesmas acepções daquelas encontradas nos dicionários consultados. Trata-se de verbos antigos na língua portuguesa, datados do século XIV e XVI, respectivamente. Outra locução desse grupo é entender por gente, construção essa que apesar de não constar como entrada lexical, está representada nas definições das entradas entender de Morais e de Freire e gente de Aurélio. Esta locução parece ser usual na região, pois está presente na fala de quatro entrevistados e pode ser definida como ―passar a ter consciência das coisas‖. Em relação ao vocábulo esmagrecer, variante de emagrecer, trata-se de forma dicionarizada no Aurélio e considerada um regionalismo do NE. Outro vocábulo dicionarizado é espiar, de origem germânica e considerado um brasileirismo pelo Aurélio na acepção da entrevista. É também usual na região conforme o número de ocorrências nas entrevistas. Quanto aos verbos espritar e findilizar, nenhum deles está dicionarizado. O primeiro é derivado de espírito e no contexto pode ser definido como ―tornar-se espírito‖, ao passo que o segundo resulta de uma alteração de finalizar, sem alteração de sentido. O verbo estuçar, apesar de uma pequena alteração na grafia, está dicionarizado no Freire como estuchar e sua acepção é muito similar àquela encontrada na entrevista, qual seja, ―aguçar, atiçar‖. Quanto à origem do vocábulo, Cunha aponta como provável alteração de atochar com troca de prefixo. Outra locução presente nesse grupo e não dicionarizada é fofar a madeira. Na entrevista, está com a acepção de ―bater em alguém com palmatória‖. Parece tratar-se de mais um caso de criação lexical. O verbo forrar, por outro lado, é antigo no português, usual desde o século XIII e originado de forro, conforme Cunha. Está presente nos dicionários consultados e na linguagem dos entrevistados é variante lexical de libertar. Tal como o anterior, o verbo fundar, variante de afundar, também é antigo no português, usual desde o século XIII e originado do latim fundare. Essa variante do verbo que não é comum na linguagem culta mostrou-se produtiva na região. Quanto ao verbo gavar, trata-se de uma alteração de gabar, vocábulo esse de origem francesa, de gaber. É usual no português a partir do final do século XIX. Aurélio dá o vocábulo como entrada lexical, mas na definição aponta que se trata de uma variante popular. Em relação aos vocábulos ilumiar e lumiar, ambos são variantes de iluminar, sendo que as duas representam casos de retenções lexicais, dicionarizadas em Morais. O verbo ingrujir que na entrevista está com a acepção de ―engelhar, enrugar‖ parece ser mais um caso de geração espontânea, ou seja, uma formação a partir do nada. O vocábulo lubrinar, apesar de não dicionarizado, não se enquadra no mesmo caso de ingrujir, pois no Freire há o nome lubrina referindo-se a ―neblina, chuvisco fino‖. Trata-se, portanto, de um verbo formado a partir de um nome existente na língua portuguesa. Em relação à locução verbal muntar o pau, apesar 546 de não dicionarizada, é comum na língua portuguesa, na linguagem popular, a expressão sentar o pau, forma variante dessa encontrada na entrevista. A locução pedir um arrogo também não está dicionarizada e apresenta uma forma usual na língua portuguesa com uma acepção bem próxima, ou seja, pedir arrego. Como arrogo origina-se de rogar ―pedir auxílio‖, parece que a locução seja resultante da união entre pedir arrego e arrogo. Em relação ao verbo ofender, trata-se de um vocábulo antigo na língua portuguesa (s.XVI), originada do latim offendere, e dicionarizada na acepção da entrevista, ou seja, como ―causar mal a saúde; prejudicar‖. Antigo também é o vocábulo pessuir, considerado um arcaísmo do século XIV, conforme registro em Cunha. Tal forma do verbo possuir está registrada na fala de três entrevistados. O verbo pestiar, ao contrário, não está dicionarizado e na entrevista está com a acepção de ―escurecer, tornar escuro‖. Não se sabe a real motivação para a formação desse vocábulo. Outra locução desse grupo é picar a mão, cujo sentido na entrevista é ―agredir com socos ou tapas‖. Embora não dicionarizada esta locução não é considerada um neologismo, pois é comum seu uso na linguagem do meio rural. O verbo pocar, cujo sentido nas entrevistas é ―rachar, estourar‖ é considerado um brasileirismo de uso popular, segundo o Aurélio, sendo de origem tupi. O vocábulo precurar é considerado variante popular de procurar e registrada como entrada em Freire e em Amaral. De modo similar há também o registro nas entrevistas do vocábulo preguntar, variante de perguntar na linguagem popular, e considerada ainda um lusitanismo em Freire e em Aurélio. Esta forma do verbo também é encontrada no século XIII, conforme registrado em Cunha. Quanto aos verbos quebrar e quedar, o primeiro não está dicionarizado na acepção da entrevista, ou seja, com o significado de ―ingerir qualquer líquido num único trago‖, ao passo que o segundo está dicionarizado na acepção da entrevista, ou seja, como ―aquietar, deter-se em algum lugar‖. Tal como quedar, o vocábulo requerer também está dicionarizado na acepção da entrevista, com o sentido de ―denunciar alguém por algum crime‖. A respeito do verbo ribar, presente em duas entrevistas com a acepção de ―erguer, levantar‖, não há o registro nos dicionários com essa acepção. Em Morais e em Freire o sentido do verbo é ―derribar, jogar ao solo‖ e considerado antigo e obsoleto. Há, portanto, uma mudança semântica desse verbo utilizado na entrevista em relação às acepções de Morais e de Freire e também em relação a acepção original do vocábulo arribar no século XIII. O verbo ribuçar, com leve alteração, está dicionarizado com a acepção da entrevista, ou seja, como ―cobrir, tapar‖, sendo originado de re + (em) buçar, e usual no português desde o século XVI. Quanto ao vocábulo sicorrer, trata-se de um caso de dissimilação em relação a socorrer. Outro vocábulo desse grupo considerado arcaísmo é o vocábulo sujigar, embora com leve alteração vocálica em relação às formas citadas no 547 Amaral. Trata-se ainda de forma popular do verbo subjugar e ainda presente em várias regiões do Brasil. Em relação ao verbo talacar, a primeira vista parece tratar-se de mais um caso de geração espontânea. Entretanto, no Freire há o registro da forma nominal talaço, definida como ―pancada ou surra com chicote ou tala‖. O verbo tiçar é uma alteração de atiçar (atiçar > tiçar - processo de aférese) e no contexto da entrevista está com o sentido de ―arremessar, jogar‖. Quanto ao verbo tocar, cuja acepção na entrevista é ―manejar, cuidar‖, seu sentido aproxima-se mais com a definição de ―manejar, tratar‖ apontada pelo Freire. Trata-se de um verbo antigo na língua portuguesa, usual desde o século XV. Nesse grupo há também um exemplo de fraseologia representado por tocar o pau afora. Trata-se de uma formação a partir de vocábulos de origem portuguesa e seu sentido na entrevista é ―dar prosseguimento a uma ação ou enunciado‖. Outro exemplo nesse grupo que parece tratar-se de um caso de geração espontânea é tolimar. Entretanto, esse vocábulo parece ter alguma relação com a forma nominal toleima ―tolice‖, registrada em Morais. Na entrevista está com o sentido de ―bobear, descuidar‖. No caso do verbo transferir, comum no português, na acepção encontrada na entrevista, ou seja, como ―possuir, adquirir‖, não foi encontrado dicionarizado e possivelmente seja um caso de neologismo semântico. Quanto ao vocábulo trupicar, trata-se de uma alteração de tropicar, verbo esse lexicalizado desde a obra de Morais na língua portuguesa, cuja acepção nas entrevistas é ―tropeçar‖. Outro vocábulo dicionarizado nesse grupo é tocaiar, usual no português a partir do século XX. É considerado um brasileirismo no Aurélio. Do mesmo modo o vocábulo valar também está lexicalizado no português, sendo usual desde o século XII e originado do latim vallare. Por fim, o verbo zuar, que está presente na língua portuguesa desde o século XVI e possivelmente seja uma alteração de soar, conforme Cunha. Está dicionarizado a partir do Morais na língua portuguesa, sendo considerado de origem onomatopaica. 6.3.2 Campo léxico Sentimento/comportamento Este campo léxico evidencia o vocabulário utilizado pelas pessoas da região relativo aos seus sentimentos e comportamentos e compõe-se dos seguintes vocábulos: acismada; aleivosia; avexado; brabo; bramura; bravar; carrancismo; comunismo; descauso; galardão; insigência; intertenente; intradição; luita; na moita; namoriscada; questã; tadinho; vadiação. 548 O vocábulo acismada, como outros já citados, é resultado de um processo de prótese, nesse caso a partir de cismada. Nessa forma não está dicionarizada em nenhuma das obras consultadas. O vocábulo aleivosia, derivado de aleive ―calúnia, injúria‖ é antigo na língua portuguesa, datado do século XIV, conforme Cunha e sua origem é obscura. Entretanto, a acepção encontrada na entrevista, ou seja, como ―o que é fruto da imaginação, fantasia‖ não foi encontrada em nenhuma das obras consultadas. Trata-se, portanto, de um caso de neologia semântica. O adjetivo avexado, variante de vexado, encontra-se dicionarizado desde Bluteau e representa mais um caso de prótese. O adjetivo brabo, forma variante de bravo, também se encontra dicionarizado em Freire, Aurélio e Amaral com a acepção de ―rude, nervoso, colérico‖. Com essa forma e acepção é considerado um brasileirismo pelo Aurélio. Em Amaral (1976), há a ideia de que brabo venha diretamente de bárbaro. O vocábulo bramura, não dicionarizado nas obras consultadas, parece ser formado a partir do radical bram-, de bramar ―berrar, rugir, bradar‖ + o sufixo –ura. Na entrevista está com o sentido de ―bagunça, diabrura‖, evidenciando uma proximidade semântica com sua provável origem. O vocábulo bravar também não está dicionarizado e possivelmente seja uma alteração de gabar ―jactar-se, vangloriar-se‖, acepção essa encontrada na entrevista. Quanto a carrancismo, trata-se de um vocábulo originado de carranca ―semblante sombrio, fechado‖, do século XVI e de origem obscura. Está dicionarizado em Freire e em Aurélio com a mesma acepção da entrevista, ou seja, ―apego ao passado, aversão à mudança‖. O vocábulo comunismo, cuja origem é o francês communisme e usual no português desde fins do século XIX não está dicionarizado com a acepção encontrada nas entrevistas. Entre os entrevistados, no contexto apresentado, pode ser definido como ―bagunça, briga, confusão‖, ou seja, houve uma extensão semântica em relação ao sentido original do vocábulo a partir de uma visão cultural própria dos moradores da região, visão essa talvez construída, em grande parte, pelos coronéis e elite dominante da região. Quanto ao vocábulo descauso, trata-se de uma simples alteração de descaso, não sendo encontrado dicionarizado. O vocábulo galardão que na entrevista está com o sentido de ―recompensa; honra, glória‖ é de origem alemã, de wilardon, e está registrado no português desde o século XIII, conforme Cunha. É considerado um vocábulo antigo em Freire. A respeito dos vocábulos insigência e intradição, trata-se de um caso de alteração fonológica a partir de exigência e um caso de prótese a partir do vocábulo tradição. Nenhuma das formas foi encontrada dicionarizada. O vocábulo intertenente possivelmente seja mais um caso de geração espontânea, em razão de haver apenas um falante pronunciando tal vocábulo e não haver uma raiz claramente definida para a construção dessa palavra. No contexto da entrevista é definida por ―rígido na criação dos filhos; austero‖. O 549 vocábulo luita é mais um caso de arcaísmo encontrado na região denotando o conservadorismo na fala dos entrevistados. A locução adverbial na moita está dicionarizada no Aurélio, sendo considerado um brasileirismo por essa obra. Na entrevista está com a acepção de ―à espreita, às escondidas‖. Quanto à lexia namoriscada, na acepção encontrada na entrevista, ou seja, como variante de namoro, não está dicionarizado. Em Morais há o registro da forma namoramento com a mesma acepção. Em Freire há o registro do verbo namoriscar. Em relação ao vocábulo questã, originada de questão, há o registro em Freire e considerada forma popular. O vocábulo tadinho, por outro lado, não se encontra dicionarizado. Trata-se de uma redução de coitadinho, sendo originada do português coitado que, por sua vez, vem do latim vulgar *coctare, conforme Cunha. Finalizando, nesse grupo, o vocábulo vadiação, cuja acepção na entrevista é ―brincadeira, diversão‖. Nessa acepção não está dicionarizado, embora o vocábulo esteja presente no português desde o início do século XIX. 6.3.3 Campo léxico: Causalidade/Resultado O campo léxico causalidade/resultado apresenta os vocábulos pertinentes às relações de causa e efeito e reúne as seguintes unidades léxicas: advinhança; assuceder; atropelado; bagaceira; cacau; caindo pra idade; chanha; chelepada; chumbar; curisco; danura; deferença; deferente; demundança; dereito; descambo; desmantelo; encarcar; enfusar; esparramo; estoporo; finado; forra; o pau moía; o trem num prestou não; pisa; precisão; quebradura; se lascar; suceder; tendepá; topar; torra; transferir; valença; zuada; zuerão. O vocábulo adivinhança não é um caso de neologismo como aparenta. Ao contrário, é um vocábulo antigo na língua portuguesa, usual no século XIV, conforme Cunha e dicionarizado em Morais como forma antiga e variante de adivinhação. Por não ser mais usual na língua portuguesa padrão é considerado um arcaísmo. Outros arcaísmos desse grupo são as formas deferença e dereito, registradas em Cunha como usuais nos séculos XIV e XIII, respectivamente. A forma deferença, encontrada na fala de dois entrevistados, é registrada apenas no Amaral, obra essa que trata do vocabulário rural. A variante dereito, também registrada na fala de dois entrevistados, é registrada desde Bluteau até Aurélio, embora seja considerada uma variante antiga e popular por essa última. O vocábulo assuceder está 550 registrado apenas em Freire e como forma popular, variante de suceder. Em Cunha há o registro da forma soceder no século XIV, cuja origem é o latim succedere. Trata-se de um vocábulo muito comum na linguagem popular do NE, sobretudo no Ceará. O verbo atropelado, encontrado na fala de apenas um entrevistado, parece ser um caso de neologismo semântico, pois não há o seu registro com a acepção de ―roubar, furtar‖ em nenhuma obra consultada. Quanto à bagaceira, parece se tratar de mais um neologismo semântico, originado de uma extensão de sentido desse nome. A acepção do vocábulo no contexto, ou seja, como ―confusão‖ alude à desordem resultante da moagem da cana e o seu depósito de forma desordenado. O vocábulo cacau, na acepção de ―coro, surra‖ não está dicionarizado nas obras consultadas. É um vocábulo de origem castelhana e presente no português desde o século XVII. Outro que não está dicionarizado é a locução caindo pra idade que na entrevista tem o sentido de ―envelhecer, tornar-se mais velho‖. No entanto, não parece se tratar de um neologismo na região em face de estar presente na fala de dois entrevistados. Quanto ao vocábulo chanha, possivelmente trata-se de uma alteração de sanha conforme Aurélio, sendo considerado um regionalismo da Paraíba na acepção dicionarizada e origina-se do latim insânia. Na entrevista está com o sentido de ―safadeza, falta de vergonha‖. Quanto à chelepada, possivelmente seja de origem onomatopaica. Não está dicionarizado nas obras consultadas, podendo ser considerado um neologismo, talvez em alusão à chibatada. Por outro lado o vocábulo chumbar está dicionarizado em Freire e em Aurélio, originado do português chumbo e presente no português a partir do século XIX com a acepção de ―embriagado‖. Dicionarizado também é o vocábulo curisco, embora com a grafia corisco. É um vocábulo antigo na língua portuguesa, datado do século XIII e originado de coriscar e esse do latim coruscare. Nas entrevistas há as duas acepções, ou seja, como ―raio; faísca‖ ou ―algo rápido, ligeiro‖. Outro vocábulo dicionarizado, embora pareça um neologismo, é danura, registrado em Aurélio com a mesma acepção da entrevista, isto é, como ―diabrura‖. É considerado ainda um regionalismo de Goiás e de uso familiar. O vocábulo deferente, variante de diferente, está registrado em Aurélio e em Amaral, sendo considerado por aquele, forma antiga e popular, ou seja, mais um caso de retenção linguística na fala dos entrevistados. O vocábulo demundança, ao contrário, revela mais um caso de neologismo, criado a partir do verbo demudar. Na entrevista está com a acepção de ―mudança, transformação‖. O vocábulo descambo, à primeira vista, também poderia ser tomado como um caso de neologismo na região a partir do verbo descambar. Entretanto, em razão de duas pessoas ter feito uso do vocábulo, parece não ser esse o caso. O senão é que há duas acepções distintas nas entrevistas, uma como ―atrocidade, maldade‖ e outro como ―despenhadeiro, precipício‖. De forma 551 diferente o vocábulo desmantelo está dicionarizado na acepção de ―ato ou efeito de desmanchar, destruir‖. Trata-se de um vocábulo derivado de desmantelar, esse de origem francesa. Quanto ao verbo encarcar, é outro que poderia ser tomado como neologismo na região, mas que aparece na fala de duas pessoas, embora novamente com acepções diferentes. Em uma entrevista está com o sentido de ―encalacrar, se dar mal‖ e em outra como ―emborcar, virar ao avesso‖. Trata-se de uma alteração fonológica a partir de encalacrar (encalacrar > encacrar > encarcar – casos de síncope e hipértese). Com a acepção similar a primeira de encarcar, ou seja, como ―se dar mal‖ está o verbo enfusar, presente na fala de um entrevistado. Nesse caso trata-se de um vocábulo dicionarizado, originado do espanhol enfusar e mais comum na língua portuguesa. Esse verbo é considerado pelo Aurélio um regionalismo da Bahia na acepção de ―encalhar‖. Também dicionarizado é o vocábulo esparramo, deverbal de esparramar e considerado um brasileirismo pelo Aurélio. Um vocábulo que era comum na linguagem popular e não encontrado dicionarizado nas obras consultadas é estoporo, nome hoje substituído pelo vocábulo derrame ou ainda acidente vascular cerebral. Não se sabe sua origem e época de entrada na língua portuguesa. Quanto ao vocábulo finado, trata-se de uma variante lexical de falecido, derivado de fim e usual na língua portuguesa desde o século XIV. Na região pesquisada esse vocábulo é tão ou mais produtivo que falecido, conforme pode ser constatado pelo número de ocorrências e falantes. Por outro lado, o vocábulo forra, originado de forro ―liberto, alforriado‖ não está dicionarizado. Na entrevista está com o sentido de ―liberdade, alforria‖. Em razão de haver apenas uma ocorrência pode se tratar de um caso de neologismo. Um caso de fraseologia presente nesse campo léxico é o pau moía, cujo sentido é ―prosseguimento de alguma coisa‖. A princípio parece não se tratar de uma formação nova na região, em razão da presença de cinco ocorrências na fala de dois entrevistados. Outro caso de fraseologia é o trem num prestou não, cuja acepção na entrevista é ―que não tem bom final‖. Nesse caso houve apenas uma ocorrência nas entrevistas. Quanto ao vocábulo pisa, deverbal de pisar, trata-se de uma formação dicionarizada na língua portuguesa desde o início do século XVIII e com a mesma acepção do contexto da entrevista, isto é, como ―surra, sova‖. O vocábulo precisão também não é recente na língua portuguesa, sendo usual desde o século XVII e dicionarizado a partir da obra de Morais. Quanto ao vocábulo quebradura, cuja acepção na entrevista é ―fenda, rachadura‖, embora não seja dicionarizado no Aurélio, está presente nos três dicionários mais antigos, podendo, portanto, ser tomado como um caso de retenção lexical. A locução verbal se lascar, embora não encontrada como entrada lexical em nenhuma das obras consultadas, é comum na fala popular. Na entrevista está com a acepção de ―se dar mal‖. Quanto ao verbo 552 suceder, variante antiga de acontecer, verifica-se que se trata de um vocábulo antigo no português, registrado com algumas alterações desde o século XIV, conforme Cunha. Está registrado nos três primeiros dicionários da ficha lexicográfica, não sendo mais registrado no Aurélio. Diante disso é considerado um caso de retenção lexical, afirmação essa reforçada pelo fato de apenas um falante dentre os 55 entrevistados ter pronunciado tal vocábulo. O vocábulo tendepá é mais um exemplo em que não há o registro de sua possível origem e datação de entrada na língua portuguesa. A considerar apenas os dicionários consultados poder-se-ia afirmar que é um vocábulo mais recente na língua portuguesa, talvez usual a partir da segunda metade do século XIX ou início do XX. É considerado pelo Aurélio um brasileirismo de uso popular. O verbo topar, por outro lado, é antigo na língua portuguesa, com registro desde o século XIII e de origem onomatopaica, conforme Cunha. Essa variante de encontrar-se ou deparar-se se mostrou bem produtiva na região estudada, com registro de 12 ocorrências na fala de seis entrevistados. Em relação à lexia torra há apenas um entrevistado que pronunciou tal vocábulo, não sendo registrado em nenhuma das obras consultadas. Embora não dicionarizado, trata-se de um vocábulo encontrado na linguagem popular. Conquanto seja originado de torrar, segundo Cunha, não se sabe a motivação para a acepção encontrada na entrevista, ou seja, como ―censura, repreensão‖. O verbo transferir também não está registrado com a acepção do contexto, isso é, como ―possuir, adquirir‖. Diante disso e em razão do fato de estar presente na fala de apenas um entrevistado pode ser que se trate de um idioleto. Quanto ao vocábulo valença há o seu registro apenas no Freire entre as cinco obras listadas na ficha lexicográfica, sendo dadas duas acepções: uma considerada mais antiga, com a acepção de ―fortaleza, poder‖ e outra com o sentido de ―valia, proteção‖, essa idêntica aquela encontrada no contexto da fala de três entrevistados. Finalmente, os vocábulos zuada e zuerão estão dicionarizados nas formas zoada e zoeira, sendo considerados variantes lexicais. O primeiro é mais antigo, registrado já na obra de Morais e derivado possivelmente de soar, segundo Cunha. O concorrente zoeira é mais recente, conforme o Cunha (1986), datado de 1899 na língua portuguesa, sendo considerado um lusitanismo pelo Freire. 6.3.4 Campo léxico: Relação 553 Este campo léxico abarca aquelas lexias que se relacionam à dimensão, tamanho, posicionamento e relações de igualdade ou comparação entre seres, coisas ou acontecimentos. Compõe-se dos seguintes vocábulos: com coisa; derradeiro; de grande; de junto; inté; intrás; litro; meada; meirinho; memo; miucho; parentagem; prato; premero; que nem. A locução conjuntiva com coisa não está registrada em nenhuma das obras consultadas. Trata-se de uma formação de origem portuguesa e a acepção no contexto é ―tal como, semelhante‖. O vocábulo derradeiro é antigo na língua portuguesa, datado do século XIV e originado do latim *derratrarius conforme Cunha. Está registrado nos quatro dicionários de língua consultados com a mesma acepção das entrevistas, ou seja, como ―o último‖ e mostra-se bastante produtivo na fala dos entrevistados. Quanto às locuções adverbiais de grande e de junto, ambas não estão dicionarizadas, embora a segunda seja encontrada na definição da lexia de em Freire. Nas entrevistas apresentam as acepções de ―mais velho‖ e ―junto, próximo‖, respectivamente. A primeira está presente em apenas uma entrevista ao passo que a segunda é bastante produtiva entre os entrevistados. A preposição inté e o advérbio intrás são alterações de até e atrás e são casos de alçamento e nasalização a partir do vocábulo origem. A preposição inté está dicionarizada em Freire e em Aurélio, considerada antiga e de uso popular, sendo bastante produtiva na fala dos entrevistados. O advérbio intrás, diferentemente, não está dicionarizado e ocorre apenas na fala de um entrevistado. Quanto aos vocábulos litro e prato, ambos ainda representam unidades de medida de capacidade para cereais e grãos entre os entrevistados. Ambos são de origem francesa, de litre e plat, respectivamente. A respeito do vocábulo meirinho há o seu registro como entrada em Freire, sendo definido como ―contrário de maiorinho, dim. de maior‖. Assim sendo, meirinho seria o diminutivo de menor. No Bluteau também há o registro de meirinho, sendo considerado derivado de maiorinus, corruptela do latim maior. Trata-se, a princípio, de um caso de retenção lexical ou quem sabe até mesmo um arcaísmo, caso haja fontes que comprove seu uso no período arcaico. O vocábulo memo é uma alteração de mesmo e apresenta duas acepções nas entrevistas: uma como ―que figura em pessoa‖ exercendo a função de adjetivo e outra como ―realmente, deveras‖ exercendo a função de advérbio. Nessa forma alterada não há o seu registro nas obras consultadas. O adjetivo miucho, não dicionarizado, possivelmente seja uma alteração de miúça, vocábulo esse do século XVII e originado do latim minutia. Na entrevista apresenta o sentido de ―simples, singelo‖. O vocábulo parentagem é variante de parentela, conforme o Freire, sendo de uso popular e encontrado na fala de apenas um entrevistado. O advérbio premero, alteração de primeiro, mostrou-se bastante produtivo entre os entrevistados. Esta forma está registrada em 554 Amaral e, conforme abonação, está registrada em obra de Fernão de oliveira. Trata-se, portanto, de um caso de retenção lexical. A locução conjuntiva que nem é uma variante lexical de como e mostra-se extremamente produtiva entre os entrevistados. Está registrada como entrada lexical apenas no freire, sendo mais comum na linguagem popular. Após serem apresentados os três macrocampos com seus respectivos campos lexicais é oportuno lembrar que nem todas as lexias presentes no corpus selecionado foram agrupadas em algum destes. Tal fato se deve a constatação de que alguns vocábulos não carregam em si um significado, mas apenas funcionam como elementos gramaticais que marcam relações entre palavras e grupos de palavras em uma estrutura frasal. É o caso das conjunções, pronomes, interjeições etc. Assim, não constam nos campos lexicais citados os seguintes vocábulos: acauso; antão; antonce; cadê; cuma; daí; da moda; de certo; de jeito; de nada; de vera; diacho; entonce; mais; mode; nem vê; ni; quedê; trem; uai; viche. Ao apresentar o vocabulário utilizado pelos nossos entrevistados da região da Bacia do Rio Pardo e organizado em campos lexicais, podemos inferir que no interior de cada um desses campos as unidades léxicas dependem do significado umas das outras para se inserirem dentro de um sistema, não sendo, portanto, agrupadas de forma arbitrária, mas segundo uma relação de coordenação entre si. Os campos léxicos nos mostram que uma palavra não pode expressar um sentido quando analisada por si só: é dentro de um sistema de combinações ou oposições que elas adquirem um sentido próprio. Após descrever e analisar os dados à luz da teoria dos campos lexicais, apresentaremos, no próximo capítulo, o glossário elaborado a partir das fichas lexicográficas que se constituíram, por sua vez, de lexias coletadas em entrevistas orais. 555 CAPÍTULO 7 – GLOSSÁRIO Este glossário, constituído por 562 entradas, é parte do repertório lexical que compõe as 53 entrevistas, transcritas e apresentadas em CD-ROM no início do Capítulo 4, do qual retiramos os dados desta Tese, aqui já mostrados e descritos em fichas lexicográficas, analisados e agrupados em uma rede semântica composta por campos léxicos de significados comuns. Os procedimentos adotados para sua confecção encontram-se na seção 3.4 desta Tese. A abarracado (n/A) [V] Port. Que está acomodado ou alojado em barracas. ―... daí eles tiveram por aqui abarracado por uns dias e depois sumiu também né?‖ (11; 226). abastar (n/A) [V] s.XIII Port. Precisar do mínimo esforço para conseguir o objetivo; ser suficiente; bastar. ―... abasta ocê ficar um tempo aí e ir assuntando e andando aí devagarzinho e ir assuntando pr‘ocê ver.‖ (50;519). abrida (n/A) [V] > Lat > Port Aberta ou perfurada por meio de instrumento; part. pass. antigo de abrir; o mesmo que aberto. ―... essa estrada aqui essa rodagem aqui...mas essa rodagem num era aqui não... era aqui nessa rua que desce ali... abrida de chibanca... daqui no Berizal...‖ (4;197). acá (n/A) [ADV] s.XIII arc. > Lat. > Port. Próximo em relação àquele que fala; aqui, neste lugar. ―... tudo era mato... acá tinha uma casinha nesse ponto.‖ (53;06). acismada (n/d) [ADJsing] Port. Diz-se de quem tem cisma ou desconfiança de alguém ou de alguma coisa. ―... tinha aquelas pessoas mais acismadas e tem esse... acho que era pouca fé em Deus.‖ (19;324). adbençoar (n/d) [V] Port. Derramar as benções; iluminar os caminhos de alguém. O mesmo que abençoar. Fac.: ―... que Deus abençoa a senhora por ter respondido as pergunta pra eles.‖ Inf.: ―Deus que adbençoa o senhor também...‖ (41;236). adivinhança (n/A) s.XIV Nf [Ssing] arc. Port. Ato ou efeito de adivinhar, prever; o mesmo que adivinhação. Entr.: ―Como é que o senhor acha que é a vida nossa?‖ Inf.: ―Depois que nós morre?‖ Entr.: ―É.‖ Inf.: ―É aí... aí é adivinhança né?... aí é preciso fazer uma adivinhança...‖ (48;374). 556 adoar (n/d) [V] Port. Transferir algo gratuitamente a outro. O mesmo que doar (doar > adoar – caso de prótese). ―... cada um deles adoaram 15 hectares de terra pra... pra co / pra o município.‖ (09;10). adobo ~ adrobo (A) Nm [Ssing] > Ár. Tijolo grande, de barro misturado com palha, não queimado, mas cozido ao sol; var. de adobe. ―... quando tinha uns poço de água... fizemos um mucado de adobo... essa casinha aqui é de adobo dos Souza...‖ (3;09) / ―Pra fazer a casa eu mesmo fazia... fazia adrobo...‖ (7;343). adonde (A) [ADV] arc > Lat. > Port. Em algum lugar definido; o mesmo que onde, a que lugar. ―... adonde que tem essas casa com aquela outra rua de lá...‖ (36;300). aducar (n/d) [V] > Lat. > Port. Propiciar a alguém o conhecimento das coisas; dar educação; dar estudo; o mesmo que educar. ―... e trabalhei muito viu... trabalhei muito... aduquei meus filho tudo...‖ (44;208). advertir (n/d) [V] > Lat. > Port. Entreter; distrair; o mesmo que divertir (divertir – advertir – caso de prótese). ―... mas quase todo dia tinha uma festinha... pro povo advertir.‖ (50;299). afundar (n/d) [V] > Lat. > Port. Empreender algo; construir; criar; o mesmo que fundar (fundar > afundar – caso de prótese). ―... esse entroncamento aqui... meu marido que... que... que ajudou trabalhar aqui... quem... quem afundou esse entroncamento aqui foi Ezequiel.‖ (4;207). agregado (A) Nm [Ssing] > Lat > Port. Bras. Trabalhador rural, geralmente assalariado, que vive ou presta serviços em terras que não são de sua propriedade. ―... quem tinha suas fazenda dava a pessoa pra morar de agregado...‖ (42;617). agreste (A) Nm [Ssing] s.XVI > Lat > Port. Diz-se de qualquer ramo ou palha seca. ―... o Ezequiel morava numa choupaninha fechada assim de agreste... de pindoba.‖ (4;216). Água-inglesa (n/d) NCf [Ssing + ADJsing] Port. Espécie de medicamento indicado para mulheres no período pós-parto. Usado para combate à anemia e, também, como tônico revigorante. ―... saúde das mulher é Água-inglesa... num tinha melhorado... num tinha nada... era só esses remédio viu?‖ (44;422). aladim (n/d) Nm [Ssing] > Ár. Aparelho destinado à iluminação, alimentado a querosene, similar a um lampião. ―... a candeia tinha um biquinho e pegava e lumiava... mas alumiava muito mal porque o azeite é fraco... e quando foi ficando mais tempo ês compraram um... como é que é / aladim que ês chama.‖ (3;401). alambique (A) Nm [Ssing] s.XVI > Ár. Aparelho próprio para destilação dos subprodutos da cana, para produção de aguardente. ―Num tinha condições de comprar o jipe... que a renda do 557 município num dava... cobrava imposto de carro de boi... engenho... pra fazer rapadura... alambique...‖ (28;423). aleivosia (n/d) Nf [Ssing] Que é fruto da imaginação; fantasia. ―Inf.: ―... de assombração?‖ Entr.: ―É.‖ Inf.: ―O povo diz que existe...mas eu acho que no meu pensar... aquilo é uma aleivosia que o povo tem na cabeça...‖ (23;215). alembrar (A) [V] arc. > Lat. > Port. Trazer lembranças de alguém ou algo à memória. Recordar-se. Variante de lembrar (lembrar > alembrar – caso de prótese). ―... que eu sou de trinta e três... eu alembro da fome.‖ (15;261). alevantar (A) [V] s.XIII arc. > Lat. > Port. Colocar-se de pé, em posição ereta. Variante de levantar (levantar > alevantar – caso de prótese). ―... quebrei o resguardo... mas eu alevantei inflada de camisa...‖ (41;110). alforridão (n/d) Nf [Ssing] > Ár. Que está na condição de alguém livre, liberto; liberdade. ―... acho que escrava mesmo legítima ela num era mas tinha os filho dela... quis virar médico... mas já nasceu na alforridão... era forro.‖ (8;222). algibeira (A) Nf [Ssing] s.XIX > Ár. Pequeno bolso costurado internamente à calça do homem ou ao vestido da mulher. ―... isso daqui é o da pressão alta ó... eu tenho aqui na algibeira aqui porque se eu precisar viajar eu já num esquento...‖ (22;517). altura (A) Nf [Ssing] s.XIII > Lat > Port. Época da vida; momento tomado como referência no tempo. ―... brincava bastante até uma altura... até uma altura eu brinquei...‖ (43;04). alumiar (A) [V] s.XIII arc. > Lat. > Port. Tornar claro um local; fornecer luz; Variante de iluminar (*iluminar > ilumiar > alumiar – caso de síncope e dissimilação). ―... e tinha gente que alumiava com a candeia de azeite...‖ (3;397).Cf. lumiar. alva (A) [ADJsing] s.XIII > Lat. > Port. Que é mais clara em relação à outra cor; branca; clara. ―... mas as folha dele é larga e as costa dele é alva... alvinha né?... agora a frente dele é mais escura...‖ (2;434). amarrar-vaqueiro (n/d) NCm [V + Ssing.] Planta silvestre, cujas folhas largas são verdes de um lado e brancas no seu verso. ―... tudo quanto há fazia medo na pessoa... tem um tal amarrar-vaqueiro... uma rama do mato... muita gente ia viajando e via ele na estrada com aquele / que ele dava e o vento batia e virava assim a rama...‖ (2;426). Cf. barra-vaqueiro. amontar (A) [V] > Lat. > Port. Pôr-se sobre um animal ou alguma coisa. Variante de montar (montar > amontar – caso de prótese). ―... arranjava uma vara... e amontava... e aí agora saía galopeando pelo meio da estrada...‖ (43;21). analfabético (n/d) [ADJsing] > Lat. > Port. Que ou aquele que não sabe ler e escrever. ―... eu que aprendi um pouquinho da leitu / da leiturazinha que num era analfabético...‖ (37;160). 558 andu (A) Nm [Ssing] Afr. Bras. Espécie de legume ou vagem, de cor esverdeada, arredondada, similar a uma ervilha e usada principalmente em farofa ou cozida e afogada em substituição ao feijão. ―... o andu eu gosto muito mas o feijão-catador eu como mas... a fava eu gosto muito da fava...‖ (19;230). animal-solteiro (n/d) NCm [Ssing. + ADJsing.] > Lat. > Port. Animal de carga, geralmente burro ou besta, que segue à frente da tropa como guia aos demais. ―... um viajante que vendia pra nós vinha chegar a mercadoria com animal... com tropa... né tinha um animal-solteiro... sem carga... botava uma boneca na cabeça... é o da guia...‖ (15;34). antão (A) [ADV] > Lat. > Port. Indica um movimento temporal a partir de um acontecimento; o mesmo que então. ―... antão o tempo no domingo era esse...‖ (1;96). Cf. antonce. anté (n/d) [Prep.] > Ár Limite em um espaço de tempo. Variante de até (até > inté – caso de alçamento com nasalização). ―... anté nesse tempo de 39 num usava esse negócio de... de energia não...‖ (2; 163).Cf. inté. antigório (n/d) [ADJsing] > Lat. > Port. Diz-se daquilo que é antigo; distante no tempo. Variante de antigo (antigo > antigório – caso de paragoje). ―... nós já vai pr‘aquele caminho antigório que era...‖ (48;334). antonce (n/A) [ADV] > Lat. > Port. Indica um movimento temporal a partir de um acontecimento; o mesmo que então. ―... o João era dirigidor do carro... antonce ficou / as máquina que tinha de primeiro era essas...‖ (21;100). Cf. antão. antonte (n/A) [ADV] > Lat. > Port. O dia que antecede ao de ontem. Variante de anteontem (anteontem > antontem > antonte – caso de síncope e apócope). ―... eu fui lá antonte e fui ontem...‖ (49;265). aparrambado (n/d) [ADJsing] Que ou aquele que se sente envergonhado. ―... o pior é que ele... que ele sente aparrambado... que meus filho é dez filho...‖ (43;150). aparrambado (n/d)Nm [Ssing] Quantidade considerável; em número relativamente grande. ―É dez filho... ele tinha um aparrambado de menino pequeno ainda...‖ (43;153). aprumar (A) [V] s.XVIII Port. Erguer-se em linha vertical; pôr em posição ereta... ―... ocê pode matar a sede... ocê aprumeia um copo assim e num precisa nem repetir... ocê pode beber...‖ (15;464). apurar (A) [V] s.XIV > Lat. > Port. Método que consiste em separar substâncias de naturezas diferentes; purificar; tornar puro. ―... aí pegava a panela grande e coloca aquele óleo dentro e fritava pra tirar a água pra apurar só o óleo...‖ (39;63). 559 araconga (n/d) Nf [Ssing] Ind. Ave silvestre de penas brancas e cabeça esverdeada, conhecida pelo seu grito alto e estridente. O mesmo que araponga. ―Não?... araconga é pássaro do mato.‖ (1;107). aranhar (A) [V] > Lat. > Port. Bras. Realizar um serviço de forma vagarosa; trabalhar sem pressa. ―... e nunca deixei também de tá aranhando meu servicinho... eu tanto aranho aqui dentro de casa que ainda tem hora... por fora que eu ainda faço ainda um servicinho pra uma pessoa...‖ (46;153). aranquã (A) Nf 22 [Ssing] s.XVI Ind. Espécie de ave semelhante ao jacu, mas um pouco menor e com penas na garganta. Inf.: ―É um passarinho... é igual um jacu.‖ Entr.: ―É grande igual a...‖ Inf.: ―A aranquã é menos mas o jacu é desse tamanho...‖ (18;584). arapuca (A) Nf [Ssing] s.XIX Ind. Armadilha feita de pequenos pauzinhos, em forma de pirâmide, para apanhar pássaros ou pequenas aves. ―... e fazia uma quebrinha... fazia arapuca pra pegar lambu a priá...‖ (21;187). Cf. urupuca. arco-da-velha (n/A) NCm [Ssing + {Prep + Ssing}] Port. Expressão que exprime surpresa ou algo extraordinário, espantoso. ―Ah brincadeira então eu vou falar pr‘ocê... agora vai sair coisa do arco-da-velha.‖ (6;09). arranchar (n/A) [V] s.XIX > Fr. 1. Estabelecer-se, provisoriamente, em ranchos; alojar-se. ―... e o para-terra é o governo que compra e arrancha o povo né... então tem esse povo arranchado aí...‖ (1;54) / 2. Acomodar-se; pôr-se em algum lugar. ―passarinho arranchou tudo nuns galho de pau.‖ (8;286). arreado de cangaia (n/d) NCm [Ssing + {Prep + Ssing}] Conjunto de adereços utilizados em cavalos, bestas e mulas para o trabalho de carga. ―... era carga e mais cargas... lote de burro... o arreado de cangaia...‖ (43;484). arresistir (n/d) [V] > Lat. > Port. Suportar uma situação adversa, aguentar. Variante de resistir (resistir > arresistir – caso de prótese). ―... tinha umas dona que num arresistia... aquelas morria...‖ (21;268). arribar (A) [V] s.XIII > Lat. > Port. Levantar, erguer algo ou alguém. ―... fazia armadilha de cá e agora arribava aquela vara e armava...‖ (45;263). arrieiro (A) Nm [Ssing] s.XVII > Esp. Responsável pela condução de uma tropa de burros ou bestas e sua carga. ―... bota um lote de burro nesse asfalto e vê se ele acha quem vai trabalhar de arrieiro...‖ (43;519). Cf. tropeiro. 22 Dicionarizado como gênero masculino. 560 assombramento (A) Nm [Ssing] s.XVI Port. Ato ou efeito de assombrar; assombração, fantasma. ―... o povo contava muito esses caso de assombramento né?‖ (42;566). assuceder (n/A) [V] > Lat. > Port. Acontecer, ocorrer. Variante de suceder (suceder > assuceder – caso de prótese). ―... ia lá e ficava na casa... se assucedesse ês vim ali ela num vinha...‖ (2;367). Cf. suceder. assuntar (A) [V] s.XIX > Lat. > Port. Bras. Prestar atenção ao que é dito ou às coisas ao redor; observar atentamente. ―... e era conhecido dele... e ele já tinha ido lá assuntar ele...‖ (2;273). atropelar (n/d) [V] s.XIV Port. Tomar algo que não lhe pertence mediante ameaça ou violência; roubar, furtar. ―... eu já fui atropelado por um ladrão... eu requeri ele... o que eu fui atropelado por gente do olho grande querendo tomar o que eu tinha.‖ (48;312). aturar (A) [V] s.XIII > Lat. > Port. Subsistir a algo por algum tempo; durar. ―Ele caiu... ele ainda aturou dez dias... que ele bateu a cabeça e fez um corte assim na cabeça... ele aturou dez dias ainda.‖ (20;171-174). avexado (A) [ADJsing.] > Lat. > Port. Que ou aquele que é envergonhado, acanhado, tímido. ―... eu nunca namorei... eu muito avexado.‖ (42;59). avultado (A) [ADJsing.] s.XVII Port. Que está em quantidade ou valor maior. ―... tem hora que a gente vai com o dinheiro mais avultado pro armazém ou pr‘um açougue...‖ (46;189). azabumba (n/d) Nm [Ssing] Afr. Instrumento de percussão, semelhante a um tambor grande, forrado na parte superior com couro de animal e muito utilizado na folia de Reis; bombo. O mesmo que zabumba (zabumba > azabumba – caso de prótese). ―... foi cantar Reis lá com meu avô... tinha uma caixa... aquele tal de... azabumba... azabumba... chanteiro... cambeta e violão.‖ (13;353). B bacamarte (A) Nm [Ssing] s.XVII Afr. Antiga arma de fogo, de cano curto e largo. Inf2: ―O clavinote era da casa... ocê num alembra que pai tinha uma... clavinote... clavinote... bacamarte...‖ (15;171). badocar (n/d) [V] > Ár. Atirar pedras ou bolas de barro com badoque. ―... tinha lugar que / divertia sabe?... pros mato badocar...‖ (37;114). badoque (A) Nm [Ssing] s.XIX Ár. Espécie de atiradeira constituída por um gancho de pau em forma de y, com uma tira de elástico amarrada nas duas extremidades superiores e dotada de uma malha, por onde são colocadas pedras ou sementes a serem atiradas. Variante de 561 bodoque (bodoque > badoque – caso de dissimilação). ―... mas naquele tempo era badoque... mas num é do jeito do estilingue não...‖ (2;197). Cf. bodoque. bagaceira (n/d) Nf [Ssing] s. XVIII > Lat. > Port. Confusão, agitação, tumulto. ―... quando foi assim num espaço de uma hora mais ou menos galo cantou jegue urrou... e uma bagaceira... aí nós viu começando a clarear né?‖ (6;349). banda (A) Nf [Ssing] s.XV Parte lateral; um dos lados. ―... a gente chegava lá e achava aqueles cabelão da banda de fora da carneira...‖ (4;310). barra-vaqueiro (n/d) NCm[V + Ssing.] Port. Pequeno arbusto de folhas largas e verdes de um lado e brancas no seu verso. ―... se o vento dava numa rama de barra-vaqueiro ela fazia assim e mostrava o lado branco...‖ (34;178). Cf. amarrar-vaqueiro. barrer (A) [V] > Lat. > Port. Limpar com vassoura. Variante de varrer (varrer > barrer – caso de bilabialização). ―... lavo uma roupa lavo um prato barro casa... barro terreiro...‖ (46;09). barroca (A)Nf [Ssing] s.XIII Port. Bras. Vala natural, de tamanho e forma irregular, provocada pela água da chuva e por onde escorre a enxurrada. ―... o carro virou... também caiu dentro de uma barroca...‖ (42;686). batistério (n/d) Nm [Ssing] s.XVI > Lat. > Port. A cerimônia de batismo, batizado. ―... só o padre que dava batistério...‖ (50;03). beiço (A) Nm [Ssing] s.XIII Cada uma das partes carnudas que formam o contorno da boca; lábio. ―... pegou o beiço da velha e pregou um prego...‖ (13;233). beiju (A) Nm [Ssing] s.XVI Ind. Massa de farinha de mandioca cozida ao forno e servida em formato de placas do tamanho da palma da mão e bem crocantes. ―... a semana toda fazia farinha... fazia beiju... fazia beiju de... massa de fazer beiju de goma...‖ (7;365). Cf. tapioca. berrante (A) Nm [Ssing] s.XX Bras. Chifre de boi usado pelos boiadeiros como buzina para conduzir o gado. ―Imagina o berrante dês num é do modo daqueles que tem hoje... que o dês era o... era só o chifre de um gado mesmo...‖ (27;407). bestagem (A) Nf [Ssing] Bras. O mesmo que besteira, asneira, tolice. ―Ah isso aí ocê num vê nunca... isso é bestagem!‖ (18;507). bestalhada (n/d) Nf [Ssing] Port. Algo sem valor; bobagem, futilidade. Variante de bestagem. ―... naquele tempo num usava essas bestalhada de trem assim não...‖ (6;155).Cf. bestagem. bestar (A) [V] Bras. Andar a esmo, sem rumo certo; vaguear. ―Ah brincava de / bestano na área lá pegando lontra...‖ (3;50). bicho da carneira (n/d) NCm [Ssing+{Prep+Art.}+Ssing] Port. Caso de assombração difundido em Pedra Azul (MG). Trata-se de um falecido que reaparece para as pessoas em 562 forma de bichos como cachorro, porco, jegue etc. ―... e diz que o bicho da carneira... também diz que foi a mãe que excomungou o filho...‖ (46;221). Cf. bicho da Fortaleza. bicho da Fortaleza (n/d) NCm [Ssing+{Prep+Art.}+Ssing] Port. O mesmo que bicho de Pedra Azul. ―... tanto outro tempo aparecia uma assombração aqui... tem bicho que era um bicho da Fortaleza...‖ (4;279). Cf. bicho de Pedra Azul. bicho de Pedra Azul (n/d) NCm [Ssing+{Prep+Art.}+Ssing] Port. Caso de assombração difundido em Pedra Azul (MG). Trata-se de um falecido que reaparece para as pessoas em forma de bichos como cachorro, porco, jegue etc. ―... um tal de bicho de Pedra Azul... um bicho de Pedra Azul que saía da carneira...‖ (40;597). Cf. bicho da carneira. birro (A) Nm [Ssing] s.XIX Pequena peça de madeira em forma de barrete, com uma bola em uma extremidade usada como pega, utilizada para fazer rendas de almofada. Variante de bilro (bilro > birro – caso de assimilação regressiva). ―... e a renda fazia nas almofada... uma almofadinha... batia os birro...‖ (14;156). bizungar (n/d) [V] Port. Untar, besuntar exageradamente algo ou alguém com óleo, azeite, mel etc. ―... vinha e bizungava essa mulher com azeite e Deus ajudasse dava tudo certo...‖ (6;365). bodocar (n/d) [V] > Ár. Ação de atirar pedras ou bolas de barro com bodoque. ―Pois é... bodocar... botava umas capanguinha de pedra né?... onde que fosse saía bodocando...‖ (30;26). Cf. badocar. bodoque (A) Nm [Ssing] s.XIX > Ár. Gancho de pau em forma de y, com uma tira de elástico amarrada nas duas extremidades superiores e dotada de uma malha por onde são colocadas pedras ou sementes a serem atiradas. ―... fazia um bodoque... lavrava um pau de um lado e d‘outro e entortava e amarrava um cordão...‖ (15;67). Cf. badoque. boiadeiro (A) Nm [Ssing] Port. Indivíduo que guia os bois nas estradas para alcançarem novas pastagens ou serem vendidos nos mercados. ―... era boiadeiro... o boiadeiro é que toca / tocava o gado na estrada...‖ (43;551). boiado (n/d) Nm [Ssing] Port. Som emitido pelo vaqueiro por meio do berrante. ―... que era muito gado... e tinha umas pessoa que sabia dar um boiado bonito... vaqueiro daqui dava uns boiado que chegava a estrondar.‖ (27;403). boiar (n/d) [V] Port. Conduzir os bois pela estrada. ―Guieiro de boi... guia os boi... lá é candieiro... no sul de Minas é.‖ Entr.: ―É... eu num sabia disso não!‖ Inf.: ―Eu já boiei no Paraná.‖ (28;180). boi-janeiro (n/d) NCm [Ssing+ADJsing.] Port. Espécie de fantasia em que um indivíduo se veste de boi e sai pelas ruas desfilando, seguido pelas pessoas, no mês de janeiro. ―Esse boi- 563 janeiro é um homem... que a gente coloca dentro de / faz um caixão de vara... como se fosse / como essa mesa né?‖ (43;379). boneca (A) Nf [Ssing] s.XVII > Esp. Bras. Espiga de milho ainda nova com os grãos ainda em formação. ―... tá tudo crescidinho assim esperando secar... e já tá todo empeduando com as boneca...‖ (45;297). bonina (A) Nf [Ssing] s.XVI > Esp. Flor do campo, de cor vermelho-escura, também chamada bela margarida ou margarida dos prados. ―Ó tem uma planta do mato que chama bonina...‖ (09;195). boqueirão (A) Nm [Ssing] s.XVI Port. 1. Quebrada de serra ou foz de um rio. ―Quando tinha fazenda boa nós ia pro fundo do boqueirão.‖ (44;283). / 2. Cova grande e profunda; vala. ―... se o senhor vê os buqueirões que tem lá feito pelos escravos tirando ouro e essas coisas...‖ (26;240). botar (A) [V] s.XIV > Fr. Pôr, colocar algo em algum lugar. ―... onde que ês encontrava uma rês passava fogo nela e botava ela no chão...‖ (1;140). botar sentido (n/d) Loc. Verbal [V+Ssing.] Port. Prestar atenção às coisas ao entorno; observar ou escutar algo cuidadosamente. ―... botaram duas nulher solteira pra botar sentido...‖ (44;475). brabo (A) [ADJ.sing] > Lat. > Port. Qualidade de quem está rude, nervoso, colérico. Variante de bravo. ―... então foi criado dessa maneira assim... mais brabo.‖ (1;99). bramura (n/d) Nf [Ssing] Port. Bagunça; diabrura. ―... quando eu era menino eu recordo de alguma coisa... e eu fazia bastante bramura né?‖ (43;04). bravar (n/d) [V] > Fr. Gabar; sentir-se superior. ―... foi na casa dele... pintou e bordou... tomou essa... essabesta dele... tomou tudo tudo tudo.‖ Entr‖.:‖ Nossa‖‖ Inf.: ―É... e ainda saiu bravando aí...isso porque ele num disse nada né?‖ (42;502). brenha (A) [ADJsing.] s.XVI Mata espessa e emaranhada, difícil de ser penetrada. ―... aqui quem tivesse sua vaquinha aqui deveria pegar ela e esconder numa mata bem brenha...‖ (1;136). breu (A) Nm [Ssing] s.XIV > Fr. Lugar escuro em que não é possível enxergar quase nada; escuridão; trevas. ―... mas escureceu assim que virou um breu...‖ (1;577). brocotó (A) Nm [Ssing] Ind. Diz-se de terreno ruim, muito irregular, de mata seca e que dificulta o caminhar. ―... qu‘eu num guento mais ir nesses brocotó... mais caçar essas coisas...‖ (42;379). 564 bruaca (A) Nf [Ssing] s.XIX > Esp. Bras. Saco ou mala de couro cru usado para transporte de mercadorias, geralmente sobre bestas. ―... sentava a rapadura no espinhaço do animal... dentro das bruaca e / das cangaia e das bruaca e ia pondo rapadura.‖ (21;281). Cf. buraca. bucho (A) Nm [Ssing] s.XIV Port. Estômago dos mamíferos. ―Caminhando oito léguas de criança a pé ainda com o bucho nas costas...‖ (38;08). buraca (A) Nf [Ssing] > Esp. Saco ou mala de couro cru usado para transporte de mercadorias, geralmente sobre bestas. Variante de bruaca. (Bruaca > buraca – processo de metátese). ―Com tropa... botava a burrada aí e cangaia e buraca... pra ir buscar a rapadura feijão arroz...‖ (6;78). Cf. bruaca. C cabaça (A) Nf [Ssing] s.XIII Vasilha formada pela casca inteira e seca do fruto de uma planta conhecida como cabaça. ―... botava no fundo de cabaça... ocê já ouviu falar ni cabaça?‖ (4;95). caboclo (A) Nm [Ssing] s.XVII Ind. Índio ou descendente de índios. ―... levava pra Jequié pra trazer sal pra nós comer aqui... que aqui num tinha... se ele num fosse buscar nós comia sem sal que nem caboclo...‖ (50;38). caboclo-preto (n/d) NCm [Ssing+ADJsing] Hibr. Espécie de planta silvestre, trepadeira, com flores amarelo-pálidas, também conhecida como cipó-caboclo, usada com fins medicinais com propriedades depurativas e estimulantes. ―É... tinha um tali caboclo-preto... quina... é esses remédio que nós tomava...‖ (30;225). cabra (A) Nm [Ssing] s.XIII Port. Bras. Qualquer indivíduo, pessoa. ―Ô meu pai do céu... ês passaram um tiro num cabra... ele chama (nome).‖ (37;286). cacatua (A) Nf [Ssing] s.XVI > Mal. Espécie de ave de plumagem branca, da família dos papagaios, que apresenta um topete singular. ―... nós plantava as mesma coisa de hoje... era manaíba... feijão... milho... é cacatua.‖ (43;104). cacau (n/d) Nm [Ssing] s.XVII > Esp. Surra, coro, sova. ―... falava uma vez só... e gente chegava a mijar de medo... assim que eu fui criada... era só uma vez... se não compreendesse o cacau descia.‖ (38;54-56). cacetinho (A) Nm [Ssing] s.XIX Port. Bastão de madeira, menor que um cajado, para servir de apoio; bengala. ―... ―ocê pode ir rompendo que eu vou com o cacetinho e Deus me ajuda que eu chego lá‖... quando ela chegou aqui eu também cheguei... mas com o cacetinho... mas todo duro‖ (45;383). 565 cachimbar (n/d) [V] Afr. Mancar em uma das pernas; andar meio torto... ―... ela era morena... ela andava assim... meio cachimbando né?‖ (44;388). cacimba (A) Nf [Ssing] s.XVI Afr. Bras. Cova natural ou feita pelo homem em lugares úmidos, onde se acumula água. ―É... era de cacimba... a gente abria um buraco assim no chão ó... num era cisterna não...‖ (4;242). cacunda (A) Nf [Ssing] Afr. Bras. Parte do corpo onde geralmente se carrega coisas mais pesadas ou volumosas; costas, dorso. ―... chegava lá fazia nossas farinha e botava na cacunda.‖ (4;189). cadê (A) [Pronome] Bras. Onde está; quede. ―_ Uai mulher cadê o bicho?‖ (6;314). cagaiteira (A) Nf [Ssing] Bras. Fruto de bagas amarelas proveniente de uma árvore de mesmo nome, muito suculenta e de gosto agradável que, se comida em excesso, produz disenteria. ―... ela a cagaiteira que é muito azeda... é... a jabuticaba é muito doce... a cagaiteira já era azeda...‖ (19;409-410). caindo pra idade (n/d) Loc. Verbal [V + Prep + Ssing] Port. Tornar-se mais velho, envelhecer, adquirir mais idade. ―... depois que eu fui caindo pra idade aí eu não trabalhei mais não...‖ (46;07). cair no mundo (n/A) Loc. Verbal [V + Prep + Ssing] Port. Pegar a estrada; viajar. ―... e a panela de feijão com toicinho tava lá brobulhando... pra comer amanhã seis horas pra tornar a cair no mundo...‖ (6;124). caititu (A) Nm [Ssing] s.XVII Ind. Mamífero de aparência semelhante ao javali, embora com caninos bem mais pequenos; omesmo que porco do mato.―Aqui era veado jacu... essa cutia caititu onça...‖ (18;180). calabrear (n/d) [V] Tampar com cimento ou outro tipo de massa; rebocar. ―... diz que o povo ia lá e calabreava esse túmulo de cimento...‖ (4;303). calundum (n/d) Nm [Ssing] Afr. Espécie de arbusto de tronco e galhos tortuosos, encontrado geralmente no cerrado e na caatinga. ―isso aqui era só mato... aquele matagal... só tinha aqueles calundum...‖ (40;51). cama de vara (n/d) NCf [Ssing. + Prep + Ssing.] Port. Espécie de cama rústica, com o estrado feito de varas entrelaçadas. ―... cansei de ver... a cama de vara... um jirauzinho de vara...‖ (23;341). camarada (A) Nm [Ssing] s.XVI > Fr. 1. Indivíduo qualquer; companheiro. ―... fazia um copo duplo e o camarada quebrava aquilo...‖ (39; 510). / 2. Indivíduo contratado temporariamente para serviços variados nas fazendas. ―... e eu pus dois camarada... pra carregar água durante dois meses...‖ (3;13). 566 campa (n/d) Nf [Ssing] > Lat. > Port. Espécie de mala antiga, dotada de dois suportes nas laterais, usada pelos vendedores ambulantes. ―As mala tinha... tinha um lugar de botar candieiro... botar tudo pra sair vendendo... era diferente... a outra era mais diferente um pouco... chamava campa... põe o candeeiro de um lado... põe um trem do outro e deixa encher de coisa.‖ (53;38). campesta (n/d) Nf [Ssing] > Lat. > Port. Campo de vegetação rala e seca. ―Aí virou essa campesta aí desse jeito aí ó... num chove...‖ (43;691). cancela (A) Nf [Ssing] s.XVI > Lat. > Port. Portão, geralmente feito de ripas ou tábuas distanciadas uma das outras. ―... ele ia fazer aquelas cancela pra botar nas divisão dos curral...‖ (43;15). candeia (A) Nf [Ssing] s.XIII > Lat. > Port. Objeto usado para iluminação, geralmente feito de barro, e alimentado por azeite ou cera do mato. ―... pegava aquela vasilhinha de barro... que ês chamava... como é que chamava... era lamparina... é candeia...‖ (2;160). candieiro (A) Nm [Ssing] s.XIV > Lat. > Port. Objeto usado para iluminação, geralmente feito de metal, e alimentado por óleo ou gás. ―... muita gente mais que podia comprava criosene... tinha aquele vidrinho feito / um candieiro... chamava candieiro...‖ (3;394). canga (A) Nf [Ssing] s.XIX > Lat. > Port. Peça de madeira que une os bois pelo pescoço e acoplada ao carro de boi. ―... aí pegava uma parelhona de boi... enfiava a canga no cangote do bicho...‖ (39;614). cangaia (A) Nf [Ssing] s.XIX > Lat. > Port. Armação de madeira ou de ferro que sustenta e equilibra a carga das bestas, metade para um lado, metade para o outro lado. ―... aí colocava na cangaia do burro... que a cangaia do burro é feita de duas partes né?‖ (22;541). cangar (A) [V] Port. Pôr a canga nos bois. ―... tinha a atiradeira e cangava os boi e laçava aquelas atiradeira nas ( ) e os boi saía andando...‖ (21;402). canho (n/d) Nm [Ssing] > Esp. Nome que recebe as variadas plantas da família das Cannabis, geralmente muito utilizada na indústria têxtil e de celulose. O mesmo que cânhamo.―Eu mexia com uma rocinha né?... era plantar milho feijão arroz canho né?‖ (11;49). canjerana (A) Nf [Ssing] s.XVIII Ind. Espécie de árvore de madeira avermelhada, aromática, boa para construção. ―Aqui é essa jabuticaba... tinha uma canjerana...‖ (18;573). cantador de Reis (n/d) NCm [Ssing +Prep. + Spl] Port. Aquele que canta na folia de Reis. ―... agora no natal mesmo cantou... aqui meu irmão era cantador de Reis...‖ (7;281). cantar Reis (n/A) Loc. verbal [V + Spl] Port. Cantar e orar em frente a um presépio por ocasião da festa de Reis. ―... aqui meu irmão era cantador de Reis... depois que meu irmão morreu cabou... num canta Reis mais não...‖ (7;281). 567 capado (A) Nm [Ssing] s.XIIIPort. bras. Porco grande e castrado para engorda. ―... matava aqueles capadão gordo pra jogar nas feijoada...‖ (50;320). capanga (A) Nm [Ssing] Afr. bras. 1. Indivíduo assalariado para guarda e defesa de alguém; guarda-costas. ―... chegou lá chamou os capanga dele... meu pai era um deles...‖ (6;220). / 2. Nf[Ssing] Afr. Espécie de bolsa rústica, geralmente de couro, que as pessoas levam a tiracolo para carregar mantimentos e pequenos objetos. ―... duas capanga nos canto tudo cheia de dinheiro que ês deixou...‖ (8;352). capim da lapa (n/d) NCm [Ssing + {Prep. + Art.} + Ssing] Hibr. Espécie de capim aromático muito utilizado para fazer chá . ―Ah isso é chá de hortelã... chá de erva-cidreira... chá de capim da lapa...‖ (19;83). Cf. capim santo. capim santo (A) Nm [Ssing] Hibr. bras. Espécie de capim aromático também conhecido como capim cheiroso. ―... aqui a gente faz chá de erva-cidreira... chá do capim santo que a gente trás aquele capim da lapa...‖ (40;658). Cf. capim da lapa. capoeira (A) Nf [Ssing] s.XVI Ind. Lugar onde o mato cresceu após a derrubada da mata original. ―... tem perdiz... tem essa izabelê... essas coisa tudo tem nessas capoeira...‖ (18;590). carabina (A) Nf [Ssing] s.XIX > Fr. Espécie de espingarda curta; fuzil. ―Não... arma pesada... arma deles tinha outro nome... era carabina...‖ (15;167). carapina (A) Nm [Ssing] s.XVII Ind. Aquele que trabalha com a madeira; carpinteiro. ―... os caxão era feito era lá... os carapina lá mesmo que fazia...‖ (19;297). cargueiro (A) Nm [Ssing] > Lat. > Port. Animal que transporta carga sobre o dorso, geralmente mulas ou bestas. ―... de primeiro o carro quase num existia não né?... era o lombo de burro... tinha as carga né?... aqueles cargueiro...‖ (1;317). carne de sol (A) NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] Bras. Carne levemente salgada e seca ao sol. ―... vendendo requeijão vendendo carne... vendia carne cheirosa... carne de... carnedesol né?‖ (20;78). carneira (A) Nf [Ssing] s.XIX > Lat. > Port. Lugar, no cemitério, onde se enterra os mortos; cova, sepultura. ―... um tal de bicho de Pedra Azul... um bicho de Pedra Azul que saía da carneira...‖ (40;597). carpiar (n/A) [V] s.XIX > Lat. > Port. Ação de amassar com um pequeno bastão; triturar. ―... e os menino novinho quando ia nascer dente era carpiar... um tal de focinho-de-boi... um carrapicho que faz um picão...‖ (14;100). carrancismo (A) Nm [Ssing] Apego ao passado; aversão à mudança. ―... então isso é o que eu quero dizer... mais carrancismo pra trás que eu não alcancei...‖ (43;441). 568 carrasco (A) Nm [Ssing] s.XVI Bras. Formação vegetal comum no nordeste brasileiro, de baixa estatura, mais fechada e áspera do que a caatinga. ―... mas tem algum fazendeiro aí no recanto aí que tem umas moita de carrasco...‖ (3;237). carreira (A) Nf [Ssing] s.XIII > Lat. > Port. Corrida veloz; correria. ―... com pouco ele chegou aqui na carreira...‖ (40;604). carreiro (A) Nm [Ssing] s.XIII > Lat. > Port. Trilha feita no mato para passagem de pessoas ou animais; estrada, caminho. ―Aqui moço... aqui era um carrero... a onça topava a gente aqui na estrada ó.‖ (16;87). carrisqueiro (A) Nm [Ssing] Arbustos de caule e ramos duros e emaranhados. ―... e o mercado que tem era de balaústre... era aquele carrisqueiro de madeira...‖ (21;47). carro de boi (A) NCm [Ssing + Prep. + Ssing] Port. Carro de madeira, de um só eixo, movimentado ou puxado, em geral, por uma ou mais parelhas de bois, e guiado por carreiro . “... mas eu vi aquele carro de boi carregado de milho.‖ (45;318). cascar no cerrado (n/d) loc. Verbal [V + {Prep. + Art.} + Ssing] Port. Fugir; sair apressadamente... ―... aí jogava duas moeda lá no chão e largava lá e cascava no cerrado com outro...‖ (1;493). Cf. cascar fora. cascar fora (n/d) Loc. Verbal [V + ADV.] Port. Abandonar um lugar rapidamente; fugir. ―... ele foi embora com mãe me ganhando... ele cascou fora e foi embora e largou ela.‖ (36;295). Cf. cascar no cerrado. catinga (A) Nf [Ssing] s.XVI Ind. Região onde a vegetação é caracterizada por árvores baixas e retorcidas, espinhentas e com poucas folhas. ―... cabou as mata!... é tudo / só virou sertão velho que nem as catinga cabou...‖ (45;286). catingueiro (A) Nm [Ssing] Hibr. Bras. Espécie de veado pequeno; veado-mateiro. ―... caçava viado... tinha um / nós falava catingueiro... aqui ês num gosta de falar não.‖ (2;213). catita (n/d) Nf [Ssing] Feridas que aparecem no corpo das pessoas, de difícil cicatrização. ―... dava umas pereba nas pernas do povo... chamava catita...‖ (39;654). catre (A) Nm [Ssing] s.XVI > Tam. Leito grosseiro, com a grade geralmente feita com couro de boi, sem maior refinamento. ―... tira a paina e enche aquele colchão... tinha os catre de correia... hoje cabou tudo... catre... era encorreado de couro de gado.‖ (34;252). catuá (n/A) Nm [Ssing] Ind. Espécie de árvore, de madeira muito apreciada na construção. ―... tinha braúna... tinha caboclo... tinha catuá... que era as madeira-de-lei que tinha né?‖ (43;656). 569 causo (A) Nm [Ssing] s.XV > Lat. > Port. Bras. Narrativa, às vezes longa, de fatos reais ou imaginários; história, conto, fato. ―... eu pra minha idade eu nem posso contar meus causos.‖ (33;55). ceveiro (A) Nm [Ssing] > Lat. > Port. Bras. Lugar onde se põe alimento com fins de atrair a caça. ―... é o que ês mais matava aqui era jacu... fazia o ceveiro... matava jacu...‖ (28;335). chanha (A) Nf [Ssing] Bras. Safadeza; falta de vergonha. ―... hoje num tem namoro... de jeito nenhum... hoje tem é chanha... namoro num tem...‖ (8;75). chanteiro (n/d) Nm [Ssing] Instrumento de percussão, no formato de um arco de metal forrado com couro e com pequenos guisos nas laterais. O mesmo que pandeiro. ―... tinha aquela caixa... aquele tal de... azabumba... azabumba... chanteiro... cambeta e violão...‖ (13;353). chelepada (n/d) Nf [Ssing] Chicotada; surra de vara. ―... então eu num queixo da / do / das chelepada que eu ganhei...‖ (1;246). chilepar (n/d) [V] Bater com chicote ou vara; dar uma surra. ―... e a moça também de dentro da casa pra ver o rapaz era assim... pelo buraquinho... e se fosse em contrário e gostava o pai pegava e... chilepava.‖ (15;84). chimanco (n/d) Nm [Ssing] Biscoito grande, geralmente de queijo ou polvilho, em forma de rodela. ―... fazia biscoito tudo na palha de bananeira... fazia aquelas paiona de bananeira assim ó... e fazia os chimanco... que era dessa grossura... mas era gostoso...‖ Entr.: ―Chimanco?‖ Inf.: ―É... fazia aqueles biscoitão dessa grossura... aqueles chimanco grosso assim...‖ (16;664). chimbar (n/d) [V] Mancar; andar meio torto. ―... que ela é meio adoentada... passa chimbando uma perna...‖ (40;268). Cf. cachimbar. chincheiro ~ chincherro (A) Nm [Ssing] > Esp. Pequena campainha pendente no pescoço do animal que serve de guia aos demais em uma tropa. Variante de cincerro. ―... e saía com a tropa... tinha vez que os pessoal falava: ―_ Ó hoje nós tamo satisfeito ó... o chincheiro batendo dessa altura... vai chegar sal pra nós...‖ (28;76) / ―... aqui tinha o tropeiro que havia três tipo... a burrada na estrada... batendo o chincherro... aquilo dalã dalã dalã...‖ (27;383). choça (A) Nf [Ssing] s.XIII Esconderijo no mato, feito de folhas e ramos de árvores, com a finalidade de esperar a caça. ―... mais no mais quando num era de arapuca era matando no... com a espingarda... dentro da choça... a caça saía e a gente atirava e matava né?‖ (22;283). chorró (A) Nm [Ssing] Bras. Espécie de pássaro de canto melodioso, de coloração negra com barrados de branco, com um topete marcante no alto da cabeça, muito comum nas capoeiras e caatingas. Entr.: O que que tinha nesses mato aí de bicho... de ave?‖ Inf.: ―Jacu... aranquã... zabelê... juriti... papagaio... lambu... cadorna... chorró... priquito...‖ (6;45). 570 chumbado (n/A) [ADJ.] s.XIX Port. Que está embriagado, bêbado. ―... porque ês falava que tinha um chumbado e eu falei: ―_ Quem atirou nele?‖... ―_ Ninguém!... ocê já tá embriagado!‖‖ (3;388). chumbalhada (n/d) Nf [Ssing] Port. Mistura de raízes diversas; ajuntamento de ramos para chá. ―... tomava azeite e remédio de horta... cozinhava lá uma chumbalhada doida... casca de / pó de tudo quanto é coisa ia...‖ (13;293). chumbar (A) [V] s.XIX Port. Embriagar-se; ficar tonto devido ao excesso de bebida alcoólica. ―... de vez em quando tomava uma pinguinha... mas num bebia que nem hoje pra chumbar não...‖ (39;493). clavinote (A) Nf [Ssing] > Fr. Bras. Espécie de carabina pequena. ―O armamento deles era... era clavinote... clavinote é chumbeira...‖ (15;164). cobre (A) Nm [Ssing] s.XIII > Lat. > Port. Antiga moeda brasileira de 40 réis. ―... assim dez réis é um vintém... dez vintém é um cobre... dois cobre é um tostão... dez tostão é um mi réis...‖ (27;52). coivara (A) Nf [Ssing] s.XVII Ind. Terreno coberto de galhos e troncos que restaram de uma queimada. ―No meio da coivara... sim... no meio da roça lá...‖ (18;407). com coisa (n/d) Loc. conjuntiva [Prep. + Ssing] Port. Tal como, semelhante; como. ―... o bicho tava com o bico tudo assim... com coisa que é um piru...‖ (6;158). come e bebe (n/d) Loc. substantiva [V + Conj. + V] Port. Festa ou encontro de amigos, regada de comida e bebida. ―... fazia um forró... um churrasco né?... um come e bebe...‖ (42;118). comer boca (n/d) Loc. verbal [V + Ssing] Port. Beijar na boca de forma mais calorosa. ―... mas num tinha essa história de abraçar beijar que nem eu vejo agora... comer boca como diz assim... ah comer boca!‖ (46;53). cometa (n/A) Nm [Ssing] s.XIV > Lat. > Port. Bras. Mercador de estrada, que serve de intermediário entre o produtor e o consumidor final; caixeiro-viajante. ―... viajava tocando boi... e esses cometa vinha de fora trazendo sal... trazendo num sei o que... sal e roupa pano e esas coisa...‖ (13;41). com pouco (n/d) Loc. adverbial [Prep. + ADV] Port. Daí a pouco, de repente. ―... ele foi descendo... com pouco tá lá no lonjão...‖ (1;392). comunismo (n/d) Nm[Ssing] s.XIX > Fr. Bagunça, briga, confusão. ―... ela casava quase sem ver o namorado... né igual hoje não... mas hoje virou comunismo...‖ (45;102). conto (A) Nm [Ssing] > Lat. > Port. Dinheiro, moeda sem valor específico. ―... tem um aí que custa vinte e dois conto...‖ (18;101). 571 contradança (A) Nf [Ssing] s.XIX > Ing. Dança de quatro ou mais pares, defrontando-se uns com os outros. ―Tinha contradança... a hora que terminava o Reis o dono da casa abria a casa e nós fundava dentro pra fazer a contradança...‖ (16;628). corana (n/A) Nf [Ssing] Fruta silvestre, de cor avermelhada, que serve de alimento aos pássaros. ―É... tem essa... fruta pra passarinho... tem uma tal de corana... ela é vermelhinha assim... uma frutinha vermelhinha que só come só jacu aranquã... essas coisa que come ela...‖ (18;575). coresma (A) Nf [Ssing] s.XV arc. > Lat. > Port. Intervalo de 40 dias entre a quarta feira de cinzas e o domingo de páscoa, celebrado pelos cristãos; o mesmo que quaresma. ―... nó quando era assim na coresma... ó tinha vez quando era na sexta feira santa...‖ (18;278). córgo (n/A) Nm [Ssing] s.XVI > Lat. > Port. Curso d‘água de pequena largura, variante de córrego.―No fundo da casa tinha um córgo... um corgão seco...‖ (2;516). coronel (A) Nm [Ssing] s.XIX > It. Chefe político no interior do Brasil, geralmente detentor de grandes riquezas e prestígio em sua região. ―... a casa é inté ali... que é a sede do coronel...‖ (48;187). correr viado (n/d). Loc. verbal [V + Ssing] Port. Lançar-se na mata à caça de um veado; perseguir veado. ―... eu gostava de quando eles ia... quando ês ia correr viado... aqui tinha dois cachorro ensinado...‖ (5;194). criosene (n/d) Nm [Ssing] > Fr. Um dos subprodutos destilado do petróleo; variante pop. de querosene. ―... lamparina lamparina... o povo fazia lamparina de vidro né?... agora nós comprava o criosene e panhava na lamparina...‖ (36;244). culiar (n/d) [V] Combinar, ajustar, coligar. ―... aí eles culiou mais o outro moço...‖ (42;430). cuma (n/d) [Conj.] > Lat. > Port. Variante de como.Entr.: ―O senhor lembra falar de um povo...‖ Inf.: ―Cuma?‖ (34;223). cumê (A) Nm [Ssing] Port. Aquilo que serve como alimento; refeição. ―... aí pegava / botava / pedia uma janta... pedia cumê pra dez homem... pedia cumê pra dez homem...‖ (16;604). cunzinhar (n/d) [V] > Lat. > Port. Preparar os alimentos, sob a forma de cozimento ao forno ou imersão em recipiente com óleo ou água para consumo; variante pop. de cozinhar. ―... quando tinha o feijão ocê pegava ele de noitre pra cunzinhar... ocê cunzinhava a noite inteira...‖ (4;71). curiango (A) Nm [Ssing] Afr. Pequena ave negra de hábitos noturnos. ―Aqui cabou o peixe... aqui cabou o curiango... cabou a voz-da-lua... cabou a Joana-de-barro...‖ (27;153). 572 curica (n/d) Nf [Ssing] s.XVI Ind. Espécie de peixe de água doce semelhante ao curimatá. Entr.: ―Esse Rio Pardo aí... que peixe tem até hoje ou tinha antigamente?‖ Inf.:‖ ... piaba piau traíra curica curimatá... tilapa não.‖ (6;381). curisco (A) Nm [Ssing] s.XIII Port. Faísca elétrica. O mesmo que raio. Por ext. muito rápido, ligeiro. ―Essa espingarda eu já matei duas capivara com um tiro só... e elas era um curisco...‖ (15;285). curtume (A) Nm [Ssing] s.XIX Lugar onde se curte o couro. ―É... mexe até hoje... tem um velho lá que tem um curtume...‖ (11;118). cuscuz (A) Nm [Ssing] s.XV > Ár. Bras. Espécie de bolo feito de farinha de milho e cozido ao vapor. ―... um dia fazia um cuscuz outro dia fazia um angu fazia uma pomonha...‖ (19;435). D daí (A) [ADV] s.XIV Port. Expressão usada no início de uma oração para concluir um assunto tratado. O mesmo que então. ―... daí chegou nessa condição de hoje que tá bem desenvolvido né?‖ (1;23). da moda (n/d) Loc. substantiva [{Prep. + Art.} + Ssing.] > Lat. > Port. Da maneira, o modo. ―Tá vendo da moda que era antigamente?‖ (16;154). danado (n/A) [ADJ.] s.XIV > Lat. > Port. 1. Grande, vultoso, demasiado. ―... matava boi matava vaca... um festão danado né?‖ (1;255)./ 2. Maldito, condenado. ―... quando é lá um belo tempo o danado vai e morre né?‖ (1;432)./ 3. Esperto, hábil, jeitoso. ―... eu toda a vida... eu era a mais danada né?‖ (40;332). danar (A) [V] s.XIII > Lat. > Port. Iniciar uma ação; começar; dar início. ―... aquelas conversa antiga né?... nós danava a rir...‖ (45;88). danura (A) Nf [Ssing.] Port. Ato de fazer mal a alguém ou a alguma coisa; malvadeza; diabrura. ―... esse povo ês fazia muita danura... destruía muita coisa...‖ (19;198). dar no couro (A) Loc. verbal [V + {Prep. + Art. + Ssing}] Bras. Satisfazer, servir bem a determinado fim, sobretudo sexualmente. ―_ Ô homem deixa de beber pr‘ocê aturar mais... já num tá dando no couro mais...‖ (50;332). dar o fora (A) Loc. verbal [V + Art. + ADV] Port. Fugir repentinamente; escapulir. ―... o cara bateu ni mim e eu caí... o cara deu o fora...‖ (7;315). dar por fé (A) Loc. Verbal [V + {Prep. + Art. + Ssing}] Port. Perceber alguma coisa; notar. ―... quando a pessoa dava por fé que ês tava caçando ês botava o jagunço atrás...‖ (21;26). 573 de bituca (n/d) Loc. adverbial [Prep. + ADV.] Ficar à espera de alguém, às escondidas; à espreita. ―... quando o soldado chegou lá onde tá ele ele tava de cá meio de bituca já o lhando lá...‖ (15;150). de certo (A) Loc. adverbial [Prep. + ADV.] Port. Com certeza; por certo.―Sim senhor... de certo eu tenho sangue de índio.‖ (8;60). de comer (A) Loc. substantiva [Prep. + Ssing.] Port. Bras. Provisão de comida; o mesmo que comida. ―... ele chegava numa casa e pedia de comer...‖ (4;294). decumentar (n/d) [V] > Fr. Registrar algum tratado em contrato. Variante de documentar (documentar > decumentar – caso de assimilação). ―Quer tomar o dinheiro... e deixa ês cativo aí... decumenta o nome deles.‖ (48;505). decumento (n/A) Nm [Ssing] > Fr. Registro de algum acordo. Variante de documento (documento > decumento – caso de assimilação). ―... eu fui pelo SUS... me pediu os decumento... eu mandei os decumento pra lá...‖ (48;170). deferença (n/A) Nf [Ssing] s.XIV arc. > Lat. > Port. Que está em desacordo a uma condição dada; dessemelhante. Variante de diferença ( diferença > deferença – caso de assimilação)―... a deferença que tinha... naquele tempo é porque num tinha fazendeiro que tinha repartição aqui pra dentro...‖ (2;280). deferençar (n/d) [V] s.XVI > Lat. > Port. Modificar, mudar. Variante de diferenciar (diferenciar > deferençar – caso de assimilação e síncope). ―... daí a pouco foi deferençando o tempo... foi deferençando deferençando deferençando.‖ (45;323). deferente (A) [ADJ] > Lat. > Port. Que contrasta com algo mencionado; desigual. Variante de diferente (diferente > deferente – caso de assimilação)―... a assim era as brincadeiras dos menino... hoje tá tudo deferente.‖ (8;48). de grande (n/d) Loc. adverbial [Prep. + ADV] Port. Que adquiriu idade adulta ou mais avançada; mais velho. ―... eu fui criado aí... depois de / agora de grande que eu peguei entrar no Mobral...‖ (12;37). de jeito (n/d) Loc. adverbial [Prep. + ADV] Port. De modo que; da maneira que. ―... de jeito que hoje eu num tenho leitura nenhuma...‖ (38;39). de junto (n/A) Loc. adverbial [Prep. + ADV] Port. Que está ao lado, junto, próximo. ―... só podia vim de junto dos pais... se os pais tivesse de junto olhando né?‖ (1;238). de lascar o cano (n/d) F [Prep. + V + Art. + Ssing.] Port. Expressão que indica algo muito bom; estupendo. ―... agora aquela festa era de lascar o cano... matava boi matava vaca...‖ (1;254). 574 demudar (A) [V] s.XIV > Lat. > Port. Modificar algo, transformar, mudar. ―É mas o povo hoje... nessa época de hoje tá demudando as coisa...‖ (23;261). demundança (n/d) Nf [Ssing] Port. Mudança, transformação. ―... mas sabia esperando a hora da demundança... com poucas horas eu vi / pegou a amarelar... foi amarelando assim...‖ (8;277). de nada (n/d) Loc. adverbial [Prep + Ssing.] Port. Forma de alguém dizer a outro que algo feito por ele foi um prazer; o mesmo que não há de quê. Entr.: ―Eu agradeço muito o senhor.‖ Inf.: ―De nada!‖ (4;466). de pouco (n/d) Loc. adverbial [Prep. + ADV] Port. Pequeno intervalo de tempo; há pouco tempo, agorinha. ―... aí meu tio morreu... morreu agora de pouco...‖ (6;340). de primeiro (n/A) Loc. adverbial [Prep. + Ssing] Port. Tempo bem anterior ao momento atual; antigamente; outrora. ―Tinha assombração de primeiro aqui não.‖ (49;213). dereito (A) Nm[Sing.] s.XIII arc. > Lat. > Port. Prerrogativa legal que todo cidadão possui ao praticar ou não praticar um ato; honra, integridade moral. Variante dedireito. ―... meus dereito eu não dou não vendo e nem peço...‖ (48;114). derradeiro (A) [ADJ.] s.XIV > Lat. > Port. Relativo ao último; ao mais novo. ―Quando era a filha derradeira enfeitava a panela...‖ (4;408). desapear (A) [V] Port. Descer de, sobretudo de montaria; apear. ―... porque tinha lugar que precisava desapear do cavalo porque ocê num podia passar.‖ (23;396). desbandar (n/A) [V] s.XIX Lus. Fugir desordenadamente; debandar. ―... outra hora cai de cima d‘um cavalo... que lá em casa ês desbanda... monta num cavalo e sai correndo a rês aqui ó.‖ (16;716). descabelar (A) [V] Port. Escalavrar, esfolar; açoitar. ―... com quarquer coisinha que eu fazia ele descabelava minhas costa tudo de taca...‖ (32;46). descadeirado (A) [ADJ.] s.XIX Port. Bras. Que tem ou está com dor nas costas, na parte inferior da coluna. ―... por isso que eu tou sofrendo agora... em riba da cama descadeirada.‖ (41;04). descambo (n/d) Nm[Ssing] Port. 1. Atrocidade; maldade. ―... ninguém viu falar mais ni revoltoso... mas... mas ês fazia um... um descambo no mundo... era matando gado dos outros...‖ (2;534). / 2. Despenhadeiro, precipício. ―... levava aquela pedra fazendo força... quando chegava no descambo ês soltava aquela pedra lá de cima... só pra ver a carreira da pedra correr nessas montanha...‖ (21;125). descambar (A) [V] Port. Descer ou escorrer rapidamente. ―... e aquele calorão batendo e suor descambando...‖ (1;387). 575 descauso (n/d) Nm[Ssing.] Port. Falta de cuidado com alguém ou alguma coisa; desatenção. Variante de descaso. ―... nem um posto de saúde num tinha direito... era um descauso.‖ (26;283). de sempre (n/d) Loc. adverbial [Prep. + ADV.] Port. Periodicamente; com frequência. ―... quando eu aposentei foi em Rio Pardo... aí de sempre eu ia lá...‖ (29;69). desgramada (n/d) Nf [Ssing.] Port. Danada; demasiada. ―É uma bagunça desgramada.‖ (15;508). desgramado (n/d) [interjeição] Expressa insatisfação por ter esquecido algo. ―... ela é hoje a esposa de (nome)... de... desgramado... como é que chama...‖ (18;11). desmantelar (A) [V] s.XVII > Fr. Ação de descontruir algo; desmanchar, destruir. ―... que ês era um povo assim muito desaforado... onde ês chegava ês desmantelava tudo...‖ (11;212). desmantelo (A) Nm[Ssing.] > Fr. Ação de desmanchar, destruir. ―... jogou na rua... prendeu ele... judiou com ele né?... e foi um desmantelo danado né?‖ (11;225). despensa (A) Nf [Ssing.] s.XIV > Lat. > Port. Compartimento ou cômodo da casa onde se guardam alimentos. ―... fui lá no quarto / na despensa e num via nada...‖ (7;134). despois ~ dispois ~ dipois (A) [ADV.] s.XIV arc. > Lat. > Port. Que vem logo a seguir. Variante de depois (depois > despois – caso de epêntese). ―... agora despois de eu velho... de eu grande... aí eu caçava.‖ (2;211). / ―... aí dispois que ela casou eu fui pra lá.‖ (2;63). / ―... daí dipois o... o... ele vendeu a fazenda.‖ (1;51). destiorada (n/d) [ADJ.] > Fr. Que está danificada, destruída. Variante de deteriorada. ―Agora não... as mata já tá tudo destiorada... tá tudo desmatada...‖ (33;109). desvagado (n/d) [ADJ] Port. Sem índole; desavergonhado, sem pudor.―É esse povo desvagado que tá no mundo... essa safadeza.‖ (4;180). devera (A) [ADV.] s.XVI Port. Realmente, com certeza. Variante de deveras (deveras > devera – caso de apócope). ―... pois foi ele... foi ele devera...‖ (50;280). diacho (A) [Interjeição] Port. Expressão de indignação; o mesmo que diabo. ―... montou numa bestona bonita diacho!‖ (42;493). dizer missa (n/A) s.XV Loc. verbal [V + Ssing.] arc. Port. Realizar as preces e rituais próprios do cerimonial da igreja; rezar. ―... essa filha dela já sofreu... panhava ela... botava em riba de casa... botava em riba de pau... e chamava o pai pra dizer missa ou oração.‖ (46;241). dormidor (n/d) Nm [Ssing.] s.XIII Port. Local onde as aves do galinheiro repousam logo ao entardecer; poleiro. ―... galo bateu o sovaco e subiu pra cima do dormidor e ficou ali...‖ (5;356). 576 drumir (n/d) [V] > Lat. > Port. Descansar no sono; deixar de estar acordado. Variante de dormir (dormir > drumir – caso de metátese) ―... caminhava a noite toda... e drumia ni casa sozinho lá pra roça...‖ (2;403). E em ante (n/A) Loc. adverbial [Prep. + ADV] Port. Que antecede algo no tempo; antes, anteriormente. ―... mas em ante dessa barragem aí esse rio dava enchente de fazer medo viu?‖ (42;241). embornal (A) Nm[Ssing.] s.XIX Port. Bras. Bolsa, geralmente de pano ou lona, usada dependurada ao ombro para transportar alimentos, ferramentas etc. Variante de bornal. ―... naquele tempo era badoque... badoque desse tamanho assim e o embornal de pedra assim...‖ (13;97). embuçado (A) [ADJ.] s.XVI Port. Diz-se daquilo que está encoberto, enrolado; coberto. ―... num couro daquele dormia quatro cinco menino... tudo embolado... embuçado com uma coberta só...‖ (43;472). embunecar (A) [V] Port. Bras. Diz-se do processo, em especial no milho, quando está formando as espigas. ―... o milhozinho tá desse tamanho ó... já tá empenduando e embunecando...‖ (46;129). empapuar (n/d) [V] Port. Remexer em uma vasilha, sobre a chama de um fogão, uma substância líquida até criar consistência; empapar. ―... ficava lá no panelão e mexendo mexendo mexendo até ficar empapuando...‖ (4;433). em roda (n/A) Loc. advérbial [Prep. + ADV] Port. Que está ao redor, em volta. ―... aí fez o mercadinho... assim só de pedaço de pau... fez a ferinha... num tinha nada em roda nem nada...‖ (16;19). encacimbar (n/d) [V] Port. Formar poços de água ao lado do rio; formar cacimbas. Entr.: ―E tem um outro rio pra lá também num tem?‖ Inf.: ―Ah o Rio Pardo... esse vem... pega lá com o mar e vem pr‘aqui tudo e encacimba.‖ (50;89). encaramuçada (n/d) Nf [Ssing.] Port. Diz-se de quem está fraca, combalida. ―... agora ainda eu tive uma tontura aí que eu fiquei ruim... andei ruim encaramuçada.‖ (35;22). encarcar (n/d) [V] Port. 1. Encalacrar-se; se dar mal (encalacrar > encacrar > encarcar – casos de síncope e hipértese). ―O médico me viu com esse pé inchado lá: _ o senhor tá com o pé inchado.‖ Eu falei: ―_ Não senhor doutor!‖... ele: ―_Tá!‖... puxou... num confiou em mim... puxou a calça até cá em cima... encarcou.‖ (42;375). / 2. Emborcar; virar ao avesso. ―...botava a panela no fogo lá e botava aquela massa e tratava ela ali... mais logo ele virava ele... 577 encarcava... assava aquele beiju e botava lá... muita gente até chumbava porque a mandioca era forte.‖ (12;278). enfezar (n/A) [V] Encher-se de cólera; irritar-se. ―... quando ês enfezava com nós pegava as almofada e saía chutando elas... os birro enrolava tudo.‖ (14;169). enfornado (n/A) [ADJ.] Port. Escondido; isolado do convívio com outras pessoas. ―Ah agora que ocê veio saber?... lá que ocê enfornou... lá ocê fica enfornado!‖ (50;521). enfornar (n/A) [V] Port. Esconder-se; isolar-se do convívio com outras pessoas. ―Ah agora que ocê veio saber?... lá que ocê enfornou... lá ocê fica enfornado!‖ (50;521). enfuazado (n/d)[ADJ] Que é bravo, arredio, indomável. ―... meu pai veio aqui e tinha um cavalo muito enfuazado.‖ (42;646). enfusado (n/d) [ADJ] Diz-se de pessoa mal amada, encalhada; de gênio ruim. ―... uma enfusada morou aqui de junto da gente ó...‖ (44;407). enfusar (A) [V] Se dar mal em alguma atitude ou decisão tomada. ―E pobre de (nome) casou com uma tal (nome) e enfuzou né?‖ (44;407). engeado (n/d) [ADJ] s.XVI Port. Que está enrugado; murcho. Variante de engelhado (engelhado > engeado – caso de despalatalização). ―... quando deu por fé tava aquela fogueira medonha... mas num teve mais jeito de sair... morreu engeado lá né?‖ (42;434). engraçar (A) [V] s.XIV Port. Bras. Simpatizar-se com alguém, agradar-se com alguém. ―... aquele rapaz via aquela moça e engraçava naquela moça.‖ (2;356). engramar (n/d) [V] Port. Desenvolver-se plenamente até chegar à forma de grama. ―... o capim / o primeiro ano ele sai aquela força... o gado comeu... cabou... volta pra terra... só fica na cova do capim... o capim não engrama.‖ (43;291). enguentada (n/d) Nf [Ssing] Mistura de várias plantas medicinais para obtenção de chá; raizada. ―... remédio de horta era... era... mentraço... fazia assim aquela enguentada e cozinhava pra gente beber...‖ (46;98). enrabar (A) [V] Port. Bras. Perseguir bem de perto; correr atrás. ―... mas faz do jeitinho do boi... bota o chifre... bota tudo... ele enraba a gente / chifrando os menino...‖ (50;345). entender por gente (A) Loc. verbal [V + Prep. + Ssing.] Port. Passar a ter consciência das coisas. Fazer uso da razão. ―Desde quando eu entendi por gente eu já conheci por nome Mosquito...‖ (50;83). entonce (A) [ADV] s.XIII arc. > Lat. > Port. Então, nesse caso. ―Entonce era assim... o pai de família ficava procurando aí...‖ (39;172). Cf. antão e antonce. escanchar (A) [V] s.XVI Ato de separar as pernas ao montar. ―... ela tava menina pequena que a irmã dela pegou ela e escanchou ela na cacunda e saiu correndo pro mato...‖ (15;175). 578 esmagrecer (A) [V] s.XIII > Lat. > Port. Diminuir a quantidade de gordura no corpo, seja resultante de doença, exercícios físicos ou dietas. Variante de emagrecer (emagrecer > esmagrecer – caso deepêntese). ―As menina esmagrecia demais... sentida de num ver o rapaz... esmagrecia esmagrecia demais...‖ (21;156). esparramo (A) Nm [Ssing] Bras. Dispersão; debandada; fuga. ―... quando chegou o revoltoso... todo mundo correndo... eu só vi mulher panhando feijão frevendo... tudo numa casa só... foi um esparramo...‖ (8;319). especar (A) [V] s.XVI > Fr. Suster ou apoiar algo em um esteio; dependurar. ―... que o couro de boi... de primeiro era tirado e... e especado na vara pra secar...‖ (43;468). espiar (A) [V] s.XVI > Al. Bras. Observar algo ou alguém sem interesse maior; dar uma olhadela. ―Já... já fui uma vez... é mas não pra olhar... fui só pra espiar...‖ (4;454). esprital (n/d) Nm [Ssing.] s.XIV arc. > Lat. > Port. Local onde se tratam doentes. Alteração de hospital. ―... e num tinha negócio de correr pro esprital não.‖ (21;262). espritar (n/d) [V] Port. Tornar-se espírito. Por ext. desaparecer, sumir. ―... as alma?... eu já vi... eu já vi... aí eu pedi ês pra botar ês no lugar... pra ês num vim aonde tá eu... nem eu e nem um teve coragem de... mas espritou...‖ (35;129). esprito (n/A) Nm[Ssing.] s.XIII > Lat. > Port. Entidade sobrenatural ou imaginária, como anjos, demônios, assombrações etc. Variante de espírito (espírito > esprito – caso de síncope).―Diz que tinha um que morreu que virava bicho... é o esprito malino...‖ (10;195). espuletado (n/d) [ADJ] > It. Atributo ou característica de quem é endiabrado; espertalhão. ―... ―_ Espera aí que ocê me paga nego!‖... nego era meio espuletado também...‖ (42;429). estambo (n/A) Nm [Ssing.] > Lat. > Port. Órgão situado na parte superior do abdome, entre o esôfago e o duodeno, responsável por parte da digestão dos alimentos. Variante de estômago. ―... eu dormia com uma espingarda de dois cano no estambo...‖ (5;168). estoporo (n/d) Nm [Ssing.] Acúmulo de sangue provocado por lesão ou obstrução em veias ou artérias do ser humano ou animais; acidente vascular cerebral. O mesmo que derrame. ―Hoje nem usa mais... pra estoporo... antigamente ês falava estoporo mas hoje num é... é derrame... é o mesmo derrame de hoje é o estoporo antigamente.‖ (15;207). estripuleiro (n/d) Nm [Ssing.] Port. Diz-se daquele que faz muita estripulia, travessuras. ―... e tinha um velho que era muito estripuleiro... vivia cansado...‖ (10;180). estuçar (n/A) [V] Instigar o desejo de algo; aguçar; atiçar. ―... quem morre num volta cá mais não... que isso aí é obra do diabo que ele estuça pra vim... vem atentar...‖ (12;459). 579 fava (n/A) Nf [Ssing.] s.XIII > Lat. > Port. Planta hortense, de sementes e vagens comestíveis, semelhante ao feijão. ―... ele saía catando os carocinho de fava naquelas coivara pra cozinhar.‖ (18;404). favaca (n/d) Nf [Ssing.] s.XVIII > Ár. Planta hortense, aromática, de uso medicinal. Alteração de alfavaca (alfavaca > favaca – caso de aférese)―Tem favaca... desses aí ocê num conhece... aqui tem favaca... artelã ocê num conhece também não...‖ (7;184). fazer a banca (n/d) Loc. verbal {V + Art. + Ssing] Port. Propiciar lucro a si ou a outros mediante alguma atividade. ―... eu dei muito lucro aos fazendeiro tudo... dei lucro / todo canto eu fazia a banca pra eles...‖ (48;243). feijão-catador (n/d) NCm [Ssing. + ADJ] Port. Tipo de feijão, geralmente de cor branca ou amarelada, com o hilo (o olho do feijão) de cor castanha ou negra; também conhecido como feijão de corda ou feijão-fradinho. ―... aí num dá feijão não... só dá feijão-catador... é fava...‖ (46;134). festa de Reis (n/d) NCf [Ssing. + Prep. + Spl.] Port. Agrupamento de homens que saem pelas ruas no mês de janeiro, vestidos de branco, cantando, dançando e orando em homenagem ao dia de Reis. ―Festa de Reis... é... e eles canta o Reis seis dias...‖ (47;76).Cf. folia de Reis. fifó (A) Nm [Ssing.] Bras. Espécie de um lampião a querosene, com dimensões menores. ―Era difícil... depois de passar disso inventaram um tal de fifó... chama candeeiro.‖ (6;145). fiinho de imbigo (n/d) NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Port. Filho do próprio ventre, não adotivo. Entr.: ―Não tinha médico?‖ Inf.: ―Não... mas a gente era pegada com Deus e Nossa Senhora... Deus me ajudou que eu tenho um lote de fiinho de imbigo...‖ (35;185). finado (A) Nm[Ssing.] s.XIV Port. Diz-se de pessoa que faleceu; morto. ―... aqui num tinha escola... a escola era... era o finado meu avô...‖ (5;85). findilizar (n/d) [V] Port. Finalizar, terminar. ―... tem gente que num acredita que o século findiliza...‖ (42;319). fixa (A) Nf [Ssing.] s.XIX > Lat. > Port. Bras. Buraco ou fresta junto à travessa das portas de madeira antigas. ―Ela olhava pela fixa da porta... e ocê de cá...‖ (50;150). Focinho-de-boi (n/d) NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Port. Espécie de planta silvestre, rasteira e ramificada, de flores arroxeadas, dispostas em cachos e vagens pequenas, muito utilizada para tratamento de infecções diversas. Também conhecida como amor-do-campo, barba de boi, beiço de boi e outras denominações. ―... e os menino novinho quando ia nascer dente era carpiar... um tal de focinho-de-boi... um carrapicho que faz um picão.‖ (14;100). fofar a madeira (n/d) Loc. verbal [V + Art. + Ssing.] Port. Bater em alguém com palmatória. ―uma tal palmatória... ―_ Bota a mão aí!‖... nós botava a mão e macetava... onde tava aquela 580 maloca de bruto... / que ele era um velho que era tio meu... chamava tio (nome)... e nós pegava... fofava a madeira... era pior quando chegava lá em casa e o pai nosso dava ni nós...‖ (6;175). folia de Reis (n/d) NCf [Ssing. + Prep. + Spl.] Port. Agrupamento de homens que saem pelas ruas no mês de janeiro, vestidos de branco, cantando, dançando e orando em homenagem ao dia de Reis. ―... saía aquela bandeira... saía a folia de Reis com aquela bandeira...‖ (43;392). Cf. festa de Reis. forra (n/d) Nf [Ssing.] > Ár. Liberdade; alforria. ―... aí ela deu a forra pros negro... foi que os negro num ficou sendo escravo mais.‖ (50;188). forró (n/A) Nm[Ssing.] s.XX Port. Baile de caráter mais popular. ―... aí mesmo que eu num perdia um forró.‖ (42;125). forrar (A) [V] s.XIII Port. Conceder a liberdade a alguém; libertar; dar alforria. ―... ela ficou branca... ela deu / forrou os negro.‖ (50;191). fraco (A) [ADJ] s.XIII > Lat. > Port. Que ou aquele que apresenta poucos recursos; pessoa de pouca posse. ―... o fraco aqui... o fraco aqui tá sem caminho... num tem caminho de negociar e nem trabalho...‖ (48; 481). freguesia (A) Nf [Ssing.] s.XIII Port. A área que compreende uma paróquia; o conjunto dos paroquianos. ―... ele foi dono da paróquia aqui por muitos anos... a freguesia dele aqui comandou por mais / por sessenta ano calculado né?...‖ (22; 15). frever (n/d) [V] s.XIII > Lat. > Port. Entrar em ebulição. Variante de ferver (ferver > frever – caso de metátese)―...panhava numa panela de ferro assim ó e a hora que aquilo frevia aquele azeite subia aquele óleo...‖ (33; 318). fruita (A) Nf [Ssing.] s.XIV arc. > Lat. > Port. Fruto. Variante antiga de fruta. ―...e o travesseiro era de marcela... d‘uma... d‘uma fruitamacia...‖ (21; 448). fugar (A) [V] > Lat. > Port. Sair apressadamente; pôr-se em fuga. ―...―_ Olha... nós num tem negócio de boiada não... suas estrada é aquela... ocê vai e sai daqui agora senão ocê morre!‖... aí eles fugou e num comprou boi e num comprou nada...‖ (5; 108). fulo (n/d) [ADJ] s.XVIII > Lat. > Port. Pouco, diminuto, reduzido. ―... só aí que ês fazia cacimba pra arrancar uma aguinha muito fulo...‖ (27; 446). fundar (A) [V] s.XIII > Lat. > Port. Penetrar em; profundar. ―...ele panhava a chave e fundava no quarto dele e o velho de lá com o olho...‖ (8; 108). 581 G galardão (A) Nm [Ssing.] s.XIII > Al. Recompensa; honra, glória. ―...vai ganhar galardão de Deus... vai ganhar galardão com Deus...‖ (48; 380). galinha-de-bendegó (n/d) Nf [Ssing.] Espécie de galinha que não apresenta penas no pescoço; o mesmo que galinha-do-pescoço-pelado. ―... eu levava umas galinha pra casa de madrinha (nome) pra comer com feijão... levei a galinha pra lá... a galinha-de-bendegó... levei pra lá uma galinha-de-bendegó.‖ Entr.: ―Bendegó?‖ Inf.: ―Galinha-de-bendegó é que tem o pescoço pelado.‖ Entr.: ―Ah sei... então chama bendegó.‖ Inf.: ―Galinha-de-bendegó...‖ (13; 391-396). gamela (A) Nf [Ssing.] s.XIII > Lat. > Port. Utensílio, geralmente de madeira ou barro, em forma de tigela, usado para lavar alimentos ou mesmo para servi-los. ―... as véia sentava e botava aquela candeia em cima do... em cima duma gamela né?... ficava aquelas candeinha em cima das gamela...‖ (21; 437-438). gangorro (n/d) Nm [Ssing.] Pequeno sino, preso ao pescoço do animal que serve como guia de uma tropa; sineta. ―Era... aqui tinha o tropeiro que havia três tipo... a burrada na estrada... batendo o chincherro... aquilo dalã dalã dalã.‖ Entr.: ―Batendo o que?‖ Inf.: ―Ba / era um gangorro um chincherro.‖ (27; 383-387). Cf. chincheiro. garapa (A) Nf [Ssing.] s.XVI > Esp. Bras. O sumo da cana usado como bebida e para produção de seus derivados. ―... agora ia destilando... aquela garapa ia saindo a pinga destilada... o suor da garapa subia pra riba...‖ (21; 414). garrancho (A) Nm [Ssing.] s.XVII > Esp. Ramos de árvores entrelaçados e arbustos tortuosos. ―... tinha muitos lugar que nós tinha que puxar o cavalo porque num podia passar debaixo dos pau... dos garrancho...‖ (12; 16). gavar (A) [V] > Fr. Louvar; elogiar; falar bem de alguém. ―... que o comércio era atrasado proque os prefeito num tinha disposição de sair né?... antão aquele prefeito o povo gavava muito dele...‖ (21; 69). gengiroba (n/d) Nf [Ssing.] Planta medicinal, geralmente amarronzada ou roxa, cujo fruto em forma de castanha é tomado em forma de chá. ―Nós tomava era noz-moscada gengiroba folha de laranja...‖ (41; 225). gentio (A) Nm [Ssing.] s.XVI Port. Indivíduo qualquer; pessoa. ―... por aqui tinha um viajante... esse gentio eu conheci ele...‖ (11; 28). 582 gerais (A) Nm [Spl.] Bras. Denominação dada às regiões de campos extensos, geralmente desabitados. ―O gado ês já soltava no campo... chamava gerais né?‖ Entr.: ―Gerais.‖ Inf.: ―Gerais...‖ (21; 211-213). grão-de-burro (n/d) NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Port. Espécie de arbusto, muito comum em regiões de cerrado, que produz um fruto amarelado quando maduro, semelhante a uma ameixa. ―...porque os passarinho fazia muito ninho no pau... o pau é um grão-de-burro... dava aquela fruta amarela...‖ (5; 51). grão-de-galo (A) NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Port. Bras. Designação de um arbusto com folhas de pontas duras, flores em panículas e fruto comestível, também conhecido como juá- miúdo. ―... pra refresco avelano... quer ver... o grão-de-galo né?...‖ (27; 282). Cf. juá- meirinho. guieiro (A) Nm [Ssing.] Bras. Indivíduo que guia o gado nas viagens. ―... agora quando era gadinho mais pouco ia um guieiro... (28; 166). guisado (A) Nm [Ssing.] s.XIII Port. Diz-se, geralmente, dos alimentos refogados em óleo, manteiga ou mesmo água. ―Ah... a gente brincava de fazer uns guisadinho... arrumava umas panelinha pequena e fazia um guisado e diz que tava fazendo comida.‖ (20; 04). gurita (A) Nf [Ssing.] s.XVI > It. Nome dado aos postos de fiscalização da Receita Estadual ou Federal nas estradas. Entr.: ―Diz que pra trazer as coisa pagava imposto?‖ Inf.: ―Pagava...― Entr.: ―Diz que tinha gente que escondia.‖ Inf.: ―Escondia... escondia muito.‖ Entr.: ―É?‖ Inf.: ―É mais... a gente pra andar no claro... que tinha muitas... as gurita pra gente passar pro (nome)... Nova Conquista também...‖ (18; 50). H harmônica (A) Nf [Ssing.] s.XIX > Ing. Instrumento musical com um fole pregueado que se comprime ou distende, movimentando o ar, que ao sair faz vibrar pequenas palhetas metálicas. O mesmo que sanfona, acordeão. ―... ele contava e falava... toca violão toca harmônica lá dentro da lagoa...‖ (32; 260). I ilumiar (n/A) [V] s.XVI > Lat. > Port. Clarear por meio de algum instrumento. Variante de iluminar (iluminar > ilumiar – caso de síncope)―... botava o querosene e a puxada lá... e ilumiava... as esquina só né?... só nas esquina... mas ilumiava longe...‖ (24; 269-270). imbigo (n/A) Nm[Ssing.] s.XIII arc. > Lat. > Port. Cicatriz produzida pelo corte do cordão umbilical. Variante antiga de umbigo (Umbigo > imbigo – caso de assimilação). ―... quando 583 dava tempo de buscar a parteira bem... quando num dava era ele mesmo... cortava o imbigo da criança.‖ (16; 472). ingrujir (n/d) [V] Tornar-se murcho; engelhar; enrugar. ―... a pele da gente ficava tudo ingrujido como feijão dentro da água...ingrujia tudo...‖ (30; 119). ingrujido (n/d) [ADJ] Engelhado; enrugado, murcho. ―... a pele da gente ficava tudo ingrujido como feijão dentro da água...ingrujia tudo...‖ (30; 119). Cf. engeado. insigência (n/d) Nf [Ssing.] Port. Determinação dada por alguém; Ordem superior. Variante de exigência. ―...foi cabando a influência... e veio essas insigência da Florestal...‖ (5; 214). inté (A) [Preposição] Port. Limite em um espaço de tempo. Variante de até (até > inté – caso de alçamento com nasalização). ―... punha a lata em cima da cabeça... tou com galo inté hoje ainda.‖ (20; 261). Cf. anté. intendência (A) Nf [Ssing] s.XIX > Fr. Repartição pública que trata de assuntos na esfera municipal, atualmente denominado prefeitura. ―... nessa época o mercado chamava intendência.‖ Entr.: Intendência?‖ Inf.: ―É intendência... então fizeram uma intendência ali de folha de coco.‖ (9; 13-15). intertenente (n/d) [ADJ.] Rígido na criação dos filhos; austero. ―... que meu pai num deixava os filho dele brincar... tanto ele era muito intertenente... e minha mãe ainda era mais intertenente... eu apanhava igual cachorro...‖ (32; 45). intiriçado (n/d) [ADJ] Port. Diz-se da pessoa que está com o corpo rígido, com locomoção limitada, por problema de saúde ou acidente; teso, hirto. Variante de inteiriçado (inteiriçado > intiriçado – caso de monotongação). ―... chegou lá eu tava intiriçado em riba da cama sem poder andar...‖ (45; 364). intradição (A) Nf [Ssing.] Port. Transmissão de lendas e costumes através das gerações. Variante de tradição (tradição > intradição – caso de prótese). ―... aconteceu que num aprenderam... num aprenderam essas intradição e nem seguiu as intradição velha...‖ (43; 402). intrás (n/d) [ADV.] Port. Que está na retaguarda, após. Variante de atrás (atrás > intrás – caso de alçamento com nasalização).―Intrás dessa rua tem um córrego.‖ (51; 81). invernada (A) Nf [Ssing.] s.XIX > Esp. Bras. Pastagem cercada para dar descanso a equinos e bovinos após longa jornada de trabalho. ―... dá estória de contar... boi valente... boi de invernada difícil né?‖ (43; 561). isturdia (n/A) [ADV] Port. Relativo a alguma data passada, não muito longe; outro dia. ―... isturdiaeu tava em Belo Horizonte... eu tava contando lá o povo...‖ (32; 322). J 584 jabu (n/d) Nm[Ssing.] Ave de porte médio, com plumagem do corpo geralmente branca, pescoço preto com o papo bem vermelho, bico comprido e preto, pernas compridas e delgadas, podendo atingir mais de um metro. Conhecida também pelo nome de tuiuiú. (jaburu > jabu – caso de apócope)―... pegou o negão preto né?... sadio... pegou os mamico do nego... marrou aqui e puxou pra cá bicho...puxou os ovos do corno pra cá e marrou aquilo que aquilo chega que tá igual um jabu...‖ (6; 231). jacu (A) Nm [Ssing.] s.XVI Ind. Ave de caça que se assemelha a uma galinha, mas ao contrário destas, vivem nas árvores. Possuem a cauda e o corpo alongados e o bico curto, se alimentando de folhas e frutos. ―... tinha jacu... tinha izabelê... tinha juriti... tinha a lambu...‖ (43; 701). jacuba (A) Nf [Ssing.] Bras. Pequenos pedaços de mandioca cozida. ―... botava o arroz botava o moio de mandioca... as jacuba ficava por cima.‖ Entr.: ―Jacuba?‖ Inf.: ―Jacuba... é o cortar a mandioca colhida...‖ (21; 232-234). jagunço (A) Nm[Ssing.] s.XIX > Esp. Bras. Denominação dada no interior do Brasil ao indivíduo contratado como assassino de aluguel; cangaceiro. ―... quando a pessoa dava por fé que ês tava caçando ês botava o jagunço atrás...‖ (21; 26). Cf. capanga. jardim-de-deus (n/d) Nm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Port. Denominação dada a uma espécie de planta rasteira, silvestre, que apresenta pequenas flores que podem variar entre o vermelho, o laranja ou o amarelo. ―... era rama do mato... chama jardim-de-deus... eu plantei muito jardim- de-deus.‖ (8; 365). jegue (A) Nm [Ssing.] s.XX > Ing. Espécie da família dos cavalos, equus asinus, muito utilizado como animal de carga. O mesmo que jumento ouasno. ―... quando foi assim num espaço de uma hora mais ou menos galo cantou jegue urrou...‖ (6; 349). jequi (A) Nm [Ssing.] s.XIX Ind. Cesto arredondado e afunilado, de varas finas e flexíveis, usado para apanhar peixe. ―... fazia aquele negócio de madeira... de vara... o jequi... colocava... aí...‖ Entr.: ―Ah fazia um jequi?‖ Inf.: ―É jequi... colocava naquele bracinho onde a água represava... o peixe ia e enchia né?‖ (23; 102-104). jirau (A) Nm [Ssing.] s.XVI Ind. Armação de madeiras dispostas sobre forquilhas que pode ser utilizada como cama ou como depósito para utensílios domésticos. ―E bota as furquilha assim... as quatro furquilha assim e bota a travinha... e bota as varinha assim ó... um jirauzinho... assim em riba.‖ (12; 336). juá-meirinho (n/d) NCm [Ssing. + ADJ] Ind. Uma das variedades do juá, árvore comum na caatinga nordestina, cujo fruto amarelado lembra uma pitomba e serve de alimentação ao gado e aos humanos. Também conhecida como juá-mirim. Entr.: ―Um juá de que que a 585 senhora falou?‖ Inf.: ―Um juá-meirinho... um juazinho-meirinho.‖ Entr.: ―Meirinho?‖ Inf.: ―Sim... meirinho... um juá-meirinho.‖ (4; 341-344). Cf. grão-de-galo. junça (n/A) Nf [Ssing.] s.XIII > Lat. > Port. Espécie de junco muito utilizado como remédio. ―... outro chá que a gente tomava... junça.‖ (19; 84). L labutar (A) [V] s.XVI Port. Trabalhar duro em uma atividade repetitiva. ―... e já o rio já era pro povo banhar e panhar água pra labutar...‖ (14; 130). lambu (A) Nm [Ssing.] Ind. Ave de caça, sem cauda, de pernas curtas e fortes, também conhecida como inhambu, nambu ou inambu. ―... mas tinha... perdiz... até hoje tem... é jacu... lambu... envergadeira...‖ (3; 223). Cf. nambu. lamparina (A) Nf [Ssing.] s.XIX > Esp. Pequeno recipiente de latão com um líquido inflamável (óleo, querosene etc.) no qual se mergulha um pequeno disco de madeira, de cortiça ou de metal traspassado por um pavio que, aceso, fornece luz atenuada; luminária. ―... é a lamparina que a gente tinha era essa... nem o criosene num tinha.‖ (27; 477). lapinha (n/A) Nf [Ssing.] s.XIX > Lat. > Port. Representação do local e das figuras que participaram do nascimento de Cristo. O mesmo que presépio. ―... cantou naquela dali... toda casa canta... onde tem as lapinha.‖ Entr.: ―As lapinha?‖ Inf.: ―... põe as lapinha pra cantar um Reis... o povo vem cantar na lapinha também.‖ (37; 312-315). legalista (n/d) Nm [Ssing.] s.XIX > Fr. Designação dada pelos habitantes da região às tropas do governo federal que estavam no encalço da Coluna Prestes em 1926. ―... era desses legalista que chamava né?...‖ Entr.: ―Legalista?‖ Inf.: ―Legalista... os que andava perseguindo os revoltoso era assim...‖ (42; 511-513). légua (A) Nf [Ssing.] s.XIII > Lat. > Port. Antiga unidade brasileira de medida itinerária, muito usada no meio rural, equivalente a 3000 braças, ou seja, 6600 m. ―... ele fala que é pra comer... os parente comer... daí comer numa redondeza de dez léguas...‖ (44; 478). litro (A) Nm [Ssing.] s.XIX > Fr. Unidade de medida de capacidade, correspondente a um decímetro cúbico. ―... três quatro saco de feijão... era três litro era um saco...‖ Entr.: ―É?‖ Inf.: ―vende no litro.‖ (24; 154-157). lote de burro (n/d) NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Cada conjunto de dez animais cargueiros em que se dividem as tropas de carga. ―... outra coisa difícil que tinha... quem trabalhava com lote de burro... o lote de burro o senhor entende o que é né?‖ (43; 492). lubrinar (n/d) [V] Neblinar; chuviscar. ―... aí tava lubrinando e eu peguei e tinha feito a farinha... aí o forno amanheceu morno...‖ (36; 345). 586 luita (A) Nf [Ssing.] s.XIII arc. > Lat. > Port. Empenho em atingir algum objetivo; esforço. (lucta > luita > luta). ―... mas era desse jeito... aquela luita era pesada...‖ (21; 223). luitar (A) [V] s.XIII arc. > Lat. > Port. Empenhar-se em algo; trabalhar duro. (luctare > luitar > lutar). ―... e eu fui luitando com isso... luitando luitando até Deus me ajudou que eu tou aqui...‖ (45; 352). lumiar (n/A) [V] > Lat. > Port. Tornar claro algum lugar. Variante antiga de alumiar (alumiar > lumiar – caso de aférese). ―... que era só negócio de criosene... e lamparina... lumiando com isso aí...‖ (17; 117). Cf. alumiar. M macetar (A) [V] s.XX Port. Bater com o macete, clava ou pilão. ―... dava mamona demais... pegava a mamona... catava e macetava...‖ (23; 377). macuco (A) Nm [Ssing.] s.XVIII Ind. Ave silvestre de porte médio, de peso que varia entre 1,2 e 1,8kg, com o dorso pardo e o ventre cinza-claro. ―Era jacu... izabelê... essas coisa... o macuco... vinha tudo aqui na porta...‖ (23; 111). madrinheiro (A) Nm [Ssing.] Port. Bras. A pessoa que monta o animal que guia uma tropa de carga. ―... botava naquele animal que ia na frente... que tinha / chamava madrinheiro... quer dizer o da frente.‖ (27; 393). mafabeto (n/d) Nm [Ssing.] Port. Pessoa que não foi escolarizada (*mal + alfabeto > malafabeto > mafabeto). ―Ocês me desculpem que eu sou mafabeto... num sei a ler...‖ (41; 238). maia (n/d) Nf [Ssinf.] > Fr. Pedaço pequeno de couro ou fibra têxtil menor que a palma da mão. ―... põe um cordão e põe uma maia naquilo ali pra jogar pedra pra matar passarinho né?‖ (1; 93). mãinha (n/d) Nf [Ssing.] Port. Tratamento afetuoso do filho para com a mãe; forma alterada de mãezinha. ―O que que fazia da mandioca?‖ Inf.: ―Mãinha fazia farinha.‖ (17; 198). mais (A) [Preposição] s.XIII > Lat. > Port. Com; em compahia de. ―... meu irmão topou com ele aqui... um jegue... topou mais ele ali na ponte...‖ (50; 277). mais pouco (n/d) Loc. adverbial [Prep. + ADV] Port. Com menos frequência ou quantidade. ―... tem muito pouco... mas tinha... é ficou mais pouco mas tem.‖ (3; 215). malacacheta (n/d) Nf [Ssing.] s.XIX Qualquer semente de árvore, pequena, achatada e de casca dura. ―... aí aquelas malacacheta que tinha...‖ Entr.: ―Malacacheta?‖ Inf.: ―Malacacheta.‖ Entr.: ―O que é isso?‖ Inf.: ―Era uma ( ) que tem no chão aí ó.‖ Entr.: ―É uma folha?‖ Inf.: ―Não... num é folha não... é como sendo duas capinha de coisa... chamava 587 malacacheta.‖ Entr.: ―Malacacheta.‖ Inf.: ―É... na mata tem muito.‖ Entr.: ―É tipo um...‖ Inf.: ―É assim... tipo um / as capa dela eu sei... é pequenininha... tem grande.‖ Entr.: ―Espinho?‖ Inf.: ―Num é espinho não... é... é aquelas capa... chama malacacheta.‖ (18; 315-329). malinar (A) [V] s.XIX > Lat. > Port. Fazer travessuras, brincar. ―... e era... era matando passarinho... era malinando dentro desse rio velho aqui ó...‖ (5; 84). malino (A) [ADJ] s.XIV > Lat. > Port. Que faz ou deseja o mal a outrem; maligno. Entr.: ―Diz que tinha um que morreu que virava bicho.‖ Inf.: ―Virava... é o esprito malino.‖ (10; 195). manaíba ~ manaíva (A) Nf [Ssing.] s.XVII Ind. O caule da mandioca. A parte que se planta. ―... nós plantava as mesma coisa de hoje... era manaíba... feijão... milho... é cacatua... andu...‖ (43; 103). / Entr.: ―Lá na roça ocês plantava o que?‖ Inf.: ―Era mais era manaíva né?...‖ (36; 39). Cf. maniva. mandacaru (n/d) Nm [Ssing.] s.XVI Ind. Espécie de cacto, de caule grosso e porte maior. ―... aquele mandacaru... o senhor conhece?‖ Entr.: ―Mandacaru... já vi falar.‖ Inf.: ―Secava... ainda punha ele pra alumiar assim os peixe dentro d‘água...‖ (44; 320). mandruscada (n/d) Nf [Ssing.] Frutinha, semelhante a um coquinho, muito usada para fazer chá. ―É uma frutinha que a gente compra... é comprada.‖ Entr.: ―Ah é uma frutinha?‖ Inf.: ―É assim feita um coquinho.‖ Entr.: ―Chama mandruscada.‖ Inf.: ―É chama mandruscada... o senhor num conhece não.‖ (7; 180). manga (A) Nf [Ssing.] > Esp. Pastagem cercada próximo a casa da fazenda, especialmente preparada para guardar o gado. ―... montava nos cavalo e ia correr dentro da manga pra aprender andar montado.‖ (35; 16). mangaba (A) Nf [Ssing.] s.XVI Ind. Fruto silvestre de polpa branca, fibrosa e doce, de formato semelhante a uma pêra. ―... tava passando aí que mangaba é um remedão pra pressão né?‖ Entr.: ―Mangaba...‖ Inf.: ―Essa mangaba... ela é do mato.‖ Entr.: ―Aqui tem na região?‖ Inf.: ―Tem... tem muito.‖ Entr.: ―Mangaba.‖ Inf.: ―Mangaba... é... ela é... ela é... o senhor conhece... num conhece?‖ (11; 180-186). maniva (A) Nf [Ssing.] Ind. O caule do aipim ou da mandioca. ―... que num podia plantar arroz eu plantava feijão milho mandioca maniva...‖ (2; 108). Cf. manaíba. manjolo ~ monjolo (A) Nm [Ssing.] s.XX Afr. Engenho movido a água, usado para pilar milho e, primitivamente, para descascar café. ―... café pisava no pilão... arroz pisava no pilão... café pisado no manjolo... pisava o café no manjolo... torrava esse café e depois pisava no pilão.‖ (13; 411). / ―... porque pra abrir precisa d‘um certomonjolo... aí o barro batia...‖ (3; 14). 588 mantimento (n/A) Nm [Ssing.] s.XIV Port. Víveres que serve de sustento à vida; alimento. ―... a gente usava mas era carro de boi... tirar as cana da roça... é mantimento... era carro de boi...‖ (37; 57). marambaia (n/A) Nf [Ssing.] Espécie de renda produzida no Norte de Minas. ―... eu faço ponto de cruz... eu faço bordado... eu faço marambaia.‖ (44; 25). Maria Tereza (n/d) NCf [ Ssing +Ssing] Fantasia gigante de mulher, usada por alguém com a finalidade de sair pelas ruas desfilando, em festa local. ―Maria Tereza era uma mulherzona vestida de... faz uma mulherona... vestia uma saiona...‖ (53; 227). mata-burro (n/A) NCm [V + Ssing.] Pequena ponte de traves de ferro ou madeira, dispostas espaçadamente, a fim de evitar a passagem de animais. ―... tinha o... mata-burro que ês falava né?... tinha uma porteira de um lado e tinha um mata-burro do outro lado... era um mata-burro né?... as pessoas quisesse passar um animal... e cá era pra passar gente de a pé... mata-burro... então se o animal forçou ali pra passar caía...‖ (21; 32-34). matutagem (A) Nf [Ssing.] > Fr. Massa feita de mistura de raízes com esterco de gado, usada, amarrada junto ao corpo, em locais doloridos. ―... era buscar alecrim... esse outro... arruda... essas coisa e fazia uma matutagem assim misturada com esterco de gado...‖ (48; 442). maxixe (A) Nm [Ssing.] s.XVIII Afr. Bras. Legume verde, de formato levemente alongado e com a casca envolta em falsos espinhos, muito apreciada na culinária nordestina. ―... eu já trabalhei um dia ni Espinosa... quinze dia... comendo maxixe sem gordura e sentado...‖ (32; 51). meada (n/d) Nf [Ssing.] s.XV Port Meio; lugar. Entr.: ―... aqui o pessoal mexia com criação de gado também?‖ Inf.: ―Não.‖ Entr.: ―Não né?‖ Inf.: ―Nessa meada não...‖ (7; 120). meirinho (n/A) [ADJ.] Port. De tamanho reduzido; o mesmo que menor. Inf2: ―É que chamava de bandeira... e esse é o tamanduá meirinho que ês fala que é o... que é o melete.‖ (15; 400). melado (A) Nm [Ssing.] s.XIX Port. A calda grossa do açúcar. ―... fazia o melado fazia a rapadura né?...‖ (39; 20). melepo ~ melete (A) Nm [Ssing.] Bras. Espécie menor de tamanduá, também conhecido como tamanduá-mirim. ―Ni caça já tinha um bicho perigoso.‖ Entr.: ―É?‖ Inf.: ―Viado... cutia... tatu... paca... melepo... gambá... tatu.‖ (6; 54). / Inf2: ―É que chamava de bandeira... e esse é o tamanduá meirinho que ês fala que é o... que é o melete.‖ (15; 401). memo (n/d) [ADJ] > Lat > Port. Forma alterada de mesmo. ―... aí saía uma festa... meu pai memo era um que era disso...‖ (12; 399). 589 minador (A) Nm [Ssing.] Port. Bras. Nascente, olho d‘água, minadouro. ―... quando cabava a água ali o povo ia acompanhando a água... a água ia subindo o cara subindo atrás... até ir nominador buscar...‖ (15; 334). miucho (n/d) [ADJ] Port. Que é simples, singelo; pequeno. ―... aqueles caminhãozinho antigo... miuchinho né?...‖ (42; 673). mocó (n/d) Nm [Ssing.] s.XVII Ind. Espécie de ave do porte de uma galinha, de cor pardo- acinzentada com o peito branco, bico longo, vive próximo a áreas húmidas como brejos e pântanos. Também conhecido como socó. ―... aqui tem uma variedade de ave... tem demais... tem mocó... tem zabelê... até que as zabelê acabou quase...‖ (26; 91). mode ~ modo (n/d) [ADV.] > Lat > Port. A fim de; para. ―... que eu ia levar mesmo mode a gente temperar um café...‖ (1; 426). / ―... ele me ponhava no carro modo eu botar os cachorro pra ele pra ês ir pra tocaia...‖ (5; 196). montoeiro (n/A) Nm [Ssing.] Port. Que se apresenta em grande quantidade e na forma de um monte; montão. ―... eu amanhecia assim ó... com aquele montoeiro de travesseiro...‖ (46; 291). moquear (A) [V] s.XIX Ind. Assar a carne em moquém (grelha de varas). ―Fazia gaita de taboca tirada do mato... moqueava a galha de taboca e fazia... as gaita...‖ (16; 632). mota (A) Nf [Ssing.] Port. Veículo automotor de duas rodas; forma reduzida de motocicleta. ―... a gente num achava um carro pra andar... num tinha mota num tinha bicicleta num tinha nada nada nada...‖ (4; 186). mucado (n/d) Nm [Ssing.] Port. Quantidade indefinida de gente, coisas ou animais; tanto. ―... quando chegou um mucado de cigano lá nessa casa... chegou um mucado de cigano...‖ (36; 349). mucunã ~ mancunã (A) Nf [Ssing.] s.XVI Ind. Espécie de leguminosa que produz vagens cobertas com pelo, que ao tocarem o corpo humano provocam coceira intensa. É muito utilizada como remédio. ―... as mães arrancava raiz de mucunã pra fazer farinha.‖ Entr.: ―Mucunã?‖ Inf.: ―Mucunã... é uma raiz braba do mato... arrancava a batata assim e comia.‖ (15; 234-236). / ―... teve uma época teve uma crise aqui... fazia farinha de mancunã.‖ Entr.: ―Mancunã?‖ Inf.: ―Mancunã... é... dá uma fruta redonda assim...‖ (5; 28-30). mudernagem (n/d) Nf [Ssing.] Port. Designação geral dada às pessoas mais jovens; juventude; mocidade. ―... agora olha nessa mudernagem... que meu filho também é novo... essa mudernagem de hoje...‖ (31; 65). 590 mulambo (n/d) Nm [Ssing.] Afr. Diz-se de roupa velha, esfarrapada, muito usada. ―... tudo o que tinha... com os mulambo que tinha... que a gente num tinha roupa... tinha era mulambo... e com o pé no chão.‖ (38; 09-10). muntar o pau (n/d) Loc. verbal [V + Art. + Ssing.] Port. Bater em alguém; espancar, surrar. ―... se facilitar... munta o pau na gente e toma o dinheiro.‖ (50; 512). muringa (A) Nf [Ssing.] Afr. Bras. Vaso de barro com gargalo para armazenamento de água; cabaça seca. ―... foi lá e apanhou uma muringuinha... cheia d‘água... e o copo...‖ (1; 161). murundum (n/A) Nm [Ssing.] Afr. Monte; amontoado de terra. ―... agora tem um murundum de terra na beira do poço...‖ (21; 117). N nambu (A) Nf 23 [Ssing.] Ind. Espécie de ave muito semelhante ao perdiz, sem rabo. ―É... existia... bicho de pena... jacu izabelê codorninha nambuzinha... exixtia.‖ Entr.: ―Ihambu?... o senhor falou ihambu?... lambu né?‖ Inf.: ―Nambu.‖ Entr.: ―Ah nambu.‖ Inf.: ―Nambu... é porque a nambu tem de duas qualidade num tem?... tem a nambuzinha pequena e tem a nambu do pé roxo.‖ (33; 98-103). Cf. lambu. na moita (A) Loc. adverbial [Prep. + Ssing.] Bras. À espreita; às escondidas. ―... ocê namorava é por aqui... por um buraco de uma porta... a moça espiava o rapaz na moita... num podia conversar não... num podia que o véi infesava...‖ (16; 499). namoriscada (n/A) Nf [Ssing.] Port. Relação de interesse amoroso sem maiores pretenções. ―... agora depois de velho de vez em quando a gente dá uma namoriscada por aí né?...‖ (15; 79). nem vê (n/d) Loc. adverbial [Conj. + V] Port. De modo algum; de jeito nenhum. ―... até cerâmica ela colocou no fogão... mas tem um pouquinho de lenha... num fica sem ele nem vê.‖ (22; 350). ni (n/d) [Preposição] Port. O mesmo que em, a. ―... nunca fui ni hospital nem pra tomar vacininha aqui...‖ (4; 30). nica (n/A) Nf [Ssing.] s.XIX De valor bem reduzido, em especial dinheiro; bagatela. ―... que eu cansei de pegar dinheiro dele e comprar pão... nunca voltou uma nica... nunca voltou uma nica velho...‖ (5; 64). novata (n/d) Nf [Ssing.] s.XVII > Lat > Port. Denominação dada às pessoas ainda jovens; Juventude; mocidade. ―... a novata pode até acompanhar... mas o povo de meia idade que tem a nação / de meia idade pra trás né?...‖ (48; 342). 23 O vocábulo nambu está dicionarizado no gênero masculino. 591 O ofender (n/A) [V] s.XVI > Lat > Port. Causar mal a saúde; prejudicar. ―... e eu fumava um cigarro moço!... e o cigarro me ofendia demais... fumava um cigarrinho... me ofendia demais...‖ (42; 385). ofício (A) Nm [Ssing.] s.XIII > Lat > Port. Preces, orações. Por ext. terço―... caiu um sereninho... aí ela começou rezar ofício... rezou duas coroa do ofício...‖ (7; 199). o pau moía (n/d) F [Art. + Ssing. + V] Port. Prosseguimento de alguma coisa; continuidade de algo. ―... cantava cantava cantava no presépio... o pau moía.‖ (40; 200). o trem num prestou não (n/d) F [Art. + Ssing. + {Prep. + Art.} + V + ADV.] Port. Que apresenta um desfecho ruim; que não tem bom final. ―... tava lá no outro quarto meu filho... no quartinho... e eu mais a mulher ni outro... e rapaz o trem num prestou não...‖ (6; 298). P paiosca (n/d) Nf [Ssing.] Port. Espécie de cabana coberta de palha; palhoça. ―É no campo... inventaram essa paiosca aí... fizeram esse promo lá de palha...‖ (43; 331). pamonha (n/A) Nf [Ssing.] Espécie de bolo de milho envolto na própria palha. ―... o milho... tirava ali e fazia de pamonha... fazia pamonha...‖ (13; 88). pano de bunda (n/d) NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Denominação dada ao conjunto do vestuário utilizado pelos noivos na cerimônia de casamento; roupa de casamento; enxoval. ―... comprava os pano de bunda... quando chegava o dia fazia aquela festa bonita né?...‖ (39; 184). parabel (n/d) Nf [Ssing.] O mesmo que parabellum, nome dado a pistola Luger P08, de fabricação alemã. ―... ele fazia arma... ele fazia fuzil... ele fazia mosquetão... fazia parabel...‖ (5; 62). parambeira (n/d) Nf [Ssing.] s.XX Precipício, abismo. Variante de pirambeira (pirambeira > parambeira – caso de assimilação). ―... depois que sobe essas parambeira... que sai lá em cima...‖ (43; 654). para-terra (n/d) NCm [ V + Ssing.] Port. Nome dado às pessoas assentadas pelo governo em terras do poder público. ―... veio um pessoal aí que chama para-terra né?... porque tem os sem- terra e tem os para-terra né?... os sem-terra é invadido... e o para-terra é o governo que compra e arrancha o povo né?‖ (1; 53). parelha de boi (A) NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] Port. Par de bovinos unidos pela canga para puxar um veículo de carga. ―... então eu tinha uma parelha de boi... uns boizinho muito fraco...‖ (3; 07). 592 parentagem (n/A) Nf [Ssing.] Port. Diz-se de pessoas da mesma família, em especial pais e avós. ―... minha família tá tudo aqui... a não ser a parentagem... mãe já morreu... pai já morreu... avó morreu...‖ (8; 33). patacão (A) Nm [Ssing.] s.XVI > Fr. Moeda antiga de prata usada no Brasil. ―... e ali naquele meio tinha umas moeda de ouro... tinha uns patacão novecentos e sessenta.‖ Entr.: ―Patacão novecentos e sessenta?‖ Inf.: ―É... é de prata... tinha aqueles patacão novecentos e sessenta... é um patacão bonito... o sujeito panhava esses patacão...‖ (30; 313-318). pau (A) Nm [Ssing.] s.XIII > Lat. > Port. Denominação comum de qualquer árvore. ―... Ninheira num era Ninheira... é até um pau que tem lá... chamava Ninheira mas a Ninheira... a ninheira nem o pau chama ninheira... porque os passarinho fazia muito ninho no pau... o pau é um grão-de-burro... dava aquela fruta amarela...‖ (5; 49-51). pau-de-arara (A) NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Port. Caminhão de carroceria aberta, às vezes coberta com lona, com tábuas atravessadas servindo de assento aos passageiros, muito utilizado para o transporte de retirantes nordestinos. ―... as vez uma condução pequena tem... tinha era o pau-de-arara.‖ Entr.: ―Pau-de-arara?‖ Inf.; ―É... nós foi no pau-de-arara lá e pegava o trem... o senhor conhece o que é pau-de-arara?‖ (16; 728-730). pé-de-árvore (n/d) NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Port. Qualquer árvore ou arbusto.―Ali na praça... só tinha coqueiro... pé-de-árvore... pé de jenipapo...‖ (45; 29). Cf. pau. pé de bode (A) NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Pequena sanfona de oito baixos, bem mais simples que um acordeão. ―Sanfona... tinha umas menorzinha também né?‖ Inf.: ―É... tinha menor... essa é 80 baixos.‖ Entr.: ―Aquelas pequena chamava como?‖ Inf.: ―Pé de bode.‖ Entr.: ―Ah... pé de bode.‖ Inf.: ―Pé de bode... eu zuei com uma trinta e cinco anos...‖ (21; 463- 465). pé-de-pau (n/d) NCm [Ssing. + Prep. + Ssing.] Port. Nome genérico dado a qualquer espécie de árvore ou arbusto. ―É velano... o pé-de-pau chama até velano...‖ (18; 267). Cf. pé-de- árvore. pedir um arrogo (n/d) Loc. verbal [V + Art. + Ssing.] Port. É o mesmo que pedir arrego; pedir um favor a alguém. ―... tem me servido porque ao menos me livra de pedir um arrogo... livra / como eu já pedi muito né?... livra deu pedir um arrogo pra uma assinatura...‖ (43; 90- 91). pelo meno (n/A) Loc. Adverbial {Prep. + ADV] Port. Condição mínima para o início de uma ação ou fato; no mínimo. ―... eu pelo meno a hora que eu fui vendo... a hora que eu fui vendo começou a escurecer...‖ (1; 580). 593 pequi (A) Nm [Ssing.] s.XVI Ind. Fruto de casca grossa e esverdeada, de caroço amarelado com paladar e cheiro bem específico, muito utilizado na culinária, em especial acompanhado com arroz; o fruto do pequi ou pequizeiro;. ―Tinha pequi também... e ainda tem nos canto né?‖ (21; 220). pereba (n/A) Nf [Ssing.] s.XVIII Ind. Pequena ferida coberta por uma casca grossa; erupção cutânea. Entr.: ―Tinha gente que dava uma ferida na perna...‖ Inf.: ―Dava... pereba.‖ Entr.: ―Pereba?‖ Inf.: ―Dava uma pereba na perna e tratava com casca de mamona... pisava na mamona e botava em cima da pereba...‖ (16; 422-425). perrengue (A) [ADJ] s.XIX > Esp. Diz-se de pessoa ou animal que está fraco ou doentio. ―... um dia eu tava aí perrengue aí... eu já tava com um reumatismo nas minhas pernas moço...‖ (42; 358). pessuir (n/A) [V] s.XIII arc. > Lat. > Port. Ser dono, ter posse de alguma coisa, poder comprar. Variante de possuir. ―... nós morava em fazenda... a gente nunca pessuiu um palmo de terra...‖ (4; 65). pestiar (n/d) [V] Port. Escurecer; tornar escuro. ―... deu um eclipe e pestiou assim... da hora que o sol saiu um pouco né... e foi tampando... tampando...‖ (44; 363). piar (n/A) [V] s.XIII Port. Ato de prender com cordas, amarrar com peias. ―... pegou essa nega moço e piou... titou a roupa dela todinha e piou ela bem piada... amarrou as mãos... amarrou as pernas...‖ (42; 453). picada (A) Nf [Ssing.] s.XIV Port. Bras. Abertura feita na mata fechada para permitir a passagem de pessoas e animais.―Num tinha estrada.‖ Entr.: ―Era só...‖ Inf.: ―Era só aquele picadão...‖ (23; 391). picar a mão (n/d) Loc. verbal [V + Art. + Ssing.] Port. Agredir fisicamente com socos ou tapas; bater. ―... ele vinha ganhar o dinheiro da gente lá... chegava lá ele picava a mão em riba do olho dele...‖ (6; 167). picumã (n/d) Nm [Ssing.] Ind. Espécie de ave de coloração negra, semelhante a um pássaro- preto, cujo habitat natural são pastagens ou florestas altamente degredadas. Também conhecido como vira-bosta-picumã. ―... mas o picumã eu vi na mata daqui...‖ (16; 12). pilão (A) Nm [Ssing.] s.XVI > Fr. Espécie de vaso de madeira onde se pila e descasca arroz, milho, café etc. ―... pegava a mamona graúda e descascava e ponhava no pilão e pisava e panhava um pouco de algodão encaroçado...‖ (33; 329). pindoba (A) Nf [Ssing.] s.XVI Ind. Palmeira de belo porte cujas folhas são muito utilizadas para a cobertura de ranchos e taperas. ―... eu morei muito numa casinha feito rancho... beirando o chão de pindoba...‖ (12; 327). 594 pintar e bordar (A) Loc. verbal [V + Conj. + V] Port. Cometer grandes desatinos; judiar, maltratar. ―... naquele tempo eles matava gente... pintava e bordava...‖ (44; 289). pipiri (n/d) Nm [Ssing.] Espécie de pássaro de penas cinza-amarronzadas, peito branco, bico curto e preto, muito semelhante ao bentivi.―É... tico-tico... sofrer... é... é... o que... rolinha... é bentivi... pipiri.‖ (6; 50). piquizeiro (A) Nm [Ssing.] s.XX Port. Bras. Árvore que produz o pequi. ―... o fogo ia e entrava nos piquizeiro rebuscando e queimava aqueles produto... mangaba que tinha.‖ (21; 215). pirosca (A) Nf [Ssing.] Bola de gude; pequenas bolinhas de barro seco. ―Ó meu fio espingarda ocês num panha não que é muito perigosa... mas um badoquinho... ocês num jogando pirosca num aos outros tá certo... cês num pode jogar pirosca nun aos outros...‖ (21; 194). pirotar (n/d) [V] Matar passarinho com pirosca. ―Ô pai nós vamo... nós vamo pirotar pasarinho!‖... jogar pirosca ni passarinho...‖ (21; 183). pisa (A) Nf [Ssing.] s.XIX Port. Surra, sova, coro. ―... os pais ainda dava uma boa pisa nela e ia o pai também dele e dava uma boa pisa nele também...‖ (1; 215). piti (n/A) Nm [Ssing.] Denominação dada ao cipó do alho. ―... mas mãe era durinha igual um piti...‖ (40; 458). pitimbado (A) [ADJ.] Bras. Sem vigor físico; enfermo. ―... e ainda num sarei não... tou aí ainda pitimbado.‖ (45; 90). plataforma (A) Nf [Ssing.] > Fr. Ser sobrenatural; fantasma, assombração. ―Eu tive medo... quando teve uma vez apareceu uma plataforma perto da casa da gente... nós correu... o povo quase morre de medo... mas minha mãe cabou tudo com reza.‖ (52; 406). pocar (A) [V] Ind. Rachar; estourar; pipocar. ―... aí moço diz que todo ano essa carneira pocava e saía aquele fio de cabelo na / no caixão da carneira né?‖ (45; 477). pocar no mundo (n/d) Loc. verbal [V + {Prep. + Art.} + Ssing.] Ir-se embora; pegar a estrada. ―... e entregava pra nós aquele toquinho de enxada e agora pocava no mundo...‖ (45; 275). ponhar (A) [V] > Lat. > Port. Pôr, colocar. ―... e enxugava né bem enxutinho... ponhava cebola pimenta do reino...‖ (21; 234). por acauso (A) Loc. Adverbial [Prep + Ssing.] Port. Relativo à casualidade; forma pop. de por acaso. ―... se por acauso um dia a água fracassar nós vamo ficar sem água...‖ (26;78). 595 pra daná (r) (A) Loc. Advérbial [Prep. + V] Port. Bras. Em grande quantidade; em fartura. ―... lá onde eu moro tem um rio chamado Rio Mosquito... tem peixe pra daná...‖ (43; 231). Cf. pra caramba. prato (n/d) Nm [Ssing.] s.XV > Fr. Antiga unidade de medida para cereais e grãos. ―... muita gente vende no quilo aí ó mas tem umas veinha que: ―_ É tanto o quilo!‖... dá dois quilos e seiscentas... o prato.‖ (24; 162). precata (n/d) Nf [Ssing.] > Ár. Chinelo rústico feito com tiras de couro. ―... foi foi chegando um cara com uma precata que era do tamanho de uma banda de coro de boi né?‖ (1; 366). precisão (A) Nf [Ssing.] s.XVII > Lat. > Port. Falta ou carência de alguma coisa; necessidade. ―... minha mãe trabalhava pra por as coisa dentro de casa... e assim mesmo a gente passava precisão.‖ (7; 28). precurar (n/A) [V] > Lat. > Port. Forma pop. de procurar. ―... até as galinha precurou o puleiro né?‖ (1; 574). preguntar (A) [V] s.XIII arc. > Lat. > Port. O mesmo que perguntar; indagar.. ―É... preguntava ela: ―_ Cê olha ele... ocê quer casar com ele?‖...‖ (23; 81). premero (n/A) [ADV.] > Lat. > Port. Que não é precedido por outro. Variante de primeiro (primeiro > premero – caso de assimilação). ―... quando a gente vai matar uma galinha premero a gente pega o pescoço e troce e tira as pena e e pega a faca e bate né?‖ (6; 237). premessa (n/d) Nf [Ssing.] > Lat. > Port. Voto, juramento. Variante de promessa (promessa > premessa – caso de assimilação). ―... aquilo é uma premessa que a gente faz... faz uma premessa aí pra ficar livre de qualquer um problema lá né?...‖ (1; 512). priá (A) Nf [Ssing.] s.XVI Ind. Mamífero roedor do tamanho de um rato, de pelagem cinzenta, corpo robusto, sem rabo e com patas e orelhas curtas. Vive à beira de córregos, lagoas e rios, alimentando-se de gramíneas. ―... fazia arapuca pra pegar lambu a priá...‖ (21; 187). puxada (n/d) Nf [Ssing.] Port. Pavio curto, geralmente feito de algodão, utilizado em lamparinas. ―... que panhava na lamparina... puxada de algodão... e plantava algodão né?... quando dava e guardava... descaroçava e fazia aquelas puxada e panhava na lamparina...‖ (36; 245). Q quartão (A) Nm [Ssing.] > Lat. > Port. Parte superior da coxa e lateral dos quadris dos mamíferos. ―... botava aqueles caixão de costela ali... sapecava aquele trem e comia sem sali... e os quartão da rês largava tudo aí...‖ (1; 143). 596 quebra (n/d) Nf[Ssing.] s.XV Port. Engenho para pegar pequenos animais; armadilha. ―... cada um fazia três quatro quebra.‖ Entr.: ―Quebra era armadilha né?‖ Inf.: ―É armadilhazinha...‖ (21; 188). quebrante (A) Nm [Ssing.] s.XIII Port. Efeito, segundo a crença de alguns, provocado por mau olhado. Variação de quebranto. ―... tinha aquelas veia entendida que rezava... rezava quebrante...‘ (8; 373). quebradura (n/A) Nf [Ssing.] Port. Abertura provocada por algum tipo de dilatação; fenda, rachadura. ―... ele foi enterrado... quando ele tava virando bicho... pocou o carneiro... pocou o carneiro... ês foram lá e remendou... tornou pocar... e assim o povo contava né?... ficava saindo cabelo daquelas quebradura...‖ (43; 583). quebrar (n/d) [V] s.XIII Port. Ingerir certa quantidade de líquido em um único trago; virar goela abaixo. ―... fazia um copo duplo e o camarada quebrava aquilo...‖ (39; 510). quebrar panela (n/d) Loc. Verbal [V + Ssing.] Port. Antiga tradição na região que, ao casar a última filha, é feito um pequeno cortejo com pessoas carregando panelas cheias de comida na cabeça e, ao chegar à casa, joga-se tudo ao chão e dança-se ao redor.Entr.: ―... a última filha casava... tinha um negócio que fazia diferente.‖ Inf.2: ―Ah era... era quebrar panela.‖ Entr.: ―Isso.‖ Inf.2: ―Era... a derradeira filha quie casava.‖ Inf.1: ―Isso aí eu conheci também... e agora tá usando ainda... quando casa a derradeira filha o povo quebra panela.‖ (15; 487-491). quedar (A) [V] > Lat. > Port. Aquietar, deter-se, conservar-se. ―... aqueles nego que fumava... quedava um ali e me caçava uma pedra... a hora que ês queria acender um cigarro...‖ (32; 312). quedê (A) [Pron.] Bras. Quede; onde está. ―... foi saí daí e mora no Paraná... quedê... e lá no Paraná...‖ (27; 456). Cf. cadê. que nem (n/A) Loc. conjuntiva [Pron. + Conj.] Port. Expressa comparação; como, do mesmo modo que. ―... aqui em São João do Paraíso tá que nem uma bucha de laranja...‖ (20; 284). quermesse (A) Nf [Ssing.] s.XIX > Fr. Festa geralmente ao ar livre, com leilão de prendas em benefício da paróquia. ―... o dia que ia cantar o Reis... que era a quermessa... nós ia pra lá...‖ (16; 648). questã (n/A) Nf [Ssing.] s.XIV > Lat. > Port. Fazer algo em respeito a alguém. ―... eu ia muito no Rio Pardo.‖ Entr.: ―É?‖ Inf.: ―Negócio de questã dos outros né?‖ (18; 460). quiabento (n/A) Nm [Ssing.] Espécie de cacto rosa, muito comum na caatinga, de flores laranja ou vermelho sangue, podendo variar para o lilás. Em média atinge três metros de altura, sendo muito usado para fazer cercas vivas. ―... essa avenida era quiabento... era quiabento... cercada / cada lote das pessoas aqui era cercada de quiabento.‖ Entr.: 597 ―Quiabento... o que é isso?‖ Inf.: ―Quiabento era uma cerca de espinho.‖ Entr.: ―Ah chamava quiabento?‖ Inf.: ―É... quiabento... as cerca era tudo cheio de espinho.‖ Entr.: ―Ah sei.‖ Inf.: ―Então a avenida era desse jeito... ela num tem ( )... era quiabento...‖ (21; 12-19). quina-braba (n/A) NCf [Ssing. + ADJ] Uma das subespécies da quina. Inf2: ―...quina... pra gripe... a quina... quina-de-vara.‖ Inf.1: ―Tem outra quina-braba...‖ (15; 200-201). quina-branca (A) NCf [Ssing. + ADJ] Bras. Variedade da quina conhecida como falsa- quina. ―Ué... jurubeba... pra tudo... quina-branca... essa quina-de-papagaio... fidegozinho... era o remédio era esse...‖ (32; 154). quina-de-papagaio (n/d) NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] Uma das subespécies da quina, também conhecida por falsa-quina ou quina-branca. ―Ué... jurubeba... pra tudo... quina- branca... essa quina-de-papagaio... fidegozinho... era o remédio era esse...‖ (32; 154). Cf. quina-branca. quina-de-vara (n/d) NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] Variedade da quina também conhecida como quina-de-cipó. ―Pra fazer o chá... é boldo... erva doce... e remédio mais do mato... é quina-de-vara... é quina-de-veado...‖ (27; 280). quina-de-veado (n/d) NCf [Ssing. + Prep. + Ssing.] Variedade da quina também conhecida como pau-marfim. ―Pra fazer o chá... é boldo... erva doce... e remédio mais do mato... é quina- de-vara... é quina-de-veado...‖ (27; 280). R rabeira (A) Nf [Ssing.] Port. Bras. Na retaguarda; junto à. ―... uma vez ia numa festa... gostava ali e tudo mas era na rabeira da mãe... os pais era uma coisa muito segura né?‖ (12; 378). raizeiro (A) Nm [Ssing.] Port. Curandeiro que trata de doenças por meio de raízes. Inf2: ―Era raizeiro... tinha os curador chamado.‖ Inf.1: ―Tinha os curador... arrancava raiz de muito chão...‖ (15; 198). ralar (A) [V] Port. Mostrar descontentamento com algo; reclamar, atormentar. Variante de ralhar. ―Ué mas num adiantava ralar não... perto do pai... tinha que aceitar.‖ (6; 197). ramo fraco (n/d) Ncm [Sing. + ADJ.] Port. Pessoa pobre, sem riqueza material. ―... meu pai era um ramo fraco... só tinha a graça de Deus...‖ (42; 682). rancheira (A) Nf [Ssing.] s.XX Port. Dança popular de origem hispano-americana muito utilizada pelos gaúchos. ―... eu sei cantar rancheira... sei cantar tuinga né?... (44; 116). 598 rancho (A) Nm [Ssing.] s.XVI > Esp. Cabana provisória, feita no mato ou nas roças, geralmente de palha. ―... chegava lá no meio do mato limpava uma área bem grande... e fazia um rancho pra lá...‖ (39; 684). rapadura (A) Nf [Ssing.] s.XIX Port. Bras. Produto da cana de açúcar confeccionado em forma de pequenos tijolos. ―... tinha a cana pra fazer rapadura pra tomar o café...‖ (39; 18). rapariga (A) Nf [Ssing.] s.XIII Mulher que ganha a vida se prostituindo; meretriz. ―... naquele tempo moça nenhuma bebia... se bebesse era rapariga...‖ (24; 20). rastel (n/d) Nm[Ssing] Espécie de rede para tirar os peixes da água. ―A gente tava vindo da lagoa e fazia aquele rastel pronto pra puxar os peixe...‖ (39; 253-255). Reis (A) Nm[Spl.] > Lat. > Port. Representação popular que festeja o dia do Santo Reis; reisada. ―... na hora que começa o Reis... é bonito viu?... eu apreceio muito... eu gostei muito do Reis...‖ (37; 321). Cf. folia de Reis. réis (A) Nm [Ssing.] s.XVIII Port. Moeda usual no início do século passado; plural de real. ―... era luitando com a idade de oito ano... pra ganhar quinhentos réis...‖ (48; 141). reiseiro ~ rezeiro (n/A) Nm[Ssing.] Port. Aquele que canta na festa de Reis. ―... hoje cabou... tinha o reiseiro também que cantava Reis...‖ (27; 363). / ―... meu pai era um rezeiro que o povo gostava muito do Reis dele.‖ (52; 326). relar (A) [V] Port. Ralar; passar no ralador. ―... uns serve pra comer na comida... relar na comida pra comer...‖ (7; 173). renca (n/d) Nf [Ssing.] > Esp. Alinhamento de pessoas ou coisas; linha, fileira. Variante de renque. ―... o guará queria tomar o menino pra comer... passava assim aquela renca de homem e num tinha coragem nem de panhar uma pedra pra jogar...‖ (38; 106). requerer (A) [V] s.XIV > Lat. > Port. Denunciar alguém por algum crime; delatar. “... eu já fui atropelado por um ladrão... eu requeri ele... o que eu fui atropelado por gente do olho grande querendo tomar o que eu tinha...‖ (48; 312). revoltoso (n/d) Nm [Ssing.] Port. Nome que se dá no Norte de Minas à Coluna Prestes que por lá passou no ano de 1926, causando pavor e morte aos moradores. ―... isso aí eu lhe conto as histórias desses revoltoso... porque nessa época do revoltoso... de 1926... foi a época do revoltoso... meu pai contava caso desses revoltoso...‖ (43; 529-532). rezadeira (n/d) Nf [Ssing.] Port. Quem canta e reza na folia de Reis. Entr.: ―Aqui dona (nome) já / tem esse pessoal que vai de casa em casa cantando?‖ Inf.: ―Tem‖ Entr.: ―E como que chama eles mesmo?‖ Inf.: ―É as rezadeira...‖ (7; 271). 599 riba (precedido de de / em / pra) (A) Loc. Adverbial [Prep. + Ssing.] s.XIII Lat. > Port. Que está em um nível superior em relação ao solo; pra cima, sobre alguma coisa. ―... era assim pra riba e pra baixo... ia pra Berizal comprar farinha...‖ (2; 122). ribar (n/A) [V] > Lat. > Port. Fazer aumentar a distância em relação ao solo; erguer, levantar. ―... e ribou os cavalo lá na frente dele...‖ (15; 161). ribuçada (n/d) [ADJ] s.XVI Port. Encoberta, coberta. ―... eu já morei muito em casa de enchimento... ribuçada com paia de coqueiro.‖ Entr.: ―É... ribuçada?‖ Inf.: ―É ribuçada com paia de coqueiro... chama até palmeira.‖ Entr.: Casa de enchimento que o senhor fala como é que é?‖ Inf.: ―É tudo... de madeira... fazia a casinha e armava e ribuçava com paia de coqueiro... (18; 536-540). rebuçar (n/A) [V] s.XVI Port. Encobrir algo; cobrir, tapar. ―... e eu botei a goma e ribucei com as toalha de mesa sabe?...‖ (36; 354). riscar no mundo (n/e) Loc. verbal [V + Prep. + Ssing.] Port. Pegar a estrada; ir embora. ―... ele subiu em riba do carro... e riscou no mundo... ele riscou no mundo...‖ (1; 414). rodagem (n/e) Nf [Ssing.] s.XX Port. Estrada de carros, rodovia. ―... isso tudo era mato... tinha uma trilha de cavalheiro... num existia rodagem...‖ (26; 16). romaria (A) Nf [Ssing.] s.XIII Port. Peregrinação religiosa a algum local sagrado. ―... já fui em Bom Jesus quando eu morava na roça... eu fui lá a cavalo duas vezes... meu pai fazia a romaria...‖ (19; 271). romper (A) [V] s.XIII > Lat. > Port. Andar na frente; sair antes de outra pessoa. “... e ês mandava uma pessoa romper na frente e ês ficava pra trás...‖ (13; 61). rosário (n/A) Nm [Ssing.] s.XVI > Lat. > Port. Colar de contas utilizados pelos católicos para rezar as avemarias e os padrenossos. ―... aí levou o rosário dentro... levou vela benta... tudo bento...‖ (13; 151). S samear (A) [V] s.XIII > Lat. > Port. Lançar sementes ao solo para que germinem. Plantar. Variante de semear (semear > samear – caso de dissimilação). ―... nós ia sameando manaíba e ia plantando mais os camarada.‖ (41; 19). Santo Reis (n/d) NCm [Ssing. + Spl.] Port. Festa religiosa cristã em comemoração a visita dos reis magos ao menino Jesus.―Nasci no dia de Santo Reis... o dia que eu nasci o Santo Reis chegou lá em casa.‖ (16; 620). Cf. Reis. sariema (A) Nf [Ssing.] s.XVII Ind. Ave de médio porte, de pernas compridas e delgadas, que preferem correr a voar. O mesmo que seriema. (seriema > sariema – caso de 600 dissimilação).―A sariema né?... a sariema tinha bastante... hoje... hoje ocê vê uma sariema cantando pode pagar aí o que quiser pra um cantar da sariema que num vê.‖ (27; 181-182). se lascar (n/d) Loc. verbal [Pron. + V] Dar-se mal em alguma coisa; entrar em apuro. ―...ali era na base do sofrimento... o cara se lascava...‖ (6; 136). seleiro (n/A) Nm[Ssing.] Port. Aquele que fabrica ou vende selas para montaria. ―... trabalhava porque eu trabalho em profissão de couro né?... eu sou seleiro...‖ (22; 261). sicorrer (n/d) [V] > Lat. > Port. Prestar ajuda; auxiliar. Variante de socorrer (socorrer > sicorrer – caso de dissimilação). ―... aqui tava ruim mas diz que ia ser uma seca muito grande né?... mas o povo aqui sicorria aqueles que chegava né?...‖ (11; 142). sinhá (A) Nf [Ssing.] Port. Bras. Forma de tratamento usada pelos escravos para se referir a sua dona; feminino de sinhô.―_ Pra mode ocês ver o cheiro do torresmo que sinhá me deu!...‖ (1; 195). suceder (n/A) [V] s.XIV > Lat. > Port. Acontecer, ocorrer. ―... o que tá sucedendo aqui já tá pior que São Paulo.‖ (50; 510). Cf. assuceder. sujegar (n/A) [V] arc. > Lat. > Port. Dominar alguém pela força ou razão; prender; intimidar. Variante de subjugar (subjugar > sujegar – caso de síncope e dissimilação). ―... ele ficava de lá e num queria entrar... me sujegou... e eu ficava ali e era aquele calorão...‖ (1; 386). sujigada (n/d) [ADJ] > Lat. > Port. Diz-se de alguém que está dominada, presa. ―... pegou um prego e pregou o... o beiço da véia no portal da porta... quando chegou a veinha tava... tava lá sujigada...‖ (21; 322). sumitério (n/A) Nm [Ssing.] > Lat. > Port. Local onde se enterram os mortos; o mesmo que cemitério (cemitério > sumitério caso de dissimilação). ―... e panhou esse milho e levou pra junto desse sumitério e descascou aquele monte de milho...‖ (1; 560). suro (A) [ADJ] > Esp. Que não tem cauda ou que apresenta somente o cotó. ―... uma galinha sura... ocê via uma galinha sura... via uma izabelê né?‖ (42; 312). suverter (n/A) [V] s.XVI > Lat. > Port. Desaparecer, sumir de repente. ―... de lá meu avô voltou e ês trevessou o Rio Pardo e suverteu pra lá...‖ (2; 532). T taba (n/d) Nf [Ssing.] > Lat. > Port. Prancha de madeira; o mesmo que tábua. (tábua > taba – caso de síncope). ―... pegava aqueles foião tudo e botava na taba...‖ (12; 266). taboca (A) Nf [Ssing.] s.XVII Ind. Espécie de bambu; taquara. ―Fazia gaita de taboca tirada do mato... moqueava a galha de taboca e fazia... as gaita...‖ (16; 632). 601 taca (A) Nf [Ssing.] Bras. Espécie de bastão, cheio de argolas, usado para surrar os escravos. ―... ês chegava e marrava ele no pau... e metia a taca... metia a taca...‖ (32; 193). tadinho (n/d) Nm [Ssing.] Port. Que causa sentimento de pena por seu estado ou condição; infeliz; desventurado. (coitadinho > tadinho – caso de aférese). ―... os pobre tadinho passava muito apurado... comia fazia a farinha...‖ (12; 249). talacar (n/d) [V] Bater com algo em pessoa ou animal; surrar. ―... e levava uma tacona assim... pá... talacava naquele cavalo e no sujeito tamém que tava em cima...‖ (1; 148). tá no cu da cobra (n/d) F [V + Prep. + Ssing. + Prep. + Ssing.] Port. Estar em situação difícil; em apuros. ―... se num fosse a barragem nós tava no cu da cobra.‖ (6; 397). tapioca (A) Nf[Ssing.] s.XVI Ind. Fécula da raiz de mandioca. ―Era pra todo canto... pra Bahia todinha... era rapadura... farinha pra Guanambi... rapadura e farinha... goma... é uma tapioca que chama.‖ (24; 215). Cf. Beiju. tear ~ tiar ~ tial (n/A) Nm [Ssing.] s.XIV Port. Aparelho ou máquina destinada a produzir tecidos.. ―... e tem o tear de tecer o pano ó...‖ (44; 61). / ―... tinha roda de... de fiar linha... o tiar de tecer linha...‖ (23; 142). / ―...amarrar aquilo tudo e tecer... tinha o tial... era duas madeira...‖ (30; 333). tendepá (A) Nm [Ssing.] Bras. Confusão generalizada; briga; contenda. ―... nossa ocê via o que aquele povo faz... atirando e já com o rapaz preso... amarrado... e vai e vai e teve aquele tendepá e o que ês pôde roubar...‖ (8; 323). tição (A) Nm [Ssing.] s.XIII > Lat. > Port. Pedaço de lenha queimada. ―... a casa era feita de tição porque a casa é feita assim né com os adrobo...‖ (38; 185). tiçar (n/d) [V] > Lat. > Port. Arremessar algo à frente; lançar, jogar. Variante de atiçar (atiçar > tiçar – caso de aférese). ―... e passou um negócio no pescoço do velho... e o velho desmunhecou pra trás... daí a pouco tá todo mundo abrindo sepultura... tiçou lá dentro do buraco e enterrou... matou o pobre do nego velho.‖ (50; 204). timburé (n/A) Nm [Ssing.] Peixe de água doce também conhecido como aracu, chimboré, timboré. ―Aqui era corimba... traíra... bagre... piau... lambari... pintado no Corguinho e timburé.‖ Entr.: ―Timburé?‖ Inf.: ―Era... aquele peixinho compridinho...‖ (24; 65). tiquinzinho (n/d) Nm [Ssing.] Port. Porção muito pequena de alguma coisa; pedacinho; pouquinho. (Diminutivo de tiquinho). ―... tudo que tinha na festa botava um tiquinzinho naquela panela...‖ (4; 409). tocaiar (A) [V] s.XX Port. Bras. Ficar de espreita a fim de pegar alguém de surpresa. ―... pegava rapadura pra vender ni Candiúva... e o fiscal tava no pé dele... no tirar daí o fiscal 602 cobrava imposto... se ocê pagava imposto aqui... tinha o tucaiô da / tinha o tucaiadô da estrada... ali na cabeceira do ( )... tocaiava ês... o que livrava num pagava imposto...‖ (21; 43). tocar (A) 1. [V] s.XV Desempenhar uma atividade; manejar; cuidar. ―... pois me criei e casei e tocando a lavoura até essas época...‖. 2. V. Pôr; colocar ―... remédio de horta e purgante... tocava azeite nesse povo aí.‖ (13; 299). tocar o pau afora (n/d) F [V + Art. + Ssing. + ADV] Port. Dar prosseguimento a uma ação ou enunciado. ―... tem arruda o hortelã o alecrim a erva cideira a folha de laranja e aí... toca o pau afora... toca o pau afora... e se fosse gripe... tem o suco do algodão do andu.‖ (48; 449). tolimar (n/d) [V] Não prestar atenção; bobear; descuidar. ―Eu dei uma tontura menina... eu cabei de comer... acho que já tava tarde... o olho ficou assim... se eu tolimasse eu caía.‖ (35; 25). tomar rumo (n/d) Loc. verbal [V+Ssing.] Port. Seguir seu caminho; ir embora.. ―... voltou lá em riba da casa... chegava mão na portinha e tomava rumo...‖ (1; 382). topar (A) [V] s.XIII Encontrar, de súbito, alguém ou algo em seu caminho; ver, avistar. ―...―... meu irmão topou com ele aqui... um jegue... topou mais ele ali na ponte...‖ (50; 277). torar (A) [V] Port. Cortar em toras; fazer em pedaços. ―... e foi puxar a / abrir a porta devagarzinho assim... e a bicha num tava... e eu falei: ―_ Eu quero torar ela no meio!‖...‖ (6; 311). torra (n/A) Nm [Ssing.] s.XIX Port. Ser chamado à atenção por algum ato reprovável; censura; repreensão.―_ Ocê tava de juntinho da namorada... ocê tomou torra sujeito!‖ (1; 228). tostão (A) Nm [Ssing.] s.XVI > It. 1. Designação de moeda em geral; dinheiro.. ―... que a gente quando é pobre pra ganhar um tostão arrisca até a vida né?...‖ (33; 269). 2. Moeda antiga equivalente a cem réis. ―É... réis... assim dez réis é um vintém... dez vintém é um cobre... dez... dois cobre é um tostão... dez tostão é um mil réis...‖ (27;52). traçadá (n/d) Nm [Ssing.] Planta de folhas compridas e entrelaçadas que cresce normalmente às margens do rio. ―O Rio Mosquito era... um riozinho estreitinho cheio de traçadá né?...‖ (45; 132). transferir (n/d) [V] s.XVI > Lat. > Port. Possuir, adquirir. ―Meu pai tinha... meu pai transferiu né?... meu pai transferiu três família né?... meu pai transferiu três família...‖ (48; 53). trem (A) Nm [Ssing.] s.XVII > Fr. Diz-se de qualquer objeto ou coisa; negócio. ―... hoje a água nem corre logo... já encheu duas vezes e saiu mas também com dois três dias de sol o trem tá seco de novo...‖ (25; 49). 603 tremendal (n/A) Nm [Ssing.] s.XIV Port. Terreno encharcado em fundo de vales; brejo. ―... na cabeceira dele lá é um tremendal... é um brejo... parece um... é um tremendal... ocê olha assim.... é só pisar e afunda...‖ (23; 433-434). tropa (A) Nf [Ssing.] s.XVII > Fr. Bras. Caravana de animais, geralmente burros ou bestas, usados para o trabalho de carga. ―... tratava uma tropinha só e ia uns dez burro...‖ (1; 326). tropeiro (A) Nm [Ssing.] s.XIX Port. Bras. Condutor de tropas de carga; arrieiro. ―Já andei... e eu já fui até tropeiro.‖ (33; 168). Cf. arrieiro. trucisco (n/d) Nm [Ssing.] s.XIX > Fr. Raiz usada como remédio. ―... aí peguei arrancar o trucisquinho né?... o trucisco é uma raiz que tem nesses mato aí...‖ (42; 362). trupicar (A) [V] s.XIX Port. Dar topada com o pé. O mesmo que tropeçar. ―... a gente saía era trupicando nesse trem... era trupicando aí ó...‖ (6; 56). tucaiadô (n/d) Nm [Ssing.] Port. Pessoa que fica à espera; por ext. fiscal da receita. Variante de tocaiador. ―... e o fiscal tava no pé dele... no tirar daí o fiscal cobrava imposto... se ocê pagava imposto aqui... tinha o tucaiô da / tinha o tucaiadô da estrada... ali na cabeceira do ( )...‖ (21; 42). U uai (A) [Interjeição] Port. Bras. Exprime surpresa, espanto; expressão utilizada no início de uma oração explicativa. ―Uai a gente pegava e tirava aquela casca e colocava uma casquinha...‖ (30; 236). urupuca (A) Nf [Ssing.] Ind. Armadilha para pegar pequenas aves. Variante de arapuca. ―... brinquedo era bodocar... fazer urupuca né?...‖ (39; 108). Cf. arapuca. V vadiação (n/d) Nf [Ssing.] s.XIX Port. Entretenimento de criança; brincadeira; diversão. ―Nós juntava um mucado de menino e é brincando com vadiaçãozinha de... carrinho...‖ (17; 27). vadiar (A) [V] s.XIX Port. Atividade que busca o divertimento, a descontração; brincar; divertir. ―... meu pai num deixava nós vadiar com boneca não...‖ (41; 17). valar (A) [V] s.XII > Lat. > Port. Escorrer através de valas. ―É buraco... onde valava as enxurrada né?...‖ (43; 188). valença (n/A) Nf [Ssing.] Port. Valia; auxílio. ―... a ciganada hoje teve aqui e foi um aperto danado... a valença que eu tinha um amigo meu aqui...‖ (1; 542). vaqueiro (A) Nm [Ssing.] s.XIII Port. Guarda ou condutor de gado. ―... ficava um vaqueiro sozinho naquele trecho pra cuidar daqueles boi...‖ (43; 559). 604 vaquejeiro (n/d) Nm [Ssing.] Port. Local onde se criam vacas; curral. ―... ele tava num vaquejeiro...‖ (30; 109). vau (A) Nm [Ssing.] s.XIII > Lat. > Port. Trecho raso de um rio por onde se pode passar a pé. ―... e o rio cheio direto... num tinha vau... era outro canto mesmo né?...‖ (42; 210). venda (A) Nf [Ssing.] Port. Pequeno estabelecimento comercial onde se vendem artigos variados.―Compra numas venda né?... arroz... feijão na feira... acabou esse negócio de tropeiro.‖ (10; 84). vendeiro (A) Nm [Ssing] s.XIX Port. Proprietário de uma venda, comerciante, taberneiro. ―... na mão dos vendeiro que a gente comprava... cê podia comprar sem dinheiro e depois trabalhava e pagava...‖ (7; 110). vereda (A) Nf [Ssing.] s.XV > Lat. > Port. Planície com vegetação predominante de campo ou cerrado. ―... vem até a vereda... pr‘ocê ver essa vereda vem morrer por exemplo ali naquela beira...‖ (25; 71). vezada (n/A) Nf [Ssing.] Port. Cada uma das vezes que se sucede alguma coisa. ―... quando chegou aquela cavalada tudo de uma vezada e ês perguntou:...‖ (15; 150). viche (n/d) [Interjeição] Port. Exprime espanto; admiração. Corruptela de virgem. ―... viche... tinha vez que ficava uma semana dentro...‖ (36; 88). vintém (n/A) Nm [Ssing] s.XVIPort. Antiga moeda equivalente a 20 réis‘.―É... réis... assim dez réis é um vintém... dez vintém é um cobre... dez... dois cobre é um tostão... dez tostão é um mil réis.‖ (27; 52-57). voz-da-lua (n/d) NCf [Ssing. + Prep. + Ssig.] Port. Certa espécie de ave, de coloração acinzentada, bico bastante longo, muito semelhante ao socó de pau seco. ―Aqui cabou o peixe... aqui cabou o curiango... cabou a voz-da-lua... cabou a joana-de-barro...‖ (27; 153). vultado (n/d) Nm [Ssing] Port. Fantasma; vulto; assombração. ―... aí virou bicho... e ficou na cidade... e o vultado atentando a família...‖ (43; 590). X xavado (n/d) [ADJ] Fechado; denso. ―... eu adquiri essa cota aqui pro riba da casa aqui... era tudo xavado... isso aqui era tudo xavado‖. Entr.:―Só mato.‖ Inf.: É... só mato...‖ (2; 83). Z zabelê (A) Nm [Ssing] s.XIX Ave de caça, bem colorida, de asas pretas com faixas amarelas, peito castanho, barriga amarelada e a cabeça e a parte de trás do pescoço meio avermelhada; jaó. Variante de zabelê (zabelê > izabelê – caso de prótese). ―... tinha muita muita muita caça... muita codorna... perdiz... zabelê... jacu...‖ (26; 98). 605 zuada (A) Nf [Ssing] Ato ou efeito de zoar; soada; zumbido. ―... com pouco eu vi uma zuada assim... eu disse: ―_ Ô mãe escuta pr‘ocê ver.‖‖‖ (8; 379). zuar (n/d) [V] s.XVI Fazer zoada; zunir. (corruptela de soar). ―... aí evinha esse trem zuando lá...‖ (18; 342). zuerão (n/A) Nm [Ssing] Barulho alto e repetitivo; zoada. ―... aqui era roça... aí chegou o eriscope e aquele zuerão... todo mundo correu com medo...‖ (7; 208). 606 CONSIDERAÇÕES FINAIS A ideia de realizar um estudo linguístico-descritivo focalizando a região norte de Minas Gerais, mais especificamente os municípios banhados pelo Rio Pardo, deu-se a partir da constatação da ausência de trabalhos nos centros acadêmicos no que tange aos estudos relacionados à língua portuguesa na região, sobretudo na área dos estudos lexicais. Diante de tal constatação e visando contribuir para uma melhor descrição do português brasileiro, bem como trazer uma visão dos aspectos relacionados à cultura e à mundivivência das pessoas que vivem naquele meio, aceitou-se o presente desafio. Assim, ao iniciar este trabalho, a principal proposta foi analisar o léxico dos habitantes dos municípios banhados pelo Rio Pardo, no norte de Minas Gerais, relacionando os aspectos históricos e culturais subjacentes ao vocabulário utilizado pelas pessoas da região. Tal proposta partiu do pressuposto de que é o léxico a área dos estudos linguísticos que melhor reflete a realidade sócio-histórica e cultural de um povo. Essa assertiva tornou-se evidente ainda na fase inicial desta pesquisa, ou seja, durante as entrevistas já se visualizava a existência de um vocabulário com características próprias, retratando a diversidade linguística e cultural das pessoas que ali viviam, o que pôde ser confirmado durante a etapa de análise do corpus selecionado. A fim de delinear a presente proposta, logo na Introdução, procurou-se mostrar que este trabalho apresenta como proposta um estudo sociolinguístico-cultural, visto que o objetivo principal era relacionar o léxico usado pelos falantes da região à sua história e cultura. Buscou-se, também, apresentar o arcabouço teórico que serviu de sustentação à pesquisa, os aspectos metodológicos utilizados para coleta, seleção e análise do vocabulário, as hipóteses e os objetivos específicos e a estruturação do texto. No capítulo 1, Aspectos Históricos da Região Norte de Minas, procurou-se mostrar como se deu o processo de ocupação da região norte do estado de Minas Gerais, apontando desde as primeiras entradas e bandeiras no século XVI até o processo de colonização e povoamento da região. Além disso, buscou-se ainda apresentar, de maneira bem sucinta, uma história dos nove municípios onde foram feitas as entrevistas, bem como alguns dados socioeconômicos. No Capítulo 2, Cultura, língua e sociedade, o primeiro tópico abordado, na seção 2.1, procurou expor a origem e as duas escolas de pensamento – a francesa e a alemã – acerca do que era concebido como cultura ainda no século XIX. A seguir, foram delineadas 607 outras definições para esse termo a partir da visão de importantes estudiosos como Durkheim, Goodenough, Lévi-Strauss e outros. Somado a isso, foi exposto o ponto de vista de Duranti (2000) sobre o que seja cultura, visão essa adotada como referência para esta pesquisa. Na seção 2.2, Língua e sociedade, primeiramente foram abordados conceitos e definições relacionados à língua e à linguagem, tais como idioleto, falar, dialeto, assim como conceitos subjacentes à variação e à mudança linguística na seção 2.2.1 e a teoria de redes sociais de J. Milroy na seção 2.2.1.1. Na seção 2.2.2, foi apresentada uma breve história acerca dos estudos lexicais, bem como vários conceitos sobre esse tema e, ainda, a teoria dos campos lexicais. Na seção 2.2.3, tratou-se da relação entre léxico e cultura, mostrando seu desenvolvimento desde o século XIX até os estudos de Duranti (2000). Na seção 2.2.4, discorreu-se sobre o conceito de região a partir de áreas da Geografia e Sociologia, bem como da área de Linguística, além de tratar do conceito de regionalismo nos estudos linguísticos. A seguir, foram abordados, na subseção 2.2.5, conceitos e traços linguísticos que caracterizam o português rural e as diferenças fundamentais entre rural e urbano e rural e caipira, terminando por fazer um esboço de como se deu a formação do dialeto rural no Norte de Minas. No capítulo 3, Procedimentos metodológicos, tratou-se dos aspectos práticos da presente pesquisa, com informações de como se constituiu a coleta do corpus, sobre o processo adotado para a transcrição das entrevistas e sobre a constituição do corpus. Apresentaram-se, ainda, nesse capítulo, mais especificamente na seção 3.3.1, a elaboração da ficha lexicográfica e os dicionários que foram utilizados para posterior análise dos vocábulos selecionados. Na última seção desse capítulo procurou-se trazer à luz alguns conceitos, definições e procedimentos relacionados aos aspectos práticos da Lexicografia Moderna, evidenciando as principais dificuldades ao elaborar uma obra lexicográfica, bem como os procedimentos adotados no glossário desta tese. No capítulo 4, Apresentação e descrição dos dados, foram apresentadas, em um CD-ROM anexado ao texto, as transcrições das 53 entrevistas e, no corpo do texto, as 562 fichas relativas aos vocábulos que compõem o corpus, contendo as principais informações que auxiliaram a análise dos dados. No capítulo 5, Análise dos Dados, deu-se o início à análise quantitativa e qualitativa a partir das informações colhidas nas fichas citadas. Assim, nas dez seções que compõem esse capítulo, foram apresentados os seguintes levantamentos: o número de vocábulos dicionarizados e não dicionarizados; o número de lexias presentes em cada dicionário; a classificação gramatical dos vocábulos; a origem das lexias; marcações diatópicas como lusitanismos, brasileirismos e regionalismos; os aspectos diacrônicos dessas 608 lexias a partir das informações presentes nas fichas lexicográficas, sendo que, para tal, foram apresentados os conceitos de arcaísmo e retenção lexical utilizados na análise do corpus selecionado; os aspectos relacionados à variação e à mudança linguística por qual passaram grande parte dos vocábulos selecionados para esta pesquisa; uma abordagem relacionada à teoria das redes sociais de Milroy, teoria essa que explica, em parte, a formação do léxico utilizado pelos falantes da região tratada neste trabalho; um comparativo entre o vocabulário da região pesquisada com o vocabulário de outras regiões do estado de Minas Gerais a partir de trabalhos de outros pesquisadores da UFMG, os quais constam nas fichas lexicográficas, e, finalmente, alguns aspectos morfológicos que mais chamaram a atenção do pesquisador. O capítulo 6, Campos lexicais, foi reservado à análise dos 562 vocábulos que compõem o corpus desta pesquisa a partir da noção de campos lexicais. Para tal, foram constituídos 3 macrocampos – Natureza, Sociedade, Atitudes –, que, por sua vez, foram subdivididos em 18 campos léxicos. No capítulo 7, Glossário, foi apresentado o vocabulário constante das 562 fichas com informações gramaticais, variantes (quando existentes), datações (quando possíveis), marcações diacrônicas, marcações diatópicas, origem das lexias, definições das entradas (segundo a acepção constante nas entrevistas), abonações e sua identificação no corpus. A partir da análise quantitativa e qualitativa dos dados, comprovaram-se as hipóteses iniciais desta pesquisa: a) a existência de casos de retenções linguísticas e de arcaísmos; b) o uso de lexias na fala dos entrevistados como recorrentes na Bahia ou nos estados do Nordeste do Brasil; c) a confirmação de que o léxico pode revelar aspectos históricos, ideológicos, sociais e culturais de um povo; d) a existência de um vocabulário de origem indígena ou africana; e) a existência de um vocabulário próprio do meio rural, comum a outras partes do país. A partir da análise linguística dos dados apresentados e das informações coletadas com informantes dos municípios pesquisados e em fontes históricas, podem-se apresentar as seguintes conclusões: a) a existência de um vocabulário conservador na fala dos entrevistados, com um percentual de quase 8% de casos de retenções linguísticas e arcaísmos, resulta dos seguintes aspectos: i) isolamento dessas pessoas em relação aos grandes centros urbanos, decorrente, em grande parte, de sua condição econômica; ii) analfabetismo ou da baixa escolaridade dos entrevistados; iii) ausência, até há pouco tempo, de energia elétrica na maior parte das localidades da área rural, inviabilizando o acesso à televisão, instrumento esse sabidamente de grande importância para a difusão da língua e da cultura dos grandes centros urbanos; iv) 609 existência de uma ―rede fechada‖ que possibilita a manutenção linguística e uma maior restrição às inovações externas; b) o repertório lexical dos entrevistados contém lexias que são identificadas por alguns dicionaristas como de uso da Bahia ou de outros estados do Nordeste do Brasil. Isso se dá pelo fato de alguns desses municípios fazerem fronteira com o estado da Bahia, havendo um contato linguístico entre seus falantes. Além disso, essa região estava inserida na rota dos tropeiros, ou seja, estava localizada em uma rota econômica que ligava várias cidades norte- mineiras a municípios da Bahia e de Pernambuco. Por essas rotas, transitavam vários mercadores que agiam como ―pontes‖ entre diversas ―redes sociais‖, conforme defende Milroy (1992); c) a existência de um vocabulário de origem indígena e africana no repertório lexical dos entrevistados (somados, responderam por 9,4% das lexias dicionarizadas) pode ser justificado, em hipótese, pela presença do índio e do negro no processo de povoamento da região, o qual pode ter favorecido o uso de tais vocábulos. Ressalta-se que o Norte de Minas abarca o maior número de quilombolas do estado de Minas gerais, conforme apontado na seção 2.2.5.3, somado ao fato de que entre os entrevistados havia pessoas de origem negra descendentes de escravos; d) no léxico dos habitantes da região pesquisada há alguns vocábulos que podem ser considerados regionalismos, dado o fato de não serem dicionarizados nas obras consultadas e refletirem bem os costumes ou coisas da região ou, por outro lado, identificados por alguns dicionaristas como usuais no Norte de Minas; e) embora na seção 2.2.5.1 a problematização do que seja considerado rural ou urbano no que tange à língua haja sido evidenciada, ressalta-se, contudo, que há um vocabulário presente nas entrevistas que é recorrente na linguagem do meio rural, o que é confirmado na obra de Amadeu Amaral, O Dialeto Caipira. Essa ocorrência na região pesquisada permite afirmar que esse tipo de vocabulário não está restrito à região do interior paulista como pensava Amaral no início do século passado, mas, ao contrário, parece ser comum a diversas regiões do país; f) a análise dos casos de mudança, variação e manutenção linguística entre os vocábulos pesquisados, tomando por referência as informações dos dicionários consultados, permitiu verificar que a proposta de Milroy em dar ênfase ao estudo da manutenção linguística, em detrimento da proposta de Labov em focar os estudos na mudança, é, em parte, justificável, pelo menos no campo lexical, visto que, a partir dos dados, constataram-se apenas 11% de 610 casos de mudanças linguísticas ou substituição, frente aos 84% de casos de manutenção entre as lexias dicionarizadas; g) a análise quantitativa revelou um alto índice de lexias não dicionarizadas (30,7%) nos dicionários consultados. Tal fato pode ser explicado pela existência, no vocabulário dos entrevistados, de vários casos de variantes fonológicas, bem como pelo uso de lexias constantes no léxico português que foram utilizadas, contudo, com outras acepções. O uso de vocábulos que parecem ser de uso específico da região também contribuiu para essa não dicionarização; h) a análise das lexias por classe gramatical também permite concluir que os vocábulos que desempenham as funções de nomes e verbos são, sem dúvida, aqueles mais produtivos, representando 79,7% dos casos. São essas duas categorias gramaticais que mais deixaram transparecer os costumes e tradições da região pesquisada; i) o estudo linguístico com ênfase na relação entre léxico e cultura, proposto por Duranti, permite descobrir padrões interativos que revelam visões de mundo e formas de relação entre os indivíduos. Conclui-se, a partir deste estudo, que a cultura deve ser vista não apenas como o conjunto das produções artísticas e intelectuais de um povo, mas como um somatório de valores, permitindo revelar pensamentos e costumes daqueles que a utilizam; j) o estudo do léxico, a partir da noção de campos lexicais, permite uma melhor visualização da relação que as palavras mantêm entre si. A análise assim feita reforça a ideia de que a palavra não pode ser vista de forma isolada, mas apenas diante de outras que fazem parte do mesmo campo. O estudo a partir da noção de campos se mostrou como uma importante ferramenta para a análise das lexias, pois permitiu uma análise mais homogênea e organizada de um vocabulário que, à primeira vista, mostrava-se bastante difuso; k) a análise do léxico da região pesquisada confirmou a existência de um conjunto de elementos que caracterizam a região como parte de uma área cultural comum a outras regiões do Nordeste. Tal constatação pode ser justificada, por um lado, pelas características geofísicas da região que são uma extensão do sertão baiano e, por outro lado, pelo fato de essa região e grande parte do Norte de Minas terem pertencido à Capitania da Bahia até meados do século XVIII. Essa ligação histórica da região com a Bahia por mais de 200 anos, aliada ao distanciamento político e econômico da capital mineira em relação ao Norte de Minas, contribui para um sentimento de pertencimento de parte daquele povo ao estado baiano, pelo menos no que tange à costumes e tradições; l) a ênfase nos estudos linguísticos à modalidade oral, pressuposto da Sociolinguística e também da teoria apresentada por J. Milroy (Cf. seção 2.2.1.1), revela uma maior presença 611 das variedades mais distantes da norma dita ―padrão‖. Como visto, essa opção permitiu que se revelassem os casos de retenções lexicais apresentados, bem como a existência de variantes para as lexias reconhecidas como ―padrão‖ na língua portuguesa. Ao finalizar esta pesquisa, espera-se que a proposta inicial tenha sido cumprida, ou seja, descrever o léxico da região da Bacia do Rio Pardo associado à cultura de seus habitantes. Sabemos que não esgotamos o assunto e muito ainda pode ser feito a fim de se conhecer, por completo, a variedade linguística da região como um todo. 612 REFERÊNCIAS ABBADE, Celina Márcia de Souza. A lexicologia e a teoria dos campos lexicais. In: XV CONGRESSO NACIONAL DE LINGUÍSTICA E FILOLOGIA. CNLF, 2011, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: CNLF, VOL. Xv, nº 5, p.132-1343. ABRAMOVAY, R. O Futuro das Regiões Rurais. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2003. ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial & Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil. 5.ed. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1963. ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial e os caminhos antigos e o povoamento do Brasil. Brasília: Ed. Unoversidade de Brasília, 1982. ÁGUAS VERMELHAS. In: WIKIPÉDIA. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/ %C3%81guas_Vermelhas. Acesso em: 25 jul. 2007. ALKIMIM, Tânia Maria. Sociolinguística. Parte I. In: MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Org.). Introdução à linguística: domínios e fronteiras. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2000. p. 21-47. ALMEIDA, Joyce Elaine de. Da origem de alguns fenômenos linguísticos peculiares ao falar rural. Signum: Estudos da linguagem, Londrina, v.9, nº 2, p.45-55, dez. 2006. AMARAL, Amadeu. O Dialeto Caipira. 3.ed. São Paulo: Hucitec, 1976 [1920] . ANTUNES, Carolina. Dicionário do dialeto rural no Vale do Jequitinhonha – Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. APM – ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO. Belo Horizonte. Planta Geográfica do Continente que corre da Bahia de Todos os Santos até a Capitania do Espírito Santo e da Costa do mar até o rio São Francisco. Coleção de documentos cartográficos. Mapa 5/1 – Env. 2. [17..] . BALDINGER, Kurt. Teoria Semantica: hacia uma semantica moderna. Madrid: Alcala, 1970. BARBOSA, Maria Aparecida. Dicionário, vocabulário, glossário: concepções. In: ALVES, Ieda Maria (Org.). A constituição da normalização terminológica no Brasil. 2.ed. São Paulo: FFLCH/USP/Humanitas, 2001. 58 p. BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Promoção da Família Editora, 1968. BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: [s.n.] , 1995. 613 BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37ª Ed. rev. ampl. e atual. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira; Lucerna, 2009. BIAZZO, Pedro Paulo. Campo e Rural, Cidade e Urbano: Distinções necessárias para uma perspectiva crítica em geografia agrária. In: ENCONTRO NACIONAL DE GRUPOS DE PESQUISA – ENGRUP, 4., 2008, São Paulo. Anais... São Paulo: ENGRUP, 2008. p.132-150. BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. A estrutura mental do léxico. In: Estudos de Filologia. São Paulo: T. A. Queiroz/EDUSP, 1981. p.131-145. BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. As ciências do léxico. In: ISQUERDO, Aparecida Negri; ALVES, Ieda Maria (Org.). As ciências do léxico: Lexicologia, Lexicografia, Terminologia. Campo Grande (MS): Ed. UFMS, 1998a. p.11-20. BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. O dicionário como norma da sociedade. CARVALHO, N. M.; SILVA, M. E. B. (Orgs.). Lexicologia, Lexicografia e Terminologia: Questões conexas. Anais do 1] Encontro Nacional do GT de lexicologia, lexicografia e terminologia da ANPOLL. Rio de Janeiro: UFRJ/UFPE/CNPq: 1998b, p.161-180. BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. Os dicionários na contemporaneidade: arquitetura, métodos e técnicas. In: OLIVEIRA, A. M. P. P.; ISQUERDO, A. N. (Org.). As ciências do léxico: Lexicologia, Lexicografia, Terminologia. Campo Grande-MS: Ed. UFMS, 2001a. p.129-142. BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. Teoria linguística: linguística quantitativa e computacional. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978. BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. Teoria Linguística: teoria lexical e linguística computacional. São Paulo: Martins Fontes, 2001b. BLUTEAU, Padre Raphael. Vocabulario Portuguez e Latino. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712-1728. BOAS, Franz. The Mind of Primitive Man. New York: The MacMillan Company, 1911. BORBA, Francisco da Silva. Introdução aos estudos linguísticos. 3.ed. rev. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972. BORTONI-RICARDO, S. M. A língua Portuguesa no Brasil. In: ______. Nós cheguemo na escola, e agora? Sociolinguística e educação. São Paulo: Parábola, 2005. p.175-180. BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em Língua Materna: A Sociolinguística na Sala de Aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. 614 CAMACHO, Roberto Gomes. Sociolinguística Parte II. In: MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Org.). Introdução à linguística: domínios e fronteiras. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2000. p.49-75. CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Dicionário de filologia e gramática referente à língua portuguesa. 4.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: J. Ozon Editor, 1970. CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. História da Linguística. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1979. CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Introdução às Línguas Indígenas Brasileiras. Rio de Janeiro: Museu Nacional, 1965. CAMPOS, Helena Guimarães; FARIA, Ricardo de Moura. História de Minas Gerais. Belo Horizonte: Lê, 2005. CARNEIRO, Maria José. Ruralidade na sociedade contemporânea: uma reflexão teórico- metodológica. In: El mundo rural: transformaciones e perspectivas à La luz de La nueva ruralidade. Bogotá: Pontifícia Universidad Javeriana, out. 2003. 16p. (mimeo). CARNEIRO, Maria José. Ruralidade: novas identidades em construção. Estudos Sociedade e Agricultura. Rio de Janeiro, n.11, p.53-75, out.1998. CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares Africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Topbooks, 2001. CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares Africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro. 2.ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005. CHAMBERS, J. K. Sociolinguistic Theory. Linguistic variation and its social significance. Cambridge: Blackwell, 1995. CHERNOVIZ, Pedro Luiz Napoleão. Formulário e guia médico. 18.ed. Paris: Livraria de R. Roger e F. Chernoviz, 1908. COELHO, Maria do Socorro Vieira. Os Gurutubanos: língua, história e cultura. 2010. 439f. Tese (Doutorado em Linguística e Língua Portuguesa) – PUC/MG, Belo Horizonte, 2010. COHEN, Maria Antonieta Amarante de Mendonça et alii. Contato linguístico na România: o judeu espanhol. Revista Caligrama, Belo Horizonte, v.14, p.51-63, dez. 2009. COHEN, Maria Antonieta Amarante de Mendonça et alii. Filologia Bandeirante. Filologia e Linguística Portuguesa, São Paulo, Humanitas Publicações – FFLCH/USP, n.1, p.79-94, 1997. 615 COHEN, Maria Antonieta Amarante de Mendonça; RAMOS, Jânia M. (Org.). Dialeto mineiro e outras falas: estudos de variação e mudança linguística. Belo Horizonte: Faculdade de Letras/UFMG, 2002. CORDEIRO, Maryelle Joelma. Estudo linguístico no Vale do Jequitinhonha: o léxico de Minas Novas. 2013. 291f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Faculdade de Letras, UFMG, Belo Horizonte, 2013. COSERIU, Eugenio. Teoria Del Languaje y Lingüística General. Madrid: Gredos, 1962. COSERIU, Eugenio. Princípios de Semántica Estructural. Madrid: Gredos, 1977. COSTA, João Batista de Almeida. Cultura, natureza e populações tradicionais: o Norte de Minas como síntese da nação brasileira. Revista Verde Grande, Montes Claros, v.1, n.3, p.8- 45, fev. 2006. COSTA, João Batista de Almeida. Mineiros e baianeiros: englobamento, exclusão e resistência. 2003. 335f. Tese (Doutorado em Antropologia) – Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Brasília, Brasília, 2003. CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. CUNHA, Celso. Gramática do Português Contemporâneo. 8.ed. rev. Rio de Janeiro: Padrão Livraria Editora, 1980. CUNHA, Celso. Língua Portuguesa e Realidade Brasileira. 6.ed. atual. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976. CUNHA, Luiz Alexandre Gonçalves. Sobre o conceito de região. Revista de História Regional, Ponta Grossa, v.3, n.2, p.39-54, 1998. DICIONÁRIO Priberan da Língua Portuguesa. Lisboa: 2008-2014. Disponível em http://www.priberan.pt/dlpo/dicionario. Acesso em: 30 jun. 2013. DIÉGUES JUNIOR, Manuel. Regiões culturais do Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, 1960. DUBOIS, Jean et al. Dicionário de linguística. São Paulo: Cultrix, 1993. DURANTI, Alessandro. Antropologia Linguística. Trad. espanhola: Pedro Tena. Madrid: Cambridge University Press, 2000. ESQUIVEL, Francisco Manuel Carriscondo. La lexicografia em las variedades no-estándar. Jaén: Universidade de Jaén, 2001. 616 FARACO, Carlos Alberto. Linguística Histórica. São Paulo: Ática, 1998. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda; FERREIRA, Marina Baird; ANJOS, Margarida dos. Aurélio Séc. XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3.ed. totalm. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. FREIRE, Laudelino. Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa. 3.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957. FREITAS, Cassiane Josefina de. Café com quebra-torto: um estudo léxico-cultural da Serra do Cipó/MG. 2012. 302f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Faculdade de Letras, UFMG, Belo Horizonte, 2012. GECKELER, Horst. Semántica Estrutural y Teoria del Campo Léxico. Madrid: Editorial Gredos, 1976. GEERTZ, Clifford. A transição para a humanidade. In: Panorama da Antropologia. Sol Tax (Org.). Rio de Janeiro: Fundo de CULTURA, 1966. GOODENOUGH, Ward H. Cultural Anthropology and Linguistics. Washington: Bobbs- Merrill, 1957. GREGÓRIO, Irmão José. Contribuição Indígena ao Brasil. Belo Horizonte: União Brasileira de Educação e Ensino, 1980. v.1. GUÉRIOS, Rosário Farâni Mansur. Tudo o que você gostaria de saber e não lhe contaram. Dicionário Etimológico. São Paulo: Editora Petrus, 2004, 315p. GUIRAUD, Pierre. A Semântica. Trad. e adaptação de Maria Elisa Mascarenhas. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972. GUY, Gregory R. 1989. International Perspectives on Linguistics Diversity and Language Rights. Language Problems & Language Planning, v.13, nº1, 1989, p.45-53. GUY, Gregory R. Linguistic Variation in Brasilian Portuguese: aspects of phonology, syntax, and language history. Philadelphia: Universaty of Pennsylvannia, 1981. HERNÁNDEZ, H. Los diccionarios de orientación escolar: contribución al estúdio da la lexicografia monolingue española. Tübingen: Max Niemeyer Verlag, 1989. HOLLANDA, S. B. de. As Monções. In: Curso de bandeirologia: Conferências. Departamento Estadual, 1946. HOUAISS, A; VILLAR, M. de S.; FRANCO, M. de M. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 617 HUBER, Joseph. Gramática do Português Antigo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1986. HYMES, Dell. Language in culture and society. A Reader in Linguistics and Antropology. New York: Harper and Row, 1964. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Informações sobre os municípios brasileiros. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/xtras/home.php. Acesso em: 05 de nov. 2010. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Mapa de divisões territoriais. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/mapas_ibge/mapasinterativos. Acesso em: 29 mai. 2012. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Município de Águas Vermelhas. 2005. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/defaut.php. Acesso em: 07 set. 2006. ISQUERDO, Aparecida Negri. A propósito de dicionários de Regionalismos do português do Brasil. In: ISQUERDO, Aparecida Negri; ALVES, Ieda Maria (Org.). As ciências do léxico: Lexicologia, Lexicografia, Terminologia. Campo grande (MS): Ed. UFMS, 2007. p.193-208. v.3. KRIEGER, Maria da Graça. Lexicografia: o léxico no dicionário. In: SEABRA, M. C. T. C. de (Org.). O Léxico em Estudo. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2006. p.157- 171. LABOV, William. Building on empirical foundations. In: LEHMANN, W. P.; MALKIEL, Yakov. (Ed.) Perspectives on historical linguistics. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins, 1982. p.17-92. LABOV, William. Sociolinguistic Patterns. Philadelphia: Pennsylvania University Press, Oxford, Blackwell, 1972. LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986. LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1976. LUCCHESI, Dante. A questão da formação do português popular do Brasil: notícia de um estudo de caso. A Cor das Letras, Feira de Santana, Bahia, UEFS, n.3, p.73-100, 1999. LUCCHESI, Dante. As duas grandes vertentes da história sociolinguística do Brasil. D.E.L.T.A., São Paulo, n.17, v.1, p.97-130, 2001. LUCCHESI, Dante. O conceito de transmissão linguística irregular e o processo de formação do português do Brasil. In: RONCARATI, Claudia; ABRAÇADO, Jussara (Org.). Português 618 brasileiro: contato linguístico, heterogeneidade e história. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003. p.272-84. LUSITANISMO. In: CALDAS AULETE. Dicionário on-line de Língua Portuguesa. Disponível em http://www.aulete.uol.com.br. Acesso em: 30 jun. 2013. MARTINS, Sebastião. Caminhos de Minas. São Paulo: Editoração Publicações e Comunicações, 1992. MARTINS, Nilce Sant‘Anna. O léxico de Guimarães Rosa. São Paulo: Edusp, 2001. MATORÉ, George. La méthode em lexicologie. Domaine Française. Paris: Didier, 1953. MATTOS e SILVA, Rosa Virgínia. Reconfigurações socioculturais e linguísticas no Portugal de quinhentos em comparação com o período arcaico. In: MATTOS e SILVA, Rosa Virgínia; MACHADO FILHO, Américo Venâncio Lopes (Org.). O Português Quinhentista: Estudos Linguísticos. Salvador: EDUFBA; Feira de Santana: UEFS, 2002. p.33-47. MELO, Gladstone Chaves de. A Língua do Brasil. 3.ed. melh. e aum. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1975. MENDONÇA, Renato. A origem africana no português do Brasil. 2.ed. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1935. MICRORREGIÃO DE SALINAS. In: WIKIPÉDIA. Disponível em http://pt.wikipedia.org/ wiki/Microrregi%C3%A3o_de_salinas. Acesso em: 16 jan. 2014. MILROY, James. Linguistic Variation and Change. On the historical sociolinguistics of English. GB: Basil Blackwell, 1992. MIRANDA, Avay. Taiobeiras: seus fatos históricos. Brasília: Thesaurus, 1997. v.1. MIRANDA, Wanderley Martins Ribeiro de. O estudo da fraseologia do léxico rural de Sabinópolis – MG. 2013. 263f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Faculdade de Letras, UFMG, Belo Horizonte, 2013. MOREIRA, Roberto José. Configurações de Poderes Urbano-Rurais: fragmentos de discursos e práticas. In: ENCONTRO NACIONAL DE GEOGRAFIA AGRÁRIA, 18., 2006, Rio de Janeiro. Mesas-Redondas... Rio de Janeiro: UERJ, 2006. p.1-23. MOREIRA, Roberto José. Ruralidades e globalizações: ensaiando uma interpretação. Cadernos CPDA – Ruralidades, Rio de Janeiro, CPDA/ UFRRJ, n.1. nov.2002. 38p. MOUNIN, George. História de la Linguística: desde los orígenes al siglo XX. Madrid: Gredos, 1968. 619 MURUKAWA, Clotilde de Almeida Azevedo. António de Morais Silva: lexicógrafo da língua portuguesa. Araraquara: Cultura Acadêmica, 2006. NARDI, Jean Baptiste. Cultura identidade e língua nacional no Brasil: uma utopia? Revista Caderno de Estudos da FUNESA, Arapiraca, n.1, 2002. NARO, Anthony Julius; SCHERRE, Maria Marta Pereira. Sobre as origens do português popular do Brasil. Delta, Rio de Janeiro, v.9, p.437-454, 1993. NIKLAS-SALMINEN, Aino. La Lexicologie. Paris: Armand Colin, 1997. NORTE DE MINAS. In: WIKIPÉDIA. Disponível http://pt.wikipedia.org/wiki/Norte_de_ Minas. Acesso em 25 jul. 2007. OLIVEIRA, Ana Maria Pinto Pires de. O Português do Brasil: Brasileirismos e Regionalismos. 1999. 486f. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Ciências e Letras da UNESP/Araraquara – Araraquara, 1999. PORTUGALIAE Monumentae Histórica – Códice 79, vol. 1, fol. 28. Disponível em: http://www.irib.org.br/portugaliae/pmhv.asp. Acesso em: 12 mar. 2008. RAIMUNDO, Jacques. O Elemento Afro-negro no Português. Rio de Janeiro: Renascença, 1933. RIBEIRO, Gisele Aparecida. O vocabulário rural de Passos/MG: um estudo linguístico nos Sertões do Jacuhy. 2010. 256f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Faculdade de Letras, UFMG, Belo Horizonte, 2010. ROBINS, R. H. Pequena História da Linguística. Tradução de Luiz L Monteiro de Barros. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1983. ROCHA, Luiz Carlos de Assis. Estruturas Morfológicas do Português. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999. RUA, João. Urbanidades e novas ruralidades no estado do Rio de Janeiro: algumas considerações teóricas. In: MARAFON, Glaucio José; RIBEIRO, Marta Foeppel (Org.). Estudos de Geografia Fluminense. Rio de Janeiro: UERJ/CTC-IGEO – Depto. de Geografia, 2002. p.27-42. RUA, João. Urbanização rural ou novas ruralidades? In: ENCONTRO NACIONAL DE GEOGRAFIA AGRÁRIA, 15., 2000, Goiânia. Comunicações... Goiânia: UFG, 2000. p.418- 420. SANTOS, Milton. A Urbanização Brasileira. São Paulo: Hucitec, 1994. SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado. São Paulo: Hucitec, 1988. 620 SANTOS, Tânia Ferreira Rezende. Falares Rurais Brasileiros. Revista da UFG, Goiânia, v.7, n.1, jun. 2004. Disponível em http://www.proec.ufg.br. Acesso em: 10 out. 2011. SAPIR, Edward. Language: An Introduction to the Study of Speech. New York: Harcourt, Brace, 1921. SAPIR, Edward. Linguística como ciência. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1969. SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. 9.ed. São Paulo: Cultrix, 1970. SEABRA, Maria Cândida Trindade Costa de. A formação e a fixação da língua portuguesa em Minas Gerais: a toponímia da região do Carmo. 2004. 368f. Tese (Doutorado em Linguística) – UFMG, Belo Horizonte, 2004. SILVA NETO, Serafim da. Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1963. SILVA, António de Moraes. Diccionario da Lingua Portugueza. 2.ed. Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813. SOROKIN, P.; ZIMMERMAN, C. C.; GALPIN, C. J. A Sistematic source book in rural sociology. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1930. SOUZA, Vander Lúcio de. Caminho do boi, caminho do homem: o léxico de Águas Vermelhas – Norte de Minas. 2008. 248f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Faculdade de Letras, UFMG, Belo Horizonte, 2008. VASCONCELOS, Diogo de. História Antiga de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. 2v. VASCONCELOS, Diogo de. História Média de Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Official de Minas, 1918. VASCONCELOS, Salomão de. Bandeirismo. Belo Horizonte: Biblioteca Mineira de Cultura, 1944. VERDELHO, Telmo. Dicionários portugueses, breve história. In: NUNES, José Horta; PETER, Margarida (Org.). História do saber lexical e constituição de um léxico brasileiro. São Paulo: Humanitas/FFLCH, 2002. p.15-64. VILELA, Mário. Estruturas léxicas do português. Coimbra: Livraria Almedina, 1979. WANDERLEY, Maria de Nazareth B. A Ruralidade no Brasil Moderno – por um pacto social pelo desenvolvimento rural. In: El mundo rural: transformaciones y perspectivas à la luz de la nueva ruralidade. Bogotá: Pontifícia Universidad Javeriana, out. 2003. p.31-44. 621 WEEDWOOD, Bárbara. História concisa da Linguística. Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Parábola Editorial, 2002. ZÁGARI, M. R. L.; RIBEIRO, J.; PASSINI, J.; GAIO, A. Esboço de um Atlas Linguístico de Minas Gerais – v.1. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977, 244p. ZÁGARI, Mário Roberto L. Os falares mineiros: esboço de um Atlas Linguístico de Minas Gerais. In: AGUILERA, Vanderci de Andrade (Org.). A Geolinguística no Brasil: caminhos e perspectivas. Londrina: UEL, 1998. p.31-54. ZEMELLA, Mafalda P. O abastecimento da Capitania de Minas Gerais no século XVIII. 2.ed. São Paulo: Hucitec/Ed. Universidade de São Paulo, 1990.