Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo HISTÓRIA DE PRÁTICAS DE ENSINAR-APRENDER MATEMÁTICA NO COLÉGIO TÉCNICO DA UFMG - COLTEC (1969-1997) VOLUME I Belo Horizonte - MG Faculdade de Educação da UFMG Fevereiro de 2018 Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo HISTÓRIA DE PRÁTICAS DE ENSINAR-APRENDER MATEMÁTICA NO COLÉGIO TÉCNICO DA UFMG - COLTEC (1969-1997) Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social, da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção do título de Doutora em Educação. Linha de pesquisa: Educação Matemática Professora Orientadora: Dra. Maria Laura Magalhães Gomes Belo Horizonte − MG Faculdade de Educação da UFMG 2018 M522h T Melillo, Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima, 1983- História de práticas de ensinar-aprender matemática no Colégio Técnico da UFMG - COLTEC (1969-1997) / Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. - Belo Horizonte, 2018. 2 v. (706 p.), enc, il. Tese - (Doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação. Orientadora : Maria Laura Magalhães Gomes. Bibliografia : f. 259-266. Apêndices: f. 281-486 (v. 2.). Anexos: f. 487-706 (v. 2.). 1. Universidade Federal de Minas Gerais -- Colégio Técnico -- História -- Teses. 2. Educação -- Teses. 3. Educação -- História -- Séc. XX -- Teses. 4. Matemática -- Estudo e ensino -- História -- Teses. 5. Matemática -- Métodos de ensino -- História -- Teses. I. Título. II. Gomes, Maria Laura Magalhães, 1955-. III. Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação. CDD- 370.9 C talogação da Fonte : Biblioteca da FaE/UFMG UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO: CONHECIMENTO E INCLUSÃO SOCIAL Tese intitulada HISTÓRIA DE PRÁTICAS DE ENSINAR-APRENDER MATEMÁTICA NO COLÉGIO TÉCNICO DA UFMG - COLTEC (1969 - 1997), de autoria de Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo, analisada pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores: _______________________________________________________________ Profª. Drª. Maria Laura Magalhães Gomes - Orientadora Instituto de Ciências Exatas – ICEX / UFMG _______________________________________________________________ Prof. Dra. Maria Cristina Costa Ferreira Instituto de Ciências Exatas – ICEX / UFMG _______________________________________________________________ Prof. Dr. Vicente Marafioti Garnica Departamento de Matemática – UNESP/Bauru _______________________________________________________________ Prof. Dr. Luciano Mendes de Faria Filho Departamento de Ciências Aplicadas à Educação - FaE/UFMG _______________________________________________________________ Prof. Dr. Bruno Alves Dassie Departamento Sociedade, Educação e Conhecimento - FEUFF _______________________________________________________________ Prof. Dr. Filipe Santos Fernandes - Suplente Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino - FaE/UFMG _______________________________________________________________ Prof. Dra. Maria Ednéia Martins-Salandim - Suplente Departamento de Matemática – UNESP/Bauru Belo Horizonte, 08 de fevereiro de 2018. Dedico esta tese aos colaboradores que deram vida a ela. Obrigada Gledsom, Antônio Carlos (Tonico), Adilson, Alberto, Gilberto, Jenner, Poliana, Niriana, Lilian, Abdala, José Eloísio (Jed), Luiz Humberto, Maria do Carmo, Francisco (Gil), Tânia e Airton. AGRADECIMENTOS Não estive sozinha durante o tempo em que me dediquei à investigação e produção desta tese. Muitos estiveram comigo com amizade e apoio, auxiliando-me de forma direta ou indireta. De forma especial, agradeço: À minha orientadora, Maria Laura, por confiar no meu trabalho; por realizar leituras cuidadosas e ágeis; por estar sempre atenta ao que poderia contribuir com a pesquisa; por compreender e dar atenção aos meus assuntos particulares, especialmente, às notícias do meu filho. Enfim, pela amizade e pelos ensinamentos durante toda a nossa convivência. Ao meu marido, Célio, por me responder questões fora de hora; por ter paciência com a minha ansiedade; por entender que esta pesquisa tem grande significado para mim; por me dar amor continuamente; por proporcionar viagens e momentos de descanso, conforto e alegria, que acalentaram todos esses anos de estudo; e, principalmente, pelas vezes em que me exaltou, o que me ajudou a acreditar em mim e contribuiu para eu seguir em frente. Ao meu filho, Henrique, por seu sorriso, por suas brincadeiras, por seus beijos e seus abraços. Por me tornar uma pessoa mais feliz e mais amável. Mesmo sem compreender o que se passava, por me fazer esquecer das minhas angústias e me mostrar o que realmente importava. À minha mãe, Cybelle, por enxergar em mim o que eu me empenho em ser. Ao meu irmão, Alysson e meu pai, Marcelino, que, mesmo distantes, ficam orgulhosos e na torcida pelas minhas conquistas. À amiga Paula, pela parceria desde antes de ingressarmos no doutorado, por ouvir, por ajudar, por opinar, por consolar, por incentivar, por confortar, por me fazer sentir especial na gravidez, pelos momentos de descontração e pela amizade irrefutável. Aos queridos depoentes, por aceitarem me receber, dividirem suas lembranças, compartilharem seus arquivos pessoais, realizarem doações ao trabalho e confiarem na seriedade desta pesquisa. Ao professor Luciano, pela generosidade e pelo rigor com o qual avaliou esta pesquisa, na qualificação e, agora, nesta defesa. Ao professor Vicente, pelo carinho, pela atenção, pelos ensinamentos e pelas contribuições ao trabalho, na qualificação e, agora, nesta defesa. À professora Cristina, pelos ensinamentos desde a graduação e por aceitar colaborar com a conclusão da tese, nesta defesa. Ao professor Bruno, por ceder seu tempo à leitura e auxílio do texto, nesta defesa. Aos professores Filipe e Ednéia,pelos encontros, pelas ideias compartilhadas que tanto admiro, pelos exemplos, leitura e contribuições para o meu trabalho. À professora Teresinha, pelos ensinamentos no mestrado, que refletem na pesquisadora que tenho me tornado. Aos amigos Juliana, Nora, Airton e Ana Rafaela, pelos apontamentos ao projeto de pesquisa, em sua primeira versão. À professora Vanessa, pelos aportes ao projeto de pesquisa, na sua primeira reformulação. Ao Michael, pela revisão do abstract e pela admiração recíproca. Aos colegas e amigos do setor de Matemática do Coltec, Airton, Nora, Maria José, Thais e Fernando, por possibilitarem que eu me dedicasse à pesquisa com tranquilidade. Aos filhos da Maria Laura, Brian, Diogo, Ana Rafaela, Luiza, Renata, Ana Catarina, Inês, Diogo, Flávia, Paulo e Shirley, por dividirem comigo preocupações, enganos, caminhos e êxitos (e por que não dizer quartos, em viagens para encontros e seminários). Aos colegas do Ghoem, pelas trocas de experiências e pelas contribuições à pesquisa durante os seminários do grupo, em discussões por email e demais momentos de partilhas. Aos colegas do Grupo Memória e História da Formação de Professores na UFMG, pelas leituras e debates oportunizados. Aos demais amigos do doutorado, Denise, Ilaine, Ruana, Fernanda, Jorge, pelas vivências compartilhadas. Aos amigos e familiares, por todo o carinho e incentivo. Aos alunos do Coltec, por me ajudarem a ser a profissional que sou e por me motivarem a aprender mais e melhorar a cada dia. À direção do Coltec, por viabilizar os meus estudos. Aos colegas do Coltec, especialmente, Eliza, Kátia, Cícero, Carlos Villani, Ênio, Rosângela, Fantini, Roseli, Ligia, Cláudia Grossi, Débora e Zedu, pelas inestimáveis contribuições, dando retornos às minhas dúvidas, indicando contatos e auxiliando nas minhas consultas a documentos e arquivos. Aos servidores e professores da pós-graduação da UFOP e da UFMG, pelos subsídios à minha formação. E, especialmente, a Deus, por me ouvir, guiar e proteger, em todas as minhas escolhas. Agradeço por tudo que eu tenho e conquistei. "Não existe isso de reviver o passado. O passado é como a pele da mão. Estava lá ontem e está aqui hoje. Não vai embora" (THRITY UMRIGAR). RESUMO Neste trabalho construímos uma história das práticas de ensinar-aprender Matemática do Colégio Técnico da UFMG – Coltec. Foram utilizadas várias fontes, entre as quais se destacam depoimentos de docentes de Matemática que lecionaram nessa escola, bem como de alguns ex-alunos em relação às práticas, experiências e concepções sobre o ensino de Matemática nessa instituição, desde sua criação, em 1969, até o ano de 1997. Visitamos arquivos diversos e bibliotecas públicas e consultamos materiais impressos e digitalizados em busca de informações sobre a escola e nossos depoentes. Entrevistamos o primeiro diretor do Coltec, sete docentes de Matemática e oito ex- alunos a respeito da fundação do Colégio, metodologias, recursos e materiais didáticos empregados. As conversas foram gravadas, transcritas e originaram dezesseis narrativas, aqui denominadas textualizações. Apoiamo-nos em autores que discutem História Oral, constituição de fontes, memória, lembranças e esquecimentos. Apresentamos narrativas que caracterizam o Colégio Técnico, incluindo aspectos de sua trajetória, com ênfase em seus anos iniciais, para uma maior compreensão do cenário de pesquisa; dissertamos sobre os professores (política de recrutamento, formação, desenvolvimento profissional, concepções de ensino e envolvimento em cursos de capacitação de docentes); focalizamos nos estudantes do Colégio (interesse pela escola, escolha da modalidade técnica, trajetórias profissionais dos egressos e sociabilidade dos alunos); e discorremos sobre as práticas de ensinar-aprender Matemática, que são o cerne da nossa investigação. Destacamos que o entendimento de práticas por nós discutido vai além do trabalho do professor em sala de aula. Assim, comentamos aspectos diversos como o currículo, a rotina, as decisões que os docentes tomavam, pautadas nas suas crenças, seus objetivos, planos de atuação, análise dos materiais, recursos produzidos e utilizados, as relações do Ensino Técnico com o Ensino de Matemática, permanências e rupturas nos modos de ensinar Matemática, ainda que distorcidos pelo tempo. Os resultados encontrados evidenciam que, embora houvesse uma tentativa dos docentes de repensar e incrementar as práticas de Matemática, raramente houve uma abordagem específica para os propósitos dos cursos técnicos. Palavras-chave: Colégio Técnico da UFMG, Práticas de ensinar-aprender Matemática, História da Educação Matemática, História Oral. ABSTRACT In this work, we construct a history of the practices of teaching and learning mathematics in Colégio Técnico (Coltec), which is part of the Federal University of Minas Gerais. Various sources are drawn on, including the testimonies of former mathematics teachers and former students, to illustrate the practices, experiences and conceptions of mathematics teaching and learning in this institution, from the time of its establishment in 1969 to 1997. Printed and scanned materials in numerous archives and public libraries were consulted for information relating to the school and our interviewees. We spoke with the first principal of Colégio Tecnico, seven mathematics teachers and eight former students regarding the foundation of the school and the methodologies, resources and didactic materials employed there. These conversations were recorded and transcribed and resulted in sixteen narratives. Our work makes reference to authors who have written about oral history, the constitution of sources, memories, remembrance and forgetfulness. We characterize Colégio Tecnico, including aspects of its trajectory, with an emphasis on the early years, in order to better understand the research environment; teachers (the recruitment policy, training, professional development, conceptions of teaching and participation in training courses taught by other teachers); students (their level of interest in school, choice of a technical orientation, professional trajectories of graduates and the students’ sociability); and the practices of teaching and learning mathematics, which are at the heart of our research. We emphasize that our understanding of these practices goes beyond the teachers’ work in the classroom. Hence, we discuss various elements, such as the curriculum; the routine; the decisions made by teachers based on their beliefs, objectives, action plans, resources created and used; the relationship between Technical Teaching and Mathematics Teaching; what has changed and what has remained the same in the way in which mathematics is taught, even if all of these elements have been distorted over time. Our results show that, in spite of teachers’ attempts to rethink and improve their practices, rarely has an approach been devised specifically for the purposes of technical courses. Keywords: Colégio Técnico-UFMG, Practices of Teaching and Learning Mathematics, History of Mathematics Education, Oral History. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AME Atividades Matemáticas que Educam Capes Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Cecimig Centro de Ensino de Ciências de Minas Gerais Ceci's Centros de Ensino de Ciências Cefet Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais CEP Coordenação de Ensino e Pesquisa Cepe Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão CEU Clube Esportivo Universitário CNI Confederação Nacional da Indústria CNI Confederação Nacional de Indústria CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Coep Comitê de Êtica em Pesquisa Coltec Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais Coluni Colégio Universitário da Universiade Federal de Minas Gerais Copel Companhia Paranaense de Energia CP Centro Pedagógico da Universidade Federal de Minas Gerais Dops Departamento de Ordem Política e Social EAD Ensino a Distância Ebap Escola de Educação Básica e Profissional Edurural Programa de Expansão e Melhoria da Educação no Meio Rural EMC Educação Moral e Cívica ETE FMG Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa ETFES Escola Técnica Federal do Espírito Santo FaE Faculdade de Educação Fafi-BH Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte Fiemg Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais Finep Financiadora de Estudos e Projetos FNDE Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Fump Fundação Mendes Pimentel Fundep Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa FUNM Fundação Universitária do Norte de Minas Gedoc Gerência de Documentação desse periódico Ghoem Grupo de História Oral e Educação Matemática IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ICEx Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal de Minas Gerais Ifets Institutos Federais de Educação, Ciências e Tecnologia LEM Laboratório de Ensino de Matemática MEC Ministério da Educação OAP Organização dos Aposentados e Pensionistas da UFMG OEA Organização dos Estados Americanos Pebe Programa Especial de Bolsas de Estudo Premen Projeto de Melhoria do Ensino de Ciências Prepes Programa Regional de Especialização de Professores de Ensino Superior PTB Partido Trabalhista Brasileiro PUC/MG Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais RCA Radio Corporation of America Senac Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial Senai Sistema Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais SNI Sistema Nacional de Informações Sods Secretaria dos Órgãos de Deliberação da UFMG TGL Técnicas Gerais de Laboratório TIC's Tecnologias da Informação e Comunicação UAB Universidade Aberta do Brasil Uemg Universidade do Estado de Minas Gerais UFMG Universidade Federal de Minas Gerais Ufop Universidade Federal de Ouro Preto UNE União Nacional dos Estudantes Unesco Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura Uni-BH Centro Universitário de Belo Horizonte Unicamp Universidade Estadual de Campinas Unimontes Universidade Estadual de Montes Claros Usaid United States Agency for International Development UTFPR Universidade Tecnológica Federal do Paraná LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Identificação do diretor entrevistado..................................................... 100 Quadro 2 - Relação de ex-alunos entrevistados...................................................... 100 Quadro 3 - Relação de professores entrevistados.................................................... 101 Quadro 4 - Programa de Matemática do Coltec (1969).......................................... 191 Quadro 5 - Programa de Matemática do Coltec (1972).......................................... 192 Quadro 6 - Núcleo Comum (Instrumentação, Patologia Clínica, Eletrônica e Química)................................................................................................................... 193 Quadro 7 - 2º ano - 2º semestre............................................................................... 194 Quadro 8 - 3º ano..................................................................................................... 194 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Radiograma enviado pelo MEC ao diretor do Coltec, em 1971............... 56 Figura 2: Arquivo de aço deslizante (fechado e com uma de suas portas aberta).... 58 Figura 3: Entorno do Arquivo Permanente............................................................. 58 Figura 4: Inauguração do Coltec, em 1970............................................................... 63 Figura 5: Prédio do Coltec, no período de sua inauguração..................................... 63 Figura 6: Capa do álbum de fotos da Fundação do Coltec....................................... 64 Figura 7: Laboratório do Coltec............................................................................... 64 Figura 8: Prédio do Coltec e construção do edifício que foi destinado ao Departamento de Química da UFMG........................................................................ 65 Figura 9: Inauguração do Coltec.............................................................................. 65 Figura 10: Capa e contracapa do panfleto de divulgação do Coltec – 1969............ 65 Figura 11: Imagem extraída da página 11 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969............................................................................................................................ 66 Figura 12: Capa da pasta "Seminário sobre o Ensino de Matemática no 2º grau..... 66 Figura 13: Os professores Tânia, José Eloísio e Luiz Humberto, do setor de Matemática do Coltec, no painel: "Material didático para o ensino de trigonometria"............................................................................................................ 66 Figura 14: O professor Abdala, do setor de Matemática do Coltec, apresentando o painel: "Recursos do retro-projetor no ensino de Matemática".............................. 66 Figura 15: Recorte do Jornal Estado de Minas, de 05 de maio de 1968.................. 106 Figura 16: Recorte do jornal Correio da Manhã, de 28 de outubro de 1968............ 109 Figura 17: Recorte do jornal Diário da Tarde, de 01 de dezembro de 1970............ 113 Figura 18: Recorte do jornal Diário da Tarde, de 03 de dezembro de 1970............ 114 Figura 19: Recorte do Jornal do Brasil, de 01 de dezembro de 1970...................... 114 Figura 20: Foto da inauguração do Coltec, na presença do diretor Gledsom Coutinho, do ministro da Educação Jarbas Passarinho, entre outras autoridades..... 115 Figura 21: Foto da inauguração do Coltec................................................................ 115 Figura 22: Laboratório de Eletrônica........................................................................ 125 Figura 23: Laboratório de Instrumentação............................................................... 125 Figura 24: Laboratório de Química.......................................................................... 125 Figura 25: Portaria do Colégio Técnico................................................................... 134 Figura 26: Prédio do Coltec – 1969.......................................................................... 135 Figura 27: Foto do Prédio do Coltec, com parte do seu entorno.............................. 137 Figura 28: Laboratório de disciplinas técnicas do Coltec......................................... 141 Figura 29: Laboratório de disciplinas técnicas do Coltec......................................... 141 Figura 30: Contracapa do diploma de conclusão do curso técnico em Química, de Gilberto do Vale Rodrigues, realizado no Coltec...................................................... 143 Figura 31: Colégio Técnico da UFMG - Cronologia............................................... 144 Figura 32: Prova prática do Exame de Seleção de professores de Matemática de 1970............................................................................................................................ 164 Figura 33: Capa do trabalho final de José Eloisio Domingos, intitulado: "Interación de matematica y fisica y su vinculacion com las demás ciencias", desenvolvido no curso "Integración de Matematica y fisica y su vinculación com las demás ciencias", em 1981.................................................................................... 174 Figura 34: Capa da apostila desenvolvida por Sérgio Veiga, utilizada para assistência técnica a professores de Matemática - 1980............................................ 186 Figura 35: Livro Matemática Aplicada, volume 2, dos autores Fernando Trotta, Luiz M. P. Imenes e Jose Jakubovic.......................................................................... 195 Figura 36: Coleção Modern Mathematics for Schools, publicada pela primeira vez em 1965 e revisada em 1969............................................................................... 197 Figura 37: Coleção Modern Mathematics for Schools - 2ª edição, publicada pela primeira vez em 1971 e revisada em 1972................................................................. 197 Figura 38: Capa do material didático do Colégio Universitário, para a disciplina de Matemática. Conteúdo: Introdução ao Cálculo. Sem data ou autoria................... 201 Figura 39: Primeira página do material didático "Introdução ao Cálculo" do Colégio Universitário da UFMG............................................................................... 202 Figura 40: Capa da instrução programada "Limite Exponencial Fundamental", do prof. Abdala Gannam, 1985....................................................................................... 204 Figura 41: Primeira página da instrução programada "Limite Exponencial Fundamental", do prof. Abdala Gannam, 1985......................................................... 205 Figura 42: Recorte da instrução programada intitulada Limite Exponencial Fundamental, de autoria do prof. Abdala Gannam, datada de 1985.......................... 206 Figura 43: Recorte da apostila intitulada Colégio Universitário - Matemática, Volume III. Conteúdo: instrução programada sobre Sistemas Numéricos - Números Reais........................................................................................................... 207 Figura 44: Página do Caderno 1............................................................................... 209 Figura 45: Página do Caderno 1............................................................................... 210 Figura 46: Estudo dirigido desenvolvido pela profa. Tânia Ayer, no Coltec, sobre geometria plana (1ª parte), em 1983.......................................................................... 212 Figura 47: Capa do estudo dirigido, desenvolvidos pelo prof. Abdala Gannam, no Coltec, sobre Sistemas de Equações Lineares, em 1982........................................... 213 Figura 48: Página do estudo dirigido desenvolvido pelo prof. Abdala Gannam, no Coltec, sobre Funções, Equações e Inequações (1ª Parte)......................................... 214 Figura 49: Gráfico da função f(x) = x 2 , disponibilizado pela professora para ilustrar a translação.................................................................................................... 220 Figura 50: Plano Cartesiano disponibilizado pela professora para realização de uma atividade............................................................................................................. 220 Figura 51: Simulação da atividade proposta. Imagem criada pela pesquisadora..... 220 Figura 52: Foto do conjunto de diapositivos denominado "Da arte nasce uma geometria".................................................................................................................. 222 Figura 53: Transparência com movimento, para estudo das funções seno e cosseno....................................................................................................................... 222 Figura 54: Desenho que ilustra a transparência da figura anterior........................... 223 Figura 55: Transparência para apresentar crescimento e decrescimento das funções seno e cosseno nas suas representações gráficas.......................................... 223 Figura 56: Transparência utilizada para apresentar a representação geométrica da tangente...................................................................................................................... 224 Figura 57: Transparência para estudo da função seno, deslocada e fotografada em duas posições diferentes............................................................................................. 225 Figura 58: Capa da apostila "Os sólidos geométricos (O princípio de Cavalieri)", de autoria de Abdala Gannam, datada de 1980.......................................................... 230 Figura 59: Primeira página da apostila "Os sólidos geométricos (O princípio de Cavalieri)", de autoria de Abdala Gannam, datada de 1980...................................... 231 Figura 60: Painel de tema "O uso de micro-computadores no Ensino de Matemática". Apresentado por Sérgio Veiga, em seminário realizado no Coltec..... 233 Figura 61: Tabela criada pela pesquisadora professora Maria do Carmo, durante a explicação da atividade.............................................................................................. 235 Figura 62: Gráfico criado pela pesquisadora para ilustrar a descrição da professora Maria do Carmo, durante a explicação da atividade................................ 235 Figura 63: Esboço realizado pela professora Maria do Carmo, para explicar uma atividade desenvolvida por ela, no Coltec................................................................. 236 Figura 64: Recorte do Programa de Matemática de 1986........................................ 242 SUMÁRIO VOLUME I APRESENTAÇÃO................................................................................................... 31 1. TRILHAS DA INVESTIGAÇÃO....................................................................... 37 1.1. A pesquisa................................................................................................... 42 1.2. Objetivos...................................................................................................... 45 1.3. Fontes........................................................................................................... 47 1.3.1. Fontes documentais: arquivos.............................................................. 49 1.3.2. Fontes impressas: jornais..................................................................... 59 1.3.3. Fontes audiovisuais: fotografias........................................................... 63 1.3.4. Fontes orais - História Oral.................................................................. 67 1.3.5. Limites e potencialidades das fontes.................................................... 77 1.4. Colaboradores da pesquisa........................................................................... 81 1.4.1. Os entrevistados................................................................................... 91 1.5. Trilhas de análise......................................................................................... 101 2. O COLÉGIO TÉCNICO..................................................................................... 103 2.1. A criação do Coltec e a participação da Inglaterra...................................... 108 2.2. Reflexos da ditadura no Coltec.................................................................... 118 2.3. Contexto e finalidades: permanências e mudanças...................................... 121 2.4. O ingresso dos estudantes no Colégio......................................................... 129 2.5. Espaços e tempos......................................................................................... 134 2.6. Síntese da cronologia................................................................................... 144 3. OS COLTECANOS............................................................................................. 145 3.1. Socialização................................................................................................ 146 3.2. Liberdade, escola e projetos de vida............................................................ 149 3.3. "Os universitários"....................................................................................... 157 4. OS PROFESSORES............................................................................................ 161 4.1. Recrutamento............................................................................................... 162 4.2. Formação e desenvolvimento profissional................................................... 166 4.2.1. Qualificação docente............................................................................ 168 4.2.2. Experiências docentes.......................................................................... 175 4.2.3. Participação dos docentes do Coltec na capacitação de professores de outras escolas............................................................................................. 179 5. O ENSINO DE MATEMÁTICA NO COLTEC............................................... 189 5.1. Programas de Matemática do Coltec........................................................... 190 5.1.1. Os livros didáticos e os programas de Matemática.............................. 194 5.2. Recursos Didáticos e atividades de ensino de Matemática no Coltec (1969 - 1997)....................................................................................................... 199 5.3. Ensino de Matemática e o ensino técnico.................................................... 239 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................. 247 7. REFERÊNCIAS................................................................................................... 259 8. FONTES ORAIS.................................................................................................. 267 VOLUME II RESUMO.................................................................................................................. 271 LISTA DE FIGURAS - VOLUME II..................................................................... 277 SUMÁRIO - VOLUME II....................................................................................... 273 APÊNDICES............................................................................................................. 281 APÊNDICE A - Apresentação inicial da pesquisa............................................. 283 APÊNDICE B - Termo de consentimento livre e esclarecido............................ 284 APÊNDICE C - Roteiro para elaboração das perguntas das entrevistas (professores)........................................................................................................ 286 APÊNDICE D - Roteiro para elaboração das perguntas das entrevistas (ex- alunos)................................................................................................................. 288 APÊNDICE E - Roteiro para elaboração das perguntas das entrevistas (funcionários ou ex-funcionários)....................................................................... 289 APÊNDICE F - Memórias das práticas de ensinar-aprender Matemática no Coltec.................................................................................................................. 290 Gledsom Luiz Coutinho.................................................................................. 291 Antônio Carlos Inácio Moreira...................................................................... 302 Adilson Assis Moreira.................................................................................... 316 Alberto De Figueiredo Gontijo...................................................................... 324 Gilberto Do Vale Rodrigues........................................................................... 335 Jenner Karlisson Pimenta Dos Reis............................................................... 344 Poliana........................................................................................................... 351 Niriana Lara Santos Meinberg...................................................................... 360 Lilian Lara Santos.......................................................................................... 364 Abdala Gannam............................................................................................. 367 José Eloisio Domingos................................................................................... 385 Luiz Humberto Pinheiro................................................................................. 401 Maria Do Carmo Vila.................................................................................... 413 Francisco Bastos Gil...................................................................................... 435 Tânia Lima Ayer De Noronha........................................................................ 444 Airton Carrião Machado................................................................................ 456 APÊNDICE G - CARTAS DE CESSÃO DE DIREITOS.................................. 483 ANEXOS................................................................................................................... 487 Anexo I - Cópia do convênio para a criação e implantação do Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais............................................ 488 Anexo II - Carta do professor Cledsom Coutinho, primeiro diretor do Coltec, dirigida ao então reitor da UFMG, professor Celso de Vasconcellos Pinheiro, datada de 18 de abril de 1978............................................................................. 492 Anexo III - Currículos dos cursos técnicos instalados no Coltec....................... 501 Anexo IV - Exame de seleção do Coltec............................................................ 504 Anexo V - Ofício nº 016/68................................................................................ 515 Anexo VI - Projeto: uma tentativa para dinamizar a instrumentação para o ensino de Matemática - 1978.............................................................................. 516 Anexo VII - Recortes de jornais......................................................................... 528 Anexo VIII - Informações gerias para os alunos sobre o Colégio Técnico (16/03/1971)........................................................................................................ 551 Anexo IX - Carta do reitor Marcello V. Coelho ao consultor britânico Frank H. Taylor (15/10/1970)....................................................................................... 554 Anexo X - Regimento do Colégio Técnico (1985)............................................. 556 Anexo XI: Prospecto do Colégio Técnico (1972/1973)..................................... 572 Anexo XII: Atas das reuniões do Conselho Universitário e da Coordenação de Ensino e Pesquisa (CEP) da UFMG (Disponilizados pela coordenação da Secretaria dos Órgãos de Deliberação Superior - SODS)................................... 586 Anexo XIII: Esboço do guia do aluno (1996/1997)............................................ 591 Anexo XIV: Informações gerais sobre o Colégio Técnico da UFMG (1971).... 592 Anexo XV: Projeto AME - Atividades Matemáticas que Educam (1989)......... 606 Anexo XVI: Estatuto do grêmio estudantil do Coltec........................................ 626 Anexo XVII: Planejamento do departamento de Matemática (1969)................ 630 Anexo XVIII: Organização do departamento de Matemática............................ 635 Anexo XIX: Programa do departamento de Matemática - 1969........................ 638 Anexo XX: Plano de curso para 1ª série (Matemática) - 1970........................... 642 Anexo XXI: Plano de curso para 2ª série (Matemática) - 1970.......................... 646 Anexo XXII: Programa de Matemática do Coltec - 1972.................................. 651 Anexo XXIII: Programa de Matemática - 1986................................................. 658 Anexo XXIV: Documentos do processo seletivo da professora Consuelo Maria Vieira Garcia para ingresso no Coltec...................................................... 665 Anexo XXV: Relatório anual de atividades docentes do Coltec - 1989............. 670 Anexo XXVI: Relatório anual do setor de Matemática - 1990.......................... 671 Anexo XXVII: Relatório de atividades do Centro Pedagógico - 1984............... 680 Anexo XXVIII: Relação dos livros comprados pela verba do convênio CNPQ - 1973.................................................................................................................. 691 Anexo XXIX: Resolução 01/86 - Estabelece normas de estágio do Colégio Técnico da UFMG.............................................................................................. 694 Anexo XXX: Carta ao diretor da Escola de Veterinária - 1971......................... 696 Anexo XXXI: Recortes do relatório anual de atividades docentes - Francisco de Assis Batista (1996)....................................................................................... 697 Anexo XXXII: Clube de Matemática................................................................. 706 31 APRESENTAÇÃO Este é um texto em que apresentamos o resultado de um trabalho que envolveu uma grande diversidade de leituras, uma escrita sempre inacabada e a ser sempre retomada, consultas a diferentes tipos de arquivos e documentos e, principalmente, a aproximação entre diferentes vidas: funcionários da escola, responsáveis pelos arquivos, ex-alunos, docentes do Colégio, professores do Programa de Pós-Graduação, doutoranda e orientadora. Após ver, ler e ouvir, entrelaçamos os ditos, observamos os não ditos e elaboramos nossa tese. Construímos uma história das práticas de ensinar-aprender Matemática do Colégio Técnico da UFMG - Coltec. O Coltec é uma instituição que oferece ensino técnico de nível médio e faz parte de uma Unidade da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, denominada Ebap (Escola de Educação Básica e Profissional), que engloba, além da escola pesquisada, uma escola de Ensino Fundamental, o Centro Pedagógico - CP, e o Teatro Universitário. Essa história foi elaborada, especialmente, a partir de depoimentos de docentes de Matemática que lecionaram nessa escola e de alguns ex-alunos, que relataram suas lembranças em relação às práticas, às experiências e às concepções sobre o ensino de Matemática na instituição focalizada, desde sua criação, em 1969, até o ano de 1997. Até 1997, o Coltec oferecia os cursos de Patologia Clínica, Química, Instrumentação e Eletrônica, integrados ao 2º grau do Ensino Médio. A partir de 1998, devido ao Decreto nº 2.208, de 17 de abril de 1997, a escola passou a oferecer Ensino Profissional, de nível técnico, concomitante ao Ensino Médio 1 , o que determinou o marco temporal final do período investigado neste trabalho. 1 Durante o período de vigência dessa legislação, conforme nos contou o ex-diretor Adilson Assis (um dos colaboradores desta pesquisa), o Colégio ofereceu Ensino Médio "puro", não profissionalizante, apenas para os alunos oriundos do Centro Pedagógico, enquanto os alunos que ingressavam por concurso realizavam o Ensino Médio regular articulado às disciplinas dos cursos técnicos. Os alunos concursados obtinham os certificados de Técnico e Ensino Médio, enquanto os egressos do Centro Pedagógico recebiam apenas o diploma de Ensino Médio. Inclusive, estudantes que desistiam do Técnico e concluíam o Ensino Médio podiam requerer o certificado do curso finalizado. Além disso, o Coltec não atendeu completamente os termos da determinação legal, uma vez que não criou as modalidades de ensino profissional com concomitância externa e de ensino técnico pós-médio. O Decreto foi revogado em 2004 e a Coordenadoria de Educação Profissional, além do Colegiado Especial, decidiu que, havendo vagas ociosas, os alunos, que a princípio deveriam cursar apenas o Ensino Médio, passariam a concorrer às vagas ociosas no Ensino Profissional. 32 Investigamos as formações acadêmicas e profissionais dos professores entrevistados, procurando identificar a possível presença e as características de orientações específicas para atuação em cursos técnicos. Também focalizamos a questão da existência ou não de um ensino de Matemática diferenciado para os cursos técnicos do Coltec, considerando, nesta investigação, o que os professores disseram sobre metodologias, recursos e materiais didáticos empregados. Além disso, ao ouvirmos os ex-alunos, enriquecemos os depoimentos sobre as aulas de Matemática do Colégio por explorarmos outras compreensões dos acontecimentos da aula diferentes daquelas que percebemos da parte dos docentes. Itinerários da Pesquisa Como iniciar uma pesquisa, que trabalha com narrativas e experiências docentes, particularmente, de professores que atuaram no Coltec, sem contar um pouco da minha história profissional, minha relação com esse Colégio, e os caminhos que levaram à proposição desta investigação? A seguir, narro parte da minha trajetória profissional e acadêmica. Educação Básica, Ensino Superior e inserção na docência Nasci em 1983, em Belo Horizonte. Nessa época, a maioria dos meus depoentes já haviam iniciado a carreira docente. Frequentei escolas públicas, com exceção da 1ª série, quando tinha 7 anos. Em geral, eram localizadas no bairro em que morava, com facilidades para o deslocamento. Por isso, inclusive, nem cheguei a realizar a seleção para o Coltec. Embora não tivessem tido oportunidade de estudar nas melhores escolas, meus pais incentivavam e sonhavam que eu me formasse no Ensino Superior. Como eu era boa aluna, acreditava que isso aconteceria e não temia pelo afamado vestibular, até que ele chegou... Como sempre gostei de praticar esportes, inicialmente, planejei cursar Educação Física, por minha própria opção, ou Fisioterapia, por influência de pessoas próximas. Dessa forma, prestei o meu primeiro vestibular para Fisioterapia e fui reprovada. Senti que minha base era fraca e que eu precisaria me matricular em um curso pré-vestibular. 33 No ano seguinte, no intervalo entre uma prova e outra, pude repensar a minha escolha de curso. Devido ao meu histórico de boa aluna de Matemática, pensei em fazer Engenharia ou Arquitetura. Entretanto, a grande concorrência no vestibular e a minha necessidade de entrar para o mercado de trabalho me fizeram optar por Matemática. A docência surgiu, repentinamente, já no primeiro semestre, com aulas particulares, seguidas depois por monitorias em cursinhos. Amei a profissão de professora! Desde então, lecionei em várias instituições de ensino, em diferentes níveis: Fundamental, Médio e Superior. Os caminhos para o Doutorado No final do curso de Licenciatura em Matemática, fiz estágio no Coltec, cujos alunos eu admirava pela inteligência, autonomia e maturidade, mesmo sendo tão jovens. No ano seguinte, 2007, já formada, ingressei como professora substituta dessa escola. Nessa ocasião, me apaixonei ainda mais pelo Colégio. Aprendi novas formas de trabalho, que incluíam "Investigações Matemáticas", "Resolução de Problemas", uso de tecnologias, entre outras. Além de aprender, eu podia produzir, propor atividades e tentar inovar. Encontrei um excelente espaço de aprendizagem e produção de Matemática. Minhas experiências, em outras instituições, atestavam as peculiaridades desse Colégio. Em outros lugares, geralmente, eu atuava seguindo apostilas prontas, com atividades pré-definidas, sem discussão das práticas. Nos anos de 2007 e 2008, observando os professores com quem eu trabalhava no Coltec, percebi que sua formação, em programas de pós-graduação, possibilitava que trouxessem novidades para a sala de aula e os ajudava a criar novas propostas de ensino. Nesse período, eu já cursava a especialização em Matemática, também na UFMG, mas julguei que precisaria avançar nos estudos para melhorar a minha atuação e para me capacitar para concorrer a um cargo de professora de uma escola de boa qualidade como o Coltec. Os professores efetivos do Colégio Técnico ou eram doutores ou estavam concluindo o curso de doutorado. Em março de 2009, ingressei no mestrado profissional, no Programa de Pós- Graduação em Educação Matemática da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e, concomitantemente, em setembro daquele ano, concluí a especialização em Matemática, na UFMG. 34 Na monografia da especialização (MELILLO, 2009), apresentei e analisei uma proposta de ensino sobre Trigonometria, que foi desenvolvida com estudantes do Coltec. Esse trabalho baseou-se na perspectiva da "Investigação Matemática", considerando, principalmente, o trabalho de Ponte et al (2006). Os resultados encontrados no desenvolvimento daquele trabalho me proporcionaram um novo olhar para a sala de aula, que não estava restrito somente aos conteúdos matemáticos, mas voltava-se para as possibilidades de ensinar essa disciplina de modo a favorecer o papel de protagonista ao aluno. No mestrado (MELILLO, 2011), analisei o papel mediador das Tecnologias da Informação e Comunicação - TICs nas ações de professores de Matemática com experiência no ensino presencial ao se tornarem, repentinamente, professores na modalidade a distância no sistema UAB 2 . Nessa pesquisa, entrevistei professores e criei narrativas sobre suas práticas na EaD (Ensino a Distância). Durante o mestrado, fui aprovada em concurso para o cargo de professora efetiva do Coltec. Realizei o sonho de atuar nessa instituição, que sempre apreciei. Desde então, tenho a oportunidade de compreender, ainda mais, a importância da articulação do ensino e da pesquisa no cotidiano escolar; de colocar em prática estudos e reflexões envolvendo toda a minha formação; e de perceber a necessidade de continuar meus estudos, cursando o doutorado. Anteriormente a meu ingresso como aluna regular, cursei disciplinas isoladas no Programa de Pós-graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social. A disciplina “História da Educação Matemática”3 me ajudou a perceber a importância do olhar sobre o passado na compreensão e reflexão sobre o presente. Através do estudo da história nos “deparamos com experiências humanas que por coincidirem com as nossas nos revelam que não somos tão originais como pensávamos” (LAUAND, 1986, p. 19). Minha vivência como estagiária e professora do Coltec, a oportunidade de cursar essa disciplina e leituras complementares consolidaram meu interesse em realizar uma construção da trajetória do ensino de Matemática desse Coltec. 2 Universidade Aberta do Brasil. 3 Essa disciplina foi ministrada no primeiro semestre de 2012, no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UFMG, pela professora Dra. Maria Laura Magalhães Gomes. Na ocasião, a leitura do trabalho de Baraldi (2003), cuja pesquisa utilizou a metodologia da História Oral, inspirou algumas ideias para esta tese. 35 Estrutura da tese Esta tese se organiza em dois volumes. O primeiro deles se estrutura em seis capítulos, cujo teor é brevemente descrito a seguir. No primeiro capítulo, apresentamos uma revisão bibliográfica relativa a trabalhos relacionados com a temática de nossa investigação, justificamos nossos propósitos, explicitamos como se deu a constituição de nossas fontes e descrevemos os colaboradores da pesquisa. No segundo capítulo, expomos o nosso contexto, o Colégio Técnico, abordando sua criação, a partir de um convênio entre o Conselho Britânico, a UFMG, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o MEC; os reflexos da ditadura brasileira instalada a partir de março de 1964, na instituição; finalidades; permanências e mudanças; políticas de recrutamento dos alunos. No terceiro capítulo, focalizamos os estudantes do Colégio, averiguando o interesse pela escola; a escolha da modalidade técnica; as trajetórias profissionais dos egressos e a sociabilidade dos alunos. No quarto capítulo, tratamos dos professores, contemplando as políticas de recrutamento; a formação acadêmica; a qualificação docente; as experiências profissionais; o desenvolvimento profissional; as concepções de ensino e o envolvimento em cursos de capacitação de outros docentes. No quinto capítulo, discorremos sobre as práticas de ensinar-aprender Matemática, que são o cerne da nossa investigação. Comentamos aspectos diversos como: currículo; materiais e recursos; a rotina; as decisões que os docentes tomavam, pautadas nas suas crenças; permanências e rupturas nos modos de ensinar Matemática; relações do Ensino Técnico com o Ensino de Matemática; objetivos e planos de atuação. No sexto capítulo, apresentamos nossas reflexões sobre a investigação e as análises que fazemos, enfatizando algumas de suas limitações e elencando possíveis contribuições do trabalho. O segundo volume da tese traz os apêndices e anexos, que são compostos pela apresentação inicial da pesquisa, termo de consentimento livre esclarecido, nossos roteiros das entrevistas, as dezesseis textualizações produzidas a partir dos depoimentos, uma cópia das cartas de cessão assinadas por nossos colaboradores, além de cópias de documentos e jornais. 36 37 1- TRILHAS DA INVESTIGAÇÃO O espírito coltecano é olhar o mundo de forma particular e poder sustentar sua posição. É fazer parte de um grupo pensante. É estabelecer laços sólidos de amizade. É ter orgulho, vida afora, de levar o aprendizado plantado por essas sementes. Ex-aluno 3 (entrada no Coltec: 1980) 4 . O Coltec foi idealizado e instalado nos últimos anos da década de 1960, período em que o Brasil, politicamente, vivenciava os abusos, as repressões e a instabilidade da Ditadura Militar. Época que ficou afamada pela tomada do controle pelos oficiais, cassação de direitos políticos de opositores e repressão a movimentos e manifestações sociais. Em que a democracia e o populismo foram abalados. Além disso, esse regime foi marcado pela censura aos meios de comunicação e pelo uso de métodos violentos de controle. As informações disseminadas no rádio, televisão e imprensa escrita eram selecionadas e tinham como objetivo influenciar a população e transformar seus costumes. No setor econômico, sob o governo do presidente Emílio Garrastazu Medici (1969 – 1974), o país experimentava o denominado “milagre econômico”, período de crescimento econômico, altas nas bolsas de valores brasileiras e aumento do Produto Interno Bruto – PIB. A educação brasileira, por sua vez, no início dessa época, era voltada para a classe média. Ao concluir o ginásio, o estudante podia atuar em um escritório, ser supervisor de uma fábrica ou gerente de uma pequena empresa. Finalizado o científico, ele tinha garantia de um emprego de maior qualidade, como um cargo público no Banco do Brasil, uma posição de chefia em uma repartição de um ministério, o suboficialato nas forças armadas ou a entrada na faculdade (RODRIGUES, 2013). Durante esse período de modernização e desenvolvimento, pós 1964, o país realçou a importância da educação na "formação de técnicos e treinamento de mão-de- 4 Em 11 de julho de 2017 a ex-aluna do curso técnico de Química (1980 - 1982) e atual professora do Setor de Química do Coltec, Andréa Horta Machado, publicou a seguinte mensagem na Rede Social: "Gostaria de abrir espaço aqui para colher alguns depoimentos. Quero compartilhar com os alunos que estudam lá atualmente! A palavra de vocês é muito importante neste momento. O que é o espírito Coltecano? Ajudem aí ! Os coltecanos que me lembrei e outros que não lembrei também!!". Houve 24 respostas de ex-alunos do Coltec, os denominados "coltecanos", incluindo a da própria Andréa. Recortes das respostas de alguns ex-alunos a essa mensagem foram incluídos no início dos capítulos da tese. 38 obra qualificada para responder às novas necessidades do mercado de trabalho" (COLLARES, 1989, p. 180). Ou seja, o Brasil precisava educar para um ofício, o que potencializaria o seu desenvolvimento econômico. Era necessário, ainda, que um grupo maior, inclusive os mais pobres, tivesse acesso a uma melhor qualificação. Nesse contexto desenvolvimentista, surgiram novas instituições de cursos técnicos, tais como o Coltec. De acordo com um de nossos entrevistados, Gledsom Luiz Coutinho, ex- diretor do Colégio: O Colégio Técnico foi criado numa época em que se pretendia incrementar as pesquisas científicas no Brasil. O reitor da Universidade, de 1964 a 1967, Professor Aluísio Pimenta (professor da Faculdade de Farmácia e coordenador de um laboratório de Química), em contatos internacionais, viu a possibilidade de a Inglaterra ajudar na implantação do Coltec e, a partir daí, se empenhou arduamente para isso. O Colégio Técnico foi idealizado por Aluísio Pimenta para formar auxiliares de laboratório que atuassem junto aos pesquisadores 5 . Também, nesse cenário positivo da economia, multinacionais eram instaladas, reforçando a demanda por profissionais para atuarem nessas empresas. A educação do país recebeu, então, apoio de capital estrangeiro, como aquele estabelecido pelo convênio com a Inglaterra, para a criação do Coltec 6 . Em nossas investigações não encontramos outra escola técnica que tenha sido criada a partir de um convênio com britânicos. Por outro lado, houve a expansão de um importante projeto envolvendo os Estados Unidos, firmado entre o Ministério da Educação e a Usaid (United States Agency for International Development), agência estadunidense para financiar o desenvolvimento de outros países. Embora esse acordo tenha existido desde 1950, foi após a vitória dos militares que o convênio ganhou relevo no Brasil, auxiliando na modernização do ensino, a partir de traduções e publicações de livros, reformulação de programas de ensino, mudanças no ensino superior, entre outras ações (MOTTA, 2014). Posteriormente, em 1971, o acordo MEC-Usaid, como ficou conhecido, proporcionou investimentos na instalação de ginásios orientados para o 5 Ao longo de todo o trabalho os trechos destacados em itálico se referem a recortes das textualizações (trata-se de um texto cuja natureza será explicada mais detalhadamente adiante) produzidas a partir das entrevistas com os depoentes. Sempre que possível, antes da inserção desses recortes, incluímos o contexto que gerou as falas, uma vez que a pergunta que fazemos, ou a condução da conversa, interfere nas respostas dadas, nas fontes criadas. De outro modo, se tivéssemos realizado outras perguntas, as respostas seriam alteradas, as lembranças evocadas poderiam ser diferentes. A data e o local das entrevistas serão informadas neste capítulo, além de estarem presentes nos cabeçalhos das textualizações produzidas, disponíveis na íntegra no Volume II. 6 A história da criação do Coltec será mais detalhadamente adiante. 39 trabalho no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais, na Bahia, na Guanabara e no Espírito Santo (QUEIRÓS, 2013). Outro dado relevante, na esfera educacional, naquela década, foi a Reforma Universitária de 1968, que reorientou o desenvolvimento do Ensino Superior no Brasil, expandindo a sua oferta. Dentre as determinações dessa Reforma, ocorreu a extinção das cátedras, que alterou a estrutura de poder nas universidades; a indissociação dos setores de ensino, pesquisa e extensão; e o estabelecimento da carreira docente, com progressão por titulação (SOUSA, 2008). O ex-diretor Gledsom Coutinho avaliou que o Coltec possuía muita autonomia nos primeiros anos de funcionamento. [...] a UFMG estava mergulhada nos trabalhos de implantação da reforma universitária, além de ter sido fortemente abalada por problemas políticos internos e externos. Estes dois fatos absorveram grande parte de atenção das autoridades universitárias pertinentes a uma unidade de ensino secundário. O entusiasmo pela nova unidade, porém, foi tal que tudo aquilo que a direção do Colégio solicitou aos órgãos superiores da UFMG foi-lhe concedido e as condições de trabalho foram plenamente satisfatórias dentro das circunstâncias de então 7 . O Coltec não é pioneiro no ensino técnico do estado de Minas Gerais, que dirá do país. Há registros do ensino profissional no Brasil nos anos de 1800, em que as camadas menos privilegiadas da sociedade aprendiam ofícios manufatureiros, como tipografia, encadernação, alfaiataria, tornearia, carpintaria e sapataria. Em 1906, no governo de Afonso Pena, consolidou-se o ensino técnico-industrial no país, com a criação de campos e oficinas escolares, para alunos dos ginásios serem habilitados a manusear instrumentos de trabalho. Nesse período, a Comissão de Finanças do Senado aumentou a dotação orçamentária para os Estados instituírem escolas técnicas e profissionais. Com o falecimento de Afonso Pena, em 1909, Nilo Peçanha assumiu a presidência e criou a Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, inicialmente, com dezenove "Escolas de Aprendizes e Artífices" (BRASIL, 2009). Desde o seu início, até 2002, o Brasil contou com 140 instituições federais de ensino técnico. E, a partir de 2006, o governo federal incentivou a expansão dessa modalidade de ensino, por possibilitar a formação de "cidadãos-trabalhadores emancipados". 7 Fonte: Carta do Professor Gledsom Coutinho, primeiro diretor do Coltec, dirigida ao então Reitor da UFMG, Professor Celso de Vasconcellos Pinheiro, datada de 18 de abril de 1978, p. 8, Anexo II. 40 Durante o ano de 2007, alguns Cefets e outras Escolas Técnicas Federais remanescentes se integraram e constituíram os Institutos Federais de Educação, Ciências e Tecnologia - Ifets (BRASIL, 2010, p.14). Inicialmente, os Ifets são instituições que apresentam uma estrutura diferenciada, uma vez que foram criadas pela agregação/transformação de antigas instituições profissionais. Já as demais instituições da nova rede, com exceção da Universidade Tecnológica, são aquelas que decidiram pela não integração a um Instituto Federal e se mantiveram com a estrutura administrativa que as caracterizavam (OTRANTO, 2010, p. 89). A partir da expansão mencionada anteriormente, o ensino técnico foi ampliado e atingiu, em 2010, 354 unidades. Em 2014, com a entrega de 208 novas unidades, a Rede Federal alcançou a marca de 562 unidades em atividade no país (BRASIL, 2016). Dessa forma, a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica vinculada ao MEC, atualmente, é constituída pelas seguintes instituições: os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifets); a UTFPR - Universidade Tecnológica Federal do Paraná (que até 2005 era o Cefet do Paraná); o Cefet do Rio de Janeiro e de Minas Gerais 8 ; e as Escolas Técnicas vinculadas às universidades. Em uma outra dimensão, estão as instituições privadas de Ensino Técnico. Destaca-se o Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), criado em 1946 com a missão de oferecer educação profissional destinada à formação e à preparação de trabalhadores para o comércio 9 , que atende 2230 municípios de todo o país. E no estado de Minas Gerais ressaltamos o Senai (Sistema Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais), fundado em 1942, com o objetivo de formar profissionais de recursos humanos para a indústria. O Senai recebe incentivos do empresariado do setor e faz parte da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do sistema de Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) 10 . 8 O Cefet-MG foi fundado em 1909, como Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais. Posteriormente, assumiu outras denominações até ser denominado Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Cefet - MG. Atualmente, atende a capital e outras oito cidades do estado. Oferece cursos desde técnico de nível médio até doutorado. Disponível em: < http://www.cefetmg.br/textoGeral/historia.html>. Último acesso em: 23 ago. 2016. 9 Disponível em: . Último acesso em: 09 nov. 2016. 10 Disponível em: < http://www7.fiemg.com.br/senai/mais-senai>. Último acesso em: 09 nov. 2016. 41 Tivemos notícias, ainda, a partir do depoimento de um ex-aluno do Coltec, e atual professor do Colégio, da existência, em Minas Gerais, da Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa - ETE FMG. Segundo Adilson, Além do Colégio Técnico, eu não sei de outra escola que tenha sido criada de forma semelhante, com convênio internacional. No entanto, tivemos contato com uma interessante escola técnica de Eletrônica, por ocasião de uma visita técnica a empresas e uma feira de Eletrônica em Santa Rita do Sapucaí. Há muitos anos, nós levamos alguns de nossos alunos do curso de Eletrônica, no final do mês de outubro, para essa feira. Segundo informações, essa escola técnica de Eletrônica teria sido criada em 1955, um período em que ensino técnico e superior de Eletrônica estava ligado às Forças Armadas, especialmente, Aeronáutica e Marinha. Havia formação de pessoal, em Eletrônica, para atender, prioritariamente, às necessidades das Forças Armadas. A história interessante dessa instituição é que sua criação foi estimulada por uma mulher, esposa de um embaixador brasileiro no Japão, depois da Segunda Guerra. Ela teria acompanhado o período de reconstrução do Japão e percebeu a importância da tecnologia no mundo. Até então, essa região do Sul de Minas, que abriga Santa Rita do Sapucaí, tinha como principal atividade econômica, a agropecuária. Quando essa mulher retorna do Japão, ela passa a trabalhar pela implantação de uma escola técnica de Eletrônica na cidade dela, com a ajuda de um familiar, que tinha presença na política, e veio a se tornar presidente da República, Delfim Moreira 11 . Ou seja, embora não seja uma escola técnica criada a partir de um convênio internacional, a criação dessa instituição anterior ao Colégio Técnico teve inspiração em uma vivência fora do país. No restante do país, a maioria das escolas técnicas era da área de agropecuária. Na área industrial, Eletrônica e Química, elas começam a surgir próximo à década de 1960. O país passa por um processo de industrialização, mais marcante, a partir do governo de Getúlio Vargas, em que passa a demandar esse tipo de formação. 11 A Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa - ETE FMC - iniciou suas atividades em 1959, sendo a primeira escola de eletrônica de nível médio da América Latina. Foi dirigida por Sinhá Moreira, natural de Santa Rita do Sapucaí. Ela era filha do Coronel de Francisco Moreira da Costa, líder político, e sobrinha de Delfim Moreira, Presidente da República. Com a ajuda dos jesuítas, ela articulou a criação dessa escola, vislumbrando um futuro diferente para os jovens e um desenvolvimento de sua cidade. Disponível em: < http://www.etefmc.com.br/noticias.php>. Último acesso em: 26 set. 2016. 42 1.1. A pesquisa No panorama educacional atual, que considera uma grande oferta de cursos técnicos, especialmente, aqueles vinculados aos Institutos Federais, discutem-se várias questões a eles relacionadas. Qual o público de alunos ingressantes? Como definir os cursos técnicos ofertados? Os docentes possuem formação adequada para atuarem nesses cursos? O ensino das disciplinas básicas (não profissionalizantes), tais como a Matemática, considera as especificidades dos cursos técnicos? As instituições possuem material didático e estrutura física adequada? Quais as características dos egressos? Em meio às indagações do presente, a pesquisa histórica em Educação propõe que olhemos para o passado e nos indaguemos: “o que se fazia, por que se fazia, quem fazia, como se fazia algo em determinada época, numa sociedade específica?” (GALVÃO; LOPES, 2010, p. 12). Direcionar o foco para as questões do passado e para a maneira como elas foram tratadas pode nos auxiliar a compreender os questionamentos atuais. Com motivações semelhantes às que incentivam a expansão atual de cursos técnicos, o Coltec foi criado em 1969 para atender à demanda de formação de profissionais técnicos de nível médio, oferecendo cursos de Patologia Clínica, Instrumentação, Eletrônica e Química. Sua fundação originou-se de um convênio entre o Conselho Britânico, a UFMG, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o MEC, no final da década de 1960 12 . Na ocasião, o governo pretendia reduzir a carência de profissionais capacitados nos campos científico e tecnológico. Tal parceria vigorou por dez anos, possibilitando, dessa forma, a implantação e o desenvolvimento do Colégio (PEREIRA, 2005). O Coltec é a instituição escolar objeto de nossa pesquisa. Investigamos historicamente como a Matemática participou de situações de ensino e aprendizagem nesse Colégio. Esse estudo poderá auxiliar na compreensão de problemáticas atuais, ainda que esse não seja nosso foco. Galvão e Lopes (2010) destacam que a história nos ajuda a entender a realidade com paciência, pois o modo como tais problemas foram considerados, em períodos anteriores, pode nos auxiliar nas condutas atuais: A história nos permite ver que, em outros lugares, em outras culturas e em outras épocas, ou aqui perto de nós, a educação (de modo geral) e 12 Informações extraídas do site do Coltec: e do site do MEC: . 43 a escola (em particular) têm se transformado, mas mantém elementos que, surpreendentemente, são os mesmos de um século atrás (GALVÃO; LOPES, 2010, p. 12). Não se trata de prescrever regras de ações, mas de ajudar a entender o que somos. Nosella e Buffa (2013) questionam: "por que pesquisar instituições escolares?". Essa questão também é inerente a nossa investigação. Afinal, não pretendíamos construir uma história do Coltec apenas para gerar saudade do passado ou conhecer uma fascinante experiência. Os resultados da pesquisa feita por esses autores nos auxiliaram a perceber que apurar e divulgar a história de uma determinada instituição de ensino contribui para elevar o conhecimento e a responsabilidade de seus profissionais. Nosella e Buffa (2013) realizaram entrevistas com professores e administradores de escolas da cidade de São Carlos, que conheciam um livro sobre a história da instituição. O objetivo do roteiro da entrevista era responder a questão diretriz: "a que serviu a leitura do livro?" (p. 34). Ou, em outras palavras: qual a importância de uma investigação sobre a história da instituição? Essa pesquisa revelou seis níveis de envolvimento: "emocional-afetivo", causando, por exemplo, orgulho de pertencer a instituição; "responsabilidade e comprometimento", gerado nos depoentes que reconheceram que a escola é muito anterior a sua relação com ela e, por isso, precisam preservar seus valores; "conhecimento", que permite compreender processos de ensino, aprendizagem e transformações sofridas ao longo do tempo, determinadas pelo espaço, pelas políticas públicas, pelo perfil dos alunos, entre outros; "prática pedagógica", quando os resultados da pesquisa são usados em grupos de estudos e aulas, por exemplo, para que os alunos valorizem a instituição e a preservem; consciência da importância da "preservação da memória", desde o cuidado com os documentos, até a sua extroversão, por meio de exposições, palestras e criação de museus de materiais; "relacionamento da escola com o público externo", uma vez que a divulgação da pesquisa desperta a atenção da comunidade escolar e de lideranças. Sob outra ótica, conversas informais com antigos docentes e discentes do Coltec indicam que o ensino de Matemática dessa escola sempre buscou acompanhar as tendências pedagógicas discutidas em sua época, ou seja, tem-se tentado, no decorrer do tempo, desenvolver práticas de ensino que vão ao encontro das discussões acadêmicas sobre educação. Indicam, também, que alguns dos professores de Matemática dessa instituição foram considerados lideranças e referências do ensino no país, por suas práticas inovadoras e pela oferta de cursos de capacitação docente. 44 Aliado a isso, o reencontro com ex-alunos do Colégio, seja na universidade ou exercendo suas carreiras, notícias a respeito desses estudantes por conversas informais, respostas recebidas em contato por email e conversas com colaboradores desta pesquisa realçam que os egressos do Coltec, em sua maioria, alcançaram bons empregos e foram valorizados pelo mercado de trabalho. Ex-alunos revelaram que a experiência no Colégio foi determinante em suas escolhas e oportunidades profissionais, além de nos terem relatado, muitas vezes, afinidade e êxito nas disciplinas relacionadas à Matemática, no ensino básico ou superior. E não se pode deixar de mencionar que, no município de Belo Horizonte, a sexta maior cidade do país 13 , o Coltec, assim como o Cefet-MG, é referência no ensino básico. Já no 9º ano do ensino fundamental, muitos estudantes começam a se preparar para ingressar nessas escolas técnicas. Nos outdoors da cidade, frequentemente, são divulgados cursos que capacitam os alunos para os exames de seleção dessas escolas. Diante dessas características do Coltec, tentaremos escapar da armadilha de considerar esse Colégio como uma instituição exemplar, mas, ao mesmo tempo, vamos dialogar com suas particularidades, pois elas também justificam a escolha dessa instituição escolar para nossa pesquisa. A experiência de Nosella e Buffa (2013), revelou que "as melhores pesquisas ocorreram quando a instituição escolar escolhida tem significado social reconhecido, o que significa ser considerada pela sociedade, em razão de sua tradição, dos alunos que formou etc" (NOSELLA; BUFFA, 2013, p. 58). É essencial sublinhar o pertencimento de uma das pesquisadoras a essa escola como docente, que alimenta a fantasia e o desejo por essa investigação. Esse fator pode contribuir no desenvolvimento deste trabalho, pois "como as atividades de pesquisa nem sempre são prazerosas, é importante que o pesquisador tenha profunda empatia pelo objeto de estudo, dessa maneira, o esforço e a disciplina tornam-se mais livres" (NOSELLA; BUFFA, 2013, p. 58). Reconhecendo o prestígio dessa instituição, de seus professores de Matemática e dos alunos nela formados, aliado à importância de se investigar, historicamente, instituições escolares, avaliamos que pesquisar sobre os desafios, as mudanças, as transformações e as experiências relatadas/documentadas por seus sujeitos poderá nos fornecer compreensões sobre as práticas de ensinar-aprender Matemática do Coltec, 13 De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 2014, Belo Horizonte ocupa a 6ª posição no ranking das maiores cidades do país, com 2.491.109 habitantes. 45 bem como fomentar discussões sobre ensino técnico, formação docente, instituições escolares, recursos metodológicos, entre outros. As considerações anteriores nos levaram à seguinte questão de pesquisa: "Como se deram as práticas de ensinar-aprender Matemática, no Colégio Técnico da UFMG, no período de 1969 a 1997?". Esta pesquisa se faz importante, uma vez que movimenta documentos, produz outros e constrói narrativas que sistematizam e problematizam uma parte do passado do Coltec. Passado esse cujos vestígios se encontram dispersos no Arquivo Permanente, em fotos espalhadas pelos setores acadêmicos, em entrevistas/observações realizadas com alunos ou professores para pesquisas, na memória de seus sujeitos, entre outros. Nosso grande desafio é, portanto, mobilizar as fontes disponíveis para compreender as práticas de ensinar-aprender Matemática da instituição focalizada. Em busca dos objetivos explicitados a seguir, espera-se que o desenvolvimento desta pesquisa contribua com o campo da História da Educação Matemática, uma vez que desejamos, além de construir uma interpretação do passado por meio de suas fontes, produzir conhecimentos para uma possível compreensão da realidade como um todo (ALBERTI, 2003). 1.2. Objetivos Objetivo Geral Construir uma história das práticas de ensinar-aprender Matemática em cursos técnicos oferecidos pelo Coltec - UFMG no período de 1969 a 1997. Objetivos específicos 1. Caracterizar a formação acadêmica e profissional dos professores de Matemática do COLTEC e identificar possíveis reflexos dessa formação em sua atuação, no período de referência; 2. Conhecer/Caracterizar as práticas docentes dos professores entrevistados, buscando descrever a metodologia, os recursos empregados, os materiais didáticos utilizados/produzidos e as tendências que eram conferidas ao ensino de Matemática; 46 3. Identificar e analisar aspectos importantes na constituição dessas práticas, tais como: formação acadêmica, realização de pesquisas em Matemática ou em Educação Matemática, questões políticas, motivações pessoais, mudanças curriculares, níveis de articulação com outras disciplinas (de caráter técnico ou não) e autonomia de trabalho; 4. Detectar, descrever e analisar permanências, mudanças ou rupturas ocorridas nas práticas dos professores no contexto e período de referência; 5. Descrever as práticas de ensino de Matemática vivenciadas pelos estudantes (material utilizado, recursos, metodologia, espaço físico); 6. Identificar e analisar, a partir dos depoimentos dos ex-alunos, a relação professor- aluno, conteúdos de ensino relevantes e relação dos conteúdos matemáticos com o curso técnico; 7. Caracterizar a formação acadêmica e profissional dos ex-alunos e identificar, em seus relatos, possíveis reflexos da formação realizada no Coltec. 47 1.3. Fontes A idéia de escrever para um público amplo me parece ser um fim em si mesmo. Se a pesquisa é importante, por que deveria permanecer como apanágio de um grupo restrito de profissionais? Poderemos interessar pessoas que não são profissionais se dividirmos com elas não apenas o resultado da pesquisa, mas também o caminho percorrido para chegar até ele. Às vezes a pesquisa pode ser mais fascinante do que o resultado 14 . Desde o momento em que me propus investigar parte da trajetória do Coltec, agucei ouvidos e olhares para toda e qualquer informação que pudesse ser relevante para a pesquisa. Observava detalhes da construção do prédio da escola, as placas afixadas, a mobília antiga, entre outros. Além disso, conversava com docentes e funcionários que estavam há mais tempo na instituição, colhendo informações e avaliando a possibilidade da participação deles no trabalho. No decorrer desse movimento, percebi que, embora minha relação com o Coltec já contasse, naquele momento, cerca de sete anos, eu desconhecia grande parte de sua história. E, mais importante, reconheci que, para iniciar a minha pesquisa, eu precisaria constituir um conjunto de fontes de natureza diversificada. Falamos de "constituição de fontes", pois acreditamos que não existe uma coleta de fontes, mas sim, uma produção de fontes. O ato de acessar o que é necessário à pesquisa, sejam fotografias, documentos, diários, provas, gravações em áudio [...] consiste em produzir tais documentos, pelo simples fato de recopiar, transcrever ou fotografar estes objetos mudando ao mesmo tempo o seu lugar e o seu estatuto. Este gesto consiste em “isolar” um corpo, como se faz em física, e em “desfigurar” as coisas para constituí-las como peças que preencham lacunas de um conjunto, proposto a priori (CERTEAU, 1982, p. 81). As fontes são importantes ferramentas do trabalho historiográfico. Elas auxiliam no levantamento e na construção de relatos do passado. Pinsky (2008) considera seis tipos de fontes, a saber: fontes documentais (arquivos), fontes arqueológicas (materiais), fontes impressas (periódicos), fontes orais (entrevistas), 14 Recorte da entrevista concedida pelo historiador Carlo Ginzburg às pesquisadoras Alzira Alves de Abreu, Ângela de Castro Gomes e Lucia Lippi Oliveira, durante a sua vinda ao Brasil, em 1989 (ABREU; GOMES; OLIVEIRA, 1990, p. 261). 48 fontes audiovisuais (imagens e sons) e fontes biográficas (biografias). Neste capítulo, contaremos como se deu a produção/constituição das fontes para nossa pesquisa. Aprovado o meu ingresso no doutorado do programa de pós-graduação da Faculdade de Educação da UFMG, dediquei o primeiro ano às disciplinas do curso. No terceiro semestre, eu tinha sede de entrevistar, coletar informações e desenvolver minha tese. Entretanto, senti receio de ir a campo, de dialogar com meus colaboradores. Afinal, como foi mencionado, eu era docente da escola, mas sabia muito pouco sobre ela. Nosella e Buffa (2013), quando tratam da produção das fontes, alertam: O recurso aos depoimentos (entrevistas) não pode ser apressadamente utilizado desde o início da pesquisa. É preciso, antes, adquirir um certo conhecimento sobre as questões-chave, caso contrário, os depoimentos, que são muito trabalhosos, serão pouco frutíferos (p. 67). Decidi, portanto, que, para avançar nas conversas com os depoentes, e até mesmo para formular um roteiro para a condução das entrevistas, eu precisaria conhecer melhor a instituição e aspectos do setor de Matemática 15 . A partir de então, iniciei o meu trabalho de investigação nos arquivos da instituição e da Universidade. Em seguida, realizei as entrevistas, e, finalmente, pesquisei informações sobre a criação do Colégio na imprensa do período. Vale notar que, quando vamos a campo, mesmo depois de termos lido vários manuais de História Oral, inúmeras pesquisas e artigos, encontramos situações inusitadas, que demandam estratégias de ação que, muitas vezes, não foram abordadas nos textos lidos. Afinal, "há infinitas possibilidades de encaminhamentos para as infinitas situações com os quais o pesquisador pode deparar-se [...]" (GARNICA, 2007, p. 33). Indicaremos, a seguir, não apenas as fontes utilizadas em nossa pesquisa, mas reflexões sobre sua apropriação, sua constituição e seu uso 16 . Trataremos de arquivos diversos, jornais, fotografias e fontes orais. 15 Mais adiante se verá que nossos entrevistados designam como "Departamento de Matemática" aquilo que, atualmente, chamamos de "Setor de Matemática" do Coltec. Trata-se da instância/local onde se localizam as salas dos professores de Matemática desse colégio, bem como materiais didáticos, livros, computadores, entre outros. 16 Considerando os elementos emergentes desta pesquisa, especialmente, no que se refere às entrevistas, pensamos em criar um capítulo com algumas observações sobre o processo de produção das fontes, que seria denominado "Making of". Entretanto, as informações desse texto estavam isoladas da descrição dos procedimentos de constituição das fontes. Decidimos, portanto, incluir o "Making of" no texto sobre as fontes e numa das seções posteriores deste capítulo, denominada "Os colaboradores da pesquisa". 49 1.3.1. Fontes Documentais: arquivos Iniciei a pesquisa de campo examinando o material disponível no setor de Matemática do Coltec, guardado num móvel de aço, com quatro gavetas totalmente recheadas de pastas de documentos diversificados. Além desse móvel, encontrei outros documentos dispostos em duas caixas grandes, com a identificação “1995/1996/1997”. Inicialmente, procurei detectar documentos que fizessem referência aos professores que pretendia entrevistar, de forma que, ao realizar as entrevistas, eu pudesse apresentar aos colaboradores 17 provas de estudantes, cadernos, listas, apostilas, fotos, circulares, cartas, entre outros, na tentativa de despertar/movimentar as lembranças desses sujeitos. Algumas pastas do móvel de aço estavam organizadas por ano e continham uma plaquinha de identificação ou um papel fixado em seu exterior, informando parte do seu conteúdo. Pode-se dizer que essas pastas se dividiam em duas categorias. A primeira era composta por materiais identificados como "Correspondências", "Atas" ou "Circulares de 1987". Elas continham, essencialmente, atas de reuniões de colegiado, atas de reuniões de setor, circulares, avisos, atestados médicos de alunos e professores.A segunda categoria era constituída por pastas referentes a conteúdos matemáticos, com títulos como “Matrizes”, "Análise Combinatória", "Funções". Nesse caso, guardavam provas, listas de exercícios, apostilas, estudos dirigidos 18 . No entanto, as primeiras explorações nas pastas de conteúdos matemáticos foram frustrantes. Era possível perceber que ali havia uma coletânea de materiais, aparentemente de diferentes anos, com diferentes formas de escrita - datilografia em máquina de escrever, escrita à mão, digitação em editor de texto de computador - em papéis para mimeógrafo ou folhas ofício. Minha frustração se deu, sobretudo, pela ausência de menção de datas e autores na maioria dos materiais, pois, naquele momento, eu esperava resgatar materiais que pudessem ser úteis durante as entrevistas. Como o conteúdo dessas pastas era muito volumoso e diverso, tive dificuldades para selecionar os materiais que poderiam contribuir. Felizmente, num momento posterior, encontrei algumas apostilas com nomes e datas. 17 Meihy e Ribeiro (2011) optam pelo termo “colaboradores”, fundamentando essa escolha na ética e no respeito com os entrevistados que, segundo eles, não merecem ser vistos como “objetos”. 18 Os “estudos dirigidos” serão abordados posteriormente. 50 Bacellar (2008) diz que não é muito incomum encontrarmos pastas ou caixas de documentos identificados de maneira imprecisa. Ou ainda, nos surpreendermos com o conteúdo dessas, por não condizerem com o que está identificado no rótulo. Ele acrescenta: A paciência é arma básica do pesquisador em arquivos: paciência para descobrir os documentos que deseja, e paciência para passar semanas, quando não meses ou anos, trabalhando na tarefa de cuidadosa leitura e transcrição das informações encontradas. Pesquisar em fontes, principalmente as manuscritas, requer, ainda, o empenho de aprender as técnicas de leitura paleográfica, que permitem o "decifrar" dos escritos (p. 53, grifos do autor). Decidi começar pela quarta gaveta, onde encontrei várias pastas organizadas por ano. Passei muitas horas lendo atas de reuniões de colegiado, sem saber o que selecionar daqueles documentos. Aparentemente, a leitura daquelas atas não atendia aos meus objetivos, relacionados ao ensino de Matemática. Nesse momento, refleti no que Farge (2009) considera quanto à dificuldade de definir o que triar e o que abandonar em um arquivo. Ela questiona: "Como decidir entre o essencial e o inútil, o necessário e o supérfluo, o texto significativo e um outro que se julgará repetitivo? (p. 71)". Reconhecendo a inexistência de um método a se utilizar para definir a escolha dos documentos, a autora faz uma analogia que ilustra bem esse momento da pesquisa do historiador: O procedimento se assemelha na verdade ao do andarilho, buscando no arquivo o que está escondido como vestígio positivo de um ser ou de um acontecimento, estando atento simultaneamente ao que foge, ao que se subtrai e se faz, ao que se percebe como ausência. Presença de arquivo e ausência dele são sinais de pôr dúvida, portanto em ordem. Por esse caminho pouco trilhado, é preciso desconfiar de uma identificação 19 sempre possível com os personagens, as situações ou as maneiras de ser e de pensamento que os textos põem em cena (p. 71). Particularmente, em meu trabalho, percebi que, ao ler as atas, mesmo sem tomar nota dos conteúdos, eu me apoderava de conhecimentos sobre o colégio nos anos de interesse para a minha pesquisa. Eu conseguia identificar a organização hierárquica da escola, os principais desafios, a oferta de congressos e seminários sobre educação, as 19 Para Farge (2009, p. 71), a "identificação" seria "esse modo insensível, mas real, que tem o historiador de ser atraído apenas por aquilo que pode reforçar suas hipóteses de trabalho decididas previamente". A autora continua: "A menos que se trate desse estranho acaso que só se descobre o que se busca e que, milagrosamente, parece ajustar-se ao desejo inicial e profundo do historiador". 51 discussões sobre os cursos e sobre a seleção para ingresso no colégio, entre outros aspectos. Constatei depois que, embora eu não tivesse memorizado aquelas informações, no decorrer das entrevistas, certas menções dos entrevistados me pareciam familiares e o que eles diziam nem sempre me soava totalmente desconhecido. Além disso, eu só poderia saber que aqueles documentos não seriam empregados diretamente no meu trabalho depois de lê-los. Farge (2009, p. 66) reforça essa ideia, quando afirma que Em plena coleta, não há como dispensar informações, pois o importante é deter o conjunto de dados sobre a questão, naturalmente nos limites cronológicos e espaciais previamente estabelecidos. Em contrapartida, para selecionar o mesmo, o olhar não pode se impedir de se deter no diferente, pelo menos para saber se não há com que se preocupar. Sem a prática de consultar arquivos, tive várias atitudes que me tomaram muito tempo e foram inadequadas. Iniciei fazendo pequenas anotações, em tópicos, daquilo que poderia me interessar futuramente. Nas pastas, eu incluía um papel adesivo nos documentos dos quais extraía minhas anotações. Dessa forma, eu poderia retornar ao material para acessá-lo por completo, digitalizá-lo ou reproduzi-lo, caso fosse necessário. Na capa de cada pasta visitada, colava um outro papel adesivo contendo uma lista de alguns documentos nela guardados. As anotações em tópicos eram realizadas em um caderno, cujas páginas estavam registradas com anos: "1969", "1970", "1971", ... ou nomes dos professores de Matemática que lecionaram no colégio: "Abdala Gannam", "Maria do Carmo Vila".... Assim, à medida que lia os documentos, eu incluía informações gerais do Colégio nas páginas destinadas ao ano em que encontrara a informação (menção a alguma proposta de reformulação de currículo, nota sobre a visita de algum especialista britânico, convites para participação em congressos, compra de materiais para o setor de Matemática, entre outros) e dados de cada professor (curso oferecido em Seminário, ano em que foi chefe de setor ou se afastou para capacitação, orientações) na página relativa a seu nome. Depois de muito trabalho, concluí que seria muito difícil resgatar os documentos completos, nas pastas, usando aquele procedimento de investigação. Isto é, quando encontrasse uma informação de interesse, anotada sucintamente no caderno, eu visitaria todas as pastas do móvel de aço, relendo os papéis adesivos que havia colado, para reencontrar o arquivo original. 52 Caso não retornasse ao documento completo, armazenado nas pastas, eu apenas conseguiria levantar dados superficiais para a pesquisa, aqueles anotados no caderno. Mas esse não era o meu objetivo, pois eu almejava apresentar documentos impressos para os sujeitos da pesquisa. E, da forma como estava procedendo, precisaria, na ocasião de cada entrevista, reler todas as notas coladas nas pastas para identificar quais papéis extrair para o encontro com os depoentes. Vale mencionar ainda que em nenhum momento julguei necessário fotocopiar todos os documentos. Primeiro, porque eram numerosos. Segundo, porque estavam todos disponíveis para consulta no setor e desde 2013 foram guardados no meu gabinete. Além disso, as cores dos papéis e o seu desgaste auxiliariam na memória dos entrevistados (eles teriam certa dimensão do quão recentes ou antigos eram aqueles arquivos). Foi então que, finalmente, estabeleci outra forma de exploração do arquivo. De nenhuma forma eu queria alterar o modo como os materiais estavam organizados, pois reconhecia que a disposição dos documentos era histórica e deveria ser mantida. Ou seja, a escolha pela disposição daquelas pastas e documentos, do modo como estavam, poderia não ser arbitrária e, por isso, seria relevante mantê-la assim tanto para a pesquisa que realizo quanto para outras que venham a ser empreendidas. Lopes, refletindo sobre o processo de investigação de arquivos, nos lembra "que outras subjetividades e outro contexto histórico selecionaram o que seria produzido, guardado, e o que seria descartado". E acrescenta: "O passado (ou, os passados) escolheu aquilo com o que seria lembrado" (LOPES, 2016, p. 10). Entretanto, em alguns momentos foi necessário realizar algumas intervenções materiais, para garantir a integridade de alguns documentos. Um exemplo foi a reposição de fitas adesivas transparentes, para fixar folhas de papel, que intitulavam as pastas do material disponível no setor de Matemática, pois estavam se soltando, perdendo a fixação devido ao passar do tempo. Decidi, portanto, numerar as pastas de acordo com as gavetas em que os encontrara: Gaveta 1: A1, A2, A3 ...; Gaveta 2: B1, B2, B3 ... ; Gaveta 3: C1, C2, C3 ... ; Gaveta 4: D1, D2, D3 .... (anotava, discretamente, nas pastas, esses títulos: A1, A2 ...). Em seguida, eu explorava cada pasta e extraía os nomes/características dos principais documentos contidos nela, anotando esses dados em um arquivo de texto do computador. Como exemplo: “A5 – Pasta Recuperação de Matemática – 1º, 2º e 3º anos. 1991 e 1992. Contém: Provas (originais), Gabarito de Provas, Provas de Alunos, 53 Tabelas de notas de alunos (escritas à mão), Cartaz de divulgação da recuperação (Datas de aulas e provas), pedidos de revisão de provas”. Em relação aos documentos que julgava menos importantes e que pretendia ignorar, eu listava alguns nomes/características em um arquivo único para todas as pastas (exemplo de nome/característica: "Atestados de saúde de alunos") 20 . Além disso, mantive a minha atenção aos documentos que mencionavam nomes dos professores do setor de Matemática. Sempre que algum documento fazia referência a determinado professor, eu fazia apontamentos em um documento no computador, cujas páginas traziam como títulos os nomes de todos os docentes já encontrados. Pareceu-me que, adotando essa forma de organização na qual eu extraía documentos das pastas e acrescentava a eles etiquetas com indicações dos seus locais de origem, após as entrevistas eu poderia guardá-los onde tinham sido armazenados antes. Outros arquivos, entre achados e perdidos Para nossa investigação sobre o Coltec, buscamos documentos em muitos lugares: internet, teses e dissertações, Arquivo Permanente do Colégio, Arquivo da Universidade, bibliotecas do Colégio e da UFMG, Setor de Matemática e Reitoria. Além disso, vários técnicos administrativos da escola foram consultados, na busca por registros. Nesse processo, tivemos muitos encontros e desencontros. Inicialmente, fizemos um levantamento de pesquisas relacionadas ao nosso projeto no Portal de Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, no Domínio Público - Teses e Dissertações e nas Bibliotecas Digitais de teses e dissertações da UFMG e da PUC/MG (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais). Nessa investigação, não identificamos pesquisas vinculadas à Educação Matemática que envolvam o Coltec. Por outro lado, encontramos esse termo em sete trabalhos defendidos em programas de pós- graduação em Educação e em um trabalho vinculado a um programa de pós-graduação de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Desses oito trabalhos 21 , cinco 20 Foram encontrados vários, e eu não pretendia utilizá-los na pesquisa. 21 A dissertação de Colares (1989) conta como se deu a criação do Colégio de Aplicação da UFMG; o trabalho de Pimentel (1993) apresenta um estudo sobre o ensino da arte nas escolas técnicas de nível médio, Cefet/MG e Coltec/UFMG, analisando alguns de seus impactos; a pesquisa de Sanchez (2001) investiga as relações tróficas, estrutura e distribuição dos morcegos fitófagos na região do Coltec; Vieira (2002) enfoca as vivências da liberdade de adolescentes inseridos no contexto escolar da escola Coltec; o trabalho de Amaral (2004) refere-se às aulas de Termodinâmica de uma turma de 2º ano do Coltec. 54 estão disponíveis na internet, e como incluem uma breve seção sobre a trajetória do Coltec, contribuíram para a contextualização do cenário de nossa pesquisa. Dois dos autores dessas pesquisas enfatizam a dificuldade de encontrar documentos referentes à história do Coltec. Pereira (2005), em sua dissertação de mestrado intitulada Sucesso escolar de alunos dos meios populares: Mobilização pessoal e estratégias familiares, afirma: Tivemos acesso a pequenos recortes de jornais, um manual com poucas informações sobre o colégio e um informativo da UFMG, datado de 1996, que dizia sobre um trabalho realizado por Sálvio Nunes Chinchila, na época, professor de história e que estava envolvido em um projeto de resgate dos 25 anos de memória do COLTEC. Desse projeto, o que restou nos acervos da instituição foi uma fita de vídeo com a gravação de entrevistas realizadas com seis alunos que compunham a primeira turma de formandos do COLTEC. Essa fita não havia sido transcrita. Obtivemos a autorização para fazer a transcrição e ficamos conhecendo, por meio dela, um pouco da história desse grupo de alunos (PEREIRA, 2005, p.26) 22 . Colares (1989) conta que uma das dificuldades enfrentadas na execução do trabalho intitulado Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia de Minas Gerais - A trajetória de uma escola de ensino médio no contexto universitário foi a falta de tradição de registro das atividades realizadas nas escolas em geral. Mais adiante, soubemos da pesquisa de doutorado de Melo (2009) que, embora não trouxesse o termo "Coltec" no título ou no resumo, escolheu o Colégio como campo de pesquisa. Seu objetivo foi compreender o movimento dos trabalhadores docentes ante as reformas educacionais dirigidas ao ensino médio e à educação profissional no Brasil e na Argentina, averiguando a resistência dos docentes desses países. Em seu trabalho, a autora aponta alguns elementos sobre a história, estrutura e organização do Colégio. Pereira (2005), analisou situações de sucesso escolar em meios populares, entrevistando alunos aprovados na seleção do Coltec, bem como suas famílias; Villas (2009), por sua vez, investiou as formas de sociabilidade entre alunos do Coltec, enquanto Pouzas (2012) procurou entender algumas questões que envolviam escolarização e o lazer no Coltec, as quais tensionaram o cotidiano dessa escola. Finalmente, o estudo de Guimarães (2014) trabalhou os significados das relações estabelecidas entre educação, lazer e trabalho no interior de duas escolas de educação profissional e tecnológica: Cefet/MG e Coltec/UFMG. 22 Tentamos investigar a localização das fitas de áudio mencionadas por Pereira (2005), consultando funcionários do Coltec. Além disso, entramos em contato com Adriana da Silva Alves Pereira, que atua na Secretaria de Municipal de Educação de Belo Horizonte. Como haviam se passado onze anos desde a defesa de seu trabalho, ela não soube nos informar a origem das fitas utilizadas na pesquisa, tampouco o destino delas. 55 Na Biblioteca do Coltec, encontramos o “Trabalho Memória do COLTEC/UFMG”, realizado em 2004. Trata-se de dois volumes encadernados (não numerados), com cerca de cem folhas cada, contendo textos de alunos das turmas de 3º ano dos cursos técnicos vigentes na escola - Instrumentação Industrial, Patologia Clínica, Eletrônica e Química - além dos estudantes do curso de ensino médio regular (não-técnico), por ocasião do 35º aniversário do Coltec. Sob a orientação da professora de História Virgínia Maria Trindade Valadares, os estudantes visitaram o Arquivo Permanente da escola e realizaram entrevistas por telefone ou email com antigos alunos, diretores, professores e funcionários da escola. Os dados foram coletados no período de seis meses e, ao final do trabalho, cada uma das turmas (denominadas M31, M32, M33, M34, M35 e M37) produziu um texto. A partir desse material, avançamos um pouco na compreensão de alguns aspectos da trajetória do Coltec 23 . No Arquivo do Setor de Matemática encontramos algumas cópias de documentos referentes ao convênio de criação do Colégio. A maioria deles também estavam disponíveis no "Trabalho Memória do COLTEC/UFMG". Em meio a tantos "perdidos", soubemos que o servidor Antônio Cícero de Morais Mendes, técnico de laboratório, em 2004 teria sido designado para cadastrar o Coltec junto ao Ministério da Educação (MEC). Em conversa com Antônio, ele nos contou que, para conquistar esse objetivo, precisou investigar sobre os documentos históricos do Colégio. De acordo com ele, até a data mencionada, o Colégio Técnico não era registrado no MEC. Supostamente, esse fato foi aventado na ocasião em que um formando foi aprovado em um vestibular de uma faculdade no Rio Grande do Sul e seu diploma não foi reconhecido. Cícero nos contou ainda que foi indicado pela reitora da UFMG na época, Ana Lúcia Almeida Gazzola, e pelo diretor do Coltec, Adilson de Assis Moreira 24 , para ir até Brasília resolver a situação. No MEC, descobriu que não havia registros do Coltec, 23 Outras buscas não resultaram em mais informações. Em visita a outras unidades da UFMG (Biblioteca Central, Reitoria e Unidade Administrativa), não encontramos qualquer documento relativo à criação do Coltec. Diante disso, enviei um email para a 'Diretoria de Arquivos Institucionais da UFMG', cujo responsável nos deu o seguinte retorno: "Sugerimos que a Sra. entre em contato diretamente com a Unidade. A UFMG ainda não tem Arquivo Central e as unidades são responsáveis por seus respectivos acervos documentais". A partir dessa resposta, entramos em contato com a servidora responsável pelo Arquivo Permanente do Coltec, apresentamos nossas intenções de pesquisa e a demanda por documentos referentes à história institucional e do ensino de Matemática do Coltec. A funcionária prometeu-nos um retorno posterior, mas, passado algum tempo, quando voltamos a procurá-la para agendarmos visitas ao Arquivo, em duas oportunidades ela não estava presente em sua sala. 24 Adilson é um dos colaboradores desta pesquisa. 56 tendo um funcionário lhe explicado que, depois de uma enchente, o arquivo tinha ficado impraticável e que os documentos formavam "bolos" de papéis. Antônio Cícero acrescentou outras informações, relativas ao seu retorno à UFMG. Chegando à Universidade, ele procurou evidências da criação do Colégio em todos os locais possíveis: Faculdade de Educação, Centro Pedagógico, Biblioteca e Reitoria, mas nada encontrou. No Coltec, verificou que o Arquivo Permanente também tinha sido atingido por água. Houve um vazamento no banheiro, logo acima do local onde ficava a documentação, que danificou grande parte do material. Algum tempo depois, esse arquivo mudou de sala. Os auxiliares da mudança, ao carregarem aquelas caixas velhas e úmidas, deixaram cair documentos. Esses papéis foram recolhidos, sem retornarem necessariamente para as caixas em que estavam antes. Apesar da desorganização, o funcionário encontrou um radiograma datado de dezembro de 1971 e separou alguns papéis e fotos relativos à implantação do Colégio. Esse comunicado do MEC, dirigido ao diretor do Colégio Técnico, informava que estava autorizado o funcionamento de três de seus cursos 25 , como mostra a imagem a seguir: Figura 1: Radiograma enviado pelo MEC ao diretor do Coltec, em 1971 26 . Fonte: Arquivo do Antônio Cícero. 25 No Parecer nº 896/71, C.E. 1º e 2º Graus, aprovado em 9 de dezembro de 1971 (Anexo III - Currículos dos cursos técnicos instalados no Coltec) também são apresentados apenas os planos administrativos e pedagógicos de três cursos: Química, Eletrônica, Laboratórios Médicos. Entretanto, é sabido que, além desses cursos, desde o primeiro ano de funcionamento, o Colégio oferecia o curso de Instrumentação. Antônio Carlos Moreira, um de nossos depoentes, pertenceu à turma de Instrumentação, no ano de 1969. Na Seção de Ensino do Coltec também é possível encontrar o histórico escolar desse ex-aluno, datado de 1969, no curso de Instrumentação. Nosso depoente nos contou que as disciplinas técnicas do seu curso começaram atrasadas. "Naquela época, não tinha o curso de Instrumentação na América do Sul, não havia pessoas formadas nesse curso, tínhamos apenas professores que fizeram Eletrônica". Por isso, "durante um tempo nós só fizemos disciplinas técnicas do Curso de Eletrônica, comuns ao currículo de Instrumentação". Além disso, em uma carta do reitor Marcello Coelho destinada ao Consultor de Ciências do Conselho Britânico, Frank Taylor, datada de 15 de outubro de 1970, ele informa: "Gostaria, entretanto, de aproveitar a presente oportunidade para realçar uma vez mais que, na área de Instrumentação o Colégio Técnico é pioneiro no país" (Anexo IX).Talvez por isso, alguns documentos não registrem a existência do curso de Instrumentação no início do funcionamento do Colégio. 26 Transcrição do texto do Radiograma: "22/12/1971 SATISFAÇÃO COMUNICAR APROVAÇÃO PARECER NH 900/71 DE 9/12/71 PELO PLENÁRIO CFS AUTORIZADO CURRÍCULOS PARA 57 Com os documentos reunidos, Antônio Cícero disse que conseguiu cadastrar o Coltec no MEC: Fui a Brasília, fiquei lá por uma semana. Levei todos os planos de curso da área técnica e registrei o Colégio 27 . Isso foi em 2004, de acordo com esse plano de curso aqui [mostrando plano de curso disponível na caixa de documentos de sua sala] (Recorte da conversa com Antônio Cícero 28 ). Concluído esse trabalho, Cícero decidiu não devolver os documentos selecionados ao Arquivo Permanente do Coltec, considerando sua desorganização. Ele ainda nos informou que os documentos chegam a esse local, de diferentes setores (secretaria, contabilidade, seção de ensino, diretoria), nem sempre com uma identificação apropriada, e são apenas estocados, sem cuidado adequado. Além disso, alguns professores e funcionários acumulam no local livros, apostilas e jornais, sem motivo aparente. Antônio Cícero me disponibilizou toda essa documentação para cópias. Havia, ainda, fotos e recortes de jornais, que nos auxiliaram na construção de parte da história do Colégio. Em agosto de 2017, após o Exame de Qualificação, retomei as minhas tentativas de investigar os documentos do Arquivo Permanente do Coltec. Por intermédio da direção e diálogos com a funcionária que atua nesse repositório, consegui conhecer esse espaço. Como descrito por alguns funcionários e pesquisadores, o local está muito desorganizado. Na chegada, nos deparamos com uma antessala, com arquivos de ferro, de quatro gavetas, recém-colocados no local. Além disso, uma mesa e um computador. Logo adiante, uma sala, mantida trancada, onde se encontram os arquivos do Colégio. No centro da sala, um arquivo de aço, deslizante, com prateleiras, como mostra a figura a seguir. No seu entorno, várias pilhas de papéis ou caixas, dispostos em mesas, grande parte referente às "folhas de ponto" (controle da frequência) CURSOS DE HABILITAÇÃO EM QUÍMICA VG ELETRÔNICA ET LABORATÓRIOS MÉDICOS CONFORME PROPOSTA APRESENTADA PELO DEM PT PARECER SEGUE POR OFÍCIO PT SDS. PAULO DUTRA BSBMD. FA/0815/23". 27 Os currículos dos cursos técnicos instalados no Coltec se encontram no Anexo III. 28 No dia 08 de setembro de 2016, reuni-me com Antônio Cícero em sua sala, no Coltec. Pedi-lhe permissão para gravar o áudio do nosso diálogo. Em comunicação por email, transcrevi alguns trechos de nossa conversa, e ele, em resposta, autorizou sua divulgação neste trabalho. 58 dos servidores do Colégio e relatórios de estágio de ex-alunos, ainda em fase de organização. Figura 2: Arquivo de aço deslizante (fechado e com uma de suas portas aberta). Figura 3: Entorno do Arquivo Permanente. Do material fora do arquivo de aço, a funcionária do local, após ser esclarecida sobre as minhas intenções de pesquisa, me indicou três caixas, que possuíam uma identificação realizada por ela, algum tempo atrás. Nesses casos, no exterior da caixa, havia um papel, intitulado "Trabalho de Memória do Coltec", com a numeração das pastas e uma descrição de seus conteúdos. Debrucei-me sobre aquele material, digitalizando aquilo que me parecia promissor. Concluído esse trabalho, desejei conhecer os documentos do arquivo de aço. Entretanto, foram inúmeras as tentativas de abri-lo. Como o espaço destinado ao Arquivo tem muitos desníveis no chão, não é fácil deslizar as portas de aço. Sem sucesso, eu e a funcionária do Arquivo pedimos ajuda. Duas pessoas tentaram nos auxiliar, mas foi em vão. Disseram-me que somente um funcionário específico do Colégio seria capaz de abrir esse arquivo. Procurei-o por dois dias, mas não o encontrei, mesmo tendo lhe enviado um email solicitando a sua ajuda. Felizmente, no terceiro dia, esse arquivo tinha sido aberto por esse servidor. 59 Uma vez destravado, era possível deslizar todas as partes do arquivo com facilidade. Fiquei impressionada com a capacidade desse móvel e mais ainda com a quantidade de caixas sem identificação alguma. Diante desse cenário dediquei-me a investigar apenas as caixas com descrições em seu exterior e, novamente, realizei inúmeras digitalizações, totalizando 386 imagens. Concluí, então, o levantamento de documentos nesse Arquivo. Nesse mesmo mês, estive na Secretaria dos Órgãos de Deliberação da UFMG - Sods, localizada na Reitoria da Universidade, à procura de informações adicionais. No local, fui orientada a enviar uma solicitação por email. Atendendo à minha demanda, a coordenadora da Sods realizou uma pesquisa nas atas do Conselho Universitário, no período de 1927 a 1989. Ela encontrou referências ao Colégio Técnico em quatro atas, nos anos de 1967, 1969 e 1970, com referências à criação e implantação do Colégio 29 . Em resumo, para desenharmos o cenário de criação, primeiros anos do Coltec e construirmos uma história das práticas de ensinar-aprender Matemática, iremos nos valer de alguns documentos guardados por Antônio Cícero, do material do Setor de Matemática, do website da escola, de recortes das dissertações e teses mencionadas anteriormente, do "Trabalho Memória do COLTEC/UFMG", das digitalizações realizadas no Arquivo Permanente do Colégio e das atas de reuniões do Conselho Universitário e da Coordenação de Ensino e Pesquisa da Universidade. Infelizmente, devido à dificuldade de acessar determinados documentos, as entrevistas desta pesquisa foram realizadas sem consulta prévia aos documentos conservados por Antônio Cícero que, possivelmente, enriqueceriam as conversas. 1.3.2. Fontes impressas: jornais Os jornais demoraram a ser reconhecidos como fontes adequadas para as pesquisas, de modo que, ainda na década de 1970, poucos trabalhos lançavam mão desse recurso. De acordo com Luca (2008, p. 112), os jornais pareciam pouco adequados para a recuperação do passado, uma vez que essas "enciclopédias do cotidiano" continham registros fragmentários do presente, realizados sob o influxo de interesses, compromissos e paixões. Em vez de permitirem captar o ocorrido, dele forneciam imagens parciais, distorcidas e subjetivas. 29 Uma cópia das atas está disponível no Anexo XII. 60 No final do século XX, os jornais passaram a ser menos questionados quanto ao seu caráter tendencioso ou veraz. Pondera-se, no entanto, que esse impresso, tal como as demais fontes documentais, não pode ser avaliado de modo desvinculado de uma realidade. É importante "inquirir a respeito das fontes de informação de uma dada publicação, sua tiragem, área de difusão, relações com instituições políticas, grupos econômicos e financeiros" (LUCA, 2008, p.116). Entretanto, dada a dificuldade de se conhecer esse conjunto de aspectos, muitas vezes, eles são negligenciados pelos historiadores. Em nossa pesquisa, encontramos, inicialmente, quatro recortes de jornais entre os documentos guardados por Cícero. O primeiro apresentava a fonte e a data escritas à caneta: "J.B 01-12", referindo-se ao Jornal do Brasil, sem especificar o ano; o segundo estava colado em uma folha, com a fonte e a data digitadas no cabeçalho: "Diário de Minas, Belo Horizonte - Minas Gerais, 01 de dezembro de 1970"; os dois últimos não traziam fonte ou data 30 . Em seguida, o trabalho de investigação das fontes impressas ficou adormecido. Meses depois, quando considerávamos que o trabalho de campo já havia, praticamente, se esgotado, identificamos uma lacuna no que se refere à busca em periódicos. Observamos a necessidade de procurar jornais que circulavam no período de criação do Coltec, bem como impressos periódicos da Universidade com notícias sobre o Colégio 31 . Em visita à Hemeroteca Digital Brasileira 32 , localizamos onze jornais que veicularam notícias sobre os primeiros anos do Coltec. Encontramos seis ocorrências em pesquisa sobre a década de 1960 e cinco sobre a década de 1970. Os jornais eram: 30 A partir de pesquisas posteriores, na Hemeroteca Digital Brasileira e na Biblioteca Estadual Luis de Bessa, descobrimos que o recorte do Jornal do Brasil é de uma edição de 1970 e que um dos textos, sem indicação de fonte ou data, foi publicado no jornal Estado de Minas, também em dezembro de 1970. Dessa forma, apenas um dos quatro recortes guardados por Antônio Cícero ficou sem identificação. 31 De acordo com Faria Filho e Geber (2016), existiu um Boletim Informativo, que circulou na UFMG nos anos de 1955 e 1961, que está disponível no Setor de Memória da Biblioteca Central. E, desde 1974, um outro Boletim Informativo da UFMG voltou a circular. Ao longo desses anos, o Boletim sofreu alterações, tanto no seu conteúdo, como na sua forma. Atualmente, apresenta-se como "jornal de periodicidade semanal", "Especializado em ciência, tecnologia, humanidades e debate de ideias". Disponí vel em: https://www.facebook.com/pg/boletimufmg/about/?ref=page_internal. Último acesso em: 10 mar. 2017. Não há Boletins da UFMG no período de criação do Coltec. Sendo assim, essas publicações somente poderiam auxiliar na compreensão de outros aspectos da escola, tais como: espaço, rotina, organização. Entretanto, não tivemos oportunidade/tempo para nos debruçarmos na leitura desses periódicos. 32 Acessamos o site e fizemos a busca por período. 61 Jornal do Brasil, Tribuna do Leste, Tribuna da Imprensa, Diário de Notícias e Correio da Manhã 33 . Nesse momento, embora já tivéssemos algumas fontes impressas, sentíamos falta de notícias publicadas nos jornais do estado. Como, atualmente, o jornal de maior circulação em Belo Horizonte é o Estado de Minas, visitei a Gerência de Documentação desse periódico - Gedoc, local de acesso público, que abriga o seu acervo. Nesse lugar, fui orientada a comparecer à Biblioteca Estadual Luis de Bessa, onde se encontra a Hemeroteca Histórica, que conta com mais de 1200 títulos de jornais. Grande parte do acervo do jornal Estado de Minas já está digitalizada, o que facilitaria o processo de investigação, enquanto no Gedoc, teríamos que visualizar as páginas dos jornais a partir de microfilmes. Embora eu não tivesse experimentado esse trabalho, o funcionário do Gedoc não me incentivou a realizá-lo. Na Biblioteca Estadual foi necessário fazer um cadastro para acessar os computadores, que permitiria buscas a jornais digitalizados. Para realizar a pesquisa, precisávamos informar uma data e o jornal de interesse. Assim, após inserir "Estado de Minas" e a data (dia, mês e ano), abria-se uma pasta, com um conjunto de figuras. Em seguida, aparecia imagem por imagem, referente a cada página daquele jornal, para verificar a ocorrência de notícias sobre o Coltec. Vale mencionar, ainda, que a imagem era pequena e de baixa resolução. Uma ferramenta do programa, entretanto, que funcionava como uma lupa, ampliava uma região da tela, desde que o cursor fosse posicionado sobre ela. Iniciei a pesquisa pelo primeiro dia de funcionamento do Colégio: 28 de abril de 1969. Para minha surpresa, não havia jornal Estado de Minas nessa data. A funcionária da biblioteca me esclareceu, informando que alguns jornais não circulavam nas segundas-feiras. Nesse caso, as notícias de domingo e segunda eram divulgadas nos exemplares de terça-feira. Logo, pesquisei por notícias nas datas próximas, sábado e terça-feira. Mas não cheguei a nenhuma matéria que tratasse do Coltec. 33 O Jornal do Brasil foi fundado em 1891, com sede no Rio de Janeiro. Desde julho de 2010, a edição impressa foi encerrada, passando a ser online. Disponível em: . O jornal Tribuna do Leste foi criado em 30 de setembro de 1972, no leste do estado de Minas Gerais. É impresso todos os domingos e, desde 2017 possui uma versão online. Disponível em: . O jornal Tribuna da Imprensa, com sede no Rio de Janeiro, circula desde 1949. Desde 2008, apenas com edição online. Disponível em: . O jornal Correio da Manhã foi lançado em 1901, na cidade do Rio de Janeiro. Circulou até 1974, devido à sua incompatibilidade com a ditadura militar, que inicialmente apoiara. Disponível em: < https://bndigital.bn.gov.br/artigos/correio-da-manha/>. O Diário de Notícias foi lançado em 1930, no Rio de Janeiro (RJ), e circulou até 1976. Disponível em: . Último acesso em: 24 jul. 2017. 62 Decidi realizar a pesquisa considerando o dia de inauguração do Coltec, 02 de dezembro de 1970. Para minha satisfação, encontrei uma reportagem a respeito do evento. A manchete dizia: "Ministro inglês vem inaugurar colégio” 34. Investiguei também as datas próximas: 01 e 03 de dezembro de 1970, mas não encontrei outras notícias sobre o Colégio. Nós também desejávamos procurar jornais que tratassem da seleção do Coltec e da repercussão de sua instalação na UFMG. Entretanto, não possuíamos datas precisas para realizar as buscas. E, embora estivessem digitalizados os jornais desse período, era preciso verificar data por data, página por página, imagem por imagem... Seria uma busca demorada e trabalhosa. Especialmente, pelo tamanho, muito pequeno, em que as páginas eram visualizadas, o que dificultava a identificação de alguma palavra ou expressão de interesse, sem mencionar as falhas e lentidões do sistema. Durante o período de pesquisa, foi preciso trocar de computador, porque o sistema não apresentava bom funcionamento na máquina que eu estava utilizando. Depois de uma conversa com um dos funcionários da biblioteca sobre outros jornais importantes do período, decidi pesquisar nos exemplares do jornal Diário da Tarde, que também pertencia aos Diário Associados 35 . Esse jornal não foi digitalizado e, portanto, foi necessário usar materiais impressos encadernados em livros. Cada livro continha todos os jornais de um mês, para cada ano. Solicitei o exemplar de dezembro de 1970. Nele encontrei reportagens sobre a inauguração do Coltec, no dia 1º, com a manchete: "Passarinho inaugura Colégio Técnico da UFMG" e no dia 3: "Passarinho no Colégio Técnico, entusiasmado". O curioso dessa etapa de pesquisa foi que eu iniciei o manuseio dos livros sem uma preparação adequada. Rapidamente, uma funcionária aproximou-se cedendo-me luvas para trato correto daquele material. Além das luvas, eu precisava folhear as páginas com muita cautela, para que não rasgassem. Afinal, todos aqueles exemplares ainda não tinham sido digitalizados e sua preservação é de extrema importância. 34 Uma cópia dessa página foi salva em CD. Além disso, preenchi um termo, que identificava o material que eu estava levando e assegurava ao jornal Estado de Minas todos os seus direitos. Para fins de pesquisa acadêmica, no entanto, o recorte de jornal poderia ser utilizado. 35 Os Diários Associados foram fundados por Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo. Em 1924, a empresa comprou O Jornal, no Rio de Janeiro, o que deu início ao projeto de integrar o Brasil pela palavra escrita. No ano de 1929, foi incorporado o jornal O Estado de Minas, fundado em 1928, que, em 1930, passaria a se chamar Estado de Minas. Esse jornal ainda é divulgado nas versões impressa e online. Muitas foram as aquisições e inclusões nos Diários Associados ao longo desses anos. Em Minas, eles também englobavam o jornal Diário da Tarde, que circulou de 1930 a 2007, quando foi substituído pelo tablóide Aqui. Disponível em: . Último acesso em: 13 mar. 2017. 63 Devido ao cuidado demandado, a busca por reportagens nos impressos também é muito demorada. Nesse sentido, não foi possível visitar os exemplares de 1969, sem uma data precisa, para identificar outras possíveis notas sobre o Colégio. A leitura das dezessete 36 matérias sobre o Coltec trouxe detalhes interessantes sobre o Colégio, relativos à organização dos cursos, objetivos da escola, exames de seleção, participação dos ingleses e concessão de bolsas assistenciais. Essas informações serão apresentadas adiante 37 . 1.3.3. Fontes audiovisuais: fotografias Tal como as fontes impressas, as fontes audiovisuais são de uso recente na pesquisa historiográfica. No mundo atual, dominado por imagens e áudios, torna-se difícil o historiador não valorizar esses recursos. Napolitano (2008) aborda o uso dessas fontes. Ele conta que, inicialmente, as fontes audiovisuais foram vistas como objetivas e neutras, um registro quase mecânico da realidade externa, testemunho fiel dos fatos históricos. No entanto, historiadores contemporâneos têm chamado a atenção para a necessidade de realizar uma análise de significados e códigos de linguagens. O autor afirma: "a linguagem não-escrita, apoiada em registros mecânicos, é uma linguagem como outra qualquer, que precisa ser decodificada, interpretada e criticada" (p. 266). Em nossa pesquisa, encontramos dificuldades, na maioria das vezes, para identificar a autoria das fotografias, os locais e pessoas retratadas, o que comprometeu o potencial informativo desses documentos. No entanto, o caráter ilustrativo das imagens encontradas não foi descartado. Ao visualizarmos imagens do prédio do Coltec em construção, o pátio, seus laboratórios, as pessoas presentes em seus cenários, podemos compreender melhor a trajetória da instituição. O acervo fotográfico deste trabalho é oriundo do arquivo pessoal de Cícero, do site do Colégio, do setor de Matemática e do panfleto de divulgação do Coltec, doado pelo ex-diretor Gledsom. 36 Anexo VII. 37 Considerando o grande número de fontes usadas nesta pesquisa, tornou-se inviável, devido ao prazo para conclusão do doutorado, lermos todos os jornais dos quais extraímos recortes. No entanto, reconhecemos que essa leitura poderia nos dar uma visão geral sobre o formato e algumas concepções de cada jornal, além de dados sobre acontecimentos na cidade, no estado e no país no período da investigação. 64 Assim, Cícero dispõe de 81 fotos do Coltec, sendo 49 delas referentes à inauguração do Colégio. Essas encontram-se afixadas num caderno espiral, como mostra a figura a seguir. As demais fotografias mostram alunos, diretores, especialistas britânicos e espaços da instituição: laboratórios, pátio, prédio. Essas fotos não são acompanhadas de legenda ou data, de modo que algumas caracterizações relativas a essas imagens só foram possíveis devido à minha posição de professora do Colégio e após conversas com o ex-diretor Gledsom. Figura 4: Capa do álbum de fotos da Fundação do Coltec. Figura 5: Inauguração do Coltec. Gledsom Coutinho apresentou-me algumas fotografias dispostas em um panfleto de divulgação do Colégio. Uma delas mostra ingleses que participaram da criação do Coltec. Essa imagem também faz parte do acervo de Cícero. 65 De acordo com Gledsom Coutinho: Os ingleses. Da esquerda para direitas: Gordon Adams (Biologia), Neville Ward (Técnicas de Laboratório – Vidros), Allan Victor Cavalier (Química), James Marshall Messenger (Coordenador do grupo) e Keith Roe (Física) . Figura 6: Imagem extraída da página 11 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969. No arquivo do setor de Matemática, encontramos ainda uma pasta com a identificação "Seminário sobre o Ensino de Matemática no 2º grau", datada de 06 e 07 de maio de 1983. Essa pasta contém doze fotos em que professores do setor de Matemática apresentam painéis com propostas de materiais, atividades ou recursos para o ensino dessa disciplina. Figura 7: Capa da pasta "Seminário sobre o Ensino de Matemática no 2º grau. Figura 8: Os professores Tânia, José Eloísio e Luiz Humberto, do setor de Matemática do Coltec, no painel: "Material didático para o ensino de trigonometria". Figura 9: O professor Abdala, do setor de Matemática do Coltec, apresentando o painel: "Recursos do retro- projetor no ensino de Matemática". E, por último, o site do Colégio disponibiliza algumas fotos na seção "História do Coltec". São dezesseis fotos ao todo, a maioria contendo imagens do prédio, pátio e laboratórios. 66 1.3.4. Fontes Orais - História Oral Muitas pesquisas brasileiras sobre instituições escolares se valem, essencialmente, de fontes estáticas, tais como diários de classe, boletins, exames, atas e livros de presença, para estudar a vida de atores da Educação. Fazemos uso desse tipo de documento e reconhecemos sua importância em nossa pesquisa, entretanto, consideramos que pouco ou nada falam sobre as expectativas desses atores sobre a profissão, seus encantamentos e desencantamentos, suas ansiedades, seus motivos e justificativas para terem desenvolvido suas experiências docentes como as desenvolveram, as imposições a que foram sujeitos, as formas de subversão que implementavam (ou não), as possibilidade de formação a que recorreram, as limitações políticas, geográficas, etc (GARNICA; FERNANDES; SILVA, 2011, p. 242). A oralidade permite construir dimensões que não encontramos em documentos de outra natureza: acontecimentos pouco esclarecidos ou nunca evocados, experiências pessoais, impressões particulares, informações não registradas na forma escrita. "Assim, as duas partes (entrevistado e entrevistadores) constroem, num momento sincrônico de suas vidas, uma abordagem sobre o passado, condicionada pela relação de entrevista, que se estabelece em função das peculiaridades de cada uma delas" (ALBERTI, 2013, p. 31). Assim, não temos a intenção de desvalorizar documentos escritos, fotografias e impressos criados no período da investigação. Tampouco queremos discutir sobre a relevância desses materiais em detrimento das fontes orais ou vice-versa, mas daremos ênfase ao uso das vozes na construção da trajetória do Coltec e das práticas de ensinar- aprender Matemática dessa instituição. No campo da Educação Matemática, a oralidade tornou-se um instrumento promissor para compreender certos objetos de pesquisa (GARNICA, 2010a) por permitir valorizar os sujeitos, seus pontos de vista, suas subjetividades. Pensamos, como Garnica (2007), que diante da impossibilidade de constituir uma única história, a História Oral pode [...] registrar algumas de suas várias versões, aos olhos de atores sociais que vivenciaram certos contextos e situações, considerando como elementos essenciais nesse processo as memórias desses atores – via-de-regra negligenciados pelas abordagens sejam elas oficiais ou mais clássicas – sem desprestigiar, no entanto, os dados “oficiais”, 67 sem negar a importância das fontes primárias, dos arquivos, dos monumentos, dos tantos registros possíveis, os quais consideramos uma outra versão, outra face dos “fatos” (p. 13). Particularmente, ao ouvir alunos e professores, é possível criar situações de sala de aula, sentimentos, impressões, lembranças, esquecimentos, opiniões e individualidades. O trabalho com os registros orais permite retomar evidências e elementos que seriam inacessíveis de outro modo, com outras fontes; em especial contempla a subjetividade das pessoas entrevistadas. Afirmamos, portanto, que este trabalho faz uso da História Oral como metodologia, uma vez que, para além de construirmos fontes que nós (e outros) utilizaremos para focar nossos objetos de pesquisa, pautamo-nos em uma fundamentação específica, que guia os procedimentos de constituição dessas fontes e justifica a escolha desses métodos (GARNICA, 2011a). De acordo com Garnica (2015, p. 38), não buscamos "apenas como fazer, mas por que fazer de um determinado modo". Metodologia será aqui concebida como algo que inclui, sim, um conjunto de procedimentos (cuja função é tornar mais sistemática - ou tão sistemática quanto possível - a procura do pesquisador por compreender determinado objeto que se lhe impõe como pertubardor) bem fundados e tornados públicos (GARNICA, 2007, p. 20). Dessa forma, a História Oral nos auxilia na compreensão do percurso do ensino de Matemática do Coltec. E, na perspectiva que adotamos, as fontes orais construídas serão articuladas às demais fontes já mencionadas. Ao empregar a História Oral faz-se necessário distingui-la de outras abordagens metodológicas de pesquisa utilizadas no campo da Educação Matemática. Qualquer pesquisa elaborada e publicada é, potencialmente, uma fonte histórica, mesmo que esse não seja o foco do autor. No entanto, quando se realiza História Oral, “o pesquisador, intencionalmente, cria fontes históricas explicitando-as como fontes históricas [...]” (GARNICA, 2007, p. 15). O pesquisador que utiliza História Oral é um “fazedor consciente” de fontes e, por isso, exige que se faça [...] o reconhecimento da inexistência de uma verdade sólida, inquebrantável, intransponível, definida e definitiva; o choque entre a pluralidade de pontos de vista distintos que essas fontes trazem à tona; a responsabilidade ao costurar, para sua pesquisa, essas fontes que lhe dão uma percepção parcial, mas nem por isso pouco nítida, da realidade em que está mergulhado (GARNICA, 2007, p. 15). 68 Pesquisadores, atuando como memorialistas, constituem fontes, com a contribuição primordial de seus colaboradores. Nesse exercício de produzir fontes, não se espera reconstituir o passado, mas compreender como situações foram apreendidas e interpretadas por sujeitos que as vivenciaram, acompanharam ou observaram. Verena Alberti (2003) explica que estudos na área das ciências humanas passaram a se interessar por diferentes visões do passado 38 . Trata-se de ampliar o conhecimento sobre acontecimentos e conjunturas do passado por meio do estudo aprofundado de experiências e visões particulares; de procurar compreender a sociedade através do indivíduo que nela viveu; de estabelecer relações entre o geral e o particular mediante análise comparativa de diferentes testemunhos, e de tomar as formas como o passado é apreendido e interpretado por indivíduos e grupos como dado objetivo para compreender suas ações (p. 26). Para Meihy e Ribeiro, (2011), a História Oral pode ser classificada em quatro gêneros: História Oral de vida, Tradição Oral, História Oral testemunhal e História Oral temática. A História Oral de vida versa sobre a experiência das pessoas. A experiência, no seu sentido geral, deve ser priorizada nesse gênero, pois não se busca a verdade, mas uma versão sobre a moral existencial. A Tradição Oral releva as inexatidões de dados transmitidos de gerações em gerações. Esse gênero é de grande interesse dos antropólogos, pois admite interferência de mitos e de outros valores não racionais. A História Oral testemunhal possui um cunho político e considera pessoas que sofreram torturas, agressões físicas, ataques e exclusões. Já a História Oral temática é usada em diferentes áreas do conhecimento acadêmico, pois articula o diálogo a outros documentos. Esse gênero “ressalta detalhes da história pessoal do narrador que interessam por revelarem aspectos úteis à instrução dos assuntos centrais” (MEIHY; RIBEIRO, 2011, p. 89). Considerando que o objetivo desta proposta de pesquisa é constituir uma história das as práticas de ensinar-aprender Matemática em uma instituição específica, nosso trabalho se insere no gênero História Oral temática. 38 Esse passado pode ser um passado relativamente recente. Inclusive, conceber a História Oral como "naturalmente" vinculada ao domínio da História é um dos fatores que gera equívoco em História Oral. Vale salientar que, embora esta pesquisa possua cunho historiográfico, a História Oral não necessariamente é utilizada em pesquisas que abordam uma questão histórica. Talvez o nome "História" Oral gere esse engano. Segundo Garnica (2007), História Oral é uma forma simplificada de referência à "constituição intencional de fontes históricas a partir da oralidade, numa clara complementação àquela concepção de 'História' pautada somente em fontes escritas ou, mais radicalmente, em fontes 'primárias'". 69 Ao optarmos pela História Oral como metodologia e teoria, adotamos uma série de procedimentos para a condução da pesquisa, que se "inicia com a elaboração de um projeto e que continua com a definição de um grupo de pessoas a serem entrevistadas" (MEIHY; RIBEIRO, 2011, p.I2). Nesta pesquisa, tínhamos de início o projeto apresentado na seleção do doutorado, que foi reformulado, aprofundando a teoria e as intenções metodológicas. Consideramos as discussões e leituras realizadas, principalmente, nas disciplinas cursadas. Ao final de um ano de curso, submetemos a nova versão do projeto à avaliação do Comitê de Êtica em Pesquisa - Coep 39 , que aprovou, em primeira instância, a execução de nosso trabalho. Entre os direcionamentos éticos, inclui-se esclarecer o entrevistado quanto às implicações contratuais do seu depoimento, ou seja, informá-lo quanto à necessidade da assinatura de uma carta de cessão de direitos, em que concede ao pesquisador os direitos sobre a sua entrevista 40 . As especificidades do conteúdo da carta de cessão, bem como a necessidade de outros cuidados éticos, tais como um “Termo de consentimento esclarecido”, foram definidas pelo programa de pesquisa ao qual estamos vinculadas. De posse do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e da Carta de Cessão de Direitos, e valendo-nos das orientações metodológicas e teóricas da História Oral, pretendíamos realizar, em síntese, quatro etapas fundamentais para constituição das fontes orais: entrevistas, transcrições, textualizações e validações. Após a aprovação do COEP, caminhamos, então, para o momento que nos parecera o mais importante da pesquisa: "as entrevistas"! Muitos eram os medos em relação às entrevistas: medo de não encontrar os sujeitos, medo de eles não se interessarem em participar da pesquisa, medo de as pessoas não se lembrarem dos acontecimentos, medo de falhas do gravador, medo de insuficiência de qualidade do áudio, medo de as entrevistas serem muito sucintas... 39 "O Comitê de Ética em Pesquisa – Coep é o órgão institucional da UFMG que visa proteger o bem- estar dos indivíduos participantes em pesquisas realizadas no âmbito da Universidade. Necessitam da aprovação do Coep os projetos de pesquisa, cuja fonte primária de informação seja o ser humano, individual ou coletivamente, direta ou indiretamente – incluindo suas partes. Isto inclui material biológico ou dados já armazenados". Disponível em: < https://www.ufmg.br/bioetica/coep/>. Último acesso em: 14 mar. 2017. 40 Essa carta deverá conter os dados dos entrevistados, dos entrevistadores e da própria entrevista, tais como data e local (ALBERTI, 2003). As cartas de cessão assinadas pelos depoentes encontram-se no Apêndice E. 70 Em relação a cada um desses medos, tentei me prevenir de alguma forma. Desse modo, eu estaria mais confiante no momento da entrevista, desde que desconsiderasse o medo de ninguém participar. Para ter êxito nas entrevistas eu sabia que precisava de habilidades específicas. Como comenta Thompson (1998), há diferentes estilos de entrevistas, desde as mais amigáveis até as mais formais. Um bom entrevistador deverá desenvolver uma variedade de métodos, que se adéquem a essas variações e à sua personalidade. De modo geral, o autor anuncia algumas qualidades que um entrevistador bem-sucedido deve possuir: interesse e respeito pelos outros como pessoas e flexibilidade nas reações em relação a eles; capacidade de demonstrar compreensão e simpatia pela opinião deles; e, acima de tudo, disposição para ficar calado e escutar. Quem não consegue parar de falar, nem resistir à tentação de discordar do informante, ou de lhe impor suas próprias ideias, irá obter informações que são inúteis, ou possívelmente enganosas (p. 254). Utilizamos um roteiro inicial, porém, com abertura para valorizar as experiências relatadas pelos colaboradores. Esses roteiros (Alunos, (ex)professores, (ex)funcionários - Apêndices A, B e C) foram construídos considerando nossos objetivos, como, por exemplo: identificar se o período de atuação no Coltec inclui o ano de criação do colégio; descrever (se for o caso) as relações com os ingleses, no período de criação do colégio; averiguar a produção de material didático para o ensino de Matemática; verificar se a produção desse material sofria influências dos cursos técnicos oferecidos pelo Coltec. Em caderno de campo registramos, por exemplo, as impressões durante as entrevistas, bem como gestos não captados por gravadores de vozes. É importante que [...] o historiador, vivenciando momentos por ele julgados extremamente significativos, mas que dificilmente se deixam aprisionar pela escrita (e nem mesmo pela oralidade) – silêncios, gestos, murmúrios, por exemplo – tente captar esses instantes nesse seu primeiro registro (GARNICA, 2003, p.30). De acordo com o autor, embora esse seja um espaço válido de reter o momento da entrevista, o registro deve ser feito com a consciência de que não é capaz de tornar o discurso "presente, vivo e objetivo" (GARNICA, 2003, p.30). 71 Foram realizadas 16 entrevistas, que envolvem oito ex-alunos, sete ex- professores e um ex-diretor. Antes de cada entrevista, o colaborador recebeu uma carta de apresentação, com informações sobre os objetivos da pesquisa, seu papel no processo de investigação e aspectos da metodologia da História Oral. Alguns liam, outros esperavam que eu lhes apresentasse, naquele momento, o conteúdo do texto. Pode-se imaginar (e alguns efetivamente imaginam) que esclarecer ao depoente a natureza de suas intenções (algo que pode ir além de deixar explícito ao colaborador o roteiro das entrevistas e a questão geradora) inviabiliza as análises pois envieza as narrativas. Defendemos exatamente o oposto: além de ter necessiariamente que se pautar pela ética da pesquisa, deixar claras, aos depoentes, as intenções do pesquisador, permitirá que sejam analisados os depoimentos em suas "ausências" (sabendo em linhas gerais as cercanias que o pesquisador pretende visitar, por que o depoente não trata daquele assunto? por que trata do tema segundo uma tal abordagem e não outra? etc) (GARNICA, 2007, p. 28). Em seguida, começavámos a conversa a partir dos tópicos do roteiro. Alguns entrevistados, no entanto, optaram por realizar uma fala introdutória, relacionada à pesquisa. No encontro com o colaborador Luiz Humberto, ex-professor de Matemática do Coltec, por exemplo, após a explicação sobre os objetivos de pesquisa e os procedimentos metodológicos, ele disse: "Eu posso fazer uma pequena introdução?". Antes de iniciarmos a gravação com a ex-professora de Matemática Tânia Ayer, por exemplo, ela me falou de suas duas filhas, orgulhosa das opções que cada uma delas seguiu. Além disso, contou sobre quando se aposentou e decidiu acompanhar profissionalmente o marido em seu empreendimento comercial. Falamos de assuntos diversos, que extrapolam o tema desta pesquisa. Ao final, ficamos na expectativa, inclusive, de marcarmos um encontro com os docentes egressos e os atuais professores do Departamento de Matemática do Coltec. Durante essas conversas, eu tentava interagir com os colaboradores e cativá- los, para tê-los como interlocutores. Ao mesmo tempo que os ouvia com atenção, contestava-os ou interrrogava-os sempre que necessário, de modo a não quebrar a interlocução (GARNICA, 2007). Além disso, tomava o cuidado de utilizar dois gravadores. Pedia licença aos depoentes para que um dos gravadores ficasse próximo deles, na tentativa de garantir a melhor captura do áudio. Trocava as pilhas com frequência e fazia backup dos arquivos 72 sempre após as entrevistas. E, com isso, não tive perda de dados e quase não tive dificuldades para compreender as falas. Curiosamente, alguns depoentes, quando me relatavam algo em tom de segredo, que não deveria ser divulgado, tapavam um dos aparelhos de gravação. Mesmo assim, o outro gravador captava o relatado. Como eu tinha registro desses momentos, consegui preservar esses relatos comigo, sem incluí-los no trabalho, conforme os entrevistados desejavam. Em outros casos, solicitavam que eu desligasse os gravadores, para prosseguirem com as informações "secretas". Para Thompson (1998), o gravador ajuda nas entrevistas. Enquanto ligado, é um pouco mais provável que as pessoas se mantenham dentro do assunto e que outros membros da família se mantenham afastados. E muito frequentemente, quando ele é desligado, alguns fatos adicionais extremamente significativos podem ser fornecidos, os quais poderiam ter sido refreados, se não houvesse nenhum gravador; informações que se pretende que o pesquisador fique sabendo como pano de fundo, mas em caráter confidencial (e que, naturalmente, devem ser tratados dentro desse espírito) (p. 264). Dos 16 colaboradores 41 , cinco quiseram realizar a entrevista na sua própria residência, seis escolheram o Coltec, quatro preferiram o seu local de trabalho (UFMG, Ufop, PUC-MG e loja própria) e um deles me acolheu no Clube Sírio Libanês, do qual é sócio. Em apenas duas entrevistas houve recorrentes interrupções, ocasionadas pelos demais moradores da casa, o que, a nosso ver, prejudicou o estímulo das recordações. A duração das entrevistas foi determinada pelos depoentes, tendo sido condicionadas ao horário de trabalho, disponibilidade do local da entrevista e interesse pelo assunto narrado. Em todos os casos, o tempo passado com o colaborador foi bem maior do que o tempo de gravação, pois conversávamos antes e depois de iniciar a entrevista, sobre aspectos gerais do Coltec ou sobre assuntos informais/aleatórios (família, trabalho, hobbies). O menor tempo de duração de uma entrevista foi dezessete minutos e o maior de duas horas. No total, tivemos dezenove horas e quarenta e cinco minutos de gravação. O tempo médio das entrevistas foi de uma hora e quatorze minutos. Depois de realizada a etapa das entrevistas, com gravação em áudio 42 , é necessário passar do registro oral para o registro escrito. Inicialmente, realiza-se a 41 Os nomes dos depoentes serão apresentados na próxima seção. 42 Eventualmente, pode-se utilizar também o registro em vídeo. 73 transcrição, “ato de converter o conteúdo gravado na fita em um texto escrito”, sendo fiel à gravação, anotando erros, barulhos, ruídos (MEIHY; RIBEIRO, 2011, p.107). Dessa forma, "fontes orais geram fontes escritas que servem de suporte para as análises que sustentarão a historiografia (pensada como a fixação do registro histórico pela escritura) e outras formas sistemáticas de apreensão do mundo" (GARNICA, 2010a, p. 34). Optamos por realizar as transcrições à medida que as entrevistas ocorriam. A transcrição, em nosso metodologia, é seguida por uma textualização do conteúdo transcrito, ou seja, retiram-se os vícios de linguagem e pode-se ainda recriar essas informações, considerando a ordem cronológica dos acontecimentos narrados ou temáticas pré-definidas (GARNICA, 1999). "Portanto, as histórias que os sujeitos contam-nos, suas narrativas, servem para constituir outras narrativas nas quais a voz do pesquisador está irremediavelmente contaminada pelas vozes daqueles que teve como interlocutores" (GARNICA, 2010a, p. 34). Há modos de textualizar: o pesquisador pode optar apenas por excluir do texto da transcrição alguns registros próprios da oralidade (usualmente chamados "apoios", "muletas" ou "vícios de linguagem") e preencher algumas poucas lacunas que tornarão a leitura do depoimento mais fluente, ou pode optar por reordenar o fluxo discursivo do depoente, fazendo uma reordenação temática ou cronológica (GARNICA, 2007, p. 40). Criamos um cabeçalho para cada uma de nossas textualizações, em que incluímos o nome, a idade, a função exercida no Coltec, que seria abordadoa na entrevista, o período de atuação no Colégio e a data da entrevista. Em seguida, apresentamos um pequeno texto de nossa autoria com algumas informações resumidas sobre os depoentes e referências ao local da entrevista. Na sequência, inserimos a narrativa 43 que criamos em conjunto com os depoentes, em que os relatos foram ordenados por cronologia ou temáticas. É importante ressaltar, ainda, que as textualizações anexadas a esta tese foram elaboradas de forma a possibilitar sua leitura independentemente umas das outras. Assim, é frequente que notas de rodapé incluídas em uma delas se repitam em outras. Consideramos que essas narrativas, constituídas a partir das textualizações, contam não apenas o que o sujeito fez, “mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez” (GARNICA, 2010, p. 37). Não se objetiva aqui 43 Narrar é contar uma história, e narrativas podem ser analisadas como um processo de atribuição de significado que permite a um ouvinte/leitor/apreciador do texto apropriar-se desse texto, através de uma trama interpretativa, e tecer, por meio dele, significados que podem ser incorporados em uma rede narrativa própria (GARNICA, 2010a, p. 36). 74 verificar a veracidade dos relatos, já que se sabe que a memória filtra, reordena, divaga e recria, e os depoentes constroem suas narrativas do ponto de vista de interesses concretos e específicos (MEYER, 2009). Seja a gravação em áudio, seja a transcrição, seja a textualização, todos esses métodos de registro filtram a realidade, seja devido ao tempo histórico, pelas condições socioculturais ou pelas condições do momento da entrevista (GARNICA, 2007, p. 39). Trata-se de entender que os depoentes estão “contaminados por suas intenções, seus sonhos, seus princípios, impregnados por um estado de coisas, uma situação, um momento, um tempo e espaço” (GARNICA, 2010b). Nossa intenção é, portanto, construir histórias diversas e plurais, que dialoguem com outras fontes disponíveis e que possibilitem a elaboração de ideias acerca do que aconteceu. Finalmente, realizamos a validação das narrativas que foram produzidas a partir das entrevistas. Nesse momento, cada depoente conferiu o texto e corrigiu possíveis erros e enganos, acrescentando ou suprimindo alguma informação, legitimando o trabalho realizado (MEIHY; RIBEIRO, 2011). Essa etapa nos parecia simples e elementar. Entretanto, foi demorada e, relativamente, penosa. Muitos colaboradores demoraram para ler o texto produzido a partir de suas narrativas. Alguns deles fizeram inúmeras alterações, tivemos idas e vindas e encontros presenciais para discussão dos escritos, o que demandou um longo trabalho de revisão das textualizações. Notei que isso deveu-se às dificuldades de entendimento sobre o objetivo da validação, embora tentássemos esclarecer ao máximo essa etapa. O depoente, ao reler o texto, estranhava sua própria linguagem e tentava lapidá-la tornando-a mais próxima da chamada norma culta da língua portuguesa. Em outros momentos, os colaboradores suprimiam algum nome ou menção que identificasse uma instituição ou pessoa, no sentido de resguardá-las. Também retiravam trechos de suas narrativas que consideravam precisar ficar ocultos, "aquilo que não pode aparecer no discurso, as relações que deixam o indivíduo desconfortável face aos valores assumidos em sua própria prática" (GARNICA, 2007, p. 34). Todavia, vários colaboradores validaram, sem nenhuma alteração/sugestão, o texto. Além do trabalho com as correções e incrementos, demoramos a conseguir a assinatura de todas as "Cartas de Cessão de Direitos". Muitos foram os desencontros, telefonemas, contatos por email. Em alguns casos, chegamos a pensar em dispensar a textualização produzida, por falta desse documento. Mas, ao final, todas as cartas de cessão foram assinadas. 75 O Ghoem e a nossa pesquisa Esta pesquisa, por visar investigar a atuação de professores e alunos, contadas, principalmente, a partir de narrativas, sob os fundamentos e critérios da metodologia da História Oral, se agregou ao Ghoem - Grupo de História Oral e Educação Matemática, criado em 2002. Inicialmente, o Ghoem era organizado em três grandes projetos 44 . Como investigamos as práticas de docentes de Matemática em uma instituição específica, o Coltec, este trabalho se inseria no projeto "Mapeamento da Formação e Atuação de Professores de Matemática no Brasil”. Mais recentemente, a configuração desse grupo, antes organizado em três grandes projetos, foi alterada e ampliada, passando a agregar discussões sobre outros temas e outras abordagens teórico-metodológicas. Em síntese, o interesse central tornou-se: "o estudo da cultura escolar e o papel da Educação Matemática nessa cultura"45, embora o emprego da História Oral como metodologia tenha impulsionado o surgimento do grupo e distinguido suas produções no campo da Educação Matemática. Atualmente, o Ghoem se organiza em oito Linhas de Pesquisa distintas, mas interconectadas 46 . Nosso trabalho passa, então, a inserir-se na Linha de Pesquisa "Projeto - Mapeamento da Formação e Atuação de Professores de Matemática no Brasil”. Nessa nova configuração, além desse tema central e de incorporar a metodologia da História Oral, esta tese compõe o campo da História da Educação Matemática Brasileira e, portanto, entrelaça outras Linhas de Pesquisa do Ghoem. A metáfora “mapear”, dentre outras como “cartografar” ou “realizar um mosaico”, nos auxilia a perceber que as pesquisas do projeto do mapeamento não objetivam apresentar as realidades dos objetos de interesse de modo coordenado, completo, consistente e inequívoco. No mapeamento criam-se presenças e ausências, na medida em que os cartógrafos decidem os aspectos a que darão relevância, os 44 Mapeamento da Formação e Atuação de Professores de Matemática no Brasil, Hermenêutica de Profundidade: possibilidades para a Educação Matemática e Narrativas e Educação Matemática. 45 Disponível no site do Ghoem: . Último acesso em: 27 abril 2017. 46 São elas: (1) Linha de Pesquisa "Projeto - Mapeamento da Formação e Atuação de Professores de Matemática no Brasil", (2) Análise de Livros Didáticos – Hermenêutica de Profundidade; (3) Escolas Reunidas, Escolas Isoladas: Educação e Educação Matemática em Grupos Escolares; (4) História da Educação Matemática; (5) História Oral e Educação Matemática; (6) História Oral, Narrativas e Formação de Professores: pesquisa e intervenção; (7) IC-GHOEM [Iniciação Científica]; e (8) Narrativas e ensino e aprendizagem de Matemática (Inclusiva). 76 componentes que irão registrar ou desconsiderar (GARNICA, 2014). Além disso, cada leitor atribui seus próprios significados às informações disponibilizadas nos “mapas” construídos, o que reforça que o que é possível é apenas uma aproximação da realidade. Esse mapear, proposto pelos membros do Ghoem, visa criar um registro mutante das condições em que ocorreu/ocorre a formação de professores de Matemática, dos modos com que se deu/dá a atuação desses professores, de como esses professores se apropriam/apropriavam dos materiais didáticos, seguiam/seguem ou subvertiam/subvertem as legislações e outras disposições vigentes (GARNICA, 2014, p.50). Depoimentos de professores de várias regiões do Brasil mostram claramente a diversidade das dificuldades que enfrentam, dos sucessos que promovem, dos enfrentamentos que vivenciam no cotidiano das salas de aula. Cada região, cada cidade, cada escola impõe condições bastante particulares às práticas de sala de aula, ao modo de atribuição de significado a tudo que cerca as práticas de sala de aula, ao modo de apropriação de textos didáticos, estabelecendo centros e periferias e, consequentemente, estabelecidos e marginais (GARNICA, 2010). Embora os “mapas” construídos pelo Ghoem tenham como intenção ou resultado localizar, informar, descrever e representar a formação e atuação de professores de Matemática no Brasil, esses trabalhos se diferenciam ora pelo contexto (nível de ensino investigado – cursos de ensino superior, cursos de ensino básico, cursos de ensino técnico -, região específica, entre outros), ora pelo formato da dissertação/tese (hipertexto, entrevistas, colcha de retalhos, coleção de fragmentos, multipaper, epistolar), ora pelas paisagens percebidas (GOMES, 2014). A seguir, focalizaremos alguns aspectos que devem ser observados no trabalho com a constituição de fontes. 1.3.5. Limites e potencialidades das fontes Em determinado momento da pesquisa, nos vimos impossibilitadas de continuar a constituir fontes, devido ao prazo para conclusão do doutorado. As potencialidades das fontes se evidenciaram no percurso realizado, pois elas contribuem para uma construção do passado, pautada na verossimilhança. Por outro lado, diante desse conjunto "inacabado" de fontes, percebemos alguns limites: Como compreender 77 um documento produzido há algum tempo, sem nos deixar influenciar pelas nossas concepções atuais? Será que essa lembrança procede? Teria o(a) colaborador(a) se esquecido? No exercício de respondermos tais questionamentos, tentaremos elucidar alguns aspectos importantes sobre o fazer historiográfico. Inicialmente, vale ressaltar que os documentos escritos que consultamos foram selecionados por outros. Instituições/pessoas, responsáveis pelos arquivos selecionaram, e isso restringe o passado que podemos contar. Alguém escolheu que documento guardar, que foto armazenar, o que relatar. A oralidade também é submetida a várias seleções, ocasionadas pelo esquecimento, pela visão do presente, pela vontade de omitir ou pelo interesse em realçar. Quando acessamos essas fontes, elas já foram, de algum modo, filtradas. Só temos acesso ao que nos deixam. Depois dessa pré-seleção, nós, pesquisadores, fazemos uma nova triagem, conforme nossos interesses de pesquisa, das questões que colocamos. A história que “eu” conto, depende do meu objetivo quando olho para os acontecimentos do passado. Depende daquilo a que “eu” quero dar atenção. Apenas movimentamos, separamos, indagamos o que tem relevância para a investigação. De posse desses materiais, mobilizamo-nos para constituirmos nossas fontes, que serão o alicerce do passado que construiremos. Outro historiador, em outro tempo, possivelmente construirá diferentes passados. Em outras palavras, o pesquisador estuda e reconstrói o passado numa perspectiva cultural de valores atuais e assim avalia pessoas e instituições. Ele elabora uma síntese original entre o nível êmico e o nível ético, isto é, mesmo distinguindo o que pensavam e faziam as pessoas em seu tempo do que pensam e fazem as pessoas hoje, o pesquisador não pode deixar de realizar uma integração entre os dois níveis, por isso, o pesquisador de uma instituição, na verdade, cria uma realidade totalmente original, quase uma 'ficção', melhor dizendo, cria uma obra de arte, rica de sentidos (NOSELLA, BUFFA, 2013, p. 74, grifos do autor). Outro fator relevante refere-se à posição de onde observamos. Existe subjetividade tanto na produção dos materiais que se constituirão fontes, como na leitura e interpretação desses. A posição de onde observamos, como pesquisadores, se reflete no que vemos/lemos/escutamos. Afinal, a história é a escrita do outro - seja um 78 “outro” porque é diferente de nós ou um “outro” porque viveu em outro tempo. "O desafio do historiador é calçar o sapato do morto" 47 . Ou seja, aliado à subjetividade, o tempo faz com que os registros de algumas pessoas, no futuro sejam relidos de outros modos. Ainda que se obtenham informações e considerações sobre o período de estudo, não é possível "suprimir a particularidade do lugar de onde falo e do domínio em que realizo uma investigação (CERTEAU, 1982, p. 65). O outro, que fala/escreve/registra está apartado de nós no tempo e, algumas vezes, no espaço. Dessa forma, [...] tanto nós, como pesquisadores, quanto nossos depoentes, compreendem essa trama de existências e experiências a partir de um filtro essencial: o presente. Vemos o mundo com nossos pés fincados no presente (mais ainda: a partir do meu presente, dos meus parâmetros de ver o presente). Assim, o esforço em "analisar" o depoimento é o de tentar retraçar essa micro-física, sob a perspectiva que é possível ao pesquisador, a partir dos depoimentos e dos referenciais de que dispõe (GARNICA, 2007, p. 34). Mesmo a linguagem, captada nas narrativas dos depoentes, é filtrada pelo tempo histórico, pelas condições socioculturais e limites do procedimento de coleta da oralidade. Desse modo, não há registro definitivo de fatos pois não há fatos; há sempre uma percepção, um modo de comunicar as intenções, um "algo" que se mostra em perspectiva, uma perspectiva (a do falante) que mais frequentemente é compreendida segundo outra perspectiva (a do ouvinte) e as perspectivas, quaisquer que sejam elas, portanto, escapam às tentativas de apreensão quer pela malha da imagem, quer pela do som ou da escrita (GARNICA, 2007, p. 39). E, ainda, nossos olhares para os materiais, que constituirão fontes, são influenciados a todo momento, seja por leituras, seja por novos objetos, seja pela repercussão do que foi estudado em determinadas disciplinas. Um terceiro aspecto que precisamos ponderar é a veracidade das fontes. Em nossa pesquisa, não pretendemos confrontar o que dizem fontes contraditórias. Em nosso trabalho 47 Frase de Ana Maria de Oliveira Galvão, citando Evaldo Cabral de Melo, na disciplina Pesquisas em História da Educação (2015/2). 79 Os pontos de vista (as verdades do sujeito e das outras fontes disponíveis) são postos em diálogo, sem que uma fonte seja valorada de modo diferente, posto que cada um desses recursos abre a possibilidade de conhecer perspectivas alternativas, ainda que não poucas vezes conflitantes (GARNICA, 2015, p. 44) Particularmente, a fonte oral, comparada aos documentos escritos, é mais visada em relação a sua veracidade, pois comumente é vista como ficcional, inventada, criada, legendária. Entretanto, em nosso trabalho as diversas fontes terão a mesma apreciação e julgamento. Consideramos que não se pode verificar a veracidade de nenhuma fonte, pois ela é de outro tempo. É impossível assegurar que um relato seja fiel, que uma fotografia não tenha sido planejada ou que uma determinada lei, escrita em um documento, tenha sido cumprida. Em síntese, o que almejamos em nosso trabalho é fabricar um passado, diante das possíveis fontes que criamos. Por certo, o passado é inapreensível, é uma ausência, como enfatizam Garnica, Fernandes e Silva (2011): Cabe ao historiador presentificar ausências, trazendo para uma discussão do presente, no presente e sobre o presente, toda uma sorte de descortinamentos criados a partir do diálogo com o passado. O passado é uma ausência, o passado é uma inexistência que nos assombra, o passado é uma criação do presente, ou de outro modo, o passado é o que dele se diz no presente. O passado é uma composição à qual, no presente, eu procuro atribuir significados para o presente (p. 227). A partir da escrita e estruturas de linguagem, recriamos o passado. Podemos, inclusive, dialogar com fontes contrárias sem entrarmos em contradição. "A escrita permite que exista amarração. A cronologia e o recorte em períodos são fatores possibilitadores para uma escrita fluida" (CERTEAU, 1982, p. 65). Não se trata, porém, de uma construção arbitrária do passado, pois é necessário considerar fontes que dão consistência à escrita produzida. "É uma obra de cultura enraizada, de um lado, em fontes e valores do passado e, de outro, em valores do presente, em defesa de um projeto social" (NOSELLA, BUFFA, 2013, p. 74). Na seção a seguir, mostraremos os caminhos que nos levaram à escolha de nossos depoentes, bem como apresentaremos cada uma das pessoas que colaboraram para a constituição das fontes orais desta pesquisa. 80 1.4. Colaboradores da pesquisa Consideramos que a forma como nossos depoentes nos contaram suas experiências é fundamental para a compreensão das práticas de ensinar-aprender Matemática do Coltec. Além disso, essa forma possibilita a constituição de narrativas fluidas sobre a trajetória histórica do Colégio. Usamos o adjetivo “fluidas” para destacar que, ao mesmo tempo que essas narrativas formam uma certa paisagem, omitem traços dessa paisagem, seja por não terem sido comunicados, seja por não terem sido observados na interlocução (GARNICA, 2007). Esses depoimentos, juntamente com outras fontes, criam uma multiplicidade de pontos de vista, que enriquecem nossa trama narrativa. A escolha dos colaboradores e o desenvolvimento das entrevistas, como mostraremos adiante, nem sempre atendem às intenções iniciais da pesquisa. No percurso, muitos são os desafios encontrados. É necessário compreender as dificuldades de selecionar os depoentes; de conseguir que eles aceitem participar da pesquisa; de conciliar lugares e tempos para as entrevistas; de estreitar as distâncias do primeiro encontro (na maioria dos casos); de enfraquecer as relações de poder, inerentes às posições de entrevistado e entrevistador (quando o entrevistador constrange, de alguma forma, o depoente); de fazer a conversa fluir; de interferir, sem interromper as lembranças. Particularmente, embora eu tivesse estudado vários protocolos de realização de entrevistas, durante o processo foi inevitável cometer algumas falhas. Fiz perguntas sugerindo uma resposta: "O senhor não fez...?"; interrompi o depoente durante a fala; completei sua linha de raciocínio com palavras ou frases; impedi que o sujeito continuasse com a sua sequência lógica de raciocínio, quando o interrompi com uma pergunta de cunho explicativo. Mas, acredito que essas falhas são inerentes aos procedimentos. No geral, vigiei-me para ouvir atentamente, com atenção e interesse. Guardava comigo as minhas próprias experiências similares às contadas pelos depoentes, para contá-las posteriormente, no final da entrevista. Com esse propósito, eu não interrompia a fala e a cronologia do sujeito. Alberti (2003) nos orienta quando afirma que O entrevistador deve ter consciência de sua responsabilidade como coagente na criação do documento de história oral. Sua biografia e sua 81 memória são outras, e não estão propriamente em questão, mas ambas são decisivas em sua formação de pesquisador; sua memória a respeito do tema e/ou do ator em evidência na entrevista vem em grande parte de suas pesquisas (afinal, é esse seu trabalho), e é preciso que ele tenha consciência da importância desse trabalho para o exercício de sua atividade (p. 31). No início das entrevistas, no entanto, eu falava bastante, enquanto o gravador ainda estava desligado. Percebia que isso encurtava algumas distâncias, afinal, muitos daqueles depoentes estavam me vendo pela primeira vez. Antes de "se abrirem" comigo, eu sentia necessidade de me mostrar para eles, dizer de onde vim, o que faço, o que pretendia fazer na pesquisa, o que pretendia fazer com a gravação da nossa conversa, relatar como está o Colégio atualmente, falar sobre quem está há muito tempo trabalhando no Coltec e ainda não se aposentou, expressar meu carinho pela escola, meu interesse pela sua história, minha gratidão pela participação de cada entrevistado no meu trabalho. Com essa introdução e meu envolvimento na entrevista, percebia uma aproximação entre mim e o entrevistado. Ao longo da entrevista, sentia já haver uma relação de confiança, credibilidade e afeto. Inclusive, fui presenteada com materiais utilizados/produzidos no Coltec e ouvi confissões de alguns entrevistados, que não foram incluídas no relato da pesquisa. Nesse momento de apresentações, evitava emitir opiniões próprias sobre as questões formuladas, para não interferir nos posicionamentos do depoente e, com isso, ouvir apenas o que gostaria. Em uma de nossas entrevistas, por exemplo, em que o colaborador apresentava opiniões firmes, particularmente opostas às minhas concepções, foi necessário demonstrar uma "simpatia básica" para seguir no diálogo (THOMPSON, 1998). As personalidades dos envolvidos também influenciam a dinâmica das conversas. Alguns entrevistadores são mais falantes, outros mais tímidos. Notamos que uma postura ou outra não garante que a conversa flua. É necessária uma sintonia entre os envolvidos. Um entrevistador tagarelador, por exemplo, pode inibir o seu depoente, fazendo-o calar. Pessoalmente, tive muita dificuldade de vencer minha timidez desde o primeiro contato, na primeira ligação telefônica. Notei que o meu interesse pelos depoentes me deixou mais à vontade na situação das entrevistas, por se tratarem de ex-alunos do Colégio em que leciono ou ex-professores que exerceram a mesma função que exerço atualmente. 82 No conjunto de colaboradores, diversos professores se destacaram por serem mais falantes. Dessa forma, eu precisava fazer poucas perguntas, apenas para dar rumo ou apontar uma questão específica para esclarecer algum ponto que não estivesse claro (THOMPSON, 1998) 48 . Alguns depoentes, entretanto, incluindo professores, foram mais lacônicos. Felizmente, trata-se da minoria dos participantes. Nesses casos, creio que minha interferência foi relevante, realizando perguntas e sugestões para recuperar lembranças e desenvolver os relatos dos informantes. Nossos depoentes se dividem em três categorias: ex-diretor (um), ex-alunos (oito) e ex-professores (sete). Inicialmente, para nos auxiliar na composição do cenário geral histórico do Colégio Técnico, entrevistei o diretor que estava em exercício no primeiro dia de funcionamento da instituição, Gledsom Coutinho 49 . Além dele, queríamos entrevistar a primeira diretora de ensino do Colégio, Ana Maria Moraes. Entretanto, ficamos sabendo que ela se encontrava com a saúde debilitada, sem condições de nos conceder uma conversa. Os estudantes Em relação aos ex-alunos, inicialmente, procurei contatos com o organizador do evento anual denominado "Dia do Filho Pródigo" que, desde 1987, promove encontros de ex-alunos do Colégio. São vendidos ingressos antecipadamente e também na portaria do Coltec, onde a festa é realizada. Bandas de ex-alunos se apresentam na ocasião. Na comemoração de vinte anos desse encontro, a expectativa era contar com 800 presentes. Um fato singular, revelado pelo organizador do encontro, é que em 2007 quinze docentes do Colégio Técnico eram ex-alunos 50 . 48 Inclusive, conforme foi mencionado, era comum estendermos a conversa quando terminada a entrevista gravada. E, ainda, quando nos reencontrávamos, para validação das textualizações produzidas, retomávamos nossos diálogos, algumas vezes, por horas. Em alguns casos, mantive contato com o entrevistado por email ou celular, mesmo depois de encerrados os procedimentos referentes às entrevistas. 49 Inicialmente, consegui o telefone de sua irmã, Zely Coutinho, na secretaria da escola. No telefone, ela falou, brevemente, sobre sua experiência com o Coltec. Formada em Direito, lecionou a disciplina "Educação Moral e Cívica" no Colégio. Mas, para exercer a função de advogada, não ficou por muito tempo na instituição. Nesse contato, ela não demonstrou interesse em participar da pesquisa, mas me recomendou conversar com Gledsom e me informou o seu telefone. 50 Disponível em: < https://www.ufmg.br/online/arquivos/005909.shtml>. Último acesso em: 27 mar. 2017. É notável observar que muitos docentes da UFMG foram ex-alunos do Coltec. Não há uma pesquisa quantitativa a esse respeito, mas, na busca informal por depoentes, descobri que havia vários "ex-coltecanos" distribuídos nas unidades do campus. 83 De posse de uma lista com vários nomes, emails e telefones, relacionados aos anos em que esses estudantes frequentaram a escola, selecionei cerca de 250 pessoas, compatíveis com o recorte temporal da minha pesquisa. Em seguida, enviei email para todos esses ex-alunos, informando meu interesse de pesquisa e realizando perguntas breves: "Possui algum caderno de Matemática, do período em que estudou no colégio?; Foi aluno de quais professores de Matemática (se possível, indicar o ano - 1º, 2º e 3º com cada docente)?; Teria disponibilidade de contribuir com a minha pesquisa, cedendo uma conversa, pessoalmente? Local, data e horário definidos por você". Recebi respostas de 31 ex-alunos. Para cada resposta que chegava, eu incluía as informações recebidas em uma tabela com os seguintes dados: nome, email, curso (do Coltec), anos em que frequentou a escola, disponibilidade (sim ou não) e nomes dos professores que lecionaram para esses estudantes. Inicialmente, achei melhor direcionar minha atenção para aqueles que relatavam se lembrar das aulas de Matemática ou dos professores da disciplina, uma vez que alguns ex-alunos já evidenciavam, em suas mensagens, que não poderiam contribuir com o trabalho, por não se lembrarem especialmente da Matemática no Colégio nesse período. Extraímos dois recortes das respostas de email que mostram essa situação: [...] infelizmente não tenho nenhum material de matemática da época que estudei no Coltec. Tenho apenas lembranças vagas em relação às aulas de matemática. Afinal, estudei no Coltec há muito tempo (1980). Como fiz o técnico em Química, as aulas de Química e os professores dessa área estão mais vivos na minha memória (Ex-aluna 19). Considero complicado o encontro, tendo em vista que, com relação a esta disciplina específica, não me lembro de nada (nem de que tinha cursado rsrs) (Ex-aluno 17). Chamaram-me atenção, todavia, ex-alunos que sabiam mencionar os nomes dos seus professores de Matemática e ainda relacioná-los aos anos em que cursaram a disciplina. Entretanto, a maioria desses residia em outra cidade, dificultando o encontro. Alguns, inclusive, se mostraram dispostos a mantermos uma conversa online. Mas, naquele momento, preferi priorizar os encontros presenciais. 84 Outros, embora mostrassem disponibilidade para participar, marcaram e remarcaram encontros, durante muito tempo, o que resultou na minha desistência de entrevistá-los. Assim, inicialmente, com tantas respostas, acreditei que seria fácil encontrar muitos interessados em contribuir com a pesquisa. Mas, na prática, precisei recorrer, sobretudo, a antigos alunos e atuais servidores do Coltec, meus colegas de trabalho. Entrevistei cinco professores que lecionaram ou lecionam no Colégio que são ex- alunos. Além deles, conversei com uma professora que leciona em outra unidade da Universidade. Dos oito ex-alunos entrevistados, seis são, atualmente, docentes da UFMG. Antes de reconhecer a dificuldade de encontrar participantes para a pesquisa, cogitamos entrevistar ex-alunos de modo a obtermos, pelo menos, um ex-aluno de cada professor de Matemática cujo nome figura nos documentos. Dada a dificuldade de cumprir essa meta, decidimos ter, pelo menos dois colaboradores de cada década investigada. Desse modo, conseguimos entrevistar um ex-aluno da década de 1960, dois de 1970, três de 1980 51 e dois de 1990. Consideramos que termos muitos docentes entre os depoentes e particularmente professores do Coltec interfere na composição das fontes. Contudo, não nos foi possível variar mais a amostra de entrevistados. Na nossa concepção, os colaboradores professores que participaram como ex- alunos possuem uma percepção aguçada das questões de ensino. Eles conseguem refletir sobre a sua experiência discente, valorizar (ou não) determinadas práticas docentes, metodologias de ensino e recursos utilizados, até porque muitos deles escolheram a carreira docente enquanto eram alunos do Ensino Médio. Com o tempo, as pessoas filtram os acontecimentos e as memórias que as são significativas, de acordo com as escolhas que vão sendo realizadas. É o caso do "ex- aluno 19", citado anteriormente, que apenas era capaz de se lembrar e falar a respeito das aulas de Química, curso técnico realizado por ele. Thompson (1998) reforça essa ideia: 51 Soubemos de cinco professores do Coltec, ex-alunos da década de 1980. Quatro deles se disponibilizaram a participar da pesquisa. Entrevistamos somente dois, porque três tinham se formado no curso de Química. Decidimos, portanto, entrevistar apenas um desses docentes do curso de Química (aquele que primeiro se prontificou) e outro que havia cursado Patologia Clínica. Posteriormente, uma ex- aluna, que atua no Departamento de Química, nos procurou, informando que havia guardado cadernos do período em que estudou no Colégio. Optamos por incluí-la no grupo de depoentes, pela promissora contribuição do seu material para a pesquisa. 85 O processo da memória depende, pois, não só da capacidade de compreensão do indivíduo mas também do seu interesse. Assim, é muito provável que uma lembrança seja precisa quando corresponde a um interesse e necessidade social (p. 135). Isso também ficou claro para mim, com um exemplo dado pela professora Ana Maria de Oliveira Galvão, em sua disciplina "Pesquisas em História da Educação" 52 . Ela relatou que, ao questionarmos um professor sobre sua escolha profissional, é comum ouvir dele que sempre quis ser docente, pois desde criança gostava de escrever na lousa e brincar de aulinha. Já ao entrevistarmos um engenheiro, ele poderá dizer que gostava de empilhar blocos e desenhar casas; o médico vai se lembrar de suas brincadeiras de médico na infância; o jogador de futebol, do campeonato em que teria sido campeão; e assim por diante. É possível, no entanto, que todas essas pessoas tenham desfrutado das mesmas brincadeiras: o médico que teria brincado com um estetoscópio, tenha jogado bola, tenha dado aulinha a seus amigos e tenha empilhado blocos. Mas, a partir do momento em que ele faz a escolha por determinada profissão, os episódios de sua vida que remetem a essa escolha vão sendo mais bem percebidos, analisados e memorizados. A maioria dos entrevistados que se tornaram docentes não apenas sabiam relatar como eram as aulas, como também avaliavam a qualidade delas, os recursos e a metodologia empregada pelos seus ex-professores de Matemática. Por outro lado, nas entrevistas de duas médicas, foi feito um relato mais sucinto das aulas de Matemática, mesmo sendo as duas ex-alunas que frequentaram o Colégio mais recentemente, na década de 1990. Elas se lembravam, principalmente, de alguns conteúdos, que foram apresentados pelas disciplinas de Matemática do Coltec e reexplorados na graduação, como Noções de Estatística, conforme nos contou Lilian: De modo geral, as maiores lembranças que possuo são do curso do Chicão [professor da disciplina de Bioestatística] 53 . Suas aulas e suas provas, que eram um pouco mais difíceis que das demais disciplinas. Determinadas vezes, esse docente inventava, criava coisas da sua cabeça, questões que nem ele conseguia resolver. Normalmente, eu não achava muito complicado compreender, porque eu tinha facilidade. A propósito, grande parte dos conteúdos vistos em Bioestatística, com o Chicão, foram vistos, novamente, na faculdade, em uma disciplina de mesmo nome, o que permitiu que eu tivesse mais destreza para cursá-la. 52 Cursada no 2º semestre de 2015, como ouvinte. 53 Quando perguntada sobre as aulas e professores de Matemática. 86 Outro aspecto a ser observado nos depoimentos dos ex-alunos é a possível confusão entre as lembranças do Ensino Médio e do Ensino Superior. Alguns entrevistados podem ter misturado seus relatos a respeito das aulas de Matemática do Coltec com as aulas das disciplinas cursadas na graduação. As narrativas oriundas dos ex-alunos que se tornaram docentes do Coltec, por sua vez, podem sofrer influências dessa relação com o Colégio. Acreditamos que esses entrevistados, ao responderem as perguntas a respeito das aulas de Matemática do Coltec, podem ter inserido opiniões e impressões sobre essas aulas de que apenas ouviram falar, por parte de outros alunos, professores, funcionários, na posição de docentes do Colégio. Na maioria dos casos, não há como saber se o relato, de fato, é referente ao período coberto pela pesquisa, ou se trata de uma memória mais recente. Na entrevista com o professor Adilson, ele deixou claro que existia a possibilidade da dúvida, pois não tinha certeza de qual período ele estava se lembrando: Não, eu não me lembro do uso de outros recursos, pode ter havido... pode ter havido, o que eu não tenho clareza hoje é se foi quando eu era aluno, ou se vi professor usando posteriormente, isso que eu não tenho clareza. Mas peças, como você falou, sólidos geométricos, eu já vi isso muito sendo usado, eu só não tenho certeza se foi quando eu mesmo estava como aluno. E em outro momento da nossa conversa: Eu me lembro dos nomes dos professores de Matemática, mas faço confusões. Às vezes misturo, por estar no Colégio há tanto tempo, quem foi meu professor ou quem foi meu colega. Como professores do Coltec, alguns depoentes também relacionavam o Coltec de hoje com o passado, ao mencionar que um determinado evento era de uma forma quando ele era estudante, mas que hoje em dia era diferente. É o caso do ex-aluno Gilberto, quando perguntado sobre o espaço físico da escola, no período em que lá estudou: É, ele tinha uma estrutura assim muito parecida com a de agora, você está falando assim, em comparação do que é hoje?. Ele também se remeteu ao presente, quando foi questionado sobre os trotes no seu período de estudante: (...) as pessoas não se preocupavam muito se você estava matando aula ou não, era uma coisa como se fosse hoje, mas eu acho que a gente tinha mais liberdade ainda do que hoje para fazer as coisas da escola né. 87 Isso também foi frequente nas perguntas da entrevistadora formuladas para elucidar uma questão do reteiro, como por exemplo: "Como que eram alguns aspectos da escola? Assim, igual hoje em dia, vamos pensar...tinha uniforme, por exemplo?". Os professores Os docentes participantes deste trabalho, no entanto, não seriam, necessariamente, "escolhidos". Afinal, pretendíamos entrevistar todos os possíveis professores de Matemática que tivessem atuado no Coltec no período focalizado pela investigação. Durante a produção do projeto de pesquisa, consegui alguns poucos contatos de ex-docentes, graças ao relacionamento deles com os atuais professores do Setor de Matemática. Algumas boas coincidências também me beneficiaram: descobri que o neto de um ex-professor naquela ocasião era estudante do Coltec e que a filha de uma ex- professora trabalha na mesma empresa que a minha mãe. Além disso, ao contatar um sujeito, algumas vezes eu recebia notícias ou conseguia informações sobre como contatar outros sujeitos, na chamada "rede de colaboradores". Garnica (2007, p. 27) nos explica sobre esse processo de rede: [...] dado que o tema faz parte de uma determinada comunidade, é usual que um depoente lembre-se de (e sugira) nomes de outros possíveis depoentes. Caberá ao pesquisador registrar essas indicações e fazer os contatos necessários, explicitando claramente a cada colaborador (e isso é parte essencial da ética de um trabalho de História Oral, ou de qualquer trabalho de pesquisa que use como recurso a narrativa de colaboradores) a natureza da pesquisa e os encaminhamentos exigidos pelo método (os procedimentos a serem implementados na investigação). No ano de ingresso no doutorado, em 2014, contatei três docentes cujo número de telefone ou endereço eletrônico eu já conhecia. Recebi retorno positivo deles em relação à participação na pesquisa, com exceção de um dos docentes que se queixou da falta de memória, disse que havia atuado por pouco tempo no Colégio 54 e que não conseguiria contribuir com a pesquisa. Talvez por ter se passado tanto tempo entre sua aposentadoria e o momento do contato, na ligação telefônica, ele declarou não se lembrar bem dos acontecimentos e nomes do seu período de atuação no colégio. Insisti dizendo que haveria tempo para que refletisse. Sobre isso, Thompson (1998, p. 267) aconselha ao pesquisador: 54 Constatei depois que esse docente lecionou no Coltec por mais de 20 anos. 88 Muitos dirão que não têm nada de útil para lhe contar e precisarão que se reafirme que a experiência que possuem é preciosa, que ela é desconhecida dos jovens cujas vidas são muito diferentes e fundamental para que se construa a verdadeira história social. Alguns ficarão verdadeiramente surpresos com seu interesse e você precisará ser ainda mais encorajador nas primeiras etapas da entrevista. Em seguida, procurei, sem êxito, o Departamento de Pessoal do Coltec e depois procurei o Departamento de Pessoal da Universidade, que indicou que eu retornasse ao Colégio. Retornei ao Departamento de Pessoal da Unidade, conversei com professores e funcionários do Colégio e contei com a ajuda de um participante da OAP - Organização dos Aposentados e Pensionistas da UFMG. Essas investidas me ajudaram a conseguir vários nomes de potencial interesse para a pesquisa, bem como seus números de telefone e/ou emails. Posteriormente, dediquei-me aos materiais guardados no Setor de Matemática (conforme comentado na seção anterior), que haviam sido levados para o meu gabinete na escola. Tomei nota de todas as menções aos professores que poderiam vir a participar da pesquisa. Recolhi e separei textos didáticos cuja autoria consegui identificar. Com esse estudo, pretendia subsidiar as lembranças dos entrevistados. Para Thompson (1998), "recordar é um processo ativo" (p. 153) e, ainda, a lembrança "pode ser estimulada pelo reencontro com um velho conhecido, ou por uma nova visita ao cenário de algum acontecimento passado" (p.154). Considerei que esse procedimento foi muito proveitoso, pois diante de alguns materiais, os entrevistados diziam: "Nossa! Nem lembrava que eu fiz isso..."; diante de outros: "Foi mesmo!!! Eu fiz isso..."; ou ainda: "Então, vou te contar o que foi isso... o que aconteceu...". E o mais marcante para mim: "Como você sabe disso???", dito por um colaborador que se espantou quando eu disse o título de sua dissertação de mestrado, que ele tentava lembrar mas não conseguira, naquele momento. Inicialmente, eu não interrompia o discurso do depoente com menções ou documentos. Entretanto, completava uma informação quando percebia que o entrevistado se sentia desconfortável por não se lembrar de um nome, uma data ou um local. Percebi que ele(a) se sentia aliviado e conseguia prosseguir com seu raciocínio. Outra atitude era apresentar uma apostila quando o sujeito mencionava que a produzira. Notei que ele(a) ficava satisfeito(a) ao rever aquele material, cuja confecção lhe dera tanto trabalho, e feliz ao saber que foi preservado um exemplar. 89 Ao final das entrevistas, era comum eu mostrar a pasta que continha fotos de muitos docentes de Matemática, o que possibilitava novas reflexões e novas lembranças. Ademais, antes de iniciar as entrevistas com os professores, eu já havia realizado entrevistas com seis dos oito ex-alunos colaboradores. Os documentos estudados e os depoimentos dos estudantes me ajudaram a ter uma visão a respeito das aulas de Matemática (metodologia empregada, materiais utilizados, aplicações nos cursos técnicos), além de complementar dados sobre o Colégio 55 . Ou seja, o conhecimento prévio que adquiri ao estudar os arquivos permitiu-me prosseguir com determinados assuntos e desvelar outros. Garnica (2007, p. 28) parece concordar com esses procedimentos quando pondera que Entrevistas são diálogos acerca de algo (o objeto da pesquisa) e são tanto mais ricas quanto mais ocorrerem num clima de cumplicidade entre entrevistador e entrevistado. Essa cumplicidade, via-de-regra, exige que o pesquisador conheça - a partir da própria experiência ou estudos anteriores -, em linhas gerais, aspectos daquilo que o depoente narra. Deu-se uma circunstância curiosa na ocasião do retorno à casa de um depoente, para validar a sua textualização. Nosso colaborador iniciou um "interrogatório" a meu respeito. Fez perguntas sobre a minha formação, o meu ingresso no Coltec, as minhas práticas docentes, a minha metodologia, os recursos que utilizo nas aulas. Naquele momento, vi-me no lugar do entrevistado e comecei a relembrar o que Alberti (2003) assinala: "Já se observou que o que se pede ao entrevistado é muito estranho: que conte sua vida a alguém que mal conhece e ainda por cima diante de um gravador". Segundo a autora, as pessoas raramente fazem isso com filhos e netos. Entretanto, naquele momento, na posição de entrevistados, "têm a tarefa de 'dar conta' de tudo e de responder a perguntas [...]. Enfim, transformar lembranças, episódios, períodos de vida, experiências, em linguagem (p. 2)". Apresentamos a seguir uma breve descrição de nossos colaboradores, na ordem em que ocorreram as entrevistas. 55 Naquele momento eu já havia lido o “Trabalho Memória do COLTEC/UFMG”, que relatava aspectos da história do Coltec, mas não tinha estudado documentos específicos sobre o ensino de Matemática no período investigado. 90 1.4.1. Os entrevistados Alberto Figueiredo Gontijo (56 anos) foi nosso primeiro entrevistado. Em nossa conversa, ele se apresentou: Eu sou professor do Coltec, do setor de Eletrônica, desde 1981, há 35 anos. E fui aluno do Colégio em 1974, 1975 e 1976, no curso técnico de Eletrônica; eram três anos de duração na época. Com entusiasmo, ele nos contou o que o levou a escolher esse curso: Antigamente não se levava aparelho para oficina, para o conserto. Quando algum aparelho estragava, a gente recebia a visita de um técnico, que abria aquele "mapão" de circuitos. Eu olhava aquilo ali e pensava: "Meu Deus! Esse cara é um gênio. Olha que coisa maravilhosa, eu quero saber sobre isso". Então foi assim, vendo isso, que me despertou vontade de entrar nessa área, da Eletrônica. Adilson Assis Moreira (60 anos), que também atua como professor no Departamento de Eletrônica do Coltec, foi o nosso segundo depoente. Vindo do interior, da cidade de Marliéria (MG), Adilson ingressou na segunda turma do curso de Eletrônica do Colégio Técnico, em 1970. Nesse ano foi contemplado com uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ele nos relatou como foi que soube da existência do Colégio: No ano em que eu estava terminando a 8ª série, a diretora da escola ficou sabendo da existência do Colégio Técnico. Ela soube que ele havia sido implantado e veio visitá-lo, aqui em Belo Horizonte. Em seguida, retornou à minha escola, chamou a turma da 8ª série, e contou que tinha conhecido uma instituição com determinadas características, que era uma proposta boa, e nos incentivou a fazermos a prova aqui. Foi assim que eu e um grupo de umas dez pessoas viemos para cá, realizar esse concurso, no prédio da escola de Engenharia, na Avenida do Contorno. Adilson escolheu o curso de Eletrônica devido a sua relação com um primo, que havia feito um curso de radiotécnico por correspondência: Ele montava e consertava rádios, instalava aparelhos eletrônicos, pisca-pisca, qualquer coisa desse tipo. Eu via meu primo mexendo com esse tipo de material e isso me instigava. Foi daí o meu interesse em fazer o curso de Eletrônica. Gledsom Coutinho, o próximo entrevistado, tinha 78 anos na ocasião da nossa conversa. Naquele momento, escolhemos interromper as entrevistas com os ex-alunos para entrevistar Gledsom, pois temíamos não conseguir contatar esse importante 91 colaborador da pesquisa. Felizmente, o contato foi rápido, ele foi muito acolhedor ao telefone e logo se disponibilizou para um encontro. De memória extraordinária, o Professor Gledsom Coutinho, de 78 anos, foi o primeiro Diretor Geral do Colégio Técnico, e nos relatou com detalhes parte de suas experiências. Embora tivesse se formado em Engenharia na UFMG, lecionado no ITA - Instituto Tecnológico de Aeronáutica - e na nossa universidade, foi o curso de graduação em Administração que lhe proporcionou atuar em direções e gestões, algo que o fazia sentir muita satisfação pessoal. Suas quatro paixões declaradas, em ordem cronológica, são: o Galo (Clube Atlético Mineiro), a esposa (Maria Cypriana, Nazinha), a Teoria das Organizações e o teclado. O ex-diretor enriqueceu nosso trabalho com nomes e informações sobre os ingleses que fundaram a escola, com detalhes sobre alunos e estrutura física, sobre o relacionamento do Colégio com a Universidade e possíveis interferências da Ditadura no cotidiano escolar. Pareceu-nos que Gledsom gostou de relembrar os momentos vividos no Colégio (março de 1969 a março de 1971) e contribuir com a nossa pesquisa: Aquele foi o melhor período de minha vida profissional e não o deixei por opção própria. Considero-me muito feliz por ter vivido aquela experiência, ter conhecido aquelas pessoas, ter feito aqueles amigos. Nascido em Rondonópolis (MT), em 1963, Gilberto do Vale Rodrigues (52 anos), nosso quarto depoente, estudou no Coltec de 1980 a 1982. Sobre a forma como tomou conhecimento do Colégio disse: Quando eu estava na oitava série, eu nem conhecia o Coltec. Mas tinha um primo meu que trabalhava na escola, na secretaria, embora eu nem tivesse consciência disso. Quando a minha mãe começou a procurar escolas para mim, ele falou para ela: "Por que ele não tenta lá no Coltec?". Hoje ele é falecido, aposentou-se há muito tempo. Ou seja, eu não tinha noção de como o Colégio Técnico era referência. Gilberto levou, no nosso encontro, uma foto do seu diploma do curso técnico em Química. O histórico escolar, contido no verso desse documento, ilustrou parte da nossa entrevista. Ao ver os nomes das disciplinas, ele se lembrou de alguns episódios vividos como aluno. O quinto depoente, Jenner Karlisson Pimenta dos Reis (50 anos), foi um dos ex-alunos que recebeu o convite por email para participar da pesquisa. Ele foi muito solícito, informando a sua disponibilidade e agendando o nosso encontro. Conversamos 92 em uma sala do Setor de Matemática. Jenner trouxe, para me emprestar, um livro, utilizado na disciplina Bioestatística no período em que foi aluno do Colégio. No ano de 1981 eu entrei no Coltec, no curso de Análises, Patologia Clínica, e em 1983 eu me formei, nos contou Jenner. Ele continuou: Para acessar o Colégio eu fiz a prova de seleção. Quando eu me formei, atuei como técnico por mais ou menos dois anos. Posteriormente, eu ingressei na UFMG, no curso de Farmácia, me formando em 1989. Em 1995, eu fui professor substituto do Coltec, atuando no curso de Patologia Clínica. No ano seguinte, eu passei em um concurso da UFMG, na Faculdade de Farmácia, mas continuei, por algum tempo, lecionando no Coltec. A ex-aluna Poliana 56 (49 anos), também respondeu a minha mensagem por email, informando que possuía apostilas de Matemática do período em que estudou no Coltec. Fiquei muito entusiasmada, pois foi a única colaboradora que relatou ter material do Colégio guardado. Em janeiro de 2016, agendamos nossa conversa no seu local de trabalho, o Departamento de Química da UFMG, onde atua como docente. Ela me recebeu com muita simpatia, ajeitando um local para nos sentarmos. Em seguida, nos relatou: Ingressei no Coltec em 1981, no curso de Técnico em Química, mas não obtive o diploma porque eu não concluí o estágio obrigatório. No quarto ano do colégio, ano em que faria o estágio, eu ingressei no curso superior. Poliana, nossa sexta depoente, narrou que tem o hábito de guardar materiais de estudo e trabalho e que tem duas caixas de papelão grandes relativas à época em que foi aluna do Colégio Técnico. No entanto, quando examinou esse material, não encontrou apostilas de Matemática. Encontrou apenas algumas notas e cálculos em espaços espalhados em outros cadernos. Peguei todo esse material emprestado para me auxiliar na produção de sua textualização. Em fevereiro de 2016, Antônio Carlos Inácio Moreira, 64 anos, e eu marcamos nosso encontro na Pontifícia Universidade Católica - PUC-MG, onde ele leciona atualmente. Tonico, como é conhecido, foi muito simpático e descontraído, o que tornou leve aquele momento importante da pesquisa. Ele foi uma grande descoberta para a pesquisa. Além de ter sido aluno da primeira turma da escola, em 1969, lecionou e atuou na direção no Colégio. Apaixonado 56 Poliana é um nome fictício para essa ex-aluna do Coltec e colaboradora desta pesquisa. Em História Oral, os sujeitos narram-se, explicitando plenamente sua subjetividade, suas experiências e os lugares que ocupam. Por isso, é raro, nas pesquisas conduzidas segundo os parâmetros dessa metodologia, um colaborador ocultar o seu nome (GARNICA, SOUZA, 2012). O pesquisador, entretanto, deve respeitar a vontade do depoente. 93 por Matemática, enriqueceu nossa investigação sobre as práticas de ensino dessa disciplina. Também se relacionou com britânicos e esteve na Inglaterra, a partir de um projeto institucional. Nas palavras de Antônio: Eu ingressei no Coltec no ano de 1969, ano de fundação do Colégio, no curso de Instrumentação. Na época eu tinha terminado o que a gente chamava de ginásio. [...] pensei que ao fazer o Colégio eu daria um jeito de me formar e trabalhar logo. As aulas do Coltec só iniciaram no mês de abril, no dia do meu aniversário, 28 de abril. Dando prosseguimento às entrevistas, foi preciso suspender as conversas com ex-alunos. Naquele momento, nós sabíamos que poderíamos contar com a participação de outras duas ex-alunas e atuais docentes do Coltec, ambas do curso de Química. Mas, por já termos entrevistado Gilberto e Poliana, achamos que deveríamos buscar colaboradores com características mais heterogêneas e ainda, de períodos diferentes, já que as promissoras colaboradoras frequentaram a escola no mesmo período de três de nossos entrevistados. Dos seis ex-alunos que já haviam nos concedido uma conversa, tínhamos um depoente da década de 1960, dois de 1970 e três da década de 1980. Pensamos, então, em contatar ex-alunos da década de 1990, mas ainda não dispúnhamos de voluntários. Dessa forma, iniciamos as entrevistas com os ex-docentes. O primeiro professor com quem conversamos foi Luiz Humberto Pinheiro, que na ocasião estava com 77 anos. Nosso oitavo depoente, atuou no Colégio Técnico da UFMG até 1991. Fui muito bem recebida por Luiz e sua esposa Ada. Aconchegados nas poltronas da sala, o professor me mostrou alguns papéis que contavam sobre a história de fundação do Coltec, extraídos do site do colégio. Por outro lado, eu carregava uma caixa contendo apostilas elaboradas por Luiz Humberto, uma pasta com dados pessoais desse docente, alguns estudos dirigidos, uma pasta com fotos de um Seminário de Matemática realizado no Coltec e algumas provas. Ao nosso redor, naquela sala de estar, eu observava diversas fotos da família de Luiz. Seus quatro filhos, dois homens e duas mulheres, o presentearam com nove netinhos, sendo um deles, naquela ocasião, aluno do Coltec. De onde estávamos, avistávamos um escritório, local em que Luiz entrou algumas vezes, durante a entrevista, para buscar documentos que ilustrassem passagens de nossa conversa. 94 Nosso nono colaborador foi o professor Airton Carrião Machado, 54 anos, que ainda atuava no Colégio 57 , onde marcamos a nossa conversa. Curiosamente, sentei- me em uma cadeira que, possivelmente, pertenceu à residência de ingleses que participaram do convênio de criação do Colégio. Nossa entrevista pareceu-me um daqueles momentos em que eu e Airton, comumente, nos sentávamos para conversar sobre estratégias de ensino, propostas de pesquisa, utilização de materiais. Em conversas com uma colega do programa de Pós-Graduação da FaE, soube que ela tinha quatro primos, irmãos, ex-alunos do Coltec na década de 1990. Entramos em contato com eles e conseguimos agendar conversas com Lilian Lara Santos e Niriana Lara Santos Meinberg. Fui acolhida por Lilian, nossa décima depoente, na casa de seus pais, onde ela reside. Aos 35 anos, ela relatou: Eu ingressei no Coltec no ano de 1996, no curso de Patologia Clínica. Fiz vestibular sem participar de qualquer tipo de reserva de vaga, cota, pois não tinha isso. Não que eu me lembre. A gente entrava no primeiro ano sem um curso técnico pré- definido, depois fazíamos a opção no segundo ano; aí eu escolhi Patologia Clínica. Fiquei lá em 96, 97, 98 e em 99, ano em que fiz o estágio obrigatório. Alguns minutos depois, sua irmã, Niriana, de 40 anos, chegou e me cedeu uma entrevista, que foi a décima primeira. Nesse encontro também conheci a sua filha, que correu para abraçar a mãe que acabara de chegar da Unidade de Saúde Pública onde trabalha. Técnica em Química e médica, Niriana me relatou algumas de suas lembranças do período em que estudou no Coltec e alguns reflexos dessa formação no curso de graduação. Comumente percebo saudosismo nos relatos dos ex-alunos do Colégio e com ela não foi diferente. Pareceu-me que Niriana gostou muito de ter estado lá, pela formação, que considerou muito boa, e pelas oportunidades que o curso lhe proporcionou. Niriana tem duas primas, mais velhas que ela, que também estudaram no Colégio Técnico e gostavam muito da escola. Dessa forma, surgiu meu interesse de estudar lá. Além disso, eu sabia que era uma escola referência, gratuita. Iniciei meus estudos no Coltec em 1991, no curso técnico de Química. Em 1994 eu fiz o estágio obrigatório e concluí o curso. 57 Airton se aposentou em março de 2017, aos 55 anos. 95 Retomando as entrevistas com os docentes, agendamos um encontro com Abdala Gannan, 74 anos. O professor Abdala, depoente seguinte, lecionou Matemática no Coltec de 1970 a 1992. Ele relatou: Em 1970, comecei a atuar no Coltec. As coisas ali eram muito organizadas. Havia uma boa infraestrutura. O espaço físico era ótimo, as salas boas, grandes, um pouco quentes por causa da incidência direta do sol. O número de alunos por sala era limitado a dezessete. Os estudantes eram bem selecionados. Já no segundo ano, eu me lembro que lhes ensinava Séries de Fourier. O aluno que ingressava em algum curso de graduação, no Instituto de Ciências Exatas da UFMG - ICEx, já sabia tudo de Cálculo I: Derivadas, Integrais, Integrais Definidas etc. O programa era nesse nível, pois a área técnica demandava que os alunos aprendessem esses conteúdos. Algumas provas de final de curso tinham de cinco a sete folhas, contendo de 20 a 30 questões fechadas e cinco questões abertas, para serem realizadas durante dois horários de aula. A partir de nossa conversa, conheci um pouco da história que esse docente construiu com a Matemática, o ensino de Matemática e a formação de professores. Mestre em Ensino de Ciências e Matemática, suas aulas se alteravam constantemente, pois Abdala sempre estava à procura de novos recursos e formas criativas de ensinar, que lhe pareciam eficazes. Aposentado em 1992, atuou numa faculdade privada, quando já contava com longa experiência de magistério. Depois de nosso encontro, no dia 10 de março de 2016, Abdala me escreveu um email dizendo que havia outros materiais com os quais desejava me presentear. Então, retornei à sua casa no dia 22 de março 58 . Nossa décima terceira entrevistada foi Tânia Lima Ayer de Noronha, 62 anos. Na loja da família, no bairro Cidade Jardim, tivemos uma conversa agradável e descontraída. Essa professora ficou célebre no Colégio pela sua beleza. Em minhas conversas com funcionários que atuam no Coltec há mais tempo, sempre que se falava na professora de Matemática Tânia, a repercussão era unânime: "A professora Tânia era 58 Recebi desse professor várias transparências para retroprojetor (mais de 50 unidades), a maioria com animação; um aparelho retroprojetor, para exibição e exploração desse material; seis livros de Matemática; um livro com publicações de artigos dos egressos do Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática, desenvolvido na UNICAMP, que inclui um de seus trabalhos; um sólido geométrico construído por ele para ilustrar a dedução da fórmula do volume de uma pirâmide triangular; um livro, "Matemática Aplicada", de autoria de Trotta, Imenes e Jakubovic, utilizado durante algum tempo, como texto básico de Matemática no Coltec; uma sequência de slides para projeção sobre história da matemática ("Da Arte Nasce uma Geometria"); quatro apostilas com instruções e atividades para o uso em retroprojeção. 96 muito bonita e elegante!", "Os alunos até compuseram uma música para falar de sua beleza.", "Ela era muito elegante, sempre cheirosa". Ou ainda, as pessoas elogiavam o seu carisma com os alunos, dizendo que ela era uma "mãezona", que acolhia e dava muita atenção aos alunos. Em nossa conversa, senti que os relatos saudosistas sobre essa professora eram justificados. No início de seu depoimento ela disse: É sempre bom falar do Coltec e relembrar momentos que eu vivi no Colégio [1979 - 2002]. Lembro-me bem da excelência dos alunos e das oportunidades que a escola oferecia a eles. O Coltec era frequentado por meninos, jovens, que tinham a oportunidade de conhecer, pesquisar, se envolver, de fazer de fato, de ir a campo mesmo, de viajar, de participar de feiras... Fora das salas de aula, ela acompanhava estudantes com problemas familiares ou usuários de drogas. Ela os ouvia, aconselhava e ajudava no que estivesse ao seu alcance. E no caminho para a escola, Tânia oferecia carona aos estudantes, que a aguardavam no caminho. No retorno, as caronas se repetiam. Um por um, ela os deixava nas proximidades de suas casas. Jed ou Jedboy é o nome pelo qual é conhecido o professor José Eloisio Domingos, 73 anos, nosso décimo quarto colaborador. Em poucos minutos de conversa com esse professor, já me senti à vontade para me dirigir a ele dessa forma. Jed é simples e muito simpático. No corredor do Coltec, na ocasião de nossa conversa, ele passava cumprimentando professores, secretárias, diretores, todos que o conheciam. No Setor de Matemática, é o ex-professor mais lembrado, pois, sempre que possível, faz visitas ao colégio. Foi em uma dessas visitas que o conheci. Na ocasião, eu ainda estava escrevendo o meu projeto para a seleção de doutorado. Ele, brevemente, me relatou alguns episódios vividos na escola e se dispôs a contribuir com a pesquisa, se fosse o caso. Tomei nota dos seus telefones em Belo Horizonte e em Araxá, cidade onde nasceu e reside atualmente. José Eloísio relatou: Eu entrei no Departamento de Matemática do Colégio em 1970. O primeiro concurso que eu fiz lá foi em 1969. Lembro-me que havia duas vagas e fiquei em terceiro lugar [...]. No ano seguinte, eles abriram concurso, novamente, e eu passei como segundo colocado. Mas não me lembro quem teria sido o professor ou professora que ocupou o primeiro lugar. Em sua trajetória no Colégio Técnico, além de lecionar Matemática, administrou a instituição, capacitou docentes, supervisionou estagiários, produziu materiais e foi membro do CONDETUF (Conselho Nacional de Dirigentes das Escolas Técnicas vinculadas às Universidades Federais). Sobre sua saída ele diz: 97 Em 1997, eu me aposentei no Coltec. Mas fiquei mais dois anos, até 1999, como professor substituto. Eu fui substituto de mim mesmo. Depois, não quis mais lecionar em outros lugares; pensei: "deixa isso para os meninos fazerem". Na sequência, conversamos com a professora Maria do Carmo Vila, 69 anos, que atuou no Coltec de 1979 a 1995. Marcamos nosso encontro na Ufop, onde ela trabalhava na ocasião da entrevista. Minha conversa com a professora Maria do Carmo foi muito prazerosa. Lembro-me que, ao terminar, não tinha noção de quanto tempo havia se passado. Foi possível compreender, ao conhecer parte de sua trajetória, que ela possui uma experiência profissional extensa e diversificada. Atuou em diferentes níveis e modalidades de Ensino e hoje é coordenadora do curso de licenciatura em Matemática a distância, da Ufop, onde também leciona algumas disciplinas. A partir de minha conversa com a professora Maria do Carmo, ficou evidente a contribuição dessa professora, não somente para o Coltec, mas para várias outras instituições, em diferentes regiões. Ela formou vários estudantes e docentes e, ao que parece, possibilitou novos modos de aprender e ensinar Matemática. Em sua trajetória acadêmica, também orientou e desenvolveu pesquisas diversas em Educação Matemática. Em maio de 2016, estávamos satisfeitas com os depoimentos coletados e começamos a produzir as fontes escritas. Nesse período, ficávamos atentas à necessidade e possibilidade de outras entrevistas. Foi então que percebemos que o nome do professor Francisco Bastos Gil havia sido mencionado por outros depoentes e sua participação na pesquisa seria importante. Curiosamente, ele foi um dos entrevistados do trabalho de uma outra aluna do programa de Pós-Graduação da FaE 59 , que me deu informações sobre como contatá-lo. Agendamos nossa conversa, então. Aos 73 anos, Francisco Bastos Gil foi nosso décimo sexto e último entrevistado. Ele não soube precisar o ano de seu ingresso no Colégio, mas disse que 1992 foi o ano de sua aposentadoria. O professor Gil, como gosta de ser chamado, teve um importante papel na formação de professores no norte de Minas Gerais. Em Belo Horizonte, formou estudantes da educação básica, preparou estudantes para concursos e auxiliou os estudos de alunos de diferentes níveis de ensino. Até 1982 residia na cidade 59 Trata-se de Almeida (2015). 98 de Montes Claros, trabalhando no Colégio Agrícola da Universidade. A partir daí, ele narrou: Em janeiro de 1983, casei e comecei a trabalhar na Reitoria da UFMG, no turno da tarde, e a dar aulas no Colégio Santa Dorotéia 60 , no turno da manhã. Na Reitoria, eu trabalhava na Editora da Universidade auxiliando no funcionamento e na organização das publicações. Nesse período, o Coltec precisou de um professor de Matemática e eles me requisitaram. Aceitei e fui para o Colégio. Não tenho certeza do ano. Gil é apaixonado pelo ensino de Matemática, por desenho e por viagens, como pude perceber em nossa conversa. Nosso encontro foi em seu apartamento, em Belo Horizonte. Caminhamos para o seu escritório, local em que ofereceu aulas particulares por muitos anos. Lá estava um de seus desenhos, emoldurado e afixado na parede. Havia também coleções de livros e um computador. Posicionei-me diante dele. Segundo Gil,é o mesmo local onde se sentavam seus alunos particulares. Conversamos sobre algumas de suas experiências como docente, focando o período em que atuou no Coltec, na década de 1980. Os professores Luiz Napoleão Moreira, que atuou no Colégio desde o seu início até 1976, e Ronaldo Pellicano, que lecionou no Colégio na década de 1970, infelizmente, já faleceram. Além disso, não conseguimos telefone, endereço eletrônico ou físico dos professores Consuelo Maria Vieira Garcia, que teria lecionado no Coltec em 1970; Francisco de Assis Batista, conhecido como Chicão, que ingressou no Colégio em 1990, tendo se aposentado no ano de 2010; e Sérgio Veiga Dias, também chamado de Serjão por ex-alunos e professores, cujo período de atuação na escola não foi possível determinar. As professoras Maria José Alves (atual docente) e Elaine Gouvea Pimentel 61 , por sua vez, integraram o Setor de Matemática apenas em 1996. Devido ao pequeno período como docentes no Colégio incluído no recorte temporal deste trabalho (1996 a 60 "As origens do Colégio Santa Dorotéia, em Belo Horizonte desde 1962, remontam aos 175 anos da Fundação da Congregação das Irmãs de Santa Dorotéia, iniciada por Paula Frassinetti em 1834, na Itália, e que teve sua primeira escola fundada no Brasil no ano de 1866". Localizado no bairro Sion, oferece Ensino Infantil, Fundamental e Médio. Disponível em: < http://www.santadoroteia.com.br/2008/MenuPrincipal/OCol egio/OColegio.html>. Último acesso em: 25 out. 2016. 61 Elaine Gouvea Pimentel pediu remoção para o Instituto de Ciências Exatas da UFMG, em 2006. Atualmente, está no Departamento de Matemática da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É interessante mencionar que ela estudou no Colégio de 1984 a 1986, tendo sido aluna dos professores José Eloísio Domingos e Tânia Ayer de Noronha. 99 1997), bem como ao nosso interesse especial pelos primeiros anos de funcionamento da escola não foram entrevistadas. As textualizações de todos as entrevistas são apresentadas no Apêndice D. Os quadros a seguir trazem uma síntese das informações sobre os colaboradores e as entrevistas realizadas com o diretor, os ex-alunos e os professores de Matemática do Coltec. Quadro 1: Identificação do diretor entrevistado DIRETOR Colaborador(a) Ano de Nascimento Ano de Ingresso- Ano de Saída (Coltec) Data de realização da entrevista Duração da Entrevista Local Gledsom Luiz Coutinho (1º Diretor) 1937 1969 23/11/2015 2h Clube Sírio Libanês Quadro 2: Relação de ex-alunos entrevistados EX-ALUNOS Colaborador(a) Ano de Nascimento Ano de Ingresso no Coltec Professores de Matemática Data de Realização da Entrevista Duração da Entrevista Local Antônio Carlos Inácio Moreira 1952 1969 Napoleão, Abdala e José Eloísio 23/02/2016 1h e 23 min PUC/MG Adilson Assis Moreira 1955 1970 Abdala e Ronaldo Pellicano. 18/11/2015 1h e 03 min Coltec Alberto de Figueiredo Gontijo 1959 1974 Napoleão (1º) e Abdala (2º e 3º). 17/11/2015 43 min Coltec Gilberto do Vale Rodrigues 1964 1980 Tânia e José Eloísio 07/12/2015 45 min Coltec Jenner Karlisson Pimenta dos Reis 1965 1981 Luiz Humberto, Tânia, Francisco Bastos Gil e Abdala (Talvez) 16/12/2015 32 min Coltec Poliana 1966 1981 Luiz Humberto e Tânia 18/01/2016 43 min. Dep. Química Niriana Lara Santos Meinberg 1975 1991 Sérgio e Tânia 08/03/2016 19 min Residência da Depoente Lilian Lara Santos 1981 1996 Tânia(1º) e Chicão (Bioestatística). 08/03/2016 17 min Residência da Depoente 100 Quadro 3: Relação de professores entrevistados (EX)PROFESSORES Colaborador(a) Ano de Nascimento Ano de Ingresso- Ano de Saída (Coltec) Data de realização da entrevista Duração da Entrevista Local Abdala Gannam 1941 1970 - 1992 10/03/2016 1h e 43 min Residência do Depoente. José Eloísio Domingos 1943 1970 - 1999 02/05/2016 1h e 50 min Coltec Luiz Humberto Pinheiro 1938 1970 - 1991 01/03/2016 1h e 29 min Residência do Depoente. Maria do Carmo Vila 1947 1979 - 1995 04/05/2016 1h e 55 min CEAD - Ouro Preto Francisco Bastos Gil 1943 198X - 1992 04/10/2016 52 min Residência do Docente. Tânia Lima Ayer de Noronha 1954 1979 - 2002 16/03/2016 1h e 39 min Loja em que trabalha Airton Carrião Machado 1961 1992 - Atual 08/03/2016 1h e 40 min Sala Coltec - Airton 1.5. Trilhas de Análise Após estudar a documentação escrita selecionada e depois de ouvir e observar durante as entrevistas, além de transcrevê-las, textualizá-las e ler esses textos muitas vezes, produzimos as narrativas que compõem esta tese e contam histórias do Colégio Técnico, dos estudantes, dos professores e das práticas de ensinar-aprender Matemática nessa escola. Enfatizamos mais uma vez a essencialidade das entrevistas e de seus produtos (gravações, transcrições e textualizações) em nossa investigação, que privilegia as fontes orais e subjetividades. Conhecer as experiências vividas, as particularidades dos colaboradores, expressadas nas várias formas dos depoimentos advindas das conversas mantidas com eles e elas, contribuiu inestimavelmente para compreender um contexto social, uma realidade. Na escuta dos depoentes e na leitura das textualizações, tentamos identificar lacunas ou disparidades entre os relatos, não para dar maior credibilidade a um em relação ao outro, mas para buscarmos "entender como esse narrador constitui-se, quais opções realça, quais fatores negligencia" (GARNICA, 2007, p. 49). Mais explicitamente, realizamos sucessivas leituras das textualizações, identificando palavras ou ideias recorrentes que nos permitiram escolher temáticas a serem discutidas (NOSELLA, BUFFA, 2013). Para cada tema, construímos narrativas a partir das narrativas do outro em constante diálogo com as demais fontes, como num processo de restauração, inserindo para "fins ilustrativos certas referências ou citações 101 selecionadas das entrevistas (recortes)" que são parte fundamental na sustentação da trama que constituímos com nosso discurso (GARNICA, 2007, p. 59). As análises que realizamos são portadoras de significados que permitem que, como ouvintes e leitores, nos apropriemos, de algum modo, desses textos, numa trama interpretativa, produzindo, a partir deles, significados que são nossos, embora gerados de forma compartilhada. Procuramos, então, incorporar esses significados numa narrativa própria (GARNICA, 2007). De acordo com Bolívar (2002, p. 12), a análise que elegemos é denominada "Análise paradigmática de dados narrativos", uma vez que procedemos "por tipologias paradigmáticas, taxonomias ou categorias, para chegar a determinadas generalizações do grupo estudado 62 ". De outro modo: "o modo paradigmático de análise de dados narrativos geralmente consiste em buscar temas comuns ou agrupamentos conceituais em um conjunto de narrativas extraídas de uma base de dados ou campo 63 ". Vale ressaltar que, ao investigarmos nossas fontes, escrevendo outras narrativas, não constituímos verdades, mesmo quando estivemos diante de diversos documentos ou de um número considerável de entrevistas que defendem o mesmo "fato". Em lugar disso, consideramos cada uma das versões disponíveis, lembrando que são lacunares e tomadas ora por sincronias, ora por desarmonias (GARNICA, 2007). Por fim, destacamos, em conformidade com Garnica (2007), que [...] as análises sou eu, pesquisador, com o pé no presente, com minhas práticas de habitar, de vestir, de trabalhar, de descansar, de viver uma época, de atribuir significado ao que vivo... sou eu, pesquisador, quem as faz, tentando ao máximo recuperar, nesse presente, e munido dos referenciais de que disponho, as redes de poder, não como foram, mas como são possíveis, a mim, compreendê- las, resgatá-las (p. 28). Assim, é fundamental reconhecer que os testemunhos de nossos entrevistados estão enviesados pelas perguntas que lhes fizemos e são afetados pelo tempo decorrido entre os acontecimentos que rememoraram e a realização/validação da entrevista, seja pelo esquecimento, seja pela concepção alterada de como as coisas se deram. 62 Texto original: "por tipologías paradigmáticas, taxonomías o categorías, para llegar a determinadas generalizaciones del grupo estudiado". 63 Texto original: "El modo paradigmático de análisis de datos narrativos suele consistir en buscar temas comunes o agrupaciones conceptuales en un conjunto de narraciones recogidas como datos de base o de campo". 102 103 2- O COLÉGIO TÉCNICO [...] o espírito coltecano/Coltec é também "vanguardista": o método de ensino, a liberdade dos alunos, a formação profissional/pessoal e, como também, a forma de ingresso ao colégio, que na época que estudei já se usava o sistema de cotas baseado na renda familiar. Para mim, isto foi muito importante. Ex-aluno 9 (entrada no Coltec: 1986) As amizades são mais sólidas, porque a vivência é em tempo integral. Ex-aluno 15 (entrada no Coltec: 1979) 65 No período 1964 - 1967, na gestão de Aluísio Pimenta 66 , a UFMG ampliou suas atividades no âmbito do Ensino Médio, mesmo antes da Reforma Universitária ocorrida a partir de 1968. Até aquele momento, a Universidade, no que se refere a essa modalidade de ensino, contava apenas com os cursos pré-vestibulares nas diversas unidades e o Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia 67 , que oferecia os cursos de ginásio, clássico, científico e Normal (COLLARES, 1989). No ano de 1965, foi implantado o Colégio Universitário, em que havia apenas a terceira série do colegial. Diferentemente dos cursos pré-vestibulares existentes na UFMG, tratava-se de uma "experiência pedagógica que permitiria o amadurecimento do aluno, sua maior consciência da realidade nacional e regional, preparando-o para realizar o curso superior em melhores condições de desenvolvimento (intelectual, social, cultural)" (COLARES, 1989, p. 172). Abdala Gannam 68 , ex-aluno do Colégio Universitário, vê essa experiência como um grande sucesso: O Colégio Universitário era tão bom, tão bom, que o curso de Medicina, que abria 180 vagas, teve 140 vagas preenchidas com os alunos do 65 Recorte da resposta de um ex-aluno a uma mensagem publicada por uma professora e ex-aluna do Coltec, em uma rede social, conforme explicado em nota de rodapé no início do Capítulo 1. 66 O professor Aluísio Pimenta foi reitor da UFMG de 1964 a 1967. Farmacêutico, educador e político, Aluísio Pimenta criou o Colégio Universitário e idealizou a criação do Coltec. Em 1968, deixou a UFMG após ser cassado pelo AI-5, durante a ditadura militar. Desde então, passou por centros universitários de renome na América Latina, América do Norte, Europa e Extremo Oriente. Disponível em: < https://www.ufmg.br/online/arquivos/043347.shtml>. Último acesso: 22 jun. 2016. 67 A Faculdade de Filosofia da UFMG instalou um Ginásio de Aplicação para prática docente dos alunos de Didática, que começou a funcionar no ano de 1954. Ele ocupou o prédio onde se situava antes o Colégio Afonso Arinos, instituição privada de ensino secundário, na rua Carangola, nº 288. 68 Abdala Gannam foi professor de Matemática do Coltec, no período de 1970 a 1992. Ele relembrou o seu período como aluno do Colégio Universitário, quando convidado a falar de sua formação. 104 Colégio. No curso de Engenharia não era diferente, quase a totalidade das vagas eram preenchidas pelos alunos do Colégio. Era impressionante! Segundo o professor Luiz Humberto 69 , esse colégio reuniu os professores que eram "a nata", que tinham mestrado, tinham doutorado, tinham especialização ou não tinham nem isso, nem aquilo, mas que, no entanto, eram considerados relevantes no ensino de suas disciplinas, eram reconhecidos nas escolas em que atuavam. Esse foi o meu caso, eu já possuía experiência docente e tinha realizado cursos sob a coordenação do Reginaldo Naves 70 , mas eu não tinha mestrado e não tinha doutorado e fui convidado a lecionar nesse colégio. O Coluni [Colégio Universitário] funcionou durante dois ou três anos. [...] Ao final de cada ano, nós conseguíamos aprovar quase 100% dos estudantes no vestibular, porque os professores eram bons. Todos! Em todas as cadeiras! Eram pessoas de proa, lá de cima, considerados bons mesmo! Eu e outros colegas, em posições pessoais, achávamos que o Colégio Universitário estava fazendo concorrência à iniciativa privada, como o Pitágoras 71 . Esse e outros cursinhos eram criados para preparar os alunos para o vestibular. Daí, chegou a turma do Coluni, em que os alunos arrebentavam nas provas de vestibular. Em 1970, o Colégio Universitário foi extinto: Depois o governo pressionou e fechou o Coluni. Nesse período, as universidades experimentavam o chamado "Golpe", uma ação dos militares contra o governo de João Belchior Marques Goulart, reagindo a um processo de "comunização", supostamente em curso no país. O Estado demitiu professores que eram considerados ideologicamente suspeitos. Alguns docentes foram punidos por incentivar ou não controlar a rebeldia estudantil. Foi um processo de "limpeza", que controlava as ideias e textos que circulavam nas instituições: A expressão "Operação Limpeza" foi utilizada por agentes do Estado e seus apoiadores para expressar a determinação de afastar do cenário público os adversários recém-derrotados - comunistas, socialistas, 69 O professor Luiz Humberto, que lecionou no Coltec de 1970 a 1991, em sua entrevista, fez uma pequena introdução, na qual mencionou o Colégio Universitário. 70 Reginaldo Naves de Souza Lima dedicou-se ao estudo e à criação de novas propostas de aprendizagem de Matemática. Cursou bacharelado em Matemática na UFMG, mestrado em Ciências e Matemática na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e mestrado em Educação na UFMG, além de outros cursos. Ganhou medalha de Honra do Mérito Educacional, por sua participação na elaboração da nova proposta curricular de Matemática do Estado de Minas Gerais. Disponível em: < https://issuu.com/sergioluz/docs/p_ame>. Último acesso em: 07 jul. 2016. 71 O Pitágoras iniciou suas atividades na década de 1960 com o curso Pré-Vestibular Pitágoras. Em 1970, a marca se consolidou em Minas Gerais com uma unidade de Ensino Básico, o Colégio Pitágoras Cidade Jardim. Em 1979, foram inaugurados Colégios Pitágoras em diversos países do mundo: China, Mauritânia, Congo, Peru, Equador e Angola. isponível em: . Último acesso em: 18 abril 2017. 105 trabalhistas e nacionalistas de esquerda, entre outros. A metáfora da limpeza implicava também punição para os corruptos, mas, inicialmente, o alvo efetivo eram os inimigos políticos (MOTTA, 2014, p. 25). Além disso, havia movimentos estudantis já consolidados nas universidades, sob o comando de líderes de esquerda, como a União Nacional dos Estudantes (UNE). Esses grupos tinham influência no debate político nacional e grande intervenção na mobilização popular. Na visão do ex-diretor Gledsom Coutinho, quando perguntado sobre os possíveis reflexos da ditadura no Coltec, esses movimentos eram muito fortes, muito ativos, diferentemente dos de hoje, em que os alunos são rigorosamente ausentes. Naquela época, nas universidades públicas, quem fazia greve eram os alunos, pois os docentes, senhores mais idosos, eram catedráticos e, como regra, não tinham envolvimento político. Após o golpe militar, tais movimentos passaram a ser vistos como importantes inimigos do regime, conforme explica Motta (2014, p. 23): Depois dos sindicatos e das organizações de trabalhadores rurais, as instituições universitárias foram os alvos prioritários das ações repressivas. Na visão dos vitoriosos de 1964, as universidades haviam se tornado ninhos de proselitismo das propostas revolucionárias e de recrutamento de quadros para as esquerdas. No geral, o número de estudantes presos foi maior do que o de professores. Alguns estudantes foram expulsos, outros abandonaram os estudos devido à repressão ou para dedicar-se totalmente à política, alinhados à nova ordem (MOTTA, 2014). O recorte de jornal a seguir mostra um caso de apreensão de 154 estudantes da UFMG, na Escola de Medicina, no dia 03 de maio de 1968. Na ocasião, os manifestantes pichavam coletivos com frases anti-governistas e recolhiam dinheiro para concessão da liberdade de colegas presos. A Polícia Militar compareceu para controlar o ato. Diante da presença dos policiais, os militantes fizeram 23 pessoas reféns (professores, um desembargador que fazia visita ao prédio, o diretor e funcionários). Esse episódio resultou na invasão do prédio pelos policiais e na detenção dos universitários. 106 Figura 10: Recorte do Jornal Estado de Minas, de 05 de maio de 1968. Fonte: Página de comemoração dos 90 anos da UFMG (2017) 72 . Os reitores, quando contestavam as ações dos militares, eram afastados do cargo ou abandonavam suas funções, devido a fortes pressões. Em Belo Horizonte, o general Carlos Luís Guedes fez tentativas frustradas de afastar o reitor Aluísio Pimenta 73 de sua função, no início do regime. Pimenta era perseguido por estar ligado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), por ter sido eleito por estudantes e por não cooperar com ações repressivas. Ele recebia comunicados quase diários do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) ou da IV Região Militar, em busca de "subversivos" na Universidade de Minas Gerais, atual UFMG (MOTTA, 2014). Em 1968, após a edição do AI-5 74 , os antigos inimigos, professores e reitores inclusive, não conseguiram escapar do acerto de contas dos militares, tal como foi possível em 1964. A partir desse ato, os subversivos podiam ser punidos sem apreciação do poder judiciário. Nesse cenário, em 1969, quinze docentes da UFMG foram aposentados, entre eles Aluísio Pimenta, Gerson Boson, reitor na ocasião da criação do Coltec, e o então diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, o professor 72 Disponível em: < https://www.ufmg.br/90anos/noticias-historicas/>. Último acesso em: 19 ago. 2017. 73 Como já foi mencionado, o reitor Aluísio Pimenta idealizou a criação do Colégio Técnico da UFMG. 74 O Ato Institucional nº 5, AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, " foi a expressão mais acabada da ditadura militar brasileira". O AI-5 "autorizava o presidente da República, em caráter excepcional e, portanto, sem apreciação judicial, a: decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir nos estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos; e suspender a garantia do habeas-corpus". Disponível em: < http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/AI5>. Último acesso em: 18 abril 2017. 107 Pedro Parafita de Bessa (MOTTA, 2014). A perseguição e as aposentadorias foram lembradas por Gledsom Coutinho: Nos primeiros dias da Revolução, os militares tomaram a Universidade, ocuparam a reitoria. O então reitor, Aluísio Pimenta, que não é nenhum subversivo, foi ao governador Magalhães Pinto e solicitou sua intervenção para que a Universidade voltasse à normalidade. Magalhães fez, então, uma ingerência junto aos militares, e Aluísio retomou a reitoria. Em seguida, ainda tivemos algumas dificuldades na UFMG. A mais relevante delas atingiu fortemente Aluísio Pimenta – já ex-reitor – e Boson, no cargo de reitor, aposentando-os compulsoriamente. Esse golpe militar impulsionou a modernização do Brasil e um expressivo crescimento econômico. Nesse cenário, o Ministério da Educação pôde aplicar um bilhão de dólares - 4,5 milhões de cruzeiros - em educação, o que deu a oportunidade de criar o Colégio Técnico da UFMG, uma instituição destinada a formar técnicos de laboratórios médicos, científicos e industriais. Seria o primeiro projeto dessa natureza na América do Sul 75 . Vale mencionar, que esse período de crescimento econômico elevado ocasionou aumento da inflação, concentração de renda e estagnação dos salários dos trabalhadores. Nos anos de 1966 e 1967, o reitor Aluísio Pimenta se reuniu com uma comissão brasileira, membros da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e representantes ingleses, para implantar o Colégio Técnico na Universidade, o "Coltec". De acordo com dados do “Trabalho Memória do COLTEC”, essa ideia foi impulsionada pelo professor Aluísio Pimenta que, a exemplo de modelos de ensino europeus, almejava possibilitar escolhas acadêmicas de nível pós- secundário, o que daria outras opções aos estudantes além do ingresso na universidade, muito disputado. Para o professor Abdala, o Colégio Técnico foi criado a partir de uma comparação com o Colégio Universitário. Em seguida, quando a UFMG foi reestruturada, a partir de 1968, o Colégio de Aplicação foi transformado em Centro Pedagógico, integrado à Faculdade de Educação da UFMG, no bairro Santo Antônio, com a função básica de ofertar cursos relativos ao ensino de 1º e 2º graus. Em 1970, as últimas turmas dos cursos clássicos e científico do Colégio de Aplicação foram transferidas para o Coltec, onde concluíram o curso colegial em regime especial. O Ginásio do Colégio de Aplicação, em 1972, foi 75 Fonte: Jornal Diário da Tarde - MG, 03/12/1970 – Anexo VII. 108 transferido para o Centro Pedagógico, já como escola de 1º grau, enquanto o seu Curso Normal, não tendo similares na Universidade, formou sua última turma em 1972 (COLLARES, 1989, p. 200). A partir de 1977, os estudantes que concluíam o 1º grau no Centro Pedagógico tiveram o direito de prosseguir seus estudos no Coltec, conforme será explicado adiante. 2.1. A criação do Coltec e a participação da Inglaterra Em junho de 1967, dois professores do Conselho Britânico, Vere Atkinson e John Gailer 76 , estiveram em Belo Horizonte para acertar as linhas gerais para a implantação do Colégio Técnico. Nessa oportunidade, reuniram-se com responsáveis da Escola de Engenharia para encaminhar as alterações no então edifício do Instituto de Mecânica, de modo a viabilizar o funcionamento do Colégio nesse espaço 77 . Em decorrência dessas e de outras negociações, no dia 27 de outubro de 1967, o ministro da Educação e Cultura, Tarso Dutra, o reitor da UFMG, Gerson de Britto Mello Boson, o representante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Antônio Moreira Couceiro, e o representante do Conselho Britânico, Vere Atkinson, assinaram o convênio de criação e implantação do Colégio Técnico da UFMG 78 . A participação do CNPq como financiador do Coltec parece estar de acordo com as finalidades desse Conselho nas década de 1960 e 1970, pois, a partir de 1964, período em que o governo militar incentivou a "formação de profissionais especializados para a indústria e o fortalecimento do aparato técnico-científico ao projeto modernizador do regime", o CNPq, além de formular e programar a política científica do país, passou também a estabelecer políticas científicas e tecnológicas, juntamente com outros órgãos e Ministérios do governo 79 . O Coltec foi concebido no momento em que a UFMG ao mesmo tempo procurava a expansão e o desenvolvimento da pesquisa; estruturava, para isso, seus 76 Ao longo da tese, aparecerão alguns nomes de membros do Conselho Britânico que estabeleceram o convênio de criação do Coltec. Fizemos algumas buscas na internet, mas não conseguimos encontrar maiores informações sobre esses ingleses, além das disponibilizadas nos documentos ou proferidas por nossos depoentes. 77 Anexo XII: Atas das reuniões do Conselho Universitário e da Coordenação de Ensino e Pesquisa (CEP) da UFMG (Disponilizadas pela coordenação da Secretaria dos Órgãos de Deliberação Superior - Sods). 78 Disponível no documento "Convênio para a criação e implantação do Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais" - Anexo I. 79 Disponível em: . Último acesso em: 02 ago. 2017. 109 programas de pós-graduação, e ainda vivenciava a Reforma Universitária. Inicialmente, na estrutura administrativa da Universidade, o Colégio Técnico, "unidade de ensino, treinamento e pesquisa” 80 estava ligado diretamente à reitoria. No dia seguinte à assinatura do convênio de criação, o jornal Correio da Manhã noticiava a vinda do Governo Federal a Belo Horizonte tendo, como uma de suas atividades, examinar a criação do Colégio Técnico na UFMG. Imagem 11: Recorte do jornal Correio da Manhã, de 28 de outubro de 1967. Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira O Coltec foi criado para formar recursos humanos para atuar, especialmente, nos laboratórios de pesquisa da universidade, impulsionando o desenvolvimento científico. De acordo com o convênio assinado, o Colégio teria como objetivo essencial manter: a) cursos de formação de técnicos e especialistas necessários à mão- de-obra qualificada que se destine às Universidades, à indústria, aos serviços de saúde e às pesquisas científicas ou tecnológicas; b) cursos intensivos para treinamentos e aperfeiçoamento de técnicos em serviço; c) curso para qualificar pessoal à condução de trabalhos, construção, manutenção e reparação de equipamentos eletrônicos, eletromecânicos e mecânicos; d) outros cursos de treinamento e qualificação de técnicos 81 . 80 Disponível no documento "Convênio para a criação e implantação do Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais" - Anexo I. 81 Disponível no documento "Convênio para a criação e implantação do Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais" - Anexo I. 110 O Jornal do Brasil, em 10 de novembro de 1969, também se referiu aos objetivos do Colégio Técnico, em matéria cuja manchete era: "UFMG formará técnicos de laboratórios médicos". Eis um trecho da notícia: Formar técnicos de nível médio para laboratórios médicos de pesquisa e industriais é o objetivo do Colégio Técnico da UFMG [...]. Os estudantes do Colégio Técnico da UFMG possuem bibliotecas, laboratórios, oportunidades de estágio e muitas possibilidades de ingresso na atividade profissional, porque em Minas, não há profissionais especializados para atender as necessidades do mercado. A partir do convênio firmado com a Inglaterra, caberiam ao Governo Britânico as seguintes contribuições: envio de sete especialistas ingleses, treinamento de oito elementos do pessoal brasileiro; e subsídio de quinhentos e cinquenta mil cruzeiros [55 mil libras esterlinas 82 ], aproximadamente, para aquisição de material específico 83 . Segundo Gledsom Coutinho, quando convidado a falar sobre a criação do Coltec: [...] os ingleses gostaram tanto do trabalho realizado pela Universidade que logo elevaram sua dotação para 400 mil libras esterlinas. A Inglaterra arcava com todo o material didático de laboratório e com os salários de peritos ingleses, que vinham para o Brasil treinar o pessoal recém-contratado para atuar no Coltec. O Governo Brasileiro, por sua vez, seria responsável por "fornecer as instalações necessárias dentro do campus da UFMG: móveis e equipamentos menores, ensino adequado e pessoal auxiliar e fornecer verbas para pagamento de despesas anuais 84 ", conforme detalha o diretor Gledsom: Os ingleses vinham para o Brasil e, com a assistência da Universidade, se instalavam. Ela alugava apartamentos e os mobiliava para eles. Quase todos moravam no bairro Barroca, relativamente novo, muito bom. Havia uma Kombi, com o tranquilo motorista Milton, que buscava os ingleses pela manhã em suas residências, próximas umas das outras. No horário do almoço, eram transportados para suas casas. Eram apanhados novamente depois do almoço e retornavam à tarde, por volta das 17 horas. Naquela época o trânsito tranquilo permitia deslocamentos rápidos. Para o Brasil, a criação do Colégio Técnico foi algo excepcional, uma vez que o país precisava "não só de pessoal de nível universitário, mas também de técnicos bem 82 Disponível no documento "Convênio para a criação e implantação do Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais" - Anexo I. 83 Fonte: Jornal Diário da Tarde, 03 de dezembro de 1970, p. 8. 84 Fonte: Jornal Diário da Tarde, 03 de dezembro de 1970, p. 8. 111 treinados para sua indústria, seus laboratórios e hospitais", como classificou o Sr. J. C. Peterson, ministro comercial do Reino Unido 85 . A Inglaterra, por sua vez, aparentemente, não contou com nenhuma contrapartida oferecida pelo Brasil. Por outro lado, é preciso lembrar que o mundo era muito diferente do atual: havia a chamada Guerra Fria. Tudo o que acontecia no mundo era ou a favor dos Estados Unidos ou a favor da Rússia [Referindo-se à União Soviética]. A Inglaterra, berço da Revolução Industrial, era muito sensível a isso. O que ela pudesse fazer para ajudar o Brasil ela faria, pois, dessa forma, ela dificultava que o Brasil fosse influenciado pelas esquerdas pró-Rússia. Os britânicos não gostariam que a miséria no Brasil o fizesse tender para a Rússia, esse é o meu entendimento. Não só a Inglaterra, os Estados Unidos também agiram dessa forma, conforme relatou nosso entrevistado Gledsom Coutinho, primeiro diretor do Coltec. Em dezembro de 1968, conforme o ofício nº 016/68 86 , o Coltec já contava com uma secretaria provisória, onde professores brasileiros e técnicos ingleses se reuniam para discutir sobre estudos, currículos, horários de aulas, aquisição de materiais, entre outros. Além disso, realizou-se a divulgação da criação do colégio, pela imprensa e por cartas, para todo o Brasil. Informava-se o período de inscrição (20/01/1969 a 14/02/1969) para o primeiro teste de seleção, que ocorreria em 21/02/1969. Uma carta do professor Gledsom Coutinho, dirigida ao então Reitor da UFMG, Professor Celso de Vasconcellos Pinheiro, datada de 18 de abril de 1978, informa que as aulas tiveram início em 28 de abril de 1969. Os cursos oferecidos naquele momento inicial se destinavam a formar técnicos de nível médio nas áreas de Patologia Clínica, Instrumentação, Eletrônica e Química. Os especialistas ingleses tiveram papel fundamental no desenvolvimento desses cursos. Na sua entrevista, o professor Gledsom, lembrando-se dessa época, nos disse que no início das aulas no Colégio, encontravam-se aqui quatro professores ingleses e o coordenador do grupo, James Marshall Messenger, substituído por William Saul, um pouco antes da minha saída. O professor Gordon Adams, do departamento de Biologia, foi o primeiro a deixar o Brasil (até quando eu saí, não havia sido substituído); o especialista em Técnicas de Laboratórios – Vidros, Neville Ward; Allan 85 Fonte: Jornal Diário da Tarde, 03 de dezembro de 1970, p. 8. 86 Ofício em que o coordenador do Coltec, Miguel de Souza, relata as atividades desenvolvidas no Coltec, disponível no “Trabalho Memória do COLTEC” - Anexo V. Em sua entrevista, Gledsom Coutinho narrou que o diretor do Colégio Universitário, Professor Miguel de Souza, havia assumido o cargo de diretor pro tempore do Coltec, tendo tomado algumas providências, como a seleção de professores e alunos. 112 Victor Cavalier, que atuava no departamento de Química, e o inglês Keith Roe, da Física. Na sequência, Gledsom deu mais informações: Os ingleses tinham um tradutor para ajudá-los no que fosse necessário. Ele os acompanhava diariamente. Era um jovem estudante de Direito, residente de Belo Horizonte, com mais ou menos 20 anos, muito educado e inteligente, chamado Antônio Augusto Cançado Trindade. Atualmente é renomado jurista brasileiro, membro do Tribunal Internacional de Justiça. Indagado sobre suas lembranças da instalação do Colégio e presença dos ingleses, Antônio Carlos, aluno da primeira turma, relatou que teve aulas, desde o primeiro ano, com professores ingleses: No primeiro ano tive aulas com o Mr. Ward, que lecionava Técnicas Gerais de Laboratório - TGL, onde tínhamos oficina de fotografia, mecânica, madeira e vidros. Nas aulas teóricas, esse professor tinha uma intérprete. A gente falava, ela traduzia. Ele perguntava, ela traduzia. As aulas expositivas eram todas com ela traduzindo. Ele até escrevia algumas coisas em português, mas não falava nada. Nas aulas de laboratório, havia dois técnicos brasileiros que traduziam as suas falas, durante as práticas. No segundo ano, nosso entrevistado teve aulas com o professor Anthony Goad, do setor de Instrumentação, e com Mr. Roe, que lecionava Técnicas de Laboratório e alguma disciplina relacionada a experimentos de Física. Ele já falava português de modo compreensível. Mas por vezes nós precisávamos nos virar com o inglês, a gente se arranhava, mas se entendia. Já no terceiro ano tivemos aulas com o Mr. Jackson, que já era da chamada segunda turma de ingleses. Ele era uma figura, rapidamente conseguiu se comunicar em português, mesmo que arrastando. A gente entendia bem as aulas dele, não precisava de intérprete. E, novamente, aulas com o Tony Goad, que também falou português brevemente. Depois que aprendeu, falava melhor que muita gente. Os cursos profissionalizantes eram estruturados em quatro anos, sendo que no primeiro, as matérias eram as mesmas do científico e havia aulas práticas de técnicas gerais de laboratórios (trabalho em vidro, madeira, plástico, metal). No segundo ano, eram acrescidas uma introdução em Física, Química e Biologia, disciplinas diretamente ligadas às matérias do terceiro ano, em que o aluno completava sua especialização. 113 Finalmente, no quarto ano, o aluno precisava fazer um "estágio em um laboratório da Universidade ou fora dela, com toda a assistência do Colégio" 87 . O professor Airton, questionado se na disciplina de Matemática havia vestígios da permanência dos ingleses no Coltec, disse que o currículo foi uma importante característica trazida pelos ingleses: Os alunos, no começo do primeiro ano, tinham a disciplina Técnicas Gerais de Laboratório - TGL, que incluía técnicas de laboratório de Física, técnicas de laboratório de Química, eles aprendiam a trabalhar em laboratórios. Aprendiam a medir e pesar. Estudavam sobre segurança de laboratório, marcenaria, hialotécnica. Para Airton, isso era uma herança da Inglaterra, onde essas disciplinas são usuais. Inclusive, quando ingressou no Coltec, ele questionou: Por que tem isso? E obteve como resposta: Porque os ingleses trouxeram, a gente acha interessante e foi ficando. Airton acrescentou: A disciplina TGL funcionava, ela moldava o aluno para o uso de laboratórios. Ela perdurou por muito tempo, até a reforma curricular, se não me engano. Período em que passa a ter o curso de nível médio, não técnico, aí tiraram TGL do primeiro ano. Talvez um pouco antes, não me recordo. Aí, hialotécnica e madeira se tornam uma única disciplina. Ou seja, o fato de termos marcenaria e oficina de vidros na escola até hoje é influência dos ingleses. Apesar do início das aulas do Colégio ter ocorrido em abril de 1969, a inauguração oficial ocorreu apenas em 02 de dezembro de 1970, com a presença do Ministro da Educação e Cultura, Sr. Jarbas Passarinho e de autoridades inglesas, como publicado em jornais da época. As imagens a seguir reproduzem recortes da imprensa alusivos à inauguração. Figura 12: Recorte do jornal Diário da Tarde, de 01 de dezembro de 1970. Fonte: Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa. 87 Fonte: Jornal Estado de Minas, 02 de dezembro de 1970, p. 7. 114 Figura 13: Recorte do jornal Diário da Tarde, de 03 de dezembro de 1970. Fonte: Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa. Figura 14: Recorte do Jornal do Brasil, de 01 de dezembro de 1970. Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira. No Arquivo de Antônio Cícero, encontramos fotografias que documentam a inauguração, das quais reproduzimos as duas a seguir. 115 Figura 15: Foto da inauguração do Coltec, na presença do diretor Gledsom Coutinho, do ministro da Educação Jarbas Passarinho, entre outras autoridades. Fonte: Arquivo de Antônio Cícero. Figura 16: Foto da inauguração do Coltec. Fonte: Arquivo de Antônio Cícero. Em 1977, foi encerrado o convênio do Coltec com a Inglaterra. Para Gledsom Coutinho O Colégio Técnico chegou a ser o maior projeto de ajuda externa do governo britânico na América Latina, e esta situação foi fruto dos bons resultados que a nova unidade apresentou, e da receptividade e apoio que a UFMG demonstrou até 1974. A partir dessa época houve visível desinteresse por parte da Universidade na manutenção do programa, e a ajuda britânica cessou 88 . Posteriormente, houve algumas iniciativas de retomar a colaboração dos britânicos. Em 1982, professores do Colégio fizeram uma visita à Inglaterra, conforme nos contou Gledsom: Alguns docentes do Coltec foram à Inglaterra, para cursos de capacitação. A ida para a Inglaterra estava restrita aos professores que trabalhavam no desenvolvimento de habilidades técnicas, de Química, Física ou Biologia. No entanto, a Diretora de Ensino, Ana Maria Moraes, possuidora de profundos conhecimentos pedagógicos, foi à Inglaterra como especialista de ensino. Além dela, o professor de Matemática, José Eloisio, também participou dessa viagem. Quando perguntado sobre as características das escolas visitadas na Inglaterra, ele nos relatou: Os ingleses ofereceram assessoria para a gente, me parece, por oito anos, desde a fundação do Coltec. Dessa forma, nós tínhamos muita ligação com a 88 Fonte: Carta do Professor Gledsom Coutinho, primeiro diretor do Coltec, dirigida ao então Reitor da UFMG, Professor Celso de Vasconcellos Pinheiro, datada de 18 de abril de 1978, p. 8, Anexo II. 116 Inglaterra. Eu e o Arthur 89 , por sermos os chamados "dinossauros", os "antigões" da escola, nos relacionávamos bem com os ingleses. Além disso, ele cursou o mestrado ou doutorado na Inglaterra. Esse conjunto de fatores facilitou a nossa ida. Nós já fomos com a programação prontinha. Chegando lá, todos já estavam nos esperando, foi muito tranquilo. Nessa ocasião tivemos contato, inclusive, com ingleses que auxiliaram no desenvolvimento do Coltec, não aqueles da criação do Colégio, mas outros que estiveram aqui, ao longo desses oito anos de assessoria britânica. Ainda sobre essa viagem, Antônio Carlos, ex-aluno e professor da área técnica, acrescentou: Uma equipe de oito professores do Coltec visitou algumas empresas da Inglaterra, com o objetivo de conseguir novos equipamentos, inclusive o Jed foi. Eu também estava nessa equipe. Ele continuou: Fizemos contatos com algumas companhias que produziam materiais didáticos e trouxemos algumas coisas. Esse contato era necessário, pois, com o avanço da tecnologia, com a transição das válvulas para circuitos integrados, os equipamentos do Colégio começaram a ficar obsoletos. Os equipamentos e livros vieram um pouco depois. Essa visita serviu, inclusive, para definir quais seriam os materiais a serem enviados. Chegando lá, nós nos dividíamos entre as empresas a serem visitadas, conforme o interesse de cada um. Ou seja, se uma companhia produzisse um material didático que só importasse ao Jed, então apenas ele ia a essa empresa. Enquanto isso, eu, por exemplo, poderia visitar uma fábrica que fornecesse equipamentos de interesse do curso de Instrumentação. Nas atas e circulares disponíveis na documentação guardada no Setor de Matemática, encontramos outras informações sobre a presença dos ingleses, após o término do convênio. Assim, em 1982, houve uma visita do Professor Cohwen, especialista em “Educação Comparada e Ensino do 2º grau”, que trabalhava no Instituto de Educação da Universidade de Londres, patrocinada pelo Conselho Britânico 90 . Em 1984, realizou-se o Seminário “Desenvolvimento de Currículo em Eletrônica e Instrumentação em Escolas de 2º grau”, resultante do convênio do Conselho Britânico e 89 Arthur Eugênio Quintão Gomes, Ph.D. em Science Education pelo King's College – University of London, Inglaterra. Mestre em Science Education e Especialista em Physics Teaching pelo Chelsea College – University of London, Inglaterra. Foi professor de Física e o sétimo diretor do Colégio Técnico da UFMG, de 1981 a 1984. Disponível em: < http://www.institutoavaliar.org.br/associados.asp>. Último acesso em: 25 ago. 2016. 90 Uma circular da direção do Colégio, datada de 30/08/82 e direcionada aos professores e funcionários, aborda o tema, solicitando que eles estivessem presentes no dia da visita e pedindo àqueles que tivessem domínio da língua inglesa que auxiliassem a recepcionar o visitante. 117 da OEA (Organização dos Estados Americanos), com a participação de professores do colégio e dos especialistas ingleses Ken Brown e David Kivers 91 . Em 1985, a direção do Coltec convidou representantes ingleses a virem ao Brasil para oferecer consultorias aos professores do Colégio. Nessa ocasião, o ex-aluno e professor do Colégio Antônio Carlos era o diretor. Quando pedimos a Antônio Carlos detalhes sobre a vinda dos ingleses ao Brasil (tempo e objetivos), ele nos relatou: Aproveitei o contato que estabelecemos quando estivemos na Inglaterra e trouxe alguns ingleses no início do meu primeiro ano de mandado. Eles vieram fazer seminários relacionados a métodos de ensino, utilização de recursos didáticos e desenvolvimento de currículos para as áreas técnicas. Não trouxeram equipamentos de laboratórios, apenas materiais de ensino. Eles ficaram aqui por 15 dias, sendo 10 dias de seminários. Os britânicos eram recebidos por nós, que os acomodávamos em hotéis e passeávamos com eles nas cidades históricas do estado, como Ouro Preto e Tiradentes. Todo início de ano o pessoal fazia uma espécie de preparação dos professores, com convidados diferentes, como os representantes ingleses. Nos eram oferecidos cursos rápidos sobre técnicas de ensino. Era uma preparação para os problemas que a gente ia enfrentar. Nos documentos encontrados no Setor de Matemática, também localizamos um convite aos professores para o seminário “Novas Alternativas de Cursos Técnicos”, com a participação da Diretoria Adjunta do Conselho Britânico 92 , que seria apresentado em 1986. Em uma das vindas dos ingleses, quando eu já trabalhava no Coltec, eles ofereceram cursos para todos os professores do Colégio, disse a professora de Matemática Tânia Ayer, ao ser indagada sobre as possíveis interferências dos ingleses no ensino de Matemática. Ela se lembrou de realizar um trabalho com canudinhos, para construção de sólidos geométricos, sob a orientação deles. Mas, segundo ela, a maior interferência dos ingleses era no Departamento de Física e nas disciplinas profissionalizantes. Traços dos contatos originais com a Inglaterra ainda permaneceram por muitos anos no Colégio. Como exemplo, o uniforme da escola, durante muito tempo, era 91 Convite emitido pela direção do Colégio em circular para os setores acadêmicos do Colégio (Informação extraída de notas de campo, em visita aos arquivos – sem indicação da data). 92 Informação disponível em uma Ata de Colegiado do Colégio (Informação extraída de notas de campo, em visita aos arquivos – sem indicação da data). 118 vermelho, azul e branco, em alusão às cores da bandeira da Grã-Bretanha. Outro exemplo era a Comemoração do Dia da Amizade: de acordo com o "Trabalho Memória do COLTEC/UFMG", essas marcas predominaram pelo menos até 2004. Ademais, como no "Open Door", evento tradicional da Inglaterra, havia uma data em que o Colégio abria suas portas para a comunidade escolar. Nesse evento, todos os setores participavam, apresentando exposições e demonstrações nos laboratórios e oficinas. A partir de 1984, o Dia da Amizade foi modificado e passou a ser uma data reservada a reflexões sobre programas de extensão do Coltec 93 . 2.2. Reflexos da Ditadura no Coltec 94 O Colégio Técnico, de acordo com a maioria dos nossos entrevistados, não foi alvo das influências do regime militar, uma vez que a escola era nova e seus alunos muito jovens, pouco envolvidos com as questões políticas e os movimentos estudantis, como relatou o professor Adilson 95 : No ano em que eu entrei no Colégio Técnico, eu não tinha informações sobre a ditadura, ou a respeito de lutas políticas e ações de organizações que envolviam estudantes. Mas, ao final de 1972, eu passei a ter uma maior percepção desse regime, embora não tivesse envolvimento, pessoalmente. Eu não via a presença de militares na escola. Se tinha, não era ostensiva. Corroborando a fala de Adilson, o professor Gilberto disse que não ouvia ninguém comentando sobre a ditadura, ou que, se isso acontecia, não lhe chamava a atenção. Continuou: Nem mesmo da parte do Departamento de Ciências Sociais, que lecionava História, Geografia e Organização Social e Política do Brasil. Na verdade, eu não me lembro bem. Mesmo tendo mencionado algumas intervenções, as narrativas dos entrevistados quanto a esse aspecto parecem contidas, quando comparadas às ações dos movimentos estudantis na universidade. Antônio, aluno da primeira turma, nos contou que: No período em que estudei no Coltec, 1969, 70, 71, vivenciávamos o regime da Ditadura Militar, aquelas proibições fortes dos Atos Institucionais. Como nós, alunos, 93 Informações obtidas no "Regimento do Conselho de Extensão do COLTEC", documento preservado no Setor de Matemática do Coltec. 94 Todos os nossos depoentes foram questionados sobre os reflexos da ditadura no Colégio. 95 Adilson ingressou no Colégio como aluno em 1970. 119 éramos muito novos, jovens, nós provocávamos, a gente fazia música de protesto, participávamos de festivais. No entanto, logo depois do diretor Gledsom, assumiu o Cássio Pinto 96 , que já possuía a experiência de barrar os militares da Escola de Engenharia, da UFMG, logo antes, quando foi diretor de lá. Então, mesmo que a gente fizesse alguma provocação, o Cássio enfrentava e proibia a entrada dos oficiais na escola. Por essas razões, nenhum colega meu foi preso. Talvez depois que eu me formei tenha ocorrido algo, uma vez que ainda tivemos um período complicado de Ditadura. Gledsom nos revelou que, no período de sua administração do Colégio, um aluno foi preso: O professor Napoleão 97 e eu fomos visitá-lo no Dops. Posteriormente, ele foi libertado e continuou sua vida normalmente. Veja que o professor Napoleão, embora militar, partidário da Revolução, visitou comigo um aluno preso. Napoleão foi o único militar que frequentou o Colégio Técnico no período da ditadura, e não me lembro de nenhuma restrição à conduta dele. De acordo com as conversas com nossos depoentes, o professor de Matemática Luiz Napoleão Moreira lecionava no Colégio Militar e no Coltec. Por ser militar, havia a suspeita de que fizesse parte do Sistema Nacional de Informações (SNI), que funcionava no período da ditadura e vigiava a comunidade universitária e seus dirigentes (MOTTA, 2014). Entretanto, conforme o trecho anterior, Gledsom não sustenta essa suposição. Referindo-se a Luiz Napoleão, Adilson disse: Eu não fui aluno dele. Havia comentários discretos, em surdina, da possibilidade de esse docente ser um informante do sistema. Que estaria na escola avaliando essa nova escola. Mas ele, pessoalmente, era muito educado, muito agradável. No trato com ele não havia nenhum sinal de excepcionalidade. Uma medida tomada pelo governo que interferiu no Coltec foi a inclusão do ensino obrigatório de Educação Moral e Cívica (EMC) nas escolas de todos os graus e modalidades, a partir de 1969 (Decreto n.869). A EMC teria por finalidade: a) a defesa do princípio democrático, através da preservação do espírito religioso, da dignidade da pessoa humana e do amor à liberdade com responsabilidade, sob a inspiração de Deus; b) a preservação, o fortalecimento e a projeção dos valores espirituais e éticos da nacionalidade; c) o fortalecimento da unidade nacional e do sentimento de solidariedade humana; d) o culto à pátria, aos seus 96 Cássio de Mendonça Pinto foi o segundo diretor do Coltec. A biblioteca do Colégio recebeu o seu nome, em sua homenagem. Também foi diretor da Escola de Engenharia no período de 1967 a 1970. 97 Luiz Napoleão Moreira, já falecido, lecionou no Coltec de 1969 a 1976. 120 símbolos, tradições, instituições e grandes vultos de sua história; e) o aprimoramento do caráter, com apoio na moral, na dedicação à família e à comunidade; f) a compreensão dos direitos e deveres dos brasileiros e o conhecimento da organização sócio-político-econômica do país; g) o preparo do cidadão para o exercício das atividades cívicas, com fundamento na moral, no patriotismo e na ação construtiva visando ao bem comum; h) o culto da obediência à lei, da fi delidade ao trabalho e da integração na comunidade (CUNHA, 2014, p. 369, grifos do autor). Inicialmente, não havia na escola professores dispostos a lecionar essa disciplina. Em alguns casos, para garantir o cumprimento do decreto, era necessário que o diretor ministrasse esse conteúdo. Gledsom Coutinho vivenciou essa fase e nos informou sobre alguns detalhes da inserção da EMC no Coltec. Na ocasião, nenhum docente do setor de Ciências Sociais do Coltec aceitou assumir as aulas, pois se tratava de uma disciplina representativa de um governo militar ditatorial. Além disso, o diretor da escola seria corresponsável pela disciplina em todos os seus aspectos. Para isso, poderia até mesmo selecionar pessoalmente o professor. Nem nos quadros do Colégio, nem fora dele, nem dentro da Universidade, em outras unidades, conseguimos um professor para a disciplina. Diante disso, convidei a minha irmã, que era advogada e possuía experiência de ensino em colégio privado, o Sagrado Coração de Jesus 98 , para lecionar essa disciplina. Felizmente, Zely Coutinho, minha irmã, aceitou o convite e ficou no Colégio durante muitos anos, até se aposentar. Antônio Carlos, que ingressou no Coltec em 1969, recordou a presença da Educação Moral e Cívica na escola. Eu não percebia que essa disciplina regulava nossas ações, porque os professores eram polarizados do nosso lado. Eles apenas nos mostravam o que estava sendo discutido, o que estava sendo falado a respeito da Ditadura. Nós podíamos opinar, colocar nossos pontos de vista, ninguém tentava nos conduzir. Em suma, ainda que aparentemente moderada, houve a participação de estudantes do Coltec nas manifestações contra a ditadura, como seria de se esperar, uma vez que o Colégio estava inserido em uma universidade politizada, com muitos 98 O Colégio Sagrado Coração de Jesus foi fundado em Belo Horizonte em 1911, inicialmente como um curso misto elementar, com duração de sete anos. "Em 1924, foi equiparado à Escola Normal Modelo de Belo Horizonte e, em 1929, foram fundados os cursos ginasial e científico". Desde 1980 oferece Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, no bairro Funcionários. Disponível em: < http:// www.sagradocoracaodejesus.com.br/>. Último acesso em: 10 maio de 2017. 121 estudantes, professores e funcionários contrários ao regime militar. Relatos da prisão de estudantes e o depoimento do ex-aluno Jenner testemunham algumas situações. Tenho lembranças de reflexos da Ditadura, nesse período. Recordo que um colega do Colégio foi preso. Ele desaparecia, ficava uma semana sumido; quando voltava, ficávamos sabendo que tinha sido preso. Contava com certo orgulho, né!? Mais de um colega, na verdade. Tínhamos alguns líderes lá no Coltec. Em especial, tinha o Marcos, "Marquinhos", conhecido por Jesus, por ser cabeludo e barbudo. Aliás, todos os contrários ao regime militar eram assim, tinham barba e cabelo comprido. Algumas vezes, chegava um dos líderes de movimentos, aluno do Colégio, interrompia a aula e nos convidava para realizarmos uma passeata rumo à reitoria. O professor encerrava a aula e saía todo mundo. Tinha muita passeata dentro da Universidade, iam para a reitoria, invadiam seu prédio, acampavam lá, várias vezes. Ou invadiam o restaurante da UFMG, tomavam conta e até cozinhavam. Ficavam uma semana lá. Eu não participei muito, porque eu não tinha jeito para a coisa. Mas eu acompanhei de longe. Como vim de um colégio mais tradicional, o Loyola 99 , eu achava o Coltec muito diferente. Eu tinha medo de participar dos movimentos, pois a polícia era muito violenta. Nós tínhamos notícias de alunos presos e machucados pelos policiais, então acredito que não me envolvia por medo. 2.3. Contexto e finalidades: permanências e mudanças Conhecidos alguns aspectos da origem e impactos do regime militar no Colégio, traremos, a seguir, parte do percurso dessa instituição ao longo do período investigado. Considerando a dificuldade de acesso às informações, iremos apresentar contextos e finalidades do Colégio Técnico nos períodos em que o acesso aos dados foi possível. No cenário inicial, a partir do final da década de 1960, o Estado decidiu não atender à demanda de escolarização superior, temendo o aumento do desemprego. Em contrapartida, conforme constava no Relatório do Grupo de Trabalho da Reforma Universitária de 1968, propôs a profissionalização do ensino médio, como esclarece Cunha (1980): 99 O colégio católico Loyola foi criado na cidade de Belo Horizonte, em 1943. No início eram apenas 33 alunos do sexo masculino. Na década de 1960, o colégio passou a receber também as meninas. Atualmente, o Colégio conta com cerca de 2600 alunos do Ensino Fundamental ao Ensino Médio. Disponível em: < http://www.loyola.g12.br/>. Último acesso em: 31 ago. 2016. 122 Os relatores imaginavam que a crescente demanda de ensino superior fosse devida ao conteúdo "geral" (isto é, não profissional) do ensino médio, o que obrigava seus concluintes a procurarem naquele uma habilitação profissional. De modo que, se o ensino médio passasse a ter um conteúdo profissional, muitos estudantes não seriam obrigados a demandarem as escolas superiores (pois já teriam uma habilitação) enquanto que outros, já trabalhando, teriam seu ímpeto diminuído pelo fato de poderem, com mais tranquilidade financiar novas tentativas (p. 246). A necessidade de conter a frustração dos concluintes do 2º grau que não conseguissem ou não quisessem ter acesso aos cursos superiores e a carência de técnicos de nível médio culminaram no decreto da Lei nº 5692, em 1971, que, sucintamente, propunha a profissionalização compulsória do ensino secundário (CUNHA, 1977) 100 . O prospecto do Colégio, supostamente de 1972 101 , informava: Não temos dúvida de que o Colégio Técnico terá papel de destaque na aceleração do nosso processo de desenvolvimento. As estatísticas mostram que a proporção entre o número de técnicos de laboratórios e de técnicos de nível superior aumenta à medida que o país mais se desenvolve. Infelizmente, no Brasil, essa proporção é ainda bastante pequena. Há, entretanto, entre nós, o máximo interesse em que cresça com o tempo, pois essa circunstância é fator de progresso. Esta é justamente, a grande missão das escolas técnicas de nível médio, entre as quais podemos atualmente contar com o Colégio Técnico do Centro Pedagógico da Universidade Federal de Minas Gerais, já inteiramente estruturado nos moldes da lei 5692/71. Nesse contexto, as vagas do Colégio Técnico eram destinadas, principalmente, a jovens que não desejavam ou não tinham meios de ingressar em cursos superiores 102 . Em 1973, o jornal O Globo noticiou: "A Universidade Federal de Minas Gerais é pioneira em toda a América Latina, na criação do Colégio Técnico onde os alunos estudam e são treinados, sem qualquer preocupação com o acesso à Universidade". Em continuidade, informava que os estudantes egressos do Coltec teriam assegurado um nível salarial que lhes permitiria aprofundar-se na pesquisa adequada ao curso escolhido, independentemente do acesso à universidade. 100 De acordo com Cunha (1980), uma consequência da aplicação da Lei 5692 foi uma diferenciação entre o ensino das escolas públicas, voltado ao trabalho, e o ensino das escolas privadas, que tendiam a ser profissionais apenas aparentemente, e focavam suas atividades na preparação para o vestibular. 101 O prospecto não indica o ano de publicação, entretanto, em um parágrafo do texto, há menção ao ano de 1973, com indícios de que seria o ano seguinte. 102 Fonte: Jornal Brasil, 17 de novembro de 1969 (Anexo VII). 123 Quanto às primeiras finalidades, de acordo com "Informações Gerais para alunos sobre o Colégio Técnico", de março de 1971, nos anos iniciais do funcionamento, o Coltec objetivava formar e aperfeiçoar Técnicos que venham a exercer suas atividades em laboratórios médicos, de ensino, de pesquisas ou industriais, ao mesmo tempo que, como cidadãos, sejam elementos dotados de elevado padrão moral, intelectual e cívico no seio da comunidade 103 . Entretanto, na administração de Gledsom Coutinho (1969 - 1971), ele observou um elevado interesse dos estudantes pelas disciplinas básicas, assuntos do vestibular, ainda que eles e elas tivessem curiosidade pelas oficinas de mecânica, madeira, hialotécnica e laboratórios médicos, relativas às disciplinas técnicas. Temendo que o Coltec se tornasse uma instituição convencional, de alto custo, de preparação para o vestibular, a direção e professores do Colégio, apoiados pela reitoria, destinaram parte de suas vagas a alunos de classes menos favorecidas. Isso proporcionaria uma profissão satisfatória a jovens com dificuldades de acesso a cursos superiores, 104 como Gledsom explicou durante nossa conversa, quando interrogado acerca da existência de cotas para ingresso no Coltec: Nós tínhamos muito medo de o Colégio se descaracterizar e se transformar em um colégio convencional. Para que os egressos tivessem interesse em exercitar a profissão para a qual seriam preparados, criamos cotas, reservando vagas para estudantes de baixa renda ou da zona rural, que supostamente teriam menor probabilidade de continuar os estudos, em nível superior, pelo menos imediatamente. Nosso intuito era receber o maior número de alunos com potencial para abraçar a carreira de técnico de laboratório. Apesar dessa reserva, um bom número de vagas era direcionado para quaisquer candidatos, que independia da renda ou local de moradia. A partir do exame de seleção de 1971, as 125 vagas foram reservadas para os candidatos da seguinte forma: Grupo "A" - 20 vagas - Para filho de proprietário rural que resida no imóvel, dirija pessoalmente, não tenha outra atividade lucrativa. Que o imóvel não tenha tido renda anual superior a Cr$4.500,00. - Também filhos de meieiros, parceiro, arrendatário, etc. 103 Documento disponível no Anexo VIII. Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 104 Carta do Professor Gledsom Coutinho, primeiro diretor do Coltec, dirigida ao então Reitor da UFMG, Professor Celso de Vasconcellos Pinheiro, datada de 18 de abril de 1978 - Anexo II. 124 Grupo "B" - 20 vagas - Para filhos de servidor público federal, estadual ou municipal. Civil ou militar com vencimento, no máximo, de 03 salários mínimos regionais. Grupo "C" - 50 vagas - Para filhos de trabalharadores filiados a qualquer sindicato que mantenha convênio com o PEBE 105 . Grupo "D" - 50 vagas - Poderá inscrever-se qualquer candidato 106 . Conjuntamente, o jornal Diário de Notícias publicou uma matéria em que o Reitor da UFMG, Marcelo de Vasconcelos Coelho, era enaltecido por ter criado "oportunidades aos filhos de trabalhadores urbanos e rurais, filiados a sindicatos, para formação técnica de nível médio". E ainda noticiou: "Trata-se de um iniciativa pioneira no campo educacional que beneficia, no Colégio Técnico da UFMG [...], além de trabalhadores sindicalizados, os filhos de funcionários públicos civis e militares, com baixa renda familiar" 107 . Essa intenção de criar vagas em cursos técnicos para jovens de classes mais pobres tem sua origem nas primeiras instituições de ensino profissional, as Escolas de Aprendizes, criadas em 1909. Na Constituição Federal de 1937 (Art. 129) 108 , esse propósito fica evidente: "É dever das indústrias e dos sindicatos econômicos criar, na esfera da sua especialidade, escolas de aprendizes, destinadas aos filhos de seus operários ou de seus associados". Antônio Carlos, aluno da primeira turma, integrava esse público-alvo. Segundo ele, ao lhe perguntarmos sobre a classe econômica dos alunos, no período em que estudou no Colégio: No início do Colégio, não tinha muitos alunos de classe socioeconômica muito alta. Era muita gente parecida comigo, alunos que pretendiam fazer o curso para fazer a vida. Eu mesmo, quando ingressei no Coltec, não pensava em fazer curso superior, eu queria mesmo era fazer curso técnico. Entretanto, Antônio, além de atuar como técnico, ingressou na Universidade. Nossas investigações nos apontam que, em termos práticos, considerando nossos depoentes e conversas 105 O Programa Especial de Bolsas de Estudo (Pebe) foi instituído em 1966, com "a finalidade de propiciar ensino a trabalhadores sindicalizados, empregados de entidades sindicais de todos os graus e categorias, seus filhos e dependentes, nas quatro últimas séries do 1º grau e em todas as séries do 2º grau, bem como no ensino superior em carreiras prioritárias, seja através de bolsas de estudo ou sob modalidade outra de apoio financeiro julgada mais conveniente" Disponível em: < http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1970-1979/decreto-75781-27-maio-1975-424296- publicacaooriginal-1-pe.html>. Último acesso em: 23 nov. 2016. 106 O relatório do trabalho desenvolvido pela comissão instituída pela diretoria, em 1989, para analisar o exame de seleção do Coltec, disponível no Arquivo Permanente - Anexo IV, descreve a destinação das vagas para matrícula no Coltec de 1969 a 1989. 107 Fonte: Jornal Diário de Notícias, de 14 de fevereiro de 1971. 108 Disponível em: < https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10614355/artigo-129-da-constituicao-federal- de-10-de-novembro-de-1937>. Último acesso em: 18 abril 2017. 125 informais, o Coltec formou muitos técnicos que continuaram os estudos em nível superior, como será discutido no Capítulo 3. O Coltec oferecia os cursos técnicos de Patologia Clínica, Instrumentação, Eletrônica e Química, em horário integral, de 07:30 às 17:30h 109 . Por volta de 1989, houve algumas investidas para a criação do curso de Biotecnologia, com o apoio de docentes do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. Essa discussão perdurou por alguns anos, mas esse curso nunca foi oferecido pelo Colégio. Em 2008, o curso de Informática foi instituído no Coltec, que totalizou o oferecimento de cinco cursos técnicos. O prospecto de divulgação do Colégio, que acreditamos ter sido produzido para divulgação referente ao ingresso dos estudantes em 1973, contém imagens ilustrativas de três dos quatro cursos oferecidos naquele ano. Figura 17: Laboratório de Eletrônica. Fonte: Prospecto do Colégio Técnico (1972/1973), disponível no Arquivo Permanente do Coltec (Anexo XI). Figura 18: Laboratório de Instrumentação. Fonte: Prospecto do Colégio Técnico (1972/1973), disponível no Arquivo Permanente do Coltec (Anexo XI). Figura 19: Laboratório de Química. Fonte: Prospecto do Colégio Técnico (1972/1973), disponível no Arquivo Permanente do Coltec (Anexo XI). 109 O curso de Patologia Clínica aparece com a denominação "Laboratórios Médicos" em alguns documentos. A partir de 2014, após a reformulação do Catálogo Nacional dos Cursos Técnicos, esse curso passa a ser designado por "Análises Clínicas". No mesmo ano, o curso de "Instrumentação" passou a ser denominado "Automação Industrial". 126 No decorrer de seu funcionamento, pareceu ser crescente o interesse dos estudantes pelo ensino de qualidade oferecido pelo Colégio. Poliana, que realizou seu curso no período de 1981 - 1983, quando interrogada sobre a relevância do Coltec na UFMG, nos disse: Era uma escola experimental, em que todo mundo ansiava por estudar ou ter um filho que estudasse, pois era bem considerada. Os laboratórios, todos muito equipados, eram o seu diferencial. Dentro da universidade, todos sabiam que o Coltec era bom. Além disso, como observa Cunha (1980), era comum os alunos ingressarem no ensino profissionalizante e concentraram seus esforços nas disciplinas-chave para os exames vestibulares. E no Coltec não foi diferente, como já havia notado o diretor Gledsom, no início da década de 1970. Gilberto, estudante do Colégio de 1980 a 1982, ao nos apresentar o seu diploma, relatou: Em 1982, eu conclui o curso técnico de Química. [...] meu diploma é de 1983, porque a gente recebia apenas um certificado, ao final do 3º ano, que possibilitava o nosso ingresso na UFMG. Como quase todo mundo passava direto no vestibular, nós conseguíamos esse documento para matrícula. [...] A gente só concluía formalmente o curso depois do estágio 110 . Por outro lado, com o diploma de técnico os estudantes poderiam alcançar empregos que financiariam novas tentativas nos vestibulares, em caso de reprovação (CUNHA, 1980). O ex-aluno Antônio Carlos (ingresso em 1969), por exemplo, ao ser perguntado sobre sua formação em nível superior, nos contou: eu tinha colegas que realmente queriam trabalhar como técnicos. Mas todos tinham condições de passar no vestibular, e a gente era aprovado, todos, acho que até hoje. [...] Inicialmente, eu prestei vestibular para Engenharia Elétrica, na Federal. Me lembro que esse curso era muito concorrido, eu não passei. Aí eu pensei: “Olha, gente, eu tenho que dar um jeito, não posso ficar sem estudar não, porque eu perco o ritmo”. Ele atuava como técnico na RCA Victor, empresa que fabricava discos de vinil, dentre outras coisas. Nesse mesmo ano, fez vestibular e foi aprovado no curso de Licenciatura em Matemática, na Fafi- BH 111 , que é privada. Antônio nos explicou: Achei legal, pude estudar, cursar Cálculo. 110 A lei 5692/71, através do Art. 23, possibilitava que os alunos de colégios técnicos recebessem, ao final do 3º ano, o certificado de conclusão de 2º grau, enquanto o diploma de técnico só era entregue após a conclusão do estágio. A lei 7044/82 revogou esse artigo e declarou que o aluno do curso técnico só concluiria o 2º grau após ter realizado o estágio obrigatório. 111 A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte foi fundada em 1964, inicialmente, com quatro cursos: História, Letras, Matemática e Pedagogia. Quando inaugurada, localizava-se no anexo do Colégio Estadual, no bairro Gameleira. Um ano depois, mudou-se para o bairro Lagoinha. Em 1999 a Fafi-BH se tornou Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH que, atualmente, oferece mais de 50 cursos de graduação e dezenas de cursos de pós-graduação, em suas quatro unidades. Disponível em: < 127 Mas pensava: "Eu vou fazer essa Matemática aqui, mas eu vou tentar Engenharia de novo". Entretanto, sua carga horária e rotina de trabalho na RCA Victor não favoreciam seus estudos, o que o fez tomar uma iniciativa: Decidi, portanto, procurar outro emprego, mudar de área. Surgiu, então, a oportunidade de atuar no Colégio Técnico, junto ao professor Tony Goad, lecionando uma disciplina chamada Prática Profissional, que envolvia experimentos de manutenção, muito próximos aos que eu estava acostumado a realizar na indústria. Fiz o concurso e fui selecionado. Ao sair da RCA para trabalhar no Coltec eu passei a receber um pouco menos, mas aí eu teria condições de estudar à noite, por exemplo na PUC 112 , ou ajustar os meus horários para estudar na própria Federal 113 . [...] Por volta de 1974, eu passei no vestibular da UFMG e comecei o curso de Engenharia Elétrica. Ajeitei a minha vida para fazer o curso mais devagar, pois eu não tinha condições de fazê-lo rápido, porque eu tinha que dar muitas aulas no Colégio. Aparentemente, até meados de 1985, o Colégio não contava com regimento interno próprio, seguindo, portanto, as normas da Universidade. Em entrevista concedida aos estudantes do Colégio, durante o "Trabalho Memória do COLTEC/UFMG", o diretor Arthur Eugênio Quintão Gomes (1980 - 1984), quando indagado sobre as principais dificuldades encontradas na direção do Coltec no período entre 1983 e 1984, disse: "A principal dificuldade era que trabalhávamos sem um regimento. O regimento do Coltec foi formulado somente em 1986 através de resoluções criadas nas gestões anteriores, inclusive a minha". Iniciou-se, então, a elaboração do Regimento do Colégio Técnico, que foi publicado em junho de 1985. No seu "Histórico" é informado: Art. 1º - O presente Regimento, pelo qual se estabelecem as normas de estruturação a funcionamento do COLTEC, tem por base as disposições do Estatuto e do Regimento Geral, bem como de Resoluções Complementares dos Ordenamentos Básicos da UFMG. É relevante notar, nessa regulamentação, que a diversidade das atividades que vinham sendo desenvolvidas no Colégio Técnico altera suas finalidades. No Regimento de 1985, além da finalidade "I", que se assemelha à finalidade do início de seu http://arvoredecomunicacao.com.br/unibh-50-anos-formando-profissionais-competentes/>. Último acesso em: 25 out. 2016. 112 Pontifícia Universidade Católica. 113 UFMG. 128 funcionamento, "Ministrar cursos profissionalizantes do ensino do 2º Grau com vistas à formação e aperfeiçoamento de técnicos que venham a exercer atividades nas áreas de saúde, indústrias e de pesquisa tecnológica e científica, ou outras, de conformidade com as exigências do meio social e econômico", o Colégio incluiu os seguintes objetivos: II - Atuar como campo de experimentação para fins de pesquisa e estudos de problemas educacionais. III - Desempenhar atividades de extensão que possibilitem o aperfeiçoamento profissional e pessoal vinculado à Universidade e à comunidade com especial atenção para os programas destinados a docentes de 1º e 2º Graus. IV - Servir à comunidade como centro de orientação e renovação educacional propiciando intensificar o desenvolvimento da interrelação universidade/comunidade. Assim, em certo momento, o Coltec passou a promover relações com outras unidades da Universidade, visando realizar estudos, estágios e pesquisas na área educacional 114 . Nesse sentido, estudantes dos cursos de licenciatura da UFMG, nas diferentes áreas, passam a acompanhar o trabalho de professores do Colégio, em disciplinas de estágio supervisionado. Além disso, a escola se torna campo de pesquisa e disseminação de práticas de ensino e aprendizagem, como será descrito posteriormente. O Regimento de 1985 também esclarece que a organização administrativa do Colégio é composta de: Colegiado, Diretoria, Coordenação Pedagógica, Setores de Ensino, Biblioteca e Serviços Técnicos e Administrativos, Centro de Extensão e Grêmio Estudantil. Nesse período, o Colégio Técnico integrava o denominado Centro Pedagógico 115 , que também absorvia a Escola de Primeiro Grau. Dessa forma, na organização institucional, também era regido pelo Colegiado Superior e pela Diretoria Geral do Centro Pedagógico. Além disso, no cenário da UFMG, era regido pelo Conselho Universitário e pela Coordenação de Ensino, Pesquisa e Extensão. De acordo com o Esboço do Guia do Aluno (1996/1997), os objetivos e finalidades do Coltec parecem não ter sofrido grandes mudanças, se comparados ao 114 Fonte: Regimento do Colégio Técnico - Anexo X. 115 O nome "Centro Pedagógico" foi destinado, em 1968, ao antigo "Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia", que integrado à Faculdade de Educação da UFMG, oferecia cursos de 1º e 2º graus. Em 1972, foi transferido para o campus da Pampulha e passou a ter uma escola de 1º grau e o Coltec (chamado de "Colégio Técnico do Centro Pedagógico da UFMG"). Em 1997, a escola de 1º grau passa a ser denominada "Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG". Em 2007, é criada a unidade especial "Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG", que engloba o Centro Pedagógico (Assim chamada a escola de ensino fundamental - CP), o Colégio Técnico (COLTEC) e o Teatro Universitário (TU). Disponível em: < http://www.cp.ufmg.br/index.php/historico>. Último acesso em: 21 ago. 2017. 129 Regimento de 1985. Nesse documento, os objetivos do Coltec são: "formar técnicos a nível de segundo grau e atuar como campo de experimentação pedagógica e treinamento de recursos humanos para a área da educação". Conforme informado anteriormente, a escola mantinha, nessa época, quatro cursos, e exigia o cumprimento do estágio curricular para a obtenção do diploma de técnico. Observa-se, ainda, o constante interesse dos egressos pelo Ensino Superior 116 . Em dezembro de 1996, a Lei nº 9394 revogou a Lei nº 5692, que profissionalizava o Ensino de 2º Grau. A Lei nº 5692, por sua vez, foi alterada pela Lei nº 7044, em 1982. Em atendimento à Lei 9394, a partir de 1997, o Coltec passa a oferecer as modalidades de cursos médio e técnico concomitante, o que marca o fim do recorte temporal desta pesquisa. 2.4. O ingresso dos estudantes no Colégio O Colégio Técnico da UFMG, desde o seu início, chamou a atenção dos jovens, como noticiou o jornal Diário da Tarde, de dezembro de 1970: "O interesse do estudante pelo Colégio vem aumentando de ano para ano e em seu primeiro vestibular selecionando os candidatos, inscreveram-se 540 estudantes, disputando as 80 vagas 117 . No segundo ano este número aumentou e passou de mil, entre moças e rapazes" (p.6). Gledsom Coutinho, em carta enviada ao então reitor professor Celso de Vasconcellos Pinheiro, reforçando essa ideia, avaliou que, graças ao esforço da diretoria brasileira e dos assessores estrangeiros, o Colégio Técnico "conseguiu impor-se como uma unidade bastante organizada e que ministrava um ensino de alta qualidade". Na sequência, Gledsom Coutinho escreveu: "Como consequência, no seu segundo exame de seleção candidataram à matrícula mais de 900 jovens 118 ". Esse exame, para ingresso em 1970, foi realizado na Escola de Engenharia da UFMG, então situada no centro de Belo Horizonte, com a oferta de 103 vagas 119 . A 116 Não encontramos atualizações do Regimento de 1985 no período investigado. 117 De acordo com o trabalho desenvolvido pela Comissão para analisar o processo de Exame de Seleção do Coltec, de 1989, em 1969 o Colégio ofereceu 72 vagas. (Anexo IV). 118 Carta do Professor Gledsom Coutinho, primeiro diretor do Coltec, dirigida ao então Reitor da UFMG, Professor Celso de Vasconcellos Pinheiro, datada de 18 de abril de 1978 - p. 7, Anexo II. 119 No segundo vestibular, realizado em 1969, para ingresso em 1970, além de 94 aprovações, cerca de 30 estudantes que haviam conseguido média de aprovação mas não haviam sido classificados foram integrados ao Coltec por decisão do reitor, Marcelo Vasconcelos Coelho, que estava em seu primeiro dia de trabalho nessa função (Fonte: Jornal do Brasil, 17/12/1969). A reportagem não explicita os critérios da seleção que levaram esses alunos a não serem classificados. 130 seleção era realizada por meio de uma prova de múltipla escolha com questões sobre Português, Matemática, História, Ciências Naturais e Conhecimentos Gerais 120 . Ex-alunos do Coltec nos relataram lembranças de seus exames de seleção. Antônio Carlos, aluno da turma de 1969, recordou-se: Lembro-me que prestei uma prova classificatória para entrar, que foi realizada lá no estádio Mineirão 121 . Eram muitos candidatos, não caberiam no Colégio. Sentávamos nas arquibancadas com a prova afixada em uma prancheta. Assim como ele, Alberto, que ingressou em 1974, contou: Eu fiz prova para ingressar como estudante, ela foi realizada lá no Mineirão, com muita gente nas arquibancadas, sobre o cimento duro. Eles forneciam uma prancheta para apoiarmos. Nos dois primeiros anos, uma parte das vagas do Coltec eram reservadas para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que poderia indicar estudantes residentes em outros Estados do Brasil. Em 1969, o CNPq contou com 21 vagas e, em 1970, apenas cinco 122 . O Conselho disponibilizava recursos para o pagamento de bolsas a esses estudantes. Inevitavelmente, as vagas para estudantes de outros estados não eram preenchidas. Afinal, não havia tanta facilidade para um menino de 15 ou 16 anos sair do Rio Grande do Sul, por exemplo, e vir estudar aqui, como disse Gledsom Coutinho, primeiro diretor. Paralelamente, quando Adilson Assis estava terminando a 8ª série, a diretora de sua escola, a Revma. Irmã Annette M. A. Silva, na cidade de Marliéria - MG, soube da existência do Colégio Técnico. Quando perguntado sobre suas motivações para escolher o curso de Eletrônica e o Coltec, Adilson contou: Ela soube que ele havia sido implantado e veio visitá-lo, aqui em Belo Horizonte. Em seguida, retornou à minha escola, chamou a turma da 8ª série, e contou que tinha conhecido uma instituição com determinadas características, que era uma proposta boa, e nos incentivou a fazermos a prova aqui. Foi assim que eu e um grupo de umas dez pessoas viemos para cá, realizar esse concurso, no prédio da Escola de Engenharia, na Avenida do Contorno. Desse modo, Adilson Assis ingressou na segunda turma do Colégio, em 1970. Conhecendo a história dessa diretora e de seus alunos, Gledsom decidiu falar com a Irmã Annette, diretora do Colégio Liberato de Castro. Nosso depoente nos 120 Fonte: Jornal do Brasil, 10/11/1969. 121 Estádio Governador Magalhães Pinto, situado nas proximidades do campus da UFMG. 122 Fonte: Exame de Seleção do Coltec, disponível no Arquivo Permanente - Anexo IV. 131 relatou esse diálogo: Vá ao Rio, ao CNPq, e peça as vagas deles que não foram aproveitadas por outros estados. Seguindo orientações do diretor, em fevereiro de 1970 ela solicitou ao CNPq bolsas para estudantes de baixa renda de sua escola. Gledsom acrescentou: ela conseguiu cinco vagas, dentre elas, a do professor Adilson Assis, que se formou técnico, tornou-se professor do Coltec, onde leciona até hoje, e foi Diretor Geral por duas vezes. Também em 1969, o CNPq concedeu bolsas de estudo e bolsas de alimentação, através da Fundação Mendes Pimentel - Fump 123 , para os alunos que comprovavam carência de recursos. Os valores variavam de NCr$75,00 a NCr$ 225,00, conforme as necessidades dos requerentes, após aprovação nos exames 124 . No ano seguinte, o ministro da Educação Jarbas Passarinho assinou um convênio em favor do Coltec, que previa "a liberação de uma verba de 200 mil cruzeiros para assistência ao estudante carente de recurso". Vinculados à Fump, esses alunos eram divididos em três graus. "Aos necessitados de 1º grau cabe uma bolsa de um e meio salário míniomo. Aos de segundo grau um salário e para os de terceiro, meio salário 125 ". Em 1971, as 125 vagas foram selecionadas com base em quatro grupos, discriminados por faixas socioeconômicas, conforme descrito na seção anterior. Em 1972 e 1973 foram disponibilizadas 80 vagas, novamente separadas em grupos, desta vez assim caracterizados: Grupo "A" - Para filhos de sindicalizados rurais. Grupo "B" - Para filhos de trabalhadores filiados a qualquer sindicato inserido no PEBE (urbano). Grupo "C" - Para qualquer candidato. Em 1974, as 80 vagas foram divididas, igualmente, entre dois grupos: "A" - Filhos de trabalhador rural sindicalizado ou filho de trabalhador filiado a qualquer sindicato (urbano) e "B" - Qualquer candidato. Nos anos de 1975 e 1976, metade das vagas foram reservadas para filhos de trabalhadores filiados a sindicatos inscritos no Pebe, um quarto para filhos de servidores 123 A Fump é uma instituição sem fins lucrativos, controlada pela UFMG, e “tem como missão prestar assistência estudantil aos alunos de baixa condição socioeconômica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)". Disponível em: .Último acesso em: 26 set. 2016. 124 Fonte: Jornal do Brasil, 10 de novembro de 1969, e Jornal do Brasil, 17 de novembro de 1969. 125 Fonte: Jornal Diário da Tarde, 03 de dezembro de 1970, p. 8. 132 da UFMG e o restante para filhos de professores da UFMG, ou funcionários que ocupassem cargos que exigissem diploma de nível superior. A partir de 1977, parte das vagas passam a ser reservadas para o Centro Pedagógico, escola de ensino de 1º Grau da UFMG. Nos anos de 1977 e 1978, por exemplo, a divisão das vagas foi a seguinte: 120 vagas 50 Centro Pedagógico 70 para Seleção "A" - Para filhos de trabalhador filiado a qualquer sindicato que tenha convênio com o PEBE. "B" - Para filhos de servidor da UFMG. "C" - Para filhos de professor da UFMG ou que ocupe cargo que exija diploma de nível superior. Em 1979, o Colégio Técnico absorveu treze professores do convênio Finep 126 /UFMG/Coltec e ampliou suas vagas para 210 (65 reservadas para o Centro Pedagógico e 145 para o concurso). Excepcionalmente, no ano de 1980 a entrada de alunos no Coltec se deu exclusivamente por concurso público, de acordo com escalas socioeconômicas, ou seja, considerando o rendimento mensal familiar 127 . De 1981 a 2015, os egressos do Centro Pedagógico tiveram o direito de admissão direta no Colégio Técnico, sendo as demais vagas distribuídas, na seleção, considerando faixas socioeconômicas e/ou escola de origem (pública ou privada) 128 . Uma de nossas depoentes, Poliana, que ingressou no Colégio em 1981, ao ser questionada sobre sua forma de ingresso no Colégio, recordou-se de ter participado de um sistema de reserva de vagas: No concurso que fiz para ingressar no Colégio, participei de um sistema discreto de cotas, que considerava a renda familiar. Eu era pobre, não podia pagar escola particular. Como o Coltec era muito reputado, a minha mãe me incentivou a fazer a prova de seleção. 126 Com sede no Rio de Janeiro, a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) foi criada em julho de 1967 para financiar a elaboração de estudos para projetos e programas de desenvolvimento econômico, mas também para atuar no aperfeiçoamento da tecnologia nacional. Disponível em: < http://www.mcti.gov.br/finep>. Último acesso em: 03 ago. 2017. 127 Ver Anexo IV. 128 Em 2014, os termos da Lei nº 12.711/2012 e do Decreto nº 7.824/2012, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão - Cepe/UFMG, decidiram extinguir gradualmente a reserva de vagas para egressos do CP. Ficou estabelecido o percentual de 75% e de 50% do número atual de vagas para os egressos do CP, nos anos de 2016 e 2017, respectivamente. Dessa forma, a partir de 2018 não estão previstas vagas exclusivas para estudantes do CP. 133 Alberto, que entrou no Coltec em 1974, quando perguntado sobre as salas de aula, falou dos seus colegas: A minha turma era muito misturada. Havia filhos de peão, filhos de juiz e filhos de professores. Esses últimos, extremamente sofisticados. Eram dois extremos, havia eu, que tinha a roupa do corpo e a outra que estava lavando, e o filho do juiz. Tenho consciência da existência de dois públicos de alunos no Coltec. Segundo Alberto, os alunos oriundos do Centro Pedagógico eram de elite: Quando eu estudei no Colégio, os alunos do CP eram sofisticados, tocavam instrumentos, eram filhos de professores. Além deles, havia os que realizavam concurso, que eram o povo. Talvez, devido à existência de reserva de vagas no exame de seleção. O Centro Pedagógico, em certo período, adotava testes de conhecimento para ingresso de seus alunos ou reservava vagas aos filhos de funcionários e professores da Universidade, o que causava essa percepção de que os estudantes oriundos do CP eram “elitizados”. No entanto, a partir de 1993, o procedimento de seleção do CP passou a ser sorteio, o que favoreceu a entrada de estudantes de diferentes classes sociais, notadamente as camadas sociais de média e baixa rendas. Mas, vale ressaltar que as distinções entre os públicos de alunos oriundos do concurso e do Centro Pedagógico vão além das classificações econômicas: elas abrangem rendimento escolar, empenho, comportamento, comprometimento e estilo, como veremos no Capítulo 3 (VILLAS, 2009). Havia, ainda, estudantes filhos de funcionários públicos federais que, ao serem transferidos, tinham assegurada a vaga em colégios da rede federal. O ex-diretor Arthur Eugênio, em entrevista concedida no “Trabalho Memória do COLTEC”, relatou: "Era muito comum na época a transferência de militares e o COLTEC absorvia as filhas desses militares porque o Colégio Militar 129 não aceitava mulheres". Outro aspecto a ser considerado é a existência de trotes e calouradas no Colégio, como nos narraram alunos das décadas de 1970 e 1980. Por exemplo, Alberto, ao responder sobre as salas de aula da escola, disse: Na minha entrada no Colégio eu sofri trote, mesmo as Calouradas não sendo muito organizadas. Havia muita tinta, muita sacanagem. Eu não gostava daquela bagunça, não via sentido naquilo. Felizmente passou, foi rápido. Melhor seria se houvesse um movimento de interação das turmas, mas não era assim. Gilberto também se queixou: Os trotes eram muito puxados, eram impressionantes. Os alunos, praticamente, precisavam vir com a mesma 129 Trata-se do Colégio Militar de Belo Horizonte. 134 roupa a semana inteira e, posteriormente, jogá-la fora. Não tinha o que fazer com essa roupa, pois o pessoal jogava até óleo queimado na gente. Era um absurdo o que acontecia, além do que era quase impossível fugir disso. Alguns trotes, por outro lado, eram até interessantes: estudantes que se passavam por professores e começavam a dar aulas falsas e veteranos que pegavam nossas fotos, faziam carteirinha para o circular (transporte/ônibus de uso interno da Universidade), depois pregavam no mural dos "trouxas". 2.5. Espaços e Tempos Figura 20: Portaria do Colégio Técnico. Sem data. Fonte: Site do Colégio O Coltec foi instalado no campus da UFMG, em Belo Horizonte, no local onde funcionava o “Instituto de Mecânica”, que sofreu adaptações físicas para o funcionamento do colégio. De acordo com o documento "Informações gerais sobre o Colégio Técnico da UFMG" de 1971 (Anexo XIV), o prédio foi ampliado de 3318 m 2 para 4470 m 2 , separados em dois pavimentos. Possuía excelente iluminação natural, pé direito superior a quatro metros, o que permitia uma ótima aeração. A disponibilidade dessa construção interferiu na decisão de instalar o Coltec na UFMG, conforme a carta do Gledsom Coutinho ao Reitor da UFMG. O prédio inicialmente destinado ao "Instituto de Mecânica", onde chegou a funcionar a Oficina Didática da Escola de Engenharia de 135 1965 a 1968, mesmo terminado parcialmente, estava com mais de 80% da sua capacidade ociosa quando autoridades britânicas visitaram quatro ou cinco estados do Brasil com a finalidade de selecionar o local onde seria instalado o Colégio. Felizmente, a disponibilidade de área no prédio mencionado funcionou como fator ponderável no processo de seleção e os técnicos britânicos optaram pela criação da unidade na UFMG (Anexo II). Na capa do panfleto de divulgação do Coltec, com que Gledsom Coutinho nos presenteou, há uma foto do prédio do Colégio em 1969 (figura a seguir). Diante dessa imagem, ele comentou: Era o que existia do prédio. Por coincidência eu trabalhei nesse prédio durante quase três anos, quando entrei na UFMG, pela Engenharia Mecânica, em 1966. Naquela época, na maior parte do prédio, havia apenas um piso. Depois, esse espaço foi divido por um plano horizontal em dois andares. Figura 21: Capa e contracapa do panfleto de divulgação do Coltec – 1969. Fonte: Folheto disponibilizado pelo ex-diretor Gledsom. O Colégio Técnico, em 1969, ainda não estava pronto, como descreveu Antônio Carlos, aluno da primeira turma 130 : Os colchões da Educação Física, por exemplo, estavam todos nos corredores, a gente fazia uma farra. Sentíamos também que havia algumas improvisações. Tinha uma sala que dava uma ressonância muito grande, de modo que precisaram mudar, acho que virou biblioteca. Eles foram adequando. O Coltec era praticamente aquele corredor comprido, que deve ter mais de 100 metros. 130 Todos os ex-alunos foram consultados sobre suas lembranças a respeito do espaço físico da escola. 136 Parte de cima e parte de baixo desse corredor. Todo o restante foi construído depois que a gente estava lá. No final de 1970, começou a construção do segundo prédio do Coltec. Houve um acréscimo de 5472 m 2 em dois pavimentos, além de um auditório com capacidade para 500 pessoas. No primeiro pavimento, foram instalados o Departamento do curso técnico de Patologia Clínica, a cantina, vestiários e armários individuais para alunos e funcionários. No pavimento superior, toda a administração do Colégio, biblioteca, salas de aula , laboratórios de línguas e outros laboratórios 131 . Esse conjunto de adaptações, que alteraram os espaços físicos do Colégio, foi pensado conforme as suas funções, definidas "a priori", fossem salas de aula, corredores, cantinas, pátio, sala de professores. Depois de estabelecidos, esses locais interferiram no comportamento de seus usuários, como esclareceremos mais adiante (DAYRELL, 1996). Adilson, aluno da segunda turma, adicionou informações: A escola, fisicamente, era constituída apenas pelo bloco da frente, onde fica a minha sala, atualmente. O restante do prédio, que forma o bloco do fundo, onde fica grande parte das salas de aulas e alguns gabinetes, foi construído depois. Tratava-se de um processo de expansão do número de vagas. Quando eu ingressei no Colégio, havia cerca de 80, 90 vagas. Depois da construção desse segundo bloco, subiu para 210 vagas. Como se vê, os espaços também são criados e alterados pensando na acomodação de um determinado número de estudantes, como comentaram Faria Filho e Vidal (2000, p. 32): A repartição das salas e dos corredores, a localização e o formato das janelas e portas, a distribuição de alunos e alunas na sala de aula e nos demais espaços da escola dos nossos atuais prédios apontam para a construção de lugares concebidos como cientificamente equacionados, em função do número de pessoas, tipo de iluminação e cubagem de ar. Sobre o entorno do Colégio, dentro do campus da UFMG, Adilson também nos contou: O campus, de modo geral, era bem desabitado, havia muitos espaços abertos, muita área de terra. Na época de chuvas, gerava um lamaçal. Não tinha esses jardins entre os prédios, ou no entorno deles. Nas proximidades do Colégio, havia apenas o 131 Fonte: Anexo XIV: Informações gerais sobre o Colégio Técnico da UFMG. 137 primeiro bloco do prédio do ICEx 132 . Não havia os prédios do Departamento de Química, da Escola de Engenharia, o Coltec ficava bem isolado. Figura 22: Foto do Prédio do Coltec, com parte do seu entorno. Sem data ou descrições. Fonte: Arquivo de Antônio Cícero. A Universidade ampliou suas construções, mas ainda manteve muitos espaços livres em toda a sua dimensão, como recorda-se Alberto, que ingressou no Coltec em 1974. Lembrando-se do primeiro dia em que esteve no Colégio, acompanhado de sua mãe, ele disse: Eu me lembro que estava chovendo, eu me recordo bem desse dia. Nós pulávamos de poça em poça d'água, molhando o sapato. A Universidade era muito vazia, tinha a Reitoria, uma parte do ICEx 133 velho, que ainda não contava com o prédio do Departamento de Física; a FaE 134 ; o CP; aquele prédio da Escola da Engenharia; aquele laboratório de alta tensão da Engenharia; a Belas Artes; o prédio velho da Química, bem menor do que esse de atualmente; e o Coltec, ou seja, não tinha quase nada, impressionante. Do Colégio Técnico até na avenida, onde passavam os ônibus, era coberto por pisos sextavados, muito irregulares, por isso que formavam poças d'água. Eu me lembro disso como se fosse hoje. O restante da Universidade era mato. Por estar instalado dentro do campus da Universidade, o Coltec não era isolado do exterior, por muros, como em geral ocorre com os prédios escolares, que são dotados de muros que demarcam a realidade da rua e da escola. Esses muros criam, ainda, uma 132 Instituto de Ciências Exatas. Não encontramos documentos que descrevam outras mudanças físicas do Colégio, com seus respectivos períodos de reestruturação. No esboço para formulação do Guia do aluno, de 1996 (Anexo XIII), entretanto, é informado que, a partir de 1994, o Coltec passou por um processo de reformulação curricular, modernização de laboratórios e reforma física do prédio e de suas instalações. O documento ainda informava: "O COLTEC possui uma área de aproximadamente 15000 m 2 de área construída que incluem, entre outras, as seguintes dependências: 20 salas de aula teóricas, 26 laboratórios, 03 oficinas (madeira, mecânica e hialotécnica), 04 salas-ambiente, 01 biblioteca, 01 auditório e 02 quadras poliesportivas". 133 Instituto de Ciências Exatas. 134 Faculdade de Educação. 138 realidade própria, com suas regras, ritmos e tempos (DAYRELL, 1996). Por outro lado, a extensão do espaço da UFMG, percorrida pelos alunos em direção ao Colégio Técnico, funcionava como um grande pátio escolar, que separava a escola da rua, era o espaço de transição. Além de afastar os estudantes do ambiente "maléfico" da rua, evitava que eles entrassem nas salas de aula no mesmo ritmo com que vinham da rua. Assim, esse espaço significava a passagem de uma ordem, ou uma cultura, para outra (FARIA FILHO, 1998). É importante acrescentar que a ausência de muros possibilitava que os alunos se ausentassem do prédio do Coltec, rumo aos arredores, ainda dentro da Universidade, como descreveu a ex-aluna Poliana, da turma de 1981: O entorno da escola era diferente do que se vê hoje em dia; havia uma vegetação enorme, o prédio do Colégio era cercado por muita área verde, muita grama. Parecia um parque todo arborizado. Os estudantes ficavam todos ali naquele gramado, no horário do almoço. Ou matando aulas em cima das árvores. Atualmente, nessa área, nem tem mais árvore para matar aula. Não tinha o anexo novo do edifício da Química, ou esses outros, tudo era repleto de árvores. O pessoal ficava sob as árvores, tocando violão, matando aula, fumando cigarro... Uma árvore, em particular, ficou conhecida como a "Árvore da Paz". Airton, nosso entrevistado, disse que os meninos ficavam fumando maconha lá em baixo e completou: Vinham os alunos da Engenharia se juntarem aos alunos do Coltec e ficavam fumando lá em baixo. A professora Tânia oferecia um trabalho de tutoria para auxiliar alunos com problemas pessoais. Ela esclarece: Nesse trabalho, todas as turmas de 1º e 2º anos tinham um professor responsável, o tutor. Não havia muitos docentes participantes, pois tratava-se de um trabalho voluntário. Cada tutor se reunia com a parte interessada da turma. Muitas vezes a turma inteira se envolvia e participava. No horário do almoço, o tutor e os estudantes conversavam e realizavam dinâmicas sobre assuntos diversos: violência, drogas, sexo, jogos de azar, rendimento escolar, comportamento e outras temáticas. A gente refletia sobre o amadurecimento da vida e as oportunidades que eles possuíam. Eu dizia a eles que bastava o interesse e a sabedoria deles para aproveitarem. Esse projeto de tutoria originou-se de uma ideia trazida pela professora Leila Marques 135 , professora de História do Coltec, quando 135 Não encontramos informações adicionais sobre a professora Leila Marques. 139 cursou o doutorado na França. Lá ela fez um trabalho de tutoria fantástico e decidiu trazer para o Colégio. Na minha concepção, esse trabalho criava um vínculo e uma relação de confiança entre estudantes e professores. Os alunos sabiam que estávamos ali, querendo o melhor para eles. Era espetacular poder mostrar para eles que eu estava ali, não somente para ensinar Matemática ou exercer um papel acadêmico, mas para orientar e levar reflexões para toda a vida desses alunos. Segundo nossa depoente, muitos deles eram excelentes estudantes, com muito potencial, mas que ao ingressarem no Coltec, muitas vezes, se deslumbravam com a autonomia oferecida e não aproveitavam as oportunidades. O problema recorrente era o uso de drogas, como contou Tânia: Vários alunos, não só os do Coltec, mas também os do ICEx, da Química, dos cursos de graduação próximos, ficavam debaixo da "árvore da paz", usando drogas. No trabalho de tutoria, essa professora e outros integrantes questionavam esses estudantes: "O que vocês querem para vocês?". Ela concluiu: Essas conversas, em parte, inibiam que os alunos faltassem às aulas para bater papo ou ficar sob a "árvore da paz". Notemos que os alunos se apropriam dos espaços escolares e recriam novos sentidos e formas de sociabilidade. No Coltec, os corredores compridos e largos sempre abrigavam alunos nos intervalos das aulas, como relatou o professor Airton: Estranhei muito o Colégio, porque os alunos eram muito diferentes de tudo o que eu já tinha visto na minha vida. Eles ficavam espalhados no corredor, muito mais do que nos dias de hoje. Essa situação chegava a incomodar o professor Francisco Bastos Gil: Eu costumava até falar: "Esses alunos daqui são muito folgados". Eles deitavam nos corredores. Para passar, você saía pulando pelos alunos. Comentando os usos dos espaços pelos estudantes, em pesquisa realizada em 1994 em duas escolas públicas noturnas, situadas na região metropolitana de Belo Horizonte, Dayrell escreveu: Assim, as mesas do pátio se tornam arquibancadas, pontos privilegiados de observação do movimento. O pátio se torna lugar de encontro, de relacionamentos. O corredor, pensado para locomoção, é também utilizado para encontros, onde muitas vezes os alunos colocam cadeiras, em torno da porta. O corredor do fundo se torna o local da transgressão, onde ficam escondidos aqueles que "matam" aulas. O pátio do meio é re-significado como local do namoro. É a própria força transformadora do uso efetivo sobre a imposição restritiva dos regulamentos. Fica evidente que essa re-significação do espaço, levada a efeito pelos alunos, expressa sua compreensão da 140 escola e das relações, com ênfase na valorização da dimensão do encontro (1996, p. 13). A interação de estudantes do Coltec com estudantes universitários é antiga e permanece até os dias de hoje. Esse é um aspecto interessante e marcante da repercussão dos espaços da escola nas ações de seus sujeitos. Estando dentro do campus, os alunos do Colégio usufruem da oportunidade de frequentar outras unidades da Universidade e, assim, vivenciam situações rotineiras comuns a adultos jovens, com idade superior a 17 anos 136 . As salas de aula, conforme relatou Adilson, continham carteiras comuns para os alunos, uma mesa para o professor e um quadro de giz. Os laboratórios, por sua vez, tinham mesas grandes. As cadeiras móveis, bem como as mesas dos laboratórios, possibilitavam dinâmicas em grupos. A disposição da mesa do professor também determinava a hierarquia da aula, na qual o professor ocupa posição central. Cada uma dessas salas de aula era alocada a uma determinada turma, com aproximadamente 30 alunos, segundo Alberto. Ele disse ainda: Não tenho certeza se as carteiras eram tradicionais ou aquelas de braço. Na frente, ficava o quadro de giz, com uma plataforma para o professor ficar mais alto, mais visível. De modo geral, nenhum de nossos depoentes, ao lhes perguntarmos sobre as instalações e os espaços do Coltec, se queixou da infraestrutura do Colégio. Antônio Carlos descreveu as salas de aula, laboratórios e biblioteca: As salas eram muito altas, com o pé direito alto, eram muito boas. Elas eram mais frescas do que qualquer lugar e ainda tinha uns ventiladores grandes de pé, que eram colocados para nós. A biblioteca era impressionante! Nunca vi uma biblioteca de tal nível, no primeiro ou no segundo grau. Os laboratórios, destinados às disciplinas técnicas, por sua vez, todos muito equipados, eram o seu diferencial, como nos disse a ex-aluna Poliana. Complementando essa ideia, o ex-aluno Alberto relatou: o diferente do Colégio no primeiro ano, em termos da área técnica, foi a disciplina TGL, que incluía madeira, vidro e mecânica. Ela nos possibilitava atuar com equipamentos diferentes, procedimentos de medidas, técnicas de cálculos de erros. Até ingressar no Coltec eu não sabia que vidro derretia. E lá, passei a fazer tubos de ensaio, béquer, materiais 136 De acordo com o esboço para elaboração do Guia do aluno, para ingresso em 1997 (Anexo XIII): "Os alunos do Coltec se beneficiam de todos os programas oferecidos para os alunos da UFMG em geral, que incluem o acesso ao Centro Esportivo Universitário, Restaurantes e programas de assistência ao estudante mantidos pela Fundação Mendes Pimentel". 141 desse tipo. Aprendi muita coisa, foi muito interessante e importante. O aluno que estava com a mente aberta para aprender devorava aquilo. Ou mesmo aqueles que não se dedicavam 100% tinham a oportunidade de ter contato com esses laboratórios, de pegar, de perceber as limitações. Se você não pega para fazer, não sabe se é difícil ou fácil. Era tudo fantástico! Figura 23: Laboratório de disciplinas técnicas do Coltec. Fonte: Arquivo de Antônio Cícero. Figura 24: Laboratório de disciplinas técnicas do Coltec. Fonte: Arquivo de Antônio Cícero. Entretanto, Antônio Carlos apontou a ausência de quadras esportivas no início do funcionamento do Coltec: as aulas de Educação Física aconteciam em um campo de futebol do outro lado da Antônio Carlos. Inclusive um campo muito bom, onde alguns times profissionais treinavam. Além disso, tinha uma quadra do Centro Pedagógico que nós usávamos para treinar futebol de salão, handebol e basquete. No Colégio Técnico nós fazíamos apenas exercícios físicos. Depois eles construíram um campo para o Centro Pedagógico, mas eu não era mais aluno. As características dos espaços se refletem no seu uso e na delimitação dos tempos escolares 137 . A boa qualidade da biblioteca, por exemplo, interferia no tempo em que ela era utilizada pelos alunos, como considerou o professor José Eloisio: A nossa biblioteca era frequentadíssima, principalmente no horário do almoço. Não só por conta da Matemática, mas devido às outras disciplinas. Para manter os estudantes em período integral no Colégio, eram disponibilizados locais de estudo, convivência, descanso e alimentação. Além disso, os tempos escolares eram pensados visando o bem-estar dos alunos, que passavam na escola muitas horas diárias (7:30 às 17:30), como explicou o ex-aluno Antônio Carlos: 137 “O tempo escolar se associa às horas em que se permanece na escola, contabilizadas em sinetas, recreios, cadernos, da mesma maneira que nos ponteiros do relógio” (FARIA FILHO; VIDAL, 2000, p. 14). 142 A rotina do Colégio também era muito bem organizada. Se pela manhã nós tivéssemos aulas teóricas, por exemplo, no período da tarde, era Educação Física. Não havia quatro aulas teóricas seguidas. Além disso, não era comum termos aulas teóricas depois do almoço. Nesse horário, costumávamos ter atividades nos laboratórios ou um período na biblioteca. Éramos recomendados a estudar ou ler algum livro na biblioteca, durante um determinado tempo. Era muito legal. Dessa forma, mesmo tendo muitas aulas, elas eram bem divididas. Principalmente no início, porque eram poucas turmas. No informativo para os alunos, datado de 1971, as funcionalidades da biblioteca também são evidenciadas: "Na programação das atividades escolares do Colégio, vários horários foram reservados para trabalhos de leitura e pesquisa na biblioteca" (p. 2) 138 . Em relação a essa permanência no Coltec, por muitas horas diárias, o professor José Eloisio entendia que, como os alunos ficavam o dia inteiro no Colégio, não tinha como querer que eles chegassem em casa e ainda estudassem. A nossa intenção era que eles fizessem tudo na escola. Eles entendiam bem e procuravam fazer. Antônio Carlos confirmou essa intenção: Todas as atividades de Matemática eram realizadas no Colégio, porque nós não tínhamos tempo em casa para fazermos. A gente aproveitava os horários em que estudávamos na biblioteca. Eu não lembro de ficar estudando em casa nesse período. No máximo, sábado à tarde fazíamos uma revisão, algo assim. No domingo, eu nunca estudei, independente do que acontecesse. A noção de tempo escolar também está presente na organização dos conteúdos em disciplinas e grades, séries e graus, bimestres ou semestres. Nesse sentido, cada etapa é condição para próxima, sendo ultrapassada ou não pelas aprovações e reprovações. Os tempos dessa lógica são predefinidos; o sujeito tem um tempo determinado para aprender os conteúdos previamente selecionados e os professores são responsáveis pelo cumprimento dos programas pré-estabelecidos (PARENTE, 2010, p. 143). O curso do Colégio Técnico, inicialmente, era anual, 1969, 1970. A partir do terceiro ano, 1971, acho que passou a ser semestral. Mas não tenho certeza, meu terceiro ano foi muito confuso, disse o nosso colaborador Antônio Carlos. Sabe-se ainda 138 Ver Anexo VIII: Informações gerais para os alunos sobre o Colégio Técnico - 1971. Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 143 que, em 1980, o ex-aluno Gilberto do Vale estudou no sistema semestral, como ele relatou: Assim que eu soube que ia participar desta pesquisa e contar sobre a minha experiência no Coltec, fui atrás do meu diploma, que fica organizado na minha gaveta. Lá verifiquei que o meu curso técnico era semestral. Figura 25: Contracapa do diploma de conclusão do curso técnico em Química, de Gilberto do Vale Rodrigues, realizado no Coltec. Fonte: Arquivo pessoal do colaborador. Ele ainda esclareceu: Pelo que conversei com a professora Lilian, que atua comigo no Departamento de Química do Coltec, possivelmente, eu fui da última turma do curso semestral. Isso porque ela ingressou no Colégio no ano seguinte em que eu me formei e pegou o curso anual, em 1983. Mas não sei informar se o curso era semestral nos anos anteriores aos que estudei 139 . Por estar na Universidade, eu acho que deveria ser, tal como no Ensino Superior. Arthur Eugênio, que dirigiu o Colégio de 1981 a 1984, comentou essa divisão de tempo, quando foi questionado pelos estudantes que fizeram o “Trabalho Memória do COLTEC” se discordava de algum método da escola (ensino, avaliação ou aprendizagem): "Achava que o regime de matrícula por disciplina semestral (o mesmo da graduação da UFMG), então vigente no COLTEC, era totalmente inadequado. Adotávamos na época um regime semestral, mas a escola se comportava como se o currículo fosse anual e todas as disciplinas eram obrigatórias. Por exemplo, as disciplinas só eram oferecidas uma vez por ano, e se o aluno fosse reprovado numa 139 De acordo com a secretária responsável pela emissão de Diplomas e Históricos Escolares, que atuava na Seção de Ensino do Coltec durante a realização da pesquisa, até 1981 o regime de matrícula era semestral. 144 delas teria que esperar um semestre inteiro para cursá-la novamente. A consequência disso era que cada aluno tinha uma grade curricular diferente e um horário cheio de 'buracos', pois uma reprovação numa disciplina desorganizava totalmente a vida escolar do aluno". A seguir, apresentamos uma síntese da cronologia do Colégio. Figura 26: Colégio Técnico da UFMG - Cronologia. Fonte: Produzida pelas pesquisadoras. 145 3- OS COLTECANOS "Ser do Coltec" é um rito de passagem que imprime uma identidade, um diferencial, um orgulhozinho! É conviver com diferenças de maneira respeitosa e fraterna e moldar-se para ser cidadão. Ex-aluna 4 (entrada no Coltec: 1980) Vim de uma educação rígida, em colégio de Padres. No COLTEC conheci a Liberdade e seus preços!!! Ex-aluno 6 (entrada no Coltec: não informada) Coltecano é marca registrada. Coltecano se reconhece e é reconhecido. Coltecano quando encontra outro Coltecano enche o peito, abre um sorriso e aperta a mão com respeito e admiração. O Coltec é muito mais do que ensinamento dentro da sala de aula, é aprendizado para a Vida toda. No Coltec fiz os meus melhores Amigos, é amizade que dura mais de 35 anos [...]. Ex-aluno 7 (entrada no Coltec: 1980) Refletindo, agora, já madura, acho que o Coltec nos dá uma liberdade difícil de obter em qualquer lugar, numa fase da vida em que a maioria das escolas (e dos pais) não nos permite ainda nada. Então, isso trás muita maturidade, às custas dos erros cometidos, muitas vezes por impulsividade. Ex-aluno 15 (entrada no Coltec: 1979). Lembro que recém-formado, fiz uma prova para emprego em uma indústria e logo depois, na entrevista o empregador me perguntou onde era formado. Enchi o peito e cheio de orgulho falei: Coltec. Ele duvidou e quando confirmei ele guardou a minha prova sem corrigí-la, e perguntou se já poderia começar no dia seguinte. Ex-aluno 17 (entrada no Coltec: 1987) 140 Até este momento, o leitor já conhece nosso ambiente e contexto de investigação. Também já lhe foi apresentada a forma de recrutamento dos alunos, o que coloca em foco alguns aspectos do perfil desses estudantes. Neste capítulo, buscamos ampliar a descrição dos chamados "coltecanos" (alunos do Coltec) e trazer mais considerações sobre suas memórias. 140 Recorte da resposta de um ex-aluno a uma mensagem publicada por uma professora e ex-aluna do Coltec, em uma rede social, conforme explicado em nota de rodapé no início do Capítulo 1. 146 Falar de coltecanos é falar do universo juvenil, de jovens que se encontravam na última etapa da atual educação básica e que já discutiam e experienciavam práticas profissionais. Com base na concepção de Dayrell (2003), afirmamos que nossos ex- alunos, jovens de diferentes décadas, vivenciaram "juventudes", uma vez que essa condição social não é estável ou homogênea: ela é transformada, historicamente, conforme mudanças ocorridas na sociedade. Assim como esse autor, entendemos a juventude como parte de um processo mais amplo de constituição de sujeitos, mas que tem especificidades que marcam a vida de cada um. A juventude constitui um momento determinado, mas não se reduz a uma passagem; ela assume uma importância em si mesma. Todo esse processo é influenciado pelo meio social concreto no qual se desenvolve e pela qualidade das trocas que este proporciona (p. 42). Neste capítulo, vamos abordar a relação dos jovens coltecanos com a escola. Evidenciaremos como os espaços do Colégio Técnico e da UFMG, bem como o tempo de permanência na escola, influenciaram a condição juvenil desses estudantes. Focalizaremos, ainda, impactos dessa experiência escolar na socialização e nas suas trajetórias profissionais. Não nos foi possível, devido ao prazo para a conclusão de nossa pesquisa, realizar um levantamento sobre o perfil socioeconômico, permanência na escola, evasão, escolaridade e profissão dos pais dos estudantes do Coltec, em diferentes períodos, como julgamos que seria interessante. Nas entrevistas com nossos colaboradores, muitas dessas informações, que poderiam ser relevantes para o trabalho, também não foram abordadas. Entretanto, usando o material que conseguimos reunir, procuramos caracterizar os coltecanos. 3.1. Socialização 141 A partir dos relatos dos depoentes e do contato informal com ex-alunos, ficou claro que os alunos do Coltec estabeleciam laços afetivos com colegas, professores, demais funcionários e com o espaço. Essas relações, aos poucos, interferiam nas reflexões, escolhas e ações desses jovens. De acordo com Dayrell (2007), a "turma de amigos é uma referência na trajetória da juventude: é com quem fazem os programas, 141 Entendemos "socialização" como o processo em que os indivíduos se relacionam com outros indivíduos e grupos, aprendendo a respeitar normas e regras próprias de um certo meio, com o objetivo de se integrar a uma determinada comunidade/sociedade. 147 'trocam ideias', buscam formas de se afirmar diante do mundo adulto, criando um 'eu' e um 'nós' distintos" (p. 1111). O tempo e o local que esses jovens permaneciam com determinadas companhias definia a dinâmica de suas relações (mais próximos ou mais distantes). Gallego (2015), ao discutir "o tempo escolar", afirma: A entrada na escola instaura, assim, novos tempos, novos ritmos e rituais tanto para as crianças quanto para as suas famílias. Embora não seja alvo constante das reflexões cotidianas, o tempo, ou mais especificamente, os modos pelos quais esse está organizado, influencia a atitude mental e o modo de vida das pessoas (p. 252). Naturalmente, no Coltec, a definição do tempo integral (7:30 às 17:30) promovia laços fortes, pois, além de aulas conjuntas, havia encontros para almoços, lanches, estudos, sonecas, desabafos, conflitos, entre outros. Desse modo, no Colégio Técnico, muitas vezes os alunos compartilhavam mais tempo com seus colegas do que com seus familiares. Um ex-aluno do curso de Patologia, que esteve no Coltec no período 1983-1986, em entrevista vinculada ao "Trabalho Memória do COLTEC/UFMG", relatou: "Gostava muito do horário composto (matutino e vespertino). Sempre achei que este tipo de horário aproximava muito mais as pessoas, além de ser ideal para um curso técnico [...]". Essa característica também favorecia o desenvolvimento da autonomia 142 e responsabilidade dos estudantes. Cada aluno administrava, com liberdade, o seu momento de estudo, de descanso, de retorno para casa, de alimentação, entre outros. O professor Airton, quando convidado a falar da relação dos cursos técnicos com a autonomia dos estudantes, se posicionou a esse respeito: Sempre ouvi de colegas que os alunos do Coltec, por estudarem em uma escola técnica, amadurecem mais rápido, especialmente, devido às disciplinas experimentais, os laboratórios. Entretanto, na minha opinião, o que mais contribui para a maturidade desses estudantes é o ensino ser oferecido em período integral, o que os obriga a ficar no Colégio durante todo o dia. Em relação aos espaços, sobretudo os corredores, a cantina, o pátio e a árvore da paz, correspondiam aos principais cenários de socialização, descontração e lazer, identificados por nós. O ex-aluno Gilberto, que estudou no Colégio no início da década de 1980, quando perguntado sobre a exigência da escola, nos relatou: No meu tempo, a gente tinha muitas janelas livres, momentos para estudarmos juntos ou conversarmos 142 A autonomia também será percebida no ensino e aprendizagem de Matemática, que serão abordados no Capítulo 5. 148 sobre assuntos diversos no pátio. Ele disse que as questões debatidas, muitas vezes, eram completamente independentes dos conteúdos escolares, eram gerais. Em outros momentos, falavam das temáticas estudadas, como ele explicou: Um aluno que tinha mais facilidade em uma disciplina ajudava o colega que não tinha tanta facilidade. Por fim, ainda que não tenhamos dados sistemáticos sobre eventos e produções ocorridos no Coltec no período investigado, considerando algumas menções de ex- alunos no "Trabalho Memória do COLTEC/UFMG", reconhecemos a existência de algumas atividades que, a nosso ver, interferiram na socialização e na constituição dos coltecanos ao longo dos seus anos de existência. O Colégio promoveu festivais de música; semanas de exposições de trabalhos científicos para a comunidade; aulas de Português e Literatura, em caminhadas pelo Campus; campeonatos de futebol e outros esportes; idas ao Clube Esportivo Universitário - CEU, nos finais de semana; produção de jornal informativo interno, excursões à Serra do Caraça, ao Parque Nacional do Caparaó ou ao Scharlé (Clube de Campo de Sabará). Particularmente, na década de 1970, ex-alunos relataram que bebiam cerveja no "Postinho" da Av. Antônio Carlos, em frente à entrada do Campus: "Tínhamos a sonhada liberdade de assistir ou não a aula, ou só metade e ir para o CEU, ou para o boteco ou qualquer outro lugar. Eram os anos 70, das drogas e rock and roll...” (Ex-aluno do curso de Instrumentação, ingresso em 1974. Fonte: Trabalho Memória do COLTEC/UFMG). Sobre as visitas ao Parque Nacional do Caparaó, o professor de Química Marcos Antônio Nicacio, que trabalhou 40 anos no Coltec, afirmou: “Iniciativas como essa valorizam o contato com o meio ambiente, a superação de limites, o trabalho em equipe e a formação de grupos, mas infelizmente vêm se perdendo ao longo dos anos”. Segundo esse docente, o Colégio dava destaque às atividades de oficinas, práticas de laboratórios e projetos que propiciavam o contato dos estudantes com o meio ambiente e a comunidade, a exemplo do "Projeto Educação Ambiental em Caparaó: proposta de construção de uma comunidade de aprendizagem, do qual ele fez parte desde o início, na década de 1970, quando esse projeto ainda era conhecido como Projeto Cultura e Natureza" 143 . 143 O professor Marcos Antônio Nicacio deu um depoimento a Carla Pedrosa (Assessora de comunicação do Sistema de Bibliotecas UFMG), durante a exposição Ciência,Tecnologia e Patrimônio Cultural: Memória do ensino e pesquisa no ICEx e no Coltec através dos equipamentos das décadas de 1940 a 1990, realizada na Biblioteca Central da UFMG no mês de setembro de 2017. Disponível em: < https://www.bu.ufmg.br/bu/index.php/noticiais/1293-exposicao-na-biblioteca-central-resgata-a-memoria- do-ensino-e-pesquisa-no-icex-e-no-colegio-tecnico-da-ufmg>. Último acesso em: 12 set. 2017. 149 Além dessas atividades, alguns estudantes se vinculavam ao Grêmio Estudantil, que dentre outros objetivos, almejava "congregar o corpo discente da escola; defender os interesses individuais e coletivos do colégio dos alunos da escola; realizar eventos de ordem literária, artística, desportiva e cultural para seus membros; e promover a cooperação entre administração, professores, funcionários e alunos no trabalho escolar, buscando seu aprimoramento" 144 . 3.2. Liberdade, escola e projetos de vida A "liberdade" existente no Coltec foi destacada nos depoimentos dos nossos colaboradores, nas dissertações mencionadas anteriormente e no "Trabalho Memória do COLTEC/UFMG". Na prática, a "liberdade" nesse ambiente escolar relaciona-se principalmente ao fato de poderem entrar e sair a qualquer momento da escola e das aulas 145 ; de serem isentos do uso de uniforme; de inexistir um disciplinário e de não haver muros ao redor do prédio. Além disso, os alunos podem namorar (desde que obedecendo a certos "limites") e fumar nas áreas externas da escola (VILLAS, 2009 146 , p.73). Essa liberdade atraía os estudantes, que queriam experimentar aquele ambiente similar ao universitário. [...] era uma escola que encantava, por ser completamente aberta. As pessoas não se preocupavam muito se os alunos estavam "matando aula" ou não, como nos contou o ex-aluno Gilberto, quando perguntado sobre os trotes no Colégio. Como atual docente, ele ainda acrescentou: Nós tínhamos muita liberdade, mais do que se tem hoje. Nas palavras de Poliana, que ingressou na escola em 1981, quando convidada a descrever suas lembranças sobre o espaço do Colégio: Todo esse cenário me 144 Fonte: Estatuto do Grêmio Estudantil, disponível no Arquivo Inativo do Coltec, sem data (Anexo XVI). Não encontramos registros formais dessa associação. Entretanto, a gestão de 2017 nos informou que o Grêmio Estudantil do Colégio Técnico foi criado na década de 1980 (possivelmente, 1985 ou 1986), foi extinto em 2005, e ressurgiu no final de 2009, início de 2010. Nenhum dos nossos depoentes atuou no Grêmio; dessa forma, não temos informações adicionais sobre essa associação. 145 No entanto, no documento "Informações Gerais para alunos sobre o Colégio Técnico" - 1971 (Anexo VIII, p.1), há a seguinte diretriz: "Solicita-se ao estudante cumprir rigorosamente o horário fixado para as aulas técnicas e práticas. Não será permitido entrar nas salas e laboratórios após o sinal de início da aula". 146 Sara Villas (2009), em sua dissertação de mestrado, vinculada à FaE/UFMG, na área de Sociologia da Educação, investigou as formas de sociabilidade entre alunos do Coltec. Ainda que não seja uma pesquisa histórica, Villas identifica algumas características do Colégio que são as mesmas relatadas por nossos colaboradores, desconsiderando algumas singularidades próprias de cada período. 150 surpreendeu muito quando entrei nessa instituição. Eu vinha do Colégio Anchieta 147 , que possuía uma disciplina rigorosíssima, onde os alunos precisavam descer as escadas segurando no corrimão. Chegando ao Coltec, vejo estudantes com os pés para cima, fumando ali, logo na primeira fila de carteiras da sala. No gramado, alguns alunos se drogavam, inclusive. Isso era muita liberdade para minha cabeça. Ela ficou impressionada com essa configuração da escola: Nossa! Eu fiquei boba de ver que alguém poderia ter essa postura. Além disso, professores e alunos saíam e voltavam da sala, durante as aulas. Era uma coisa gritante para mim, era muito diferente, totalmente fora do normal para mim. Foi outro mundo. "O gosto pela liberdade, fosse no truco, na grama da escola, na roda de violão ou nas festas. Isso certamente era a cara do coltecano daquela época", disse um ex- aluno, quando perguntado sobre algo comum que marcou a tradição da sala ou da escola, durante entrevista realizada no "Trabalho Memória do COLTEC/UFMG" (Período de Estudo: 1986 a 1988. Curso: Patologia). Por outro lado, havia a cobrança de uma frequência mínima às aulas 148 , era exigida a produção de atividades em sala e em casa, e existem relatos de que os professores eram muito exigentes e rigorosos. Isto é, ao entrar na escola, por mais liberal que ela fosse, o aluno precisava compreender que aquele era um ambiente de ensino e aprendizagem, com suas estruturas, suas regras e seus rituais. A professora Tânia, por exemplo, nos contou que não era de brigar com os estudantes em sala de aula, mas exigia que eles reconhecessem aquele ambiente e o distinguissem dos demais espaços em que convivem. Eu nunca gritei com um aluno em sala de aula, do tipo: "Sossega, senta!", disse a docente, quando perguntada sobre sua fama de "mãezona" dos alunos. Ela explicou como gostava de conduzir a situação: No final da aula eu olhava para o estudante e falava para ele: "Você tem que passar lá no meu gabinete para a gente conversar. Enquanto você não passar lá, você não volta para minha aula". Em nossa conversa, eu explicava as regras estabelecidas, a função de cada um, e falava sobre respeito. Eu dizia a eles que se quisessem podiam ficar 147 Newton de Paiva Ferreira criou, em 1935, junto com um grupo de amigos, a Escola Livre de Direito, cujo conceito era: “instruir e educar para melhor conceituar o direito de liberdade". O Colégio Anchieta foi o sucessor dessa instituição e um dos primeiros estabelecimentos de ensino secundário de Belo Horizonte. Disponível em: < http://www.camara.gov.br/sileg/integras/313144.pdf>. Ele era situado na esquina da rua Tamoios com a avenida Olegário Maciel, no centro de Belo Horizonte. Disponível em: . Último acesso em: 06 out. 2016. 148 Segundo "Informações Gerais para alunos sobre o Colégio Técnico", Anexo VIII, de 1971, era obrigatória a frequência a 75% das aulas em cada matéria. 151 brincando no corredor, que ninguém os tiraria dali, mas que na sala de aula eles precisavam obedecer as regras. Assim, como foi rememorado por nossos depoentes, as regras estabelecidas pelo Coltec eram mais flexíveis, se comparadas às das escolas que eles haviam frequentado. Contudo, em certos aspectos, parece que os estudantes não desfrutavam dessa liberdade concedida. O professor Francisco B. Gil, que atuou no Colégio a partir da década de 1980, ilustra essa outra faceta, ao ser perguntado sobre suas regras de conduta na sala de aula: quando eu entrava na sala de aula, os alunos já estavam lá dentro. Eles sabiam que eu não me atrasava. Era dar o sinal e eu chegava. Mesmo não proibindo que eles entrassem na sala atrasados, eles não se atrasavam. Além disso, eu não fazia chamada, achava uma perda de tempo. E, apesar disso, eles não perdiam aula. O comprometimento dos alunos, aliado a outros fatores como a formação dos docentes e a qualidade do ensino, consolidavam a boa reputação da escola. A professora Maria do Carmo compartilhou dessa opinião, ao ser questionada sobre a valorização da Matemática: Os alunos que se formavam no Colégio saíam bem preparados, inclusive, se compararmos com outras escolas. Por isso, as vagas do Coltec eram muito concorridas, pelo nível excelente desse Colégio. O professor Airton, que ingressou na instituição em 1992, quando falava de sua experiência docente, também ressaltou a competência dos estudantes do Coltec: Outro fator que me impressionou muito, no começo, foi a qualidade dos alunos. Na primeira prova, eu dei um monte de notas altas; pensei: "Gente, o que é isso?". Eu sabia que na outra escola ninguém tiraria uma boa nota com aquela prova e ali todos tiraram um notão. Eu tinha fama de ser duro na outra escola, chego no Coltec, dou uma prova, todos vão bem. Nesse contexto, ele precisou repensar suas ações. E nos contou: Comecei a ver que tudo o que eu falava para os alunos eles entendiam e puxavam mais. Eu falei: "Caramba! Aqui o buraco é mais embaixo". Então, tive a necessidade de estudar bastante, correr atrás. Mesmo eu tendo uma boa formação de conteúdo matemático e estando fazendo o mestrado, eu pegava muito aluno bom. Como reflexo dessa condição, temos indícios de que o Coltec formava bons técnicos e preparava bem os seus alunos para continuar os estudos, em nível superior. Maria do Carmo, quando solicitada a falar sobre os estudantes, relatou: [...] no período em que eu atuei no Colégio, que eu considero que foi relativamente grande, os alunos eram muito bons. Alguns meninos entravam com muitas dificuldades, mas em pouco 152 tempo já estavam acompanhando a turma. Eles estudavam muito, tinha um ou outro que não estudava mas, apesar disso, se saíam bem, aprendiam rápido. Se fizéssemos um levantamento, acredito que a maioria deles continuou os estudos, fez curso superior. Todos os alunos que se formavam no Colégio Técnico conseguiam emprego, tinham boa receptividade e presença nas empresas, especialmente no mercado mineiro, nos contou o ex-aluno Adilson, da segunda turma do Colégio, ao ser indagado sobre o reconhecimento no mercado, dos egressos do Colégio. Ele continuou: Isso foi muito marcante. Quando nos encontrávamos, a gente procurava saber a empresa em que cada um estava atuando, que função exercia. Antônio Carlos, por exemplo, fez estágio em 1971 e narrou: Naquela época, não tínhamos dificuldade de conseguir vagas, de arranjar emprego. Arranjei um estágio na RCA Victor 149 , fábrica de válvulas, peças que antecederam o componente transistor. O vínculo com essa empresa era para mim, praticamente, um emprego. Além de ser muito bem remunerado, a demanda por técnicos era maior do que por funcionários formados, graduados. Lá trabalhavam muitos técnicos oriundos do Senai 150 , que apesar de terem um bom nível técnico, tinham uma formação diferente dos egressos do Colégio Técnico. Assim como Adilson, ele também apontou o reconhecimento dos egressos do Colégio: A procura por técnicos formados no Coltec era muito grande, tanto que eu poderia escolher meu local de trabalho, se eu queria atuar na Cemig 151 ou na Copel 152 . Cheguei a fazer alguns testes, por especulação. Mas, na verdade, eu sabia que continuaria na RCA Victor [...]. Era considerado estágio, mas eu tinha até carteira assinada, porque a formação da gente era boa, eles tinham interesse de nos contratar, de segurar a gente. Alguns egressos do Colégio, inclusive, permaneceram na função de técnico por um tempo maior. Ou até mesmo, durante toda a vida profissional, como exemplificou a ex-aluna Poliana, no início de nossa conversa: O estudante que se formava no Colégio 149 A empresa RCA, antes chamada de Radio Corporation of America, começou a atuar em 1919 com o surgimento das comunicações sem fio, produzindo equipamentos eletrônicos, desde o rádio, em 1920, até produtos de entretenimento digitais, nos dias de hoje. Disponível em: < http://www.rcabrasil.com.br/nossa-hist%C3%B3ria.php>. Último acesso em: 25 ago. 2016. 150 O Senai é uma empresa que forma e capacita profissionais para prestarem serviços de assistência técnica e tecnológica, serviços de laboratório, pesquisa aplicada e informação tecnológica, como mencionamos no Capítulo 1. Foi criado em 1942 e faz parte da Confederação Nacional de Indústria (CNI) e do Sistema Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Possui seis unidades na cidade de Belo Horizonte. Disponível em: . Último acesso em: 25 ago. 2016. 151 Companhia Energética de Minas Gerais. 152 Companhia Paranaense de Energia. 153 era muito bem aceito no mercado de trabalho, porque o conhecimento teórico era valorizado. A reputação do Coltec e do Cefet/MG era de formarem os melhores técnicos. Em todos as empresas, os formados pelo Colégio Técnico eram respeitados, tanto que tenho amigos que trabalham como técnicos a vida toda, que se deram muito bem nessa profissão e que são melhor remunerados que professores universitários. Entre os nossos depoentes, destacamos ainda, o ex-aluno Alberto, pois consideramos que ele cumpriu os objetivos iniciais do Coltec, esclarecidos no Capítulo 2, já que atuou como técnico da Universidade por cinco anos. Ele nos contou 153 : Em março de 1977, depois de formado, eu já estava empregado. Isso porque um parente meu conhecia o professor Ramayana Gazzinelli 154 , um professor famoso da Física. O Ramayana solicitou a seu funcionário, o técnico Fábio, que verificasse se eu tinha condições de atuar lá. Eu me saí muito bem e fui aceito como técnico. Inicialmente, eu fui contratado pela Fundep 155 , depois eu fiz um concurso e tornei-me funcionário público efetivo da Universidade. Eu fiquei cinco anos trabalhando como técnico no ICEx, na Física. Além dele, entre nossos entrevistados, os ex-alunos Jenner e Gilberto, que ingressaram no início da década de 1980, também atuaram como estagiários em Laboratórios de Pesquisa da UFMG, atendendo às finalidades originais do Colégio. Jenner, depois de atuar por seis meses como estagiário no Hospital da Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (IPSEMG), trabalhou na Universidade, como nos disse: fiquei sabendo que estavam precisando de um técnico lá no ICB (Instituto de Ciências Biológicas da UFMG), no laboratório de pesquisa em virologia. Aí eu fui para lá, passei no teste de seleção, concluí o meu estágio no laboratório e fui contratado para continuar trabalhando lá, como técnico, por uns dois anos. Gilberto fez o estágio obrigatório do Coltec no Departamento de Química e relatou: A princípio, eu e minha família tínhamos uma expectativa de que o curso 153 Nas entrevistas, todos os ex-alunos foram convidados a falar de sua experiência como técnicos. 154 “Ramayana Gazzinelli graduou-se em Engenharia Nuclear na Escola de Engenharia da UFMG. Obteve Ph.D em Física na Universidade Columbia de Nova York. Dedicou-se ao ensino de várias disciplinas da Física e à pesquisa em física da matéria condensada até sua aposentadoria”. É professor emérito da UFMG e membro da Academia Brasileira de Ciências. Disponível em:< https://www.ufmg.br/online/arquivos/027677.shtml>. Último acesso em: 21 set. 2016. 155 "A Fundep (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa) é uma instituição que realiza a gestão de projetos de ensino, pesquisa e extensão da Universidade Federal de Minas Gerais e de outras instituições e centros de inovação". Disponível em: < http://www.fundep.ufmg.br/pagina/94/home.aspx>. Último acesso: 29 ago. 2016. 154 técnico me oportunizaria conseguir algum emprego, afinal, a gente era muito pobre e precisávamos de renda. Essa era uma expectativa comum dos ingressantes em cursos profissionalizantes desde a criação das Escolas de Aprendizes, cujo objetivo era dar aos “desprovidos de fortuna” uma possibilidade de ascensão social por meio da inserção no mercado de trabalho 156 . Porém, além do estágio, Gilberto não prosseguiu na função de técnico, conforme nos informou: Só que eu sempre tive a intenção de continuar os estudos. Mesmo não tendo me dedicado muito no começo da minha formação, eu pretendia ir em frente o máximo que desse. Dessa forma, eu fui procurando alternativas para ganhar dinheiro, como bolsas de estudos da Fump. Com essa assistência eu tinha alimentação gratuita e recebia uma bolsa durante todo o curso do Coltec, que precisei restituir um ano depois de formado. Na graduação eu consegui atuar em um projeto de iniciação científica, com bolsa, que já era suficiente para eu me manter. Segundo o ex-aluno Adilson, desde o início do Colégio, sempre houve um trânsito rápido para o curso superior. Nossos depoentes são um demonstrativo dessa realidade, afinal, todos eles se formaram em nível superior. Mesmo aqueles que desempenharam a função de técnicos em empresas ou laboratórios de pesquisa, completaram sua formação em cursos de graduação. Essa circunstância, já elucidada no Capítulo 2, foi brevemente notada pelo primeiro diretor Gledsom Coutinho, durante a sua administração: Esperávamos que os estudantes abraçassem a carreira de técnicos de laboratórios. Entretanto, o currículo do Coltec sempre permitiu que muitos de seus egressos tivessem boas colocações nos vestibulares. De modo que o Colégio atraía alunos com interesse de cursar o ensino superior. O Colégio Técnico passou a formar para o vestibular, a um custo muito alto para o país. Uma vez que, para preparar o estudante para a faculdade, nós não precisaríamos de um curso técnico. Considerando nossos colaboradores, em ordem cronológica de ingresso no Coltec, Antônio Carlos iniciou o curso de Licenciatura em Matemática, na Fafi-BH 157 , mas graduou-se em Engenharia Elétrica, na UFMG; Adilson e Alberto concluíram 156 Descrito no decreto de criação das Escolas de Aprendizes, nº 7.559. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7559.htm>. Último acesso em: 17 out. 2017. 157 A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte foi fundada em 1964, inicialmente, com quatro cursos: História, Letras, Matemática e Pedagogia. Quando inaugurada, localizava-se no anexo do Colégio Estadual, no bairro Gameleira. Um ano depois, mudou-se para o bairro Lagoinha. Em 1999 a Fafi-BH se tornou Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH que, atualmente, oferece mais de 50 cursos de graduação e dezenas de cursos de pós-graduação, em suas quatro unidades. Disponível em: < http://arvoredecomunicacao.com.br/unibh-50-anos-formando-profissionais-competentes/>. Último acesso em: 25 out. 2016. 155 Engenharia Eletrônica, na PUC-MG 158 ; Jenner e Poliana graduaram-se em Farmácia, na UFMG; Niriana tornou-se médica pela UFMG; e Lilian formou-se no curso de Design Gráfico, na Uemg 159 e, posteriormente, no curso de Medicina, na UFMG. As escolhas acadêmicas dos nossos colaboradores vão ao encontro das conclusões destacadas nos relatórios das pesquisas dos alunos do 3º ano do Coltec, de 2004, no "Trabalho Memória do COLTEC/UFMG". Eles constataram que a grande maioria dos ex-alunos entrevistados fizeram estágio e permaneceram na área de conclusão do curso técnico. No caso dos egressos do curso de Instrumentação, por exemplo, os autores contam que "o curso técnico influenciou boa parte dos ex-alunos a fazerem cursos ligados à área de exatas. Mais da metade dos ex-alunos que entrevistamos fizeram ou ainda fazem Engenharia 160 ". Tanto nas empresas e laboratórios que acolhiam técnicos formados no Coltec, como nos cursos superiores, os egressos do Colégio eram bem avaliados. Além disso, há relatos de que esses estudantes possuíam características próprias, reconhecíveis, que os distinguiam dos estudantes de outras instituições de ensino. O professor José Eloisio, docente no Coltec de 1970 a 1999, teceu comentários sobre isso, quando falou sobre a produção de materiais para o ensino: [...] os nossos alunos eram diferenciados. Isso ficava evidente na fala de outros professores da Universidade, que atuavam em laboratórios que os alunos do Colégio frequentavam: "aquele menino ali é do Coltec ". Quando iam conferir, era mesmo. Pelo comportamento dos estudantes, eles já sabiam. Quando o Coltec foi criado, já existia o Cefet/MG em Belo Horizonte. Eu suponho que as vagas disponíveis no Cefet não supriam a demanda de mão de obra qualificada do Estado, explicou José Eloisio. Prosseguindo, ele relatou: O Colégio Técnico, então, foi criado pela necessidade de colocar mais profissionais no mercado, mas a demanda era outra, quiseram formar mão de obra diferenciada, específica, e conseguiram. O menino que se formava no Cefet tinha um perfil bem diferente do que concluía o curso do Coltec. O menino do Cefet era muito mais técnico, muito mais 158 Alberto nos contou que a UFMG oferecia o curso de Engenharia Elétrica que, na época, focava em postes, em levar energia até as casas das pessoas, gerar energia. Isso não tinha nada a ver comigo, não era Eletrônica propriamente dita. Então nem quis fazer vestibular na UFMG, porque não tinha o curso de Engenharia Eletrônica. Gilberto, fez bacharelado em Química. 159 A Universidade do Estado de Minas Gerais foi criada em 1989. A instituição absorveu fundações educacionais de ensino superior instituídas pelo Estado ou com sua colaboração. A lista das entidades incorporadas pode ser acessada em: < http://www.uemg.br/apresentacao.php>. Último acesso em: 18 set. 2017. 160 Em 2004, os alunos do 3º ano, do curso técnico de Instrumentação do Coltec, entrevistaram doze ex- alunos que também frequentaram esse curso, no período de 1989 a 1996. 156 ligado à área de formação e restrito a ela, enquanto o menino do Coltec tinha uma formação mais aberta, mais abrangente, mais versátil. O diretor Gledsom Coutinho mostrou uma visão semelhante em relação a essas duas escolas: O Cefet, na época denominado Escola Técnica Federal, já existia, mas com outro foco. Eles queriam formar técnicos, exclusivamente técnicos, para empresas, ao passo que o Coltec objetivava formar seus estudantes a partir de um currículo de disciplinas técnicas, mas que contemplava as "convencionais" do Ensino Médio, tais como Geografia, História, Português e outras. Para ilustrar essa diferença, ele completou: a nós não interessava que o aluno do Colégio Técnico soubesse fazer torneamento muito bem, pois não se esperava que esse aluno soubesse tornear 500 peças por dia. Interessava-nos que ele soubesse torneamento para ser capaz de confeccionar uma peça, que auxiliaria nos procedimentos de pesquisa de um professor de universidade. Não estava em nossos objetivos, portanto, criar estudantes para produção. Queríamos formar artesões com habilidade, não para a produtividade. Essa distinção entre as finalidades das duas escolas e, consequentemente, entre os perfis de seus estudantes foi tema da pesquisa de Guimarães e Borges (1999), cujo objetivo era entender "porque alguns professores do ensino superior afirmam ser fácil de se reconhecer, em sala de aula, os alunos que estudaram durante o ensino médio no Colégio Técnico da UFMG (COLTEC) ou no CEFET-MG. Eles possuem, na palavra desses professores [do ensino superior], “estilos” próprios e distintos entre si e dos demais alunos" 161 . Para o professor José Eloisio, já na prova de seleção, nós pensávamos no perfil do aluno que nós queríamos que tivesse o mínimo de leitura, compreensão e entendimento. Isso facilitava o nosso trabalho. Desse modo, ele continuou: em cursos preparatórios, diante de alguma questão, os professores diziam: "essa aqui é do Coltec". Considerando as duas escolas técnicas que eram mais procuradas na época, que eram o Cefet e o Coltec, os docentes de todos os cursinhos diziam que, ao bater o olho, sabiam distinguir se as questões dos exames de seleção eram de um colégio ou de outro. 161 Infelizmente, não foi possível encontrar o relato completo dessa investigação, mesmo após contatos com os autores, Frederico Gonçalves Guimarães e Oto Borges. Dispusemos apenas de um resumo, apresentado no II Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências, intitulado "Estilos de Pensamento: uma nova ferramenta para o professor?". Disponível em: < http://fep.if.usp.br/~profis/arquivos/iienpec/Dados/trabalhos/P26.pdf>. Último acesso em: 28 ago. 2017. 157 3.3. "Os universitários" O Colégio Técnico, por ter suas dependências instaladas no campus da UFMG, não tinha visibilidade do ponto de vista físico pela população de Belo Horizonte. Sua situação sempre se diferenciou da do Cefet, que estava localizado na Avenida Amazonas, local de grande circulação dos habitantes da cidade. Com isso, as pessoas que sabiam da existência do Coltec tinham características muito específicas: alguma relação com a Universidade, tomavam conhecimento da escola a partir de estratégias de divulgação de cursos preparatórios, possuíam parentes ou vizinhos que estudavam na escola ou integravam o Centro Pedagógico. Nesta seção, veremos que, apesar de a escola ser isolada fisicamente do resto da cidade, seu vínculo com a Universidade atraía muitos estudantes. Os alunos procuravam ingressar no Colégio interessados pelo ensino de qualidade, pela formação, pela liberdade e pela inserção no ambiente universitário, que incluía o oferecimento de acesso aos serviços, biblioteca, clube, restaurantes, entre outros. Outro aspecto, não tão evidente, é que, por estarem imersos no campus, eles criavam uma expectativa de estarem mais próximos dos cursos superiores da instituição, mesmo não havendo nenhuma garantia disso (VILLAS, 2009). Nas palavras de um ex-aluno do curso de Instrumentação, da década de 1970, quando perguntado sobre o que mais gostava no Coltec: "o local, dentro do campus, as pessoas livres e independentes, o relacionamento de dia inteiro [...]. Gostava do trabalho em grupo e do ambiente pré-universitário" 162 . Outro estudante, participante da mesma pesquisa, em resposta à mesma questão, disse: "Do sistema acadêmico bastante similar ao das escolas de nível superior [...]; da liberdade que tínhamos, tanto em termos acadêmicos, quanto em termos de diversão e lazer. Tínhamos ping-pong, sessões de cinema, de arte, e bastante liberdade (com responsabilidade) como estudantes. E tínhamos um ensino de excelente qualidade em todas as disciplinas, além de disciplinas que não são conhecidas pelos alunos de escolas não-técnicas, como laboratórios de hialotécnica, madeira e metais" (Período de estudo: 1972 a 1974. Eletrônica). A imersão na Universidade possibilitava que coltecanos se relacionassem com professores do ensino superior, com graduandos e pós-graduandos, a partir de projetos 162 Em entrevista cedida por email aos autores do "Trabalho Memória do COLTEC/UFMG", de 2004. 158 de pesquisa ou de contatos despretensiosos, nos locais de recreação ou alimentação. Por um lado, isso podia gerar engajamento e amadurecimento, como pontuamos na seção sobre os reflexos da Ditadura, em que estudantes do Coltec se envolviam, politicamente, nas manifestações. Por outro lado, favorecia namoros com pessoas mais velhas, acesso a drogas e a outras informações muito cedo. Isso, por si, já seria motivo para os "coltecanos" se sentirem como "universitários". No entanto, outro fator parece fortalecer ainda mais esse aspecto: No Coltec, os alunos são tratados de um modo bastante semelhante aos alunos da Universidade, o que significa que têm livre acesso ao colégio no horário de funcionamento, podem “matar aulas” sem que isso represente uma infração, podem fumar e namorar dentro da escola, não são obrigados a usar o uniforme (exceto nas aulas de Educação Física), não existe sinal sonoro indicando o início e término das aulas. Evidentemente, todas essas concessões são feitas dentro de determinados limites, próprios das regras de conduta social (VILLAS, 2009, p.169). Para o ex-diretor Arthur Gomes, que assumiu a gestão do Colégio de 1980 a 1984, esse caráter liberal minimizava os conflitos da juventude. De acordo com ele, era importante dar autonomia, mas os estudantes precisavam manter seus objetivos: Se o aluno não tem foco ele sai da instituição. Não por expulsão, mas ele fica à parte. Quando isso acontecia chamávamos os pais e dizíamos que o aluno não evoluiria e o melhor era tirá-lo. Daí percebe-se quem tem maturidade para lidar com a liberdade. Reprimir o aluno só piora. Esse talvez seja o principal risco de um colégio como o Coltec num campus. O aluno ainda sem maturidade convive com alunos que já têm certa maturidade e isso pode atrapalhar. O aluno pode descobrir a droga com alunos do ensino superior [...]" 163 . Essa postura adotada pelo Colégio era justificada como parte do processo de ensino e aprendizagem, uma vez que contribuía para a inclusão dos estudantes na sociedade e os tornava autônomos e responsáveis, tanto no que se refere a questões práticas, de disciplina de atendimento aos horários e atividades, quanto em relação ao conhecimento adquirido (VILLAS, 2009). Outro fator que interferia na maturidade dos alunos do Coltec era a exigência de concurso para ingresso na escola. Após terem sido submetidos ao teste de seleção e 163 Fonte: Transcrição da entrevista com o ex-diretor Arthur Gomes, disponível no Trabalho Memória do COLTEC/UFMG, realizada em 2004. 159 sido aprovados, os estudantes concursados compartilham um sentimento de vitória, de terem alcançado algo muito desejado e de alto nível de dificuldade. Com isso, ao entrarem no Colégio, muitos deles valorizavam aquela oportunidade de ensino e a conquista da vaga (VILLAS, 2009). Os alunos do Coltec eram diferentes, maduros, eram espetaculares e muito selecionados. Afinal, para entrar no Colégio era necessário fazer uma prova de seleção, logo, os meninos que entravam lá eram assim, extraordinários!, disse a professora Tânia. Por outro lado, de acordo com Villas (2009), o concurso também foi agente da discriminação de egressos do Centro Pedagógico. Os alunos do CP, que tinham direito à entrada direta no Colégio Técnico, não tinham esse sentimento de esforço pessoal e mérito, uma vez que ingressavam devido às circunstâncias (aprovação em teste de conhecimento preparado pelo Centro Pedagógico, com prioridade para filhos de funcionários e professores da Universidade ou sorteio, a partir de 1993). Não encontramos pesquisas que evidenciam se havia ou não diferenciação entre os concursados e os egressos do Centro Pedagógico, no início de seu funcionamento. Entre nossos depoentes, o ex-aluno Alberto (ingresso em 1974) relatou que os alunos do Centro Pedagógico eram elitizados, sofisticados, filhos de professores, enquanto os concursados eram do povo 164 . Em seguida, ele disse: O contrário de como é hoje, pois os estudantes oriundos do CP, atualmente, às vezes têm muita dificuldade, ou são indisciplinados. Essa fala de Alberto está em sintonia com os resultados da pesquisa de Villas (2009, p. 67), que constatou uma rivalidade entre os dois públicos (oriundos do CP e concursados), observada a partir de 2001. De acordo com a autora, em 1993 o Centro Pedagógico decidiu democratizar o acesso à instituição, adotando o sorteio para seleção de seus estudantes. Paralelamente, a partir de 1998, devido à Portaria 646 - Art. 3º, o Coltec passou a ofertar o Ensino Médio em concomitância com o Ensino Técnico para alunos concursados e apenas a modalidade Médio para os egressos do Centro Pedagógico. Mesmo sem uma documentação que ateste suas conclusões, a autora observa que, em 2001, quando os primeiros alunos que ingressaram no Centro Pedagógico por sorteio entraram no Coltec, iniciaram-se diferentes conflitos entre eles e 164 Inicialmente, o Centro Pedagógico recrutava os estudantes a partir de testes de conhecimento. Os filhos de professores e funcionários da UFMG, no entanto, eram favorecidos nos critérios de ingresso, "de forma a absorvê-los em primeiro lugar, para só depois completar as vagas com os alunos de fora da Universidade. Anos mais tarde, a prioridade para os filhos de funcionários foi abolida, permanecendo apenas o teste de conhecimento, aberto a todos os interessados". A partir de 1993, o Centro Pedagógico passou a adotar o sorteio das vagas como critério de ingresso dos alunos (CASTRO, 2002, p. 35). 160 os concursados. Os egressos do CP passaram, então, a serem qualificados negativamente, sendo chamados de "bagunceiros", "desinteressados", "inferiores" e "irresponsáveis", além de serem caracterizados como alunos que "não gostam de estudar" 165 . 165 Por escapar do recorte temporal dessa pesquisa, não nos ateremos a esse conflito, entre concursados e egressos do Centro Pedagógico. As pesquisas de Pereira (2005), Castro (2002) e Villas (2009) poderão auxiliar o leitor interessado nesse aspecto. 161 4- OS PROFESSORES Minha relação com esses professores era muito boa. O Napoleão era camarada, parecia um pai da gente. E o Jed parecia um irmão mais velho. O Abdala, por sua vez, mantinha uma certa distância, o que não prejudicava de forma alguma. Ex-aluno Antônio Carlos (entrada no Coltec: 1969) O Jed era uma figura, muito brincalhão, descontraído, gostava muito dele. Suas aulas também eram descontraídas, menos formais. Eu não consigo nem lembrar o nome dele, era "José alguma coisa". Na prática era "Jed" o tempo todo. Se você perguntar para todo mundo, ninguém irá se lembrar do nome dele. Ou, se disser o nome dele, perceberá que não irão relacionar à pessoa. Talvez tenha sido o docente, dentro da escola, em quem a gente via a menor diferença, na relação professor e aluno. Até por isso, ele também tinha o apelido de "Jedboy". A Tânia era um pouco mais formal, mas também era muito fácil lidar com ela. Na escola em que eu estudei até a 8ª série, por exemplo, nós tínhamos uma distância muito grande com os professores. E isso diminuiu bastante aqui no Coltec, a gente tinha mais acesso aos professores. Ex- aluno Gilberto (entrada no Coltec: 1980) 167 Quando olhamos para as práticas de ensinar-aprender Matemática, deparamo- nos com seus agentes mais perceptíveis: os professores e os estudantes. Também entram em cena outros indivíduos e alguns meios, por modificarem esses sujeitos e suas práticas. Após termos discorrido sobre os coltecanos, vamos nos ater, neste capítulo, à formação, atuação e cursos realizados ou ministrados pelos docentes de Matemática que atuaram no Coltec. Sendo as entrevistas nossas principais fontes, vale lembrar que elas estão carregadas de sentimentos e, desse modo, não nos fugiram algumas características individuais e alguns percursos pessoais, porque "'tornar-se ‘o’ professor' é feito de infância, família, relações, configurações, habitus, mas também de rupturas e circunstâncias" (ROLKOUSKI, 2006, p. 265). 167 Os trechos acima são recortes das textualizações das entrevistas de nossos depoentes, em resposta à pergunta sobre a relação que mantinham com seus professores de Matemática no período em que estudaram no Coltec. Eles são reproduzidos aqui por não termos encontrado, na publicação disponível na rede social informada em nota de rodapé no início do Capítulo 1, menções de ex-alunos situados no recorte temporal desta pesquisa que sejam relacionadas diretamente aos assuntos tratados no presente capítulo. 162 Falaremos, então, do cinéfilo Abdala, dos viajantes Airton, Francisco (Gil) e Maria do Carmo, do poeta José Eloísio (Jed), do familiar Luiz Humberto e da "mãezona" Tânia, nossos depoentes, representantes dos docentes de Matemática do Coltec atuantes no período de referência do nosso trabalho. 4.1. Recrutamento O Coltec, por pertencer à UFMG, já legitimada como instituição superior importante no cenário da cidade, do Estado e do país, era uma promissora escola, e atraía professores experientes e recém-formados. Atrelados a esse, outros aspectos chamavam a atenção dos docentes, tais como a possibilidade de segurança profissional, a proximidade dos cursos de pós-graduação (criados ou em criação), a possível semelhança com o Colégio Universitário, além da estrutura física e organização institucional. O professor Abdala, por exemplo, nos contou o que o motivou a ingressar no Colégio: Em 1970, comecei a atuar no Coltec. As coisas ali eram muito organizadas. Havia uma boa infraestrutura. O espaço físico era ótimo, as salas boas, grandes, um pouco quentes por causa da incidência direta do sol. O número de alunos por sala era limitado a dezessete. Os estudantes eram bem selecionados 168 . Tânia, que entrou na instituição dez anos após o início de seu funcionamento, já apontou outras razões, relacionadas às condições de atuação dos docentes: Me motivou trabalhar no Coltec por tratar-se de um ambiente em que eu poderia implantar novas ideias, trabalhar em grupos, de forma autônoma. Onde os meninos transitavam na sala de aula, cortavam, produziam... [...] em outras escolas que eu trabalhei, quando eu tentava aplicar essas práticas, eu era vigiada e regulada por disciplinários. Para ingresso no Colégio Técnico, a maioria dos professores de Matemática relataram que realizaram exames de seleção. Inclusive, nos materiais do Setor, encontramos pastas individuais dos professores, referentes a seus concursos para ingresso na instituição. Identificamos as pastas de Consuelo Maria Vieira Garcia (1970), José Eloísio Domingos (1970), Abdala Gannam (1971), Luiz Humberto Pinheiro (1971), Ronaldo Pellicano (sem data) e Tânia Tomaz Lima 169 (1979). 168 Nas entrevistas com os docentes do Coltec, perguntamos como e quando se realizou seu ingresso no Coltec. Alguns se ativeram às questões de interesse pela escola, outros à forma de ingresso. 169 Trata-se da nossa depoente Tânia Lima Ayer de Noronha. 163 Inicialmente, no Departamento de Matemática, no dia de inauguração do Colégio Técnico, na minha memória, eram professores Luiz Napoleão Moreira e a Consuelo, contou Gledsom, quando convidado a relatar suas lembranças sobre a Matemática no Colégio, durante a sua administração. Aparentemente, o professor Luiz exercia duas funções: Creio que o Napoleão tinha dois cargos federais: um no Coltec e outro no Colégio Militar. Naquela época era possível, pois não existia o cargo de dedicação exclusiva no magistério. Ele deu aulas no Colégio por muitos anos. Infelizmente, partiu há uns dez anos 170 . De acordo com dados das mencionadas pastas de arquivo, a professora Consuelo foi aprovada para lecionar no Coltec em 1970, ano da inauguração oficial. Gledsom disse que essa docente se casou e saiu de Belo Horizonte, sendo substituída, possivelmente, pelo professor José Eloísio, que ingressou no Colégio em 1971 171 . Gledsom cogitou que ela tenha se transferido para o Triângulo Mineiro. Na ata do exame de seleção de Consuelo, informa-se que essa professora foi selecionada em primeiro lugar, entre cinco candidatos. A seleção era constituída de quatro partes: Prática (prova escrita com quatro questões, dentre elas elaborar um plano de estudo dirigido sobre o assunto "Conjuntos" da apostila que estaria anexada à prova 172 ) - Figura 27, Escrita (o candidato realizava uma dissertação, cujo tema era sorteado entre trinta apresentados, e resolvia outras questões de conteúdo matemático propostas pela banca), Aula (sobre um tema sorteado entre dez indicados) e Entrevista (estruturada, com vinte questões) 173 . 170 Não temos informações se o professor Luiz Napoleão Moreira teria prestado concurso público para atuar no Colégio. 171 O professor José Eloísio prestou a seleção de professor do Coltec nos anos de 1970 (pasta disponível nos materiais do setor de Matemática) e 1971 (não encontramos registros). Em 1970, José Eloísio foi classificado em segundo lugar, mas havia apenas uma vaga. 172 A referida apostila não foi encontrada na pasta da docente. 173 Outros documentos sobre o concurso da professora Consuelo Maria Vieira Garcia encontram-se no Anexo XXIV. 164 Figura 27: Prova prática do Exame de Seleção de professores de Matemática de 1970. Fonte: Materiais do Setor de Matemática do Coltec. Na pasta do concurso de 1971, do professor Abdala, foi possível observar que ele realizou uma prova escrita de Matemática, com duração de quatro horas, no valor de 50 pontos. A primeira parte dessa avaliação era constituída por uma questão dissertativa, no valor de 26 pontos, em que o candidato escrevia, livremente, sobre Teoria de Limites. Em seguida, havia seis exercícios propostos, também discursivos, no valor de quatro pontos cada 174 . Aparentemente, nesse ano, foram aprovados os professores Abdala, Luiz Humberto e José Eloísio. 174 Nas entrevistas não obtivemos detalhes sobre os processos de seleção de professores. Na organização dos relatos, sentimos ausência de informações sobre a exigência de prova didática ou prática no concurso para ingresso no Coltec em 1971, que Abdala, Luiz Humberto e José Eloísio realizaram. Em 2017, tive a oportunidade de perguntar sobre isso, informalmente, ao professor José Eloísio, que disse ter realizado prova escrita e didática para entrada na escola, nos dois anos em que participou do processo seletivo. 165 Em 1979, no concurso feito pela professora Tânia, exigiu-se a produção de um "trabalho", no formato de Estudo Dirigido 175 , sobre um assunto do 2º grau, a critério do candidato, e realizou-se análise dos currículos dos candidatos - "vida escolar", que incluía títulos relativos à licenciatura, ao mestrado, ao doutorado e/ou a outros cursos de aperfeiçoamento/atualização/extensão; "vida profissional", que compreendia tempos de exercício do magistério, produção científica e aprovação em concursos oficiais (a pasta contém informações de apenas duas concorrentes). Sua banca examinadora foi composta pelo professor Sérgio Veiga e por quatro de nossos colaboradores, os docentes Maria do Carmo, José Eloísio, Abdala e Luiz Humberto. As exigências dos concursos do Coltec, relativas à produção de estudos dirigidos, resumos, planos de estudo e questões de múltipla escolha, parecem acompanhar as mudanças enunciadas por Fiorentini, Souza e Melo (1998). Os autores notaram que as seleções de professores, anteriormente à década de 1970, centravam o foco no conhecimento acerca da disciplina. A partir de então, passou-se a reconhecer aspectos didático-metodológicos, ainda que em uma perspectiva estritamente técnica. Na década de 70, período áureo do tecnicismo 176 no Brasil, tanto a pesquisa como os programas de formação/seleção de professores passariam a valorizar os aspectos didáticos-pedagógicos, sobretudo as tecnologias de ensino, nomeadamente os métodos e técnicas especiais de ensino, planejamento, organização e controle/avaliação do processo ensino-aprendizagem (p. 313). Particularmente, as professoras Tânia e Maria do Carmo 177 contaram que eram vinculadas, oficialmente, ao Instituto de Ciências Exatas da UFMG e estavam emprestadas ou prestando serviços ao Colégio Técnico. Francisco, por sua vez, era professor efetivado no Colégio Agrícola da Universidade, no campus da cidade de Montes Claros e, em 1983, foi transferido para Belo Horizonte, como nos relatou: comecei a trabalhar na Reitoria [...] na Editora da Universidade auxiliando no funcionamento e na organização das publicações. Em seguida, ele passou a lecionar no Colégio Técnico, como explicou: Nesse período, o Coltec precisou de um professor de Matemática e eles me requisitaram. Aceitei e fui para o Colégio. Não tenho certeza do 175 Essa metodologia de ensino será abordada no próximo capítulo. 176 Essa tendência de ensino e aprendizagem também será abordada no próximo capítulo. 177 A professora Maria do Carmo não descreveu como foi o seu processo seletivo para ingresso na UFMG, entretanto, fez referências a acontecimentos durante essa conjuntura, que podem ser conferidos na textualização da sua entrevista, disponível no Apêndice D. 166 ano. O professor Luiz Humberto, embora tivesse visto a pasta com sua ficha de inscrição para o concurso de professor do Coltec, não se recordou de ter participado de exame de seleção para ingresso na escola. Quando interrogado sobre as características do Colégio Universitário, como sua localização, Luiz Humberto, que atuou como docente dessa instituição, contou que, após o fechamento dessa instituição, os professores ali lotados tiveram a oportunidade de permanecer em alguma unidade da universidade, dentre elas o Colégio Técnico, ocupando cargos que consideravam a especialidade de cada um. Dessa forma, ele decidiu: No meu caso, por exemplo, eu poderia escolher ir para a Licenciatura em Matemática, nas Ciências Exatas, ou para o Colégio Técnico. Eu escolhi o Colégio Técnico, pois me sentia mais à vontade em atuar com aquele tipo de aluno e aquele tipo de ensino. Aí fomos todos remanejados, sem concursos. Eu desconheço que alguém do Coluni tenha feito concurso para lecionar no Colégio Técnico. Quanto ao professor Airton, que passou a atuar no Coltec posteriormente aos demais depoentes (em 1992), não encontramos mais detalhes sobre o seu concurso, além do que ele próprio nos relatou. Ao ser questionado sobre o seu ingresso no Colégio, apenas mencionou: Quando eu fiz a seleção do Coltec, eu não o conhecia. Eu realizei o concurso porque precisava de emprego e queria trabalhar em escola pública federal. Eu descobri que o Colégio Técnico existia quando o meu cunhado me ligou e disse: "Oh, saiu um edital aqui, de um colégio que tem dentro da universidade". Eu falei: "Nossa, isso é tudo o que eu quero". Imagina, eu que já queria trabalhar em uma universidade, e sempre gostei mais de dar aulas em colégio do que na faculdade, e ainda ia fazer mestrado lá. 4.2. Formação e desenvolvimento profissional Nesta seção, focalizamos a formação acadêmica de nossos professores, ou seja, os cursos realizados por eles, de graduação e pós-graduação, compostos por assuntos e disciplinas com foco em aspectos específicos. Simultaneamente, por vezes implicitamente, abordaremos a formação que promove o desenvolvimento profissional docente, que diz respeito aos saberes advindos da colaboração com os colegas, de projetos escolares, da troca de experiências, da relação com os alunos, entre outros (PONTE, 1994). 167 Os professores José Eloísio, Luiz Humberto e Francisco se graduaram no curso de licenciatura em Matemática da Fafi-BH 178 . Além disso, Abdala iniciou seus estudos, em nível superior, nessa instituição. Onde tinha o Aristides Barreto 179 , na época grande matemático, acrescentou Abdala. Já a professora Maria do Carmo narrou: Eu fiz minha graduação numa cidade chamada Guaxupé, na Faculdade de Filosofia e Ciências de Guaxupé, no estado de Minas Gerais. Essa cidade é situada a aproximadamente quinze quilômetros de Guaranésia, município onde a entrevistada nasceu. Airton, que era nascido e residia na cidade de Mogi das Cruzes, também estudou no interior, como explicou: No ano de 1984, eu ingressei no curso de licenciatura em Matemática, lá na Universidade de Mogi das Cruzes 180 . Naquele período, a instituição pública mais próxima era a USP 181 , que era longe para mim, complicado, caro e tal. E a professora Tânia relatou: Eu me formei na Faculdade Newton Paiva, em 1977. Embora Abdala tivesse iniciado seus estudos na Fafi-BH, ele não se diplomou nessa instituição, como esclareceu: No ano seguinte eu fiz outro vestibular para a UFMG, na qual me formei. No ICEx (Instituto de Ciências Exatas da UFMG), tive excelentes professores, como Edson Durão Judice 182 , os humanistas Francisco de Assis Magalhães Gomes 183 , Cristovam Colombo dos Santos 184 (começava a falar sobre 178 A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte foi fundada em 1964, inicialmente, com quatro cursos: História, Letras, Matemática e Pedagogia. Quando inaugurada, localizava-se no anexo do Colégio Estadual, no bairro Gameleira. Um ano depois, mudou-se para o bairro Lagoinha. Em 1999 a Fafi-BH se tornou Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH que, atualmente, oferece mais de 50 cursos de graduação e dezenas de cursos de pós-graduação, em suas quatro unidades. Disponível em: < http://arvoredecomunicacao.com.br/unibh-50-anos-formando-profissionais-competentes/>. Último acesso em: 25 out. 2016. 179 Aristides Camargo Barreto, ex-professor do Departamento de Matemática da UFMG, foi um dos precursores do uso da modelagem ou de construção de modelos como estratégia de ensino, a partir de 1970. Inicialmente, ele modelava matematicamente suas músicas e utilizava modelos em suas aulas na graduação da PUC-Rio. < http://www.furb.br/cremm/portugues/cremm.php?secao=Precursores>. Último acesso em: 22 jun. 2016. 180 Em 1962 o professor Manoel Bezerra de Melo criou um escola de ensino fundamental (ginásio), na cidade de Mogi das Cruzes. A partir de 1964, foram instaladas as primeiras faculdades do complexo educacional que passaria a se chamar Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), em 1973. Atualmente, a instituição conta com mais de 20 mil alunos, em dezenas de cursos, nos campi de Mogi das Cruzes e Villa-Lobos/Lapa. Disponível em: . Último acesso em: 12 set. 2016. 181 Universidade de São Paulo. 182 Edson Durão Judice foi o primeiro chefe do Departamento de Matemática e é professor emérito do ICEx. Atuou como docente da UFMG de 1949 a 1987. . Último acesso em: 22 jun. 2016. 183 Francisco de Assis Magalhães Gomes (1906 - 1990), conhecido como Chiquinho Bomba Atômica, foi professor de Física Geral e Experimental na escola de Engenharia da UFMG, onde desenvolveu estudos sobre radioatividade, e tornou-se um dos pioneiros na pesquisa sobre energia nuclear do país. Além disso, foi o primeiro diretor do ICEx - Instituto de Ciências Exatas da UFMG, do qual é professor titular emérito. . Último acesso em: 22 jun. 2016. 168 História da Matemática, fechava os olhos e em pouco tempo enveredava pela filosofia; quando percebia isso, abria os olhos, pedia desculpa e continuava com a história, dentro de pouco tempo estava outra vez filosofando. Com ele aprendemos que não existe História da Matemática sem Filosofia). Mário de Oliveira 185 e Ulisses Carneiro 186 . O professor Francisco (conhecido pelos estudantes como "Chiquinho Bomba Atômica" pelo seu empenho para a implantação na UFMG do Instituto de Pesquisa Radioativa – IPR), foi o primeiro diretor do ICEx. Com ele fiz o curso de História das Ciências. Pouco antes de me formar, interessei-me pelo recém-criado Colégio Técnico; via nele certa similaridade com o Colégio Universitário. Constatamos que apenas um de nossos colaboradores (Abdala) diplomou-se na UFMG. Dos outros seis, dois (Maria do Carmo e Airton) nasceram e se criaram no interior - Maria do Carmo em Minas e Airton, em São Paulo - e fizeram seus cursos de graduação em instituições privadas próximas ou em suas próprias cidades. Quatro (a maioria) de nossos professores cursaram a licenciatura em Matemática na antiga Fafi- BH, uma na Newton Paiva, faculdades particulares de Belo Horizonte. Essa circunstância chamou nossa atenção após a realização das entrevistas, de modo que não chegamos a investigar, junto aos depoentes, as razões pelas quais não fizeram o curso na UFMG, que na década de 1960 já era uma instituição pública federal e gratuita. Algumas hipóteses poderiam explicar a escolha da Fafi-BH ou na Newton Paiva, como a necessidade de conciliar estudos e trabalho fazendo um curso noturno 187 , a qualificação da licenciatura da faculdade no mercado profissional, a maior concorrência no vestibular da UFMG. 4.2.1. Qualificação Docente De acordo com Fiorentini e Lorenzato (2007), no Brasil, a Educação Matemática surge como campo profissional e área de conhecimento a partir da década 184 Cristovam Colombo dos Santos (1890 - 1980) foi professor de Matemática da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Minas Gerais, em Belo Horizonte, no início de seu funcionamento. Disponível em: < http://33reuniao.anped.org.br/33encontro/app/webroot/files/file/Trabalhos%20em%20PDF/GT19-6736-- Int.pdf>. Último acesso em: 09 fev. 2017. Não encontramos informações adicionais sobre esse docente. 185 O professor Mário de Oliveira foi decano e idealizador da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte, Fafi-BH. Também foi fundador da Escola de Engenharia Kennedy, primeiro presidente da Fundação Cultural de Belo Horizonte - Fundac-BH e Reitor do antigo Colégio Estadual de Minas Gerais. Na década de 1960, criou um dos primeiros cursos pré-vestibulares da cidade. Foi autor de mais de 600 livros, muitos deles na área de Matemática (OLIVEIRA, 1998). 186 Professor aposentado do departamento de Matemática da UFMG, já falecido. Disponível em: < http://www.mat.ufmg.br/site/professores-aposentados/>. Último acesso em: 09 fev. 2017. 187 Na UFMG, a licenciatura em Matemática no turno da noite passou a ser oferecida apenas em 1994. 169 de 1970. Nesse período, há uma valorização da educação, verifica-se a expansão das vagas em nível superior, o aumento do número de licenciaturas em Ciências e Matemática, além do aparecimento de programas de pós-graduação em Matemática, Educação e Psicologia. Desse modo, a formação "formal" (inicial, contínua, especializada e avançada) foi gradualmente sendo percebida e reconhecida como um suporte fundamental ao desenvolvimento profissional, como assinalou Ponte (1998): "Ela não só é útil como é necessária para permitir uma variedade de percursos e processos de desenvolvimento profissional, de acordo com as preferências e as necessidades de professores com origens profissionais e inclinações muito diversas" (p. 10). Foi nesse âmbito que emergiu o programa experimental de mestrado em ensino de Ciências e Matemática, coordenado e estruturado, inicialmente, por Ubiratan D'Ambrosio. Esse projeto foi implementado no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Universidade Estadual de Campinas (IMECC - Unicamp) em convênio com o Ministério da Educação (MEC), o Programa de Expansão e Melhoria de Ensino (Premen 188 ) e a Organização dos Estados Americanos (OEA). Segundo seu coordenador, Ubiratan D'Ambrosio, esse programa, que vigorou de 1975 a 1984 189 , tinha por objetivo: desenvolver/qualificar especialistas e lideranças em ensino e ciências e matemática, nas diversas regiões da América Latina, que fossem capazes de: promover cursos e programas de melhoria de ensino; desenvolver análise, adaptação e elaboração de currículos; adaptar e produzir material institucional etc (FIORENTINI; LORENZATO, 2007, p. 23). Nesse período, três de nossos depoentes, já atuantes no Coltec, participaram do referido programa. Abdala contou 190 : Naquela época, o único mestrado que havia era Mestrado em Matemática, no ICEx. Eu não queria fazer esse mestrado, porque pretendia atuar na área de Ensino de Matemática. [...] Mas então apareceu o mestrado 188 Criado em 1970, o Programa de Expansão e Melhoria do Ensino - Premen - tinha como objetivo aperfeiçoar o sistema de ensino de primeiro e segundo graus e implantação das Escolas Polivalentes no Brasil. " O modelo de Escola Polivalente foi uma cópia das escolas públicas existentes nos EUA, para os também excluídos da sociedade norte-americana. Aqui, no Brasil, tornou-se responsável pela formação da massa de trabalhadores flexíveis e obedientes à nova realidade de produção brasileira". Contou com recursos orçamentários federais, estaduais e extra-orçamentários de fontes internas e externas. Vigorou durante o regime militar (ARAÚJO, J. A. C&D-Revista Eletrônica da Fainor. Vitória da Conquista, v.2, n.1, p.87-101, jan./dez. 2009). 189 No período de vigência desse programa, foram produzidas 28 dissertações de mestrado, relativas à Educação Matemática (FIORENTINI; LORENZATO, 2007). 190 Todos os nossos professores foram indagados sobre suas formações e qualificações após a graduação. 170 da Unicamp, em convênio com a OEA (Organização dos Estados Americanos). Aí eu me candidatei, fui para lá e fiz o mestrado. Para realizar esse curso, fiquei afastado das aulas do Coltec por um ano. Nesse período fui para São Paulo, onde estudava em período integral. Finalmente voltei a Belo Horizonte e produzi minha dissertação, defendida em 1981. Miranda (2015), que investigou esse primeiro mestrado em Ensino de Ciências e Matemática da Unicamp, afirma que o trabalho de Abdala foi o sexto a defender: Em 1981, foi a vez de Abdala Gannan, de Minas Gerais. Seu trabalho, intitulado “Uma Proposta Metodológica para Treinamento de Professores de Matemática do 2º grau”, foi orientado pelo prof. Sérgio Lorenzato e focalizou diretamente a formação de professores de matemática (p.9). Nas palavras de Abdala: O objetivo principal do meu projeto de pesquisa foi uma proposta de treinamento de professores de Matemática, de segundo grau, em serviço. Minha questão norteadora era: "Como é que é possível você treinar professores de Matemática, de segundo grau, em serviço, trabalhando?". Em seguida, era necessário encontrar um órgão para financiar o projeto. Apresentei a minha proposta à Secretaria de Educação de Minas Gerais, no Departamento de Ensino do Segundo Grau. Eles gostaram do projeto, e resolveram financiá-lo. Ele continuou: O professor participante, docente da Rede Estadual de Ensino, de qualquer localidade de Minas Gerais, ia para o Colégio Técnico no período de férias e participava das aulas. No final do curso, cada professor apresentava a proposta de um miniprojeto de ensino de algum conteúdo da Matemática, que deveria ser desenvolvido em sua cidade. Era oferecido um leque de opções para os docentes. Todo esse processo, desde os miniprojetos e seus desenvolvimentos, resultaram em dados que, posteriormente, foram analisados na minha pesquisa. A nona dissertação do programa mencionado, defendida em 1982, seria a da professora Maria do Carmo (MIRANDA, 2015). Nossa depoente revelou: Em 1978, eu fui chamada para cursar o mestrado na Unicamp [...].Antes de ingressar nesse mestrado, eu já tinha realizado algumas disciplinas do programa de pós-graduação da Faculdade de Educação da UFMG - FaE/UFMG, visando cursar o mestrado em Educação nessa instituição. Mas surgiu a oportunidade de ir para a Unicamp e eu não fiz outras disciplinas na UFMG. Ela prosseguiu: Meu orientador do mestrado foi o Ubiratan D'Ambrosio. Durante um ano, eu fiquei em Campinas, recebendo bolsa e 171 cursando as disciplinas concentradas. No final desse ano, eu retornei para Belo Horizonte, onde escrevi a minha dissertação. Minha pesquisa de mestrado relatava uma experiência que nós, eu e o Reginaldo, estávamos desenvolvendo junto ao Projeto AME- Atividades Matemáticas que Educam 191 . Eu não me lembro se demorei dois ou três anos para concluir a dissertação. Nosso prazo era de quatro anos para integralizar o mestrado. Naquele tempo não tinha internet, não tinha recursos, não tinha nada. Não tinha a área da Educação Matemática, realizar pesquisa era muito difícil. Quando eu terminei o meu trabalho, eu o enviei para o Ubiratan e ele disse: "Então vem defender!". O terceiro docente chamado foi Luiz Humberto, que nos relatou: quando eu estava no Coltec, eu recebi um convite para cursar o Mestrado em Ensino de Matemática, em Campinas, na Unicamp. Lá eu cursei todos os créditos, mas não defendi a minha dissertação, cuja temática era Ensino a Distância. Devido aos créditos que eu cursei, eu passei a receber a gratificação referente ao título de Especialista. Essas ações de formação acadêmica e busca por melhoria na atuação docente estavam de acordo com o Art. 3º (V), do Regimento do Colégio (1985 - Anexo X), que estabelecia que, para que fossem atingidos os objetivos da escola, era necessário "Promover e estimular a participação de seu pessoal docente e administrativo em cursos, seminários, conferências e congressos que contribuam para seu aperfeiçoamento profissional". O professor Airton considera que o corpo docente do Coltec sempre foi vanguardista, despontando na formação e nas práticas de ensino. Nas palavras dele: vale salientar que os professores que atuavam no Colégio eram muito bem qualificados. Maria do Carmo, por exemplo, fez mestrado em Educação Matemática no começo dos anos 1980, naquela turma da Unicamp, pioneira na área no país, organizado pelo Ubiratan D'Ambrosio. Ela foi formada com o que tinha de mais moderno. Airton, inicialmente, seguiu seus estudos no mestrado em Matemática, na UFMG, mas desistiu do curso antes de concluí-lo, como nos disse: as coisas começaram a ficar mais difíceis. O curso durava quatro anos. Eu entrei em 1992 e fiquei 92, 93 e parte de 94. Aí, quando eu estava terminando os créditos, faltava apenas fazer "Seminário" para eu ir para a escrita da dissertação, eu abandonei o curso. [...] 191 Esse projeto, iniciado em 1981, será detalhado posteriormente neste capítulo. Identificamos que, pelo menos, até 1989, ele foi implementado por docentes do Coltec. 172 Para mim, estava sendo um sacrifício continuar na Matemática; eu comecei a desgostar, a não ver propósito naquilo. Eu ia para a aula e pensava assim: "Tá, mas qual é o propósito disso tudo?". Eu não conseguia ver objetivo naquilo tudo que eu estava estudando. Cada vez mais, eu estava preocupado com as questões de ensino e me fazia perguntas do tipo: "o que isso me ajuda?". Essas percepções individuais, aliadas a diálogos com outros docentes da Universidade, levaram Airton a realizar o mestrado em Educação na UFMG. Sua dissertação, intitulada "A aquisição do conceito de função: Perfil das imagens produzidas pelos alunos", foi defendida em 1998. Sobre essa experiência ele contou: O mestrado me fez mudar muito. Eu já vinha de um processo de mudança, mas lento. Eu já estava gostando de trabalhar com Resolução de Problemas, entre outras coisas, mas era lento. Eram mudanças de professor, a minha própria prática mudando. Já no mestrado, eu começo a ter um mundo de informações que me faziam refletir sobre a prática e perceber que eu precisava de novos caminhos. Começo a achar que a minha aula estava muito ruim, que eu precisava melhorar. Observemos, nos relatos dos professores entrevistados, que a formação desses docentes, em programas ligados ao ensino de Matemática e à Educação Matemática, promovia diálogos com os conflitos que surgiam nas salas de aula, oferecendo subsídios para refletir sobre como deveriam proceder diante de algumas situações. E, nessa ação, era importante o "contacto com múltiplas fontes de informações - livros, revistas, outros professores ou mesmo parceiros exteriores ao sistema educativo", que podiam "proporcionar contactos estimulantes, potenciadores de novas perspectivas de análise" (PONTE, 1994, p. 10). A professora Tânia seguiu uma trajetória um pouco semelhante à de Airton: Logo que me formei, eu comecei a fazer uma Pós-Graduação em Matemática Pura, na Pontifícia Universidade Católica (PUC), relativa ao Programa Regional de Especialização de Professores de Ensino Superior - Prepes 192 . Em seguida, fiz uma Especialização em Ensino de Matemática, também na PUC/MG 193 . 192 "O Prepes foi criado em 1974, com o objetivo de contribuir para a educação no Brasil, por meio da formação continuada para professores. Os cursos apresentavam formato inovador com módulos presenciais de aulas no período de férias escolares. O programa foi referência nacional na formação de profissionais da educação, atraindo alunos de todo o Brasil". Disponível em: . Último acesso em: 06 mar. 2017. O Programa Regional de Especialização de Professores de Ensino Superior (Prepes) foi instinto no ano de 2013. A partir de 2014, a PUC Minas mantém a oferta de cursos de Formação e Aprimoramento de Professores, a partir do Programa de Pós- 173 Em 1988, Abdala e Maria do Carmo deram início a seus estudos em nível de doutorado na Universidade Laval, no Canadá, financiados pela CAPES 194 , mas apenas Maria do Carmo concluiu o curso. Abdala narrou: No doutorado, iniciado em 1988, era necessário participar de dois seminários, antes da elaboração da tese. No Seminário I, eram discutidas as propostas de trabalho dos doutorandos. No Seminário II, apresentávamos nossas propostas já avançadas, com os dados colhidos e a metodologia, restando apenas analisá-los e concluir a escrita. Em minha pesquisa de doutorado, eu trabalhei com "Simulação", contou Maria do Carmo. Então, por exemplo, quando os alunos lançam moedas, ou dados, eles podem descobrir as probabilidades da face superior da moeda ser cara ou coroa, ou da face superior do dado ser 1, 2, 3, 4, 5 ou 6. Eu trabalhei a partir de determinadas situações, em que era possível simular as probabilidades de um certo evento ocorrer. Havia um projeto maior na Universidade, sobre Probabilidade e Estatística, do qual meu orientador e eu participávamos. Enquanto isso, Abdala investigou os conceitos de geral e genérico em Educação Matemática, conforme descreveu: No ensino da Matemática, normalmente os conceitos são desenvolvidos segundo dois pontos de vista: do geral para o particular ou ao contrário, do particular para o geral. Minha proposta era um caminho intermediário, calcado no conceito de representante genérico, que poderia ser desenvolvido usando o computador como ferramenta. Naquele momento, era possível encontrar algumas pesquisas, ainda incipientes, sobre o tema. Escolhi trabalhar o conceito de função real de variável real, Mas não cheguei a concluir a tese, por problemas de saúde. Fiquei um tempo baqueado, não conseguia me concentrar. Quando tive condição de retomar, já havia um pesquisador na Inglaterra escrevendo a respeito. Não houve tempo para concluir o trabalho antes dele. Já o professor José Eloísio atuou como vice-diretor e depois diretor do Coltec, por um total de oito anos, além de ter sido diretor geral, por dois anos, da Unidade Especial da Universidade, que integrava o Centro Pedagógico e o Colégio Técnico. Ele desabafou: Eu não vou dizer que tenha sido ruim me envolver na parte administrativa, pois aprendi muito nessa área, mas prejudicou a minha carreira acadêmica, uma vez que eu não conseguia tempo para estudar e não tive a chance de fazer um mestrado. Graduação Formação e Aprimoramento de Professores. Informações obtidas pela Assessoria Técnico Pedagógica da PUC/MG, através de contato de email. 193 A docente não identifica os períodos em que realizou os cursos supracitados. 194 Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior. 174 Porém, assim que concluiu a graduação, ele fez um curso de Aperfeiçoamento em Buenos Aires, na Argentina, com duração de dois meses e meio. Segundo ele: Tratava-se de um projeto da OEA (Organização dos Estados Americanos), cuja temática era integração da Matemática com outras Ciências. Mas, na prática, percebia que era um curso que tratava de assuntos genéricos da educação, nem tanto voltado para Matemática ou para Física. Nós éramos todos da América do Sul e da América Central. Eu era o único brasileiro, o único que não dominava muito bem o idioma espanhol. Meu trabalho de final de curso foi realizado em dupla, com o Jorge Portillo, que era da Guatemala. Foi escrito em espanhol, exigência do curso. O Jorge e os demais colegas me ajudaram muito na questão do idioma, eles sempre me socorriam. Esse foi o trabalho que eu fiz lá. Foi meu trabalho de final de curso, um tipo de monografia [figura 28]. Figura 28: Capa do trabalho final de José Eloisio Domingos, intitulado: "Interación de matematica y fisica y su vinculacion com las demás ciencias", desenvolvido no curso "Integración de Matematica y fisica y su vinculación com las demás ciencias", em 1981. Fonte: Arquivo do Setor de Matemática do Coltec. 175 Além de Jed, o professor Francisco disse não ter tido tempo para dedicar-se à formação acadêmica posterior à da graduação: Eu fui para Montes Claros para ficar dois anos. Lecionava na Fundação Universitária do Norte de Minas, na FUNM 195 . Hoje ela não se chama assim. Atualmente ela é uma universidade, a Unimontes 196 . Quando se passaram os dois anos, eles falaram assim: "Não! Fica mais dois anos para formar a turma". Eu fiquei por mais quinze anos nessa faculdade. Por essa razão nunca fiz pós- graduação. Em 2004, o professor Airton ingressou no doutorado em Educação, também na FaE/UFMG, como relatou: Eu ingressei no mestrado em 1995 e saí no meio de 98. [...]. Em seguida fiquei cerca de sete anos até entrar no doutorado. Nesse período eu me envolvi com o trabalho, fiz um monte de coisas, até perceber que eu tinha que fazer o doutorado. Sua tese se intitula "Marcas do discurso da matemática escolar: uma investigação sobre as interações discursivas nas aulas do ensino médio". 4.2.2. Experiências Docentes Alguns de nossos depoentes iniciaram a carreira docente já durante a graduação. Airton contou: Depois que eu comecei o curso de Matemática, eu peguei bastante aulas e consegui turma no Estado. Abdala, por sua vez, revelou: ainda como aluno do curso de graduação, eu já estava lecionando no Colégio Estadual 197 e em outros colégios particulares. Comecei em l966, no Ginásio Domiciano Vieira, que ficava longe (bairro do Barreiro), depois no Colégio Loyola, Colégio Dom Cabral, num curso preparatório de vestibular para Medicina, chamado CB2, e em outras escolas de que não me recordo 198 . 195 FUNM - Fundação Norte Mineira de Ensino Superior. A pesquisa de Shirley Patrícia Nogueira de Castro e Almeida, intitulada "Um lugar: muitas histórias - o processo de formação de professores de Matemática na primeira instituição de ensino superior de Montes Claros/ Norte de Minas Gerais (1960 - 1990), retrata a formação de professores de Matemática nessa instituição. Francisco B. Gil foi um dos colaboradores da investigação. A tese foi defendida em 2015, no Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social de Minas Gerais, da Faculdade de Educação da UFMG. 196 Universidade Estadual de Montes Claros. 197 Esse colégio foi a primeira escola pública estadual de Minas Gerais. Instalada, inicialmente, na cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto) com o nome de Liceu Mineiro e, posteriormente, Ginásio Mineiro. Em 1898, foi transferida para Belo Horizonte (capital mineira), ocupando diferentes construções e assumindo várias nomenclaturas. A partir de 1963, recebeu o nome de Colégio Estadual Central. Em 1978 recebeu a denominação atual: Escola Estadual Governador Milton Campos (mesmo nome atribuído a esse colégio, anteriormente, no período de janeiro de 1972 a fevereiro de 1973). Disponível em: . Último acesso em 13 jul. 2016. 198 O colégio católico Loyola foi mencionado anteriormente. O Colégio Cenecista Domiciano Vieira funciona na região do Barreiro, cidade de Belo Horizonte, há mais de 50 anos. Oferece serviços para o Ensino Fundamental, Médio e Pós-Médio Profissionalizante. Disponível em: < 176 Outros colaboradores disseram que ingressaram no mercado de trabalho logo após a graduação, reunindo muitas experiências profissionais a partir de então. Eu me formei na Faculdade Newton Paiva, em 1977, narrou Tânia. No ano de 1978 eu comecei a dar aulas nesta instituição e na Faculdade Isabela Hendrix 199 , em cursos de licenciatura em Matemática. A professora Maria do Carmo também contou: Assim que me formei, eu lecionei na minha cidade natal, Guaranésia, no Colégio Estadual desse município, que fica próximo a Guaxupé. Naquela época não tinha Ensino Médio nessa escola, eu trabalhava com turmas de quinta à oitava série. Nossos entrevistados ainda revelaram que, no início de seus trabalhos no Colégio, mantiveram vínculos com outras escolas. Isso porque era incomum a contratação de professores em regime de dedicação exclusiva (40 horas semanais), em que o docente podia dedicar-se integralmente ao ensino e à pesquisa, sem permissão para exercer outra função remunerada. Francisco lecionava no Coltec no turno da tarde e no Colégio Santa Dorotéia 200 no turno da manhã. José Eloísio relatou 201 : Eu já era concursado no Colégio Estadual e também lecionava na Faculdade de Engenharia de Itaúna 202 , quando fui selecionado para lecionar no Colégio Técnico. Por algum tempo eu trabalhei nas três instituições simultaneamente. Maria do Carmo também contou os lugares com os quais manteve vínculo, mesmo depois de ingressar no Colégio: Faculdade Isabela Hendrix, onde lecionava no curso de Licenciatura em Ciências; Faculdade Newton Paiva, como docente no curso de licenciatura em Matemática; e na Faculdade de Pedro Leopoldo, http://colegiodomiciano.cnec.br/institucional/historia/>. O colégio católico Dom Cabral, atualmente denominado Claretiano, oferece os cursos de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Ele está localizado na Rua Aimorés, 1583, no bairro de Lordes, em Belo Horizonte. Disponível em: < http://claretianocolegio.com.br/belohorizonte>. Não foi possível encontrar informações sobre o Curso Preparatório CB2. Último acesso em: 25 out. 2017. 199 O Instituto Metodista Izabela Hendrix foi fundado em 1904, por uma missionária da Igreja Metodista do Sul dos Estados Unidos. Inicialmente, seu objetivo era criar uma escola para mulheres brasileiras, com recursos das mulheres americanas. Na década de 60 o colégio passou a receber matrícula de homens. Em 1972, o Izabela Hendrix ingressou no ensino superior com a criação de uma faculdade. Atualmente, oferece vagas para Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio, Graduação e Pós-Graduação. Disponível em: < http://izabelahendrix.edu.br/institucional/historia>. Último acesso em: 26 set. 2016. 200 "As origens do Colégio Santa Dorotéia, em Belo Horizonte desde 1962, remontam aos 175 anos da Fundação da Congregação das Irmãs de Santa Dorotéia, iniciada por Paula Frassinetti em 1834, na Itália, e que teve sua primeira escola fundada no Brasil no ano de 1866". Localizado no bairro Sion, oferece Ensino Infantil, Fundamental e Médio. Disponível em: < http://www.santadoroteia.com.br/2008/MenuPrincipal/OCol egio/OColegio.html>. Último acesso em: 25 out. 2016. 201 Todos os nossos entrevistados foram convidados a relatarem suas experiências profissionais antes ou durante sua atuação no Coltec. 202 A Universidade de Itaúna possui campi nas cidades de Itaúna, Almenara e Lagoa da Prata. Oferece cursos de bacharelado, licenciatura, tecnólogo, Pós-Graduação Lato Sensu e Pós-Graduação Stricto Sensu. Disponível em: . Último acesso em: 10 jul. 2016. 177 coordenando o curso de Especialização em Educação Matemática. Ela ainda revelou um fato curioso: Interessante que eu fui uma das fundadoras do curso de Licenciatura em Matemática da Faculdade Newton Paiva, e lá também lecionei para a Tânia Ayer, que viria a trabalhar comigo no Coltec. Sobre seu contrato de trabalho, comentou: Inicialmente, meu cargo na UFMG era de 24 horas, depois passou para 40 horas e, finalmente, para Dedicação Exclusiva. Aí deixei as outras instituições e me concentrei nas atividades da UFMG. Apesar desse tipo de contrato, sem exclusividade para o Coltec, os docentes assumiam outras funções na escola, além das aulas, como explicou Luiz Humberto. Nós todos tínhamos 12 horas, 24 horas. Não existia regime de dedicação exclusiva. Entretanto, os professores, independente da área (Matemática, História, Português...), não se dedicavam apenas à própria disciplina, dentro do Colégio. Nós atuávamos em comissões diversas. Eu, por exemplo, que sempre gostei da área da Psicanálise, participava de um grupo que regulava a conduta dos alunos, pois tínhamos muitos casos de drogas no colégio. Os saberes reunidos nos vários vínculos de trabalho, aliados às experiências de vida pessoal, conhecimentos próprios, influenciados por questões culturais, sociais e profissionais, formavam cada um desses professores. Ponte (1998) versa sobre o "conhecimento profissional", um domínio diretamente associado às habilidades acumuladas com a experiência docente, mas subsidiado por outras origens, como comunidade, tradições, mitos, normas e prática letiva. Segundo ele, esse conhecimento "é constantemente elaborado e reelaborado pelo professor, em função dos seus contextos de trabalho e das necessidades decorrentes das situações que vai enfrentando" (p. 5). Pensando nisso, recordamos o relato do professor Abdala sobre uma de suas experiências. Disse que, durante certo período, adotava livros didáticos em suas aulas no Coltec. Insatisfeito, refletiu: os livros disponíveis não esclareciam como eu gostaria que fosse esclarecido. Os alunos começavam dizendo: “não entendi isso!"; "não entendi aquilo!". Aí eu fui percebendo o que eles não entendiam e o quê e o porquê eles não compreendiam; decidi fazer meu próprio material. Não somente ele como outros docentes do Colégio revelaram que criavam atividades e materiais para atender a variadas demandas. Cada professor queria produzir o seu, disse Maria do Carmo. E, em alguns casos, nós compartilhávamos nossas produções. Já naquela época, todos do 178 Departamento tentavam fazer alguma coisa diferente. Dessa forma, o jeito de dar aula do Coltec era nosso, era estabelecido pela gente. Vale salientar alguns aspectos, esclarecidos por Maria do Carmo, sobre a dificuldade em produzir esses materiais: Diferentemente dos dias atuais, nós tínhamos muito trabalho para produzir materiais didáticos, provas. Inicialmente, porque não tinha nem máquina de datilografar na época, nós fazíamos tudo à mão. Depois, tinha máquina, mas era muito complicado datilografar um "módulo", uma raiz quadrada, um expoente, e nós precisávamos disso. Além disso, não era comum o uso de xerox, nós utilizávamos matrizes para confecção das apostilas. Era uma matriz muito trabalhosa, em que não era possível fazer correções. Não havia, também, muito papel disponível. Algumas vezes, nós dobrávamos os papéis ao meio. Papel era muito caro.José Eloísio também lembrou-se desse aspecto: nós tínhamos uma seção que ficava responsável por reproduzir, rodar todas as matrizes que fazíamos. No começo, usávamos stencil, mimeógrafo à tinta. Eu batia tudo na máquina de escrever e fazia os gráficos todos à mão, era muito trabalhoso. Notemos que algumas experiências que contribuem para o desenvolvimento profissional ora são definidas unicamente pelo indivíduo, "pelo meu próprio", ora são marcadas “pelo coletivo”, “pelo nosso", "pela gente". Naturalmente, cada professor é responsável por investir na sua carreira, definir propósitos, avaliar os percursos e refletir sobre sua prática. Contudo, essas condutas são favorecidas por "contextos colaborativos (institucionais, associativos, formais ou informais) onde o professor tem oportunidade de interagir com outros e sentir-se apoiado, onde pode conferir as suas experiências e recolher informações importantes" (PONTE, 1998, p. 10, grifos do autor). Luiz Humberto, por exemplo, admitiu que foi influenciado pelo grupo de trabalho liderado por Maria do Carmo e Reginaldo Naves, como revelou: eu trabalhava com os materiais e a metodologia proposta por esse grupo. E prosseguiu: Além desse grupo, eu tinha o meu guru, chamado Mário de Oliveira. Ele era da Fafi-BH, de cursinhos pré-vestibular e cursos supletivos. Eu adotava a didática e a técnica dele. Assim como ele, eu dividia o quadro em três partes: definição, propriedades e aplicações. Segundo nossos entrevistados, a professora Maria do Carmo, do Coltec, e o professor Reginaldo, do Centro Pedagógico, que já tinham muita experiência na produção e divulgação de materiais didáticos, exerciam muita influência sobre alguns 179 colegas do setor. É o caso de Luiz Humberto, Tânia e Sérgio (Esse último foi professor de Matemática do Coltec, entretanto, não participou dessa pesquisa). Tânia rememorou essa relação, mencionando uma atividade específica: Ah! Quero contar um trabalho que fizemos, para o ensino de Trigonometria. Eu costumava lecionar este conteúdo de forma muito interessante. Iniciava-se com materiais concretos, oriundos de um projeto da Maria do Carmo e do Reginaldo Naves. Esse material era muito interessante. Não tinha erro! Os meninos entendiam mesmo. Era muito legal! Airton, que chegou ao Colégio posteriormente, descreveu sua percepção: o pessoal estava influenciado pelas Instruções Programadas. Inclusive o Serjão, que já estava no final da carreira. Talvez o Gil não fosse tão adepto, pois era mais tradicional, dava uma aula clássica. Os demais, todos estavam na lógica de Instrução Programada 203 , com materiais bem organizados, tudo dividido por etapas. Além disso, eles tinham uma influência piagetiana, que talvez eles nem saibam dizer, mas é algo claro para mim. A percepção de aprendizagem deles era por etapas, por fases, algo que foi sugerido pela Maria do Carmo e pelo Reginaldo. 4.2.3. Participação dos docentes do Coltec na capacitação de professores de outras escolas No final da década de 1960, foi intensificado o interesse da Universidade em levar à população, "por meio do ensino, resultados alcançados por meio da pesquisa". Em consequência, houve o desenvolvimento e a expansão dos programas de extensão, até que, após a sanção da Lei da Reforma Universitária (nº 5.540) de 1968, ficou estabelecida a obrigatoriedade da extensão nas universidades brasileiras 204 . Uma das medidas para viabilizar o cumprimento dessa lei foi a criação de seis Centros de Ensino de Ciências, os Ceci's, em diferentes capitais e regiões (Pernambuco, Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo). Esses centros tinham a finalidade de auxiliar na melhoria do ensino básico, a partir da produção e divulgação de materiais instrucionais, elaboração e produção de projetos especiais, da orientação pedagógica constante e do treinamento de professores (BOTH, 2016). Em Minas Gerais foi criado, em 1965, o Centro de Ensino de Ciências de Minas Gerais (Cecimig), resultado de um convênio entre o MEC e a UFMG , que se 203 No Capítulo 5, apresentamos informações e comentários sobre esse tipo de material. 204 Disponível em: . Último acesso em: 25 out. 2017. 180 mantém ativo ainda hoje, apoiando o trabalho de professores de Física, Química, Matemática, Biologia e Ciências no estado. Dentre seus objetivos, o centro visa estimular a pesquisa e a extensão, contribuindo para a melhoria do ensino de Ciências. Neste sentido, é responsável pela organização de cursos de aperfeiçoamento e especialização, assessoria a diversas instituições, promoção de seminários, congressos e encontros na área, realização e divulgação de pesquisas e construção de acervo bibliográfico e de materiais para atividades experimentais em Ciências. De acordo com Dumont (2016), o Cecimig promoveu, aproximadamente, 268 ações de formação de professores (cursos de atualização, aperfeiçoamento e especialização), considerando os relatórios avaliados, no período de 1976 a 2016. Como participantes do quadro de docente da UFMG, os professores do Coltec também se envolviam em propostas dessa natureza. No Relatório Anual de Atividades Docentes do Colégio Técnico, de 1989, por exemplo, há registro de 79 projetos de extensão desenvolvidos (Anexo XXV). Além disso, no Relatório Anual do Setor de Matemática, de 1990, metade dos docentes mencionam "ministrar cursos de extensão" entre suas atividades (Anexo XXVI) 205 . Quando descreveu uma atividade sobre o estudo de funções quadráticas, Maria do Carmo relatou: Eu trabalhei muitos anos com capacitação de professores, no Centro de Ensino de Ciências e Matemática de Minas Gerais - Cecimig. Lá, eu utilizava essa atividade com os docentes e eles também aplicavam a seus alunos. Eu fazia com funções do segundo grau, terceiro grau, quarto grau, funções trigonométricas. Todas usando os mesmos princípios que eu descrevi. Eu só encontrei o material da função do 2º grau, mas dá para se ter ideia do funcionamento para as demais funções. Os materiais desenvolvidos para trabalhar no Coltec e, principalmente, no Centro Pedagógico, eram usados nos cursos de capacitação de professores em Minas Gerais e em outros estados: Mato Grosso, Rondônia, Paraná...., retomou Maria do Carmo, em outro momento da nossa conversa. Ela explicou, ao ser interrogada sobre a participação em projetos de capacitação docente: Nós produzíamos material e 205 Em 1990, os docentes do Coltec referidos no relatório eram Luiz Humberto, Sérgio Veiga, Francisco Gil, Reginaldo Naves, José Eloísio, Tânia Ayer, Maria do Carmo e Abdala Gannam. Os dois últimos estavam de licença para o doutorado. Embora Reginaldo Naves figure entre os docentes do Colégio, Maria do Carmo e Luiz Humberto relataram que ele atuava na escola de 1º Grau, o Centro Pedagógico. Outro dado interessante em relação ao Cecimig é que o professor Luiz Humberto realizou o "Estágio de Aperfeiçoamento de Professores de Matemática", oferecido pelo Cecimig, em 1970, como discente (de acordo com documentação apresentada em nossa entrevista - ver textualização). E a professora Tânia Ayer realizou três cursos de treinamento docente no Cecimig, em 1977 e 1978, como estudante, conforme informado em seu currículo, disponível na pasta do seu concurso para ingresso no Coltec. 181 mandávamos de ônibus, especialmente eu e o Reginaldo, juntamente ao Cecimig. Assim que o material estava pronto, os professores do Centro Pedagógico aplicavam em suas turmas. Dessa forma, nós tínhamos um retorno sobre esse material: "esse ponto aqui está bom", "aqui os meninos tiveram dificuldades". A partir daí, nós fazíamos as revisões necessárias. Em seguida, esse material era enviado para outras cidades ou estados. Em geral, um professor da universidade local nos auxiliava, recebendo o material, distribuindo nas escolas e capacitando os docentes sobre seus usos e aplicações. Acompanhavam esse material um manual para o professor e um manual para o aluno. O manual do professor era todo ilustrado com histórias em quadrinhos, descrevendo as atividades propostas. [...] Em geral, trabalhávamos com professores que lecionavam até a 8ª série. Tivemos alguma atuação no Ensino Médio, mas pouca. Nessa época havia poucas escolas desse nível. O Ensino Médio foi difundido de uns tempos para cá. Airton, ao ser indagado sobre seu convívio com o professor Reginaldo Naves, nos disse: Eu convivi muito pouco com o Reginaldo aqui na escola. Ele vinha muito aqui para se reunir com um grupo de trabalho que incluía a Tânia e a Maria do Carmo. Eles se reuniam uma vez por semana, ou uma vez a cada quinze dias, não lembro mais. Eles discutiam propostas de cursos para professores, pois davam muitos cursos. Eles tinham apostilas para o Ensino Fundamental inteiro, com todos os assuntos. A partir desse material, eles davam os cursos, algumas vezes no interior do estado, onde mostravam as apostilas, davam aulas a partir delas, todas baseadas em Estudos Dirigidos, com muito espaço em branco para completar. Além disso, eles foram responsáveis por fazer o Programa de Matemática do Estado de Minas Gerais. Eles faziam várias coisas assim, prestavam consultoria e davam curso para professores de escolas públicas. Muitos desses cursos estavam vinculados ao Cecimig. Depois, o pessoal da Física do Coltec assumiu esse Centro e eles se afastaram. Nos documentos dos arquivos do Cecimig (armazenados na sala 518 da Faculdade de Educação da UFMG), que estavam sendo inventariados pela pesquisadora e ex-funcionária desse centro no momento em que escrevemos este Capítulo 206 , Maria 206 Maria Angela Ribeiro Bosco Dumont, secretária do Cecimig por onze anos, produziu uma pesquisa, concluída em 2016, junto ao Mestrado Profissional Educação e Docência - FaE/UFMG, cuja proposta era inventariar alguns documentos desse Centro e organizá-los, de modo a torná-los uma fonte acessível. Além disso, como resultado desse trabalho, ela reconstruiu parte da história do Cecimig (Disponível em: < http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/BUBD-ANGT4S>. Último acesso em: 30 out. 2017). Após a realização de sua investigação, Angela se aposentou. Em 2017, em projeto aprovado pela Pró-reitoria de Pesquisas da UFMG e a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais - Fapemig, 182 Angela Dumont, encontramos três registros sobre Maria do Carmo. O primeiro deles é um relatório, redigido por essa docente, tratando do "1º Encontro de Coordenadores de Cursos de Licenciatura Parcelada Experimental para Professores Leigos de Ciências e Matemática em Exercício", promovido pelo MEC, pela Secretaria de Educação de Minas Gerais, e pelo Premen, junto ao "Projeto de Melhoria do Ensino de Ciências", com representantes dos estados da Bahia, Paraná e Minas Gerais, realizado em 23 de novembro de 1973. O segundo deles refere-se a um relatório de um curso de "Treinamento de Professores em Matemática da 1ª série do 1º grau", oferecido em 1976, promovido pelo Premen/Cecimig, a 30 participantes, cuja docente responsável foi Maria do Carmo. O terceiro é um texto (sete páginas), de autoria de Maria do Carmo, sobre a temática "Autoritarismo no Ensino de Matemática", datado de novembro de 1983 207 . Sobre a dinâmica de atuação em cursos de capacitação, Maria do Carmo acrescentou: Em alguns casos, os professores do Centro Pedagógico e do Coltec iam até os pólos, nos finais de semana, coordenar os cursos de capacitação. Eles distribuíam materiais, trabalhavam os conteúdos e sugeriam propostas de ensino aos docentes da região. Em seguida, de posse dos materiais, os professores em capacitação estudavam sozinhos e aplicavam algumas propostas em suas salas de aula. No encontro seguinte, eles socializavam suas práticas e esclareciam possíveis dúvidas com os coordenadores. A gente discutia ensino, líamos textos sobre Educação. Nós fizemos isso muito tempo. A Tânia do Coltec participou muito dessas capacitações 208 . Quando perguntada sobre os motivos que a levaram a prestar o exame de seleção de professores do Coltec, entre outras razões já mencionadas, Tânia também nos disse: [...] no Coltec, além de poder lecionar de forma "diferenciada", eu podia divulgar esse meu trabalho, meus métodos, minha filosofia por este Brasil afora, em ela retomou o trabalho de inventariar os documentos do Cecimig, incluindo um grande número de materiais e caixas não explorados durante a pesquisa de mestrado. 207 A secretária Maria Angela Dumont ainda estava organizando os documentos e, por isso, não soube informar se há outros registros de professores do Coltec atuantes nos projetos do Cecimig. Em sua catalogação, pelo que ela nos relatou, não eram utilizados nomes de participantes, mas sim, tipos de documentos (fichas de inscrição, projetos, relatórios) e períodos de ocorrência. Além disso, em sua dissertação de mestrado, relata a ocorrência de uma Especialização em Ensino de Ciências, lato sensu, realizada a partir de 1991 (a última turma ingressou em 2003), em parceria com o Coltec. Segundo a autora, o colegiado do Colégio Técnico (verifiquem as atribuições desse órgão no Regimento de 1985 - Anexo X) teria aprovado a participação de seus professores como membros do corpo docente desse curso, porém, os nomes desses integrantes não são informados na dissertação. 208 As atividades da professora Maria do Carmo têm destaque no Colégio Técnico e, mais amplamente, nas práticas de docentes do Centro Pedagógico (que englobava a Escola de 1º Grau e o Coltec), como pode ser conferido no Relatório de Atividades de 1984. Esse documento registra que Maria do Carmo proferiu uma conferência, ministrou nove palestras para professores, lecionou onze cursos para docentes, integrou três projetos de ensino, pesquisa ou extensão e publicou quatro trabalhos (Anexo XXVII). 183 cursos de capacitação docente e/ou congressos de Educação Matemática. Em seguida, esclareceu: Ofereci tantos cursos, que já nem me recordo de todos, seus nomes. Era comum os professores do Coltec oferecerem cursos para professores da Prefeitura, do Estado. A gente assessorava docentes atuantes no 1º e 2º Graus. Ensinávamos metodologias de ensino e uso de recursos didáticos, que tinham como proposta motivar os alunos. Os resultados eram evidentes, era notório o sucesso dos alunos. Eles entendiam e aprendiam, de fato, os conteúdos, a partir das nossas propostas de ensino. No Arquivo Inativo do Coltec, encontramos uma cópia do Projeto AME - Atividades Matemática que Educam, de 1989 209 , que identifica a professora Tânia como coordenadora, mas esclarece que seu início é anterior 210 : A equipe de Matemática do Coltec iniciou, no Centro Pedagógico - Escola de 1º Grau da Universidade Federal de Minas Gerais, estudos que culminaram, em 1981, na formulação de uma Proposta de Educação Matemática para alunos de 1º Grau. Tendo por objetivo educar o aluno usando a Matemática, essa proposta foi denominada Proposta AME - Atividades Matemáticas que Educam 211. Esse documento também informa que o Projeto contou com diferentes auxílios financeiros de vários programas e órgãos como o Premen (Programa de Expansão e Melhoria do Ensino), o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), a Secretaria de Educação de Minas Gerais e a UFMG, uma vez que era necessário capital para despesas como produção e confecção de materiais, bem como o pagamento de transporte. No entanto, a professora Maria do Carmo explicitou: nós não éramos remunerados. As escolas ou as superintendências chamavam a gente para oferecer esses cursos gratuitamente. Cabe realçar alguns aspectos do Projeto AME, explicados e enfatizados nesse documento de 1989 (Anexo XV). Em sua proposta, pretendia-se inverter a ação pedagógica, usual, nas escolas, em que primeiro o professor explicava as definições e resultados e depois propunha problemas e exercícios aos alunos. Desse modo, os docentes deveriam iniciar o trabalho com seus alunos a partir da formulação de ideias matemáticas ou problemas. Posteriormente, formulavam-se hipóteses e uma linguagem 209 Nesse documento, a coordenadora, Tânia Ayer, solicita à Sesu (Secretaria de Educação Superior) financiamento para custear as despesas básicas, uma vez que as Universidades Federais não dispunham de recursos para isso. Também informa que a Sesu financiou o Projeto de 1983 a 1985, através do Programa de Integração da Universidade com o Ensino de 1º Grau. 210 Inclusive, conforme informado na seção anterior, o Projeto AME juntou experiências que auxiliaram na dissertação de mestrado da professora Maria do Carmo. 211 Fonte: Anexo XV: Projeto AME - Atividades Matemáticas que Educam (1989), p. 5. 184 para traduzir essas ideias. Nesse trabalho, não havia aula expositiva; raramente se dependia do quadro negro e giz; o aluno não recebia informações; o professor não explicava lições; o aluno podia reconstruir os conceitos matemáticos; a realidade das crianças e os seus interesses motivavam as aulas; a postura dinâmica e ativa das crianças era explorada; e havia uma valorização do desenvolvimento mental dos estudantes e de suas estratégias de pensamento. Apoiados nessa proposta de trabalho, professores dinamizadores (capacitadores - mestres ou especialistas) visitavam escolas de diferentes cidades para propor formas de trabalho e apresentar materiais instrucionais. Posteriormente, esses dinamizadores realizavam novas viagens àquelas cidades, para discutir a aplicação dos materiais em sala de aula e as dificuldades encontradas pelos docentes. Esse retorno às cidades foi evidenciado pela coordenadora como sendo um diferencial do Projeto, uma vez que o professor do ensino de 1º grau "não ficava abandonado". Além disso, toda alteração proposta era acompanhada de leituras, análises e discussões de textos para conscientização das mudanças a serem realizadas 212 . Ao falar sobre a qualidade do trabalho de alguns professores do Coltec, divulgado em cursos de capacitação docente em cidades diversas, José Eloísio, embora não tenha explicado, referiu-se ao Projeto AME ou a alguma proposta similar: No Colégio Técnico, além de lecionar nos cursos técnicos, eu integrava uma equipe que oferecia treinamento para professores do Estado. Tratava-se de uma equipe multidisciplinar que viajava para vários municípios de Minas Gerais, promovendo cursos de capacitação. No Departamento de Matemática, participávamos eu, o Abdala, o Sérgio e a professora Tânia. Abdala abordava os recursos didáticos para o ensino de Matemática, tema de sua dissertação. Sobre a dinâmica, ele disse: Nós visitávamos os professores em suas cidades, onde desenvolvíamos materiais e recursos, relacionados ao que havia sido ensinado. Nessas ocasiões, também verificávamos o que eles tinham produzido, após nossas recomendações, passadas no encontro anterior. A aprendizagem no mestrado e no doutorado e, principalmente, o interesse e conhecimento a respeito de recursos audiovisuais permitiram que Abdala atuasse na capacitação de professores ao longo de sua carreira, como contou: Proferi muitas palestras em diversas localidades de Minas Gerais, falando sobre o que tinha feito, sobre os recursos audiovisuais aplicados ao ensino da Matemática. Mostrava que não 212 Essas ações pretendiam, em 1989, atingir 1824 alunos de 51 professores, de 1ª a 7ª séries de 1º grau, de três cidades de Minas Gerais: Belo Horizonte, Bocaiuva e Lavras. 185 eram necessários equipamentos sofisticados para utilizá-los: quase todas as escolas possuíam retroprojetores, projetores de "slides" e gravadores, que eram muito pouco utilizados ou usados de forma inadequada. A professora Maria do Carmo também atuou no Programa de Expansão e Melhoria da Educação no Meio Rural do Nordeste - Edurural - NE (Decreto nº 85.287, de 23 de Outubro de 1980), que tinha como objetivo a "expansão das oportunidades educacionais e a melhoria das condições da educação no meio rural do Nordeste, bem como o fortalecimento do processo de planejamento e administração educacionais” 213. Nos materiais do Setor de Matemática, encontramos duas correspondências destinadas à professora Maria do Carmo. A primeira delas convidava essa docente a participar, no período de 13 a 15 de junho de 1983, do Encontro de Potenciadores do Edurural da Bahia (docentes que levariam/multiplicariam os conhecimentos, adquiridos nesse encontro, a outros professores, em diferentes regiões do Estado), na cidade de Salvador. No segundo convite, enviado no mesmo ano, ela foi chamada para ministrar aulas de Matemática na III Semana Pedagógica, promovida pela Secretaria do Estado de Educação Maranhão e relacionada ao mesmo projeto. Ao que parece, Abdala, Luiz Humberto e Maria do Carmo cumpriram algumas das finalidades do mestrado que cursaram na Unicamp 214 . Conforme os relatos anteriormente apresentados, esses docentes ofereceram cursos e palestras para a melhoria do ensino, além de produzirem e divulgarem materiais institucionais. Particularmente, a professora Maria do Carmo esteve envolvida num trabalho de reformulação curricular no estado de Minas Gerais, como narrou: lembro-me que, por volta de 1976 ou 1977, foi realizada uma reformulação do currículo de Minas Gerais, em que eu e o professor Reginaldo participamos. Encontramos, ainda, uma apostila elaborada pelo professor do Coltec, Sérgio Veiga Dias, datada de julho de 1980, sobre "Função Real de Variável Real", vinculada à Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais - Departamento de Ensino de 1º grau, cujo título é: "Assistência técnica a professores de Matemática - Curso de Instrumentação para o Ensino de Matemática". 213 Disponível em: . Último acesso em: 29 out. 2017. 214 Descritas na seção 4.2.1. 186 Figura 29: Capa da apostila desenvolvida por Sérgio Veiga, utilizada para assistência técnica a professores de Matemática - 1980. Fonte: Materiais do Setor de Matemática do Coltec. Enfim, neste tópico em que percebemos os professores do Coltec como gestores da formação continuada de colegas de profissão e salientamos seu empenho e participação nessas ações, chamamos a atenção para uma particularidade. Os relatos de nossos colaboradores podem nos levar a pensar que houve apenas um movimento de 187 dentro do Coltec e da UFMG para fora, ou seja, que nesses momentos eles apenas estiveram transmitindo seus conhecimentos e informações. No entanto, no diálogo com os sujeitos em capacitação, constatamos as oportunidades de esses professores ouvirem experiências diversas, refletirem, repensarem suas propostas e, consequentemente, se formarem como pessoas e profissionais. Recordando-se do envolvimento com a capacitação de professores, e particularmente, com as viagens, José Eloísio relatou, ao final da entrevista, quando interrogado sobre os trabalhos que fez ou gostaria de ter feito depois de aposentado: Esse trabalho era muito gratificante, pois os locais atendidos eram muito carentes. Deixavam todos os visitantes perplexos com tanta necessidade. Nós percebíamos que aqueles docentes só estavam naquela incapacidade porque faltava alguém que fosse lá e os ajudasse. Além da possibilidade de contribuir com a prática desses docentes, as experiências com as viagens eram muito boas. Nós conhecíamos pessoas, realidades, situações. Certa vez, fui ao banheiro de uma escola, na cidade de Rio Acima, em que o vaso sanitário era de barro, enterrado. A partir de cada episódio desse, nós valorizávamos muito o que nós tínhamos, toda a estrutura que o Coltec nos oferecia 215 . Infelizmente, não dispomos de falas detalhadas sobre a formação (inicial ou contínua) dos professores substitutos/temporários e dos estagiários que atuaram no Coltec. Mas, vale ressaltar que os professores do Colégio também formaram e foram formados por esses sujeitos. 215 A capacitação docente é objeto de estudo de muitas pesquisas, cujo objeto são os professores em curso. Entretanto, não é comum (ao menos não encontramos trabalhos relacionados) investigações que verificam os efeitos da atuação do "capacitador" sobre si próprio. 189 5 - O ENSINO DE MATEMÁTICA NO COLTEC É ser estimulado a observar, criticar, raciocinar [...]. Ex-aluno 2 (entrada no Coltec: 1980) O espírito coltecano vivenciado por mim começou com a possibilidade de sair de um colégio público mediano, no qual eu não tinha nenhuma dificuldade e não me sentia estimulada, e passar a ser desafiada todos os dias - a ter dificuldade de verdade e ser obrigada a me superar, a pedir ajuda e a aprender a ser mais humilde. Ex-aluno 12 (entrada no Coltec: não informada) 218 Em nosso estudo, as práticas de ensinar-aprender Matemática são o cerne da investigação. Destacamos que o entendimento de práticas por nós discutido vai além do trabalho do professor em sala de aula. Quanto a esse trabalho, tratamos de observar aspectos como o currículo, a rotina, as decisões que os docentes assumiam, pautadas nas suas crenças, seus objetivos e planos de atuação (ainda que distorcidos pelo tempo) e, também, verificamos o modo como essas decisões foram colocadas ou não em ação, de acordo com o que os docentes e ex-alunos relataram (PONTE, 2014). No entanto, incluímos ainda uma abordagem mais ampla do conceito de práticas, que engloba a análise dos materiais e recursos produzidos e utilizados pelos docentes; as relações do ensino técnico com o ensino de Matemática; as permanências e rupturas nos modos de ensinar Matemática; as interações dos professores com outros indivíduos, alunos, pais, diretores e orientadores; e o desenvolvimento profissional, decorrente de cursos de capacitação, experiências e relações pessoais 219 . Interessa-nos discutir as práticas de ensinar-aprender Matemática no Coltec, sem, no entanto, qualificá-las. Isso porque o conceito de qualidade do ensino varia conforme as diferentes formas de ver e conceber o ensino, que se alteram ou se mantêm com o passar do tempo. Em certos momentos e contextos, por exemplo, a qualidade do 218 Recorte da resposta de um ex-aluno a uma mensagem publicada por uma professora e ex-aluna do Coltec, em uma rede social, conforme explicado em nota de rodapé no início do Capítulo 1. 219 Algumas temáticas são abordadas, direta ou indiretamente, em mais de um capítulo deste trabalho porque as informações resultantes da investigação permeiam mais de um domínio de análise. 190 ensino de Matemática pode ser vista como relacionada ao nível de rigor e formalização dos conteúdos. Em outros momentos e contextos, associa-se a qualidade do ensino aos modos como são contemplados os conhecimentos matemáticos envolvidos diretamente na realidade e na vida cotidiana da sociedade. Ou seja, o conceito de qualidade é relativo, modifica-se com o tempo e sofre determinações socioculturais e políticas. Em termos mais específicos, varia de acordo com as concepções pedagógicas e compromisso políticos daqueles que tentam produzir as inovações ou as transformações do ensino (FIORENTINI, 1994, p. 36). Atraíram-nos, sobretudo, os processos subjacentes à constituição e alterações dessas práticas. Buscamos, a partir do que nossos entrevistados falaram sobre as aulas de Matemática, compreender não apenas o que os docentes propunham, mas as razões que os levaram a essas estratégias de ensino. Começamos abordando alguns programas de Matemática do Colégio. Em seguida, contemplamos recursos didáticos e atividades empregados no ensino de Matemática do Coltec. Consideramos metodologia, tendências, materiais, artefatos e concepções, desde o início de seu funcionamento até os últimos anos da década de 1990. Finalmente, focalizamos as relações do ensino técnico com o ensino de Matemática. 5.1. Programas de Matemática do Coltec Nos materiais do Setor de Matemática do Colégio, encontramos programas dessa disciplina, três deles referentes ao início de seu funcionamento (dos anos de 1969, 1970 e 1972) e um quarto relativo ao ano de 1986. Existem outros programas sem indicação de data. Em linhas gerais, os planos de curso de Matemática para a 1ª e a 2ª série apresentam os seguintes objetivos, relativos às habilidades intelectuais a serem alcançadas pelos estudantes: desenvolver nos alunos hábitos de raciocínio, clareza, ordem, imaginação, disposição de estudo, atitudes de atenção, crítica, confiança, rigor, 191 amor pela Matemática, interesse pela resolução de problemas e exercícios, além de "mostrar-lhes a Matemática atuando de maneira mais prática possível" 220 . Quanto aos conhecimentos específicos esperados, distribuídos em 4 períodos (com 25, 30 ou 35 aulas, no caso da 2ª série, por exemplo), estavam: Quadro 4: Programa de Matemática do Coltec (1969) 1ª Série 2ª Série 3ª Série 1) Revisão Prática (números racionais; monômios; polinômios; radicais; produtos notáveis; fatoração e frações algébricas; proporção e regra de três; equações; inequações; sistemas, inclusive do 2º grau). 2) Conjuntos. 3) Relações. 4) Introdução ao estudo de funções. 5) Funções (Linear, quadrática e cúbica). 6) A relação     222 rnynx  . 7) Funções Trigonométricas. 8) Funções Exponenciais e Logarítmicas (uso da régua de cálculo 221 ). 9) Transformações de Funções Trigonométricas. 10) Equações Trigonométricas simples. 11) Pesquisa de raízes racionais de uma equação algébrica. 1) Funções (conceito e tipos de funções; representação gráfica). 2) Limite e Continuidade. 3) Derivadas. 4) Integrais Imediatas (integrais; cálculo de áreas e volumes). 5) Números Complexos. 6) Geometria Analítica. 7) Geometria Euclidiana (revisão de geometria plana; noções de reta, planos, diedros e triedros; cálculo de áreas e volumes dos sólidos) 1) Matemática Complementar (métodos de indução, progressões e somatória; análise combinatória e binômio de Newton; matrizes e sistemas lineares; polinômios e equações algébricas. 2) Estatística Fonte: Materiais do Setor de Matemática - Anexo XIX. No Programa de Matemática elaborado em 1972, notamos as seguintes mudanças na 1ª série em relação ao Programa supracitado, de 1969 (Quadro 4): a retirada dos tópicos 6) e 11) e a inserção de "Revisão de Geometria Plana", "Geometria 220 Planos de Matemática elaborados em 1970 - Anexos XX e XXI. 221 A régua de cálculo é um aparato que funcionava como uma calculadora analógica, desenvolvida por William Oughtred, aproximadamente, em 1622, semelhante à tabela de logaritmos desenvolvida por John Napier. Disponível em: < http://www.engquimicasantossp.com.br/2015/09/historia -logaritmos-regua-de-calculo.html>. Último acesso em: 29 out. 2017. 192 Espacial (retas e planos, poliedros, prismas e cilindros, pirâmides e cones, esfera)" e "Geometria Analítica", conteúdos anteriormente presentes no currículo da 2ª série. Além disso, a partir da 2ª série, passaram a ser feitas diferentes propostas de conteúdos, que variavam conforme o curso técnico pretendido, como pode ser observado no Quadro 5. Quadro 5: Programa de Matemática do Coltec (1972) 2ª Série Cursos: Eletrônica, Instrumentação, Química e Biologia (em referência ao curso de Patologia Clínica) 1º e 2º Período Revisão de Geometria Plana e Geometria Espacial; Geometria Espacial (cilindros, pirâmides, cones e esfera) Cursos: Eletrônica, Instrumentação, Química. Curso: Biologia 3º Período 4º Período 3º Período 4º Período Funções, Limites, Continuidade, Derivadas. Continuação de Derivadas, Números Complexos. Análise Combinatória. Cálculo Matricial (Matrizes, Determinantes e Sistemas Lineares). 3ª Série Cursos: Eletrônica, Instrumentação, Química. Curso: Biologia 1º Período 2º Período 1º Período 2º Período Análise Combinatória. Cálculo Matricial. Bio-Estatística. Derivadas, Cálculo Matricial 222 . Cursos: Instrumentação e Eletrônica Cursos: Química e Biologia 3º Período 4º Período 3º Período 4º Período Revisão de Derivadas, Cálculo Integral (definição, integrais primitivas e integração de funções elementares). Cálculo Integral (integral como área, integração de funções transcendentes, cálculo de áreas, problemas), Progressões. Fonte: Materiais do Setor de Matemática - Anexo XXII. A ausência da disciplina de Matemática durante dois períodos foi percebida pelo ex-aluno Gilberto, que ingressou no Colégio em 1980. No entanto, ela se deu no 3º ano, no quinto semestre de curso e não no sexto, como ocorria em 1972. Ao verificar o seu diploma, ele observou: em um dos semestres, a gente não tinha a disciplina de 222 O conteúdo de Cálculo Matricial estava repetido na 2ª e 3ª séries do curso de Patologia Clínica (Biologia). Como essa informação foi obtida após as entrevistas com nossos depoentes, não conseguimos compreender e encontrar razões para essa proposta. O mesmo ocorre com a Geometria Analítica e Geometria Espacial, que foram mencionadas na 1ª e 2ª séries, em todos os cursos. 193 Matemática. Coisa mais engraçada. Havia Matemática nos quatro primeiros semestres, pois era considerado o Núcleo Básico do curso. Depois, no 5º período [referindo-se ao semestre], nós não tínhamos essa disciplina. No 6º semestre ela surgia, novamente, como disciplina técnica, na parte profissional. Talvez apresentasse conteúdos ligados à Química, eu não me lembro. Inclusive, achei muito curioso. Como não temos disponíveis os programas desse período, não conseguimos especificar as mudanças. No Programa aplicado a partir de 1986, um ano e um semestre eram destinados ao núcleo comum. Diferentemente das propostas anteriores, não há uma revisão sobre números, estudo de conjuntos ou relações. O primeiro tópico proposto é funções reais, que são seguidas por função exponencial, função logarítmica, trigonometria e números complexos. Com exceção do último conteúdo, números complexos, os demais já estavam presentes nos programas anteriores do 1º ano. Os assuntos de Matemática propostos para o núcleo comum se encerravam no primeiro semestre do 2º ano, com as temáticas: sistemas de equações lineares, geometria no espaço e geometria analítica (Quadro 6). Quadro 6: Núcleo Comum (Instrumentação, Patologia Clínica, Eletrônica e Química) 1º ano 2º ano Funções Reais (conceito, gráficos, função linear, função quadrática, função potência e função modular) Função Exponencial. Função Logarítmica. Trigonometria. Números Complexos. 1º Semestre Sistemas de equações lineares. Geometria no espaço. Geometria Analítica. Fonte: Materiais do Setor de Matemática - Anexo XXIII. No segundo e terceiro anos dos cursos, a disciplina de Matemática se organizava realizando distinções entre três grupos, que eram denominados "Turmas de Física" (cursos de Eletrônica e Instrumentação), "Turmas de Biologia" (curso de Patologia Clínica) e "Turmas de Química" (curso de Química), conforme quadros a seguir: 194 Quadro 7: 2º ano - 2º semestre Turmas de Física Turmas de Biologia Turmas de Química Geometria Analítica. Complementos de trigonometria. Números Complexos. Matemática Finita. Complementos e Revisão de Função Exponencial e Função Logarítmica. Limite de uma função. Derivada de uma função. Poliedros regulares e poliedros Arquimedianos. Limite de uma função. Derivada de uma função. Fonte: Materiais do Setor de Matemática - Anexo XXIII. Quadro 8: 3º ano Turmas de Física Turmas de Biologia e Química 1º Semestre 1º Semestre Matemática Finita. 2º Semestre Noções de Estatística. Limite de uma função. Derivada de uma função. Introdução ao Cálculo de Integrais. Fonte: Materiais do Setor de Matemática - Anexo XXIII. 5.1.1. Os livros didáticos e os Programas de Matemática Como foi apresentado no capítulo anterior, os professores do Coltec não eram, em geral, adeptos do uso de livros didáticos. Na maior parte do tempo, eles preferiam produzir seus próprios materiais instrucionais, como contou o professor José Eloísio: nós sempre procurávamos produzir o nosso próprio material, de acordo com o que ensinávamos para os alunos, incluindo instruções do tipo: "faça aqui", "pega ali", "lê , estuda e faz". Contudo, entre suas produções, eles elaboravam Estudos Dirigidos que, conforme será esclarecido adiante, dependiam da consulta a livros didáticos indicados pelos docentes. Maria do Carmo ressalta: Os alunos é que compravam seus livros, não havia distribuição deles pelo governo. A partir de 1980, detectamos que uma coleção recomendada era dos autores Fernando Trotta, Luiz Imenes e José Jakubovic. O professor Abdala nos disse: Eu indicava muito o livro do Trotta. Ainda guardo um volume, que doarei para a sua pesquisa. 195 Figura 30: Livro Matemática Aplicada, volume 2, dos autores Fernando Trotta, Luiz M. P. Imenes e Jose Jakubovic. Fonte: Material doado à pesquisadora. Pires Júnior (2017), ao realizar entrevista com um dos autores dessa coleção, o professor Imenes, conheceu parte da trajetória de produção desses livros. Em seu depoimento, Imenes contou que, inicialmente, ele, Jakubovic e Trotta escreveram um material denominado "Curso Abril Vestibular". Devido a essa publicação, foram convidados para atuarem em uma universidade privada da cidade de São Paulo, auxiliando na criação de uma licenciatura plena em Matemática. De acordo com Imenes, "os alunos que chegavam nela tinham uma formação bastante precária, muitos vindos do Mobral , que era o movimento de alfabetização da época da ditadura (p. 98)". Essa oportunidade de montar um curso para alunos que, segundo ele, não sabiam resolver uma equação do segundo grau (conteúdo exigido no 1º grau) e os habilitarem como professores de Matemática em dois anos "nos obrigou a pensar na formação de professores de matemática e, portanto, pensar com mais cuidado no ensino da matemática, pensar na própria formação, foi uma revolução na cabeça da gente" (p. 98). Como consequência, Imenes, Jakubovic e Trotta escreveram uma coleção de livros didáticos chamada Matemática Aplicada, para o 2º grau, em três volumes, que foi publicada no ano de 1980. Sobre esses livros, Imenes acrescentou: Não é mais o auge da matemática moderna, mas ela ainda impera aqui no país. E a gente foge completamente daquele caminho traçado pela matemática moderna. Então, há muita preocupação com a construção de significados, seja através da história da matemática, seja por meio das aplicações de matemática. Não em todo o livro, em alguns capítulos a gente não conseguiu fazer isso, não sabia como (p.99). Essa coleção, indicada em alguns Estudos Dirigidos encontrados nos materiais do Setor de Matemática do Coltec, recebeu muitos elogios e críticas, sendo editada uma única vez, como explicou Imenes: "deu prejuízo ao editor [...] e deu prejuízo a nós 196 porque não fomos remunerados suficientemente pelas horas dedicadas a esse trabalho, nenhum de nós reclamou disso [...]" (p. 100). Nossos depoentes ressaltaram um hábito comum entre os estudantes do Colégio: a frequência à biblioteca, para pesquisas e estudo. Em relação à biblioteca, encontramos uma lista de títulos de livros a serem comprados com uma verba cedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no ano de 1973 (Anexo XXVIII). Observamos, nessa relação, que o número máximo de exemplares de um mesmo livro a ser comprado era vinte e cinco. Mas, entre os títulos indicados para a Matemática, a maior quantidade nessa relação era duas unidades. Possivelmente esses livros foram encomendados para dar suporte ao trabalho dos docentes ou foram escolhidos para compor o acervo da biblioteca. Como nenhuma dessas obras foi mencionada nos depoimentos dos nossos entrevistados, não temos como afirmar a utilização desses volumes. Os autores dos livros de Matemática listados são Osvaldo Sangiorgi, Ary Quintella e Mário de Oliveira. Ao visitarmos o acervo atual da biblioteca do Coltec, não encontramos exemplares dessas obras, mas deparamos com duas coleções de livros publicados na Inglaterra (Figuras 31 e 32) que, ao que tudo indica, foram doações do Conselho Britânico ao Colégio. A esse respeito, José Eloísio mencionou: o Departamento de Matemática não contou com uma ajuda direta dos ingleses, pois não havia um especialista inglês para nos auxiliar. Um deles, no entanto, que teria participado desde o início do Convênio, nos deu algumas orientações e se interessou em ver como era o nosso trabalho. No geral, o que todos os docentes recebiam de contribuição eram cursos sobre equipamentos educativos e didáticas, mas nada específico para Matemática. Nesses cursos, eram apresentadas novas ideias, recursos inovadores, coisas que nós não conhecíamos, que são comuns atualmente, e que já eram utilizadas na Inglaterra, naquela época. Recebemos, também, uma coleção de livros de Matemática [...]. Tal coleção pode ser a disponível na biblioteca da escola ou se tratar dos volumes preservados pelo professor Abdala e doados para nossa pesquisa 223 . 223 Outros detalhes e imagens desses livros estão disponíveis na textualização da entrevista desse professor (Apêndice D). 197 Figura 31: Coleção Modern Mathematics for Schools, publicada pela primeira vez em 1965 e revisada em 1969. Editoras: Blackie & Son Limited, das cidades Glasgow e Londres e V&R, Chambers Limeted, de Edimburgo e Londres. Figura 32: Coleção Modern Mathematics for Schools - 2ª edição, publicada pela primeira vez em 1971 e revisada em 1972. Editoras: Blackie & Son Limited, das cidades Glasgow e Londres e V&R, Chambers Limeted, de Edimburgo e Londres. Mesmo desconhecendo a edição dos livros listados no documento de 1973, estivemos no Laboratório de Ensino de Matemática (LEM) 224 do ICEx/UFMG para analisarmos alguns exemplares de autoria de Quintella (1969) e Sangiorgi; Monteiro; Watanabe (1970) 225 , publicados em datas pertinentes ao período de expedição dessa relação de livros. Também foi possível explorar a coleção dos autores Trotta, Imenes e Jakubovic (1980). Em uma breve análise, comparando os conteúdos dos Programas do Coltec, para o 1º ano, nos anos de 1969 e 1972, com os assuntos indicados nos índices dos livros de Quintella e Sangiorgi, consideramos que a proposta do Colégio não segue, precisamente, o planejamento desses livros, especialmente porque o estudo das funções lineares e quadráticas não é abordado neles. Além disso, funções exponenciais e logarítmicas são tratadas apenas no livro de Quintella. Esse livro também inclui tópicos da geometria espacial, que passaram a fazer parte do Programa de Matemática do Coltec, do 1º ano, somente a partir de 1972. Por outro lado, os tópicos 1) Revisão Prática (Conjuntos) e 2) Relações, que faziam parte do programa do Colégio Técnico de 224 O Laboratório de Ensino de Matemática (LEM) integra a infraestrutura do Curso de Matemática da UFMG. Trata-se de um projeto de apoio a diversas atividades acadêmicas curriculares do curso de Matemática, além de auxiliar em diferentes projetos de ensino, pesquisa e extensão. O LEM possui uma biblioteca com aproximadamente 2200 volumes, entre livros e periódicos das áreas de Matemática e Educação Matemática, uma videoteca e materiais didáticos. Disponível em: < http://www.mat.ufmg.br/~lem/>. Último acesso em: 22 mai. 2017. 225 Apesar de a "Relação dos livros comprados pela verba do convênio CNPq", de 1973, ter mencionado apenas o autor "Sangiorgi", o livro encontrado no LEM foi escrito por três autores: L. H. Jacy Monteiro, Osvaldo Sangiorgi e Renate Watanabe. 198 1969 e, parcialmente, da proposta de 1972, figuravam apenas no livro de Sangiorgi et. al. Ambos os livros abordam geometria plana, presente na mesma proposta. Ao compararmos os conteúdos do 1º ano, do Programa de Matemática de 1986, com as temáticas anunciadas no índice do volume 1 da coleção Matemática Aplicada, de Imenes, Trotta e Jakubovic, observamos que ela não aborda os seguintes conteúdos, presentes na proposta do Coltec: geometria espacial, geometria analítica, função trigonométrica e números complexos. Em contrapartida, são trabalhados progressões aritméticas e geométricas (não aparece no programa de 1986) e binômio de Newton (que está proposto no 2º ou 3º anos do Colégio, dependendo do curso técnico do estudante). Vale ressaltar, ainda, que, ao visualizarmos os sumários dos três volumes da coleção de Imenes, Trotta e Jakubovic, não identificamos o conteúdo "Introdução ao Cálculo de Integrais", indicado para as turmas dos cursos técnicos de Eletrônica e Instrumentação do Coltec. O 3º volume dessa coleção aborda limites e derivadas, que integram o estudo de Cálculo, ocupando todo o capítulo 2. De modo geral, a partir da década de 1960, o estudo de Cálculo comumente não fazia parte do currículo das "escolas tradicionais", não profissionais 226 . Mais explicitamente, ao final da década de 1950 e início da década de 1960, houve uma mudança significativa no ensino de Matemática no Brasil, com o surgimento do movimento da Matemática Moderna, que exigiu a apresentação formal e rigorosa dos conteúdos considerados modernos e, consequentemente, suprimiu alguns assuntos dos programas, tais como Cálculo e parte dos conteúdos de geometria. O ensino de Cálculo passou a ser abordado, especialmente, em disciplinas de cursos superiores, o que pode, inclusive, ter gerado a visão de que esse assunto era avançado e difícil para ser discutido na educação básica (ÁVILA, 1991). No entanto, temos indícios de que o estudo de limites, derivas e integral figurava, em geral, em alguns cursos técnicos. A dificuldade de generalizar essa afirmação se dá, principalmente, pela ausência de pesquisas que focalizem o ensino e aprendizagem de cálculo no Ensino Médio, como ressaltaram Pagani e Allevato (2014). O trabalho dessas autoras, aliado à pesquisa de Pinto (2015) e à nossa investigação, nos 226 Até 1943, o ensino de Cálculo fazia parte do programa do curso ginasial de 5 anos, além dos dois anos de pré-universitário, correspondentes, atualmente, ao segundo segmento do Ensino Fundamental e ao Ensino Médio. Nesse ano foi instituída a Reforma Capanema, no ensino secundário, e o ensino de Cálculo passou a integrar o programa da 3ª série do chamado curso científico. No final da década de 1950 esse conteúdo foi extinto dos currículos da educação básica regular (não profissionalizante), como explicado no corpo do texto. 199 permite afirmar que o ensino de Cálculo foi abordado no Cefet/MG, na ETFES (Escola Técnica Federal do Espírito Santo) e no Coltec nesse período. Pagani e Allevato (2014) relatam: Até o ano letivo de 2012, fazia parte do conteúdo programático a ser desenvolvido em todas as turmas, noções de Cálculo a saber: limites, derivadas e integrais indefinidas e definidas. Essas noções estavam, historicamente, inseridas nas grades curriculares dos cursos para atender às demandas de disciplinas técnicas de “alguns” deles. No decorrer dos anos, diante das dificuldades no processo de ensino e aprendizagem e de sua pouca ou nenhuma aplicabilidade na maioria dos cursos, o ensino desses conteúdos passou, a partir do ano letivo de 2013, a ser restrito aos cursos de Eletrônica, Eletrotécnica e Mecatrônica, sendo ministrados no 2º ano do Ensino Médio (p.3). Pinto (2015) esclarece que o desenvolvimento da ciência Matemática e seu incremento nos processos produtivos e tecnológicos impulsionaram a incorporação de conteúdos matemáticos desenvolvidos para os cursos superiores ao ensino de Matemática pensado para os cursos técnicos. Desse modo, o "cálculo diferencial e integral passou a fazer parte dos programas de ensino, bem como outros assuntos da Matemática Superior" (PINTO, 2015, p. 133). Na seção a seguir, discorremos sobre algumas práticas de ensinar-aprender Matemática do Coltec, com base, principalmente, no que os depoentes disseram quando foram perguntados sobre a dinâmica e a metodologia das aulas de Matemática. 5.2. Recursos Didáticos e Atividades de ensino de Matemática no Coltec (1969 - 1997) No final da década de 1960, tempo de regime militar, uma corrente pedagógica de repercussão significativa no Brasil era a tendência tecnicista. Essa tendência pretendia otimizar os resultados da escola, "torná-la 'eficiente' e 'funcional'". Naquele período de crescimento econômico, "a escola teria a finalidade de preparar e 'integrar' o indivíduo à sociedade, tornando-o capaz e útil ao sistema" (FIORENTINI, 1994, p. 46). Acompanhando esse ideário, o Coltec estava sendo criado, em convênio com a Inglaterra, para formar estudantes úteis e capacitados a trabalhar como técnicos de laboratórios de pesquisa. Além de equipamentos, o Colégio herdou a filosofia dos ingleses, como nos disse José Eloisio, ao ser questionado sobre algumas influências da participação britânica: Com eles entendemos e aprendemos o "fazer". Nós casamos com 200 essa ideia do "fazer", do aprender fazendo. E, talvez, tenha sido esse o diferencial do nosso curso de Matemática no Coltec. Nós usávamos muito pouco o quadro negro, ele não era a nossa primeira ferramenta. Utilizávamos o quadro quando era necessário. No ensino de Matemática, a tendência tecnicista penetrava as discussões metodológicas e as práticas dos professores, atribuindo uma organização racional ao ensino, que diminuía as interferências subjetivas que poderiam alterar o rendimento dos procedimentos (SAVIANI, 2007). Iniciou-se, então, a propagação de propostas pedagógicas tais como a instrução programada e o estudo dirigido. Esses métodos eram utilizados e disseminados na pós-graduação da FaE/UFMG, como nos contou Maria do Carmo, ao ser indagada sobre a origem dessas metodologias de ensino. Durante um certo período, o uso dessas propostas foi difundido na Universidade, onde eram justificadas e fundamentadas por teorias. Em cada época havia uma prática sendo incentivada, como acontece atualmente. Nessa época, veio a onda da instrução programada e do estudo dirigido. No Laboratório de Ensino de Matemática (LEM) do Instituto de Ciências Exatas da UFMG encontramos materiais do Colégio Universitário, que ofereceu ensino para a terceira série do colegial de 1965 a 1970. Havia cinco volumes encadernados de Matemática, sem data, mas identificados como produzidos para o Colégio Universitário, com os números: "II", "III", "IV", e dois deles intitulados "Introdução ao Cálculo". Apenas um menciona o autor, Edson Durão Judice. Trata-se de um volume de Introdução ao Cálculo. Alguns destes volumes, além de outros textos e tipos de abordagens didáticas, continham instruções programadas, o que atesta a presença dessa prática na Universidade. 201 Figura 33: Capa do material didático do Colégio Universitário, para a disciplina de Matemática. Conteúdo: Introdução ao Cálculo. Sem data ou autoria. Fonte: Acervo do Laboratório de Ensino de Matemática da UFMG. 202 Figura 34: Primeira página do material didático "Introdução ao Cálculo" do Colégio Universitário da UFMG. Apresenta uma instrução programada sobre limites. Fonte: Acervo do Laboratório de Ensino de Matemática da UFMG. 203 No Colégio Técnico, recém-instalado, os professores de Matemática parecem ter aderido à perspectiva tecnicista no que diz respeito ao uso de materiais de ensino. Abdala, José Eloisio, Luiz Humberto, Maria do Carmo e Tânia relataram que lançavam mão de instruções programadas e estudos dirigidos quando atuaram como docentes do Colégio. Inclusive, no "Planejamento do Departamento de Matemática", de 1969 (Anexo XVII), os "métodos e técnicas didáticas" propostos eram: "As aulas serão ministradas sob a forma de ‘estudo dirigido’". Outro documento, possivelmente de 1970-1971 227 (Anexo XVIII), lista ainda, além de estudos dirigidos: aulas expositivas, instruções programadas e aplicação de testes, entre os mecanismos de execução dos planos de ensino e aprendizagem. Entretanto, conforme relatou Maria do Carmo, ao ser perguntada sobre as possíveis influências do ensino de Matemática do Coltec em docentes de outras instituições de ensino: essas ideias demoravam a chegar nas escolas de ensino básico, isso era uma particularidade do Coltec. Além disso, não era possível trabalhar dessa forma com os alunos das séries iniciais à 8ª série, porque para menino pequeno era difícil ler e estudar sozinho. Ou seja, determinados recursos só eram válidos a partir do Ensino Médio. A conotação "tecnicista" está relacionada à ênfase em técnicas de ensino individualizado "auto-instrutivo", em que os conteúdos aparecem dispostos em passos sequenciais, atendendo aos objetivos instrucionais previamente apresentados que priorizam o treino de habilidades técnicas através da realização de uma série de exercícios do tipo: 'resolva os exercícios abaixo, seguindo o seguinte modelo...' (FIORENTINI, 1994, p. 47). As instruções programadas são materiais de ensino que se baseiam na corrente psicológica behaviorista, "para a qual a aprendizagem consiste em mudanças comportamentais através de estímulos" (FIORENTINI, 1994, p. 47). Abdala procurou descrever as instruções programadas: uma informação pequena é fornecida. Em seguida, trabalha-se com esse dado passo a passo. Não havia, como no estudo dirigido, a leitura de um texto base. Diante de alguns materiais em que consta seu nome, encontrados no Coltec, ele esclareceu: O estudo de Limites era visto em várias unidades. Eu produzi um curso programado completo sobre Limites. 227 Esse documento relaciona os professores Luiz Napoleão, Consuelo Garcia e José Eloísio como responsáveis pelo Departamento de Matemática. Com isso, concluímos que trata-se de um registro relativo ao início da década de 1970, quando a professora Consuelo ainda atuava na escola. 204 Figura 35: Capa da instrução programada "Limite Exponencial Fundamental", do prof. Abdala Gannam, 1985. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática - Coltec. 205 Figura 36: Primeira página da instrução programada "Limite Exponencial Fundamental", do prof. Abdala Gannam, 1985. Fonte: Materiais do Setor de Matemática - Coltec. 206 Também sobre as instruções programadas, a professora Maria do Carmo explicou: nós trabalhávamos os conteúdos matemáticos, sem o uso de livros. No próprio material, nós incluíamos a matéria e propúnhamos perguntas relacionadas. Os alunos iam respondendo as questões, que vinham no final do capítulo, e conferindo no próprio material. Era muito complicado fazer uma instrução programada, porque você tinha que cuidar de cada detalhe do conteúdo, explorar cada tópico da matéria apresentada, minuciosamente. Chamou a nossa atenção a forma como as respostas das questões propostas, nas instruções programadas, são apresentadas. Em alguns casos, a resposta vem imediatamente após a lacuna (Figura 37). Em questões de múltipla escolha, são analisadas as alternativas propostas, logo após o enunciado, conforme a Figura 36. Figura 37: Recorte da instrução programada intitulada Limite Exponencial Fundamental, de autoria do prof. Abdala Gannam, datada de 1985. Fonte: Materiais do Setor de Matemática do Coltec. 207 Figura 38: Recorte da apostila intitulada Colégio Universitário - Matemática, Volume III. Conteúdo: instrução programada sobre Sistemas Numéricos - Números Reais. Página 433. Sem data e sem autoria. Fonte: Acervo do Laboratório de Ensino de Matemática da UFMG. 208 Questionado sobre essas respostas, inseridas imediatamente após as perguntas, o professor Abdala esclareceu que os estudantes eram orientados a não as olharem antes de resolverem os exercícios. Elas estavam ali apenas para que eles conferissem seus resultados. Alguns, inclusive, tampavam as respostas inicialmente. As respostas eram informadas pelos alunos nas lacunas disponibilizadas nas instruções programadas. Talvez por isso a ex-aluna Poliana, que tem o costume de guardar seus materiais ao longo de sua vida escolar e acadêmica, não tenha encontrado muitos cadernos de Matemática. De acordo com ela, ao lamentar não ter encontrado cadernos próprios de Matemática, que seriam levados no dia da entrevista: Nós, praticamente, não usávamos caderno, pois eram poucas as aulas expositivas, e escrevíamos tudo nas apostilas dessa disciplina. Fazíamos apenas notas e contas no caderno. Poliana nos emprestou seis cadernos do período em que estudou no Coltec. Numeramos esses cadernos na ordem em que foram digitalizados. Diante desse material, ela teceu comentários: A parte de Química Orgânica, por exemplo, é toda bonitinha, tem tudo. Aí quando eu chego em Matemática, tem só isso aqui. Aí fala assim: 'função definida por partes, ver apostilas' [lendo]. Tudo era dado na apostila. Depois fala de função quadrática e aí acabou o caderno de Matemática. 209 Figura 39: Página do Caderno 1. Fonte: Arquivo pessoal ex-aluna Poliana. 210 Figura 40: Página do Caderno 1. Fonte: Arquivo pessoal da ex-aluna Poliana. 211 De acordo com uma apostila de onze páginas, encontrada no Setor de Matemática do Coltec 228 , destinada à disciplina Didática da Educação da FaE/UFMG, intitulada: "Projeto - Uma tentativa para dinamizar a Instrumentação para o Ensino de Matemática - Os princípios da instrução programada", datada de 1978, essa metodologia possui cinco princípios mais importantes, descobertos em laboratórios de Psicologia. O primeiro, o "Princípio dos pequenos passos", diz que um aluno tem uma aprendizagem mais eficiente, agradável e permanente quando utiliza um programa que progride através de pequenos passos. Dessa forma, o estudante comete menos erros e aprecia o assunto. O segundo, o "Princípio da resposta ativa", enuncia que o aluno aprende mais e melhor se participa ativamente da aprendizagem, ou seja, aprende fazendo. O terceiro, o "Princípio da Confirmação Imediata", afirma que o estudante aprende melhor quando pode conferir suas respostas imediatamente. O quarto, o "Princípio do Ritmo Próprio", alega que o estudante deve regular o seu ritmo, trabalhando cada passo tão lentamente ou tão rapidamente quanto queira. O quinto e último, o "Princípio dos testes com alunos", determina que o professor deverá fazer uma revisão do programa baseada no desempenho dos alunos. Por exemplo, se dez alunos erraram um mesmo passo do programa, significa que esse passo deve ser revisto. Antônio Carlos, aluno da primeira turma do Colégio, referiu-se a outro tipo de material muito utilizado, os estudos dirigidos. Havia também os estudos dirigidos, em que o professor marcava as páginas do livro para a gente ler e ficava nos orientando. Os estudos dirigidos acompanhavam a tendência tecnicista. Maria do Carmo descreveu esse recurso, quando indagada sobre sua diferença em relação à instrução programada: O estudo dirigido seguia um livro. Não me lembro qual o nome do livro que nós usávamos. Os alunos é que compravam seus livros, não havia distribuição deles pelo governo. Como julgávamos que era difícil para os alunos, jovens, lerem e compreenderem os conteúdos dos livros, de forma independente, a gente fazia o estudo dirigido. Nele indicávamos as páginas para serem lidas, os exercícios a serem realizados, e incluíamos questionamento, do tipo: "O que significa essa definição?", ou "O que significa a palavra tal?". Então, a gente dissecava os parágrafos com perguntas e, em seguida, propúnhamos uma ou duas atividades do livro. A imagem a seguir mostra um estudo dirigido elaborado pela professora Tânia Ayer na década de 1980. 228 Anexo VI - Projeto: uma tentativa para dinamizar a instrumentação para o ensino de Matemática - 1978. 212 Figura 41: Estudo dirigido desenvolvido pela profa. Tânia Ayer, no Coltec, sobre geometria plana (1ª parte), em 1983. Recomenda o livro "Matemática Aplicada", volume I, de "Trota e outros" autores. Fonte: Materiais do Setor de Matemática do Coltec. O professor Abdala também abordou o estudo dirigido: Primeiro o aluno é convidado a ler um texto. Depois são inseridas perguntas e exercícios do texto, cujas respostas demandam interpretação. A seguir apresentamos as imagens da capa e de uma página de um estudo dirigido preparado por ele, datado de 1982. 213 Figura 42: Capa do estudo dirigido, desenvolvidos pelo prof. Abdala Gannam, no Coltec, sobre Sistemas de Equações Lineares, em 1982. Fonte: Materiais do Setor de Matemática do Coltec. 214 Figura 43: Página do estudo dirigido desenvolvido pelo prof. Abdala Gannam, no Coltec, sobre Funções, Equações e Inequações (1ª Parte). Recomenda o livro "Matemática Aplicada", volume I. Fonte: Materiais do Setor de Matemática do Coltec. 215 Lembrando-se da dinâmica das aulas de Matemática, o ex-aluno Alberto, que ingressou em 1974, nos contou 229 : Nós entrávamos na sala, pegávamos aquele livro "Matemática Moderna", me parece que era de autoria do Gelson Iezzi 230 , sentávamos lá e estudávamos. Ele continuou: O professor orientava: "Vocês vão estudar o capítulo tal". Lembro que todos os alunos ficavam sentados estudando, disciplinados. Eu era muito quieto, entrava mudo e saía calado. Eu queria apenas estudar. Nós íamos fazendo os exercícios sem perguntar nada, porque o Abdala era muito ríspido. Ele permanecia sentado. Como não tinha computadores na época para ele acessar a internet, pegava um livro, um jornal e ficava lendo. Algumas vezes ouvíamos: "Olha, nosso método é assim, deixar você aprender por você, estão entendendo?". Inicialmente, Alberto teve dificuldades de se adaptar: No primeiro ano foi difícil para mim, pois eu estava habituado com os métodos tradicionais da outra escola em que eu estudei, mas depois aprendi a estudar sozinho. O professor Adilson, que estudou no Coltec em 1970, 1971 e 1972, relatou que não tem "lembranças vivas" das aulas de Matemática, mas se recordou que a maioria era baseada em estudos dirigidos. Havia um texto, uma apostila que era apresentada para a gente. De alguma forma, nós líamos e resolvíamos os exercícios. Depois, o professor explicava no quadro algum desses exercícios. A recordação que eu tenho da organização das aulas de Matemática é que tenham sido, quase sempre, fundamentadas em estudos dirigidos. Dessa forma, as práticas pedagógicas em Matemática do Coltec não eram centradas no professor nem no aluno, mas nos recursos didáticos, em especial nos estudos dirigidos e nas instruções programadas. Fiorentini (1994, p. 49) caracteriza a tendência tecnicista: Os conteúdos tendem a ser encarados como informações, regras, macetes ou princípios organizados lógica e psicologicamente por especialistas (alguns importados do exterior) e que estariam disponíveis nos livros didáticos, nos módulos de ensino, nos jogos pedagógicos, em kits de ensino, nos dispositivos audiovisuais, em 229 Todos os depoentes foram convidados a relatarem suas lembranças sobre as aulas de Matemática do Colégio Técnico. 230 Gelson Iezzi é formado em Engenharia Metalúrgica e licenciado em Matemática pela Universidade de São Paulo - USP. Além disso, é professor em cursos pré-vestibulares e em faculdades em São Paulo. Autor de vários livros de Matemática para o ensino fundamental, médio e superior. Disponível em: < http://www.editorasaraiva.com.br/autor/gelson-iezzi/>. Último acesso: 26 ago. 2016. Como este autor produziu muitos livros, não conseguimos identificar a referência do exemplar mencionado. Pelas nossas investigações, não há registros de livro com título “Matemática Moderna”, de autoria de Gelson Iezzi. 216 programas computacionais... Ou seja, professor e aluno ocupam uma posição secundária, constituindo-se em meros executores de um processo cuja concepção, planejamento, coordenação e controle ficam a cargo de especialistas. O professor José Eloisio nos contou como eram as práticas de ensino e aprendizagem nas aulas de Matemática do Colégio, reforçando a centralidade nos recursos: Os alunos ficavam sentados em grupos, conforme queriam, e eu ficava ali, disponível. Sempre que precisavam, era só me chamar. O material já era preparado pensando no trabalho em grupos. O ex-aluno Antônio Carlos, lembrando-se da organização das aulas, nos disse: Geralmente, eles apresentavam um problema elementar para iniciar algum assunto, em seguida, nos colocavam para estudar aquele conteúdo, resolver problemas em grupos de duas, três pessoas. Se tivéssemos alguma dúvida, o professor estava lá na mesa. Nós íamos até ele, ou o chamávamos, e ele nos ajudava a resolver. Finalmente, ele dava uma aula, parecendo um fechamento. Eles diziam: "Olha, o que nós vimos foi isso aqui e tal, tem esses casos particulares...". A dinâmica era maravilhosa! Eu comecei a gostar de Matemática por causa disso. Partilhando os sentimentos positivos de Antônio, o ex-aluno Jenner, que ingressou no Colégio em 1981, comentou: A Matemática era uma disciplina tranquila, era pouco problemática, talvez devido à metodologia. Eu não lembro de ter muita gente reprovada por causa da Matemática. Particularmente, eu gostava de Matemática, ia bem nessa disciplina, passava com boas notas. Todavia, a ex-aluna Poliana, também estudante a partir de 1981, se queixou dessa metodologia: A metodologia da professora Tânia era assim: ela chegava, sentava lá na frente, entregava as apostilas aos estudantes e dizia que se o aluno tivesse dúvida, deveria ir até ela, pois ela não iria nas carteiras. O atendimento era individual. Não havia correções no quadro. Como eu era muito tímida, não a procurava. Esse período foi muito traumatizante para mim. Poliana alegou ter tido uma experiência ruim com a Matemática no Coltec e reclamou por não ter aprendido muitos dos conteúdos apresentados nessa disciplina, como trigonometria e logaritmo. Apesar disso, como se considera muito dedicada e esforçada, ela disse que suas notas de Matemática não eram péssimas. Em suas palavras: Quando encontrei meus boletins, pensei: "Aposto que minhas notas em Matemática são ruins". Mas a menor delas foi 18,5, no total de 25. 217 Comumente o sucesso ou o fracasso na aprendizagem de Matemática é associado ao desempenho acadêmico dos alunos. Entretanto, outros fatores podem interferir no rendimento escolar. A Psicologia Educacional questiona a suposição de que o desempenho é resultado apenas das capacidades cognitivas dos estudantes. Nesse ramo da Psicologia, "tem sido conferida uma crescente atenção ao estudo dos fatores afetivos envolvidos na aprendizagem, por acreditar-se que estes exercem um papel na motivação, no desempenho acadêmico e na futura escolha profissional dos alunos" (SOUZA; BRITO, 2008, p.194). Poliana destacou, quando questionada sobre sua formação: A minha graduação foi no curso de Farmácia. Essa escolha tem a ver com a Matemática [...] vou explicar porque eu fiz esse curso e não Química. Ela relatou que seu trauma com a Matemática do Coltec a fez temer as disciplinas de Cálculo e Geometria Analítica, oferecidas na graduação em Química. Poliana foi aprovada para o curso de Farmácia, mas frisou: Eu lembro que tirei nota baixa em Matemática no vestibular. Posteriormente, ao ingressar no mestrado em Química, retomou o estudo da Matemática: precisei cursar Cálculo I e Cálculo II. Na primeira prova eu tirei três em trinta e três!! Estudei e fui aprovada, pois tinha mais maturidade. No entanto, considero que a Matemática foi um trauma na minha vida, devido ao período em que estudei no Coltec. O desempenho dos estudantes, a aceitação ou rejeição dos métodos, as concepções docentes, as demandas de caráter social vindas do corpo discente, a formação continuada, entre outros, transformaram as práticas dos professores de Matemática do Coltec no decorrer dos anos. Contudo, nossos colaboradores fizeram referência à presença de atividades como os estudos dirigidos no Colégio até o início da década de 1990, ainda que associadas a outras perspectivas de esnino-aprendizagem. As mudanças e as permanências no modo de ensinar dependem "da concepção que o professor tem do saber matemático, das finalidades que atribui ao ensino de matemática, da forma como concebe a relação professor-aluno e, além disso, da visão que tem de mundo, de sociedade e de homem" (FIORENTINI, 1994, p. 38). Havia diversidade desses aspectos entre os docentes do Coltec e, concomitantemente à presença dos docentes que realizavam práticas centradas nos estudos dirigidos e instruções programadas, lecionaram na escola pelo menos dois professores adeptos das 218 metodologias ditas "tradicionais" 231 , ou seja, cujas aulas eram baseadas essencialmente na exposição dos conteúdos no quadro, seguida da apresentação de exemplos e proposição de exercícios aos estudantes. Um deles foi o professor Napoleão, que lecionou no Colégio do início de seu funcionamento até 1976. Alberto foi seu aluno quando entrou no Colégio, em 1974, e contou, ao ser interrogado sobre seus professores de Matemática: no primeiro ano do Colégio Técnico, eu tive um professor de Matemática militar, chamado Napoleão 232 . Aparentemente, ele também era professor do Colégio Militar. Nós o chamávamos de "tio Napô". Ele era muito próximo dos alunos e gostava de ser chamado assim. Eu, por exemplo, tive muita dificuldade para compreender logaritmos e ele me explicava, fazia o possível para eu aprender. Era o único professor que eu vi aqui no Colégio que tinha uma metodologia nos moldes do passado. Sobre as aulas desse docente, Alberto narrou: O Napoleão dava aulas expositivas, enchia o quadro de coisas. Estou lembrando de umas aulas de exercícios, por exemplo. Mas, a partir do 2º ano eu não tive mais aulas expositivas de Matemática. Além de Napoleão, o professor Gil, que atuou na década de 1980, também preferia seguir uma pedagogia mais "tradicional", rotineira, conforme sua descrição: A dinâmica das minhas aulas não mudava por estar no Colégio Técnico; elas eram normais. Eu fazia a exposição e exercícios, na sala de aula comum, em que os estudantes se sentam individualmente. Ensinava com giz. Hoje não deve ser mais giz... Se desse tempo, ao final, eu fazia uma aplicação do conteúdo explorado ou propunha uma tarefa para os alunos. Às vezes, acabava o horário e era necessário continuar no dia seguinte. Meu modo de ensinar sempre foi o mesmo, não mudou com o tempo ou com a convivência com outros colegas; era sempre o mesmo. Alguns alunos se lembraram das aulas de Matemáticas nesse modo "tradicional": A metodologia das aulas de Matemática seguia mais ou menos um padrão das outras matérias: o professor explicava um pouco sobre o assunto, depois distribuía os exercícios, nós fazíamos em grupos e ele passava tirando dúvidas. Acho que, além das provas, esses exercícios também eram avaliados. Mas não tenho certeza absoluta, disse Gilberto, ex-aluno da turma de 1980. 231 Alertamos o leitor para a cautela com que utilizamos este adjetivo. Estamos conscientes de que, ao fazer uso de algumas palavras, corremos o risco de cometer anacronismos. Por exemplo, uma prática que seria considerada inovadora no início dos anos 1970 poderia ser vista como obsoleta nos anos 1980. Assim, o "tradicional" de hoje pode ter sido "moderno" no passado. 232 Luiz Napoleão Moreira, já falecido, lecionou no Coltec de 1969 a 1976. 219 Ainda sobre a dinâmica das aulas, Niriana, ex-aluna que ingressou em 1991, acrescentou: geralmente os professores explicavam a matéria no quadro e a gente resolvia problemas. Trazíamos muitos exercícios para casa, uma quantidade enorme. Depois, a gente corrigia no quadro, os alunos levantavam e iam ao quadro solucionar. Sempre tinha um que gostava mais de ir ao quadro e ia com mais frequência. O depoimento dessa estudante diverge daquele fornecido pelo estudante Antônio Carlos (estudante da década de 1960), comentado no Capítulo 2, e de um dos primeiros docentes da escola, José Eloísio. De acordo com esse aluno, as atividades de Matemática eram realizadas no Colégio, porque o horário em tempo integral inviabilizava realizar exercícios em casa, enquanto esse docente relatou: Praticamente todas as atividades de Matemática eram realizadas na sala. Nós falávamos isso aos alunos: "vocês não têm que levar nada para casa"; "nós estamos te dando isso aqui, para você fazer aqui"; "você não tem que fazer isso em casa"; "eu quero que você faça aqui, porque se tiver alguma dúvida eu estou aqui para te ajudar"; ou "você pode fazer na biblioteca, no horário do almoço, e ir ao plantão de dúvidas". Talvez isso demonstre uma mudança na conduta dos docentes, que, depois de alguns anos, passaram a indicar exercícios para serem realizados em casa, já que Niriana foi aluna na década de 1990. Ou trate apenas de um caso isolado, em relação à metodologia do professor dessa estudante. Observamos que as práticas de ensinar-aprender não se sintonizavam com uma única diretriz. A professora Maria do Carmo que, como vimos, era defensora do uso dos estudos dirigidos, revelou: a partir do segundo, terceiro ou quarto estudos dirigidos, os estudantes demonstravam cansaço e tédio. Então, a gente explorava recursos diferentes. Os professores do Coltec faziam uso de um conjunto híbrido de recursos no ensino, tais como retroprojetor, atividades exploratórias, calculadoras, materiais concretos e computadores. Cada docente, entretanto, escolhia seus recursos conforme sua disponibilidade, interesse e necessidade. A docência é uma prática complexa, como explicam Borba e Penteado (2010). Ela envolve as propostas pedagógicas, os recursos técnicos, as peculiaridades da disciplina, as regras da instituição, os alunos, os pais, a direção, os educadores de professores, os colegas de profissão, os pesquisadores, entre outros. Dessa forma, "a natureza da prática do professor depende muito da forma como ele relaciona todos esses elementos. Ele pode lançar mão de alguns deles e não dar importância para outros" 220 (p.56). Em nossa investigação, encontramos diferentes relações dos professores com esses elementos, que foram evidenciadas nas suas próprias descrições de suas práticas. Maria do Carmo, por exemplo, recordou-se das suas aulas sobre funções. Eu procurei materiais utilizados naquela época, mas encontrei poucos. Eu usava este material (imagem abaixo) para ensinar Gráfico de Funções. Neste exemplo, os alunos trabalhavam com a função do 2º grau. Atualmente, os softwares fazem isso, mas nós fazíamos este trabalho manualmente. Ela descreveu a sequência de atividades: Nós entregávamos aos alunos folhas contendo planos cartesianos. Além disso, entregávamos o gráfico da função que iríamos trabalhar. Os estudantes eram orientados a recortarem o gráfico, para que o mesmo pudesse ser movimentado sobre o plano fornecido anteriormente. Quando o gráfico estava sobreposto no plano, na posição que a atividade exigia, o estudante desenhava o gráfico, utilizando o contorno do recorte. O objetivo dessa atividade era ensinar que, a partir do gráfico da função f(x) = x 2 , é possível, por meio de composições e/ou translações, obter os gráficos das funções do tipo: f(x + a), f(x - a), f(x) + a e f(x) - a. Figura 44: Gráfico da função f(x) = x 2 , disponibilizado pela professora para ilustrar a translação. O primeiro gráfico já foi recortado, como sugerido no exercício. Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria do Carmo. Material cedido para a pesquisa. Figura 45: Plano Cartesiano disponibilizado pela professora para realização de uma atividade. Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria do Carmo. Material cedido para a pesquisa. Figura 46: Simulação da atividade proposta. Imagem criada pela pesquisadora. 221 Diante desse material, Maria do Carmo nos disse: Eu fazia isso com todas as funções. No final, eles tinham as visões todinhas. Eles faziam as translações verticais e horizontais. Com determinados tipos de translações, eles tinham gráficos de funções. Esses gráficos e esse plano cartesiano foram todos feitos à mão. Não existiam softwares na época. E eu tinha um desenhista, o filho do Reginaldo Naves. Era ele que desenhava essas coisas para mim. A gente fazia à mão, era com tinta nanquim, para ficar fininho. Era muito trabalhoso. Em seguida, ela avaliou: esse trabalho funcionava, os alunos compreendiam. Ainda hoje funciona muito. Eu gosto de usar esse material concreto, antes de trabalhar com o software. Assim como Maria do Carmo, a professora Tânia se lembrou entusiasmada de uma proposta que ela e outros colegas realizavam no Colégio: Ah! Quero contar um trabalho que fizemos, para o ensino de Trigonometria. Eu costumava lecionar este conteúdo de forma muito interessante. Iniciava-se com materiais concretos, oriundos de um projeto da Maria do Carmo e do Reginaldo Naves. Ela, então, avaliou: Esse material era muito interessante. Não tinha erro! Os meninos entendiam mesmo. Era muito legal! A gente inseria o conteúdo a partir de um problema que envolvia o movimento de uma roda gigante. Havia uma placa de madeira, com pregos, em que os alunos, com gominhas de borracha, exploravam o material e extraíam informações. Era muito interessante! Eles tiravam tudo da trigonometria dali. Os alunos eram muito bem sucedidos em trigonometria. Na continuidade dos estudos, com as equações trigonométricas, eles tiravam de letra. Na sequência dessa atividade ela também utilizava o retroprojetor, como comentaremos posteriormente. O professor Abdala Gannam, por sua vez, era apreciador de recursos audiovisuais aplicados ao ensino de Matemática, como o uso de projetores de "slides" e retroprojetores. Com relação ao projetor de slides, ele explicou: O projetor de slides utiliza transparências feitas com fotografias. Essas transparências são emolduradas em Sequências Sonorizadas de Diapositivos. Vinha uma narração, sincronizada à imagem projetada, com fundo musical. Quase um cinema. Hoje não se usa mais projetor de slides, raramente você vê algum. Diante da sequência de diapositivos "Da arte nasce uma geometria", material que elaborou, Abdala comentou: Tem esse que era assim: 'Da arte nasce uma Geometria'. Eu pegava os quadros dos pintores renascentistas e mostrava que por trás desses 222 quadros existe uma Geometria. Com isso eu mostrava como é que a geometria projetiva surgiu. Figura 47: Foto do conjunto de diapositivos denominado "Da arte nasce uma geometria". Doado à pesquisadora pelo professor Abdala Gannam. Os retroprojetores são dispositivos que projetam textos ou imagens impressas em lâminas plásticas transparentes, denominadas "transparências" ou "acetatos", em paredes ou telas, utilizando lente e luz. Abdala descreveu os modos de usar o projetor pelos professores: reproduzem um texto em transparência, o projetam durante as aulas e vão lendo para os alunos. Entretanto, ele decidiu utilizar esse recurso de maneira diferente, simulando movimento para a clarificação de conceitos da Matemática. No exemplo adiante, ele descreve: Você observa, enquanto o ponto se desloca você tem: o seno aumenta e o cosseno diminui, veja. Consegue imaginar isso quando está projetado? Isso aí, eu comecei a usar essas coisas com os alunos do Colégio Técnico. Figura 48: Transparência com movimento, para estudo das funções seno e cosseno. Material doado à pesquisadora pelo professor Abdala. 223 Figura 49: Desenho que ilustra a transparência da figura anterior. Fonte: Material produzido pelo professor Abdala, denominado "O uso do retroprojetor no ensino de Matemática". Segundo Abdala, durante a apresentação das transparências, ele procurava comunicar-se com os alunos, interpretando a projeção para fazer perguntas a eles e provocar a participação. Após ouvir algumas respostas, ele podia, por exemplo, apresentar uma solução levantando abas de "esconder e mostrar", como ilustra a figura a seguir. Figura 50: Transparência para apresentar crescimento e decrescimento das funções seno e cosseno nas suas representações gráficas. Material doado à pesquisadora pelo professor Abdala. Além disso, as transparências de Abdala permitiam girar algumas de suas partes, como se pode ver na imagem abaixo: Abas de "Esconder e Mostrar". 224 Figura 51: Transparência utilizada para apresentar a representação geométrica da tangente. Material doado à pesquisadora pelo professor Abdala. Para desenvolver essas transparências, Abdala contou: primeiro eu fiz um curso, lá na Unicamp, sobre uso de audiovisuais no ensino. Em seguida, comecei a fazer as primeiras experiências com movimento nas minhas aulas no Coltec. Descobri que com esse tipo de coisa, ou seja, simulando movimento através das transparências, os alunos entendiam melhor. Associado a cada uma das transparências, o professor Abdala desenvolveu um material complementar para orientar os seus usos, como ele esclareceu: Existe uma metodologia por trás deste trabalho. As transparências de trigonometria, por exemplo, estão ligadas a uma apostila de 207 páginas, denominada: "Textos Complementares de Retroexposição". O texto contempla o programa da disciplina: ementa, carga horária total, objetivos gerais, metodologia, bibliografia recomendada, orientação para o leitor 233 . Abdala nos doou várias transparências para retroprojetor (mais de 50 unidades), a maioria com animação, e um aparelho retroprojetor, para exibição e exploração desse material. Entre os vários materiais, encontra-se a transparência cuja imagem apresentamos a seguir. Segundo o professor, quando é projetada, é possível 233 De acordo com Abdala, em nossa entrevista, três tipos de textos constituem essa apostila e auxiliam na implementação dessa metodologia: a) Complemento Imediato de Retroexposição (CIR), onde são propostas questões imediatas, vinculadas às imagens apresentadas - "Nesse texto os alunos preenchiam sem ler nada, só com aquilo que foi apresentado" nas transparências; b) Texto Referencial de Retroexposição (TRR), que oferece um suporte técnico do conteúdo matemático desenvolvido anteriormente - "esse texto é onde se explica o conteúdo. Aí o aluno lia o contéudo"; e c) Atividade de retroexposição (ATR) com exercícios que visam fixar todo o exposto anteriormente. Local onde se gira a transparência, variando o ângulo e o valor da tangente. 225 girar o ponto vermelho e manipulá-lo conforme a necessidade. Abdala exemplificou: Em cada ponto destacado na circunferência trigonométrica é possível ver o valor do seno e como isso está ligado ao gráfico da função. Figura 52: Transparência para estudo da função seno, deslocada e fotografada em duas posições diferentes. Material doado à pesquisadora pelo professor Abdala. Os professores Maria do Carmo, José Eloisio e Tânia também relataram terem feito uso de retroprojetores em suas aulas de Matemática. Nós usávamos muito o retroprojetor, cada setor tinha um. Os ingleses também incentivavam o seu uso, eles ensinaram e insistiram com a gente para utilizar, disse José Eloisio. Ele continuou: Em nosso Departamento, tinha o professor Abdala Gannam, que gostava muito de trabalhar com o retroprojetor. Ele utilizava transparências com movimento. Eu não me lembro de ter visto alguém empregando as transparências dessa forma. Ele foi pioneiro, ele trabalhou muito com isso. Maria do Carmo disse: Nós também fazíamos muito uso de retroprojetor. A gente construía os slides, com desenhos, e íamos passando, projetando para os alunos. Além das projeções habituais, nós trabalhávamos com algumas interações. A atividade de Translações de Gráficos, que eu mostrei anteriormente, também era apresentada no retroprojetor. Eu fazia o plano cartesiano e os gráficos nas transparências e apresentava as translações projetadas. Ou ainda, pedia aos alunos que fossem até o retroprojetor mostrar o que eles tinham feito. A professora Tânia narrou: Para trabalho com a trigonometria eu também utilizava o aparelho retroprojetor. Eu usava muito o retroprojetor, "usava demais da conta". A gente intercalava os recursos durante as aulas. Era tão fantástico que eu 226 apresentava essa proposta de ensinar Trigonometria em congressos. "O povo ficava enlouquecido!". Do ponto de vista dos estudantes, apenas Antônio Carlos, aluno da primeira turma, recordou-se do uso de retroprojetores nas aulas de Matemática: No segundo ano, lembro de ter tido aulas de Matemática com o uso de retroprojetor, pelo professor Jed [José Eloisio], sobre funções. Ele explicou a questão de injeção, eu lembro dos desenhos. Mas não era comum utilizarem esse recurso 234 . Além do retroprojetor, os professores do Coltec mencionaram ter trabalhado com calculadoras em suas aulas. Segundo o professor José Eloisio, os ingleses trouxeram calculadoras eletrônicas: aquelas antigonas 235 , de quando começaram a surgir no Brasil, cerca de trinta delas, foram utilizadas por nós. Eram calculadoras muito simples, porque na época não tinha muita sofisticação, mas era uma novidade. Nós montamos um laboratório no Colégio para trabalhar com esses equipamentos. O professor Sérgio 236 , do nosso Departamento, era familiarizado com as tecnologias e ficou encarregado de preparar o material para o uso das calculadoras e ensinar aos alunos. Depois, nós permitíamos que os estudantes utilizassem essas máquinas nas aulas. Elas ficavam dispostas nos balcões do laboratório de Matemática, plugadas na tomada, pois não possuíam bateria. Luiz Humberto corroborou a fala de José Eloisio, dizendo: Nós utilizávamos calculadoras nas aulas de Matemática. Tinha um laboratório só de calculadoras que a gente ensinava a trabalhar com essas máquinas, principalmente o professor Sérgio. O Sérgio era o papa nesse negócio de máquinas de calcular científicas, de programar utilizando calculadoras. O professor Abdala acrescentou alguns detalhes: Mandamos fazer mesas de madeira, em dimensões adequadas, que dispunham de tomadas para plugar as calculadoras. Nessa época, era incomum encontrarmos calculadoras eletrônicas no Brasil, tanto que as primeiras calculadoras do Colégio vieram da Inglaterra, através do Conselho Britânico. Inicialmente, elas ficaram guardadas, pois nós não sabíamos como usá-las, metodologicamente, no ensino de Matemática. Eram umas calculadoras Texas, que vinham com aqueles números luminosos. 234 Todos os discentes entrevistados foram interrogados sobre os materiais presentes nas aulas de Matemática do Coltec. Aparentemente, o uso de retroprojetores não foi significativo ou memorável para os estudantes. 235 No entanto, vale ressaltar que, quando foram utilizadas, eram extremamente inovadoras. 236 Sérgio Veiga Dias, também chamado de Serjão por ex-alunos e professores do Coltec, lecionou Matemática no Colégio. Não foi possível localizar esse professor para participação nesta pesquisa. 227 Tânia narrou: Trabalhávamos, ainda, no Laboratório de Matemática do Coltec, com o uso de calculadoras científicas. Eu desenvolvia atividades para estudar funções, funções exponenciais. A gente usava calculadora direto. Acho que eram calculadoras doadas a partir de um convênio com a OEA. Gilberto, aluno ingressante em 1980, recordou-se desse ambiente: A gente tinha um laboratório de Matemática aqui no Colégio, era um laboratório de calculadoras, com várias bancadas. As calculadoras ficavam em cima, ligadas direto nas tomadas. Algumas aulas dessa matéria aconteciam nesse ambiente, onde aprendíamos várias operações, como "tangente e cossenos". Essas aulas eram ministradas pelo próprio professor da turma. Além dele, a ex-aluna Poliana, que ingressou em 1981, lembrou-se: Também utilizávamos uma sala com bancadas e banquetas, onde havia calculadoras científicas. Jenner, ingressante em 1981, rememorou as aulas de Matemática no laboratório do 3º andar: Lá tinha calculadoras de última geração para a época, talvez até para os dias de hoje. Mas não sei se elas existem ainda; eram muito boas. Nós podíamos utilizar essas calculadoras para resolver exercícios. Depois o uso de calculadoras tornou-se mais comum, foi quando adquiri várias calculadoras, por conta própria. Além disso, hoje mudou muito essa questão de laboratório. Atualmente, está tudo muito ligado à informática, disse o professor Abdala. Em referência ao uso de calculadoras nas salas de aula, Maria do Carmo contou: nós permitíamos que os estudantes utilizassem como um instrumento utilitário, para facilitar as contas, agilizar a resolução dos exercícios. Mas, segundo a ex-aluna Niriana, da turma de 1991, não podia utilizar calculadora em todas as aulas, só em algumas. Na percepção do professor Airton, que começou a lecionar no Coltec em 1992, as calculadoras sempre foram usadas na escola. Inclusive, esse fato chamava a atenção: As pessoas de outros lugares ficavam impressionadas: "Oh! Calculadora!". Nós tínhamos calculadoras para todos os estudantes. Quando eu entrei, já eram calculadoras velhas [...]. Tinha dois modelos: uma que só fazia as quatro operações, era enorme, ligada na energia elétrica, e uma "Texas", científica, pequenininha, que ainda possuía visor vermelho, que os números eram meio redondinhos. Eram muito antigas, do começo dos anos 1970, e outras do começo dos anos 1980. Existe um debate recorrente sobre o uso de calculadoras e outras mídias informatizadas nas escolas. Alguns educadores se preocupam: "Se o estudante utilizar 228 calculadora, como ele aprenderá a fazer conta?". Borba e Penteado (2010) sugerem, então, que façamos perguntas análogas a outras mídias, tais como lápis, caderno, livro, giz e quadro-negro, que estão tão imersas no cotidiano escolar que não são mais questionadas. Uma delas seria: "Será que o aluno deveria evitar o uso intensivo de lápis e papel para que não fique dependente destas mídias?" (p. 12). Os autores concluem que a dependência em relação a alguma mídia sempre existirá e está ligada à disponibilidade desse recurso, que varia historicamente com o contexto educacional. No Coltec, a existência de um espaço para o uso de calculadoras, no caso o laboratório de Matemática, parece ter permitido a diversificação do uso das mídias, pelo menos inicialmente. Alberto, na ocasião de nossa conversa, nos disse: Eu me recordo até hoje do dia em que o filho de juiz apareceu com uma calculadora eletrônica, um tijolo, que fazia apenas as quatro operações. Nós colocávamos conta lá, o aparelho ficava pensando, pensando e, em seguida, dava o resultado. O pessoal dizia: "Ohhh!". Com o passar do tempo, as calculadoras passaram a serem mais utilizadas nas aulas de Matemática, à medida que os alunos puderam adquirir o seu próprio equipamento. No entanto, o uso na escola não era feito em qualquer circunstância: Quando eu entrei no 3º de Eletrônica, o uso de calculadora começou a ser difundido. Me lembro delas no Colégio; eram simples, não tinham pilhas, nem nada, eram ligadas em tomadas. Os meus pais me deram uma calculadorazinha bem rudimentar, que fazia as quatro operações e raiz quadrada. Na Eletrônica eu podia usá-la, mas na Matemática não. Até porque nem sempre fazia sentido. Onde uma calculadora poderia me ajudar no estudo de Polinômios, por exemplo? Já nas disciplinas técnicas eu tinha que usar, do contrário não dava tempo de realizar os cálculos apresentados nas provas (Alberto). Por outro lado, o professor Francisco Bastos Gil, que lecionou no Colégio na década de 1980, desconhece o uso de calculadoras no Colégio, nesse período. Segundo ele: Naquela época não tinha calculadoras, por isso também não utilizei. Cheguei a planejar comprar uma calculadora, inclusive. Ela era mecânica, redonda, preta, mas era muito cara. Eu nunca pude comprar. Em seguida, apareceram as primeiras calculadoras eletrônicas, mas ainda eram onerosas, nós não podíamos pedir aos alunos para comprarem. Eu nunca vi calculadoras no Colégio. Outro tipo de material explorado no Coltec foram as fitas adesivas magnéticas, também trazidas pelos ingleses. José Eloisio contou: Era uma novidade! Hoje em dia é muito comum. Ele descreveu o que eram as fitas: Eram fitas adesivas magnéticas, que eram colocadas no verso de cartazes e fixadas em um quadro de metal, feito no Colégio 229 mesmo. Usávamos esse recurso com frequência. Previamente, antes das aulas, construíamos cartazes com pincel atômico, com gráficos, figuras ou fórmulas, que demandavam tempo se tivessem que ser feitos ou escritos no quadro. Nós cortávamos um pedaço de cartolina, escrevíamos com pincel e depois colávamos a fita adesiva no verso, como se fosse um "Durex", só que era magnética. Durante as aulas colocávamos os cartazes de forma visível. Quando os ingleses as trouxeram, deram um curso para nós, professores. Ficamos doidos com essas fitas, porque não tinha delas no Brasil. Eles utilizaram no curso e as fitas restantes eles distribuíram para nós. Depois, quando estivemos na Inglaterra, tivemos a oportunidade de comprar mais e trazer. Atualmente, deve ter para vender, pois é muito utilizado para confecção de ímãs de geladeira. Os mesmos cartazes podiam ser utilizados em várias turmas, onde lecionaríamos a mesma matéria. Esse material já ficava pronto para aquela determinada aula, nós só tínhamos o trabalho de fazer uma vez. Outras propostas de atividades também eram desenvolvidas no laboratório de Matemática do Coltec. Abdala, por exemplo, quando lecionou geometria de posição e geometria sólida, decidiu explorar os conhecimentos dos alunos nas disciplinas técnicas que ofereciam oficinas de vidro, madeira e metal. Ele então pediu aos alunos: "Vocês vão me concretizar este teorema. Quero ver o teorema concretizado, feito nas oficinas, com chapa, madeira ou vidro, como quiserem". Os alunos inundaram o Departamento de Matemática com os materiais que faziam. Selecionamos os melhores e incorporamos ao laboratório de Matemática. Além disso, Abdala relatou que os alunos desenvolviam atividades com o uso de cartolina, para construção de sólidos e visualização de propriedades e teoremas. Essas atividades eram propostas na apostila de sua autoria cuja capa e primeira página aparecem na figura 53. 230 Figura 53: Capa da apostila "Os sólidos geométricos (O princípio de Cavalieri)", de autoria de Abdala Gannam, datada de 1980. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática do Coltec. 231 Figura 54: Primeira página da apostila "Os sólidos geométricos (O princípio de Cavalieri)", de autoria de Abdala Gannam, datada de 1980. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática do Coltec. 232 Ao ver a apostila, Abdala comentou: Eu me lembro disso aqui: é uma ilustração do Princípio de Cavalieri: "Primeira experiência: Construa em cartolina (ou material similar), uma pirâmide de base quadrada". "Construa um modelo aproximado da primeira pirâmide, recortando e empilhando cartões... ". Tinha uns estudantes que faziam de metal, outros de madeira, ou vidro. Tudo isso tudo eles concretizaram, e experimentaram. O curso de geometria era dado assim. Depois fiz um trabalho com retroprojetor, semelhante ao realizado para o curso de Trigonometria. José Eloisio, reconhecendo o trabalho do colega, disse: o professor Abdala [..] deu início a um trabalho de construção de sólidos geométricos, para o ensino de Geometria. Nós fazíamos materiais com cartolina, madeira, vidros. A professora Tânia utilizava, ainda, canudinhos para construção dos sólidos geométricos. Essa atividade, segundo ela, teria sido uma contribuição do Convênio com a Inglaterra: Em uma das vindas dos ingleses, quando eu já trabalhava no Coltec, eles ofereceram cursos para todos os professores do Colégio. Lembro-me de realizar um trabalho com canudinhos, para construção de sólidos geométricos, sob a orientação deles. Maria do Carmo também destacou que o trabalho com a construção de sólidos, utilizando materiais concretos, não surgiu há pouco tempo: Já naquela época, nós também utilizávamos sólidos geométricos concretos, feitos pelos alunos, construídos com madeira, metal, caixas. Essa prática não era comum, ninguém fazia isso em outras instituições. Entretanto, Alberto, que iniciou seus estudos no Coltec em 1974, não se recorda desses recursos: No estudo de Geometria, era preciso entender as figuras dos livros. Se não tivéssemos imaginação, abstração, não aprendíamos os conteúdos. Os docentes do Setor de Matemática contaram, também, que tentaram utilizar computadores, mas, como disse Abdala, não havia verbas para comprá-los. O professor José Eloisio detalhou: Quando surgiu o computador, surgiu engatinhando, eram poucos os lugares que tinham. Foi uma luta para a gente conseguir dotar os setores. Inicialmente, equiparam o setor administrativo, seção de compras, depois seção de ensino. Participei desse processo quando fui diretor. Eram comprados, no máximo, dois computadores por ano. Com isso, para que os setores fossem equipados com essas máquinas, demorou muito. Ou seja, se no Coltec, dentro da Universidade, era assim, lá fora, em outras escolas, era muito mais difícil. 233 Apesar dessa dificuldade, José Eloisio contou que o professor Sérgio, também do Departamento, iniciou o uso de computadores nas aulas de Matemática, ensinando programação de computadores aos alunos. E explica: Mas era apenas ele, que era mais ligado às questões de tecnologia. Ele foi um dos precursores do uso de computadores na área da educação, em Minas Gerais, porque aí fora, em outras escolas, não tinha isso. Maria do Carmo, diante de uma fotografia em que o professor Sérgio apresenta um painel sobre o uso de computadores, na ocasião do "Seminário sobre o ensino de Matemática no 2º grau", realizado no Coltec, nos disse: Essas fotos são de 1983, nesse período não tinha laboratório de informática no Coltec. O Dario Fiorentini e o Ubiratan D'Ambrosio já tinham realizado um trabalho interessante sobre o uso de calculadoras e computadores. Mas as escolas não tinham computadores ainda. Ou seja, o uso de computadores não era difundido. No Coltec usávamos calculadora, mas computador não. Então, nesse Seminário, o que fazíamos era apresentar possibilidades para o futuro, o que a gente poderia fazer com o computador. A gente realmente usava retroprojetor e desenhos. Tinham muitos desenhos nessa época. Figura 55: Painel de tema "O uso de micro-computadores no Ensino de Matemática". Apresentado por Sérgio Veiga, em seminário realizado no Coltec. Fonte: Arquivo do Setor de Matemática do Coltec. O professor Airton, apesar de ter ingressado no Colégio apenas em 1992, conhecia essa informação: O uso de computadores na escola, por exemplo, foi trazido pelo professor Sérgio. Computador, naquela época, era uma coisa pré-histórica. Ele tinha uma tela verde, com letrinhas para você escrever qualquer coisa. Os programas eram muito trabalhosos, complicados. O Sérgio tinha umas ideias de programação, oferecia cursos no Colégio, lá naquela sala que hoje é a 326 e na do lado. As duas 234 eram salas da Matemática, onde ele tinha uns computadores. Apesar de os computadores serem antigos, ele fazia um trabalho super bacana com os alunos. Outro aspecto relevante, relacionado ao uso de computadores no ensino de Matemática por professores do Coltec, foi relatado por Tânia: Em um determinado momento, alguns professores do ICEx [Instituto de Ciências Exatas da UFMG] também passaram a se interessar pelas metodologias e os materiais desenvolvidos/aplicados no Coltec. Havia alguns professores do curso de Matemática que se interessavam por questões relacionadas às práticas de ensino. Eles queriam entender, por exemplo, como trabalhar em grupo com os estudantes; como era possível deixarmos os alunos falarem tanto; como era viável trabalhar daquele jeito. Os docentes do ICEx decidiram, então, ceder um laboratório de Matemática, para aulas de Matemática do Coltec. Eles queriam ver a gente trabalhar trigonometria utilizando o computador. Eu fiz uma apostila para esse trabalho. Os alunos iam explorando, construindo no computador e anotando os seus resultados. Os professores do ICEx ficavam assistindo as aulas, para compreenderem a nossa dinâmica, a distribuição dos alunos nas máquinas e a tarefa final, que deveria ser apresentada pelos estudantes. Os alunos se sentiam importantes naquela atividade. Iam correndo do Coltec para o ICEx. Os ex-alunos Niriana, Jenner, Lilian e Gilberto também mencionaram o uso de instrumentos de desenho, tais como régua, compasso, transferidor e esquadro, nas aulas de Matemática. Gilberto apenas não se lembrou se era material cedido pela escola ou se os estudantes é que levavam. As calculadoras, por sua vez, ele tem certeza que eram do Colégio, porque os alunos não tinham condições financeiras de adquiri-las. Todavia, os ex-alunos Adilson, Poliana e Alberto não se recordaram da presença de calculadoras, computadores, instrumentos de desenho ou outros materiais em suas aulas de Matemática. Adilson reconheceu, porém, que pode ter havido, mas não tem clareza hoje. Ele esclareceu: Posteriormente, como professor, eu vi os professores de Matemática utilizando alguns materiais, como sólidos geométricos e calculadoras. Mas tenho dúvidas se alguma dessas lembranças pode ter sido do meu período de aluno. O ex-aluno Alberto, por sua vez, foi mais incisivo: Não me recordo do uso de recursos nas aulas de Matemática, era na lábia mesmo. Maria do Carmo nos contou sobre uma atividade em que utilizava régua para ensinar o conceito de derivadas para os alunos: Eu entregava para eles um gráfico de uma função, por exemplo, "seno", em um papel quadriculado, todo arrumadinho. No gráfico da função, eu destacava alguns 235 pontos (P1, P2, P3, ...), explorando o quadriculado do papel. Aí eu pedia para eles indicarem as coordenadas desses pontos destacados. Eles, então, escreviam as coordenadas para cada um daqueles pontos. Em seguida, utilizando uma régua, eu pedia para eles posicionarem esse instrumento o mais tangente possível a cada um dos pontos da função dada. Feito isso, eles desenhavam um triângulo retângulo, utilizando aquele ponto como vértice. Finalmente, eles encontravam as medidas dos catetos e calculavam a razão entre cateto oposto e cateto adjacente, nessa ordem. Para cada ponto, eles encontravam um triângulo e um valor para o quociente entre as medidas dos dois catetos desse triângulo. Em geral, eu indicava 10 pontos no gráfico. Nesse momento, eu dizia que o nome disso é inclinação da reta, eu não falava a palavra "derivada". Em uma tabela, eles organizavam uma coluna contendo as coordenadas de cada um dos pontos P1, P2, P3.... Na coluna ao lado, eles escreviam pontos em que a abscissa era a mesma dos pontos P1, P2, P3 ... e a ordenada era o valor da razão encontrada, após as construções dos referidos triângulos. Em seguida, eram instruídos a construírem um gráfico com os pontos da segunda coluna. Aí eu dizia: "Olha só: quando a gente tem um conjunto de pares ordenados e encontramos esses outros pares ordenados, vejam a função resultante (gráfico esboçado pelos alunos). Uma função deriva da outra. Notem que a derivada da função seno de x é cosseno de x. Eu repetia esse procedimento para outras funções, como f(x) = cos x e g(x) = e x . E assim eu introduzia o conceito de função derivada". P1= (1/2 , 1/2)        55,0 5,0 ,2/1 P2= (π/2 , 1) ... P3=(5π/6 , 1/2) ... P10 Figura 56: Tabela criada pela professora Maria do Carmo, durante a explicação da atividade. Figura 57: Gráfico criado pela pesquisadora para ilustrar a descrição da professora Maria do Carmo, durante a explicação da atividade. 236 Figura 58: Esboço realizado pela professora Maria do Carmo, para explicar uma atividade desenvolvida por ela, no Coltec. Eu ia dando os comandos oralmente para os alunos e eles faziam. Essa primeira, eles demoravam um pouquinho, né? Porque eles faziam todos os pontos. Nas funções seguintes eu determinava um ponto para cada grupo trabalhar. Depois, eles socializavam os resultados e a gente formalizava. No final de duas aulas eles já derivavam tudo e entendiam o que eram as derivadas. Com a integral era a mesma coisa, porque eles calculavam a área sob a curva, né?". Na avaliação dessa docente: O interessante dessa atividade é que, mesmo os alunos realizando as medições com réguas, o que ocasiona pequenas diferenças nos valores, a proximidade dos resultados é muito grande. Então eu mostrava para eles, que se nós tivéssemos um aparelho que fosse ainda mais preciso, eles encontrariam exatamente as funções derivadas. Com o uso da calculadora, eu costumava mostrar para eles alguns valores numéricos das funções, assim eles podiam verificar que as 237 aproximações estavam boas. Fazia o mesmo quando eu ensinava integral. E os resultados numéricos eram muito próximos. Reiteramos que, de modo geral, os professores de Matemática do Coltec procuravam produzir o seu próprio material, propostas de atividades, apostilas, estudos dirigidos, instruções programadas. Os livros didáticos eram pouco privilegiados, como nos relatou José Eloisio: Nós até tentamos utilizar o livro do Gelson Iezzi, que era considerada uma boa coleção. Mas, rapidamente, vimos que não daria certo, pois, na nossa concepção, eles são preparados para professores. Quando os alunos leem, não entendem. Por outro lado, eles são úteis para os estudantes fazerem exercícios ou realizarem consultas. A partir do início da década de 1990, observamos algumas mudanças nessas práticas de ensinar-aprender Matemática, visíveis nos fazeres de Airton. De acordo com esse docente, em grande parte do tempo, os alunos gostavam do ensino de Matemática do Coltec e tinham um bom desempenho nas provas de vestibular. Mas teve uma época em que os estudantes reclamavam muito, muito mesmo. [...] Eles se queixavam de ficarem muito soltos, de não entenderem a proposta. Relatam que tiveram que estudar sozinhos, pois alguns professores vinham, passavam as atividades e não participavam de nada, não sistematizavam. Então, eu ouvia muita reclamação. Diante desse cenário, Airton optou por não aderir aos materiais e metodologias utilizados na escola, como explicou: eu pensava: "Nossa! Os alunos reclamam tanto, que eu não vou fazer isso, porque eles reclamam demais". E as reclamações eram recorrentes. Eu iniciei aqui em turmas de terceiro ano, como já comentei, e eles reclamavam bastante. Dessa maneira, eu comecei a dar aula do jeito mais tradicional e a aceitação era boa, os alunos falavam: "Ah, a gente prefere aula assim, como você está dando, porque assim nós vemos tal e tal coisa". Por outro lado, Airton reconhecia a qualidade dos alunos que recebia no terceiro ano: quando eu iniciei no terceiro ano, fiquei assustado com o tanto que os alunos eram bons, mesmo sendo muito "enrolados". [...] Isso o fazia concluir que: o curso de Matemática no primeiro e segundo anos do Coltec devia ser bom, funcionar; do contrário, os alunos não seriam tão bons no terceiro ano. A impressão que eu tenho é que era uma metodologia que os estudantes não queriam mais, ele requeriam uma coisa mais dinâmica. Assim, ele analisou: Talvez o problema seja que esses professores estavam usando aquele material há tanto tempo, deixaram de revisá-lo, e foram perdendo a mão. Seria fundamental adequar às necessidades de outro tempo, de alunos 238 diferentes. Em síntese,o que os professores de Matemática do Coltec faziam nos anos 1970, começo dos anos 80, era muito moderno. O problema é que nos anos 90 já não era tão moderno e não estava funcionando tão bem. Esse docente começou, então, a observar outras propostas que estavam sendo difundidas no ensino de Matemática. Ele começou a incorporar, por exemplo, Resolução de Problemas às suas aulas, como explicou: eu começo a incorporar os problemas nas minhas aulas [...]. Eu queria uma proposta diferente e a que eu conheci aqui não era confortável para mim. Além disso, eu não queria manter o que eu fazia antes, que era mais tradicional. Essa metodologia também teria sido estimulada por Maria do Carmo, que conheceu essa prática durante o seu doutorado, como ela lembrou, ao rever uma carta que escreveu ao setor de Matemática, durante sua permanência no Canadá: Na Universidade onde eu cursava o doutorado [ingresso em 1988], tivemos um curso sobre "Resolução de Problemas", que era um tema atual em vários lugares do mundo, porém, recente no Brasil. Tinha um pessoal que vinha dos Estados Unidos nos dar aula. De acordo com Airton: a Maria do Carmo Vila volta do doutorado e começa a conversar muito sobre Educação comigo, a respeito de jeitos diferentes de dar aula. [...] ela me estimulava a trabalhar em grupos e adotar Resolução de Problemas como estratégias de ensino. Além do incentivo para utilizar Resolução de Problemas, Airton também foi instigado a organizar os alunos em grupos, como relatou ao ser questionado sobre o uso da sala 312, que continha bancadas para atividades em grupos: As aulas rendiam mais, os estudantes aprendiam a trabalhar juntos. E isso eu não aprendi sozinho não. Foi passado pela Maria do Carmo e pela Tânia, que sabiam desse negócio de manejar bem os grupos, elas tinham traquejo com grupos. A ex-aluna Poliana (ingresso no Coltec: 1981), reforçou: Comumente sentávamos em grupos nas aulas de Matemática. Também utilizávamos uma sala com bancadas e banquetas, onde havia calculadoras científicas. Inclusive, interrogamos Tânia sobre a dinâmica em grupos, referindo-nos ao que Airton costumava dizer no Colégio, que teria sido influenciado por Tânia a ter esse tipo de abordagem. Ela, então, complementou: A proposta de trabalho em grupos, que eu desempenhava com os alunos, era muito forte na minha atuação. Eu podia circular entre os grupos e atender individualmente as dúvidas dos alunos. José Eloísio, por sua vez, mencionou: Os alunos ficavam sentados em grupos, conforme queriam, e eu ficava ali, disponível. Sempre que precisavam, era só me chamar. O material já era preparado pensando no trabalho em grupos. A criação de 239 uma sala ambiente exclusiva da Matemática também propiciava o trabalho coletivo. A mobília dessa sala beneficiava essa prática, como frisou Airton, ao ser indagado sobre os espaços físicos do Coltec: eu e a Tânia decidimos colocar essas mesas para quatro pessoas, pois, dessa forma, os alunos trabalhariam em grupos, mesmo que forçadamente. Em síntese, quatro docentes e todos os ex-alunos, colaboradores da pesquisa, mencionaram atividades em grupos, quando relatavam suas lembranças sobre as aulas de Matemática do Coltec. Finalmente, vale salientar que, independentemente das estratégias, métodos ou didáticas eleitas, presentes nos discursos dos docentes do setor de Matemática, notamos que eles e elas procuravam incentivar a autonomia e o espírito investigativo dos estudantes 237 . Um recorte do texto disponível no prospecto de divulgação do Coltec de 1972/1973 (Anexo XI) reforça que essa postura também era impulsionada pelos ideários do Colégio: Todo o ensino ministrado no Colégio Técnico tem em vista o conceito de que a função da escola não é simplesmente transmitir os conhecimentos adquiridos por outras pessoas, mas também dar-lhes a oportunidade de consegui-los pelo seu próprio esforço, através de experiências cuidadosamente selecionadas. Assim, estamos procurando desenvolver nos nossos alunos espírito de investigação e de crítica, em todos os campos da Cultura e da Técnica". O depoimento da ex-aluna Niriana também ilustra essas características: O ensino de Matemática do Coltec nos estimulava a pensar e a tirar conclusões e isso nos diferenciava de outros colégios tradicionais. Então, por exemplo, eu me lembro que o Sérgio ou a Tânia apresentaram como foi desenvolvido uma determinada fórmula. Eu recordo que foi apresentado como se chegava naquela expressão matemática. Acho que foi o Sérgio, porque a Tânia era mais tradicional. Isso me interessou muito. Era o tipo de coisa que estimulava a gente a pensar. 5.3. Ensino de Matemática e o Ensino Técnico Pareceu-nos que o ensino da Matemática do Coltec, usualmente, se preocupava com a formação de estudantes autônomos, críticos, capazes de formular conjecturas e 237 Pelos registros que obtivemos, pelo menos, a partir de 1993, o professor Airton, juntamente com outros docentes, coordenou e participou de outro projeto, denominado Clube de Matemática, cuja finalidade era apresentar para os alunos assuntos interessantes que não faziam parte dos conteúdos matemáticos usualmente abordados no Ensino Médio (Anexo XXXII). 240 questionar resultados. Mas, sobretudo, buscava dar subsídios para que esses jovens fossem capazes de acompanhar as conteúdos das disciplinas técnicas. Já no "Planejamento do Departamento de Matemática" de 1969 (Anexo XVII), o primeiro objetivo explicitado é: No processo de desenvolvimento do Brasil, o Departamento procurará atuar no sentido de dar aos alunos, uma base Matemática que lhes permita vencer com facilidade os obstáculos surgidos do estudo da Química e da Física, em particular, e, de modo geral, na parte propriamente técnica dos diferentes cursos. Na prática, os conteúdos propostos são, praticamente, os mesmos abordados nos livros didáticos e geralmente ensinados nas demais escolas. Entretanto, buscava-se variar/inovar os procedimentos de ensino, além de criar uma ordenação própria dos assuntos, conforme explicitado na primeira seção deste capítulo, que combinavam com as temáticas abordadas nos cursos técnicos. A partir de 1972, inclusive, os programas do 2º e 3º anos apresentavam diferenças, que variavam conforme o curso técnico. O professor José Eloísio, ao ser indagado sobre as especificidades do ensino de Matemática do Coltec, considerando que se trata de uma instituição de ensino técnico: A diferença que eu percebia no ensino do Coltec, em relação ao Colégio Estadual, por exemplo, que não oferecia cursos técnicos, era o currículo. Denominávamos turma da Física os cursos de Instrumentação e Eletrônica; turma de Biologia, o curso de Patologia; e turma de Química, o curso de Química. Essa diferenciação começava no segundo ano; trabalhávamos em linhas diferentes nessas turmas. O próprio Colégio separava as turmas assim: Física, Biologia e Química. Nessa divisão, os programas eram diferentes, cada turma tinha o seu currículo. A Matemática, por exemplo, que a turma de Química tinha, era diferente daquela vista nas turmas de Eletrônica e Instrumentação. Inclusive, a quantidade de aulas de Matemática variava de um curso para o outro. As turmas de Física e Química tinham uma carga horária bem maior, porque precisavam. Já a turma de Biologia era a única que cursava a disciplina de Bioestatística. Nós procurávamos atender as necessidades do pessoal da área técnica, alterando a ordem de apresentação dos conteúdos, ou mesmo a escolha desses. O coordenador de cada curso era quem observava essas necessidades e administrava as demandas. Da mesma forma, o professor Francisco Gil nos disse: às vezes eu saía do programa que estava dando, para poder atender a um pedido de algum professor da 241 área técnica. Os docentes de Mecânica, principalmente, costumavam solicitar que reforçássemos algum assunto, um aspecto de trigonometria, por exemplo. Até mesmo no Programa de Matemática de 1969, há a seguinte informação: "Este programa poderá sofrer pequenas modificações com finalidade de atender à Cadeira de Física" (Anexo XIX, p. 4). A professora Maria do Carmo, questionada sobre o mesmo assunto, relatou: O Coltec foi a minha primeira experiência com escola de ensino técnico. Em relação às escolas de ensino básico, não técnicas, com que eu tive contato (como professora ou formadora), a principal diferença que eu percebia era referente aos programas dos cursos. Os professores das áreas técnicas costumavam dizer os conteúdos matemáticos de que eles precisavam. Então, por exemplo, eles diziam: "Estamos precisando que os alunos saibam os conceitos de derivada e integral no curso de Eletrônica, no segundo ano". Então a gente inseria derivada e integral no segundo ano. Se eles iam precisar de trigonometria, a gente trabalhava esse conteúdo. O Colégio Técnico não seguia o currículo das outras escolas; nós tínhamos liberdade para montar o nosso, de acordo com a demanda dos cursos oferecidos. Apesar de alguns relatos e dos programas apresentados, Maria do Carmo e Francisco Gil contaram que o curso de Matemática era o mesmo para todos [Gil]. Em concordância, Maria do Carmo esclareceu: Não havia, no entanto, diferenciação do currículo entre os cursos. A gente padronizava. No caso de "derivada", por exemplo: se um determinado curso demandava que ensinássemos "derivada" no segundo ano, a gente oferecia esse conteúdo para todos os demais cursos (no total de quatro cursos), também no segundo ano. Gostaríamos de frisar que alguns desses assuntos, considerados avançados para a idade dos alunos do Coltec, especialmente derivadas e integrais, algumas vezes já eram apresentados no 2º ano de curso. Maria do Carmo revelou alguns inconvenientes dessa organização: para nós, professores, era um pouco difícil, pois às vezes precisávamos que os alunos soubessem alguns pré-requisitos para compreensão da matéria e não havia tempo para as lecionarmos. Ou ainda, necessitávamos de um certo amadurecimento matemático dos alunos, que habitualmente só conseguiríamos atingir no ano seguinte. No entanto, para atendermos as exigências dos cursos técnicos, nós adequávamos nosso currículo e enfrentávamos tais empecilhos. Para a esperada sincronia com os cursos técnicos, os docentes do setor de Matemática precisavam dialogar com os professores da área técnica. Maria do Carmo 242 confirmou isso: Me lembro de ir conversar com os professores das outras áreas e perguntar: "O que vocês precisam?". A Elétrica, por exemplo, mostrou algumas fórmulas e determinadas funções que utilizavam. Nós, então, procuramos apresentar aquelas funções mais cedo, quando o curso técnico iria utilizar. Nós tentávamos observar o que esses professores estavam ensinando para usar em exemplos, aplicar aqueles conteúdos. Mas eles diziam: "Não, isso é por nossa conta". A gente dava um exemplo aplicado ou outro, mas era muito pouco. Em suma, nós nunca chegamos a uma interdisciplinaridade, digamos assim, mais profunda. Airton também se lembrou: eu fui conversar com os professores das disciplinas técnicas e eles me pediram para eu organizar os conteúdos de Matemática do segundo ano. A partir daí, fizemos várias mudanças no programa da disciplina, redistribuindo alguns conteúdos nas séries, tornando a distribuição diferente da tradicional, ou seja, da forma como são apresentados nas escolas não técnicas. O Programa de Matemática, proposto para a área de Biologia (Patologia Clínica), no ano de 1986, por exemplo, incluía o tópico: "Aplicações de logarítmos na Biologia". Figura 59: Recorte do Programa de Matemática de 1986. Fonte: Materiais do Setor de Matemática. Adicionalmente, a disciplina "Bioestatística" também era oferecida apenas ao curso de Patologia Clínica. Sobre essa matéria, Airton relatou: o setor de Análises Clínicas reconhece que a disciplina de Bioestatística, oferecida pelo setor de Matemática, é importante. Mas o restante que ensinamos, para eles é indiferente: "O que vocês fizerem está tudo bem, se não fizer nada também está bom". Por muito tempo, o professor Francisco de Assis Batista 238 , que não participou como depoente deste trabalho, promoveu a interdisciplinaridade com as áreas técnicas, especialmente a Biologia e o curso de Patologia Clínica. Além de ministrar a disciplina de Bioestatística, ele se engajava em projetos, como por exemplo: 238 Francisco de Assis Batista, conhecido como Chicão, lecionou no Coltec da década de 1990 até o ano de 2010, quando se aposentou. Infelizmente, não conseguimos contato com esse professor para participação nesta pesquisa. 243 - Projeto interdisciplinar que envolve os setores de Matemática, Química, Mecânica e Fotografia, que tem por objetivo montar um laboratório de Matemática e Estatística que ajude os alunos a desenvolver conceitos através de experiências e fornecer aos professores recursos didáticos para tal. - Projeto de ensino que visava pesquisar a presença ou não de helmintos e protozoários nas fezes das crianças de 0 a 14 anos na região do Carmo em Nova União - MG. Seriam feitos exames de fezes pelo método Hoffman Pons e Janer, emissão de resultados, análise bioestatística e educação sanitária. - Projeto de ensino cujo objetivo era verificar a relação do procedimento cirúrgico executado e o tipo de anestesia com os exames laboratoriais solicitados, sexo e idade nos pacientes internados no Hospital Oftalmológico São Geraldo 239 . A esse respeito, o ex-aluno Jenner rememorou, ao ser indagado sobre as relações do ensino de Matemática com as disciplinas técnicas: como professor do Coltec, me lembro que o professor Chicão, do Departamento de Matemática, desenvolvia projetos juntamente com outros docentes de Análises Clínicas. Então, por exemplo, os alunos coletavam amostras, dados sobre a qualidade do leite UHT, aquele de caixinha, em seguida, o Chicão os ajudava a organizar e analisar essas informações utilizando ferramentas da Estatística. Igualmente, o professor Airton se lembrou do professor Chicão, quando questionado da mesma forma. Ele reforçou: O Chicão também buscava muita interlocução com os cursos técnicos, a partir de aplicação dos conteúdos de Matemática que ensinava, como da Eletrônica. Como ele é um cara super eclético, eu acho que ele fazia isso, mas não sei até que ponto. Ele ainda conseguia trazer exemplos para os problemas de Matemática, cujo contexto vinha de outras disciplinas do curso básico, como Biologia. Eu acho que ele fazia isso, porque ele comentava e eu via os problemas que ele propunha nas provas. Além das iniciativas de Chicão, não há indícios de que outro docente tenha se aproximado, de maneira semelhante, de outras disciplinas técnicas, desenvolvendo atividades interdisciplinares. O colaborador Francisco Gil informou, ao ser questionado sobre a relação do ensino de Matemática com os cursos técnicos: nós tentávamos fazer alguma relação com os cursos técnicos, mas era muito superficial, porque a gente não entendia da parte técnica. Às vezes, forçávamos no palavreado de um problema. Por 239 Esses e outros projetos dessa natureza, desenvolvidos por Francisco Batista, são mencionados no Relatório anual desse docente de 1996 - Anexo XXXI (Adaptado). 244 exemplo, se eu ia explorar um problema de volume de sólidos, eu inventava que se tratava de uma peça, que tinha um determinado volume de óleo... Mas era muito vago. A adoção da coleção Matemática Aplicada, de Trotta, Imenes e Jakubovic também evidencia uma tentativa de relacionar os conteúdos das aulas de Matemática com exemplos práticos. Isso porque, de acordo com as considerações desses autores, explicitadas nos manuais do professor dos três volumes, eles procuravam apresentar um curso de Matemática mais lidado à nossa realidade, mais próximo da vida e dos problemas cotidianos dos alunos, mais prático e aplicado, e enfim, mais útil à maioria dos que frequentam nossas escolas. [...] É importante salientar que as aplicações não serão meros apêndices do curso. [...] Em diversas ocasiões o aluno se defrontará com um problema prático sem estar em condições de resolvê-lo. Então, será orientado a efetuar inúmeras observações que servirão de apoio à criação de conceitos e técnicas que permitam atacar o problema prático em questão. Nesses ataques, os conceitos e técnicas criados vão sendo aprimorados [...] até que, fechando o ciclo, se resolva o problema prático "motivador" (TROTTA; IMENES; JAKUBOVIC, 1980, p. 1-2). Em síntese, avaliamos que a Matemática do Coltec, além de cuidadosa, criteriosa e, relativamente diferenciada em relação a outras escolas, fazia poucas e raras conexões com os cursos técnicos. Ao que parece, alguns assuntos até eram abordados em certos contextos próximos à realidade, mas essas aproximações eram apenas para dar sentido aos conceitos matemáticos e não para contemplar o perfil do aluno que se pretendia formar ou as intenções da escola. Não havia ensino próximo da formação específica de cada uma das modalidades de cursos oferecidos pelo Colégio, como confirmou Airton: não acredito que a escolha dos métodos de ensino de Matemática era preocupada com os cursos técnicos atendidos. Em contrapartida, nenhum de nossos depoentes possuía formação para atuar dessa maneira. Chicão, com seu conhecimento em Estatística e aparente interesse pela área da Biologia, conseguia estabelecer elos entre alguns conteúdos e essa área. José Eloísio declarou: Em minha formação eu não fui preparado para atuar em cursos profissionalizantes. Além dele, Francisco Gil confessou: não tive uma formação específica para lecionar em curso técnico. Eu estudava sozinho. Estudei Desenho Técnico, por gostar de desenho. Dei aulas desse conteúdo, lá no Colégio Agrícola. Explicava sobre projeções, perspectivas, etc. Mas isso não me ajudou em nada no Coltec. Aqui eu apenas socorria alguns professores da Mecânica, conforme expliquei. 245 E o professor Airton relatou: como eu entendo pouco da área técnica, eu consigo usar pouco. Desse modo, avaliamos que a Matemática do Coltec, apesar de ter sido muito valorizada e possuir muito respeito, como nos disse Francisco Gil, era menos relevante do que as disciplinas técnicas e tentava-se cumprir, do modo como era possível, a finalidade de dar subsídios aos conteúdos estudados pelos alunos em outras matérias, como mencionamos no início desta seção. Não queremos dizer, com isso, que a Matemática do Colégio Técnico não era eficiente e reconhecida, pois sabemos que seus formandos comumente eram aprovados nos vestibulares, que exigiam questões dessa disciplina; seus professores eram bem qualificados; e o ensino em geral era bem reputado. Além disso, no Coltec, a preocupação em formar um profissional não era restrita às disciplinas técnicas, como disse o ex-aluno Antônio Carlos. Contudo, estamos advertindo que, de certa forma, a Matemática dentro do Coltec era secundária em relação às disciplinas das áreas técnicas. 246 247 6- CONSIDERAÇÕES FINAIS É manter eternamente o sentimento saudosista de tantas vivências intensas com os colegas/amigos, professores e funcionários [...]. Ex-aluna 9 (entrada no Coltec: 1986) [...] Quando eu saí do Coltec a saudade chegava a sufocar o meu peito. Ex-aluno 18 (entrada no Coltec: não informada) 232 É chegado o momento de olharmos para a história que construímos e procurar analisar as contribuições que ela trouxe para nós, pesquisadoras, para a instituição estudada e para o campo da Educação Matemática. É tempo de notarmos que nem todo o planejamento inicial foi seguido, mas que os projetos traçados delinearam nossas trilhas de investigação. Período de pensarmos no futuro, de esboçarmos novos caminhos, guiados pelos mesmos rumos, ou orientados para direções diversas. De um modo ou de outro, reconhemos que o conhecimento advindo dessa experiência de pesquisa nos transformou e modificará nossos próximos estudos. Procuramos buscar e narrar a história das práticas de ensinar-aprender Matemática, a partir, principalmente, dos relatos de nossos depoentes. Nesse sentido, Abdala, Luiz Humberto, Airton, Maria do Carmo, Tânia, Francisco, José Eloísio, Lilian, Niriana, Gilberto, Alberto, Adilson, Poliana, Antônio, Jenner e Gledsom, colaboradores desta pesquisa, rememoraram alguns encontros, experiências, frustrações, conquistas, relacionamentos, apropriações e sentimentos vivenciados no Coltec. Esses depoimentos, entrelaçados com a documentação investigada/selecionada, nos possibilitaram caracterizar os professores de Matemática (formação acadêmica, desenvolvimento profissional, motivações pessoais) e seus fazeres (metodologias, recursos empregados, materiais didáticos utilizados/produzidos, níveis de articulação com outras disciplinas, relações com o ensino técnico, mudanças curriculares e tendências conferidas ao ensino de Matemática). Criamos, então, textualizações que oportunizaram identificar e analisar algumas permanências ou mudanças ocorridas nas práticas dos professores no contexto e período de referência. Além disso, conversas com os ex-alunos foram fundamentais 232 Recorte da resposta de um ex-aluno a uma mensagem publicada por uma professora e ex-aluna do Coltec, em uma rede social, conforme explicado em nota de rodapé no início do Capítulo 1. 248 por, mais que contribuir com a descrição das práticas de ensino de Matemática, permitirem construir compreensões sobre as relações professor-aluno, a formação acadêmica e profissional dos egressos e as formas de abordagem dos conteúdos matemáticos levando em consideração sua presença em cursos técnicos. Dentro do possível, tentamos descrever parte da nossa trajetória de investigação, mencionando alguns medos e expectativas, comentando as surpresas e curiosidades das entrevistas, o desapontamento com a má conservação/preservação/divulgação dos arquivos e as dificuldades de acesso e manejo dos documentos. Entre os receios iniciais, estava o de não conseguir construir uma história diferente de um apanhado de curiosidades ou dos costumes de uma instituição. Afinal, uma das pesquisadoras é docente desse Colégio e o admira muito. Mas o passado do Coltec, narrado nos relatos das práticas de ensinar-aprender Matemática, tratou de nos recompensar, recolhido nas lembranças fascinantes de nossos dezesseis colaboradores, um ex-diretor, sete professores de Matemática e oito ex-alunos. Durante a análise dos depoimentos que permeou toda a tese, eu quis, em vários momentos, voltar aos colaboradores e realizar novas perguntas, que sanassem algumas lacunas nas informações obtidas. Em seguida, refleti: "Isso não seria refazer as minhas perguntas?". Sobre esse questionamento, notamos que muitas vezes não ouvimos o que esperávamos de nossos entrevistados, ou seja, naturalmente não foram mencionados ou desenvolvidos alguns assuntos que gostaríamos de discutir e repercutir na tese. Concluímos, portanto, que é preciso considerarmos que foram esses relatos que vieram à tona nas conversas com os depoentes, orientados pelos roteiros de entrevista que havíamos elaborado, sob outra ótica. Foi isso que eles quiseram contar. Como ouvintes na intenção de construir uma história, precisamos respeitar não somente o que o entrevistado quis realçar, mas o que, intencionalmente ou não, desejou omitir. E, principalmente, temos que reconhecer a impossibilidade de se esgotarem todas as informações. Inicialmente, tratamos de conhecer melhor nosso cenário de investigação, o Colégio Técnico da UFMG. Em certa medida, afirmamos que esse Colégio foi uma "escola exemplar", uma vez que contava com professores e alunos de reconhecida qualidade intelectual e servia de modelo pedagógico para outros educadores e outras instituições escolares. De outro modo, como foi criado em tempo de modernização, desenvolvimento da pesquisa e profissionalização do ensino, o Coltec seria "exemplar", por expressar que o município de Belo Horizonte, naquele momento inicial, era 249 moderno e capaz de formar bons profissionais. Afinal, tratou-se de uma instituição com equipamentos e ideologia inglesa, situada em uma das principais universidades do Estado, que oferecia preparação de técnicos de qualidade (PESSANHA; SILVA, 2012). No cotidiano da cidade, esse perfil modelar do Colégio era facilmente percebido na divulgação, em outdoors, de cursos preparatórios para o exame de seleção para o Coltec. Avaliamos ainda que o ensino do Colégio Técnico, voltado para a formação de técnicos, não foi marginalizado ou segregado dentro do cenário educacional do Estado ou do país, como já teria ocorrido em outras instituições profissionalizantes 233 . Isso porque, no início de seu funcionamento, na década de 1970, o Brasil vivia um período de desenvolvimento econômico e valorização do ensino técnico. Inclusive, pelo menos no que se refere à lei nº 5692 de 1971 (que tornava compulsória a profissionalização para o segundo grau), o ensino técnico se equiparou ao sistema de escolarização "regular". Aditivamente, durante todo o seu funcionamento, formava técnicos bem avaliados no mercado e, principalmente, aptos a serem aprovados nos vestibulares, o que atraía estudantes de todas as classes econômicas e sociais. Não se pode, ainda, deixar de mencionar a sua localização dentro da UFMG que, reiteramos, o valorizava e dava credibilidade a seus cursos. Mais amplamente, a partir da década de 1970, as Escolas Técnicas Federais passaram a ser reconhecidas pela qualidade do ensino nas áreas de Física e Matemática e por serem públicas e gratuitas, logo atraíram adolescentes e jovens de segmentos sociais mais elitizados. Seu currículo se distanciava da preparação profissional indo em direção à uma sólida preparação para o ingresso na Universidade (PINTO, 2015, p. 145). A diversidade de seu público também era reflexo dos incentivos que a escola dava aos estudantes de baixa renda que se interessavam por um ensino de qualidade, mas não podiam custear escolas privadas. Como entre as prioridades do Coltec estava atrair alunos com poucos recursos financeiros, que seguiriam na carreira de técnicos e, dificilmente almejariam ingressar em cursos superiores, o Colégio Técnico propiciava auxílios financeiros, oriundos da Fump e do Conselho Nacional de Desenvolvimento 233 Estamos abordando "marginalização" e "marginalidade", tal como esses termos foram explorados na pesquisa de mestrado de Martins-Salandim (2007). Essa autora investigou a marginalização no ensino técnico, mais precisamente, no ensino técnico agrícola do interior de São Paulo. De acordo com Martins- Saladim, a marginalidade e as ações e sentimentos atrelados a ela são modificadas no tempo. Nas décadas de 1950 e 1960, por exemplo, houve marginalidade nas escolas técnicas, pois a educação profissional, ou educação voltada para o trabalho, era reservada a estudantes de poucos recursos econômicos, e garantiria integração desses sujeitos à sociedade. Entretanto, a partir de 1970, ocorre uma valorização dessa categoria de ensino, que fomentaria o desenvolvimento do país. 250 Científico e Tecnológico (CNPq), que permitiam a alguns discentes se manterem na escola, arcarem com o transporte e a alimentação em período integral. Entre os nossos depoentes, há ex-alunos oriundos de escolas privadas, com condições de pagar as despesas desse tipo de instituição, como Antônio Carlos, que explicou, quando narrou seu interesse pelo Coltec: Embora eu fosse de família simples, de condições econômicas limitadas, minha irmã decidiu pagar para eu estudar no Colégio Santo Antônio 234 . Apesar disso, ele preferiu o Colégio Técnico, que prometia ser referência no Estado, era gratuito e mais próximo de sua residência. Por outro lado, a maioria dos alunos entrevistados vinha de famílias com poucos recursos financeiros, antes bolsistas em escolas particulares ou egressos de escolas públicas. Sobre isso, a ex-aluna Poliana nos disse, ao ser questionada sobre a existência de cotas para entrada no Colégio Técnico: No concurso que fiz para ingressar no Colégio, participei de um sistema discreto de cotas, que considerava a renda familiar. Eu era pobre, não podia pagar escola particular. Como o Coltec era muito reputado, a minha mãe me incentivou a fazer a prova de seleção. Eu não fiz cursinho para ser aprovada, embora soubesse da existência de alguns cursos preparatórios nessa época, como o Orvile Carneiro 235 . No entanto, eu tinha uma boa formação de 5ª à 8ª série 236 , pois estudei no Colégio Anchieta 237 , onde eu tinha uma bolsa de estudos, já que era muito boa aluna. Entre as características do Coltec, não podemos deixar de realçar a liberdade oferecida aos alunos, que exigia deles uma responsabilidade inesperada dos jovens, como relembrou o ex-aluno Alberto, ao ser convidado a descrever o Colégio: Com relação ao funcionamento do Colégio, percebi algumas diferenças, porque lá na escola em que eu estudava o aluno era muito guiado. No Coltec o sujeito era muito livre, até hoje é assim. É o ideal libertário que ouvimos dizer no Colégio, que não aceita nenhum 234 O Colégio Santo Antônio foi fundado em 1909, na cidade de São João del-Rei, em Minas Gerais. É uma instituição educacional franciscana, que procura orientar sua ação pedagógica à maneira de São Francisco de Assis. É reconhecida como instituição referência em educação. Em 1949 transferiu alguns cursos para Belo Horizonte. Atualmente, está localizada no bairro Funcionários, onde oferece o Ensino Fundamental Completo e o Ensino Médio. Disponível em: < http://www.colegiosantoantonio.com.br/sobr e_o_colegio_santo_antonio/>. Último acesso em: 25 ago. 2016. 235 Em 1961, o curso Orvile Carneiro foi criado em Belo Horizonte, para preparar alunos interessados em ingressar na Escola Técnica Federal de Minas Gerais, hoje Cefet-MG. Em seguida, ampliou sua oferta de cursos, passando a atender também estudantes que pretendiam ser selecionados no Coltec e em outros diferentes concursos públicos. Disponível em: < http://cefet.orvilecarneiro.com.br/cefet.php>. Último acesso em: 21 set. 2016. 236 Referindo-se ao atual Fundamental II, do 5º ao 9º ano. 237 Newton de Paiva Ferreira criou, em 1935, junto com um grupo de amigos, a Escola Livre de Direito. Dali surgiu o Colégio Anchieta, um dos pioneiros estabelecimentos de ensino secundário de Minas Gerais, localizada na esquina da rua Tamoios com a avenida Olegário Maciel. Disponível em: < http://www.camara.gov.br/sileg/integras/313144.pdf> e . Último acesso em: 06 out. 2016. 251 uniforme, que é tudo diferente. Na outra instituição, eu nunca entraria sem uniforme. Além disso, eu precisava levar carteirinha de estudante para eles carimbarem a minha presença antes de entrar na escola. Era assim que funcionava, enquanto aqui no Colégio não havia nada disso. Como eu estava no lugar que eu queria, então não precisava de controle. Ademais, a infraestrutura e os recursos do Colégio foram bem avaliados por todos os depoentes. José Eloísio comentou: o que nós tínhamos dava para fazer um bom trabalho. A maioria de nós que lecionava no Coltec e em outra instituição percebia que a situação daqui era muito boa, era um "mar de rosas" perante o que víamos lá fora. Esse docente também valorizava as condições de trabalho: Não precisávamos levar serviço para casa. Eu corrigia provas no Colégio, no meu horário. Só se eu não soubesse aproveitar meu tempo que eu precisava levar para casa. Mas eu tinha tempo para fazer tudo dentro da escola. Era raro eu levar trabalho para casa, no geral fazíamos tudo no Coltec. A exigência do estágio curricular 238 ao final dos cursos técnicos também colocava o Colégio em visibilidade nas empresas, indústrias e laboratórios de pesquisa. No Arquivo Inativo do Coltec, encontramos cartas endereçadas a laboratórios de pesquisa e indústrias (Escola de Veterinária da UFMG, Cortume Santa Helena, Antarctica, Cia de Cimento Portland Itaú, Itambé, Magnesita, Faculdade de Farmácia da UFMG, Petrobrás-Petróleo Brasileiro S/A, Divisão de Águas e Esgotos, Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e Instituto de Pesquisas Radioativas 239 ), solicitando a abertura de vagas para os alunos, para o cumprimento do estágio curricular, o que "contribuiria para o aprimoramento da formação desses estudantes, necessário ao desenvolvimento do país". Além desses aspectos, a participação ativa dos professores de Matemática na formação continuada de outros docentes, entre outros fatores já mencionados, diferenciava esses profissionais e o Coltec, em relação a outros educadores e instituições de segundo grau/ensino médio. Distintamente, em outras escolas não havia condições e, principalmente, o incentivo a esse tipo de trabalho muito presente no Colégio Técnico, que estava inserido em uma universidade pública, em que os projetos 238 De acordo com a Resolução 01/86 - Estabelece normas de Estágio do Colégio Técnico da UFMG , o estágio curricular exigido pelo Coltec era de 800 horas dentro da áreas específica de formação, com limite para conclusão de 4 anos, após a conclusão do 3º ano, ou 8 anos incluindo todo o período de curso (Anexo XXIX). 239 Um modelo dessas cartas, encaminhado ao diretor da Escola de Veterinária, pode ser visto no Anexo XXX. Data: 18 de maio de 1971. 252 de extensão eram incentivados. Por outro lado, é preciso considerar que o estado de Minas Gerais, naquele momento, fazia investimentos significativos na capacitação de seus professores e possivelmente a educação estadual era, então, gerida por profissionais que mantinham relações com a UFMG e, particularmente, com os professores do Coltec. O ensino de Matemática, por sua vez, pareceu acompanhar as tendências pedagógicas em evidência em sua época, conforme nossa hipótese anterior à pesquisa, elaborada a partir de conversas informais com antigos docentes e discentes do Coltec, como comentamos no Capítulo 1. Nesse sentido, observamos que a maioria dos professores de Matemática desenvolviam práticas de ensino que iam ao encontro de discussões no âmbito educacional do período e disseminavam seus métodos em congressos e cursos de capacitação. Airton, ao ser perguntado se a atuação dos professores buscava acompanhar as tendências e concepções de ensino de Matemática difundidas no país, nos disse: Desde que eu estou aqui, antes eu não sei, sempre teve alguém no setor que era ligado à Educação Matemática, ou seja, estava antenado com o que estava acontecendo. Inicialmente, era a Maria do Carmo, depois passou a ser eu. Nós sempre estivemos lendo coisas novas e tal. Com isso, ao lermos pesquisas, nos colocamos na fronteira. Dessa forma, antes de as coisas virarem moda na maioria das escolas, a gente já conhecia, já havia experimentado. Nesse sentido, a gente andava um pouco na frente, porque sempre tinha alguém aqui que estava antenado no que havia de mais moderno. Não podemos deixar de notar que essa característica dos professores do Coltec se liga fortemente às suas condições profissionais como docentes de uma universidade importante no cenário brasileiro. O trabalho de Fiorentini (1994) contribui para percebermos que as mudanças ocorridas no ensino de Matemática do Coltec seguiam as temáticas discutidas nas produções científico-acadêmicas do período que focalizamos. Esse autor analisou alguns poucos estudos sobre ensino de Matemática no Brasil, antes da década de 1970, e investigou 204 teses/dissertações que foram produzidas/defendidas no país, nas décadas de 1970 e 1980. Inicialmente, ele observa que quase 20% dessas investigações tinham como objetivo averiguar "os métodos e técnicas de ensino de Matemática" (p. 185). Em seguida, considerando apenas a década de 1970, Fiorentini constata que 25% dos trabalhos tinham esse foco temático. A maioria deles referia-se ao ensino individualizado ou à Instrução Programada, além de outros métodos de ensino e 253 aprendizagem 240 . Notemos que, nesse período a UFMG já produzia materiais instrucionais dessa natureza e o Coltec iniciou o seu funcionamento aderindo a Estudos Dirigidos e Instruções Programadas. Já na década de 1980, o número de trabalhos que abordam o ensino individualizado (sobretudo a instrução programada) não representava 3% do total produzido. Entretanto, outros métodos e técnicas de ensino passaram a figurar as pesquisas, tais como Resolução de Problemas, Modelagem Matemática ou uso de modelos matemáticos no ensino 241 , que totalizavam 12% das produções dos últimos quatro anos daquela década. Nessa época, Maria do Carmo incentivava a proposta Resolução de Problemas no Setor de Matemática, conhecida por ela durante seu doutorado, iniciado em 1988. E, principalmente, a partir da atuação de Airton, no início da década de 1990, parecem ter ocorrido algumas mudanças nas práticas de ensinar- aprender do Coltec. Esse professor relatou que testava recursos diferentes dos anteriormente utilizados, assim como atividades balizadas pela Resolução de Problemas. Além disso, Maria do Carmo, que lecionou no Coltec de 1979 a 1995, contou: eu sempre fiz o que o pessoal trabalha hoje em dia com o nome de "Modelagem Matemática". Você parte de uma situação e "matematiza", você encontra uma fórmula.Você pode utilizar modelagem até com as crianças. Eu uso isso até hoje. Trabalho com padrões da Física, da Química, da natureza, em geral. A partir de exemplos, podemos retirar padrões, leis. Ao fazer isso, você está trabalhando modelagem. Observamos que propostas alternativas de ensino, elaboradas pelos professores do Coltec, manifestadas em materiais disponíveis no Setor de Matemática, abrangem, 240 Fiorentini (1994, p. 120) lista dezesseis pesquisas, com suas respectivas referências, que tomavam como objeto de estudo o "Método Keller de Instrução Personalidazada"; o ensino programado em módulos instrucionais; outras formas de ensino individualizado, tais como fichas e atividades auto- instrutivas; ou atitudes de professores em relação ao ensino individualizado. 241 Considerando a dificuldade de esclarecermos sobre as diferentes abordagens sobre Resoluções de Problemas e Modelagem Matemática, apresentamos duas interpretações simplificadas sobre esses métodos, que podem auxiliar o entendimento de leitores pouco familiarizados com a área de Educação Matemática. Fiorentini (1994), retomando as experiências mais remotas dessa técnica, utilizada por Dewey entre 1986 e 1904, afirma que "nessas experiências as crianças estudavam através de projetos que reproduziam as situações sócio-econômicas" (p. 188). O ensino com base na Resolução de Problemas é desenvolvido a partir de desafios e problemas que não são resolvidos diretamente, mas que exigem reconhecimento, exploração e criação de significados. Enquanto Modelagem Matemática é um processo muito rico de encarar situações reais, e culmina com a solução efetiva do problema real e não com a simples resolução formal de um problema artificial" (D'AMBROSIO, 1986, p. 11 apud FIORENTINI, 1994, p. 244). Para Bassanezi (2002), a modelagem lida com uma situação do mundo real, que é traduzida para a linguagem matemática e depois solucionada e interpretada segundo a linguagem usual (BASSANEZI, 2002). 254 especialmente, trigonometria, funções e geometria espacial, assuntos que exigem visualização de imagens, gráficos e figuras sólidas, e, nesses casos, o uso de retroprojetor, papéis quadriculados ou material concreto pode contribuir para a compreensão dos estudantes. Entretanto, quando nos perguntamos: "A Matemática do Coltec era pensada para um Colégio Técnico?", concluímos que a resposta é negativa. Embora ela pareça ter sido alicerce para muitos conteúdos estudados nas disciplinas técnicas, raramente houve distinção entre seus enfoques nos diferentes cursos. Os tópicos de Matemática do Coltec também eram, praticamente, os mesmos daqueles apresentados nas "escolas tradicionais", não técnicas. O que conseguimos observar foram práticas, relativamente diferenciadas, algumas vezes pioneiras, em relação ao ensino de Matemática, mas elas não se vinculam ao que propõe o ensino técnico. Ou seja, tratam-se de algumas abordagens que não se configuram como as mais frequentes no ensino da Matemática nas escolas. Porém, não se evidencia sua interação com os cursos técnicos. Elas podem ser vistas como peculiares dentro do ensino de Matemática de 2º grau/ensino médio e não, propriamente, imbricadas no ensino profissionalizante, apesar de ter sido interessante e desejável que a Matemática das escolas acompanhasse o desenvolvimentismo do país, com a intenção de formar alunos com perfil diferenciado. Adicionalmente, há indícios de que o ensino de Matemática do Colégio era extremamente criterioso do ponto de vista das referências e dos conteúdos. Isso ficou claro nos relatos dos professores, que admitiram abordar conteúdos excluídos do currículo da educação básica "regular" (não profissional) a partir do final da década de 1960 (ÁVILA, 1991), tais como conceitos do cálculo diferencial e integral. De acordo com o professor Abdala, quando descrevia as características do Coltec: Já no segundo ano, eu me lembro que lhes ensinava Séries de Fourier. O aluno que ingressava em algum curso de graduação, no Instituto de Ciências Exatas da UFMG - ICEx, já sabia tudo de Cálculo I: Derivadas, Integrais, Integrais Definidas etc. O programa era nesse nível, pois a área técnica demandava que os alunos aprendessem esses conteúdos. Outro elemento que reforça a característica assinalada do ensino visado pelo Coltec, de não descurar dos aspectos formais da Matemática aos quais se atribuem suas dificuldades, é a adoção dos livros "Matemática Aplicada" (TROTTA; IMENES; JAKUBOVIC, 1980). Com efeito, de acordo com as considerações gerais apresentadas no manual do professor, os autores propunham uma Matemática mais prática e aplicada, sem desconsiderar abstrações, definições, demonstrações e nomenclaturas. 255 Contudo, não detectamos queixas dos ex-alunos do Coltec quanto ao rigor. Por exemplo, a ex-aluna Niriana, ao ser indagada sobre possíveis diferenças entre o ensino de Matemática (conteúdo ou metodologia) do Colégio Técnico e o de outras escolas, nos disse: Essa cobrança do Departamento de Matemática do Colégio me ajudou a me desempenhar bem em algumas disciplinas da graduação: Biofísica, Físico-Química e Estatística. Eu sentia uma diferença muito grande, em relação à minha formação e a de outros colegas. Grande parte dos meus colegas da faculdade tinham um péssimo aproveitamento nessas matérias de Bioexatas, enquanto eu as achava fáceis. Por causa disso, todo mundo queria sentar perto de mim, minha formação de Exatas no Coltec foi muito boa. Já o professor Francisco Gil relatou: A Matemática no Coltec [...] sempre foi um espinho para muita gente. Alguns alunos eram muito resistentes, inclusive diziam: "Olha, professor, eu não dou conta". O que eu podia fazer? Eu respondia: “Para ser aprovado, você tem que saber, e ter nota. Eu não vou falar que você está apto, se não achar que você está. Não faço isso. Você vai se virar, meu filho”. Aí ele cuidava de dar um jeito. Nesse contexto, vale ponderarmos algumas análises realizadas nos capítulos anteriores. É genuíno que os professores, ao serem interrogados sobre suas práticas profissionais, se recordem, especialmente, das atividades singulares, daquelas de mais repercussão ou mais amplamente divulgadas em congressos e cursos. E, ainda, que sublinhem o uso de recursos "avançados" em um período do passado. Entretanto, nossa experiência docente reconhece que as aulas "diferenciadas" (com atividades planejadas, uso de jogos, aplicação de recursos tecnológicos), são muito menos frequentes no dia a dia que as aulas rotineiras de realização de exercícios, leitura do material instrucional, exposição ou sistematização dos conteúdos. Ademais, os estudantes que colaboraram com a pesquisa pouco se recordaram da utilização de diferentes recursos e aplicação de metodologias alternativas. Isso está intimamente ligado à capacidade de realce de algumas recordações, como já comentamos. O depoente pode filtrar suas lembranças ou, simplesmente, esquecer o que considera não valer a pena assinalar. A presença menor das práticas "diferenciadas" em relação às comuns não desqualifica as práticas de ensinar-aprender Matemática do Coltec. Reconhecemos as diferentes iniciativas, particulares ou em conjunto, dos professores do Colégio, de introduzir diferentes técnicas e métodos de ensino. Junto a essas atitudes, eles investiam na carreira, na qualificação e na experiência. Conjuntamente, essas atividades promoviam o desenvolvimento profissional desses docentes. Reiteramos que esse 256 desenvolvimento é de inteira responsabilidade de cada professor, como coloca Ponte (1998): Investir na profissão, agir de modo responsável, definir metas para o seu progresso, fazer balanços sobre o percurso realizado, reflectir com regularidade sobre a sua prática, não fugir às questões incômodas mas enfrentá-las de frente, são atitudes que importa valorizar. Estas atitudes podem ser mais ou menos favorecidas pelo contexto exterior mas, mesmo nas condições mais difíceis, estão sempre ao alcance de todo o professor (p. 10). No projeto originalmente proposto para a pesquisa aqui relatada, eu acreditava que a qualidade do ensino de Matemática do Coltec devia-se à formação de seus professores, com qualificação em programas de pós-graduação e envolvimento na Educação Matemática. Sem dúvida, ao final do trabalho, considero que esses são aspectos fundamentais para o desenvolvimento profissional docente. Entretanto, julgo que a organização pessoal, o envolvimento do professor com a instituição, o respeito e a colaboração entre os colegas do setor e a admiração pelos alunos são grandes responsáveis pelo empenho manifestado nos depoimentos dos professores de Matemática. Ou seja, não apenas os aspectos acadêmicos, mas também os pessoais, interferem na consolidação do educador reconhecido. Com a conclusão deste trabalho, esperamos disponibilizar grande parte da documentação utilizada, inserida no volume II da tese, de modo a auxiliar consultas ou subsidiar novas pesquisas. A ação de levantar esses registros e a realização das entrevistas por vezes chamou a atenção de funcionários do Colégio. Ao serem procurados por mim, com alguma dúvida sobre o paradeiro de algum promissor depoente ou sobre a localização de algum documento relevante, eles notavam a ausência de uma documentação sistematizada e organizada sobre as memórias da escola. Nessas investidas percebi, inclusive, que há muitos servidores que desconhecem a história de sua instituição. Nesse sentido, desejamos que a leitura desta tese, ou de parte dela, aproxime professores, alunos e demais integrantes do Coltec de sua história, fomentando orgulho de pertencer a essa instituição, comprometimento com a manutenção de sua reputação e de seus valores, além de, principalmente, vontade de guardar registros, preservar recordações e divulgar as memórias desse Colégio, despertando a atenção da comunidade escolar e viabilizando novas investigações. 257 Do ponto de vista da Educação Matemática, acreditamos que levantar algumas práticas de ensinar-aprender, conhecer melhor alguns recursos utilizados no ensino e investigar a relação da disciplina de Matemática com os cursos técnicos do Coltec poderão contribuir para o mapeamento histórico do ensino dessa disciplina no estado de Minas Gerais, mais especificamente, na formação profissional de nível médio. Olhar para o que se fazia e como faziam os professores de Matemática do Colégio, em outros períodos, contribui para pensarmos em nossos costumes e nossas escolhas no presente. Em que medida possuímos fazeres diferentes? Quando é o momento de mudar nossa prática? Como implementar essas mudanças? Como podemos nos capacitar para sermos aptos a ensinar Matemática de forma integrada aos cursos técnicos do Coltec? Como nos aproximarmos de outras disciplinas, outros setores da escola? Como e qual a importância de produzir materiais institucionais próprios? Em que medida contribuímos para formar estudantes críticos, pensantes e diferenciados para o mercado de trabalho? Estamos cuidando de formar técnicos ou alunos aptos a ingressar nos cursos superiores? Nossa pesquisa não gera respostas imediatas para essas questões, mas provoca reflexões e nos possibilita criar propósitos. Finalmente, considero que o exercício de visitar arquivos, debruçar sobre documentos, ler e reler registros, selecionar, tornar-me repórter, confidente e amiga, transcrever, textualizar, validar, ler, organizar, interpretar, escrever, refletir e analisar, me fizeram uma pesquisadora melhor. Adentrei um território estranho, anteriormente nada familiar, a História da Educação; fiquei seduzida pela singularidade de alguns documentos que pareciam ser mais belos, quanto mais aparentavam ser antigos; encantei-me pelas memórias pessoais e subjetivas dos atores do passado. Interessou-me observar as contribuições da construção de histórias e memórias, especialmente, para os participantes ou espectadores do Colégio; e fascinou-me constatar que o exercício de produzir as fontes, a articulação com outras referências bibliográficas e as análises realizadas, ainda que com as limitações próprias de qualquer investigação, poderão despertar interesse de outros docentes e pesquisadores da Educação. 258 259 7 - REFERÊNCIAS ABREU, A. A.; GOMES, A. C.; OLIVEIRA, L. L. História e Cultura: conversa com Carlo Ginzburg. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 3, n. 6, p. 254-263, 1990. ALBERTI, V. Narrativas na história oral. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 22, 2003, João Pessoa. Anais eletrônicos. João Pessoa, PB: ANPUH-PB, 2003. p. 10. ALMEIDA, S. P. N. C. Um lugar: muitas histórias – o processo de formação de professores de Matemática na primeira instituição de ensino superior da região de Montes Claros/ norte de Minas Gerais (1960-1990). 2015. 403p. 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[2016] Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 23 fev. 2016. MOREIRA, Adilson Assis. [2015]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 18 nov. 2015. GONTIJO, Alberto de Figueiredo. [2015]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 17 nov. 2015. RODRIGUES, Gilberto do Vale. [2015]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 07 dez. 2015. REIS, Jenner Karlisson Pimenta. [2015]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 16 dez. 2015. Poliana. [2016]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 18 jan. 2016. MEINBERG, Niriana Lara Santos. [2016]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 08 mar. 2016. SANTOS, Lilian Lara. [2016]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 08 mar. 2016. GANNAM, Abdala. [2016]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 10 mar. 2016. DOMINGOS, José Eloisio. [2016]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 02 maio. 2016. PINHEIRO, Luiz Humberto. [2016]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 02 mar. 2016. VILA, Maria do Carmo. [2016]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 04 maio. 2016. GIL, Francisco Bastos. [2016]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 04 out. 2016. NORONHA, Tânia Lima Ayer. [2016]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 16 mar. 2016. MACHADO, Airton Carrião. [2016]. Entrevistadora: Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo. Belo Horizonte, 08 mar. 2016. 268 Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo HISTÓRIA DE PRÁTICAS DE ENSINAR-APRENDER MATEMÁTICA NO COLÉGIO TÉCNICO DA UFMG - COLTEC (1969-1997) VOLUME II Belo Horizonte - MG Faculdade de Educação da UFMG Fevereiro de 2018 270 271 RESUMO Este volume traz os apêndices e os anexos da tese "História de práticas de ensinar- aprender Matemática no Colégio Técnico da UFMG - Coltec (1969-1997)", que são compostos pela apresentação da pesquisa, termo de consentimento e roteiros das entrevistas, utilizados nos encontros com nossos colaboradores. Na sequência, incluímos as dezesseis textualizações elaboradas a partir dos depoimentos gravados e transcritos de um ex-diretor, sete professores de Matemática e oito ex-alunos do Coltec e uma cópia das cartas de cessão das entrevistas assinadas por eles. Finalmente, acrescentamos cópias de documentos e recortes de jornais. As dezesseis textualizações foram apresentadas na ordem cronológica em que os entrevistados atuaram/estudaram no Colégio, de modo a possibilitar uma visão das transformações da instituição ao longo do tempo. 272 273 LISTA DE FIGURAS Volume II Figura 60: Capa e contracapa do panfleto de divulgação do Coltec – 1969........... 291 Figura 61: Imagem extraída das páginas 6 e 7 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969............................................................................................................ 292 Figura 62: Imagem extraída das páginas 2 e 3 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969............................................................................................................ 292 Figura 63: Imagem extraída da página 4 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969.......................................................................................................................... 292 Figura 64: Imagem extraída das páginas 8 e 9 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969............................................................................................................ 292 Figura 65: Imagem extraída da página 11 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969.......................................................................................................................... 293 Figura 66: Capa do livro de regras de futebol, presente do inglês Mr. Ward ao diretor Gledsom........................................................................................................ 293 Figura 67: Diploma de conclusão do curso técnico em Química, de Gilberto do Vale Rodrigues, realizado no Coltec........................................................................ 338 Figura 68: Contracapa do diploma de conclusão do curso técnico em Química, de Gilberto do Vale Rodrigues, realizado no Coltec................................................ 339 Figura 69: Capa do livro intitulado: Bioestatística; saúde pública, de autoria de Carlos Henrique Mudado Maletta e Lídia Luzia Brandão....................................... 349 Figura 70: Capa e duas folhas do Caderno 6.......................................................... 356 Figura 71: Primeira página do Caderno 3............................................................... 356 Figura 72: Capa, primeira página e duas folhas do Caderno 1............................... 357 Figura 73: Três páginas do Caderno 3.................................................................... 357 Figura 74: Duas páginas do Caderno 5................................................................... 358 Figura 75: Três páginas do Caderno 4.................................................................... 358 Figura 76: Capa e uma página do Caderno 2.......................................................... 359 Figura 77: Sequência de diapositivos intitulada: "Da arte nasce uma Geometria" 373 Figura 78: Transparência com movimento, para estudo das funções seno e cosseno...................................................................................................................... 374 274 Figura 79: Desenho que ilustra a transparência da figura anterior.......................... 374 Figura 80: Transparência para apresentar crescimento e decrescimento das funções seno e cosseno nas suas representações gráficas......................................... 374 Figura 81: Transparência utilizada para apresentar a representação geométrica da tangente................................................................................................................ 375 Figura 82: Transparência para cálculos de valores de seno, cosseno e tangente, a partir da calculadora................................................................................................. 375 Figura 83: Transparência sobre retificação da circunferência e radiano................. 376 Figura 84: Transparência para estudo da função seno, deslocada e fotografada em duas posições diferentes..................................................................................... 377 Figura 85: Capa da apostila "Os sólidos geométricos (O princípio de Cavalieri)", de autoria de Abdala Gannam, datada de 1980........................................................ 378 Figura 86: Painel Tema: "Recursos audio-visuais no Ensino de Matemática". Prof. Abdala Gannam............................................................................................... 379 Figura 87: Painel Tema: "Recursos do retro-projetor no Ensino de Matemática". Prof. Abdala Gannam............................................................................................... 379 Figura 88: Painel Tema: "Material didático para o Ensino de Trigonometria"....... 379 Figura 89: Painel Tema: "Material didático para o Ensino de Função do 1º grau, Função do 2º grau e Trigonometria". Professores Tânia Noronha, José Domingos e Luiz Humberto - Coltec......................................................................................... 379 Figura 90: Painel Tema: "Material didático para o Ensino de Trigonometria". Prof. Luiz Humberto................................................................................................. 380 Figura 91: Capa do Estudo Dirigido de Título: Sistemas Lineares, do prof. Abdala Gannam - 1980............................................................................................. 380 Figura 92: Livro Matemática Aplicada, volume 2, dos autores Fernando Trotta, Luiz M. P. Imenes e Jose Jakubovic......................................................................... 381 Figura 93: Capa e primeira página da Instrução Programada "Limite Exponencial Fundamental", do prof. Abdala Gannam, 1985................................... 381 Figura 94: Coleção de Livros "Advanced Mathematics" doados pelo Conselho Britânico ao Departamento de Matemática do Coltec.............................................. 382 Figura 95: Transparência com Superposição........................................................ 383 275 Figura 96: Transparência construída em uma lâmina de acrílico, com furos onde foram colocados pinos que servem de suporte para ajuste de elásticos.................................................................................................................... 384 Figura 97: Transparência construída com papel cartão, com janelas de material transparente e abas para "aparecer e ocultar" imagens............................................. 384 Figura 98: Capa do trabalho final de José Eloisio Domingos, intitulado: "Interación de matematica y fisica y su vinculacion com las demás ciencias", desenvolvido no curso "Integración de Matematica y fisica y su vinculación com las demás ciencias", em 1981................................................................................... 386 Figura 99: Capa e/ou primeira página de alguns materiais, relacionados à Matemática............................................................................................................... 386 Figura 100: Programação da visita de representantes do Coltec ao Huddersfield Technical College, na Inglaterra............................................................................... 387 Figura 101: Capas de duas apostilas, elaboradas pelo professor José Eloísio, nos anos de 1994 e 1998................................................................................................. 396 Figura 102: Certificado de participação no seminário "Curriculum Develepment in Technical Education, oferecido pelo Centre for International Technical Education, de 1 a 16 de fevereiro de 1984, no Colégio Técnico. Diretor do curso Kenrsom.................................................................................................................... 405 Figura 103: Boletim da UFMG - 30/11/1990.......................................................... 409 Figura 104: Capa do livro "Geometria Moderna", de Edwin E. Moise e Floyd L. Downs Jr., Editora Edgard Blucher LTDA - 1971................................................... 413 Figura 105: Capa da Apostila "Os sólidos Geométricos - Volumes de Prismas e Pirâmides", de autoria de Abdala Gannam e Luiz Humberto Pinheiro.................... 414 Figura 106: Gráfico da função f(x) = x 2 , disponibilizado pela professora para ilustrar a translação................................................................................................... 420 Figura 107: Figura do Plano Cartesiano disponibilizado pela professora para realização de uma atividade...................................................................................... 420 Figura 108: Simulação da atividade proposta......................................................... 420 Figura 109: Tabela criada pela pesquisadora professora Maria do Carmo, durante a explicação da atividade............................................................................. 422 Figura 110: Gráfico criado pela pesquisadora para ilustrar a descrição da professora Maria do Carmo, durante a explicação da atividade............................... 422 276 Figura 111: Esboço realizado pela professora Maria do Carmo, para explicar uma atividade desenvolvida por ela, no Coltec........................................................ 422 Figura 112: Capa da Apostila de Trigonometria, desenvolvida por Maria do Carmo e Reginaldo Lima.......................................................................................... 425 Figura 113: Primeira página da Apostila de Trigonometria, desenvolvida por Maria do Carmo e Reginaldo Lima.......................................................................... 425 Figura 114: Capa do módulo "Números Racionais" (1981), de autoria de Maria do Carmo Vila e Reginaldo Naves de S. Lima, utilizado para revisão dos conteúdos das séries anteriores................................................................................. 425 Figura 115: Capa e primeira página da apostila "Triângulo de Pascal" (1994), de autoria de Maria do Carmo Vila e Reginaldo Naves de S. Lima............................. 426 Figura 116: Segunda página da apostila "Triângulo de Pascal" (1994), escrita por Maria do Carmo Vila e Reginaldo Naves de S. Lima........................................ 426 Figura 117: Capa e primeira página da apostila "Matrizes" (data não informada), de autoria de Maria do Carmo Vila e Reginaldo Naves de S. Lima que ilustra a prática da professora, de incluir uma história para introduzir um conteúdo............ 427 Figura 118: Painel de tema "O uso de micro-computadores no Ensino de Matemática". Apresentado por Sérgio Veiga, em seminário realizado no Coltec... 433 Figura 119: Carta enviada por Maria do Carmo, ao Departamento de Matemática do Coltec, em 1989............................................................................... 433 Figura 120: Foto encontrada dentro do envelope, que continha uma carta da profa. Maria do Carmo ao Departamento de Matemática do Coltec........................ 433 Figura 121: Primeira página da carta enviada por Maria do Carmo ao Departamento de Matemática do Coltec.................................................................. 434 Figura 122: Boletim UFMG, de 30 de novembro de 1990, contendo assunto de título: "Tutoria é experiência bem sucedida há anos no Coltec".............................. 448 277 SUMÁRIO - VOLUME II APÊNDICES............................................................................................................. 281 APÊNDICE A - Apresentação inicial da pesquisa............................................. 283 APÊNDICE B - Termo de consentimento livre e esclarecido............................ 284 APÊNDICE C - Roteiro para elaboração das perguntas das entrevistas (professores)........................................................................................................ 286 APÊNDICE D - Roteiro para elaboração das perguntas das entrevistas (ex- alunos)................................................................................................................. 288 APÊNDICE E - Roteiro para elaboração das perguntas das entrevistas (funcionários ou ex-funcionários)....................................................................... 289 APÊNDICE F - Memórias das práticas de ensinar-aprender Matemática no Coltec.................................................................................................................. 290 Gledsom Luiz Coutinho.................................................................................. 291 Antônio Carlos Inácio Moreira...................................................................... 302 Adilson Assis Moreira.................................................................................... 316 Alberto De Figueiredo Gontijo...................................................................... 324 Gilberto Do Vale Rodrigues........................................................................... 335 Jenner Karlisson Pimenta Dos Reis............................................................... 344 Poliana........................................................................................................... 351 Niriana Lara Santos Meinberg...................................................................... 360 Lilian Lara Santos.......................................................................................... 364 Abdala Gannam............................................................................................. 367 José Eloisio Domingos................................................................................... 385 Luiz Humberto Pinheiro................................................................................. 401 Maria Do Carmo Vila.................................................................................... 413 Francisco Bastos Gil...................................................................................... 435 Tânia Lima Ayer De Noronha........................................................................ 444 Airton Carrião Machado................................................................................ 456 APÊNDICE G - CARTAS DE CESSÃO DE DIREITOS.................................. 483 ANEXOS................................................................................................................... 487 Anexo I - Cópia do convênio para a criação e implantação do Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais............................................ 488 278 Anexo II - Carta do professor Cledsom Coutinho, primeiro diretor do Coltec, dirigida ao então reitor da UFMG, professor Celso de Vasconcellos Pinheiro, datada de 18 de abril de 1978............................................................................. 492 Anexo III - Currículos dos cursos técnicos instalados no Coltec....................... 501 Anexo IV - Exame de seleção do Coltec............................................................ 504 Anexo V - Ofício nº 016/68................................................................................ 515 Anexo VI - Projeto: uma tentativa para dinamizar a instrumentação para o ensino de Matemática - 1978.............................................................................. 516 Anexo VII - Recortes de jornais......................................................................... 528 Anexo VIII - Informações gerias para os alunos sobre o Colégio Técnico (16/03/1971)........................................................................................................ 551 Anexo IX - Carta do reitor Marcello V. Coelho ao consultor britânico Frank H. Taylor (15/10/1970)....................................................................................... 554 Anexo X - Regimento do Colégio Técnico (1985)............................................. 556 Anexo XI: Prospecto do Colégio Técnico (1972/1973)..................................... 572 Anexo XII: Atas das reuniões do Conselho Universitário e da Coordenação de Ensino e Pesquisa (CEP) da UFMG (Disponilizados pela coordenação da Secretaria dos Órgãos de Deliberação Superior - SODS)................................... 586 Anexo XIII: Esboço do guia do aluno (1996/1997)............................................ 591 Anexo XIV: Informações gerais sobre o Colégio Técnico da UFMG (1971).... 592 Anexo XV: Projeto AME - Atividades Matemáticas que Educam (1989)......... 606 Anexo XVI: Estatuto do grêmio estudantil do Coltec........................................ 626 Anexo XVII: Planejamento do departamento de Matemática (1969)................ 630 Anexo XVIII: Organização do departamento de Matemática............................ 635 Anexo XIX: Programa do departamento de Matemática - 1969........................ 638 Anexo XX: Plano de curso para 1ª série (Matemática) - 1970........................... 642 Anexo XXI: Plano de curso para 2ª série (Matemática) - 1970.......................... 646 Anexo XXII: Programa de Matemática do Coltec - 1972.................................. 651 Anexo XXIII: Programa de Matemática - 1986................................................. 658 Anexo XXIV: Documentos do processo seletivo da professora Consuelo Maria Vieira Garcia para ingresso no Coltec...................................................... 665 Anexo XXV: Relatório anual de atividades docentes do Coltec - 1989............. 670 Anexo XXVI: Relatório anual do setor de Matemática - 1990.......................... 671 Anexo XXVII: Relatório de atividades do Centro Pedagógico - 1984............... 680 279 Anexo XXVIII: Relação dos livros comprados pela verba do convênio CNPQ - 1973.................................................................................................................. 691 Anexo XXIX: Resolução 01/86 - Estabelece normas de estágio do Colégio Técnico da UFMG.............................................................................................. 694 Anexo XXX: Carta ao diretor da Escola de Veterinária - 1971......................... 696 Anexo XXXI: Recortes do relatório anual de atividades docentes - Francisco de Assis Batista (1996)....................................................................................... 697 Anexo XXXII: Clube de Matemática................................................................. 706 280 281 APÊNDICES 282 283 APÊNDICE A - APRESENTAÇÃO INICIAL DA PESQUISA A entrevista que realizaremos tem por finalidade a coleta de dados para a tese de doutorado que será desenvolvida por Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação Conhecimento e Inclusão Social da Faculdade de Educação (FaE) da Universidade Federal de Minas Gerais, sob a orientação da Profa. Dra. Maria Laura Magalhães Gomes. O objetivo desta pesquisa é investigar, a partir de depoimentos, as práticas de professores de matemática que atuaram no ensino técnico, no Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais – COLTEC/UFMG, no período de 1969 a 2006 (desde a criação do colégio até o ano que antecede a entrada da pesquisadora como docente dessa instituição). Esse objetivo deve estar claro a todos os entrevistados. Assumindo como base metodológica a História Oral, ressaltamos aos entrevistados que, com os depoimentos, pretendemos caracterizar a formação acadêmica e profissional dos professores do COLTEC e identificar possíveis reflexos dessa formação em sua atuação, no período de referência; conhecer/caracterizar as práticas docentes dos professores entrevistados, buscando identificar a metodologia, os recursos empregados, os materiais didáticos utilizados/produzidos e as tendências que eram conferidas ao ensino de Matemática; identificar e analisar possíveis aspectos importantes na constituição dessas práticas, tais como: formação acadêmica, pesquisa em Matemática ou em Educação Matemática, questões políticas, motivações pessoais, mudanças curriculares, níveis de articulação com outras disciplinas (de caráter técnico ou não) e autonomia de trabalho; identificar relatos de propostas educacionais (do governo federal, do ensino técnico federal e do COLTEC) e suas respectivas indicações/recomendações para o ensino de Matemática no período considerado; e detectar, descrever e analisar permanências, mudanças ou rupturas ocorridas nas práticas dos professores no contexto e período de referência. O procedimento metodológico a ser adotado terá diversas etapas, cujos registros serão disponibilizados na íntegra a cada entrevistado: a gravação em áudio da entrevista, a transcrição literal do que foi dito, a textualização (edição do texto). A apresentação dessas três fases se dará para que o entrevistado dê sua aprovação ou proponha adequações, alterações, inclusões e/ou exclusões, mediante sua assinatura de uma carta de cessão de direitos dos documentos produzidos. O entrevistado terá plena liberdade para, se desejar, restringir a utilização e/ou divulgação do áudio/visual resultante da entrevista. O material produzido na entrevista e a partir da entrevista será arquivado no armário situado na sala da entrevistadora (314), no COLTEC – UFMG e ficará sobre a responsabilidade dessa, com garantia de cumprimento dos acordos estabelecidos entre entrevistador e entrevistado (via carta de cessão de direitos), o que também se aplica a qualquer uso futuro que venha a ser feito desta fonte historiográfica. Neste ensejo, agradecemos desde já a participação de cada colaborador. Belo Horizonte, ___ de _________________ de __________. Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo Pesquisadora Profa. Dra. Maria Laura Magalhães Gomes Professora-orientadora 284 APÊNDICE B - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Título do projeto: História do Ensino de Matemática do Colégio Técnico da UFMG - COLTEC (1969-2006). Pesquisadores responsáveis: Profa. Dra. Maria Laura Magalhães Gomes (orientadora); Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo (doutoranda). Você está sendo convidado (a) a participar como voluntário (a) em uma pesquisa que tem como objetivo investigar as práticas de professores de Matemática que atuaram no ensino técnico, no Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais – COLTEC/UFMG, no período de 1969 a 2006 (desde a criação do colégio até o ano que antecede a entrada da pesquisadora como docente dessa instituição). Para que a pesquisa possa ser desenvolvida, pretendemos: gravar, em áudio, as falas e depoimentos de professores que lecionaram no COLTEC, no período citado. Esclarecemos que sua participação é voluntária e não haverá pagamento de qualquer espécie pela participação na pesquisa. Assim como qualquer pesquisa, é possível que esta gere algum tipo de ansiedade ou desconforto, no tocante às perguntas a serem realizadas. No entanto, você é livre para deixar de participar da pesquisa a qualquer momento, bem como para se recusar a responder qualquer questão específica sem qualquer penalidade. A participação é confidencial, em hipótese alguma seu nome ou o material coletado nas gravações em áudio será divulgado sem sua autorização. Todo o material coletado será de responsabilidade do entrevistador e da UFMG (COLTEC), assegurando-se o sigilo sobre a participação dos envolvidos no projeto, com garantia de cumprimento dos acordos estabelecidos entre entrevistador e entrevistado (via carta de cessão de direitos), o que também se aplica a qualquer uso futuro que venha a ser feito desta fonte historiográfica, desde que esses futuros projetos sejam aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP), bem como outras instâncias da Universidade Federal de Minas Gerais. Caso seja autorizada a divulgação do material coletado, os conhecimentos resultantes deste estudo serão publicados em uma tese de doutoramento, bem como em artigos a serem submetidos a revistas especializadas, congressos e simpósios sobre pesquisas educacionais. O destino final das gravações será seu arquivamento, na sala da entrevistadora/pesquisadora, situada no COLTEC - UFMG. Em caso de dúvida, você pode entrar em contato com as pesquisadoras responsáveis através dos telefones e endereços eletrônicos fornecidos neste termo. Informações adicionais, especialmente relacionadas aos aspectos éticos da pesquisa, podem ser obtidas no Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da Universidade Federal de Minas Gerais, pelo telefone (31) 3409 4592 ou pelo endereço: Avenida Antônio Carlos, 6627 Unidade Administrativa II – 2º andar, sala 2005 – Campus Pampulha, Belo Horizonte, MG – CEP 31.270/ 901. Este documento será assinado em duas vias, em que uma fica com a pesquisadora responsável e outra com o participante da pesquisa. Agradecemos desde já sua colaboração. Atenciosamente, ____________________________ Assinatura da Orientadora da Pesquisa Profa. Dra. Maria Laura Magalhães Gomes E-mail: mlauramgomes@gmail.com Telefone: (31) 3409 5780 Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Educação Belo Horizonte - MG ___________________________ Assinatura da Pesquisadora Corresponsável Kelly Maria de Campos Fornero Abreu de Lima Melillo E-mail: kellyfornero@yahoo.com.br Telefone: (31) 34094982 Universidade Federal de Minas Gerais Colégio Técnico – COLTEC Belo Horizonte - MG 285 CONSENTIMENTO PARA PARTICIPAÇÃO COMO COLABORADOR NA PESQUISA: HISTÓRIA DO ENSINO DE MATEMÁTICA DO COLÉGIO TÉCNICO DA UFMG - COLTEC (1969-2006). Declaro que, li e entendi as informações e os detalhes descritos neste documento. Participarei nesta pesquisa de acordo com os procedimentos descritos no corpo deste documento. Autorizo a gravação em áudio de minhas falas durante a realização da pesquisa. Todo o material coletado para o estudo pode ser guardado em banco de dados e utilizado na tese de doutorado que resultará desta pesquisa e em outras pesquisas de natureza educacional. Eu, voluntariamente, aceito participar desta pesquisa. Portanto, concordo com tudo que está escrito acima e dou meu consentimento. Belo Horizonte, ____ de ___________________ de _________. Nome legível do colaborador Assinatura do colaborador 286 APÊNDICE C - ROTEIRO PARA ELABORAÇÃO DAS PERGUNTAS DAS ENTREVISTAS (PROFESSORES) A seguir, apresento alguns aspectos e objetivos que serão considerados na elaboração das perguntas e no desenvolvimento das entrevistas e diálogos com os depoentes. Formação e Atuação  Básica – local, período, instituição;  Universitária – local, período, instituição;  Posterior à universitária – local, período, instituição, tema estudado (se pós- graduação).  Entrada e Saída (se for o caso) no Coltec;  Motivos do ingresso nessa rede;  Cursos, disciplinas, funções e cargos em que trabalhou no Coltec;  Experiência com outros cursos técnicos, anteriormente à atuação no Coltec. Da Criação  Identificar se o período de atuação no Coltec inclui o ano de criação do colégio;  Descrever (se for o caso) as relações com os ingleses, no período de criação do colégio;  Identificar e descrever algum(ns) reflexo(s)/permanências desse convênio, com os britânicos, na rotina escolar, nas práticas de ensino, na organização e estruturação da escola, nas regras e na hierarquia administrativa.  Comentar sobre a influência da participação dos ingleses, na criação do colégio, nas propostas de ensino e conteúdos matemáticos.  Descrever (se for o caso) a participação na definição e organização de algum curso técnico oferecido pelo Coltec. Ensino Técnico e Ensino de Matemática  Formação Técnica – Preparação/orientação específica para atuar em cursos técnicos;  Impactos dessa formação específica nas práticas dos professores de Matemática.  Conteúdos Matemática – Características e/ou possíveis mudanças nos conteúdos ministrados nos cursos técnicos do Coltec, com referência aos conteúdos do ensino básico regular em outras instituições;  Enumerar e descrever os principais conteúdos e conceitos de matemática que eram trabalhados nesses cursos;  Metodologia – Características/Materiais/Livro didático/ Métodos/Recursos utilizados para ensinar Matemática nos cursos técnicos do Coltec. Inclusive, comparar a metodologia utilizada nos cursos técnicos, às conhecidas/utilizadas no ensino básico regular; 287  Averiguar a produção de material didático para o ensino de Matemática. Verificar se a produção desse material sofria influências dos cursos técnicos oferecidos pelo COLTEC;  Comentar/avaliar se o ensino de Matemática considerava as especificidades dos cursos técnicos oferecidos no Coltec;  Indicar possíveis mudanças nas concepções de ensino de Matemática no Brasil (além do material utilizado), que influenciaram as práticas de ensino dessa disciplina no COLTEC;  Caracterizar a valorização do ensino de Matemática no colégio no período de atuação; Características Gerais  Descrever os alunos do Coltec no período de atuação no colégio; perfil dos estudantes; possíveis mudanças no perfil dos estudantes; caracterização de alunos egressos; particularmente, habilidade dos estudantes em relação à Matemática.  Caracterizar a estrutura física do colégio, disponível para o ensino de Matemática (ela atendia às necessidades dos docentes?); 288 APÊNDICE D - ROTEIRO PARA ELABORAÇÃO DAS PERGUNTAS DAS ENTREVISTAS (EX-ALUNOS) Dados Gerais Nome Completo. Data de Nascimento. Ano de Ingresso no Coltec. Curso no Coltec. Forma de acesso (Centro Pedagógico, pais funcionários da UFMG, indicado pelo CNPQ, filho de produtor rural, seleção “comum”, outro). Escolha do Coltec (comentar sobre a escolha de estudar no Coltec). Ano de conclusão do curso no Coltec. Atuação profissional na área de formação no Coltec. Formação acadêmica e profissional, depois de cursar o Coltec. Sobre o COLTEC Criação do COLTEC (relatar/descrever episódios e características da criação do Coltec, caso tenha estudado no colégio neste período). Vestígios ou manifestações dos britânicos no colégio. A relevância do Coltec na UFMG. Espaço (descrever algumas características do colégio, no período em que estudou). Reflexos da Ditadura (no caso do entrevistado ter estudado no período de 1964 – 1985). Cursos Técnicos (especificidades do colégio para atuar com cursos técnicos, especificidades dos professores, duração das aulas, estrutura física, laboratórios, estágio, qualificação no mercado de trabalho, oportunidades de emprego). Ensino de Matemática Professores que lecionaram Matemática, em seus respectivos anos (1º, 2º e 3º anos). Relação professor-aluno (relacionamento com o professor(a) de Matemática). Material utilizado (livro, apostilas, materiais produzidos pelos próprios professores, outros). Recursos (calculadora, computador, régua, compasso, transferidor, sólidos geométricos, tabelas, etc). Metodologia (listas de exercícios, aulas expositivas, atividades individuais ou em grupos). →Você se lembra de resolver exercícios envolvendo problemas (contextualizados)? E exercícios envolvendo cálculos? Conteúdos (qual(is) conteúdo(s) você se lembra de ter estudado; você achou mais relevante, você encontrou mais dificuldade/facilidae, você ainda utiliza, você gostou (ou não)). Espaço (como eram as salas de aula (ambiente ou não), laboratório de Matemática, uso de outros espaços). Exigência (nível de dificuldade para aprovação, nível de dificuldade das provas, critérios de avaliação). Trabalhos (relate sobre algum trabalho de Matemática que você tenha realizado). Relação com a disciplina (gosta de Matemática?). Projetos (havia projetos de Matemática? Havia algum projeto de atendimento a alunos com dificuldades ou com facilidades?). Ensino Técnico (especificidades do ensino de Matemática para cursos técnicos, contribuição do ensino de Matemática, no Coltec, na sua formação técnica). 289 APÊNDICE E - ROTEIRO PARA ELABORAÇÃO DAS PERGUNTAS DAS ENTREVISTAS (FUNCIONÁRIOS OU EX-FUNCIONÁRIOS) Dados Gerais Nome Completo Data de Nascimento Ano de Ingresso no Coltec Escolha do Coltec (comentar sobre a escolha de trabalhar no Coltec). Setor de Atuação Outras atuações (direção, coordenação). Ano de aposentadoria (se for o caso). Formação acadêmica Sobre o Coltec Criação do Coltec (relatar/descrever episódios e características da criação do Coltec, caso tenha estudado no colégio neste período). Vestígios ou manifestações dos britânicos no colégio. A relevância do Coltec na UFMG. Espaço (descrever algumas características do colégio, no período em que estudou). Reflexos da Ditadura (no caso do entrevistado ter estudado no período de 1964 – 1985). Cursos Técnicos (especificidades do colégio para atuar com cursos técnicos, especificidades dos professores, duração das aulas, estrutura física, laboratórios, estágio, qualificação no mercado de trabalho, oportunidades de emprego). Ensino de Matemática Ensino de Matemática (especificidades para os cursos técnicos, relação com os professores de Matemática, relatos de alunos – sobre a Matemática, professores de Matemática, outros). 290 APÊNDICE F - MEMÓRIAS DAS PRÁTICAS DE ENSINAR-APRENDER MATEMÁTICA NO COLTEC A seguir apresentamos as textualizações construídas a partir das conversas com nossos depoentes, que versaram sobre as práticas de ensinar-aprender Matemática no Coltec. 291 GLEDSOM LUIZ COUTINHO – 78 ANOS Ex-diretor do Coltec: 1969 - 1971 Data da Entrevista: 23/11/2015 De memória extraordinária, o Professor Gledsom Coutinho, de 78 anos, foi o primeiro Diretor Geral do Colégio Técnico e nos relatou com detalhes parte de suas experiências no Coltec. Embora tivesse se formado em Engenharia na UFMG, lecionado no ITA - Instituto Tecnológico de Aeronáutica - e nessa universidade, foi o curso de graduação em Administração que lhe proporcionou atuar em direções e gestões, algo que o fazia sentir muita satisfação pessoal. Suas quatro paixões declaradas, em ordem cronológica, são: o Galo (Clube Atlético Mineiro), a esposa (Maria Cypriana, Nazinha), a Teoria das Organizações e o teclado. Em suas mãos, trouxe-me uma cópia do Edital de Seleção do Coltec para entrada em 1971, um livro de sua autoria, Administração Universitária: a Reforma de 1968, com uma singela dedicatória a mim, um livro de regras de futebol do "Internacional Football Association Board", de 1968/69, e um encarte de divulgação do Coltec, possivelmente, de 1969 242 . É impossível descrever a alegria que senti ao ver esse panfleto, repleto de fotografias, de história e memórias. Antes do início da textualização da entrevista de Gledson, mostramos imagens desses materiais: Figura 60: Capa e contracapa do panfleto de divulgação do Coltec – 1969 – Folheto disponibilizado pelo ex-diretor Gledsom. 242 Gledsom doou todo esse material, para o acervo do Coltec, para depois do término deste trabalho. "Era o que existia do prédio. Por coincidência eu trabalhei nesse prédio durante quase três anos, quando entrei na UFMG, pela Engenharia Mecânica, em 1966. Naquela época, na maior parte do prédio, havia apenas um piso. Depois, esse espaço foi divido por um plano horizontal, em dois andares". 292 Figura 61: Imagem extraída das páginas 6 e 7 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969. Figura 62: Imagem extraída das páginas 2 e 3 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969. Figura 64: Imagem extraída das páginas 8 e 9 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969. Figura 63: Imagem extraída da página 4 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969. "Esse aqui (homem no fundo) é o Ledson Luiz Gomes, técnico de laboratório de Física. Ledson é meu amigo até hoje. "Esse, em primeiro plano, é o Keith Roe, um dos ingleses) ". "Aí já era o Laboratório de Química". "Meu gabinete ficava nesse corredor". "Aí era a sala de leitura dos alunos". 293 Figura 65: Imagem extraída da página 11 do panfleto de divulgação do Coltec – 1969. A partir desse preâmbulo, tivemos uma conversa prazerosa e muito rica de informações sobre a criação do Coltec e as impressões de seu primeiro Diretor Geral. "Os ingleses. Da esquerda para direitas: Gordon Adams (Biologia), Neville Ward (Técnicas de Laboratório – Vidros), Allan Victor Cavalier (Química), James Marshall Messenger (Coordenador do grupo) e Keith Roe (Física) ". "Um outro caso de que me lembro foi o protagonizado pelo Mr. Ward, o inglês do laboratório de vidros. Sempre afável como todos os demais, ele dizia ser juiz de futebol amador na Inglaterra. Discutíamos muitas vezes sobre o tema e ele me ofereceu livros de regra recém editados pelo órgão máximo da arbitragem mundial (o IFAB), um dos quais ainda guardo com carinho. Por ingerência nossa, foi entrevistado pelo 'Estado de Minas', contou-lhes casos e, em matéria bem grande no jornal, teve até sua fotografia publicada". Figura 66: Capa do livro de regras de futebol, presente do inglês Mr. Ward ao diretor Gledsom. 294 Eu sou de Belo Horizonte, a minha família é daqui, eu fui criado aqui. Depois que me formei na UFMG, eu fui para o ITA 243 , onde fiquei por dois anos. Com o advento da Revolução, sendo o ITA uma instituição militar, o clima ficou desagradável. Nesse período, surgiu a oportunidade de eu retornar à UFMG, para lecionar na Escola de Engenharia, no prédio onde o Coltec seria criado. Trabalhei nesse local por três anos: 66, 67 e 68. Nesses anos eu também fiz o curso noturno de graduação em Administração, que era a minha paixão. Pouco depois, fui convidado pelo professor Paulo Neves para trabalhar em sua cadeira na Escola de Engenharia, lecionando tópicos de Administração. Na então cátedra do professor Paulo Neves, eram ensinados também Contabilidade e Direito. Considero que a minha carreira no magistério iniciou-se aí. Em março de 1969, o Reitor Gerson Brito de Mello Boson designou-me para a Diretoria Geral do Coltec, que, até aquele momento não havia funcionado. O Diretor do Colégio Universitário 244 , Professor Miguel de Souza, havia assumido o cargo de Diretor pro tempore do Coltec, tendo tomado algumas providências, como a seleção de professores e alunos. Mas, no primeiro dia de aula, eu já era o Diretor Geral e presidi a solenidade de abertura do ano letivo, que significou, na prática, a inauguração do Coltec. Desse modo, aconteceu comigo uma situação curiosa, durante o ano de 1969: eu fui simultaneamente Diretor Geral do Colégio Técnico, professor da Escola de Engenharia e aluno da Faculdade de Ciências Econômicas. Bom, vamos voltar... O Colégio Técnico foi criado numa época em que se pretendia incrementar as pesquisas científicas no Brasil. O reitor da Universidade, de 1964 a 1967, Professor Aluísio Pimenta 245 , em contatos internacionais, viu a possibilidade de a Inglaterra ajudar na implantação do Coltec e, a partir daí, se empenhou arduamente para isso. O Colégio Técnico foi idealizado por Aluísio Pimenta para formar auxiliares de laboratório que atuassem junto aos pesquisadores. Antes da Reforma Universitária de 1968, tivemos alguns decretos a respeito. Um deles estabeleceu a indissociabilidade entre ensino e pesquisa. A partir de então, um professor não 243 Instituto Tecnológico de Aeronáutica. 244 No ano de 1965, implantou-se o Colégio Universitário na UFMG com a oferta da terceira série do colegial. Foi considerado uma experiência pedagógica inovadora, que durou até 1970. Assim com os institutos centrais, diversas faculdades e estruturas departamentais, o Colégio Universitário foi resultado da reforma universitária, tendo sido criado na gestão do reitor Aluísio Pimenta. Disponível em: < https://www.ufmg.br/boletim/bol1344/quarta.shtml>. Último acesso em: 24 jan. 2017. 245 O professor Aluísio Pimenta foi reitor da UFMG de 1964 a 1967. Farmacêutico, educador e político, Aluísio Pimenta criou o Colégio Universitário e idealizou a criação do COLTEC. Em 1968, deixou a UFMG após ser cassado pelo AI-5, durante a ditadura militar. Desde então, passou por centros universitários de renome na América Latina, América do Norte, Europa e no Extremo Oriente. Disponível em . Último acesso: 22 jun. 2016. 295 poderia apenas dar aulas ou apenas fazer pesquisa. Com essa medida, esperava-se que o Brasil tivesse realmente um salto na pesquisa universitária. Mas se esperava também incremento na pesquisa industrial. Foi neste cenário que se concebeu o Coltec, para formar mão de obra qualificada de auxiliares de pesquisa. A partir daí, o Professor Aluísio Pimenta trabalhou para celebrar convênios com o Conselho Britânico, o CNPq e o MEC, que deram ao Coltec um caráter nacional. Suas atividades se iniciaram com a oferta de cursos técnicos de Patologia Clínica, Instrumentação, Eletrônica e Química. Não é do meu conhecimento a existência de outra escola técnica, no Brasil, que tenha sido criada a partir de um convênio com a Inglaterra. Quando o Colégio começou a funcionar, Aluísio Pimenta já não ocupava a Reitoria, pois o seu mandato havia terminado. Seu sucessor, Professor Boson, assumiu a Reitoria no início de 1967 e quase chegou a cumprir todo o mandato, naquela época de três anos. No final de 1969, foi afastado pelo governo militar por ato até hoje não suficientemente claro. Assim, no finalzinho de 1969, quem assumiu a Reitoria foi o professor Marcelo de Vasconcelos Coelho, que eu já conhecia como colega em curso de inglês. A dotação inicial do governo inglês para a criação do Coltec, por intermédio do Conselho Britânico, foi de 130 mil libras esterlinas. E os ingleses gostaram tanto do trabalho realizado pela Universidade que logo elevaram sua dotação para 400 mil libras esterlinas. A Inglaterra arcava com todo o material didático de laboratório e com os salários de peritos ingleses, que vinham para o Brasil treinar o pessoal recém-contratado para atuar no Coltec, enquanto o Brasil arcava com as despesas de moradia e transporte dos visitantes e as demais despesas do Colégio. No início das aulas no Colégio, encontravam-se aqui quatro professores ingleses e o coordenador do grupo, James Marshall Messenger, substituído por William Saul, um pouco antes da minha saída. O professor Gordon Adams, do departamento de Biologia, foi o primeiro a deixar o Brasil (até quando eu saí, não havia sido substituído); o especialista em Técnicas de Laboratórios – Vidros, Neville Ward; Allan Victor Cavalier, que atuava no departamento de Química, e o inglês Keith Roe, da Física. Os ingleses tinham um tradutor para ajudá-los no que fosse necessário. Ele os acompanhava diariamente. Era um jovem estudante de Direito, residente de Belo Horizonte, com mais ou menos 20 anos, muito educado e inteligente, chamado Antônio Augusto Cançado Trindade. Atualmente é renomado jurista brasileiro, membro do Tribunal Internacional de Justiça. 296 Os ingleses vinham para o Brasil e, com a assistência da Universidade, se instalavam. Ela alugava apartamentos e os mobiliava para eles. Quase todos moravam no bairro Barroca, relativamente novo, muito bom. Havia uma Kombi, com o tranquilo motorista Milton, que buscava os ingleses pela manhã em suas residências, próximas umas das outras. No horário do almoço, eram transportados para suas casas. Eram apanhados novamente depois do almoço e retornavam à tarde, por volta das 17 horas. Naquela época o trânsito tranquilo permitia deslocamentos rápidos. Devido a esse convênio de criação, alguns docentes do Coltec foram à Inglaterra, para cursos de capacitação. A ida para a Inglaterra estava restrita aos professores trabalhavam no desenvolvimento de habilidades técnicas, de Química, Física ou Biologia. No entanto, a Diretora de Ensino, Ana Maria Moraes 246 , possuidora de profundos conhecimentos pedagógicos, foi à Inglaterra como especialista de ensino. Depois, vieram outros peritos para o Brasil, mas tive pouco contato com eles, pois eu já não estava no Colégio. Eu fiquei no Coltec de março de 1969 a março de 1971, quando, por sua iniciativa, a Universidade me enviou aos Estados Unidos, para fazer mestrado, na área de Administração Universitária. Nós tínhamos muito medo de o Colégio se descaracterizar e se transformar em um colégio convencional. Para que os egressos tivessem interesse em exercitar a profissão para a qual seriam preparados, criamos cotas, reservando vagas para estudantes de baixa renda ou da zona rural, que supostamente teriam menor probabilidade de continuar os estudos, em nível superior, pelo menos imediatamente. Nosso intuito era receber o maior número de alunos com potencial para abraçar a carreira de técnico de laboratório. Apesar dessa reserva, um bom número de vagas era direcionado para quaisquer candidatos, que independia da renda ou local de moradia. O Colégio teve ainda um financiamento do BNDE, agora tem o “S”, BNDES, que até então não tinha, bem como o financiamento do CNPq, já mencionado. Esses órgãos nacionais entenderam que deveria existir no Colégio um certo número de vagas para alunos de outros estados ou de fora daqui. Mas não houve muita divulgação. Além disso, não havia tanta facilidade para um menino de 15 ou 16 anos sair do Rio Grande do Sul, por exemplo, e vir estudar aqui. Assim, no primeiro ano, não houve ninguém com esse perfil. 246 Ana Maria Moraes foi diretora de Ensino do Coltec, no início de seu funcionamento. Tentamos convidá-la para participar desta pesquisa. Entretanto, Ana Maria encontra-se com a saúde debilitada, não sendo possível nos ceder uma entrevista. 297 Por outro lado, um caso interessante de ingresso no Coltec foi do estudante Adilson de Assis. Havia uma escola estadual, em cidade próxima de Ipatinga, Marliéria, onde trabalhava uma professora muito idealista, a irmã Anete. Ela fez muito esforço para que seus alunos viessem estudar no Colégio Técnico, mas eles não conseguiram aprovação no segundo exame de seleção, pois o Colégio, muito divulgado, ficou famoso, e a concorrência no exame de seleção ficou muito grande. Nós ficamos sensibilizados com isso e demos a ela uma sugestão: “Vá ao Rio, ao CNPq, e peça as vagas deles que não foram aproveitadas por outros estados”. E ela fez isso. Conseguiu cinco vagas, dentre elas, a do professor Adilson Assis, que se formou técnico, tornou-se professor do Coltec, onde leciona até hoje, e foi Diretor Geral por duas vezes. Outro caso curioso foi de um aluno que, se me lembro bem, veio de Itaúna. Ele passou no exame de seleção e, no dia da inscrição, estava no Colégio aparentemente sem destino. Perguntei-lhe: “E aí, aonde você vai? Onde é que você está hospedado?”. E ele me disse assim: “Eu não tenho lugar para me hospedar, eu vou dormir na praça”. Foi imenso choque para nós todos. Diante dessa situação, conversamos e surgiu uma ideia com pouca probabilidade de ser aprovada, mas valeria a pena tentar. Ana Maria Moraes 247 e eu, fomos ao Colégio Militar, onde sabíamos haver internato, e fomos muito bem recebidos. Conversamos com o Coronel Diretor – Coronel Facó - e lhe pedimos que o Colégio Militar hospedasse nosso aluno até que resolvêssemos seu problema. O Coronel Facó, muito generoso, disse: “Pode trazer o aluno”. E os primeiros dias dele foram no Colégio Militar, mas logo surgiu outra solução. O fato é que a ótima pessoa, Ivan de Almeida, formou-se no Colégio e tornou- se professor. Lamentavelmente, deixou-nos muito cedo. O CEFET 248 , na época denominado Escola Técnica Federal, já existia, mas com outro foco. Eles queriam formar técnicos, exclusivamente técnicos, para empresas, ao passo que o Coltec objetivava formar seus estudantes a partir de um currículo de disciplinas técnicas, mas que contemplava as "convencionais" do Ensino Médio, tais como Geografia, História, Português e outras. Para ilustrar essa diferença, a nós não interessava que o aluno do Colégio Técnico soubesse fazer torneamento muito bem, pois não se esperava que esse aluno soubesse tornear 500 peças por dia. Interessava-nos que ele soubesse torneamento para ser capaz de 247 "A Ana Maria Moraes era Diretora de Ensino e entendia de ensino. Enquanto eu entendia de administração. Nós trabalhávamos juntos e muito bem, durante todo o tempo.” (Gledsom). 248 O CEFET-MG foi fundado em 1909, como Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais. Posteriormente, assumiu outras denominações até ser denominado Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, CEFET - MG. Atualmente, atende a capital e outras oito cidades do estado. Oferece cursos desde técnico de nível médio até curso de doutorado. Disponível em: < http://www.cefetmg.br/textoGeral/historia.html>. Último acesso em: 23 ago. 2016. 298 confeccionar uma peça, que auxiliaria nos procedimentos de pesquisa de um professor de universidade. Não estava em nossos objetivos, portanto, criar estudantes para produção. Queríamos formar artesões com habilidade, não para a produtividade. Eu estou falando com você aqui do que está na minha memória. Em relação aos convênios de criação do Coltec, pode-se perceber que, por vezes, alguns documentos relatam que o convênio de criação do Colégio incluiu Inglaterra, UFMG, CNPq, MEC e Irlanda do Norte. Com relação à participação da Irlanda do Norte, não tenho informações. Pode ser que algum dos peritos que estiveram no Brasil fosse irlandês ou escocês, mas não estou certo. Fato é que esses países eram desenvolvidos em muitos aspectos, e os professores eram pessoas muito evoluídas, “muito pra frente”. A participação da Inglaterra no convênio de criação do Coltec, aparentemente, não contou com nenhuma contrapartida oferecida pelo Brasil. Por outro lado, é preciso lembrar que o mundo era muito diferente do atual: havia a chamada Guerra Fria. Tudo o que acontecia no mundo era ou a favor dos Estados Unidos ou a favor da Rússia. A Inglaterra, berço da Revolução Industrial, era muito sensível a isso. O que ela pudesse fazer para ajudar o Brasil ela faria, pois, dessa forma, ela dificultava que o Brasil fosse influenciado pelas esquerdas pró-Rússia. Os britânicos não gostariam que a miséria no Brasil o fizesse tender para a Rússia, esse é o meu entendimento. Não só a Inglaterra, os Estados Unidos também agiram dessa forma. Já no primeiro dia de aula, nossos 70 alunos tiveram atividades no laboratório e as aulas ocorriam nos turnos da manhã e da tarde. Esses laboratórios eram equipados com material vindo da Inglaterra. A ênfase nas práticas nos laboratórios era o diferencial do Colégio, de tal modo que decidimos oferecer minicursos para professores de outros colégios, com pelo menos dez experiências fáceis de ser realizadas. Pedimos aos ingleses que organizassem esses cursos, sobre assuntos de Química e Física, cujos participantes seriam professores convidados de vários colégios, públicos ou privados. Os britânicos saíram então, com muito boa vontade, compraram materiais não especiais, muito comuns e baratos. Recordo-me que o colégio que mais aproveitou foi o Colégio Batista, por alguma razão que eu não sei explicar. Enviou vários professores aos nossos cursinhos. Nosso objetivo aí era "ensinar a fazer dez experiências para você fazer com seus alunos dentro da sala". Os professores brasileiros, contratados para lecionar no Coltec, não possuíam, como pré-requisito, nenhuma formação específica para trabalhar em cursos técnicos. Eram professores formados nas universidades, nas áreas em que atuariam no Colégio, e recebiam uma qualificação dos ingleses para realizar as atividades técnicas nos laboratórios. O 299 professor Carlos Edilson, por exemplo, era médico e atuava no curso de Patologia, no Colégio Técnico. As disciplinas do curso básico tais como Matemática, Português, Inglês, Física e História eram convencionais, como as de um colégio regular, não técnico. Conseguimos iniciar as aulas do Coltec sem professores emprestados de outras unidades; todos eram efetivos na UFMG, selecionados em concurso público e atuavam exclusivamente no Colégio Técnico. Havia, entretanto, casos de pessoas que possuíam cargos de técnicos e de docentes, ao mesmo tempo. Ou professor de Física e engenheiro, simultaneamente, pois naquela época era comum as pessoas terem dois empregos. Mas isso não dizia respeito ao Colégio. Os professores do Coltec foram sendo admitidos conforme a necessidade, uma vez que as turmas de cada série se implantaram também gradualmente. No início, não possuíamos, por exemplo, professores de Geografia, pois esta disciplina fazia parte do currículo do 2º ano de curso. No Departamento de Matemática, no dia de inauguração do Colégio Técnico, na minha memória, eram professores Luiz Napoleão Moreira e a Consuelo. Essa docente se casou e saiu de Belo Horizonte, acho que se transferiu para o Triângulo Mineiro. Na vaga dela entrou o “Jed” (José Eloísio Domingos). Creio que o Napoleão tinha dois cargos federais: um no Coltec e outro no Colégio Militar. Naquela época era possível, pois não existia o cargo de dedicação exclusiva no magistério. Ele deu aulas no Colégio por muitos anos. Infelizmente, partiu há uns dez anos. Eu tinha contato com ele e visitei-o, como outros professores também fizeram. A partir do Jed, eu não lembro mais quem foram os docentes do Departamento de Matemática, pois não é mais do meu tempo. O Colégio, concebido anos antes, iniciou o seu funcionamento em 1969, no período inicial do governo militar. Na fase inicial, nos anos que antecedem o AI5, emitido em dezembro de 1968, as manifestações políticas eram relativamente moderadas. Como eu fiquei no Coltec apenas até o início de 1971, convivi pouco tempo com a Revolução, em seu período mais áspero. Mas vale relatar alguns fatos ocorridos no Colégio e na Universidade, nesse período. Nos primeiros dias da Revolução, os militares tomaram a Universidade, ocuparam a reitoria. O então reitor, Aluísio Pimenta, que não é nenhum subversivo, foi ao governador Magalhães Pinto e solicitou sua intervenção para que a Universidade voltasse à normalidade. Magalhães fez, então, uma ingerência junto aos militares, e Aluísio retomou a reitoria. Em seguida, ainda tivemos algumas dificuldades na UFMG. A mais relevante delas atingiu fortemente Aluísio Pimenta – já ex-reitor – e Boson, no cargo de reitor, aposentando-os compulsoriamente. Outro dado importante foi que o governo militar impôs às escolas a criação da disciplina chamada "Educação Moral e Cívica". Na ocasião, nenhum docente do setor de 300 Ciências Sociais do Coltec aceitou assumir as aulas, pois se tratava de uma disciplina representativa de um governo militar ditatorial. Além disso, o diretor da escola seria corresponsável pela disciplina em todos os seus aspectos. Para isso, poderia até mesmo selecionar pessoalmente o professor. Nem nos quadros do Colégio, nem fora dele, nem dentro da Universidade, em outras unidades, conseguimos um professor para a disciplina. Diante disso, convidei a minha irmã, que era advogada e possuía experiência de ensino em colégio privado, o Sagrado Coração de Jesus, para lecionar essa disciplina. Felizmente, Zely Coutinho, minha irmã, aceitou o convite e ficou no Colégio durante muitos anos, até se aposentar. Com relação ao envolvimento dos alunos na Revolução, vale destacar a presença de movimentos estudantis e dos diretórios acadêmicos (ex.: a UNE - União Nacional dos Estudantes, em que o José Serra, hoje senador, participava). Esses movimentos eram muito fortes, muito ativos, diferentemente dos de hoje, em que os alunos são rigorosamente ausentes. Naquela época, nas universidades públicas, quem fazia greve eram os alunos, pois os docentes, senhores mais idosos, eram catedráticos e, como regra, não tinham envolvimento político. Tivemos, no Coltec, um aluno preso. O professor Napoleão e eu fomos visitá-lo no DOPS. Posteriormente, ele foi libertado e continuou sua vida normalmente. Veja que o professor Napoleão, embora militar, partidário da Revolução, visitou comigo um aluno preso. Napoleão foi o único militar que frequentou o Colégio Técnico no período da ditadura, e não me lembro de nenhuma restrição à conduta dele. No que se refere aos professores, lembro-me de que, predominantemente nas unidades universitárias que tratavam de ciências sociais, muitos dos que eram contrários à Revolução foram cassados, presos, ameaçados e até aposentados compulsoriamente. Algumas portas de sala de aula do Colégio possuem um retângulo de vidro que permite a visualização de seu interior. Em algum momento isso teria sido atribuído a possíveis vistorias e vigilâncias dos militares. Nada disso. Essas vidraças ajudavam a alguém, que quisesse entrar na sala por alguma razão, ver como estava lá, se estava havendo aula, quem estava dando aula, se era o professor que ele estava procurando ou não. Era um benefício. Outro fator importante a respeito da criação do Coltec é que ele não foi criado para ser um Colégio de Aplicação, voltado para receber alunos dos cursos de licenciatura, em seus estágios. Ele foi criado sem nenhuma ligação com a Faculdade de Educação. Embora, por vezes, eles lutassem para assumir a condução do Colégio Técnico. 301 Uma mudança relevante refere-se aos objetivos iniciais do Colégio, já mencionados. Esperávamos que os estudantes abraçassem a carreira de técnicos de laboratórios. Entretanto, o currículo do Coltec sempre permitiu que muitos de seus egressos tivessem boas colocações nos vestibulares. De modo que o Colégio atraía alunos com interesse de cursar o ensino superior. O Colégio Técnico passou a formar para o vestibular, a um custo muito alto para o país. Uma vez que, para preparar o estudante para a faculdade, nós não precisaríamos de um curso técnico. Por fim, gostaria de mencionar que o Coltec foi sempre um projeto charmoso. O fato de ser fruto do sonho do reitor Aluísio Pimenta, contar com o entusiasmado apoio do reitor Marcelo Coelho, contar com a ajuda do governo britânico e a presença dos professores ingleses, estar sediado em prédio no campus da UFMG, atuar em tempo integral, tudo isso fazia do Coltec uma inovação no ensino brasileiro, que fez com que o ele se transformasse numa paixão de diretores, docentes, funcionários e alunos. Todos estiveram sempre disponíveis para atuar em favor da instituição. Ninguém deixava de cumprir suas obrigações, nem se negava a ir além, quando necessário. A adesão ao Coltec foi, a meu ver, o grande diferencial que fez dele uma escola fácil de administrar e agradável de se viver. Aquele foi o melhor período de minha vida profissional e não o deixei por opção própria. Considero-me muito feliz por ter vivido aquela experiência, ter conhecido aquelas pessoas, ter feito aqueles amigos. Agora, que estamos perto do cinquentenário do Coltec, digo que preciso e quero viver até 2019! Eu preciso estar aqui nessa comemoração! 302 ANTÔNIO CARLOS INÁCIO MOREIRA - 64 ANOS Ex-aluno de Instrumentação: 1969 - 1971 Data da Entrevista: 23/02/2016 Era festa de confraternização do Coltec, no final do ano de 2015, quando conheci o Antônio. Ele logo se apresentou como "Tonico", e assim passei a chamá-lo. Descobri, em nossa conversa, que ele tinha uma longa trajetória no Colégio: aluno da primeira turma, professor, diretor e, atualmente, um saudosista "ex-coltecano", que frequenta festas de ex- alunos (Dia do Filho Pródigo 249 ) e de funcionários. Contei a ele sobre a minha pesquisa e ele se prontificou, imediatamente, a participar. Tomei nota do seu email e telefone para agendarmos nosso encontro. Ainda naquela confraternização, conversei com outros ex-alunos, atuais funcionários, que relembraram momentos vividos no Colégio. Um deles, inclusive, que já havia me concedido uma entrevista, recordou o nome do seu ex-professor de Matemática durante esse bate-papo. Embora informal, essa prosa me ajudou a compreender melhor o meu cenário de pesquisa. Em fevereiro, Tonico e eu marcamos nosso encontro na Pontifícia Universidade Católica - PUC-MG, onde ele leciona atualmente. Tive toda a atenção possível da sua parte: acesso ao estacionamento e as orientações necessárias para chegar ao local marcado. Até o momento da gravação falamos de assuntos gerais, coisas fúteis. Tonico foi muito simpático e descontraído, o que tornou leve aquele momento importante da pesquisa. Eu ingressei no Coltec no ano de 1969, ano de fundação do Colégio, no curso de Instrumentação. Lembro-me que prestei uma prova classificatória para entrar, que foi realizada lá no estádio Mineirão 250 . Eram muitos candidatos, não caberiam no Colégio. Sentávamos nas arquibancadas com a prova afixada em uma prancheta. Após o resultado, eles dividiram os aprovados em três turmas: A, B e C com, aproximadamente, 30 alunos, não mais que isso. Na época eu tinha terminado o que a gente chamava de ginásio. Eu havia concluído o primeiro, segundo, terceiro e quarto anos do ginásio. Eu morava lá na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, e lá não tinha segundo grau. Embora eu fosse de família simples, de condições econômicas limitadas, minha irmã decidiu pagar para eu estudar no Colégio Santo 249 Encontro anual de ex-alunos do Coltec, no pátio da escola, realizado há mais de 20 anos. 250 Estádio Governador Magalhães Pinto. 303 Antônio 251 . Imagina eu, de Venda Nova, caí naquele ambiente de escola privada. Eu não me sentia bem, apesar de ter feito alguns amigos lá e tudo. Mas não me sentia bem. Enquanto eu gostava de jogar futebol e de brincadeiras simples, eles gostavam de outras coisas. Desse modo, eu decidi que não queria continuar nesse colégio particular, que eu iria me preparar para entrar no Municipal ou no Estadual. Também não queria que minha irmã continuasse arcando com as despesas daquela instituição. Nessa época eu fiquei sabendo do Coltec, por acaso. Eu nem sei bem como fiquei sabendo de lá. Eu fui aprovado nas três escolas, uma da rede Municipal, outra Estadual e no Colégio Técnico. Inicialmente, até pensei em ficar no Municipal, porque era conveniente e não teria que andar muito. Mas, depois, fiquei mais interessado pelo Coltec, devido à possibilidade de trabalhar rapidamente. Apesar de ser de uma família simples, eu sou o caçula. Então as pessoas lá de casa me protegiam muito, queriam que eu apenas estudasse. Assim, pensei que ao fazer o Colégio eu daria um jeito de me formar e trabalhar logo. As aulas do Coltec só iniciaram no mês de abril, no dia do meu aniversário, 28 de abril. Até as aulas começarem, eu falava para meus pais que estava na escola Municipal, mas eu não estava em escola nenhuma, eu queria mesmo era estudar no Colégio. Aí, naquele horário, eu ia para o Atlético 252 treinar, ver se conseguia uma vaga. Mas, quando as aulas se iniciaram, eu peguei para valer, pois não pretendia seguir carreira no futebol. E nem conseguiria, pois os jogadores do "Galo" eram muito bons. Eu não teria chances. Em 1971, eu fui fazer o estágio. Naquela época, não tínhamos dificuldade de conseguir vagas, de arranjar emprego. Arranjei um estágio na RCA Victor 253 , fábrica de válvulas, peças que antecederam o componente transistor. O vínculo com essa empresa era para mim, praticamente, um emprego. Além de ser muito bem remunerado, a demanda por técnicos era maior do que por funcionários formados, graduados. Lá trabalhavam muitos técnicos oriundos do SENAI 254 , que apesar de terem um bom nível técnico, tinham uma 251 O Colégio Santo Antônio foi fundado em 1909, na cidade de São João del-Rei, em Minas Gerais. É uma instituição educacional franciscana, que procura orientar sua ação pedagógica à maneira de São Francisco de Assis. É reconhecida como instituição referência em educação. Em 1949 transferiu alguns cursos para Belo Horizonte. Atualmente, está localizada no bairro Funcionários, onde oferece o Ensino Fundamental Completo e o Ensino Médio. Disponível em: < http://www.colegiosantoantonio.com.br/sobre_o_co legio_santo_antonio/>. Último acesso em: 25 ago. 2016. 252 Clube Atlético Mineiro, sediado em Belo Horizonte, também conhecido como "Galo", seu animal símbolo. 253 A empresa RCA, antes chamada de Radio Corporation of America, começou a atuar em 1919 com o surgimento das comunicações sem fio, produzindo equipamentos eletrônicos, desde o rádio, em 1920, até produtos de entretenimento digitais, nos dias de hoje. Disponível em: < http://www.rcabrasil.com.br/nossa- hist%C3%B3ria.php>. Último acesso em: 25 ago. 2016. 254 O SENAI é uma empresa que forma e capacita profissionais para prestarem serviços de assistência técnica e tecnológica, serviços de laboratório, pesquisa aplicada e informação tecnológica. Foi criado em 1942 e faz parte da Confederação Nacional de Indústria (CNI) e do Sistema Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais 304 formação diferente dos egressos do Colégio Técnico. A procura por técnicos formados no Coltec era muito grande, tanto que eu poderia escolher meu local de trabalho, se eu queria atuar na CEMIG 255 ou na COPEL 256 . Cheguei a fazer alguns testes, por especulação. Mas, na verdade, eu sabia que continuaria na RCA Victor, empresa que fabricava discos de vinil, dentre outras coisas. Eu atuava em uma de suas filiais, especializada na fabricação de válvulas, que ficava ali perto de Betim, perto da refinaria Gabriel Passos 257 . Era considerado estágio, mas eu tinha até carteira assinada, porque a formação da gente era boa, eles tinham interesse de nos contratar, de segurar a gente. Também cheguei a fazer algumas manutenções informais na Universidade, no prédio de Odontologia, nos laboratórios de Física, mas nada remunerado. Embora eu gostasse dessa experiência de estágio, de emprego, eu queria cursar Engenharia. No entanto, a minha rotina era sair de casa mais ou menos às 5:30 da manhã, pegar o ônibus para a Praça 7 258 , onde outro ônibus, próprio da RCA, me levaria ao trabalho, por volta de 6:15h. No retorno, chegava em casa em torno de 8 horas da noite. Ou seja, mesmo que eu quisesse estudar, ia ser complicado, pois o tempo ficava curto. Mas eu queria fazer Engenharia, queria estudar. Decidi, portanto, procurar outro emprego, mudar de área. Surgiu, então, a oportunidade de atuar no Colégio Técnico, junto ao professor Tony Goad 259 , lecionando uma disciplina chamada Prática Profissional, que envolvia experimentos de manutenção, muito próximos aos que eu estava acostumado a realizar na indústria. Fiz o concurso e fui selecionado. Ao sair da RCA para trabalhar no Coltec eu passei a receber um pouco menos, mas aí eu teria condições de estudar à noite, por exemplo na PUC 260 , ou ajustar os meus horários para estudar na própria Federal 261 . (FIEMG). Possui seis unidades na cidade de Belo Horizonte. Disponível em: . Último acesso em: 25 ago. 2016. 255 Companhia Energética de Minas Gerais. 256 Companhia Paranaense de Energia. 257 A Refinaria Gabriel Passos (Regap), inaugurada em 1968, está localizada em Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte. Atua com exploração e produção de petróleo e gás, refino, oferta de gás natural, petroquímica e fertilizantes, geração de energia elétrica e produção de biocombustíveis. Disponível em: < http://www.petrobras.com.br/pt/nossas atividades/principais operacoes/refinarias/refinaria- gabriel-passos-regap.htm>. Último acesso em: 18 out. 2016. 258 A Praça Sete está no cruzamento das principais avenidas da cidade – Afonso Pena e Amazonas, no centro de Belo Horizonte. Chamava-se Praça Doze de Outubro, mas em 1922 assumiu o nome atual, devido às comemorações do centenário da Independência do Brasil. No centro dessa praça encontra-se o monumento conhecido como "Pirulito", obelisco feito de granito em formato de agulha, com sete metros de altura, apoiado em um pedestal. Disponível em: < http://www.belohorizonte.mg.gov.br/atrativos/roteiros/prac a-sete-o-coracao-fervilhante-de-bh>. Último acesso em: 18 out. 2016. 259 Não encontramos informações a respeito desse docente, mas Antônio voltou a falar sobre ele, no decorrer de nossa conversa, como se verá adiante. 260 Pontifícia Universidade Católica. 261 UFMG. 305 Inicialmente, eu prestei vestibular para Engenharia Elétrica, na Federal. Me lembro que esse curso era muito concorrido, eu não passei. Aí eu pensei: “Olha, gente, eu tenho que dar um jeito, não posso ficar sem estudar não, porque eu perco o ritmo”. No mesmo ano, decidi fazer vestibular para Matemática na Fafi-BH 262 , que é particular. Achei legal, pude estudar, cursar Cálculo. Mas pensava: "Eu vou fazer essa Matemática aqui, mas eu vou tentar Engenharia de novo". Por volta de 1974, eu passei no vestibular da UFMG e comecei o curso de Engenharia Elétrica. Ajeitei a minha vida para fazer o curso mais devagar, pois eu não tinha condições de fazê-lo rápido, porque eu tinha que dar muitas aulas no Colégio. O meu contrato era de muitas horas, 40 horas no total. Não havia liberação, o pessoal de lá me liberava muito pouco. Eu fazia quatro ou cinco disciplinas por semestre na UFMG, inclusive aquelas matemáticas todas, pois não consegui aproveitar do outro curso. Fiz duas vezes Cálculo I, II e III; Física I, II e III; Programação de Computadores. Fiz tudo isso duas vezes. Chegou em um certo momento que eu disse: "Gente! Acabei o curso de Matemática". Eu estava matriculado em Engenharia Elétrica, mas, na verdade, eu estava cursando Matemática. Eu ia atrás dos professores do curso de Matemática, matriculava nas disciplinas deles, pois achava que só havia professores bons dessa área: Edson Durão 263 , Remo Brunelli 264 . Era uma turma muito boa! Aí, juntando tudo, deu o curso de Matemática. Depois de pegar o título de Matemática na UFMG, eu falei: "Bom, agora vou para Engenharia Elétrica". Porém, com esse título, a Universidade não aceitou que eu aproveitasse as disciplinas que utilizei para concluir o curso de Matemática ou as realizadas na Fafi-BH. Eu queria fazer apenas as cadeiras técnicas, mas tive que fazer as matemáticas outra vez. O sistema era rígido. A UFMG e os órgãos de controle, como o MEC, não permitiam que um aluno obtivesse dois títulos com apenas um vestibular. Aí eu tornei a fazer Cálculo I, II, III . Dessa forma, eu fui me formar em 1979, se não me engano. Ou seja, algumas disciplinas eu cursei três vezes e ainda não sei se aprendi direito, pois ao requerer o diploma de Matemática perdi o direito de dispensa no curso de Engenharia Elétrica. 262 A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte foi fundada em 1964, inicialmente, com quatro cursos: História, Letras, Matemática e Pedagogia. Quando inaugurada, localizava-se no anexo do Colégio Estadual, no bairro Gameleira. Um ano depois, mudou-se para o bairro Lagoinha. Em 1999 a Fafi-BH se tornou Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH que, atualmente, oferece mais de 50 cursos de graduação e dezenas de cursos de pós-graduação, em suas quatro unidades. Disponível em: < http://arvoredecomunicacao.com.br/unibh-50-anos-formando-profissionais-competentes/>. Último acesso em: 25 out. 2016. 263 Edson Durão Judice foi o primeiro chefe do Departamento de Matemática e é professor emérito do ICEx. Atuou como docente da UFMG de 1949 a 1987. . Último acesso: 22 jun. 2016. 264 Remo Loschi Brunelli, já falecido, foi docente e aposentou-se no Departamento de Matemática da UFMG. 306 Retomando o período em que estudei no Coltec, como eu era da primeira turma, lembro tudo da instalação do Colégio, de aspectos do Convênio da UFMG com a Inglaterra. A escola foi criada para atender uma demanda de técnicos nos laboratórios da Universidade. Inicialmente a proposta era essa, mas não caberia essa quantidade de formados dentro da UFMG. Ou seja, a saída de técnicos para as indústrias já estava implícita, desde quando o Colégio Técnico foi criado. Vieram para cá alguns ingleses, acredito que não eram professores. Deviam ser técnicos em alguma escola de lá, de segundo grau. E, como eram bons técnicos, o Conselho Britânico, British Council, os treinava, oferecia vários cursos e os mandava para cá. Chegando ao Colégio, eles capacitavam os professores e os preparavam para oferecer as disciplinas técnicas. A metodologia do brasileiro é muito diferente da dos ingleses. Antes da existência do Colégio Técnico, quando uma escola dizia que tinha laboratório de Química, o que se tinha realmente eram atividades que complementavam o curso, elas não capacitavam para o trabalho nas indústrias. Enquanto o inglês, ele é bom nessa parte, ele tem um jeito diferente de lidar com a parte prática. Com a interferência deles, a proposta do Coltec era nos formar para trabalharmos direitinho nas fábricas. Os ingleses que vinham atuar no Brasil traziam equipamentos, livros, todos os materiais necessários para o funcionamento dos cursos técnicos. A Universidade, por sua vez, pagava bons salários a eles, boas casas, e disponibilizava carro para o transporte deles ao Colégio. Além dessa contrapartida, suponho que haja questões políticas envolvidas, afinal o British Council é um órgão político. Ele pode ter proposto algumas trocas, com outras instituições brasileiras, por exemplo. Esse convênio possibilitou, ainda, que alguns alunos do Coltec fizessem estágio na Inglaterra. Lembro-me do Ivan, já falecido, e do Tales, aposentado, terem ido. No primeiro ano tive aulas com o Mr. Ward, que lecionava Técnicas Gerais de Laboratório - TGL, onde tínhamos oficina de fotografia, mecânica, madeira e vidros. Nas aulas teóricas, esse professor tinha uma intérprete. A gente falava, ela traduzia. Ele perguntava, ela traduzia. As aulas expositivas eram todas com ela traduzindo. Ele até escrevia algumas coisas em português, mas não falava nada. Nas aulas de laboratório, havia dois técnicos brasileiros que traduziam as suas falas, durante as práticas. No segundo ano, lembro que tinha o professor Tony Goad, na verdade era Anthony Goad o nome dele. Ele era responsável pelo setor de Instrumentação. Antes dele eu tive contato com um físico, que a gente conhecia como Mr. Roe. Ele era o professor com quem a 307 gente mais interagia. Mr. Roe lecionava Técnicas de Laboratório e alguma disciplina relacionada a experimentos de Física. Ele já falava português de modo compreensível. Mas por vezes nós precisávamos nos virar com o inglês, a gente se arranhava, mas se entendia. Já no terceiro ano tivemos aulas com o Mr. Jackson, que já era da chamada segunda turma de ingleses. Ele era uma figura, rapidamente conseguiu se comunicar em português, mesmo que arrastando. A gente entendia bem as aulas dele, não precisava de intérprete. E, novamente, aulas com o Tony Goad, que também falou português brevemente. Depois que aprendeu, falava melhor que muita gente. Em síntese, tivemos um professor inglês no primeiro ano, dois no segundo ano e dois no terceiro ano, os demais eram todos brasileiros. Atualmente, é difícil acessar qualquer um deles, pois, além de termos perdido o contato, estão bem idosos, alguns já falecidos. Tony Goad e Mr. Jackson ainda devem estar vivos, Mr. Roe já deve ter falecido e Mr. Ward, de quem eu não tenho notícias. O professor Fagioli 265 era o coordenador do Departamento de Instrumentação, mas quem controlava mesmo o curso era o Tony Goad. Fagioli era formado em Engenharia Elétrica, era mais graduado do que muitos dos ingleses que estiveram aqui. O Mr. Roe, do segundo ano, também era graduado. Talvez tivesse no mínimo mestrado, ou doutorado. O Mr. Jackson eu acredito que ele também tivesse graduação. O Tony e o Mr. Ward eu suspeito que eram apenas técnicos. Ficamos muitos anos utilizando aqueles equipamentos vindos da fundação do Colégio, de 1969. O Arthur 266 , diretor do Coltec, tinha interesse em reativar o contato com os ingleses e repor, substituir esses materiais. Por volta de 1975, 1976, ele fez um projeto que envolveu a Organização dos Estados Americanos - OEA e o Conselho Britânico. É interessante que nesse ano a OEA aprovou apenas dois projetos brasileiros, o Mobral 267 e o nosso. 265 O professor Celso Martins de Almeida Fagioli possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais (1966). Lecionou no curso de Instrumentação do Coltec e, atualmente, é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Disponível em: < http://www.escavador.com/sobre/4238448/celso-martins-de-almeida-fagioli>. Último acesso em 29 ago. 2016. 266 Arthur Eugênio Quintão Gomes, Ph.D. em Science Education pelo King's College – University of London, Inglaterra. Mestre em Science Education e Especialista em Physics Teaching pelo Chelsea College – University of London, Inglaterra. Foi professor de Física e o sétimo diretor do Colégio Técnico da UFMG, de 1981 a 1984. Disponível em: < http://www.institutoavaliar.org.br/associados.asp>. Último acesso em: 25 ago. 2016. 267 O Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) foi um projeto do governo militar brasileiro que vigorou de 1967 a 1985, e propunha a alfabetização funcional de jovens e adultos, acima da idade escolar convencional. Disponível em: < http://www.saopaulominhacidade.com.br/historia/ver/9064/Mobral%252C%2B o%2Bensino%2Bda%2Bditadura>. Último acesso em: 24 ago. 2016. 308 Nesse projeto, a OEA arcou com nossas despesas e acho que tivemos uma ajuda do Conselho Britânico. Acredito que a Universidade não tenha contribuído financeiramente. A verba vinha desse projeto. Uma equipe de oito professores do Coltec visitou algumas empresas da Inglaterra, com o objetivo de conseguir novos equipamentos, inclusive o Jed 268 foi. Eu também estava nessa equipe. Fizemos contatos com algumas companhias que produziam materiais didáticos e trouxemos algumas coisas. Esse contato era necessário, pois, com o avanço da tecnologia, com a transição das válvulas para circuitos integrados, os equipamentos do Colégio começaram a ficar obsoletos. Os equipamentos e livros vieram um pouco depois. Essa visita serviu, inclusive, para definir quais seriam os materiais a serem enviados. Chegando lá, nós nos dividíamos entre as empresas a serem visitadas, conforme o interesse de cada um. Ou seja, se uma companhia produzisse um material didático que só importasse ao Jed, então apenas ele ia essa empresa. Enquanto isso, eu, por exemplo, poderia visitar uma fábrica que fornecesse equipamentos de interesse do curso de Instrumentação. Nessa visita à Inglaterra, aproveitei para visitar o Tony Goad, pois eu tinha muito contato com ele. Ele casou-se com uma brasileira, então vinha muito ao Brasil. Nessas ocasiões ele ia até minha casa, onde sempre fazíamos algum tipo de confraternização. Já tem muitos anos que ele não vem. O Sr. Jackson nunca voltou e também não tive a oportunidade de visitá-lo quando estive lá. Logo depois do Arthur, em 1985, eu fui ser o diretor do Coltec. Então, aproveitei o contato que estabelecemos quando estivemos na Inglaterra e trouxe alguns ingleses no início do meu primeiro ano de mandado. Eles vieram fazer seminários relacionados a métodos de ensino, utilização de recursos didáticos e desenvolvimento de currículos para as áreas técnicas. Não trouxeram equipamentos de laboratórios, apenas materiais de ensino. Eles ficaram aqui por 15 dias, sendo 10 dias de seminários. Os britânicos eram recebidos por nós, que os acomodávamos em hotéis e passeávamos com eles nas cidades históricas do estado, como Ouro Preto e Tiradentes. Todo início de ano o pessoal fazia uma espécie de preparação dos professores, com convidados diferentes, como os representantes ingleses. Nos eram oferecidos cursos rápidos sobre técnicas de ensino. Era uma preparação para os problemas que a gente ia enfrentar. 268 José Eloisio Domingos, ou Jed, ou ainda Jedboy, foi professor efetivo do Departamento de Matemática do Coltec de 1970 a 1997. Em seguida, atuou como professor substituto, nos anos de 1998 e 1999. É um dos colaboradores desta pesquisa. 309 Retomando, logo que as aulas do Colégio iniciaram, o Gledsom 269 era o diretor geral e a Ana Maria Moraes 270 era diretora de ensino. O Gledsom era muito rígido, mas era um bom diretor, porque ele sabia lidar com a gente. Certo dia, ele nos pegou jogando futebol em uma sala de aula, em que sujamos tudo. Ele nos mandou comprar tinta e limpar a sala toda. "Você quer coisa mais bacana, mais interessante?". Não levantou a voz, não ameaçou ninguém, não falou nem em expulsar a gente, ou em chamar nossos pais. Nós tivemos que arrumar dinheiro e comprar a tinta. A Ana Maria, por sua vez, também tinha a sua autoridade na escola, mas como aluno eu não entendia bem qual era a função dela – hoje entendo. A estrutura física ainda não estava pronta. Os colchões da Educação Física, por exemplo, estavam todos nos corredores, a gente fazia uma farra. Sentíamos também que havia algumas improvisações. Tinha uma sala que dava uma ressonância muito grande, de modo que precisaram mudar, acho que virou biblioteca. Eles foram adequando. O Coltec era praticamente aquele corredor comprido, que deve ter mais de 100 metros. Parte de cima e parte debaixo desse corredor. Todo o restante foi construído depois que a gente estava lá. As salas eram muito altas, com o pé direito alto, eram muito boas. Elas eram mais frescas do que qualquer lugar e ainda tinha uns ventiladores grandes de pé, que eram colocados para nós. Ou seja, não tínhamos problema de infraestrutura. A biblioteca era impressionante! Nunca vi uma biblioteca de tal nível, no primeiro ou no segundo grau. No início não tínhamos quadra na escola. As aulas de Educação Física aconteciam em um campo de futebol do outro lado da Antônio Carlos. Inclusive, um campo muito bom, onde alguns times profissionais treinavam. Além disso, tinha uma quadra do Centro Pedagógico 271 que nós usávamos para treinar futebol de salão, handebol e basquete. No Colégio Técnico nós fazíamos apenas exercícios físicos. Depois eles construíram um campo para o Centro Pedagógico, mas eu não era mais aluno. 269 Gledson Luiz Coutinho é graduado em Administração e Engenharia Mecânica e foi o diretor geral do Coltec no início de seu funcionamento. É um dos colaboradores desta pesquisa. 270 Ana Maria Moraes foi diretora de Ensino do Coltec, no início de seu funcionamento. Tentamos convidá-la para participar desta pesquisa. Entretanto, Ana Maria encontra-se com a saúde debilitada, não sendo possível nos ceder uma entrevista. 271 O Centro Pedagógico tem sua origem no antigo Ginásio de Aplicação da UFMG, fundado em 21 de abril de 1954. Em 1958, o Ginásio de Aplicação transformou-se em Colégio de Aplicação, atendendo a uma crescente política de valorização da Educação. Na ocasião, passou a oferecer os seguintes cursos: Ginasial, Científico, Clássico e Normal. A partir de 1968, a UFMG passou por uma reestruturação que afetou também o Colégio de Aplicação e o Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia tornou-se um Centro Pedagógico, integrado à Faculdade de Educação da UFMG, com a função básica de ofertar cursos relativos ao ensino de 1º e 2º graus. Em 1972, o Centro Pedagógico foi transferido para o campus da Pampulha e passou a ter uma escola de 1º Grau, funcionando em prédio próprio. Em 1997, recebeu uma nova denominação: "Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG". Em 2007, o Centro Pedagógico (CP) passou a integrar, juntamente com o Colégio Técnico (Coltec) e o Teatro Universitário (TU), a unidade denominada Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG. Disponível em: < http://www.cp.ufmg.br/index.php/historico>. Último acesso em: 29 ago. 2016. 310 A rotina do Colégio também era muito bem organizada. Se pela manhã nós tivéssemos aulas teóricas, por exemplo, no período da tarde, era Educação Física. Não havia quatro aulas teóricas seguidas. Além disso, não era comum termos aulas teóricas depois do almoço. Nesse horário, costumávamos ter atividades nos laboratórios ou um período na biblioteca. Éramos recomendados a estudar ou ler algum livro na biblioteca, durante um determinado tempo. Era muito legal. Dessa forma, mesmo tendo muitas aulas, elas eram bem divididas. Principalmente no início, porque eram poucas turmas. Tínhamos aula no turno da manhã e no turno da tarde, exceto na sexta, em que saíamos duas horas mais cedo. Em alguns períodos, tivemos até aula aos sábados. Isso porque o Curso de Instrumentação começou atrasado. Naquela época, não tinha o curso de Instrumentação na América do Sul, não havia pessoas formadas nesse curso, tínhamos apenas professores que fizeram Eletrônica. E, por incrível que pareça, era uma época importante na Eletrônica, período em que estavam deixando de utilizar válvulas e passando a utilizar transistores. Todos os técnicos eram experientes com válvulas, já com os circuitos transistorizados eles tinham dificuldades. Nesse contexto, durante um tempo nós só fizemos disciplinas técnicas do Curso de Eletrônica, comuns ao currículo de Instrumentação. No terceiro ano foi preciso termos aulas todos os dias e em alguns sábados para completar a grade curricular. No período em que estudei no Coltec, 1969, 70, 71, vivenciávamos o regime da Ditadura Militar, aquelas proibições fortes dos Atos Institucionais. Como nós, alunos, éramos muito novos, jovens, nós provocávamos, a gente fazia música de protesto, participávamos de festivais. No entanto, logo depois do diretor Gledsom, assumiu o Cássio Pinto 272 , que já possuía a experiência de barrar os militares da Escola de Engenharia, da UFMG, logo antes, quando foi diretor de lá. Então, mesmo que a gente fizesse alguma provocação, o Cássio enfrentava e proibia a entrada dos oficiais na escola. Por essas razões, nenhum colega meu foi preso. Talvez, depois que eu me formei tenha ocorrido algo, uma vez que ainda tivemos um período complicado de Ditadura. Também tivemos uma disciplina chamada "Educação Moral e Cívica" e, depois, na graduação, uma disciplina equivalente, denominada "Moral, Ética e Cívica". Mas eu não percebia que essa disciplina regulava nossas ações, porque os professores eram polarizados do nosso lado. Eles apenas nos mostravam o que estava sendo discutido, o que estava sendo 272 Cássio de Mendonça Pinto foi o segundo diretor do Coltec. A biblioteca do Colégio recebeu o seu nome, em sua homenagem. Também foi diretor da Escola de Engenharia no período de 1967 a 1970. 311 falado a respeito da Ditadura. Nós podíamos opinar, colocar nossos pontos de vista, ninguém tentava nos conduzir. O curso do Colégio Técnico, inicialmente, era anual, 1969, 1970. A partir do terceiro ano, 1971, acho que passou a ser semestral. Mas não tenho certeza, meu terceiro ano foi muito confuso, pois, conforme eu disse, não havia Instrumentação na América do Sul, vivenciamos a desorganização da instalação desse curso: treinamento de pessoal, equipamento chegando. A preocupação em formar um profissional não era restrita às disciplinas técnicas, mas também às do currículo básico, como Português. Falava-se muito que o aluno deveria ser um bom interpretador de texto, que deveria ser capaz de pegar um catálogo e entender o funcionamento de um equipamento. Além da preocupação de escrever de forma correta, fazer um relatório. Não havia, no entanto, uma aula de análise sintática. Mas, por outro lado, nós escrevíamos muito e a professora, ao corrigir nossos textos, apontava a gramática que estava ali: "aqui é uma oração subordinada...., período assim e assado". Nós aprendíamos os termos assim, sem uma aula de análise sintática propriamente dita. Da mesma forma era a disciplina de Inglês. A gente não sabia falar inglês, mas éramos capazes de ler em inglês, porque tínhamos muitos livros e textos técnicos nesse idioma. Também tivemos Biologia nos dois primeiros anos. Acredito que havia um contato entre os professores das disciplinas básicas com os do curso técnico, porque muitos dos conteúdos que eu estudei nenhum outro colega que fazia segundo grau, em outra instituição, aprendia, como limites, derivadas e integrais. Ou até viam, mas de modo elementar, resolviam um probleminha ou outro. Nós fazíamos problemas de máximo e mínimo. Muitos! Nós aprendemos séries de Fourier, que têm tudo a ver com eletricidade, com Instrumentação, porque no circuito você tem uma onda periódica que você quebra em senóides. Em outras disciplinas, não conseguíamos fazer muita relação com o nosso curso, entretanto, elas tinham um caráter voltado para o experimental, tudo era muito experimental. Eles pediam para a gente fazer uma classificação de uma determinada entidade animal lá, na Biologia. O método era muito parecido na Química e na Física, muita prática, muitos relatórios. A abordagem era a mesma, nós sentíamos isso. Meus primeiros professores foram Alberto Albergaria, Gilberto Souto Maior, de Física; Napoleão 273 , de Matemática; inicialmente Ilton, de Química, depois ele foi substituído por uma professora incrível, que falava alto, Ana Maria 274 . 273 Luiz Napoleão Moreira, já falecido, lecionou no Coltec de 1969 a 1976. 312 Em relação à Matemática, eu fui aluno do Napoleão, no primeiro ano; do Jed, no segundo ano, e do Abdala 275 no terceiro ano. Lembro que tinha também a professora Consuelo 276 , mas ela não me deu aulas. Ela talvez tivesse de 30 a 35 anos, cabelo curto, preto, rosto arredondado, era simpática. Recordo-me dela nos plantões nos atendimentos aos alunos. Inclusive me recordo mais do Abdala nos plantões do que na sala de aula. Eu lembro de ter tido muitas aulas com o Jed. O Ronaldo Pellicano 277 não chegou a ser meu professor, mas eu tive contato com ele. Se não me engano, ele entrou quando eu estava no terceiro ano. Recordo-me de perguntar a ele algumas coisas e ele me explicar. Não foi durante plantões, eu não sei quando foi. Ele abria o universo da gente quando esclarecia um problema. Ele tinha a voz muito bonita, falava muito bem, muito pausado, com uma didática "de outro planeta". Além disso, eu pedia licença para ele para assistir suas aulas, porque eu gostava muito. Acredito que ele lecionasse no Colégio Militar também, que ele trabalhava nos dois lugares. Depois, fiquei sabendo que ele tinha morrido, isso tem muito tempo, ele era muito novo. Foi um choque para todo mundo. Depois, tive contato com outros docentes da Matemática, mas eu já era professor: o Serjão 278 , que a gente se cumprimentava, encontrava nos eventos, a Tânia 279 , um doce de pessoa, e a Maria do Carmo 280 , pessoa finíssima. Os professores adotavam o livro do Gelson Iezzi 281 , mas usavam, principalmente, material próprio. Geralmente, eles apresentavam um problema elementar para iniciar algum 274 Tentei encontrar mais informações sobre esses docentes, examinando arquivos do Coltec e consultando professores que estão há mais tempo no Colégio, em cada um dos setores informados, Física e Química. Não obtive êxito, em ambos os casos. Todos relataram que não conheceram os professores mencionados. 275 Abdala Gannam, atuou no Departamento de Matemática do Coltec no período de 1970 a 1992. É um dos colaboradores desta pesquisa. 276 Há registros de que a professora de Matemática Consuelo Maria Vieira Garcia tenha lecionado no Coltec em 1970. Seus contemporâneos dizem que ela se mudou para o Triângulo Mineiro, mas não conseguimos informações a seu respeito. 277 Há registros de que o professor Ronaldo Pellicano, já falecido, tenha lecionado no Colégio em 1971. As demais informações a seu respeito foram obtidas por meio dos colaboradores desta pesquisa. 278 Sérgio Veiga Dias, também chamado de Serjão por ex-alunos e professores do Coltec, lecionou Matemática no Colégio. Não foi possível localizar esse professor para participação nesta pesquisa. 279 Tânia Lima Ayer de Noronha se aposentou do Departamento de Matemática do Coltec em 2002, depois de 23 anos de atuação como docente. Como colaboradora desta pesquisa, Tânia relatou algumas das experiências vividas no período em que lecionou no Colégio. 280 Maria do Carmo Vila lecionou Matemática no Coltec no período de 1979 a 1995. Participou ainda de atividades no Centro Pedagógico, instituição de Ensino Fundamental também vinculada à UFMG. Ela é uma das colaboradoras desta pesquisa. 281 Gelson Iezzi é formado em Engenharia Metalúrgica e licenciado em Matemática pela Universidade de São Paulo - USP. Além disso, é professor em cursos pré-vestibulares e em faculdades em São Paulo. Autor de vários livros de Matemática para o ensino fundamental, médio e superior. Disponível em: < http://www.editorasaraiva.com.br/autor/gelson-iezzi/>. Último acesso: 26 ago. 2016. Não conseguimos identificar o livro referido por Antônio. 313 assunto, em seguida, nos colocavam para estudar aquele conteúdo, resolver problemas em grupos de duas, três pessoas. Se tivéssemos alguma dúvida, o professor estava lá na mesa. Nós íamos até ele, ou o chamávamos, e ele nos ajudava a resolver. Finalmente, ele dava uma aula, parecendo um fechamento. Eles diziam: "Olha, o que nós vimos foi isso aqui e tal, tem esses casos particulares...". A dinâmica era maravilhosa! Eu comecei a gostar de Matemática por causa disso. Todos os professores dessa disciplina seguiam essa linha, embora o Napoleão fosse um pouco mais tradicional. Ele não tinha a paciência que o Jed tinha de nos esperar terminar. Acho que ele marcava um tempo e se a gente não tivesse terminado ele já esquematizava a matéria no quadro. Mas não diria que uma aula era melhor do que a outra, porque as duas eram muito boas. Com o Abdala também não era diferente. Inicialmente, começávamos a aula com as carteiras organizadas de modo tradicional e no meio da aula fazíamos grupos. A gente arrumava as cadeiras adequadamente, às vezes em rodinha, às vezes em grupos de três ou quatro alunos. No momento da sistematização do professor, nós virávamos para a frente. Muitas vezes, já sentávamos em grupos, posicionados para a frente, para não precisar mudar quando o professor ia para o quadro. Fora do horário das aulas, os professores, de Matemática, Física, Química, Biologia, entre outras disciplinas, marcavam plantões de atendimento aos alunos nos seus gabinetes. O horário desse auxílio ficava na porta. Minha relação com esses professores era muito boa. O Napoleão era camarada, parecia um pai da gente. E o Jed parecia um irmão mais velho. O Abdala, por sua vez, mantinha uma certa distância, o que não prejudicava de forma alguma. Eu não lembro dos professores de Matemática utilizarem régua, compasso, em suas aulas. Nós usávamos essas ferramentas numa disciplina, chamada de Desenho, em que fazíamos várias construções geométricas, geometria descritiva e desenhos técnicos. Usávamos o livro do Giongo 282 , que usava régua e compasso, régua T, esquadro, essas coisas todas. No segundo ano, lembro de ter tido aulas de Matemática com o uso de retroprojetor, pelo professor Jed, sobre funções. Ele explicou a questão de injeção, eu lembro dos desenhos. Mas não era comum utilizarem esse recurso. Todas as atividades de Matemática eram realizadas no Colégio, porque nós não tínhamos tempo em casa para fazermos. A gente aproveitava os horários em que estudávamos na biblioteca. Eu não lembro de ficar estudando em casa nesse período. No máximo, sábado à 282 Affonso Rocha Giongo escreveu o livro "Curso de Desenho Geométrico" publicado pela Editora Nobel. 314 tarde fazíamos uma revisão, algo assim. No domingo, eu nunca estudei, independente do que acontecesse. Havia também os estudos dirigidos, em que o professor marcava as páginas do livro para a gente ler e ficava nos orientando; os desafios, questões propostas ao final de algum assunto, valendo um pontinho, algo assim; e as avaliações, tínhamos muitas provas valendo poucos pontos cada. Os problemas de Matemática propostos eram uma mescla de questões contextualizadas, por exemplo, pediam para calcular quantos tijolos eram necessários para construir uma parede, e exercícios de resolução direta, de calcular. Outro exemplo de que me recordo, é o seguinte: antes de chegar em derivadas, o professor desenhou lá tangentes, secantes, mostrou para a gente todo o processo para se definir esse conceito, utilizando um sistema de coordenadas, O conteúdo era avançado, a gente chegou a estudar derivadas, integral. Ou seja, essas integrais elementares, a gente sabia fazer. Nós precisávamos disso lá na Eletrônica. Tínhamos também uma ideia de séries de Fourier. Resolvíamos muitos problemas. Questões de máximos e mínimos, que os professores adoravam, com problemas de encontrar o material mínimo para produção de um certo objeto. Ou seja, tinha problemas contextualizados. E a gente fazia muitos exercícios de um livro do Alberto Nunes Serrão 283 , que eram considerados preparatórios. Eu tenho a coleção completa desse autor, pois o Napoleão gostava muito desses livros, aí eu comprei. Lembro ainda de ter usado alguns livros do Remo Brunelli. O Napoleão gostava de indicar esse autor. As apostilas de Matemática eu não guardei, porque a maioria era de estudos dirigidos, com espaços para resolver os problemas, aí eu não guardei, até sinto falta de ter feito isso. Lembro que eu gostei muito de ter estudado limites e derivadas. Quando começamos a estudar esse assunto, eu falei: "Gente, quando eu crescer eu quero mexer com esse trem aí, limite e derivadas". No terceiro ano quase que eu passo com 100. Não tinha um tema que eu não gostasse. Uma coisa que eu tenho dificuldades até hoje é com a parte de combinatória, eu preciso pensar muito para decidir se trata-se de um arranjo, combinação, ou permutação. Eu não faço isso automaticamente, igual sou capaz de fazer a maioria das coisas. A parte de Geometria no espaço, "aquilo não tem jeito de ser mais bonito", mas eu não entendia muito 283 Alberto Nunes Serrão formou-se em Engenharia Civil e Geografia pela Escola Nacional de Engenharia. foi professor chefe da seção de Matemática do Colégio Universitário da Universidade do Brasil, ex- professor do curso complementar do Colégio Pedro II, entre outros. Autor de livros didáticos, tais como "Lições - Trigonometria Retilínea, Cálculo Vectorial", editado em 1942, pela Boffoni. Disponível em: < http://www2.unifesp.br/centros/ghemat/DVD_s/HISTORIA/LIVROS_DIDATICOS/1937__1941/1937__1941_2 5.pdf>. Último acesso em: 26 ago. 2016. 315 bem, eu tinha dificuldades, minhas notas não eram tão boas. Mas, no geral, eu tinha muito prazer em estudar Matemática, eu deixava tudo de lado para estudar Matemática. No início do Colégio, não tinha muitos alunos de classe socioeconômica muito alta. Era muita gente parecida comigo, alunos que pretendiam fazer o curso para fazer a vida. Eu mesmo, quando ingressei no Coltec, não pensava em fazer curso superior, eu queria mesmo era fazer curso técnico. Mas, com o meu interesse pela Matemática, pela Física, eu disse: "Gente, eu tenho que aprender esse trem direito". Respondi até um questionário, proposto pela Ana Maria Moraes, em que ela perguntava: "Por que você quer fazer curso técnico?". Eu respondi que eu queria trabalhar como técnico, que queria começar minha vida, mesmo não precisando ajudar a minha família. Depois, passei a pensar: "Eu quero fazer o curso técnico aqui, eu pretendo trabalhar como técnico, mas eu quero fazer curso superior". Lembro que ela até ficou chateada comigo. Mas eu tinha colegas que realmente queriam trabalhar como técnicos. Mas todos tinham condições de passar no vestibular, e a gente era aprovado, todos, acho que até hoje. Quando eu fiz vestibular pela primeira vez, fui muito bem em Matemática, Física, História, Português. Eu me sentia preparado em, praticamente, todas as disciplinas. Exceto Química, em que eu realmente era ruim. Mas o que mais me prejudicou foi ter escolhido fazer a prova de Francês, ao invés de Inglês. Acertei pouquíssimas questões de Francês. Fui o primeiro excedente no curso. 316 ADILSON ASSIS MOREIRA - 60 ANOS Ex-aluno de Eletrônica: 1970 - 1972 Data da Entrevista: 18/11/2015 Adilson é professor do curso de Eletrônica do Coltec, desde 1974. Além disso, foi aluno da segunda turma do Colégio. Nossa conversa focou o período em que ele foi estudante. Nós nos encontramos, inicialmente, em sua sala, que também é ocupada por outros dois docentes. Em uma mesa, observei trabalhos elaborados por alunos. Tratava-se de caixas, de modelos diversos, cada uma delas com um pisca-pisca, acionado por um botão. Adilson abriu uma delas e me mostrou a placa de circuitos que estava embutida. Depois de iniciada a gravação, decidimos mudar de local, pois os outros professores estavam presentes, faziam pequenos barulhos e isso estava prejudicando nossa concentração. Deslocamos-nos para o Laboratório de Eletrônica, que eu também não conhecia. É um espaço mobiliado com bancadas, para atividades em grupos, e computadores. Na frente, uma mesa maior e um quadro, destinados ao professor. Sentamo-nos a essa mesa e retomamos nossa conversa. Adilson relatou lembranças de mais de quarenta anos atrás, quando foi aluno do Coltec, e enriqueceu nossa conversa com suas percepções de ex-diretor e atual professor do Colégio. A minha história é a seguinte: eu sou do interior, da cidade de Marliéria. No ano em que eu estava terminando a 8ª série, a diretora da escola ficou sabendo da existência do Colégio Técnico. Ela soube que ele havia sido implantado e veio visitá-lo, aqui em Belo Horizonte. Em seguida, retornou à minha escola, chamou a turma da 8ª série, e contou que tinha conhecido uma instituição com determinadas características, que era uma proposta boa, e nos incentivou a fazermos a prova aqui. Foi assim que eu e um grupo de umas dez pessoas viemos para cá, realizar esse concurso, no prédio da escola de Engenharia, na Avenida do Contorno. Meu estímulo para escolher o curso de Eletrônica foi o seguinte: eu tinha um primo, que tinha feito um curso de radiotécnico, por correspondência, e trabalhava com isso. Ele montava e consertava rádios, instalava aparelhos eletrônicos, pisca-pisca, qualquer coisa desse 317 tipo. Eu via meu primo mexendo com esse tipo de material e isso me instigava. Foi daí o meu interesse em fazer o curso de Eletrônica. Então, entrei no Coltec, como aluno, em 1970, no curso de Eletrônica. Eu fui da segunda turma. Nesse ano, o acesso era apenas por concurso. Havia um certo número de vagas, algo da ordem de 6 a 10, que eram atribuídas ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para que as destinasse a estudantes de outros estados, conforme previsto no convênio de criação do Colégio. O restante das vagas era preenchido a partir de concurso. Posteriormente, salvo engano, a partir da terceira turma, criaram um sistema diferenciado de alocação de algumas vagas, que considerava se o candidato era filho de produtor rural, ou pertencente a algum sindicato que participasse do chamado PEBE, que era o Programa Especial de Bolsas de Estudo. Essa mudança ocorreu, provavelmente, a partir de 1971 ou 1972. A escola, fisicamente, era constituída apenas pelo bloco da frente, onde fica a minha sala, atualmente. No primeiro ano do meu curso técnico, a minha sala de aula ficava no primeiro andar desse bloco. Depois, no segundo ano, a minha turma tinha aulas no segundo andar, onde hoje fica a biblioteca, ou parte dela. As salas continham carteiras comuns para os alunos, uma mesa para o professor e um quadro de giz. Os laboratórios, por sua vez, tinham mesas grandes. O restante do prédio, que forma o bloco do fundo, onde fica grande parte das salas de aulas e alguns gabinetes, foi construído depois. Tratava-se de um processo de expansão do número de vagas. Quando eu ingressei no Colégio, havia cerca de 80, 90 vagas. Depois da construção desse segundo bloco, subiu para 210 vagas. O campus, de modo geral, era bem desabitado, havia muitos espaços abertos, muita área de terra. Na época de chuvas, gerava um lamaçal. Não tinha esses jardins entre os prédios, ou no entorno deles. Nas proximidades do Colégio, havia apenas o primeiro bloco do prédio do ICEx 284 . Não havia os prédios do Departamento de Química, da Escola de Engenharia, o Coltec ficava bem isolado. No período em que fui aluno do Coltec, havia um grupo de professores britânicos, que eram considerados assessores especiais para a criação da escola. Tinha um inglês por área de conhecimento. Então tinha um de Física, um de Química, um de Eletrônica, um de Instrumentação, eu creio que um de Biologia, um de Técnicas Gerais de Laboratório (TGL). Ou seja, era um grupo de professores, sendo um por área de conhecimento. 284 Instituto de Ciências Exatas. 318 Eu tive aulas com professores britânicos. No primeiro ano, eu tive aulas com um especialista inglês, que oferecia uma oficina de hialotécnica. No caso dele, ele tinha intérprete. Ele falava em inglês e um intérprete traduzia para o português. E no terceiro ano, outro professor britânico, da Eletrônica, nos orientou na disciplina Prática Profissional. Mas, com relação a esse segundo docente, eu não estou certo, pode ser que a presença dele tenha sido quando eu já estava trabalhando aqui. Em algum momento, recordo que um colega da Eletrônica, que se formou na primeira turma e começou a lecionar no Coltec um tempo antes de mim, contratado como “professor de ofício”, auxiliava na disciplina de Prática Profissional. Dessa forma, não havia necessidade de um intérprete à parte. Ele recebia orientação do professor inglês e falava para a turma. Esse convênio com a Inglaterra durou, aproximadamente, cinco anos, de 1969 até 1974. Nesse tempo, os especialistas ingleses moravam na região próxima à escola. Além do Colégio Técnico, eu não sei de outra escola que tenha sido criada de forma semelhante, com convênio internacional. No entanto, tivemos contato com uma interessante escola técnica de Eletrônica, por ocasião de uma visita técnica a empresas e a uma feira de Eletrônica em Santa Rita do Sapucaí. Há muitos anos, nós levamos alguns de nossos alunos do curso de Eletrônica, no final do mês de outubro, para essa feira. Segundo informações, essa escola técnica de Eletrônica teria sido criada em 1955, um período em que ensino técnico e superior de Eletrônica estava ligado às Forças Armadas, especialmente Aeronáutica e Marinha. Havia formação de pessoal, em Eletrônica, para atender, prioritariamente, às necessidades das Forças Armadas. A história interessante dessa instituição é que sua criação foi estimulada por uma mulher, esposa de um embaixador brasileiro no Japão, depois da Segunda Guerra. Ela teria acompanhado o período de reconstrução do Japão e percebeu a importância da tecnologia no mundo. Até então, essa região do Sul de Minas, que abriga Santa Rita do Sapucaí, tinha como principal atividade econômica a agropecuária. Quando essa mulher retorna do Japão, ela passa a trabalhar pela implantação de uma escola técnica de Eletrônica na cidade dela, com a ajuda de um familiar, que tinha presença na política, e veio a se tornar presidente da República, Delfim Moreira 285 . 285 A Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa - ETE FMC - iniciou suas atividades em 1959, sendo a primeira escola de eletrônica de nível médio da América Latina. Foi dirigida por Sinhá Moreira, natural de Santa Rita do Sapucaí. Ela era filha do coronel Francisco Moreira da Costa, líder político, e sobrinha de Delfim Moreira, Presidente da República. Com a ajuda dos jesuítas, articulou a criação dessa escola, vislumbrando um futuro diferente para os jovens e um desenvolvimento de sua cidade. Disponível em: < http://www.etefmc.com.br/noticias.php>. Último acesso em: 26 set. 2016. 319 Ou seja, embora não seja uma escola técnica criada a partir de um convênio internacional, a criação dessa instituição anterior ao Colégio Técnico teve inspiração em uma vivência fora do país. No restante do país, a maioria das escolas técnicas era da área de agropecuária. Na área industrial, Eletrônica e Química, elas começam a surgir próximo à década de 1960. O país passa por um processo de industrialização, mais marcante, a partir do governo de Getúlio Vargas, em que passa a demandar esse tipo de formação. A implantação dos cursos no Coltec foi gradativa. No ano em que eu entrei, 1970, a montagem de alguns laboratórios estava ocorrendo. A importação de equipamentos que vinham a partir do convênio britânico foi ocorrendo paulatinamente, na medida em que os cursos eram implantados. Eu me lembro de equipamentos chegando a um determinado laboratório e começando a serem usados, quando eu estava em uma determinada série. Mesmo depois de formado, ainda foram incorporados novos acessórios. No ano em que eu entrei no Colégio Técnico, eu não tinha informações sobre a ditadura, ou a respeito de lutas políticas e ações de organizações que envolviam estudantes. Mas, ao final de 1972, eu passei a ter uma maior percepção desse regime, embora não tivesse envolvimento, pessoalmente. Eu não via a presença de militares na escola. Se tinha, não era ostensiva. Uma referência que vale mencionar é que havia um professor de Matemática que era coronel, chamado Napoleão. Ele lecionava no Colégio Militar e no Coltec. Eu não fui aluno dele. Havia comentários discretos, em surdina, da possibilidade de esse docente ser um informante do sistema. Que estaria na escola avaliando essa nova escola. Mas ele, pessoalmente, era muito educado, muito agradável. No trato com ele não havia nenhum sinal de excepcionalidade. Outra informação distorcida é a de que os vidros, nas portas das salas de aula, ajudavam no monitoramento dos militares. Isso não procede, porque não tinham vidros nas portas, nessa época. Eram portas de madeira. Em relação à formação dos professores, eu não sei avaliar ou comparar. Como aluno, eu só via aqueles professores, aquela escola. Eu achava os professores muito bem preparados, com muito conhecimento. Essa era a impressão que eu tinha, eu não questionava a competência deles. Além do que, eu sou de uma geração em que o professor tinha autoridade e não era questionado. Desse modo, o aluno não via o professor com olhar crítico ou alvo de questionamentos. O professor era uma autoridade muito forte, muito respeitada, assim como o diretor da Escola. 320 Houve um episódio, no intervalo de aula, provavelmente no recreio, em que o professor saiu de sala. A próxima aula seria 20 minutos depois, algo desse tipo. A gente, então, começou a jogar futebol no fundo da sala. Alguém fez uma bolinha de papel, lançou, o outro chutou, e aí começou um futebolzinho no fundo da sala. Nós usávamos tênis de solado preto, que deixava muita marca naquele chão claro. Quando chegou o professor seguinte, viu aquele chão todo sujo, todo riscado, ele comunicou ao diretor. Todo mundo ficou constrangido. O diretor falou com as faxineiras para trazerem balde, água, sabão e vassoura e nos orientou a limpar aquele piso. Ninguém questionou, nem o professor, nem o diretor. Eu me lembro dos nomes dos professores de Matemática, mas faço confusões. Às vezes misturo, por estar no Colégio há tanto tempo, quem foi meu professor ou quem foi meu colega. Mas tenho certeza de que o Abdala 286 me deu aulas por um ano. Creio que tenha sido no segundo ou terceiro ano. Além dele, eu tive aulas com o Ronaldo Pellicano 287 , possivelmente, no primeiro ano. Tenho a imagem do rosto dele. Do que eu me lembro do Abdala, ele era considerado um pouco ríspido. Essa recordação, não necessariamente, refere-se ao período em que eu estava estudando. Pessoalmente, eu nunca tive problema com professores, por dois motivos. Um deles, conforme eu já disse, refere-se ao fato de que o professor era autoridade, era respeitado. O outro é que eu estudava e nunca tive dificuldades para ser aprovado. Dessa forma, eu não gerava questionamento por parte do professor. O Pellicano era mais tranquilo na explicação, se assemelhava a um professor que eu tive na graduação, o Edson Durão Judice 288 , que trabalhava também aqui na UFMG. Eles tinham essa característica de ter muita segurança na exposição, falar com clareza e objetividade, além de estarem sempre felizes com a vida eles passavam isso para nós. Com relação às aulas de Matemática, sinceramente, eu não tenho lembranças vivas delas. Salvo que a maioria era baseada em Estudos Dirigidos. Havia um texto, uma apostila que era apresentada para a gente. De alguma forma, nós líamos e resolvíamos os exercícios. Depois, o professor explicava no quadro algum desses exercícios. A recordação que eu tenho, da organização das aulas de Matemática, é que tenham sido, quase sempre, fundamentadas em Estudos Dirigidos. 286 Abdala Gannam atuou no Setor de Matemática do Coltec no período de 1970 a 1992. É um dos colaboradores desta pesquisa. 287 Há registros de que o professor Ronaldo Pellicano, já falecido, tenha lecionado no Colégio em 1971. As demais informações a seu respeito foram obtidas por meio dos colaboradores desta pesquisa. 288 Edson Durão Judice foi o primeiro chefe do Departamento de Matemática e é professor emérito do ICEx. Atuou como docente da UFMG de 1949 a 1987. . Último acesso: 22 jun. 2016. 321 Estou lembrando aqui de um relato interessante. Matemática, comumente, é considerada uma disciplina difícil, que gera problemas para a maioria dos alunos. Quando eu estava na 7ª série, na escola da minha cidade, muitos alunos da minha turma reclamavam dessa disciplina, pois tinham notas ruins e achavam a matéria difícil. Os professores contestavam, dizendo que eles não tinham concentração. A diretora da escola, uma freira, muito culta, essa que eu falei que descobriu o Coltec, resolveu interferir. Segundo ela, não podia haver tantos estudantes reprovados ou com notas ruins. A diretora propôs uma ação, um trabalho, em que um grupo de estudantes fosse estudar por conta própria, a partir de um tipo de Estudo Dirigido. Eu e mais um grupo de colegas, éramos seis pessoas, que tínhamos um desempenho melhor, nos reuníamos no horário da aula de Matemática, fora da sala de aula, pegávamos um livro e, de acordo com a orientação do professor, líamos um determinado número de páginas. O roteiro era o livro. Nós ficávamos lendo, comentando, discutindo, procurando entender, resolver os exercícios. Depois, apresentávamos para o professor e fazíamos as provas. Me lembro que isso funcionou algum tempo. Eu participei dessa experiência. Quando passo a estudar no Colégio, percebo alguma semelhança com essa experiência, pois começo a utilizar Estudos Dirigidos na disciplina de Matemática. O aluno seguia o material e o professor apenas fazia explicações complementares, pontuais. Isso pode ter gerado dificuldade para uma parcela dos alunos, mas foi uma característica, uma marca da Matemática aqui do Coltec. No Coltec eu não passei por situações específicas de dificuldades em Matemática, não que eu me lembre. Nem mesmo de colegas da minha turma. A Física e a Biologia eram as duas disciplinas consideradas mais difíceis, que reprovavam mais alunos. Eu fui perceber problemas com a disciplina de Matemática, no sentido de reprovar muito, posteriormente, quando estive na direção, ocasião em que houve uma mudança no perfil dos alunos ingressantes. A propósito, eu fui diretor do Coltec de julho de 1994 a julho de 1998, salvo engano. E, depois, do início de 2003 até o início de 2008. Não me recordo do uso de recursos adicionais, como régua, sólidos geométricos. Pode ter havido, mas não tenho clareza hoje. Posteriormente, como professor, eu vi os professores de Matemática utilizando alguns materiais, como sólidos geométricos e calculadoras. Mas tenho dúvidas se alguma dessas lembranças pode ter sido do meu período de aluno. Tenho a impressão que as ações dos professores de Matemática eram limitadas à própria disciplina e a seu grupo de docentes. Não me recordo de alguma atividade que tenha sido desenvolvida em colaboração, ou compartilhada com outras áreas. Em geral, os 322 professores do Colégio cuidam apenas da sua própria disciplina. Dessa forma, mais limitada, evitam que outras pessoas os incomodem, ou que haja cobranças. O curso de Eletrônica, em particular, tem a Matemática como disciplina fundamental. Por isso, em muitos momentos, houve conversas entre professores dos dois setores, Eletrônica e Matemática, sobre as necessidades desse curso técnico em relação a essa matéria. Mas isso sempre teve um caráter informal ou pontual. Geralmente, era uma relação de dois professores, de uma mesma série. Esse diálogo nunca foi sistemático. As ações da Matemática eram mais focadas na própria licenciatura e nas propostas das pessoas ligadas à essa área. Na minha percepção, com base no período em que eu estudei e atuei no Colégio, os professores de Matemática tinham uma atuação limitada, se considerarmos que o ensino era voltado para alunos de cursos técnicos. Eu falo isso, sem que esse comentário represente uma crítica negativa. Não podemos restringir toda discussão ao fato de o Coltec ser uma escola técnica. Pois, mesmo pensando em fazer carreira técnica inicialmente, na prática, muitos dos alunos daqui, pela própria inserção, pela própria vivência no ambiente universitário, têm como referência realizarem vestibular. Dessa forma, o curso de Matemática do Colégio precisava preparar esses estudantes para a UFMG ou outras instituições de Minas. Mas acho que é possível lidar com essas duas demandas, uma não compromete a outra. Eu não acho que o ensino precise ser enciclopedista no sentido de atender a todas as demandas. É necessário atender a algumas necessidades, possibilitando que os alunos tenham capacidade para estudar por conta própria, desenvolver e aprender depois. Inclusive, é comum, no Colégio os estudantes buscarem cursinhos para se prepararem para o vestibular. Em 1972 eu concluí o curso. Depois desses três anos, tinha um ano de estágio, mas a gente não contava esse tempo, embora fosse obrigatório. No ano seguinte, em 1973, eu fui selecionado para fazer estágio no Coltec. E no final desse ano, surgiu a oportunidade de ser contratado como professor, também no Colégio Técnico. Comecei a trabalhar aqui, em uma função que se chamava "professor de ofício", e aqui fiquei. Depois, a Universidade efetivou o cargo de todos esses professores, assim como eu, que tinham sido selecionados internamente. Todos os alunos que se formavam no Colégio Técnico conseguiam emprego, tinham boa receptividade e presença nas empresas, especialmente no mercado mineiro. Isso foi muito marcante. Quando nos encontrávamos, a gente procurava saber a empresa em que cada um estava atuando, que função exercia. De outro modo, desde o início do Colégio, sempre houve um trânsito rápido para o curso superior. Também no ano de 1973 eu iniciei o curso de Engenharia Eletrônica, na Pontifícia Universidade Católica - PUC/MG. Depois de formado, eu me matriculei no mestrado em 323 Engenharia Elétrica na UFMG. Embora eu não tenha feito dissertação, essa pós-graduação contou para mim como uma especialização. Quando ingressei no Ensino Superior, eu não tive dificuldades com relação à Matemática. A metodologia era diferente, seguia o modelo tradicional, o professor escrevia no quadro, fazia deduções de fórmulas e expressões, explicava oralmente e depois a gente resolvia os exercícios, os problemas. A partir dessas explicações, eu tinha o ponto de partida, depois chegava em casa, pegava o livro e o caderno e relia aquela matéria. Uma lembrança que eu tenho, desse período de faculdade, é que, às vezes, eu passava em frente a uma sala, de uma turma de um semestre à frente, uma turma mais avançada, e observava o quadro completamente escrito. E o quadro da faculdade era muito grande, maior do que o do Colégio. Então, eu via aquelas coisas escritas, a respeito de um conteúdo que eu ainda não tinha estudado, e eu pensava: “Poxa, que coisa complicada. Será que eu vou dar conta de entender isso?”. E quando eu estava no semestre correspondente, vendo aquilo, ouvindo o professor explicar, eu levava sem grandes dificuldades. Porque, no fundo, para eu estar preparado para entender uma coisa complicada, eu precisava ter feito uma disciplina anterior, que era pré-requisito. Sem deixar de mencionar que, quando estamos na aula, ouvimos com atenção a explicação daquele assunto novo, estudamos, resolvemos exercícios. 324 ALBERTO DE FIGUEIREDO GONTIJO - 56 ANOS Ex-aluno de Eletrônica: 1974 - 1976 Data da Entrevista: 17/11/2015 Assim que soube que o professor Alberto, do setor de Eletrônica do Coltec, tinha sido aluno do Colégio, eu o procurei e fiz algumas perguntas sobre seus professores de Matemática. Percebi que ele poderia contribuir com a pesquisa. Relatei a ele os meus objetivos e ele se disponibilizou a me ajudar. Adequamos nossos horários e marcamos, brevemente, nossa conversa. Era uma terça-feira, dia de aula regular na escola. Nós nos reunimos na minha sala, pois naquele horário não teríamos problemas com barulho. Essa foi a minha primeira entrevista nesta pesquisa. Eu sabia todo o roteiro, conhecia todas as recomendações sobre como seria conveniente me portar em nossa conversa, mas temia que algo pudesse dar errado. Testei, pela terceira vez, os gravadores e disponibilizei uma cadeira para receber o professor Alberto. Felizmente, nossa conversa fluiu perfeitamente, sem contratempos. Além de contribuir com o meu trabalho, a entrevista foi uma ótima oportunidade de estreitar a relação com esse colega de trabalho, que pouco conhecia. Depois da gravação, ficamos mais tempo conversando sobre ensino e assuntos diversos. Eu sou professor do Coltec, do setor de Eletrônica, desde 1981, há 35 anos. E fui aluno do Colégio em 1974, 1975 e 1976, no curso técnico de Eletrônica; eram três anos de duração na época. Eu fiz prova para ingressar como estudante, ela foi realizada lá no Mineirão, com muita gente nas arquibancadas, sobre o cimento duro. Eles forneciam uma prancheta para apoiarmos. Lembro que o Colégio Técnico recebia muitos alunos vindos do CP (Centro Pedagógico 289 ), muitos deles filhos de funcionários ou professores da Universidade. O acesso não era tão democrático como é hoje. 289 O Centro Pedagógico tem sua origem no antigo Ginásio de Aplicação da UFMG, fundado em 21 de abril de 1954. Em 1958, o Ginásio de Aplicação transformou-se em Colégio de Aplicação, atendendo a uma crescente política de valorização da Educação. Na ocasião, passou a oferecer os seguintes cursos: Ginasial, Científico, Clássico e Normal. A partir de 1968, a UFMG passou por uma reestruturação que afetou também o Colégio de Aplicação e o Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia tornou-se um Centro Pedagógico, integrado à Faculdade de Educação da UFMG, com a função básica de ofertar cursos relativos ao ensino de 1º e 2º graus. Em 1972, o Centro Pedagógico foi transferido para o campus da Pampulha e passou a ter uma escola de 1º Grau, funcionando em prédio próprio. Em 1997, recebeu uma nova denominação: "Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG". Em 2007, o Centro Pedagógico (CP) passou a integrar, juntamente com o Colégio Técnico (COLTEC) e o Teatro Universitário (TU), a unidade denominada Escola de Educação Básica e 325 Tenho consciência da existência de dois públicos de alunos no Coltec. A turma que vinha do CP, que era mais ou menos elite. O contrário de como é hoje, pois os estudantes oriundos do CP, atualmente, às vezes têm muita dificuldade, ou são indisciplinados. Quando eu estudei no Colégio, os alunos do CP eram sofisticados, tocavam instrumentos, eram filhos de professores. Além deles, havia os que realizavam concurso, que eram o povo. Antes de ingressar no Coltec, eu fiz da 1ª à 4ª série, como era chamado na época, no grupo, ou seja, em escola estadual. Aí, tinha o tal admissão, com duração de um ano, que seria a 5ª série. Fazíamos este um ano de nivelamento, para ingressarmos no que seria o ginásio. Nesse período, eu estudei em escola particular. Meu pai era conhecido do padre que era diretor dessa escola, então ele conseguiu um bom desconto. Inclusive, o referencial de professor de Matemática que eu tinha foi desta época, de 5ª à 8ª série, porque antes, da 1ª à 4ª série, era aquela coisa misturada, não havia essa disciplina isoladamente. Agora, de 5ª à 8ª série, eu tive um professor para poder falar: "Esse aqui é professor de Matemática". Logo em seguida eu fui para o Coltec, onde escolhi fazer o curso de Eletrônica. Antigamente não se levava aparelho para oficina, para o conserto. Quando algum aparelho estragava, a gente recebia a visita de um técnico, que abria aquele "mapão" de circuitos. Eu olhava aquilo ali e pensava: "Meu Deus! Esse cara é um gênio. Olha que coisa maravilhosa, eu quero saber sobre isso". Então foi assim, vendo isso, que me despertou vontade de entrar nessa área, da Eletrônica. Outro fato que contribuiu para essa escolha foi o meu pai ter comprado um kit "hobbista", de Eletrônica, que se chamava Engenheiro Eletrônico da Philips 290 . Com esse kit era possível fazermos um pisca-pisca, um detector de umidade em plantas, construir um rádio, coisas desse tipo. Ele vinha com cartelas que eram montadas em uma tábua de eucatex, toda furadinha. Em cima do circuito, colocava-se um papel, que continha o circuito que se desejava criar. Aí, posicionávamos uns grampos com molas, que prendiam as peças sem solda. Mas o que aconteceu? No primeiro dia em que eu e meu irmão usamos esse kit, com toda aquela ansiedade, nós fizemos um bolinho de peças e ligamos na bateria para ver o que aconteceria. Profissional da UFMG. Disponível em: < http://www.cp.ufmg.br/index.php/historico>. Último acesso em: 29 ago. 2016. 290 O Engenheiro Eletrônico Philips era um kit que permitia montar 22 "fascinantes" circuitos, entre os quais: receptor de rádio (com 1, 2 ou 3 transistores), órgão eletrônico, alarme eletrônico, intercomunicador, detector de luz, detector de ruído e iluminação automática. O manual continha um resumo sobre a teoria, descrição do funcionamento e aplicação dos circuitos. Disponível em: < http://dqsoft.blogspot.com.br/2008/09/engenheiro- eletrnico-philips.html>. Último acesso em 10 out. 2016. 326 Com isso, queimamos boa parte das peças e nenhum aparelho funcionou. Nenhum! Ao invés de desanimar, eu falei: "Agora eu quero saber esse negócio aqui". Posteriormente, eu e meu irmão ganhamos do meu pai um curso do Instituto Universal Brasileiro 291 . Era um curso por correspondência. A cada duas ou três semanas, chegavam os fascículos. Eu fui o único que fez esse curso. Meu irmão começou a olhar, mas logo se desinteressou. Hoje ele é professor do ICB 292 , mudou de área completamente. Em casa, eu desmontava tudo, em seguida, montava uma segunda coisa, uma terceira. Desmontava e fazia várias coisas. Ou seja, quando entrei no Colégio, no curso de Eletrônica, eu já sabia onde estava pisando. Quando concluí o ginásio, eu só sabia que existia a Escola Técnica Federal da avenida Amazonas, o Cefet-MG 293 . Aí, alguém falou que descobriu que havia a escola técnica da UFMG, nos informou e nós viemos conhecer. Viemos eu e minha mãe. Era um tempo chuvoso, devia ser final de ano. Não era essa secura que é agora não. Eu me lembro que estava chovendo, eu me recordo bem desse dia. Nós pulávamos de poça em poça d'água, molhando o sapato. A Universidade era muito vazia, tinha a Reitoria, uma parte do ICEx 294 velho, que ainda não contava com o prédio do Departamento de Física; a FAE 295 ; o CP; aquele prédio da Escola da Engenharia; aquele laboratório de alta tensão da Engenharia; a Belas Artes; um prédio velho da Química, bem menor do que esse de atualmente; e o Coltec, ou seja, não tinha quase nada, impressionante. Do Colégio Técnico até na avenida, onde passavam os ônibus, era coberto por pisos sextavados, muito irregulares, por isso que formavam poças d'água. Eu me lembro disso como se fosse hoje. O restante da Universidade era mato. 291 Desde 1941, o Instituto Universal Brasileiro é um dos pioneiros do Ensino a Distância (EaD) no Brasil, oferecendo cursos profissionalizantes, supletivos e técnicos. Disponibiliza seu material na forma impressa (apostilas, folhetos, impressos de apoio) ou na versão online. Atualmente, alguns de seus cursos são: Corte e Costura, Mestre de Obras, Bolos Decorados, Refrigeração e Ar Condicionado, Montagem e Manutenção de Computadores. Sua central de ensino situa-se na cidade de Boituva, em São Paulo. Disponível em: . Último acesso em: 10 out. 2016. 292 Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. 293 O Cefet-MG foi fundado em 1909, como Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais. Posteriormente, assumiu outras denominações, entre elas a de Escola Técnica Federal, até ser denominado Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Cefet - MG. Atualmente, atende a capital e outras oito cidades do estado. Oferece cursos desde técnico de nível médio até curso de doutorado. Disponível em: < http://www.cefetmg.br/textoGeral/historia.html>. Último acesso em: 23 ago. 2016. 294 Instituto de Ciências Exatas. 295 Faculdade de Educação. 327 O Coltec ficava muito distante da entrada da UFMG. A gente vinha de ônibus, ele dava muitas voltas, até não querer mais, e parava ali no Colégio Militar 296 . De lá vínhamos caminhando pelo mato. Com relação ao funcionamento do Colégio, percebi algumas diferenças, porque lá na escola em que eu estudava o aluno era muito guiado. No Coltec o sujeito era muito livre, até hoje é assim. É o ideal libertário que ouvimos dizer no Colégio, que não aceita nenhum uniforme, que é tudo diferente. Na outra instituição, eu nunca entraria sem uniforme. Além disso, eu precisava levar carteirinha de estudante para eles carimbarem a minha presença antes de entrar na escola. Era assim que funcionava, enquanto aqui no Colégio não havia nada disso. Como eu estava no lugar que eu queria, então não precisava de controle. Já as salas de aula, o que eu achei bem interessante foi o espaço reservado para a parte técnica. Havia uma disciplina chamada TGL (Técnicas Gerais de Laboratório), em que os estudantes entravam em contato com coisas de tecnologia. Eu me lembro, como se fosse hoje, de uma prática que usava um kit com amostras radioativas, que emitiam elétrons e prótons, ainda que muito fraquinho. Aprendíamos a respeito de um aparelho medidor de radiação, esqueci o nome. Fazíamos práticas com o uso desse dispositivo, colocando diferentes materiais entre a fonte radioativa e o aparelho sensor, para saber se absorvia ou não radiação. Também medíamos o diâmetro interno de um tubo capilar, enchendo-o de vidro, de mercúrio. Ou seja, nós tínhamos contato com tecnologia. Havia ainda, aulas de madeira. Madeira de verdade! Nós íamos para o torno, manuseávamos ferramentas. Hoje em dia, se os nossos alunos vão fazer um furo em uma caixa, eles não sabem colocar a broca na furadeira, se a broca deve ser colocada no lado bicudo ou pelo lado chato no mandril da furadeira. Eles não sabem. Parece que ninguém nunca construiu nada. Enfim, eu venho de uma geração em que nós fazíamos os nossos brinquedos. Por isso, essa vivência de oficinas no Coltec foi fantástica para mim. Mesmo sendo muito desembestado, desajeitado. Lembro-me de uma aula, nessa oficina de madeira, em que precisávamos pegar um toco e acertar com plaina, para corrigir as quatro faces paralelas entre si. Eu desperdicei oito peças. Aí o professores Ubaldo e João, olhando um para o outro, falaram assim: “Nossa! Esse, coitado,...é prejuízo”. Brincadeira, não chegaram a dizer isso. 296 O Colégio Militar de Belo Horizonte (CMBH) foi criado em 1912 e extinto no fim do ano de 1925. Em 1955 foi fundado, novamente, o Colégio Militar, “a fim de possibilitar aos mineiros rápido ingresso nas fileiras do Exército Nacional”. Desde 1960, ele está localizado na Pampulha. Oferece 6º, 7º, 8º e 9º anos do Ensino Fundamental e Ensino Médio completo. Disponível em: < http://www.cmbh.ensino.eb.br/index.php/historico-do- cmbh>. Último acesso em: 22 set. 2016. 328 Mas só de vê-los um olhando para o outro e para mim, fiquei tenso, escorreu suor de um jeito... Por outro lado, isso era muito bom, porque eu enfrentava as minhas limitações. Em alguns momentos, esses docentes pediam para eu limar ferro, para eu não acabar com o estoque de madeira deles, pois eu era desembestado demais. Até que um dia eles me designaram para trabalhar em um torno, para fazer um cabo de martelo. Saiu o melhor cabo de martelo que já foi feito lá. Inclusive, eles não me deram esse cabo, ficaram para eles. Depois, na oficina de Mecânica, eu fiz o martelo; eles também quiseram ficar com ele. Ou seja, para algumas atividades eu era desembestado, mas para outras não. De todo modo, foi muito bom eu ter contato com as máquinas, porque eu gosto de produzir, de construir objetos. Então, o diferente do Colégio no primeiro ano, em termos da área técnica, foi a disciplina TGL, que incluía madeira, vidro e mecânica. Ela nos possibilitava atuar com equipamentos diferentes, procedimentos de medidas, técnicas de cálculos de erros. Até ingressar no Coltec eu não sabia que vidro derretia. E lá, passei a fazer tubos de ensaio, béquer, materiais desse tipo. Aprendi muita coisa, foi muito interessante e importante. O aluno que estava com a mente aberta para aprender devorava aquilo. Ou mesmo aqueles que não se dedicavam 100% tinham a oportunidade de ter contato com esses laboratórios, de pegar, de perceber as limitações. Se você não pega para fazer, não sabe se é difícil ou fácil. Era tudo fantástico! Em março de 1977, depois de formado, eu já estava empregado. Isso porque um parente meu conhecia o professor Ramayana Gazzinelli 297 , um professor famoso da Física. O Ramayana solicitou a seu funcionário, o técnico Fábio, que verificasse se eu tinha condições de atuar lá. Eu me saí muito bem e fui aceito como técnico. Inicialmente, eu fui contratado pela Fundep 298 , depois eu fiz um concurso e tornei-me funcionário público efetivo da Universidade. Eu fiquei cinco anos trabalhando como técnico no ICEx, na Física. O Fábio lecionou na Engenharia e me ajudou muito no mestrado, inclusive. Também, depois de formado, eu prestei vestibular para Engenharia Eletrônica na PUC 299 . A UFMG oferecia o curso de Engenharia Elétrica que, na época, focava em postes, 297 “Ramayana Gazzinelli graduou-se em Engenharia Nuclear na Escola de Engenharia da UFMG. Obteve Ph.D em Física na Universidade Columbia de Nova York. Dedicou-se ao ensino de várias disciplinas da Física e à pesquisa em física da matéria condensada até sua aposentadoria”. É professor emérito da UFMG e membro da Academia Brasileira de Ciências. Disponível em:< https://www.ufmg.br/online/arquivos/027677.shtml>. Último acesso em: 21 set. 2016.Disponível em:< https://www.ufmg.br/online/arquivos/027677.shtml>. Último acesso em: 21 set. 2016. 298 "A Fundep (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa) é uma instituição que realiza a gestão de projetos de ensino, pesquisa e extensão da Universidade Federal de Minas Gerais e de outras instituições e centros de inovação". Disponível em: < http://www.fundep.ufmg.br/pagina/94/home.aspx>. Último acesso: 29 ago. 2016. 299 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. 329 em levar energia até as casas das pessoas, gerar energia. Isso não tinha nada a ver comigo, não era Eletrônica propriamente dita. Então nem quis fazer vestibular na UFMG, porque não tinha o curso de Engenharia Eletrônica. Além disso, eu tinha deficiência em alguns conteúdos, como Geografia e História, que só eram vistos no Coltec no primeiro ano. Como eu sabia da minha dificuldade, eu não gastei energia com a decepção de não conseguir. Pensei: “Eu tenho pouca Geografia e pouca História, vou fazer um cursinho para pegar essa parte”. Então eu fiz seis meses de cursinho preparatório para ingressar na PUC. Foi uma experiência boa, porque os professores do cursinho têm um jeito de dar aulas que faz uma varredura da matéria. Hoje em dia, os estudantes do Colégio veem, pelo menos, o dobro de conteúdos dessas disciplinas que eram apresentados naquela época. A propósito, eu já tinha tido experiência de fazer cursinho na oitava série, quando me preparava para o Cefet. Nesse período estudei no Orvile Carneiro 300 , que tinha ótimos profissionais de Ciências, Física, Português. Eles faziam aquela revisão da matéria toda, parecia que fazia sentido. Posteriormente, antes de concluir o meu curso de Engenharia, eu fiz um concurso para professor do Coltec. Acredito que faltava menos de um ano para eu terminá-lo. A princípio eu não queria realizar esse concurso, porque nunca pensei em ser professor. Mas um colega meu, do ICEx, fez a minha inscrição. Ele pegou os meus documentos e eu só assinei. Eu não queria ser professor. Eu passei em primeiro lugar e ele passou em segundo. Eu falei: "Vamos ver como é isso. O salário é melhor, então decidi vir para cá". Larguei o cargo de técnico, pedi exoneração da Física e assumi a função de docente, em 1981. Ou seja, cinco anos depois de formado eu já estava no Coltec, novamente. No Colégio, atualmente, é comum, na aula inaugural, para os estudantes do 1º ano, um palestrante explicar um pouco sobre "o que é a escola", seus objetivos. Mas quando eu entrei, não tinha nada disso. Já chegávamos direto na sala de aula, para iniciar assim "na lata". Não havia reunião pedagógica na época, nada disso. A instituição não se preocupava em nos informar o que estavam fazendo, como seria o curso, não sabíamos de nada. Eu entrei aqui querendo Eletrônica e o primeiro ano não teve nada. Tivemos práticas tecnológicas, mas nada 300 Em 1961, o curso Orvile Carneiro foi criado em Belo Horizonte, para preparar alunos interessados em ingressar na Escola Técnica Federal de Minas Gerais, hoje CEFET-MG. Em seguida, ampliou sua oferta de cursos, passando a atender também estudantes que pretendiam ser selecionados no COLTEC e em outros diferentes concursos públicos. Disponível em: < http://cefet.orvilecarneiro.com.br/cefet.php>. Último acesso em: 21 set. 2016. 330 diretamente do curso escolhido. Também não nos instruíam sobre como seria o curso, as próximas etapas. Mesmo assim, eu sabia, ainda que vagamente, que o Coltec foi criado a partir de um convênio com a Inglaterra, pois eu via professores, coordenadores, que participaram da fundação da escola. Eu observava aquele porte inglês, aquele nariz, o jeito, a pele e pensava: "É inglês". No entanto, não tínhamos contato com eles, não sabíamos nada sobre eles. O Colégio Técnico começou mesmo por volta de 1970, 69. Eu entrei aqui em 74, depois de quatro anos de fundação. Nesse período, grande parte dos britânicos já haviam sido substituídos. O Adilson e o Thales, do Setor de Eletrônica do Coltec, tiveram aulas com professores ingleses. Eles relatam que a aula era em inglês e uma tradutora, que sentava na bancada na frente, traduzia o que era dito. Isso não era legal, a menos que o interesse fosse aprender o idioma inglês. Mais tarde eles tiveram a preocupação de substituí-los por professores locais. Na minha entrada no Colégio eu sofri trote, mesmo as Calouradas não sendo muito organizadas. Havia muita tinta, muita sacanagem. Eu não gostava daquela bagunça, não via sentido naquilo. Felizmente passou, foi rápido. Melhor seria se houvesse um movimento de interação das turmas, mas não era assim. Hoje, a recepção de alunos está anos-luz mais sofisticada. Com relação ao espaço físico da escola, a minha sala de aula, no primeiro ano, foi ali, onde hoje é a oficina de microcomputadores. A sala era fixa, cada turma tinha a sua, com aproximadamente 30 alunos. Não tenho certeza se as carteiras eram tradicionais ou aquelas de braço. Na frente, ficava o quadro de giz, com uma plataforma para o professor ficar mais alto, mais visível. A minha turma era muito misturada. Havia filho de peão, filhos de juiz e filho de professores. Esses últimos, extremamente sofisticados. Eu me recordo até hoje do dia em que o filho de juiz apareceu com uma calculadora eletrônica, um tijolo, que fazia apenas as quatro operações. Nós colocávamos conta lá, o aparelho ficava pensando, pensando e, em seguida, dava o resultado. O pessoal dizia: "Ohhh!". Isto é, a tecnologia estava aflorando ainda. Mas quero ressaltar como a minha turma era heterogênea. Havia eu, que tinha a roupa do corpo e a outra que estava lavando, e o filho de um juiz. O que não impedia de interagirmos, realizarmos as atividades em conjunto. Os alunos que vinham do CP, além de serem elite, como já mencionei, eram muito fechados entre eles, pois já se conheciam, tinham histórias juntos. Consequentemente, eles 331 interagiam pouco com os demais colegas do Colégio. Era comum o restante dos alunos, que vieram por concurso, se unirem mais. Eu fiz algumas amizades no Coltec. Alguns deles, infelizmente, estão morrendo. O primeiro amigo que eu fiz no Colégio foi o Afonso Fiorini de Carvalho, de ascendência inglesa, muito religioso. Não tive outra amizade tão relevante aqui. Mas juntos fizemos outras amizades. Assim como eu, ele era fanático por Eletrônica, por isso demos muito certo um com o outro. Depois fomos colegas na Física, no ICEx. Ele não gostava de horários, era muito diferente. Há um ano atrás ele faleceu. Havia gente super inteligente na escola. Aliás, tinha um sujeito que tirava vários conteúdos difíceis de letra, enquanto todos estavam passando apertado. Posteriormente ele foi meu colega na PUC. Ele tinha um ótimo desempenho na Matemática complexa que estava envolvida em Eletrotécnica e em circuitos. Era a nossa referência. Se quiséssemos saber se acertamos algum exercício era só perguntar para ele. Mas amizade mesmo, de conviver todos os dias, foi apenas com o Afonso. Nessa época de estudante do Coltec, vivenciávamos a Ditadura. No entanto, a fase mais gritante para mim foi quando eu estava no grupo escolar, 1ª à 4ª série. Meu pai fazia medo na gente, para evitar que nos envolvêssemos com política. Dizia que o comunismo era comedor de criancinhas. Nós ficávamos planejando como agir quando eles batessem na nossa porta. Cogitávamos em esconder debaixo da cama ou correr para o cemitério, morar em algum túmulo, já que morávamos perto do Cemitério Bonfim. Imaginação de criança. Por outro lado, no primeiro ano do Colégio Técnico, eu tive um professor de Matemática militar, chamado Napoleão 301 . Aparentemente, ele também era professor do Colégio Militar. Nós o chamávamos de "tio Napô". Ele era muito próximo dos alunos e gostava de ser chamado assim. Eu, por exemplo, tive muita dificuldade para compreender logaritmos e ele me explicava, fazia o possível para eu aprender. Era o único professor que eu vi aqui no Colégio que tinha uma metodologia nos moldes do passado. A Matemática e a Física eram importantes para o curso de Eletrônica. Quando entrávamos no Coltec para fazer qualquer curso, precisávamos escolher, ao final do primeiro ano, uma das seguintes áreas: Física, Química ou Biologia. Quem ia fazer os cursos de Instrumentação e Eletrônica priorizava a Física; os que seguiriam na Química davam ênfase para as disciplinas de Química; e os que cursavam Análises Clínicas escolhiam Biologia. 301 Luiz Napoleão Moreira, já falecido, lecionou no Coltec de 1969 a 1976. 332 As aulas de Física eram muito interessantes, pois fazíamos uso de equipamentos fantásticos. Além disso, havia muitas demonstrações, nós interagíamos com as coisas. Eu tinha muita dificuldade de compreender essa matéria. Talvez porque a professora era muito confusa, não preparava a aula direito. Ela enchia o quadro, eu ficava tentando entender aquilo tudo, aí, de repente, ela falava assim: "Não! Está tudo errado!". Aí apagava o quadro inteiro e começava de novo. Desde o 1º ano, tive aulas nos turnos da manhã e tarde. As disciplinas do 1º ano eram genéricas, como Geografia e História. No 2º ano eu tinha mais aulas de Física, Eletricidade Básica, entre outros. Ou seja, eu já ia me especializando. As disciplinas de Eletrônica eram todas no 3º ano. Isso porque a Eletrônica era uma área recente, que estava iniciando, o curso estava se constituindo. Utilizávamos válvulas, pois ainda não era comum o uso de semicondutores no Brasil. Atualmente, o curso de Eletrônica é cem vezes mais complexo, não tem nem comparação com aquele em que eu me formei. De modo geral, eu passei muito aperto e não tive um bom desempenho nas disciplinas. Especialmente no primeiro ano, em que eu estava me adaptando. Minhas notas eram medianas, entre 60 e 70, acredito. Em Português, por incrível que pareça, eu me lembro de ir melhor, mesmo eu estando focado em Física e Matemática. A professora de Português era excelente. Na Matemática, eu tive aulas com o tio Napô, no primeiro ano, conforme já falei e com o Abdala 302 , no 2º e 3º ano. O Napoleão dava aulas expositivas, enchia o quadro de coisas. Estou lembrando de umas aulas de exercícios, por exemplo. Mas, a partir do 2º ano eu não tive mais aulas expositivas de Matemática. Nós entrávamos na sala, pegávamos aquele livro "Matemática Moderna", me parece que era de autoria do Gelson Iezzi 303 , sentávamos lá e estudávamos. O professor orientava: "Vocês vão estudar o capítulo tal". Lembro que todos os alunos ficavam sentados estudando, disciplinados. Eu era muito quieto, entrava mudo e saía calado. Eu queria apenas estudar. Nós íamos fazendo os exercícios sem perguntar nada, porque o Abdala era muito ríspido. Ele permanecia sentado. Como não tinha computadores na época para ele acessar a internet, pegava um livro, um jornal e ficava lendo. Algumas vezes ouvíamos: "Olha, nosso método é assim, deixar você aprender por você, estão entendendo?". 302 Abdala Gannam atuou no Departamento de Matemática do Coltec no período de 1970 a 1992. É um dos colaboradores desta pesquisa. 303 Gelson Iezzi é formado em Engenharia Metalúrgica e licenciado em Matemática pela Universidade de São Paulo - USP. Além disso, é professor em cursos pré-vestibulares e em faculdades em São Paulo. Autor de vários livros de Matemática para o ensino fundamental, médio e superior. Disponível em: < http://www.editorasaraiva.com.br/autor/gelson-iezzi/>. Último acesso: 26 ago. 2016. 333 No primeiro ano foi difícil para mim, pois eu estava habituado com os métodos tradicionais da outra escola em que eu estudei, mas depois aprendi a estudar sozinho. Enquanto o Abdala era bravo, o tio Napô era alegre, muito dedicado. O Napoleão se esforçava para explicar, tentava captar as dúvidas dos alunos, repetia aula, marcava aula extra. Como avaliação da disciplina de Matemática fazíamos apenas provas, não me lembro de ter exercícios avaliativos, listas. As provas eram individuais, sempre. A impressão que eu tenho é que as listas eram para estudo, mas podiam ser realizadas em grupos. As provas do Abdala eram baseadas no livro adotado e as provas do Napoleão consideravam apenas as aulas dele, pois ele não adotava livros. Não recordo de nenhum deles adotar apostilas. Quando eu entrei no 3º de Eletrônica, o uso de calculadora começou a ser difundido. Me lembro delas no Colégio; eram simples, não tinham pilhas, nem nada, eram ligadas em tomadas. Os meus pais me deram uma calculadorazinha bem rudimentar, que fazia as quatro operações e raiz quadrada. Na Eletrônica eu podia usá-la, mas na Matemática não. Até porque nem sempre fazia sentido. Onde uma calculadora poderia me ajudar no estudo de Polinômios, por exemplo? Já nas disciplinas técnicas eu tinha que usar, do contrário não dava tempo de realizar os cálculos apresentados nas provas. Não me recordo do uso de recursos nas aulas de Matemática, era na lábia mesmo. No estudo de Geometria, era preciso entender as figuras dos livros. Se não tivéssemos imaginação, abstração, não aprendíamos os conteúdos. Em resumo, eu tive mais problemas com a Matemática no 1º ano do Coltec, mas não sei explicar bem o motivo. Eu gostava de Matemática, só que precisava me adaptar à escola. Mas eu conseguia entender os conteúdos pelos livros. Eu necessitava compreendê-los, porque eu não conseguia decorá-los. Na minha vida eu só decorei o meu nome e o da minha mãe, o restante eu procurei entender. O livro adotado ajudava, pois era claro. Mesmo assim, alguns colegas passavam apertado, tinham a Matemática como um "bicho papão". Para mim, os conhecimentos adquiridos nessa disciplina foram o suficiente para eu fazer um bom curso superior, sem problema algum. E, ainda, o meu gosto pela Matemática aumentou. Eu adquiri livros dessa disciplina, para entender melhor. Certo dia, o professor da pós-graduação perguntou: "Quem tem livro de Física-Matemática do Butkov 304 ?". Ele estava à procura de um livro russo, que foi traduzido 304 Livro de Física e Matemática, do autor Eugene Butkov, publicado pela Editora LTC, cuja primeira edição é de 1988. 334 para o Português. Eu falei: "Eu". Eu era o único que tinha o livro. Isso porque eu realmente passei a gostar de Matemática. Além disso, gosto muito de comprar livros, para estudar ou pesquisar um assunto específico. 335 GILBERTO DO VALE RODRIGUES - 52 ANOS Ex-aluno de Química: 1980 - 1982 Data da Entrevista: 07/12/2015 O professor Gilberto atua no Setor de Química do Coltec e foi estudante do Colégio na década de 1980. Em uma conversa preliminar ele me informou que se lembrava de dois de seus professores de Matemática, por isso acreditei que nossa conversa poderia ser proveitosa para pesquisa. De fato, ele trouxe contribuições importantes para o trabalho. Nós nos encontramos em minha sala, no Colégio. Ele levou a foto do seu diploma do curso técnico em Química. O histórico escolar, contido no verso desse documento, ilustrou parte da nossa entrevista. Ao ver os nomes das disciplinas, Gilberto se lembrava de alguns episódios vividos como aluno. Foi muito bom conhecer um pouco mais sobre esse colega de trabalho. Eu nasci em Rondonópolis, uma cidade perto de Cuiabá, no Mato Grosso, em 1964. Juntamente com a minha família, ficamos lá até meados de 1974. Em seguida, nos mudamos para Belo Horizonte. Durante um ano eu estudei, com bolsa, no Izabela Hendrix 305 . Nós éramos muito pobres, não tínhamos dinheiro para nada, mas uma prima, que trabalhava nesse colégio, conseguiu uma bolsa para mim. Fiz a 6ª série nessa instituição, mas fui reprovado. A diferença do nível de ensino da escola onde eu estudava para essa era muito grande. Com isso, fui direto para a Escola Estadual Afonso Pena 306 , que fica em frente ao Detran 307 , onde fiz 6ª, 7ª e 8ª séries. Quando eu estava na oitava série, eu nem conhecia o Coltec. Mas tinha um primo meu que trabalhava na escola, na secretaria, embora eu nem tivesse consciência disso. Quando a minha mãe começou a procurar escolas para mim, ele falou para ela: "Por que ele não tenta lá 305 O Instituto Metodista Izabela Hendrix foi fundado em 1904, por uma missionária da Igreja Metodista do Sul dos Estados Unidos. Inicialmente, seu objetivo era criar uma escola para mulheres brasileiras, com recursos das mulheres americanas. Na década de 1960 o colégio passou a receber matrícula de homens. Em 1972, o Izabela Hendrix ingressou no ensino superior com a criação de uma faculdade. Atualmente, oferece vagas para Educação Infantil, Ensino Fundamental, Médio e Superior. Disponível em: < http://izabelahendrix.edu.br/institucional/historia>. Último acesso em: 26 set. 2016. 306 A Escola Estadual Afonso Pena foi criada em 1907. "Foi escolhido para Patrono do estabelecimento o conselheiro Afonso Pena, proprietário de uma das casas onde até hoje funciona a escola". O prédio da escola foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico de Minas Gerais (IEPHA), em 1983 e se localiza na Av. João Pinheiro, 450, bairro Boa Viagem. Disponível em: . Último acesso em: 26 set. 2016. 307 Departamento de Trânsito, órgão do governo do estado de Minas Gerais, que tem um prédio na Av. João Pinheiro. 336 no Coltec?". Hoje ele é falecido, aposentou-se há muito tempo. Ou seja, eu não tinha noção de como o Colégio Técnico era referência. Logo que eu vim para cá, eu percebi que era uma escola completamente diferente, muito bem equipada, com muitos laboratórios e concursos bem disputados. Nessa época eu compreendi que a escola era relevante no município e talvez no Estado. Eu participei da seleção do Coltec, fiz provas. Na época tinha o pessoal do CP 308 que vinha direto para a escola e havia cotas, mas eu não lembro como elas funcionavam. Eu participei de uma dessas cotas, no entanto não sei como era, se era por renda. Acredito que tenha sido por renda, mas não tenho certeza. Eu lembro que se falava muito a respeito da criação do Colégio, em convênio com o consulado inglês. Tenho notícias de que os britânicos forneceram praticamente todos os equipamentos que utilizávamos nos cursos técnicos. Entretanto, não cheguei a ver especialistas ingleses no Coltec. Nessa época eles já não atuavam no Colégio, eu acho que o convênio da criação já havia se encerrado. Uma coisa curiosa é que, no início do ano, cada aluno recebia um kit emprestado da escola para utilizar nos laboratórios de Química Orgânica. Eram caixas grandes, de madeira, provavelmente feitas no Setor de Madeira do Colégio. Elas continham moldes de isopor e vinham com toda a vidraria que nós precisaríamos em uma prática, eram muito bem equipadas. Os professores falavam que vários dos materiais que vinham nessas caixas eram oriundos da Inglaterra. Nós as deixávamos guardadas no armário, com o nosso nome. No ano seguinte, eram passadas para outro aluno. A escola, desde a sua criação até atualmente tem uma tradição, uma característica, que deverá ser eterna: não possuir alunos fora de uma determinada faixa etária. Isto é, nós nunca tivemos um colega mais velho, mais adulto, todo mundo era, mais ou menos, da mesma faixa etária. Os trotes eram muito puxados, eram impressionantes. Os alunos, praticamente, precisavam vir com a mesma roupa a semana inteira e, posteriormente, jogá-la fora. Não tinha 308 O Centro Pedagógico tem sua origem no antigo Ginásio de Aplicação da UFMG, fundado em 21 de abril de 1954. Em 1958, o Ginásio de Aplicação transformou-se em Colégio de Aplicação, atendendo a uma crescente política de valorização da Educação. Na ocasião, passou a oferecer os seguintes cursos: Ginasial, Científico, Clássico e Normal. A partir de 1968, a UFMG passou por uma reestruturação que afetou também o Colégio de Aplicação e o Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia tornou-se um Centro Pedagógico, integrado à Faculdade de Educação da UFMG, com a função básica de ofertar cursos relativos ao ensino de 1º e 2º graus. Em 1972, o Centro Pedagógico foi transferido para o campus da Pampulha e passou a ter uma escola de 1º Grau, funcionando em prédio próprio. Em 1997, recebeu uma nova denominação: "Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG". Em 2007, o Centro Pedagógico (CP) passou a integrar, juntamente com o Colégio Técnico (COLTEC) e o Teatro Universitário (TU), a unidade denominada Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG. Disponível em: < http://www.cp.ufmg.br/index.php/historico>. Último acesso em: 29 ago. 2016. 337 o que fazer com essa roupa, pois o pessoal jogava até óleo queimado na gente. Era um absurdo o que acontecia, além do que era quase impossível fugir disso. Alguns trotes, por outro lado, eram até interessantes: estudantes que se passavam por professores e começavam a dar aulas falsas e veteranos que pegavam nossas fotos, faziam carteirinha para o circular (transporte/ônibus de uso interno da Universidade), depois pregavam no mural dos "trouxas". Mesmo assim, era uma escola que encantava, por ser completamente aberta. As pessoas não se preocupavam muito se os alunos estavam "matando aula" ou não. Nós tínhamos muita liberdade, mais do que se tem hoje. Com relação à estrutura física, se compararmos o Coltec de quando eu estudei, com hoje, considero que praticamente não mudou. Sofreu algumas reformas apenas. O 3º andar é a mesma coisa, não mudou nada. O local onde atualmente é a Informática era sala de aula. Eu tinha aulas de Química Orgânica lá, inclusive. Havia um hall grande, com uma escada que descia para a secretaria, onde hoje é a Instrumentação. O primeiro andar sofreu algumas mudanças, a reprografia mudou de lugar e um vão muito grande passou a ser ocupado pela parte administrativa. Foram mudanças desse tipo. Quando eu entrei no Coltec, em 1980, eu ainda não tinha definido o curso de Química, pois a gente não o escolhia na seleção. No ingresso no Colégio, listávamos três cursos, por ordem de interesse. Nessa ocasião, a minha primeira opção foi Eletrônica, depois Patologia, e Química teria sido a terceira. Mas ao final do 1º semestre eu já falei: "É Química mesmo, não tenho dúvidas". A disciplina que me impactou, já no início do curso, foi TGL 309 , por ser completamente diferente. Cursávamos essa disciplina durante o primeiro ano de curso. Ela era, praticamente, experimental, com algumas palestras. Nós tínhamos experiências de Física, noções de como montar circuitos em série ou em paralelo, radioatividade, cromatografia, técnicas de pesagem e medição de volumes, algumas análises da Patologia, dentre outros. Era uma matéria oferecida antes mesmo de definirmos o nosso curso. Nesse sentido, ela nos ajudava nessa escolha, pois fazíamos experimentos que tinham a ver com a rotina de trabalho de diferentes áreas. Assim que eu soube que ia participar desta pesquisa e contar sobre a minha experiência no Coltec, fui atrás do meu diploma, que fica organizado na minha gaveta. Lá verifiquei que o meu curso técnico era semestral e que, em um dos semestres, a gente não 309 Técnicas Gerais de Laboratório. 338 tinha a disciplina de Matemática. Coisa mais engraçada. Havia Matemática nos quatro primeiros semestres, pois era considerado o Núcleo Básico do curso. Depois, no 5º período, nós não tínhamos essa disciplina. No 6º semestre ela surgia, novamente, como disciplina técnica, na parte profissional. Talvez apresentasse conteúdos ligados à Química, eu não me lembro. Inclusive, achei muito curioso. A Biologia era a única disciplina de formação geral que se relacionava com o meu curso técnico. Nessa disciplina, nós tínhamos uma espécie de "Introdução à Bioquímica", que era uma matéria da parte profissional. Mas eu não percebia diferenciação, direcionamento para a formação técnica, nas outras disciplinas. Gilberto me apresenta a foto do seu Diploma, que estava em seu celular. Diante das informações contidas nesse documento, ele teceu alguns comentários.Terminada a nossa conversa, ele me enviou estas imagens por email. Figura 67: Diploma de conclusão do curso técnico em Química, de Gilberto do Vale Rodrigues, realizado no Coltec. Fonte: Arquivo pessoal do colaborador. 339 Figura 68: Contracapa do diploma de conclusão do curso técnico em Química, de Gilberto do Vale Rodrigues, realizado no Coltec. Fonte: Arquivo pessoal do colaborador. Cadernos eu não guardei, até porque eu não escrevia muito. Eu prestava muita atenção nas aulas, mas nem tinha caderno direito. Me lembro que fazíamos muitos exercícios e os professores passavam entre a gente tentando ajudar. As salas de aula do Colégio, no terceiro andar, eram compostas por mesas e cadeiras individuais. Os quadros, todos de giz, ficavam ao lado da porta, assim como é hoje. A metodologia das aulas de Matemática seguia mais ou menos um padrão das outras matérias: o professor explicava um pouco sobre o assunto, depois distribuía os exercícios, nós fazíamos em grupos e ele passava tirando dúvidas. Acho que, além das provas, esses exercícios também eram avaliados. Mas não tenho certeza absoluta. "A minhas notas eram péssimas aqui no Coltec. Na época, a nota mínina para aprovação era 50. Não entendo como passei com 54,3, em Matemática, no primeiro semestre. O Artur, da Física, era o diretor. Aí a gente tinha Matemática no 1º, 2º, 3º e 4º semestres, que chamava Formação Geral. E, na Formação Profissional, tínhamos Matemática no 6º período. Essas eram disciplinas que havia na época, algumas com uma carga enorme. Note que 'Prática Profissional' possuía 300 horas. Ela era realizada em todas as tardes, no 6º período. Nós íamos para o Departamento de Química, ou outro local em que pudéssemos exercer a função. Era mais do que um estágio, pois tínhamos um professor responsável. A gente sempre recorria a ele, para repassar o que estava acontecendo. Havia também a disciplina Organização Social e Política do Brasil - OSPB, que era tradicional na época. História e Biologia eram oferecidas apenas no 1º ano de curso. E Geografia no 2º ano inteiro". 340 Eu achava muito interessante a parte de limites e derivadas. Principalmente porque quando eu comentava com os colegas de outras escolas, ninguém tinha a menor ideia do que eu estava falando. Com certeza eu tive aulas com o Jed 310 e com a Tânia 311 . Não consigo me lembrar de outro docente de Matemática. Além disso, não sei relacionar os anos em que tive aulas com cada um deles, ainda mais considerando os cinco semestres em que cursei essa disciplina. Eventualmente, poderia ter muita variação, até de um semestre para o outro, dentro do mesmo ano. Pelo que conversei com a professora Lilian, que atua comigo no Departamento de Química do Coltec, possivelmente, eu fui da última turma do curso semestral. Isso porque ela ingressou no Colégio no ano seguinte em que eu me formei e pegou o curso anual, em 1983. Mas não sei informar se o curso era semestral nos anos anteriores aos que estudei. Por estar na Universidade, eu acho que deveria ser, tal como no Ensino Superior. O Jed era uma figura, muito brincalhão, descontraído, gostava muito dele. Suas aulas também eram descontraídas, menos formais. Eu não consigo nem lembrar o nome dele, era "José alguma coisa". Na prática era "Jed" o tempo todo. Se você perguntar para todo mundo, ninguém irá se lembrar do nome dele. Ou, se disser o nome dele, perceberá que não irão relacionar à pessoa. Talvez tenha sido o docente, dentro da escola, em quem a gente via a menor diferença, na relação professor e aluno. Até por isso, ele também tinha o apelido de "Jedboy". A Tânia era um pouco mais formal, mas também era muito fácil lidar com ela. Na escola em que eu estudei até a 8ª série, por exemplo, nós tínhamos uma distância muito grande com os professores. E isso diminuiu bastante aqui no Coltec, a gente tinha mais acesso aos professores. A gente tinha um laboratório de Matemática aqui no Colégio, era um laboratório de calculadoras, com várias bancadas. As calculadoras ficavam em cima, ligadas direto nas tomadas. Algumas aulas dessa matéria aconteciam nesse ambiente, onde aprendíamos várias operações, como "tangente e cossenos". Essas aulas eram ministradas pelo próprio professor da turma. Recentemente, em uma arrumação do setor de Química, nós achamos duas dessas calculadoras, que eram usadas nessa época. Eu as reconheci imediatamente. Eram da marca 310 José Eloisio Domingos, ou Jed, ou ainda Jedboy, foi professor efetivo do Departamento de Matemática do Coltec de 1970 a 1997. Em seguida, atuou como professor substituto, nos anos de 1998 e 1999. É um dos colaboradores desta pesquisa. 311 Tânia Lima Ayer de Noronha se aposentou do Departamento de Matemática do Coltec em 2002, depois de 23 anos de atuação como docente. Como colaboradora desta pesquisa, Tânia relatou algumas das experiências vividas no período em que lecionou no Colégio. 341 HP. Mas não sei informar como foram distribuídas entre os professores, entre os setores, ou seja, não sei dizer como elas apareceram lá na Química. Também fazíamos uso de ferramentas básicas da Matemática, como régua. Mas não lembro se era material cedido pela escola ou se os estudantes é que levavam. As calculadoras eu tenho certeza que eram do Colégio, porque os alunos não tinham condições financeiras de adquiri-las. Embora eu gostasse de Matemática no Coltec, quando eu prestei o vestibular na UFMG eu tirei zero na prova dessa disciplina. A imensa maioria da minha turma tirou zero. O pessoal era cruel para elaborar essa prova. Faziam questões para ninguém conseguir resolver. Considerando esse resultado no vestibular, eu até achava que as minhas notas em Matemática, no Colégio, eram muito ruins. Ficava lembrando desse zero na prova do vestibular e pensando assim: “Nossa, não devo ter aprendido nada no Coltec”. Concluí que as minhas notas deveriam ser péssimas. Mas quando fui revê-las, recentemente, me surpreendi, percebi que eram boas. No primeiro semestre tirei 54,3, mas depois tirei 80, 90, 86 e 88. Na graduação, na disciplina de Cálculo, praticamente todos reprovavam. Mesmo os alunos da Engenharia Química que, normalmente, eram de um nível mais alto, tiravam zero nas provas. Na turma de Química, apenas um aluno passou em Cálculo, com 60 pontos, os demais repetiram. A dificuldade nessa disciplina era tão generalizada, que eu não considero que tive uma formação diferente dos demais alunos. No dia das provas eu pensava assim: "Será que eu entrei na sala errada?". Porque elas não tinham nada a ver com o que estávamos aprendendo. Depois que eu repeti Cálculo 1, eu fui melhor em Cálculo 2 e nos Cálculos 3 e 4, passei com A, 96 e 95. Na disciplina de Geometria Analítica, também oferecida na graduação, eu percebi que eu e outros colegas do Coltec não conseguíamos compreender conteúdos que estavam relacionados à Geometria, nós não conseguíamos acompanhar. E, nesse caso, os alunos de outros colégios conseguiam compreender. Eu e meus colegas nos deparávamos com conteúdos que não tínhamos a menor noção do que se tratava. Ouvíamos falar de Equação de Circunferência, olhávamos um para o outro, e pensávamos assim: "Como que uma circunferência pode ter uma equação?". E para os outros isso já era tranquilo. No Coltec, a Matemática não era algo impossível. A gente não tinha muitas dificuldades nessa disciplina. Mas a gente estudava muito. Eu realmente reconheço que naquela época eu estudava demais, muito mais do que vejo os meus alunos estudando, atualmente. Mas a rotina de horários era bem diferente. Hoje em dia, tenho a sensação de que a escola vem tentando montar um horário em que o aluno fica dentro da sala de aula durante 342 todo o tempo. No meu tempo, a gente tinha muitas janelas livres, momentos para estudarmos juntos ou conversarmos sobre assuntos diversos no pátio. Um aluno que tinha mais facilidade em uma disciplina ajudava o colega que não tinha tanta facilidade. Esse mesmo aluno era ajudado por outros, de modo que na minha turma tivemos apenas um caso de reprovação. Mas tratava-se de um estudante que era muito desinteressado e faltava muito. No Colégio, nós usávamos poucos livros. Normalmente, a gente tinha apostilas em quase todos os conteúdos. A Química Orgânica e a Química Geral eram exceções, porque adotávamos livros básicos. Na Química Orgânica, o livro utilizado era o mesmo do curso de graduação em Química da UFMG. A gente via o livro inteiro. E na Química Geral era um livro extremamente avançado. Já estive presente em um seminário, inclusive, em que um especialista na área de Educação disse que esse livro era tão avançado que ignorava a parte inicial do conteúdo de Química. Continha experiências muito sofisticadas. Os livros da biblioteca também eram usados para pesquisar coisas extras. Mas a base mesmo eram as apostilas. Um fato curioso era a distribuição de pontos. Apesar da nota mínima para aprovação ser 50, não era mais fácil ser aprovado do que hoje, que a nota mínima é 60. Havia dois bimestres em cada semestre. O primeiro deles valia 25 pontos e o segundo 35. E no final do semestre tinha uma prova, no valor de 40 pontos, com a matéria toda do período. Essa prova era aplicada em uma "semana de avaliações" de todas as disciplinas. Os demais pontos eram distribuídos entre avaliações e exercícios ao longo dos bimestres. No segundo bimestre, por exemplo, era muito comum termos 15 a 20 pontos de provas, dentro dos 35 pontos totais. No caso da Química, tínhamos muitas práticas e aulas de laboratório que geravam muitos relatórios, que eram avaliados. Não ouvia ninguém comentando sobre a ditadura, ou pelo menos, não era algo que me chamava a atenção. Nem mesmo da parte do Departamento de Ciências Sociais, que lecionava História, Geografia e Organização Social e Política do Brasil. Na verdade, eu não me lembro bem. Em 1982, eu conclui o curso técnico de Química. No 4º ano eu fiz o estágio, quando atuei na minha área de formação. Mas o meu diploma é de 1983, porque a gente recebia apenas um certificado, ao final do 3º ano, que possibilitava o nosso ingresso na UFMG. Como quase todo mundo passava direto no vestibular, nós conseguíamos esse documento para matrícula. No entanto, o diploma mesmo é datado de 1983. A gente só concluía formalmente o curso depois do estágio. 343 A princípio, eu e minha família tínhamos uma expectativa de que o curso técnico me oportunizaria conseguir algum emprego, afinal, a gente era muito pobre e precisávamos de renda. Só que eu sempre tive a intenção de continuar os estudos. Mesmo não tendo me dedicado muito no começo da minha formação, eu pretendia ir em frente o máximo que desse. Dessa forma, eu fui procurando alternativas para ganhar dinheiro, como bolsas de estudos da FUMP 312 . Com essa assistência eu tinha alimentação gratuita e recebia uma bolsa durante todo o curso do Coltec, que precisei restituir um ano depois de formado. Na graduação eu consegui atuar em um projeto de iniciação científica, com bolsa, que já era suficiente para eu me manter. Comecei a graduação no primeiro semestre de 1983. Eu fiz bacharelado em Química na UFMG. No primeiro ano desse curso eu fazia o estágio obrigatório do Coltec, em laboratório de pesquisas, também no Departamento de Química da Universidade, no mesmo lugar em que eu fiz a disciplina "Prática Profissional". Atuei como auxiliar de técnico de Química, orientado por um pesquisador. Em julho de 1987 eu concluí o bacharelado em Química. Faltavam apenas quatro disciplinas para eu completar a licenciatura em Química. Mas, nesse período, fiz a seleção do mestrado, fui selecionado e decidi não concluir a licenciatura. Essa pós-graduação foi no mesmo laboratório em que eu fiz o estágio, onde sempre trabalhei com Química Orgânica. Na verdade, o mestrado era em Ciências, mas vinha com uma observação: "Área de Química Orgânica". Ou seja, eu comecei nesse laboratório com a disciplina "Prática Profissional", aí eu me formei no Coltec e fui para lá fazer estágio, nesse mesmo local. Depois, fui emendando atividades nesse laboratório, como bolsas de iniciação científica, vinculadas ao CNPq 313 . Posteriormente, entrei para o mestrado, para continuar o trabalho, nesse mesmo laboratório. Em 1997, eu fiz concurso para professor do Departamento de Química da UFMG e passei a lecionar no Coltec. Desde aquele ano, eu sou lotado na Química, com exercício no Coltec. 312 A Universidade foi criada, em 1927, com o nome de Universidade de Minas Gerais (UMG ). O ensino era pago, o que impulsionou o surgimento de assistências estudantis, apoiadas pela primeiro reitor, Francisco Mendes Pimentel. Em 1929 é criada a Associação Universitária Mineira (AUM), primeira estrutura de assistência estudantil da UMG. Em 1936, a Assistência Universitária Mendes Pimentel (Aump) assume as atividades de assistência da UMG. Em 1965, a Universidade passa a adotar o nome Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 1973, a Aump se torna Fundação Universitária Mendes Pimentel (Fump), instituição sem fins lucrativos, que tem a missão prestar assistência estudantil aos alunos de baixa condição socioeconômica da UFMG. Disponível em: .Último acesso em: 26 set. 2016. 313 Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. 344 JENNER KARLISSON PIMENTA DOS REIS - 50 ANOS Ex-aluno de Patologia Clínica: 1981 - 1983 Data da Entrevista: 16/12/2015 Após enviar um email a um grande número de ex-alunos do Coltec, obtive o retorno do professor Jenner, que atua na Escola de Veterinária da UFMG. Ele foi muito solícito, informando a sua disponibilidade e agendando o nosso encontro. Fiquei muito grata. Naquele momento, eu não sabia que se tratava de um ex-professor do Colégio. Quando o vi, logo o reconheci. Não me lembro de termos conversado antes desse encontro, mas Jenner é uma pessoa familiar para mim no ambiente da escola. Conversamos em uma sala do Setor de Matemática. Ele trouxe, para me emprestar, um livro, utilizado na disciplina Bioestatística no período em que foi aluno do Colégio. Um fato curioso ocorreu nessa ocasião. Jenner, inicialmente, se lembrou apenas do nome de uma professora de Matemática do Coltec. Em seguida, quando mencionei outros nomes, alguns lhe pareceram conhecidos. Quando concluímos nossa conversa, ele desceu e, ao passar pelo hall do Colégio, avistou no teto, a caricatura de um de seus ex-professores de Matemática. Trata-se de um desenho, aparentemente realizado por ex-alunos. A legenda,"1- Berto", refere-se ao professor Luiz Humberto, um dos entrevistados para esta pesquisa. Jenner retornou à minha sala e pediu para complementar a nossa conversa, informando que o seu professor, no segundo ano, tinha sido ele. No ano de 1981 eu entrei no Coltec, no curso de Análises, Patologia Clínica, e em 1983 eu me formei. Para acessar o Colégio eu fiz a prova de seleção. Eu acho que as vagas eram separadas por cotas, de acordo com a renda dos candidatos, com algumas categorias assim: A, B e C, não me lembro bem. Quando eu me formei, atuei como técnico por mais ou menos dois anos. Inicialmente, eu fiz estágio no Hospital da Previdência (IPSEMG), onde fiquei por seis meses. Em seguida, fiquei sabendo que estavam precisando de um técnico lá no ICB (Instituto de Ciências Biológicas da UFMG), no laboratório de pesquisa em virologia. Aí eu fui para lá, passei no teste de seleção, concluí o meu estágio no laboratório e fui contratado para continuar trabalhando lá, como técnico, por uns dois anos. 345 Foi a Fundep 314 que me contratou como técnico, porque esse laboratório participava de um projeto grande, que trabalhava com uma proteína chamada Interferon, que, na época, foi considerada como uma possível cura para o câncer e outras doenças virais. Esse laboratório tinha muitos financiamentos para pesquisa, pois o pesquisador responsável, o Professor Romain Roland Golgher 315 , era muito renomado. Posteriormente, eu ingressei na UFMG, no curso de Farmácia, me formando em 1989. Durante a graduação, eu participei de um Projeto de Iniciação Científica, nesse mesmo laboratório. Lá eu acabava fazendo um pouco do trabalho de técnico, de manutenção das atividades básicas do laboratório. Além disso, realizei a minha pesquisa de mestrado, concluída em 1993, nesse laboratório. Logo depois, comecei o doutorado, vinculado à Escola de Veterinária da Universidade, em que trabalhei com viroses dos animais. Em 1995, eu fui professor substituto do Coltec, atuando no curso de Patologia Clínica. No ano seguinte, eu passei em um concurso da UFMG, na Faculdade de Farmácia, mas continuei, por algum tempo, lecionando no Coltec. Em 1997, eu defendi o meu doutorado. Depois, fui para os Estados Unidos fazer o pós-doutorado, em 2001 e 2002, na Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia. Posteriormente, em 2009 e 2010, retornei, em outro estado americano, o Kentucky, para fazer outro pós-doutorado. Como aluno do Coltec, eu soube muito pouco a respeito de sua criação, em convênio com a Inglaterra, a partir de comentários de alguns professores. Eu só fui ler, saber mais a respeito, quando eu virei professor. Na época em que eu estudei não havia mais ingleses na escola. Além disso, trabalhávamos com materiais trazidos pelos ingleses. Todo o curso de Análises Clínicas contava com equipamentos que eram, a maioria, da Inglaterra. Os microscópios do Colégio que funcionam melhor até hoje são os da Inglaterra. O Coltec já comprou vários depois, mas são ruins, estragam facilmente. Os britânicos trouxeram, ainda, um aparelho chamado Micrótomo, com uma navalha não descartável, responsável por fazer 314 A Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa - Fundep, surgiu na 1975, a partir de uma mobilização de pesquisadores, dos Institutos de Ciências Biológicas (ICB) e de Ciências Exatas (ICEX), para criar uma instituição que auxiliasse na captação de recursos financeiros junto às agências de fomento brasileiras e internacionais. A Fundep realiza a gestão de projetos de ensino, pesquisa e extensão da UFMG e de outras instituições. Disponível em: . Último acesso em 05 out. 2016. 315 Romain Rolland Golgher foi presidente e sócio fundador da Sociedade Brasileira de Virologia. Graduou-se em Medicina na UFMG e concluiu o seu doutorado em Ciência (Microbiologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lecionou na UFMG, de 1962 a 1990, e foi Chefe do Laboratório de Vírus do Departamento de Microbiologia dessa instituição, de 1962 a 1992. Pesquisador 1A do CNPq de 1976 a 2008 e Diretor Administrativo da Viriontech de 2003 a 2005. Faleceu em setembro de 2012. Disponível em: < http://www.sbv.org.br/site/destaques_det.php?id=27>. Último acesso em: 18 out. 2016. 346 cortes em tecidos de animais. Ele acompanha um dispositivo para amolar essa navalha. Os micrótomos atualmente possuem navalhas descartáveis. Havia também estufas e vários outros equipamentos, tudo dos ingleses. No período em que estudei no Colégio Técnico, eu percebia que a escola era mais integrada à Universidade. Isso era evidente para mim, pois os movimentos estudantis passavam pelos alunos do Coltec. No final do Regime Militar, havia muitas reuniões em que o Colégio participava ativamente. Eu acho que ele era bem mais integrado à Universidade. Tenho lembranças de reflexos da Ditadura, nesse período. Recordo que um colega do Colégio foi preso. Ele desaparecia, ficava uma semana sumido; quando voltava, ficávamos sabendo que tinha sido preso. Contava com certo orgulho, né!? Mais de um colega, na verdade. Tínhamos alguns líderes lá no Coltec. Em especial, tinha o Marcos, "Marquinhos", conhecido por Jesus, por ser cabeludo e barbudo. Aliás, todos os contrários ao regime militar eram assim, tinham barba e cabelo comprido. Algumas vezes, chegava um dos líderes de movimentos, aluno do Colégio, interrompia a aula e nos convidava para realizarmos uma passeata rumo à reitoria. O professor encerrava a aula e saía todo mundo. Tinha muita passeata dentro da Universidade, iam para a reitoria, invadiam seu prédio, acampavam lá, várias vezes. Ou invadiam o restaurante da UFMG, tomavam conta e até cozinhavam. Ficavam uma semana lá. Eu não participei muito, porque eu não tinha jeito para a coisa. Mas eu acompanhei de longe. Como vim de um colégio mais tradicional, o Loyola 316 , eu achava o Coltec muito diferente. Eu tinha medo de participar dos movimentos, pois a polícia era muito violenta. Nós tínhamos notícias de alunos presos e machucados pelos policiais, então acredito que não me envolvia por medo. Recordo que, em uma determinada época, a Polícia Militar foi até o bambuzal, em frente ao Colégio, e prendeu alguns alunos que iam para lá usar droga. Não sei se tinha relação com a Ditadura, talvez tenha, porque os militares, nessa época, ficavam procurando razão para prender. Mas a maioria das manifestações contra a Ditadura ocorria fora da Universidade, no centro da cidade. Também tivemos uma disciplina chamada ON, Organizações e Normas, oferecida por uma professora muito boa e marcante, a Janine. Mas ela não falava muito sobre a Ditadura, não que eu me lembre. 316 O colégio católico Loyola foi criado na cidade de Belo Horizonte, em 1943. No início eram apenas 33 alunos. Posteriormente, na década de 60, chegaram as primeiras meninas. Atualmente, o Colégio conta com cerca de 2600 alunos do Ensino Fundamental ao Ensino Médio. Disponível em: < http://www.loyola.g12.br/>. Último acesso em: 31 ago. 2016. 347 O Coltec era muito liberal, não exigia o uso de uniformes pelos alunos e podíamos sair da sala durante as aulas. Nós tínhamos muita independência. Quem tivesse uma cabeça boa, soubesse usufruir dessa independência, aproveitava bem. Eu tive amigos, colegas meus, que fumavam maconha dentro da sala de aula. Tinha turmas grandes, ocupando salas enormes, o aluno ia lá para o fundo fumar. Naquela época, era muito comum fumar, muitas pessoas fumavam cigarro. Inclusive, professores fumavam durante as aulas, muitos deles. O cigarro, antigamente, era muito ligado ao status; as propagandas desse produto eram realizadas com pessoas bonitas, aparentemente bem sucedidas. Mesmo sendo menores de idade, os alunos do Colégio Técnico fumavam e bebiam. Rolava de tudo. As festas eram bem pesadas, muitas drogas, muito sexo, muita bebida, muito mesmo. Eu ficava meio de longe, meio assustado, pois achava tudo muito diferente. Era muito exagerado. Na minha época, houve alunos que foram expulsos porque tiraram a roupa e andaram pelados no meio do Colégio. Também tinha trotes bem violentos. Hoje é bem diferente. Se, por um lado, hoje a escola está mais organizada, por outro lado, os alunos têm menos participação política, menos consciência sobre a instituição, a respeito do Colégio, do país. Naquele tempo, as pessoas eram mais envolvidas. Se acontecesse alguma coisa que tivesse alguma repercussão para os alunos, todos iam para a direção, interrompiam as aulas e iam lá solucionar. Não havia uma resolução que não tivesse alguma participação dos alunos. Atualmente, decidem-se coisas no Conselho Diretor, nos órgãos do colegiado, na direção, e os alunos não estão nem sabendo do que se trata, estão completamente apáticos. Alguns estudantes até se dizem revolucionários, criticam o capitalismo, influenciados pela fala de algum professor, mas quando o questionamos: "Você sabe o que está acontecendo dentro da sua escola?", eles não sabem. Então, que revolucionário é esse? Nós éramos mais revolucionários. Em relação às salas de aula, eram compostas por cerca de 40 alunos. Mas a minha turma, de Patologia, tinha 30 alunos. Havia duas turmas de Patologia, com 30 alunos cada. A grande maioria concluía o curso e fazia vestibular. Passavam facilmente em vários cursos e até hoje os estudantes do Coltec são aprovados. No curso de Patologia, fazíamos a disciplina Bioestatística, vista no segundo ou terceiro ano de curso, não tenho certeza. No meu ano ela foi ofertada pelo professor Luiz Humberto 317 , do Departamento de Matemática. Eu percebia que ele tentava relacionar os 317 Luiz Humberto Pinheiro, professor de Matemática do Coltec de 1970 a 1991, é um dos colaboradores desta pesquisa. 348 conteúdos que ensinava com o curso técnico, a partir de projetos interdisciplinares. Isso é algo que não deveria acabar. Essa disciplina era voltada para a saúde pública, dessa forma, nós sabíamos tudo sobre prevalência, ocorrência, frequência, sensibilidade, todos os índices da saúde pública. Nós aprendíamos não apenas a calcular esses elementos, como a compreender o que eles representavam. Ou seja, havia uma integração, o ensino era bem focado no profissional. Inclusive, nós tínhamos Geografia apenas no primeiro ano, História somente no segundo e ON no terceiro. Essas matérias não eram vistas em todos os anos. Hoje a carga horária é maior, aumentaram os conteúdos, mas não sei se a formação melhorou. O curso de Física era composto de muitas aulas experimentais. Mas era uma Física mais básica; uma coisa ou outra a gente aproveitava na Patologia, como o estudo sobre os ultrassons. Também conseguíamos fazer associações do conteúdo de Ótica, quando utilizávamos microscópios. Mas na Física não tinha nada dirigido para a Patotologia. Também tínhamos poucas aulas de Química. De modo geral, a maioria das aulas eram próprias do curso de Análises Clínicas. O currículo era cheio, com muitas aulas. Nós ficávamos o dia inteiro no Colégio. A Tânia foi minha professora de Matemática no primeiro ano. E no segundo ano foi o professor Luiz Humberto, cuja caricatura está desenhada no teto do hall do Colégio. Também acho que tive aulas com o Abdala 318 e o Gil 319 ; se tivesse foto eu poderia confirmar. No setor de Patologia havia muitas fotos antigas da escola, mas não sei se alguém guardou. Eu mesmo gostava de preservar essas fotografias, valorizava isso quando fui chefe de setor. Como eu tinha um vínculo muito forte com o Coltec, e ainda tenho, eu guardava. Não sei se as pessoas mantiveram isso. Quando passei a lecionar no Colégio, eu trabalhei com alguns dos meus ex- professores, como a professora Elza Santiago Erichsen 320 . Recordo que ela me disse: "Olha, cuida bem desse material, porque isso aqui é a história que a gente construiu". Então eu separei um arquivo só com essas coisas do Colégio, mas eu não sei se ainda é conservado, talvez a Cláudia 321 possa saber. 318 Abdala Gannam atuou no Departamento de Matemática do Coltec no período de 1970 a 1992. É um dos colaboradores desta pesquisa. 319 O professor Francisco Bastos Gil, conhecido por "Gil", lecionou no Departamento de Matemática do Coltec na década de 1980. Ele é um dos depoentes desta pesquisa. 320 Elsa Santiago Erichsen é professora aposentada do Setor de Análises Clínicas do Coltec. Ela é uma das autoras do livro "Medicina laboratorial para o clínico", publicado pela Editora Coopmed, em 2009. 321 "Cláudia Natália Ferreira possui graduação em Farmácia-Bioquímica (1990) pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestrado (1998) e doutorado (2010) em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente é professora da Carreira de Magistério do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do 349 Nas aulas de Matemática, utilizávamos textos que os professores distribuíam, material impresso, mimeografado. Não lembro de ter apostila, acho que eram folhas avulsas. Eu posso tentar resgatar esse material, em uma caixa que guardo do período em que estudei no Coltec. Tenho caixas de todas as fases da minha vida. Inclusive eu guardei esse livro, de Bioestatística (figura a seguir). Mas não sei se vou achar outro material de Matemática, talvez encontre um caderno. De Análises Clínicas eu sei que guardei. Figura 69: Capa do livro intitulado: Bioestatística; saúde pública, de autoria de Carlos Henrique Mudado Maletta e Lídia Luzia Brandão. Publicado em Belo Horizonte, pela Cooperativa Editora e de Cultura Médica Ltda, em 1981. Eu me lembro das aulas de Matemática, no laboratório do 3º andar. Lá tinha calculadoras de última geração para a época, talvez até para os dias de hoje. Mas não sei se elas existem ainda; eram muito boas. Nós podíamos utilizar essas calculadoras para resolver exercícios. Além disso, a gente usava essas coisas: régua, compasso, esquadro. Comumente fazíamos exercícios em grupos, nas aulas dessa disciplina. Tinha muitos exercícios, muitos mais contextualizados do que de calcular. O Colégio fazia muito isso, priorizava problemas contextualizados. Os professores faziam exposições no quadro também. Geometria era o conteúdo de que eu menos gostava, em Matemática. A gente via muito pouco, não aprofundava. Já Estatística, aí eu gostava, porque tinha a ver com o meu curso. Eu gostava deste livro, tanto é que guardei ele [mostrando o livro trazido para a conversa]. Fazíamos muitos gráficos, em papel milimetrado, gráfico de barra, pizza. Não cheguei a lecionar esses conteúdos, mas fazia revisões com os alunos, falava um pouco de ocorrência, prevalência, frequência, sensibilidade, especificidade, o significado dos Setor de Patologia Clínica do Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais". Disponível em: < http://www.escavador.com/sobre/5256227/claudia-natalia-ferreira>. Último acesso em: 31 ago. 2016. 350 testes. Comentava, ainda, sobre taxa de natalidade, mortalidade e planos de saúde pública. Os estudantes achavam muito interessante. A Matemática era uma disciplina tranquila, era pouco problemática, talvez devido à metodologia. Eu não lembro de ter muita gente reprovada por causa da Matemática. Particularmente, eu gostava de Matemática, ia bem nessa disciplina, passava com boas notas. No entanto, eu tinha dificuldades em Português, sempre tive. Mais tarde, como professor do Coltec, me lembro que o professor Chicão 322 , do Departamento de Matemática, desenvolvia projetos juntamente com outros docentes de Análises Clínicas. Então, por exemplo, os alunos coletavam amostras, dados sobre a qualidade do leite UHT, aquele de caixinha, em seguida, o Chicão os ajudava a organizar e analisar essas informações utilizando ferramentas da Estatística. 322 Francisco de Assis Batista, conhecido como Chicão, lecionou no Coltec da década de 1990 até o ano de 2010, quando se aposentou. Infelizmente, não conseguimos contato com esse professor para participação nesta pesquisa. 351 POLIANA - 49 ANOS Ex-aluna de Química: 1981 - 1983 Data da Entrevista: 18/01/2016 Era 29 de dezembro de 2015 quando Poliana respondeu a minha mensagem. No email ela informou que possuía apostilas de Matemática do período em que estudou no Coltec. Fiquei muito entusiasmada, pois, afinal, foi a única colaboradora que informou ter material do Colégio guardado. Em janeiro, agendamos nossa conversa no seu local de trabalho, o Departamento de Química da UFMG, onde atua como docente. Cheguei facilmente à sua sala, que é muito próxima ao Colégio. Trata-se de um gabinete comum de professor universitário, com estantes de livros, computador e vários documentos sobre a mesa. Ela me recebeu com muita simpatia, ajeitando um local para nos sentarmos. Contei a ela sobre a minha proposta de pesquisa, a respeito da escolha dos colaboradores e lhe disse que poucos ex-alunos haviam se interessado em participar até aquele momento. Segundo Poliana, é possível encontrar muitos ex-alunos nas redes sociais, pois eles formam grupos de contato para reencontrar amigos e relembrar acontecimentos vividos no Coltec. Ela ainda mantém contato com vários colegas "ex-Coltecanos", como costumam se intitular. Poliana me disse que tem o hábito de guardar materiais de estudo e trabalho e que possui duas caixas de papelão grandes relativas à época em que foi aluna do Colégio Técnico. No entanto, quando procurou nesse material, não encontrou apostilas de Matemática. Segundo a professora, possivelmente as jogou fora devido à experiência ruim que viveu com essa disciplina. Além disso, como a metodologia usada em Matemática requeria o uso de apostilas, com espaços para respostas dos problemas, Poliana julga que, praticamente, não fazia registros em cadernos. Encontrou apenas algumas notas e cálculos em espaços espalhados em outros cadernos. Peguei todo esse material emprestado para me auxiliar na produção desta textualização. Ingressei no Coltec em 1981, no curso de Técnico em Química, mas não obtive o diploma porque eu não concluí o estágio obrigatório. No quarto ano do colégio, ano em que faria o estágio, eu ingressei no curso superior. Quando terminei o terceiro período da faculdade, tranquei a matrícula para fazer o estágio curricular do Colégio Técnico e me 352 certificar. Mas, quando entreguei o relatório final, havia algumas coisas para completar que eu nunca finalizei. Então eu abri mão do diploma de técnico e fiz a graduação na Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. No concurso que fiz para ingressar no Colégio, participei de um sistema discreto de cotas, que considerava a renda familiar. Eu era pobre, não podia pagar escola particular. Como o Coltec era muito reputado, a minha mãe me incentivou a fazer a prova de seleção. Eu não fiz cursinho para ser aprovada, embora soubesse da existência de alguns cursos preparatórios nessa época, como o Orvile Carneiro 323 . No entanto, eu tinha uma boa formação de 5ª à 8ª série, pois estudei no Colégio Anchieta 324 , onde eu tinha uma bolsa de estudos, já que era muito boa aluna. Eu acho que foi o sistema de cotas e essa escola que me fizeram passar no Coltec. A minha graduação foi no curso de Farmácia. Essa escolha tem a ver com a Matemática; depois vou explicar porque eu fiz esse curso e não Química. Em seguida, fiz mestrado e doutorado em Química Orgânica. Tenho uma vaga lembrança de indícios da criação do Colégio, em convênio com a Inglaterra. Apenas me recordo que havia algumas ferramentas inglesas nas oficinas de hialotecnia e madeira. Era uma escola experimental, em que todo mundo ansiava por estudar ou ter um filho que estudasse, pois era bem considerada. Os laboratórios, todos muito equipados, eram o seu diferencial. Dentro da universidade, todos sabiam que o Coltec era bom. Nos anos em que estudei no Colégio, a Ditadura Militar estava quase no fim. Mas eu não percebia movimentos relacionados a esse regime, pois era muito imatura, quase nada politizada. Alguns professores apresentavam alguns discursos relacionados, mas muito poucos. Também não recordo da participação de nenhum colega. O entorno da escola era diferente do que se vê hoje em dia; havia uma vegetação enorme, o prédio do Colégio era cercado por muita área verde, muita grama. Parecia um parque todo arborizado. Os estudantes ficavam todos ali naquele gramado, no horário do 323 Em 1961, o curso Orvile Carneiro foi criado em Belo Horizonte, para preparar alunos interessados em ingressar na Escola Técnica Federal de Minas Gerais, hoje Cefet-MG. Em seguida, ampliou sua oferta de cursos, passando a atender também estudantes que pretendiam ser selecionados no Coltec e em outros diferentes concursos públicos. Disponível em: < http://cefet.orvilecarneiro.com.br/cefet.php>. Último acesso em: 21 set. 2016. 324 Newton de Paiva Ferreira criou, em 1935, junto com um grupo de amigos, a Escola Livre de Direito. Dali surgiu o Colégio Anchieta, um dos pioneiros estabelecimentos de ensino secundário de Minas Gerais, localizada na esquina da rua Tamoios com a avenida Olegário Maciel. Disponível em: < http://www.camara.gov.br/sileg/integras/313144.pdf> e . Último acesso em: 06 out. 2016. 353 almoço. Ou matando aulas em cima das árvores. Atualmente, nessa área, nem tem mais árvore para matar aula. Não tinha o anexo novo do edifício da Química, ou esses outros, tudo era repleto de árvores. O pessoal ficava sob as árvores, tocando violão, matando aula, fumando cigarro... Todo esse cenário me surpreendeu muito quando entrei nessa instituição. Eu vinha do Colégio Anchieta, que possuía uma disciplina rigorosissíma, onde os alunos precisavam descer as escadas segurando no corrimão. Chegando ao Coltec, vejo estudantes com os pés para cima, fumando ali, logo na primeira fila de carteiras da sala. No gramado, alguns alunos se drogavam, inclusive. Isso era muita liberdade para minha cabeça. Nossa! Eu fiquei boba de ver que alguém poderia ter essa postura. Além disso, professores e alunos saíam e voltavam da sala, durante as aulas. Era uma coisa gritante para mim, era muito diferente, totalmente fora do normal para mim. Foi outro mundo. Em relação ao ensino do Coltec, vale salientar que era muito teórico, com o uso de apostilas selecionadas. A maioria dos professores eram muito bons, excelentes, mas, nem sempre relacionavam a teoria com a aplicação dos conteúdos. Nesse sentido, considero que o ensino era bem acadêmico, embora existissem muitas aulas práticas onde o aluno podia realizar experimentos, manipular, testar. Provavelmente, naquela época, nenhuma outra escola do estado oferecia uma oportunidade tão grande para alunos realizarem tantos experimentos práticos.A Química Orgânica, por exemplo, foi uma disciplina que me marcou, pois acabei seguindo meus estudos nessa área, e era apresentada a partir de livros adotados em cursos de graduação na Universidade, ou seja, era um ensino muito acadêmico. Apesar disso, o ensino técnico era percebido em algumas disciplinas específicas de cada curso. O estudante que se formava no Colégio era muito bem aceito no mercado de trabalho, porque o conhecimento teórico era valorizado. A reputação do Coltec e do Cefet/MG 325 era de formarem os melhores técnicos. Em todos as empresas, os formados pelo Colégio Técnico eram respeitados, tanto que tenho amigos que trabalham como técnicos a vida toda, que se deram muito bem nessa profissão e que são melhor remunerados que professores universitários. Apesar do ensino acadêmico, quando eu fiz um concurso para atuar como técnica em Química eu fui aprovada. A prova desse concurso era muito prática, envolvia abertura de 325 O CEFET-MG foi fundado em 1909, como Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais. Posteriormente, assumiu outras denominações até ser denominado Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, CEFET - MG. Atualmente, atende a capital e outras oito cidades do estado. Oferece cursos desde técnico de nível médio até curso de doutorado. Disponível em: < http://www.cefetmg.br/textoGeral/historia.html>. Último acesso em: 23 ago. 2016. 354 amostras, entre outras ações que eu já tinha realizado no Colégio, que eu já dominava. E depois, quando fiz o estágio na Funed (Fundação Ezequiel Dias), percebi que meu desempenho estava muito acima dos outros estagiários. Na disciplina de Matemática, estudei com os professores Luiz Humberto e Tânia. Eu achei alguns cadernos do período em que estudei lá, onde identifiquei o nome desse professor, mas não me lembro dele, não lembro da pessoa, não me marcou. Agora, o terceiro ano foi traumatizante, quando tive aulas com a Tânia, esse eu me lembro. Ano passado, quando eu fiz concurso para professor titular aqui da UFMG, eu precisei escrever um memorial. Para isso, eu resgatei todo o material que eu tinha guardado, desde o pré-primário. Eu fui ao sótão da minha casa e encontrei duas caixas grandes com materiais do Colégio Técnico, onde aproveitei algumas coisas de Química para incluir no memorial. Quando fui procurada para participar dessa pesquisa, eu logo pensei: "eu tenho material, tenho certeza que eu tenho o material". No entanto, depois de mais de duas horas procurando, não encontrei apostilas de Matemática. Nós, praticamente, não usávamos caderno, pois eram poucas as aulas expositivas, e escrevíamos tudo nas apostilas dessa disciplina. Fazíamos apenas notas e contas no caderno. Encontrei apostilas de todas as disciplinas, menos de Matemática. Talvez eu tenha jogado fora, de raiva. A propósito, vou contar sobre a minha indignação em relação à Matemática, no período em que estudei no Colégio Técnico. Como eu disse, eu só não fiz graduação em Química, na UFMG, por causa do curso de Matemática do Coltec. Até a 8ª série eu era muito boa nessa disciplina, era aquela que gabaritava o professor. Quando cheguei no Colégio, eu não sei o que aconteceu, mas passei a não gostar de Matemática. Em especial, o terceiro ano foi horrível! Nesse período teve uma greve muito longa e não vimos alguns conteúdos, como logaritmo. Fiz vestibular sem saber isso. Além disso, a metodologia da professora Tânia era assim: ela chegava, sentava lá na frente, entregava as apostilas aos estudantes e dizia que se o aluno tivesse dúvida, deveria ir até ela, pois ela não iria nas carteiras. O atendimento era individual. Não havia correções no quadro. Como eu era muito tímida, não a procurava. Esse período foi muito traumatizante para mim. Eu tive dificuldades de compreender todos os conteúdos do terceiro ano, como Trigonometria. Como ouvia falar que os meus colegas de Química que ingressavam na UFMG, também no curso de Química, eram reprovados nas disciplinas de Cálculo e Geometria Analítica, por uma, duas ou até três vezes, eu decidi fazer Farmácia. Eu reconhecia que gostava de Química, mas não possuía uma boa formação em Matemática. 355 No curso de Farmácia eu era uma aluna muito dedicada, eu corria atrás de conceitos "A". Em seguida, fui selecionada no mestrado em Química, na UFMG, em que precisei cursar Cálculo I e Cálculo II. Na primeira prova eu tirei três em trinta e três!! Estudei e fui aprovada, pois tinha mais maturidade. No entanto, considero que a Matemática foi um trauma na minha vida, devido ao período em que estudei no Coltec. Das aulas do professor Luiz Humberto eu não me recordo bem, mas deviam ser parecidas, pois não guardei caderno dessa disciplina. Eu tenho cadernos das outras disciplinas, mas de Matemática eu só tenho algumas folhas soltas. Possivelmente, porque eu fazia tudo nas apostilas. Também não me lembro de utilizar livros em nenhuma disciplina. Comumente sentávamos em grupos nas aulas de Matemática. Também utilizávamos uma sala com bancadas e banquetas, onde havia calculadoras científicas. Mas não me lembro de outro recurso nessas aulas, como compasso; acho que não usei. De forma geral eu tinha um bom relacionamento com os professores do Coltec. Eu sou a favor de que discentes e docentes tenham um bom envolvimento na sala de aula. Às vezes, inclusive, sou professora homenageada de alguma turma, pois mantenho uma relação aberta com meus alunos; acho que isso ajuda no aprendizado. Apesar disso, eu achava a professora Tânia muito fechada. Ela era muito bonita e os alunos eram fascinados por ela. Acredito que ela dava mais atenção a eles, pelo menos é a lembrança que tenho. Tânia entrava na sala e sentava-se assim, muito na dela. Eu, por outro lado, menina, adolescente, optava por ficar isolada. Apesar desse trauma, minhas notas de Matemática não eram péssimas. Quando encontrei meus boletins, pensei: "Aposto que minhas notas em Matemática são ruins". Mas a menor delas foi 18,5, no total de 25. O nível de exigência também não era muito alto; era condizente com a aula, porque eu passava. Eu gostava de resolver aquelas equações facinhas do início do curso. Mas trigonometria e logaritmo foram meus traumas. A greve também dificultou, tivemos pouco tempo para aprender esses conteúdos. Outros colegas, como o Marcelo, técnico da Petrobrás, que era ótimo em Matemática, pode dar outra visão. Nós dois disputávamos notas. Eu lembro que tirei nota baixa em Matemática no vestibular. Eu fechei a prova de Química, mesmo não tendo realizado cursinho. No curso de Química do Coltec você aprende muito. Você aprende mais Química do que os meninos que já estão na graduação, no primeiro e segundo ano. Mas não fui bem em todas as matérias. Biologia mesmo, eu não sabia o que era meiose ou mitose. Como tivemos greve, não vimos todo o conteúdo. 356 Percebia, ainda, que havia relação da Matemática com os cursos técnicos. Estudávamos "algarismos significativos", por exemplo, o que nos ajudava na produção de relatórios do curso de Química. Poliana passou, então, a me apresentar os seis cadernos (numerados pela pesquisadora, na ordem em que foram digitalizados) que ela guardou do período em que estudo no Coltec. Figura 70: Capa e duas folhas do Caderno 6. Fonte: Arquivo pessoal da professora Poliana. Figura 71: Primeira página do Caderno 3. Fonte: Arquivo pessoal da professora Poliana. "Tem esse aqui, acho que esse aqui é do primeiro ano também. Tem até as notas, olha. Matemática, 16,5. O meu curso era anual porque as minhas notas eram bimestrais". " Você vai ver que tem pouquíssima coisa. Eu não entendo como eu era tão desorganizada. Eu percebi que eu anotava as aulas de acordo com que elas iam acontecendo, eu não separava os cadernos por disciplina. Aqui era Português [mostrando algumas páginas do caderno]. Aqui já era aula de metodologia científica [continuando a folhear o mesmo caderno]. Aí já começou Física. As coisas de Matemática eram tudo soltas". 357 Figura 72: Capa, primeira página e duas folhas do Caderno 1. Fonte: Arquivo pessoal da professora Poliana. Figura 73: Três páginas do Caderno 3. Fonte: Arquivo pessoal da professora Poliana. "Esse outro aqui já tem mais coisas: exercícios que parecem ter sido dados no quadro, tá vendo? Estudar o sinal de f(x), números complexos. Nele tem várias contas em folhas soltas. E aqui: Achar os zeros, as raízes das funções". "Olha esse aqui. 'Matemática, professor Luiz Humberto' [lendo]. Acho que era de 82, porque a Tânia com certeza foi no 3º ano. A parte de Química Orgânica, por exemplo, é toda bonitinha, tem tudo. Aí quando eu chego em Matemática, tem só isso aqui. Aí fala assim: 'função definida por partes, ver apostilas' [lendo]. Tudo era dado na apostila. Depois fala de função quadrática e aí acabou o caderno de Matemática". 358 Figura 74: Duas páginas do Caderno 5. Fonte: Arquivo pessoal da professora Poliana. Figura 75: Três páginas do Caderno 4. Fonte: Arquivo pessoal da professora Poliana. " Esse aqui tem uma parte grande. Tem visto, veja. Eles davam visto no caderno, mas não sei de quem é esse visto. Mas, geralmente, os exercícios e suas respostas eram escritos na apostila". " Esse aqui já é terceiro ano. Pelo menos esse caderno eu consegui identificar. Aqui tem exponencial. Pode ter sido uma revisão ". 359 Figura 76: Capa e uma página do Caderno 2. Fonte: Arquivo pessoal da professora Poliana. "Esse aqui é de 1982, segundo ano: 'Ler a apostila nova' [lendo]. Tudo apostila!". 360 NIRIANA LARA SANTOS MEINBERG - 40 ANOS Ex-aluna de Química: 1991 - 1993 Data da Entrevista: 08/03/2016 Na sala da casa dos pais de Niriana, conversei com ela e com a sua irmã Lilian. Nesse encontro também conheci a sua filha, que correu para abraçar a mãe que acabara de chegar da Unidade de Saúde Pública onde trabalha. Técnica em Química e médica, Niriana me relatou algumas de suas lembranças do período em que estudou no Coltec e alguns reflexos dessa formação no curso de graduação. Comumente percebo saudosismo nos relatos dos ex-alunos do Colégio e com ela não foi diferente. Pareceu-me que ela gostou muito de ter estado lá, pela formação, que considerou muito boa, e pelas oportunidades que o curso lhe proporcionou. Iniciei meus estudos no Coltec em 1991, no curso técnico de Química. Em 1994 eu fiz o estágio obrigatório e concluí o curso. No processo seletivo de que eu participei, para acessar o Colégio, indicávamos a renda familiar, por faixas salariais designadas por letras do alfabeto: A, B, C. Acho que havia três faixas, mas não me lembro bem dos detalhes. A concorrência às vagas da instituição ocorria entre os candidatos de cada uma dessa faixas. Eu tenho duas primas, que são mais velhas do que eu, que também estudaram no Colégio Técnico e gostavam muito. Dessa forma, surgiu meu interesse de estudar lá. Além disso, eu sabia que era uma escola referência, gratuita. Anteriormente ao Coltec, eu estudava na Escola Municipal Dom Orione 326 , pois meu pai não tinha condições de pagar uma escola particular para mim. No primeiro semestre do meu estágio, realizado no último ano do Colégio, eu atuei no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG - ICB. E, no segundo semestre, na empresa Mannesmann 327 . Em ambos os casos, eu trabalhei como técnica em Química, operando com Biologia Molecular. Em seguida, em 1995, fiz vestibular para Medicina, na Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e fui aprovada. Já no segundo semestre da faculdade, eu 326 A Escola Municipal Dom Orione situa-se no bairro Ouro Preto, em Belo Horizonte. Essa instituição oferece Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos. Disponível em: < http://www.escol.as/141231-escola- municipal-dom-orione>. Último acesso em: 22 ago. 2016. 327 A empresa Mannesmann S.A. foi fundada em 1952 para atender à recém criada indústria petrolífera do Brasil. No ano 2000, a Mannesmann S.A. passa a integrar a Vallourec & Mannesmann Tubes e passa a se chamar V & M do BRASIL. Em 2013, a V & M do BRASIL torna-se Vallourec Tubos do Brasil, uma importante siderúrgica, que fornece produtos ao mercado nacional e internacional. Disponível em: < http://www.vallourec.com/COUNTRIES/BRAZIL/PT/Paginas/Default.aspx>. Último acesso em: 22 ago. 2016. 361 participei de uma seleção para integrar um programa de iniciação científica. Ficaram interessados pelo meu currículo, especialmente pelo meu conhecimento e experiência com Biologia Molecular. Fui selecionada e a minha função era, praticamente, exercer o serviço de técnica em Química. Depois, inclusive, coordenei esse projeto. Posteriormente à graduação, fiz dois cursos: um sobre Medicina Familiar e outro em Dermatologia. No primeiro ano do Coltec, eu tive um professor de Física 328 , de que não me recordo o nome, que gostava muito de nos falar sobre a criação do Colégio, de informar que ela se deu a partir de um convênio com a Inglaterra. Ele gostava de contar histórias e isso nos ajudava muito a pensar. Também sobre a fundação, lembro-me que estudei com alguns materiais de laboratório, aparelhos, que foram trazidos pelos ingleses ao Brasil. Eram bem antigos na época que eu usei. Sempre tive uma relação boa com quase todos os professores do Coltec. Até mesmo com o João Cupim 329 , que era o terror da escola, eu tinha um bom relacionamento. Eu não tenho lembrança ruim dos docentes de lá, a não ser do Silio 330 , professor de aulas técnicas, que sempre fazia um papel de bravão. Mas também tenho recordações boas dele. Em relação aos professores de Matemática, lembro-me de dois nomes: Sérgio 331 e Tânia 332 . Acho que o Sérgio lecionou para mim no primeiro ano e a Tânia no segundo, não tenho certeza. Foi interessante que o Sérgio foi professor da minha mãe no Estadual Central 333 . Já na primeira reunião de pais, quando minha mãe retornou para casa, ela disse: "Ah! Tem um professor lá que foi meu professor...". Eu achei bem bacana! Nas aulas de Matemática, adotávamos livro, apostila e caderno. Eu comprei alguns livros no Colégio, mas não sei se foram dessa matéria, ou se nesse caso eram fornecidos pelo 328 "Ele era um professor mais velho. Pelo menos, naquela época, em que eu era adolescente, eu o achava mais velho. Não sei quantos anos ele tinha. Ele teve uma filha que morreu em um acidente. É toda a referência que me lembro. Não era o Oto, outro professor do Departamento de Física". (Niriana) 329 João Gomes Ventura ingressou no Coltec em 1969, atuando no Setor de Pessoal. Em seguida, passou a lecionar a disciplina Técnicas Gerais de Laboratório - TGL, no setor de madeira. Em 2002 se aposentou por problemas de saúde. 330 Não conseguimos maiores informações a respeito do professor Silio Nudisson Vaz. 331 Sérgio Veiga Dias, também chamado de Serjão por ex-alunos e professores do Coltec, lecionou Matemática no Colégio. Não foi possível localizar esse professor para participação nesta pesquisa. 332 Tânia Lima Ayer de Noronha, se aposentou do Departamento de Matemática do Coltec em 2002, depois de 23 anos de atuação no Colégio. Como colaboradora dessa pesquisa, Tânia relatou algumas das experiências vividas nesse período. 333 Esse colégio foi a primeira escola pública estadual de Minas Gerais. Instalada, inicialmente, na cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto) com o nome de Liceu Mineiro e, posteriormente, Ginásio Mineiro. Em 1898, foi transferida para Belo Horizonte (capital mineira), ocupando diferentes construções e assumindo várias nomenclaturas. A partir de 1963, recebeu o nome de Colégio Estadual Central. Em 1978 recebeu a denominação atual: Escola Estadual Governador Milton Campos (mesmo nome atribuído a esse colégio, anteriormente, no período de janeiro de 1972 a fevereiro de 1973). Disponível em: . Último acesso em 13 jul. 2016. 362 Governo. Lembro-me de ir com uma amiga para a biblioteca do ICB, onde levávamos as apostilas com problemas matemáticos e pegávamos livros para consulta. Recordo bem da gente fazendo esse programa. Além disso, usávamos régua e calculadora, nas aulas de Matemática. Mas não podia utilizar calculadora em todas as aulas, só em algumas. Lembro, vagamente, de alguns materiais que continham espaços para completarmos, nas apostilas de Matemática. Quanto à dinâmica das aulas, geralmente os professores explicavam a matéria no quadro e a gente resolvia problemas. Trazíamos muitos exercícios para casa, uma quantidade enorme. Depois, a gente corrigia no quadro, os alunos levantavam e iam ao quadro solucionar. Sempre tinha um que gostava mais de ir ao quadro e ia com mais frequência. Muitos desses problemas eram propostos a partir de uma situação, um contexto. Estudávamos muito a partir de um livro, disponível na biblioteca do Instituto de Ciências Exatas da UFMG - ICEx. A gente achava que as provas eram parecidas com as questões desse livro, então nós estudávamos por ele. Era um livro de Ensino Superior, de Cálculo. Pegávamos ele e resolvíamos os seus exercícios. Lembro-me de estudar Matrizes, Derivada, Equações, eu gostava bem de Matemática. Apenas não gostava muito de Geometria, mas o restante eu gostava muito. As salas de aula de Matemática eram tradicionais: quadro na frente, a mesa grande do professor, também na frente, as carteiras e cadeiras. Muitas vezes, brincávamos com o professor Sérgio, sentando todos atrás da sala. Quando ele chegava dizia: "Gente! Mas ninguém está aqui na frente". Muitas vezes ele entrava na brincadeira e nem reorganizava a sala, ele não ligava não. Tinha ainda uma sala dessa disciplina com mesas grandes para os alunos sentarem em grupos. A gente trabalhava muito em grupos. Embora eu não tivesse apresentado dificuldades com a Matemática, percebia que o maior obstáculo de grande parte dos meus colegas era nessa disciplina. Por isso, acredito que a cobrança era grande, mas não era algo impossível. Particularmente, nunca estudei demais, não fui uma aluna que precisava se dedicar muito. Exceto para passar no vestibular e em algumas matérias. Essa cobrança do Departamento de Matemática do Colégio me ajudou a me desempenhar bem em algumas disciplinas da graduação: Biofísica, Físico-Química e Estatística. Eu sentia uma diferença muito grande, em relação à minha formação e a de outros colegas. Grande parte dos meus colegas da faculdade tinham um péssimo aproveitamento nessas matérias de Bioexatas, enquanto eu as achava fáceis. Por causa disso, todo mundo queria sentar perto de mim, minha formação de Exatas no Coltec foi muito boa. 363 O ensino de Matemática do Coltec nos estimulava a pensar e a tirar conclusões e isso nos diferenciava de outros colégios tradicionais. Então, por exemplo, eu me lembro que o Sérgio ou a Tânia apresentaram como foi desenvolvido uma determinada fórmula. Eu recordo que foi apresentado como se chegava naquela expressão matemática. Acho que foi o Sérgio, porque a Tânia era mais tradicional. Isso me interessou muito. Era o tipo de coisa que estimulava a gente a pensar. Atualmente, acompanhando a educação das minhas filhas, que estudam em colégios que não são tão tradicionais, eu percebo que tem muito o que decorar, memorizar os fatos (tabuada). Eu tento ensiná-las a pensar, a criar relações, como fazia o Sérgio. Coloco uns pauzinhos e mostro, por exemplo: 2 + 2 = 4. 364 LILIAN LARA SANTOS - 35 ANOS Ex-aluna de Patologia Clínica: 1996 - 1998 Data da entrevista: 08/03/2016 Quando iniciei o contato com a irmã de Lilian, Niriana, ela me atendeu prontamente e se dispôs a contribuir com a pesquisa. Niriana me informou que seus três irmãos também estudaram no Coltec. Uma irmã reside em outro país, o irmão não completou o curso no Colégio e Lilian estudou lá na década de 1990 e também aceitou participar do meu trabalho. Fui acolhida por Lilian na casa de seus pais. Expliquei a ela meus objetivos de pesquisa e ela se prontificou a dar o seu depoimento, conversar sobre as práticas de ensino de Matemática do Coltec. Desde o início, deixou claro que gostava da disciplina e, por isso, sempre apresentou bom desempenho nela, tanto no Colégio Técnico como na graduação. Possivelmente, seu envolvimento com a área biológica, ao cursar Patologia Clínica e, posteriormente, Medicina, a fez ter mais lembranças das aulas de Bioestatística, disciplina oferecida pelo Departamento de Matemática do Coltec. Eu ingressei no Coltec no ano de 1996, no curso de Patologia Clínica. Fiz vestibular sem participar de qualquer tipo de reserva de vaga, cota, pois não tinha isso. Não que eu me lembre. A gente entrava no primeiro ano sem um curso técnico pré-definido, depois fazíamos a opção no segundo ano; aí eu escolhi Patologia Clínica. Fiquei lá em 96, 97, 98 e em 99, ano em que fiz o estágio obrigatório. Eu sempre escutava falar que o Coltec era uma escola boa e que era pública. Como aqui em casa a gente não tinha condições de pagar escola particular, todos estudaram em instituições públicas, desde sempre. No ano em que prestei o vestibular, eu estudava na Escola Municipal Dom Orione 334 e tinha minha irmã e alguns primos que estudavam ou tinham estudado no Colégio Técnico. Todos falavam que a escola era boa, logo passou a ser meu sonho estudar lá. Eu e meus quatro irmãos estudamos no Coltec. O meu estágio em Patologia foi realizado na Escola de Veterinária, também da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Assim que eu me formei, fiz concurso na Prefeitura e trabalhei lá por uns cinco anos, não me lembro bem a duração, atuando na área de 334 A Escola Municipal Dom Orione situa-se no bairro Ouro Preto, em Belo Horizonte. Essa instituição oferece Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos. Disponível em: < http://www.escol.as/141231-escola- municipal-dom-orione>. Último acesso em: 22 ago. 2016. 365 Patologia Clínica. Também, depois de formada, fiz vestibular para Medicina na UFMG e para Design Gráfico, na Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG. Fui aprovada apenas na UEMG, onde me formei em Design Gráfico. Depois de formada, eu voltei a estudar e decidi tentar Medicina de novo. Em 2009, fui aprovada no vestibular da UFMG, onde me formei. Quando eu estudei no Coltec, não ouvia falar nada sobre a sua criação, não que eu me recorde. Os professores que lecionaram Matemática para mim foram a Tânia 335 , no primeiro ano, acho que a Maria José 336 , no segundo ano, e o Chicão 337 , o Francisco, na disciplina de Bioestatística, também no segundo ano. Não me recordo o sobrenome deles. Foram apenas esses, porque a gente não tinha aula de Matemática no terceiro ano. No terceiro ano fazíamos apenas disciplinas relativas ao curso técnico. Eu tive uma amiga que cursou o primeiro ano no Coltec e, em seguida, mudou de colégio. Nós continuamos mantendo contato, e pudemos comparar o que estávamos estudando nas nossas escolas. Havia algumas diferenças, pois a partir do segundo ano, as disciplinas do Colégio Técnico era direcionadas para os cursos técnicos, no meu caso, para as questões biológicas, com exemplos da área. Mas acabávamos aprendendo a mesma coisa, eu acho que não era muito diferente. No entanto, considero que não tive muitos parâmetros para comparar o ensino do Coltec com o de outras escolas, pois meus amigos eram de lá mesmo. Eu gostava muito de Matemática, eu era uma boa aluna em Matemática, inclusive ajudava os meus colegas nas atividades. Eu tinha uma relação muito boa com os docentes de Matemática, em especial com o Chicão. Lembro-me que, no primeiro semestre, todos da turma foram muito mal na disciplina dele, Bioestatística, muito mal mesmo. Inicialmente, todo mundo ficou com raiva dele. Ele era agitado, começava a fazer um exercício, explicava rapidamente, e muitas vezes a gente não conseguia acompanhar o raciocínio dele. Aí ele parava, respirava e dizia: "então tá, vou explicar tudo de novo". Com o tempo vimos que ele era um bom professor e, apesar de sua aula ser muito dinâmica, o que nos assustava a princípio, conseguimos nos adaptar e achar tranquilo. Ainda assim, ao final do ano, boa parte 335 Tânia Lima Ayer de Noronha aposentou-se no Departamento de Matemática do Coltec em 2002, depois de 23 anos de atuação no Colégio. Como colaboradora desta pesquisa, Tânia relatou algumas das experiências vividas nesse período. 336 Maria José Alves, atualmente, é professora do Setor de Matemática do Coltec. Ela ingressou nessa instituição em 1996. Pelo pequeno período que ela atuou no Colégio, considerando o recorte temporal dessa pesquisa (1969 a 1999), e por nosso interesse especial nos primeiros anos de funcionamento da escola, ela não participou dessa pesquisa. 337 Francisco de Assis Batista, conhecido como Chicão, lecionou no Coltec na década de 1990, até o ano de 2010, quando se aposentou. Infelizmente, não conseguimos contato com esse professor para participação nesta pesquisa. 366 da turma ficou de recuperação com ele. Eu, como tinha facilidade com Matemática, gostava da disciplina e não achava as provas tão difíceis. Esse professor não adotava apostilas, era apenas quadro, aulas expositivas e cada aluno no seu caderno. Usávamos folhas separadas somente quando precisávamos entregar algum exercício. Com relação à professora Tânia, nós achávamos a aula dela mais tranquila. Mas ela era mais rígida, a gente tinha uma pouco mais de medo dela do que do Chicão. Com ele a relação professor-aluno era um pouco mais de amizade, pois ele era brincalhão. Já a Tânia era um pouco mais distante, uma pouco mais professora: "eu mando e vocês obedecem". Não chegava a ser ríspida com a turma, mas mantinha uma certa distância, uma certa hierarquia dentro da sala. Quanto à sua metodologia, não me recordo bem. Acho que não utilizávamos livros, pois não me lembro de ter comprado nenhum livro no Colégio. Na época a gente utilizava muita apostila, xerox, essas coisas assim..., que eram distribuídas pelos professores para todos os alunos. Alguns materiais continham um resuminho da matéria, seguidos de exercícios que eram para ser feitos no caderno ou em espaços brancos do próprio material. Usávamos régua, compasso, transferidor e calculadoras nas aulas de Matemática. Na época, todos queriam comprar calculadora científica, porque era muito utilizada, principalmente em Bioestatística. Utilizávamos computador, mas não nas aulas de Matemática, não que eu me lembre. Talvez tenha sido utilizado nas aulas de informática, ou algo assim. Quando me recordo das aulas de Matemática, me lembro das expressões numéricas, dos produtos notáveis, das matrizes, daquele "ezinho" que eu não lembro mais o que é... são lembranças vagas, pois tem muito tempo que não vejo isso. As salas de aulas eram normais, cada um na sua carteira. Exceto nas aulas da Tânia, em que algumas atividades eram realizadas em grupos, de dois ou quatro alunos. De modo geral, as maiores lembranças que possuo são do curso do Chicão. Suas aulas e suas provas, que eram um pouco mais difíceis que das demais disciplinas. Determinadas vezes, esse docente inventava, criava coisas da sua cabeça, questões que nem ele conseguia resolver. Normalmente, eu não achava muito complicado compreender, porque eu tinha facilidade. A propósito, grande parte dos conteúdos vistos em Bioestatística, com o Chicão, foram vistos, novamente, na faculdade, em uma disciplina de mesmo nome, o que permitiu que eu tivesse mais destreza para cursá-la. 367 ABDALA GANNAM - 74 ANOS Ex-professor do Coltec: 1970 - 1992 Data da Entrevista: 10/03/2016 Encontrei-me com o professor Abdala Gannam, que lecionou Matemática no Coltec de 1970 a 1992, em sua casa. Ao ouvi-lo falar das lembranças de suas práticas pedagógicas, pude constatar que esse professor possui grande conhecimento sobre o ensino da Matemática: produziu vários textos, pesquisou a utilização de recursos audiovisuais aplicados ao ensino de Matemática, desenvolveu uma metodologia para ensino de Matemática através da retroprojeção, produziu e incentivou a criação de materiais concretos para o ensino da disciplina, pois acreditava que era essa a forma com que os alunos se envolviam e aprendiam. Mostrou-me alguns desses materiais que elaborou, falou sobre a metodologia utilizada, leu alguns trechos de textos e explicou-me como eles poderiam ser utilizados. A partir de nossa conversa, conheci um pouco da história que esse docente construiu com a Matemática, o ensino de Matemática e a formação de professores. Mestre em Ensino de Ciências e Matemática, suas aulas se alteravam constantemente, pois Abdala sempre estava à procura de novos recursos e formas criativas de ensinar, que lhe pareciam eficazes. Suas experiências eram difundidas a partir de palestras, artigos, apresentações em congressos, cursos para professores e estágios por ele supervisionados. Em sua trajetória, sempre se empenhou em desenvolver, com muito capricho, materiais para o ensino de Matemática. Inicialmente, criava-os com base na sua experiência no Coltec. Posteriormente, ele continuou o desenvolvimento desses objetos, dessa vez com a contribuição de estudantes de Licenciatura em Matemática, nas disciplinas que lecionava na Faculdade de Educação da UFMG. Depois de aposentado, atuou numa faculdade privada, quando já contava com longa experiência de magistério. Aí, junto a professores em formação, desenvolveu uma metodologia para o ensino da Matemática através de imagens em movimento. Depois de nosso encontro, no dia 10 de março de 2016, Abdala me escreveu um email dizendo que havia outros materiais com os quais desejava me presentear. Retornei à sua casa no dia 22 de março. Ao todo, recebi desse professor várias transparências para retroprojetor (mais de 50 unidades), a maioria com animação; um aparelho retroprojetor, para exibição e exploração desse material; seis livros de Matemática; um livro com publicações de artigos dos egressos 368 do Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática, desenvolvido na Unicamp, que inclui um de seus trabalhos; um sólido geométrico construído por ele para ilustrar a dedução da fórmula do volume de uma pirâmide triangular; um livro, "Matemática Aplicada", de autoria de Trotta, Imenes e Jakubovic, utilizado durante algum tempo, como texto básico de Matemática no Coltec; uma sequência de slides para projeção sobre história da matemática ("Da Arte Nasce uma Geometria"); quatro apostilas com instruções e atividades para o uso em retroprojeção. Abdala está, atualmente, distante da sala de aula e das "novas" tecnologias empregadas no ensino de Matemática. Conforme nossa conversa, o professor gostaria que suas criações fossem informatizadas para serem utilizadas nos dias de hoje. Relato do professor Vou começar falando de antes de eu me formar, porque acho que tem uma ligação com o Colégio Técnico. Eu fui aluno do Colégio Universitário 338 no primeiro ano de funcionamento, em 1965, se não me engano. No tempo em que a Magda Soares 339 , professora, foi diretora. Havia uma equipe de professores muito boa! No meu ponto de vista, foi uma das melhores experiências educacionais já feitas pela UFMG. No Colégio Universitário nós tínhamos um laboratório de Física muito bem montado, um curso de Física excepcional, coordenado pela professora Beatriz Alvarenga 340 . Os outros 338 Tendo em vista o fraco desempenho dos estudantes nos vestibulares e o despreparo dos alunos provenientes dos cursos secundários, o Colégio Universitário foi criado na UFMG, em 1964, para oferecer o 3º ciclo secundário e preparar os alunos para realizarem um curso superior em melhores condições de desenvolvimento (intelectual, social e cultural). Seu corpo docente, cuidadosamente selecionado, visava renovar os métodos de ensino e irradiar suas práticas para outros docentes, em cursos de treinamento. . Último acesso: 22 jun. 2016. 339 A professora Magda Becker Soares (Faculdade de Filosofia e posteriormente Faculdade de Educação da UFMG) compunha a comissão de planejamento do Colégio Universitário. Ela possuía vasta experiência com o ensino e defendia a modernização dos métodos de ensino, priorizando a participação ativa dos alunos. A professora é uma das fundadoras do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Faculdade de Educação da UFMG e autora de diversas publicações, inclusive livros didáticos de língua portuguesa. É membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, da International Literacy Association e atuou nos comitês assessores do CNPq e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC). Magda Becker Soares é professora titular emérita da Faculdade de Educação da UFMG. ; < http://www.mcti.gov.br/visualizar/-/asset_publisher/jIPU0I5RgRmq/content/magda-soares-e-primeira- educadora-a-receber-o-premio-almirante-alvaro-alberto>. Último acesso: 22 jun. 2016 340 Beatriz Alvarenga, 93 anos, formou-se na Escola de Engenharia da UFMG, onde despertou seu interesse pela Física. Ela é autora, juntamente com o professor Antônio Máximo, do livro "Curso de Física", um dos títulos que mais foi adotado no Ensino Médio do Brasil. Também foi a primeira professora de física do Colégio Estadual Central e professora emérita da UFMG. Disponível em: < http://www.otempo.com.br/pampulha/estilo/beatriz- alvarenga-1.4008>. Último acesso em: 09 fev. 2017. 369 cursos, como Química, Literatura e Biologia, também eram muito bons. Existiam cursos extras, como cinema, teatro, Francês etc. Lembro-me ainda de alguns dos professores: o Ítalo Mudado 341 era do setor de letras e artes e também responsável pelo curso de teatro. Na parte de Matemática, era o Clemenceau 342 e sua equipe. Foi ele que iniciou o setor de Matemática do Colégio. Na Física, atuavam além da professora Beatriz, o professor Antônio Máximo 343 e outros de que não me recordo. Todos eram muito bons. Beatriz e Antônio Máximo escreveram um livro para o ensino de Física, baseado na experiência que eles tiveram no Colégio Universitário. Esse livro foi adotado por muitas escolas de ensino básico no Brasil. Para se ter uma ideia da efetividade do ensino que se processou no Colégio Universitário, basta observar que a maior parte das vagas oferecidas nos vestibulares da Escola de Medicina e Engenharia da UFMG era ocupada pelos estudantes advindos desse colégio. Por problemas políticos dentro da Universidade, o Colégio acabou. O reitor, professor Aluísio Pimenta 344 , teve sua visão modernista distorcida pela ditadura, foi considerado como envolvido com as esquerdas brasileiras. Ele sofreu muita pressão, os militares forçaram sua saída da reitoria. Foi neste clima que surgiu o Coltec, através de um convênio como o Conselho Britânico. Pouco tempo depois o Colégio Universitário acabou. Após concluir o Colégio Universitário, fui fazer Matemática na FAFI-BH 345 , onde tinha o Aristides Barreto 346 , na época grande matemático. No ano seguinte eu fiz outro vestibular para a UFMG, na qual me formei. No ICEx (Instituto de Ciências Exatas da 341 Considerado uma das maiores autoridades em História do teatro, o professor Ítalo Mudado dirigiu e adaptou um série de clássicos da dramaturgia universal e brasileira. Era professor do Teatro Universitário da UFMG. Faleceu, aos 80 anos, em 2011, com mais de 50 anos de carreira. Disponível em: < http://www.otempo.com.br> e < https://www.ufmg.br/online/arquivos/019912.shtml>. Último acesso em: 09 fev. 2017. 342 O professor Clemenceau Chiabi Saliba é um dos maiores especialistas brasileiros em educação e preside a Câmara de Certificação Ocupacional para profissionais da Educação, desenvolvido pela Fundação Luís Eduardo Magalhães, sob encomenda da Secretaria da Educação do Estado (SEC). Disponível em: . Último acesso em: 09 fev. 2017. Não obtivemos maiores informações a respeito desse docente. 343 Antônio Máximo Ribeiro da Luz é bacharel e licenciado em Física pela Universidade de Minas Gerais – UFMG. Ele é autor, juntamente com a professora Beatriz Alvarenga, do livro "Curso de Física", um dos títulos que mais foi adotado no Ensino Médio do Brasil. Além disso, é professor adjunto do Departamento de Física da UFMG. Disponível em: < http://www.projetovoaz.com.br/Paginas/PaginaAutor.aspx ?Autor=1345>. Último acesso em: 09 fev. 2017. 344 O professor Aluísio Pimenta foi reitor da UFMG de 1964 a 1967. Farmacêutico, educador e político, Aluísio Pimenta criou o Colégio Universitário e idealizou a criação do Coltec. Em 1968, deixou a UFMG após ser cassado pelo AI-5, durante a ditadura militar. Desde então, passou por centros universitários de renome na América Latina, América do Norte, Europa e no Extremo Oriente. Disponível em . Último acesso: 22 jun. 2016. 345 Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte. 346 Aristides Barreto foi um dos precursores do uso da modelagem ou de construção de modelos como estratégia de ensino, a partir de 1970. Inicialmente, ele modelava matematicamente suas músicas e utilizava modelos em suas aulas na graduação da PUC/RJ. < http://www.furb.br/cremm/portugues/cremm.php?secao=Precursores>. Último acesso: 22 jun. 2016. 370 UFMG), tive excelentes professores, como Edson Durão Judice 347 , os humanistas Francisco de Assis Magalhães Gomes 348 , Cristóvão Colombo dos Santos 349 (começava a falar sobre História da Matemática, fechava os olhos e em pouco tempo enveredava pela filosofia; quando percebia isso, abria os olhos, pedia desculpa e continuava com a história, dentro de pouco tempo estava outra vez filosofando. Com ele aprendemos que não existe História da Matemática sem Filosofia). Mário de Oliveira 350 e Ulisses Carneiro 351 . O professor Francisco (conhecido pelos estudantes como "Chiquinho Bomba Atômica" pelo seu empenho para a implantação na UFMG do Instituto de Pesquisa Radioativa – IPR), foi o primeiro diretor do ICEx. Com ele fiz o curso de História das Ciências. Pouco antes de me formar, interessei-me pelo recém-criado Colégio Técnico; via nele certa similaridade com o Colégio Universitário. Então, assim que me formei, fiz concurso para ser professor no Coltec. Antes de ingressar no Coltec, ainda como aluno do curso de graduação, eu já estava lecionando no Colégio Estadual 352 e em outros colégios particulares. Comecei em l966, no Ginásio Domiciano Vieira, que ficava longe (bairro do Barreiro), depois no Colégio Loyola, Colégio Dom Cabral, num curso preparatório de vestibular para Medicina, chamado CB2, e em outras escolas de que não me recordo 353 . 347 Edson Durão Judice foi o primeiro chefe do Departamento de Matemática e é professor emérito do ICEx. Atuou como docente da UFMG de 1949 a 1987. . Último acesso: 22 jun. 2016. 348 Francisco de Assis Magalhães Gomes, conhecido como Chiquinho Bomba Atômica, foi professor de Física Geral e Experimental na escola de Engenharia da UFMG, onde desenvolveu estudos sobre radioatividade, e tornou-se um dos pioneiros na pesquisa sobre energia nuclear do país. Além disso, foi o primeiro diretor do ICEx - Instituto de Ciências Exatas da UFMG, do qual é professor titular emérito. . Último acesso: 22 jun. 2016. 349 Cristovão Colombo dos Santos foi professor de Matemática da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Minas Gerais, em Belo Horizonte, no início de seu funcionamento. Disponível em: < http://33reuniao.anped.org.br/33encontro/app/webroot/files/file/Trabalhos%20em%20PDF/GT19-6736-- Int.pdf>. Último acesso em: 09 fev. 2017. Não encontramos informações adicionais sobre esse docente. 350 O professor Mário de Oliveira foi decano e idealizador da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte, Fafi-BH. Também foi fundador da Escola de Engenharia Kennedy, primeiro presidente da Fundação Cultural de Belo Horizonte - Fundac-BH e Reitor do antigo Colégio Estadual de Minas Gerais. Na década de 1960 criou um dos primeiros cursos pré-vestibulares da cidade. Foi autor de mais de 600 livros, muitos deles na área de Matemática (OLIVEIRA, M. Tico-tico - Um Senhor Mendigo. Editora Fundac. Belo Horizonte, 1998). 351 Professor aposentado do departamento de Matemática da UFMG, já falecido. Disponível em: < http://www.mat.ufmg.br/site/professores-aposentados/>. Último acesso em: 09 fev. 2017. 352 Esse colégio foi a primeira escola pública estadual de Minas Gerais. Instalada, inicialmente, na cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto) com o nome de Liceu Mineiro e, posteriormente, Ginásio Mineiro. Em 1898, foi transferida para Belo Horizonte (capital mineira), ocupando diferentes construções e assumindo várias nomenclaturas. A partir de 1963, recebeu o nome de Colégio Estadual Central. Em 1978 recebeu a denominação atual: Escola Estadual Governador Milton Campos (mesmo nome atribuído a esse colégio, anteriormente, no período de janeiro de 1972 a fevereiro de 1973). Disponível em: . Último acesso em 13 jul. 2016. 353 O colégio católico Loyola foi criado na cidade de Belo Horizonte, em 1943. No início eram apenas 33 alunos. Posteriormente, na década de 60, chegaram as primeiras meninas. Atualmente, o Colégio conta com cerca de 2600 alunos do Ensino Fundamental ao Ensino Médio. Disponível em: < http://www.loyola.g12.br/>. O Colégio 371 Em 1970, comecei a atuar no Coltec. As coisas ali eram muito organizadas. Havia uma boa infraestrutura. O espaço físico era ótimo, as salas boas, grandes, um pouco quentes por causa da incidência direta do sol. O número de alunos por sala era limitado a dezessete. Os estudantes eram bem selecionados. Já no segundo ano, eu me lembro que lhes ensinava Séries de Fourier. O aluno que ingressava em algum curso de graduação, no Instituto de Ciências Exatas da UFMG - ICEx, já sabia tudo de Cálculo I: Derivadas, Integrais, Integrais Definidas etc. O programa era nesse nível, pois a área técnica demandava que os alunos aprendessem esses conteúdos. Algumas provas de final de curso tinham de cinco a sete folhas, contendo de 20 a 30 questões fechadas e 5 questões abertas, para serem realizadas durante dois horários de aula. Inicialmente fui admitido no Coltec, como Professor Colaborador (categoria que hoje não existe mais), depois, por concurso, como Auxiliar de Ensino, em seguida fiz outro concurso, passando a Professor Assistente. A promoção seguinte era para adjunto, e para tal exigia-se o mestrado. Naquela época, o único mestrado que havia era Mestrado em Matemática, no ICEx. Eu não queria fazer esse mestrado, porque pretendia atuar na área de Ensino de Matemática. A USP oferecia esse tipo de curso, cheguei, inclusive, a fazer contato com eles, mas estava muito complicado, era difícil a disponibilidade de orientador. Mas então apareceu o mestrado da Unicamp 354 , em convênio com a OEA (Organização dos Estados Americanos). Aí eu me candidatei, fui para lá e fiz o mestrado. Para realizar esse curso; fiquei afastado das aulas do Coltec por um ano. Nesse período fui para São Paulo, onde estudava em período integral. Finalmente voltei a Belo Horizonte e produzi minha dissertação, defendida em 1981 355 . Na parte teórica desse mestrado exigia-se, como condição básica para sua conclusão, a apresentação de um projeto de pesquisa. O objetivo principal do meu projeto de pesquisa foi uma proposta de treinamento de professores de Matemática, de segundo grau em serviço. Cenecista Domiciano Vieira, funciona na região do Barreiro, cidade de Belo Horizonte, há mais de 50 anos. Oferece serviços para o Ensino Fundamental, Médio e Pós-Médio Profissionalizante. Disponível em: < http://colegiodomiciano.cnec.br/institucional/historia/>. Não foi possível encontrar informações sobre o Colégio Dom Cabral e sobre o Curso Preparatório CB2. Último acesso em: 09 fev. 2017. 354 O curso de mestrado em ensino de Ciências e Matemática tinha como objetivo formar líderes no ensino dessas disciplinas, desenvolver novos materiais e melhorar a qualidade da educação no Brasil e nos Estados Americanos (OEA) e o MEC (Ministério da Educação e Cultura) e era coordenado pelo professor Ubiratan D'Ambrosio. < http://migre.me/w1BKf >. Último acesso: 22 jun. 2016. 355 Título da dissertação de mestrado em Matemática: "Uma proposta metodologica para treinamento de professores de matematica do 2o. grau, em serviço". Palavras-chave: Matematica - Ensino de segundo grau , Professores - Formação , Educação matematica. Defendida por Abdala Gannam, sob orientaçaõ de Sérgio Lorenzato. Instituição: Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Matemática Estatística e Computação Científica. Disponível em: . Último acesso em: 09 fev. 2017. 372 Minha questão norteadora era: "Como é que é possível você treinar professores de Matemática, de segundo grau, em serviço, trabalhando?". Em seguida, era necessário encontrar um órgão para financiar o projeto. Apresentei a minha proposta à Secretaria de Educação de Minas Gerais, no Departamento de Ensino do Segundo Grau. Eles gostaram do projeto, e resolveram financiá-lo. O professor participante, docente da Rede Estadual de Ensino, de qualquer localidade de Minas Gerais, ia para o Colégio Técnico no período de férias e participava das aulas. No final do curso, cada professor apresentava a proposta de um miniprojeto de ensino de algum conteúdo da Matemática, que deveria ser desenvolvido em sua cidade. Era oferecido um leque de opções para os docentes. Todo esse processo, desde os miniprojetos e seus desenvolvimentos, resultaram em dados que, posteriormente, foram analisados na minha pesquisa. O Coltec também tentou realizar um acordo com a OEA; parecia que queriam reviver o convênio com o Conselho Britânico ou algo parecido. Mas isso não foi para a frente. Quando eu passei a atuar no Coltec sob regime de Dedicação Exclusiva, tive que deixar os outros colégios, fiquei apenas na Universidade. Depois de concluído o mestrado, pensei em fazer doutorado, enviei o pedido à CAPES 356 , e fui selecionado. No doutorado, iniciado em 1988, era necessário participar de dois seminários, antes da elaboração da tese. No Seminário I, eram discutidas as propostas de trabalho dos doutorandos. No Seminário II, apresentávamos nossas propostas já avançadas, com os dados colhidos e a metodologia, restando apenas analisá-los e concluir a escrita. Nesse doutorado trabalhei sobre os conceitos de geral e genérico em Educação Matemática. No ensino da Matemática, normalmente os conceitos são desenvolvidos segundo dois pontos de vista: do geral para o particular ou ao contrário, do particular para o geral. Minha proposta era um caminho intermediário, calcado no conceito de representante genérico, que poderia ser desenvolvido usando o computador como ferramenta. Naquele momento, era possível encontrar algumas pesquisas, ainda incipientes, sobre o tema. Escolhi trabalhar o conceito de função real de variável real, Mas não cheguei a concluir a tese, por problemas de saúde. Fiquei um tempo baqueado, não conseguia me concentrar. Quando tive condição de retomar, já havia um pesquisador na Inglaterra escrevendo a respeito. Não houve tempo para concluir o trabalho antes dele. 356 Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior. 373 A minha formação no mestrado e a experiência do doutorado permitiram que eu atuasse na formação de professores ao longo da minha carreira. Proferi muitas palestras em diversas localidades de Minas Gerais, falando sobre o que tinha feito, sobre os recursos audiovisuais aplicados ao ensino da Matemática. Mostrava que não eram necessários equipamentos sofisticados para utilizá-los: quase todas as escolas possuíam retroprojetores, projetores de "slides" e gravadores, que eram muito pouco utilizados ou usados de forma inadequada. O projetor de slides utiliza transparências feitas com fotografias. Essas transparências são emolduradas em Sequências Sonorizadas de Diapositivos. Vinha uma narração, sincronizada à imagem projetada, com fundo musical. Quase um cinema. Hoje não se usa mais projetor de slides, raramente você vê algum. Geralmente os professores usam o retroprojetor assim: reproduzem um texto em transparência, o projetam durante as aulas e vão lendo para os alunos. Estruturei um modo diferente de usá-lo, simulando movimento para a clarificação de conceitos da Matemática. Figura 77: Sequência de diapositivos intitulada: "Da arte nasce uma Geometria". Doado à pesquisadora pelo professor Abdala Gannam. "Tem esse que era assim: 'Da arte nasce uma Geometria'. Eu pegava os quadros dos pintores renascentistas e mostrava que por trás desses quadros existe uma Geometria. Com isso eu mostrava como é que a geometria projetiva surgiu". 374 Figura 78: Transparência com movimento, para estudo das funções seno e cosseno. Material doado à pesquisadora pelo professor Abdala. Figura 79: Desenho que ilustra a transparência da figura anterior. Fonte: Material produzido pelo professor Abdala, denominado "O uso do retroprojetor no ensino de Matemática". Figura 80: Transparência para apresentar crescimento e decrescimento das funções seno e cosseno nas suas representações gráficas. Material doado à pesquisadora. "Você observa, enquanto o ponto se desloca você tem: o seno aumenta e o cosseno diminui, veja. Consegue imaginar isso quando está projetado? Isso aí, eu comecei a usar essas coisas com os alunos do Colégio Técnico". Abas de "Esconder e Mostrar". 375 Figura 81: Transparência utilizada para apresentar a representação geométrica da tangente. Material doado à pesquisadora. Havia uma transparência que eu utilizava na hora de ensinar a calcular valores de seno, cosseno e tangente, usando a calculadora. Antigamente, usavam-se tabelas para calcular esses valores, era bem demorado. Eu manipulava um pouco essas tabelas com os alunos e depois mostrava como se calculava aqueles valores, utilizando a calculadora. Figura 82: Transparência para cálculos de valores de seno, cosseno e tangente, a partir da calculadora. Material doado à pesquisadora. Local onde se gira a transparência, variando o ângulo e o valor da tangente. "O aluno não sabe nem como que isso está rodando, como é que isso pode girar". 376 Foram elaboradas muitas transparências, cada uma com um objetivo específico. Inicialmente eu as usava nas minhas aulas, depois passei a utilizá-las em palestras. Apresentei minha proposta de ensino em vários congressos de Educação Matemática, escrevi artigos sobre o assunto. Comecei a utilizar esse material na disciplina Prática de Ensino de Matemática, oferecida pela Faculdade de Educação da UFMG. Orientei muitos alunos da Prática de Ensino de Matemática na utilização dos audiovisuais que eram testados em forma de estágios no Coltec. Quando me aposentei, fui trabalhar no curso de pós-graduação em Educação Matemática de uma faculdade da cidade de Pedro Leopoldo e posteriormente na disciplina Fundamentos de Matemática do Curso de Licenciatura, dando prosseguimento, junto aos alunos, à minha proposta de trabalho. Esperava ainda conseguir adaptar essas transparências utilizando ferramentas de computação. Já tínhamos, inclusive, departamento de Computação na Faculdade. Mas, infelizmente, o curso acabou. Figura 83: Transparência sobre retificação da circunferência e radiano. Material doado à pesquisadora. Eu não via essas transparências há muito tempo. Mas como é possível perceber, é um curso completo de trigonometria. Além de muitas outras abordando outros temas (Geometria Analítica, Geometria Espacial, Geometria não Euclidiana, Funções, etc.). Existe uma metodologia por trás deste trabalho. As transparências de trigonometria, por exemplo, estão ligadas a uma apostila de 207 páginas, denominada: Textos Complementares de Retroexposição. O texto contempla o programa da disciplina: ementa, carga horária total, objetivos gerais, metodologia, bibliografia recomendada, orientação para o leitor. "Essa aqui, se você passar a mão, perceberá que tem alfinetes. Eu usei para falar sobre a retificação da circunferência, utilizando esta linha aqui. Com ela eu explicava o que é radiano". 377 Três tipos de textos constituem essa apostila e auxiliam na implementação dessa metodologia: a) Complemento Imediato de Retroexposição (CIR), onde são propostas questões imediatas, vinculadas às imagens apresentadas - "Nesse texto os alunos preenchiam sem ler nada, só com aquilo que foi apresentado" nas transparências; b) Texto Referencial de Retroexposição (TRR), que oferece um suporte técnico do conteúdo matemático desenvolvido anteriormente - "esse texto é onde se explica o conteúdo. Aí o aluno lia o contéudo"; e c) Atividade de retroexposição (ATR) com exercícios que visam fixar todo o exposto anteriormente. Na transparência a seguir, quando é projetada, é possível girar o ponto vermelho e manipulá-lo conforme a necessidade. Em cada ponto destacado na circunferência trigonométrica é possível ver o valor do seno e como isso está ligado ao gráfico da função. Figura 84: Transparência para estudo da função seno, deslocada e fotografada em duas posições diferentes. Material doado à pesquisadora. Para desenvolver essas transparências, primeiro eu fiz um curso, lá na Unicamp, sobre uso de audiovisuais no ensino. Em seguida, comecei a fazer as primeiras experiências com movimento nas minhas aulas no Coltec. Descobri que com esse tipo de coisa, ou seja, simulando movimento através das transparências, os alunos entendiam melhor. Além do trabalho com as transparências, vivenciei outras propostas de atividades no Departamento de Matemática do Coltec. Nós desenvolvemos um laboratório para ensino de Matemática. Nessa época estava lecionando Geometria de Posição e Geometria Sólida; sabia que os alunos, nas disciplinas técnicas, tinham aulas nas oficinas de vidro, de madeira, e de metal. Imagino que ainda tenham essas aulas. Então dava um trabalho para eles: "Vocês vão me concretizar este teorema. Quero ver o teorema concretizado, feito nas oficinas, com chapa, 378 madeira ou vidro, como quiserem". Os alunos inundaram o Departamento de Matemática com os materiais que faziam. Selecionamos os melhores e incorporamos ao laboratório de Matemática. Figura 85: Capa da apostila "Os sólidos geométricos (O princípio de Cavalieri)", de autoria de Abdala Gannam, datada de 1980. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática do Coltec. Nesse mesmo laboratório de Matemática, oferecíamos aulas com calculadora. Mandamos fazer mesas de madeira, em dimensões adequadas, que dispunham de tomadas para plugar as calculadoras. Nessa época, era incomum encontrarmos calculadoras eletrônicas no Brasil, tanto que as primeiras calculadoras do Colégio vieram da Inglaterra, através do Conselho Britânico. Inicialmente, elas ficaram guardadas, pois nós não sabíamos como usá- las, metodologicamente, no ensino de Matemática. Eram umas calculadoras Texas, que vinham com aquelas números luminosos. Depois o uso de calculadoras tornou-se mais comum, foi quando adquiri várias calculadoras, por conta própria. Além disso, hoje mudou muito essa questão de laboratório. Atualmente, está tudo muito ligado à informática. Por volta do ano de 1988 ou 1989, quando fui para o Canadá, cursar o doutorado, tive contato mais próximo com o computador. Fiquei conhecendo um software gráfico, "Eu me lembro disso aqui: é uma ilustração do Princípio de Cavalieri: "Primeira experiência: Construa em cartolina (ou material similar), uma pirâmide de base quadrada". "Construa um modelo aproximado da primeira pirâmide, recortando e empilhando cartões... ". Tinha uns estudantes que faziam de metal, outros de madeira, ou vidro. Tudo isso tudo eles concretizaram, e experimentaram. O curso de geometria era dado assim. Depois fiz um trabalho com retroprojetor, semelhante ao realizado para o curso de Trigonometria". 379 denominado Picasso. Você inseria os dados e imediatamente era construído o gráfico da função. Fiz também um curso sobre a linguagem LOGO. Usando essa linguagem, informatizei um de meus trabalhos em transparências (frações ordinárias) e o apresentei como conclusão de curso. Tentei introduzir essas coisas no Coltec, mas não havia computadores disponíveis. Falei várias vezes sobre isso em palestras e cursos de capacitação docente. Lembro-me de ter feito uma palestra a respeito em Ouro Preto, onde apresentei o programa PICASSO. Diante da pasta, extraída do Arquivo do Departamento de Matemática do Coltec, denominada: Seminário sobre o Ensino de Matemática no 2º grau - Projeto OEA - 06 e 07/05/1983, Abdala reconheceu seus colegas em várias fotografias: Figura 87: Painel Tema: "Recursos do retro-projetor no Ensino de Matemática". Prof. Abdala Gannam. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática - Coltec. Figura 86: Painel Tema: "Recursos audio-visuais no Ensino de Matemática". Prof. Abdala Gannam. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática - Coltec. Figura 88: Painel Tema: "Material didático para o Ensino de Trigonometria". Prof. Luiz Humberto. Figura 89: Painel Tema: "Material didático para o Ensino de Função do 1º grau, Função do 2º grau e Trigonometria". Professores Tânia Noronha, José Domingos e Luiz Humberto - Coltec. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática do Coltec. "Sou eu, sou eu mesmo". "Aqui (foto da esquerda) é o Jed e o Luiz Humberto. E essas coisas são do Laboratório de Matemática do Coltec (foto da direita) ". 380 Figura 90: Painel Tema: "Material didático para o Ensino de Trigonometria". Prof. Luiz Humberto. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática - Coltec. Diante de vários materiais de sua autoria (Apostilas, Estudos Dirigidos, Instruções Programadas), Abdala falou um pouco sobre esse conteúdo. Figura 91: Capa do Estudo Dirigido de Título: Sistemas Lineares, do prof. Abdala Gannam - 1980. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática - Coltec. Produzi muito material para o Departamento de Matemática do Coltec. Escrevi muitas apostilas, Estudos Dirigidos e Instruções Programadas. Vou exemplificar como fazíamos o Estudo Dirigido: primeiro o aluno é convidado a ler um texto. Depois são inseridas perguntas e exercícios do texto, cujas respostas demandam interpretação. Eu indicava muito o livro do Trotta. Ainda guardo um volume, que doarei para a sua pesquisa. "Olha a Tânia, o Jed... Luiz Humberto (esquerda para direita)". 381 Figura 92: Livro Matemática Aplicada, volume 2, dos autores Fernando Trotta, Luiz M. P. Imenes e Jose Jakubovic. Fonte: Material doado à pesquisa. Na Instrução Programada, uma informação pequena é fornecida. Em seguida, trabalha-se com esse dado passo a passo. Não havia, como no Estudo Dirigido, a leitura de um texto base. Figura 93: Capa e primeira página da Instrução Programada "Limite Exponencial Fundamental", do prof. Abdala Gannam, 1985. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática - Coltec. Quanto à formatação dos textos produzidos, alguns ficavam mais bem editados, outros não. Afinal, eram todos feitos no mimeógrafo, não tínhamos computador. Fazer as figuras dava muito trabalho. Eu usava aquelas réguas de gabarito para fazer as figuras. Em alguns casos, tinha que elaborá-las à mão. A maioria dos textos foram escritos em minha máquina de datilografar. Havia um processo meio fotográfico, para a reprodução de apostilas, um negócio hoje bem antigo. Houve uma época em que adotaram o livro do Trotta, já citado anteriormente, lá no Coltec. Percebi que não conseguia seguir esse livro nem qualquer outro. Na minha concepção, eu achava que os livros disponíveis não esclareciam como eu gostaria que fosse esclarecido. Os alunos começavam dizendo: “não entendi isso!"; "não entendi aquilo!". Aí eu fui "O estudo de Limites era visto em várias unidades. Eu produzi um curso programado completo sobre Limites". 382 percebendo o que eles não entendiam e o quê e o porquê eles não compreendiam; decidi fazer meu próprio material. Em síntese, nossa metodologia de ensino era toda calcada em estudos dirigidos. Não havia aulas expositivas: os alunos tinham atendimento individual. A exposição era realizada apenas quando percebia-se que vários alunos estavam com uma mesma dúvida. Modifiquei meu comportamento didático depois do curso da Unicamp, quando tive acesso a várias propostas metodológicas. O curso de mestrado era bem moderno, com participação de pessoas de diversos países. Em certo momento, veio um professor dos Estados Unidos para oferecer um curso sobre calculadora eletrônica no ensino de Matemática, por exemplo. Além dele, como já me referi anteriormente, fiz um curso com um porto-riquenho que trabalhava com audiovisuais aplicados ao ensino. Aprendi bastante coisa com ele. Ele propunha ideias e, a partir delas, eu desenvolvia materiais para o ensino de Matemática. Ele ficou na Unicamp um mês oferecendo cursos e eu "no calcanhar dele". Além de gostar de experimentar e explorar vários recursos e metodologias, eu gostava muito de trabalhar com o pessoal da Física, eles usavam muita coisa experimental. Eu tentava aplicar algumas teorias de Física nas minhas aulas de Matemática. No Coltec, convivi com alguns ingleses. Eles eram muito disciplinados, era aquele sistema inglês mesmo, tudo muito organizado. Entretanto, eles não se envolviam com a Matemática. No entanto, lembrei-me da participação do assessor inglês Bolton, junto ao Departamento de Física. Eu até pressionei esse inglês para que ele convidasse um assessor para atuar na Matemática. E ele respondia dizendo que já estava providenciando a remessa de alguns livros de Matemática para nós. E, de fato, mandou. Logo depois acabou o convênio com a Inglaterra. Nós tínhamos os livros, mas não tínhamos assessoria para trabalhar com eles. Figura 94: Coleção de Livros "Advanced Mathematics" doados pelo Conselho Britânico ao Departamento de Matemática do Coltec. Doados por Abdala Gannam à pesquisadora. 383 Posteriormente, um processo político passou a permitir a entrada de alunos que vinham do Centro Pedagógico 357 para o Coltec, sem a realização de concurso, sem nada, sendo que, até então, para ingressar no Colégio, era preciso realizar uma seleção rigorosa, muito concorrida. Muitos integrantes do Coltec não concordaram. Na minha opinião, isso não era justo com os demais alunos. Desde então eu comecei a desgostar do Colégio. Coincidiu com o momento em que eu tive oportunidade de ir para o Canadá, cursar o doutorado. Quando voltei, o país estava em uma crise política terrível. Junto a isso, o governo ameaçou prorrogar o tempo de trabalho para aposentadoria. Nesse ambiente, que não estava me agradando, como já tinha tempo suficiente, me aposentei em 1992. Logo em seguida, fui trabalhar em Pedro Leopoldo, onde fiquei por sete anos e encerrei minha carreira docente. Mais ilustrações das transparências desenvolvidas pelo professor Abdala Gannam. Figura 95: Transparência com Superposição. Fonte: Material produzido pelo professor Abdala, denominado "O uso do retroprojetor no ensino de Matemática". 357 O Centro Pedagógico tem sua origem no antigo Ginásio de Aplicação da UFMG, fundado em 21 de abril de 1954. Em 1958, o Ginásio de Aplicação transformou-se em Colégio de Aplicação, atendendo a uma crescente política de valorização da Educação. Na ocasião, passou a oferecer os seguintes cursos: Ginasial, Científico, Clássico e Normal. A partir de 1968, a UFMG passou por uma reestruturação que afetou também o Colégio de Aplicação e o Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia tornou-se um Centro Pedagógico, integrado à Faculdade de Educação da UFMG, com a função básica de ofertar cursos relativos ao ensino de 1º e 2º graus. Em 1972, o Centro Pedagógico foi transferido para o campus da Pampulha e passou a ter uma escola de 1º Grau, funcionando em prédio próprio. Em 1997, recebeu uma nova denominação: "Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG". Em 2007, o Centro Pedagógico (CP) passou a integrar, juntamente com o Colégio Técnico (Coltec) e o Teatro Universitário (TU), a unidade denominada Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG. Disponível em: . Último acesso em: 22 ago. 2016. 384 Figura 96: Transparência construída em uma lâmina de acrílico, com furos onde foram colocados pinos que servem de suporte para ajuste de elásticos. Utilizado para estudo de área e perímetro de polígonos. Fonte: Material produzido pelo professor Abdala, denominado "O uso do retroprojetor no ensino de Matemática". Figura 97: Transparência construída com papel cartão, com janelas de material transparente e abas para "aparecer e ocultar" imagens. Fonte: Material produzido pelo professor Abdala, denominado "O uso do retroprojetor no ensino de Matemática". 385 JOSÉ ELOISIO DOMINGOS - 73 ANOS Ex-professor do Coltec: 1970 - 1999 Data da Entrevista: 02/05/2016 Jed ou Jedboy, é assim que chamam o professor José Eloisio Domingos. Em poucos minutos de conversa com esse professor, eu já me senti à vontade para me dirigir a ele dessa forma. Jed é simples e muito simpático. No corredor do Coltec, na ocasião de nossa conversa, ele passava cumprimentando professores, secretárias, diretores, todos que o conheciam. No Setor de Matemática, é o ex-professor mais lembrado, pois, sempre que possível, faz visitas ao colégio. Foi em uma dessas visitas que o conheci. Na ocasião, eu ainda estava escrevendo o meu projeto para a seleção de doutorado. Ele, brevemente, me relatou alguns episódios vividos na escola e se dispôs a contribuir com a pesquisa, se fosse o caso. Tomei nota do seus telefones em Belo Horizonte e em Araxá, cidade onde nasceu e reside atualmente. Reencontrei Jed, posteriormente, em uma confraternização realizada na residência de uma professora que atua no Setor. Nessa reunião, todos os participantes ficaram muito felizes com a sua presença e eu pude conhecê-lo melhor. Trocamos mensagens e marcamos nosso encontro no Coltec. Tivemos um ótimo bate-papo, em que conheci um pouco de sua experiência. Em sua trajetória no Colégio Técnico, lecionou Matemática, administrou a instituição, capacitou docentes, supervisionou estagiários, produziu materiais e foi membro do CONDETUF (Conselho Nacional de Dirigentes das Escolas Técnicas vinculadas às Universidades Federais). Espero ter a oportunidade de encontrá-lo mais vezes, para trocarmos vivências de sala de aula e do dia a dia. Eu me formei na FAFI-BH (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte), sou da primeira turma de licenciatura em Matemática dessa instituição. Em seguida, fiz um curso de Aperfeiçoamento em Buenos Aires, Argentina, com duração de dois meses e meio. Tratava-se de um projeto da OEA (Organização dos Estados Americanos), cuja temática era integração da Matemática com outras Ciências. Mas, na prática, percebia que era um curso que tratava de assuntos genéricos da educação, nem tanto voltado para Matemática ou para Física. Nós éramos todos da América do Sul e da América Central. Eu era o único 386 brasileiro, o único que não dominava muito bem o idioma espanhol. Meu trabalho de final de curso foi realizado em dupla, com o Jorge Portillo, que era da Guatemala. Foi escrito em espanhol, exigência do curso. O Jorge e os demais colegas me ajudaram muito na questão do idioma, eles sempre me socorriam. Figura 98: Capa do trabalho final de José Eloisio Domingos, intitulado: "Interación de matematica y fisica y su vinculacion com las demás ciencias", desenvolvido no curso "Integración de Matematica y fisica y su vinculación com las demás ciencias", em 1981. Fonte: Arquivo do Setor de Matemática do Coltec. Na ocasião desse curso, eu já lecionava no Coltec. Eu entrei no Departamento de Matemática do Colégio em 1970. O primeiro concurso que eu fiz lá foi em 1969. Lembro-me que havia duas vagas e fiquei em terceiro lugar. O professor Alceu Santos Mazzieiro 358 foi da minha banca. Ele atuava no Departamento de Matemática do ICEx (Instituto de Ciências Exatas) e esteve no Coltec no começo, ajudando em sua criação. Embora eu estivesse classificado, resolveram tirar uma vaga da Matemática e disponibilizá-la para a área de Desenho. Os professores Napoleão e Consuelo foram selecionados. A professora Consuelo trabalhou por pouco tempo no Colégio; logo em seguida ela se mudou para Uberlândia. No ano seguinte, eles abriram concurso, novamente, e eu passei como segundo colocado. Mas não me lembro quem teria sido o professor ou professora que ocupou o primeiro lugar. Talvez 358 Bacharel, licenciado e especialista em Matemática pela UFMG. Atuou como chefe dos Departamentos de Matemática do Centro Pedagógico, do Colégio Universitário e do Instituto de Ciências Exatas da UFMG; coordenador da área de Matemática do Projeto de Inovação Curricular e Capacitação de Docentes do Ensino Fundamental da Secretaria Estadual de Educação do Estado de Minas Gerais; coordenador da área de Matemática do Projeto de Correção do Fluxo Escolar para o Ensino Fundamental da Secretaria Estadual de Ensino do Estado da Bahia; e membro da equipe de consultores do Projeto de Capacitação de Professores de Ensino Médio da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais. Disponível em: < http://www.icex.ufmg.br/index.php/noticias?start=182>. Último acesso em: 07 jul. 2016. " Esse foi o trabalho que eu fiz lá. Foi meu trabalho de final de curso, um tipo de monografia". 387 tenha sido o Pellicano 359 , não me lembro. Eu sou péssimo de memória, já vou te adiantar. Depois veio o professor Luiz Humberto, oriundo do Colégio Universitário, e o professor Abdala, também não me recordo em que ordem. Eu não fiz outro curso de aperfeiçoamento, além do que realizei na Argentina, mencionado anteriormente. O que chegou mais próximo disso foi a minha participação em um projeto do Coltec, realizado pelo setor de Física, que envolvia Matemática, também financiado pela OEA. Esse projeto era coordenado pelo professor Arthur Gomes, do Departamento de Física. Acredito que tenha sido desenvolvido em 1981. Nós fizemos várias atividades e desenvolvemos materiais. Associado a esse projeto, eu fui à Inglaterra, visitar várias escolas e instituições que também produziam materiais didáticos. Todos os setores que estavam envolvidos, mandaram um professor, seja das disciplinas básicas, como a Matemática, ou da parte profissional, já que o projeto era bem amplo. Se não me engano, foram oito pessoas, por um período de três semanas. Foi uma viagem muito interessante e lucrativa, além, evidentemente, do passeio. As escolas visitadas eram todas de cursos técnicos e já tinham tido algum contato conosco, devido ao Convênio da UFMG com a Inglaterra, que originou o Colégio. Os ingleses ofereceram assessoria para a gente, me parece, por oito anos, desde a fundação do Coltec. Dessa forma, nós tínhamos muita ligação com a Inglaterra. Eu e o Arthur, por sermos os chamados "dinossauros", os "antigões" da escola, nos relacionávamos bem com os ingleses. Além disso, ele cursou o mestrado ou doutorado na Inglaterra. Esse conjunto de fatores facilitou a nossa ida. Nós já fomos com a programação prontinha. Chegando lá, todos já estavam nos esperando, foi muito tranquilo. Nessa ocasião tivemos contato, inclusive, com ingleses que auxiliaram no desenvolvimento do Coltec, não aqueles da criação do Colégio, mas outros que estiveram aqui, ao longo desses oito anos de assessoria britânica. Diante de alguns materiais trazidos da visita à Inglaterra, armazenados em um envelope, disponível no Arquivo do Setor de Matemática do Coltec, José Eloisio relembra outros detalhes. 359 Há registros de que o professor Ronaldo Pellicano, já falecido, tenha lecionado no Colégio em 1971. As demais informações a seu respeito foram obtidas por meio dos colaboradores desta pesquisa. 388 Figura 99: Capa e/ou primeira página de alguns materiais, relacionados à Matemática, disponibilizados na pasta de "Material colhido na Inglaterra”. Fonte: Arquivo Coltec. Os professores ingleses que vieram para o Brasil auxiliar na fundação e desenvolvimento do Coltec foram contratados exclusivamente para isso. Alguns, inclusive, relatavam que estariam desempregados, quando retornassem para a Inglaterra, pois o contrato de trabalho que eles possuíam era apenas para executar a assessoria ao Colégio. Muitos ingleses ficavam irritados quando chegava o momento de retornarem, pois, além da possibilidade de ficarem desempregados, eles gostavam das condições de trabalho que eram oferecidas a eles no Brasil e do estilo de vida daqui. Eles eram apaixonados com o nosso jeito de ser. Lembro-me de um deles, um senhor divorciado que tinha uma filha, me dizer amargurado: "É... vocês não sabem o que é voltar para casa, para a Inglaterra, ligar para a minha filha marcando de jantar lá e ter que levar a minha batata". Ele nos disse que isso já mostrava como é a diferença de nossos valores. Em síntese, esse convênio, além de ter sido de grande importância para o progresso da escola, também proporcionou novos relacionamentos, que foram proveitosos para todos. "Chegando às escolas que nós íamos visitar, eu conhecia o professor de Matemática. Ele vinha me atender e conversar comigo. Era a relação que eu lembro que houve com essa disciplina. A visita se voltou mais para observar a parte técnica". 389 Figura 100: Programação da visita de representantes do Coltec ao Huddersfield Technical College, na Inglaterra. Fonte: Arquivo do Setor de Matemática do Coltec. Da nossa parte, vale salientar que o Colégio herdou toda a filosofia dos ingleses. Com eles entendemos e aprendemos o "fazer". Nós casamos com essa ideia do "fazer", do aprender fazendo. E, talvez, tenha sido esse o diferencial do nosso curso de Matemática no Coltec. Nós usávamos muito pouco o quadro negro, ele não era a nossa primeira ferramenta. Utilizávamos o quadro quando era necessário. Nem tão pouco privilegiávamos os livros didáticos. Nós até tentamos utilizar o livro do Gelson Iezzi, que era considerada uma boa coleção. Mas, rapidamente, vimos que não daria certo, pois, na nossa concepção, eles são preparados para professores. Quando os alunos leem, não entendem. Por outro lado, eles são úteis para os estudantes fazerem exercícios ou realizarem consultas. Desse modo, nós sempre procurávamos produzir o nosso próprio material, de acordo com o que ensinávamos para os alunos, incluindo instruções do tipo: "faça aqui", "pega ali", "lê , estuda e faz". Os alunos ficavam sentados em grupos, conforme queriam, e eu ficava ali, disponível. Sempre que precisavam, era só me chamar. O material já era preparado pensando no trabalho em grupos. Isso iniciou-se cedo; quando eu entrei no Colégio já era assim. O primeiro trabalho que me deram para realizar foi uma revisão de uma apostila de Instrução Programada, metodologia adotada no Departamento. Eu fiz a revisão desse material que, se eu não me engano, foi produzido pelo professor do Departamento, Napoleão, para ser empregado no início do ano seguinte. Quando eu entrei, estava no período de férias escolares. Esse tipo de trabalho, em que os professores produzem material, com a proposta dos alunos fazerem, não era próprio do setor de Matemática, era uma filosofia da escola, de todos os setores. Paralelamente, eu percebia que o ensino das outras instituições era bem tradicional. Até onde eu me lembre, ou até onde eu fiquei sabendo, as outras escolas eram tradicionais, com poucas inovações, do tipo "2+2=4 e vamos que vamos!". Que eu saiba, ou tenha ouvido "Aqui tem os nomes da turma que foi lá. Arthur Gomes e Dacio Moura, da Física; Lilavate Romanelli, da Química, aqui está trocado; Antônio Moreira e Geraldo Amaral, da Instrumentação; Adilson Moreira e Thales Teixeira, da Eletrônica". 390 falar, não tenho notícias de outras escolas que fizessem um trabalho diferenciado como o nosso. Consequentemente, os nossos alunos eram diferenciados. Isso ficava evidente na fala de outros professores da Universidade, que atuavam em laboratórios que os alunos do Colégio frequentavam: "aquele menino ali é do Coltec ". Quando iam conferir, era mesmo. Pelo comportamento dos estudantes, eles já sabiam. De outro modo, em cursos preparatórios, diante de alguma questão, os professores diziam: "essa aqui é do Coltec ". Considerando as duas escolas técnicas que eram mais procuradas na época, que eram o CEFET 360 (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais) e o Coltec, os docentes de todos os cursinhos diziam que, ao bater o olho, sabiam distinguir se as questões dos exames de seleção eram de um colégio ou de outro. Isso porque, já na prova de seleção, nós pensávamos no perfil do aluno que nós queríamos, que tivesse o mínimo de leitura, compreensão e entendimento. Isso facilitava o nosso trabalho. Além dessa filosofia do fazer, o Departamento de Matemática não contou com uma ajuda direta dos ingleses, pois não havia um especialista inglês para nos auxiliar. Um deles, no entanto, que teria participado desde o início do Convênio, nos deu algumas orientações e se interessou em ver como era o nosso trabalho. No geral, o que todos os docentes recebiam de contribuição eram cursos sobre equipamentos educativos e didáticas, mas nada específico para Matemática. Nesses cursos, eram apresentadas novas ideias, recursos inovadores, coisas que nós não conhecíamos, que são comuns atualmente, e que já eram utilizadas na Inglaterra, naquela época. Recebemos, também, uma coleção de livros de Matemática e calculadoras eletrônicas, mas não sei se ainda estão no Colégio. Porém, como a gente dominava muito pouco o idioma inglês, esses livros não foram muito úteis. As calculadoras, por sua vez, aquelas antigonas, de quando começaram a surgir no Brasil, cerca de trinta delas, foram utilizadas por nós. Eram calculadoras muito simples, porque na época não tinha muita sofisticação, mas era uma novidade. Nós montamos um laboratório no Colégio para trabalhar com esses equipamentos. O professor Sérgio 361 , do nosso Departamento, era familiarizado com as tecnologias e ficou encarregado de preparar o material para o uso das calculadores e ensinar aos alunos. Depois, nós permitíamos que os estudantes utilizassem essas máquinas nas 360 O CEFET-MG foi fundado em 1909, como Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais. Posteriormente, assumiu outras denominações até ser denominado Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, CEFET - MG. Atualmente, atende a capital e outras oito cidades do estado. Oferece cursos desde técnico de nível médio até curso de doutorado. Disponível em: < http://www.cefetmg.br/textoGeral/historia.html>. Último acesso em: 23 ago. 2016. 361 Sérgio Veiga Dias, também chamado de Serjão por ex-alunos e professores do Coltec, lecionou Matemática no Colégio. Não foi possível localizar esse professor para participação nesta pesquisa. 391 aulas. Elas ficavam dispostas nos balcões do laboratório de Matemática, plugadas na tomada, pois não possuíam bateria. Com pesar, o convênio com a Inglaterra terminou. Eu ainda mantive contato com alguns ingleses com os quais fiz grandes amizades. Durante a estadia deles no Brasil, ficávamos muito tempo juntos, em almoços, passeios, idas ao estádio de futebol "Mineirão", entre outros. Um deles, inclusive, casou-se com uma brasileira e, por isso, conservamos nosso relacionamento por mais tempo. Outro amigo que fiz foi o Brown, da Escola Técnica de Huddersfield 362 . Mas, infelizmente, com o tempo você perde o vínculo, perde o contato. Vale ressaltar que eu desconhecia essas particularidades do Coltec quando ingressei nesse colégio. O que me motivou a prestar concurso no Colégio foi o fato de, naquela época, as melhores opções da carreira de professor residirem nos cargos da Prefeitura, do Estado ou da União. Eu já era concursado no Colégio Estadual 363 e também lecionava na Faculdade de Engenharia de Itaúna 364 , quando fui selecionado para lecionar no Colégio Técnico. Por algum tempo eu trabalhei nas três instituições simultaneamente. O Colégio Estadual, na época, era fantástico! Lá estava a nata dos professores de Belo Horizonte, era o supra-sumo. Eu deixei de participar do projeto Rondon 365 , optei por não ir para o estado do Amazonas, para fazer o concurso do Estadual. Considero que foi um ótima escolha. Quando eu passei nessa seleção, fiz uma grande comemoração com os amigos das repúblicas próximas à minha, juntei meus conterrâneos, amigos, e fomos festejar em um restaurante alemão chique. Afinal, eu lecionaria em uma das melhores instituições de ensino da cidade. Outro colégio conceituado era o "Municipal da Lagoinha 366 ", mas não trabalhei lá. 362 O Huddersfield Technical College, juntamente com a Dewsbury College, se fundiu, em 2008, no Kirklees College, uma das maiores faculdades no Reino Unido, e oferece uma vasta gama de cursos e opções de estudo. Disponível em: < https://www.kirkleescollege.ac.uk/>. Último acesso: 11 jul. 2016. 363 Esse colégio foi a primeira escola pública estadual de Minas Gerais. Instalada, inicialmente, na cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto) com o nome de Liceu Mineiro e, posteriormente, Ginásio Mineiro. Em 1898, foi transferida para Belo Horizonte (capital mineira), ocupando diferentes construções e assumindo várias nomenclaturas. A partir de 1963, recebeu o nome de Colégio Estadual Central. Em 1978 recebeu a denominação atual: Escola Estadual Governador Milton Campos (mesmo nome atribuído a esse colégio, anteriormente, no período de janeiro de 1972 a fevereiro de 1973). Disponível em: . Último acesso em 13 jul. 2016. 364 A Universidade de Itaúna possui campi nas cidades de Itaúna, Almenara e Lagoa da Prata. Oferece cursos de bacharelado, licenciatura, tecnólogo, Pós-Graduação Lato Sensu e Pós-Graduação Stricto Sensu. Disponível em: . Último acesso: 10 jul. 2016. 365 Criado em 1967, o Projeto Rondon nasceu de uma arrojada iniciativa de professores universitários: levar alunos em fase de graduação para a Amazônia, a fim de promover a integração e o conhecimento das diversas realidades nacionais. Disponível em: < http://www.projetorondon.org.br/historia.html>. Último acesso em: 10 jul. 2016. 366 A Escola Municipal Honorina de Barros era conhecida por "Municipal da Lagoinha", por situar-se no bairro São Cristovão, em Belo Horizonte. Essa instituição, atualmente, oferece Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos. Disponível em: . Último acesso em: 22 ago. 2016. 392 Continuei no Estadual Central e na Faculdade de Itaúna nos anos em que o meu cargo no Coltec era de 20 horas semanais. Em seguida, passei a atuar na carreira de Dedicação Exclusiva no Colégio Técnico e abandonei as outras instituições. Nesse período, meados dos anos 1980, o Estadual já estava em decadência, os salários não eram tão bons, o colégio não era o mesmo, e eu resolvi pedir demissão. Lembro-me que a diretora em exercício não queria assinar a minha exoneração, pois estava ocorrendo uma debandada de professores e ela precisava de mim. De modo que, até hoje, estou vinculado ao Estado. No Colégio Técnico, além de lecionar nos cursos técnicos, eu integrava uma equipe que oferecia treinamento para professores do Estado. Tratava-se de uma equipe multidisciplinar que viajava para vários municípios de Minas Gerais, promovendo cursos de capacitação. No Departamento de Matemática, participávamos eu, o Abdala, o Sérgio e a professora Tânia. Abdala abordava os recursos didáticos para o ensino de Matemática, tema de sua dissertação. Nós visitávamos os professores em suas cidades, onde desenvolvíamos materiais e recursos, relacionados ao que havia sido ensinado. Nessa ocasiões, também verificávamos o que eles tinham produzido, após nossas recomendações, passadas no encontro anterior. Esse trabalho era muito gratificante, pois os locais atendidos eram muito carentes. Deixavam todos os visitantes perplexos com tanta necessidade. Nós percebíamos que aqueles docentes só estavam naquela incapacidade porque faltava alguém que fosse lá e os ajudasse. Além da possibilidade de contribuir com a prática desses docentes, as experiências com as viagens eram muito boas. Nós conhecíamos pessoas, realidades, situações. Certa vez, fui ao banheiro de uma escola, na cidade de Rio Acima, em que o vaso sanitário era de barro, enterrado. A partir de cada episódio desse, nós valorizávamos muito o que nós tínhamos, toda a estrutura que o Coltec nos oferecia. Tem, ainda, um relato interessante de um uma das minhas viagens, cujo destino foi a cidade de Iturama. Lembro-me que ninguém queria ir para lá, pois era muito distante, divisa com Goiás, bico do Triângulo Mineiro. Então nós sorteamos e eu ganhei. Viajei a noite inteira. Lá encontrei uma cidade muito pequena, mas arrumadinha. No outro dia de manhã, eu teria um encontro com a professora. Chegando na escola, percebo uma calmaria, um paradeiro. Veio, então, um porteiro: "O senhor que é o professor de Belo Horizonte?". "Sou eu", respondi. "Nós estamos esperando o senhor", ele completou. Quando entrei na escola, a diretora tinha reunido todos os professores da escola. Aí começaram os agradecimentos pela minha presença. Ou seja, eu estava lá para conversar com uma professora, ver o que ela fez, as dificuldades que ela teve, os procedimentos rotineiros e, quando chego lá, aquela sala 393 inteira me aguardando. Daí eu fiz um discurso, falei mais sobre o projeto, sobre mim, sobre como trabalhávamos no Colégio. Na realidade, não foi difícil falar para eles, pois o pessoal era muito abandonado. Foi uma experiência muito interessante, eu guardei essa lembrança dessas minhas viagens. Eu gostava tanto desse projeto que, se ele existisse quando eu me aposentei, eu teria satisfação em continuar. No entanto, a equipe toda que trabalhava nesse período começou a se aposentar, e isso foi muito prejudicial ao Coltec. Grande parte dos professores entraram e saíram, se aposentaram juntos do Colégio, e os projetos foram encerrados. Na parte administrativa, fui vice-diretor do Coltec por quatro anos, e diretor por mais quatro anos, além de ter sido diretor geral por dois anos da Unidade Especial da Universidade, que integrava o Centro Pedagógico 367 e o Colégio Técnico. Eu não vou dizer que tenha sido ruim me envolver na parte administrativa, pois aprendi muito nessa área, mas prejudicou a minha carreira acadêmica, uma vez que eu não conseguia tempo para estudar e não tive a chance de fazer um mestrado. Assim como o professor Luiz Humberto e o Abdala, do Departamento de Matemática, eu ia fazer o mestrado oferecido pela Unicamp 368 , mas na minha vez acabaram os incentivos. Eu poderia até cursar esse curso de pós-graduação, mas sem a bolsa da CAPES (Coordenação de Pessoal de Nível Superior). Ficaria afastado, residindo em São Paulo, sem salário para arcar com as minhas despesas. Eu questionei isso, escrevi para a CAPES, mas não obtive retorno, então deixei de lado. A UFMG, por sua vez, oferecia mestrado em Educação, mas era incomum admitirem estudantes cuja formação era nas Ciências Exatas. Isso mudou depois; inclusive o professor Airton 369 , também do nosso Departamento, fez mestrado e doutorado lá. Além disso, fui fundador do CONDETUF (Conselho Nacional de Dirigentes das Escolas Técnicas vinculadas às Universidades Federais). Tratava-se de um Conselho de 367 O Centro Pedagógico tem sua origem no antigo Ginásio de Aplicação da UFMG, fundado em 21 de abril de 1954. Em 1958, o Ginásio de Aplicação transformou-se em Colégio de Aplicação, atendendo a uma crescente política de valorização da Educação. Na ocasião, passou a oferecer os seguintes cursos: Ginasial, Científico, Clássico e Normal. A partir de 1968, a UFMG passou por uma reestruturação que afetou também o Colégio de Aplicação e o Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia tornou-se um Centro Pedagógico, integrado à Faculdade de Educação da UFMG, com a função básica de ofertar cursos relativos ao ensino de 1º e 2º graus. Em 1972, o Centro Pedagógico foi transferido para o campus da Pampulha e passou a ter uma escola de 1º Grau, funcionando em prédio próprio. Em 1997, recebeu uma nova denominação: "Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG". Em 2007, o Centro Pedagógico (CP) passou a integrar, juntamente com o Colégio Técnico (Coltec) e o Teatro Universitário (TU), a unidade denominada Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG. Disponível em: . Último acesso em: 22 ago. 2016. 368 O curso de mestrado em ensino de Ciências e Matemática tinha como objetivo formar líderes no ensino dessas disciplinas, desenvolver novos materiais e melhorar a qualidade da educação no Brasil e nos Estados Americanos (OEA) e o MEC (Ministério da Educação e Cultura) e era coordenado pelo professor Ubiratan D'Ambrosio. < http://migre.me/w1BKf >. Último acesso: 22 jun. 2016. 369 De 1992 até o início de 2017, Airton Carrião Machado lecionou Matemática no Coltec. Conviveu com alguns docentes que ingressaram no Colégio no período de sua fundação e colaborou com esta pesquisa. 394 Diretores dos Colégios Técnicos vinculados às Universidades, que realizava seus encontros, principalmente, em Brasília. A partir de nossa reuniões, nós apresentávamos nossas necessidades ao MEC; uma delas era a demanda de verba para as instituições. Como fundador, eu podia participar das reuniões e era convidado a integrá-las frequentemente, mesmo quando deixei de ser Diretor Geral da Educação Básica da UFMG. Como convidado, eu podia opinar, discutir, mas não podia votar. No entanto, eu fui a poucos encontros dessa forma, pois a Universidade não arcava com as minhas despesas nesse caso. Quando eu era membro da CONDETUF eles pagavam. A última reunião de que eu participei foi em Belo Horizonte. Quando a demanda da reunião não dependia de Brasília, eram coisas específicas do Conselho, nós agendávamos a reunião em outras cidades. Com a minha participação no CONDETUF, eu viajei muito, conheci muitas cidades. Isso me ajudou, ainda, a conhecer melhor outras instituições federais. Desde a minha entrada no Coltec até a minha aposentadoria, havia quatro cursos técnicos: Química, Instrumentação, Eletrônica e Patologia. Em minha formação eu não fui preparado para atuar em cursos profissionalizantes. No Colégio eu recebia orientações do pessoal que já trabalhava na escola com relação à filosofia da escola. A diferença que eu percebia no ensino do Coltec, em relação ao Colégio Estadual, por exemplo, que não oferecia cursos técnicos, era o currículo. Denominávamos turma da Física, os cursos de Instrumentação e Eletrônica, turma de Biologia, o curso de Patologia, e turma de Química, o curso de Química. Essa diferenciação começava no segundo ano; trabalhávamos em linhas diferentes nessas turmas. O próprio Colégio separava as turmas assim: Física, Biologia e Química. Nessa divisão, os programas eram diferentes, cada turma tinha o seu currículo. A Matemática, por exemplo, que a turma de Química tinha, era diferente daquela vista nas turmas de Eletrônica e Instrumentação. Inclusive, a quantidade de aulas de Matemática variava de um curso para o outro. As turmas de Física e Química tinham uma carga horária bem maior, porque precisavam. Já a turma de Biologia era a única que cursava a disciplina de Bioestatística. Nós procurávamos atender as necessidades do pessoal da área técnica, alterando a ordem de apresentação dos conteúdos, ou mesmo a escolha desses. O coordenador de cada curso era quem observava essas necessidades e administrava as demandas. Outra iniciativa nossa era exemplificar os problemas com dados que fossem próximos da realidade dos alunos, acessíveis a eles. E isso não era fácil, porque não fomos preparados para isso em nossa formação. 395 A propósito, considero que os cursos de graduação não preparam os professores para o que eles vão enfrentar dentro da escola. Eu questiono muito isso. Se eu tivesse realizado mestrado, minha proposta de pesquisa seria sobre formação de professores, em relação a essa contradição que existe entre o que se aprende no curso e o que se vive na realidade das escolas. Quando os estudantes da graduação vinham ao Coltec fazer estágio sob a minha supervisão, eu não admitia que eles ficassem sentados, ao fundo da sala, apenas me assistindo. Eu solicitava a eles que, assim como eu, circulassem na sala e auxiliassem os alunos. Eles precisavam participar, corrigir provas, sentar com os alunos para ajudar nas dúvidas e resolver os problemas. Os licenciandos achavam ótimo, não teve algum que tivesse reclamado. Eles diziam: "o que eu quero é isso mesmo". Durante as aulas, eu entregava a apostila e deixava os estudantes trabalharem no ritmo que eles quisessem. O começo era por conta deles. Eles iam fazendo e eu ficava acompanhando aquilo. Circulava na sala, um aluno chamava, depois outro. Eu observava como estava o ritmo da turma. Quando chegava a véspera da prova, eu dizia: "a matéria da prova é até a página tal". Todos tinham que fazer as listas de exercícios até atingir aquele ponto. Quando a coisa apertava, em um determinado momento, que eu percebia que todos alunos estavam agarrados em alguma parte da apostila, aí eu ia para o quadro e explicava a todos. Conforme era a reação da turma, eu percebia a necessidade de ir ao quadro e dizia: "gente, espera aí, vamos com calma", e explicava a todos. Era possível notar quando os alunos estavam tendo dificuldade. Inclusive, isso auxiliava meu trabalho com a produção de apostilas, me ajudava a fazer correções no material, consertar erros de digitação e melhorar ou acrescentar novas instruções. Todo ano o material era revisado, refeito, em função dos problemas encontrados durante o seu uso. Outro momento que sempre me levava ao quadro era o de correção de provas. Acredito que o professor tem que corrigir a prova para os alunos. Não basta entregar para eles corrigida. É importante entregar a prova corrigida no papel, mostrando onde ele errou e, em seguida, fazer toda a prova na sala, explicando tudo de novo. Além de ajudar aos estudantes a compreenderem os seus erros, muitas vezes, a resolução do professor simplifica algo, eles veem um modo de solucionar o problema que não enxergaram no momento da prova. Ou seja, na Matemática não temos como não ir ao quadro, nós íamos com frequência. Mas o ideal é deixar o aluno fazer, pegar, ler e entender por si. Com relação aos conteúdos trabalhados, eu lecionei para todas as séries. Mas, nos últimos anos, trabalhei muito com Funções, no 1º ano. 396 Figura 101: Capas de duas apostilas, elaboradas pelo professor José Eloísio, nos anos de 1994 e 1998. Fonte: Arquivo do Setor de Matemática do Coltec. Praticamente todas as atividades de Matemática eram realizadas na sala. Nós falávamos isso aos alunos: "vocês não têm que levar nada para casa"; "nós estamos te dando isso aqui, para você fazer aqui"; "você não tem que fazer isso em casa"; "eu quero que você faça aqui, porque se tiver alguma dúvida eu estou aqui para te ajudar"; ou "você pode fazer na biblioteca, no horário do almoço, e ir ao plantão de dúvidas". A nossa biblioteca era frequentadíssima, principalmente no horário do almoço. Não só por conta da Matemática, mas devido às outras disciplinas. Então, como os alunos ficavam o dia inteiro no Colégio, não tinha como querer que eles chegassem em casa e ainda estudassem. A nossa intenção era que eles fizessem tudo na escola. Eles entendiam bem e procuravam fazer. Em relação aos recursos didáticos, nós usávamos muito o retroprojetor, cada setor tinha um. Isso foi uma coisa que os ingleses trouxeram, ensinaram e insistiram com a gente para utilizar. Em nosso Departamento, tinha o professor Abdala Gannam, que gostava muito de trabalhar com o retroprojetor. Ele utilizava transparências com movimento. Eu não me lembro de ter visto alguém empregando as transparências dessa forma. Ele foi pioneiro, ele trabalhou muito com isso. O professor Abdala também deu início a um trabalho de construção de sólidos geométricos, para o ensino de Geometria. Nós fazíamos materiais com cartolina, madeira, vidros. Além do uso do retroprojetor, faziamos gráficos em cartolinas, tinha uma porção de materiais. Tinha umas fitas magnéticas, que os ingleses trouxeram. Era uma novidade! Hoje em dia é muito comum. Eram fitas adesivas magnéticas, que eram colocadas no verso de cartazes e fixadas em um quadro de metal, feito no Colégio mesmo. Usávamos esse recurso com frequência. Previamente, antes das aulas, construíamos cartazes com pincel atômico, com "Essas aqui são recentes, de 1994 a 1998. Fiz outras anteriormente, em stencil, à tinta, que eram grampeadas. Eu procurava fazer uma mistura. Na minha apostila havia Instruções Programadas e Estudos Dirigidos. Grande parte do material era para o aluno completar, fazer gráficos, etc.". 397 gráficos, figuras ou fórmulas, que demandavam tempo se tivessem que serem feitos ou escritos no quadro. Nós cortávamos um pedaço de cartolina, escrevíamos com pincel e depois colávamos a fita adesiva no verso, como se fosse um "Durex", só que era magnética. Durante as aulas colocávamos os cartazes de forma visível. Quando os ingleses as trouxeram, deram um curso para nós, professores. Ficamos doidos com essas fitas, porque não tinha delas no Brasil. Eles utilizaram no curso e as fitas restantes eles distribuíram para nós. Depois, quando estivemos na Inglaterra, tivemos a oportunidade de comprar mais e trazer. Atualmente, deve ter para vender, pois é muito utilizado para confecção de ímãs de geladeira. Os mesmos cartazes podiam ser utilizados em várias turmas, onde lecionaríamos a mesma matéria. Esse material já ficava pronto para aquela determinada aula, nós só tínhamos o trabalho de fazer uma vez. O Sérgio, também do Departamento, iniciou o uso de computadores nas aulas de Matemática, ensinando programação de computadores aos alunos. Mas era apenas ele, que era mais ligado às questões de tecnologia. Ele foi um dos precursores do uso de computadores na área da educação, em Minas Gerais, porque aí fora, em outras escolas, não tinha isso. Quando surgiu o computador, surgiu engatinhando, eram poucos os lugares que tinham. Foi uma luta para a gente conseguir dotar os setores. Inicialmente, equiparam o setor administrativo, seção de compras, depois seção de ensino. Participei desse processo quando fui diretor. Eram comprados, no máximo, dois computadores por ano. Com isso, para que os setores fossem equipados com essas máquinas, demorou muito. Ou seja, se no Coltec, dentro da Universidade, era assim, lá fora, em outras escolas, era muito mais difícil. Também não tenho informações de outra escola que tenha trabalhado com calculadoras na mesma época que a gente, pois as calculadoras eram caras, eram importadas. Além desses recursos, nós fazíamos nosso próprio material, as apostilas, contendo Instruções Programadas e Estudos Dirigidos. Como eu disse anteriormente, fizemos uma tentativa de adotar livro didático, mas não foi boa, não funcionou bem. Tínhamos coleções que ficavam disponíveis na biblioteca do Colégio. A coleção do "Trotta, Imenes e Jakubovic", por exemplo, que, se não me engano, chegou a ser adotada uma vez, no 3º ano, para a turma de Instrumentação, mas não estou certo disso. Os Estudos Dirigidos eram elaborados a partir dessas coleções ou de livros que eram indicados para os alunos comprarem. Esses pareciam com um roteiro, uma orientação para os estudantes seguirem o livro. O objetivo era ajudá-los a ler e entender os conteúdos dos livros. As Instruções Programadas, por sua vez, eram textos, com lacunas para serem preenchidas, para os alunos completarem. Havia perguntas com 398 espaços brancos para as respostas. Em ambos, Instrução Programada e Estudo Dirigido, incluíamos exercícios. Outro detalhe, em relação ao trabalho com as apostilas, é que eu não as recolhia para correção. Os alunos conferiam as respostas entre eles. Quando eles não chegavam a um acordo, me chamavam para eu verificar quem estava certo, ou onde eles erraram. No geral, fluía bem. Quando o Coltec foi criado, já existia o CEFET/MG em Belo Horizonte. Eu suponho que as vagas disponíveis no CEFET não supriam a demanda de mão de obra qualificada do Estado. O Colégio Técnico, então, foi criado pela necessidade de colocar mais profissionais no mercado, mas a demanda era outra, quiseram formar mão de obra diferenciada, específica, e conseguiram. O menino que se formava no CEFET tinha um perfil bem diferente do que concluía o curso do Coltec. O menino do CEFET era muito mais técnico, muito mais ligado à área de formação e restrito a ela, enquanto o menino do Coltec tinha uma formação mais aberta, mais abrangente, mais versátil. Internamente, o relacionamento entre os professores do Colégio era muito bom. Não havia uma valorização de uma determinada disciplina, todas eram respeitadas e bem vistas. O tratamento era mais ou menos uniforme, sem privilégios. Também não havia rivalidade entre o pessoal do profissionalizante e o pessoal das áreas básicas, não que eu me lembre. Um caso polêmico que eu me recordo ocorreu uma vez, quando o Departamento de Química tentou criar o curso de Biotecnologia no Coltec. Na época, 1990, 1991, seria um curso técnico inovador. O pessoal da Patologia, que atuaria no curso, não aceitou, exigiam que esse curso pertencesse a eles. A discussão foi para a reunião do colegiado. Nesse dia eu compareci à reunião mas não pude votar, pois estava de férias. O meu voto, que era a favor da criação do curso, pela Química, decidiria o impasse. Mas, na ocasião, a votação ficou empatada. Isso deu o que falar, deu muito bate-boca. Surgiu aí um problema para a eternidade. Foi a única vez que eu vi um desacordo desses na escola. No mais, o tratamento entre os departamentos sempre foi igual, sem privilégios, sem discriminação, tanto que todos possuíam a mesma representatividade no colegiado. No caso específico da Matemática, nós éramos muito populares. Nós nos relacionávamos com vários setores, que vinham até nós relatar os assuntos da Matemática em que os meninos estavam tendo dificuldades. Da nossa parte, isso era muito relevante, nos interessava conhecer as demandas dos cursos técnicos. Ou seja, não havia embate conosco. Nós trabalhamos muito para o curso de Patologia, por exemplo. Os professores desse curso orientavam os alunos a realizarem uma pesquisa empírica, muitas vezes envolvendo 399 vermes, e nós encaminhávamos toda a parte estatística, dentro de uma disciplina específica desse curso, denominada Bioestatística. Isso era muito legal. Recordo-me que eu não gostava de Estatística, mas queria aprender, então eu lecionei essa disciplina por um tempo. Com o tempo em que atuei no Colégio, percebi muita mudança no comportamento dos alunos. Considero que antigamente os estudantes eram melhores, não no sentido de mais capazes, mas de mais interessados, mais motivados, mais responsáveis. Com o tempo, ficaram mais largados... não sei como expressar isso.... Observei uma mudança do tipo de aluno que entrava no Coltec antigamente, para o que passou a ingressar nos últimos anos. Isso não é devido ao Colégio, mas à própria vida. Era muito mais fácil lidar com o aluno de antigamente, ele aceitava nossas propostas, se adaptava melhor e mais rapidamente à nossa forma de trabalhar. Mais recentemente, os estudantes apresentavam mais dificuldades de compreenderem nossa metodologia, pois já estavam acostumados a outra forma de trabalho, em que se sentavam e ouviam o professor falar... blábláblá.... Nós os orientávamos, dizendo: "Aqui não é assim não! Eu vou ficar aqui olhando você fazer. Você que vai fazer". Muitos alunos tinham dificuldades com isso, e isso foi se acentuando com o tempo, por causa do tipo de aluno que acessava o Colégio, mais resistente, talvez. A partir de um certo período no Colégio, todos os alunos se encaixavam. No segundo ano, todos eles já sabiam que era assim, não havia mais dificuldades. O problema maior era no 1º ano, até que os estudantes entendessem que se eles não fizessem, não iam passar. Eu dizia: "aí depende de você, não é de mim não. Você tem que fazer". Os estudantes não diziam, mas a impressão que eu tinha é que eles pensavam, a respeito dos professores: "Você que tem que trabalhar. É você que tem que me ensinar, não sou eu que tenho que aprender". Eu me lembro dos alunos dessa forma. Havia essa barreira que foi ficando cada vez mais difícil de ser transposta, mas uma hora os alunos assimilavam bem nossa metodologia e aí tocavam o barco. Antigamente eles achavam bom terem que fazer, não questionavam, tinham muito interesse, muita facilidade. Às vezes, era até preciso dizer a eles para irem embora da escola, porque ficavam ali fazendo exercícios. A estrutura física do Coltec era boa, principalmente se compararmos com as outras escolas, no mesmo período. Nós tínhamos dificuldades no que se refere à aquisição de material permanente, mas não era uma dificuldade específica nossa, era de todo mundo. Como foi o caso do computador, a que eu me referi anteriormente. Foi muito difícil adquirirmos esse equipamento. Mas, nas outras escolas de que tivemos conhecimento, demorou ainda mais. Por outro lado, nós tínhamos retroprojetor desde o início. Quando eu me mudei para o Colégio, já tinha retroprojetor à disposição. 400 Quanto ao material impresso, nós tínhamos uma seção que ficava responsável por reproduzir, rodar todas as matrizes que fazíamos. No começo, usávamos stencil, mimeógrafo à tinta. Eu batia tudo na máquina de escrever e fazia os gráficos todos à mão, era muito trabalhoso. Lembro-me de um gráfico que eu fiz, com um caminhão tanque de petróleo. Copiei esse gráfico de uma revista sobre petróleo. Quando o vi, pensei: "eu vou usar esse gráfico, eu tenho que copiar ele". Aí eu copiei, desenhei com estilete. O pessoal da reprografia ficou doido: "Mas como você fez?", "Como você conseguiu fazer isso?", "Ficou bom demais". No Colégio, a gente sempre produzia muito material. Um dos maiores gastos que nós tínhamos era com papel. Não só o Departamento de Matemática, mas todos os setores. No início do ano, avisávamos aos pais: "vocês vão trazer os meninos com poucos livros debaixo dos braços, mas papel vai ter demais". Quando fui diretor, tomei conhecimento do consumo de papel, era monstruoso. Durante muito tempo, quando o material era feito à mão, à tinta, com muita mão de obra, os professores não podiam enviar o material de última hora, porque a gráfica vivia atolada de serviços. Era muito trabalhoso rodar o material no mimeógrafo. Em seguida, vieram os computadores, com seus programas que facilitaram nosso trabalho. Depois passamos a utilizar o xerox, que melhorou ainda mais. Ou seja, com relação à infraestrutura do Colégio e aos recursos disponibilizados, o que nós tínhamos dava para fazer um bom trabalho. A maioria de nós que lecionava no Coltec e em outra instituição percebia que a situação daqui era muito boa, era um "mar de rosas" perante o que víamos lá fora. Além disso, as condições de trabalho também eram boas. Não precisávamos levar serviço para casa. Eu corrigia provas no Colégio, no meu horário. Só se eu não soubesse aproveitar meu tempo que eu precisava levar para casa. Mas eu tinha tempo para fazer tudo dentro da escola. Era raro eu levar trabalho para casa, no geral fazíamos tudo no Coltec. Em 1997, eu me aposentei no Coltec. Mas fiquei mais dois anos, até 1999, como professor substituto. Eu fui substituto de mim mesmo. Depois, não quis mais lecionar em outros lugares; pensei: "deixa isso para os meninos fazerem". Uma amicíssima minha, lá de Araxá, que trabalhava no Cefet/MG, me incentivava a dar aulas lá, depois de aposentado. Eu dizia: "Ah, você vai me desculpar, mas eu não animo. Deixa para os meninos, pega gente nova aí, gente cheia de pique, eu já estou cansado. O que eu tinha que fazer eu já fiz". Realmente, eu não tinha a intenção de voltar a dar aulas. Por outro lado, às vezes penso em voltar a estudar, eu ainda tenho essa vontade. 401 LUIZ HUMBERTO PINHEIRO - 77 ANOS Ex-professor do Coltec: 1970 - 1991 Data da Entrevista: 02/03/2016 Há quase 25 anos atrás, o professor de Matemática Luiz Humberto se aposentou no Colégio Técnico da UFMG. Talvez por ter se passado tanto tempo, ele se queixou de não se lembrar bem dos acontecimentos e nomes do seu período de atuação no colégio. Em 1970, Luiz passou a participar da história do Coltec e, a partir da entrevista realizada com ele, tentamos recordar parte de seus 21 anos como professor de Matemática desse colégio. Fui muito bem recebida por Luiz e sua esposa Ada. Aconchegados nas poltronas da sala, o professor me mostrou alguns papéis que contavam sobre a história de fundação do Coltec, extraídos do site do colégio. Por outro lado, eu carregava uma caixa contendo apostilas elaboradas por Luiz Humberto, uma pasta com dados pessoais deste docente, alguns estudos dirigidos, uma pasta com fotos de um Seminário de Matemática realizado no Coltec e algumas provas. Ao nosso redor, naquela sala de estar, eu observava diversas fotos da família de Luiz. Seus quatro filhos, dois homens e duas mulheres, o presentearam com nove netinhos, sendo um deles, atualmente, aluno do Coltec. Esse jovem foi meu aluno na disciplina Matemática Elementar, no ano de 2013. De onde estávamos, avistávamos um escritório, local acessado por Luiz algumas vezes, durante a entrevista, na busca por documentos que ilustrassem passagens de nossa conversa. Após eu explicar os meus objetivos de pesquisa e meus procedimentos metodológicos, ele disse: "Eu posso fazer uma pequena introdução?". Iniciamos assim nossa conversa, em uma manhã de terça-feira, no conforto de seu lar.... Eu fui do Coluni 370 , que ficava na Faculdade de Educação, ali em frente ao Centro Pedagógico 371 . Não sei se continua ali. Foi fundado pelo então reitor da época, do qual não me 370 No ano de 1965, implantou-se o Colégio Universitário na UFMG com a oferta da terceira série do colegial. Foi considerado uma experiência pedagógica inovadora, que durou até 1970. Assim com os institutos centrais, diversas faculdades e estruturas departamentais, o Colégio Universitário foi resultado da reforma universitária, tendo sido criado na gestão do reitor Aluísio Pimenta. Disponível em: < https://www.ufmg.br/boletim/bol1344/quarta.shtml>. Último acesso em: 24 jan. 2017. 371 O Centro Pedagógico tem sua origem no antigo Ginásio de Aplicação da UFMG, fundado em 21 de abril de 1954. Em 1958, o Ginásio de Aplicação transformou-se em Colégio de Aplicação, atendendo a uma crescente política de valorização da Educação. Na ocasião, passou a oferecer os seguintes cursos: Ginasial, Científico, Clássico e Normal. A partir de 1968, a UFMG passou por uma reestruturação que afetou também o Colégio de Aplicação e o Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia tornou-se um Centro Pedagógico, integrado à Faculdade de Educação da UFMG, com a função básica de ofertar cursos relativos ao ensino de 1º e 2º graus. Em 1972, o Centro Pedagógico foi transferido para o campus da Pampulha e passou a ter uma escola de 1º Grau, 402 lembro o nome... Esse reitor criou o Coluni, que possuía apenas o terceiro ano do ensino antigo. Esse colégio reuniu os professores que eram "a nata", que tinham mestrado, tinham doutorado, tinham especialização ou não tinham nem isso, nem aquilo, mas que, no entanto, eram considerados relevantes no ensino de suas disciplinas, eram reconhecidos nas escolas em que atuavam. Esse foi o meu caso, eu já possuía experiência docente e havia realizado cursos sob a coordenação do Reginaldo Naves 372 , mas eu não tinha mestrado e não tinha doutorado e fui convidado a lecionar nesse colégio. O Coluni funcionou durante dois ou três anos. No período em que eu trabalhei lá, utilizávamos apostilas em que os alunos preenchem lacunas, os chamados Estudos Dirigidos. Ao final de cada ano, nós conseguíamos aprovar quase 100% dos estudantes no vestibular, porque os professores eram bons. Todos! Em todas as cadeiras! Eram pessoas de proa, lá de cima, considerados bons mesmo! Eu e outros colegas, em posições pessoais, achávamos que o Colégio Universitário estava fazendo concorrência à iniciativa privada, como o Pitágoras. Esse e outros cursinhos eram criados para preparar os alunos para o vestibular. Daí, chegou a turma do Coluni, em que os alunos arrebentavam nas provas de vestibular. Depois o governo pressionou e fechou o Coluni. Com isso, os professores que estavam lotados nesse colégio tiveram a oportunidade de permanecer em alguma unidade da universidade, dentre elas o Colégio Técnico, ocupando cargos que consideravam a especialidade de cada um. No meu caso, por exemplo, eu poderia escolher ir para a Licenciatura em Matemática, nas Ciências Exatas, ou para o Colégio Técnico. Eu escolhi o Colégio Técnico, pois me sentia mais à vontade em atuar com aquele tipo de aluno e aquele tipo de ensino. Aí fomos todos remanejados, sem concursos. Eu desconheço que alguém do Coluni tenha feito concurso para lecionar no Colégio Técnico. Quando cheguei no colégio, em 1970, havia eu, o professor e coordenador do departamento, José Eloísio Domingos, o Jed 373 , o Napoleão 374 e o professor Bolívar 375 . funcionando em prédio próprio. Em 1997, recebeu uma nova denominação: "Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG". Em 2007, o Centro Pedagógico (CP) passou a integrar, juntamente com o Colégio Técnico (Coltec) e o Teatro Universitário (TU), a unidade denominada Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG. Disponível em: . Último acesso em: 22 ago. 2016. 372 Reginaldo Naves de Souza Lima dedicou-se ao estudo e à criação de novas propostas de aprendizagem de Matemática. Cursou bacharelado em Matemática na UFMG, mestrado em Ciências e Matemática na UNICAMP e mestrado em Educação na UFMG, além de outros cursos. Ganhou medalha de Honra do Mérito Educacional, por sua participação na elaboração da nova proposta curricular de Matemática do Estado de Minas Gerais. Disponível em: < https://issuu.com/sergioluz/docs/p_ame>. Último acesso em: 07 jul. 2016. 373 José Eloisio Domingos, ou Jed, ou ainda Jedboy, foi professor efetivo do Departamento de Matemática do Coltec de 1970 a 1997. Em seguida, atuou como professor substituto, nos anos de 1998 e 1999. É um dos colaboradores desta pesquisa. 374 Luiz Napoleão Moreira, já falecido, lecionou no Coltec de 1969 a 1976. 375 Não encontramos informações do professor Bolivar, referido por Luiz Humberto. 403 Vieram depois o Sérgio 376 , Ronaldo Pellicano 377 , Maria do Carmo 378 e a Tânia 379 . Napoleão e Pellicano eram excelentes professores. Na realidade, toda a turma da Matemática era muito boa! Tinha ainda o professor Reginaldo, que eu acho que estava no Centro Pedagógico. Nós todos tínhamos 12 horas, 24 horas. Não existia regime de dedicação exclusiva. Entretanto, os professores, independente da área (Matemática, História, Português, ...), não se dedicavam apenas à própria disciplina, dentro do Colégio. Nós atuávamos em comissões diversas. Eu, por exemplo, que sempre gostei da área da Psicanálise, participava de um grupo que regulava a conduta dos alunos, pois tínhamos muitos casos de drogas no colégio. Havia caso de uso de drogas até dentro da sala de aula. Como em certa época eu fiz Psicanálise, por dez anos, e eu lia muito a respeito, eu tinha certa fundamentação em Psicanálise, e utilizava o que eu sabia a respeito para ajudar esses alunos. Eu tive a oportunidade de atender a um aluno no sábado, por exemplo. Ele veio me pedir socorro, porque estava sob efeito de entorpecentes. Ele me disse "professor, me socorre, não tem jeito". Eu dei conselhos a esse aluno que veio me procurar e ainda o acompanhei durante um certo tempo. Depois, ele me encontrou na rua e falou assim: "Professor, olha, estou bem! Legal!". Para mim isso foi uma vitória! Retomando... eu fiz a minha graduação na Fafi-BH 380 . Eu fui da primeira turma dessa faculdade. Depois, quando eu estava no Coltec, eu recebi um convite para cursar o Mestrado em Ensino de Matemática, em Campinas, na Unicamp. Lá eu cursei todos os créditos, mas não defendi a minha dissertação, cuja temática era Ensino a Distância. Devido aos créditos que eu cursei, eu passei a receber a gratificação referente ao título de Especialista. Depois de um tempo, meu cargo passou a ser de 40 horas, no regime de Dedicação Exclusiva, e lá fiquei. 376 Sérgio Veiga Dias, também chamado de Serjão por ex-alunos e professores do Coltec, lecionou Matemática no Colégio. Não foi possível localizar esse professor para participação nesta pesquisa. 377 Há registros de que o professor Ronaldo Pellicano, já falecido, tenha lecionado no Colégio em 1971. As demais informações a seu respeito foram obtidas por meio dos colaboradores desta pesquisa. 378 Maria do Carmo Vila lecionou Matemática no Coltec no período de 1979 a 1995. Participou ainda de atividades no Centro Pedagógico, instituição de Ensino Fundamental também vinculada à UFMG. Ela é uma das colaboradoras desta pesquisa. 379 Tânia Lima Ayer de Noronha se aposentou do Departamento de Matemática do Coltec em 2002, depois de 23 anos de atuação como docente. Como colaboradora desta pesquisa, Tânia relatou algumas das experiências vividas no período em que lecionou no Colégio. 380 A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte foi fundada em 1964, inicialmente, com quatro cursos: História, Letras, Matemática e Pedagogia. Quando inaugurada, localizava-se no anexo do Colégio Estadual, no bairro Gameleira. Um ano depois, mudou-se para o bairro Lagoinha. Em 1999 a Fafi-BH se tornou Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH que, atualmente, oferece mais de 50 cursos de graduação e dezenas de cursos de pós-graduação, em suas quatro unidades. Disponível em: < http://arvoredecomunicacao.com.br/unibh-50-anos-formando-profissionais-competentes/>. Último acesso em: 25 out. 2016. 404 Depois de formado, eu lecionei em várias instituições de ensino. Vou falar por ordem de descida: Colégio Militar 381 ; Senac 382 , onde eu dava aulas de Contabilidade; Colégio Estadual Coração de Jesus 383 ; Colégio Sacré Coeur de Marie 384 ; e Colégio Estadual Sagrada Família 385 . Também dei aulas à noite, na Companhia de Força e Luz, hoje chamada de CEMIG 386 . Em todos esses colégios eu atuei com contrato. Tanto que não foi computado o tempo de serviço que eu tive nesses colégios. Direto eles me chamavam: "Luiz Humberto, pelo amor de Deus, nós não temos professor de Matemática, o que nós vamos fazer?". Em certos momentos eu era professor do Coltec, mas com apenas 12 aulas, aí eu assumia aulas em outras instituições, a legislação permitia. Eu lecionei na Católica 387 , por exemplo, quando eu tinha 12 horas. Lecionei Matemática e Estatística nos cursos de Ciências Contábeis, Engenharia e até Psicologia. Lembro-me que os alunos do curso de Psicologia diziam: "Mas não tem Matemática no meu currículo!". Tinha aluno que chorava... Também lecionei no Colégio Militar as disciplinas de Desenho Geométrico e Geometria Descritiva. Eu nunca trabalhei em uma escola técnica, especificamente como o Coltec, que tem aulas profissionalizantes, tais como: laboratório de química, de eletrônica, de vidro, de madeira. Eu lecionei no Senac 388 , mas era um curso rápido de contabilidade, numeração, proporção. Eu ensinava ao pessoal do Senac um pouquinho de Matemática básica, muito básica. 381 O Colégio Militar de Belo Horizonte (CMBH) foi criado em 1955, funcionando, provisoriamente, no edifício antes usado pelo Colégio Estadual de Minas Gerais, no centro da cidade. A partir de 1959, foi instalado no prédio destinado ao Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), no bairro da Pampulha, onde atua até os dias de hoje. Oferece ensino fundamental e médio, que têm por finalidade ministrar o Ensino Preparatório e Assistencial. Disponível em: < http://www.cmbh.ensino.eb.br/>. Último acesso em: 13 fev. 2017. 382 Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), criado em 1946 com a missão de oferecer educação profissional destinada à formação e à preparação de trabalhadores para o comércio. O Senac atende 2230 municípios de todo o país. Disponível em: . Último acesso em: 09 nov. 2016. 383 Não encontramos informações sobre o Colégio Estadual Coração de Jesus. 384 Situado no Bairro Serra, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, encontra-se o Colégio Sacré-Coeur de Marie (atual Colégio Sagrado Coração de Maria). Atualmente tem cerca de 1 mil alunos, que estudam desde o maternal até o ensino médio. Além disso, no turno da noite, funciona o projeto de Educação para Jovens e Adultos (EJA). Disponível em: < http://migre.me/w3ujq>. Último acesso em: 13 fev. 2017. 385 A Escola Estadual Sagrada Família, localizada no Bairro Sagrada Família, região leste de Belo Horizonte. Disponibiliza vagas para o Ensino Fundamental e Médio. Disponível em: . Último acesso em: 13 fev. 2017. 386 A Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG responde por 96% da concessão de energia elétrica do estado de Minas Gerais. Sua atuação estende-se a 22 estados brasileiros , além do Distrito Federal. Disponível em: < http://www.cemig.com.br/pt-br/a_cemig/quem_somos/Paginas/default.aspx>. Último acesso em: 13 fev. 2017. 387 A Pontifícia Universidade Católica - PUC Minas abriga, em seus oito capi, mais de 56 mil alunos em seus cursos de graduação, pós-graduação e de extensão. Disponível em: < http://www.pucminas.br>. Último acesso em: 13 fev. 2017. 388 Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial. 405 A minha experiência em várias escolas permitia que eu tivesse uma boa rede de contatos. Dessa forma, o professor Reginaldo Naves de Souza Lima me indicou para trabalhar no Coluni. Então, em 1º de novembro, de 1970, como eu já havia comentado, eu fui para o Coltec. Fazia mais de um ano que o colégio havia sido criado com o auxílio dos ingleses, pelo que o histórico do colégio relata. Nesse período eu não sentia a atuação dos britânicos lá, eu não sentia a presença deles. Além disso, não havia nenhum inglês para atuar no Departamento de Matemática. Na minha época, eu nunca recebi algum inglês na minha sala de aula ou dentro do Departamento de Matemática. Também não me recordo de conversar com eles diretamente. Eu me lembro que, esporadicamente, havia cursos oferecidos pelos ingleses a nós, professores. Mas não foi uma coisa tão contundente. Durava de 7 a 15 dias e no final do curso a gente recebia aqueles "diplominhas" de participação. Vamos abrir um parênteses para eu falar sobre os professores Reginaldo e Maria do Carmo. Os dois formavam um grupo para modificar o conteúdo matemático. Não me refiro somente à forma de ensinar, mas ao conteúdo mesmo. Eles criaram a Matemática Moderna 389 , que gerou uma certa resistência da turma da Ciências Exatas, a turma da Matemática. Reginaldo e Maria do Carmo se inspiravam na Matemática Moderna, proposta por um francês, do qual não me lembro o nome. A Matemática por eles ensinada era inteiramente diferente da Matemática Clássica, a abordagem do conteúdo também era diferente. Essa Matemática Moderna não tinha formalidade, não obedecia um currículo. Além disso, priorizava o trabalho com materiais concretos. A criação desse grupo de trabalho, que difundia a Matemática Moderna, não era aceita por alguns matemáticos, que queriam manter a forma tradicional. Esse grupo vigorou por algum tempo, mas não sei contar qual foi o desfecho dele. 389 A Matemática Moderna referida por Luiz Humberto não é o Movimento da Matemática Moderna, difundido no Brasil a partir da década de 1960. Figura 102: Certificado de participação no seminário "Curriculum Develepment in Technical Education, oferecido pelo Centre for International Technical Education, de 1 a 16 de fevereiro de 1984, no Colégio Técnico. Diretor do curso Kenrsom. Fonte: Arquivo pessoal do prof. Luiz Humberto Pinheiro. 406 Eu fui influenciado por esse grupo, eu trabalhava com os materiais e a metodologia proposta por esse grupo. Mas quem poderia te falar melhor a respeito são o Reginaldo, a Maria do Carmo ou o Abdala. Eu não sei falar hoje como está essa Matemática Moderna, eu não sei como está o currículo de Matemática atual. Além desse grupo, eu tinha o meu guru, chamado Mário de Oliveira 390 . Ele era da FAFI-BH, de cursinhos pré-vestibular e cursos supletivos. Eu adotava a didática e a técnica dele. Assim como ele, eu dividia o quadro em três partes: definição, propriedades e aplicações. De posse de uma pasta com diferentes documentos e certificados, Luiz Humberto começou a retirar os papéis, ler brevemente seus conteúdos e me entregar aqueles cujo período coincidia com o período em que trabalhou no Coltec: - Certificado de participação, na qualidade de Delegado, em representação do Estado de Minas Gerais, nas deliberações da "III Convenção Nacional de Administração de Pessoal", de 15 a 18 de novembro de 1967; - Certificado de participação como aluno no Estágio de Aperfeiçoamento de Professores de Matemática, oferecido pelo CECIMIG 391 , em 30 de outubro de 1970; - Declaração de que eu exerci a função de professor de Matemática no Colégio Universitário da UFMG, no período de 01/11 a 31/12 de 1970; - Certificado de participação no II Encontro de Instrutores e Professores do Senac, em 16 de julho de 1971; - Atestado que eu lecionei a disciplina Matemática, durante o período de maio a outubro de 1971, junto aos Cursos de Licenciatura de Curta Duração, realizados pela Faculdade de Educação de Minas Gerais/UFMG, em convênio com o Premen 392 ; 390 O professor Mário de Oliveira foi decano e idealizador da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte, Fafi-BH. Também foi fundador da Escola de Engenharia Kennedy, primeiro presidente da Fundação Cultural de Belo Horizonte - Fundac-BH e Reitor do antigo Colégio Estadual de Minas Gerais. Na década de 1960 criou um dos primeiros cursos pré-vestibulares da cidade. Foi autor de mais de 600 livros, muitos deles na área de Matemática (OLIVEIRA, 1998). 391 O Centro de Ensino de Ciências e Matemática de Minas Gerais – CECIMIG, criado em 1965, através de um convênio entre o MEC e a UFMG, foi incorporado à Faculdade de Educação em 1987. Dentre seus objetivos o centro visa estimular a pesquisa e a extensão, contribuindo para a melhoria do ensino de Ciências. Neste sentido é responsável pela organização de cursos de aperfeiçoamento e especialização, assessoria a diversas instituições, promoção de seminários, congressos e encontros na área, realização e divulgação de pesquisas e construção de acervo bibliográfico e de materiais para atividades experimentais em Ciências. Disponível em: < http://www.cecimig.fae.ufmg.br/index.php/institucional/historia>. Último acesso em: 07 jul. 2016. 392 Criado em 1970, o Programa de Expansão e Melhoria do Ensino - Premen - tinha como objetivo aperfeiçoar o sistema de ensino de primeiro e segundo graus e implantação das Escolas Polivalentes no Brasil. " O modelo de "Isso escapa inteiramente da nossa conversa ... mas em todo caso vou te mostrar. Trabalhei como bancário. Eu fiz o curso de intervenção psicossociológica, você vê que eu tenho uma tendência a psicologia e sociologia". 407 - Certificado de participação no Encontro Estadual de Professores de Matemática de Minas Gerais, de 15 a 18 de setembro de 1977, oferecido pelo Grupo Coluni de Estudos Matemáticos - GCEM e cujos professores conferencistas eram: Profa. Iris Barbosa Goulart (UFMG) - "Aplicações da Teoria de Piaget no Ensino e Aprendizagem da Matemática"; Profa. Maria Letícia F. Barreto (UFMG) - Relacionamento de Ajuda; Prof. Manoel Jairo Bezerra (Colégio Pedro II/RJ) - "Utilização de rádio e televisão no Ensino de Matemática" e Profa. Maria Laura M. L. Lopes (UB-RJ) - "Aprendizagem de Matemática no Pré-Primário". Também houve uma mesa redonda, cujos participantes eram: Prof. Omar Catunda (UFB/BA), Prof. Sérgio Lorenzato (Unicamp) e Prof. Mário de Oliveira (UFMG). E, ainda, entrevistas com os professores Pedro Mendes (UFMG), Magda Becker Soares (UFMG) e Carlos A. Gonçalves; - Certificado de participação no Seminário de Psicologia da Educação, de 17 a 21 de maio de 1976, promovido pelo Mestrado em Educação da UFMG; - Comunicado de que eu havia sido selecionado para a bolsa de estudos, no curso de Pós-Graduação em Ensino de Ciências, realizado no período de 20/02/77 a 20/12/77, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Entidades ofertantes ou patrocinadoras: PREMEM (Programa de Expansão e Melhoria do Ensino Médio), OEA (Organização dos Estados Americanos) e Unicamp; Escola Polivalente foi uma cópia das escolas públicas existentes nos EUA, para os também excluídos da sociedade norte-americana. Aqui, no Brasil, tornou-se responsável pela formação da massa de trabalhadores flexíveis e obedientes à nova realidade de produção brasileira". Contou com recursos orçamentários federais, estaduais e extra-orçamentários de fontes internas e externas. Vigorou durante o regime militar. Disponível em: < file:///C:/Users/Kelly/Downloads/51-331-1-PB.pdf>. Último acesso em: 13 fev. 2017. "A minha tese de mestrado foi em cima de Ensino a Distância. Quando ela estava quase pronta, eu levei ao diretor da Faculdade de Educação. Ele leu e disse: 'Mas o que é isso? Ensino tem que ser presencial! Não sei o quê, não sei o quê, não sei o quê...'. Depois, o diretor do Mestrado me chamou e falou: 'Olha, Luiz Humberto, para defender sua tese, eu preciso ter o apoio da Faculdade de Educação. Não, não, pelo amor de Deus, ensino a distância não!'. Os anos e o tempo mostraram que era verdade aquilo que eu pensava. Eu, então, não defendi minha tese. Uma professora de artes, Lúcia, que trabalhou comigo no Pica Pau Amarelo, que mexe com pintura, com cinema, ela solicitou uma cópia do meu projeto de mestrado, posteriormente". "O PREMEM era um programa de Educação Matemática, para capacitar professores do interior, para melhoria do ensino de professores do interior, em que o coordenador geral era o Reginaldo Souza Lima e eu era coordenador de curso. Era na Faculdade de Educação daqui. E trabalhamos eu, Reginaldo e talvez a Maria do Carmo estava no meio, eu acho que estava". 408 - Pedido de afastamento no país, no período de 20/02/1977 a 20/12/1977. Carta de aceite desse pedido, com fins de cursar o Mestrado em Matemática na Universidade de Campinas; - Declaração de participação na banca do concurso público com vistas ao preenchimento de uma vaga de professora de 1º e 2º graus do Departamento de Matemática do Coltec, em 06/04 a 09/04/1982; - Pedido que eu elaborei ao chefe do Departamento de Matemática, em 1982, para ir à Unicamp tratar de assuntos referentes ao meu Curso de Pós-Graduação, nos dias 7 e 8 de junho de 1982; - Portaria me designando ao cargo de diretor do Coltec, no período de férias do professor Arthur Eugênio Quintão Gomes, de 13 a 27/07/1982; - Carta de agradecimento pela minha participação no Seminário sobre ensino de Matemática no 2º grau, realizado no Coltec, nos dias 6 e 7 de maio de 1983; - Certificado de que eu ministrei aulas no Curso de Extensão "Técnicas Gerais de Laboratório Médico", promovido pelo Departamento de Patologia Clínica do Colégio Técnico, de 16/09 a 02/12/1883; - Declaração de que eu fui professor orientador de estágio, enquanto professor de Matemática do Centro de Puericultura Picapau Amarelo 393 , no 1º semestre de 1984; - Portaria de convocação e relatório da comissão de avaliação de relatórios docentes, em que eu participei, em 17 de maio de 1985; - Certificado de participação no II Seminário "O Computador e a Realidade Educacional Brasileira", de 27 a 29 de maio de 1987, realizado no Centro Piloto de Informática na Educação/UFMG; 393 Maria Magdalena Lana Gastelois criou, em 1968, a Escola Picapau Amarelo, no bairro Funcionários, em Belo Horizonte. Essa instituição "buscava uma educação diferenciada, tendo por objetivo ser uma escola onde as crianças poderiam crescer e aprender em contato com as outras crianças em um ambiente cercado por diferenças e propiciando novas descobertas". Disponível em: < http://www.ufop.br/noticias/palestra-sobre-a-escola- picapau-amarelo-com-magdalena-lana>. Último acesso em: 13 fev. 2107. "Eu fazia uma parceria com o curso de Patologia, trabalhando com Levantamentos Estatísticos das informações coletadas. Trabalhava com o doutor Carlos Edilson Sampaio". "Uma professora do CECIMIG (Centro de Treinamento para Professores de Ciências de Minas Gerais) me indicou para cursar o mestrado na Unicamp. Ela pediu para eu indicar outra pessoa, pois havia duas vagas. Eu indiquei a Márcia, professora de Física do Coltec. Ela não aceitou, aí eu indiquei o Abdala Gannam, do Departamento de Matemática. Ele aceitou e concluiu o mestrado nesse curso". 409 - Portaria me designando, junto a outros docentes, para participar da Comissão de apuração das depredações e danos que vêm ocorrendo nos escaninhos dos alunos do Grêmio do Colégio Técnico, em 1987; - Portaria e carta de agradecimento, pela minha participação na organização do Dia da Amizade, em 1987; - Portaria me designando, junto a outros docentes, para constituir a comissão para analisar o processo de Exame de Seleção do Coltec, bem como apresentar sugestões e propor modificações ao referido processo, em 1989; - Certificado de participação no seminário "A LDB, o Ensino Técnico e o Colégio Técnico", realizado no dia 21/06/90, no Coltec. - Boletim da UFMG, de novembro de 1990, em que uma matéria sobre Tutoria no Coltec é divulgada. Figura 103: Boletim da UFMG - 30/11/1990 " O Dia da amizade, geralmente, caía no sábado. Era organizado principalmente pelo José Eloísio Domingos. Ele era o mentor desse dia da amizade, e fazia a festa com os alunos, com a comunidade do Colégio Técnico. Era um dia de lazer". "Tutoria é experiência bem sucedida há anos no Coltec. Aqui eu [1ª pessoa à esquerda], olha o Sérgio [4ª pessoa da esquerda para direita], a Tânia [3ª pessoa da esquerda para direita], esse aqui era de outro departamento, não me lembro o nome dele. Essa aqui também de outro departamento, esse aqui de outro departamento, essa também de outro. Essa tutoria era para ajudar alunos usuários de drogas. Era mais psicologia e sociologia do que tudo". 410 - Livro "Geometria Moderna", de autoria de Moise Downs, do ano de 1971: Voltando a falar sobre o Coltec, embora ele seja uma escola técnica, nosso curso era de Matemática, ensinávamos conteúdos de Matemática. O ensino técnico ficava separado, até mesmo fisicamente. Na parte da frente do Colégio, lá embaixo, ficavam os laboratórios: eletrônica, vidro, mecânica... E atrás, a parte acadêmica. Lembro-me, apenas, que verificávamos as necessidades dos cursos na definição do programa de Matemática: "Primeiro ano, segundo ano...Isso assim... vamos usar isso? Vamos!". Aliás, eu não tive formação específica para trabalhar com ensino técnico, eu tive um curso de licenciatura tradicional. Vale ressaltar que não havia intervenção de um departamento em outro. Cada Departamento tinha autonomia para trabalhar. E como eu já disse anteriormente, todos os professores do Departamento de Matemática eram bons. Nós participávamos de Encontros, Seminários, porque sempre agregavam conhecimentos, principalmente, novas propostas metodológicas. Nós, do Departamento de Matemática, nós produzíamos muito material: apostilas, listas de exercícios, estudos dirigidos... Mas eu nem lembro mais quais eu fiz... "Isso aqui é um livro de geometria que a gente usava sempre, todas as vezes. Muito bom. Tem esse e tem o volume II. O volume II já foi para o ralo. Alguma coisa eu consegui guardar". Figura 104: Capa do livro "Geometria Moderna", de Edwin E. Moise e Floyd L. Downs Jr., Editora Edgard Blucher LTDA - 1971, apresentado por Luiz Humberto, durante a entrevista. 411 Além das apostilas, a gente indicava algum livro. Os professores do departamento de Matemática se reuniam e decidiam qual livro nós íamos indicar. Utilizávamos o livro, concomitante com as apostilas, sendo que o mais utilizado eram as apostilas. Além disso, o livro era comprado pelos alunos. Não tinha vínculo com o governo. Não que eu saiba. Eu comprei meu livro e os alunos eu acho que compraram os deles. Nós utilizávamos calculadoras nas aulas de Matemática. Tinha um laboratório só de calculadoras que a gente ensinava a trabalhar com essas máquinas, principalmente o professor Sérgio. O Sérgio era o papa nesse negócio de máquinas de calcular científicas, de programar utilizando calculadoras. Tentamos, ainda, utilizar computadores, mas não tinha verba para comprá-los. Quanto aos retroprojetores, eu raramente usava. Eu não gostava de usar retroprojetor. Por influência do professor Reginaldo, nós também utilizávamos materiais concretos, principalmente para o ensino de geometria. Reginaldo pegava cordões, batia um prego e dizia: "Vamos falar sobre diâmetro, sobre o raio, sobre o seno, cosseno". Ele fazia o círculo e seus componentes, tudo com material concreto, e nos orientava a fazer como ele, era um tradutor lá dentro da Universidade. Com isso, como eu já disse, ele sofria muita pressão, ele e a professora Maria do Carmo. O ensino de Matemática do Coltec era reconhecido e sempre foi considerado muito bom. O Colégio era procurado e as vagas eram concorridas. Depois passou a haver vagas para "Isso aqui eu nem lembro mais, eu nem sabia que eu era autor disso aqui". Figura 105: Capa da Apostila "Os sólidos Geométricos - Volumes de Prismas e Pirâmides", de autoria de Abdala Gannam e Luiz Humberto Pinheiro. Fonte: Arquivo do Setor de Matemática do Coltec. 412 alunos do Centro Pedagógico, que ingressavam por meio de sorteio, e a ter cotas. O Reginaldo, eu e mais algumas pessoas achávamos que o público do Coltec estava elitizado demais, que nós precisávamos de massa. A estrutura física que o Colégio possuía preenchia razoavelmente bem as nossas necessidades. Nós tínhamos o serviço de papelaria, ali na entrada. Lá podíamos pedir para rodar e xerocar. E nós fazíamos muitas cópias, tínhamos muito material xerocado. E, ainda, nós tínhamos uma sala pequena, que correspondia ao setor de Matemática, onde cada um tinha um local para colocar o seu material, tinha a sua mesa... Tinha a mesa do Jed, a minha mesa, a mesa do Sérgio, a mesa do Abdala, em uma sala comum. Nessa sala tinha também um mimeógrafo para a gente xerocar. Era um desses antigos, que sujam a mão da gente toda... E lá no Coltec fiquei por muitos anos... A gente vai ficando, ficando, ficando.... Eu aposentei em 91. Fui impulsionado a pedir aposentadoria, porque o presidente Collor começou a modificar as regras da Previdência, inclusive do funcionalismo. Atualmente, eu só vou ao Colégio fazer o cadastramento anual. Pronto, está aí! Você leva essa documentação e depois você me entrega. E aí, através de outras entrevistas, você vai debulhando o que eu estou te falando... 413 MARIA DO CARMO VILA - 69 ANOS Ex-professora do Coltec: 1979 a 1995 Data da entrevista: 04/05/2016 Em 2009 conheci a professora Maria do Carmo, na Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Na ocasião, eu iniciava um trabalho como "Tutora a Distância 394 ", em um curso de licenciatura em Matemática a Distância e ela estava auxiliando na capacitação dos tutores. Em seguida, por vezes, eu a encontrei em seu local de trabalho, na Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP, nos anos de 2010 e 2011. No entanto, não fizemos muito contato, pois eu estava lá por motivo da minha pesquisa de mestrado e ela sempre ocupada no exercício de suas funções. Embora eu já trabalhasse no Coltec, desde 2010, não sabia da atuação de Maria do Carmo no Colégio. Foi uma grande surpresa para mim. Fiquei satisfeita com a informação sobre a participação dessa docente no Colégio Técnico, pois sabia onde iria encontrá-la e conhecia a pessoa atenciosa e gentil com quem eu conversaria. Marcamos nosso encontro na UFOP. Cheguei mais cedo, prevenindo-me contra imprevistos na estrada. Dentro do Campus, fiquei parada no carro observando aquelas montanhas maravilhosas e sentindo aquela brisa fria. Minha conversa com a professora Maria do Carmo foi muito prazerosa. Lembro-me que, ao terminar, não tinha noção de quanto tempo havia se passado. Foi possível compreender, ao conhecer parte de sua trajetória, que ela possui uma experiência profissional extensa e diversificada. Atuou em diferentes níveis e modalidades de Ensino e hoje é coordenadora do curso de licenciatura em Matemática a distância, da UFOP, onde também leciona algumas disciplinas. É relevante notar que, quando conversei com a Maria do Carmo, eu já havia entrevistado outros cinco docentes do Coltec. Em seus relatos, todos esses professores fizeram menção a ela, em relação ao trabalho desempenhado no Colégio, suas propostas inovadoras, seu material didático, sua formação e seu modo colaborativo. A partir de minha conversa com a professora Maria do Carmo, ficou evidente a contribuição desta professora, não somente para o Coltec, mas para várias outras 394 O tutor a distância opera diretamente na universidade que oferece o curso, na modalidade a distância. Ele está em contato direto com os professores dessa instituição. Algumas de suas atividades englobam: corrigir atividades e provas; e auxiliar os alunos respondendo suas dúvidas através do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). < http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12265& Itemid=510>. Acesso em: 06 jun. 2016. 414 instituições, em diferentes regiões. Ela formou vários estudantes e docentes e, ao que parece, possibilitou novos modos de aprender e ensinar Matemática. Em sua trajetória acadêmica, também orientou e desenvolveu pesquisas diversas em Educação Matemática. Agradeço por suas contribuições que, direta e indiretamente, auxiliam a minha atuação docente e a minha tese. Eu fiz minha graduação numa cidade chamada Guaxupé, na Faculdade de Filosofia e Ciências de Guaxupé, no estado de Minas Gerais. Assim que me formei, eu lecionei na minha cidade natal, Guaranésia, no Colégio Estadual desse município, que fica próximo a Guaxupé. Naquela época não tinha Ensino Médio nessa escola, eu trabalhava com turmas de quinta à oitava série. No ano de 1970, surgiu um concurso do Estado, para formação de professores em áreas específicas, como Matemática. O candidato aprovado realizaria um curso de um ano e, após a sua conclusão, lecionaria em novos colégios, construídos pela rede chamada Premen (Programa de Expansão e Melhorias do Ensino). Esse concurso abrangia todo o estado e várias áreas de ensino. Eu resolvi candidatar-me e lembro-me de ter feito a prova no Estádio "Mineirão", em Belo Horizonte. Com isso, dá para se ter uma ideia do quão concorrido foi esse concurso. Eu fui aprovada em uma das 60 vagas disponíveis, que constituíram duas turmas. A essa altura, já matriculada, fui saber que esse curso equivaleria a uma licenciatura curta em Matemática, com duração de um ano. Mas eu já possuía licenciatura plena em Matemática, cursada em Guaxupé. No entanto, pensei: "Eu já estou aqui mesmo, eu vou fazer!". Fiquei em Belo Horizonte um ano realizando esse curso. Foi muito proveitoso, lembro-me que nós estudávamos com livros escritos em espanhol, de um autor belga, chamado Papy 395 . Esse curso contemplava cinco dos seis volumes de uma coleção desse autor. Por conta própria li também o sexto livro, que era muito interessante, especialmente a parte de geometria. Ele trazia demonstrações de geometria com ilustrações. Outro dado desse período é que o ensino e a aprendizagem em Matemática sofriam influências do Movimento da Matemática Moderna. No final daquele ano, as escolas do Premen não estavam prontas, havia uma ou outra escola pronta. Eles estavam construindo escolas enormes. Ofereceram-me, então, o cargo de direção da escola de Divinópolis, que já estava pronta. Eu recusei. Em seguida, me 395 Georges Papy foi um professor belga, referência pelo seu trabalho voltado a melhorar a qualidade da educação matemática no ensino primário e secundário. No período de 1963-1966 publicou a inovadora coleção de seis volumes, intitulada Mathématique Moderne (Matemática Moderna), que representou uma reforma fundamental do currículo de Matemática do ensino secundário. Disponível em: < https://www.eimacs.com/blog/2012/01/georges-papy-mathematics-educator-gifted-math-curriculum/>. Último acesso em: 14 fev. 2017. 415 ofereceram uma vice-direção em uma das escolas do interior, não me lembro onde. Também recusei. Eu queria continuar em Belo Horizonte, atuando na Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Durante a minha estadia em Belo Horizonte, eu conheci os professores Reginaldo Naves de Souza Lima 396 , Alceu Santos Mazzieiro 397 e Antônio David Sobrinho 398 . Eles eram professores de Matemática da UFMG. Em particular, o professor Reginaldo propôs tentar conseguir uma vaga para mim na Universidade, como estagiária, com bolsa e tudo mais. Ele conseguiu e, com isso, eu fiquei na Universidade, auxiliando o Reginaldo no Colégio Universitário 399 , onde ele lecionava, em 1971. Um ano depois, em 1972, havia outras escolas do Premen prontas. No mesmo período, surgiu um concurso para professor da UFMG. Eu fiz o concurso e fui aprovada. Como ex- aluna do Premen, eu deveria lecionar em alguma de suas escolas, pois a gente "pagava" pelo curso dessa forma. Ciente de que haveria novas turmas para formação, eu me ofereci para "pagar" ajudando as próximas turmas de licenciandos. Em 1973, eu lecionava no Instituto de Ciências Exatas (ICEx) da UFMG e auxiliava os professores no curso do Premen. Em 1978, eu fui chamada para cursar o mestrado na Unicamp 400 , onde se formaram Reginaldo, em 1976, e Abdala Gannam (professor do Coltec naquele período), em 1977, eu 396 Reginaldo Naves de Souza Lima dedicou-se ao estudo e à criação de novas propostas de aprendizagem de Matemática. Cursou bacharelado em Matemática na UFMG, mestrado em Ciências e Matemática na UNICAMP e mestrado em Educação na UFMG, além de outros cursos. Ganhou medalha de Honra do Mérito Educacional, por sua participação na elaboração da nova proposta curricular de Matemática do Estado de Minas Gerais. Disponível em: < https://issuu.com/sergioluz/docs/p_ame>. Último acesso em: 07 jul. 2016. 397 Bacharel, licenciado e especialista em Matemática pela UFMG. Atuou como chefe dos Departamentos de Matemática do Centro Pedagógico, do Colégio Universitário e do Instituto de Ciências Exatas da UFMG; coordenador da área de Matemática do Projeto de Inovação Curricular e Capacitação de Docentes do Ensino Fundamental da Secretaria Estadual de Educação do Estado de Minas Gerais; coordenador da área de Matemática do Projeto de Correção do Fluxo Escolar para o Ensino Fundamental da Secretaria Estadual de Ensino do Estado da Bahia; e membro da equipe de consultores do Projeto de Capacitação de Professores de Ensino Médio da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais. Disponível em: < http://www.icex.ufmg.br/index.php/noticias?start=182>. Último acesso em: 07 jul. 2016. 398 O professor David, como era conhecido, nasceu no Maranhão, em 1927. Em 1960, veio para Belo Horizonte, onde iniciou uma prolífica carreira como professor de Matemática em vários níveis de ensino. Lecionou nos colégios Dom Silvério e Tiradentes e foi um dos responsáveis pela criação do curso de Matemática do Instituto Newton Paiva, hoje Centro Universitário Newton Paiva. Ingressou na UFMG no final dos anos 60, no então Colégio Universitário, e depois se transferiu para o Departamento de Matemática do ICEx, onde permaneceu até se aposentar, no fim dos anos 90. Faleceu em 2016. Disponível em: < http://www.icex.ufmg.br/index.php/noticias/noticias-do-icex/80-noticias-do-icex/morre-antonio-david-professor- de-matematica-do-icex-e-do-antigo-colegio-universitario>. Último acesso em: 07 jul. 2016. 399 No ano de 1965, implantou-se o Colégio Universitário na UFMG com a oferta da terceira série do colegial. Foi considerado uma experiência pedagógica inovadora, que durou até 1970. Assim com os institutos centrais, diversas faculdades e estruturas departamentais, o Colégio Universitário foi resultado da reforma universitária, tendo sido criado na gestão do reitor Aluísio Pimenta. Disponível em: < https://www.ufmg.br/boletim/bol1344/quarta.shtml>. Último acesso em: 24 jan. 2017. 400 Universidade Estadual de Campinas. 416 acho. Meu orientador do mestrado foi o Ubiratan D'Ambrosio 401 . Durante um ano, eu fiquei em Campinas, recebendo bolsa e cursando as disciplinas concentradas. No final desse ano, eu retornei para Belo Horizonte, onde escrevi a minha dissertação. Eu não me lembro se demorei dois ou três anos para concluir a dissertação. Nosso prazo era de quatro anos para integralizar o mestrado. Naquele tempo não tinha internet, não tinha recursos, não tinha nada. Não tinha a área da Educação Matemática, realizar pesquisa era muito difícil. Quando eu terminei o meu trabalho, eu o enviei para o Ubiratan e ele disse: "Então vem defender!". Minha pesquisa de mestrado relatava uma experiência que nós, eu e o Reginaldo, estávamos desenvolvendo junto ao Projeto AME- Atividades Matemáticas que Educam. Antes de ingressar nesse mestrado, eu já tinha realizado algumas disciplinas do programa de pós-graduação da Faculdade de Educação da UFMG - FaE/UFMG, visando cursar o mestrado em educação nessa instituição. Mas surgiu a oportunidade de ir para a Unicamp e eu não fiz outras disciplinas na UFMG. É importante contar que eu lecionava no ICEx quando eu fui aprovada no mestrado. Nessa ocasião, eu solicitei afastamento por um ano, para ir para a Unicamp, e o meu pedido foi indeferido. Segundo eles, o meu mestrado, em ensino de Matemática, não era prioridade do departamento, não tinha nada a ver. Curiosamente, no mesmo ano, outro docente conseguiu licença para cursar pós-graduação na área de Administração ou Economia. Para minha sorte, ao relatar a minha dificuldade à então diretora da FAE/UFMG, Ana Maria Casasanta, ela decidiu me ajudar. Ela assumiu a responsabilidade de contratar um professor para me substituir no ICEx, no ano que eu ficasse fora para o mestrado. Quando eu retornasse, teria o compromisso de ajudar nas atividades do Centro Pedagógico 402 e do Coltec. 401 Nascido em São Paulo, em 1932, Ubiratan D'ambrosio fez graduação e pós-graduação na USP. Na década de 1960, iniciou sua vasta experiência no exterior, passando pelo Instituto Matemático dell'Universita, na Itália, pelas Brown University e State University, nos Estados Unidos. Em 1972 retornou ao Brasil e assumiu a direção do IMECC da Unicamp por, aproximadamente, oito anos. Paralelamente, coordenou projetos do PREMEN/MEC e dirigiu o programa de Multinacionais de Mestrado Interdisciplinar em Ensino de Ciências e Matemática, da OEA. A partir da década de 1980, assumiu a Coordenação Geral dos Institutos da Unicamp, foi Pró-Reitor de Desenvolvimento Universitário, além de manter contatos exteriores, atuando como professor visitante em diferentes países. Fonte: Nancy Campos Muniz (Org.). Relatos de memórias: a trajetória histórica de 25 anos da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (1988-2013). São Paulo: Editora Livraria da Física, 2013, p. 25- 60. 402 O Centro Pedagógico tem sua origem no antigo Ginásio de Aplicação da UFMG, fundado em 21 de abril de 1954. Em 1958, o Ginásio de Aplicação transformou-se em Colégio de Aplicação, atendendo a uma crescente política de valorização da Educação. Na ocasião, passou a oferecer os seguintes cursos: Ginasial, Científico, Clássico e Normal. A partir de 1968, a UFMG passou por uma reestruturação que afetou também o Colégio de Aplicação e o Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia tornou-se um Centro Pedagógico, integrado à Faculdade de Educação da UFMG, com a função básica de ofertar cursos relativos ao ensino de 1º e 2º graus. Em 1972, o Centro Pedagógico foi transferido para o campus da Pampulha e passou a ter uma escola de 1º Grau, funcionando em prédio próprio. Em 1997, recebeu uma nova denominação: "Escola Fundamental do Centro Pedagógico da UFMG". Em 2007, o Centro Pedagógico (CP) passou a integrar, juntamente com o Colégio Técnico (COLTEC) e o Teatro Universitário (TU), a unidade denominada Escola de Educação Básica e 417 É interessante contar que o professor que me substituiu no ICEx fez concurso, foi aprovado e continuou nessa unidade. A partir de 1979, eu trabalhava no Coltec e auxiliava o Departamento de Matemática do Centro Pedagógico. Até que, em 1988, eu fui para o Canadá fazer o curso de doutorado, na Universidade Laval, uma das mais antigas desse país. O professor Abdala 403 e sua esposa, Sônia, ambos do Coltec, também foram. Ele na área da Matemática e ela de outra área. Havia ainda outros brasileiros vindos de Campinas. Nessa universidade canadense, não havia a expressão "Educação Matemática", mas "Didática da Matemática". Possivelmente, isso é fruto da colonização francesa. Na França se fala em "Didática da Matemática", que é considerada uma ciência. Geralmente, a Matemática é considerada como sendo uma ciência, mas Didática não. No entanto, na França a Didática é considerada uma ciência. Em minha pesquisa de doutorado, eu trabalhei com "Simulação". Então, por exemplo, quando os alunos lançam moedas, ou dados, eles podem descobrir as probabilidades da face superior da moeda ser cara ou coroa, ou da face superior do dado ser 1, 2, 3, 4, 5 ou 6. Eu trabalhei a partir de determinadas situações, em que era possível simular as probabilidades de um certo evento ocorrer. Havia um projeto maior na Universidade, sobre Probabilidade e Estatística, do qual meu orientador e eu participávamos. No Coltec, eu lecionava Matemática para os cursos técnicos oferecidos pelo colégio. E, durante cerca de um ano, fui chefe do Departamento de Matemática. Além disso, não assumi outras funções administrativas. Embora eu tivesse conhecimento de que o Coltec foi criado a partir de um convênio com a Inglaterra, quando entrei no Colégio, em 1979, não me recordo de nenhum vestígio dos ingleses, não existia mais nada. Ninguém lembrava mais, praticamente, dessa época de criação. Talvez os professores que estavam lá quando eu entrei, Abdala, Jed 404 e Luiz Humberto 405 , se lembrem. Naquele momento, quando eu cheguei no Colégio Técnico, ninguém falava nisso. Profissional da UFMG. Disponível em: . Último acesso em: 22 ago. 2016. 403 Abdala Gannam, atuou no Departamento de Matemática do Coltec no período de 1970 a 1992. É um dos colaboradores desta pesquisa. 404 José Eloisio Domingos, ou Jed, ou ainda Jedboy, foi professor efetivo do Departamento de Matemática do Coltec de 1970 a 1997. Em seguida, atuou como professor substituto, nos anos de 1998 e 1999. É um dos colaboradores desta pesquisa. 405 Luiz Humberto Pinheiro, professor de Matemática do Coltec de 1970 a 1991, é um dos colaboradores desta pesquisa. 418 Quando ingressei no Colégio, mantive alguns vínculos com outras instituições de ensino: Faculdade Isabela Hendrix, onde lecionava no curso de Licenciatura em Ciências; Faculdade Newton Paiva, como docente no curso de licenciatura em Matemática; e na Faculdade de Pedro Leopoldo, coordenando o curso de Especialização em Educação Matemática. Interessante que eu fui uma das fundadoras do curso de Licenciatura em Matemática da Faculdade Newton Paiva, e lá também lecionei para a Tânia Ayer, que viria a trabalhar comigo no Coltec. Inicialmente, meu cargo na UFMG era de 24 horas, depois passou para 40 horas e, finalmente, para Dedicação Exclusiva. Aí deixei as outras instituições e me concentrei nas atividades da UFMG. O Coltec foi a minha primeira experiência com escola de ensino técnico. Em relação às escolas de ensino básico, não técnicas, com que eu tive contato (como professora ou formadora), a principal diferença que eu percebia era referente aos programas dos cursos. Os professores das áreas técnicas costumavam dizer os conteúdos matemáticos de que eles precisavam. Então, por exemplo, eles diziam: "Estamos precisando que os alunos saibam os conceitos de derivada e integral no curso de Eletrônica, no segundo ano". Então a gente inseria derivada e integral no segundo ano. Se eles iam precisar de trigonometria, a gente trabalhava esse conteúdo. O Colégio Técnico não seguia o currículo das outras escolas; nós tínhamos liberdade para montar o nosso, de acordo com a demanda dos cursos oferecidos. Não havia, no entanto, diferenciação do currículo entre os cursos. A gente padronizava. No caso de "derivada", por exemplo: se um determinado curso demandava que ensinássemos "derivada" no segundo ano, a gente oferecia esse conteúdo para todos os demais cursos (no total de quatro cursos), também no segundo ano. E para nós, professores, era um pouco difícil, pois às vezes precisávamos que os alunos soubessem alguns pré-requisitos para compreensão da matéria e não havia tempo para as lecionarmos. Ou ainda, necessitávamos de um certo amadurecimento matemático dos alunos, que habitualmente só conseguiríamos atingir no ano seguinte. No entanto, para atendermos as exigências dos cursos técnicos, nós adequávamos nosso currículo e enfrentávamos tais empecilhos. Teve uma época em que tentamos fazer uma interação ainda maior com os cursos. Me lembro de ir conversar com os professores das outras áreas e perguntar: "O que vocês precisam?". A Elétrica, por exemplo, mostrou algumas fórmulas e determinadas funções que utilizavam. Nós, então, procuramos apresentar aquelas funções mais cedo, quando o curso técnico iria utilizar. Nós tentávamos observar o que esses professores estavam ensinando para usar em exemplos, aplicar aqueles conteúdos. Mas eles diziam: "Não, isso é por nossa conta". 419 A gente dava um exemplo aplicado ou outro, mas era muito pouco. Em suma, nós nunca chegamos a uma interdisciplinaridade, digamos assim, mais profunda. Dentro do Departamento de Matemática, nós atuávamos nas diferentes disciplinas 406 , a gente trabalhava com o que fosse preciso. Lembro-me de alguns casos interessantes, referentes ao modo como nós atuávamos. Certa vez, trabalhei Geometria Analítica com os alunos do Coltec, no segundo ano, eu acho. Eu possuía um livro em francês 407 , que para mim era o melhor livro de Geometria Analítica que eu já li na vida. A propósito, eu não sei onde ele está, não está na minha casa, talvez tenha emprestado a alguém. Então, fui até os alunos e disse assim: "Olha, para estudar esse assunto, esse é o melhor livro que eu já li. Mas está em Francês. Vocês querem estudar nele?" E os alunos responderam: "Sim, queremos!". Assim, irei xerox do livro para os meninos, naquela época era permitido. Não tirei tudo de uma vez. Tirei cópia do primeiro capítulo, depois do segundo... . Vale ressaltar que nós não tínhamos aulas com diapositivos 408 lá no Colégio Técnico, era uma ou outra. Livros, a gente também tinha poucos. Então a gente escrevia o material para os alunos e eles estudavam em grupos. Os professores ficavam circulando, ajudando. De posse das cópias do livro em Francês, eu disse aos alunos que, na primeira semana, nós iríamos ler e discutir juntos. Eu lia traduzindo e eles iam acompanhando. Esse livro tinha pouco texto e muitas atividades. Assim, depois da leitura do conteúdo, eles iam fazendo as atividades. Depois de duas semanas, os meninos já estavam lendo em francês, interpretando. Eu os auxiliava em algumas palavras. Foi uma experiência muito interessante. Em pouco tempo, os estudantes estavam lendo Francês, interpretando e fazendo as atividades de Matemática sozinhos. Outro conteúdo que me recordo das aulas do Coltec refere-se às Funções. Eu procurei materiais utilizados naquela época, mas encontrei poucos. Eu usava este material (imagem abaixo) para ensinar Gráfico de Funções. Neste exemplo, os alunos trabalhavam com a função do 2º grau. Atualmente, os softwares fazem isso, mas nós fazíamos este trabalho manualmente. Nós entregávamos aos alunos folhas contendo planos cartesianos. Além disso, entregávamos o gráfico da função que iríamos trabalhar. Os estudantes eram orientados a recortarem o gráfico, para que o mesmo pudesse ser movimentado sobre o plano fornecido anteriormente. Quando o gráfico estava sobreposto no plano, na posição que a atividade 406 As referidas disciplinas são Matemática do 1º ano, Matemática do 2º ano, Matemática do 3º ano e Bioestatística para o curso de Patologia. 407 Maria do Carmo contou que aprendeu Francês no curso de doutorado, no Canadá. Ela precisou, inclusive, escrever a sua tese em Francês. 408 Diapositivos ou transparências eram projetadas em telas brancas, contendo textos ou imagens. 420 exigia, o estudante desenhava o gráfico, utilizando o contorno do recorte. O objetivo dessa atividade era ensinar que, a partir do gráfico da função f(x) = x 2 , é possível, por meio de composições e/ou translações, obter os gráficos das funções do tipo: f(x + a), f(x - a), f(x) + a e f(x) - a. Figura 106: Gráfico da função f(x) = x 2 , disponibilizado pela professora para ilustrar a translação. O primeiro gráfico já foi recortado, como sugerido no exercício. Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria do Carmo. Material cedido para a pesquisa. Figura 107: Plano Cartesiano disponibilizado pela professora para realização de uma atividade. Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria do Carmo. Material cedido para a pesquisa. Figura 108: Simulação da atividade proposta. Imagem criada pela pesquisadora. Esse trabalho funcionava, os alunos compreendiam. Ainda hoje funciona muito. Eu gosto de usar esse material concreto, antes de trabalhar com o software. Eu trabalhei muitos anos com capacitação de professores, no Centro de Ensino de Ciências e Matemática de Minas Gerais - Cecimig 409 . Lá, eu utilizava essa atividade com os docentes e eles também 409 O Centro de Ensino de Ciências e Matemática de Minas Gerais – Cecimig, criado em 1965, através de um convênio entre o MEC e a UFMG, foi incorporado à Faculdade de Educação em 1987. Dentre seus objetivos o centro visa estimular a pesquisa e a extensão, contribuindo para a melhoria do ensino de Ciências. Neste sentido "Eu fazia isso com todas as funções. No final, eles tinham as visões todinhas. Eles faziam as translações verticais e horizontais. Com determinados tipos de translações, eles tinham gráficos de funções. Esses gráficos e esse plano cartesiano foram todos feitos à mão. Não existia softwares na época. E eu tinha um desenhista, o filho do Reginaldo Naves. Era ele que desenhava essas coisas para mim. A gente fazia à mão, era com tinta nanquim, para ficar fininho. Era muito trabalhoso". 421 aplicavam a seus alunos. Eu fazia com funções do segundo grau, terceiro grau, quarto grau, funções trigonométricas. Todas usando os mesmos princípios que eu descrevi. Eu só encontrei o material da função do 2º grau, mas dá para se ter ideia do funcionamento para as demais funções. Nós exigíamos muito dos alunos do Coltec. Muitos dos conteúdos que eu lecionei no Colégio, atualmente, eu tenho dificuldades de apresentar na licenciatura em Matemática. Como eu disse, nós ensinávamos conceitos de "derivada" e "integral" no segundo semestre do segundo ano, por exemplo. Inclusive, vou explicar como eu fazia para ensinar derivada para os alunos. Eu entregava para eles um gráfico de uma função, por exemplo, "seno", em um papel quadriculado, todo arrumadinho. No gráfico da função, eu destacava alguns pontos (P1, P2, P3, ...), explorando o quadriculado do papel. Aí eu pedia para eles indicarem as coordenadas desses pontos destacados. Eles, então, escreviam as coordenadas para cada um daqueles pontos. Em seguida, utilizando uma régua, eu pedia para eles posicionarem esse instrumento o mais tangente possível a cada um dos pontos da função dada. Feito isso, eles desenhavam um triângulo retângulo, utilizando aquele ponto como vértice. Finalmente, eles encontravam as medidas dos catetos e calculavam a razão entre cateto oposto e cateto adjacente, nessa ordem. Para cada ponto, eles encontravam um triângulo e um valor para o quociente entre as medidas dos dois catetos desse triângulo. Em geral, eu indicava 10 pontos no gráfico. Nesse momento, eu dizia que o nome disso é inclinação da reta, eu não falava a palavra "derivada". Em uma tabela, eles organizavam uma coluna contendo as coordenadas de cada um dos pontos P1, P2, P3,.... Na coluna ao lado, eles escreviam pontos em que a abscissa era a mesma dos pontos P1, P2, P3, ... e a ordenada era o valor da razão encontrada, após as construções dos referidos triângulos. Em seguida, eram instruídos a construírem um gráfico com os pontos da segunda coluna. Aí eu dizia: "Olha só: quando a gente tem um conjunto de pares ordenados e encontramos esses outros pares ordenados, vejam a função resultante (gráfico esboçado pelos alunos). Uma função deriva da outra. Notem que a derivada da função seno de x é cosseno de x. Eu repetia esse procedimento para outras funções, como f(x) = cos x e g(x) = e x . E assim eu introduzia o conceito de função derivada". é responsável pela organização de cursos de aperfeiçoamento e especialização, assessoria a diversas instituições, promoção de seminários, congressos e encontros na área, realização e divulgação de pesquisas e construção de acervo bibliográfico e de materiais para atividades experimentais em Ciências. Disponível em: < http://www.cecimig.fae.ufmg.br/index.php/institucional/historia>. Último acesso em: 07 jul. 2016. 422 P1= (1/2 , 1/2)        55,0 5,0 ,2/1 P2= (π/2 , 1) ... P3=(5π/6 , 1/2) ... P10 Figura 109: Tabela criada pela pesquisadora professora Maria do Carmo, durante a explicação da atividade. Figura 110: Gráfico criado pela pesquisadora para ilustrar a descrição da professora Maria do Carmo, durante a explicação da atividade. Figura 111: Esboço realizado pela professora Maria do Carmo, para explicar uma atividade desenvolvida por ela, no Coltec. O interessante dessa atividade é que, mesmo os alunos realizando as medições com réguas, o que ocasiona pequenas diferenças nos valores, a proximidade dos resultados é muito grande. Então eu mostrava para eles, que se nós tivéssemos um aparelho que fosse ainda mais preciso, eles encontrariam exatamente as funções derivadas. Com o uso da calculadora, eu costumava mostrar para eles alguns valores numéricos das funções, assim eles podiam verificar que as aproximações estavam boas. Fazia o mesmo quando eu ensinava integral. E os resultados numéricos eram muito próximos. Conclusão: quando esses meninos chegavam no ICEx, eles já derivavam e integravam, já sabiam tudo. Não tenho dados, mas os índices de aprovação dos alunos do Coltec no vestibular eram muito altos, afinal, eles estudavam durante todo o dia na escola. "Eu ia dando os comandos oralmente para os alunos e eles faziam. Essa primeira, eles demoravam um pouquinho, né? Porque eles faziam todos os pontos. Nas funções seguintes eu determinava um ponto para cada grupo trabalhar. Depois, eles socializavam os resultados e a gente formalizava. No final de duas aulas eles já derivavam tudo e entendiam o que eram as derivadas. Com a integral era a mesma coisa, porque eles calculavam a área sob a curva, né?". 423 Tínhamos muitas atividades e materiais produzidos pelo Departamento de Matemática do Coltec. Cada professor queria produzir o seu. E, em alguns casos, nós compartilhávamos nossas produções. Já naquela época, todos do Departamento tentavam fazer alguma coisa diferente. Dessa forma, o jeito de dar aula do Coltec era nosso, era estabelecido pela gente. Vale mencionar que todos nós trouxemos alguns reflexos de outras práticas que presenciamos ou investigamos. Por exemplo, o método que todos nós utilizávamos, com o uso de material próprio e poucas aulas expositivas, eu acredito que seja um vestígio do Colégio Universitário, porque as técnicas empregadas por eles dentro da universidade eram excelentes! Quando eu fui monitora no Colégio Universitário, eu pude conhecer e participar das dinâmicas das salas de aula. Há trinta, quarenta anos atrás, todo mundo dava aula com o uso de diapositivos, era uma tradição de Minas Gerais. Havia um professor da UFMG, inclusive, um catedrático, que foi professor do Colégio Estadual Central 410 de Belo Horizonte, e era super importante na época, que não aprovava inovações no ensino. Certa vez, quando ele se deparou com outro docente lecionando com o uso de giz colorido, esse professor o recriminou, dizendo que não era para ficar fazendo desenhos coloridos para demonstrar, que isso não era Matemática. Ou seja, era muito difícil fazer qualquer mudança na forma de ensinar. No entanto, no Centro Pedagógico e no Coltec nós conseguimos mudar tudo, nós reinventamos a maneira de lecionar Matemática. Essas mudanças foram favorecidas pelo ambiente de trabalho, onde tínhamos um grupo muito unido e com muita autonomia. No Centro Pedagógico, entretanto, os professores enfrentavam um pouco de resistência dos pais, pois trabalhavam com alunos das séries iniciais à oitava série. Muitos desses pais eram docentes da Universidade, que tentavam intervir na proposta de ensino. Mas com a ajuda de orientadores, supervisores, foi possível, durante cerca de 10 anos, enfrentar os obstáculos e produzir material para todas as séries do Centro Pedagógico, eu e o Reginaldo. No Coltec, era comum fazermos uso de Estudos Dirigidos e Instruções Programadas. O Estudo Dirigido seguia um livro. Não me lembro qual o nome do livro que nós usávamos. Os alunos que compravam seus livros, não havia distribuição deles pelo governo. Como julgávamos que era difícil para os alunos, jovens, lerem e compreenderem os conteúdos dos 410 Esse colégio foi a primeira escola pública estadual de Minas Gerais. Instalada, inicialmente, na cidade de Vila Rica (atual Ouro Preto) com o nome de Liceu Mineiro e, posteriormente, Ginásio Mineiro. Em 1898, foi transferida para Belo Horizonte (capital mineira), ocupando diferentes construções e assumindo várias nomenclaturas. A partir de 1963 recebeu o nome de Colégio Estadual Central. Em 1978 recebeu a denominação atual: Escola Estadual Governador Milton Campos (antigo nome desse colégio, de janeiro de 1972 a fevereiro de 1973). Disponível em: . Último acesso em 13 jul. 2016. 424 livros, de forma independente, a gente fazia o Estudo Dirigido. Nele indicávamos as páginas para serem lidas, os exercícios a serem realizados, e incluíamos questionamentos, do tipo: "O que significa essa definição?", ou "O que significa a palavra tal?". Então, a gente dissecava os parágrafos com perguntas e, em seguida, propúnhamos uma ou duas atividades do livro. Durante essa dinâmica, enquanto os alunos desenvolviam as atividades, nós, os professores, nunca sentávamos na mesa, nós circulávamos entre os grupos, que totalizavam cerca de 30 alunos. As salas do Coltec eram muito boas, a gente montava os grupos e circulava entre os alunos. No caso da Instrução Programada, nós trabalhávamos os conteúdos matemáticos, sem o uso de livros. No próprio material, nós incluíamos a matéria e propúnhamos perguntas relacionadas. Os alunos iam respondendo as questões, que vinham no final do capítulo, e conferindo no próprio material. Era muito complicado fazer uma Instrução Programada, porque você tinha que cuidar de cada detalhe do conteúdo, explorar cada tópico da matéria apresentada, minuciosamente. Essas propostas de trabalho, Estudo Dirigido e Instrução Programada, já eram utilizadas e disseminadas na pós-graduação da FAE/UFMG. Durante um certo período, o uso dessa proposta foi difundido na Universidade, onde era justificada e fundamentada por teorias. Em cada época havia uma prática sendo incentivada, como acontece atualmente. Nessa época, veio a onda da Instrução Programada e do Estudo Dirigido. Entretanto, essas ideias demoravam a chegar nas escolas de ensino básico, isso era uma particularidade do Coltec. Além disso, não era possível trabalhar dessa forma com os alunos das séries iniciais à 8ª série, porque para menino pequeno era difícil ler e estudar sozinho. Ou seja, determinados recursos só eram válidos a partir do Ensino Médio. Diferentemente dos dias atuais, nós tínhamos muito trabalho para produzir materiais didáticos, provas. Inicialmente, porque não tinha nem máquina de datilografar na época, nós fazíamos tudo à mão. Depois, tinha máquina, mas era muito complicado datilografar um "módulo 411 ", uma raiz quadrada, um expoente, e nós precisávamos disso. Além disso, não era comum o uso de xerox, nós utilizávamos matrizes para confecção das apostilas. Era uma matriz muito trabalhosa, em que não era possível fazer correções. Não havia, também, muito papel disponível. Algumas vezes, nós dobrávamos os papéis ao meio. Papel era muito caro. 411 Ela se refere ao símbolo do valor absoluto . 425 Figura 112: Capa da Apostila de Trigonometria, desenvolvida por Maria do Carmo e Reginaldo Lima. Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria do Carmo Vila. Cedido para a pesquisa. Figura 113: Primeira página da Apostila de Trigonometria, desenvolvida por Maria do Carmo e Reginaldo Lima. Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria do Carmo Vila. Cedido para a pesquisa. Figura 114: Capa do módulo "Números Racionais" (1981), de autoria de Maria do Carmo Vila e Reginaldo Naves de S. Lima, utilizado para revisão dos conteúdos das séries anteriores. Fonte: Arquivo do Departamento de Matemática do Coltec. " As apostilas já continham espaço para os alunos irem respondendo. Não tinha aquele negócio de livro pronto, com as informações prontas, os estudantes iam respondendo, completando". "Também produzíamos materiais de reforço, para os meninos que chegavam e não sabiam trabalhar com os conteúdos da 7ª e 8ª séries, antigamente, 8º e 9º anos de hoje. Como nós não tínhamos tempo de trabalhar esses conteúdos na sala de aula, e nós precisávamos deles, nós fazíamos uma revisão rapidamente e, em seguida, entregávamos módulos de revisão para esses alunos estudarem sozinhos". 426 Figura 115: Capa e primeira página da apostila "Triângulo de Pascal" (1994), de autoria de Maria do Carmo Vila e Reginaldo Naves de S. Lima. Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria do Carmo. Cedido para pesquisa. Naquela época, não usávamos o termo "Tendências em Educação Matemática", no entanto, eu diria que nós tentamos utilizar, por exemplo, "História da Matemática", que eu acho muito importante e difícil de utilizar. Considero difícil, pois, reconheço que o que conseguíamos realizar, de fato, era contar uma curiosidade histórica sobre o assunto. Figura 116: Segunda página da apostila "Triângulo de Pascal" (1994), escrita por Maria do Carmo Vila e Reginaldo Naves de S. Lima. A segunda atividade apresenta uma curiosidade a respeito da criação do triângulo de Pascal. Fonte: Arquivo pessoal da professora Maria do Carmo. Cedido para a pesquisa. Além disso, eu sempre fiz o que o pessoal trabalha hoje em dia com o nome de "Modelagem Matemática". Você parte de uma situação e "matematiza", você encontra uma fórmula.Você pode utilizar modelagem até com as crianças. Eu uso isso até hoje. Trabalho "Essa apostila [mostrando o material, ilustrado a seguir], por exemplo, é sobre Triângulo de Pascal, de 1994, olha como está velha. Os alunos iam construindo o triângulo de Pascal, a gente não dava nada pronto para eles, não tinha nada pronto, eles iam fazendo, iam construindo, iam explorando as propriedades do triângulo de Pascal". 427 com padrões da Física, da Química, da natureza, em geral. A partir de exemplos, podemos retirar padrões, leis. Ao fazer isso, você está trabalhando modelagem. No Departamento de Matemática do Coltec, nós sempre trabalhávamos com coisas diferentes. A gente estava sempre fazendo, experimentando materiais, fazendo coisas novas, escrevendo. O que determinava os nossos métodos de ensino era o experimento. Observávamos, por exemplo, que após aplicarmos um estudo dirigido, os alunos gostaram e se empenharam muito. No entanto, a partir do segundo, terceiro ou quarto estudos dirigidos, os estudantes demonstravam cansaço e tédio. Então, a gente explorava recursos diferentes. Por outro lado, quando percebíamos que uma certa estratégia tinha dado certo, nós a aplicávamos em outra turma. Uma atividade que tinha uma repercussão positiva, por exemplo, era a desenvolvida para estudar matrizes. A gente trabalhava com eles com uma história preliminar. A gente dizia que uma senhora tinha que comprar pão, leite, manteiga, ovos e verduras. Ela, então, resolveu organizar a lista da seguinte forma: pão 2, leite 2, manteiga 1, .... Aí essas listas passavam a incluir preços para cada elemento. Eu questionava os alunos: "Como eu faço para organizar a lista de uma semana?". A partir de nossas discussões, esses valores iam compondo as linhas e colunas das matrizes. Era assim que eu introduzia matriz para eles, a partir de uma história. Em seguida, eles somavam e multiplicavam as matrizes. Nós não deixávamos de dar os conteúdos formais, os cálculos, mas isso só aparecia depois de uma história. Eles aprendiam rapidinho. Figura 117: Capa e primeira página da apostila "Matrizes" (data não informada), de autoria de Maria do Carmo Vila e Reginaldo Naves de S. Lima que ilustra a prática da professora, de incluir uma história para introduzir um conteúdo. Fonte: Arquivo pessoal da Maria do Carmo. Cedido para a pesquisa. Em algumas propostas do Centro Pedagógico, estimulávamos a atividade corporal. Havia etapas de aprendizagem. Eu não encontrei um material para apresentar a respeito. Mas 428 era assim: os meninos tinham um conteúdo matemático a ser estudado; iniciavam com uma atividade corporal, depois a etapa de registro do que acabaram de realizar, em seguida, havia manipulação e, ao final, um registro mais elaborado. No Centro Pedagógico, por exemplo, a gente introduzia as operações de adição e subtração a partir de tabelas e jogos no chão do pátio. Trabalhávamos com numeração em diferentes bases: base 3, base 4, base 5, base 6, base 2 e, finalmente, base 10. Depois os estudantes manipulavam fichas, relacionadas à mudança de base. No ano seguinte, na segunda série, eles eram capazes de realizar essas operações com facilidade, não importava se o número possuía 10 ou 15 algarismos. Em relação aos recursos utilizados nas aulas de Matemática do Coltec, quando eu cheguei no Colégio, não existia laboratório de computação, não havia computador nem no Departamento de Matemática. Em 1988, ainda não usávamos computadores no Brasil, entretanto, no Canadá, passei a usá-lo, durante o meu curso de doutorado. Eles faziam uso dos computadores da "IBM" 412 , mas suas funcionalidades não eram amigáveis, fáceis de trabalhar, além da dificuldade de armazenamento dos dados. Nós tínhamos aqueles "disquetezinhos" pequenininhos que não cabiam quase nada, cerca de 700 Kb. Era necessário, ainda, programar. Não havia as comodidades dos computadores disponíveis atualmente. Hoje eu pego um "Datashow", coloco as figuras e faço movimentos. No entanto, vale mencionar que era comum o uso de calculadoras e retroprojetores no Coltec. Os alunos possuíam as suas calculadoras. E nós permitíamos que os estudantes utilizassem como um instrumento utilitário, para facilitar as contas, agilizar a resolução dos exercícios. Nas séries iniciais, contudo, em que são ensinados os fatos, isso não era comum, não fazia sentido na época. Nós também fazíamos muito uso de retroprojetor. A gente construía os slides, com desenhos, e íamos passando, projetando para os alunos. Além das projeções habituais, nós trabalhávamos com algumas interações. A atividade de Translações de Gráficos, que eu mostrei anteriormente, também era apresentada no retroprojetor. Eu fazia o plano cartesiano e os gráficos nas transparências e apresentava as translações projetadas. Ou ainda, pedia aos alunos que fossem até o retroprojetor mostrar o que eles tinham feito. A metodologia que eu gostava de empregar consistia na manipulação de materiais concretos pelos alunos, inicialmente. Depois eu sistematizava com o projetor, de forma mais dinâmica e rápida. Eu adaptei essa forma de trabalho e continuo a utilizá-la na graduação. Primeiramente, os alunos 412 Em 12 de agosto de 1981, a empresa americana IBM lançou o primeiro computador pessoal - PC, vendido a um preço de US$ 1.565. 429 manuseiam, em seguida, utilizam o software computacional para verificar e conferir os resultados. Além disso, eu possuía um material muito interessante, não me lembro mais onde está. Eram folhas com desenhos de sólidos geométricos que, com o uso de um óculos especial, permitia uma visualização em três dimensões. Inacreditável, não é? Algo que hoje é facilmente possível com os softwares. Os desenhos eram feitos nas transparências com cores diferentes, então, quando você colocava os óculos, você via a projeção em três dimensões. Eu comprei esse material nos Estados Unidos. E naquela época era muito difícil comprar fora. A gente comprava e pagava pelos Correios, em dólar. Já naquela época, nós também utilizávamos sólidos geométricos concretos, feitos pelos alunos, construídos com madeira, metal, caixas. Essa prática não era comum, ninguém fazia isso em outras instituições. Os materiais desenvolvidos para trabalhar no Coltec e, principalmente, no Centro Pedagógico, eram usados nos cursos de capacitação de professores em Minas Gerais e em outros estados: Mato Grosso, Rondônia, Paraná, .... Nós produzíamos material e mandávamos de ônibus, especialmente eu e o Reginaldo, juntamente ao CECIMIG. Assim que o material estava pronto, os professores do Centro Pedagógico aplicavam em suas turmas. Dessa forma, nós tínhamos um retorno sobre esse material: "esse ponto aqui está bom", "aqui os meninos tiveram dificuldades". A partir daí, nós fazíamos as revisões necessárias. Em seguida, esse material era enviado para outras cidades ou estados. Em geral, um professor da universidade local nos auxiliava, recebendo o material, distribuindo nas escolas e capacitando os docentes sobre seus usos e aplicações. Acompanhavam esse material um manual para o professor e um manual para o aluno. O manual do professor era todo ilustrado com histórias em quadrinhos, descrevendo as atividades propostas. Fizemos também capacitações por meio de "ensino a distância", na época não se chamava "educação a distância". Quatro cidades serviam de "polo"; vou usar esse termo, mas na época não se chamava assim. Havia um polo em Montes Claros - MG, que eu me lembro. De certa forma, nós influenciávamos os modos de ensinar de outros docentes, a partir desses cursos. Havia muitos cursos de capacitação, foram muitos anos. E nós não éramos remunerados. As escolas ou as superintendências chamavam a gente para oferecer esses cursos gratuitamente. Em alguns casos, os professores do Centro Pedagógico e do Coltec iam até os polos, nos finais de semana, coordenar os cursos de capacitação. Eles distribuíam materiais, trabalhavam os conteúdos e sugeriam propostas de ensino aos docentes da região. Em 430 seguida, de posse dos materiais, os professores em capacitação estudavam sozinhos e aplicavam algumas propostas em suas salas de aula. No encontro seguinte, eles socializavam suas práticas e esclareciam possíveis dúvidas com os coordenadores. A gente discutia ensino, líamos textos sobre Educação. Nós fizemos isso muito tempo. A Tânia do Coltec participou muito dessas capacitações. Em geral, trabalhávamos com professores que lecionavam até a 8ª série. Tivemos alguma atuação no Ensino Médio, mas pouca. Nessa época havia poucas escolas desse nível. O Ensino Médio foi difundido de uns tempos para cá. Além desses programas de capacitação docente, lembro-me que, por volta de 1976 ou 1977, foi realizada uma reformulação do currículo de Minas Gerais, em que eu e o professor Reginaldo participamos. Uma outra boa escola de ensino técnico, que foi criada antes do Coltec, era o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais - CEFET 413 . Embora estivéssemos no mesmo município, estabelecíamos pouco contato. O Coltec e o Cefet eram muito importantes para o Estado, mas possuíam suas diferenças. O que ouvíamos dizer era que o CEFET capacitava os alunos para uma profissão, enquanto o Coltec, além de capacitar para uma profissão, fornecia uma formação teórica mais sólida. O Coltec era uma ótima escola, em termos de ensino e aprendizagem. As disciplinas e os professores eram diferenciados. Os professores de Português trabalhavam muito bem, os de Geografia eram muito bons. Eu acho que todas as áreas eram muito capacitadas. Em particular, a área de Matemática era muito boa. Os alunos que se formavam no Colégio saíam bem preparados, inclusive, se compararmos com outras escolas. Por isso, as vagas do Coltec eram muito concorridas, pelo nível excelente desse Colégio. O importante, eu acho, é que a gente procurava coisas que fossem significativas, que possibilitassem que eles aprendessem de modo rápido. Além disso, no período em que eu atuei no Colégio, que eu considero que foi relativamente grande, os alunos eram muito bons. Alguns meninos entravam com muitas dificuldades, mas em pouco tempo já estavam acompanhando a turma. Eles estudavam muito, tinha um ou outro que não estudava mas, apesar disso, se saíam bem, aprendiam rápido. Se 413 O CEFET-MG foi fundado em 1909, como Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais. Posteriormente, assumiu outras denominações até ser denominado Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, CEFET - MG. Atualmente, atende a capital e outras oito cidades do estado. Oferece cursos desde técnico de nível médio até curso de doutorado. Disponível em: < http://www.cefetmg.br/textoGeral/historia.html>. Último acesso em: 23 ago. 2016. 431 fizéssemos um levantamento, acredito que a maioria deles continuou os estudos, fez curso superior. Em 1992 eu voltei do Canadá e em 1995, eu acho, eu me aposentei na UFMG. Reginaldo Naves de Souza Lima e Maria do Carmo Vila Vou contar como um pouco mais sobre a minha ligação com o professor Reginaldo. Eu o conheci durante o meu curso do Premen. Depois convivi com ele no Colégio Universitário, quando trabalhávamos eu, ele, Alceu e o David. Nesse período, eu ajudava nas salas de aula e tive a oportunidade de conversar muito com o Reginaldo. Quando eu ainda estava no Colégio Universitário, o professor Reginaldo veio até mim e disse: "olha, eu estou fazendo um livro com o David e o Alceu, mas eu estou pensando em me desvincular, porque eles estão com uma concepção e eu estou com outra. Você quer trabalhar comigo?". Eu aceitei e começamos a escrever os livros de 5ª série, que hoje seriam os livros de 6º ano. Fui para minha casa, em Guaranésia, e pensei assim: "Gente, o que eu vou escrever?". Eu era muito nova, relativamente jovem, eu tinha 23, 24 anos. Reginaldo era bem mais velho e possuía muita experiência na área de ensino. Apesar dos meus receios, comprometi-me a escrever uma unidade e enviar para ele. Escrevi e levei para ele, em Belo Horizonte. Reginaldo disse: "Está ótimo, está bom!". Nós discutimos algumas partes, mudamos um pouco e começamos a publicar os livros de 5ª a 8ª série 414 . Professores do Premen, inclusive, adotaram esses livros. Depois de algum tempo, eu conseguia escrever quase que naturalmente. Começava a escrever e a inspiração vinha. Por exemplo, para incluir essas histórias, como a mencionada sobre o conteúdo de matrizes, eu produzi sem consultar uma bibliografia. Na verdade, havia pouco material que ajudasse nesse trabalho. Ao escrever, eu pensava assim: "O que o aluno pode gostar?", "O que pode ser prazeroso para ele?". Dessa forma, eu iniciava a escrita e o restante fluía, sem eu precisar olhar nada, eu ia escrevendo. Obviamente, eu sempre estudo, faço leituras. Mas quando eu sento para escrever, eu me sinto espiritualmente bem, fico feliz de escrever para professores e alunos. Eu esqueço do restante do mundo e começo a criar. O Reginaldo também é muito criativo, ele chegava e dizia: "Olha, eu acho que isso vai dar 414 Maria do Carmo Vila publicou os livros "Matemática para o Curso Fundamental", de 5ª a 8ª série, juntamente com o professor Reginaldo Naves de Souza Lima, a partir de 1992, em Belo Horizonte, pela editora Vega. 432 certo!". Ou ainda, ele sonhava com algumas coisas e no dia seguinte: "Veja, sonhei com isso". Então a gente trabalhava em suas inspirações. Havia ainda o meu vínculo com o Reginaldo, devido a nossa participação comum no Cecimig, onde nós sempre nos encontrávamos. Além disso, Reginaldo lecionava no Centro Pedagógico e eu lecionava no Coltec. Ele até trabalhou por pouco tempo, no Coltec, como professor convidado. A gente se ajudava, eu preparava apostilas para o Coltec e ele contribuía. Ele desenvolvia atividades para o Centro Pedagógico e eu o auxiliava. Infelizmente, no Coltec, eu não tive tempo de fazer uma produção sistemática de materiais. De iniciar com o primeiro conteúdo estudado e dar continuidade, para todos os outros. As minhas atividades no Centro Pedagógico me absorviam muito. Escrevemos muita coisa! E eram todas escritas naquelas máquinas terríveis, onde não há correções. Se quiséssemos reformular, precisávamos "bater" tudo novamente. Era muito complicado. A única possibilidade de correção era retirar a folha da máquina, passar corretivo no erro e recolocar a folha na máquina, no lugar certinho onde se desejava retificar. Depois vieram máquinas melhores, elétricas. Eu doei a minha há pouco tempo. Nossa parceria era tão grande, que hoje eu tenho dificuldades, ao ver um material, de dizer se fui eu ou o Reginaldo que produziu. Nós não escrevíamos juntos, porque não tem jeito. Mas depois que um escrevia, o outro revisava, contribuía e, ao final, era uma obra conjunta. Fizemos materiais sobre tabuadas, jogos de moedas, atividades que envolviam dança e acrobacia, história em quadrinhos, .... Mantivemos nossa cooperação mútua por muito tempo. O Reginaldo não tinha paciência de realizar os desenhos. Então, parte das figuras era feita por mim, outra parte era feita pelo filho dele, que era desenhista. Mostrei para a professora Maria do Carmo uma pasta denominada "Seminário sobre o Ensino de Matemática no 2º grau - Projeto OEA - 06 e 07/05/1983", que continha fotos e descrições de atividades. 433 Figura 118: Painel de tema "O uso de micro- computadores no Ensino de Matemática". Apresentado por Sérgio Veiga 415 , em seminário realizado no Coltec. Fonte: Arquivo do Setor de Matemática do Coltec. Diante de uma carta (quatro páginas), escrita por Maria do Carmo aos colegas Jed, Luiz Humberto, Sérgio e Tânia quando ela estava cursando o doutorado no Canadá, conversamos sobre algumas partes de seu conteúdo. Essa carta continha quatro fotografias, cujo verso apresentava uma identificação sucinta: 1. Vista Parcial da cidade de Toronto; 2. Região coberta de neve, com algumas pessoas, dentre elas o professor Abdala; 3. Fenômeno de migração de pássaros; e 4. Parlamento de Otawa. Figura 119: Carta enviada por Maria do Carmo, ao Departamento de Matemática do Coltec, em 1989. Fonte: Arquivo do Setor de Matemática do Coltec. Figura 120: Foto encontrada dentro do envelope, que continha uma carta da profa. Maria do Carmo ao Departamento de Matemática do Coltec. 415 Sérgio Veiga Dias, também chamado de Serjão por ex-alunos e professores do Coltec, lecionou Matemática no Colégio. Não foi possível localizar esse professor para participação nesta pesquisa. "Essas fotos são de 1983, nesse período não tinha laboratório de informática no Coltec. O Dario Fiorentini e o Ubiratan D'Ambrosio já tinham realizado um trabalho interessante sobre o uso de calculadoras e computadores. Mas as escolas não tinham computadores ainda. Ou seja, o uso de computadores não era difundido. No Coltec usávamos calculadora, mas computador não. Então, nesse Seminário, o que fazíamos era apresentar possibilidades para o futuro, o que a gente poderia fazer com o computador. A gente realmente usava retroprojetor e desenhos. Tinham muitos desenhos nessa época". 434 Figura 121: Primeira página da carta enviada por Maria do Carmo ao Departamento de Matemática do Coltec. "Olha só... Eu estava a passeio em Otawa, fui conhecê-la em um final de semana. Nessa época eu incentivava o Jed a ir para o Canadá, fazer mestrado lá. Na Universidade onde eu cursava o doutorado, a área da Estatística era muito desenvolvida. Além disso, enquanto estive lá, tivemos um curso sobre "Resolução de Problemas", que era um tema atual em vários lugares do mundo, porém, recente no Brasil. Tinha um pessoal que vinha dos Estados Unidos nos dar aula". 435 FRANCISCO BASTOS GIL - 73 ANOS Ex-professor do Coltec: 198X 416 - 1992 Data da entrevista: 04/10/2016 O professor "Gil", como gosta de ser chamado, teve um importante papel na formação de professores no norte de Minas Gerais. Em Belo Horizonte, formou estudantes da educação básica, preparou estudantes para concursos e auxiliou nos estudos de alunos de diferentes níveis de ensino. Gil é apaixonado pelo ensino de Matemática, por desenho e por viagens, como pude perceber em nossa conversa. Nosso encontro foi em seu apartamento, em Belo Horizonte. Caminhamos para o seu escritório, local em que ofereceu aulas particulares por muitos anos. Lá estava um de seus desenhos, emoldurado e afixado na parede. Além disso, coleções de livros e um computador. Posicionei-me diante dele. Segundo Gil,é o mesmo local onde se sentavam seus alunos. A partir daí, conversamos sobre algumas de suas experiências como docente, focando o período em que atuou no Coltec, na década de 1980. Comecei a lecionar com 16 anos, para turmas de 1º, 2º, 3º ou 4º ano do ginasial. Inicialmente, trabalhei em uma escola particular, lá no bairro Prado. Essa instituição não existe mais hoje, chamava-se Ginásio Belo Horizonte 417 . Depois do 4º ano, o estudante ia para o 1º ano do científico, que hoje chamamos de Ensino Médio. Os alunos da 4ª série do ginásio tinham 14 ou 15 anos, auge da adolescência, eram meninos bagunceiros. Eu tinha praticamente a idade deles, pois comecei muito cedo. Por isso, inclusive, aposentei cedo. Vou contar porque comecei a lecionar Matemática tão cedo. Eu estudava no Colégio Anchieta 418 , que na época era na rua Tamoios. Hoje lá é um estacionamento. Quando estava no final da 4ª série do ginásio, tomei 2ª época. Isso não existe mais hoje. O aluno era reprovado, mas tinha uma prova de segunda chance, em fevereiro. Ou seja, a minha turma formou e eu não, porque fiquei devendo Matemática. Aí meu pai falou assim: "Eu vou para a 416 O professor Gil não se recorda da data em que iniciou o seu trabalho no Coltec. Além disso, não conseguimos recuperar esssa informação nos registros do Colégio. 417 Não encontramos informações a respeito dessa instituição de ensino. 418 Newton de Paiva Ferreira criou, em 1935, junto com um grupo de amigos, a Escola Livre de Direito, cujo conceito era: “instruir e educar para melhor conceituar o direito de liberdade". O Colégio Anchieta foi o sucessor dessa instituição e um dos primeiros estabelecimentos de ensino secundário de Belo Horizonte. Disponível em: < http://www.camara.gov.br/sileg/integras/313144.pdf>. Ele era situado na esquina da rua Tamoios com a avenida Olegário Maciel, no centro de Belo Horizonte. Disponível em: . Último acesso em: 06 out. 2016. 436 praia com a sua mãe e seu irmão e você vai ficar aqui em casa, com a empregada, estudando". Além disso, contratou um professor particular para me dar aula todos os dias de novembro, dezembro e janeiro, para eu fazer a prova em fevereiro. Nunca mais esqueci o nome desse professor: Paulo Roberto Baeta Neves. Ele começou a dar aulas para mim e falou assim: “Menino, você não sabe nada! Vou começar do zero com você. Nós temos tempo, mas você tem que corresponder!”. Dessa forma ele fez; começou do zero. Iniciou com as matérias da 1ª série do ginásio, até passar pela 2ª, pela 3ª, e pela 4ª. Aí eu peguei uma boa base, eu fiquei fera! Por fim ele me disse assim: "Pode fazer a prova, que você vai ganhar total!”. Em fevereiro eu fui fazer as provas. Era uma escrita e uma oral. Eu ganhei total nas duas. Aí, quando fui para o científico, eu era o melhor aluno de Matemática, porque tinha a melhor base. Meus colegas já estavam defasados, já haviam esquecido os conteúdos lá de trás e eu estava com tudo ali fresco. Tudo o que o professor perguntava eu respondia: "pá, pá, pá". Só tirava total! Eu era o fera na Matemática no primeiro científico. Aí meus colegas questionaram: “Você é bom em Matemática, mas em Biologia, Física e Química você é uma porcaria!”. Então, pensei assim: “Que desaforo, eu vou estudar isso!”. E comecei a estudar essas disciplinas, logo passei a tirar total nelas também. Então virei o primeiro aluno da turma. Foi nessa época que eles me chamaram para dar aulas. Tem um detalhe muito relevante. Antes, eu fiz um curso de pintura. Como eu era muito bom desenhista quando era menino, a minha avó contratou uma professora de pintura, uma profissional, para me dar aulas. Se você olhar para trás, esse quadro aí, fui eu que fiz, veja [me apontando para um quadro na parede]. O professor Tasso Prado Galhano, dono do Ginásio Belo Horizonte, sabia que eu gostava muito de desenho e falou comigo: "Você pode dar aulas de desenho aqui?". Eu respondi: "Lógico!". Aí comecei a dar aulas lá, de desenho. Quando já estava lecionando nesse colégio, o professor Afonso, de Matemática, informou à escola que não poderia lecionar mais para as turmas de 1º e 2º anos, porque havia assumido aulas em outra instituição. O professor Tasso virou para mim e disse: "Você dá conta?". Eu concordei, dizendo que sim. Como ele já havia visto o meu domínio de sala de aula e sabia que eu tinha conhecimento em Matemática, ele decidiu: "Vamos fazer uma experiência". Aí me colocou para dar aulas para esses meninos. Eu "mandei brasa"! Assinaram a minha carteira; eu tinha apenas 16 anos. Como iniciei a minha carreira muito novo, aposentei-me aos 49 anos de idade. A propósito, não concordo com essa lei que permitiu a minha aposentadoria. Eu dizia para minha esposa que isso estava errado. Com essa idade eu estava no ponto, maduro, capaz, no auge da minha produção, e aposentei-me. Logo em seguida, passei a dar aulas particulares no 437 escritório da minha casa. Aqui, neste local onde estamos. Os alunos sentavam nessa cadeira aí em que você está. Eu dava quatro aulas no turno da manhã, quatro aulas no turno da tarde e, às vezes, quatro aulas no turno da noite. Tinha fila de espera. Quando eu concluía a aula de um estudante, chamava o primeiro da fila. Lecionei aqui por muitos anos. Este ano é que parei. Na verdade, ainda dei uma ou duas aulas, só para ajudar alguém. Com 19 anos, fui para o CPOR 419 fazer curso para ser oficial militar. Ele era feito apenas nos finais de semana e nas férias inteiras. Então não atrapalhava o estudo acadêmico. Inclusive, nós éramos 120 aspirantes e somente um deles não fazia curso superior. Nesse período, eu fazia o curso de Matemática, na Fafi-BH 420 . Formei-me em novembro. Quando foi em dezembro, fui fazer estágio do CPOR, na cidade de São João Del Rei. A gente se formava aspirante, depois era necessário fazer três meses de estágio para se tornar tenente. Quando foi um dia, chegou uma pessoa lá no quartel, mandou me chamar e eu fui atendê-lo. Era um professor lá de Montes Claros me convidando para lecionar na faculdade dessa cidade, pois havia sido criado o curso de Matemática e não havia professores de lá para assumir. Na realidade, ele teria ido à faculdade em que me formei procurar um docente para atuar nessa instituição. Na Fafi-BH eles falaram com ele: "Tem um formando aqui que já tem uma boa experiência, que dá aulas desde menino!". Ele foi à minha casa, em Belo Horizonte, onde eu morava com o meu pai. Eu tinha 23 anos nessa época, já era casado e tinha uma filha de um ano. Meu pai disse assim: "Ah, ele está em São João Del Rei". Em seguida, essa pessoa foi me procurar no quartel e me contratou. Eu fui para Montes Claros para ficar dois anos. Lecionava na Fundação Universitária do Norte de Minas, na FUNM 421 . Hoje ela não se chama assim. Atualmente ela é uma universidade, a Unimontes 422 . Quando se passaram os dois anos, eles falaram assim: "Não! 419 Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de Belo Horizonte. 420 A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Belo Horizonte foi fundada em 1964, inicialmente, com quatro cursos: História, Letras, Matemática e Pedagogia. Quando inaugurada, localizava-se no anexo do Colégio Estadual, no bairro Gameleira. Um ano depois, mudou-se para o bairro Lagoinha. Em 1999 a Fafi-BH se tornou Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH que, atualmente, oferece mais de 50 cursos de graduação e dezenas de cursos de pós-graduação, em suas quatro unidades. Disponível em: < http://arvoredecomunicacao.com.br/unibh-50-anos-formando-profissionais-competentes/>. Último acesso em: 25 out. 2016. 421 FUNM - Fundação Norte Mineira de Ensino Superior. A pesquisa de Shirley Patrícia Nogueira de Castro e Almeida, intitulada: "Um lugar: muitas histórias - o processo de formação de professores de Matemática na primeira instituição de ensino superior de Montes Claros/ Norte de Minas Gerais (1960 - 1990), retrata a formação de professores de Matemática nessa instituição. Francisco B. Gil foi um dos colaboradores da investigação. A tese foi defendida em 2015, no Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social de Minas Gerais, da Faculdade de Educação da UFMG. 422 Universidade Estadual de Montes Claros. 438 Fica mais dois anos para formar a turma". Eu fiquei por mais quinze anos nessa faculdade. Por essa razão nunca fiz pós-graduação. Em Montes Claros, eu lecionava para 54 professores de Matemática, que exerciam a função, mesmo não sendo formados. Eram todos leigos. Por isso, foi exigido a eles que fizessem esse curso. Como eu tinha apenas 23 anos, meus alunos eram mais velhos do que eu. Durante parte do tempo em que estive em Montes Claros, atuei no Colégio Agrícola da UFMG 423 . O diretor de lá veio me procurar, pois sabia da qualidade do meu trabalho. Ele falou assim: "Olha... estou precisando de um professor de Matemática, mas tem que ir lá em Belo Horizonte para fazer o concurso. A Universidade só admite se fizer o concurso. Você topa?". Concordei: "Eu topo!". Aí eu vim para Belo Horizonte, fiz o concurso, passei, e a UFMG me contratou para dar aula no Campus Montes Claros. Com mais ou menos dois anos que eu estava lá, não me lembro ao certo, esse diretor, Raimundo Avelar, teve uma briga com o reitor e abandonou o cargo. O reitor da Universidade foi até ele e pediu: "Indique uma pessoa para o seu lugar, faça uma lista sêxtupla". Nesse período, eu estava viajando para Buenos Aires e recebi uma ligação do diretor Raimundo Avelar. Retornei a ligação e ele me informou: “Olha, eu não sou mais diretor do Colégio”. Lamentei o fato e fui surpreendido com um convite: "Você quer ser o diretor?". Eu logo respondi: "Mas é lógico que eu quero!". Ele, então, colocou o meu nome encabeçando a lista dos seis indicados e enviou para o reitor. Retornando de viagem, contei o episódio para o meu pai. Ele conhecia uma pessoa que era muito amiga do Cisalpino, Eduardo Osório Cisalpino 424 , o reitor da UFMG nessa época. Esse conhecido do meu pai pediu para o reitor me indicar e assim foi feito. Eu fui diretor do Colégio Agrícola. No final do mandato do Cisalpino, coloquei o meu cargo à disposição. Mas o reitor que assumiu o cargo, o professor Celso de Vasconcellos Pinheiro 425 , pediu que eu 423 O Colégio Agrícola Antônio Versiani Athayde, atualmente denominado Instituto de Ciências Agrárias (ICA), foi criado em 1964 e incorporado à UFMG em 1968, para a formação de técnicos em Agropecuária. Está situado na cidade mineira de Montes Claros, onde oferece os cursos de graduação em Administração, Agronomia, Engenharia de Alimentos, Engenharia Agrícola e Ambiental, Engenharia Florestal, Zootecnia, mestrado em Ciências Agrárias e a especialização em Recursos Hídricos e Ambientais. "Além das atividades de ensino e pesquisa, o Instituto destaca-se pelo trabalho de extensão universitária, em grande parte, responsável pela integração entre a UFMG e comunidades do Norte de Minas". Disponível em: . Último acesso em: 20 out. 2016. 424 Eduardo Osório Cisalpino assumiu a reitoria da UFMG em 1974. Professor Emérito da Universidade, atuou no Programa de Pós-Graduação em Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas. Disponível em: < https://www.ufmg.br/boletim/bol1580/terceira.shtml > ; . Último acesso em: 20 out. 2016. 425 "Nascido em Belo Horizonte, em 1931, Celso de Vasconcelos Pinheiro graduou-se pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1954". Foi reitor da UFMG, com gestão de 1978 a 1982. 439 continuasse na direção. No final do seu mandato, tornei a entregar uma carga, disponibilizando o meu cargo, e, novamente, o outro reitor me designou diretor. Com isso, fiquei sete anos como diretor de lá. Durante o dia, eu atuava como diretor do ICA, em período integral. No turno da noite lecionava no curso de Matemática da FUNM. Eu morava dentro do Colégio Agrícola, literalmente. O Campus tinha uma casa destinada à moradia do diretor. Tinha muita mordomia, faxineiro, jardineiro. Era uma casa muito boa e confortável. Quando me separei do primeiro casamento, fiquei lá por mais um ano, quando decidi me casar novamente e voltar para Belo Horizonte. Vim embora em novembro. Em janeiro de 1983, casei e comecei a trabalhar na Reitoria da UFMG, no turno da tarde, e a dar aulas no Colégio Santa Dorotéia 426 , no turno da manhã. Na Reitoria, eu trabalhava na Editora da Universidade auxiliando no funcionamento e na organização das publicações. Nesse período, o Coltec precisou de um professor de Matemática e eles me requisitaram. Aceitei e fui para o Colégio. Não tenho certeza do ano. Quando cheguei ao Colégio Técnico, os alunos estranharam a minha linha dura, a minha exigência. Mas ninguém criou caso, eles gostavam dessa minha maneira de ser: rígido e exigir muito dos estudantes. Eles correspondiam, algo que nem sempre acontecia. Eu fiscalizava muito as provas, não deixava ninguém colar. Além disso, eu sou muito pontual. Certo dia, assim que tocou a sirene para o término do recreio, eu já estava em pé na porta da sala dos professores para ir para a sala de aula. Um colega do setor de Matemática, que não vou citar o nome, falou assim: "Não, nós temos cinco minutos de direito de chegar atrasado. Não saia não, espera aí". Eu pensei: "Está errado". Eu sou muito correto, muito honesto, não concordo com isso. Eu prosseguia com a minha forma de trabalho. Até que um dia, fizeram uma pesquisa com os alunos, anonimamente, sobre os professores do Colégio. Eu ganhei como o docente que tinha a postura que eles mais aprovavam. Ganhei disparado, mesmo sendo o chato, o exigente, o carrasco. Inclusive, tinha professores que falavam assim: “Como é que você consegue? Eu passei na porta da sua sala, e os alunos estavam todos caladinhos, prestando atenção na sua Faleceu aos 76 anos. Disponível em: < https://www.ufmg.br/online/arquivos/007560.shtml>. Último acesso em: 08 nov. 2016. 426 "As origens do Colégio Santa Dorotéia, em Belo Horizonte desde 1962, remontam aos 175 anos da Fundação da Congregação das Irmãs de Santa Dorotéia, iniciada por Paula Frassinetti em 1834, na Itália, e que teve sua primeira escola fundada no Brasil no ano de 1866". Localizado no bairro Sion, oferece Ensino Infantil, Fundamental e Médio. Disponível em: < http://www.santadoroteia.com.br/2008/MenuPrincipal/OColegio/O Colegio.html>. Último acesso em: 25 out. 2016. 440 aula. Como é que você faz isso?”. Isso era um costume meu, funcionou a vida inteira. Se eu estivesse dando aula e dois alunos começassem a conversar, eu parava, e falava assim: “Se vocês estão conversando, é porque não se interessam e já sabem o que está no quadro. Então, me mostrem o que vocês sabem. Vou arguí-los e dar nota”. E era sempre zero. Eu requisitava: “Vem aqui no quadro”, passava uma questão, daquilo que eu estava falando e dizia: “Agora resolve!”. Eu esperava um pouco e completava: “Então a sua nota é zero. Vou fazer a média com a nota da sua prova”. Dessa forma, que aluno conversava na minha aula? Sem conversas, o aproveitamento era melhor. Ficavam todos em silêncio, concentrados, prestando atenção no que eu, o professor, estava falando. No Coltec nunca me falaram nada sobre a sua criação, não vi histórico nenhum, nada. Além disso, não me recordo de nenhum vestígio da ditadura no Colégio. Lecionei Matemática em todos os anos do Colégio, 1º, 2º e 3º, e em todos os cursos técnicos. Não lembro quantos cursos havia. O curso de Matemática era o mesmo para todos. No entanto, às vezes eu saía do programa que estava dando, para poder atender a um pedido de algum professor da área técnica. Os docentes de Mecânica, principalmente, costumavam solicitar que reforçássemos algum assunto, um aspecto de trigonometria, por exemplo. Por outro lado, nós tentávamos fazer alguma relação com os cursos técnicos, mas era muito superficial, porque a gente não entendia da parte técnica. Às vezes, forçávamos no palavreado de um problema. Por exemplo, se eu ia explorar um problema de volume de sólidos, eu inventava que se tratava de uma peça, que tinha um determinado volume de óleo... Mas era muito vago. Além disso, não tive uma formação específica para lecionar em curso técnico. Eu estudava sozinho. Estudei Desenho Técnico, por gostar de desenho. Dei aulas desse conteúdo, lá no Colégio Agrícola. Explicava sobre projeções, perspectivas, etc.. Mas isso não me ajudou em nada no Coltec. Aqui eu apenas socorria alguns professores da Mecânica, conforme expliquei. Juntamente comigo, recordo que trabalharam, no Departamento de Matemática, o Serjão 427 , que tinha alguns problemas de saúde; o Jed, José Eloisio Domingos 428 , que foi meu 427 Sérgio Veiga Dias, também chamado de Serjão por ex-alunos e professores do Coltec, lecionou Matemática no Colégio. Não foi possível localizar esse professor para participação nesta pesquisa. 428 José Eloisio Domingos, ou Jed, ou ainda Jedboy, foi professor efetivo do Departamento de Matemática do Coltec de 1970 a 1997. Em seguida, atuou como professor substituto, nos anos de 1998 e 1999. É um dos colaboradores desta pesquisa. 441 colega na faculdade, formou comigo na FAFI-BH, e a Tânia 429 . O Abdala 430 já tinha saído. E, assim que eu me aposentei, entrou o Airton 431 no meu lugar. Trabalhava com apostilas que eu mesmo elaborava. Tirei muito material desse escritório em que estamos, pois havia muitas apostilas nessas gavetas e muitos livros nas estantes. Mas arquivo todos os originais no meu computador. Naquela época, no entanto, não tinha computador, eu mandava rodar tudo no mimeógrafo. Entregava o estêncil para a gráfica, eles rodavam e eu distribuía para os alunos. O material não era assim igual está aqui [apontando para uma apostila aberta, no Word, em seu computador]. Eu produzi esse material ao longo da minha carreira. Sempre fui muito cuidadoso com este tipo de coisa. Veja alguns dos títulos das minhas apostilas: números, cálculo mental, sistemas de medida, matemática comercial, tal, tal, tal, cálculo algébrico, equação do segundo grau, função do primeiro grau, função do segundo grau, geometria, gráficos, função exponencial, logaritmo, função modular, sequências, pá, pá, pá, ... olha a quantidade [me mostrando os arquivos em uma pasta do seu computador], análise combinatória, probabilidade, ... tudo o que você pensar, tem a Matemática inteira, inclusive conteúdo do ensino superior, como derivadas, coordenadas polares, integrais, funções de várias variáveis, séries e por aí afora. A de Cálculo é a mais bonita, a que eu mais gosto. No Coltec cada professor do Departamento de Matemática fazia o seu material, era cada um por si. Vou "abrir" a de Integral 2 [enquanto clica no arquivo para abrir]. Veja os desenhos que eu fiz no computador [mostrando gráficos de funções], no próprio Word. Tem ainda desenhos de sólidos de revolução, com perspectiva, também feitos no computador. Eu mesmo digitei tudo, sem seguir uma metodologia específica. Eu fazia do jeito que eu achava que deveria ser e funcionava. Nunca adotei livro, porque preferia as apostilas. Na minha concepção, se os alunos dessem conta das minhas apostilas, estariam feitos, podiam ser aprovados em qualquer concurso. E assim acontecia. Hoje em dia, quando estou andando na rua, vem uma pessoa atravessando a rua e vem em cima de mim, me dá um abraço, eu assusto: “Êpa!”. Acho que é um assalto. Aí essa pessoa diz: “Professor, que alegria! Que satisfação! Se eu sou o que sou 429 Tânia Lima Ayer de Noronha se aposentou do Departamento de Matemática do Coltec em 2002, depois de 23 anos de atuação como docente. Como colaboradora desta pesquisa, Tânia relatou algumas das experiências vividas no período em que lecionou no Colégio. 430 Abdala Gannam atuou no Departamento de Matemática do Coltec no período de 1970 a 1992. É um dos colaboradores desta pesquisa. 431 De 1992 até o início de 2017, Airton Carrião Machado lecionou Matemática no Coltec. Conviveu com alguns docentes que ingressaram no Colégio no período de sua fundação e colaborou com esta pesquisa. 442 hoje, eu agradeço ao senhor!”. Isso é muito gratificante. E, ainda, por email, recebo mensagens do tipo: "Professor! Que bom que eu te achei aí.... A dinâmica das minhas aulas não mudava por estar no Colégio Técnico; elas eram normais. Eu fazia a exposição e exercícios, na sala de aula comum, em que os estudantes se sentam individualmente. Ensinava com giz. Hoje não deve ser mais giz... Se desse tempo, ao final, eu fazia uma aplicação do conteúdo explorado ou propunha uma tarefa para os alunos. Às vezes, acabava o horário e era necessário continuar no dia seguinte. Meu modo de ensinar sempre foi o mesmo, não mudou com o tempo ou com a convivência com outros colegas; era sempre o mesmo. Os alunos tinham que ter régua, compasso e esquadro. Mas eu mesmo dispensava o uso dessas ferramentas, porque eu não precisava. Eu sou capaz de fazer um círculo à mão livre, de modo que outra pessoa pode chegar lá, colocar o compasso, que o mesmo irá passar por cima do meu desenho. Nem mesmo régua, nunca usei. Naquela época não tinha calculadoras, por isso também não utilizei. Cheguei a planejar comprar uma calculadora, inclusive. Ela era mecânica, redonda, preta, mas era muito cara. Eu nunca pude comprar. Em seguida, apareceram as primeiras calculadoras eletrônicas, mas ainda eram onerosas, nós não podíamos pedir aos alunos para comprarem. Eu nunca vi calculadoras no Colégio. A Matemática no Coltec era muito valorizada, tinha muito respeito. E, ainda, essa disciplina sempre foi um espinho para muita gente. Alguns alunos eram muito resistentes, inclusive diziam: "Olha, professor, eu não dou conta". O que eu podia fazer? Eu respondia: “Para ser aprovado, você tem que saber, e ter nota. Eu não vou falar que você está apto, se não achar que você está. Não faço isso. Você vai se virar, meu filho”. Aí ele cuidava de dar um jeito. Os estudantes do Colégio Técnico eram da classe média para baixa, isso eu observei. Eles não eram da classe alta. Outra característica é que sempre tiveram muita liberdade. Eram muito independentes. Eu costumava até falar: "Esses alunos daqui são muito folgados". Eles deitavam nos corredores. Para passar, você saía pulando pelos alunos. Isso não acontecia nas outras escolas onde eu trabalhava, pois eram muito disciplinadas, muito rígidas. No Coltec era meio solto, porque não tinha ninguém para falar com os estudantes que não podia deitar no corredor, esparramar, beijar, abraçar. Eu via casais agarrados, um abraçando e beijando o outro. Cansei de ver isso lá e em outras escolas eu nunca vi. Por outro lado, quando eu entrava na sala de aula, os alunos já estavam lá dentro. Eles sabiam que eu não me atrasava. Era dar o sinal e eu chegava. Mesmo não proibindo que eles entrassem na sala atrasados, eles não se 443 atrasavam. Além disso, eu não fazia chamada, achava uma perda de tempo. E, apesar disso, eles não perdiam aula. Em outubro de 1992, eu me aposentei no Colégio Técnico, com 49 anos. No meu contracheque diz que eu me aposentei no Coltec e não na Reitoria ou Colégio Agrícola. Aqui diz ainda [abrindo o contracheque]: "Professor de magistério superior". 444 TÂNIA LIMA AYER DE NORONHA - 62 ANOS Ex-professor do Coltec: 1979 - 2002 Data da Entrevista: 16/03/2016 Enfim, conheci a bela Tânia. Em minhas conversas com funcionários que atuam no Coltec há mais tempo, sempre que se falava na professora de Matemática Tânia, a repercussão era unânime: "A professora Tânia era muito bonita e elegante!", "Os alunos até compuseram uma música para falar de sua beleza.", "Ela era muito elegante, sempre cheirosa". Ou ainda, elogiavam o seu carisma com os alunos, dizendo que ela era uma mãezona, que acolhia e dava muita atenção aos alunos. Em nossa conversa, senti que os relatos saudosistas sobre essa professora eram justificados. O compromisso de Tânia com o Coltec ia além de lecionar Matemática. Ela exercia essa profissão com carinho e afeto. Dessa forma, esperava que os estudantes, mesmo aqueles que não se envolviam com a disciplina, por gratidão ao seu empenho em ensinar, fizessem as atividades propostas e estudassem. Além disso, Tânia estava sempre disponível para atender os alunos em suas dúvidas. Durante o período de sua atuação no Coltec, essa professora produziu materiais, realizou treinamentos para melhorar o seu desempenho e capacitou docentes. Fora das salas de aula, ela acompanhava estudantes com problemas familiares ou usuários de drogas. Ela os ouvia, aconselhava e ajudava no que estivesse ao seu alcance. No caminho para a escola, Tânia oferecia carona aos estudantes, que a aguardavam no caminho. No retorno, as caronas se repetiam. Um por um, ela os deixava nas proximidades de suas casas. Antes de iniciarmos a gravação, Tânia me falou de suas duas filhas, orgulhosa das opções que cada uma delas seguiu. Assim que se aposentou, decidiu acompanhar profissionalmente o marido em seu empreendimento. Na loja da família, no bairro Cidade Jardim, tivemos uma conversa agradável e descontraída. Falamos de assuntos diversos, que extrapolam o tema desta pesquisa. Ao final, ficamos na expectativa de marcarmos um encontro com os docentes egressos e os atuais professores do Departamento de Matemática do Coltec. Espero que se concretize! É sempre bom falar do Coltec e relembrar momentos que eu vivi no Colégio. Lembro- me bem da excelência dos alunos e das oportunidades que a escola oferecia a eles. O Coltec 445 era frequentado por meninos, jovens, que tinham a oportunidade de conhecer, pesquisar, se envolver, de fazer de fato, de ir a campo mesmo, de viajar, de participar de feiras... No Departamento de Matemática, por exemplo, os professores Maria do Carmo 432 e Airton 433 possuíam um projeto, que acredito seja pioneiro nessa atividade, o chamado "Clube da Matemática", para incentivar o ensino e a pesquisa em Matemática. Alunos e professores participavam desse projeto com muito prazer, no horário do almoço. Para eles, reduzir o horário do almoço não era sacrifício, porque todos gostavam e se interessavam pelo projeto. Nesse projeto, esses professores conseguiam identificar estudantes que eram autodidatas, gênios, e que tinham muita capacidade para trabalhar com a Matemática. Eles, então, o indicavam para o Instituto de Ciências Exatas - ICEx, da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, onde eram orientados por alguns de seus professores de Matemática. Era muito legal! Eu entrei lá no Coltec em 1979 e aposentei em 2002. Atualmente estou com 61 anos, completo 62 em julho deste ano. Quando eu entrei no Colégio, eu era a professora mais nova do Departamento de Matemática. Nossa turma de professores, que trabalharam juntos por muito tempo, era composta por: Luiz Humberto 434 , Jed 435 , Maria do Carmo... "A Maria do Carmo é fantástica!", Abdala 436 e Sérgio 437 . Nós éramos seis. Eu entrei no lugar do Pellicano 438 , uma professor militar que se aposentou e foi embora para Brasília. Não o conheci. Eu e a professora Maria do Carmo formávamos uma equipe de trabalho, para atuar nas turmas de 1º ano. Nós elaborávamos a prova bimestral juntas, por exemplo. Eu elaborava umas questões sobre um conteúdo, ela elaborava outras questões sobre outro assunto, depois nós socializávamos essas questões. A gente analisava o nível de dificuldade, separando as questões de modo que a prova contivesse questões de nível difícil, médio e simples. 432 Maria do Carmo Vila lecionou Matemática no Coltec no período de 1979 a 1995. Participou ainda de atividades no Centro Pedagógico, instituição de Ensino Fundamental também vinculada à UFMG. Ela é uma das colaboradoras desta pesquisa. 433 De 1992 até o início de 2017, Airton Carrião Machado lecionou Matemática no Coltec. Conviveu com alguns docentes que ingressaram no Colégio no período de sua fundação e colaborou com esta pesquisa. 434 Luiz Humberto Pinheiro, professor de Matemática do Coltec de 1970 a 1991, é um dos colaboradores desta pesquisa. 435 José Eloisio Domingos, ou Jed, ou ainda Jedboy, foi professor efetivo do Departamento de Matemática do Coltec de 1970 a 1997. Em seguida, atuou como professor substituto, nos anos de 1998 e 1999. É um dos colaboradores desta pesquisa. 436 Abdala Gannam atuou no Departamento de Matemática do Coltec no período de 1970 a 1992. É um dos colaboradores desta pesquisa. 437 Sérgio Veiga Dias, também chamado de Serjão por ex-alunos e professores do Coltec, lecionou Matemática no Colégio. Não foi possível localizar esse professor para participação nesta pesquisa. 438 Há registros de que o professor Ronaldo Pellicano, já falecido, tenha lecionado no Colégio em 1971. As demais informações a seu respeito foram obtidas por meio dos colaboradores desta pesquisa. 446 Convivi esses anos todos no Colégio com esses seis colegas, até que eles foram se aposentando. O Jed aposentou, acho que em 1999, e ficou muito tempo lá no Colégio, dando aula como professor substituto. Depois entrou o Airton, ele foi o primeiro que entrou, eu acho. Foi quando começaram a maior parte das aposentadorias, aí ele entrou. Também convivi com a Elaine 439 , que foi minha aluna no Coltec e depois foi professora do nosso Departamento. A turma da Elaine marcou muito a minha vida. Note como o Coltec era diferenciado. Depois de entrar no Colégio, eu casei e tive duas filhas. Na gestação da Flávia, uma de minhas filhas, eu tive pré-eclâmpsia. O médico me deu licença e pediu repouso de quinze dias. Eu deveria ficar deitada, com as pernas para cima. As normas da escola não permitiam que se contratassem um professor substituto pelo período de 15 dias e, na ocasião, ninguém do Departamento tinha disponibilidade para me cobrir. Recordo-me que nesse período o presidente Tancredo Neves faleceu. Eu fiquei deitada, vendo as notícias na televisão, até que eu me cansei e disse: "Ah, isso aqui não dá para mim não!", "eu não aguento ficar de repouso!". Aí eu fui para o Colégio e conversei com os alunos e expliquei a situação. Eu disse a eles que eu queria dar aulas para eles, mas precisava mudar a minha rotina, que eu precisava dar aulas sentada. Eu nunca tinha feito isso, mas tudo é possível nesta vida. Eram alunos do 2º ano de Química, que já estavam habituados a trabalhar em grupos, sob a minha coordenação. Dessa forma, nesse período em que eu precisava fazer repouso, eu tentava me manter sentada enquanto eles faziam as atividades e estudavam. Mesmo assim, eu precisava levantar muito e ficava com as pernas inchadas. Para evitar as escadas, eu utilizava um laboratório de Matemática, montado com bancadas, que ficava no 1º andar. Em algumas poucas vezes, entretanto, eu dei aula nas salas do terceiro andar. Eu sei que o negócio funcionou, foi fantástico, um ótima experiência. Flávia é do final de outubro. Eu lecionei até uma semana antes de ganhá-la. Assim que minha filha nasceu, os alunos ligaram lá para casa, para terem notícias de como eu estava. Depois de um mês, eles me perguntaram "Podemos ir te visitar?". Eu falei: "Lógico!". E foi a turminha da Elaine inteira na minha casa. Foi muito gratificante, achei muito "chique". E eu não acho que esses alunos foram me visitar apenas por gratidão, pelo meu esforço em dar as aulas na gestação. Eles foram porque entendiam bem a situação, compreendiam a 439 Elaine Gouvea Pimentel foi professora de Matemática do Coltec de 1994 até 2006. Além disso, estudou no Colégio de 1984 a 1986, sendo aluna dos professores José Eloísio Domingos e da Tânia Ayer de Noronha. Devido ao seu pequeno período como docente no Colégio incluído no recorte temporal deste trabalho (1996 a 1999), bem como ao nosso interesse especial pelos primeiros anos de funcionamento da escola, ela não participou desta pesquisa. 447 minha necessidade. Os alunos do Coltec eram diferentes, maduros, eram espetaculares e muito selecionados. Afinal, para entrar no Colégio era necessário fazer uma prova de seleção, logo, os meninos que entravam lá eram assim, extraordinários! Nessa época (1985), ainda não tinham os alunos com entrada direta, oriundos do Centro Pedagógico. No outro ano, minha segunda filha nasceu e, novamente, as turmas foram me visitar e levaram presentes. Eu fiquei lisonjeada. Também no Colégio, comumente eu recebia estagiários, oriundos do curso de Licenciatura em Matemática, que acompanhavam as minhas aulas. Além disso, coordenei o PEMJA (Projeto de Ensino Médio de Jovens e Adultos da UFMG), no início de sua criação, quando esse era destinado apenas a funcionários da Universidade. Era muito interessante! Os alunos, participantes do PEMJA, sempre encontravam comigo, faziam reclamações e sugestões do curso e tiravam dúvidas de conteúdos, durante o horário do almoço. Ao mesmo tempo, eu tinha um trabalho de tutoria no Colégio, que me aproximava de vários estudantes. Nesse trabalho, todas as turmas de 1º e 2º anos, tinham um professor responsável, o tutor. Não havia muitos docentes participantes, pois tratava-se de um trabalho voluntário. Cada tutor se reunia com a parte interessada da turma. Muitas vezes a turma inteira se envolvia e participava. No horário do almoço, o tutor e os estudantes conversavam e realizavam dinâmicas sobre assuntos diversos: violência, drogas, sexo, jogos de azar, rendimento escolar, comportamento e outras temáticas. A gente refletia sobre o amadurecimento da vida e as oportunidades que eles possuíam. Eu dizia a eles que bastava o interesse e a sabedoria deles para aproveitarem. Esse projeto de tutoria originou-se de uma ideia trazida pela professora Leila Marques 440 , professora de História do Coltec, quando cursou o doutorado na França. Lá ela fez um trabalho de tutoria fantástico e decidiu trazer para o Colégio. Na minha concepção, este trabalho criava um vínculo e uma relação de confiança entre estudantes e professores. Os alunos sabiam que estávamos ali, querendo o melhor para eles. Era espetacular poder mostrar para eles que eu estava ali, não somente para ensinar Matemática ou exercer um papel acadêmico, mas para orientar e levar reflexões para toda a vida desses alunos. Era notável como esse trabalho de tutoria guiava e direcionava ações de muitos dos estudantes do Colégio. Afinal, eram excelentes estudantes, com muito potencial, mas que, ao ingressarem no Coltec, muitas vezes, se deslumbravam com a autonomia oferecida e não aproveitavam as oportunidades. Dessa forma, nós os questionávamos: "O que vocês querem 440 Não encontramos informações adicionais sobre a professora Leila Marques. 448 para vocês?". Essas conversas, em parte, inibiam que os alunos faltassem às aulas para bater papo ou ficar sob a "árvore da paz". Vários alunos, não só os do Coltec, mas também os do ICEx, da Química, dos cursos de graduação próximos, ficavam debaixo da "árvore da paz", usando drogas. Recordo-me que era grande o envolvimento dos alunos com os professores. E esse trabalho de tutoria nos aproximava, ainda mais, dos estudantes. Acredito que essa era uma característica peculiar do Colégio, que era possibilitada pelos bons alunos que possuíamos. Muitos anos depois, a escola passou a contar com um setor de Psicologia, que auxiliava nessas questões pessoais dos estudantes. Chegaram as psicólogas Fabíola e Rita 441 . Porém, como já foi explicitado, antes da entrada desses profissionais no Coltec, os professores é que ajudavam nessas questões. Às vezes tinha um problema com um aluno, a direção ligava para minha casa e pedia para eu participar de uma reunião com pais e o aluno. Mostrei a Tânia uma cópia do jornal apresentado pelo professor Luiz Humberto em nossa conversa, que trata da tutoria no Coltec e contém uma foto de alguns tutores. Figura 122: Boletim UFMG, de 30 de novembro de 1990, contendo assunto de título: "Tutoria é experiência bem sucedida há anos no Coltec". Fonte: Arquivo pessoal do professor Luiz Humberto. Agora eu vou falar um pouquinho de antes de eu entrar no Coltec. Eu me formei na Faculdade Newton Paiva, em 1977. No ano de 1978 eu comecei a dar aulas nesta instituição e na Faculdade Isabela Hendrix 442 , em cursos de licenciatura em Matemática. Até a minha 441 As psicólogas do Coltec atuam promovendo a articulação entre o corpo docente, discente e família, no que refere às questões educacionais e psicossociais. A piscóloga Fabíola atuou no Coltec até o ano de 2016. Não conseguimos informações adicionais a respeito das duas servidoras, Fabíola e Rita. 442 O Instituto Metodista Izabela Hendrix foi fundado em 1904, por uma missionária da Igreja Metodista do Sul dos Estados Unidos. Inicialmente, seu objetivo era criar uma escola para mulheres brasileiras, com recursos das mulheres americanas. Na década de 60 o colégio passou a receber matrícula de homens. Em 1972, o Izabela Hendrix ingressou no ensino superior com a criação de uma faculdade. Atualmente, oferece vagas para Educação " Eu não tenho mais nenhum material do Colégio, nada! Olha o Luca. Ele mora perto da minha casa. A Teresinha... Ela passou aqui agora. Eu estava com o cabelo curto... Esse aqui é o Júlio. Ele era professor de Biologia e ajudava muito nas questões de sexualidade. Ele me ajudava a trabalhar sexualidade com os meninos do COLTEC e me dava dicas para eu conversar com as minhas filhas ". (Tânia) 449 aposentadoria, eu só trabalhei na área de Educação, de ensino de Matemática. Eu atuei em escolas tradicionais e no Colégio Técnico da UFMG, em nível Médio, em duas faculdades privadas, em nível Superior, e em um cursinho pré-vestibular. Já durante a graduação, eu vivenciei algumas experiências, além do curso de licenciatura: eu trabalhei em cursos de capacitação de professores, juntamente com a professora Maria do Carmo e o professor Reginaldo Naves (Esses cursos de qualificação docente, os quais eu não me lembro o nome, ocorriam nos sábados e domingos, era o Estado que oferecia. A minha função era ser monitora, mas por algumas vezes eu pude assumir a turma); eu tive a oportunidade de ser monitora da Faculdade Izabela Hendrix; eu fui estudante em cursos de capacitação de professores, oferecidos pelo CECIMIG, que ocorriam três vezes por semana; trabalhei na escola Pica-Pau Amarelo 443 , onde o professor Luiz Humberto e tantos outros docentes com que me relacionei trabalharam; e lecionei em uma outra escola, de filosofia parecida com a do Pica-Pau Amarelo, mas não lembro o nome, ficava perto da minha casa, lembro-me que eu ia a pé. A escola Pica-Pau Amarelo pertencia a uma ex-professora do Coltec, Magdalena, do Departamento de Português. Todos os filhos da Magdalena foram meus alunos. Inclusive no Coltec. Eles fizeram concurso no Colégio e foram aprovados. Essa escola era fabulosa! Era para quem acreditava que se podia ajudar o aluno a construir o conhecimento através de experimentações. Eu acreditava nisso! Eu exercia a minha função com muito rigor, muita credibilidade. Para ensinar volume para os meninos desse colégio, por exemplo, nós nadávamos com eles. Era muito interessante! Aos olhos de muitos colegas, que ouviam os meus relatos sobre as aulas no Pica-Pau Amarelo, essas eram soltas, sem controle. Mas eu sempre esclarecia, que na hora de trabalho era trabalho. Eu era muito rigorosa e muito enérgica. Os alunos falavam isso comigo, inclusive. Curiosamente, em minha formação, eu estudei em escolas rígidas, de freira. Desde então, eu decidi que não reproduziria aquelas formas de ensino e aprendizagem, caso me tornasse professora. Como tenho relatado, eu sempre gostei de ter uma relação estreita com os meus alunos. Esse fato antecede a minha entrada no Coltec. Os alunos do Pica-Pau Amarelo, durante as tardes, iam lá para minha casa, tomar café com a minha mãe, mesmo eu estando Infantil, Ensino Fundamental e Médio, Graduação e Pós-Graduação. Disponível em: < http://izabelahendrix.edu.br/institucional/historia>. Último acesso em: 26 set. 2016. 443 Maria Magdalena Lana Gastelois criou, em 1968, a Escola Picapau Amarelo, no bairro Funcionários, em Belo Horizonte. Essa instituição "buscava uma educação diferenciada, tendo por objetivo ser uma escola onde as crianças poderiam crescer e aprender em contato com as outras crianças em um ambiente cercado por diferenças e propiciando novas descobertas". Disponível em: < http://www.ufop.br/noticias/palestra- sobre-a-escola-picapau-amarelo-com-magdalena-lana>. Último acesso em: 13 fev. 2107. 450 fora, realizando um curso. Eles atravessavam a Avenida do Contorno para visitarem a minha casa. No retorno deles, minha mãe ficava preocupada, e pedia que nossa empregada os ajudasse a atravessar a avenida. Depois de formada, quando lecionei no Colégio Imaculada Conceição 444 , isso se repetiu. Os alunos me viam ali, sabiam que eu morava perto, que era comum eu receber alunos na minha casa, então iam me visitar também. Eu recebia os meninos, conversava com eles... Depois foram os alunos do Coltec, que me visitavam nessa casa, até eu me casar e sair de lá. Logo que me formei, eu comecei a fazer uma Pós-Graduação em Matemática Pura, na Pontifícia Universidade Católica (PUC), relativa ao Programa Regional de Especialização de Professores de Ensino Superior - Prepes 445 . Em seguida, fiz uma Especialização em Ensino de Matemática, também na PUC/MG. Eu entrei no Coltec em 1979, três anos antes de eu me casar. Na verdade, eu entrei para o ICEx e fui emprestada para o Colégio Técnico. A escola já estava consolidada e exibia um lindo mobiliário, preservado desde a criação, que ocorreu a partir de um convênio com a Inglaterra. Alguns britânicos estiveram no Colégio durante a minha permanência, inclusive. Eles retornaram para desenvolver novos projetos. O Jed chegou a ir à Inglaterra, nessa ocasião. Mas não me recordo bem dos detalhes. Em uma das vindas dos ingleses, quando eu já trabalhava no Coltec, eles ofereceram cursos para todos os professores do Colégio. Lembro-me de realizar um trabalho com canudinhos, para construção de sólidos geométricos, sob a orientação deles. Mas a maior interferência dos ingleses era no Departamento de Física e nas disciplinas profissionalizantes. Nessa ocasião, também fizemos um churrascão, lá na minha casa. Me motivou trabalhar no Coltec por tratar-se de um ambiente em que eu poderia implantar novas ideias, trabalhar em grupos, de forma autônoma. Onde os meninos transitavam na sala de aula, cortavam, produziam... Eu também pude trabalhar dessa forma no 444 No ano de 1534, cinco "Filhas de Jesus" (seguidoras de Jesus Cristo e dedicadas à educação cristã) instituíram, na cidade de Belo Horizonte, mais um colégio da Congregação Filhas de Jesus, denominado Imaculada Conceição. Atualmente, oferece educação infantil, ensino fundamental e médio e educação para jovens e adultos. Disponível em: Último acesso em> 06 mar. 2017. 445 "O Prepes foi criado em 1974, com o objetivo de contribuir para a educação no Brasil, por meio da formação continuada para professores. Os cursos apresentavam formato inovador com módulos presenciais de aulas no período de férias escolares. O programa foi referência nacional na formação de profissionais da educação, atraindo alunos de todo o Brasil". Disponível em: . Último acesso: 06 mar. 2017. O Programa Regional de Especialização de Professores de Ensino Superior (Prepes) foi instinto no ano de 2013. A partir de 2014, a PUC Minas mantém a oferta de cursos de Formação e Aprimoramento de Professores, a partir do Programa de Pós-Graduação Formação e Aprimoramento de Professores. Informações obtidas pela Assessoria Técnico Pedagógica da PUC/MG, através de contato de email. 451 "Pica-Pau Amarelo". Mas, por outro lado, em outras escolas que eu trabalhei, quando eu tentava aplicar essas práticas, eu era vigiada e regulada por disciplinários. Além disso, no Coltec, além de poder lecionar de forma "diferenciada", eu podia divulgar esse meu trabalho, meus métodos, minha filosofia por este Brasil afora, em cursos de capacitação docente e/ou congressos de Educação Matemática. Ofereci tantos cursos, que já nem me recordo de todos, seus nomes. Era comum os professores do Coltec oferecerem cursos para professores da Prefeitura, do Estado. A gente assessorava docentes atuantes no 1º e 2º Graus. Ensinávamos metodologias de ensino e uso de recursos didáticos, que tinham como proposta motivar os alunos. Os resultados eram evidentes, era notório o sucesso dos alunos. Eles entendiam e aprendiam, de fato, os conteúdos, a partir das nossas propostas de ensino. O ensino de Matemática do Coltec, por sua vez, apresentava diferenças, em relação a outros cursos de Ensino Médio, particularmente, os cursos não técnicos. O currículo de Matemática do Colégio Técnico era todo diferente. A gente dava muita ênfase ao que os alunos precisavam no curso técnico. Além disso, nós procurávamos dar exemplos interessantes para os alunos, com aplicações. Nos primeiros três anos em que lecionei no Coltec, eu não atuava na carreira de dedicação exclusiva, por isso ainda mantive outros vínculos de trabalho, em outras escolas. No Coltec eu era tida como a mãezona, pois eu nunca fui de brigar com os estudantes. Eu gostava de conversar com os alunos que apresentavam algum problema de comportamento na sala de aula. Eu nunca gritei com um aluno em sala de aula, do tipo: "Sossega, senta!". No final da aula eu olhava para o estudante e falava para ele: "Você tem que passar lá no meu gabinete para a gente conversar. Enquanto você não passar lá, você não volta para minha aula". Em nossa conversa, eu explicava as regras estabelecidas, a função de cada um, e falava sobre respeito. Eu dizia a eles que se quisessem podiam ficar brincando no corredor, que ninguém os tiraria dali, mas que na sala de aula eles precisavam obedecer as regras. Nós tínhamos autonomia para agir dessa forma no Colégio. Essa era a minha forma de ser com os meninos, era o meu perfil. Dessas conversas, muitas vezes a gente se tornava grandes amigos. Em compensação, era comum eu precisar dizer: "Olha, você não fala a minha língua e eu não falo a sua. A gente não precisa falar a língua um do outro, porque isso é uma questão particular da nossa vida. Agora eu estou aqui com um papel e você outro. O meu papel é te ajudar a ser bem sucedido". Afinal, nem sempre é preciso levar as questões de sala de aula para a vida pessoal. Muitas vezes, só é preciso haver respeito entre os participantes. 452 Eu sempre gostei de me aproximar dos estudantes. Eu dava muita carona para esses meninos Na hora de ir para o Coltec, entravam vários estudantes no meu carro. Eles ficavam esperando na praça Raul Soares, no ponto de carona. Eu sempre tive carros grandes, próprios para viagens, e neles cabiam muitos meninos. Outra atividade que eu desenvolvia, que possibilitava o entrosamento na sala de aula, era o amigo-oculto de chocolates de um real, realizado todos os anos, próximo à data em que se comemora a Páscoa. Além do chocolate, eles deveriam produzir cartões que fossem bem legais. Era uma forma de acolher os meninos. A proposta de trabalho em grupos, que eu desempenhava com os alunos, era muito forte na minha atuação. Eu podia circular entre os grupos e atender individualmente as dúvidas dos alunos. Isso era muito gratificante, pois o aluno chegava até mim e dizia: "Tânia, eu não entendi nada!". Eu puxava uma cadeira ao lado desse aluno e pedia que ele me explicasse tudo aquilo que ele não havia entendido. A gente ia dialogando, com muito afeto, até o aluno entender. Eu partia do seguinte princípio: "Os alunos não escolhem os seus professores, e os professores não escolhem os seus alunos". Mas se existe um afeto, tudo se torna mais fácil. Dessa forma, mesmo aqueles alunos que relatavam que não gostavam de Matemática afirmavam: "A Tânia é tão bacana, não vou decepcionar ela. Ela empenha, faz tudo o que pode para que sejamos bem sucedidos". Eu tinha o princípio de conquistar o meu aluno. E eu conseguia. Em consequência da minha forma de trabalho, acolhedora, era comum eu lecionar para os alunos do 1º ano, pois a maioria desses estudantes estava ingressando no Colégio, geralmente, como muitos receios e muita insegurança. Eu procurava despertar confiança neles e auxiliá-los em suas dúvidas. Oferecia ajuda aos meninos do Centro Pedagógico, quando esses apresentavam falta de base, o que os atrapalhava de caminhar no curso. Eles reconheciam que estavam com dificuldades e não ficavam com raiva de mim. Além de ser procurada para atendimentos da disciplina de Matemática, eu era requisitada por alunos que me confidenciavam questões pessoais e familiares. Uma estudante, por exemplo, me procurou, quando eu estava para aposentar, me relatando que era abusada sexualmente pelo tio, irmão da mãe. Ela disse: "Tânia, eu queria tanto te contar isso. Eu gosto tanto de você. Eu confio em você!". Possivelmente ela me contou porque sabia que eu estava de saída da escola. Eu me dispus a ajudá-la e contei com a ajuda das psicólogas Fabíola e Rita, que já atuavam no Colégio. Houve outros casos, relacionados à violência, ou ainda, pais que utilizavam drogas dentro de casa, enfim, eram muitos os relatos de alunos. Eu acho que era o meu perfil, era da minha natureza atrair os estudantes a mim. No Departamento de Matemática do Coltec, eu também buscava possibilitar o entrosamento de 453 todos. Eu organizava almoços na minha casa ou churrascos na casa do Jed. Eu estava sempre atenta a aniversários e outras comemorações. Como cristã e espírita, eu acredito que estamos aqui de passagem e que devemos sempre fazer o melhor. Ah! Quero contar um trabalho que fizemos, para o ensino de Trigonometria. Eu costumava lecionar este conteúdo de forma muito interessante. Iniciava-se com materiais concretos, oriundos de um projeto da Maria do Carmo e do Reginaldo Naves. Esse material era muito interessante. Não tinha erro! Os meninos entendiam mesmo. Era muito legal! A gente inseria o conteúdo a partir de um problema que envolvia o movimento de uma roda gigante. Havia uma placa de madeira, com pregos, em que os alunos, com gominhas de borracha, exploravam o material e extraíam informações. Era muito interessante! Eles tiravam tudo da trigonometria dali. Os alunos eram muito bem sucedidos em trigonometria. Na continuidade dos estudos, com as equações trigonométricas, eles tiravam de letra. Para trabalho com a trigonometria eu também utilizava o aparelho retroprojetor. Eu usava muito o retroprojetor, "usava demais da conta". A gente intercalava os recursos durante as aulas. Era tão fantástico que eu apresentava essa proposta de ensinar Trigonometria em congressos. "O povo ficava enlouquecido!". Nesses eventos eu percebia que as ações dos professores do Coltec eram diferenciadas e inovadoras. Nossos pares, professores de Matemática, deixavam isso claro. A Faculdade de Educação estava, constantemente, solicitando que os professores do Departamento de Matemática do Coltec ofertassem cursos de férias, para licenciatura ou para capacitar professores. Em um determinado momento, alguns professores do ICEx também passaram a se interessar pelas metodologias e os materiais desenvolvidos/aplicados no Coltec. Havia alguns professores do curso de Matemática que se interessavam por questões relacionadas às práticas de ensino. Eles queriam entender, por exemplo, como trabalhar em grupo com os estudantes; como era possível deixarmos os alunos falarem tanto; como era viável trabalhar daquele jeito. Os docentes do ICEx decidiram, então, ceder um laboratório de Matemática, para aulas de Matemática do Coltec. Eles queriam ver a gente trabalhar trigonometria utilizando o computador. Eu fiz uma apostila para esse trabalho. Os alunos iam explorando, construindo no computador e anotando os seus resultados. Os professores do ICEx ficavam assistindo as aulas, para compreenderem a nossa dinâmica, a distribuição dos alunos nas máquinas e a tarefa final, que deveria ser apresentada pelos estudantes. Os alunos se sentiam importantes naquela atividade. Iam correndo do Coltec para o ICEx. 454 Para produção dos materiais didáticos, apostilas, eu utilizava máquina de escrever, disponível no Coltec. Outra fator que era muito interessante é que grande parte do material era reproduzido no mimeógrafo. E a gente não aprende a utilizá-lo, eu tive que aprender a trabalhar com esse aparelho quando já estava atuando no Colégio. Eu tive muita dificuldade, passei muito aperto. O professor Jed é que me ajudava. No Departamento de Matemática do Coltec, nossa metodologia de trabalho era norteada por Estudos Dirigidos e Instruções Programadas. Eu produzi materiais que atendiam a essas metodologias. Acho que, assim que entrei no Colégio, eu apresentei um estudo sobre geometria. Adotávamos também um livro, que auxiliava nosso trabalho. Mas não lembro bem como funcionava... qual a diferença entre essas metodologias. Recordo-me que a gente dava poucas aulas expositivas. Inicialmente, inclusive, era comum percebermos que alguns alunos sentiam falta dessas aulas, pois estavam acostumados com essa dinâmica, em outras escolas. Os alunos resolviam as questões propostas na própria apostila e faziam alguns registros no caderno, quando necessário. Os professores conferiam os resultados, circulavam orientando- os durante todo o tempo de aula e marcavam no diário a participação dos alunos. A gente sempre trabalhava de forma a levar o aluno a ler a Matemática. Esse era o grande objetivo: "você lê História, você lê Geografia, Língua Portuguesa, por que não ler Matemática? Vamos aprender!". O mais importante não era os alunos acertarem as questões propostas no material, mas eles participarem. À medida que eles iam fazendo, as dúvidas apareciam e a gente estava ali para orientar. Quando os alunos concluíam as tarefas, eu corrigia em grupo, tirava as dúvidas em grupo. Se eu percebesse que a dúvida era geral, ou seja, que vários estudantes me chamavam ao mesmo tempo, estando todos eles no mesmo ponto da apostila, aí eu ia para o quadro esclarecer aquela dúvida. Essa dinâmica já era aplicada pelos professores que estavam no Coltec quando eu cheguei. Trabalhávamos, ainda, no Laboratório de Matemática do Coltec, com o uso de calculadoras científicas. Eu desenvolvia atividades para estudar funções, funções exponenciais. A gente usava calculadora direto. Acho que eram calculadoras doadas a partir de um convênio com a OEA 446 . Apresentei à Tânia uma pasta que continha dados do concurso que ela teria realizado para ingressar no Coltec. Além de Tânia, havia uma segunda candidata. Tânia ficou 446 Organização dos Estados Americanos. 455 lisonjeada ao rever aquele material: "Olha que interessante, menina! Não é que você tem as coisas aqui". Ela dissertou sobre Geometria em sua prova do concurso. Mostrei à Tânia uma prova escrita à mão por ela, para um aluno que perdeu a prova ("Prova de segunda chamada"), uma prova mimeografada (cujos o ano e autor são desconhecidos) e uma pasta, referente ao Seminário sobre o Ensino de Matemática no 2º grau - Projeto OEA - 06 e 07/05/1983, que continha fotos dos professores do Coltec ministrando palestras. Ela se identificou nas fotos e reconheceu alguns colegas. Em julho de 2002, com 48 anos, eu me aposentei do Colégio Técnico. Na ocasião eu tinha vinte e poucos anos de trabalho, mas nunca havia gozado de minhas férias prêmio. Então eu usei essas férias para contar tempo de aposentadoria. Além disso, eu passei por um pedágio em que, de acordo com a Constituição de 88, eu poderia me aposentar, integralmente, com idade mínima de 48 anos. Decidi, portanto, aposentar-me e ajudar o meu marido no comércio. Ele sempre pedia para eu ajudá-lo. Desse modo, desde a minha aposentadoria eu dou um suporte a ele em nossa loja. Foi muito difícil quando eu aposentei, muito mesmo. Eu pensava assim, se eu me propus a ajudar o meu marido, eu preciso largar o meu saudosismo pelo Coltec, largar tudo. Eu apaguei muita coisa da minha memória. Eu não guardei nada do período que eu trabalhei no Colégio. Além disso, eu me distanciei de vários colegas, para eu conseguir dar conta de me afastar da educação. Do contrário, não sei se daria conta. Mesmo assim, eu ainda revejo o professor Jed, que virou um irmão para mim, e, casualmente, alguns ex-alunos. Os professores de Matemática das minhas filhas, de quando elas estavam no ensino básico, por exemplo, ou foram meus ex-alunos do Coltec ou fizeram estágio comigo. Todos já me conheciam. É interessante, esses reencontros! Chegam muitos ex-alunos aqui na loja para comprar e me dizem: "O que você está fazendo aqui?". Quando vou à feira de pisos, encontro uma arquiteta que foi minha aluna e, novamente, escuto: "O que você está fazendo aqui?". Vou ao médico, e ele foi meu aluno. É assim, eu me desvinculei do Coltec, mas ele está sempre presente na minha vida e na minha memória! "Olha, isso foi há muito tempo. Já tinha até esquecido. Olha só isso... Como eu mudei de contexto, depois da aposentadoria. No início até dei algumas aulas particulares, mas depois fiquei focada na loja de pisos. A gente ficava nervosa ao fazer o concurso, está tudo faltando acento, olha. Lembro- me que foi quase um dia inteiro de prova". 456 AIRTON CARRIÃO MACHADO - 54 ANOS Ex-professor do Coltec: 1992 - 2016 Data da entrevista: 08/03/2016 Foi ali, na sala ao lado da minha, no terceiro andar do Coltec, que eu conversei com o professor Airton, no intervalo de suas aulas. Curiosamente, sentei-me em uma cadeira que, possivelmente, pertenceu à residência de ingleses que participaram do convênio de criação do Colégio. Nossa entrevista pareceu-me um daqueles momentos em que eu e Airton, comumente, sentamos para conversar sobre estratégias de ensino, propostas de pesquisa, utilização de materiais, entre outros. É sempre enriquecedor conversar com ele, pois aprendo e me inspiro. Tive a oportunidade de dividir aulas do primeiro ano com Airton por cerca de três anos. Nesse período, ele me instruiu sobre como trabalhar com Resolução de Problemas e Investigação Matemática, a partir das apostilas que produziu. E, ainda, trocamos experiências a respeito de comportamento de alunos, atividades extras, propostas de trabalhos, utilização de recursos e atividades avaliativas. Isso auxiliou muito o meu desenvolvimento profissional. Além disso, tivemos algumas oportunidades de estudar e pesquisar juntos. Ele e outros colegas do setor sempre me motivaram a investir nos estudos e me capacitar. No momento de escrever meu projeto de doutorado, o Airton estava novamente presente, me sugerindo ideias e me mostrando possibilidades de pesquisa. Enfim, são muitos os motivos para eu agradecer a ele. Nesse momento, fico feliz por Airton ter contribuído com esta pesquisa, relatando parte de suas experiências e enriquecendo o meu trabalho. No ano de 2016, em que se completavam 24 de sua atuação no Coltec, Airton ensaiava a aposentadoria, que acabou ocorrendo no início de 2017.Suas ações ficarão na memória de todos, pois somos gratos pela convivência com ele. Assim que eu concluí a Educação Básica, fiz um curso de licenciatura em Mecânica, na faculdade particular Braz Cubas 447 , da minha cidade, Mogi das Cruzes, nos anos de 1981, 447 A Braz Cubas é uma instituição de ensino da cidade de Mogi das Cruzes, estado de São Paulo. Ela iniciou suas atividades em 1940 com um pequeno curso preparatório, seguido de cursos de ginásio, nível médio, até se tornar uma faculdade. Atualmente, a Universidade Braz Cubas oferece cursos de ensino técnico, superior e pós- 457 82 e 83. Eu preferia atuar na área de Construção Civil, mas essa instituição não a oferecia, pois não tinha demanda de alunos para essa modalidade. Então tive que fazer Mecânica mesmo. Nessa época, ainda na ditadura militar, os cursos de 2º grau eram obrigados a formar técnicos. Como na minha cidade não havia professores capacitados para isso, essa faculdade passou a oferecer essa licenciatura, com duração de três anos. Quando eu entrei, pensava em mudar de curso, fazer Engenharia, mas depois gostei. Fui dando aulas porque precisei de dinheiro, gostei e virei professor. Concluído esse curso, eu seria apto a dar aulas de Laboratório de Mecânica, aulas técnicas, mas nunca cheguei a lecionar isso. Fiz estágio, inclusive, mas não atuei como professor de Mecânica. Se não me engano, no segundo ano dessa licenciatura eu comecei a ensinar Matemática. Comecei lecionando como eventual em uma escola do Estado de São Paulo, ou seja, quando faltava alguém; e em um colégio particular, inicialmente com poucas aulas, pois ainda estava estudando. Percebi, então, a importância de ter um diploma em Matemática, para que eu pudesse dar aulas com autorização. No ano de 1984, eu ingressei no curso de licenciatura em Matemática, lá na Universidade de Mogi das Cruzes 448 . Naquele período, a instituição pública mais próxima era a USP 449 , que era longe para mim, complicado, caro e tal. Além disso, eu não tinha a perspectiva de trabalhar lá, o que não era condizente com a realidade em que eu vivia. Comecei a trabalhar com 15 anos, em indústria. Era muito comum meninos de 15 e 16 anos trabalharem, por isso comecei muito novo. Nessa lógica, eu não tinha expectativa de ir para alguma universidade federal, pois achava que era muito caro, que a minha família não teria dinheiro para me manter. Depois que eu comecei o curso de Matemática, eu peguei bastante aulas e consegui turma no Estado. Durante os dois primeiros anos, eu fiz o curso pela manhã, junto com alunos dos cursos de Física e Química. Havia apenas quatro estudantes de Matemática na minha turma. Nesse período, eu lecionava especialmente em instituições privadas, supletivos, que hoje chamamos de EJA 450 , nos turnos da tarde e noite. graduação nas modalidades presencial e a distância. Disponível em: < http://brazcubas.br/home/>. Último acesso em: 09 set. 2016. 448 Em 1962 o professor Manoel Bezerra de Melo criou um escola de ensino fundamental (ginásio), na cidade de Mogi das Cruzes. A partir de 1964, foram instaladas as primeiras faculdades do complexo educacional que passaria a se chamar Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), em 1973. Atualmente, conta com mais de 20 mil alunos, em dezenas de cursos, nos campi de Mogi das Cruzes e Villa-Lobos/Lapa. Disponível em: . Último acesso em: 12 set. 2016. 449 Universidade de São Paulo. 450 Educação de Jovens e Adultos. 458 Em seguida, nos dois últimos anos, fazíamos uma segunda matrícula, que nos direcionava para as disciplinas específicas do curso de Matemática, que eram oferecidas no turno da noite. Inicialmente, eu fiquei preocupado, falei assim: "Puxa! Eu vou perder o emprego e não terei como me virar". Mas, logo em seguida, eu comecei a dar aulas em uma escola do Estado, muito boa, bem organizada, com professores muito antigos, conceituados, formados na USP nos anos de 1960. Eu era um menino que dava aula com vários docentes mais experientes. Foi uma ótima oportunidade de formação para mim. Nessa escola eu comecei ensinando Física, pois era a vaga que tinha. Aí, no meio do ano, apareceu uma turma de 8ª série, que é o 9º ano hoje, para eu dar aulas de Matemática. Recordo que nessa turma havia filhos de professores da escola, que pertenciam ao grupo mais antigo e que tinham poder político nessa instituição. Percebi que eles começaram a me vigiar de perto. Como os meninos gostaram de mim, deu tudo certo. Me senti adotado por esses educadores, que me ajudaram muito. Eles sempre vinham conversar comigo, oferecer dicas, todas dentro de um ensino super tradicional. Ou seja, eu fui me formando dentro de uma escola de ensino muito tradicional. Essa forma de ensino me incomodava um pouco, porque eu tinha uma visão um pouco diferente. Às vezes até, eu conseguia até fazer coisas diferentes e eles me aceitavam mesmo assim. Na faculdade que eu estava cursando, ainda não se falava em Educação Matemática, talvez porque ainda não era reconhecida como uma área, um campo. Pode-se dizer que era algo que estava começando. Mas eu tinha um professor que tinha uma visão singular sobre o ensino de Matemática e me dava alguns toques, me falava de algumas coisas, mas de forma muito incipiente ainda. Enfim, eu aprendi a forma mais tradicional de ensinar, que inclui escolher os conteúdos, organizar bem a aula e expor bem. Essa formação se deu um pouco na faculdade mas, principalmente, em conversas paralelas com os professores mais antigos e experientes, dessa escola em que eu dava aulas. Em sua maioria, eles eram japoneses, muito disciplinados e organizados. Eu, que nunca fui muito organizado e disciplinado, aprendi com eles, pois precisava me encaixar, ser aceito. Eram duas professoras e um professor de Matemática, todos japoneses. Então eu convivi com essas pessoas, super conservadoras, a maioria de direita, e me desenvolvi muito com eles, embora, particularmente, eu fosse um cara que militava em Partido de esquerda, nada conservador. Tentar equilibrar o meu modo de ser foi me formando nessa época. Quando terminei a graduação, eu vi que não tinha condições de ser um bom professor. Eu observava esses professores mais velhos, percebia que eles sabiam muito mais Matemática 459 e muito mais a respeito de dar aula do que eu. Concluí que eu precisava estudar mais. Porém, eu tinha ouvido falar muito pouco sobre pós-graduação. Eu não sabia o que era mestrado, doutorado. Pós-graduação era algo muito incipiente, não era comum ouvir os professores falando a respeito. Quando se falava no assunto, era referente a alguma especialização: "Pô, o cara fez especialização!". Apesar desse cenário, decidi procurar cursos para me capacitar. Sem a menor noção do que buscar, fui bater lá na porta da USP e da PUC- SP 451 para ver as possibilidades. Na PUC tinha uns cursos, até interessantes, todos pagos. Já na USP tinha apenas um curso, gratuito.Pensei: "Ah, eu vou fazer o de graça da USP". Eu não tinha noção se a USP era melhor ou pior do que a PUC, eu conhecia muito pouco. Sabia que a USP era importante, que formava bem os professores, já que os docentes da escola em que eu trabalhava se formaram lá. Isso me atraiu. Logo, eu e um colega de faculdade fomos fazer esse curso de aperfeiçoamento de professores, que eu acho que focava em Geometria, mas não tenho certeza. Chegando à USP, eu começo a ter aulas com pessoas assim, que eu não conhecia, mas fiquei sabendo, descobri depois, que eram pessoas icônicas, como Elza Gomide 452 , que lecionava História da Matemática. Ela foi a pessoa que traduziu o livro do Carl Boyer 453 , que era um importante livro na época, talvez o único em Português sobre História da Matemática. Também tive aulas com a Inês, Maria Ignes Diniz 454 , que escreveu uma coleção de livros didáticos de Matemática para o Ensino Médio. Ela, juntamente com a Kátia Smole 455 , que foi minha colega em uma das disciplinas desse curso de aperfeiçoamento. A partir desse curso, das idas à USP, das disciplinas e conversas com pessoas de lá, comecei a olhar as coisas de 451 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 452 Elza Furtado Gomide era filha de Cândido Gonçalves Gomide, professor de matemática, e Sofia Furtado Gomide. Prestou o vestibular na USP, somente com o ginásio completo, sem ter cursado os dois anos de preparatório. Concluiu o bacharelado em Física e, posteriormente em Matemática. Tornou-se, então, professora e pesquisadora, orientando muitas teses de mestrado e doutorado. Um importante fato sobre essa professora, é que ela foi a primeira doutora em Matemática a se formar pela USP. "Sempre se dedicou com entusiasmo às atividades de ensino, que considera as mais importantes". Atuou na USP de 1945 até sua aposentadoria compulsória em 1995. Morreu em novembro de 2013, aos 88 anos. Disponível em: < http://memoria.cnpq.br/web/guest/pioneiras view/ /journal_content/56_INSTANCE_a6MO/10157/903133 >. Último acesso em: 04 set. 2016. 453 BOYER, Carl Benjamin. História da Matemática. Tradução Elza F. Gomide. São Paulo, Edgard Blücher, 1974. 454 Maria Ignes de Souza Vieira Diniz é doutora em Matemática, pelo Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo - USP, onde foi professora e se aposentou. Tem experiência na área de Matemática, com ênfase em Análise Funcional. Disponível em:< https://uspdigital.usp.br/tycho/CurriculoLattes Mostrar?codpub=37A0A92828E3>. Último acesso: 15 set. 2016. 455 Kátia Stocco Smole realizou o cursos de mestrado e doutorado, em Educação, na Universidade de São Paulo - USP. Foi professora de ensino médio, da rede pública de São Paulo e autora de diversos livros educacionais e didáticos. Disponível em: . Último acesso em: 15 set. 2016. 460 um jeito diferente. Além disso, todo mundo começou a me olhar diferente, as escolas começaram a me convidar mais para dar aulas. Eu fiz dois cursos de aperfeiçoamento, durante dois anos. Somente depois fui fazer uma Especialização, inclusive recebendo bolsa do CNPq 456 . Isso é curioso, pois foi o único curso em que recebi bolsa. Posteriormente, fiz mestrado e doutorado, ambos sem esse tipo de incentivo. Nesses cursos, eu comecei a ter contato com o que se chama "Educação Matemática" quando fiz essa disciplina com a Inês. Pois, embora tivesse formação em Matemática, ela estava migrando para a Educação. Ela dava um curso sobre Resolução de Problemas quando eu fui aluno dela. Antes de ingressar na Especialização, quando eu ainda estava realizando esse curso da USP, fui chamado para dar aulas em um faculdade muito boa, lá de São José dos Campos, próximo à minha cidade. Uma professora dessa instituição, que também estudava na USP, me disse que estavam precisando de gente para dar aula e que ela me indicaria. A princípio, não dei credibilidade, mas aí me telefonaram me convidando para eu trabalhar lá. Eu nunca tinha dado aulas no ensino superior e não imaginava iniciar essa função nessa importante faculdade particular. Tratava-se de uma fundação mantida pelas indústrias de tecnologia lá da cidade, tais como Embraer 457 , Avibras 458 e Engesa 459 . A maioria dos professores tinha um regime de trabalho semelhante ao dos docentes de universidades federais, ou seja, davam um número reduzido de aulas, além de serem remunerados para ficar na instituição, estudando, pesquisando ou preparando aulas. A princípio, essa fundação oferecia um excelente curso técnico, depois abriram uma faculdade de Engenharia e outra de licenciatura. Comecei atuando na licenciatura e depois lecionei na Engenharia. Eu trabalhei lá por um ou dois anos, até que a faculdade em que eu estudei, no meu primeiro curso, de licenciatura em Mecânica, me ofereceu aulas. Como eles pagavam bem e a instituição ficava na minha cidade, optei por ir para lá, ensinar Cálculo. 456 Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. 457 A Embraer é empresa com mais de 45 anos de existência, que atua no desenvolvimento, fabricação, venda e suporte pós-venda de aeronaves para os segmentos de aviação comercial e aviação executiva. Disponível em: < http://www.embraer.com/ptBR/ConhecaEmbraer/TradicaoHistoria/Paginas/default.aspx>. Último acesso: 12 set. 2016. 458 Fundada em 1961 por um grupo de engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Avibras atua no setor aeroespacial, como uma das pioneiras no Brasil em construção de aeronaves, na participação em pesquisa espacial e na fabricação de veículos para fins civis e militares. Disponível em: < https://www.avibras.com.br/site/institucional/nossa-historia.html>. Último acesso em: 12 set. 2016. 459 A Engesa – Engenheiros Especializados S.A., fundada em 1958 em São Paulo, fabricava equipamentos militares de uso terrestre. Em setembro de 1987 a situação financeira da empresa deu sinais de alerta. A partir daí seguiu um processo de desgaste até o pedido de concordata preventiva em 1990, seguida de sua falência. Disponível em: < http://www.lexicarbrasil.com.br/engesa/>. Último acesso em:12 set. 2016. 461 O Garnica 460 foi meu colega quando eu dei aulas em São José dos Campos. Mas nós tivemos pouco tempo de contato. Recordo que eu tinha um horário de atendimento aos alunos, correção de provas e preparo de aulas. Nesse tempo, eu ficava em uma sala, à disposição dos estudantes e, às vezes, o Garnica ia lá e nós ficávamos conversando. Pouco depois, ele pediu demissão porque ia fazer o mestrado em Educação Matemática, na Unesp 461 , em Rio Claro. Quando nos reencontramos, eu fui conversar com ele: "Você deu aula em São José dos Campos?". E ele me confirmou que sim. Falei para ele "Ah, então a gente já se conhece". Ele não se lembrou, mas para mim esses encontros ficaram gravados, pois foi a partir de nossas conversas que eu soube da possibilidade de fazer mestrado na área de Educação Matemática. Quando ingressei na faculdade da minha cidade, eu estava terminando o curso de Especialização em Matemática. Era "Matemática pura", mas eles faziam um modelo híbrido. Nós aprendíamos os assuntos necessários para cursar o mestrado em Matemática, mas, como todos os alunos eram licenciados, alguns professores tinham uma sensibilidade para o ensino, não focavam apenas no conteúdo. O curso durava dois anos ou dois anos e meio. Nesse período, eu fiz um trabalho de iniciação científica, mas não escrevi monografia ou trabalho final, porque não era exigido. Logo que concluí essa especialização, percebi que eu tinha que fazer um curso de mestrado. Fui conversar com a Inês, que me falou assim: “O que você quer para o futuro?”. Eu respondi: "Eu quero trabalhar em uma universidade federal". Ela disse: “Então faz Matemática”. Isso porque, na época, não tinha emprego para Educação Matemática. Ela explicou: "Olha, você não vai arrumar emprego se você fizer mestrado na área de ensino. Se você quer trabalhar numa universidade federal, você tem que ir para um curso de Matemática, porque aí terá um emprego melhor". Posteriormente, nos encontramos e falamos a respeito dessa conversa. A pós-graduação em Educação Matemática era muito incipiente, tinha apenas o curso de Rio Claro e outro que abriu depois, na Santa Úrsula 462 , no Rio de Janeiro. Era final da década de 1980, período em que estava começando tudo mesmo. 460 Antonio Vicente Garnica fez bacharelado em Matemática, mestrado e doutorado em Educação Matemática na Unesp de Rio Claro. Atualmente, é docente do Departamento de Matemática da Unesp de Bauru. Coordena o Grupo de Pesquisa "História Oral e Educação Matemática", da qual as pesquisadoras deste trabalho integram. Além de ser editor do BOLEMA - Boletim de Educação Matemática e pesquisador Produtividade em Pesquisa CNPq. Disponível em: < http://www.escavador.com/sobre/8455360/antonio-vicente-marafioti-garnica>. Último acesso em: 12 set. 2016. 461 Universidade Estadual Paulista. 462 "O Complexo Universitário conhecido pelo nome de Universidade Santa Úrsula (USU), é uma instituição católica, com 75 anos de existência, fundada em 1939 por religiosas da Ordem de Santa Úrsula [...]" Situa-se na cidade do Rio de Janeiro, onde oferece dez cursos de graduação, mestrados, além de vários cursos de pós- graduação Latu Sensu em diferentes áreas do saber. Disponível em: < http://www.usu.br/nossa-historia>. Último acesso em 05 out. 2016. 462 No segundo semestre de 1991, eu vim para Ouro Preto. Como eu tinha uma namorada em Minas, decidi vir para cá, para trabalhar e estudar. Surgiu uma vaga para professor substituto na Ufop 463 , eu fui selecionado e lecionei nessa instituição por um semestre. Ao término dessa etapa, eu fiz concurso para professor efetivo da Ufop e, ao mesmo tempo, participei da seleção de mestrado da UFMG. Aí eu não passei na Universidade de Ouro Preto, mas fui admitido pela UFMG. Nesse meio tempo, apareceu um concurso no Coltec, eu participei da prova e fui admitido. No início de 1992, eu vim para a Universidade. Foi a minha primeira experiência com escola técnica, inclusive. Quando eu fiz a seleção do Coltec, eu não o conhecia. Eu realizei o concurso porque precisava de emprego e queria trabalhar em escola pública federal. Eu descobri que o Colégio Técnico existia quando o meu cunhado me ligou e disse: "Oh, saiu um edital aqui, de um colégio que tem dentro da universidade". Eu falei: "Nossa, isso é tudo o que eu quero". Imagina, eu que já queria trabalhar em uma universidade, e sempre gostei mais de dar aulas em colégio do que na faculdade, e ainda ia fazer mestrado lá. Quando eu estive lá na Ufop, a Marger 464 me falou algumas coisas sobre ensino, mas era assim: "Eu faço umas coisas aqui que ajudam os professores, você quer participar do projeto comigo?". Eu estava me preparando para o concurso dessa universidade, não tinha muito tempo. Mas achei super legal a ideia, pois era um projeto com professores da rede pública, que tratava do ensino de Matemática, mesmo não se falando em Educação Matemática propriamente dita. Já na UFMG, eu comecei a ter contato com a Penha 465 e com a Márcia Fusaro 466 , que eram pessoas da Matemática que aos poucos estavam se mudando para a Educação 463 Universidade Federal de Ouro Preto. 464 Marger da Conceição Ventura Viana concluiu o mestrado em Matemática na Universidade de Brasília, onde iniciou a carreira na docência em 1978. Em seguida, cursou o doutorado, em Ciências Pedagógicas, no Instituto Central de Ciências Pedagógicas, Cuba. Desde 1980 atua como professora do Departamento de Matemática do Instituto de Ciências Exatas e Biológicas da Universidade Federal de Ouro Preto (ICEB/UFOP). Além disso, foi vice-diretora do CEAD - Centro de Educação Aberta e a Distância da UFOP, de 2007 a 2011. Disponível em: < http://www.cead.ufop.br/index.php/matematica/41-lista-de-docentes/312-profa-marger-da-conceicao-ventura- viana>. Último acesso em: 12 set. 2016. 465 Maria da Penha Lopes fez licenciatura, bacharelado e mestrado em Matemática pela UFMG. Em seguida, fez doutorado em Educação pela mesma universidade. É professora aposentada do Departamento de Matemática da UFMG. Disponível em: < http://www.escavador.com/sobre/573574/maria-da-penha-lopes>. Último acesso em: 12 set. 2016. 466 Márcia Maria Fusaro Pinto é mestre em Matemática pela UFMG e doutora em Educação Matemática pela Universidade de Warwick, na Inglaterra. É professora aposentada do Departamento de Matemática da UFMG. Atualmente é professora no Instituto de Matemática da UFRJ, onde coordena o curso de Licenciatura em Matemática, é membro do Programa de Pós Graduação em Ensino de Matemática e do Grupo de Pesquisas Matemática no Ensino Superior e Tecnologias. Disponível em: < http://www.escavador.com/sobre/3220386/mar cia-maria-fusaro-pinto>. Último acesso em: 12 set. 2016. 463 Matemática. No Coltec, trabalhei com a Maria do Carmo 467 , que também se interessava pelas questões de ensino. Ou seja, encontrei um ambiente em que eu podia colocar em prática algumas das minhas intenções de docência, com mais tranquilidade do que nas outras escolas em que eu trabalhei. Na Universidade eu não temia ser mal visto. Por exemplo, na escola do Estado que já mencionei, onde havia professores mais experientes, eu conseguia colocar algumas propostas em prática. Eu dava aulas no pátio da escola. Todos achavam engraçado, mas, como viam que funcionava, não brigavam comigo. Por outro lado, se outro professor tentasse fazer o mesmo, ele tinha problemas com a direção. Um amigo meu, professor de Biologia, falava assim: "Você é protegido dos velhos. Você faz qualquer coisa. Você pode fazer essas coisas que ninguém fala nada, mas se eu fizer, o pessoal reclama comigo". Eu respondi: "Ah, o que fazer, se os velhos gostam de mim?". Eu brincava com ele. A ida ao pátio, por exemplo, muitas vezes era porque lá era muito frio. Eu observava que os estudantes não queriam fazer nada devido ao frio. Eu perguntava a eles: "Vamos para o sol? Se eu levar vocês para o sol, vocês fazem?". Eles respondiam: "Fazemos!". Então, eu levava os alunos para ter aula no sol, escrevia no chão, fazia umas coisas diferentes. Todos trabalhavam, a aula rendia muito. Eu lembro da diretora sentar e assistir. Ela falava assim: "O que está acontecendo? Tem uma turma sentada ali no sol". Daí ela se aproximava para ver se não era bagunça. Depois ela vinha até mim e elogiava: "Nossa! Você faz umas coisas diferentes e tal...". Mas, retomando, quando eu chego no Coltec, eu percebo que eu podia fazer qualquer coisa; isso foi bem legal para mim. Por outro lado, eu estava sozinho, ainda não sabia o que fazer direito. Já tinha algumas pessoas aqui, mas elas seguiam uma linha que eu não gostava muito, que eu achava estranha. Os professores do Colégio tinham influências tecnicistas. Quando eu entrei no Colégio Técnico, o Serjão 468 era o chefe de setor. Ele aposentou quando eu já estava aqui. Um cara simpático, que sempre me dizia assim: "Faz o que você quiser, desde que tenha um bom resultado". Ele sempre me dava toda a liberdade. Eu ouvia dizer que ele foi um ótimo professor, mas que no final estava cansado. Além disso, tinha 467 Maria do Carmo Vila lecionou Matemática no Coltec no período de 1979 a 1995. Participou ainda de atividades no Centro Pedagógico, instituição de Ensino Fundamental também vinculada à UFMG. Ela é uma das colaboradoras desta pesquisa. 468 Sérgio Veiga Dias, também chamado de Serjão por ex-alunos e professores do Coltec, lecionou Matemática no Colégio. Não foi possível localizar esse professor para participação nesta pesquisa. 464 muitos problemas de saúde. Mas, para falar a verdade, eu não sei direito o que ele fazia na sala de aula. Já a professora Tânia 469 , eu tenho conhecimento de que ela dava aula em um modelo tecnicista, aquele em que você vai deixando lacunas para o aluno ir preenchendo e tal. Essa metodologia me incomodava um pouco. Era um pouco da ideia de Estudos Dirigidos, do modelo tecnicista que não me agradava, grande parte elaborado pelo professor Reginaldo 470 e pela professora Maria do Carmo. Num certo momento, quando eu já estava aqui, o Jed 471 começou a preparar novos materiais, um pouco diferentes, mas dentro dessa lógica de Estudos Dirigidos. Eu convivi muito pouco com o Reginaldo aqui na escola. Ele vinha muito aqui para se reunir com um grupo de trabalho que incluía a Tânia e a Maria do Carmo. Eles se reuniam uma vez por semana, ou uma vez a cada quinze dias, não lembro mais. Eles discutiam propostas de cursos para professores, pois davam muitos cursos. Eles tinham apostilas para o Ensino Fundamental inteiro, com todos os assuntos. A partir desse material, eles davam os cursos, algumas vezes no interior do estado, onde mostravam as apostilas, davam aulas a partir delas, todas baseadas em Estudos Dirigidos, com muito espaço em branco para completar. Além disso, eles foram responsáveis por fazer o Programa de Matemática do Estado de Minas Gerais. Eles faziam várias coisas assim, prestavam consultoria e davam curso para professores de escolas públicas. Muitos desses cursos estavam vinculados ao Cecimig 472 . Depois, o pessoal da Física do Coltec assumiu esse Centro e eles se afastaram. Antes do Coltec, eu tinha visto Estudos Dirigidos em um ou outro lugar, mas nunca tinha visto funcionando assim, como uma estratégia. Tinha muita coisa que eu só vi usando aqui, como madeiras com preguinhos, para estudar Trigonometria. Materiais que exigiam 469 Tânia Lima Ayer de Noronha se aposentou do Departamento de Matemática do Coltec em 2002, depois de 23 anos de atuação como docente. Como colaboradora desta pesquisa, Tânia relatou algumas das experiências vividas no período em que lecionou no Colégio. 470 Reginaldo Naves de Souza Lima dedicou-se ao estudo e a criação de novas propostas de aprendizagem de Matemática. Cursou bacharelado em Matemática na UFMG, mestrado em Ciências e Matemática na UNICAMP e mestrado em Educação na UFMG, além de outros cursos. Ganhou medalha de Honra do Mérito Educacional, por sua participação na elaboração da nova proposta curricular de Matemática do Estado de Minas Gerais. Disponível em: < https://issuu.com/sergioluz/docs/p_ame>. Último acesso em: 07 jul. 2016. 471 José Eloisio Domingos, ou Jed, ou ainda Jedboy, foi professor efetivo do Departamento de Matemática do Coltec de 1970 a 1997. Em seguida, atuou como professor substituto, nos anos de 1998 e 1999. É um dos colaboradores desta pesquisa. 472 O Centro de Ensino de Ciências e Matemática de Minas Gerais – Cecimig, criado em 1965, através de um convênio entre o MEC e a UFMG, foi incorporado à Faculdade de Educação em 1987. Dentre seus objetivos o centro visa estimular a pesquisa e a extensão, contribuindo para a melhoria do ensino de Ciências. Nesse sentido, é responsável pela organização de cursos de aperfeiçoamento e especialização, assessoria a diversas instituições, promoção de seminários, congressos e encontros na área, realização e divulgação de pesquisas e construção de acervo bibliográfico e de materiais para atividades experimentais em Ciências. Disponível em: < http://www.cecimig.fae.ufmg.br/index.php/institucional/historia>. Último acesso em: 07 jul. 2016. 465 manipulação, entre outros diferentes. Eu cheguei a usar Estudos Dirigidos, mas me incomodava. Essa ideia de preencher espaços vazios era muito óbvia, "pergunta e o cara responde, sem nem pensar". Eu queria ir logo para resolver problemas, fazer coisas diferentes. Até porque, no final dos anos 1980, começo dos anos 1990, esse recurso já tinha caído muito de moda. Os Estudos Dirigidos e as Instruções Programadas eram propostos com muitas etapas. Vinha uma frase seguida de um espaço vazio para o aluno completar. Ou, ainda, o estudante fazia uma sequência de exemplos, repetia dez vezes um determinado exercício, depois era perguntado a ele: "O que você percebeu agora?". Eu percebia que tinha aluno que não tinha paciência de fazer isso. Ele já ia direto responder a pergunta, antes mesmo de resolver a sequência. Aliás, eu já tive contato com ex-alunos que me relataram que achavam aquilo muito lento. Da minha parte, eu também não compreendia. Talvez, se eu tivesse uma melhor formação a respeito, eu entendesse melhor. Mas eu achava aquilo muito devagar e os exercícios muito fáceis. Além disso, nunca gostei de seguir um livro didático, especialmente os mais antigos. Eles apresentavam o conteúdo a partir de um modelo, um exemplo, e, em seguida, havia uma série de exercícios; outro exemplo e uma série de exercícios; outro exemplo.... Hoje ainda encontramos isso, mas é mais disfarçado. Naquela época era mais descarado. Cada exercício, cada coisinha que ia acrescentar na matéria, colocava um exemplo e uma lista de exercícios para os alunos resolverem. Quando eu entrei aqui eu usava o livro do Imenes 473 , da capa preta, escrito "Matemática" um monte de vezes. A gente usava um pouco ele. Inicialmente, assumi turmas do terceiro ano. Eu acho que só tinha eu nesse nível. Talvez o Gil 474 também trabalhasse no 3º ano, não me lembro. De qualquer forma, eu podia fazer o que eu quisesse. Cada professor dava a sua aula, sem falar o que fazia. Aí eu fui fazendo do meu jeito. Estranhei muito o Colégio, porque os alunos eram muito diferentes de tudo o que eu já tinha visto na minha vida. Eles ficavam espalhados no corredor, muito mais do que nos dias de hoje. Muitos alunos fumando, usando drogas, maconha, tudo. Era muito estranho. Não lembro de nenhum estudante utilizando cigarro ou outro tipo de droga dentro da sala de aula. Mas, na frente da escola, em frente à portaria principal, tinha uma árvore 473 "Luiz Márcio Imenes é engenheiro civil formado pela EPUSP e licenciado em Matemática pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Moema. Fez seu mestrado em Educação Matemática na Unesp de Rio Claro, São Paulo. Além de atuar como professor, é autor de livros didáticos e paradidáticos de Matemática". Disponível em: < http://www.editorasaraiva.com.br/autor/imenes/>. Último acesso em: 12 set. 2106. 474 O professor Francisco Bastos Gil, conhecido por "Gil", lecionou no Departamento de Matemática do Coltec na década de 1980. Ele é um dos depoentes desta pesquisa. 466 conhecida como "Árvore da Paz", em que os meninos ficavam fumando maconha lá em baixo. Vinham os alunos da Engenharia se juntarem aos alunos do Coltec e ficavam fumando lá em baixo. Depois você via aquele estudante na sua aula. Para mim foi meio chocante. Outro fator que me impressionou muito, no começo, foi a qualidade dos alunos. Na primeira prova, eu dei um monte de notas altas; pensei: "Gente, o que é isso?". Eu sabia que na outra escola ninguém tiraria uma boa nota com aquela prova e ali todos tiraram um notão. Eu tinha fama de ser duro na outra escola, chego no Coltec, dou uma prova, todos vão bem. Precisei requalificar minhas ideias. Comecei a ver que tudo o que eu falava para os alunos ele entendiam e puxavam mais. Eu falei: "Caramba! Aqui o buraco é mais embaixo". Então, tive a necessidade de estudar bastante, correr atrás. Mesmo eu tendo uma boa formação de conteúdo matemático e estando fazendo o mestrado, eu pegava muito aluno bom. Nesse meio tempo, lá no mestrado, eu conheci a Penha e a Márcia, como já disse, anteriormente. Elas tinham uma sala do lado da sala dos mestrandos. Eram figuras isoladas no departamento, porque já estavam indo para a área da Educação. Eu e o Amarildo, que hoje é professor em Juiz de Fora, tínhamos preocupações com Educação e, por isso, começamos a conversar com essas professoras. Elas até passavam artigos para nós lermos. Eu achava mais legais esses artigos do que tudo que eu estava estudando na Matemática. E isso ia me incomodando um pouco, mas eu ia fazendo esse curso. O Amarildo largou o mestrado em Matemática no primeiro semestre e foi para Santa Úrsula fazer mestrado em Educação. Posteriormente, a Maria do Carmo Vila volta do doutorado e começa a conversar muito sobre Educação comigo, a respeito de jeitos diferentes de dar aula. Até esse momento, por exemplo, eu nunca tinha pensado em organizar os alunos em grupos, porque eu vinha de uma escola tradicional, em que o professor fica na frente falando, falando, falando. Em 1994, Maria do Carmo retorna do doutorado no Canadá, com uma experiência diferente, de observar outra lógica de escola nesse país. Ela começa a falar de ensinar as ideias básicas de Estatística no Ensino Fundamental, coisa que aqui no Brasil era inimaginável, naquele tempo. Ela dizia: "Lá no Canadá está sendo discutido iniciarmos o ensino das coisas básicas de Análise Combinatória, de Estatística, de gráficos e tal, já no Ensino Fundamental, lá no Fundamental I". Aí eu falava: "Como? Isso é impossível, a gente está acostumado a ensinar isso no final do Ensino Médio. É loucura". Eu achava aquilo descabido. Hoje isso é uma prática comum em todas as escolas do Brasil. Ou seja, quando essa professora chega, ela começa a trazer essas novas ideias, ela começa a mudar um pouco. Ela continua trabalhando com a ideia de Estudos Dirigidos, Instruções Programadas, mas percebo que ela começa a romper um pouco com esse modelo, assim que volta do doutorado. 467 Ela nunca me orientou a utilizar Instruções Programadas ou Estudos Dirigidos. Por outro lado, ela me estimulava a trabalhar em grupos e adotar Resolução de Problemas como estratégias de ensino. Ela me motivou a dar aulas mais participativas, com alunos mais atuantes, em que os ouvimos mais. Essas intervenções ficaram marcadas para mim no período de apenas um ano em que trabalhamos juntos. Além disso, ela começou a passar textos do Piaget para eu ler. Fazia, inclusive, reuniões de grupos de estudos no Coltec. Pena que ela se aposentou muito rápido, pois ela conversava muito comigo, me orientava, me ajudava. Já no mestrado em Matemática, as coisas começaram a ficar mais difíceis. O curso durava quatro anos. Eu entrei em 1992 e fiquei 92, 93 e parte de 94. Aí, quando eu estava terminando os créditos, faltava apenas fazer "Seminário" para eu ir para a escrita da dissertação, eu abandonei o curso. Eu estava um pouco atrasado. Entrei junto com a Maria José 475 e com a Elaine 476 . Para mim, estava sendo um sacrifício continuar na Matemática; eu comecei a desgostar, a não ver propósito naquilo. Eu ia para a aula e pensava assim: "Tá, mas qual é o propósito disso tudo?". Eu não conseguia ver objetivo naquilo tudo que eu estava estudando. Cada vez mais, eu estava preocupado com as questões de ensino e me fazia perguntas do tipo: "o que isso me ajuda?". Nesse período, a Maria do Carmo virou para mim e disse: "Oh, vai ter mestrado, vai abrir mestrado na linha de Educação Matemática lá na FaE 477 e eu vou trabalhar lá". Ela me ajudou a formatar uma ideia de projeto de mestrado, pois pretendia me orientar. No entanto, o governo de Fernando Henrique ameaçou tirar os direitos de aposentadoria e a Maria do Carmo decidiu se aposentar. No início desse curso de mestrado, 1995, ela já não estava lá. Logo, quem me orientou foi a Manuela 478 , que foi excelente, abriu a minha cabeça. O mestrado me fez mudar muito. Eu já vinha de um processo de mudança, mas lento. Eu já estava gostando de trabalhar com Resolução de Problemas, entre outras coisas, mas era 475 Maria José Alves é professora do Setor de Matemática do Coltec atualmente. Ela ingressou na instituição em 1996. Devido ao seu pequeno período como docente no Colégio incluído no recorte temporal deste trabalho (1996 a 1999), bem como ao nosso interesse especial pelos primeiros anos de funcionamento da escola, ela não participou desta pesquisa. 476 Elaine Gouvea Pimentel foi professora de Matemática do Coltec de 1994 até 2006. Além disso, estudou no Colégio de 1984 a 1986, tendo sido aluna dos professores José Eloísio Domingos e Tânia Ayer de Noronha. Devido ao seu pequeno período como docente no Colégio incluído no recorte temporal deste trabalho (1969 a 1997), bem como ao nosso interesse especial pelos primeiros anos de funcionamento da escola, ela não participou desta pesquisa. 477 Faculdade de Educação da UFMG. 478 Maria Manuela Martins Soares David fez graduação em Matemática na Universidade de Porto, em 1974 e doutorado em Educação Matemática na University of London, em 1983. Atualmente é professora titular da Faculdade de Educação da UFMG e atua no Programa de Pós-Graduação em Educação dessa instituição. Disponível em: . Último acesso em: 12 set. 2016. 468 lento. Eram mudanças de professor, a minha própria prática mudando. Já no mestrado, eu começo a ter um mundo de informações que me faziam refletir sobre a prática e perceber que eu precisava de novos caminhos. Começo a achar que a minha aula estava muito ruim, que eu precisava melhorar. Nesse processo, eu observo que a Tânia e os demais colegas do Setor de Matemática do Coltec não iam embarcar nessas mudanças. Então, decido criar um jeito diferente de dar aula. A única professora que seguia, mais ou menos, as minhas ações, era a Elaine. Ela era da Matemática pura, fazia doutorado em Lógica, ou seja, bem focada em Matemática pura. No entanto, ela gostava de trabalhar com problemas. Nós fazíamos material juntos, ela revisava, trabalhava comigo. Ela ia um pouco na minha com essas coisas. Eu ingressei no mestrado em 1995 e saí no meio de 98. Naquela época, a gente tinha três anos e meio para fazer o curso. Em seguida fiquei cerca de sete anos até entrar no doutorado. Nesse período eu me envolvi com o trabalho, fiz um monte de coisas, até perceber que eu tinha que fazer o doutorado. No Colégio Técnico eu fui professor e chefe de setor, nunca assumi cargo de direção. Participei de várias comissões, mas não assumi outro cargo. De cinco, sete anos para cá, começaram a criar vários cargos, coordenações diversas. Mas, inicialmente, havia apenas o cargo de direção, que eu não ocupei. Quando eu entrei, o setor estava em frangalhos, porque o Serjão queria se aposentar, ficava muito doente, tinha um problema de saúde muito grave e tirava muita licença. Ele tinha dificuldades de andar, inclusive; tinha o Gil, um cara que vinha, dava aulas e não ficava na escola, porque trabalhava em outros lugares. Ele entrava, dava aulas e ia embora. A gente mal via ele, cruzava no corredor e só; e a Tânia, que praticamente carregava tudo nas costas. Em seguida, em 1993, vem para cá o professor Chico 479 , que era de uma escola militar, uma escola naval lá no Oiapoque. Nós começamos a dar uma nova dinâmica para o setor. O Chico era mais tradicional, mas incrementava algumas coisas modernas, organizava a aula de modo diferente, embora não fosse ligado a essas coisas de Educação, de pensar em uma metodologia diferente. Ele fazia atividades interdisciplinares, mas não compartilhava com os outros. Isso era ruim, pois, às vezes, quando ele me dizia que tinha feito um trabalho diferente, eu pedia a ele: "me passa por escrito", e ele não passava. Muitas vezes ele não tinha escrito nem para ele. Mesmo assim, eu adorava conversar com ele, porque sempre me dava 479 Francisco de Assis Batista, conhecido como Chicão, lecionou no Coltec da década de 1990 até o ano de 2010, quando se aposentou. Infelizmente, não conseguimos contato com esse professor para participação nesta pesquisa. 469 ideias ótimas. Ele dava a ideia e eu tinha que fazer, porque, quando ele fazia, nunca tinha a preocupação de compartilhar com os outros ou de chamar para fazer junto. Ele fazia e pronto. Se no ano seguinte precisasse ensinar o mesmo conteúdo, ele inventava tudo outra vez, porque não tinha nada organizado, nada registrado. Talvez por isso, inclusive, não tenha terminado o mestrado. Ficou anos fazendo o mestrado e nunca terminou, mudava de programa de pós-graduação, mudava a questão de pesquisa, era uma confusão. Ele era assim o tempo todo, muito compulsivo. Era um vulcão de ideias, tinha um milhão de ideias. Você conversava com ele e ganhava uma ideia nova. Mas não dava para trabalhar junto com ele, fazer junto, de modo cooperativo. A Tânia, por outro lado, era muito fácil de trabalhar junto. Tudo o que nós combinávamos, ela fazia, ou encontrávamos para fazer. Além disso, ela era muito solidária. Mas ela tinha dificuldades de aderir a novas ideias, pois acreditava que o modelo que ela estava acostumada a adotar era muito bom e funcionava muito bem. Mas, por vezes, eu propunha algo e ela gostava, incorporava. Era difícil para mim, chegar até ela e dizer: "Olhe, o que você está fazendo está ficando velho". Eu a considerava uma ótima professora, percebia que os alunos a adoravam, mas em alguns momentos achava que ela poderia ir direto ao ponto, em um determinado conteúdo. Que, muitas vezes o uso de Estudos Dirigidos não se aplicava ou não era feito para aqueles alunos do Coltec, pois era muito lento. Alguns alunos reclamavam: "Ah, a gente fica só estudando sozinho". Afinal, estudar sozinho, deixar o aluno trabalhar, produzir, era a lógica dessa proposta. Mas a Tânia fazia um trabalho diferenciado, ela tinha o hábito de sistematizar os assuntos estudados, de ajudar os alunos e não deixá-los à própria sorte. Entretanto, era lento e exigia pouco dos estudantes. Eu e o Chicão, que vínhamos de outra realidade, de escola particular, achávamos que os alunos eram muito bons e pouco exigidos. A gente tinha fama de sermos mais rigorosos, porque requisitávamos mais, porque achávamos que os alunos eram melhores. A professora Maria do Carmo também era rígida. Eu lembro de ver provas dela, e eram difíceis, ela era muito exigente, enquanto a Tânia e o Jed davam provas um pouco mais fáceis. O Jed trabalhou muito tempo depois de ter direito a se aposentar. Ele saiu numa dessas confusões em que poderia perder parte de seus direitos, tal como a Maria do Carmo. O governo ameaçava de tirar os direitos dos aposentados, muitas vezes tirava mesmo, e um monte de gente que estava para aposentar saía. O Jed, por exemplo, que só tinha especialização, se aposentou como professor titular. Algo que seria impensável hoje. Digamos que alguns privilégios foram cortados. 470 Mas, retomando, eu acho que foi interessante o trabalho que a Tânia fazia no Coltec. Durante todo o tempo em que estivemos juntos no Colégio, ela ficou no primeiro ano e acolhia muito bem os alunos, porque era muito mãezona. Às vezes, a Paula 480 se parece com ela, nesse sentido de acolher os alunos, ser carinhosa, de ajudar os alunos e tal. E aí, quando a gente pegava os alunos no segundo, terceiro ano, eles já estavam mais disciplinados, mais adaptados à escola. A Tânia fazia um trabalho bacana nesse sentido, ela fazia isso muito bem feito. Já o Chicão, inicialmente pegou turmas de primeiro ano, mas começou a dar problemas. Daí ele passou a lecionar mais para o terceiro ano. Ele falava muito palavrão na aula e era muito desorganizado. Os alunos do primeiro ano não davam conta de assistir as aulas dele, reclamavam muito. Sem falar no nível de cobrança, que era muito alto. Por muito tempo, foi assim: o Chicão no terceiro ano, a Tânia no primeiro ano, eu no segundo e terceiro ano, e a Maria José, juntamente com a Elaine, no segundo ano. A Maria José chegou a dar aulas no primeiro ano, mas houve problemas e depois ela nunca mais lecionou nessa série. A Elaine também experimentou o primeiro ano. Eu não quis dar aula no primeiro ano até a Tânia se aposentar, porque eu não gostava muito do modelo, então eu evitava. Quando a Tânia vai se aposentar, ela vem falar comigo: "Na hora que eu me aposentar, você devia pegar o primeiro ano". E quando ela se aposenta, o setor de Matemática se reúne e todos falam para mim: "Olha, você tem que pegar o primeiro ano. O primeiro ano é muito difícil. Você é o cara que está mais preparado para isso, porque você é da Educação, você vai conseguir entender melhor os alunos". Aí eu me coloquei: "Mas eu vou dar aula do meu jeito". Todos concordaram, disseram que eu poderia fazer o meu modelo. A essa altura, eu já estava começando a organizar e sistematizar o ensino do segundo e do terceiro ano com as minhas ideias, trabalhando a partir de problemas. Era uma espécie de laboratório. No ano seguinte em que a Tânia se aposentou, eu assumo o primeiro ano e organizo o material. Quem passa a lecionar nessa série trabalha comigo, com as minhas propostas. Comumente eu trabalhava junto com professores substitutos. Agora que estou lembrando dessa informação, nós sempre tínhamos professores substitutos, que atuavam com a Tânia no primeiro ano. Eu gostava de trabalhar com esses professores, eu falava assim: "Prefiro trabalhar com substituto, que eu oriento e eles vão trabalhando". Aí eu vou formando eles. Já na primeira vez que atuei nessa série, a pessoa que trabalhava comigo ficou impressionada, 480 Paula Resende Adelino é professora do Setor de Matemática do Coltec desde 2010. Como ela não atuou no Colégio no recorte temporal desta pesquisa (1969 a 1997), não foi uma de nossas depoentes. 471 dizendo: "Nossa, a gente conversa em um dia, você vem no outro dia com a apostila pronta". Eu respondia: "Ah, mas eu estou com a ideia na cabeça, é fácil escrever, se eu não tivesse a ideia, era difícil". E aí eu fui fazendo o curso. Eu não lembro quem eram os substitutos nessa época. Nós conversávamos e eu ia montando as apostilas. Assim que estavam prontas, eu apresentava a eles. O curso foi organizado durante o ano, do jeito que eu pensava que tinha que ser. Nessa época eu tive o maior amadurecimento, pois enfrentei muita dificuldade, inclusive, para dar aulas, pois estava acostumado com os alunos do terceiro ano. Os primeiros seis meses foram muito difíceis, porque era muito diferente. Os estudantes eram heterogêneos, tinham problemas de postura e comportamento, eu pensava: "Não, eu não vou dar conta de dar aulas para esses meninos". Aí eu fui fazendo o material, me adaptando, e acabou que deu certo. A partir do momento em que eu assumo o primeiro ano e consigo organizar as coisas da forma como eu planejava, muda a lógica de trabalho que vinha sendo aplicada há mais de uma década, que era a ideia de utilizar Instruções Programadas e atividades orientadas. No estudo de Trigonometria, por exemplo, tudo era realizado com medidas, à mão mesmo, repetindo aquele processo várias vezes. Quando eu assumo, priorizo a Resolução de Problemas, em que o aluno não tem que fazer pequenas etapas, ele tem que resolver um problema. Os conceitos aparecem depois, a forma como você chega neles é diferente. Acredito que há aí uma ruptura. Até então, o pessoal estava influenciado pelas Instruções Programadas. Inclusive o Serjão, que já estava no final da carreira. Talvez o Gil não fosse tão adepto, pois era mais tradicional, dava uma aula clássica. Os demais, todos estavam na lógica de Instrução Programada, com materiais bem organizados, tudo dividido por etapas. Além disso, eles tinham uma influência piagetiana, que talvez eles nem saibam dizer, mas é algo claro para mim. A percepção de aprendizagem deles era por etapas, por fases, algo que foi sugerido pela Maria do Carmo e pelo Reginaldo. Como tive contato com a Maria do Carmo, eu tive clareza que ela tinha uma visão de ensino baseada em Piaget, com coisas bem clássicas, modelos de ensino por etapas. Depois que a Tânia aposenta, não resta nenhum professor que trabalha dessa forma. Particularmente, como eu não me identificava com esse modelo, sempre evitei trabalhar no mesmo ano que o pessoal da antiga, pois eu sabia que não ia me adaptar. Eu achava que ia me sentir muito amarrado naquilo. Dessa forma, quando eu era novo aqui, eu entrava nos lugares que me permitiam trabalhar sozinho. Depois trabalhei com o Chicão, assim que ele entrou. Um tempo depois, quando alguns se aposentaram, os antigos passaram a ser Chicão, eu e a Tânia. Nossa estratégia era ter um de nós em cada ano, para receber o 472 pessoal mais novo, que seriam Elaine e Maria José, além dos professores substitutos. Quando a Tânia se aposenta, me sinto mais tranquilo de falar: "Agora vamos fazer assim". Eu falo para o pessoal do setor e todo mundo topa. Não há problemas, eles permitem que eu faça do meu jeito. Nesse momento, eu percebo que há uma mudança no jeito de ensinar Matemática no Colégio. Eu fiquei um tempão nessa série, até a Paula e a Kelly entrarem, que foi quando eu me senti seguro para não ficar mais no primeiro ano: "Agora eu posso sair do primeiro ano, eu vou me aposentar do primeiro ano, porque agora tem gente que vai dar conta de fazer isso". Até então, eu só trabalhava com professores substitutos e o restante do pessoal que estava no setor não tinha mão para trabalhar nessa série. Com relação aos alunos, a informação que eu tive é que, em grande parte do tempo, eles gostavam do ensino de Matemática do Coltec e tinham um bom desempenho nas provas de vestibular. Mas teve uma época em que os estudantes reclamavam muito, muito mesmo. Se você consultar alunos que se formaram no começo dos anos 1990, encontrará muita gente reclamando do ensino de Matemática do Colégio. Eles se queixavam de ficarem muito soltos, de não entenderem a proposta. Relatam que tiveram que estudar sozinhos, pois alguns professores vinham, passavam as atividades e não participavam de nada, não sistematizavam. Então, eu ouvia muita reclamação. Talvez, por isso, optei por não aderir a esse material e a essa metodologia. Eu pensava: "Nossa! Os alunos reclamam tanto, que eu não vou fazer isso, porque eles reclamam demais". E as reclamações eram recorrentes. Eu iniciei aqui em turmas de terceiro ano, como já comentei, e eles reclamavam bastante. Dessa maneira, eu comecei a dar aula do jeito mais tradicional e a aceitação era boa, os alunos falavam: "Ah, a gente prefere aula assim, como você está dando, porque assim nós vemos tal e tal coisa". Talvez o problema seja que esses professores estavam usando aquele material há tanto tempo, deixaram de revisá-lo, e foram perdendo a mão. Seria fundamental adequar às necessidades de outro tempo, de alunos diferentes. Mas, como eu disse anteriormente, quando eu iniciei no terceiro ano, fiquei assustado com o tanto que os alunos eram bons, mesmo sendo muito "enrolados". Essa segunda característica não me assustou muito, porque eu vim da Ufop e nunca vi lugar igual para ter estudantes "enrolados". Já a questão de eles serem tão bons me fazia concluir que o curso de Matemática no primeiro e segundo anos do Coltec devia ser bom, funcionar; do contrário, os alunos não seriam tão bons no terceiro ano. A impressão que eu tenho é que era uma metodologia que os estudantes não queriam mais, ele requeriam uma coisa mais dinâmica. 473 De outro modo, vale salientar que os professores que atuavam no Colégio eram muito bem qualificados. Maria do Carmo, por exemplo, fez mestrado em Educação Matemática no começo dos anos 1980, naquela turma da Unicamp, pioneira na área no país, organizado pelo Ubiratan D'Ambrosio 481 . Ela foi formada com o que tinha de mais moderno. Era o fim do Movimento da Matemática Moderna, mas era possível identificar, nas apostilas que ela produzia, muitas ideias desse movimento. Tinha ainda a influência de Piaget nas propostas elaboradas em formato de Instruções Programadas. Maria do Carmo, juntamente com o professor Reginaldo, também se baseava em livros oriundos do School Mathematics Study Group 482 , um grupo de Educação Matemática dos Estados Unidos, que espalhou a ideia de Instrução Programada. E, ainda, se inspiravam em livros franceses. Recebi dois exemplares, inclusive, presenteados pela professora Maria do Carmo, mas não me recordo onde estão, além dos muitos materiais de um matemático belga bem antigo, do período da Matemática Moderna, mas não estou lembrando o nome agora. Recordo da Maria do Carmo vindo me mostrar um material desse matemático, que trabalhava muito com Geometria e Teoria de Conjuntos. Em síntese, o que os professores de Matemática do Coltec faziam nos anos 1970, começo dos anos 80, era muito moderno. O problema é que nos anos 90 já não era tão moderno e não estava funcionando tão bem. Já havia outras ideias surgindo, como Resolução de Problemas, que me influenciaram nos anos de 1993, 1994. Eu pelo menos sentia isso. Quando eu começo a incorporar os problemas nas minhas aulas, a coisa estava começando ainda, tinha uma ou outra pessoa que falava a respeito. Eu queria uma proposta diferente e a que eu conheci aqui não era confortável para mim. Além disso, eu não queria manter o que eu fazia antes, que era mais tradicional. Foi dentro da universidade que eu me formei nesse sentido, que eu pude relacionar faculdade-educação. A partir de conversas com professores do Departamento de Matemática, 481 Nascido em São Paulo, em 1932, Ubiratan D'ambrosio fez graduação e pós-graduação na USP. Na década de 1960, iniciou sua vasta experiência no exterior, passando pelo Instituto Matemático dell'Universita, na Itália, pelas Brown University e State University, nos Estados Unidos. Em 1972 retornou ao Brasil e assumiu a direção do IMECC da Unicamp por, aproximadamente, oito anos. Paralelamente, coordenou projetos do PREMEN/MEC e dirigiu o programa de Multinacionais de Mestrado Interdisciplinar em Ensino de Ciências e Matemática, da OEA. A partir da década de 1980, assumiu a Coordenação Geral dos Institutos da Unicamp, foi Pró-Reitor de Desenvolvimento Universitário, além de manter contatos exteriores, atuando como professor visitante em diferentes países (MUNIZ, 2013). 482 Na década de 1950, alguns pesquisadores norte-americanos, insatisfeitos com o ensino de Matemática nas escolas secundárias, criaram o School Mathematics Study Group, constituído por professores de Matemática, matemáticos, psicólogos e educadores, com o intuito de discutir possíveis mudanças no currículo de Matemática dessas instituições. Os integrantes do SMSG elaboraram e publicaram diversos livros didáticos para divulgar uma “nova” matemática para todos os níveis de ensino, que recebeu o nome de Matemática Moderna. Esses livros foram traduzidos para vários países além do Brasil, como Suécia, Turquia, Taiwan, Austrália e Índia (SILVA, 2013). 474 que estavam indo para área da Educação Matemática e, principalmente, devido ao meu contato, no Coltec, com a professora Maria do Carmo Vila, que aqui dentro foi a que mais me influenciou, mesmo trabalhando muito pouco tempo com ela. Mais recentemente, o ensino de Matemática do Colégio sofreu mudanças para se adequar às demandas dos cursos técnicos. Nós alteramos a ordem de vários conteúdos. Antes do meu ingresso no Coltec, tenho a impressão de que o ensino de Matemática era mais parecido com o tradicional, ou seja, os estudantes aprendiam mais ou menos as mesmas coisas que eram dadas nas outras escolas. Números Complexos, por exemplo, eram dados no terceiro ano, eu já vi materiais. Análise Combinatória era vista uma única vez, num pacote só, também no terceiro ano. Acho que as pessoas que atuaram aqui antes tinham uma visão muito de que: "Ah, eu dou aula de Matemática e pronto". Além do mais, não acredito que a escolha dos métodos de ensino de Matemática eram preocupadas com os cursos técnicos atendidos. Assim que eu passei a lecionar no segundo ano, eu fui conversar com os professores das disciplinas técnicas e eles me pediram para eu organizar os conteúdos de Matemática do segundo ano. A partir daí, fizemos várias mudanças no programa da disciplina, redistribuindo alguns conteúdos nas séries, tornando a distribuição diferente da tradicional, ou seja, da forma como são apresentados nas escolas não técnicas. Anteriormente, o ensino de Matemática do Coltec era mais tradicional não apenas por culpa do Setor, porque quando procurávamos o pessoal do técnico eles falavam assim: "Não, dá aí o que é para dar mesmo" ou "Não, o que é do Ensino Médio está bom". Recordo de ir com a Tânia procurá-los e eles não pedirem nada de especial, nunca solicitavam nada. Alguns setores, inclusive, têm dificuldades de citar os conteúdos matemáticos que demandam, por desconhecimento do assunto: "Ah, o que usa de Matemática?" Eles te olham com uma cara de espanto e completam: "Não, não usa nada". Ou dizem: "Regra de três e Notação Científica está bom". Para eles, isso já resolve os problemas do mundo, mesmo sendo conteúdos do Ensino Fundamental. De um tempo para cá, o Setor de Eletrônica começou a pedir. Certo dia eu tive uma conversa mais longa com eles, nos reunimos, acho que estava apenas eu da Matemática. Eu ofereci reorganizar alguns conteúdos, de ensinar antes: "Oh, quando é que vocês vão usar tal coisa?". Os professores da Eletrônica me retornaram: "Oh, isso aqui é importante. Isso aqui usa em tal período. Isso aqui não precisa muito. Isso aqui precisa muito...". Foi o primeiro setor que entendeu o que eu queria e nos orientou. Decidimos, portanto, fazer o programa 475 orientados pela Eletrônica, já que os outros cursos não solicitavam nada. Puxamos Números Complexos para o segundo ano, por exemplo. O setor de Análises Clínicas reconhece que a disciplina de Bioestatística, oferecida pelo setor de Matemática, é importante. Mas o restante que ensinamos, para eles é indiferente: "O que vocês fizerem está tudo bem, se não fizer nada também está bom". O pessoal da Informática já diz assim: "Quanto mais Matemática e mais difícil, melhor". Ou seja, fica difícil organizar uma ideia de como propor os conteúdos. Eu só consegui fazer isso com os professores da Eletrônica. Dessa forma, os cursos de Eletrônica, Automação e Informática são regulados pela Eletrônica. Isso é algo que eu fui construindo na minha vivência aqui na escola: entender que a gente é uma disciplina que está a serviço dos cursos técnicos. Claro, também consideramos que estamos aqui para formar o sujeito, por isso priorizo o trabalho com Resolução de Problemas e Investigação Matemática. Mas os conteúdos, o enfoque que a gente vai dar nas discussões eu acho que tem que ser voltado para a área técnica, deve nortear a escolha dos conteúdos. Mas pode-se dizer que isso era uma preocupação minha. E acho que o Chicão e a Tânia me ajudaram. Eu não concordava com os alunos verem Sistemas Lineares primeiro com o professor Adilson, da Eletrônica, para depois eu ensinar. Isso é ruim, porque quando eu ia falar a respeito, os estudantes já sabiam um pouco, o negócio fica atravessado. Além disso, como engenheiro, o Adilson ensinava por Regra de Cramer, que é a última forma de resolução de Sistemas Lineares que gostamos de apresentar aos alunos. Por outro lado, se eles precisam, como o professor do técnico não vai ensinar? Outra atitude que eu tomei nos últimos anos foi propor trabalhos em que os alunos mostram aplicação do que estão aprendendo em Matemática na área técnica e isso tem gerado bons resultados. É o que eu consigo fazer para me aproximar da área técnica. Às vezes, tento colocar um problema que tenha a ver com os cursos técnicos, mas isso eu consigo fazer pouco, porque entendo pouco da área técnica. Mas, quando peço para eles fazerem o trabalho, eles conseguem entender de que forma aquele conteúdo matemático encaixa no que eles estão estudando ou no que eles vão estudar no futuro. Isso ajuda bastante, os alunos passam a entender melhor para que aprendem aquilo. Houve um tempo, depois de uma reforma curricular, em que alteraram o número de aulas de algumas disciplinas e precisamos discutir sobre a inclusão ou exclusão de alguns conteúdos, juntamente com o pessoal dos cursos técnicos. Chegamos a ter menos aulas do que temos hoje, então não dava nem para ficar inventando. Depois conseguimos aumentar uma 476 aula, não lembro se no segundo ou terceiro ano. Se eu não me engano, o segundo ano tinha duas aulas, o programa era minúsculo, não dava tempo de fazer nada. Atualmente, são quatro aulas no primeiro ano, três no segundo e três no terceiro. O Chicão também buscava muita interlocução com os cursos técnicos, a partir de aplicação dos conteúdos de Matemática que ensinava, como da Eletrônica. Como ele é um cara super eclético, eu acho que ele fazia isso, mas não sei até que ponto. Ele ainda conseguia trazer exemplos para os problemas de Matemática, cujo contexto vinha de outras disciplinas do curso básico, como Biologia. Eu acho que ele fazia isso, porque ele comentava e eu via os problemas que ele propunha nas provas. Sempre ouvi de colegas que os alunos do Coltec, por estudarem em uma escola técnica, amadurecem mais rápido, especialmente, devido às disciplinas experimentais, os laboratórios. Entretanto, na minha opinião, o que mais contribui para a maturidade desses estudantes é o ensino ser oferecido em período integral, o que os obriga a ficar no Colégio durante todo o dia. Em resumo, como eu entendo pouco da área técnica, eu consigo usar pouco. Mas pode ser que se eu quiser fazer uma nova apostila de Matrizes, este ano, eu consiga usar mais problemas aplicados aos cursos, porque eu aprendi com os alunos, depois da apresentação de seus trabalhos. Eles mostraram aplicações de Matrizes em várias áreas. Utilizando multiplicação de Matrizes, por exemplo. Dava para fazer muitos exercícios utilizando o que eles me ensinaram. No ano passado, eu até coloquei um problema aplicado na prova. Mas a minha limitação é entender pouco de Eletrônica, de Automação, de Informática, de Química. Saber o suficiente para eu aplicar bem. Em contrapartida, ao lecionar a disciplina de Bioestatística, no curso de Análises Clínicas, eu uso um livro de Estatística Médica, que é totalmente aplicado. Eu não faço nada de modelo teórico. Não há exemplos que não sejam médicos, exceto quando estou ensinando Análise Combinatória, porque aí fica difícil. Nesses casos, eu trabalho com exemplos gerais, para eles terem uma noção desse conteúdo e para entenderem probabilidade. Mas logo retomo os exemplos de Análises Clínicas, para ensinar modelos probabilísticos, sensibilidade, especificidade, teste clínico, eficiência de testes, essas coisas. Ou seja, é sempre voltado para a área médica. Os trabalhos que os alunos dessa disciplina fazem comigo são todos aplicados. Acho importante o curso não ser tão teórico, afinal é uma disciplina técnica, e adotamos um livro recheado de exemplos da área biológica. Outro dado relevante é que sempre ensinamos Cálculo no Colégio. Por um pequeno período, quando o terceiro ano tinha apenas duas aulas, não foi possível incluirmos esse 477 conteúdo. E teve ainda uma época em que esse assunto foi para o segundo ano, eu não lembro o porquê. Acho que foi um ano só, aí eu disse: "Gente, pelo amor de Deus, se for continuar tendo Cálculo no segundo ano eu não pego mais esse ano". Era completamente inviável, era uma perda de tempo. Ninguém aprendia nada, eles não tinham maturidade para compreender esse assunto. Eu mesmo não sabia para que eu estava ensinando aquilo, então eu não conseguia fazer um curso bacana. Se fosse hoje, talvez eu conseguisse. Aí o pessoal do setor entendeu, mostrei alguns resultados a eles e todos concordaram: "É, realmente não tem sentido dar isso no segundo ano". Aí voltou para o terceiro. Acho que alguém do técnico havia sugerido e a gente tentou seguir, não lembro mais. Mas foi só por um ano, pois foi uma tragédia total. Com exceção do curso de Análises Clínicas, todos os cursos de graduação, referentes aos cursos técnicos do Coltec, teriam Cálculo como primeira disciplina. Em particular, a Eletrônica começa a utilizar noções de Cálculo em disciplinas técnicas já no Ensino Médio. Eles utilizam os conceitos de derivada e integral. Integral só a noção, derivada aprendem um pouco melhor, porque eles precisam para compreender sistema derivador, "sistema não sei o que lá...". Então eles precisam ter uma noção desses conteúdos para entenderem o que o professor do técnico está falando. Para os cursos de Química e Análises Clínicas, eu não vejo muito sentido ensinar Cálculo, embora, na graduação em Química os alunos tenham essa disciplina. Seria a única justificativa razoável. Desde que eu estou aqui, antes eu não sei, sempre teve alguém no setor que era ligado à Educação Matemática, ou seja, estava antenado com o que estava acontecendo. Inicialmente, era a Maria do Carmo, depois passou a ser eu. Nós sempre estivemos lendo coisas novas e tal. Com isso, ao lermos pesquisas, nos colocamos na fronteira. Dessa forma, antes de as coisas virarem moda na maioria das escolas, a gente já conhecia, já havia experimentado. Nesse sentido, a gente andava um pouco na frente, porque sempre tinha alguém aqui que estava antenado no que havia de mais moderno. Então, quando a Maria do Carmo Vila chega do Canadá, ela fala de práticas de ensino que as pessoas aqui nunca tinham ouvido falar, nem haviam pensado a respeito. Para mim, era tudo fantástico, eu adorava ficar conversando com ela. Eu ficava parado ouvindo e pensando: "Eu estou aprendendo tanto com ela". Quanto mais ela vinha conversar comigo, mais eu gostava, porque eu aprendia muito. Algumas das coisas que ela me falava eu falava: "Gente, não vai ter jeito de isso dar certo". E, depois, com o tempo, quase tudo que ela veio falar comigo, no começo dos anos 90, hoje são coisas rotineiras. Enfim, eu acredito que nós sempre tivemos essa influência das pesquisas em 478 Educação Matemática. Atualmente, tem eu, a Kelly, a Paula, a Nora. Nós estamos sempre buscando o que tem de mais novo. Às vezes, até fazemos coisas a reboque, mas sempre estamos pensando em novas práticas. Eu, por exemplo, muitas vezes, já estou de saco cheio do jeito que eu trabalho e tem gente que passa a ter conhecimento do que eu faço e acha que é moderníssimo. Mas tem mais de dez anos que faço isso, estou querendo outra coisa, que eu não sei ainda o que é, ainda não achei esse novo caminho. Ou seja, eu estou cansado um pouco do que eu estou fazendo e tem gente que está achando que isso é novidade, que está entrando agora. Creio que é reflexo dos nossos estudos, pesquisas, leituras de artigos. Kelly e Paula estão no doutorado, estão em contato com o que há de moderno. Isso, de certa forma, se reflete em nossa aula, não tem como essas leituras não mudarem nossa prática. "Como você vai ficar vendo modelos novos, coisas novas, ideias diferentes e isso não vai mudar nada a tua aula?". Eu não consigo conceber isso, claro que pode ter. O uso de computadores na escola, por exemplo, foi trazido pelo professor Sérgio. Computador, naquela época, era uma coisa pré-histórica. Ele tinha uma tela verde, com letrinhas para você escrever qualquer coisa. Os programas eram muito trabalhosos, complicados. O Sérgio tinha umas ideias de programação, oferecia cursos no Colégio, lá naquela sala que hoje é a 326 e na do lado. As duas eram salas da Matemática, onde ele tinha uns computadores. Apesar de os computadores serem antigos, ele fazia um trabalho super bacana com os alunos. Isso antes de ele ficar muito doente, começar a querer se aposentar. Além disso, aqui no Coltec sempre usamos calculadoras. As pessoas de outros lugares ficavam impressionadas: "Oh! Calculadora!". Nós tínhamos calculadoras para todos os estudantes. Quando eu entrei, já eram calculadoras velhas, pois eu entrei em 1992. Tinha dois modelos: uma que só fazia as quatro operações, era enorme, ligada na energia elétrica, e uma "Texas", científica, pequenininha, que ainda possuía visor vermelho, que os números eram meio redondinhos. Eram muito antigas, do começo dos anos 1970, e outras do começo dos anos 1980. Antigamente, tinha ainda as bancadas grandes de madeira, nessa sala 326. Nelas havia pontos de energia para os alunos usarem as calculadoras. Cada dois alunos utilizavam uma calculadora para fazer as atividades. Eu não cheguei a ver essas atividades. Depois, pedimos para mudar para mesas para alunos trabalharem em grupos. Acho que foi nos anos 1990, eu e a Tânia decidimos colocar essas mesas para quatro pessoas, pois, dessa forma, os alunos trabalhariam em grupos, mesmo que forçadamente. 479 Eu gostava muito quando a gente tinha essa sala grande, em que podíamos organizar as coisas do nosso jeito. Por um tempo, reconheço que deixamos de arrumá-la, um pouco por preguiça. Mas, se ainda tivéssemos essa sala hoje, eu ia querer equipá-la com vários computadores, dispostos nos cantos, para os alunos usarem na hora que precisassem. Poderíamos, dessa forma, propor atividades que usassem o computador e o papel, ficar revezando, eu acho que funcionaria melhor. Ou seja, se a gente tivesse um espaço assim, que tivemos por muito tempo e agora não temos mais, eu acho que seria ótimo. No tempo em que dispusemos dessa sala, eu gostava de trabalhar com as mesas para quatro pessoas. Eu não era a favor das bancadas, elas eram ruins. Primeiro, porque os alunos ficavam em bancos, era cansativo. As bancadas eram altas, do tipo dos laboratórios de Química e Física. A disposição dos alunos, para assistir a aula, também não era boa, pois eles ficavam lado a lado. Por isso, nós mudamos para mesas para quatro pessoas. Isso funcionava muito bem no primeiro ano, em que os alunos trabalhavam sempre em grupos. As aulas rendiam mais, os estudantes aprendiam a trabalhar juntos. E isso eu não aprendi sozinho não. Foi passado pela Maria do Carmo e pela Tânia, que sabiam desse negócio de manejar bem os grupos, elas tinham traquejo com grupos. Quando desfizeram essa sala, voltamos a utilizar apenas salas com carteiras individuais, cuja tendência para o aluno é ficar sozinho. Claro que tem aula que você prefere que o aluno esteja sozinho. Mas, se a gente ainda tivesse esse espaço, com as mesas, nós poderíamos inventar um pouco mais. Ainda mais se tivesse dinheiro para adquirimos os computadores, dez ou quinze, para realizarmos trabalhos em grupos, utilizando Investigação, por exemplo. Hoje em dia, se tivéssemos uma boa wireless na sala, como todo mundo tem um celular, era possível fazer um monte de outras coisas. Talvez, a tendência seja passarmos a utilizar os celulares como instrumentos de aula, utilizando recursos que funcionem nesse equipamento, mas não deve ser fácil. Na disciplina Bioestatística mesmo, o livro adotado saiu de circulação, não está sendo produzido mais. Alguns conseguiram comprar de ex-alunos. O livro lançado para substituí-lo custa muito caro, cento e tantos reais. E aí, o que os alunos fizeram? Eles acharam o livro em formato PDF na internet. Todos vão para a aula com os celulares e acessam o livro. Eu acionei a editora, consegui um desconto. Mesmo assim, ainda acho caro para os alunos, porque antes o livro custava 30, 40 reais. Agora, com desconto, foi para 80 reais, dobrou o preço. Por isso eu falei para eles: "Eu deixo vocês à vontade, se quiserem fazer xerox do livro que saiu de circulação". Aí, da semana passada para essa, eles falaram que acharam o livro disponível na internet, uma cópia em PDF. Dessa forma, muitos deles estão 480 assistindo aula com o celular na mão. Para mim isso é perfeito! Eu não vejo o menor problema, sou contra esse negócio de falar que não pode usar celular. Eles fotografam as apostilas que nós distribuímos e as visualizam no celular. Isso porque muitas vezes eles a perdem, aí fotografam a de um colega. Eu não me incomodo. Acho que proibir o celular é igual a censurar o uso de calculadoras antigamente. Nós precisamos saber usar o celular, controlar o seu uso. Tem gente que diz: "Ah, mas eles vão falar no whatsapp". Vão sim, mas se não for pelo celular, poderão falar com o colega ao lado. Ou ainda, poderão pensar em outro assunto, durante a aula. Não podemos controlar isso, ele pode pensar o que quiser. Enfim, acho que devemos aprender a usar isso a nosso favor e o Coltec é um ambiente propício para isso. Isso depende do grupo de professores que está atuando. A qualidade do ensino de Matemática do Colégio sempre dependeu de quem deu aula aqui. Quando o grupo é bom, é entrosado, começa a fazer coisas diferentes. Essa é uma característica que temos aqui. Mas quando eu entrei, as pessoas do setor não se davam, era todo mundo separado, brigado, mal conversavam. Depois, muito em função da Tânia, que é uma pessoa agregadora, todo mundo foi ficando unido, trabalhando juntos, de forma cooperativa. Nos momentos em que conseguimos nos unir, a gente fez coisas novas. Acredito que a inovação depende muito de termos um grupo bacana, que consegue discutir. A Paula e a Kelly, por exemplo, que atuam no primeiro ano, podem fazer muitas coisas diferentes, porque elas se dão bem, interagem, conseguem ter ideias juntas, trabalhar juntas. Os momentos de grandes saltos que tivemos aqui na Matemática foi quando conseguimos nos unir. Às vezes, as pessoas até dizem que foi eu que fiz, mas não é verdade. Eu agreguei, fiz com a ajuda de um monte de gente, aprendi com alguém, não inventei nada. O que eu fazia era adaptar e discutir com as pessoas que estavam trabalhando comigo, incluindo algo. E não interessava se era um professor efetivo ou substituto, eu sempre tentava incorporar as coisas, aprender com a pessoa. Então eu acho que isso que faz a diferença. Desde que alguns docentes do setor, que eram brigados, aposentaram, a gente nunca teve problema de ambiente aqui na Matemática. Diferente de outros lugares. Tem setor aqui que necessita de ata nas reuniões. Nós sempre nos falamos, com duas ou três palavras todos se entendem, funciona bem. Mesmo tendo concepções diferentes. Eu e a Maria José, por exemplo, temos pontos de vista, em relação ao ensino, completamente diferentes e nunca tivemos problemas. Em outro momento, atuavam juntos Jed, Maria do Carmo, Tânia e Serjão. Eles também formavam um núcleo, trabalhavam com o mesmo material, mesmas ideias, isso 481 ajudava. O Abdala eu acho que não se integrava a esse grupo. Aparentemente, a Maria do Carmo, com a influência do Reginaldo, liderava as ações. Mas todos participavam intensamente. A Tânia mesmo estava sempre produzindo, pensando junto. Ela não tinha uma formação acadêmica avançada, creio que concluiu até a Especialização, mas ela estudava, recebia indicações de leitura da Maria do Carmo. Talvez, por não ter essa formação mais sólida em Educação Matemática, ela se posicionasse mais como colaboradora e não como sujeito. Inclusive, quando restou apenas ela desse grupo de professores, e ela ficou sozinha aqui comigo e o Chicão, ela passou a ter mais poder, quis fazer mais. Sempre no espírito de mãezona, trazendo todos para trabalharem juntos. Isso era bom. Como eu ingressei no Coltec em 1992, o convênio do Colégio com a Inglaterra, que auxiliou na criação da escola, já havia se encerrado. O Jed, por exemplo, é um cara que foi para a Inglaterra e recebeu influência dos ingleses, dessa formação inicial do Colégio Técnico. Tal como ele, outros professores também foram influenciados. Mas depois de encerrado o convênio, eu não tenho notícias deles terem ido para a Inglaterra, trabalhar com o pessoal que esteve aqui. A impressão que eu tenho é que eles nunca mais tiveram relação com os britânicos. No Setor de Matemática, talvez o Jed saiba dizer se houve interferência dos ingleses. Para mim, a maior influência que nós recebemos foi do grupo da Maria do Carmo e do Reginaldo. Não sei dizer, por exemplo, se na época que os ingleses vieram já eram adotadas as Instruções Programadas no Colégio. Esse método foi proposto pelos americanos, mas deu muito certo na Inglaterra. O material da Matemática a que eu tive acesso sempre foi produzido por esse grupo e pelos professores do setor. O Jed é a melhor pessoa para te falar a respeito. Na minha percepção, foi o curso de pós-Graduação da Unicamp, que foi o primeiro em Educação Matemática no Brasil, que influenciou os professores daqui. Eu sei informar que alguns materiais foram herdados dos ingleses. Algumas mobílias que compunham a casa deles ficaram no Colégio, quando foi desfeito o convênio. Tem algumas cadeiras na minha sala, a mesa de reuniões da nossa sala 322, aquela bibliotequinha (armário de livros) sobraram depois que os ingleses foram embora. A impressão que eu tenho, quando converso com os antigos do Coltec, é que os ingleses tinham ido embora e acabou: "Agora vocês se viram". Mas para o Jed, por exemplo, pode ter havido influência. Ele era professor do Colégio há pouco tempo, foi para a Inglaterra, fez curso, entrou na escola no tempo em que os ingleses estavam aqui, então deve ter sido influenciado. 482 O currículo é outra importante característica trazida pelos ingleses. Os alunos, no começo do primeiro ano, tinham a disciplina Técnicas Gerais de Laboratório - TGL, que incluía técnicas de laboratório de Física, técnicas de laboratório de Química, eles aprendiam a trabalhar em laboratórios. Aprendiam a medir e pesar. Estudavam sobre segurança de laboratório, marcenaria, hialotécnica. Isso era herança dos ingleses, porque isso é usual na Inglaterra. Quando eu entrei no Coltec eu questionei: "Por que tem isso?". Eles me responderam: "Porque os ingleses trouxeram, a gente acha interessante e foi ficando". A disciplina TGL funcionava, ela moldava o aluno para o uso de laboratórios. Ela perdurou por muito tempo, até a reforma curricular, se não me engano. Período em que passa a ter o curso de nível médio, não técnico, aí tiraram TGL do primeiro ano. Talvez um pouco antes, não me recordo. Aí, hialotécnica e madeira se tornam uma única disciplina. Ou seja, o fato de termos marcenaria e oficina de vidros na escola até hoje é influência dos ingleses. E isso ficou de herança para o pessoal mais antigo da escola, que acreditava que todos os alunos tinham que passar por esses laboratórios, pois as habilidades manuais são importantes para desenvolver o sujeito, e não só as atividades intelectuais. Lá na Inglaterra são oferecidos cursos de culinária, corte e costura, inclusive. Enfim, isso veio direto dos ingleses, não tem nada a ver com a lógica brasileira de escola. 483 APÊNDICE G - CARTAS DE CESSÃO DE DIREITOS 484 485 486 487 ANEXOS 488 ANEXO I - CÓPIA DO CONVÊNIO PARA A CRIAÇÃO E IMPLANTAÇÃO DO COLÉGIO TÉCNICO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS - Fonte: Materiais do Setor de Matemática 489 490 491 492 ANEXO II - CARTA DO PROFESSOR GLEDSOM COUTINHO, PRIMEIRO DIRETOR DO COLTEC, DIRIGIDA AO ENTÃO REITOR DA UFMG, PROFESSOR CELSO DE VASCONCELLOS PINHEIRO, DATADA DE 18 DE ABRIL DE 1978. Fonte: Documentos conservados por Antônio Cícero. 493 494 495 496 497 498 499 500 501 ANEXO III - CURRÍCULOS DOS CURSOS TÉCNICOS INSTALADOS NO COLTEC. Fonte: Documentos conservados por Antônio Cícero. 502 503 504 ANEXO IV - EXAME DE SELEÇÃO DO COLTEC - Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 505 506 507 508 509 510 511 512 513 514 515 ANEXO V - OFÍCIO Nº 016/68 - Fonte: "Trabalho Memória do Coltec". 516 ANEXO VI - PROJETO: UMA TENTATIVA PARA DINAMIZAR A INSTRUMENTAÇÃO PARA O ENSINO DE MATEMÁTICA - 1978 - Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 517 518 519 520 521 522 523 524 525 526 527 528 ANEXO VII - RECORTES DE JORNAIS 1. Correio da Manhã, Sábado, 28 de outubro de 1967. Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. 529 2. Jornal do Brasil, domingo, 9 e segunda-feria, 10 de novembro de 1969. Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. 530 3. Jornal do Brasil, 17 de novembro de 1969 Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. 531 532 4. Jornal do Brasil, terça-feira, 07 de dezembro de 1969. Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. 533 5. Jornal do Brasil, 15 de dezembro de 1969 Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. 534 6. Jornal do Brasil, 17 de dezembro de 1969 - Capa. Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. 535 7. Jornal do Brasil, terça-feira, 01 de dezembro de 1970 Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. Obs.: Um recorte desse jornal também foi encontrado nos documentos guardados por Antônio Cícero. Continha a fonte anotada à tinta: "J.B. 01-12". 536 8- Diário da Tarde, Terça-feira, 01 de dezembro de 1970, p. 6. Fonte: Fonte: Biblioteca Estadual Luis de Bessa 537 9 -Diário de Minas, Belo Horizonte, 01 de dezembro de 1970. Fonte: Documentos guardados por Antônio Cícero. 538 10- Jornal Estado de Minas, 02 de dezembro de 1970, p. 7. Fonte: Biblioteca Estadual Luis de Bessa 539 11- Recorte de jornal guardado nos documentos conservados por Antônio Cícero. Não continha fonte. Entretanto, trata-se da mesma matéria divulgado, pelo Estado de Minas, no dia 02 de dezembro de 1970, p. 7. 540 12- Diário da Tarde, Quinta-feira, 03 de dezembro de 1970, p.8. Fonte: Biblioteca Estadual Luis de Bessa 541 542 13. Diário de Notícias, Domingo, 14 de fevereiro de 1971, p.7. Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. 543 14. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 06 de junho de 1974. Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. 544 15. Jornal do Brasil, 19 de maio de 1974. Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. 545 546 16. Tribuna do Leste, 05 de outubro de 1979, p. 5 Fonte: Hemeroteca Nacional Digital. 547 17- Recorte de jornal guardado nos documentos conservados por Antônio Cícero. Não trazia fonte. 548 18- Recorte de jornal disponível no Arquivo Permanente do Colégio Técnico. Jornal O Globo, em agosto de 1973. 549 550 551 ANEXO VIII - INFORMAÇÕES GERIAS PARA OS ALUNOS SOBRE O COLÉGIO TÉCNICO (16/03/1971) - Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 552 553 554 ANEXO IX - CARTA DO REITOR MARCELLO V. COELHO AO CONSULTOR BRITÂNICO FRANK H. TAYLOR (15/10/1970) - Fonte: "Trabalho Memória do Coltec". 555 556 ANEXO X - REGIMENTO DO COLÉGIO TÉCNICO (1985) - Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 557 558 559 560 561 562 563 564 565 566 567 568 569 570 571 572 ANEXO XI: PROSPECTO DO COLÉGIO TÉCNICO (1972/1973) - Fonte: Arquivo Inativo do Coltec. 573 574 575 576 577 578 579 580 581 582 583 584 585 586 ANEXO XII: ATAS DAS REUNIÕES DO CONSELHO UNIVERSITÁRIO E DA COORDENAÇÃO DE ENSINO E PESQUISA (CEP) DA UFMG (Disponilizados pela coordenação da Secretaria dos Órgãos de Deliberação Superior - SODS). - CONSELHO UNIVERSITÁRIO 30/06/1967 587 588 - CONSELHO UNIVERSITÁRIO 30/10/1967 589 - COORDENAÇÃO DE ENSINO E PESQUISA-CEP 19/11/1969 590 - COORDENAÇÃO DE ENSINO E PESQUISA-CEP 06/02/1970 591 ANEXO XIII: ESBOÇO DO GUIA DO ALUNO (1996/1997) - Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 592 ANEXO XIV: INFORMAÇÕES GERAIS SOBRE O COLÉGIO TÉCNICO DA UFMG (1971). Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 593 594 595 596 597 598 599 600 601 602 603 604 605 606 ANEXO XV: PROJETO AME - ATIVIDADES MATEMÁTICAS QUE EDUCAM (1989). Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 607 608 609 610 611 612 613 614 615 616 617 618 619 620 621 622 623 624 625 626 ANEXO XVI: ESTATUTO DO GRÊMIO ESTUDANTIL DO COLTEC - Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 627 628 629 630 ANEXO XVII: PLANEJAMENTO DO DEPARTAMENTO DE MATEMÁTICA (1969) - Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 631 632 633 634 635 ANEXO XVIII: ORGANIZAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE MATEMÁTICA - Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 636 637 638 ANEXO XIX: PROGRAMA DO DEPARTAMENT DE MATEMÁTICA - 1969 - Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 639 640 641 642 ANEXO XX: PLANO DE CURSO PARA 1ª SÉRIE (MATEMÁTICA) - 1970 - Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 643 644 645 646 ANEXO XXI: PLANO DE CURSO PARA 2ª SÉRIE (MATEMÁTICA) - 1970 - Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 647 648 649 650 651 ANEXO XXII: PROGRAMA DE MATEMÁTICA DO COLTEC - 1972 - Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 652 653 654 655 656 657 658 ANEXO XXIII: PROGRAMA DE MATEMÁTICA 1986 659 660 661 662 663 664 665 ANEXO XXIV: DOCUMENTOS DO PROCESSO SELETIVO DA PROFESSORA CONSUELO MARIA VIEIRA GARCIA PARA INGRESSO NO COLTEC 666 667 668 669 670 ANEXO XXV: RELATÓRIO ANUAL DE ATIVIDADES DOCENTES DO COLTEC - 1989. Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 671 ANEXO XXVI: RELATÓRIO ANUAL DO SETOR DE MATEMÁTICA - 1990 - Fonte: Materiais do Setor de Matemática. 672 673 674 675 676 677 678 679 680 ANEXO XXVII: RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO CENTRO PEDAGÓGICO - 1984. Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 681 682 683 684 685 686 687 688 689 690 691 ANEXO XXVIII: RELAÇÃO DOS LIVROS COMPRADOS PELA VERBA DO CONVÊNIO CNPq. Fonte: Arquivo inativo do Coltec. - 1973 692 693 694 ANEXO XXIX: RESOLUÇÃO 01/86 - ESTABELECE NORMAS DE ESTÁGIO DO COLÉGIO TÉCNICO DA UFMG - Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 695 696 ANEXO XXX: CARTA AO DIRETOR DA ESCOLA DE VETERINÁRIA - 1971 - Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 697 ANEXO XXXI: RECORTES DO RELATÓRIO ANUAL DE ATIVIDADES DOCENTES - FRANCISCO DE ASSIS BATISTA (1996) - Fonte: Arquivo inativo do Coltec. 698 699 700 701 702 703 704 705 706 ANEXO XXXII: CLUBE DE MATEMÁTICA - Fonte: Arquivo inativo do Coltec.