1 Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – FAFICH Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social – PPGCOM CAROLINA SOUZA MACEDO “Tudo sobre a Ditadura Militar” e, sobretudo, a ditadura militar: memória e esquecimento no jornal Folha de S. Paulo Belo Horizonte 2018 2 CAROLINA SOUZA MACEDO “Tudo sobre a Ditadura Militar” e, sobretudo, a ditadura militar: memória e esquecimento no jornal Folha de S. Paulo Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Comunicação Social. Orientador: prof. Dr. Elton Antunes Área de concentração: Comunicação e Sociabilidade Contemporânea Linha de Pesquisa: Textualidades Midiáticas Belo Horizonte 2018 3 301.16 M141t 2018 Macedo, Carolina Souza "Tudo sobre a ditadura militar" e, sobretudo, a ditadura militar [manuscrito]: memória e esquecimento no jornal Folha de S. Paulo / Carolina Souza Macedo. - 2018. 175 f.: il. Orientador: Elton Antunes. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Inclui bibliografia 1.Comunicação – Teses.2. Comunicação de massa - Teses 3. Folha de S. Paulo (Jornal) - Teses.4. Brasil – História- 1964-1985 - Teses. I. Antunes, Elton. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título. 4 À memória daqueles que lutaram contra os arrestos da liberdade e dos direitos fundamentais, e das insurgências, em suas mais diferentes formas. 5 Agradecimentos Agradeço, em primeiro lugar, ao meu orientador, Professor Elton Antunes, pela acolhida tão generosa desde os primeiros passos no Programa. Pela maneira excepcional com que conduziu as reuniões de trabalho, pela paciência e, especialmente, por ter me mostrado que o encontro com a pesquisa pode ser menos assustador e mais bonito que eu imaginava. Este trabalho seria imensamente mais pobre sem o rigor e o suporte dele, sem as ideias, as conversas e a compreensão das minhas inquietações. Obrigada por ter acreditado, antes mesmo de mim, que seria possível realizá-lo. Que fique registrada minha gratidão, meu profundo respeito e admiração. Agradeço ao Pedro (mein Schatz), por me encorajar a escrever um projeto de mestrado, pelo incentivo e pelas cobranças, pelos livros e cafés nas longas jornadas noite/madrugada/manhã(s) adentro, pela escuta diária e por todo o amor – sempre mais, nunca menos. Não poderia imaginar esta caminhada ao lado de outro alguém. Agradeço à minha família: mãe, pai, Gui e tia Caquê, por testemunharem minha vida e pelo amor irrestrito; Erika, Cristina e Claudio, por torcerem tanto por mim e serem um porto seguro. Agradeço especialmente: Aos professores, coordenadores, funcionários e colegas do PPGCOM, pela excelência do programa e por proporcionarem as condições para uma boa realização deste trabalho. Às secretárias Elaine e Tatiane, pelo apoio, muitas vezes, para além do institucional. Aos meus supervisores nos estágios docentes, Professores Bruno Leal e Fernanda Maurício, por me despertarem um outro sentido sobre o magistério e fazerem crescer minha admiração pelo ofício. Ao Professor Bruno Martins, pelos apontamentos no projeto definitivo e pelas valiosas contribuições. 6 Aos professores e colegas dos grupos de pesquisa Tramas Comunicacionais: Narrativa e Experiência e Historicidades das Formas Comunicacionais (ex-press), obrigada por me ensinarem e me permitirem aprender junto. Aos Professores Paulo Bernardo e Fernanda Sanglard, que aceitaram gentilmente fazer parte da minha banca de qualificação, pela leitura rigorosa e extremamente generosa do trabalho, cujas observações e sugestões foram imprescindíveis para o encaminhamento desta dissertação; à Professora Vanessa Veiga por ter aceitado o convite para a banca de defesa – me sinto honrada por poder contar com a excelência, o olhar e a presença de vocês três. Agradeço aos colegas discentes não apenas pela partilha de aprendizados, mas também das inquietações. Obrigada, sobretudo, pela escuta, pelas palavras de afeto e mãos estendidas, fundamentais em tantos momentos. Em especial, a Minny, Afonso e Thê: foi um grande presente dividir com vocês a dor e a delícia do mestrado. À Capes, por conceder a bolsa que me permitiu estudar e pesquisar, e à UFMG, pela experiência enriquecedora nestes dez anos de convívio, que são grande parte da minha formação e do que sou. Agradeço também à equipe da exposição Desconstrução do Esquecimento: Golpe, Anistia e Justiça de Transição, pelo aprendizado e, de modo especial, às coordenadoras Professora Leda Martins e Silvana Coser, pela imensa dedicação e coragem. Por fim, agradeço a: Vivi, Nico, Jolie, Nina, Carolita, Jules, Flávia, Ruth, Mari, Nina T., Simone, Ju, Raquel, Fefê, Sosti, Pedro Pedro, Dimitri, Conrado, Davis, Bruno, Theo, Rogerio, Nelson, Gibran e Patrick – minha rede de afeto e proteção, especialmente nestes últimos dois anos. Obrigada pela torcida e por se fazerem presentes, cada um a seu modo, mesmo diante das minhas ausências. Agradeço, ainda, a Chica e Bèla, por todo o ronronar e por estarem ao meu lado (por vezes, no colo) em todos os dias da escrita, sempre tão solitária. 7 Resumo Esta dissertação lança um olhar para o gesto do jornal Folha de S. Paulo de narrar, cinco décadas depois, o golpe de 1964 e os vinte e um anos de ditadura. Por meio das chaves de leitura Análise de Conteúdo e Análise Semiótica, combinadas, realizamos uma investigação sobre as textualidades que emergem especialmente de seu caderno “Tudo sobre a Ditadura Militar”, publicado em 23 de março de 2014. A partir dessa leitura e à luz de conceitos como “memória impedida”, “lembrança encobridora” e “abuso de esquecimento”, tais como abordados por Paul Ricoeur em sua obra A memória, a história, o esquecimento, consideramos as interações entre passado e presente, sempre dinâmicas e sujeitas aos dilemas da reminiscência, para refletirmos sobre um possível desejo da FSP em consolidar uma certa memória coletiva – sobre o período e sobre si mesma. E, ainda, como nessa narração, ela fala sobre determinado passado, mas, em alguma medida, também caracteriza uma atualidade e uma projeção de futuro. Palavras-chave: Folha de S. Paulo, textualidades, memória, esquecimento, ditadura. 8 Abstract: This thesis seeks to analyze the gesture of Folha de S. Paulo newspaper to narrate, five decades later, the 1964’s coup and twenty-one years of Brazilian military dictatorship. Through the reading keys of Content Analysis and Semiotic Analysis, combined, we investigated the textualities that emerge especially from the issue "Everything about the Military Dictatorship", published on March 23rd, 2014. From this reading and in the light of concepts such as “disabled memory”, “screen memory” and “abuse of forgetting”, as discussed by Paul Ricoeur’s Memory, History, Oblivion, we consider the interactions between past and present, always dynamic and subject to the dilemmas of reminiscence, to reflect on FSP’s possible desire to consolidate a collective memory – about the period and itself. And yet, how in this narration the newspaper talks about a certain past, but, to some extent, it also characterizes a present and a projection of the future. Keywords: Folha de S. Paulo, textualities, memory, oblivion, dictatorship. 9 LISTA DE FIGURAS, TABELAS, QUADROS E ANEXOS Figura 1: Marca de "Tudo sobre a Ditadura Militar” .............................................. 30 Figura 2: Primeira página de 23/03/14 .................................................................... 31 Figura 3: Coluna do Primeiro Caderno (pág. A14) de 23/03/14 ............................. 32 Figura 4: Parte superior da primeira página – 23/03/14 .......................................... 35 Figura 5: Fotografia no rodapé da primeira página de 23/03/14 ............................. 50 Figura 6: Repercussão reportagem multimídia e ciclo de debates – 24/03/14 ........ 51 Figura 7: Detalhes – primeiras páginas – edições de 26/03/14 e 1°/04/14 .............. 52 Figura 8: Charge Angeli – pág. A2 – edição 31/03/14 ............................................ 57 Figura 9: Diagrama do Simbólico Triádico ............................................................. 61 Figura 10: Caderno TSDM – pág. 2 e 3 ................................................................... 64 Figura 11: Fotos pré-golpe, caderno TSDM – pág. 2 e 3 ......................................... 66 Figura 12: Fotos pós-golpe, caderno TSDM – pág. 2 e 3 ........................................ 67 Figura 13: Caderno TSDM – pág. 4 e 5 ................................................................... 69 Figura 14: Caderno TSDM – pág. 6 e 7 ................................................................... 70 Figura 15: “A ditadura ano a ano” em fotos – Caderno TSDM – pág. 2 a 7 ........... 75 Figura 16: Capa e contracapa – Caderno TSDM – pág. 1 e 8 .................................. 76 Figura 17: Mosaico de fotos do Caderno TSDM ..................................................... 84 Figura 18: Marchas da Família com Deus pela Liberdade....................................... 86 Figura 19: Votação da Lei da Anistia, Câmara dos Deputados ............................... 87 Figura 20: Fotografias com a presença de mulheres ............................................... 87 Figura 21: Morro da Mangueira, anos 1960 ............................................................ 96 Figura 22: Estádio do Maracanã, 1968 .................................................................... 96 Figura 23: Indicadores econômicos e sociais ......................................................... 100 Figura 24: PM e operários em greve, fábrica da Volkswagen, 1979 .................... 101 Figura 25: Ficha da VW sobre conduta de operários em greve ............................ 102 Figura 26: “Acerto de contas” – pág. 6 – Caderno TSDM ................................... 106 Figura 27: Primeira página em detalhe – edição 23/03/14 ................................... 106 Figura 28: Charge do cartunista Bennet – edição 28/03/14 ................................. 124 Figura 29: Jornal Unidade (1975) e FSP de 07/01/18 ......................................... 137 10 LISTA DE QUADROS Quadro 1: Cadernos e seções da Folha de S. Paulo – versão 2014 .......................... 24 Quadro 2: Conteúdo TSDM – edições de 23/03 a 01/04/14 ...................................... 39 Quadro 3: “A ditadura ano a ano” – Caderno TSDM – pág. 2 a 7 ............................ 71 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Cadernos e páginas das edições de 23/03 a 1º/04/14 ................................ 25 Tabela 2: Demais cadernos/suplementos e páginas das ed. de 23/03 a 01/04/14 ..... 26 Tabela 3: Volume de páginas das edições de 23/03 a 01/04/14 ................................ 27 Tabela 4: Anúncios e conteúdo próprio do Primeiro Caderno – edições de 23/03 a 1º/04/14 ...................................................................................................................... 28 ANEXOS Figura 30: Primeira página da edição de 23/03/14 ................................................... 168 Figura 31: Primeira página da edição de 24/03/14 ................................................... 169 Figura 32: Primeira página da edição de 25/03/14 ................................................... 170 Figura 33: Primeira página da edição de 26/03/14 ................................................... 171 Figura 34: Primeira página da edição de 27/03/14 ................................................... 172 Figura 35: Primeira página da edição de 28/03/14 ................................................... 173 Figura 36: Primeira página da edição de 29/03/14 ................................................... 174 Figura 37: Primeira página da edição de 30/03/14 ................................................... 175 Figura 38: Primeira página da edição de 31/03/14 ................................................... 176 Figura 39: Primeira página da edição de 01/04/14 ................................................... 177 Figura 40: Primeiro Caderno, página A4 da edição de 01/04/14 ............................. 178 Figura 41: Série “40 anos do golpe” – Primeira página de 13/03/04 ....................... 179 Figura 42: Série “40 anos do golpe” – pág. A8 e A9 – 13/03/04 ............................. 180 Figura 43: Série “40 anos do golpe” – Primeira página de 31/03/04 ....................... 181 Figura 44: Série “40 anos do golpe” – pág. A8, A9 e A10 de 31/03/04 .................. 182 11 O contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que toda luz, dirige-se direta e singularmente a ele. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém do seu tempo. (Giorgio Agamben – O que é o contemporâneo?) O abismo não nos divide. O abismo nos circunda. (Wisława Szymborska – Autonomia) 12 SUMÁRIO Introdução ............................................................................................................................13 Capítulo 1 – TUDO SOBRE A DITADURA MILITAR ..................................................21 1.1 “A Folha já chegou?” ...............................................................................................21 1.2 O esqueleto do jornal ...............................................................................................23 1.3 Um jornal de nome ...................................................................................................30 Capítulo 2 – QUANDO APENAS TUDO SE COMEMORA ..........................................39 2.1 Os esqueletos do jornal ............................................................................................41 2.2 A ditadura de todo dia .............................................................................................52 2.3 O caderno comemorativo ........................................................................................58 Capítulo 3 – O QUE SE APRESENTA NO CADERNO .................................................64 3.1 O que vemos, o que nos vê .......................................................................................81 3.1.1 Visualidade ........................................................................................................81 3.1.2 Mirada ...............................................................................................................90 3.1.3 Imagem ............................................................................................................102 Capítulo 4 – MEMÓRIA E JORNALISMO ...................................................................108 4.1 Memória coletiva/social .........................................................................................108 4.2 Memória e esquecimento .......................................................................................113 4.3 Memória no jornalismo .........................................................................................121 Capítulo 5 – RELENDO O JORNAL ..............................................................................126 5.1 Quando se narra .....................................................................................................126 5.1.1 Opacidade .......................................................................................................130 5.2 A ditadura no futuro ..............................................................................................132 5.2.1 Folhas escritas e lidas ...........................................................................................135 5.2.2 Dicção, prosódia e circulação ..............................................................................137 5.3 “O jornal do futuro” ..............................................................................................140 5.3.1 Futuro do passado ................................................................................................143 Considerações finais – FSP, ENTRE LEMBRAR E ESQUECER ...............................155 Referências Bibliográficas ................................................................................................161 Anexos: ...............................................................................................................................168 13 Introdução 2014 foi o ano em que comemoramos1 o cinquentenário do golpe militar de 1964. Uma comemoração no sentido que Paul Ricoeur (2007) dá ao termo, em sua obra A memória, a história, o esquecimento, ou seja, rememorar de forma coletiva um acontecimento passado, buscando na reapropriação deste acontecimento um novo regime de historicidade, projetando-o em direção ao futuro. Naquele ano, alguns veículos da imprensa brasileira, de diferentes matizes editoriais, além de estrangeiros como o argentino La Nación, o estadunidense The Washington Post e o britânico BBC News, dedicaram ao assunto algumas de suas páginas impressas e online, espaços de rádio e TV. Destaca-se o trabalho da Folha de S. Paulo, o “maior jornal brasileiro2”. Sediado na capital paulista, ele se apresenta como uma publicação de referência, com abrangência nacional e liderança em tiragem e circulação – de acordo com o mesmo, uma posição consolidada “durante a campanha pela redemocratização do país, em 1984, quando empunhou a bandeira das eleições diretas para presidente3”. Majoritariamente, tanto os media nacionais quanto os internacionais veicularam em 31 de março daquele ano conteúdos sob o eixo temático golpe e ditadura militar. É de notório conhecimento que este é o dia em que, em 1964, tropas comandadas pelo general Olympio Mourão Filho partiram de Juiz de Fora, em Minas Gerais, rumo à cidade do Rio de Janeiro, dando início ao golpe que, com o respaldo de lideranças conservadoras (empresariado, políticos, religiosos e empresas de comunicação) e de parte da população, depôs o presidente João Goulart. Curiosamente, diferentemente dos demais jornais, a Folha de S. Paulo (FSP) escolheu descolar-se da data, publicando em 23 de março – mais de uma semana antes – um caderno especial que nomeou “Tudo sobre a Ditadura Militar” (TSDM). Ao todo, “Tudo” ocupou oito páginas impressas, com conteúdo composto por nove blocos de textos verbovisuais – oito deles assinados, por jornalistas fixos ou convidados. Entre os temas abordados, motivações para o golpe, estruturas de repressão 1 O autor estabelece uma distinção entre rememoração e comemoração. O primeiro parte de um processo de elaboração individual e o segundo é um trabalho de construção de uma memória coletiva. 2 Circulação total (digital – via desktop e aparelhos móveis – e impressa), em novembro de 2017: 292.331 edições. Acesso em 26/01/18 http://www1.folha.uol.com.br/institucional/circulacao.shtml. 3 Acesso em 07/09/16 http://www1.folha.uol.com.br/institucional/circulacao.shtml. 14 e combate à luta armada, bom desempenho da economia, caminhos à redemocratização, resistências no campo cultural, comportamento de órgãos da imprensa escrita, além de um espaço destinado à ficção, com possíveis respostas a perguntas sobre “como teria sido o país sem o golpe de 1964 nem episódios-chave da ditadura militar”. A compor a cena, outras unidades redacionais distintas, como infográficos, retrancas, ilustrações e fotografias. Na página 3, o jornal informa que o “texto desta página é uma versão condensada do primeiro capítulo de uma reportagem especial sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar que vai ao ar hoje no site da Folha”. A mencionada reportagem especial, apresentada em formato multimídia4, contempla também “infográficos, vídeos, galeria e depoimentos”. Além do caderno, a rememoração do golpe e da ditadura encontrou espaço em algumas matérias e entrevistas, artigos de opinião, cartas do leitor, HQ para crianças (Folhinha), charges e um editorial (publicado no dia 30 de março). Entretanto, somente alguns textos apresentaram a marca “Tudo sobre a Ditadura Militar”. Junto com o caderno homônimo, eles conformaram uma espécie de série TSDM. Para nosso corpus de pesquisa, elegemos dez edições do jornal impresso, a saber: a de 23 de março, quando o caderno especial foi publicado, e as demais subsequentes até 1º de abril, data marcada pelo desvelamento do golpe à luz do dia, cinco décadas antes. Apesar de lançarmos um olhar para as diversas textualidades que mobilizaram o tema golpe e ditadura no período mencionado, focamos nossa análise essencialmente no caderno especial. Ainda que panorâmica, uma primeira mirada sobre esse conjunto de materiais nos suscitou indagar sobre a escolha dos episódios que marcam a construção narrativa do golpe e dos vinte e um anos de ditadura militar que a própria FSP faz. A saber, um jornal que se autointitula o mais influente do Brasil5 e considerado por publicações especializadas6 como de referência, onde, portanto, “supostamente residiria o todo, o único visível e verdadeiro” (GOES, 2017, p. 22). Ancorados em seu caderno especial TSDM, buscamos investigar o que ‘tudo’ contempla e, essencialmente, o que emerge dessa construção da memória, a começar pelo que nos pode apontar a própria escolha de 4 Acesso em 06/04/2017 folha.com/golpe64 5 Acesso em 08/05/2016 http://www1.folha.uol.com.br/institucional/conheca_o_grupo.shtml 6 Os livros História da Folha de S. Paulo (1921-1981), de Carlos Guilherme e Maria Helena Capelato, publicado em 1981, e Mil Dias – os bastidores da revolução em um grande jornal, de Carlos Eduardo Lins e Silva, publicado em 1988, são exemplos. 15 publicá-lo no dia 23 de março. Considerando que jornais possuem falas interessadas e produzem visibilizações que impactam a experiência social do mundo, logo no início da pesquisa nos perguntamos também o que nessa construção da memória a FSP não apenas torna visível, mas também invisível? Lançar um olhar sobre esse duplo movimento de conservação e apagamento foi inicialmente motivado pelo desejo de aferir se se trata de uma “justa memória” (RICOEUR, 2007), inserida nas complexas relações que entrelaçam história, memória e justiça. Ainda que, em sua obra A memória, a história, o esquecimento, o autor proponha uma reflexão sobre o papel dos historiadores nesta equação – que incluiria contemplar uma “dívida” em relação às vítimas da história sem abandonar o “dever de fidelidade e as exigências da verdade histórica” –, o pensamento de Ricoeur nos oferece uma possível aproximação com o ofício jornalístico, especialmente em momentos de comemorações de datas importantes. Entretanto, durante o percurso no mestrado, pudemos levantar questões sobre a própria pretensão documental do caderno comemorativo da FSP, e seu desejo totalizante e de construir uma narrativa histórica oficial tomando o passado sob o ângulo do imutável, do acabado, do findo. Em outras palavras, não o tomar como uma espécie de abrigo para a memória, mas compreendê-lo como um terreno de construção e disputa por memória. Esse procedimento de “desestabilizar” o jornal foi embasado a partir de autores como Bruno Souza Leal, Carlos Alberto de Carvalho, Elton Antunes e Gonzalo Abril, que oferecem valiosas contribuições ao articularem conceitos como texto em ação, narrativa, regimes de visibilidade e temporalidades para pensar o jornalismo. A partir desses estudos, pudemos então tratar o texto jornalístico em sua dimensão verbovisual e investigar o jornal em suas materialidades. Diante dessas reflexões, enfrentamos o desafio metodológico percorrendo dois caminhos que, combinados, puderam potencializar nosso alcance analítico: Análise de Conteúdo (AC) e Análise Semiótica (AS). Recorremos à Análise de Conteúdo como um instrumento para uma observação inicial, permitindo mapear elementos – argumentação, léxicos, procedimentos discursivos e diversidade formal (legendas, títulos, fotografias, infográficos, textos, charges) –, mas sem aplacar a “instabilidade” constitutiva dos conteúdos apresentados no jornal. Como nos apontam Bruno Leal, Elton Antunes e Paulo B. Vaz (2012), a AC encontra limitações, ao “analisar algo tão instável como um significado”. Eles nos lembram que o conteúdo não é propriedade de 16 um texto, “constituindo-se em sua interação com o receptor, em um processo que envolve tanto uma dimensão performativa privada, particular, como outra, social, contextual e histórica” (ANTUNES, LEAL, VAZ, 2012, p. 384). AS foi acionada para funcionar de maneira complementar à AC, buscando identificar os silêncios, as comunicações não verbais e o próprio sentido que emerge quando um texto convoca o leitor à experiência. Para compreender esses gestos textuais, recorremos à abordagem de Gonzalo Abril (2007, 2012) de texto verbovisual, concebido como algo que não está dado, mas que emerge ao articular relações, sentidos, referencialidades, ao evocar um passado e projetar um futuro. Abril aponta que há regimes de visão (visualidades) a produzir/modular nossa experiência e que, portanto, ver significa ler o texto sob determinada condição. Para analisarmos com as fotografias, recorremos a uma aproximação metodológica com a utilizada no artigo Quem é quem nessa história? Iconografia do livro didático (VAZ, MENDONÇA, ALMEIDA, 2002). Assim como os autores mencionados, recortamos e agrupamos as fotografias do caderno, montando-as em um grande mosaico, não apenas para facilitar a análise, mas, especialmente, para avigorar o que se vê e o que não se vê. Realizamos também um gesto de compreensão do jornal possivelmente não esperado. Para analisar as dez edições, um percurso teórico-metodológico mais óbvio certamente seria apresentar o caderno TSDM (publicado no dia 23 de março) antes da emergência do golpe e da ditadura nas edições seguintes. Em outras palavras, apresentar a ditadura no jornal – em sua face “comemorativa” (RICOEUR, 2007) – antes do jornal na ditadura. Entretanto, compreendemos que, ao mobilizar uma inversão, ela nos permitiria explicitar relações de sentido entre a própria história da FSP e seu gesto de apagar e revelar o golpe de 1964 e a ditadura militar, à luz de conceitos pensados por Ricoeur, como memória-esquecimento, “memória impedida”, “lembrança encobridora” e “abuso de esquecimento”. Como hipótese de trabalho, consideramos o gesto de lembrar-esquecer da FSP como uma narrativa palimpséstica que deseja consolidar uma certa memória coletiva – sobre o período 1964-1985 e sobre si mesma. Para tal, iniciamos o primeiro capítulo localizando o olhar do pesquisador. Apresentamos como o jornal se organiza (entre cadernos e fascículos) e como, dentro dessa estrutura, as textualidades sobre o golpe e a ditadura estiveram distribuídas nas dez edições analisadas. Acionamos, ainda, definições como nome-de-jornal e enunciado 17 de referência (MOUILLAUD, 2012) para apontar possíveis articulações de sentido quando a FSP apresenta a série TSDM pela primeira vez, seja ao estabelecer as fronteiras de sua rememoração oficial, seja pela promessa do ‘tudo’. Buscando perceber a emergência do golpe e da ditadura na “comemoração”, assim como no jornal de todo dia, iniciamos no segundo capítulo a Análise de Conteúdo. Por meio da abordagem de regimes de visão de Gonzalo Abril, já nesse capítulo apontamos algumas escolhas e articulações da FSP ao organizar os acontecimentos, mirando reconhecer seu gesto de exibir e de apagar – seja pelos silêncios (plenos de sentidos) ou pela repetição de uma determinada voz. No capítulo seguinte, descrevemos o que se apresenta no caderno TSDM – temas, episódios, personagens, léxico, entre outros –, aquilo que vemos e o que nos olha. Na instância da visualidade, buscamos perceber como determinados elementos verbovisuais configuram o regime de visibilização para o invisível de outras experiências. Na instância da mirada, procuramos compreender atos de intencionalidade característicos da publicação, como o apagamento da experiência e o apagamento da agência/responsabilidades. Na terceira instância – a da imagem –, arriscamos dizer de um certo imaginário compartilhado sobre o golpe e a ditadura, imaginário de um passado estável, findo e sem lastro que o conecta aos dias de hoje. No penúltimo capítulo, acionamos a noção de memória coletiva de Ricoeur, localizando-a como parte de uma longa tradição de estudos sobre a memória. Sua perspectiva nos oferece uma interessante chave de leitura ao enfocar a memória como uma prática social e ao compreender o esquecimento não como falha ou lacuna, mas como condição constitutiva. Para pensar sobre esse par, convocamos também o autor Andreas Huyssen, especialmente por algumas de suas reflexões sobre a atenção dispensada ao esquecimento. Segundo ele, enquanto o excesso da memória é tratado como um “excesso de coisa boa”, o esquecimento “continua suspenso como uma nuvem de suspeita moral, como uma falha evitável, uma regressão indesejável e uma negligência crítica” (HUYSSEN, 2014, p. 157). Dialogamos também com a noção de memória social, problematizada por autores como Jô Gondar e Nilson Moraes. Por essa lente, ela se constitui como poder e um campo de disputas; “toda memória social é política” (MORAES, 2008, p. 94). Seguindo os estudos sobre memória, ainda nesse capítulo nos debruçamos sobre o jornalismo enquanto instância mediadora. Ana Paula Goulart Ribeiro, Barbie Zelizer e 18 Susana Kaiser foram algumas das autoras escolhidas por suas contribuições em estudos que articulam relações sobre a memória no jornalismo. E, aqui, deparamo-nos com uma discussão da memória invertida, uma prática jornalística de focar o presente ao comemorar um passado compartilhado, um “dispositivo narratológico em que a temporalidade funciona em sentido contrário” (NEIGER, ZANDBERG, MEYERS, 2011, p.114). Os autores supracitados tipificam os usos do passado como fontes para a narrativa jornalística das seguintes formas: 1) passado como currículo; 2) como ponto de referência; 3) como o principal foco da cobertura. Sobre esse último, a presença mais evidente do passado ocorre quando a cobertura foca propositadamente em uma comemoração, também chamado de “jornalismo de aniversário” (KITCH, 2002). Neste tipo de cobertura, “o passado assume o primeiro plano, ao passo que o presente e o futuro assombram incessantemente enquanto contextos interpretativos ao fundo” (NEIGER, ZANDBERG, MEYERS, 2011, p.117). Entretanto, em alguns casos o “presente de eventos passados” – a saber, novos detalhes ou desdobramentos – torna-se o principal interesse da narrativa, enquanto detalhes sobre essas ocorrências passadas são deixados de lado, ou mesmo em segundo plano. Temos aí uma entrada para pensar a cobertura da FSP no cinquentenário do golpe, ano que coincidiu com as eleições presidenciais (entre os candidatos, uma mulher que, quando jovem, lutou pela derrubada da ditadura, foi presa e torturada por agentes do Estado), os trabalhos das Comissões (nacional, estaduais e municipais) da Verdade e das Clínicas do Testemunho estavam em andamento, entre outros. Como esse “presente de eventos passados” emergiu na narrativa tecida pela FSP? Ao mesmo tempo, que passado (e como ele) ganhou presença mais evidente neste jornalismo de aniversário? No último capítulo, buscamos problematizar a imagem criada pelo próprio jornal, enquanto “o mais influente” e de “referência”. De que maneira essa narrativa sobre si mesmo permite legitimar a narrativa de ‘tudo’ sobre a ditadura? Que vínculos políticos a história da FSP deixa transparecer e que podem lançar luz sobre sua própria atuação durante o regime de exceção? Bernardo Kucinski (2002) nos lembra que, no período militar, houve uma “autocensura sistêmica” na imprensa brasileira, com grande grau de adesão e identificação dos proprietários dos jornais com os objetivos da repressão. Como essa tensão entre cooptação e resistência é apresentada quando a FSP se olha no espelho rememorando 1964 e a ditadura militar? Para iluminar essa reflexão fizemos uma breve deriva por uma bibliografia (KUCINSKI, 2002; KUSHNIR, 2001; 19 MAIA, 2002; SILVA, 2011, DIAS, 2014) que trata sobre a atuação do jornal no contexto do AI-5. Ao fim, esta pesquisa se localizou em uma triangulação entre as textualidades da FSP, a ditadura militar brasileira (1964-1985) e o duplo movimento entre lembrar e esquecer. Consideramos as interações entre passado e presente, sempre dinâmicas e sujeitas aos dilemas da reminiscência, para refletirmos sobre um possível desejo da FSP em consolidar uma certa memória coletiva sobre o período e sobre si mesma. E, ainda, como no caso da narração sobre a experiência da ditadura a FSP fala sobre determinado passado, mas, em alguma medida, também caracteriza uma atualidade e uma projeção sobre o futuro. Afinal, como nos afirma Carvalho: Narrar, como lembram diversos estudiosos, como Paul Ricoeur (1994), é articular a armação de uma intriga à temporalidade. Consequentemente, pensando nas narrativas jornalísticas, trata-se, por exemplo, em uma notícia sobre um acontecimento político, de situá-lo no presente, a partir de interconexões com o passado, com outros acontecimentos que o antecederam ou que ajudam a compreendê-lo, a também fazer projeções sobre o futuro – tais como eventuais desdobramentos possíveis. (CARVALHO, 2014, p. 126) Um dos nossos desejos com esta pesquisa foi somar trabalhos voltados a jornalismo e memória. Se por um lado já existe uma compreensão do lugar da mídia enquanto instância de ressignificação da memória, autoras como Barbie Zelizer advogam por um maior reconhecimento e ampliação destes estudos. Segundo ela, apesar de o jornalismo ter ocupado um “pano de fundo da memória em diferentes períodos do pensamento, desempenhando o papel de sombra, ora como facilitador e pré- condição para discussões mais generalizadas sobre a atividade mnemônica” (ZELIZER, 2011, p. 46), quase nenhum desses lugares foi nomeado como tal. Acreditamos que conceder ao jornalismo maior centralidade nos estudos sobre a memória pode contribuir para uma maior compreensão sobre o próprio funcionamento da memória coletiva e do fazer jornalístico. Para além disso, investigar as lembranças e os esquecimentos sobre a nossa mais recente ditadura militar (período sobre qual repousam perguntas ainda sem respostas) pode permitir expor redes de cumplicidades e múltiplos níveis de responsabilidade e, assim, examinar também outras dimensões da sociedade. Como nos lembra Kaiser, em seu texto Argentinian Tortures on Trial? How Are Journalists Covering the Hearings’ Memory Work?: 20 Trinta mil pessoas não desaparecem porque um grupo de oficiais militares assume o poder. Ao detalhar o funcionamento do terror de Estado, jornalistas ativistas, como testemunhas profissionais, amplificaram o que se desenrolava nos interrogatórios, constantemente convidando a memória a contextualizar novas informações e contra- negativas com fatos comprovados. Essas reescritas da história expõem as redes de cumplicidades e os múltiplos níveis de responsabilidade, focando a atenção em atores além daqueles sendo julgados. Ao fazer isso, eles também investigam a sociedade, revelando verdades que são inconvenientes para muitos. (KAISER, 2014 pág. 255, tradução nossa)7 De forma análoga, poderíamos dizer que um regime – que suspendeu direitos fundamentais e praticou a violência de Estado ao adotar a seletividade de seus alvos, o uso sistemático da tortura como prática de obtenção de informações, entre outros – não se sustenta durante vinte e um anos porque um grupo de oficiais militares tomou posse. 7 Thirty thousand people don’t disappear because a group of military officers take over. By detailing the functioning of state terrorism, activist journalists, as professional witnesses, amplify what unfolds at the hearings, constantly inviting memory to contextualize new information and counter denials with proven facts. These rewrites of history expose the networks of complicities and multiple levels of responsibility, focusing attention on actors beyond those standing trial. In doing so, they also scrutinize society, revealing inconvenient truths for many. 21 Capítulo 1 – TUDO SOBRE A DITADURA MILITAR 1.1 “A Folha já chegou?” “Interpretar um jornal é tentar resolver os problemas que nos colocamos a seu respeito”, nos diz José Luiz Braga (2012, p. 299); um gesto que, em alguma medida, localiza o olhar do pesquisador. Se admitimos aqui uma escolha subjetiva – porém, não menos válida –, desejamos também explicitar um olhar orientado a partir de uma antiga familiaridade com a Folha de S. Paulo. A assinatura do jornal, um presente de aniversário no final dos anos 1990, fez cotidiana a sua presença, possibilitando uma intimidade com seu projeto gráfico, cadernos e articulistas. Entretanto, a preferência pelo jornal – durante quase duas décadas – certamente deveu-se mais a uma proximidade de percepções de mundo e afinidades ideológicas. Afinal, como observa Vera França (1998), a leitura do jornal é fundamentada “em múltiplas identificações” (FRANÇA, 1998, p.132), ou, nas palavras de Bruno Souza Leal (2002), “o leitor reconhece o veículo jornalístico em meio à diversidade dos outros disponíveis no mercado e se identifica social, ideologicamente com ele” (LEAL, 2002, p. 2). Como iniciante nos estudos em Comunicação Social na UFMG, ainda creditávamos o discurso do “sujeito-folha” (OLIVEIRA, 2015), forjado nas imagens “de tradição, de mediadora autorizada (por ela mesma), de agente de denúncia, de protetora dos interesses dos cidadãos e de lugar da verdade” (OLIVEIRA, 2015, p. 15). Entre os colegas discentes era inclusive comum a adoção de seu Manual de Redação como um balizador do fazer jornalístico. Ao longo dessa experiência universitária, outras formas de ler o periódico puderam entrar no horizonte, desestabilizando a ‘dupla identificação’. Restava ainda, porém, a crença na (suposta) iconoclastia e jovialidade de espírito do jornal, graças a seu discurso laudatório de defensor das Diretas Já8, como veremos ao longo deste trabalho. Vale notar que, anos depois, ao celebrar seus 91 anos em 2018, a FSP segue ainda destacando tal narrativa sobre si, incluindo um grifo ao ‘pioneirismo’ (“antes mesmo que esse movimento tomasse as ruas”). Declara, no texto “Fundada em 1921, Folha sustenta fiscalização crítica dos poderes”9, que: 8 Movimento de massa (sem precedentes) em que milhões de pessoas foram às ruas do país em 1984 pedir a volta das eleições diretas para presidente e o fim do regime militar. 9 Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/02/fundada-em-1921-folha-sustenta- fiscalizacao-critica-dos-poderes.shtml Acesso em 19/02/18. 22 Sensível aos prenúncios de abertura política, a Folha, por iniciativa de Frias, franqueou suas páginas a articulistas de todos os matizes ideológicos a partir de meados da década de 1970, ainda em plena ditadura militar. Criou em 1976 a seção Tendências/Debates, atraindo intelectuais, e passou a reportar violações de direitos humanos. (...). Passou a apoiar a convocação de uma assembleia constituinte e o restabelecimento das eleições diretas para a Presidência da República, antes mesmo que esse movimento tomasse as ruas. A Folha tornou-se conhecida como "o jornal das diretas", e a campanha a consolidou como uma das principais forças formadoras da opinião pública no período. Goes (2017) vê essa defesa das eleições diretas como um dos elementos responsáveis pelo ganho de força e influência do jornal, tanto política quanto econômica, “inclusive junto a certa intelectualidade do país, reforçando seu status de jornal de referência, buscando apagar toda a sua cumplicidade com a ditadura” (GOES, 2017, p. 108). Ele afirma ainda que: O jornal, ao tempo em que reformulava os controles na redação, também fazia campanhas de autorreferencialidade como o “jornal da abertura democrática”, “imparcial”, “apartidário” (KUCINSKI, 1998). Na prática, a Folha mantinha a retórica de “profissionalismo” e de “independência”, ao mesmo passo que se movia por grandes interesses econômicos e políticos do mercado nacional e internacional. (GOES, 2017, p. 108) A nossa percepção sobre essa retórica tornou-se ainda mais crítica no contexto das comemorações do jornal sobre o cinquentenário do golpe de 1964, quando o debate sobre o tema ditadura militar (1964-1985) foi atualizado à luz dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade10. Dois anos depois, nossa pesquisa (já no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG) convergiu com a atuação como Assessora Especial e pesquisadora de textos e imagens para a exposição Desconstrução do Esquecimento: Golpe, Anistia e Justiça de Transição11. Nosso gesto de leitura do jornal já havia se transformado, ainda que mantido o contato com o periódico. Esta pequena deriva, feita até aqui, é motivada pelo pensamento de Ângela Marques e Luís Martino no artigo “Afetividade do conhecimento na epistemologia: a subjetividade das escolhas na pesquisa em Comunicação”. Os autores nos propõem 10 Ver sobre Comissão Nacional da Verdade a partir da página 42. 11 A exposição Desconstrução do Esquecimento: Golpe, Anistia e Justiça de Transição permaneceu aberta no Centro Cultural UFMG entre 28 de junho a 31 de julho de 2017, tendo sua exibição prorrogada por um mês, a pedido do público. Foi uma realização da Diretoria de Ação Cultural da UFMG, em parceria com o Memorial da Anistia, Comissão da Anistia e Ministério da Justiça e Segurança Pública. Apesar de solicitada e já financiada pelo Ministério da Justiça do governo da presidenta Dilma Rousseff, no momento de sua abertura, a exposição não contou com a anuência do governo que ocupou o poder em 2016. 23 pensar que a operação relacional posta em marcha pela pesquisa em Comunicação “deve acolher a alteridade”, “permitindo-nos fazer parte dos mundos que elas (operação e pesquisa) deixam entrever” (MARQUES, MARTINO, 2017, p. 17). Desejamos, assim, revelar nosso impulso para a pesquisa, sem escamotear a existência de possíveis motivações e inquietações subjetivas. Como eles nos dizem: Esse envolvimento afetivo é um dos elementos responsáveis por instigar a vontade de saber, a disposição em aprender e, efetivamente, a rever suas próprias disposições interiores a respeito não só do objeto e da prática de pesquisa, mas, muitas vezes, também como visão de mundo – daí a experiência da pesquisa ter um potencial transformador em quem pesquisa, deslocando-a de certezas estabelecidas para dúvidas provisórias (MARQUES, MARTINO, 2017, p. 7). Se a experiência longeva com a FSP nos inquietou a pensar sobre os diferentes gestos de leitura ao longo dos anos, ela também nos oferece algumas pistas para pesquisar o movimento do próprio jornal de lembrar e esquecer a ditadura militar quando a comemora. A familiaridade/intimidade com os cadernos e elementos gráficos pode permitir enxergá-los como rastros no jornal, uma porta de entrada para seguir as “pegadas” deixadas no percurso de narrar o golpe e ditadura. 1.2 O esqueleto do jornal A forma como o jornal impresso se estrutura relaciona-se não apenas com o enquadramento de notícias, mas também orienta modos de leitura. Como nos aponta Antunes (2007): Distribuídas em domínios temáticos ou pela natureza da informação publicada, o material jornalístico no jornal impresso encontra-se enfeixado em grandes unidades, os cadernos e editorias. São invariantes que organizam o jornal na sua aparição diária e na sua projeção semanal. Sua articulação tem como base um projeto gráfico que organiza a distribuição de informações e oferece uma unidade visual ao conjunto. O formato da publicação e a maneira como constrói a estrutura de base da página por meio de um diagrama organizado em colunas produzem os elementos para assegurar tal unidade, pois determinam um modo de leitura e permitem a percepção simultânea e não sucessiva das unidades de informação. (ANTUNES, 2007, p. 159-160) 24 No caso da FSP, em 201412 ela se organizava em cinco cadernos temáticos de circulação diária: Primeiro Caderno (política e assuntos internacionais), Mercado (conjuntura econômica nacional e internacional), Cotidiano (cidades, segurança pública e direito do consumidor), Esporte (notícias afins) e Ilustrada (cultura e entretenimento). Sua encadernação segue a ordem crescente das letras de A a E. Cada um deles dividia- se nas seguintes seções: Além dos diários, circulavam os seguintes cadernos semanais e suplementos. Às segundas-feiras, Tec (sobre tecnologia); às terças-feiras, Equilíbrio (sobre saúde); às quartas-feiras, Comida (sobre gastronomia, bares e restaurantes); às quintas-feiras, Turismo (sobre o setor, incluindo roteiros de viagem); aos sábados, Folhinha (voltada 12 Em 2015, a editoria de economia deixou de ser um caderno isolado, sendo incorporada ao Primeiro Caderno. ‘Comida’ também deixou de ser um caderno e tornou-se um suplemento, incorporado nas páginas da Ilustrada, entre outras mudanças. Acesso em 18/10/16. Disponível em http://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2015/04/28/folha-anuncia-mudanca-em-cadernos.html Cadernos Paginação Seções Descrição Primeiro Caderno A Opinião Editoriais, articulistas fixos e convidados, Tendências/Debates Painel do Leitor, Erramos A Poder Cobertura de política nacional, imprensa, ombudsman A Mundo Cobertura internacional Mercado B Mercado Conjuntura econômica nacional e internacional Cotidiano C Cotidiano Cidades, saúde pública, segurança pública e direito do consumidor C Ciência + Saúde Temas das áreas científica e médica, saúde e bem-estar C Folha Corrida Resumos de notícias daquela edição e extratos de colunistas Esporte D Esporte Competições esportivas e notícias afins envolvendo o tema Ilustrada E Ilustrada Artes plásticas, música, literatura, cinema e televisão, entre outros Quadro 1: Cadernos e seções da Folha de S. Paulo, versão 2014 | Fonte: Elaborado pelo autor 25 ao público infantil); aos domingos, Ilustríssima (notícias e artigos sobre ficção, poesia, dramaturgia, ensaios, cartum e quadrinhos) e Veículos, Empregos e Carreira, Negócios, Imóveis e seus respectivos classificados. Em dias não fixos, circulava The New York Times International Weekly, com artigos traduzidos para o português, publicados no jornal estadunidense. Aos finais de semana e de circulação restrita ao perímetro paulista, as revistas Serafina (quinzenal13, cobre personalidades e assuntos do cenário sociocultural no Brasil e no exterior), Revista SP (semanal14, com “o melhor de SP”), e o Guia Folha (roteiro semanal de entretenimento, lazer e gastronomia, distribuído na Grande São Paulo). De periodicidade intermitente, há ainda os conteúdos pagos, como o caderno Balanço SP (balanço orçamentário da empresa Unimed). Em função de um número maior de cadernos e suplementos, a FSP circula edições mais robustas aos domingos15 que nos demais dias, padrão mantido no período de 23 de março a 1º de abril de 2014. Entretanto, quando desmembramos cadernos/suplementos e contabilizamos suas respectivas páginas, alguns pontos nos chamam a atenção. Legenda TSDM: Tudo sobre a Ditadura Militar 13 Atualmente, circulação é bimestral. 14 Atualmente, apenas no formato digital http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/. 15 À exceção de feriados, quando o jornal apresenta edições mais enxutas em números de páginas. Edições 1º Cad. Mercado Cotidiano Esporte Ilustrada TSDM Outros Dom 23/03 24 16 12 8 10 8 36 Seg 24/03 18 12 8 6 10 6 Ter 25/03 14 16 8 3 12 7 Qua 26/03 16 6 10 3 10 5 Qui 27/03 18 16 10 4 14 34 Sex 28/03 22 12 12 3 12 19 Sáb 29/03 28 8 8 3 20 57 Dom 30/03 24 12 12 6 12 64 Seg 31/03 12 11 8 4 8 13 Ter 1º/04 12 8 12 8 10 26 Tabela 1: Cadernos e páginas das edições de 23/03/14 a 1º/04/14 | Fonte: Elaborado pelo autor 26 No período analisado, o Primeiro Caderno é o que circula com um número maior de páginas (por vezes, o triplo que os demais) e, aos finais de semana, cresceu também em volume absoluto. Vale lembrar que ele abre a FSP e abriga os espaços mais nobres para anunciantes, sendo, portanto, o que representa a maior receita para o jornal. Abaixo, vemos os demais cadernos e suplementos publicados no período analisado, assim como o volume total de cada edição. Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom Seg Ter 23/03 24/03 25/03 26/03 27/03 28/03 29/03 30/03 31/03 1º/04 Tec 6 6 NYT 6 6 Equilíbrio 1 1 Comida 6 Turismo 10 Folhinha 8 Ilustríssima 8 8 Poder 2 8 Mercado 2 8 Cotidiano 2 6 Mundo 2 8 Mercado mpme 6 1 Seminários Folha+Saúde 14 VECNI 22 8 12 40 Cadernos pagos16 16 20 20 Guia do IR 6 Legenda VECNI: Veículos, Empregos e Carreira, Negócios e Imóveis e respectivos classificados 16 Nestes dias, circularam cadernos pagos como ‘Informe Publicitário’ (especial sobre Mercado Imobiliário) e ‘Balanço SP’ (balanço orçamentário da empresa Unimed). Tabela 2: Demais cadernos/suplementos e páginas das edições de 23/03/14 a 1º/04/14 | Fonte: Elaborado pelo autor 27 Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom Seg Ter 23/03 24/03 25/03 26/03 27/03 28/03 29/03 30/03 31/03 1º/04 114 60 60 50 96 80 132 130 56 76 Como visto na Tabela 3, a FSP circulou com edições mais robustas nos três dias de finais de semana. A saber: a de sábado, dia 29, a maior delas, com 132 páginas; em segundo a de domingo, dia 30, com 130 páginas; seguido da de domingo, dia 23, com 114. As três menores foram a de quarta-feira, dia 26, com 50 páginas; seguido da de segunda, dia 31 – data do cinquentenário do golpe de 1964 –, com 56 páginas; e empatadas a de segunda, dia 24, e a de terça, dia 25, ambas com 60 páginas. Desta contagem, excluímos Guia da Folha, Revista SP, Serafina e Folha 10, revistas com serviços e matérias sobre cultura, formatadas em tamanho distinto17 e encartadas avulsamente. Durante este mapeamento, localizamos a série TDSM circunscrita exclusivamente ao Primeiro Caderno, e as demais matérias e artigos de opinião afins também nele concentrados. Para além dele, a rememoração do golpe e ditadura encontrou menções no caderno Ilustrada18, geralmente sobre exibição e resenha de filmes sobre a temática. Nessa breve aferição quantitativa, confirmamos que as mencionadas edições de fim de semana encorparam, algo que a própria circulação rotineira do jornal já nos apontava. Entretanto, ao excluirmos os anúncios, nos perguntamos: o conteúdo produzido pelo jornal também cresceu? Para esta medição, adotamos como exemplo os 17 A Folha de S. Paulo segue o padrão Standard Americano e suas páginas medem 545 X 316 milímetros. A elas chamamos de ‘ordinárias’, cujo formato difere-se das de cadernos avulsos, como Guia Folha, aqui não contabilizadas. 18 “O eterno retorno” (E1, 24/03 – matéria sobre festival de filmes documentários Tudo É Verdade, mas, ao citar de Cabra marcado para morrer, texto menciona que sua produção foi interrompida em 1964 ditadura militar); “Tortura na tela” (E1 e E4, 27/03); “Obra tenta retratar a militante de esquerda Iara a partir de depoimentos, mas fracassa” (27;03); “Maratona lembra 50 anos do golpe de 64” (E3, 29/03); “Em recital, pianista americana lembra golpe de 64” (E5, 30/03); “Roda Viva inicia programação sobre o golpe de 64” (E6, 31/03) “Filme conta como os EUA ajudaram a derrubar o governo João Goulart” (E6, 31/03). Disponível em www.uol.com.br/fsp | Acervo Folha. Acesso em 22/05/16. Tabela 3: Volume de páginas das edições de 23/03/14 a 1º/04/14 | Fonte: Elaborado pelo autor 28 Primeiros Cadernos, já que esses concentraram os anúncios das edições pesquisadas. Tabela 4: Anúncios e conteúdo próprio no Primeiro Caderno – edições de 23/03/14 a 1º/04/14 |Fonte: Elaborado pelo autor Apesar de as edições de 23 de março a 1º de abril daquele ano terem circulado com tamanhos bastante distintos (da menor à maior, houve variação de 264%), podemos notar que o número de páginas com conteúdo produzido pelo jornal não alterou substancialmente. Quando decidimos iniciar a pesquisa, o descolamento da data comemorativa foi um dos primeiros pontos que nos chamou a atenção. Afinal, que movimento a FSP faz ao localizar “Tudo sobre a Ditadura Militar” no domingo de 23 de março? A rememoração antecipada seria um gesto de valorização do tema ao, supostamente, oferecer-lhe mais espaço em uma edição de final de semana, costumeiramente maior? Quando a comparamos à produção jornalística semanal, notamos que o acréscimo de páginas não redundou em mais conteúdo editorial, e sim em mais anúncios (certamente o mercado publicitário foi estimulado a ampliar sua fatia). Percebemos também que o Primeiro Caderno da edição no aniversário do golpe (31/03) – uma segunda-feira – foi exatamente o de menor volume no período analisado (empatado com o do dia 29), além de sua edição ter reunido 56 páginas, tamanho semelhante ao de um único caderno, o dos Classificados (Veículos, Empregos e Carreiras, Negócios e Imóveis) que circulou do dia anterior. Contudo, sabemos que o jornal ter mantido seu volume padrão não Data Total de páginas Anúncios Conteúdo próprio Dom 23/03 24 11 13 Seg 24/03 18 6 12 Ter 25/03 14 4 12 Qua 26/03 16 5 11 Qui 27/03 18 6 12 Sex 28/03 22 10 12 Sáb 29/03 28 19 9 Dom 30/03 24 11 13 Seg 31/03 12 3 9 Ter 1º/04 12 2 10 29 exclui a possibilidade de uma cobertura adensada sobre o tema naquelas páginas que circularam no período. Tomamos 2004, para efeito de comparação. Naquele ano, a FSP também utilizou uma distinção gráfica para sinalizar a efeméride, quatro décadas após o golpe – apesar de sem a promessa de “tudo”. Para sinalizar a série de textos, criou uma marca (ver anexos, pág. 173-175) onde lê-se “1964 | 40 anos do golpe | 2004”. Também inaugurou sua rememoração dias antes (em 13 de março, um sábado). Naquele ano, entretanto, a escolha por iniciar antes foi explicitada com uma chamada na Primeira Página e no título da matéria. Ocupando uma página inteira com texto e fotografias, a matéria “O dia em que Jango começou a cair19” (pág. A8) relembrava o Comício da Central do Brasil, ocorrido há então exatos quarenta anos. Ao lado (pág. A9), também com texto e fotografias, o jornal trazia uma entrevista sobre o comício com o historiador Marco Antonio Villa, além de uma breve matéria do curta-metragem de Leon Hirszman sobre o (à época) presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), José Serra. Assim como em 2014, em 2004 a efeméride do golpe caiu também em um dia de semana (uma quarta-feira). Contudo, naquele momento a FSP escolheu comemorar o aniversário do golpe no dia do golpe, em 31 de março. Na primeira página, estampou uma fotografia vertical (de um tanque20) e quatro chamadas para diferentes matérias (ver anexos, pág. 173-175). No alto e mais à esquerda, lê-se “O dia em que os militares tomaram o poder do país”. Nas páginas internas, o editorial21 abordou o tema (“40 anos depois” – homônimo à série), assim como outros três artigos de opinião (pág. A2 e A3). Já os conteúdos produzidos para a série especial (sua rememoração destacada) ocuparam integralmente as páginas A8 e A9, além de parte da A10 com: seis fotografias – sendo cinco de arquivo –, quatro matérias, dois artigos de opinião (escritos por convidados) e uma linha do tempo (“O golpe passo a passo”) – ver anexos. Assim, nos perguntamos, que espaço coube à rememoração do golpe e da ditadura militar cinquenta anos após seu início e o que dela emerge? 19 Disponível em http://almanaque.folha.uol.com.br/ditadura_13mar2004.htm Acesso em 27/01/18. Ver anexos. 20 A mesma exibida na página 3 do caderno TSDM (figura 10). Para matéria de 2004, ver os anexos. 21 “Se há algo a comemorar no aniversário dos 40 anos do golpe de 31 de março de 1964 é justamente o fato de podermos afirmar que o ciclo militar se encontra hoje encerrado num passado histórico. Se suas repercussões ainda se fazem sentir e se há facetas a merecer esclarecimentos, não há dúvida de que o fantasma da ditadura militar já não mais assombra a vida nacional.” Em 2004, o jornal já iniciava a narrar período como um ciclo esgotado, como um passado findo com o qual cabia apenas esclarecer e interpretar. 30 1.3 Um jornal de nome Para tal, seguimos observando alguns elementos gráficos enquanto “flechas” capazes de nos orientar, como pistas deixadas pelo jornal ao narrar o golpe e a ditadura. Para o aniversário de 64, a FSP criou a marca especial “Tudo sobre a Ditadura Militar”. Quando ela aparece pela primeira vez (23 de março), encontra-se presente na primeira página (figura 2), logo abaixo do nome do jornal; na capa do caderno especial, também abaixo do nome do jornal (no alto e centralizado); e no topo de colunas no Primeiro Caderno (figura 3). Nos demais dias, localiza-se sempre no topo de colunas nos Primeiros Cadernos. Figura 1: Marca de "Tudo sobre a Ditadura Militar” | Fonte: Acervo Folha 31 Figura 2: Primeira página da edição de 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 32 Tomemos como ponto de partida essa primeira aparição da marca “Tudo sobre a Ditadura Militar” (TSDM), inaugurada na capa da edição de 23 de março (figura 2). As páginas externas do jornal, como nos diz Maurice Mouillaud (2012), “são suas páginas sensíveis. Constituem, de alguma maneira, uma membrana do jornal, que é sua interface com o mundo exterior” (MOUILLAUD, 2012, pág. 117). Neste convite a uma relação com o mundo, encarnada em uma espécie de menu do dia, a FSP inicia as comemorações do golpe de 1964 enumerando os diversos conteúdos que o leitor tem à sua disposição sobre o tema. Entretanto, comunica que eles não estão todos presentes na mencionada edição, mas em ambiente externo – uma reportagem multimídia –, onde, segundo a FSP, é possível encontrar “entrevistas, imagens e áudios históricos, banco de dados sobre mortos e desaparecidos, infográficos interativos, o 31 de março em videográfico”. É um cardápio, portanto, limitado ou, melhor dizendo, exclusivo. Para conhecer os materiais mencionados, o leitor da edição impressa necessita ter acesso a um computador ou aparelho móvel com internet e ser assinante (da FSP ou do portal UOL, empresa de conteúdo e serviços digitais do Grupo Folha). Se reconhecemos que a capa de um jornal impresso diário anuncia (hierarquizando) o que de mais importante – segundo o enquadramento do mesmo – ocorreu naquele dia ou no anterior, e sinaliza em qual seção e página interna é possível encontrar tal conteúdo, a capa de 23 de março age de forma escorregadia, exigindo-nos um olhar menos fugidio. Anuncia “tudo”, Figura 3: Coluna do Primeiro Caderno – pág. A 14 - edição de 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 33 oferecendo um cardápio amplo, mas, semelhante a um contrato cujas condicionantes estão visíveis somente em letrinhas miúdas, estabelece uma entrada restrita a esse ‘tudo’, acessível somente sob determinadas condições. Vale lembrar ainda que uma navegação satisfatória por plataformas multimídia, cujo conteúdo é em alta resolução, pressupõe a disponibilidade de dispositivos com acesso à internet, mas também uma conexão de rede robusta e estável e/ou um plano de consumo de dados. Além disso, não assinantes da FSP ou do UOL, isto é, não pagantes, têm a leitura limitada a dez matérias online por mês (na reportagem multimídia o acesso é interrompido em “O Golpe e a Ditadura Militar – Acerto de contas”, equivalente à página 6 do caderno TSDM). Dessa forma, a FSP elege também seu leitor primordial, ao estabelecer fronteiras e “passaportes” que permitem conhecer integralmente “Tudo sobre a Ditadura Militar”. Ainda que saibamos que, desde 2016, sua circulação digital superou22 a impressa, podendo o acesso privilegiado ao material online ser uma estratégia comercial, não deixamos de refletir sobre um dever de comunicação que veículos de imprensa (ao menos os pertencentes a grandes empresas) poderiam se imbuir. Segundo informa a FSP, a reportagem multimídia recebeu elogios de especialistas (figura 6). Além de nove seções (Introdução, A crise, A ditadura, A economia, O acerto de contas, E se..., Artigos, e Fontes e referências), ela reuniu um material extenso e rico em imagens de arquivo e áudios da época (incluindo o discurso de João Goulart). Acreditamos que a garantia de um acesso amplo e permanente seria de grande valia a pesquisadores, estudantes e demais interessados, uma política que poderia ser adotada não apenas pela FSP, mas igualmente por seus pares. À época, veículos como os jornais 22 Na edição de 30 de março de 2014, a FSP publicou no Primeiro Caderno (pág. A16) matéria “Maior jornal do Brasil, Folha é líder em diferentes plataformas”. O texto informava que, no mês anterior, sua circulação média havia sido de 341.553 edições, sendo destas 34,46% digitais. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/03/1433100-folha-e-o-maior-jornal-do-brasil-nas-diferentes- plataformas-aponta-ivc.shtml. Em 25 de setembro de 2016, propagandeava seu alcance um marco: “Folha é o 1º jornal brasileiro a ter circulação digital maior que a impressa”. Dos 316.500 exemplares diários circulados no mês anterior, 51% eram relativos à edição digital – não necessariamente todos pagantes. “Murilo Bussab, diretor de circulação e marketing da Folha, diz que o marco já era esperado para meados deste ano. "É natural do mundo em que vivemos. As pessoas estão muito mais conectadas, pela velocidade, pelo custo muito menor de se informar digitalmente." Acrescenta: "Ok, hoje temos mais de 160 mil leitores pagantes no digital, quando cinco anos atrás o número era zero. Mas agora o desafio é transformar uma parcela maior, do total de 20 milhões de leitores digitais da Folha, em leitores pagantes".http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/09/1816633-folha-e-o-1-jornal-do-pais-a-ter- circulacao-digital-maior-do-que-a-impressa.shtml. Mais recentemente, anuncia sua circulação total (digital e impressa – sem distinção da fatia de cada uma) referente a novembro de 2017 como sendo de 292.331 edições mensais. http://www1.folha.uol.com.br/institucional/circulacao.shtml Não há também menção à queda no número da audiência. Acessos 10/05/18. 34 O Globo23 e O Estado de S. Paulo24 também reuniram em suas plataformas digitais materiais sobre o golpe e a ditadura. O jornal paulista, porém, limita a cinco acessos por mês e desde que a partir de um login. O carioca impõe restrições semelhantes a seu conteúdo (incluindo acervo), à exceção das matérias sobre a ditadura militar. Nesse caso, seu acesso é irrestrito. Nesse mesmo menu de 23 de março (figura 2), o caderno impresso é localizado à direita da reportagem multimídia, sob o título “50 anos do golpe de 1964”. Esse título de referência possui uma grafia destacada, está sob um fundo branco, diferentemente dos demais. Abaixo dele, a FSP apresenta: “caderno especial reconta a crise que levou à ditadura, os momentos cruciais do regime e imagina como seria sem a queda de Jango e o AI-5”. Como nos diz Antunes (2007), Tomar a página como unidade fundamental de significado implica assumir teoricamente a ideia de que as diferentes matérias significantes no discurso do jornal impresso fazem parte de um texto multimodal, aquele cujo sentido é construído a partir da articulação entre verbal, layout e elementos gráficos. (ANTUNES, 2007, pág. 161). Nessa articulação entre verbal, layout e elementos gráficos, nos chama a atenção o jogo de cores (preto e branco), compondo uma imagem rasurada. Ela é forjada como se pela tinta de uma caneta preta que, com passadas consecutivas, encobriram algum material que não deva ser exibido. Essa forma de criar um terreno de enunciados é bastante distinta daquelas vistas no dia a dia desse jornal. Esse recurso cromático, que funciona para revelar e ocultar, emula a imagem de um texto censurado, prática comum em regimes totalitários. Se assumimos que essa articulação entre tipografia, formas e cores “estrutura a linguagem do jornal e arremata a visibilidade das informações na página, o seu plano de expressão” (OLIVEIRA apud ANTUNES, 2007, p. 160. Grifo nosso), nos perguntamos: que sentidos emergem dessa imagem que faz uso de plasticidades verbal e gráfica para apresentar ‘Tudo sobre a Ditadura Militar’? Estaria a FSP realizando um procedimento metalinguístico, na medida em que ela, ao narrar o golpe e a ditadura militar, também revela e apaga, esquece e se lembra? 23 Disponível em https://oglobo.globo.com/brasil/50-anos-do-golpe/ Acesso em 15/05/18. 24 Disponível em http://www.estadao.com.br/tudo-sobre/1964 Acesso em 15/05/18. 35 Outro ponto que nos chama a atenção é a localização da marca TSDM, exatamente abaixo do nome do jornal. Em outras palavras, nos interessa a maneira como essas unidades visuais estiveram dispostas na página (figura 4), compondo não somente uma estrutura de navegação e leitura, mas, especialmente, uma ligação discursiva. O nome de jornal, como nos aponta Mouillaud (2012), não deve ser considerado como um enunciado – isolado e autônomo – sobre um suporte, mas como uma inscrição (MOUILLAUD, 2012, p. 115), que aparece de forma significante e não apenas contingente. No espaço, ele estabelece uma distinção dos demais jornais, seus concorrentes; no tempo, ele se grampeia às suas outras edições diárias, passadas e vindouras. Funciona também como uma referência ao mundo naquele dia, como um olho que o nome-de-jornal empresta ao leitor para ver esse mundo. É um enunciado junto com os demais, mas aquele capaz de assegurar uma “unidade” (MOUILLAUD, 2012), ao aglutiná-los espacialmente em um dado dia. Não apenas “assegura a coerência e a continuidade dos enunciados”, mas “firma um pacto com o leitor que, por ser implícito, não é, do mesmo, menos significativo” (MOUILLAUD, 2012, p. 102). No caso da FSP, o nome-de-jornal ocupa uma posição destacada. Localizado na parte mais alta da primeira página, ocupa quase integralmente o espaço da margem esquerda à direita. Como um enunciado de referência, cobre “Tudo sobre a Ditadura Militar” (TSDM) e o aponta como uma seta. Ao mesmo tempo, TSDM (e demais enunciados presentes na capa) está como pressuposto que remete a um saber instituído. Figura 4: Parte superior da primeira página da edição de 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 36 Desencarnado destas relações e de um saber partilhado entre os interlocutores, o nome Folha de S. Paulo tornar-se-ia apenas um nome vazio, de sentido comum; significaria uma folha de São Paulo. Sobre essa dinâmica, Mouillaud esclarece que: O nome-de-jornal se torna completo novamente, desta vez não mais no semantismo de um nome comum, mas de um conjunto de conotações que se condensaram sobre um nome ao longo de sua história. Dessa forma, o nome do jornal aparece como um local de transfusões do sentido, uma hemorragia do sentido comum cujo sentido desaparece em um nome próprio e uma transfusão no nome próprio de uma significação empírica. (MOUILLAUD, 2012, p. 109. Grifo nosso). Reconhecemos que esse conjunto de conotações condensadas sobre um nome ao longo de sua história trata-se de uma trama bastante complexa. Mas escolhemos aqui lançar um olhar sobre algumas marcas eleitas pela própria FSP e fixadas em suas primeiras páginas. Logo abaixo de seu nome, lemos “desde 1921” à esquerda e, centralizado, “um jornal a serviço do Brasil” (figura 4). Se o nome-de-jornal institui o princípio de uma espera de certos enunciados por parte dos leitores, a idade e o aposto destacados contribuem para conformar expectativas, ao evocarem um sentido de tradição e de vocação. Tradição acumulada em mais de nove décadas, da qual o leitor poderia supor um legado e uma longa experiência como credenciais legitimadoras. Vocação, na medida em que, “a serviço do Brasil” e guiado pelo “espírito crítico, independência, pluralismo e apartidarismo25”, colocar-se-ia como um suposto vigilante do exercício do poder e porta-voz da democracia26 e dos interesses dos cidadãos. Esta autorreferência laudatória na primeira página se presentifica também em editoriais, matérias e afins. Quando a FSP enuncia sobre si, faz uso de nome próprio e em negrito – a Folha –, procedimento a ser seguido por seus profissionais, segundo Manual de Redação. Em editoriais que mencionam reportagens próprias (que, supõe o jornal, atenderam aos interesses dos cidadãos), escreve: “a Folha revelou 25 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/institucional/o_grupo.shtml Acesso em 11/04/16. 26 Ao completar 70 anos, a FSP fez uma série de comerciais comemorativos. Em um deles (em vídeo), a imagem do então Presidente da República Fernando Collor de Melo é sobreposta com falas suas, todas contraditórias – “eu sou contra os calotes”; “todos os ministros ficam até o fim do governo”, entre outras. A narração em off diz: “Embora pareça ter dificuldade para admitir isso, a pessoa que ocupa o cargo de presidente da República também erra, como todo ser humano. Apontar esses erros não é crime. É um dever. Para um jornal que acredita que seus leitores têm o direito de saber a verdade, entre satisfazer a vontade da pessoa que ocupa a presidência da república e satisfazer seus leitores, a Folha fica com a segunda opção. Se você é a favor da informação e com o direito de saber o que é feito com os impostos que você paga, leia a Folha. Defenda-se. Folha de São Paulo”. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=1z0GtgIyRog Acesso em 14/05/2018. 37 irregularidades”, “como noticiou a reportagem da Folha”, projetando um dos lugares- sociais que acredita ocupar, o de agente de denúncia. Essas marcas de imagem discursiva tornam-se bastante visíveis quando esse jornal divulga novas implementações do Projeto Folha e reformas visuais e, mais ainda, quando comemora sua própria história. Ao completar 95 anos, em 2016, a FSP celebrou a data com seminários temáticos e publicou a “maior sequência impressa de cadernos da história do jornal, com 120 páginas”27. Um deles, o caderno “História desdobrada”, reuniu, sob o título “Furo bom”, as “noventa e cinco reportagens que ajudaram a mudar o rumo das coisas”. E como a cada nova comemoração, a FSP busca atualizar e reafirmar essa imagem discursiva, apenas dois anos depois acionou novamente o passado para referenciar o marketing “a serviço do Brasil”. Matéria do site Folha 97, criado especialmente para o aniversário, afirma que “o jornalismo de qualidade provoca impactos”, “serviços públicos mal prestados são revisados depois de investigações e relatos de repórteres”, “verbas desviadas são devolvidas após descobertas de esquemas de corrupção” para, na sequência, informar que, em um ano, o jornal contabilizou28 “75 registros de repercussões concretas relevantes de informações publicadas pelo veículo”. Os exemplos mencionados são apenas alguns dos discursos que subsidiam a retórica de um jornal que se diz de referência social, que transforma a história do país, porta-voz da democracia e do interesse público. Sabemos que há um vasto material que nos permitiria estender esta análise, mas não é nosso objetivo mapeá-los. O que nos interessa aqui é destacar a presença dessas marcas carregadas de sentido – jornal com experiência nonagenária, “a serviço do Brasil” –, localizadas entre Folha de S. Paulo e “Tudo sobre a Ditadura Militar” (figura 4). Marcas que contribuem para produzir e estabilizar uma imagem, não à toa escolhidas para serem exibidas em sua vitrine e em local privilegiado. Folha de S. Paulo com suas “credenciais” próximas de TSDM – um sobre o outro –, funciona também como uma espécie de avalista do que será apresentado. O ‘tudo’ é impregnado também de sentidos ou, melhor dizendo, a promessa de ‘tudo’ é referenciada naquilo que o jornal afirma sobre si, ao receber uma 27 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/02/1744037-aos-95-anos-folha-publica- especial-recorde-com-total-de-120-paginas.shtml Acesso em 22/05/16. 28 A medição, segundo o jornal, é feita pelo projeto Impacto.Jor, financiado pelo Google News Lab, que “tenta mensurar o resultado do trabalho jornalístico na sociedade”. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/02/apos-reportagens-verba-e-devolvida-e-servico- melhora.shtml Acesso em 23/02/18. 38 chancela do mesmo. Assim, ao leitor é prometida também uma cobertura ampla e “plural”, “crítica” e “independente” sobre a ditadura militar. 39 Capítulo 2 – QUANDO APENAS TUDO SE COMEMORA Enquanto conteúdo, “Tudo sobre a Ditadura Militar” pressupõe um leitor modelo, um leitor conectado, como ressaltado anteriormente. Já enquanto um elemento gráfico, produz dois movimentos. Quando esse título de referência surge fora dos limites do caderno especial (figura 3), ocupa um lugar no qual o enunciado já inicia a tomar forma e age também como uma lanterna sobre um mapa, um guia para o leitor. Disposto em posição privilegiada (sempre acima dos títulos das matérias) e com um realce na forma e na cor (caixa bicolor, metade preta, com texto verbal em branco, metade branca, com texto verbal em preto), ele afeta a decisão do leitor de seguir ou abandonar a leitura do texto. Ao mesmo tempo, localiza aquilo que o jornal definiu como sua rememoração dos 50 anos do golpe de 1964. É a emergência desse título, presente no caderno especial e em alguns primeiros cadernos, que estabelece visualmente as fronteiras entre o material comemorativo e o restante do jornal. Em meio à paisagem que reúne diferentes elementos cromáticos, imagens, símbolos e textos, e que se modifica a cada edição, ele atua demarcando um lugar, semelhante ao ato de afixar um alfinete em um mapa, para permitir vê-lo em destaque e distingui-lo do todo. Esse gesto produz um corte no mundo apresentado nas edições de todo dia. Sua presença no jornal costura a série “Tudo sobre a Ditadura Militar”, expondo um desejo de criar uma unidade dentro do próprio jornal de todo dia e, ao mesmo tempo, distinta dele mesmo. Esse gesto de presença e ausência da marca TSDM (figura 1) nos permite cartografar enunciados da FSP sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar. No quadro abaixo, podemos identificar o que da série o jornal circulou, entre 23 de março e 1º de abril de 2014, e onde a marca está localizada. Nº. Data Título Local 1 23/03/14 50 anos do golpe de 1964 Capa, pág. A1 2 23/03/14 Forças Armadas travam apurações sobre a ditadura Poder, pág. A14 3 23/03/14 Entrevista Maria Celina D’Araújo: Silêncio de militares não é compatível com a democracia Poder, pág. A15 Quadro 2: Conteúdo TSDM - edições de 23/03/14 a 1º/04/14 | Fonte: Elaborado pelo autor 40 4 23/03/14 Caderno especial “Tudo sobre a Ditadura Militar” Capa 5 24/03/14 Entrevista da 2ª + Eventos sobre os 50 anos + Reportagem multimídia Capa, pág. A1 6 24/03/14 Estudiosos elogiam reportagens sobre os 50 anos do golpe Poder, pág. A7 7 24/03/14 Entrevista Fernando Henrique Cardoso: Ainda falta eficácia à democracia brasileira Entrevista da 2ª, pág. A18 8 25/03/14 Para presidente da Câmara na era Geisel, não houve ditadura Capa, pág. A1 9 25/03/14 Entrevista Célio Borja: Regime de 1964 não foi uma ditadura Poder, pág. A7 10 27/03/14 Entrevista Cid Fernandes: Luta armada foi resistência legítima à ditadura militar Poder, pág. A9 11 28/03/14 Entrevista Leônidas Pires Gonçalves: Os militares nunca foram intrusos na história brasileira Poder, pág. A11 12 29/03/14 Entrevista Daniel Aarão Reis: A luta armada se esqueceu de fazer consulta ao povo Poder, pág. A12 13 29/03/14 Justiça determina que bancário preso na ditadura seja readmitido Poder, pág. A16 14 30/03/14 Democracia tem apoio recorde, mas é criticada, aponta Datafolha Capa, pág. A1 15 30/03/14 Convicção na democracia é recorde, mostra pesquisa Poder, pág. A4 16 30/03/14 Entrevista Almino Afonso: Nunca vi o presidente João Goulart planejar um golpe comunista Poder, pág. A6 e A7 17 30/03/14 Para 68%, corrupção hoje é maior que na época da ditadura Poder, pág. A8 18 30/03/14 Debates sobre golpe citam contradições da época Poder, pág. A9 19 31/03/14 46% aprovam revisão da Anistia, diz Datafolha Capa, pág. A1 20 31/03/14 Maior parte da população quer anular Lei da Anistia Poder, pág. A4 41 A ditadura se fez presente em outros espaços do jornal durante o período analisado, em textos de colunistas, artigos de opinião, charges, cartas de leitores e matérias afins, e até mesmo em outros cadernos. Entretanto, ao criar a distinção da marca “Tudo sobre a Ditadura Militar” nos primeiros cadernos, a FSP sinalizou o que era sua rememoração oficial do golpe e da ditadura. Além do caderno especial, TSDM tratou de pesquisas de opinião sobre a época; sete entrevistas; uma matéria sobre os elogios de “especialistas” à reportagem multimídia; sobre a recusa das Forças Armadas em falar; sobre a readmissão de um bancário, preso na ditadura; um anúncio sobre a programação de debates promovidos pela FSP e outra com um balanço do que foram as discussões. O destaque maior coube às entrevistas, que ocuparam quase página inteira com figuras notórias, em sua maioria políticos, militares e historiadores, ora defendendo ora condenando atos praticados à época. 2.1 Os esqueletos do jornal Como vimos no Quadro 2, além do caderno comemorativo, a série TSDM contempla matérias e entrevistas, presentes em quase todos os primeiros cadernos das edições entre 23 de março e 1° de abril de 2014. Durante esse período, cinco primeiras páginas29 ofereceram algum destaque a esse conteúdo. No dia em que o caderno circulou, a primeira página apresenta a série TSDM no alto (figura 2). Logo abaixo, vemos marchas contra e a favor de ditaduras; em uma, manifestantes “pró-intervenção militar” atacam o governo e o comunismo, na outra, condenam golpes e fazem um “protesto simbólico” ao de 1964. Nas páginas internas, essa disputa de 2014 ganha matéria e uma fotografia em que “policiais tentam conter manifestantes” que se agridem fisicamente. Do seu lado esquerdo, há um texto sobre a recusa do Exército, Marinha e Aeronáutica em abrirem seus arquivos da época à Comissão Nacional da Verdade (CNV) e ao Ministério Público; do lado direito, encontramos uma entrevista com a cientista política Maria Celina D’Araujo que alerta a democracia ser incompatível com o silêncio dos militares (“tratam crimes da ditadura como segredo de estado; se autoanistiaram, perdoaram a si mesmos”). Entretanto, a 29 Todas as primeiras páginas encontram-se nos anexos. 42 manchete principal do dia é sobre investigações de corrupção na Petrobras, no caso da compra da Refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. No dia seguinte (24), a série TSDM é novamente mencionada no alto da primeira página do jornal, com destaque à entrevista com o ex-presidente30, Fernando Henrique Cardoso. No Primeiro Caderno, o vemos de perfil, sentado em uma cadeira, gesticulando. Pelo bigode, a FSP resume que ele “vê nos atritos de Dilma com o Congresso reflexos da crise que levou à deposição de Jango em 1964”. Em destaque (olho), sua declaração: Ninguém quer dar um golpe hoje no Brasil, mas ninguém sabe como atender demandas que aparecem de repente, com esses mecanismos lentos, muitas vezes desconectados, que são o palácio e o Congresso. (grifo nosso) A manchete principal do dia é sobre o risco de invasão da Ucrânia pela Rússia. No dia seguinte (25), a série TSDM ganha a capa com a chamada “para presidente da Câmara na era Geisel, não houve ditadura”, seguida de um breve texto, sem foto. Nas páginas internas, o jurista Célio Borja surge de perfil, com o queixo apoiado sobre as mãos sobrepostas e semblante sereno. Na entrevista que ocupa quase uma página inteira, ele afirma que o “regime de 1964 não foi uma ditadura”, declaração destacada no título. Segundo ele, houve “plenos poderes no período” e “as Forças Armadas se anteciparam ao golpe que seria dado com aval de João Goulart”. Logo abaixo, em tamanho bem menor, sabemos que um órgão internacional, Anistia Internacional, pedirá punição a torturadores. A principal manchete do dia é sobre o rebaixamento da nota do Brasil pela agência de classificação de risco estrangeira Standard & Poor’s, além das notas da Eletrobras e Petrobras. Na capa, há duas fotografias de um mesmo casal, antes e depois da internação para tratamento contra dependência ao crack. As outras duas primeiras páginas que estampam a série TSDM são as edições dos dias 30 e 31 de março. Na primeira, vemos na metade inferior da página um breve texto, sem foto, sobre pesquisa Datafolha – “democracia tem apoio recorde, mas é criticada”. Nas páginas internas, sabemos que 62% dos entrevistados acreditam que a democracia é sempre o melhor regime. Quatro páginas depois, a continuação dos resultados da pesquisa ganha outro foco; “para 68%, corrupção é maior hoje que na 30 Segundo informa a FSP, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não aceitou falar sobre o assunto e os ex-presidentes José Sarney (PMDB) e Fernando Collor (PTB) e a presidenta Dilma Rousseff não responderam às solicitações do jornal. 43 época da ditadura” é o título. A principal manchete do dia é uma afirmação do presidente venezuelano, Nicolás Maduro (“Direita na Venezuela quer o golpe, diz Maduro”). Vemos a fotografia do cantor Gilberto Gil, em destaque na parte superior da página e, abaixo, instalações do estádio paulista Itaquerão onde, no dia anterior, um operário havia sofrido uma queda durante o trabalho. Em 31 de março, aniversário dos 50 anos do golpe, a série TSDM ganhou a primeira página na forma de números, resumidos na manchete principal: “46% apoiam a revisão da Anistia, diz Datafolha”. Internamente, lê-se que a pesquisa aferiu que a maioria dos brasileiros (54%) gostaria que a “Polícia e o Judiciário” punissem quem cometeu “atentados contra o governo”, e o restante (46%) anseia por punições dirigidas a aqueles que “torturaram presos políticos. O entrevistado do dia é o diretor-presidente da Bovespa, que acusa o afastamento de investidores por “decepção com a Petrobras”. Há três fotografias. Nas duas que ganham destaque no alto da página, vemos jogadores de times paulistas de futebol celebrarem vitórias; naquela localizada no rodapé da página, vemos a tensão entre policiais e moradores da Comunidade da Maré, na capital carioca. Apesar de não ganharem as capas do jornal, outras matérias da série ocuparam os Primeiros Cadernos. Além das entrevistas já anunciadas nas primeiras páginas (com um ex-presidente, uma cientista política e um jurista), há mais quatro durante o período analisado. Outra vez, o padrão de vozes masculinas é mantido. Ouvimos o ex- guerrilheiro31 Cid Fernandes, o historiador Daniel Aarão Reis, o general Leônidas Pires Gonçalves e o economista ex-ministro de João Goulart Alfonso Almino. As ações das Forças Armadas e de militantes de esquerda são de novo eleitas como foco da narrativa sobre 1964-1985, agora pelo olhar contemporâneo dos “especialistas” convocados. Três presidentes ganharam espaço nessa rememoração: Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Entretanto, a FSP os localiza distintamente. Fora do caderno, o primeiro surge em dois textos: na “entrevista de 2ª” (com foto), anunciada na primeira página do jornal (24 de março) e na matéria “Debates sobre o golpe citam contradições da época” (30 de março), em que aparece em fotografia e legenda participando de uma mesa. Ambos os textos são parte de “Tudo sobre a Ditadura Militar”. Já os demais presidentes, Dilma e Lula, surgem em matérias 31 Assim apresentados pelo jornal. 44 laterais à série. Nelas cabem inferências e esquecimentos, “contradições” são ressaltadas, e outros tempos e atuações passadas são acionados, como é o caso de Dilma, “ex-guerrilheira”. Nas matérias TSDM não. Dilma Rousseff tem seu nome ventilado no anúncio da campanha da Anistia Internacional (“Anistia fará campanha para punir torturadores”, pág. A11, 28 de março). Ao informar que dirigentes da entidade querem ir a Brasília para entregar a petição à presidenta, o jornal lembra que “desde a posse de Fernando Henrique Cardoso, em 1995, ela é a única presidente que nunca recebeu a Anistia Internacional no Planalto”. Já a edição de 1º de abril, exibiu uma fotografia sua (as duas mãos estão levantadas, polegares pressionando os indicadores, e os lábios articulados – a expressão é rígida, ver anexos) e reproduziu parte de seu discurso proferido no dia anterior, aniversário do golpe (“Dilma defende ‘pactos’ que garantiram o fim da ditadura – Presidente indica apoio à Lei da Anistia, que familiares de mortos querem rever”, pág. A4, 1º de abril). No texto, o jornal focaliza interpretações sobre um trecho32 de sua declaração, apontando-o como argumento contrário “à pressão que familiares de militantes de mortos e desaparecidos têm feito sobre o sistema judiciário para que a lei seja revista e militares que participaram da repressão sejam punidos”. “Nós reconquistamos a democracia a nossa maneira, por meio de lutas e de sacrifícios humanos irreparáveis, mas também por meio de pactos e acordos nacionais”, disse Dilma em seu discurso. “Assim como eu respeito e reverencio os que lutaram pela democracia, enfrentando a truculência ilegal do Estado e nunca deixarei de enaltecer esses lutadores e essas lutadoras, também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram a redemocratização”, acrescentou. Embora a presidente não tenha sido explícita, o discurso foi interpretado como sinal de seu apoio à Lei da Anistia, de 1979, que abriu caminho para a redemocratização ao conceder perdão a ex-guerrilheiros como ela e também a agentes da repressão. A fala contrasta com boa parte da esquerda brasileira, incluindo integrantes do PT. (trecho de “Dilma defende ‘pactos’ que garantiram o fim da ditadura”, grifo nosso) Lula tem apenas trechos de uma fala; fotografias apareceram no caderno TSDM (“Em vídeo, Lula exalta democracia e lembra golpe”, pág. A16, 29 de março). Ainda que a matéria sobre essa declaração seja curta (pouco mais de 1000 caracteres), há nela 32 O trecho original do discurso de Dilma Rousseff trata-se de: “Nós reconquistamos a democracia a nossa maneira, por meio de lutas e de sacrifícios humanos irreparáveis, mas também por meio de pactos e acordos nacionais. Muitos deles traduzidos na Constituição de 1988. Como eu disse, na instalação da Comissão da Verdade, assim como eu respeito e reverencio os que lutaram pela democracia, enfrentando a truculência ilegal do Estado e nunca deixarei de enaltecer esses lutadores e essas lutadoras, também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram a redemocratização”. Na transcrição da matéria da FSP, as menções à Constituição de 1988 e à Comissão da Verdade são suprimidas. 45 espaço para informar que, apesar de ele elogiar o trabalho da Comissão da Verdade, “enquanto foi presidente, Lula manteve fechados os arquivos com documentos sigilosos produzidos pelo regime militar brasileiro”. É curioso notar, entretanto, o completo esquecimento do jornal sobre os fortes embates ocorridos à época da divulgação das metas do Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), em dezembro de 2009, cuja cobertura pela FSP33 foi ampla. Dentre as diretrizes do PNDH-3 estavam políticas de memória e justiça, como a criação de uma comissão da verdade e a mudança e proibição de logradouros, atos nacionais e prédios públicos com nomes de pessoas que cometeram crimes de lesa humanidade. Entretanto, especialmente a proposta de que uma comissão da verdade tratasse apenas do exame de “violações de direitos humanos praticadas no contexto da repressão política” no período da ditadura militar foi alvo de críticas, especialmente de militares. Na cobertura da imprensa escrita, esse suposto caráter punitivista ganhou realce; houve um artigo de opinião, inclusive com provocações à (então) candidata à presidência, Dilma Rousseff, como é possível ver no texto “Guerrilha e redemocratização34”, do professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, o advogado Ives Gandra, publicado pela FSP em 2010. A Lei da Anistia, proposta principalmente pelos guerrilheiros, foi um passo importante para a redemocratização, pois possibilitou àqueles que preferiram as armas às palavras a sua volta ao cenário político. A lei, à evidência, pôs uma pedra sobre o passado, sepultando as atrocidades praticadas tanto pelos detentores do poder, à época, como pelos guerrilheiros. E foram muitas de ambos os lados. Num país em que o ódio tem pouco espaço – basta comparar as revoluções de nossos vizinhos com as do Brasil para constatar que o derramamento de sangue aqui foi sempre muito menor –, tal olhar para o futuro permitiu que o Brasil ressurgisse, com uma Constituição democrática. (...) Vive-se – graças à redemocratização voltada para o futuro, e não para o passado – ambiente de liberdade e desenvolvimento social e econômico próximo ao de nações civilizadas. O Programa Nacional de Direitos Humanos, organizado por inspiração dos guerrilheiros pretéritos, pretende, todavia, derrubar tais conquistas, realimentando ódios e feridas, inclusive com a tese de que os torturadores guerrilheiros eram santos, e aqueles do governo, demônios. Essa parte do plano foi corrigida, tendo o presidente Lula admitido que, se for criada a comissão da verdade, há de apurar tudo o que de excessos foi praticado naquela época – por militares e guerrilheiros. Tenho a 33 Em 9 de janeiro de 2010, a polêmica ganhou a chamada principal da primeira página da FSP: “Ministro critica plano de direitos humanos”. Na seção Tendências e Debates o jornal inquiria: “É positiva eventual revisão da Lei da Anistia?”, além de abordar o assunto em seis matérias que ocuparam três páginas do Primeiro Caderno (A6, A8 e A9). Fonte: Acervo Folha. 34 “Guerrilha e redemocratização”, por Ives Gandra, na seção Tendências e Debates, edição de 22 de janeiro de 2010. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2201201008.htm Acesso em 14/05/2018. 46 impressão de que isso não será bom para a candidata Dilma Rousseff. (trecho de “Guerrilha e redemocratização”, grifo nosso). Ao final, pressões contrárias acabaram impactando a conformação da Comissão Nacional da Verdade/CNV, criada pela lei 12528, de 2011. Como nos lembra Vanessa Oliveira (2017): Entre as críticas ao PNDH-3 prevaleceu-se o argumento de que as propostas do programa se tratavam de revanchismo, iriam abrir uma “ferida” e contrariavam a Lei da Anistia de 1979. Após a polêmica, o PNDH-3 foi novamente publicado em maio de 2010, com diversas mudanças em seu texto. Entre as alterações, está a retirada da proposição de identificar e sinalizar locais públicos que serviram à repressão ditatorial, bem como de locais onde foram ocultados corpos e restos mortais de perseguidos políticos. Também foi retirada a proposta de desenvolver programas e materiais educativos acerca da resistência popular à ditadura e foi retirada a proposta de mudar e proibir o nome de logradouros, atos nacionais e prédios públicos que receberam nomes de pessoas que cometeram crimes de lesa humanidade. No que tange a Comissão da Verdade, a nova redação do PNDH-3 adotou um tom mais generalista, sugerindo a investigação de graves violações de direitos humanos praticados no período previsto na Constituição Federal (no caso, de 1946 a 1985, ou seja, um período anterior ao regime militar, o que de uma certa maneira retira simbolicamente o peso que é investigar os crimes da ditadura). Todavia, permaneceu a proposta de criar a CNV. (OLIVEIRA, 2017, p. 32). Vale lembrar também que, em março de 2014, era um momento em que os trabalhos das comissões da verdade – nacional, estaduais e municipais – já se encontravam em pleno funcionamento; a divulgação oficial do relatório final da CNV seria realizada em 10 de dezembro daquele ano. Fazemos aqui um pequeno parêntese sobre ela. A CNV 35 foi instalada em 16 de maio de 2012, em uma cerimônia que contou com a presença de diversas autoridades36, incluindo todos os ex-presidentes (vivos) do 35 “Para estudiosos dos processos de justiça de transição, como Freeman (2006) e Hayner (2011), comissões da verdade surgem – ou ao menos deveriam surgir – como órgãos temporários destinados a mudar políticas e práticas a partir de investigação sobre um padrão de acontecimentos (violência e repressão) ocorridos em determinado período, sendo oficialmente autorizadas ou habilitadas pelo Estado.” (SANGLARD, 2017, p. 10) 36 Na cerimônia de instalação da Comissão Nacional da Verdade estiveram presentes todos os ex- presidentes (vivos) do período democrático, quatro representantes das Forças Armadas – da Marinha, do Exército, da Aeronáutica e do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas –, o procurador-geral da República, os presidentes da Câmara dos Deputados, do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior do Trabalho, ministros, senadores e prefeitos, representantes do Superior Tribunal de Justiça, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos e de entidades de defesa dos direitos humanos, além de membros da Comissão da Verdade. Discurso proferido pela presidenta Dilma Rousseff disponível em http://www.mdh.gov.br/importacao/2012/05/16-mai-2012-discurso-da-presidenta-da- republica-dilma-rousseff-na-cerimonia-de-instalacao-da-comissao-da Acesso em 11/05/18. 47 período democrático – conferindo “o status de “política de Estado” que o governo pretendia atribuir ao colegiado” (SANGLARD, 2017, p. 4) – e representantes do alto comando das Forças Armadas. Ela é mobilizada pelos pilares da justiça de transição37 e recebeu a incumbência de investigar (sem a prerrogativa de punir ou indicar punições) os casos de violação dos direitos humanos ocorridos entre 1946 e 1988 – identificando locais, agentes e circunstâncias –, tendo se debruçado mais efetivamente sobre o período de 1964 a 1985. Sua criação, quase três décadas após o fim daquela ditadura, “insere-se como um dos marcos da luta pela verdade e justiça no Brasil” (OLIVEIRA, 2017, p. 20). Como nos apontam Fernanda Sanglard e Teresa Neves (2017): tais comissões se tornaram iniciativas importantes para estimular a sociedade a lidar com memórias que não ganhavam espaço no debate público, responsabilizando violadores, reparando vítimas, propondo reformas e estimulando manifestações sociais, políticas e artísticas. Sob este ponto de vista, comissões da verdade são provocadoras do debate público e também responsáveis pelo (re)ingresso da temática dos grandes traumas na mídia e, consequentemente, na arena pública. (NEVES, SANGLARD, 2017, p. 10) Entretanto, apesar de seu potencial “provocador do debate público” e de estarem em andamento no cinquentenário do golpe, os debates e trabalhos da CNV têm presença tímida na rememoração oficial de TSDM. Por decisão da própria CNV (inclusive alvo de disputas internas), a divulgação de seus trabalhos seria concentrada em um relatório final, tornado público em dezembro de 2014. Todavia, ao longo de dois anos e sete meses, ela realizou quase uma centena de audiências públicas, transmitidas ao vivo pela internet e as gravações disponibilizadas em seu canal próprio do YouTube38, que contabiliza 565 vídeos. Além disso, “as atividades também foram registradas em fotografias e divulgadas na imprensa, nas redes sociais e no site da CNV pela equipe de 37 “Apesar do termo “justiça de transição” ter sido criado apenas em 1991, pela professora de Direito Ruti Teitel (SANTOS, 2009, p.476), é possível afirmar que o trabalho nesse campo surge após a segunda guerra mundial, a partir de reflexões sobre o holocausto judeu e sobre a forma como a sociedade pode lidar com memórias traumáticas (ABRÃO, TORELLY, 2010). A reflexão sobre o conceito evoluiu para uma segunda fase relacionada à uma onda de democratização pós-ditaduras e pós-queda do muro de Berlim.” (OLIVEIRA, 2017, p. 23). Na prática, a justiça de transição versa sobre um conjunto de abordagens, mecanismos (judiciais e não judiciais) e estratégias para enfrentar o legado de violência em massa do passado, para atribuir responsabilidades, reparar vítimas, exigir a efetividade do direito à memória e à verdade, fortalecer as instituições com valores democráticos e garantir a não repetição das atrocidades (conforme documento produzido pelo Conselho de Segurança da ONU - UN Security Council- The rule of law and transitional justice in conflict and post-conflict societies). Esse conjunto de mecanismos e medidas trata-se de “medidas temporárias, necessárias durante o período de redemocratização até a consolidação de uma ordem democrática” (OLIVEIRA, 2017, p. 23). 38 Disponível em https://www.youtube.com/user/comissaodaverdade. 48 comunicação” (OLIVEIRA, 2017, p. 35). Vale lembrar que na divulgação do relatório final, a FSP foi o veículo que mais noticiou o tema, sendo responsável por 35 matérias, 42,7% do total 39, inclusive destacando o histórico da Comissão e os avanços por ela produzidos (ou pela voz de especialistas e militantes). Mas no cinquentenário do golpe não. Na rememoração de “Tudo sobre a Ditadura Militar” seus trabalhos não são tema articulador nas entrevistas (em nenhuma das perguntas) e, quando surgem espontaneamente em algumas respostas, não são retomadas/adensadas na rememoração do jornal. Aparecem em apostos ou aspas40 de entrevistados, em matérias outras. É ainda mais curioso notar essa ausência/apagamento quando identificamos que, entre os debates (ver adiante figura 6) sobre o tema golpe e ditadura organizados pelo próprio jornal, há a mesa “Ditaduras e legados: Comissão da Verdade”. Contudo, a matéria que resume os diálogos realizados pelo veículo dá destaque às “contradições” (“Debates sobre golpe citam contradições da época”, pág. A9). Publicada em 30 de março, ela exibe uma fotografia em que dividem a mesa o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o político José Serra, o historiador Boris Fausto e o cientista político Bolivar Lamounier – quatro homens e brancos. Corrupção é outra ausência temática que nos chama a atenção. Tema onipresente nas dez edições analisadas (a apuração sobre a compra da refinaria de petróleo de Pasadena, nos Estados Unidos), quando sua ocorrência é durante a ditadura, é lembrada uma única vez e por pesquisa de opinião, alçada a título: “Para 68%, corrupção é maior hoje que na época da ditadura”. O caderno comemorativo e as matérias/entrevistas – que, juntos, formam a série TSDM – sugerem dois movimentos distintos e complementares. Como veremos mais adiante, o primeiro parece narrar apenas o passado (no caderno, tomado como estável e acabado). Já as demais matérias/entrevistas dizem acioná-lo para oferecer novos fatos e análises sob o olhar do hoje (2014) – ou o que Keren Tenenboim-Weinblatt (2013) 39 No artigo Memória, esquecimento e (res)significação da ditadura pela CNV e pela imprensa (2017), a as pesquisadoras Fernanda Sanglard e Teresa Neves contabilizaram 218 notícias referentes ao tema, entre os dias 10 e 12 de dezembro de 2014, coletados nos seguintes veículos: jornais Estado de S. Paulo, O Globo, Folha de S. Paulo, televisivo Jornal Nacional e o portal de notícias G1. A FSP foi também “o que mais garantiu espaço aos enquadramentos ‘punitivo’ e ‘conflitivo’, conferindo esses enfoques a treze matérias, o equivalente a mais de um terço das inserções que veiculou sobre o tema”. 40 Na entrevista com a cientista política Maria Celina D’Araujo (23/03), ela afirma que “A Comissão da Verdade está dando um passo importante, embora tardio, ao pegar depoimentos de quem efetivamente prendeu e torturou”. Em “Forças Armadas travam apurações sobre a ditadura” (23/03), a comissão é mencionada no aposto de Pedro Dallari – “coordenador da Comissão Nacional da Verdade”. E em “Anistia fará campanha para punir torturadores” (28/03), lemos que “para [Átila] Roque [diretor da entidade], revelações da Comissão da Verdade e depoimentos de militares que admitem ter matado presos contribuem para a mobilização”. 49 chama de memória retrospectiva e prospectiva41, respectivamente. Entretanto, ambos compartilham semelhanças e modos de ver. Vemos em suas marcas visíveis o invisível das experiências, das histórias e pessoas comuns, ganha realce as disputas por indenizações contabilizadas em valores monetários, continua presente o velho binômio que reduz a(s) história(s) daquele período ao confronto entre a luta armada e o aparato repressivo e, sobretudo, no dia do aniversário do golpe são protagonistas os números. Em 31 de março, o que resta da ditadura são controvérsias, desencarnadas em um gráfico estampado no cardápio de notícias do dia. Para a efeméride, a FSP elege a disputa polarizada entre “lados”, que escolhem se punir uns ou outros. Quando escutamos alguém falar individualmente (em discurso direto, com aspas destacadas como olho), são dois homens – um ex-ministro da justiça do regime e um historiador –, a confirmarem a polarização de opiniões. Assim como no caderno comemorativo, na ditadura em série a população possui voz, corpo e rosto somente quando marcha com faixas e encena um “país partido ao meio”, expressão/imagem utilizada no caderno para elucidar o golpe de 1964. Essa cisão e o fantasma do golpe assim retornam cinco décadas depois, novamente representados em “multidões” apartadas, que falam por meio de faixas com frases imperativas. Afinal, como afirma o ex-presidente FHC em entrevista destacada na primeira página do dia 24, “ninguém quer dar um golpe hoje no Brasil, mas”. No caderno ou nas matérias avulsas da série, não vemos um gesto da FSP de lançar luz sobre o que resta da ditadura nos dias atuais, os silêncios e traumas dos arrestos de liberdade e dos direitos fundamentais, as feridas abertas pela negação a uma justiça de transição. A experiência brasileira de vinte e um anos sob ditadura é vista como uma questão de opinião. Não à toa, após marcar as comemorações do cinquentenário do golpe de 1964 no dia 23 de março prometendo ‘tudo sobre’, na data mesmo do aniversário, a FSP encerra a série acionando a percepção que brasileiros têm hoje (2014) sobre o período. Efetua, assim, um jogo de luz e sombra, ao revelar números e encobrir a experiência de um “antigo” regime autoritário. 41 The distinction between remembering what happened and remembering what needs to be done is one that exists in our everyday use of the notion of memory (Neisser, 1982). We remember, or forget, what happened in the past, and we remember, or forget, what we need to do in the future, or what we promised ourselves or others we would do: pay bills, pick the kids up from school, or finish a journal review. In cognitive psychology, the latter is called “prospective memory”, to be distinguished from “retrospective memory” (Ellis & Cohen, 2008; Meacham & Leiman, 1982). Whereas retrospective memory is the recollection of past events and experiences, prospective memory is defined as “remembering to carry out intended actions at an appropriate time in the future” (McDaniel & Einstein, 2007, p. 1)” (TENENBOIM- WEINBLATT, 2013, p. 96-97) 50 Apesar desse gesto, é curioso notar que nessa mesma capa de 31 de março de 2014 (figura 37, ver anexos) emergem facetas de um espólio autoritário, na atuação das forças policiais junto a parte da população. No rodapé do menu do dia, vemos ao fundo um veículo militar com “jovens suspeitos de tentativa de arrastão no Complexo da Maré, no Rio” e, à frente, mulheres negras – uma delas leva a mão à cabeça – discutindo com policiais que portam armamento de guerra. A legenda informa que “horas depois de a polícia ocupar favelas, um adolescente morreu, atingido durante trocas de tiros entre facções”. Figura 5: Fotografia no rodapé da primeira página – edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha Para além do caderno do dia 23, o restante da série abre também espaço para a atuação da imprensa. Se no material comemorativo, a FSP se afirma um dos atores responsáveis pelo fim da ditadura ao apoiar as Diretas Já, em matéria do dia seguinte, convida “estudiosos” para avaliarem seu trabalho em 2014. Estudiosos elogiam, diz. 51 Figura 6: Repercussão sobre reportagem multimídia e ciclo de debates – pág. A7 - edição 24/03/14 | Fonte: Acervo Folha Outras duas primeiras páginas do período nos chamam a atenção. A da edição de 26 de março estampa a foto do coronel reformado Paulo Malhães. Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade no dia anterior, ele declarou que torturou, matou e ocultou corpos; “eram mutilados para evitar reconhecimento”. Na legenda da foto, sabemos que diz não sentir arrependimento pelas mortes e torturas. A outra, de 1º de abril, mostra algumas pessoas segurando fotos de mortos e desaparecidos no período. Alguns possuem identificação e breve história descrita. Na legenda, lemos: “ato nos 50 anos do golpe, em memória de militantes mortos pela ditadura, no prédio do antigo Doi- Codi, em São Paulo”. Chama-nos a atenção o fato de ambas não serem identificadas como “Tudo sobre a Ditadura Militar”. Poderíamos pensar que elas não se encaixam por tratarem de acontecimentos recentes, mas a matéria de TSDM sobre a readmissão, conquistada na justiça, por um bancário que foi demitido durante a ditadura é a exceção que desfaz a regra (“Justiça determina que bancário preso na ditadura seja readmitido”, pág. A16, 29 de março). A experiência da tortura, pela perspectiva de um torturador – item raro no silêncio de morte dos militares –, assim como histórias de mortos e desaparecidos não cabem na rememoração oficial da FSP. Ao contrário, são notícias ordinárias, situadas pelo próprio jornal na ordem do dia a dia. Sem a chancela TSDM, que marca e delimita o que a FSP escolhe narrar sobre o golpe e vinte e um anos de 52 ditadura militar, elas são apartadas de uma rememoração que se projeta em direção a um futuro. Figura 7: Detalhes – primeiras páginas – edições de 26/03/14 e 1°/04/14 | Fonte: Acervo Folha 2.2 A ditadura de todo dia Como nos lembra Antunes (2014), se em situações comemorativas (quando o jornal aciona o passado como história e modo para referenciar os fatos) é mais fácil perceber como a memória se insinua, 53 na cobertura de todo dia podemos considerar como esta memória coletiva põe os diferentes eventos em perspectiva, acrescentando inúmeros sentidos às histórias mais prosaicas – nos termos utilizados, nos elementos organizados para a descrição e narração, no enquadramento das imagens, etc. (ANTUNES, 2014, p. 164). Ainda que no período analisado não seja estranho que o tema do golpe e da ditadura surja em outras páginas do jornal, destacamos aqui esse gesto da FSP de delimitar com a marca comemorativa TSDM como aquilo que ela diz narrar sobre o assunto. Em outras palavras, sabemos que sua rememoração não se esgota na série TSDM: ela oferece vários outros textos, mas os apresenta distintamente. Ao demarcar aqueles que são TSDM, faz parecer que a publicação dos demais textos (como artigos, as cartas ao leitor selecionadas, tendências e debates, incluindo textos de outrem) são apenas um mosaico de vozes plurais; uma suposta abertura à diversidade que estaria alinhada com seus princípios editoriais. Neste mosaico, da qual a FSP apenas cumpriria a função de publisher, cabem destaque à declarações do coronel (que foi torturador) Paulo Malhães sem quaisquer reflexões e artigos como Nova história (Opinião, pág. A3, 24 de março), do general reservista do Exército, Rômulo Bini Pereira e Não foi bem assim como dizem hoje (Opinião, pág. A3, 28 de março), do jornalista Carlos Chagas, ex-assessor de imprensa do ditador Costa e Silva (e um dos especialistas convidados a responder perguntas na matéria “E se...”, do caderno). O texto assinado pelo militar42, elogia a Lei da Anistia que, “ao colocar um ponto final no conturbado período de nossa história, evitou confrontos fratricidas de consequências imprevisíveis”. Faz duras críticas à presidenta Dilma Rousseff pelo estabelecimento da Comissão Nacional da Verdade, cujo trabalho trata-se de “uma deliberada e vingativa campanha contra as Forças Armadas”, transformadas “em autênticas delegacias especializadas” e com apurações que elevam ao patamar de herói pessoas como o “comunista e terrorista” Carlos Marighella, nosso “Guevara tupiniquim”. Chama o golpe de Revolução de 1964 e aponta, como um dos indícios da reescrita da história, o jornal O Globo escrever Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro, apesar de, segundo o militar, o jornal carioca ter ele mesmo se beneficiado “dos 42 Vale lembrar que apenas militares reformados (ou com alguma ligação com as Forças Armadas) costumam se manifestar publicamente sobre o assunto. O silêncio dos militares tem sido uma postura corrente desde o fim do regime e, mais recentemente, em 2004, tornou-se oficial. “O Exército informou que não iria se manifestar sobre os 50 anos do golpe. Desde 2004, quando uma nota do Exército justificando a violência contra opositores da ditadura provocou uma crise no governo Lula, as Forças Armadas passaram a evitar manifestações sobre o assunto”. “Dilma defende ‘pactos’ que garantiram o fim ditadura” – pág. A4, edição de 01/04/14. Acervo Folha. 54 avanços tecnológicos e do suporte financeiro que recebeu do regime que agora desdenha”. O general Bini condena o “chavão” “21 anos de trevas” que, supostamente, a “nova história” poderia iluminar com a Comissão, uma história “reescrita de cima para baixo, onde a neutralidade é uma falácia, com clara predominância do revanchismo e da emoção”. Já o texto do jornalista e ex-porta-voz da ditadura, Carlos Chagas, responsabiliza João Goulart pelo fracasso – tentou fazer as reformas “todas de uma vez e quebrou a cara” –, ressalta o papel das “elites conservadoras” em cooptar a maioria da imprensa “cujos barões delas faziam parte e assustavam militares e igreja”. Diz que “agora todo mundo diz ter sido da resistência”, mas “não foi nada disso”; a “classe média não se insurgiu”, “a sociedade acomodou-se, bateu palmas” e, “como sempre, as classes trabalhadoras permaneceram à margem, carecendo de vontades e meio”. Afirma que os militares cometeram “erros grotescos, mas também contribuíram para esse verdadeiro milagre que é a preservação da unidade nacional.” Críticas de leitores a este texto foram publicadas no Painel do Leitor, na edição de 30 de março; bem aos moldes da FSP, uma favorável e outra contrária. No alto da página, o painel abre com o leitor Luiz A. Souza Lima de Macedo (São Paulo, SP) parabenizando o jornalista e a FSP: Felizmente uma palavra serena, imparcial e plena de bom senso no texto “Não foi bem assim como dizem hoje” (Tendências/Debates, 28/3), de Carlos Chagas. Tomara que a Folha prossiga dando voz a corações e mentes desse tamanho. Houve erros sim, mas como ignorar o papel de homens sérios, competentes e honestos, identificados com o dever de servir? E o avanço nas telecomunicações, para citar um só exemplo, não vale nada? A contrária é assinada por Marcos Silva (São Paulo, SP), que se apresenta como professor do Departamento de História da FFLCH/USP. Ele diz: Carlos Chagas continua a agir como se fosse porta-voz de Costa e Silva. Falar que a população “acomodou-se” na ditadura é ignorar a violência como instrumento básico do regime. Dizer que “as classes trabalhadoras permaneceram à margem, carecendo de vontades e meio” é desconhecer a violência ditatorial contra sindicatos e camponeses. Numa ditadura, a sociedade é silenciada pelo arbítrio. Atribuir apenas aos militares a preservação da unidade nacional é piada de mau gosto. Onde ficam a população e sua cultura, que garantem tal unidade? A publicação de textos como esse de Carlos Chagas a poucos dias do aniversário do golpe – textos que invisibilizam experiências e compensam crimes cometidos pelo 55 regime com elogios às conquistas da época – costuma ser justificada pela FSP por se dizer um veículo que deseja abrigar “opiniões divergentes”. Não à toa, esse foi mote de sua campanha institucional de 2014, O que a Folha pensa43, veiculada em mídia impressa, canais de TV aberta e fechada e na internet. A opiniões sobre assuntos como aborto e pena de morte, segue-se sempre o mesmo texto: “Concordando ou não, siga a Folha, porque ela tem suas posições, mas sempre publica opiniões divergentes”. Poderíamos nos perguntar, afinal, o que a FSP considera divergência? Que vozes cabem nesse pluralismo? Entretanto, preferimos seguir pistas deixadas em seu próprio editorial sobre 1964. O que ela apresenta como opiniões divergentes, como as do general e do ex-porta-voz do general Costa e Silva, encontram aderência naquilo que ela mesma narra ao rememorar o golpe. Buscando entre os editoriais publicados de 23 de março a 1° de abril de 2014, encontramos assuntos diversos como cerco à oposição na Venezuela (“Autoritarismo Maduro”), rebaixamento da nota de crédito brasileira, problemas na maior universidade do país (“USP reprovada”), investigação parlamentar da Petrobras, “distanciamento dos ideais da Primavera Árabe” e o resultado “à direita” nas eleições municipais francesas. Na data da publicação do caderno TSDM, o jornal escolheu abordar um “tema delicado tanto no presente quanto relevante para o futuro”, no caso “as necessidades de mudanças na Previdência”. O editorial sobre “1964” coube ao dia 30 de março. Nele, a FSP contemporiza responsabilidades (inclusive suas), equilibra violações de direitos com crescimento econômico do país, apequena as experiências (identitárias, políticas, cidadãs, etc.) interditas e se furta aos desafios da Justiça de Transição, sem quaisquer menções à Comissão Nacional da Verdade, ao direito à memória e reparação. O passado pouco ou nada ainda se apresenta hoje. Afirma que, ainda que com maior culpa ao que “impôs a lei do mais forte”, “as responsabilidades pela espiral de violência se distribuem”. Novamente, não economiza elogios ao “milagre econômico” – e um leitor poderia se perguntar: que impedimento o funcionamento de um estado democrático ofereceria a semelhante ou superior desenvolvimento econômico? Realizações de cunho econômico e estrutural desmentem a noção de um período de estagnação ou retrocesso. Em 20 anos, a economia cresceu três vezes e meia. O 43 Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=SFHE0_VqT7A. Acesso em 02/11/16. 56 produto nacional per capita mais que dobrou. A infraestrutura de transportes e comunicações se ampliou e se modernizou. A inflação, na maior parte do tempo, manteve-se baixa. (...) A economia se diversificou e a sociedade não apenas se urbanizou (metade dos brasileiros vivia em cidades em 1964; duas décadas depois, eram mais de 70%) mas também se tornou mais dinâmica e complexa. (trecho do editorial “1964”, de 30/3) A experiência da mobilização política é esvaziada e a conquista da abertura uma fatalidade, diante das crises do petróleo e da dívida externa: “o regime se tornara estreito para uma sociedade que não cabia mais em seus limites”. Próximo de encerrar o texto, fala novamente de si; defende-se como “um dos veículos mais críticos” e se esquiva de responsabilidades, afinal, sua atuação foi inevitável nas “circunstâncias”: Às vezes se cobra, desta Folha, ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro. Este jornal deveria ter rechaçado toda violência, de ambos os lados, mantendo-se um defensor intransigente da democracia e das liberdades individuais. É fácil, até pusilânime, porém, condenar agora os responsáveis pelas opções daqueles tempos, exercidas em condições tão mais adversas e angustiosas que as atuais. Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias. (trecho do editorial “1964”, de 30/3) Sobre o passado que permanece, vê genericamente “um período longo e doloroso aprendizado” responsável pela “atual maturidade no respeito comum às regras e renúncia à violência como forma de lutar por ideias”. E, uma vez que se manifestou no dia 30, deu-se por satisfeita no dia seguinte. No cinquentenário do golpe, a FSP não o comemorou. Em dois editoriais diferentes, escolheu abordar o “chamado mensalão tucano” no STF e o fechamento do país ao comércio exterior. A rememoração do golpe e de mais de duas décadas de ditadura militar ganhou relevo em números – a divulgação de pesquisa Datafolha sobre a Lei da Anistia. Coube a articulistas/colunistas tratarem do tema em seus espaços fixos. Cada um, à sua maneira, lembrou de 1964 e, por vezes, o momento político do país foi pano de fundo dessa rememoração. O comentarista de política e economia Valdo Cruz (pág. A1) mencionou a corrupção na época (“fazia parte do jogo do poder”) para celebrar o fato de hoje (2014) ser mais combatida, com prisão de empresários e políticos, “inclusive alguns que lutaram contra a ditadura”. O então candidato à presidência Aécio Neves (pág. A2) evocou seu avô Tancredo, na sessão de 1° de abril de 1964, encarnando a “revolta que sacudia a consciência democrática”. O senador lamentou o alto preço pago pelo tempo desperdiçado por decisões adiadas ou equivocadas. E 57 perguntou “o que tem custado aos brasileiros a falta de coragem das autoridades em fazer o que precisa ser feito?”. O escritor Ruy Castro (pág. A2) elencou alguns civis que conspiraram, como Juscelino Kubitscheck e dom Paulo Evaristo Arns. O economista Luis Bresser-Pereira (pág. A3) questionou 1964 – por que e para quê –, problematizando o “milagre econômico”. O jornalista Ricardo Melo (pág. A5) rechaçou a tentativa de ver “o lado bom” de um período “que deveria ser lembrado para não ser repetido”. E o jurista e diplomata Rubens Ricúpero lembrou “sua” história de 1964, e as relações entre a teocracia brasileira e funcionários estadunidenses. Em resumo, a edição do cinquentenário do golpe de 1964 circulou com 56 páginas (menos da metade de finais de semana) e “comemorou” (RICOEUR, 2007) a data a partir da opinião dos brasileiros sobre julgar ou não crimes cometidos no período, imagem disposta em números na capa do dia, além de seis artigos de opinião, assinados exclusivamente por homens; quatro colunistas fixos e dois convidados. Na edição comemorativa, há ainda uma única imagem. É a charge do cartunista Angeli (fig. 8), quem se furta do embate de opiniões. Em sua charge, vemos militares se nutrindo de sangue. Figura 8: Charge Angeli – pág. A2 – edição 31/03/14 | Fonte: Acervo Folha 50 anos depois, a edição do dia rememorou coletivamente o golpe e a ditadura desencarnados de experiências. E a centralidade da narrativa coube a um termômetro de opiniões, com dois polos, a favor ou contra um dos espólios do período, a anistia. 58 2.3 O caderno comemorativo O caderno especial “Tudo sobre a Ditadura Militar” (TSDM) circulou no dia 23 de março com oito páginas. Reuniu nove conjuntos de textos verbais, trinta fotografias de arquivo (coloridas e em P&B), catorze infográficos, duas tabelas, uma linha do tempo, três listas (de filmes, canções e livros), e diferentes elementos cromáticos e gráficos como linhas finas, bigodes destacados em cor azul e títulos grifados. Além de sua própria razão de ser (uma efeméride), a linguagem verbal (como veremos mais adiante) e a organização gráfica distintas sugerem um material a ser colecionado, que iria de encontro ao destino costumeiro de uma edição ordinária do jornal, sempre fadada a ceder espaço àquela por vir. Entretanto, é curioso notar que, ao construir a narrativa sobre os vinte e um anos da ditadura (1964-1985), a FSP elegeu organizá-lo em quadros temáticos semelhantes aos do seu cotidiano, destoando apenas o exercício de futurologia do passado. - Política/poder: a configuração do golpe, atores e motivações, contexto internacional; - Cotidiano e segurança pública: ações da guerrilha armada e do aparato repressivo do regime, sintetizado em números de mortos, desaparecidos e denúncias de tortura; - Economia: índices socioeconômicos no período; - Sociedade civil: articulação e engajamento pela abertura política; - Cultura: artistas, manifestações e movimentos culturais contrários à ditadura; - Ficção: “como teria sido o país sem o golpe de 1964 nem episódios-chave da ditadura militar”; - Imprensa: as relações entre o regime e grandes empresas de comunicação. As matérias são organizadas pela ordem: texto de introdução (pág. 1), sem assinatura; ‘Um país partido ao meio’ (páginas 2 e 3) e ‘A formação da ditadura’ (pág. 4), ambas assinadas por Ricardo Balthazar (editor de Poder) e Lucas Ferraz (de São Paulo); ‘Da euforia à bancarrota’ (pág. 5), assinada por Érica Fraga (de São Paulo), ‘Mais uma década de abertura’ (pág. 6), assinada por Ricardo Mendonça (de São Paulo); ‘Governo amplia indenizações, mas punições ainda são tabu’, assinada por Fabiano Maisonnave e Lucas Ferraz (de São Paulo); ‘Da resistência ao showbiz’ (pág. 59 7), assinada por Marcos Augusto Gonçalves (de Nova York); ‘E se...’ (pág. 8), assinada por Ricardo Mendonça (de São Paulo) e ‘Imprensa apoiou a ditadura antes de ajudar a derrubá-la’ (pág. 8), assinada por Oscar Pilagallo (especial para a Folha). Uma linha do tempo, com episódios destacadas ano a ano, margeou a parte superior do caderno, da página 2 a 7. De saída, percebemos que a escrita do caderno é quase integralmente de autoria masculina. Se o nome ‘tudo sobre’ sugere uma ampla cobertura, é também curioso notar que essa estratégia de reunir narrativas sob um mesmo guarda-chuva temático seja anunciada por vozes tão pouco plurais. Esse padrão se repete quando analisamos também as aspas eleitas para compor o caderno. Em quase 35 mil caracteres, há poucas, apenas sete falas citados em discurso direto. Ouvimos somente o ditador presidente Ernesto Geisel (pág. 4), o general Adyr Fiúza de Castro (pág. 4), o economista e ex- ministro durante a ditadura militar Antônio Delfim Netto (pag. 5), o coronel reformado Paulo Malhães (pág. 6), o historiador Marcelo Ridenti (pág. 8), o sociólogo Francisco de Oliveira (pág. 8) e o jornalista Carlos Chagas (pág. 8). Se por um lado esses personagens – de seis diferentes áreas – podem oferecer perspectivas diversas, eles compartilham experiências semelhantes a partir de um recorte racial e de gênero (e possivelmente também de classe); são eles todos da cidade (oferecem narrativas urbanas), brancos e homens. Neste sentido, a FSP acaba por (re)ocultar outras tantas narrativas possíveis do golpe e dos anos de regime de exceção. Afinal, são nessas vozes de autoridade que o poder e a palavra costumam se encontrar e, como nos lembra Pierre Clastres sobre as sociedades com estado, “há acontecimento histórico quando, abolido aquilo que os separa e assim os condena à inexistência, poder e palavra se estabelecem no próprio ato de seu reencontro. Toda tomada de poder é também uma aquisição da palavra” (CLASTRES, 2003, p. 169). Apesar de conter matérias assinadas por jornalistas e organizadas em colunas (como nos cadernos diários), quase tudo em TSDM é escrito em linguagem enciclopedista, com uma certa pedagogia, semelhante a publicações voltadas a estudos para vestibular e demais concursos. Personagens, datas e locais são costurados em uma ordem cronológica linear, articulados em uma trama de causalidades, muitas vezes esquematizada, como no quadro dos cinco motivos “Por que Jango caiu?” (figura 10). Fontes e aspas dão lugar a simplificações como “os militares brasileiros acreditavam que sua principal missão era impedir que o país aderisse ao bloco comunista” (pág. 2) e 60 “a prioridade da esquerda era a reforma agrária” (pág. 3). Substantivos e adjetivos circunscrevem ou vaticinam, oferecendo leituras estabilizadas para interpretações ainda sob dissenso. A linguagem adotada e o formato esquematizado (no texto e na imagem), que parecem conformar um simples encadeamento de episódios e datas, agem como uma espécie de verniz de objetividade e encenam uma história estável e encerrada, sem lastro com os dias atuais, como veremos mais adiante. Para sustentarmos essa análise, buscaremos antes investigar os processos de sentido que intervêm na atribuição dos significados aos textos verbovisuais do caderno. Para tanto, acionamos o autor Gonzalo Abril (2007), que nos oferece uma importante chave de leitura ao refletir sobre nossas competências de leitura, capazes de mobilizar diferentes processos de significação. Que sentidos possíveis são gerados na articulação entre os textos verbais e visuais, uma vez que ambos importam e estão inter- relacionados? Lançamos mão de três dimensões de análise proposta pelo autor: visualidade, mirada e imagem; ou o nível visual, o nível do olhar e o nível da imagem. Por meio dessa perspectiva, podemos refletir não sobre “o que significam” os textos verbovisuais, mas investigar os processos de sentido que intervêm na atribuição dos significados aos textos. Em seu texto Cultura visual, de la semiótica a la política, Abril (2012) nos fala de uma cultura visual onde coexistem “regimes de visão”, que articulam o que é e o que não é possível ver. Antes, é importante ressaltar que o autor compreende a semiose como um processo que atravessa todo o fenômeno cultural e, no limite, se identifica com ela mesma. Para ele, a semiótica seria então uma “excelente metodologia para a análise sociocultural e, mais particularmente, para a análise das imagens ou textos visuais”, desde que transdisciplinar e não limitada ao princípio do imanentismo. Entretanto, é a “cultura visual”, definição que o autor nos oferece, que abaixo ressaltamos. “A cultura visual é uma forma de organização sócio-histórica da percepção visual, da regulação das funções da visão, e dos seus princípios epistêmicos, estéticos, políticos e morais. É também um modo socialmente organizado de criar, distribuir e inscrever textos visuais, processo que implica sempre umas determinadas tecnologias de fazer-visível, técnicas de produção, de reprodução e de arquivo. A cultura visual se refere, enfim, à gestão da visualidade, nome pelo qual se pode entender a visão precisamente um tanto quanto socializada, e da visibilidade, que se refere melhor ao âmbito do “público” ou do “comum”: o espaço público moderno é um campo de gravitação e de conflito entre visibilidades e invisibilidades, mas já nas sociedades pré-modernas a economia simbólica do religioso consistia a 61 administração da visibilidade, a invisibilidade, os poderes da visão e da vidência” (ABRIL, 2012, p 35-36. Tradução nossa)44 Ao discorrer sobre cultura visual ele irá, mais adiante, distinguir os três diferentes regimes de visão: o de invisibilidade, o de entrever e o de visão total, esse último – ainda segundo o autor – predominante na cultura pós-moderna. Tais regimes contribuem para ampliar a perspectiva de ‘imagem’ – que ele prefere chamar de texto visual –, na medida em que implica o ‘ver’ a ‘ler o texto sob determinada condição’. Sobre esse texto visual, Abril irá pensá-lo numa relação interdependente entre a visualidade, a imagem e a mirada. Afirma ele que essas relações não se dão de maneira engessada, mas são delimitadas de “forma imprecisa, com limites fluídos: uma experiência visual pode se transformar em uma experiência de mirada ou em uma imagem sem solução de continuidade” (ABRIL, 2012, p. 49). 44 La cultura visual es una organización sociohistórica de la percepción visual, de la regulación de las funciones de la visión, y de sus usos epistémicos, estéticos, políticos y morales. Es también un modo socialmente organizado de crear, distribuir e inscribir textos visuales, processo que implica siempre unas determinadas tecnologías del hacer-visible, técnicas de producción, de reproducción y de archivo. La cultura visual se refiere, em fin, a la gestión de la visualidad, nombre por el que se puede entender a la visión precisamente en tanto que socializada, y de la visibilidad, que se refiere más bien al ámbito de lo <> o de lo <>: el espacio público moderno es um campo de gravitación y de conflito entre visualidades e invisibilidades, pero ya en las sociedades premodernas la economia simbólica de lo religioso concernía a la administración de la visibilidad, la invisibilidad, los poderes de la visión e de la videncia. Figura 9: Diagrama do Simbólico Triádico - Fonte: ABRIL, 2012, p.18. 62 A visualidade, obviamente, relacionar-se-ia também com as imagens visuais. Elas, entretanto, não se esgotam somente no visível, mas também naquilo que é invisível – ou seja, “marcas do visível reprimido, ou pressuposto, ou postergado” (ABRIL, 2012, p. 53) – e, assim, “o visual, ‘o que se vê’, se relaciona sempre com o que não se vê, com fenômenos distintos que não pertencem propriamente ao reino do visível” (ABRIL, 2012, p.54). Para o autor, quando o visível se relaciona com o invisível, este se torna primordial quando interfere no sentido daquele. A imagem que configuraria esse visual imbricaria com o que não se vê, sendo esse não visto de três espécies, a) o que se deseja ver; b) o que se sabe ou o que se crê; c) o que se faz com o que se vê. A primeira indica que “por trás de uma imagem sempre está o desejo de outra” e que o que “sentimos ao ver (como ameaça, presença, ações ininterruptas, consumadas, antecipadas, etc.) se conectam com o que desejamos ver” (ABRIL, 2012, p. 55). A segunda demonstra que vemos “pelos olhos de nossa cultura, de nossos sistemas simbólicos, conhecimentos, valores e estereótipos adquiridos através da culturação” (ABRIL, 2012, p. 56), sendo impossível separar o que se vê do que se sabe. Por último, “o que se vê se relaciona com o que se faz, com as operações de reprodução e intercâmbio social, de intercâmbio econômico e de controle que se efetuam, por meio dos textos visuais correspondentes” (ABRIL, 2012, 59). Nesse sentido, assim nos orientamos: - Visualidade: Nessa primeira instância, deparamo-nos com o lugar do visível, com a informação mais facilmente identificável, mas que já contempla também as camadas invisíveis. Buscamos no caderno ver como determinados elementos verbovisuais sobre a ditadura militar configuram o regime de visibilização para o invisível de outras experiências. Tomamos como ponto de referência a presença de determinados atores do golpe e da ditadura, para perceber silêncios/silenciamentos e invisibilizações. - Mirada: Na instância seguinte, buscamos reconhecer na postura editorial da FSP os gestos textuais mais significativos, como compreender os atos de intencionalidade característicos da publicação. Como o caderno olha para a ditadura? O que esse olhar nos revela? Ao mesmo tempo, enxergamos nesta mirada nosso próprio olhar, impregnado de nossa cultura, valores e sistemas simbólicos. Vemos os textos como espectadores, mas eles também nos veem. Nessa dimensão da mirada, verificamos 63 alguns aspectos: apagamento da experiência e apagamento da agência/responsabilidades. - Imagem: No último nível, desejamos reconhecer a informação conotada, os simbolismos que se cristalizam na camada pouco visível dos acionamentos e arriscamos também dizer do imaginário compartilhado sobre o golpe e a ditadura. Um imaginário sobre um passado estável e que já passou, que não possui lastro que o conecta aos dias de hoje. Interdependentes, essas três instâncias articulam-se entre si e se complementam. A partir da chave de leitura de Abril (combinada à Análise de Conteúdo), pudemos enxergar alguns atores e experiências a partir de suas ausências, e ver nesse gesto de lembrar e esquecer da FSP apagamentos e rasuras. Se utilizássemos apenas as mais tradicionais teorias sobre o Jornalismo sem problematizar o regime de visibilização, o conteúdo oferecido sob o guarda-chuva “Tudo sobre a Ditadura Militar” poderia sugerir uma falsa visibilização e, ao final, uma narrativa estável e totalizante. Mais ainda no caso da FSP com seu insistente trabalho de marketing – total porque plural. 64 Capítulo 3 – O QUE SE APRESENTA NO CADERNO Iniciamos com a matéria que apresenta o golpe, intitulada ‘Um país partido ao meio’ (figura 10). Essa divisão é destacada visualmente, no próprio título, com ao meio em tamanho maior. ‘Um país partido’ recebe o grifo de cor preta que, como descrito anteriormente, simula o apagar dos documentos censurados. Abaixo, o bigode afirma que, “contaminada pela Guerra Fria e pelo desprezo às regras do jogo democrático, disputa política rachou os brasileiros desde a renúncia de Jânio e culminou com golpe militar contra Jango”. Seguimos para o lead, que explica o golpe como consequência incidental de uma queda de braços. Ao mesmo tempo, ele se vale de uma isonomia “both sides45” para equalizar forças, participações e responsabilidades. A deposição do presidente João Goulart em 1964 foi o desfecho de um período turbulento da história do país, em que tanto a direita como a esquerda exibiram desprezo pelas regras do jogo democrático e reduzido interesse em negociar compromissos. (Grifo nosso) 45 Em 12 de agosto de 2017, o presidente estadunidense Donald Trump fez um discurso condenando a intolerância de “ambos os lados” nos conflitos ocorridos em Charlottesville, estado da Virginia, ocasião em que a ativista Heather Heyer foi morta após se opor a uma marcha organizada por supremacistas brancos de simpatia nazista. Sua fala foi duramente criticada por igualar discursos de ódio e racistas a uma luta contrária a eles. Figura 10: Caderno TSDM – pág. 2 e 3 - edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 65 No decorrer da matéria, a FSP elenca alguns episódios que conformaram o contexto “que teria levado” ao golpe (o primeiro, fracassado em 1961; rebelião de militares em 1963; multidões nas ruas em 1964 e apoio financeiro americano) para, ao final, assim narrá-lo: No dia 30, Jango foi ao Automóvel Clube do Rio para uma reunião da associação dos sargentos. Foi aclamado ao chegar, sentou-se ao lado do líder dos marinheiros e fez um discurso incendiário. Os conspiradores, que assistiram a tudo pela televisão, encontraram ali o pretexto que faltava para entrar em ação. Os principais comandantes militares aderiram aos golpistas em poucas horas, deixando o presidente sem condições de reagir. Enquanto Jango estava em Porto Alegre, o senador Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso, declarou vaga a Presidência e abriu caminho para a posse de um novo governo. (Um país partido ao meio, pág. 3. Grifo nosso) A narrativa esquematizada abre perguntas como o que significou na prática entrar em ação. Uso da força, prisões? A anuência do Congresso, ou seja, um golpe que segue o rito parlamentar dissimula ou atenua um golpe? Afinal, quem são os conspiradores, os principais comandantes militares, os golpistas? Entretanto, se o texto verbal apresenta um crime com criminosos e cúmplices não identificados (“forças ocultas”?), quando analisamos a composição verbovisual geral dos textos, no nível da visualidade, identificamos a presença (e ausência) de alguns atores nessa narrativa sobre um país dividido ao meio. Segundo a FSP, a polarização que rachou os brasileiros é encarnada em dois grupos: de um lado, os apoiadores do presidente João Goulart (que seriam de tendência política à “esquerda”), e do outro, os contrários a ele e às suas ações (tendência à “direita”). Esta localização em lados opostos está presente no próprio texto verbal: “militares, políticos e empresários tramaram contra Jango desde sua posse como presidente, em 1961”; “diante das dificuldades para alcançar um compromisso em torno das reformas, a esquerda e os sindicatos concluíram que a saída era agitar as ruas, buscando na mobilização popular o apoio a Jango que faltava no Congresso”; entre outros. Entre as fotografias eleitas para compor a matéria, duas exibem “multidões nas ruas”, em momentos, locais e com motivações distintas. Na parte superior da página e em posição horizontal, vemos um registro panorâmico de várias pessoas; elas estão em um espaço público e portam faixas com dizeres. Em um deles, é possível ler: “Ferroviários da E.F.B.C. saúdam as Forças Armadas e as conclama para as reformas”. A legenda da foto informa que se trata de 13 de março de 1964, “comício pelas 66 reformas de base na Central do Brasil, no Rio, pró-Jango”. Na parte inferior e na posição vertical (um registro fotográfico feito do alto), vemos outro grupo de pessoas pelas ruas. Na legenda, lê-se 19 de março de 1964, “multidão participa da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, no centro de SP, contra o governo Jango”. É possível ver também uma distinção entre as imagens de arquivo pré e pós- golpe. Quando datam de antes de 31 de março de 1964 (figura 11), elas nos oferecem situações de agitação, ambientes com muitas pessoas, que gesticulam e se movimentam. Vemos “marinheiros rebelados”, “Jango cercado por militares leais”, além de multidões nas citadas marchas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Já os dois registros pós-golpe (figura 12) exibem uma via pública com presença restrita de pessoas, que cedem lugar a tanques enfileirados, e o general Mourão Filho ao lado do governador mineiro Magalhães Pinto. A dupla aparece em destaque e na companhia de mais ninguém; os corpos estão parados, os braços direitos erguidos e os dedos em V, em sinal de vitória. Figura 11: Fotos pré-golpe, caderno TSDM – pág. 2 e 3 - edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 67 Na matéria seguinte – “a formação da ditadura” (figura 13) –, mais uma vez vemos atores localizados em lados opostos. Há, de um lado, ações de enfrentamento da esquerda ao regime, incluindo treinamento de alguns militantes em Cuba; do outro, “pressões da ditadura militar e combate à luta armada foram pretextos para endurecer o regime a máquina de repressão”. Conhecemos o rosto de todos os ditadores que ocuparam a presidência (incluindo os que compuseram a Junta Militar) e uma pequena descrição de suas respectivas atuações. Humberto Castello Branco “juntou-se aos conspiradores semanas antes do golpe”. Arthur da Costa e Silva “foi apoiado pela linha dura” e, com o AI-5, “ganhou poderes extraordinários e suspendeu garantias constitucionais”. A Junta Militar governou por dois meses até a posse de Emílio Garrastazu Médici, cujo governo “foi marcado pela repressão mais feroz do regime contra as organizações da esquerda armada e pela fase do ‘milagre’ – quando o país cresceu mais rápido”. Ernesto Geisel “iniciou a fase de distensão revogando o AI-5”. João Baptista Figueiredo “sancionou a Lei da Anistia, autorizou a criação de novos partidos políticos e a realização de eleições diretas para governador”. A imagem de cada um deles está localizada na base de um infográfico que disseca o número de mortos, desaparecidos, denúncias de tortura e punições políticas em cada gestão. Apesar de não apresentar a soma total, é possível contabilizar 210 mortos, 146 desaparecidos, 6016 denúncias de tortura e 5248 punições políticas, incluindo cassações, suspensão de direitos políticos e demissões/exonerações. Figura 12: Fotos pós-golpe, caderno TSDM – pág. 2 e 3 - edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 68 Ao longo da matéria, sabemos que “as ações da esquerda armada também fizeram vítimas”, apesar de não terem “nem de longe a dimensão que os assassinatos e a tortura praticada nos porões”46. No título, a palavra ‘ditadura’ ganha destaque – tem maior espessura e tamanho –, ao passo que ‘a formação’ é escrita com tipografia mais discreta, sob um fundo preto grifado. 46 A FSP adota o termo “porões” que, há bastante tempo, vem sendo problematizada por alguns historiadores. Em seu livro 1964: História do Regime Militar Brasileiro (2013), por exemplo, Marcos Napolitano sustenta que, ao contrário, os “porões” funcionaram como parte integrante do sistema político do regime (um aparato bastante ordenado, arranjado em rede dentro de uma estrutura hierarquizada), e não como mero “excesso” por parte de alguns policiais, sem o conhecimento do alto escalão do governo e mesmo da população. Documento revelado pela Agência Estadunidense de Inteligência (CIA) em 2015 e encontrado/divulgado em 2018 pelo articulista da FSP, Matias Spektor, revela que o ditador Ernesto Geisel, dias depois de assumir o poder, aprovou a continuidade de uma política de “execuções sumárias” de adversários da ditadura militar. O memorando da CIA revela, assim, ser palaciana a política de decidir sobre a vida e a morte de presos políticos sob a guarda do Estado. Não havia, portanto, “porões”, e sim palácios e quartéis. “A fonte primária também estima em 104 o número de execuções sumárias pelo Centro de Informações do Exército durante os 12 meses anteriores ao encontro relatado, no governo Médici. E joga luz sobre o fato de que o general Figueiredo, ao promulgar a Lei da Anistia, estava, na prática, concedendo uma anistia a si próprio.” Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/planalto-decidiu-sobre-a-vida-e-a-morte-de-presos- politicos-sob-a-guarda-do-estado.shtml Acesso em 11/05/18. 69 Já ao abordar a economia do período, a euforia do título se sobrepõe à bancarrota, enegrecida graficamente pela caneta que cobre os textos. O lead sustenta o entusiasmo do “milagre” econômico: “nos 21 anos em que os militares governaram o país, a economia cresceu num ritmo quase três vezes maior que o alcançado nas primeiras duas décadas após a volta da democracia”. Além do texto verbal, há uma única fotografia a compor a matéria. Em primeiro plano, vemos um carro suspenso e, ao fundo, uma linha de montagem de uma fábrica de automóveis que, pela legenda, sabemos da Volkswagen, em São Bernardo do Campo. Na parte inferior da página, destaque a indicadores econômicos e sociais: gráficos de PIB e PIB per capita, inflação, dívida externa, população, analfabetismo, desigualdade de renda e esperança de vida ao nascer. Figura 13: Caderno TSDM – pág. 4 e 5 - edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 70 Nas páginas seguintes (figura 14, acima), ganham destaque nos títulos as palavras ‘abertura’ e ‘da resistência’. A matéria que aborda o “longo caminho” até as eleições diretas que “empurraram os militares para a porta da saída” é composta por uma fotografia (a primeira em cores) que exibe personalidades políticas. Elas sorriem em um palanque sob chuva de papel, algumas delas têm os braços erguidos. A legenda informa que estão “em comício pelas Diretas Já na Sé, em 1984” e os apresenta por nomes íntimos/informais – FHC (Fernando Henrique Cardoso), Tancredo (Neves), (Franco) Montoro, (Leonel) Brizola, (Orestes) Quércia, Ulysses (Guimarães), (Luiz Inácio) Lula (da Silva). Na parte inferior da página, a FSP “atualiza” o que resta da ditadura. Ao centro lê-se que “Governo amplia indenizações, mas punições ainda são tabu”; nas laterais vemos números e cifras, sob o título de “acerto de contas”. Eles quantificam os pedidos (deferidos e indeferidos) de indenizações às famílias de mortos e de compensações financeiras a “vítimas de tortura, prisão arbitrária e perseguição Figura 14: Caderno TSDM – pág. 6 e 7 - edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 71 política”. Os valores, pagos em reais, ganham realce; respectivamente R$40 milhões e R$6,8 bilhões são destacados com tamanho maior e em cor vermelha. Na página ao lado, na matéria sobre o campo cultural vemos “artistas e intelectuais na Passeata dos Cem Mil, em 68”; dez deles são identificados com numeração individual e legenda correspondente, com os respectivos nomes, profissões e realizações. Outra fotografia, logo abaixo, traz o registro de uma cena do espetáculo teatral ‘O Rei da Vela’, de 1967, montagem do Teatro Oficina. A resistência indicada no título é exemplificada no texto verbal também com filmes do cineasta Glauber Rocha, a instalação “Tropicália”, de Hélio Oiticica e trabalhos como o musical Opinião, que “recebeu um público esclarecido – e já convertido – de intelectuais, artistas e classe média radicalizada”. Para varrer “Tudo sobre a Ditadura Militar” na área cultural, a FSP indica ainda uma lista com filmes, canções e livros. Os filmes têm a direção de Glauber Rocha, Bruno Barreto e Roberto Farias, as canções são de Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Chico Buarque e as obras literárias de Antonio Callado, Ignacio Loyola Brandão e Ana Cristina Cesar. Excluídas capa e contracapa, uma linha do tempo (“A ditadura ano a ano”) margeia a parte superior das páginas do caderno, traçando um percurso de 1964 a 1985 por meio de episódios que o jornal elege como marcos importantes. As ações que marcam essa rememoração são apresentadas por meio de textos verbais, fotografias e legendas, e estão organizadas por estratégias gráficas como linhas finas, anos destacados em círculos vermelhos, algumas palavras em negrito e marcos temporais (dias e meses) com cores distintas. Os episódios de relevância, segundo a FSP, seguem a ordem crescente dos anos, mas, para efeito de análise, os apresentamos aglutinados tematicamente. Na transcrição dos textos, mantivemos os negritos originais. Temas Texto original Data Geopolítica (1) Brasil fecha acordo nuclear com a Alemanha 27/06/75 Esportes (1) A seleção brasileira conquista o tricampeonato mundial de futebol no México (foto) 21/06/70 Economia (1) Embargos e alta de preços causam choque do petróleo, que sacode a economia mundial Out/73 Quadro 3: “A ditadura ano a ano” - Caderno TSDM – pág. 2 e 7 - edição 23/03/14 | Fonte: Elaborado pelo autor 72 Luta por direitos trabalhistas, civis e políticos (5) É lançada a Frente Ampla, movimento de oposição com Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart 28/10/66 “Passeata do Cem Mil”, no Rio, protesta contra o governo militar 26/06/68 Metalúrgicos da Scania, em São Bernardo do Campo, iniciam a primeira greve do país após o AI-5 (foto); 12/05/78 Primeiro grande comício pelas Diretas, na praça Charles Miller, no Pacaembu (São Paulo), reúne FHC e Lula (foto) 27/11/83 Mais de 200 mil vão a comício pelas diretas na praça da Sé, em São Paulo; campanha cresce pelo país 25/01/84 Crimes (9) Atentado a bomba contra Costa e Silva, candidato ao regime, no aeroporto dos Guararapes (Recife) mata dois 25/07/66 Atentado da guerrilha esquerdista VPR a um quartel em SP mata o soldado Mário Kozel Filho (foto) 26/06/68 Guerrilheiros sequestram o embaixador dos EUA, Charles Elbrick, solto após a libertação de 15 presos políticos 04/09/69 Carlos Marighella é morto em cerco policial em São Paulo (foto) 04/11/69 O deputado Rubens Paiva é preso no Rio e morto sob tortura (foto) 20/01/71 O guerrilheiro Carlos Lamarca é morto na Bahia 17/09/71 O jornalista Vladimir Herzog é morto sob tortura no DOI- Codi em São Paulo (foto) 25/10/75 O metalúrgico Manuel Fiel Filho é encontrado morto no DOI-Codi, em São Paulo 17/01/76 Bomba explode num carro no Riocentro, matando um militar e ferindo outro, num atentado planejado para sabotar a abertura 30/04/81 Congresso Nacional (11) Candidatos de oposição vencem eleições diretas para governador da Guanabara (Estado na região do município do Rio, extinto em 1975) e de Minas Gerais 03/10/65 A governista Arena vence as eleições legislativas e domina o Congresso Nacional 15/11/70 Nas eleições para o Congresso, o MDB, de oposição, elege 16 de 22 senadores e conquista 44% das cadeiras da Câmara 15/11/74 Congresso aprova emenda que extingue a Arena e o MDB; novos partidos são criados 21/11/79 Aprovada no Congresso emenda que restabelece eleições 13/11/80 73 diretas para os governadores A oposição elege governadores em 10 Estados. O governo perde a maioria na Câmara 15/11/82 O deputado Dante de Oliveira (PMDB) apresenta emenda reestabelecendo eleições diretas à Presidência 02/03/83 Congresso Nacional rejeita a emenda das Diretas-Já 25/04/84 José Sarney, Marco Maciel e Aureliano Chaves rompem com o governo e passam a apoiar Tancredo Neves (PMDB) 05/07/84 Colégio eleitoral elege Tancredo Neves (PMDB) (foto) presidente por 480 votos contra 180 de Paulo Maluf (PDS) 15/01/85 O vice-presidente José Sarney toma posse no lugar de Tancredo, que é operado e morre em abril 15/03/85 Militares – ditadores, generais e ministros (18) Os militares editam o Ato Institucional nº 1 e começam a cassar mandatos dos adversários 09/04/64 O general Humberto Castello Branco é eleito presidente da República pelo Congresso 11/04/64 O Ato Institucional nº 2 reabre as cassações, extingue os partidos e impõe eleições indiretas para presidente 27/10/65 Rechaçada a primeira tentativa de criar um foco guerrilheiro, na serra do Caparaó, entre MG e ES Abr/67 O general Costa e Silva toma posse na presidência. Entra em vigor a nova lei de Segurança Nacional 15/03/67 Três meses após o deputado Márcio Moreira Alves (MDB), em discurso, chamar o Exército de refúgio de torturadores e conclamar a população a boicotar os militares, o governo fecha o Congresso e decreta o Ato Institucional nº 5, que cassa mandatos e suspende direitos constitucionais 13/12/68 O presidente Costa e Silva sofre uma trombose cerebral 29/08/69 Ministros militares destituem o presidente com o AI-12 e passam a governar o país 31/08/69 O general Emílio Garrastazu Médici assume a presidência 30/10/69 Exército inicia campanha contra a guerrilha do PC do B no Araguaia (foto) 12/04/72 O general Ernesto Geisel é lançado candidato à Presidência 18/16/73 Geisel toma posse na presidência. Cinco meses depois, anunciaria o projeto de uma “lenta, gradativa e segura distensão” 15/03/74 O presidente Geisel demite o general Ednardo D’Ávila Mello do comando do 2º Exército 19/01/76 74 O governo fecha o Congresso e, no dia 14, baixa o Pacote de Abril, que cria os senadores pelo regime, sem eleições, os chamados “biônicos” 01/04/77 Geisel demite o ministro do Exército, Sylvio Frota, candidato da linha-dura militar à presidência (foto) 12/10/77 É promulgada emenda constitucional que extingue o AI-5 a partir de 1º de janeiro de 1979 13/10/78 O general João Baptista Figueiredo toma posse na Presidência 15/03/79 Figueiredo sanciona a Lei da Anistia. Em setembro voltam Leonel Brizola e Miguel Arraes 28/08/79 Vemos na escolha de episódios que marcam essa construção narrativa em cronologia um destaque numérico a crimes, à atuação do congresso e do corpo militar (ditadores, generais e ministros). É interessante perceber que, também na síntese “ano a ano”, emerge o velho binômio que reduz a(s) história(s) do período ao confronto entre a luta armada e o aparato repressivo – uma luta entre “dois lados”, “dois demônios” –, a onipresença da agência militar e uma fachada democrática, com o funcionamento do Congresso (ainda que intermitente), com a realização de eleições47 e votação de emendas e leis. A linha do tempo oferece dez fotografias, quase todas de rostos (em close) ou em plano americano. Vemos os retratos dos políticos (Executivo e Legislativo) João Goulart, Rubens Paiva, Tancredo Neves (com o braço direito erguido) e Fernando Henrique Cardoso; do sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva (ao lado de F. H. Cardoso, ao fundo lê-se “Arrocho”); do militar Mário Kozel Filho, do ditador Ernesto Geisel ao lado do general Sylvio Frota e do militante contrário ao regime Carlos Marighella (descamisado, com o braço esquerdo erguido e o punho cerrado). Exceções aos retratos “em close” são ao do político Leonel Brizola, de corpo inteiro – no que sugere ser a celebração do seu retorno do exílio –, e do jornalista Vladimir Herzog, seu corpo 47 “Embora tenha suprimido as eleições diretas para presidente e para governador, a ditadura militar tentou manter uma fachada democrática realizando pleitos periódicos para vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal e senador. Tais eleições só podiam ser disputadas pelos dois partidos permitidos: a Arena, o partido oficial, mais tarde PDS, e o MDB, inicialmente mera “oposição consentida” que se transformou numa frente contrária. A cada manifestação do eleitorado a favor da oposição, o regime respondia com novos casuísmos e mudanças de regras. Elas eram destinadas a impedir que o povo manifestasse livremente sua vontade e a garantir a maioria da submissa Arena.” Fonte: Memorial da Democracia. Disponível em http://m.memorialdademocracia.com.br/card/voto. Acesso em 27/09/17. 75 fotografado já falecido na cela do DOI-Codi de São Paulo, cuja imagem tornar-se-ia icônica48 das farsas criadas pelo regime sobre mortos e desaparecidos. Há ainda o registro de “corpos de guerrilheiros do Araguaia”49 rodeados por três homens com vestimentas militares, um deles armado, e de “metalúrgicos da Scania”50. Se nas páginas internas do caderno TSDM, a FSP aciona episódios e personagens da época para falar do passado, na capa e na contracapa ela realiza um movimento distinto; aciona o passado para falar do presente. No caso da matéria “E se...” (pág. 8), o gesto é ainda mais singular. Lança um olhar sobre o passado, mas, diferentemente de uma perspectiva histórica que o vê como passado, elabora um “futuro do passado”, ou melhor dizendo, cria um passado imaginado. E como tal não existe – como assinala Hobsbawm (1995), “e se” não é parte da História –, produz assim uma narrativa de ficção. 48 Vladimir Herzog foi um jornalista e professor brasileiro. Em 1975, procurado em casa e no trabalho (então diretor de jornalismo da TV Cultura) para esclarecimentos sobre sua participação no PCB, apresentou-se espontaneamente ao DOI-Codi, onde permaneceu detido por sete horas. Segundo testemunhas que o ouviram gritar e gemer, Herzog morreu após ser barbaramente torturado. Silvaldo Leung Vieira, então aluno de fotografia da Polícia Civil, registrou-o já morto na cela. A fotografia foi publicada em diversos veículos, sendo o primeiro deles o Jornal do Brasil. A imagem mostrava um corpo que pendia de uma tira de pano atada a uma grade da janela, a uma altura de 1,63cm. As pernas estavam arqueadas e os pés no chão. A nota oficial divulgada pelo 2º Exército afirmou ter sido um suicídio e, embora o laudo dissesse morte por asfixia, Herzog – que era judeu – não foi sepultado na ala dos suicidas no cemitério israelita, ato considerado desafiador ao regime militar. Sua missa de sétimo dia, na Catedral da Sé, tornou-se um ato ecumênico de repúdio à ditadura. 49 Legenda da foto. 50 Legenda da foto. Figura 15: Fotografias de “A ditadura ano a ano” - Caderno TSDM – pág. 2 a 7 - edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 76 Para compor visualmente tais narrativas, a FSP adota uma diagramação singular para ambos e bastante distinta da forma que as páginas do jornal do dia a dia se organizam. Na capa, os grifos de cor preta encobrem grande parte do texto, sendo capaz de subtrair parte de seu conteúdo, ainda que esse recurso gráfico permita ver o que foi sombreado (figura 16). Como mencionado, tal recurso emula a imagem de um texto censurado, prática comum em regimes totalitários. Já na contracapa, o apagamento cobre integralmente o fundo das cinco perguntas: “e se os militares não tivessem dado o golpe?”; “e se Jango tivesse resistido ao golpe?”; “e se Costa e Silva não tivesse ficado doente em 1969?”; “e se o regime não tivesse baixado o AI-5, teria havido luta armada?”; e “e se não tivesse havido luta armada, a ditadura teria acabado mais cedo?”. As “respostas” não são Figura 16: Capa e contracapa - Caderno TSDM – pág. 1 e 8 - edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 77 encobertas ou sombreadas graficamente. A ficção criada sobre “como teria sido o país sem o golpe de 1964 nem episódios-chave da ditadura militar” ganha reforços de autoridade por meio das falas de “especialistas”: do historiador Marcelo Ridenti, do sociólogo Francisco de Oliveira e o jornalista Carlos Chagas. O ano do cinquentenário do golpe de 1964 foi também ano de eleição para o cargo mais importante do Executivo brasileiro, a ser realizada alguns meses depois. A FSP escolheu fazer uso deste gancho jornalístico51 para entrelaçar a ditadura e a trajetória pregressa dos então três principais candidatos à presidência: Aécio Neves, pelo PSDB; Dilma Rousseff, pelo PT e candidata à reeleição; e Eduardo Campos, pelo PSB –, ainda que este último tivesse nascido somente após 1964. O texto, o único não assinado do caderno, apresenta os presidenciáveis, oferecendo distintas percepções a depender do recorte de gênero. O primeiro é lembrado no ano do golpe como “um menino de quatro anos que gostava de brincar com o avô, o então deputado federal Tancredo Neves”; a segunda como “uma estudante de 16 anos que se preocupava pouco com política” e o terceiro como alguém que “não tinha nascido, mas se lembra até hoje das histórias que seu avô Miguel Arraes, à época govenador de Pernambuco, contava sobre o dia em que foi deposto e levado à prisão pelos militares”. Nas três descrições, é possível perceber a distinção entre aqueles que, tendo nascido ou não, dispõem de uma herança política nobre e, assim, têm as portas abertas à arena pública, e entre aquela que supostamente tinha interesses outros. Chama atenção também uma alteração feita pela FSP. Enquanto o texto publicado no caderno impresso infere que a então presidenta era uma estudante “que se preocupava pouco com política”, o mesmo texto na versão online afirma que Dilma “ainda estava começando a se preocupar com política”. Essa é a única diferença contida entre os trechos. Vale lembrar que o jornal anuncia a edição impressa como uma versão “condensada” da reportagem multimídia, e não uma versão modificada. Antes de demarcar a trajetória dos presidenciáveis durante o regime, porém, a FSP elege a biografia de três presidentes para compor textual e visualmente a capa, cuja identidade gráfica se conecta à primeira página da edição daquele dia (figura 2), também rasurada. Apesar de curto em número de palavras (69), é o que texto verbal que 51 Segundo Manual de Redação, “Todas as reportagens devem partir do gancho jornalístico. A situação política dos Estados Unidos, por exemplo, é um tema permanente que adquire sentido atual em situações como a eleição presidencial, uma candidatura em ascensão ou uma votação polêmica no Congresso americano – que são os ganchos jornalísticos”. (Folha de S. Paulo, 2006, p. 24). 78 ocupa quase integralmente a capa (figura 16). Logo abaixo da marca “Tudo sobre a Ditadura Militar”, lê-se: Às vésperas da 7ª eleição presidencial desde a abertura, os três principais candidatos têm o que contar sobre a ditadura. 50 anos depois do golpe que derrubou Jango, o país foi governado por um professor exilado, FHC, um operário preso na ditadura militar, Lula, e um ex-guerrilheira, Dilma. A transição à democracia foi exitosa, mas incapaz de pacificar as controvérsias. Meio século depois, a ditadura ainda incomoda o país. Se, como vimos, na cobertura exterior ao caderno os três presidentes são localizados distintamente – FHC em matérias TSDM, Dilma e Lula em matérias “cotidianas”, vemos no caderno as biografias masculinas receberem marcações de classe. Fernando Henrique Cardoso é um “professor exilado” e Luiz Inácio Lula da Silva um “operário preso”. A exceção se dá com a presidenta em exercício. Apesar de sua experiência também como estudante universitária52 à época (posteriormente economista de formação), Dilma Rousseff é “ex-guerrilheira”. Entre aquilo que a FSP revela e esconde por meio dos grifos, “50 anos após o golpe de 64, a ditadura militar ainda incomoda o país” é o que se lê sem sombras. Aquilo que a FSP não esconde funciona também como o título do texto. Ao afirmar que, meio século depois, “a ditadura militar ainda incomoda o país” – e, portanto, causa aborrecimento, indispõe, perturba, estorva, irrita53 –, o jornal parece dar pistas sobre o que, segundo ele, ainda resta da mais recente experiência de ditadura à brasileira. Adiante, torna mais clara esta inferência ao justificar que, apesar de a transição à democracia ter sido “exitosa”, ela foi “incapaz de pacificar as controvérsias”. A escolha por resumir a herança de vinte e um anos vividos em regime de exceção como “uma questão sobre a qual muitos divergem54” transporta, para o primeiro plano, a existência de interpretações outras sobre a supressão de direitos políticos e prática de tortura, esta última empreendida de forma institucionalizada por agentes do Estado durante o 52 Em 1967, ingressou no curso de Ciências Econômicas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), abandonando-o dois anos depois para viver na clandestinidade. Em 1970, foi presa e submetida a torturas (pau de arara, palmatória, choques e socos) em São Paulo (Oban e DOPS), no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Foi condenada a seis anos e um mês de prisão, além de ter os direitos políticos cassados por dez anos. No final de 1972 saiu da prisão, após redução da pena junto ao Superior Tribunal Militar (STM). Em 1974, entrou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), formando-se economista em 1977. Fontes: memoriasdaditadura.org.br e http://lattes.cnpq.br/1357261451494509. Acesso em 25/05/16. 53 Sinônimos de incomodar, segundo o dicionário Houaiss. 54 Sinônimos de controvérsias, segundo o dicionário Houaiss 79 período. A decisão de sublinhar disputas narrativas sobre o período pode ser lida como um desejo de o jornal posicionar-se como quem apenas reporta o mundo, estando apartado dele. Entretanto, ela encontra aderência no discurso do próprio jornal quando compreendida no lastro de outras edições comemorativas. Ao rememorar os 40 anos do Golpe, o jornalista Marcelo Coelho, membro do Conselho Editorial da Folha, abordou os embates da memória, travados uma década antes. Em sua coluna de 31 de março de 2004, intitulada “Um trauma político e moral”55, Coelho escreveu: Lembro-me de ter escrito, em 1994, um artigo bem raivoso sobre os 30 anos do golpe militar. Na época, havia a tendência, a meu ver suspeita, de fazer uma espécie de balanço histórico – o famoso "por um lado... por outro lado". "De um lado", reconheciam-se os atentados aos direitos humanos e às liberdades civis. "Por outro lado" – e essa parte sempre vinha por último –, houve inegáveis realizações econômicas, a modernização do nosso parque industrial etc. Essa visão "equilibrada" das coisas era muito enganosa e terminava, a meu ver, desculpando o regime. Foi Benedetto Croce, se não me engano, quem afirmou que toda história é sempre história contemporânea – e agora, em 2004, o regime militar parece estar sendo objeto de um tratamento diferente do que aquele que eu criticava dez anos atrás. A questão da tortura veio para o primeiro plano. Creio que, em boa parte, os livros de Elio Gaspari sobre o período tiveram o efeito de romper o tabu que ainda existia em torno do assunto, enfatizando a monstruosidade da repressão e o seu caráter deliberado, planejado, consciente. Deixa-se de falar na tortura como um "acidente inevitável de percurso"; os crimes da repressão política fixaram-se como uma profunda, inapagável mácula na história recente do país. Ao contrário do que se pretendia, o assunto não foi sumindo aos poucos de cena. É um trauma político e moral: o tema não se esgota, volta sempre mais forte, não pode deixar de ser lembrado. (Ilustrada, pág. E12, grifo nosso) No dia seguinte, porém, o diretor de redação e diretor editorial do Grupo Folha, Otávio Frias Filho discordou do “novo” tratamento dado ao regime militar, com críticas à compreensão “por um lado, por outro”. Em sua coluna “Ecos de 64”56, afirmou ser “cômodo enquadrar situações complexas em julgamentos morais categóricos”. E não há dúvida, como lembrou ontem Marcelo Coelho, de que a história é sempre contada com olhos e valores de hoje. (...). Outra meia-verdade é a idéia de que a oposição ao regime militar era necessariamente democrática. Válida para amplas parcelas do parlamento, das associações de classe e da imprensa, essa idéia é falsa no que se refere à oposição armada. Alimentada pelo delírio de imitar o exemplo cubano, a guerrilha foi uma aventura criminosa que custou a vida de centenas de jovens ingênuos e idealistas. Se, por um acaso milagroso, os grupúsculos armados tivessem derrubado a ditadura dos generais, seria para instalar uma ditadura de partido único, nos moldes de tantas outras implantadas à força, com respaldo 55 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3103200419.htm Acesso em 14/05/17. 56 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0104200407.htm Acesso em 14/05/17. 80 soviético ou chinês, na África e na Ásia ao longo das décadas de 50 e 60. Fracassada, a aventura guerrilheira conferiu legitimidade ao período de ditadura nua e crua, entre 68 e 74. A favor dos militares, faça-se a ressalva de que somente intervieram quando a agitação de esquerda já ameaçava a disciplina, cerne dessa corporação hierárquica por excelência. Contrapesa o crime, moralmente nefando e politicamente intolerável, de haverem permitido que a tortura se tornasse instrumento de ação do Estado e contra adversários já indefesos. (Opinião, pág. A2, grifo nosso) É curioso notar que, apesar de se opor a um enquadramento de “situações complexas em julgamentos morais categóricos”, o diretor editorial do Grupo Folha (e um dos donos do jornal FSP) julga como uma “aventura criminosa” a experiência da guerrilha brasileira durante o regime e, ao mesmo tempo, faz o papel de advogado de defesa dos militares, justificando a “intervenção” como um impulso de contenção à “agitação de esquerda” que já “ameaçava a disciplina”. Afinal, inclinação natural dessa corporação “hierárquica por excelência”. A leitura do dono do jornal, oferecida em 31 de março de 2004, está sintonizada com a narrativa construída em “Um país partido ao meio” (figura 10), por meio de textos e imagens, cujo o golpe foi o desfecho que pôs ordem ao contexto turbulento com sargentos e suboficiais insubordinados da Marinha e Aeronáutica, manifestações da organização sindical CGT (comando Geral dos Trabalhadores) e multidões nas ruas. Para fechar o caderno, a FSP oferece uma leitura sobre o comportamento de alguns veículos de comunicação durante o golpe e a ditadura militar. Localizada na parte inferior da última página, ela é composta somente por textos verbais, que incluem título “Imprensa apoiou ditadura antes de ajudar a derrubá-la”; subtítulo “denúncias de tortura”, assinatura do jornalista convidado e sua apresentação no fechamento da matéria. Vale notar que a ‘imprensa’ a que se refere circunscreve-se exclusivamente a jornais impressos. E, apesar de fazer parte do caderno, a análise sobre a atuação de parte da imprensa durante o regime é a única matéria que reproduz o padrão gráfico do jornal diário; seu título não contém quaisquer palavras em destaque ou grifadas com cor preta. Além disso, não vemos bigodes em cor azul – como nas demais matérias, fotografias ou capas de jornal da época. O lead anuncia que “com mais ou menos intensidade, a grande imprensa apoiou o golpe de 64”. Entretanto, a FSP lembra que defendeu a legalidade em 1961, diferentemente de “vários jornais” que se declararam contrários à posse de João Goulart. “Estabelecido o viés geral” de oposição ao presidente, a grande imprensa aderiu em bloco, mas, ainda assim, alguns veículos tiveram “papel periférico, como a 81 Folha, com limitado peso editorial na época”. E se a FSP avalia sua atuação menor, ela aponta os “protagonistas do golpe”, entre eles o jornal Estado de S. Paulo e a cadeia Diários Associados. Mais adiante, lembra que praticou de autocensura (ao acatar “as orientações dos censores”), mas não sozinha – “alguns jornais, como a Folha”. Para se defender de algumas acusações de colaboração com o regime, oferece a dúvida (“se ocorreu”) e aciona credenciais de “primeiro jornal a encampar a embrionária campanha pelas Diretas Já”. Um dos episódios mais polêmicos da relação entre mídia e ditadura foi a guinada editorial da “Folha da Tarde”, da mesma empresa que edita a Folha. A partir de 1969, durante a fase mais dura do regime, a “Folha da Tarde” – até então comandada por jornalistas ligados à esquerda armada – foi entregue a profissionais associados à polícia e chegou a cooperar com as forças da repressão, endossando versões dos órgãos de segurança para esconder torturas e assassinatos de presos políticos. A empresa Folha da Manhã foi também acusada de emprestar veículos para órgãos da repressão. Se ocorreu, não é possível dizer que a prática foi autorizada pela direção da empresa. Em meados dos 70, a Folha acreditou no projeto de abertura e fez uma reforma editorial que deu voz à sociedade civil, franqueando suas páginas a intelectuais de oposição. Em fins de 1983, foi o primeiro jornal a encampar a embrionária campanha pelas Diretas Já, que, embora não tenha passado no Congresso Nacional, contribuiu para o fim da ditadura. (Grifo nosso) Seu apoio pioneiro à campanha “que contribuiu para o fim da ditadura” é o enunciado que fecha o caderno, é como a FSP encerra “Tudo sobre a Ditadura Militar”. Destacamos aqui esse gesto de escolher narrar a si mesmo como reflexão final/conclusiva do caderno, que busca encerrar um “dos episódios mais polêmicos entre mídia e ditadura”. Ressaltamos a localização no encerramento do caderno como um gesto carregado de intencionalidade, pois sabemos que o arranjo espacial do jornal, em sua materialidade impressa, constitui também um importante jogo textual, “sempre estrategicamente pensado para além de mero efeito estético, alcançando objetivos de matização interpretativa do real” (LEAL; CARVALHO, 2015, p. 157). 3.1 O que vemos, o que nos vê 3.1.1 Visualidade Quando olhamos para o caderno, já sabemos que não se trata apenas de um menu de informações ou um banco de dados, como às vezes a FSP deseja fixar. Esta ação é na verdade uma equação que o envolve e que também nos implica. 82 Na instância da visualidade, como nos diz Abril, trata-se de uma experiência em que aquilo que se vê se relaciona com o que não se vê. Ao examinarmos anteriormente a composição do caderno TSDM, foi possível identificar alguns elementos visíveis e, neste mesmo regime de visão, vemos também algumas ausências – silêncios e silenciamentos. Os atores – segundo a FSP – que encenam o golpe e da ditadura, assim como as suas maneiras de atuar, dão forma àqueles que não estão presentes, produzem sua emergência, mesmo não visível. Ao mesmo tempo, esse modo de experiência do invisível expõe as falas e modos de dizer do jornal, imbricada em redes de interesses e jogos de poder. À luz da Análise de Conteúdo, pudemos mobilizar uma empiria visível e constatamos, nas oito páginas do caderno, algumas recorrências, em quais seções foram publicadas, se havia ou não imagens, assim como as falas majoritárias e de maior relevo. a. Onipresença masculina Começamos com quem assina as matérias. Ao rememorar o golpe e a ditadura militar, a FSP seleciona um corpo de profissionais (fixos e convidados) quase exclusivamente composto por homens. A ausência de mulheres estende-se aos textos verbais e visuais, entre os personagens e episódios eleitos para esta narrativa. Quando analisamos o léxico do caderno, levamos em conta o que Carvalho (2014) nos chama a atenção, ao falar sobre os jogos de interesse e disputas de sentido que se apresentam aos jornalistas ao narrar os acontecimentos: “a despeito de técnicas de redação mais ou menos estáveis, cada narrativa requer uma cuidadosa escolha de palavras”. Recusamos, portanto, compreender essa escolha como um acidente de percurso ou justificada por questões técnicas, como uma maior dificuldade de encontrar personagens e imagens de arquivo. Essa escolha por invisibilizar mulheres e suas participações na rememoração do golpe e da ditadura militar na verdade encobre negociações e tensões confessadas e inconfessadas. Como nos lembra Goes (2017), “a relevância jornalística é parte da retórica política que justificará o avanço, nas superfícies noticiosas, de determinadas temáticas, fontes e suas ancoragens e angulações” (GOES, 2017, p. 46). Ao todo, os textos verbais do caderno TSDM somam quase 35 mil caracteres. Entre suas mais de sete mil palavras, mulheres existem somente uma única vez; aparece 83 quando é feita menção à resistência ao governo do presidente João Goulart demonstrada na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada na capital paulista. E surge de forma genérica, enquanto um grupo supostamente homogêneo: “Mulheres de classe média, líderes religiosos e políticos de oposição estavam na linha de frente da passeata” (‘Um país partido a meio’, figura 10). Ainda assim, não é possível vê-las na marcha. Dentre todas as pessoas mencionadas textualmente, existem apenas duas mulheres, seja como protagonistas ou atuando como personagens laterais, seja agindo na sustentação à ditadura ou na resistência e luta pela democracia. A então Presidenta da República e candidata à reeleição, Dilma Rousseff, é mencionada no rol de presidentes eleitos no período democrático. Parte de sua história – como “ex-guerrilheira, presa e torturada” – ganha espaço como biografia comparativa à dos demais. A outra figura feminina citada no caderno é a cantora Nara Leão. Sua menção é breve e circunstancial. Na matéria “Da resistência ao showbiz” (figura 14), diz o texto sobre o espetáculo musical Opinião: Dirigido por Augusto Boal, o espetáculo era assinado por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes. Levava ao palco Zé Keti, João do Vale e Nara Leão para protestar contra a ditadura que se instalava. Sabemos que os jornais se valem de fotografias para agregar forma e valor informativo às matérias. Elas também fornecem detalhes incapazes de serem identificados nos textos escritos ou mesmo se ancoram nos títulos, reiterando-os e conferindo certa credibilidade. Quando pensamos que, em cadernos comemorativos como TSDM, o referencial muitas vezes passa a ser o visual e não o textual, as fotografias adquirem ainda maior relevância. Uma a uma, a seu modo, oferecem detalhes e indícios e, junto aos demais textos, ajudam na produção de sentido e reconstrução do “universo” do golpe e da ditadura. E, se as fotografias contribuem para recriar o mundo, elas o fazem não apenas oferecendo um campo estético e simbólico, mas também uma chave epistêmica. Afinal, o que as fotografias (de arquivo) que conformam o mundo no caderno nos permitem conhecer? Na paisagem das oito páginas de TSDM, há trinta fotografias documentais, com registros da época. Elas não se encontram soltas, mas estão em relação a textos e legendas, assim como entre si e, dessa forma, “não fazem sentido por si só” (VAZ, MENDONÇA E ALMEIDA, 2002, p. 53), relacionam-se com um texto, “dispostas em locais específicos, que produzem todo um sentido, embora este ainda não seja 84 completo”. Por vezes, têm caráter “exemplitificativo” e “resumitivo”, na medida em que colaboram para encenar/identificar sujeitos e personagens históricos. Abaixo, buscamos vê-las reunidas em um mosaico. A partir de aproximações à metodologia utilizada por Vaz, Mendonça e Almeida (2002), as recortamos de suas páginas originais e as aproximamos, para ver, afinal, quais imagens (e de quem) cabem no caderno TSDM. Deixamos de fora somente aquelas em que não se vê corpos de pessoas, a saber: tanques militares na rua (figura 11), multidões no Comício na Central do Brasil e na Marcha da Família com Deus pela Liberdade (figura 11), e uma fábrica de automóveis da Volskwagen (figura 13). 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 00 00 11 12 13 Figura 17: Mosaico de fotos - Caderno TSDM – edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha, elaborado pelo autor 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 85 As fotografias exibem rostos e corpos masculinos de57: Mourão Filho com Magalhães Pinto (1); Leonel Brizola (2); FHC e Lula (3); Carlos Marighella (4); Tancredo (5); João Goulart (6); Rubens Paiva (7); Mário Kozel Filho (8); Geisel e Sylvio Frota (9); “metalúrgicos da Scania” (10); “marinheiros rebelados” (11); “Jango cercado por militares leais” (12); “corpos de guerrilheiros do Araguaia” (13); Vladimir Herzog (14); FHC, Osmar Santos, Tancredo, Montoro, Brizola, Quércia, Ulysses e Lula (15); Geraldo Vandré (18); Glauber Rocha (19); Humberto Castello Branco (20); Arthur da Costa e Silva (21); Aurélio Lyra Tavares, Augusto Rademaker e Márcio de Souza Mello – Junta Militar – (22); Emílio Garrastazu (23); Ernesto Geisel (24) e João Baptista Figueiredo (25). Uma das exceções é a escritora Ana Cristina César, que surge em close, localizada no rodapé da página 7, no canto mais à direita. Integra um conjunto de listas de filmes, canções e livros que a FSP sintetiza/indica sobre o período. Mais uma vez, é a única mulher da lista; divide espaço com outros oito artistas. A legenda, “Cenas de Abril – Poesia, 1979. Livro independente da poeta que, com escracho e lirismo, marcou a contracultura nos 70”, a situa no lugar visível que cabe às mulheres no caderno, o da cultura, das artes, do sensível. Uma escolha que não é neutra, afinal, “a relação entre a foto e a legenda estabelece um contexto pragmático que influi na percepção, na leitura e na compreensão da imagem fotográfica” (VAZ; TAVARES, 2005, p. 133). Vemos outros rostos femininos, todos circunscritos ao universo das artes. Na fotografia com atores do Teatro Oficina (16), há uma atriz visível; ela sorri no canto direito, na parte inferior da imagem, mas não possui identificação. No registro da Passeata dos Cem Mil (17), feito do alto por um ângulo aberto, há dez pessoas identificadas entre os “artistas e intelectuais”. Apenas duas são mulheres – a atriz Ítala Nandi e a cantora Nana Caymmi. Todos ganham apostos com as respectivas profissões, mas Nana Caymmi é a única que ganha o adendo “era casada com Gilberto Gil”. Como percebemos, o total de cinco mulheres que habitam o caderno (nos textos verbais e visuais: Nara Leão, Ítala Nandi, Nana Caymmi, Ana Cristina César e Dilma Rousseff) são, em sua maioria, artistas. Quando a narrativa é sobre o poder, são invisibilizadas. Elas não existem organizando marchas contra João Goulart, encabeçando passeatas contra a censura, não existem quando presas e mortas pelo 57 Os nomes foram reproduzidos da maneira como aparecem nas legendas das fotos no caderno. 86 regime, produzindo imprensa alternativa, articulando o Movimento Feminino pela Anistia (figura 20). Figura 18: Marcha da Família com Deus pela Liberdade, São Paulo, 19 de março de 1964. Fonte: Arquivo Correio da Manhã. Marcha da Vitória, que foi a versão carioca da Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, Rio de Janeiro, 2 de abril de 1964. Fonte: Arquivo O Globo 87 Figura 20: Da esquerda para a direita em sentido horário: Jornal Brasil Mulher (1975), Acervo Instituto Vladimir Herzog; Passeata dos Artistas contra a Censura (RJ, fev/1968/Arquivo Jornal do Brasil); Cartaz do Movimento Feminino pela Anistia (1975), Acervo Instituto Vladimir Herzog; Maria Auxiliadora Lara Barcelos, presa em nov/1969 (fotografia do DOPS/Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro). Figura 19: Galerias da Câmara dos Deputados durante a votação da Lei da Anistia. Foto: Sonja Rego/CPDoc JB. 88 Se a exceção ao campo das artes (Dilma Rousseff) divide espaço político com outros ex-presidentes, como FHC e Lula, conhecemos apenas as feições deles, suas posturas e gestos. Ambos têm um corpo ativo, têm voz; surgem empunhando microfones em comícios e com os braços erguidos. Como vimos, Dilma surge em outras edições do jornal que abordam o golpe e a ditadura, mas nunca dentro dos limites que a FSP determina como “Tudo sobre a Ditadura Militar”. Na esfera do visível – que sabemos não é fixa ou estável, apesar de apresentada pelo jornal como única e total –, uma materialidade narrativa de falas e de imagens competentes articulam os dizeres e os silenciamentos. Lembramos, mais uma vez de Abril e os regimes de ver, para pensar nas falas autorizadas (as imagens visíveis) e o que é silenciado. Quando a FSP narra 1964-1985, ouvimos depoimentos do ditador Ernesto Geisel, o general Adyr Fiúza de Castro, o ministro da economia durante o regime Antônio Delfim Netto e o coronel reformado Paulo Malhães. O jornal poderia justificar a escolha como “jornalística”, por julgá-los protagonistas do regime. Entretanto, esse gesto se repete quando analisamos os textos de ficção (“E se...”, pág. 8); mais uma vez, apenas homens são convidados a compartilhar suas reflexões e modos de compreender “episódios-chave” da ditadura militar. A FSP não encontra entre historiadores, sociólogos e jornalistas vozes femininas autorizadas a falar, ainda que haja pesquisadoras dedicadas ao tema, com trabalho reconhecido entre seus pares. Essa escolha revela gestos políticos, pois, como nos lembra Goes, As desculpas para deixar de fora temas, fontes, acontecimentos são parte de uma gramática profissional e empresarial interessada e amparada nesse regime, por meio das torções de silêncios e de palavras e da agência de luzes e de sombras”. (GOES, 2017, pág. 50). b. Os notáveis da ditadura Além de uma composição verbovisual que tem como marca visível a onipresença masculina – e branca –, os atores do golpe e da ditadura são ora figuras que gozam de notoriedade, ora apresentadas genericamente. A experiência da ditadura é encarnada em alguns militares, políticos, artistas, intelectuais e militantes de movimentos organizados de esquerda. A respeito deles, conhecemos superficialmente sua história, seus nomes e, por vezes, rostos. Nos textos verbais, grupos heterogêneos como empresários ou políticos são uma massa uniforme e sem identificação: “militares, políticos e empresários” tramam contra 89 João Goulart; o golpe teve “apoio americano”, assim como de “setores da classe média”. Apesar de o general Olympio Mourão Filho e suas tropas serem retratados como aqueles que, em 31 de março, desceram de Juiz de Fora (MG) em direção ao Rio de Janeiro, o golpe é desenrolado por “conspiradores”, “grupos nacionalistas”, “empresários” e “militares” (contra e a favor). A “esquerda” pressiona por mudanças, “grupos organizados” realizam ações como assaltos a bancos e sequestros, a “oposição” deflagra campanha pela realização de eleições diretas, entre outros. Quando alguns deles adquirem nome e corpo, como o deputado Rubens Paiva e o soldado Mário Kozel Filho, emergem em função de uma ação pontual ou figuram como mortos. É também o caso do militante Carlos Marighella, que surge como um nome, um corpo só, desnudo, no canto direito superior da página 3, ou do “guerrilheiro” Carlos Lamarca, que ganha breve menção, sintetizada em “é morto na Bahia”. As experiências heterogêneas da militância de esquerda (armada ou não), assim como suas articulações e negociações conflituosas, são invisíveis, são apartadas do mundo, não se relacionam com a própria sociedade. São experiências atomizadas, que recaem sobre alguns poucos eleitos. A organização das cidades, os fluxos de ir e vir nas vias públicas, o convívio com a polícia, o envolvimento da sociedade civil com a ditadura, assim como os impactos na vida cotidiana não possuem espaço no caderno. O silêncio da vida apaziguada à força, sob o império da ordem, é tamanho no caderno que produz ruído, faz barulho. Se vemos multidões em marcha, pró e contra João Goulart (figura 11), não há rostos ordinários; por vezes, há rosto algum. A vida comum aparece por meio de legendas e fotografias; são “metalúrgicos”, “corpos no Araguaia”, “multidões”. “Metalúrgicos da Scania, em São Bernardo do Campo, iniciam a primeira greve do país após o AI-5”, informa a legenda, mas não conhecemos os personagens ou os embates desta luta pelo trabalho, que é também uma luta política. Não vemos faces, seus semblantes e expressões, apenas corpos – inteiros ou em pedaços –, estirados ou de costas, atrás de máquinas. É curioso notar que, quando narra o “milagre econômico”, a FSP opta por apresentar uma paisagem de números; indicadores econômicos e sociais como PIB per capita e escolaridade “encarnam” experiências da época. Operários e suas condições de trabalho dão lugar a uma linha de montagem em uma fábrica de automóveis da Volkswagen, em São Bernardo do Campo (SP). Carros ocupam a paisagem, em uma foto centralizada na matéria que emerge como o emblema do 90 “milagre”. Se trabalhadores não são personagens, o mesmo se dá com os “empresários” (no plural, como o jornal anuncia) e seu laços com a ditadura militar. Continuamos pelo caderno a ver personalidades-vitrine. A resistência cultural (mencionada no título ‘Da resistência ao showbiz”, figura 14) é encapsulada em nomes como Augusto Boal, Chico Buarque e Oswald de Andrade, cujas obras o jornal chama de “produtos típicos” da esquerda cultural da época. Ao alçá-los a ícones da resistência, vemos um gesto duplo da FSP: de lançar luz sobre uns e sombrear outros, os que foram foi alvo da ditadura e os que não. De um modo geral, os militares têm nome e breve história. Na linha do tempo (quadro 3) que margeia o caderno, o jornal dedica a eles 40% dos 36 episódios escolhidos para costurar a narrativa ano a ano sobre o regime. Eles agem, se rebelam, implementam, sancionam, cassam. Sabemos, por exemplo, que em 1967 o “general Costa e Silva toma posse”, decreta o AI-5 em 1968 e sofre trombose cerebral um ano depois. Conhecemos também os rostos de todos os ditadores presidentes e alguns de seus atos, incluindo o número de corpos presos, torturados e mortos, contabilizados em cada gestão. Na base do gráfico (figura 13) que apresenta esses números estão o busto de cada um deles. A exceção que foge à regra é quando a FSP se inclui, quando fala dos pares e de si. Ao analisar o comportamento de parte da mídia impressa durante o golpe e a ditadura, os personagens são vários e matizados de acordo com sua atuação. Adquirem contornos um pouco mais complexos e diversos, têm agência sendo, inclusive, responsabilizados por decisões tomadas. Trata-se de uma imprensa que “apoiou a ditadura” e também “ajudou a derrubá-la”. Nesse texto que “fecha” o caderno, a FSP nomeia protagonistas, contextualiza suas ações, reconhece ambivalências, discorre e exemplifica os desafios enfrentados e as saídas encontradas. Diferenciando-se das demais matérias, é a única que reproduz o padrão gráfico das páginas do dia a dia. Apesar de parte de “Tudo sobre a Ditadura Militar”, a narrativa sobre a atuação de empresas de comunicação não recebe grifos e rasuras. 3.1.2 Mirada Por meio da visualidade, pudemos propor uma reflexão sobre a possibilidade do invisível, em outras palavras, a de enxergar um ordenamento do visível e do invisível 91 nos gestos de leitura que a FSP faz sobre o golpe e a ditadura, incluindo neles pistas deixadas sobre os valores e posturas políticas do jornal. Já na instância da mirada, Abril nos lembra que ela é orientada pela forma como olhamos e que, portanto, o ato de olhar não é estrangeiro ao texto verbovisual. Enxergamos com os olhos da nossa cultura e da nossa experiência, como espectadores que fazem julgamentos a partir de visões e atitudes perante o mundo. Os textos possuem vida, eles também nos olham. Reconhecemos, assim, na FSP um olhar orientado editorialmente que, antes mesmo de publicar algo, elege o que ver e como localizá-lo. Certamente, estão implicados nesse gesto condições técnicas de produção, mas elas não justificam integralmente uma visão modalizada culturalmente. Pensando nisso, na instância da mirada, nossa atenção se volta às marcas deixadas como pistas para pensarmos sobre os valores e a forma do jornal de ver o golpe e a ditadura militar. A partir das marcas visíveis e invisíveis, propomos perceber aqui duas perspectivas: o apagamento da experiência, e o apagamento da agência e das responsabilidades. a. Apagamento da experiência A FSP diz narrar tudo e, para isso, oferece um cardápio de algumas vozes (masculinas) autorizadas a falar, além de ações e experiências atomizadas em algumas personalidades. Oferece também números, gráficos e análises sobre como foi ou poderia ter sido o período. Ao invisibilizar tantas vozes e corpos, ela produz um primeiro silenciamento/apagamento: o da experiência – se não todas, o de determinadas experiências. Quando narra “a formação da ditadura” (figura 13), aborda o aparato repressivo do regime contabilizando denúncias de abusos, mortos, desaparecidos e indenizados (incluindo o montante total gasto até a data de publicação do caderno). Há crime de tortura, mas sem torturados. Em determinado momento, exibe “corpos do Araguaia”, mas não há pessoas, histórias e testemunhos. Há fábrica de automóveis e operários em greve, mas não conflitos e negociações entre patrões e empregados sob um regime de exceção, com suspensão de direitos. A censura existe, mas as vivências causadas por esta interdição são apagadas (exceto quando atinge empresas de comunicação). Quando silencia a cultura, conhecemos as personalidades que, segundo o jornal, resistiram ao criarem e darem voz a obras que desafiavam o regime. Mas, como vimos, 92 esse enfrentamento político é circunscrito a “artistas e intelectuais”. Dos 26 mencionados, há dois negros (Gilberto Gil e Zé Keti), um gesto que revela também um recorte classista e racista. Apesar de apagados desse campo da resistência, cantores de forte penetração em rádios e sucesso em venda de discos – muitas vezes chamados de “bregas” – produziram obras que desafiaram o regime ou foram alvo de censura58. Consagrado como o ídolo negro e extremamente popular, Evaldo Braga foi um dos que cantou a tristeza, a solidão e a morte59 em um período em que a propaganda oficial investia em peças publicitárias na TV rechaçando a tristeza e enaltecendo a alegria; afinal, “não perceber a inauguração de um novo tempo, resultaria em tristeza, em inadaptação” (ARAUJO, 2012, p. 264). O sucesso de 1970 Não creio em mais nada, de Paulo Sergio, ia de encontro a uma das campanhas do regime cujo lema era “Você precisa acreditar”, entre outros exemplos de artistas populares, homens e mulheres. O historiador Paulo Cesar Araújo lembra que: O ceticismo e a melancolia do repertório “cafona” acabavam por adquirir, mesmo que não intencionalmente, um caráter transgressor e de resistência – principalmente quando a tristeza vinha associada às questões sociais do país. (...) O discurso dessas canções também estabelecia um flagrante contraste com um outro slogan muito difundido na época: “Brasileiros, nunca foram tão felizes” – mensagem com a qual a TV GLOBO encerrava sua programação diária no início dos anos 70. Aliás, em perfeita sintonia com o ideário do regime militar, em 1971 a emissora lançou a sua mais tradicional mensagem de fim de ano, a música Um novo tempo, cuja letra permitia uma analogia entre o ano novo que se aproximava e o novo tempo político anunciado pelas Forças Armadas a partir de 1964: Hoje é um novo dia / de um novo tempo que começou / nesses novos dias / as alegrias serão de todos, é só querer / todos nossos sonhos serão verdade / o futuro já começou (ARAUJO, 2012, p. 265). Outra característica que se repete no caderno é o apagamento de vozes e experiências ordinárias, histórias cotidianas daqueles que viveram a ditadura militar em suas diversas formas, para além da atuação em partidos políticos e grupos organizados de esquerda. Histórias que contemplam a maior parte dos brasileiros e brasileiras, de diferentes idades, da cidade e do campo, de diversos matizes étnicas, religiosas, de 58 Em 1973, a ditadura proíbe a canção Uma vida só (Pare de tomar a pílula), de Odair José, por contrariar o programa de distribuição de anticoncepcionais do governo. No mesmo ano, Meu pequeno amigo, de Fernando Mendes, é também proibida pela censura. “Digam pra mim / digam pra mim onde ele está / e o que foi que fizeram / com o meu pequeno amigo?” diz a canção que homenageia o garoto Carlos Ramirez Costa, o Carlinhos, cujo sequestro havia mobilizado polícia e imprensa cariocas. A letra, porém, não menciona seu nome. Uma letra sobre o desaparecimento de um amigo desagradou o regime; 1973 e 1974 são os anos do período com o maior registro de desaparecidos políticos no Brasil. 59 Em Tudo fizeram para me derrotar, de 1971, cantava “em nada mais posso crer / para mim nada existe / somente eu sei dizer porque vivo triste assim” e “vou acabar a minha vida / que só me dá desgosto / lágrimas no meu rosto não param de rolar”, na canção Meu delicado drama, de 1973. 93 identidade de gênero e orientação sexual, entre outros. Chama atenção o apagamento de experiências como o direito à cidade no contexto da ditadura; as abordagens policiais nas ruas, especialmente à população negra; estratégias de sobrevivência como portar carteira de trabalho para escapar de detenções e interrogatórios, entre outros. Ao se lembrar da efervescência dos bailes de black music na capital mineira dos anos 1970, Arildo da Cruz – hoje zelador, à época um jovem estudante negro, morador da Região Metropolitana de Belo Horizonte – narra como uma certa vivência cultural era também atravessada pela atuação da polícia sob um regime de exceção. “Lá [no Máscara Negra] frequentava mais é gente escura, praticamente não entrava branco, então a polícia batia lá direto, descendo o pau mesmo. Queria nem saber, já entrava gritando ‘viado prum lado, puta pro outro!’. Tinha policial que chegava dando geral nas mulheres, ia enfiando e passando a mão em tudo. Perguntava pra gente ‘por que você está vestido assim, que cabelo é esse?’ Mandava cortar o som. Aí você já levava um tapão na orelha, um soco na boca do estômago, eles implicavam com calça pantalona, com o colorido, com o xadrez, mandavam cortar o cabelo e, se vissem a gente com ouriçador, aí tava perdido” (MACEDO, 2015, p. 12) Em todo o caderno, não há nenhuma vivência que contemple (ao menos) no léxico: indígena, negra, negro, violência sexual, crianças, rural, periferia, gay, lésbica, bissexual, movimento feminino, movimento feminista, sertanista, entre outros. O grifo à inexistência deste vocabulário não é despropositado. Apesar de essa narrativa apagar experiências cotidianas, é sabido que diferentes grupos da sociedade civil tiveram suas vidas atravessadas pela violência do regime, para além dos protagonistas (políticos, intelectuais, militares, etc.) eleitos pela FSP. Experiências não visíveis em números de mortos, presos e desaparecidos. Aliás, dimensionar vinte e um anos de cidadania aprisionada, de supressão de direitos universais, a partir de uma régua que mede mortos e desaparecidos, é o que muitas vezes respalda argumentos como o que a própria FSP usou em editorial, em 2009, ao incluir a ditadura brasileira 1964-1985 entre as “ditabrandas60”. Alguns episódios, entre tantos, expõem algumas das violências sofridas por diferentes grupos durante o período. Em 1969, por exemplo, o Itamaraty instalou a Comissão de Investigação Sumária que cassou 44 funcionários sob a acusação de “prática de homossexualismo”. Nesse mesmo ano, o Reformatório Agrícola Indígena 60 Ver “Limites à Chávez”, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1702200901.htm Acesso em 15/03/16. 94 Krenak começou a funcionar no Posto Indígena Guido Marlière (hoje denominada Terra Indígena Krenak), no município de Resplendor, Minas Gerais. Comandado por agentes da Polícia Militar mineira, o local foi, na verdade, um campo de trabalhos forçados, com tortura e maus tratos a indígenas de mais de 15 etnias. Em 1978, o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNU) denunciou a violência policial contra negros em ato público que reuniu duas mil pessoas nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo. Em 1980, treze organizações protestaram, no Centro de São Paulo, contra a Operação Limpeza, comandada pelo delegado de polícia José Wilson Richetti, que espancava, extorquia, torturava e detinha com violência especialmente prostitutas, travestis, lésbicas e gays. Apesar da repressão a manifestações políticas públicas, em 1980, foi realizada a primeira marcha gay em São Paulo, também denunciando abusos policiais e exigindo acesso a direitos fundamentais; a partir dela, surgiu o primeiro grupo exclusivamente lésbico do país. No governo do ditador João Figueiredo, foi produzido um relatório que reuniu denúncias sobre crimes contra populações indígenas, após a visita a 130 postos indígenas em todo o país. Descoberto somente em 2013, o “Relatório Figueiredo” revelou que: O resultado apresentado pelo procurador em seu Relatório é estarrecedor: matanças de tribos inteiras, torturas e toda sorte de crueldades foram cometidas contra indígenas no país, principalmente pelos grandes proprietários de terras e por agentes do Estado. Figueiredo fez um trabalho de apuração impressionante: incluiu relatos de dezenas de testemunhas, apresentou documentos e identificou cada uma das violações que encontrou – assassinatos de índios, prostituição de índias, sevícias, trabalho escravo, apropriação e desvio de recursos do patrimônio indígena. Ele também apurou as denúncias sobre a existência de caçadas humanas de indígenas feitas com metralhadoras e dinamite atiradas de aviões, as inoculações propositais de varíola em populações indígenas isoladas e as doações de açúcar misturado a estricnina. (Projeto República61) Além dos textos verbais, as fotografias do caderno também invisibilizam as experiências de vidas comuns; vemos apenas quando pessoas marcham contra ou a favor do golpe/ditadura. Apesar de diretrizes impostas pela censura, órgãos de imprensa produziram um vasto repertório de imagens. Algumas eram disponibilizadas pelos 61 Fonte: site Brasil Doc., “arquivo digital construído pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com o objetivo de tornar disponível, em transparência ativa, fontes históricas de natureza diversa abrigadas na instituição”. Disponível em https://www.ufmg.br/brasildoc/temas/5-ditadura-militar- e-populacoes-indigenas/. Acesso em 29/04/17. 95 órgãos oficiais62, como fotografias de militantes de esquerda procurados (nomeados “terroristas” pelo governo), afixadas em cartazes pela cidade, como aeroportos e centros comerciais. As imagens do cotidiano habitavam jornais e revistas da época, quando, aparentemente, não ofereciam “perigo” ao regime. Elas também compunham a paisagem das cidades, dispostas em bancas de jornal, ou chegando à mesa do café da manhã (via assinatura de jornais), transitando nas ruas, em leituras em ônibus, repartições, igrejas e universidades. Para efeito de comparação, o volume de imagens que circulou entre veículos impressos brasileiros (sejam nos tradicionais ou nos alternativos, de menor tiragem) no período (1964-1985) possui uma distinção fundamental com a experiência ditatorial argentina (1976-1983). Ambas possuem aproximações temporais e das complexas relações de adesão e resistência ao regime, mas, no caso do país vizinho, o jornal de língua inglesa Buenos Aires Herald63 foi o único periódico a noticiar e expor imagens de desaparecidos e de violações dos direitos humanos durante todo o período. Entre os registros brasileiros da vida cotidiana, há, por exemplo, o de crianças brincando no Morro da Mangueira (ver figura 21), nos anos 1960. Ao fundo, podemos ver moradias construídas precariamente, em rua não asfaltada e, aparentemente, com pouca infraestrutura (urbanização), retrato que destoa da propaganda entusiasmada pretendida pelos governos militares. Ou a do jogador de futebol Pelé curvando-se à Rainha Elizabeth (ver figura 22), no estádio do Maracanã, em 1968, tendo, ao fundo, torcedores sorridentes, vestidos elegantemente. 62 No Brasil, a prática de o próprio governo produzir imagens e disponibilizá-las à imprensa é antiga. Ganhou fôlego com o estabelecimento da Agência Nacional, criada em 1945 (por decreto do ditador Getúlio Vargas, quando ocupava a Presidência) para distribuir o noticiário e o serviço fotográfico de eventos governamentais. Um ano depois, o órgão ficou diretamente subordinado ao Ministério da Justiça e, em 1971, a Agência passou a transmitir, além de noticiário e imagens que julgava de interesse público, peças de publicidade governamentais. 63 O jornal encerrou suas atividades em 31 em julho de 2017, após 140 anos de atividade. Mesmo publicado em língua inglesa, “muita gente comprava o Herald só para ler o editorial – que por lei devia ser publicado em espanhol –, e as mães da Plaza de Mayo iam à redação para denunciar o desaparecimento de seus filhos”. Disponível em http://piaui.folha.uol.com.br/materia/um-jornal- inconveniente/ Acesso em 10/08/2017. 96 Figura 21: Meninos em carrinho - Morro da Mangueira. | Foto: Evandro Teixeira Figura 22: Foto: Evandro Teixeira/Arquivo JB b. Apagamento da agência/responsabilidades Vemos um gesto de apagamento também da agência daqueles que viveram o período, seja nas resistências ou adesões e suporte ao regime. Destacamos, primeiramente, a forma como os ditadores são enunciados pela FSP, uma escolha que nos revela o próprio entendimento dela sobre a condição política da época. Apesar de reconhecer que houve uma ditadura, a FSP não reconhece os ditadores. No caderno publicado em 2014, toda menção a aqueles que comandaram o país, que tomaram 97 importantes decisões afetaram diretamente a vida do país, é feita por ‘presidente Geisel’, ‘presidente Médici’, e demais. Em 24 de dezembro de 1999 – já no período democrático –, o ditador João Figueiredo (1979 a 1985) também morreu presidente64, o que poderia confirmar um padrão editorial consolidado do jornal. Entretanto, essa suposta baliza editorial se desfaz quando olhamos a maneira como a FSP noticia a morte de personagens estrangeiros. Quando não nossos, morrem ditadores, como Augusto Pinochet65 (2006, Chile), Haiti Jean-Claude "Baby Doc" Duvalier66 (2014, Haiti), Fidel Castro67 (2016, Cuba), Islam Karimov68 (2016, Uzbequistão), Manuel Noriega69 (2017, Panamá), entre outros. Há também um padrão distinto quando se tratam de atos praticados contra o governo e contra a população, por vezes fruto de sujeitos “ocultos”. De um lado, “atentado contra Costa e Silva (...) mata dois”, “atentado da guerrilha esquerdista VPR (...) mata o soldado Mário Kozel Filho”, “guerrilheiros sequestram”. Do outro, “Carlos Marighella é morto”, “Rubens Paiva é preso (...) e morto sob tortura”, “Carlos Lamarca é morto”, “Vladimir Herzog é morto sob tortura’, “Manuel Filho é encontrado morto no DOI-Codi”. O leitor pode se perguntar, afinal, quem mata? Quem tortura? Outro exemplo de ação sem autoria é “bomba explode num carro no Riocentro, matando um militar e ferindo outro num atentado planejado para sabotar a abertura”. Apesar de a causa do óbito ter sido pela explosão de um artefato, de forma análoga, seria insólito noticiar que uma bala de revólver tirou a vida de alguém. Neste sentido, o leitor pode, mais uma vez, se perguntar: o atentado foi planejado e executado sob as ordens de quem? Quem permitiu ou teve ciência das práticas de tortura em interrogatórios efetuados com o jornalista Vladimir Herzog, “morto sob tortura”? É verdade que somente em 29 de abril de 2014 – portanto, alguns dias após a publicação do caderno – que a Comissão Nacional da Verdade divulgou documentação que comprova que o ditador João Figueiredo e o general Danilo Venturini, chefe do 64 Acesso em 09/05/2017 http://www1.folha.uol.com.br/fol/pol/ult24121999026.htm 65 Acesso em 09/05/2017 http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u102428.shtml 66 Acesso em 09/05/2017 http://m.folha.uol.com.br/mundo/2014/10/1527248-morre-o-ex-presidente- haitiano-jean-claude-duvalier.shtml 67 Acesso em 09/05/2017 http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/11/507178-ditador-fidel-castro- morre-em-cuba-aos-90-anos.shtml 68 Acesso em 09/05/2017 http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/09/1809577-morre-aos-78-anos- islam-karimov-ditador-do-uzbequistao-desde-1989.shtml 69 Acesso em 09/05/2017 http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/05/1888575-manuel-noriega-ex- ditador-do-panama-morre-aos-83-anos.shtml 98 Gabinete Militar da Presidência, foram informados com antecedência que o Destacamento de Operações de Informações (DOI) do 1º Exército preparava um atentado terrorista no Riocentro. Entretanto, quando em outras datas a FSP explorou o tema (“um dos mais rumorosos casos do período militar”), o fez ressaltando as “suspeitas generalizadas de que [o sargento] Rosário morrera manipulando a bomba”70. O não apagamento da autoria poderia ser evitado ancorando-se na suposição da verdade, prática que o próprio jornal por vezes adota – os ‘supostos crimes de estupro’, mesmo quando praticados por criminosos confessos 71. Também as imagens visuais apagam a agência dos personagens, as colaborações e resistências ao regime. Como vimos, o emblema do “milagre econômico” (figura 13) são carros, vistos em sequência em uma fábrica em São Bernardo do Campo. Antes da publicação do caderno TSDM, em 2012, funcionários desta mesma fábrica relataram à Comissão da Verdade Vladimir Herzog72 terem sofrido abusos quando eram funcionários da filial brasileira da Volkswagen. Com as denúncias tornadas públicas, a multinacional alemã encomendou um relatório próprio que veio a confirmar e esclarecer de que forma se deu sua cooperação (ainda que não institucionalizada) com a ditadura militar. Entre outras revelações, o documento aponta que o presidente da filial brasileira à época, Friedrich Schultz-Wenk, não se assustou com o golpe, mas, ao contrário, “sua reação foi extremamente positiva, até mesmo eufórica”; ele “considerou a detenção de líderes sindicais, bem como dos reais e supostos simpatizantes dos comunistas expressamente bem-vinda” (KOPPER, 2017, p. 20). Schultz-Wenk, que, antes de imigrar ao Brasil, foi filiado ao partido nazista na adolescência e atuou como oficial da marinha alemã na Segunda Guerra Mundial, “não minimizou o caráter violento do golpe, chegou até a justificá-lo” (KOPPER, 2017, p. 20). Com seu “conhecimento tácito”, o chefe da segurança patrimonial Ademar Rudge (um ex-coronel das Forças Armadas brasileiras) monitorou atividades dos empregados, denunciou e entregou à polícia política um relatório com fotos e informações dos prontuários dos funcionários, 70 “Militar mantém 17 anos de silêncio” http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc26049829.htm. Acesso em 12/07/2017. 71 “Suspeitos confessaram o crime, mas estão soltos. A Polícia Federal investiga o suposto estupro coletivo de uma menina de 14 anos, por um homem de 20 anos e quatro adolescentes em Cascavel (PR). A ação foi filmada por um sexto integrante do grupo e publicada no YouTube”. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2308201124.htm Acesso em 19/07/2017. 72 Comissão da Verdade “Vladimir Herzog”, Relatório Final, Câmara Municipal de São Paulo 2012. http://www.vereadornatalini.com.br/PDF/relatorio_final_comissao_da_verdade.pdf Acesso em 20/01/18. 99 incluindo atuação em greves (figura 25). Ao menos, sete empregados e empregadas foram presos, e alguns torturados pela polícia ainda dentro das instalações da fábrica de São Bernardo do Campo. Um deles, o operário Lúcio Bellentani, era militante do Partido Comunista Brasileiro e permaneceu, ao todo, dois anos e quatro meses na prisão. À Comissão da Verdade, ele relatou que: Em 1972 fui preso dentro da Volkswagen. Estava trabalhando e chegaram dois indivíduos com metralhadora, encostaram nas minhas costas, já me algemaram, isso às 23h, coisa assim. Na hora em que cheguei à sala de segurança da Volkswagen já começou a tortura, já comecei a apanhar ali, comecei a levar tapa, soco73. O documento, publicado na Alemanha em 30 de outubro de 201774, expõe também benefícios obtidos pela empresa, salvaguardados pelas interdições (como direito à greve) impostas pelo regime aos trabalhadores; “lucros surpreendentemente altos que lhe permitiram o financiamento próprio de investimentos, bem como altas remessas de lucros à matriz”. Devido ao controle salarial e dos sindicatos pelo governo, os salários ficaram em um nível bem mais baixo do que em uma democracia pluralista com livre negociação salarial e direito à greve. A VW do Brasil e, em última instância também a VW AG, aproveitaram para si a suspensão dos direitos trabalhistas elementares. A VW do Brasil foi irrestritamente leal ao governo militar brasileiro e compartilhou os seus objetivos econômicos e de política interna. A correspondência com a diretoria em Wolfsburg evidenciou até 1979 um apoio irrestrito ao governo militar que não se limitava a declarações de lealdades pessoais. (KOPPER, 2017, p. 112) A fotografia (ver página 100, figura 24) registra um instante de negociações e tensões vividas por trabalhadores dessa fábrica, em um contexto de “suspensão dos direitos trabalhistas elementares”. Vemos rostos e corpos de funcionários em greve, nas proximidades da Volkswagen. Encontram-se aglomerados à direita da imagem, como se protegendo uns aos outros. Quase todos parados; alguns têm os braços cruzados, outros 73 Depoimento integral disponível no Relatório Final da Comissão da Verdade “Vladimir Herzog” /SP, http://www.vereadornatalini.com.br/PDF/relatorio_final_comissao_da_verdade.pdf, páginas 49 a 51. 74 Em 14 de dezembro de 2017, o documento foi divulgado no Brasil na presença do historiador Christopher Kopper (que o produziu) e do CEO da Volkswagen na América do Sul e no Brasil, Pablo Di Si, que afirmou ser “agora um novo momento, muito mais humano, em nossa relação com os brasileiros. Reconhecemos que o processo da ditadura foi muito difícil e que pessoas da empresa colaboravam com os militares. Mas isso não configura, como explica o relatório, uma atitude institucionalizada por parte da empresa. Lamentamos o que aconteceu e trabalharemos para que isso não volte a ocorrer no futuro”. Na sequência, a empresa inaugurou uma placa em memória das vítimas do regime militar nas instalações de fábrica de São Bernardo do Campo. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/12/1943301-filial- brasileira-da-volkswagen-colaborou-com-ditadura-diz-relatorio.shtml Acesso em 18/01/18. 100 com as mãos nos bolsos. Um deles olha em direção ao corpo policial e parece ensaiar um movimento de recuo. Já os policiais acompanham a movimentação exibindo sua força/poder; portam fuzis e cassetetes e adotam posição intimidadora. O documento considera possível que tenha havido também uma participação financeira indireta da empresa por meio de contribuições financeiras à FIESP, bem como o fornecimento gratuito de veículos a órgãos policiais. Vemos nos relatórios da Comissão da Verdade e da própria multinacional alemã um gesto distinto da FSP. Ao narrarem a atuação da empresa e de funcionários durante o período, o “milagre econômico” não ocorreu impunemente, apesar dos números que apontam curva acentuada crescente do PIB e PIB per capita (figura 23). A VW “foi irrestritamente leal ao governo militar brasileiro”, obteve “lucros surpreendentemente altos” às custas da “suspensão dos direitos trabalhistas elementares”, os operários se organizaram e articularam greves, atuaram em partidos e organizações clandestinas de esquerda, sofreram violências do Estado, seus corpos foram torturados e encarcerados, e suas histórias interrompidas. Ainda assim, elas são nomeadas e suas experiências não apagadas. Um gesto político bastante distinto do jornal, que afirma abordar ‘tudo sobre a ditadura militar’. Figura 23: “Indicadores econômicos e sociais do Brasil de antes do golpe aos dias atuais” | Fonte: Acervo Folha Percebemos esse apagamento das capacidades de agir e negociar em quase todo o caderno. São as disputas políticas que “racham” o país e “culminam” no golpe, pessoas “são mortas e torturadas”, ditadores são apenas presidentes, “corpos de 101 guerrilheiros do Araguaia” encontram-se estendidos no chão, entre outros. Esse apagamento da agência implica também um apagamento de responsabilidades. Quando raramente são assumidas e designadas, ora recaem exclusivamente sobre alguns personagens das Forças Armadas, ora são absolvidas por sua própria “história”, como quer a FSP com sua defesa “pioneira” das Diretas Já. Figura 24: PM acompanha a movimentação dos grevistas na porta da Volkswagen em 1979 – Foto: Jesus Carlos / Imagem Global 102 Figura 25: Ficha da VW registra a conduta de operários durante a greve de 1979 / Reprodução 3.1.3 Imagem Como já mencionado, as três instâncias propostas por Abril são interdependentes e articulam-se entre si. Nessa relação, as marcam visíveis e invisíveis, os dizeres e os silenciamentos, a mirada da FSP (que contém a nossa também) mobilizam e conformam a imagem. Vale ressaltar que esta é resultante não apenas de uma ‘descrição plástica e iconicamente eficaz, mas um rico conjunto de representações com numerosas ressonâncias narrativas, morais e filosóficas75” (ABRIL, 2012, p. 72). Devemos, portanto, perceber a imagem como um imaginário social que, como tal, contém negociações de sentido; “imaginários sociais são também territórios de luta pelo controle do sentido, pelos símbolos políticos e sociais76” (ABRIL, 2012, p. 68). Do ponto de vista da imagem, pensaremos aqui sobre estes imaginários compartilhados sobre o golpe e a ditadura, considerando as articulações que emergiram do nosso gesto de olhar o caderno. 75 “(...) descripción plástica e icónicamente eficaz sino un rico conjunto de representaciones con numerosas resonancias narrativas, morales y filosóficas”. 76 (...) los imaginarios sociales son también terrritorios de pugna por el control del sentido, por el uso social y político de los símbolos. 103 Arriscamos dizer sobre a constituição de um imaginário de uma ditadura militar sem participação popular/sem povo, sem experiências cotidianas de interdição; cujo crime “moralmente nefando e politicamente intolerável” (nas palavras de Otávio Frias Filho) circunscreve-se à tortura e à perseguição política e, portanto, é dimensionada em número de mortos, presos e desparecidos. E, sobretudo, que se trata de um passado encerrado, sem lastro que o conecta aos dias de hoje. Nas oito páginas do caderno, percebemos uma proposta de experiência jornalística que abre poucas entradas para que nos reconheçamos em disputas entre políticos, militares, militantes, empresários e intelectuais. Isso se dá de diversas formas: quando o jornal convoca falas autorizadas que rarefazem aspirações e vivências heterogêneas (“a prioridade da esquerda era a reforma agrária”), quando apaga os testemunhos, as falas claudicantes, cheias de lacunas. Quando o jornal invisibiliza as histórias interrompidas e mede a cidadania sufocada em infográficos que contabilizam mortos, torturados, presos e desaparecidos; quando a tortura são números. Quando apaga corpos e silencia vozes que mobilizariam experiências com as quais poderíamos nos conectar enquanto pessoas comuns, homens e mulheres comuns. Quando homogeiniza a incidência da violência do regime sobre negros, brancos, indígenas, mulheres, pobres, de classe média, intelectuais, operários, moradores do campo e da cidade, entre outros. Entendemos que, dos textos verbovisuais do caderno, emerge um imaginário de ditadura sem povo, calcado na invisibilidade e na ausência de experiência e da agência. É como se a população tivesse assistido bestializada ao golpe e à ditadura, sem adesões, negociações ou enfrentamentos. Com bestializados, fazemos aqui uma provocação. Acionamos o termo da obra Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, do historiador José Murilo de Carvalho. Nela, o autor contesta as narrativas apressadas e imprecisas que leem como apática a participação política da população carioca diante da recém-criada República brasileira (na virada do século XX). Segundo Carvalho, a suposta indiferença advinha do entendimento da população de que aquele projeto de República não era para valer. A postura era, antes, uma forma de resistência. “Quem apenas assistia, como fazia o povo do Rio por ocasião das grandes transformações realizadas a sua revelia, estava longe de ser bestializado. Era bilontra” (CARVALHO, 1987, p. 160). Nesse imaginário social sobre a ditadura que, como tal, 104 contém negociações de sentido, sequer contempla leituras menos apressadas e superficiais. E, se a FSP sugere que a população assistiu à ditadura sem agir ou compreender o que se passava, sua ausência no caderno é também reveladora de um gesto político. Ao costurar episódios como se tivessem ocorrido exclusivamente de cima para baixo – decididos por uma cúpula do poder –, o jornal mobiliza uma história em que o povo não possui ação política. Elidir o povo da história, reproduzindo a política como se ela não fosse cotidiana, tem o poder de esvaziar a própria política. Tal noção de ditadura sem povo e, portanto, sem política, empobrece a própria experiência e, ao mesmo tempo, apaga adesões, resistências e coparticipações. Ao cabo, exime os sujeitos de suas ações, como as demonstrações públicas77 de apoio ao golpe, a saudar o novo regime. Ao narrar o golpe e a ditadura militar a FSP olha o espelho de soslaio, deixando fora de alcance da visão experiências, participações e responsabilidades. Não há nada visível além de episódios, ora desencadeados por militares (que cometeram atitudes “condenáveis”) ora uma sequência de atos isolados. Não há, portanto, dívidas, feridas ou o que resta da ditadura. À exceção do texto que abre o caderno – que convoca o passado dos então candidatos para matizar a disputa eleitoral em curso –, os demais não acionam explicitamente pautas da atualidade para dialogar. Não há articulações, por exemplo, entre o crescimento ordenado do aparato repressivo durante o período, arranjado em rede e dentro de uma estrutura hierarquizada (e não em “porões”, nas sombras e sem anuência superior), com uso sistemático da tortura como “técnica de investigação” a um entulho autoritário que pesquisadores (SAFATLE, TELES, 2010) apontam como, se não uma herança da época, uma continuidade nos dias de hoje. Como espólio autoritário, permanecem as detenções por “desacato à autoridade”, os eufemismos dos “autos de resistência” nos registros de lesões e mortes decorrentes de operações policiais, violações dos direitos humanos em abordagens por policiais militares, a 77 A Marcha da Vitória ocorreu no dia 2 de abril de 1964 e teve inspiração nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, realizadas antes do golpe e contrárias às reformas do governo do presidente João Goulart. Ela foi organizada principalmente pela Campanha da Mulher pela Democracia (Camde), movimento que promovia campanhas anticomunistas através de comícios e da distribuição de panfletos. “A Camde era apoiada pelo jornal carioca O Globo, e mantinha também estreita vinculação com o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES). Durante essa demonstração, a organização distribuiu um manifesto parabenizando o Exército pela deposição de Goulart”. (Fonte: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV). 105 própria militarização da polícia e a recusa do Exército brasileiro em reconhecer a prática de tortura e tornar públicos os documentos da época. Ou uma atuação política do Judiciário – à revelia da lei78, o desrespeito aos direitos indígenas (NEGÓCIO, 2017) e os conflitos sangrentos na luta pela terra79, a tentativa de um governo se legitimar valendo-se de ritos parlamentares80, entre outras práticas ainda em voga. Nenhum destes temas, que mobilizam debates atualmente e habitam primeiras páginas, cabem no caderno TSDM. O imaginário social do que ainda permanece emerge como “controvérsias” que “incomodam o país”. Parece ser o passado o próprio “incômodo” e a solução esquecer, não o encarando, olhando para o futuro, entendimento compartilhado também pela maioria do corpo de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) daquele ano. Em dezembro de 2014, ao ser questionado sobre a necessidade de o Estado brasileiro rever a Lei da Anistia (1979), o ministro do Marco Aurélio Mello afirmou81: Precisamos colocar na cabeça que anistia é esquecimento, virada de página, perdão em seu sentido maior, e para os dois lados. (...). Do ponto de vista judicial, temos muito com o que nos preocupar na atualidade, como a Operação Lava Jato. Vamos consertar o Brasil para o futuro, não para o passado. (grifo nosso) Vemos os “incômodos” no presente como “tabus” – indenizações e batalhas da memória. Aliás, a matéria “Governo amplia indenizações, mas punições ainda são tabu” (figura 26) é, junto a “Imprensa apoiou a ditadura antes de ajudar a derrubá-la”, a outra única que não possui rasuras e grifos no caderno, como vemos abaixo em detalhe. 78 À época, ministros do Superior Tribunal Militar ignoravam a lei para condenar réus de acordo com os interesses do regime https://epoca.globo.com/politica/noticia/2017/07/vozes-da-ditadura-os-audios- secretos-do-stm.html . Acesso em 15/08/17. 79 Vistos, pelos militares, como obstáculo ao seu projeto desenvolvimentista, os indígenas permaneceram à sua própria mercê, sendo vítimas constantes de garimpeiros, grileiros e de agentes do estado que deveriam garantir sua existência. O silêncio, a omissão, a conivência e, em alguns casos, a própria atuação do Estado contribuíram com o massacre e o desaparecimento de grande parte das populações indígenas ainda remanescentes. Em alguns casos povos inteiros foram exterminados. (NEGÓCIO, 2017). 80 Na madrugada de 2 de abril de 1964, num arremedo institucional, o Congresso brasileiro declarou vacância da Presidência da República e realizou sessão que oficializou o golpe. João Goulart viajava ao Rio Grande do Sul. “A Constituição só permitia que a Presidência fosse declarada vaga se ele deixasse o país sem autorização do Congresso. Jango continuava em Rancho Grande quando o embaixador Lincoln Gordon avisou a Washington ‘estou confuso diante da situação jurídica discutível que envolve a posse de Mazzilli, nesta manhã. A declaração do presidente do Congresso, senador Moura Andrade, de que a Presidência ficou vaga, não tem o amparo do voto dos parlamentares” (GASPARI, 2002, p. 116). 81 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/12/1560301-anistia-e-perdao-em-sentido- maior-e-nao-deve-ser-revisada-diz-ministro-do-stf.shtml Acesso em 02/11/16. 106 Figura 26: “Acerto de Contas” – pág. 6 – Caderno TSDM – edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha Já na primeira página da edição de 23 de março ganham destaque fotografias (figura 27, abaixo) de dois grupos que “divergem” sobre o período, que disputam memórias “a favor” e “contra”. Elas veem logo abaixo do texto rasurado que apresenta a série TSDM, mas não fazem parte dessa rememoração. Ambas indicam para matéria “Manifestantes contra e a favor da ditadura militar marcham em SP”, localizada no Primeiro Caderno (Poder, p. A14). No “presente” da FSP, a ditadura emerge esvaziada de sentido e experiência, encarnada por disputas de opinião. Figura 27: Primeira página em detalhe – edição 23/03/14 | Fonte: Acervo Folha 107 Além de dividirem espaço, elas têm igual tamanho e legendas semelhantes, e ambos os enquadramentos recortam multidões empunhando cartazes e bandeiras. Lê-se primeiro: “Direita, volver – em reedição da Marcha da Família com Deus, de 64, manifestantes pró-intervenção militar atacam o governo e o comunismo, no centro de São Paulo”. E, abaixo, “Esquerda, volver – Em repúdio e também no centro paulistano, a Marcha Antigolpista Ditadura Nunca Mais foi um protesto simbólico contra o golpe militar de 1964”. Tanto as legendas quanto as fotografias sugerem um mesmo peso para quem defende e quem se opõe a uma ditadura. Semelhante ao golpe narrado pela FSP no caderno comemorativo, elas também sugerem a imagem de um “país partido ao meio”. No 1964 do jornal, as disputas políticas que “racham” brasileiros têm rasuras, grifos e apagamentos, nos 50 anos depois não. Sobre esse imaginário social, nos lembra Abril, “é assim que a imagem nos desafia: do seu reverso fantasmagórico e perturbador, a face recatada e, ao mesmo tempo, obscena de toda a realidade82” (ABRIL, 2013, p. 73). 82 (...) Así nos desafía la imagen: desde su reverso fantasmal y perturbador, el semblante recatado y a la vez obsceno de toda realidad. 108 Capítulo 4 – MEMÓRIA E JORNALISMO 4.1 Memória coletiva/social Se nesta pesquisa buscamos nos debruçar sobre uma triangulação entre as textualidades da FSP, a ditadura militar brasileira (1964-1985) e o duplo movimento entre lembrar e esquecer, reconhecemos que o papel da memória em nossa sociedade conta com uma longa tradição que a problematiza, incluindo reflexões oriundas de campos diversos como o das Ciências Sociais, da História, da Psicologia, do Cinema, entre outros. Dentre as diferentes abordagens e conceitos, para o presente trabalho adotamos a memória em sua perspectiva social, especialmente a partir das formulações de memória coletiva do filósofo francês Paul Ricoeur. Em sua obra A memória, a história, o esquecimento, ele aponta que, para entender a especificidade da memória, é necessário levar em conta sua dupla dimensão do privado e do público, rompendo com uma certa tradição filosófica que, em grande parte, a conotou como pertencente somente ao campo da imaginação – uma experiência “interior”. Ricoeur retoma os estudos do sociólogo francês Maurice Halbwachs, um dos primeiros autores a explorar a ideia de memória coletiva. Para Halbwachs, a memória não é um fenômeno de interiorização individual, mas uma construção social, criada por meio do compartilhamento coletivo de lembranças e modulada por grupos sociais como família e escola. Ao falar da obra Memória Coletiva, de Halbwachs, Ricoeur afirma que “o texto diz fundamentalmente isto: para se lembrar, precisa-se dos outros” (RICOEUR, 2007, p. 130). Halbwachs ataca aqui frontalmente a tese sensualista que vê na origem da lembrança uma intuição sensível, conservada tal qual e recordada de modo idêntico. Tal lembrança é, além de inencontrável, inconcebível. (...) O ponto alto do capítulo 2 (Memória individual e memória coletiva) consiste, assim, na denúncia de uma atribuição ilusória da lembrança a nós mesmos, quando pretendemos ser seus possuidores originários. (RICOEUR, 2007, p. 131-132). Indivíduos lembram, mas o grupo define aquilo que deve ou não ser lembrado, ou seja, a memória individual se estrutura e se insere na memória coletiva. Por essa perspectiva de Halbwachs, a memória é também “um instrumento de reconfiguração do passado, um trabalho de enquadramento do que aconteceu a partir de demandas do presente” (RIBEIRO, BRASILIENSE, 2007, p. 220). Suas relações estão em constante negociação: “na medida em que a memória vai sendo atiçada, remetendo àquilo que já 109 aconteceu, o passado torna-se flexível e o presente um fluxo de mudanças constantes” (RIBEIRO, BRASILIENSE, 2007, p. 221). Nuançando esta versão sociológica de Halbwachs, Ricoeur irá dizer que a mediação entre a memória individual e a coletiva passaria pelo viés de “uma identidade narrativa”, inscrita no tempo e na ação. Em Tempo e Narrativa, Ricoeur interpreta a relação individual e passado histórico através da noção do “mundo dos predecessores”. Essa mediação corresponderia a um tempo “anônimo”, situado “a meio caminho entre o tempo privado e o tempo público”. Esse novo tempo se constitui através de narrativas de acontecimentos históricos que, em geral, são transmitidas diretamente de gerações a gerações. Para o autor, a fronteira que separa, então, a memória individual e o passado recente é permeável, uma vez que que a relação entre ambos se faz através dos relatos dos nosso ancestrais. “Uma ponte é assim lançada entre o passado histórico e a memória, pela narrativa ancestral, que opera como um intermediário da memória em direção do passado histórico, concebido como tempo dos mortos e tempo anterior a meu nascimento”. (...) Desse modo é em torno de uma identidade, inscrita no tempo e na ação, que podemos estabelecer uma analogia entre a memória individual e a memória coletiva. (SILVA, 2002. P. 429). Por essa chave social, não faz sentido, portanto, falarmos em um “resgate” da memória, pois ela não seria uma “reconstituição do passado”, e sim uma dinâmica jamais estabilizada/finda. Sobre essa dinâmica, autores como Jô Gondar e Nilson Moraes oferecem reflexões enriquecedoras e que, nesta pesquisa, nos afetam. Gondar (2008) faz quatro proposições: 1) Compreender a memória social como transdisciplinar, ou seja, um “conceito que não surge do aprimoramento das ideias, mas da emergência de um campo problemático que exige novas categorias de pensamento que lhe façam face” (GONDAR, 2008, p. 13). 2) Compreender o conceito de memória social como ético e político. Segundo a autora, uma lembrança ou um documento jamais é inócuo, uma vez que resultam de uma montagem “não só da sociedade que os produziu, como também das sociedades onde continuaram a viver, chegando até essa nossa”. Para ela, tal montagem é intencional e destinar-se-ia ao porvir. Faz-se necessário nos perguntarmos então: sob que circunstâncias e a partir de que vontade as lembranças/documentos puderam chegar até nós? Há sempre uma concepção de memória social implicada na escolha do que conservar e do que interrogar. Há nessa escolha uma aposta, um penhor, uma intencionalidade quanto ao porvir. Tanto quanto o ato de recordar, nossa perspectiva 110 social põe em jogo um futuro: ele desenha um mundo possível, a vida que se quer viver e aquilo que se quer lembrar. O conceito de memória, produzido no presente, é uma maneira de pensar o passado em função do futuro que se almeja. Seja qual for a escolha teórica em que nos situemos, estaremos comprometidos ética e politicamente. (GONDAR, 2008, p. 17) 3) Compreender a memória como uma construção processual, uma vez que ela não nos conduz a reconstituir o passado, mas “reconstruí-lo com base nas questões que nos fazemos”. E, nesse processo, reconhecermos não somente os pontos de partida e de chegada, mas o durante, onde “se dão os confrontos e as lutas, mas também a criação” (GONDAR, 2008, p. 21). Segundo a autora, pensar a memória como processo permite pôr em discussão alguns “hábitos de pensamento” que se disseminam no campo da memória social, sendo um deles “a naturalização de um preconceito e uma redução que dele deriva” – sendo ela sua quarta proposição. 4) Por último, compreender que a memória não se reduz à representação. Para ela, as representações não surgem abruptamente no campo social, mas “resultam de jogos de força bastante complexos, envolvendo combinações e enfrentamentos que a todo tempo se alteram” (GONDAR, 2008, p. 23). Como ela aponta, é necessário abandonarmos a concepção de que ela seja a esfera pela qual a sociedade representa para si a articulação de seu presente com o seu passado, sob o risco de desprezarmos as condições processuais de sua produção. Se assim o fizermos, Tomaremos como dado justamente o que deveria ser explicado: como foi que, em uma certa sociedade e em uma certa época, algumas forças se conjugaram para formar uma representação? A serviço de que interesses ou de que vontades ela teria se instituído? Que relações de poder fizeram com que que algumas representações, e não outras, pudessem adquirir uma consistência crescente até se tornarem dominantes no campo social? Em suma: como e porque essas representações foram inventadas? (GONDAR, 2008, p. 23 e 24. Essas proposições nos interpelaram quando buscamos investigar o gesto de lembrar e esquecer que a FSP faz ao narrar a ditadura cinquenta anos depois, nos permitindo compreendê-lo como um jogo pleno de disputas, um fenômeno que se constitui também como poder. Afinal, como nos lembra Moraes, “toda memória social é política” (MORAES, 2008. P. 94). Foi também importante para a pesquisa considerarmos o lugar privilegiado dos meios de comunicação como mobilizadores de uma certa memória coletiva nas sociedades contemporâneas. Um lugar privilegiado na medida em que são um dos 111 grandes mediadores entre os sujeitos e o mundo, um dos principais atores na produção e veiculação de sentidos. Os meios de comunicação não são os únicos, mas são hoje um dos principais atores na realização do trabalho de enquadramento dos acontecimentos do presente e também do passado das coletividades. É através deles que se realiza a operação da memória sobre os acontecimentos e as interpretações que se quer salvaguardar. O controle da memória social parte de “testemunhas autorizadas”, e o jornalista, o mediador entre o fato e o leitor, interfere neste processo não só enquadrando os fatos, mas reconstruindo valores e identidades sociais. Um aspecto importante que gostaríamos de sublinhar é que, ao contrário do que se costuma afirmar, o jornalismo faz não só do presente, mas também do passado, as referências fundamentais da sua experiência testemunhal do mundo. É na reconstrução do fato na atualidade, sempre fugaz, e também nos seus rituais de rememorações subsequentes, que o jornalismo dá uma dimensão memorável à experiência humana e o sentido a si mesmo como sujeito social/institucional (RIBEIRO, BRASILIENSE, 2007, p. 222). Vale ainda ressaltar que, quando um jornal promove a rememoração a partir de uma data síntese, ele “aciona a lembrança do acontecimento a partir do seu aniversário, tomando para si o papel de promotora da memória, num ato simbólico que reveste o passado de novos gestos e significados” (RIBEIRO, BRASILIENSE, 2007, p. 226). Desejando a FSP ser, portanto, mobilizadora de uma certa memória coletiva, partimos das proposições de Gondar para buscarmos ver também o durante dessa construção processual, onde “se dão os confrontos e as lutas, mas também a criação”. Desde o início, nos chamou a atenção a promessa de “Tudo sobre a Ditadura Militar”, promessa da qual a FSP coloca como agente fiduciário seu currículo, ou melhor dizendo, sua narrativa sobre si mesma – como veremos no capítulo seguinte. Nesse sentido, foi promissor acompanhar o processo pelo qual o jornal parte de um não reconhecimento da ditadura (não permitindo nem mesmo anunciá-la) para, cinco décadas depois do golpe, dizer narrar tudo sobre ela. Em 1987, portanto, no contexto das discussões para formulação da Constituinte de 198883, o “jornal das Diretas Já84” lançou a segunda edição de seu Manual de 83 O período inicial dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, de 1988, foi dedicado à elaboração de suas normas regimentais e teve início já no ano anterior. 84 Em 2004, o jornal criou uma série de anúncios para comemorar sua campanha dos 20 anos das Diretas já. Uma das peças em vídeo colocava personalidades como o músico Tom Jobim, o jogador de futebol Sócrates, a atriz Regina Duarte e políticos como FHC e Lula – os que “apoiaram as Diretas Já” –, e políticos menos conhecidos como o ex-deputado Ademar Ghisi e o militar Mário Andreazza – que não a apoiaram. As imagens deles vão sendo alternadas, com a narração em off: “apoiou” (em tom entusiasmado), “não apoiou” (em tom negativo). Ao final, a narração fechava com: “É difícil reconhecer a cara de quem não apoiou a campanha das Diretas Já. É fácil reconhecer a cara de quem apoiou. Sabe 112 Redação, publicação que reúne uma série de normas e padronizações de estilo. Nele, a FSP orientava seus profissionais a evitar a palavra ditadura. Na segunda edição de 1987, o verbete “Ditadura” afirma o seguinte: “A palavra “ditadura” deve ser evitada. É preferível usar designações baseadas em fatos incontestáveis para caracterizar regimes autoritários: “Regime militar”, “regime cujo presidente está no poder há 25 anos”, “regime de partido único” (Folha de S. Paulo. Manual Geral de Redação, 1987, p. 74) Fica evidente que a Folha não procurava ainda tomar uma posição clara com relação ao movimento. Em 1994, o jornal não se refere em nenhum momento à “ditadura” militar, deixando esta responsabilidade a terceiros, que não refletiam necessariamente a opinião da empresa. Apesar de toda sua campanha em repúdio ao regime que protagonizou anos atrás, parece que o jornal prefere não encarar terrenos arenosos e se dirigir apenas a “fatos incontestáveis” (DIAS, 2014, p.183, grifo nosso). Poucos anos depois, em 1994, na “comemoração” (RICOEUR, 2007) do golpe, as análises, comentários e reportagens mantiveram-se sintonizadas com as diretrizes do Manual de Redação. Nas páginas do jornal, o golpe foi o “movimento de 64” e a ditadura um “regime militar” (DIAS, 2014, p. 182). A sessão Tendências e Debates (pág. A3) do dia 26 de março inquiriu três convidados com “opiniões divergentes” – o antropólogo Darcy Ribeiro, o ex-ministro da Fazenda e coronel da reserva Jarbas Passarinho, e o ex-governador de São Paulo Roberto de Abreu Sodré –: “Aos 30 anos do movimento de 64, é possível uma avaliação positiva do regime militar?”. O primeiro menciona “ditadura”, o segundo “contrarrevolução de 64”, o terceiro “revolução de 64”. Naquele momento, “o jornal acabava por se colocar como apenas um intermediador dessas rememorações” (DIAS, 2014, p. 183), já lapidando sua imagem de jornal “apartidário” e “plural”. É a partir da reedição de seu Manual de Redação, em 2001, que a ditadura passa a ser reconhecida/autorizada. Segundo as regras de procedimentos da FSP, ela já pode sair das sombras, ser anunciada publicamente. Seu verbete “ditadura” agora afirmava que se poderia utilizar “com critério” o termo, mesmo sendo melhor nomeá-lo de forma “objetiva”. Mas ainda assim afirmava que “Em textos noticiosos, pode-se usar a expressão ditadura de 64 em referência ao mesmo período, que também pode ser designado como regime militar.” (Folha de S. Paulo. Manual da Redação, 2005, p. 63, grifo nosso). Assim, a “Revolução” vai sendo gradativamente apagada dos rastros memorativos do jornal e a “ditadura”, emergindo do poço do esquecimento que o jornal outrora tanto tentou por quê? Porque ela mudou a cara do Brasil. Diretas Já, 20 anos. Folha de S. Paulo: em 84 o jornal das diretas, hoje o maior jornal do país”. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=JaDXVFiRY3o Acesso em 28/04/18. 113 proteger. Mais uma vez fica claro como a memória se modifica, articulando-se paradoxalmente, divergindo e confluindo significados de acordo com a conjuntura em que é lembrada (DIAS, 2014, p. 188). Em 2004 (40 anos do golpe), o jornal “assumia, enfim, que aqueles anos foram uma “ditadura” militar, inaugurada por um “golpe” de estado que destituiu a democracia e implantou um regime autoritário” (DIAS, 2014, p. 188). Se refizemos aqui a percurso anterior ao anúncio de “ditadura” – em 2014 “militar” e com a promessa de “tudo” – é porque as proposições dos autores supracitados nos mobilizaram a refletir sobre um ato também político de rememorar. No próximo capítulo, seguiremos buscando investigar então que vínculos políticos a história da FSP deixa transparecer e que podem lançar luz sobre sua própria atuação durante o regime de exceção. E, ao mesmo tempo, como a tensão entre cooptação e resistência (KUCINSKI, 2002; KUSHNIR, 2001; MAIA, 2002; SILVA, 2011) é apresentada quando a FSP se olha no espelho rememorando 1964 e a ditadura militar. Antes, porém, faremos uma reflexão sobre o par memória e esquecimento, fundamental para esta pesquisa. 4.2 Memória e esquecimento Antes de nos debruçarmos sobre estudos que pensam o jornalismo enquanto uma instância mediadora da memória, propomos um pequeno desvio para balizar um pouco mais nossa reflexão sobre a própria memória. Ela, que sempre foi questão abertamente importante para a filosofia ocidental e, mais recentemente, tornou-se primordial em diversos campos de estudo, entre eles, o próprio jornalismo. Esta pulsão em que, de alguma maneira, armazenamos nossa vivência, nossos estudos e reflexões, está presente desde Platão (ao menos). Suscitou debates e construções das mais diversas, sendo ponto de reflexão de filósofos importantes do Ocidente, como Santo Agostinho, Espinosa, Walter Benjamin e Gilles Deleuze. Sem muita atenção, contudo, o esquecimento foi o par menos celebrado, menos investigado, como se relegado a um subproduto descartável ao longo dos séculos. Entretanto, especialmente a partir do meio do século XX, os lados da moeda – memória e esquecimento – começaram a ser mais bem articulados, permitindo debates que discutem que, na verdade, um processo torna-se complementar ao outro. Não haveria lembrança sem esquecimento; não haveria como esquecer algo que não seja, de alguma maneira, também uma memória. 114 Importantes investigadores debruçaram-se sobre o assunto e aqui destacamos dois deles: Paul Ricoeur e Andreas Huyssen. Eles nos interessam em particular por articularem, de modo mais direto, essa construção entre o rememorar e o esquecer. Além disso, Huyssen é também um dos pesquisadores a chamar a atenção para uma espécie de “mania” da memória que, desde a Segunda Guerra mundial, se instaurou em memoriais, museus, monumentos e lugares de memória. Ou, como nomeou Jay Winter (2006), a “geração da memória”. Pensar o lembrar e esquecer em um movimento duplo pode nos ajudar a iluminar melhor como as posturas e imposturas que os atos intencionais de memória – e de esquecimento – são articulados pela e na FSP. Em vários momentos de sua obra, Paul Ricoeur debruçou-se sobre as questões temporais e sobre como a memória se constrói e se reafirma. Entretanto, é em A memória, a história, o esquecimento que ele articula o par memória e esquecimento de uma forma bastante evidente. Partindo do que considera as duas perguntas que a fenomenologia husserliana faria a respeito da memória – “De que há lembrança? De quem é a memória?” (RICOEUR, 2007, p. 23) – ele postularia uma outra, colocando “a pergunta ‘o que?’ antes da pergunta ‘quem’?” (RICOEUR, 2007, p. 23). Assim, antes de chegar no “quem” é importante indagar-se sobre “o que” seria, propriamente, a memória. Ricoeur faz um recuo até os gregos, em particular a Platão e Aristóteles, e, buscando uma fenomenologia da memória em autores diversos (de Bergson a Husserl), incrusta a questão do lembrar a uma questão da imagem e, consequentemente, da imaginação. Ele afirma que, quando da chegada da escrita da história, cujo discurso se baseia no que estava antes, o que acontece é que ela partilha da “composição em imagens da lembrança sobre a égide da função ostensiva da imaginação” (RICOEUR, 2007, p. 70). Dessa forma, segundo Ricoeur, a memória esbarrar-se-ia nas ciladas que o imaginário prepararia. Mais adiante, ele dedica-se a refletir sobre os usos e abusos da memória, pensando que existiria uma espécie de “bom uso” da memória e daqueles que não seriam, necessariamente, bons. Ao final desse percurso, ele pensa a respeito de certa “obsessão comemorativa” que marcaria “o nosso momento histórico que, portanto, é inteiramente caracterizado pela ‘obsessão comemorativa’: maio de 1968, bicentenário da Revolução Francesa, etc.” (RICOEUR, 2007, p. 103). Essa obsessão, de alguma forma, estaria ligada pela ideia de “dever de memória”, uma ideia que inscrever-se-ia 115 dentro dos abusos da memória e que poderia ser melhor compreendida dentro do âmbito do esquecimento – o direito ao esquecimento – em que “estão confrontados com a delicada articulação entre o discurso da memória e do esquecimento e o da culpabilidade e do perdão” (RICOEUR, 2007, p. 104). É já nos finalmente de seu livro que o esquecimento é retomado. O teórico francês então recupera Henri Bergson, como sendo aquele que investigou como a memória se articula e se recupera, que, não à toa, inspira as madeleines de Proust. Talvez a inovação da leitura de Ricoeur seja propor não só que o esquecimento é uma forma de apagamento de rastros, mas também de que a própria memória despertaria um valor de esquecimento. O autor de A memória, a história, o esquecimento se pergunta, ao pensar nessa dupla chave: “a título de que, então, a sobrevivência da lembrança teria valor de esquecimento?” (RICOEUR, 2007, p. 448). E ele mesmo responde: Ora, precisamente em nome da impotência, da inconsciência, da existência, reconhecidas na lembrança na condição do “virtual”. Portanto, não é mais o esquecimento que a materialidade põe em nós, o esquecimento por apagamento dos rastros, mas o esquecimento por assim dizer de reserva ou de recurso. O esquecimento designa então o caráter despercebido da perseverança da lembrança, sua subtração à vigilância da consciência. Assim, o autor pensa em maneiras de esquecimento, principalmente em seus abusos, não só o do apagamento, mas naquele de uma memória impedida, de uma memória manipulada, e o do comandado, que seria o da anistia. Se a memória e o rememorar, de alguma maneira, também implicam uma forma de esquecimento, o que podemos inferir quando lançamos um olhar sobre o caderno “Tudo sobre a Ditadura Militar”? De que maneira a FSP é habitante das constituições dos processos da memória coletiva e das memórias individuais? Ricoeur pensa nessa articulação entre a memória coletiva e a memória pessoal nas expressões o olhar exterior e o olhar interior, respectivamente. Neste, articula Santo Agostinho, John Locke e Husserl, enquanto naquele, Maurice Halbwachs é o eixo da discussão. A partir disso, Ricoeur passa a uma conceitualização em que formula três sujeitos de atribuição de memória: eu, os coletivos, os próximos, sendo este uma figura que poderia “superar” as séries de discussões anteriores que sugerem uma mesma conclusão negativa: nem a sociologia da memória coletiva nem a fenomenologia da memória individual conseguem derivar, da posição forte que ocupam respectivamente, a legitimidade aparente da tese adversa: coesão dos estados de consciência do eu individual, de um lado; capacidade das entidades coletivas de 116 conservar e recordar as lembranças comuns do outro. Mais ainda, as tentativas de derivação não são simétricas; eis por que não há, aparentemente, áreas de sobreposição entre uma derivação fenomenológica da memória coletiva e uma derivação sociológica da memória individual. (RICOEUR, 2007, p. 134) Entre o eu e o coletivo, Ricoeur vai pensar uma outra figura, que chama de próximos. O autor se pergunta se “entre os dois polos da memória individual e da memória coletiva, um plano intermediário de referência no qual se operam concretamente as trocas entre a memória viva das pessoas individuais e a memória pública das comunidades às quais pertencemos?” (RICOEUR, 2007, p. 141). Esse entre lugar seria justamente o que chama de próximos, que estaria em uma variação de distância entre o si e os outros, mas também “variação nas modalidades ativas e passivas dos jogos de distanciamento e de aproximação que fazem da proximidade uma relação dinâmica constantemente em movimento” (RICOEUR, 2007, p. 141). Margarida de Souza Neves afirma que os próximos são “mediações fundamentais entre o individual e o coletivo, já que são elas que permitem o entendimento e a assimilação (ou o confronto e a rejeição) das coordenadas do coletivo pelos indivíduos que o conformam, ao mesmo tempo que integram e conferem sentido, no coletivo, aos traços e peculiaridades individuais” (NEVES, 2009, p. 28) e eles seriam formados, “como em círculos concêntricos que se abrem a partir do nosso eu individual, estariam, além da família consanguínea ou simbólica, a escola, a geração, a rua onde moramos e o nosso bairro, os grupos de sociabilidade, os amigos, o gênero, as idades da vida, as leituras e tantas outras mediações e instâncias” (NEVES, 2009, p. 29). Aqui, nos colocamos a pergunta de se a FSP, mas, principalmente, o caderno TSDM poderiam ser pensados, de alguma maneira, como uma desses próximos, que articulam não só a memória individual, mas ela com a coletiva. E, se podemos dizer que sim, o quanto os próximos estariam em sua funcionalidade constituída do par aqui proposto entre memória e esquecimento. Crítico ainda mais incisivo da “cultura da memória” e que articula a ligação entre a memória e certos tipos de esquecimento, Andreas Huyssen construiu uma série de ensaios em que reflete sobre essas questões, seja pensando sobre a “cultura pública da memória”, seja refletindo sobre as condições da anistia na Argentina. Diferentemente de Ricoeur, esse teórico alemão é um ensaísta que busca elementos não somente na história filosófica do Ocidente, mas também nas artes, monumentos e documentos históricos. 117 Huyssen percebe que, a partir da construção da empreitada museológica do Holocausto judeu, seguido por memoriais no mundo inteiro, acabou se construindo uma “cultura transnacional da memória tão concentrada no passado, que qualquer imaginação do futuro feneceu” (HUYSSEN, 2014, p. 135). Apesar dessa crítica, ele ainda pensa que “no fim, porém, nem a pintura nem os monumentos são capazes de solucionar a derradeira aporia de qualquer trabalho da memória no fim do século XX: o fato de que os desastres do passado não podem ser desfeitos e continuam a assombrar a nossa imaginação” (HUYSSEN, 2014, p. 136). Mas é o seu ensaio Resistencia à memória: usos e abusos do esquecimento público que nos interessa mais imediatamente. Primeiro porque é nele que encontramos um diálogo que o autor propõe com Ricoeur e, em segundo lugar, é nele que pretende “ir além do binarismo do ‘senso comum’ que joga a memória contra o esquecimento, como opostos irreconciliáveis” (HUYSSEN, 2014, p. 157). É também aí em que ele pretende “ir além da simples reafirmação do paradoxo de que o esquecimento é constitutivo da memória, pois reconhecer esse paradoxo reconcilia-se muito facilmente com continuar a privilegiar a memória em relação ao esquecimento” (HUYSSEN, 2014, p. 157). Assim, o autor alemão retoma os dois tipos de esquecimento que propôs Ricoeur: a memória impedida e a memória manipulada, sendo aquela ligado ao inconsciente freudiano e à compulsão à repetição e esta que tem uma relação com a narratividade, “no sentido de que qualquer narrativa é seletiva e implica, passiva ou ativamente, certo esquecimento de que uma história poderia ser contada de outra forma” (HUYSSEN, 2014, p. 157-158). Huyssen ainda retoma o esquecimento obrigatório, que é o que acontece em casos de anistia. Entretanto, propõe uma outra leitura para esses dois últimos tipos de memória catalogados por Ricoeur. O autor do texto argumenta que “tentar legislar sobre o esquecimento (...) é tão inútil quanto tentar legislar sobre as maneiras corretas de lembrar” (HUYSSEN, 2014, p. 160) e que, também, o esquecimento não pode ser somente visto como um componente negativo já que há algumas formas de esquecimento necessárias “para se fazerem reinvindicações culturais, jurídicas e simbólicas em prol de uma política nacional da memória” (HUSSEYN, 2014, p. 160). Os exemplos que ele vai trabalhar são o terrorismo de Estado da Argentina e a lembrança da Luftkrieg [guerra aérea] na Alemanha. Argumenta, em ambos os casos, que, para haver a ideia de memória 118 construída pelo Estado, foi necessário algum tipo de esquecimento. Em outras palavras, foi necessário esquecer certas coisas e acontecimentos para que o que se torna lembrança adquira um tipo de positividade. No caso da Argentina, esquece-se o terrorismo, não do Estado, mas dos grupos guerrilheiros; na Alemanha, o afastamento do que foi a destruição aérea dos aliados de cidades inteiras alemãs é importante para que se reconheça, sobretudo, os crimes de guerra de Hitler e comparsas. Assim ele propõe uma nova constituição da leitura entre memória e esquecimento: A ironia dessa dança entre memória e esquecimento está em que, quando certas lembranças, inclusive as “corretas” são codificadas no consenso nacional e se transformam em clichês, como ocorreu com a memória do Holocausto na Alemanha e com a memória dos desaparecidos na Argentina, surge uma nova ameaça à memória. A repressão gera discurso, inevitavelmente, como aprendemos com Foucault. Um discurso público onipresente e até excessivo da memória, somado a sua comercialização em massa, pode gerar outra forma de esquecimento, um olvido por exaustão que é diferente da memórie manipulée de Ricoeur, como um “ne pas vouloir savoir” [não querer saber]. A ameaça de esgotamento afeta hoje tanto a memória do Holocausto quanto as memórias da guerra aérea. É nesse ponto que o foco intenso nas lembranças do passado pode bloquear nossa imaginação do futuro e criar uma nova cegueira no presente. Nesse estágio, talvez convenha limitarmos o futuro da memória, a fim de nos lembrarmos do futuro. (HUYSSEN, 2014, p. 174). Essa conclusão de Huyssen nos levanta uma série de questionamentos, ainda que não tenhamos a pretensão de que eles sejam adensados ou respondidos nesse trabalho de pesquisa. Há um consenso em relação à memória da ditadura em tempos de livros como A Verdade Sufocada, do ex-torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, que entrou na lista dos mais vendidos no Brasil? O que foi esquecido de forma que a passagem da ditadura para a democracia acontecesse no Brasil? O que a própria FSP deseja esquecer e lembrar? O quanto a história repetida acaba gerando outras formas de esquecer? Haveria um excesso de lembranças da ditadura brasileira para que ela interrompa um pensamento de futuro? Ou é a falta dessa lembrança que implica que não possamos seguir adiante? Levando essas questões para o caderno aqui estudado, poder-se-ia perguntar: há uma repetição da memória consensual e que, daí, provocaria um esquecimento? Há algo intencionalmente esquecido e por quê? Entendemos que houve um esquecimento “positivo” para que se abra uma janela para o futuro ou foi um esquecimento para que não se façam as importantes reconsiderações sobre o nosso presente – a partir do passado – e para que também se projete um futuro? 119 Jeanne Marie Gagnebin, quando retoma certo episódio da Odisseia – o do encontro de Ulisses com os Lotófagos – em que oferecem ao herói o eterno presente do esquecimento, lembra que “desde o início, que a luta de Ulisses para voltar a Ítaca é, antes de tudo, uma luta para manter a memória e, portanto, para manter a palavra, as histórias, os cantos que ajudam os homens a se lembrarem do passado e, também, a não se esquecerem do futuro” (GAGNEBIN, 2014, p. 15). Sendo assim, o fato de lembrarmos do passado também não seria uma forma de poder haver um futuro? Parece haver algo de curioso em Gagnebin retomar A Odisseia para refletir sobre a memória. A epopeia de Homero, como é discutida em muitos lugares, não foi primeiramente registrada de forma escrita, tendo sido passada de forma oral, até que se fixou na forma que hoje conhecemos, a escrita. Se citamos antes Platão, como ponto de partida para a reflexão sobre a memória, ela não é uma referência também à toa. É no Fedro que o filósofo grego articula uma das principais percepções da memória no Ocidente. A invenção da escrita de Theuth é caracterizada como uma virtude que já tinha a capacidade “de aumentar a possibilidade de armazenagem de informação para além da capacidade mnemônica convencional ao prover os homens de um aparato de registro da fala e do pensamento” (SILVEIRA, 2001, p. 144). A crítica que daí é expressa por Thamus “indica que a escrita terá justamente o efeito contrário daquele pretendido pelo seu inventor: ela produzirá esquecimento por se constituir em um recurso exterior e não interior. Para ele, a atenção despendida com a escrita produz desatenção com respeito à memória autêntica” (SILVEIRA, 2001, p. 145). Percebe-se que no texto platônico a escrita é primeiramente expressa como um lugar seguro para a memória e, posteriormente, é apresentada uma crítica, já que ela não expressaria aquilo que é verdadeiro, interior, mas algo que é exterior ao homem. Apesar de parecer, em seu texto, que a crítica à escrita é mais substancial do que o seu louvor, é importante pensar que essa seria uma crítica bastante superficial. Reginaldo Ferreira Rodrigues (2015, p. 114), por exemplo, destaca que Platão tem consciência do potencial que o logos possui de se reproduzir, de fecundar, e não se encerra numa visão passageira do belo. Mas que este é importante, pois desperta uma força capaz de movimentar as palavras em busca da verdade, mesmo que seja uma força de início composta de elementos irracionais, ou seja, a inspiração divina. 120 Assim, poder-se-ia pensar que a escrita serve à memória mais ou menos como um pharmakon, remédio que também é veneno, a depender da dose. Todavia, apesar da problematização que Platão faz a respeito da ligação da memória com a escrita, um dos lugares essenciais da memória foi justamente este. Ou, ainda, como Diana Taylor vai afirmar, passou-se a existir uma correlação direta entre memória e escrita, deslocando outras formas de transmissão de memória: “o que mudou com a conquista não foi que a escrita deslocou a prática incorporada (...), mas o grau de legitimação da escrita em relação a outros sistemas epistêmicos e mnemônicos” (TAYLOR, 2013, p. 47). Taylor, entretanto, vai encontrar a fratura mais do que nas distinções entre palavra escrita e palavra falada, mas naquilo que chama de arquivo e naquilo que chama de repertório, sendo este tido como de conhecimentos efêmeros e aquele de materiais supostamente duradouros. A escrita estaria muito mais ligada à ideia de arquivo, um tipo de memória que “trabalha a distância, acima do tempo e do espaço” (TAYLOR, 2013, p. 49). O repertório, por outro lado, “encena a memória incorporada” (TAYLOR, 2013, p. 49). Essa fratura entre o arquivo e o repertório, encenada como a língua escrita e a falada, aconteceria porque “a cultura ocidental está casada com a palavra, escrita ou falada, que a língua reivindica tal poder epistêmico e explanatório” (TAYLOR, 2013, p. 55) e, assim, “a escrita, ao invés de reforçar a memória ou oferecer uma analogia, torna-se a própria memória” (TAYLOR, 2013, p. 56) e “o domínio da linguagem e da escrita acabou por significar o próprio significado” (TAYLOR, 2013, p. 57). Se retomamos essa problematização é porque seria interessante, também, nos interrogar em como construímos e legitimamos a memória, principalmente a partir da escrita e, também, do jornal. Se existe um jogo entre a memória e o esquecimento em relação à escrita em Platão, e se, segundo Taylor, ao inscrever a memória apenas no campo da linguagem, não estamos, também, aceitando e reproduzindo um tipo de interrupção da memória e de legitimação do esquecimento? Portanto, seria importante ressaltar que a FSP e seu caderno que rememora o golpe de 1964 e os vinte e um anos de ditadura militar são um dos lugares de memória e de um tipo específico de memória, que não podem ser vistos como totalizantes, com o risco de, daí, estarmos corroborando até mesmo com o uso e o abuso tanto do rememorar quanto do esquecer. 121 4.3 Memória no jornalismo Como dito anteriormente, um dos nossos desejos com esta pesquisa foi também somar trabalhos voltados a jornalismo e memória. Se por um lado já existe uma compreensão do lugar da mídia enquanto instância de ressignificação da memória (RIBEIRO, 2000, BARBOSA, 2016), autoras como Barbie Zelizer advogam por um maior reconhecimento e ampliação destes estudos. Segundo ela, apesar de o “jornalismo ter ocupado um pano de fundo da memória em diferentes períodos do pensamento, desempenhando o papel de sombra, ora como facilitador e pré-condição para discussões mais generalizadas sobre a atividade mnemônica85” (ZELIZER, 2011, p. 46), quase nenhum desses lugares foi nomeado como tal. Outra pesquisadora do assunto, Carolyn Kitch (2013) identifica ser um dos grandes sensos comuns a respeito – e que deve ser aplacado – o de que o jornalismo é sim um lugar de construção de memória, mas apenas enquanto portador do tema ou evento de memória. Nosso olhar direcionado ao jornalismo não deve, portanto, ser como sendo uma janela, mas um processo. Ancorados na noção de que o jornalismo não é apenas um discurso em si, mas também um agente em muitas outras “ordens de discurso” (van Dijk, 1988; Fairclough, 1995), podemos entender o jornalismo como uma rede de memória que também funciona como um conector a outras redes de memória. Nesse modelo, o jornalismo é um processo e não um produto. Não é uma “janela” através do qual podemos ver outra coisa, como muitos estudiosos da memória têm considerado. Nem o jornalismo está no topo de uma pilha hierárquica de verdade, como muitos pesquisadores do jornalismo assumem. O jornalismo está dentro da memória; está no seu coração. (KITCH, 2013, p. 317 – tradução nossa86). Uma das dimensões da memória no jornalismo que autores como Neiger, Zandberg e Meyers (2011) nos propõem pensar é a da a memória invertida, a saber, um dispositivo narratológico em que a temporalidade trabalha em uma direção contrária: do presente para o passado. Nesse caso, o passado não é narrado meramente a serviço dos objetivos atuais; ao invés disso, ele é comemorado por meio da narração do presente. 85 Journalism has continued to occupy memory’s background across multiple periods of thought, playing the role of shadow, other, facilitator and precondition to more generalized discussions of mnemonic activity. 86 Building on the notion that journalism is not only a discourse in itself, but also an agent in many other ‘orders of discourse’ (van Dijk, 1988; Fairclough, 1995), we might understand journalism as a memory network that also functions as a hub for other memory networks. In this model, journalism is a process rather than a product. It is not a ‘window’ through which we can view something else, as many memory scholars have regarded it. Nor does journalism sit at the top of a hierarchical truth pile, as many journalism scholars assume. Journalism is inside memory; it is at its heart. Most of all, this is why journalism is worth taking seriously. 122 Notícias construídas como emblemas de memória invertida seriam mais evidentes quando fazem parte de rituais comemorativos nacionais, ou seja, quando a cobertura foca propositadamente uma comemoração, também chamado de “jornalismo de aniversário” (KITCH, 2002). Neste tipo de cobertura, como é o caso do caderno “Tudo sobre a Ditadura Militar”, “o passado assume o primeiro plano, ao passo que o presente e o futuro assombram incessantemente enquanto contextos interpretativos ao fundo” (NEIGER, ZANDBERG, MEYERS, 2011, p.117). A memória invertida preserva a noção de que “grandes eventos nunca são findos, mas ecoam permanentemente na história, bem como em nossas vidas cotidianas87” (NEIGER, ZANDBERG, MEYERS, 2011, p.126). Há ainda casos em que o presente de eventos passados – a saber, novos detalhes ou desdobramentos – torna-se o principal interesse da narrativa. Sabemos que, além das eleições presidenciais (tendo, entre os concorrentes, um mulher que, quando jovem, lutou pela derrubada da ditadura, foi presa e torturada por agentes do Estado), o cinquentenário do golpe de 64 coincidiu com o funcionamento da Comissão Nacional da Verdade. Entretanto, como vimos nesta pesquisa, na narrativa tecida pela FSP eles emergiram com presença tímida na ditadura de todo dia e praticamente nula no caderno TSDM – apenas uma menção à instalação da CNV (“Governo amplia indenizações, mas punições são tabu”, pág. 6). A exceção (mas que não coube em TSDM) foi o depoimento do coronel reformado Paulo Malhães, em que, na presença da equipe da CNV e de jornalistas, declarou, sem demonstrar arrependimentos, ter torturado e assassinado pessoas, e ocultado seus corpos. “Eram mutilados para evitar reconhecimento”, afirmou. Seu depoimento mobilizou uma chamada, com foto (figura 7), na primeira página de 26 de março e uma matéria descritiva nas páginas internas. Sabemos que a FSP tem por costume (e marketing) convidar diferentes especialistas para oferecer análises, as “opiniões divergentes”. Mas, nos dias seguintes à revelação – em detalhes – de um militar sobre a prática de tortura, o assunto foi esquecido. Uma análise sobre os avanços ou mesmo o propósito da CNV, ou sobre o conteúdo da confissão e suas implicações não foram pauta. 87 [Hence, just like the instructions found in ancient religious writings], reversed memory preserves the notion that major events are never really done; they are echoed time and again in history as well as in our everyday lives. 123 Nos dias seguintes, nenhum editorial, matéria, artigo na seção “Tendências/Debates”, depoimento de familiares de pessoas assassinadas, cartas no painel do leitor, artigos assinados por terceiros, ou um infográfico (como um “Cartografias da Ditadura”), aos moldes pedagógicos88 do jornal, que explicasse o histórico, a localização e lista de personagens que estiveram envolvidos na Casa da Morte89. O não esquecimento coube exclusivamente a dois colaboradores do jornal, figuras externas à redação: uma charge (figura 28), do cartunista Benett, publicada em 88 A FSP possui o hábito de produzir matérias com infográficos; mantém uma página online onde arquiva várias delas. Na página inicial, em destaque, lê-se: “Confira os principais infográficos da Folha. Desde 2014, a Folha tem acompanhado o desenrolar da Operação Lava Jato. Confira ao lado os melhores infográficos sobre o escândalo de corrupção envolvendo a Petrobras, políticos e as maiores empreiteiras do país”. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/infograficos/ Acesso em 13/03/2017. 89 Localizada à rua Arthur Barbosa, 120 (atualmente rua Padre Germain, 120), em Petrópolis, Rio de Janeiro, a Casa da Morte foi um centro clandestino de tortura, mantido pelo Centro de Informações do Exército (CIE). Nela, agentes do Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) torturaram e assassinaram ao menos 21 pessoas, como narrou Inês Etienne Romeu, militante e dirigente das organizações VAR-Palmares e Polop – a única sobrevivente da casa. Nos 96 dias em que esteve detida, em 1971, Inês foi torturada e estuprada, e cometeu três tentativas de suicídio. Foi libertada quando fingiu concordar em trabalhar como infiltrada para o CIE. Doente e pesando 32 quilos, foi levada pela irmã a um hospital em Belo Horizonte, onde sua prisão foi oficializada. Condenada à prisão perpétua, cumpriu pena até 1979, quando foi promulgada a Lei da Anistia. Ainda no hospital, Inês escreveu um documento identificando 19 torturadores, um colaborador e 16 presos, que foi entregue em 1979 à Organização dos Advogados do Brasil (OAB). Graças a esse documento, foi possível localizar a Casa da Morte e identificar alguns dos agentes e colaboradores que atuavam no local, como o tenente-médico (psiquiatra) Amílcar Lobo, que examinava os presos para determinar se eles tinham condições físicas para suportar novas torturas. “Desse local, Inês guardaria na memória dois detalhes significativos. Um deles era o número de telefone: 4090; o outro, a figura de um vizinho estrangeiro, chamado Mário Lodders, que vivia na companhia de uma irmã e de uma cão dinamarquês que atendia por Kill. Esse homem mantinha relações cordiais com os agentes de segurança e tinha conhecimento das atrocidades que cometiam ali. Seria o locatário da casa, conjectura Inês, ou seja, a personagem que servia para dar um falso aspecto de normalidade a um aparelho clandestino de tortura”. Em 2003, aos 61 anos, Inês foi encontrada caída e ensanguentada em seu apartamento, com traumatismo crânioencefálico, depois de receber a visita de um marceneiro contratado para um serviço doméstico. Apesar de sequelas neurológicas, em 25 de março de 2014, em audiência da CNV sobre a Casa da Morte, Inês reconheceu seis dos seus torturadores e carcereiros. No dia seguinte, o coronel da reserva Paulo Malhães assumiu-se como torturador e forneceu detalhes das torturas e assassinatos na Casa da Morte também em audiência à CNV. Um mês depois, ele foi encontrado morto em sua residência, com marcas de asfixia. Apesar do depoimento de Inês no dia 25 de março de 2014, ela não é lembrada pela FSP no dia seguinte, no cinquentenário do golpe (31 de março) ou em quaisquer matérias no período analisado. Seu nome não é pronunciado em “tudo”. | Os mortos identificados na Casa da Morte são: Aluisio Palhano, Antônio Joaquim de Souza Machado, Ana Rosa Kucinski, Carlos Soares Alberto de Freitas, Celso Gilberto de Oliveira, David Capistrano Costa, Gerson Theodoro de Oliveira, Heleny Ferreira Telles Guariba, Issami Okamo, Ivan Mota Dias, José Raimundo Costa, José Roman, Mariano Joaquim da Silva, Marilena Villas Boas, Maurício Guilherme da Silveira, Paulo de Tarso Celestino, Thomaz Antônio Meireles Neto, Victor Luiz Papandreu, Walter de Souza Ribeiro, Walter Ribeiro Novaes e Wilson Silva. Fontes: Comissão Nacional da Verdade (http://cnv.memoriasreveladas.gov.br), Memórias da Ditadura (http://memoriasdaditadura.org.br), Cartografias da Ditadura (http://www.cartografiasdaditadura.org.br) e Memorial da Ditadura (http://memorialdademocracia.com.br) Acesso em 20/07/17 | O encontro de Inês Etienne e Mario Lodders, em 1981, pode ser visto em https://www.youtube.com/watch?v=ACKN3ezLHo0. Mario confirma ter cedido à época a casa de Petrópolis – propriedade sua – ao comandante Fernando Ayres da Motta. 124 28 de março (Primeiro Caderno, pág. A2), e uma paródia (a coluna “Moda Reaça90”), do escritor Gregório Duvivier, publicada em 31 de março (Ilustrada, pág. E7), que diz: Aproveitando essa onda reaça que tá super-mega tendência, a gente está lançando toda uma coleção pra você, jovem reacionário, que quer gastar o dinheiro que herdou honestamente na sociedade meritocrática – apesar dos impostos, é claro. (...) Nosso it boy, claro, é o coronel Paulo Malhães, torturador chiquerésimo que deu depoimento à Comissão da Verdade usando um puta óculos escuros Prada de aro dourado, onde assumiu ter perdido a conta de quantos cadáveres ocultou. Divo. Viva a revolução – democrática. Figura 28: Charge do cartunista Bennet – pág. A2 – edição 28/03/14 | Fonte: Acervo Folha Em seu texto Argentinian Tortures on Trial? How Are Journalists Covering the Hearings’ Memory Work?, Susana Kaiser analisa a cobertura (em 2011) da imprensa argentina sobre os julgamentos da Comissão da Verdade (Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas/Conadep)91 naquele país, que diferentemente da brasileira, teve a incumbência de investigar e também julgar. A autora sublinha a importância da coleta dos depoimentos e julgamentos; eles “fornecem espaços para obter novas informações”. Em sua conclusão, faz um grifo importante: 90 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2014/03/1433269-moda- reaca.shtml Acesso em 20/09/17. 91 “O retorno ao governo civil estabeleceu precedentes com uma Comissão da Verdade (1983-84) e julgamentos para membros das juntas militares (1985), mas estes foram seguidos por impunidade legalizada (1986-87) e perdões presidenciais (1989-90) para muitos perpetradores. Campanhas inflexíveis pela justiça continuaram; em 2005, o Supremo Tribunal anulou as leis de impunidade e centenas de criminosos estão agora em julgamento” (KAISER, 2013, p. 242). 125 Trinta mil pessoas não desaparecem porque um grupo de oficiais militares assume o controle. Ao detalhar o funcionamento do terrorismo de Estado, os jornalistas ativistas, como testemunhas profissionais, amplificam o que se desdobra nas audiências, convidando, constantemente, a memória a contextualizar novas informações e contra-denúncias a partir de fatos comprovados. Essas reescritas da história expõem as redes de cumplicidades e os múltiplos níveis de responsabilidade, concentrando a atenção em atores para além daqueles que estão sendo julgados. Ao fazer isso, eles também examinam a sociedade, revelando verdades inconvenientes para muitos. Os julgamentos ajudam a quebrar silêncios, e é por isso que a cobertura da mídia é importante. Precisamos explorar como aqueles que testemunham indiretamente por meio da mídia podem ser solicitados a tornar público as memórias desse passado traumático. Novos testemunhos podem desencadear uma discussão postergada sobre como milhões de pessoas experimentaram o terrorismo de Estado. Mais vozes podem produzir novos dados para ajudar a identificar os culpados e responsáveis e preencher contas incompletas, acrescentando novos remendos à “colcha de retalhos da memória coletiva da nação” (Gelman, 1998)” (KAISER, 2013, p. 255, tradução nossa92). Como vimos, faltavam poucos dias para os 50 anos do golpe de 64 quando essa revelação de práticas de tortura foi feita em uma sessão da CNV, de forte repercussão na imprensa escrita. Ainda assim, a FSP se absteve de realizar o “dever de memória”. A rememoração de 23 de março já havia narrado “tudo”, apesar de seu “tudo” ser só uma parte de um passado – não findo – e que ainda seja necessário escavar para desestabilizá-lo. Dessa forma, a FSP funciona como uma memória impedida que, como Ricoeur demarca, “repete ao invés de lembrar” (RICOEUR, 2007, p. 452). Algo que acentua o esquecimento e deixam evidentes os esqueletos ainda ocultados, metafórica e empiricamente. 92 “Thirty thousand people don’t disappear because a group of military officers take over. By detailing the functioning of state terrorism, activist journalists, as professional witnesses, amplify what unfolds at the hearings, constantly inviting memory to contextualize new information and counter denials with proven facts. These rewrites of history expose the networks of complicities and multiple levels of responsibility, focusing attention on actors beyond those standing trial. In doing so, they also scrutinize society, revealing inconvenient truths for many. Trials help break silences, and this is why media coverage matters. We need to explore how those who witness vicariously through the media may be prompted to make their memories of this traumatic past public. New testimonies could trigger an overdue discussion of how millions experienced state terrorism. More voices may produce new data to help identify the guilty and responsible and fill in incomplete accounts, adding new patches to the ‘quilt of the nation’s collective memory’ (Gelman, 1998)” (KAISER, 2013, p. 255). 126 Capítulo 5 – RELENDO O JORNAL 5.1 Quando se narra Assim como outros veículos, a FSP costuma referenciar datas chave para articular pautas. É uma estratégia do próprio jornalismo. São comuns matérias publicadas no Dia do Trabalhador sobre o anúncio do aumento do salário mínimo, o aquecimento da economia com as vendas no Dia da Mães ou o número de acidentes em rodovias federais no feriado natalino. Entretanto, são as efemérides que ganham destaque ainda maior nas páginas desse jornal, especialmente tratamento gráfico dado a elas. É o caso da comemoração dos 95 anos da publicação que, como dissemos, conquistou um recorde de 120 páginas, o maior caderno especial já publicado pela FSP. Em 2014, o jornal publicou quase uma centena de cadernos especiais, incluindo 20 anos do Plano Real; 100 anos da Primeira Guerra; 25 anos da Queda do Muro de Berlim; São Paulo, 460 e 2 anos de Haddad. Em geral, eles circularam aos domingos, um dia teoricamente de prestígio, com maior tiragem de exemplares e número de páginas, e preço em banca superior aos demais dias da semana. Entretanto, apesar de o caderno TSDM também ter sido publicado em um domingo, vimos que ele circulou no dia 23 de março. A antecipação não nos parece aleatória, considerando que cadernos especiais têm uma lógica distinta de produção, com ainda mais planejamento que edições ordinárias. O jornal, em si, é um produto industrial, confeccionado a partir de uma organização rígida do trabalho e prazos por vezes draconianos. Fazemos aqui um parêntese para destacar como a pesquisadora Gisela Taschner, em seu livro Folhas ao vento, apontou as práticas de produção da notícia nesse jornal já em meados do século passado. De 1945 a 1962, José Nabantino Ramos foi o proprietário da Folha da Manhã, empresa que edita a Folha. Foi ele um dos primeiros a estipular com jornalistas um plano de metas, a fixar horários de fechamento das páginas no chamados prazos-limites (dead lines) e a definir normas internas de trabalho próprias a um manual de redação. Advindo da advocacia, ele dizia sentir “como diretor do jornal, a falta de regras, tanto para o trabalho diário, como para reger as relações do periódico’. Sobre o Programa de Ação e de Normas de Nabantino, Taschner (1992, p. 93) antes ressalta que Esta imposição de normas estranhas ao objeto, no que se refere aos jornais, não se iniciou, obviamente, com Nabantino Ramos. A partir do momento em que um jornal 127 tem que circular com periodicidade constante, que deve ter um número padrão de páginas e as matérias “são cortadas pelo pé”, ou passam a ser redigidas de modo a ocuparem um espaço predeterminado, que passa a ter um formato standard, seções fixas, o enquadramento administrativo está se efetuando. para, na sequência, afirmar que, desde aquela época, o jornal já adotava uma divisão do trabalho bem definida e com várias etapas devidamente distribuídas. No fluxo da informação, O pauteiro definia os fatos a serem investigados pelos repórteres, que os colhiam e transformavam em um texto preliminar, o que ia para o copy (introduzido na redação por nabantino) que lhe dava outro acabamento, passava pelo secretário, voltava para o copy para ser feito o título, etc., passando assim a mesma matéria-prima por várias mãos até o produto atingir sua forma final e ser inserida na página e no local apropriado. (TASCHNER, 1992, p. 95). Sendo a FSP, portanto, um produto planejado e confeccionado em modos industriais há pelo menos cinco décadas, é possível inferir que não tenha sido ao acaso a escolha de encartar TSDM uma semana antes da data do golpe de 1964. Ainda que o “Tudo” tenha se resumido a oito páginas, presume-se que sua produção envolveu vários profissionais, entre redatores, editores, designers gráficos, diagramadores e pesquisadores de imagens de arquivo, exigindo pesquisa e planejamento. E, evitando quaisquer exercícios de adivinhação sobre os motivos que levaram o jornal a publicá-lo no dia 23, nos propomos aqui a refletir sobre possíveis implicações. Antes, porém, lembremos que narrar acontecimentos passados não é fazê-lo considerando um lugar temporal cristalizado, como se de lá fosse possível resgatá-lo, sendo esse “lá” um passado fechado. Narrar não se trata de contar o passado como foi, mas de “configurar os acontecimentos no tempo das histórias contadas” (LAGE, 2014, p. 83). Implica, portanto, a articulação de diferentes temporalidades. E o jornalismo, com seu caráter inerente de narratividade, pressupõe essa articulação. Elton Antunes, utilizando como gancho as imagens da Revista Manchete, afirma que as relações temporais que travamos são múltiplas: “vivemos no cotidiano um sem-número de situações em que ideias de sucessão, repetição e ordem se multiplicam para articular cada existência pessoal e permitir a vida social” (ANTUNES, 2014, p. 157). Neste texto, o autor, referindo-se ao jornalismo propriamente dito, pretende refletir na maneira como o discurso jornalístico organiza o agir humano; na forma como o aparato tecnológico conforma parâmetros para os processos de temporalização; na forma como o jornalismo põe em relação diferentes dimensões temporais presentes na vida social; e a própria maneira como o jornalismo se revela como uma maneira 128 de lidar com categorias temporais que orientam a vida cotidiana (ANTUNES, 2014, p. 157. Grifo nosso). Dentro dessa problemática, o autor articula, referenciando-se em Landowski (1992), duas dimensões de enunciação: uma, que se refere “ao ciclo de aparecimento ou atualização das informações (diário, a cada hora, semanal, “tempo real”), que lhe confere a condição de periódico” (ANTUNES, 2014, p. 158), e outra, que “refere-se às noções temporais que constituem as formas discursivas quando produz o relato de acontecimentos, em qualquer das suas formas de linguagem ou dos seus gêneros textuais” (ANTUNES, 2014, p. 158). O autor destaca a correlação entre notícia/acontecimento, como principal chave para a dimensão temporal. O primeiro eixo dessa propagação é a escolha de eventos que tornar-se-ão notícia, seguido da construção de uma ordem de relevância em que serão apresentados. Essa nova temporalidade constrói também um tipo específico de produto, um “sistema articulado para ‘capturar’ os acontecimentos do mundo” (ANTUNES, 2014, p. 159). Assim, ainda segundo Antunes, “os critérios de noticiabilidade, como tradicionalmente alinhados, parecem dizer de um estado de mundo apenas como já ocorrido, um existente estabilizado” (ANTUNES, 2014, p. 159). Porém, o passado não é somente “conteúdo” do jornalismo, como também não é apenas um olhar lançado pelo jornalismo, mas “trata-se de uma forma de pôr em operação complexos processos simbólicos necessários à vida social” (ANTUNES, 2014, p. 159). Para Antunes, essas formas de temporalidade articulam não somente a noticiabilidade, mas ela enquanto uma espécie de modulação temporal. A notícia, assim, existiria não no passado, mas no presente de sua enunciação. Dessa forma, “os fatos, amálgamas de coisas, textos, pessoal, eventos têm temporalidades diversas que são equalizadas no jornalismo” (ANTUNES, 2014, p. 159.) “O acontecimento jornalístico”, nos diz o autor, “não surge de um nada histórico. Ele se inscreve sobre uma memória social, política e histórica, que é também determinante na sua própria compreensão e designação como acontecimento” (ANTUNES, 2014, p. 159). O objeto do acontecimento da mídia informativa seria de um “processo evenemencial”, “no qual a desordem semeada pelo acontecimento, sua imprevisibilidade, é posta em um quadro contextual, em um mundo significado” (ANTUNES, 2014, p. 160). O acontecimento é, portanto, uma referência inicial, que vai depender ainda de interpretações, transformação em fato e daí em “acontecimento 129 jornalístico”. Assim, “torna-se acontecimento jornalístico ou fato a partir de um olhar que busca estabelecer o contexto da sua emergência, explicar-lhe o sentido. Mas esse olhar, no universo do discurso da informação, torna-se um duplo olhar: o acontecimento está na interseção entre um olhar que mostra da instância de produção e um olhar que vê na instância da recepção” (ANTUNES, 2014, p. 160-161). E, assim, temporalmente falando, o acontecimento midiático se dá em pelo menos três níveis: a) As estruturas temporais no âmbito do enredo/trama narrativa; b) As referências temporais que descrevem o acontecimento; c) A perspectiva temporal que se dá no nível da enunciação; produzindo “um ponto rítmico na temporalidade cotidiana” (ANTUNES, 2014, p. 161). Esses elementos fazem, portanto, com que uma notícia não possa ser totalmente a-histórica. Ao contrário, indica passagens temporais, seja quando se estabelecem cronologias, seja quando confunde as durações. Elementos paratextuais são importantes porque “não só particularizam e especificam uma dada editoria no jornal, mas implicam o fato em uma perspectiva de duração, inscrevem-no em um contexto alargado, condensam uma certa historicidade” (ANTUNES, 2014, p. 163). É aí que inscrever-se-iam as ranhuras da memória, que seria perceptível mais facilmente em ações comemorativas, quando aciona o passado como história e modo para referenciar os fatos, e quando o seu próprio conteúdo passado (como documento e arquivo) é apresentado como evidência histórica, como modo específico de ‘narrar o passado’. Em todas as perspectivas evidencia-se que há similaridade entre os processos de formação da memória coletiva e da produção jornalística (ANTUNES, 2014, p. 164). Quando se trata da narrativa propriamente dita, Antunes destaca ainda que há um tempo da história, um tempo no enunciado e um tempo da enunciação. No jornalismo, esses três planos se misturam, sendo o tempo histórico aquele dos acontecimentos, o do enunciado que apresenta nexos e causalidades e da enunciação que diz da composição de elementos, estratégias de produção de sentido e a maneira como inscreve os sujeitos. Dessa forma, como nos diz Antunes: O jornalismo conforma uma temporalidade – o presente, que é atravessado por outros tempos (passado/futuro), em um processo concomitante de sedimentação e estilhaçamento dos tempos. O jornalismo curta-circuita os tempos: ao mesmo tempo que é padronizador do tempo atual – ritma e ordena cronologicamente o cotidiano, ele põe em circulação representações de relações temporais diversas, fazendo emergir outros tempos de outros estratos. São, no mesmo movimento, camadas 130 superpostas e atravessadas. Para tornar os tempos contemporâneos à experiência, o jornalismo dá visibilidade a tempos não contemporâneos. Daí que a mídia não apenas transporte o tempo; ela engendra relações temporais. Da mesma maneira, o tempo não é abstrato, as escalas de temporalidade estão vinculadas à produção de sentido e, nessa perspectiva, as representações de tempo (linear, evolutivo, contínuo ou descontínuo, por exemplo) não podem ser desprezadas. As figuras da temporalidade são mecanismos essenciais de sentido (ANTUNES, 2014, p. 167). Sendo assim, o caderno comemorativo de 2014, ao narrar acontecimentos de cinquenta anos antes, configura diferentes temporalidades, interconectando-os com acontecimentos que os antecederam ou que ajudam a compreendê-los, misturando articulações tanto do tempo da história, quanto do enunciado e da enunciação. Ao construir o caderno, a FSP não somente inscreve o golpe e a ditadura militar brasileira no curso da história, mas os transpõe do seu tempo de ocorrência para serem atualizados no tempo de recepção. É certo que um caderno especial, como é o caso de TSDM, rompe com o ritmo cotidiano do jornal, ao inscrever um desvio das modalidades que se espera do diário, mesmo o dominical. Por outro lado, ele recontextualiza a memória, criando um certo sentido em um presente, ajudando, até mesmo, na construção da “memória coletiva” da sociedade como um todo. Chama a atenção, ainda, que a “notícia” aqui – 50 anos do golpe – esteja inserida em um contexto de aumento de historicidade, recriando um significado para uma data que foge de um passado imediato (o que aconteceu ontem), mas o realiza em um salto em que o destaque são acontecimentos de 30, 40, 50 anos atrás. Apesar disso, algo nos chama atenção no caderno, como Antunes destaca acima. Algo presente em um elemento que não é necessariamente parte de seus conteúdos, mas a data de sua publicação – 23 de março –, o que faz com que a dimensão de rememoração seja feita como uma espécie de “adiantamento da notícia” que dar-se-ia, somente, dali a alguns dias, o 31 de março. 5.1.1 Opacidade A antecipação do caderno poderia ser generosamente compreendida como uma espécie de prévia como se, ao introduzir as narrativas comemorativas do golpe naquela data, o jornal pretendesse alargar sua presença ao longo de uma semana inteira, tendo seu ápice na data do golpe. Para que essa expectativa se cumprisse, porém, o “desaguar” em 31 de março deveria ser seu marco comemorativo, com um conteúdo ainda mais 131 robusto que nas páginas comuns do jornal. Entretanto, como vimos, a escolha por celebrar com um caderno no dia 23 de março não se tratou de uma ação de alargamento e de aumento da espessura temporal das comemorações, nem de um adensamento crescente do tema, uma vez que a edição do dia 31 se eximiu de rememorar o golpe e a ditadura militar com a mesma presença/força que o caderno. Ao contrário, a edição é das mais enxutas, sem editorial sobre o tema e em que a série especial TSDM circunscreve-se a números de pesquisa de opinião. Um aniversário comemorado com a presença de pouquíssimos convidados (apenas os seletos), uma celebração discreta e quase protocolar de um passado desencarnado, sem rosto, que escamoteia seu presente e se desconecta de um futuro. Ainda que a intenção da FSP tenha sido criar uma prévia, é preciso ter em perspectiva o caráter e peso distintos entre um caderno especial e edições ordinárias de um periódico diário. Diferentemente do jornal de todo dia, um caderno costuma ter pretensões memorialísticas. Sua diagramação fora dos padrões, sua estrutura organizada como linha do tempo, sua organização temática, suas remissões ao passado, sua profusão de imagens de arquivo, entre outros, conformam um produto que – sugere-se – merece ser guardado, colecionado. Aliás, essa prática de oferecer materiais para durar não é novidade para leitores de jornal. Quando times de futebol vencem campeonatos, por exemplo, eles costumam ser “eternizados” em pôsteres comemorativos cuja disposição gráfica – ocupando página dupla e, por vezes, na vertical – é concebida para que possam ter sua existência prolongada, habitando paredes, por vezes emoldurados em quadros. São páginas pensadas para outra duração, para terem um destino distinto daquele que uma folha ordinária do jornal costuma ter. Assim, ainda que o conteúdo publicado em 31 fosse mais denso no tratamento e robusto em volume de textos verbovisuais, o estatuto arquival (ainda que em potencial) de um caderno comemorativo não encontra equidade com o jornal de “embrulhar peixe”; algo que não deve ser negligenciado quando pensamos aqui sobre essa escolha desse jornal. Uma vez que TSDM é concebido para ser colecionado, como um caderno de memória, ao antecipar esse lembrar (e esquecer) do golpe e ditadura militar, a FSP retira a própria força da rememoração. Em uma possível analogia, seria como celebrar o aniversário da Proclamação da República (15 de novembro) ou o Réveillon em outra data, tornando o que seria sua razão de ser algo empobrecido de força e sentido, assim 132 como sua própria comemoração algo opaco, sem expressão ou importância, cheio de sombras. Nos dias seguintes ao 23 de março até culminar no 31, ela parece diluir – em doses homeopáticas – o Tudo que promete rememorar. Ao mesmo tempo, esvazia a experiência de uma ditadura, encerrando-a em um passado findo. A rememoração da FSP sobre a ditadura militar (1964-1985) tem, assim, efeitos de um placebo, de uma terapia inerte, que apenas faz crer que se deseja produzir reações. Ao final, nosso 31 de março ganha contornos de dia ordinário, como “vida que segue” e, com isso, o próprio debate que poderia ser articulado na data perde potência, apagando junto o lastro de experiências do passado ainda presente. Parece haver também um movimento de “não precisamos falar mais disso; afinal, já falamos antes”, semelhante ao discurso de um trauma. Como uma fala claudicante, que desvia, muda de assunto, escamoteia uma ferida aberta, embotando a própria memória. A própria capa oferece alguns vestígios neste sentido, ao apresentar-se censurada, com palavras engolidas, pedaços elididos, numa ação de escolher apagar algumas partes, talvez daquilo que ainda seja difícil dizer, lembrar e esquecer. 5.2 A ditadura no futuro Neste passado assim comemorado – um passado reatualizado e configurador de um (tipo de) futuro –, duas capas em especial nos chamam a atenção: a do caderno e a da própria edição em que veio encartado. Como diz Carvalho (2014), desde as primeiras folhas, na sua configuração material e simbólica particular, o jornal prepara nossos sentidos para aquilo que será informado. O dispositivo jornal impresso começa a nos indicar sentidos e mesmo a nos orientar para a sua leitura a partir de um nome que o particulariza, que o torna singular frente aos demais, ainda que mantendo certas similaridades. Lemos o Estado de Minas, a Folha de S. Paulo ou O Globo já sabendo de antemão onde encontrar seções, colunas, articulistas, assim como temos uma certa expectativa quanto às formas de abordagem dos acontecimentos narrados, posto que cada um tem uma identidade editorial”. (CARVALHO, 2014, p. 123) No jornal de todo dia, recursos paratextuais, como nome e data, e os títulos reforçam em sua capa a enunciação do veículo sobre algo da ordem do cotidiano. Entretanto, como vimos nos capítulos 2 e 3, o caderno especial de 23 de março se apresenta de forma distinta; sem manchete principal ou fotografias. Ao alto, 133 centralizado, surge o nome do jornal, que anuncia “Tudo sobre a Ditadura Militar”, seguido da data de publicação. Abaixo, segue-se um texto marcado por grifos capazes de subtrair parte de seu conteúdo, recurso gráfico que emula a imagem de um texto censurado. Entretanto, ainda é possível ver sob as sombras. Se em si as palavras não possuem uma presença visual, é na escrita que elas ganham um rastro, possuem uma sede. E, ainda que uma representação visual não seja a palavra real, ela permite que pessoas que não estejam habilitadas a decodificá-las as reconheçam enquanto imagem. Olhar para a capa grifada, rasurada, apagada do caderno, nos permite ver outras imagens, ver além do escrito. Como já mencionado, palavras cobertas de tinta preta é uma das formas de representar um conteúdo elidido a contragosto. Na ditadura iniciada em 1964, o Estado designava o censor93 e a esse profissional cabia balizar a exibição e circulação de materiais como obras literárias (de ficção ou não), dramaturgias, diálogos e cenas de filmes, letras de música artigos e matérias de jornal. Lembremos que a escolha por palavras e a disposição de imagens (assim como organização em páginas, links, blocos, e outras formas de edição jornalística) implica dotar de significados aquilo que é noticiado (CARVALHO, 2014). Assim, ao abrir o caderno especial com uma imagem interdita, silenciada, abre-se também para uma imagem da própria censura que veículos de imprensa sofreram durante o período, encarnada/rememorada em um caderno comemorativo, 50 anos depois. Vemos ali um gesto da FSP de se localizar ao lado daqueles que foram alvo do arbítrio do regime, dos que sofreram com os arrestos de liberdade. Não por coincidência, essa imagem foi estampada também na primeira página da edição de 23 de março. Como vimos (figura 2), sua diagramação teve uma conformação distinta daquela do dia a dia, quando costuma exibir manchetes sobre acontecimentos de economia e política, acompanhadas de grandes foto-legendas. Igualmente rasurado, o cardápio do dia convidava o leitor a conhecer o caderno especial (e reportagem multimídia) que “reconta a crise que levou à ditadura, os momentos cruciais do regime e imagina como seria o Brasil sem a queda de Jango e o AI-5”. 93 A Emenda Constitucional nº 1 de 1969 incluiu a censura a diversões públicas entre as atribuições da Polícia Federal. Em 1974, o Serviço de Censura Federal realizou o primeiro concurso público para contratação de Técnico de Censura; o último deles foi realizado em 1985. Aprovados, os censores passavam a integrar o Departamento de Polícia Federal. Extinta a censura pela Constituição de 1988, alguns censores continuaram na ativa atuando como delegados e peritos federais, cargos equivalentes ao que ocuparam durante o regime. 134 A decisão do que será apresentado no jornal é uma negociação permanente de sentidos. Como afirma Carvalho (2014, p. 126), “sabemos que uma notícia que aparece na primeira página de um jornal impresso (...) foi considerada como mais relevante que as demais”, mas, mais do que isso, é o fato de essa decisão não ser aleatória, mas remeter “a um jogo de múltiplos interesses, exigindo complexas operações de seleção dos acontecimentos que serão noticiados e do modo como o serão”. Nesse jogo de múltiplos interesses, mais que o convite à leitura do caderno e reportagem multimídia, chama-nos a atenção esse gesto de estampar na primeira página a imagem de uma imprensa censurada, uma semana antes do cinquentenário do golpe. Ambas as capas rasuradas nos apontam reflexões sobre a materialidade que os textos assumem a partir dos códigos, afinal, “deve-se compreender a tipografia muito mais como uma nova maneira de escrever e pensar do que como uma técnica para produção de impressos ou método para disseminação de informações alfanuméricas” (FLUSSER, 2010, p. 61. Grifo nosso). Na medida em que as capas nos oferecem a imagem de um certo silenciamento, elas revelam também a própria ação de editar – apagando e mostrando – que a FSP efetua. Há uma escolha deliberada em apagar algo e revelar outro. Assim, como aponta Gottfried Boehm (2015, p. 30), a imagem é “uma questão ao mesmo tempo com a transparência e com a opacidade”. É um gesto de apagar coisas para apagar outras e, também, nesse apagamento, revelar uma terceira coisa, semelhante ao da própria ditadura (como quando se esconde corpos para esconder a tortura e repressão policial, mas que acaba emergindo o próprio aparato repressivo). O gesto da FSP de esconder e mostrar e, portanto, editar a ditadura militar, deixa escapulir essa outra coisa, a sua própria edição, no sentido de recorte, daquilo que seria historicamente e noticiadamente relevante: “o que mostra – a imagem, em sua ocorrência – nos mostra como alguma coisa se mostra” (BOEHM, 2015, p. 38). No período analisado, vimos que o caderno rasurado TSDM se revela como uma tentativa de uma história encapsulada, finda e, principalmente, apartada da ditadura do dia a dia, aquela do “passado” e a do “futuro”. E, se cada edição diária do jornal que se coloca na superfície apaga o precedente – “a coleção é um conjunto virtual: não existe para o leitor, que dela não guarda a memória” (MOUILLAUD, 2012. P. 104) –, o caderno TSDM busca ir de encontro ao potencial de desvanecer e embotar que intrinsicamente tem o jornal. Ancorado em uma diagramação singular e temática comemorativa, o caderno se pretende um material a ser colecionado, semelhante aos 135 outros 90 produzidos naquele ano pela FSP, para comemorar efemérides como os 100 anos da Primeira Guerra. Porque se o jornal de um dia apaga o do outro, o caderno TSDM busca fixar a narrativa da FSP sobre o golpe e da ditadura militar: uma consequência circunstancial da disputa política “que rachou brasileiros”, um período com “prós” e “contras”, com crimes sem identificação, mortes sem corpo e sem história, um período sem lastro e cujo aniversário é esvaziado, celebrado em uma data ordinária e com poucos convidados. 5.2.1 Folhas escritas e lidas Ainda sobre as capas, vale lembrar que, mesmo que a escrita seja uma tentativa de representar os padrões sonoros da fala, “os sistemas de escrita captam apenas certas propriedades do que é dito, a saber, a forma verbal – fonemas, lexemas e sintaxe –, deixando de fora o como foi dito, e com que intenção radicalmente sub-representados. (OLSON, 1997, p. 24). Assim, quem ouve um outro alguém em uma conversa face a face tem acesso não apenas à forma verbal do que é dito, mas também ao estilo, à postura e à tonalidade do falante. Já na leitura de um jornal, por exemplo, faltariam “indicações sobre as atitudes de quem fala a respeito do que disse, que o leitor poderia usar para determinar o modo como o autor desejava que seu texto fosse interpretado” (OLSON, 1997, p. 161), ainda que a linguagem gráfica procure suprir parcialmente essa ausência dos modos de dizer. A própria diagramação, o uso de letras em tamanhos distintos, o uso de cores, entre outros, são gestos enunciativos que modulam os enunciados – um título “grita”, uma legenda “sublinha”, uma foto “dialoga com”, “ilustra” ou “mesmo contradiz”. Entretanto, tal reflexão não exclui que há diversas oralidades possíveis na escrita. Afinal, elas não podem sequer serem erradicadas. Ao ler um texto, nós já o oralizamos, como nos diz outro autor, Walter Ong. Ler um texto significa convertê-lo em som, em voz alta ou na imaginação, sílaba por sílaba, na leitura lenta ou de modo superficial na leitura rápida, comum a culturas de alta tecnologia. A escrita nunca pode prescindir da oralidade. (...). A expressão oral pode existir – e na maioria das vezes existiu – sem qualquer escrita; mas nunca a escrita sem a oralidade (ONG, 1997, p. 16) [grifo nosso] Se por um lado sabemos que os textos são concebidos de maneiras distintas – para serem lidos ou falados –, por outro compreendemos que a oralidade não se 136 encontra apartada da escrita. Ong nos oferece um exemplo que ilustra bem como a escrita é porosa às oralidades, potencialmente múltiplas e diversas. A tradição letrada, adotada e adaptada por críticos habilidosos, pode também prover algumas pistas extratextuais para as entoações, mas elas não serão completas. Os atores gastam horas decidindo como realmente pronunciar as palavras do texto que está diante deles. Uma determinada passagem poderia ser pronunciada por um ator em um brado; por outro, em um sussurro. (ONG, 1997, p. 188) Sendo assim, as possíveis oralidades não se encontram fora do caderno, da série TSDM e demais matérias/entrevistas sob mesmo eixo temático. Antes mesmo de elas serem apropriadas, de serem reconfiguradas no papel, já possibilitam que suas marcas de oralidade sejam encarnadas no texto. Como exemplo, pensemos em uma possível locução/oralidade tipográfica. Ao falar da impressão, Ong nos chama a atenção para a relação espacial desta escrita que se faz presente em impressos. A impressão controlará não apenas quais palavras seriam escritas para formar um texto, mas também a posição exata das palavras na página e a relação espacial de umas com as outras, o próprio espaço em uma folha impressa - "espaço em branco", como é chamado adquiriu um significado importante (ONG, 1998, p. 146) Uma relação espacial, portanto, também enuncia. Uma página em branco ou com espaços vazios, por exemplo, também fala, ainda que para demarcar um silêncio. Alguns poemas do francês Stéphane Mallarmé fizeram uso desse procedimento, buscando fazer emergir significados dos próprios vazios na folha de papel. Estudiosos da poesia mallarmeana apontam que suas distinções espaciais tratam de mostrar o mar como metáfora ou mesmo “de pensar o espaço do texto literário, a página de um livro, como o único espaço possível de comunicação, de convivência mesmo que em tempos diferentes, entre leitor e autor” (AGOSTINHO, 2009, p. 71). Assim como Mallarmé, muitos poetas da vanguarda do final do século XIX e ao longo do século XX adotaram esse procedimento, como é o caso brasileiro da poesia concreta. E não somente os espaços vazios, mas também as cores. Capas completamente cobertas de tinta escura podem, da mesma forma, dizer, podem conter múltiplas vozes. Um exemplo é a edição de 4 de novembro de 1975 do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Já à época, foi considerada histórica ao desafiar os militares. Produzida em mutirão por diversos profissionais, a edição denunciou a tortura sofrida por jornalistas do PCB e desmentiu a versão oficial sobre a morte de Vladimir Herzog. 137 Sua capa94 é quase integralmente escura, coberta pela cor preta. Não há escritos, à exceção da identificação do jornal, e do nome e imagem de Vlado ao rodapé. Em 7 de janeiro de 2018, a própria FSP fez uso de recurso semelhante ao homenagear Carlos Heitor Cony, morto dois dias antes; o espaço ocupado durante décadas pelo jornalista nesse jornal circulou em branco. Figura 29: Jornal Unidade – Ano 1/ nº 4 – 1975 e FSP – edição 07/01/18 | Fonte: Instituto Vladimir Herzog e Acervo Folha, respectivamente. 5.2.2 Dicção, prosódia e circulação Mas se afinal o jornal fala, que dicção tem? A FSP de “todo dia” é, desde 1996, inteiramente impressa em cores e, com certa frequência, realiza reformas gráficas. Na de 201095, destacou mudanças na tipografia para alcançar o “conforto na leitura”, rumo a um jornal que seja “mais ágil e mais necessário, mais leve e mais sofisticado”. Na mais recente, de 201896, buscou uma “página mais limpa, com tipografia maior e exclusiva”, onde “o leitor encontra fotos, vídeos e infográficos ampliados nas 94 Disponível em http://resistirepreciso.org.br/alternativa/unidade-jornal-da-abi/ Acesso em 16/03/17. 95 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/institucional/813948-novo-projeto-deixa-folha-mais-facil- de-ler.shtml Acesso em 05/12/17. 96 Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/04/folha-conclui-unificacao-visual-em- todas-as-plataformas-com-reforma-da-versao-impressa.shtml. Acesso em 21/05/18. 138 reportagens e nas páginas principais”. Como de costume, deu destaque aos elogios recebidos de seus leitores97; “sempre na vanguarda do jornalismo brasileiro”, “assim como o conteúdo das reportagens, o novo projeto gráfico é limpo e elegante, realçando um dos valores mais caros ao jornal: a objetividade”. O jornal afirma que suas letras harmonizam, adota cores não berrantes. As chamadas são sóbrias – sem trocadilhos ou bem-humoradas, como jornais considerados populares –, ainda que, por vezes, escandalosas. Os enunciados podem ser uma verdadeira baixaria, mas a dicção é comedida, quase nada grita. Via de regra, o tom é desejosamente contido, seguindo a “etiqueta” do Projeto Folha98; o jornal “considera notícias e ideias como mercadorias a serem tratadas com rigor técnico e (...) se propõe a realizar um jornalismo crítico, apartidário e pluralista”. Vale acrescentar que, rotineiramente, recorre a recursos gráficos diversos como linhas, infográficos e tabelas para deixar o conteúdo devidamente organizado espacialmente, buscando distanciar-se de uma estética mais livre, cara a periódicos considerados populares. Especialmente no caderno TSDM, o uso de recursos gráficos ajuda a conformar uma narrativa cuja prosódia é de pouca entonação, acompanhando a linguagem enciclopedista. Para dizer com “rigor técnico”, lá estão gráficos e tabelas a sustentar que, “sob o comado dos militares, país organizou a economia e cresceu” (figura 13). Saem fotografias de trabalhadores e da vida cotidiana para dar lugar a elementos “mais sóbrios”, como números. Para emoldurar as artes no período, listas de filmes, canções e livros sintetizam o campo cultural, evidentemente masculino e intelectualizado. Questões complexas como o debate e as implicações da Lei da Anistia, de 1979, da luta por medidas da justiça de transição, e dos espólios autoritários são apresentadas por meio de tabelas e números e sob o subtítulo Acerto de Contas (figura 26). Pelo verniz do marketing do “conforto na leitura” e de jornal “mais ágil e mais necessário, mais leve e mais sofisticado99”, os conteúdos são sintetizados em legendas como “R$40 milhões pagos em indenizações às famílias de mortos” e “R$6,8 bilhões pagos em indenizações 97 Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/paineldoleitor/2018/04/leitores-fazem-elogios-e-criticas- ao-novo-projeto-grafico-da-folha.shtml Acesso em 21/05/18. 98 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/circulo/manual_projeto_intruducao.htm Acesso em 12/09/2016. 99 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/institucional/813948-novo-projeto-deixa-folha-mais-facil- de-ler.shtml Acesso em 05/12/17. 139 a perseguidos pela ditadura ou seus parentes entre 2002 e 2013”, com seus números destacados em vermelho, como vimos na figura 26. Ao mesmo tempo, refletir sobre essa locução sóbria pretendida pelo jornal que, sem sobressaltos na entonação, oferece “dados” organizados em tabelas, gráficos e listas, nos permite também pensar no status de jornal de “referência” que o próprio periódico se autoconfere. Para tanto, é importante buscar compreender o jornal para além do senso comum: enquanto suporte, que “abriga informações” e as coloca em circulação. É verdade que a FSP – por meio de suas capas, fotos, manchetes, infográficos, legendas, cadernos inteiros – habita a cidade, em bancas de jornal, pontos de ônibus, em viagens de táxis, em salas de espera de consultórios, na sala da casa das pessoas. Entretanto, o faz a partir de seus enunciados que articulam conversas de bar, que mobilizam polêmicas na corrente de Whatsapp da família, fundamentam “tretas” do Facebook ou são o gatilho para desenrolar uma conversa entre motorista de Uber e passageiro. Ainda assim, sobre essas articulações, cabe considerar o que nos lembra Bruno Leal quando diz que: As narrativas, produzidas ao mesmo tempo na mídia, nas ruas, na história, nas realidades e na vida social, constituem-se exatamente nos embates, nas interfaces entre as diversas forças, os diversos poderes, saberes, lugares. As narrativas mantêm diálogo com tais forças, uma vez mesmo que os falares cotidianos incorporam elementos postos em circulação pelas tevês, rádios, jornais, etc. (LEAL, 2006, p. 26). Ter ciência desses embates de forças, de poderes e de saberes nos ajuda a questionar o próprio estatuto de referência que, muitas vezes, nós oferecemos respaldo. Afinal, por que quando a FSP se apresenta como um jornalismo alicerçado na “independência, espírito crítico, pluralismo e apartidarismo100” ela encontra aderência neste discurso, não apenas entre boa parte de seus assinantes e leitores casuais, mas também em quem a reconhece apenas como um nome/marca? Até que ponto a FSP, enquanto “o jornal do futuro101”, encontra ressonância quando se afirma um “jornal sólido, de tradição, que tem uma história, que, ao mesmo tempo, é inquieto, moderno e nervoso”? Uma pista talvez seja “a maneira normativa pela qual a atividade jornalística e sua história têm sido prioritariamente descritas em seus discursos autorreferentes, 100 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/institucional/missao.shtml Acesso em 25/04/16. 101 Disponível em https://vimeo.com/13704875 Acesso em 25/04/2016 140 sobretudo naqueles ligados a ideais modernizadores” (JÁCOME, 2017), consolidando uma concepção identitária única do jornalismo (e de seus profissionais), sem a imensa variedade de formas pelas quais os jornais narram e sabem o mundo. Talvez, assim, se a pensarmos para além da deferência desejada pela FSP, possamos enxergá-la menos como um jornal sóbrio, neutro/asséptico, “pluralista”, “ágil e sofisticado”, para nos depararmos com um veículo menos nobre e, por vezes, proselitista, atrasado, machista/sexista, partidário, racista, conservador e classista. 5.3 “O jornal do futuro” Afinal, em que a FSP se ancora para se acreditar um jornalismo de referência? Como essa ideia implica o visível e o invisível? De que maneira a narrativa laudatória sobre si permite legitimar a narrativa de ‘tudo’ sobre a ditadura? Essa ideia de jornal de referência tem ecos desde décadas do século XX, como nos apontam estudos de alguns autores (GÓES, 2017; JÁCOME, 2017; RIBEIRO, 2000, 2003, 2007). Ela foi forjada colada à própria noção de “modernização” do jornalismo, iniciada especialmente após os anos 1950. É verdade que, a partir desse período, teve início um processo de profissionalização da imprensa, com a criação do ensino superior de jornalismo e aumento de salários, permitindo que a profissão deixasse de ser uma ocupação provisória ou privilégio de literatos, advogados ou políticos. Mas essa “modernização” (que adotou o padrão estadunidense) conteve limites e contradições. Se de fato introduziu técnicas mais modernas de produção, obedeceu a impulsos de outra ordem, igualmente a serviço da política. Como nos aponta Ribeiro (2000): Defendo, no entanto, a hipótese de que o aspecto político jamais desapareceu totalmente, exercendo um papel fundamental – estrutural – na dinâmica das empresas jornalísticas. Apesar de se terem afirmado imperativos de gestão e de administração, estes ainda não eram suficientes para garantir a autonomia das empresas. Por isso, os jornais jamais deixaram de cumprir um papel nitidamente político. O apoio a determinados grupos que estavam no poder ou na oposição (dependendo da conjuntura) era essencial para garantir a sobrevivência de algumas empresas, fosse através de créditos, empréstimos, incentivos ou mesmo publicidade. (RIBEIRO, 2003, p.156). Nesta modernização conservadora, o desenvolvimento técnico do jornalismo buscou no “espírito científico” o cuidado com os fatos. A partir de então, 141 As regras de redação supostamente retiravam do jornalismo noticioso qualquer caráter emotivo e participante. Para garantir a impessoalidade, impôs-lhe um estilo direto, sem o uso de metáforas. (...) O uso da terceira pessoa tornou-se obrigatório, e o modo verbal passou a ser, de preferência o indicativo. Os adjetivos e as aferições subjetivas teriam de desaparecer, assim como os pontos de exclamação e reticências. As palavras com funções meramente enfáticas ou eufemísticas também deveriam ser evitadas. (...) Se antes, o jornalismo havia sido o lugar das questões sociais, da polêmica de ideias, das críticas mundanas e da produção literária (Buitoni, 1990, p. 177), agora, ele passa a ser o “espelho” da realidade. (...) O jornalismo é definido, neste contexto, como um puro mediador, como um observador neutro, desinteressado. (RIBEIRO, 2000, p. 34). Esse “outro” jornalismo – entendido como neutro, moderno e objetivo, com lead e o profissional do copy desk ou, nas palavras da própria FSP, “independente, “plural” e crítico” –, ganhou, assim, ares de modelo a ser adotado, de um único jornalismo desejável, inclusive apagando outras práticas e desqualificando outras formas de jornalismo (como os considerados “populares”). Não à toa, esse “novo” jornalismo hierarquizou suas práticas entre “desenvolvidas” e “arcaicas”, “vencedores” e “vencidos” (JÁCOME, 2017, p. 130). Não apenas em alguns trabalhos de pesquisa acadêmica e parte de uma bibliografia, mas especialmente entre colegas de profissão, ainda se reproduz a máxima de que tais mudanças fizeram dele um jornalismo “sério”, confiável, de referência, supostamente sem jornalistas “partidários” e textos “panfletários”. Ao final, essa narrativa mítica sustenta que a emergência de um jornalismo “profissional” (com a introdução da objetividade e de algumas técnicas orientadas por Manuais de Redação) foi capaz de superar a política quando, na prática, ela apenas escamoteia profundas e históricas relações políticas e econômicas da imprensa brasileira chamada de referência. Especialmente no caso da FSP, a construção da ideia de um “jornal de referência” consolida-se por meio de uma permanente autorreferência, que se faz presente especialmente em dois momentos: quando a FSP comemora seu aniversário e quando rememora suas relações com a ditadura militar. A emergência do “sujeito-Folha”, uma das estratégias a sustentar a construção (e consolidação desta ideia), aparece desde a fundação do jornal Folha da Noite, em 1921, por iniciativa de Olival Costa, Pedro Cunha e um grupo de jornalistas egressos do jornal O Estado de S. Paulo. A partir do desejo de construir um novo jornal, o periódico buscava contestar os saberes que determinavam o modo de fazer jornalismo na grande imprensa da época. A mirada não era mais para os leitores fazendeiros e oligarcas paulistas, mas aos novos empresários e profissionais liberais que ganhavam projeção 142 econômica na capital paulista. Ao longo dos anos – da fundação do jornal, passando pela fusão das Folhas (da Manhã, da Tarde e da Noite) em 1962, até a atual conformação da FSP –, a posição do “sujeito-Folha” foi sendo reconfigurada várias vezes. Destacamos aqui três momentos. 1) A criação de um Conselho Editorial, em 1978, que inaugurou um discurso “delineado por uma tendência editorial que exige cada vez mais qualidade técnica e informativa na produção do jornal” (LINS DA SILVA, 2005, apud OLIVEIRA, 2015, p. 5). 2) A implantação do Projeto Folha102, em 1984, por Otávio Frias Filho, que apresentou o Manual da Redação que estabeleceu o controle sobre os processos de produção do jornal, a partir de padrões de comportamento profissional, editoriais e gráficos, e reforçou a autorreferencialidade sustentada pelo marketing. 3) Mais uma vez, a influência do marketing quando, no contexto das Diretas Já, em 1984, “efetiva um realimento político, uma reorganização de saberes e uma reconfiguração da posição-sujeito assumida pelo sujeito-Folha” (OLIVEIRA, 2015, p. 5). Cândida Oliveira (2015) afirma que a ideologia jornalística que caracteriza o lugar-social no qual o “sujeito-Folha” se inscreve (baseada nos princípios de apartidarismo, espírito crítico e pluralidade) é importada do modelo estadunidense, “mas também marcada pelo viés mercadológico”. Incorporados posteriormente, a noção de serviço público (“um jornal a serviço do Brasil”), de informações de interesse do país, assim como a forma didática de apresentar as notícias (a profusão de tabelas, infográficos e listas) contribuíram para dar legitimidade ao discurso jornalístico da FSP. Ainda segundo a autora, são eles cinco: a FSP da tradição, de mediador autorizado, de agente de denúncia, de protetora dos interesses do cidadão e do lugar da verdade. A primeira imagem corresponde àquela através da qual o jornal deseja ser visto: detentor de uma história consolidada – afinal, um jornal quase centenário –, de projeto editorial sólido e de “princípios”. E também um mediador autorizado que se enuncia como locutor autorizado: que sempre abriga opiniões “divergentes” “neste espaço”. Um agente de denúncia, pois costumeiramente a “Folha revela/apura”, um veículo que apresenta dados e números que contestam discursos de (alguns) políticos, que apontam irregularidades. Protetora dos interesses do país, uma vez que (como dito anteriormente no Capítulo 1, p. 25) tem para si como protagonista dos direitos dos 102 Era preciso fazer um “jornalismo crítico, pluralista, apartidário e moderno”, já dizia o texto de 1984, e isso devia ser feito com “intransigência técnica”. 143 contribuintes/cidadãos; suas matérias são capazes de mudar o rumo da história – em 2017, contabilizou “75 registros de repercussões concretas relevantes de informações publicadas pelo veículo”. Lugar da verdade, um jornal que confirma, comprova; uma instituição jornalística que se baseia nos princípios da objetividade e da verdade, que se autolegitima sobre aquilo que diz. Podemos ver esses lugares sociais não apenas em seus editoriais, mas acumulados em uma narrativa histórica que a própria FSP insiste em produzir (e reiterar quando ela se comemora), inclusive reproduzida por alguns jornalistas e pesquisadores sem maiores observações críticas. Ao final, essa retórica que a FSP insiste em usar acaba funcionando como um “mecanismo de fixação desses jornais como lugares socialmente autorizados para propor um regime visibilização incontestável sobre o mundo” (GÓES, 2017, p. 90). Em uma perspectiva um pouco mais crítica, vemos que Os jornais tidos como de referência tornaram-se atores políticos influentes por conta de serem potentes mobilizadores tecnológicos e vozes propositivas dos valores do capitalismo apresentados à experiência jornalística. Os jornais continuam “vendendo” informações como notícias, mas também passaram a atuar como grandes empresas de lobby político, econômico e cultural. Elas são negócios, assim como bancos e empresas multinacionais que atuam no mercado financeiro internacional. Também estão envolvidas com agronegócio, comércio, indústria, tecnologias, com os serviços. Muitas empresas de jornalismo, jornais, emissoras de rádio e TV, portais na Internet têm participações em conglomerados de telecomunicações internacionais, agem no entretenimento, realizam parcerias com outras empresas de comunicação que, em tese, seriam suas concorrentes. (GÓES, 2017, p. 100.) 5.3.1 Futuro do passado Vimos que essa narrativa mítica (de um jornal de referência) defende que é possível superar a política, a partir de algumas técnicas orientadas por Manuais de Redação e princípios como apartidarismo, espírito crítico e pluralismo. Entretanto, na prática ela contribui para apagar profundas e históricas relações políticas e econômicas da imprensa brasileira chamada de referência. No caso que analisamos da FSP, o “regime de visibilização incontestável sobre o mundo” que ela propõe acaba contribuindo para naturalizar os visíveis e os invisíveis: seja do golpe e vinte e um anos de ditadura militar que ela narra (especialmente em TSDM), seja quando rememora sua própria história, incluindo vínculos políticos com a ditadura militar. No caderno comemorativo, a FSP lembra que “foi acusada de emprestar veículos para esconder torturas e assassinatos de presos políticos”, mas, logo em seguida, coloca 144 a “acusação” em dúvida: “se ocorreu, não é possível dizer que a prática foi autorizada pela direção da empresa”. Como mostramos, as capas do caderno e da edição de 23 de março – quando o jornal escolheu “comemorar” (RICOEUR, 2007) o cinquentenário do golpe – receberam marcas de “censura”. Entretanto, não encontramos estas marcas tão evidentes quando lançamos um olhar sobre a trajetória dessa empresa de comunicação à luz da vigência de algumas leis e decretos103, como a Lei de Imprensa, a Lei de Segurança Nacional (LSN), o Decreto-Lei nº 1.077 e o AI-5104. Este último é considerado o mais cruel dos atos e deu início a uma maior organização (em rede) do aparato repressor. Emitido pelo ditador Arthur da Costa e Silva, o ato o autorizava em caráter excepcional (portanto, sem apreciação judicial) a: decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir nos estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos; suspender a garantia do habeas-corpus. Diante desse contexto de ações arbitrárias e retirada de direitos e liberdades individuais e coletivas, de censura, violência e torturas, nos perguntamos como o “moderno jornalismo brasileiro” se comportou? Muito longe de fazer frente ao regime de exceção, percebemos que a grande imprensa brasileira – que, assim como a FSP105, apoiou o golpe em 1964 – acabou por se acomodar à censura imposta pela ditadura militar (KUSHNIR, 2001). Em outras palavras, se com a tendência a um endurecimento da alta cúpula de militares, parte do apoio que a grande imprensa deu ao golpe se transformou em críticas aos rumos do governo, no pós-AI-5 um novo pacto foi feito. De um modo geral, a resistência resumiu-se à imprensa alternativa. Em veículos como a 103 A Lei de Imprensa (Lei nº 5.250, de 9 de fevereiro de 1967) restringia a liberdade de expressão; o Ato Institucional nº5 (de 13 de dezembro de 1968) produziu um elenco de ações arbitrárias e vigorou por uma década); e da Lei de Segurança Nacional (Decreto-Lei nº 898, de 29 de setembro de 1969) punia “crimes contra o Estado”, incluindo manifestações políticas e de pensamento, sendo complementada um ano depois pelo Decreto-Lei nº 1.077 (de 21 de janeiro de 1970, que instituía a censura prévia. 104 Ao longo de sua duração, a ditadura militar brasileira construiu um aparato legal próprio, com o objetivo de garantir sua manutenção no poder. Foram editados 17 atos institucionais – sendo o mais conhecido o quinto deles – além de leis complementares, decretos secretos e outros instrumentos jurídicos. Alguns atingiram setores específicos, caso do decreto-lei nº 477, de 1969, que visava impedir manifestações políticas nas Universidades, e da Lei de Segurança Nacional de 1967, que tinha como objetivo primário fornecer os instrumentos para repressão de movimentos contrários à ditadura. Fonte: Projeto República/Exposição Desconstrução do Esquecimento: Golpe, Anistia e Justiça de Transição. 105 O golpe de 1964 foi inicialmente celebrado pela FSP, narrado como “Revolução” necessária. Em seu editorial de 3 de abril de 1964, assim celebrou: “Voltou a nação, felizmente, ao regime de plena legalidade que se achava praticamente suprimido nos últimos tempos do governo do ex-presidente João Goulart. E isso se fez, nota-se, com o mínimo traumatismo, graças ao discernimento de nossas forças armadas para conter os desmandos de um político que, cercado de assessores comunistas, procurava manobrar o país”. (Editorial – O Brasil, 1964, p. 3) 145 FSP, a opção foi por uma “autocensura sistêmica”, com grande grau de adesão e identificação dos proprietários dos jornais com os objetivos da repressão (KUCINSKI, 2002). Vale aqui distinguir as três categorias de periódicos passíveis de censura prévia (MAIA, 2002): um formado por revistas masculinas (sofriam controle de caráter moral); um formado por publicações de grandes corporações empresariais (colocadas sob censura quando seus editores divergiram das orientações do governo); e um último formado por jornais alternativos (censurados em função de embates ideológicos com a ditadura militar). Entretanto, mesmo durante as fases mais fechadas da ditadura, “a grande maioria da imprensa convencional brasileira nunca sofreu atos de censura de força de agentes enviados às redações pelo governo” (KUCINSKI, 2002, p. 534). A exceção, entre os “grandes”, foi o Estado de S. Paulo que, ao não acatar ordens telefônicas, acabou sofrendo censura prévia por dois anos. Ainda assim, uma fala de seu diretor, Julio Mesquita Filho, deixa claro os dilemas existentes durante sua gestão, sobre publicar algum conteúdo que contestasse os militares. 90 a 95 por cento de todas as matérias que foram censuradas não causariam nenhum mal ao governo se fossem publicadas. Os outros 5 por cento nós não publicaríamos. (KUCINSKI, 2002, p. 534) É possível afirmar que, de um modo geral, jornais de grande circulação como a FSP optaram pela autocensura, uma forma inclusive mais econômica de não afetar o modo de produção da empresa jornalística. Efetivamente, a censura prévia, severa e continuada, devastou publicações alternativas. Para efeito de comparação, o semanário Opinião e o jornal Movimento foram alguns dos que sofreram verdadeiros estragos, sendo ao cabo fechados. O primeiro, que circulou entre outubro de 1972 e abril de 1977, teve três edições apreendidas, uma embargada na gráfica antes da impressão e outra inviabilizada por ter 170 (das 346) laudas cortadas. Ao longo de suas 230 edições, 4752 laudas foram vetadas, volume de texto próximo às 5796 laudas impressas em sua existência (MAIA, 2002). Já o Movimento, que circulou entre julho de 1975 a junho de 1978, teve cerca de mil artigos e ilustrações vetados parcial ou totalmente. Três edições foram proibidas de circular, entre elas um número especial sobre a situação da mulher brasileira, que teve 80% de seu material censurado. A violência censória por eles sofrida “mostrava-se diretamente proporcional ao grau de rebeldia desses veículos contra as imposições oficiais” (MAIA, 2002, p. 475). 146 O assassinato em 1969 do militante Carlos Marighela, da ALN (Aliança Libertadora Nacional), por exemplo, é um indicativo do contraste vivido pelos diferentes meios de comunicação na época. Enquanto o jornal Venceremos, que circulou por apenas alguns meses – de setembro a novembro de 1971 –, trouxe na capa “Este jornal não é censurado pela ditadura. Viva Marighella”, a primeira página da Folha da Tarde estampou a manchete: “Metralhado Marighela, Chefe Geral do Terror”. Cabe aqui uma remissão sobre a trajetória deste jornal, uma vez que, em alguma medida, ela reflete também os trajetos eleitos pelo Grupo Folha. Em sua tese de doutorado, posteriormente publicada em livro, Beatriz Kushnir narra alguns episódios sobre a Folha da Tarde, que jogam luz sobre o porquê de seu slogan “o jornal de maior tiragem” ser à época compreendido por muitos como o jornal com o maior número de “tiras” (policiais) infiltrados na redação. Criado em 1949 como o “vespertino das multidões”, ele circulou por dez anos, sendo substituído pelo Agora São Paulo, de igual pretensão popular. Desde 1962, a fase das três Folhas já havia sido encerrada, tornando- se então um único jornal, de nome Folha de S. Paulo. Após comprar gráficas, jornais e editoras, em 1967 o Grupo decidiu relançar a Folha da Tarde com um objetivo mercadológico: concorrer com o Jornal da Tarde, d’O Estado de S. Paulo. No seu ressurgimento, ele “despontou sob um signo arrojado”: foi o primeiro jornal paulistano a publicar fotos coloridas na primeira página, contou com jornalistas progressistas em sua redação e foi lançado para reportar uma efervescência cultural. Mas “no meio do caminho entre essa intenção e a realidade, tem-se a decretação do AI-5” e, “infelizmente, foi a distorção dos fatos e/ou alinhamento às ideias autoritárias que deram o tom do jornal no pós-AI-5” (KUSHNIR, 2001, p. 242). A autora lembra que, mais tarde, ao ponderar sobre o instante vivido e as alternativas vividas pelos donos do jornal, “algo entre os anéis e os dedos”, Claudio Abramo – fundador do Projeto Folha – afirmou que: Foi nesta época que se formou o núcleo policial da Agência Folhas, composto por remanescentes do grupo que estava na Folha quando fui para lá, em 1965. Esse pessoal mais tarde passaria para a Folha da Tarde, transformando-a no jornal mais sórdido do país. (KUSHNIR, 2001, p. 240) No caso desse jornal do Grupo Folha, o grau de “não rebeldia” ganha contornos de colaboracionismo. O periódico chegava a publicar notas plantadas pelos órgãos de repressão da ditadura, “legalizando” mortes sob tortura. Kushnir conta que, em 1971, o 147 militante de esquerda Ivan Seixas encontrava-se dentro de uma viatura policial quando leu na manchete do vespertino paulista a morte de seu pai. Quando retornou à Oban, à noite, encontrou seu pai ainda vivo, apesar de sua morte já ter sido anunciada. Pelo seu estado debilitado, foi questão de horas ele vir a óbito. A autora ressalta que essa “morte anunciada”, estampada nas manchetes do jornal Folha da Tarde, “não é um caso isolado”. “Eduardo Leite, segundo depoimento em juízo a Vinicius Caldeira Brandt, chegou a ver a primeira página da Folha da Tarde anunciar sua morte em tentativa de fuga, antes de ser retirado da cela vizinha à sua, para ser assassinado” (KUSHNIR, 2001, p. 313). Kushnir afirma que, para todas as mortes de presos políticos durante a ditadura 1964-1985, há sempre duas versões. Para a versão oficial, o sucessor de Carlos Marighella na ALN, Joaquim Câmara Ferreira, teria morrido de um ataque do coração ao ser descoberto em seu “ponto”, no bairro de Moema (SP), por policiais do DEOPS. Na versão interna à ALN, ele teria sido preso na noite do dia 23 de outubro de 1970 pelo delegado Sergio Paranhos Fleury, conhecido pela crueldade e truculência contra militantes da oposição e por seu envolvimento nas execuções do Esquadrão da Morte. Fleury o teria levado a seu sítio, conhecido como “Fazenda 31 de março”, onde seria a sede de um grupo paramilitar de direita nomeado “Braço Clandestino da Repressão”, e lá o teria assassinado. Apesar de a Comissão Nacional da Verdade e seus trabalhos seminais não terem se iniciado a época da tese de Kushnir, a autora conta que foi possível identificar a existência de um telex da 2ª seção do IV Exército, no acervo do DOPS de Recife, em Pernambuco. Datado de 24 de outubro de 1970, ele foi retransmitido para os demais departamentos de ordem política e social e narra como se deu a captura e a morte de Câmara Ferreira, indicando a versão a ser divulgada aos jornais: (...) informo ainda, foi dado conhecer repórteres imprensa falada e escrita o seguinte roteiro para ser explorado dentro do esquema montado”. Segundo a autora, dois dias depois, a Folha da Tarde trouxe como manchete, em letras garrafais “Lamarca, o louco, é o último chefe do terror”. E assim narrou, afirmando que o episódio: Sentencia uma das últimas etapas da curta e trágica história do terrorismo no Brasil. Odiados pelo povo, sofrendo seguidos revezes, separados por irremediáveis divergências, os facínoras remanescentes têm agora diante de si a dificuldade que 148 vai precipitar seu aniquilamento: a ausência de líderes à altura de Marighella e Câmara Ferreira, capazes de aglutinar em torno de si, e de comandar as desarticuladas e debilitadas facções do esquerdismo radical. Resta a esses grupos uma única e péssima alternativa: aceitar a chefia do delinquente Carlos Lamarca, que não passa – e eles bem o sabem – de um criminoso comum e psicopata. (Folha da Tarde, 26/10/70, p.1) É curioso notar que as “modernas” técnicas importadas para o surgimento de um “novo” jornalismo, supostamente amparadas em princípios de “objetividade”, “pluralismo” e “independência” não encontram aderência em editoriais no período da repressão. Vemos um jornal sob a direção do Grupo Folha “legalizando” mortes sob tortura e encobrindo o apagamento de direitos fundamentais da população. Valendo-se da retórica da “modernização” com “novas” regras de redação, os jornais do Grupo mantiveram na prática “sua coerência histórica classista, a de ser porta-voz dos interesses do mercado, da grande indústria e do comércio, do capital financeiro cada vez mais internacionalizado” (GÓES, 2017, p. 107). Utilizando-se dessa mesma retórica, a FSP rejeitou o “antigo”, o “atrasado”, realizando expurgos na redação, demitindo jornalistas experientes, mais combativos e críticos, como seu diretor de redação, Claudio Abramo. Ele, que já havia sido afastado em 1972, foi desligado definitivamente da direção em 1977 por imposição do ministro do exército, Sylvio Frota. O “motivo” foi uma crônica escrita durante a Semana da Pátria por Lourenço Diaféria, um jornalista conhecido – há mais de uma década, escrevia crônicas sobre o cotidiano e a cidade de São Paulo. Segundo os militares, o texto ofendia a memória de Duque de Caxias. Para substituí-lo, a FSP escolheu o jornalista Boris Casoy106, “um quadro de confiança da cúpula militar e adepto da autocensura, como se viu no episódio da morte de Santo Dias107” (KUCINSKI, 2002, p. 547). Segundo Sonia Silva (2011), este acontecimento representa um rompimento público com os militares, sendo o início 106 Boris Casoy já havia trabalhado no jornal a convite de Otávio Frias de Oliveira (em 1974, como editor de Política). Antes, trabalhou como secretário de Imprensa do prefeito de São Paulo, José Carlos Ferraz, do ARENA, e como assessor de imprensa do ministro da Agricultura do governo do ditador Emílio Médici. 107 Em 1979, a polícia militar assassinou o operário Santo Dias da Silva, durante a greve dos metalúrgicos de São Paulo. A censura prévia já não existia há dois anos, mas o texto redigido pelo repórter Jair Borin “foi mutilado pelo secretário de redação e pelo editor chefe do jornal, sob o pretexto de que ‘a real dimensão do repúdio poderia contribuir para um fechamento do regime’. Quem faz o relato é o próprio Jair Borin: ‘Descobrimos, posteriormente, que havia um esquema de pressão acionado por grupos de pressão instalados dentro da Fiesp (...) e porta-vozes nunca assumidos pelo governo militar (...) que induziram a versões atenuadas dos fatos” (KUCINSKI, 2002, p. 542). 149 da gestação de uma imagem descolada daquela do jornal que aderiu108 ao golpe e que celebrou o decênio da ditadura militar em clima de euforia, enaltecendo as conquistas do “milagre econômico” – período no qual se deu sua consolidação financeira. Valendo-se do argumento da pluralidade, o jornal tenta funcionar como se fosse uma grande colcha de retalhos ideológica, na qual pretensamente ‘todas’ as versões podiam ser costuradas e enredadas na tessitura orquestradas em suas páginas. Para justificar sua posição, a ideia de pluralidade ganha destaque, sendo um dos pilares de seu projeto de mudança. O conceito passa a conceder um lugar de legitimidade para que o veículo pudesse trabalhar em diversas linhas discursivas, sob o argumento de que se abria para ouvir todos os lados. Mas essas questões somente serão incorporadas com clareza com a implantação do projeto Folha na segunda metade dos anos oitenta; antes disso, há um período no qual o jornal assume publicamente a defesa das Diretas Já, marco divisor na construção de sua identidade. (...) Entretanto, o desafio colocado agora era o de construir uma nova legitimidade para o veículo; não mais o de interlocutor entre os militares e a sociedade civil, mas o de apresentá-lo como a voz da sociedade civil contra o regime. Na reformulação da sua imagem, tanto editorial, quanto política, a Folha começa a trabalhar para assumir um lugar de agente de interlocução nas reivindicações da sociedade por mudanças políticas. Àquela altura, avolumam-se protestos em todo o país e é, nesse momento, que o jornal identifica o vácuo para se apresentar como “o porta voz da sociedade civil”. Para fazer isso, convida reconhecidos atores sociais, entre os quais, perseguidos e exilados, que voltam a se posicionar publicamente nas páginas do jornal na recém-criada “Tendências/Debates” em 1976. (SILVA, 2011, p. 162-163). Vale lembrar que quem não forjou um jornalismo “moderno” e “neutro” (como os jornais que mantiveram em seu quadro jornalistas “partidários” e textos “panfletários”) ou não adotou uma “pedagogia” para a autocensura sucumbiu. As grandes empresas de comunicação não apenas não esboçaram reação à censura, como também não manifestaram solidariedade aos veículos que sofreram ferozmente com a censura prévia. Na autocensura sistêmica é possível verificar “o grau de adesão e de identificação dos proprietários dos jornais com os objetivos da repressão – e, portanto, seu grau de colaboracionismo” (KUCINKI, 2002, p. 542). Em seu livro As Ilusões Armadas (volume 1 – A Ditadura Envergonhada), o jornalista e escritor Elio Gaspari inclusive ressalta essa complacência dos donos de jornais por meio de uma declaração do ditador Ernesto Geisel. 108 Em editorial “Em defesa da lei”, de 2 de abril de 1964, a FSP assim se manifestou sobre o golpe: Não houve rebelião contra a lei, mas uma tomada de posição em favor da lei. Na verdade, as Forças Armadas destinam-se a defender a pátria e garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem. Ora, a pátria estava ameaçada pelo comunismo, que o povo brasileiro repele. Os poderes constitucionais haviam sido feridos de morte, tantos os desrespeitos a Constituição, a lei, ao regime federativo. E a ordem periclitava com a quebra da disciplina e de hierarquia nas Forças Armadas. (...) Assim se deve enxergar o movimento que empolgou o país. Representa, fora de dúvida, um momento dramático de nossa vida, que felizmente termina sem derramamento de sangue. E termina com a vitória do espirito da legalidade, reestabelecido o primado da Constituição e do Direito”. Fonte: Arquivo da Biblioteca Nacional. 150 Atribuir o fim da censura a qualquer tipo de pressão direta sobre o governo seria um exagero, pois se a censura tem uma utilidade esta é a de colaborar decisivamente para a desmobilização política da sociedade. Atribuí-lo a um movimento dos proprietários de jornais, revistas e emissoras, um despropósito. Devê-los a uma resistência maciça dos jornalistas, cortesia impossível. O fim da censura só se explica através do complexo mecanismo de uma decisão imperial do presidente Ernesto Geisel: “recebi no palácio todos os donos de órgãos de comunicação. Nenhum me pediu o fim da censura” (GASPARI, 2014, p. 43) Ao final, percebemos que a prática da autocensura – definida no âmbito de sistemas jornalísticos, de empresa ou de redações, por seu alto escalão, e não por jornalistas individualmente – atendia ao regime, mas especialmente aos interesses dos donos dos jornais de grande circulação. Especialmente no caso da FSP, essa relação de sobrevivência simbiótica com a autocensura “foi possível pelo caráter essencialmente antiliberal da burguesia proprietária dos jornais, por sua afinidade com os objetivos gerais da repressão (...) e por interesses mercantis” (KUCINSKI, 1998, p. 61 apud GÓES, 2017). A autocensura à brasileira revela-se também um gesto ainda mais sofisticado e ardiloso, na medida em que não deixa rastros. Ao suprimir a própria informação que está sendo suprimida, ela oferece ao opressor uma forma bastante eficiente de controlar a informação, permitindo que a ditadura pudesse nunca se assumir como tal, apesar de suas mais de duas décadas de existência. Justamente por não deixar sinais, pois sua característica é a ausência de cicatrizes, o lugar da autocensura na história da repressão ao pensamento e à informação durante o regime militar acabou soterrado pelos episódios espetaculares de censura exógena. (KUCINSKI, 2002, p. 541) Essa ausência de sinais permite inclusive que a FSP, ao comemorar seus aniversários, reformule sua atuação no passado. Mas há outros sinais e cicatrizes e, assim, nos perguntamos: como um dos principais apoiadores do regime militar foi capaz de reformular sua imagem a ponto de ser visto como um defensor da democracia em um espaço tão curto de tempo? O jornal, quando fala de si, recorre a um esquecimento, que se dá não pelo apagamento dos rastros, mas por uma memória seletiva que direciona as lembranças. Além das já citadas estratégias de autorreferencialidade laudatória e do discurso do “sujeito-Folha” como credenciais para se afirmar um jornalismo “de referência”, “a serviço do país”, nessa memória seletiva há duas lembranças recorrentes, quando a FSP narra sua atuação durante a ditadura militar de 1964-1985. 151 1) Construção de uma narrativa sobre si com ênfase no processo de expansão mercadológica: Considerada sua obra “oficial”, História da Folha de S. Paulo (1921-1981) foi escrita pelos historiadores da USP, Carlos Guilherme Mota e Maria Helena Capelato, para ser lançado no ano em que o jornal comemorou seis décadas. Um livro (416 páginas) editado pela própria FSP e escrito por encomenda, a pedido de Otávio Frias Filho. Os autores definem a trajetória do jornal como de “autonomia financeira à busca de um projeto político-cultural”: sendo 1962-1967, uma “organização financeiro- administrativa”; 1968-1974, uma “revolução tecnológica”; 1974-1981, um “projeto político-cultural”. Vemos que não existe, na reflexão de ambos, nenhuma análise que contemple as diretrizes da empresa versus as questões políticas e sociais vividas pelo país, os desafios vividos versus as adesões ou decisões tomadas. A ideia mais clara presente nas páginas do livro se dá pela interpretação de uma empresa que passa por uma “revolução tecnológica” e conquista sua “autonomia financeira” na época do período ditatorial. (...) A análise não esconde o apoio da empresa ao golpe, mas reforça a tese de que, naquele momento, a preocupação do jornal era procurar uma consolidação de sua estrutura administrativa. Período marcado por um forte fervilhar na cena política nacional, a obra dá mais ênfase às grandes “revoluções tecnológicas” praticadas pela empresa nos períodos iniciais do regime, exaltando seu pioneirismo enquanto portadora de uma postura agressiva e empresarial. Ao se tornar o jornal mais moderno e de maior circulação no país, a Folha passou os “anos terríveis” num processo de reformulação interna. (DIAS, 2014, p.80) Conforme deseja a memória oficial da FSP, ela passou os anos da ditadura militar organizando seu negócio, se modernizando, criando as bases de um jornalismo “plural” e “independente”, ainda que, em vários momentos, atuando como porta-voz do regime. 2) Construção de uma narrativa sobre si que destaca sua atuação como um canal para o renascimento da democracia: Como de costume, em 2001, a FSP publicou um caderno especial comemorativo aos seus 80 anos. Nele, sob o macrotítulo “Militares ameaçam suspender circulação”, lê-se o artigo “Folha apoiou o regime de 64, mas se engajou na redemocratização nos 152 anos 70109”, assinado pelo jornalista Mário Magalhães. Tanto o título quanto o texto guardam semelhanças com o do caderno TSDM (no de 2014, o título é “Imprensa apoiou a ditadura, antes de ajudar a derrubá-la”). Eles se espelham também na localização: ambos se situam ao final de uma história narrada em ordem cronológica; em 2014, a da ditadura, em 2001, a do jornal aniversariante. Em destaque, vemos o olho: “A Folha apoiou a deposição de Goulart, mas não participou de nenhuma conspiração”. Ao longo do texto, mais uma vez, vemos o foco da trajetória da FSP durante o regime militar ser deslocado para a expansão mercadológica e, assim como no caderno, aparece a tese de que não havia muito o que ser feito em relação aos eventos de março e abril de 1964. Sônia Meneses (2013) afirma que: Embora Magalhães não apague os rastros que ligariam a Folha ao golpe, ressignifica sua importância no conjunto das novas ocorrências que se seguiram em fins dos anos 70. Opera uma estratégia de esquecimento a partir de uma nova leitura sobre os episódios desencadeados naqueles dias e na formulação de uma nova identidade para o grupo. O passado é reconfigurado para produzir um afastamento quase cirúrgico do jornal em relação ao evento e aos militares. Ao fazer isso, realiza uma clara seleção dos elementos, de maneira a fazer crer que nunca houve um apoio efetivo do jornal aos acontecimentos de 1964. (MENESES, 2013, p. 48-49). Assim como no caderno TSDM, vários episódios de apoio do jornal ao regime (incluindo a anuência ao golpe) são omitidos, dando lugar a outra lembrança, ou, mais precisamente, àquilo que Ricoeur denominou de “lembrança encobridora”, que funciona “tanto na escala da vida coletiva como na da psicologia da vida cotidiana, por meio da exaltação do acontecimento da libertação” (RICOEUR, 2007, p. 457). Meneses conclui que: Para que seu projeto de reformulação de identidade tivesse pleno êxito, foi necessário elaborar uma argumentação que suprimisse um conjunto significativo de fragilidades políticas e colocasse em evidência outros eventos. Para o jornal, as novas ocorrências desencadeadas com a abertura funcionaram como acontecimentos deflagradores de uma identidade desejável, tanto política como comercial. Como memória, serviram para vincular o jornal à lembrança nacional da redemocratização e o fim do período ditatorial. Como esquecimento, serviram no conjunto de suas argumentações para reescrever sua memória, agora distante, em relação ao Golpe Militar de 1964. (MENESES, 2013, p. 67) 109 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/80anos/tempos_cruciais-02.shtml. Acesso em 22/03/2018. 153 Novamente, desta vez em 2011, o jornal comemorou seus 90 anos narrando sua trajetória, fixando em uma linha cronológica (1959-2011) episódios que marcaram a empresa e a história do país. Vale observar que, no período de 1960-1966, a história é leve e desimportante, o apoio do jornal ao governo militar é sombreado. Para Dias (2014): A impressão que fica enquanto leitor é que, ou este era um período pouco significativo para a história do jornal ou a empresa, enquanto portadora de memórias particulares sobre o período, procurava, implicitamente, se desvencilhar delas. Das 90 reportagens selecionadas pelo jornal, apenas 12 remetem ao período de 1959- 1981 que, se pensarmos desde o tempo de fundação da empresa (1921), corresponde a 60 anos de sua história. Fica evidente mais uma vez a política de memória empregada pela Folha. Ao procurar direcionar as lembranças, acaba fazendo com que o leitor siga uma linha que rememora muito mais a fase pós anos 1980, momento da redemocratização e de ampliação das liberdades do jornal (DIAS, 2014. P. 77-78). Não à toa, em 2014, vemos no caderno comemorativo TSDM, a FSP narrar brevemente sobre “as acusações” que pesam sobre sua adesão e colaboracionismo durante o período. Lá também, emerge como memória reivindicada a sua luta “pioneira” pelas Diretas Já, sendo inclusive a matéria que encerra o caderno. O fato de a Folha de S. Paulo ter sido uma defensora das eleições diretas, mesmo com a derrota da emenda Dante de Oliveira no Congresso Nacional, possibilitou-lhe ganhar força e influência tanto políticas quanto econômicas, inclusive junto a certa intelectualidade do país, reforçando seu status de jornal de referência, buscando apagar toda a sua cumplicidade com a ditadura. O jornal, ao tempo em que reformulava os controles na redação, também fazia campanhas de autorreferencialidade como o “jornal da abertura democrática”, “imparcial”, “apartidário” (KUCINSKI, 1998). Na prática, a Folha mantinha a retórica de “profissionalismo” e de “independência”, ao mesmo passo que se movia por grandes interesses econômicos e políticos do mercado nacional e internacional. (GÓES, 2017, p. 108) Ao final, quando retornamos às capas rasuradas da edição de 23 de março de 2014 – data em que a FSP escolheu rememorar os 50 anos do golpe –, compreendemos que essa forma de escrever-apagar-revelar se mostra também como uma memória palimpséstica que a própria FSP faz de si e da ditadura. Um gesto de apagar a experiência de um regime de exceção, as adesões e responsabilidades, de apagar suas convicções de outrora e seu apoio ao regime autoritário, sua aderência a um discurso único, oficial e autorizado, deslocando os holofotes para sua participação na luta pelas Diretas Já e sua suposta transformação em um dos “fenômenos mais importantes” do 154 jornalismo brasileiro. Desviando o olhar do passado para mirar o futuro, desejando ver uma imagem “democrática”, “apartidária” e “plural”. 155 Considerações finais – FSP, ENTRE LEMBRAR E ESQUECER Articulando noções de texto em ação, regimes de visão e memória coletiva de Paul Ricoeur, esta pesquisa se debruçou sobre a construção narrativa que a FSP faz do golpe de 1964 e da ditadura militar (1964-1985) cinquenta anos depois. Ancorados no caderno “Tudo sobre a Ditadura Militar”, procuramos ver o que ela torna visível – e também invisível – por meio dessa construção, arriscando dizer de um certo imaginário que compartilha sobre o golpe e a ditadura, imaginário de um passado estável, findo e sem lastro que o conecta aos dias de hoje. Na sua rememoração no cinquentenário do golpe, a memória do presente é essencialmente sobre o velho binômio que reduz as mais de duas décadas de cidadania interditada e em que o Estado se permitiu decidir sobre a vida e a morte da população ao confronto entre a luta armada e o aparato repressivo. Parece, portanto, compreensível que, em 23 de março, esgotado tudo sobre o golpe e a ditadura, em 31 de março ela se apresente exclusivamente como uma questão de opinião: se brasileiros favoráveis à punição de “quem cometeu atentados contra o governo” ou “daqueles que torturaram presos políticos”. Pudemos ver neste trabalho que, depois de “Tudo” – apresentado em um adiantamento rasurado –, no aniversário do golpe, a FSP se furtou de rememorar a partir de seu enquadramento particular. Preferiu uma rememoração em números; a imagem que estampou na primeira página é a de um gráfico. Cinquenta anos depois, a ditadura é uma questão numérica e de opinião. O jornal parece nos inquirir “Você é contra ou a favor da ditadura militar?”. Esvaziada de suas experiências e enquadrada como questão de opinião sobre um passado (encerrado), o fantasma de um golpe e de uma ditadura vem ao revir também nas marchas contrárias e favoráveis à ditadura realizadas em 2014, cujas imagens dividem a primeira página que inaugura a narrativa de “Tudo sobre a Ditadura Militar”, em 23 de março. Fantasma que volta a assombrar e encontra ainda maior aderência nos discursos sobre democracia quatro anos depois. Pesquisa110 realizada em março de 2018 apontou que 53,2% dos entrevistados afirmaram apoiar um golpe militar “quando há muitos 110 Os dados fazem parte de um levantamento feito entre 15 e 23 de março de 2018, com 2,5 mil entrevistas em 26 Estados (com exceção do Amapá), pelo INCT (Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia), entidade composta por representantes de quatro instituições acadêmicas principais (UFMG, Uerj, Unicamp e UnB), coordenada pelo professor Leonardo Avritzer, do departamento de Ciência Política da UFMG. Disponível em https://bit.ly/2jIEOih. Acesso em 16/05/18. 156 crimes” e “muita corrupção”, 41,3% discordaram e outros 5,6% não responderam ou não souberam responder. Em 11 anos nos quais essa pesquisa quantitativa tem sido feita por diferentes instituições, com o mesmo método científico, essa foi a primeira vez que o desapreço pela democracia atingiu tal estágio. Ao usar uma régua que mede a mais recente ditadura brasileira pelo número de mortos e desaparecidos – e, portanto, uma “ditabranda” se comparada a países vizinhos como Chile e Argentina –, a FSP efetua uma política abusiva da memória. Um abuso do esquecimento não pelo apagamento de rastros, mas pela memória impedida e que, como tal, “repete ao invés de lembrar” (RICOEUR, 2007, p. 452). Já quando lembra de si, nas várias imagens que a FSP buscou construir, vemos a memória da ditadura a atravessando, ora por um abuso de esquecimento – no caderno TSDM, o jornal menciona as acusações de colaboracionismo, mas as coloca em dúvida: “se ocorreu, não é possível dizer que a prática foi autorizada pela direção da empresa” – , ora por uma lembrança encobridora – quando aciona a campanha pelas Diretas Já para se afirmar como o jornal da democracia. Durante a pesquisa, foi também possível compreender que a maneira como um jornal se utiliza do passado para construir narrativas cotidianas é também uma forma de entender os seus jogos políticos para a construção de uma imagem própria. No caso da FSP, essa imagem construída (por meio de uma narrativa palimpséstica), que é reiterada e publicizada especialmente a cada aniversário do jornal, é utilizada como fiduciária da promessa de narrar “Tudo sobre a Ditadura Militar”. Como garantias de “tudo”, temos um jornal “plural”, “independente”, com “espírito crítico”, “apartidário” e, sobretudo, que ajudou a derrubar a ditadura militar. Se países vizinhos, como a Argentina, contam com extensa bibliografia (inclusive de ficção) que lançam um olhar sobre as relações entre sociedade civil e ditadura, no Brasil esse é um campo ainda a ser explorado, uma vez que não atingiu sequer um mínimo de reconhecimento. Acreditamos que um dos meios para tal seria justamente o próprio campo do jornalismo, escavando suas práticas e atuações durante a ditadura militar de 1964-1985. Concordamos com Kucinski (2001) quando ele afirma que é ainda hoje natural que jornalistas brasileiros por vezes deixem de revelar parte das informações que possuem, como “estratégia de sobrevivência num ambiente redacional autoritário, e já incorporada ao ethos jornalístico na democracia pós-autoritária brasileira” (KUCINSKI, 2001, p. 543), sendo talvez o traço que mais os diferencie de 157 jornalistas de culturas de maior tradição democrática. Como afirma o autor, exatamente por não deixar rastros, “o lugar da autocensura na história da repressão ao pensamento foi eclipsado pelos episódios de censura exógena”. Contudo, nem por isso essa prática desapareceu (em 2015, ganhou certa notoriedade a frase “podemos tirar se achar melhor111”, por exemplo) e merecia um estudo em profundidade. Como nos diz Ricoeur, é sempre possível narrar de um outro modo. Cientes disso, em nossa pesquisa fomos ao encontro de evidências dos “usos e “abusos” no lembrar e esquecer da FSP, atentos também ao que Ricoeur chama de “ideologização da memória112” (RICOEUR, 2007), possível pelos recursos variantes que o trabalho de configuração narrativa oferece. As estratégias de esquecimento enxertam-se diretamente neste trabalho de configuração: pode-se sempre narrar de outro modo, suprimindo, deslocando as ênfases, refigurando diferentemente os protagonistas da ação assim como os contornos dela. Para quem atravessou as camadas de configuração e de refiguração narrativa desde a constituição da identidade pessoal até a das identidades comunitárias que estruturam nossos vínculos de pertencimento, o perigo maior, no fim do percurso, está no manejo da história autorizada, imposta, celebrada, comemorada – da história oficial. O recurso à narrativa torna-se assim armadilha, quando potências superiores passam a direcionar a composição da intriga e impõem uma narrativa canônica por meio de intimidação ou de sedução, de medo ou de lisonja. Está em ação aqui uma forma ardilosa de esquecimento, resultante do desapossamento dos atores sociais de seu poder originário de narrarem a si mesmos. (RICOEUR, 2007, p. 455) Na rememoração da FSP, a “refiguração de personagens” e seus contornos se dá por uma seleção interessada da lembrança, da qual passa essencialmente a instrumentalização da memória. O “tudo” prometido consiste em uma narrativa sobre o golpe e uma ditadura militar sem agência e responsabilidades, e sem a experiência sob um regime de exceção. Seriam praticamente inesgotáveis as abordagens que poderiam ter sido construídas para a mobilização de outros “tudo”, e aqui identificamos apenas alguns dos esquecimentos interessados que ajudam a construir um lugar fantasmático que impediram e ainda impedem um porvir. Tal como o caderno, sombreamos o papel 111 A frase foi encontrada em uma entrevista com o ex-presidente FHC para a Agência Reuters. A frase vinha logo após um trecho que lembrava que um dos delatores do esquema, o ex-gerente de Serviços da Petrobras Pedro Barusco, disse ter começado a receber propinas em 1997, ainda sob o governo FHC. Posteriormente, a frase foi apagada. Disponível em https://www.revistaforum.com.br/erro-da-reuters- gera-mobilizacao-de-internautas-contra-blindagem-da-midia-tradicional/ Acesso em 19/11/17. 112 A história oficial, lembra Ricoeur, é uma memória coletiva oficializada, ou seja, uma memória ideológica, em vez de uma memória criticada. 158 da Política como mobilizadora, debatedora e de negociação de interesses antagônicos dentro de uma sociedade compostas por agentes plurais; enquanto sociedade, sombreamos que o crescimento econômico, por si só, não equivale a uma melhora na vida de toda a população, como não aconteceu com o “milagre econômico”, que concentrou renda e que, também, articulou como projeto civilizatório a ideia de que indígenas são um obstáculo ao progresso; ainda sombreamos – apesar de seguirmos buscando aprender – o reconhecimento de algumas lutas (especialmente, na cena pública) de negros, mulheres, trabalhadores do campo, travestis e transexuais, gays, lésbicas, bissexuais e indígenas pela conquista de direitos, algo que havia sido esboçado nos anos 1970, mas que foram interditadas de entrar, efetivamente, na esfera pública; sombreamos – e o caderno parece desviar o olhar – que a corrupção é uma prática não inventada no período democrático, mas que se configura no país desde o período colonial, nas relações bastante incrustradas entre o público e o privado; sombreamos a falta de diferentes matizes ideológicos no nosso jornalismo, já que jornais que poderiam provocar dissenso foram sufocados, inclusive economicamente, pelo regime arbitrário; sombreamos o espólio autoritário, e que das práticas de repressão da época surgiram os “autos de resistência” que, ainda hoje, justificam assassinatos em periferias do país – sobretudo da população negra –, assim como sombreamos a permissão de uso arbitrário da força pelas polícias, no passado e no presente; sombreamos os debates, reivindicações e implicações do direito à verdade, à justiça e à reparação, entre outras práticas que se fazem necessárias no Brasil. Inclusive, sombreamos que tivemos, por muito tempo, nossa linguagem normatizada, regulada, podada, castrada, esfacelada, como é o caso da censura a livros113 e jornais, tal qual Maurício Maia (2001) ressalta a respeito do jornal Movimento e o que foi alvo de censura no veículo: - Movimento estudantil (970 menções nas 53 edições): mobilização em universidades (USP, UnB, Unicamp, Unesp, PUC/SP, UFRJ, PUC/RJ), invasões policiais na PUC/SP e na Unesp, greves, passeatas, reorganização da UNE, e manifestações de protestos em memórias dos estudantes Edson Luiz e Alexandre Vannuchi. 113 Na tese “Repressão e resistência — Censura a livros na ditadura militar” (2011), Sandra Reimão revela a lógica e a documentação que justificou a censura de livros nos 18 anos em que foi regulamentada por lei depois do golpe de 1964, vigorando oficialmente entre 1970 (por lei) e 1988, abolida pela promulgação da nova Constituição. Ao menos 490 livros foram proibidos ou recolhidos, sendo a maior parte por serem considerados “atentatórios a moral e aos bons costumes”, como os contos do escritor Aguinaldo Silva sobre homossexualidade nas Forças Armadas, e os 36 livros de Cassandra Rios – a escritora que mais sofreu censura nos anos 1970 –, com suas obras de ficção sobre homossexualidade feminina e erotismo. 159 - Ataques ao regime (2403 menções nas 53 edições): sob esta rubrica, foi agrupada a mais vasta gama de assuntos, tais como a agenda oposicionista (campanhas pela anistia e pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte), a sucessão presidencial (com a menção das candidaturas do general João Figueiredo, do general Sylvio Frota, do senador Magalhães Pinto e de anticandidatos da oposição), a discussão da natureza do regime militar (ditadura totalitária, regime autoritário e repressivo, ditadura alternativa, governo militar fascista), e os movimentos políticos do presidente Geisel (abertura, distensão, redemocratização). - Incitação à luta (710 menções nas 53 edições): conflitos de terra, luta de classes, luta armada, mobilização de massas, formação de frentes populares e grupos políticos anarquistas. . Movimento sindical (478 menções nas 53 edições): edições sindicais, dissídios coletivos, reposição salarial, partidos operários, histórico de greves, intervenções nos sindicatos e atuação do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. - Situação econômica (1889 menções nas 53 edições): aumento do custo de vida, baixos salários, multinacionais, corrupção, reforma agrária, desemprego, desaceleração da economia, alto custo da moradia, inflação e dívida externa. - Direitos humanos (2314 menções nas 53 edições): torturas, anistia, prisões, repressão policial. Esquadrão da Morte, cassação de mandatos, exploração do trabalho, situação dos posseiros, trabalho escravo, assistência médica deficiente, direitos femininos, mortalidade infantil, menor abandonado e terrorismo de direita e exploração dos índios. - Movimento religioso (391 menções nas 53 edições): atuação do Conselho Indigenista Missionário da Igreja (Cimi), Pastoral da Terra, atuação da Comissão de Justiça de Paz de São Paulo, atuação da Arquidiocese de São Paulo, documento da assembleia da CNBB realizada em Itaici, lembrança do primeiro aniversário da morte do padre Burnier, apoio ao movimento estudantil e defesa da Assembleia Nacional Constituinte. - Leis revolucionárias (354 menções nas 53 edições): AI-5, Decreto- lei nº 477, Decreto-lei nº 228, censura da imprensa, censura do teatro, censura do cinema, Lei de Segurança Nacional, AI-2, Lei de Imprensa, Constituição de 1967 e Lei nº 5789/72.” (MAIA, 2002, p. 506-507). Se Roland Barthes (1978) afirmava que a língua era fascista não porque impedia de falar, mas porque obrigava a falar de determinada maneira, tamanhos cortes de possibilidades de expressão, políticas ou não, acabaram obrigando uma determinada forma de falar, da qual temos rastros até hoje, tal qual quando alguém ainda fala “Revolução de 64”. Afinal, envenenar a língua e as formas sintáticas, adaptar a língua a um tipo de sistema, como foi no caso de nossa ditadura – e que o “Tudo” da FSP parece esquecer –, ainda é “o meio de propaganda mais poderoso, ao mesmo tempo o mais público e o mais secreto” (KLEMPRER, 2009, p. 56), como Victor Klemprer afirmava ao rememorar sobre a Alemanha Nazista. O que resta da ditadura não cabe na narrativa da FSP que “tudo” lembra, talvez porque algo dela ainda esteja aqui e, por isso, supostamente não precise ser lembrada. Ou talvez a memória da FSP sobre a ditadura seja uma maneira de ela reconstruir seu passado (colaboracionista) em função de um futuro (o jornal da democracia) que almeja, 160 mas que a rememoração de suas relações com a ditadura, possivelmente, a impossibilita. Entretanto, acreditamos que a experiência da ditadura precisa ser lembrada sim, porém de forma que faça a devida ligação entre aquele lá e o isto aqui. Acreditamos que a falta dessas lembranças (seja pela memória impedida, manipulada ou pelo excesso de esquecimento) nos impede de verdadeiramente vislumbrar um pensamento de futuro – ou de um tipo de futuro – que, de fato, supere um passado para o qual não desejamos voltar. Se não nos sentarmos não apenas para olhar, mas, essencialmente, para conversar com os nossos fantasmas, esse passado vai continuar assombrando e pode, sempre, voltar. 161 Referências Bibliográficas ABRIL, Gonzalo. Análisis crítico de textos verbovisuales: Mirar lo que nos mira. 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