UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS SANDRO MARCIO DRUMOND ALVES MARENGO VARIAÇÕES TERMINOLÓGICAS E DIACRONIA: ESTUDO LÉXICO-SOCIAL DE DOCUMENTOS MANUSCRITOS MILITARES DOS SÉCULOS XVIII E XIX Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG 2016 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS SANDRO MARCIO DRUMOND ALVES MARENGO VARIAÇÕES TERMINOLÓGICAS E DIACRONIA: ESTUDO LÉXICO-SOCIAL DE DOCUMENTOS MANUSCRITOS MILITARES DOS SÉCULOS XVIII E XIX Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito para a obtenção de título de Doutor em Estudos Linguísticos. Área de Concentração: Linguística Teórica e Descritiva. Linha de Pesquisa: 1A – Estudo da Variação e Mudança Linguística. Orientador: Prof. Dr. César Nardelli Cambraia (UFMG) Co-orientadora: Profa. Dra. Raquel Meister Ko Freitag (UFS) Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG 2016 Ficha catalográfica elaborada pelos Bibliotecários da Biblioteca FALE/UFMG Marengo, Sandro Marcío Drumond Alves. A474v Variações terminológicas e diacronia [manuscrito] : estudo léxico-social de documentos manuscritos militares dos séculos XVIII e XIX / Sandro Marcio Drumond Alves. – 2016. 508 f., enc. : il.,grafs (color), tabs (p&b). Orientador: César Nardelli Cambraia. Coorientadora: Raquel Meister Ko Freitag. Área de concentração: Linguística Teórica e Descritiva. Linha de Pesquisa: Estudo da Variação e Mudança Linguística. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras. Bibliografia: f. 495-508. 1. Língua portuguesa – Variação – Portugal – Teses. 2. Linguagem e cultura – Teses. 3. Sociolinguística – Teses. 4. Linguística histórica – Teses. 5. Língua portuguesa – Conversação e frases (para militares, etc.) – Teses. I. Cambraia, César Nardelli. II. Freitag, R.M.K. III. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Letras. IV. Título. CDD: 469.798 Dedico esta Tese de Doutorado ao Professor Doutor Mario Eduardo Martelotta (in memoriam), que foi meu primeiro professor de Linguística, meu chefe no Departamento de Linguística e Filologia da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e quem muito me incentivou a seguir nesse caminho. AGRADECIMENTOS O primeiro (e o mais especial) de todos os agradecimentos que deve constar nesse trabalho é o dirigido ao meu orientador César Nardelli Cambraia. Não há palavras (ou termos) que consigam representar por escrito o tamanho da gratidão e admiração que tenho. Antonio Machado, poeta espanhol do início do século passado, diz em um de seus versos mais famosos “Caminante, no hay camino/ se hace camino al andar”. Não caminhei sozinho ao longo desse tempo e meu caminho já construído (e o que continuarei construindo) tem muito de você. Deixo registrada a admiração que tenho pelo César Nardelli pessoa e pelo César Nardelli profissional. Meu muito obrigado por tudo, meu eterno Virgílio. “Tu se' lo mio maestro e 'l mio autore; tu se' solo colui da cu' io tolsi lo bello stilo che m'ha fatto onore.” La Commedia, Dante Alighieri, l’Inferno, Canto I, 85-87. À minha co-orientadora, Raquel Meister Ko Freitag, pelas prontas respostas às minhas indagações, pela disponibilidade de ouvir meus lamentos, pela paciência e pelos preciosos ensinamentos para a Tese e para a sobrevivência na Academia. Aos Professores Doutores Aderlande Ferraz, Ieda Maria Alves, Enilde Faulstich e Cândida Seabra pelas sábias palavras no exame de qualificação (e também fora dele) e pelas preciosas e importantes indicações que transformaram as minhas ideias flutuantes em material organizado e concreto. À Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (FBN-RJ), em especial aos funcionários do setor de manuscritos, pela atenção, cordialidade e hospitalidade com que me trataram no longo período em que realizei as edições. Agradeço a presteza na microfilmagem dos manuscritos e a permissão para fazer as fotos de alguns fólios. Ao Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, e seus funcionários pela gentileza, atenção e disponibilidade com que me receberam e me ajudaram nas inúmeras leituras sobre a história militar de Portugal e, em especial, sobre o Conde de Lippe e a Casa de Alorna. A todos os colegas do grupo de pesquisa de “Crítica Textual” da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em especial: Ceila Ferreira, Alicia Duhá e Manoel Mourivaldo, pelo apoio, pelas conversas e pelos ensinamentos. Aos amigos da Universidade Federal de Sergipe: Lêda Correa, Denise Porto e Antônio Ponciano, sempre dispostos a me ouvir e sempre atenciosos quando precisei. Aos meus pais, irmã e avós, a quem devo toda atenção, incentivo, carinho, apoio e investimento para que eu pudesse cursar o Doutorado em Belo Horizonte. Sem família nada somos. Muchas Gracias. Grazie Mille. ʤבר ʤʣʥת. Ao sempre presente e maior incentivador, Marcos Marengo, a quem também não tenho palavras para expressar toda a dedicação, abnegação, incentivo, apoio, amor e paciência por entender minhas ausências durante o Doutorado e por não me deixar esmorecer quando o desânimo, por várias vezes, tomava conta de mim. Te amo para sempre! ~ Sonnet XVIII ~ Shall I compare thee to a summer's day? Thou art more lovely and more temperate: Rough winds do shake the darling buds of May, And summer's lease hath all too short a date: Sometime too hot the eye of heaven shines, And often is his gold complexion dimmed, And every fair from fair sometime declines, By chance, or nature's changing course untrimmed: But thy eternal summer shall not fade, Nor lose possession of that fair thou ow'st, Nor shall death brag thou wander'st in his shade, When in eternal lines to time thou grow'st, So long as men can breathe, or eyes can see, So long lives this, and this gives life to thee. William Shakespeare Aos amigos sempre fiéis Luiz Eduardo Oliveira, Cláudio Corrêa, Valéria Simplício, Mônica Góis, Valéria Jane Loureiro, Vanessa Nunes e Alessandra Corrêa que sempre estiveram do meu lado para me incentivar a concluir a Tese. A vocês, que sempre me cobraram coragem e força de vontade para enfrentar as adversidades e superar os obstáculos da vida e da profissão, minha profunda gratidão. Aos meus amigos, irmãos do meu coração, André Faria, Braulino Santana e Tatiana Pequeno, que compartilharam meus sonhos, minhas angústias, minhas alegrias e minhas indecisões ao longo da escrita da Tese. Aos amigos Iago Machado, Carlos Augusto Vieira e Alexandro Cajé pelo apoio incondicional, pela ajuda na revisão do glossário (momento desesperador!!) e pela confiança que sempre depositaram em mim. Aos amigos-irmãos queridos que fiz em Belo Horizonte: Maria Olivia Saraiva, Cynthia Vilaça, Alan Mansoldo e Daniel Uirapuru Guaraci (in memoriam) pelas longas conversas de cunho pessoal e acadêmico, pelas trocas incomensuráveis de conhecimento e por sempre me abrirem o coração e as portas de casa durante minhas inúmeras viagens a Minas Gerais. À Maria Angélica Navarro de Andrade, por ter me transmitido o amor à Filologia e ter me incentivado a buscar novos caminhos fora da UFRJ. À Neuza Gonçalves, minha mãe em Aracaju, por ter me acolhido como um filho. Graças a seus cuidados, conselhos, puxões de orelha e, principalmente, torcida, carinho e incentivos, consegui ter forças para terminar a Tese. À minha querida amiga Ana Cristina Comandulli pelo companheirismo e ajuda na intermediação com Vanda Anastácio, com quem tanto aprendi sobre a Casa de Alorna e sua documentação remanescente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. A todos os meus ex e atuais orientandos de Iniciação Científica, Iniciação à Extensão, Iniciação à Docência e pós-graduação lato sensu por sempre me darem motivos para não esmorecer e seguir em frente. Ao Exército brasileiro, pela minha formação, pelas oportunidades e pelos ensinamentos que trago comigo desde a época em que era aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro. A todos aqueles que contribuíram direta ou indiretamente para a realização da Tese. MARENGO, Sandro Marcío Drumond Alves. Variações terminológicas e diacronia: Estudo léxico-social de documentos manuscritos militares dos séculos XVIII e XIX. 2016. 780 pp. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016. RESUMO Esta Tese de Doutorado apresenta uma análise diacrônica da terminologia militar constante em dois documentos manuscritos, em língua portuguesa, dos séculos XVIII e XIX. Está composta de cinco capítulos. O primeiro referente à História Militar setecentista e oitocentista de Portugal (MARTINS, 1945; SELVAGEM, 1999), com a finalidade de introduzir os momentos históricos em que nossos corpora estão situados. No segundo capítulo apresentamos a fundamentação teórica, momento em que apresentamos as teorias de base que regeram a nossa investigação. Apresentamos um panorama histórico dos estudos terminológicos (KRIEGER; FINATTO, 2004), discutimos sobre a conceituação de linguagem de especialidade frente à língua geral (BARROS, 2004) e, por fim, apresentamos as relações entre a socioterminologia variacionista (FAULSTICH, 1999, 2002), a sociolinguística de terceira onda (ECKERT, 2002, 2004) e lexicologia social (MATORÉ, 1974). O capítulo seguinte, referente à metodologia, apresentamos aclarações teóricas sobre a Crítica textual (CAMBRAIA, 2005), seguidas da descrição dos corpora utilizados (dois manuais de tática de infantaria do exército português, pertencentes ao acervo da seção de manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), um breve estudo codicológico das fontes documentais editadas, a justificativa pela escolha do tipo de edição e de glossários, assim como as normas e procedimentos utilizados para a confecção dos mesmos. No quarto capítulo, apresentamos as edições realizadas e seus respectivos glossários terminológicos. No capítulo seguinte, passamos à análise e discussão dos dados, dando tratamento quantitativo e qualitativo, traçando relações entre os fenômenos de variação e mudança com as motivações internas e externas à língua. Encerramos nosso trabalho com as considerações finais sobre o estudo realizado, buscando uma concepção de variação e mudança diacrônica, no âmbito da Terminologia, que relacione língua, história, sociedade e cultura. Palavras-chave: Terminologia, Diacronia, Variação e Mudança, Crítica Textual, Sociolinguística Histórica. MARENGO, Sandro Marcío Drumond Alves. Variaciones terminológicas y diacronía: Estudio léxico-social de documentos manuscritos militares de los siglos XVIII y XIX. 2016. 780 pp. Tesis (Doctorado en Estudios Linguísticos) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016. RESUMEN Esta tesis de doctorado presenta un análisis diacrónico de la terminología militar constante en dos documentos manuscritos, en lengua portuguesa, de los siglos XVIII y XIX. Se compone de cinco capítulos. El primero se refiere a la historia militar de Portugal de los siglos XVIII y XIX (MARTINS, 1945; SELVAGEM, 1999), con el fin de introducir los momentos históricos en los que nuestros corpora están ubicados. En el segundo capítulo se presenta la fundamentación teórica, en la que se presentan las teorías básicas que rigen nuestra investigación. Se presenta un panorama histórico de los estudios de Terminología (KRIEGER; FINATTO, 2004), discutimos el concepto de lenguaje de especialidad frente a la lengua general (BARROS, 2004) y, por último, se presenta la relación entre Socioterminología variacionista (FAULSTICH, 1999, 2002), la tercera onda de la sociolingüística (ECKERT, 2002, 2004) y la lexicología social (MATORÉ, 1974). El siguiente capítulo, se refiere a la metodología, se presentan aclaraciones teóricas sobre la Crítica Textual (CAMBRAIA, 2005), seguidas por la descripción de los corpora utilizados (dos manuales portugueses de tácticas de infantería del Ejército, pertenecientes a la colección de la sección de manuscritos de la Fundación Biblioteca Nacional de Río de Janeiro), un breve estudio codicológico de las fuentes documentales editadas, la justificación de la elección del tipo de edición y glosarios, así como las normas y procedimientos utilizados para su confección. En el cuarto capítulo, se presentan las ediciones realizadas y sus glosarios terminológicos. En el próximo capítulo nos movemos con el análisis y discusión de los datos, dando tratamiento cuantitativo y cualitativo, trazando relaciones entre los fenómenos de la variación y el cambio con las motivaciones internas y externas a la lengua. Terminamos nuestro trabajo con pensamientos finales sobre el estudio, buscando un diseño de la variación y del cambio diacrónico dentro de la terminología, que consiga relacionar lengua, historia, sociedad y cultura. Palabras clave: Terminología, Diacronía, Variación y Cambio, Crítica Textual, Sociolinguística Histórica. MARENGO, Sandro Marcío Drumond Alves. Variations in diachronic Terminology: social lexical study on military handwritten documents from the eighteenth and nineteenth centuries. 2016. 780 pp. Thesis (Ph.D. in Linguistics studies) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016. ABSTRACT This Doctoral Thesis presents a diachronic analysis of the military terminology adopted in two handwritten documents, in the Portuguese language, from the eighteenth and nineteenth centuries. It is composed of five chapters. The first chapter refers to military history of the eighteenth and nineteenth centuries of Portugal (MARTINS, 1945; SELVAGEM, 1999), in order to introduce the historical moments in which our corpora are situated. In the second chapter we present the theoretical basis, which governed our research. We present a historical overview of terminology studies (KRIEGER; FINATTO, 2004), also discuss the concept of specialty language versus the general language (BARROS, 2004) and, finally, we present the relationship between variationist Socioterminology (FAULSTICH, 1999, 2002), the third ware sociolinguistics (ECKERT, 2002, 2004) and social lexicology (MATORÉ, 1974). In the subsequent chapter, referring to the methodology, we present theoretical clarification on the Textual Criticism (CAMBRAIA, 2005), followed by the description of our corpora (two manuals of Portuguese Army Infantry tactics, belonging to the collection of manuscripts section of the Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), a brief codex study on the edited handwritten documents, the rationale for choosing the type of editing and glossaries, as well as the rules and procedures used for making them. In the fourth chapter, we present the performed editions and their respective terminology glossaries. In the following chapter we move to the analysis and discussion of the data, giving quantitative and qualitative treatment, tracing relations between the phenomena of variation and change with the internal and external motivations to the language. We conclude our work with final thoughts on the study, seeking a concept of diachronic variation and change within the scope of Terminology, comprising language, history, society and culture. Keywords: Terminology, Diachronic, variation and change, Textual Criticism, Historical Sociolinguistics. LISTA DE ABREVIATURA E SIGLAS CUN ANTÔNIO GERALDO DA CUNHA FBN-RJ FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO Ls. LINHAS MS. MANUSCRITO NAS ANTENOR NASCENTES TCT TEORIA COMUNICATIVA DA TERMINOLOGIA TGT TEORIA GERAL DA TERMINOLOGIA UTC UNIDADE TERMINOLÓGICA COMPLEXA WST WORDSMITH TOOLS 6.0 LISTA DE FIGURAS FIGURA 01 Extraída de Faulstich (1998c) Pág. 76 FIGURA 02 Extraída de Faulstich (2002, p.76) Pág. 79 LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO 01 Frequência dos termos (campo nocional 01) Pág. 422 GRÁFICO 02 Frequência dos termos (campo nocional 02) Pág. 435 GRÁFICO 03 Frequência dos termos (campo nocional 03) Pág.452 GRÁFICO 04 Frequência Token dos termos (campo nocional 03) Categoria: Infantería/Infantaria Pág.452 GRÁFICO 05 Distribuição de plural em –ões e -oens Pág.456 GRÁFICO 06 Frequência dos termos (campo nocional 03) Categoria: táctica Pág.459 GRÁFICO 07 Frequência de ocorrência das UTC – campo nocional 03 Pág.468 GRÁFICO 08 Termos da categoria Evolução Pág.476 GRÁFICO 09 Frequência de ocorrência de termos (campo nocional 03) Categoria: Evolução Pág. 477 GRÁFICO 10 Formas de plural de Evolução Pág. 479 GRÁFICO 11 Frequência dos termos (campo nocional 04) Pág. 487 GRÁFICO 12 Frequência de Armas e seus hipônimos Pág. 487 LISTA DE QUADROS QUADRO 01 Variantes terminológicas (Faulstich, 2002) Pág. 81 QUADRO 02 Tipos de definições de edições de documentos monotestemunhais (Cambraia, 2005) Pág. 96 QUADRO 03 Campo nocional 01 – Século XVIII Pág. 421 QUADRO 04 Campo nocional 01 – Século XIX Pág. 422 QUADRO 05 Campo nocional 02 – Século XVIII Pág. 431-432 QUADRO 06 Campo nocional 02 – Século XIX Pág. 433-434 QUADRO 07 Variantes concorrentes- campo nocional 02 – século XVIII Pág. 438 QUADRO 08 Variantes concorrentes- campo nocional 02 – século XIX Pág. 439 QUADRO 09 Campo nocional 03 – Século XVIII Pág. 448-449 QUADRO 10 Campo nocional 03 – Século XIX Pág. 450-451 QUADRO 11 Variantes concorrentes- campo nocional 03 – século XVIII Pág. 454 QUADRO 12 Variantes concorrentes- campo nocional 03 – século XIX Pág. 455 QUADRO 13 Variantes concorrentes- campo nocional 03 – século XVIII Pág. 460 QUADRO 14 Variantes concorrentes- campo nocional 03 – século XIX Pág. 461 QUADRO 15 Relações de sinonímia – campo nocional 03 Categoria: táctica (Século XVIII) Pág. 464 QUADRO 16 Comparação da UTC coluna/coluna Pág. 469 QUADRO 17 Definições de coluna/coluna Pág. 470 QUADRO 18 Definições de linha Pág. 472 QUADRO 19 Definições do termo linha diacronicamente Pág. 473 QUADRO 20 Campo nocional 03 – categoria Evolução – Século XVIII Pág. 475 QUADRO 21 Campo nocional 03 – categoria Evolução – Século XIX Pág. 475-476 QUADRO 22 Variantes coocorrentes – Campo nocional 03 – categoria Evolução – Século XVIII Pág. 478 QUADRO 23 Variantes coocorrentes – Campo nocional 03 – categoria Evolução – Século XIX Pág. 479 QUADRO 24 Conceitos de passo Pág. 480 QUADRO 25 Conceitos de marcha Pág.483 QUADRO 26 Campo nocional 04 – Século XVIII Pág. 486 QUADRO 27 Campo nocional 04 – Século XIX Pág. 486 SUMÁRIO Pág. INTRODUÇÃO.......................................................................................................................... 17 CAPÍTULO 1: ASPECTOS HISTÓRICOS: CONTEXTUALIZANDO O ESTUDO....... 20 1.1. História Militar de Portugal do século XVIII ................................................................ 21 1.2. História Militar de Portugal do século XIX.................................................................... 40 CAPÍTULO 2: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA................................................................. 53 2.1. Terminologia.................................................................................................................... 54 2.1.1. Aspectos históricos............................................................................................... 57 2.1.2. Língua(gem) geral e de especialidade.................................................................. 64 2.2. Variação e mudança linguística na Terminologia.......................................................... 67 CAPÍTULO 3:METODOLOGIA............................................................................................ 83 3.1. Corpus.............................................................................................................................. 83 3.1.1. Procedimentos para delimitação e descrição......................................................... 83 3.1.1.1. Instrucções militares que contém os princípios geraes de tactica........... 91 3.1.1.2. Elementos de tactica para a infantaria.................................................... 92 3.1.2. Edição.................................................................................................................... 94 3.1.2.1. Escolha do tipo de edição......................................................................... 94 3.1.2.2. Normas de edição.................................................................................... 99 3.1.3. Glossário................................................................................................................ 103 3.2. Análise diacrônica.......................................................................................................... 131 3.2.1. Classificação dos dados........................................................................................ 131 3.2.2. Comparação dos dados......................................................................................... 132 CAPÍTULO 4: EDIÇÕES E GLOSSÁRIOS ......................................................................... 133 4.1. Instrucções militares que contém os princípios geraes de tactica.................................. 133 4.1.1. Edição Paleográfica................................................................................................ 133 4.1.2. Glossário................................................................................................................ 244 4.2. Elementos de tactica para a infantaria........................................................................... 288 4.2.1. Edição Paleográfica................................................................................................ 288 4.2.2. Glossário................................................................................................................ 380 Pág. CAPÍTULO 5: ANÁLISE E DISCUSSÃO................................................................................ 419 5.1. Campo nocional 01: acessórios de recursos humanos........................................................ 420 5.2. Campo nocional 02: recursos humanos e postos de graduação.......................................... 431 5.3. Campo nocional 03: planejamento de guerra e sua execução............................................. 448 5.4. Campo nocional 04: fortificações e armamentos bélicos.................................................... 486 5.5. Discutindo os resultados..................................................................................................... 489 CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................................... 492 REFERÊNCIAS........................................................................................................................... 495 17 INTRODUÇÃO A presente Tese de Doutorado apresenta como proposta a edição paleográfica, formulação de glossário e estudo léxico-social em caráter diacrônico da terminologia militar constante em dois manuais de Tática para Infantaria, manuscritos em língua portuguesa, dos séculos XVIII e XIX. Para a realização da nossa pesquisa partimos de algumas perguntas que, originalmente, compuseram e nortearam a nossa problematização. São elas: a) Quais os tipos de variante aparecem, sincronicamente e diacronicamente, na terminologia militar, de extrema precisão para a guerra e para os combates?; b) Como seria possível organizar sistematicamente essa terminologia para a realização dos glossários dos manuscritos que tomamos como corpora?; c) Quais são as influências de outras línguas presentes no léxico militar delimitado e de que modo poderia ser explicado o grau de intensidade de influência destas?; d) Quais as contribuições podem nos trazer a explicação dos fenômenos de variação e mudança sob uma perspectiva sociolinguística (ECKERT, 2004) que também esteja alinhada com os estudos da Lexicologia Social (MATORÉ, 1974) e da Socioterminologia Variacionista (FAULSTICH, 2002)?; e, por último, e) Quais seriam as motivações para as variações e mudanças na terminologia militar? Nosso trabalho está norteado pelos seguintes objetivos: a) Realizar uma edição paleográfica dos manuais de Tática militar para a Infantaria e seus respectivos glossários; b) Analisar sincrônica e diacronicamente a articulação existente entre linguagem, história e grupos sociais; e c) Estudar o comportamento lexical da terminologia militar em diacronia. Para a concretização dos intuitos maiores, temos, portanto, objetivos específicos, a saber: aplicar o modelo de análise da Socioterminologia Variacionista à análise das variantes e identificar, sistematizar e buscar as motivações dos fenômenos de variação e mudança extraídos dos nossos corpora. 18 Para melhor organização progressiva das informações, dividimos nossa Tese em cinco capítulos. O primeiro, intitulado “aspectos históricos: contextualizando o estudo”, se dedica à exposição de dois momentos históricos de Portugal: o século XVIII e o XIX. Nosso objetivo nesse capítulo é o de apresentar os aspectos mais importantes da história de Portugal (militar, social, política) que sejam relevantes para o entendimento da época em que foram escritos os manuais que compõem os nossos corpora. No capítulo seguinte, nos dedicamos à fundamentação teórica, momento em que abordaremos as considerações teóricas importantes para o entendimento da nossa proposta. Apresentaremos algumas questões importantes sobre a Terminologia, como definições pertinentes, seu objetivo e objeto de estudo, assim como perspectivas metodológicas de trabalho na área. Em seguida, faremos um panorama histórico da disciplina para localizar espacial e temporalmente em que ponto se encontra os avanços científicos dessa área. Em seguida, exporemos de modo sumário uma discussão sobre a dicotomia linguagem de especialidade vs língua comum e, por último, entraremos em questões relativas à variação e mudança sob a perspectiva da socioterminologia variacionista de Faulstich (FAULSTICH, 2002) e sua aproximação teórico-prática com as propostas da sociolinguística variacionista de terceira onda (ECKERT, 2004) e com as ideias da lexicologia social (MATORÉ, 1974), com vistas a obter maior clareza da relação entre linguagem de especialidade, história, cultura e sociedade. No terceiro capítulo, referente à metodologia, apresentaremos as informações sobre os corpora, como os critérios para sua seleção e delimitação, além das indicações pontuais e sistemáticas sobre o método utilizado para a realização e concretização das edições e do glossário. Além disso, aclararemos como vamos proceder à análise dos dados. O capítulo quarto dessa Tese comportará as edições paleográficas realizadas e seus respectivos glossários. 19 O capítulo cinco do nosso trabalho será dedicado à tarefa de analisar e discutir os dados gerados em cada momento temporal e, depois, confrontá-los. Nesse apartado colocaremos em prática a aplicação do constructo da socioterminologia variacionista de Faulstich e estabeleceremos um diálogo com a lexicologia social e com a sociolinguística de terceira onda. Além de trabalhar com a classificação das categorias das variantes terminológicas, buscaremos as motivações intra e extralinguísticas para subsidiar o entendimento da ação das variáveis. Nossa discussão será de cunho qualitativo e quantitativo. Após a análise e discussão dos dados, apresentaremos a parte em que tecemos as nossas considerações finais sobre a pesquisa, seguida das referências utilizadas para a confecção desse trabalho. 20 CAPÍTULO 1 ASPECTOS HISTÓRICOS: CONTEXTUALIZANDO O ESTUDO Nosso estudo engloba dois momentos históricos de Portugal: os séculos XVIII e XIX. Não é nosso interesse recontar ou esgotar todos os fatos históricos de viés militar, social, econômico ou político que compõem os períodos estudados. Assim, nosso intuito é o de apresentar os aspectos mais importantes que sejam relevantes para o entendimento da época em que foram escritos os manuais que compõem os nossos corpora. Além disso, a contextualização temporal para o nosso estudo é de suma importância uma vez que o próprio movimento sociohistórico funciona como uma das motivações para as mudanças linguísticas. Nesse sentido, sendo coerentes com as propostas que estabelecemos para a realização desse trabalho, partilhamos da concepção de que “no que toca a ideia de língua, se concebemos o objeto dos estudos da linguagem como as estruturas produzidas, então nos interessará principalmente o eixo temporal em que se movimentam as alterações nas estruturas – esse, em geral, um movimento gradual.” (PAIXÃO DE SOUSA, 2006, p. 43). Logo, a constituição de um capítulo que se refere aos aspectos históricos com vistas a contextualizar o nosso estudo se faz necessária já que “[...] nos estudos da língua sob a dinâmica do tempo, a temporalidade integra a esfera das preocupações teóricas da reflexão linguística.” (PAIXÃO DE SOUSA, 2006, p.28) . Embora não nos detenhamos especificamente na história puramente social, o nosso foco na história militar não descarta em hipótese alguma o entendimento da história portuguesa como um todo, já que “ao estudar-se a evolução da organização militar e do Exército, torna-se mais inteligível a evolução da própria sociedade” (MARQUES, 1999, p. 14). 21 Sendo assim, para dar conta da temporalidade necessária para o entendimento da variação e mudança dos termos militares, dividimos esse capítulo em duas seções: uma que aborda Portugal no século XVIII e outra que se detém no século XIX. 1.1. História Militar de Portugal no Século XVIII Podemos afirmar que, no final do século XVII e no início do século XVIII, foi preponderante a influência das forças militares francesas de Luís XIV em toda Europa1. Apesar de nosso intuito ser tratar da história militar de Portugal do século XVIII, essa breve digressão ao final do século XVII e, sobretudo, do exército francês, faz-se necessária porque os modelos de organização que se apresentam nas tropas militares portuguesas oitocentistas estão baseados nos preceitos franceses desenvolvidos durante a 4ª fase das Campanhas de Restauração da independência portuguesa (1660-1668)2. A transição do século XVII para o século XVIII, período cujo assentamento de exércitos permanentes se faz necessário por serem “instrumentos da vontade real e fiadores dos compromissos diplomáticos das nações” (SELVAGEM, 1999, p. 454), apresentou inovações no que se refere às Artes Militares. É justamente nesse espaço temporal que podemos destacar três nomes importantes para a organização militar francesa: Michel Le Tellier, Sébastien Le Prestre e Henri de la Tour d'Auvergne. Michel Le Tellier3, ministro da guerra de Luís XIV, também conhecido como Marquês de Louvois, foi o responsável pela notável e reconhecida organização e administração do exército francês. Uma das medidas mais importantes estabelecida por Le 1 Essa mesma afirmação encontramos em obras que contemplam a História Militar de Portugal, tais como as de LATINO COELHO (1893), MARTINS (1945) e SELVAGEM (1999). 2 As Campanhas de Restauração da independência foram travadas entre Espanha e Portugal, que vivia desde o ano de 1580 sob a dinastia espanhola da coroa dos Habsburgo. Essas guerras terminaram com a extinção da monarquia dualista da dinastia filipina e, por meio do tratado de Lisboa (1668) reconheceram a independência de Portugal. 3 Nesse trabalho estamos nos referindo a Michel Le Tellier filho. O Marquês de Louvois teve o mesmo nome do pai e também foi Ministro da Guerra de Luís XIV. O filho sucedeu o pai no título nobiliárquico e também no ofício de Secretário de Estado da Guerra na França. 22 Tellier foi a reforma da promoção dos oficiais dentro do Exército. Estabeleceu que a ascensão na hierarquia militar deveria ser realizada em função dos méritos do militar e não somente em razão dos títulos nobiliárquicos que a família do combatente possuía. Esta decisão, certamente, não agradou a aristocracia francesa. Além disso, o Marquês de Louvois unificou e melhorou as técnicas de uso dos armamentos como também investiu na construção de quartéis e depósitos militares. Também foi Louvois quem instituiu as milícias provinciais que constituíram, pela primeira vez na história militar francesa, o esboço de um exército nacional permanente. Designamos por esboço, pois, de acordo com SELVAGEM (1999), O exército não era de todo permanente, pois se licenciava em grande parte ao terminar a guerra. Também não era nacional por se compor de muitos corpos mercenários (suíços, escoceses, polacos, húngaros, etc, que deram os primeiros hussares); não era propriamente real, por muitas companhias serem administradas e pagas pelos capitães que as constituíam; finalmente não era regular, por falta de unidade, uniformidade e disciplina. (SELVAGEM, 1999, p. 434) Também é conveniente mencionar que foi Louvois o responsável pelo pagamento do soldo dos militares com regularidade. Assim, traçamos algumas medidas de Le Tellier que fizeram com que o exército francês se destacasse frente a outros exércitos europeus na época. Outra figura de grande destaque foi o engenheiro militar de fortificações Sébastien Le Prestre, que possuía o título de marquês de Vauban. Segundo MARTINS (1945), coube a Le Prestre expor a Louvois a necessidade da criação de um regimento de engenharia ou, pelo menos, companhias de sapadores nos regimentos permanentes. Apesar de não ter conseguido o seu intento como desejado, Vauban convenceu o ministro da guerra de Luís XIV a criar o corpo de engenheiros militares4. Além desse feito, Le Prestre foi o inventor 4 O corpo de engenheiros militares era constituído por técnicos (engenheiros e arquitetos), mas não tinha tropas próprias. 23 da baioneta de alvado5 e seu grande reconhecimento mundial deu-se por ter sido o responsável pela adoção do sistema de fortificação e novas técnicas de ataque e defesa de praças baseadas nos princípios da engenharia. O segredo na sua arte de fortificar consistiu em adaptar judiciosamente ao terreno um conjunto de princípios essenciais na fortificação; e semelhantemente, o seu método rigoroso de conduzir os cercos resultou da obediência a certos princípios de ataque que, aplicados “não com a rigidez de um teórico, mas com a maleabilidade de espírito de um verdadeiro capitão, sabendo que na guerra não há duas acções que possam conduzir-se da mesma forma” – diz o General Weygand- deram a Vauban a vitória em mais de 50 cercos que dirigiu. (MARTINS, 1945, p. 171) A partir dos feitos introduzidos por Vauban no exército francês, muitos exércitos europeus assumiram essas inovações, o que fez com que a França se tornasse um grande modelo a ser seguido. As contribuições de Le Tellier e Le Prestre foram importantes, mas coube a Henri de la Tour d'Auvergne, o visconde de Turenne, apresentar as inovações que dariam ao exército francês notoriedade mundial no que se refere à tática militar em combate. Turenne foi responsável pelo desenvolvimento e implementação dos conceitos de manobra e de batalha no âmbito da guerra. MARTINS (1945) afirma que d’Auvergne inspirou-se nas concepções militares da escola sueca. Apesar de ter sido o grande nome no desenvolvimento da tática e suas inovações, no que se refere ao campo da estratégia ele não foi muito além do que já era posto em prática na época. Com Turenne, a infantaria francesa passou a ser constituída por Regimentos de dois batalhões, cada um desses com composição de 10 a 16 companhias. É importante ressaltar que, nessa época6, o batalhão é também a unidade tática de Arma de cavalaria. Já o conceito de esquadrão está diretamente ligado às companhias de piqueiros, soldados que 5 A baioneta de alvado é aquela que se adapta exteriormente à boca do cano da espingarda de modo que o fogo não seja prejudicado. Difere-se da baioneta primitiva, que era encaixada na boca do armamento fazendo com que o fogo fosse inutilizado, sendo a espingarda usada somente como arma branca. Com a baioneta de alvado, o armamento desempenhava, simultaneamente, o papel do antigo pique e do mosquete. (MARTINS, 1945, p. 171) 6 Estamos nos referindo à época das guerras de restauração da independência, na segunda metade do século XVII. 24 manejam o pique – um tipo de lança com comprimento de 03 a 06 metros, e arcabuzeiros, militares que usavam o arcabuz - um tubo de ferro, montado sobre uma caixa de madeira com culatra.7 Também se deve ao Visconde de Turenne a criação da Brigada, tanto na infantaria quanto na cavalaria. As novas propostas também modernizaram o armamento da cavalaria, estabeleceram a proporção da artilharia em quatro canhões para cada mil homens, substituíram os mosquetes de morrão8 pela espingarda de pederneira9 e mudaram a ordem de batalha de quatro para duas linhas. Outras propostas poderiam ser elencadas, no entanto, não nos cabe nesse trabalho enumerar exaustivamente todas elas. A apresentação dessas inovações executadas no exército francês é importante, uma vez que todas elas também serão aplicadas no seio do exército português durante a Guerra de Restauração. O responsável por incorporar, em Portugal, os princípios acima expostos, da chamada Escola Francesa de Turenne, foi o General Schonberg, alemão de nascimento, que foi contratado pela Coroa Portuguesa para atuar como comandante das tropas lusitanas na última fase da guerra de restauração10. Schonberg, que veio acompanhado de mais 7 Estas observações sobre os conceitos de batalhão e esquadrão são necessárias uma vez que, no século XVIII, essas ideias sofrem mudança: o batalhão passa a ser unidade de infantaria e o esquadrão passa a ser unidade própria dos regimentos de cavalaria. Essa mudança se deve à extinção do conceito de terços, oriundos da militaria espanhola. 8 A arma de fogo possuía um cabo de cânhamo embebido em solução de salitre, que queimava ao ritmo de oito a dez polegadas por hora. Como observamos na figura abaixo: 9 Neste tipo de arma de fogo, no momento em que se disparava o gatilho, um pedaço de sílex bate contra o batente de aço (chamado fuzil) e soltava faíscas que inflamavam a escorva. Como podemos observar na figura abaixo: 10 A Guerra de restauração terminou em 1668, com a assinatura do tratado de paz de Lisboa entre Portugal e Espanha. Por esse tratado, a Espanha reconhece a Restauração da independência de Portugal. 25 seiscentos oficiais franceses, passou a atuar no comando das linhas de batalha portuguesa e como havia aprendido nas campanhas de Turenne a ciência militar, as colocou em prática no exército português. Schomberg aproveitou-o em organizar, disciplinar e instruir à moderna as tropas portuguesas. As innovações foram principalmente de natureza tática, pois foi então que se regulamentaram as marchas de costado (ainda quase desconhecidas em Portugal), as novas formações de batalha adoptadas por Turenne e os estacionamentos em formação de batalha, o que produzia grande economia de tempo e a máxima protecção, tanto para as deslocações de grandes efectivos como para as manobras em frente do inimigo, pois que até aí as deslocações faziam-se em linha de batalha, cujos inconvenientes são fáceis de prever. (SELVAGEM, 1999, p. 438) As novidades militares incorporadas no final do Portugal setecentista serão de grande valia uma vez que esta nação começará o século XVIII também envolvida em guerra e, mais uma vez, contra a Espanha. Trata-se da Guerra de Sucessão espanhola, que teve início no século XVIII e tardou, aproximadamente, treze anos para findar. A Guerra de Sucessão Espanhola foi travada em torno de dois nomes para a sucessão da coroa espanhola após a morte do rei Carlos II, que não deixou herdeiros diretos. Em seu testamento, o rei falecido deixa a sucessão de seu trono a Felipe de Bourbon, Duque de Anjou, neto e futuro herdeiro da Coroa de Luís XIV na França. SELVAGEM (1999) afirma que a subida ao trono do futuro herdeiro da França fez com que outras potências da época, como Áustria, Inglaterra, Holanda, Suécia, Dinamarca e a grande maioria dos principados alemães, rechaçassem a vontade testamental do rei Carlos II e impusessem pelas armas a candidatura do arquiduque Carlos de Áustria ao trono espanhol. Essas nações temiam que, no futuro, a Espanha e a França pudessem se unir em uma só coroa e, por consequência, o poder gerado pela união dessas duas potências pudesse acarretar o desequilíbrio político da Europa. Nesse cenário, Portugal, por meio de seu rei D. Pedro II, apoia a coligação rival à Espanha e reconhece o arquiduque Carlos como pretendente austríaco ao trono espanhol. 26 Assim sendo, vemos um Portugal militar que, ainda organizado inicialmente com matizes da França, será amplamente influenciado pela Inglaterra. Dessa forma, no ano de 1707, em plena guerra de sucessão, são promulgadas em Portugal as Novas Ordenanças, ainda tomando como modelo o exército francês, com vistas a tentar organizar de modo mais adequado as ações e a estruturação de um possível exército permanente. No ano seguinte, em 1708, outras Ordenações foram publicadas de modo a complementar aquelas de 1707. Nessas estão expressamente previstas a regulação do exército, tanto em campanha quanto em aquartelamento, o que configura uma grande inovação na organização do exército português. Segundo MARTINS (1945), de acordo com essas Ordenações, o regimento de infantaria estava composto de 12 (doze) companhias (incluindo a de granadeiros) comandadas por Capitães e o Regimento como um todo era comandado por um Coronel. Além disso, estabelecia-se o Estado Maior do comandante do Regimento, composto por 01 (um) tenente-coronel, 01 (um) sargento-mor de batalha, 02 (dois) Ajudantes e 01 (um) Cirurgião. O conceito de Brigada foi incluído nesses dispositivos legais e predizia que uma Brigada se formava por 02 (dois) Regimentos e estava sob o comando de 01 (um) Brigadeiro. Outra novidade trazida pelas novas Ordenações foi a criação dos serviços de intendência. É importante mencionar também que foi por meio desses documentos que se regularam os vencimentos a serem pagos às tropas. Outras ordenações também foram publicadas em 1709 e 1710, no entanto não traziam maiores inovações. Vale ressaltar que, historicamente, tiveram sua importância, pois um subconjunto de 42 (quarenta e dois) artigos publicados anteriormente nessas ordenações constituiu o esboço do código da justiça militar naquele estado nacional. SELVAGEM (1999) ainda agrega que 27 A tática adoptada foi, com ligeiras alterações, a francesa. Depois, outras reformas úteis, imitadas da França, se introduziram nos nossos costumes militares. Proibiu-se a venda de postos militares, bem como a sua troca entre os oficiais de linha e os oficiais das Ordenanças ou dos terços auxiliares, ficando só autorizado entre oficiais de linha da mesma arma e graduação. Aos postos de tenente, alferes, aos graduados inferiores (sargento, furriel e cabos) foi exigida alguma instrução (ler e escrever pelo menos). Aboliu-se a faculdade de os capitães das companhias nomearem os seus subalternos, e o antigo uso do alistamento e organização de tropas, a soldo de particulares, foi restringido por várias cláusulas proibitivas. (SELVAGEM, 1999, p. 466) Durante as várias campanhas empreendidas na guerra de sucessão, o exército português continuou contratando estrangeiros para atuarem em suas filas. Apesar das publicações das ordenações, o que se verificava, na prática, era um exército despreparado, desorganizado, mal instruído e repleto de estrangeiros. Em outras palavras, as Ordenações, em termos práticos de batalha, não alteraram qualitativamente o exército português fragmentado que havia no século XVII. As várias batalhas do início da guerra de sucessão espanhola tinham como palco o norte da Itália e o sul da França. Em seguida, os campos de batalhas foram transferidos para a Espanha. Nessa transferência, várias cidades portuguesas que limitavam geograficamente com a Espanha foram tomadas pelas tropas franco-hispânicas. Dessa forma, podemos verificar que, apesar de Portugal não ter interesse direto nesse conflito ( e tampouco foi quem o iniciou), foi o país que mais teve que se envolver e o que mais teve prejuízos. Ao longo do conflito, o rei de Portugal, D. Pedro II, faleceu e seu filho, D. João V, assumiu o trono e o comando da guerra. A desordem, o despreparo e o crescente número de estrangeiros no exército português eram muito mais visíveis durante seu reinado. D. João V, obstinado, por puro capricho de monarca orgulhoso, ordenou então o levantamento de mais tropas, consentindo, apesar os seus escrúpulos religiosos, na corporação de muitos oficiais protestantes, ingleses e franceses, pela falta de bons oficiais portugueses, sobretudo na cavalaria. (SELVAGEM, 1999, p. 466) Apesar de todos os pontos negativos apresentados anteriormente, é unânime nos manuais de história militar portuguesa que os soldados portugueses, mesmo despreparados, 28 eram incansáveis nas batalhas e na vontade de defender suas fronteiras. Essa postura era completamente diferente dos demais estrangeiros incorporados nas tropas lusitanas11. Em 1712, morre o irmão do arquiduque Carlos e, consequentemente, esse é nomeado Imperador da Áustria, desistindo, assim, do trono espanhol. A partir desse fato, Inglaterra, França e Espanha negociam a paz entre eles, reconhecendo Felipe D’Anjou como rei legítimo da Espanha, passando a ser intitulado rei Felipe V. Para equilibrar o acordo, Felipe V renuncia à sua condição de herdeiro do trono da França. No entanto, Portugal não foi convidado a participar do tratado de paz, prosseguindo a guerra com a Espanha e a França. Com a retirada das tropas inglesas e dos demais aliados, Portugal ficou só na guerra, piorando ainda mais a sua situação, tanto militar quanto econômica. Não havendo mais solução depois de ter sido abandonada à própria sorte pelos aliados, Portugal começa as fazer negociações de paz. De facto, em 1712, as vitórias de Filipe V, a ruína econômica e financeira do país, a odiosa atitude da Inglaterra e o esfriamento dos aliados pela causa do pretendente austríaco (que fôra chamado ao trono da Áustria, por morte de seu irmão, o imperador José) inclinaram D. João V a negociar a paz separadamente com os burbónicos. (SELVAGEM, 1999, p. 463) Para por fim à guerra, foi assinado um conjunto de tratados. Em 1712, Portugal firmou a paz com a Espanha. Em 1713, selava a paz com a França. Em 1715, ratificou a paz com a Espanha. Esses tratados foram assinados na cidade de Utrecht, nas províncias unidas dos Países Baixos. Como resultado final da guerra de Sucessão, as nações que mais perderam com essa guerra foram a França de Luís XIV e Portugal de D. João V. Como nos afirma SELVAGEM (1999), 11 Sobre esse ponto, por exemplo, podemos apontar o episódio da campanha da Catalunha, em que, frente ao poderio do exército francês, os soldados de cavalaria ingleses, incorporados nas fileiras do exército português, decidiram, no momento de avançar em batalha, retirar suas tropas por não acreditar na vitória e deixaram desguarnecida a infantaria portuguesa. 29 Em última análise, sob o ponto de vista nacional, a única vantagem séria dessa campanha para os portugueses foi a afirmação enérgica, feita perante a Espanha com armas na mão, de que Portugal era de facto uma potência europeia, vistas as coisas à luz da mentalidade política do século. As experiências de 1580 e 1661 não poderiam tornar a repetir-se. (SELVAGEM, 1999, p.463) MARTINS (1945, p.176) ratifica essa ideia ao expor que “Portugal mostrara ao mundo que iam já bem distantes os seus maus dias de 1580 e que, com o valor do seu exército, podia orgulhar-se de contar no número das potências europeias do século XVIII”. Após a guerra de sucessão, nenhum dos países da península ibérica tinha condições de entrar em novo confronto armado. Após esse conflito, ficou óbvio para o rei de Portugal que os assuntos militares do reino não poderiam ser descuidados e que a manutenção de um exército permanente era uma necessidade imediata12. Ainda que a ideia do rei fosse a de não descuidar do exército, o que verificamos historicamente é que houve um lapso de 17 (dezessete) anos para que alguma medida fosse tomada em favor das tropas de terra portuguesas13. Certamente, esse tempo de esquecimento pode ter sido motivado pelo desvio das ações militares, sempre com êxito, de Portugal fora da península, como na Índia e na África, por exemplo. Porém, não é nosso intuito nessa Tese tratar dessas questões (ou de suas motivações) com profundidade. Segundo MARTINS (1945), somente no ano de 1732, encontramos novidades incorporadas no exército português. Foi nesse ano que uma nova ordenança dispôs que cada regimento de infantaria deveria possuir uma companhia de engenheiros de profissão. Já no ano de 1735, outra mudança ocorreu na formação do exército em Portugal: criou-se o batalhão, composto de um efetivo de 600 (seiscentos) homens, como unidade tática da 12 A preocupação do rei está baseada nas palavras do tratadista italiano Nicolau Maquiavel em sua obra, O Príncipe, várias vezes citada nos manuais de história militar consultados para esse trabalho. Maquiavel, no capítulo XIII de sua obra, defende a criação de um exército próprio, uma vez que “sem possuir armas próprias, nenhum principado está seguro” (MAQUIAVEL, 1972, p.21), sendo as tropas auxiliares muito instáveis e as de mercenários, facilmente corrompidas – como vimos ao longo da história do exército português-, devendo, então, o exército nacional ser integrado por seus próprios cidadãos. 13 Convém citar que, apesar de o exército não ter tido investimento durante esse espaço de tempo, especial atenção em termos militares se faz à Marinha de Guerra entre 1715-1730. 30 infantaria. Desse modo, o regimento passa a ser constituído por 02 (dois) batalhões, comandados por um Coronel e um Tenente-coronel, respectivamente. Medidas sobre os armamentos também foram tomadas nessas legislações. Os fuzis de mecha ou pederneira eram as armas das companhias de fuzileiros e as granadas de mão eram as armas das companhias de granadeiros. O que imaginamos a partir de todas as ordenações publicadas no reinado de D. João V é que ele teve uma participação importante que impulsionou o exército naquela época. Apesar de ser fato inegável, verifica-se, historicamente, que muitos dispositivos legais não saíram da letra da lei e jamais se tornaram realidade concreta, fazendo com que não fossem plenamente eficazes as ações dos regulamentos. Como já havíamos aventado, em operações militares fora da península, Portugal obteve êxito e houve um investimento maior nas tropas. Dentro de seu território, contudo, o exército apresenta-se em decadência. Foi somente a partir da segunda metade do século XVIII, com a subida ao trono de D. José I, em 1750, que esse quadro seria transformado graças às ações do Primeiro Ministro de seu governo: Sebastião José de Carvalho e Melo, o primeiro Conde de Oeiras e futuro Marquês de Pombal. Ao terminar a primeira metade do XVIII século pode affirmar-se que o exército era apenas uma força nominal. [...] Quando o rei D. José succede no governo, e comea a presidir aos negócios da guerra o infatigável Sebastião de Carvalho, com algumas escassas prevenções acode o novo ministro a congregar as dispersas relíquias do exército portuguez. (LATINO COELHO, 1893, tomo III, p. 57) Para Pombal, mesmo sendo “homem civil e pouco affeito a lidas militares” (LATINO COELHO, 1893, p.59), era necessária uma tentativa de consolidação do exército sucateado durante o tempo de paz, uma vez que esse era muito custoso financeiramente à Coroa portuguesa e não apresentava nenhum tipo de serventia imediata. Inicialmente, pelo 31 decreto de 12 de janeiro de 1754, o primeiro ministro obrigou os oficiais e soldados do exército a retornarem a seus aquartelamentos e assumirem seus postos militares14, reduziu os quadros de infantaria15, ordenou que as tropas fossem exercitadas em manobras simuladas para se aperfeiçoarem na prática de seus ofícios e diminuiu o número de militares dos batalhões16. Contudo, no ano de 1755, Portugal sofre com um novo evento: o grande terremoto. Foi nesse momento que efetivamente se averiguou a incapacidade e despreparo do exército. A urgência de acudir à segurança e polícia da capital na occasião do terremoto fizera conhecer a que deplorável situação eram chegadas as tropas em Portugal. A tremenda catastrophe exerceu uma como acção reflexa na energia ministerial para que buscasse restituir o exercito a uma forma regular e prestadia. (LATINO COELHO, 1893, tomo III, pp. 57-58) Segundo MARTINS (1945), o despertar para assuntos militares de modo mais contundente e sério só ocorreu definitivamente por volta de 1761, porque Portugal se viu em iminência de sofrer uma nova invasão territorial por parte da Espanha por conta dos conflitos iniciais da chamada Guerra dos sete anos17. Como tanto a França quanto a Espanha estavam sob o reinado da dinastia dos Bourbons, ambos assinaram um pacto de proteção mútua de seus territórios nessa guerra. Esse foi denominado pacto de família. Portugal foi excluído dessa negociação por conta do seu histórico de apoio à Inglaterra na Guerra de Sucessão18, ainda que D. José I fosse casado com Mariana Vitória de Bourbon, 14 Durante o período de paz, tanto oficiais quanto soldados abandonaram suas funções dentro dos quartéis, também esquecidos pelo rei, e foram trabalhar em funções civis. 15 Dada a pouca probabilidade de o país entrar em guerra, o quadro foi reduzido para conter os gastos desnecessários da Coroa. 16 Nas reformas joaninas, o batalhão estava composto de 50 soldados, não contando nesse número os oficiais. Já Pombal, reduziu esse quantitativo para 30 militares, incluindo os oficiais. 17 A Guerra dos Sete Anos foi gerada por conflitos diplomáticos entre a Inglaterra e a França, entre 1756 e 1763. Para fins de aliança e defesa de seus territórios, tanto na Europa quanto no exterior, configurou-se França, Áustria, Saxônia, Rússia, Suécia e Espanha, de um lado, e Inglaterra, Portugal, Prússia e Hanôver, de outro. 18 Os historiadores (LATINO COELHO, 1893; SEPULVEDA, 1916; MARTINS, 1945; SELVAGEM, 1999) também apontam que Portugal foi deixado de fora do pacto pelos desentendimentos constantes que tinha com a Espanha por conta dos seus territórios na América. 32 filha de Felipe V da Espanha. Dessa forma, o receio de Portugal não era infundado19. Então, o estado português, mais uma vez, aliou-se à Inglaterra para não permitir que Espanha e França tentassem invadir seu território com objetivo de atacar a coligação inimiga. Então, em 1762, Espanha e França invadem o norte de Portugal para alcançar os portos do atlântico. Dessa maneira, Portugal declara guerra a esses estados nacionais com fundamento na violação de fronteiras. De acordo com MARTINS (1945), uma vez que o governo português já esperava por esta invasão, começou a tomar medidas de caráter militar, relativamente profícuas. A saber: [...] para ocorrer à anárquica ausência de uniformidade na tática de cada arma e na maneira de executar o manejo e as evoluções, “sintoma principal de que um exército periclita por íntimos achaques na sua disciplina e eficácia militar”, tinha sido tornada obrigatória (Novembro, 1761) a completa uniformidade na ordenança. Foram criados os distintivos, no uniforme, dos diferentes postos dos oficiais. Deu-se nova organização ao estado-maior general: os mestres de campo generais passaram a ser tenentes-generais, os sargentos mores de batalha passaram a marechais de campo, e criou-se o marechal dos exércitos como suprema dignidade militar. Assegurou-se a regularidade de pagamentos, para evitar que os soldados estendessem a mão à caridade pública “não só nas ruas como também nos postos de sentinela”. (MARTINS, 1945, p. 181) Além das medidas mencionadas, soma-se o fato de que houve, por parte da Coroa portuguesa, autorização para aumentar o número de soldados nas unidades de infantaria, cavalaria e artilharia. Tenta-se, uma vez mais, uma reorganização e uniformidade do exército português debilitado e despreparado. Apesar do aumento do efetivo para o combate, Portugal recorre, novamente, a uma prática nociva recorrente em sua história militar: a contratação de batalhões estrangeiros, principalmente de suíços. 19 O maior fundamento se assentava na posição estratégica de Portugal, que favorecia a esquadra de guerra inglesa. Assim sendo, uma invasão do território português pela França e Espanha para impedir que a Inglaterra tivesse acesso aos portos do Atlântico era, praticamente, uma certeza imediata. 33 No entanto, verificou-se que, como em todas as outras ocasiões passadas, ao invés de ajudar, esses batalhões mais atrapalharam, uma vez que, por falta de decoro e verdadeiro sentimento nacional, a corrupção passou a espalhar-se fazendo com que as fileiras portuguesas não tivessem êxito e nem força de combate. Diante dessa crise no seio do exército, Portugal contrata, por indicação da Inglaterra, um general da Prússia, onde se localizava a famosa e renomada escola militar de Frederico II, para tentar ajudar as tropas portuguesas. Esse General se chamava Frederico Guilherme Ernesto de Schaumburg-Lippe, mais conhecido em Portugal como Conde de Lippe. É devido a este conflito que chegará a Portugal o Conde de Lippe, enviado por Inglaterra. Será o principal reorganizador do exército português. Só com substanciais e estruturais reformas, desenhadas e implementadas por um militar competente e com prestígio, é que Pombal consegue revolucionar o exército português, evitando que os oficiais existentes, já estagnados e sem muita vontade de mudança, continuem a adiar o inevitável. (SILVA, 2002, p.74) O Conde de Lippe foi figura importante para reorganização do exército português. Em 1762, durante as várias batalhas contra a invasão da Espanha e da França, verificou-se que o exército de Portugal, segundo MARTINS (1945), apesar de possuir soldados valorosos, era inepto e despreparado, em grande parte por conta de suas tropas sempre improvisadas. Verificava-se que os princípios trazidos a Portugal pela Escola de Turenne, no início do século, estavam em desuso e as ideias do Marechal de Saxe20, apesar de serem consideradas muito boas, não foram integralmente aceitas pelos demais exércitos europeus. A partir de meados do século XVIII, o grande modelo de organização militar passou a ser o da Escola Prussiana de Frederico Guilherme, o rei Sargento. Com sua morte, seu sucessor, Frederico II, o Grande, além de engrandecer mais ainda o organizado exército 20 Militar do exército austríaco, que comprou o posto de coronel no exército da França, onde foi discípulo de Turenne. Ajudou a construir parte do pensamento tático dessa escola. 34 deixado pelo pai, tornou seus princípios de organização e desenvolvimento o grande modelo a que muitas milícias europeias se fizeram adeptas. Foi o Conde de Lippe o responsável pela introdução dessas inovações no exército português. Ideias como a mudança no fogo da infantaria, a valorização do uso das baionetas nas campanhas e a criação de uma ordem profunda21 em contraposição à ordem linear foram alguns legados que podemos citar. A ação do Conde de Lippe foi muito importante para que Portugal, já desgastado com uma sucessão de batalhas, saísse da guerra contra o exército franco-hispânico. Findada a guerra de 1762, o primeiro ministro português não quis descuidar novamente do problema militar de Portugal e aproveitou a permanência do Conde de Lippe em território nacional para promover reformas no dispositivo que seriam benéficas às tropas e ao país. Seu objetivo era promover uma política de organização e regulamentações dos exércitos, de fato, por meio dos pilares da disciplina e instrução das tropas. Em 1762, o Conde de Lippe publica Instruções gerais relativas a várias partes essenciais do serviço diário. As novas regulamentações de 1763, também encabeçadas pelo Conde, estavam centradas nos princípios de Frederico II, o Grande. Além de trazer as inovações bélicas ao exército português, a publicação das instruções gerais fez com que Schaumburg-Lippe inaugurasse um Portugal militar baseado em modelos de instruções específicas e de modo escrito para a reorganização das tropas. Assim, com a política adotada por Pombal e com o auxílio do Conde de Lippe, vemos aflorar as publicações dos primeiros manuais militares escritos em Portugal. É pela década de 60 do século XVIII que também se publica um dos manuais que compõe os corpora desse trabalho. 21 É importante mencionar que pensar os dispositivos adequados diante da generalização das armas de fogo e refletir acerca da organização militar europeia do século XVIII foi tarefa de alguns importantes militares. A interpretação das estratégias e táticas de guerra do Conde de Lippe (e também seu conceito de ordem profunda) foi fortemente influenciada pelas ideias de Mesnil-Durand. (WASINSKI, 2012) 35 Em 1763, também surge o regulamento disciplinar baseado na severa disciplina instruída por Frederico II e esta foi copiada por todos os exércitos europeus. Segundo MARTINS (1945), esse regulamento tinha como objetivo estimular por emulação o brio militar, conceito então crescente naquele momento e que estava vinculado não só à constituição de um sentimento nacional, mas à construção de uma identidade portuguesa. Convém lembrar que as forças anteriormente formadas em Portugal eram caracterizadas pela falta de conduto e caráter, sobretudo, porque o exército era composto mais de estrangeiros do que efetivamente de portugueses. Também no ano de 1763 são realizadas as primeiras manobras militares em Portugal, primeiro no campo da Ajuda, depois do campo de Monte Branco. Os exercícios de manobra, também empreitadas do Conde, foram importantes porque colocou o exército em constante preparação para, se necessário, futuros empreendimentos bélicos. Dessa maneira, “foram, pois, instalados em Portugal campos de manobras em Vila Viçosa, na Moita e em Palmela, onde se realizaram depois, perante o Marquês e a Família Real, as primeiras manobras regulamentares que em Portugal se fizeram” (SELVAGEM, 1999, p.481). Os oficias do exército eram instruídos obrigatoriamente no Real Colégio dos Nobres (depois nomeado Escola Politécnica de Lisboa). Essa instrução passou a ser importante principalmente para a engenharia e a artilharia militar. Outro fato importante a ser agregado foi o de que, segundo SELVAGEM (1999, p.481), “a instrução geral dos quadros foi facilitada pela instalação de bibliotecas militares em cada guarnição”. O próprio Conde de Lippe é quem indicava as obras que deveriam compor o acervo dessas bibliotecas. 36 Em 1764 são promulgadas as últimas ordenanças em que se estabelecem a uniformidade dos fardamentos do exército e os procedimentos de desenvolvimento da Artilharia. [...] o conde de Lippe conseguiu dar ao exercito a solidez e a apparencia de uma força regular, estimular nos officiaes o amor da profissão, levantar a dignidade abatida e o respeito do uniforme, restaurar a disciplina, promover a instrucção, e insufflar no soldado portuguez o espirito militar, sem o qual um exercito, tendo somente por euphemismo esta honorifica designação, é apenas uma congerie de homens disfarçados na enganosa apparencia do armamento e do uniforme. (LATINO COELHO, 1893, p.77) Dessa forma, verificamos que a constituição de um verdadeiro exército permanente em Portugal só se fez entre 1762 e 1764. Após promover essa série de reformulações no exército português, o Conde retorna à Prússia, sua terra natal. No ano de 1767, Schaumburg-Lippe retorna a Portugal, a convite dos Reis e do Marquês de Pombal, para presenciar e avaliar os exercícios de manobra. Após verificar pouca eficácia nos exercícios, o Conde propôs à Coroa portuguesa que fosse feito um rodízio de revistas anuais a fim de que se aumentasse a eficácia do treinamento militar. Além disso, como afirma MARTINS (1945), propôs novas formações de infantaria para combater a cavalaria de tropas inimigas. As benfeitorias realizadas na Força militar de terra de Portugal não se mantiveram por muito tempo. A partir de 1775, o exército volta a entrar em declínio por conta de uma grave crise econômica que assolou o país. Reduzidas por economia as promoções dos oficiais, não só faltava a estes o estímulo para bem servirem como ia diminuindo o seu número: contratou o marquês oficiais do estrangeiro, com dobrado soldo. Os recrutas faltavam nos regimentos, porque os soldados andavam já de novo mal pagos, mal alimentados, mal fardados: recorreu-se à violência para os recrutar, pela forma mais arbitrária e até por vezes cruel. (MARTINS, 1945, p. 193) Novamente os vícios e problemas anteriores que impediam a consolidação da Força terrestre voltaram a existir. O Marquês de Pombal, diante do problema instaurado e vendo- se em nova iminência de problemas diplomáticos com a Espanha por conta dos territórios 37 no continente americano, pede ajuda ao Conde de Lippe. Porém, este não voltou a Portugal por conta de problemas pessoais, mas sugeriu que um novo comandante para as Forças militares fosse escolhido no seio do próprio exército português e não mais contratado no estrangeiro, como era historicamente de praxe. Frederico Guilherme Ernesto de Schaumburg-Lippe faleceu em setembro de 1777. Nesse mesmo ano morreu o rei D. José I e, por conseguinte, o prestígio e o poder dado ao Marquês de Pombal também entraram em declínio. Na linha sucessória, subiu ao trono D. Maria I, filha mais velha de D. José I. A política exterior da nova rainha, diferente da concepção dos reis absolutistas anteriores, era a de evitar a guerra. É importante marcar que este momento histórico estava marcado pela luta crescente entre a nascente democracia, por meio de ideias republicanas, e os rígidos preceitos dos governos absolutistas. Esse dualismo afetou bastante o Portugal oitocentista em seus anos finais, principalmente por meio de três grandes acontecimentos que tomaram corpo fora da península: (1) Os constantes embates na América com as tropas da Coroa espanhola, o que acarretou a assinatura de um tratado para que se regulasse a divisão e os limites geográficos das terras pertencentes a cada uma das Coroas ibéricas ao sul do continente americano e, consequentemente, se diminuísse a possibilidade de começarem um novo conflito armado; (2) a Revolução de Goa, afetando o poderio português na Índia; e (3) a inconfidência mineira no Brasil. Todos esses fatos foram impulsionados fortemente pelos ecos das manifestações que eclodiam na França. Dentro desse contexto, estava claro que o governo precisava das forças militares para conter as sublevações populares e as ideias de democracia. Dessa feita, novas medidas urgentes foram tomadas de modo a gerar certa valorização das Forças Armadas, tais como: redução do tempo de serviço militar, aumento dos soldos dos oficiais e concessão de 38 vantagens aos corpos de tropa. Apesar dos esforços empreendidos para agradar os militares, as medidas de D. Maria I foram ineficazes para o exército português. Êste acto de justiça, prestado por um crítico contemporâneo a alguns homens eminentes do longo e convulso reinado de D. Maria I, ajuda a compreender que, se desde a queda de Pombal o exército português foi decaindo sempre até à ruína total, as responsabilidades foram menos dos dirigentes e dos próprios factores nacionais que das complexas causas exteriores, que vieram, com as convulsões da Revolução Francesa, abalar toda vida do País. (SELVAGEM, 1995, p. 483) Após a Revolução Francesa, em 1789, a Europa se viu na iminência de ser invadida pelo exército de Napoleão Bonaparte, que já havia vencido, inclusive, a grande potência militar de referência europeia: a Prússia. Assim, as potências militares da época – Inglaterra, Áustria, Prússia e Espanha – se coaligaram para declarar guerra à França. Portugal, com sua posição estratégica de saída por mar, não poderia deixar de envolver-se. No entanto, o exército português encontrava-se, novamente, sucateado, como o era antes da época pombalina. Dessa feita, como não tinha condições autônomas no momento, foi incluída como na coligação como exército auxiliar da Coroa Espanhola contra o exército napoleônico. Participou da Campanha de Roussilon, da Campanha da Catalunha e, mais tarde, da campanha de Puig-Cerdá. Durante essas campanhas, a situação do exército hispano-lusitano não era das melhores. SELVAGEM (1999) explica bem as consequências dessa aliança com a Espanha. As consequências dessa desastrosa campanha, em que apenas se salvara a honra militar da nação, foram funestíssimas para Portugal. A França, já governada por um Directório, considerando Portugal nação beligerante e vencida, impôs as mais brutais exigências para subscrever um tratado de paz. E a Espanha, nossa aliada da véspera, a Espanha que nos levara à guerra, a Espanha, única responsável pela derrota, e que depois perfidamente nos abandonara, aliara-se entretanto com a França e, firmando com ela uma liga ofensiva contra Portugal, ameaçava-nos de nos invadir se não cedêssemos às exigências francesas e não entrássemos numa tríplice aliança contra a Inglaterra, que não deixaria de se apossar logo dos nossos domínios de além mar (Brasil, Angola, Ilhas do Atlântico e Índia). (SELVAGEM, 1999, p. 488) Surpreendido com o tratado de paz da Basileia, em que Espanha se aliara à França para invadir a Inglaterra, e deixado de fora deste acordo, Portugal, que historicamente 39 sempre foi aliado da Inglaterra, foi pressionado pela coalisão França-Espanha para que tomasse parte nessa tríplice aliança e assumisse posição contra os ingleses. Nesse momento, Portugal estava sob regência do príncipe D. João, uma vez que sua mãe, a rainha D. Maria I, foi considerada louca. Tentando adiar diplomaticamente22 esta decisão, o príncipe regente acabou por angariar novos problemas. Com o golpe de estado em 09 de novembro de 179923, Napoleão Bonaparte assume o poder e decreta a invasão ao território português. Uma vez mais, para fins de defesa e preparação para a guerra, foram contratados oficiais estrangeiros para comandar as tropas portuguesas. À espera da chegada do exército napoleônico, Portugal terminou o século XVIII em clima de tensão e instabilidade. Assim, podemos concluir que Ficara demonstrado quanto é pouco promettedor de properos sucessos o aventurar-se á guerra offensiva uma nação pequena para servir interesses extrangeiros, sem a mínima sombra de proveito ou galardão. E tornara-se evidente quanto é perigoso pensar na organisação, na disciplina, na instrucção das tropas e na sua administração, sómente quando os feciaes assomam ás fronteiras para intimar o principio de hostilidades provocadas pela imprevidencia dos governos. (LATINO COELHO, 1893, p.529) Resumindo, é possível verificar as muitas influências recebidas pelo exército português ao longo do século XVIII. Apesar de tentativas constantes de uma organização e padronização definitiva da Força terrestre portuguesa, vários fatores, principalmente de cunho político, impediram essa consolidação desejada. É importante notar que, principalmente, nos anos finais dessa centúria, o exército torna-se um baluarte político de outras nações. É justamente como peça nesse jogo de interesses que o Portugal militar começará no século XIX. 22 A indecisão entre aceitar ou não os termos que impunha a França explica-se pela existência de dois partidos em Portugal: um francês de cunho revolucionário liberal e outro inglês, mais conservador e tradicionalista, cujas forças se equilibravam. (SELVAGEM, 1999, p. 489). 23 Esse Golpe é conhecido historicamente como o Golpe do dezoito Brumário. Marca o fim da Revolução Francesa, bem como a ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder. Chama-se assim este evento porque, no calendário revolucionário francês, este dia ocorreu em 18 de brumário do ano IV, ou seja, 09 de novembro de 1799, segundo o calendário gregoriano. 40 1.2. História Militar de Portugal no Século XIX O século XIX em terras portuguesas não começou de modo muito diferente do século XVIII. Como já havíamos comentado, o final oitocentista foi dominado por certa aflição daquele país dada à expansão das consequências da Revolução Francesa24 em toda a Europa e, mais importante, a ascensão do poder político-militar de Napoleão na França. Para termos dimensão do que representava Bonaparte nesse momento, nos diz SELVAGEM (1999) Espírito poderosamente sintético, e cultor brilhante das matemáticas, versado nos clássicos greco-latinos e nas sciências políticas, históricas e geográficas do seu tempo, toda essa cultura decerto influiu para ser chamado a suster a rápida decadência da França republicana, ameaçada então de ruína total pela anarquia das massas, desalento profundo da nação e manifesta impotência administrativa e política do Directório. Mas o que nêle mais fascinara as massas, concorrendo poderosamente para sua rápida ascensão à magistratura suprema, foi sua glória militar, ganha em sucessivas campanhas, graças ao seu incomparável génio estratégico. Foi esse facto o segredo das suas vitórias, porque nem só a sua educação militar na escola de Brienne e o aturado estudo das campanhas dos grandes capitães – sobretudo de Frederico II, cujo sentido profundo lograra penetrar- explicam suficientemente a extraordinária amplitude que deu à arte da guerra. (SELVAGEM, 1999, p.492) Verificamos que o comandante francês teve uma formação de base militar que era referência na Europa em todo o século XVIII. No entanto, não coube a Napoleão somente a reprodução dos modelos que recebeu. Dentro dos parâmetros militares, podemos afirmar que Bonaparte inovou as estratégias de guerra da época imprimindo à teoria seus arquétipos e interpretações pessoais. Essa adaptação do construto teórico à prática vivenciada nos quadros de guerra fez com que ele desconcertasse “todos os velhos generais adversários, educados no convencionalismo abstracto das escolas, atentos à letra e não ao 24 Nesse aspecto comungamos do mesmo sentido que HOBSBAWM (2011, p.97) ao afirmar que “Se a economia do mundo do século XIX foi formada principalmente sob a influência da revolução industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução Francesa”. 41 espírito, aos princípios estabelecidos e não às realidades vivas” (SELVAGEM, 1999, p.492). Assim, “[...] embora na arte da guerra haja princípios científicos invariáveis, é indispensável saber adaptá-los às circunstâncias de momento, que nunca são idênticas.” (MARTINS, 1945, p. 220) Certamente, o olhar militar de Napoleão sobre as estratégias e táticas militares em ambientes de conflitos reais vai gerar uma nova forma de enxergar a guerra, pois “não é lícito separar da França napoleônica a história militar de qualquer nação no século XVIII e no começo do século XIX” (MARTINS, 1945, p.220). É importante lembrar que já no Portugal oitocentista, o Conde de Lippe abre caminho para esta reflexão de adequar a prática ao cerne teórico professado pelas escolas militares da época. No campo da tática militar, coube a Napoleão unificar e sistematizar as inovações criadas pelos batalhões da República francesa. Em termos orgânicos, ainda segundo SELVAGEM (1999), aboliu a escolha de oficiais, que antes era feita pelos próprios soldados, e regulou a promoção dos postos de graduação levando em conta tanto a indicação por escolha dos oficiais devido aos seus méritos militares quanto a antiguidade que possuíam no seio da tropa. Além disso, instituiu, além da promoção, outras honrarias militares, como a criação da Legião de Honra e a conferência de títulos nobiliárquicos e o marechalato. Na constituição e organização das tropas de infantaria, voltou a manter o regimento como uma unidade administrativa constituída de quatro batalhões e um depósito. Cada batalhão era formado por quatro companhias de fuzileiros e duas de élite (formada de granadeiros e atiradores especiais). No entanto, o grande feito de Napoleão Bonaparte no campo da tática foi a criação dos chamados corpos de exército. Inicialmente, esses eram grupos eventuais de divisões. Pouco a pouco, Napoleão passou a utilizá-los como instrumentos regulares em campanhas. Segundo SELVAGEM (1999), esses corpos de exército eram unidades autônomas, em geral comandadas por um Marechal, e estavam 42 compostas de duas ou três divisões de infantaria com interação ativa com todas as demais armas e serviços que compunham o exército. Essa criação permitiu mais mobilidade das tropas, principalmente em campos secundários de operações de campanha. As mudanças promovidas no exército francês acarretaram vitórias nas diversas batalhas nas quais se envolveu desde o final do século XVIII até o início do século XIX25. Essa fortuna militar, principalmente realizada contra os russos e prussianos – modelos de prestígio militar, fez com que as demais nações europeias vissem com preocupação os intentos napoleônicos. Espanha e Portugal eram as que mais tinham motivos para preocupar-se: a primeira pela contiguidade territorial com a França; a segunda pelo histórico de alianças com a Inglaterra, que aparecia nesse cenário como a principal opositora ao exército francês. No caso de Portugal, como afirma OLIVEIRA MARTINS (1977, p. 514), “o medo dos jacobinos era o único sentimento forte dos últimos anos do século passado [XVIII] e do princípio deste [XIX]26”. Tal temor apresentado pelas nações ibéricas não foi infundado, uma vez que antes mesmo da assinatura da Paz de Tilsit27, Napoleão já havia decretado o bloqueio continental (dezembro de 1806) à Inglaterra, que no ano anterior tinha destruído uma frota da marinha hispano-francesa nas batalhas de Trafalgar, na costa espanhola. Esse bloqueio consistia na imposição de que todos os portos europeus fossem fechados aos navios ingleses. Como já era esperado por Napoleão, segundo MARTINS (1945), dado ao seu histórico de relações com a Inglaterra, Portugal não obedeceria ao bloqueio. 25 De acordo com SELVAGEM (1999), LATINO COELHO (1893), HOBSBAWM (2011) e MARTINS (1945), a primeira campanha da Itália (1796-1797), a expedição ao Egito (1798-1799), o golpe de Estado do 18 brumário (1799), a segunda batalha da Itália (1800-1802), as campanhas de Áustria (1805), da Prússia (1806) e da Rússia (1807) podem ser citadas como algumas das mais importantes batalhas em que a França obteve vitória no período mencionado. 26 As anotações entre colchetes são nossas. 27 Em 1807, na cidade prussiana de Tilsit, Napoleão assina a paz que marcará o fim das guerras da França contra a Rússia e a Prússia. Este acordo coloca Napoleão no auge do poder europeu. 43 [...] a política dúbia de Portugal, colocado entre a ameaça de uma invasão francesa, caso não obedecesse ao senhor da Europa, e a ameaça da usurpação das suas colónias pela Inglaterra, senhora dos mares, caso aderisse ao bloqueio continental, anulava praticamente o certeiro golpe de Napoleão. Foi isso que o levou a apressar os seus projectos de conquista na Península. (SELVAGEM, 1999, p. 494) Assim, ainda segundo SELVAGEM (1999), foi a postura de Portugal frente ao acontecimento28 que levou Napoleão a acelerar seus intuitos de conquista da Península Ibérica, firmando em segredo, em 27 de outubro de 1807, o tratado de Fontainebleau com a Coroa espanhola de Carlos IV. Nesse documento, a Espanha se comprometia a ajudar os franceses a conquistar Portugal e, em troca, receberia parte do território lusitano. Por essa época, o exército português se encontrava em estado decadente: homens sem instruções militares, totalmente despreparados para o ofício da guerra, soldos de valor muito baixo e em atraso, tropas sem armamentos e sem fardamento, indisciplina e desmoralização por conta das derrotas nas campanhas do início do século são algumas das situações que podemos apontar como formadoras da decadência do exército de Portugal. Se, sob o ponto de vista pessoal, a situação do exército era precária, quanto ao material as deficiências não eram menos graves. Era ainda o mesmo estado miserável das instituições militares da Nação quando rompeu a campanha de 1801, agravado ainda pelas consequências fatais da campanha anterior, que sob o ponto de vista material quer da disciplina que dela viera gravemente afectada. (MARTINS, 1945, p. 210) Essa situação em que se encontrava Portugal não era nada propícia para que a nação entrasse em guerra, ainda mais contra os exércitos franco-hispânicos de Napoleão Bonaparte. Assim, D. João, o príncipe regente de Portugal, empreende mais uma tentativa de reorganização das tropas no ano de 1806. Algumas medidas tomadas, segundo 28 Apesar de tentar uma neutralidade na guerra político-econômica entre Inglaterra e França, Portugal se inclinou a alinhar-se com a primeira. De acordo com MACEDO (1962, p. 59-60), “o estudo dos portos portugueses permite-nos responder, com toda a segurança, que, apesar das várias intimidações francesas para que Portugal cessasse as comunicações comerciais com a Inglaterra, estas continuaram, quase com a mesma densidade e só com uma interrupção (e não foi total) de meses.” 44 SELVAGEM (1999), para tal fim foram: reorganizar o exército em três divisões compostas de vários regimentos e brigadas, abolir as antigas designações de regimentos por localidades ou de seus comandantes passando a numerá-los, definir novos uniformes para as tropas de linha, milícias e ordenanças, convocar para o alistamento militar novos recrutas e instalar um Conselho Militar para tratar de assuntos específicos das Forças militares portuguesas. Muitas dessas medidas foram tomadas por influência das ideias do Conde de Goltz, general prussiano, contratado pela Coroa portuguesa para assumir o posto de marechal do exército português. Especial atenção devemos fazer à última medida apresentada. O Conselho Militar, constituído por nove generais portugueses e estrangeiros, e presidido pelo ministro da Guerra, D. João de Almeida de Melo e Castro, tinha como atribuição “o exame e deliberação sobre todos os assuntos relativos à constituição do exército, sua disciplina e instrução, na conformidade das indicações contidas numas bem elaboradas Instruções assinadas pelo ministro da Guerra” (MARTINS, 1945, p.211). Chamamos atenção para esta medida pois, ainda segundo o autor supramencionado, é no seio desse Conselho que surge, na tentativa de se construir um grande manual que pudesse servir de modelo para uso nas instruções das tropas, a redação de memórias que deram origem a folhetos que tratam da organização militar, dos comandos das tropas e dos regulamentos das ordenanças. Esses folhetos foram distribuídos entre os oficiais do exército de renomada capacidade para que dessem o seu parecer. Tanto os folhetos quanto os pareceres constituem fontes documentais importantes, uma vez que, como vimos no século XVIII, somente a partir de sua segunda metade é que surgem as instruções ou manuais para uso dos oficiais em comando das tropas. Convém lembrar, também, que esses manuais no Portugal oitocentista, segundo LATINO COELHO (1893), eram em sua grande maioria manuscritos e de uso e circulação secretos e restritos somente a alguns oficiais, uma vez 45 que se temia que as ideias e procedimentos ali contidos caíssem no conhecimento dos inimigos. Já no século XIX observamos alguma mudança, pois o general Forbes, um dos membros do Conselho Militar, “mandou imprimir29 três folhetos tratando da organização, comando das Divisões e regulamentos das ordenanças [...] e fê-los distribuir profusamente (mais de 2000 exemplares) por oficiais do exército” (MARTINS, 1945, p.212). Porém, a partir do ano de 1807, o panorama militar de Portugal sofreu drástica mudança por conta do início das sucessivas invasões dos exércitos napoleônicos. Em outubro desse ano, soldados franceses sob o comando do General Junot, invadiram o território português. Estando o exército lusitano nas condições acima explicitadas, não teria capacidade de enfrentamento. A ajuda que teriam da Inglaterra também não lhes serviria de muita coisa uma vez que, segundo SANTOS (2000, p. 138), “[...] o exército inglês não se encontrava tampouco em melhores condições, sendo formado pela escória da Grã- Bretanha, sem treinamento, sem suprimento, sem motivação e sem oficiais competentes.” A medida que as tropas francesas se aproximavam de Lisboa, e havendo consciência de que não poderiam resistir ao cerco napoleônico, no ano de 1808, a família real parte com sua corte e administração para o Brasil. Quando o general Junot chega a Lisboa, toma o país sem maiores resistências. A conquista de Portugal estava feita sem a menor resistência. Para a consolidar urgia desarmar a Nação. Foi êsse o primeiro cuidado de Junot, licenciando primeiro muitas tropas de linha, dispersando as restantes por várias terras da província, dissolvendo depois as milícias e ordenanças e organizando por fim, com a tropa de linha, um corpo de 7 regimentos de infantaria a 1.600 homens cada, 4 regimentos de cavalaria a 400 homens cada e 1 regimento de artilharia, que, sob a designação de Legião Lusitana, comandada pelo marquês de Alorna, devia ir mais tarde, como foi (em Março de 1808), engrossar em França o exército imperial. (SELVAGEM, 1999, p. 497) Assim, Portugal, sem reis e sem o exército, recaía definitivamente sob o domínio francês. O comando do país passa a ser do general Junot, em nome do imperador francês, 29 O grifo é nosso. 46 que também decretou que o reino lusitano estava anexado a seu Império, como estado vassalo. No entanto, Napoleão queria mais do que o território português de localização estratégica, “queria o resto das forças vivas da nação, e os soldados que foram nobremente combater” (OLIVEIRA MARTINS, 1977, p. 523), concretizando dessa forma a ameaça que havia feito, no final do século XVIII, quando da derrota da esquadra francesa pela esquadra luso-britânica na campanha de Roussilon: “tempo virá que a nação portuguesa pagará com lágrimas de sangue o ultraje que está fazendo à República Francesa”. (MARTINS, 1945, p. 207). Após a tomada de Portugal, não demorou muito para que Napoleão voltasse seus planos de conquistas ao território espanhol. É importante recordar que a França já havia ocupado parte das terras da Espanha sob o pretexto de alcançar Portugal. Depois, a pretexto de estabelecer uma forte linha de comunicações entre Baiona [na Galícia] e o exército de Portugal, Napoleão organizou e fez entrar sucessivamente em Espanha os exércitos de Dupont, Moncey e Murat [todos generais franceses], mais a divisão independente Merle [também general francês] e outras duas de Duhesme [outro general dos exércitos de Napoleão]. Com falsas mostras de amizade [para com a Espanha] ou recorrendo a grosseiros ardis, fez pouco a pouco ocupar as praças de S. Sebastião, Vitória, Pamplona [territórios do norte da Espanha], avançando cada vez mais para o coração de Castela [Madrid]30. (SELVAGEM, 1999, pp. 497-498) Assim, Napoleão colocava em prática o plano de tomar a Espanha. Os intentos do imperador francês pareciam não ter muitos impedimentos, uma vez que a monarquia espanhola da época, a corte do Rei Carlos IV e dos exércitos espanhóis sob o comando do general Godoy, era decadente e estava imersa em escândalos políticos, econômicos e amorosos. Não tardou para que o general Murat, a mando de Napoleão, entrasse em Madrid e desapossasse Carlos IV e seu sucessor, o rei Fernando VII. Em seguida, o imperador francês declarou vago o trono espanhol e nomeou seu irmão José Bonaparte 30 As notas entre colchetes e em itálico são nossas. 47 como rei de Espanha. Não entraremos em detalhes sobre essas questões nesse trabalho, uma vez que nosso foco está em Portugal. Contudo, mencionar esses episódios é de grande importância porque, como o povo espanhol reagirá a essa ação de Napoleão promovendo rebeliões e guerras civis para expulsar os franceses, Portugal também participará desse momento, acudindo a nação vizinha e fazendo florescer os mesmos levantes dentro de seu próprio território. Desse modo, guerras de cunho popular são desencadeadas em toda Península Ibérica contra o domínio francês. Essas guerras de independência apresentaram uma total desarticulação militar, pois as batalhas, como as conheciam os exércitos – principalmente o napoleônico-, sempre se fizeram em um campo determinado, com exércitos delimitados, com objetivos traçados, com aplicação de táticas bem planejadas, com armamentos específicos e com disposições e estratégias bem desenhadas. Em um levante popular, em que o povo se armava como podia e agia como queria com a única finalidade de expulsar os franceses de seu território, de pouco valia o gênio militar de Napoleão. Todo lugar era um potencial campo de batalha, qualquer utensílio era instrumento de guerra nas mãos do povo, qualquer hora é o momento de atacar, qualquer pessoa podia ser um inimigo. Como nos afirma SELVAGEM (1999), No campo tático, em que muitos dos seus generais eram mestres, podia revelar- se, e frequentemente se revelou, a superioridade militar dos franceses; mas, por um lado, as colunas cerradas e o ataque à baioneta, emprego de fogo, favorecido pela extensão das frentes e pelo aproveitamento do terreno, um poderoso rival que lhes dificultava e deminuía (sic) cada vez mais as probabilidades de vitória; e, por outro lado, como as vitórias táticas, por muitas e valiosas que fôssem, não produziam em regra outros frutos que não fossem a estrita ocupação do campo de batalha, era evidente que não valiam o preço e esfôrço que custavam. Desde que os franceses se convenceram disso, a guerra estava perdida para eles [...] (SELVAGEM, 1999, p. 499) Mesmo conhecendo o futuro resultado das várias batalhas que empreenderiam na Península Ibérica, Napoleão não recuou. Entre vitórias e derrotas, o imperador francês, em nome do “orgulho nacional e à honra das suas armas” (SELVAGEM, 1999, p.499), 48 investiu ainda mais na conquista da Espanha e de Portugal, apoiado, principalmente, pelo general Junot, a quem fez rei do território lusitano. Segundo MARTINS (1945), esse momento de revolução ibérica fez com que a Inglaterra voltasse a apoiar Portugal com homens, armamentos e naus. SELVAGEM (1999, p. 503) nos afirma que “de facto, a Inglaterra, que só esperava achar uma brecha aberta no bloco europeu, não quis perder esse ensejo para recomeçar no continente a sua luta implacável contra o Côrso”. Desde o Brasil, o príncipe regente também se pronunciou, incitando os portugueses a imitarem a Espanha e se rebelarem contra a ocupação napoleônica. Uma série de campanhas foi empreendida em nome da libertação portuguesa dos domínios da França, como as batalhas de Coimbra, de Óbidos, da Roliça, de Vimeiro e a tomada de Abrantes. Além do tenente-general inglês Artur Wellesley, grandes nomes portugueses também tiveram destaque nos combates executados, tais como o general Bernardim Freire de Andrade e o tenente-general Sepúlveda. Não se deve esquecer que esses oficiais fazem parte do pequeno grupo das tropas portuguesas que foram mantidas pelo general Junot desde a ocupação de Portugal pelos franceses. Segundo SELVAGEM (1999)31, com a derrota de Junot, Portugal reorganizou-se, tanto nos campos políticos e sociais quanto nos militares. Nesse breve interstício, com a ajuda do chefe do exército inglês, John Moore, vários decretos teriam sido expedidos pelo novo Conselho de Regência nomeado pelo príncipe regente desde o Brasil. Algumas medidas constantes nessas documentações foram: a improvisação de um novo exército de linha, a criação de seis batalhões de caçadores, a fortificação das praças que foram palco das lutas contra os franceses, a reconstituição das milícias e ordenanças do reino e o 31 Essas ideias também estão dispostas em MARTINS (1945) e LATINO COELHO (1893). 49 armamento geral da nação. Além dessas medidas, outro inglês foi nomeado chefe do exército português: o marechal general William Carr Beresford. Beresford e o exército sob o seu comando, tornam-se os agentes da reconstrução da unidade do Estado em torno de uma única fonte de poder, cuja imagem política e formal é a regência, a qual não reflecte de forma nenhuma esse bloco que se havia formado. Para além do mais, o militar inglês agia sem ter em conta as características específicas da formação social portuguesa, onde coexistiam estruturas autocráticas com estruturas de tipo senhorial e municipal bastante fortes, relações sociais de tipo capitalista com relações sociais profundamente pré-capitalistas, marcadas por normas e valores tradicionais. (MARQUES, 1989, p. 117) O novo comandante das tropas portuguesas, além de respeitar as características locais na composição da instituição, contribuiu de modo a reintroduzir no seio da Força tanto a disciplina quanto as inovações táticas que colocaram o exército português “ao nível dos outros exércitos europeus” (SELVAGEM, 1999, p.509). Em operações militares conjuntas de sucesso, Beresford e Wellesley conseguiram retomar Portugal do poderio francês. Os modelos de ações e os sucessos em solo português foram copiados pelos vizinhos espanhóis, que também estavam tentando livrar-se do domínio de Napoleão. A resistência durou até o ano de 1815, quando Napoleão foi derrotado na Batalha de Waterloo e os territórios da península ibérica foram definitivamente libertados do poderio francês. Após a derrota de Bonaparte, “Beresford continuou comandando o exército com a patente de marechal-general e com assento nos conselhos de Regência, onde tomava parte proeminente.” (SELVAGEM, 1999, p.530) No ano seguinte, em 1816, o exército português sofrerá, mais uma vez, uma reorganização que foi motivada pelos problemas de integridade de fronteira ao sul do Brasil. A presença de Beresford também é importante para a história militar brasileira pois, além de ter comandado tropas portuguesas contra a Argentina com o intuito de garantir as fronteiras da região sul do Brasil, ele também foi o responsável por trazer ao novo 50 território de assentamento da corte a organização do exército e a implementação dos primeiros manuais que regeram a tática e a disciplina militar. No entanto, o poder de Beresford e a rígida disciplina com que comandava as tropas passarão a ser alvo de desagrado de grande parte da corporação de origem portuguesa. Entre os anos de 1817 e 1820 surgem muitas insurreições internas no exército português que, por extensão, contaminaram o exército brasileiro que seguia as mesmas diretrizes peninsulares. Muitos historiadores32chamam este período de ditadura militar de Beresford, que imbuído de grande poder pela corte do Rio de Janeiro, agia mesclando os interesses militares, políticos e econômicos. Nesse sentido, não é difícil prever que o alcance de seu poder não estava desagradando somente aos militares portugueses, mas também se alastrou por outras classes como os comerciantes, a burguesia emergente e, principalmente, os políticos portugueses. Muitos são os fatores que agravaram essa situação, além da já citada situação de submissão do exército português ao poderio britânico na figura de Beresford. Entre elas podemos citar: o fim do pacto colonial, que resultou na abertura dos portos portugueses às nações amigas; o privilégio alfandegário britânico, que resultou em uma grave crise do comércio português; e a permanência da corte no Brasil, deixando Portugal sem liderança política e propensa à intervenção de governos estrangeiros. Sobre essa soma de acontecimentos temos o seguinte resumo: Portugal, o velho conquistador das costas de África e Ásia, o colonizador da América, tinha-se tornado, por sua vez, uma colônia do Brasil, onde um governo corrupto, os ministros de D. João VI [...] desperdiçavam loucamente os impostos ou os roubavam[...] Politicamente, éramos colonos dos ingleses. O nosso exército era inglês, com soldados, apenas, nascidos em Portugal. Um general inglês governava-nos por meio de uma Regência servil que se dizia representar em Portugal o rei, fugido no Rio de Janeiro. [...] Era uma miséria universal, e uma certa, infalível mendicidade. [...] O Portugal histórico, a nação que vivera da Índia, depois do Brasil, ninho de mercadores e soldados, escritório de uma vasta fazenda ultramarina, acabava por uma vez, para todo o sempre. (OLIVEIRA MARTINS, 1977, pp. 558-560) 32 Podemos citar MARTINS (1945), MARQUES (1989) e SELVAGEM (1999). 51 Assim, esse descontentamento e sentimento de abandono acarretarão na união de todas as classes (o Clero, a Nobreza, a burguesia e os militares) contra o poderio inglês e culminará, em 1820, em uma série de revoluções liberais de cunho econômico, sócio- político e militar. Cabe recordar que, a partir da chamada geração pós-1815, as revoluções se alastraram. Então, acaba não sendo privilégio somente de Portugal passar por esse momento. As nações europeias, como um todo, são afetadas pela nova conjuntura que se forma com base nos ideais da Revolução Francesa, principalmente os territórios que antes eram colônias de estados europeus. Sobre isso, HOBSBAWM (2011, p. 183) nos afirma que “[...] nunca na história da Europa e poucas vezes em qualquer outro lugar, o revolucionarismo foi tão endêmico, tão geral, tão capaz de se espalhar por propaganda deliberada como por contágio espontâneo.” Durante as décadas de 1820 e 1830, Portugal esteve imersa em vários movimentos internos revolucionários que não diferiam em nada dos movimentos nos quais já estava imerso desde o início do século. Além disso, não podemos deixar de mencionar que, como nos afirmou HOBSBAWM (2011), esses movimentos tiveram um grande poder de irradiação, alcançando, assim, os territórios portugueses fora da península (África, Ásia e América). Portugal, já debilitado internamente, não teve condições de conter a irradiação externa de revoluções que levariam à independência de suas antigas colônias nos continentes já citados. Não nos cabe, no espaço dessa Tese, entrar em detalhes minuciosos sobre as campanhas que ocorreram no espaço-temporal da década de 20. Justificamos essa afirmação porque não há, ao longo desse período, nenhuma reforma profunda de estrutura dentro do seio do exército português (que se encontrava divido entre os portugueses de nascimento contra os estrangeiros que dele faziam parte) e nem decretos ou novos regulamentos que regessem as ações militares nesse momento. Nossa especial atenção se 52 centra em 1829, ano em que surge um novo manual de tática de infantaria para uso das tropas portuguesas. Esse manual, que compõe os nossos corpora, foi escrito pelo terceiro Conde D’Oyenhausen, João Carlos Augusto de Oyenhausen-Gravenburg. Após esse manual, historicamente, só se tem notícia de novos regulamentos escritos a partir de 1934, momento em que Portugal entra no período conhecido revolução constitucionalista33. Assim, esse breve histórico de Portugal nos séculos XVIII e XIX se faz necessário para que tenhamos um panorama do momento de aparição das documentações sobre as quais nos debruçaremos e, principalmente, sobre as motivações externas que influenciaram a sua composição. 33 Assim chamam esse momento MARTINS (1945) e SELVAGEM (1999). 53 CAPÍTULO 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Nessa seção iremos abordar os aspectos e considerações teóricas importantes para o entendimento da nossa proposta. Inicialmente, como o foco do nosso trabalho está centrado na Terminologia, apontaremos algumas questões importantes sobre essa ciência, tais como definições pertinentes, seu objetivo e objeto de estudo, assim como perspectivas metodológicas de trabalho na área. Em seguida, passaremos a um recorte histórico da disciplina para localizar espacial e temporalmente em que ponto se encontra os avanços científicos desta área. Posteriormente, apresentaremos de modo sumário uma discussão sobre a dicotomia língua de especialidade vs língua comum e tentaremos expor nosso ponto de vista para, desse modo, localizar a linguagem delimitada nos manuais que compõem os nossos corpora. Após essa discussão, entraremos em questões relativas à variação e mudança sob a perspectiva da socioterminologia variacionista de Faulstich, que fará importantes conexões com os modelos da sociolinguística variacionista de base laboviana. Nosso intuito nessa parte é o de estabelecer as bases teóricas que adotaremos para o desenvolvimento do trabalho em diacronia no campo da Terminologia. Como nossa proposta é trabalhar com a linguagem de especialidade militar do exército em dois séculos distintos, faz-se necessária uma apresentação de correlação de propostas que possam nortear o fenômeno terminológico em linhas diacrônicas. Para tanto, iremos expor, também, as aproximações teórico-práticas que o construto de Faulstich realiza tanto com as propostas da sociolinguística variacionista quanto com as ideias da lexicologia social de Matoré, para que tenhamos maior clareza da relação entre linguagem de especialidade, história, cultura e sociedade. 54 2.1. Terminologia RONDEAU (1984) aponta para o fato de a palavra terminologia comportar várias definições. Isso significa que o próprio termo encerra em si um caráter polissêmico. Apesar de as definições serem muitas, não há como negar que todas acabam convergindo para um mesmo direcionamento, fruto de terem um objeto único como centro do estudo: os termos que compõe a linguagem de especialidade. No entanto, observar a maneira que alguns estudiosos definem a Terminologia é bastante interessante pela multiplicidade de opções de áreas na qual a inserem. Por exemplo, LABATE (2008, p.15), afirma que a "Terminologia é definida pela ISO 1087 como o estudo científico das noções e dos termos usados nas línguas de especialidade." Também ANDRADE (2001) entende que A Terminologia é, antes de tudo, um estudo do conceito e dos sistemas conceptuais que descrevem cada matéria especializada; o trabalho terminológico consiste em representar esse campo conceptual, e estabelecer as denominações precisas que garantirão uma comunicação profissional rigorosa. (ANDRADE, 2001, p.193) Já BARROS (2004, p.21) diz que é “a disciplina científica que estuda as chamadas línguas (ou linguagens) de especialidade e seu vocabulário." Observemos que o primeiro aloca a Terminologia no espaço dos "estudos científicos" e a segunda como "disciplina científica". Outros autores, como MACIEL (2001, p.39), por exemplo, entende que "é a ciência que se ocupa do termo, unidade lexical "profissionalmente marcada" [...] e se caracteriza por sua natureza inter e transdisciplinar". Nesse caso, vemos que a Terminologia já não é mais entendida como estudo ou disciplina, mas como uma ciência. Apesar de, até o momento, os autores supracitados terem mencionado a Terminologia com algum viés científico (seja como estudo, disciplina ou mesmo a própria ciência), há outros que preferem eximir-se de tal responsabilidade. Na definição de KRIEGER; FINATTO (2004, p.16), por exemplo, "a Terminologia é um campo teórico- prático que estuda o conjunto de termos específicos de uma área científica e ou técnica, bem como direciona a produção de glossários, dicionários técnico-científicos e bancos de 55 dados terminológicos." Observamos que as autoras direcionam o entendimento da Terminologia para o viés científico (já que comporta teoria, prática e aplicabilidade), no entanto se referem a ela como "campo teórico-prático" e em nenhum momento mencionam explicitamente seu caráter científico. Posição essa já pode ser notada em KRIEGER (2001, p. 34) ao definir "a Terminologia como componente lexical das comunicações especializadas e expressão dos saberes técnicos e científicos." Outros autores preferem tomar a Terminologia por seu caráter prático e encará-la como uma "atividade". REY (2007, p.330) a define como "uma atividade baseada no reconhecimento de áreas organizadas do conhecimento, dividida ou distribuída em entidades semânticas delimitadas pelas definições e registradas em cada língua por meios essencialmente lexicais”. É necessário que entendamos o caráter prático da Terminologia, pois, LAFACE (2001, p.240) nos explicita que "[...] o contexto terminológico é antes de tudo uma prática que responde pelas necessidades sociais." Para BIDERMAN (2001, p.19) "a Terminologia se ocupa de um subconjunto do léxico de uma língua, a saber, cada área específica do conhecimento humano. [...] a Terminologia deve estabelecer uma relação entre a estrutura conceptual e a estrutura léxica dessa língua." Importante salientar a posição da autora, pois se a Terminologia trata do léxico, certamente tem alguma relação com a Lexicologia. Assim, ANDRADE (2001, p.192) explicita essa relação ao afirmar que "a Terminologia pode ser encarada como uma "especificidade" da lexicologia, uma vez que trata, não de todas as palavras da língua, mas daquelas que constituem as linguagens especializadas." Não queremos afirmar que as posições demonstradas são contrárias ou errôneas. Devemos observar que nenhum entendimento exclui o outro. Dessa feita, podemos entender todos os posicionamentos como diferentes formas de abordar a Terminologia que, por sua vez, reúne todas essas possibilidades. Sobre isso, nos apoiamos em CABRÉ (1993, 56 p.82) ao afirmar que a Terminologia engloba três acepções: a) conjunto de princípios e bases conceituais que regem o estudo dos termos; b) conjunto de diretrizes utilizadas no trabalho metodológico; c) conjunto de termos de uma área de especialidade. Segundo ANJOS (2003, p. 37), a primeira possibilidade mencionada por CABRÉ (1993) faz menção à disciplina, já a segunda refere-se à metodologia e, por último, a terceira diz respeito ao conjunto de termos em si. Nosso posicionamento nesse trabalho se estabelece de modo a endossar a visão de CABRÉ (1993) a respeito das três acepções possíveis e se centra, basicamente, na noção de disciplina científica que se apoia em estudos sistêmicos da denominação e representação de conceitos que pertencem a áreas especializadas da experiência humana (FAULSTICH, 1999). Assim, entendemos as Ciências Militares como uma área especializada e os conhecimentos de tática de infantaria como um subconjunto mais específico desse campo do saber. Se no que cabe à definição, há uma ampla gama de possibilidades, ao mudarmos o foco para seus objetivos, há uma padronização mais aparente. Nas palavras de CINTRA (2001, p.21), "a Terminologia tem como objetivo organizar e harmonizar as noções ou conjuntos de noções dos domínios específicos do conhecimento. Através de procedimentos sistemáticos seleciona e/ou cria termos para as noções, relacionando-os através de definições." Em relação ao objeto dessa ciência, estamos concordes com KRIEGER; FINATTO (2004, p.34) quando afirmam que "[...] a Terminologia alinha-se à Lexicologia, à Lexicografia e à Semântica, mas com o objeto que lhe coube privilegiar em primeiro plano: o termo técnico-científico." Assim sendo, apesar de permitir entradas poliédricas para sua definição, a Terminologia comporta de modo bem definido tanto o seu objetivo quanto o seu objeto de estudo. A seguir, faremos um breve retrospecto histórico da 57 Terminologia e, logo depois, nos deteremos de modo mais específico em seu objeto de estudo: o termo ou lingua(gem) de especialidade. 2.1.1. Aspectos Históricos A Terminologia em sua acepção científica é relativamente nova. No entanto, se voltarmos o olhar para a sua atuação prática, seremos capazes de localizá-la desde o século V a.C. Assim vemos que A terminologia não é um fenômeno recente. Com efeito, tão longe quanto se remete na história do homem, desde que se manifesta a linguagem, nos encontramos em presença de línguas de especialidade, é assim que se encontra a terminologia dos filósofos gregos, a língua de negócio dos comerciantes cretas, os vocábulos especializados da arte militar, etc. (RONDEAU, 1984 apud KRIEGER; FINATTO, 2004, p. 24) Assim, notamos que a Arte Militar está incluída no rol das linguagens de especialidade que se manifesta em tempos pretéritos. Contudo, como o entendimento da própria Terminologia, ela não representava uma ciência, mas uma Arte, assim como a Terminologia era tão somente uma prática e não uma disciplina. KRIEGER; FINATTO (2004) afirmam que o reconhecimento oficial da existência de vocabulários pertencentes a determinadas áreas específicas do conhecimento especializado ocorre no século XVIII. Isto acontece porque, segundo as autoras, os dicionários clássicos da Europa nessa época passaram a incluir a entrada Terminologia definindo-a como matéria que se ocupa de denominar os conceitos próprios das Ciências e das Artes. O século XVIII é um período marcado pelo estabelecimento das nomenclaturas técnico-científicas, cunhadas com componentes do latim e do grego. Trata-se dos conhecidos termos científicos, desenvolvidos particularmente no campo das ciências taxionômicas a exemplo da Botânica, da Zoologia, da Química entre outras. (KRIEGER; FINATTO, 2004, p.25) As autoras seguem seu retrospecto afirmando que, ao contrário da prática terminológica realizada na Antiguidade histórica, a abordagem da Terminologia como 58 ciência vinculada aos estudos do componente lexical das linguagens de especialidade é relativamente recente, datando da segunda metade do século passado. Para tratar dos aspectos históricos recentes dessa ciência, nos apoiamos em CABRÉ (1993, p. 28) que divide a história da Terminologia em quatro períodos fundamentais: origens, estruturação, eclosão e expansão. Levando-se em conta que a obra de CABRÉ data do ano de 1993, fizemos uso, também, da proposta de divisão histórica mais recente sugerida por BARROS no ano de 2004 que, além de avançar no tempo e sugerir a ampliação do período de expansão por mais uma década, acrescenta um período a mais que é o de reflexão e mudança de paradigmas. Além disso, é importante ressaltar que a autora brasileira, em sua reformulação de períodos, também leva em conta o andamento das pesquisas e a produção em território nacional. (SOUZA, 2007, p. 42) O Primeiro período se situa entre os anos de 1930-1960. Segundo BARROS (2004), o reconhecimento da Terminologia como disciplina científica ocorre na Alemanha, com Wüster, e na antiga União Soviética, com Lotte. A mesma autora nos explica que o grande marco dos estudos terminológicos ocorreu em 1931 com a publicação da Tese de Doutorado de Eugen Wüster intitulada Internationale Sprachnormung in der Technik besonders in der Elektrotechnik (Normalização Internacional da Linguagem Técnica, com Ênfase Especial na Eletrotécnica34). Nesse trabalho, o engenheiro austríaco define os postulados base bem como os métodos de trabalho da Ciência terminológica. Além dessa obra, há a publicação de Introdução ao Ensino de terminologia geral e lexicografia terminológica35 que expõe a Teoria Geral da Terminologia (TGT). Desse modo, "para a TGT, a natureza do conceito, as relações conceituais, a relação termo-conceito e a atribuição de termos aos conceitos ocupam um lugar-chave." (LABATE, 2008, p.16). 34A tradução do título da Tese de Doutorado de Wüster foi proposta por ANJOS (2003, p.31), em sua dissertação de Mestrado, com base na versão espanhola apresentada de DIEGO (1995, p.18). 35 Tradução nossa. No original, “Einführung in die Allgemeine Terminologielehre und terminologische Lexikographie”. 59 BARROS (2004) afirma que é nesse período que aparecem trabalhos pioneiros na tentativa de delinear o espaço teórico e metodológico dessa ciência. RONDEAU (1984, p.35) afirma que, nessa fase, a ênfase é dada ao caráter sistemático das terminologias. De acordo com SOUZA (2007, p.42), apesar de ter sido Lotte quem mais se dedicou a estudos de cunho reflexivo e metodológico acerca da Terminologia, foi Wüster quem disseminou "as particularidades pragmáticas dos vocabulários técnicos, principalmente no contexto de fundação da Organização Internacional de Normalização (ISO)". Nesse contexto, segundo KRIEGER; FINATTO (2004), três grandes escolas norteiam os estudos terminológicos: a Escola de Viena, a Escola de Praga e a Escola de Moscou. A primeira, da qual faz parte Wüster, centrou-se em questões metodológicas e normativas. A segunda, da qual participavam Crozd e Trubetsky, é considerada a mais linguística. Na visão de DIEGO (1995, p.19) esta Escola tomava por base a linguística funcional e as teorias de Saussure e considerava que a língua das ciências é funcional e estruturada para fins específicos. A última Escola, que tem Lotte como um dos seus maiores representantes, é, na visão de RONDEAU (1984, p.08), “a mais marcada tanto pela coordenação entre teoria e prática quanto pelo tratamento linguístico dispensado à Terminologia”. Os estudos feitos por essas Escolas e a necessidade da busca de uma uniformização de termos e conceitos convergiram para a criação de várias organizações e comissões de normalização, entre as quais se destacam a IEC (International Eletrotechnical Comission), a ISA (International Federation of National Standardizing Associations) e a ISO (International Organization for Standardization)36. O Segundo momento está entre os anos 1960 e 1975. Até a década de 50, com base em CABRÉ (1993, p.22), os estudiosos de Ciências Humanas, incluindo-se os linguistas e 36 Ideia também compartilhada por ANJOS (2003) e KRIEGER; FINATTO (2004). 60 filólogos nesse rol, não demonstravam interesse significativo pelos estudos de Terminologia já que sua atenção estava voltada para os princípios estruturais e funcionais das línguas possíveis em tempo real, não centrando seu foco para as perspectivas de polivalência das línguas como instrumento de comunicação. É a partir da década de 60 que BARROS (2004) afirma estar sendo introjetado na vida do homem um novo ritmo de fazer ciência. Tal fato apresenta-se como decorrência do desenvolvimento da informática. A autora ainda recorda que, nessa época, surgem os primeiros bancos de dados terminológicos monolíngues, bilíngues e multilíngues e que é nesse contexto que "a Terminologia adquire dimensões internacionais e a abordagem normativa das línguas e das terminologias desenvolve-se de modo expressivo." (BARROS, 2004, p.35) A criação da INFOTERM (International Information Center for Terminology), no ano de 1971, e a realização de inúmeros eventos científicos nacionais, regionais e internacionais são resultados concretos, como afirma ANJOS (2003, p. 33), "da intensificação das atividades terminológicas no início da década de 70." É também nesse contexto que surgem novos cursos de Terminologia, assim como bancos de dados. Como é possível verificar, esse momento se define pela estruturação sólida da Terminologia. O terceiro momento comporta o período que vai de 1975 até 1985. Seguindo as ideias de BARROS (2004), adotada também por SOUZA (2007), esse é o período de aumento de políticas de planejamento linguístico e da popularização da informática. Se o período anterior é o que solidifica a Terminologia e sua atuação, esta década será a de eclosão dessa ciência. De acordo com a autora, nesse momento "a Terminologia desempenha papel importante em processos de normalização e harmonização terminológicas, de modificação de línguas por meio da modernização vocabular e da transmissão de conhecimentos científicos e técnicos." (BARROS, 2004, pp.35-36). Um 61 feito importante que não pode deixar de ser mencionado, principalmente no que diz respeito às línguas de origem latina, é a criação da União Latina, no ano de 1983. O período que abarca desde o ano de 1985 e alcança toda a década de 1990 é o de expansão territorial e científica da Terminologia. Segundo BARROS (2004), é nesse momento que se diversificam os temas tratados e aumentam quantitativamente projetos de obras terminográficas especializadas em várias áreas do conhecimento. [...] criam-se novas perspectivas com o desenvolvimento da indústria da língua, organizam-se redes internacionais que facilitam a cooperação e o intercâmbio científicos, aprimora-se a formação do terminólogo. A Terminologia assume, enfim, novas dimensões e articula-se no plano internacional." (BARROS, 2004, p.36). Nesse momento do desenvolvimento da ciência terminológica é que surge a Rede Ibero-americana de Terminologia (RITerm). De acordo com ANJOS (2003, p. 34), no ano de 1993, "é criada a Realiter (Rede Panlatina de Terminologia), em Paris, que visa a formar uma rede de trabalho entre países de línguas neolatinas." Particularmente, esse período é de suma importância para nossa Tese porque, no mês de março do ano de 1988, os estudos de Terminologia de viés diacrônico ganham, pela primeira vez, tanto reconhecimento quanto assentamento por meio do “Colóquio Terminologia Diacrônica”, ocorrido na Bélgica. Segundo HANSE (1989, p.22), em seu discurso de abertura do evento, esse colóquio se centrou em torno da história da Terminologia vista em três aspectos: história da ciência dos termos, história dos vocabulários e Terminologia diacrônica e suas relações com a sociedade37. Até esse momento, não se concebia validade científica aos estudos terminológicos em diacronia. É a partir desse colóquio que há uma relativa mudança desse panorama. Como podemos verificar na fala de um dos congressistas, 37 “Ce coloque porte sur l’histoire de la terminologie. On a prévu trois perspective historiques (histoire de la Science des termes, histoire de vocabulaires, terminologie diachronique et société) avant déboucher judicieusement sur une prospective”. (HANSE, 1989, p.22). 62 Se concebermos a Terminologia como esta parte da epistemologia que estuda a relação entre o pensamento científico e linguagem científica, será assumido que a linguagem não pode ser concebida como diacrônica. A essência da ciência e da indústria é a sua dimensão de tempo (o famoso PROGRESSO) e pode-se estudar a linguagem da ciência através do estudo de seu desenvolvimento. [...] Este exemplo demonstra que um termo científico deve ser estudado pelo terminólogo em diacronia38. (BAUDET, 1989, pp.64-65) A conferência proferida por Baudet explicita, de modo claro e com argumentos científicos sustentáveis, usando como exemplo a terminologia do campo siderúrgico, que a Terminologia pode e deve ser estudada em diacronia. Ratificamos, então, o despontar para os estudos terminológicos de viés histórico, que serão reforçados com mais afinco na segunda metade dos anos 90. O último dos períodos, proposto na reformulação realizada por BARROS (2004), abarca toda a década de 1990 e segue até o presente momento. Na visão da autora, os pressupostos teóricos e metodológicos das ciências passam por revisões gerais em todo o mundo. O "[...] questionamento a respeito do modelo normalizador da Terminologia conduzem à Socioterminologia, à proposta de "libertação das amarras" da TGT e à proposta de um novo paradigma, expresso pela Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT), proposta por Maria Teresa Cabré." (BARROS, 2004, p.36) A Socioterminologia é a disciplina que tem por objetivo principal a identificação e a categorização das aparentes variantes linguísticas dos termos em contextos distintos que se regulam por diferentes tipos de situação de uso da língua39. Já a TCT, de acordo com CABRÉ (1999), articula-se levando em conta o valor dos aspectos comunicativos das linguagens especializadas em detrimento dos propósitos normalizadores, bem como na compreensão de que as unidades terminológicas estão inseridas na linguagem natural e na gramática das línguas. O que é mais evidente, tanto na TCT quanto na Socioterminologia, 38 Tradução nossa. No original, “Si l’on conçoit la terminologie comme cette partie de l’épistémologie qui étudie la rapport entre pensée scientifique et langage scientifique, on admettra que la terminologie ne peut être conçue que comme diachronique. L’essence même de la science et de l’industrie est leur caratère temporel (le fameux PROGRES) et on ne peut étudier les langues de la science qu’en étudiant leur développement. […] Cet exemple montre bien qu'un terme scientifique doit être étudié par le terminologue en diachronique.” (BAUDET, 1989, pp.64-65) 39 Posição também compartilhada por CABRÉ (1999), BARROS (2004) e LABATE (2008). 63 e de extrema importância para nosso trabalho, é que essas teorias acolhem o princípio da variação em toda sua dimensionalidade, pois preconizam que a unidade lexical pode assumir uma função especializada ou não, admitindo, dessa feita, que o conteúdo do termo não é fixo. É nesse interim que a Terminologia diacrônica intensifica seu espaço, dez anos depois da realização do Colóquio de Bruxelas. Dessa vez, na Espanha, na cidade de Barcelona, celebrou-se o Colóquio “A história das linguagens ibero-românicas de especialidade: séculos XII-XIX”. De acordo com SOUZA (2007, p. 53), o principal objetivo desse evento foi “[...] revisitar a concepção tradicional da Terminologia: apropriação e rupturas de epistemologias que norteavam a Terminografia do final da Idade Moderna, a partir de uma pesquisa diacrônica, tomando como essencial os conceitos e suas relações.” O colóquio, além de ocupar o espaço recente das pesquisas terminológicas em diacronia, também levantou pontos importantes como a influência da globalização nas perspectivas de estudos da área. Nós também estamos de acordo com a ideia de que o processo de globalização é o ponto norteador da Terminologia no século XXI, uma vez que consideramos que as rápidas inovações tecnológicas, principalmente a popularização e acessibilidade à rede mundial de computadores, produziram uma revolução nos processos de intercâmbio das informações. Razões de outra ordem também motivam o interesse pelo componente lexical especializado dos idiomas. Entre elas, destaca-se o processo de globalização que, incrementando as transações comerciais entre as nações, propiciou o surgimento dos atuais blocos econômicos, bem como de uma série de intercâmbios que ultrapassaram o âmbito comercial, expandindo-se para o mundo científico, tecnológico e cultural. [...] Nesse momento de globalização, também surge uma grande preocupação com a tradução dessas línguas de especialidade. Além disso, a inserção múltipla da tecnologia e de outras ciências faz com que os usuários se preocupem mais em saber utilizar os termos específicos." (KRIEGER; FINATTO, 2004, p.27) 64 Com base nas afirmações das autoras supracitadas, podemos ratificar a posição de ANJOS40 (2003, p.35) ao dizer que "o grande desafio da Terminologia, que nasceu justamente de uma necessidade advinda da Revolução Industrial, é lidar com o Século da Informação e com uma rápida e constante evolução científica e técnica." Diante desse apanhado para situar o que se entende por Terminologia, nos cabe aclarar algumas ideias sobre seu principal objeto: as chamadas linguagens de especialidade. 2.1.2. Língua(gem) geral e de especialidade BARROS (2004) nos afirma que, durante muito tempo, o objeto do campo de pesquisa da Terminologia foram as chamadas “línguas de especialidade”. No entanto, nos últimos anos de desenvolvimento da área, os terminológos, com base na tradição linguística, começaram a apontar incongruências no uso do termo “língua de especialidade”. Se nos remontamos ao marco de fundação da Linguística, isto é, ao Curso de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure, verificamos que, nessa obra, a língua não é nada mais que um sistema de valores puros. Já nos diz o pai da linguística que “a língua [...] é um todo por si e um princípio de classificação” (SAUSSURE, 1970, p.17). Assim, corroborando com essa ideia, LYONS (1975) afirma que a língua é um sistema de símbolos projetados para fins de comunicação. Desse modo, notamos em ambas as definições anteriores que os autores eximem a possibilidade de que a língua possa ser uma descrição do mundo e propõe sua teoria classificando a língua como um fato social, produto de uma coletividade, que estabelece seus valores por meio de uma convenção social, sobre a qual o indivíduo não teria nenhum poder. Em contrapartida, para SAUSSURE (1970, p.17) “a linguagem é multiforme e heteróclita, [...] pertence, além disso, ao domínio individual e ao domínio social; não se 40 Posição essa que é a mesma de BARROS (2004). 65 deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, pois não se sabe inferir a sua unidade”. Então, segundo LYONS (1975, p. 22), “a linguagem pode ser legitimamente considerada sob um ponto de vista comportamental (embora não necessariamente comportamentista)”. A partir do exposto, verificamos que há uma diferença clara entre língua e linguagem, em que depreendemos claramente que a linguagem é a língua em uso. Como nos aponta LABOV (1972), se tomamos a língua como uma forma de comportamento social dentro de uma comunidade, a linguagem será a manifestação expressada por seu uso efetivo. Desse modo, o melhor termo a ser usado deve ser “linguagem de especialidade”. Além das diferenças entre língua e linguagem centradas na tradição linguística, é relevante retomar as palavras de uma das grandes estudiosas da Terminologia. De acordo com BOUTIN-QUESNEL (1985, p. 20), as ditas línguas de especialidade eram “subsistemas linguísticos que compreendem o conjunto dos meios linguísticos próprios de um campo da experiência”. Dessa concepção, que perdurou durante muito tempo, há críticas a serem feitas que ratificam o posicionamento de entender o objeto da Terminologia como linguagem e não como língua. Segundo BARROS (2004), O que ocorre é que os domínios especializados utilizariam com maior frequência alguns recursos dessa língua na elaboração de seus textos. Assim, embora cada universo de discurso especializado produza textos com particularidades sintáticas, pragmáticas, semióticas, além de terminológicas, essas especificidades não deixam de ser recursos linguísticos utilizados pela língua geral na qual são escritos esses textos. Nesse sentido, não se trataria propriamente de uma língua de especialidade, mas de uma linguagem de especialidade. (BARROS, 2004, p.43) Apesar da precisão terminológica assentada na tradição linguística, BARROS (2004, p.43) afirma que “o termo língua de especialidade já se consagrou nos meios da Terminologia e mesmo os trabalhos mais recentes na área continuam a utilizá-lo”41. Sobre 41 Sobre essa questão, SCHIFKO (2001) expõe que, antigamente, muitos estudiosos refutavam o uso do termo “linguagem de especialidade” por conta de padrões que se acreditavam existir somente na chamada “língua geral” como, por exemplo, a não univocidade da relação termo-conceito e as variações. Ainda que 66 esse enraizamento na área, DESCAMPS (1977) já expunha que o próprio conceito de "língua de especialidade" sempre foi, desde a fundação desse campo moderno de estudo por Wüster – na Alemanha, e Lott – na antiga União Soviética, objeto de algumas propostas de definição. Na literatura especializada da Terminologia encontramos algumas variedades como discurso temático, discurso científico, discurso de domínio, discurso funcional, discurso específico, língua profissional ou língua técnica. Apesar dessa multiplicidade de opções, que aparece ao longo do desenvolvimento da Terminologia, todas convergem para uma única ideia: seja língua ou linguagem de especialidade (ou qualquer outra variante que se tenha empregado) todas pertencem ao discurso funcional compreendido no sistema total da língua, como tal recorrendo apenas parcelarmente ao material lexical, sintático e semântico que a língua disponibiliza. (GIL, 2003, pp. 114-115) Destarte essas observações apresentadas, nossa posição é a de adotar o termo mais acurado, isto é, linguagem de especialidade. A definição que melhor representa a nossa posição é a oferecida por CABRÉ; GÓMEZ DE ENTERRÍA (2006, p.21), que definem linguagem de especialidade como um “subconjunto de recursos específicos, linguísticos e não-linguísticos, discursivos e gramaticais que são usados em situações consideradas especializadas por suas condições comunicativas.”42 Outro termo que merece relevância na definição de BOUTIN-QUESNEL (1985) é o de campo de experiência. Esse termo é definido por GALISSON; COSTE (1983) como o campo que diz respeito às profissões e, para a representação linguística de cada um, é usado um vocabulário especializado. Seguindo esse raciocínio, PHAL (1971) define os vocabulários especializados como secções ou cortes numa base linguística comum, que, para ele, é o léxico de uma língua. A afirmação de PHAL (1971) é consolidada e hoje esses padrões sejam admitidos também em um discurso especializado, em muitas tradições de estudos terminológicos o termo “língua de especialidade” acabou enraizando-se. 42 No original, “subconjuntos de recursos específicos, linguísticos y no linguísticos, discursivos y gramaticales que se utilizan en situaciones consideradas especializadas por sus condiciones comunicativas.” 67 compartilhada por uma série de estudiosos43 que também partem da constatação de que é por meio do léxico que a Terminologia se faz mais evidente. Como diz GÓMEZ DE ENTERRÍA (2009), é o léxico, junto com as marcas discursivas, que marca uma grande parte da linguagem de especialidade. No mais, é importante notar que o uso do termo campo de experiência, relacionado a profissões e capacidades técnicas das áreas, faz com que repensemos o conceito dos grupos que partilham de um mesmo conhecimento específico. LERAT (1995) aponta que as linguagens de especialidade devem ser pensadas sempre em relação aos usuários que as empregam com a finalidade de transmitir os conhecimentos especializados. Assim, são esses usuários os responsáveis, tanto pelo surgimento de um termo quanto pelo seu uso de acordo com o progresso de cada tipo de ciência a qual está vinculado. Como nosso intuito é trabalhar com questões linguísticas de variação/mudança, estamos inseridos em um universo funcional em que os usuários da linguagem de especialidade militar são importantes para o entendimento do surgimento das variações/mudanças bem como para as motivações para o aparecimento desses fenômenos. Então, nos cabe esclarecer, também, como estabeleceremos a relação da sociolinguística variacionista com os estudos diacrônicos da Terminologia que estamos propondo. 2.2. Variação e mudança linguística na Terminologia Tratar de variação, principalmente de mudança, na Terminologia é algo relativamente novo. No Brasil, data de 1989, um ano após a realização do Congresso de Bruxelas, onde foi assentada a viabilidade de estudos diacrônicos nessa área, que “surgiram as primeiras ideias de que, no discurso, o termo apresentava variação” 43Para citar alguns exemplos, temos GUILBERT (1973), GOUADEC (1990), CABRÉ (1993), DIEGO (1995), AUBERT (2001), BIDERMAN (2001), SCHIFKO (2001), GIL (2003), KRIEGER; FINATTO (2004) e BARROS (2004). 68 (FAULSTICH, 2001, p.20). Notamos assim que a perspectiva diacrônica, já amplamente trabalhada na linguagem geral, abre caminho para investigações sobre a variação e mudança que afetam os termos nas linguagens de especialidade. Esses caminhos variacionistas na Terminologia já haviam sido apontados FAULSTICH (1988), ainda que o foco do estudo em questão não tivesse sido efetivamente a variação terminológica, mas lexical. A Terminologia não escapa à cooperação existente com a Lexicologia (BARROS, 2004) e essa afirmação nos permite endossar que o seu desenvolvimento vai utilizar como apoio e parâmetro os estudos lexicológicos. Assim, os apontamentos de FAULSTICH (1988), principalmente no que concerne à conceituação de alotermo44, inaugura um espaço importante na tradição de estudos terminológicos dentro e fora do Brasil. Na década de 90, os estudos de variação terminológica ganham mais reforço. A partir das premissas de Faulstich, outros estudiosos da área também passam a assumir a variação como fenômeno ocorrente nas linguagens de especialidade, refutando, então, os postulados de Wüster, que afirmava que as variações terminológicas poderiam (e deveriam) ser eliminadas por meio da normalização dos termos. Normalizar, em terminologia, é simplificar a posteriori, isto é, remover sinônimos e homônimos. [...] A normalização que é feita como resultado de escolha ou de criação nos remete a um fenômeno que só ocorre no seio de estudos da linguagem comum: a avaliação dos elementos da linguagem. Em linguagem comum, de fato, esta norma é restritiva aos fatos da linguagem, ou seja, é o cumprimento da norma de "o que é", enquanto que, na terminologia, ela é mais eficaz e está incorporada no padrão de "o que se tem que ser.45" (WÜSTER apud LURQUIN, 1979, p. 63) 44 Em sua Tese de Doutorado, Faulstich usa os modelos de variação dos fonemas (alofones) e morfemas (alomorfes) como referência para categorizar um fenômeno de variação do lexema. A partir desses referenciais, a autora passa a propor as categorias de ‘alolexe’, para designar a variante do lexema, e de ‘alotermo’, para designar a variante do termo. Segundo Faulstich (2001, p. 21), “o alotermo pode ser entendido como uma unidade variante analógica, condensada ou expandida, que, no uso de uma língua natural, deve ter o máximo de coincidência com o termo existente.” 45 Tradução nossa. No original, “Normaliser, en terminologie, c’est simplifier a posteriori, c’est-à-dire supprimer les synonymes et les homonymes. [...] La normalisation, que’ elle se fasse à la suite de choix ou par création suppose un phénomène que se produit à peine dans l’étude de la langue commune: l’évaluation des éléments de langue. En langue commune, en effet, il s’agit de justesse de langage, c’est-à-dire de conformité avec la norme de “ce qui est”, tandis qu’en terminologie on vise l’efficacité, et celle-ci s’incarne dans la norme de “ce qui si devrai être.” 69 Ainda para Wüster, manter a uniformidade da univocidade termo-conceito, tanto sincronicamente quanto diacronicamente, é um evento intrínseco à Terminologia e, portanto, a normalização é obrigatória e necessária. Convém esclarecer que o conceito de normalização vislumbrado por Wüster é o de um processo impositivo de uniformização e “bom uso”46. Desse modo, o autor estabelece que os fenômenos de variação e as mudanças linguísticas, que são inerentes a qualquer língua natural, não seriam passíveis de ocorrer nas linguagens de especialidade. O registro linguístico não deveria mudar com tanta rapidez nem de tal modo que possa vir a perturbar a uniformidade linguística. Em outras palavras, dever-se-ia manter a estabilidade da língua, a permanência linguística. Ao se tratar do assunto mudança linguística, devemos estabelecer uma diferença entre o que é evolução da língua e o que seria mudança intencional da língua47. (WÜSTER, 1998, Edição Kindle, posição 2100)48 CABRÉ (1993, p. 157) vai de encontro às proposições de perspectiva tradicional wüsteriana ao afirmar que “[...] toda linguagem de especialidade, na medida em que é um subconjunto da língua comum, compartilha de suas mesmas características; trata-se, então, de um código unitário que permite variações”49. Endossando esse posicionamento, FAULSTICH (1998a), centrada nos aportes da socioterminologia, desmistifica ainda mais a sistematização terminológica de Wüster ao afirmar que os termos de uma linguagem de especialidade são entidades variantes que se manifestam nos planos vertical, horizontal e temporal. O plano horizontal diz respeito às manifestações de diferentes linguagens de 46 FAULSTICH (1999, p.172) aporta que esse tipo de conceituação dada à normalização deve ser substituído pelo termo ‘normativização’, uma vez que “o conceito de normalização está relacionado ao de padronização e de uniformização e, até mesmo, de harmonização linguística do que ao ato de imposição”. 47 Tradução nossa. No original: “La adscripción lingüística no debería cambiar con tanta rapidez ni en tal medida que la uniformidad lingüística se viera perturbada. En otras palabras, debería mantenerse la continuidad de la lengua, la permanencia lingüística. Dentro del tema del cambio lingüístico, debemos distinguir entre la evolución de la lengua y el cambio intencional de la lengua”. 48 Kindle é um programa para leitura de livros virtuais. Nesse trabalho, indicaremos as citações extraídas de livros virtuais por ‘Edição Kindle’. Grande parte dos livros virtuais não possuem números das páginas e nem tampouco referências de correspondência à paginação de sua edição impressa (em caso de havê-la). Nas edições Kindle, há somente a posição do fragmento do texto no dispositivo de leitura. Dessa forma, referendaremos todas as nossas citações extraídas desse tipo de edição não por número da página, mas pela localização indicada no leitor de livro virtuais. 49 Tradução nossa. No original, “[…] todo lenguaje de especialidad, en la medida en que es un subconjunto del general, participa de sus mismas características; se trata, pues, de un código unitario que permite variaciones.” 70 especialidade. Sendo assim, como nesse trabalho nossos objetos pertencem à mesma linguagem de especialidade – a militar-, centraremos nosso foco tão somente nos planos vertical e temporal. Ambas as autoras se baseiam em uma orientação funcional das linguagens de especialidade, uma vez que admitem o texto especializado e o discurso por ele produzido como elementos centrais no desenvolvimento dos estudos terminológicos. Apesar da persistência desse conceito, há alguns anos se começou a questionar certas afirmações sobre o unitarismo e se começou a desenvolver uma proposta de terminologia concentrada na análise textual dentro de um marco da comunicação especializada e viés cultural próprios das ciências da linguagem. Consequentemente, se começou a descrever o seu caráter variacionaista. (CABRÉ, 1999, p. 166)50 Nesse contexto, ratificando as palavras de autora supracitada, FAULSTICH (1998a, p.141), afirma que “a polifuncionalidade da unidade lexical [...] pode produzir mais de um registro ou mais de um conceito para o mesmo termo” uma vez que será esse o espaço em que as variantes serão “resultantes dos diferentes usos que a comunidade, em sua diversidade social, linguística e geográfica, faz do termo” (FAULSTICH, 2001, p.22). Ao tratar de comunidade, deixamos claro que a visão que adotamos no nosso estudo não é a de comunidade de fala, assentada na ampla tradição dos estudos sociolinguísticos e terminológicos, mas a de comunidade de prática. Ao centrar nossos estudos na socioterminologia de viés funcional- que vai estudar o termo sob uma perspectiva linguística na interação social (FAULSTICH, 1995a)- e essa, por sua vez, tem como base auxiliar os princípios da sociolinguística, optamos por tomar os estudos de ECKERT (2004) como referência para esse diálogo. 50 Tradução nossa. No original, “Malgrat la persistència d’aquesta concepció, des de fa pocs anys s’han començat a posar em qüestió determinades afirmacions unitaristes i s’há començat a desenvolupar una proposta de la terminologia concentrada en la serva anàlisi en un marc textual dins de la comunicació especialitzada i amb el biaix cultural propi de les ciències del llenguatge. En conseqüència, s’ha començat a descriure el seu caràter variat.” 71 A escolha pela autora supracitada não é aleatória. Podemos justifica-la por meio das palavras de FREITAG;MARTINS;TAVARES (2012), ao explicitarem que Propondo uma discussão sobre os rumos do significado social no estudo da variação, Eckert (2012) faz uma abordagem programática dos estudos sociolinguísticos com o propósito de relevar o estudo da variação com ênfase no significado social: como o sistema de significado social é estruturado? Que tipos de significados sociais são expressos na variação? Em seu retrospecto, Eckert destaca que os estudos sociolinguísticos podem ser agrupados em três ondas de estudos, não substitutivas nem sucessivas, mas que se configuram como modos distintos de pensar a variação, com práticas analíticas e metodológicas peculiares. (FREITAG; MARTINS; TAVARES, 2012, p. 919) Assim, a escolha de Eckert se deve ao fato de que compartilhamos as mesmas inquietações no que tange a relação da língua com o significado social. Além disso, como vemos na citação, a pesquisadora agrupa os estudos da sociolinguística em três perspectivas que chama de ondas. A primeira onda, segundo ECKERT (2012), inicia com os estudos de Labov referentes à estratificação do inglês falado em Nova Iorque. “A primeira onda estabeleceu uma base sólida para o estudo da variação, evidenciando as correlações entre variáveis linguísticas e categorias sociais primárias, como classe socioeconômica, sexo, idade, escolaridade, etc” (FREITAG; MARTINS; TAVARES, 2012, p. 920) Assim, ainda de acordo com os autores apontados, verificamos que o cerne dos estudos pertencentes à primeira onda é o de que “[...] as variedades linguísticas carregam o status social de seus falantes” (FREITAG; MARTINS; TAVARES, 2012, p. 920). Os estudos que pertencem à chamada segunda onda, assim como os da primeira, também são de natureza quantitativa. No entanto, a abordagem que se emprega é a etnográfica, “abarcando categorias sociodemográficas mais abstratas, a fim de evidenciar como o vernáculo assume valor local.” (FREITAG; MARTINS; TAVARES, 2012, p. 921). Assim, os estudos das duas primeiras ondas adotam como abordagem a descrição da estrutura, ou seja, um retrato estático (ECKERT, 2012). Já os estudos da terceira onda começam a incorporar a dinamicidade da estrutura, isto é, “como a estrutura se molda no 72 cotidiano, com os condicionamentos sociais impostos e as relações de poder estabelecidas atuando sobre ela” (FREITAG; MARTINS; TAVARES, 2012, p. 922). Além disso, há um deslocamento de foco importante nos estudos de terceira onda: passa-se do conceito de comunidade de fala para o de comunidade de prática. Chamamos atenção para esse fato, pois, ele também se constituiu como determinante para a escolha do nosso alinhamento com uma metodologia e abordagem de estudos sociolinguísticos propostos por Eckert e, portanto, com a terceira onda. Nesse sentido, nos esclarece ECKERT (2004) sobre sua escolha pela comunidade de prática, preterindo, assim, a concepção laboviana de comunidade de fala. O termo comunidade de fala tende a implicar uma coalescência de residência e atividade diária, mas os falantes se movem dentro e fora da comunidade. Desde que nos concentramos em uma comunidade como uma unidade estática, que em última análise, se opõe à mudança, é essencial visualizar comunidades como criações sociais. [...] A comunidade de prática é um agregado de pessoas que se reúnem em torno de algum empreendimento. Unidos por esse empreendimento comum, as pessoas vêm para desenvolver e compartilhar maneiras de fazer as coisas, maneiras de falar, crenças, valores - em suma, práticas - como uma função de seu engajamento conjunto em uma atividade. Simultaneamente, as relações sociais se formam em torno das atividades e as atividades se formam em torno dos relacionamentos. Tipos particulares de conhecimento, experiência, e formas de participação se tornam parte de identidades individuais e lugares na comunidade. (ECKERT, 2004, pp. 34-35)51 Desse modo, como estamos tratando de linguagem de especialidade, partilhada e usada em contextos de uma determinada prática social específica, acreditamos que esse alinhamento é mais profícuo. Então, estabelecemos que a linguagem de especialidade militar será partilhada por uma comunidade de prática: os militares, que são os enunciadores e os enunciatários dos textos com os quais trabalharemos. Essa delimitação é necessária porque, segundo FAULSTICH (2002, p. 66), “é fundamental que o especialista 51 Tradução nossa. No original, “The term speech community tends to imply a coalescence of residence and daily activity, but speakers move around both inside and outside the community. Since we focus on a community as a static unit, we ultimately preclude change, it is essential to view communities as social creations. A community of practice is an aggregate of people who come together around some enterprise. United by this common enterprise, people come to develop and share ways of doing things, ways of talking, beliefs, values – in short, practices – as a function of their joint engagement in activity. Simultaneously, social relations form around the activities and activities form around relationships. Particular kinds of knowledge, expertise, and forms of participation become part of ‘individuals’ identities and places in the community.” 73 em terminologia conheça o perfil do usuário, para que o repertório terminológico [...] se transforme num instrumento de trabalho e seja fonte de informação lexical e semântica das áreas específicas do conhecimento”. Ademais, é importante afirmar que os conceitos que os termos portam são fruto de atividades cognitivas e interativas compartilhadas entre sujeitos. A conceitualização de mundo bem como o modelo mental que se cria a partir dele são, em grande parte, partilhadas entre os sujeitos, construindo-se, assim, a base do entendimento mútuo (KLEIBER, 1999). Assim, estabelecemos a importância dos sujeitos, uma vez que são eles que geram e usam os conceitos e sua materialização expressa no léxico de uma língua. Convém agregar a esta afirmação o fato de que, tanto os sujeitos quanto suas manifestações linguísticas estão imersos em um ambiente maior: a sociedade. Desse modo, a linguagem que usam, seja geral ou de especialidade, não só reflete as construções cognitivas individuais e partilhadas pela coletividade, mas também aponta para o modo como essa comunidade mapeia o mundo ao seu redor. Essa ideia, expressa por MATORÉ (1973), suscitou a disseminação do conceito de lexicologia social. Na realidade, as palavras não exprimem as coisas, mas a consciência que os homens têm delas. Para a lexicologia, os fatos sociais têm, com efeito, o aspecto de coisas, mas das coisas vistas, sentidas, compreendidas pelos homens; nossa disciplina deverá então visar às realidades sociológicas das quais o vocabulário é a “tradução”, ao mesmo tempo objetivamente, como realidades independentes do indivíduo, e subjetivamente, em função dos seres que vivem em um meio concreto, em certas condições sociais, econômicas, estéticas, etc. (MATORÉ, 1973, p.43)52 Ainda que a proposta desenvolvida por Matoré seja alvo de várias críticas, principalmente no que concerne à sua formulação metodológica como bem postula CAMBRAIA (2013), a sua ideia de estudar o léxico de uma língua com base na percepção da relevância dos fatos sociais é bastante pertinente, principalmente no campo de estudos 52 Tradução de CAMBRAIA (2013). No original, “En réalité, les mots n’expriment pas les choses, mais la conscience que les hommes en ont. Pour la lexicologie, les faits sociaux ont en effet l’aspect de choses, mais ce sont des choses vues, senties, comprises par des hommes; notre discipline devra donc envisager les réalités sociologiques dont le vocabulaire est la “traduction” à la fois objectivement, comme des réalistés indépendantes de l’individu, et subjectivement, en fonction d’êtres vivant dans un milieu concret, dans certaines conditions sociales, économiques, esthétiques, etc.” 74 da Terminologia de cunho variacionista. Assim, se tomamos o par termo-conceito, base fundamental dos estudos terminológicos, veremos que a atribuição de um conceito ao termo, ou a criação de um termo para expressar dado conceito, não se realiza somente por fatores internos da língua, “eles são, no entanto, influenciados pelos contextos sociais e culturais que, muitas vezes, leva a diferentes categorizações53”. (ISO 1087-1, 2000, p.02) Além desses aspectos, o fator tempo também é de suma importância. Segundo ÖZSOYOĞLU; SNODGRASS (1995, p.513), “tempo é um aspecto importante de todos os fenômenos do mundo real. Os eventos ocorrem em pontos específicos no tempo; objetos e as relações entre os objetos existem ao longo do tempo”54. Dessa feita, verificamos o quão importante é o fator tempo nos estudos de variação e mudança na terminologia, foco do nosso trabalho. É somente levando em conta essa variável que somos capazes de entender as (re)significações que um termo adquire ao longo de sua existência. Assim, é possível afirmar que a variação nas linguagens de especialidade pode espelhar o resultado de uma evolução técnica e científica de um determinado campo. Logo, não é possível pensar em fenômenos de mudança e nem ter uma visão mais acertada das variações terminológicas se o fator tempo não for tido em consideração. É somente por meio dele que conseguimos perceber a evolução terminológica. No entanto, é necessário esclarecer que Mudança e evolução não são sinônimos. Algumas mudanças são efêmeras. Há evolução quando a mudança é confirmada. Medir evolução, por conseguinte, não consiste somente em identificar ocorrências de mudanças. Simplificando um pouco mais, pode-se argumentar que para identificar uma mudança se deve observar a natureza das coisas enquanto que para a identificação de uma evolução se deve caracterizar as mudanças ao longo do tempo55. (TARTIER, 2004, p.56) 53 Tradução nossa. No original, “They are, however, influenced by the social or culture background which often leads to different categorizations.” 54 Tradução nossa. No original, “time is an importante aspect of all real-world phenomena. Events occur at specific points in time; objects and the relationships among objects exist over time.” 55 Tradução nossa. No original, “Changement et évolution ne sont pas synonymes. Certains changements sont éphémères. Il n’y a évolution que lorsque le changement est confirme. Mesurer l’évolution ne consiste donc pas uniquement à repérer des occurences de changements. En simplifiant un peu, on pourrait avancer que pour repérer un changement il faut observer la nature des choses alors que pour repérer une évolution il faut caractériser les changements au cours du temps.” 75 Corroborando com essa visão de que a linguagem de especialidade leva em conta os sujeitos, os contextos sociais e o momento temporal em que são produzidos os discursos, FAULSTICH (1998c) propõe um modelo de análise das variações terminológicas considerando que os itens do léxico especializado, como entidades históricas, devem ser analisados tanto no plano sincrônico quanto no diacrônico para que se possa ter dimensão total da evolução que o termo sofreu através dos tempos. Como sustentação às palavras da autora supracitada, também nos baseamos em BOULANGER (1991, p.19) quando nos afirma que “a variação terminológica é necessária e é óbvio que a variação lexical ou linguística é vista em qualquer língua fragmentada no tempo, no espaço e na sociedade. Essas variações diacrônicas, diatópicas e diastráticas formam a essência da Socioterminologia.56” KOCOUREK (1991) também já sustentava essa ideia de que a variação de uma linguagem de especialidade é um processo necessário, temporal e dinâmico. Ainda segundo FAULSTICH (1998c, p.03), “nos percursos temporais da língua, o termo é uma entidade do discurso independentemente de sua realização no plano sincrônico e no plano diacrônico e, por isso, passível de apresentar variantes antigas e atuais.” Sendo assim, FAULSTICH (1998c) apresenta a seguinte proposta para estudar as variações terminológicas: 56 Tradução nossa. No original, “La variation terminologique est aussi nécessaire et evidente que la variation lexicale ou linguistique observée pour toute langue fragmentée dans le temps, dans l’espace et dans la société. Ces variations diachroniques, diatopiques et diastratiques forment l’essence même de la socioterminologie.” 76 Figura 01- Extraída de Faulstich (1998c) Como podemos ver, a partir do esquema de FAULSTICH (1998c), a Socioterminologia é o campo mais propício para que possamos verificar os movimentos que os termos realizam dentro do discurso de uma linguagem de especialidade. Esses, por sua vez, podem ser descritos através dos percursos temporais e espaciais que fazem. Ao longo dessa empreitada, os termos estão sujeitos a sofrer variações e mudanças. Se tomarmos o percurso temporal como eixo da análise - o que se alinha com a proposta do nosso trabalho-, podemos abordar a sincronia, que levará em consideração o mesmo significado referencial que os termos variantes podem ter em um determinado espaço temporal delimitado, e a diacronia, que facultará a construção sistemática das estruturas léxico-terminológicas variantes, que permitirá a reconstrução de sistemas conceituais de uma determinada época (FAULSTICH, 1998c). Além disso, como a língua está em 77 constante movimento e, por conseguinte, as linguagens de especialidade, que se situam como seu subconjunto, também acompanharão esse movimento. Logo, as variações que surgem podem localizar-se tanto no código quanto na língua, seja no plano sincrônico ou diacrônico. Estabelecendo-se que o termo é passível de assumir valores distintos e que a função de uma dada variável pode desempenhar papéis diferentes em seus contextos de ocorrência na linguagem de especialidade, FAULSTICH (2001) construiu uma Teoria da Variação em Terminologia que se sustenta em cinco postulados: a) dissociação entre a estrutura terminológica e homogeneidade ou univocidade ou monorreferencialidade, associando-se à estrutura terminológica a noção de heterogeneidade ordenada; b) abandono do isomorfismo categórico entre termo-conceito-significado; c) aceitação de que, sendo a terminologia um fato de língua, ela acomoda elementos variáveis e organiza uma gramática; d) aceitação de que a terminologia varia e de que variação pode indicar uma mudança em curso; e) análise da terminologia em co-textos linguísticos e em contextos discursivos da língua escrita e da língua oral. (FAULSTICH, 2001, p.25) O construto de Faulstich serve de modelo e abre espaço para investigações de cunho variacionista, tanto sincrônica quanto diacronicamente, no campo da Terminologia. A partir dessas premissas, alinhados com a sociolinguística variacionista laboviana, podemos afirmar que a variação de um termo de dada linguagem de especialidade se dá pela ação do movimento gradual que realiza no tempo e no espaço. Além disso, focando a inserção dos estudos de Faulstich dentro do funcionalismo, notamos que essas variações são provocadas pela função das variáveis que estão envolvidas em sua produção. Como nos afirma a própria autora, “[...] a função é um entidade pragmática que ativa ou retrai os mecanismos da variação57” (FAULSTICH, 1998d, p.13). Dessa feita, ratificando o valor dos estudos desenvolvidos por Faulstich e apontando para a importância da inserção dos estudos terminológicos de cunho 57 Tradução nossa. No original, “[...] la fonction est une entité pragmatique qui active ou rétracte les mécanismes de variation”. 78 variacionista no âmbito da abordagem funcionalista58, em contraposição à terminologia tradicionalista desenvolvida por Wüster, LAMBERTI (2003) expõe que [...] enquanto a terminologia tradicionalista considera a variação um elemento perturbador da unidade linguística, a terminologia variacionista, que se enquadra dentro de uma abordagem funcionalista, passa a dar ênfase à diversidade porque reconhece que é por meio das línguas que se exercem as atividades sociais e cooperativas entre os falantes. (LAMBERTI, 2003, p.86) O trabalho que aqui desenvolvemos também está inserido no rol da abordagem funcionalista da terminologia variacionista proposta por Faulstich. Assim sendo, convém aclarar o que estamos entendendo por termo. Como nossa investigação está centrada em documentos escritos, ou seja, os termos com os quais vamos tratar estão materializados dentro de um texto, vincularemos o nosso entendimento de termo em relação ao que se entende por vocábulo no rol dos estudos lexicológicos. Tomamos, assim, a realização lexical de um vocábulo, com identidade científica pertencente a um domínio do conhecimento, como nossa acepção para termo. Desse modo, levando-se em consideração os agentes e os significados gerados a partir dos manuais de tática de infantaria, partimos da premissa de que os termos militares refletem uma cultura militar e uma visão de mundo por parte dos militares. Nesse aspecto, notamos certa aproximação da terminologia funcionalista com as ideias da lexicologia social de Matoré. Assim, ainda que os termos estejam inseridos em um âmbito restrito, que é o do discurso especializado, cabe atentar para o fato de que os agentes envolvidos nessa situação comunicativa, apesar de pertencerem à mesma comunidade de prática, possuem modos individuais e particulares de sentir, perceber e pensar sobre o seu entorno. É a partir dessa convergência de diferentes experiências (ROSCH, 1975) que passam a designar os conceitos de um campo de especialidade. Essa ideia também pode encontrar respaldo nos estudos sociolinguísticos de terceira onda, por conta da adoção da concepção de comunidade de prática. 58 Cabe destacar que a posição de LAMBERTI (2003) também valida a nossa opção por comunidades de práticas, seguindo as tendências da terceira onda da sociolinguística variacionista. 79 Em lugar de conceber o indivíduo como uma entidade à parte, pairando sobre o espaço social, ou como um ponto em uma rede, ou como membro de um conjunto específico ou de um conjunto de grupos, ou como um amontoado de características sociais, precisamos enfocar as comunidades de prática. Tal foco possibilita-nos ver o indivíduo como agente articulador de uma variedade de formas de participação em múltiplas comunidades de prática (ECKERT; MCCONNEL-GINET, 2010, p.103) Agregamos, também, que é devido a essa soma e multiplicidade de fatores que os termos estão sujeitos a variações e, portanto, podem apresentar conteúdos instáveis. […] os termos de conteúdo instável são, em primeiro lugar, unidades, cujas entidades denotadas não são o produto de nossa experiência perceptiva, mas o cruzamento de um modelo sociocultural e de uma estratificação histórica, portanto, pela sua própria origem, muito mais aberto à variação que os termos referentes a entidades "perceptuais"59.(KLEIBER, 1999, pp. 36-37) A afirmação de Kleiber reforça a ideia de que os termos não são entidades estanques, reforçando as propostas de Faulstich, que propõe o seguinte constructo teórico para analisar as variações terminológicas: Figura 02: Extraída de Faulstich (2002, p.76) A partir do esquema apresentado, verificamos que o fenômeno de variação será expresso por meio das variantes encontradas no discurso especializado. A função de uma dada variável será a responsável por motivar o fenômeno. As variantes, por sua vez, podem 59 Tradução nossa. No original, “[...] les termes à contenu instable sont avant tout des termes dont les entités dénotées ne sont pas le produit de notre expérience perceptuelle, mais du croisement d’une modélisation socio-culturelle et d’une stratification historique, donc par leur origine même beaucoup plus ouverts à la variation que les termes renvoyant à des entités “perceptuelles””. 80 pertencer a três tipos de categoria: variantes concorrentes, variantes coocorrentes e variantes competitivas. De acordo com o postulado de FAULSTICH (2002, p.77), essas variantes podem assim ser definidas: 1) Variantes concorrentes: são aquelas que podem concorrer entre si, ou que podem concorrer para a um processo de mudança. São classificadas como variantes formais, isto é, são formas linguísticas ou exclusivas de registro que correspondem “a uma das alternativas de denominação para um mesmo referente, podendo concorrer num contexto determinado”. (FAULSTICH, 2002, p.77). 2) Variantes coocorrentes: são aquelas que apresentam duas ou mais denominações para um mesmo referente. Elas formalizam a sinonímia terminológica; 3) Variantes competitivas: “são aquelas que relacionam significados entre itens lexicais de línguas diferentes”. (FAULSTICH, 2002, p.77). As variantes competitivas se concretizam através de pares formados por empréstimos linguísticos e formas da língua vernácula. Centrando nossa atenção nas variantes concorrentes, a autora também as divide em duas grandes categorias: variantes terminológicas linguísticas e as variantes terminológicas de registro. As primeiras “são aquelas em que o fenômeno propriamente linguístico determina o processo de variação” (FAULSTICH, 2002, p.73), ao passo que as segundas “são aquelas em que a variação decorre do ambiente de ocorrência, no plano horizontal, no plano vertical e no plano temporal em que se realizam os usos linguísticos” (FAULSTICH, 2002, p.73). A autora, dentro desses dois grandes grupos, reconhece que as variantes apresentam diferenças entre si motivadas pelos diferentes fenômenos linguísticos provocadores das variações. Tendo isso em vista, apresenta tipologias que definem as variantes terminológicas linguísticas “ora em consonância com o lugar, com o nível do 81 discurso e com o percurso temporal do termo na língua” (FAULSTICH, 2002, p.73). Então, teremos a seguinte classificação: VARIANTES TERMINOLÓGICAS LINGUÍSTICAS VARIANTES TERMINOLÓGICAS DE REGISTRO Variante terminológica fonológica Variante terminológica morfológica Variante terminológica sintática Variante terminológica lexical Variante terminológica gráfica Variante terminológica geográfica Variante terminológica de discurso Variante terminológica temporal Quadro 01: Variantes Terminológicas (FAULSTICH, 2002) Em relação às variantes terminológicas linguísticas, temos as seguintes definições, segundo FAULSTICH (2002, pp. 81-82): 1) Variante terminológica fonológica: aquela em que o registro se apresenta como formas decalcadas da fala; 2) Variante terminológica morfológica: aquela que apresenta alternância de estrutura de ordem morfológica na constituição do termo, sem que o conceito sofra alteração; 3) Variante terminológica sintática: aquela que alterna duas construções sintagmáticas que funcionam como predicação de uma unidade terminológica complexa; 4) Variante terminológica lexical: aquela em que algum item da estrutura lexical de uma unidade terminológica complexa sofre apagamento, no entanto o conceito não sofre qualquer tipo de alteração; 5) Variante terminológica gráfica: aquela que se apresenta sob forma gráfica diversificada se tomamos em conta os acordos formais de convenções da língua. No que compete às variantes terminológicas de registro, FAULSTICH (2002, pp.82-83) estabelece: 82 1) Variante terminológica geográfica: aquela que ocorre no plano horizontal de diferentes lugares em que se fala a mesma língua; 2) Variante terminológica de discurso: aquela que ocorre no plano vertical e decorre da sintonia comunicativa que se estabelece entre enunciador e enunciatário de textos técnico- científicos, podendo ser estes mais ou menos formais; 3) Variante terminológica temporal: aquela que se configura como preferida no processo de variação e mudança, em que duas ou mais formas concorrem durante um tempo, até que uma delas se fixe como preferida. Apesar da categorização sistêmica apresentada, “é preciso também atentar para o fato de que a divisão das variantes terminológicas em dois grandes grupos e, depois, em tipos específicos não exclui a possibilidade de os tipos aparecerem combinados entre si [...]” (FAULSTICH, 2002, p.83). Sintetizando todo o conteúdo apresentado, somos do posicionamento de que não é possível separar o estudo do termo do discurso em que ele está insertado. Além disso, está claro que a materialização de um discurso de especialidade não exclui as condições socioculturais, históricas e cognitivas envolvidas em sua produção. Dessa feita, consideramos o construto de uma terminologia variacionista apresentado por Faulstich como sendo pertinente e, por isso, será este o modelo que adotaremos para a realização da nossa investigação. Os procedimentos metodológicos que adotamos para a aplicação do construto de Faulstich serão apresentados no próximo capítulo. 83 CAPÍTULO 3 METODOLOGIA Nessa seção serão apresentadas as informações sobre os corpora estabelecidos, tais como os critérios usados para a seleção e delimitação, além das indicações pontuais e sistemáticas sobre o método utilizado para a realização e concretização das edições e dos glossários. Além disso, aclararemos como vamos operar com os dados no momento de análise. 3.1. Corpus Para fins de uma maior compreensão do trabalho, apresentamos nessa parte informações específicas sobre os procedimentos adotados para a seleção dos corpora, assim como para a delimitação do tema. Além disso, expusemos os critérios e fundamentos para a escolha da realização de uma edição paleográfica, bem como um breve e panorâmico estudo codicológico dos manuscritos que são nosso objeto de estudo. 3.1. 1. Procedimentos para delimitação e Descrição Os corpora selecionados para a realização dessa Tese de Doutorado pertencem ao acervo documental da Seção de Manuscritos da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (FBN-RJ). Inicialmente, como nosso objetivo é estudar os fenômenos de variação e mudança na linguagem de especialidade, nos preocupamos em delimitar o campo possível de atuação desses fenômenos. De acordo com AUBERT (2001, p.15), "tipologias textuais distintas impõem e oferecem parâmetros e potencialidades também distintos de expressão linguística, em todos os planos da linguagem, inclusive em seu componente lexical (e, portanto, 84 terminológico)." Dessa feita, nossa primeira preocupação centrou-se no sentido de adotar como corpora materiais escritos que fossem do mesmo gênero discursivo e compartilhassem a mesma tipologia textual. Essa especial atenção reside no fato de que “esses textos são enunciados no plano das ações sociais situadas e históricas” (MARCUSCHI, 2011, p.20). Pensar no trabalho, principalmente em tempos pretéritos, com fontes que se configurem em gêneros textuais ou discursivos diferentes pode acarretar problemas no tratamento dos dados coletados. É fato que qualquer trabalho com fontes históricas de séculos passados, principalmente com aquelas que retratam épocas mais remotas, faz com que o linguista (e, no nosso caso, englobando o terminólogo) se encontre diante do caminho já mencionado por LABOV (1972, p.20) – “[...] fazer bom uso de maus dados60” - e LASS (1997)- trabalhar com dados históricos é uma tarefa que se põe como “ouvir o inaudível”. Alguns trabalhos de cunho histórico se preocupam tanto com o objetivo que pretendem alcançar por meio de manifestações linguísticas que são encontradas nas fontes que, de certo modo, acabam deixando de lado o fato de que os dados dispostos nos documentos fazem parte de um conjunto maior que replica questões importantes para a interpretação não só dos fatos linguísticos gerados por eles, mas de o que esses fatos linguísticos refletem sobre cultura, história e sociedade. Pensa-se muito na forma do objeto e se relega a um segundo plano a função exercida por esse dentro do gênero em que se encontra. Nesse sentido, ainda estamos de acordo com MARCUSCHI (2011, p.23) quando afirma que “[...] os gêneros são históricos e culturais, mas não é comum fazer disso uma fonte de investigação.” Essa premissa é de suma importância, uma vez que o trabalho do terminólogo está centrado no reconhecimento de termos dentro de uma linguagem de especialidade. É importante ressaltar que a linguagem de especialidade também permite a 60Tradução nossa. No original, “[...] to “make the best use of bad data.” 85 abertura para manifestações de gêneros distintos e, no mesmo interim, pode manifestar-se de maneiras distintas em diferentes gêneros, já que, por vezes, essa multiplicidade de aparição pode exigir códigos diferentes para a manifestação concreta do mesmo conceito. Podemos tomar como exemplo da primeira opção (manifestação em diferentes gêneros), o trabalho de GONÇALVES (2007), que explora termos militares referentes aos campos semânticos instituídos de Armas e Homens a partir das Crônicas de Fernão Lopes (séculos XV/XVI), enquanto nossa proposta está baseada em manuais de táticas militares de infantaria. No caso da segunda opção apresentada, podemos citar o aparecimento de um mesmo termo, como, por exemplo, recruta que se manifesta nos nossos corpora como recluta ou soldado. Essas diferenças podem ser concretizadas, e ao mesmo tempo se concretizam, por meio das variantes terminológicas. FAULSTISCH (1995a, p.281) afirma que o aparecimento de variação no universo da terminologia revela peculiaridades que devem ser exploradas pela Socioterminologia, seja em sua vertente prática do trabalho terminológico ou como disciplina descritiva. Assim sendo, entendemos, nesse trabalho, que os textos, e consequentemente os dados que podemos gerar a partir deles, são frutos de uma determinada interação social e que o gênero em si vai constituir uma categoria que voltará sua atenção para o mundo social (KRESS, 1993, 2003). Essa orientação foi importante para o estabelecimento dos corpora do presente trabalho e, também, para o tipo de análise a qual nos propomos realizar aqui. Ao final dessa primeira etapa de escolha de possibilidades de objeto de estudo, selecionamos 11 fontes manuscritas, disponíveis no acervo da FBN-RJ, do século XVIII, e 13 fontes manuscritas do século XIX61. Além disso, estabelecemos como objeto ideal aquele que, ademais de adequar-se ao gênero e tipo, também tratasse do mesmo assunto. 61 O século XVIII foi tomado como base para o desenvolvimento da pesquisa, pois, segundo SANTOS (2000), é nessa época que se fixaram os regimentos, surgidos nos processos de guerra do século XVII. Além disso, a grande re-estruturação do exército português e a formação de um exército permanente lusitano também ocorreram nessa mesma época, conforme apresentamos no capítulo 01 dessa Tese. 86 Essa preocupação com o conteúdo do texto residiu no fato de que suas finalidades também acarretam diferentes interpretações linguísticas de forma e uso. Como nosso intuito se centra em analisar os fenômenos de variação e mudança em uma linguagem de especialidade, na distância temporal que abarcam dois séculos, dentro de uma dada prática social, delimitamos como mais prudente que ambos os objetos de estudo tivessem a mesma temática. Além disso, nos explicita ALPÍZAR CASTILLO (1998), que a temática das fontes é de extrema importância tanto para a delimitação do termo técnico (especializado) dentro de um contexto quanto para a construção de glossários ou dicionários voltados para a linguagem de especialidade. Para Gunther Kress (1989:19) os eventos sociais que constituem uma instituição ou cultura têm diferentes graus de ritualização. O conjunto de gêneros que constituem dada sociedade constitui, portanto, um “inventário” dos eventos sociais mediados pela linguagem em uma dada instituição, cultura ou grupo social, tais como uma festa entre amigos, uma reunião de departamento da universidade, um registro de nascimento ou uma reunião de negócios numa empresa. O repertório de gêneros discursivos engloba atividades humanas constituídas pela linguagem num determinado grupo social [...] (MOTTA- ROTH, 2011, pp. 156-157) Tomando as palavras da autora supracitada, esses inventários estão diretamente relacionados ao exercício da linguagem dentro de uma situação específica contida em uma dada comunidade de prática. Logo, a escolha não só do gênero e do tipo de texto, mas também do tema encerrado neles, tem que ser foco de atenção para a execução da nossa proposta de trabalho. Ao fim da seleção, baseada nos critérios previamente apresentados, somente 02 documentos (um de cada época) se mostraram pertinentes ao nosso intuito. Sendo assim, adotamos como objeto de estudo dois manuais manuscritos (um do século XVIII e outro do XIX) de tática militar dirigidos à preparação e atuação de grupos de infantaria do exército de terra português. A segunda preocupação, no que tange a escolha e seleção dos corpora, se refere à origem geográfica e contextualização de uso. Os dois manuais são documentos manuscritos, utilizados pelo exército português e, também, aplicados às tropas brasileiras 87 ao longo dos séculos XVIII, XIX e primeira metade do século XX. Outro fato a ser mencionado é que ambas as fontes têm influências62 francesas. Então, apesar de seus autores serem portugueses e de a grande parte das instruções se mostrar, por vezes, muito mais adequada ao contexto peninsular de atuação, sabe-se que esses manuais também eram de uso das tropas brasileiras até a Primeira Grande Guerra63, já que depois desse período o Brasil passou a escrever, produzir e editar seus próprios manuais e regulamentos em geral. Desse modo, afirmamos estar utilizando fontes primárias para a realização do nosso trabalho. Isto não quer dizer que a utilização de fontes secundárias configure grandes problemas para propostas de outros trabalhos em perspectiva histórica, mas o manuseio de fontes primárias propicia um desenvolvimento mais acurado. Segundo IRAZAZÁBAL (1996, p.50) [...] a documentação é um dos pilares mais importantes da Terminologia e que todo trabalho terminológico deve ser precedido de um estudo prévio e uma cuidadosa seleção e análise da documentação especializada correspondente à área científica na qual se vai trabalhar. O tratamento adequado da documentação selecionada permitirá localizar, classificar, analisar e armazenar, prévia indexação, os dados tanto bibliográficos quanto documentais que sejam de interesse para o trabalho terminológico em execução, a fim de que se possa recuperar para os diferentes fins que se persigam na elaboração do trabalho terminológico.64 Logo, o tratamento dispensado à preparação da documentação é de suma importância. Segundo CAMBRAIA (1999, p.13), "é inegável que a validade de um estudo diacrônico do português esteja diretamente relacionada à fidedignidade da fonte utilizada para a coleta de dados". No caso da nossa investigação, o trabalho terminológico foi precedido de rigor filológico tanto para a preparação das edições utilizadas na pesquisa, 62 Consideramos as influências francesas de dois modos: a) a adoção da ideologia francesa em questões de combate militar (muito difundida, sobretudo, no período Napoleônico) e; b) tradução de manuais franceses que eram intensamente usados pelos exércitos portugueses em suas ações de campo e que, por conseguinte, foram a base da formação de combate do Exército brasileiro até as primeiras décadas do século passado. 63 cf. SANTOS (2000) 64 Tradução nossa. No original, “[...] la documentación es uno de los pilares más importantes de la terminología y que todo trabajo terminológico debe ir precedido de un estudio previo y una cuidadosa selección y análisis de la documentación especializada correspondiente al área científica en la que vaya a trabajar. El tratamiento adecuado de la documentación seleccionada permitirá localizar, clasificar, analizar y almacenar, previa indización, los datos tanto bibliográficos como documentales que sean de interés para el trabajo terminológico en ejecución, a fin de que se puedan recuperar para los distintos fines que se persigan en la elaboración del trabajo terminológico.” 88 quanto para a confecção do glossário utilizado como base para o tratamento socioterminológico de dados. Nossa preocupação acerca da preparação das fontes também reside no fato de que, até o momento, não encontramos nenhuma pesquisa dentro do campo da Socioterminologia histórica (ou diacrônica) que trabalhasse com fontes primárias para sua realização. No Brasil, os trabalhos de GONÇALVES (2007), ABBADE (2009), MURAKAWA (1991) e SOUZA (2007) estão elencados no rol de estudos histórico- terminológicos que foram levantados para a constituição dessa Tese. No entanto, assentamos certas particularidades: 1) os dois primeiros, apesar de serem estudos objetivamente realizados dentro do campo da Terminologia, não se estabelecem como tal. São estudos de ordem semântico-lexical dentro de duas linguagens de especialidade (o primeiro, militar e o segundo, de culinária), mas em nenhum momento as autoras, dentro de seus objetivos de pesquisa e delimitações teórico-metodológicas, recortam teoricamente seus estudos como parte do campo terminológico; 2) Nenhum dos três primeiros trabalhos citados usou fontes primárias como constituição do corpus, por motivos devidamente justificados em suas investigações. O fato de usar fontes não primárias não relega nenhum trabalho histórico (sincrônico ou diacrônico) ao fracasso ou à suspeição de corrupção de dados. No entanto, como apontamos anteriormente, é necessário que se saiba escolher as fontes e, acima de tudo, em casos de fontes não primárias em estudos históricos, saber avaliar a qualidade das edições e o tipo de tratamento conferido aos dados sobre os quais se quer trabalhar. De acordo com MAIA (2012), [...] a qualidade dos resultados a obter está dependente, em primeira instância, da qualidade dos corpora que fornecem os materiais a analisar: tanto na investigação sobre língua falada e sobre as variedades diatópicas e sociais actuais, como nas investigações centradas sobre os usos linguísticos escritos de fases passadas, o investigador, quer seja ele próprio a constituir o seu corpus, quer se baseie num corpus já disponível, deve estar em condições de avaliar a sua qualidade. No que se refere às pesquisas de caráter diacrônico, estas estão dependentes de alguns requisitos, nomeadamente da sua autenticidade, garantia da sua fiabilidade, da sua extensão, adequada aos objetivos da pesquisa, da diversidade de tipologia dos textos reunidos que devem reflectir a variação concepcional da língua e, necessariamente, da sua elaboração. (MAIA, 2012, p.537). 89 Desse modo, estamos convictos de que as preocupações que permearam tanto a seleção do material sobre o qual nos debruçamos quanto o tratamento dispensado para a edição e extração dos dados, não foram desnecessárias. Retomando ainda os dizeres de MAIA (2012), no que tange a relação de preparação e uso do corpus em estudos históricos, destacamos a relação entre duas áreas do conhecimento: a Linguística histórica e a Filologia. GABAS JR (2006, p.77) nos afirma que a linguística histórica é o ramo dos estudos da linguagem responsável por estudar os processos de mudança das línguas no decorrer do tempo. Consoante com a posição do autor está FARACO (1991, p.57) ao dizer que "a linguística histórica ocupa-se, então, fundamentalmente com as transformações das línguas no tempo". Apesar de ambos os autores convergirem na ideia do que é a linguística histórica e de qual é seu objetivo primeiro, para a realização dessa Tese optamos por seguir as indicações e preceitos apresentados por MATTOS E SILVA (2008). Segundo a autora, a linguística histórica pode ser tratada por meio de duas vertentes: uma lato sensu, que "trabalha com dados datados e localizados, como ocorre em qualquer trabalho de linguística baseado em corpora [...]" (MATTOS E SILVA, 2008, p.09); e outra stricto sensu, que "se debruça sobre o que muda e como muda nas línguas ao longo do tempo em que tais línguas são usadas" (MATTOS E SILVA, 2008, p.09). Na sua proposta de uma orientação stricto sensu, MATTOS E SILVA (2008) ainda afirma que a pesquisa pode ser realizada sob dois prismas: o de uma linguística histórica sócio-histórica ou de uma linguística diacrônica associal. Nosso posicionamento na realização desse trabalho deixa claro que consideramos não só os fatores intralinguísticos como sendo as possíveis molas propulsoras dos fenômenos de variação e mudança, como, principalmente, também aceitamos e fazemos uso dos fatores extralinguísticos atrelados à socioterminologia funcionalista, que dialoga com os estudos de terceira onda da sociolinguística e com a 90 lexicologia social. Encontramos, também, suporte em AUBERT (2001, p. 13) quando este afirma que, inclusive para investigações de normalização terminológica "uma língua deve ser vista, simultaneamente, como conjunto de virtualidades, de potencialidades e como fato sócio-histórico." MATTOS E SILVA (2008) ainda afirma que não se pode desprezar a relação íntima que os estudos linguísticos de perspectiva diacrônica em caráter estrito possuem com a Filologia, pois se sabe que não se pode fazer linguística histórica sem documentação remanescente do passado e o responsável pelo seu entendimento, pela sua preparação, em suma, pela "Ciência do texto", é o filólogo. Segundo PICCHIO (1979, p.234), "Filólogo é quem, utilizando todos os instrumentos dos quais pode dispor, estudando todos os documentos, se esforça por penetrar no epistema que decidiu estudar, procurar a voz dos textos e de um passado que já não considera sufocado pelos estados sobrepostos." Ainda sobre essa questão, JANOTTI (2005, p. 21) esclarece que a importância do conhecimento do texto, de modo a "conhecer o contexto da produção; descobrir o seu sentido próprio; localizar seus modos de transmissão, sua destinação e suas sucessivas interpretações", é ponto importante para o entendimento de problemas e procedimentos pertinentes à compreensão das fontes. Essa afirmativa da autora corrobora com a necessidade de intervenção do trabalho filológico na preparação das fontes documentais para estudos científicos. Assim, deixamos claro que nosso estudo pertence ao rol da linguística histórica e, portanto, os procedimentos utilizados na preparação das fontes primárias se basearam nos preceitos científicos e rigor filológico da Crítica Textual e constituem uma importante etapa para a confecção desse trabalho. 91 3.1.1.1. Instrucções militares que contém os princípios geraes de tactica A primeira fonte documental selecionada intitula-se Instrucções militares que contém os princípios geraes de Tactica e encontra-se sob a cota I-14,01,039 na Seção de Manuscritos da FBN-RJ, em forma de livro. A autoria do documento é atribuída a Antônio José Batista de Sá Pereira Carneiro e data de 1769 e acredita-se, por várias referências apresentadas em partes do texto, que seja de Portugal, sem maiores especificações de áreas ou cidades. Esse material está constituído de 91 fólios de papel dispostos do seguinte modo:  01 fólio relativo à folha de guarda, com inscrições do título somente em seu recto;  02 fólios que compõem uma parte do texto intitulada de prospecto, contendo o segundo fólio somente inscrições em seu recto;  01 fólio relativo ao prólogo escrito em recto e verso;  02 fólios de dedicatória, não sendo o segundo fólio escrito no verso;  55 fólios escritos, sendo 54 em recto e verso, e o último deles somente em recto, correspondentes às instruções e princípios gerais de tática militar de infantaria;  20 fólios escritos de instruções de cavalaria;  01 fólio em branco, em recto e verso, entre o final da parte escrita e o início da seção de mapas, figuras e desenhos;  09 fólios de mapas, figuras e desenhos que ilustram a execução e formação dos movimentos estratégicos estipulados ao longo do texto. Não há numeração de página em nenhum fólio dessa fonte documental. O texto está dividido em seis capítulos e cinco deles, por sua vez, em artigos. O primeiro capítulo tem 03 artigos, o segundo se constitui de 06, o terceiro de 03, o quarto de 08, o quinto não 92 possui artigos e, por fim, o sexto de 06. Ambas as divisões encontram-se indicadas por algarismos romanos e seguidas de índice. A capa da encadernação é feita em cartão e mede 165 x 215 mm. O lombo, que tem aproximadamente 32 mm, é arredondado e possui o nome do autor escrito em letras douradas, abreviando os sobrenomes, com exceção do último. Já a dimensão dos fólios que contém as instruções propriamente ditas é de 155 x 205 mm. O papel dos fólios tem gramatura média e é pouco poroso. Todas as margens (superior, inferior, esquerda e direita) são marcadas a lápis de cor avermelhada em todos os fólios escritos, seja em recto ou em verso. A mancha ou caixa de texto tem dimensão variável entre 145 e 140 mm x 195 e 190 mm, nas quais conseguem dispor, em média, de um total de 19 a 25 linhas em coluna única. O texto não faz uso de reclamos, ainda que esse recurso apareça tão somente em dois fólios da documentação e de formas distintas: a primeira incidência por indicação de sílaba e a outra por repetição de palavra. As duas aparições localizam-se dentro da caixa de texto. Os fólios relativos aos mapas, figuras ou desenhos têm dimensão maior que os demais, possuem de 305 a 320 mm x 205 mm e encontram-se dispostos ao final do livro, seguindo os fólios das instruções. Somente há marcas do carimbo da Real Biblioteca Nacional e essas aparecem tanto em alguns recto quanto verso dos fólios, e de maneira descontínua e aleatória. O códice está em bom estado de conservação, apesar de possuir algumas poucas marcas de papirófagos. 3.1.1.2. Elementos de tactica para a infantaria A segunda fonte documental selecionada intitula-se Elementos de tactica para a infantaria e encontra-se sob a cota I-13,04,026 na Seção de Manuscritos da FBN-RJ, em forma de livro. A autoria do documento é atribuída ao Conde de Oeynhausen e não apresenta data em seus dados catalográficos. No entanto, em investigações sobre os 93 percursos do documento, verificamos que há uma data para a sua publicação. Seu ano de publicação foi 182965 e seu autor é o terceiro Conde D’Oyenhausen, João Carlos Augusto de Oyenhausen-Gravenburg, filho do primeiro Conde dessa linhagem. O texto das instruções foi escrito em Portugal, em língua portuguesa, sem maiores especificações de áreas ou cidades. Este material está constituído de 88 fólios de papel dispostos do seguinte modo:  01 fólio relativo à folha de guarda, com inscrições do título somente em seu recto;  01 fólio em branco;  01 fólio de dedicatória, escrito em recto e verso;  03 fólios relativos ao prólogo, sendo os 02 primeiros escritos em recto e verso, e o último somente em recto até a metade do cartáceo;  36 fólios de mapas, figuras e desenhos que ilustram a execução e formação dos movimentos estratégicos estipulados ao longo do texto;  46 fólios escritos todos em recto e verso, correspondentes às instruções e princípios gerais de tática militar. As páginas estão numeradas com algarismos arábicos na margem superior direita somente nos fólios que constituem o texto das instruções. Todos os demais se encontram em branco. O texto está dividido em cinco ‘Seções’ numeradas com algarismos arábicos em sua forma ordinal e seguidas de índice. A capa da encadernação é feita em cartão e mede 367 x 231 mm. O lombo, que tem aproximadamente 380 mm, é reto e não possui nada escrito. Já a dimensão dos fólios que contém as instruções propriamente ditas é de 360 x 225 mm. O papel dos fólios tem 65 Essas informações foram obtidas ao investigar os manuscritos que estão na caixa da Casa Fronteira e Alorna, no Arquivo Nacional Torre do Tombo, em Portugal. Além disso, conseguimos referendar todas as informações por meio de VICENTE (2000) e ALMEIDA (1963). 94 gramatura média e é pouco poroso. Todas as margens (superior, inferior, esquerda e direita) são marcadas a lápis de cor avermelhada em todos os fólios escritos, seja em recto ou em verso. A mancha ou caixa de texto tem dimensão variável entre 280 e 285 mm x 175 e 180 mm, nas quais conseguem dispor, em média, de um total de 22 a 25 linhas em coluna única. Há no texto uso de reclamos e esse recurso aparece na documentação de forma sistemática e única: fora da mancha e indicando a primeira sílaba da primeira palavra do fólio seguinte. Alguns fólios relativos aos mapas, figuras ou desenhos têm dimensão maior que os demais, possuem variações de 360 a 365 mm x 225 a 450 mm e encontram-se dispostos ao final do livro, seguindo os fólios das instruções. Somente há marcas do carimbo da Real Biblioteca Nacional e essas só aparecem no recto de maneira contínua em todos os fólios ímpares. A única exceção faz-se ao [Fl 52v], em que o carimbo aparece marcando o final do texto. O códice está em bom estado de conservação. 3.1.2. Edição 3.1.2.1. Escolha do tipo de edição Nossa terceira preocupação está centrada no tipo de edição que deveríamos realizar e utilizar para os propósitos dessa investigação. Os estudos de Linguística Histórica, História da Língua e Historiografia têm em seu cerne o mesmo objeto de estudo: os textos escritos da documentação remanescente. Assim, uma má formulação ou alterações significativas dos textos originais podem ocasionar problemas em pesquisas destas áreas. Então, Sob o ponto de vista qualitativo, a autenticidade é uma exigência decisiva: se se pretende utilizar os materiais para o estudo de história da língua, as edições devem satisfazer as necessidades de uma linguística histórica empírica e, por esse motivo, devem reflectir fielmente as características linguísticas dos manuscritos, uma vez que nelas se reflectem as marcas de variação da língua da época. As edições elaboradas com outro tipo de motivações e destinadas a outro tipo de público levaram frequentemente os editores a regularizar e a “corrigir” os textos que transcrevem, ferindo a autenticidade e inviabilizando a reconstrução de fenômenos de mudança linguística nos diferentes níveis de análise. (MAIA, 2012, p.539) 95 Desse modo, a Crítica Textual apresenta-se como disciplina de suma importância para o estudo do texto nas abordagens já referidas. Realizar edições de textos, principalmente, dos pertencentes aos períodos antigos das línguas é uma necessidade de que se ressentem os historiadores da língua e os linguistas. Nas palavras de MATTOS E SILVA (2006, p.13) “sem dúvida, para quem hoje usa e tem a oportunidade de refletir sobre a língua que usa, alguma informação histórica passada é um instrumento útil para abrir caminhos para o conhecimento de sua língua.” Dessa forma, observa-se a premência da atuação da Crítica Textual nesse contexto científico. A Crítica Textual tem como objetivo principal, segundo CAMBRAIA (2005), a restituição da forma genuína dos textos. Um texto ao ser reproduzido, por muitas vezes, não condiz com o original. Isto quer dizer que a cópia, geralmente, contém traços que podem ter sido proporcionados de acordo com a visão de quem a efetuou ou, até mesmo, por adaptações que lhe pareceram necessárias. Isso pode ocorrer, por exemplo, para tornar a mensagem mais clara ou para a correção de um suposto erro. O autor ainda apresenta dois termos referentes à Crítica Textual: Ecdótica e Filologia. A Ecdótica, além de preservar a forma genuína de um texto, também prevê os procedimentos técnicos para a edição do mesmo. Já a Filologia, segundo ele, abrange o estudo dos textos de um modo geral, considerando todos os aspectos, finalidades e contextos que definam as diferenças entre eles. Ainda de acordo com CAMBRAIA (2005, p. 91), os tipos de edição podem, também, ser baseados na forma de estabelecimento do texto e são distribuídas em edições monotestemunhais (baseadas em apenas um testemunho de um texto), e as politestemunhais (baseadas no confronto de dois ou mais testemunhos de um mesmo texto). Em nossa pesquisa trabalhamos com edições monotestemunhais, pois não traçamos como meta o confronto de mais de um testemunho e tampouco centramos nosso foco em 96 levantar quantos são os testemunhos existentes das fontes ou mesmo onde eles se encontram. Sendo assim, fixamos nossa atenção somente no primeiro tipo que, segundo a proposta de CAMBRAIA (2005, pp.91-103), podem ser divididas conforme o quadro abaixo. TIPOS DE EDIÇÃO CARACTERÍSTICAS FAC-SIMILAR Reproduz-se a imagem de um testemunho somente através de meios mecânicos, como fotografia, xerografia, escanerização etc. DIPLOMÁTICA Faz-se a transcrição exatamente como está escrito no modelo, como, por exemplo, sinais abreviativos, sinais de pontuação, paragrafação, separação vocabular etc. PALEOGRÁFICA Não é tão fiel ao modelo como a diplomática, fazendo assim com que a leitura seja mais fácil para o leitor que não é especialista. INTERPRETATIVA É a mais acessível de todas porque o texto passa por um processo de uniformização gráfica e oferece ao público um texto mais apurado. Os elementos estranhos à sua forma genuína vêm claramente assinalados. Quadro 02: Tipos e definições de edições de documentos monotestemunhais (CAMBRAIA, 2005) A intenção das edições realizadas sob os preceitos da Crítica Textual é a de tornar o texto acessível ao público leitor. Além disso, faz-se mister ressaltar que a acessibilidade deve levar em conta a especificidade do público a quem vai destinada a edição e dos propósitos de realização da mesma. Ainda que a facilitação da leitura seja uma das metas a serem alcançadas, não se pode desprezar a sistematicidade da metodologia para sua concretização. De acordo com MATTOS E SILVA (2008), No que se refere à metodologia, deve-se ressaltar que não se pode nem se deve utilizar qualquer edição de texto do passado para a análise histórico-diacrônica: a edição tem de ser feita com rigor filológico e com o objetivo claro de servir a estudos lingüísticos; há edições úteis ao historiador ou ao estudioso da literatura ou ao chamado grande público, mas que, contudo, não devem ser usadas para estudos de história lingüística. (MATTOS E SILVA, 2008, p.15) Assim sendo, o tipo de edição a ser utilizada para estudos linguísticos deve atender, primeiramente, ao linguista e seus anseios. Além disso, a viabilidade de nossa pesquisa é determinada por certa vantagem, tais como as condições propícias para a realização da 97 edição. Primeiramente, o acesso direto aos manuscritos não constituiu tarefa difícil, pois além da acessibilidade geográfica à documentação, contamos também com a permissão para o manuseio das fontes originais. Já que os manuscritos se encontram em excelente estado de conservação, o acesso às informações neles contidas foi, com poucos problemas de caráter paleográfico, relativamente fácil. Por se tratar de documentação remanescente dos séculos XVIII e XIX, o nosso conhecimento de natureza codicológica, para a formulação das edições, foi suficiente para a realização de um trabalho que pudesse reproduzir com fidelidade as características dos originais. Ademais, já que as edições foram realizadas já vislumbrando os objetivos a serem alcançados, soube-se cuidar para que não se perdessem dados e informações relevantes no momento de editar a documentação. Esse cuidado é importante, pois, A viabilização dos estudos diacrônicos depende, sem dúvida, da realização de edições rigorosas e fidedignas, que ofereçam o máximo possível de informações sobre o texto, reproduzindo, na medida do possível, todas as características do original e efetuado apenas aquelas intervenções que se fizessem necessárias para a inteligibilidade do texto (como, por exemplo, o desdobramento de abreviaturas). (CAMBRAIA, 1999, p.14) A partir das palavras do autor, percebe-se que as edições devem ser rigorosas e buscar a fidedignidade da reprodução do maior número de informações que possam ser extraídas no texto e do texto. Como os objetivos para a nossa edição já estão bem delimitados e sabemos que o nosso principal público-alvo são linguistas/terminólogos, partilhamos da opinião de CAMBRAIA (1999) ao estabelecer a edição semidiplomática (ou paleográfica, ou paradiplomática, ou diplomático-interpretativa) como a mais adequada. Isto se deve ao fato de este tipo de edição respeitar o máximo possível das características originais das fontes e intervindo o editor em pequena escala no intuito de desfazer a dificuldade de leitura do público. Ainda conforme o autor, além de as interferências consistirem em “um grau médio de mediação, pois, no processo de reprodução do modelo, realizam-se modificações para o tornar mais apreensível por um 98 público que não seria capaz de decodificar características originais, tais como os sinais abreviativos” (CAMBRAIA, 2005, p.95), todas aparecem devidamente assinaladas e estão embasadas em justificativas de cunho linguístico. Nesse tipo de trabalho filológico não há como desvincular o conhecimento linguístico do editor. As escolhas feitas para a realização da edição de textos de tempos pretéritos têm, em sua maior parte, embasamentos linguísticos direcionados ao tipo de pesquisa que se quer realizar. [...] o filólogo que pretenda estabelecer uma edição deve possuir boa formação linguística e sólidos conhecimentos da língua e da sua história, a fim de saber tratar as variantes linguísticas oferecidas pelo texto. Se a língua é variável em qualquer momento de sua trajectória no tempo, o editor não pode, na sua transcrição, desprezar a variação manifestada no texto, devendo, também na questão do desdobramento de abreviaturas, ter presente a variação que a língua da época podia apresentar em qualquer nível linguístico. Para que esse texto possa vir a servir de fonte para o estudo e conhecimento da história da língua, a edição deve reflectir fielmente a variação linguística presente no manuscrito, uma vez que actualmente no estudo histórico da língua não é possível deixar de considerar os seus efeitos. (MAIA, 2012, p.540) Como nosso objetivo é trabalhar com as unidades lexicais (termos) dessas fontes remanescentes, muitas opções surgiram no momento de realizar as edições dos corpora. Assim sendo, todos os direcionamentos assumidos e configurados como normas para as edições dos textos, não desprezam ou minimizam, em hipótese alguma, as questões que envolvem o fenômeno da variação. Inclusive, dentro da proposta de estudo da variação de caráter socioterminológico, FAULSTICH (1995a) prevê que os registros de variantes dos termos são importantes para o entendimento dos contextos sociais, situacionais, espaciais e linguísticos. Corroborando com os nossos cuidados a respeito do tratamento dos corpora e alinhado com as proposições por nós apresentadas e embasadas por vários cientistas da linguagem, SCHAETZEN (1996) afirma que “o corpus é também o único lugar que evidencia as observações precisas sobre a evolução diacrónica dos vocábulos 99 especializados, a análise do conteúdo socioterminológico e, ao mesmo tempo, funciona como um banco de dados para as indústrias da língua66” (SCHAETZEN, 1996, p.57). 3.1.2.2. Normas de edição Para realização da referida edição, serão empregadas as normas sugeridas por CAMBRAIA (2005, pp.129-130). Optamos por seguir as normas oferecidas pelo autor por uma questão de consistência e adequação aos nossos intentos. O labor filológico de edição permite ao editor criar suas próprias normas adequadas ao tipo de edição que pretende realizar bem como, no caso de estudos linguísticos que dependem desta, ao tipo de tratamento que se vislumbra dar aos dados. Certamente, nossa posição nesse trabalho poderia ser a de criar normas particulares. No entanto, na tradição de edição de textos, há alguns parâmetros consensuais que dispensariam a criação de normas inéditas, por exemplo, para desdobramento de abreviaturas ou para mudança de fólio ou face da fonte documental. De acordo com CAMBRAIA (2005, p.110), “cada tipo de edição atende a uma finalidade, as normas devem possibilitar a satisfação de finalidade da edição”. Tivemos contato com outras propostas de normas para a constituição da edição, tais como as usadas por SPINA (1994), SPAGGIARI; PERUGI (2004), MEGALE; TOLEDO NETO (2006), DUHÁ LOSE et alii (2009), BORGES et alii (2012) e PROCOPIO (2012). Por fim, optamos pelo estabelecimento das normas sugeridas por CAMBRAIA (2005) por sintetizarem melhor as propostas e, também, por estarem mais alinhadas com o intuito de edição que estamos apresentando nesse trabalho. Há casos em que as normas propostas pelo autor não puderam ser utilizadas. Quando ocorreram essas situações, indicamos a discrepância entre o critério 66 Tradução nossa. No original, “Les corpus sont aussi l’unique lieu probant d’observations precises sur l’évolution diachronique des vocables, les analyses de contenu socioterminologiques en même temps qu’un banc d’essai pour les industries de la langue […]” 100 próprio adotado e o do autor que elegemos como base. Segue abaixo uma síntese dessas normas: a) Os caracteres alfabéticos serão transcritos como caracteres romanos redondos, reproduzindo-se as diferenças de módulo. Os alógrafos contextuais serão uniformizados segundo a forma mais moderna. Quando houver mais de um tipo de caractere no modelo (como, por exemplo, capitulares), será informado em nota. No caso de diferenças de tamanho que não configurem diferenças de módulo, estas serão transcritas em caracteres redondos uniformizados com o restante do corpo do texto, marcados em negrito e informados em nota a sua particularidade (se são maiores ou menores que os caracteres da transcrição). b) Os sinais abreviativos serão todos desenvolvidos com base nas formas por extenso, presentes no modelo, transcrevendo em itálico os caracteres acrescentados em substituição ao sinal abreviativo. No caso de as abreviaturas pertencerem a uma língua diferente da língua do texto a ser editado, como latim ou grego, seu significado será explicitado através de notas. c) Os diacríticos serão transcritos uniformizando os sinais segundo sua forma atual (mas mantendo seu uso tal qual no modelo). A uniformização dos diacríticos refere-se tão somente ao seu aspecto formal. A utilização do mesmo respeitará o uso apresentado no manuscrito, ainda que seja divergente do uso nos modelos atuais. d) Os sinais de pontuação serão transcritos fielmente segundo as formas presentes no modelo. Os sinais usados para a separação vocabular realizada por força da mudança de linha são basicamente <-> e <>. Contudo, não serão transcritos nas edições apresentadas porque não influenciam significativamente o estudo linguístico para o qual os textos foram preparados, logo não são relevantes para a abordagem pretendida. 101 e) Os caracteres de leitura duvidosa serão transcritos entre colchetes simples [ ]. Ainda que em Cambraia (2005, p.130) a proposta seja a de utilizar parênteses redondos simples, optamos nesse trabalho pelos colchetes simples já que ambos os manuscritos possuem parênteses redondos simples indicando outras funções textuais e discursivas, tais como comentários, observações, acréscimo ou detalhamento de informações apresentadas previamente. f) Os caracteres de leitura impossível serão transcritos como pontos dentro de colchetes precedidos pela cruz † (o número de pontos corresponderá ao de caracteres não legíveis estimados). g) Os caracteres riscados serão transcritos entre chaves duplas {{ }}. h) Os caracteres sublinhados estarão representados desta mesma forma na edição. Qualquer particularidade relativa a esses caracteres será informada em notas. i) Os caracteres apagados estarão marcados em negrito e serão informados em nota quais seriam. j) Os caracteres modificados terão sua forma primitiva informada em nota. k) Os caracteres nas entrelinhas serão transcritos, já no ponto do texto pertinente, entre parênteses uncinados duplos << >> e será indicado em nota o seu alinhamento inicial. l) Os caracteres nas margens serão transcritos, no ponto do texto pertinente, entre parênteses uncinados simples seguidos de chaves simples <{ }>. Quando não fizer parte do texto, serão informados em nota. m) A separação vocabular (intra- e interlinear) será reproduzida fielmente. n) A paragrafação também será reproduzida fielmente. 102 o) As inserções conjecturais serão realizadas por meio de acréscimo de elementos por força do contexto entre parênteses uncinados simples < > e por desgaste do suporte entre colchetes duplos [[ ]]67. p) As supressões conjecturais serão realizadas transcrevendo os erros por repetição entre colchetes triplos [[[ ]]]68, e os erros de outra natureza entre chaves simples { }. q) A mudança de fólio e face será informada na margem cabeça, em itálico e entre colchetes simples [ ]. Caso as fontes sejam originalmente numeradas, o algarismo correspondente à numeração da página virá imediatamente depois das indicações de mudança de fólio e face, fora dos colchetes simples. r) As mudanças de punho serão informadas em nota. s) As mudanças de tinta também serão informadas em nota. t) A numeração de linha será inserida na margem externa à esquerda, contando de 05 em 05, de forma contínua em todo o texto. Para fins de linha, consideramos toda aquela que contivesse, ao mínimo, uma sílaba ou número e que não fosse um reclame. Assim, não consideramos linhas a serem contadas aquelas que dispusessem unicamente de representações gráficas de linhas retas ou de obliquas seguidas de ponto, ou aquelas em que se encontram tão somente os reclamos. u) Os reclames foram excluídos das edições, uma vez que não se configuram como ponto crucial para os objetivos traçados para a composição e análise dos dados. v) Qualquer outra particularidade aparente nos textos será informada em nota. 67 CAMBRAIA (2005, p.130) indica o uso de colchetes simples. Neste caso, tivemos que alterar a proposta do autor porque o uso de colchetes simples já está estipulado para marcação de caracteres de leitura duvidosa. Cf. letra (e) 68 CAMBRAIA (2005, p.130) indica o uso de colchetes duplos. Alteramos a indicação do autor porque o uso de colchetes duplos já está estipulado para marcação de caracteres de inserções conjecturais. Cf. letra (o). 103 3.1.3. Glossário No momento da preparação da edição, nos vimos diante de algumas dificuldades que foram contornadas por meio do estabelecimento de normas que guiaram as edições no sentido de dar maior fidedignidade aos textos em relação aos originais manuscritos. Sem dúvida, no papel de editor, essa dificuldade inicial para o estabelecimento dos textos volta a aparecer quando chega o momento de elaboração dos glossários. O primeiro deles é saber se é pertinente ou não a construção de um glossário69. Caso o seja, a segunda dificuldade estaria centrada no fato de saber qual seria o tipo mais adequado a ser elaborado. Para a nossa pesquisa, verificou-se que é de grande importância a existência de glossários, porque delimitam com precisão a base de dados lexicais a serem estudados. De acordo com FAULSTICH (1995a, p.284), um glossário voltado para os estudos terminológicos é um “repertório que define termos de uma área científica ou técnica”. Nosso propósito é justamente trabalhar com os termos da área militar de infantaria. Segundo MIRA MATEUS (1995, p.289), “da mesma forma que o problema se põe para as normas de transcrição, também a existência ou inexistência de glossários e o modo como estão concebidos se relacionam intimamente com a época do texto editado”. Em relação à existência, não há dúvidas de que sejam necessários glossários para nossos corpora. Contudo, nosso segundo questionamento encontra-se no fato de saber qual seria o tipo de glossário mais adequado para atender às nossas expectativas. Já que deixamos claro que nossa ideia é avaliar as categorias de variantes e entender as variáveis que atuam no fenômeno de variação e mudança terminológica, não julgamos ser conveniente a construção de um glossário exaustivo. Sendo assim, optamos por elaborar 69 A nossa proposta baseia-se em BARBOSA (2001, p.36), pois entendemos que “[...] o glossário pretende ser representativo da situação lexical de um único texto manifestado (no limite de uma [sic] macrotexto) em sua especificidade léxico-semântica e semântico-sintáxica, numa situação de enunciação e de enunciado, numa situação de discurso exclusivas e bem determinadas.” As nossas propostas estão em plena conformidade com as ideias apresentadas pela autora, segundo pode-se verificar no item em que tratamos dos nossos critérios para seleção e delimitação dos corpora. 104 um glossário parcial e seletivo70 tomando como base as entradas léxicas que são definidas como vocábulos de especialidade militar. Baseando-nos em KRIEGER; FINATTO (2004, p.130), ao afirmarem que a construção de um glossário, ao contrário do que pensa o senso comum, deve seguir certos fundamentos da Terminografia, fixamos nossa elaboração dos glossários nas seguintes etapas71: Etapa 1: Delimitação e procedimentos para coleta ou extração dos termos De acordo com ALMEIDA et alii (2007), é nessa etapa que se obtém o conjunto de termos que irá compor a nomenclatura do glossário. Entende-se por nomenclatura "a lista de verbetes ou de entradas que perfaz o todo do dicionário" (KRIEGER; FINATTO, 2004, p.127). Para que se possa extrair os termos, faz-se necessário, inicialmente, o reconhecimento das unidades terminológicas. A elaboração dessa etapa deve ser acompanhada por um especialista da área-objeto. Além do nosso conhecimento sobre a área, contamos com a ajuda de oficiais de infantaria do Exército Brasileiro e Português. Optamos por selecionar somente oficiais superiores, por questões acadêmicas (todos têm cursos de aperfeiçoamento de oficias, além de outros estágios de caráter tático-militar) e práticas (todos têm experiência de comando em tropas operacionais, o que pressupõe o conhecimento tático de manobras de infantaria). Incialmente, cabe destacar a definição de termo que nos oferece BARROS (2004, pp.39-40) com base nos organismos internacionais de normalização: “designação, por meio 70 Entendemos a denominação de glossário parcial como aquele que seleciona as palavras que irão compor a nomenclatura e, para tanto, estamos baseados nos preceitos de MIRA MATEUS (1995). Já a concepção de glossário seletivo, extraímos de MATTOS E SILVA (2006, p.46). Segundo a autora é aquele em que “os editores escolhem nos seus verbetes os itens que julgam de interesse para a história da língua.” No nosso caso, o julgamento, além do que preconiza a autora, centra-se na delimitação das unidades terminológicas da linguagem de especialidade que estamos enfocando. Por isso, optamos por classificar nosso glossário de parcial e seletivo. 71 Nossa proposta baseia-se em uma adaptação das indicações de STREHLER (1995), ALMEIDA et alii (2007), KRIEGER; FINATTO (2004), BARBOSA (2001) e BARROS (2004). 105 de uma unidade linguística, de um conceito definida em uma língua de especialidade”. Mas é a posição de ALPÍZAR CASTILLO (1998) que desperta maior interesse no que tange a definição de termo e sua relação com as palavras da língua geral. Termo é o resultado da especialização de qualquer signo. É termo qualquer signo da língua se dentro de suas possibilidades como unidade de denominação, se usa para denominar algum (ou alguns) dos conceitos que compões uma área especializada. Em outras palavras, é termo um signo quando se usa para denominação de algum elemento dentro do sistema conceitual de um campo específico de atividade72. (ALPÍZAR CASTILLO, 1998, p. 102) A partir dessa exposição, agregada à discussão apresentada em nosso capítulo 02, notamos que é importante a posição de ALPÍZAR CASTILLO (1998) ao afirmar que há alguns signos linguísticos, que desde a sua criação, já são “terminologizados” e outros que adquirem essa característica ao longo de sua existência a partir das necessidades de uma determinada área científica. Assim, o mais importante a ser apontado nessa relação é que a distinção entre uma unidade léxica da língua geral e um termo especializado emprega a este último um caráter basicamente de unidade pragmática. Ainda agrega o autor que “qualquer outra condição presente é apenas uma “pista”, e nada mais, para diferenciar, no trabalho de seleção, as unidades que devem configurar as entradas correspondentes para um inventário73” (ALPÍZAR CASTILLO, 1998, p.102). Assim, para a delimitação dos termos que compuseram os dados da nossa proposta de pesquisa, partimos das ponderações de CABRÉ (1993) e ALPÍZAR CASTILLO (1998) quanto aos fatores que regem a escolha do termo, além da nossa posição sobre o conceito de termo que deixamos claro no capítulo 02. Segundo os autores mencionados 72 Tradução nossa. No original, “Término es el resultado de la especialización de un signo cualquiera. Es término cualquier signo de la lengua si dentro de sus posibilidades como unidad de denominación, se usa para denominar alguno (algunos) de los conceptos que componen una área de especializada. Dicho de otra forma, es término un signo cuando se usa para la denominación de algún elemento dentro del sistema conceptual de un campo específico de actividad”. 73 Tradução nossa. No original, “cualquier otra condición presente es apenas una “pista”, y nada más, para distinguir, en el trabajo de selección, las unidades que deben ser vaciadas en los ficheiros correspondientes para un inventario”. 106 anteriormente, cinco fatores pragmáticos são importantes no momento de delimitar-se o termo de uma linguagem de especialidade. São eles: 1) Função Básica; 2) Temática abordada; 3) Os usuários envolvidos; 4) As situações comunicativas; e 5) Tipos de discurso em que aparecem termos. A função básica dos termos é a função referencial porque denomina prioritariamente a realidade especializada de aparição do termo (ALPÍZAR CASTILLO, 1998, p.100). Já no segundo fator, relativo à temática, como já foi explicitado anteriormente, uma palavra só reúne efetivamente condições de ser um termo quando está inserida dentro de um campo de especialidade. Em relação aos usuários envolvidos, a importância recai sobre o uso dos termos em contextos especializados. No entanto, ALPÍZAR CASTILLO (1998) chama a atenção para que, apesar desse fator pragmático ser levado em conta para a delimitação da unidade terminológica, ele é, sozinho, relativamente fraco para dar conta desse processo e afirma que Se se inclui no conceito os léxicos profissionais, esportivos e de outras atividades humanas, como é habitual atualmente, o número de usuários se diversifica e cresce consideravelmente. De tal modo, esta diferença (léxico comum dos falantes de uma língua, léxico técnico dos especialistas) se desconstrói por completo e perde em grande medida seu valor demonstrativo. Acrescentemos a isso, como se viu antes, que também os não especialistas podem usar esses termos na atualidade.74 (ALPÍZAR CASTILLO, 1998, p.100) No quarto fator apontado, a situação comunicativa, a teoria tradicional centra sua ideia no sentido de que o léxico técnico é usado mais em situações de comunicação formal e com menor frequência em situações mais coloquiais e em situações em que os textos não sejam propriamente referenciais. ALPÍZAR CASTILLO (1998, p.101) também critica esta modelização e afirma que “os especialistas usam o léxico técnico em diversos atos comunicativos e com diferentes níveis de abstração e formalização, incluído o colóquio. E 74 Tradução nossa. No original, “Si se incluye en el concepto los léxicos profesionales, desportivos y de otras actividades humanas, como es habitual actualmente, el número de usuarios se diversifica y crece considerablemente. De tal modo, esta diferencia (léxico común de los hablantes de la lengua, léxico técnico de los especialistas) se desdibuja por completo y pierde en gran medida su valor demonstrativo. Añádase, como se vio antes, que también los no especialistas suelen usarlo en la actualidad” 107 também os não especialistas o fazem.75” Por último, os discursos materializados nos tipos de textos em que aparecem os termos de especialidade. A grande maioria desses textos são informativos, descritivos, explicativos e argumentativos. Dentro desse rol, chama-se atenção para os textos de divulgação de dada área científica. Nesse tipo de texto, os inventários são mais facilmente reconhecíveis (ALPÍZAR CASTILLO, 1998, p.101). Dessa feita, além dos tradicionais percursos semasiológico e onomasiológico que percorremos, tanto na trilha da Terminologia quanto na da Terminografia, os fatores pragmáticos apontados são de suma importância para o reconhecimento do termo. Mesmo com todo o cuidado em relação aos critérios adotados para o reconhecimento dos termos, ainda estaríamos suscetíveis a críticas por conta do limite tênue que existe entre o que o terminólogo reconhece como termo e o uso desses termos na língua geral. Assim, sabemos que [...] as características que permitem a caracterização do termo e sua diferenciação do resto dos signos léxicos tem se relativizado e já não se pode argumentar de maneira tão categórica como em outros tempos. Nem o uso por especialistas, nem o aparecimento em determinado tipo de texto, nem a formalização do discurso, nem a situação comunicativa por si sós são bastantes para diferenciar o termo do vocábulo comum. Na definição de um elemento como termo, o máximo que se pode dizer é que ele se configura dessa forma se cumprir de maneira relativamente estável várias das condições enumeradas, sendo que a principal delas, essa sim, continua sendo uma unidade denominativa de algum membros do sistema conceitual de determinada área de especialidade.76 (ALPÍZAR CASTILLO, 1998, p.101) Para a concretização da delimitação e extração dos termos, faremos uso de procedimentos e informações disponíveis no âmbito da Linguística de Corpus. 75 Tradução nossa. No original, “los especialista usan el léxico técnico en diversos actos comunicativos y con diferentes niveles de abstracción y formalización, incluido el coloquio. Y también los no especialistas lo hacen” 76 Tradução nossa. No original, “los rasgos que permiten la caracterización del término y su diferenciación del resto de los signos léxicos se han ido relativizando y ya no pueden argumentarse de manera tan categórica como en otros tempos. Ni el uso por especialistas, ni la aparición en determinado tipo de texto, ni la formalización del discurso, ni la situación comunicativa por si solos son bastantes para diferenciar al término del vocablo común. En la definición de un elemento como término, lo máximo que se puede decir es que lo es si en él se cumplen de manera relativamente estable varias de las condiciones enumeradas, la principal de las cuales, eso sí, continúa siendo el ser una unidad denominativa de algunos miembros del sistema conceptual de determinada área de especialidad.” 108 Nossa escolha para a utilização de programas de computador para a extração e preparação dos dados vem ao encontro do preconizado por CARVALHO (2007) ao dizer que [...] através do subsídio de um PC doméstico, é possível analisar milhões de palavras de forma mais rápida e mais confiável do que se fosse feito sem uma ferramenta computacional. A taxa de erro é bastante reduzida no caso de tarefas repetitivas, como contagem de palavras, listagem dos termos mais frequentes em um corpus, dentre outras. Assim, utilizando exemplos práticos, a autora pretende confirmar que o computador é atualmente a principal ferramenta de trabalho do linguista. CARVALHO (2007, p.14) Desse modo, com fins de obter a máxima precisão e avaliar quais os termos seriam mais adequados para o estabelecimento do nosso trabalho, optamos pelo uso da ferramenta computacional WordSmith Tools 6.077 (doravante WST). Para a preparação dos corpora com o objetivo de manuseá-lo no WST, tivemos que retornar às edições paleográficas preparadas com base nos critérios e rigor da Crítica Textual e reelaborar um novo corpo de texto que atendesse às exigências do programa computacional para a rodagem e geração dos dados. Desse modo, adotamos os seguintes procedimentos: 1) Desfizemos todas marcações em itálico, em negrito e marcações de mudança de linha e de fólio para padronizar a rodagem dos dados no sistema computacional; 2) Uniformizamos o texto dos corpora em linhas contínuas, ou seja, tivemos que organizar o texto de modo contínuo sem levar em consideração as mudanças de linha e entradas de parágrafos; 3) Homogeneizamos o tamanho das letras em todo o texto; 4) Suprimimos as marcações, permanecendo a incidência lexical, que, para a geração de listas de palavras, não aferiam nenhum tipo de prejuízo para a validação dos dados, tais como as de riscado, os sublinhados, entrelinhas, de margem, de inserção conjectural e supressão conjectural dos caracteres; 77 O WST é um software desenvolvido por Mike Scott no ano de 1999. 109 5) As notas de rodapé que eram originais aos corpora foram mantidas no corpo do texto, sendo desprezadas somente as notas que foram realizadas nas edições. Depois de realizadas essas alterações, o arquivo de cada texto que compõe nossos corpora, antes apresentados em formato .doc, foi salvo em formato .txt, com as seguintes designações: SECXVIII.txt e SECXIX.txt. Para proceder à seleção de termos, nos colocamos diante de outra problemática: que critério utilizaremos? Segundo PAVEL; NOLET (2012, p.42), “a operação de extração de termos identifica não somente as unidades terminológicas, mas também os termos coocorrentes, por vezes chamados unidades fraseológicas, que ilustram o uso de um termo no discurso especializado”. Então, o primeiro passo que tomamos foi gerar as listas de palavras e analisar as suas coocorrências através do WST para que, então, pudéssemos centrar mais critérios a fim de decidir quais itens lexicais comporiam o glossário de termos militares. Na primeira rodagem de dados para o texto do século XVIII foram encontrados 2.832 (dois mil oitocentos e trinta e dois) itens lexicais. Já para o texto pertencente ao século XIX foi contabilizado um total de 1.640 (mil seiscentos e quarenta). A partir dos dados obtidos e de sua análise primária, vimos que muitos dos itens são, obviamente, artigos, pronomes, conjunções e preposições. Para a seleção dos termos do nosso trabalho, voltamos ao exposto por CARVALHO (2007, p.46), quando afirma que “[...] o método a ser utilizado para a seleção da lista de entradas de um glossário técnico deve ser a listagem dos itens lexicais (doravante, ILs) portadores de sentido mais freqüentes, ou seja, os ILs que evocam uma idéia ou um conceito.” Assim, fomos excluindo das listas de palavras geradas aquelas que, conceitualmente, não pertenciam ao campo da terminologia militar. Entre os itens lexicais que nos restaram, vislumbramos a presença de substantivos, 110 adjetivos e verbos. Desse modo, tivemos outra escolha a ser feita: com quais categorias pretendemos trabalhar? Segundo BARROS (2004, p.67), “a recolha dos termos é possível após a delimitação destes e essa delimitação se faz em uma relação de complementação entre o conceito e a designação”. A relação estabelecida entre o sistema conceitual de uma dada área de especialidade e sua materialização linguística, de acordo com NAGAO (1994), está centrada basicamente no estabelecimento de nomes que afloram naquele campo terminológico. A partir dessa premissa, verificamos que a classe de substantivos é a mais relevante dentro dos campos semânticos/lexicais de uma linguagem de especialidade. Assim, delimitamos trabalhar exclusivamente com os substantivos. A partir dessa escolha, geramos novos dados por meio da elaboração de uma lista de bloqueio de elementos que não são pertinentes ao nosso estudo. Outro problema surge a partir da nossa delimitação: como tratar no programa classes de nomes que ora figuram como substantivo e ora como adjetivo, verbo ou advérbio? Para tratar os casos em que o vocábulo ocorre, ora em uma classe e ora em outra, procedemos ao uso do concordanciador do WST para verificar os contextos e analisar individualmente o comportamento de tais itens lexicais. Um dos critérios, se nos baseássemos somente no fator frequência, seria o de incluir no nosso repertorio somente itens lexicais que tivessem um mínimo de 0,01% de frequência frente à totalidade de itens gerados pelo WST. Além disso, os princípios da lexicografia (HAENSCH; WOLF; ETTINGER; WERNER, 1982) indicam a necessidade de lematização dos itens para a construção das entradas em glossários e dicionários. No entanto, como estamos trabalhando com dados históricos, desprezar as ocorrências inferiores ou únicas de um determinado item lexical ou mesmo lematizar as entradas seria algo muito arriscado. A esse respeito nos afirma MACHADO FILHO (2012), 111 Em detrimento ao difundido princípio linguístico hodierno de seleção baseado em frequências de uso, o processo de lematização de unidades lexicais deve, no trabalho de viés histórico, desviar-se dos preceitos de canonização dos signos lemáticos, com que lidam os lexicógrafos contemporâneos. Na lexicografia histórica, a conformação dicionarística dos lemas deve ganhar contornos, não exclusivamente pela sua “face neutra”, isto é, não apenas pela forma flexionalmente vazia do lexema, como é hoje feito, mas pela variedade das formas gráficas, quer simples, quer compostas ou complexas, ainda textuais, que possam ocorrer nos corpora, mesmo se não lhe for atestado um correspondente morfológico canônico. (MACHADO FILHO, 2012, p.382) Essa observação do autor condiz com nossa posição para a estruturação dos itens lexicais e, em parte, na composição do glossário desse trabalho. Algo importante a destacar é que a frequência de aparição é importante para os estudos linguísticos, principalmente para os que estão situados dentro dos estudos sincrônicos, contudo, em estudos diacrônicos ou de viés histórico, apesar de a frequência ser um fato importante a ser levado em consideração na construção de materiais lexicográficos e na análise dos dados estabelecidos, ela não é o ponto essencial. Assim, como nossa proposta está centrada, não só na construção de um glossário terminológico de épocas passadas, mas na análise sobre as variações e mudanças relacionadas aos termos militares, mesmo que seja único o contexto de aparição de um termo, ele será considerado78. Partindo das premissas apresentadas e dos dados gerados nas listas de palavras, chegamos a um total de 54 (cinquenta e quatro) termos simples identificados para o documento do século XVIII e 48 (quarenta e oito) termos simples identificados para o documento do século XIX. Convém aclarar que, apesar de estarmos exclusivamente trabalhando com substantivos, o número de termos apresentados acima correspondem à totalidade das unidades terminológicas simples (UTS). Certamente, como pode ser facilmente visualizado nos corpora, muitas das UTS representadas por substantivos na 78 Para o reconhecimento dos termos, também nos valemos, nesse trabalho, de frequências de aparição em outros manuais de tática de infantaria dos séculos XVIII e XIX em língua espanhola e francesa. Ainda que esse critério não tenha sido o central para tal atividade, ele foi importante para reconhecimento das unidades terminológicas simples e, principalmente das complexas. Além disso, como Portugal esteve sob influência da França e em guerras com a Espanha na época do nosso corpora, as aparições dos mesmos termos em outras línguas contribuiu para um estabelecimento mais preciso do nosso inventário. 112 nossa seleção, aparecem materializadas também em unidades terminológicas complexas (UTC79). A saber, uma UTS delimitada foi o item lexical passo. Ao longo dos textos encontraremos UTC, tais como passo ordinário, passo acelerado, passo de costado e outros. Assim, apesar de a nossa escolha inicial ter se pautado em eleger como verbetes para os glossários apenas UTS, as UTC de base nominal da área militar estarão presentes de modo lematizado, bem como as ocorrências de variação ortográfica, variação de gênero e variação de número. Nesse sentido estamos indo, aparentemente, de encontro ao preconizado anteriormente por MACHADO FILHO (2012). Aclaramos que esse choque de concepção é aparente, uma vez que todas essas incidências de aparição (seja de variação ortográfica, de número ou de gênero) estarão contempladas na organização dos verbetes do glossário. Depois de chegado ao consenso de como deveríamos delimitar os termos dos corpora, nos encontramos diante de um segundo procedimento: quais os termos que efetivamente comporão os dados para a realização da nossa análise? Dessa forma, partindo da leitura dos corpora, levando-se em conta o gênero, a tipologia do texto e o tipo de linguagem de especialidade a qual estamos vinculados, optamos por separar os termos, de modo genérico, em campos semânticos. Para tanto, nos baseamos em HALLIG; WARTBURG (1952), MATORÉ (1985, 1988) e GONÇALVES (2007) no que tange essa delimitação. Hallig e Wartburg em sua obra Arcabouço conceitual como base para a lexicografia: tentativa de um esquema de classificação80, publicada no ano de 1952, apresentam uma proposta de esquematização para a organização de sistemas conceituais 79 Neste trabalho, estamos concebendo a Unidade Terminológica Complexa (UTC) a partir dos modelos de predicação de Simon Dik (1981,1983). Assim, entendemos uma UTC como “unidades formadas por uma base e argumentos, ou por uma predicação nuclear e seus satélites” (CAFÉ, 2003, p.68). 80 Tradução nossa. No original, “Begriffssystem als Grundlage für die Lexikographie: Versuch eines Ordnungsschemas”. 113 para fins de elaboração de trabalhos na área de lexicografia. Dentro do campo nocional referente à terminologia militar, os autores propõem dois sistemas: Defesa Nacional e Guerra. A partir desses dois sistemas, apresentam possibilidades de subdivisões em macro campos e, dentro desses, de micro campos. No primeiro sistema (Defesa Nacional), os autores propõem subdivisão em: armas de terra (exército de terra), armas de mar ou marinha de guerra e armas do ar ou aviação militar. Já no segundo (Guerra), estabelecem cinco subdivisões: generalidades, fases da guerra, a estratégia e a tática, a vitória e a derrota e, por fim, o armistício e a paz. Para nossa proposta, fica claro que os modelos que iremos adotar, como parte do referencial exposto, estão calcados na primeira subdivisão – Exército de terra – e em todo o segundo sistema – Guerra. Nossa especial atenção estará centrada na subcategoria “a estratégia e a tática”, uma vez que nossos objetos de estudo são manuais de tática de guerra para os combates de infantaria do exército de terra. Em “exército de terra”, HALLIG; WARTBURG (1952, p.75) apresentam a possibilidade de divisão em 12 (doze) campos. Algumas delas com subcategorias e, praticamente todas, com exemplos do que devem compreender. A saber: 1) Organização – compreende, por exemplo, recrutamento, recrutas e alistamento; 2) Subdivisão - compreende, por exemplo, Armas e Corpos de Armas; 3) Hierarquia, pessoas e as graduações - compreende, por exemplo, General, Oficial, Tropa, Soldados; 4) As armas e armaduras, subcategorizadas em 1. armas modernas (fuzil, metralhadora, canhão, revólver); e 2. armas antigas (flecha, besta); 5) Bandeiras e Escudos - compreende, por exemplo, Bandeiras e Brasões; 6) Equipamento e vestuário; 7) Habitação - compreende, por exemplo, caserna; 114 8) Fornecimento; 9) Estabelecimentos - compreende, por exemplo, arsenal; 10) Vida Militar; 11) Os exercícios e manobras; 12) Fortificação, subcategorizada em 1. fortificação moderna (forte, fortim, trincheira, obra, linha fortificada); e 2. fortificação antiga (muro, torre, covas, nichos). É importante ressaltar que, apesar de a proposta dos autores ser de grande valia para nosso estudo, as categorias que consideramos mais importante para o desenvolvimento desse trabalho não aparecem ilustradas, como se pode verificar nos itens (6), (10) e (11). No que se refere à organização do segundo sistema (Guerra), HALLIG; WARTBURG (1952, pp.76-77) o dividem em 05 (cinco) macro campos: (1) generalidades; (2) fases da guerra; (3) a estratégia e a tática; (4) a vitória e a derrota; e, por fim, (5) o armistício e a paz. Os critérios adotados pelos autores para uma proposta de divisão dos termos militares em campos funcionam como um ponto de partida e, além disso, estabelecem possibilidades para uma articulação da organização dos vocábulos em termos genéricos. Se nesse trabalho adotássemos na íntegra essa categorização, certamente recairíamos na problemática de haver campos com poucos dados ou quase nenhum. Como estamos centrados nos nossos corpora, a melhor opção foi repensar a articulação de HALLIG; WARTBURG (1952) de modo a redirecionar o melhor aproveitamento dos dados. Assim, partimos de algumas ideias sobre o fenômeno de categorização, partindo das ideias de ROSCH (1978), conjuntamente com as noções de campo lexical e semântico baseadas em TRUJILLO (1970, 1998), POTTIER (1968) e HENRIQUES (2010). Para ROSCH (1978), a categorização humana não deve ser considerada o produto arbitrário de algum acidente histórico ou meramente criado. A criação de categorias 115 exigem explicações articuladas, uma vez que seus elementos existem em dada cultura e são codificados pela linguagem dessa cultura em determinado ponto no tempo. Assim, segundo a autora, quando estamos arquitetando a formação de categorias, também estamos planificando a sua formação e lugar na cultura de um determinado sistema. Isso significa que, se detectamos em nossa planificação de categorias de termos militares, muitos termos que se insiram, por exemplo, em derrota e poucos em vitória (nos campos propostos por HALLIG; WARTBURG, 1952), culturalmente estamos pré-analisando que a cultura a qual pertencem os gêneros selecionados está historicamente, naquele momento, em lugar de não vencedores nas guerras das quais participou. Essa possibilidade de articulação gênero- linguagem-cultura será mais explorada no capítulo 05, nas nossas análises, uma vez que nosso intuito é dar uma visão às variações e mudanças linguísticas não somente por um viés intralinguístico, mas também histórico, cultural e social. ROSCH (1978, p. 29) afirma que a formação de categorias para um determinado campo das atividades humanas está regida por dois princípios gerais e básicos. O primeiro está relacionado à função dos sistemas de categoria. A autora afirma que a tarefa dos sistemas de categoria é, sem dúvida, fornecer o máximo de informações possíveis com o menor esforço cognitivo. Já o segundo princípio está voltado para a estrutura da informação e para o modo como ela é fornecida, já que o mundo percebido (o contexto delimitado) transmite informações estruturadas e não de modo arbitrário ou imprevisível. Desse modo, Assim, o máximo de informação com o menor esforço cognitivo é alcançado se as categorias mapeiam a estrutura do mundo percebido tanto quanto possível. Esta condição pode ser conseguida por meio do mapeamento das categorias de acordo com determinadas estruturas de atributos ou pela definição ou redefinição de atributos para processar um determinado conjunto de categorias devidamente estruturadas.81 (ROSCH, 1978, p. 30) 81 Tradução nossa. No original, “Thus maximum information with least cognitive effort is achieved if categories map the perceived world structure as closely as possible. This condition can be achieved either by the mapping of categories to given attribute structures or by the definition or redefinition of attributes to render a given set of categories appropriately structured.” 116 Assim, nosso primeiro intuito, com base nos dados que nos são facultados pelos corpora é o de construir o menor número possível de campos que englobem o máximo de informação. Outro cuidado que devemos tomar é o de que essas informações tenham ideias estruturadas e sejam culturalmente articuladas, semanticamente, umas às outras. Ademais da categorização dos termos, é importante destacar o lugar dos campos semânticos para dar mais consistência aos critérios que permeiam a nossa construção das categorias do inventário de vocábulos militares. Ainda que a proposta de ROSCH (1978) forme um critério a partir da psicologia social da linguagem, seu comprometimento com o tratamento empírico-científico do linguístico é muito forte. Essa tendência também se verifica em outras áreas. Segundo Hjelmslev (1991b), ao tratar da descrição semântica, por exemplo, acentua que ela deve se pautar, especialmente, no estabelecimento de um paralelo entre língua e instituição social e entre linguística e outras área do saber. Talvez por isso, linguistas, historiadores e antropólogos se dão conta da importância dos estudos semânticos, com critérios científicos e métodos empíricos e descritivos, para o desenvolvimento das investigações da linguagem. (GONÇALVES, 2007, p.85). Como nosso trabalho pretende o estabelecimento de uma proposta para a divisão dos termos militares em categorias maiores, que denominaremos campos, nos situamos basicamente nas concepções de GECKELER (1994). Alguns autores ora trabalham com a nomeação de campos semânticos, outros com a de campos léxicos para designar a estrutura de campos que objetivam o estudo dos significados (e suas relações) de uma rede de termos. Dessa feita, GECKELER (1994) assume uma posição de que tanto campo léxico quanto campo semântico estão, ao final, referindo-se ao estudo científico dos significados léxicos. Assim sendo, também nesse trabalho não estaremos buscando uma ruptura ontológica entre um conceito e outro, mas entendemos os dois com o mesmo valor científico e com objetivos finais iguais. HENRIQUES (2010, p.105) entende campo semântico/lexical como “expressão que se refere ao contingente de palavras que se agrupam, linguisticamente, por meio de uma rede de associações e interligações de 117 sentido”. Como já expusemos que nossa interpretação, além do apresentado por HENRIQUES (2010), também leva em conta o social, trataremos ao longo do nosso estudo, alinhados com MATORÉ (1973) e o autor supracitado, as designações de campo semântico e campo lexical como campo nocional. PASTOR MILÁN (2000, p.779) afirma que os estudos dentro da área de campos semânticos têm como diretriz central o fato de que a construção de qualquer campo (seja ele semântico ou lexical) está centrada em procedimentos que valoram as condições de conjunção dos termos a serem organizados à temática enfocada. Segundo GONÇALVES (2007, p. 89), “entre estes procedimentos, assinala-se a delimitação externa, questão que supõe a necessidade de delimitar o referente, a zona investigativa que vai ser objeto de análise linguística”. Então, coadunando os referenciais de MATORÉ (1973), ROSCH (1978), GECKELER (1994), GONÇALVES (2007) e HENRIQUES (2010) à nossa proposta de trabalho com termos militares, chegamos à conclusão de que o campo nocional do discurso presente nos manuais de tática de infantaria para o exército de terra português será o responsável por estabelecer empiricamente as categorias que manusearemos e, também, filtrar a acepção dos termos com os quais construímos o nosso glossário. A partir da teia de informações geradas pelos termos militares existentes na nossa documentação, com base nas ideias e pressupostos teóricos dos autores supracitados, chegamos à possibilidade de agrupamento em cinco grandes categorias: 1) Vestuário (Uniformes e acessórios das fardas); 2) Postos de graduação (a organização hierárquica); 3) Planejamento de guerra e sua execução (vozes de comando, formações e táticas); 4) Utensílios e Fortificações (objetos de uso em manobras e tipos de construções); 5) Armamentos em geral. 118 Após a comparação com a proposta de HALLIG; WARTBURG (1952) e com os preceitos de ROSCH (1978), observamos que essas cinco categorizações poderiam ser agrupada em quatro. Se pensarmos que os utensílios (objetos de uso em manobras) poderiam representar tantos as armas (no sentido de artefato de ataque) de guerra quanto os acessórios que utilizavam os militares para marchas (como as bandeiras e brasões apontados por HALLIG; WARTBURG (1952)) e as funções básicas de sobrevivência (tal como cantil, por exemplo), se vinculamos à ideia de que culturalmente elas apresentam um mesmo eixo semântico (como propõe ROSCH (1978)), poderíamos englobá-las em outras categorias já pré-existentes sem nenhum prejuízo. Além disso, quando pensamos em armamentos, podemos toma-los não só como recurso de ataque, mas também de defesa (tais como o escudo nas guerras medievais (MATORÉ, 1985, 1987)). Assim sendo, podemos atribuir às fortificações um caráter defensivo em momento de guerra. Logo, ao pensarmos em trincheira, fosso, torre, muralha, castelo e outros tipos de fortificações, não é errado atribuir a estas fortificações um caráter de arma de guerra. Não eram, evidentemente, armas de ataque ativo, mas armas de defesa. O Castelo é uma das mais significativas inovações que a Idade Média introduziu na paisagem portuguesa. Se é certo que desde tempos muito remotos as populações sentiram necessidade de erguerem estruturas defensivas, a forma que essas estruturas assumiram foi, até o início do processo da Reconquista Cristã, a fortificação dos povoados. Apenas com o advento da Reconquista Cristã assistimos ao aparecimento de uma nova estrutura arquitectónica, exclusivamente militar, concebida para albergar não um povoado mas antes uma pequena guarnição de soldados encarregados de velarem pela segurança de um território. Esta nova concepção de defesa, que já não assenta na defesa do local de habitat, mas antes na presença de forças militares encarregadas de velarem por um território82 [...] (BARROCA, 1990, p. 8983) Para confirmar o nosso posicionamento, nos embasamos também em MATORÉ (1985, p.158) ao afirmar que “Le garnement, “equipamentos, armas” (Roland, v.1003) pode compreender l’arois (derivado do verbo areer “preparar”) e l’apareil “equipamentos” 82 Grifo nosso. 83 BARROCA, Mario Jorge. “Do Castelo da Reconquista ao Castelo Românico (Séc. IX a XII)” In: PORTVGALIA, Nova Série, Vol. XI-XII, 1990/91. Disponível para consulta em formato eletrônico em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3803.pdf 119 (Foulet, Glossary), mas também l’armeüre “todas as armas que protegem o corpo” e les armes ou herneis>harnais.84” Assim, as fortificações e demais construções, cumprindo sua função de proteger o corpo dos soldados de guerra, também podem ser tomados como armas de defesa. Ainda segundo MATORÉ (1985, pp.163-164), “[...] o castelo é, por definição, sempre fortificado. Por ser uma forma de defesa, o castelo deve ser esforcié “fortificado”, equipado, isto significa dizer que pode ser visto como uma arma de proteção.85” Então, por meio de um espraiamento semântico e associações (GECKELER,1994; HENRIQUES, 2010), as armas de guerra são usadas tanto para defesa quanto para o ataque. Assim, se as fortificações também servem tanto para uma quanto para outra, não vemos risco em incluí-las dentro da mesma categoria. Certamente, o que vai diferenciar as fortificações das demais armas como baioneta e canhão, por exemplo, é o seu caráter de mobilidade. Enquanto essas são móveis, aquelas são estritamente inertes ou imóveis. Dentro da própria arquitetura das fortificações, podemos verificar construções de armas (como algumas catapultas das torres dos castelos, por exemplo) que dependem exclusivamente do suporte físico da construção imóvel. Partindo desses princípios e atrelando o uso e função cultural dos termos envolvidos nas categorias expostas às realidades empíricas, chegamos a uma nova configuração de agrupamento das categorias. Desta vez, reduzidas a somente quatro: 1) Acessórios de Recursos Humanos (Uniformes e acessórios das fardas e marchas); 2) Recursos Humanos e Postos de graduação (a organização hierárquica); 3) Planejamento de guerra e sua execução (vozes de comando, formações e táticas); 4) Fortificações e Armamentos bélicos (tipos de construções e material bélico). 84 Tradução nossa. No original, “Le garnement “équipement, armes” (Roland,v.1003) por comprend l’arois (dérivé du verb areer “préparer”) et l’apareil “équipement” (Foulet, Glossary), mais aussi l’armeüre “ensemble des armes défensive qui protègent le corps” et les armes ou herneis>harnais.” 85 Tradução nossa. No original, “le chastel est, par définition, toujours fortifié. Pour être defenssable le château doit être esforcié “fortifié”, garni, c’est-à-dire pourvu de garnement, de protection.” 120 Nesse momento, com os termos delimitados e extraídos e com os campos nocionais estabelecidos, procederemos à construção do mapa conceitual a fim de visualizar como se organizam os dados e, por fim, verificar se todos eles são pertinentes ao nosso intuito. Etapa 2: Elaboração do mapa conceitual e validação dos termos Denomina-se elaboração do mapa conceitual (estrutura conceitual) ou ontologia, a organização semântica de certa especialidade em campos nocionais capazes de refletir os conceitos da área-objeto e suas respectivas relações. Esta segunda fase, na prática, é realizada simultaneamente à primeira, pois, segundo ALMEIDA et alii (2007), [...] os termos obtidos devem ser inseridos na ontologia, por isso ela deve ser organizada preliminarmente, ou concomitantemente à extração dos termos, já que à medida que os termos vão sendo obtidos é que se pode ter uma visão real de quais são os campos nocionais que deverão integrar a ontologia. (ALMEIDA et alii, 2007, p.410) Se, de acordo com os autores, essa segunda etapa faz-se simultânea e paralelamente à primeira, verifica-se que os especialistas também participam ativamente da construção da estrutura conceitual. Além disso, sua participação é indispensável no momento seguinte: o da validação. Tomando como base a colaboração e acompanhamento dessas etapas pelos oficiais superiores, rearticulamos as propostas iniciais de ALMEIDA et alii (2007). Então, ainda que os autores supracitados apresentem a extração, a ontologia e a validação dos termos como três etapas estruturalmente distintas, optamos, nesse trabalho por aglutiná-las e considerar tão somente uma abrangendo a primeira, de coleta, e as demais, de elaboração do mapa conceitual e validação dos termos, pois entendemos que no momento que delimitamos o conjunto terminológico, determinamos a pertinência e adequação dos termos, definimos as unidades terminológicas de maneira sistemática e controlamos a rede de remissivas, sendo todas essas operações realizadas na elaboração dos mapas conceituais, pode-se e deve-se, no nosso caso particular, proceder simultaneamente à validação dos termos. 121 A partir do momento que os termos estão alocados na ontologia, pode-se proceder à sua validação pelos especialistas. A validação de termos pelos especialistas86 é feita da seguinte maneira: selecionam-se da ontologia determinados campos nocionais e pede-se que cada assessor assinale os termos considerados semanticamente relevantes em cada campo. A esse modo de selecionar termos denominamos critério semântico.87 Há que se ressaltar que esse critério é útil quando não se utiliza a extração automática de termos. (ALMEIDA et alii, 2007:411). Não queremos, contudo, dizer que essa aglutinação da ontologia e da validação dos termos seja possível em todo e qualquer trabalho terminológico, mas, em nosso caso, a viabilidade existe porque, a partir da edição dos corpora, já fomos capazes de visualizar previamente os campos nocionais a serem explorados. Assim, nosso mapa conceitual estaria organizado do seguinte modo: a) Corpus do Século XVIII 1. EXÉRCITO: 1.1. ACESSÓRIOS DE RECURSOS HUMANOS 1.1.1. Farda 1.1.1.1. Botina 1.1.1.2. Dragona 1.1.1.3. Mochila 1.1.1.4. Patrona 1.1.1.5. Polaina 1.1.1.6. Redingote 1.1.2. Bandeira 1.2. RECURSOS HUMANOS E POSTOS DE GRADUAÇÃO 1.2.1. Militar 1.2.1.1. Official 1.2.1.1.1. Commandante 1.2.1.1.1.1. Marechal 1.2.1.1.1.2. Official superior 1.2.1.1.1.2.1. Major 86 A marcação em negrito é do texto original. 87 A marcação em itálico é do texto original. 122 1.2.1.1.1.3. Official inferior 1.2.1.1.1.3.1. Ajudante 1.2.1.1.1.3.2. Sargento 1.2.1.1.1.3.2.1. Portamachado 1.2.1.3. Soldado 1.2.1.3.1. Soldado veterano 1.2.1.3.1.1. Granadeiro 1.2.1.3.1.2. Portabandeira 1.2.1.3.2. Soldado peralta 1.2.1.3.2.1. Recruta 1.3. PLANEJAMENTO DE GUERRA E SUA EXECUÇÃO 1.3.1. Infanteria 1.3.1.1. Tropa 1.3.1.1.1. Divisão 1.3.1.1.2. Brigada 1.3.1.1.3. Regimento 1.3.1.1.4. Batalhão 1.3.1.1.5. Companhia 1.3.1.1.6. Pelotão 1.3.1.1.7. Fracção 1.3.2. Tática 1.3.2.1. Manobra 1.3.2.1.1. Ordem 1.3.2.1.1.1. Ordem defensiva 1.3.2.1.1.2. Ordem profunda 1.3.2.1.1.3. Ordem singela 1.3.2.1.2. Formatura 1.3.2.1.2.1. Intervallo 1.3.2.1.2.1.1. Fila 1.3.2.1.2.1.2. Colunna 1.3.2.1.2.1.2.1. Colunna com distancias 1.3.2.1.2.1.2.2. Colunna de ataque, maciça ou serrada 123 1.3.2.1.2.1.3. Fileira 1.3.2.1.2.1.3.1. Fileira serrada 1.3.2.1.2.1.4. Linha 1.3.2.1.2.1.4.1. Linha das espadoas 1.3.2.1.2.1.4.2. Linha da mira ou visual 1.3.2.1.2.1.4.3. Linha do tiro 1.3.2.1.3. Flanco 1.3.2.1.4. Frente 1.3.2.1.5. Testa 1.3.2.1.6. Fundo 1.3.2.1.7. Vanguarda 1.3.3. Evolução 1.3.3.1. Passo, Passo Militar ou Passo de escolla 1.3.3.1.1. Passo curto 1.3.3.1.2. Passo de costado ou obliquo 1.3.3.1.3. Passo descançado 1.3.3.1.4. Passo de estrada 1.3.3.1.5. Passo dobrado ou largo 1.3.3.1.6. Passo ordinário ou natural 1.3.3.2. Marcha ou Marcha militar ou Marcha recta 1.3.3.2.1. Marcha de costado ou obliqua 1.3.3.2.2. Marcha de estrada 1.3.3.2.3. Marcha graduada 1.3.3.1.2.5. Marcha obliqua 1.3.3.1.2.6. Marcha recta 1.4. FORTIFICAÇÕES E ARMAMENTOS BÉLICOS 1.4.1. Quartel ou Reduto 1.4.2. Tenalha 1.4.3. Trincheira 1.4.4. Arma 1.4.4.1. Baioneta 1.4.4.2. Espingarda 124 1.4.4.3. Espada b) Corpus do Século XIX 1. EXÉRCITO: 1.1. ACESSÓRIOS DE RECURSOS HUMANOS 1.1.1. Bandeira 1.1.2. Mochila 1.2. RECURSOS HUMANOS E POSTOS DE GRADUAÇÃO 1.2.1. Militar 1.2.1.1. Official 1.2.1.1.1. Official Commandante das divisoens 1.2.1.1.1.1. Official General 1.2.1.1.1.1.1. Marechal de Campo 1.2.1.1.1.1.2. General 1.2.1.1.1.1.3. Brigadeiro 1.2.1.1.2. Commandante 1.2.1.1.2.1. Coronel 1.2.1.1.2.2. Tenente Coronel 1.2.1.1.2.3. Major 1.2.1.1.2.4. Capitão 1.2.1.1.2.5. Official inferior 1.2.1.1.2.5.1. Ajudante 1.2.1.2. Soldado 1.2.1.2.1. Escaramuçador 1.2.1.2.2. Mosquetaria 1.2.1.2.3. Recluta 1.3. PLANEJAMENTO DE GUERRA E SUA EXECUÇÃO 1.3.1. Infantaria 1.3.1.1. Tropa 1.3.1.1.1. Divisão 1.3.1.1.2. Brigada 125 1.3.1.1.3. Regimento 1.3.1.1.4. Batalhão 1.3.1.1.5. Pelotão 1.3.1.1.6. Destacamento 1.3.2. Táctica 1.3.2.1. Manovra 1.3.2.1.1. Ordem 1.3.2.1.2. Formatura 1.3.2.1.2.1. Intervallo 1.3.2.1.2.1.1. Fila 1.3.2.1.2.1.2. Columna 1.3.2.1.2.1.2.1. Columna aberta 1.3.2.1.2.1.2.2. Columna reversa 1.3.2.1.2.1.2.3. Columna cerrada 1.3.2.1.2.1.2.3.1. columna cerrada a meia distancia 1.3.2.1.2.1.2.3.2. columna cerrada de todo 1.3.2.1.2.1.3. Fileira 1.3.2.1.2.1.4. Linha 1.3.2.1.2.1.4.1. Linha chêa 1.3.2.1.2.1.4.2. Linha de batalha 1.3.2.1.3. Flanco 1.3.2.1.4. Frente 1.3.2.1.5. Testa 1.3.2.1.6. Fundo 1.3.2.1.7. Vanguarda 1.3.2.1.8. Rectaguarda 1.3.3. Evolução 1.3.3.1. Passo 1.3.3.1.1. Passo accelerado ou apressado 1.3.3.1.2. Passo de entrada, de manovra ou ordinário 1.3.3.1.3. Passo de costado ou obliquo 1.3.3.1.4. Passo de pelotão 1.3.3.1.5. Passo lento 126 1.3.3.2. Marcha 1.3.3.2.1. Marcha de costado 1.3.3.2.2. Marcha graduada 1.4. FORTIFICAÇÕES E ARMAMENTOS BÉLICOS 1.4.1. Olheiro 1.4.2. Muro 1.4.3. Parapeito 1.4.4. Trincheira 1.4.5. Arma 1.4.5.1. Baioneta Etapa 3: Sistematização e Elaboração do glossário Segundo BARROS (2004, p.211), as fichas terminológicas são matrizes da pesquisa terminológica “nas quais são registrados os dados relevantes e pertinentes sobre cada unidade terminológica (uma ficha para unidade estudada), provenientes das fichas de recolha ou diretamente do corpus.” No caso da nossa pesquisa, todos os dados serão extraídos diretamente das edições realizadas, não sendo necessária realização de fichas de recolha88. Além disso, cabe aclarar que, apesar de estarmos respeitando os procedimentos de elaboração de fichas terminológicas, não iremos efetivamente fazê-las como tal. Pretendemos, nesse estudo de Socioterminologia diacrônica, dispor os verbetes com informações relevantes, tanto de cunho terminológico quanto linguístico-filológico. ALMEIDA et alii (2007) chama atenção para o fato de que não há um modelo ideal de ficha terminológica, pois cada uma deve contemplar as necessidades específicas do projeto, ou seja, levar em consideração o direcionamento de “para quê” ou “para quem” se elabora um glossário. 88 Segundo a autora, fichas de recolha (ou de citação) são aquelas em que se registram as unidades linguísticas em estudo, uma exemplificação de seu uso na língua, uma definição ou uma ilustração do objeto designado. 127 Como já apontamos anteriormente, nosso glossário dirige-se a um público-alvo de linguistas (assim como as edições) e a finalidade básica é a de catalogar dados relevantes que auxiliem no estudo de cunho variacionista. O modelo de ficha terminológica varia de acordo com a natureza do projeto. Cada equipe determina o tipo das unidades linguísticas e dos dados a serem recolhidos e, a partir daí, elabora um modelo de ficha contendo campos89, isto é, áreas predeterminadas reservadas ao registro de um tipo específico de dado [...] A quantidade e a função deste varia de acordo com as necessidades de registro das informações, que, por sua vez, também variam segundo a natureza da unidade linguística estudada e as características particulares da pesquisa em questão. (BARROS, 2004, p.211) A natureza da nossa pesquisa exige que, nas informações dos verbetes, apresentemos tanto os dados de caráter terminológico quanto os de foco terminográfico. Dessa maneira, baseando-nos nas propostas e concepções teóricas iniciais de BARROS (2004) organizamos as nossas fichas do seguinte modo: a) Dados Terminológicos, em que figuram indicações sobre a unidade linguística. Neste campo delimitamos informações concernentes ao termo, classe gramatical e conceito. Ademais, apresentamos informações da descrição da unidade terminológica e suas relações intersígnicas, apontando os contextos de aparição, observações gerais e as relações mantidas entre a unidade linguística que encabeça o verbete e outras que pertencem ao mesmo campo semântico ou conceptual. b) Dados Terminográficos, que alocam os dados terminológicos e, também, de determinados dados associados, tais como as fontes, o domínio de aplicação do termo e a sua frequência de ocorrência. Assim sendo, podemos detalhar a organização dos verbetes por meio da utilização dos procedimentos que julgamos mais adequados, adotados também nos trabalhos de ALVES (1998), CAMBRAIA (2000), ANJOS (2003), SOUZA (2007) e OLIVEIRA (2010) para a constituição de glossários. 89 O grifo pertence ao texto original. 128 ALMEIDA et alii (2007) prevêm etapas referentes à elaboração e incremento da base definicional e elaboração das definições e informações enciclopédicas. No entanto, essa fase não se faz pertinente ao nosso trabalho já que todos os verbetes selecionados para compor os nossos glossários não podem ter suas definições e conceitos alterados ou extraídos de outras fontes que não sejam os textos-base editados ou as referências lexicográficas pertencentes à época de sua escrita por estarmos situados em estudos diacrônicos. Assim, embora os autores apresentem outras etapas características do método terminológico, julgamos não serem pertinentes para nosso intuito. Ainda fazendo menção a BARROS (2004, p.263), a autora afirma que “a utilização do computador dá aos estudos de corpora maior precisão e praticidade”. Foi justamente pensando nessa praticidade que optamos por estabelecer que a criação do nosso glossário, além de seguir todas as diretrizes e indicações anteriormente informadas, também contará com o auxílio de recursos computacionais. Dessa feita, utilizaremos um software livre chamado Lexique pro. Esse programa, inicialmente, foi desenvolvido para a elaboração de glossário de línguas ágrafas, mas julgamos que sua configuração é bastante adequada para o tipo de trabalho que estamos propondo aqui. Sendo assim, em conformidade com as ferramentas que o software apresentado nos disponibiliza e com o suporte teórico que expusemos previamente, nosso glossário segue a seguinte padronização: 1- As entradas estão em ordem alfabética, caixa alta e apresentam-se no singular; 2- Posteriormente, decidimos colocar as linhas em que aparecem o verbete, de acordo com a numeração das edições e como está figurado na entrada (singular). Nossa etiqueta chama-se “Ls.”. Caso apareça mais de uma vez na mesma linha, o número dela será repetido; 129 3- Nesta terceira linha, indicaremos a classe das palavras, mesmo que já tenhamos estabelecido em nosso trabalho tratar somente com substantivos , e o gênero, sendo para masculino e para feminino. Como todas as entradas estarão no singular, descartamos a marcação de número do verbete. Nomeamos de “Cl.Pal.”; 4- Nossa quarta etiqueta corresponde a “Lem.”, isto é, à lematização. Nesse campo iremos preencher com as formas variáveis do termo. Ao estabelecer formas variáveis, estamos fazendo referência às variações de gênero, número e, como se trata de um trabalho de cunho histórico, ortográfico. Todas as formas variáveis serão catalogadas. Ao lado de cada variante, entre parênteses, indicaremos as linhas correspondentes à edição, onde elas estão alocadas. Caso apareça mais de uma vez na mesma linha, o número dela será repetido; 5- A próxima linha será destinada ao número de ocorrência total do vocábulo. Neste espaço colocaremos o número de total de ocorrência do vocábulo incluindo suas variantes. Etiquetamos como “Freq.”; 6- Após esses procedimentos, apresentaremos, em seguida, as informações etimológicas do verbete coletadas dos dicionários de CUNHA (2007), representado por CUN, e NASCENTES (1932), representado por NAS. A escrita das definições foi uniformizada de acordo com as normas ortográficas vigentes no momento atual. Nossa etiqueta é “Etim.”; 7- Na próxima linha, apresentamos a definição da palavra. A acepção é extraída diretamente da edição. No caso de a edição não contemplar explicitamente a definição, esta será (re)construída com base nos indicativos textuais e pesquisas históricas seguido do indicativo [rec]. A escrita das definições, no caso de serem retiradas diretamente do texto, foi uniformizada de acordo com as normas ortográficas vigentes no momento atual. Nomeamos a etiqueta de “Def.Ms.”; 8- A acepção apresentada na linha seguinte será tomada das referências lexicográficas que estão temporalmente próximas das datas de escrita das fontes. Tanto o texto do século XVIII quanto o do século XIX tomará como parâmetro para a acepção dos 130 conceitos as definições o Dicionário da Língua Portuguesa de António de Moraes Silva. Para o primeiro documento usamos a primeira edição (1789). Já para o segundo, a sexta edição (1858). A distância temporal dos dicionários para os nossos corpora é aproximada. Dessa forma, temos um panorama de definição do termo isolado no seio do próprio texto e da definição registrada à época de sua circulação em um objeto lexicográfico de prestígio. A escrita das definições foi uniformizada de acordo com as normas ortográficas vigentes no momento atual. Nossa etiqueta é “Ref.Lex.”; 9- Na próxima linha serão apresentadas as abonações. Aqui registramos um ou mais fragmentos do texto nos quais aparece o termo. No caso de haver variantes, mais de um contexto poderá ser registrado. Separaremos as abonações, no caso de mais de uma, pelo signo de ‘/ ’. Manteremos a grafia original da edição. Esta etiqueta foi rotulada de “Ex.”; 10- Palavras que se apresentem como sinônimas constituirão novas entradas e estarão indicadas em remissivas na última linha a qual chamaremos de “Sin.” 11- As UTC constituirão entradas individuais e seguirão o verbete que lhes outorga a base nominal. Serão expressas em sua forma singular e seguirão todos os critérios anteriores estabelecidos, com exceção do (6), que foi descartado por nenhuma das UTC terem representações nas referências lexicográficas etimológicas utilizadas nesse trabalho. Acreditamos, assim, que a organização dessas informações neste dispositivo auxilia a manipulação dos dados de maneira mais factível e sistematizada. Explicaremos, em seguida, como iremos trabalhar com os dados gerados dos discursos de especialidade na nossa análise. 131 3.2. Análise diacrônica A partir desse momento, iremos explicitar como procederemos à análise dos dados. Como nosso estudo é de caráter diacrônico, para fins de melhor organização e sistematização, apresentaremos nossa proposta metodológica de análise dividida em dois momentos: primeiramente, como classificaremos os dados gerados e, posteriormente, como realizaremos a comparação dos resultados obtidos nos dois momentos históricos distintos. 3.2.1. Classificação dos dados Para começar o nosso trabalho, inicialmente, operaremos com os dados em dois momentos distintos: primeiro o século XVIII e, depois, o XIX. Em seguida, em cada momento temporal, trabalharemos com os campos nocionais que delimitamos nesse capítulo. Em seguida, em cada campo nocional, iremos classificar os termos que aparecem, com base nas informações que foram constituídas no glossário, de acordo com os tipos de variantes: concorrentes, coocorrentes e competitivas (FAULSTICH, 2002). Posteriormente, para cada macrotipo de variante, iremos proceder à classificação das categorias das variantes terminológicas: linguísticas e de registro (FAULSTICH, 2002). Ao classifica-las, também buscaremos as motivações para a ação das variáveis no processo de variação. Tomando nosso aporte teórico como base, nossas análises de cunho qualitativo levarão em conta tanto os fatores intralinguísticos quanto os extralinguísticos (LABOV, 1994, 2001). Além disso, procuraremos as motivações nas relações sociais, culturais e históricas (ECKERT, 2004; MATORÉ, 1973). A nossa interpretação qualitativa também terá base em tratamentos quantitativos que geraremos a partir da classificação das variantes e da vinculação dessas aos campos nocionais estabelecidos. 132 Nosso trabalho com as frequências será baseado, com as devidas adaptações ao viés socioterminológico e às necessidades da nossa pesquisa, em BYBEE (2002), que propõe a manipulação de frequências em duas vertentes: a) Frequência de ocorrência (token frequency), em que indicaremos o número de vezes que termo ocorre nos corpora; b) Frequência de conjunto de formas (type frequency ou frequência de tipo), indicando a quantidade de itens lexicais especializados dentro dos campos nocionais. 3.2.2. Comparação dos dados Após a classificação dos dados, que faremos obedecendo ao momento temporal de cada documentação, passaremos à comparação dos resultados. Nessa etapa, avaliaremos, primeiramente, as diferenças de frequência de ocorrência dos termos verificando a nulidade, progressão, estabilização ou retração do fenômeno de mudança e suas possíveis causas intra e extralinguísticas. Em seguida, compararemos, com base na frequência de tipo, se os campos nocionais também foram afetados ao longo dos tempos e as possíveis explicações para os fatos encontrados. 133 CAPÍTULO 4 EDIÇÕES E GLOSSÁRIOS 4.1. Instrucções militares que contém os princípios geraes de tactica 4.1.1. Edição paleográfica [fól. 7r] Instrucções militares90 91Capitulo I. Da Tactica em geral.92 Os Gregos, eos Romanos, esses grandes mestres da Antigui 05 dade, dérâo as leys ao mundo, esubjugárão as Naçoens bar baras e ainda as mais cultas; não porque as excedessem no valor, mas sim pela sua bõa constituição militar, e pelas excellentes instituiçoens, que compozérão para as su as tropas: Elles forão os que estudárão methodicamente 10 a sciencia da guerra, a qual dividîrão em diversos ramos, a que dérão differentes nomes; e aeste de formar as tro pas em ordem para combater, chamárão Tactica. ~.~.~.~ 93 Artigo I. Definição da tactica e de outros termos mi 15 litares. A Tactica (hessois)= a arte de formar tropas, movelas, 90 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 91 Entre o título “Instrucções militares” e “Capitulo 1.” aparecem duas linhas retas horizontais e paralelas. 92 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 93 Ao longo da fonte documental original, linhas onduladas seguidas de ponto aparecem traçadas no intuito de separar capítulos, parágrafos, subcapítulos, seções e/ou idéias contidas no texto. Para esta edição, optou-se por manter indicadas as suas representações gráficas e não as consideramos como linha a ser contada. 134 [fól. 7v] e ordenalas de novo em todos os acontecimentos possiveis, na disposição conhecida por mais vantajoza. = O Barão dusse nil Durand adefine em breves palavras=A Tactica he 20 a sciencia da ordem. A opperação, que muda a ordem das tropas conforme as circunstancias, chamase =manobra= ea =evolução= he aquelle movimento, que huma tropa ex ecuta sem mudar a sua dispozição, eformatura= 25 Alinhamento:=he huma linha determinada por dous pontos dados; entre os quaes se devem tomar o utros intermediarios, que indispensavelmente se pre cisão para evitar todo o engano, e se naõ torcer a direc çaõ.= 30 Linha das espadoas= he huma recta supposta tirada entre os pontos exteriores, e os mais distantes dos hombros do soldado.= Vanguarda:= he o rectangulo supposto di ante de huma tropa, de maneira que dous dos seos 35 lados sejaõ parallelos á linha das espadoas; e os outros dous perpendiculares aella.= Rectaguarda= he o rectangulo supposto de traz de huma tropa, de maneira que dous dos seos lados sejaõ parallelos á linha das espadoas, eos outros 40 dous perpendiculares aésta linha.= Flancos=saõ os lados do mesmo rectangulo, que saõ perpendiculares á linha das espadoas.= Tropa = he hum termo militar, que signi 135 [fól. 8r] significa hum ajuntamento de homens destinados para 45 combater.= Colunna=he hum ajuntamento de tropas humaz detrás das outras: colunna com distancias = he aem que as tropas que acompoem, tem entre si huma dis tancia igual á sua frente, contada de eixo aeixo, mais 50 o intervallo, que devem conservar formadas em linha: Colunna serrada, ou macissa, = he aquella, em que as tropas que acompoem, nâo tem ésta distancia; o que as inipede de meter em linha por quartos de conversão. Meter em linha= he desfazer a colunna.= 55 Fila=chamase aos homens postos huns detras dos ou tros, de forma, que as duas linhas das espadoas sejão paralle las, eque huma só perpendicular as divida todas em dous angulos rectos.= Fileira= são os homens postos aolado huns dos 60 outros, de forma que sereunão todas as linhas das es padoas aésta precisão geometrica, deve se fazer toda adiligencia porque se lhe aproxime. Fundo=he aexpressão do numero de ho mens, que formão huma fila. = e assim dizemos que huma 65 tropa está formada atres de fundo para significar que cada fila he de tres homens. Intervallo= he oespaço, que fica entre duas tropas sobre huma mesma linha.= 136 [fól. 8v] Distancia = heo espaço que ha entre as tropas so 70 bre differentes linhas. = Ordem singéla= exprime as tropas formadas a tres de fundo; tambem se lhe chama= a ordem do fogo= Ordem profunda= exprime as tropas com mais fundo; etambem selhe chama = ordem de attaque= 75 Romper huma tropa= he formada em colunna para se mover com mais facilidade.= Prolongamento= significa novos pontos, ou huma nova linha tomada, ou supposta em huma das extremidades de outra dada, eque forme com ella 80 amesma recta= ou= a continuação da mesma linha dada atté os novos pontos.= Conversão= he arevolução, que fáz huma tropa sobre hum dos seos pontos, que permanece firme, ao qual se chama eixo, ou pião.= 85 Voltear= he uma conversão com eixo movente= movimento utilissimo nas marchas de costado, enas de colunnas com distancias, para se evitar asegmentação dellas; e he indispensavel toda a vôz que o fundo formayor que afronte. ~.~.~.~.~.~.~ 137 [fól. 9 r] 90 Artigo II Principios geraes de Tactica 1º. Toda a manobra deve ter hum objecto de utilidade. 95 2º. Para mover huma linha he necessario fraccionala em muitas tropas; porque cada tropa se faz me nos dependente das outras, eadquire maior facilida de, ecomodidade na sua marcha: por conseguinte, 100 o dobrar, o desdobrar as pequenas fracçoens he ome io mais vantajozo. 3º. Como nem todos os terrenos permittem huma gran de frente; toda a tropa deve saber fraccionar-se até 105 o ultimo termo, que he a unidade, para poder passar em toda a sorte de desfiladeiros. 4º. As fracçõens, que formão huma colunna de mar cha com distancias, devem telas iguaes, afim de po 110 derem meterse emlinha com hum quarto de con versao. 138 [fól. 9 v] 5º. Cada fracção occupará de huma aoutra hum terre no igual á sua frente, comprehendido o intervallo, 115 que deve conservar em linha, econtado da sua vanguarda á da fracção immediata: por consequen cia, toda atropa em colunna de marcha deve occu par hum terreno igual ao que deve occupar em linha menor afrente da ultima fracção: Ou hum terre 120 no igual ao que deve occupar em linha comprehendi do hum espaço supposto sobre avanguarda da pri meira fracção, igual á sua frente. 6º. Nas colunnas de marcha, devendose meter em 125 linha sobre avanguarda dellas, quanto menor dis tancia levarem entre si as fracçoens, mais se abre viará a manobra. 7º. As colunnas de attaque devem seunir de forma, que 130 os soldados possão somente andar á direita, e á esquer da sem se embaraçarem. 8º. Huma tropa em colunna com distancias iguaes á frente das fracçoens, pode meterse em linha so 135 bre avanguarda da colunna por diagonaes, sem augmentar as distancias. 139 [fól. 10 r] 9º. Huma colunna deve poder formarse pela direita, esquerda, ou centro; isto he, fazendo atesta da 140 colunna hum destes pontos. 10º. Nunca se deve partir de hum ponto, ou de huma formatura, sem designio de chegar aoutro tal ponto, ou aoutra formatura: por conseguinte, o meter 145 em linha deve ser o objecto, ou causa primi tiva, que determine o formar antes esta colunna do que aquella 11º. As colunnas que tem a propriedade de se desfa 150 zerem sobre mais linhas differentemente dadas, são preferiveis ás que senão poderem desfazer senão sobre huma. 12º. O fim de huma manobra he sempre mais ar 155 riscado que o seu principio; pelo que, he preciso na quelle instante maior força, eordem: epela mes ma rasão, principiando-se ameter em linha, he ne cessario concluir com brevidade. 13º. 160 Como a força de huma tropa não he outra cou za mais que a somma total de todos os individuos, 140 [fól. 10v] que acompoem, quanto mais desunidos estiverem es tes, tanto menor força tem a tropa. 14º. 165 Nunca deve haver modos differentes de fazer precizamente a mesma couza. 15º. Huma tropa posta em movimento deve sempre ter huma direção determinada por dous pontos. 170 16º. Os pontos de direcção, ede alinhamento, assim co mo os pontos intermediarios, que servem ao prolon gamento das linhas, devem ser immoveis. 17º. 175 Os ajudantes deverão ser particularmente encarrega dos de tomar os alinhamentos dados; para o que devem elles mesmo servir de pontos intermediarios e postar-se sobre o prolongamento dos pontos de vista. 18º. 180 Todas as vezes que huma tropa chega sobre hum novo alinhamento de pé firme, os officiaes dos lados devem adiantarse alguns passos, e alinharem-se primitivamente elles mesmos; de forma que a tropa não precise mais que ir postarse entre elles. 141 [fól. 11 r] 185 19º. Devem-se tomar todas asprecauçoens para ali nhar entre sios officiaes, eos eixos, ou pioens das tro pas; e huma vêz tomado este alinhamento, devese deixar ficar como estiver; porque as emendas só pó 190 dem ter lugar entre estes pontos immoveis, que fazem a sua base invariavel 20º. Quando se não indicar a tropa, que deve fazer a direc ção, será sempre a do centro. 195 21º. Na colunna serrada- se nada, não se determinando outra direc ção, se olhará para o lado sobre que se formou. 22º. Na colunna por quartos de conversão com distancias 200 se perfilará pelo lado, que foi firme; ena marcha se olhará para o lado, que deve servir de pião para for mar em linha. 23º. Quando muitas tropas marchão juntas em bata 205 lhoens, ou em colunnas, he preciso indicar ahuma del las huma direcção, sobre a qual se tomarão dous 142 [fól. 11v] pontos de vista; e as outras tropas terão cuidado dese alinharem por aquella, que se determinou pa ra a direcção. 210 24º. Quando muitas tropas marchão em colunnas; e que estas sedevão meter em linha sobre as suas vanguardas; guardarão entre si os intervallos, para se formarem quando se lhes mandar. 215 25º. Toda a manobra sedeve exprimir de hum modo claro, conciso; e com palabras sonoras, efaceis de pronunciar. 26º. 220 O mandamento geral do Commandante he para os officiaes commandantes das fracçoens, a quem per tence o conhecimento do mechanismo da manobra, e o fazer executar á sua tropa o movimento, que cada huma deve. ~. ~. ~ .~ . ~ .~ . ~ 143 [fól. 12 r] 225 Artigo III. Dos alinhamentos, pontos de di recção; e modo de os tomar A direção he tão essencial, que sem ella senão pode mo ver huma linha, nem inteira, nem fraccionada, sem operigo de 230 extraviar-se do terreno, em que se pretende tomar huma nova posição; assim como o alinhamento, para que ésta se tome entre os pontos determinados para cobrir os flancos; pelo que se deve pôr grande cuidado na sua exacção. Para determinar, pois, huma direcção sobre 235 qualquer terreno, he preciso tomar dous pontos de vista, como arvores, quintas, caxas,etcoetera: (Estratégia Iª) esendo em hum vasto campo, com a precisão geometrica não he tão necessaria, bas tará tomar huma aldea, hum arvoredo, monte, etcoetera. Dous pontos assim tomados marcão tambem as extremidades da 240 linha, que se quer determinar para alinhamento (Figura 1ª. Estratégia Iª) Se a tropa está postada fora de hum des tes pontos, e se quer traçar a linha sobre o ponto opposto, he preciso, que hum official, postando-se no primeiro ponto, 144 [fól. 12v] dirija a sua vista ao segundo; e que hum official inferior se co 245 loque arbitrariamente entre estes dous pontos, parando na direc ção, que lhe indicar o official, que do primeiro ponto olha pa ra o segundo: então o official inferior fica immovel, e enco brindo odito ponto se tira a linha, que se pertende, indicada por tres pontos: ésta de qualquer delles se póde continuar 250 sobre hum prolongamento recto, mas he absolutamente neces sario, que haja sempre dous pontos a hum dos lados da linha sobre que se quer prolongar o alinhamento das tropas. Muitas vezes succede darem-se pa ra alinhamento dous pontos de vista exteriores á tropa, e 255 de tal forma distantes, que se não póde usar do principio estabellecido: neste caso, para determinar a opperação, e acharse os pontos intermediarios, o major, e ajudante irão meter-se no dito alinhamento, para servirem daquelles á tropa, que se alinhará pelos pontos achados. 260 He regra geral, que entre dous pon tos dados para alinhamento he preciso começar sempre por estabellecer hum ou mais pontos intermediarios, sem os qua es se não póde racionavelmente exigir que hum official, par tindo de hum ponto, se dirija em linha recta sobre o outro. 265 Segue-se deste principio, que para se alinhar huma fileira por hum dos seos lados, he preciso passar a vista ao lado op posto, e vêr se este se acha sobre oprolongamento da linha formada pelos primeiros quatro, seis ou dez soldados. 145 [fól. 13 r] Daqui se pode inferir o absurdo dos que 270 querem partir somente do primeiro soldado do lado para alinhar toda a fileira, quando este homem não póde ser considerado senão como hum ponto. Não he menos o deixar o lugar do primei ro ponto, que estiver assinalado, para andar exteriormente 275 alinhado a fileira; pois só do lado he que pode haver huma base certa; tomando, como fica dito, a linha formada pelos primeiros homens da sua tropa. Todas as vezes, pois, que as tropas chegão sucessivamente sobre huma nova linha, de que 280 ellas hão de occupar oprolongamento, bastará postar bem exactamente a primeira que chega, sobre alinha dada, para ella regular o prolongamento da segunda, e ésta o da terceira; e assim as mais. O commandante da primeira tropa 285 para alinhar, não deve limitar-se a determinar a li nha das espadoas do primeiro soldado; ésta linha não he sufficiente: he preciso postar o soldado do lado de forma que possa descobrir dous pontos sobre o alinhamento; e depois indicar este lado para se olhar ao perfil, e se ali 290 nhar de maneira, que a linha das espadoas do ultimo 146 [fól. 13 v] soldado do lado opposto vá dar á linha das espadoas do primeiro, e se confunda com todas as linhas das es padoas intermediarias. Estes principios, que servem para o 295 alinhamento de hum batalhão, são os mesmos para ode huma brigada, ou divisão de exercito: mas nestas grandes extensoens de terreno bastará alinhar bem oprimeiro batalhão sobre os pontos dados, e este ser virá de base para o alinhamento de todos os mais; com 300 tanto, que se olhe sempre para o ultimo, que chega, do lado opposto do batalhão ja alinhado; no que devem ter grande cuidado os majores, e ajudantes; e para mais facilidade, eprontidão de alinhamento, deverião os lados de cada tropa serem occupados pelos officiaes inferi 305 ores mais intelligentes; porque em estando estes pontos sobre o alinhamento geral, as faltas, que houver entre ca da lado ou pião particular, não podem perjudicar essencial mente este alinhamento. Para alinhar as outras fileiras detrás 310 da primeira; he preciso, que a vista esteja acustumada a tomar huma distancia igual, e parallela em hum dos lados, e então alinhados os primeiros sinco, ou seis soldados, se alcança facilmente hum prolongamento exacto. 147 [fól. 14 r] Tambem se podem ter marcado com offici 315 aes-inferiores éstas parallelas, pondo a cada hum dos lados seu e hum no centro como intermediario; ou em cada intervallo. De pois de tomado o alinhamento, póde perfilarse por qualquer dos lados, ou pelo centro, segundo estes principios. Quando huma linha houver de marchar, 320 se indicará o batalhão de alinhamento, eso lhe determinará a direcção, dando aos portabandeiras dous pontos de vista, entre os quaes se colocarão os intermediarios sobre adirecção dada, que serão marcados com officiaes inferiores, ese irão retirando, eprolongando a mesma linha, em ordinaria distancia, para 325 não se parecer engano. (figura 2ª. Estratégia Iª.) Os officiaes superiores dos mais batalhoens os farão marchar sobre o prolongamento daquelle, fazendo postar os ajudantes no intervallo immediato ao lado da di recção. ~.~.~.~.~.~. 330 Capitulo II Da escolha, e ensino do soldado; e do seu ~armamento, e fardamento ~ Como os soldados são as moles, com que se move a 148 [fól. 14v] grande machina de hum exercito; he preciso que cada 335 hum delles saiba moverse uniformemente, para que toda amachina se mova com regularidade, esem tanto pezo. ~.~.~.~.~.~ Artigo I. Da estatura, e figura do soldado. O soldado para a infanteria não deve baixar de sessenta 340 ehuma polegada, ao menos, no nosso payz: deve ser grosso, ebem fornido de membros para poder soffrer o trabalho, e sustentar nos braços, com abayoneta na boca d'ar ma, oimpeto do choque dos cavallos: deve ser direito de pernas para poder marchar com desembaraço; eseria 345 huma providencia bem util o trazêlo na escolla de en sino alguns dias antes de se lhe assentar praça, para ver a sua aptidão, ou defeitos occultos. Em cada regimento ha huma es colla de ensino, onde as recrutas apprendem a mar 350 char em ordem, e o passo militar; e he de grande conse quencia, que ella seja inspeccionada por hum official de conhecida capacidade, porque dellê pende, como 149 [fól. 15r] cauza primitiva, o bom estado de hum batalhão. Para o soldado saber marchar, he preciso 355 fazêlo ser senhor do seu corpo, e do seu passo, ensinan do-o a ganhar oequilibrio; pois em o soldado podendo sos ter opé no ar o tempo, que quizer tambem opode pôr no chão quando os outro soldado immediato, e em igual distancia; ese elle deu hum passo demaziadamente 360 largo, ou muito pequeno, póde remedialo no seguinte. 94Passa o soldado a ser senhor do seu corpo, e do seu passo, he preciso que em cada hum delles sustente o corpo aprumo, e com equilibrio, sobre o pé que está no chão; porque estando assim sobre elle, pode mover o outro á sua 365 vontade, e levalo para diante com avelocidade, extensão, que quizer. Deve-se-lhe, pois, ensinar a ter acabe ça, eo corpo aprumo sobre os rins sem constrangimento. Diz M. de Keralio (1) que toda apozição, que o soldado não po 370 de conservar sem hum continuado esforço, he falsa, emá, ainda que ella fosse dos Césares, dos Condes, e do mesmo [Furenna]. A sua figura deve ter huma pozição firme, ecommoda: éstas duas condiçoens são reciprocamente necessari as; porque aquelle, que não está aprumo sobre a sua base, can 375 çase, para se soster; da mesma sorte que quem está em huma ______________________________________ (1) Recherche sur la tactique pag. 4795 94 A partir desse ponto, percebe-se uma mudança na espessura do traçado das letras. A letra é a mesma, assim como a tinta, mas o traçado dos grafemas aparece mais fino. 95 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 150 [fól. 15v] posição constrangido, não está em termos de fazer muito tempo uso das suas forças. Alguns tem dito que o estar apru 380 mo he estar de forma que as partes do corpo estejão per pendiculares humas sobre outras: Isto he hum erro tão manifesto, que basta ver a construcção do esqueleto hommano para ficar convencido da falsidade deste diffinição: Assim as sentaremos com o Barão de B.... (1) que o estar aprumo=he 385 estar postado de forma que a linha vertical caia no meio pro porcional da sua base. = Nestes termos, os calcanhares estarão juntos; osjoelhos tezos; as pernas, pés, para fora, de sorte que estes formem hum angulo quasi de sessenta gráus BAC: (figura 3ª. 390 Estratégia 1ª.) Os hombros, eos rins devem por-se aprumo sobre as ca deiras, e éstas sustentadas sobre as duas colunnas dos quartos, e pernas: Os braços devem cahir sem constrangimento, e só com o seu proprio pezo: a cabeça direita, alsa, e sem inclinação, so bre o hombro: o pescoço sem tezura: as espadoas lizas e iguaes 395 por detrás, sem por isso levar o peito mais para diante, nem re colher o ventre. He muito essencial que nesta posição o soldado esteja bem quadrado para diante de si; isto he, que a perpendicular AF (figura 4ª. Estratégia Iª.) divîda96 o angulo BAC ___________________________________________________ 400 (1)Exam. critiq. sur le militaire françois97 96 Ao longo de todo o texto, as letras que aparecem grafadas com o sinal de acento circunflexo, também possuem o sinal <.> em cima desse mesmo grafema, mas abaixo do circunflexo. 97 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 151 [fól. 16r] em dous angulos iguaes, e por consequencia forme dous angulos rectos com alinha das espadoas DE. Todo o principio de alinhamento na fileira he fundado sobre a exacção desta primeira obser 405 vancia; porque muitos soldados ao lado huns dos outros não podem estar bem alinhados, sem que as linhas das espa doas se confundão em huma só, sem que as perpendicula res AF sejão parallelas entre si. Logo se lhe ensinará ao soldado a andar á direita, eá esquerda, ea dar meia 410 volta, sem perder a sua figura. Como o soldado deve ter huma regra geral de perfil proporcionada á sua comprehensão, se lhe dirá que seja sempre escaçamente opeito do soldado do lado por onde se manda alinhar; e como em huma fren 415 te extensa póde avista padecer engano, fará por ver o peito do segundo soldado, que lhe for immediato para a parte para onde olha para alinharse; servindolhe oprimei ro de ponto intermediario; desta forma entre cada tres regularáõ o alinhamento, perfil, sem tanto perigo de en 420 ganar-se, pela pouca extensão, que tres homens occupão. ~.~.~.~.~.~.~ 152 [fól. 16v] Artigo II. Principios da marcha Para que huma tropa marche em ordem, he preciso que os homens, que acompoem, fação cada passo da mes 425 ma extensão, ecadencia; pelo que, he forçozo ap prender a marcha militar. Ésta he, pois, aprimeira couza que se deve ensinar ás recrutas, porque com ella se fáz o soldado senhor do equilibrio 430 do seu corpo, edo movimento das suas per nas, não pouzando opé senão no mesmo tempo, e em igual distancia, que o homem, que está ao seu lado: este custume de equi librio se adquire com facilidade sendo exercita 435 da a recruta a ficar alternativamente a prumo sobre hum e outro pé sómente (figura 5ª. Estratégia Iª.) Os prin98 98 Ao longo desta documentação, aparecem alguns poucos reclames. Desse modo, como a assimetria deste recurso é recorrente nesta fonte, desconsideramos os reclames como linha a ser contada para esta edição e os indicamos como tal recurso em notas. 153 [fól. 17r] principios deste exercicio reduzem-se a pôr o 440 corpo perfeitamente aprumo sobre opé que está firme, ea fazer todos os movimentos possiveis com a perna, que está no ar, sem que avertical do corpo saia da sua base. Ainda que este equilibrio con 445 duza á perfeição da marcha, não he comtudo oseu principio, como muito tempo se pensou; he hum erro crasso ofazer levantar huma per na para a levar para diante, e depois levar o corpo sobre ella. As leys da natureza, eda 450 mechanica mostrão ao contrario, que o movimento primitivo provém do centro da gravidade, eque as pernas não fazem mais que sustentar este centro da gravidade no seu movimento; e que hum pé não póde levantar-se, elevar-se para di 455 ante, sem fazer huma mudança no equilibrio do corpo; equanto mais huma perna se leva pa ra diante, tanto mais ocorpo he precisado a in99 99 Reclame no corpo do texto. 154 [fól. 17v] inclinarse para tras para fazer ocontrapezo: daqui resulta, que olevar aperna esquerda 460 para diante abre hum effeito absolutamente contradictorio ao da marcha. No mesmo instante se conhe ce o constrangimento horrivel, que soffrem as re crutas quando se usa deste principio; pois pa 465 ra tornar o corpo para diante he preciso hum consideravel esforço nos musculos lombares; e este produz hum balanço, mais ou menos grande que a cada instante lhe faz perder o equilibrio. Á vóz de=marcha= o soldado 470 deverá, pois, levar todo o seu corpo para dian te; ea perna esquerda deve seguilo para lhe servir de ponto de apoyo, em que se sustente; pouzando-se opé esquerdo dous pés adiante do lugar, que occupava: (figura5ª. Estratégia Iª.) no mesmo 475 instante, em que opé esquerdo se pouza, o joelho es querdo deve estenderse, eo direito afroxarse; 155 [fól. 18r] o corpo continuar a levarse para diante, ea perna direita seguilo, para vir por seu turno o pé direito a pouzarse dous pés adiante; me 480 dindo-se sempre este espaço do calcanhar fir me ao que se pouza; então o joelho direito se estende continuando o seu movimento, o esquerdo se afroxa; a perna esquerda segue o corpo, eo pé se poem adiante dous pés do lu 485 gar, que occupava. Estes movimentos sucessi vos, econtinuos, formão omechanismo da marcha. Quanto mais certeza houver no movimento do corpo, edas pernas, me 490 nor o balanço do corpo será sensivel, emais regular, e facil, será a marcha; pois asua perfeição não he outra couza, senão= o mo vimento directo, e uniforme, doc entro da gravidade para se transportar com a maior fa 495 cilidade possivel de hum ponto aoutro.= 156 [fól. 18v] Hé muito essencial ocustumar as re crutas amarchar sobre huma perpendicular de terminada, afim de que alinha das espadoas seja sempre cortada por ella a angulos rectos. ~.~.~.~.~.~. 500 Artigo III. Dos differentes passos. Para se explicar ao soldado os principios da marcha se usará do passo da escolla, ese lhe poderá dar mais ou menos pauza, ou velocidade, conforme parecer preciso 505 para assegurar o equilibrio da recruta, o que se fará contando déz tempos mais ou menos de pressa, para ganhar a igual dade no intervallo dos movimentos; Depois de se julga rem bem desembaraçados, se juntarão em tropas de huma só fileira, para fazerem juntos o passo com o mesmo pé, igual 510 dade, ecadencia. Desta forma há a facilidade de examinar odefeito da sua figura, edo seu passo, para os emendar; eassim se farão marchar bem alinhados: 157 [fól. 19r] então se lhes irá apressando amarcha sucessivamente 515 atté chegar á velocidade determinada; para isto he melhor o passo descançado, por que naturalmente osol dado o apressa; Ainda ganhado cadencia, mar charão sem contar os tempos. Depois se ensinarão amarchar 520 o mais depressa que for possivel, sem perder operfil; e mudar para opasso descançado, passando de huma cadencia a outra repetidas vezes; no que se fará o mayor exercicio;porque assim como para atirar bem he preciso atirar muito; assim he preciso mar 525 char muito para marchar bem; ecomo diz o Ma rechal de Saxe, a ciencia da guerra está nas pessoas. Logo se formarão atres de fundo, ese farão marchar com fileiras serradas, acustuman do-as a meter aperna por entre as do homem que levão 530 diante de si, e encobrindose bem com elle, de forma que cada fila marche sobre a mesma perpendicu lar, e que a linha das espadoas seja cortada por aquel la a angulos rectos; ese lhe ensinará a andar á direita, e á esquerda, e dar meias voltas sem per 535 der a cadencia. Juntas as recrutas, 158 [fól. 19v] se lhes fará marchar grandes distancias apasso natu ral, edobrado: estes passos tendo omesmo mechanis mo, só differem na velocidade. 540 O passo natural, como he opasso habitual das tropas em toda a occasião, que não ma nobrão, deve ser commodo, e facil: para que este pos sa ser proporcionado ao talhe da infanteria he pre ciso determinar a sua extensão a vinte quatro pole 545 gadas; ea sua velocidade de sessenta a settenta passos por minuto. O dobrado pode ter mais ou menos velo cidade, conforme as cricumstancias: se for em huma marcha de estrada, será commodo de oitenta a noventa passos por minuto; epara manobra, o comportaremos 550 de dous passos por segundo, que vem afazer cento e vin te por minuto, ese poderá apressar ainda mais para o attaque. (1) O muito exercicio fará estes passos familiares ao soldado; e o toque da caixa, e musica _____________________________________________ (1) O Barão de B.... no seu exame critico sobre o militar francês deter 555 mina o passo de estrada de noventa acem passos por minuto: ode manobra, de cento e vinte acento e trinta: eo de attaque, ao menos, de cento e cincoenta; porque seguindo o systêma da ordem profun da, conforme o Projeto de tactica de Menil Durand, como esta não he susceptivel de ondeamentos, ode marchar com toda a velocidade 560 e com menos embaraço. Exam. critiq. Art.II. pag.10ª.100 100 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 159 [fól. 20r] pode indicar a velocidade delles, ea sua mudança. A musica he utillissima mas só para aquelle fim, mas também porque alegra o animo, e arrebata os espiritos; e como nota o Marechal de Saxe, 565 não fatiga tanto com ella omovimento; pois se está vendo huma pessoa contradançar largas horas no mo vimento mais velóz; o que seria impossivel executar sem ella. Além da marcha recta, deve appren 570 der o soldado a marchar obliquamente, dirigindose por pequenas diagonaes, eobliquas; (*) e adobrar, edesdobrar o seu fundo. Nas marchas obliquas pode marchar parallelo á nova pozição, que se pertende; ou voltado 575 para a parte onde se lhe pôz a direcção. Se marchar fa zendo frente para a vanguarda, que he omais usado, po de seguir ou a diagonal do quadrado, ou huma linha mais ou menos obliqua do que aquella, eque faça com a linha das espadoas hum angulo mais ou 580 menos agudo; devendo sempre lembrarse o comman dante que quanto mais agudo for aquelle, menos extensão admitte o passo, e menos terreno pode ______________________________________________ (*) Todas as diagonaes são obliquas, mas nem todas as obli quas são diagonaes; porque a diagonal he a que divide o quadrado 585 em dous triangulos iguaes.101 101 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 160 [fól. 20v] ganhar para a sua frente. A conversão sendo hum movimen to muito difficil, precisa mais particular cuidado: os soldados devem olhar para olado, que se ha de mo 590 ver, e tocarão ocotovêlo para opião, ou lado que ha de ficar firme. Como ella he huma revolução, que fáz huma tropa sobre huma das extremidades da pri meira fileira; he evidente que ésta, sendo hum cen tro firme,aoutra ha de descrever huma circumfe 595 rencia, de que a primeira fileira he orayo; e sendo o diametro para acircumferencia, como sette para vin te dous, poderemos por aproximação calcular que no quarto de conversão olado da tropa, que marchar, an dará hum espaço igual á sua frente, emais quazi 600 a metade. A segunda e terceira fileira, como ladeão para se encobrirem sempre como o seu chefe de fileira, não podem ter o mesmo centro que a primeira; e por conseguinte não descrevem circulos concentricos; porque circulos concentricos=são aquelles, que tem 605 o centro commum.= O passo dos soldados neste movi mento varîa de extensão proporcionalmente á apro ximação do eixo; porque o soldado, que serve de 161 [fól. 21r] pião, movese no mesmo terreno; o immediato ga 610 nha algum; eassim os mais, atté chegar os da extre midade do lado movente, que o deve fazer de toda aexten são; e por isso os mais olhão para elle para regula rem o perfil; servindo-se do toque do cotovêlo, como 615 fica dito, para conservarem a união para o lado fir me. Mr102. de Keradio, para calcular geometricamente a extensão do passo de cada soldado, manda multiplicar o passo do da extremidade da pri 620 meira fileira, que se move, pelo numero, que expri me o lugar, que occupa na mesma fileira o solda do, cujo passo se quer conhecer; edividido o producto pelo numero de homens, que a compoem, o quoci ente será o passo que se procura. 625 Daqui se segue poder-se determi nar que a metade da frente para a parte do pião fará o passo de metade da extensão da do lado mo vente; a quarta parta da dita frente, da quarta par te daquella extensão; a terça parte, da terça da ex 630 tensão; e assim proporcionalmente sobre huma 102 o fica elevado sobre o ponto. 162 [fól. 21v] estimativa. ~.~.~.~.~.~.~ Artigo IV. Do manejo da arma, e fogos. Depois do soldado estar bem desembaraçado nos 635 sobreditos movimentos, se lhe porá a arma ao hom bro, para se lhe ensinar omanejo, que deveria ser breve, e sem movimentos superfluos; e facil de ap prender. O modo de trazer a arma deve 640 ser omais simples, e omais commodo. O Ba rão de B....[esculia] hum modo que diz lhe cum municow o Cavalleiro D.T. major de artilharia de a trazer no hombro direito, pegandolhe amão por bai xo da coronha, com o cilindro da arma voltado pa 645 ra dentro, de forma que a curvatura saliente da espingarda fique naturalmente na curvatura rein trante do braço, pelas commodidades, que resultão 163 [fól. 22r] ao soldado para carregar, presentar abaioneta, e fazer fogo com prontidão: Mas não ousando fazer huma 650 total mudança no modo actual de a trazer ao hombro; seria bom que nas marchas, emanobras, se trousses se na pozição do primeiro tempo do manejo da arma; isto he, com os fechos voltados para fora; e estendido o braço esquerdo quanto podesse ser naturalmente, ficando o guar 655 damato na curva do braço; o qual movimento se po deria fazer uniformemente á vóz=sentido, para marchar= Este modo tem a commodidade de dar ao fogo do inimigo menos linha tangivel, além de o enganar na direção da marcha, indicando-lhe pelo 660 reflexo das armas huma marcha sobre o flanco di reito; de cujo engando só pode tirarse em distancia que a vista o identifique; e juntamente o menor constrangimento, que padece o braço estendido; cir cumstancia tão precisa para huma pozição ser 665 boa. Depois de custumado o solda do a conservar a boa figura com a arma ao hom bro na pozição, que os Regulamentos determinarem, 164 [fól. 22v] se lhe principiará a ensinar o manejo em pequenas es 670 collas de tres atté seis soldados, começando sempre pelos movimentos mais faceis, depois os de carre gar, e ultimamente aexecução dos fogos; pois não he só o manejo da arma o que desembaraça o soldado, he também o saber servirse della. Os Antigos os ex 675 ercitavão a esgrimir, ecorrer, para os fazer fortes, e lhes desembaraçar os musculos. Marcharão, pois, com armas, repetindo-he os mesmos movimentos, que se lhe ti nhão ensinado sem ellas; fazendo-os andar á direita, 680 eá esquerda, dar meia volta sobre ambos os lados; fazer conversoens com oeixo firme, e eixo movente; marchar de frente, ede costado, conservando operfil, os intervallos, eas distancias; estando inteiramente capacitados, se examinará se sabem pôr bem as pe 685 derneiras, andar, e desandar os perafusos, carregar, e des carregar a sua espingarda, fazendo uso dos103 sacatrapos, etcoetera... etcoetera...etcoetera; e então se começará á fazer-lhe executar ofogo cada hum de porri, para que percão omedo; tendo cuida do que não fujão com acara, eque metão, ao apon 690 tar, a coronha no subaco do braço direito, sustentando 103 O que está em negrito aparece grafado com tinta preta. 165 [fól. 23r] a espingarda por baixo da mola da vareta com amão es querda, ficando ocilindro da arma parallelo ao terreno; isto he não atirando com balla, porque então se deve fazer apontaria proporcionalmente ás distancias: o 695 soldado baixará acabeça quanto for necessario para olhar pela linha da mira ou visual; e puxará pelo desarmador com dous dedos, para disparar com me nos resistencia. Depois atirarão por filas, e finalmen te por divisoens. 700 Em estando bem desembaraçados, e tendo perdido omedo do fogo, se lhes fará atirar ao alvo, dando se lhe as regras para apontaria ti radas da theorîa do fogo, reduzidas a huma expressão, que lhes seja comprehensivel. 705 O alvo deve ser huma taboa al ta de seis pés com hum homem pintado nella. Esta taboa se lhes porá primeiro a quatrocentos ecincoenta passos ese lhes mandará que apontem naquella dis tancia tres pés proxima da cabeça: depois se lhe porá 710 em distancia de trezentos, ese lhes mandará que apon tem pé e meio acima da cabeça: adozentos e 166 [fól. 23v] cincoenta, que atirem ao chapeo: acento ecincoenta ao meio do corpo; eaproximando-lhe ultimamente a oitenta, ou noventa passos, se lhes mandará fazer 715 pontaria aos quartos, ou joelhos, enuma mais abaixo. Depois de dado o tiro, se deve explicar ao soldado a cauza de não acertar, efazer lhe atirar outra, atté que se capacite. Em cada hum estando bem certo na 720 pontaria, que convém ás differentes distancias, se fa rão atirar por divisioens, pondolhe hum taboado de seis pés de alto, dividido em tres dimmensoens de dous pés cada huma, assinaladas com distinctas cores: es te taboado se lhe porá tambem em differentes distanci 725 as; ebasta que se lhe advirta sómente que acento ecincoenta, ou cento eoitenta passos, apontem á dim mensão do meio para dar na superior; ou a inferior para dar na do meio: atrezentos passos, que apontem ao alto da superior, para dar na do meio; ou ao alto 730 da dimmensão do meio, para dar na inferior; devendo sempre fazerse a pontaria tanto mais alta, quanto maior for a distancia. (*) _____________________________________________ (*) O soldado a trezentos passos deve apontar á cabeça, porque dará no peito; ea cento ecincoenta, ao ventre, ou quartos, para dar no tronco; pois he aparte, em 735 que o tiro fás sempre mais perigosa ferida. 104 104 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 167 [fól. 24r] Geralmente se lhe recommenda que se apon te sempre ao objecto; eque conforme o terreno, em que elle está postado, assim se deve levantar, ow bai xar a arma attendendo a elle estar superior, ou inferior. ~.~.~.~.~.~. 740 Art.V. Do armamento do soldado, seu farda ~mento~ A espingarda, baioneta, são as armas do soldado infante: a espada oembaraça, enão lhe serve senão de adorno. 745 A espingarda deve ser comprida, porém muito leve, para se poder mover com facilidade, eligeireza, tirando botes de baio neta, e parando os golpes do inimigo: ésta deve ter córte sómente hum palmo para a ponta, e cotta105 dallî para tráz para que não possa correr, nem entrar mais no corpo do ini 750 migo; porque desta forma se evita, que tendo-se introdu zido no contrario atté a boca da arma, ou nos peitos do seu cavallo, se não pode arrancar, ficando exposto aos golpes, sem ter defença alguma. O Barão de B.... quer que a es pingarda tenha cincoenta polegadas, ea sua baioneta vinte, 105 O que está em negrito apresenta um excesso de tinta 168 [fól. 24v] 755 incluindose ocabo. Os cantîs devem ser delgados, ea coronha omais leve que possa ser, para afazer ligeira, eas armas sejão to das do mesmo calibre, para se evitar oembaraço de lhe não servirem as ballas por algum engano. 760 As bandeiras basta que tenhão tres pés em quadro sobre huma haste de oito, para se poderem mover esustentar com facilidade. O fardamento deve ser commodo, que não constranja o soldado; ecomo presentemente se usa cur 765 to, e justo ao corpo, seria bom que o soldado infante tivesse hum redingote com mangas largas, e elle sem algum fei tis, com canhoens da côr da divisa, esua volta no cabeção, como ado uniforme, eque se podesse vestir por cima da far da, e mochîla, elhe désse pela curva da perna. 770 Este redingote teria a commodidade de resguardar a mochîla, epatrona da agoa nas marchas, resis tir ao frio, econservar o soldado enxuto do corpo, tirando-o logo que se molhasse, e pondo-o a enxugar ao ar: ésta despeza além de poupar a farda do mesmo soldado, que nos quarteis pode 775 ria trazêlo só com aveste, produziria maior lucro á Fazen da Real, evitandolhe grandes despezas nos hospitaes, pelas muitas molestias, que os soldados adquirem das humidades, 169 [fól. 25r] que se-lhes enxugão no corpo andando em fardas; pois como ésta anda umida, lhas introdúz; como também pelos ventos 780 frios, e ares penetrantes e agudos, que nas Provincias frias cauzão pleurizea, e catharraea, de que morrem muitos; sendo certo que para a Real Clemencia da Magestade tudo he incomparavel á vida de hum vassallo, e muito mais de hum vassallo, que sacrifica avida no seu serviço. 785 A dragona deveria ter huma sola bem batida, e tres cadeinhas de ferro entre oforro, para lhe defen der o hombro. Ochapeo, ainda que sejão por mais leves epor mais facil de prover, na oppinião de alguns prefe rivel; comtudo, sempre he huma cobertura, que o solda 790 do não póde conservar deitado: hum casco de sola teria a commodidade do soldado dormir com elle, eter a cabeça abrigada das humidades, edo frio, nos campamentos, levan tando-se logo com elle ao primeiro rebate. Mas deixando éstas questoens, que 795 tem por huma eoutra parte rasoens attendiveis; ousar se de chapeo, seria conveniente que acopa delle fosse ma is alta que de ordinario o hé; que no alto della se lhe pozesse entre oforro huma roda de sola batida com huma massa zinha delgada de ferro, que podesse resistir 170 [fól. 25v] 800 ás cuteladas, (*) e que asua aba fosse sómente de quatro polegadas; que o soldado a troussesse sem prezilhas, eao lado da copa hum laço ou cócar, á eleição do chefe, ou confor me adivisa, que se determinasse para cada companhia: com ésta aba curta livrará o soldado a agoa do pescoço 805 muito bem, fáz huma boa figura, emuito melhor do que aprezilhado, porque o soldado não conserva muito tem po ochapeo em bom ar, logo o québra, efica ridiculo; além de não lhe livrar a agoa como desta forma. A sola, e chapazinha, no alto da co 810 pa, será de grande utilidade para resguardo da cabe ça; e sendo acopa levantada de forma que não to que nella, o que facilmente se consegue apertando-as bem no fundo, nem contuzão lhe fará o golpe. Ésta parte do corpo, eos hombros, são os mais expostos 815 na infanteria; e por isso se devem guarnecer; não só pela utilidade, e beneficio, que realmente resulta, mas ainda pelo imaginario, que anîma o soldado, persuadindo-se da sua segurança. _______________________________________________ (*) Ésta mesma chapazinha se lhe poderia também pôr pela parte de fora, 820 cobrindolhe acopa com enecerado; o que seria util para que a agoa o não repassasse.106 106 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 171 [fól. 26r] O soldado, ow não deverîa trazer meias por baixo das polainas ow botina, ow as trará sem pé: O suor as apodrece, e a humidade no inverno lhe fáx hum 825 grande estrago na saude: deve nas marchas trazer ospés untados muito bem com sebo, para se-lhe não cortarem, epara que a humidade se-lhe não introdu za. Diz o Marechal de Saxo que aos soldados peral tas lhes não agradará ésta cautella, mas que aos 830 veteranos, que tem feito muitas campanhas, não he preciso, que se lhe recommende, pela utilidade, que tem experimentado. Para não recozerem nas marchas terão os soldados a precaução de usar de huns ramos 835 de trovisco torcidos; ceingidos á cinta; ou de meter mesmo dentro dos calçoens huns ramos tenros; o que he eficáz remedio. Éstas advertencias, que pare cem bagatellas, podem ser de grande utilidade; porque as couzas mais pequenas, no militar, in 840 fluem no todo, e concorrem muitas vezes para o bom, ou máo successo. ~.~.~.~.~.~.~.~.~ 172 [fól. 26v] Artigo VI. Da disciplina militar. A disciplina he para o militar, como a legis 845 lação para a monarchia: sendo pois os militares huns individuos tirados da massa da nação, e huma parte daquelle todo, não podem deixar de partecipar dos custumes, usos, prejuizos, caracter, egenio desta nação, a que o mesmo militar pertence. (1) A disciplina deve, 850 pois, ser differente em todos os paizes, e conforme o ge nio delles. Montesquieu diz=que a honra he o prin cipio da monarchia= e ew atrevome a asseverar com o Barão de B....(2), que ella he o principio da dis 855 ciplina militar, contra a oppinião daquelles, que tra tão a honra de chimera, e que querem negar que algum sentimento possa conduzir o homem mais que o temor. (*) Examinem-se os annaes desses ____________________________________________________ 860 (1) Exam. crtiq. sur le milit. françois pag. 172. (2) pag.idem (*)só pode verificarse ésta oppinião em huma tropa composta de vadios.107 107 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 173 [fól. 27r] Povos, e em differentes épocas se verá os que attenárão omundo pelas suas acçoens, conduzidos pelos esti mulos da honra, epelos dezejos da gloria. Infelîza 865 tropa, que for conduzida ao inimigo pela disciplina moderna, eque tiver acombater homens animados do amor da Patria, eda Gloria! (1) O valor dos Roma nos era excitado pelo patriotismo, e conservado pelas recompensas honrozas. 870 "A disciplina moderna, diz o Barão" "de B....., he fazer temer ao soldado mais os castigos" "dos seos officiaes, as as planchadas, de espada, etcoetera, do " "que os golpes do inimigo: mas hum homem criado" "sempre no temor, como poderá vencer o dos perigos," 875 "e o da morte mesma?" A nossa Nação tem hum genio altivo, com delicadeza de sentimentos de vergonha, brio, e honra; he preciso conduzir os Portuguezes por este caminho com brandura; elles são capazes ainda de obrar o mes 880 mo, que seos Antepassados, conduzidos como elles forão. O dar-lhe com hum pão os fáz desgostar, induzindo-os _________________________________________________ Exam. critiq. pag.172108 108 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 174 [fól. 27v] a idéas de vingança, que só retarda a falta de occasião. He preciso conhecer ocaracter 885 o genio, eos custumes da nação para formar as suas instituiçoens militares, e para a sua constituição he pre cizo meditar oseu plano. O Alemão, o Prussiano, o Russo, sofrem sem ultraje as pancadas: O soldado Portuguêz não po 890 de recebêlas sem hum sentimento de vergonha, e sem o tomar por desprezo. Elle gosta de trata mento benigno, e aborrece as expressoens ultrajan tes, ealgumas inhibiçoens, que o fazem reputar pelo mais abatido dos individuos do Estado; etalvêz en 895 vergonhar do vestido que tráz; persuadido que não as soffreria, seo não trossesse ~.~.~.~.~.~.~.~.~ Capitulo III. Da superioridade da infanteria, e cavallaria; e vantagens proprias de huma e outra. 900 Qual destas Armas seja superior, he questão que ainda atté agora se não pode decidir, nem ew 175 [fól. 28r] o pertendo; e só sim expôr as suas vantagens, pa ra se fazer uso dellas, eprecaver-se contra as outras, que o inimigo possa practicar. ~.~.~.~.~.~.~.~ 905 Artigo I. Da defença da infanteria contra a cavalla ~ria; eda theoria do fogo ~ A defença da infanteria contra a cavallaria consiste no seu fogo, eno seu fundo: pelo fogo, fáz contêla, ea afas 910 ta de si; pelo fundo, resiste com asolidêz da massa, e espessa muralha das baionetas, ao impulso, e împeto do seu choque. Sendo, pois, o fogo huma das principa es defenças daquella, he preciso que elle seja bem dirigido para ter effeito, epor conseguinte a sua theoria he in 915 dispensavelmente necessaria ao official para a instrução do soldado. Deve, pois, o official de infanteria co nhecer o alcance das armas; e para isso he preciso consi derar a linha da mira, que he aquella recta pela qual 920 se decobre o objecto, aque se dirige aballa; a linha do tiro, que he outra recta, que representa ocentro do cilindro da es- pingarda; ea trajetoria , que he aque descreve a balla im pellida pela polvora para o objecto, em que se quer acertar. A linha do tiro, ea da mira, não são pa 925 rallelas, (*) e em mais ou menos distancia da boca da espin garda formão hum angulo mais ou menos sensivel, con forme a grossura, que o cilindro da espingarda tem na culatra, ena boca. Ao longo da linha da mira procu ra o olho direito a pontaria; isto he, no ponto ou vertice 930 da boca do mesmo cilindro; e o mobil ou balla he impellido ao longo da linha do tiro, que he interior, ou centro da arma, por 176 cujo motivo éstas duas linhas são secantes entre si. Sahindo aballa do cilindro descreve a trajectoria que he huma curva, pela atracção do pezo, que 935 impoem esta ley a todos os corpos impellidos obliquamente. Ésta curva, que o mobil descreve, apouca distancia da boca da espingarda corta a linha da mira passando por cima _______________________________________________ (*) Para a linha da mira poder ser parallela á do tiro, he preciso que o olho des cubra sómente o alto da culatra, eo ponto ou vertice na boca do cilindro, 940 porque o rayo superior do circulo da boca do cilindro, emais a altura do ponto deve equivaler ao rayo superior do circulo da culatra do mesmo cilindro.109 109 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 177 [fól. 28v] della; e dallî atrahida pela sua gravidade aproximase da quella linha; torna acortâla segunda vêz; eacaba de descrever a parabola (*) atté á sua queda. 945 Esta segunda intersecção, ou ponto, em que se cortão, he oque se chama alcance da arma de ponto em branco, cuja distancia he maior ou menor proporcionalmente á abertura do angulo, que formão entre si alinha do tiro, ea linha da mira; assim como tambem em rasão da força 950 impulsiva; do volume, emassa do mobil, eo comprimento do cali bre proporcionado com o diametro. Athé agora não se tem podido determinar o com110primento das curvas, que asballas podem descrever, nem avelocidade, com que as correm, ea sua declinação sucessiva; 955 sómente se tem achado algumas verdades, que fazem atheo ria do fogo. A balla sahindo de huma espingarda de munição, carregada com a polvora correspondente, segue desde a sahida do cilindro da arma huma direcção bem 960 como rectinlinea; e descrevendo a sua trajectoria,se ________________________________________ (*) verdadeiramente huma especie de logarithmo. 111 110 O que está em negrito aparece um pouco borrado por causa do excesso de tinta. 111 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 178 [fól. 29r] achará em distancia de cento eoitenta passos acima da linha da mira; (*) sendo este oponto da sua maior elevação, se encurva sucessivamente pela ley da gravidade, athé que che 965 gando-se para a linha da mira, a torna acortar a tre zentos esessenta passos, eacaba a sua trajectoria athé dar no objecto, ou em qualquer outro obstaculo, que dissipe a força movente. Aquella elevação da balla he aque fará 970 dizer-se que o tiro levanta, não sendo aquella mais que acontinuação da sua direcção, que a fáz passar por cima da linha da mira a formar com ella outro angulo igual, eopposto do precedente; econtinuar, em consequencia da quella mesma divergencia, aelevar-se a altura de pé e 975 meio, ou dous pés, que he oponto da sua maior elevação. Daqui se manifesta, que para acer tar em hum objecto não he preciso infallivelmente apontar a ella; antes bem se deve apontar mais abaixo, ou mais acima, conforme a distancia; epor con 980 sequencia a necessidade que há da theoria do fogo, para ________________________________________________ (*) Por isso acento e cincoenta passos, como fica dito, deve o soldado apontar á dimensão inferior para dar na do meio; ou á do meio para dar na supe rior; porque vai aballa continuando a sua elevação.112 112 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 179 [fól. 29r] se ensinar ao soldado a fazer a pontaria, como atráz fica dito, enão se 985 lhe dizer vagamente, que se aponte ao peito. Repetidas experiencias, eas regras de for tificação, nos ensinão, pois, que o maior alcance da espingarda carregada com polvora que peze a metade de pezo da balla, he qua trocentos ecincoenta a quinhentos passos, sem declinar muito da 990 linha orisontal. A tropa mais em instruida fará, com a primeira carga, que tráz na espingarda, quatro descargas por minuto; ena sua acção a que despára trez, fará muito; e nem huma fará mais. 995 A ordem, sucessão dos fogos, dirige-se ao acerto, ea que seja abundante, e contînuo: Os differentes modos de fazer fogo, por descarga, por descarga geral, ou por partes do batalhão, a pé firme, attacando, ou em retirada, se hão de considerar relati vamente ao fim, a que se destinão; e variarem segundo a acção, 1000 distancia, terreno, formatura, e inimigo. O fogo mais respeitavel contra a caval laria he a pé firme; eo unico, que póde oppôrse ao seu atta que: executase este por descarga geral, por pelotoens, divisões, e por fileiras. 1005 As descargas geraes, que se fazem por toda a extensão da frente, são as de maior estrago para a cavallaria, porque espantão os cavallos com o grande estron do; he mais abundante, mais pronto, e a huma só vóz; 180 [fól. 29v] só tem o inconveniente de que a cavallaria com a sua muita ve 1010 locidade podesse alcançar a infanteria sem fogo: Mas se a descarga se fizer na maior distancia offensiva, que he aqua trocentos, eoitenta passos, he necessario que a cavallaria traga azar, eque a infanteria seja a mais mal disciplinada para assim lhe succeder; porém se a cavallaria ao romper o attaque não 1015 receber descarga geral, já não a deve recear; porque o fogo se redu zirá a fogo por pelotoens, divisoens, continuo, ou solto. O fogo por fileiras, sucessivo (ou continuo *) he ode maior utilidade, porque occupa toda aextensão da frente; mas devese sempre reservar o da primeira fileira para quando a caval 1020 laria se aproxîma a trinta passos. O fogo por pelotoens he pou co ventajozo. A ordem de batalha da infanteria a tres de fundo he de pouca resistencia contra a cavallaria: a infan teria deve, pois, para fazer forte a sua formatura ter seguros os 1025 flancos, e a retaguarda. Os intervallos grandes dão meios á cavallaria de passar por elles, e attacala por detrás; pelo que, a sua pozição não he segura. O fundo he, pois, a sua mais solida defença; e a unica, com que póde resistir á cavallaria, não tendo 1030 em que apoiar os seos flancos, e retaguarda; epara isso deve recorrer á colunna, ou reduzir a seis de fundo, conforme considerar o inimi go mais ou menos forte, e resoluto. ~.~.~.~.~.~.~.~.~ *Debilbode113 113 O que está em negrito está fora dos limites da margem da página e escrito em letra menor que a do corpo do texto. 181 [fól. 30r] Artigo II. 1035 Da Velocidade de ambas as Armas. A cavallaria marchando a galope mediano, (*) sobre apoio, fáz em hum minuto trezentos esettenta passos, segundo a oppi nião do Marquêz de Avellano; ea infanteria sessenta, a passo ordinario: Este he o movimento de preparação para o attaque 1040 da primeira, edefença da segunda; que he como de hum para seis, ou hum seisto do outro; de sorte, que a infan teria caminha em seis minutos edéz segundos apasso ordina rio, ou natural, o que a cavallaria anda em hum minuto a galope mediano. 1045 A maior velocidade da cavallaria para o attaque, conservando formatura eordem, he o grande galope, ou a toda a brida; ea da infanteria, o passo dobrado: podese com putar regularmente a ésta cento evinte passos por minuto; equa trocentos enoventa a aquella; ainda que huma e outra podem aug 1050 mentar mais a sua velocidade por poucos instantes, reduzamo-la aésta computação, que he quazi como de hum para quatro; isto he, que a cavallaria em hum minuto a grande galope caminha mais terreno que a infanteria em quatro a passo dobrado. ________________________________________________ (*) A cavallaria Espanhola usa do galope mediano, enão de trote; por isso, repu 1055 taremos aquelle pelo seu movimento de preparação.114 114 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 182 [fól. 30v] Esta comparação he indispensavelmente necessario têla presente, para julgar da facilidade, ou embaraço, de moverse, ou mudar de formatura em presença huma da outra, suppondo-se separadas a quinhentos passos por con 1060 ta do fogo. Conhecida a velocidade da cavallaria nos seos differentes movimentos; a distancia, ea extensão das curvas, que formão as conversoens; se poderá calcular o tempo, que ella poderá tardar em andar o espaço proposto, 1065 tomando a direcção, e caminhos, que conduzem ao ponto de attaque: Resta saber o tempo que he preciso á infanteria para se mover, e passar de huma formatura a outra. Hum batalhão bem instruido for mado em linha, para meter em colunna sobre o flanco, 1070 sem deixar a sua pozição local, por quartos de conversão, preci za a passo dobrado de cento e vinte por minuto, a quarta parte de segundos dos pés que occupão de frente as fracçoens, que a compoem, emais a metade desta; ou tantos segundos como a metade dos passos, que cada huma occupa, e mais a metade. 1075 Por exemplo, se hum batalhão de cento enoventa eduas filas, em oito pelotoens cada hum de vintequatro homens de frente, que occupão quarenta eoito pés, ou vintequatro passos; se 183 [fól. 31r] se formar em colunna por quarto de conversão sobre o flanco, como ha de andar o lado, que se move, hum terreno igual á 1080 sua frente emais ametade, segundo os principios atráz estabellecidos, que vem aser setenta edous pés, ou trinta eseis passos; os fará em dezoito segundos, que he aquarta parte dos pés, ou metade dos passos, que os lados sa lientes dos pelotoens andão em conversão para formar 1085 em colunna. Desta forma se pode calcular o tempo, que gasta qualquer tropa em fazer hum quar to de conversão; pois como para isso necessita a quarta parte de segundos dos pés (ou ametade dos passos) que 1090 tem de frente e mais a metade; sendo huma frente de dozentos homens, por exemplo, que occupão quatrocentos pés (ou dozentos passos) o lado movente ha de fazer seis centos pés, cuja quarta parte são cento ecincoenta; (ou tre zentos passos cuja metade he o mesmo numero;) e este será 1095 o dos segundos, que o soldado infante precisa para os an dar, fazendo quatro pés, (ou dous passos) por segundo, co mo fica dito. A regra mais facil, e geral he, que huma tropa de infanteria necessita para fazer hum 184 [fól. 31v] 1100 quarto de conversão a passo dobrado, tantos segundos como as tres quartas partes de homens, que tem de frente (*) O mesmo tempo tardará o batalhão, que esteja em colunna para se formar em linha pelo quarto de conversão. 1105 Da mesma sorte se pode regular o tempo que tardará o batalhão marchando em colunna com distancia, para formar em linha sobre avangar da, ou seja, pelo passo obliquo sómente, ou seja por oitavos de conversão; (Figura 1ª. Estratégia VIIª.) porque ainda que 1110 afracção da retaguarda tenha que andar menos aextensão da sua frente, eque a sua direcção não seja por huma li nha curva, mas sim diagonal; contudo, aquella differença, que hé huma seista parte menos que a do quarto de conversão (+) ________________________________________________________ (*) Huma tropa, por exemplo, de 100 homens de frente tardará no quarto de con 1115 versão 75 segundos; porque 100/4 x 3=75; numero de segundos que con forme a regra deve tardar. (+) Em hum pelotão de vintequatro homens de frente fazendo quarto de conver são, o soldado do lado movente andará huã curva de 36 passos: huma igual tropa marchando pela diagonal sobre a sua vanguarda hum terreno i 1120 gual á sua frente, como opasso obliquo tem a quarta parte menos de extensão que orecto; isto he, seis polegadas; fará 30 passos; o que vem a ser a seista parte menos que na conversão: porque 6 x 6=36; numero de passos, que descreve a curva.115 115 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 185 [fól. 32r] se precisa para concluir o movimento; porque como se fáz pelo 1125 passo obliquo, que tem aquarta parte menos de extensão que o recto, (*) a sua velocidade he de tres pés por segun do: esendo por oitavos de conversão, os pelotoens ne cessariamente hão de deterse nelles, fazendo-os antes de marchar por huma diagonal a formar em linha. 1130 Para se saber o tempo, que huma colunna de infanteria na sua ordem natural precisa para unir as distancias a passo dobrado, se multiplicarão os homens de frente da colunna pelas distancias do fundo; e tirando da somma o numero de fileiras, que acompo 1135 em, a metade do que resta, he o numero de segundos, que tardará o movimento. (+) Por exemplo, huma colunna de oito pelotoens de vintequatro de frente; são sette os espaços de distancia; multiplicados pela frente; o produto dá cen to esessenta eoito, de que abattendo-se vintequatro, que he 1140 o numero de fileiras, que a compoem, restão cento equa renta equatro, cuja metade são settenta edous, que he o nu mero de segundos, que a colunna tardará em se unir. ________________________________________________ (*) Isto se entende sempre marchando-se pela diagonal; porque sendo por differentes obliquas, variará a extensão do passo proporcionalmente á 1145 sua obliquidade. (+) 24 x7-24=144, cuja metade são 72; numero dos segundos, que tardará.116 116 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 186 [fól. 32v] Facilmente se poderá, seguindo os mes mos principios calcular o tempo, que se pode gastar nas dif ferentes manobras de infanteria, conhecidas as di 1150 recçoens, que a tropa deve caminhar; eafrente, efundo, que occupa; o que se fará particularmente quando se tratar de cada huma dellas. ~.~.~.~.~.~.~.~.~ Artigo III. Comaparação das duas Armas. 1155 O bom, ou máo, sucesso da cavallaria contra a infan taria depende da superioridade dos homens, de que huma e outra se compoem: excellente cavallaria baterá sem pre huma má infanteria; e excellente infanteria não se deixará romper de huma má cavallaria (1) 1160 Conforme as precauçoens, que a infanteria tomar para se pôr em estado de defença, ___________________________________________ (1) Barão de B.... exam. critiq. pag. 209.117 117 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 187 [fól. 33r] assim a cavallaria deve combinar os seos maios de atta que: aquella emprega o seu fogo para desordenar ao 1165 longe os esquadroens desta; esefáz forte com a espessa trincheira das suas baionetas para poder re sistir ao impeto da outra. Nesta pozição, verda deiramente respeitavel, he que ella pertende espe rar sem temor a cavallaria. 1170 Attacar ainfanteria assim dis posta, he escolher omomento da sua maior resis tencia, e arriscar o bom sucesso; (1) eo pouco lucro, que a cavallaria tira da derrota da infanteria, por ésta não ter cavallos, deque se aproveite, fará que nenhum 1175 official sensato se encapriche a querer batêla, não ten do huma ordem expressa para o intentar atodo o risco; pelas poucas consequencias, que lhe resultão das vantagens nestes combates particulares. O combate dos dous corpos hade sem 1180 pre suppôrse em terreno livre, que facilite as ma nobras da cavallaria. ____________________________________ (1) B. du B.... exam.critiq. pag 209.118 118 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 188 [fól. 33v] Suppostapois ainfanteria na sua ordem defensiva, deve suppôr-se tambem a cavalla 1185 ria fora do alcance do fogo daquella; porque nesta distancia he que ésta deve fazer as suas dispoziço ens de attaque. A cavallaria hade meterse em colunna por esquadroens, meios - esquadroens, etcoetera, 1190 conforme a extensão da frente, que pertende atta car; ese as suas forças lhe permittirem, deve es colher sempre dous pontos de attaque ao mes mo tempo; eque sejão sempre os mais fracos; os que prezentarem menos gente, epor conseguinte me 1195 nos, fogo, que temer; o que precisamente hão de ser os angulos, e flancos. Ainda que as ordens estejão dadas; e tomadas as dispoziçoens para attacar estes dous pontos ao mesmo tempo; as duas colunnas não for 1200 mão ao principio senão huma, afim de occu par toda aattenção da infanteria na defença do ponto ameaçado pela direcção geral: por isso o 189 [fól. 34r] commandante desta deveter muito cuidado emtodas aquellas partes, que presentão menos defença do ini 1205 migo, sem se deixar illudir. A colunna de cavallaria marcha assim, com distancias iguaes áfrente, athe dozentos ecincoenta passos da infanteria, que he adistancia, em que o seu fogo começa a fazer hum bom effeito: 1210 Se ésta se tiver desprovido delle, lhe será degrande perjuizo; eprincipiando-o naquella distancia, a ca vallaria poderá receber tres descargas, estando a infanteria formada a seis defundo, efazendo fogo por fileiras, (pondo joelho emterra as de diante, 1215 sendo o ultimo o das duas fileiras da vanguarda;)ou o fogo da colunna, se estiver atropa naquella for matura. Estes dozentos ecincoenta pas sos devem ser corridos a toda abrida; e ao come 1220 çar o grande galope, a cavallaria hade augmentar as distancias demaneira, que haja cincoenta passos entre cada fracção para poder graduar a 190 [fól. 34v] velocidade do movimento. Aquella, que for destina da para para fazer a testa da segunda colunna; em chegan 1225 do ao ponto donde aprimeira tiver partido, mudará de repente a direcção, para se dirigir ao segundo pon to de attaque com o mesmo impeto, com que a primei ra se lançou sobre o outro. O sucesso deste segundo he tanto mais certo quanto he menor esperado, e im 1230 previsto; por que ainfanteria estando já aballada, oficará mais com a impressão, que fazem sem pre as couzas, que não se espérão: por isso o com mandante a deve ter prevenido daquelle contecimen to 1235 Se aprimeira tropa da pri meira colunna, que não deve tardar mais de trinta segundos em fazer os dozentos ecincoenta passos, que asepárão da infanteria; receber alguma descarga, que aponha em desordem; hade abrir para os 1240 lados por conversão, para se ir formar na retaguar da acoberto dofogo; mas por isso não deve ainfan 191 [fól. 35r] infanteria descuidarse; porque a segunda tropa aug mentando avelocidade, epor consequencia o impul so, lhe deve succeder. 1245 Tambem he necessario que a infanteria tenha grande [oleo] o fogo, ecerteza nos seos tiros parase livrar do primeiro attaque; por que se a cavallaria não for desordenada em distancia de cincoenta passos; isto he, no principio da linha 1250 doperigo, não poderá ser detida pelos mais fogos; os cavallos feridos irão cahir sobre ainfanteria, e lhe causaráõ alguma desordem; emuito mais sen do os attaques repetidos pelas tropas, que se devem succeder humas ás outras. (*) 1255 Não se preocupem pois os officiaes de infanteria daquella oppinião sem fundamento, de que acavallaria não tem partido contra ainfanteria: elles devem timar todas as precauçoens para a ___________________________________________ (*) Por isso são muito precisas, edegrande utilidade as trincheiras 1260 portateis119 119 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 192 [fól. 35v] sua defensa. A cavallaria tem huma grande van- tagem na velocidade; emuito mais em ser se nhora de elegir o attaque aseu arbitrio, poden do acometer por onde lhe parecer, e se tiver partido, 1265 ou retirar-se, sem receio deque apersigão. Ora, isto he huma grande vantagem! M.r120 de Guibert conhecendo isto mesmo, tem proposto as trincheiras portateis de cordas aleotroadas, alguma couza froxas, esustentadas 1270 emestacoens, que se enterrassem no chão, e com ar golas emcima para as suspender. Nota o Barão de B... que ten doas censurado todos, ninguem se atreveu positivamen te arefutalas; ehe certo que ainda que ellas tenhão 1275 o inconveniente de nemtodos as terrenos serem pro prios para se enterrarem os estácoens, epoder susten talos; podia remediar-se, pondolhe por base hum cavallinho defrisa, ou hum pé triangular; epoderião ser conduzidos por alguns soldados robustos ja destinados 1280 para esse fim, eque marchassem em huma linha aoito 120 O grafema encontra-se em tamanho menor e está flutuante em cima do ponto. 193 [fól. 36r] passos de distancia datropa, eparallelos ásua frente; os quaes portarião os ditos cavallinhos defrisa logo que sefisesse alto, lançando immediatamente al guns officiaes inferiores, encarregados daquelle 1285 ministerio, as cordas de huns aoutros. Estando ainfanteria em colun na macissa, he isto facilissimo de executar, pela sua pouca extensão; para aqual bastarão quatro cavallinhos defrisa para os angulos, com outras tan 1290 tas cordas depequeno comprimento, para selançarem dehuns aos outros. He sem duvida que nemhum commandante de infanteria se arrependerá detodas as precauçoens, que tiver tomado, por demaziadas.121 1295 Capitulo IV Evoluçoens, emanobras dehum batalhão O batalhaõ he hum pequeno exercito; assim como hum exercito he hum grande batalhão; (1) __________________________________________ (1) Puisseguer Art. deguerr.122 121 Abaixo desta linha, há duas linhas retas horizontais, uma em traço mais grosso e a outra em traço mais fino, respectivamente. Marcam o fim de um capítulo e o início de outro. 122 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 194 [fól. 36v] 1300 he preciso, pois, que os seos movimentos sejão anna logos. ~.~.~.~.~.~.~.~.~. Artigo I Da marcha recta, eobliqua. O batalhão movese sobreasua vanguarda, ere 1305 taguarda; (*) apasso natural, ou dobrado; comtoda a sua frente, oudividido empartes. Com toda a sua frente, movese marchando recta ou obliquamente: amarcha recta he, quando das ban deiras setira huma linha imaginaria perpendicular á 1310 frente dobatalhão; isto he, que faça dous angulos rectos com alinha da mesma frente, descrevendose para am bos os lados hum quarto de circulo de noventa gráos; e por ésta linha fará adireção, tomada como fica dito, e Porta-bandeira (Figura 2ª. Estratégia Iª.) 1315 Os soldados olhão á bandeira _______________________________________ (*) Se o batalhão semove fazendo frente aos flancos por hum simples = á direita=ou=á esquerda=chamase marcha de costado.123 123 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 195 [fól. 37r] na marcha, como ponto determinado para indicar adirec ção, ealinhamento, para se perfilarem; etocão o co 1320 tovêlo para amesma parte para onde olhão, conser vando-se emtoda amarcha sem se constrangirem, nem alargarem, levando acara levantada, o corpo direito, opé rasteiro, esemaffoetação nomovimento delle. Ca da commandante depelotão tomará tambem sua direcção 1325 particular, as quaes serão parallelas á do batalhão; (Figura7ª. Estratégia Iª.) eterão cuidado em que este semova sem pre parallelo á nova pozição, aque se dirige. Quando o batalhão não pode mar char paradiante recto por ter algum obstaculo sobre 1330 parte da sua frente; ouque for precisoque ellemar che obliquamente costeando algum encosto, que lhe cu bra oflanco; o commandante omandará marchar obliquamente para aquella parte, pondo-lhe a direc ção no centro, ou no lado. (Figura 6ª. Estratégia Iª.) Ésta linha 1335 de direcção fará o angulo mais ou menos agudo, com prehendendo maior ou menor porção de circulo, conforme asua obliquidade. 196 [fól. 37v] Quando alinha de direcção fizer hum angulo de menos de quarenta ecinco gráos; isto he, da 1340 oitavaparte de hum circulo, será preciso advertir ao ba talhão que deve marchar ganhando pouco terreno para afrente, edepois selhe dará avóz de=marcha=. Os soldados namarcha obliqua devem inclinar paradiante o hombro daquella parte para onde 1345 se dirigem, para evitar que o batalhão faça conversão pa ra aquelle lado; devendo haver amaior cautella em se evitar este defeito; e irão cruzando opé conforme o toque do cotovêlo, que vier daparte dadirecção, conservando sem pre os intervallos, sem apertar, nem romper, ladeando o 1350 batalhão succintamente levando afrente parallela á sia nova pozição. Éstas marchas se fazem tambem apassodobrado; edeve haver cuidado em que os soldados senão apertem de sorte que haja desordem; muito 1355 mais em caso de attaque depois depresentar abaioneta; oque será aoito ou déz passos do inimigo; eentão se mandará=correndo=eaprimeira fileira levanta o cão 197 [fól. 38r] daespingarda; efazse huma descarga aotocar com a baioneta o seu contrario; o que produzirá hum admira 1360 vel effeito. ~.~.~.~.~.~.~.~.~ Artigo II. Da conversão graduada aformar em linha ~mudando a frente~ Quando for preciso mudar o batalhão afrente para o seu 1365 flanco direito, o commandante mandará=pelotoens, (eo mesmo se pode fazer por meios pelotoens, etcoetera) quarto de conversão sobre adireita: aformar em linha apasso do brado: marcha!= Ao expressar avóz=direita=os solda dos voltão a cara á esquerda dos seos pelotoens para o 1370 lharem para o soldado, que fáz avolta; e á voz=marcha= partem todos com velocidade igual emmovimento circular, metendo-se em dispozição graduada, ecom o seu eixo mo vente, menos oprimeiro, que faz o seu quarto deconversão com ellefirme, regulando cada soldado aextensão dopasso 198 [fól. 38v] 1375 como fica estabellecido; isto, ametade dafrente para a parte dopião fará o seu passo da extensão de humpé, que he ametade daextensão do que fáz o soldado do la do, que descreve o quarto decirculo; aterça parte da fren te fará opasso daterçaparte daextensão, isto he, de oito po 1380 legadas; aquarta parte da frente, daquarta parte da extensão, isto he, seis polegadas; etcoetera. O primeiro pe lotão, feita asuaconversão, seperfila pelo lado, que foi firme, esealinha peladirecção, que o commandante do batalhão lhe tiver determinado. O commandante do 1385 segundo pelotão marcha cobrindo oflanco doprimeiro, e volteando aoredor delle; (*) faz alto em chegando á directura da sua retaguarda, ese mete no alinhamento. __________________________________________ (*) Os pelotoens devem logo mover-se circularmente cobrindo os lados dos immediatos; porque deoutra sorte não poderião guardar a distancia, nem 1390 omovimento seria regular; pois como cada pelotão, emesmo cada indi viduo delle, descreve aquarta parte de hum circulo, etodos estes são con centricos , não devem encontrarse neste movimento mais linhas rectas que as que vão dafrente de cada pelotão ao centro commum, que he o lado do pelotão, que servio de pião, ou eixo; (Figura 1ª. Estratégia IIª.) por questas linhas 1395 são os rayos, ou semidiametros, que do mesmo centro sahem parao perîme tro, ou circunferencia, que as curvas formão.124 124 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 199 [fól. 39r] O do terceiro, faz omesmo; e assim os mais; observando que dafrente dos seos pelotoens vá sempre huma linha ao lado do primeiro, que servio de eixo, eque voltem defor 1400 ma, queésta linha vá sempre correspondente aelle. (Figura 1ª. Estratégia IIª.) Haverá cuidado emque os soldados se não desunão do seu eixo, oulado sobre quese faz a conversão, pois neste deve ir o governo dos intervallos, 1405 observando cada commandante depelotão o ir por fo ra do que leva immediato diante de si: O Officialin ferior, que vai nolado opposto para melhor secondu zir opelotão, lhe farásinal alguns passos antes de entrar em linha, para voltar acara, eacabar a con 1410 versão. O commandante mandará fazer=alto=perfilar= e se mete noalinhamento tomado pelo primeiro. O mesmo sefará por movimentos con trarios sobre aesquerda, seguindo os mesmos princi pios; eos soldados ficarão olhando á suadireita para 1415 senão adiantarem do lado, que fáz avolta. 200 [fól. 39v] Para se calcular os passos, que tem para andar o batalhão; eotempo, que precisa ésta evolução para seexecutar; sesupporá que o bata lhão está dividido emoito pelotoens de vintequa 1420 tro homens de frente: Como temos estabelecido os principios dequecada soldado occupa humpasso dedous pés defrente, eoutro tanto defundo, comprehendidas as distancias, eintervallos; terá cadapelotão vintequatro passos defrente, além do intervallo que occupa o seu 1425 commandante, em que não fallavamos por evitar esse embaraõ, epor ser insignificante no movimento de hum batalhão, onde nunca se poderá conseguir huã pre cisão geometrica. Na conversão, o soldado dolado, que 1430 fáz avolta hade andar tantos passos como o pelotão tem defrente, emais ametade; por conseguinte, apasso dobrado, arasão de cento evinte por minuto, fará trin taeseis passos o primeiro pelotão em dezoito segundos: o 2º. pelotão fará setenta edous passos em trintae 201 [fól. 40r] 1435 seis segundos: o 3º. fará cento eoito passos em cincoenta e quatro segundos: o 4º. cento equarenta e quatro passos em hum mi nuto edoze segundos: o 5º. fará cento eoitenta passos em hum minuto etrinta segundos: o 6º. dozentos edezeseis pas sos em hum minuto equarenta eoito segundos: o 7º. dozen 1440 tos ecincoenta e dous passos em dous minutos e seis se gundos: o 8º. fará, finalmente, dozentos eoitenta e oito passos em dous minutos evintequatro segundos; cujo tempo heo total do que gastará aevolução em seconcluir; ehe onumero de segundos igual ás tres 1445 quartas partes da frente, conforme aregra geral, que fica estabellecida; (*) á vista doque, poderá de cidir o commandante se tem tempo para a executar. Como este calculo heparticular a cadapelotão, o commandante poderá julgar dos pelo 1450 toens, que irá tendo emlinha para poderem fazer _________________________________________ (*) A frente tem 192 passos: Ora 192/4 x 3= 144; numero desegundos, que seprecisa conforme a regra.125 125 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 202 [fól. 40v] fogo sobre anovafrente; pois dentro em cincoenta equatro segundos terá tres pelotoens, com que principiar afazêlo se 1455 guido do lado, que foi firme; em hum minuto edoze se gundos terá quatro; eassim successivamente, como fica dito. ~.~.~.~.~.~.~.~.~.~ Artigo III. Da conversão graduada com impedimento. 1460 Quando aofazer da conversão alguns pelotoens encontra rem algum obstaculo, que não possão vencer; os seos com mandantes os tirarão decostado pelolado, quelhes ficar mais perto, eirão procurar o seu lugar no alinhamento do batalhão, semesperarem huns pelos outros. (Figura 1ª. 1465 Estratégia IIIª.) ~.~.~.~.~.~.~.~.~.~ 203 [fól. 41r] Artigo IV. Impedimentos na frente. Seo batalhão, marchando defrente, achar hum obstaculo em parte della sobre hum dos lados; os pelotoens livres 1470 continuaráõ a sua marcha; eos outros, quando forem chegando ao impedimento, lhes mandarão os seos com mandantes=á direita= ou= á esquerda= para o costearem, conforme for olado impedido; elogo que sahirem do obstaculo, os mandarão formar em li 1475 nha, volteando sobre olado competente, cada fila de per si; eterão todo o cuidado emfazer a volta por detráz do pelotão immediato, quefordefrente, para voltearem com mais facilidade, emenos con fusão; fazendo quecadafila olhe para o batalhão, 1480 que vai emlinha, para ver quando deve voltear par tes passado adiante do pelotão, que a encobria. (Figura 2ª. Estratégia IIIª.) 204 [fól. 41v] O mesmo sepractîca encontrando-se o obstaculo no centro, mandando os commandan 1485 tes os seos pelotoens=á direita=ou-á esquerda=con forme lhes ficar mais perto a sahida. (Figura 1ª. Estratégia IVª.) Damesma sorte se obatalhão encontrar hum desfiladeiro ouponte; os pelotoens, ou meios pelotoens, que lhe corresponderem, passaráõ 1490 defrente, eos mais andaráõ=á direita=ou=á es querda= á vóz dos seos respectivos commandantes; passarão em colunna de costado; etanto que forem sahindo do desfiladeiro, ou ponte, irão formando em linha huma fila depois de outra (Figura 2ª. Estratégia IVª.) 1495 Seo batalhão, indo defrente encontrar hum arvoredo, ou bosque, para passar; o commandante omandará=á direita!=o que sendo executado, mandará=Divisoens (*) formão colunnas ________________________________________ (*) tambem se pode fazer por pelotoens126 126 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 205 [fól. 42r] 1500 de costado cadahuma sobresi: volteando sobre aesquer da: marcha!= o que executão perfilando as testas das colunnas por aquella, que for indicada para di recção, ealinhamento; oupelaque leva as bandeiras, não sedeterminando o contrario. (Figura 1ª. Estratégia Vª.) 1505 Ao entrar no bosque alárgão-se os soldados fazendo caminho por onde as arvores derem lugar. Sedentro do bosque succeder encontrarse ini migo; os soldados, que vão na testa da fila, farão fo go, e vem carregar ao lado; os quese seguem, o conti 1510 núão, eespérão detráz dos primeiros, athé que aca bando afila toda de dar fogo, selhesiga o seu tur no nella; naqualse terão incorporado para con tinuarem amarcha. Ao sahir do arvoredo, cadacom 1515 mandante de divisão manda=unir as filas= e á vóz do commandante dobatalhão=volteando so bre adireita= (ou huma fila depois deoutra, ou por divi soens) formão emlinha (Figura 2ª. Estratégia Vª.) 206 [fól. 42v] Nos movimentos irregulares, como 1520 estes de impedimentos, não se pode calcular precisa mente os passos, que sedevem fazer; esómente por huma estimativa sejulga do tempo, que se pode tardar, pela distancia, eceleridade; combinando éstas duas couzas, ecomputando sessenta passos por minuto a 1525 passo natural, ecento evinte apasso dobrado. (*) Se na extensão dafrente alguns pelotoens acharem algum obstaculo, que os embarace, o commandante de cada hum delles omandará do brar na retaguarda do immediato, apasso dobrado 1530 no que tardará tantos segundos como a metade _______________________________________ (*) Em todas estas manobras sepóde formar em linha marchando o ba talhão, efazendo passo curto os pelotoens, que vão de frente: Mas a experiencia me tem mostrado que fazendo=alto=os pelotoens, que es tão em linha, athé que tudo esteja formado, segasta menos tempo,e 1535 ha menos confusão; podendose ganhar depois o terreno que sedei xou de andar com toda a celeridade; alem deque o soldado en fada-se de fazer passo curto, e deixando alguns de ofazer, troca-se; ehe preciso fazer=alto=para se regular: juntamente, por pou co que semovão os pelotoens emlinha, custa para os alcançar 1540 os que voltêão.127 127 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 207 [fól. 43r] dos passos da sua frente, emais aoitavaparte (*) porque o passo obliquo tem menos aquartaparte deextensão que orecto. Passado o impedimento, formarão em linha por movimentos contrarios, eassentaráõ opasso pela 1545 bandeira. (Figura 3ª. Estratégia Vª.) ~.~.~.~.~.~.~.~.~ Artigo V. Dobrar a seis de fundo. Se o commandante do batalhão marchando em hum terreno não de todo costado, mas não omais proprio para 1550 a cavallaria, quizer por precaução dobrar a seis de fundo, opoderá fazer a pé firme, mandando=os meios pelotoens da direita no meio batalhão da direita, eos daesquerda no meio batalhão daesquerda, tres passos sobre aretaguarda: (.) marcha!= o que sendo executado, mandará=frente ao _________________________________________________ 1555 (*) Aquarta parte de 24 passos são 6, que seandão em 3 segundos oitava parte da frente; aqual com metade, que são 12, fazem 15; numero de segundos que tardará. 24+6=30;numero depassos que deve andar cada pe lotão. 30/2=24/2+24/8=12+3=15; numerode segundos conforme a regra dada. (.) Como he mais natural omarchar paradiante, muito particularmente não sendo 1560 preciso conservar o alinhamento tomado, será melhor marchar tres passos sobre a sua frente os meios pelotoens que devemficar de vangarda.128 128 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 208 [fól. 43v] centro! a unir, marcha!= esendo tudo unido, mandará =ávanguarda=econtinuará a sua marcha (*) Se quizer fazer ésta manobra mar 1565 chando, mandará=por meios pelotoens sobre o centro re duz aseis defundo!= aéstavóz os meios pelotoens acima indicados, que estaráõ advertidos, fazem tres passos curtos a meter em graduação; e á vóz=marcha= unempa ra o centro apasso dobrado, marchando os davanguarda a 1570 passo natural eobliquo, athé que o commandante de ca da pelotão lhe dê a vóz=de frente= em chegando ao lugar que deve occupar, ficando omeio pelotão quedobra, detrás do dasuavanguarda. (Figura 1ª. Estratégia VIª.) Esta manobra tambem se pode fazer man 1575 dando=parareduzir detres aseis os meios pelotoens da esquer da dobrão naretaguarda da direita!= aésta: vóz metese em graduação os daesquerda immediatos á retaguardados meios pelotoens da suadireita; e uniráõ sobre o centro, (ou sobre o lado ___________________________________________________ (*) As filas dos lados do batalhão tem que andar, fazendo frente ao centro, 48 passos 1580 em 24 segundos para estar reduzido; ehe o tempo que tardará amanobra em se fazer na suppozição deser afrente dobatalhão de 192 filas.129 129 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 209 [fól. 44r] onde o commandante lhe quizer pôr o ponto de união, e de direcção) á vóz=marcha= tendo voltado acara para aparte para onde se mandarem unir, logo que lhe for 1585 indicada. (Figura 2ª.EstratégiaVIª.) Este modo tem a circumstancia de sepoder desfazer de outras maneiras sem tor nar áforma primitiva; pois sepode romper por meios pelotoens sobre qualquer dos flancos por quarto de 1590 conversão, ou formar colunna sobre avanguarda pela marcha graduada, ecom o passo obliquo, ou de costado; e por isso parece preferivel; além de não admittir equivocação, nem preciar de advertencia antecipa da para se saber os meios pelotoens, quehão de do 1595 brar. Para se calcular otempo, que deve tardar ésta manobra unindo sobre hum dos lados, sedeve notar, que como obatalhão se redúz a metade da sua frente, suppondose és 1600 ta de cento enoventaeduas filas, epor conseguinte 210 [fól. 44v] de cento enoventaedous passos, cuja metade deve fazer a ultima dolado opposto, poderia estar reduzido ofundo em quarenta eoito segundos; mas como opasso obliquo tem de extensão aquartaparte menos que orecto, estará re 1605 duzido em hum minuto, eapto para combater se for preciso. Mandando-se unir sobre o centro, tardará ésta manobra ametade menos; epóde estar concluida a reducção em trinta segundos. 1610 Se for obrigado a combater con tra a cavallaria, cuidará em apoiar os seos flancos; enão havendo aonde, setrousser com sigo as Grana deiros, formará com elles huma tenalha acada flan co; enão os tendo, a formará com os pelotoens dos 1615 lados. Nomeará os seos fogos cadahum de duas fi leiras, principiando pelaretaguarda; (*) postará as suas __________________________________________________ (*) O soldado deve estar advertido, que sendo oprimeiro fogo o da retaguarda, hade carregar asua arma apé;(e ficar levantado athé que o ultimo fogo dê a sua des cargae carregue); o que por muitas circumstancias hepreferivel; emuito mais, por 1620 que ofogo das primeiras fileiras se deve reservar para a aproximação do inimigo.130 130 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 211 [fól. 45r] trincheiras portateis, de cordas suspensas em cilindros de páu, que tenhão por base cavallinhos defrisa; e em chegan do a cavallaria atrezentos passos fará o seu fogo, tendo-se lançado tudo=a terra= eprincipiando amandar=primeiros 1625 fogos: preparar!apontar! fogo!=continuará=segundos fogos: preparar! etcoetera; reservando o terceiro, eultimo fogo pa ra quando acavallaria estiver em distancia de trinta pas sos ouvintecinco; efeita ésta descarga ficará tudo a pé com a baioneta presentada(*)esperando o choque, que não deverá 1630 ser muito formidavel setiver feito o seofogo combia ponta ria, esanguefrio; omuito mais na suppozição do terreno não ser omais adequado para amanobra da cavallaria; porque se o for; será melhor formar-se em colunna macissa, como a diante se dirá. 1635 Se a cavallaria se retirar, continu ará a sua marcha, athé que livre detodo o receio possa re duzir de seis atres na marcha, mandando= Os meios ____________________________________________________ (*) Como o soldado de cavallo occupa na fileira quazi dobrado espaço do infante; terá sempre dous soldados infantes a combater defrente, além dos que afileira ti 1640 ver de fundo; edesta vantagem deve aproveitarse ainfanteria com animo e san gue frio, destinando parte dos seos individuos a soster oimpeto dos cavallos, e parte a combater o cavalleiro, e parar os seos golpes.131 131 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 212 [fól. 45v] pelotoens, que dobrárão, a desdobrar: marcha!=aéstavóz os que vão de vanguarda, ladeão a passo natural para os la 1645 dos athé deixarem terreno para entrarem os da retaguarda; e então cada commandante de pelotão, que deve ter cuidado de ver quando o tem, mandara=de frente=ese formarão em linha os da retaguarda apasso dobrado, elogo assentaráõ apas so pelos que estão em linha, ou pela bandeira. 1650 He huma regrageral, que quando a vanguarda for apasso natural, os da retaguarda devem for mar em linha apasso dobrado; ese avanguarda for tam bem neste passo, o fará curto athé chegarem os que do brárão; o que se deve observar em qualquer manobra. 1655 Se quizer desdobrar apéfirme mandará=frente aos lados! areduzir deseis atres: mar cha!= os meios pelotoens dafrente depois deterem andado á direita, eá esquerda, vão abrindo; e em dando terreno para entrar o daretaguarda, cada commandante 1660 lhe manda fazer=alto=eo commandante do batalhão o mandará todo= á vanguarda!= eo perfilará pelo 213 [fól. 46r] alinhamento, que lhe indicar. Se sequizer desfazer ésta mano bra de reducção pela esquerda, executará obatalhão todo a 1665 quillo mesmo, que só farão os meios pelotoens do meio batalhão da esquerda; eselhe dará avóz indicando-lhe o lado para que devem desdobrar determinandolhe o pelo tão, quehade marchar defrente, eservir de ponto de prolongamento: por exemplo,=meios-pelotoens, que, 1670 dobrárão, a desdobrar, prolongando sobre aesquerda; omeio pelotão dadireita marchadefrente!=Os meios pelotoens, que terão olhado á esquerda para des dobrar, (*) ao entrar em linha, (á vóz=de frente=que lhes devem dar os seos respectivos commandantes,) voltaráõ 1675 a cara ao ponto de alinhamento, para se perfilarem com elle, eassentarem opasso; eassim seconservaráõ athé que se lhemande o contrario. (+) Por movimen tos oppostos, seexecuta ésta manobra pela direita, ser vindo aesquerda deponto de direcção e prolongamento. ___________________________________________ 1680 (*) Os meios pelotoens davanguarda como ladeão apasso natural, podem ficar com a cara firme noponto de alinhamento para o conservar. (+) Os commandantes dos pelotoens vão á esquerda delles ver132 quando tem deixado terreno para entrar o immediato, e então lhe darão a voz=defrente=para deixarem de ladear. 132 Há excesso de tinta em “á esquerda delles ver”. 214 [fól. 46v] Artigo VI. 1685 Dos differentes modos de meter em ~~ colunna ~~ Omodo de formar colunna heconforme ofim, aque ella se destina: Se a colunna for para marchar so bre hum dos flancos se romperá por quartos de con 1690 versão por aquellas fracçoens, que parecer conveniente; o que o commandante do batalhão declarará no seu mandamento, como tambem olado: Os pelotoens olhão para o soldado do lado, que fáz avolta, para seperfilarem; tocão o cotovêlo para a parte do pião, para se não desuni 1695 rem delle: A' vóz=marcha= Os pelotoens fazem o quar to de circulo, no qual, conforme a suppozição, eprincipios estabellecidos, tardará tantos segundos como as tres quar tas partes dos homens da frente. (Figura 3ª. Estratégia VIª.) Se o commandante namarcha 215 [fól. 47r] 1700 tiver occasião decombater, a mandará unir, e nacom putação deoito pelotoens de vintequatro defrente, tardará setentaedous segundos em andar centoequaren taequatro passos, que occupará obatalhão em colun na menos os vintequatro do ultimo pelotão, e outros 1705 vintequatro, que devem occupar as fileiras dos pelotoens depois de unidas. (*) Não havendo occasião decombate, levará as suas distancias; e cada pelotão a conservará i gual ásua frente, eintervallo, que deve ter emlinha, con 1710 tada da vanguarda á do outro que se lhe segue; para poder meter emlinha com outro quarto deconversão para olado contrario ao comque meteu em colunna; para o que, he necessario que o batalhão occupe em colun na precisamente o mesmo terreno que embatalha, 1715 menos afrente do ultimo pelotão. Os pelotoens olharão na marcha para os lados, que devem ser firmes; para que fique ________________________________________ (*) 7 x 24-24=144; numero de passos, que se devem andar em 72 segundos, para ficar unida a colunna.133 133 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 216 [fól. 47v] 1720 obatalhão alinhado depois defeito o quarto de conversão. Se o commandante quizer redu zir depelotoens a divisoens apé firme, mandará=os pelotoens daesquerda de cada divisão, á esquerda!= Aformar divisoens, marcha!= Os ditos pelotoens, 1725 depois deterem andado á esquerda, marchão tantos passos como tem defrente comprehendido o seu inter vallo, eandarão=á direita= alinhandose pelo pelotão, que lhe fica aolado, ficando desta sorbe formada a colunna em doze segundos (Figura 4ª. Estratégia VIª.) 1730 Mandaráõ-se unir devisoens, querendo-a macissa; se amanobra sefizer marchan do, os pelotoens da direita em lugar de fazerem=alto=da rão o passo curto, e selhes dará a vóz=pelotoens formão divisoens com o passo obliquo sobre a esquerda 1735 marcha!= Os da direita de cada divisão ficão marchan do defrente, eos da esquerda dellas sealinhão com o passo obliquo: Mas não seabrevîa mais a manobra 217 [fól. 48r] porque como fica dito, opasso obliquo tem aquarta parte menos deextensão que orecto. 1740 Se pelo terreno não permittir aquella extensão defrente, for preciso tornar de divisoens apelotoens, semandará=Os pelotoens da esquerda dobrão na retaguarda dos da direita!= aésta vóz, os da esquerda fazem tres passos curtos 1745 continuando as da direita asua marcha com to da aextensão dopasso, eficando em graduação, se lhes dará a voz=marcha=para o executarem com o passo obliquo dobrado. Se as divisoens forem unidas, selhes mandará tomar entresi quatro pas 1750 sos dedistancia antecipadamente. Os pelotoens, que dobrão, tarda rão quinze segundos em estarem justamente nos seos respectivos lugares; porque tendo cada hum vin tequatro passos defrente, eopasso obliquo tendo a 1755 quartaparte menos de extensão, emprégão mais tres segundos em andar oterreno, que andarião em 218 [fól. 48v] doze com opasso recto. Se quizer reduzir acolunna apefir me, semandadrá=os pelotoens daesquerda das divisoens 1760 tres passos sobre aretaguarda!=edepois=ádireita!= etendo marchado cada hum tantos passos como tem de frente, se mandará=á vanguarda! eperfilar!= Se acolunna for marchan do sobre oflanco com as suas distancias, e o com 1765 mandante a quizer formar rm linha sobre o mes mo flanco, mandará=pelotoens,divisoens, etcoetera meio quarto de conversão sobre tal lado, e por huma diagonal formão em linha: marcha!= aésta vóz cada fracção determinada, feito hum oitavo de conver 1770 são sobre olado competente, marcha pela diagonal athé chegar ao lado do seu immediato, ondefaz outro oitavo de conversão sobre o lado contrario, eficando em linha continuará amarchar perfilado: ou fará=alto= se o commandante tiver mandado parar atesta da 219 [fól. 49r] 1775 colunna; alinhandose pela direcção, que ella tiver tomado. (figura 1ª. Estratégia VIIª..) Tambem sepode meter em linha com opasso obliquo, sem fazer conversão; mas como o passo obliquo tem menos extensão, vem atardar omes 1780 mo tempo; pois o que gastão os pelotoens em fazer os oitavos deconversão, o adiantarão na extensão do passo recto, com que depois marchão. Seo batalhão marchando de frente, encontrar hum obstaculo, que o embarace, 1785 ficandolhe sómente o pelotão da direita livre, mandará o commandante=pelotoens formão colunna com opasso obliquo sobre a direita: o primeiro apasso natural, os outros apasso dobrado: marcha!= A' vóz de advertencia=pelotoens formão colunna sobre 1790 tal lado,= voltão logo estes a cara para aquelle, que deve fazer a testa; oqual ficará marchando a passo natural(*) em quanto os outros, fazendo-o curto, _______________________________________ (*) O primeiro pelotão fica marchando apasso natural, por que sesuppoem que marche com mais batalhoens em linha, equehe preciso conservar se alinha 1795 do com elles, enamesma cadensia de passo.134 134 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 220 [fól. 49v] metem em graduação, deixando huma distancia de seis ou oito passos entre o primeiro esegundo para marcharem obliquamente com mais facilidade; eávóz=marcha= alárgão o passo dobrado athé estarem debaixo da direc 1800 ção datesta da colunna; então lhesdarão os comman dantes a voz= de frente= para assentarem por ella o passo.(Figura1ª.Estratégia VIIIª.) O mesmo se fará sobre a esquerda com movimentos contrarios. Se o batalhão for mar 1805 chando apasso dobrado, ese quizer formar ésta colunna, o commandante fará marchar o primeiro pelotão á vóz= formão colunna sobre adireita= tantos passos, como tem de fundo os pelotoens, de que ella se hade formar, para lhe dar lugar aque 1810 elles ladeam, edepois fará o passo curto, (ou fará=alto=) athé que ella esteja formada, e que o commandante lhe dê avóz=marcha= Para 221 [fól. 50r] calcular o tempo, que se tarda em fazer ésta manobra, 1815 se deve notar, que o segundo pelotão tem que an dar hum terreno igual á testa da colunna, epor conseguinte vintequatro passos, os quaes fará em quinze segundos por serem obliquos: O 3º., hum terreno igual á dita frente, e á do pelotão im 1820 mediato á sua direita, epor conseguinte quarenta eoito passos, que fará obliquamente em trinta se gundos; eproporcionalmente os mais; de forma que o ultimo soldado do flanco esquerdo tem que an dar cento esessenta eoito passos; istohe, afrente do 1825 batalhão menos afrente da primeira fracção testa da colunna; que equivale á somma das frentes dos sete pelotoens, que dobrão; o que fará marchando obli quamente em humminuto equarentaecinco segun dos; e por huma estimativa opodemos computar adous 1830 minutos attendendo áquelle terreno, que os pelotoens necessariamente hão de ganhar unindo á testa da 222 [fól. 50v] colunna; eo intervallo, que os commandantes dos pelotoens occupão emlinha, e augmentão a extensão da frente, dos quaes não fazemos menção, por que 1835 pela sua quantidade são depouca consideração em hum calculo, emque he impossivel na execução haver precisão geometrica. (*) Estas colunnas podem se desfazer pelos movimentos contrarios aos com que 1840 seformárão, egastão o mesmo tempo. Se atesta da colunna for marchando apasso dobrado, depois defazer alguns passos largos, para que os pelotoens obliquem com facilidade, fará passo curto athé que formem em linha; o que he fastidiozo ao soldado; 1845 epor isso he preferivel omarchar atesta da colunna apasso natural, eos mais apasso dobrado, assentan do, logo que vão entrando em linha, o passo pelo pe lotão, que servio de direcção. _______________________________________________ (*) Toda amanobra de dobrar fundo he menos arriscada na presença do inimigo que a 1850 desdobrar; porque ainda que seja attacada afrente.já se acha mais reforçada pa ra resistir emquanto se conclue.135 135 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 223 [fól. 51r] Os pelotoens, quando selhes man da formar em linha com opasso obliquo sobre a es querda voltão a cara para esse lado a fim de ladearem 1855 com mais facilidade; e ávóz=de frente= que os seos commandantes lhes dão, tornão aolhar ao pelotão da direcção para se alinharem por elle. (Figura 2ª. Estratégia VIIIª.) Algumas vezes por não haver ter reno para olado contrario, hepreciso formar emlinha so 1860 bre o mesmo lado, em que meteu em colunna: Neste ca so, o primeiro pelotão (suppondose acolunna formada so bre a direita)marchará obliquamente sobre adireita toda a extensão da sua frente athe desobrir a do segundo Este segue o primeiro, eassim successivamente os mais, fican 1865 do em dispozição graduada, athé que ocommandante do batalhão lhes dê avóz=perfilar!= o que executão na marcha, ou fazendo =alto= se assim se lhes determinar. O mesmo se entende sobre aesquerda por movimentos oppostos. 224 [fól. 51v] 1870 Se o batalhão por ser destinado ao atta que de hum reduto, ou de outro qualquer posto, marchar em dispozição graduada para ir menos exposto ao fogo; querendo o commandante ahuma certa distancia me têlo em colunna para o assalto;(*)mandará= a formar 1875 a colunna, frente ao centro!= (Figura 3ª. Estratégia VIIIª.) a ésta vóz, os pelotoens do meio batalhão da direita, que andarão=á esquerda=eos domeio batalhão daesquerda, que anadrão=á direita= marcharão athé estarem me tidos nadirecção dp 4º. e 5º., os quaes farão=alto= á vóz dos 1880 seos commandantes em tendo andado hum terreno i gual á metade das suas frentes; o que executaráõ os mais logo que estiverem na sua direcção; eentão o com mandante do batalhão mandará tudo= á vanguarda= perfilar= emarchará ao seu destino. 1885 Ésta manobra estará feita pelo ____________________________________________________ (*) para cujo fim se fará marchar apasso dobrado; ou se mandará fazer=alto=antes de formar acolunna.136 136 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 225 [fól. 52r] centro em quarentaedous segundos; por que o 4º. e 5º. em seis segundos estaráõ na direcção, que devem, tendo 1890 marchado cada hum doze passos, que suppômos ser a metade das suas frentes: 3º. e 6º. estarão debaixo da mesma direcção em dezoito segundos, por que an daráõ trintaeseis passos: o 2º. e7º. em tinta segun dos, por que fazem sessenta passos: eo 1º. e 8º. terão 1895 concluida a manobra em quarentaedous segundos. por que andão oitentaequatro passos: Como amar cha graduada a suppômos com quatro passos para este fim, não ha distancias, que unir, epor consequen cia demora alguma. 1900 Se acolunna sefizer sobre hum dos lados, gastará dobrado tempo, segundo os mesmos principios. O pelotão, que houver defazer atesta (depois do batalhão fazer=alto=) será firme; eos mais, logo que andarem=á direita,=(ou=á 226 [fól. 52v] 1905 esquerda=) á vóz do commandante, marcharão de costado athé chegarem justamente detrás da direcção daquelle pelotão, onde farão=alto=eirão voltando =ávanguarda= á vóz dos seos respectivos commandantes sem esperarem huns pelos outros. 1910 Ésta colunna desfaz-se por movimentos contrarios, mandando=batalhão, frente aos lados!= aéstavóz, omeio batalhão da direita nada á direita; eo da esquerda á esquerda; o qie sendo executado, se mandará=pelotoens a formar 1915 em linha successivamente apasso dobrado: 1º. e 8º. marcha!= Estes pelotoens, tendo marchado toda e extensão das suas frentes, são seguidos do 2º. e 7º. , eestes dos imme diatos, logo que tiverem descoberta asua frente; fi cando todos em graduação: O commandante do bata 1920 lhão emestando desembaraçados o 4º. e 5º., mandará fazer =alto,= eque tal pelotão seja firme, e os 227 [fól. 53r] outros=a perfilar por elle, marcha!= oque executa rão indo procurar o alinhamento, que tiver sido in dicado; devendo preferir-se o alinhar sobre avan 1925 guarda, por que sendo muitos passos sobre a re taguarda, será preciso mandar a alguns peloto ens dar meia volta á direita; além de ser pouco conforme a o objecto, efim da manobra, o dar passos decrescentes. 1930 Para formar emlinha, tardará o mesmo tempo em desdobrar acolunna, emais o que cada pelotão precisa para ganhar oterreno, que tem de distancia sobre a sua frente, proporcionalmente aolugar, que occupa mais ou menos immediato ao 1935 principio do alinhamento; de sorte que para a conclusão da manobra serão precisos mais tan tos segundos como ametade das fileiras dos ulti mos sete pelotoens, que formão a colunna. 228 [fól. 53v] Se o commandante para formar dous 1940 pontos de attaque, tiver metido em graduação, fazendo o 1º. e 8º. a cabeça da marcha, (*) logo que chegar a distan cia proporcionada fará=alto= e formará de costado duas colunnas sobre adirecção dos ditos pelotoens emar chará ao assalto. (Figura 1ª.Estratégia IXª.) 1945 Para se desfazerem éstas colunnas mandará = 1º. e 8º. são firmes, os mais frente ao centro! a formar emlinha apasso dobrado, marcha!= Os pelotoens, logo que tem a sua frente desembaraçada, voltando= á van guarda=fazem=alto,= ese alinhão pela direita, que deve 1950 estar metida no mesmo alinhamento com aesquerda. Será preciso que as colunnas tenhão conservado justamente o terreno do seu intervallo, pondo nos lados sujeitos intelligentes para o guardar: Porém se pelo terreno faltar namarcha, tiver sido pre 1955 ciso uniremse éstas duas colunnas, se poderáõ ____________________________________________ (*) Os pelotoens logo que se indica o que faz a cabeça de marcha olhão para elle, para lhe servir de direcção.137 137 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 229 [fól. 54r] desfazer apéfirme, mandando=batalhão, frente aos lados! a formar em linha successivamente apasso dobrado; 1º. e 8º. 1960 marcha!= aéstavóz os dous pelotoens nomeados rompem a marcha, esuccessivamente os outros, (Figura 2ª.Estratégia IXª.) athé que tendo ficado na mesma dispozição graduada, com que formárão as colunnas, se lhes manda=alto! á vanguar da! eperfilar!=pelo lado, que lhes for indicado (Figura 3ª. 1965 Estratégia IXª.) O mesmo sepode fazer na marcha mandando=pelotoens formão em linha com opasso obliquo sobre os lados! marcha!= Aéstavóz o 1º. e 8º. ladeão athé desembaraçarem o 2º. e 7º., eassim os mais, 1970 athe formarem em graduação, como fica dito no modo de desdobrar a colunna sobre o mesmo lado por onde foi formada: Mas deve attender-se que se gasta mais tempo do que apefirme; além do incomodo do soldado, que se enfastia de fazer passo curto esperan 1975 do que o pelotão da frente lhe desembarace a sua; perde a cadencia, e causa desordem. Tambem éstas colunnas 230 [fól. 54v] podem desdobrar muito regularmente sobre aretaguarda, me tendo em linha com opasso obliquo sobre os lados, emarchan do de frente o 4º. e 5º. pelotão, que fazem a testa de colunna 1980 sobre amesma retaguarda. Se o batalhão descobrindo algum cor po de cavallaria, for precisado a formar em colunna macis sa; fará=alto= eo commandante mandara=frente ao centro!= o que sendo executado, continuará=pelotoens for 1985 mão colunna apasso dobrado, volteando sobre adireita, mar cha!= Os pelotoens se rompem logo devendo voltear com o passo largo os domeio batalhão da direita para asua vanguarda, eos do meio batalhão da esquerda para a reta guarda; (*) e como de costado tem tres de frente, e 1990 o intervallo para voltearem he sómente a metade, he pre ciso que os commandantes dos pelotoens, para os desem baraçarem, vão logo postar-se fora da fileira do lado que ___________________________________________________ (*) Não ha incoveniente em que marchem alguns pelotoens sobre aretaguarda; antes he de utilidade; porque suppondose hum attaque improviso de cavalla 1995 ria, quanto menos se avança para diante, maior espaço haverá entre os dous corpos; epor consequencia mais tempo para sepoder dispôr, eusar do seu fogo.138 138 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 231 [fól. 55r] deve voltear; e que lhe fação dar os primeiros passos obli quos, para sahirem prontamente da linha, econtinuarem vol teando assua marcha, dirigindo-se ao seu destino, athé 2000 ficarem na direcção do 4º. e 5º. no lugar, que lhes compete então o commandante do batalhão o mandará avanguarda, ese disporá para o attaque (Figura 4ª. Estratégia VIIIª.) Ésta manobra he muito breve, facil, commoda, e comprehensivel, por não ter complicação de mo 2005 vimentos; epor isso preferivel a todos os outros modos de formar acolunna para o combate. Gasta com pouca differença quarenta edous segundos;(em cujo tempo as filas dos lados andarão a metade da frente do batalhão, menos a metade da frente de hum pelotão;) pois ainda que saião 2010 os pelotoens volteando, ou com os primeiros passos obliquos; com tudo, marchão independentes, ecom amaior celeridade As fileiras devem, logo ao formar, ficar unidas; eosofficiaies-inferiores, ao lado dellas, 232 [fól. 55v] athé selhes destinar o lugar que devem occupar na colun 2015 na, como sedirá particularmente no tratado dellas. Ésta manobra se pode fazer sobre adirecção do primeiro pelotão, fazendo elle atesta de colunna (Figura 5ª.Estratégia VIIIª.) ou sobre adirecção do oitavo, fazendo este aretaguarda; (Figura 6ª.Estratégia VIIIª.) mas tarda se 2020 dobrado tempo do que sendo sobre o centro. No caso de haver incoveniente de ganhar terreno sobre avanguarda, equerendose formar a colunna pela esquerda, sepode formar tambem fa zendo o 8º. pelotão asua testa, volteando os pelotoens 2025 sobre aretaguarda. Desfáz-se ésta colunna por =frente aos lados= como acima fica dito; mas que rendo desfazêla por hum lado, por não haver terreno em ambos para desdobrar, se mandará= tal pelotão he 2030 firme, os outros á esquerda!, (ou á direita!) aformar 233 [fól. 56r] em linha apasso dobrado, marcha!=Todos partem com o mesmo passo; (*) cada commandante manda=á vanguarda= o seu pelotão logo que tem descoberta a sua frente; fáz=alto= ese mete na linha pelos pontos 2035 de alinhamento dados. Se, ao desfazer ésta colunna, o commandante quizer mudar a frente do batalhão sobre oflanco; depois dos pelotoens terem feito=fren te aos lados= mandará= 1º. e 8º. volteando sobre a di 2040 reita, ou sobre a esquerda,= conforme for lado para onde a quizer voltar, eos mais pelotoens successiva mente os seguem. (Figuras 2ª.,e 3ª., Estratégia VIIª.) Se o commandante quizer for mar acolunna fazendo o centro dobatalhão atesta; man 2045 dará que o 4º. e 5º. pelotão sejão firmes, eque os mais __________________________________________________ (*) Se a colunna estiver feita pela esquerda sobre a direcção do 8º. pelotão, fa zendo elle aretaguarda; ao desfazer-se sobre adireita, não partirão os pelo toens ao mesmo tempo todos, mas sim successivamente depois do 1º. , e o 8º. ficará firme.139 139 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto e em mesmo tamanho do corpo do texto. 234 [fól. 56v] 2050 fazendo=frente ao centro= voteem aformar sobre aquella direcção: (*) eselhe parecer pouco ofundo, apóde mandar formar por meios-pelotoens, depois de advertir que omeiopelotão da esquerda do 4º., eo da direita do 5º. se jão firmes, e que os mais fação=frente ao centro!= 2055 o que sendo executado, evindo á retaguarda os com mandantes dos pelotoens, depois de pôrem hum bom officialinferior no outro seu meiopelotão pa rao conduzir, voltearáõ á vóz=marcha= a for mar acolunna, como fica dito; (.) eas bandeiras 2060 viráõ ao centro della, logo que se formar. (Figura 4ª.Estratégia IXª.) ____________________________________________________ (*) Ésta colunna tambem sepóde formar por frente ao centro, mar chando em dispozição graduada ao attaque de hum reduto, ou qual quer outro posto; ehe muito util, passa ir menos exposto obata lhão ao fogo, como se mostra na Estratégia XIIª., que dá huma idea 2065 de toda amanobra, e utilidade della. (.) Os meios pelotoens vão voltando=ávanguarda= sem esperarem huns pelos outros, logo que estiverem justamente na sua direcção competente.140 140 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto e em mesmo tamanho do corpo do texto. 235 [fól. 57r] Desfaz-se esta colunna mandando 2070 lhe fazer=frente aos lados= semdo forme atesta da colunna, edepois=a formar emlinha apasso dobrado, marcha!= Cada pelotão, ou meio pelotão, em tendo desdobrado, volta=á vanguarda,= fáz=alto=e se alinha pelo centro, onde está oponto, que serve de alinha 2075 mento, e onde se irão postar logo as bandeiras em se mandando formar em linha. Estas manobras tardão todas o mesmo tempo com pouca differença, como temos calculado. ~.~.~.~.~.~.~. Artigo VII. 2080 Do fogo em colunna para defender ~huma rua, ou desfiladeiro~ Quando por haver que defender huma rua ou desfiladeiro, que não da lugar a huma frente 236 [fól. 57v] deitada, se não póde fazer fogo senão com huma 2085 igual á que o terreno permitte, seformará em colunna com a frente proporcionada, deixando os intervallos aos flancos para os pelotoens poderem volteando de costado ir formar á retaguarda. Então selhe mandará=pe 2090 lotoens fazem o fogo em colunna apefirme, ea formar na retaguarda apasso dobrado: (*) A testa principia: fogo!= O commandante do1º. pelotão faz =fogo= mandapôr=armas á frente= epor meias filei 2095 ras=á direita e áesquerda=volteando (Figura 4ª. Estratégia VIIª.) vai formar na retaguarda diante das bandeiras, onde carrega; edepois, pondo armas ao hombro, se une á colunna. O commandante do 2º. manda occupar o terreno, que deixou o 1º., econtinúa; e assim successivamente os 2100 outros, athé que se mande cessar o fogo; ou que _____________________________________________________ (*) A éstavoz, as bandeiras andão=ádireita=e vão postar-se com os sargentos portamachados, eofficiaes, eofficiaes inferiores, que sobrão, na retaguarda da colunna, evoltaráõ ao seu lugar logo que se manda cessar o fogo.141 141 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 237 [fól. 58r] retirandose o inimigo, se mande que=ganhando cinco, ou 2105 sete passos de terreno, a colunna continúe; fogo!= Cada commandante de pelotão manda marchar os passos determinados, etoda a colunna se move, athé as bandeiras marchão em igual distancia áque tinhão. 2110 Se for preciso retirar, o comman dante mandará= perdendo terreno, a colunna conti nua, fogo!= Então, quando o pelotão da frente man da=apontar=o immediato mandará=pelotão=pre para, eestá pronto, para logo que tiver afrente des 2115 embaraçada, mandar=apontar=fogo=; e vai formar como fica dito. As bandeiras vão tambem perdendo terreno na proporcionada distancia, que lhe estiver determinada. Este fogo vivissimo; epo 2120 de succeder, se houver demora em carregar, ou forem poucos os pelotoens, que falte o fogo; peloque 238 [fól. 58v] o commandante do pelotão, que estiver de van guarda, nunca mandará dar fogo sem ter detrás de si hum pelotão com armas ao hom 2125 bro, e esperará com as suas preparadas aque esteja pronto o immediato. Este modo hepreferivel, ainda em caso do inimigo seretirar; porque se pode man dar marchar sobre elle omeio batalhão da reta 2130 guarda tantos passos como tiver perdido o da van guarda, emais os que se quizerem avançar, se for conveniente. ~.~.~.~.~.~.~.~. Artigo VIII. Do modo de hum pelotão desfilar de 2135 ~frente, e de costado~ Assim como he preciso, para marchar com com modidade, fraccionar huma linha; por que se não 239 [fól. 59r] encontra terreno, em que ella possa passar com toda a sua frente; assim he preciso tam 2140 bem saber reduzir huma fracção athé á uni dade. Se hum pelotão, pois, marchan do de frente, encontrar hum obstaculo, em que só pos sa passar hum homem; se lhe mandara que= 2145 desfile= pelo lado mais proximo á sahida do im pedimento: aprimeira fila continúa a marcha em quanto as outras fazem passo curto; asegunda segue aprimeira, eassim successivamente as imme diatas; athé que, passado o desfiladeiro, á vóz= 2150 formar pelotão= aprimeira fáz passo curto, (ou=alto=) eas outras selhevão formando aolado corres pondente: ou aprimera ficará marchando apasso natural, eas outras se formaráõ apasso dobrado; o que he muito melhor. (Figura 5ª. Estratégia VIIª.) 2155 Se o pelotão marchar de 240 [fól. 59v] costado, o commandante lhe mandará= desfila pela vanguarda= o soldado da vanguarda da primeira fila marcha, seguindo-o o do centro, eretaguarda della; De pois o davanguarda da segunda fila, centro, eretaguar 2160 da da mesma; eassim successivamente. Ao sahir do desfiladeiro se mandará=a formar, marcha!= o soldado do centro da primeira fila procura o lado direito do soldado da sua vanguarda, (*) eo da retaguarda procura o lado direito do 2165 soldado do centro damesma fila; eassim successivamente todas as mais filas; (Figura 6ª. Estratégia VIIª.) fazendo passo curto aprimeira fila athé o pelotão estar formado; ou marchando apasso natural, eas mais apasso dobrado; ou fazendo=alto= athé que formado ope 2170 lotão, selhe dá avóz=marcha= ese procura o lu gar, que deve occupar atoda apressa. ______________________________________________________ (*) Se o pelotão desfilou pelo flanco direito; porque desfilando pelo flanco esquerdo, o centro , eretaguarda, irão formar á esquerda do soldado davanguarda de cada fila.142 142 A linha reta horizontal e o que está em negrito, aparecem no próprio texto como uma nota de rodapé feita pelo próprio autor. Está dentro da mancha e o que está em negrito aparece na mesma cor de tinta do texto, mas em tamanho menor. 241 [fól. 60r] 2175 Detodos estes principios se podem idear infinitas manobras adequadas aos differen tes acontecimentos, que occorrerem; enunca sem al gum destino; o qual he que deve decidir da es colha, epreferencia de qualquer manobra. ~.~.~.~.~.~.~.~. 2180 Capitulo V. Da colunna de attaque, ou macissa. Todas as naçoens tem hum genio particular e caracter dominante; epor esse motivo as instituiçoens militares devem ser-lhe apropriadas; assim como tambem as suas constitui 2185 çoens. A impetuozidade de huma, afleugma deoutra, deve decidir qual lhe he mais proprio, se o 242 [fól. 60v] attaque, se adefença. Remontando-nos, pois, aos mais re motos tempos, achamos na nossa Nação, conhecida pelo 2190 nome de Lusitania, o custume de assaltar sempre o inimigo com o mais furiozo impeto. O mesmo Julio Cesar confessa nos seos commentarios agrande confusão , em que opôz o improviso assalto dos lusitanos naguerra de Atranio, dizendo ser-lhe proprio aquelle modo de comba 2195 ter; eeste mesmo genio lhe foi transmittido com onome dePortuguezes, mostrando sempre em todas as occazioens mais propensão para acometer oinimigo doque para o esperar. Será, pois, utilissimo que elles 2200 usem da ordem mais propria para o sei genio; por que désta escolha pende a felicidade das suas armas. As caprichozas oppinioens sobre a ordem profunda, eaordem singêla, tem feito produ zir a luz tudo quanto o entendimento homano podia dis 2205 correr aeste respeito, em copiozos volumes; com tudo, 243 [fól. 61r] o systêma da ordem profunda tem alcançado, athé dos seos mes mos antagonistas, apreferencia em caso de attaque. O projecto, emfim, de tactica do Barão du Mussil Durand ficou triunfante das rasoens detodos os seos contrarios; eqaunto 2210 amim, as emprezas militares dos Portuguezes narradas na historia tirão toda a dúvida de que ésta ordem lhe seja a mais conveniente, como mais adequada ao seu impetu ozo genio. ~.~.~.~.~.~.~.~. 244 4.1.2. Glossário A ___________________________________________ AJUDANTE Ls. 257 Cl.Pal. s.m. Lem. Ajudantes (175, 302, 328) Freq. 04 Etim. Do latim Adjutans –antis. (CUN, p.24) Df.Ms. Subalterno das unidades militares [rec]. Ref.Lex. Oficial militar ajudante dos Majores que suprem as vezes destes. (Tomo I, p.74) Ex. “Os ajudantes deverão ser particularmente encarregados de tomar os alinhamentos dados [...]” (ls. 175-176) ARMA Ls. 342-343, 633, 635, 639, 644, 652, 673, 692, 739, 751, 931, 946, 959, 1618. Cl.Pal. s.f. Lem. Armas (660, 667, 677, 743, 757, 900, 918, 1036, 1154, 2094, 2097, 2124, 2201) Freq. 27 Etim. Do latim Arma. Instrumento de ataque e de defesa. (CUN, p.67) Df.Ms. Instrumentos ou organizações militares que servem tanto para o ataque quanto para a defesa [rec]. Ref.Lex. Instrumento ou aparelho, de ofender ou defender-se hostilmente, como espadas, lanças, pistolas, facas etc. (Tomo I, p.179) Ex. “[...] seria bom que nas marchas, emanobras, se troussesse na pozição do primeiro tempo do manejo da arma [...]” (ls. 651-652) / “[...] Da superioridade da infanteria, e cavallaria; e vantagens proprias de huma e outra. Qual destas Armas seja superior, he questão que ainda atté agora se não pode decidir [...]” (ls. 898-901) 245 B ___________________________________________ BANDEIRA Ls. 1315, 1545, 1649. Cl.Pal. s.f. Lem. Bandeiras (760, 1308-1309, 1503, 2059, 2075, 2096, 2101, 2108, 2116) Freq. 12 Etim. Pedaço de pano, com uma ou mais cores, às vezes com legendas, e que é distintivo de nação, corporação, partido, etc. Talvez do castelhano bandera derivado do gótico bandwo ‘signo’, que passaria a designar o estandarte distintivo de um grupo. (CUN, p.96) Df.Ms. Pedaço de pano pintada com uma insígnia que representa uma unidade militar e que mede tres pés em quadro sobre uma haste de oito, para poderem se mover e se sustentar com facilidade [rec]. Ref.Lex. Insígnia militar. É uma peça de lenço ou seda, com pinturas, armas, talvez quarteada de várias cores, para se conhecerem e ajuntarem a elas os soldados, que vão debaixo dessa bandeira, ou pertencem à Companhia do Chefe, cuja é a bandeira. (Tomo I, p.258) Ex. “ [...]eas bandeiras viráõ ao centro della, logo que se formar [...]” (ls.2059-2060) BASE Ls. 191, 276, 299, 374, 386, 444, 1277, 1622. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 08 Etim. Do grego Básis, planta do pé. Pelo latim base. (NAS, Tomo I, p.64) Tudo quanto serve de apoio ou fundamento. (CUN, p.101) Df.Ms. 1. Lado de um dispositivo geométrico das formaturas de tática de uma unidade militar. 2. Assento, sustentação [rec]. Ref.Lex. Da Architetura. Assento circular, que fica sobre o pedestal da columna, e sobre que carrega a columna immediatamente. Base de qualquer figura, em Geometria, o lado, ou parte opposta ao vértice, ou à parte superior. (Tomo I, p.268) 246 Ex. “[...] e este ser virá de base para o alinhamento de todos os mais[...]” (ls. 298-299) / “[...]éstas duas condiçoens são reciprocamente necessarias; porque aquelle, que não está aprumo sobre a sua base, cançase, para se soster [...]” (ls.373-375) BAIONETA Ls. 648,743, 746-747, 754, 1355, 1359, 1629. Cl.Pal. s.f. Lem. Bayoneta (342); Baionetas (911, 1166). Freq. 10 Etim. Arma branca que se adapta à boca do fuzil ou mosquetão. Do francês Baionnette, derivado do topônimo francês Bayonne (Baiona), cidade onde, primitivamente, se fabricava esta arma. (CUN, p.93) Df.Ms. Tipo de faca que se adapta à boca da espingarda, fuzil ou mosquete [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[…]com abayoneta na boca d'ar ma[...]” (342-343) / “[...] ao soldado para carregar, presentar abaioneta, e fazer fogo com prontidão [...]” (ls. 648-649) BATALHÃO Ls. 295, 298, 301, 320, 353, 997, 1068, 1075, 1102, 1106, 1296, 1298, 1304, 1310, 1316, 1325, 1328, 1340-1341, 1345, 1350, 1364, 1384, 1417, 1418-1419, 1427, 1464, 1468, 1479, 1487, 1495, 1516, 1531-1532, 1548, 1552, 1553, 1579, 1581, 1598, 1660, 1664, 1666, 1691, 1703, 1713, 1720, 1783, 1804, 1825, 1866, 1870, 1876, 1877, 1883, 1903, 1911, 1912, 1919-1920, 1958, 1981, 1987, 1988, 2001, 2008, 2037, 2044, 2063-2064, 2129. Cl.Pal. s.m. Lem. Batalhoens (204-205, 326, 1794), batalhaõ (1297) Freq. 71 Etim. Corpo de tropa. Do francês bataillon, derivado do italiano battaglione. (NAS, Tomo I, p.65) Df.Ms. Corpo de Infantaria composto de 600 até 800 homens [rec]. Ref.Lex. Corpo d’Infanteria, que consta de 600 até 800 homens. (Tomo I, p.270) 247 Ex. “[...]Quando huma linha houver de marchar, se indicará o batalhão de alinhamento [...]” (ls. 310-320) / “O batalhão he hum pequeno exercito; assim como hum exercito he hum grande batalhão; [...]” (ls. 1297-1298) BOTINA Ls. 823. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Etim. De bota. Do grego byttis, odre de vinho, podia ter dado um baixo latim butta, passando depois, por assimilação de forma, para o sentido de calçado de cano. A Academia espanhola deriva o espanhol bota de botar (no sentido de borracha e no de calçado). Do alemão ao francês botte > bottine. (NAS, Tomo I, p.77; CUN, p.120) Df.Ms. Calçado com sola de borracha e de cano, uma pequena bota, leve em peso, que usam os soldados [rec]. Ref.Lex. Botas ligeiras de mulher. (Tomo I, p.295) Ex. “[...] O soldado, ow não deverîa trazer meias por baixo das polainas ow botina, ow as trará sem pé [...]” (ls. 822-823) BRIGADA Ls. 296 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Etim. Do francês brigade, derivado do italiano brigata ‘companhia’, ‘familia’, ‘corpo de armas’, de briga. Corpo militar. (CUN, p.123) Df.Ms. Unidade militar, em geral administrativa, composta por regimentos [rec]. Ref.Lex. Certo número de Batalhões compostos de três ou quatro Regimentos, commandados por um Brigadeiro. (Tomo I, p. 301) Ex. “[...]Estes principios, que servem para o alinhamento de hum batalhão, são os mesmos para ode huma brigada, ou divisão de exercito [...]” (ls. 294-296) 248 C ___________________________________________ COLUNNA Ls. 46, 54, 75, 108-109, 117, 135, 138, 140, 146, 1031, 1069, 1078, 1085, 1103, 1131, 1133, 1136, 1142, 1189, 1206, 1216, 1224, 1236, 1492, 1590, 1686, 1687, 1688, 1703- 1704, 1712, 1713-1714, 1719, 1729, 1758, 1763, 1775, 1786, 1789, 1800, 1806, 1807, 1816, 1826, 1832, 1841, 1845, 1860, 1861, 1874, 1875, 1887, 1900, 1910, 1931, 1938, 1971, 1979, 1985, 2006, 2014-2015, 2018, 2023, 2026, 2036, 2044, 2046, 2059, 2061, 2069, 2071, 2080, 2085, 2090, 2097, 2103, 2105, 2108, 2111. Cl.Pal. s.f. Lem. Colunnas (124, 149, 205, 211, 391, 1199, 1498-1500, 1502, 1838, 1943, 1945, 1951, 1955, 1963, 1976) Freq. 93 Etim. Do latim Columna. (arquitetura) pilar cilíndrico, que sustenta abóbodas, entablamentos etc e que serve de ornato. Acepção extensiva de subdivisão. (CUN, p.197) Df.Ms. É um ajuntamento de tropas umas detrás das outras (ls. 46-47). Ref.Lex. 1. Na milícia, linha de soldados de pouca frente e muito fundo. Fila longa do exército em marcha. 2. Pernas dos soldados. (Tomo I, p. 416) Ex. “[...]toda atropa em colunna de marcha deve occupar hum terreno igual [...]” (ls. 117- 118) / “[...]Os hombros, eos rins devem por-se aprumo sobre as cadeiras, e éstas sustentadas sobre as duas colunnas dos quartos,[...]” (ls. 390-391) Sin. Fila. Linha. COLUNNA COM DISTANCIAS Ls. 47, 133, 199. Cl.Pal. s.f. Lem. Colunnas com distancias (87), Colunna com distancia (1106-1107) Freq. 05 Df.Ms. É a em que as tropas que a compõem, tem entre si uma distancia igual a sua frente, contada de eixo a eixo, mais o intervalo, que devem conservar formadas em linha (ls.47- 50). 249 Ref.Lex. Ø Ex. “[...] Da mesma sorte se pode regular o tempo que tardará o batalhão marchando em colunna com distancia, para formar em linha [...]” (ls. 1105-1107) COLUNNA DE ATTAQUE, MACISSA OU SERRADA Ls. 51, 196, 1286-1287, 1633, 1982-1983, 2181. Cl.Pal. s.f. Lem. Colunnas de ataque (129) Freq. 07 Df.Ms. É aquela em que as tropas que a compõem, não têm esta distância; o que as impede de meter em linha por quartos de conversão (ls.51-53). Ref.Lex. Ø Ex. “[...] Na colunna serrada- se nada, não se determinando outra direcção, se olhará para o lado sobre que se formou [...]” (ls. 196-197) / “[...]Estando ainfanteria em colunna macissa, he isto facilissimo de executar, pela sua pouca extensão [...]” (ls. 1286-1288) COMMANDANTE Ls. 220, 284, 580-581, 1203, 1232-1233, 1293, 1324, 1332, 1365, 1383, 1384, 1405, 1410, 1425, 1447, 1449, 1497, 1514-1515, 1516, 1528, 1548, 1570, 1582, 1646, 1659, 1660, 1691, 1699, 1721, 1764-1765, 1774, 1786, 1806, 1811, 1865, 1873, 1882-1883, 1905, 1919, 1939, 1983, 2001, 2032, 2037, 2043, 2093, 2098, 2106, 2110-2111, 2122, 2156. Cl.Pal. s.m. Lem. Commandantes (221, 1461-1462, 1471-1472, 1484-1485, 1491, 1674, 1682, 1800- 1801, 1832, 1856, 1880, 1908, 1991, 2055-2056) Freq. 65 Etim. De comandar. Dirigir, governar, conduzir. Do francês commander, derivado do latim popular commandare, A forma substantiva tem origem no francês commandant. (CUN, p.197) Df.Ms. Oficial militar que comanda ou conduz alguma tropa de infantaria [rec]. Ref.Lex. Official militar que manda alguma tropa d’infantaria, ou Artilharia, ou Cavallaria. O que governa a Companhia na falta do Capitão. O Capitão que faz as vezes de Major. (Tomo I, p. 420) 250 Ex. “O commandante da primeira tropa para alinhar, não deve limitar-se a determinar a linha das espadoas do primeiro soldado [...]” (ls. 284-286) COMPANHIA Ls. 803. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Etim. De campanha. Do latim vulgar *companĭa, através do português arcaico companha, já documentado no século XIII. Aquilo ou aquele que acompanha ‘comitiva, séquito etc’. (CUN, p.200) Df.Ms. Corpo militar constituído de um conjunto de batalhões [rec]. Ref.Lex. Corpo militar de tropas que consta de certo número de homens, delas se compõe o Regimento. A Companhia é governada pelo Capitão. (Tomo I, p. 425) Ex. “[...] eao lado da copa hum laço ou cócar, á eleição do chefe, ou conforme adivisa, que se determinasse para cada companhia [...]” (ls. 801-803) 251 D ___________________________________________ DIVISÃO Ls. 296, 1515, 1723, 1735. Cl.Pal. s.f. Lem. Divisoens (699, 721, 1016, 1498, 1517-1518, 1722, 1724, 1734, 1742, 1748, 1759, 1766), divisões (1003), devisoens (1730). Freq. 18 Etim. Do latim divisio, -onis, de divisus, paticipio passado de dividere. (CUN, p.273) Df.Ms. Unidade militar, comandada por um General, constituída por um conjunto de brigadas [rec]. Ref.Lex. O acto de dividir. A porção feita dividindo. (Tomo I, p. 631) Ex. “[...] Estes principios, que servem para o alinhamento de hum batalhão, são os mesmos para ode huma brigada, ou divisão de exercito.[...]” (ls. 294-296) / “[...] porque o fogo se reduzirá a fogo por pelotoens, divisoens, continuo, ou solto.” (ls. 1015-1016) DRAGONA Ls. 785 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Etim. De dragão. Do francês dragonne. Originariamente, peça do equipamento dos dragões; em francês é uma correia ou cordão duplo, preso ao punho da espada ou do sabre e passando pelo pulso. (NAS, Tomo I, p.164) Df.Ms. Parte da vestimenta dos soldados que consiste em uma sola bem batida, e três cadeinhas de ferro entre o forro, para defender o ombro [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “A dragona deveria ter huma sola bem batida, e tres cadeinhas de ferro entre oforro, para lhe defender o hombro.” (ls.785-787) 252 E ___________________________________________ ESPADA Ls. 744, 872. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 02 Etim. Do grego spathe, espada de lâmina alargada na ponta. Pelo latim spatha, espada. (NAS, Tomo I, p. 188) Arma branca, formada de uma lâmina comprida, de um ou dois gumes. (CUN, pp.320-321) Df.Ms. Arma composta de uma lâmina, de um ou dois gumes, comprida com uma ponta e que serve para o ataque ou defesa [rec]. Ref.Lex. Arma, que consta de lâmina, ou folha com ponta, e gumes, e de copos, serve de offender, e defender. (Tomo I, p. 753) Ex. “A espingarda, baioneta, são as armas do soldado infante: a espada oembaraça, enão lhe serve senão de adorno.” (ls. 743-744) ESPINGARDA Ls. 646, 686, 691, 743, 745, 753-754, 921-922, 925-926, 927, 937, 957, 987, 992, 1358. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 14 Etim. Vem do espanhol espingarda para o português. A Academia Espanhola filia ao antigo alto alemão springan acompanhada do sufixo germânico -arda. (NAS, Tomo I, p.191) Arma de fogo portátil com o cano longo. (CUN, p.323) Df.Ms. Arma de fogo portátil, com cano longo, coronha, fechos, com alcance longo de fogo [rec]. Ref.Lex. Arma de fogo grande, com cano, coronha, fechos. (Tomo I, p. 761) Ex. “A balla sahindo de huma espingarda de munição [....]” (ls. 957-958) 253 EVOLUÇÃO Ls. 23, 1418, 1443. Cl.Pal. s.f. Lem. Evoluçoens (1296) Freq. 04 Etim. Desenvolvimento progressivo duma ideia, acontecimento, ação, etc. Do francês evolution, derivado do latim evolutivo, -onis. (CUN, p.339) Df.Ms. É aquele movimento que uma tropa executa sem mudar a sua disposição e formatura (ls.23-24). Ref.Lex. Os movimentos, e figuras, que se mandam fazer os Batalhões, e Esquadrões. (Tomo I, p. 791) Ex. “[…]Para se calcular os passos, que tem para andar o batalhão; eotempo, que precisa ésta evolução para se executar[...]” (ls. 1421-1423) 254 F ___________________________________________ FARDA Ls. 768-769, 774. Cl.Pal. s.f. Lem. Fardas (778) Freq. 03 Etim. Do árabe fard. Pano, vestimenta, uniforme, libré. (NAS, Tomo I, p.209; CUN, p. 349) Df.Ms. Vestimenta dos militares para o ofício da guerra [rec]. Ref.Lex. A libré militar. (Tomo II, p.11) Ex. “[...] ésta despeza além de poupar a farda do mesmo soldado, que nos quarteis poderia trazêlo só com aveste, produziria maior lucro á Fazenda Real, (ls. 773-776) FILA Ls. 55, 64, 66, 531, 1475, 1479, 1494, 1508, 1511, 1517, 2146, 2157, 2159, 2163, 2165, 2167, 2174. Cl.Pal. s.f. Lem. Filas (698,1075, 1515, 1579, 1581, 1600, 2007, 2166) Freq. 25 Etim. Série de coisas, pessoas etc. em linha reta, fileira. Do francês file, relacionado com o latim filum (fio). (CUN, p.356) Df.Ms. Homens postos uns atrás dos outros de forma que as duas linhas das espadoas sejam paralelas e que uma só perpendicular as divida todas em dois ângulos retos (ls.55- 58). Ref.Lex. Ordem dos soldados postos um atrás do outro. (Tomo II, p.22) Ex. “[...] etanto que forem sahindo do desfiladeiro, ou ponte, irão formando em linha huma fila depois de outra [...]” (ls. 1492-1494) Sin. Linha. 255 FILEIRA Ls. 59, 265, 271, 275, 404, 509, 593, 595, 600, 602, 620, 621, 1019, 1357, 1638, 1639, 1992. Cl.Pal. s.f. Lem. Fileiras (309, 1004, 1017, 1134, 1140, 1214, 1215, 1615-1616, 1620, 1705,1937, 2012, 2094-2095) Freq. 30 Etim. Série de coisas, pessoas etc. em linha reta, fileira. Do francês file, relacionado com o latim filum (fio). (CUN, p.357) Df.Ms. Homens postos ao lado uns dos outros de forma que se reúnam todas as linhas das espadoas a esta precisão geométrica. Deve-se fazer toda diligencia porque se lhe aproxime (ls.59-62). Ref.Lex. A ordem dos soldados dispostos em linha, de ombro a ombro. (Tomo II, p.32) Ex. “[...] de sorte que para a conclusão da manobra serão precisos mais tantos segundos como ametade das fileiras dos ultimos sete pelotoens, que formão a colunna.” (ls. 1935-1938) Sin. Linha. FILEIRA SERRADA Ls. 528 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Df.Ms. Linha de militares, um ao lado do outro, que não possui distância entre eles [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “Logo se formarão atres de fundo, ese farão marchar com fileiras serradas, acustumando-as a meter aperna por entre as do homem que levão diante de si [...]” (ls.527- 530) 256 FLANCO Ls. 660, 1069, 1078, 1332, 1365, 1367, 1385, 1613-1614, 1766, 1823, 2038, 2172, 2172. Cl.Pal. s.m. Lem. Flancos (41, 232, 1025, 1030, 1196, 1316, 1589, 1611, 1689) Freq. 22 Etim. Do francês flanc, derivado do frâncico hlanka. Lado de um corpo de tropas, ilharga. (CUN, pp.360-361) Df.Ms. São os lados do mesmo retângulo, que são perpendiculares à linha das espadoas (ls.41-42). Ref.Lex. Fortificação Militar. Parte do baluarte, que ata uma face, e uma cortina a seus dois extremos, uma a um, serve para defender a face do baluarte oposto. (Tomo II, p. 38) Ex. “[...] Se, ao desfazer ésta colunna, o commandante quizer mudar a frente do batalhão sobre oflanco [...]” (ls. 2036-2038) FORMATURA Ls. 24, 143, 144, 1000, 1024, 1046, 1058, 1067. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 08 Etim. Do latim formatura. Vem de forma. Modo sob o qual uma coisa existe ou se manifesta ‘configuração, feitio, feição exterior. Do latim forma. Molde. (CUN, p.364) Df.Ms. Ordenada disposição em que se encontram as tropas [rec]. Ref.Lex. A ordenança, ou ordem do exército para dar batalha. (Tomo II, p. 48) Ex. “[...] Nunca se deve partir de hum ponto, ou de huma formatura, sem designio de chegar aoutro tal ponto, ou aoutra formatura [...]” (ls. 142-144) Sin. Ordem. FRACÇÃO Ls. 113, 116, 119, 122, 1110, 1222, 1769, 1825, 2140. Cl.Pal. s.f. Lem. Fracçoens (100, 126, 134, 221, 1072, 1690); Fracçõens (108) Freq. 16 257 Etim. Do latim fractione. Ato de partir, quebrar, dividir; a parte de um todo. (CUN, p.367) Df.Ms. Unidade militar, inferior ao batalhão [rec]. Ref.Lex. (Aritmética) A parte, ou partes de alguma unidade, ou inteiro. (Tomo II, p. 54) Ex. “[...] afrente do batalhão menos afrente da primeira fracção testa da Colunna [...]” (ls. 1824-1826) FRENTE Ls. 49, 104, 114, 119, 122, 134, 414-415, 576, 586, 599, 626, 627, 682, 1006, 1018, 1072, 1076, 1080, 1090, 1090, 1101, 1111, 1114, 1117, 1120, 1133, 1137, 1138, 1150, 1190, 1207, 1281, 1306, 1307, 1310, 1311, 1316, 1330, 1342, 1350, 1363, 1364, 1375, 1378- 1379, 1380, 1393, 1398, 1420, 1422, 1424, 1431, 1445, 1451, 1453, 1467, 1568, 1477, 1490, 1495, 1526, 1532, 1541, 1554, 1556, 1561, 1571, 1579, 1581, 1599, 1639, 1647, 1656, 1657, 1668, 1671, 1673, 1683, 1698, 1701, 1709, 1715, 1726, 1736, 1741, 1754, 1762, 1784, 1801, 1819, 1824, 1825, 1834, 1850, 1855, 1863, 1875, 1911, 1918, 1933, 1946, 1948, 1958, 1975, 1979, 1983, 1989, 2008, 2009, 2027, 2034, 2037, 2038-2039, 2050, 2054, 2061, 2070, 2083, 2086, 2094, 2112, 2114, 2135, 2139, 2143. Cl.Pal. s.f. Lem. Frentes (1826, 1881, 1891, 1917) Freq. 128 Etim. Parte anterior de qualquer coisa, lado dianteiro, vanguarda. Do castelhano frente, do antigo castelhano fruente e, este, do latim frons, -ontis. (CUN, p.368) Df.Ms. A parte anterior de qualquer formação do Exército [rec]. Ref.Lex. A parte dianteira do exército.(Tomo II, p. 59) Ex. “[...]Por exemplo, se hum batalhão de cento enoventa eduas filas, em oito pelotoens cada hum de vintequatro homens de frente, que occupão quarenta eoito pés, ou vintequatro passos [...]” (ls. 1075-1077) / “[...]obatalhão se redúz a metade da sua frente, suppondose ésta de cento enoventaeduas filas [...]” (ls. 1598-1600) Sin. Testa. Vanguarda. FUNDO Ls. 63, 65, 72, 74, 89, 527, 572, 813, 909, 910, 1023, 1028, 1031, 1133, 1150, 1213, 1422, 1547, 1550, 1566, 1603, 1640, 1808, 1849, 2051. Cl.Pal. s.f. 258 Lem. Ø Freq. 25 Etim. Do latim fundus. Profundo, a parte mais interior de um objeto, cavidade, etc. (CUN, p.371) Df.Ms. É a expressão do número de homens, que formam uma fila. Assim, dizemos que uma tropa está formada a três de fundo para significar que cada fila é de três homens (ls.63-66). Ref.Lex. A retaguarda. (Tomo II, p. 68) Ex. “O fundo he, pois, a sua mais solida defença; e a unica, com que póde resistir á cavallaria" (ls. 1028-1029) Sin. Rectaguarda 259 G ___________________________________________ GRANADEIRO Ls. Ø Cl.Pal. s.m. Lem. Granadeiros (1612-1613) Freq. 01 Etim. De granada. Provavelmente do francês grenade, romã. Derivado do latim granatum. É primitivamente uma bomba semelhante a esta fruta, no tamanho e na forma, e ainda mais por estar cheia de estilhaços. (NAS, Tomo I, p.247; CUN, p.393) Df.Ms. Soldados do exército que são responsáveis por lançar as granadas de mão [rec]. Ref.Lex. Nos Regimentos há Companhias de granadeiros, que são dianteiros nas marchas, e incumbidos de lançar granadas à mão; de comum são homens de grande estatura e, por isso, se diz que é um granadeiro o homem, ou mulher alta, e corpulenta. (Tomo II, p. 99) Ex. “[...] setrousser com sigo as Granadeiros, formará com elles huma tenalha acada flanco [...]” (ls. 1612-1614) GUERRA Ls. 10, 526, 2193. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 03 Etim. Derivado do germânico werra. Do latim medieval guerra, anteriormente werra (que substituiu, em toda a România ocidental, o vocábulo latino bellum). Luta armada. (CUN, p.400) Df.Ms. Ato hostil organizado e planejado, com armas, em que se busca vencer a parte inimiga [rec]. Ref.Lex. Todo ato hostil com que se faz ou procura mal ao inimigo para vencer, aprisionar, matar, tomar-lhe terra ou navios. (Tomo II, p. 109) Ex. “[...] ecomo diz o Marechal de Saxe, a ciencia da guerra está nas pessoas.” (ls. 525- 526) 260 I ___________________________________________ INFANTERIA Ls. 339, 543, 815, 888, 906, 908, 917, 1010, 1013, 1022, 1023-1024, 1038, 1041-1042, 1047, 1053, 1066, 1099, 1131, 1149, 1158, 1158, 1161, 1170, 1173, 1183, 1201, 1208, 1213, 1230, 1238, 1241, 1246, 1251, 1256, 1257, 1286, 1293, 1640. Cl.Pal. s.f. Lem. Infantaria (1155-1156) Freq. 39 Etim. Fantaria. Do antigo italiano infanteria. Vem da acepção de infante do italiano, soldado a pé. (CUN, p.435) Df.Ms. Arma do Exército composta de soldados a pé armados preparados para a guerra [rec]. Ref.Lex. Seguindo a derivação de Infante, mas em ordinário se diz Infantaria. Soldadesca de pé. (Tomo II, p. 156) Ex. “[...] A defença da infanteria contra a cavallaria consiste no seu fogo, eno seu fundo [...]” (ls. 908-909) INTERVALLO Ls. 50, 67, 114, 316, 328, 507, 1424, 1709, 1726-1727, 1832, 1952, 1990. Cl.Pal. s.m. Lem. Intervallos (213, 683, 1025, 1349, 1404, 1423, 2086) Freq. 19 Etim. Do latim intervallum. Espaço entre dois pontos, intermitência. (CUN, p.442) Df.Ms. É o espaço que fica entre duas tropas sobre uma mesma linha (ls.67-68). Ref.Lex. O espaço de lugar, ou tempo, que media entre dois termos. (Tomo II, p. 174) Ex. “[...] fazer conversoens com oeixo firme, e eixo movente; marchar de frente, ede costado, conservando operfil, os intervallos, eas distancias [...]” (ls. 681-683) 261 L ___________________________________________ LINHA Ls. 25, 40, 50, 53, 54, 68, 78, 81, 96, 110, 115, 118, 120, 125, 134, 145, 157, 202, 212, 229, 240, 242, 248, 251, 264, 267, 276, 279, 281, 286, 319, 324, 385, 577, 658, 943, 990, 1069, 1103, 1107, 1111-1112, 1129, 1149, 1280, 1309, 1311, 1313, 1334-1335, 1338, 1362, 1367, 1383, 1398, 1400, 1409, 1450, 1474-1475, 1480, 1494, 1518, 1531, 1534, 1539, 1543, 1648, 1649, 1652, 1673, 1709, 1711, 1765, 1768, 1773, 1777, 1794, 1833, 1844, 1847, 1853, 1859, 1915, 1930, 1947, 1959, 1967, 1978, 1998, 2031, 2034, 2071, 2076, 2137. Cl.Pal. s.f. Lem. Linhas (70, 150, 173, 932, 1392, 1394) Freq. 98 Etim. Do latim linea. Fila, limite, baliza. (CUN, p.476) Df.Ms. Formação na qual as tropas ou unidades se dispõem lado a lado ou um atrás do outro [rec]. Ref.Lex. Fileiras de soldados no campo de batalha. (Tomo II, p. 228) Ex. “[...] Para mover huma linha he necessario fraccionala em muitas tropas; porque cada tropa se faz menos dependente das outras [...]” (ls. 96-98) Sin. Fila. Fileira. LINHA DAS ESPADOAS Ls. 30, 35, 39, 42, 285-286, 290, 291, 402, 498, 532, 579. Cl.Pal. s.f. Lem. Linhas das espadoas (56, 60-61, 292-293, 406-407) Freq. 15 Df.Ms. É uma reta suposta tirada entre os pontos exteriores e os mais distantes dos ombros do soldado (ls. 30-32). Ref.Lex. É a que constituindo a parte da espalda fica oposta à Cortina. (Tomo II, p. 228) Ex. “[...] Hé muito essencial ocustumar as recrutas amarchar sobre huma perpendicular determinada, afim de que alinha das espadoas seja sempre cortada por ella a angulos rectos.” (ls. 496-499) 262 LINHA DA MIRA OU VISUAL Ls. 696, 919, 928, 937, 938, 949, 962-963, 965, 972. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 09 Df.Ms. É uma reta que se traça desde o lugar onde se encontra o atirador até o objeto a que se dirige a bala (ls. 919-920). Ref.Lex. Ø Ex. “[...] o soldado baixará acabeça quanto for necessario para olhar pela linha da mira ou visual; e puxará pelo desarmador com dous dedos, para disparar com menos resistencia.” (ls. 694-698) LINHA DO TIRO Ls. 920, 924, 931, 948. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 04 Df.Ms. É uma reta tirada pelo centro do cilindro da espingarda (ls.921-922). Ref.Lex. Ø Ex. “A linha do tiro, ea da mira, não são parallelas, (*) e em mais ou menos distancia da boca da espingarda formão hum angulo mais ou menos sensivel, conforme a grossura, que o cilindro da espingarda tem na culatra, ena boca.” (ls. 924-928) 263 M ___________________________________________ MAJOR Ls. 257, 642. Cl.Pal. s.m. Lem. Majores (302) Freq. 03 Etim. Do francês Major, oficial superior encarregado da administração e, este, do latim Major, comparativo de magnus. Posto militar entre capitão e tenente-coronel. (CUN, p.490) Df.Ms. Oficial do Exército cuja graduação é a imediatamente inferior à de Tenente- Coronel. É o comandante de Batalhões [rec]. Ref.Lex. Usa-se como substantivo para Sargento-Mor. (Tomo II, p. 250) Ex. “[...] que se olhe sempre para o ultimo, que chega, do lado opposto do batalhão ja alinhado; no que devem ter grande cuidado os majores, e ajudantes [...]” (ls. 300-302) MANOBRA Ls. 22, 93, 127, 154, 216, 222, 549, 556, 1564, 1574, 1580, 1583, 1597, 1608, 1632, 1654, 1663-1664, 1678, 1731, 1737, 1814, 1849, 1885, 1895, 1928, 1936, 2003, 2016, 2065, 2179. Cl.Pal. s.f. Lem. Manobras (651, 1149, 1180-1181, 1296, 1531, 2077, 2176) Freq. 37 Etim. Adaptação do francês manoeuvre, derivado do latim vulgar manuopera, de manus (mão) + opera (trabalho). (NAS, Tomo I, p.315) Df.Ms. A operação que muda a ordem das tropas conforme as circunstancias (ls.21-22). Ref.Lex. Ø Ex. “O fim de huma manobra he sempre mais arriscado que o seu principio; pelo que, he preciso naquelle instante maior força, eordem: epela mesma rasão, principiando-se ameter em linha, he necessario concluir com brevidade.” (ls. 154-158) 264 MARCHA Ls. 99, 117, 124, 200, 422, 445, 461, 464, 487, 491, 502, 514, 659, 660, 1318, 1321, 1342, 1368, 1370, 1470, 1501, 1513, 1554, 1562, 1563, 1568, 1636, 1637, 1643, 1656-1657, 1695, 1699, 1716, 1724, 1735, 1745, 1747, 1768, 1770, 1788, 1798, 1812, 1867, 1915, 1922, 1941, 1947, 1954, 1956, 1960, 1961, 1966, 1968, 1985-1986, 1999, 2031, 2058, 2072, 2146, 2162, 2170. Cl.Pal. s.f. Lem. Marchas (651, 771, 825, 833, 1352) Freq. 66 Etim. Do francês marcher, derivado do frâncico mârkon ‘apressar o passo’, relacionado com o germânico marka. Andar, caminhar, seguir os seus trâmites, progredir. (CUN, p.501) Df.Ms. Caminho realizado por um exército [rec]. Ref.Lex. É o caminho que o exército vai fazendo ou fez. (Tomo II, p.268) Ex. “[...] nas marchas trazer ospés untados muito bem com sebo, para se-lhe não cortarem, epara que a humidade se-lhe não introduza. [...]” (ls. 825-828) / “[...] athé que acabando afila toda de dar fogo, selhesiga o seu turno nella; naqualse terão incorporado para continuarem amarcha.” (ls. 1510-1513) MARCHA DE COSTADO Ls. 1317 Cl.Pal. s.f. Lem. Marchas de costado (86-87) Freq. 02 Df.Ms. Caminho realizado pelas linhas de lado (flancos) de um exército [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...] movimento utilissimo nas marchas de costado, enas de colunnas com distancias, para se evitar asegmentação dellas; e he indispensavel toda a vôz que o fundo formayor que afronte.” (ls. 86-89) 265 MARCHA DE ESTRADA Ls. 548 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Df.Ms. Marcha realizada pelo exército em um terreno plano e sem obstáculos [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...] O dobrado pode ter mais ou menos velocidade, conforme as cricumstancias: se for em huma marcha de estrada, será commodo de oitenta a noventa passos por minuto; (ls. 546-549) MARCHA GRADUADA Ls. 1591, 1896-1897. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 02 Df.Ms. Caminho, em diferentes ângulos de linha – com exceção de 45º, realizado por um exército [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...]ou formar colunna sobre avanguarda pela marcha graduada, ecom o passo obliquo, ou de costado [...]” (ls. 1590-1591) MARCHA MILITAR Ls. 426. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Df.Ms. Caminho realizado por um exército [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...]Para que huma tropa marche em ordem, he preciso que os homens, que acompoem, fação cada passo da mesma extensão, ecadencia; pelo que, he forçozo apprender a marcha militar.” (ls. 423-426) 266 Sin. Marcha. MARCHA OBLIQUA Ls. 1303, 1343. Cl.Pal. s.f. Lem. Marchas obliquas (573) Freq. 03 Df.Ms. Marcha contrária à marcha reta, onde o caminho realizado pelos exércitos consiste em pequenas diagonais [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...] Os soldados namarcha obliqua devem inclinar paradiante o hombro daquella parte para onde se dirigem, para evitar que o batalhão faça conversão [...]” (ls. 1343-1346) MARCHA RECTA Ls. 569, 1303, 1308. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 03 Df.Ms. Caminho realizado por um exército em linha reta para frente [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...] Além da marcha recta, deve apprender o soldado a marchar obliquamente [...]” (ls. 569-570) MARECHAL Ls. 525-526, 564, 828. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 03 Etim. Acepção original de indivíduo que cuidava dos cavalos. Modernamente, posto superior no exército. Do francês marechal, derivado do frâncico *marhskalk, de mar(a)h ‘cavalo amestrado’ e skalk ‘servo’. (CUN, p.501) 267 Df.Ms. Posto da hierarquia militar inferior aos Tenentes Generais, e comanda em falta deles e dos Generais [rec]. Ref.Lex. Oficial militar, antigamente era imediatamente subalterno ao condestável. Hoje o Marechal de Campo é inferior aos Tenentes Generais, e comanda em falta deles e dos Generais. (Tomo II, p. 269) Ex. “ [...]como nota o Marechal de Saxe, não fatiga tanto com ella omovimento; pois se está vendo huma pessoa contradançar largas horas no movimento mais velóz; o que seria impossivel executar sem ella.” (ls. 564-568) MILITAR Ls. 07, 43, 554, 839, 843, 844, 849, 855. Cl.Pal. s.m. Lem. Militares (14-15, 845, 886, 2183, 2210) Freq. 13 Etim. Do latim militare, de miles, -itis, soldado. (CUN, p.521) Df.Ms. Homens ou coisas relativos à guerra [rec]. Ref.Lex. Concernente à milícia. Homem de guerra. (Tomo II, p. 299) Ex. “Éstas advertencias, que parecem bagatellas, podem ser de grande utilidade; porque as couzas mais pequenas, no militar, influem no todo, e concorrem muitas vezes para o bom, ou máo successo.” (ls. 837-841) MOCHILA Ls. 769, 771. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 02 Etim. Do castelhano mochila. Espécie de saco que se leva às costas. (CUN, p.526) Df.Ms. Saco, que os soldados levam às costas, onde colocam roupa, provisões e demais instrumentos necessários para o combate [rec]. Ref.Lex. Saco em que os soldados levam roupa e alguma provisão às costas quando marcham. (Tomo II, p. 307) Ex. “[...]Este redingote teria a commodidade de resguardar a mochîla, epatrona da agoa nas marchas [...]” (ls. 770-771) 268 O ___________________________________________ OFFICIAL Ls. 243, 246, 263, 351, 915, 917, 1175. Cl.Pal. s.m. Lem. Officiaes (181, 187, 221, 872, 1255, 2102) Freq. 13 Etim. Do latim officialis. Militar de posto acima de aspirante ou guarda-marinha. Substantivação do adjetivo oficial. (CUN, p.558) Df.Ms. Homens do exército que possuem posto de graduação diferente de soldado. Há oficiais inferiores (anspeçadas, cabos e sargentos) e superiores (Alferes, Ajudantes, Tenentes, Capitães, Majores, Tenente coronéis, Coronéis, Brigadeiros e Generais) [rec]. Ref.Lex. Na milícia há oficiais inferiores, que são anspeçadas, cabos e sargentos, e os Superiores, ou oficiais, que tem bastão e patente. (Tomo II, p. 360) Ex. “[...] Se a tropa está postada fora de hum destes pontos, e se quer traçar a linha sobre o ponto opposto, he preciso, que hum official, postando-se no primeiro ponto [...]” (ls. 241- 243) OFFICIAL INFERIOR Ls. 244, 247 Cl.Pal. s.m. Lem. Officialinferior (1406-1407, 2057); officiaes inferiores (304-305, 323, 1284, 2102); Officiaes-inferiores (314-315, 2013) Freq. 10 Df.Ms. Militares que não tem bastão e patente como anspeçadas, cabos e sargentos [rec]. Ref.Lex. Na milícia há oficiais inferiores, que são anspeçadas, cabos e sargentos, e os Superiores, ou oficiais, que tem bastão e patente. (Tomo II, p.360) Ex. “[...] hum official inferior se coloque arbitrariamente entre estes dous pontos, parando na direcção, que lhe indicar o official, que do primeiro ponto olha para o segundo: então o official inferior fica imóvel [...]” (ls. 244-247) 269 OFFICIAL SUPERIOR Ls. 243, 246, 263, 351, 915, 917, 1175. Cl.Pal. s.m. Lem. Officiaes superiores (326) Freq. 08 Df.Ms. Oficiais que possuem bastão e patente, como Alferes, Ajudantes, Tenentes, Capitães, Majores, Tenente coronéis, Coronéis, Brigadeiros e Generais [rec]. Ref.Lex. Na milícia há oficiais inferiores, que são anspeçadas, cabos e sargentos, e os Superiores, ou oficiais, que tem bastão e patente. (Tomo II, p.360) Ex. “[...] Os officiaes superiores dos mais batalhoens os farão marchar sobre o prolongamento daquelle, fazendo postar os ajudantes no intervallo immediato ao lado da direcção.” (ls. 326-329) ORDEM Ls. 12, 20, 21, 72, 74, 156, 350, 423, 995, 1022, 1046, 1131, 1176, 2200, 2211. Cl.Pal. s.f. Lem. Ordens (1197) Freq. 16 Etim. Do latim ordo, ordinis. Disposição, regra, disciplina. (CUN, p.563) Df.Ms. Disposição disciplinada de formação militares [rec]. Ref.Lex. Disposição, colocação das coisas em seu lugar. (Tomo II, p. 369) Ex. “[...] Será, pois, utilissimo que eles usem da ordem mais propria para o sei genio; porque désta escolha pende a felicidade das suas armas.[...]” (ls. 2199-2201) Sin. Formatura. ORDEM DEFENSIVA Ls. 1184 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Df.Ms. Exprime as tropas com menos fundo e mais frente para fins de defesa [rec]. Ref.Lex. Ø 270 Ex. “[...] Suppostapois ainfanteria na sua ordem defensiva, deve suppôr-se tambem a cavallaria fora do alcance do fogo daquela [...]” (ls. 1183-1185) ORDEM PROFUNDA OU DO ATTAQUE Ls. 73, 557-558, 2203, 2206. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 04 Df.Ms. Exprime as tropas com mais fundo e, também, é chamada de ordem de ataque (ls.73-74). Ref.Lex. Ø Ex. “As caprichozas oppinioens sobre a ordem profunda, eaordem singêla, tem feito produzir a luz tudo quanto o entendimento homano podia discorrer aeste respeito, em copiozos volumes [...]” (ls. 2202-205) ORDEM SINGELA OU DO FOGO Ls. 71, 2203. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 02 Df.Ms. Exprime as tropas formadas a três de fundo, também chamada de ordem do fogo (ls.71-72). Ref.Lex. Ø Ex. “As caprichozas oppinioens sobre a ordem profunda, eaordem singêla, tem feito produzir a luz tudo quanto o entendimento homano podia discorrer aeste respeito, em copiozos volumes [...]” (ls. 2202-205) 271 P ___________________________________________ PASSO Ls. 355, 359, 362, 424, 509, 512, 540, 582, 606, 618, 619, 622, 624, 627, 1144, 1374, 1376, 1379, 1421, 1544, 1648-1649, 1653, 1676, 1746, 1795, 1802, 1848, 2032. Cl.Pal. s.m. Lem. Passos (182, 501, 538, 545, 549, 550, 552, 555, 708, 714, 726, 728, 733, 962, 966, 981, 989, 1012, 1020, 1037, 1048, 1059, 1074, 1077, 1082, 1083, 1089, 1092, 1094, 1096, 1118, 1121, 1123, 1208, 1218-1219, 1222, 1237, 1249, 1281, 1356, 1408, 1416, 1424, 1430, 1433, 1434, 1435, 1436, 1437, 1438-1439, 1440, 1442, 1451, 1521, 1524, 1541, 1553, 1555, 1557, 1560, 1579, 1601, 1623, 1627-1628, 1703, 1718, 1726, 1749-1750, 1754, 157, 1760, 1761, 1781-1782, 1797, 1808, 1817, 1821, 1824, 1890, 1893, 1894, 1896, 1897, 1925, 1928, 2105, 2107, 2130) Freq. 113 Etim. Do latim passus. O ato de andar, passage. (CUN, p.585) Df.Ms. Passo realizado pelos soldados de uma tropa com o mesmo pé em igualdade e cadência em alinhamento [rec]. Ref.Lex. O movimento que se faz andando. (Tomo II, p. 408) Ex. “Para o soldado saber marchar, he preciso fazêlo ser senhor do seu corpo, e do seu passo, ensinando-o a ganhar oequilibrio [...]” (ls. 354-356) Sin. Passo de escolla. Passo Militar. PASSO CURTO Ls. 1532, 1537, 1733, 1810, 1843, 1974, 2147, 2150, 2166-2167. Cl.Pal. s.m. Lem. Passos curtos (1567, 1744) Freq. 11 Df.Ms. Passo realizado com menos de setenta passos de vinte e quatro polegadas por minuto [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...]os da esquerda fazem tres passos curtos continuando as da direita asua marcha com toda aextensão dopasso [...]” (ls. 1744-1746) Sin. Passo descançado. 272 PASSO DA ESCOLLA Ls. 503 Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 01 Df.Ms. Passo realizado pelos soldados de uma tropa com o mesmo pé em igualdade e cadência em alinhamento [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “Para se explicar ao soldado os principios da marcha se usará do passo da escolla, ese lhe poderá dar mais ou menos pauza, ou velocidade [...]” (ls. 502-504) Sin. Passo. Passo Militar. PASSO DE COSTADO Ls. 1591. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 01 Df.Ms. Passo militar realizado para o lado direito ou lado esquerdo [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...] pois sepode romper por meios pelotoens sobre qualquer dos flancos por quarto de conversão, ou formar colunna sobre avanguarda pela marcha graduada, ecom o passo obliquo, ou de costado[...]” (ls. 1588-1591) Sin. Passo obliquo. PASSO DE ESTRADA Ls. 555. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 01 Df.Ms. Passo de oitenta a noventa passos de vinte e quatro polegadas por minuto (ls.548- 549). Ref.Lex. Ø 273 Ex. “ [...] o militar francês determina o passo de estrada de noventa acem passos por minuto [...]” (ls. 554-555) PASSO DESCANÇADO Ls. 516, 521. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 02 Df.Ms. Passo realizado com menos de setenta passos de vinte e quatro polegadas por minuto [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...] Depois se ensinarão amarchar o mais depressa que for possivel, sem perder operfil; e mudar para opasso descançado, passando de huma cadencia a outra repetidas vezes [...]” (ls. 519-522) Sin. Passo curto. PASSO DOBRADO Ls. 538, 1047, 1053, 1071, 1100, 1132, 1305, 1353, 1367-1368, 1431-1432, 1525, 1529, 1569, 1648, 1652, 1748, 1788, 1799, 1805, 1841, 1846, 1886, 1915, 1947, 1959, 1985, 2031, 2071, 2091, 2153, 2168-2169. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 31 Df.Ms. Passo realizado com cento e vinte a cento e trinta passos de vinte e quatro polegadas por minuto (ls.548-549). Ref.Lex. Ø Ex. “[...] depois defazer alguns passos largos, para que os pelotoens obliquem com facilidade [...]” (ls. 1841-1843) Sin. Passo largo. PASSO LARGO Ls. 1987. Cl.Pal. s.m. 274 Lem. Passos largos (1842) Freq. 02 Df.Ms. Passo realizado com cento e vinte a cento e trinta passos de vinte e quatro polegadas por minuto (ls.546-547). Ref.Lex. Ø Ex. “ Se atesta da colunna for marchando apasso dobrado, depois defazer alguns passos largos, para que os pelotoens obliquem com facilidade, fará passo curto athé que formem em linha [...]” (ls. 1840-1844) Sin. Passo dobrado. PASSO MILITAR Ls. 350. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 01 Df.Ms. Passo realizado pelos soldados de uma tropa com o mesmo pé em igualdade e cadência em alinhamento. Ref.Lex. Ø Ex. “Em cada regimento ha huma escolla de ensino, onde as recrutas apprendem a marchar em ordem, e o passo militar; e he de grande consequencia, que ella seja inspeccionada por hum oficial de conhecida capacidade [...]” (ls. 348-352) Sin. Passo. Passo de escolla. PASSO OBLIQUO Ls. 1108, 1120, 1125, 1542, 1570, 1591, 1603, 1734, 1737, 1738, 1748, 1754, 1778, 1779, 1787, 1853, 1967-1968, 1978. Cl.Pal. s.m. Lem. Passos obliquos (1997-1998, 2010) Freq. 20 Df.Ms. Passo militar realizado pela tropa, para esquerda ou para direita [rec]. Ref.Lex. Ø 275 Ex. “Da mesma sorte se pode regular o tempo que tardará o batalhão marchando em colunna com distancia, para formar em linha sobre avangarda, ou seja, pelo passo obliquo sómente, ou seja por oitavos de conversão [...]” (ls. 1105-1109) Sin. Passo de costado. PASSO ORDINÁRIO OU NATURAL Ls. 537-538, 540, 1038-1039, 1042-1043, 1305, 1525, 1570, 1644, 1651, 1680, 1787- 1788, 1792, 1793, 1846, 2152-2153, 2168. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 16 Df.Ms. Passo realizado pelo soldado com setenta passos de vinte e quatro polegadas por minuto (ls.540-546). Ref.Lex. Ø Ex. “O passo natural, como he opasso habitual das tropas em toda a occasião, que não manobrão, deve ser commodo, e fácil [...]” (ls. 540-542) PATRONA Ls. 771 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Etim. Do alemão patrone, cartucho. Nome dado à cartucheira dos militares. (NAS, Tomo I, p.385) Df.Ms. Recipiente acoplada a um cinto em que os soldados levam pólvora encartuchada [rec]. Ref.Lex. Cartucheira em que os soldados levam a pólvora encartuchada. Vai em um cinto diante da cintura ou a tiracolo. (Tomo II, p. 412) Ex. “[...] Este redingote teria a commodidade de resguardar a mochîla, epatrona da agoa nas marchas[...]” (ls. 770-771) 276 PELOTÃO Ls. 1117, 1324, 1381-1382, 1385, 1390, 1393, 1394, 1405, 1408, 1423, 1430, 1433, 1434, 1449, 1477, 1481, 1557-1558, 1571, 1572, 1646, 1667-1668, 1671, 1704, 1708, 1715, 1727, 1785, 1793, 1807, 1815, 1819, 1847-1848, 1856, 1861, 1902, 1907, 1921, 1932, 1975, 1979, 2009, 2017, 2024, 2029, 2033, 2045, 2046, 2053, 2057, 2072, 2072, 2093, 2106, 2112, 2113, 2122, 2124, 2134, 2142, 2150, 2155, 2167, 2169-2170, 2172. Cl.Pal. s.m. Lem. Pelotoens (1003, 1016, 1020, 1076, 1084, 1127, 1137, 1365, 1366, 1369, 1388, 1398, 1419, 1449-1450, 1454, 1460, 1469, 1485, 1488, 1489, 1499, 1527, 1532, 1533, 1539, 1551, 1561, 1565, 1566, 1575, 1578, 1589, 1594, 1614, 1643, 1657, 1665, 1669, 1672, 1680, 1682, 1692, 1695, 1701, 1705, 1716, 1722, 1723, 1724, 1732, 1733, 1742, 1742, 1751, 1759, 1766, 1780, 1786, 1789, 1808, 1827, 1830, 1833, 1842, 1852, 1876, 1914, 1916, 1926-1927, 1938, 1943, 1947, 1956, 1960, 1967, 1984, 1986, 1991, 1993, 2010, 2024, 2038, 2041, 2047-2048, 2052, 2056, 2066, 2087, 2089-2090, 2121. Freq. 90 Etim. Cada uma das três partes em que se divide uma companhia de soldados. Do francês peloton. (CUN, p.592) Df.Ms. Unidade menor que a Companhia [rec.] Ref.Lex. Na milícia, companhia em que se divide o Regimento. (Tomo II, p.424) Ex. “Na conversão, o soldado dolado, que fáz avolta hade andar tantos passos como o pelotão tem defrente, emais ametade;[...]” (ls.1429-1431) POLAINA Ls. 823 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Etim. Do francês antigo poulaine. Antigo nome francês da Polônia. Os calçados eram feitos com pele da Polônia. (NAS, Tomo I, p.407) Df.Ms. Meias de pele que os soldados calçam por fora do sapato e chegam até o peito do pé [rec]. 277 Ref.Lex. Meias de pano de linho encerado que se abotoam pelo lado e chegam até o peito do pé. Calçam-se sobre as meias e por fora dos sapatos. Os soldados as usam. (Tomo II, p. 463) Ex. “[...]O soldado, ow não deverîa trazer meias por baixo das polainas ow botina[...]” (ls. 822-823) PORTABANDEIRA Ls. 1314 Cl.Pal. s.m. Lem. portabandeiras (321) Freq. 02 Etim. Ø Df.Ms. Militar com o cargo de levar a bandeira de sua unidade nas formaturas de combate [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “Quando huma linha houver de marchar, se indicará o batalhão de alinhamento, eso lhe determinará a direcção, dando aos portabandeiras dous pontos de vista [...]” (ls. 319- 321) PORTAMACHADO Ls. Ø Cl.Pal. s.m. Lem. portamachados (2102) Freq. 01 Etim. Ø Df.Ms. Soldado da linha de vanguarda que leva um machado, além da arma, para abrir caminhos [rec]. Ref.Lex. Soldado que leva um machado, além da arma, para abrir caminho em matos. (Tomo II, p. 474) Ex. “[…] A éstavoz, as bandeiras andão=ádireita=e vão postar-se com os sargentos portamachados [...] (ls. 2101-2102) 278 Q ___________________________________________ QUARTEL Ls. Ø Cl.Pal. s.m. Lem. Quarteis (774) Freq. 01 Etim. Do espanhol cuartel. O sentido de lugar para alojar tropa, caserna, veio do de quarteirão de cidade (francês quartier). (NAS, Tomo I, p. 425) Edifício onde se alojam as tropas, caserna. (CUN, p.652) Df.Ms. Lugar onde se alojam as tropas de um exército [rec]. Ref.Lex. Casa de aposentadoria própria dos soldados. O lugar onde o soldado está aquartelado. (Tomo II, p. 534) Ex. [...] além de poupar a farda do mesmo soldado, que nos quarteis poderia trazêlo só com aveste [...]” (ls. 773-775) Sin. Reduto. 279 R ___________________________________________ RECRUTA Ls. 435, 505. Cl.Pal. s.f. Lem. Recrutas (349, 428, 463-464, 491-492, 536) Freq. 07 Etim. Do francês recruter. Do verbo recrutar ‘arrolar para o serviço militar’. (CUN, p.668) Df.Ms. Soldado novo, recém recrutado, que ainda não está completamente iniciado nas artes militares [rec]. Ref.Lex. Soldado novo, bisonho, que se fez recentemente. Soldado recrutado para o serviço militar. (Tomo II, p. 570) Ex. “Em cada regimento ha huma escolla de ensino, onde as recrutas apprendem a marchar em ordem [...]” (ls. 348-350) Sin. Soldado peralta. REDINGOTE Ls. 766, 770. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 02 Etim. Do inglês riding-coat. Entrada pelo português via francês redingote. Casaco de montar. (NAS, Tomo I, p.437) Df.Ms. Vestimenta militar com mangas larga, cores da divisa do regimento a qual pertence o soldado, que se veste por cima da farda e da mochila e que permite os movimentos da perna com liberdade. Serve para proteger a farda, a mochila e a patrona da água das chuvas nas marchas e, assim, conservar o soldado enxuto [rec]. Ref.Lex. O mesmo que sobrecasaca, ou casacão largo que se veste sobre a casaca, ou fraque, contra a chuva, ou frio, e para montar a cavalo. (Tomo II, p. 573) Ex. “[...] seria bom que o soldado infante tivesse hum redingote com mangas largas [...]” (ls. 765-766) 280 REDUTO Ls. 1871, 2062. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 02 Etim. Do latim reductus. Pelo italiano ridotto. Lugar onde todos se devem reunir para a defesa. Refúgio, abrigo, recinto. (NAS, Tomo I, p.437; CUN, p.670) Df.Ms. Recinto militar [rec]. Ref.Lex. Pequeno forte quadrado sem nenhuma outra defensa, que a da frente sem baluartes, mas tem fosso, parapeito, banqueta e terrapleno. Faz-se de ordinário nas trincheiras, circunvalações e contravalações, e talvez se reveste de muralha, se o lugar onde fica se reveste de mar ou rio. Espaço cercado. (Tomo II, p. 575) Ex. “[...] marchando em dispozição graduada ao attaque de hum reduto [...]” (ls. 2061-2062) Sin. Quartel. REGIMENTO Ls. 348 Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 01 Etim. Do verbo reger, do latim regere. Do latim tardio regimentum. Governar, administrar, dirigir. (CUN, p.671) Df.Ms. Unidade militar, tradicionalmente comandada por um Coronel, constituída de várias Companhias [rec]. Ref.Lex. Unidade que consta de várias Companhias. (Tomo II, p. 584) Ex. “Em cada regimento ha huma escolla de ensino, onde as recrutas apprendem a marchar em ordem [...]” (ls. 348-350) RETAGUARDA Ls. 1025, 1030, 1110, 1240-1241, 1304-1305, 1387, 1529, 1558, 1576, 1577, 1616, 1617, 1645, 1648, 1651, 1659, 1743, 1760, 1925-1926, 1977, 1980, 1988-1989, 1993, 2019, 2025, 2047, 2055, 2088, 2091, 2096, 2103, 2129-2130, 2158, 2159-2160, 2164, 2173. Cl.Pal. s.f. 281 Lem. Rectaguarda (37) Freq. 37 Etim. Do italiano retroguardia. Último elemento de tropa, de unidade ou subunidade em campanha. A parte traseira, em relação à frente ou dianteira. (CUN, p.681) Df.Ms. É o retângulo suposto detrás de uma tropa, de maneira que dois dos seus lados sejam paralelos à linha das espadoas, e os outros dois sejam perpendiculares a esta linha (ls.37-40). Ref.Lex. A traseira, o último esquadrão do exército. A última Companhia ou fileira do Regimento.(Tomo II, p. 616) Ex. “[...] cada hum de duas fileiras, principiando pela retaguarda [...]” (ls. 1615-1616) Sin. Fundo. 282 S ___________________________________________ SARGENTO Ls. Ø Cl.Pal. s.m. Lem. Sargentos (2102) Freq. 01 Etim. Do francês sergent derivado do latim serviens. Graduação hierárquica acima de cabo e abaixo de suboficial ou subtenente. (CUN, p.707) Df.Ms. Oficial inferior militar [rec]. Ref.Lex. Oficial inferior militar, que recebe as ordens do ajudante e as participam ao seu Capitão, distribui as deste aos subalternos cabos de esquadra e soldados, compõem as filas e posta as sentinelas. (Tomo II, p. 670) Ex. “ [...]as bandeiras andão=ádireita=e vão postar-se com os sargentos portamachados, eofficiaes, eofficiaes inferiores [...]” (ls. 2101-2102) SOLDADO Ls. 32, 270, 286, 287, 291, 331, 338, 339, 354, 356, 358, 361, 369, 398, 409, 411, 413, 416, 429, 469, 502, 516-517, 553, 570, 608, 618, 621-622, 634, 648, 666-667, 673, 695, 716, 733, 741, 743, 764, 765, 772, 774, 789-790, 791, 801, 804, 806, 817, 822, 871, 889, 916, 981, 984, 1095, 1118, 1370, 1374, 1377, 1421, 1429, 1536, 1617, 1638, 1693, 1823, 1844, 1974, 2157, 2162, 2163, 2165, 2173. Cl.Pal. s.m. Lem. Soldados (130, 268, 312, 333, 405, 589, 606, 670, 777, 834, 1279, 1315, 1343, 1353, 1368-1369, 1402, 1414, 1506, 1508, 1639) Freq. 91 Etim. Do italiano soldato, particípio passado do latim solidare. Individuo alistado nas fileiras do exército, ou nas forças policiais estaduais. (CUN, p.732) Df.Ms. Genericamente, qualquer indivíduo pertencente às Forças Armadas. Especificamente, qualquer recruta após o término da instrução básica [rec]. Ref.Lex. Homem alistado para serviço militar, exercitado nele, na graduação é a última classe abaixo dos anspeçadas. (Tomo II, p. 716) 283 Ex. “O soldado para a infanteria não deve baixar de sessenta ehuma polegada, ao menos, no nosso payz [...]” (ls. 339-340) SOLDADO PERALTA Ls. Ø Cl.Pal. s.m. Lem. Soldados peraltas (828-829) Freq. 01 Df.Ms. Soldados novatos, sem experiência nas artes militares ou sem instrução militar completa [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “Diz o Marechal de Saxo que aos soldados peraltas lhes não agradará ésta cautella, mas que aos veteranos, que tem feito muitas campanhas, não he preciso, que se lhe recommende, pela utilidade, que tem experimentado.” (ls. 828-832) Sin. Recruta. SOLDADO VETERANO Ls. Ø Cl.Pal. s.m. Lem. Soldados veteranos (830) Freq. 01 Df.Ms. Soldados experientes nas artes militares [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “Diz o Marechal de Saxo que aos soldados peraltas lhes não agradará ésta cautella, mas que aos veteranos, que tem feito muitas campanhas, não he preciso, que se lhe recommende, pela utilidade, que tem experimentado.” (ls. 828-832) 284 T ___________________________________________ TACTICA Ls. 03, 12, 14, 16, 19, 91, 558, 2208. Cl.Pal. s.f. Lem. Tactique (476) Freq. 09 Etim. Do francês tactique, derivado do grego taktike. Parte da arte da guerra que trata da disposição e da manobra das forças durante o combate ou na iminência dele. (CUN, p.757) Df.Ms. É a arte de formar tropas, movê-las, e ordená-las de novo em todos os acontecimentos possíveis, na disposição conhecida por mais vantajosa. É a ciência da ordem (ls.16-20). Ref.Lex. Arte de ordenar os exércitos em ordem de batalha, e de fazer as evoluções militares e guerrear. (Tomo II, p. 749) Ex. “[…] O projecto, emfim, de tactica do Barão du Mussil Durand ficou triunfante das rasoens detodos os seos contrários [...]” (ls. 2207-2209) TENALHA Ls. 1613 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Etim. Do latim tenaculu. Pelo provençal tenalha. Pequena obra de fortificação. (NAS, Tomo I, p.489; CUN, p.762) Df.Ms. Formação militar em forma da fortificação tenalha [rec]. Ref.Lex. (fortificação) É obra que tem na frente dois ângulos salientes e um reintrante e consta de duas faces. (Tomo II, p. 764) Ex. “[...]Se for obrigado a combater contra a cavallaria, cuidará em apoiar os seos flancos; enão havendo aonde, setrousser com sigo as Granadeiros, formará com elles huma tenalha acada flanco [...]” (ls. 1610-1614) 285 TESTA Ls. 139, 1224, 1508, 1774, 1791, 1800, 1816, 1825, 1831, 1840, 1845, 1903, 1979, 2017, 2024, 2044, 2070, 2091. Cl.Pal. s.f. Lem. Testas (1501) Freq. 19 Etim. Do latim testa. Parte do rosto entre os olhos e a raiz dos cabelos anteriores da cabeça. (CUN, p.767) Df.Ms. A vanguarda, parte da frente de uma formação militar [rec]. Ref.Lex. Frente do exército. (Tomo II, p. 771) Ex. “[...]Se atesta da colunna for marchando apasso dobrado, depois defazer alguns passos largos [...]” (ls. 1840-1842) Sin. Frente. Vanguarda. TRINCHEIRA Ls. 1166. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Etim. Do francês trenchier (hoje trancher), derivado do latim popular trinicare, derivado do latim trini. Escavação no terreno para proteção dos combatentes. (CUN, p.790) Df.Ms. Fosso feito pelos militares, para fins de defesa e ataque, que pode ser feito por escavação ou de armas, cestões, sacos de terra e salsichas [rec]. Ref.Lex. Fosso, que os cercadores fazem para chegarem cobertos ao pé do muro da praça sitiada, talvez se faz de cestões, sacos de terra, salsichas. (Tomo II, p. 810) Ex. “ [...] esefáz forte com a espessa trincheira das suas baionetas para poder resistir ao impeto da outra. Nesta pozição, verdadeiramente respeitavel, he que ella pertende esperar sem temor a cavallaria.” (ls. 1165-1169) TROPA Ls. 23, 34, 38, 43 ,65, 75, 83, 97, 104, 117, 133, 160, 163, 168, 180, 183, 193, 223, 241, 277, 284, 304, 423, 592, 598, 861, 865, 991, 1087, 1099, 1114, 1119, 1150, 1216, 1235, 1242, 1281. 286 Cl.Pal. s.f. Lem. Tropas ( 09, 11-12, 16, 22, 46, 48, 52, 65, 68, 69, 71, 73, 97, 186-187, 204, 207, 211, 252, 254, 258, 278, 508, 541, 1253) Freq. 61 Etim. Do francês troupe, provavelmente derivado regressivo de troupeau, antigo francês tropel, rebanho (logo empregado adverbialmente no sentido de muito, demasiadamente). Conjunto de soldados, multidão. (CUN, p.793) Df.Ms. É um termo militar que significa um ajuntamento de homens destinados para combater (ls.43-45). Ref.Lex. Forças militares, gente de guerra. (Tomo II, p. 814) Ex. “[…] aquelle movimento, que huma tropa executa sem mudar a sua dispozição, eformatura= [...]” (ls. 23-24) 287 V ___________________________________________ VANGUARDA Ls. 33, 116, 121, 125, 135, 576, 1119, 1215, 1304, 1563, 1569, 1573, 1590, 1644, 1651, 1652, 1661, 1680, 1710, 1762, 1883, 1908, 1924-1925, 1948-1949, 1963-1964, 1988, 2001, 2022, 2033, 2066, 2073, 2122, 2130-2131, 2157, 2157, 2159, 2164, 2173. Cl.Pal. s.f. Lem. Vanguardas (213); Vangarda (1107-1108, 1560) Freq. 41 Etim. Do francês avant-garde, através da variante antiga avanguarda. Originalmente parte dianteira de uma unidade militar (ou subunidade) em campanha. Acepção extensiva de frente e dianteira. (CUN, p.810) Df.Ms. É o retângulo suposto diante de uma tropa, de maneira que dois dos seus lados sejam paralelos à linha das espadoas; e os outros dois sejam perpendiculares a ela (ls. 33- 36). Ref.Lex. A dianteira, frente, testa do exército, regimento. (Tomo II, p. 829) Ex. “[...]Se marchar fazendo frente para a vanguarda, que he omais usado, pode seguir ou a diagonal do quadrado [...]” (ls. 575-577) Sin. Frente. Testa. 288 4.2. Elementos de tactica para a infantaria 4.2.1. Edição paleográfica Elementos de tactica para a infantaria pelo conde d’Oeynhausen, Marechal de campo dos Exércitos de sua Magestade Fidelíssima [fól. 7r] 1 Introducção54 A tactica que he huma das partes mais importante da Arte da Guerra, com prehende o conhecimento das evoluções militares, 05 e he a arte de formar tropas, e de as mover segun do o que mais convem nas diversas occasiões, que pode haver na Guerra, e de tal modo, que assim no ataque, como na defeza, possão as tropas usar melhor das Armas, e desenvolver, e fazer valer as suas forças. 10 Este conhecimento de que dependem mais que tudo os sucessos brilhantes da Guerra, tem os se guintes principios deduzidos da experiência, e do cal culos 1° A promptidão, que determina a velocidade 15 com que se deve executar cada manovra, conser vando quanto fôr possível a boa ordem: 2° A facilidade, que exclue qualquer complica cão nas manovras 3° A exacção, que estabelece nas evoluções, o que 54 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 289 [fól. 7v] 2 20 cada porção de tropas deve praticar, e a dirige nos seus movimentos por pontos fixos, que obrigão a fa zer as mesmas evoluções, do modo que devem ser exe cutadas: 4° A segurança, e a cautela, que se deve observar 25 nas manovras, sendo preciso pratica-las á vista do Inimigo debaixo do seu alcance, e a combinação que nesta matéria deve haver, para que as tropas, que chegarem onde se devem formar possão proteger as que se acharem ainda em marcha. 30 A estatura mediana dos nossos soldados, nos obriga a determinar o seu passo da extenção de vinte e quatro pollegadas o terreno, que occupa de fren te cada soldado, medido de cotovêlo a cotovelo, em cu jos termos não haverá engano em dar a cada cinco fi 35 las quatro passos; mas como esta medida não pó de ser igual em todos os que compõem hum Bata lhão de duzentas até trezentas filas, sobeja terreno, que será destinado para o intervallo dos Bata lhões, onde devem ser postas duas peças de Campa 40 nha. A experiência tem dado a conhecer, que o sol dado esquipado para a Guerra com armas, e mochila 290 [fól. 8r] 3 não pode conservar na marcha a boa ordem, fazendo mais de settenta e dous passos por minuto: Esta 45 he amedida, que se deve estabelecer para o seu passos de entrada, ou de manovra: He esta, em que de ve ser mais continuadamente exercitada, por ser o que serve de regra para a combinação das maiores mano vras, e nestes termos bem se vê, que qualquer excesso 50 ou diminuição nesta matéria poderá dar de si erro de grande conseqüência. Ha porem casos em que o passo se deve accele rar, ou retardar: Deve retardar-se, quando hum Batalhão faz fogo por polutões avançando, ou quan 55 do a testa de huma columna quer dar tempo aos da sua retaguarda, para sahirem de hum desfiladeiro: E deve accelerar-se nos movimentos rápidos de pi quena distancia, como por exemplo nas conversões, e nos ataques de baioneta, advertindo, que nestes últi 60 mos casos deve o movimento calcular-se a cem passos por minuto, e deve nelle o Soldado estar igualmente exercitado. A invenção da palavra, e os seus effeitos, tem influido grandemente na tactica moderna, e obri 65 ga a formar a Infantaria na ordem, em que pode fa zer melhor uso das armas de fogo, e ter no mesmo tem po força bastante para resistir ao choque da Cavalla 291 [fól. 8v] 4 ria. Também se attende a não arriscar dema siadamente as tropas ao effeito mortífero da arti 70 lheria, que causaria nellas maior estrago, se fosse mais profunda a sua ordem, e estas consideraçoens são as que tem feito determinar a formatura da Infantaria em três fileiras. Nota. 75 Neste Tractado se chamará passo ordinário ao de settenta e dous por minuto: Passo acce lerado, ao de cem por minuto: Passo lento, ao de cincoenta por minuto: E passo de pelotão, ao de trinta e seis por minuto; advertindo, que este ulti 80 mo, em vez de ser como os mais de vinte e quatro pol legadas, será somente de dezoito. Em todas as evoluções a pé firme deve o cal canhar esquerdo do Soldado ficar fixo, e servir de peão para voltar sem sahir do seu lugar; nem perder 85 o alinhamento: Deve ter o peito sahido para fora: A cabeça alta : O corpo direito: O semblante natural, e sem affectação de arrogância: O movimento das pernas partirá do quadril, e não do joelho, e será feito com firmeza, para o acompa 90 nhar o corpo equilibrado: Os soldados não de vem estar apertados nas fileiras: basta que to 292 [fól. 9r] 5 quem levemente os cotovelos, e esta casta de união de pouco aperto, he precisa para que todos os seus movimentos na marcha, e nos ataques, sejão livres: 95 Estes princípios devem observar-se com a mais escrupulosa attenção no ensino das reclutas, e no exer cicio dos Soldados, porque delle depende o bom ali nhamento das tropas, o qual de hum certo modo 55 se pode considerar como alma da Tactica. 100 A Tactica comprehende as cinco partes seguintes 1° Os princípios particulares de firmar reclutas, e ensinar soldados, de que não posso ainda agora tra ctar, por conta do que se acha deste gênero nos novos regulamentos de sua Magestade Fidelíssima 105 2° As evoluções que hum Batalhão formado em Batalha pode executar no terreno que occupa. 3° As evoluções, que deve fazer hum Regimen to posto em marcha, quando encontra obstáculos, que o obrigão a estreitar-se, ou dividir-se, e conforme também 110 ao seu objecto, e a qualidade do terreno. 4° As evoluções de formatura segundo as circum 55 Ao longo da fonte documental original, linhas retas aparecem traçadas no intuito de separar capítulos, parágrafos, subcapítulos, seções e/ou idéias contidas no texto. Para esta edição, optou-se por manter indicadas as suas representações gráficas e não as consideramos linhas a serem contadas. 293 [fól. 9v] 6 stancias, que podem fazer diverso o modo de entrar em batalha 5° As manovras de muitos Regimentos uni 115 dos em corpo de Exercito. SECÇÃO 2° Evoluções do Batalhão sem sahir do seu terreno56 Estas evoluções se reduzem, 1º A mudar frente sobre a rectaguarda 120 2º Sobre alguns dos flancos, 3º ou obliquamente Mudar frente sobre a rectaguarda Executa-se por dois modos 1º Por meia volta á direita. 125 2º Por contra-marcha. O Batalhão formado em Batalha, tem dous ob jectos, virando á rectaguarda: 1º Fazer cara ao Inimigo, que inesperadamente se apresenta 130 por essa parte. 2º Retirar-se á vista do mesmo Inimigo. 56 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 294 [fól. 10r] 7 No primeiro caso, virando a rectaguarda por meia volta á direita, ainda que se troca a ordem das fileiras 57 não se troca a ordem dos postos, que os Officiaes occupão 135 no Batalhão, porque passão apressadamente pelos intervallos dos Pelotoens; a saber: Os Commandan tes dos Pelotoens, para a frente da terceira fileira, que fica sendo primeira; e os Officiaes, e Officiaes inferio res da rectaguarda, para a rectaguarda da primeira 140 fileira; que vem a ser terceira. No segundo caso não he precisa esta mudança,58 e conservão-se os Officiaes nos seus lugares. ______________________________________________ Usa-se de contra-marcha, para virar á rectaguar da, conservando a primeira ordem de fileiras, e 145 Se executa por dous modos 1º Movendo-se as filas ao mesmo tempo 2º Movendo-se progressiva mente cada hum no seu terreno. 150 No primeiro modo, tendo o Batalhão feito à di59 reita, se move tudo ao mesmo tempo, á voz marcha, e cada fila firma o passo na pista, que deixou a fila, que A precede, e querendo conservar-se o mesmo terreno, se 57 Aparece escrito < Figura 1>, com tinta preta, na margem direita da linha 133. 58 Aparece escrito < Figura 2>, com tinta preta, na margem direita da linha 141. 59 Aparece escrito < Figura 3>, com tinta preta, na margem direita da linha 150. 295 [fól. 10v] 8 marcão as duas álas com Officiaes inferiores. 155 O mesmo se faz para a esquerda. 60He regra geral andar á direita se a posição, que se quer tomar, he para a frente do terreno, que o Ba talhão occupa; e andar á esquerda se he para a re ctaguarda. 160 No segundo modo tendo o Batalhão feito á direita, e seguindo-se a isso a voz marcha, a primei ra fila da direita (que fica sendo fileira durante o mo 61vimento) faz quarto de conversão á esquerda; e depois de ter avançado hum passo, faz outro quarto á esquer 165 da; as fileiras que se seguem, fazem outro tanto, prin cipiando cada huma o seu quarto, quando o acaba, a que a precede; e assim, por dous quartos de conversão, contra marcha o Batalhão pela frente do terreno que occupa. 62Querendo tomar o terreno para a rectaguarda; 170 anda o Batalhão á esquerda, e trabalha debaixo do mesmo principio invertido. Este segundo modo, não he tão bom como o pri meiro, porque por elle perde o Batalhão o seu terreno da direita, quando contra-marcha para a esquerda; e 175 o da esquerda quando contra-marcha para a direita; mas não deve ser desconhecido a Tropa, e he bom que 60 Aparece escrito < Figura 4>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 156. 61 Aparece escrito < Figura 5>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 163. 62 Aparece escrito < Figura 6>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 169. 296 [fól. 11r] 9 esteja exercitada nelle, porque ha casos, em que pode ser conveniente. Mudar frente sobre o flanco63 180 Este movimento se executa por hum quarto de conver são, fazendo pião; 1º Na direita. 2º Na esquerda. 3º No centro ou em qualquer ou 185 tro ponto de Batalhão. Se o quarto he para a direita, o Chefe do Batalhão manda fazer ao primeiro Pelotão da direita, quan to de conversão á direita, formando hum angulo de 64 novento gráos, e estabelecido por este modo hum novo pon 190 to de alinhamento, faz cada hum dos sette Pelotoens, que restão, meio quarto de conversão (que vem a ser hum angulo de quarenta e cinco gráos, o qual se acha, dan do cada lado movente, ametade do numero de pasos, que deo o primeiro verbi gratia65. Quinze, quando o primeiro deo trin 195 ta; nesta disposição páram, e á voz marcha, marchão todos ao mesmo tempo, cada hum na sua frente, e quan do o lado direito de cada Pelotão, chega a altura da es querda do Pelotão, que o precede; os Commandantes mandão fazer alto; e mandão acabar o quarto aos que 63 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 64 Aparece escrito < Figura 7>, com tinta preta, na margem direita da linha 188. 65 A abreviatura latina v.g., referente à expressão verbi gratia, significa ‘por exemplo’. 297 [fól. 11v] 10 200 só tinhão feito ametade para ficarem todos perfila- dos no novo alinhamento. Os Commandantes dos Pelotões, devem ter grande cuidado em não car regar para o lado, que se move; porque he hum defeito, de que resulta; perlongamento na linha, e intervallos na 205 frente do Batalhão. Logo que o ultimo Pelotão che ga ao alinhamento; o Major deve passar da direita á esquerda, fazendo perfilar. Esta evolução, executa-se para a esquerda debaixo 66dos mesmos principios, que para a direita. 210 Se o quarto he para a direita sobre o centro; o Pe lotão do centro faz quarto à direita sobre hum angulo de noventa gráos; e dado por este modo o novo alinha mento; a ala direita faz meia meia volta á direita; depois 67cada Pelotão faz meio quarto de conversão sobre a 215 direita, para marchar cada hum na sua frente ao ali nhamento dado pelo Pelotão do centro, e se perfilão com elle os Pelotões da ala direita do Batalhão, tor nando á frente por meia volta á esquerda. Se o quarto he para a esquerda sobre o centro; o 220 68Pelotão; que dá o novo alinhamento, faz quarto de con versão á esquerda; a ala esquerda dá meia volta á di 66 Aparece escrito < Figura 8>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 209. 67 Aparece escrito < Figura 9>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 214. 68 Aparece escrito < Figura 10>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 220. 298 [fól. 12r] 11 reita, e o resto se continua debaixo dos principios re feridos. ____________________________________________ Mudar frente sobre huma linha obliqua 69 225 Faz-se á direita. á esquerda. sobre o centro. Para tomar huma posição obliqua para a direi 230 ta: sendo o pião o Capitão A do lado direito, se to ma hum ponto de vista B sobre a frente da es 70 querda, que pode ser qualquer objecto distincto; co mo por exemplo, huma arvore, hum moinho, huma torre, ou cousa similhante: Na falta de hum obje 235 cto destes, se poem hum Official inferior á esquer da do Batalhão para servir de ponto de alinha mento. Feito isto, o Pelotão da direita, fará a por ção da conversão precisa para entrar no alinhamen to marcado. Os sette Pelotoens, que restão, en 240 tre A e B fazem para o mesmo lado ametade da conversão, que fez o Pelotão da direita: fazem alto e a voz marcha; marchão cada hum na sua fren te; e entra no novo alinhamento do mesmo modo que 69 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 70 Aparece escrito < Figura 11>, com tinta preta, na margem direita da linha 231. 299 [fól. 12v] 12 na fig 7. 245 71O quarto para a esquerda se faz debaixo dos mesmos principios, que para a direita. O mesmo se executa sobre o Pelotão do centro, 72ou qualquer outro Pelotão, debaixo dos principios 73demonstrados na Figura 9. 250 Se durante este movimento o Batalhão se vê atacado pela Cavallaria; os Pelotões, que estão já no novo alinhamento, fazem fogo sobre o Inimigo; e os outros, que estão ainda em marcha, fazem alto, e por 74huma porção de conversão, juntão os lados dos Pelo 255 tões, para não deixarem nenhum intervallo entre si; fazem fogo nesta postura; e espalhado que seja o Ini migo, tornão a pôr-se em escarpa, e acabão de tomar o alinhamento obliquo, que se tinha marcado. Nota. 260 Aqui se vê bem claramente, a razão com que se per tende, que os Pelotões, em quanto marchão, não car- reguem nada para o lado movente; porque se carregão, fica-lhe sendo impossivel, unir os lados dos Pelotoens; e por consequencia offerecem intervallos, por onde a Ca- 265 vallaria pode penetrar. 71 Aparece escrito < Figura 12>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 245. 72 Aparece escrito < Figura 13>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 248. 73 Aparece escrito < Figura 14>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 249. 74 Aparece escrito < Figura 15>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 254. 300 [fól. 13r] 13 Quando hum destacamento, ou qualquer cor- po pequeno, tem que tomar huma posição obliqua; Em lugar de marcar o alinhamento, com hum Pelo tão inteiro; o marca com duas, ou tres filas, e o resto 270 da Frente, entra por filas, no novo alinhamento com hum movimento progressivo. Deste methodo não pode usar huma frente grande; porque ficaria sujeita a muita confusão. _________________________________________ Secção 3. 275 Evoluçoens da marcha.75 Sendo impossivel, que hum Batalhão marche, por muito tempo, em frente de Batalha, sem encon trar obstaculos, que perturbem a conservação desta or dem; segue-se, que offerecendo-se estes obstaculos, he pre 280 ciso mudar de formatura, para marchar com menor fren te. A este movimento se chama, meter em colu mna. A qual se forma por tres modos, a saber, 1º. Pela direita. 2º. Pela esquerda. 285 3º. Pelo centro 75 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 301 [fól. 13 v] 14 Forma-se pela direita, quando o Pelotão da direita marcha na frente, levando todos os mais na rectaguarda, pela sua ordem. Então se diz, que o Pe lotão da direita he testa de columna, e este mesmo no 290 me se dá a qualquer outro Pelotão, que marcha na frente. Forma-se pela esquerda, quando o Pelotão da esquerda marcha na frente. Forma-se pelo centro, quando os Pelotoens do centro marchão na frente; pondo-se na rectaguar 295 da do 4º Pelotão, o 3º.,2º.,1º., e na rectaguarda do 5º. Pe lotão, o 6º., 7º., 8º. Usa-se menos da columna pelo centro, porque a frente de dous Pelotoens, ainda he grande, para mar char muito tempo em terrenos apertados. 300 A columna pode ser aberta, ou cerrada; chama- se aberta, quando os Pelotoens deixão entre si huma distancia igual á frente, que devem occupar, quando por hum quarto de conversão; o Batalhão se mete em li nha de Batalha. 305 Esta distancia conta-se do Soldado da primei 302 [fól. 14r]15 ra fileira do Pelotão da vanguarda, ao Soldado da primeira fileira, do Pelotão que se segue; isto he, do lado direito da primeira fileira, quando a columna marcha pela esquerda, {{e do lado esquerdo da primeira 310 fileira, quando a columna marcha pela esquerda}}76, e do lado esquerdo da primeira fileira, quando a columna marcha pela direita: porque o Official, ou Official inferior, ou Soldado do lado do Pelotão, he quem faz pião, quando o Batalhão entra em Batalha por 315 quarto de conversão. Chama-se cerrada, quando os Pelotoens tomão entre si menos distancia, do que lhe he precisa, para meter em Batalha por quarto de conversão. A columna cerrada, he de duas especies; Cer 320 rada a meia distancia, quando os Pelotoens tomão entre si menos distancia, do que he precisa, para me ter em Batalha, por quarto de conversão. E cerrada de todo; quando os Pelotoens vão u nidos; mas não se usa, senão nos desdobramentos. 325 A columna, forma-se ordinariamente por quarto de conversão; mas ha casos, em que o terre 76 Esta parte está riscada com tinta preta. Os riscos aparecem como pequenas espirais na posição horizontal. 303 [fól. 14v]16 no por ser muito apertado, não dá lugar ao quarto de conversão, ao mesmo tempo que o Batalhão de ve sahir da sua posição, e seguir a marcha; por 330 exemplo, quando tem que guarnecer hum para peito, hum fôsso, huma ravina, etcoetera. Neste caso, o caminho por onde o Batalhão deve sahir, pode ser defronte 1. Da direita. 335 2. Da esquerda. 3. Para avanguarda. 4. Para a rectaguarda. Sendo defronte da direita, e para a vanguarda, 77o Batalhão faz hum á direita, excepto o primeiro 340 Pelotão, porque esse marcha em frente, e logo que ti ver dado tres passos, o segundo Pelotão em passo accelerado ganha o terreno, que elle deixou, e faz fren te por hum á esquerda; Os outros Pelotões fazem o mesmo que o segundo, e formão a columna na fren 345 te da direita do terreno, sobre o qual o Batalhão estava postado. Sendo para a esquerda, e para a vanguarda 78o 8º. Pelotão faz testa de columna, e o resto da evolu ção, se executa debaixo dos mesmos principios, que 77 Aparece escrito < Figura 1>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 339. 78 Aparece escrito < Figura 2>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 348. 304 [fól. 15r]17 350 para a direita. Nota Bene79 Deve-se observar, que a testa de columna, hade marchar com passo lento, até que o Batalhão acabe a evolução; E tendo o ulti mo Pelotão entrado na columna, dahi por dian 355 te marchará em passo ordinario, e cada Pelo tão tomará a sua distancia. Sendo defronte da direita, e para a recta guarda; todo o Batalhão fará á direita, e mar chará á rectaguarda da sua posição em passo de co80 360 stado, e os Pelotoens se formarão por huma contra marcha progressiva, quando chegarem ao caminho por onde a columna deve sahir. Sendo para a rectaguarda da esquerda traba lha-se debaixo dos mesmos principios, que para a di81 365 reita. Daqui se vê, que por estas evoluções pode hum Batalhão, em qualquer caso desembaraçar-se de huma posição, em que por estreiteza do terreno, se não pode romper em columna, por quarto de conver 370 são; porque ainda no caso, em que o caminho por onde o Batalhão quer marchar, se ache em fren 79 Expressão latina para a abreviatura N.B. que quer dizer “note bem” ou “preste atenção”. 80 Aparece escrito < Figura 3>, com tinta preta, na margem direita da linha 359. 81 Aparece escrito < Figura 4>, com tinta preta, na margem direita da linha 364. 305 [fól. 15v]18 te, ou na rectaguarda de qualquer outro Pelotão, po de o Batalhão toma-lo pela contra marcha, e tornar á ordem primitiva de Pelotões, pelo modo que vimos 375 na Figura 3. Se o Batalhão, depois de ter formado huma columna cerrada, quer marchar em columna aber 82ta; a columna marchará com passo lento; excepto o Pelotão que faz a testa de columna, porque esse conti 380 nua no seu passo ordinario; e quando o segundo Pe lotão o vê em huma distancia igual á sua frente, se gue o passo ordinario, o mesmo faz o terceiro, e todos os mais, até o oitavo; e fica por este modo aberta a co lumna. _____________________________________________ 385 Pode-se romper hum Batalhão em columna por quarto de conversão, por Pelotoens: Á direita. Á esquerda. Á vanguarda. 390 E á rectaguarda. Para marchar á direita rompe-se o Batalhão 83por quarto de conversão á direita, e marcha em frente; e neste caso todos os Soldados da esquerda dos Pelo toens, devem, depois de ter feito o quarto de conversão 82 Aparece escrito < Figura 5>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 378. 83 Aparece escrito < Figura 6>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 392. 306 [fól. 16r]19 395 prefilar-se bem de frente a fundo pelo Soldado da es querda do primeiro Pelotão. Para marchar á esquerda, rompe-se o Batha lhão, por quarto de conversão á esquerda; neste caso to84 dos os Soldados da direita se devem alinhar pela di 400 reita. Para marchar em frente do Pelotão da direita, o 1º. Pelotão marcha em frente, e os outros sette, fazem85 quarto de conversão á direita; marchão, e quando o 2º. Pelotão chega á esquerda do terreno, que deixou o 1º. 405 Pelotão; faz quarto de conversão á esquerda, e segue a marcha. Os outros Pelotoens vão fazendo o mesmo, quando chegão á esquerda do terreno que deixou o 1º. Pelotão. Para marchar á rectaguarda da direita, rom- 410 pe-se o Batalhão por quarto de conversão á direita, <> 86 e marcha em frente, e quando o 2º. Pelotão chega á87 direita do terreno, que o 1º. Pelotão deixou; faz outro quarto de conversão á direita, e segue a marcha do 1º. Pelotão. Os outros fazem o mesmo, á medida que 415 vão chegando á direita do terreno, que deixou o 1º. Pe lotão. Mas podendo succeder, que a direita esteja apoiada a hum pantano, ou muro, ou ravina, ou88 84 Aparece escrito < Figura 7>, com tinta preta, na margem direita da linha 398. 85 Aparece escrito < Figura 8>, com tinta preta, na margem direita da linha 402. 86 Este escrito encontra-se entre as linhas 410 e 411. Está em letra menor e à tinta preta. Começa sobre "e marcha" e termina sobre "o 2º." (l 411). 87 Aparece escrito < Figura 10>, com tinta preta, na margem direita da linha 411. 88 Aparece escrito < Figura 12>, com tinta preta, na margem direita da linha 418. 307 [fól. 16 v] 20 qualquer outro obstaculo, que embarace o fazerem-se 420 os quartos de conversão: Neste caso o 1º. Pelotão, para marchar para a rectaguarda, faz hum á direi ta, depois contra-marcha sobre o terreno, que occupa: Torna a meter-se em ordem, por hum á esquerda, e marcha em frente. 425 Os sette Pelotões fazem quarto de conversão: Marchão, e fazem outro quarto de conversão, quan do chegam a altura da direita do 1º. Pelotão; guar dando sempre exactamente as suas distancias. Todas estas evoluções se fazem á esquerda 430 do mesmo modo, que para a direita; fazendo o 8º. 89Pelotão a testa da columna. Tambem pode succeder, que o caminho por onde o Batalhão quer marchar por Pelotoens, se ache defronte do centro. 435 Para a vanguarda. Para a rectaguarda. Achando-se na frente do 4º. Pelotão, o 1º. Pe lotão marcha em frente tres passos, depois faz á 90esquerda, para ganhar pela marcha de costado, a 440 frente do 4º. Pelotão: torna á frente por hum á 89 As indicações das < Figura 9>, < Figura 10> e < Figura 13> estão escritas em tinta preta e localizam-se na margem esquerda entre as linhas 430 e 431. 90 Aparece escrito < Figura 14>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 439. 308 [fól. 17r] 21 direita, e marcha; quando o primeiro Pelotão pas sa pelo 2º.: Marcha este tres passos em frente, de pois faz á esquerda, e segue o 1º. Pelotão com mar cha de costado: Quando chega á frente do 4º. Pe 445 lotão, faz á direita, e segue a marcha do 1º. Pelotão: O 3º. faz o mesmo, que o 2º.; o 4º. Pelotão, não tem na da que fazer, senão seguir os tres Pelotões da di reita; o 5º. 6º. 7º. e 8º. Pelotoens, fazem á direita, e marchão de costado com passo accelerado, a tomar 450 o terreno, que deixou o quarto Pelotão: Tornão á frente, por hum á esquerda, á medida que vão chegando, e seguem a marcha, guardando exactamen te as suas distancias. Esta evolução faz-se para a esquerda debaixo 455 dos mesmos principios, que para a direita; fazendo91 o 8º. Pelotão a testa de columna. Esta evolução, pode-se executar de outro modo a saber, o 1º. Pelotão da direita marcha em frente tres passos: Faz hum quarto de conversão á esquer92 460 da; e marcha ao longo da frente do Batalhão: Quando o seu lado esquerdo chega a altura da di reita, do 4º. Pelotão; faz segundo quarto de conver são á direita, e marcha em frente: O 2º. Pelotão, lo 91 Aparece escrito < Figura 15>, com tinta preta, na margem direita da linha 455. 92 Aparece escrito < Figura 16>, com tinta preta, na margem direita da linha 459. 309 [fól. 17v]22 go que o 1º. acaba de desembaraçar a sua frente; mar 465 cha tres passos em frente, faz hum quarto de conver são á esquerda, e segue a marcha do 1º. Pelotão: O 3º. Pelotão faz o mesmo, que o 2º. : O 4º. marcha em frente, para seguir o 3º. Pelotão: O 5º. 6º. 7º., e 8º. Pe lotoens, logo que o 4º. marcha, fazem hum quarto 470 de conversão á direita; marchão, e logo que chegão á esquerda do terreno que deixou o 4º. Pelotão, fa zem outro quarto de conversão á esquerda, e seguem a marcha dos outros Pelotoens. Esta evolução faz-se pela esquerda, assim co 475 93mo pela direita, fazendo o 8º. Pelotão a testa da co lumna. Este segundo methodo, he melhor do que o ou tro, porque não tem o inconveniente da marcha de flanco, que sempre he sujeita, a prelongamentos 480 de linha; mas nem por isso deve deixar de se exerci tar a Tropa no primeiro; porque o Batalhão po de achar-se em terrenos, em que não possa fazer os dous quartos de conversão necessarios, para a execu ção do segundo methodo. 485 Achando-se o caminho por onde se quer mar char, na rectaguarda do centro do Batalhão, sendo 93 Aparece escrito < Figura 17>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 475. 310 [fól. 18r]23 na rectaguarda do 4º. Pelotão; o 1º. faz hum á esquer da, e marcha de costado pela esquerda para a recta guarda, tomando huma direcção prependicular, á94 490 direita do segundo Pelotão; e quando a fila da direi ta do 1º. Pelotão chega a altura da fila da direita do 2º. Pelotão, formando-se neste ponto, hum angulo de no venta gráos; o 1º. Pelotão faz frente por hum á direi ta; marcha ao longo da rectaguarda do Batalhão 495 até ao lado direito do 4º. Pelotão, em cuja altura, faz hum quarto de conversão á esquerda, para entrar no ca minho: O 2º., e 3º. Pelotão, fazem a mesma evolução, que o 1º. : O 4º. Pelotão, faz hum a esquerda, e contra mar cha sobre o seu terreno, para a rectaguarda do lugar, que 500 occupa: O 5º.6º.7º., e 8º. Pelotoens, fazem quarto de con versão á direita, e á medida que vam chegando ao ter reno, que deixou o 4º. Pelotão, fazem outro quarto de conversão, e seguem a marcha dos outros Pelotoens. Esta evolução, faz-se igualmente pela esquer 505 da, fazendo o 8º. Pelotão testa de columna, e princi95 piando a evolução por hum á direita. Vê-se claramente, que debaixo dos mesmos prin cipios, se pode executar esta evolução, ficando o caminho na vanguarda, ou rectaguarda de qualquer outro Pelo 94 Aparece escrito < Figura 18>, com tinta preta, na margem direita da linha 489. 95 Aparece escrito < Figura 19>, com tinta preta, na margem direita da linha 505. 311 [fól. 18v]24 510 tão; e basta somente observar, que a evolução fica mais facil, principiando o movimento no lado, a que per tence o Pelotão designado: por exemplo, sendo o 2º.3º., ou 4º., principia o movimento pela direita; e sendo 5º. 6º., ou 7º. principia o movimento pela esquerda. 515 Hum Batalhão em marcha pelo flanco po de romper-se em Pelotões, tanto para a direita, como pa ra esquerda. Se o Batalhão se pôs em marcha, fazendo hum á direita; as primeiras tres filas da direita, mesmo na 520 96marcha, fazem hum quarto de conversão á direita: As outras seguem este movimento com o passo accelerado até ao ponto de chegarem todas as filas do Pelotão, a perfilar com as tres primeiras: Os outros Pelotões fazem o mesmo movimento, e deste modo, o Batalhão, 525 que marchava, sobre huma columna pelo flanco, se acha rompido em oito Pelotões. Esta evolução, pode-se fazer estando o Batalhão em marcha, ou tambem estando a pé firme. 97Para a esquerda, executa-se debaixo do mesmo 530 principio. 96 Aparece escrito < Figura 20>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 520. 97 Aparece escrito < Figura 21>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 529. 312 [fól. 19r]25 Se hum Batalhão, em columna por Pelotões, acha hum desfiladeiro, que o embarace de marchar com esta frente: Sendo o desfiladeiro tão apertado, que não admitta mais que tres homens de frente; o 1º. 535 Pelotão faz á direita diante do desfiladeiro, e a primei98 ra fila da direita do Pelotão, entra no desfiladeiro, por hum quarto de conversão á esquerda: Todas as ou tras filas, irão seguindo este movimento com o passo accelerado; porem a testa da columna he preciso que 540 marche com passo lento: O 2º. Pelotão, marcha até ao terreno, em que o 1º. fez á direita (cujo lugar deve ficar marcado com hum Official inferior) Chegan do ao dito terreno, faz á direita, e segue o 1º. Pelotão fazendo o mesmo o que elle fez, e do mesmo modo irão 545 seguindo os Pelotoens 3º.4º., e 5º., etcoetera. Se o desfiladeiro dá lugar a huma frente de seiz, ou mais filas, chegando o 1º. Pelotão á embocadura do desfiladeiro, marchão em frente: As filas, que se99 achão defronte delle, entrão no dito desfiladeiro: As 550 filas, que ficão á direita, fazem á esquerda, e por hum quarto de conversão á direita, seguem com passo acce lerado, as tres filas da direita, das que marchárão; 100 e as filas que ficão á esquerda, fazem ao mesmo tem po á direita, e por hum quarto de conversão á esquer 98 Aparece escrito < Figura 22>, com tinta preta, na margem direita da linha 535. 99 Aparece escrito < Figura 23>, com tinta preta, na margem direita da linha 548. 100 A inscrição "em frente" aparece na margem direita em continuação à linha. Possui a mesma letra do texto, mas está grafado em tinta preta. 313 [fól. 19v] 26 555 da seguem as tres filas da esquerda: O 2º. Pelotão marcha até ao terreno, em que o 1º. principiou a mo ver-se, e que deve ficar marcado com hum Official inferior: Faz o mesmo que o 1º., e do mesmo modo farão os Pelotões 3º.4º.5º, etcoetera. 560 Deve-se observar, que a testa do Batalhão marcha com passo lento, em quanto a columna não entra toda no desfiladeiro; mas depois disto marcha no seu passo ordinario. Se o Pelotão encontra hum olheiro, fosso, 565 ou qualquer outro obstaculo, que embarace a passa 101gem de qualquer dos seus lados: As filas que se achão defronte do obstaculo, sendo da direita, fazem á es querda, e por hum quarto de conversão á direita, se guem o Pelotão, marchando de costado pelo mesmo 570 modo, que na passagem do desfiladeiro: Se o obsta culo se encontra na esquerda, as filas que se achão em 102baraçadas, fazem á direita, e seguem pelo modo já explicado. O Batalhão, marchando em columna pelo 575 flanco, pode marchar para a frente, ou para a recta 103guarda, no perlongamento da linha em que se acha 104fazendo á direita, ou á esquerda. 101 Aparece escrito < Figura 24>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 566. 102 Aparece escrito < Figura 25>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 572. 103 Aparece escrito < Figura 26>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 576. 104 Aparece escrito < Figura 27>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 577. 314 [fól. 20r]27 Nota Bene Em Portugal he preciso que as Tropas estejão bem exercitadas na marcha de co 580 stado; porque sendo o Paiz montuoso, e cortado de despenhadeiros, rios, e desfiladeiros; obriga fre quentemente a tomar esta formatura. Hum Batalhão marchando por Pelotões quando quer mudar a sua direcção de marcha, da 585 frente para a rectaguarda, o executa por dous modos a saber; 1º. Por meia volta á direita. Chama-se a isto marchar em columna reversa, e tem lugar em huma retirada fingida, havendo ten105 ção de tornar a fazer cara ao Inimigo, por meia vol 590 ta á esquerda. 2º. Por contra marcha, contra marchando cada Pelotão pela esquerda, a tornar a rectaguar da do lugar em que se acha. E deste modo se o Batalhão marchava pela 595 direita, fazendo o 1º. Pelotão a testa de columna:106 Depois da contra marcha, fica o 8º. Pelotão fa zendo testa; e pelo contrario, se o 8º. Pelotão fazia testa de columna; depois da contramarcha, a fica 107 rá fazendo o 1º. Pelotão. 105 Aparece escrito < Figura 28>, com tinta preta, na margem direita da linha 588. 106 Aparece escrito < Figura 29>, com tinta preta, na margem direita da linha 595. 107 Aparece escrito < Figura 30>, com tinta preta, na margem direita da linha 598. 315 [fól. 20v]28 600 Tendo o Batalhão atacado sem vantagem huma trincheira, Aldêa, ou qualquer outro sitio fe chado; e querendo dar lugar a segunda linha, para renovar o ataque, o fará do modo seguinte. Logo que o Batalhão da segunda linha che 605 ga a vinte passos de distancia, o Batalhão que se 108quer retirar, faz á direita: As tres filas da direi ta de cada Pelotão, fazem quarto de conversão á di reita: Todas as mais as seguem com passo apressa do: A segunda linha, abre intervallos de tres filas, 610 dobrando estas no lugar em que se acha a vanguar da de cada Pelotão, do Batalhão que se retira: Os Pelotoens passão rapidamente por estes inter vallos; e quando chegão a estar fora do alcance da mosquetaria do Inimigo fazem á esquerda: Tor 615 não ás suas distancias, e por hum quarto de conversão á esquerda, tornão a formar-se em Batalha, e ficam em segunda linha. _________________________________ Quando hum Batalhão, ou hum Pelotão, 109 marchando em frente, tem que marchar obliquamen 620 te; o Batalhão faz esta casta de marcha para ga nhar huma distancia perdida, para a direita ou pa 108 Aparece escrito < Figura 31>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 606. 109 Aparece escrito < Figura 32>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 619. 316 [fól. 21r]29 ra a esquerda, quando se acha em linha com outros: E o Pelotão, usa disto mesmo para entrar no ali nhamento de outro, que o precede na marcha em110 625 columna. Este movimento, tem grande difficuldade; por que o Soldado tem que marchar obliquamente, con servando sempre o alinhamento da fileira em que marcha, por isso se não pode usar delle, se não pa 630 ra pequenas distancias. Esta evolução, pede huma exacção muito escrupulosa, para que a ordem da marcha se não desordene, e se executa do modo seguinte. O Soldado do Pelotão, ou Batalhão, que 635 deve obliquar á direita; leva o pé direito para a vanguarda obliquamente, sobre hum angulo de ses senta gráos; e o pé esquerdo marcha em frente: De ste modo, ganha em cada seis passos, hum passo, de vinte e quatro pollegadas para a direita: O corpo do 640 Soldado, deve ficar bem quadrado, com o terreno em que estava, antes de ter principiado a obliquar; por que deixando o hombro esquerdo para tras, succede ria infallivelmente, que perfilando-se com elle os Sol dados da esquerda, veria a frente do Batalhão ou 110 Aparece escrito < Figura 34>, com tinta preta, na margem direita da linha 624. 317 [fól. 21v]30 645 Pelotão, a fazer conversão á esquerda, e apresentar o flanco, em lugar de apresentar a frente no alinha mento, para o qual lhe foi preciso obliquar. Faz-se este movimento para a esquerda, debai 111 xo do mesmo principio, sendo o pé esquerdo quem mar 650 112ca a obliquidade de hum angulo de sessenta gráos. Por este detalhe se vê, que he impossivel, que esta qualidade de marcha possa aturar mais de cem passos, advertindo, que ainda para essa mesma distan cia, será preciso que o Soldado esteja exercitado. ______________________________________ 655 Hum Batalhão rompendo por quarto de conversão, por Pelotoens á direita, ou a esquerda; de ve estar certo, em que fazendo os Pelotoens á direita, 113ou á esquerda devem marchar parallelamente entre si, para poderem meter outra vez em Batalha, por quarto 660 114de conversão: Esta evolução he necessaria na Guerra, principalmente quando a General quer mudar as li nhas. __________________________ Hum Batalhão em Batalha á vista do 111 Aparece escrito < Figura 33>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 649. 112 Aparece escrito < Figura 35>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 650. 113 Aparece escrito < Figura 36>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 658. 114 Aparece escrito < Figura 37>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 660. 318 [fól. 22r]31 Inimigo; devendo retirar-se para a rectaguarda, 665 por hum desfiladeiro, ponte, ou caminho cortado: As tres filas da direita, fazem á direita, e as tres filas da esquerda, á esquerda, e contra-marchão pela rectaguar da do Batalhão: Todas as outras filas, as seguem progressivamente, sahindo cada huma do seu proprio ter115 670 reno com passo apressado: Logo que as duas testas che gão a encontrar-se na embocadura do desfiladeiro: A testa do primeiro Pelotão, faz quarto á esquerda; a te sta do oitavo Pelotão, faz quarto á direita; todas as outras filas, seguem este movimento, e marchando de 675 costado, passão o desfiladeiro. As filas do Pelotão, que estão na direcção do desfiladeiro, fazem meia volta á direita, e passão deste modo, com o sentido em se tor nar a formar por meia volta á esquerda, no caso de se rem perseguidas pelo Inimigo. _________________________________________ 680 Se esta manovra se faz na passagem de huma pon te; a direita marcha ao longo da margem opposta do rio, fazendo hum quarto de conversão por filas á esquer da; e a esquerda, á direita, para proteger com o seu fogo a retirada do resto do Batalhão, que ainda se achar na 695 outra margem. _______________________________________ 115 Aparece escrito < Figura 38>, com tinta preta, na margem direita da linha 669. 319 [fól. 22v]32 Se hum Batalhão formado em Batalha, tem diante de si huma ponte, ou desfiladeiro, que quer passar, estando o Inimigo em distancia de o atacar, durante a evolução: As filas, que se achão defronte da 690 116ponte, ou desfiladeiro, marchão a elle de frente, as filas que estão á sua direita, fazem á esquerda, e as que estão á esquerda, á direita, e seguem em marcha de costado: As filas, que marcharam em frente; quando acabão de passar o desfiladeiro, depois de ter andado seis passos 695 para diante delle, fazem alto; as filas da direita, e da esquerda sahem do desfiladeiro, e tornão a tomar o seu alinhamento á direita, e á esquerda, perfilando-se pelas filas, que fizerão alto. ________________________________________ Hum Batalhão marchando em columna 700 pela direita, e querendo mudar a sua ordem de mar cha, de sorte que o 8º. Pelotão faça testa de columna 117O 1º.2º.3º.4º.5º.6º., e 7º. abrem por meias fileiras do centro para os lados, e dão o terreno preciso, para entrar a frente do 8º. Pelotão, o qual marchando em frente, ga 705 nha a vanguarda do Batalhão, continuando a sua marcha com passo ordinario. Quando o 8º. {{Bata}}118 Pelotão119 {{lhão}}chega a passar pelo centro, o 7º. por hum á direita, e á esquerda une ao centro, com passo accelerado, e depois 116 Aparece escrito < Figura 39>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 690. 117 Aparece escrito < Figura 40>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 702. 118 {{Bata}} e {{lhão}} estão riscados em espirais por tinta preta. 119 A palavra "Pelotão" encontra-se escrita em tinta preta e ao lado da rasura de {{Bata}}. Está saindo da mancha e ocupando parte da margem direita. Não há diferença de letra entre a escrita desta e do escrito na mancha. Assim supõe-se que a mão da rasura seja a mesma do texto. 320 [fól. 23r]33 de formado, segue a marcha do 8º. Pelotão com passo 710 ordinario : O 6º. faz o mesmo, e todos os outros até ao 1º., que vem finalmente a ficar na rectaguarda. Marchando o Batalhão pela esquerda, se faz esta evolução debaixo dos mesmos principios, sendo120 o 8º.7º.6º.5º.4º.3º., e 2º. Pelotoens, os que abrem do centro 715 para os lados, para dar passagem ao 1º. Esta evolução se faz, quando se quer mudar a frente de duas linhas, sem inverter a ordem dos Pelo toens. __________________________________ Se o Batalhão marchar em Batalha, e achar 720 diante de huma parte da sua frente, hum muro, fôsso, lagôa, despenhadeiro, ou qualquer outro obstaculo; se fôr no lado direito, os Pelotões, que estiverem diante121 delle, farão á esquerda: As tres filas da esquerda fa zem quarto de conversão á direita, e seguem as tres fi 725 las do lado direito, da parte do Batalhão, que mar cha em frente: Todas as mais seguem em marcha de costado; e á medida que se vai alargando o terreno, vão progressivamente as filas tornando a entrar no ali nhamento do Batalhão. 120 Aparece escrito < Figura 41>, com tinta preta, na margem direita da linha 713. 121 Aparece escrito < Figura 42>, com tinta preta, na margem direita da linha 722. 321 [fól. 23v]34 730 Sendo no lado esquerdo; os Pelotões, que en contrão o obstaculo, fazem á direita; as tres filas 122da direita, fazem hum quarto de conversão á esquer da, para seguir as tres filas da esquerda, da parte do Batalhão, que marcha em frente. ___________________________________________ 735 Sendo no centro do Batalhão; os Pelotoens que encontrão o obstaculo, fazem do centro para os 123lados, á direita, e á esquerda; e seguem o Batalhão, do mesmo modo que acima fica dito a respeito da di reita, e da esquerda. ___________________________________________ 740 Se o obstaculo se encontra na frente da mar cha; quando o Batalhão se retira em Batalha, á vista do Inimigo, he preciso usar de outro metho do, para se romper; em ordem a não ficarem tão expo stas as filas, que dobrão para a rectaguarda. 745 Por esta razão, tendo feito o Batalhão meia volta á direita, para marchar em frente de retirada; 124e encontrando obstaculo na ala direita (cuja ala he a esquerda, estando o Batalhão na sua forma pri mitiva) os Pelotoens da direita, fazem á direita, e con 122 Aparece escrito < Figura 43>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 732. 123 Aparece escrito < Figura 44>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 737. 124 Aparece escrito < Figura 45>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 747. 322 [fól. 24r]35 750 tra-marchão, para a frente da marcha do Batalhão, fazendo hum quarto de conversão á esquerda: Por este modo, passão ao longo do obstaculo, deixando-o á di reita: Aparte do Batalhão, que marcha em frente de Batalha, cobre a outra parte que rompeo; 755 mas á medida, que o terreno se alarga, vão as filas entrando no alinhamento do Batalhão. __________________________________________ Encontrando-se o obstaculo no lado esquerdo do Batalhão; os Pelotoens, que se achão impedi dos na esquerda, fazem á esquerda: As tres pri125 760 meiras filas fazem quarto á esquerda, e seguindo as mais este mesmo movimento, marchão os Pelotões de costado ao longo do obstaculo, deixando-o á esquer da: O resto da evolução se faz do mesmo modo, que para a direita. __________________________________________ 765 Se o obstaculo se encontra no centro do Ba talhão; os Pelotoens fazem á direita, e á esquerda para o centro do Batalhão, e contra-marchão por fi126 las, pelo mesmo modo, que se explicou a respeito da direita, e da esquerda. __________________________________________ 125 Aparece escrito < Figura 46>, com tinta preta, na margem direita da linha 759. 126 Aparece escrito < Figura 47>, com tinta preta, na margem direita da linha 767. 323 [fól. 24v]36 770 Nota Bene Não sendo o obstaculo tão exten so, que obrigue a romper-se todo o Pelotão, faz-se a evo lução por meios Pelotoens. ___________________________________________ Quando se guarnece um parapeito, ou estacada, ou outro qualquer Pôsto, em que se faz fogo de cima pa 775 ra baixo; ficando inutil o fogo da terceira fileira do Batalhão: Se por esta razão, ou por qualquer outro motivo, se quizer estender a frente do Batalhão; se 127executaria do modo seguinte: A terceira fileira do Batalhão, faz meia volta á direita: As terceiras 780 fileiras do 1º.2º.3º., e 4º. Pelotões, fazem cada huma quar to á esquerda: A terceira fileira do 1º. Pelotão, por segundo quarto de conversão á esquerda, se poem na direita do 1º. Pelotão: A do 2º. Pelotão marcha e por hum quarto de conversão á esquerda, se poem 785 na rectaguarda da dita terceira fileira do 1º. Pelotão: As terceiras fileiras do 3º., e 4º. Pelotão, marchão, e por hum quarto de conversão á esquerda, formão hum Pelotão, na direita do Batalhão; pelo mes mo modo que o formaram as terceiras fileiras do 1º. 790 e 2º. Pelotão. As terceiras fileiras do 8º.7º.6º., e 5º. Pelo 127 Aparece escrito < Figura 48>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 778. 324 [fól. 25r]37 tões fazem ao mesmo tempo, quarto de conversão á di reita: A terceira fileira do 8º. Pelotão, por segundo quarto de conversão, se poem na esquerda do 8º. Pelo 795 tão: A do 7º. se poem na sua rectaguarda: As do 6º., e 5º., formão hum Pelotão na esquerda, pelo mesmo modo, por que o formaram na direita, as terceiras fileiras do 3º., e 4º. Pelotão. O Major, e o Ajudante, pela rectaguarda 800 do Batalhão, dirigem este movimento, e o Major entre os Officiaes, e Officiaes inferiores da rectaguar da do Batalhão; nomêa aquelles que devem com mandar, cada hum dos Pelotoens. Se hum dos lados do Batalhão, se acha apoia 805 do, de modo que a frente do Batalhão, se não possa estender para esse lado: Nesse caso a terceira fi leira de todos os Pelotões, depois de terem feito meia volta á direita, fazem quarto de conversão, pa ra o lado para onde a frente do Batalhão se pode 810 alongar. _______________________________________ 325 [fól. 25v]38 Secção 4ª. Evoluçoens de Formatura.128 Quando o Batalhão marcha de costado para a direita, ou para a esquerda; torna-se a meter em Ba 815 talha, por hum á esquerda, se marchou para a direita; e por hum á direita, se marchou para a esquerda. Esta evolução se faz, quando o Inimigo tres borda a frente de huma das alas, estando já dentro do alcance, e serve para tomar posição parallela, e 820 igual á sua. Marchando o Batalhão de costado á direi ta por hum desfiladeiro, e querendo ao sahir delle formar-se á esquerda da frente da sua marcha; o fa ra do modo seguinte: A vanguarda da columna 825 129marcha em passo lento, para dar lugar a que as fi- las se unão, e logo que chega ao terreno, em cuja es querda o Batalhão se deve formar: As tres filas da direita do Batalhão, fazem hum quarto á direi ta, pelo qual ficão postadas no novo alinhamento: 830 As outras filas sahem do desfiladeiro com passo apressado, e á medida, que vão chegando se perfilão com as primeiras; e deste modo fica tomado o ali 128 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 129 Aparece escrito < Figura 1>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 825. 326 [fól. 26r]39 nhamento, que se pertende. Faz-se a mesma Evolução quando se quer for 835 mar o Batalhão em huma linha perpendicular ao desembocadouro de hum desfiladeiro, só com a dif 130 ferença de que a frente da columna faz á direita dous quartos successivos. Marchando o Batalhão de costado á es 840 querda, se faz a Evolução do mesmo modo, que para a direita, sendo as filas da esquerda, as que fazem131 hum, ou dous quartos de conversão á esquerda, quando o alinhamento se toma para a direita, ou na perpen 132 dicular da desembocadura do desfiladeiro. _________________________________________________ 845 O Batalhão marchando em columna pode se meter em Batalha por dous modos: 1º. Por quartos de conversão. 2º. Por desdobramento. Por quartos de conversão.133 850 Esta Evolução, ou seja para entrar em hum campo, ou para tomar huma posição parallela, ou 130 Aparece escrito < Figura 3>, com tinta preta, na margem direita da linha 836. 131 Aparece escrito < Figura 2>, com tinta preta, na margem direita da linha 841. 132 Aparece escrito < Figura 4>, com tinta preta, na margem direita da linha 843. 133 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 327 [fól. 26v]40 obliqua á do Inimigo, se deve sempre fazer fora do seu alcance. O Batalhão, que marcha em columna pela 855 direita, entrando na nova posição pelo lado esquerdo; devem os Pelotoens observar exactamente as suas 134distancias : O Major os deve perfilar de frente a fundo; e da esquerda para a direita: Feito isto, e achando-se todos os Pelotões sobre o terreno, em que 860 o Batalhão se deve meter em Batalha, tomão todos ao mesmo tempo o novo alinhamento por hum quar to de conversão á esquerda. __________________________________________ Quando a columna he pela esquerda, e entra na nova posição pela direita; o Major regulando pelo 865 8º. Pelotão faz perfilar os outros de frente a fundo, 135da direita para a esquerda: E fazendo peoens os Chefes da direita da primeira fileira de cada Pelo tão, entra o Batalhão em Batalha no novo alinha mento por quartos de conversão á direita. ___________________________________________ 870 Quando a columna he pela direita, e entra em hum alinhamento, que fica á direita da frente 136da sua marcha, o 1º. Pelotão quando chega ao la 134 Aparece escrito < Figura 5>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 857. 135 Aparece escrito < Figura 6>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 866. 136 Aparece escrito < Figura 7>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 872. 328 [fól. 27r]41 do esquerdo do novo alinhamento, faz quarto de conver são á direita, e marcha em frente (deixando hum Of 875 ficial inferior, para marcar o terreno no lugar em que fez peão): Os outros Pelotões quando chegão ao di to peão fazem quarto de conversão á direita, e o resto da Evolução como na Figura 5ª.137 ________________________________________________ Quando a columna he pela esquerda, e entra 880 em hum alinhamento á esquerda da frente da sua marcha: O 8º. Pelotão faz quarto de conversão á138 esquerda: O resto da Evolução se faz para a esquerda, como para a direita. _________________________________________________ Quando a columna he pela direita, e entra em 885 hum alinhamento á esquerda da sua frente: O 1º. Pelotão, logo que chega á direita do novo alinha mento, faz alto: O 2º. Pelotão faz quarto de conver139 são á esquerda, e marcha tres passos : Depois faz quarto de conversão á direita, e marcha em frente 890 a perfilar com o 1º. Pelotão: Quando o 2º. Pelo tão faz o primeiro quarto de conversão, deixa hum Official inferior, para marcar o ponto do peão: O 3º. Pelotão chegando a elle faz quarto á esquerda, 137 O que está em negrito aparece escrito com tinta preta. 138 Aparece escrito < Figura 8>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 881. 139 Aparece escrito < Figura 9>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 887. 329 [fól. 27v]42 e quando a sua direita chega a altura da esquerda 895 do 2º. Pelotão, faz quarto á direita, e entra no alinha mento dos dous Pelotoens da direita : Os outros Pe lotões fazem o mesmo, e se perfilão successivamente com os da direita. Os quartos devem-se fazer com passo apressado; e o resto da Evolução com passo ordina 900 rio, e logo que entra o 8º. Pelotão deve o Major a toda apressa ratificar o perfil da direita para a esquerda. __________________________________________________ Quando a columna he pela esquerda, e entra em hum alinhamento á direita da sua frente: O 8º. 905 Pelotão logo que chega á esquerda do novo alinha 140mento, faz alto: O 7º. Pelotão faz hum quarto de conversão á direita, e depois de marchar tres passos em frente, faz quarto de conversão a esquerda, e entra em alinhamento com o 8º. pelotão: O resto 910 da Evolução faz-se do mesmo, que quando o Batalhão marchou para a direita. O 7º. Pelo tão deve marcar o terreno, em que fez o primeiro quar to de conversão á direita com hum Official inferior, para que os outros Pelotoens fação o quarto no 915 mesmo ponto. _____________________________________________________ 140 Aparece escrito < Figura 10>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 906. 330 [fól. 28r]43 Quando a columna he pela direita, e entra em hum alinhamento á direita perpendicular á fren te da marcha o 1º. Pelotão entra no novo alinha mento por hum quarto de conversão á direita: O 920 2º. Pelotão marcha em frente ao longo da rectaguar da do 1º. Pelotão, e faz hum quarto de conversão á 141 direita: Logo que o seu lado direito se acha na altura do lado esquerda do 1º. Pelotão marcha em frente até se perfilar com elle; o 3º. marcha ao lon 925 go da rectaguarda do 1º., e 2º. Pelotão, e quando o seu lado direito chega a altura da esquerda do 2º. Pelotão marcha em frente a perfilar com o 1º., e 2º. : O 4º.5º.6º. 7º., e 8º. Pelotões fazem o mesmo, que o 2º., e 3º. ; e logo que o 8º. Pelotão chega ao novo alinhamento o 930 Major ratifica todo o perfil da direita para a es querda. ______________________________________________________ Quando a columna he pela esquerda, e entra em hum alinhamento á esquerda perpendicularmen te á frente da sua marcha: O 8º. Pelotão entra por 935 hum quarto de conversão á esquerda no novo alinha142 mento: O 7º. marcha pela rectaguarda do 8º.; e logo que a sua esquerda chega á altura da direita do 8º. Pelotão, faz quarto de conversão á esquerda, e marcha 141 Aparece escrito < Figura 11>, com tinta preta, na margem direita da linha 921. 142 Aparece escrito < Figura 12>, com tinta preta, na margem direita da linha 935. 331 [fól. 28v]44 em frente a perfilar com o 8º. Pelotão: O resto da 940 Evolução, faz-se debaixo dos mesmos principios, que se observaram marchando o Batalhão pela direi ta; e o Major logo que o 1º. Pelotão entra no ali nhamento, ratifica o perfil do Batalhão da esquer da para a direita. 945 Se o Batalhão quer tomar huma posição o bliqua para a frente, ou para qualquer dos lados da sua marcha, faz a Evolução debaixo dos mesmos principios acima demonstrados, com a differença, que a testa de columna toma o novo alinhamento confor 950 me a obliquidade, que deve ter; e os outros Pelotões perfilão-se com ella, por meio da Evolução que mo stra a Figura 11 e 12, da secção 2ª.143 Quando o Batalhão marcha em columna, he preciso que os Officiais tenhão grande cuidado 955 em conservar os seus intervallos de modo, que en tre os Pelotões haja exactamente a distancia neces saria para entrar em forma de Batalha por quar to de conversão: Para este effeito deve cada hum saber o numero de passos, que occupa a frente do Pe 960 lotão, que commanda, porque desse modo lhe fica mais facil a medição do terreno. 143 A parte em negrito está escrita com tinta preta. 332 [fól. 29r]45 Quando hum Batalhão, que marcha em columna pela direita, se quer formar sobre hum socalco, ou caminho apertado, que lhe fica á esquer 965 da: Como o terreno não permitte, que os Pelotões en trem no alinhamento por quartos de conversão, en trarão pela marcha de costado do modo seguinte.144 O 1º. Pelotão dá tres passos para diante da entra da do socalco, e faz alto: Por este modo dá lugar, 970 a que o segundo Pelotão marche, até ficar de fron te da dita entrada: O 2º. Pelotão chegando a este ponto, faz á esquerda, e marcha de costado, enfian do o socalco: Logo que se acha a sua frente desemba raçada, faz alto, e torna á vanguarda por hum á 975 direita: O 3º. Pelotão faz o mesmo, e se perfila com o segundo. Todos os mais Pelotões seguem esta norma, e quando o 8º. chega a entrar no alinha mento, todo o Batalhão faz á esquerda, e marcha de costado, até que o 1º. Pelotão tenha terreno pa 980 ra entrar. Se o Batalhão quer tomar posto mais pa ra diante, continua na marcha de costado, faz al to, onde lhe he preciso, e torna á vanguarda por hum á direita. 985 Se a columna he pela esquerda, e o socalco fica 144 Aparece escrito < Figura 13>, com tinta preta, na margem direita da linha 967. 333 [fól. 29v]46 á direita, executa-se a Evolução pelo mesmo modo, 145fazendo alto o 8º. Pelotão, e principiando o 7º. o resto do movimento. Quando o Batalhão se retira em columna 990 pela direita de hum campo, ou outra posição, para tomar outro pela rectaguarda , que lhe seja pa rallelo, e com a mesma frente do primeiro: Se o novo campo, ou posição se acha á direita da frente da marcha; logo que o 1º. Pelotão chega ao lado direito 995 146da posição entra no alinhamento, que pertende tomar, por dous quartos de conversão á direita: O 2º. Pe lotão, quando chega ao terreno em que o 1º. fez o pri meiro quarto, adianta-se tres passos, para salvar o fundo das tres fileiras, e nesse ponto faz quarto de 1000 conversão á direita, marcha pela rectaguarda, e quan do a sua direita chega a altura da esquerda do 1º. 147Pelotão, faz outro quarto á direita, e marcha a perfilar-se com elle: O 3º. faz outro tanto. Todos os mais seguem a mesma norma; e quando o 8º. Pe 1005 lotão chega a entrar no alinhamento, o Major ra tifica o perfil da direita, para a esquerda. Quando o Batalhão se retira em columna pe la esquerda, para tomar posição para a direita da 145 Aparece escrito < Figura 14>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 987. 146 Aparece escrito < Figura 15>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 995. 147 Aparece escrito < Figura 16>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1002. 334 [fól. 30 r]47 sua marcha: O 8º. Pelotão chegando á direita do ter 1010 reno faz quarto de conversão á direita, e marcha em fren te: O 7º. , e todos os mais fazem o mesmo. Os Officiaes que commandão os Pelotoens passão para a direita148 delles, e os perfilão de frente a fundo, e da direita pa ra a esquerda. Estando tudo nesta disposição, en 1015 tra o Batalhão no novo alinhamento, fazendo ca da Pelotão quarto de conversão á direita. Quando o Batalhão, que marcha em Columna se acha repentinamente atacado pela rectaguarda, o Batalhão fará alto: Os Pelotões fazem frente pa 1020 ra o Inimigo contra-marchando: Cada Pelotão faz149 a direita: Contra-marcha para a vanguarda do terreno que occupa: Nesta nova ordem de marcha, se achará nos termos de se meter em Batalha por desdobramen to, e continuar a sua marcha em columna reversa. 1025 Por Desdobramentos.150 Esta Evolução não se executa ordinariamente se não a pouca distancia do Inimigo, mas fora do al cance do seu fogo <>151: Serve para entrar em huma posição parallela, ou obliqua á do mesmo Inimigo: Para o 1030 atacar em frente: Para lhe ganhar o flanco: Pa 148 Aparece escrito < Figura 17>, com tinta preta, na margem direita da linha 1012. 149 Aparece escrito < Figura 18>, com tinta preta, na margem direita da linha 1020. 150 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 151 Esta inserção aparece sobre o último da palavra "fogo" em diante, entre as linhas 1027 e 1028. Está grafada em tinta preta e em letra menor que a do corpo do texto na mancha. 335 [fól. 30v]48 ra se oppôr ao seu ataque: E finalmente para qualquer outra Manovra meditada, segundo as circumstancias e sagacidade do General, que commanda. He preciso que o Batalhão em columna te 1035 nha o menor fundo, que for possivel, para que as par tes que o compoem, possão desdobrar promptamente, e chegar em pouco tempo, ao alinhamento determi nado pelos pontos de vista, ou pela posição do Pelo tão, que faz testa da columna: Para este effeito to 1040 mão os Pelotoens entre si meias distancias: De pois formão-se em divisoens, composta cada huma de dous Pelotoens, e executa o mais do modo seguinte. Se o Batalhão marcha pela direita, o 2.º4.º6.º, e 8.º Pelotoens com passo obliquo para a esquerda, 1045 152marchão a perfilar-se cada hum com o Pelotão, que o precede. Se o Batalhão marcha pela esquerda o 7.º5.º 3.º, e 1.º Pelotoens, marchão com passo obliquo á {{esquer <> da}}153, a perfilar cada hum com o Pelotão, que o precede 1050 154fica o Batalhão formado em quatro divisoens, e pode continuar a sua marcha, com meia distancia, en tre cada divisão. He preciso advertir, que a frente da 152 Aparece escrito < Figura 19>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1045. 153 A palavra "esquerda" (ls. 1048-1049) está riscada com tinta preta em espirais horizontais. A palavra "direita" está escrita com tinta preta sobre as sílabas riscadas , entre as linhas 1047-1048. 154 Aparece escrito < Figura 20>, com tinta preta, na margem direita da linha 1050. 336 [fól. 31 r] 49 Columna, deve marchar com passo lento, em quanto se não formão as divisoens; mas formadas que sejão 1055 continua tudo em passo ordinario: Logo que a pri meira divisão chega ao terreno, em que o Bata lhão deve desdobrar faz alto: As divisões, que se seguem, com passo ordinario, cerrão a Columna até dous passos de distancia, entre divisão, e divisão, e 1060 por este modo pode o Batalhão desdobrar-se sobre hum alinhamento directo, ou obliquo: Pela rectaguarda: Pela vanguarda: Pelo centro: 1065 Conforme as differentes circumstancias do terreno, ou da posição do Inimigo. O Batalhão, que marcha por divisões, em Co lumna pela direita, faz alto, logo que a 1.ª divisão entra no terreno, em que o Batalhão deve desdobrar: 1070 A 2.ª3.ª, e 4.ª divisoens, cerrão as distancias; fazem155 á esquerda, e marchão em frente: A 2.ª divisão des embaraçada, que seja a sua frente, faz á direita, e en tra a perfilar com a 1.ª divisão: A 3.ª, e a 4.ª fazem o mesmo. 1075 Nota Bene Os Officiaes, que commandão 155 Aparece escrito < Figura 21>, com tinta preta, na margem direita da linha 1070. 337 [fól. 31 v] 50 as divisões passão, para o lado para onde se desdo bra, e não tornão para os seus lugares, senão depois que a divisão de cada hum, se acha já firme no seu alinhamento: Officiaes Commandantes das di 1080 visoens, devem saber o numero de passos, que ham de dar á sua divisão, para desembaraçar a sua frente da rectaguarda da divisão que a precede: E tendo dado os passos necessarios para este fim, mandam fa zer alto, e por hum á esquerda, vem a frente, e toma 1085 a divisão o novo alinhamento. O momento de prin cipiar a contar os passos, he quando o Official da divisão, que o precede, dá a voz, alto156. Esta conta de passos he necessaria; porque como a divisão, e o Official que a commanda, voltão 1090 as costas á divisão, com que se hão de perfilar, não tem outro meio de saber quando tem a sua frente desembaraçada, senaõ contando os passos em que ella cabe; qualquer erro nesta materia, he de consequen cia, porque se communica de humas divisões pa 1095 ra as outras, e dá motivo a prolongamento de linha e intervallos difficultosos de remediar. Por qualquer forma que o Batalhão se des dobre, se usa das mesmas cautelas; porque dellas depen 156 Sublinhado no manuscrito com tinta preta. 338 [fól. 32 r] 51 de a exacção do desdobramento, e como o desdobra 1100 mento se faz sempre perto do Inimigo, he preciso que os Soldados, e os Officiaes, estejão muito exercita dos em todas as circumstancias, que conduzem á sua perfeição. Se o Batalhão marcha em Columna pela 1105 esquerda, e tem que desdobrar para a direita; faz a Evolução debaixo dos mesmos principios, como quando marchava em Columna pela direita; a sa157 ber: A quarta divisão faz alto, e as mais á direita, desdobrão como já se explicou, com a differença de que 1110 em lugar de perfilar, olhando para a direita, se prefi laõ158 olhando para a esquerda, quando se entra no ali nhamento proposto; e quando a 1.ª divisão chega a entrar nelle, o Major ratifica o perfil, da esquer da para a direita. 1115 Nota Bene Os desdobramentos fazem-se sem pre com o passo ordinario, para evitar a confuzão, que poderia proceder do passo accelerado, se a Columna fosse composta de muitos Batalhoens. Nota Bene Este modo chama-se desdobrar 1120 pela rectaguarda da Columna. 157 Aparece escrito , com tinta preta, na margem direita da linha 1107. 158 A letra e o sinal diacrítico encontram-se escritos a lápis no manuscrito. 339 [fól. 32 v] 52 Se o Batalhão, que marcha em Columna pela direita, chega ao terreno, em que se deve desdobrar e acha na sua esquerda hum despenhadeiro ou outro embaraço, que o obrigue a desdobrar para a direita, o executa do modo 1125 159seguinte. Logo que a testa de Columna chega ao alinhamento, faz alto o Batalhão: A 1.ª2.ª, e 3.ª divisão fazem á direita, e marchão: A 1.ª divisão deixa dous Officiaes inferiores nos dous lados do terreno donde sahio: A 4.º divisão logo que 1130 vê a sua frente desembaraçada, marcha em frente com passo accelerado, e vem tomar o alinhamento metendo-se entre os dous Officiaes inferiores; logo que o Major vê, que a ultima fila da esquerda da 3.ª divisão, chega a altura da direita da 4.ª divisão 1135 manda fazer alto á 3.ª, a qual immediatamente faz á esquerda, e marcha em frente, a perfilar-se com a 4.ª divisão: Chegando a esquerda da 2.ª á altura da direita da 3.ª, manda fazer alto, e por hum a esquerda vem a frente a perfilar com as duaz 1140 divisoens já postadas. A 1.ª divisão, que mar chou sobre o alinhamento, faz alto, logo que a sua esquerda chega á direita da 2.ª divisão, e por hum á esquerda, entra a perfilar-se com as outras tres di visoens: Quando cada divisão marcha em fren 159 Aparece escrito < Figura 23>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1125. 340 [fól. 33r]53 1145 te para vir tomar o alinhamento, he preciso, que os Soldados venhão olhando para a esquerda, visto ser este lado que regula o perfil; e arazão de dar o Major a voz alto160 he, porque os Officiaes que commandão as divisoens virão as costas, durante a marcha, ao 1150 alinhamento, que vão tomar; advertindo, que ain da que tenhão contado o numero de passos, que occu pa a frente, pode haver nisso alguma fallencia, a qual se remedia, vindo o Major notar a cada divisão o momento em que deve vir á frente. 1155 Marchando o Batalhão pela esquerda, e achando obstaculo para a direita do terreno, em que se quer desdobrar, desdobra-se para a esquerda: A 4.ª 3.ª, e 2.ª divisoens fazem á direita, e marchão de costa161 do: A 1.ª que está na rectaguarda, quando se vê 1160 desembaraçada, marcha em frente com passo acce lerado a tomar o alinhamento, marcado por dous Of ficiaes inferiores, que deixou a 4.ª divisão. Neste caso os Soldados da 4.ª3.ª, e 2.ª divisoens, perfilam- se olhando para a direita: O resto da Evolução, 1165 executa-se debaixo dos principios explicados no Pa rágrafo antecedente, e acabada que seja, o Major rati ficará o perfil da direita, para a esquerda. 160 A palavra "alto" está sublinhada a lápis. 161 Aparece escrito < Figura 24>, com tinta preta, na margem direita da linha 1058. 341 [fól. 33v] 54 Nota Bene Os Officiaes que commandão divi sões, he preciso que tenhão grande cuidado, em não car 1170 regar para á esquerda, quando o Batalhão desdo bra para a direita, nem para a direita, quando desdo bra para a esquerda: Devem marchar bem pa rallelos com o alinhamento, porque de outro modo, a chando-se as divisoens para a vanguarda do terreno 1175 em que se devem postar, se segue, que para entrar no alinhamento proposto, he preciso fazer hum movi mento retrógrado muito difficultoso, e sujeito a grande confusão, principalmente quando a linha he extensa. Nota Bene Este modo de desdobrar, chama-se 1180 desdobrar pela vanguarda da Columna. Quando hum Batalhão marcha em Columna pela direita, e quer desdobrar sobre o centrro: A 1.ª divisão, ou testa de Columna, achando-se no centro do 162terreno, em que o Batalhão se deve desdobrar, deixa 1185 dous Officiaes inferiores nos lados do terreno que occu pa, e faz á direita juntamente com a 2.ª divisão. A 4.ª faz á esquerda: As duas primeiras desdobrão pa ra a direita debaixo dos mesmos principios explica dos na Figura 23. A 4.ª desdobra para a esquerda 1190 como na Figura 21. A 3.ª divisão marcha em frente, 162 Aparece escrito < Figura 25>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1184. 342 [fól. 34r]55 e toma o alinhamento, entrando entre os dous Officiaes inferiores, que deixou a 1.ª divisão: A 2.ª, e a 1.ª per filão com a 3.ª olhando para a esquerda, e a 4.ª olhando para a direita; e acabado o movimento, o Major rati 1195 fica o perfil do centro para os lados. Quando o Batalhão marcha em Columna pe la esquerda, e quer desdobrar sobre o centro: A 4.ª di visão que he testa de Columna, chegando ao terreno, que se pretende; deixa dous Officiaes inferiores nos lados 1200 do terreno, que occupa: Faz á esquerda, juntamente com a 3.ª divisão: A 1.ª faz á direita: A 4.ª, e a 3.ª desdobrão para a esquerda: A 1.ª para a direita; e a 2.ª quando se vê desembaraçada, marcha a tomar o terreno entre os dous Officiaes inferiores. Tudo isto 1205 se executa do modo já explicado; e concluindo o movi mento, o Major ratifica o perfil do Batalhão, do centro para os lados. Chama-ese a isto desdobrar sobre o centro, e he o modo mais usado, porque se gasta nelle a metade 1210 do tempo, que se emprega nos outros modos sobre a vanguarda, ou sobre a rectaguarda; visto que as di visoens, que sahem do centro para os lados, não andão senão a metade do terreno, que andão as que sahem 343 [fól. 34v]56 para hum só lado: Por isso na Guerra se desdo 1215 bra sempre pelo centro, excepto quando a configura ção do terreno, ou algum acaso succedido na marcha obrigue absolutamente a desdobrar por outro modo. Por estas razões he preciso, que as Tropas este jão igualmente exercitadas em desdobrar de todos 1220 os modos, para que não succeda haver nunca momen to de indecisão, no que toca a tomar a formatura, que o Commandante pode pertender; mas havendo a differença já dita, deve ser o desdobramento pelo cen tro a que se dê a preferencia na pratica mais usual. 1225 Quando o Batalhão se quer desdobrar sobre huma linha obliqua á frente da sua marcha, para to mar hum alinhamento parallelo ao Inimigo, ou pa 163 ra lhe ganhar o flanco por meio de huma posição o bliqua o executa do modo seguinte. A Columna 1230 faz alto: A divisão que forma a sua testa, faz huma conversão para a direita, ou para a esquerda, sobre hum angulo determinado pela posição, que se quer tomar, e logo que se acha postada, as outras divisões que marchão com meias distancias, {{entram, e por huma <> 1235 conversão}}164 á direita, ou á esquerda, {{se poem}}165todas na rectaguarda da testa da Columna, ficando a Colu 163 Aparece escrito < Figura 26>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1228. 164 O riscado é feito com tinta preta em forma de espirais na horizontal. A inserção, localizada entre as linhas 1234-1235, está escrita em letras menores e em tinta preta sobre a parte riscada da linha 1234. 165 Esta parte está riscada com tinta preta em forma de espirais na horizontal. 344 [fól. 35r]57 mna na mesma figura em que vinha. Feito isto cer rão-se de todo as distancias, e se faz o desdobramento debaixo dos principios acima determinados. 1240 A Columna tambem pode tomar huma direc ção obliqua sobre qualquer alinhamento, depois de se terem cerrado os intervallos das divisões; mas este movimento he muito sujeito a confusão, por166 que pizando-se os Soldados huns aos outros con 1245 fundem facilmente as filas, e se introduz a desor dem no interior da Columna: Sem embargo disto poderá executar-se, se os Soldados estiverem bem exercitados nesta Evolução. Secção 5.ª 1250 Das grandes Manovras de varios Batalhoens unidos em Corpos de Exercito.167 As Manovras de hum Corpo de Exercito não tem outro objecto na Guerra, senão as seguintes 1255 1.º Mudar de hum campo, ou de huma posição para outra. 2.º Atacar. 3.º Defender. 166 Aparece escrito < Figura 27>, com tinta preta, na margem direita da linha 1243. 167 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 345 [fól. 35 v]58 As marchas devem ser combinadas de mo do, que cada Corpo, que marcha, chegue ao lugar do 1260 seu destino, por caminho mais curto, e mais facil; porque deste modo se ganhe tempo: Se evita a desordem: Se previne o Inimigo, e se poupa a Tropa o cansaço inutil. A superioridade da Manovra para o ataque 1265 consiste, em romper, e formar a Tropa de modo, que se possa atacar o Inimigo com vantagem cahindo sobre o ponto, em que elle se achar mais desguarnecido, com nu mero de Tropas sufficientes para o romper, antes que el le possa vir a conhecer o fim, para que se fez aquella 1270 Manovra, e ficar, {{depois depois desta expedição}}168, em termos de socorrer a parte de sua Tropa, que estiver exposta ao169 {{qualquer}}170 ataque. A perfeição da Manovra para a defesa, consi ste em dispor as Tropas de modo, que em qualquer 1275 ponto, em que o Inimigo queira formar o seu ataque, seja facil accumular com brevidade hum numero de Tropas superior, que resista ao seu ataque, ou que sen do preciso retirar-se á vista do mesmo Inimigo, seja em tal disposição, que não ache parte fraca, de que se 168 Trecho riscado com tinta preta em forma de espirais na horizontal. 169 A letra aparece escrita a lápis. 170 Trecho riscado com tinta preta em forma de espirais na horizontal. 346 [fól. 36r] 59 1280 possa aproveitar para qualquer ataque em quanto dura a retirada, mas para este effeito he preciso, que o Corpo <>171seja protegido por outro a que o Inimigo não possa chegar. O detalhe destas Manovras já se explicou 1285 nas Secçõens antecedentes; a sua applicação fará o objecto da presente Secção. As grande Manovras se reduzem ás seguin tes. 1.º Formar em linha por hum á direita, ou á esquer 1290 da, tendo o Exercito marchado de costado. 2.º Formar em linha por quartos de conversão. 3.º Mudar frente para a vanguarda, para a di reita, ou para a esquerda, sobre huma linha direita, ou obliqua, ou sobre o centro da sua posição. 1295 4.º Formar em linha por desdobramento de frente, ou de frente reversa, por contra-marcha. 5.º Marchar sobre a vanguarda em linha de Batalha para atacar o Inimigo de frente. 171 Inserção escrita a lápis e em letra menor sobre "seja protegido"(l. 1282), localizada entre as linhas 1281- 1282. 347 [fól. 36v]60 6.º Atacar com huma ala, e negar a outra, para to 1300 mar o Inimigo em flanco, ou pela rectaguarda. 7.º Atacar em marcha graduada. 8.º Atacar em Columna. 9.º Passar huma ponte, o{{s}}172 desfiladeiro, e fazer isto mesmo em retirada á vista do Inimigo. 1305 10. Retirar huma parte das Tropas para for mar huma potança, para a rectaguarda da sua posi cão. 11. Retirar-se em linha chêa. 12. Retirar-se em Xadrez. 1310 13. Fazer passar as linhas para pôr a primeira debaixo da protecção da segunda, ou para pôr a se gunda na vanguarda da primeira. 14. Para formar Praça vazia. ______________________________________________ 1.º Formar a linha tendo o Exercito marcha 172 Há dois riscos verticais feitos a lápis que indicam a supressão da letra . A possível causa é o erro de concordância de número que é gerado. 348 [fól. 37r] 61 1315 do de costado. 173 Se o Corpo de Exercito fez á direita, ou á es querda, parallelamente á posição do Inimigo, me174 terá em Batalha por hum á direita, ou por hum á175 esquerda. 1320 Nota Bene Como a linha não tem que fazer, senão hum pequeno movimento para entrar em Ba talha, poderá executa-lo na presença do Inimigo, e bastará somente ter cuidado, em que as filas se não desunão, para não haver intervallos, de que o 1335 mesmo Inimigo se possa aproveitar. 2.º Formar a linha por quarto de conversão.176 Esta Manovra não tem outro objecto, senão de formar em linha hum Corpo de Exercito para o fazer entrar em hum campo, ou em huma posição 1340 pela qual se quer cobrir hum Paiz: Esta posição pode ser parallela, ou obliqua a que o Inimigo occu177 pa; e se executa com muitos Batalhoens do mesmo modo, que a respeito de hum só se explicou na Secção 4.ª 178 Figura 5 etcoetera. com a differença porem, que para determinar 1345 a frente da linha, sobre que as Tropas se devem for 173 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 174 Aparece escrito < Figura 1>, com tinta preta, na margem direita da linha 1317. 175 Aparece escrito < Figura 2>, com tinta preta, na margem direita da linha 1318. 176 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 177 Aparece escrito < Figura 3>, com tinta preta, na margem direita da linha 1341. 178 Algarismo escrito a tinta preta. 349 [fól. 37v] 62 mar, não tendo sido o campo marcado de antemão, se dão sempre dous pontos de vista A. B. entre os quaez os Batalhoens se devem alinhar para este effeito os Ajudantes se poem na linha a.a.a. entre os ditos pon 1350 tos de vista: Se a Columna marcha pela direita, 179poem cada Ajudante no lugar que faz peão o seu Batalhão, que he o lado esquerdo: Se marcha pe la esquerda, poem-se na direita. 3.º Mudar de frente para a vanguarda á direi 1355 ta, ou á esquerda, ou sobre o centro da sua posição, por huma linha direita, ou obliqua.180 Esta Manovra se faz ordinariamente fora do alcance do Inimigo, para apoiar hum dos lados do Exercito. Se sequer levar a esquerda para avan 1360 181guarda como na Figura 5 da-se hum ponto de vista A. para a vanguarda da esquerda do Exercito, e os Ajudantes se poem em linha recta a.a.a. entre a extremidade do lado direito, e o ponto de vista; e o resto da Manovra se executa como se explicou a res 1365 peito de hum só Batalhão Secção 2 Figura 7 : Executa-se do mesmo modo, se o lado direito houver 182de ser levado á vanguarda, como na Figura 6 ou se o 183movimento se fizer sobre o centro, como na Figura 7184. 179 Aparece escrito < Figura 4>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1351. 180 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 181 Aparece escrito < Figura 5>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1360. 182 Aparece escrito < Figura 6>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1367. 183 Aparece escrito < Figura 7>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1368. 184 todos os números de figura que aparecem no corpo do texto estão traçadas em tinta negra, assim como as das indicações nas margens. 350 [fól. 38r] 63 Pode succeder por hum movimento inespera 1370 do do Inimigo, que se deva executar esta Mano vra na sua presença, e tanto no seu alcance, que os Pelotoens que marchão em frente, possão ser ata185 dos sobre a marcha: e neste caso se fará o movimen to immediatamente, como se explicou a respeito de 1375 hum só Batalhão na Figura 15 Secção 2.ª186 Nota Bene Estando dentro do alcance do Inimigo, não se deve nunca fazer este movimento sobre o centro, excepto no caso em que o lado, que marcha para a rectaguarda, se achar cuberto pe 1380 la figura do terreno, porque he evidente, que a par te das Tropas, que se retira, não estando prote gida por algum modo, dará lugar a que o Inimi go se aproveite atacando-a com vantagem duran te o movimento retrógrado. 1385 Nota Bene Os Ajudantes postos em a.a.a. servem nesta Manovra, e em todas as outras, como as estacas em qualquer operação de Geometria pra tica, em que for preciso tirar huma linha recta en tre dous pontos dados. Se os Officiaes estiverem 1390 nisto bem exercitados, e da mesma forma os Offi ciaes Generaes, que determinão o posto, que as Tro 185 Aparece escrito < Figura 8>, com tinta preta, na margem direita da linha 1372. 186 Parte em negrito escrita com tinta preta. 351 [fól. 38v]64 pas devem occupar virá a ser facil a operação, e po de executar-se em pouco tempo, porque não se pre cisa de huma exacção Mathematica, e basta que 1395 a frente da linha não faça huma posição falsa a respeito do fim, que se propoem, ou seja cobrir hum Paiz, ou tomar huma posição parallela, ou obliqua a do Inimigo. 4.º Formar-se em linha por desdobramento de 1400 frente, sobre huma linha parallela, ou obliqua, ou de frente inversa por contra-marcha.187 A Columna de muitos Batalhões, queren do-se desdobrar na sua frente; forma-se pelo modo que se explicou a respeito de hum só Batalhão 1405 na Secção 4.ª Figuras 19 e 20. 188 O desdobramento pode ser pela rectaguarda, pela vanguarda, ou pelo cen tro, executado debaixo dos mesmos principios ex plicados a respeito de hum só Batalhão na Sec ção 4.ª 189Figuras ........21..........22........23...24..........25 1410 190 Nota Bene Entende-se por centro de col~una a divisão, que o General nomêa para fazer o centro do desdobramento, conforme a extensão do terreno, que elle quer occupar para a direita, ou para a es 187 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 188 Parte em negrito escrita com tinta preta. 189 Parte em negrito escrita com tinta preta. 190 Há um sinal de <{> antes de N.B., feito com tinta preta. 352 [fól. 39r] 65 querda, depois de formado em Batalha191 com a 1415 differença, que a testa de huma Columna pela direi ta de muitos Batalhoens, chegando ao alinhamen to , que se deve tomar entre dous pontos como A.B.: Os Ajudantes se vão postar em linha á direita, ou á esquerda, ou para ambos os lados da testa de Co 1420 lumna, que já se acha entre os dous pontos de vista, conforme o desdobramento, que houver de se fazer, pe la testa, pela rectguarda, ou pelo centro como na Figura 9192 que mostra o desdobramento de cinco Batalhoens so193 bre o centro em a.a.a. os Ajudantes, que se devião 1425 pôr á direita da testa de Columna, se poem em a. no lugar em que o lado esquerdo dos seus Batalhoens postos em linha, se devem apoiar. Os Brigadei ros, ou os Marechaes de Campo, são os que hão de postar os Ajudantes sobre a linha do desdobramen 1430 to. Os dos Batalhoens da esquerda, se porão em a. , que he o lugar em que o lado direito dos seus Ba talhoens se deve apoiar: Feito isto, todas as divisões dos Batalhoens da vanguarda, sendo a Columna pe la direita, fazem á direita, e se a Columna he pela es 1435 querda, fazem á esquerda: O 2.º Batalhão marcha, até que o lado esquerdo da sua divisão da vanguar da se ache na altura do terreno marcado pelo Aju dante: O Batalhão faz alto neste ponto, e torna á 191 Aparece um sinal de <}> depois da palavra “Batalha” (l.1414). Sinal também escrito a tinta preta. 192 O que está em negrito aparece escrito a lápis. 193 Aparece escrito < Figura 9>, com tinta preta, na margem direita da linha 1423. 353 [fól. 39v]66 frente por hum á esquerda; e logo que a sua frente 1440 estiver desembaraçada do 1.º Batalhão, marcha em Columna cerrada, até entrar no alinhamento marca do pelos Ajudantes em a. entre A., e B. O 1.º Ba talhão marcha de costado, até que o lado esquerdo da divisão da sua vanguarda, até ao terreno mar 1445 cado pelo seu Ajudante: Faz alto nesse ponto, e tor na á frente por hum á esquerda. O 4.º, e 5.º Bata lhão fazem á esquerda ao mesmo tempo, que o 1.º, e 2.º fez á direita: Marchão de costado, até que a direi ta da 1.º divisão do 4.º Batalhão esteja na altura 1450 do terreno marcado pelo seu Ajudante: Neste pon to fazem á direita todas as divisões deste Bata lhão, e marchão, até que a 1.º divisão chegue ao ali nhamento marcado pelos Ajudantes em a.a.a. en tre os pontos de vista A.B., e ahi faz alto: O 5.º 1455 Batalhão continua a sua marcha, até qe o lado di reito da sua primeira divisão chegue a altura do terre no marcado pelo Ajudante, e neste ponto todas as divi soens do Batalhão fazem alto, e depois á direita, e marchão a entrar no alinhamento, entre os pontos 1460 de vista A.B. logo que o 1.º, e 2.º Batalhão che gão a desembaraçar a frente do 3.º, todas as suas divi soens marchão á vanguarda, a entrar no terreno mar cado pelos dous Officiaes inferiores, que deixou a divi 354 [fól. 40r] 67 são da testa de Columna: Quando as testas dos cin 1465 co Batalhoens se acharem postadas sobre o alinha mento entre A., e B., os dous Batalhoens da di reita desdobrão pela frente, e os da esquerda desdo brão pela rectaguarda: O Batalhão do centro sobre o centro, pelo mesmo modo, que já se explicou 1470 na Secção 4.ª Figura 25.194 Se a Columna marcha pela esquerda: Os dous Batalhoens da vanguarda fazem á esquer da, e os dous da rectaguarda á direita: Os Aju dantes poem-se em a.a.a., que vem a ser os da direi 1475 ta no lugar em que os seus Batalhoens houverem195 de apoiar á esquerda, e os da esquerda, no lugar em que os seus Batalhoens houverem de apoiar á di reita: Os Batalhoens da direita, desdobrão pela rectaguarda: Os da esquerda, pela vanguarda; e o 1480 Batalhão do centro, sobre o centro; e tudo debaixo dos principios, que acabão de se explicar no Paragrafo an tecedente. Nota Bene Estes principios são applicaveis a qual quer outro numero de Batalhões, que hajão de desdo 1485 brar pela << vanguarda>>196 rectaguarda197, ou sobre o centro. 194 O que está em negrito aparece escrito com tinta preta. 195 Aparece escrito < Figura 10>, com tinta preta, na margem direita da linha 1475. 196 Inserção sublinhada escrita a tinta preta, acima da palavra “rectaguarda”. 197 A palavra aparece sublinhada com tinta preta no corpo do texto. 355 [fól. 40v] 68 Usa-se da mesma norma, quando se quer desdo brar huma columna sobre huma linha obliqua, á fren te da sua marcha; mas neste caso antes de cerrar as di visoens, se devem fazer os movimentos explicados na 1490 Figura 11 Secção 4.ª Figura 26. 198 só com a differença, que sendo a Columna composta de muitos Batalhoens, podem as divisoens da Columna, postar-se perpendicularmen te na rectaguarda da 1ª em passo de costado; para cu jo effeito farão á direita, ou á esquerda, logo que a 1ª di 1495 visão tiver feito á conversão precisa para entrar no ali nhamento indicado.199 Quando hum Exercito, que marcha em diversas Columnas quer desdobrar sobre huma linha obliqua, não devem as testas das columnas marchar todas 1500 na mesma altura (como de ordinario se recomenda), antes se devem anticipar na marcha humas ás outras 200com huma altura proporcionada ao gráo de obliqui dade, que se quer dar ao novo alinhamento, como se vê entre os pontos de vista C.O. : Antes que as 1505 vanguardas das columnas cheguem ao alinhamento dado entre estes pontos, fazem alto; a 1ª divisão, te sta de columna, faz huma conversão proporcionada a obliquidade do alinhamento C.O; todas as mais divisoens de cada Columna, se postão perpendicular 198 O que está em negrito aparece escrito com tinta preta. 199 O que está em negrito aparece em tonalidade mais clara, mas em mesma cor de tinta. 200 Aparece escrito < Figura 12>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1502. 356 [fól. 41r] 69 1510 mente na201 rectaguarda das suas testas de Columna, com passo de costado : Sendo as Columnas marcadas nesta figura cada huma de cinco Batalhoens, desdo brarão debaixo dos principios determinados na Sec ção. 4ª Figura 21.202 Pode-se executar com o mesmo me 1515 thodo, tanto para á direita, como para a esquerda; e esta qualidade de movimento, he de grande utilidade; porque quando as Tropas estão bem exercitadas nel le, he facil ganhar o flanco ao Inimigo. Nota Bene O desdobramento de muitos Ba 1520 talhoens, he huma Manovra, que requer grande ex accaõ, por isso deve sempre fazer-se com passo ordina rio; porque aliás chegaria o Soldado ao alinhamen to sem fôllego, e difficultosamente em boa ordem Deve fazer-se fora do alcance da mosquetaria; e do 1525 fogo directo das batarias do Inimigo. A protec ção do terreno, he o que mais se deve procurar; mas não sendo possivel cobrir-se com elle, se estabelecem batarias, que protejão, ou se mascara o movimento, postando Cavallaria na vanguarda: Se por al 1530 gua circumstancia prevista, oi inesperada for preci so desdobrar dentro do alcance do Inimigo, e sem qualidade nenhuma de protecção; neste caso he neces sario desdobrar as Columnas pela rectaguarda, ain 201 O que está em negrito aparece escrito com tinta preta. 202 O que está em negrito aparece escrito com tinta preta. 357 [fól. 41v] 70 da que fique invertida a ordem dos Batalhoens, 1535 porque deste modo estando a vanguarda quasi for mada, pode proteger com o seu Fogo a Tropa da re ctaguarda, que estiver em movimento para desdo brar, e que não pode combater, senão successivamen te, porque assim he que vai entrando no terreno. 1540 Se hum Corpo de Exercito marchando sobre huma, ou mais Columnas, se achar obrigado por hum ataque imprevisto do Inimigo pela rectaguarda, a 203 mudar a frente da sua marcha, e desdobrar em fren te reversa; neste caso contra-marcharão todos os Pe 1545 lotoens pelo modo explicado na Secção 3ª Figura 29 e 30.204 Depois disto, poderão as columnas desdobrar-se, con forme as circumstancias, debaixo dos principios esta belecidos. Nota Bene Sendo o Corpo de Exercito com 1550 posto de duas linhas, os Batalhoens da 2ª linha marchão ordinariamente na rectaguarda dos Ba talhoens da 1ª, quando se metem em Columna e quando a vanguarda da 1ª linha vai chegando ao terreno onde tem de desdobrar : A testa de Colu 1555 mna da 2ª linha affrôxa a marcha, deixando a diantar a 1ª, para que depois de desdobrada, haja 203 Aparece escrito < Figura 13>, com tinta preta, na margem direita da linha 1543. 204 O que está em negrito aparece escrito com tinta preta. 358 [fól. 42r] 71 entre as duas linhas a distancia ordinaria, que he de trezentos, ou quatrocentos passos, excepto em casos particulares, que obriguem a haver maior, ou me 1560 nor separação. 5ª Marchar em linha de Batalha á van guarda, para atacar o Inimigo em frente.205 Não ha nada mais difficultoso, que esta Ma novra, quando he executada por muitos Batalhões, 1565 porque he preciso conservar perfeitamente o ali nhamento, para não chegar o flanco ao ponto, 206 em que se deve atacar de frente. Para não abrir intervallos na linha por onde o Inimigo possa penetrar, e tomar em flanco: Para não apertar de 1570 masiadamente a linha, que he tal vez o peor de to dos os defeitos; porque dá motivo a muita confusão; diminue a extensão da frente, e inutiliza grande nume ro de armas, as quaes não podem dar fogo, porque com o apêrto succede dobrarem-se, e tres dobrarem-se as fi 1575 leiras, e ficarem inuteis as da rectaguarda. Tambem não basta, que cada Batalhão estê ja bem perfilado entre si: He preciso que o esteja com o Batalhão, que estiver á sua direita ou á sua 205 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 206 Aparece escrito < Figura 14>, com tinta preta, na margem direita da linha 1566. 359 [fól. 42v] 72 esquerda, e assim todo o resto da linha, porque se ca 1580 da Batalhão cuidasse só no seu proprio alinhamen to, e não se governasse pelo resto da linha: Succede ria cruzarem-se os Batalhoens, e tomando cada hum, huma direcção particular, seria impossivel che gar o Corpo todo do Exercito em linha de Bata 1585 lha, ao ponto que se tivesse proposto: Para reme diar estes grandes inconvenientes, o General que commanda, escolhe hum dos Batalhões da linha para ser o que diriga a marcha: As bandeiras deste Batalhão, adiantão-se quatro 207passos sobre a frente, e 1590 devem ter grande cuidado em se perfilar parallela mente com a vanguarda do batalhão, e conservar sempre na marcha o mesmo alinhamento: O Coro nel, que está no centro adiante das bandeiras toma hum ponto de vista em linha recta para diante, e re 1595 para em alguns pontos intermedios, como por exemplo, huma pedra, ou arvore, ou arbusto, pelos quaes faça mais certa a direcção da sua marcha: Os Officiaes inferio res, que tomaram o lugar das duas bandeiras, que sahi ram á frente, tem cuidado em se conservar sempre 1600 bem perpendicularmente na rectaguarda das ditas bandeiras: O Tenente Coronel, ou qualquer outro Official, que marcha na rectaguarda do centro do Ba talhão, a quatro passos de distancia, enfiando o ponto 207 O que está em negrito aparece escrito com tinta negra. 360 [fól. 43r] 73 de direcção pelo Coronel, e pelo intervallo das duas ban 1605 deiras, e dando avizo de qualquer descrepancia da mar cha para a direita, ou para a esquerda: Os Capitaens da direita, e da esquerda do Batalhão, cuidão em que os seus lados se perfilem bem com o centro: O Major e o Ajudante, que pela rectaguarda andão correndo to 1610 dos os Pelotoens, os advertem continuamente de qual quer desigualdade, que em quanto for pequeno se re medêa facilmente, obliquando qualquer cousa para hum ou outro lado: Deste mesmo modo se previne hum apêrto, ou se ganha huma distancia, que principiasse a 1615 perder-se; e tudo isto se deve fazer em voz baixa ou com acenos, porque nas Manovras, he preciso que haja o maior silencio, para não haver distracção. As bandeiras dos outros Batalhões marchão na vanguarda de cada hum delles: Perfilão-se com as 1620 do Batalhão, que dirige; e como os Batalhões a que pertencem cuidão em se conservar bem parallelos com ellas, he preciso, que fação estudo em se não enviozar, adiantando algumas das espadoas, porque isso daria occasião a que o Batalhão perdesse o alinhamento 1625 fazendo insensivel conversão para algum dos lados. Os Officiaes destes Batalhões, pelo que toca á mar cha, observão o mesmo que se disse a respeito do Bata 361 [fól. 43v] 74 lhão que dirige. O Capitão de qualquer lado do Ba talhão, adverte o Capitão do lado do Batalhão conti 1630 guo, quando o dito lado se adianta, ou se atraza, para que este com voz baixa, ou com aceno, possa advertir os outros Pelotoens para entrarem no perfil, e o Major e o Ajudante pela rectaguarda, concorrem tambem para remediar estas desordens. 1635 [[[O General que commanda escolhe ordinariamen te hum dos Batalhoens do centro para dirigir a marcha, e a razão disto he, porque como neste, e os da direita se perfilão para a esquerda, e os da esquerda para a direita, cortando-se por este modo a linha em duas par 1640 tes, tem cada huma dellas a metade da extensão de alinhamento, que se haveria de conservar, se alinha toda se guiasse no mesmo sentido pela direita, ou pela esquerda.]]] 208 O General que commanda, escolhe ordinaria 1645 mente hum dos Batalhoens do centro, para dirigir a marcha, e a razão disto he, porque como neste caso as bandeiras dos Batalhoens da direita, se perfi lão pela esquerda, e as dos Batalhoens da esquerda, se perfilão pela direita, cortando-se por este modo a 1650 linha em duas partes, tem cada huma dellas, que 208 O retângulo está feito em tinta preta. Como o trecho englobado pelo retângulo aparece mais abaixo de outra forma, a função do retângulo deve ser a de marcar um erro de cópia por repetição. Por isso, consideramos esta parte passível de ser uma supressão conjectural e também a marcamos, segundo as normas estabelecidas. 362 [fól. 44r] 75 conservar a metade da extensão do alinhamento: Há porem casos que obrigão o General a escolher para director, hum Batalhão, que não he do cen tro; mas estas excepçoens não alterão nenhum 1655 dos principios estabelecidos para a execução desta marcha. 6º. Atacar com huma ala para tomar o Inimigo em flanco, ou pela rectaguarda, desvian do a outra ala.209 1660 Esta Manovra faz-se por dois modos: 1º estando o Exercito em Columna: 2º ou em ordem de Batalha. Estando em Columna, executa-se debaixo dos principios estabelecidos na Figura210 a respeito do 1665 desdobramento sobre huma linha obliqua. Esta 211 Manovra já se demonstrou, tratando-se de hum Corpo de Exercito, que marcha em tres Columnas, cada huma de cinco Batalhoens, tendo todas ellas marchado pela esquerda, e desdobrando pela recta 1670 guarda para a direita. Modifica-se esta Ma novra em todos os sentidos, conforme o terreno, e as circumstancias; ou seja para atacar o Inimigo 209 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 210 Não há indicação de qual é a figura. O espaço está em branco. 211 Aparece escrito < Figura 15>, com tinta preta, na margem direita da linha 1665. 363 [fól. 44v] 76 pelo flanco direito, ou pelo esquerdo, desdobrando pela vanguarda, pela rectaguarda, ou pelo centro, e até 1675 se pode fazer desdobrar cada Columna por seu modo se o terreno assim o pedir, e o engenho, e golpe de vista do General, encontrar alguma vantagem nessa mo dificação. Estando o Exercito em Batalha parallelo 1680 com o do Inimigo, e julgando-se a proposito não com prometer toda a linha; e formar hum ponto de ataque re 212forçado em ordem á maior segurança: Conservando ao mesmo tempo o Inimigo na persuação de ser ataca do de frente; se refórça huma das alas; e para se adi 1685 antar ao mesmo tempo, que a outra se recusa: Ne sta disposição se cahe sobre o flanco do Inimigo; e o modo de fazer esta Manovra he rompendo por hum quarto de conversão á direita, ou á esquerda, como se vê em huma linha, que se rompe pela direita, para ata 1690 car o flanco esquerdo do Inimigo Figura 16213 Os Pelo toens dos Batalhões, que formão o lado direito, que deve atacar o Inimigo em flanco, marchão em frente: Observão com cuidado as suas distancias, e tomão a direcção, que he precisa, para se tornar a formar em 1695 Batalha por quarto de conversão á esquerda, no flanco do Inimigo, entre os dous pontos de vista A.B. 212 Aparece escrito < Figura 16>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1682. 213 O que está em negrito aparece escrito em tinta preta. 364 [fól. 45r] 77 Deste lugar devem marchar em frente, para prin cipiar o ataque sustentado pela segunda linha, que pa ra esse effeito fará a mesma Manovra, e se achará for 1700 mada na distancia ordinaria de trezentos passos: Os Pelotões do lado esquerdo, que se querem recusar, depois de terem seguido a direita por algum tempo; para illudir o Inimigo, e fazer-lhe crer, que o Exerci to procura retirar-se, fazem á direita, e marchão pa 1705 ra a rectaguarda, encaminhando para a esquerda a testa dos Pelotoens, os quaes irão de sorte, que a vanguarda de cada Pelotão marche na altura da sexta fila do Pelotão, que o precede á esquerda: Continuarão a marchar sempre na mesma direcção 1710 até ao terreno, em que o General quer que torne a for mar a linha como em - a e b214: Neste ponto fazem alto, e tornão á frente por hum á esquerda: Os Pe lotoens perfilão-se exactamente de frente a fundos, da esquerda para a direita, e entrão todos a hum tem 1715 po por quartos de conversão á esquerda na linha a b215: Se o General quer servir-se dos Batalhões deste lado, para reforçar o ataque do lado direito, o fará logo que elles tornão a entrar na sua fren te, mandando-os marchar, para qualquer parte, 1720 que lhe pareça conveniente, para ajudar o ataque da ala, que combate, sendo necessario, ou para pro 214 O que está em negrito aparece escrito em tinta negra e o conectivo “e” está em tamanho menor. 215 O que está em negrito aparece escrito em tinta preta. 365 [fól. 45v] 78 teger a sua retirada. Nota Bene O movimento da ala esquerda para a rectaguarda, deve sempre ser protegido pe 1725 la Cavallaria por Tropas ligeiras, ou alguma ba taria estabelecida para esse fim. Pode executar-se esta Manovra do mesmo modo, para cahir sobre o flanco direito do Inimigo e nesse caso forma o ataque a ala esquerda, e se re 1730 cusa a direita. 7º. Atacar pela marcha graduada.216 Ataca-se em marcha graduada, quando se julga fraqueza em huma das alas do Inimigo, 217e se pertende por meio deste ataque rompe-lo, para 1735 depois lhe cahir sobre o seu flanco. Esta Mano vra se executa pela direita, ou pela esquerda, por Ba talhoens, ou como he mais ordinario por Briga das de dous, ou tres Batalhões como se vê na Fig. 17218 em que os dous Batalhoens do lado direito marchão 1740 em frente, e os outros dous, que lhe estão contiguos, não rompem a marcha, senão depois que os primeiros mar charam, trinta, quarenta, ou cincoenta passos, con 216 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 217 Aparece escrito < Figura 17>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1734. 218 O que está em negrito aparece escrito em tinta preta. 366 [fól. 46r] 79 forme determinar o Commandante, e conforme o gráo de obliquidade, que elle quizer dar á linha, 1745 quando depois de desordenada a extremidade da ala inimiga, quizer por huma conversão tomar o Inimigo obliquamente, e ataca-lo sobre o flanco: A distancia nunca deve exceder de cem passos, por que sendo maior, pode ser que o Inimigo por hum 1750 movimento arrebatado, possa cahir sobre a ala da Brigada da vanguarda, antes que lhe possa acudir a Brigada, que se segue. Se o ataque for bem succedido, e se conseguir desordenar a ala do Inimigo: A segunda Bri 1755 gada o ataca pelo flanco, fazendo huma conversão sobre elle: Sendo mal succedido, a segunda Bri gada sustenta a primeira, travando combate com o Inimigo, logo que chega a perfilar-se com ella, e o mesmo fazem todas as outras. Se se quer au 1760 gmentar o numero dos Batalhões, para impôr ao Inimigo, e para afastar mais do seu alcance, o lado que não ataca; se formão novos Batalhões das terceiras fileiras das ultimas Brigadas antes de romper a marcha, para atacar gradualmente. 1765 Estas terceiras fileiras, fazem meia volta á direi ta, e por fileiras de Pelotão, quarto de conversão á 367 [fól. 46v] 80 direita, ou á esquerda, conforme a ala que devem formar e isto vem a ser o mesmo, que se explicou na Secção 3ª Figura 48 e 49219 As duas Brigadas, que atacão ficão for 1770 madas a tres de fundo, e as outras a dous: Se por meio desta Manovra se vierem a formar dez Bri gadas, tendo cada hum dos degraós cem passos de in tervallo, ficará a ala que se recusa mil passos distan te para a rectaguarda da ala, que ataca, e sem embar 1775 go disso, cada Brigada está em termos de cobrir a ala da Brigada, que a precede. O General conse guirá o importante fim de não comprometer toda a sua frente; atacando só com huã pequena parte: Esta rá em disposição de ser ajudado por todo o resto da li 1780 nha, sem se servir das Tropas da segunda linha, nem da Cavallaria, de que ordinariamentese usa para cobrir a extremidade da ala, que ataca, e ambas esta rão em estado de reforçar o ponto do ataque. Esta Manovra he susceptivel de muitas modi 1785 ficaçoens, attendendo ás circumstancias originadas pela posição do Inimigo, ou pela configuração do terreno: A habilidade, e bom golpe de vista do Gene ral, fundado nestes principios, pode tirar muitas van tagens, as quaes seria difficultoso, e quasi impossivel 1790 descrever, vista a sua diversidade, e a sua multidão. 219 O que está em negrito aparece escrito em tinta preta. 368 [fól. 47r] 81 A marcha graduada tambem se pode fazer pe lo centro;mas he cousa muito arriscada, porque se o ataque he mal succedido, poderá o exercito fi car cortado pelo meio, e muito difficultosa a sua 1795 retirada. 8º. Atacar em Columna.220 O effeito do fogo da Artilharia carregada com metralha, deve necessariamente impedir o ataque de hum Corpo formado em Columna, porque huma 1800 peça atirando, sobre huma Tropa de tanto fundo, fará nella hum effeito muito destructivo: Este junto com o fogo da Mosquetaria; produzirá tão221 grande mortandade, que venha a Columna inte ramente a desordenar-se. Não obstante isto, ha 1805 casos na Guerra, em que por hum ataque arreba tado se procura decidir hum combate duvidoso por muito tempo, cahindo vivamente sobre huma Tro pa, que principia já a fluctuar, ou que se acha des guarnecida de Artilharia: Neste caso não se 1810 forma nunca Columna, ou Columnas para atacar com grande numero de Batalhoens, mas somen te com hum até dous, e se executa esta Manovra como na Figura 18222 Quando he por dous Batalhões 220 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 221 Aparece escrito < Figura 18>, com tinta preta, na margem direita da linha 1802. 222 O que está em negrito aparece escrito em tinta preta. 369 [fól. 47v] 82 o 8º. Pelotão do Batalhão da direita, e o 1º. do 1815 da esquerda marchão em frente com passo ordina rio: Os Pelotoens da direita fazem á esquerda, e os da esquerda á {{da}}223 direita: O 7º. dobra pela re ctaguarda do 8º., o 2º. pela rectaguarda do 1º., e assim os mais, todos com passo accelerado: A testa de Co 1820 lumna conserva o seu passo ordinario, até que a Columna se forme de todo, e depois marcha ao ata que com passo accelerado: Se o ataque he bem suc cedido, pode desdobrar-se pela rectaguarda, e ten do rompido a linha do Inimigo, poderá toma-lo 1825 em flanco, cahindo-lhe para hum, ou outro lado por quarto de conversão á direita, ou á esquerda. Se se forma Columna de hum, ou de mais Batalhoens, sempre a Evolução se ha de fazer debaixo dos mesmos principios, isto hé, formando 1830 a Columna pelo centro, e entrando nella os Pelo toens com marcha de costado, porque por esta for ma he muito mais facil ao Batalhão tornar-se a pôr em linha por desdobramento pela recta guarda, ou atacar em flanco a linha do Inimi 1835 go por quartos de conversão á direita, ou á esquer da, depois de a ter rompido. 223 O risco é feito a lápis, em diagonal com início superior à esquerda. 370 [fól. 48r] 83 9º. Passar huma ponte, ou desfiladeiro á vi sta do Inimigo, para ir atacar, ou para se reti rar delle.224 1840 Estas Manovras fazem-se debaixo dos mes mos principios explicados na Secção 3ª. Figuras 38 e 39 etcoetera225 que trata da mesma Evolução com hum só Ba 226 talhão. Nesta Manovra a parte das Tropas que está em movimento para chegar ao terreno; 1845 ou para o largar, he protegida pela que se forma, ou pela que está formada; e a que está em movi227 mento, logo que fizer alto por hum á direita, ou á esquerda, cobre os flancos da que está já formada. 10 Retirar huma parte das Tropas para for 1850 mar hum flanco na rectaguarda da sua posição for matura, a que chamão potança.228 Se huma das alas do Exercito não estiver bem apoiado, e o General a quizer retirar para fa zer hum flanco na rectaguarda da sua posição, co229 1855 brindo por este modo, hum dos seus lados contra o ataque do Inimigo, se executará este movimen to pelo mesmo modo, que se explicou na Secção 3ª. Figuras 18 <> 230a respeito de hum Batalhão: Se este 224 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 225O que está em negrito aparece escrito em tinta preta. A parte “ 39 etcoetera” estão fora das margens da mancha. 226 Aparece escrito < Figura 19>, com tinta preta, na margem direita da linha 1842. 227 Aparece escrito < Figura 20>, com tinta preta, na margem direita da linha 1846. 228 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 229 Aparece escrito < Figura 21>, com tinta preta, na margem direita da linha 1854. 230 O que está em negrito aparece em tinta preta. A inserção “e 19” está posta de modo inclinado entre “18” e “a respeito”. 371 [fól. 48v] 84 movimento se faz na direita do Exercito, os Pe 1860 lotoens, que se puserem em marcha, para formar a potança para a rectaguarda do flanco direito, se tornão a meter em linha por hum quarto de conver são á esquerda, e se o movimento se faz na esquerda tornão-se a meter em linha, por hum quarto de con 1865 versão á direita. Este movimento pode-se muito bem fazer em presença do Inimigo, porque alem de estar elle muito tempo duvidoso, sobre o objecto de huma Evo lução retrógrada, ha o fogo das Tropas, que estão 1870 em linha, com o qual se protege o dito movimento, e quatro Batalhões de trezentas filas cada hum, podem executar este movimento em menos de meia hora. 11. Retirar-se em linha.231 1875 Esta Manovra depois de fazer toda a linha 232meia volta á direita, executa-se debaixo dos mesmos principios apontados na Secção 5ª. Figura 14233 a respei to de huma linha, que marcha em frente: A mar cha de retirada deve fazer-se com passo ordinario, por 1880 que se se fizer com passo accelerado, poderia degenerar em fugida; mas para se ganhar mais terreno, e sa 231 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 232 Aparece escrito < Figura 22>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 1876. 233 O que está em negrito aparece em tinta preta. 372 [fól. 49r] 85 hir com brevidade do alcance do Inimigo, conservan do sempre a boa ordem, devem os Soldados estender mais o passo, quando marchão em retirada: Se o 1885 Inimigo estiver em disposição de proseguir com Tropas destacadas, destaca-se tambem meio Pelo tão de cada lado do Batalhão, e estes pequenos Cor pos de seis, ou oito Soldados cada hum, a dous de fundo distribuidos pela rectaguarda da linha, a trinta, ou 1890 quarenta passos de distancia, embaração com a sua mos quetaria, que os flanqueadores do Inimigo fação fo go sobre os Batalhões, e retardem a sua marcha: Se os Batalhoens na sua retirada, encontrarem algum ob staculo na frente da sua marcha, manovrarám pelo 1895 modo apontado na Secção 3ª. Figuras 45 46 47234 12. Retirar-se alternadamente, ou em xadrez235 Se no instante em que se decide a retirada se acha o Inimigo tão perto, que possa intentar hum ata que de baioneta, e impossibilitar deste modo a retira236 1900 da em linha cheia: Neste caso se faz huma retirada alternada, a qual ainda que seja mais vagarosa, tem a vantagem, de que a parte que se retira, he protegida pelo fogo da que fica formada, como se vê na Figura 23237 de hum Corpo de Exercito de oito Batalhoens. 234 Todas essas referências em negrito, relativas a figuras e seções, estão sobrepostas com tinta negra a inscrições feitas a lápis anteriormente. É possível ver a sombra do lápis nessas partes. 235 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 236 Aparece escrito < Figura 25>, com tinta preta, na margem direita da linha 1899. 237 O que está em negrito aparece em tinta preta. 373 [fól. 49v] 86 1905 O 1º.3º.5º., e 7º. Batalhão fazem meia volta á direi ta, e marchão até á distancia de duzentos passos para a rectaguarda: O 1º., e 8º. Pelotoens dos Batalhoens que ficão firmes, fazem huma conversão para a re ctaguarda de quarenta e cinco gráos de abertura 1910 para cruzarem os seus fogos no terreno que deixa ram em aberto os Batalhoens, que se retiraram: Quando o 1º.3º.5º., e 7º. Batalhoens chegão a distan cia de duzentos passos, para a rectaguarda da pri meira posição, virão outra vez á frente por meia 1915 volta á esquerda: O 2º.4º.6º., e 8º. Batalhões fa zem meia volta á direita, e marchão pelos interval los dos primeiros, até a distancia de duzentos pas sos, e nesse ponto tornão á frente por meia volta á esquerda, para proteger a retirada dos primeiros, e 1920 por este modo se continua a retirada, protegendo-se alternativamente os Batalhões huns aos outros até estar fora do alcance de poder ser atacado pelo Inimigo na retirada. Todas as vezes que os Batalhões entrão em 1925 Batalha, com a frente para o Inimigo, formão os flancos do mesmo modo, que já se disse a respeito dos 4ºs238 Batalhoens. Durante esta Manovra aproveitão-se todas as vantagens, que o terreno a 238 o localiza-se junto em mesmo tamanho e ao lado do sinal de <º>. O al garismo <4> está sobrescrito a um <2>. O <2> e o <ºs> estão grafados na cor de tinta do corpo do texto e o <4> está escrito em tinta negra. 374 [fól. 50r] 87 presenta; mas deve attender-se, a que os Batalhões 1930 se não percão de vista huns aos outros; porque a regra fundamental he, que os Batalhões se reti rem sempre protegidos pelo fogo directo dos que se achão firmes. 13. Retirar a primeira linha, para ser pro 1935 tegida pela segunda, ou passar a segunda para a vanguarda da primeira.239 Se o ataque da primeira linha tiver sido mal succedido, e a quizerem passar para a rectaguarda da segunda, para que esta continue o ataque, se 1940 manovrará pelo modo apontado na Secção 3ª. Figura 31240 241 mas se o ataque da primeira linha tiver sido feliz e o Inimigo posto em fuga, porem com a circum stancia de que a primeira linha, sem embargo de242 vencedora, se ache mal tratada, ou cançada pela 1945 muita duração do combate, e fora de estado de se a proveitar da vitoria, e de proseguir, e derrotar o Ini migo totalmente; neste caso se puxa pela segunda linha, e se traz á vanguarda pelo modo seguinte: Todos os Batalhoens da segunda linha fazem á 1950 direita: As testas dos Pelotoens fazem hum quar to de conversão á esquerda, e marchão em frente: 239 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 240 O que está em negrito aparece em tinta preta e o número <1> foge à mancha. 241 Aparece escrito < Figura 24>, com tinta preta, na margem direita da linha 1940. 242 Aparece escrito < Figura 25>, com tinta preta, na margem direita da linha 1943. 375 [fól. 50v]88 Todas as fileiras de cada Pelotão seguem com pas so accelerado: Os Pelotoens observão exactamen te as distancias entre si: A primeira linha abre 1955 intervallos, dobrando de fronte de cada Pelotão tres filas para a rectaguarda, e logo que a rectaguar da dos Pelotoens chega a passar para diante da primeira linha, marchão os ditos Pelotoens em pas so ordinario, e se formão outra vez os Batalhões. 1960 Para este effeito as testas dos Pelotoens fazem quarto de conversão á direita: O resto das fillas perfilão-se rapidamente de peita a espalda, para entrar no alinhamento, e para este se não alterar he preciso, que todos os Pelotoens tenhão marchado 1965 na mesma altura, e tenhão conservado entre si huma distancia igual ao comprimento da sua frente, por que estando tudo nesta disposição, sem mais do que hum á esquerda ficão formados os Batalhoens. Esta Manovra he preciso, que se faça sempre 1970 marchando, para não dar nenhum tempo ao Ini migo de se tornar a formar. 14. Formar Batalhão quadrado, ou Praça vazia.243 Achando-se hum Corpo de Infantaria cer 243 O que está em negrito aparece escrito com letra maior que a do corpo do texto. 376 [fól. 51r] 89 1975 cado pelo Inimigo, e sendo-lhe preciso fazer face pa ra todos os lados, se formará em quadrado, como se vê na Figura 244 que representa hum Corpo de quatro Batalhoens. O segundo Batalhão da direita he firme, 1980 o 1[º].245, e o 3º. fazem meia volta á direita, e depois hum quarto de conversão; o 1º. para a direita, e o 3º. para a esquerda, como se disse na Secção 2ª. Figuras 7 e 8.246 feito247 este quarto, tornão á vanguarda por meia volta á esquerda. O 4º. Batalhão rompe-se em Pelo 1985 toens por quartos de conversão á direita; o 1º. Pelo tão faz logo outro quarto de conversão sobre o mesmo lado, e marcha em frente; os mais Batalhoens se guem a sua marcha, fazendo o segundo quarto no mesmo lugar em que o 1º. o fez. Quando a testa do 1990 4º. Batalhão chega a altura do lado esquerdo do 3º.: O 1º. Pelotão faz quarto de conversão á esquerda marcha tres passos, faz outro quarto de conversão á direita, e faz alto, fazendo face ao quarto flanco do qua drado: Os mais Pelotoens fazem quarto á esquerda 1995 no mesmo terreno, e entrão pela reversão a perfilar com o 1º., pelo modo que se explicou na Secção 3 [ª]. Figura 11248 Fazem meia volta á direita, para acabar de fechar o quadrado, e feito isto tornão á sua frente por meia 244 O espaço está em branco, sem nada escrito. 245 Falta o sinal de <º> do número 1, mas o ponto indicativo de que deveria ser um numeral ordinal existe. 246 O que está em negrito aparece em tinta preta. 247 Aparece escrito < Figura 26>, com tinta preta, na margem direita da linha 1982. 248 O que está em negrito aparece em tinta preta. Ademais, Falta sinal de <ª> do número 3, mas o ponto indicativo de que deveria ser um numeral ordinal existe. Infere-se que o símbolo tenha sido apagado, pois pode-se ver a sua sombra a lápis. 377 [fól. 51v] 90 volta á esquerda: As peças de campanha poem-se 2000 nos angulos do quadrado, e quando o quadrado quer marchar, os Batalhoens do flanco fazem á direi ta, ou á esquerda, conforme a direcção, que se quer to mar: O Batalhão da rectaguarda faz meia vol ta á direita, e marcha em frente, assim como o da 2005 vanguarda, e todos os Batalhões devem ter grande cuidado, em que se não desunão as filas, para não dar á Cavallaria lugar por onde rompa. Quando o terreno em que se marcha principia a estreitar-se, marchão em frente os Pelotões que 2010 249[cabem:] 250 Os que não cabem, sendo da direita, fa zem á esquerda, e os da esquerda á direita; e seguem de costado as tres filas dos lados da frente, que mar cha. No Batalhão da rectaguarda: Os Pelotões que são obrigados a romper-se, fazem á direita os des 2015 se lado, e os da esquerda, á esquerda, e seguem de costa do a marcha dos Batalhoens dos flancos, ficando deste modo o quadrado reduzido a parallelogramo. Logo que o terreno se alarga, tornão as filas a en trar nos seus alinhamentos, pelo modo que se expli 2020 cou na Secção 4 [ª.] Figuras 1 e 2251 em que se trata da evolu ção de hum Batalhão, que sahe de hum desfila deiro. 249 Aparece escrito < Figura 27>, com tinta preta, na margem esquerda da linha 2010. 250 O que está em negrito aparece escrito um pouco apagado, mas é possível ler a palavra. 251 O que está em negrito aparece em tinta preta. Além disso, Falta sinal indicativo de numeral ordinal <ª.> do número 4. Infere-se que o símbolo tenha sido apagado, pois pode-se ver a sua sombra a lápis. 378 [fól. 52r]91 Todas as vezes que o Inimigo atacar o qua drado, deve este parar, e fazer fogo, e não torna a 2025 pôr-se em marcha, sem ter conseguido deste mo do affastar o Inimigo Nota Bene De cada lado do Batalhão se destaca hum meio Pelotão, o qual se divide em partidas de seis, ou oito Soldados formados a dous 2030 de fundo, que se distribuem por todo o lado do qua drado, e que servem para desviar os escaramucado res, que se affoutão a vir atirar sobre as fileiras, pa ra as desordenar; e não se apartão da frente mais de quinze, ou vinte passos. Se o Inimigo ataca 2035 o quadrado vigorosamente, retirão-se estes Solda dos para a frente do Batalhão, e poem o joêlho em terra em huma fileira na vanguarda da primeira, e cruzão o seu fogo, atirando obliquamente do cen tro, para os lados, mas de modo que não embara 2040 cem o fogo das tres fileiras do Batalhão: Aca bado o ataque, levantão-se, e logo que o quadrado se poem em marcha, torna a tomar252 os Lugares, que occupavão. Estes são os principios das grandes Ma 2045 novras de hum Corpo de Exercito, os quaes hum 252 Há um risco de lápis de aprox 3mm em cima do da palavra “tomar”. 379 [fól. 52v] 92 General habil, e experimentado na Arte de ma nejar Tropas pode applicar, e modificar em todos os casos, que occorrerem na Guerra, conformando-se com a força do Inimigo, com a configuração do ter 2050 reno, ou qualquer outra circumstancia. FIM.253 253 Manuscrito em letra de imprensa, tinta preta e tamanho maior que as demais. Abaixo, há um desenho (espada com 2 asas e uma coroa e 2 cobras entrelaçando-se). Assemelha-se à representação do caduceu de Hermes. Abaixo do desenho, há o carimbo com o Escudo Real e com a inscrição ovalada DA REAL BIBLIOTECA. 380 4.2.2. Glossário A ___________________________________________ AJUDANTE Ls. 799, 1351, 1465, 1450, 1457, 1609, 1633. Cl.Pal. s.m. Lem. Ajudantes (1349, 1362, 1385, 1418, 1424, 1429, 1442, 1453) Freq. 15 Etim. Do latim Adjutans –antis. (CUN, p.24) Df.Ms. É o oficial Ajudante dos Majores [rec]. Ref.Lex. Oficial militar que supre as vezes do superior. (Tomo I, p.80) Ex. “[...] os Ajudantes se poem em linha recta a.a.a. entre a extremidade do lado direito, e o ponto de vista [...]” (ls. 1362-1363) ARMA Ls. Ø Cl.Pal. s.f. Lem. Armas (09, 42, 66, 1573) Freq. 04 Etim. Do latim Arma. Instrumento de ataque e de defesa. (CUN, p.67) Df.Ms. Instrumentos ou organizações militares que servem tanto para o ataque quanto para a defesa [rec]. Ref.Lex. Qualquer instrumento ou aparelho próprio para ofender, ou defender-se. (Tomo I, pp.208-209) Ex. “A experiência tem dado a conhecer, que o soldado esquipado para a Guerra com armas, e mochila [...]” (ls. 41-42) 381 B ___________________________________________ BAIONETA Ls. 59, 1899 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 02 Etim. Pedaço de pano, com uma ou mais cores, às vezes com legendas, e que é distintivo de nação, corporação, partido, etc. Talvez do castelhano bandera derivado do gótico bandwo ‘signo’, que passaria a designar o estandarte distintivo de um grupo. (CUN, p.96) Df.Ms. Arma branca, espécie de faca, que se adapta à boca do fuzil ou do mosquete [rec]. Ref.Lex. Espécie de adaga larga e pontiaguda, que, em lugar de punho, tem um cabo oco que se encaixa na boca das espingardas; é ordinariamente de três gumes. (Tomo I, p.294) Ex. “[...] o Inimigo tão perto, que possa intentar hum ataque de baioneta, e impossibilitar deste modo a retirada em linha cheia [...]” (ls.1898-1900) BANDEIRA Ls. Ø Cl.Pal. s.f. Lem. Bandeiras (1588, 1593, 1598, 1601, 1618, 1647) Freq. 06 Etim. Pedaço de pano, com uma ou mais cores, às vezes com legendas, e que é distintivo de nação, corporação, partido, etc. Talvez do castelhano bandera derivado do gótico bandwo ‘signo’, que passaria a designar o estandarte distintivo de um grupo. (CUN, p.96) Df.Ms. Pedaço de pano, representativo de uma insígnia militar, que representa uma unidade de combate [rec]. Ref.Lex. Insígnia militar. É uma peça de lenço ou seda, com pinturas, armas, talvez quarteada de várias cores, para se conhecerem e ajuntarem a elas os soldados, que vão debaixo dessa bandeira, ou pertencem à Companhia do Chefe, cuja é a bandeira. (Tomo I, p.302) Ex. “[...] as bandeiras dos Batalhoens da direita, se perfilão pela esquerda, e as dos Batalhoens da esquerda, se perfilão pela direita [...]” (ls.1647-1649) 382 BATALHÃO Ls. 36-37, 54, 105, 117, 126, 135, 150, 157-158, 160, 168, 170, 173, 185, 186, 205, 217, 236, 250, 276, 303, 314, 318, 328, 332, 339, 345, 353, 358, 367, 371, 373, 376, 385, 391, 410, 433, 460, 481, 486, 494, 515, 518, 524, 527, 531, 560, 574, 583, 594, 601, 604, 605, 611, 618, 620, 634, 645, 655, 663, 668, 684, 686, 699, 705, 706-707, 712, 719, 725, 729, 734, 735, 737, 741, 745, 748, 750, 753, 756, 758, 765-766, 767, 776, 777, 779, 788, 800, 802, 804, 805, 809, 813, 821, 827, 828, 835, 839, 845, 854, 860, 868, 911, 941, 943, 945, 953, 962, 978, 981, 989, 1007, 1015, 1017, 1019, 1034, 1043, 1047, 1050, 1056-1057, 1060, 1067, 1069, 1197, 1104, 1120, 1126, 1155, 1170, 1181, 1184, 1196, 1206, 1225, 1352, 1365, 1375, 1404, 1408, 1435, 1437, 1440, 1442-1443, 1446-1447, 1449, 1451- 1452, 1455, 1458, 1460, 1468, 1480, 1576, 1578, 1580, 1589, 1591, 1602-1603, 1607, 1620, 1624, 1627-1628, 1628-1629, 1629, 1653, 1814, 1832, 1842-1843, 1858, 1887, 1905, 1972, 1979, 1984, 1990, 2003, 2013, 2021, 2027, 2036, 2040. Cl.Pal. s.m. Lem. Batalhões (38-39, 1402, 1484, 1564, 1587, 1618, 1620, 1626, 1691, 1716, 1738, 1760, 1762, 1813, 1871, 1892, 1915, 1921, 1924, 1929, 1931, 1959, 2005) Bathalhão (397-398) Batalhoens (1118, 1251, 1342, 1348, 1416, 1423, 1426, 1430, 1431-1432, 1433, 1465, 1466, 1472, 1475, 1477, 1478, 1491, 1512, 1519-1520, 1534, 1550, 1551-1552, 1582, 1636, 1645, 1647, 1648, 1668, 1736-1737, 1739, 1811, 1828, 1893, 1904, 1907, 1911, 1912, 1927, 1949, 1968, 1978, 1987, 2001, 2016) Freq. 146 Etim. Corpo de tropa. Do francês bataillon, derivado do italiano battaglione. (NAS, Tomo I, p.65) Df.Ms. Corpo de tropa militar que possui entre 600 e 800 soldados [rec]. Ref.Lex. Corpo de Infantaria que faz parte de um regimento e que se subdivide em companhias. (Tomo I, p.314) Ex. “[...] O Capitão de qualquer lado do Batalhão, adverte o Capitão do lado do Batalhão contiguo, quando o dito lado se adianta, ou se atraza [...]” (ls.1628-1630) 383 BRIGADA Ls. 1751, 1752, 1754-1755, 1756-1757, 1775, 1776. Cl.Pal. s.f. Lem. Brigadas (1737-1738, 1763, 1769, 1771-1772) Freq. 10 Etim. Do francês brigade, derivado do italiano brigata ‘companhia’, ‘familia’, ‘corpo de armas’, de briga. Corpo militar. (CUN, p.123) Df.Ms. Unidade tática militar composta por três ou quatro Regimentos, comandadas por um Marechal de Campo [rec]. Ref.Lex. Certo número de batalhões, ou esquadrões, dois, três ou mais, comandados por um Brigadeiro. (Tomo I, p.353) Ex. “[...] cada Brigada está em termos de cobrir a ala da Brigada, que a precede.” (ls. 1775- 1776) BRIGADEIRO Ls. Ø Cl.Pal. s.m. Lem. Brigadeiros (1427-1428) Freq. 01 Etim. Deriva do baixo latim brigata, de brigare, de origem desconhecida. A Academia espanhola tira o espanhol brigada de igual proveniência, mas filia brigare ao gótico brikan, lutar, contender. É possível que o vocábulo português seja termo militar de origem italiana adaptado. (NAS, Tomo I, p.79) Oficial general (CUN, p. 123) Df.Ms. Oficial comandante de uma Brigada [rec]. Ref.Lex. Oficial comandante de uma brigada. (Tomo I, p.353) Ex. “Os Brigadeiros, ou os Marechaes de Campo, são os que hão de postar os Ajudantes sobre a linha do desdobramento [...]” (ls. 1427-1430) 384 C ___________________________________________ CAMPANHA Ls. 39-40, 1999. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 02 Etim. Vem de campo. Do latim tardio campania. (CUN, p.145) Df.Ms. Operações coordenadas de um Exército dentro de uma guerra [rec]. Ref.Lex. Conjunto de operações militares em determinada região e em determinado tempo. (Tomo I, pp.389-390) Ex. “[...] As peças de campanha poem-se nos angulos do quadrado [...]” (ls. 1999-2000) CAPITÃO Ls. 230, 1628, 1629. Cl.Pal. s.m. Lem. Capitaens (1606) Freq. 04 Etim. Chefe, comandante, cabeça. Do baixo latim capitanus. (CUN, p.151) Df.Ms. Oficial militar de posto de graduação situado entre o Ajudante e o Major. Comandante de uma companhia [rec]. Ref.Lex. Oficial militar cujo posto é imediatamente superior ao de Ajudante e inferior ao de Major e que comanda uma companhia de infantaria. (Tomo I, pp.401-402) Ex. “O Capitão de qualquer lado do Batalhão, adverte o Capitão do lado do Batalhão contiguo [...]” (ls. 1628-1630) 385 COLUMNA Ls. 55, 281-282, 289, 297, 300, 308, 310, 311, 325, 344, 348, 352, 354, 362, 369, 378, 379, 383-384, 385, 431, 456, 475-476, 505, 525, 531, 539, 561, 574, 595, 598, 625, 699, 701, 824, 837, 845, 854, 863, 870, 879, 884, 903, 916, 932, 949, 953, 963, 985, 989, 1007, 1017, 1034, 1039, 1053, 1058, 1067-1068, 1104, 1107, 1117, 1120, 1121, 1125, 1180, 1181, 1183, 1996, 1998, 1229, 1236, 1236-1247, 1240, 1246, 1302, 1350, 1402, 1419- 1420, 1425, 1433, 1434, 1471, 1487, 1491, 1492, 1507, 1509, 1510, 1552, 1554-1555, 1661, 1663, 1665, 1796, 1799, 1803, 1810, 1819-1820, 1821, 1827, 1830. Cl.Pal. s.f. Lem. Coluna (1410, 1415); Columnas (1498, 1499, 1505, 1511, 1533, 1541, 1546, 1667, 1810) Freq. 110 Etim. Do latim Columna. (arquitetura) pilar cilíndrico, que sustenta abóbodas, entablamentos etc e que serve de ornato. Acepção extensiva de subdivisão. (CUN, p.197) Df.Ms. Linha de soldados de pouca frente e muito fundo, fila longa do Exército em marcha [rec]. Ref.Lex. Grupo de pessoas ou coisas em movimento, que ocupam maior espaço em comprimento do que em largura; troço de soldados em linha. (Tomo I, p.490) Ex. “A columna, forma-se ordinariamente por quarto de conversão [...]” (ls.325-326) Sin. Linha, Fila. COLUMNA ABERTA Ls. 377-378 Cl.Pal. s.f. Freq. 01 Df.Ms. Quando os Pelotões deixam entre si uma distância igual à frente, que devem ocupar, quando por um quarto de conversão, o Batalhão se mete em linha de Batalha (ls.300-304). Ref.Lex. Ø Ex. “A columna pode ser aberta, ou cerrada; chamase aberta, quando os Pelotoens deixão entre si huma distancia igual á frente, que devem occupar, quando por hum quarto de conversão; o Batalhão se mete em linha de Batalha.” (ls.300-304) 386 COLUMNA CERRADA Ls. 319, 377, 1441, 1464 Cl.Pal. s.f. Freq. 04 Df.Ms. Quando os Pelotões tomam entre si menos distância do que lhe é preciso, para meter em Batalha por quarto de conversão (ls. 316-318). Ref.Lex. Ø Ex. “A columna cerrada, he de duas especies; Cerrada a meia distancia, quando os Pelotoens tomão entre si menos distancia, do que he precisa, para meter em Batalha, por quarto de conversão.” (ls.319-322) COLUMNA CERRADA A MEIA DISTÂNCIA Ls. 319-320 Cl.Pal. s.f. Freq. 01 Df.Ms. Quando os Pelotões tomam entre si menos distância, do que é preciso, para meter em Batalha, por quarto de conversão (ls.320-322). Ref.Lex. Ø Ex. “A columna cerrada, he de duas especies; Cerrada a meia distancia, quando os Pelotoens tomão entre si menos distancia, do que he precisa, para meter em Batalha, por quarto de conversão.” (ls.319-322) COLUMNA CERRADA DE TODO Ls. 323 Cl.Pal. s.f. Freq. 01 Df.Ms. Quando os Pelotões vão unidos; mas não se usa, senão nos desdobramentos (ls. 323-324) Ref.Lex. Ø Ex. “E cerrada de todo; quando os Pelotoens vão unidos; mas não se usa, senão nos desdobramentos.” (ls.323-324) 387 COLUMNA REVERSA Ls. 587, 1024. Cl.Pal. s.f. Freq. 02 Df.Ms. Quando a coluna muda a sua direção da frente para retaguarda (ls.584-585). Ref.Lex. Ø Ex. “Chama-se a isto marchar em columna reversa,e tem lugar em huma retirada fingida” (ls. 587-588) COMMANDANTE Ls. 1222 Cl.Pal. s.m. Lem. Commandantes (136-137, 198, 201, 1079) Freq. 05 Etim. De comandar. Dirigir, governar, conduzir. Do francês commander, derivado do latim popular commandare, A forma substantiva tem origem no francês commandant. (CUN, p.197) Df.Ms. Oficial comandante de um grupamento militar [rec]. Ref.Lex. Aquele que tem um comando militar, chefe de tropas ou de qualquer força armada. Posto na hierarquia militar de alguns países, equivalente à patente de major no exército português. (Tomo I, p.494) Ex. “[...] no que toca a tomar a formatura, que o Commandante pode pertender; mas havendo a differença já dita, deve ser o desdobramento [...]” (ls.1221-1223) CONVERSÃO Ls. 163, 167, 180-181, 188, 191, 214, 220-221, 238, 241, 254, 303, 315, 318, 322, 326, 328, 369-370, 386, 392, 394, 398, 403, 405, 410, 411, 413, 420, 425, 426, 459, 462-463, 465-466, 470, 472, 483, 496, 500-501, 503, 520, 537, 551, 554, 568, 607, 615, 645, 656, 660, 682, 724, 732, 751, 782, 784, 787, 792, 794, 808, 842, 847, 849, 861, 869, 873-874, 877, 881, 887-888, 889, 891, 907, 908, 913, 919, 921, 935, 938, 958, 964, 996, 1000, 1010, 1019, 1231, 1235, 1291, 1336, 1495, 1505, 1625, 1688, 1695, 1715, 1746, 1755, 1766, 1826, 1835, 1862-1863, 1864-1875, 1908, 1951, 1961, 1981, 1985, 1986, 1991, 1992. 388 Cl.Pal. s.f. Lem. Conversões (58) Freq. 108 Etim. Ato ou efeito de converter-se. Do latim conversio, -onis.(CUN, p.213) Df.Ms. Mudança de uma tropa de uma determinada posição ou estado à outra [rec]. Ref.Lex. Acto ou efeito de converter; acção, movimento que faz voltar. Mudança de frente. (Tomo I, p.546) Ex. “[...] cada Pelotão faz meio quarto de conversão sobre a direita, para marchar cada hum na sua frente [...]” (ls.214-215) / “[...]faz quarto de conversão á esquerda, e segue a marcha.” (ls.405-406) CORONEL Ls. 1592-1593, 1604. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 02 Etim. Posto da hierarquia militar. Do francês colonel, derivado do italiano colonello ‘comandante de uma coluna’. (CUN, p.219) Df.Ms. Comandante de um Regimento. Posto de graduação acima do Tenente-coronel e abaixo de Brigadeiro [rec]. Ref.Lex. Oficial do exército de graduação imediatamente inferior à de General de Brigada; Chefe da coluna. (Tomo I, p.555) Ex. “[...] O Coronel, que está no centro adiante das bandeiras toma hum ponto de vista em linha recta para diante [...]” (ls. 1592- 1594) 389 D _____________________________________________________ DESTACAMENTO Ls. 266 Cl.Pal. s.m. Lem.Ø Freq. 01 Etim. Adaptação do francês de détacher, com influência de atacar. (CUN, p.257) Df.Ms. Pequena porção de um grupamento militar que se separa de sua unidade como tática de ataque, defesa ou reconhecimento de campo [rec]. Ref.Lex. Separação de uma parte do exército, que se envia a reforçar outra porção de exército comandada. (Tomo I, p.694) Ex. “[...] Quando hum destacamento, ou qualquer corpo pequeno, tem que tomar huma posição obliqua [...]” (ls. 266-267) DIVISÃO Ls. 1052, 1056, 1059, 1059, 1068, 1071, 1073, 1078, 1081, 1082, 1085, 1087, 1089, 1090, 1108, 1112, 1127, 1127, 1129, 1134, 1134, 1137, 1140, 1142, 1144, 1153, 1162, 1182, 1186, 1190, 1192, 1197-1198, 1201, 1230, 1411, 1436, 1444, 1449, 1452, 1456, 1463- 1464, 1494-1595, 1506. Cl.Pal. s.f. Lem. Divisoens (1041, 1050, 1054, 1070, 1079-1080, 1140, 1143-1144, 1149, 1158, 1163, 1174, 1211-1212, 1457-1458, 1461-1462, 1488-1489, 1492, 1509); Divisões (1057, 1067, 1076, 1094, 1168-1169, 1233, 1242, 1432, 1451) Freq. 69 Etim. Do latim divisio, -onis, de divisus, paticipio passado de dividere. (CUN, p.273) Df.Ms. Divisão de um Exército em unidades, com Armas combinadas, maiores que as brigadas [rec]. Ref.Lex. Porção de exército comandada por general. (Tomo I, p.729) Ex. “[...] Logo que a primeira divisão chega ao terreno, em que o Batalhão deve desdobrar faz alto [...]” (ls. 1055-1057) 390 E ___________________________________________ ESCARAMUÇADOR Ls. Ø Cl.Pal. s.m. Lem. Escaramuçadores (2031-2032) Freq. 01 Etim. Vem de escaramuça. Combate pouco importante. Do italiano scaramuccia. (CUN, p.314) Df.Ms. Soldado de infantaria de frente de batalha. [rec]. Ref.Lex. O que escaramuça. (Tomo I, p.850) Ex. “[...] servem para desviar os escaramucadores, que se affoutão a vir atirar sobre as fileiras [...]” (ls.2031-2032) EVOLUÇÃO Ls. 208, 348-349, 353, 454, 457, 474, 497, 504, 506, 508, 510, 527, 631, 660, 689, 713, 716, 763, 771-772, 817, 834, 840, 850, 878, 882, 899, 910, 940, 947, 951, 986, 1026, 1106, 1164, 1248, 1828, 1842, 1868-1869, 2020-2021. Cl.Pal. s.f. Lem. Evoluções (04, 19, 22, 82, 105, 107, 111, 117, 118, 366, 429); Evoluçoens (275, 812) Freq. 52 Etim. Desenvolvimento progressivo duma ideia, acontecimento, ação, etc. Do francês evolution, derivado do latim evolutivo, -onis. (CUN, p.339) Df.Ms. São movimentos executados em campo de batalha que consistem em mudar frente sobre a retaguarda, mudar frente sobre algum dos flancos ou mudar frente obliquamente [rec]. Ref.Lex. Movimento regular e metódico de tropas mudando de posição em exercício, ataque ou defesa. (Tomo I, p.912) Ex. “[...] O resto da Evolução, executa-se debaixo dos principios explicados [...]” (ls. 1164-1165) Sin. Manovra 391 EXÉRCITO Ls. 115, 1252, 1253, 1290, 1314, 1316, 1338, 1359, 1361, 1497, 1540, 1549, 1584, 1661, 1667, 1679, 1698-1699, 1793, 1852, 1859, 1904, 2045. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 22 Etim. Tropa, multidão, força armada. Do latim exercitus. (CUN, p.342) Df.Ms. Conjunto de tropas organizadas para fins de guerra e comandadas por um General [rec]. Ref.Lex. Corpo de tropas de todas as armas, ou antes, grupo de diversos corpos dirigidos por um chefe único. (Tomo I, pp.918-919) Ex. “[...] Estes são os principios das grandes Manovras de hum Corpo de Exercito [...]” (ls. 2049-2050) 392 F ___________________________________________ FILA Ls. 490, 491, 536, 1133, 1708. Cl.Pal. s.f. Lem. Filas (34-35, 37, 146, 152, 152, 162, 269, 270, 519, 522, 538, 547, 548, 550, 552, 553, 555, 566, 571, 606, 609, 666, 666, 668, 674, 675, 682, 689, 690, 693, 695, 698, 723, 724-725, 728, 731, 733, 744, 755, 760, 767-768, 825-826, 827, 830, 841, 1245, 1323, 1871, 1956, 2006, 2012, 2018); Fillas (1961) Freq. 53 Etim. Série de coisas, pessoas etc. em linha reta, fileira. Do francês file, relacionado com o latim filum (fio). (CUN, p.356) Df.Ms. Soldados dispostos em linha reta um atrás do outro [rec]. Ref.Lex. Grupo de dois soldados postos um atrás do outro nas fileiras. Série ou enfiada de pessoas, coisas ou animais colocados em linha recta. (Tomo II, p. 36) Ex. “[...] Para este effeito as testas dos Pelotoens fazem quarto de conversão á direita: O resto das filas perfilão-se rapidamente [...]” (ls. 1960-1962) Sin. Columna, Linha. FILEIRA Ls. 137, 140, 162, 306, 307, 308, 310, 311, 628, 775, 778, 781, 785, 793, 806-807, 867, 2037. Cl.Pal. s.f. Lem. Fileiras (73, 91, 133, 144, 165, 702, 780, 786, 789, 791, 798, 999, 1574-1575, 1763, 1765, 1766, 1952, 2032, 2040) Freq. 36 Etim. Série de coisas, pessoas etc. em linha reta, fileira. Do francês file, relacionado com o latim filum (fio). (CUN, p.357) Df.Ms. Linha de soldados dispostos em linha ombro a ombro [rec]. Ref.Lex. Linha de soldados dispostos ao lado um dos outros, tocando-se pelos braços. (Tomo II, p. 37) Ex. “[...] Todas as fileiras de cada Pelotão seguem com passo [...]” (ls. 1952-1953) Sin. Linha. 393 FLANCO Ls. 179, 479, 515, 525, 575, 646, 1030, 1227, 1300, 1518, 1566, 1569, 1658, 1673, 1686, 1690, 1692, 1996, 1728, 1735, 1747, 1755, 1825, 1834, 1850, 1854, 1861, 1993, 2001. Cl.Pal. s.m. Lem. Flancos (120, 1848, 1926, 2016) Freq. 33 Etim. Do francês flanc, derivado do frâncico hlanka. Lado de um corpo de tropas, ilharga. (CUN, pp.360-361) Df.Ms. Lado de um corpo de tropa [rec]. Ref.Lex. Diz-se do lado de um exército ou corpo de tropa. (Tomo II, p.44) Ex. “[...] Hum Batalhão em marcha pelo flanco pode romper-se em Pelotões [...]” (ls. 515- 516) FORMATURA Ls. 72, 111, 280, 582, 812, 1221, 1850-1851. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 07 Etim. Do latim formatura. Vem de forma. Modo sob o qual uma coisa existe ou se manifesta ‘configuração, feitio, feição exterior. Do latim forma. Molde. (CUN, p.364) Df.Ms. Ordenada disposição em que se encontram as tropas [rec]. Ref.Lex. Acção ou efeito de formar. Ordenada disposição de tropas. (Tomo II, p.56) Ex. “[...] estas consideraçoens são as que tem feito determinar a formatura da Infantaria [...]” (ls 71-73) FRENTE Ls. 32-33, 119, 122, 137, 157, 168, 179, 196, 205, 215, 218, 224, 231, 242-243, 270, 272, 277, 280-281, 287, 290, 292, 294, 298, 302, 340, 342-343, 344-345, 371-372, 381, 392, 395, 401, 402, 412, 424, 437, 438, 440, 440, 442, 444, 451, 458, 460, 463, 464, 465, 468, 493, 533, 534, 546, 548, 575, 585, 619, 637, 644, 646, 690, 693, 704, 704, 717, 720, 726, 735, 740, 746, 750, 754, 777, 805, 809, 818, 823, 837, 857, 865, 871, 874, 880, 885, 889, 904, 908, 917-918, 920, 924, 927, 934, 939, 946, 959, 973, 992, 993, 1010-1011, 1013, 1019, 1030, 1052, 1071, 1072, 1081, 1084, 1091, 1130, 1130, 1136, 1139, 1144-1145, 1152, 1154, 1160, 1190, 1226, 1292, 1295, 1296, 1298, 1345, 1354, 1372, 1395, 1400, 1401, 1403, 1439, 1439, 1446, 1461, 1467, 1487-1488, 1543, 1543-1544, 1562, 1567, 394 1572, 1589, 1599, 1684, 1692, 1697, 1712, 1713, 1718-1719, 1740, 1778, 1824, 1878, 1884, 1914, 1917, 1925, 1951, 1965, 1987, 1998, 2004, 2009, 2012, 2035, 2036. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 165 Etim. Parte anterior de qualquer coisa, lado dianteiro, vanguarda. Do castelhano frente, do antigo castelhano fruente e, este, do latim frons, -ontis. (CUN, p.368) Df.Ms. A parte anterior de qualquer formação do Exército [rec]. Ref.Lex. A parte dianteira do Exército. (Tomo II, p.68) Ex. “Deste methodo não pode usar huma frente grande [...]” (l. 272) Sin. Vanguarda, Testa. FUNDO Ls. 395, 858, 865, 999, 1013, 1035, 1770, 1800, 1888, 2030. Cl.Pal. s.m. Lem. fundos (1713) Freq. 11 Etim. Do latim fundus. Profundo, a parte mais interior de um objeto, cavidade, etc. (CUN, p.371) Df.Ms. A parte de trás de uma dada formação militar [rec]. Ref.Lex. A parte traseira do Exército. (Tomo II, p.79) Ex. “He preciso que o Batalhão em columna tenha o menor fundo, que for possivel, para que as partes que o compoem, possão desdobrar promptamente [...]” (ls. 039-1041) Sin. Rectaguarda 395 G ___________________________________________ GENERAL Ls. 661, 1033, 1411, 1586, 1635, 1644, 1652, 1677, 1710, 1716, 1776, 1787-1788, 1853. Cl.Pal. s.m. Lem. generaes (1391) Freq. 14 Etim. Posto da hierarquia militar. Substantivação do adjetivo general na expressão tenente- general. (CUN, p.383). Do francês general, geral, por causa da extensão do comando. (NAS, Tomo I, p.239) Df.Ms. Posto da hierarquia militar acima do Marechal de Campo. Era o encarregado da organização da arma a qual pertenciam e comandavam Regimentos, Brigadas, Divisões e todo Corpo de Exército em batalha [rec]. Ref.Lex. Posto militar de graduação imediatamente superior a Coronel. (Tomo II, p.99) Ex. “o General que commanda, escolhe hum dos Batalhões da linha para ser o que diriga a marcha [...]” (ls. 1586-1588) GUERRA Ls. 03, 07, 11, 42, 660, 1214, 1254, 1805, 2038. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 09 Etim. Derivado do germânico werra. Do latim medieval guerra, anteriormente werra (que substituiu, em toda a România ocidental, o vocábulo latino bellum). Luta armada. (CUN, p.400) Df.Ms. Ato hostil organizado e planejado, com armas, em que se busca vencer a parte inimiga [rec]. Ref.Lex. Todo ato hostil com que se faz ou procura mal ao inimigo para vencer, aprisionar, matar, tomar-lhe terra ou navios. (Tomo II, pp.128-129) Ex. “Esta evolução he necessaria na Guerra, principalmente quando a General quer mudar as linhas.” (ls. 660-662) 396 I ___________________________________________ INFANTARIA Ls. 65, 73, 1974. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 03 Etim. Fantaria. Do antigo italiano infanteria. Vem da acepção de infante do italiano, soldado a pé. (CUN, p.435) Df.Ms. É a arma do combate próximo, do contato, levado por vezes corpo a corpo. Combate na defensiva, ocupando, organizando e defendendo o terreno e na ofensiva, estabelecendo o contato com o inimigo. É Arma que atua em quaisquer terrenos e sob quaisquer condições atmosféricas [rec]. Ref.Lex. Conjunto de infantes ou de tropas de um exército que combatem constantemente a pé. (Tomo II, p.195) Ex. “[...] estas consideraçoens são as que tem feito determinar a formatura da Infantaria em três fileiras.” (ls. 71,72,73) INTERVALLO Ls. 38, 255, 1604, 1767-1768. Cl.Pal. s.m. Lem. Intervallos (136, 204, 264, 609, 612-613, 955, 1096, 1242, 1324, 1578, 1916-1917, 1955) Freq. 16 Etim. Do latim intervallum. Espaço entre dois pontos, intermitência. (CUN, p.442) Df.Ms. Espaço livre entre dois elementos de uma formatura e com o qual os diferentes elementos ficam separados [rec]. Ref.Lex. O espaço, distância que separa um ponto, um elemento, um lugar de outro. Solução de continuidade. (Tomo II, p.219) Ex. “[...] porque passão apressadamente pelos intervallos dos Pelotoens [...]” (ls. 135-136) / “[...] para não deixarem nenhum intervallo entre si [...]” (l. 255) 397 L ___________________________________________ LINHA Ls. 204, 480, 576, 607, 609, 614, 622, 627, 840, 1100, 1183, 1294, 1296, 1298, 1300, 1319, 1325, 1341, 1343, 1350, 1354, 1367, 1393, 1400, 1404, 1423, 1432, 1434, 1555, 1558, 1560, 1573, 1575, 1584, 1586, 1592, 1599, 1644, 1655, 1686, 1694, 1703, 1716, 1720, 1749, 1784-1785, 1785, 1829, 1838, 1839, 1867, 1869, 1875, 1879, 1880, 1883, 1894, 1939, 1942, 1946, 1948, 1953, 1954, 1959, 1963. Cl.Pal. s.f. Lem. Linhas (666-667, 722, 1315, 1555, 1562) Freq. 70 Etim. Do latim linea. Fila, limite, baliza. (CUN, p.476) Df.Ms. Formação na qual as tropas ou unidades se dispõem lado a lado ou um atrás do outro [rec]. Ref.Lex. Espaço que ocupa uma qualquer porção de exército disposto para entrar em combate. Série de corpos ou batalhões enfileirados ou dispostos na mesma linha. (Tomo II, p.286) Ex. “[…]e querendo dar lugar a segunda linha, para renovar o ataque, o fará do modo seguinte [...]” (ls.607-608) Sin. Columna, Fila, Fileira. LINHA CHÊA Ls. 1313, 1905. Cl.Pal. s.f. Lem. Linha Cheia (1900) Freq. 02 Df.Ms. É a linha medular, central das formações para combate [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “11. Retirar-se em linha chêa.” (l. 1313) 398 LINHA DE BATALHA Ls. 303-304, 1302-1303, 1566, 1589-1590. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 04 Df.Ms. Linha cuja disposição entrará em confronto direto com o inimigo em batalha [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “5.º Marchar sobre a vanguarda em linha de Batalha para atacar o Inimigo de frente.” (ls. 1302-1303) 399 M ___________________________________________ MAJOR Ls. 206, 794, 800, 857, 864, 900, 930, 942, 1005, 1108, 1133, 1147, 1153, 1166, 1194, 1206, 1608, 1632. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 18 Etim. Do francês Major, oficial superior encarregado da administração e, este, do latim Major, comparativo de magnus. Posto militar entre capitão e tenente-coronel. (CUN, p.490) Df.Ms. Oficial do Exército cuja graduação é a imediatamente inferior à de Tenente- Coronel. É o comandante de Batalhões [rec]. Ref.Lex. Posto militar, superior a Capitão e inferior a tenente-coronel. Indivíduo que tem esse posto. (Tomo II, p.312) Ex. “[…]o Major ratifica o perfil da direita, para a esquerda […]” (ls. 1005-1006). MANOVRA Ls. 1032, 1250, 1264, 1270, 1273, 1337, 1357, 1364, 1370-1371, 1386, 1520, 1563-1564, 1660, 1666, 1670-1671, 1687, 1699, 1727, 1735-1736, 1771, 1784, 1711, 1843, 1875, 1925, 1974. Cl.Pal. s.f. Lem. Manovras (1253, 1284, 1287, 1616, 1840, 2044-2045) Freq. 32 Etim. Adaptação do francês manoeuvre, derivado do latim vulgar manuopera, de manus (mão) + opera (trabalho). (NAS, Tomo I, p.315) Df.Ms. É a ação de dispor os meios e movimentá-los, combinando os seus efeitos no tempo e no espaço, a fim de conseguir, não obstante a oposição inimiga, o cumprimento da missão recebida [rec]. Ref.Lex. Conjunto de movimentos executados por unidades militares para atingirem uma determinada posição ou dispositivo de combate. (Tomo II, p.326) Ex. “[…] Esta Manovra se faz ordinariamente […] (ls. 1357-1358). Sin. Evolução 400 MARCHA Ls. 29, 43, 94, 108, 151, 161, 195, 242, 253, 275, 329, 340, 406, 413, 445, 452, 466, 473, 478, 503, 515, 518, 520, 528, 584, 620, 632, 652, 700-701, 709, 740-741, 750, 823, 871, 881, 918, 934, 947, 994, 1009, 1051, 1149, 1216, 1226, 1373, 1455, 1488, 1501, 1543, 1555, 1588, 1592, 1597, 1605-1606, 1626-1627, 1636, 1646, 1656, 1741, 1764, 1860, 1878-1879, 1892, 1894, 1988, 2016, 2025, 2042. Cl.Pal. s.f. Lem. Marchas (1258) Freq. 69 Etim. Do francês marcher, derivado do frâncico mârkon ‘apressar o passo’, relacionado com o germânico marka. Andar, caminhar, seguir os seus trâmites, progredir. (CUN, p.501) Df.Ms. Movimento disciplinado e regular de tropas a pé de acordo com uma dada formação e respeitando uma determinada velocidade. Destina-se a efetuar o deslocamento de uma unidade entre dois pontos [rec]. Ref.Lex. Caminho que um corpo de tropa percorre, movimento que ele executa para se transportar de um lugar a outro. Cadência com que um corpo de tropas caminha. (Tomo II, p.333) Ex. “[...] segue a marcha do 8º. Pelotão com passo ordinário [...]” (ls.709-710) MARCHA DE COSTADO Ls. 439, 443-444, 488, 579-580, 692, 726-727, 967, 982, 1831. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 09 Df.Ms. Movimento no qual as linhas marcham para direita ou para esquerda no terreno de batalha [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...] podem as divisoens da Columna, postar-se perpendicularmente na rectaguarda da 1ª em passo de costado; para cujo effeito farão á direita, ou á esquerda [...]” (ls.1491-1494) MARCHA GRADUADA Ls. 1301, 1731, 1732, 1791. 401 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 04 Df.Ms. Movimento pelo qual as colunas de uma formação seguem passos de distância diferentes a fim de formar uma linha obliqua em campo de batalha [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “A marcha graduada tambem se pode fazer pelo centro;mas he cousa muito arriscada, porque se o ataque he mal succedido, poderá o exercito ficar cortado pelo meio, e muito difficultosa a sua retirada.” (ls. 1791-1795) MARECHAL DE CAMPO Ls. Ø Cl.Pal. s.m. Lem. Marechaes de campo (1428) Freq. 01 Etim. Acepção original de indivíduo que cuidava dos cavalos. Modernamente, posto superior no exército. Do francês marechal, derivado do frâncico *marhskalk, de mar(a)h ‘cavalo amestrado’ e skalk ‘servo’. (CUN, p.501) Df.Ms. Oficial Militar inferior aos Tenentes-Generais e acima do Coronel. Comandante em chefe de uma unidade tática na ausência dos Generais e comandante em chefe das Brigadas [rec]. Ref.Lex. Patente superior do Exército português. Superior ao Brigadeiro e inferior aos Tenentes Generais. (Tomo II, p.334) Ex. “Os Brigadeiros, ou os Marechaes de Campo, são os que hão de postar os Ajudantes sobre a linha do desdobramento [...]” (ls. 1427-1430) MILITAR Ls. Ø Cl.Pal. s.m. Lem. Militares (04) Freq. 01 Etim. Do latim militare, de miles, -itis, soldado. (CUN, p.521) Df.Ms. Homens ou coisas relativos à guerra [rec]. 402 Ref.Lex. Aquele que anda na guerra. (Tomo II, p.369) Ex. “A tactica que he huma das partes mais importante da Arte da Guerra, comprehende o conhecimento das evoluções militares [...]” (ls. 02-04) MOCHILA Ls. 42 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Etim. Do castelhano mochila. Espécie de saco que se leva às costas. (CUN, p.526) Df.Ms. Tipo de saco que os soldados levam às costas com provisão e roupas durante as operações [rec]. Ref.Lex. Espécie de saco de cabedal, lona, etc, para levar provisões, roupa, etc, que os soldados de infantaria transportam às costas preso com correias. (Tomo II, p.378) Ex. “[...] esquipado para a Guerra com armas, e mochila não pode conservar na marcha a boa ordem[...]” (ls. 42-43) MOSQUETARIA Ls. 614, 1524, 1802, 1890-1891. Cl.Pal. s.f. Lem. Mosqueteria (1028) Freq. 05 Etim. Do francês mousqueterie. Pode indicar conjunto de mosquetão ‘tipo de fuzil’ ou de mosquete ‘arma de fogo antiga, com o feitio da espingarda’. (CUN, p.534) Df.Ms. Nome dado ao conjunto de soldados que combatiam armados com mosquetes [rec]. Ref.Lex. Conjunto de mosqueteiros ou mosquetes. Tiros de mosquete ou espingarda. (Tomo II, p.395) Ex. “[…] e quando chegão a estar fora do alcance da mosquetaria do Inimigo fazem á esquerda[...]” (ls. 613-614) MURO Ls. 418, 720. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 02 403 Etim. Parede forte que circunda um recinto ou separa um lugar do outro. Acepção figurada de defesa, proteção. Do latim murus, -i. (CUN, p.540) Df.Ms. Parede de proteção usadas como fortificação em operações de batalha [rec]. Ref.Lex. Parede com que se cerca e protege a entrada de uma cidade, praça, quinta. (Tomo II, p. 405) Ex. “Se o Batalhão marchar em Batalha, e achar diante de huma parte da sua frente, hum muro, fôsso, lagôa, despenhadeiro [...]”. (ls. 719-721) 404 O ___________________________________________ OFFICIAL Ls. 312, 1089, 1602. Cl.Pal. s.m. Lem. Officiaes (134, 138, 142, 801, 1011, 1075, 1101, 1148, 1168, 1389, 1626); Officiais (954) Freq. 15 Etim. Do latim officialis. Militar de posto acima de aspirante ou guarda-marinha. Substantivação do adjetivo oficial. (CUN, p.558) Df.Ms. Militares graduados de patente inferior (anspeçadas, cabos e sargentos), os de patente intermediária (alferes, tenentes, Ajudantes, capitães), os de patente superior (Majores, Tenente-coronéis e Coronéis) e a classe de Generais [rec]. Ref.Lex. Na milícia há oficiais inferiores, que são anspeçadas, cabos e sargentos, e os Superiores, ou oficiais, que tem bastão e patente. (Tomo II, p.442) Ex. “[...] porque o Official, ou Official inferior, ou Soldado do lado do Pelotão, he quem faz pião, quando o Batalhão entra em Batalha [...]” (ls. 312-314) OFFICIAL COMMANDANTE DAS DIVISOENS Ls. 1079-1080. Cl.Pal. s.m. Lem. Official da divisão (1086-1087) Freq. 02 Df.Ms. Oficial militar que comanda as divisões de Exército. Ref.Lex. Ø Ex. “[...]Officiaes Commandantes das divisoens, devem saber o numero de passos, que ham de dar á sua divisão, para desembaraçar a sua frente da rectaguarda da divisão que a precede [...]” (ls. 1079-1082) OFFICIAL GENERAL Ls. Ø Cl.Pal. s.m. 405 Lem. Officiaes Generaes (1390-1391) Freq. 01 Df.Ms. Posto da hierarquia militar acima do Marechal de Campo. Era o encarregado da organização da arma a qual pertenciam e comandavam Regimentos, Brigadas, Divisões e todo Corpo de Exército em batalha [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...] da mesma forma os Officiaes Generaes, que determinão o posto, que as Tropas devem occupar virá a ser facil a operação [...]” (ls. 1390-192) OFFICIAL INFERIOR Ls. 235, 312-313, 542, 557-558, 874-875, 892, 913. Cl.Pal. s.m. Lem. Officiaes inferiores (138-139, 154, 801, 1128, 1132, 1161-1162, 1185, 1191-1192, 1199, 1204, 1463, 1597-1598) Freq. 19 Df.Ms. Militares que pertencem aos postos de graduação desde sargentos até tenente [rec]. Ref.Lex. O que tem o posto de furriel ou sargento. (Tomo II, p.442) Ex. “[...] A 1.ª divisão deixa dous Officiaes inferiores nos dous lados do terreno donde sahio [...]” (ls.1127-1129) OLHEIRO Ls. 564 Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 01 Etim. De Etimologia obscura. (CUN, p.559) Df.Ms. Tipo de fortificação militar que consiste em um grande fosso no chão, coberto por ramos e um pouco de terra para que os inimigos caiam dentro e sejam capturados [rec]. Ref.Lex. Olhos d’água ou fojos, de que ela rebenta do chão e amolecem a superfície ou onde empoça. (Tomo II, p. 445) Ex. "Se o Pelotão encontra hum olheiro, fosso, ou qualquer outro obstáculo [...]" (ls. 564,565) 406 ORDEM Ls. 16, 43, 65, 71, 133, 134, 144, 278-279, 288, 374, 423, 632, 700, 717, 743, 1022, 1523, 1534, 1661,1682, 1883 Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 20 Etim. Do latim ordo, ordinis. Disposição, regra, disciplina. (CUN, p.563) Df.Ms. Disposição disciplinada de formação militares. Vozes de comando dadas às tropas [rec]. Ref.Lex. Disposição, colocação das coisas em seu lugar, classe. (Tomo II, p.453) Ex. "No primeiro caso, virando a rectaguarda por meia volta á direita, ainda que se troca a ordem das fileiras[...]". (ls. 132-133) 407 P ___________________________________________ PARAPEITO Ls. 330, 773 Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 01 Etim. Muro, parede. Do francês parapet, derivado do italiano parapetto. (CUN, p.580) Df.Ms. Tipo de muro, na altura do peito dos indivíduos, construído sobre as muralhas, onde se colocam por detrás os soldados para que não caiam durante ação militar [rec]. Ref.Lex. Parte da obra de fortificação que se ergue acima do solo natural que protege os atiradores ou artilheiros que sobre ele fazem fogo de espingarda, canhão, lança-granadas, etc. (Tomo II, p. 484) Ex. "Quando se guarnece um parapeito, ou estacada, ou outro qualquer Pôsto, em que se faz fogo de cima para baixo [...]". (ls. 773-775) Sin. Muro PASSO Ls. 31, 52, 152, 164, 638, 1884. Cl.Pal. s.m. Lem. Passos (35, 44, 60, 341, 438, 442, 459, 465, 605, 638, 653, 694, 888, 908, 959, 968, 998, 1059, 1080, 1083, 1086, 1088, 1092, 1151, 1558, 1589, 1603, 1700, 1742, 1748, 1772, 1773, 1890, 1906, 1913, 1917-1918, 1992, 2034); Pasos (193) Freq. 45 Etim. Do latim passus. O ato de andar, passage. (CUN, p.585) Df.Ms. É o deslocamento de um soldado medido em polegadas entre um pé a frente e o outro atrás. A medida de deslocamento do andar de um militar em formatura [rec]. Ref.Lex. É o acto de avançar ou de recuar um pé para andar. Cada uma das diferentes maneiras de marchar das tropas. (Tomo II, p.498) Ex. “[...] A estatura mediana dos nossos soldados, nos obriga a determinar o seu passo da extenção de vinte e quatro pollegadas o terreno [...]” (ls. 30-32) 408 PASSO ACCELERADO Ls. 76-77, 341-342, 449, 521, 538-539, 551-552, 708, 1117, 1131, 1160-1161, 1819, 1822, 1880, 1952-1953 Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 14 Df.Ms. É o deslocamento de um soldado que compreende 100 passos de 24 polegadas por minuto [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...] A 4.º divisão logo que vê a sua frente desembaraçada, marcha em frente com passo accelerado [...]” (ls. 1129-1131) Sin. Passo apressado PASSO APRESSADO Ls. 608-609, 670, 830-831, 898-899. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 04 Df.Ms. É o deslocamento de um soldado que compreende 100 passos de 24 polegadas por minuto [rec]. Ref.Lex. Ø Ex. “[...] Todas as outras filas, as seguem progressivamente, sahindo cada huma do seu proprio terreno com passo apressado [...]” (ls. 668-670) Sin. Passo accelerado PASSO DE COSTADO Ls. 359-360, 1234-1235, 1493, 1511. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 04 Df.Ms. Passo dado no movimento no qual as linhas marcham para direita ou para esquerda no terreno de batalha [rec]. Ref.Lex. Ø 409 Ex. “[...] podem as divisoens da Columna, postar-se perpendicularmente na rectaguarda da 1ª em passo de costado [...]” (ls. 1491-1493) PASSO DE ENTRADA OU DE MANOVRA Ls. 45-46. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 04 Df.Ms. É o deslocamento de um soldado que compreende 72 passos de 24 polegadas por minuto (ls. 43-44). Ref.Lex. Ø Ex. “[...] he amedida, que se deve estabelecer para o seu passos de entrada, ou de manovra: He esta, em que deve ser mais continuadamente exercitada [...]” (ls. 45-47) Sin. Passo ordinário PASSO LENTO Ls. 77, 352, 378, 540, 561, 825, 1053. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 04 Df.Ms. É o deslocamento de um soldado que compreende 50 passos de 24 polegadas por minuto (ls.77-78). Ref.Lex. Ø Ex. “[...] Deve-se observar, que a testa de columna, hade marchar com passo lento, até que o Batalhão acabe a evolução [...]” (ls. 351-353) PASSO OBLIQUO Ls. 1044, 1048. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 02 Df.Ms. É o passo de deslocamento de um soldado em linha obliqua [rec]. Ref.Lex. Ø 410 Ex. “[...] Pelotoens com passo obliquo para a esquerda, marchão a perfilar-se cada hum com o Pelotão, que o precede. [...]” (ls. 1043-1046) PASSO ORDINARIO Ls. 75, 355, 380, 382, 563, 706, 709-710, 899-900, 1055, 1058, 1116, 1521-1522, 1815- 1816, 1820, 1879, 1958-1959. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 16 Df.Ms. É o deslocamento de um soldado de 72 passos de 24 polegadas por minuto [rec]. Ref.Lex. Passo mais lento que o accelerado e com que as tropas marcham usualmente. Ex. “[...] As divisões, que se seguem, com passo ordinário [...]” (ls. 1057-1059) Sin. Passo de entrada ou manovra. PASSO DE PELOTÃO Ls. 78. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 16 Df.Ms. Deslocamento de um soldado de 36 passos de 18 polegadas por minuto (ls.78-79). Ref.Lex. Ø Ex. “[...] E passo de pelotão, ao de trinta e seis por minuto; advertindo, que este ultimo, em vez de ser como os mais de vinte e quatro pollegadas, será somente de dezoito. [...]” (ls. 78-81) Sin. Passo de entrada ou manovra. PELOTÃO Ls. 78, 187, 197, 198, 205, 210-211, 214, 216, 220, 237, 241, 247,248, 268-269, 286, 288- 289, 290, 291, 295, 295-296, 306, 307, 313, 340, 341, 348, 354, 355-356, 372, 379, 380- 381, 396, 401, 402, 404, 405, 408, 411, 412, 413, 414, 415-416, 420, 427, 431, 437, 437- 438, 440, 441, 443, 444-445, 445, 446, 450, 456, 458, 462, 463, 466, 467, 468, 471, 475, 487, 490, 491, 492, 493, 495, 497, 498, 502, 505, 509-510, 512, 522, 535, 536, 540, 543, 547, 555, 564, 569, 592, 595, 596, 597, 599, 607, 611, 618, 623, 634, 645, 672, 673, 675, 411 701, 704, 706, 709, 771, 781, 783, 785, 786, 788, 790, 793, 794-795, 796, 798, 865, 867- 868, 872, 881, 886, 887, 890, 890-891, 893, 895, 900, 905, 906, 909, 911, 918, 920, 921, 923, 925, 926, 929, 934, 938, 939, 942, 959-960, 968, 970, 971, 975, 979, 987, 994, 996- 997, 1003, 1004-1005, 1009, 1016, 1020, 1038-1039, 1045, 1049, 1707, 1708, 1766, 1814, 1886-1887, 1952, 1955, 1985-1986, 1991, 2028. Cl.Pal. s.m. Lem. Pelotoens (136, 137, 190, 239, 263, 293, 298, 301, 316, 320,323, 360, 386, 393-394, 406, 433, 448, 468-469, 473, 500, 503, 545, 612, 656, 657, 714, 717-718, 735, 749, 758, 766, 772, 803, 856, 896, 914, 1012, 1040, 1042, 1044, 1049, 1372, 1544-1545, 1610, 1632, 1690-1691, 1706, 1712-1713, 1816, 1830-1831, 1859-1860, 1907, 1950, 1953, 1957, 1958, 1960, 1964, 1984-1985, 1994); Pelotões (202, 217, 251, 254-255, 261, 343,374, 425, 447, 516, 523, 526, 531, 559, 583, 722, 730, 761, 780, 791-792, 807, 859, 876, 896-897, 928, 950, 956, 965, 976, 1019, 1701, 2009, 2013); Polutões (54) Freq. 259 Etim. Cada uma das três partes em que se divide uma companhia de soldados. Do francês peloton. (CUN, p.592) Df.Ms. Menor subunidade em que a manobra é possível razão pela qual se considera a unidade elementar do combate [rec]. Ref.Lex. Grupo de militares ou gente armada. Subdivisão da Companhia ou do esquadrão, geralmente comandada por um oficial subalterno. (Tomo II, p.514) Ex. “Se o quarto he para a direita, o Chefe do Batalhão manda fazer ao primeiro Pelotão da direita[...]”. (ls. 186-187) 412 R ___________________________________________ RECLUTA Ls. Ø Cl.Pal. s.f. Lem. Reclutas (96, 101) Freq. 02 Etim. Do francês recruter. Do verbo recrutar ‘arrolar para o serviço militar’. (CUN, p.668) Df.Ms. Designação dada ao homem que se apresenta ao serviço militar no período entre seu alistamento e o término do período de instrução básica [rec]. Ref.Lex. Forma popular de recruta. Soldado novo que ainda não está pronto na instrução militar. Leva de soldados que se faz para preencher os quadros militares ou aumenta-los. (Tomo II, p.670) Ex. "Estes princípios devem observar-se com a mais escrupulosa attenção no ensino das reclutas [...]". (ls. 95-96) REGIMENTO Ls. 107. Cl.Pal. s.m. Lem. Regimentos (114) Freq. 02 Etim. Do verbo reger, do latim regere. Do latim tardio regimentum. Governar, administrar, dirigir. (CUN, p.671) Df.Ms. Unidade superior de composição fixa, simultaneamente tática e administrativa. Possui dois ou mais Batalhões da mesma Arma. Comandadas por um Major, Tenente Coronel ou Coronel [rec]. Ref.Lex. Cada uma das maiores divisões de uma brigada ou de um exército. Corpo de tropas sob o comando de um coronel ou outro oficial superior, dividido em Batalhões, companhias ou baterias e com maior quadro que um batalhão. (Tomo II, p.689) Ex. “[…] As evoluções, que deve fazer hum Regimento posto em marcha [...]” (ls. 107- 108) 413 RECTAGUARDA Ls. 119, 122, 127, 132, 139, 143-144, 158-159, 169, 288, 294-295, 295, 337, 357-358, 359, 363, 372, 390, 409, 421, 436, 486, 487, 488-489, 494, 499, 509, 575-576, 585, 592- 593, 664, 667-668, 711, 744, 785, 795, 799, 800-801, 920-921, 925, 936, 991, 1000, 1018, 1062, 1082, 1120, 1159, 1211, 1236, 1300, 1306, 1379, 1406, 1468, 1473, 1479, 1485, 1493, 1510, 1533, 1536-1537, 1542, 1551, 1575, 1600, 1602, 1609, 1633, 1658, 1669- 1670, 1674, 1715, 1724, 1774, 1817-1818, 1818, 1823, 1833-1834, 1850, 1854, 1861, 1889, 1907, 1908-1909, 1913, 1938, 1956, 1956-1957, 2003, 2013. Cl.Pal. s.f. Lem. retaguarda (56); rectguarda (1422) Freq. 92 Etim. Do italiano retroguardia. Último elemento de tropa, de unidade ou subunidade em campanha. A parte traseira, em relação à frente ou dianteira. (CUN, p.681) Df.Ms. Parte posterior da tropa, da unidade ou subunidade [rec]. Ref.Lex. A parte posterior de uma coluna ou formação, de uma posição; nome genérico porque se designa a última companhia, esquadrão ou fila de qualquer corpo de exército. A parte oposta à vanguarda; a parte posterior de qualquer força. (Tomo II, p.727) Ex. “O Batalhão, marchando em columna pelo flanco, pode marchar para a frente, ou para a rectaguarda [...]” (ls. 574-576) Sin. Fundo 414 S ___________________________________________ SOLDADO Ls. 33, 41-42, 61, 83, 305, 306, 313, 395, 627, 634, 640, 654, 1522. Cl.Pal. s.m. Lem. Soldados (30, 90, 97, 102, 393, 399, 643-644, 1101, 1146, 1163, 1244, 1247, 1883, 1888, 2029, 2035-2036) Freq. 29 Etim. Do italiano soldato, particípio passado do latim solidare. Individuo alistado nas fileiras do exército, ou nas forças policiais estaduais. (CUN, p.732) Df.Ms. Genericamente, qualquer indivíduo pertencente às Forças Armadas. Especificamente, qualquer recruta após o término da instrução básica [rec]. Ref.Lex. Homem de guerra. Homem alistado nas fileiras do exército, voluntário ou obrigado por lei, inferior a cabo e último na hierarquia militar. (Tomo II, p.835) Ex. “[...] O Soldado do Pelotão, ou Batalhão, que deve obliquar á direita; leva o pé direito para a vanguarda obliquamente, sobre hum angulo de sessenta grãos [...]” (ls. 634-637) 415 T ___________________________________________ TACTICA Ls. 02, 64, 99, 100. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 04 Etim. Do francês tactique, derivado do grego taktike. Parte da arte da guerra que trata da disposição e da manobra das forças durante o combate ou na iminência dele. (CUN, p.757) Df.Ms. É uma das partes mais importantes da Arte da Guerra, compreende o conhecimento das evoluções militares. É a arte de formar tropas e de movê-las segundo o que mais convém nas diversas ocasiões que pode haver na guerra, assim no ataque como na defesa, possam a tropas usar melhor as armas e fazer valer suas forças (ls. 02-09). Ref.Lex. Ramo da Ciência militar que estabelece o conjunto de princípios e regras que preparam e determinam o emprego das diversas armas nos exercícios, de forma a atingir, em campanha, na ofensiva ou na defensiva, de maneira mais eficaz e pronta, os fins determinados pela estratégia; arte de fazer a guerra, ordenando as forças em terrenos e posições favoráveis. (Tomo II, p.873) Ex. “A invenção da palavra, e os seus effeitos, tem influido grandemente na tactica moderna [...]”. (ls. 63-64) TENENTE CORONEL Ls. 1601. Cl.Pal. s.m. Lem. Ø Freq. 01 Etim. Do francês (lieu)tenant. Substituto de um chefe na ausência deste. Posto da hierarquia militar. (CUN, p.764) Df.Ms. Oficial do Exército cuja graduação é imediatamente inferior a de Coronel [rec]. Ref.Lex. Oficial superior de graduação intermediária entre Major e Coronel, substituindo ou coadjuvando este nas funções de comando. (Tomo II, p.890) Ex. “ [...] O Tenente Coronel, ou qualquer outro Official, que marcha na rectaguarda do centro do Batalhão [...]” (ls. 1601-1603) 416 TESTA Ls. 55, 289, 348, 351, 379, 431, 456, 475, 505, 539, 560, 595, 597, 598, 672, 701, 949, 1039, 1125, 1883, 1998, 1230, 1236, 1415, 1419, 1422, 1425, 1464, 1554, 1706, 1819, 1989. Cl.Pal. s.f. Lem. Testas (670, 1464, 1499, 1510, 1950, 1960) Freq. 38 Etim. Do latim testa. Parte do rosto entre os olhos e a raiz dos cabelos anteriores da cabeça. (CUN, p.767) Df.Ms. Parte dianteira de uma formação militar [rec]. Ref.Lex. Frente. Frente de um troço ou porção de gente; primeira fracção de uma coluna do lado da frente; vanguarda. (Tomo II, p.896) Ex. “[...] Quando a testa do 4º. Batalhão chega a altura do lado esquerdo do 3º [...]” (ls. 1989-1990) Sin. Vanguarda. Frente. TRINCHEIRA Ls. 601. Cl.Pal. s.f. Lem. Ø Freq. 01 Etim. Do francês trenchier (hoje trancher), derivado do latim popular trinicare, derivado do latim trini. Escavação no terreno para proteção dos combatentes. (CUN, p.790) Df.Ms. Abrigo organizado mediante trabalhos de escavação para alocar soldados em combate [rec]. Ref.Lex. Fosso que os cercadores fazem para chegarem cobertos ao pé do muro da praça sitiada, talvez se faz de cestões, sacos de terra, salsichas. (Tomo II, p.940) Ex. “Tendo o Batalhão atacado sem vantagem huma trincheira [...]” (ls. 600-601) 417 TROPA Ls. 176, 481, 1267, 1270, 1276, 1541, 1805, 1812-1813. Cl.Pal. s.f. Lem. Tropas (05, 08, 20, 27, 69, 98, 579, 1223, 1273, 1279, 1282, 1310, 1350, 1386, 1396-1397, 1522, 1730, 1785, 1848, 1854, 1874, 1891, 2052) Freq. 31 Etim. Do francês troupe, provavelmente derivado regressivo de troupeau, antigo francês tropel, rebanho (logo empregado adverbialmente no sentido de muito, demasiadamente). Conjunto de soldados, multidão. (CUN, p.793) Df.Ms. Designação genérica e popular do conjunto do pessoal que serve às Forças Armadas [rec]. Ref.Lex. Grande número de soldados de qualquer arma. Os soldados, o exército. (Tomo II, p.945) Ex. “[...] Em Portugal he preciso que as Tropas estejão bem exercitadas na marcha de costado [...]” (ls. 578-580) 418 V ___________________________________________ VANGUARDA Ls. 306, 338, 347, 389, 435, 509, 610-611, 636, 705, 824, 974, 983, 1021, 1063, 1174, 1180, 1211, 1291, 1297, 1312, 1354, 1361, 1367, 1406, 1433, 1436-1437, 1444, 1462, 1472, 1479, 1485, 1505, 1529, 1535, 1553, 1561-1562, 1591, 1619, 1674, 1707, 1751, 1936, 1948, 1983, 2005, 2037. Cl.Pal. s.f. Lem. Avanguarda (336, 1359-1360) Freq. 48 Etim. Do francês avant-garde, através da variante antiga avanguarda. Originalmente parte dianteira de uma unidade militar (ou subunidade) em campanha. Acepção extensiva de frente e dianteira. (CUN, p.810) Df.Ms. Dianteira de uma unidade militar em forma que atua em caso de encontro com o inimigo, ofensiva ou defensivamente [rec]. Ref.Lex. A dianteira, parte avançada do Exército em marcha. Primeira linha de um exército. (Tomo II, p.964) Ex. "Esta distancia conta-se do Soldado da primeira fileira do Pelotão da vanguarda [...]" (ls. 305-306) Sin. Frente. Testa. 419 CAPÍTULO 5 ANÁLISE E DISCUSSÃO Construímos um percurso, que comportou os 04 (quatro) capítulos anteriores, para que chegássemos a esse momento de análise e discussão. Ao longo desse caminho, além do panorama histórico, importante para o entendimento das condições de produção dos nossos corpora, e dos alicerces teóricos sobre os quais nos apoiamos para a construção do nosso trabalho, também já apresentamos a maneira como nos comportamos para fins de seleção das fontes primárias e na preparação de suas edições e dos glossários terminológicos a elas vinculados. Ademais, no capítulo três, também expusemos como iremos organizar e operar, para fins de análise, com os dados das documentações remanescentes dos séculos XVIII e XIX, que delimitamos como corpora da nossa investigação. Nesse quinto capítulo, iremos analisar e discutir os resultados em cada momento temporal e, depois, confrontá-los. Centrados, principalmente, no constructo da socioterminologia variacionista de Faulstich e em seu diálogo com a lexicologia social de Matoré e com a sociolinguística de terceira onda de Eckert, nossa proposta está baseada em, além de trabalhar com a classificação das categorias das variantes terminológicas, buscar as motivações internas (linguístico-terminológicas) e externas (sociais, culturais e históricas) que sejam capazes de subsidiar o entendimento da ação das variáveis no processo de variação. Como já explicitamos anteriormente, a nossa interpretação não estará calcada somente em uma discussão de cunho qualitativo. Daremos, também, tratamento quantitativo aos dados gerados. Acreditamos, pois, que o diálogo entre as frequências encontradas e as relações externas, que podemos vincular aos fenômenos de variação e mudança, irá gerar interpretações mais profícuas acerca dos nossos dados. 420 5.1. Campo nocional 01: acessórios de recursos humanos No capítulo 03 apresentamos a construção de nosso mapa conceitual dos termos militares com os quais iremos trabalhar, baseados em ALMEIDA et alii (2007). Os quatro campos nocionais (HALLIG; WARTBURG (1952), ROSCH (1973, 1975, 1978), MATORÉ (1973), GECKELER (1994) e HENRIQUES (2010)) que delimitamos, como pertencentes ao domínio militarismo, foram: (1) acessórios de recursos humanos; (2) recursos humanos e postos de graduação; (3) planejamento de guerra e sua execução; e, por fim, (4) fortificações e armamentos bélicos. Cada campo nocional agrega os termos que a ele estão semanticamente relacionados. A inserção desses termos nos campos nocionais também deve obedecer a uma organização lógica e coerente (GECKLER, 1994). No entanto, como nos afirma ABBADE (2012, p.154), nem sempre é uma tarefa fácil organizá-los uma vez que “a estruturação e o funcionamento dos campos não dependem unicamente dos tipos formais de oposição, mas também do tipo de sua relação com a ‘realidade’ extralinguística que elas organizam ou formam a partir do ponto de vista semântico”. Assim, levamos em conta, também, as realidades extralinguísticas para fins de hierarquização dos termos. Para tal fim, nos baseamos nas relações de hiperonímia e hiponímia existentes entre as unidades terminológicas. A hiperonímia e a hiponímia são fenômenos derivados das disposições hierárquicas de classificação próprias do sistema lexical. Há significados que, pelo seu domínio semântico, englobam outros significados menos abrangentes. [...] Esse modo de classificar o mundo envolve um adensamento de semas, de modo que a quantidade de semas é inversamente proporcional à extensão do sentido da palavra [...] Nesse tipo de disposição hierárquica, há uma relação entre significados englobantes e englobados de acordo com o domínio semântico de cada termo da classificação. (PIETROFORTE; LOPES, 2005, pp. 128-129) 421 A partir das noções explicitadas pelos autores, entendemos hiperônimo como o termo englobante e, por conseguinte, os englobados são hipônimos. Logo, militarismo é um hiperônimo que engloba os quatro campos conceituais que delimitamos. Como ser um ou ser outro depende do modo como enfocamos sua posição na taxionomia (PIETROFORTE; LOPES, 2005), tomaremos, por sua vez, os nossos campos conceituais como hiperônimos dos termos que estão abrangendo. É importante mencionar que a nossa classificação partiu dos próprios corpora, portanto, nossa categorização sêmica foi construída pelo discurso. 1.1. ACESSÓRIOS DE RECURSOS HUMANOS 1.1.1. Farda 1.1.1.2. Botina 1.1.1.3. Dragona 1.1.1.4. Mochila 1.1.1.5. Patrona 1.1.1.6. Polaina 1.1.1.7. Redingote 1.1.2. Bandeira Quadro 03: Campo nocional 01- Séc. XVIII Em acessórios de recursos humanos estamos englobando os termos que portam conceitos de todos os acessórios que os militares utilizam para a realização de seu ofício, excetuando-se as armas, que alocamos em outro campo conceitual mais específico. Desse modo, 08 (oito) termos estão englobados nessa categoria. Analisando cada um deles, verificamos que o termo farda possui, dentro do discurso, um aspecto mais genérico que engloba tanto os itens de vestir ou calçar de um militar (como botina, redingote e polaina), quanto o item que, apesar de não compartilhar os semas /vestir/ ou /calçar/, possuem significação de estarem acoplados (ou serem acessórios) ao fardamento, como dragona, 422 mochila e patrona). Assim, tomamos o termo farda como hiperônimo dos demais. No caso de bandeira, tomamos como um acessório de recursos humanos, mas que, efetivamente, não faz parte do fardamento. Já se focamos no nosso corpus do século XIX, esse mesmo campo aparece da seguinte forma: 1.1. ACESSÓRIOS DE RECURSOS HUMANOS 1.1.1. Bandeira 1.1.2. Mochila Quadro 04: Campo nocional 01- Séc. XIX Verificamos que, nesse caso, só há dois termos selecionados. Ambos mantêm relações independentes entre si e, portanto, consideramos que não há uma hierarquia entre eles. Logo, os dois itens figuram como hipônimos do próprio campo conceitual. Nota-se, também, que todas as unidades terminológicas desse campo nocional, nos dois séculos estudados, são simples (UTS). Em termos de frequência de tipo, verificamos que, de um século para outro, houve a diminuição do número de termos relativos aos acessórios de recursos humanos (8 > 2). Na frequência de ocorrência, esse mesmo padrão se mantem: 25 > 07. 0 5 10 15 20 25 Corpus Séc. XVIII Corpus Séc. XIX Número de Termos por Campos Número de aparição de Termos no Corpus Gráfico 01- Frequência dos Termos (campo nocional 01) 423 Analisando mais detalhadamente as unidades terminológicas, vemos que bandeira é o termo mais frequente tanto no século XVIII quanto no século XIX. Outro fato observado é o de que os semas de /vestir/ ou /calçar/, próprios do fardamento, deixam de aparecer no manual do século XIX. Diante dessas constatações, três perguntas devem ser respondidas: (1) O que será que motivou a diminuição na frequência de tipo nesse campo conceitual no intervalo de tempo estudado? (2) Qual será a motivação para o desaparecimento dos semas /vestir/ ou /calçar/ no século XIX? (3) Por que, entre todos os termos englobados, bandeira é o de maior frequência de ocorrência em ambos os documentos? Para responder a nossa primeira indagação, recorremos a dois motivos. Inicialmente, uma mudança de estilo na redação dos manuais e, em seguida, a atribuição de uma maior especialização no que concerne à formação do exército português. Como já explicitamos no capítulo três, nossa delimitação dos corpora assumiu como parâmetro que os textos pertencessem ao mesmo gênero e à mesma tipologia textual. Mesmo assim, ao comparar os dois manuais de tática para infantaria do exército português, verificamos que suas estruturações e organização das informações não são exatamente semelhantes. No manuscrito do século XVIII, o manual assume um caráter mais genérico e, por vezes, mais didático. Sua disposição em capítulos, subdivididos em artigos, imprimem uma forma de texto legislativo, algo muito similar a um código, como no campo do conhecimento do Direito. Ao analisar o documento do século XIX, vemos que sua divisão se faz somente em seções. Além disso, confrontando os dois manuais, verificamos que, todas as seções do manuscrito oitocentista se referem diretamente à estratégia e à tática de combate e deslocamento de tropas, enquanto no documento setecentista, há capítulos dedicados a assuntos periféricos ao que efetivamente diz respeito às táticas de infantaria, 424 como, por exemplo, o capítulo II – “Da escolha e do ensino do soldado e do seu armamento e fardamento”. Certamente, o fato de somente o manual setecentista apresentar um capítulo dedicado às questões de fardamento, reforça a nossa ideia de que, quantitativamente, ou pelo menos em termos de frequência de tipo, as unidades terminológicas pertencentes ao campo nocional de acessórios de recursos humanos no século XVIII fossem numericamente superiores ao outro documento estudado. Essa nossa hipótese foi confirmada com os dados, não só em termos de frequência de tipo, mas também de frequência de ocorrência. Assim, podemos afirmar que a diferença de estilo de escrita das documentações foi um dos fatos que corroborou para a diminuição de unidades terminológicas, no mesmo campo nocional, do século XVIII para o século XIX. Devemos atentar que o estilo é assumido como um dos elementos centrais no estudo da variação linguística laboviana. Apesar disso, nossa posição teórica da sociolinguística não nos permite adotar na íntegra os parâmetros de estilo segundo as premissas de LABOV (1972, 2008), que defende a premissa de que o estilo está relacionado com a atenção que é dispensada à fala, com o automonitoramento do falante, de modo que o discurso pode variar da informalidade à formalidade. Assim, LABOV (2008) nos esclarece que “Por “social” entendo aqueles traços da língua que caracterizam vários subgrupos numa sociedade heterogênea; e por “estilística”, as alternâncias pelas quais um falante adapta sua linguagem ao contexto imediato do ato de fala. Ambas estão incluídas no comportamento “expressivo” – o modo como o falante diz ao ouvinte algo sobre si mesmo e seu estado mental, além de dar informação representacional sobre o mundo. A variação estilística pressupõe a opção de dizer a “mesma coisa” de várias maneiras diferentes, isto é, as variantes são idênticas em valor de verdade ou referencial, mas se opõem em sua significação social e/ou estilística.” (LABOV, 2008, p.313) O caminho apontado por LABOV (1972, 2008) toma a questão da variação estilística apenas no âmbito da linguagem oral. Como nosso foco de relevância se assenta 425 nos manuais de tática como gêneros discursivos, estamos alinhados com as propostas de ECKERT (2002), uma vez que a autora, de modo distinto a Labov, desenvolveu uma abordagem que toma a variação como um recurso para a construção de um significado social da linguagem levando em conta a produção discursiva. Segundo ela, os agentes sociais combinam uma série de recursos existentes para construir novos significados e essa ação vai variar levando-se em conta os atores envolvidos na interação e o seu contexto de produção. Dessa feita, sua concepção de estilo é um modo de ajustamento situacional do enunciador no momento de produção da linguagem, seja ela escrita ou oral (ECKERT, 2008). O autor do manual do século XVIII é António José Batista de Sá Pereira Carneiro. Pouco se sabe sobre o autor no ano de 1769. Historicamente, a única informação que temos do autor é que, no ano de 1808, época em que a família real portuguesa deixa a península e parte para o Brasil por conta das invasões napoleônicas, seu nome constava como sendo subcomandante do 3º Regimento de Infantaria, tenente-coronel do exército português sob o comando de D. Pedro de Almeida Portugal, o Marquês de Alorna (MARTINS, 1945). Assim, dado que o lapso temporal entre a data da fonte remanescente e o seu posto de graduação em 1808, estima-se que, em 1769, António Carneiro ocupasse o posto de cadete ou alferes do exército português. Como expusemos no capítulo 1 deste trabalho, oficiais portugueses demoravam muito a galgar as altas patentes de graduação do exército visto que os postos mais altos de graduação eram ocupados por oficiais estrangeiros. Já o corpus do século XIX tem como autor um marechal de campo, posto mais alto da hierarquia militar portuguesa oitocentista. Como estamos tratando de táticas de guerra para infantaria e dadas as experiências em campos de batalha reais, não podemos menosprezar a experiência de um marechal de campo frente a de um cadete ou alferes. Assim, ainda que estejamos inseridos na mesma comunidade de prática, os papéis 426 desempenhados e as experiências acumuladas dos dois autores irão ocasionar diferenças significativas, quer seja na exposição das táticas elencadas, quer seja na constituição do estilo do manual. Isso justifica, por exemplo, o fato de o primeiro manual ser aferido por nós como mais didático em relação ao segundo. Um cadete ou alferes é um aprendiz das artes militares. Em contraposição, um marechal de campo, tendo em vista o número de batalhas nas quais já deva haver tomado parte, possui, além da teoria, uma experiência concreta de comando em situação real de guerra, principalmente em terras portuguesas imersas em inúmeras campanhas, como relatamos no capítulo 1. Podemos prever que essa diferença individual dentro da mesma comunidade de prática (ROSCH, 1975; ECKERT, 2004; ECKERT; MCCONNEL-GINET, 2010), além de gerar diferenças de estilo na composição textual dos manuais, também gerará modos distintos de uso do léxico de especialidade e de construção do discurso. Assim, seguindo a proposta de ECKERT (2002, 2008), podemos afirmar que o estilo, assim como a linguagem, não pode ser visto como uma coisa, mas como uma prática. Ele é, então, a atividade na qual as pessoas criam o significado social. Em outras palavras, podemos dizer que o estilo é a manifestação visível do significado social. Dessa forma, ambos os manuais e o modo como foram escritos são resultados dessa manifestação visível que porta o significado social que cada agente escritor tem da realidade militar em que estão inseridos. Ademais de atribuir à diferença de estilo ser uma das motivações para a diminuição da frequência de termos de um século a outro, podemos agregar a isso o fato de que, historicamente, o exército do século XIX sofreu uma série de mudanças de ordem estrutural. Enquanto no século XVIII, o exército permanente português, recém-formado, estava buscando alicerces que o sustentassem na ordem, na disciplina e nos preceitos táticos, o exército oitocentista, já os havia consolidado. Não podemos desprezar um 427 acontecimento histórico que contribuiu para diferenciar substancialmente as publicações dentro do seio do exército português na segunda metade do século XVIII: a reforma pombalina. Pombal sacudiu a sociedade lusa em todos os níveis, realizando um esforço para superar vários problemas: tirar Portugal da inferioridade em relação às potências europeias, reformando a economia, e fortalecer o poder do Estado, firmando a supremacia da Coroa perante a nobreza e a Igreja - incluindo-se, aqui, os jesuítas. (VILLALTA, 2000, p. 18). Uma das metas do Marquês Pombal, como afirmamos no capítulo 1, era implementar e dar força a uma política de defesa nacional que, até o ano de 1750, Portugal ainda não possuía (WEHLING; WEHLING, 1994). É a partir da segunda metade do século XVIII, a convite de Pombal, que o Conde de Lippe chegou a Portugal para reestruturar e reorganizar o exército de terra. Uma de suas grandes contribuições para tal objetivo foi a publicação dos artigos de guerra, no ano de 1763, que estavam incorporados aos regulamentos de infantaria. Inaugura-se, então, um espaço para a publicação de leis, ordenanças, instruções e manuais concernentes à guerra, do qual o nosso corpus faz parte. Então, podemos acrescentar às causas já apresentadas das diferenças de estilo o fato de a escrita desse manual estar situada em um momento de transformação do exército, bem como sofrer forte influência do gênero textual mais difundido por Pombal: as instruções. Dessa feita, vemos que não só o estilo da linguagem escrita, mas também o do gênero que a abriga, é importante para que possamos entender as molas propulsoras dos fenômenos de variação e mudança. Durante anos, o estudo da variação foi dominado por uma definição de estilo como "formas diferentes de dizer a mesma coisa" (Labov 1972b, p. 323). Esta definição foi compatível com o foco dos linguistas na acepção denotacional, com uma visão de variação como marcadora de endereço social e com uma visão popular de estilo como artifício. No entanto, o estilo é a sua fundação ideológica e a forma estilística de proposições é uma parte muito importante do seu significado. A terceira onda comporta a ideologia na própria linguagem, na 428 construção de significado, com consequências potencialmente importantes para a teoria linguística de modo mais geral 254. (ECKERT, 2012, p.86) Assumindo que a ideologia está presente na própria linguagem, é importante destacar que no ano de 1776 foi publicado, sob a ordem do Conde de Lippe, “o primeiro regulamento de uniformes, que, com poucas alterações, durou até ao ano de 1806” (RODRIGUES, 1998, p.62). Dessa forma, inaugura-se, também, a publicação de um instrumental para um assunto específico das forças militares. Notemos que o ano de publicação do nosso corpus setecentista é anterior ao regulamento de uniformes. Assim, a partir de 1776, tudo o que era referente aos uniformes do exército estava contido nesse regulamento específico. Com o aparecimento desse gênero específico, outras publicações de ordem militar que englobavam questões referentes a uniformes, por certo, deixariam de dedicar especificações detalhadas sobre o assunto uma vez que, sobre isso, já havia um texto específico. Na verdade, uma das grandes características do Conde de Lippe foi ter promovido um desmembramento das instruções, ou seja, publicou, em separado para cada assunto, regulamentos específicos. Como mesmo afirma o Conde, Existe um Exército. Há leis e artigos de guerra. Um regulamento sobre a organização, a composição, a disciplina, o serviço, a instrução, a justiça, o pagamento, e o recrutamento da tropa. Estas leis acham- -se em execução, e são observadas habitualmente em quase três quartas partes dos regimentos. São disposições completas, inquestionavelmente novas, e de espécies diferentes, pelo que poderiam encontrar maiores dificuldades na adopção. Tudo se acha todavia em prática, e removidos de obstáculos. Actualmente ainda é preciso e sempre necessário, isto é, uma vigilância incansável no fazer cumprir escrupulosamente as últimas leis, regulamentos e artigos da guerra. (SALES, 1936, p.119). 254Tradução nossa. No original, “For years, the study of variation was dominated by a definition of style as “different ways of saying the same thing” (Labov 1972b, p. 323). This definition was compatible with linguists’ focus on denotational meaning, with a view of variation as marking social address and with a popular view of style as artifice. But style is at its foundation ideological, and the stylistic form of propositions is very much a part of their meaning. The third wave locates ideology in language itself, in the construction of meaning, with potentially important consequences for linguistic theory more generally.” 429 Acreditamos que, devido à especificação dos regulamentos implementados pelo Conde de Lippe no exército português, os manuais dedicados à Tática, posteriores a 1776, se centraram mais nessa atividade do que nas periféricas. Então, isso explicaria o fato de alguns de nossos campos nocionais, como os de acessórios de recursos humanos e recursos humanos e postos de graduação, terem suas frequências de tipo e ocorrência diminuídas no lapso temporal em que se localiza a nossa investigação. A esse fato podemos agregar o fato de terem desaparecido os semas /vestir/ e /calçar/ no século XIX. Desse modo, verificamos que as únicas unidades terminológicas que se mantiveram de um século a outro não comportam esses semas. A última questão a ser resolvida seria a de permanência do termo bandeira e sua manutenção como item de maior frequência nesse campo, tanto no século XVIII quanto no XIX. As bandeiras são insígnias que serviam de ponto de reunião das tropas, e de diferenciação entre os diferentes corpos de um exército (SALES, 1936). Nos nossos corpora podemos verificar que, além de marcar as diferentes tropas que compõem o corpo do exército em manobras táticas, também servem como referência para que os ajuntamentos realizassem os movimentos e não perdessem seu alinhamento. Assim, no corpus setecentista, temos [fól. 42r] 1500 de costado cadahuma sobresi: volteando sobre aesquer da: marcha!= o que executão perfilando as testas das colunnas por aquella, que for indicada para di recção, ealinhamento; oupelaque leva as bandeiras, não sedeterminando o contrario. (Figura 1ª. Estratégia Vª.) Ao buscarmos os dados no texto do século XIX, verificamos que a sua função não é diferente. [fól. 42v] 72 1585 lha, ao ponto que se tivesse proposto: Para reme diar estes grandes inconvenientes, o General que commanda, escolhe hum dos Batalhões da linha para ser o que diriga a marcha: As bandeiras deste Batalhão, adiantão-se quatro passos sobre a frente, e 430 1590 devem ter grande cuidado em se perfilar parallela mente com a vanguarda do batalhão, e conservar sempre na marcha o mesmo alinhamento: O Coro nel, que está no centro adiante das bandeiras toma hum ponto de vista em linha recta para diante, e re 1595 para em alguns pontos intermedios, como por exemplo, Desse modo, constatamos que as bandeiras, apesar de serem um acessório dos recursos humanos, são parte fundamental das estratégias de evolução do exército. Devido a esse fato, acreditamos que seja, dentre todos os termos englobados nesse campo nocional, aquele de maior frequência de ocorrência nos séculos XVIII e XIX. Nos nossos corpora, os termos englobados nesse campo nocional só apresentaram um tipo de variante terminológica linguística (FAULSTICH, 2002): é do tipo coocorrente e o termo é farda, que atua como hiperônimo. Há duas ocorrências no texto em que, para dar coesão textual, o hiperônimo marca o conjunto de acessórios que compõe o fardamento. Constatamos, em maior grau, variantes terminológicas de registro, seguindo o constructo de Faulstich (2002). Como não estamos levando em conta as variantes terminológicas geográficas, porque ambos os documentos são procedentes de Portugal, só encontramos variantes terminológicas de discurso, explicadas por meio da concepção de estilo (ECKERT, 2002; 2008). Os dois únicos termos delimitados que apareceram nas duas fontes documentais, bandeira e mochila, também não apresentaram variação de tipo conceitual no espaço temporal, reforçando, assim que as variantes terminológicas temporais, apesar de existirem, também não atuaram como preponderantes nesse campo. Assim, concluímos que as variáveis hierarquia de sujeitos dentro da comunidade de prática, o que demanda também a experiência de mundo e visão acerca da guerra, e estilo de escrita na produção dos manuais são importantes para entender a diminuição quantitativa de termos englobados nesse campo conceitual de um século a outro. Além 431 disso, os acontecimentos históricos e sociais, que são imbricados quando tratamos de história militar, ajudam a embasar as nossas ideias de que “a palavra tem uma existência social: é, principalmente, um fato social255” (MATORÉ, 1973, p.23). 5.2. Campo nocional 02: recursos humanos e postos de graduação Para a construção do nosso campo nocional referente a recursos humanos e postos de graduação, partimos dos pressupostos teóricos de hiperonímia e hiponímia apresentados no subcapítulo 5.1. desse trabalho. De acordo com o significado extraído do nosso corpus do século XVIII, militar faz referência a qualquer homem engajado no serviço das Forças Armadas, no nosso caso, do exército. É assim que se cria na época moderna uma nova definição da gente da guerra: o militar, criado a partir dos conceitos de ordem, disciplina e obediência ao Estado tornando-se um personagem que se posiciona no cenário entre a guerra (sua tarefa profissional) e a boa ordem do Estado, estabelecido por sua natureza burocrática. (SILVA, 2001, p.26) Desse modo, partindo da acepção abrangente do papel e significado dada pela autora, tomamos o termo militar como hiperônimo de todos os demais. Essa acepção está presente nas duas documentações que formam os nossos corpora, portanto, em ambos essa unidade terminológica foi tomada como hiperônimo. 1.2. RECURSOS HUMANOS E POSTOS DE GRADUAÇÃO 1.2.1. Militar 1.2.1.1. Official 1.2.1.1.1. Commandante 1.2.1.1.1.1. Marechal 255 Tradução nossa. No original, “Le mot a une existence sociale: il est au premier chef un fait social”. 432 1.2.1.1.1.2. Official superior 1.2.1.1.1.2.1. Major 1.2.1.1.1.3. Official inferior 1.2.1.1.1.3.1. Ajudante 1.2.1.1.1.3.2. Sargento 1.2.1.1.1.3.2.1. Portamachado 1.2.1.3. Soldado 1.2.1.3.1. Soldado veterano 1.2.1.3.1.1. Granadeiro 1.2.1.3.1.2. Portabandeira 1.2.1.3.2. Soldado peralta 1.2.1.3.2.1. Recruta Quadro 05: Campo nocional 02- Século XVIII No quadro acima, referente ao século XVIII, subdividimos a categoria militar em 02 hiperônimos: oficial e soldado. Os oficiais, por sua vez, assumem o hiperônimo de comandante. Segundo COSTA (2006), ser comandante correspondia a assumir o papel de cabeça do corpo militar, enquanto as demais classes de oficiais seriam os membros, estabelecendo, assim, que o universo militar era também influenciado pelo paradigma corporativista segundo o qual o indivíduo não existe sozinho, mas como parte de um todo ocupando um lugar na ordem, uma tarefa ou um dever social. A partir dessa premissa, nessa categoria podem ser incluídas todas as unidades terminológicas que designam uma patente do exército português, uma vez que todos os oficiais poderiam assumir a função de comandar tropas. Por sua vez, os oficiais podem ser de três tipos: oficiais generais, oficiais superiores e oficiais inferiores. SOARES (2003) nos explicita que, no primeiro tipo de oficiais, podemos englobar o Marechal-General, Marechal do Exército, Tenente-General, o Marechal de Campo, o Mestre de Campo e o Mestre de Campo General. No segundo tipo estão o Major, o Tenente-coronel e o Coronel. 433 Por fim, os oficiais inferiores seriam o Capitão, o Tenente, o Alferes, o Ajudante e o Sargento256. Alocando os termos que identificamos no nosso corpus, temos a patente de Marechal diretamente relacionada ao campo comandante por estar englobada na classe de oficiais generais- terminologia que não aparece no corpus. Já o termo Major está sendo englobado pelo hiperônimo Oficial superior e os itens Ajudante e Sargento pertencentes ao campo de Oficial inferior. O termo Sargento assume uma função específica no texto: a de porta-machados257. A categoria soldado engloba dos hipônimos formados por UTC: soldado veterano e soldado peralta. O primeiro diz respeito aos soldados com mais experiência e tempo de caserna. Já o seguinte refere-se aos soldados com pouco tempo nas fileiras do exército e, portanto, sem experiência. Os veteranos podiam, no nosso contexto discursivo, assumir funções de porta-bandeira e granadeiro. Os soldados peraltas, por sua vez, podiam ser recrutas, recém-ingressados nas fileiras e ainda em fase de treinamento e preparação militar. Para tratarmos da organização conceitual do século XIX, temos o seguinte esquema: 1.2. RECURSOS HUMANOS E POSTOS DE GRADUAÇÃO 1.2.1. Militar 1.2.1.1. Official 1.2.1.1.1. Official Commandante das divisoens 1.2.1.1.1.1. Official General 1.2.1.1.1.1.1. Marechal de Campo 256 O decreto de 16 de Fevereiro de 1764, expedido pelo Conde de Lippe, reconhece o Sargento como oficial inferior e institui a competência que este tem para responder pelas companhias. Além disso, o mesmo decreto determina que eles os sargentos deveriam saber ler e escrever de modo correto porque “o oficial comandante poderia não o saber por ser fidalgo". 257 Também conhecidos como sapadores (Idade Média) ou pontoneiros. As literaturas especializadas dão a essa função a origem do corpo de engenheiros militares, conforme apresentamos no capítulo 1. (LATINO COELHO, 1893). 434 1.2.1.1.1.1.2. General 1.2.1.1.1.1.3. Brigadeiro 1.2.1.1.2. Commandante 1.2.1.1.2.1. Coronel 1.2.1.1.2.2. Tenente Coronel 1.2.1.1.2.3. Major 1.2.1.1.2.4. Capitão 1.2.1.1.2.5. Official inferior 1.2.1.1.2.5.1. Ajudante 1.2.1.2. Soldado 1.2.1.2.1. Escaramuçador 1.2.1.2.2. Mosquetaria 1.2.1.2.3. Recluta Quadro 06: Campo nocional 02- Século XIX Como já expusemos anteriormente, militar é nosso hiperônimo englobando os campos oficial comandante das divisões, comandante e soldado. O conceito de Divisão no exército português foi insertado pela primeira vez durante a Guerra das Laranjas258, no ano de 1801 (SELVAGEM, 1999) e significa dividir todo o corpo de Exército para fins de operação em grandes guerras. Assim, as Divisões tinham sob seu comando somente oficiais generais. Por isso, em nosso mapa conceitual, alocamos a unidade terminológica oficial general como hipônimo de oficial comandante das Divisões. Por sua vez, englobados na categoria de oficial general estão os termos Marechal de Campo, General e Brigadeiro, em ordem decrescente de hierarquia (MARTINS, 1945). No campo seguinte, comandante, dispusemos, também em ordem decrescente hierárquica, os demais oficiais que assumiam a função de comandar tropas: Coronel, Tenente Coronel, Major, Capitão e Oficial inferior. Este, por sua vez, engloba a patente de 258 Esta Guerra foi travada entre Portugal e a Espanha, em 1801, antes de eclodir a grande Guerra Peninsular. 435 Ajudante, único termo dessa categoria encontrado no corpus. A última categoria, Soldado, comporta as funções de escaramuçador, mosquetaria e recluta. Procedendo a uma apuração quantitativa – frequência de tipo- dos termos, vemos que, no século XVIII, há 16 termos identificados e 09 desses, no nosso mapa conceitual assumem a condição de hiperônimo de outros termos. Já no outro corpus temos 18 termos, sendo 07 deles hiperônimos dos demais. Assim, verificamos que, quantitativamente, os dois campos, em séculos diferentes, são proporcionais. Voltando nosso olhar para a frequência de ocorrência, temos 224 termos (corpus 01) e 136 termos (corpus 02). 0 50 100 150 200 250 Corpus Séc. XVIII Corpus Séc. XIX Número de Termos por Campos Número de aparição de Termos no Corpus Gráfico 02- Frequência dos Termos (campo nocional 02) Explorando mais detalhadamente os dados quantitativos, vemos que a frequência de tipo dos termos é maior no século XIX (18 ocorrências frente a 16), no entanto, a frequência de ocorrência é maior no século XVIII (224 ocorrências frente a 136). Outro fato observado é o de que soldado é o termo mais frequente tanto no século XVIII (91 ocorrências) quanto no século XIX (29 ocorrências). Outro fenômeno que nos chamou atenção foi o fato de o campo englobado pelo hiperônimo soldado, no século XIX, ter 35 ocorrências em contraposição ao campo de mesma categoria do corpus do século seguinte, que apresentou 103 ocorrências na frequência token. 436 Diante do que foi exposto a partir dos dados quantitativos, surgiram três perguntas: (1) O que será que motivou a diferença entre as frequências de tipo e de ocorrência nos corpora? (2) Por que a unidade terminológica soldado se manteve como a maior frequente tanto no século XVIII quanto no século XIX? (3) Por que o hiperônimo terminológico soldado apresentou diferença significativa de um século para o outro no que se refere à frequência de ocorrência? Para iniciar a nossa discussão, é preciso voltar ao contexto histórico em que estão inseridos os nossos corpora. Na primeira metade do século XVIII, o exército português estava em período de assentamento. Somente a partir da segunde metade desse mesmo século que verificamos sua consolidação como instituição permanente. Somente na segunda metade do século XVIII é que se tomaram medidas em Portugal para que a assimilação imemorial “nobreza-guerra” desse lugar a noção de que a guerra seria uma arte nobre, porém técnica. Neste contexto é que a afirmação do estatuto militar, o papel dos engenheiros militares, dos matemáticos da balística e das táticas aliadas a um discurso fundamentador de uma autonomia de saber, adquiriu peso ímpar. (GOUVEIA; MONTEIRO, 1998, p.180) Vemos assim que, dentro do universo militar, o responsável por todas as grandes mudanças em relação ao quadro anterior em que se encontrava o exército, conforme expusemos anteriormente, foi o Conde de Lippe. Devemos recordar que as ações de Lippe, tomadas como modelo da Escola Militar Prussiana, também foram pensadas na iminência de uma possível guerra por conta do ‘Pacto de Família’259. As principais preocupações do Conde residiram na melhoria das fortificações, na introdução de novas regras de recrutamento, na aprendizagem contínua das tropas, na questão do fardamento e, principalmente, na disciplina militar (MARTINS, 1945). 259 Cf. subcapítulo 1.1 da nossa Tese. 437 No que concerne aos postos de graduação, entre as datas de publicação dos nossos corpora houve três grandes reformas feitas através de decretos: a 1796, a de 1808 e a de 1816. Todas essas reformas tiveram como produto desfazer a concepção setecentista, arraigada em Portugal, em que a ocupação de um homem nos postos de hierarquia da estrutura militar “traduzia muito mais a sua posição no corpo social do reino do que as suas incertas habilitações bélicas” (SILVA, 2012, p. 42). Por conta das especificações das mudanças que os decretos impuseram às patentes e reestruturação da hierarquia do exército português, veremos um aumento do número de itens lexicais de especialidade no campo nocional do século XIX, onde figuram, por exemplo, termos como Coronel e Brigadeiro, que não tinham lugar no século XVIII. As antigas designações, por que até ali eram conhecidos vários postos militares, foram substituídas pelas que então eram usadas nos demais exércitos da Europa. Foram abolidos os postos de governadores das armas, Generaes de Cavallaria e artilheria, tenentes generaes de cavalaria, que passaram a chamar-se coronéis, comissários geraes da mesma arma, que tiveram o nome de tenente coronéis, tenentes de mestre de campo general e ajudantes de tenente. [...] Ao comando de cada brigada se deputou um oficial superior intermediário entre o coronel e o primeiro posto de general. A exemplo do que se praticava nas tropas extrangeiras deu-se-lhe o nome de brigadeiro. (LATINO COELHO, 1893, p.42) Ainda segundo LATINO COELHO (1893, p.43), o posto de Coronel era privativo da Cavalaria, sendo seu correspondente na infantaria o posto de Tenente-Coronel. Com a reforma de 1796, a patente de Coronel se incorpora à Infantaria. Já o posto de Brigadeiro, LATINO COELHO (1893) expõe que designava o comandante de uma brigada de Infantaria ou Cavalaria. Foi criado, também por decreto, em 27 de abril de 1708 e tinham por função treinar os Coronéis, que estavam em cargo de comando de regimentos, antes de obterem promoção ao posto de oficial general. O posto foi extinto em 1790 e restabelecido na íntegra no ano de 1796. Retomando as informações estilísticas apontadas em 5.1., sabemos que o nosso corpus do século XVIII foi escrito por um oficial inferior e o corpus do século seguinte por 438 um oficial general. Assim, como já expusemos, as visões de tática são diferentes se levarmos em consideração os agentes que escreveram os manuais. Nesse sentido, verificamos que, ainda que os campos referentes a comandante, sejam quantitativamente equivalentes em ambos os séculos, suas subdesignações são maiores no século XIX do que no século XVIII, em virtude dos decretos que especificaram e reordenaram os postos de graduação e suas respectivas funções no lapso temporal compreendido entre a escrita dos nossos corpora. Em relação à categoria soldado, vemos que o corpus setecentista apresenta frequências de tipo muito similares a do documento do século XIX. No entanto, aquele apresenta frequência de ocorrência muito superior a esse. Essas similitudes e diferenças expressam algo relevante, uma vez que, segundo MATORÉ (1973), a palavra, além de ser o resultado de uma evolução histórica, é, também, uma ferramenta da compreensão social. Para termos, discursivamente, uma visão mais detalhada do que acontece, aplicaremos o construto de Faulstich para delimitar os tipos de variantes que aparecem. Começaremos pelas variantes concorrentes. SÉCULO XVIII VARIANTES CONCORRENTES VARIANTES TERMINOLÓGICAS LINGUÍSTICAS GRÁFICAS (singular) official inferior X officialinferior (plural) officiaes inferiores X officiaes-inferiores Quadro 07: Variantes concorrentes- Campo 02 - Século XVIII 439 SÉCULO XIX VARIANTES CONCORRENTES VARIANTES TERMINOLÓGICAS LINGUÍSTICAS LEXICAL: GRÁFICAS: official comandante das divisões (singular) Mosquetaria X Mosqueteria official da divisão (plural) Officiaes X Officiais Quadro 08: Variantes concorrentes- Campo 02 - Século XIX Analisando os quadros das variantes concorrentes, verificamos que as gráficas se repetem nos dois séculos. Somente no século XIX aparecem variantes lexicais, por ser tratar de uma unidade terminológica complexa, e que, segundo nos afirma FAULSTICH (2002, p.81), “o apagamento de um dos elementos de predicação reduz a extensão do termo, mas não simplifica o significado, nem perturba a compreensão, porque a base preserva o conceito inerente ao termo naquele contexto”. Podemos verificar tal afirmação no seio do próprio discurso do corpus oitocentista. [fól. 31 v] 50 alinhamento: Officiaes Commandantes das di 1080 visoens, devem saber o numero de passos, que ham de dar á sua divisão, para desembaraçar a sua frente da rectaguarda da divisão que a precede: E tendo dado os passos necessarios para este fim, mandam fa zer alto, e por hum á esquerda, vem a frente, e toma 1085 a divisão o novo alinhamento. O momento de prin cipiar a contar os passos, he quando o Official da divisão260, que o precede, dá a voz, alto. 260 Os negritos são nossos. 440 Além disso, nesse campo, verificamos que a frequência de ocorrência de unidades terminológicas complexas é maior no século XIX. Podemos atribuir tal fato à especialização dos postos de graduação gerada pelos decretos de reorganização. Em relação às variantes gráficas do século XVIII, vemos que a problemática se assenta em official inferior, tanto no singular quanto no plural. Na sua forma singular, a UTC alterna a sua grafia entre a marcação de uma única palavra ou de duas palavras. Em termos de frequência de ocorrência, verificamos que ambas as formas possuem a mesma distribuição. No que concerne ao plural, a frequência também é estável. Nesse ponto, podemos pensar na correlação existente entre a grafia de officialinferior e officiaes- inferiores frente à grafia de official inferior e officiaes inferiores. De acordo com GONÇALVES (2003, p.573), há três usos para o hífen no português setecentista: “marca de translineação, marca de composição lexical e marca de relações morfo-sintácticas, sendo que no primeiro caso indica a divisão da palavra gráfica e fónica em final de linha, no segundo está associada à formação de palavras, e, no terceiro, liga pronomes átonos a formas verbais”. No nosso caso, o hífen pertence ao segundo caso e, como verificamos, eles se alternam sem regras específicas e sem especial atenção das gramáticas e dos ortografistas da época. [...] pode concluir-se que no século XVIII o hífen estava associado ao processo de divisão silábica, na translineação, e à visualização da dependência das formas pronominais ao verbo, sobretudo as enclíticas. Menos numerosas e especificadoras são as referências ao papel do hífen lexical, aspecto que não mereceu grande relevo à maioria dos ortografistas [...]. Com essa função, só em Oitocentos, a partir da reflexão sobre a estrutura morfo-lexical e fonética dos vocábulos, o hífen adquirirá um papel destacado como pontuação de palavra, na sequência dos trabalhos dos “sónicos” e dos desenvolvimentos da fonética. (GONÇALVES, 2003, p. 187) Assim, apoiados pelas ideias de GONÇALVES (2003) verificamos que, no século XVIII, ainda que teoricamente houvesse uma indicação para tratar do uso do hífen em uma acepção lexical, isso não era feito e, portanto, abria-se um espaço para seu uso, como vemos no corpus setecentista, em variação livre. 441 Ao analisarmos as variantes gráficas do corpus do século XIX, nos deparamos com os seguintes dados: (a) na forma singular há uma alternância entre e , em Mosquetaria X Mosqueteria; e (b) na forma plural há uma alternância entre e , em Officiaes X Officiais. Tendo em vista o agente de produção do corpus oitocentista, que durante muitos anos viveu na França, e a entrada da palavra mosquetaria na língua portuguesa via francês mousqueterie, podemos adotar a possibilidade de que a alternância vocálica de –aria/-eria seja uma variação gráfica etimologizante, assim como irá ocorrer com outros termos, tal como infantaria/infanteria, objeto de nossa análise no próximo campo conceitual. Atrelado a esse fato, devemos lembrar que o século XIX em Portugal terá fortes influências francesas, tanto na história militar quanto na história econômica, política, social e, principalmente, cultural. O sufixo –eria, em comparação com –aria, é o mais difundido nas línguas românicas. Identificamos a época medieval como o período da sua difusão: o francês, nesta época, foi uma língua que exerceu muita influência na România Ocidental. O sufixo –eria é uma forma divergente de –aria, cuja formação remonta ao francês e que se irradiou para as outras línguas românicas. Ao analisarmos a distribuição geográfica do sufixo na Península Ibérica, percebemos que a forma –eria é majoritária. A língua portuguesa é a única que possui formas majoritariamente sufixadas por –aria. (CONDÉ, 2014, p.108) Dessa feita, tendo como referência a presença francesa no Portugal oitocentista, nosso posicionamento aponta para o mesmo sentido e direção que nos apresenta CONDÉ (2014), em relação aos nossos dados quantitativos. Assim, ECKERT (2004) também corrobora para nossa perspectiva ao afirmar que a construção do significado social, altamente influenciado pelo estilo francês, se elabora de forma semelhante à construção da linguagem e, portanto, a variação linguística não apenas reflete o significado social existente, mas é parte da sociedade. Em outras palavras, a vida social se faz manifestar nos arranjos lexicais (MATORÉ, 1973). 442 Já o fenômeno que apresentamos em (b), assenta sua explicação na informação de que o plural de palavras em português está associada à presença de -s. Porém, em casos de a sílaba final ser travada, que é o caso do termo official, há algumas explicações, que nem sempre estão alinhadas, para dar conta do fenômeno. Não é nosso objetivo explicar como ocorreu essa diferenciação nas formas de plural e tampouco apontar qual a doutrina que melhor pode explicar essa variação. É fato que os autores que já estudaram o assunto não coincidem no todo em suas explicações261, mas, para nosso trabalho se faz necessário somente mostrar que essa variação era existente e frequente nos séculos XVIII e XIX, sem formas de predominância até o século XX, quando o plural em –ais passa a ser a norma do sistema. Em relação às variantes coocorrentes, não encontramos relações de sinonímias dentro dos textos com os quais trabalhamos. Esse fato é decorrente de, nesse campo nocional específico, os postos de graduação terem posições semânticas bem delimitadas dentro da organização militar. No entanto, como nosso estudo terminológico é desenvolvido tomando o texto e sua produção discursiva, é importante averiguar o tipo de relação que os termos desenvolvem nesse contexto. FAULSTICH (2002, p.84) chama atenção para o fato de que os textos de especialidade podem ser organizados por meio de dois planos coesivos: o gramatical e o lexical. “A coesão lexical se organiza por meio de unidades lexicais que pertencem às séries abertas da língua, por isso é mais complexa e só pode ser identificada no vocabulário empregado no texto” (FAULSTICH, 2002, p.85). Para que haja coesão lexical é preciso que, no texto, ocorra relação entre duas ou mais unidades lexicais. Se dessa relação decorrer uma linha isotópica no interior do texto, é porque as unidades lexicais envolvidas geraram relações semânticas, com base em elementos de referência e de co-referência equivalentes, 261 Os autores que buscamos foram CÂMARA JR. (1976), WILLIAMS (2001) e TEYSSIER (2007). Em síntese, historicamente, a formação de plural de nomes terminados em –al não possui uma explicação única para a aparição de –e- ou –i-. A hipótese de que houve a queda do –l- intervocálico é o único ponto pacífico nos autores supracitados. 443 responsáveis pela dimensão do significado textual. [...] Outros processos para reiterar e para inter-relacionar unidades lexicais é o que estabelece a relação entre a hiperonímia e a hiponímia, em que o genérico e o específico organizam as informações progressivas no texto. (FAULSTICH, 2002, p.85) Desse modo, os hiperônimos destacados no nosso mapa conceitual funcionam como variantes terminológicas coocorrentes porque, dentro dos textos, funcionam como elementos para organizar a progressão das informações. No documento setecentista temos [fól. 28r] Sendo, pois, o fogo huma das principa es defenças daquella, he preciso que elle seja bem dirigido para ter effeito, epor conseguinte a sua theoria he in 915 dispensavelmente necessaria ao official para a instrução do soldado. Deve, pois, o official de infanteria262 co nhecer o alcance das armas; e para isso he preciso consi Nesse fragmento, por exemplo, podemos perceber que os termos official e official de infanteria funcionando como hiperônimos dos postos de graduação que estão alocados nesse conceito. Do mesmo modo, podemos identificar uso idêntico no texto do século XIX. [fól. 34v]56 Por estas razões he preciso, que as Tropas este jão igualmente exercitadas em desdobrar de todos 1220 os modos, para que não succeda haver nunca momen to de indecisão, no que toca a tomar a formatura, que o Commandante263 pode pertender; mas havendo a differença já dita, deve ser o desdobramento pelo cen tro a que se dê a preferencia na pratica mais usual. Podemos ver que o termo Commandante está se referindo a qualquer posto de graduação que possa, por força do ofício, assumir essa função. No que concerne às variantes competitivas, nenhuma foi verificada em nossos corpora. Nossa visão sobre as variantes terminológicas de registro residem, assim como fizemos em 5.1., em uma visão diacrônica. As variantes terminológicas geográficas, como já explicamos anteriormente, não pertencem ao nosso rol de análise. 262 O negrito é nosso. 263 O negrito é nosso. 444 As variantes de discurso, já explicitadas na análise do campo nocional anterior, possuem o mesmo valor de verdade para esse campo. Assim, tomamos as variáveis hierarquia de sujeitos dentro da comunidade de prática e estilo de escrita na produção dos manuais como igualmente importantes para a análise dos recursos humanos e postos de graduação. Nesse sentido, devemos recordar que os agentes produtores dos textos são de patentes distintas e tem experiências de mundo diferentes. O primeiro é de classe média burguesa, nascido e criado em Portugal, com idade aproximada entre 18 e 24 anos. O segundo, de acordo com ALMEIDA (1963), é de origem nobre, nascido em Portugal, criado em Lion (França) até 14 anos de idade. Retorna a Portugal, onde permanece até o ano de 1801. Em seguida segue para o Brasil. Retorna a Portugal, onde vive de 1826 a 1831. Nesse ano, segue para Moçambique, onde falece em 1831. Essa caracterização é importante para nossa visão sobre a produção da escrita e seu estilo uma vez que ECKERT (2004) aponta que as considerações sobre o social sempre levam a uma correlação complexa que se estabelece entre língua e sociedade. Desse modo, verificamos que essa entender as motivações para as variações não se assenta somente em uma simples associação entre língua e proveniência social. Diante dessa ideia, a autora afirma que uma das tendências dos estudos variacionistas é terem rejeitado o indivíduo como unidade de análise, centrando-se em uma perspectiva do social como comunal. Assim, comungando com a nossa perspectiva de análise, que está alinhada dentro da proposta de ECKERT (2002, 2004), voltamos nosso olhar para as comunidades de prática e analisamos a produção dos atos linguísticos pelo agente sempre levando em conta o fato de esse agente estar inserido em um grupo dentro da sociedade e, portanto, consegue reproduzi-la pela sua prática linguística. Como nos afirma BIDERMAN (2001), as realizações léxicas de uma língua se conectam diretamente às experiências de seus usuários. 445 Pensando em tudo isso, chegamos à conclusão de que as variantes temporais nesse campo nocional assumem um papel importante. Isso se deve ao fato de o período compreendido entre a publicação dos nossos corpora comportar mudanças históricas importantes, tanto social quanto militar, que, como vimos, estão representadas na linguagem de especialidade ora estudada. LABOV (1972, 2008), afirma que é necessária uma delimitação da estrutura social, pois ela corresponde à dada estrutura linguística. Assim, mudanças na estrutura social também podem se traduzir em mudanças na estrutura linguística. Não se pode mais alegar seriamente que o linguista deve limitar suas explicações da mudança às influências mútuas de elementos linguísticos definidos por função cognitiva. Tampouco se pode alegar, com um mínimo de bom senso, que um sistema linguístico em mudança é autônomo [...] não é possível realizar uma análise das relações estruturais dentro de um sistema linguístico para só depois recorrer a relações externas (LABOV, 2008, p.214) No nosso estudo verificamos que há movimentos sociais muito importantes e que, seguramente, afetam as estruturas linguísticas da nossa comunidade de prática. As invasões napoleônicas, as guerras contra a Espanha, as mudanças de diretrizes militares segundo as escolas dos estrangeiros que estavam à frente do exército português (ora alemães, ora prussianos, ora ingleses), as influências políticas, econômicas e culturais inglesas e francesas na sociedade portuguesa de fim dos setecentos e inicio dos oitocentos, todos esses fatores externos influenciam o sistema linguístico de Portugal e favorecem o aparecimento de variações e de fenômenos de mudança em curso. Assim sendo, tomando por base a relação língua geral-linguagem de especialidade e os fatos externos que influenciam a nossa comunidade de prática, verificamos que alguns termos sofreram mudança de significado de um século a outro. Essas unidades terminológicas desenvolveram um novo sentido quando relacionadas com seus respectivos contexto. Segundo ULLMANN (1977), as mudanças semânticas são geradas por fatores 446 linguísticos, históricos, sociais, cognitivos e de contato. Logo, para nosso trabalho, todos esses fatores atuarão diretamente para a mudança semântica. Nos nossos corpora, desde a perspectiva diacrônica, notamos alguns casos de mudança semântica. Nesse campo nocional temos o caso do termo Ajudante. Tanto na referência lexicográfica da época quanto no significado extraído do contexto, essa unidade terminológica, no século XVIII, se referia a um oficial inferior que tinha como função ajudar os Majores de exército. Já no século XIX, percebemos certa autonomia em relação ao Major. O Ajudante passa a ter uma função específica que é a de preparar o quarto da guarda para o capitão, de proferir as instruções militares aos demais oficiais inferiores, de fazer os serviços de secretaria e de realizar outras ações que lhe sejam ordenadas pelos oficiais superiores do corpo (LATINO COELHO, 1893). Assim, ele não só ajuda o Major, como o Capitão, o Coronel e o Tenente-coronel. O militar nessa função, de um século a outro, passa a ter uma atuação mais genérica no seio do Exército. Assim, estamos diante de uma mudança semântica, que acarretou o alargamento de significado, uma vez que se ampliam as funções do posto de graduação e dos demais oficiais a quem deve ajudar. Finalizando nossas considerações desse campo nocional, podemos responder as perguntas que nos guiaram às reflexões feitas. À primeira pergunta podemos atribuir o estilo da escrita, que obviamente está relacionado de modo direto ao posto de graduação que os autores dos textos ocupam dentro do Exército em suas respectivas épocas. Além disso, atrelamos às diferenças de frequência e de tipo os fatos históricos, como a sucessão de publicações de manuais específicos e das recorrentes campanhas de guerra nas quais estavam imersas o Exército português. Essa conjunção de elementos agiu diretamente como motivação para a diferença de frequências encontradas nesse campo nocional. Em segundo lugar, notamos que a unidade terminológica soldado se manteve como a maior frequente tanto no século XVIII quanto no século XIX. Não se pode negar que, 447 numericamente frente ao número de oficiais, os soldados são a base dos exércitos. Ambos os manuais foram escritos com o objetivo de treinar os soldados para as evoluções de combate. Devido a esse fator, notamos que a frequência do termo soldado se mantem como a maior nos dois momentos temporais nos quais estamos inseridos nesse trabalho. Apesar de o soldado ser o alvo dos treinamentos propostos nos manuscritos, o fato de os agentes que os escreveram serem de postos de graduação bem distintos e terem experiências e visões sobre a guerra diferentes, notamos que o público a quem se está endereçada a leitura também não é igual. O manual de autoria do oficial inferior tem seu foco voltado mais para um treinamento direto com os soldados, inclusive porque na ordem hierárquica eram os alferes que trabalhavam mais diretamente com os soldados. Já o manual do século XIX, escrito por um oficial general, se dedica a instruções que os demais oficiais (superiores e inferiores) deveriam passar para os soldados. A existência dessa diferença também pode ser referendada por ECKERT (2004) quando afirma que prática linguística não é apenas o uso consensual de um sistema, pois uma convenção é um processo em que o indivíduo age sobre o outro e faz hipóteses sobre seu comportamento. Dessa forma, se concretiza quantitativamente no plano lexical os indivíduos para os quais os autores estão criando suas hipóteses e estratégias de combate. Assim, essa diferença traçada dos destinatários das instruções corrobora para nosso entendimento do porquê o hiperônimo terminológico soldado apresentar uma diferença significativa do século XVIII para o século XIX no que se refere à frequência de ocorrência. Passamos agora à análise do próximo campo nocional, que se refere ao planejamento de guerra e seus modos de execução. 448 5.3. Campo nocional 03: planejamento de guerra e sua execução Em planejamento de guerra e sua execução estamos englobando os termos que portam conceitos relativos à guerra e as disposições de forma que são tomadas para que o Exército se mova. Assim, para os campos nocionais nos séculos XVIII e XIX, adotamos como hiperônimos os termos Infanteria/Infantaria, Tática e Evolução. Esses termos, se tomarmos a visão de MATORÉ (1973), seriam as palavras-testemunho mais representativas do planejamento de guerra e sua execução. Assim, nosso mapa conceitual do século XVIII fica caracterizado da seguinte forma: 1.3. PLANEJAMENTO DE GUERRA E SUA EXECUÇÃO 1.3.1. Infanteria 1.3.1.1. Tropa 1.3.1.1.1. Divisão 1.3.1.1.2. Brigada 1.3.1.1.3. Regimento 1.3.1.1.4. Batalhão 1.3.1.1.5. Companhia 1.3.1.1.6. Pelotão 1.3.1.1.7. Fracção 1.3.2. Tática 1.3.2.1. Manobra 1.3.2.1.1. Ordem 1.3.2.1.1.1. Ordem defensiva 1.3.2.1.1.2. Ordem profunda 1.3.2.1.1.3. Ordem singela 1.3.2.1.2. Formatura 1.3.2.1.2.1. Intervallo 1.3.2.1.2.1.1. Fila 449 1.3.2.1.2.1.2. Colunna 1.3.2.1.2.1.2.1. Colunna com distancias 1.3.2.1.2.1.2.2. Colunna de ataque, maciça ou serrada 1.3.2.1.2.1.3. Fileira 1.3.2.1.2.1.3.1. Fileira serrada 1.3.2.1.2.1.4. Linha 1.3.2.1.2.1.4.1. Linha das espadoas 1.3.2.1.2.1.4.2. Linha da mira ou visual 1.3.2.1.2.1.4.3. Linha do tiro 1.3.2.1.3. Flanco 1.3.2.1.4. Frente 1.3.2.1.5. Testa 1.3.2.1.6. Fundo 1.3.2.1.7. Vanguarda 1.3.3. Evolução 1.3.3.1. Passo, Passo Militar ou Passo de escolla 1.3.3.1.1. Passo curto 1.3.3.1.2. Passo de costado ou obliquo 1.3.3.1.3. Passo descançado 1.3.3.1.4. Passo de estrada 1.3.3.1.5. Passo dobrado ou largo 1.3.3.1.6. Passo ordinário ou natural 1.3.3.2. Marcha ou Marcha militar ou Marcha recta 1.3.3.2.1. Marcha de costado ou obliqua 1.3.3.2.2. Marcha de estrada 1.3.3.2.3. Marcha graduada 1.3.3.1.2.5. Marcha obliqua 1.3.3.1.2.6. Marcha recta Quadro 09: Campo nocional 03- Século XVIII Em relação ao mapa conceitual que organizamos referente ao século XIX, apresentamos a seguinte disposição: 450 1.3. PLANEJAMENTO DE GUERRA E SUA EXECUÇÃO 1.3.1. Infantaria 1.3.1.1. Tropa 1.3.1.1.1. Divisão 1.3.1.1.2. Brigada 1.3.1.1.3. Regimento 1.3.1.1.4. Batalhão 1.3.1.1.5. Pelotão 1.3.1.1.6. Destacamento 1.3.2. Táctica 1.3.2.1. Manovra 1.3.2.1.1. Ordem 1.3.2.1.2. Formatura 1.3.2.1.2.1. Intervallo 1.3.2.1.2.1.1. Fila 1.3.2.1.2.1.2. Columna 1.3.2.1.2.1.2.1. Columna aberta 1.3.2.1.2.1.2.2. Columna reversa 1.3.2.1.2.1.2.3. Columna cerrada 1.3.2.1.2.1.2.3.1. columna cerrada a meia distancia 1.3.2.1.2.1.2.3.2. columna cerrada de todo 1.3.2.1.2.1.3. Fileira 1.3.2.1.2.1.4. Linha 1.3.2.1.2.1.4.1. Linha chêa 1.3.2.1.2.1.4.2. Linha de batalha 1.3.2.1.3. Flanco 1.3.2.1.4. Frente 1.3.2.1.5. Testa 1.3.2.1.6. Fundo 1.3.2.1.7. Vanguarda 1.3.2.1.8. Rectaguarda 1.3.3. Evolução 451 1.3.3.1. Passo 1.3.3.1.1. Passo accelerado ou apressado 1.3.3.1.2. Passo de entrada, de manovra ou ordinário 1.3.3.1.3. Passo de costado ou obliquo 1.3.3.1.4. Passo de pelotão 1.3.3.1.5. Passo lento 1.3.3.2. Marcha 1.3.3.2.1. Marcha de costado 1.3.3.2.2. Marcha graduada Quadro 10: Campo 03- Século XIX Para melhor organizar a nossa análise dos dados nesse subcapítulo, iremos trabalhar com cada um dos macro hiperônimos (1.3.1, 1.3.2, 1.3.3) separadamente e, ao final, juntaremos as análises para ter uma visão ampla dos fenômenos que ocorreram nesse campo conceitual como um todo. Em ambos os séculos, Infanteria/Infantaria264 alocamos, primeiramente, a noção genérica de agrupamentos de homens de um exército, que é expressa pelo termo Tropa. Em seguida, incluímos como subcategorias as especificações das tropas, que variam de acordo com o número de homens que possuem e com o oficial que as comanda. Assim, em ordem decrescente no século XVIII, temos Divisão, Brigada, Regimento, Batalhão, Companhia, Pelotão e Fracção, sendo este último a não totalidade de homens de qualquer das formações mencionadas, ou seja, uma determinada fração de um grupamento militar. Já no século XIX, a disposição apresenta duas diferenças: a primeira, não há ocorrência dos termos Companhia e Fracção; e, em segundo lugar, a aparição do termo Destacamento. 264 A diferença de sufixos –eria/-aria já foi discutida em nossas análises no subcapítulo 5.2. 452 Em relação às frequências dessa categoria, dentro do campo nocional, temos os seguintes dados: 0 100 200 300 400 500 600 Séc. XVIII Séc. XIX Número de Termos na categoria 'Infanteria/Infantaria' Número de aparição de Termos no Corpus Gráfico 03- Frequência dos Termos (campo nocional 03- categoria: Infanteria/Infantaria) Verificamos que os o número de termos de cada campo é praticamente o mesmo, 08 no século XVIII e 07 no século XIX. Porém, ao tomarmos a frequência de ocorrência, vemos que a diferença é bastante significativa: 372 frente a 521. Ao analisarmos mais detalhadamente os termos que aparecem dentro dessa categoria, chegamos ao seguinte resultado: 0 50 100 150 200 250 300 Século XVIII Século XIX Tropa Divisão Brigada Regimento Batalhão Companhia Pelotão Fracção/Destacamento Gráfico 04- Frequência token dos Termos (campo nocional 03- categoria: Infanteria/Infantaria) 453 A partir do gráfico gerado, chegamos a algumas constatações: grosso modo, a frequência da maioria dos termos aumentou de um século a outro. A exceção se faz ao termo Tropa. Já os termos Companhia e Fracção, que aparecem no corpus setecentista, não tem realização no século seguinte. A unidade terminológica Destacamento só se realiza no século XIX, não tendo aparição no documento do século anterior. Uma vez que a frequência de tipo acompanha a soma das frequências de ocorrência, vamos nos deter nessas últimas para buscar as motivações para o aumento quantitativo nessa categoria do campo nocional que ora estudamos. Assim, duas questões irão nortear a nossa análise: (1) Por que o termo Tropa foi a única unidade terminológica, encontrada nos dois manuscritos, que teve decréscimo de um século a outro? (2) O que motivou a diferença significativa, em termos de quantidade, de aparição do termo Pelotão no corpus do século XVIII para o do século XIX? Para a análise do termo Tropa é importante levar em consideração que ele funciona como hiperônimo dos demais termos de unidades de combate. Assim, segundo os nossos dados, verificamos que, no século XVIII, apesar de Tropa ter uma incidência maior que no século XIX, ao olharmos atentamente os seus hiperônimos, vemos que, no corpus oitocentista, eles aumentam de forma significativa. Como nossa posição é a de que devemos compreender um fato linguístico considerando o contexto ao qual ele está vinculado (HALLIDAY, 1985), voltamos nosso olhar ao contexto discursivo e chegamos à conclusão de que a diminuição da frequência de ocorrência de Tropa está diretamente relacionada com o aumento dessa mesma frequência nos seus hipônimos. Assim, como o texto do século XIX trata o conjunto de homens do exército no combate por meio de suas unidades específicas (Divisão, Brigada, Regimento, Batalhão, 454 Pelotão e Destacamento), o uso de Tropa, como estratégia de coesão textual265, terá sua frequência diminuída. Em relação à nossa segunda indagação, é importante observar que, em ambos os séculos, o termo Pelotão é o de maior incidência. COSTA (2014) nos afirma que o Pelotão é a menor unidade tática sob o comando de um oficial e com autonomia para solicitar apoio de fogo, quando preciso. Assim, devido ao fato de ser a menor de todas as unidades táticas de combate, é aquela que tem maior rapidez no deslocamento das ações. Dessa forma, como estamos tratando de manuais que versam sobre táticas de combate, acreditamos que a grande incidência desse termo se deve justamente por ele ser a base das técnicas de combate de maior agilidade por conta do menor número de homens envolvidos (LATINO COELHO, 1893). Ao aplicarmos o construto de Faulstich a essa categoria no século XVIII, chegamos à constatação de que, em relação às variantes terminológicas linguísticas concorrentes, não há incidência de variantes terminológicas fonológicas, morfológicas, sintáticas ou lexicais. Só há aparição de variantes terminológicas gráficas, como vemos no quadro abaixo: SÉCULO XVIII VARIANTES CONCORRENTES VARIANTES TERMINOLÓGICAS LINGUÍSTICAS GRÁFICAS (singular) Batalhão X Batalhaõ (plural) Divisoens X Divisões X Devisoens Fracçõens X Fracçoens Quadro 11: Variantes concorrentes- Campo nocional 03 - Século XVIII 265 Nosso posicionamento está baseado em KOCH (2007, p.45) ao conceituar coesão textual como “[...] fenômeno que diz respeito ao modo como os elementos linguísticos presentes na superfície textual se encontram interligados entre si, por meio de recursos também linguísticos, formando sequências veiculadoras de sentidos”. 455 Tomando o par Batalhão/Batalhaõ, a forma mais frequente no texto é a primeira (67 ocorrências frente a 01). A segunda forma não configura uma estranheza nessa época uma vez que o til, em sua função de diacrítico, está aposto sobre a semivogal [o], cujo som é mais fechado266. Em relação ao par Divisioens/Divisões verificamos que a frequência da primeira forma é mais incidente: são 12 ocorrências frente a 01. No caso do par Fracçoens/Fracçõens também vemos que a primeira forma é mais frequente que a segunda (06 ocorrências frente a 01). Em relação ao nosso corpus do século XIX, verificamos que apresenta similitudes com os dados encontrados no século XVIII como, por exemplo, o fato de só haver presença de variantes terminológicas gráficas, quando tratamos de variantes terminológicas formais concorrentes. Dessa forma, representamos as variantes encontradas no quadro abaixo: SÉCULO XIX VARIANTES CONCORRENTES VARIANTES TERMINOLÓGICAS LINGUÍSTICAS GRÁFICAS (plural) Divisoens X Divisões Batalhoens x Batalhões Pelotoens X Pelotões x Polutões Quadro 12: Variantes concorrentes- Campo nocional 03 - Século XIX 266 Explicações mais detalhadas a respeito desse uso podem ser obtidas em BACELLAR (1783), COUTINHO (1976), FEIJÓ (1734) e NOBILLING (1978). Não entraremos em detalhes sobre essa questão no nosso trabalho por conta da baixa frequência de ocorrência do termo apresentado. 456 Um fato importante é o de que as variantes terminológicas gráficas nesse corpus se manifestam nas formas de plural de termos terminados em –ão. Observamos que, no documento do século XVIII, também aparece essa mesma tipologia de forma na variante. A flexão de número dessas unidades terminológicas se divide em –oens e –ões. Voltando nosso olhar para a frequência dessas formas, constatamos que a proporção em que se manifestam é praticamente a mesma em todos os pares, com predominância da forma plural realizada com –oens. 0 10 20 30 40 50 60 70 Divisão Batalhão Pelotão Forma em -oens Forma em -ões Gráfico 05: distribuição de plural em –ões e -oens Nos pares que estamos analisando, verificamos a presença do til marcando a ausência da consoante nasal . Percebemos que o til aparece em contextos em que a consoante não se faz presente. Sobre esse fato, A síncope do n intervocálico e conseqüente nasalização da vogal anterior registrava-se com uma forma menor do n, sobreposto à vogal nasalada. Posteriormente, do afastamento das extremidades deste n, convertido em sinal diacrítico, nasceu o til (~), cujo emprego se estendeu a outros casos de nasalização da vogal, substituindo muitas vezes o m e o n. (HAUY, 2008, p. 53) Assim, corroborando com a ideia de HAUY (2008), verificamos que o til em nossos dados está na função de substituir o e, ao mesmo tempo, marcar a nasalização da vogal. TEYSSIER (2007, p.29) também converge no mesmo sentido ao afirmar que “o til (~), sinal de abreviação, serve frequentemente para indicar a nasalidade das vogais, que 457 pode vir também representada por uma consoante nasal [...]”. Dessa forma, conforme os nossos dados, há concorrência de formas de plural representada por –ões e –oens. Se compararmos com os dados já vistos do século XVIII, vemos que essa concorrência já existia naquela época e que, no século XIX, segue existindo, mas com um aumento significativo da frequência de ocorrência da forma –ões. O caso de polutões, no documento oitocentista, e devisoens, no setecentista, que apresentam casos de ocorrência única, podemos sugerir um erro de ortografia uma vez que não há dados em número suficiente para que possamos criar outras hipóteses. Os hiperônimos destacados no nosso mapa conceitual funcionam como variantes terminológicas coocorrentes, como já havíamos assinalado anteriormente, uma vez que desempenham agem como elementos de organização da progressão das informações no texto. Assim, em ambos os séculos, o termo Tropa funciona como elemento genérico de suas formas específicas, representadas, dependendo de seus contextos discursivos, pelos termos Divisão, Regimento, Brigada, Batalhão, Pelotão, Destacamento ou Fracção. O caso desses dois últimos termos também é merecedor de atenção se nos posicionamos na perspectiva histórico-comparativa. Como podemos verificar em nossos glossários, tanto Fracção quanto Destacamento possuem definições que remetem a partes de um todo, de uma unidade. Assim, no texto do século XVIII: [fól. 9 v] 5º. Cada fracção occupará de huma aoutra hum terre no igual á sua frente, comprehendido o intervallo, 115 que deve conservar em linha, econtado da sua vanguarda á da fracção immediata: por consequen cia, toda atropa em colunna de marcha deve occu par hum terreno igual ao que deve occupar em linha menor afrente da ultima fracção: Ou hum terre 120 no igual ao que deve occupar em linha comprehendi do hum espaço supposto sobre avanguarda da pri meira fracção, igual á sua frente. 458 Já no texto do século XIX, podemos verificar a mesma ideia representada no seguinte fragmento: [fól. 13r] 13 Quando hum destacamento, ou qualquer cor- po pequeno, tem que tomar huma posição obliqua; Em lugar de marcar o alinhamento, com hum Pelo tão inteiro; o marca com duas, ou tres filas, e o resto 270 da Frente, entra por filas, no novo alinhamento com hum movimento progressivo. Deste methodo não pode usar huma frente grande; porque ficaria sujeita a muita confusão. Assim, diacronicamente, podemos comprovar que, tomando em conta os contextos discursivos em que aparecem, os termos Fracção e Destacamento designam o mesmo conceito. Dessa feita, como decorrem da sintonia comunicativa estabelecida por meio do texto de especialidade (FAULSTICH, 2002), atribuímos a eles valor de variante terminológica de discurso diacronicamente, configurando, então, uma mudança na representação lexical do termo, sendo que o conceito atribuído não sofre alteração. Não há incidência de variantes competitivas nos textos analisados. A outra categoria, dentro do campo nocional que estamos analisando, é a que toma o termo Táctica como hiperônimo. Os conceitos do que se entende por tática não possuem alterações significativas no nosso lapso temporal estudado. Assim, entendemos por tática “a arte de formar tropas, movê-las e ordená-las de novo em todos os acontecimentos possíveis, na disposição conhecida por mais vantajosa. [...] É a ciência da ordem267” (Ms. Século XVIII, ls. 16-20) Partindo do conceito de tática, particularmente sobre a questão de mover as tropas, consideramos que, dentro do seu campo de atuação, deve constar, primeiramente, a manobra militar, que é “a operação que muda a ordem das tropas conforme as circunstancias” (Ms. Séc. XVIII, ls. 21-22). Logo, seguindo a definição apresentada, 267 Para a definição, atualizamos a grafia do texto original. 459 alocamos o termo ordem dentro de Manobra. No século XVIII, aparecem especificações dessa ordem representadas pelas UTC ordem defensiva, ordem profunda e ordem singela. Já no século XIX, não existem especificações dessa natureza para esse termo. Tão importante quanto ordem há o termo formatura, porque a ordem adotada está relacionada diretamente ao tipo de formatura que se adota. Para que se tome qualquer dispositivo de formatura, é necessário levar em consideração os intervalos que os homens tomam entre si. Dependendo do modo como vemos esses intervalos, se formam filas, colunas, fileiras e linhas. Os termos coluna e linha têm especificações nos corpora, já o termo fileira só apresenta detalhamento no nosso texto do século XVIII. Igualados à importância de ordem e formatura estão os modos de sua disposição, representados pelos termos flanco, frente, testa, fundo, vanguarda e retaguarda. Levando em consideração toda essa ordenação, montamos os nossos mapas conceituais do hiperônimo táctica. Ao prestarmos atenção nas frequências de tipo geradas, verificamos que não há diferença significativa entre os números de campos de hiperônimos e hipônimos nos dois séculos estudados. No que diz respeito ao número de termos que a categoria táctica engloba, apresentamos os seguintes resultados: 0 100 200 300 400 500 600 700 800 Séc. XVIII Séc. XIX Número de Termos da categoria 'táctica' Número de aparição de Termos no Corpus Gráfico 06- Frequência dos Termos (campo nocional 03- categoria: Táctica) 460 Como nossos corpora são manuais de tática de infantaria, estimava-se que o maior número de termos aparecesse nessa categoria, o que foi confirmado com nossa rodagem quantitativa de dados (655 ocorrências no século XVIII e 750 no século XIX). Outro fato notado em nossa análise quantitativa é que o termo de maior ocorrência em ambos os documentos foi frente (128 ocorrências no século XVIII e 165 ocorrências no século XIX). No corpus setecentista, os termos de maior frequência que seguem frente foram linha (98 ocorrências) e coluna (93 ocorrências). No manuscrito oitocentista os termos foram coluna (110 ocorrências) e rectaguarda (92 ocorrências). Desse modo, vamos nortear a nossa análise a partir de duas perguntas: (1) Que motivos levam o termo frente a ser o mais incidente nos dois corpora? (2) A partir das frequências de ocorrência dos termos, o que se pode depreender sobre as táticas de infantaria em diacronia? Para começar a responder esses questionamentos, aplicaremos o construto de Faulstich para termos uma visão mais detalhada das variantes presentes nessa categoria. SÉCULO XVIII VARIANTES CONCORRENTES VARIANTES TERMINOLÓGICAS LINGUÍSTICAS GRÁFICAS Vanguarda X Vangarda Retaguarda x Rectaguarda Quadro 13: Variantes concorrentes- Campo nocional 03 - Século XVIII Foram duas as variantes terminológicas linguísticas encontradas no corpus do século XVIII e todas elas são de tipo gráfico. No entanto, nossa posição é a de atribuir um desvio da norma pelo agente produtor porque todos os dados gerados possuem apenas 01 461 ocorrência em todo o texto: 40 ocorrências de Vanguarda frente a Vangarda (ls.1107- 1108) e 36 incidências de Retaguarda frente a Rectaguarda (l.37). Em nosso corpus do século XIX, temos as seguintes variantes concorrentes: SÉCULO XIX VARIANTES CONCORRENTES VARIANTES TERMINOLÓGICAS LINGUÍSTICAS GRÁFICAS Vanguarda X Avanguarda Rectaguarda X Retaguarda x Rectguarda Linha chêa X Linha cheia Quadro 14: Variantes concorrentes- Campo nocional 03 - Século XIX Nesse documento foram delimitadas três variantes terminológicas linguísticas, sendo todas elas também de tipo gráfico. Nossa posição referente ao termo Rectaguarda é a mesma que tomamos ao analisar as variantes do século anterior, isto é, a de atribuir um desvio de escrita pelo autor porque os dados gerados possuem apenas 01 ocorrência em todo o texto: 90 ocorrências de Rectaguarda frente 01 de Retaguarda (l.56) e 01 de rectguarda (l.1422). O caso de Avanguarda apresenta a mesma explicação para as suas duas ocorrências (ls.336, 1359-1360): refere à não separação vocabular do determinante e do seu núcleo na escrita do sintagma a vanguarda no texto. O último caso é o do predicador (DIK,1981) do termo linha que aparece com 02 ocorrências de chêa e 01 ocorrência com cheia. Essa variação é explicada SILVA (1806) ao afirmar que O acento circumflexo dos Antigos era sinal de levantar o tom da vogal, e logo abaixá-lo; nós não temos semelhantes vogáes, e o accento circumflexo nos é desnecessário; Os nossos Grammaticos accentuão com elle vogáes graves; v.g. vêo, fêo, por vèyo, fèyo, etc. Commumente não usamos accentos prosódicos, se 462 não é para distinguir palavras homônimas, ou da mesma escritura, e diversos sons e sentidos: [...] (SILVA, 1806, p.120) A partir dessa explicação, verificamos que o uso do diacrítico no nosso texto aparece como forma de marcar a vogal tônica de um ditongo decrescente e, ao mesmo tempo, marca a ausência da semivogal [y] desse mesmo encontro vocálico. Em relação às variantes coocorrentes, no século XVIII, temos Formatura que, para manter a coesão lexical na progressão do texto, se refere de modo genérico a fila, colunna, fileira e linha. Como podemos verificar, por exemplo, no fragmento abaixo. [fól. 30r] 1045 A maior velocidade da cavallaria para o attaque, conservando formatura268 eordem, he o grande galope, ou a toda a brida; ea da infanteria, o passo dobrado: podese com putar regularmente a ésta cento evinte passos por minuto; equa trocentos enoventa a aquella; ainda que huma e outra podem aug Para ratificar o nosso caso, podemos verificar que o número de frequência de ocorrência do hiperônimo menor do que o de todos os hipônimos (08 ocorrências de Formatura frente a 25 de Fila, 93 de Colunna, 30 de Fileira e 98 de Linha). Ademais do caso de hiperônimo, verificarmos, no contexto discursivo, que alguns termos apresentam relação de sinonímia. Assim, estamos entendendo sinonímia como “[...] palavras de forma diferente, mas de sentido idêntico ou semelhante e com mesmo estatuto morfossintático” (TAMBA-MECZ, 2006, p. 105). Não estamos afirmando que os termos que tomamos como sinônimos são exatamente iguais em carga semântica. Partilhamos da mesma posição de TAMBA-MECZ (2006) ao dizer que a relação sinonímica também se realiza por aproximação, para isso é necessário somente que dois termos sejam intercambiáveis em determinada posição no 268 O negrito é nosso. O termo formatura está em seu sentido genérico no texto. 463 interior de redes lexicais definidas. Assim, no campo da Terminologia, adotamos a mesma ideia de FAULSTICH (2002). A sinonímia terminológica é um processo em que dois ou mais termos com relação de sentido idêntica podem coocorrer num mesmo contexto, sem que haja alteração no significado textual e discursivo. A sinonímia terminológica discursiva tem por função produzir a coesão textual, além de ser um dos mecanismos de ampliação vocabular. (FAULSTICH, 2002, p.84) Desse modo, como nos afirma a autora na citação acima, o contexto discursivo é de suma importância para a identificação dos termos sinônimos. Então, vemos que a sinonímia “é tributária de dois sistemas de relações semânticas: as palavras lexicais, e permite, em cada um desses sistemas, ‘substituições’ de vocábulos diferentemente equivalentes” (TAMBA-MECZ, 2006, p. 110). No nosso corpus do século XVIII e também no glossário que formulamos com base nas aparições discursivas dos termos selecionados, somos capazes de verificar que alguns termos se enquadram nessa relação de sinonímia. Vejamos os casos das categorias de formatura, tomando em conta os intervalos e disposições dos soldados. No termo linha, verificamos no nosso glossário que sua etimologia nos expressa como sinônimo o termo fila. Já a referência lexicográfica da época apresenta em sua definição o termo fileiras. A partir do cruzamento dessas informações e de seu uso no contexto discursivo, chegamos à definição reconstruída que admite relações de sinonímia do termo linha tanto com fila quanto com fileira. Contudo, fila e fileira não podem ser admitidos como sinônimos por conta da sua nuance de disposição espacial. Fila representa um homem atrás do outro, enquanto fileira nos passa a ideia de um homem ao lado do outro. Por outro lado, dentro do mesmo subcampo, o termo colunna também sugere a ideia de um homem atrás do outro. Inclusive, a referência lexicográfica da época utiliza em sua definição os sintagmas linha de soldados e fila longa do exército. Assim, verificamos que 464 o termo colunna apresenta relações sinonímicas com linha e fila, mas não estabelece essa relação com o termo fileira. Desse modo, dentro do nosso contexto discursivo, verificamos que a relação de sinonímia ocorre da seguinte forma: COLUNNA LINHA FILA FILEIRA Quadro 15: relações de sinonímia – campo nocional 03- Categoria: Táctica (Séc. XVIII) A unidade terminológica linha atua como sinônimo discursivo de colunna, fila e fileira. Colunna e fila também se alternam no texto com o mesmo sentido. Dentro do corpus essa relação se materializa da seguinte forma: [fól. 30v] a metade dos passos, que cada huma occupa, e mais a metade. 1075 Por exemplo, se hum batalhão de cento enoventa eduas filas, em oito pelotoens cada hum de vintequatro homens de frente, que occupão quarenta eoito pés, ou vintequatro passos; se [fól. 33v] e tomadas as dispoziçoens para attacar estes dous pontos ao mesmo tempo; as duas colunnas não for 1200 mão ao principio senão huma, afim de occu par toda aattenção da infanteria na defença do ponto ameaçado pela direcção geral: por isso o [fól. 39r] O do terceiro, faz omesmo; e assim os mais; observando que dafrente dos seos pelotoens vá sempre huma linha ao lado do primeiro, que servio de eixo, eque voltem defor 1400 ma, queésta linha vá sempre correspondente aelle. [fól. 8r] Fileira= são os homens postos aolado huns dos 465 60 outros, de forma que sereunão todas as linhas269 das es padoas aésta precisão geometrica, deve se fazer toda adiligencia porque se lhe aproxime. Essa mesma relação podemos observar com os termos que conformam as disposições das manobras. Verificamos que frente, tanto em sua acepção etimológica quanto na referência lexicográfica apresenta a ideia de parte anterior, vanguarda. O mesmo se observa em testa em sua acepção dada pela referência lexicográfica: frente do exército. O termo Vanguarda, de acordo com a referência lexicográfica, é a parte dianteira, designada também por frente ou testa de um determinado exército. Desse modo, chegamos à conclusão de que os termos frente, testa e vanguarda possuem relação de sinonímia no corpus. Assim, veremos no nosso espaço discursivo estas relações de sinônimo entre frente, vanguarda e testa. [fól. 32r] 1130 Para se saber o tempo, que huma colunna de infanteria na sua ordem natural precisa para unir as distancias a passo dobrado, se multiplicarão os homens de frente da colunna pelas distancias do fundo; [fól. 9 v] Huma tropa em colunna com distancias iguaes á frente das fracçoens, pode meterse em linha so 135 bre avanguarda da colunna por diagonaes, sem augmentar as distancias. [fól. 54v] podem desdobrar muito regularmente sobre aretaguarda, me tendo em linha com opasso obliquo sobre os lados, emarchan do de frente o 4º. e 5º. pelotão, que fazem a testa de colunna 1980 sobre amesma retaguarda. A mesma relação sinonímica ocorre com os termos fundo e retaguarda, significando a parte traseira ou posterior de uma determinada formação. Assim, no texto temos as seguintes aparições. 269 Todos os negritos das citações são nossos. 466 [fól. 49v] 1805 chando apasso dobrado, ese quizer formar ésta colunna, o commandante fará marchar o primeiro pelotão á vóz= formão colunna sobre adireita= tantos passos, como tem de fundo os pelotoens, de que ella se hade formar, para lhe dar lugar aque [fól. 57v] O commandante do1º. pelotão faz =fogo= mandapôr=armas á frente= epor meias filei 2095 ras=á direita e áesquerda=volteando (Figura 4ª. Estratégia VIIª.) vai formar na retaguarda270 diante das bandeiras, onde carrega; As mesmas variantes coocorrentes que constatamos no século XVIII seguem no nosso corpus do século XIX. O termo linha funciona como sinônimo discursivo de colunna, fila e fileira e, por sua vez, Colunna e fila também aparecem no manuscrito com sentidos equivalentes. Essa relação também nos explica TAMBA-MECZ (2006, p.107) ao dizer que “no nível das ocorrências discursivas, a sinonímia deve, ao mesmo tempo, respeitar uma rede lexical e uma identidade referencial, pois o vocábulo vê sua significação especificada por esse duplo fundamento relacional”. Desse modo, podemos ver essa relação nos seguintes fragmentos: [fól. 39r] 65 lugar em que o lado esquerdo dos seus Batalhoens postos em linha, se devem apoiar. Os Brigadei ros, ou os Marechaes de Campo, são os que hão de postar os Ajudantes sobre a linha do desdobramen 1430 to. Os dos Batalhoens da esquerda, se porão em [fól. 45r] 77 1705 ra a rectaguarda, encaminhando para a esquerda a testa dos Pelotoens, os quaes irão de sorte, que a vanguarda de cada Pelotão marche na altura da sexta fila do Pelotão, que o precede á esquerda: [fól. 47r] 81 guarnecida de Artilharia: Neste caso não se 1810 forma nunca Columna, ou Columnas para atacar com grande numero de Batalhoens, mas somen te com hum até dous, e se executa esta Manovra 270 Os negritos das citações são nossos. 467 [fól. 50v]88 Todas as fileiras de cada Pelotão seguem com pas so accelerado: Os Pelotoens observão exactamen te as distancias entre si: A primeira linha abre 1955 intervallos, dobrando de fronte de cada Pelotão No que concerne aos termos frente, testa, vanguarda e ao grupamento fundo e rectaguarda, as relações sinonímicas de discurso também são iguais àquelas que se apresentaram no corpus do século XVIII. Assim, no manual do século XIX vemos as seguintes incidências para o primeiro grupo apresentado: [fól. 10r] 7 não se troca a ordem dos postos, que os Officiaes occupão 135 no Batalhão, porque passão apressadamente pelos intervallos dos Pelotoens; a saber: Os Commandan tes dos Pelotoens, para a frente da terceira fileira, que fica sendo primeira; [fól. 25v]38 ra do modo seguinte: A vanguarda da columna 825 marcha em passo lento, para dar lugar a que as fi- las se unão, e logo que chega ao terreno, em cuja es querda o Batalhão se deve formar: As tres filas [fól. 28v]44 945 Se o Batalhão quer tomar huma posição o bliqua para a frente, ou para qualquer dos lados da sua marcha, faz a Evolução debaixo dos mesmos principios acima demonstrados, com a differença, que a testa271 de columna toma o novo alinhamento confor O segundo grupamento, relativo aos termos fundo e rectaguarda, também podem ser vistos em contexto. [fól. 29v]46 995 da posição entra no alinhamento, que pertende tomar, por dous quartos de conversão á direita: O 2º. Pe lotão, quando chega ao terreno em que o 1º. fez o pri meiro quarto, adianta-se tres passos, para salvar o fundo das tres fileiras, e nesse ponto faz quarto de 1000 conversão á direita, marcha pela rectaguarda272, e quan 271 Os negritos nas citações são nossos. 272 Os negritos na citação são nossos. 468 Dessa feita, verificamos que as variantes coocorrentes são as mesmas em ambos os séculos e atuam, dentro do contexto discursivo, exprimindo seus significados sociais (LYONS, 1975) e exercendo seus papéis de elementos lexicais de coesão textual. No termo táctica, do nosso glossário do século XVIII, há, na lematização, o termo tactique (l.376), em língua francesa. No entanto, no contexto discursivo, esse termo estrangeiro aparece como citação a uma obra escrita nessa língua. Assim, não consideramos esse termo como uma variante competitiva. Desse modo, seguindo os postulados de constructo de Faulstich, verificamos que não há variantes competitivas nos corpora. Comparando os dois sistemas diacronicamente, passamos à análise das variantes de registro. Seguindo os padrões já estabelecidos anteriormente, as variantes terminológicas geográficas não estão no nosso foco. Em relação às variantes temporais, não há termos que apontem para o estabelecimento de possíveis mudanças em progresso, em seus momentos sincrônicos. Assim, nos focaremos nas variantes de discurso e, mais especificamente, nas unidades terminológicas complexas que aparecem nessa categoria. As especificações desse tipo aparecem nos termos ordem, colunna, fileira e linha, pertencentes ao mapa conceitual do século XVIII, e nos termos columna e linha do século XIX. Assim, podemos ilustrar a frequência de ocorrência dessas unidades terminológicas complexas do seguinte modo: 0 5 10 15 20 25 30 Ordem Colunna/Columna Fileira Linha Séc. XIX Séc. XVIII Gráfico 07- Frequência de ocorrência das UTC- Campo nocional 03 469 A partir do gráfico vemos que a quantidade de unidades terminológicas complexas é maior no século XVIII do que no século XIX. Inclusive, há termos desse último século que não comportaram unidades mais especializadas, como ordem e fileira. Centraremos nosso foco nas unidades que se repetiram nos dois séculos: coluna e linha. COLUNNA/ COLUMNA SÉCULO XVIII SÉCULO XIX Colunna com distancias Colunna de attaque, maciça ou serrada Columna aberta Columna reversa Columna cerrada columna cerrada a meia distancia columna cerrada de todo Quadro 16: Comparação da UTC columna/colunna Primeiramente, notamos que há diferença na grafia do termo coluna: colunna, no século XVIII, e columna, no século XIX. Convém esclarecer que os séculos XVIII e XIX estão inseridos em um período da história da ortografia de língua portuguesa que denominamos pseudoetimológico, cuja ideia era conservar na escrita das palavras as letras existentes em sua origem, mesmo que não tivessem nenhum valor fonético (COUTINHO, 1976). A concepção de representação escrita nesse momento é fruto do Renascimento, e depois reforçada pelo Romantismo, em que se buscou sistematizar a grafia, no nosso caso da língua portuguesa, deixando-a mais próxima do seu correspondente em língua latina (MARTINS, 1988). Assim sendo, verificamos que a mudança no padrão de escrita de colunna do manuscrito setecentista dá lugar, no século XIX, à escrita de columna, trazendo à tona a origem etimológica latina da palavra columna (NASCENTES, 1932, tomo I, p. 128). 470 No que toca as unidades terminológicas complexas, notamos algumas alterações. Sistematizamos as definições, para melhor avaliação, no quadro abaixo: COLUNNA/ COLUMNA SÉCULO XVIII SÉCULO XIX Colunna com distancias: É a em que as tropas que a compõem, tem entre si uma distancia igual a sua frente, contada de eixo a eixo, mais o intervalo, que devem conservar formadas em linha. Columna aberta: Quando os Pelotões deixam entre si uma distância igual à frente, que devem ocupar, quando por um quarto de conversão, o Batalhão se mete em linha de Batalha. Colunna de attaque, maciça ou serrada: É aquela em que as tropas que a compõem, não têm esta distância (a que possui a coluna com distâncias). Columna cerrada: Quando os Pelotões tomam entre si menos distância do que lhe é preciso. columna cerrada a meia distancia: Quando os Pelotões tomam entre si menos distância, do que é preciso, mas não vão unidos de todo. columna cerrada de todo: Quando os Pelotões vão unidos; mas não se usa, senão nos desdobramentos. Columna reversa: Quando a coluna muda a sua direção da frente para retaguarda. Quadro 17: Definições de coluna/columna Verificamos, inicialmente, que as definições de colunna com distancias e columna aberta são equivalentes. Ambas designam que, em formação de coluna, os soldados devem manter espaços entre si de frente, costas e lados. Assim, constatamos que colunna com distancias, no século XVIII, passa a chamar-se columna aberta no documento oitocentista. Possivelmente, tal mudança terminológica se deve à contraposição de coluna cerrada, presente em ambos os séculos. Assim, repensando em uma nova tipologia terminológica, teremos: colunas, que podem ser abertas ou cerradas. Dessa forma, vemos o estabelecimento de um dispositivo por antonímia binária inversa (LYONS, 1975), que 471 cognitivamente, é mais fácil de ser apreendido para entendimento dos protótipos (ROSCH, 1975). O fato de o século XVIII não apresentar diretamente essa relação expressa pelos termos não significa que não se tenha atribuído esse valor antonímico ao par com distancias e cerrada, de attaque ou maciça, pois o contexto nos informa, sem margem de dúvida, essa relação estabelecida. O termo colunna de attaque, serrada ou maciça apresenta tem designações, no século XVIII, para o mesmo conceito. Esse, por sua vez, se reproduz no termo columna cerrada de todo do século XIX. Notamos que o conceito do termo no documento setecentista se constrói em oposição ao conceito do termo colunna com distancias, tanto que, no próprio manuscrito, sua definição se faz com essa base. No entanto, verificamos uma especialização do termo. Para que a coluna seja cerrada de todo, deve haver uma coluna que, também se cerra, mas não totalmente. Nesse caso, segundo LYONS (1975), estamos diante de um caso de antonímia, mas dessa vez gradual. Assim, a coluna cerrada, conceitualmente, se opõe à coluna aberta. No entanto, ressalvado o grau de fechamento da coluna, ela pode ser cerrada a meia distancia ou cerrada de todo. Dessa forma, por meio dessa nuance gradativa, vemos uma especificação que não havia no século XVIII. Por fim, o manuscrito do século XIX prevê a formação de uma coluna com o referencial de sentido, ou seja, além da coluna que se forma para frente, esse dispositivo também pode ser formado no sentido contrário, gerando, assim, a criação de uma nova UTC materializada em columna reversa. Logo, percebemos que o estudo terminológico em diacronia contribui para o entendimento da formação dos domínios de especialidade. O termo linha também apresenta subcategorias designadas por UTC. Nenhum dos termos se repete no lapso temporal estudado, logo nos deteremos sobre os conceitos, demonstrados no quadro abaixo. 472 LINHA SÉCULO XVIII SÉCULO XIX Linha das espadoas: É uma reta suposta tirada entre os pontos exteriores e os mais distantes dos ombros do soldado. Linha chêa: É a linha medular, central das formações para combate. Linha de batalha: Linha cuja disposição entrará em confronto direto com o inimigo em batalha. Linha da mira ou visual: É uma reta que se traça desde o lugar onde se encontra o atirador até o objeto a que se dirige a bala. Linha do tiro: É uma reta tirada pelo centro do cilindro da espingarda. Quadro 18: Definições de Linha Podemos ver que os termos linha da mira ou visual e linha de tiro são itens que pertencem ao ramo de tiro. Como comentamos anteriormente em nosso trabalho, o século XIX é marcado pela especialização das áreas e o modo de pensar sobre a guerra teve grande incremento (PROENÇA JR. et al., 1999). Essas especializações foram acentuadas com a criação do Real Colégio Militar de Lisboa, no ano de 1802, e com as Escolas de Ensino Mútuo, que se dedicavam à alfabetização nos quartéis (CARVALHO, 1986). A criação dessas instituições foi importante porque, por meio delas, se divulgaram as publicações, a grande maioria traduzida do francês e algumas delas já escritas em língua portuguesa, das primeiras instruções específicas de tiro do Exército Português, que começaram a emergir nos finais do século XVIII (NOGUEIRA, 1999). De certo, essas especificações de área dentro da ciência militar nos ajudam a entender o motivo pelo qual muitas terminologias deixaram de figurar nos manuais de tática militar. O léxico que não pertencesse ao campo da tática seguramente não figuraria como termo nos manuais publicados para esse fim. Desse modo, ratificamos as ideias de BIDERMAN (1998, p.11) quando afirma que a “[...] geração do léxico se processou e se 473 processa através de atos sucessivos de cognição da realidade e de categorização da experiência, cristalizada em signos linguísticos: as palavras.” No que se refere aos termos linha de espadoas, linha chêa e linha de batalha, verificamos que o conceito atribuído ao termo identificado no século XVIII não figura no todo no século XIX. Ao traçarmos um paralelo com o que expusemos sobre columna aberta e columna cerrada, veremos que o termo linha chêa não apresenta seu antônimo estrutural binário linha vazia. Então, voltamos aos conceitos de linha dos nossos glossários para entender a construção das unidades terminológicas complexas. Chegamos ao seguinte quadro: SÉC. XVIII Linha: Formação na qual as tropas ou unidades se dispõem lado a lado ou um atrás do outro. SÉC. XIX Linha: Formação na qual as tropas, unidades ou soldados se dispõem lado a lado ou um atrás do outro. Quadro 19: Definições do termo linha diacronicamente A partir dos conceitos, vemos que o termo linha é praticamente igual em ambos os séculos. A única diferença se dá pela inserção do sema /soldados/. Assim, enquanto no século XVIII o conceito de linha se referia somente à formação de tropas ou unidades militares, no século seguinte, além dessa ideia, acrescenta-se também a palavra soldado. Dessa feita, no documento do século XVIII, a construção da UTC linha das espadoas marca sua distinção em relação ao termo simples exatamente por esse matiz: a simples se refere ao conjunto (tropas, unidades militares), uma vez que a complexa se refere ao homem (soldado), individualmente, como referência. Quando centramos nossa atenção no conceito do século XIX, verificamos que o seu hiperônimo concentra os três semas: /tropa/, /unidade militar/ e /soldado/, englobando, então, ambos os termos do século anterior – o simples e o complexo. Assim, qualquer 474 formação, seja de homens ou de unidades como um todo, em disposição vertical ou horizontal é denominada linha. O grau de especialização do termo linha chêa se manifesta pelo fato dela ocupar a posição central, mediana, do conjunto total de linhas. Desse modo, todas as linhas que não são cheias (centrais), são vazias (não-centrais). Logo, vemos que o sentido de linha vazia seria exatamente o mesmo de linha. Ao sentido de linha chêa se acrescenta o lugar que ocupa no emaranhado das linhas em formação. Já o conceito de linha de batalha faz relação com as linhas que entrarão em confronto direto com os inimigos, ou seja, as que se localizam nas partes mais externas do dispositivo (frente, retaguarda e flancos). Por fim, verificamos que, ainda que a frequência de ocorrência das terminologias complexas no século XIX seja inferior a do século XVIII, o grau de especialização dos termos específicos de tática para infantaria é maior no manuscrito oitocentista. Feitas essas observações sobre a categoria táctica, podemos responder às perguntas que propusemos ao início. Primeiramente, vemos que a tática se refere às formações e movimentos de um exército em uma guerra. Assim sendo, a ideia de confronto está sempre presente. Como todos os confrontos se realizam com linhas de frente e, inclusive, é a frente dos dispositivos que guiam os demais nas formaturas e alinhamentos, não é raro que esse termo seja o mais frequente em ambos os séculos. Além disso, vimos que na categoria tática, a nossa análise quantitativa é diametralmente oposta à nossa análise qualitativa. A diminuição na frequência de ocorrência de termos complexos do século XVIII para o XIX indicou uma maior especialização de termos nesse último. Assim, quanto menor foi a frequência de ocorrência, maior foi o grau de especialização. Passaremos agora à análise da última categoria do campo nocional Planejamento de guerra e sua execução, que está representado pelo termo hiperônimo Evolução. Enquanto a tática está relacionada com a formatura e disposição das tropas, a evolução nos remete ao 475 movimento que essas executam. Por isso, Evolução assume posição de hiperônimo da mesma equivalência de Táctica e Infanteria/Infantaria. Uma vez que engloba a ideia de movimento, os hipônimos de Evolução serão Passo e Marcha. Por sua vez, o conceito de Passo estará atrelado à extensão de um deslocamento no movimento de andar. Já Marcha faz referência ao tipo de andar que se faz, levando-se em conta o terreno físico. Assim, nosso mapa conceitual referente ao manuscrito do século XVIII se construiu da seguinte maneira: 1.3. PLANEJAMENTO DE GUERRA E SUA EXECUÇÃO 1.3.3. Evolução 1.3.3.1. Passo, Passo Militar ou Passo de escolla 1.3.3.1.1. Passo curto 1.3.3.1.2. Passo de costado ou obliquo 1.3.3.1.3. Passo descançado 1.3.3.1.4. Passo de estrada 1.3.3.1.5. Passo dobrado ou largo 1.3.3.1.6. Passo ordinário ou natural 1.3.3.2. Marcha ou Marcha militar ou Marcha recta 1.3.3.2.1. Marcha de costado ou obliqua 1.3.3.2.2. Marcha de estrada 1.3.3.2.3. Marcha graduada Quadro 20: Campo nocional 03- categoria Evolução- Século XVIII Seguindo as mesmas ideias apresentadas anteriormente, chegamos à constituição do nosso mapa conceitual que expressa a relação dos termos no documento do século XIX. 1.3. PLANEJAMENTO DE GUERRA E SUA EXECUÇÃO 1.3.3. Evolução 1.3.3.1. Passo 1.3.3.1.1. Passo accelerado ou apressado 476 1.3.3.1.2. Passo de entrada, de manovra ou ordinário 1.3.3.1.3. Passo de costado ou obliquo 1.3.3.1.4. Passo de pelotão 1.3.3.1.5. Passo lento 1.3.3.2. Marcha 1.3.3.2.1. Marcha de costado 1.3.3.2.2. Marcha graduada Quadro 21: Campo nocional 03- categoria Evolução- Século XIX Apresentados os mapas conceituais da categoria Evolução, verificaremos, sob uma perspectiva quantitativa como eles se apresentam nos nossos corpora. 0 50 100 150 200 250 300 Séc. XVIII Séc. XIX Número de Termos da categoria 'Evolução' Número de aparição de Termos no Corpus Gráfico 08: Termos da Categoria Evolução Interpretando o gráfico anterior, vemos que, nessa categoria, o século XVIII apresenta frequência de ocorrência de termos maior que o XIX. Em relação à frequência de tipo, percebe-se certo equilíbrio entre os séculos. Vamos, então, verificar as frequências dos termos passo e marcha que estão englobados no hiperônimo Evolução. 477 0 50 100 150 200 Passo Marcha Séc. XVIII Séc. XIX Gráfico 09: Frequência de ocorrência de termos- campo nocional 03- categoria Evolução Quando atentamos para a frequência de ocorrência geral dos termos compreendidos nos campos relativos a Passo e Marcha, constatamos que, em relação a esse último, há uma certa manutenção da frequência. No entanto, ao analisar o primeiro termo, verificamos que, de um século a outro, há uma diminuição significativa. Assim, nossas perguntas-guia serão: (1) O que motivou a diferença na frequência de ocorrência do número total de termos? (2) O que motivou a diferença e a estabilidade na frequência de ocorrência dos termos passo e marcha? Dessa feita, procederemos à aplicação do constructo de Faulstich para levantar as variantes existentes nessa categoria. No século XVIII, constatamos somente variantes linguísticas formais do tipo lexical, representadas pelo apagamento do elemento de predicação na constituição dos pares Passo/ Passo Militar (ou Passo de escolla) e Marcha/ Marcha militar (ou Marcha recta). Essas mesmas variantes pertencem, também, ao rol de variantes concorrentes. Como nos explicita FAULSTICH (2002, p.83), “é preciso também atentar para o fato de que a divisão das variantes terminológicas em dois grandes grupos e, depois em tipos 478 específicos não exclui a possibilidade de os tipos aparecerem combinados entre si”. Desse modo, no tocante às variantes coocorrentes, temos os seguintes casos expressos no quadro abaixo: SÉCULO XVIII VARIANTES COOCORRENTES Passo = Passo Militar = Passo de escolla Passo de costado = Passo obliquo Passo dobrado = Passo largo Passo ordinário = Passo natural Passo descançado = Passo curto Marcha = Marcha militar = Marcha recta Marcha de costado = Marcha obliqua Quadro 22: Variantes coocorrentes- Campo nocional 03 – Categoria Evolução - Século XVIII Todas as variantes coocorrentes encontradas no manuscrito setecentista são de sinonímia discursiva. A maioria delas está formada por pares e somente os hiperônimos apresentam uma constituição tripla. Notamos que todos os predicadores apresentam semelhança semântica: militar/escolla, costado/obliquo, dobrado/largo, descançado/curto, e ordinário/natural. Sobre a escolha dos supracitados predicadores pelo agente produtor do texto, podemos nos basear no que nos afirmam ILARI; GERALDI (2006). [...] as expressões sinônimas são, ainda assim, expressões entre as quais os locutores escolhem: a escolha é, no caso, uma “procura da palavra exata” (como na pena do escritor que corrige um texto já escrito), a mostrar que duas expressões não são igualmente adequadas aos fins visados; essa escolha traduz frequentemente a preocupação de evocar ou respeitar um determinado nível de fala, um determinado tipo de interação, ou mesmo um certo jargão profissional (ILARI; GERALDI, 2006, p.47) Portanto, podemos atribuir a escolha dos predicadores à manutenção do sentido das UTC ao longo do texto. Algumas das mesmas situações apontadas acima, podemos verificar nos dados gerados no corpus do século XIX. As variantes coocorrentes estão representadas pelos pares: passo accelerado/passo apressado, passo de entrada/passo de 479 manovra (ou passo ordinário) e passo de costado/passo obliquo. Não vemos, todavia, presença dessas variantes no termo marcha. Em relação às variantes linguísticas formais, só encontramos a presença de variantes terminológicas gráficas, como mostramos no quadro a seguir: SÉCULO XIX VARIANTES CONCORRENTES VARIANTES TERMINOLÓGICAS LINGUÍSTICAS GRÁFICAS (plural) Evoluções X Evoluçoens Passos X Pasos Quadro 23: Variantes concorrentes- Campo nocional 03 – Categoria Evolução - Século XIX O primeiro caso de variante terminológica, de alternância de plural –ões/-oens, já foi detectado e explicado na categoria Infanteria/Infantaria. No entanto, nessa categoria, vemos que a frequência de uso de –ões é maior que a de –oens, diferentemente do caso anterior. Mesmo assim, ainda se alinha com a manifestação do fenômeno na época, uma vez que normas específicas sobre a regularização de usos do plural só irão estabelecer-se no início do século XX (KEMMLER, 2001). 0 2 4 6 8 10 12 Evoluções Evoluçoens Séc. XIX Séc. XVIII Gráfico 10- formas de plural de Evolução 480 O caso de paso configura-se como caso único de ocorrência no texto, portanto, sem dados suficientes, daremos a ele tratamento de desvio na escrita. Não encontramos registros de variantes competitivas em ambos os corpora. Para tratar dos casos de variantes de registro, vamos nos focar nos conceitos atribuídos às unidades terminológicas complexas, extraídos do nosso glossário, sob a perspectiva histórico-comparativa. Desse modo, para os hipônimos do termo passo, apresentamos o seguinte quadro: PASSO SÉCULO XVIII SÉCULO XIX Passo, Passo Militar ou Passo de escolla: Passo realizado pelos soldados de uma tropa com o mesmo pé em igualdade e cadência em alinhamento. Passo: É o deslocamento de um soldado medido em polegadas entre um pé a frente e o outro atrás. Passo dobrado ou largo: Passo realizado com cento e vinte a cento e trinta passos de vinte e quatro polegadas por minuto. Passo accelerado ou apressado: É o deslocamento de um soldado que compreende 100 passos de 24 polegadas por minuto. Passo de estrada: Passo de oitenta a noventa passos de vinte e quatro polegadas por minuto. Passo de costado ou obliquo: Passo militar realizado para o lado direito ou lado esquerdo. Passo de costado ou obliquo: Passo dado no movimento no qual as linhas marcham para direita ou para esquerda no terreno de batalha. Passo descançado ou curto: Passo realizado com menos de setenta passos de vinte e quatro polegadas por minuto. Passo de pelotão: Deslocamento de um soldado de 36 passos de 18 polegadas por minuto. Passo lento: É o deslocamento de um soldado que compreende 50 passos de 24 polegadas por minuto. Passo ordinário ou natural: Passo realizado pelo soldado com setenta passos de vinte e quatro polegadas por minuto. Passo de entrada, de manovra ou ordinário: É o deslocamento de um soldado que compreende 72 passos de 24 polegadas por minuto. Quadro 24: conceitos de passo 481 Para começar, vemos que o termo passo, no século XVIII, apresenta variantes coocorrentes. Essas, como já dissemos anteriormente, atuam como elementos de coesão lexical no texto. Já no século XIX, vemos que o mesmo conceito vem expresso por somente uma unidade terminológica simples. Assim, o conceito de um momento histórico a outro não se altera, mas diminui o espectro de representação léxica. Ao mesmo tempo que o termo aparece de forma recorrente no texto, diminui-se a possibilidade de confusão conceitual sobre o ele, que poderia ser gerada pelos enunciatários pela quantidade de UTC para designar a mesma ideia que uma unidade simples possui. O passo ordinário (ou natural), no século XVIII, é aquele que se faz com setenta passos de vinte e quatro polegadas por minuto. O mesmo termo, passo ordinário, no documento oitocentista apresenta outra unidade léxica como seu sinônimo: passo de entrada (ou de manovra). Se, nesse campo, estamos tratando de tática e essa, por sua vez, se materializa na manobra, vemos uma conexão entre os predicadores atribuídos: ‘manobra’ e ‘natural’, ou seja, é o passo mais usual, mais natural, mais ordinário de entrada nas manobras. Verificamos que, no século XVIII, há apenas um par binário para designar o conceito, já no século XIX são três unidades terminológicas. Também nesse caso, verificamos que, apesar de haver um referente em comum nos dois séculos: passo ordinário, os conceitos não são totalmente iguais. Notamos uma mudança no que se refere ao número de passos dados de mesma extensão (24 polegadas): no primeiro, 70 passos; no outro, 72. Essa mudança no número de passos nos leva à ideia de aumento de velocidade dos movimentos de um século a outro. O aumento da velocidade nos remete à constatação de que, no século XIX, a tática é mais dinâmica e, por conseguinte, a guerra também se torna um evento mais dinâmico. 482 O termo passo dobrado (ou largo) expressa o conceito de deslocamento realizado com cento e vinte a cento e trinta passos de vinte e quatro polegadas por minuto. Já o passo de estrada retrata um deslocamento de oitenta a noventa passos de vinte e quatro polegadas por minuto. No século XIX, nenhum dos predicadores se repete. O conceito mais próximo que temos é o de deslocamento de um soldado que compreende 100 passos de 24 polegadas por minuto, materializado no termo passo accelerado (ou apressado). Notamos que os dois termos do século XVIII se fundiram em um único no século XIX expressando, conceitualmente, uma média das velocidades estipuladas anteriormente: 100 passos. O processo inverso ao caso anterior se faz com o termo passo descançado (ou curto) presente no manuscrito setecentista. O conceito apresentado é o de um passo realizado com menos de setenta passos de vinte e quatro polegadas por minuto. No entanto, verificamos uma imprecisão uma vez que o conceito estabelecido só expõe um limite numérico: menos de 70 passos. Ao buscar os termos do século XIX, vemos que há duas UTC que, não só expressam o mesmo conceito, como o delimitam de forma precisa. Em passo de pelotão temos 36 passos de 18 polegadas e em passo lento são 50 passos de 24. Vemos, assim, uma especificação mais detalhada dos termos no documento oitocentista. Já o termo passo de costado (ou obliquo), pertencente a ambos os manuscritos, em sua essência, não sofreu alteração conceitual. Assim sendo, mesmo que os dados quantitativos nos apontem uma diminuição do termo passo no século XIX, constatamos que, nesse período houve, se deu uma delimitação mais precisa dos conceitos das unidades terminológicas. A maior especialização do termo passo no século XIX acompanha a história militar de Portugal, que também nesse período, principalmente por conta dos avanços tecnológicos e das novidades trazidas pelas táticas de guerra napoleônicas. 483 Napoleão e suas práticas de guerra tornam-se o referencial dos destinos e estudos da guerra, da tática e da estratégia no século XIX. Bonaparte usa a história como fonte de informação e análise dos erros e acertos de outro generais e comandantes. Longe de pensar em repetir a história ou mesmo que as guerras sejam parecidas ou iguais, Bonaparte reflete sobre a guerra no contexto histórico, político e militar. ( BELLINTANI; BELLINTANI, 2014, p.22) Assim, vemos que a linguagem de especialidade militar está imbricada com a história militar e, também, com a história social de Portugal. Como nos afirma ECKERT (2004), a mudança social também deve ser analisada em seu processo cotidiano, de forma que sejam percebidas as correlações entre ela e a mudança linguística. Pelo que nos mostrou a análise do termo passo, ficaram claras as correlações existentes entre mudança social, no seio da comunidade de prática, e mudança linguística. Dessa feita, vimos a atuação das variantes temporais e variantes de discurso nos nossos corpora. Com essa constatação, respondemos parte da segunda pergunta que fizemos. Para respondê-la na totalidade, passaremos à análise do termo marcha no que diz respeito às variantes de registro. Montamos, então, o seguinte quadro: MARCHA SÉCULO XVIII SÉCULO XIX Marcha ou Marcha militar ou Marcha recta: Caminho a pé, em frente, realizado por um exército. Marcha: Caminho a pé, em frente, realizado por um exército. Marcha de costado ou obliqua: Caminho a pé, para os lados, realizado por um exército. Marcha de costado: Caminho a pé, para os lados, realizado por um exército. Marcha graduada: Caminho a pé, primeiro para os lados e, em sequência, para frente, realizado por um exército. Marcha graduada: Caminho a pé, primeiro para os lados e, em sequência, para frente, realizado por um exército. Marcha de estrada: Caminho situado entre o local de origem e o campo de batalha, realizado a pé por um exército. Quadro 25: Conceitos de Marcha Inicialmente, notamos que o conceito de marcha não se altera do século XVIII para o século XIX. 484 No entanto, verificamos que o mesmo conceito é expresso por três unidades terminológicas no documento setecentista: marcha, marcha militar e marcha recta. Os predicadores funcionam como reforço das ideias que já estão contidas no conceito. As marchas de que tratamos são todas militares e todas, quando não são de costado ou obliquas, são retas. Dessa feita, vemos que há uma redução na quantidade dos termos que expressam o mesmo conceito no lapso temporal que estamos estudando. O mesmo fenômeno também se dá com o termo marcha de costado. O conceito não se altera, mas, no século XIX, ele só aparece expresso por uma unidade terminológica, enquanto no século XVIII ele tinha duas formas de aparição. O conceito de marcha graduada se mantem estável nos nossos corpora, bem como a unidade terminológica que o expressa. Por último, vemos que, no século XVIII, aparece o termo marcha de estrada. No século XIX esse termo não tem nenhuma ocorrência. Podemos tomar a história militar para explicar o motivo pelo qual esse termo aparece no documento setecentista, mas não no oitocentista. Como já expusemos no capítulo 1 desse trabalho, Portugal esteve envolto em guerras praticamente desde sua formação. Esse país já começa o século XVIII em guerras e inicia o século XIX da mesma forma. Contudo, há uma diferença que marca sua participação nos campos de batalha: a partir de segunda metade do século XVIII até o início do século XX, momento histórico em que estão inseridos os nossos corpora, os campos de batalha se transladam aos terrenos portugueses. Uma vez que não é necessário que a tropa se desloque de um terreno de batalha a outro, a marcha de estrada não se faz necessária. Assim, podemos justificar o fato de esse termo estar ausente no nosso documento do século XIX. Desse modo, podemos concluir que, no século XVIII, havia uma grande quantidade de termos com o mesmo conceito, gerados no contexto discursivo com vistas à coesão 485 lexical. Já no século XIX, houve uma redução desse número de termos dando preferência, inclusive, a unidades terminológicas simples. Essa diminuição se dá por conta das especializações e especificações que a ciência militar sofre no século XIX. Assim, são elas que motivaram a diferença na frequência de ocorrência do número total de termos, em especial do termo passo, de um século a outro na nossa pesquisa. No tocante ao termo marcha, apesar de ter havido uma pequena diminuição terminológica, a que atribuímos a alteração geográfica dos campos de batalhas, verificamos que, quantitativamente, se manteve estável do século XVIII ao XIX. Resumindo, vimos que esse campo nocional engloba três categorias: infanteria/infantaria, táctica e evolução. Em geral, percebemos que grandes mudanças ocorreram nesse campo e foram constatadas pela nossa análise quantitativa. O aumento ou a diminuição da frequência dos dados gerados nos relatam as variações existentes em cada época e a marcação de quantidade das mudanças expressas pelas frequências de ocorrência de cada um dos séculos. Em praticamente todos os casos estudados, vimos que os fenômenos linguísticos estão acompanhando a progressão da história militar e social portuguesa desse período, associados sempre à questão do estilo dos agentes. Assim, de todos os campos já analisados, é nesse que verificamos a maior quantidade de dados, uma vez que estamos tratando de tática, assunto específico dos nossos corpora. Nessas análises nos alinhamos primeiramente como seguimos os preceitos expostos por WEINREICH; LABOV; HERZOG (2006), uma vez que percebemos, como afirmam os autores, que as mudanças linguísticas não são dão de modo aleatório e repentino. Desse modo, também baseados em ECKERT (2004), buscamos não só analisar a motivação social das variações e mudanças encontradas, mas também tentamos especificar, na medida do possível, o grau de correlação entre o fator social e a variação linguística que levou à mudança. 486 5.4. Campo nocional 04: fortificações e armamentos bélicos O último campo nocional selecionado na nossa investigação é o que se refere às fortificações e armamentos bélicos. Como, do ponto de vista estrutural, não podemos estabelecer relações de hierarquia entre os termos encontrados, pusemos todos no mesmo nível. A única exceção se fez ao termo Arma, que apresenta especificações. Assim, esse é o único termo que aparece como hiperônimo nesse campo nocional. Desse modo, o nosso mapa conceitual se estabeleceu da seguinte maneira para o século XVIII: 1.4. FORTIFICAÇÕES E ARMAMENTOS BÉLICOS 1.4.1. Quartel ou Reduto 1.4.2. Tenalha 1.4.3. Trincheira 1.4.4. Arma 1.4.4.1. Baioneta 1.4.4.2. Espingarda 1.4.4.3. Espada Quadro 26: Campo nocional 04- Século XVIII Já para o manuscrito do século XIX, com base nas premissas que estabelecemos acima, chegamos ao seguinte quadro representativo de seu mapa conceitual: 1.4. FORTIFICAÇÕES E ARMAMENTOS BÉLICOS 1.4.1. Olheiro 1.4.2. Muro 1.4.3. Parapeito 1.4.4. Trincheira 1.4.5. Arma 1.4.5.1. Baioneta Quadro 27: Campo Nocional 04- Século XIX 487 Primeiramente, vamos analisar quantitativamente, como os dados se comportam tomando em conta as frequências de tipo e de ocorrência nesse campo. 0 10 20 30 40 50 60 Séc. XVIII Séc. XIX Número de Termos do Campo Nocional Número de aparição de Termos no Corpus Gráfico 11- Frequência dos Termos (campo nocional 04) No que concerne à frequência de tipo, vemos que há certa estabilidade de um século a outro. Já no que se refere à frequência de ocorrência, verificamos que há uma diminuição expressiva no século XIX. O termo militar de maior incidência nos dois manuscritos foi Arma. Vejamos, quantitativamente, como esse termo e seus hipônimos se comportam sincrônica e diacronicamente. 0 5 10 15 20 25 30 Séc. XVIII Séc. XIX Arma Baioneta Espingarda Espada Gráfico 12: Frequência de Armas e seus hipônimos 488 A partir do gráfico, vemos que os termos espingarda e espada, que figuram no século XVIII, não tem nenhuma incidência no século XIX. Assim, nossa pergunta para esse campo é: Que motivos explicam a diminuição da frequência de ocorrência dos termos do século XVIII para o século XIX? Aplicamos o constructo de Faulstich para ter uma visão mais detalhada das variantes que estão atuando nos corpora. Em relação às variantes linguísticas formais concorrentes, só encontramos incidência no século XVIII: uma variante terminológica de tipo gráfico referente ao termo baioneta (07 ocorrências) frente a bayoneta (01 ocorrência). Como já explicitamos na seção anterior, no século XVIII estamos no período ortográfico etimológico. Assim, podemos atribuir a escrita de bayoneta à etimologia mostrada em NASCENTES (1932), que explica que tal arma foi criada na cidade francesa de Bayonne. No que tange às variantes coocorrentes, encontramos em ambos os séculos a relação hiperonímia-hiponímia: Arma como hiperônimo das demais armas. Desse modo, como no século XVIII encontramos um elenco maior delas, vemos que a frequência do hiperônimo é maior do que no século XIX. Além disso, não podemos deixar de mencionar que o grau de especialização do exército fez com que manuais específicos para cada assunto fossem criados. Dessa forma, assuntos relacionados a armas tiveram manuais escritos pela escola recém-criada de engenheiros e artilheiros militares (LATINO COELHO, 1893; CARVALHO, 1986; NOGUEIRA, 1999). Todos esses fatores nos ajudam a explicar a diminuição da frequência de ocorrência do termo Arma no século XIX, respondendo, assim, à pergunta que estipulamos para análise desse campo nocional. Em relação aos conceitos, verificamos que não houve alteração naqueles que estão expressos por unidades terminológicas que se repetiram em ambos os séculos. 489 5.5. Discutindo os resultados Após a nossa análise, nos cabe fazer algumas considerações a respeito dos resultados como um todo. Primeiramente, dos quatro campos nocionais estudados, vimos que o terceiro, Planejamento de guerra e sua execução, foi o que mais gerou dados. Isso já era de se esperar uma vez que a temática dos manuais que conformam os nossos corpora tratam de táticas militares de infantaria. Desse modo, por meio da terminologia e da delimitação lexical que fizemos para nosso estudo, podemos afirmar, baseando-nos em BIDERMAN (2001), que a renovação ou a inovação no campo léxico militar está diretamente relacionada com a dinamicidade das experiências culturais dos agentes produtores dos manuais, das invenções tecnológicas do momento histórico estudado, das descobertas científicas dentro do âmbito dos estudos da tática e da guerra e das novas configurações (re)organizadas dentro das comunidades de práticas militares nos séculos XVIII e XIX. Assim, ratificamos que as unidades terminológicas do nosso estudo se relacionam e se definem com a estrutura cultural e histórica (MATORÉ, 1973) da língua portuguesa setecentista e oitocentista. Em segundo lugar, analisar os movimentos de variação da língua, seja externamente (ECKERT, 2004) ou internamente (FAULSTICH, 2002), nos ajuda a ter uma dimensão maior das relações estabelecidas entre língua, cultura e sociedade. Já nos dizia BIDERMAN (1981, p. 138) que o léxico, como maior patrimônio cultural de um povo, “inclui a nomenclatura de todos os conceitos linguísticos e não linguísticos e de todos os referentes do mundo físico e do universo cultural, criado por todas as culturas humanas atuais e do passado”. Nesse sentido, a língua reflete a sociedade e a cultura. “Em um nível mais geral, linguistas, sociólogos e historiadores argumentam que a língua tem um papel fundamental na construção social da realidade: ela cria ou constitui a sociedade assim como é constituída pela sociedade” (BURKE, 1995, p.42). 490 As variações terminológicas internas, que expressamos por meio da utilização do constructo de Faulstich, nos ajudam a visualizar mais detalhadamente as variações linguísticas sofridas pelas unidades terminológicas em sincronia e em diacronia (FAULSTICH, 1997a, 1998c) fazendo com que nosso posicionamento ratifique que a Terminologia, como representativa de um subdomínio da língua geral, não é estática e tampouco biunívoca, como acreditava Wüster. Quantitativamente, nossas variantes linguísticas foram mais do tipo gráfico, o que encaixa perfeitamente com a época de escrita das nossas documentações. As variantes de registro nos permitiram um diálogo com a sociolinguística de terceira onda (ECKERT, 2008, 2012) e com a lexicologia social (MATORÉ, 1973). Nesse quadro, vimos que o papel dos agentes é muito mais do que o de simples usuários da língua. Desse modo, ECKERT (2004) aciona uma perspectiva sociolinguística com um viés de teoria social da linguagem, uma vez que predica que devemos a langue (SAUSSURE, 1970) como um processo de convencionalização. Logo, a competência do agente dentro desse sistema não pode ser vista apenas como uma simples internalização de regras. O agente nessa perspectiva é, também, criador das convenções. Sob esta ótica que encaramos as análises, principalmente as de variantes de registro, no nosso trabalho. Partimos dos pressupostos da autora, e corroboramos com ela, de que as relações existentes entre as variantes linguísticas internas e as variantes sociais externas não são puramente associações estáticas. Elas são (re)criadas a todo o momento pelos agentes do sistema. Em terceiro lugar, os fatos históricos e culturais da comunidade de prática são importantes não só para contextualização de fatos, mas para a explicação dos fenômenos em diacronia. Notamos que muitas mudanças terminológicas apontadas nos campos nocionais foram motivadas por fatos históricos específicos ou pelo estilo dos agentes, 491 levando em conta sua visão perceptual e internalização cognitiva do universo em que está inserido (ROSCH, 1973; LABOV, 2010). Os avanços militares indicados ao longo da história dos séculos XVIII e XIX influenciaram as mudanças de formações táticas no exército português. Essas mudanças, por sua vez, são fruto de uma maior especialização na questão militar que passou a ocupar o centro das atenções, já no século XIX, de questões políticas e estratégicas. No mais, convém recordar que as inovações ocorridas no seio do exército acarretaram treinamentos mais específicos, ademais de constantes, dos militares (SOARES, 2003). Por fim, vimos que, “as palavras273 não caem do céu, elas aparecem a sua hora, e a data de seu nascimento (que os linguistas chamam uma datação) é interessante na medida em que revela uma modificação na história de uma civilização274” (MATORÉ, 1968, p.23). O sentido que um determinado termo veio a adquirir no caminhar de sua história na língua se associa não só à sua configuração léxica, mas também às matizes discursivas que ele assumiu nos diferentes contextos que estudamos, uma vez que estamos considerando a língua em uso. Dessa feita, conseguimos visualizar as relações estabelecidas uma vez que a língua carrega a sua história na história dos seus agentes e na história cultural de uma comunidade de prática. 273 No nosso caso específico, os termos da linguagem militar portuguesa. 274 Tradução nossa. No original, “ Les mots ne tombent pas du ciel, ils apparaissent à leur heure, et la date de leur naissance (que les linguistes appellent une datation) est intéreesante dans la mesure où elle revele une modification dans l’histoire d’une civilisation.” 492 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao começar a nossa pesquisa, partimos de algumas perguntas que nortearam a nossa problematização. Em primeiro lugar, nos perguntamos quais os tipos de variante aparecem, sincronicamente e diacronicamente, na terminologia militar, de extrema precisão para a guerra e para os combates. Concluímos que apareceram variantes terminológicas linguísticas concorrentes e coocorrentes. As primeiras apresentaram variantes lexicais e de grafia. As segundas, variantes advindas das relações de hiperonímia, hiponímia e sinonímia. As variantes não linguísticas se apresentaram como de discurso e temporais. Em segundo lugar, nos indagamos como seria possível organizar sistematicamente essa terminologia para a realização dos glossários dos manuscritos que tomamos como corpora. Assim, apresentamos que nossa organização sistemática para confecção dos glossários se fez respeitando os critérios da lexicografia e da terminografia. Os termos constantes nos glossários passaram por uma seleção de itens lexicais que, com base nos critérios terminológicos, foram assumidos como termos militares no nosso trabalho. Em terceiro lugar, queríamos saber quais são as influências de outras línguas presentes no léxico militar dos corpora e de que modo poderia ser explicado o seu grau de influência. Por meio da etimologia e do contexto histórico de Portugal nos séculos XVIII e XIX, chegamos à conclusão de que havia uma influência muito grande da França. A maioria dos termos alcançou a língua portuguesa via francês. Durante muito tempo a França e a Prússia foram os modelos de escolas militares, sendo a última, por conta da influência dos Bourbons em Portugal e das invasões napoleônicas no início do século XIX a que mais influenciou o léxico, não só militar, em terras portuguesas. Apesar dessa grande influência francesa, não podemos deixar de notar a importância que o italiano também teve 493 nesse contexto. Desse modo, o latim também se faz presente, uma vez que estamos tratando de línguas neolatinas. Em quarto lugar, buscamos identificar quais as contribuições que poderiam nos trazer a explicação dos fenômenos de variação e mudança sob uma perspectiva sociolinguística (ECKERT, 2004) que estivesse alinhada com os estudos da Lexicologia Social e da Socioterminologia Variacionista. Nesse quesito, vimos que a análise das variações e mudanças não se sustenta somente pela visão dos fatores internos ou externos. É necessário confluir as interpretações que levem em conta tanto o intra como o extralinguístico, além, claro, do cognitivo envolto nesses fenômenos linguísticos. A terceira onda da sociolinguística contribuiu, principalmente, para uma visão do estilo e dos agentes como elementos importantes na avaliação das variações e das mudanças. Os aspectos internos dos termos foram contemplados com o constructo de Faulstich pertencente ao rol da socioterminologia variacionista. Ambas as perspectivas trabalham sob o prisma da língua em uso, levando em consideração o contexto histórico e cultural. Assim, é a visão da lexicologia social, expressa por Matoré, que consegue alinhavar a reciprocidade entre o estudo do sistema linguístico e sua relação com a história e a cultura. Por último, ao procurar quais seriam as motivações para as variações e mudanças na terminologia militar, precisamos da confluência das três perspectivas apontadas anteriormente. O momento histórico, o estilo dos agentes, o assentamento cultural de uma dada comunidade de prática e os movimentos de deriva intrínsecos ao sistema linguístico conformam as motivações para os fenômenos de variação e mudança que identificamos ao longo do nosso trabalho. Assim, com todas as nossas indagações respondidas, concluímos nosso trabalho dando conta de alcançar todos os objetivos que estabelecemos inicialmente: realizamos a edição paleográfica dos dois manuais de tática militar para a Infantaria, construímos os 494 glossários de cada uma das edições, procedemos à análise, tanto sincrônica quanto diacrônica, dos termos delimitados e, para tanto, apresentamos sempre a articulação existente entre linguagem, história e grupos sociais (representados pela comunidade de prática militar). Concluindo nosso trabalho, vimos que a Terminologia, em uma abordagem diacrônica, dialoga com várias outras áreas de especialidade. Esse traçado nos leva a uma reflexão histórica e cultural que podem apontar tanto para a criação conceitual do termo quanto para sua criação lexical. Isso tudo também nos leva a entender o meio sociocultural no qual circulam os termos científicos. Como nos aponta KACPRZAK (2011), as análises diacrônicas em terminologia se assentam como importantes fontes de conhecimento sobre a maneira de como as gerações anteriores projetavam o mundo e, portanto, sobre a cultura partilhada em épocas passadas. 495 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABBADE, Celina Márcia de Souza. Um estudo lexical do primeiro manuscrito da culinária portuguesa medieval. O livro de cozinha da Infanta D. Maria. Salvador: Quarteto, 2009. ______________________________. “Lexicologia Social: a lexemática e a teoria dos campos lexicais” In: ISQUERDO, Aparecida Negri; SEABRA, Maria Cândida. (Org.). As Ciências do léxico- volume VI. 1ed.Campo Grande: Ed. UFMS, 2012. pp. 141-161. 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