SUZANA DOS SANTOS GOMES LIMITES E POSSIBILIDADES DO LETR.AMENTO ESCOLAR: UM ESTUDO ETNOGRÁFICO DAS PRÁTICAS DE LEITURA E DAS CAPACIDADES DE LINGUAGEM NAS DISCIPLINAS CURRICULARES Belo Horizonte Faculdade de Educação da UFMG 2010 SUZANA DOS SANTOS GOMES LIMITES E POSSIBILIDADES DO LETRAMENTO ESCOLAR: UM ESTUDO ETNOGRÁFICO DAS PRÁTICAS DE LEITURA E DAS CAPACIDADES DE LINGUAGEM NAS DISCIPLINAS CURRICULARES Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federa] de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Doutora em Educação. Orientadora: Prof Dra. Maria Lúcia Castanheira Belo Horizonte Faculdade de Educação da UFMG 2010 Gomes, Suzana dos Santos, G6331 Limites e possibilidades do Ictramento escolar ; um estudo etnográfico das práticas de leitura e das capacidades de linguagem nas disciplinas curriculares / Suzana dos Santos Gornes. - UFMG/FaE, 2010. 382 p. , ene, il. Tese - (Doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação. Orientadora: Maria Lúcia Castanheira. Bibliografia: p. 295-326. ■Anexos p. 327-382. I. Educação - Teses. 2. Etnografia. 3. Letramentos - Leitura. - Capacidades de linguagem. 4. Análise do discurso. 5. Gêneros do Discurso. 6. Professores — Fonnação profissional. I. Titulo. IL Castanheira, Maria Lúcia. IIL Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação CDD-372.4 Catalogação da Fonte; Biblioteca da FaE/UFMG UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO: Conhecimento e Inclusão Social ATA DA 219=* (DUCENTÉSIMA DÉCIMA NONA) DEFESA DE TESE NO COLEGIADO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO: Conhecimento e Inclusão Social Aos oito dias do mês de março do ano de dois mil e dez realizou-se, na Faculdade de Educação da UFMG, uma reunião para apresentação e defesa da tese: "Limites e Possibilidades do Letramcnto Escolar: Um Estudo Etnográfico das Práticas de Leitura e das Capacidades de Linguagem nas Disciplinas Curriculares" da aluna Suzana dos Santos Gomes, requisito final para obtenção do Grau de Doutora em Educação. A banca examinadora foi composta pelos seguintes professores doutores: Maria Lúcia Castanheira - Orientadora, Roxane Helena Rodrigues Rojo, Amauri Carlos Ferreira, Delaine Cafiero Bicalho e Eliana Amarante de Mendonça Mendes. Os trabalhos iniciaram-se às 14:00h com a síntese da tese feita pela doutoranda. Em seguida, os membros da banca fizeram uma argüição pública à candidata. Terminadas as argüições, a banca examinadora reuniu-se, sem a presença da candidata e do público, para fazer a avaliação final da defesa da tese apresentada. Em conclusão, a banca examinadora considerou a tese «r»Cjà. I xr> O resultado final foi comunicado à aluna Suzana dos Santos Gomes e ao público, concedendo à aluna o título de Doutor em Educação. A aluna deverá encaminhar à Secretaria do Programa a versão final em 05 (cinco) exemplares. Nada mais havendo a tratar eu, Rosemary da Silva Madeira, lavrei a presente ata que, depois de lida e aprovada, será por mim assinada e por seus membros. Belo Horizonte, 8 de março de 2010. Úm. Profa. D] Profa. ia Lúcia CastaMieira - Orientadora elena Rb®i^^s Rojo - UNICAMP Prof Dr./Amauri Carlos Ferreira - PUC-N^inas Profa. Dra.T3eíaí MG Profa. Dra. Eli, Amarante de Mendonça Mendes - UFMG Rosdl|iiary da Silva Madeira Secretária do Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social - FaE/UFMG À minha família, pelo infinito amoi* e dedicação a mim dispensados em cada dia do meu viver. AGRADECIMENTOS As palavras não expressam a gratidão a todas as pessoas que contribuíram para a concretização desta pesquisa. Ao longo de toda a trajetória, nos momentos de alegria e nos momentos difíceis, não me vi sozinha. Sempre contei com o calor humano e a solidariedade das pessoas. A Deus, que habita em mim e que me insuflou a humana essência. Com este trabalho, vivenciei algo muito importante: "Tudo posso Naquele que me conforta" (F1 4,13). A meu pai, Antônio, modelo de leitor. A minha mãe, Maria {in menioriam), por me trazer à vida e por sua infinita paciência. À Maria Lúcia Castanheira. minha orientadora, pela condução segura e compreensiva, que me fez chegar ao termo, e pela paciência infinita. Ela foi importante neste empreendimento enunciativo. As professoras Roxane Rojo e Delaine Cafiero, por todas as contribuições dadas no exame de qualificação marcadas pelo dialogismo e compreensão ativa. Tudo o que ficou melhor na tese daí para fi-ente contou com a valiosa contribuição delas. A Maria das Graças Bregunci (Gracinha), minha maior interlocutora nesses anos de vida acadêmica, por acreditar em meus projetos e sempre me estimular. A querida Angela Dalben, pelas oportunidades acadêmicas e profissionais na Faculdade de Educação da UFMG, pelo carinho, confiança, incentivo em todas as horas. A professora Eliana Amarante, grande mestra, professora e amiga, que com seu estilo e apontamentos desafiadores muito contribuiu para minha fonnação. Aos Professores Doutores desta banca examinadora, Francisca Maciel (representante da Lalu), Roxane, Delaine, Eliana, Angela Dalben, Amauri e Hércules, pela competência e atenção. Sinto-me honrada com a participação de todos vocês. A Judith Green, pela contribuição durante os dez meses de Doutorado Sanduíche na Universidade da Califórnia, EUA, sob sua orientação. Com suas aulas, muito aprendi sobre pesquisa etnográfica. Aos amigos de Santa Bárbara, EUA, especialmente os que encontrei no Office of International Students & Scholars (OISS), dentre eles Mônica Hobin, Mary Jacob, Luz Maria, Irina Tolypo, Ruth Sack, Edith Hollister, Katheline Scott que, durante o Doutorado Sanduíche, me acolheram e sempre foram solícitos comigo. Aos colegas, professores e funcionários do Programa de Pós-Graduação em Educação Conhecimento e Inclusão Social e ao CEALE que, além de trazerem inúmeras contribuições aos meus estudos, foram presença de apoio e estímulo. Aos colegas, professores e fiincionários do Programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada - FALE/UFMG -, em especial às professoras Eliana Amarante, Delaine Cafiero, Graça Costa Vai e Graça Paulino (FaE/UFMG), que me ajudaram a compreender e a acreditar na abordagem enunciativa de ensino da linguagem e por meio de suas aulas me proporcionaram espaços de discussão e crescimento acadêmico. A PUC Minas, pelo Programa Pemiancnte de Capacitação Docente, fundamental para a realização deste trabalho e com a qual espero partilhar, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão, os saberes que com esta tese construí. À Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, pela disponibilização da licença para aperfeiçoamento profissional, que tomou possível a realização deste estudo. A amiga Mercia Moreira {in memoriam), que me mostrou, constantemente, que a amizade verdadeira é o alimento da alma das pessoas que não passam em vão pela vida. Ao João Rodolfo Lauton (nobre encontro recente) pelo carinho imensurável e presença rejuvenescedora. Aos amigos Ana Terezinha, Mary D'Andréa, Darci Lambertucci, Mário Lambertucci, Cecílio de Oliveira, Sebastião Faria Filho que, em exercício de amizade, contribuíram generosamente para a construção dessa obra e a todos que direta ou indiretamente foram companheiros nesta jornada. A minha Tia Jandira e aos meus irmãos e innãs Dulcinéa, Solange, Antônio Carlos e André Luiz, pelo carinho, por se preocuparem tanto comigo, sempre querendo saber por que eu estudo tanto. Aos meus sobrinhos Carla Cristina, Débora (Bibica), Júnior, Gustavo, Leonardo, Diego, Mateus, Davi e a Amanda pela proximidade e por me fazerem acreditar no futuro. As colegas do Doutorado e do CEALE, em especial Célia, Sara, Gláucia, Jaqueline, Adilene, Regina e Nilza, pela força, pelo companheirismo, pela amizade e pela cooperação ao longo da jornada, sem as quais teria sido mais fatigante. Aos alunos da Escola Municipal Hilton Rocha e da Escola Municipal Eleonora Pierucetti, sujeitos desta pesquisa, que foram receptivos e solidários e colaboraram comigo ao longo do processo de coleta de dados e pelo suipreendente envolvimento e abertura da turma. Aos professores da Escola Municipal Eleonora Pierucetti e da Escola Municipal Hilton Rocha, que me apoiaram na execução da pesquisa, em especial à Soraia, que abriu caminho para essa possibilidade. A Tucha e à Aline, pelo compromisso, competência e suporte dado na revisão de português e formatação do texto da tese. Ao CNPq, pelo financiamento da minha pesquisa, que me possibilitou realizar o Doutorado Sanduíche nos Estados Unidos. Aos meus alunos do Ensino Superior e dos Cursos de Pós-Graduação do PREPES e da PUC Virtual, razões de minhas buscas. A todos os amigos, cujas vozes ecoam em mim. A todos os que foram sujeitos, leitores, escritores e vozes desta história. A todos aqueles que não cito, mas que torceram para que eu chegasse ao final, acreditaram em mim e até sofi-eram comigo. Compreender é opor à palavra do locutor uma contrapalavra. [...] A significação pertence a uma palavra, que só se realiza no processo de compreensão ativa e responsiva. [...] Ela não está na palavra nem na alma do falante, assim como também não está na alma do interlocutor. Ela é o efeito da interação do locutor e do receptor produzido através do material de um determinado complexo sonoro. E como uma faísca elétrica que só se produz quando há contato dos dois pólos opostos. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992, p. 132) RESUMO Nesta pesquisa, apresenta-se o resultado da análise das práticas de leitura de professores de Português, Inglês, Educação Artística, Geografia, História, Ciências e Matemática na segunda fase do Ensino Fundamental, em duas escolas da rede pública municipal. Investigou-se em que medida as práticas discursivas adotadas pelos professores influenciaram no desenvolvimento das capacidades leitora de compreensão e das capacidades de apreciação e réplica do leitor em relação ao texto. Adotou-se como fundamentos a Teoria da Enunciação e dos Gêneros de Discurso de Bakhtin e seu Círculo (1929, 1952-1953, 1979), o arcabouço teórico de Vygostky (1930, 1934-1935) sobre o desenvolvimento humano, aprendizagem e mediação, como também os postulados de Heath (1982-1983), Street (1984, 1993, 1995); Barton e Hamilton (1998, 2000) sobre letramentos. O trabalho foi desenvolvido com base na etnografia interacional e consideradas as contribuições de Castanheira, Crawford, Dixon e Green (2001). Na análise, foram verificados os gêneros do discurso em circulação nas aulas, os modos de leitura e a mediação do professor nas práticas discursivas entre os alunos, identificando, no discurso em sala de aula, evidências das capacidades leitoras ensinadas/apreendidas. Os resultados apontaram os limites e as possibilidades do letramento escolar, bem como reafirmaram a emergência da fomiação de professores no campo do letramento e dos gêneros do discurso, tendo em vista a criação, no âmbito da escola, de um projeto de leitura assumido por todas as áreas do conhecimento e a demanda por maiores investimentos nas políticas públicas de incentivo à leitura no contexto escolar e extraescolar. Palavras-chave: Etnografia - Letramentos - Leitura - Gêneros do discurso - Capacidades de linguagem. ABSTRACT This doctoral dissertation presents the results of the analysis of reading practices of teachers of Portuguese, English, Arts, Geography, History, Science and Mathematics at two local public secondary schools. 1 examined the extent to which discursive practices adopted by teachers influenced the development of reading skills in temis of understanding, assessment, and replication of the text. The primary guidelines for this research were Bakhtin's theories of enunciation and speech genres (1929, 1952-1953/1979), the theoretical framework of Vygotsky (1930,1934,1935) on human development, learning and mediation; and the postulates of Heath (1982,1983), Street (1984, 1993, 1995) and Barton & Hamilton (1998. 2000) on literacy. The research was developed on the basis of interactional ethnography and considered the contributions of Castanheira, Crawford, Dixon & Green (2001). In the analysis, I observed the types of discourse used in the classroom, the ways of reading and the mediating role of the teacher in the discursive practices among students in order to identify evidence of the reading skills taught / learned in the classroom. The results showed the limits and possibilities of school literacy, reaffimied the urgency of teacher education in the field of literacy and discourse genre in order to create both a school reading project undertaken by all areas of knowledge and the demand for greater investment in public policies to encourage reading in the school context and out of school. Keywords: Ethnography - Literacy - Reading - Genres of Discourse - Reading Skills 113 125 126 126 127 127 128 128 129 129 130 130 131 132 132 133 134 135 135 136 136 137 137 138 139 139 139 LISTA DE TABELAS Número de aulas por disciplina - Escola 1 Perfil dos professores Perfil dos alunos Trajetória escolar Participação em projetos Capacidades adquiridas na/da trajetória escolar Coisas que gosto de fazer na escola Preferência entre as disciplinas do currículo escolar Justificativa da preferência Rejeição entre as disciplinas do currículo escolar Justificativa da rejeição Gostaria que os professores Número de aulas por disciplina - Escola 2 Dificuldades para ler, escrever, falar em público e fazer exercícios, Dificuldades para Justificativa das dificuldades Uso do tempo após o horário escolar Gênero do discurso utilizado fora da escola Gosto pela leitura Tipo de leitura Formas de aquisição dos textos Acesso à internet Local de acesso à internet Formas de utilização do computador Gosto pela escrita Produção de texto E fácil porque 139 140 140 142 142 186 186 189 194 276 279 281 282 É difícil porque Uso da escrita fora da escola Formas de utilização da escrita fora da escola Eu me considero Justificativa Gêneros do discurso nas práticas de leitura - O que se lê Gêneros do discurso em uso nas disciplinas curriculares - Escola 2 Gêneros do discurso e percentuais (%) predominante por disciplina Como se lê? Modos de leitura Capacidades de leitura nos subeventos de Ciências Capacidades de leitura nos subeventos de Geografia Capacidades de leitura nos subeventos de Inglês Capacidades de leitura - Percentual ("/ó) representativo de predomínio nas práticas de ensino 114 117 151 157 158 167 169 173 177 192 200 202 208 230 254 275 278 280 LISTA DE QUADROS Evento de letramento - Aula de Ciências, Escola 1, 6'' série do Ensino Fundamental Evento de letramento - Aula de Português, Escola 1, 6" série do Ensino Fundamental Metodologia de análise dos dados - Escola 2 Relação da primeira aula das disciplinas curriculares Fluxo de letramento da primeira aula das disciplinas curriculares Gêneros do discurso no espaço interacional disciplinar Evento de letramento na aula de Português Unidades de seqüência interacional subevento - Comparando figuras Subevento de leitura na aula de Português Modos de leitura Eventos de leitura nas aulas de Ciências, Geografia e Inglês Síntese descritiva e constrastiva dos eventos de leitura Evento de letramento de Ciências Evento de letramento de Geografia Evento de letramento de Inglês Compreensão de textos: capacidades de leitura ensinadas/aprendidas na aula de Ciências Compreensão de textos: capacidades de leitura ensinadas/aprendidas na aula de Geografia Compreensão de textos: capacidades de leitura ensinadas/aprendidas na aula de Inglês LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 - Capacidades de decodificação 90 FIGURA 2 - Capacidades de compreensão (Estratégias) 91 FIGURA 3 - Capacidades de apreciação e réplica do leitor em relação ao texto (Inteipretação, interação) 92 FIGURA 4 - Representação da lógica de questionamento construída 154 FIGURA 5 - Ações nos eventos de letramento das disciplinas na primeira aula 164 FIGURA 6 - C/í/oí/rto i/c/'fl/'e/. Gilberto Dimenstein 170 FIGURA 7 - Pietà, escultura de Michelangelo realizada entre 1496 e 1501 171 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CEALE Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita COEP Comitê de Ética na Pesquisa EJA Educação de Jovens e Adultos ENEM Exame Nacional do Ensino Médio INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira MEC Ministério de Educação NEL Novos Estudos de Letramento OCDE Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico PCNEM Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio PCNs Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental PISA Programa Internacional de Avaliação de Alunos PME/IBGE Pesquisa Mensal de Emprego - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística PNLD Programa Nacional do Livro Didático SAEB Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica SMED Secretaria Municipal de Educação TCC Trabalho de Conclusão de Curso TCLE Teimo de Compromisso Livre e Esclarecido UAB Universidade Aberta do Brasil ZPD Zona Proximal de Desenvolvimento ZRD Zona Real de Desenvolvimento SUMÁRIO INTRODUÇÃO 18 1 DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA 25 1.1 O fracasso escolar no Brasil 25 1.2 O sistema de avaliação e a proficiência dos alunos em leitura 32 1.3 Os problemas no ensino de leitura no Brasil 37 1.4 Leitura como objeto de estudo 45 2 PERSPECTIVAS TEÓRICAS SOBRE LETRAMENTO E LEITURA 49 2.1 Letramentos e leitura 50 2.1.1 Dimensão individual do letramento: o modelo autônomo 56 2.1.2 Dimensão social do letramento: o modelo ideológico 58 2.2 A leitura e as teorias cognitivas: os modelos de processamento 59 2.2.1 O modelo de processamento ascendente fbottom-upj 61 2.2.2 O modelo de processamento descendente ftop-down) 62 2.2.3 O modelo de processamento ascendente/descendente ou modelo interativo 63 2.3 A dimensão social do letramento: a concepção de leitura nas vertentes discursiva e enunciativo-discursiva 66 2.3.1 A leitura para a vertente discursiva 67 2.3.2 A leitura para a vertente enunciativa bakhtiniana 70 2.4 Práticas de leitura e as capacidades de linguagem no contexto escolar: as contribuições de Bakhtin e Vygotsky 78 2.4.1 A leitura como prática social em Bakhtin: apontamentos sobre o dialogismo, compreensão ativa e apreciação 79 2.4.2 Os gêneros do discurso como objeto de ensino nas disciplinas curriculares: as capacidades de linguagem para a cidadania 82 2.4.3 A leitura crítica em Vygosky: sentidos e significados 93 3 ORIENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA: AS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DA PESQUISA 101 3.1 A pesquisa etnográfica interacional 101 3.2 O estudo exploratório: investigação prévia de um evento de letramento de Ciências e de Português - Escola 1 1- 3.2.1 Um evento de letramento de Ciências 113 3.2.2 Uni evento de letramento de Português ! 16 3.3 Descrição do contexto da pesquisa: a Escola 2 e os sujeitos da pesquisa 123 3.4 As representações dos alunos sobre as práticas de letramento: leitura, escrita e oralidade no contexto escolar e extraescolar 132 3.5 Procedimentos para coleta de dados 144 3.6 Procedimentos para tratamento dos dados e categoria de análise 146 4 A SALA DE AULA COMO CONTEXTO DISCURSIVO E INTERACIONAL: COMPREENDENDO OS PROCESSOS DE CONSTRUÇÃO DA APRENDIZAGEM NAS DISCIPLINAS CURRICULARES 152 4.1 Conceituando a sala de aula como cultura em formação: a lógica de investigação adotada 152 4.2 Os eventos de letramento nas disciplinas curriculares: as práticas de iniciação e os gêneros do discurso 156 4.3 Do nível analítico macro ao nível analítico micro: examinando a interação dos participantes mediada por gêneros do discurso 168 4.4 Um olhar Bakhtiniano sobre o evento de leitura em Português 178 5 A LEITURA COMO ESPAÇO DISCURSIVO DE CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS: ANALISANDO AS PRÁTICAS DE LEITURA NAS DISCIPLINAS CURRICULARES.. 185 5.1 Práticas de leitura e os gêneros do discurso: o que se lê na escola? 185 5.2 Modos de leitura: como se lê na escola? 191 6 PRÁTICAS DE LEITURA SOB A ÓTICA DAS CAPACIDADES 198 6.1. Práticas de leitura nas disciplinas do currículo escolar 199 6.1.1 Práticas de leitura no evento de Ciências 207 6.1.2 Práticas de leitura no evento de Geografia 228 6.1.3 Práticas de leitura no evento de Inglês 253 6.2 Capacidades de leitura ensinadas e aprendidas nas práticas de leitura em Ciências, Geografia e Inglês 273 6.2.1 Capacidades de leitura mobilizadas na aula de Ciências 274 6.2.2 Capaciadades de leitura mobilizadas na aula de Geografia 277 6.2.3 Capacidades de leitura mobilizadas na aula de Inglês 280 CONSIDEItAÇÕES FINAIS 284 REFERÊNCIAS 295 ANEXOS 327 ANEXO 1 - Relação de aulas e livros didáticos - Escola 1 327 ANEXO 2 - Carta de apresentação e protocolo de pesquisa 330 ANEXO 3 - Termo de compromisso livre e esclarecido - Professor 331 ANEXO 4 - Termo de compromisso livre e esclarecido - Pais e alunos 332 ANEXO 5 - Relação de aulas - Escola 2 333 ANEXO 6 - Evento de letramento - Aula de Português, 8" série do Ensino Fundamental 347 ANEXO 7 - Relação de livros didáticos - Escola 2 353 ANEXO 8 - Técnica entrevista/Questionário aluno 354 ANEXO 9 - Técnica entrevista/Questionário professor 358 ANEXO 10 - Evento de letramento - Aula de Ciências, 8" série do Ensino Fundamental 361 ANEXO 11 - Evento de letramento - Aula de Geografia, 8" série do Ensino Fundamental.. 369 ANEXO 12 - Evento de letramento - Aula de Inglês, 8" série do Ensino Fundamental 378 18 INTRODUÇÃO O objetivo com esta tese é examinar as práticas de leitura das disciplinas cun-iculares na segunda fase do Ensino Fundamental. O interesse pelo estudo desse tema partiu, em primeiro lugar, da experiência em sala de aula como professora na Educação Básica e no Ensino Superior, ao observar as dificuldades de leitura nestes níveis de ensino. Constatei que muitos alunos não conseguiam ultrapassar a localização de informações presentes nos textos, ou seja, não conseguiam participar ativamente do processo de leitura enquanto leitores proficientes. Também como Analista de Políticas Públicas — Pedagoga na Prefeitura de Belo Horizonte -, atenta às dificuldades dos que passam por minha orientação, sempre me preocupei com as questões ligadas à leitura. Inúmeras vezes foram constatadas dificuldades dos alunos para entender os textos, nem sempre porque fossem complexos, mas porque, com freqüência, liam mal. Por vezes respondiam mal a um enunciado proposto ou resumiam idéias discutidas diferentemente do que fora partilhado. Muitos são adultos, inseridos ou em fase de inserção no mercado de trabalho que permaneceram anos na escola e não entendem a leitura como algo importante. Parece que a leitura ensinada na escola não tem nenhuma relação com o mundo fora da instituição escolar. Tantos anos passados numa instituição não mostraram a importância das capacidades de leitura, as quais possibilitaram aos indivíduos se aproximarem de novos mundos e refletir sobre as ações do grupo em que vivem. A distância entre o aluno e a leitura ocoiTÍa porque na escola, que deveria ser um espaço privilegiado para a leitura, continua a tradição de "formar" para os conteúdos com fms em si mesmos, por métodos transmissivos e de memorização, valorizando o ensino convencional. Essa tradição não promove o desenvolvimento das capacidades, tampouco permite o avanço no letramento escolar. Constata-se na escola a concepção da aprendizagem passiva, embasada, por exemplo, na visão tradicional do ensino de leitura; enquanto as avaliações aplicadas como instrumento de mediação das práticas leitoras e do letramento analisam o leitor responsivo ativo que domina uma diversidade de usos sociais da leitura e da escrita. Esse desinteresse e a dificuldade de leitura não passam despercebidos pela sociedade. Eles são focalizados na falta de pessoas qualificadas para cargos no mercado de trabalho e na 19 influência que têm nas avaliações de desempenho realizadas com alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio como o Sistema Mineiro de Avaliação da Educação de Minas Gerais (SIMAVE), o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Os resultados divulgados por essas avaliações revelam quão precária é a leitura realizadas pelos alunos. Além desses programas, o Brasil tem participado, desde 2000, do Project for Internacional Students Assessment (PISA) ou, como vem sendo denominado no Brasil, Programa Internacional de Avaliação de Alimos. Esse programa tem como objetivo produzir indicativos sobre a efetividade dos sintomas educacionais de cada país, avaliando o desempenho dos alunos na faixa etária dos 15 anos, idade que pressupõe o término da educação básica. Esse quadro mostra que nas últimas décadas tem crescido a demanda pela leitura e pelo domínio da linguagem escrita em todas as áreas da vida social. Essa demanda envolve o contexto brasileiro e o mundial, que enfatizam o domínio das diversas capacidades de linguagem, em especial as capacidades de leitura, como condição para acesso ao conhecimento, à participação social e ao exercício da cidadania. A insatisfação com um ensino que não favorecia a formação de leitores proficientes por muito tempo recaiu sobre o ensino de Português, disciplina historicamente ligada ao ensino da leitura e da escrita. Muitas pesquisas realizadas a partir da década de 1980, nas áreas da Educação e da Lingüística Aplicada, têm sido no sentido de conhecer a prática de ensino na sala de aula e contribuir na resolução do problema. O problema geral do ensino de leitura, hoje, no Brasil, ainda são os rituais de iniciação e/ou da prática de leitura propostos aos alunos que não parecem satisfazê-los e que acabam por desmotivá-los para a construção dos sentidos do texto. Além disso, os textos em geral, literários ou não, são quase sempre trabalhados por professores com limitações em sua fonnação acadêmica, que às vezes não são leitores assíduos e que se apoiam no que está no livro didático, explorando apenas o significado restrito do que o texto diz, não dando margem a discussões. Embora os resultados da aprendizagem obtidos por meio de avaliações dos sistemas de ensino demonstrem o fracasso escolar na fonnação de leitores e produtores de texto, pouco se conhece sobre as práticas de ensino de leitura em todos os níveis de ensino. No entanto, não se pode negar que várias tentativas de modificar essa realidade têm sido feitas, tanto pelas pesquisas críticas quanto pelas que propõem um instrumento 20 alternativo de ensino-aprendizagem de leitura que leve o aluno a desenvolver seu senso eritieo e a posicionar-se diante de um texto lido, transfomiando-se num leitor ativo. Diante desse contexto, propõe-se com essa tese conhecer alguns aspectos do problema da leitura no Brasil, especificamente no que diz respeito às práticas de leitura escolar na rede pública, focalizando este objeto como estudo etnográfico por meio de uma abordagem teórica sobre as práticas de leitura no contexto dos estudos sobre letramento para entender sua dimensão social. Assim, este estudo emergente se revelou como oportunidade para aprofundar a concepção de leitura como prática social, pela reflexão sobre a ação docente, alem de trazer benefícios para entendimento dos processos que envolvem a relação professor, aluno e aprendizagem. A prática docente tem revelado que professores na Educação Básica e no Ensino Superior enfrentam, nas atividades de leitura e construção de sentidos, dentre vários problemas, um entrave ao seu trabalho profissional, como identificado nos resultados das pesquisas nacionais e internacionais sobre o assunto. Também é constante a reclamação de professores das diferentes áreas para os professores de língua quanto à dificuldade de muitos alunos na resolução de questões propostas, uma vez que lhes falta compreensão do enunciado. É bom lembrar que ler textos e/ou enunciados de Geografia, História, Ciências e Matemática, por exemplo, requer não somente desenvolvimento lingüístico, mas também conhecimentos específicos da área em questão. Cabe ressaltar, ainda, que o trabalho de leitura da escola deve ser responsabilidade de todo o grupo como projeto pedagógico e não apenas do professor de Português. Assim, os resultados desta pesquisa poderão constituir material para repensar a prática docente em sala de aula e, como projeto assumido pelo coletivo da escola, ajudar o professor a compreender melhor o processo de construção de sentido numa prática social, situação que lhe possibilita o exercício do diálogo, do respeito ao outro e aos seus conhecimentos, alicerces de postura ética, ativa e responsiva. Pesquisas importantes para esta investigação abordam a leitura com diferentes objefivos. Autores como Kleiman (1985, 1995, 1998) e Soares (1998, 2003) discutem a leitura com foco no letramento e Dolz (1994), Schneuwly (2004) e Rojo (2001a, 2001b, 2004, 2009) convocam a noção de gêneros do discurso para favorecer o ensino da leitura e da produção de textos escritos e orais, bem como o desenvolvimento das capacidades de ação, capacidades discursivas e capacidades linguísdco-discursiva. 21 Para aprofundar os conhecimentos sobre o ensino de leitura, alguns conceitos teóricos são fundamentais, como o de letramento diferente em cada contexto e situação, e são inúmeros os que integram direta ou indiretamente a produção e/ou leitura de materiais escritos que circulam pela vida cotidiana de uma comunidade. Como as práticas de letramento estão associadas a diferentes domínios da atividade humana, elas envolvem valores, atitudes, sentimentos e relações sociais. Contemplar essas práticas é papel da escola, mas se toma uma questão problemática que acompanha o aluno desde a educação básica, passando pelo ensino superior e prosseguindo pela vida social. Entre as concepções que subjazem às práticas escolares de leitura encontram-se dois modelos de letramento descritos por Street (1994) e citados por Kleiman (1995) e Soares (1998, 2003): um que valoriza a dimensão individual, o modelo autônomo de letramento e outro que valoriza a dimensão social, o modelo ideológico de letramento. O primeiro, o modelo autônomo, em sua dimensão individual, é aquele valorizado na escola e predominante em nossa sociedade. Esse modelo parte do princípio de que, independentemente do contexto de produção, a língua tem autonomia e seu desenvolvimento depende do próprio indivíduo. Nesse modelo, o ensino tradicional de leitura predomina. Opondo ao modelo autônomo encontra-se o modelo ideológico, na dimensão social de letramento. Esse modelo admite a pluralidade das práticas letradas, valorizando o seu significado cultural e seu contexto de produção. Por ser um problema a ser enfrentado, primordialmente, pela escola, principal agência de letramento, a relação entre o contexto sociocultural e os usos da leitura e da escrita também põe em discussão a formação docente. Professor leitor é aquele que lê para conhecer, para ficar informado, para aprimorar a sensibilidade estética e também para posicionar-se diante dos fatos e das idéias que circulam nos e por meio dos textos. Assim, convém refletir seriamente sobre o papel do professor nos processos de aprendizagem e de ensino de leitura, o que nos remete à afirmação de Vygotsky (1934/1993) de que eficaz é a aprendizagem na interação, porque as pessoas aprendem melhor não quando alguém lhes diz o que pensar e o que fazer, mas quando são sujeitos de sua própria aprendizagem. E isso vale também para o professor que, na interação com o aluno, com o texto, com o outro, é também um aprendiz. O professor somente será capaz de contribuir nessa aprendizagem quando tiver oportunidade de se tomar aprendiz ativo e colaborativo nesse processo, partindo de sua área de atuação. 22 Um segundo aspecto relevante desta pesquisa no trabalho docente foi minha potencialização dos conhecimentos sobre a perspectiva bakhtiniana da linguagem como professora de disciplinas pedagógicas e práticas de ensino na Pedagogia e nos cursos de Licenciatura na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG)' e na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). A atuação no campo de formação de professores nos cursos de graduação e pós-graduação me colocou diante dos desafios vividos por eles - enfrentamento do fracasso escolar na leitura e escrita de alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Essa questão também esteve presente na orientação de monografias, trabalho de conclusão de curso (TCC) nesses níveis de formação. Ao optar por essa temática, os professores almejavam entender os dilemas da prática e buscar suporte teórico para a atuação docente. Além disso, essa experiência ajuda a compreender que a formação deve incidir sobre as formas de apreensão dos discursos em sala de aula, sobre a interação propriamente dita, e não somente sobre as questões relacionadas ao objeto de ensino ou ao processo de aprendizagem do aluno. Não basta simplesmente dizer se a aula desenvolveu determinado padrão, há que se compreender o contexto de produção daquele discurso. Nesse sentido, nesta pesquisa vai-se na direção de trabalhos de fonnação de professores, como os desenvolvidos por Mizukami e Reali (2002), Kleiman e Matencio (2005), Magalhães (2004, 2008) e Liberali (2000, 2004) que defendem a reflexão crítica dos professores. Esse entendiinento do objeto da pesquisa levou à fonnulação das seguintes questões: 1. Que práticas de leitura são desenvolvidas na segunda fase do Ensino Fundamental no contexto escolar observado? 2. As interações entre professor e aluno e entre os alunos interferem na construção dos sentidos e compreensão dos textos? 3. Que capacidades de leitura foram ensinadas/aprendidas nas práticas de ensino? Nesse sentido, esta tese está embasada no quadro da pesquisa sócio-histórico-cultural de Vygotsky (1930, 1934 e 1935), nas questões de ensino-aprendizagem e em Bakhtin e seu Círculo (1929/1992, 1934-1935/1975; 19521953/1979), bem como nas questões de linguagem. Com base na teoria da enunciação bakhtiniana, a leitura foi compreendida como Entre 2004 e 2006, atuei como Professora substituta na Faculdade de Educação (FaE/UFMG) ministrando disciplinas pedagógicas no Curso de Pedagogia e nas Licenciaturas, como também no Projeto Veredas - Formação Superior de Professores. Desde 2008, sou professora pesquisadora no Curso de Pedagogia - Educação a Distancia (EAD) - Pólo Formiga no Projeto Universidade Aberta do Brasil - UABUFMG. 23 um processo de compreensão ativa, no qual os múltiplos sentidos em circulação no texto são constituídos com base em uma relação dialógica entre autor, leitor e texto. Vygotsky (1930, 1934) esteve presente ao longo desta pesquisa. Foram exploradas suas contribuições sobre o desenvolvimento humano e o aprendizado; suas reflexões sobre a importância das interações na construção do conhecimento se aliaram às idéias bakhtinianas sobre a natureza social da linguagem e de sua construção dialógica, a partir da qual a leitura é considerada como um processo de compreensão ativa, processo este que acarreta várias inter- relações complexas que enriquecem o já compreendido com novos elementos no diálogo dos enunciados. De Bakhtin também foram adotadas as considerações sobre os gêneros do discurso que, aliados aos pressupostos de Vygotsky sobre mediação e aprendizagem, possibilitaram maior compreensão das práticas de leitura. Em resumo, esta tese se constituiu com a finalidade de observar, no contexto da escola, como se dá a construção de sentidos na leitura em diferentes disciplinas curriculares, de modo a compreender o papel do professor como mediador das oportunidades de aprendizagem da leitura e das capacidades de leitura ensinadas/aprendidas. Apresento a seguir, a organização da tese, constituída de seis capítulos. No Capítulo 1, apresenta-se o campo de estudo e a delimitação do problema de pesquisa. Retomam-se pesquisas sobre o fracasso escolar no Brasil, demonstrando que ele continua presente nas escolas e é confirmado pelos dados apontados pelo sistema de avaliação nacional e internacional. Ainda nesse capítulo, são discutidos os problemas no ensino de leitura no Brasil e ao final, a leitura é apresentada como objeto de estudo. No capítulo 2, propõe-se uma releitura das discussões sobre letramento e ensino da leitura no Brasil. Nele poderão ser observadas as diferentes concepções de leitura que historicamente fundamentam as práticas de ensino de leitura nas escolas brasileiras. Parte importante desse capítulo são as concepções de Bakhtin e do seu Círculo sobre a natureza social da linguagem e dos gêneros do discurso que contribuem para a reflexão sobre uma teoria da leitura entendida como um ato dialógico, na linha do que Bakhtin denominou "compreensão responsiva ativa" e os pressupostos teóricos de Vygotsky sobre o desenvolvimento humano, aprendizagem e mediação. Nesse capítulo, informa-se que esta tese está vinculada a vertente discursiva e enunciativa. A partir dessa leitura é possível viabilizar o trabalho com os gêneros do discurso por todas as disciplinas do currículo e desenvolver capacidades leitoras que possam garantir a inserção do aluno no mundo letrado. 24 No capítulo 3, são abordados os aspectos teórico-metodológicos que fundamentam a pesquisa etnográfica interacional. Descreve-se o estudo exploratório realizado na Escola 1, caracterizam-se o contexto no qual a pesquisa foi desenvolvida e os sujeitos da Escola 2. Destaque-se como aspecto central nesse capitulo o caminho percorrido como pesquisadora para transcrição e análise dos dados da pesquisa. Ainda nessa parte são discutidas as representações dos alunos sobre as práticas de letramento no contexto escolar e extracscolar. No capítulo 4, apresenta-se a lógica de investigação adotada e o evento de letramento da primeira aula das disciplinas curriculares. Por meio da microanálise, enfatizam-se algumas práticas de iniciação exploradas por professores e alunos. No Capítulo 5, faz-se o levantamento das práticas de leitura nas disciplinas curriculares. Na análise do material didático, são apresentadas as práticas de leitura e os gêneros do discurso em circulação - o que se lê na escola e os modos de leitura como se lê na escola. Finalmente, as análises dos dados obtidos sobre as capacidades de leitura em Ciências, Geografia e Inglês estão apresentadas no Capítulo 6. Encerra-se este trabalho com algumas considerações finais sobre a pesquisa realizada. Seguem-se as referências bibliográficas consultadas para a realização desta tese e os anexos. 25 1 DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA Neste capítulo, reflete-se sobre o quadro contextual da pesquisa, explicitando o que os estudos têm revelado sobre o fracasso escolar na Educação Básica no Brasil. Em seguida, alguns dados apresentados pelos sistemas de avaliação sobre a proficiência dos alunos em leitura são retomados e analisados. Ainda neste capítulo, são discutidos os problemas encontrados no Brasil, hoje, com relação ao ensino-aprendizagem de leitura, chegando, finalmente, a apresentar a leitura como objeto de estudo. Nesse contexto, o objetivo com este capítulo foi analisar o fracasso escolar, identificando os problemas de ensino da leitura no Brasil, para, ao final, focalizar a questão de pesquisa proposta. 1.1 O fracasso escolar no Brasil O fracasso escolar, em especial, da rede pública brasileira, é antigo e tem merecido a atenção de pedagogos, lingüistas e sociólogos. Os órgãos relacionados à educação, também preocupados com esse problema, têm procurado diagnosticar os fatores que impedem o sucesso escolar desses alunos e implementar políticas públicas, tendo em vista a alteração desse quadro. E importante ressaltar que nas décadas de 1960 e 1970, na Europa, e na de 1980, no Brasil, as dimensões sociais do fracasso escolar começaram a ser enfatizadas pelos pesquisadores. Além disso, surgiram os primeiros questionamentos relacionados à patologia, como uma das vertentes da gênese das dificuldades escolares. O interesse dos estudiosos passou a ser o papel da escola quanto ao efetivo preparo dos alunos. Nesse sentido, as dificuldades de aprendizagem deixaram de ser pesquisadas como um problema exclusivo do aluno, uma vez que os fatores internos a escola e os de ordem social, econômico e político passaram a ser investigados. A medida que o ensino público no Brasil se expandiu e, em conseqüência, obsei^vou-se o ingresso de crianças e adolescentes das camadas populares na escola, ampliou-se, também, o número de categorias nas quais esses alunos foram sendo enquadrados (LAHIRE, 2004a; 26 2004b). Para Esteban (1992b, p. 77), os alunos das camadas populares encontram enormes barreiras no cotidiano escolar: "O caminho traçado pela escola para a aprendizagem da leitura e da escrita é tão longa e sem sentido que muitos não conseguem percon-e-lo, e os que conseguem freqüentemente o fazem apesar da escola". Na prática, constata-se que a escola não foi feita para essas crianças das camadas populares. A inadequação é tamanha que, mal iniciam a escolaridade, já enfrentam uma série de dificuldades. Entretanto, a escola e o sistema são geralmente preservados e a culpa do fracasso é colocada no indivíduo. Situar a culpa do fracasso no indivíduo é mascarar as dificuldades em alfabetizar e letrar crianças das camadas populares sob a fomia de atendimento às diferenças individuais: A escola se expande, sim, e chega às camadas populares, mas não é a mesma para todos. Empobrecida no seu conteúdo, hierarquizada na sua organização, atende às demandas político-econômicas definidas por uma sociedade não- igualitária. (CATALDO, 1985, p. 94) Ainda, na década de 1970, estudos evidenciaram abordagens sobre o fracasso escolar calcadas no pressuposto de que a escola não levava em conta os padrões culturais da primeira socialização das crianças de camadas populares. Assim, os primeiros anos dessa década passaram a reconhecer a "distância cultural entre a escola e sua clientela majoritária, as características do material didático, dos conteúdos e da linguagem que se apresentam como estranhas à criança". (LEMOS, 1985, p. 49) Por volta da década de 1980, os educadores foram se dando conta de que a qualidade de ensino ou a falta dela consubstanciada pelos problemas de aprendizagem remete a outras dimensões dentro e fora da escola, exigindo da instituição do ensino nova configuração e dinâmica de trabalho. Por um lado, a perspectiva educacional, antes mais centrada no aluno, nas relações interpessoais e dinâmicas de classe, começa a envolver-se diretamente na esfera pedagógica da vida escolar: o projeto pedagógico, o currículo, a concepção de ensino, a metodologia, a relação professor/aluno e os objetivos pretendidos. Percebe-se que, em plena década de 1980, a reprovação e a evasão na escola pública continuaram a assumir proporções inaceitáveis. Esse problema revela-se tanto mais grave quanto mais a análise dos números referentes às décadas passadas indicam sua persistência. Sucessivos levantamentos revelam a gravidade desse problema, que tem sido enfrentado com reformas educacionais, seja mediante a subvenção de pesquisas sobre suas causas, seja pelo caminho de medidas técnico-administrativas tomadas pelos órgãos oficiais. 27 Operando com base em parâmetros elitistas, etnocêntricos e didaticamente inflexíveis, a prática pedagógica de muitos professores tem produzido o fracasso escolar e revela o despreparo de muitos professores para lidar com os níveis diferenciados de aprendizagem dos alunos. Em síntese, muitas escolas "não falam a mesma língua" de seus alunos. O resultado dessa prática são os mecanismos de seleção e exclusão." Para desvelar a trama de produção de resultados cada vez mais medíocres na escolarização brasileira, é preciso ir ao centro da questão no qual se encontram a política educacional e sua relação com a política econômica, as condições concretas da escola e do ensino, bem como as condições de trabalho do professor. O fracasso escolar, segundo Patto (1999), origina-se de uma variedade de dimensões que só podem ser entendidas no interior de políticas educacionais subordinadas a interesses que não os dos usuários e trabalhadores em educação. A escola, ao ignorar as desigualdades culturais entre as classes sociais, ao transmitir os conteúdos, manter métodos e técnicas e o modelo de avaliação classificatória, favorece os mais favorecidos e desfavorece os mais desfavorecidos. "Em outras palavras, tratando todos os alunos, por mais desiguais que sejam eles de fato, como iguais em direitos e deveres, o sistema escolar é levado a dar sua sanção às desigualdades iniciais diante da cultura". (BOURDIEU, 1999, p. 53) Como exemplo da desvalorização das experiências culturais e dos seus desdobramentos na inadaptação escolar tem-se o caso de muitos alunos da segunda fase do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Esse fracasso é representativo de tantos outros que, da mesma forma, reagem ao sistema e são, por esse motivo, considerados culpados. Assim, muitos alunos não conseguem aprender na escola e fazer valer seus saberes, trajetórias e conquistas (CARVALHO, 2004). No âmbito de um mesmo país, da mesma escola, sob a falsa idéia de que somos todos iguais, falamos a mesma língua, vivemos as mesmas experiências didáticas e, portanto, podemos aprender da mesma forma, ficam diluídas as diferenças culturais no processo ensino-aprendizagem, o que toma mais difícil a compreensão do fracasso escolar. ^ Bourdieu (1999) desvenda as novas formas de desigualdades escolares, atualmente, muito mais sutis e dissimuladas, uma vez que os agentes escolares se encontram na escola, mas o sistema de ensino ainda cumpre sua função social de exclusão daqueles oriundos das classes desprivilegiadas. 28 Ao tratar do fracasso escolar, Lahire (2004a, p. 19) lembra: Os casos de 'fracassos' escolares são casos de solidão dos alunos no universo escolar: muito pouco daquilo que interiorizam através da estrutura de coexistência familiar lhes possibilita enfrentar as regras do jogo escolar (os tipos de orientação cognitiva, os tipos de práticas de linguagem, os tipos de comportamentos próprios à escola), as fomias escolares de relações sociais [...]. Pode-se perceber que os efeitos do fracasso escolar estão presentes nas pesquisas, nas avaliações e na mídia. Dentre os problemas mais focalizados, destaca-se o ensino de língua materna, ou seja, a incapacidade do aluno na leitura e escrita de um texto coerentemente, a sua insegurança lingüística, exceto nas ocasiões infomiais, no término do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, resultado de uma política de descaso do sistema público de educação. Sobre essa questão, assim se posiciona Soares (2003a, p. 89): Considera-se que é à escola e à escolarização que cabem tanto a aprendizagem das habilidades básicas de leitura e de escrita, ou seja, a alfabetização, quando o desenvolvimento, para além dessa aprendizagem básica, das habilidades, conhecimentos e atitudes necessárias ao uso efetivo e competente da leitura e da escrita nas práticas sociais que envolvem a língua escrita, ou seja, o letramento. A cada vez que se denunciam níveis precários de alfabetização, seja em crianças, jovens ou adultos, a questão é invariavelmente relacionada com a escola e o fracasso escolar em alfabetização; da mesma forma, a cada vez que se identificam dificuldades no uso da língua escrita ou desinteresse pela leitura, seja em crianças, jovens ou adultos, apontam-se como causas deficiências do processo de escolarização, fracasso da escola no desenvolvimento de habilidades de uso social da leitura e da escrita e na promoção de atitudes positivas em relação à leitura. Com efeito, segundo Hargreaves (2001), o compromisso da escola, hoje, passa pela revisão de referenciais de aluno, de escola e de mundo em transição - uma meta sem a qual não se pode pensar a qualidade do projeto pedagógico nem a competência para alfabetizar na perspectiva do letramento. Pesquisas como as de Machado (1994), Patto (1996, 2000) e outros procuram mudar o eixo de discussão sobre o íi-acasso escolar, buscando contextuar o problema de acordo com o pensamento histórico brasileiro, empenhando-se em desvelar como são construídas e consolidadas as idéias de desvalorização e os preconceitos em relação aos indivíduos da classe trabalhadora e, muitas vezes legitimados sob um discurso cientificista. 29 Se de um lado essas pesquisas revelam que a escola se constitui como reprodutora das desigualdades sociais e da dominação, por outro mostram que no interior da escola, assim como na sociedade, surgem contradições que favorecem um embate de idéias e atitudes que poderão provocar rupturas nos discursos e nas práticas cristalizadas que ali se processam. Soares (2003) discute as causas do fracasso escolar. Para a autora, muito se tem escrito e pesquisado a respeito do problema. Entretanto, uma análise desses estudos revela um conjunto de dados não conclusivos. Assim, para a autora. em primeiro lugar são dados que resultam de diferentes perspectivas, do processo de conhecimento (Psicologia, Lingüística, Pedagogia), cada uma tratando a questão independentemente, e ignorando as demais, em segundo lugar, são dados que, excludentemente, buscam a explicação do problema ora no aluno (questões de saúde, ou psicológicas, ou de linguagem), ora no contexto cultural do aluno (ambiente familiar e vivências socioculturais), ora no professor (formação inadequada, incompetência profissional), ora no método (eficiência ou ineficiência deste ou daquele método), ora no material didático (inadequação às experiências e interesses dos alunos; sobretudo das crianças das camadas populares), ora, finalmente, no próprio meio, o código escrito (a questão das relações entre o sistema fonológico e o sistema ortográfico da língua portuguesa). Também Leon e Menezes-Filho (2002), citados por Rojo (2009), analisam dados sobre reprovação, evasão e fracasso escolar na última década do século XX. Com base nos dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME/IBGE), os autores mostram uma análise descritiva dos indicadores e detenninantes da reprovação, avanço e evasão escolar condicional á reprovação no Brasil nas 4" e S'' séries-diploma do Ensino Fundamental e do 3° ano do Ensino Médio no período de 1984 a 1993. De acordo com os autores, apesar da iniciativa do governo para eliminar a reprovação escolar, os dados da PME/IBGE apontam para sua existência, sendo esta ainda bastante significativa. Apesar das oscilações verificadas ao longo desse período, as taxas de reprovação em 1984-1985 são bastante semelhantes àquelas observadas em 1996-1997.^ Angelucci eí al. (2004) apresenta o estado da arte da pesquisa sobre o fracasso escolar na rede pública de Ensino Fundamental partindo de uma retrospectiva histórica da pesquisa educacional no Brasil. Os dados apresentam vertentes que compreendem o fracasso escolar ' O PME é uma pesquisa domiciliar, mensal, realizada em seis regiões metropolitanas do Brasil (Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo). Os indivíduos selecionados são acompanhados ao longo de alguns meses após a freqüência das séries-diploma do ensino. (RIBEIRO, 1994; GOMES-NETO; HANUSHEK, 1994) 30 das seguintes formas; como problema essencialmente psíquico; como problema meramente técnico; como questão institucional; como questão fundamentalmente política. O fracasso escolar como questão institucional evidencia a lógica excludente da educação escolar. Há pesquisas em que os autores entendem a escola como instituição social que contraditoriamente produz e transforma a estrutura social. Essas pesquisas partem do princípio de que o fracasso escolar é um fenômeno presente desde o início da instituição da rede de ensino público no Brasil. A análise dos processos institucionais que levam à produção do fracasso deve considerar a escola como instituição inserida em uma sociedade de classes regida pelos interesses do capital, sendo que a própria política pública encontra-se entre os determinantes do fracasso escolar. Assim, a reversão desse quadro requer, da política educacional, resistência aos interesses privatizantes e compromisso com a construção de uma escola pública capaz de garantir as condições de sua competência. Atribuições de causalidade por professores do Ensino Fundamental para situações de sucesso ou fracasso escolar dos alunos foram investigadas por Martini e Del Pretti (2002). As autoras identificaram uma tendência dos professores atribuírem aos alunos as causas do sucesso e do fracasso escolar, embora reconhecendo a ação docente como fator de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos. Neste trabalho, são discutidos alguns aspectos da relação entre as crenças do professor, sua prática pedagógica e os processos de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos, defendendo-se maior investimento nessa relação. É importante acrescentar que as relações entre atribuições de causalidade e desempenho escolar foram amplamente investigadas por Moyses e Colares (1993) e Weiner (1979, 1985). Trata-se de trabalhos considerados referencial teórico básico para o estudo das atribuições de causalidade em contexto escolar nos últimos anos. Cenas etnográficas exemplificam a atitude das professoras durante os Conselhos de Classe e ilustram a hipótese de que, no seio dessas escolas, existe uma construção coletiva do fracasso escolar (ERICKSON, 1986; FINE, 1991; DALBEN, 1990). Essas pesquisas colocam em evidência os problemas escolares promovendo uma análise mais clara da interação pedagógica e, dessa foniia, das causas do fracasso escolar (PATTO, 1987; MATTOS, 1992). Também a obsen'ação dos Conselhos de Classe chama a atenção para a importância da interação em sala de aula e a emergência de uma instância de reflexão crítica sobre a prática dos professores. Por sua vez, a produção acadêmica sobre esse tema destina-se mais aos pares acadêmicos do que aos atores escolares: os esforços de vulgarização da literatura científica e 31 os projetos que preveem uma colaboração entre o pesquisador e o professor ainda são escassos. Dessa maneira, a análise desses Conselhos alerta para o fato de, com freqüência, esses alunos se tomarem vítimas do despreparo do professor em lidar com a complexidade da situação pedagógica. Nesse sentido, o papel do professor tem sido amplamente reconhecido no contexto escolar como um dos principais fatores que influem na aprendizagem do aluno. O conhecimento acadêmico e metodológico do professor é tradicionalmente defendido como relevante para uma prática pedagógica bem-sucedida. Cabe acrescentar, ainda, que em pesquisas mais recentes sobre o ensino-aprendizagem passou-se a considerar as crenças, as expectativas e as capacidades docentes de professores de forma mais orgânica e integrada à prática pedagógica e seus resultados. Entende-se que é fundamental que o professor se tome consciente de suas crenças e do efeito delas sobre sua prática e sobre o desempenho dos alunos. Além disso, é importante que ele seja assessorado pedagogicamente para ampliar seus esquemas de análise de modo a reconhecer outros fatores que, por estarem mais diretamente sob controle do aluno e de sua atuação, contribuem para o sucesso escolar. Uma das conclusões a que se chega, no campo da alfabetização e do letramento escolar, é que ainda não conhecemos a criança brasileira, ignoramos o que ela já sabe sobre suas capacidades e continuamos a adiar a implantação de um projeto político comprometido com as classes populares e com a refomiulação da ideologia que organiza o cotidiano da escola e o currículo escolar. Ainda estamos protegidos pelo discurso ideológico sobre as supostas defasagens cognitivas das crianças pobres, sobre as supostas diferenças de socialização e inadequação da escola para recebê-las, por possuírem deficiência de uma linguagem inadequada à exigência escolar. Como se vê, a superação do movimento pendular de atribuição do fracasso ora aos alunos e suas famílias, ora à escola e professores é urgente. Sabe-se que a solução está associada à ações articuladas em diferentes âmbitos; social, cultural, educacional, econômico e político. No entanto, considerando que a educação básica é direito de todos os alunos e dever da família e do Estado, toma-se urgente propor respostas ao problema do fracasso escolar. Portanto, a escola é responsável por apontar soluções no âmbito das políticas públicas, como também apresentar saídas do ponto de vista das práticas de ensino da língua, 32 envolvendo o planejamento das ações do professor quanto à didática, à avaliação, ao curi'iculo e às relações no interior da escola. Nesse sentido, os estudos sobre o fracasso escolar provocam reflexões sobre o contexto da sala de aula e tem relação estreita com a investigação proposta neste trabalho. A luz desse quadro, cabe à escola disponibilizar material de leitura, propiciar maior contato dos alunos com diferentes gêneros do discurso, dentre eles livros, jornais, revistas, etc., não mais fechados no interior de uma biblioteca, mas como uma prática de maior circulação. Além disso, compete ao professor atuar efetivamente na formação de leitores e escritores competentes, construindo novas relações no cotidiano da sala de aula, base fundamental para a superação do fracasso escolar. 1.2 O sistema de avaliação e a proficiência dos alunos em leitura Nos últimos anos, com base nas políticas públicas adotadas, foram implementados programas nacionais de avaliação - Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB)'^ e Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM^) - para avaliar o rendimento dos alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Esses exames têm demonstrado o baixo rendimento desse público e apresentam como principal causa o nível de leitura dos a\'aliados. O SAEB é realizado a cada dois anos e consiste em uma avaliação do desempenho de alunos da 4^" e 8^ séries do Ensino Fundamental e 3" ano do Ensino Médio. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP),^ os resultados de 2001 e 2003 apresentam queda nos níveis de leitura que passou de 225,2 para 232 pontos. Os testes de Língua Portuguesa da Prova Brasil e do SAEB têm como foco a leitura. Seu objetivo é verificar se os alunos são capazes de apreender o texto como construção de conhecimento em diferentes níveis de compreensão, análise e interpretação. A O SAEB é uma avaliação por amostragem promovida pelo Ministério de Educação (MEC) para verificar habilidades de leitura de alunos da 4" e da 8" série do Ensino Fundamental e de alunos do 3° ano do Ensino Médio. O ENEM é uma avaliação que se realiza anualmente com os alunos do 3° ano e egressos do Ensino Médio e cujo objetivo é ajudar o aluno a conhecer melhor suas possibilidades individuais para enfrentar os desafios do dia a dia, mediante a verificação dos conhecimentos adquiridos na escola. O INEP é um órgão autárquico vinculado ao MEC cujo objetivo é organizar e manter em funcionamento o sistema de informações e estatísticas educacionais, visando à criação de indicadores de desempenho das atividades de ensino no país. 33 alternativa para esse foco parte do pressuposto de que ser competente no uso da língua significa saber interagir, por meio de textos, em qualquer situação de comunicação. O Relatório do SAEB (2001) apresenta algumas informações relevantes sobre as dificuldades encontradas pelos alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, a saber; dificuldades no plano inferencial tanto de vocábulos e expressões quanto de informações implícitas, além da dificuldade em operar com variedade. Os resultados do SAEB 2003 mostram que 55% das crianças da 4^ série estavam concentradas nos estágios muito crítico e crítico de proficiência em leitura. Isso indica incapacidade de compreender plenamente textos simples, curtos e de gêneros variados. Assim, crianças e jovens que ao final de quatro anos de escolarização se encontram nos níveis mais baixos de estágios de medição do desempenho estão em situação de risco educacional. São fortes candidatos a constantes abandonos, à reprovação ou à evasão escolar. Já em Língua Portuguesa na S'' série do Ensino Fundamental, os resultados do SAEB 2003 foram parecidos com o que se verificou na 4" série; em ambas, a média geral do País manteve-se abaixo do mínimo de 300 pontos de proficiência em Leitura exigido para a qualidade do ensino-aprendizagem. Os resultados do SAEB na 8® série em Língua Portuguesa estão classificados em cinco estágios: muito crítico, crítico, intermediárío, adequado e avançado. A escala de Língua Portuguesa é constituída por oito níveis e, para cada nível, as habilidades de leitura foram medidas a partir de seis temas: procedimentos de leitura, implicações do suporte de gênero e/ou enunciador na compreensão do texto, a relação entre textos, a coesão e a coerência no processamento do texto, as relações entre recursos expressivos e efeitos de sentido e variação lingüística. E importante ressaltar que os níveis de proficiência em leitura do SAEB foram elaborados com base na construção de competências e desenvolvimento de habilidades de leitura de textos de gêneros variados em cada um dos seguintes estágios: MUITO CRÍTICO: não são bons leitores. Os alunos nesse estágio não alcançaram o nível 1 da escala do SAEB; CRÍTICO: ainda não são bons leitores. Os alunos alcançaram os níveis 2 ou 3; INTERMEDIÁRIO: desenvolveram algumas habilidades de leitura, mas aquém das exigidas para a série. Os alunos nesse estágio alcançaram os níveis 4 ou 5; ADEQUADO: são leitores competentes. Demonstram habilidades de leitura compatíveis com a 8" série. Os alunos alcançaram os níveis 6 ou 7; AVANÇADO: são leitores maduros. Apresentam habilidades de leitura no nível de letramento exigível para as séries iniciais do Ensino Médio e dominam 34 alguns recursos linguístico-discursivos utilizados na construção de gêneros. Os alunos, neste estágio, alcançaram o nível 8 da escala do SAEB. Em 2001, os resultados em Língua Portuguesa foram os seguintes: 4,86% estão no estágio muito crítico; 20,08% estão no estágio crítico, 64,76% no intermediário, e apenas um pouco mais de 10% estão nos estágios adequado e avançado. Um percentual significativo (64,76%) abrange alunos que desenvolveram apenas algumas habilidades de leitura, mas insuficientes para o nível de letramento da série, e 20,08% não são bons leitores e suas habilidades estão aquém das exigidas pela série. Isso significa que quase 90% dos alunos não alcançaram o estágio adequado e, portanto, não demonstram habilidades de leitura compatíveis com a 8" série. Por fim, a média de proficiência em leitura dos alunos do 3° ano do Ensino Médio em 2003 foi de 266,7 pontos. E um patamar abaixo do que seria apropriado e pedagogicamente condizente com a conclusão da Educação Básica, em tomo de 350 pontos na escala do sistema de avaliação. A análise dos resultados de desempenho em leitura mostra que, de maneira geral, as médias do Brasil estão abaixo do que seria aceitável. Para superar essa situação, toma-se evidente a necessidade de melhorar a qualidade dos processos de ensino-aprendizagem nas séries iniciais, pois o reflexo se dará em toda a etapa de escolarização básica. E importante que os processos de alfabetização sejam efetivos, garantindo ao aluno os pré-requisitos necessários ao letramento e à competência de leitura. Esses resultados também mostram a necessidade de o ensino de Língua Portuguesa adotar como eixo do trabalho docente a construção das capacidades lingüísticas entre os alunos, seja na leitura, seja na escrita. Esse eixo deve também orientar a qualificação dos professores e a produção de material didático para o trabalho de leitura. De acordo com o INEP, o ENEM, de 2008 objetivou avaliar os alunos em relação ao domínio de linguagens, a compreensão de fenômenos, o enfrentamento de situações- problema, a constmção de argumentações e a elaboração de propostas de intei-venção na realidade. Os resultados do ENEM 2008 evidenciaram que os participantes ti\cram dificuldades quanto às capacidades de relacionar infomiações, representadas de diferentes fomias e de usar os conhecimentos disponíveis em situações concretas. 35 Desde 2000, o Brasil tem participado do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA),^ cujo objetivo é produzir indicadores sobre a efetividade dos sistemas educacionais de cada país, avaliando o desempenho dos alunos na faixa etária dos 15 anos, idade que pressupõe o término da educação básica. A avaliação ocorre a cada três anos, com provas que trazem ênfases distintas nas áreas de Leitura, Matemática e Ciências. Cabe esclarecer que são cinco os níveis de proficiência em leitura do PISA. No nível 1, o aluno é capaz de responder os itens de leitura menos complexos, como situar um fragmento de informação, identificar o tema principal de um texto ou estabelecer conexão com o conhecimento cotidiano. No NÍVEL 2, o aluno é capaz de responder itens básicos de leitura, tais como situar informações diretas, realizar inferências fáceis ou determinar o significado de uma parte do texto. No NÍVEL 3, o aluno é capaz de manipular itens de leitura de complexidade moderada, tais como situar fi-agmentos múltiplos de informação, vincular partes distintas de um texto e relacioná-lo com conhecimentos cotidianos familiares. No NÍVEL 4, o aluno é capaz de responder itens de leitura difíceis, tais como situar informações agregadas, interpretar significados baseando-se em sutilezas de linguagem e avaliar criticamente um texto. Finalmente, no NÍVEL 5, o aluno é capaz de completar itens de leitura sofisticados, tais como os relacionados com a utilização de informações difíceis de encontrar em textos com os que não estão familiarizados; mostrar uma compreensão detalhada destes textos e inferir qual informação do texto é relevante para o item; avaliar criticamente e estabelecer hipóteses, recorrer ao conhecimento especializado e incluir conceitos que podem ser contrários às expectativas. Em 2000 o foco foi a Leitura; em 2003, a área destacada foi Matemática e em 2006 a avaliação focalizou Ciências. O desempenho do Brasil em 2000 foi considerado baixo - foi classificado em último lugar. Já em 2003 o Brasil melhorou o resultado geral, mas não obteve variação em Ciências e Matemática nas capacidades de leitura. Em 2009, a leitura voltou a ser foco de análise. No que diz respeito ao letramento em Leitura, os alunos devem realizar uma ampla gama de tarefas com diferentes textos. As tarefas abrangem desde a recuperação de informações específicas até a demonstração de compreensão geral, interpretação de texto e reflexão sobre seu conteúdo e suas características. Assim, o letramento em leitura é avaliado ' O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), ou Project for Internacional Student Assessment, é um programa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) cujo objetivo é auxiliar países no desenvolvimento de políticas econômicas e sociais. 36 em três dimensões: a fonna do material de leitura, o tipo de tarefa de leitura e o uso para o qual o texto foi construído. Nessa perspectiva-, Ferraro (2002), em seus estudos sobre as "grandezas e misérias" das estatísticas educacionais no Brasil, avaliou índices de alfabetização e analfabetismo revelados pelos censos ao longo do século XX, como também os conceitos de alfabetização, analfabetismo, letramento, subjacentes às medidas censitárias. O experimento de classificação da população em níveis de letramento revelou, com toda a crueza, a situação do País cm 2000: Entre a população de 15 anos ou mais, apenas 1/3 havia atingido o nível 3 de letramento, que não significa nada mais que o número constitucional (8 anos ou mais de estudo concluídos ou o fundamental completo). Os outros 2/3 da população de 15 anos ou mais (cerca de 71 milhões), compreendendo desde os sem instmção e menos de 1 ano de estudo até os distribuídos em todas as categorias de 1 a 7 anos de estudos, dizem muito bem do tamanho do desafio posto à educação nos próximos anos. (FERRARO, 2002, p. 44) Também à luz dos resultados do SAEB (2000) e PISA (2000), observou-se que a proficiência em língua portuguesa não se distribuiu homogeneamente entre as séries, tampouco nas regiões do País. E o que mostra este trecho: Na 4^ série, por exemplo, os maiores percentuais de alunos estão concentrados abaixo do nível 1 e no nível 1 de proficiência (35,6% e 39%), o que indica que a maioria dos alunos brasileiros ou não sabe ler ou tem dificuldades básicas com a leitura de ura texto. Na 8" série, a maioria dos alunos se concentra no nível 2 de proficiência, ou seja, naquele nível em que a operação de ler não vai além da compreensão de idéias gerais que estão em grande parte explícitas no texto. (BONAMINO; COSCARELLI; FRANCO, 2002,p.103-104) No que se refere aos resultados gerais do PISA em leitura, a proficiência dos alunos brasileiros foi significativamente inferior à de todos os demais países participantes (BRASIL. INEP, 2001). O percentual de alunos abaixo do nível 1 é bastante elevado entre os alunos de 15 anos de idade que têm até sete anos de estudo (57%). Mesmo entre os alunos que têm oito séries escolares, a maioria concentra-se no nível 1 de proficiência (40%). Esses resultados mostram que alunos com 15 anos de idade, cursando a 7" ou a 8" série, têm atraso escolar. Os resultados, tanto do PISA quanto os do SAEB, mostram que os alunos, mesmo depois de freqüentarem a escola por muitos anos, apresentam domínio limitado das capacidades necessárias para enfrentar com sucesso as atividades diversas no âmbito social. Desse modo, provocam reflexão sobre o papel da escola e o que queremos para o futuro de 37 nossa sociedade. Esses resultados, portanto, exigem mudanças na escola e cumprimento da sua ílinção social de preparar os alunos para a sociedade letrada contemporânea, adotando, então, práticas de leitura adequadas a contextos múltiplos e diferenciados. Pode-se afirmar que o domínio da língua escrita é condição para o aluno atribuir significados consistentes às inúmeras representações gráficas com as quais ele se defi-onta todos os dias. Nesse sentido, alfabetizar e letrar é, sem dúvida, um processo complexo e desafiante. Diante desse cenário complexo, acredita-se que a tentativa de desmistificar o fi^acasso escolar seja o primeiro passo de uma escola pública inclusiva, bem como o da sociedade, omissa diante da gravidade dos altos índices de fi-acasso no processo de escolarização. No caso da escola pública, o compromisso com o sucesso dos alunos das camadas populares é um desafio. Lembrando que a ação do professor pode contribuir para o fi"acasso ou para o sucesso escolar. Diante desse quadro, permanece a crença na escola, "[...] a ação pedagógica é um espaço de possibilidades para a superação do íracasso escolar, apesar de todas as dificuldades socialmente construídas para que essa transformação possa ocorrer". (ESTEBAN, 1992a, p. 86) 1.3 Os problemas no ensino de leitura no Brasil Nos últimos anos, a preocupação com a dificuldade de se desenvolver capacidades de leitura nos alunos e com os resultados negativos de avaliações como SAEB, ENEM e PISA, realizados por órgãos oficiais gerou um processo de reflexão sobre como constituir o sujeito leitor. Por isso, pesquisas e cursos de capacitação passaram a ter como foco a busca de respostas e possíveis soluções para a melhoria do quadro apresentado pelos resultados nas avaliações. Os professores, geralmente, são o alvo desses cursos, pois foram identificadas dificuldade para promover condições em sala de aula voltadas para a formação do leitor. De modo geral, os professores não têm conhecimentos teóricos sobre a leitura: o que é, ^ Lahire (2004a) apresenta contribuições para o entendimento do sucesso e do fracasso escolar das camadas populares. O autor realizou estudos etnográficos de casos improváveis de sucessos em meios populares para compreender as razões que fazem com que se tenha sucesso ali onde, estatisticamente, se deveria fracassar. 38 concepções, modos, como didatizar o trabalho de leitura e em quais pressupostos de cunho social o trabalho de leitura se assenta.^ Considerando os desafios no ensino da leitura, pretende-se mostrar sua importância e esclarecer que a leitura não pode ser confundida com alfabetização, muito menos com a simples decodifícação de alguns signos lingüísticos. Ler é muito mais. Ler envolve muitas capacidades. Para Gurgel (1997, p. 14), ler é um processo de compreensão que envolve construção de representações dos atos de fala, das interações comunicativas e de toda a situação. Ler é um processo interativo por meio do qual um leitor interpreta, ativamente, as ações de um autor. Historicamente a capacidade de ler sempre foi considerada essencial à realização pessoal e, atualmente, muitos defendem a idéia de que o progresso social e econômico de um pais depende muito do acesso aos conhecimentos indispensáveis transmitidos pela palavra, seja ela impressa, seja digital. E é na escola que podemos identificar evidências do crescimento do público leitor. Mas é também ela que nos mostra - diante do número alarmante daqueles que a ela não tem acesso os baixos índices de proficiência em leitura, da deficiência de formação específica dos professores para trabalhar as questões relativas à leitura e ainda da carência de bibliotecas escolares - quão distantes ainda estamos de uma situação satisfatória. De modo geral, nas escolas públicas como nas particulares, o ensino da leitura tem se pautado por um procedimento único e global, válido para qualquer texto, extraído do livro didático oferecido pela instituição de ensino. Esse procedimento único e global, por outro lado, reflete-se na produção escrita que o professor recolhe, esporadicamente, a cada etapa. No entanto, a falta de interesse dos alunos envolve não somente a leitura, como qualquer atividade no cotidiano escolar, o que já era apontado por Vygotsky para o seu contexto sócio- histórico, semelhante ao que ainda acontece no nosso. De acordo com o autor, nossos estudos mostram que o aluno tem pouca motivação para aprender a escrever e a ler quando nós lhe ensinamos. Ele não sente nenhuma necessidade disso e tem só uma idéia vaga de sua utilidade. [...] Os motivos para ler e escrever são mais abstratos, mais intelectualizados, além das suas necessidades imediatas. (VYGOTSKY, 1934/1993, p. 181) A crise da leitura, discutidas por muitos pesquisadores, dentre eles Perrotti (1990), Silva (1995) e Brito (2003), não é um problema a ser enfi^entado por uma parcela limitada da ''Cf. ROJO, 2001,2009. 39 sociedade, mas uma luta constante de todos - Estado, sociedade civil, escola e família. As discussões a respeito dessa crise vêm se estendendo desde o final da década de 1960, intensificando-se a partir da década de 1970. Desse momento em diante é que a leitura passou a ser vista como uma questão sociocultural e política. Pesquisas de Soares (2000) indicam que está muito longe de se tirar do Brasil o estigma de "país de não leitores". A autora desenvolveu uma análise dos programas governamentais de leitura, Proler e Pró-Leitura, identificou seus impactos e resultados, estabelecendo uma relação entre a proposta política e o sucesso/fi-acasso na realização dos propósitos desses programas. Ainda de acordo com a autora, percebe-se que as intenções manifestadas nos documentos dos programas eram importantes e boas, porém, problemas como verbas insuficientes e o distanciamento entre coordenação central e agentes regionais envolvidos foram determinantes e comprometeram o pleno êxito na democratização da leitura. Rossi (2004) afirma que a crise da leitura exige que se aborde a escolarização da literatura e o modo como a leitura, livros e leitores vêm sendo tratados na escola. Também Fernandes (2004) ao analisar as práticas de leitura escolar no Brasil, bem como as representações da escola, do professor e do ensino na literatura infantojuvenil a partir da década de 1980, verificou que, de modo geral, as práticas de leituras nas escolas não estão dando condições ao aluno de participar ativamente da transformação social. Os dados ainda atestam que no Brasil não se criou uma política pública para a leitura e para o livro que cuidasse da formação do professor. Cabe ressaltar que na pesquisa Retratos da Leitura no BrasiÚ^ afinna-se que o brasileiro está lendo mais, porém o Brasil está longe de ser um país de leitores. De acordo com a pesquisa, a escola tem importante papel na formação do leitor. Na pesquisa evidencia- se, ainda, que "a escola é que faz o Brasil ler. Assim, dos 4,7 livros lidos por habitante/ano, 3,4, incluindo os didáticos, são indicados pela escola". (ASSUNÇÃO, 2008, p. 89) Desse modo, constata-se que "o Brasil está estudando e é a partir da escola que os brasileiros entram em contato com o processo de leitura e, por meio dela, acessam os livros, independentemente de sua classe social" (LAZARO; BEAUCHAMP, 2008, p. 74). Os pesquisadores ainda Essa pesquisa sobre o hábito de leitura dos brasileiros foi promovida em 2007 pelo Instituto Pró-Livro, lançada em 2008. Os resultados relevantes da pesquisa e a análise de especialistas da área estão no livro de mesmo nome organizado por Amorim (2008). 40 afirmam que, depois da mãe, os professores são os maiores incentivadores da prática de leitura. Nesse sentido, os dados apresentados pela pesquisa traçam o mais completo perfil do leitor brasileiro, o que faz dela um instrumento de fundamental importância para nortear a fonnulação de políticas públicas, visando à fonnação de leitores e à democratização do livro. Desse modo, a leitura se revela, hoje, como o grande desafio do ensino. Considerada o principal lócus promotor do aprendizado, a escola falha por não dialogar com o universo de origem dos alunos, invalidando suas experiências e expressões. Outro agravante da questão é que, no cotidiano escolar, alguns professores impõem aos alunos apenas uma leitura limitada, em geral, fragmentos de textos descontextualizados e desinteressantes. Nesse sentido, não há uma discussão crítica entre professor e alunos referentes à leitura realizada. Na década de 1980, surgiu um discurso contrário à utilização de livros didáticos. De acordo com Nosella (1979), o uso desse material passou a ser vinculado a uma prática tradicional de ensino que precisaria ser ultrapassada. Por outro lado, os livros didáticos passaram a ser criticados por apresentar eiTOS conceituais e por se constituírem um campo ideológico, revelando um ponto de vista parcial e comprometido sobre a sociedade. De modo geral, nos livros didáticos, por exemplo, de Língua Portuguesa, as atividades pós-leitura estavam, em sua maioria, dispostas na seguinte ordem: perguntas de compreensão do texto, cujas respostas estavam no próprio texto; perguntas de interpretação de texto, cujas respostas não estavam no texto, mas que era possível ao aluno responder, dada a simplicidade ou a formulação simplificada dela, que o direcionava à resposta desejada do autor do 1í\to didático, dando margem apenas a uma interpretação; atividades como estudo do vocabulário, que eram, praticamente, as mesmas: pedem sinônimos, antônimos, etc., em exercícios de completar frases ou períodos; a gramática do texto, atividades que desmotivavam os alunos, que, se chegassem a ter a oportunidade de ler, acabavam por esfriar esse pouco tempo de prazer com a tarefa de desmontar o material lido. Assim, esse conjunto de atividades fragmentadas foram encontradas também nos livros didáticos de Matemática, Geografia, História e Ciências." " Cf. PRIVAT, 1995; BEZERRA, 2001; ERAS, 2000; PEREIRA, 2004; JURADO, 2003 e GERALDI, 2006. 41 Segundo Kleiman e Moraes (1999, p. 66-67), a fragmentação apontada na década de 1980 tem conseqüências: Muitos textos do livro didático conseguem existir no vácuo, através de práticas vazias de sentido, que só funcionam num contexto alienador, que [...] não tem nada a ver com ele (o aluno), enquanto sujeito social, só diz respeito a ele enquanto objeto, seja do ensino ou da avaliação. É assim que se consegue legitimar práticas de leitura em que apenas uma interpretação é possível, devido à ausência de elementos que se abram para novos sentidos, que permitam interpretações divergentes, que mobilizem a história pessoal de cada aluno. Como se vê, a questão de que a leitura não pode ser imposta ao aluno e de que o professor é o mediador nesse processo é uma tarefa complexa, pois é aí que o professor mostra sua competência para motivar o aluno a construir os sentidos do texto. Quanto à leitura literária, nas escolas públicas, praticamente inexiste qualquer atividade sistematizada desse tipo, dada a falta ou precariedade de biblioteca escolar ou a falta de formação do professor para explorá-la adequadamente. O que existe é apenas a leitura e compreensão de poucos textos, fragmentos de obras literárias e algumas crônicas de autores consagrados. Amparados em uma perspectiva teórica que entende a língua como resultado de ações lingüísticas realizada por sujeitos reais em contextos históricos e socialmente determinados, em diferentes estudos da linguagem passou-se a questionar a utilização de determinados livros didáticos, por considerá-los um instrumento ineficiente ou até mesmo prejudicial para o ensino da língua. Freire (1970/1983) contribui para essa reflexão quando argumenta sobre a questão da relação professor/aluno nas atividades que envolvem textos em sala de aula: Não há diálogo verdadeiro se não há nos seus sujeitos um pensar verdadeiro. [...] Para o pensar ingênuo, o importante é a acomodação a este hoje nomializado. Para o crítico, a transformação pemianente da realidade, para a permanente humanização dos homens. [...] Para o pensar ingênuo, a meta é agarrar-se a este espaço garantido, ajustando-se a ele e, negando a temporalidade, negar-se a si mesmo. Somente o diálogo, que implica um pensar crítico, é capaz, também, de gerá-lo. Sem ele não há comunicação e sem esta não há verdadeira educação. (FREIRE, 1970/1983, p. 82-83) As críticas endereçadas ao livro didático na década de 1980 cumpriram seu papel. Entretanto, constatou-se, nas últimas décadas, que o livro didático é um material efetivamente 42 incorporado às práticas escolares, o que o levou a ser considerado como referencial para o trabalho em sala de aula. Mesmo professores que não seguem um livro especifico, acabam utilizando atividades propostas em diferentes manuais didáticos. Assim, ainda que o livro didático não represente a prática pedagógica em si, ele tem sido utiizado na organização do trabalho realizado em sala de aula. Por outro lado, em muitos contextos e localidades, o livro didático continua sendo a principal e, às vezes, a única fonte de leitura tanto para alunos quanto para professores. Em razão disso, muito mais do que simplesmente negar sua existência e extinguir sua utilização, colocou-se a necessidade de aprimorá-lo, garantindo a disponibilização para as redes públicas de ensino de manuais didáticos que contribuíssem para o desenvolvimento de sujeitos competentes da língua. Assim, em 1995, o Ministério de Educação (MEC) passou a desenvolver o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que criou uma comissão de especialistas por área de ensino, encarregadas de duas tarefas: avaliar a qualidade dos livros mais solicitados ao Ministério e estabelecer critérios para avaliação de novas aquisições. Como conseqüência dessa política de análise dos livros didáticos, várias modificações têm ocorrido na produção desse material. Em muitas coleções, têm-se evidenciado verdadeiras mudanças do ponto de vista tanto teórico quanto metodológico, no sentido de adotar uma orientação para o ensino da língua na perspectiva do letramento. Em outras, observa-se apenas uma no\'a "roupagem", persistindo ainda antigas concepções de ensino- aprendizagem. Cabe ainda acrescentar que mesmo livros considerados ruins nas avaliações oficiais podem ter alguns pontos positivos e outros, embora recomendados por essas mesmas avaliações, apresentam aspectos que demandam revisão. É importante lembrar que além de promover a aproximação dos alunos com obras literárias completas, os professores de todas as áreas deveriam explorar os gêneros em circulação a que o aluno tem acesso e que são consumidos fora da escola - por exemplo, jornais, planfletos, folhetos religiosos, propagandas, revistas, dentre outros. Se o professor não fizer uso dessa literatura de massa, estará negando sua própria história de leitura e interrrompendo a possível iniciação à literatura. Nesse sentido, o professor pode ajudar o aluno a desenvolver capacidades que vão permitir que ele constma significado, mesmo com base em textos mais complexos. Deverá, é claro, escolher textos que sejam relevantes para a realidade dos alunos. É importante, também, trabalhar no ensino de leitura explorando conceitos, procedimentos e atitudes que caracterizam esse processo, para que os alunos possam participar, essencialmente de fonna 43 ativa, da construção dos sentidos do texto. Eles se tomam produtores de reivindicações, ou seja, tomam-se avaliadores e críticos do que lhes interessa no texto lido, objetivo maior do ensino de leitura. Além disso, o papel central que o professor desempenha no desenvolvimento da identidade social numa aula de leitura depende da sua posição como mediador, não autoritário, nas assimetrias interativas da sala de aula e no papel de autoridade que desempenha em relação à constmção. Apesar da problemática que envolve os trabalhos com leitura ainda nos dias de hoje, houve, no Brasil, inegável avanço na postura teórica adotada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) no que se refere ao enfoque leitor/produtor de textos. Mas Rojo (2002, p. 49) destaca que ainda há um enonne fosso entre a postura teórica adotada e as práticas de leitura e produção de textos em sala de aula. Os PCNs não são legíveis e compreensíveis por si sós pelos professores ou, mesmo, pelos formadores de professores. Há necessidade de adoção de ações implementadoras (fomiação de professores, elaboração de materiais). Mas estas ações, se continuarem caudatárias de saberes de referência mais sedimentados nas práticas e na cultura escolar, deixarão, mais uma vez, de contribuir para uma política de letramento extremamente necessária no Brasil hoje [...]. A grande dificuldade de compreensão em leitura ainda pode estar presente na formação de professores. Trabalhar com a leitura reflexiva e dialógica exige grande persistência do professor porque, à medida que ele deixa o aluno ter voz ativa na sala de aula, ele se expõe e poderá expor, principalmente, suas fraquezas e despreparo em relação ao assunto em discussão, o que ainda leva muitos professores a se "apegarem" às respostas prontas do livro didático e a não permitirem questionamento dos alunos. Muitas vezes, também, o professor não ousa mudar sua prática porque nem chega a ter consciência de seu papel transformador e da importância do relacionamento interpessoal na sala de aula. O respeito às diferentes expressões e o incentivo para o exercício da cidadania muitas vezes passam despercebidos pelo professor, que se comporta como mero transmissor de conhecimento. Infelizmente a visão de aluno "tábula rasa" ainda pode estar vigorando em muitas escolas do País. Logo, os problemas existem, primeiramente, porque o professor, na maioria das vezes, está preso ao ensino tradicional, não sabendo como ajudar o aluno a desenvolver a capacidade de estabelecer relações e conexões com outros conhecimentos que ele já tem, relações constmídas, segundo Kleiman e Moraes (1999), social e individualmente, e em pennanente 44 estado de atualização. Em segundo lugar, porque o professoi, freqüentemente, não está preparado para responder possíveis questionamentos ou posicionamentos orais dos alunos em relação ao tema em pauta. E em terceiro, com base nas contribuições de Machado (1998, p. 10), não há espaço para as diferentes histórias de leituras de cada aluno, para as diferentes interpretações que podem emergir. Ora, se queremos desenvolver as capacidades de leitura de nossos alunos, será essa adequada? Para podermos responder a essa questão, pensamos que é preciso relletir um pouco mais sobre a questão da compreensão. Em face de tal situação preocupante que se coloca como barreira no ensino- aprendizagem de leitura, é de esperar que o aluno, sem acesso à leitura no seu cotidiano escolar e fora dele, apresente sérios problemas de escrita. Para Robme (1994, p. 183-186), o prazer de ler é ao mesmo tempo uma prática de distinção e uma norma social. É o fruto de uma educação do gosto, que a escola, apesar de seus desejos e de seus esforços, não consegue dar conta. O discurso sobre o prazer de ler penaliza, mais uma vez, aquele que, não tendo sucesso em sua experiência, rejeita a leitura e não pode alimentar sua escrita. [...] O projeto de vida se constrói a partir dos dados afetivos e sociais gerados pelos dois ambientes; escolar e doméstico. Além disso, Perissé (2000) afinria que falar e escrever pressupõe a observação lúdica da realidade, a leitura de bons autores, o diálogo com as pessoas e o cultivo de opiniões. Na mesma linha, Bamberger (2000) argumenta que o direito de ler significa igualmente o de desenvolver as potencialidades intelectuais e espirituais, o de aprender a progredir: "Todo bom leitor é bom aprendiz, e esse fato é importante para o êxito tanto na escola quanto na vida ulterior, quando precisamos estar preparados para nos adaptarmos a novas circunstâncias . (BAMBERGER, 2000, p. 13) Por todas essas razões, a leitura é importante no currículo escolar. É requisito fundamental para exercer plenamente a cidadania. O aluno precisa apossar-se da linguagem escrita, participar da sociedade letrada em que se insere, tomando-se produtor e leitor. Mesmo que não tenha de escrever livros ou gêneros do discurso complexos, certamente precisará ler muito para compreender as ações dos autores e agir eficazmente com a linguagem. Diante dessa problemática, faz-se necessário apresentar o que se tem proposto nos últimos anos, para se empreender uma transfomiação significativa no ensino-aprendizagem da leitura no Brasil. 45 1.4 Leitura como objeto de estudo A análise do problema da leitura no Brasil revela que muitas escolas têm realizado práticas de leitura dissociadas das mudanças e avanços que o mundo globalizado e tecnológico tem determinado na sociedade pós-modema. (GRACEZ, 2008; KLEBIS, 2008, GERALDI, 2006; CORACINI, 2002) Em linhas gerais, o trabalho com a leitura tem sido caracterizado como mecânico, desconectado do cotidiano vivenciado pelos sujeitos. Desse modo, ainda se veem aulas de leitura em que o ato de ler se desenvolve de forma isolada e repetitiva. Além disso, as atividades leitoras ainda vêm demarcadas pela aridez metodológica e tradicional de que leitura é responsabilidade do professor de Português, eximindo todas as outras disciplinas do trabalho e do compromisso de contribuir para a formação de leitores competentes. Nessa ótica equivocada, cai sobre a disciplina Língua Portuguesa o peso da não capacidade de letramento dos alunos. Diante desse quadro, cabe, então, refletir: O que é leitura? Que material tem sido utilizado nas aulas de leitura? Que condições de produção de leitura têm sido garantidas nas escolas de Ensino Fundamental e de Ensino Médio? Como trabalhar para formar crianças, jovens e adultos leitores? Problemas no ensino de leitura e casos de fracasso escolar foram também identificados por Gomes (2003), que destaca a importância da interação professor, aluno e conhecimento no contexto da sala de aula e suas implicações para o ensino-aprendizagem da lingua escrita. À época da pesquisa, os alunos freqüentavam a escola, mas grande parte não aprendia e apresentava baixo domínio da leitura e escrita.'' Como pontuado, esse problema é complexo e tem nítidas implicações sociopolíticas, às quais estão associadas o baixo nível de domínio do código escrito, a falta de oportunidades culturais da clientela e a alta seletividade do ensino. Nesse contexto, pesquisas têm demonstrado que, apesar de todas as dificuldades, a escola pública tem importante papel no desenvolvimento das crianças das camadas populares, representando, talvez, a única oportunidade que elas encontram para desenvolver capacidades Em seus estudos sobre a sociologia da experiência escolar, Dubet (1994, 2001, 2004) discute o fracasso escolar e descreve a infelicidade dos alunos na escola. O autor constatou que, "para muitos alunos, a situação escolar não tem nenhum sentido. E é, portanto, vivida como uma pura violência, não uma violência simbólica de classe como diz Bourdieu, mas uma violência individual, pedagógica, relacionai". (DUBET, 1997, p. 226) 46 para a efetiva participação na sociedade. (ESTEBAN, 1992 e 2006; LAHIRE, 2004; AMORIM, 2008) A preocupação "dos professores da Educação Básica com o nível de leitura dos alunos surgiu em diversos momentos. Diante disso, alguns questionamentos tomaram-se evidentes: Como os professores enfi'entam, no cotidiano da sala de aula, o desafio de trabalhar no processo de domínio da língua escrita? Que tipo de proposta estão implementando, tendo em vista a superação do fracasso escolar e a aprendizagem da leitura? Quais são as condições de produção da leitura para que aprender a ler seja algo que realmente tenha sentido, uso e função para os alunos no contexto escolar? Lingüistas e pesquisadores preocupam-se com essas questões e essa constitui a proposta de investigação desta tese. Assim, nessa perspectiva, adotar uma visão sociointeracionista nas práticas de leitura e escrita significa, dentre outras coisas, repensar as relações entre as modalidades oral e escrita do discurso nesse contexto (ROJO, 2009). Significa, também, afínnar o papel da interação social para a construção da linguagem e, logo, para o uso e o desenvolvimento de capacidades leitoras pelo aluno no contexto da sala de aula. Ensinar a ler e escrever é um desafio que transcende amplamente a alfabetização em sentido estrito. O desafio que a escola enfrenta hoje é o de incorporar todos os alunos à cultura escrita,'^ é o de conseguir que todos os alunos cheguem a ser membros plenos da comunidade de leitores e escritores. Nesse contexto, busca-se entender, com esta tese, como os professores interagem com seus alunos no contexto da sala de aula e influenciam o processo de construção de oportunidades de aprendizagem na leitura? O objeto de análise proposto são as práticas de leitura desenvolvidas pelos professores nas aulas de Português, Inglês, Artes, Geografia, História, Ciências, Matemática, na segunda fase do Ensino Fundamental, em duas escolas da rede pública municipal situada na periferia de Belo Horizonte. O foco, portanto, está nas oportunidades de aprendizagem construídas por professores e alunos no contexto da sala de aula nos eventos de letramento. A opção por analisar as práticas de leitura na segunda fase do Ensino Fundamental justifica-se pela constatação de que esses alunos estão na etapa final dessa fase, almejam ingressar no Ensino Médio, mas deparam com uma série de dificuldades e nem sempre atingem seus objetivos. Isso traz conseqüências para o trabalho a ser desenvolvido no " Cf. FERREIRA, 2001; GERALDI, 1998, 2006; BATISTA, 1997, 2004; BATISTA; COSTA VAL 2004; BATISTA; RIBEIRO, 2004; ROJO 2001a, 2001b, 2004 e 2009. 47 processo de aquisição e domínio das habilidades de leitura e escrita. Além disso, trata-se de um segmento escolar pouco pesquisado e, portanto, pouco conhecido. Nessa perspectiva, conhecer as condições de produção da leitura nos eventos de letramento de Português, Inglês, Artes, Geografia, História, Ciências e Matemática implicou reconhecer logo de início que esse é um objeto de estudo multifacetado e que tem interfaces e dialoga com outras questões didáticas, curriculares, psicolinguísticas e sociolinguísticas. A reflexão sobre esse contexto definiu a proposta desta pesquisa voltada para a concepção de leitura como prática social. Cabe acrescentar, ainda, que a leitura tem sido objeto de pesquisa já há muito tempo, em diversas áreas do conhecimento no Brasil, tais como Educação, Linguagem, Psicologia, entre outras. Tais pesquisas têm contribuído com trabalhos significativos, como os de Freire (1982); Soares (1998, 2002, 2003); Silva (1987, 1988); Kato (1985, 1986); Kleiman (1989, 1992, 1995); Oriandi (1987, 1996, 1998, 1999); Cafiero (2002, 2005); Rojo, 2000, 2001a, 2001b, 2004, 2005 e 2009, para citar alguns dentre muitos. Na realização desta pesquisa, foram considerados, também, os trabalhos de Cafiero (2002) e Pereira (2004). Cafiero (2002) observou a continuidade temática na leitura de textos expositivos de di\Talgação científica e destacou a interferência que a experiência em leitura e a organização de expressões nominais podem gerar na compreensão. Pereira (2004) analisou as práticas de ensino de leitura utilizadas pelos professores de Língua Portuguesa, Geografia e História num curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA) com o objetivo de compreender os processos e como eles estabeleciam comunicação para a construção de significados dos textos lidos em sala de aula. Considerações relevantes foram extraídas sobre a construção do sentido global e do sentido literal dos textos que os professores demostraram por meio de suas estratégias de ensino desenvolvidas com as atividades de leitura. São poucos, no entanto, os trabalhos que abordam a leitura sob a perspectiva dialógica bakhtiniana. Dentre esses, destacam-se as pesquisas de Rojo (2001a, 2001b, 2009), Jurado (2003) e Lodi (2004), cujas contribuições serão expostas no próximo capítulo. É nesse contexto que esta pesquisa sobre a leitura se insere. As práticas de leitura no nível fundamental foram analisadas de uma perspectiva sócio-histórica da aprendizagem (vygotskiana) e discursiva de texto, língua e linguagem (bakhtiniana). Por isso, recorreu-se aos pressupostos de Bakhtin e seu Círculo (1929, 1934-1935/1975, 1953/1979) e de Vygotsky (1930, 1934, 1935). Cabe acrescentar, ainda, que no transcorrer da pesquisa considerei como enfoque teórico-nietodológico a abordagem etnográfica interacional, especificamente presente em 48 Castanheira, Crawford, Dixon e Green (2001), além de estudos etnográficos, dentre eles. Heath (1982, 1983); Street (2003, 2005); Heath e Street (2008); Street e Lefstein (2007); como também em estudos que abordam a análise do discurso em sala de aula (CARTER et ai, 2005; BLOOME et ai, 2008). Desse modo, a perspectiva etnográfica e a perspectiva de natureza dialógica da linguagem alicerçaram tanto a etapa de preparação e de coleta de dados quanto a de análise da pesquisa, pois foi o alicerce teórico em que se fundamentou a fomia de observar e analisar os eventos discursivos durante as aulas. Com este trabalho objetivou-se portanto, em linhas gerais, conhecer as práticas de leitura desenvolvidas por professores e alunos na segunda fase do Ensino Fundamental em escolas da rede municipal de Belo Horizonte, bem como os gêneros que circularam em sala de aula. Para alcançar esses objetivos, procurou-se responder às seguintes questões de pesquisa: 1. Que práticas de leitura foram desenvolvidas na segunda fase do Ensino Fundamental no contexto escolar observado? 2. As interações entre professor e aluno e entre os alunos interferiram na construção dos sentidos e na compreensão dos textos? 3. Que capacidades de leitura foram ensinadas/aprendidas nas práticas de ensino? No próximo capítulo serão apresentados os principais pressupostos teóricos sobre letramento e leitura. 49 2 PERSPECTIVAS TEÓRICAS SOBRE LETRAMENTO E LEITURA Neste capítulo, são apresentadas discussões sobre o fenômeno do letramento, reconhecendo que a escola e o ensino são usados, ainda, como instrumento de domínio e manutenção e favor de uns e contra outros. Assim, compreender as implicações políticas e sociais do letramento significa entender que o problema não é apenas ensinar a ler e a escrever, mas é, sobretudo, promover o envolvimento em práticas sociais de leitura e de escrita. Desse modo, a discussão sobre letramento envolve a reflexão sobre as diferentes concepções de leitura, desde os modelos cognitivistas, que podem ser relacionados ao modelo autônomo de letramento, até a leitura como prática social, relacionada ao modelo ideológico de letramento. Para tratar dessa temática, o capítulo foi dividido em quatro seções. Na primeira seção, são apresentadas considerações sobre o termo letramento. Subjacentes às diferentes definições de letramento, estão as duas principais dimensões de letramento descritas por Street (1984) e citadas por Kleiman (1995, 2004) e Soares (1998): a dimensão individual e a dimensão social.'"^ Street (1984, 1993, 1995) propõe o modelo autônomo e o modelo ideológico para discutir as práticas de letramento na escola e a relação que se estabelece entre o modelo subjacente a essas práticas e o sucesso ou o fracasso na construção de contextos facilitadores da promoção dos alunos em sujeitos letrados. Por esse motivo, nessa seção, serão discutidos o surgimento e a utilização do termo letramento, os modelos de letramento segundo Street (1984) e seus desdobramentos e implicações pedagógicas nas aulas de leitura das escolas brasileiras, tendo em vista as teorias de leitura que se constituíram a partir desses modelos. Na segunda seção, foram apresentadas as teorias de leitura cognitivas que se relacionam com o modelo autônomo na dimensão individual de letramento. Essas teorias podem ser divididas em três grandes modelos de processamento de infonnação: modelo de processamento ascendente (bottom-up); modelo de processamento descendente {top-down), ou modelo psicolinguístico, e o modelo de processamento ascendente/descendente, ou modelo interativo. Essas abordagens têm como preocupação básica a pesquisa dos processos '■* O binômio modelo autônomo-modelo ideológico foi proposto por Street (1984). O autor desenvolveu, também, o conceito de práticas de letramento utilizado como unidade de análise em Scribner e Cole (1981). O conceito de evento de letramento foi proposto por Heath (1982,1983). Uma discussão sobre esses conceitos pode ser encontrada em Baiton (1994); Barton e Hamilton (1998 e 2000); Street (2003, 2005); Street e Lefstein (2007); Heath e Street (2008). 50 cognitivos que envolvem o ato de compreender o texto. Seu foco principal é a investigação das ações ou reações psieolinguísticas vivenciadas pelo leitor no momento da leitura e os mecanismos lingüísticos (fonológicos, sintáticos, semânticos, pragmáticos) e psicolóiíicos presentes no processo. Na terceira seção, apresentam-se discussões sobre a concepção de leitura nas vertentes discursiva e enunciativo-discursiva. Já na quarta seção destacam-se as contribuições de Bakhtin (1979/1992) e de seu Circulo. Foram adotadas as concepções de linguagem, o dialogismo, os gêneros do discurso, por meio dos quais a leitura é considerada um processo de compreensão ativa que envolve múltiplas relações. Ainda nessa seção, com base nas contribuições de Rojo (2004), são apresentadas as capacidades de linguagem que serão consideradas neste estudo, a saber: capacidades de decodificação, capacidades de compreensão e capacidades de apreciação e réplica do leitor em relação ao texto. Encerra-se o capítulo com uma síntese dos conceitos traçados por Vyuotsky (1930/1998; 1934/1993 e 1935/2001) sobre o desenvolvimento humano, aprendizagem e a importância da interação na construção do conhecimento no contexto da sala de aula. Considerando o objeto proposto neste estudo, a teoria sócio-histórico-cultural revelou-se adequada para fundamentar esta pesquisa e possibilitar a compreensão de vários elementos envolvidos nas práticas de leitura. Assim, os conceitos de Bakhtin e Vygotsky, aliados à etnografia interacional, pennitiram refletir sobre as práticas de leitura e as capacidades de linguagem desenvolvidas nas disciplinas cumculares. 2.1 Letramentos e leitura O termo "letramento", desde a década de 1980, vem sendo usado como conceito que supera o de alfabetização, cuja raiz etimológica vem de literacy, que traduzido para o português significa literacia (Portugal) ou letramento (Brasil). Alguns autores no Brasil utilizam o temio letramento como sinônimo de alfabetização o que tem levado a uma fusão inadequada dos dois processos. Pesquisadores nessa área. dentre eles Tfouni (2006), Mamede c Zimmemiann, (2005) e Soares (2003, 2006), consideram a alfabetização e o letramento processos interdependentes e alertam para a 51 diferença entre os conceitos. Uma dessas diferenças seria a ênfase no uso social da leitura e escrita - letramento - e a aprendizagem do sistema de escrita - alfabetização. Ao longo de muito tempo, a alfabetização foi compreendida como mera aquisição de um código fundado na relação entre fonemas e grafemas. Em uma sociedade com alto índice de analfabetos, a aquisição das reduzidas práticas leitoras e de escrita e o simples conhecimento fonológico era permitido para diferenciar o alfabetizado do analfabeto. A globalização e a crescente complexidade das sociedades fazem surgir variadas práticas de uso da lingua escrita. O mundo letrado passa a exercer outros apelos sobre as pessoas e outras capacidades passam a ser necessárias. Assim, o final do século XX impôs aos países desenvolvidos e em desenvolvimento uma nova exigência: a leitura e a escrita não mais apenas como uma meta de conhecimento desejável, mas como uma condição para a sobrevivência e a conquista da cidadania. Nesse contexto de grandes transformações culturais, sociais, políticas, econômicas e tecnológicas, percebeu-se que não basta mais conhecer o alfabeto; algo mais além de ler e escrever passa a ser necessário. Assim, surgiu o novo fenômeno denominado "letramento" que significa engajar-se em práticas sociais letradas, respondendo aos apelos da sociedade grafocêntrica. O termo letramento, com o sentido que lhe é atribuído hoje, vem da palavra inglesa literacy. Soares (1998) afirma que um dos problemas relacionados aos estudos sobre letramento é a dificuldade de se chegar a um consenso universal sobre esse fenômeno. A autora acrescenta que essa dificuldade e impossibilidade devem-se ao fato de que o letramento cobre uma vasta gama de conhecimentos, habilidades, capacidades, valores, usos e funções sociais; o conceito de letramento envolve, portanto, sutilezas e complexidades difíceis de serem contempladas em uma única definição- Isso explica por que as definições de letramento diferenciam-se e até antagonizam-se e contradizem-se: cada definição baseia-se em uma dimensão de letramento que privilegia. (SOARES, 1998, p. 66) Letramento é um processo mais amplo que a alfabetização, de acordo com Kleiman (1995, p. 19): [...] É um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto uiTi sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos. As práticas específicas da escola, que forneciam o parâmetro de prática social segundo a qual o letramento era definido, e segundo a qual os sujeitos eva& classificados ao longo da dicotomia alfabetizado ou não-alfabetizado, 52 passam a ser, em função dessa definição, apenas um tipo de prática - de fato, dominante - que desenvolve alguns tipos de habilidades mas não outros, e que determina uma forma de utilizar o conhecimento sobre a escrita. Assim, o letramento vai além das práticas individuais de leitura e escrita, uma vez que trabalha com os aspectos sócio-históricos envolvidos no desenvolvimento dessas habilidades. Assim, diferentes culturas valorizam e aprendem diferentes fomias de letramento. Os variados letramentos na vida das pessoas representam tensões, misturam valores, novas identidades e reconciliam conflitos sobre mudanças de valores. "Existem muitos padrões de como o letramento é distribuído entre os participantes em diferentes relacionamentos com o outro, associado às diferentes identidades". (BARTON; HAMILTON, 1998, p. 186) Letramento não são apenas as habilidades de ler e escrever, tampouco estão liaados apenas à esfera do ensino; são fenôinenos sociais de escrita e de linguagem. Crianças adquirem língua e letramento no meio em que convivem (família, igreja, vizinhança, escola, clube, etc.), e a escola é o fóruin adequado de interação. De acordo com Kleiman (1995, p. 25), "a escola é, em quase todas as sociedades, a principal agência de letramento". A escola, a família, a igreja e a vizinhança têm orientações diferentes para o letramento. Todos os grupos possuem práticas sociais que dão origem a habilidades específicas ein suas crianças. Entretanto, apenas algumas dessas habilidades, culturalmente detenninadas, são privilegiadas na escola porque a língua e seu uso são resultados de forças sociais. Street (1995, p. 2) considera que "letramentos, como práticas sociais, são formalmente ligados ao uso da escrita, a qual se tomou um bem social indispensável para enírentar o dia-a- dia", quer seja nos centros urbanos, quer seja na zona rural. Essas práticas variam desde uma apropriação mínima da escrita até uma apropriação profunda. Nesse sentido, até os analfabetos estão sob a influência do que se convencionou chamar de práticas de letramentos, isto é, "processos histórico-sociais que não se confundeiii com a realidade representada pela alfabetização regular e institucional". (MARCUSCHl. 2004, p. 19) Além disso, letramentos são baseados em sistemas simbólicos usados para comunicação, por isso existem etn relação de troca com outros sistemas de infonnação. Nessa perspectiva, para refletir sobre o valor simbólico e constitutivo da leitura e da escrita em uma sociedade letrada, é preciso, confonne os novos estudos do letramento, considerar que a 53 leitura e a escrita só fazem sentido se imersas nas práticas sociais do contexto social em geral e da cultura em particular. No Brasil e em outros países, são intensas as discussões em tomo do letramento, ou seja, os usos da escrita e suas implicações para o contexto escolar. Tais discussões surgiram, inicialmente, como uma possibilidade de contrapor e inserir elementos que permitissem um avanço no debate sobre o conceito de alfabetização que, até então, preocupava-se apenas com a utilização do código lingüístico para o domínio da leitura e da escrita. Para além dos estudos na área da linguagem, podemos identificar trabalhos que promovem uma discussão sobre o letramento. Goulart (2001) e Soares (2002) apresentam reflexões importantes sobre o ensino- aprendizagem da língua escrita e sintonizam esse tema com a escola básica. Para Goulart (2001), a dinâmica social é diferente em suas múltiplas perspectivas. Na perspectiva cultural e das classes sociais, diversos valores são atribuídos ao conhecimento. Segundo a pesquisadora "as formas como esses conhecimentos se cruzam, aproximando-se e afastando-se, ao mesmo tempo, geram necessidades cada vez mais urgentes de se continuar repensando, entre muitas outras questões [...] a prática pedagógica discursiva" (GOULART, 2001, p. 5). Com base nas contribuições de Street (1995), Goulart (2001) admite que existem algumas questões polêmicas, como a dificuldade de conceituar letramento e a possibilidade da existência de letramentos, no plural. Já Soares (2002) propõe o uso do plural letramentos para enfatizar a idéia de que diferentes tecnologias de escrita geram estados ou condições naqueles que fazem uso dessas tecnologias em suas práticas de leitura e escrita. Para a autora, "[...] diferentes espaços de escrita e diferentes mecanismos de produção, reprodução e difusão da escrita resultam em diferentes letramentos". (SOARES, 2002, p. 156) Soares (2002) reafirma a amplitude do termo letramento mostrando que é recente sua introdução nas áreas da educação e das letras. A pesquisadora argumenta, no entanto, que há multiplicidade de ênfases na caracterização do fenômeno. Partindo das diversas ênfases e associando-se a elas sua própria conceituação. Soares (2002, p. 2) caracteriza o conceito de letramento como o estado ou condição de indivíduos ou de grupos sociais de sociedades letradas que exercem efetivamente as práticas sociais de leitura e de escrita, participam competentemente de eventos de letramento. O que esta concepção acrescenta [...] é o pressuposto que indivíduos ou grupos sociais que dominam o uso da leitura e da escrita e, portanto, têm as habilidades e 54 atitudes necessárias para uma participação ativa e competente em situações em que práticas de leitura e/ou escrita tem uma função essencial, mantêm com os outros e com o mundo que os cerca fonnas de interação, atitudes, competências discursivas e cogniti\'as que lhes conferem um detenninado e diferenciado estado ou condição de inserção em uma sociedade letrada". Como se vê, para a autora, o quadro em que se encontra o conceito de letramento oferece uma oportunidade favorável para tomá-lo mais claro e preciso. Isso porque, de acordo com Soares (2002, p. 146), "estamos vivendo hoje, a introdução na sociedade, de novas e incipientes modalidades de práticas sociais de leitura e de escrita, propiciadas pelas recentes tecnologias de comunicação eletrônica, o computador, a rede (a M'eb), a internet". Trata-se de um momento privilegiado para que se possa estabelecer uma discussão sobre as diferenças entre as práticas de leitura e escrita digitais e o letramento na cultura do papel, reiterando a associação entre letramento e língua escrita. A questão das práticas de letramento desenvolvida pelas camadas populares em suas mais diversificadas formas tem chamado a atenção de inúmeros pesquisadores, nos últimos anos, no Brasil. Constata-se que existem ainda muitos aspectos para serem compreendidos. A perspectiva adotada por grande parte dos pesquisadores tem por base o trabalho de Street (1995) que, conforme Kleiman (1999, p. 88). aponta: [...] os estudos do letramento sempre examinam questões de poder, pois visam entender como um detenninado conjunto de idéias, concepções e pressupostos sobre a escrita, de um detenninado grupo sociocultural. é reproduzido, imposto, subvertido, mas nunca utilizado de fonna neutra por outros grupos. Assim, nesses estudos tem-se apontado a necessidade de construir uma perspecti\'a crítica em relação ao letramento, especialmente nos países latino-americanos, tendo em vista as formas de distribuição e possibilidades de acesso aos saberes elementares nesses países. Ainda no contexto escolar, vem se buscando relacionar alfabetização e letramento, o que tem resultado na introdução do temio e possíveis práticas a ele relacionadas em documentos oficiais, em livros didáticos e em ações de formação continuada de professores da educação básica. Toma-se importante distinguir letramento escolar, que ocorre na escola e não é sinônimo de alfabetização, e letramento não escolar, que ocorre fora da escola, mas é também social, pois o contexto escolar é pai1e do contexto social. 55 No contexto escolar, esses eventos e práticas se tomam objetos de ensino e aprendizagem submetidos a uma organização sistemática, mediante processo de seleção de acordo com critérios pedagógicos, de contextos e atividades a desenvolver e a avaliar, visando alcançar um objetivo primordial: criar oportunidades de aprendizagem para o aluno. Ocorre, assim, a pedagogização do letramento, ou seja, um processo no qual práticas sociais de letramento se tomam seqüências didáticas, práticas de letramento a ensinar, posteriomiente, ensinadas, e, finalmente, adquiridas. Sobre essa questão, Soares (2003, p. 107-108) lembra que práticas de letramento a ensinar são aquelas que, entre as numerosas que ocorrem nos eventos sociais de letramento, a escola seleciona para tomá-las objetos de ensino, incorporadas aos currículos, aos programas, aos projetos pedagógicos, concretizadas em manuais didáticos; práticas de letramento ensinadas são aquelas que ocorrem na instância real da sala de aula, pela tradução dos dispositivos curriculares e programáticos e das propostas dos manuais didáticos em ações docentes, desenvolvidas em eventos de letramento que, por mais que tentem reproduzir os eventos sociais reais, são sempre artificiais e didaticamente padronizados; práticas de letramento adquiridas são aquelas de que, entre as ensinadas, os alunos efetivamente se apropriam e levam consigo para a vida afora da escola. Como se vê, letramento passa a integrar uma cultura especificamente escolar, entendida como certos eventos e práticas de letramento que, selecionados, organizados e didatizados, passam a constituir o objeto de ensino no contexto das escolas. (FORQUIN, 1993) As mais recentes perspecfivas de abordagem do letramento em países de língua inglesa, também incoiporadas em estudos brasileiros, vêm destacando, dentre os novos instrumentos de análise dois modelos de letramento, o autônomo em coníronto com o ideológico que serão apresentados nos tópicos seguintes. 56 2.1.1 Dimensão individual do letramenío: o modelo autônomo No modelo autônomo, práticas de leitura e escrita aparentemente neutras são trabalhadas desvinculadas do contexto social, como algo independente, valorizando o ato cognitivo em si, reforçando a divisão das pessoas, nelas envolvidos em dois grupos: letrados (superiores) e dominados (inferiores e dominados). O termo "autônomo" se refere ao fato de que a escrita é tomada, nessa visão, como um produto acabado, completo em si mesmo. Nesse modelo não se considera o contexto social ou cultural. Para Kleiman (1995), essa concepção é predominante e é justamente ela que legitima o ensino em massa. Além disso, tem o "agravante de atribuir o fracasso e a responsabilidade por esse fracasso ao indivíduo que pertence ao grupo dos pobres e marginalizados nas sociedades tecnológicas". (KLEIMAN, 1995, p. 23) Ao usar a expressão "modelo autônomo de letramento", Street (1984) concebe o letramento, independentemente do contexto social, uma variável autônoma cujas conseqüências para a sociedade podem ser derivadas do seu caráter intrínseco. Assim, c. autonomia refere-se ao fato de que a escrita seria completa em si mesma, ou seja, não estaria presa ao contexto de sua produção para ser interpretada. Street (1993) destaca que esse modelo recebeu muitas críticas, dentre as quais: con-elação entre a aquisição da escrita e o desenvolvimento cogniti\ o, dicotomização entre a oralidade e a escrita e atribuição de poderes e de qualidade intrínsecas à escrita e, por extensão, aos giupos letrados. Nesse sentido, o modelo autônomo discrimina a linauasem oral, apresentado de fonna subjacente à idéia de que a linguagem escrita é mais importante e que, portanto, quem domina a escrita é superior. O consen'adorismo do modelo autônomo atribuía ao aluno o fracasso escolar, pois o considerava incapaz de desenvolver os conhecimentos necessários para obter o sucesso e a promoção. Soares (1998, p. 68) afirma que nesse modelo da dimensão individual do letramento, a leitura é um conjunto de habilidades lingüísticas e psicológicas, que se estendem desde a habilidade de decodificar palavras escritas até a capacidade de compreender textos escritos. Essas categorias não se opõem, complementam-se; a leitura é um processo de relacionar símbolos escritos a unidades de sons e é também o processo de constniir uma inteipretaçào de textos escritos. 57 Também a escrita, na perspectiva da dimensão individual do letramento, é um conjunto de habilidades lingüísticas e psicológicas, mas habilidades fundamentalmente diferentes daquelas exigidas na leitura. Enquanto as habilidades de leitura estendem-se da habilidade de decodificar palavras escritas à capacidade de integrar informações provenientes de diferentes textos, as habilidades de escrita estendem-se da habilidade de registrar unidades de som até a capacidade de transmitir significado de forma adequada a um leitor potencial. (SOARES, 1998, p. 69) Constata-se que as práticas de uso da escrita na escola sustentam-se nesse modelo de letramento, considerado por muitos pesquisadores tanto parcial quanto equivocado.'^ A leitura e a escrita são tratadas como algo que não leva em conta o contexto de sua produção para ser interpretado. Esse modelo favorece o desenvolvimento lingüístico a pessoas de grupos letrados, mas representa uma ruptura, um abismo entre a escola e a vida fora dela. Nesses casos, a escrita não adquire um significado e passa a ser algo desconectado do cotidiano. Nesse modelo, as competências individuais, a responsabilidade pelo sucesso ou pelo fracasso, é de cada um. Kleiman (1995, p. 25) reforça ainda que, "na maioria das vezes, letramento e escolarização se dão simultaneamente, uma vez que a escola é, em quase todas as sociedades, a principal agência de letramento". E a escola, ao adotar o modelo individual ou autônomo, reafirma-se como instituição de manutenção, ao contrário de agente de transfonnação, que deveria ser seu papel. Como se vê, com a adoção desse modelo autônomo de letramento, a escola atribui o eventual fracasso escolar ao indivíduo. Para ela, o indivíduo não aprende a escrita porque pertence ao grupo de pobres e marginalizados. Esse modelo não é questionado pela sociedade. As pessoas constróem uma fé nos poderes do letramento escolar e, a partir dele, consideram- se incapazes de aprendê-lo. De acordo com Signorini (1995, 1998), essa concepção resulta no mito do letramento. É importante acrescentar que, nesse modelo, práticas de leitura e escrita são trabalhadas desvinculadas do contexto social, como algo independente, valorizando o ato cognitivo em si e as competências de ler e de escrever, reforçando a divisão das pessoas nelaS envolvidas em dois gioipos; letradas e iletradas. Cf: STREET, 1993, 1995; SOARES, 1998, 2003; ROJO, 2001 a, 2001b, 2009. 58 2.1.2 Dimensão social do letramento: o modelo ideológico O modelo ideológico de letramento não separa a oralidade da escrita como faz o autônomo. Para Street (1984),'^ as práticas de letramento (no plural) seriam social e culturalmente determinadas, o que eqüivale dizer que os significados específicos que a escrita assume para um grupo social dependem dos contextos e das instituições em que ela é adquirida e praticada. Assim, as práticas de letramento são aspectos da cultura e das estruturas de poder. É preciso observar, então, o processo de socialização das pessoas na construção de significado pelos participantes. O modelo ideológico trata o letramento como uma forma de apropriar-se da leitura e da escrita como prática social. Nesse modelo, as questões existentes na sociedade tomam-se objeto de reflexão para o sujeito, pois as práticas letradas são detenninadas pelo contexto social. Soares (1998, p. 74) lembra que letramento não pode ser considerado um 'instrumento' neutro a ser usado em práticas sociais quando exigido, mas essencialmente um conjunto de práticas socialmente construídas que envolvem a leitura e a escrita geradas por processos sociais mais amplos, e responsáveis por reforçar ou questionar valores, tradições e fonnas de distribuição de poder presentes nos contextos sociais. Nessa concepção, o indivíduo constrói sua identidade. Letramento é um conjunto de práticas sociais que envolvem a leitura e a escrita sócio-historicamente constituídas e que possibilitam o questionamento, o reforço ou a aceitação de valores, crenças e formas de distribuição de poder. Soares (1998) cita Paulo Freire como um dos primeiros educadores a realçar o poder "revolucionário" do letramento. Para Freire (1992, 2003), o papel do letramento é de libertação do homem ou domesticação, dependendo do contexto ideológico cm que ocon-e. Freire considera a natureza do letramento como inerentemente política e defende que seu principal objetivo deveria ser promo\'er a mudança social. Como se vê, letramento, no modelo ideológico, é ação social transformadora do homem como social. Faz das relações de poder e de domínio motivos de questionamento. A partir da década de 1980, às perspectivas psicológicas e histórica predominantes nos estudos e pesquisas sobre letramento somou-se uma perspectiva social e etnográfica (HEATH, 1983; STREET, 1984). Essa perspectiva se consolidou na década de 1990 sob a denominação New Liicracy Studies. 59 Envolve os aspectos social, político e ideológico. Street (1984) afirma que a verdadeira natureza do letramento constitui as formas que as práticas de leitura e escrita concretamente assumem em determinados contextos sociais, e isso depende, fundamentalmente, das instituições sociais que propõem e exigem essas práticas. E importante acrescentar, ainda, que o modelo ideológico não separa a oralidade da escrita como faz o modelo autônomo. Trabalha com práticas de letramento em um processo de socialização do indivíduo, no qual as práticas discursivas acontecem não apenas na instituição escolar, mas em todo e qualquer contexto no qual o indivíduo possa interagir; admite, ainda, a pluralidade das práticas letradas, valorizando-lhes o significado cultural e o contexto de produção. O modelo ideológico considera a pluralidade e a diferença, valorizando o aluno em si mesmo e em seu contexto sociocultural. As práticas são social e culturalmente detenninadas, sendo, portanto, múltiplas. Como a questão do letramento está intimamente ligado às práticas de leitura nas escolas brasileiras, na próxima seção se focalizará esse aspecto. Tendo em vista responder o primeiro objetivo deste estudo - conhecer as práticas de leitura desenvolvidas pelos professores e alunos na segunda fase do Ensino Fundamental em duas escolas da rede pública municipal. Toma-se importante retomar o modo como os modelos de leitura se traduzem nas práticas de ensino da leitura no contexto escolar. 2.2 A leitura e as teorias cognitivistas: os modelos de processamento Neste tópico, com base nos estudos de Kato (1985, 2004, 2007), Kleiman (1989, 2004), são apresentadas as principais concepções que fundamentaram o ensino da leitura nas escolas brasileiras. Esses estudos ser\'iram de base tanto para a elaboração de documentos oficiais, quanto para leitura crítica do trabalho pedagógico. A partir do século XIX até os dias atuais, houve três estágios em que o foco da leitura ou a maneira como se lê ou se encara a leitura mudou. Em determinado momento, deu-se ênfase ao autor do texto, que desempenhou papel central. O texto deveria significar o que o autor queria dizer. Essa concepção, por se apresentar muito fi"ágil, não se sustentou por muito 60 tempo. Com o advento do estruturalismo, o lugar central do autor passou a ser ocupado pelo texto, considerado como responsável e detentor do seu próprio sentido. Todavia, os textos se revelaram mais plurissignificativos. Isso fez com que a hipótese do texto, contendo o sentido, falhasse. Dessa forma, a questão foi transferida para o leitor, que é exatamente quem lê o que nem o texto diz e/ou que opta pelas coisas ditas num texto. Assim, o leitor passou à figura central, a ser o produtor do sentido e a preocupação com o sentido correto do texto foi abandonada. De acordo com Kato (1985), os estudos sobre leitura do ponto de vista da cognição começam a ser desenvolvidos no Brasil a partir das pesquisas sobre leitura instrumental em língua inglesa,'^ quando os professores constataram que as dificuldades de leitura dos alunos não se encontrava no desconhecimento da língua, mas partiam, no dizer da autora, de uma dificuldade em interagir com o texto. De acordo com Kato (2004) e Kleiman (2007), os modelos cognitivistas de leitura: o modelo ascendente (bottom-up), o modelo descendente {top-down) e o modelo interativo estão relacionados à dimensão individual de letramento. Nos dois primeiros modelos de processamento de leitura, o homem representa mentalmente o mundo utilizando estruturas mentais que desenrolam detenninados processos de tratamento que possibilitam atividades cognitivas complexas como as inferências, a comparação, a generalização. Já no modelo interativo, entende-se a leitura como um processo que pressupõe o uso do processamento ascendente e descendente agindo interativamente, cabendo ao leitor acionar diferentes estratégias para ativar o seu conhecimento. Esses modelos'^ serão explicitados no próximo tópico. Goodman, (1980); Singer e Rudell. (1980); Laberge e Samuels, (1980). dentre outro.s, são alguns exemplos de pesquisadores ingleses que voltaram sua atenção para os processos cognitivos subjacentes ao ato de ler. Kato (1985) explicita as estratégias ou esquemas utilizados pelo leitor para atingir seus objetivos na leitura. A ativação desses esquemas se faz de duas maneiras: ativação descendente, top-down (conceitos mais abrangentes, do todo à parte); ativação descendente hottom-iip (conceitos menos abrangentes, da pane para o todo). A diferença entre top-down e hottom-iip está também na direção conteúdo-forma; forma-conteúdo, respectivamente. Para a autora, a escolha do tipo de estratégia está sujeita a vários fatores, dentre aos quais a maturidade do leitor, a natureza do texto, o luíiar do leitor e o objetivo da leitura. 61 2.2.1 O modelo de processamento ascendente (Ijottom-up^ No modelo ascendente (bottom-up) proposto por Gought, citado por Kleiman (1989, 1996, 2004) o objetivo é descrever a seqüência do evento que acontece em um segundo de leitura, a fim de sugerir a natureza dos processos que unem esses eventos. A leitura é concebida como um processo seqüencial, linear e indutivo. O leitor que utiliza o processamento ascendente é aquele que constrói o significado com base nos dados do texto, fazendo poucas inferências: as informações vêm por input visual. Para Kato (1990, p. 50), "esse leitor é vagaroso e pouco fluente, com dificuldade de sintetizar as idéias do texto, pois não sabe distinguir o que é mais importante do que é meramente ilustrativo ou redundante". Dessa forma, a leitura é concebida como um processo de percepção e decodifícação em que o leitor usa indutivamente as informações visuais e lingüísticas. O texto é um objeto determinado e cabe ao leitor realizar um processo linear de análise e síntese do significado das partes para a compreensão do sentido. Kleiman (1989, 1992) aponta críticas em relação ao modelo ascendente. Primeiro porque o texto é considerado um conjunto de elementos gramaticais que independem do contexto em que estão inseridos. Segundo, porque as palavras, que possuem um significado único, devem ser decodificadas e compreendidas uma a uma pelo leitor para se chegar à mensagem do texto. Terceiro, porque o texto é pretexto para desenvolver uma série de atividades gramaticais. A autora aponta, ainda, que esse modelo privilegia a concepção autoritária de leitura que parte do pressuposto de que há apenas uma interpretação autorizada pelo texto e pelo autor: A análise de elementos discretos seria o caminho para se chegar a urn^ leitura autorizada, a contribuição do aluno e sua experiência é dispensável ® a leitura toma-se uma avaliação do grau de proximidade e distância entre ^ leitura do aluno e a interpretação 'autorizada'. (KLEIMAN, 1992, p. 17) Percebe-se que a adoção dessa postura deturpa o trabalho com leitura, pois não há leituras autorizadas num sentido absoluto. Há reconstrução, co-construção de significados mais ou menos adequados, segundo as intenções do leitor. O leitor, nessa concepção, seri^ apenas um decodificador da escrita, que deve aceitar a única interpretação possível do texto. 62 Com base nas contribuições de Kato (1985), pode-se afirmar que a escola, de modo geral, prioriza o processamento ascendente, pois centraliza sua atenção nos elementos lingüísticos num percurso que vai das ordens mais baixas às mais altas (sílaba, palavra, frase). Assim, de acordo com esse modelo, a leitura é concebida como um processo de percepção c decodificação. O texto escrito é tratado como um objeto determinado e cabe ao leitor realizar um processo linear de análise e síntese do significado das partes das infonnações lingüísticas para a apreensão do significado linear e literal do escrito. 2.2.2 O modelo de processamento descendente ('top-down^ No modelo de processamento descendente {top-down) ou psicolinguístico, a informação flui do leitor para o texto, sendo o leitor responsável por reconstioiir e recriar o significado da mensagem escrita por um autor. Nesse modelo, a leitura é um processo não linear, dinâmico na inter-relação de vários componentes utilizados para construir o sentido. E uma atividade essencialmente preditiva, para a qual o leitor precisa utilizar seu conhecimento lingüístico, conceituai e sua experiência de vida. Kato (2004, p. 51) descreve o leitor que faz uso desse modelo "como aquele que apreende facilmente as idéias gerais e principais do texto. É fluente e veloz, mas faz excesso de adivinhações, sem procurar confinná-las com os dados do texto, utilizando a leitura ascendente". O que toma difícil explicar nesse modelo é como o leitor consegue delimitar o papel do seu conhecimento prévio ou como infere con-etamente as intenções do autor quando não estão explícitas. De maneira contrária ao modelo ascendente, que se apoia basicamente na informação visual, o modelo descendente se apoia no conhecimento prévio e no acionamento de esquemas. Goodman (1967), citado por Kato (2004), define o processo descendente da leitura como um "jogo de adivinhações psicolinguístico", trata-se de um processo que se baseia principalmente no conhecimento do leitor, que irá reconstmír e recriar o significado do texto escrito, recorrendo a elementos que não estão explícitos no texto. Goodman (1967, 2003) considera que o conhecimento de mundo do leitor, sua cultura, seu conhecimento prévio, seu controle lingüístico, atitudes o esquemas conceituais são fundamentais para a compreensão da leitura. 63 Para ele, O leitor traz seu próprio significado para o texto e constrói um outro texto enquanto lê o texto. Assim, leitura é um processo dinâmico característico da transação entre o conhecido e o desconhecido. Fazer sentido é essencial para ler e é típico no processo de leitura em todas as linguagens. (GOODMAN, 2003, p.95) Esse processo de leitura implica a utilização de diferentes estratégias'^ ou um amplo esquema para obter, avaliar e utilizar informações que são aplicadas para compreender um texto. Todo o processo é controlado pelo leitor que, enquanto lê, constrói e reconstrói significados, num processo de acomodação de novas informações e adaptação do sentido em formação que é constantemente reavaliado e reconstruído com base em novas percepções. No modelo descendente de leitura, postula-se que o leitor de maneira intensiva o conhecimento prévio adquirido ao longo da vida como o conhecimento lingüístico, textual, de mundo. Por meio da interação entre esses diferentes conhecimentos é possível construir o sentido do texto. (KLEIMAN, 1992, 2004) Com base nessa perspectiva, entende-se que a compreensão de um texto será mais fácil se o leitor tiver maior conhecimento textual, pois o conhecimento de estmturas textuais e tipos de discurso contribuirá para as predições em relação ao sentido do texto. 2.2.3 O modelo de processamento ascendente/descendente ou modelo interativo A leitura no modelo interativo é vista como uma atividade essencialmente construtiva. A interação, portanto, não é aquela que se dá entre o leitor determinado pelo seu contexto e o autor, por meio do texto: há o inter-relacionamento do processamento ascendente ^ descendente. Essa interação se refere especificamente ao inter-relacionamento, hierarquizado, de diversos níveis de conhecimento do sujeito, desde o conhecimento gráfico até o conhecimento de mundo utilizado pelo leitor. Seeundo Kato (2004, p. 80), o leitor utiliza diferentes estratégias na leitura, dentre elas: o reconhecimento tarefa-'inicialização, estratégias de seleção, estratégias de predição, estratégias de inferência, confirmação hipóteses, coiTeção e finalização. Durante a leitura, essas estratégias se desenvolvem e se modificam. 64 Kato (2004) cita autores como Adams e Collins (1979) que argumentam em favor do modelo interativo, especificando que processamentos top-down e hottom-up deveriam ocoiTer em todos os níveis de análise simultaneamente, pois os dados necessários para usar esquemas de conhecimento são acessíveis por meio do processamento top-down e podem ser confirmados pelo processamento hottom-up. O primeiro tipo de processamento assegura que o leitor estará sensível à informação nova ou inconsistente com suas hipóteses preditivas do momento sobre o conteúdo do texto. O segundo ajuda o leitor a resolver ambigüidades ou a selecionar, dentre várias, as possíveis interpretações do texto. Para Kato (1985, 2007), o processamento interativo é utilizado pelo leitor maduro, pois é aquele que usa de forma adequada e no momento apropriado, os dois processos, ascendente e descendente, complementarmente. É o leitor para quem a escolha desses processos é já uma estratégia metacognitiva, isto é, o leitor é quem tem o controle consciente e ativo de seu comportamento. Essa linha teórica também é compartilhada por Kleiman (2007). Segundo a autora, no modelo interativo o leitor procura usar os dois tipos de estratégias e o leitor proficiente é aquele que sabe escolher a estratégia mais adequada segundo as exigências da tarefa, suas necessidades ou momento de leitura. Estabelecendo uma comparação entre o modelo descendente e o ascendente com o modelo interativo, percebe-se que o papel do leitor como sujeito cognitivo mudou significativamente. Passou de um analisador de input visual a um reconstrutor de significado. No entanto, as relações instituídas no processo de leitura não mudaram: a relação se estabelece entre o sujeito e o objeto. Kleiman (2007) defende o que denomina "perspectiva interacionista de abordagem da leitura". Para a autora, a leitura é vista como processo psicológico em que o leitor utiliza diversas estratégias baseadas no seu conhecimento lingüístico, sociocultural e enciclopédico. Tal utilização requer a mobilização e a interação de diversos níveis de conhecimento, o que exige operações cognitivas de ordem superior, inacessíveis à observação e demonstração, como a inferência, a evocação, a analogia, a síntese e a análise para levar a termo a leitura. Nesse sentido, Kleiman (2007) lembra que a aprendizagem é construída na interação de sujeitos cooperativos com objetivos comuns. Com base nas contribuições de Vygotsky, a autora lembra que ler é muito mais do que decodificar. Ler exige compreensão, interação, prática comunicativa com os pares para entender o que se lê. Assim, "Ao lemios um texto, qualquer texto, colocamos em ação todo o nosso sistema de valores, crenças e atitudes que 65 refletem o grupo social em que se deu nossa socialização primária, isto é, o grupo social em que fomos criados". (KLEIMAN, 2007, p. 70) De acordo com a autora, o professor de qualquer disciplina é um professor de leitura. Desse modo, espera-se que, conhecendo as características e dimensões do ato de ler, ele seja capaz de propor atividades significativas e envolva os alunos nelas e, portanto, mais próximo estará esse professor do objetivo de fomiação de leitores. Nessa perspectiva, quando os professores das demais matérias se envolvem com o ensino de leitura, como deveriam fazê-lo, as oportunidades de criar objetivos significativos para a leitura de diversos textos se multiplicam. As oportunidades de diversificação e ampliação do universo textual do aluno são ilimitadas, desde que a atividade de leitura seja deslocada de uma atividade meramente escolar, sem outra justificativa a não ser cumprir programa, até uma atividade para cujo desenvolvimento e realização a leitura serviria como instrumento importante. (KLEIMAN, 2007, p. 52) Entre as idéias adotadas por Kleiman (2007) estão as estratégias de leitura que são operações regulares para abordar o texto. "Essas estratégias podem ser inferidas a partir da compreensão do texto, que por sua vez é inferida a partir do comportamento verbal e não verbal do leitor" (KLEIMAN, 2007, p. 49). Isto é, do tipo de respostas que ele dá a perguntas sobre o texto, dos recursos que ele faz, de suas paráfrases, como também da maneira como ele manipula o objeto: se sublinha, se apenas folheia sem se deter em parte alguma, se passa os olhos rapidamente e se relê, por exemplo. A autora classifica as estratégias do leitor como cognitivas e metacognitivas. As estratégias cognitivas de leitura seriam operações inconscientes do leitor que ele realiza para atingir algum objetivo de leitura. São chamadas, também, de automatismos da leitura. Já as estratégias metacognitivas seriam as operações, realizadas com algum objetivo em mente, sobre as quais o leitor tem controle consciente e é capaz de dizer e explicar sua ação. Elas implicam a autoavaliação dos objetivos da leitura e da compreensão do texto lido. O leitor que tem esse controle saberá dizer para que ele lê e se entendeu ou não um texto lido. Nessa '>0 perspectiva, Kleiman propõe o modelamento de estratégias metacognitivas" mediante a formulação de objetivos prévios à leitura e a elaboração de predições sobre o texto. Constata-se que o contexto escolar tem se apropriado de modo limitado da discussão das estratégias de leitura efetuada nessa abordagem, divulgadas em diferentes cursos de As noções de estratégia cognitiva e inetacognitiva de leitura foram reformuladas em Van Dijk e Kintscii (1983). Kato (1985, 1986) e Kleiman (1989. 2007) discutem as bases para um modelo estratégico de leitura. 66 formação de professores, com destaque para as estratégias de formulação de hipóteses, para o valor do conhecimento prévio do leitor e para as inferências que o leitor fará a partir com base nas marcas formais do texto. 2.3 A dimensão social do letrameiito: a concepção de leitura nas vertentes discursiva e enunciativo-discursiva As críticas ao modelo interacional da leitura, ainda centrado na objetividade do texto, e a introdução de discussões teóricas no âmbito da análise do discurso vão desenvolver, no contexto brasileiro, outra abordagem teórica: a vertente discursiva. Orlandi (1988, p. 58) lembra que, "os sentidos se encontram não no texto, mas são determinados pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico em que as palavras são produzidas". Assim, nesta abordagem, a leitura se caracteriza como um processo discursivo, em que o texto não tem sentido predetenninado. Orlandi (1988) afínna que o modelo interativo, apesar da valorização dada ao pape! do leitor e da ênfase dada ao caráter interacional da leitura, ainda coloca o texto como elemento central no processo de leitura, cabendo ao leitor recuperar seu sentido e as interações do autor mediante suas marcas formais e a checagem das hipóteses levantadas. Portanto, para as teorias da vertente discursiva e enunciativa, a leitura é compreeendida como linguagem e, como tal, constituída e constitutiva nas/das práticas de interação social. Como a determinação dessas práticas é de natureza histórica e cultural, assumem significados distintos para cada gi-upo social e o foco do estudo desloca-se para as questões relativas ao letramento. Diversas teorias inscrevem-se nesse paradigma. Neste estudo, optou-se pela apresentação da vertente discursiva de linha francesa, com base nos estudos de Orlandi (1988) e Possenti (2001), bem como pela apresentação da vertente discursiva enunciativa bakhtiniana (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929; BAKHTIN, 1952-1953/1979), à qual este trabalho está vinculado, tendo em vista as contribuições que essa vertente apresenta para a construção de um projeto pedagógico que tenha a leitura como um dos eixos norteadores da aprendizagem. Para tanto, também tomam-se como referência as contribuições de Geraldi (1984, 1991), Rojo (2001a, 20001b, 2002, 2005, 2004), Jurado (2003) e Lodi (2004). 67 2.3.1 A leitura para a vertente discursiva O 1 A análise do discurso" (AD), como seu próprio nome indica, interessa-se pelo discurso. De acordo com Orlandi (2007, p. 15), "o discurso é palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando". Desse modo, na análise do discurso procura-se compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história. Por meio da análise do discurso, pode-se conhecer aquilo que faz o homem um ser especial com sua capacidade de dar sentido às coisas e significar-se. Desse modo, a análise do discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social. Para Orlandi (2007, p. 15), "essa mediação que é discurso, toma possível tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele vive". Nessa abordagem, a leitura se caracteriza como um processo discursivo, em que o texto não é tomado como unidade com sentido preestabelecido, já que os sentidos se encontram não no texto. "Os sentidos são determinados pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico em que as palavras são produzidas". (ORLANDI, p. 1988, p. 58) A vertente discursiva tem suas bases filosóficas históricas em Foucault (1971, 1987) 6 na filosofia da diferença. O objetivo da análise do discurso é a linguagem e os processos de constituição do fenômeno lingüístico. Nessa perspectiva, o texto é considerado como unidade complexa de significado, consideradas as condições de sua produção e a leitura é definida como um processo discursivo, onde atuam dois sujeitos - o leitor e o autor - que produzem sentido em um momento sócio-histórico concreto. (ORLANDI, 1988, p. 21) Nessa abordagem, na concepção de leitura considera-se a análise do discurso e a desconstrução como um processo discursivo no qual se inserem sujeitos produtores de sentido - o autor e o leitor -, ambos sócio-historicamente determinados e ideologicamente O nascimento da Análise do Discurso (AD) está relacionado à busca de respostas à questão de como ler, formulada inicialmente por Allhusser. As discussões nesse campo cresceram com Michel Pêcheux em seU projeto de teoria de leitura não subjetiva. (POSSENTI, 1999 e 2001) 68 constituídos. É o momento histórico-social que determina o comportamento, as atitudes, a linguagem de cada um e a própria configuração do sentido. Portanto, nessa abordagem, discurso é entendido como o conjunto de enunciados possíveis numa dada fòrniação discursiva, em que os sujeitos determinam as condições de exercício da função enunciativa, ao mesmo tempo em que são por elas determinadas. A linguagem é compreendida como uma série infinita de jogos convencionais, cujas regras são partilhadas por uma comunidade cultural, interpretativa, que determina a produção do sentido. O texto ganha sentido por meio dos sujeitos submersos num detenninado contexto sócio- historico (ideológico) responsáveis pelas condições de produção, que constituem o imaginário discursivo que habita o sujeito e que detemiina o seu dizer. O sentido é determinado pelas diferentes posições ideológicas e formações discursivas nelas inscritas, sem as quais não existiria o discurso. Assim, para Oriandi (1988, p. 58), as palavras recebem, pois, seu sentido da fomiação discursiva na qual são produzidas [...]. A fonnação discursiva é o lugar da construção do sentido e da identificação dos sujeitos. É nela que todo sujeito se reconhece (em sua relação consigo mesmo e com outros sujeitos) e aí está a condição do consenso intersubjetivo (a evidência de que eu e tu soinos sujeitos) em que ao se identificar, o sujeito adquire identidade. Nessa perspectiva, as diferentes leituras realizadas pelo sujeito estão ligadas aos diferentes momentos de sua vida. Assim, o sentido de um texto, por ser produzido por um sujeito em constante mutação, não pode ser o mesmo. Tomando como referência as contribuições de Oriandi (1988), é importante considerar que toda leitura tem sua história, ou seja, o sentido de um texto varia de acordo com as condições em que se lhes atribui sentidos. Oriandi (1988) critica as práticas de leitura na escola e defende a sistematização de alguns processos para ensino de leitura que permitam aos alunos a construção das suas histórias de leituras e resgate da história dos sentidos dos textos. A autora lembra que o conceito de autoridade veiculado pela escola censura as leituras possíveis dos alunos e tal postura "prejudica e impede a possibilidade de se instaurar o sujeito-leitor". (ORLANDl, 1988, p. 45) Outro reducionismo criticado pela autora está ligado ao fato da escola realizar a reflexão sobre leitura ao seu caráter técnico. Esse reducionismo, presente nas relações de acesso ao conhecimento, dá-se também na relação escola/leitura, por exemplo, mediante o fato de que "na constituição sujeito-leitor/escola tem-se excluído a relação dele com outras 69 linguagens que não a verbal (a da música, da pintura, do cinema, da computação, etc.) e sua prática de leitura não-escolar". (ORLANDI, 1988, p. 47) Para a autora, a leitura pode ser entendida como "atribuição de sentidos", sendo utilizada indistintamente tanto para a escrita como para a oralidade. Assim, a leitura é uma construção ativa, um fenômeno complexo, composto tanto de indagações e abordagens quanto de teorias e concepções sobre sua aprendizagem. Orlandi (1988) lembra que, de modo geral, o professor está preso ao livro didático porque constitui um livro de respostas prontas e óbvias que acaba tomando uma autoridade para ele. A autora não aconselha a espontaneísmo, tampouco o controle total sobre os procedimentos pedagógicos. O que propõe é o diálogo, a interação entre o aluno e o professor na construção da leitura. Ela critica, ainda, procedimentos de leitura escolares que tomam como base o que é fornecido pelos livros didáticos, ou seja, o que está pronto. Complementa que o professor precisa lembrar-se de que o conhecimento prévio do aluno e suas histórias de leitura não são necessariamente iguais à dele, e deve também colocar desafios á compreensibilidade do aluno, dando-lhe condições de avançar no processo de atribuição de sentidos. Possenti (2001) também considera que, na leitura, os sentidos são construídos por meio das relações que o texto estabelece com outros textos existentes, possíveis oU imaginários, e esse é, também, um dos motivos pelos quais o sentido não se encontra presente no texto: [...] Aprendemos a nunca supor que o texto fornece todas as condições de sua leitura (aprendemos sempre a supor que, mesmo no domínio textual oU até mesmo no do enunciado do texto mais restrito, é necessário acionar mais de um fator relevante - considerar os pressupostos, a intertextualidade) [...]"■ (POSSENTI, 2001, p. 25) Cabe acrescentar, ainda, que para a análise do discurso a leitura pode ser abordada por duas vertentes. A primeira centra-se nos aspectos sociais de circulação dos textos. Suas questões relacionam-se a "quais textos circulam, em quais espaços, em quais épocas e pof quais razões" (POSSENTI, 2001, p. 20). Já a segunda vertente privilegia o sentido. Seu foco está voltado para o "modo de significação do discurso considerados aspectos como o implícito, a opacidade da língua, a relação dos discursos com seu exterior". (POSSENTI, 2001, p. 22) Como visto, uma das contribuições da análise do discurso foi entender que "a leitura não é a leitura de um texto como texto, mas como discurso, isto é, na medida em que é 70 remetido às suas condições, principalmente institucionais, de produção" (POSSENTI, 2001, p. 24). Além disso, à análise do discurso atribui-se outra tarefa: a de dar conta dos percursos dc quem lê e como lê, independentemente de uma leitura ser ou não adequada do ponto dc vista de uma instituição, por exemplo. Trata-se, explicitamente, de considerar que não é suficiente apenas conhecer a língua para se ler um texto, mas que ele, de fato, pode permitir mais de uma leitura. Para Possenti (2001), cada uma dessas razões mostra como um texto pode, alternativamente, ser associado a outros textos já lidos e com os quais os leitores mantêm relações diversas (de crença, de ideologia, de conhecimento, etc.). 2.3.2 A leitura para a vertente enunciativa baklitiniana Neste tópico, serão abordados os conceitos fundamentais do pensamento dc Bakhtin e seu Circulo," que embasam esta pesquisa sobre as práticas de leitura no contexto da sala de aula. Mikhail Bakhtin (1920-1930/1979), pesquisador russo que. no início do século XX. dedicou-se aos estudos da linguagem e da literatura, afimia que o sujeito se faz na linguagem mediante sua inserção na vida social. Assim, cabe destacar que não há enunciação fora de uma cadeia de comunicação verbal, assim como não há existência humana fora desse diáloízo incessante com o mundo e com os outros. Desse modo, o ser, para ele, se funda mediante o outro. Não há como existir na categoria do eu-para-mim na dimensão do sujeito cnceiTado cm si mesmo. Nesse sentido, a pluralidade do humano está no complemento que cada um representa para o outro. Identificar-se com o outro, ver o mundo pelos olhos do outro e segundo seus valores; colocar-se no lugar do outro, sem deixar de retomar ao eu com o intuito de dar ao outro seu acabamento, de completar-lhe o horizonte; tudo isso nos remete à alteridade como condição indispensável para a constituição da subjetividade. "É a partir do outro que [...] tentamos dar-nos vida e forma". (BAKHTIN, 1920-1930/1979, p. 52) 22 Bakhtin pertencia a um círculo de intelectuais e de artistas dentre os quais se encontravam Marc Chaiiall. Sollertinsky, V. N. Volochinov e P. N. Medviédiev. Esse circulo foi um "espaço" de idéias inovadoras, niãma época de muita criatividade, particularmente nos domínios da arte e das ciências humanas (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992, p. 11) 71 Bakhtin/Volochinov (1929/1992) aponta para a dimensão discursiva da comunicação, salientando que é no processo de interação social que a consciência se desenvolve, ao se impregnar de conteúdo ideológico, ou seja, da interação semiótica de um grupo social. Segundo o autor, esse processo aparece de maneira mais clara e completa na linguagem, pois a palavra é um fenômeno ideológico por excelência e o modo mais puro e sensível de relação social, estando presente em todos os atos de compreensão e de interpretação. Assim, concebe a língua como uma prática viva, na qual "a consciência lingüística do locutor e do receptor nada tem a ver com um sistema abstrato de formas normativas, mas apenas com a linguagem no sentido de conjunto dos contextos possíveis de uso de cada forma particular". (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992, p. 95) Assim, para o locutor, a construção da língua está orientada no sentido da enunciação da fala. levando em consideração, também, o ponto de vista do receptor, compreendendo sua significação numa enunciação particular, ou seja, num contexto concreto da interação verbal Assim, a enunciação é considerada de natureza social e constitui-se no produto do ato de fala, bem como na unidade básica a ser estudada. Nessa dimensão discursiva da comunicação, um primeiro conceito considerado de fundamental importância nesta pesquisa é o dialogismo, considerado por Bakhtin como a propriedade básica da linguagem, uma vez que pressupõe a presença do interlocutor, decorrendo desse raciocínio uma outra categoria importante do pensamento bakhtiniano, a compreensão responsiva ativa que, segundo Cardoso (2000, p. 16), para que haja compreensão, independente do grau de participação efetiva do interlocutor, há sempre uma atitude responsiva ativa, que tanto pode se materializar como um ato verbal ou não verbal, ou mesmo pode permanecer em suspenso por um certo tempo até que seja ativado no discurso ou no comportamento do ouvinte. A respeito da subjetividade do enunciado, Bakhtin (1952-1953/1979) estruturou a teoria de gêneros do discurso, segundo a qual cada campo de utilização da língua elabora tipos relativamente estáveis de enunciados. Considera o dialogismo no processo comunicativo, ou seja, analisa a dialogia entre ouvinte e falante como um processo de interação ativa. Segundo Bakhtin, a relação valorativa do falante com o objeto do seu discurso determina a escolha dessas formas genéricas na constmção do seu enunciado. E por isso qu^ Machado (2005, p. 158) afirma: 72 Quanto maior o conhecimento dessas formas discursivas maior a liberdade de uso dos gêneros: isso também é manifestação de uma postura ativa do usuário da língua para efeitos comunicativos e expressivos. Vale observar que a própria "entoação expressiva" é uma articulação específica do enunciado e não pode ser cogitada fora dele. É isso que confere ao gênero discursivo o caráter não de uma forma lingüística, mas de uma forma enunciativa que depende muito mais do contexto comunicativo e da cultura do que da própria palavra. Ao considerar a interação entre professores e alunos nos eventos de letramcnto das disciplinas curriculares, identificou-se outro conceito bakhtiniano importante. Tomando como objeto de investigação o romance, Bakhtin constrói o conceito de polifonia que se relaciona com o conflito e eqüivale à libertação do indivíduo (sujeito de sua própria consciência). Nesse sentido, a abordagem de linguagem bakhtiniana confere a esta pesquisa papel fundamental para compreender as trocas discursivas que pcmieiam as discussões sobre uma concepção de leitura crítica do professor de todas as áreas do conhecimento. Torna-se evidente o papel da escola como espaço social privilegiado para a construção dos processos de ensino- aprendizagem, sobretudo no que se refere às questões de linguagem. A teoria enunciativa bakhtiniana"^ fundamenta-se numa visão sociológica/marxista clássica, na qual o eu e os outros constituem-se mutuamente nas relações que estabelecem no discurso, ou seja, o discurso do sujeito situa-se em relação aos discursos dos outros, sempre atravessados por outros discursos, social e historicamente constituídos. A questão do dialogismo está no cerne das idéias bakhtinianas. Desde as discussões sobre a natureza da linguagem, o Círculo de Bakhtin já defende que esta nasce da relação social. Na perspectiva da teoria bakhtiniana, a origem e o desenvolvimento da linguagem se encontram na organização sociopolítica e econômica da sociedade. A linguagem é o resultado de atividades humana coletiva, cujas criação e representação são de natureza social. O que a constitui é o fenômeno social da interação social, que se concretiza por meio de enunciações. Com o princípio do dialogismo, Bakhtin postula a produção e a compreensão de todo enunciado no contexto dos enunciados que o precederam e no contexto dos enunciados que o seguirão; assim, cada enunciado ou palavra nasce como resposta a um enunciado anterior e espera, por sua vez, uma resposta: "Cada enunciado é dirigido para uma resposta e não pode 23 A teoria enunciativa bakhtiniana distancia-se de algumas noções de base da análise do discurso. Os conceitos de dialogismo e de plurilinguismo, centrais eni seu arcabouço teórico, determinam, também, um distanciamento das noções de interícxlucilidacíc, interdisciirso e cie cfciios de sentido. Nelas são convergentes o caráter sócio-histórico da linguagem, a noção geral de que o texto só existe como enunciado na interação verbal, nas relações sociais. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992) 73 escapar da profunda influência do enunciado que ele antecipa como resposta". (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992, p. 280) Para Bakhtin (1952-1953/1979, p. 293), a palavra não é monológica, mas plurivalente; o dialogismo é uma condição característica do sentido; "Em cada palavra há vozes, vozes que podem ser infinitamente longínquas, anônimas, quase despersonalizadas". Em seu desenvolvimento, o sujeito vai incorporando as palavras do outro; estas, por meio da intemalização e de sua reorganização interna, vão se transformando em palavras próprias- alheias. Esse teórico inclui na descrição da linguagem todos os fatores que vão além das palavras e que têm profunda relação com o significado delas. Para ele, ao centrar a palavra fora dos contextos em que foram utilizadas, perde-se o sentido. O único meio de significar é no diálogo, na troca entre locutor e ouvinte. Assim, sua investigação está centrada na comunicação, na enunciação entre pessoas. As enunciações, portanto, constituem o produto das interações verbais em contextos sociais. Como produtores de contextos organizados histórica e socialmente, os enunciados estão sempre em contato como outros enunciados, dialogando com eles: O enunciado existente, surgido de maneira significativa num determinado momento social e histórico, não pode deixar de tocar os milhares de fíos dialógicos existentes, tecidos pela consciência ideológica em tomo de uni dado objeto de enunciação, não pode deixar de ser participante ativo no diálogo social. Ele também surge desse diálogo como seu prolongamento, como sua réplica [...]. (BAKHTIN, 1934-1935/1975, p. 86) Como produtos das interações verbais, elos na cadeia da comunicação verbal - ligados a outros elos que os antecederam e que os seguirão -, os enunciados também trazem, em sua natureza, a dialogicidade: respondendo a outros enunciados na cadeia de comunicação, também são elaborados com base na apreciação valorativa de um locutor sobre oS interlocutores e sobre os temas, em razão dos quais são feitas todas as escolhas que oS comporão - do gênero e de sua forma composicional, tema e estilo. Baseando-se nas contribuições de Bakhtin, Jurado (2003, p. 72-73) destaca a naturez^ dialógica da linguagem, Quando falamos/escrevemos, essa fala é sempre orientada como resposta para o dizer do outro que veio antes do meu - portanto, é uma réplica - S' como tal, passível de ser respondido pelo dizer que virá depois do meu. í essa mesma a natureza da linguagem; ser dialógica. E esse o fluxo compreensão verbal. Essa alternância dos sujeitos impõe fronteiras para " enunciado, que para poder ser respondido deve receber um acabamento 74 constitui o todo do enunciado. Essa noção do todo é que nos dá a possibilidade de resposta. O todo do enunciado, segundo o autor, não é uma entidade de sentido. Ele é detemiinado pelo tratamento exaustivo de objeto de sentido, pelo intuito (o querer dizer do locutor) e pelas formas típicas de estruturação do gênero no acabamento. Considera-se, também, a posição defendida por Bakhtin (1952-1953/1979) no que diz respeito à compreensão de um enunciado. Segundo o autor, os enunciados orais e escritos constituem a forma pela qual o emprego da língua se efetua. Ele defende que os elementos conteúdo temático, estilo e construção composicional,"'^ indissoluvelinente liuados ao enunciado, são delimitados pela especificidade de detemiinada esfera/campo, apontando os gêneros do discurso, que são tipos relativamente estáveis de enunciados. Bakhtin afímia que a compreensão do enunciado é de natureza responsiva, ou seja, o ouvinte e/ou o leitor ocupam posição responsiva em relação ao discurso, concordando ou discordando dele, completando-o, aplicando-o ou preparando-se para usá-lo, etc. Bakhtin (1952-1953/1975) desenvolve o conceito de compreensão ativa.""*^ Para ele. a compreensão do sentido da evolução é o que se acha na base da responsividade, no processo de interação verbal. O ato de compreensão é uma resposta ativa, uma vez que introduz o objeto da compreensão num novo contexto - o contexto potencial de resposta. Assim, toda enunciação compreende uma resposta a algo. A palavra vai sempre se diri^ir a um interlocutor. E uma ponte que une, em dois extremos, locutor e interlocutor. É nesse dois extremos que a palavra "ponte" assenta as suas fundações. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992) Cabe acrescentar que Bakhtin entende a existência humana como ativa, ou seja, ocupamos espaço e tempo e somos modificados pelo outro que, por sua vez, também se modifica e é modificado por outros. Portanto, para Bakhtin, a concepção responsiva é uma atividade dialógica. O diálogo está na base de toda comunicação verbal, qualquer que seja o seu tipo, como diálogo entre interlocutores e entre discursos. 24 Bakhtin (1952-1953/1979) apresenta o conceito de gênero do discurso considerando-os tipos relativamente estáveis de enunciados. Segundo o autor, os diferentes gêneros se caracterizam por três aspectos Usados entre si: o conteúdo temático, que diz respeito aos temas que os textos costumam abordar e ao tratamento mais usual dados a esses temas; o estilo, que se refere à escolha dos elementos da microestrutura textual, ou seja, ás escolhas sintáticas e lexicais mais usuais: e a construção composicional, que poderia ser entendida como a forma como o texto se organiza. Bakhtin defende que a "compreensão é uma forma de diálogo que está para a enunciação como uma réplica está para outra no diálogo" (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992, p. 132). Assim, compreender é contrapor à palavra do locutor uma contrapalavra. Para ele, a significação só existe no processo de compreensão ativa e responsiva. 75 Lodi (2004), em seus estudos sobre a vertente enunciativa, mostra que o arcabouço teórico bakhtiniano é fundado no dialogismo e, neste, sujeito e linguagem caminham sempre em direção à diversidade, à multiplicidade. Assim, Compreender um enunciado é, portanto, adotar uma atitude responsiva ativa, de constante colaboração, que ocorre desde o início do discurso; significa orientar-se em relação à enunciação de outrem encontrando seu lugar adequado no contexto correspondente. Esta atitude responsiva pode materializar-se numa resposta oral, realizar-se através de um ato, ou pode permanecer por um certo período de tempo uma compreensão responsiva muda, cedo ou tarde, se mostrará no comportamento ou no discurso do ouvinte. (LODI, 2004, p. 80) Nessa relação dialógica estabelecida entre os interlocutores, o locutor é também respondente de discursos anteriores, diz respeito tanto ao discurso oral como ao escrito. Portanto, os conceitos de dialogismo, plurilinguísmo e polifonia da teoria bakhtiniana, demonstram a existência de um passado discursivo, ou seja, toda palavra, toda enunciação já foi falada, contestada e avaliada por outrem. A compreensão e a atitude responsiva, para Bakhtin/Volochinov (1929/1992), estão em constante elaboração durante o processo de leitura e se realizam por meio do enunciado que o autor denomina de alternância dos sujeitos falantes e acabamentos. Portanto, na concepção enunciativa, a leitura é entendida como um processo de compreensão ativa no qual os diversos sentidos em circulação no texto são instituídos por meio da relação dialógica estabelecida entre autor e leitor, entre leitor e texto e entre a multiplicidade de linguagens sociais que permeiam essas instâncias. Nessa perspectiva, leitura é um processo dialógico qufi promove um encontro entre discursos e enunciados. Nesse contexto, os leitores constróem oS sentidos dos textos. Assim, a vertente enunciativo-discursiva proposta por Bakhtin e seu Círculo vê ^ leitura como um ato dialógico e concreto. Dentre suas características, destacam-se: o carátef sócio-histórico da linguagem, a noção de texto como enunciado na interação verbal e a leitura como ato social. Um grupo de pesquisadores, dentre eles Gee (1999, 2001); Geraldi (1997); Brait (1997, 2001, 2005); Cafiero (2005) e Rojo (2001a, 2001b, 2002, 2004), revisita conceitos bakhtinianos que contribuem para a discussão da leitura como prática social e como process" de coconstnição de sentidos, no qual autor e leitor participam de situações enunciativas. Eii' sintonia com a perspectiva bakhtiniana destacam que o texto só existe na relação leitor ^ 76 autor. Leitura é interação. O autor construiu o seu texto no diálogo com outros tantos textos e o leitor elabora sua compreensão tendo como suporte as contribuições do autor. Como ato polifônico e dialógico, a leitura implica conteúdo e processo. O sentido da leitura é construído nessa relação. Nessa linha de reflexão, a base de análise é a teoria do discurso, para quem o texto é um objeto de significação - enunciado e está estreitamente ligado a um contexto histórico, social e cultural. Assim, um texto é sempre dialógico e dialético. Um texto é um todo que se constitui de outros enunciados com os quais dialoga e implica sempre uma resposta. Ler é dialogar com o autor, com outros enunciados e vozes, construindo outro texto, produzindo sentidos a partir de uma atitude responsiva diante da leitura."^ À luz dessa perspectiva. Soares (1988, p. 1) lembra que a leitura é uma interação verbal entre indivíduos sociahnente determinados: o leitor, seu universo, seu lugar na estrutura social, suas relações com o mundo e com os outros; o autor, seu universo, suas relações com o mundo e com os outros; entre os dois: enunciação, diálogo? Como se vê, leitura é construção ativa. E no processo de interação desencadeado pela leitura que o texto se constitui. Assim, o domínio da leitura e da escrita não se limita à posse de habilidades individuais, implica também, e talvez principalmente, um conjunto de práticas sociais associadas com a leitura e a escrita, efeti\'amenle exercidas por pessoas em um contexto social específico. (SOARES, 1994, p. 36) A autora vê o domínio da leitura e da escrita não apenas coino uma condição social, mas como uma prática social. Nesse sentido, o ato de ler é produzido por leitores sócio- historicamente constituídos. Conclui-se que ler é entrar em diálogo com as próprias palavras internas e com a palavra dos outros, construída durante a história de cada um. Ler é, também, construir sentidos com base em um processo responsive ativo, numa relação dialógica estabelecida '^1 ' ' como o pluralismo social em circulação no texto." Portanto, leitura é um processo complexo, por meio qual o leitor procura constioiir um ou mais sentidos, fazendo para isso uso de seus conhecimentos lingüísticos e de mundo, utilizando, também, as marcas textuais deixadas peló Cf. Geraldi (1984, 1991); Rojo (2001a , 2001b, 2004 e 2009); .Turado (2003) e Lodi (2004). " Cf. Rojo (2001a, 2001b, 2002, 2004); .Jurado (2003) e Lodi (2004). 77 autor. O texto é fruto de um processo comunicativo, a sua compreensão implica considerações sobre quem fala, o que, para quem, com que objetivo e sobre quais condições. Recentes pesquisas, como as de Rojo (2001a, 2001b), Jurado (2003), Lodi (2004), inscritas no âmbito dos estudos sobre letramento e fundamentadas nos pressupostos teóricos da teoria da enunciação e dos gêneros de discurso de Bakhtin e seu Círculo, consideram a leitura como ato interlocutivo, implicando sempre uma compreensão responsiva ativa na construção dos sentidos. Essas pesquisas foram desenvolvidas no contexto da sala de aula, buscando compreender a leitura em momentos e situações diversas do espaço escolar. Rojo (2001 a, 2001b) coordenou um projeto de pesquisa aplicada que objetivou investigar, descrever e analisar as práticas de linguagem e os gêneros do discurso em circulação numa escola de Ensino Fundamental e Ensino Médio da rede pública de São Paulo em todos as áreas acadêmicas do conhecimento [Língua Portuguesa, Ciências (Biologia, Química e Física), Estudos Sociais (Geografia e História] e Matemática de modo a poder, embasadamente atuar na formação de professores no campo de ensino da língua materna e a disponibilizar materiais de transposição didática adequados. Jurado (2003), também, realizou estudo sobre o letramento no Ensino Médio. A autora analisou dois níveis de transposição didática de saberes produzidos sobre prática de leitura. No primeiro nível, os documentos oficiais que apresentam os organizadores do conteúdo do ensino da língua/letramento - os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCENEM) - e a proposta da escola; e, no segundo, material didático utilizado pela escola e os exames dos SAEB e ENEM. Nas conclusões, destacam-se os resultados do desempenho dos alunos egressos do Ensino Médio nas provas dos sistemas de avaliação e a necessidade de articular as novas teorias a um fazer pedagógico que favoreça a formação de um leitor responsivo. Lodi (2004) abordou as práticas de leitura realizadas por um grupo de surdos adultos na interação com textos escritos em Português, de diferentes gêneros discursivos, mediante interações discursivas em Libras.' A autora apresentou uma visão histórica das principais teorias de leitura, que vão dos modelos de processamento às vertentes discursivas e enunciativas. Nos resultados, destacou-se o valor educacional das Libras no espaço das oficinas, uma vez que esse fato permitiiu que os sujeitos realizassem uma leitura responsiva e dialógica. Língua Brasileira de Sinais. 78 As implicações da visão bakhtiniana da sala de aula para a pesquisa são várias, sendo que, em geral, todas se enveredam pela metodologia etnográfica e interpretativa."'^ As implicações se baseiam num conceito de sala de aula como contexto ideologicamente constituído por múltiplos.discursos conflitantes. Nessa perspectiva, os postulados de Bakhtin são importantes para esta pesquisa porque vão se contrapor a toda uma corrente de práticas ligadas ao modelo autônomo de letramcnto e à visão de leitura como extração de sentido literal do texto e que influenciam as práticas de leitura presentes na escola. Na visão bakhtiniana, a sala de aula pode ser vista como um fenômeno social e ideologicamente constituído - ou seja, uma arena de conflito e vozes e valores mutáveis e concorrentes. Partindo dessa visão social de linguagem, constata-sc a relevância dos conceitos bakhtinianos para a análise das práticas de ensino da leitura nas disciplinas curriculares proposta nessa pesquisa. 2.4 Práticas de leitura e as capacidades de linguagem no contexto escolar: as contribuições de Baklitin e Vygotsky A proposta de leitura com base no conceito de gêneros é fundamentada nas teorias de Bakhtin/Volochinov (1929/1992) e Vygotsky (1934/1993), para quem o sujeito se constitui na linguagem mediante a inserção social. Para Bakhtin, a comunicação verbal, seja oral, sejsa escrita, é elo de uma cadeia que constrói a enunciação. Nesse sentido, a teoria bakthiniana pressupõe que o material da linguagem interior e da consciência é a pala\'ra, elemento crucial que atua nas ações de compreensão e interpretação. Para Bakhtin, como para Vygotsky, nem a língua nem o agente se encontram prontos, mas se constituem nas interações estabelecidas com os outros, o que taz com que se apropriem da linguagem e a tomem significativa, por meio dos recursos expressivos por eles Usados. Por essa razão, Bakhtin vê no enunciado a unidade de comunicação verbal, composto de ecos e lembranças de outros enunciados que peipassam o texto e estabelecem relações de sentido. Isto é, todo discurso tem em sua composição fiagmentos de outros discursos proferidos por outras pessoas. Cf. ERICKSON, 1984; GEERTZ, 1973; STREET, 2005; HEATH; STREET, 2008; BLOOME er ai, 2008. 79 Nessa perspectiva, os discursos e os agentes se constituem na atividade dos sujeitos imersos no acontecimento sócio-histórico-cultural, tal qual na concepção de Vygotsky, pela e na linguagem. Por outro lado, os enunciados, sejam orais, sejam escritos, sempre procedem de alguém e se dirigem a alguém, servindo para muitas funções e usos sociais, pois os discursos se estruturam segundo uma finalidade, uma intenção, um lugar, uma atividade ou prática social denominados "gêneros do discurso". 2.4.1 A leitura como prática social em Bakhtin: apontamentos sobre o dialogismo, compreensão ativa e apreciação Bakhtin/Volochinov (1929/1992, p. 132) defende que a compreensão é uma forma de diálogo que está para a enunciação como uma réplica está para outra no diálogo. Compreender é contrapor à palavra do locutor uma contrapalavra. E o autor prossegue afirmando que a significação só existe no processo de compreensão ativa e responsiva (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929, p. 132). É essa concepção da compreensão como um processo ativo e dialógico que envolve a co-participação do aluno que embasa a pesquisa que proponho. Para o autor, compreender pressupõe estabelecer relações responsivas motivadas por "o que se sabe", "o que se viveu", ou "se experimentou", o que o texto traz e o contexto no qual a leitura se realiza. Além de mobilizar conhecimentos prévios sobre a temática, o leitor, na compreensão, também mobiliza conhecimentos sobre o funcionamento da linguagem, bem como conhecimentos de gêneros e conhecimentos lingüísticos e estruturais. Para Dolz (1994), a compreensão do texto deve ser precedida sempre de uma avaliação de seu contexto de produção, pressupondo-se que, quando se lê um texto, deve-se compreender quem é o produtor e discernir o lugar social do enunciador e do destinatário. Ainda mais, para compreender, é preciso identificar as informações locais, isto é, as informações explícitas no texto, relacionando-as globalmente, e delas inferir uma representação sobre a intenção comunicativa do autor, ou seja, perceber nas entrelinhas o que o autor pretendeu dizer no texto e o seu objetivo em relação ao destinatário. Para Dolz (1994, p. 5), "a compreensão do texto, considerada como atividade construtiva do leitor, é precedida 80 de uma apreciação valorativa dos coagentes e de seus conhecimentos, interesses e atitudes bem como da situação em que ocorreu o ato de enunciação". Nesse contexto de leitura e produção de textos na escola, Schneuwly (1994) discute o gênero como uma "megaferramenta", isto é, um instrumento com o qual é possível exercer uma "ação de linguagem" em situação específica. Para ele, o uso de uma íeiTamenta resulta em dois efeitos diferentes de aprendizagem: por um lado, amplia as capacidades individuais do usuário; por outro, amplia seu conhecimento a respeito do objeto sobre o qual a ferramenta é utilizada. Concebendo a importância do gênero no ensino, Schneuwly propõe que o ensino de leitura e produção de textos se dê por meio de seqüências didáticas. Trata-se de um conjunto de atividades escolares, organizadas de maneira sistemática em torno de um «êncro do discurso oral ou escrito cuja finalidade é, precisamente, ajudar o aluno a dominar melhor um gênero. Com base nas discussões de Schneuwly e Dolz (2004), a seqüência didática é apontada nos PCNs como seqüência de atividades e exercícios, cujo objetivo é permitir que os alunos possam, progressivamente, apropriar-se das características discursivas e lingüísticas dos gêneros estudados. Essas características discursivas e lingüísticas são discutidas por Dolz e Schneuwly (2004) como apropriação de novas organizações discursivas que se efetivam cm três ordens de capacidade de linguagem que serão ferramentas necessárias para a compreensão dos contextos escolares e de formação: a) capacidade de ação: relacionada aos objetivos, temas, conteúdos, levando em consideração o contexto do referente; b) capacidade discursiva: relacionada ao plano geral do texto, os tipos de discurso e a organização do texto e; c) capacidade linguístico-discursiva: diretamente ligada ao conhecimento das características sistêmicas fundamentais. A proposta de seqüência didática apresentada por Schneuwly e Dolz (2004) traz uma grande contribuição para o ensino de gêneros orais e escritos na escola, assim como para a organização do trabalho do professor, para o aprendizado/desenvolvimento do aluno. Permite que o aluno tenha conhecimento de quais são os objetivos do professor com aquela atividade 81 em uma produção fmal, por que escrever, para quem, com qual objetivo. Enfim, traduz-se em um instrumento valioso na relação professor-aluno e para as práticas didáticas. Bakhtin desenvolveu, também, o conceito de "acento apreciativo". Para o autor, qualquer conteúdo expresso tem o acompanhamento de uma apreciação. O nível mais superficial desse valor é a "entoação expressiva", que pode acompanhar poucas palavras ou apenas uma, como acontece em interjeições, sendo o tema definido pela significação e pela orientação apreciativa. A própria significação (que é potencialidade) não se forma sem o acento apreciativo, que não é, portanto, marginal na estrutura semântica. Mais; a transformação nas significações cabe a esse acento, o que corresponde a deslocamentos resultantes de reavaliação significativa (evolução). A evolução semântica da língua, por sua vez, se liga à evolução do horizonte apreciativo de um grupo social, no qual os valores entram em confliito. A significação só pode acontecer se absorvida pelo tema, retomada, reinvestida, retomando sob a forma de nova significação, que, como a anterior, estará sempre em equilíbrio precário. Sobre o conceito de apreciação, o autor afirma que as línguas são concepções do mundo, não abstratas, mas concretas, sociais, atravessadas pelo sistema das apreciações, inseparáveis da prática corrente e da luta de classes. Por isso, cada objeto, cada noção, cada ponto de vista, cada apreciação e cada entoação encontram-se no ponto de interseção das fi-onteiras das línguas-concepções do mundo, inseridos numa luta ideológica. Tomando essas concepções de Bakhtin como suporte para uma abordagem didática de leitura, considera-se, ao lado de Machado (1998), que a leitura como réplica envolve sempre apreciação, emoção, e que o ensino-aprendizagem na escola pode propiciar o desenvolvimento de diferentes níveis de compreensão responsiva ativa, estabelecendo-se um dialogismo constante entre leitor e autor. Ler, nesse paradigma, implica não aceitar que o sentido esteja unicamente no texto. A significação sofre interferência dos aspectos afstivo-emocionais do leitor, levando-o a estabelecer relações entre o que foi lido, concordando ou não com o autor, etc. Ler, portanto, é libertar-se da prática sem sentido e desmotivadora de localização e de cópia da palavra autoritária do autor no texto. Assim, admite-se que, para compreender e interpretar um texto, o leitor não é um receptor passivo, pois lhe cabe atuar sobre o material lingüístico de que dispõe e, desse modo, construir um sentido, criar novas leituras. Com o ensino da leitura, o aluno pode desenvolver capacidades necessárias para uma compreensão responsiva ativa, responsáveis pela expressão de um nível mais elevado de 82 julgamento/avaliação, de crítica, de relação com outros saberes, ou leituras, de sugestão ou até mesmo, de solução, no caso do texto lido trazer uma problemática. Portanto, tomar o conceito de compreensão responsiva ativa de Bakhtin implica ver a leitura como uma réplica do leitor ao autor. Assim, inserir e explorar adequadamente os gêneros do discurso nas aulas de todas as disciplinas do currículo escolar significa buscar novas formas de ensino de leitura, condizentes com a visão bakhtiniana. Para Bakhtin/Volochinov (1929/1994, p. 128-136), o tema da enunciação é determinado não somente pelas formas lingüísticas que entram na composição (as palavras, as formas morfológicas ou sintáticas, os sons, as entonações), mas igualmente pelos elementos não verbais da situação. Ou seja, somente a enunciação tomada em toda a sua amplitude concreta, como fenômeno histórico, possui um tema. Além do tema, a enunciação é igualmente dotada de uma significação que, diferentemente do tema, é reiterável e idêntica cada vez que é repetida. A interrelação entre a apreciação e a significação é muito importante na ciência das significações, pois toda palavra usada na fala real possui não apenas tema e significação no sentido objetivo, de conteúdo desses termos, mas também um acento de valor ou apreciativo isto é, quando um conteúdo objetivo é expresso (dito ou escrito) pela fala viva, é sempre acompanhado por um acento apreciativo determinado. Segundo Bakhtin, sem acento apreciativo não há palavra e a apreciação social contida na palavra é transmitida pela entoação expressiva, sendo determinada pela situação imediata e freqüentemente por suas circunstâncias mais efêmeras. 2.4.2 Os gêneros do discurso como objeto de ensino nas disciplinas curriculares: as capacidades de linguagem para a cidadania Ao longo da história humana, desenvolveram-se diferentes atividades sociais nas quais foram produzidos diferentes te.xtos a elas adequados, os quais Bakhtin (1920-1930/1979) chama de gêneros do discurso, "tipos relativamente estáveis de enunciados", caracterizados por um conteúdo temático, um estilo (estruturação lingüística) e uma construção composicional (organização textual e relação entre locutor e interiocutor). A esse conjunto 83 dos gêneros pode-se chamar de interdiscurso, que é teoricamente constituído de um número de gêneros infinito, já que a atividade humana, em tese, é também bastante variada. Ainda de acordo com o autor, a natureza do enunciado deve ser estudada para que fique clara a fonnação histórica dos gêneros, a inter-relação entre os gêneros primários e secundários e a "correlação entre língua, ideologia e visões de mundo" (BAKHTIN, 1952- 1953/1979, p. 282). Desconsiderar essa natureza é o mesmo que abstrair a língua de seu contexto de produção e, portanto, desviar-se da ótica que considera a língua como o instrumento de mediação usado pelo ser humano para agir com a linguagem. Entende-se, então, que o tema, a composição e o estilo influenciam, também, a escolha dos itens lexicais que usamos, para uma adequação ao gênero e à finalidade de nosso enunciado. Além disso, Bakhtin (1952-1953/2000) ressalta a relação existente entre os enunciados e a idéia de que, diferentemente das palavras e das orações, um enunciado tem relação com o locutor e com os parceiros da cadeia de comunicação verbal, constituindo-se ccmo um elo nessa cadeia. Sua expressividade não advém do sistema da língua ou da realidade objetiva, mas da significação das palavras escolhidas para dar sentido concreto ao conteúdo do enunciado. Essa relação de um enunciado com os outros enunciados envolve a relação com enunciados que o precedem e com aqueles que o sucedem. Sua elaboração, assim, é guiada para ir ao encontro de uma reação, de uma resposta. Entretanto, muitos ainda consideram que o interlocutor é um receptor passivo, que não interfere na mensagem, deixando de lado o processo de construção de significado e de negociação de sentido na relação dialógica entre locutor e interlocutor. Dessa forma, "o papel ativo do outro no processo da comunicação verbal fica minimizado ao extremo" (BAKHTIN, 1979/1992, p. 292). Ao contrário, segundo o autor, a composição dos gêneros é determinada em razão do destinatário. "E sob uma maior ou menor influência do desfinatário e da sua presumida resposta que o locutor seleciona todos os recursos lingüísticos de que necessita". (BAKHTIN, 1952-1953/1979, p. 326) A importância que Bakhtin (1952-1953/1979, p. 301-302) dá aos gêneros na interação e, portanto, á necessidade de seu aprendizado fica clara quando o autor afiniia que "as fonnas da língua e as formas típicas de enunciados, isto é, os gêneros de discurso, introduzem-se ern nossa experiência e em nossa consciência conjuntamente e sem que sua estreita relação seja rompida. Aprender a falar é aprender a estruturar enunciados". Assim, em um ato de comunicação verbal, reconhecemos, idenfificamos e usamos o gênero mais adequado àquela situação. Com esse saber construído, distinguimos, logo no 84 micio de uma troca verbal, o gênero utilizado, seu tema, sua estrutura composieional c, assim a comunicação verbal é possibilitada. Do contrário, teríamos de criar um gênero a cada ato de fala, o que inviabilizaria a comunicação. Alguns pesquisadores, orientados pelo pensamento baklitiniano, têm defendido a necessidade da adoção desses princípios nas práticas escolares. Dentre eles, podemos citar Schneuwly (1994); Dolz e Schneuwly (1996 e 1998); Geraldi (1997, 2006); Rojo COOO 2001a, 2001b, 2004, 2005); Machado (2000); Jurado (2003) e Lodi (2004). Desse modo o estudo de gêneros do discurso na escola como objetos de ensino pode, como defendido por esses autores, criar condições para a construção de conhecimentos Hnguístico-discursivos necessários para as práticas de linguagem em sala de aula. Cabe lembrar, ainda, que as contribuições das pesquisas em uma perspectiva bakhtiniana dizem respeito à concepção de linguagem construída na interação, inserida em uma situação de produção e expressa em fomia de gêneros e constituída por discursos O ensmo da linguagem, portanto, deve pautar-se por práticas discursivas. Com base nessas considerações, dentre algumas indagações. Rojo (2000) se interroga quais seriam os materiais didáticos adequados a essa nova proposta. Sua questão é endereçada ao ensino de Lín<'ua Portuguesa. Da mesma fonna, recoloco a questão para todas as disciplinas do cuitícuIo escolar. Em relação aos gêneros, Schneuwly e Dolz (1999, p. 6) se propuseram a expor seu papel como articulador entre as práticas de linguagem e os objetos de ensino. Para os autores "as práticas de linguagem implicam dimensões, por vezes, sociais, cognitivas e lingüísticas do funcionamento da linguagem numa situação de comunicação particular". (Grifo dos autores) Também Cafíero (2005), em seus estudos sobre o desenvolvimento de habilidades de leitura de diversos gêneros, chama atenção para a utilização adequada dos textos na sala de aula. A autora destaca que o trabalho com gêneros, além de explorar a temática deve envolver sua organização interna e composição. Portanto, no âmbito pedagógico, para aumentar a competência em interações sociais, é necessário que nas atividades de ensino, se contemple a diversidade dos gêneros, partindo-se dos que são conhecidos pelos alunos para atingir os que eles não conhecem mas precisam dominar. Nem todos os gêneros, no entanto, precisam ser ensinados tanto na leitura quanto na escrita. Alguns gêneros precisamos aprender apenas ler, outros precisamos aprender a ler e a escrever (CAFIERO, 2005, p. 25) 85 Nesse sentido, é importante reconhecer que a construção de conhecimentos inerente à leitura, compreensão e produção de textos exige dos usuários da língua o desenvolvimento das habilidades e a construção de sua competência na comunicação. O trabalho com diferentes gêneros do discurso é vital para desenvolver a competência comunicativa e para a formação do aluno. Dolz e Schneuwly (1998) atestam que aprender a ler textos demanda a aprendizagem de "capacidades de linguagem". Também é verdade que, ao lê-los, o sujeito mobiliza seus conhecimentos. De acordo com os autores, seriam três tipos: capacidades de ação, capacidades discursivas e capacidades linguístico-discursivas. As capacidades de ação possibilitam ao sujeito adaptar sua produção de linguagem ao contexto de produção, ou melhor, às representações do ambiente físico, do estatuto social dos participantes e do lugar social onde se passa a interação. Dessa forma, as representações da situação de comunicação têm relação direta com o gênero, já que o gênero deve estar adaptado a um destinatário específico, a um conteúdo específico, a um objetivo específico. Já as capacidades discursivas possibilitam ao sujeito escolher a infraestrutum geral de um texto, ou seja, a escolha dos tipos de discurso e de seqüências textuais, bem como a escolha e elaboração de conteúdos que surgem como efeito de um texto já existente e estímulo para outro que será produzido. Finalmente, as capacidades linguístico-discursivas possibilitam ao sujeito realizar as operações implicadas na produção textual, sendo elas de quatro tipos: as operações e textualização - elas a conexão, coesão nominal e verbal; os mecanismos enunciativos de gerenciamento de vozes e modalização; a construção de enunciados, oração e período; e, finalmente, a escolha de itens lexicais. Nesse sentido, as capacidades de linguagem são consideradas um conjunto de operações que permitem a realização de determinada ação de linguagem, instrumento para mobilizar os conhecimentos que temos e operacionalizar a aprendizagem dos conceitos científicos. (VYGOTSKY, 1934/1993) É pertinente ressaltar, entretanto, que os autores trabalham com o conceito de capacidades exclusivamente para a questão da produção escrita e que se considera que a mesma abordagem pode ser estendida à questão da leitura. Assim, essas noções são fundamentais para esta pesquisa, já que na análise dos eventos de letramento se buscou avaliar se cada parte da seqüência didática proposta propicia ou não o desenvolvimento de capacidades leitoras. 86 Assim, de acordo com critérios de avaliação e as respectivas capacidades a desenvolver pelos alunos, muitos procedimentos podem ser propostos para fazer o leitor acionar seus conhecimentos para trabalhar com as capacidades de linguaiícm para a construção do sentido do texto. A partir de Dolz (1994),^° "considera-se que, no processo da leitura, o texto lido é um objeto oferecido à percepção, constituído por um conjunto de índices lingüísticos, numa detemiinada estrutura. De acordo com o autor, atualmente, todos os modelos de leitura a definem como um ato de construção de significados. Antes da leitura, o texto é um simples objeto oferecido à percepção. No momento da leitura e após a leitura, o texto é discurso e supõe um processo de compreensão ativa e responsiva. Assim como para Bakhtin, para Dolz (1994) compreender pressupõe estabelecer relações significativas entre o que se sabe, o que se viveu, ou se experimentou, o que o texto traz e o contexto no qual a leitura se realiza. Além de mobilizar conhecimentos prévios sobre a temática, o leitor, na compreensão, também mobiliza conhecimentos sobre o funcionamento da linguagem, incluindo conhecimentos de gêneros e conhecimentos lingüísticos e estruturais Esse processo depende diretamente tanto do reconhecimento do contexto de produção do texto quanto do contexto de leitura. É, portanto, processo social. Nas palavras de Cristóvão (2001, p. 28), dentro dessa perspectiva, a leitura é vista, prioritariamente, como uma atividade social em que há construção de sentidos em um contexto detenninado. A palavra deve ser, então, vista como polissêmica e plurivalente, pois os significados são dependentes dos contextos em que eles ocorrem e dos valores ideológicos que as penneiam. Se. como vimos, todo ato de fala é de natureza social, bem como a fonna de lennos aprendida socialmente. Por isso, o papel do outro e o caráter social da leitura são fundamentais para a aprendizagem de leitura. Entretanto, é preciso considerar que a leitura em situação escolar se caracteriza por ter um contexto particular. Segundo Dolz (1994, p. 5), "a leitura em situação escolar é uma leitura particular no sentido em que há um duplo horizonte de expectativa; o que vem do tipo Para Dolz (1994), a compreensão é uma atixidade construtiva do leitor, que, para isso, emprega diversas capacidades de linguagem, mobilizando diversos sistemas de conhecimento - por exemplo, seus saberès enciclopédicos sobre os referentes mobilizados pelo texto; seus saberes sobre o funcionamento das ações de linguagem (sobre as situações de interação e sobre os princípios da comunicação; sobre os discursos (tipos e gêneros); sobre os atos de fala (seus saberes sobre as estruturas textuais); e seus saberes lingüísticos (léxico gramática, funcionamento e valores das unidades lingüísticas e das expressões verbais nos textos). 87 de discurso (ler um romance policial) e o que vem da situação escolar onde a leitura é feita sempre para aprender". A escola tem papel fundamental para levar o aluno a aprender a reconstruir todos os eventos do contexto de produção. Ainda segundo o mesmo autor, esse processo de construção de significado pressupõe o desenvolvimento de mecanismos de autorregulação no leitor: a tomada de consciência dos objetivos de leitura e o controle das capacidades e das ações realizadas, o que também pode ser desenvolvido na escola. Além disso, Dolz (1994) afínna que o ensino de leitura deveria criar condições para o aluno; a) estabelecer objetivos concretos de leitura; b) questionar-se sobre o texto; c) ativar conhecimentos prévios pertinentes; d) recuperar as propostas explícitas; e) distinguir as propostas implícitas das explicitas; f) estabelecer a progressão temática; g) estabelecer inferências; h) revisar e verificar a coerência no curso da leitura; i) estabelecer relações entre o texto e o para-texto; j) tomar medidas para evitar os erros; k) utilizar macrorregras: seleção das ideias-chave; generalização; integração; 1) escrever: tomada de notas, resumo, etc. Como visto, postula-se a necessidade de serem fornecidas ferramentas semióticas para o aluno a fim de que ele possa agir com a linguagem. A apropriação dos gêneros discursivos pode fornecer ao aluno um instrumento de ação efetivo no desenvolvimento das capacidades leitoras, transformando e ampliando os processos envolvidos na compreensão. Na realidade, quando o aluno utiliza a linguagem, ele o faz, necessariamente, utilizando os gêneros em geral. Entretanto, o ensino desses gêneros deveria ser a base do trabalho de todas disciplinas do cumculo escolar porque, se o aluno for capaz de reconhecer esses instrumentos, surgirão novas possibilidades de ações que ele, certamente, conseguirá adaptar em situações particulares de comunicação. Rojo (2004) discute as práticas de letramento e de leitura escolar em todas aS disciplinas da educação básica e propõe que elas sejam diversificadas de modo a preparar adolescentes e jovens para uma leitura cidadã. Em seus trabalhos sobre práticas didáticas de leitura e letramento escolar, a autora critica as práticas de escolarização. Em geral, elas não desenvolvem as capacidades^^ exigidas pela sociedade. "Isto é feito, em geral, em todas as disciplinas, por meio de práticas de leitura lineares e literais, principalmente de localização e informação em textos e de sua repetição ou cópia em respostas de questionários, orais ou escritos". (ROJO, 2004, s/p) O conhecimento sobre o conjunto de capacidades de todas as ordens que são requeridas nas diversas práticas de leitura vem cre.sccndo accntuadamenie com o desenvolvimento das pesquisas e teorias sobre leitura que tiveram lugar na segunda metade do século passado até hoje. A autora lembra que ler envolve diversos procedimentos" c capacidades" Dependendo da situação e das finalidades de leitura, algumas delas são denominadas, em algumas teorias de leitura, estratégias . À luz da perspectiva bakhtiniana, a autora ressalta que, mais recentemente, a leitura é \'ista como um ato de se colocar em relação um discurso (texto) como outros discursos anteriores a ele, emaranhados nele e posteriores a ele, como possibilidades infinitas de réplica, gerando novos discurso/textos. O discurso/texto é visto como conjunto de sentidos e apreciações de valor das pessoas e coisas do mundo, dependentes do lugar social do autor e do leitor e da situação de interação entre eles - finalidades da leitura e da produção do texto, esfera social de comunicação em que o ato de leitura se dá. Nesta vertente teórica, capacidades discursivas e lingüísticas estão crucialmente envolvidas. (ROJO, 2004, s/p) Também Schneuwly e Dolz (1997, 2004) defendem que é papel da escola refletir sobre os aspectos sociodiscursivos, estruturais e lingüísticos dos textos, criando condições para que os alunos desenvolvam capacidades de leitura e de produção de textos. Sobre as capacidades discursivas e lingüísticas, os autores lembram que "toda ação da linguagem envolve diversas capacidades por parte do sujeito: adaptar-se ás caracteristicas do contexto e do referente (capacidades de ação); mobilizar modelos discursivos (capacidades discursivas) e 31 . . , , . . ^ lirimiístiro-discursivas 1983, p. 76) 112 Assim, com base nas contribuições de Heath, nesta tese os usos da leitura e da escrita serão analisados em contextos contínuos e reais da sala de aula. Assim, os eventos passam a ser situações comunicativas mediadas por textos escritos, e o fenômeno do letramento, entendido dessa fonna, extrapola o mundo da escrita. Também para Street (1995, p. 2) práticas são "tanto os comportamentos exercidos pelos participantes em um evento de letramento quanto as concepções sociais c culturais que o configuram, determinam sua interpretação e dão sentido aos usos da leitura e/ou escrita naquela situação particular". Assim, nessa dimensão social, os eventos e as práticas dc letramento são plurais, são as duas faces de uma mesma realidade. Barton e Hamilton (2000, P- 7) resumem: "Práticas de letramentos são os caminhos culturais comuns de utilização da linguagem escrita que as pessoas delineiam suas vidas" As práticas envolvem valores, atitudes, sentimentos e relações sociais que se tomam obser\'áveis por meio de eventos. Assim, eventos são episódios observáveis que se originam das práticas e são moldados por elas. As práticas específicas da escola passam a ser, em razão dessa definição, apenas um tipo de prática que desenvolve apenas alguns tipos de capacidades, principalmente as que privilegiam a escrita. 3.2 O estudo exploratório: investigação prévia de um evento de letramento de ciências e de português - Escola 1 Com o objetivo de apurar a relevância do tema pioposto para a pesquisa, realizou-se um estudo exploratório de agosto a outubro de 2006. A coleta de dados deste estudo se deu numa escola pública, localizada na região periférica de Belo Horizonte. A Escola 1,''^ à época pesquisa, oferecia o Ensino Fundamental nos turnos da manha, da taide e da noite em Educação de Jovens e Adultos (EJA). O estudo exploratório aconteceu no tumo da manhã. Por meio de obsei^vação participante acompanhei uma tuntia de & série do Ensino Fundamental e 7 piofessores. Nesse período, foram gravadas 28 aulas. O ANEXO 1 apresenta a relação de aulas e de livros didáticos da Escola 1. Ele identifica a data, a disciplina, a temática desenvolvida, o gênero ou Na Escola 1 ao lon"o do estudo exploratório foram gravadas 15 fitas, transportadas para DVD, totalizando 1-800 minuto's e 30 horas de gravação. As fitas de vídeo de 8 mm e os DVDs foram numerados e catalogados 'IO Caderno de Campo n. 1, p. 25, 2006. 113 suporte textual, além de mapear as aulas em que foi solicitada aos alunos alguma produção de texto. Assim, na TAB. 1 mostra-se que das 28 aulas acompanhadas, em 2 foram propostas alguma atividade de leitura e em 10 os professores solicitaram aos alunos alguma produção de texto. Entre as 10 aulas, expostas na TAB. 1, nas quais os professores solicitaram algum tipo de produção de texto, foram eleitas duas para análise, sendo uma, especificamente, um recorte de um Evento de Letramento de Ciências, e outra, um recorte de um Evento de Letramento de Português. TABELA 1 Número de aulas por disciplina - Escola 1 DISCIPLINAS TOTAL AULAS [TURA % PRODUÇÃO DE TEXTO % Ciências Português Educação Física Artes Matemática Inglês Geografia 09 07 06 02 02 01 01 09 07 05 02 02 01 01 100 100 83,33 100 100 100 100 03 04 03 30 40 30 Total 28 27 - 10 1 Fonte: Caderno 1, Notas de campo etnográficas, p. 1-24, 2006. É importante acrescentar que os eventos a seguir representam os primeiros passos dados no trabalho de transcrição, representação e análises dos dados à luz da perspectiva etnográfica. 3.2.1 Um evento de letramento de Ciências Na turma da 6" série do Ensino Fundamental, foi possível identificar, ao longo do estudo exploratório, espaços interacionais criados pelos participantes que refletiram aS oportunidades de aprendizagem na leitura desenvolvidas pelos alunos em sala de aula^ Diferentes espaços interacionais foram criados pelos professores nas disciplinas curriculares que possibilitaram o uso da língua falada ou da língua escrita; eventos planejados peloS professores, envolvendo o uso do livro didático para o ensino de Português, Inglês, ArteS, Geografia, Matemática e Ciências; práticas sociais, como a distribuição de tarefas individuais 114 para serem feitas em casa e organização infonnal dos alunos na chegada, recreio ou intcr\'alo de uma aula para outra. Apresenta-se, a seguir, um recorte de um evento de letramento de Ciências. QUADRO 1 Evento de letrameiito"^" Aula de Ciências, Escola 1, 6° série*" do Ensino Fundamental _ N°. HORA E\'ENTO 01 ~Õ2 ~Õ3 10h05 ((Pesq.: 0 professor entra na sala, alguns alunos estão de pe. Aos poucos eles se clii-i"eni para suas carteiras, organizam o material. Ainda há barulho e conversa na sala)) 10hl5 Prof.: Para a aula de hoje .selecionei várias imagens para trabalhar com vocês o tema "Desequilíbrio ambiental". 10h20 ((Pesq.: 0 professor escreve no quadro algumas palavras: desequilíbrio, queimadas, erosão, assoreamento, poluição das águas. Em seguida distribui alfiumas folhas)) 04 10h28 Prof: As imagens no quadro são as mesmas que vocês têm aí na folha. Presta atenção! Vocês deverão ordenar as imagens de forma lógica. Vão contar uma história com princípio meio e fim. 05 10h29 ((Pesq.: Professor caminha pela sala e olha o materuil dos alunos)) 06 lOhSl Prof: 0 que vocês observam na primeira foto.' 07 10h32 Ana: Árvores .sem folhas f...] e teve queimada aí. 08 10h33 João: Desmatamento e tem um pouco de água também. 09 10h34 Prof: Para que serve este espaço agora? 10 10h42 ((Pesq.: Os alunos olham atentamente para as figuras de xerox sobre sua carteira individual e fazem comentários inaudiveis)) 11 10h50 Prof.: E na secunda imaeem o que vocês estão vendo.' 12 10h51 ((Pesq.: Silêncio, seguido de conversas paralelas)) 13 10h52 Paulo: Uma ponte, embaixo um rio com muito lixo. U U 10h52 ANI: E tem um homem catando lixo. 10h53 Vítor: Professor, a terceira mostra o rio raso com bairancos. 16 10h55 André: A áaua esta secando! 17 10h57 Prof: E a última, o que tem de diferente? 18 10h59 V.A: Pessoas e carros alaeados, enchente [...] Alagamento. 19 llh03 ((Pesq.: Alunos conversam. 0 professor fica inquieto. Aponta a regua que tem nas mãos para as figuras pregadas no quadro)) 20 llh05 Prof: Silêncio! Olhem aqui. Vocês acabaram de contar uma história. Agora cada um vai escrever a sua. 21 ((Pesq.: 0 professor vai ate a frente e pega um hvro na sua me.sa. Alguns alunos conversam. Algumas meninas pedem para se assentar em dupla. Outros trocam informações sobre a tarefa. Aos poucos reduz o barulho na sala. Os alunos estão escrevendo no caderno)) 22 llh09 Vítor Professor, você vai dar o visto no exercício de ontem.' 23 llhl2 Carla: Só na próxima aula. Ele avisou. 24 " llh21 ((Pesq.: 0 professor esta assentado na sua mesa. Alguns alunos estão de pé. Urna aluna vai até a mesa e mostra o caderno para o professor. Toca o .tinal de termino da aula. Os alunos guardam o material, arrumam a mochila e saem da sala. fronte: Notas de campo etnográficas, Caderno 1, p. 2-3, gravação, fita 2,11/8/2006. Para essa transcrição, foram adotadas as seguintes convenções. I rof.. piofessor; VA — vários alunos; ((Pesq,)) = informações contextuais e pistas de contextuaiização fornecidas pela pesquisadora; T = turma; [...] 5, ~ pausa e ANI = aluno não identificado. Adoção de pseudônimos para os alunos. 115 A análise desse evento de letramento revela padrões de organização de espaços interacionais por disciplina, segue nomias, direitos e deveres, papéis e relações, demandas e expectativas estabelecidas ao longo do tempo. O professor, por exemplo, inicia a aula, coordena a ação dos demais participantes, levanta determinadas questões, posiciona-se diante das respostas dos alunos. Essas atividades são realizadas em espaços físicos e horários determinados (tipo de disciplina e suas especificidades, estilo do professor e suas demandas, tipos de textos utilizados). Esses processos envolvem materiais (quadro-negro, fotos, atividades xerocadas, livro didático) e, ainda, propósitos e ações diferenciadas (orientações sobre a atividade proposta, escrita do texto, leitura do texto produzido). A análise do evento de letramento em sala de aula demonstra variedade com relação a estrutura de participação e as práticas sociais estabelecidas. Esse evento demonstra, por exemplo, quem iniciou a aula, como a aula foi encaminhada, que oportunidades foram consti-uidas e, assim, refletem o contexto social da sala de aula, discursos e modelos de interação culturalmente estabelecidos pelos participantes. Estudos guiados pela perspectiva etnográfica têm demonstrado que a aprendizagem é definida situacionalmente por meio das fonnas com as quais professor e alunos constróem os padrões e práticas de vida na sala de aula. Dessa fonna, os membros constróem maneiras de agir, interagir e interpretar a vida diária, utilizam práticas e processos culturais como recursos para construção de oportunidades de aprendizagem da leitura e da escrita em sala de aula. Conhecer a sala de aula mais de perto significa focalizar a dinâmica discursiva e interacional que constitui o seu dia a dia, apreender as forças que a impulsionam ou que a retêm, identificar as estruturas de poder e os modos de organização escolar e compreender o papel dos sujeitos nesse contexto no qual discursos, ações e relações são construídas, reconstruídas, modificadas ou consei-vadas. Este estudo evidencia, também, que a constnação do conhecimento na sala de aula nos eventos de letramento é dinâmica e reflete a natureza complexa e multifacetada das decisões e processos articulados pelos professores e alunos situados no contexto social, cultural e histórico. Professores e alunos participam de um processo de interação em diferentes dimensões contextuais que infonnam e possibilitam a construção do conhecimento na sala de aula. Trata- se de um processo dialógico e interacional de construção de nomias de convivência que vão influenciando e determinando a natureza das oportunidades de ensino-aprendizagem da leitura 116 e da escrita. Existem diferenças contextuais que indicam a necessidade de se examinar o que os alunos podem aprender sobre a leitura nas disciplinas escolares. 3.2.2 Um evento de letramento de Português A análise do evento de letramento de Português inicia-se pelo exame de questões sobre as atividades desenvolvidas pelos alunos e professor em sala de aula. Como o professor interage com seus alunos? Como promove a interação dos alunos entre si e com o texto'^ Como e para que os alunos leem em sala de aula? Ao responder essas questões, traços importantes da vida na sala de aula são evidenciados. A análise dos eventos de letramento em sala de aula * toma visível a variedade deles com relação à esti-utura de participação e as práticas sociais estabelecidas. Com base nos estudos de Soares (1998), evento de letramento pode ser entendido como contextos, situações que permitem aos sujeitos se envolverem com as práticas sociais de leitura e escrita. Dependendo da forma como são organizados os eventos de letramento, eles podem possibilitar ou não o desenvolvimento das capacidades de linguagem. Já para Bloome e Bailey (1992, p. 185), o evento de letramento é "interacionalmente construído". Na sala de aula envolve a interação face a face e é construído pelas ações e reações de professores e alunos. Nesse dia, trabalhou-se a produção de texto jornalístico com base em um capítulo do livro didático sobre o tema "A cor de um país plural", que traz notícias da Folha de S. Paulo. A transcrição a seguir representa o evento em que se leu a notícia "O Lixo do 3" Mundo: mãe e filhos buscam restos de comida para saciar a fome - Brasil, um retrato da miséria" apresentado no livro didático. Cf. HEATH, 1982; BLOOME; BAILEY, 1992; GEE, 2001; BARTON; HAMILTON, 1998; BARTON,1994- STREET, 1984. 117 ,53 QUADRO 2 Evento de letramento' Aula de Português, Escola 1. 6" série do Ensino*^ Fundamental HORA EVENTO 081i22 ((Pesq.: A pro fessora entra na sala. Os alunos estão de pé conversando em pequenos grupos. RisoS' conversa [...]. Aos poucos eles se assentam. A professora organiza o material em cima da sua meso- Ela abre um livro, procura algo [...]. 08h27 Prof.: Peguem o livro de Português, pessoal. Onde foi que nós paramos, mesmo, heim? 08h29 Pedro: Eu não sei, não faço a mínima idéia. 08ii29 ANl.- Eu faltei [...] 08h30 Silvia: Foi na lição do preconceito racial, foi mesmo. 08h30 ((Pesq.: Silvia se levanta da carteira e mostra uma página no livro para a professora. As duo^ conversam. Barulho, conversa paralela)) 08:32 Prof.: Vamos, gente! Posso começar? Observem no fmal da página 51 os principais pontos qn' vocês devem identificar nesta notícia: o que (fato); quem (personagem/pessoas); quando (tempo)' onde. como e por que. Marcela leia a notícia seguinte. ^ 08:32 ((Pesq.: Os alunos acompanham a indicação da professora, a noticia "O Lixo do 3° Mundo" é lii^" por uma aluna, e os alunos acompanham silenciosamente)) ^ 08:32 Prof.: Agora virem a página e leiam esta outra notícia. 08:33 Pedro: Qual? 08:34 Ana: A do menino. 08:34 Júlia: Na frente, seu tonto 08:34 ((Pesq.: Júlia se levanta e mostra a página para o colega. A professora chama atenção para a j e solicita leitura silenciosa da noticia)) 08:39 Prof.: Luiza. leia a legenda da foto. Leia. Luíza. 08:39 Luíza: Menino de 9 anos que trabalha 10 horas por dia numa carvoaria. 08:39 ((Pesq.: A professora escreve no quadro: Fazer a proposta de redação da página 52.)) 08:40 Prof.: Vocês vão observar a foto e escrever um texto sobre a imagem. Vou recolher; é avaliativo. 08:41 ((Pesq.: Alunos começam a escrever, e a professora passa pelas carteiras orientando o trabalho)l, Pedro: Inventar o quê? 08:45 08:45 Luiza: Uma história sobre esse menino. 08:46 Vitor: Meu título vai ser: "Menino trabalhador" 08:46 Carla: Isso acontece na minha casa. Minha mãe manda eu trabalhar 10 horas por dia. 08:46 V.A: Risos [...] 08:47 ANI: E verdade? 08:47 Carla: É. sim, é verdade, gente! 08:47 ((Pesq.: Os alunos estão escrevendo no caderno)) 08:50 Vitor: Professora, o que é pra fazer? 08:50 Prof.: Quando líamos o texto, o que você estava fazendo? 08:52 Vitor: Desenhando. 08:53 ((Pesq.: A professora se aproxima de Vitor e conversa com ele. Os alunos começam a escre\'S^^ texto proposto)) 08:55 Vitor: O nome do menino da carvoeira é Ramon. Ramon, você é muito doidão. 08:56 Prof.: Trabalhem no texto, gente! 08:56 ((Pesq.: Ruídos na sala. Alguns alunos conversam paralelamente. Aos poucos, a sala fica silêncio. Os alunos tiveram cerca de 32 minutos para a produção do texto)) ^ Vitor: Professora, vê se tá bom? Quem vai lê este texto? 09:12 09:13 ANL: Nós. 09:14 Vitor: Vou mandar o meu para o jornal! 09:16 V.A.: Ai. ui. ai, ai [...]. Risos [...1 09:20 ((Pesq.: Os alunos estão escrevendo. Alguns conversam paralelamente. Toca o sinal do recreio))^ Vitor: Graças a Deus! Até que enfim. livre.Fuü! 09:20 09:22 ((Pesq.: Os ahmos recolhem o material e. com agilidade e empolgação. saem para o recreio)) Fonte: Notas de campo etnográficas, Caderno 1, p, 11-13 e gravação, fita 9 e 10,15/9/2006. Para essa transcrição, foram adotadas as seguintes convenções: Prof. = professor; VA= vários alunos! ((Pesq.))= informações contexluais e pistas de contextualização fornecidas pela pesquisadora; T= turma; [...] ^ pausa e ANI = aluno não identificado. Adoção de pseudônimos para os alunos. 118 Nesse evento de letramento, pode-se ver que o livro didático foi utilizado como recurso para leitura e produção de texto. Toma-se importante verificar em que condições tal leitura e escrita foram realizadas e as possíveis implicações desse uso para que os alunos possam desenvolver capacidades letradas na escola. Com base nos estudos de Tannen e Wallat (2002), o evento representado acima pode ser dividido em cinco seqüências interacionais, estabelecidas com base na identificação do que estava sendo realizado pelos participantes à medida que a interação se estabelecia, para quem se orientavam e sobre o que falavam. Na primeira seqüência interacional (linhas 1-17), inicia-se o estabelecimento das condições de produção da leitura. Antes de iniciar a leitura do texto, a professora relembra aos alunos os "principais pontos" que deverão identificar na notícia que vão ler; o que (fato); quem (personagem/pessoas); quando (tempo); onde, como e por que o fato ocorreu (7). Após fornecer essa orientação aos alunos, a professora solicita-lhes que leiam, silenciosamente, a notícia da página seguinte (9). Depois dos (7) minutos utilizados para a realização da leitura silenciosa, a professora pede à aluna Luíza que leia, em voz alta, a legenda de uma foto que acompanha a matéria (14). Enquanto a aluna lê, a professora anota no quadro: Fazer a P^'oposta de redação da página 52. Ao temiinar a anotação no quadro, a professora se volta para a turma e diz: Vocês vão observar a foto e escrever um texto sobre a imagem. Vou ''^colher. É avaliativo (17). Essa seqüência interacional constitui o enquadre^" para a realização da tarefa proposta. Esse enquadre privilegia a localização de infomiações no texto sobre quem lê a notícia, qual fato é relatado, quando, onde e por que ocorreu. Estabelecem-se, ainda, outras condições para a sua realização: a leitura silenciosa de uma notícia e a obser\'ação de uma foto pelos alunos. E, então, com base em uma atividade de leitura realizada nessas condições que a proposta da escrita de um texto é apresentada. O texto a ser escrito deve tratar sobre a imagem observada e será avaliado posteriormente. Deve-se observar que a preparação para a produção escrita por nieio da leitura da notícia ou da obsei'vação da foto não possibilitou, em momento algum, a •discussão da polêmica temática apresentada pelo texto. Essa troca de idéias foi feita por um §^po de alunos na segunda seqüência interacional (linhas 19-25). P3ra compreender qualquer elocução, um ou\'inte deve sabei em qual enquadre ela foi composia e qual sentido os participantes dão ao que dizem. "A noção interativa do enquadre se refere à definição do que está acontecendo em uma interação, sem a qual nenhuma elocução poderia ser interpretada". (TANNEN- Wallat, 2002, p. 188) 119 Diferentes aspectos podem ser observados da análise da conversa entre os alunos nessa seqüência interacional. Pedro, que anteriormente (10) já havia demonstrado dúvidas ao acompanhar as orientações da professora, fez a seguinte pergunta (19): Inventar o quê? A pergunta feita por Pedro indica que esse aluno ainda não tinha elementos suficientes para a realização da tarefa proposta pela professora. Faltava-lhe saber sobre o que deveria escrever. Pode-se argumentar que a escolha do verbo "inventar" por esse aluno talvez seja decorrente da sua vivência escolar em que muitas vezes a escrita surge como uma "invenção", uma criação a ser feita com imprecisões, sem função e usos claros. Nesse dia, o objeto da escrita foi esclarecido pela colega Luiza (20) - Uma história sobre esse menino, que entendeu que o texto seria "uma história". Pedro ouviu de seu colega Victor a escolha do título que trouxe elementos caracterizadores do personagem: (21): Meu título vai ser: "Menino trabalhador". Ao participar dessa conversa, Carla (22) estabeleceu relações entre as condições de vida do menino que virou notícia e sua própria vida: Isso acontece na minha casa. Minha mãe manda eu trabalhar (10) dez horas por dia. Várias de suas colegas reagiram a esse comentário com risos (23) e um aluno não identificado - ANI - levanta novamente a questão sobre a experiência vivida por Carla (24): E verdadel Carla é também trabalhadora, a exemplo do menino da notícia ou do texto de Victor. Observa-se que, em nenhum momento, a professora procurou discutir, no contexto coletivo da sala de aula, tais relações ou problematizar a realidade denunciada pela notícia apresentada no livro didático. Essas relações forafl^ estabelecidas no espaço interacional constituído pela participação de um grupo restrito de alunos. Na terceira seqüência interacional (27 a 31), é possível ver que Victor não mais s£ orientou pelos seus colegas, mas voltou-se para a professora, interessado em recebei esclarecimentos sobre o que é pra fazer (27). Victor já tinha o título do seu texto (21)' entretanto, isso não foi suficiente para que ele iniciasse sua produção. Estaria ele querendo saber sobre as características desse texto? Afinal, como deveria ser o texto? Seria uma notícia ou uma história, como sugeriu Luíza? Não temos como recuperar as orientações dadas pel^ professora a Victor em razão das limitações da gravação. Certamente, elas seriafl^ esclarecedoras das expectativas da professora que, posteriormente, avaliaria o texto. A quarta seqüência interacional refere-se ao comentário feito pela professora para ^ turma, após temiinar sua conversa com Victor: Trabalhem no texto, gente! (32). O tom de vo^ da professora e a ênfase no verbo trabalhem é resposta a certa inquietude dos alunos, continuaram a conversar e pareciam pouco concentrados na tarefa. Conforme foi sugerid" 120 pela professora em outros momentos, escrita é sinônimo de trabalho, algo que exiue esforço Possivelmente, os alunos estariam se lembrando de que esse esforço seria avaliado. Ao chamar atenção dos alunos para que trabalhassem no texto, a professora relembrou que a atividade valia ponto e teria de ser concluída durante a aula. Em resposta ao comentário da professora, os alunos concentraram-se na realização da tarefa e as conversas diminuíram. Passados 32 minutos nos quais os alunos se ocuparam com a escrita do texto, Victor indagou sobre os seus possíveis leitores (quarta seqüência interacional, linhas 34-36). Um de seus colegas, um aluno não identificado (ANI) respondeu a Victor: Nós (35). O silêncio da professora é também uma resposta a Victor. Talvez, para ela, essa questão já tivesse sido abordada antes: sendo avaliativo, ela seria a destinatária do texto. É Victor, então, quem propôs outra possibilidade: desejava enviar seu texto a um jornal. O seu comentário se alinha àqueles feitos pelos alunos na segunda seqüência interacional, quando estabeleceram correspondência entre suas experiências de \'ida fora da escola e o texto lido. Nesse caso, Victor sugeriu que o texto escrito na escola encontrasse interiocutores fora dela. A quinta seqüência interacional inicia-se pelo sinal que toca, avisando o ténnino da aula (obser\'ação da pesquisadora entre parênteses). Em resposta. Victor celebrou (39); Graças a Deus! Até que enfim, livre. Fui!!! A liberdade, enfim. Sentimento que parece ter sido partilhado por seus colegas que pararam de escrever e lecolheram seus materiais sobre a carteira. Como visto, os eventos de letramento de Ciências e de Português permitem uma análise crítica sobre as práticas de leitura e formação do leitor na Educação Básica. O ^^Sumento fundante da discussão se assenta na existência de uma piodução acadêmica Considerável que tematiza as questões da leitura na escola, e esse debate acadêmico, que parece avançar com os anos, não alcança amplamente as práticas de leitura que se (desenvolvem na sala de aula. As atividades docentes que envolvem as práticas de leitura em sala de aula ou aquelas Solicitadas aos alunos para serem realizadas fora da escola estão assentadas, na maioria das ^ezes, em práticas pedagógicas que o discurso acadêmico considera ultiapassadas. O que se Constata, em observ^ações de aulas de leitura, é que há uma cnoime distância entre o discurso teórico e uma grande uniformidade das práticas de leitura na escola, girando em torno de uma concepção: a estruturalista, comum na escola, em que a leituia é tomada como (decodificação, o texto é considerado em si e por si mesmo. Em função disso, há, no espaço da escola, muita soletração e pouca leitura. 121 Essa situação é provocada por um conjunto de fatores que determinam as práticas de leitura na escola, dentre os quais podem-se reconhecer alguns como: a formação precária dos professores no campo da alfabetização e letramento; a dificuldade de transposição da produção acadêmica para as práticas cotidianas do professor; o funcionamento da escola que não percebe que a leitura perpassa todas as formas de aprendizagem, pois ela é atividade- meio, a serviço de um projeto que a ultrapassa. O que implica dizer que falta na escola um projeto que tenha a leitura como um dos eixos norteadores da prática pedagógica de todas as áreas do conhecimento. Para que ocorra a mudança das práticas centradas em concepções de leitura teoricamente ultrapassadas, é importante compreender o ato de ler, o que exige passar pela reflexão sobre o que a escrita representa. A primeira condição implica compreender que ler ultrapassa a decodifícação. A escrita é definida por Vygotsky (1987, p. 85) como "uma função lingüística distinta, que difere da fala oral tanto na estrutura como no funcionamento. Ate mesmo o seu mínimo desenvolvimento exige um alto nível de abstração". Assim, a escrita é um meio de construir um ponto de vista, uma visão de mundo, de dar um sentido às coisas. Em decorrência dessa concepção de escrita, a leitura precisa ser concebida como aquilo que vai em busca do ponto de vista, que leva ao quesfionamento, ^ investigação dos meios que permitiram elaborá-lo, ao confi-onto com seus próprios pontos de vista, à sua relação com o instrumento que pennite elaborá-los. Em síntese, ler é mais do que operar uma decodifícação de palavras e de fi-ases, ^ participar das representações do autor do texto lido e mergulhar em representações equivalentes. Vale dizer: ler é reescrever o que estamos lendo. E descobrir, a conexão entre" texto e o contexto do texto e também vincular o texto/contexto ao contexto do leitof' (FREIRE, 1996) Nesse sentido, a leitura é uma operação intelectual que ultrapassa o ato mecânico identificar escrito. Essa visão reafirma a leitura como uma operação complexa que exige ^ percepção de relações entre o texto e o contexto do autor e do leitor. Assim, o grande desafio da escola é romper com as práticas de leitura em que o ato ler esteja submefido a mecanismos de decifi-ação. Tal posicionamento aponta para ^ necessidade de colocar a instituição escola numa outra direção quanto à organização de sei" trabalho pedagógico. Tal direção deve adotar como princípio norteador a integração entf^ ensino, aprendizagem e desenvolvimento, de maneira que as ações do ensino possai'' 122 desencadear uma atividade reflexiva que permita ao aluno avançar cm sua compreensão leitora. A concepção de leitura como pluralidade indefinida de significações desafia a escola contemporânea, já que em nossa sociedade a escola ainda representa a via principal ou quase exclusiva de acesso aos bens culturais, precisando tomar, por um lado, a leitura como uma atividade intelectual que tem um papel fundamental na construção da subjetividade humana, ^5 por outro, não ignorar a dimensão política da leitura, o que exige levar cm consideração o capital cultural dos alunos, isto é, suas experiências de vida, suas histórias, sua linguagem. Defende-se uma abordagem que concebe as práticas de leitura na escola como instrumentos político-pedagógico por meio dos quais professores e alunos afimicm o direito e a responsabilidade não apenas de ler, mas de compreender e transfomiar suas experiências pessoais, e de reconstruir uma ação transfonnadora com a sociedade mais ampla. A proposta de Geraldi (1984, 1996) é de organização do ensino em função das práticas com o texto. Nessa perspectiva, implica uma mudança de postura epistemológica, com niodificação na compreensão da concepção de linguagem e da ação dos sujeitos com ela e sobre ela. No entanto, da forma como foi incorporada no debate escolar, ficou limitada a um modelo metodológico. No caso do ensino de produção do texto, a solução proposta foi a contextualização do trabalho com o texto, que deveria ser significativo para o aluno, isto é, ter uma razão e para quem escrever. Isso impõe como tarefa para o professor contribuir para que os alunos desenvolvam capacidades de linguagem como instrumento de intei-venção e participação social: A compreensão crítica do ato de ler não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas se antecipa e se alonga na inteligência do mundo. [...] Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. [...] A leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. (FREIRE, 1982. p. 11,22) O que ensina Freire com essa reflexão e que a educação não se dá em abstrato, de fonna independente dos modos concretos de vida coletiva. Em sua proposta pedagógica, ^fínna que ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar as possibilidades para sua produção e que quanto mais criticamente se exerce a capacidade de aprender mais se constrói ^ curiosidade epistemológica. Uma mudança de perspectiva impõe a aceitação de que a escola é responsável pelo ensino da leitura e da escrita e que essas oráticas fazem parte das atividades de todas as 123 disciplinas do currículo escolar. Assim, a leitura e a produção de textos nas disciplinas curriculares constituem instrumentos de intervenção social, pois, segundo Freire (2002), ao mesmo tempo em que leitura capacita o indivíduo a dimensionar seu lugar na sociedade, ela lhe permite o desenvolvimento do pensamento crítico para que ele seja capaz de decidir e exercer seus direitos e melhorias na qualidade de vida. Isso significa que a leitura não resolve os problemas sociais e/ou individuais, mas constitui um recurso para interagir com o real interpretá-lo e compreendê-lo. Como visto, também o estudo exploratório evidencia elementos que interferem no trabalho com a leitura no âmbito da sala de aula. Revelam, também, elementos que demandam a discussão de concepções de língua, linguagem e texto, além de provocar reflexões sobre a formação dos professores para o trabalho com a leitura na escola. Esse movimento constitui um campo fértil para a emergência de novos saberes, novas ações e relações pedagógicas no trabalho com a linguagem. Nesse contexto, o estudo das práticas de letramento escolar toma- se relevante. Outra contribuição importante obtida com base neste estudo tem relação estreita com o desenvolvimento da pesquisa propriamente dita, dentre os quais destacam-se; preparação da pesquisadora para realização de um estudo etnográfico, maior clareza com relação aoS critérios a adotar na seleção de escolas, articulação de ações com os professores, coordenação e diretoria para entrada, permanência na sala de aula e filmagem das aulas, como também 3 definição de ações para coleta e análise dos dados de acordo com o foco de pesquisa proposto, dentre outros. 3.3 Descrição do contexto da pesquisa: a Escola 2 e os sujeitos da pesquisa A Escola 2^^ recebe com regularidade estagiários da Universidade Federal de Mina^ Gerais (UFMG), das diferentes áreas do conhecimento, e já foi lócus de outras pesquisas- entre elas a de Machado (1990) e Dalben (1990). O processo de negociação para a entrada etf campo aconteceu em dezembro de 2006, pois a intenção era iniciar a pesquisa em fevereiro A seleção das escolas para o Estudo Exploratório e para a pesquisa propriamente dita se deu atendendo 3" critério inicialmente de desenvolver a pesquisa em escolas públicas que atendessem alunos das camada' populares. Outra consideração básica foi que o coipo docente da escola aceitasse a realização da pesquisa seu interior. 124 2007, a fim de obsei"var o processo de constituição grupai da turma e as ações e práticas adotadas pelos professores a partir da primeira semana de aula. Os ANEXOS 2, 3 e 4 atestam que nesta pesquisa foram seguidas as orientações do Comitê de Ética na Pesquisa da Universidade Federal dc Minas Gerais (COEP/UFMG)" que, além da adoção de princípios éticos na pesquisa, prevê, dentre outros, o preenchimento dc formulários específicos, como Protocolo de Pesquisa, Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) pelos professores, pais e alunos envolvidos na pesquisa. Dentre os compromissos éticos adotados, destaca-se a garantia de anonimato para a escola, professores e alunos. A questão da ética na pesquisa também esteve muito presente nos contatos e negociações de entrada na sala de aula com cada professor. A devolução dos resultados dc pesquisa foi uma demanda apresentada por eles. A Escola 2 foi fundada em 1972 e, desde a sua criação, vem atendendo alunos provenientes de áreas consideradas de risco social, moradores de bairros da periferia e adjacentes na regional Nordeste. É um3 escola bem conservada. Apresenta aspecto agradável e acolhedor, dado o seu espaço arborizado. Possui biblioteca, sala de leuniões, laboratórios, sala de vídeo, sala de Informática, refeitório, cozinha industrial, cantina e banheiros feminino e niasculino. As salas de aula estão divididas em três blocos e apiesentam boa iluminação c aeração. Cada bloco possui salas ambiente para as disciplinas cuniculares. Nesse caso, o professor permanece na sala de aula com o material específico da sua disciplina, como livros didáticos, paradidáticos, dicionários, atividades produzidas paia os alunos, etc., enquanto os alunos se locomovem de uma sala para a outra de acoido com o hoiário do dia. A época da pesquisa, a Escola 2 funcionou nos três turnos, no turno da manha atendeu alunos da T e da 8® série; no turno da tarde, alunos da S'' e da ó" serie; e à noite funcionou o Ensino Regular da S"" à 8" série. Quanto ao número de alunos atendidos em 2007, a escola atendeu 573 alunos no turno da manhã, 580 no turno da tarde e 368 no turno da noite. Quanto aos professores, foram distribuídos por turno e blocos. 22 no turno da manhã, 21 no turno da tarde e 16 no turno da noite. A escola também contou com o trabalho de coordenadores de turno, distribuídos nos três blocos dos três turnos escolares. " O COEP/UFMG é óraão vinculado administrativamente à Reitoria, autônomo em suas decisões e dc caráter multidisciplinar e multiprofissionai. Tem atribuições normativas, deliberativas, consultivas e educativas, cabendo-lhe estimular a reflexão sobre a ética na pesquisa envolvendo seres humanos, em sintonia com a Resolução n. 196 de 10 de outubro de 1996. do Conselho Nacional de Saúde. 125 Quanto ao número de alunos, cada sala de aula tinha no máximo 35 alunos, o horário era subdividido em quatro horas-aula diárias de 60 minutos. Pode-se afirmar, também, que o espaço da sala de aula era controlado pelo tempo. A organização condicionou a relação professor, aluno e conhecimento por ser desenvolvido também segundo o tempo de aula que cada professor tem. Essa organização temporal é prevista no currículo escolar, que define as disciplinas que serão incluídas no currículo e ainda o tempo destinado a cada uma delas. A coleta de dados na Escola 2 realizou-se no período de fevereiro a dezembro de 2007. Os professores participantes da pesquisa indicaram a 8® F como turma a ser pesquisada. A TAB. 2 apresenta os dados do perfil dos professores. Também o ANEXO 9 apresenta o roteiro do questionário e da entrevista aplicados para coleta dos dados apresentados nesse tópico. Na Escola 2, o grupo pesquisado era composto por sete professores:^^ Paulo (Português); Marta (Artes); Silvia (Inglês); Carla (Geografia); Sérgio (História); Rosana (Ciências) e Tânia (Matemática). Quanto ao gênero, idenfificou-se predomínio do feminino, com 71,42%, e o masculino, com 28,57%. Com relação à formação acadêmica desses professores, 100% eraiTi graduados e 71,42% estavam cursando pós-graduação lato sensu. Ainda na TAB. 2, é possivel verificar o acesso a dados sobre o tempo de serviço dos docentes na Rede Pública. A maioria tinha, na época da pesquisa, mais de 10 anos, representado por 85,71%. Esse dado revela que os professores têm significativo tempo de experiência docente. Já o item "Tempo de serviço na escola" revelou que a maioria dos professores (71,42%) tinha mais de cinco anos na escola, o que demonstra o alto índice de estabilidade dos professores naquela escola e, consequentemente, baixo índice de rotatividade no corpo docente. TABELA 2 Perfil dos professores GÊNERO FORMAÇÃO TEMPO DE SERVIÇO NA REDE PÚBLICA TEMPO DE SERVIÇO NA ESCOLA 2 M as cu lin o Fe m in in o j G ra du aç ão Pó s- gr ad ua çã o 1 a 5 an o s 5 a 10 an o s M ai s de 10 an o s 1 a 3 an o s 4 a 5 an o s M ai s de 5 an o s 2 5 7 5 0 1 6 0 2 5 _ 28.57 71.42 100 71.42 - 14,28 85,71 - 28,57 71.42 _ Fonte: Pesquisa de campo, entrevista, dados sociocultiirais - Jun./ 2007. Foram utlizados pseudônimos para os professores e alunos. 126 Na TAB. 3, apresentam-se os dados do perfil da tumia. No ANEXO 10, apresenta-se o roteiro utilizado para coleta dos dados. Como se vê, na Escola 2 a turma foi constituída por alunos, dentre os quais 48,57% eram moças e 51,42% eram rapazes. Quanto à faixa etária, os alunos tinham idade entre 13 e 16 ano.s, sendo que 57,14% tinham 14 anos, seuuidos de 25,71%) com idade de 13 anos, 14,28% tinham 15 anos e apenas 2,85% tinham 16 anos. TABELA 3 Perfil dos alunos GENERO FALXA ETÁRIA Meninas Meninos 13 14 15 16 17 18 9 20 5 1 48.57 51.42 25,71 57.14 14.28 2.85 Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioeulturais - Jun./ 2007. Os dados sobre a trajetória escolar são apresentados na TAB. 4. A maioria (68.57%) ingressou na Escola 2 na 5^ série. Dos 35 alunos, 31,43% foram reprovados em altíum momento da trajetória escolar. É um percentual alto, que reflete o índice preocupante de fracasso escolar nas camadas populares. Esses dados demandam intci-venção no campo das políticas públicas da educação brasileira, tendo em vista a maior qualidade no processo ensino-aprendizagem. Na tentativa de reduzir os índices de fracasso escolar c oferecer maior acompanhamento aos alunos provenientes de situação de risco social, a ESCOLA 2, nos últimos dez anos, vem oferecendo projetos de intervenção pedagógica e atividades socioeulturais após o turno escolar. TABELA 4 Trajetória escolar INGRESSO NA ESCOLA REPROXA TRAJEI ESCO ÇÕES NA rÓRIA LAR participação em PROJETOS DE INTERVENÇÃO pedagógica Na série Na 6° série Na 7" série Na 8" série Sim Não Sim Não =1__ 6 3 3 11 24 07 28 ^68,57 17,14 8,57 8.57 31.42 68.57 19,99 79.99 Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioeulturais — Jun./ 2007. 127 O levantamento realizado mostrou que nessa turma apenas 20% dos alunos participaram desse tipo de atividade extraescolar organizado pela escola. Na TAB. 5, apresentam-se as modalidades de projetos implementadas; Rede do 3° Ciclo (11,42%); Escola Integrada (11,42%); Panda (8,57%) e 2" Tempo (2,85%). Esses dados indicam um percentual reduzido de participação dos alunos nesses projetos. TABELA 5 Participação em projetos Rede do 3° ciclo 4 11,42 Escola Integrada 4 11,42 Panda 3 8.57 2" Tempo 1 2.85 Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/ questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. Na TAB. 6, observa-se que os alunos avaliam as capacidades adquiridas na escola ao longo da trajetória escolar: 60% destacaram aprender a ler e escrever; seguidos de 40%, que destacaram a aquisição de cultura e novos conhecimentos. O item "Amizades construídas" no âmbito da escola também apresenta percentual expressivo: 37,14%. Constata-se que 14,28°/" dos alunos destacam a capacidade de aprender a ler livro, seguida de aprender a escrever e comunicar-se melhor com as pessoas, respectivamente. Observa-se que esse percentual somado eqüivale a 42,84%, ocupando assim o 2" lugar na escala das capacidades adquiridas na escola. TABELA 6 Capacidades adquiridas na/da trajetória escolar Aprender a ler e escrever 21 59.99 Adquirir cultura e novos conhecimentos 14 39,99 Amizades 13 37,14 Ser educado, ter respeito e responsabilidade 11 31,42 Raciocínio lógico e resolução de problemas 8 22,85 Aprender a ler livros 5 14,28 Aprender a escrever 5 14,28 Comunicar melhor com as pessoas 5 14,28 Praticar esportes 4 11,42 Saber ouvir 1 2.85 Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. 128 Considerou-se importante obter infonnações sobre o relacionamento com os professores, colegas e o conhecimento no âmbito da sala de aula. Assim, na TAB 7 apresenta-se o gosto dos alunos. Predominaram o gosto pelo bate-papo com os coleuas (68,57%) e a prática de esportes (48,57%). Sem dúvida, esses dados têm a ver com a faixa etaria e a fase vivida por eles, na qual cresce a formação e a valorização dos grupos juvenis. TABELA 7 Coisas de que gosto dc fazer na escola - 1 - f Bater papo com os colegas no recreio e intervalos 24 68.57 Praticar esportes 17 48.57 Aprender sobre temas interessantes 6 17.14 Excursões 4 11.42 Ler 1 2.85 Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados sociocuilurais - Jun./ 2007. Na TAB. 8, apresenta-se o índice de preferência entre as disciplinas. Educação Física obteve o maior percentual (77,14%), seguido de Matemática (37,14%). Chama atenção o baixo interesse pelas disciplinas Português, Inglês e Ciências, representado por 8,57%), respectivamente. TABELA 8 Preferência entre as disciplinas do currículo escolar Educação Física 27 77.14 Matemática 13 37.14 História 9 25,71 Artes 5 14.28 Geosrafia 4 11.42 Portusuês 8.57 Inglês 3 8,57 Ciências 8.57 Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais — Jun./ 2007. Sobre esse aspecto, considerou-se importante saber qual era o critério adotado pelo ^luno para preferir uma disciplina a outra. Na TAB. 9, apresentam-se os aspectos Considerados importantes pelos alunos. Dos 35 alunos, 34,29%, destacaram o item aulas "iteiessantes, seguido do bom humor do professoi, com j],43% e do entendimento que o a'uno consegue obter na disciplina, representado po*' 22,86^o. Fica evidente, nesse critério, "íue na opinião dos alunos a interação professor e aluno é um aspecto importante, bem como 129 são importantes as relações afetivas marcadas pela amizade, respeito e reconhecimento das capacidades dos alunos. Outro aspecto contemplado por eles é a capacidade do professor de expor a matéria, critério apresentado por 22,86% dos alunos. TABELA 9 Justificativa da preferência A aula é interessante 12 34.28 A professora é bem-humorada, amiga e explica bem a matéria 11 31,42 Entendo melhor 8 22.85 Gosto da área exata 7 19.99 Gosto de esportes 6 17,14 Não sou bom e quero aprender 3 8,57 Gosto de conhecer a história dos povos antigos 2 5,71 Gosto de estudar os animais e o corpo humano 2 5,71 Não respondeu 2 5.71 Aprendi muito sobre a Segunda Guerra Mundial 1 2.85 Gosto de Artes 1 2.85 Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. Na TAB. 10, destaca-se o índice de rejeição, predominante em Ciências (37,14%) e em Matemática (31,43%)). No caso da Matemática, chama atenção o fato de essa disciplina ter obtido alto índice de preferência na TAB. 9, em contraposição a outro grupo de alunos que, na TAB. 10, a rejeitaram (31,43%)). TABELA 10 Rejeição entre as disciplinas do currículo escolar Ciências 13 37,14 Matemática 11 31,42 Portuaués 6 17,14 Geografia 6 17,14 Artes 3 8,57 História 3 8,57 Inglês 3 8,57 Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. A justificativa para a rejeição foi apresentada na TAB. 11. Os maiores índices forait' identificados nos itens: não gosto (37,14%) e o jeito do professor (22,86%)). índice aK^ também apareceu no item dificuldades que o aluno encontra nessa área do conhecimento, aqi^' representado por 22,86%. 130 TABELA 11 Justificativa da rejeição Não gosto e não tenho interesse 13 37.14 0 jeito do professor 8 22.85 Tenho dificuldades para entender 8 22.85 0 professor explica, mas eu não entendo 4 11.42 Não responderam T 5,71 Sou pior em nota 2 5,71 0 professor não explica direito 2 5,71 Por causa das leituras em quadros 1 2.85 Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. Importante, também, é saber dos alunos os tipos de atividades que eles gostariam que os professores desenvolvessem. Os dados estão apresentados na TAB. 12, em que se destacam o interesse dos alunos por aulas diferentes e descontraídas (42,86%) e mais humor e menos estresse (37,14%), seguidos de um item que chama atenção, com 28,57% dos alunos que gostariam que os professores explicassem melhor a matéria. Esses dados, resultado das entrevistas e questionários com alunos, são importantes porque evidenciam, neste estudo, a voz do sujeito discente e seu importante papel na construção das oportunidades de aprendizagem nas diferentes áreas do conhecimento. Eles serão considerados na triangulação dos dados, técnica de pesquisa adotada neste estudo, cujo objetivo é cruzar os dados da observação participante com os dados obtidos por meio da fala dos participantes em contextos formais e informais e com base neles fazer uma análise comparativa. TABELA 12 Gostaria que os professores... Aulas diferentes e descontraídas 15 1 42.85 Mais humor e menos estresse 13 37,14 Que explicassem melhor a matéria 10 28.57 Projeção de filmes 8 22.85 Não dessem ocorrências nem chamassem os pais 8 22.85 Aulas de informática 7 19,99 Menos dever de casa porque temos outras ocupações 5 14.28 Aulas no Laboratório 4 11,42 Continuar com eles são 4 11,42 Que dessem boas notas 2 5.71 Não responderam 2 5,71 Menos preocupação com seu salário 2 5,71 Fonte; Pesquisa de canipo, entrevista/questionario, dados socioculturais — Jun./ 2007. 131 O ano letivo teve início com reuniões pedagógicas. O período de permanência na sala de aula para coleta de dados foi de fevereiro a setembro de 2007. Com o intuito de realizar outros procedimentos importantes da pesquisa, continuei presente na Escola 2 de outubro a dezembro de 2007, realizando outras atividades como: entrevistas com professores e alunos; aplicação de questionário e escrita de notas etnográficas;^" análise de livros didáticos;^' análise das atividades propostas pelos professores; além de ler e comparar textos produzidos pelos alunos nas disciplinas curriculares. " No ANEXO 5, apresenta-se a relação das 169 aulas observadas e filmadas, em que todas os professores propuseram algum tipo de leitura. Já a escrita foi proposta em 33 aulas. Os professores solicitaram aos alunos alguma produção de texto e definiram-lhe os critérios. No ANEXO 6, apresenta-se a relação dos livros adotados em 2007, como também os subsídios didáticos complementares das disciplinas curriculares. Assim, na TAB. 13 apresentam-se o número de aulas e o de produções textuais eiB cada disciplina e o seu percentual representativo. Assim, pode-se dizer que eles confinnam o predomínio na carga horária de algumas disciplinas, como Português e História, representadas por 30,30% e 18,18% respectivamente. Quanto à produção textual houve o predomínio Português (30,30%), Inglês (24,24%) e Ciências (18,18%). TABELA 13 Número de aulas por disciplina - Escola 2 DISCIPLINAS TOTAL AULAS PRODUÇÃO TEXTO % Português História Inglês Ciências Geografia Matemática Artes 60 36 23 22 20 19 18 10 5 8 6 2 2 30,30 15,15 24,24 18,18 6,06 6.06 Total 1 198 1 33 - Fonte: Caderno 1, Notas etnográficas, p. 25-200, 2007. Caderno 2, Notas etnográficas, p. 1-96, 2007. Cf. BRENNER, 2006. Cf. EMERSON; FRETZ; SHAW, 1995; ERICKSON; SCHULTZ, 1997. Cf BATISTA; COSTA VAL, 2004. Cf FRANCHI, 2002; GERALDI, 2006; LEAL; MORAIS, 2006; DELLTSOLA, 2007; LEAL; BRANDA^' 2007; CITELLI, 2008. 132 No próximo tópico, apresent-se a análise dos dados coletados com os alunos sobre as práticas de letramento; leitura, escrita e oralidade no contexto escolar e extraescolar. 3.4 As representações dos alunos sobre as práticas de letramento: leitura, escrita e oralidade no contexto escolar e extraescolar Nesta parte, são apresentados dados de caracterização dos sujeitos da pesquisa para responder á seguinte questão: Que práticas de letramento têm os alunos no contexto escolar e extraescolar? No ANEXO 9 encontra-se o roteiro utilizado para essa coleta de dados obtida entrevista e questionário aplicados na turma de 8" série. Esse levantamento aponta elementos sobre as práticas de leitura e escrita. Na TAB. 16, observa-se que 40% dos alunos afinnaram qaue tinham dificuldades para ler, escrever, falar em público e fazer exercícios. Surpreendentemente, 37,14% afirmaram não ter essas dificuldades. TABELA 14 Dificuldade para ler, escrever. Sim 14 40,00% Não 13 37,14% Mais ou menos 8 22,86% socioculturaís — Jun./ 2007. Na TAB. 14, procurou-se identificar entre as capacidades de escrever, falar cm público, ler e fazer exercícios o nível de dificuldades dos alunos. A maior dificuldade apareceu na escrita, com 42,86%, seguida pela dificuldade de falar cm publico, com 28,57%,. A dificuldade para ler apareceu em terceiro lugar com 17,14%. T.4BELA 15 nificuldades para.. 15 escrever em público 10 6 42.86% 28,57% 17,14% ler 11.43% fazer exercícios Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/ questionário, dados socioculturais - Jun. 2007. 133 Na TAB. 15, são apresentadas as justificativas dos alunos adiante dessas dificuldades. Trata-se de um importante exercício meta-avaliativo de reflexão sobre o seu desempenho acadêmico. Assim, 54,29% dos alunos alegaram que as dúvidas aparecem na escrita e 40% se consideraram tímidos e inseguros em situações que envolvem o uso da oralidade em público. Chama-se atenção para a justificativa Escrevemos pouco e fazemos muitos exercícios fáceis, com 17,44% de resposta. Esses dados indicam o papel relevante do professor como mediador das práticas de leitura e escrita que vão interferir no desempenho do aluno e na aquisição das capacidades letradas. TABELA 16 Justificativa das dificuldades Tenho dúvidas quando vou escrever 19 54.29% Sou tímido, tenho vergonha e fico nervoso 14 40,00% Não responderam 7 20.00% Escrevemos pouco e fazemos muitos exercícios fáceis 6 17,44% Depende do tema, as vezes ele é complicado 4 11,43% Tenho preguiça mas faço 3 8,57% Cometo erros na ortografia 2 5,71% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun. 2007. Como se vê, também nas representações dos alunos, os chamados exercícios ài copiação não estimulam a reflexão crítica. São perguntas e respostas padronizadas ^ repetifivas. Em geral, não apresentam desafios e estão voltadas apenas para a identificação informações objetivas e superficiais do texto.Não são, portanto, exercícios de compreensão. A compreensão é uma atividade dialógica que se dá na relação com o outrO' Compreender na perspectiva bakhtiniana é inferir, criar, representar e propor sentidos. ^ compreensão é um processo criador, ativo e construtivo que vai além da informação' estritamente textual. Rojo (2002), com base na teoria de Bakhtin, chama atenção para pontoS centrais na campo da formação do leitor: Trata-se mais de despertar a réplica ativa e a flexibilidade dos sentidos polissemia dos signos, que de ensinar o aluno a reconhecer, localizar ^ Os chamados exercícios de copiação foram criticados por priorizarem a atividade de decodificação. De mod" geral, a resposta achava-se exclusivamente no texto. São respostas subjetivas, superficiais e não há como testá' Ia em sua validade. São atividades mecânicas de transcrição de frases ou palavras, como copie, retire, apof'^' indique, complete, assinale, identifique, etc. (MARCUSCHI, 2002, p. 55) 134 repetir os significados dos textos - no dizer de Marcuschi (1996), exercícios de copiação, ao invés de compreensão. (ROJO, 2002, p. 40) No que diz respeito a esse item, chama-se atenção para o papei do professor nas práticas de letramento escolar no contexto da educação básica. Leitura, escrita e oraiidade são eixos centrais no Ensino Fundamental. Trabalhar as dificuldades dos alunos nessas capacidades é uma ação inclusiva, pois possibilitará ao aluno ter acesso a diferentes informações e participar de eventos de letramento escolar e extraescolar que ampliam sua participação na sociedade, ou seja, saber ler, escrever, falar em público e participar ativamente de eventos de letramento nas disciplinas possibilita ao aluno inserir-sc em situações diversas próprias da nossa sociedade letrada em que o texto escrito é usado para mediar as interações. Trata-se de ações que desenvolvem capacidades e, portanto, contribuem para a construção de identidade cidadã dos alunos. Na TAB. 17 apresentam-se dados sobre o uso do tempo após o horário escolar. Entre os 35 alunos, 51,43% afirmaram que pennanecem em casa, seguidos de 31,43%, que disseram Que usam o tempo para cumprir atividades do Para Casa. Em terceiro lugar, com 25,71%, está a prática de atividades domésticas, também em casa. Constata-se que o público-alvo desta pesquisa é constituído por alunos provenientes das camadas populares que vivem, em sua iTiaioria, em áreas de risco social e deveriam ter acesso a atividades socioculturais variadas. Os dados demonstraram que apenas 20% deles praticavam esportes; 14,29% prestavam algum tipo de serviço e apenas 11,43%, nessa turma, participavam, à época da pesquisa, do Projeto Escola Integrada. TABELA 17 Uso do tempo após o liorário escolar Fico em casa. descanso, assisto televisão 18 51.43% Faço 0 Para Casa 11 31.43% Serviços domésticos em casa 9 2.5.71% Pratico esporte 7 20.00% Prestação de ser\'iços 5 14.29% Participo do Projeto Escola Integrada 4 11.43% Curso de teatro 2 5,71%, Curso de Inglês 1 2,86%, Cursinho no Cefet/Coltec 1 2.86% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais Jun. 2007. 135 Sobre os gêneros do discurso utilizados fora da escola, como se observa na TAB. 18, predominou o uso de jornais com 62,86%. Identificou-se o acesso a jornais populares, de baixo custo, entre eles, o Superinteressante e o Mais, que foram citados pelos alunos effl eventos de letramento analisados nesta pesquisa. Em seguida, vem o gênero revista, com 60% de uso. Neste estudo revela-se que um percentual significativo dos alunos tinha, à época da pesquisa, acesso a diferentes revistas. Com 48,5% aparecem os livros. Os quadrinhos (gibis) foram citados, também, por 42,86% dos alunos. Com base nos dados da TAB. 18, pode-se afirmar que os alunos leem predominantemente jornais e revistas, seguidos de livros. TABELA 18 Gêneros do discurso utilizados fora da escola .(ornais 22 62.86% Revistas 21 60.00% Livros 17 48.57% Quadrinhos 15 42,86% Internet 7 20.00% Folheto religioso 4 11,43% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun. 2007. Questionados sobre o gosto pela leitura (TAB. 19), 48,57% responderaifl afiiTnativamente, seguidos de 45,71% que responderam negativamente. Com base nesses dados, os professores não podem dizer que os alunos do Ensino Fundamental não gostam de ler, pois estariam indo contra o resultado da TAB. 20. Do total, 48,57% disseram que gostai, somados aos 25,71% que usaram a expressão "mais ou menos", totalizando 74,28%. O' motivos que os alunos do Ensino Fundamental justificam como causadores do desejo de são a cultura, a atualização que a leitura proporciona, a facilidade adquirida na expressão ^ escrita e a necessidade real que têm a leitura na sociedade. TABELA 19 Gosto pela leitura Sim 17 Não 16 Mais ou menos 9 Não responderam 3 Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun. 2007. 136 Ainda sobre o tipo de leitura a que os alunos têm acesso, dados presentes na TAB. 20 62,86% dos alunos citaram revistas, 54,29% gibis, seguidos de suspense com 48,57%, romance com 34,29%, policial com 28,57%, seguido por contos com 25,71%. Bíblia e folhetos religiosos têm destaque como gênero de leitura e foram citados por 20% dos alunos TABEL.A 20 Tipo de leitura Revistas 2T 62.86% Gibi 19 54.29% Suspense 17 48.57% Romance 12 34.29<^-, Policial 10 28.57'!o Contos 9 25.71%, Bíblia e/ou folheto religioso 7 20.00"/ó Livros de Autoajuda 2 5.71%, Comédia 2 5.71% Aventura/ação | 2 5.71% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun./2007. Sobre as fonnas de aquisição dos textos, na TAB. 21 mostra-se que 45,71 % dos alunos retiraram livros e revistas na biblioteca escolar - prática que a escola está desenvolvendo conforme os dados. Dentre os alunos, 37,14% afímiaram, também, que conseguem esse material com os amigos ou com a família, 34,29%. É significativo o percentual dc alunos (37,14%) que afinnaram que adquirem esse material comprando-o, o que revela, também, que ^sse é visto como um investimento. TABELA 21 Formas de aquisição dos textos Biblioteca escolar 16 45,71% Meus amigos emprestam 13 37.14% Compro 13 37.14% Minha família 12 34.29% Ganho na Isreja 3 8.57%, Não responderam 3 8.57% Internet 1 2.86% Fonte: Pesquisa de campo, cntrevista/questioiuírio, dados socioculturais - Jun./ 2007. 137 Os dados expostos confimiam a importância da leitura como objeto de ensino. Para formar leitores, objetivo que vem crescendo no meio educacional, toma-se importante reconstruir concepções sobre leitura, interferir positivamente nas práticas de leitura dos alunos, ajudando-os a desenvolver a autonomia na leitura, bem como garantindo-lhes o acesso a diferentes gêneros do discurso. A escuta sobre o que dizem os alunos também pode ajudar a viabilizar projetos de formação do leitor. Para tanto, será importante compreender os motivos que levam o aluno a gostar ou não gostar de ler. TABELA 22 Acesso à internet Sim 32 91.43% Não 3 8.57% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. Na TAB. 22 apresentam-se dados sobre o acesso à internet: 91,43% dos alunos responderam positivamente. Quanto ao local de acesso (TAB. 23), 100% dos alunoS afirmaram que utilizam esse equipamento na escola, seguidos de 62,86%, que afirmaram qu^ tinham acesso a ele em casa. Além disso, 48,57% dos alunos afirmaram que tinham acesso 3 internet em lan houses. No que diz respeito a esse item, é importante acrescentar que a Escola 2 possuia, à época da pesquisa, dois laboratórios de informática. A utilização desses espaços se dava mediante reserva antecipada, para dar oportunidade a todas as tuniias de utilizá-loS' Além disso, tendo em vista o número de alunos por tunna e o de computadores, o acesso noS laboratórios de infoniiática foi organizado em duplas de alunos TABELA 23 Local de acesso à internet Na escola 35 100% Em casa 22 62.86% Em Lan House 17 48.57% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. Considerou-se importante saber as formas de utilização dos computadores pelo® alunos (TAB. 24): para que utilizavam a internet? Dentre os alunos da turma, 88,57°/" afirmaram que navegavam em vários sites; 82,86% disseram que o utilizavam para pesquis^^ e trabalhos escolares. Também foi expressivo o número de alunos que utilizaram o computador para bate-papos no MSN/Orkut, 77,14%, seguido por 68,57% dos alunos que utilizaram a internet para jogos e brincadeiras. TABELA 24 Formas de utili/ação do computador Navego em vários sites 31 88,57% Pesquisas e trabalhos 29 82.86% MSN/Orkut 27 77,14%, Jogos e brincadeiras 24 68,57% Fonte; Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. Os dados sobre o acesso e uso da internet retomam um dos desafios pedayouicos da escola: letrar digitalmente uma nova geração de crianças e adolescentes que estão crescendo e vivenciando os avanços das tecnologias de infonnação e comunicação conforme defendido por Soares (2002). Assim, o letramento digital implica a realização de práticas de leitura e escrita diferentes das fonnas tradicionais de letramento e alfabetização. Ser letrado digital pressupõe assumir mudanças nos modos de ler e escrever os códigos e sinais verbais e não verbais, como imagens e desenhos, comparados às fonnas de leitura e de escrita feitas no livro, até porque o suporte sobre o qual estão os textos digitais é a tela, também digital.'^"' Nesse sentido, Xavier (2002), em seus estudos sobre letramento digital c ensino afinna que o uso do hipertexto e da internet na escola afetará o ensino e a aprcndizasjein c os P^'ogramas escolares de fonna detenninante. Assim, a utilização dessas tecnologias como instrumentos pedagógicos desafiam os conceitos e as atividades de aprendizagem vigentes no lue se refere à escrita e à leitura. Na TAB. 25, apresentam-se dados sobre o item "Gosto pela escrita": 40% dos alunos "■esponderam afirmativamente, 34,29% optaram pelo mais ou menos c 25,71% responderam negativamente. Cf. TUMAN, 1992; LANDOW, 1992; SOARES, 2002; XAVIER, 2002; MARCUSCUI, 2004; KIST. 2005- LANKSHEAR; KNOBEL, 2006. 139 TABELA 25 Gosto pela escrita Sim 14 40.00% Mais ou menos 12 34.29% Não 9 25.71% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/ questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. Sobre a produção de texto, item exposto na TAB. 26, verificou-se que 54.29''/o consideraram fácil, 25,71% afimiaram que era difícil e 20% optaram pelo mais ou menos. TABELA 26 Produção de texto E fácil 19 54,29% E difícil 9 25.71% Mais ou menos 7 20.00% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/ questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. Sobre as justificativas para a opção fácil (TAB. 27), dentre os respondentes, 17,14% dos alunos se consideraram criativos e com boas idéias, 8,57% destacaram positivamente aS orientações dos professores e 2,86% ressaltaram o apoio recebido em casa. TABELA 27 É fácil porque... Sou criativo e as idéias surgem 6 17,14% Os professores orientam bem 3 8,57% Tenho apoio em casa 1 2.86% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/ questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. As justificativas apresentadas para a opção "dificil" (TAB. 28) mostram que 40% doS alunos alegaram falta de criatividade para desenvolver as idéias, 20% afirmaram que depend^ do tema e um número representativo, 14,29%, não respondeu. Apenas, 5,71% consideraraif chata a atividade de produção de texto. TABELA 28 É difícil porque... Falta criatividade para escrever 14 40,00% Depende do tema 7 20,00% Não responderam 5 14.29% E chato 2 5,71% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/ questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. 140 Considerou-se importante obter informações dos alunos sobre o uso da escrita fora da escola (TAB. 29). Dentre eles, 82,86% responderam afimiativamente sobre o uso da escrita e 11,43% responderam negativamente. TABELA 29 Utilização da escrita fora da es cola Sim 29 82.86"/» Não 4 11,43% Não responderam 2 5,71% Fonte: Pesquisa de campo, ciitrevista/questionário, dados socioculturais - Jun./ 2007. Na TAB. 30 são apresentadas as fomias de uso da escrita fora da escola. Dentre os respondentes, 71,43%) apresentaram as formas recados e bilhetes, 45,71 %o destacaram o uso da escrita na elaboração do Para Casa, 22,86% citaram a carta. O envio de e-mails e mensagens internet vem em seiiuida, com 22,86%. Outros tipos dc mensagem também foram apontados; mensacens e poemas na agenda com 17,14/ó e mensagens no celular, com H,29%. TABELA 30 rormas ui- umii-ov"" — Recados e bilhetes — 25 71,43% Para Casa 16 45.71%, Cartas — 8 22.86%, Enviar e-mails 8 22M% Mensaíiens e poemas na agenda — 6 17.14% Mensauem no celular — 14.29';;, Não responderam 2 5,71% No cursinho 1 2,86% socioculturais - Jun./ 2007. Os dados sobre a escrita trazem relevantes contribuições para se refletir sobre as seguintes questões: como a produção de textos tem sido tratada na escola? Como articular as práticas escolares de produção de textos com aquelas que acontecem fora da escola? A atividade de escrita envolve duas dimensões inter-rciaciouadas: a dimensão sociodiscursiva e os processos cognitivos. A dimensão sociodiscursiva envolve os seguintes «Pectos: para gm ^ propósito; pare qmm - destinatário; » gue - conteúdo; com, - formato, quais dizem respeito á interação e eontextualizam a produção de textos. Já os processos cognitivos envolvidos na produção de textos escritos se referem ao campo psicológico da 141 atividade intelectual do processo de produção: gerar, selecionar e organizar idéias, esboçar effl uma primeira versão, revisar, editar em uma versão final. Nessa perspectiva, produzir textos escritos é um ato complexo, pois implica o desenvolvimento da capacidade de coordenar e integrar operações de vários níveis e conhecimentos diversos; lingüísticos, cognitivos e sociais. Nesse processo, o aluno depara com a necessidade de gerar e selecionar idéias e conteúdos, de organizar linguisticamente, o que envolve escolhas lingüísticas apropriadas de registro do texto, de modo que ele atenda à finalidades e ao interlocutor visados. Escrever constitui, então, um modo de interação social entre pessoas. Quem escreve, escreve sabendo para que e para quem está escrevendo, isto é, tem sempre uma finalidade e um interlocutor, ainda que essa escrita se destine a si mesmo. Ao escrever, o sujeito enuncia o seu pensamento, com algum propósito, para si ou para o outro, configurando ou autoorientação, ou uma relação entre sujeitos. Sobre esse aspecto, Geraldi (1997) lembra que na escrita de um texto é necessário se tenha não somente o que escrever, mas também para que e para quem escrever. Essas infonnações servirão para orientar tanto a escolha do gênero discursivo como a dos recursos lingüísticos a serem adotados. Vários pesquisadores, dentre eles, Leal (2003), Tardelli (2002), Leal e Morais (2004) constataram que os alunos têm poucas oportunidades de vivenciar situações de escrita textos para entender as finalidades claras e destinatários variados. Esse aspecto, sem dúvida- vai interferir no interesse ena valorização da escrita. Os dados coletados mostram que no dia a dia os alunos foram capazes de produzií diferentes gêneros do discurso, dentre eles agenda, MSN, e-mail, recado, carta, bilheteS' poemas, etc. No mundo da escrita, os textos são agrupados de acordo com suas característica^ e são socialmente reconhecidos. A interação por meio dos gêneros é possível com basse ness^ agrupamento. Toma-se pertinente retomar as contribuições de Bakhtin (2000, p. 279) de "cada esfera da utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados"- Pelos dados desta pesquisa, confimiou-se que os alunos escrevem. Infelizmente, experiências de escrita dos alunos fora da escola não foram consideradas no contexto ensino. Os alunos produziram textos nas diferentes disciplinas, mas a circulação de texto^ produzidos foi pequena não somente na aula de Português, mas também nas dem^'' disciplinas, e, em geral, o único interlocutor foi o professor, ou seja, fora da escola os aluno^ 142 tinham mais chances de vivenciar as experiências de escrever textos, antecipando reações de seus interlocutores, do que na escola. Em sintonia com a abordagem teórica adotada nesta tese, é fundamental proporcionar aos alunos situações de escrita semelhantes àquelas que acontecem fora da escola. Cabe ao professor criar situações nas quais os alunos possam elaborar diferentes gêneros para atender a variadas finalidades e diferentes interlocutores. Dessa fonna, será possível aprender a planejar a escrita do texto tendo como norte os objetivos sociais da escrita. Finalmente, nas TAB. 31 e 32, são apresentados dados sobre a autoavaliação dos alunos, item "desempenho como leitor e escritor". Os resultados apurados na TAB. 3 1 foram os seguintes: 62,86% se consideraram leitores e escritores medianos; 20% afirmaram que eram bons leitores e escritores; 17,14% consideraram-se leitores e escritores com dificuldades; e apenas 9,71% escolheram a opção leitor e escritor com muitas dificuldades. TABELA 31 Eu me considero... Um leitor e escritor mediano 22 1 62.86%, Um bom leitor e escritor 7 20,00%. Um leitor e um escritor com dificuldades 6 17,14%. Um leitor e um escritor com muitas dificuldades 2 9.71%, Fonte; Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais Juii. 2007. Na TAB. 32, obsei-vam-se as justificativas apontadas pelos alunos. Dentre elas apareceram: erros cometidos na escrita: 34,29%; timidez, vergonha e insegurança para se expressar publicamente: 20. Apenas 14,29% consideraram que tinham boa leitura, porém eram tímidos e gaguejavam. Dentre os respondentes, 11,43% afímiaram que gostavam de ler e de escrever, 2,86% responderam que cometem erros e não praticam a leitura e 2,86% afirmaram que não gostavam de ler nem escrever. TABELA 32 Justificativa Cometo erros na escrita Tenho vergonha e fico nervoso ao Leio bem, mas sou tímido e gaguejo Gosto de ler e de escrever . Cometo erros e não pratico muito _Não gosto de ler nem de escrever falar em público 12 34.29')í 20.00% 14.29% 11.43% 2,86%, 2.86% Fonte: Pesquisa de campo, entrevista/questionário, dados socioculturais - Jun. 2007. 143 Os dados coletados revelaram que esses sujeitos estão inseridos em diferentes práticas de letramento. Portanto, para os alunos, ler e escrever são capacidades lingüísticas importantes para o convívio social. Além disso, foi significativo o número dos que se consideraram leitores e escritores medianos, somados àqueles que se consideraram bons leitores e escritores. Para os alunos, a leitura e a escrita são úteis para interagir e agir na sociedade. Assim, a entrada no mundo da escrita deu-se de diferentes maneiras - por exemplo, livros de história, acesso a contas de água e luz, jornais, revistas, cartas, bilhetes e mensagens. Bemardin (2003) lembra que a entrada na cultura escrita não se limita à apropriação do ler-escrever, ela requef e constrói, ao mesmo tempo, um domínio simbólico, reflexivo e consciente. Portanto, entrar no mundo da escrita é modificar sua relação com a linguagem e sua relação com o mundo. É pertinente, também, a posição de Kaufrnan e Rodriguez (1995, p. 3) que afinnaiB que é dever da escola que todos os seus egressos sejam pessoas que saibam ler e escrever, isto é, "sejam pessoas que, quando necessário, possam valer-se da escrita com adequaçãOi tranqüilidade e autonomia". Com base na teoria sociointeracionista, o ensino da língua escrita tem como objetivo didático fundamental ensinar a ler e a escrever para interagir na escola e fora dela. Nesse sentido, na escrita de um texto são resgatados conhecimentos construídos com base no contato com outros textos usados em diferentes situações. Portanto, para aprender a escrever ^ necessário ler bastante. Dessa fomia,, é indiscutível que os produtores de textos não se foraiam apenas pel" contato com materiais escritos elaborados expressamente com a finalidade de cumprir aS exigências escolares, mas também com a leitura de diferentes textos que servem para uro^ multiplicidade de propósitos. É importante acrescentar que as dificuldades apresentadas pelos alunos na leitura ^ escrita podem ser superadas por meio da interação com diferentes materiais gráficos nos qua'^ a escrita tenha significação. Toma-se importante criar contextos para a leitura de diferente^ gêneros e criar atividades que favoreçam a inserção dos alunos em práticas sociais em que ^ escrita esteja presente, para o próprio desenvolvimento pessoal e para o desenvolvimento da® capacidades de leitura e produção de textos. Trata-se de um trabalho que demanda articulaç^'' entre o ensino da leitura, produção de texto, oralidade e análise lingüística. Tomando como referência esses resultados, pode-se concluir sobre as práticas letrada® desses alunos que eles leem e escrevem. Tonia-se pertinente a implantação de políticas 144 deem acesso a materiais escritos de boa qualidade, incentivando atividades escolares e extraescolares para o desenvolvimento das práticas que já têm, promovendo e intensificando o acesso ao letramento digital na escola, dentre outras ações. 3.5 Procedimentos para coleta de dados A coleta de dados se deu com base na abordagem etnográfica, via obsci-vação participante em sala de aula. Ao longo desse periodo, 198 aulas foram filmadas.Na filmagem, utilizou-se uma Câmara Sonj' e fitas de vídeo de 8 mm, que depois foram capturadas para DVD. O foco se concentrou na interação dos professores com a turma e, por isso, a filmagem foi feita do flmdo da sala, com a filmadora colocada em um tripé. Essa disposição foi considerada a melhor, tendo em vista a utilização de uma única câmara que possibilitou a gravação das ações dos professores e as formas de participação dos alunos. Como explicitado, no ANEXO 5 mostra-se um mapeamento de todas as aulas acompanhadas no período da observação participante. Na primeira coluna, da esquerda para a direita, são apresentadas a numeração das aulas e a data, a segunda coluna informa a disciplina, a terceira coluna apresenta a temática da aula gravada, a quarta coluna apresenta o êênero do discurso e/ou suporte utilizado na aula e a última coluna, as aulas em que foram solicitados aos alunos alguma produção de texto. Além das filmagens das aulas, foram organizados dois cadernos de "Notas de campo etnográficas", com páíjinas numeradas que foram utilizados ao longo da coleta de dados. ToiTia-se pertinente infonuar que ao longo do período de coleta de dados na Escola 2 foram gravadas 62 fitas de vídeo transcritas para DVD, totalizando 124 horas de gravação. As fitas de vídeo e os DVDs foram numerados e catalogados no Caderno de Campo 1 c no Caderno de Campo 2, que contém notas de campo etnográficas coletadas ao longo da observação participante na escola pesquisada. Essas infomiações foram muito importantes porque foiam legistradas, em inúmeras situações, falas que não foram captadas pelo microfone da filmadora. Além disso, nas entrevistas com professores e alunos, quando se analisavam as atividades de leitura e a dinâmica das práticas de leitura, em geral, era nesse caderno de campo que eram anotadas 66 ^RÍCKSON, 2006; BAKER; GREEN, 2007. EMERSON; FRETZ; SHAW, 1995; ERICKSON, -001. 145 observações ou mesmo infomiações consideradas importantes extraídas das falas dos participantes. Outra etapa importante da pesquisa foi a da transcrição^^ das filmagens,que pode ser entendida como uma representação de fala gravada, com o objetivo de analisar a linguagem em uso - como as pessoas agem nos intercâmbios e nas interações orais. Essa etapa consistiu em assistir à filmagem de cada aula para transcrever as falas audíveis dos participantes - professor e alunos -, além de importantes infomiações obtidas pela análise da interação vivenciada pelos participantes. Nesse processo, foram utilizados alguns programas - o Transana 2.12 e, posteriormente, o Media Player (para visualização do vídeo). O conteúdo das falas foi digitado no Word 2003 e gravado em arquivos catalogados no computador. Nessa etapa, foram transcritas em cada aula somente as falas dos participantes. Essas falas se tomaram um texto escrito, contínuo. As falas dos participantes foram numeradas e separadas por linhas. Infomiações contextuais extraídas das "Notas de campo etnográficas" também foram introduzidas nessas transcrições com o objetivo de fornecer ao leitor dados referentes ao contexto analisado. Essa transcrição inicial deu origem à produção de diferentes tipos de mapas de eventos orientados pelos princípios analíticos da pesquisa. Para Bloome e Bailey (1992), eventos são construídos pelas ações das pessoas umas com as outras no ambiente social. Já Green e Wallat (1981) afirmam que a identificação dos eventos durante a aula auxilia o pesquisador a localizar, identificar e descrever o seu objeto de pesquisa. Nessa linha de reflexão, Castanheira (2004) afiniia que os mapas de eventos são constmídos analisando-se o discurso e as ações dos membros de um grupo num lugar e tempo específicos. Assim, "evento é o produto da interação. E identificado analiticament^ observando-se como o tempo foi usado, por quem, em quê, com que objetivo, quando, onde» em que condições, com que resultados" [...] (CASTANHEIRA, 2004, p. 79). Esses sinais são múltiplos e variados e envolvem expressões verbais e não verbais, realizadas nos espaço^ interacionais da sala de aula. O método de Análise Conversacional orienta a análise de transcrições, que consiste no desenvolvimento notação especial para captar as características da conversa que a ortografia comum ignora (por exemp'"' entonação, volume, imbricação), uma vez que podem ser significantes para a compreensão daquilo que " falante está dizendo. (ANTAKI; DÍAZ, 2004) Cf. OCHS, 1979; FAIRCLOUGH, 2001; KOCH, 2001; GARCEZ, 2002; ANTAKI; DÍAZ, 200^; CASTANHEIRA, 2004; ERICKSON, 2006. 146 3.6 Procedimentos para tratamento dos dados e categorias de análise Na metodologia de análise, procurou-se compreender e descrever as práticas de leitura com base em seu contexto de produção - as aulas e as interações que nela se desenvolveram - apoiando-se, para tanto, na perspectiva enunciativa bakhtiniana, que busca considerar os sujeitos, o contexto e os fenômenos com base na dimensão histórica e social cm que estes se inserem. Nessa medida, a linguagem foi tomada como interlocução e luuar de interação humana. Desse modo, as situações discursivas foram tomadas tais como ocoireram c as condições de enunciação específicas dos eventos ocorridos nas aulas. Com base na abordagem etnografia interacional e no método sociológico para o estudo da língua, delineado por Bakhtin/Volochinov (1929, p. 124), buscou-se adequar esse método de maneira que se relacionasse com a interação em sala de aula especificamente. Em outras palavras, a análise partiria do contexto de produção e circulação das enunciações, ou seja da situação de produção das aulas e das enunciações que nela circularam; das interações e enunciações produzidas em suas particularidades e em sua conexão com enunciados sociais niais amplos; e do exame dessas enunciações e sua interpretação como fenômeno de ensino- aprendizagem. O corpus selecionado para análise da pesquisa se compõe de gravações das aulas filmadas, de entrevistas formais com professores e infomiais com os alunos - também gravadas - e de "Caderno de Campo" com anotações da pesquisadora, coletadas durante as aulas, além de questionário que delineou o perfil de letramento dos alunos. Os dados escolhidos para a análise são os que se mostraram mais significativos para este estudo selecionados em fonna de eventos e episódios por meio dos quais foram traçados os processos que envolvem as relações interdiscursivas nas quais se constituiu o aprendizado. Esses eventos e episódios se compõem de duração variá\'el, detenninados por uma atividade proposta pelo professor no espaço-tempo da sala de aula. Na análise, focalizou-se a forma como os alunos construíram os sentidos dos textos e como a participação do outro - professor e aluno - interferiu nessas construções (VYGOTSKY, 1930). Para tal, além da perspectiva etnográfica recorreu-se aos construtos de ^ygotsky sobre aprendizagem e desenvolvimento, como também aos conceitos dc Zona Proximal de Desenvolvimento (ZPD), mediação, dentre outros, c as concepções do círculo 147 bakhtiniano sobre gênero discursivo, interação, dialogismo e compreensão ativa, dentre outros. No processo de investigação ora apresentado, orientou-se pela pesquisa etnográfica interacional^^ e por meio dessa abordagem foi possível apreender a dinâmica discursiva e interacional da sala de aula, mediante o acompanhamento e a análise das práticas de leitura nos eventos de letramento das disciplinas curriculares. Nesse sentido, foi fundamental permanecer por um tempo significativo na sala de aula, conhecer o contexto em que professores e alunos estavam inseridos, identificar o discurso, a interação, a cultura da sala de aula, os textos propostos pelos professores e os textos produzidos pelos alunos, tendo em vista a análise das práticas de leitura. Com efeito, esses construtos revelaram como alunos e professores construíram suas referencias de leitura, e o que significou ser aluno letrado e professor nessa sala de aula. Como informado, cabe destacar que os dados foram coletados mediante o acompanhamento das práticas de leitura na segunda fase do Ensino Fundamental, na rede pública, nas aulas de Português, Inglês, Artes, Geografia, História, Ciências e Matemática. A proposta era identificar e analisar os gêneros do discurso utilizados pelos professores nas práticas de leitura,-modos de leitura colocados em prática, tentando identificar, com base nesse contexto, as capacidades de leitura ensinadas/aprendidas nas interações em sala de aula^ Desse modo, o foco da pesquisa estava voltado para a análise das oportunidades de aprendizagem da leitura construídas por professores e alunos nos eventos de letramento e a identificação das capacidades mobilizadas nesse processo. Nesse sentido, é pertinente acrescentar que o trabalho com a língua escrita cabe a todos os professores, e não somente ao professor de Português, considerando a leitura fonte básica para a aprendizagem de todas as disciplinas na escola. Assim, ao descrever as práticas dos professores, foi importante identificar: Quais foram são as oportunidades de uso efetivo da leitura nas diferentes disciplinas? Como foram criadas as condições de produção da leitura? O que se ensinou e aprendeu nesse processo? Coerente com a perspectiva adotada - etnográfica interacional -, os dados foran^ 70 coletados na observação participante em sala de aula. Quanto aos instrumentos para coleta de dados, foram utilizados registros de notas etnográficas e obsei-vações;'' gravações Cf. SANTA BARBARA DISCOURSE GROUP, 1992. 1993, 1994; CASTANHEIRA et al., 2001. ™ Cf. SPRADLEY, 1980. " Cf. EMERSON; FRETZ; SHAW, 1995; ROGOFF, 1995. 148 vídeo e áudio, " entrevistas etnográficas; transcrições e representação da análise dos dados;'"' como também estudos de documentos relacionados com o tema em foco. Para a análise dos dados, foram utilizados como referência a teoria sócio-histórica de Vygotsky (1930,1934,1935), a teoria dos gêneros do discurso e o dialogismo de Bakhtin (1929, 1952-1953/1979) e a perspectiva etnográfica como lógica de investigação em Green e Bloome (1998), Zaharlick e Green (2001), Castanheira, Crawford, Dixon e Green (2001). Além desses trabalhos, foram considerados, também, os estudos etnográficos, por meio dos quais se examinou a construção das práticas escolares na interação.Tais estudos constituíram um campo propício para a transformação da práxis e pennitiram perceber a inscrição, no microcontexto da sala de aula, de questões macrossociais, como a ideologia do letramento. Assim, com esta pesquisa pretendeu-se apreender várias facetas no espaço discursivo e interaeional da sala de aula. Na análise dos dados, foram utilizadas, por exemplo, as contribuições bakhtinianas com ênfase no conceito de dialogismo e gêneros do discurso (BAKHTIN, 1929, 1952-1953/1979). Muitos estudos destacam a centralidade da linguagem presente no pensamento de Bakhtin, cujo método de análise é a dialética. Assim, o dialogismo é um conceito que permeia toda a sua obra. É o princípio constitutivo da linguagem, o que quer dizer que, em qualquer campo, a linguagem está impregnada de relações dialógieas. Aspecto central considerado nesta pesquisa foi a análise enunciativa baseada na teoria dos gêneros do discurso, observando os processos interativos em sala de aula. Assim, neste trabalho, a escola foi vista como lugar enunciativo privilegiado para colocar em pauta as formas discursivas. Tomou-se importante, assim, refletir sobre o papel da escola nos processos de letramento e na construção dos discursos orais e escritos. Outro aspecto importante levado em consideração é que os discursos em circulação e 3propriados pelo aluno são dialógicos, uma vez que estão em pemianente diálogo com outros discursos e vozes presentes, passados e fiituros. Dessa fonna, cada enunciado toma de outros Anunciados suas formas e significações e dirige-se a outros em situações sociais de Anunciação. Como espaço de interação social, na sala de aula os gêneros intennedeiam e integram as práticas às atividades e são referências fundamentais para a construção das práticas de linguagem. Assim, os gêneros do discurso são adquiridos mediante enunciados „ Cf. ERICKSON; SCHULZ, 1997; ERICKSON, 1986, 2006. , Cf. SPRADLEY, 1979; BRENNER, 2006. Cf OCHS, 1979- GARCEZ, 2002; FAIRCLOUGH, 1995, 2001; KOCH, 2001. f SP , 1979; , 2006. 74 j- Cf MEHAN, 1982; YEAGER; FLORIANI; GREEN, 1998; BLOOME et al., 2005; REX; STEADMAN; GRACIANO, 2006. 149 concretos que ouvimos e reproduzimos durante a comunicação verbal que se efetua com os indivíduos na relação cotidiana. Portanto, nesta pesquisa parte-se de uma visão holística cujo princípio é o de que a compreensão do significado de evento só é possível em razão da compreensão das inter- relações que emergem de um dado contexto, no caso em foco, a sala de aula. Assim, descrever a sala de aula nessa prática de uso da leitura pressupõe entender que a dinâmica da escola constitui a intemalização de esquemas resultantes das interações que, juntamente com a linguagem, são constitutivas de conhecimento e aprendizagens. Dessa forma, a adoção da etnografia orientou a entrada no campo, guiou uma postura descritiva e interpretativa dos dados, permitindo que fossem levando ao entendimento das relações entre os sujeitos. Assim, os estudos da sala de aula têm postura interpretativa de análise^^, cujo objetivo é apreender os significados produzidos pelos participantes no contexto escolar. Toma-se importante compreender os diferentes pontos de vista de seus participantes, o papel e a função social de cada participante do grupo observado, as funções pedagógicas £ as condições que determinam suas ações no cotidiano da sala de aula.'^ Os significados e as formas que os discursos assumem são produzidos no uso da língua como atividade situada.^^ Concluindo, no estudo etnográfico da leitura, busca-se compreender os movimentos discursivos por meio dos quais são construídos os processos de ensino e aprendizagem das capacidades leitoras. Nessa lógica de investigação, ao longo do processo de coleta e análise dos dados, alguns princípios foram adotados: • compreensão da vida na sala de aula com base na perspectiva dos participantes; • análise micro da sala de aula em sintonia com uma visão holística do contexto escolar e das políticas públicas que norteiam as ações dos professores no âmbito d® letramento escolar; • visão sócio-histórica da sala de aula, das práticas de ensino, dos eventos de letramento, procurando entender como eles se constituem como oportunidades aprendizagem da língua. A veracidade desta pesquisa foi constatada de modo fonnal na Qualificação da Tes^ (GOMES, 2009), quando o trabalho de tese foi avaliado pelas professoras Maria Lúci^ Cf. COX; ASSIS-PETERSON, 2001; FREITAS, 2002. Cf. GREEN; KANTOR; ROGERS, 1991; DIXON; GREEN, 2005; BLOOM et ai, 2008; CASTANHEIRO' GREEN; DIXON, 2007. ™ GREEN; MEYER, 1991; GREEN; BLOOME, 1997; CAJAL, 2001; ERICKSON, 2001; CASTANHEIRA fl/., 2001. 150 Castanheira (Orientadora), Roxane Helena Rodrigues Rojo (UNICAMP) e Delaine Caílero (FALE/UFMG), contou também com as contribuições feitas em seminários de orientação com o grupo de pesquisa etnográfica da FaE/UFMG, orientações individuais com a orientadora, quando várias questões foram discutidas e esclarecidas. De maneira informal, a checauem foi realizada com os pares que participam de atividade no grupo do CEALE e na linha de pesquisa Educação e Linguagem. Destaque-se, ainda, como contribuições advindas das disciplinas cursadas na Pós-Graduação em Estudos Lingüísticos - FALE/UFN4G - ministradas pelas professoras Eliane Amarante, Delaine Cafiero e Graça Costa Vai. Além disso, é importante ressaltar que todo material de pesquisa produzido até a qualificação foi fonte de novas discussões e análises no Doutorado Sanduíche na University of Califórnia, Santa Barbara - UCSB/EUA, com o grupo de investigadores denominado Santa Barbara Classroom Discourse Group, sob a orientação da Professora Judith Lee Green. Este estágio de doutoramento contou com o financiamento do CNPq por dez meses, cuja parceria envolveu CNPq/UCSB/UFMG. A escolha de grupo para a realização do Estágio Doutorai se justifica pela consolidação de sua trajetória em estudos no campo da Etnografía da sala de aula (SANTA Barbara classroom discourse group, 1992 a, 1992b, 1993,1994). Aiém disso, o Center for Literacy & Inquiry in Networking Communities (LING) é dotado de longa e rica história de pesquisa colaborativa envolvendo pesquisadores, professores e etnógrafos. Nesse contexto obteve-se suporte teórico-metodológico para a análise dos dados coletados e a exploração da perspectiva etnográfica. Finalizando, neste capítulo discutiu-se a metodologia de pesquisa, discorrendo sobre o contexto, os participantes e os instrumentos usados para análise de dados, apresentando, também, as categorias de análise e interpretação dos dados. O QUADRO 3, a seguir, resume a metodologia adotada para análise de dados, ou seja, demonstia quais os instrumentos e procedimentos foram utilizados na pesquisa e as categorias de análise que direcionaram o olhar para responder às perguntas de pesquisa. 151 QUADRO 3 Metodologia de análise dos dados - Escola 2 INSTRUMENTO PROCEDIMENTO DE COLETA CATEGORIA DE ANÁLISE PERGUNTA DE PESQUISA Caderno de campo Anotações e Registro diário Análise do texto 1 Representação dos alunos sobre as práticas de letramento Roteiro entrevista Roteiro questionário Análise do texto 1 Relação das primeiras aulas disciplinas curriculares Gravação Transcrição das aulas Análise do discurso 1 Gêneros do discurso nas práticas de leitura Analise das aulas Observação participante Análise do texto 1 Modos de Leitura Como se lê na escola? Analise das aulas Observação participante Análise do texto Análise do discurso 1 e2 Eventos de leitura em Ciências, Geografia e Inglês Gravação Transcrição de aulas Análise do discurso 3 Capacidades de leitura ensinadas e aprendidas nas aulas de Ciências. Geografia e Inglês Gravação Transcrição de aulas Análise do discurso 3 Fonte: Caderno 1, Notas de campo etnográficas, p. 25-200, 2007, e Caderno 2, Notas de campo etnográficas, p. 1-96, 2007. 4 A SALA DE AULA COMO CONTEXTO DISCURSIVO E INTERACIONAL: COMPREENDENDO OS PROCESSOS DE CONSTRUÇÃO DA APRENDIZAGEM NAS DISCIPLINAS CURRICULARES O objetivo com este capítulo é apresentar as práticas letradas desenvolvidas na Pnmeira aula das sete disciplinas curriculares: Português, Inglês, Artes, Geouraíla, História Ciências e Matemática. Em seguida, foram estabelecidas base para ilustrar como a etnourafia interacional guiou esse processo de estudo, tornando-se uma filosofia de questionamento ^essa linha de análise, teoria é método e método é teoria. A lógica de investigação adotada é evidenciada neste capítulo, por isso a sala de aula é Vista como cultura em formação. Nesse contexto, mapas de eventos foram construídos praticas de iniciação e gêneros discursivos foram identificados nos diferentes espaços mteracionais. Finalmente, apresenta-se uma abordagem microanalítica, enfatizando algumas das práticas de iniciação que professores e alunos exploraram na primeira semana de aula Conclui-se o capítulo com um exame da interação e do discurso na sala dc aula mediada por textos. 4-1 Conceituando sala de aula como cultura em formação: a lógica de investigação adotada Nesta parte do capítulo será apresentada uma lógica de questionamento construída para orientar a coleta e análise dos dados, no sentido de favorecer a compreensão do que foi relevante social, cultural e linguisticamente para os membros do gi-upo observado e, portanto, ^naliticamente relevante na pesquisa em geral. Como dito, a etnografia interacional baseia-se em teoiias da antropologia cultural,'"^' ^orias do discurso como ação social^*" e teorias sociológicas sobre a construção social da vida 80 ®ÍRDWHISTELL, 1977; GREEN; BLOOME, 1997; ANDERSON-LEWHT, 2006. 8, Cf-GREEN;DIXON;ZAHARLICK, 2001. 82 agar, 1994; BIRDWHISTELL, 1977; GEERTZ, 1973 e 1983; SPRADLEY, 1980. BAKHTIN, 1986; FAIRCLOUGH, 1992; GUMPERZ, 2002, 2008. 153 diária.^^ Segundo Anderson-Lewitt (2006), etnografia não é um método, e, sim, uma filosofia de questionamento, assim demonstra-se, neste capitulo, como uma perspectiva etnográfica guiou o modo pelo qual um corpus etnográfico (arquivo) foi construído para explorar questões não examinadas em outros estudos. O processo de constituição e de estruturação da escola e da vida social é de natureza contínua e dinâmica. Essa visão é embasada em trabalhos etnográficos que conceituam sala de aula como "cultura em formação".^'' Com base nessa perspectiva, entende-se que quando as pessoas se afiliam ao longo do tempo a um grupo local - por exemplo, uma "turma escolar"-, nesse agrupamento elas formulam, reformulam, constróem e reconstroem papéis e relacionamentos, noraias e expectativas, direitos e obrigações que modelam e são modelados por aquilo que seus membros precisam saber, compreender, produzir e antecipar, de modo 85 que sejam vistos como membros do grupo. Ao explorar essa perspectiva, será evidenciado o modo como os membros desenvolveram práticas de letramento no contexto da sala de aula.^^ A expressão "práticas de letramentos" foi utilizada para significar aquilo que pode ser feito, com quem, de que modo, sob quais condições e com quais conseqüências, para tomar-se ou ser considerado uma pessoa letrada. Desse modo, ser letrado é uma construção social negociada para e pelos membros de um grupo. O que os membros constróem por meio de suas interações estabelece as fronteiras do tomar-se letrado como membros de uma turma e de subgmpos numa turaia. Assin'' adotou-se o termo letramentos, uma vez que os sentidos e significados daquilo que ^ considerado prática de letramento e ser letrado, são (re) constmídos localmente.^^ Nesta parte, apresenta-se o processo de análise de dados mediante a caracterização da lógica de questionamento^^ construída para examinar as questões propostas para este estudO' Com base nas contribuições de Castanheira, Crawford, Dixon e Green (2001), foi exploradí* um grupo de questões analíticas e teóricas e os procedimentos metodológicos f" desenvolvimento deste estudo. A FIG. 4 representa a fase inicial desse processo analítico. " Cf. BERGER; LUCKMANN, 1967; GIDDENS, 1979. Cf. COLLINS; GREEN, 1992; GREEN, 1983; GREEN; DIXON, 1993, 2008; GREEN- WALLAT l9^'' SANTA BÁRBARA DISCOURSE GROUP, 1992a, 1992b. ^■'Cf. HEATH, 1982. Cf COLLINS; GREEN, 1992; SANTA BARBARA DISCOURSE GROUP 1992a, 1992b 1994 " Cf. GEERTZ, 1983; STREET, 1984, 1995, 2005. Cf. GREEN; DIXON, 2005; ZAHARLICK, 2001. 154 QUESTÕES GERAIS: COMO FORAINI CONSTRUÍDAS AS PRÁI ICAS DE LETRAMENTO NOS EVENTOS ACADÊMICOS DA SALA DE AULA? A QUAIs' OPORTUNIDADES DE APRENDIZAGEM OS ALUNOS TIVERAM ACESSO NAS DISCIPLINAS CURRICULARES? Questão proposta - Quais os eventos de letramento foram construídos nas aulas das disciplinas curriculares durante a primeira aula? Representação de dados - Construção de mapas de eventos, registrando as ações dos participantes, teinpo da atividade e espaços interacionais. Dados analisados - Análise dos mapas de eventos para estabelecer uma visão panorâmica do que foi realizado na primeira aula nas disciplinas e o surgimento de uma [perspectiva referencial das práticas de letramento em cada aula das disciplinas. Questão proposta - Quais ações foram desenvoh idas por professores e alunos para iniciar as práticas de letramento nas disciplinas curriculares? Representação de dados - Produção de taxonomia das práticas de letramento iniciais (organização da sala de aula, atividades propostas aos alunos, textos para leitura, dentre outfos). Dados analisados — Análise das taxonomias das práticas iniciadas nas aulas observadas, objetivando entendera perspectiva pedagógica dos professores e construir uma visão panorâmica do rol das oportunidades de leitura criadas em cada disciplina curricular. Questões propostas - Quais foram os gêneros discursivos explorados nas aulas observadas? Qual foi 0 papel do texto nas aulas de leitura? Representação de dados — Taxonomia dos gêneros discursivos utilizados pelos participantes em cada disciplina. Dados analisados - Análise comparativa dos textos usados em cada disciplina. Questões propostas - Como os membros participaram das interações mediadas pelos textos na j sala de aula? Quem pode dizer e fazer o que enquanto os textos foram explorados nas práticas de ; leitura? Representação de dados - Produção de transcrições da interação entre os participantes nas aulas de Português, Inslês, Artes, Geografia, História, Ciências e Matemática. ^ Dados analisados - Microanálise das transcrições, exame de como e quais oportunidades de aprendizagem na leitura foram construídas nas disciplinas cuiriculares. PROPOSIÇÃO DE NOVAS QUESTÕES GERAIS; COMO AS PRATICAS DE LETRAMENTO INICIADAS NA PRIMEIRA AULA FORAM EXPLORADAS DURANl E 0 ANO LETIVO'^ QUAIS FORAM AS CONSEQÜÊNCIAS DESSAS PRATICAS PARA 0 APRENDIZADO DA LEITURA? QUE CAPACIDADES DE LEITURA FORAM MOBILIZADAS PELOS ALUNOS? figura 4 - Representação da lógica de questionamento construída Como representado na FIG. 4, por meio dessa abordagem analítica foi criada uma de mapas de eventos, transcrições, quadros de dados e análises, denominados 155 taxonomias, que, posterionnente, foram usados contrastivamente para construir uma perspectiva baseada nas práticas letradas identificadas nas disciplinas curriculares. O processo analítico foi desenvolvido por meio de uma série de ações - proposição, representação e análise de dados - que caracterizaram sua natureza interativa e contrastante. Portanto, um novo grupo de questões emergiu de cada análise realizada, e essas questões, por sua vez, guiaram novas análises desenvolvidas, esse processo analítico foi representado pelas linhas tracejadas e contínuas que se interligam nos quadros da FIG. 4. Assim, esses mapas de estruturação formam a base para análises e representações subsequentes. Com isso, eles se tomaram o texto central nesse processo analítico. Cada mapa foi construído observando como o tempo foi gasto, com quem, em que, com que propósito, quando, onde, sob quais condições e com quais resultados^^ e representa um nível distinto na diferenciação da informação. Mapas de eventos,''*' como todos os mapas de estruturação, representam as variações da atividade, constituindo processos e práticas socialmente significativas em determinado período, por exemplo, um dia na escola ou uma única aula.*" Nos próximos tópicos, apresenta-se a descrição de cada mapa de estruturação ^ taxonomias indicadas na FIG. 4 e discute-se o que cada uma dessas representações permitiu examinar e conhecer a respeito das oportunidades de aprendizagem construídas por participantes da turma observada no contexto da sala de aula. Como parte dessa discussão, mostra-se como as relações teoria-prática guiaram a abordagem etnográfica, bem como a natureza que gerou o processo de análise dos dados. Além disso, demonstra-se como ^ abordagem de análise contrastiva foi central na identificação das relações discursivas no ^ entre o tempo e os eventos, assim como as práticas de letramento adquiridas pelos alunos sala de aula. Cf. GREEN; WALLAT, 1981; GREEN; MEYER, 1991; GREEN; BARKER, 1988; SANTA BÁRBAl^ DISCOURSE GROUP 1992a, 1992b, 1994; SPRADLEY, 1980. Mapas de evento são produtos das interações entre os participantes. "Esses mapas têm como objeti^" identificar os diferentes eventos interacionais que resultaram da interação entre os participantes. [...]. Mapas eventos são construídos analisando-se o discurso e as ações dos membros de um grupo num lugar e teinp" específicos". (CASTANHEIRA, 2004, p. 79) Cf SPRADLEY, 1980; CASTANHEIRA, 2000,2004. 156 4.2 Os eventos de letramento nas disciplinas curriculares: as práticas de iniciação e os gêneros do discurso Nesta parte, demonstra-se como os eventos foram interacionalmente construídos por professores e alunos. Assim, como indicado na FIG. 4, o processo analítico foi iniciado com a proposição das seguintes questões gerais: Como as práticas de letramento foram construídas nos eventos diários da sala de aula? A quais oportunidades de aprendizado os alunos tiveram acesso nas disciplinas curriculares? Para subsidiar a construção das respostas a essas questões, uma questão operacional orientou a análise dos dados: Quais eventos de letramento foram construídos nas aulas das disciplinas curriculares durante a primeira aula? Para responder a essa questão, um ^'rupo de mapas de eventos foi criado para representar o que os participantes fizeram, quando, onde e com quem, em cada uma das disciplinas. A escolha da primeira aula de cada disciplina como foco inicial da análise está apoiada no entendimento de que, nesses primeiros encontros, professores e alunos começaram a formular, reformular, construir e reconstruir papéis e relacionamentos, normas e expectativas, além de direitos e obrigações localmente situados que moldam e são moldados por aquilo que os membros sabem, entendem, produzem e antecipam como pertinentes, de modo a serem percebidos como membros do grupo. Nessa perspectiva, foi examinado o inicio das práticas sociais que constituíram aquilo que significou ser letrado nesse contexto. (HEATH, 1982) De acordo com Bloome (1989), um mapa de evento visa representar como o tempo foi utilizado, o que os participantes fizeram, qual era o foco de suas ações. Portanto, um mapa de evento representa a gama de ações, os padrões organizacionais e as ações que o professor Construiu com a turma. Ele deve ser lido não como uma estiutura, mas como uma representação do processo dc estrutwcição ~ e organização da sala de aula e da participação dos membros que moldaram as oportunidades de se tomarem letrados em determinado contexto. Para ilustrar esse processo analítico, um mapa de evento foi construído. O QUADRO 4 apresenta a relação da primeira aula das disciplinas curriculares e contém as seguintes 92 Cf. GIDDENS, 1979, 1984. 157 informações: data, disciplina, tema, gênero discursivo ou suporte e informa se houve ou não produção de texto, ês. Inglês, Artes, Geografia, História, Ciências e Matemática. QUADRO 4 Relação da primeira aula das disciplinas curriculares AULA DATA DISCIPLINAS TEMAS GENERO DISCURSIVO F./OTJ STJPORTF PRODUÇÃO DE TEXTO 1 07/02/07 Português Interpretação de figuras e notícia Livro didático Fotos e notícias sim 2 07/02/07 Geografia Acolhida, reflexão experiência na 5^ série Pesquisa: Aquecimento global Pesquisa não 3 07/02/07 Inglês Skills work: reading andy's letter to his penpal in Brazil and write a letter to Andy about yourself Carta Atividade xerocopiada sim 4 07/02/07 História Quem sou eu? Identidade, leitura e interpretação musical de Raul Seixas: Ouro de tolo Música Atividade xerocopiada sim 5 08/02/07 Ciências Atração molecular e estados físicos da água Resumo do tema no quadro não 6 08/02/07 Artes Manifestação da arte Desenho tridimensional Atividade xerocopiada não 7 08/02/07 Matemática Potenciação: abordagem contextualizada do assunto (rapazes e moças em um baile) e exercícios. Livro didático não ' Fonte: Notas etnográficas, Caderno 1, p. 25- 51, e gravação, fitas 1 a 3, fev. 2007. Já o QUADRO 5 explicita o fluxo das primeiras atividades nas sete disciplina^ pesquisadas; Português, Inglês, Artes, Geografia, História, Ciências e Matemática. ^ QUADRO 5 também representa os espaços interacionais construídos pelos participantes primeira aula de cada disciplina. Ele destaca as ações e discursos numa cadeia seqüencial. construção do QUADRO 5, um ângulo de visão duplo foi adotado, por meio do qual f"' examinado o que foi proposto pelo professor, para depois, em outro ângulo de anális^' explorar a participação dos alunos na consti-ução de tais eventos. 158 QUADRO 5 Fluxo de letramento da primeira aula das disciplinas curriculares (Ccminiiu) . Disciplina: Português Hora: 0i!i: 7/2/2007 Eventos: Subcvcntos: 7hlO "7hÍ8" 7h25 7h32 7h46 7h56 Disiribiiindo o livro didático Trabalhando com o livro didático Estabelecendo tarefas Distribuindo aos alunos o Ií\to didático oferecido pelo Programa Nacional do Livro Didático [El; P-TI: A-P ] Comparando duas figuras: unia da Pietá de Micheíangeio e outardê unVa criança de rua domiindo'no colo da estátua de unia mulher. [El: P-TI; A-T: P-AE: 77] Lendo notícias associadas à figura de crianças de rua e à execução de atividades do livro-tcxto. [EI; A-T', A-P] Debatendo sobre a gravura e as noticias, [El: P-TI: A-T: A-P; P-AE] Debatendo sobre questões sociais no Brasil: crianças morando nas ruas e dro"-is _ÍEl_P-T/:A-ri _Disciplina: Geografia Hora; Propondo uma tarefa: escrever uma carta a uma autoridade pedindo solução para o problema social: crianças morando nas ruas e drogas. [El: P-TI: A-P1 Dia: 07/02/2007 Eventos: Subcvcntos: 8hI5 Cumprimentando os alunos na chegada a sala de aula. [El.' P-T/ ; A-P] Chegando à sala Recordando o ano em que o professor e a turma estiveram juntos na 5" s [EI.- P-TI:A-T] serie. 8h30 8h48 8h5Ò" 8h57 Propondo uma pesquisa Explorando o livro didático -Disciplina: Inglês Propondo uma pesquisa sobre o aquecimento global. [El.- P-TI] Respondendo aos questionamentos dos alunos sobre fontes de pesquisa, tamanho do trabalho, estrutura organizacional _c data de entrega. {EJ_: _P-TI\_ A-P; P-AE] Distribuindo os livros didáticos de Geografia fornecidos pelo Prõgrãmã Nacional do Livro Didático (PNLD); analisando .a capa do livro que enfoca a desigualdade social no Brasil. [El.- P-TI: A-P: P-AE] Lendo a carta do autor do livro com comentários sobre o foco central da disciplina para o ano escolar. [El.- P-TL, .'X-P; P-AE] -Hora: yh35 Eventos: Dia: 07/02/2007 Subcvcntos: Chegando á sala Recebendo e cumprimentando os alunos cm Inglês na sala de aula. [EI: P-TI; A-P] 9h42" %46' lOh 10h05~ 10hl4 Definindo o material didático a ser usado durante o ano: Coleção Loniiman Definindo material \E\'P_-TIJ} "'Lendõ e traduzindo uma carta do Inglês para o Português: Carta de Ãndv ã sJu " correspondente no Brasil. [El: P-TI: /Í-7";P-AE] Lendo uma carta Trabalhando com o significado das palavras: identificando palavras eognatas e introduzindo n ovo vocabujáriaJE I: P-TI; T^ Escrevendo uma carta Ys^crevendo uma carta em Inglês para Andy contando característicã.s irjsMTãrs, " sonhos c interesses. Escievcndo uma carta para Andy falando sobre si mesmo [El.- TI] Lendo as cartas dos alunos em suas carteiras: o professor lê a carta escrita. lEl: P-AE; A-P] Fonte: Notas etnográficas, Caderno 1, p. 25- 51, e gravaçfio, fita 1, 3/2/2007. Legenda: EI, espaço interacional; P - TI, professor se dirige à turma inteira; A-T, um aluno se diriue à turma; A-P, aluno se dirige ao professor; P - AE, professor interage com um aluno específico; TD, trabalho em dupla; TI, trabalho individual; TG, trabalho em gmpo. 159 (Continua) Disciplina: História Dia: 07/02/2007 Hora: Eventos: Subcvcntos: 10h30 Chegando à sala Acolhendo os alunos c apresentando a proposta do ano escolar e as normas de convivência. [EI; P-TI; A-P; P-AE] 10h45 Canlando uma música Cantando e interpretando a música Ouro de Tolo de Raul Seixas. [Ei; P-T\ 10h53 Lendo textos Lendo textos de alunos sobre o tema: Quem sou eu? [El; P-Tl: A-T; P-AE] Discutindo o conceito de Identidade. [EI; P-TJ: A-T; P-AE] llhlO , . j . . Dando retomo aos alunos sobre os textos. [EI: TI; A-P; P-AE: ATI Interpretando textos -r- . lu i • - i , , Trabalhando na mterpretaçao do texto cm dup as. [E : P-T ; A-AE- TD] Disciplina: Ciências Dia: 08/02/2007 Hora: Eventos: Subevcntos: 7hl0 j ■ / Chegando a sala e retomando as normas de convivência da escola e definidas pela legan o a sa a ^ professora para a disciplina. [El: P-TI; A-P; P-AE] 7hl6 Expondo conteúdos Expondo o conteúdo da série. [EI; P-TI: A-P; P-AE, AT] Explicando os estados físicos da matéria. [EI; P-TI; A-P; P-AE ] 7h23 Desenhando no quadro 7h48 Representando a força da coesão e repulsão entre as moléculas!" [El; P-TI; A-P; P-AE] Propondo Propondo pesquisa sobre as propriedades gerais e específicas da matéria. uma pesquisa [EI: P-TI; TI] Disciplina: Artes Dia: 08/02/2007 Hora: Eventos: Subevcntos: ShIO 8h25 8h40 8h48 Chegando na sala Acolhendo os alunos e propondo nonnas de convi\ [E\: P-TI:A~P: P-AE] Expondo um tema Expondo infomiações sobre as diferentes manifestações artísticas brasileiras [EI; P-TI; A-P; A-T; P-AE] Realizando tarefas Desenhando uma figura tridimensional. [EI: P-Tl; TI] Concluindo a tarefa e apresentando a mesma para o professor [EI: TI; A-P; P-AE] Fonte: Notas etnográficas, Caderno 1, p. 25- 51 e gravação, fita 1, 3/2/2007. Legenda: EI, espaço interacional; P - TF, professor se dirige à turma inteira; A-T, um aluno se dirige à turma; A-P, aluno se dirige ao professor; P - AE, professor interage com um aluno específico; TD, trabalho em dupla; TI, trabalho individual; TG, trabalho em grupo. 160 "n- • (Ccncliisão) _gisciphna: Matemática Di,,. ()s/()2/2(H)7 Eventos: Subcvcntos: ^ Acolhendo os alunos, explicitando normas de convivência. [EI; P-TI: A-P: P-AE ] Chegando à sala , • ■■ Criando expectativas positivas para o Ensino Medio, [El; P-TI: A-P: P-AE\ Expondo o conceito "de Potenciação de forma contextuaii/.ada. Expondo conceitos [El; P-TI. A-P: P-AE] ' Propondo probíemas e operações sobre Potenciação. [El; P-TI: TI] Realizando operações Fazendo exercidos enquanto a professora olha os cadernos e da visto. [El; TI: P-AE: A-P] 16 Copiando o dever de casa proposto pela professora no quadro. Anotando tarefas [El; P-TI\ TI] Fonte: Notas etnográficas, Caderno 1, p. 25- 51 e gravação, fita 1,3/2/2007. Legenda: EI, espaço interacional; P - TI, professor se dirige à lurma inteira; A-T, um aluno se diriue à turma; A-P, aluno se dirige ao professor; P - AE. professor interage com um aluno específico; TI), trabalho em dupla; TI, trabalho individual; TG, trabalho em grupo. Como se vê, o QUADRO 5 representa a proposta do professor, os espaços de interação, os subeventos e eventos construídos por meio dessas ações e as demandas que tornaram possível a participação dos alunos nos e\'entos de letramento. As ações dos participantes estão representadas por verbos no gertíndio para enfatizar a natureza dinâmica desse processo de estruturação. Essencial à construção desse mapa foi o exame do modo como o tempo foi usado pelos membros e como as mudanças de atividades foram interacionalmente marcadas nas ^Ções comuns e nos espaços construídos pelos membros (HERAS, 1993). A análise das Mudanças nas ações levou à identificação de subeventos (séiie de unidades interligadas), os Quais, por sua vez, conduziram à identificação de unidades temáticas (GREEN; WALLAT, í981). Por exemplo, na aula de Português, o evento Tiahalhando com o livro didático ^onstituiu-se de quatro subeventos; Compcifcifido diicis giuvutcis, Lendo iioticicis\ Dchcitcndo Sobre as gravuras e notícias e Debatendo questões sociais no Biasil. O tempo de aula de cada uma das disciplinas estudadas foi de uma hora e, dada a Estrutura organizacional da escola, cada disciplina era ministrada em uma sala ambiente: os professores pennaneciam na sala de aula, enquanto os alunos se moviam de um espaço para °^tro. Portanto, os alunos tinham um pequeno intti-valo entre uma aula e outra. Nesse 161 período, eles se transferiam de uma sala para outra, conversavam uns com os outros e se organizavam para as aulas. Uma análise comparativa do mapa de evento das sete disciplinas estudadas mostrou que uma gama variada de atividades foi construída pelos participantes no primeiro dia de aula, em todas as disciplinas curriculares. O que essa visão panorâmica do letramento escolar evidencia sobre o que foi oferecido aos alunos no primeiro dia de aula? Quais foram as expectativas de participação implícitas na construção de tais eventos? Para responder a essas questões, foi importante comparar e contrastar as diferentes informações apresentadas em cada um dos mapas de eventos. Por exemplo, ao considerar os vários espaços de interação - configuração espacial do grupo, orientação e organização para desenvolver as atividades pode-se notar que alunos e professores desenvolveram suas atividades em espaços organizacionais diferentes (HERAS, 1993).^^ Em todas as disciplinas, os alunos direcionavam sua atenção ao professor, enquanto ele coordenava as ações dos participantes (P-TI). Nesse momento, o professor realizou diferentes ações: propôs atividades para o grupo, respondeu a questões sobre as atividades qu£ deveriam ser feitas ou coordenou discussões temáticas. Em algumas aulas, Português e Geografia, por exemplo, esperava-se que os alunoS também se dirigissem a todo o grupo (A-T) para expressar ponto de vista pessoal sobre o tópico em discussão. Na aula de Inglês, também houve momentos em que os alunos trabalharam de forma autônoma na produção de um texto (TI). Na aula de História, os alunos discutiram o significado da letra de um gênero musical em duplas (T-D). Essa anális^ comparativa dos mapas de eventos demonstra que foram preparados contextos envolveram os alunos em várias estruturas de participação desde a primeira auU' (ERICKSON, 1986,2001) A análise comparativa dos mapas de eventos também demonstrou que, depois cumprimentar os alunos, alguns professores definiram os textos que seriam usados com'' recursos didáticos durante o ano letivo (Português, Inglês e Geografia).^'^ No início do ano letivo de 2007, os professores esperavam a chegada de novos livro^ didáticos. Os professores de Português e Geografia decidiram iniciar as aulas usando os livro^ disponíveis na escola PNLD (2002) e anunciaram que novos livros chegariam em brev^ No QUADRO 6, essa informação está registrada entre colchetes [ ]. Nesse sentido, faz-se necessário fornecer uma informação contextual. O Ministério da Educação brasile'^" implementa o Programa Nacional de Avaliação do Livro Didático (PNLD) para alunos de escolas públi<-_^' nas seguintes disciplinas: Português, Ciências, Matemática, Historia e Geografia. A avaliação e a distribuiÇ^" dos livros aos alunos acontecem a cada três anos. Durante o período entre cada nova distribuição de livros, alunos devem devolver o livro às escolas, que os repassam a outros alunos. 162 PNLD (2005). Embora os livros para Ciências, Matemática c História dc outros anos estivessem disponíveis na escola, os professores dessas disciplinas optaram por não utilizá-los e forneceram aos alunos outro material para o desenvolvimento das atividades acadêmicas. Por exemplo, o professor de História trouxe o gênero discursivo música dc rock para trabalhar o tema da identidade. Já a professora de Matemática utilizou o quadro para apresentar e discutir problemas com os alunos. As diferentes escolhas realizadas pelos professores com relação ao material para leitura em sala de aula toma clara a autonomia que cada professor tem para planejar, selecionar e organizar materiais para o trabalho pedagógico. A análise dessas escolhas também demonstra como o contexto local da escola c interligado ao contexto educacional mais amplo mediante a adoção de politicas e programas do nível federal. O modo como o professor de Inglês abordou o tópico do material a ser usado nas aulas de sua disciplina também serve como exemplo de como as ações tomadas em determinado nível do sistema influenciam as ações dos sujeitos sociais em outro nível do sistema.^^ O PNLD não fornece livro didático para as disciplinas Inglês e Artes. Mas, avaliando a necessidade de tal recurso para seus alunos, os professores de Inglês decidiram requisitar ao diretor da escola a compra de livros com recursos provenientes da Secretaria Municipal de Educação (SMED), para uso em projetos locais. Portanto, atendendo a essa solicitação, o diretor da escola comprou cerca de 40 livros para cada séiie, criando a possibilidade de que fossem usados por todos os alunos: os professores se revezavam na utilização dos livros como recurso para suas aulas. Dessa forma, em sua primeira aula, a professora explicou como o uso desse recurso seria feito posteriormente e utilizou cópias de exercícios de outro livro didático eomo alternativa de trabalho. A ação dos professores de Inglês e do diretor da escola pode sei vista como indicação do valor atribuído ao livro didático, considerado recurso iitil no processo ensino- ^Prendizagem. Essa medida pode parecer limitada, uma vez que os alunos não recebem o livro para estudar em casa. Entretanto, pode-se reconhecei, também, que ela amplia as possibilidades de acesso ao material didático. É importante lembrar que a etnografia interacional adota a visão teórica de sala de aula como cultums-em-formação^^ Desse modo, letramentos são construções sociais resultantes das ações desenvolvidas continuamente pelos participantes de determinado grupo social. '^PÕT^empIo, o Ministério da^Educação e Cultura (MEC) cria a política e o programa de avaliação e 96 ^'^Wbuição dos livros didáticos. Cf. BAKER; GREEN, 2007. 163 Portanto, letramentos referem-se a quem pode fazer parte de um evento em particular e quern tem acesso a que, quando e onde, sob quais condições, para quais propósitos e com quais resultados ou conseqüências para a participação presente e futura como membro letrado de um grupo. As práticas de letramento, por outro lado, referem-se às maneiras de conhecer, ser e fazer, construídas por meio das ações dos participantes em detemiinado momento ou ao longo do tempo e dos eventos em sala de aula.^^ O significado do letramento está sendo construído continuamente em eventos locais e específicos. Portanto, o uso do conceito práticas de letramento nos permite enfocar detalhadamente como os membros de um grupo têm oportunidades de desenvolver uma prática acadêmica ou social e como essas oportunidades são construídas mediante a interação discursiva. Dessa forma, o exame das ações de professores e alunos mostram como essas ações 98 discursivas criaram um conjunto específico de oportunidades de aprendizagem na leitura (PUTNEY et al. 2000). Assim, as ações de letramento tomam-se práticas de letramento quando são tomadas e usadas ao longo do tempo e de eventos. Tais ações e práticas, portanto- assim como o processo de estabelecimento daquilo que é considerado letramento, são tambéin ações locais e específicas que dão suporte à participação, ao engajamento dos alunos nas disciplinas como comunidades de aprendizado em formação. Essas distinções, portanto, fornecem diferentes ângulos analíticos sobre aquilo que é considerado letramento e conio esses processos e práticas apoiam os alunos na construção social da sala de aula. Mediante a adoção dessa perspectiva teórica, foram examinadas as ações de professores e alunos como forma de caracterizar o que foi considerado ações letradas (formas de participação em e\'entos de letramento) e práticas de letramento (tomadas e usadas noS diferentes eventos e ao longo do tempo) nas disciplinas. A FIG. 5 representa os tipos de açã" tomados pelos professores e alunos enquanto eles construíam os eventos de letramento primeira aula. Como representado na FIG. 5, professores e alunos desenvolveram várias açõe^ enquanto se engajavam na construção de eventos de letramento na sala de aula. As primeira^ nove ações indicadas na FIG. 5 (de cima para baixo) referem-se aos professores enquanl" organizavam a participação dos alunos no espaço coletivo da sala de aula.^^ Uma análise FIG. 5 demonstra quais ações foram comuns entre as disciplinas. Cf. CASTANHEIRA; CRAWFORD; DIXON; GREEN, 2001. Cf. TUYAY; JENNINGS; DIXON, 1995. Cf BLOOME; THEODOROU, 1988. 164 Práticas de iniciação Disciplinas •■J-. 3 D/J 3 p In gl ês A rte s 1 G eo gr af ia H ist or ia Ci ên ci as j 1 M ate m áti ca Cumprimentando os alunos Explicando formas de organização da sala X X X X X X X Tomando claras as nonnas para participação nas aulas j Propondo a leitura de diferentes textos X X X X X X X Propondo a produção de textos X X .. X Coordenando a discussão no seminário X X X X X X . Orientando como desenvolver as atividades propostas X X X X X X X Observando e acompanhando a produção dos alunos X X X X Marcando tarefas para a próxima aula X X X ^ i 1 Consultando colegas X X X X 1 Consultando o professor e pedindo esclarecimentos X X X ^ í J Lendo textos fornecidos pelo professor X X X X X X X 1 _1 Escrevendo textos com propósito específico X X Apresentando pontos de vista para toda a sala X X X X X X X Í^IGURaS — Ações nos eventos de letríinicnío díis clisciplinjis níi ptinieiiu de uso na sala de aula lá o texto de opinião foi utilizado em 6,56% das aulas. Finalmente, a avaliação da aprcndizayem gênero tipicamente escolar, foi aplicado em todas as disciplinas, exceto cm Educação Artística. TABELA 33 Gêneros do discurso nas práticas dc leitura - O que se lê? Disciplinas Un ida de En sin o Li vr o di dá tic o Es pe ci ci Ti co da di sc ip lin a L ite rá ri o po ét ic o R ot ei ro de e st ud o T ex to de o pi ni ão A va lia çã o M ús co - po ét ic o In fo rm at iv o Pe sq ui sa Fi lm es 1 N o tic ia jo rn alí sti ca C ar ta T ot al au la s . Português *44 24 20 - 05 01 05 02 - 01 02 _ 60 Inglês 05 05 02 - 07 02 - - - 01 - 01 23 Ed. Artística - 13 - - - - - 04 - 01 - _ ^ 18 Geografia 11 02 - 02 - 01 - - 03 01 - _ 20 História 06 01 - 18 - 01 02 - 03 01 03 _ 36 Ciências 12 05 - 02 01 01 - - 01 - - - 'ji J^temática 05 10 - - - 03 - 01 - - - - 1 19 Total 83 60 23 22 1 13 09 07 07 07 05 «5 01 198 etnográficas, p. 1-96,2007. TABELA 34 Gêneros do discurso em uso nas disciplinas curriculares - Escola 2 GÊNERO ■ Livro didático Gêneros específico — Disciplina Literário-poético Roteiro de estudo Texto de opinião Avaliação Informativo Músico-poético Pesquisa Notícia jornalística Filmes Carta Total Fonte: Caderno 1, Notas etnográficas, p. 25-200, 2007. Caderno 2, Notas etnográficas, p. 1-96,2007. % USO 41.91 30,30 1 1.61 I 1.1 1 6,56 4,54 3.53 3.53 3.53 2.52 2.52 0.50 187 Com base na análise da TAB. 34, pode-se afirmar que, de modo geral, ao lonao das 198 aulas, uma variedade de gêneros do discurso foi utilizada pelos professores com intenções e propósitos diferenciados. Toma-se pertinente lembrar que um dos pressupostos essenciais do sociointeracionismo consiste no fato de que os sentidos não existem por si sós. Na verdade, os sentidos constroem-se na interação verbal e são, portanto, resultado das condições de produção dos discursos: quem diz o que, para quem, em que situação, por meio de que gênero do discurso, com que propósito comunicativo e com que escolhas lingüísticas e extralinguísticas. Assim, os gêneros do discurso se definem justamente por serem a interseção dessas | condições de produção, ou seja, são respostas às necessidades humanas de comunicação, são j fenômenos ou entidades sociocomunicativas. Além disso, os estudos dos gêneros do discurso atestam o grande interesse pelo tema» no Brasil, nas últimas décadas (SANTOS, 2002; ROJO, 2000, 2001a. 2001b, 2005; SCITNEUWLY; DOLZ, 1997, 1999, 2004), fazendo surgir vários trabalhos acadêmicos a esse respeito. Nesses trabalhos, também se reafirmam os desafios da didatização no trabalho coni os gêneros do discurso. A escola, entendida no contexto sociocultural como a principa' agência do letramento, tem como objeto maior ampliar as experiências de letramento doS alunos, isto é, promover eventos de letramentos relevantes para a formação de sujeitos amplamente letrados. Espera-se que os alunos, ao final da escolarização, tenham condições de ! se inserir com autonomia e segurança nas diversas práticas de letramento, principalmente : aquelas valorizadas pela sociedade, compreendendo criticamente e produzindo os sêneros relativos a tais práticas. A esse respeito, dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs^ 1998, p. 49) do Ensino Fundamental II: A escola deverá organizar um conjunto de atividades que possibilitem 3" aluno desenvolver o domínio da expressão oral e escrita em situações de usO público da linguagem, levando em conta a situação de produção social ^ material do te.xto (lugar social do locutor em relação aos destinatários e lugar social; finalidade ou intenção do autor; tempo e lugar material produção e do suporte) e selecionar, a partir disso, os gêneros adequados para a produção de texto e a leitura, operando sobre as dimensões pragmáticas, semântica e gramatical. Considera-se importante realizar um processo de didatização para atingir os objetivo^ pedagógicos na abordagem dos gêneros, o que implica a seleção, a adaptação e a orsanizaçã'' dos conteúdos, além da elaboração procedimentos e material didático pertinente aos objetivo^ pedagógicos. 188 Dolz e Schneuwly (1998, 2004) defendem a apropriação dos gêneros do discurso para a socialização e a inserção prática nas atividades comunicativas humanas. Com base nas suas contribuições, o trabalho com gêneros na escola não deve ser a mera transmissão de conhecimentos construídos na área. O fundamental é que. com base em uma situação- problema, sejam selecionados os gêneros que podem atender às necessidades da leitura c/ou escrita para o desenvolvimento das competências lingüísticas. No conjunto das disciplinas, identiílcou-se o predomínio no uso do 1í\to didático. Ele aparece como subsídio em 41,91% das aulas e de uso geral na turma. No ANEXO 8. apresenta-se a relação de livros didáticos utilizados pela Escola 2. Constatou-se que os livros adotados de Português, Geografia, História, Ciências e Matemática, a época da pesquisa, foram avaliados pelo PNLD 2002 e 2005 e foram classificados como aprovados cow ressalvas}^^ Trata-se de uma categoria composta por aqueles livros que possuem qualidades mínimas que justificam sua recomendação, embora apresentem, também, problemas, os quais, se considerados pelo professor, podem não comprometer sua etlcácia no trabalho didático. (ROJO; BATISTA, 2003) Toma-se importante ressaltar que. como conseqüência dessa política de análise dos livros didáticos, várias modificações têm ocorrido na produção desse material. Em muitas coleções, têm-se evidenciado mudanças de ponto de vista teóiico quanto metodológico. Em outras, obsei"va-se apenas uma nova roupagem, persistindo ainda antigas concepções de ensino-aprendizagem.''' Com base na perspectiva teórica adotada nesta tese. cabe lembrar que o valor do livro didático reside mais em quem o utiliza e como o faz do que nas suas características intrínsecas. Assim, um professor com uma foimação consistente podeiá íazer bom uso até de material com lacunas, enquanto outro professor poderá ter dificuldades paia utilizar um bom livro didático. Em sala de aula, é o professor quem articula as propostas do livro didático, intervindo e sistematizando os saberes mobilizados em cada atividade. O livio didático é, de fato, um subsídio utilizado no processo didático, não de\ endo sei o único e nem o mais importante das fen'amentas à disposição do professor. Diante do exposto, a competência para avaliar o material didático disponível para seu trabalho terá de ser aprimorada, constantemente, com o exercício da análise e reflexão sobre pontencialidades e limites do livro didático. Cf '"et BRreUNCI; SILVA, 2002; RANGEL, 2002; ROJO, 2000; e BATISTA. 1997, 189 Como anunciado, na TAB. 33 apresentam-se dados que permitem a análise das seguintes questões: O que se leu nas disciplinas curriculares? Que gêneros do discurso foram propostos? Entre os gêneros propostos, quais modalidades predominaram? Que gêneros circularam no contexto da sala de aula? Já na TAB. 35 constam os percentuais de predomínio do gênero discursivo por disciplina. Como se vê, em Educação Artística, das 18 aulas, 72.22% foram dedicadas a exploração de gêneros do discurso do contexto artístico e social. Nesses eventos, os alunos, por exemplo, retiraram charges, palavras e expressões de revistas e jornais figuras e foram mobilizados a criar diferentes elementos do campo estético: logomarcas, slogans, logotipos» caricaturas, chegando a produzir textos com os personagens criados por eles. Em 22.22% das aulas a professora explorou o gênero infonnativo, discutindo com os alunos valores do campo artístico e estético, conforme exposto no quadro a seguir. TABELA 35 Gêneros do discurso e percentuais (%) predominante por disciplina Disciplinas I'l ikl ad e En sin o Li vr o di dá tic o E sp ec ic ifi co da di sc ip lin a L ite rá ri o po ét ic o R ot ei ro de e st ud o T ex to de o pi ni ão A va lia çã o M ús co - D oé tic o In fo rm at iv o Pe sq ui sa Fi lm es N ot íc ia jo rn alí sti ca C ar ta C/5 -2 < o Português 73.33 39,99 33.33 - 8.33 - - - - - - - 60 ^ Inglês 21,73 21,73 - - 30.43 - - - - - - 23_ Ed. Artística - 72.22 - - - - - 22.22 - - - - 18 . Geografia 55,00 10,00 - - - - - - 15.00 - - - 20 ^ História 16,66 - - 49.99 - - - - 8.33 - 8.33 - 36^ Ciências 40,90 22,72 - - - - - 13.63 - - - _ 22_ Matemática 26,31 52,63 - - - 15,78 - - - - - - 19. Fonte: Caderno 1, Notas de campo etnográficas, p. 25-200,2007 e Caderno 2, Notas de Campo etnográficas, p. 1-96, 2007. Em Inglês, das 23 aulas, em 30,43% delas a professora propôs a leitura de teXto® autênticos e/ou a produção de texto de opinião relacionados aos sites da internet desenvolvem trabalho de aprendizagem colaborativa entre adolescentes e jovens soW^ diferentes temáticas, dentre as quais educação ambiental, paz no mundo, direitos humanos ^ projeto pessoal de vida. A professora dessa disciplina destacou-se pelo interesse em explC»^ textos autênticos do contexto social dos alunos, envolvendo o Brasil e outros países mundo. 100 Em Inglês, o gênero específico utilizado em 21,73% das aulas foram atividades gramaticais extraídas de livros didáticos de Inglês. Cabe acrescentar, ainda, que a rede pública municipal não oferece aos alunos livros didáticos de Inglês. Para colaborar no trabalho desenvolvido pelos professores dessa área de conhecimento, a diretoria adquiriu 50 exemplares de cada série, os quais foram utilizados pelos professores por meio de rodízio. O livro didático vem em terceiro lugar com-21,73% de utilização na disciplina Inglês. Das 22 aulas de Ciências acompanhadas, em 40,90% delas, a professora trabalhou o livro didático, em 22.72% foram explorados gêneros específicos da disciplina, dentre eles a tabela periódica, e em 13,63% das aulas os alunos leram textos informativos sobre drogas, fumo e afetividade/sexualidade. Enquanto aguardava a chegada do livro didático, nos meses de fevereiro e março, parte do conteúdo de Ciências foi passado no quadio de giz ptia prolessoia. Os alunos Copiaram a matéria no caderno e, em seguida, acompanharam a c.xposição dialogai da professora sobre o conteúdo proposto. Nas aulas de Matemática, predominou o uso do gênero específico de Matemática, explorado em 52.63% das aulas, sendo que em 47,36% desse total os alunos realizaram operações matemáticas e em uma aula discutiram os resultados da Escola 2 e de alunos da turma no concurso ''Olimpíada da Matemática". O livro didático de Matematica foi explorado em 26,31% das aulas de fomia sequenciada e ordenada, com base na carta ao leitor. Em 15,78% das aulas foram aplicadas avaliações da aprendizagem. Em História, chamou atenção o predomínio do uso de roteiro de estudo, presente em 49,99% das (18) dezoito aulas. Os alunos trabalharam, em geral, individualmente, copiando e respondendo roteiros extensos que ocuparam praticamente toda aula. O livro didático foi utilizado em 16,66% das aulas. Outros gêneros também foram utilizados: notícia jornalística 8.33% das aulas, pesquisa escolar em 8.33%i, seguida do gênero músico-poético utilizado ®m 5,55% das aulas. O livro didático teve predomínio em Geografia. Ele foi utilizado em 55% das 20 aulas observadas. O diferencial foi que a professora, em momentos específicos, introduziu c irabalhou outro livro considerado mais adequado para a exploração da temálica -Conlineiite Africano". O gênero pesquisa escolar foi proposto em 15% das aulas, seguido do uso do Scnero atlas escolar utilizado em i 0% das aulas. Finalmeme. em Português, das 60 aulas acompanhadas, em 7X33% o profcs,sor Wiiizou o livro didático. Como em Geografia, ele intercalou o uso de dois livros didáticos. Gêneros específicos da disciplina também foram explorados em 39,99% das aulas, sendo que. 191 desse total, 33,33% em aulas de atividades gramaticais, 4,99% em aulas de Francês planejadas e desenvolvidas por estagiários da Faculdade de Letras da UFMG e em uma aula os alunos foram convidados a escolher para leitura um livro de literatura. O gênero literário poético foi utilizado em 33,33% das aulas, seguido dos gêneros músico-poético e artigo de opinião, cada um foi utilizado em 8,33% das aulas, respectivamente. Como pontuado nesta tese, é tarefa da escola desenvolver capacidades de leitura que possibilitem ao aluno o uso de textos do cotidiano social. Em meio à diversidade de gêneros do discurso que circulam em nossa sociedade, a escola, de modo geral, se restringe aos textos comumente encontrados nos livros didáticos. O trabalho de didatização dos gêneros demanda investimentos na formação do professores. Na Escola 2, apenas uma professora, entre as sete pesquisadas, teve acesso à leitura sobre gêneros discursivos e havia participado de alguma capacitação nessa área do conhecimento. Essa constatação impulsiona a reflexão sobre a demanda de possibilidades de formação de professores, retomando a proposta da formação continuada como prática de letramento. Diante desse quadro, toma-se importante repensar a formação inicial e continuada dos professores pautada numa prática reflexiva amparada por uma estrutura institucional que possibilite essa reflexão. Cabe aqui lembrar o importante papel das universidades e das pesquisas acadêmicas nesse contexto, uma vez que, por meio do diálogo com professores, é possível considerar suas necessidades de conhecimento e contribuir para a melhoria de sua formação. Nesse sentido, para que os professores se apropriem das novas perspectivas de ensino e busquem reconstruir suas práticas de ensino com base em suas experiências como docentes? em sintonia com as orientações teóricas recentes,"" será necessária a formação continuada dos professores, sem a qual a prática de sala de aula não sofrerá mudanças substanciais n® direção prentendida. 5.2 Modos de leitura: como se lê na escola? Nesta parte, são apresentadas as atividades de leitura realizadas na turma de S"* séH^ desenvolvidas pelos professores de Português, Inglês, Educação Artística, Geografia, História- Cf. ROJO, 2000, 2001a, 2001b, 2005; SCHNEUWLY; DOLZ, 1997, 2004; CAFIERO, 2005; ^ COSCARELLI,2002. i L 192 Ciências e Matemática. O QUADRO 10 foi construído com base nas informações do ANEXO 5. Alguns pesquisadores"^ utilizam a expressão "estratégias de leituras""'' e caracterizam a forma como os textos foram trabalhados em sala de aula pelos professores. Para o mapeamento e representação, das 198 aulas, foi necessária a construção de categorias de leitura. Elas foram construídas com base no que predominou em cada aula como ações e modos de leitura proposto pelos-professores. Assim, o QUADRO 10 apresenta as categorias de análise construídas com base na observação participante sobre os modos de leitura explorados pelos professores em sala de aula à época da pesquisa. QUADRO 10 Modos dc leitura Modo Espaço interacional Aluno, professor e texto Modos dc leitura 01 Silenciosa e individual 02 Silenciosa, individual e coletiva 03 Coletiva 04 Oral, individual do professor 05 Oral, coletiva e por grupos de alunos 06 Oral e em duplas Realizar atividade de compreensão de texto individualmente Realizar atividade de compreensão de texto individualmente e participar de correção oral coletiva Participar da correção oral do professor coletivamente Expor o conteúdo em foco (professor) e realizar atividades de compreensão do texto com o apoio do professor (aluno) Realizar atividades de compreensão de texto em grupo Realizar atividades de compreensão de te.xto em dupla Fonte: Caderno 1, Notas de campo etnográficas, p. 25-200, 2007 e Caderno 2, Notas de campo etnográficas, p. 1-96, 2007. Na TAB 36 apresenta-se o consolidado refeiente ao modo de leitura utilizado pelos professores ao longo de suas aulas, seguido do seu percentual de predomínio. Assim, no total geral, das sete disciplinas, identifícou-se o predomínio do Modo de Leitura I - Silenciosa e "'Cf.KATO 1990-KLEIMAN, 1995, 2003; KOCH, 2001; e S^OLÉ, 1998. _007. Na atividade de leitura e produção de sentido, foram colocadas em açao varias estratégias sococognmvas. O processamento textual se realiza por meio dessas estrateças. N-se processo, sao mob.l.zados var.os t.pos de conhecimentos que temos armazenado na memória. ( 193 individual com 28,22%. Nesse tipo de leitura os alunos realizaram atividades de compreensão de texto individualmente. Em segundo lugar, com 23,73%, predominou o Modo de Leitura 3 - Coletiva. Nesse caso, o professor esteve à frente da turma e realizou a correção de atividades, sendo, por exemplo, do livro didático adotado ou atividades em folhas xerocopiadas. O Modo de Leitura 4 - Oral. individual do professor vem em seguida, com 23,23%' Nesse caso, a leitura foi realizada pelo professor, em voz alta e contou com o acompanhamento da turma. Esse tipo de leitura, em geral, foi adotado nas aulas expositivas, quando o professor apresentou determinado conteúdo. O R A L E E M D U PL A S 16 ,6 6 21 ,7 3 1 O 19 ,4 4 4, 54 10 .5 2 9, 09 O — 1 r-i r- — (N OO O IM L , C O L E T IV A E P O R G R U PO S D E A L U N O S 1 4, 34 ZI o 1 13 ,6 3 5. 26 4. 54 o 1 — r-J r-i ' — O I^ L , IN D IV ID U A L D O PR O FE SS O R 19 ,9 1 55 ,5 5 25 16 ,6 6 31 .8 1 31 ,5 7 23 ,2 3 0 (N t O o 46 C O L E T IV A O 21 ,7 3 ■ 30 13 ,6 3 21 ,0 5 23 ,7 3 o 25 1 47 SI L E N C IO SA , IN D IV ID U A L E CO L E T IV A 14 ,9 9 13 04 O vo o O ' 16 ,6 3 10 ,5 2 0 z (N ■ (N 22 SI L E N C IO SA E IN D IV ID U A L 21 ,6 6 39 ,1 3 16 ,6 6 52 ,7 7 zc z z 21 ,0 5 28 ,2 8 0 Ov O 56 T O T A L A U L A S 60 23 00 20 36 z z On 19 8 D IS C IP L IN A S Po rt ug uê s 1 sajSui E du ca çã o A rtí st ic a G eo gr af ia H is tó ria C iê nc ia s M at em át ic a To ta l G e ra l c^ CJj o o o E C5 O o w o 2: rí o c: U a> o o 195 O Modo de Leitura 5 - Oral, coletiva e por grupos de alunos foi o menos explorado no total geral das aulas, com 4,54%, o que significa concretamente que os alunos tiveram poucas oportunidades para ler e discutir textos em contextos grupais. No que diz respeito ao modo de leitura predominante por disciplina, constatou-se qu^' em Português, o Modo de Leitura 3 - Coletiva destacou-se com 41,66%, seguido do Modo à Leitura 4 - Oral, individual do Professor. Esses dados confirmam que o professor esteve coií freqüência à frente da turma, interagindo com os alunos mediante orientação, correção de atividades ou mesmo exposição de conteúdos da disciplina. Em Inglês, houve predominância do Modo de Leitura 1, Silenciosa e Individual co® 39,13%, seguido pelos Modo de Leitura 3, Coletiva e pelo Modo de Leitura 6, Oral em diip^^ com 21,73%, respectivamente. Apesar do predomínio no Modo 1, observou-se em Inglês^ adoção dos modos de leitura que envolveu a interação com o professor e com os pares, ness^ caso, o Modo de Leitura 3 e o Modo de Leitura 6. Em Educação Artística, em razão da dinâmica de trabalho adotada pela professora- identificou-se o predomínio do Modo de Leitura 4 - Oral, individual do professor, coi" 55,55%i, que consistiu, de modo geral, na apresentação do gênero artístico e orientação dad^ aos alunos para a criação/recriação do gênero em foco. Em seguida, com 16,66°/' respectivamente, os Modos de Leitura 1 - Silenciosa e individual e o Modo de Leitura 1" Silenciosa, individual e coletiva. Nessa disciplina, os alunos participaram de eventos n"' quais desenvolveram atividades individualmente e, em outras, apresentaram essas atividade' no coletivo na tunna. O Modo de Leitura 3 - Coletiva predominou em Geografia com 41,66%, seguido d" Modo de Leitura 4 - Oral. individual do professor. Esse percentual é representati\'0 dinâmica metodológica adotada pela professora: leitura e discussão de temas do livro didáti'^" envolvendo a participação dos alunos. Em História, destacou-se o Modo de Leitura 1 - Silenciosa e individual, estreitameU'^ ligado ao gênero que predominou nas aulas - o uso de roteiro de estudo com 52,77°/" seguido do Modo de Leitura 6 - Oral e em Duplas com 19,44%. Nas atividades propost^^' predominou o uso de questões objetivas. O objetivo da leitura foi basicamente a localizaÇ^" da informação no texto. Identificou-se a predominância em Ciências do Modo de Leitura 4 - Oral, indivià^'^^ do professor com 31,84%, seguido do Modo de Leitura 1 — Silenciosa e individual. De geral, as aulas foram expositivas, referentes a conteúdos do livro didático ou do conte^^'''' I 1% exposto no quadro de giz, seguidas da realização de atividades de leitura e interpretação de texto individualmente. Finalmente, em Matemática, identiílcou-se o predomínio do Modo dc I.citura 4 - individual do professor, com 31,57% seguido do Modo dc Lciíiira 1 - Silenciosa c '^dividual e do Modo de Leitura 3 - Coletiva com 21.05% cada um respectivamente. A professora também utilizou grande parte das aulas na e.xposição de conteúdos do li\ro didático, correção coletiva de operações matemáticas que foram realizadas individualmente. Diante do exposto, é pertinente retomar a questão proposta neste tópico - Como sc lê c Pora que se lê na escola? Os dados demonstram que podem ser múltiplos os modos de leitura, suas finalidades e funcionamento em sala de aula. E nessas múltiplas possibilidades está a busca pelo conteúdo/informação, a compreensão do conteúdo do texto, a linguagem e a 'nteração professor-aluno-texto. Nessa perspectiva, entende-se que as ações e os discursos dos professores estão relacionados a modos distintos de trabalhar a leitura. Assim, o modo como a feitura é proposta pode fechar ou não os sentidos dos textos, inviabilizando ou permitindo interpretações ou assumindo um sentido único para o texto. Assim, os dados evidenciam que algumas práticas de leitura dos professores ao privilegiar apenas um modo de leitura limitaram as possibilidades leitoras dos alunos, como identificado em História, em que predominou a leitura indi\'idual e silenciosa, e em Lducação ■Artística, que apresentou percentual predominante de leitura do prolessor. Os diferentes modos de leitura também estabelecem diícientes lelações entre o Professor e o aluno, bem como entre o professor, o aluno e o texto. Essas relações dependem dss Condições de produção, ou seja, do contexto e das posições relativas dos sujeitos. E como ^firrna Orlandi (1988, p. 11), "é nessa posição histórica e socialmente deleiminada — em que o simbólico (lingüístico) e o imaginário (ideológico) se juntam - que constitui as condições de Produção da leitura". Nesse sentido, sob a perspectiva discursiva na reflexão sobre leitura, considera-se que ^30 múltiplos e variados os modos de leitura possíveis, propostos ou presentes dentro e ibra sala de aula. Esses diferentes modos de leitura indicam diferentes formas de relação dos sujeitos-leitores com o texto, no qual essas relações estão ultimamente ligadas ao contexto em a leitura se dá. suas finalidades, explícitas ou implícitas, enfim, ao seu funcionamento, ubentendendo um imaginário. (ORLANDI. 1988, 1999) Portanto, pensar as práticas de leitura na perspectiva discursiva implica o ^^slocamento na posição de quem diz. ou seja, o aluno tem voz em sala de aula. tem 197 possibilidade de interpretar e de se colocar como parte integrante do processo de produção de sentidos. Como defendido por Rojo (2001b, 2004 e 2009) e Dolz e Schneuwly (1998, 2004) sob a influência da vertente discursiva, a língua passa a ser vista como enunciação, discurso, não apenas como comunicação, incluindo as relações de língua com aqueles que a utilizam, com o contexto em que é utilizada, com as condições sociais e históricas de sua utilização. Essa concepção de língua altera, em sua essência, o ensino de leitura, agora vista como processo de interação autor/texto/leitor, em determinadas circunstâncias de enunciação e no quadro das práticas socioculturais contemporâneas de uso da escrita. Como visto, o ensino baseado em uma concepção interacionista de língua implica considerá-la como prática social. Nessa perspectiva, o letramento escolar, que envolve o processo de didatização da leitura, precisa ser feito de modo a garantir que as práticas de leitura desenvolvidas nesse espaço se aproximem daquelas realizadas fora dele. Isso implica trazer para a sala de aula os contextos significativos de leitura, que envolvem diferentes gêneros presentes no convívio social dos alunos e professores. Como observado por Geraldi (1983, 2006); Rojo (2001b, 2004 e 2009) e Dolz ^ Schneuwly (1998, 2004), o contexto atual demanda reconstrução da prática de ensino com base nas experiências docentes e nas novas orientações de didatização da leitura. Portanto, sef um professor empenhado em transformar sua prática, de forma a contemplar a perspectiva do letramento, implica ter em mente alguns princípios ou diretrizes norteadoras desse novo faze^ Peixoto, Silva e Ferreira (2005) também destacam como papel do professor ness^ contexto: investigar as práticas sociais que fazem parte do cotidiano do aluno, adequando-as ^ sala de aula e aos conteúdos a serem trabalhados; desenvolver, no aluno, por meio da leitura- interpretação e produção de diferentes gêneros do discurso e capacidades de leitura para " exercício da cidadania; incentivar o aluno a praticar a leitura crítica e ativa, já que ^ linguagem é interação e, como tal, requer a participação transfonnadora dos sujeitos socia'^ que a utilizam; e, finalmente, desenvolver uma metodologia de avaliação fon-nativa (GOME^' 2003), atentando para a pluralidade de vozes, a variedade de discursos e linguag^i^® diferentes. No próximo capítulo, apresenta-se uma análise das práticas de leitura sob a ótica da^ capacidades. 6 PRÁTICAS DE LEITURA SOB A ÓTICA DAS CAPACIDADES 198 Neste capítulo, são apresentados e analisados três eventos de leitura desenvolvidos pelos professores nas aulas de Ciências, Geografia e Inglês. O objetivo com este capítulo é dar a conhecer as práticas de leitura que foram desenvolvidas na 8" série do Ensino Fundament-il na escola pública municipal em Belo Horizonte, à época da pesquisa, bem como os yêneros do discurso que fizeram parte dessas práticas, e, com base nessa caracterização, analisar o modo com que os alunos realizaram as atividades de compreensão do texto. Para alcançar tais objetivos, procurou-se responder a duas questões de pesquisa: Que práticas de leitura são desenvolvidas na segunda fase do Ensino Fundamental no contexto escolar observado? As interações entre professor e aluno e entre os alunos intericrem na construção dos sentidos e compreensão dos textos? A escolha dessas aulas se justifica por considerar que elas ilustram o trabalho com leitura em diferentes disciplinas curriculares e apresentam evidências sobre as oportunidades de aprendizagem construídas por professores e alunos e, consequentemente, demonstram as capacidades de leitura mobilizadas pelos alunos ao longo das interações em sala de aula e das práticas de leitura implementadas. Cabe acrescentar, ainda, que neste trabalho evento de leitura é considerado como todas as práticas de leitura mediadas por um texto. Com base em Heath (1983. 1996). entende-se avento de letramento como situações que envolvem práticas de leitura e escrita por determinado grupo social. De acordo com a autora, um evento de letramento pode ser intendido como "qualquer situação em que um portador qualquer de escrita é parte inteurante da natureza das interações entre os participantes e de seus processos de interpretação". (HEATH, 1982, p. 93) Adotou-se a noção de eventos de letramento para identificar situações em sala de aula que portadores de escrita constituíram parte integrante da inteiação entre os participantes do grupo observado. Tendo em vista o objetivo de analisar as capacidades lingüísticas '^elativas à leitura potencialmente ativadas nesses eventos, íbiam escolhidos eventos e episódios nos quais os participantes esta\'am envolvidos em atividades de leitura. Também Soares (2002, p. 144) utiliza o teimo evento para nomear um acontecimento que envolve a leitura. Assim, letiamento são as práticas sociais de leitura e Escrita e os eventos em que essas práticas são postas em açao . A análise das práticas de leitura deste trabalho focalizam professores e alunos, sujeitos socioculturais, que engajaram 199 em eventos e atividades de ensino-aprendizagem. Os eventos de leitura nas aulas observadas foram constituídos por determinados objetivos previamente definidos pelos professores e outros construídos na própria interação, pois os alunos interferem, participando, dando novos sentidos e significados às atividades formuladas pelos professores. O limite do evento foi o tempo de utilização de um texto, numa determinada atividade de leitura. O conteúdo de análise foi o modo de ler, de discutir o texto em sala de aula, a maneira como os alunos realizaram as atividades de compreensão do texto. Os eventos terminaram no fim da aula ou com o término da atividade de leitura com determinado texto. 6.1. Práticas de leitura nas disciplinas do currículo escolar Nesta pesquisa o pressuposto teórico consiste em uma concepção de leitura considera que o processo ensino-aprendizagem da leitura na escola deve envolver todas a® disciplinas do currículo escolar. Essa é uma preocupação presente nos Parâmetro^ Curriculares Nacionais, defendidas pelos pesquisadores da educação e objeto de preocupação de alguns professores em sua prática docente. No QUADRO 11, extraído do ANEXO 5, são apresentados os eventos de leitura selecionados para análise. Esse quadro torna visível: o que se lê? gênero discursivo; onde lê? suporte textual; como se lê? modos de leitura e para que se lê? objetivos da leitura. OS ANEXOS 10, 11 e 12 respectivamente, contêm os eventos de leitura na íntegra."' Os evento^ e subeventos selecionados neste subitem, sao parte constitutiva da descrição dessas aul^^ ^ serão retomados na análise por meio de episódios que revelam como o outro, professor« aluno, interferiram na construção dos significados dos textos. Nesse sentido, para analise dos dados, foram retomadas as concepções do Círculo Bakhtin sobre interação, dialogismo e compreensão ativa, como também os construtos Vygotsky sobre aprendizagem e desenvolvimento, como os conceitos de Zona Proximal Desenvolvimento (ZPD), Mediação, dentre outros. As aulas foram gravadas tendo como suporte uma câmara posicionada no fundo da saia. Ao lon^o das aulas" foco da câmara foi controlado e registrados dados sobre os eventos no Caderno de campo, a's transcriÇ^^' foram realizadas com base nesses dois recursos, portanto, o registro na integra não significa completo. contém limites espaço-temporal e registra o que foi possível captar em cada aula via câmera e reg'S"'" manual da pesquisadora. (OCHS, 1979; SPRADLEY, 1980; ERICSON, 2001 e 2006) Artigo de divulgação científica Follia xerocopiada Silenciosa. Individual e colcliva Caderno Textos produzidos pelos alunos sobre droeas Unidade 4 Consumo, meio ambiente e desigualdades no espaço global Livro didático Silenciosa, individual e coletiva Depoimentos dos Internautas Adolescentes sobre: Who I am? What do I ^^'ant to be when I grow up? How do I want the world to be better when I arow Site da internet; www.kidlink.ore Evento Data Ciências 162 03/08/07 quadro 11 de leitura nas aulas dc Ciônri.c „, O que sele? Gênero do Onde se lê? Suporte I FoL sc lê" 17 Gegrafía 163 09/08/07 Inglês 193 20/09/07 'Ia leiiura Conhecer c reíletir sobre o problema das drogas e suas princip;,is conseqüências. fítT?2 2 Notas de campo etnográncas, Ciências - p. 8-I0I), 2007, gnnaçÃiT ín«T|£ ' Geografia - p. 10b-13h, 2007, grav ação, fita 52/53, 9/8/2007- ' " ^ - p. 83-84, 2007, e gravação, fita 69,20/9/2007. Analisar criiicaniente a questão do consumisino c do desperdício, incentivando a pieservação do meio ambiente Avaliar a Iciiura e a iníerprelação dos alunos. Ler e interpretar depoimentos de inlernaulas adolescentes de diferentes países sobre lemas de vida e cidadania; Participar da rede de cidadania prol da construção de um mundo melhor Vygoísky (1930) ao tratar da aprendizagem e do desenvolvimento dpíhnri de e " ^ í^nação spaço no qual o aluno entra como ator de seu desenvolvimento levando r-n-, ^ • j suasc ■ consideração capacidades individuais em relação ao objeto de estudo, assim como suas potcncialid d > Aprendizado na interação como os pares e com o professor. Em outras palavras ^ om Oasc onceito Vygotsky de Zona Proximal de Desenvoh'imento (ZPD), defendi^ .. um ensino "e sobre o que o aluno já sabe e nas potencialidades de seu aprendizado nas interaçõ \ o outro. ' 201 Nessa perspectiva, na metodologia de análise procurou-se compreender e descrever os processos e fenômenos discursivos, a partir de seu contexto de produção - as aulas e as interações que nela se desenvolveram - apoiando-se, também, na perspectiva enunciativa bakhtiniana, que busca considerar os sujeitos, o contexto e os fenômenos a partir da dimensão histórica e social em que estes se inserem. Nessa medida, a linguagem foi tomada como interlocução e lugar de interação humana. Assim, foram consideradas as situações discursivas tais como ocorreram e as condições de enunciação específicas dos eventos em sala de aula. Com base nas contribuições de Bakhtin (1929), a análise desenvolvida neste estudo partiu do contexto de produção das aulas e dos enunciados que circularam; das interações produzidas pelos participantes e da descrição e análise dessas enunciações como fenômeno de ensino-aprendizagem. Coerente com essa perspectiva adotada, o foco de análise foi; principalmente, a forma como os alunos construíram os sentidos dos textos e como a interação professor-aluno, aluno-aluno interferiu nessas construções. (VYGOTSKY, 1930) No QUADRO 12, apresenta-se uma síntese descritiva e contrastiva dos eventos de leitura desenvolvidos em sala de aula nas disciplinas de Ciências, Geografia e Inglês. El® contém as categorias de análise apresentadas e exploradas neste capítulo, a saber: modos de leitura, gênero do discurso e veículo de circulação, atividades de leitura realizadas pelos alunos, prática de ensino implementada pelos professores e as capacidades de leitura ensinadas/aprendidas nas práticas letradas'"'. A caracterização e análise dessas categorias noS ! episódios fornecerá elementos para a compreensão das práticas de leitura s, ^ consequentemente, apreensão do modo utilizado pelos alunos para compreensão do texto. Considera-se importante esclarecer que a última linha no QUADRO 12 sobre as "Capacidades de leituf^ ensinadas e aprendidas nas práticas de ensino" ficará em branco. Espera-se, ao final da análise dos episódi"' de Ciências, Geografia e Inglês, ter elementos para responder à terceira questão focalizada na tese. 202 QUADRO 12 Síntese descritiva e coiitrastiva dos eventos de leitura Categorias de análise Ciências Geografia Inglês Modos de leitura Silenciosa, individual e coletiva; realizar atividade de compreensão de texto individualmente e participar de correção oral coletiva • Silenciosa, individual e coletiva; realizar atividade de compreensão de texto individualmente e participar de correção oral coletiva Oral e cm duplas; realizar atividades de compreensão de texto em dupla. Gêneros do discurso e veículo de circulação Artigo de divulgação científica - Fotos - Gráficos - Charges - Desenhos Textos produzidos pelos alunos Livro didático - Mapa-múndi - Citação trecho obra literária - Citação trecho obra científica - Propaganda - Fotos - Tabela Site da internet KidUnk - Apresentação do projeto - Convite - Mensagens - Depoimentos - Fotografias - Desenhos de internautas Atividades de leitura realizadas (alunos) - Acompanhamento da leitura - Destaque de pontos importantes do texto - Discussão do texto lido - Acompanhamento da leitura - Interpretação e análise de pontos considerados importantes - Discussão do texto lido. - Leitura individual; - Discussão em dupla dos depoimentos - Consulta de vocabulários no dicionário - Registro de informações importantes Prática de Leitura implementada (professor) - Coordena a leitura oral e incentiva a apresentação espontânea dos alunos para tomar a vez no discurso - Comenta pontos considerados centrais nos textos dos alunos - Problematiza o texto lido a partir de questões, reflexões, motivando a participação dos alunos nas discussões - Coordena a leitura oral e indica quem tem a vez no discurso - Expõe 0 conteúdo do texto após a leitura dos alunos; - Problematiza o texto lido e envoh'e os alunos na discussão e compreensão do mesmo - Avalia a leitura e a interpretação dos alunos - Orienta os alunos sobre a forma de manejar o site e ler os depoimentos dos adolescentes - Orienta os alunos sobre a forma de utilizar o dicionário - Orienta os alunos solucionando dúvidas sobre vocabulário - incentiva a adoção do trabalho colaborativo na leitura do texto e no manuseio do computador Capacidades de leitura ensinadas e aprendidas nas práticas de ensino fonte: Caderno 2, Notas de campo etnográficas, Ciências - p. 8-10b, 2007, gravação, fita 52, 3/8/2007; Geografia - p. 10b-I3b, 2007, gravação, fita 52/53, 9/8/2007; Inglês - p. 83-84, 2007, e gra\ação, fita 69, 20/9/2007. 203 A análise descritiva e contrastiva dos eventos de leitura nas aulas de Ciências, Geografia e Inglês aqui apresentada evidenciam as ações e discursos de professores e alunos no contexto da sala de aula. Quanto ao modo de leitura, predominaram as leituras silenciosa, individual e coletiva, acompanhadas pela professora e pelos alunos. Em Inglês, a leitura tem uma especificidade - os alunos foram envolvidos e® atividades com leitura de textos em língua estrangeira. Nessa aula, os alunos tiveram tempo de ler individualmente e em dupla, esclarecendo dúvidas com a professora e com os colegas. Nesse caso, a leitura realizada pelos alunos pode ser denominada de leitura instrumental com nível de proficiência elementar. Com a ajuda dos pares e da professora, os alunos foram capazes de compreender as idéias gerais explícitas no texto. Em Geografia, a leitura foi utilizada para introdução de conteúdo do livro didático. Após a leitura de determinado trecho, a professora expôs conteúdos, discutiu aspectos considerados importantes do tema. .Tá em Ciências, a leitura significou oportunidade para socializar textos produzido^ sobre os conhecimentos adquiridos. Geraldi (2006) critica a produção de textos na escola quando se tem o professor conio único leitor, pois, nesse caso, a situação de emprego da língua é artificial. No caso da aula Ciências, vê-se a professora ampliando o espaço de interlocução dos alunos. Também Leal ^ Morais (2004) lembram que na escola os alunos podem escrever para atender a finalidades diversas e se comunicar com diferentes interlocutores em situações de interação comunicativ'^ contextualizada. O professor pode mediar esse processo, criando situações significativas estimulem o aluno a escrever. Portanto, o aprendizado da produção de texto, como qualqu®"^ outro, é um processo social de construção dos significados por parte do aluno, em interação com os textos, pessoas e situações. Nesse caso, a capacidade de reflexão sobre oS textos pode ser alcançada quando o aluno lê o seu texto mas também quando escuta a leiW^^ dos colegas. Nessa perspectiva, cabe ainda acrescentar que a reflexão sobre os modos leitura (individual, silenciosa, em voz alta ou em dupla, por exemplo) inclui o trabalho coin" contexto da produção do texto a ser lido: infomiações sobre o gênero, sobre o autor do te#' objetivos da leitura, dentre outros aspectos. No que diz respeito ao gênero do discurso, observa-se que nas aulas em circularam diferentes gêneros. O livro didático foi utilizado em Ciências, mas predominou nas aulas. Identificou-se a presença de quatro gêneros principais: artigo divulgação científica, texto escolar, livro didático e o site de Internet Kidlink. No QUAD^^ 15, é possível ver em cada aula o gênero principal e os que foram nele incluídos. 204 Ciências, o artigo de divulgação científica incorporou íotos. desenhos, gráficos e charge. Já o livro didático de Geografia explorou o mapa múndi, a citação de obra liteiáiia. a citaçao de obra científica, a propacanda, as íotos e a tabela. Também em Inglês, o gênero site de internet incorporou apresentação do projeto, convite, depoimentos, lotos e desenhos de intcinautas. A inclusão de gêneros em um gênero principal é chamada de fenômeno dc intcicalação ou hibridização"^ por alguns pesquisadores da área, dentre eles Brait (1996), Bcnetle (2001), Grillo (2001), Bunzen e Rojo (2005) Bunzen e Rojo (2005) afinnam que o livro didático de Língua Portuguesa se constituiu em gênero discursivo a partir do fenômeno complexo da intercalação de textos em gêneros diversos. Segundo as pesquisadoras, o livro didático pode ser estudado como um gênero do discurso constituído por outros gêneros intercalados, como o romance (BAKMTIN. 1929/1963; 1934). O uso desse recurso enriquece o texto, dá maior visibilidade, contextualiza e ilustra o tema tratado, trazendo contribuições para o processo ensmo-aprendizagem. A descrição dos gêneros que circularam nas aulas evidenciam que o surgimento sempre eminente de novos gêneros discursivos no cotidiano da sociedade modifica sobremaneira a forma de relacionar-se com a leitura e a escrita, realizada tanto pelos meios impressos como pelos meios eletrônicos de comunicação. Nesse sentido, Schneuwly e Dolz (1999) lembram que a adoção de variados gêneros do discurso pode ampliar as capacidades de produção e compreensão de textos dos alunos, ajudando-os a melhor interagir por meio da oralidade e da escrita. Sobre as Cividadcs dc lein,ra realtadas pelos ahmos. iden.illcou-se par,icip.ç.1o ativa nas três aulas. Os alunos interagiram com a professora e com os coiejas, paniciparam ■ , ^ qilieitos ativos no processo de compreensão dos intensamente da discussão, atuando como sujeiioí, a . ^ ntpstam um número superior de turnos de fala dos textos. Além disso, a análise dos episodios atestam um alunos em relação ao número de turnos dos professores • j . a íntprlocucão típica do discurso em sala de aula é aquela Para muitos pesquisadores, i e v • Hpscrita como IRA (1 - Iniciação da pergunta concretizada na seqüência de movimentos desci ita co ^ hlhridização foi identificado por Bakhtin (1934-1935/1975) ao discutir a ^ tenomeno da intercalação ou da ninnu v gêneros discursivos que permitem a introdução de questão do piuriiinguismo no romance, como"extraiiterárias. diferentes gêneros em sua composição, ta ^ padrDo interacional típico de uma aula tradicional, ou IRA (Iniciação - Resposta - Avaliação) pode aluno c avaliação do professor, Hsse tipo dc inicração iniciação da percunta pelo professor, respos representando a instituição escola, c a que pi:c\alcce lanio estabelecido nas aulas reforça a idéia que a voz do P " portanto, reforça a relação assimétrica de poder na em atividades por ele oraanizadas como no uso o 1975- WERSTCIU SMOI.KA. 1993; l AlRCllOLIGll. 2001). "■elação com os alunos "(SINCLAIR: COULIHA no padrão IRA as enunciaçòcs foram utilizadas para Segundo Werstch e Smolka (1993), em nenhum jg pensamento, tanto do professor como do aluno, lisses criar novas significações ou considerações da informação. Pesquisadores observaram uma ênfase no aspec 205 pelo professor; R - Resposta mecânica do aluno e A - Avaliação do professor). A freqüência dessas seqüências e a marcante tendência de professores fazerem o primeiro e o terceiro movimento é o que torna o discurso de sala de aula tão específico. O fenômeno IRA"^ fo' identificado em escolas inglesas (BARTON, 1976), americanas (HEATH, 1982) e brasileiras (KLEIMAN, 1992). Nesse padrão de interação, o professor controla a organização dos turnos e a formulação de significados, não adota a perspectiva do aluno e não redefine a proposta de ensino, incorporando as contribuições advindas dos alunos. Ele monopoliza a fala de forma a lhe ser garantida a iniciação comunicativa. Essa responsabilidade do professor pela direção do discurso passa a ser reconhecida pelos alunos. Como resultado, tem-se a redução da participação dos alunos no discurso. Já nesta pesquisa, identificou-se um modelo de interação diferenciado. No caso de Geografia, por exemplo, a professora discutiu o conteúdo do livro didático democraticamente- aceitando as contribuições dos alunos E mostrando grande interesse na discussão do assunto com a tunna. A discussão implementada na sala de aula ajudou a verificar o conhecimento adquirido pelos alunos sobre o assunto e a estabelecer ligações entre o novo conteúdo e " conhecimento em foco. Nesse sentido, os passos propostos pelo livro didático não foi seguido rigidamente. Em Ciências, as contribuições dos alunos oriundos da leitura dos textos produzido^ por eles foram aceitas e discutidas, passando a fazer parte do percurso didático da professora. Também em Inglês, identificou-se uma situação de interação marcada pela confianÇ^ no professor e nos pares e, conseqüente, participação no evento de letramento. Hou^^ colaboração, troca e independência no trabalho em dupla. O professor foi visto como mediador disponível a quem os alunos recorreram para resolver suas dificuldades compreensão do texto. Investigações sobre estruturas participantes em sala de aula, dentre elas. as de M ^ Mason (1981) e Cazden (1988) concluem que a liberdade dada aos alunos para se dirigir^" professor e aos pares é determinante da maneira como eles aprendem a pensar sobre o leem, quanto o é a demanda cognitiva das questões apresentadas pelo professor. NeS^^ sentido, os dados mostram esforços das professoras na superação dos padrões rígidos interação. À medida que os alunos constróem algum significado textual, eles participam aula, deixam de resistir às tarefas e vão se envolvendo nas atividades em sala de aula maior interesse. Identificou-se nesse processo três fatores: em primeiro lugar, esses Cf. SINCLAIR; COULTHARD, 1975; MEHAN, 1982; YOUNG, 1984; EDWARDS; WESTGATE, 1987- 206 vivenciaram no percurso escolar várias histórias de fracasso e experimentaram nessas aulas algum tipo de sucesso; em segundo lugar, estão tendo interesses e opiniões valorizadas em sala de aula; e, em terceiro, a presença de maior intersubjetividade e aceitação da leitura produzida pelo aluno. Esses fatores são responsáveis pelo envolvimento dos alunos nas atividades em sala de aula. Quanto ao aspecto prática de ensino implementada pelo professor, as professoras nas três aulas atuaram como mediadoras do processo ensino-aprendizagem. O papel delas foi primordial no contexto da sala de aula. Apoiando-se no processo do aluno, esse aspecto favoreceu a discussão, criou ambiente de escuta recíproca e de discussão. A metodologia adotada em sala de aula revelou uma postura menos diretiva, que contemplou o aluno como ser pensante e crítico, e, desse modo, contribuiu para a criação de situações plurais de significados do texto. Por sua função mediadora, o professor é figura determinante na construção das '"elações entre os alunos e a cultura na escola. No entanto, para que a produção dessas relações se dê no sentido de uma aproximação duradoura entre os alunos e os objetos culturais (textos) é fundamental que as circunstâncias em que se engendram tais relações sejam favoráveis tanto à constituição de professores-leitores quanto à formação de alunos-leitores. Sob a perspectiva bakhtiniana, ler é compartilhar vozes, é dialogar com outras possibilidades. Na escola, o leitor-professor pode compartilhar com o leitor-akino suas histórias de leituras (BAKHTIN, 1934-1935/1975). Assim, o proíessor. ao oferecer ao aluno suas leituras, está revelando como ele foi se constituindo leitor, como foi dialogando com outros sujeitos. Se o professor das diferentes disciplinas compartilha um texto e visualiza que ^ leitura desse texto, na verdade, é um diálogo entre vozes, pode explorar esse texto como Ponador e representante de um discurso em detenninado contexto social-histórico-político, uma possibilidade de olhar, movimento e mterlocução na mteraçao com o aluno. Finalmente, na categoria capacidades de leitura ensinadas/aprendidas nas práticas de como explicitado neste capítulo, um dos objetivos que se pretendeu alcançar nesta tese é identificar que capacidades de leitura os alunos mobilizaram ao longo da proposta de ensino. Propositadamente, essa linha, no QUADRO 12, ficou em branco. Espera-se ao final da análise episódios de Ciências, Geografia e Inglês ter elementos que possibilitem responder à ^^rceira questão focalizada na tese, a saber: Que capacidades de leitura foram ^'Usinadas/aprendidas nas práticas de ensino? Além disso, será importante retomar o discurso da aprcndizagen. c do ensino das '^Wcidades. Elas são a meta do ensino, o notte da prática na sala de aula, o referencial de 207 I sucesso ou do fracasso das instituições escolares. São, portanto, imprescindíveis para os i alunos se tomarem cidadãos com plenos direitos e deveres, responsáveis, críticos e ativos na sociedade. No entanto, junto com a relevância de seu papel, depara-se com a dificuldade inerente à sua aquisição e ao seu desenvolvimento. Nessa perspectiva, ao desenvolver o grau de letramento dos alunos, o professor estará dirigindo o trabalho para práticas que visem à capacidade de utilizar a leitura e a escrita para enfrentar os desafios da vida em sociedade e de fazer uso do conhecimento adquirido para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida. 6.1.1 Práticas de leitura no evento de Ciências A aula de Ciências, número 162, aconteceu no dia 3/8/2007. A Prof Rosana preparou : um seminário para leitura e discussão dos textos produzidos pelos alunos sobre o tema Drogas. O ANEXO 10 contém a transcrição da aula de Ciências na íntegra do que foi possível apreender nesse dia. Em aulas anteriores, os alunos leram o texto de divulgação científica: "Drogas; cuidando da saúde", participaram de aula expositiva e, ao final, produziram uiu texto-síntese sobre o que aprenderam a respeito dessa temática. De acordo com a professora, o objetivo central dessa aula foi conhecer e refletir sobre o problema das drogas e suas principais conseqüências. Para iniciar a discussão do tema, os alunos leram o gênero artigo de divulgação científica "Drogas: precisamos delas?"'"® Nessa aula de Ciências, o modo de leitura predominante foi individual e em voz alt^' , A turma acompanhou a leitura realizada por alguns alunos e, em seguida, eles discutirani texto, destacando pontos considerados importantes. A professora, por sua vez. coordenou ^ leitura oral e incentivou a apresentação espontânea dos alunos para tomar a vez no discurso- lendo o texto produzido, comentou pontos considerados centrais nos textos dos alunos ^ problematizou o texto lido com base em questões reflexivas que foram centrais participação deles. DROGAS; precisamos delas? Galileii Especial, ago. 2003. 208 QUADRO 13 Evento de Ictramcnto dc Ciências Hora 8:10 5:13 8:13 8:58 8:59 a 8:59 Seqüência interacional Preparando a turma para o seminário Subeventos (Linlias 1-22) Lendo textos sobre o tema drogas (Linhas 23-285) Encerrando a aula (Lininas 286-288) - Estabelecendo os objetivos do seminário - Esclarecendo dúvidas dos alunos - Definindo círculo como organização física da sala de aula - Convidando os alunos para participar do debate ■ Solicitando atenção e silêncio dos alunos - Indicando quem tem a vez na leiiura - Lendo textos produzidos sobre o tema drogas - Participando do debate sobre pontos centrais do tema drogas - Explorando pontos centrais nos textos produzidos pelos alunos - Compreendendo o texto apresentado pelo colega - Incenti\'ando a participação dos alunos na leitura do texto - Definindo modos de leitura - Relatando fatos do cotidiano sobre o uso de drogas - Avaliando o texto produzido pelos colecas Espaço interacional -EI - Conversando sobre o Documentário Cidade de Deus - Fazendo anotações no material pessoal P - TI P - Ti P-TI P - TI P-AE P-TI A-T A-T P - TI. A - T. A - P -TI. A-T P-TI P-TI. A-TI. A-T A -T, A-P P-TI. A - T. A - P A-T Fonte: Notas de campo etnográficas, Caderno 2, p. 8-1 üb, 2007, c gravnção, fita 52,3/8/2007. ^^genda: P-TI, professor se dirige à turma inteira; A-T, um aluno se dirige à turma; A-P, aluno se dirige ao professor; P-AE, professor interage com um aluno específico; TI), trabalho em dupla; TI, trabalho individual; '''G, trabalho em grupo. 209 O QUADRO 13 representa o evento de Ciências. As colunas da esquerda para a direita apresentam o horário, a seqüência interacional, o subevento e o espaço interacional. Com base nas contribuições de Tannem e Wallat (2002), essa aula foi divida em três seqüências interacionais. Em Preparando a turma para o seminário (linhas 1-22), a professora estabeleceu os objetivos do seminário, esclareceu dúvidas dos alunos, organizou o espaço da sala de aula e incentivou a participação nas discussões. Na segunda seqüência interacional - Lendo textos sobre o tema Drogas (linhas 23- 285) - são apresentadas as ações da professora e dos alunos para compreensão do tema "drogas". A seqüência começa com a indicação de quem tem a vez na leitura. Nessa aula, sete alunos tiveram oportunidade de ler para os colegas e para a professora o texto produzido sobre o tema drogadicção. Essa seqüência constitui a parte central do processo de análise e será retomada, ainda neste capítulo, como estudo microetnográfico das práticas de leitura em sala de aula.'"' Já a terceira seqüência interacional - Encerrando a aula (linhas 286-288), observa-se que influenciados sobre o tema, alguns alunos conversam sobre o Documentário Cidade de Deus que contém exemplos reais dos problemas provocados pelas drogas. Outros, ainda no final da aula, fazem algumas anotações no material pessoal. Episódio 1 (linhas 2-4, 22) No início da aula. a Prof Rosana explicou para os alunos o que seria feito naquele dia em Ciências, conforme trechos descritos abaixo: 2. 3. 4. 22 Prof: [inaudível] [...] Para poder colocar em pauta na discussão, está bom? Então a redação vai ser um incentivo para começar uma discussão sobre o assunto, que nós, na verdade, não chesamos a debater muito, não é? Vera: Debatemos já. fessora. Prof: E [...] Mas cada hora de um jeito diferente. Então, agora, talvez possa fluir o assunto LJ. Prof: Vamos pensar um pouco, refletir a partir da leitura do colega [...] Porque às vezes, voc® pensa de um jeito e o seu colega pensa de outro. E quando a gente troca essas informações, essas idéias, a gente enriquece a nossa fonna de pensar. Então muitas vezes esse debate aqu' ele se faz necessário pra gente crescer mais. Crescer mais para fazermos juntos. Então, quero vai ler primeiro? ^ Cf CASTANHEIR.A 2001; BLOOME e/a/., 2008; BAKER, GREEN; SKUKAUSKAITE, 2008. 210 Ao propor a leitura dos textos produzidos pelos alunos sobre o tema "Drogas" e anunciar a importância de discuti-lo, a Prof Rosana menciona a função da leitura naquele momento e sua relevância no processo ensino-aprendizagem, postura essa defendida nos Parâmetros Curriculares Nacionais e por autores como f^ojo (2001a. 2001b, 2002. 200'! 2005), Schneuwly e Dolz (1997, 2004), Plaut (2008) e Sturtevant et al. (2006) sobre o ensino- aprendizagem da leitura e escrita na escola numa perspectiva enunciativa da linguagem. Além disso, Rosana demonstra reconhecer a leitura como procedimento central para que o aluno se aproprie da função social do que vai ser trabalhado em sala. Ao apresentar sua proposta, a professora informa o porquê da realização de detemiinada tarefa. Nesse sentido, a prática de leitura se norteou pelo reconhecimento da heterogeneidade da interpretação dos alunos com base na escuta do sentido dado ao texto. As condições de produção do texto de divulgação científica que antecedeu a produção de texto dos alunos foram apresentadas por meio da leitura dos dados escritos na fonte bibliográfica. Os alunos tiveram acesso à revista Galileu, citada, veículo de circulação do artigo, receberam inlormações sobre o autor do artigo e conheceram os motivos que o levaram a publicar esse texto, determinado pela época e contexto social, marcado também pela atuação política do autor em defesa da vida e da lula contra o consumo de drogas. A concepção de aprendizagem que orientou essa prática pode ser representada pela própria concepção de leitura da professora, que ouviu e valorizou a produção e a interpretação de muitos leitores, bem como confrontou pontos de vista mediante o levantamento de diferenças e semelhanças nas diversas leituras dos alunos. Dessa forma, autor e texto não tiveram estatuto de autoridade autônomos, mas de possibilidade lelativa. ou seja, os alunos puderam inteipretar o texto com base nas relações depreendidas entre os elementos que constituem a leitura, isto é, texto/autor/leitor/sociedade. Na análise dos episódios, foram focalizadas as condições de produção em que essa prática de leitura se deu, mostrando-se que a atuação da professora que se caracterizou por Uma postura reflexiva e dialógica foi decisiva no sentido de criar oportunidades para que os ^Itinos pudessem ler e compreender os textos em sala de aula. 211 Episódio 2 (linhas 47-71) 47. Prof: Então vamos passar pra frente. Nina, você quer ler aeora? 48. Nina: Eu não! Eu estou olhando aqui. eu estou com vergonha [...] 49. Fernando: Vai lá. sô, você é boba? Ninguém vai te zoar não! _ 50. ((Pesq.: Nina muda de idéia e pega seu texto e se prepara para ler.)) _ 51. Roberto: Olha que legal, a Nina faz tudo. _ 52. ((Pesq.: A aluna começa a ler o seu texto. Fala acelerada.)) 53. Nina: Tá bom. "Drogas [...]. Drogas são substâncias capazes de modificar o funcionamento do organismo. Algumas das muito faladas são maconha, crack, êxtase, cocaína e álcool. Muitas pessoas, geralmente jovens, começam a usar drogas por influência dos amigos ou brigas na família. Começam a usar para relaxar, falam que não vão viciar e muitas vezes, em apenas uma única vez depois de ter usado, já viciam e se tornam dependentes. Não conseguem controlar a vontade de usar a substância. A pessoa começa a mudar de comportamento, a se isolar, a ficar agressiva e tem várias outras reações que as drogas lhes causa [...]. Há três categorias de drogas: as depressoras, as alucinógenas e as estimulantes. As drogas só trazem coisas ruins". ^ 54. ANI: 0 quê? _ 55. Nina: "[...] E muitas das vezes, a maioria delas causa situações de aborrecimento, tristezas, brigas, acidentes, doenças e infelizmente, mortes. Os fumantes têm mais chance de adquirir doenças cardíacas. Os que consomem álcool têm várias reações no organismo. Agora, fala sério. Que bobagem é essa? No mundo das drogas, vícios e dependências, eu quero é distancia! Dois pontos". 56. Prof": Interessante demais! 57. ((Pesq.: VA batem palmas para a leitura de Nina. Ela sorri um tanto enverf^onhada.)) 58. ProP: Você colocou aí dados importantes, não é? 59. Lilian: Eu achei, professora, que ela tem razão droga só traz coisas ruins. 60. Vera: Eu achei que ela, assim, tudo o que ela falou é verdade, porque a maioria das vezes é briaa na família. 61. Iara: E isso mesmo! 62. ((Pesq.: Nina olha para os lados e sorri.)) 63. ProP: Briíza na família? 64. Vera: É. Muitas vezes a pessoa tenta esquecer os problemas usando drogas. 65. Fernando: Ah! Mas não é bem isso não. 66. ProP: Escapar dos problemas, refugiar, mascarando com o uso das drogas? ^ 67. ((Pesq.: Alunos comentam entre si a fala da professora)) , 68. César: É veio, muita coisa interfere na decisão do cara. 69. Débora: Foi interessante o que ela leu. Imagina o pulmão de quem fuma todo dia? 70. Roberto: Ainda bem que eu nunca mexi com isso! Graças a Deus! 71. Prof: 0 uso das drogas [...] 0 que leva uma pessoa a entrar no mundo das drogas, não é? Os efeitos das drogas no organismo e as conseqüências. Então, ela tocou em vários pontos, importantes, não foi? Após a leitura do texto por Nina, alguns alunos apresentaram comentários permitiram perceber que os sentidos do texto vão se construindo na interação com os coleg^^' Lilian toma o turno 59 e diz que a colega tem razão - "Drogas só traz coisas ruins"'. concorda e acrescenta: "Na maioria das vezes é briga na família" - como situação motivador^ para o uso das drogas. Iara interage com as colegas e ao se sentir contemplada no discurs^ afirma com uma modalização apreciativa; "É isso mesmo! 212 Percebe-se que o processo de compreensão ativa do grupo emerge das diferentes respostas dadas pelos alunos. Fernando, no turno 65. entra na discussão apresentando uma nova faceta da questão: "Ah, mas não é bem isso não". César toma o turno 68 e aruumenta- "E veio, muita coisa interfere na decisão do cara". Débora também aprova a leitura da coie<'a e faz uma inferência: "Imagina o pulmão de quem fuma todo dia". Compreendendo a gravidade da questão, Roberto entra na discussão e diz. aliviado: "Ainda bem que eu nunca mexi com isso! Graças a Deus!"' A afímiação espontânea de Roberto evidencia que a palavra do outro no processo de atribuição de sentidos do texto tem papel fundamental. Ela provoci um encontro novo e envolvente - é o momento da "compreensão ati\'a" postulado por Bakhtin (1970-71/1979, p. 382). Nesse sentido, é na interação com o texto, com os pares, que cada aluno vai se constituindo sujeito do seu ato de compreender. Reitera-se que, nesta tese. leitura é entendida como processo de construção de sentidos, em que o prolessor cria condições para a interlocução entre leitores e entre leitor e autor, ou seja. interação entre sujeitos, cm contexto social e cultural, sendo também o professor constitutivo dessa interação. Em esquisas realizadas nos Estados Unidos, dentre elas as de Floriani (1991, 1997) Castanheira (2000) e Carter et al. (2005), também confimia-se a sala de aula como espaço de construção de sentidos entre aluno-aluno, aluno-texto e professor-aluno-texto. Portanto nesse contexto, é possível fazer leituras múltiplas de um mesmo texto, não havendo, portanto o privilégio da voz do professor ou do autor do texto. Coerente com essa perspectiva, Bloome (1983, 1993, 1997) considera a leitura como evento social, focalizando o relacionamento entre os participantes. Para o autor, a leitura é vista como interação. "Atividade pela qual as pessoas orientam a si mesmas, umas às outras comunicam idéias e emoções, controlam outros e a si mesmos e se engajam em vários tipos de interação social". (BLOOME, 1993, p. 80) Considerar a leitura como evento social implica a criação de contextos de aprendizagem das capacidades leitoras, pois pressupõe um processo de interação e de compreensão ativa em que ocoirem trocas entre os participantes, que compartilham experiências, crenças e valores os quais podem ser desafiados, acatados, refutados ou transformados. 213 Episódio 3 (linhas 75-96) Prof: Então, não é só a curiosidade, não é? O que mais [...] Você colocou mais alguma coisa? O que leva a pessoa a buscar as drogas? Nina: E [...l influência dos amigos também. Prof: A influência dos amigos, não é? E depois [...] Mônica: Também pode ser outros problemas. A pessoa não fala com ninguém, fica nervoso, sei lá [...] Iara: Tem gente que usa pra relaxar também. Débora; Acho que ninguém vai fazer isso não. Lucas: Ah. pra relaxar? Faz sim. ((Pesq.: VA comentam sobre usar drogas para relaxar. Fala conjunta.)) Vera: E [...] eu conheço uma pessoa perto de casa. Célia: Ah. eu sei quem é. {(Pesq.: Alunos comentam entre si as suas opiniões. Professora gesticula com as mãos. Falo conjunta.)) ^ Celso: Eu acho que o efeito da droga é outro. Prof: Agora, psiiiu [...] Vamos concentrar aqui! ((Pesq.: Alunos conversam sobre o tema, excesso de ruído na sala.)) Prof: Vamos colaborar, por gentileza [...] Então, depois ela falou de quê ? [...] O que a droga vai causar no organismo, a dependência, não foi isso oh Nina? Além da dependência, o que mais você acrescentou [...]? . ((Pesq.: Alunos se calam um pouco.)) Nina: Foi. Eu falei sobre as categorias de drogas. E dos problemas que ela causa na vida das pessoas. ((Pesq.: Vários alunos observam o debate em silêncio outros estão fazendo anotação nO caderno.)) , Prof: As conseqüências são várias. E [...]. Você falou da dependência, dos componentes químicos, não é? E depois você foi nas conseqüências. Você classificou as drogas, não é? Ela classificou conforme os nossos estudos. Além disso, ela citou algumas das conseqüências das drogas; tristeza, agressão, violência, é [...] as doenças. Você tratou das drogas em geral, não foi [...] você também falou do álcool, do cigarro. Tem o problema do álcool no trânsito. Isso e sério demais. ^ ((Pesq.: Enquanto fala, a professora dirige seus comentários a Nina. Nina tampa o rosto coin uma das mãos coberta pela manga da blusa de frio que está vestida.)) Prof.: Eu acho que ficou bom. Você tratou das drogas em geral. Muitos pontos nós comentamos nas aulas. E assim, você pegou um pouquinho de cada coisa, não foi? Você quer comentar? Quer acrescentar algo? ^ Nina: Eu acho que é isso aí mesmo que a gente já falou. ^ A Prof Rosana participa da discussão e no turno 75 indica novas pistas apresentam caminhos para a compreensão: "Então, não é só a curiosidade, não é? O que [...] O que leva a pessoa a buscar as drogas?" Observa-se, nesse episódio, que as respostas dadas pelos alunos partem do conhecimento que têm de mundo, da realidade deles. Esse® alunos, em sua maioria vivem em áreas de risco social e convivem com o problema de pert^' É Vera quem no turno 83 diz: "Eu conheço uma pessoa perto de casa". Célia toma o turno | e diz: "Eu sei quem é!" Nesse episódio, os alunos vão intercalando suas vozes, seguin'''' 214 pistas, ora levados pela Prof Rosana, ora pela corrente discursiva que vai se desenvolvendo no processo de compreensão conjunta. Nina diz no turno 76: "É influência dos amidos |.. |" Mônica argumenta no turno 78 que "pode ser outros problemas f...]". Os sentidos vão sendo atribuídos no interior dessa corrente discursiva como elos que se ligam e encadeiam novos sentidos. Assim, a palavra do outro, do coleua, torna-se pal'ivr-i pessoal na malha discursiva que vai se desenvolvendo. No turno 79 Iara levanta um novo ponto: "Tem gente que usa para relaxar". Débora toma o turno e contesta: "Acho que ninguém vai fazer isso não". Lucas entra no discurso confirmando o objetivo de alguns usuários apontado por Iara. Dessa vez é Celso que, provavelmente, preocupado e consciente das conseqüências do uso das drogas acrescenta no turno 86: "Eu acho que o efeito das dro<'as é outro". No final do episódio, a Prof Rosana retoma pontos do texto de Nina. fazendo unri apreciação positiva dele. Observou-se um movimento que pennitiu que o sentido da enunciação fosse construído com base no encontro com os outros sentidos que o precederam e o suceder-im Nas palavras de Bakhtin (1970-1971/1979, p. 386), "[...] o sentido não se atualiza sozinho procede de dois sentidos que se encontram e entram em contato. Não há um 'sentido em si" O sentido existe só para outro sentido, com o qual existe conjuntamente". Aconteceu, então um encontro de dois textos: o texto de Nina com aquele que foi elaborado pelos sujeitos como reação ao primeiro. Conforme Bakhtin (1955-1961/1979) a segunda consciência tornou-se presente, ou seja, a consciência de quem toma conhecimento de um texto e busca (re)construí- lo. Na perspectiva bakhtiniana, um texto não está pronto e acabado, ele não é um objeto para ser observado passivamente. Desse modo, a segunda consciência é responsável pela produção de um novo texto, determinado por um acontecimento novo produzido pelos participantes Episódio 4 (linlias 128-161) 128. ^r29~ Prof: Psiiiu! Pessoal, ela vai começar a leitura. [...] Dá licença, por favor. ^ ^— fíPescf.: Célia sorri e segurando a folha, espera para começar sua leitura.)) ~ 130. Célia: Eu acho que ninguém deve entrai no mundo das drogas, quem entra é porque quer ((fala acelerada)) Eu acho que os usuários ficam sem perceber o que realmente estão fazendo." ((fala acelerada)) Prof"": Célia, leia um pouco mais devasai. 132. ((Pesq.: Célia pára a leitura. Ela sorri por causa das brincadeiras de alguns colegas. Em seguida recomeçar a leitura.)) 133. Célia: "Eu acho que ninguém deve entiar no mundo das drogas, quem entra é porque quer. Acho que para se livrar do problema, os usuáiios ficam foia da realidade, sem perceber que mundo é o deles. Eu vejo as drogas como uma coisa uuin, eu acho que quem as utiliza está se suicidando, está acabando com a própria vida . Vera: Eu também [■..] Célia: "Eu acho que drogas não levam ninguém à nada, pois é um produto químico que vicia quando se utiliza e vai destruindo o próprio corpo e a própria vida. Uma droga estimulante relacionada ao funcionamento do cérebro aumenta a atividade cerebral, tal como a cocaína. ((fala acelerada e baixa)) As drogas diminuem a velocidade de funcionamento do cérebro e a capacidade de pensar, tais como o álcool, solventes. E por último as mais perturbadoras alteram o funcionamento do cérebro, fazendo funcionar fora do normal, como a LSD, a maconha e o êxtase. As drogas sempre viciam logo para causar dependência. Os dependentes fazem de tudo para manter o vício. Alguns roubam, outros matam e outros se [...]"((f'^^^ acelerada e baixa)) Fernando: E outros o quê? Célia: Outros se tornam traficantes. ((Pesq.: Caio tenia bater palmas para a leitura sorrindo para Célia.)) Prof.: Eu observei que ela também falou de forma bem geral, classificou as drogas. Então, pra não ficar muito repetitivo, vou pegar alguns pontos bons pra gente debater. Porque no início, ela falou assim: "as drogas são ruins e as pessoas entram porque querem".Não é isso? E ai, é a opinião de todos? Vera: Não! Lucas: E! Douglas: Não. As vezes a pessoa é obrigada a entrar nesse mundo. Prof: Então, vamos desenvolver isso. Vera: Professora, ninguém teria entrado na vida, porque [...] Entendeu? Prof.: Não. Fernando: Como assim? Explique melhor. ((Pesq.: Vários alunos riem da resposta dada por Fernando para Vera. Vera tampa o rosto com as mãos)) Vera: É porque ela falou [...] Ah! Deixa pra lá. não vou falar mais não! Prof: Oh Vera! Eu quero entender, vamos! Vera: É, tipo assim, oh [...] uma pessoa sabe uma coisa da outra e fala. '"Ah, eu vou contar pra fulano." E aí o outro diz: "Ah, não [...]" "Só não conto se você provar [...]" E aí a pessoa prova. Uma vez aconteceu isso [...] César: É chantaaem? Que ridículo! Vera: Aconteceu isso na minha família. Nina: È mesmo? ((inaiidível)) Prof: Eu agora estou tentando pegar outros pontos pra não ficar muito repetitivo, não e? Senão vai tocar sempre na mesma questão. Então estou pegando algo que a gente possa desenvolver aqui no debate. Achei interessante ela falar que as pessoas entram porque quereif no mundo das drogas. Aí, eu coloquei isso no debate, qual é a opinião de vocês? A Vera deu a opinião dela, para ela as pessoas são influenciadas, então muitas vezes não é porque a pessoa quer. No final ela colocou um caso de chantagem que eu não entendi muito bem. ^ Vera: Uma pessoa sabe uma coisa da outra. Aí, eu vou e falo assim: " Se você não experimentar, eu vou contar pra fulano '. Aí, a pessoa com medo vai e experimenta pra que ^ outra não conte nada. E assim. ^ Prof: Sei [...]■ Uma situação de chantagem faz com que a outra pessoa use e aprove. ^ Vera: E. César: Sim, talvez. Lilian: Entendi! A pessoa fica nas mãos da outra. E começa esse jogo de empurra, não é? ANI: E, eu acho que isso acontece mesmo. ((Pesq.: Vários alunos fazem comentários sobre a questão colocada em discussão professora.)) 216 Nesse episódio, os enunciados que vão surgindo na cadeia da comunicação verbal formado por várias vozes vão compondo uma voz de autoria conjunta que vai reconstruindo, coletivamente, conferindo novos sentidos a enunciações anteriores. Célia no turno 130 iniciou a leitura do seu texto dizendo: "Eu acho que ninguém deve entrar no mundo das drogas, quem entra é porque quer A Prof Rosana encaminha a rede discursiva para um aspecto ainda não contemplado; "E a, é a opinião de todos?" Vera toma o turno e afirma taxativamente; "Não". Lucas participa da discussão e discorda de Vera. Em seguida. Douglas apresenta sua forma de ver a questão; " Não, as vezes a pessoa é obrigada a entrar nessa vida". Várias vozes se misturam. O texto de Célia conduziu o grupo a uma nova questão. Mais uma vez a Prof Rosana convida o grupo para participar do processo de discussão e entendimento do texto. Vera, mais uma vez, contribuiu apresentando um exemplo concreto, provavelmente, presenciado na região onde ela vive; "É tipo assim, oh [...] uma pessoa sabe uma coisa da outra e fala. Ah, eu vou contar pra fulano. E a o outro diz; Ah. não. Só não conto se você provar. E aí a pessoa prova. Uma vez aconteceu isso César compreendeu a explicação dada por Vera. Ele toma o turno 151 e diz em tom enfático; "É chantagem? Que ridículo!" Vera repete a descrição do seu exemplo. A professora e outros colegas participam da teia discursiva, agora, com maior entendimento da questão. No final do episódio, no turno 159. Lilian expressa o seu processo de internalização; Entendi! A pessoa ilea nas mãos da outra. E começa esse jogo de empun'a". Um aluno não identificado (ANl) confirma; '"É. eu acho que isso acontece mesmo. Motivados pela questão, vários alunos trocam comentários entre si. Este episódio traz importantes elementos para compreensão do sentido do enunciado. Para Bakhtin (1934-1935/1975) o enunciado só existe na cadeia da comunicação verbal e. enquanto um todo. é delimitado e constituído por outros enunciados. Assim, todo enunciado tem um começo e um fim, mas ele nunca está isolado na cadeia discursiva que compõe a interação verbal. De acordo com o autor, um enunciado concreto é um elo na cadeia da comunicação verbal de unia dada esfera. As fronteiras desse enunciado determinam-se pela alternância dos sujeitos falantes. Os enunciados não são indiferentes uns aos outros nem auto-suficientes; conliecem-se uns aos outros, refletem-se muluamente. São precisamente esses reflexos recíprocos que llie determinam o caráter. O enunciado está repleto dos ecos e lembranças de outros enunciados, aos quais está vinculado numa esfera comum da comunicação verbal. O enunciado deve ser considerado acima de tudo como uma resposta a enunciados anteriores dentro de uma dada esfera (a palavra 'resposta- está empregada aqui no sentido lato): refuta-os, confirma-os, compIcta-os supõe- nos conhecidos e, de um modo ou de outro, conta com eles. Não se pode esquecer que o enunciado ocupa uma posição definida numa dada esfera da 217 comunicação verbal relativa a um dado problema, a uma dada questão, etc. Não podemos detenninar nossa posição sem correlacioná-la a outras posições. (BAKHTIN, 1934-1935/1975, p. 316) Pode-se constatar que antes do início de um enunciado há os enunciados resposta dos outros. Constitui-se, assim, na esfera do "já dito, ao mesmo tempo em que se orienta para o ainda não dito do discurso resposta. Episódio 5 (linhas 162-176) 162. Prof: Quem mais? Quem discorda? Quem concorda? 163. Eli: Eu acho que é por influência dos amigos que usam e ele pode querer experimentar, e tal, e ficar dependente. . 164. Prof: Então, se foi influência, você acha que ele tem maturidade suficiente? Você acha que ele teve capacidade para poder fazer essa escolha? 0 menor, por exemplo, pode ser responsabilizado pela escolha que ele fez? 165. João Carlos: Eu acho que sim. Todo lugar que a gente vai hoje está falando de droga. Ele sabe que não pode, que é errado usar. Então por que entra nessa? 166. Roberto: Ah! Tem menino de 7 anos aí que está mexendo com drogas. 167. Prof: O adolescente tem discernimento suficiente? Ou será que tem outros responsáveis que também tem o seu lado aí nessa história? 168. Nilo: É, a família também. 169. Prof: O adolescente é influenciado, não é? Será que ele é só influenciado pelo lado negativoV Será que a família pode influenciar pelo lado positivo? 0 que vocês acham? 170. ({Pesq.: A turma fica em silêncio por um momento.)) 171. Roberto: Pode sim! A minha família faz isso. , 172. Prof: E aí, então? Se ele não tem o apoio da família o que fazer? Será que ele também não pode escolher altio positivo, saudável? 173. Marcelo: É o caminho mais fácil, infelizmente. . 174. Roberto: É. eu ia falar isso. 175. Vera: E também, fessora, as pessoas pegam o lado mais fácil. Você acha que eles querem difícil. Estudar, trabalhar, fazer não sei o quê? Eles querem o fácil, dinheiro fácil. 176. Roberto: Nossa que doidera! A discussão do texto de Célia prossegue no Episódio 5. Observa-se que a Prof RosaH® adota uma perspectiva dialógica que propicia ao aluno emitir apreciações, opiniões ^ descobrir carninhos para o uso da linguagem na construção de saberes. Ela incentiva ® participação dos alunos na discussão, levantando novas implicações presentes no tema- ^ diálogo continua com a participação de outros alunos da turma. Eli toma o turno 163 e &" "Eu acho que é por influência dos amigos que usam e ele pode querer experimentar, e tal ^ ficar dependente". Rosana apresenta um contraponto, questionando a maturidade adolescente, a capacidade de fazer escolhas e de ser responsabilizado pelos seus atos. 218 Carlos toma o turno 165 e diz taxativamente: "Eu acho que sim". E ainda apresenta justificativas para seu posicionamento: "Todo lugar que a gente vai hoje está falando de drogas. Ele sabe que não pode, que é errado usar. Então, por que entra nessa?" Pode-se inferir que para João Carlos existem informações sullcientes. Não somente a escola, mas outras instituições estão preocupadas com a questão; além disso, existem projetos em defesa da saúde e qualidade de vida.-Para ele, então, o que falta é a pessoa assumir uma posição consciente. Mais uma vez. Roberto, no turno 166, traz exemplos do contexto social que mostra a gravidade da questão: "Tem menino de 7 anos aí que está mexendo com drogas". Provavelmente, por trás da sua afinnação está presente a consciência de que essas enanças têm seus direitos negados e deveriam ter na infância outro tipo de experiência que não as relacionadas com o mundo das drogas. A Prof Rosana então problematiza a questão- [—] Será que tem outros responsáveis que também tem o seu lado aí, nessa história?" Atento a malha discursiva desse momento, Nilo toma a palavra e diz: "É, a família também"" Mais ■\ frente, a Prof Rosana mostra que o adolescente está em processo de desenvolvimento e que a influência pode acontecer por diferentes perspectivas. O breve momento de silêncio da turma demonstra que os alunos pensam sobre a complexidade da questão. Roberto quebra o silêncio e revozeia'^^ com expressividade. "Pode sim! A minha i'amilia faz isso"\ Consciente de que essa não é a realidade de muitos adolescentes e que nem sempre o direito a família tem sido garantido, a Prof Rosana argumenta: "E aí, então? Se ele não tem o apoio da família, o que fazer?"' As respostas de Marcelo, Roberto e Vera são coincidentes e chegam a concluir que por não ter boas influências, o adolescente acaba escolhendo "o caminho mais lacil"". O episódio termina com uma expressão espontânea de Roberto: "Nossa! Q)ue doidera!" Isso que evidencia que ele está participando, na interação com os pares, de um processo de aprendizagem que está em constante reelaboração e construção. Portanto, o '"Nossa! Que doidera!" revelam facetas do seu processo de compreensão ativa. Os eventos da sala de aula apontam indícios do processo de internalização vivido pelo grupo, a reconstrução interna de uma operação externa. Vygotsky (1930/1998) afirma que toda função psicológica superior foi antes externa, ou seja, íbi social na sua origem. Assim, o ^utor destaca o papel do outro como mediador para o luncionamcnto intrapsicológico. Nessa perspectiva, conclui-se que o indivíduo inicialmente necessita do outro para realizar aquilo expressão "revozeia" foi extraída das técnicas discursivas de levozeameiiio (rcvoicing) de O'Connor e Michaels (1996). Revoicing foi traduzido por alguns estudiosos como revozeamento e pode ser entendido como um tipo de reelaboração expressiva (orai ou escrita) de contribuição do aluno no processo de discussão De acordo com os autores, o revoicing deve ser intencionalmente promovido, partindo de uma palavra do professor interessado em engajar alunos na teia discuisiva. 219 que, mais tarde, conseguirá realizar sozinho. Identifica-se nesse processo de interação a categorização do mundo, a possibilidade de abstração e a generalização dos objetivos. Em outras palavras, o homem pode agir e pensar sobre os objetos e relacionar-se com o mundo por meioda mediação dos significados construídos pelo grupo social do qual faz parte. Bakhtin (1952-1953/1979), numa perspectiva dialógica da linguagem semelhante à discussão de Vygotsky (1934/1993) sobre a ZPD, aponta a importância do permanente diálogo como outros enunciados e outras vozes e em interação constante com seus interlocutores para a construção de novos saberes. Na perspectiva vygotskyana, o aspecto interacional dialético na organização da ZPD é um fator primordial para a aprendizagem, pois mediantea construção de espaços de aprendizagem os alunos podem desenvolver novas capacidades. Segundo Vygotsky (1934), tanto o que é oferecido aos alunos - por exemplo- conhecimentos lingüísticos - quanto o modo como a interação é organizada são elementos cruciais de mediação, pois se a intervenção pedagógica não estiver acima do nível de desenvolvimento real dos alunos, e se não for significativo, isto é, que tenha funcionalidade na vida cotidiana, não haverá aprendizagem e, consequentemente, não promoverá o desenvolvimento. De acordo com o autor, "a aprendizagem adequadamente organizada resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma seriam impossíveis de acontecer". (VYGOTSKY, 1934/1993, p. 118) Cabe ressaltar ainda que, conforme discutido por Schneuwly e Dolz (1997), ao propor o trabalho com a leitura de textos produzidos pelos alunos, a Prof Rosana cria condições que favorecem o desenvolvimento de capacidades de uso ou prática social da linguagem. Geraldi (2004), também, ao discutir o trabalho de leitura com texto, mostra que a multiplicidade de leituras não é resultado do próprio texto em si, mas, sim, resultado dos múltiplos sentidos produzidos nas diferentes condições de produção de leitura: Em cada leitura, mudadas as condições de sua produção, temos novaS leituras e novos sentidos por elas produzidos. Assim, ainda que " interlocutor-leitor seja o mesmo, mudados os objetivos de sua leitura, estará" alteradas as condições de produção e, portanto, o processo. (GERALD'- 2004, p.108) Como conseqüência desse enfoque dado á leitura, o contexto de produção é ampliado^ uma vez que os elementos que integram o contexto de produção, circulação e de recepção ào texto produzido e do texto lido não se restringem ao modelo padronizado - por exemplo, 220 localização de informação no texto mas ganha novos sentidos e significados construídos pelos participantes no contexto da sala de aula. Episódio 6 (linhas 195-209) 195. 196. 197. 198. 199. 200. Prof [: Então vamos ouvir o André. Você quer ler? ^ ((Pesq.: Andre começa a leitura do texto.)) Andre: Nesse estudo eu pude entender que drogas, pelo menos a e outras sintéticas. Você sabe que essas drogas irão fazer com o seu organismo'^ É acalrir •'''' ele lentamente. Até que você chegue a um ponto que já está tão debilitado que não a'nieni" mais e acaba moirendo. Na minha opinião, as pessoas usam drogas quando tem problem sua família e por não agüentarem mais esses problemas. Usain também quando aclianT^ " ' essas drogas lhes farão bem. Mas como você pode perceber, isso não é verdade É t' 0 contrário. Eu tenho a sorte de não ter esses casos na minha família, mas já vi pesso-is us^^'T esses tipos de coisas nas ruas, em jornais e telejornais. Essa é a minha discll<;Q•-^r^•' ' " Prof f: Essa é o quê? ^ André: Minha discussão. ' Roberto: Oh! Parabéns pro menino aí. oh! 201. 202. 203. ((Pesq.: Colegas batem palmas para A mire.)) ProF: André, comenta algo para nós sobre o seu texto [...] André: Porque o usuário, dpo assim, as pessoas que usam, elas acham que êstãõl^izcndõ ' bein pra elas. Mas, na verdade, elas estão acabando com o organismo delas lentamein" 204. 205. _ 206. 207. 208. 209. Prof: Será que as pessoas que usam drogas tem conliecmiento do mal que a drõinlãz organismo? Porque às vezes, a pessoa conhece o lado prazeroso, mas será n"' provocado ela conhece? ° ((Pesq.: Vários alunos trocam idéias sobre a questão levantada pela Prof"Romnn ) i' Vera: Depende da pessoa, aí vai de cada um. ara: E. tem gente que sabe que faz mal e mesmo assim usa^ " Vina: Tem gente que não está nem aí pra saúde. • ^ésar: Ah, mas eu acho que a informação não chega assim sabe. completa pra todn^í^ No Episódio 6, turno 197, André começa a leitura de seu texto afirmando- "Nesse estudo eu pude entender [...]" Além de assumir a autoria, André explicita o seu processo de aprendizagem e de compreensão ativa. Esta atitude volta a aparecer no turno 204 quando a Prof Rosana incentiva o aluno a comentar parte do texto lido. Rosana faz perguntas não com o espírito do padrão IRA (Iniciação - Resposta - Avaliação), mas perguntas com a finalidade de incentivar a participação. Essa prática favorece o dialogismo, a compreensão ati\'a e responsiva entre os alunos. Esse episódio e os demais analisados mostram que i responsividade constitui uma das formas mais importantes de relações dialóyicas que acontece entre enunciados e diferentes vozes, entendido não apenas em relação de -oncordância, mas também como rejeição, confronte, confirmação ou complementacão 221 Como elo na comunicação discursiva, o enunciado está ligado a elos precedentes que o determinam tanto de fora quanto de dentro, gerando nele atitudes responsivas diretas e ressonâncias dialógicas. Fiorin (2006) considera o conceito de dialogismo o princípio unifícador da obra de Bakhtin. O autor lembra que o dialogismo diz respeito ao modo de funcionamento real da linguagem, que faz um enunciado constituir-se sempre em relação a outro. O dialogismo também é uma forma composicional. São maneiras externas e visíveis de mostrar outras vozes no discurso. Além disso, o dialogismo é o princípio de constituição do indivíduo e o seu princípio de ação. Assim, para o autor, quando se fala em dialogismo constitutivo, pensa-se em relações coin enunciados já constituídos e, portanto, anteriores e passados. No entanto, um enunciado se constitui em relação aos enunciados que o precederam e que o sucederam na cadeia de comunicação. Com efeito, um enunciado solicita uma resposta, resposta que ainda não existe. Ele espera sempre unia compreensão responsiva ativa, constrói-se para uma resposta, seja ela concordância ou uma refutação. (FIORIN, 2006, p. 32) Já Brait (2003, p. 3) concebe o dialogismo como o "espaço interacional entre o eu e o tu ou entre o eu e o outro, no texto". Desse modo, o dialogismo é visto como fenômeno qu^ pressupõe relação entre discursos, entre interlocutores e entre pontos de vista construídos nuni processo histórico. Assim, o dialogismo opera em vários níveis: nas relações entre interlocutores, na interação entre autor e leitor ou entre diferentes leitores - por exemplo, nas relações do texto, com outros discursos e textos, pois os discursos são caracterizados pel® pluralidade de vozes e do texto com o contexto, pois há um vínculo indissolúvel entr^ linguagem e vida. Em outras palavras, nenhuma significação é dada, somente se constrói dialogicamente. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992) Como visto, a pergunta da professora criou um quadro dialógico, abrindo espaço par® que os alunos discutissem a questão desenvolvendo o processo de compreensão pelo pensa'' juntos. No turno 206, Vera expressa sua posição: "Depende da pessoa. Aí vai de cada um"' Iara toma o turno 207 e argumenta; "É, tem gente que sabe que faz mal, mas usa". Ei^ seguida, Nina demonstra concordar com a colega e faz uma inferência com base nos se^^ conhecimentos prévios. "Tem gente que não está nem aí pra saúde". É notável que César, turno 208, final do episódio, cria um contexto favorável à compreensão ao afirmar: "Ah, m^^ eu acho que a informação não chega assim, sabe, completa pra todos não". A professora nã'' interviu nesse momento e a tunria enceiTOU a discussão do texto de André nesse turno. 2^)0 próximo episódio a questão da informação reaparece o que evidencia que a colocação de César criou situação de conflito para que os alunos se posicionassem renexivamenle. Episódio 7 (linhas 226-248) 226. Prof.: Então vamos continuar [...] Quem é agora? 227. Débora: Eu. 228. César: Vai que é tua. Débora! 229. Prof.: Vamos ouvir a Débora, gente. Por favor. 230. ((Pesq,: Débora sorri com a mão no rosto. Em se^uicla inicia a leiliira do sen te.xío.)) 231. Débora: "Eu vejo as drogas como uma coisa muito ruim. o próprio nome já diz [.,,1" 232. Vera: E uma drosa mesmo! 233 Débora: "As drogas põem em risco a vida das pessoas. De várias pessoas. Quem usa dro^as está pondo em risco a sua vida [...]" 234. Prof.: Tira a mão do rosto, minha filha. 235. ((Pesq.: V.A conversam. Débora interrompe a leitura utn tanto envergon/iacki. Em seírnicki reinicia a leitura do seu texto.)) 236. Débora: "Ela prejudica muito a saúde, como maconha, que age sobre o cérebro[...]. A maconha é obtida do cânhamo, uma planta arbustiva de cerca de dois metros de altura, que cresce em zonas tropicais e temperadas. Já o êxtase ((ainna gagueja)) dei.xa a pessoa com alucinações e excitação, provoca elevação da temperatura do corpo, desidratação, aumento do ritmo dos batimentos cardíacos e da pressão sangüínea, podendo levar à moile. E outia: as drogas não levam ninguém a nada, só traz vários problemas à saúde, mas também traz \ ários problemas para a vida das pessoas. 0 fumo prejudica muito a saúde. Álcool e fumo constitui a dupla de drogas mais consumidas em todo o mundo e é responsável por atividades econômicas que movimentam milhões de dólares. O fumo também é uma planta e dele é extraída a nicotina. 0 consumo de cigarros se expandiu por todo o mundo depois da P <:uerra mundial. Usamos o tenno "droga" para classificar substâncias como maconha e cocaína, por exemplo. Enfim, acho as drogas uma coisa muito ruim que faz mal e prejudica a saúde, destrói a vida e não leva ninguém à nada. 237. Prof.: Muito bem! E vocês [...] o que chamou atenção? 238. Marcelo: Eu li no Estado de Minas uma reportagem falando sobre o consumo do fumo entre os jovens no Brasil. Do lado tinha um gráfico mostrando o crescimento nos últimos três anos. E eles colocaram uma foto pra mostrar o que o fumo faz no pulmão. 239. Prof.: Você tem essa matéria? Podia trazer na pró.xima aula. 240. Marcelo: Vou procurar lá em casa. 241. Lilian: É fessora. e passou no fantástico também. 242. Fernando' Mas não é só no Brasil não. 0 problema do fumo está no mundo inteiro. 243. ProF: Olha o que o Fernando está falando! 244. Paulo: É porque o consumo do fumo está alto em muitos países. Nos Estados Unidos, Canadá ? China. Tem outros que eu não estou lembiando agora. 245. Lilian: Você viu as fotos que eles estão colocando nos ciganos? 246. Roberto: É. eu vi! É pra pessoa olhar e não tumai. 247. 1 ^(PcsQ.: Fala cotijunta. Excesso de ruído. VA comentam o texto de Débora e a cjuestão do \itno gerada a partir dele. C^ésar cant at oi a pai te de uma música t elaciotiada com o tema )} J48. ( résar* " É proibido fumar! Diz o aviso que eu li. É proibido fumai [...]. O Episódio 7 começa com a leitura do texto de Déboia. No tuino 2j)l, ela lê: "Eu vejo âs drogas como uma coisa muito ruim, o próprio nome já diz [...] . Veia aproveita a brecha de 223 inten'alo dado pela colega e argumenta: "É uma droga mesmo!" Ao final da leitura, Rosana, com a modalização apreciativa "Muito bem!", turno 237, aprovou a produção da aluna e, em seguida, estimulou a participação dos demais na discussão do texto; "E vocês [...] o que chamou atenção?" Observa-se que Débora focalizou a questão do fumo. Os alunos dialogaram com o texto tomando como referência o contexto sociocultural, buscando nele informações que confirmaram argumentos apresentados por ela no texto. Pode-se observar que a leitura dialógica apreciativa recupera a leitura de outros gêneros do discurso relacionados com o tema em foco, ao qual eles tiveram acesso fora da escola, a saber: reportagem de jornal, reportagem televisiva, propaganda do Ministério de Saúde em embalagens de cigarros. Também apareceram no diálogo elementos ligados ao veículo de circulação (televisão, jornal e embalagem de cigarro), conteúdo temático, estilo e construção composicional do gênero (manchete, título, gráfico, fotográficas, por exemplo) que não foram explorados nessa aula. Marcelo toma o turno 238 e conta que leu no Estado de Minas uma reportagem sobre o consumo de cigarro entre os jovens no Brasil nos últimos três anos. Rosana ouve o aluno e faz eco a sua voz, pedindo-lhe que traga o jornal na aula seguinte. Lilian argumenta que fumo já foi matéria no Fantástico também. Fernando entra no turno 242 e lembra que o problema do fumo está no mundo inteiro. A professora utilizou o discurso indireto, revozeando-as para a tumia: "Olha o que o Fernando está falando!" Você quer comentar? Com a pergunta final a professora envolve outro aluno para dar explicações, concordando e reforçando o papel argumentativo. Paulo, então, no turno seguinte, esclarece: "É porque o consumo do fumo está alto em muitos países. Nos Estados Unidos, Alemanha e China. E têm outros que eu não lembro agora." Provavelmente, o aluno obteve essa inforaiação acessando diferentes meios de comunicação, dentre eles a internet. Também Lilian, no turno 245, acrescenta um novo dado para a discussão com base nos seuS conhecimentos prévios: "Você viu as fotos que eles estão colocando nos pacotes cigarros?Roberto responde com ar de humor: "É, eu vi, é pra pessoa olhar e não fumar"- O episódio termina com César no turno 248 cantarolando o trecho de um crênero do discurso música: "É proibido fumar! Diz o aviso que eu li. É proibido fumar" [...]. Essa foi ^ forma que ele encontrou para participar da teia discursiva, retomando, com humor, also conhecimento do grupo relacionado com o tema em discussão. Tem-se aí o que Fiorin (2006) chama de "relação dialógica interdiscursiva". Trata-se das propagandas do Ministério de Saúde veiculadas nas embalagens de cigarros com o objetivo alertar os usuários sobre os problemas provocados pelo cigarro. As advertências ilustradas aumentam " conhecimento dos usuários sobre os riscos do fumo para a saúde. Os defensores da saúde pública veern embalagens de cigarro como uma oportunidade educacional. 224 Esse episódio reafirma a importância do trabalho com os gêneros do discurso. A professora desconhece a teoria, por isso não a usa, o que revela contradições e limites no trabalho pedagógico em sala de aula e a necessária ampliação dos espaços para a formação continuada do professor. Além disso, os resultados positivos identificados na sua prática é fruto de empenho pessoal e esforço isolado, e infelizmente, sem interlocução no coletivo da escola. Nesse contexto, verifica-se que o conhecimento prévio dos alunos nesse episódio ajudou a contextualizar o conhecimento discutido e possibilitou o engajamento deles no processo de construção de sentido do texto. Dolz (2004) e Schneuwly (2004) salientam que o gênero do discurso age como uma ferramenta, isto é. um instrumento que medeia o ensino-aprendizagem da leitura e da.escrita. Dessa forma, o ensino dos diversos gêneros pode embasar a competência lingüística e discursiva dos alunos, além de proporcionar-lhes outras formas de participação social como cidadãos, possibilitando-lhes fazer uso efetivo da linguagem. Os resultados das avaliações externas sobre o domínio da competência leitora pelos alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, apresentados na introdução deste trabalho, são insatisfatórios e reafirmam a necessidade de mudança e da adoção de um novo enfoque nas práticas didáticas. Cabe acrescentar, ainda, que compreender um texto é uma capacidade complexa. Na realidade, compreensão pressupõe construção de sentidos e, para isso. eles devem ser continuamente confrontados nas relações estabelecidas entie os enunciados, num movimento contínuo de convercência de sentidos que se completam t se fundem-se mediante a multiplicidade de linguagens e de vozes que no texto circulam. De acordo com Bakhtin, a pessoa aproxiina-se da obra com uma visão do mundo já formada, a partir de um dado ponto de vista. Esta situação em certa medida determina o juízo sobre a obra, mas nem por isso permanece inalterada: ela é submetida à ação da obra que sempre introduz algo novo. [...] Compreender não deve excluir a possibilidade de uma modificação, ou até de uma renúncia, do ponto de vista pessoal. O ato de compreensão supõe um combate cujo móbil consiste numa modificação e num enriquecimento recíprocos. (BAKHTIN, 1970- 1971/1979, p. 382) À luz dessa perspectiva, um texto é sempre ideológico e dialético. É u]n todo que se constitui de outros enunciados com os quais dialoga c implica sempre uma resposta. Portanto, ler é dialogar com a consciência do outro, com outros enunciados e vozes, nilo decifrando, mas produzindo sentidos com os conhecimentos que se tem de outros te.xtos/enunciados e com os que trazem, o autor. Compreender um texto é também indicar o que se tem a dizer em 225 relação a ele e para ele; é, em certa medida, produzir um outro texto em resposta ao texto lido, é entrecruzar fios com os que trazem o texto e tecer um outro texto porque tem um leitor responsive Episódio 8 (linhas 252-284) Fernando: E mesmo, sô! Eles estudam aqui. Vera: É. Eu sei. [.■■] Eles estudam com a Mariana. ((Pesq.: Alunos comentam sobre o grupo.)) Vera: Quem vai ler agora? Prof*: Agora é o Luís. Depois nós vamos ouvir a Vera. ((Pesq.: Vera tampa o rosto com as mãos e abaixa a cabeça na carteira. Luís começa a leitura do seu texto.)) Luís: '"Apesar das drogas ser uma prática proibida na sociedade atual de venda e consumo, ela pode ser comprada [■■■]. " ((fala acelerada)) . Vera: Lê devaaar menino, credo! ((Pesq.: Luís sorri. Alunos brincam com Luís e fazem sons de freios de carro. Em seguida, Luís continua a leitura mais lentamente.)) Luís: "[...] A droga está em todo lugar, basta abrir os olhos para enxergar. A realidade das ruas muitas vezes não é mencionada nos meios de comunicação, deixando uma parte da população desorientada e confusa em relação ao assunto. Existem hoje em dia, inúmeros tipos de substancias nocivas ao corpo humano: algumas estimulantes, que fazem o corpo sair da realidade, outras perturbadoras, as depressoras e também o álcool. Todas elas atingem o Sistema Nervoso Central - (SNC).' César: Oh! Isso aí eu não sabia não. ((Pesq.: César expressa admiração e espanto ao ouvir a informação que o Luís dá em seii texto.)) Luís: "O principal problema hoje, eu acho que não é as drogas, mas, sim, a falta de informações sobre elas, a influência e o acesso fácil a esse tipo de substância. Muitos entram nessa por falta de coragem de enfrentar a vida como ela é ou por influência de amigos ou estranhos. Quando a pessoa entra nisso, ela fica perturbada e a família passa a viver um drama. É horrível quando isso acontece na sua família. Diga não às drogas." ^ Vera: Acabou? [...] Ficou muito bom. Ficou que nem o meu. ((Pesq.: VA riem do comentário de Vera. Luís dobrou o papel e sorriu para Vera. Em seguido olhou para a professora.)) ProP: Você colocou várias coisas importantes também. Luís: Eu tô ligado. Proí^: Você falou da falta de infonnações adequadas, da influência [...]. Eu perdi um pouquinho. Mas se você quiser que eu veja, me dá aí? ((Pesq.: A Prof Rosana estica o braço e pede ao Luís que lhe envie o seu texto. O texto vetn passando de mão em mão até chegar nas mãos da professora.)) ^ ProP: Alguém quer comentar algum ponto do texto do Luís? ^ Saulo: Eu não concordo muito com ele, não. Prof: Como assim? Explique melhor. Saulo: E que ele disse que a realidade das ruas não é mencionada nos meios de comunicaçãO' Eu acho que é. Luís: Mas eu queria dizer é que tem muita infonnação e as pessoas ficam confusas. Nilo: E isso, o jornal mostra o problema, tipo assim, o que aconteceu com a pessoa, o local- Mas não resolve o problema do cara, sabe. ProP: Então tem muita infonnação na mídia sobre o problema provocado pelas drogas. falta orientação adequada e serviços de apoio para quem vive o problema. ^ 226 278. Luís: E isso que eu queria dizer. 279. ((Pesq.: Luís anota algo no seu caderno. Alunos conversam sobre o texto do Luis. E.\cesso de ruído. 280. ProP: Você falou também da influência, não íoi? Das pessoas, às vezes são alé os aniiuos mesmo. 281. Vera: Amigo? f...] Eu não sei que amigo? 282. Lilian: Pra mim não é amigo não. 283. ((Pesq.: Alunos conversam entre si. Fala conjunta. Excesso de ruído.)) 284. ProP: [...] E os problemas que elas trazem dentro de casa. para os familiares, não é? A pessoa pratica um crime e passa a praticar outros, não é? f...l Então, são problemas seríssimos, não No Episódio 8, Luís apresenta o seu texto. Ele começa a leitura um tanto acelerada e é interrompida pela colega Vera no turno 259 - '"Lê devagar menino, credo!" A turma rea^ em formação e é fundamental para o seu processo de independência. Ela também está presente em todos os domínios ou esferas da criação ideológica. Bakhtin (1934-1935/1975) demonstrou que uma palavra persuasiva interior é palavra minha e palavra do outro, é uma palavra contemporânea, que nasce do contato com o presente inacabado. Ela mostra-se em processo de elaboração e, portanto, sua contextualização ^ flexível e dinâmica. Portanto, a palavra é do outro, quando está preenchida com as interações do outro, realizadas nos enunciados alheios. A palavra é minha quando eu, o locutor, ^ preencho com apreciações, argumentos, enfim, com o meu dizer. De acordo com Bakhtin/Volochinov (1929/1992), um enunciado jamais é individual porque ele se produz relação social com um outro (intersubjetividade) e com os enunciados alheio^ (interdiscursividade). Esste episódio evidencia, também, que o professor não é mesmo o detentor do senti<^^ do texto e que, em muitas situações, os alunos têm contribuições valiosas. As manifestações de trocas entre os alunos atestam que eles tiveram uma atitude responsiva diante do texf^' 228 reagiram a ele, contestando ou concordando. Além disso, esse episódio atesta mais uma vez que leitura não é atitude isolada, mas um processo em que os indivíduos auem, inicra<'em negociando significados para o texto. Cabe acrescentar, ainda, que os alunos, na interação com a professora e os colchas vão construindo os sentidos dos textos num processo de compreensão ativa (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1992). já que. no ato de compreender, o grupo vai tecendo uma série de inter-relações complexas que enriquecem o já compreendido com novos elementos no diálogo nos enunciados. 6.1.2 Práticas de leitura no evento de Geografia A aula de Geografia n. 163, desenvolvida pela Prof Marta, aconteceu no dia 9/8/2007. Nessa aula os alunos continuaram a leitura e a discussão do capítulo 4 do livro didático- Consumo, meio ambiente e desigualdades no espaço global. De acordo com a professora, o objetivo proposto foi analisar criticamente a questão do consumismo e do desperdício, incentivando a preservação do meio ambiente. Além disso, no início da aula. a professora anunciou outro objetivo; avaliar a leitura e a interpretação de textos dos alunos. O gênero do discurso proposto para a aula foi o livro didático. Observou-se a presença de outros gêneros explorados pelo autor na discussão do tema do capítulo 4, dentre os quais o mapa-mundi do consumo, um trecho de obra literária, um trecho de obra científica, propaganda, fotos e tabela. O modo de leitura predominante foi individual e em voz alta. Os alunos Acompanharam a leitura de trechos do capítulo feita poi aluno indicado pela professora e. em Seguida, participaram da discussão e da interpretação do texto. Já a professora coordenou a leitura oral e indicou quem tinha a vez no discurso, expôs o conteúdo após a leitura de trechos, problematizou o texto envolvendo os alunos na discussão e avaliou a leitura e a interpretação dos alunos. Também o QUADRO 14 representa o evento de Geografia. A primeira seqüência interacional Iniciando a aula (linhas 1-19) marca a chegada da piofessora e o diálogo com os No ANEXO 12 encontra-se a transcrição da aula de Geografia na integra, 229 alunos sobre o número de aulas e o trabalho da etapa. A segunda seqüência interacional, Lendo o capítulo sobre consumo e meio ambiente (linlias 20-315), constitui o subevento central de análise. A professora define o texto a ser lido, infonna que a leitura e interpretação dos alunos serão avaliadas, indica quem tem a vez na leitura e explora pontos centrais no trecho lido pelos alunos, envolvendo-os na discussão. Nessa aula, 12 alunos tiveram oportunidade de ler um trecho do texto em voz alta. O término se dá na terceira seqüência interacional Encerrando a aula (linhas 316-331) com a professora indicando o dever de casa secuido pela manifestação de descontentamento de alguns alunos. Na seqüência, são apresentados alguns episódios da sala de aula de Geografia que demonstram como os alunos e a professora realizaram as atividades de compreensão do texto. Seqüência interacionai Iniciando a aula (Linhas J-19) Definindo a leitura do Capítulo Consumo e Meio Ambiente Lendo o Capítulo 4 Sobre o Consumo e Meio Ambiente Informando que a leitura e a interpretação í> dos alunos serão avaliadas (Linhas 20-315) - Expondo o problema do lixo no Brasil Estados Unidos - Discutindo atitudes favoráveis do consumidor à educação - Refletindo sobre o problema da poluição - Debatendo sobre as formas alternativas de energia Encerrando a aula (Linhas 316 quadro 14 Evenío de leíramcnío de Geografia Subeventos - Lembrando o número de aulas da etapa - Informando sobre o trabalho da etapa - Questionando o trabalho proposto Espaço inieracional EI I' - TI P-TI A - P; A - T I'-TI Lembrando pontos discutidos na aula anterior e alunos que já leram - Manifestando o desejo de ler - Indicando quem tem a vez na leitura - Explorando pontos centrais no trecho lido I pelo aluno - Participando do debate sobre pontos centrais do tema consumismo - Avaliando o modo de leitura do aluno - Analisando a questão do consumo no I A - t- a r, contexto familiar I ' f^-Tl.A-T,A. A-P P-AE P-TI; P_AE; A-T- A-P A~T;A-P; p. P-TI A-T; P _ AE; P _ yj I' TI; A - P; A — f f^-T!;A-P;A-T P-TI; A-T. A-P P-TI; A-T; A-P - Indicando o dever de casa para a próxima aula; - Discordando da tarefa proposta AT; A-P — Utl ICIIVIU JVj UDi Caderno 2, Notas de campo etnográficas, p. I0b-I3b, 2007, e "ravaclo r,»., —,,.y— genda: P - TI, professor se dirige à lurma inteira: A-T. um aluno se dirige à turma; /T-P. aluno sc l'*' ^^8/2007. • Piofessor interage com um aluno específico; TD. trabalho em dupla; TI. trabalho individinl- Tr P - ""ana/ho em grupo. 231 Episódio 1 (linhas 2-37) O episódio tem início com a chegada da Prof Marta em sala de aula e o anúncio de que, nessa etapa, em Geografia, os alunos teriam três aulas: 2. Pror: Oi pessoal, tudo bem? Lembrando pra vocês [...] Nessa etapa são (03) três aulas de Geosrafia por semana. -> J. ((Pesq.: VA conínniam a conversar paralelamente)) 4. César: Três aulas por semana, cara! 5. Prof.: Quem não veio na segunda-feira? 6. ANI: Eu! 7. Prof: Nessas três aulas teremos um trabalho de final de etapa. 8. Roberto: Trabalho? 9. Fernando; Ah, não. Marta! 10. André: Ah, para! 11. Prof: Vocês terão quatro meses pra fazer o trabalho. Pode ser em dupla também. E quem quiser fazer individual pode fazer, ok? 12. César: Oba. em dupla, demorou! 13. Prof: Hoje, nós vamos continuar a leitura do capítulo sobre "Consumo e meio ambiente". 14. ((Pesq.: Fala conjunta dos alunos com Marta. VA levantam questões sobre o trabalho. Excesso de ruído.)) 15. Prof: Oh, Roberto! Me ajuda aí, fdho!? 16. Fernando: Eu nem tenho o livro. Não tem como ler, não. 17. Lilian: Tem. sim, a gente dá um jeito, viu? 18. Vera: Deixa de preguiça, menino! 19. ((Pesq.: Fernando sorri para as colegas.)) 20. Prof: Eu quero avaliar a leitura de vocês. Não só a leitura, mas também a inteipretação. Então nós vamos continuar a aula de segunda-feira onde nós começamos o capítulo [...]. Qual é mesmo o capitulo? 21. Célia: Quatro! 22. Prof: É 0 capítulo 4; "Consumo, meio ambiente e desigualdades no espaço slobal". 23. ((Pesq.: Os alunos abrem o livro didático na página 40. capítulo 4.)) 24. Prof: É, [...] e nós paramos na página 43. 25. Iara: Não falei, viu só! 26. Prof: A gente chegou a ler "0 desperdício na embalagem", esse item aí do capítulo? Ou não? 27. T: Não. 28. Prof: Já sei, a gente estava conversando sobre o texto e bateu o sinal, não foi? E também, a gente falta ler e discutir esse texto azul aí sobre o lixo e a parte de baixo sobre o desperdício das embalagens, está bom assim? 29. Teresa: Tá ótimo. 30. ((Pesq.: VA abaixam a cabeça e procuram no livro o tópico do capítulo que a Prof Marta está falando.)) 31. Prof: Gente, abram aí na página 42. 32. ((Pesq.: VA conversam entre si enquanto a Prof Marta espera para iniciar a leitura do texto.)) 33. Vera: Eu quero ler, viu? 34. Cristina: Eu também quero ler. 35. Prof: Alsumas pessoas já leram. Quem já leu? 36. Viviane: Eu! A Nina, a Lilian [...] 37. Prof: Miriam [...]. 0 Eli, Carla, EIso e Saulo. 232 Em seguida, no turno 7, a professora informa: "Nessas três aulas, teremos um trabalho de final de etapa". Numa atitude tipicamente escolar, alguns alunos reagem com espontaneidade, rejeitando a tarefa dada pela professora. Nilo toma o turno 8 e diz; "Trabalho?" Fernando explicita sua opinião: "Ah. não, Marta!" E André, concordando com os colegas, revozeia com expressão: "Ah. para!" A reação dos alunos provoca reílexõcs sobre o sentido da tarefa escolar e as formas de diálogo na sala de aula. Freqüentando a escola há oito anos, sem dúvida, esses alunos passaram por inúmeras situações em que o trabalho escolar foi marcado pela artifícialidade. Percebe-se que os mesmos superam a passividade e como interlocutores ativos interpelam a professora. Marta, no turno 11, responde com uma postura flexível e minimiza a questão, estabelecendo prazos e formas de organização dos alunos: Vocês terão quatro meses para fazer o trabalho. E pode ser em dupla também. E quem preferir individual pode fazer, ok?" Essa concessão é aceita pela turma e representada na voz de César que no turno 12 argumenta: "Oba, em dupla, demorou!" O episódio prossecue com a Prof Rosana no turno 1j anunciando: "Hoje nós vamos continuar a leitura do capítulo sobre "Consumo e meio ambiente . Fernando, no turno 16. diz: "Eu nem tenho o livro, não tem como ler, não . Lilian, percebendo a espeiteza do colega e numa atitude proativa, toma o turno 17 e diz: Tem, sim! A gente dá um jeito, viu? Vera. atenta à malha discursiva, faz eco a voz da colega e diz com íirmeza: "Deixa de preguiça, menino!" Fernando, ao somr para as colegas, confínna com ar descontraído os sentidos implícitos no discurso captado por elas. No turno 20, Marta anuncia: "Eu quero avaliar a leitura de vocês hoje. Não só a leitura, mas também a interpretação [...]"• Os procedimentos adotados pela professora para desenvolver suas atividades de leitura em sala de aula eram bastante incomuns quanto a alguns procedimentos tradicionais adotados, em geral, nas escolas, que limitam os alunos à leitura de textos didáticos destinados apenas ao ato de ler. Ao contrário disso, a professora assumia uma postura questionadora do texto e envolvia os alunos na discussão dos temas. Além disso, Marta utilizava em suas aulas temas atuais e emergentes necessários ao entendimento do espaço geográfico da realidade global vivenciado pelos alunos e voltados para o exercício da cidadania. Como visto, as atividades de ieimra eram compartilliadas e demonstravam ser prazerosas «.mo para os alunos como .ambcm para a professora. A utilização dc textos relevames do livro didático para as tarefas de leitura provocou o envolvimento dos akmos, íespertando-lhes interesse em ler com a intenção de compreender e construir significados. No 233 tumo 33 e 34, há evidências do interesse dos alunos pela leitura em Geografia. Vera diz: '"Eu quero ler, viu?" Cristina concorda com a colega e manifesta seu interesse: "Eu também quero ler". Nessa aula, a professora está continuando a discussão do capítulo 4: "Consumo, meio ambiente e desigualdades no espaço global", conforme anunciado no tumo 22. No tumo 28, ao localizar com os alunos o tópico lido e discutido, Rosana assim expressa: "Já sei. a gente estava conversando sobre o texto e bateu o sinal, não foi? E, também, a gente falta ler e discutir esse texto aí sobre o lixo e a parte de baixo sobre o desperdício das embalagens, está bom assim?" Cristina responde: "Está ótimo". O fato de Rosana se incluir no discurso: "A gente estava conversando sobre o texto [...]" realmente marca sua inclusão na realização da tarefa de leitura e discussão do texto. A professora construiu junto com os alunos os conhecimentos sobre consumo e meio ambiente proposto nessa atividade. Conforme discutido por Vygotsky (1934/1993), a professora cria uma zona de desenvolvimento proximal na sala de aula, ou seja, em um espaço coletivo. Isso indica que os processos psicológicos dos alunos e da professora estão marcados pela criação coletiva de um ambiente de tarefas para qus sejam desenvolvidas funções psicológicas superiores, confomie discutido por Vygotsky (1934/1993). Observou-se, no tumo 35, que Marta, com o apoio dos alunos, relembra quem entre eles participaram do evento de leitura na aula anterior, a saber: Viviane, Nina. Lilian. Miriaiii' Eli, Carla, Elso e Saulo. Outro ponto importante é que o foco no conteúdo, de fato, tem lugaf em todas as disciplinas. No caso específico da Geografia, a leitura tem como objetivo compreender o conteúdo e o vocabulário em práticas dirigidas pela professora. Como se vê, o tumo 20, já citado, exemplifica esse enfoque. Como apontam as discussões de Dolz (2004) e Schneuwly (2004). as capacidades leitora e escritora têm como base o trabalho com textos em todas as áreas, estabelecendo» assim, uma relação importante com a disciplina de Língua Portuguesa que, segundo os PCN^ (1998), baseia-se em propostas interativas língua/linguagem, consideradas em um processo discursivo em contraposição às concepções tradicionais, deslocadas do uso social. Além disso, nos PCNs e também no PNLD (2005) de Geografia há como orientação geral do desenvolvimento da capacidade de comunicação em relação às habilidades de ler ^ interpretar textos de interesse geográfico; interpretar e utilizar diferentes fomas representação (mapas, tabelas, gráficos, fotos, charges, etc.), exprimir-se oralmente correção e clareza, produzir textos adequados para relatar experiências, fomiular dúvidas apresentar conclusões, dentre outras. 234 Segundo o PNLD de Geografia (2005. p. 101-102), um livro didático de Geografia deve, primeiro, preparar o aluno para atu-ir em um mundo complexo, localizar-se nele, decodificá-lo. compreender seu sentido e significado, e, segundo, desenvolver seu espíriio crítico que implica a capacidade de problematizar a realidade, propor soluções e reconhecer sua complexidade. E ainda; Prioritariamente, e de acordo com a maturidade dos alunos deve-se estimular seus processos cognitivos, como compreensão, mcniorizaçi análise, síntese, interpretação, observação, identificação, comparação" criatividade, problematização e criticidade, para formar um indivíduVcom capacidade de resolver problemas, enfrentar situações complexas - suas idéias. (PNLD, 2005, p. 102-103) ' - ^ expor Como aponta Rojo (2004), somente poucas e as mais básicas das capacidades leitoras têm sido ensinadas, avaliadas e cobradas pela escola. Os alunos, em geral, entendem que ler na escola é ler sozinho e, em seguida, responder a um questionário no qual se deve localizar e copiar informações do texto para avaliação. No caso em foco, a Prof Marta mostra que para haver compreensão durante a leitura, a parte do conhecimento de mundo do aluno que é relevante para a leitura do texto deve ser ativada. Nessa linha de reflexão, os PCNs de Língua Portuguesa e de outras áreas do conhecimento situam a língua do ponto de vista dialógico, ou seja. como parte do contexto social vivido. Além disso, é importante acrescentar que os PCNs (1998) apontam a contextualização do conhecimento como recurso para que a escola modifique a condição do aluno como espectador passivo, levando-o a uma aprendizagem significativa. A contextualização traz diferentes áreas e dimensões presentes na vida pessoal, social e cultural capazes de mobilizar capacidades já adquiridas e que possibilitam a relação entre teoria e prática. Desse modo, a contextualização, por considerar os aspectos socio-histórico-culturais está ligada à idéia de aprendizagem e desenvolvimento, ou seja. à construção do conceito espontâneo e do conceito científico vinculados entre si e relacionados ao desenvolvimento mental da função psicológica superior que ocorre no contexto social. (VYGOTSKY. 1934/1993) Enfim, na aula de Geografia, encontia-se uma prática de leitura marcada pela heterogeneidade, pelo dialogismo e pelo respeito a difeientes interpretações. No que diz 235 respeito às condições de leitura em sala de aula, o discurso do professor como mediador da linguagem e dos conhecimentos escolares na sala de aula se tornou um objetivo importante no estudo dos elementos que integram o fenômeno da leitura no contexto da escola. No caso específico da aula de Geografia, esse discurso possibilitou a construção de determinada prática de leitura e de determinada postura de aprendizagem dos alunos, como pode ser visto na análise dos episódios seguintes. Episódio 2 (linhas 48-88) O Episódio 2 começa com a Prof Marta dando a vez na leitura para Paulo, seguido por Denise, que leem trechos sobre o desperdício das embalagens. 48. I Prof: Você quer ler agora? ^ Paulo: Em que página mesmo? [...] Leio, mas em que página? Prof: Psiiiu, gente [...1 "O desperdício na embalagem" na página 42. Paulo: Estou abrindo o livro, espera aí, calma! [...]"0 desperdício na embalagem. Você sabia que a embalagem de um produto, um chocolate, por exemplo, pode custar até 20% do preço total dele? Será mesmo que tantos produtos precisam das embalagens "especiais" em que são acondicionados? ((fala acelerada.)) Tomemos o caso dos sanduíches vendidos por certas cadeias de lanchonetes. Você acha que é realmente necessário que os sanduíches venham em sacos de papel ou caixinhas de isopor? Por que essas lanchonetes não usam pratos de louça, copos de vidro, talheres de metal, toalhas e guardanapos de tecido, que podem ser reaproveitados? ((Pesq.: A turma se mantém em silêncio chiraníe a leitura de Paulo.)) Prof.: Paulo, está bom. Depois do Paulo, Denise, quer ler? Então vamos. Denise: "'O motivo alegado para o uso de tanto material descartável é a "higiene". Esse argumento é discutível. Será que a louça e as toalhas da sua casa são menos limpas do que os produtos de papel e o plástico desses estabelecimentos? É claro que não. Usar material descartável simplesmente torna o produto vendido mais atraente, mais moderno, mais vendável, em suma". ((Pesq.: Denise termina a leitura do trecho indicado pela professora.)) Prof: Veja bem essa notícia aí. [...] É de 1998. Nós estamos em 2007, o texto é de 98, anos, não é? E continua atual, não é? _ César: E mesmo! Josué: Então, quer dizer que não mudou nada? Pedro; Eu acho que piorou. A gente tá usando mais esse tipo de material. Prof: Olha a foto gente! Vamos ler o que está debaixo aí dessa foto, por favor. Pode lef' Denise. ^ Nina: Jogando computador fora? Nossa, que tanto no lixo! Denise: "A foto acima mostra uma lixeira na cidade de Los Angeles nos Estados Unidos, repleta de computadores inutilizados. Em diversos países desenvolvidos, muitos aparelhos se tornam rapidamente ultrapassados, devido ao aceleramento processo de desenvolvimento tecnológico". ((A aluna leu rapidamente e trocou acelerado por aceleramento. ) ) ^ Prof: Acelerado processo [...] Você está coirendo demais Denise. Fernando: E lasqueira! Denise: "O alto custo do conserto desses aparelhos também leva os consumidores a descart^ 236 los em vez de reutilizá-los . Agora pensem; descartar produtos que poderiam ser reaproveitados também se caracteriza como uma forma de consumismo? 66. Prof: Gente, nós temos um problema muito sério nessa questão do desperdício aí. 1'rimeiro. que existem produtos, bens de consumo que estão sendo descartáveis. É [...] como o carro, a geladeira, que a jiente pode usar por muitos anos e muitas vezes são descartados, não c? 67. Mônica: Roupa também [...] Tem sente que descarta roupa que dá pra ser usada. 68. ProP: Ah, esqueci a palavra. [...] E tem bens de consumo que a gente usa e que são descartáveis mesmo, não é? A gente tem que usar imediatamente ou dentro de um prazo. E o que a sociedade de consumo faz com ja gente, atualmente? Faz com que a gente cada vez mais, no mundo moderno, a gente queira trocar os nossos produtos que poderiam ser usados 30, 40 anos. Uma geladeira pode ser usada 40 anos. Aposto que alguns de vocês aqui conhecem geladeira anti Se todos os carros do mundo usassem álcool, seria meliior. sabiam? 222. Fernando: Mas ele polui, não polui.^ 223. Prof: Carro a álcool? Polui gente? Ulha a pergunta do 1-ernando. 224. ((Pesq.: Alguns alunos comentam sobre o carro a álcool.)) 225. César: É lósico, mas a poluição é menor. 226. ((Pesq • VA conversam na sala. Conversas paralelas sobre a questão do álcool.)) 227. 'rof • A^ora eu tenho uma esperança. Todo mundo está consciente da situação. Esse texto foi escrito oito anos atrás [...] Olhem aí no livro nas referências. E o assunto está muito atual, vocês concordam? 228. Roberto: Está. [...1 Bem atual, olha só! 229. 'fPe^q • Roberto e Fernando se olham e sorriem, n-omzando a atualidade da noticia.)) 230. ] I I *rof: Então, por um lado é ruim. Porque tem 8 anos que a gente está com esse texto aqui, nas as pessoas há 8 anos atrás já pensavam nisso, e hoje, eu acho que estão pensando mais e nelhor do que há 8 anos atrás. Eu acho que sim. E voces? 231. Vina: Ah, não está não f...! 232. 'rof: Você não tem esperança, não.-' — 233. P Íiníi- Fi. nãr, Fn acho que esse texto ja e_stá ve.ho. ^ I .ílian- Pra mim o texto está novo porque a gente nao resolveu o problema da poluição. 247 235. Prof: Mas você não acha que a gente já está sentindo na pele algumas mudanças? 236. Nina: Ele é até bonitinho, mas não está batendo com a realidade, não. Eu adio. 237. Vera: Oh, Marta [...] Um dia eu fui ao mirante do palácio, sabe? E lá que o meu pai paga promessa. Aí, na hora que a gente estava olhando assim, oh [...], tudo preto, assim, em volta. Daqui não dá pra ver não, mas lá do alto dá pra ver tudo escuro. No turno 210, a Pro" Marta interfere e acrescenta: "Não é só lá, não. Aqui em Belo Horizonte também tem essa questão da fumaça". César toma o turno 211 e afirma: "É, eu sei. Eu já vi também". Fernando pergunta: "De ozônio?" A professora acrescenta um novo dado: "E quando está na época que não chove e o tempo fica seco é horrível". Roberto toma o turno 214 e argumenta: "O ar fica carregado". A Prof Marta, então, lembra a quantidade de doenças respiratórias provocadas pela poluição, atingindo principalmente crianças e idosos. A discussão prossegue, e no turno 218 a professora lembra: "E já existem estudos e produção de carros menos poluentes. O objetivo é diminuir a quantidade de poluente no ar. Vocês sabiam? Vera pergunta: "O elétrico?" Roberto argumenta em defesa: "Seria melhor mesmo, eu acho. A professora age responsivamente em relação aos alunos e aborda a questão dos combustíveis orgânicos e no final afirma que o álcool é menos poluente. "Se todos os carros do mundo usassem álcool, seria melhor, vocês sabiam?" Fernando levanta uma questão: "Mas ele polui, não polui?" Mais uma vez, por meio do discurso indireto, a Prof Marta envolve o aluno na discussão com os pares, reanimando sua voz: "Carro a álcool polui, gente? Olha a pergunta do Fernando". César, no turno 225, responde: "E lógico, mas a poluição é menor". No turno 227, a professora toma a palavra e expressa o seu otimismo: "Agora, eu tenho uma esperança' Todo mundo está consciente da situação. Esse texto foi escrito oito anos atrás [...]. Olhem aí no livro na referência. E o assunto está muito atual, vocês concordam?" Roberto e Fernando, em tom de humor, ironizam a informação dada por Marta. Provavelmente, os alunos estão considerando o quesito número de anos. Por um lado, na era tecnológica, marcada pel^ velocidade, um texto de oito anos é antigo. Nina segue a mesma linha de pensamento, concorda com os colegas e diz: "Eu acho que esse texto já está velho". Já Lilian entra no turno 234 com um importante argumento: "Pra mim o texto tá novo porque a gente não resolveu o problema da poluição". Lilian vê a questão por outro ângulo e com isso amplia a capacidade de compreensão da turma. Como se vê, leitura é um processo dinâmico, coletivo, em que os indivíduos age'''^' interagem, negociando significados para o texto. O episódio termina com Vera, no turno 237» trazendo um exemplo do contexto pessoal: "[...] Um dia eu fui ao mirante do palácio, sabe? ^ 248 lá que o meu pai paga promessa. AL na hora que a gente estava olhando assim, oh. f...J mdo preto, assim em volta. Daqui não dá pra ver, não, mas lá do alto dá pra ver tudo escuro" Vera com sua espontaneidade, traz um novo retrato da poluição, contextualizado, diferente daquela foto postada no livro didático pelo autor, mas que, sem dúvida, com ela se relaciona e reafirma a atualidade do problema. Observa-se, também, que nessa tunna a relação de ensino se constituía, de fato nas interações em sala de aula. era que o respeito e a busca de explicitação dos conílitos entre os sujeitos, apesar das divergências peculiares á complexa dinâmica da sala de aula. estavam presentes e eram, na verdade, características marcantes. Nesse sentido, a prática de leitura efeti\'ada pela professora em sua tarefa de ensinar valorizava a experiência de vida e o conhecimento de mundo dos alunos e, portanto, incluiu informações e referências que pudessem confirmar, negar, ampliar, modificar, enfim, incluir o que se discutia em sala de aula. Como se vê, esse episódio e os outros evidenciam que as leituras e a construção de sentidos em sala de aula podem superar os padrões básicos da IRA (Iniciação - Resposta - Avaliação), o que implica abertura de espaço para construir sentidos com os alunos, e não para eles. Nessa perspectiva, a leitura que aconteceu em sala de aula desperta o interesse estimula a discussão, cria conflitos cognitivos e promove a compreensão ativa e responsiva dos alunos. (BAKHTIN, 1970-71/1979) Episódio 6 (Linhas 240-286) Ao final da aula, observa-se o Episódio 6, que teve início com a leitura de Mônica. A aluna apresentou dificuldades na leitura do texto e acompanhou-a o tempo todo com os dedos Percebe-se, mais uma vez, alguns limites: a professora discute o tema sob uma das perspectivas do texto e deixa de lado o texto como um todo e suas relações. Assim, a aula de leitura parte do tema do texto, mas as articulações tecidas no plano micro do texto, que levam ao macro do contexto social não são observadas. 2M Prof; Então está bom. [...] Vamos lá para a página 44. 0 desafio energético: a escassez do petróleo". 241. ((Pesq.: A Tvira a pási^ia da livro.» 242. Prof: Depois do Dousias, vou chamara Mônica. Você pode ler? 243. ((PesQ.: Mônica inicia iwediaíaiiicriíc a leitura do tj cclw indicado pela Prof Aíaría.)) 244 Mônica: "Atualmente, muitos dos recursos naturais que vem sendo dilapidados pela sociedade capitalista industrial, como os lecursos eiieigéticos fósseis, apresentam reserva 249 limitada na natureza. A intensa exploração desses recursos levará a um rápido esgotamento, pois a exemplo do petróleo, esses não são renováveis'", ((fala acelerada)) Hoje o petróleo é fonte de onde provém cerca de 40% de toda a energia consumida no planeta, mas estima-se ((gaguejou)) que as reservas conhecidas serão suficientes para atender ao consumo mundial por apenas mais 70 anos. Assim, levanta-se uma questão: como suprir a crescente demanda energética, se o petróleo é um recurso não-renovável? 245. ((Pesq.: Mônica manifesta dificuldades ua leitura do trecho e acompanha a leitura com os dedos.)) — 246. Mônica: Ah. eu não quero ler mais, não! _ 247. ProP: Só mais um pouquinho. 248. ((Pesq.: Mônica concorda e continua a leitura.)) _ 249. Mônica: "Os conhecimentos tecnológicos que a sociedade dispõe atualmente permitiriam que grande parte do petróleo consumido fosse substituído ((gaguejou)) por outras fontes de energia. Até o fmal da década de 1990, por exemplo, já haviam sido inventados diferentes tipos de automóveis movidos por fontes alternativas de energia, como o hidrogênio, ((gacuejou)) a energia solar e alguns tipos de óleos vegetais. Entretanto, o problema como o seu alto custo de produção e comercialização ainda impedem sua fabricação em série." 250. ((Pesq.: Mônica leu todo o trecho, acompanhando-o com os dedos. Em alguns momentos, elo leu silabando as palavras. Ela concluiu sua leitura um tanto desconcertada. . 251. ProP: Ok. Mônica, está bom. Depois da Mônica [...] é o César! , 252. ((Pesq.: César inicia imediatamente a sua leitura.)) 253. César: "0 fato de o petróleo ser uma das maiores fontes de poluição [...] ((fala baixa)) ^ 254. Prof.: Mais alto! 255. ((Pesq.: César iniciou a leitura em tom muito baixo. Após o pedido da Prof Marta, aumenta o tom de voz.)) 256. César: "[...] do planeta já seria motivo para a sociedade substituí-lo por fontes energéticas menos poluidoras. No entanto, o alto custo do desenvolvimento de novas tecnologias e o desinteresse político e empresarial, entre outros motivos, não permitem, ainda, a utilização eiTi larga escala de fontes alternativas de energia. Veja, no quadro abaixo, algumas dessas fontes energéticas. Existem diferentes fontes alternativas de energia para a substituição combustíveis fósseis. Grande parte delas causa um impacto ambiental muito pequeno, como as energias eólica e solar, que têm seu problema mais relevante ligado à poluição visual Outras fontes, no entanto, podem causar maior impacto, como as hidrelétricas." - 257. Prof.: Pode ler as alternativas. Vocês já ouviram falar da energia eólica? Ei, Nícias? 0 que ^ enereia eólica? 258. Nícias; É energia pelo vento. 259. Lilian: Oh! ^ 260. ((Pesq.: Lilian dá um grito de admiração pela resposta correta do colega.)) ^ 261. Pedro: Na Bahia tem. ^ 262. Eli: Só é possível em lugar com muito vento. ^ 263. Prof: Então vocês já ouviram falar? Que bom. ^ 264. Nícias: Ela é muito mais econômica só que é difícil de conseauir. • 265. Miriam: É, tem que captar o vento. Se não tiver vento não tem enersia 266. Prof: Então, gente, eu lembro de ter discutido isso com vocês na S"" série. Sempre aparecia algo relacionado com energia, a gente discutia isso. Quem se lembra? A energia eólica é a energia obtida pelo vento. A energia solar é mais divulgada atualmente e utilizada. Agora eles já estão começando a usar a energia solar em viárias casas. Quando el^ surgiu, era muito cara. Ela era utilizada em edifícios para aproveitar o sol que batia. So agora, as pessoas estão mais criativas, graças a Deus, e estão criando outras formas baratas. ^ 267. César: É [...1 e tem programa na televisão mostrando isso. 268. Viviane: 0 Globo Rural. É [...] de manha. Pequenas Empresas, Grandes Negócios 269. Roberto: Passou no Fantástico também. 270. Nícias: Eu vi no Globo Ecologia. ^ 250 271. 272. Prof: É mesmo, o Ghho Ecologia mostra formas alternativas de baratear esses projetos Nícias: Tem até com garrafa PET. Você já viu? 273. Prof: Então. Nícias. fala para nós sobre o que você já viu sobre energia alternativa 274. André: De garrafa PET? 275. Vera: Eu também já vi. 276. Nícias: Eu já vi casa construída com garrafa PET. E vi também um hotel que por cima dele tinha garrafas PET. 277. ')'70 1 ((Pesq.: VA fazem comentários sobre diferentes formas alternaíixas de enenzia solar )) 279. Carlos: É. de caixinha de leite! Tem também. 280. Teresa: Eu vi um projeto de casa construída com caixinha de leite porque o material que lem dentro dela é alumínio, plástico e papel. 281. ((Pesq.: VA comentam sobre diferentes possibilidades pura a criação de sistema de enen^na solar.)) J81_\ Luís: Eu vi janela de garrafa. 283. Prof: Então está bom gente, vamos continuar. Vocês agora nao vão mais esquecer. 0 que é mesmo enercia eólica? 284. Lilian: Energia pelo vento, não é isso? 285. Mônica: Isso. pelo vento. Energia através do vento. 286. Vera: Eu nunca mais vou esquecer. Foi o Nícias que falou! No tumo 246 Monica diz; "Ah, eu não quero ler mais, não! A Prof Marta estimula; ''Só mais um pouquinho". Mônica prossegue sua leitura e a conchii um tanto desconceitada. Esse exemplo retrata a realidade de muitos alunos que cliegam ao téimino de Ensino Fundamental revelando insegurança na leitura, comportamento típico de leitor iniciante, com pouca fluência. que lê o texto como se estivesse "silabando as palavras ou "gaguejando". Nesse aspecto, considera-se importante a inteivenção do professor, por um lado. evitando a exposição pública do aluno que possa provocar timidez diante das atividades de leitura, e. por outro, garantindo a participação do aluno em atividades que desenvolvam as capacidades de decodificação, de compreensão e de apreciação e de réplica do leitor em relação ao texto. (ROJO, 2004, 2009) No caso em foco, Mônica revela incômodo com relação ao modo fez a leitura, a qual somente foi concluída com o incentivo da professora. Assun, esse exemplo reafn-ma a "^portância e o compromisso de todas as disciplinas no desenvolvimento de atividades que contemplem os diferentes modos de leitura de uso social. Obser^'a-se, no caso da Gcogralla, a preocupação da professora garantindo que os alunos lessem de feto o texto por meio da leitura coletiva. Nessa aula. a professora fez a leitura oral de parte do capítulo com os alunos, comentando, confrontando, enriquecendo o texto com informações que resultaram na participação ativa e responsiva dos alunos. 251 Kleiman (1993/2004, p. 21) atribui a prática de leitura em voz alta a uma função avaliativa. Assim, é a concepção de leitura como avaliação que justifica o fato de os professores aferirem a compreensão da leitura dos alunos por meio da leitura em voz alta. Já Antunes (2003) defende esse modo de leitura em contextos funcionais e claramente percebidos pelos alunos como situações comunicativas específicas nas quais o sentido e a compreensão sobre o objetivo do ler em voz alta fiquem claros para os alunos. Além disso, cabe acrescentar, ainda, que o suporte que o professor dá aos alunos antes, durante e depois da leitura, certamente, irá contribuir para que, diante de novos textos, eles possam assumir os procedimentos que, conjuntamente, costumam adotar durante a leitura compartilhada com os colegas e professores - uma postura responsivo ativa. Dando prosseguimento, no tumo 253, César inicia a leitura sobre o petróleo e as fontes de energia. Marta toma o tumo 257 e levanta uma questão para um dos alunos: "[...] Vocês ouviram falar de energia eólica? Ei Nícias, o que é energia eólica?" Nícias toma o tumo e responde: "É energia pelo vento". Lilian dá um grito de admiração pela resposta do colega- Pedro lembra: "Na Bahia tem". Eli entra na corrente discursiva com um novo dado: "Só é possível em lugar com muito vento". A professora ouve atentamente o diálogo entre os alunos e entra no tumo 263, valorizando as contribuições deles: "Então vocês já ouviram falar? Que bom!". Nícias no turno 264 traz um novo dado para a turma: "Ela é muito mais econômica. Só que é difícil de conseguir". Míriam reitera a àfirmação do colega e argumenta: "É, tem qu^ captar o vento. Se não tiver vento, não tem energia". No tumo 266, observa-se a retomada de um conhecimento do grupo que funcionou como uma forma de construção de sentido que possibilitou ao aluno estabelecer vínculos entre as séries e disciplinas curriculares. A pergunta da professora nesse tumo foi: "Então sente, eU lembro de ter discutido isso com vocês na 5'' série. Sempre que aparecia algo relacionado coin energia a gente discutia isso. Quem se lembra? [...]". Considero que uma das responsabilidades do professor é ajudar os alunos a construir novos entendimentos sobre as bases do aprendizado anterior, e a língua é a principal feiTamenta à disposição do docente. Como visto,, a professora atua no quadro dialógico abrindo espaço para que os alunoS desenvolvam o processo de compreensão pelo pensar juntos. César toma a vez no discurso e diz: "É [...], e tem programa na televisão mostrando isso." Viviane ratifica a fala de César: Globo Rural. É [...] de manhã. Pequenas Empresas, Grandes Negócios". No tumo 269» Roberto afirma: "Passou no fantástico também". Nícias entra em seguida e diz: "Eu vi Globo Ecologia'. Nesse ponto, Marta valoriza a contribuição de Nícias, revozeando-a para o grupo: "É mesmo, o Globo Ecologia mostra formas altemativas de baratear esses projet®^' 252 Nícias mais uma vez toma o tumo 272 e diz: "Tem até com garrafa PET. Você já viu?" André pergunta; "De garrafa PET?" Vera toma o turno 275 e confirma a informação dada pelos colegas: "Eu também já vi". Nícias se entusiasma e apresenta outros tipos de projetos alternativos com a garrafa PET. Nina. Teresa e Luís prosseguem na mesma linha, dando exemplos de projetos alternativos. O episódio termina com uma breve recapitulação da professora: "[...] Vocês agora não vão mais esquecer. O que é mesmo energia eólica? í.ílian toma o tumo e responde: "Energia pelo vento, não é isso?" Mônica confirma: "Isso. pelo vento, energia através do vento". Vera. em tom de humor, marca sua participação rcvozeando: "Eu nunca vou esquecer, foi o Nícias que falou! Como visto, tem-se no Episódio 6 um evento discursivo: o eu se completa dialogicamente na relação com o outro que se revela pela e na linguagem. Nesse contexto, identificam-se alunos e professora, estabelecendo relações entre o que se leu e o que faz parte do acervo pessoal deles. Nesse processo, eles trocaram conhecimentos, experiências e concepções que promoveram a compreensão ativa do texto. De acordo com o dialogismo bakhtiniano, o leitor dialoga com o texto, trazendo-lhe um contexto que, juntamente com os elementos extraverbais inseridos nesse texto, atualizam o leitor no momento da leitura, orientando os sentidos que serão construídos. Inseridos numa prática sociocultural, interagindo entre interlocutores, a leitura implicou para eles a produção de sentidos, contraposição do seu discurso ao do texto, numa âtitude ativa e compreensiva. Desse modo, a compicensão passa a sci o melhor sinônimo de leitura, pois para compreender é necessário refletir, ati\ar informações extrate.xtuais, advindas do conhecimento de mundo do leitor, sendo esse um dos pontos importantes paia uma leitura ativa. Nas palavras de Bakhtin. [...] "toda compreensão é prenhe de resposta e, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz: o ouvinte torna-se o locutor. [...] Cedo ou tarde, o que Ibi ouvido e compreendido de modo ativo encontrará um eco no discurso ou no comportamento subseqüente do ouvinte". (BAKHTIN, 1952-1953/1979, p. 290-291) Assim, compreender o ato de ler como diálogo entre leitor, texto, autor e contexto de produção do texto e da leitura implica considerar que a prática de leitura começa antes mesmo que o leitor inicie a leitura, uma vez que o que ele conhece do assunto, suas expectativas, concepções, estabelecem as variações que irão definir a natureza da interação como o texto. 253 6.1.3 Práticas de leitura no evento de Inglês A aula de Inslês, número 193, aconteceu no Laboratório de Infonnática da Escola no dia 20/9/2007. Nessa aula, a Prof Carmem propôs a entrada no site Kidlink para leitura de depoimentos de adolescentes internautas de diferentes países. O objetivo com essa aula anunciado pela professora foi: ler e interpretar depoimentos de internautas adolescentes de diferentes países sobre o tema '"vida e cidadania" e participar da rede mundial em defesa dos direitos humanos em prol da construção de um mundo melhor. O ANEXO 12 contém a transcrição da aula na íntegra. O gênero do discurso explorado nessa aula consistiu em depoimentos de internautas adolescentes sobre as seguintes questões: 1. Who I am? 2. What do I M'ant to be when I up? 3. How do IM'ant the world to be better M'hen 1 groM' up? 4. J^^iat can I do now to make this happen? Essas questões foram postadas no veículo de circulação - site da internet. Outros gêneros do discurso foram incluídos, a saber: apresentação do Kidlink, convite para participação, mensagens, fotografias e desenhos de internautas. O modo de leitura adotado foi em dupla, em voz alta. Esse modos de leitura predominante foi intercalado com o modo leitura individual silenciosa pelos alunos de acordo com a dinâmica de interação, proficiência na leitura em Inglês e habilidades no manuseio do computador. Assim, os alunos realizaram leitura individual, discutiram os depoimentos em dupl^' consultaram vocabulários no dicionário de Inglês/Português e Português/Inglês e registrara® informações consideradas importantes. Por outro lado, a professora orientou os alunos sobre a forma de manejar o site e ler os depoimentos, esclareceu sobre a forma de utilizar o dicionário, solucionou dúvidas sobre vocabulários e expressões idiomáticas e incentivou ^ adoção de um trabalho colaborativo na leitura dos textos e no manuseio do computador. O QUADRO 15 representa o evento de Inglês. A análise desse quadro pennit^' também, a visualização de quatro seqüências interacionais. 254 QUADRO 15 Evento de letramcnto dc Inglês Hora Seqüência interacional Subeventos Espaço intcraciüiial - El 8:12 a 8;15 Chegando a sala (Linhas 1-14) - Acolhendo e cumprimentando os alunos em Inglês - Definindo o local da aula e a atividade de leitura P - TI, A - P P - TI. A - P . A - T 8;15 a 8;23 Organizando duplas de trabalho (Linhas 15-29) - Formando duplas para o uso do computador - Ligando o computador e acessando o site: http:/7wvvw.kidlink.org/english/voice/index.html T- D T- D 8h23 a 8h52 Lendo depoimentos de internautas (Linhas 30-102) - Orientando o trabalho em dupla - Lendo depoimentos de internautas adolescentes de diferentes países - Esclarecendo dúvidas sobre o acesso - Utilizando o dicionário como suporte para consulta de vocabulário - Tirando dúvidas sobre o entendimento do texto - Tomando notas a respeito dos depoimentos lidos ~ Aprovando pontos apresentados pelos alunos - Confirmando a tradução de termos do inglês para o português - Debatendo sobre pontos do depoimento pessoal - Esclarecendo sobre o uso correto do dicionário - Compreendendo depoimentos de internautas - Construindo o seu depoimento em Inglês P-Tl T-D;TI P-TI T - D. T I T- D. A - P. P-AE t-i,t-d P - A E. P - TI P - AE. A - T. T- D T- D P-TI T- D. T - I t-i,t-d 8h53 a 8h59 Encerrando a aula (Linhas 103-120) - Conectando o Orkitl ou diferentes sites da internet - Definindo a continuidade do trabalho em casa e na aula de Inglês. _ „ cí.si ">007. e gravação, fita 69,: A-P, T-1 P-TI .0/9/2007. ■ Fonte: Notas de campo etnográficas, Caderno -, p dirige à turma; A-P. aluno se dirige ao Legenda; P - TI, professor se dirige a turma Lnecífico; TD, trabailio em dupla; TI, trabalho individual; professor; P - AE, professor interage com um alu '''G, trabalho em grupo. 255 Em Chegando a sala (linhas 1-14), a primeira seqüência interacional, os alunos são acolhidos pela professora que, em seguida, orienta a atividade de leitura e indica o local da aula. A segunda seqüência interacional - Organizando duplas de trabalho (linhas 15-29) - aconteceu na sala de Informática. Os alunos se organizaram em duplas para o uso do computador e acesso ao site kidlink. A terceira seqüência interacional - Lendo depoimentos de internautas (Linhas 30-102) - constitui o subevento central de análise nessa aula. Os alunos, organizados em duplas, leram depoimentos de internautas adolescentes de diferentes países, utilizaram o dicionário, interagiram com a professora e coin os colegas ao longo da compreensão do texto. Na quarta seqüência interacional - Encerrando a aula (linhas 103-120) alguns alunos cobram da professora o que foi prometido no início da aula - tempo livre para entrar no Orkut. Ainda nessa seção, a Prof Carmem dá orientações sobre a continuidade do trabalho em casa e na pró>dm aula de Inglês. Episódio 1 (linhas 30-38) O Episódio começa com a Prof Carmem apoiando os alunos que apresentavam dificuldades para acessar o site. 30. ((Pcsq.: A Prof Carmem passa pelas duplas e ajuda os alunos que ainda estão com dificuldade de acessar o site. A dupla Nina e Denise estão lendo e trocando informações sobre a página inicial do site que contêm trechos dos depoimentos de Nevena, Kevin, Katie s Michele.)) 31. Nina e Denise: Making our world better: Be friends, no more povert>', no more war, animal's rights, no violence, a clean world and protect our nature, no crime, no gambling, no more racism, no abuse of alcohol, no smoking, recycle and other dream. How do 1 want our future better? Nevena (from Yugosla^'ia): Less crimes, violence, garbage and more clean air, nature surrounding us and many polite people. It wouldn't be so good eveiything to be absolutely perfect, but the mentioned things would make this world much better! That is the world I would like to see in the future. Kevin (from United States): I think governments need to stop giving people necessities for living. History has shown that when people don't have to work they do NOTHING. I think government paid education is good but welfare is useless. Why should we pay other people to do nothing? Katie (from Canada): We can make the world better by starting to make the environment we live in better, not just meaning "no polluting", but also no; bullying, fighting, racism etc. V/e can start small and expand. Michele (from Brazil): People should love more each other. The basis to make our worl<^ better it to love! How do I want our future better? Telling everybody how you want our future better ma)' help change the world the way you want. We suggest that you should do this is by answering this four Kidlink registration questions: l.Who am I? 2. What do I want to be when I 256 up? J. How do I want the world to be better when 1 grow up? 4. Wliat can I do now to make this happen? Your answers will end up in a database with ail others having the same drejim Now, you and others can count and publish infonnation about all those to infiucnce politicians and others who hold the key to a better future. 32. Prof: Õ gente, não é para entrar só no retrato, não. Clica no nome deles, viu? Aí vai aparecer a resposta deles. Leia com atenção o que eles responderam para depois pensar como você \'ai fazer o seu depoimento. 33. ANI: Ah, então é isso? 34. Prof: Alguém já escreveu um depoimento? Como se escreve um depoimento? Para que serve? Como é que nós vamos enviar esse depoimento? Vocês se lembram da nossa discussão na aula passada? 35. Vera: Eu sei! É falar um pouco da gente e das coisas que a uente gosta. 36. Nina: Também é contar o que a pente quer ser quando crescer. 37. Roberto: É uma rede, não é? Os meninos vão entrar e ler o depoimento da uente e nós vamos íer 0 deles. 38. ProP: Muito bem! É por ai. A dupla Nina e Denise estão lendo e trocando informações sobre a páyina inicial do site que contêm trechos dos depoimentos de Nivena. Kevin, Katie e Micheie. No turno 32 a Prof Carmem dá orientações contextuais para os alunos e chama atenção para a leitura atenta dos depoimentos, tendo em vista a escrita do depoimento pessoal. As condições de produção da leitura foram retomadas pela professora no turno 33 por meio das seguintes perguntas; "Alguém já escreveu um depoimento? Como se escreve um depoimento? Onde se escreve um depoimento? Para que ser\'e? Como nós vamos enviar esse depoimento? Lembram da nossa discussão na aula passada? Com essas questões, a professora aguça a lembrança dos alunos sobre discussões realizadas em aulas anteriores sobre as características do gênero do discurso em foco, importantes para a leitura, compreensão e produção escrita dos depoimentos. Desse modo, Carmem apresenta sentidos para a leitura, pois faz perguntas para levantar os conhecimentos dos alunos a respeito do gênero depoimento. Essas perguntas direcionam a discussão com os alunos, conforme apontado por Schneuwly e Dolz (1997), como forma de propor atividades que remetem a uma prática social autêntica de uso da linsuagem escrita, para que possam utilizá-la apropriadamente nas situações e nos propósitos definidos nesta atividade. De fato, essas peiguntas são essenciais para o reconliecimento do contexto de produção do gênero enlocado, como um aspecto que auxilia o processo de compreensão do te.xto e no levantamento de conhecimentos dos alunos sobre o gênero ("Alguém já escreveu um depoimento? ). Conforme discutido por Vygotsky (1934), perguntas desse tipo contribuem para formalizar os conhecimentos dos alunos 257 ("Como se escreve um depoimento?"), associando-os aos conhecimentos de funcionalidade de um gênero de circulação social ("Para que serve ?"). Vera toma o turno 35 e apresenta o seu conhecimento sobre o gênero depoimento: "Ah, eu sei! É falar um pouco da gente e das coisas que a gente gosta!" Nina entra no turno 36, concorda com a colega e acrescenta: "Também é contar o que a gente quer ser quando crescer". Na seqüência, Roberto traz uma importante contribuição para retomada do interlocutor real para quem os alunos escreviam um depoimento: "É uma rede, não é? Os meninos vão entrar lá e ler o depoimento da gente, assim como nós lemos o deles." A Prof Carmem avalia positivamente a contribuição dos alunos no turno 38 com uma modalização apreciativa: "Muito bem! E por aí". Esse exemplo demonstra a tentativa da Prof Carmem de instaurar em sala de aula uma atividade de linguagem que (re)crie uma situação o mais próxima possível de uma prática social, pois propõe aos alunos a leitura e a produção do gênero depoimento pessoal para interlocutores reais, ou seja. exatamente como acontece nas práticas sociais de linguagem. Os sentidos da Prof Carmem sobre a prática da leitura e produção de textos revelam, conforme salientado por Schneuwly e Dolz (1997), o foco na criação de situações autênticas de comunicação, ou seja, é importante garantir em sala de aula boas razões para ler e escrever, uma vez que explorar os textos autênticos que circulam na sociedade torna-se uma oportunidade de aprendizagem rica e diversificada. Como visto, nesta aula e em outras anteriores, a professora teve o cuidado de prover o aluno com orientações que deixaram claro para que contexto e leitor-alvo o texto seria endereçadoDe acordo com os pressupostos bakhtinianos essa preocupação com o destinatário irá determinar a ativa compreensão responsiva do enunciado pelo leitor. Isso se dará porque o leitor não é simplesmente um decifrador de código, mas alguém que, ao longo de todo o processo de leitura, ocupa, simultaneamente, uma posição responsiva ao enunciado: concorda ou discorda, completa-o com base em outros enunciados, aplica-o, prepara-se usá-lo, elevando-se, assim, o leitor à categoria de interlocutor. Tal atitude define a importância do outro na construção do discurso. Cabe acrescentar, ainda, que no início da aula Carmem trouxe informações sobre aS condições de produção, que envolve o conhecimento sobre o funcionamento e a orsanizaçã® do veículo de circulação no qual será postado o depoimento: o site da internet. Essa Nesse sentido, contexto é a situação de comunicação em que a linguagem se produz caracteriza-se por conjunto de elementos que atuam quando falamos: quem fala, o que fala, com quem fala, quando, com" ^ onde fala, e, finalmente, com que intenção fala. (CASTANHEIRA, CRAWFORD, DIXON; GREEN, 200l) informação atesta o sentido do trabalho que é proposto para a leitura e escrita. Além disso a análise das perguntas levantadas pela professora e das respostas dadas pelos alunos revela que a construção do conhecimento é feita conjuntamente, pois Carmem faz perguntas aos alunos com o objetivo de sistematizar coletivamente o saber sobre a funcionalidade do site e o que deve ser feito para enviar o depoimento pessoal (Como nós vamos enviar esse depoimento? Vocês se lembram da nossa discussão na aula passada?"). Outro dado importante é a motivação dos alunos. Percebe-se, conforme trecho a seguir, extraído da primeira seqüência interacional, o entusiasmo e o interesse dos alunos pelas atividades na internet: 11. ProP: Nós vamos para a sala de Informática, ela está livre agora. Vai ser unia ótima oportunidade pra sente continuar o trabalho. 12. Roberto: Eba. demorou! 13. César: Eu vou nessa! 14. Fernando: Nossa, até que enfim, cara! Quando se falava em atividades no contexto do uso do computador, os alunos ficavam eufóricos e bastante propensos a participar das atividades. Constata-se uma atuação mais participativa no contexto de uso da internet, por ser algo diferente do que vinham fazendo, portanto, motivador de interesses. Se bem mediado, trata-se de um instrumento capaz de aumentar a motivação, o interesse e a interação entre os alunos. A internet, por apresentar uma vasta quantidade de informações, quebrando as barreiras do tempo e da distância, desperta a curiosidade e o interesse no aluno. Pode-se inferir que a Prof Carmem usa esse recurso por considerar a motivação e o interesse essenciais no contexto de ensino-aprendizagem do Inglês. Nesse contexto, Eastment (1999) focaliza o impacto social e educacional da internet. O autor destaca a suipreendente revolução piovocada na educação, mais especillcamente no ensino da língua inglesa. Com ela, pode-se ultrapassar as fronteiras tradicionais de acesso à informação e descobrir recursos que revolucionam e ampliam o acesso ao conhecimento. O autor ainda destaca a facilidade na troca de mensagens que pode criar relações entre os alunos, a possibilidade de comunicar-se com usuários fora do ambiente físico imediato, a disponibilidade não somente de palavras, mas de sons, imagens e além disso, a oportunidade de produzir conteúdos, ao invéz de apenas recebê-lo passivamente. Sin"hal (1997) também aponta como fator importante, no piocesso cnsino- aprendizaglm no contexto de uso da internet, o acesso a informações de diferentes países onde se fala o inglês. Mais ainda, o autor enfatiza aue um dos fatores para garantir o 259 entendimento da língua-alvo é o entendimento de sua cultura. Infomiações políticas, geográficas, históricas, socioculturais, econômicas devem ser inseparáveis e interdependentes no processo ensino-aprendizagem de uma língua. De acordo com Reddell (1997), a internet pode favorecer a autonomia, a criatividade e a responsabilidade do aluno, possibilitando-lhe assumir papel crítico e genuíno em atividades do âmbito escolar que apresentem assuntos relevantes à vida real. Paiva (1999) defende a aprendizagem da língua estrangeira mediado pelo computador. Ppara o autor, trata-se de uffl recurso que propicia contextos de uso mais significativo para os alunos, aumenta as oportunidades de aprendizagem, incentiva a aprendizagem autônoma e colaborativa. favorece o atendimento a ritmos e necessidades diferenciados, facilita o acesso à material autêntico e ultrapassa os muros da sala de aula. promovendo a interação com pessoas no mundo inteiro- Nos depoimentos que se seguem, analisa-se a interação dos alunos e da professora na leitura dos depoimentos de intemautas de diferentes países a fim de identificar evidências de oportunidades de aprendizagem na aula de Inglês. Episódio 2 (linhas 38-45) O Episódio 2 apresenta Vera e Lilian lendo o depoimento de Kevin (Estados Unidos)' Lilian abre o dicionário de inglês/português para consultar a palavra "hypocritical". 38. ((Pesq.: Vera e Lilian estão lendo o depoimento de Kevin (from United States). Lilian abre o dicionário de inplês/portii^iiês para consultar a palavra hypocritical.;) ^ 39. Vera e Lilian: Kevin (from United States) Who am I ? Well, I make origami during math class (If s a boring class). That may not tell you anything about me but you can tell. I like computers and video games lots more than sports. This is hypocritical perhaps, but I play tennis at school. No thanks to me, (I'm ranked last) but we haven't lost yet. What do I want to be when I grow up? I haven't really decided what 1 want to do. Maybe 1 could be one of those computer guys at NASA. I like to fly (I've been up about 5 times). ' could do something with that (heck, I'd go into space and tend to jelly fish). How do I want the world to be better when I grow up? I think we need to allow and encourage economic growth while not compromising natural resources. What can I do now to make this happen? I think we need people to argue about the environment while other people argue for the economv. " ^ 40. Vera: Achou aí, entendeu? Ei Cannem, por favor. ^ 41. Prof: Essa palavra pode ter diferentes sentidos, não é? Pode consultar o dicionário, mas veja 0 sentido dela no texto. , 42. Lilian: Ele gosta de computador, video games e pratica tênis. Ele não decidiu ainda o quer ser. Talvez faça computação. Eu acho que é isso mesmo. - 43. ((Pesq.: Vera e Lilian anotam na folha algumas informações sobre Kevin. A dupla troc^ impressões sobre as escolhas de Kevin)) ^ 44. Prof: Gente, esta e uma atividade colaborativa. Quem tem mais habilidade com a interne^ ajuda 0 outro. Quem tem mais facilidade com o inglês tira a dúvida do colega Se precisarJílS' 260 chame também. Vander; Ei, Carmem, ô fessora, você pode vir aqui? Edimar: Eu acho que é isso, vamos ver com a Camiem. Também no início da aula, turno 17, a Prof Carmem laz referências ao uso do dicionário: "[...] Quem precisar do dicionário pegue aqui comigo". De acordo com a professora, o levantamento de palavras desconhecidas do vocabulário e o entendimento del-is pode favorecer a compreensão global do texto. No turno 41, a Prof Carmem lembra- "Ess-i palavra pode ter diferentes sentidos, não é? Pode consultar o dicionário mas veja o sentido dela no texto"'. Ao estimular os alunos a buscarem o significado da palavra no contexto a professora propiciou-lhes condições para que usassem a ferramenta "dicionário" adequadamente como procedimento prévio para a leitura. No tumo 42, Lilian dcmonstr-i os sentidos que construiu nas leituras do texto e partilha-os na interação com Vera: "Ele "osta de computador, video games e pratica tênis. Ele não decidiu ainda o que quer ser. Talvez fiça computação. Eu acho que é isso mesmo". Depois de resolvida a questão do vocabulário, Lilian e Vera prosseguem na leitura do depoimento, ora socializando informações sobre ele, ora anotando pontos considerados importantes por elas. Em relação à aquisição de vocabulário na aprendizagem da língua inglesa como segunda língua, Coady (1993), propõe uma discussão envolvendo a importância do vocabulário na aprendizagem de leitura. O autor critica a noção de que esse vocabulário é aprendido automaticamente no contexto em que ele é usado, sem necessidade real de instrução. Entretanto, não são palavras de alta freqüência que devem ser ensinadas, pois a escolha lexical refletida nos textos não se dá aleatoriamente, mas. sim, dependendo da situação de ação de linguagem, do gênero, do propósito da atividade e do objetivo almejado. Coerente com o quadro teórico adotado nesta pesquisa, a leitura c vista, prioritariamente, como uma atividade social em que há construção de sentidos em um Contexto determinado. A palavra é polissêniica e pluri\ alente, pois os significados dependem dos contextos em que ocorrem e dos valores ideológicos que os peimeiam. Desse modo. lodo ^^0 de fala e toda leitura é de natureza social, bem como o modo de ler é aprendido Socialmente. Por isso, o papel do outro e o carátei social da leitura são fundamentais para a Aprendizagem da leitura. Cabe, ainda, a reflexão sobre outro ponto. Historicamente, o ensino da língua estrangeira com foco na transmissão e reconhecimento de conteúdos estava baseado em uma Concepção de leitura como processamento, já consideiado inadequado como ensino pautado 261 pela comunicação com foco no aluno, sem levar em conta o contexto. Além disso, as posturas de leitura como processamento ainda colocam o texto como o grande detentor de sentidos que devem ser compreendidos com certa competência pelo leitor. A discordância quanto a essa visão levou autores a proporem uma concepção de leitura discursiva, uma vez que ela contempla as condições de produção do texto. Nessa perspectiva, assumir uma posição discursiva implica conceber a linguagem como sócio-histórica e implicada em um contexto ideológico que se materializa entre indivíduos socialmente organizados, por meio de enunciações que são sempre o produto da interação. A concepção de leitura adotada nesta pesquisa é a de que o texto está relacionado ao contexto sócio-histórico em que foi produzido e aquele em que o leitor está inserido no momento da leitura. Diante dessas considerações, adotou-se uma visão mais abrangente do processo de compreensão em leitura, tal como observada em Dolz (1994, p. 221), quando afirma: A compreensão de um discurso é teorizada como um processo de interação entre um leitor ativo e um texto, no qual as características de um interagei"" com as do outro para produzir uma significação específica ao contexto stn que a atividade de leitura se realiza. Compreender um discurso é apreender como as representações do mundo são ativadas e organizadas pel®^ discursos, sob o controle dos valores de interação social [...]. Assim, de acordo com o autor, no processo de compreensão, o leitor ativa diferentes tipos de conhecimentos, tais como: características do texto, do gênero, de sua infraestrutura textual e lingüística; capacidades de linguagem para ler o texto; conhecimento sobre ^ situação de comunicação e da interação que envolvem tanto a produção quanto a leitura do texto. Prosseguindo na análise deste episódio, no turno 44, Carmem retoma para a turm^ princípios adotados em sua prática docente; "Gente, esta é uma atividade colaborativa. Queni tem mais facilidade com a internet ajuda o outro. Quem tem mais facilidade com o inglês tir^ as dúvidas do colega. Se precisar me chame também". Pode-se inferir que a Prof Carm^'^ tem consciência dos desafios a enfrentar na leitura e na compreensão dos textos em inglês, isso valoriza a interação entre os pares, prioriza atividades e recursos alternativos e trabalha ^ leitura e escrita colaborativa. Ao propor a participação dos alunos nesse projeto, a Prof Cannem cria oportunidade® para o aluno dialogar com outras culturas, reconhecendo-lhes os valores. Trata-se de proposta que envolve questões sociais, políticas, culturais e educacionais para os quais 262 ensino da língua estrangeira pode trabalhar a favor. Identiílca-se também, nessa prática, a multimodalidade, que requer outras capacidades de leitura, interpretação e comunicação levando em conta que a capacidade crítica se íbrtalece com a interlocução, interação c participação na produção da linguagem. No que diz respeito à leitura, esta atividade contempla várias modalidades: a visual (mídia); a infonnática (digital); a multicultural e a crítica. A multimodalidade e o hiperte.xto presentes nesta atividade mediada pelo computador, permitem repensar e recontextualizar os conceitos de linguagem e capacidades. Desse modo, a concepção de letramento como prática sociocultural toma como base uma visão heterogênea, plural e complexa da linguagem, da cultura e do conhecimento Coerente com essa perspectiva, o ensino da língua estrangeira contempla os discursos sociais que a compõem a fím de desenvolver pedagogicamente modos de construção de sentidos de relação com os textos, não para extrair deles signiUcados que estariam em sua estrutur-i mas para comunicar-se com eles e para lhes conferir sentidos. Entende-se dess-i " luiuia, que as reflexões discursivas e ideológicas dependem de uma interação com o texto umn vp? • iiti \ CjUC o trabalho com a escrita, fala e leitura vinculam-se ao contexto social. Episódio 3 (Linhas 47-59) No Episódio 3, focaliza-se a dupla Edimar e Vander, que estão lendo o depoimento de Michelle, uma adolescente brasileira. 47. ((Pesq.: Vander e Edimar estão lendo o depounento de Michelle, uma adolescente hra'iil,-ir,j ) i 1 4 Kdimar e Vander: Michele (from Brazil) Who am / ? I am Micheie. I'm interested in making new friends. I am concerned about violence I very humble and love pets, specially my dogs Drika and Luk. If hat do / want to he when / «rowH )•> j want to be a teacher. 1 want to study at a public university and become a teacher there. I wan" the world to be free of violence. I believe that God will help people to find a way to quit violence. Wlmt c-i I do now to make this happen? I can start doing my best to help anyone who needs me, includin" poor children. Prof": Oi, pode falar. Edimar: 0 que é humblel ProP: É uma característica da pessoa. Ela se considera modesta. 52. 53 Vander: Tem outra coisa aqui. Veja se a gente entendeu direito. [...] Quando ela about violence, sianifica que ela está preocupada com a violência. É isso? 54. Prof : Jsso, muito bem! ((Pesq.: Edimar e Vander comemoram a api oração da Pt of Cai mem com fiestos e exprasões )i 55. Edimar: Yes\ 56. 57 Vander: Valeu, fessora. 58. ~ ST" Vina: Cadê, eu não vi ainda. não. ■■ernando: Nossa, mais que nome! Coitada dessa menina. 263 No tumo 49, a Prof Carmem entra atendendo a um chamado de Edimar. O aluno diz: "O que é hiimbleV Carmem responde: "É uma característica da pessoa. Ela se considera modesta". Vander toma o tumo 52 e apresenta sua dúvida: "Tem outra coisa aqui. Veja se a gente entendeu direito. [...] Quando ela diz / am concerned about violence" significa que ela está preocupada com a violência? É isso?" Carmem aprova a resposta dos alunos, fato que que é comemorado por eles com gestos e expressões. No turno 55, Edimar diz: Yes! Seguido por Vander que acrescenta; "Valeu, fessora!" Como se vê, a sala de aula é um fenômeno social construído ideologicamente; o aluno é o sujeito da aprendizagem, que aprende junto ao outro o que o seu grupo social produz, e o professor, segundo Vygostky (1987, 1988), é alguém que favorece e medeia a aprendizagem. No trabalho com a leitura e a escrita, percebe-se o esforço da professora em acompanhar os alunos e superar o modelo tradicional.'^^. A professora, também, ao se aproximar dos alunos, permite que eles perguntem e esclareçam dúvidas quanto às tarefas propostas, assume o papel de leitora ativa e responsiva, dialoga com as idéias, experiências, inseguranças, atitudes e sentimento do aluno, dando vazão à fala interior nessa interação. Observa-se a atitude positiva dos alunos com relação ao diálogo estabelecido com eles, neste e em outros momentos da aula. por meio da leitura ativa e responsiva pela professora. Esse episódio aponta elementos para reflexão sobre o papel do professor na aula de leitura em língua estrangeira. Ensinar é criar condições para que o aluno construa conhecimento. Trata-se de um procedimento que envolve muito mais do que a simples transmissão de conteúdos. Logo, os participantes desse processo assumem papel ativo e de negociação de sentido nas interações em sala de aula. O papel do professor, então, é o de ser fonte de apoio aos alunos, expandindo gradativamente os conteúdos, à medida que foran^ demandando. Quanto ao papel do aluno, cabe-lhe interpretar, inferir, expressar opiniões» avaliar sua própria aprendizagem, usar o seu conhecimento prévio e de mundo e, com issO' tomar parte no processo de ensino-aprendizagem. Episódio 4 (linhas 60-76) A dupla César e Fernando, no Episódio 4, troca impressões sobre o depoimento d® uma adolescente indiana. Percebe-se que os alunos estão no nível inicial de aquisição d^ segunda língua e, portanto, conhecem apenas as relações existentes entre palavra e sentido. No modelo tradicional de leitura, o professor só admite aquela leitura considerada legítima: a do professor. na escrita, ele vasculha o texto do aluno em busca de atentados à língua. Esse tipo de correção não aju<^®" aluno a superar suas dificuldades, tampouco reconhece seus avanços e esforços. 264 60. ((Pesq.: Edimar e Vander fecham o depoimento de Kevin e entram no depoimento de Sliinjinee da índia. Eles trocam informações sobre o depoimento da adolescente indiana)) 61. Cesar e Fernando: Sliinjinee (from India) Who am I I am an 11 year old girl who loves reading, watching news programmers, taking part in debates and elocution; I am concerned about the threat of war and terrorism that always seems to loom large over our world. I have a dog and cat as my pets and watching them comfortably toaether makes me wonder why we humans cannot do the same. What do I want to be when I grow up? 1 would like to be a lawyer and fight for the riuhts of the underprivileged; alternately, I might be a human rights activist ora politician as these people"can reailv make a difference to our world. How do 1 want the world to be better w hen I grow up? I would like to see more tolerance amoim people; they should be appreciative of others viewpoints. I would like to see more participation of elderly people towards environmental conservation as they can show youngsters that even tlunmh the former's days are numbered they are trying to leave a cleaner environment for us - this message will filter down to the younger generation more potently. What can I do now to make this happen? I can organize street-plays with my friends to make people more aware of environmental issues. 1 would also like to travel to different countries to spread a messaae of peace and tolerance to one and all. 62. Fernando: 0 dela é grande demais. 63. César: Nossa, meu! Ah. não! Que isso. vai demorar. 64. Fernando: Vamos ver o que ela quer. 65. ((Pesq.: Fernando e César decidem ler o depoimento de Shinjinee da India. Souia chega perto da Prof" Carmem faz um comentário baixinho e fica parada esperando a resposta dela. A Prof Carmem dá uma informação para toda a classe.)) 66. ProP: Gente, com relação ao cuidado com o planeta, tem tanta coisa pra dizer, não é? Pensa um pouco. Pode ser, por exemplo, preservação da natureza, preservação da água. viver melhor sem violência... Cada um tem que pensar como gostaria que o mundo fosse. E. então, você vai escrever isso. 67. ((Pesq.: Sônia põe a mão no braço da Prof" Carmem e a chama novamente. A Prof Carmem ar.nmnnnhn !sônia até o computador e se abaixa para vet o cjue a dupla estava fazendo.)) 68. ProP: Muito bem, é isso mesmo. 69. Sônia e Débora; Hu ... Hu! 70. ((Pesq.: Sônia e Débora comemoram o retorno da Proj. Carmem com palmas. Algumas duplas, após a leitura de alguns depoimentos, começaram a produzir o delas A Pt of Cat mem sai para atender outra dupla. Com o apoio do dicionário e trabalhando em dupla, dá pata perceber que os alunos compreendem, em linhas gerais, os depoimentos dos intetnautas. A leittiia é instrumental. Alguns alunos traduzem para o português o que o internauta escreveu em inglês. Outros pedem ajuda à Prof Carmem ou a colegas na sala com maior desenvolvimento em inglês. Apenas um aluno nessa turma faz curso de inglês em escola particular e tem melhor desempenho na leitttra e na escrita em ingle.s. D 71. ProP: Ei, 8F, vamos lá. senão não vai dar tempo. Anote aquilo que você acha importante de cada nternauta. Consulte o dicionário. Eu vou ajudar também. Lembre-se de que você vai montar o seu depois. 72. Sina: Eu quero ser enfermeira. Como eu coioco eniao.' c nu^e? 73. ^ern: F. r.nm n verbo to be. ; 74. »rnP- ^nmn n^iim'' [ ]Tnh<^a nurse. Olha aqui! ((apontanao para o quadro)) r '(Pesq.: A Prof Carmem escreveu no quadro a frase. I wish to be a nurse e mostiou à Nina. 1 A chegam lerto da Prof Carmem e solicitam ajuda. Em geral querem confumai tiadução de termos do Inglês fürü 0 português.)} ; ^NI: Ô, fessora. me aiuda aqui! Fernando toma o turno 62 e diz: "O dela é grande demais". César concorda com o colega e acrescenta: "Nossa, meu! Ali, não! Que isso, vai demorar". Por trás da reclamação de tamanho do texto e tempo pode-se identificar dificuldades e insegurança da dupla na realização da atividade. Provavelmente motivados pela curiosidade, os alunos decidem ler o depoimento. Fernando toma o turno e diz: "Vamos ver o que ela quer". No turno 66, a ProP 265 Carmem dá orientação para a classe sobre aspectos relevantes na escrita do depoimento. Sônia, no turno 67, solicita o aval da professora sobre algo que produziu em parceria com Débora. Após o retorno positivo da professora, as alunas comemoram com palmas e expressões: "Hu... Hu!" Pode-se afirmar que, apesar das dificuldades apresentadas pelos alunos, a maioria deles foi capaz de atribuir sentido ao que leram e assumiram uma posição crítica diante dos textos. Queiroz (2001), em seus estudos sobre o ensino do inglês, lembra que o mais importante nesse nível inicial de aquisição de uma segunda língua é despertar o interesse dos alunos pela leitura, mostrando que não é necessário saber a tradução de todas as palavras para compreender os textos lidos. Portanto, ser leitor ativo significa, dentre outras coisas, poder produzir sentido, servir-se de seus conhecimentos prévios, levantar hipóteses a respeito da organização do texto e, principalmente, entender que ninguém precisa descobrir tudo em um texto. A proficiência comunicativa numa língua estrangeira ocorre quando as situações de aprendizagem privilegiam a negociação dos sentidos. A Prof Carmem transitou pela sala, atendendo ao chamado das duplas. Os alunos prosseguiram a realização da atividade interagindo e atribuindo sentido ao texto. Nas atividades em que os alunos trabalham em parceria e compartilham conhecimentos sobre o tema, a língua e a organização textual constituem situações privilegiadas de aplicação do repertório. Além disso, essas atividades em que os alunos tomam decisões requerem que oS envolvidos negociem e justifiquem o sentido de suas escolhas e aprendam com essa negociação. No turno 72, Nina apresenta sua dúvida: "Eu quero ser enfermeira. Como eu coloco então. Como é que é?"' Vera contribui dizendo: "É com o verbo to be". A Prof Carmem ao quadro e ajuda a dupla na construção da frase: Iwish to be a nurse. Como se vê, propostas de leitura e produção escrita em dupla ou coletivas são fundamentais no caso de alunos con^ pouco conhecimento da língua inglesa e constituem uma oportunidade de aprendizagem, planejamento, elaboração, de revisão do texto que pode ser\'ir como referência para futur^^ produções textuais. Episódio 5 (linhas 77-98) Prosseguindo, no Episódio 5, a dupla fonnada por Caria e Iara interage na leitura d" depoimento de Sophie, da Irianda. As alunas estão envolvidas num trabalho colaborativo. demonstra maior habilidade no uso do computador. Já Caria demonstra ter maior facilid^'^® com o inglês. A troca entre elas favorece o processo ensino-aprendizagem. 266 77. ((Pesq.: A dupla formada por Carla e Iara esiá lendo o depoinienio de Sophie, da Irlanda. /Iv duas fazem comentários sobre o depoimenlo. Iara demonstra maior habilidade no uso do computador lá Carla demonstra ter compreendido o texto de Sophie e esclarece o sentido de alguns termos. EJa fa- algumas anotações no caderno sobre o qjte achou importante. Incentiva Iara a tomar notas também do que gostou. Iara e Carla trocam informações sobre o que gostariam de e.screver no próprio texto )) 78. Carla e Iara: Sophie (from IHaiid) Who am I ?] am a \3 year old girl from Ireland. 1 have a generally positive outlook on life. 1 love reading, writing and learning about the peoples of the world. 1 love children and schools verv much 1 would consider myself a peaceful Republican (that means 1 support the reunification of Ireland, but only through peaceful means). What do I want to be when 1 grow up? When 1 reach adulthood. I wish to become a primarv school teacher, and anthropologist and a writer of children's fiction and non-fiction. 1 also hope to do some political activism and humanitarian work. How do I want the world to be better when I grow up? When 1 grow up I would like to travel to Africa and Asia and teach in schools there. 1 would also like to set up many children's homes and schools all over the world. What can I do now to make this happen? 1 believe that emotions create an energ)' which blows around the world like wind and affects every person. Therefore 1 always put others before mvself, and treat others as 1 would like to be treated. 79. Iara: A Sophie quer ser tanta coisa: professora, antropologista e escritora. Vai ter que estudar mnitn 80. Carla: Ela quer dar aulas para crianças da África e da Ásia. Muito legal, gostei. Eu também quero ser professora. Estou pensando o que vou colocar no meu depoimento. SI. Iara: Quero o meu bem leaal! f...] Olha aí. o que é blows? 82. Carla: Soprar, encher, inflamar. Fica melhor contagiar. Energia que contagia. 83. ((Pesq.: A Prof Carmem passa pelas duplas e continua ajudando. Fernando levanta-se do seu lugar, mexe com Iara e sorri. Em seguida, pega um dicionário na mesa.)) 84. Carla: Ei, Fernando, você já se decidiu? 0 que você quer íazer quando crescer? 85. Fernando: Quando eu crescer? Ah, [...] eu quero ser um homem. Um homem bom. Eu quero um mundo de paz e de amor. 86. PrnP- n ppntp nãn pnHe traduzir ao pé da letra. não. Como seria; * tu tenho l.i anos"? 87. VA: I'tn thirteen vears old. 88. ((Pesq.: A Prof Carmem enfatiza as perguntas e olha atentamente para a turma, esperando a resposta deles. Em seguida ela escreve no quadro a resposta dada pelos alunos.)) 89. ProP: Outra questão aqui; "Eu sou aluno da EMPEP . 90. VA: / 'm a student at EMPEP 91. Lilian: Carmem. como eu escrevo; "Eu amo voce demais^; 92. ^ro^: I hve you veiy much. [...] '\h. nutra coisa, como eu diso; "Eu gosto de jogar ute o— ^(Pesq.: Algumas duplas estão conversando alto. Ha bai ullw denti o c foi a da sala)) 94. ^'A: I like plav soccer! ^^ f "rof: Ô 8F, psiiiu. por favor. Ó gente, vamos colaborar ai. h paia UU mais bai.xo! Voce releu o que 'ni p<;rritr.9 Oiipm ler 0 seu depoimento vai entender? ^ ^6. ^ c c (Pesa ■ Ao transitar pela sala e acompanhar o trabalho dos alunos, a I roj L armem vn, que algumas iuülas após lerem os depoimentos de alguns internautas. começaram a escrever o próprio atenção para al^ponios a considerar na esa.ta.)) F V •rof: Vamos v.r nntro-^^W^^^Í^^ ' '.A: I hate to plav peteca! Vygotsky (1934/1993) chama a atenção para o valor da colaboração entre os pares. Nesse senMo. o autor disthigue entre a Zona Real de Desenvolvimento (ZRD) e a Zona Proximal de Desenvolvimento (ZPD). situada entre o que o aluno pode fazer sozinho e o que consegue realizar eom a ajuda dos pares. Esse colaborador usará o que o colega já sabe e 267 apresentará o novo em relação ao que já é dominado. Assim, para Magalhães e Rojo (1994, p- 76), segundo Vygotsky, qualquer instrução eficiente e, portanto, instrução que gera aprendizagem e desenvolvimento real, deve começar avaliando o desenvolvimento real e potencial - isto é, as tarefas que a criança pode encarar autonomamente e as tarefas que a criança já pode encarar na interação, mas não ainda autonomamente- deve trabalhar na ZPD, em outras palavras, deve favorecer mecanismos de internaiização desses padrões que ainda são interpessoais. Para Vygotsky, a aprendizagem, por ser um processo social, permite ao aprendiz mais experiente compartilhar seu conhecimento com um aprendiz menos experiente. Para a sala de aula, essa visão é extremamente importante porque, durante a participação conjunta, professor/aluno, aluno/aluno trocam conhecimentos. O professor atua como mediador da aprendizagem, isto é, fornece andaime para que os alunos consigam realizar as atividades e tarefas com mais independência. Nesse contexto, as intervenções devem ocon-er na Zona Proximal de Desenvolvimento (ZPD) do aluno, definido por Vygotsky (1934/1993, p. 133) como a distância entre o nível real de desenvolvimento determinada pel^ capacidade de resolver independentemente um problema, e o nível de desenvolvimento potencial detenninado mediante a resolução de um problema com a orientação de um adulto ou em colaboração com um outro companheiro mais capaz. Nessa perspectiva, a aprendizagem tem sido entendida como resultado da co- participação social entre professores e alunos mediada pela linguagem. A aprendizagem da língua em sala de aula é inerentemente interativa e toma visível a importância da participação conjunta de professor e alunos, da troca de conhecimentos no processo ensino-aprendizageO'' de uma língua estrangeira e da utilização de um papel fundamental ao outro social. Sob essa visão, professor e alunos podem transformar as situações e desenvolver diferentes maneiras de agir e compreender as ações que ocorrem no contexto da sala de aula. Como vito, Iara e Carla dialogam sobre o depoimento. No turno 79, Iara diz: Sophie quer ser tanta coisa: professora, antropóloga e escritora. Vai ter que estudar muito"- Carla toma o turno 80 e diz: "Ela quer dar aulas pra crianças na África e da Ásia. Muito legal» gostei. Eu também quero ser professora. Estou pensando no que vou colocar no depoimento." A dupla prossegue o diálogo trocando informações sobre o vocabulário. Par^ 268 chamar atenção dos colegas e com ar de descontração. Fernando se levanta e mexe com Iara No turno 84, Carla questiona o colega: "Ei Femando você já se decidiu? O que você quer fazer quando crescer?" Fernando toma o turno 85 e diz: "Quando eu crescer? Ah | | eu quero ser um homem. Um homem bom. Eu quero um mundo de paz e amor". O enunciado de Femando revela um projeto de vida, um sonho e chama atenção para a função social da lín"ua estrangeira na construção da cidadania e como parte integrante da formação ulobal do aluno Tendo como referência a visão sociointeracionista da leitura, constata-se que os conceitos apregoados por Bakhtin (1952-1953/1979) têm o seu lugar na sala de aula e podem ser explorados de foraia a servir de norte para o trabalho desenvolvido no ensino da língua inglesa. Diferentemente de seus contemporâneos estruturalistas, Bakhtin define o enunciado como unidade de comunicação discursiva. Nesse contexto, surge o diálogo, que possibilita observar a dinâmica do processo de interação das vozes sociais. Para Bakhtin, o diálouo tem princípio e fím absolutos. Antes do seu início, os enunciados de outros; depois de seu término os enunciados responsivos de outros, pois todo enunciado tem sempre um destinatário cuja compreensão responsiva o autor do discurso procura e antecipa. Como se pode perceber, os estudos de Bakhtin trazem uma valiosa contribuição para o professor, que é desafiado a acompanhar os alunos na interação com o texto, como também avaliar o tipo de resposta que suas atividades de leitura provocam nos alunos, sejam em suas produções, sejam nos diálogos sobre a compreensão de textos lidos em sala de aula. No turno 86, a Prof Camiem chama a atenção da turma sobre o modo de ler: "Ò gente, não pode traduzir ao pé da letra, não. Como seria: eu tenho 13 anos?" Vários alunos respondem: I'm thirteen years old. A professora prossegue o diálogo com a turma solicitando a participação deles na tradução das frases de nível básico de compreensão, provavelmente utilizadas por eles nos depoimentos. A ênfase da professora nas perguntas e a forma como ela olha para a tuniia é que indicam que, naquele momento, eles deviam responder. Isso demonstra que os interlocutores estão envolvidos na situação e que há compreensão ativa. A Prof Carmem escreveu no quadro as respostas dadas pelos alunos. No turno 91, Lilian se dirige à professora: "Caraiem, como eu escrevo Eu amo você demais ? A professora responde: 1 love you very nmch. Em seguida, ela lança outra pergunta para a turma: "Ah, outra coisa, como eu digo: 'Eu gosto de jogar futebol?' Número significativo de alunos respondem: I like play soccer. Ao transitar pela sala e acompanhar o tiabalho dos alunos, a Pioí Carmem percebeu 'íue algumas duplas, após a leitura dos depoimentos, começaram a escrever o te.xto. Ela, então, faz novas recomendações: "'Você releu o que foi escrito? Está claro? Quem ler este 269 depoimento vai entender?" Como se vê, um dos objetivos da Prof Carmem é preparar os alunos para escrever para contextos reais nos quais outros internautas adolescentes trarão para a leitura expectativas que são sócio-historicamente construídas por meio das experiências deles. Assim, como é observável, os comentários da professora nos diferentes turnos são reações de leitora mais experiente, visando estabelecer com os alunos um diálogo mediado pelo texto para que eles possam refletir, enquanto leem os questionamentos levantados e repensem seu texto do ponto de vista do leitor-alvo, durante a escrita e reescrita do depoimento pessoal. Os comentários da professora destacam pontos que devem trabalhados para que o destinatário possa, realmente, entender e desfrutar a leitura. Por serem interrogações, ajuda os alunos a refletir e a tomar algum posicionamento, seja concordando, seja discordando dos comentários, portanto, oportunidades para que os alunos revelem o seu processo de compreensão ativa e responsiva. Episódio 6 (lintias 99-116) Finalmente, no Episódio 6, André e Luís estão lendo o depoimento da internauta Olg^- André lembrou que a Prof Carmem havia trabalhado o texto de Olga numa aula de Inglês e destacou detalhes do texto para aguçar a lembrança do colega. ((Pesq.: A dupla André e Luis estão lendo o depoimento da internauta Olga - de Nonvd}'- André lembra que a Prof Carmem havia trabalhado esse texto numa aula de Inglês)) André: Esse texto aqui a Carmem já deu pra gente ler. Eu tenho certeza. Foi ele mesmo. O nome da menina era Olga. Você lembra? Luís: Sei não. [...] Eu acho que não li. não. André: E ela mesmo. Ela toca piano e gosta de Chopin. Luís: Chopin, quem é esse cara? André: E um compositor famoso no mundo inteiro. Luís: E mesmo? André e Luís: Olga (from Norway) Who am I ? Hi! My name is Olga and I live in Norway. I am a girl that likes to play the piano, read books and swim. 1 go to two schools, one music school and one international school. I like to participate in piano competitions and my favorite composer is Chopin. I play and listen to classical music only. I can speak and write English, Norwegian and Polish. I know a little bit of French too, but only the standard words. What do I want to be when I grow up? I am not sure what 1 will be, but I have thought of becoming a concert pianist and my big dream is to participate and win the Chopin competition in Warsaw in 2010. How do I want the world to be better when I grow up? I want the world to be a better place to live. I want eveiy single person to feel happy and satisfied with their lives. I hope tha^ the world will be better for all people that they have enough food, water, education and health service. I think we on Earth should treat nature with respect and take care of the animals^ 270 plants and other things that live on our planet. What can I do now to make this happen? I can save money from my piano concerts and send it to poor children. I have done that before and I am thinking of doing it aizain. 107. Luis: Anota aí pra gente procurar: standard. 108. André: Acho que não precisa, não. Aqui ela está falando que sabe um pouquiniio de francês também. 109. Luís: Pelo jeito, essa menina é abonada. 110. André: Com essa crise, garandr comida, água, educação e saúde para todos não vai ser fácil, não. 111. Luís: Primeiro Mundo, meu! 112. André: E. mas ela está pensando nos países pobres também. 113. ((Pesq.: André é o único aluno da 8F que tem a oportunidade de cursar Inglês no ICBEIJ. uma das conceituadas escolas de cursos de lingua da capital, duas vezes por semaiui após o turno escolar. Sônia sai do seu lugar e vai até a Prof Carmem para tirar uma dúvida. A Prof" Carmem escreve no quadro as seguintes expressões: first name, last name. Em seguida, continua orientando-a sobre como montar a sua apresentação.)) 114. Prof: [...] Você leu vários depoimentos, não foi? Agora você vai escrever o seu. Vai falar sobre você mesma. Por exemplo, você é uma menina, tem tantos anos. gosta de fazer determinadas atividades, entendeu? Você vai escrever sobre o que gostaria que as pessoas soubessem. 115. Sônia: Agora entendi, está bom. 116. Prof: Viu como é fácil? André entra no turno 100 e diz: "Esse texto aqui a Carmem já deu pra gente ler. Eu tenho certeza. Foi ele mesmo. O nome da menina era Olga. Você se lembra?" Luís então responde: "Sei não [...]. Eu acho que não li, não". André dá novos detalhes: "E ela mesmo, ela toca piano e gosta de Chopin". Os alunos continuam o diálogo, trocando infonnações sobre pontos presentes no depoimento. Este episódio e os demais destacam um aspecto importante na prática dessa professora - o uso de textos autênticos no ensino da língua inglesa. Nunam (1999) destaca a autenticidade dos textos como característica central a ser considerada pelo professor no ensino da língua estrangeira. Esses textos veiculam significados compartilhados socialmente e constituem os únicos capazes de fazer com que os alunos se insiram em um contexto social de uso da língua e de ressignificação desses usos. Com esses textos, os alunos não somente aprendem a língua inglesa como, de fato, é usada pelos povos que a têm como línííua materna, mas também aprendem como vivem essas pessoas, o que elas pensam, etc. Totis (1991, p. 36), por sua vez, lembra que o uso de materiais autênticos que exponham os alunos a uma variedade de exemplos práticos da língua escrita e orai, de preferência inter-relacionados com os outros materiais do currículo e capazes de ressaltar a importância de receber e transmitir informações pelo uso da língua. 271 Pasquier e Dolz (1996) também consideram que para o ensino de leitura em língua estrangeira os textos utilizados devem ser textos sociais em circulação, isto é, oriundos de contextos sociais reais, preparando o aluno para agir com a linguagem em diferentes contextos. No turno 107, Luís interage com André e diz: "Anota aí pra gente procurar; standard'- André responde para o colega: "Acho que não precisa, não. Aqui ela está falando que sabe utn pouco de francês também". André, com base no que leu, faz inferências sobre a vida de Olga' "Pelo jeito essa menina é abonada". André retoma elementos do depoimento da menina, assumindo uma postura crítica diante dele. "Com essa crise, garantir comida, água, educação e saúde para todos não vai ser fácil, não". Luís considera o contexto onde Olga vive e diz: "Primeiro Mundo, meu!". No turno 112, André destaca um detalhe importante presente no depoimento de Olga: "É, mas ela está pensando nos países pobres também." Ao selecionar textos autênticos para as aulas de Inglês, a Prof Carmem criou condições para que a historicidade deles fossem veiculada e compartilhada pelos alunos. Como visto, André e Luís na interação com o texto discutem partes históricas presentes nele- essenciais à atividade leitora, a saber: quem escreveu o texto? A que gênero pertence? Onde foi escrito? Com que objetivo? Onde foi veiculado? A historicidade textual facilita a participação, a interação e a reflexão crítica dos leitores no ato de ler. No turno 114, a Prof Carmem ajuda Sônia a expandir sua compreensão sobre a atividade proposta. A professora diz: "Você leu vários depoimentos, não foi? Agora você vai escrever o seu. Vai falar sobre você mesma. Por exemplo, você é uma menina, tem tantos anos, gosta de fazer determinadas atividades, entendeu? Você vai escrever sobre o que voce gostaria que as pessoas soubessem." Sônia então questionou: "Tem que escrever tudo?" ^ professora deu nova orientação para a aluna: "Não, escreva o que você quiser sobre suas experiências, sonhos e desejos." Assim, no turno 115, Sônia concluiu o diálogo com professora expressando maio'" segurança para realização da atividade: "Agora entendi, está bom". Esse exemplo e outros presentes ao longo da aula ressaltam quão importante é para o professor conhecer os alunoS; ajudá-los a esclarecer suas intenções e expectativas, canalizando a participação deles em direção pedagogicamente útil. Agindo desse modo, o professor estará ajudando os alunos ^ olharem para si mesmos e para a aprendizagem lingüística de maneira aberta e construtiva. Outro ponto presente em todos os episódios e estreitamente ligado ao processo aquisição de uma segunda língua é o uso da língua materna. A aprendizagem da líng^^^ 272 estrangeira faz a criança conhecer melhor sua língua materna, pois tanto uma quanto a outra demandam interação e consciência por parte do aluno, ao passo que a aprendizagem da línyua materna oral, usada no cotidiano, se dá naturalmente. Segundo Vygotsky (1934/1993. p. 94), a influência dos conceitos científicos sobre o desenvolvimento mental da criança é análoga ao efeito da aprendizagem de uma línuua estrangeira, um processo que é consciente e deliberado desde o início. No caso de uma língua estrangeira, as formas mais elevadas se desenvolvem antes da fala fluente e espontânea. Assim, pode-se afirmar que os alunos iniciam os estudos da língua estrangeira já com experiência prévia do que seja aprender na disciplina na escola e já com contato prévio com a língua-alvo, no que diz respeito a palavras ou expressões usadas em situações do cotidiano ou mesmo em áreas específicas. Ainda segundo Vygotsky (19.i4/1993, p. 94). o êxito no aprendizado de uma língua estrangeira depende de um ceilo grau de maturidade na língua materna. A criança pode transferir para a nova língua o sistema de significados que já possui na sua própria. O oposto também é verdadeiro - uma língua estrangeira facilita o domínio das formas mais elevadas da língua materna. Assim, de acordo com Vygotsky (1934/1993), pode-se afirmar que os alunos, ao Aprenderem uma línsua estrangeira em ambiente escolar, valem-se dos conhecimentos que já têm de sua línsua materna, dos conhecimentos sobre situações de stu cotidiano e de conceitos adquiridos; também, ao se envolverem em atividades de leitura em uma língua estrangeira, vivenciam um processo de conscientização que pode levar à apiendizagem do íuncionamento dessas atividades em língua materna e podem reconstiuii seus conceitos cotidianos baseados nas novas experiências. Por fim, ao usarem seus conhecimentos em língua materna e conhecimentos de seus conceitos cotidianos como instrumento para seu desenvolvimento potencial, podem reinterpretá-los, com base em suas finalidades, para o aprendizado da língua estrangeira. 273 6.2 Capacidades de leitura ensinadas e aprendidas nas práticas de leitura em Ciências, Geografia e Inglês Neste tópico, analisa-se a seqüência interacional dos eventos de letramento focalizados nas práticas de leitura em Ciências, Geografia e Inglês e identificam-se, por meio da releitura dos subeventos ou episódios selecionados, as capacidades de leitura mobilizadas na proposta de ensino, respondendo, assim, à terceira questão de pesquisa: Que capacidades de leitura os alunos mobilizaram ao longo da proposta de ensino? Para a identificação das capacidades ensinadas/aprendidas nas práticas de leitura, foram retomadas as contribuições de Bakhtin (1934-1935/1975) sobre a análise do discurso, a fim de identificar nas falas das professoras e dos alunos elementos que evidenciam a presença dessas capacidades e que, portanto, reafirmam sua aquisição. Nesse sentido, é importante destacar que a teoria bakhtiniana leva em conta não somente as vozes sociais, mas também as individuais. Assim, um discurso pode ser tanto o lugar de encontro de pontos de vista de locutores imediatos como de visões de mundo, de orientações teóricas, de tendências filosóficas, etc. Ao considerar tanto o social como o individual, a proposta bakhtiniana permite examinar, do ponto de vista das relações dialógicas, todos os fenômenos da fala cotidiana e as intenções de admiração, ironia, apreciação, reprovação, etc. Assim, todos os fenômenos presentes na comunicação real podeiíi ser analisados à luz das relações dialógicas que os constituem. De acordo com o autor, a orientação dialógica é naturalmente um fenômeno próprio e todo discursO' Trata-se da orientação natural de qualquer discurso vivo. Em todos os seus caminhos até o objeto, em todas as direções, o discurso se encontra com ° discurso de outrem e não pode deixar de participar, com ele, de interação viva e tensa. (BAKHTIN, 1934-35/1975, p. 88) Portanto, todo dialogismo implica relações entre enunciados. Um enunciado se constitui em relação aos enunciados que o precedem e que o sucedem na cadeia ^e comunicação. Todo enunciado solicita uma resposta, espera sempre uma compreensão responsiva ativa, seja ela uma concordância ou uma refutação. Foram consideradas, também, as contribuições de Rojo (2004, 2009) sobre capacidades de leitura: as capacidades de decodiftcação, que englobam o domínio daS convenções gráficas e suas relações, ou seja, capacidades aprendidas no processo ^e alfabetização; as capacidades de compreensão, que se referem a uma seqüência 274 capacidades que envolvem o antes, o durante e o depois da leitura; e as ccipacidailcs de apreciação e réplica do leitor em relação ao íexlo, que se referem a uma seqüência de capacidades que já envolvem a interação do leitor, assumindo uma posição ao ionyo e ao final da leitura. Optou-se pelos termos capacidades"'^ e procedimentos'*** por se tratar de termos amplos o suficiente para abranger todos os níveis de progressão, que vão desde os primeiros níveis de aquisição da leitura até as elaborações conceituais, em patamares progressivos de abstração que possibilitam ampliações na compreensão da leitura e na seleção de instrumentos diversificados para tais aprendizagens.''^ Por se tratar de uma turma de S'' série do Ensino Fundamental, nessa análise serão considerados os subtítulos capacidades de compreensão e capacidades de réplica do leitor em relação ao texto e seus descritores retirados dos critérios de avaliação dos livros didáticos de língua portuguesa PNLD (2005), apresentados na Ticha de a\'aIiação da área'"^". Nessa perspectiva, foram adotados os seguintes procedimentos metodológicos; 1, Leitura do subevento; 2. Identificação de trechos no discurso dos alunos e da professora que evidenciaram elementos presentes nas capacidades; 3. Seleção das capacidades mobilizadas e representação em um quadro, e, por fim; 4. Releitura do subevento com o objetivo de confirmar a classificação apresentada. 6.2.] Capacidades de leitura mobilizadas na aula de Ciências Focalizou-se, neste tópico, a segunda seqüência interacional - Lendo textos sobre o tema drogas. No QUADRO 16, apresentam-se dados sobre as atividades de compreensão do texto na aula de Ciências. Da esquerda para a direita, podem ser vistos os subeventos/episódios selecionados para análise; na terceira coluna destacam-se as linhas que contêm o registro da participação dos alunos e da professora no discurso, como também notas capacidades envolvidas"^to de ler são: capacidades de decoditlcaçào (BATISTA e/ uL 2005. 2006); capacidades de compreensão e capacidades de aprecaçao e replica do leitor em reiaçao ao lexto. (ROJO. 2004,2009 e PNLD 2005) . i . Procedimentos podem ser entendidos como um conjunto mais amplo de ações e ritos presentes nas práticas de leitura Chartier n995 1997) e Chartier e Bourdieu (1983) utilizaram a expressão "protocolos de leitura". Os procedimentos sL abr'angentes e vão desde as ações mais simples até as ações mais complicadas assumidas por um leitor proficiente. Cf. BATISTA et ai (2005, 2006). ''"Cf. ROJO (2004,2009). 275 contextuais elaboradas pela pesquisadora; na quarta coluna identifica-se o conteúdo/tema objeto da leitura; e, finalmente, na última coluna apresentam-se as capacidades de leitura mobilizadas na proposta de ensino de Ciências. QUADRO 16 Compreensão dos textos: capacidades de leitura ensinadas/aprendidas nas práticas de Ciências 2" Se qü ên ci a In te ra ci on al - Le n do o te x to so br e o te m a D ro ga s { Subeventos Episódios Linhas Conteúdo/Tema Capacidades de leitura mobilizadas na proposta de ensino 1 2 a 4. 22 Condições de produção da leitura 3.1. Recuperação do contexto de produção do texto 2 47-71 Texlo 1: Nina Conceito de droga, tipos, usos e motivação, conseqüências e categorias 2.5. Compreensão de informações 2.8. Produção de inferências globais 3 75-96 Texto 1: Nina (continuação) Drogas: usos, motivação e conseqüências 2.1. Ativação de conhecimentos de mundo 2.4. Localização e/ou retomada de informações 4 128-161 Texto 2: Célia Mundo das drogas, males, drogas no cérebro, dependência e tráfico 2.5. Comparação de informações 2.7. Produção de inferências locais 5 162-176 Texto 2: Célia (continuação) Influência, o adolescente e o uso das drogas, papel da família 2.8. Produção de inferências globais 2.3. Checagem de hipóteses 3.7. Elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos 6 195-209 Texto 3: André Tipos de droga, conseqüências do uso. drogas nos meios de comunicação, consumo de drogas e saúde 2.5. Comparação de informações 3.7. Elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos 7 226-248 Texto 4: Débora Droga e seus males, males do fumo. Expansão do consumo, cigarro no Brasil e no mundo, campanhas educativas 2.5. Comparação de informações 2.3. Percepção de outras linguagens 3.4. Percepção de relações de interdiscursividade 8 252-284 Texto 5: Luís Uso de drogas e poluição, falta de informação adequada, papel dos meios de comunicação 3.2. Definição de finalidades e metas da atividade e leitura 2.3. Checagem de hipóteses 2.5. Comparação de informações 2.8. Produção de inferências globais 3.6. Elaboração de apreciações estéticas e/ou afetivas Fonte: Notas de campo etnográficas, Caderno 2, p. 25-200, 2007, p. 1-96, 2007. 276 Já na TAB. 37 apresentam-se as capacidades de leitura identificadas nos subeventos da aula de Ciências e a freqüência (%) de ocorrência deles. Como visto, no âmbito das capacidades de compreensão predominou, na aula de Ciências, a capacidade comparação de informações com 62,5% de ocon-ências. Os alunos participaram das discussões estimuladas pela leitura dos textos. Ao longo da aula, compararam, contrastaram informações presentes texto e em outras oriundas do seu convívio social. Em alguns momentos, por exemplo. Episódio 4, os alunos tiveram de sustentar sua posição por meio de argumentos plausíveis. no no TABELA 37 Elaboração de apreciações .ca... éticos e/ou políticos Fonte: Notas de campo etnográficas, Caderno 2, p. 25-200, 2007, p. 1-96, 2007. 2 ^ Subeventos Capacidades de compreensão , N° ... 2.1 Ativação de conhecimentos de mundo o 1 12.5 2.2 Antecipação ou prediçâo de conteúdos " " 2.3 Checagem de hipóteses 5.8 2 25,0 2.4 Localização de informações 1 12.5 2.5 Comparação de informações 2.4.6,7 e8 5 62.5 2.6 Generalização "■ 2.7 Produção de inferências locais 4 1 12.5 9 S Produção de inferências globais 2.5 e 8 37.5 277 Com 37,5%, vem, em seguida, a capacidade produção de inferências globais. Como se vê, a interação e o envolvimento dos alunos no evento de leitura possibilitou a construção de inferências - ou seja eles compreenderam pistas deixadas pelo autor no texto. A inferência • 131 é uma capacidade fundamental na compreensão leitora. Trata-se de um procedimento que implica o preenchimento das lacunas deixadas pelo autor lendo nas entrelinhas. Em alguns episódios, foi possível identificar os alunos construindo novas proposições com base nas relações entre informações dadas no texto ou entre essas informações e os seus conhecimentos de mundo. A capacidade checagem de hipóteses aparece com 25% de freqüência. Como se vê, no Episódio 5 e no Episódio 8, a Prof Rosana retomou aspectos considerados significativos na discussão em foco e incentivou os alunos a explicitar melhor o seu argumento. Com isso, as hipóteses apresentadas pelos alunos foram confirmadas ou descartadas. No que diz respeito aos descritores das capacidades de apreciação e réplica do leitor em relação ao texto, com 28,57% aparece a elaboração de apreciação relativas a valores éticos e/ou políticos. Na aula de Ciências, eles foram identificados no episódio 5 e no episódio 6 por meio de algumas posturas assinadas pelos alunos - por exemplo, manifestações orais espontâneas, réplica crítica ao texto, afirmação da autoria e autoavaliação. 6.2.2 Capacidades de leitura mobilizadas na aula de Geografia No QUADRO 17, estão representados dados sobre a(s) leitura(s) na aula de Geografia- Nessa parte, focalizou-se a segunda seqüência interacional - Lendo o capitulo 4 sobr^ consumo e meio ambiente. A análise dos seis subeventos/episódios evidenciou a presença de algumas capacidade^ de leitura mobilizadas na proposta de ensino de Geografia. Como se pode ver representado n° TAB. 39, dentre as capacidades de compreensão, a capacidade comparação de informoç^^^ atingiu 87.5 /ó. Esse dado atesta que ao longo dessa aula os alunos apresentaram opiniões, contrastaram infonnações do texto, do contexto social e de outros veículos comunicação. Cf. BRANDÃO (2004); BRANDÃO; SPINILLO (1998). 278 QUADRO 17 Compreensão dos textos: capacidades de leitura cnsiiiaclas/aprcnditlas iia íuiIíi cIc Gcqqrafia a- _X 1: õ cs .2 <3 s o- o CO Subeventos Episódios Linhas Conteúdo/Tema 2-37 Capacidades de leitura mobilizadas na proposta de ensino Condições de Produção da Leitura Sociedade do consumo Desperdício nas embalagens Material descartáveis 48-88 114-147 A questão do lixo Direitos do consumidor 2.4. Localização e/ou retomada de informações; 2.7. Produção de inferências locais; 2.5. Compreensão de informações; 2.1. Ativação de conhecimentos de mundo; 2.5. Compreensão de informações; 3.7. Elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos. 148-177 2.5. Compreensão de informações; 2.7. Produção de inferências locais; 2.4. Localização e/ou retomada de informações; 2.1. Ativação de conhecimentos de mundo; 2.5. Compreensão de informações; 3.7. Elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos Reciclagem Lixo Espacial 206-237 238-283 Poluição atmosférica Combustíveis alternativos 2.2. Ativação de conhecimentos de mundo; 2.5. Comparação de informações; 3.7. Elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos. 2.8. Produção de inferências globais; 2.4. Localização e/ou retomada de informações; 3.6. Elaboração de apreciações estéticas e/ou afetivas 2.5. Comparação de informações; 2.8. Produção de inferências globais; 3.5. Percepção de outras liníiuauens Petróleo Fontes alternativas de energia estéticas e/o prT~r ^ o rnHprno '' P. 25-200, 2007, p. 1-96, 2007. fronte: Notas de campo etnográficas, Cade P 2.1. Ativação de conhecimentos de mundo; 2.2. Antecipação ou predição de conteiidos 2.5. Comparação de informações; 3.6. Elaboração de apreciações u afeti\'as 279 Em seguida, com 42,85% identificou-se a capacidade elaboração de apreciações relativas a valores éticos e /ou políticos. Em vários momentos, as perguntas da professora motivaram a participação dos alunos nas discussões, e eles manifestaram sua posição concordando, discordando, chegando a apresentar implicações desse conhecimento construído coletivamente. As capacidades ativação de conhecimento de mundo e localização e/ou retomada de informações foram identificadas nos episódios com 37,5% respectivamente. Ppode-se afirmar que a professora ativou conhecimentos prévios dos alunos sobre a discussão em foco e retomou experiências vividas por eles em outras séries escolares. TABELA 38 Capacidades de leitura nos subeventos de Geografia ^ 2 Capacidades de compreensão Subeventos Episódios O Z 2" Se qü ên ci a Iii te ra ci on al - Le n do o Ca pí tu lo 4 so br e Co n su m o e M eio A m bi en te 2.1 Ativação de conhecimentos de mundo 2.3 e 6 3 2.2 Antecipação ou predição de conteúdos 4,6 2 25,0 2.3 Checagem de hipóteses - - - 2.4 Localização de informações 2,3 e 4 3 37,5 2.5 Comparação de informações 2 (2vezes), 4, 5, 6 3 (2 vezes) 7 87,5 2.6 Generalização - - 2.7 Produção de inferências locais ^ 3 2 25.0 2.8 Produção de inferências globais 4.5 2 25_^ 3 Capacidades de apreciação e réplica do j Subeventos leitor em relação ao texto Episódios N° % 3.1 Recuperação do contexto de produção do texto - - 3.2 Definição de finalidades e metas da atividade de leitura - - 3.3 Percepção de relações de intertextualidade - - 3.4 Percepção de relações de interdiscursividade - - 3.5 Percepção de outras linguagens 5 1 14,28 3.6 Elaboração de apreciações estéticas e/ou afetivas 4,6 2 28,5? 3.7 Elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos 2,3 e4 3 42,8^ Fonte: Notas de campo etnográficas, Caderno 2, p. 25-200, 2007, p. 1-96, 2007. 280 6.2.3 Capacidades de leitura mobilizadas na aula de Inglês Na aula de Inalês, considerou-se a terceira seqüência interacional - Lendo Depoimcnio de Internautas. No QUADRO 18 são apresentados seis subeventos e. com base no discurso da professora e dos alunos, organizados em dupla, identificou-se a presença de algumas capacidades de leitura. Compreensão QUADRO 18 fPvfnQ; cnpacidades de leitura ensinadas/aprendidas iiiis aulas de Inglês Subeventos Episódios Linhas Conteúdo/Tema Capacidades de leitura mobilizadas na proposta de ensino Fonte: Notas de campo 30-37 58-46 47-59 60-76 77-9 99-116 etnográficas Dupla: Nina e Denise Making our world better Depoimento de Nevena (Yugoslávia); Kevin (Estados Unidos). Katie (Canadá), Michelle (Brasil). Apresentação do Site Kidlink 2.1. Ativação de conhecimentos de mundo 3.1. Recuperação do contexto de produção do texto 2.5. Compreensão de informações 3.1. Recuperação do contexto de produção do texto Dupla: Vera e Lilian Depoimento de Kevin (Estados Unidos) Dupla: Edimar e Vander Depoimento de Micheie (Brasil) Dupla: César e Fernando Depoimento de Shinjinee (índia) Dupla: Caria e Iara Depoimento de Sophie (Irlanda) Dupla: André e Luís Depoimento de Olga ("Norway) 2.7. Produção de infcrências locais; 2.4. Localização e/ou retomada de informações; 3.2. Definição de finalidades e metas da atividade de leitura 2.7. Produção de inferências locais; 2.1. Ativação de conhecimentos de mundo 2.7. Produção de inferências locais 3.7. Elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos 3.1. Recuperação do contexto de produção do texto 2.1. Ativação de conhecimentos de mundo 2.8. Produção de inferências globais; 25-200,2007, p.i-yo,.uu/. 281 Na TAB. 39, apresenta-se o percentual de freqüência das capacidades identificadas nessa aula. Como visto, a capacidade recuperação do contexto de produção do texio destacou-se com 42,85%. Ao longo dos subeventos, professora e alunos retomaram o sentido e o significado da produção do texto. Isso implicou retomar os componentes básicos da produção de texto: o que se lê? Para que se lê? Com que objetivo e propósito? Em seguida, tem-se a capacidade ativação de conhecimentos de mundo, com 37,5% de freqüência. Na aula de Inglês, o levantamento de perguntas e a socialização de aspectos centrais nos depoimentos foram importantes no processo de compreensão do texto. TABELA 39 2 Capacidades de compreensão Subeventos Episódios N° % 2.1 Ativação de conhecimentos de mundo 1,3 e 6 31,i 2.2 Antecipação ou predição de conteúdos - - - 1 2.3 Checagem de hipóteses - - 2.4 Localização de informações 2 2 25,0 2.5 Comparação de informações 1 1 12.5 2.6 Generalização - - ' ^ 2.7 Produção de inferências locais 2,3,4 3 37,5 2.8 Produção de inferências globais 6 1 12.5 3 Capacidades de apreciação e réplica do leitor em relação ao texto Subeventos Episódios N° % 3.1 Recuperação do contexto de produção do texto 1 (2 vezes) 5 3 42,85 3.2 Definição de finalidades e metas da atividade de leitura 2 2 28,57 3.3 Percepção de relações de intertextualidade - - 1 3.4 Percepção de relações de interdiscursividade - - 3.5 Percepção de outras linguagens - - 3.6 Elaboração de apreciações estéticas e/ou afetivas - 3.7 Elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos 5 1 14,28 2 ! .2 3 c- O Fonte: Notas de campo < Outra capacidade em destaque foi a produção de inferências locais, com 37,5% expressão. Em vários momentos da aula, os alunos tiveram de inferir o sentido de palavras 282 termos desconhecidos, exploraram, também, conhecimentos da língua materna para alcançar uma compreensão de nível básico em Inglês. TABELA 40 Capacidades de leitura - Percentual (%) representativo de predoniíiiio nas práticas cic ensino CAPACIDADES DE LEITURA I CIÊNCIAS GEOGRAFIA INGLÊS j TOTAL 2. Capacidades de Compreensão 1 1 N" 1 i : "/» 1 */0 ! N° I ! 0/ At 1 1 1 N° i ! % 2.5. Comparação de informações 5 62.5 7 87.5 - - 12 150.00 2.8. Produção de inferências globais 3 37.5 - - - - 3 37.5 2.3. Checagem de hipóteses 2 28.57 - - - - 2 25.00 2.1. Ativação de conhecimentos prévios - - 3 37.5 3 37.5 6 75.00 2.7. Produção de inferências locais - - - - 3 37.5 3 37.5 2.4. Localização de informações - - 3 37.5 - - 3 37.5 3. Capacidades de apreciação e '"épiica do leitor em relação ao texto N° % N° % N° % N° % 3.7. Elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos 2 28.37 3 42.85 - - 5 71.22 3-1. Recuperação do contexto de produção do texto - - - - 3 42.85 3 42.85 3.2. Definição de finalidades e metas da atividade de leitura - - T 28.57 2 28.57 unpo etnográficas, p. 1-96,2007. 283 A TAB. 40 contém dados das três aulas e fomece uma representação contrastiva das capacidades que predominaram nas práticas de ensino. Esse consolidado explicita algumas evidências sobre as oportunidades de aprendizagem na leitura vivenciada no contexto da sala de aula. Como visto, predominou no âmbito das capacidades de compreensão, a capacidade de comparação de informações com 150% de predomínio em Ciências e Geografia, dado que evidencia estímulo a leitura crítica e ampliação da compreensão leitora nas disciplinas. Uma análise contrastiva do quadro também revela que não houve uma capacidade presente nas três disciplinas, ou seja. foram identificads capacidades, oscilando equilibradamente em duas ou em apenas uma disciplina. Em seguida, com 75%. destacam-se a capacidade ativação de conhecimentos de mundo e produção de inferências locais com 75% de presença nas aulas de Geografia e Inglês. Estreitamente interligadas, essas capacidades foram importantes no processo de contextualização do texto, ou seja, as palavras não estão soltas no texto adquirem sentidos e significados quando são compreendidas e (re)assumidas pelos participantes do evento. No âmbito das capacidades de apreciação e réplica do leitor em relação ao texto, identificou-se nas aulas de Ciências e Geografia a capacidade de percepção elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos, com 71,22%, provavelmente em razão dos gêneros do discurso intercalados presentes inicialmente no artigo de divulgação científica sobre as drogas e no livro didático de Geografia. Nas discussões e nas leituras dos alunos, o tema em foco foi abordado e sua presença identificada em diferentes linguagens e esferas ^ por exemplo, televisiva, jornalística, escolar, publicitária, dentre outras. Outro percentual expressivo foi identificado na aula de Inglês; com 42,85% aparece em destaque a capacidade recuperação do contexto de produção do texto, considerada fundamental para que os alunos pudessem ativar conhecimentos prévios, realizar inferência® globais, acionar conhecimentos de mundo e, assim, compreender globalmente depoimentos língua estrangeira Inglês. CONSIDERAÇÕES FINAIS Um olhar sobre (a)s leituras e sobre (a)s capacidades de linguasem: o que elas revelam'» Esta pesquisa etnográfica foi desenvolv ida à luz da teoria de Bakhtin e da teoria de Vygostky, com o objetivo de analisar as práticas de leitura nas disciplinas curriculares na busca de superação do retrato desfigurado do trabalho com leitura nas escolas piiblicis Assim, o ponto de partida da pesquisa foi construído com base na questão problemaiizadora- Como os professores e alunos interagem no contexto da sala de aula e criam oportunidades de aprendizagem na leitura? Foi fundamental nesse percurso retomar dados de avaliações nacional e internacioml sobre o desempenho dos alunos em leitura (SAEB. ENEM e PISA), bem como realizar um levantamento sobre as pesquisas recentes no campo da leitura (CAFIERO. 1995 e 200''- ROJO, 2001a. 2001b. 2004 , 2005 e 2009; JURADO, 2003; PEREIRA, 2004 e LODI. 2004) Constatou-se que as mudanças almejadas demandam no\'a visão no ensino-aprendizayem de leitura e das práticas de leitura, sem as quais não há construção e cidadania. O Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e o Project for Internacional Student Assessment (PISA) têm divulgado o baixo índice de desempenho dos alunos nas provas e a ausência das capacidades de leitura compreensiva.O relatório nacional do PISA 2001, por meio do qual foram avaliados jovens entre 15 e 16 anos. mostrou que 65% deles roal conseguiram localizar informações que podiam ser inferidas no texto: a maioria atinuiu os níveis 1 e 2 em um total de cinco níveis. Os resultados revelaram, também, que os alunos não conseguiram reconhecer a idéia principal de um texto, compreendendo as relações ou Construindo sentidos; além disso, não conseguiram constiuir conexões entre o texto e outros conhecimentos oriundos da experiência pessoal. Assim, as mudanças almejadas demandam uma nova visão do ensino-aprendizagem da leitura e das práticas de leitura, sem as quais não há constiução e cidadania. O fracasso escolar e os resultados dos alunos nas avaliações nacionais e internacionais provocam reflexões sobre a adoção de procedimentos de leitura que contribuem para o desenvolvimento capacidades de linsuagem. Constatou-se a gravidade da questão, poi isso defende-se o Aprendizado da leitura e o acesso a uma fonnação que dê ao aluno possibilidades de praticar na escola e na vida o que é próprio do ser humano: a atitude responsiv'a ativa. 285 Desse modo, nesta pesquisa, além de se oferecer o levantamento sobre os modos de leitura e os gêneros do discurso que circulavam nas aulas, das disciplinas curriculares, mostra- se como as professoras de Ciências, Geografia e Inglês ensinaram a ler e utilizaram a leitura para ensinar/aprender conteúdos das disciplinas curriculares. Nessa perspectiva, a análise dos episódios revela alguns limites do letramento escolar. Em alguns episódios, os professores estiveram atentos ao tema e à discussão dele, mas não trabalharam efetivamente a leitura do texto. Essa opção, sem dúvida, limitou as oportunidades de aprendizagem na leitura e o desenvolvimento das capacidades leitoras. É inegável, porém, que o espaço da sala de aula se constituiu como um espaço formativo das relações que aí se deram por meio dessa linguagem, ao mesmo tempo em que foi por ela formado, o que caracterizou e constituiu as práticas de letramento escolar. Dolz (1994) defende o ensino das ações de linguagem para que os alunos delas se apropriem e façam da leitura um instrumento de transformação e se apropriem das capacidades da leitura necessárias para o convívio social- Como destacado na introdução deste trabalho, na primeira etapa, tomou-se, na Escola 1, uma turma de 6" série do Ensino Fundamental para um estudo exploratório que evidenciou a relevância da investigação das práticas de leitura. Na segunda etapa, foi eleita, na Escola 2, uma turma de 8^ série do Ensino Fundamental para a discussão dos discursos que lá circulavam sobre o ensino da língua e das práticas de letramento em todas as disciplinas do currículo escolar. Por meio da microetnografia, foram analisados os procedimentos de leitura utilizados pelas professoras nas aulas de Ciências, Geografia e Inglês. (CASTANHEIRA et al. 2001; STREET; LEFSTEIÍ^' 2007; HEATH; STREET, 2008) Optou-se por realizar uma obsei-vação que partisse do método sociológico bakhtiniano» ou seja, que considerasse a situação de produção dos discursos. No contexto atual da escola pública, constatam-se limites e possibilidades no ensino da leitura. Como identificado neste estudo, as disciplinas do currículo escolar podem contribuir para a fonnação de leitores competentes, criando contextos que mobilizem os alunos para maior participação no^ discursos em sala de aula, bem como questionando sobre suas posições, negociando encaminhamentos, favorecendo a compreensão ativa dos textos, dentre outros. Como postulado por Bakhtin/Volochinov (1929/1992), a linguagem está semp""® "povoada" de interações de outrem. Foi possível identificar nos episódios em sala de aula ^ coexistência de conflitos de diferentes palavras ideológicas ou linguagem socia'^ manifestando-se nas situações de comunicação. Daí, defender-se a maior consciência 286 natureza pluridiscursiva da língua e da linguagem e que o trabalho do professor contemple e valorize a palavra persuasiva. (BAKHTIN, 1934-1935/1975) Assim, diante desse contexto, toma-se importante retomar as questões de pesquisa que orientam as discussões neste estudo: 1. Que práticas de leitura são desenvolvidas na segunda íase do Ensino Fundamental no contexto escolar observado? • 2. As interações entre professor e aluno e entre os alunos interferem na construção dos sentidos e compreensão dos textos? 3. Que capacidades de leitura foram ensinadas/aprendidas nas práticas de ensino'' O estudo etnográfico permitiu a descrição, a representação e a análise de dados que revelaram a leitura como prática social; drogas (Ciências); consumo e meio ambiente (Geografia); e depoimentos de internautas sobre o mundo que gostariam de construir (hv^lês) Nas aulas, especificamente escolhidas para este estudo, houve atividades diri<'ida á leitura de texto. As questões desenvolvidas durante a aula demonstraram uma maneira criativa encontrada pelo professor ao conciliar conhecimentos construídos sobre leitura ao conteúdo de Ciências, Geografia e Inglês. A leitura e discussão em pequenos grupos trouxeram, também, a prática democrática do exercício da voz dos alunos e da sua subjetividade, bem como o aprendizado do exercício da escrita. Mudanças de paradigma na ação profissional foram identificadas. Não houve a pretensão de homogeneizar a leitura dos alunos (BLOOME, 1993), pelo contrário, houve respeito as diferentes formações culturais e o seu conhecimento prévio. Nesse sentido, pode-se afirmar, da parte das professoras, que houve mobilização consciente e intencional dos alunos; disposição real de ouvir e entender a voz do outro (escrita sensível); respeito como norma democrática de convivência; ausência de preconceito em relação às manifestações; criação intencional de situações que piopiciem aos alunos explicar seus pensamentos, suas razões; respeito à pluralidade das vozes manifestas, discutindo-as sob ^ ótica da indeterminação, concepção de aluno como competente na construção dos sentidos do texto. De modo seral, os professores abriram espaço para que os alunos tivessem voz. participassem das aulas e expressassem suas leituras, integiando assuntos do dia a dia e Conhecimentos científicos. Pelo modo como a aula foi conduzida, os alunos íbram con-esponsáveis pela produção de conhecimento. 287 O resultado da análise dos dados examinados sobre o trabalho com a leitura nas disciplinas curriculares, especificamente Ciências, Geografia e Inglês, revelaram, com base nas aulas observadas, que a leitura foi proposta com o objetivo de compreender o conteúdo e o vocabulário do texto, dentre outros. As professoras souberam trabalhar com a organização discursiva do texto apesar de não terem formação teórica atualizada sobre gêneros do discurso. O trabalho foi pautado na dernocratização do domínio da língua, pois a consideraram fundamental para o exercício da cidadania. No caso da professora de Inglês, os sentidos examinados revelam que ela vê a importância do enfoque nos gêneros para organização do trabalho com a leitura, mas não segue as prescrições dos PCNs. A professora aborda a língua numa perspectiva de cidadania, uma vez que se empenha para propiciar o desenvolvimento das capacidades na construção da identidade pessoal e social na dimensão histórica. Os sentidos dos professores sobre leitura e a organização da prática pedagógica evidenciaram compromisso com a formação de leitores. Trata-se de uma visão positiva de leitura que situa a língua do ponto de vista dialógico, com base na organização discursiva do texto, que considera o contexto social vivido pelos alunos na construção de significados. 0^ resultados mostram que o problema se encontra na relação teoria e prática, ou seja, dificuldade do professor de alterar a própria prática com base nas contribuições das teorias sociointeracionistas que demandam uma nova concepção de letramento nesse contexto. Trata- se de um limite evidenciado, também, pela falta de formação dos professores para trabalhar perspectiva do letramento e das capacidades de linguagem. Da mesma forma, os professores revelaram desenvolvimento em relação às suaS escolhas e às concepções do processo ensino-aprendizagem, superando gradativaniei^^® compreensões contraditórias e baseadas no senso comum. No entanto, pela seleção conteúdos, percebeu-se um movimento de busca e empenho na formação de alunos leitor^^' autônomos e críticos. A Zona Proximal de Desenvolvimento (ZPD) criada nas aulas de leitura contribui'^ para o desenvolvimento do processo de reflexão crítica dos alunos. Assim, situando ^ formação em leitura com base nas contribuições de Bakhtin (1952-1953/1979), (1934/1993) e Freire (1992/2003), a leitura foi tomada como uma ação que permitiu a anális^' a compreensão e a avaliação da realidade, pressupondo o engajamento do aluno conio leitor que interage com o outro pela leitura de textos que circulam em esferas comuns dí'^ diferentes áreas do saber. 288 O resultado exposto revela a presença de um trabalho em construção, com aspectos frutíferos. As leituras múltiplas e variadas ao longo da pesquisa mostraram aspectos inesperados sob o modo de ler. Sem dúvida, ler coletivamente é um exercício democrático do pensamento e do uso da palavra como direito de expressão que beneficia tanto o aluno quanto o professor. A leitura como prática social pretendida nesta tese supõe os textos como inacabados, cujos significados são indeterminados. A ação intencional do professor permitiu trazer à tona os processos ideológicos do discurso. Dessa forrna, os alunos também puderam tornar-se mais conscientes da própria prática e mais críticos em relação aos discursos a que são submetidos cotidianamente. Assumindo a concepção de leitura como prática social e discursiva, os proíessores adotaram procedimentos didáticos em suas atividades de leitura que focalizaram o traballio coletivo, valorizaram a diversidade para a construção do conhecimento prévio, criando situações para que o aluno construísse conhecimentos da área. As aulas foram dialógicas e, portanto, polifônicas e persuasivas — houve ciiculaçao de niuitas vozes na voz do aluno ou do professor. Observou-se, ainda, a presença de diíerentes gêneros do discurso em circulação, o que contribuiu paia a ampliação da natureza pluridiscursiva da aula. Os dados também evidenciaram a necessidade de um trabalho de formação do professor para o enfoque dos gêneros discursivos para a organização do trabalho com a leitura. Quanto à segunda questão de pesquisa. interações entre professor e alunos e entre os alunos interferiram na construção dos sentidos e compreensão do texto, os dados revelam um processo de aprendizagem da leitura cuja função de mteraçao autor/leitor/texto foi marcada pela intersubjetividade. inter-relação, porque uns e outros são sujeitos na leitura de texto que produzem. Os alunos, nas aulas de Ciências, Geografia e Inglês, vivenciaiam situações de relaçao com o conhecimlnto escolar mediado pela linguagem, bem como experiências discursivas desenvolvidas em constante interação com o outro; assim as palavras alheias carrcgan, sua expressividade, seu tom apreciativo que foi rcelaborado e reconstruído nas práticas escolares. (BAKHTINA^OLOCHINOV, 1929/1992) ^ortJpimnm das discussões, posicionaram-se, levando em Desse modo, os alunos participai am ua^ ^ .-ritprlnnjtor tomava da situação, seus conhecimentos, suas '^onta o grau de infonnaçao que o inter ^ ^ nmriirando presumir ^'a compreensão responsiva" desse Convicções, seus preconceitos, procu f , • nndiam ser previstas, tal como postula Bakhtin. interlocutor e precaver-se das objeçoes que podiam t 289 Com base na perspectiva sociointeracionista, o processo de elaboração do conhecimento na situação de interação social da sala de aula ganha destaque como procedimento privilegiado para promover a construção de conhecimentos por parte dos alunos. Pensar a sala de aula como um lugar de interlocução implica superar as condições de não leitura de textos na escola, identificado em muitas práticas. Essa construção também peraiite reafirmar a necessidade de um projeto curricular que considere a prática de leitura como aspecto do contexto discursivo social e educacional mais amplo. São aulas com orientações mais persuasivas em que convivem diferentes vozes, a polifonia, o plurilinguismo, possibilitando aos alunos imprimir palavras próprias no discurso alheio. Nas aulas focalizadas, foi possível observar os sujeitos leitores discutindo a temática e 1 ^9 o texto lido, bem como o que outras fontes dizem sobre o tema. A discussão proporcionou aos participantes a oportunidade de expor suas idéias em busca de uma interpretação para a leitura, uma tomada de consciência de diferentes argumentos sobre uma questão, uma solução criativa para um dado problema, etc. Cabe acrescentar, ainda, que os professores assumiram o papel de mediadores entre a leitura e a turma, o que os levou a refletir sobre os possíveis sentidos em circulação no texto com base em discussões envolvendo os conhecimentos do contexto de vida de cada um. Essa prática de leitura permite, além disso, o estabelecimento de um processo interacional entre leitor/texto. Assim, uma cadeia interdiscursiva foi sendo gradualmente, construída, completada e revista, no contexto da sala de aula. Retomando os objetivos desta pesquisa - conhecer as práticas de leitura implementadas pelos professores e alunos no processo ensino-aprendizagem da língua e analisar de que modo eles estabeleceram condições para a construção de significados dos textos lidos em sala de aula -, observou-se que, mediada pelo professor, a construção da compreensão do texto também desencadeou tentativas dos alunos quando eles recorreram ãos seus conhecimentos prévios e de mundo para responder às questões propostas com base no texto, participando ativamente da malha discursiva. Os alunos desenvolveram uma leitura dialógica do texto que colocou em jogo oS conhecimentos e a vivência de cada um, bem como os temas enfocados na leitura discussões nas aulas permitiram estabelecer uma corrente contínua de enunciados que se relacionavam e se entrelaçavam. Os alunos socializaram dados relacionados com o tema oriundos de jornal, revista e televisão, dentre outros- O problema das drogas, meio ambiente, consumo e construção de um mundo melhor. 290 Desse modo, a interação interdiscursiva possibilitou que um trabalho de leitura fosse realizado e que, portanto, outras formas de olhar o mundo fossem construídas. A análise das aulas de Ciências, Geografia e Inglês permitiram afirmar que os sujeitos podem se tornar leitores somente se estiverem imersos em práticas sociais de leitura. A reflexão sobre o processo de aprendizagem também permite afirmar que os alunos puderam atribuir os sentidos dos textos conjuntamente, participando de um diálogo em que as perguntas e respostas proporcionavam novas perguntas e novos sentidos. Nessa direção, Vygotsky (1930/1998) evidenciou o papel do outro como mediador para o funcionamento intrapsicológico, isto é, o indivíduo inicialmente necessita do auxílio do outro para realizar aquilo que, mais tarde, conseguirá realizar sozinho. É a interação que permite a categorização do mundo, a possibilidade de abstração e a generalização dos objetivos; em outras palavras, o homem pode agir e pensar sobre os objetos sem que eles estejam presentes e relacionar-se com o mundo por meio da mediação dos significados construídos pelo grupo social do qual faz parte. Sob a ótica da leitura como prática social, os sentidos são sempre mutáveis. No dizer de Bloome (1983, 1993), não há apenas um significado para um texto e os significados divergentes e contraditórios podem coexistir. Por esse motivo, o foco do professor e dos alunos deve ser em direção ao respeito à indeteminação de sentidos, decorrente da pltrraiidadc de leituras, porque leva o aluno a desafiar o conteúdo ideolodco dos textos, conscientizando-se de que a linguagem é veiculadora dessas ideologias, não apenas de informações. Finalmente, com o objetivo de alcançar resultados sobre o desenvolvimento das capacidades de leitura dos alunos, buscou-se responder à seguinte questão: i. Ou. capacidades dc leitura foram ensinadas/aprcdidas ms práticas Je ensino? Nas aulas de Ciências, Geografia e Inglês, espeeiíieamente, nos episódios analisados í ^sumindo responsabilidades para o ensino de compreensão identificou-se os professores assuminuo f pnsino utilizados favoreceram a construção coletiva da leitora. Os procedimentos ae eiibiu n^AHiiando-os ao ritmo e às capacidades de compreensão dos compreensão leitora dos textos, adequando , j -^.nilfícou-se também, a ausência de íormação específica do alunos. Por outro lado, identiiic ^ J i^f-íimento Esse limite demanda inclusão nos cursos de professor para atuar no campo do letiamento. c . . Kptiyncão e Letramento, bem como investimento na íormação graduação da disciplina Aliabe Ç f-naír n desenvolvimento das capacidades de linguagem em continuada do professor para ating todas as áreas do conliecimento. 291 Identificou-se, com base na intervenção mediadora dos professores, na condução do processo de compreensão de texto, em contextos de interação, que favoreçam a ativação do conhecimento prévio e estimularam a produção de comparação de informação, ativação de conhecimentos do mundo, produção de inferências locais e elaboração de apreciações relativas a valores éticos e/ou políticos. Nas aulas, esteve presente o aspecto persuasivo, dialógico, que favoreceu a atividade mental dos alunos e da professora e, consequentemente, propiciou a construção de conhecimentos. Desse modo, como defendido por Geraldi (1991), a produção de textos orais supera uma forma de apenas mostrar o que se aprendeu, para se transformar em produto de um trabalho discursivo desenvolvido por alunos e professores. E comum em sala de aula a apropriação/transmissão das palavras alheias, a ênfase no discurso transmissivo e o controle das réplicas. Superando esse modelo autoritário impregnado na cultura escolar, nas aulas selecionadas, identificou-se um processo de panicipação dialógico por meio da réplica, participação no discurso do outro. Professor e alunos imprimiram suas palavras, modificaram a integridade do discurso citado mediante a colocação de réplicas. Na análise, foi possível constatar a presença de interações persuasivas nas aulas de Ciências, Geografia e Inglês. Os alunos justificaram suas posições, apresentaram argumentos que revelaram reflexão sobre o processo pessoal de aprendizagem, o que contribuiu para a reflexão de toda a turma e evidenciou a aprendizagem dos conteúdos ensinados £ desenvolvidos das capacidades de leitura. Quanto à argumentação, observou-se a presença de dois gêneros argumentativos: a argumentação para construção do conhecimento e a argumentação do tipo debate. A discussão argumentativa como instrumento de mediação para a construção de conhecimento é possível nas diferentes áreas e fundamental para a prática de cidadania, uma vez que no convívio diário somos convidados a argumentar e a nos posicionarmos diante dos conteúdos. Alé® disso, cabe salientar que a discussão oral argumentativa é um gênero oral que pode ser introduzido em todas as áreas do conhecimento. Sua presença nas práticas de leitura das disciplinas curriculares contribuirá efetivamente para o exercício da cidadania. O trabalho com a leitura nas diferentes disciplinas curriculares dá a oportunidade ao sujeito-leitor de construir conhecimentos relacionados a uma situação de comunicação detrimento de um exercício de extrair informações do texto. Por isso, nesta pesquisa, defende- se a aprendizagem da leitura em todas as disciplinas do currículo escolar apoiada oo desenvolvimento de capacidades de linguagem relacionadas a um gênero específico e reitera a 292 necessidade e a importância de instrumentos que visem à aprendizagem. Nesse caso o material didático é considerado uma ferramenta usada pelo professor e pelos alunos para o desenvolvimento das capacidades de linguagem necessárias á compreensão escrita nas disciplinas curriculares, dentre elas Português, Inglês. Artes, Geografia. História. Ciências e Matemática. Por conseguinte, orientados por uma concepção de linguagem como prática social, utilizada como instrumento de mediação para a construção de siuniílcados dos textos com os quais interagimos em situações sociais. Assim, alguns procedimentos subjacentes á compreensão leitora nas disciplinas curriculares e usados como instrumento de avaliação das seqüências didáticas ou subeventos analisados implicariam: considerar a leitura como prática social; pautar o trabaliio de leitura nos gêneros do discurso, trabalhar as capacidades de linguagem que o gênero exi Acesso em: 24 nov. 2006. BRASIL. Ministério de Educação Secretaria de Educação Básica. Indicadores de qualidade da educação-, dimensão ensino e aprendizagem da leitura e da escrita. São Paulo: Ação Educativa, 2006. 300 brasil. Secretaria Municipal de Educação. São Paulo. Referencial de expectativas pura o desenvolvimento da competência leitora e escritora no ciclo Ih cademo de orientação didátici de inglês, 2006. brasil. 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São Paulo: Editora Difusão Cultura do Livro, 1999. Geografia: MOREIRA. 1. Construindo espaço brasileira', ó" série. São Paulo: Ática. 2004. (PNLD 2004) História: MONTELLATO, A; CABRINI, C.; CATELLI, R.J. História temática', diversidade cultural e conflitos. 6" série. São Paulo: Scipione, 2002. (PNLD 2004) Ciências: BARROS, C.; PAULINO, W. R. Ciências: os seres vivos - 6^ série. São Paulo: Ática, 2004. (PNLD 2004) Matemática: lEZZI, G.; DOLCE, O.; MACHADO, A. Matemática e realidade - 6" série. 5 ed. São Paulo: Atual, 2005. 330 ANEXO 2 Carta de apreseníação e protocolo de pesquisa OF.PG. COORD./11/07 Em; 26 DE FEVEREIRO DE 2007 Prezada Senhora: Vimos, por meio desta, apresentar SUZANA DOS SANTOS GOMES, aluna regularmente matriculada no Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimenio e Inclusão Social, cursando o Doutorado, na Linha de Pesquisa Educação e Linguagem. A referida aluna vem desenvolvendo seu projeto de pesquisa sobre as práticas de leitura e escrita sob a minha orientação. Para subsidiar o projeto da referida aluna, solicitamos a V. S''. autorização para a mesma a realizar observação participante em uma turma de 3" Ciclo do Ensino Fundamental e obter outras informações desta Instituição. Certos de podennos contar com o apoio de V. S'\, desde já agradecemos. Atenciosamente, Prof Dra. Maria Lúcia Castanheira Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social - FaE/UFMG Ilm\ Si^. Prof Vânia Alves Santos Prof Maria do Socorro Santos Lages DD. Diretora da Escola Municipal Eleonoia Pieiucetti BELO HORIZONTE - MG 331 ANEXO 3 Termo de consentimento livre e esclarecido - Professor Prezado (a) Professor (a). Sou aluna do Programa de Pós-Graduação em Educação ■■Conhecimento e Inclusão Social", da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, na linha de pesquisa ■■Educação e Linguagem". A pesquisa que pretendo desenvolver tem como objetivo acompanhar as práticas de leitura e escrita construídas por professores e alunos em uma turma da 8" série do Ensino Fundamental. Nesse estudo a abordagem metodológica adotada é Etnográfica, a coleta de dados será realizada em uma sala de aula e você será acompanhado por uma das responsáveis da pesquisa, sendo suas aulas filmadas e a entrevista gravada. Todo o material obtido na coleta de dados: vídeos das aulas ob.scrvadas. questionários e entrevista será utilizado apenas no contexto do referido estudo e será arquivado no Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita - CEALE/FaE/UFMG. sob a nossa guarda e responsabilidade. Após análise dos dados e encerramento do projeto este material será arquivado em caixas lacradas e depois de 05 (cinco) anos serão destruídos. A identidade dos participantes, alunos e professores será mantida em sigilo de modo a garantir o anonimato dos mesmos e somente os pesquisadores envolvidos terão aces.so a esses dados. Informo ainda, que não haverá remuneração pela participação no projeto e que está garantida sua liberdade de se retirar da pesquisa quando bem lhe aprouver. Em respeito ao que determina o item IV da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, que trata de pesquisas envolvendo seres humanos, estou apresentando o presente Termo de Livre Consentimento para que. caso os termos acima lhe convenham. dê o seu ■■de acordo". Na expectativa de contar com sua participação, agradeço antecipadamente. Suzana dos Santos Gomes Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Sublinha Educação e Linguagem Prof Dra. Maria Lúcia Castanheira Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Educação Sublinha Educação e Linguagem DE ACORDO: Assinatura do (a) Professor (a) Belo Horizonte. de de 2007. ENDEREÇOS DAS PESQUISADORAS PARA CONTATOS: Prof Dra. Maria Lúcia Castanheira - lalu@fae.ufmg.br Fone: (031) 3499.5333 e (031) 34996211 Doutoranda Suzana dos Santos Gomes - suzanasg'g'terra.com.br Fone: (031) 34995333 e (031) 99786113 Faculdade de Educação - FaEAJFMG Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita - CEALE Avenida Antônio Carlos. 6.627 - Pampulha-CEP: 31270-901 COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA - UFMG Avenida Antônio Carlos. 6.627 Unidade Administrativa II - 2° andar Campus Pampulha Belo Horizonte. MG - Brasil CEP: 31270-901 Email: coep@prpq.ufmg.br ANEXO 4 Termo de consentimento livre e esclarecido - I»ais e alunos Prezados Srs. Pais e alunos. Sou aluna do Programa dc Pós-Graduação em Educação ••Conhecimcnio c Inclusilo Social", da 1'aculdadc de I Hn,-, r Universidade Federal de Minas Gerais, na linha de pesquisa "Educaçüo e Linguagem". • V- o c a A pesquisa que pretendo desenvolver tem como objetivo acompanhar as práticas de leilura e escrita consinnd- s professores e alunos em uma turma da 8" Série do Ensino Fundamental. Nes.se estudo a abordagem metodológica íkíoÍ^kF Etnográfica. Nesta abordagem o pesqui.sador participa da vida na sala de aula por um tempo significativo e procura cnièn l- o que acontece nesse conte.xto sob o ponto de vista dos participantes; professores e alunos. A coleta de dados .seri rcip em uma sala de aula indicada pelos professores da escola. Saliento que a referida pesqui.sa inclui fihiKiueni das ati^'id^ide's desenvolvidas em sala de aula, entrevistas e questionário sobre a trajetória escolar do aluno. Todo o material obtido na coleta de dados; vídeos das aulas obser\adas. questionários c entrevista será uiili/ado 'in ■ contexto do referido estudo e será arquivado no Centro de Alfabetizaçào. Leitura c Itscrila - CEALE/l'aFVUFMc; .sob " nossa guarda e responsabilidade. Após análise dos dados e encerramento do projeto este material será arquivado em c- ' ■ ■ lacradas e depois de 05 (cinco) anos serão de.struidos. A identidade dos participantes, alunos e profe.ssores será nrintid' sigilo de modo a garantir o anonimato dos mesmos e somente os pesquisadores envolvidos terão acesso a es.ses d'idos informo ainda, que não haverá remuneração pela participação no projeto e que está garantida sua liberdade de se rètirir d i pe.squisa quando bem lhe aprouver. Em respeito ao que determina o item IV da Resolução I96'96 do Conselho Nacional de Saúde, que trata de pestuiis' envolvendo seres humanos, estou apresentando o presente Termo de Consentimento para que. caso concorde com os termos acima e com a participação do seu filho, dê o seu "de acordo", Na e.xpectativa de contar com sua participação, agradeço antecipadamente. Suzana dos Santos Gomes Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação - FaE/UFMG Sublinha Educação e Linguagem Prof Dra. Maria Liicia Ca.stanheira Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Educação - FaE/UFMG Sublinha Educação e Linguagem DE ACORDO; Assinatura do responsável pelo (aj aluno. DE ACORDO; Assinatura do (a) aluno (a). Belo Horizonte, de 2007. ENDEREÇOS DAS PESQUISADORAS PARA CONTATO: ProP Dra. Maria Lticia Castanheira - laluíg]fae.ufmg.br Fone; (031) 3499.5333 e (031) 34996211 Doutoranda Suzana dos Santos Gomes - suzanasgí§'terra.com.br Fone; (031) 34995333 e (031) 99786113 Faculdade de Educação - FaE/UFMG Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita - CEALE Avenida Antônio Carlos^ 6.627 - Pampulha - CEP; 31270-901 COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA - UFMG Avenida Antônio Carlos. 6.627 Unidade Administrativa II - 2° andar Campus Pampulha Belo Horizonte. MG - Brasil CEP; 31270-901 Email; coep(§).prpq.uÍTng.br 70 29/03/07 69 29/03/07 68 28/03/07 67 28/03/07 66 28/03/07 65 28/03/07 64 23/03/07 63 23/03/07 62 23/03/07 61 22/03/07 60 22/03/07 59 22/03/07 58 21/03/07 57 21/03/07 >• >• r "0 o £ ã- (A Geografia Inglês M atemática Português História História Ciências Português Artes Português Geografia Inglês M atemática DISCII'I.INA Interpretação de texto; Infância, de Oraeiliaiio Ramos Capitulo 1: A revolução tecnológica e a formação do espaço global Read Peter's schedule M y daily routine (in the m orning, at lunch, in the afternoon, at night). Avaliação da aprendizagem (eni grupos) Assunto: Teorema de Tales C orreção do dever de casa Tema: Signo, signillcante e significado. r-.xercicios A Primeira Guerra Mundial - Aula 2 A Primeira Guerra Mundial - Aula 1 Correção de exercícios sobre o capitulo 4: O átomo. Texto Inferno, de Graciliano Ramos Leitura e interpretação e correção das atividades. Proporções nas produções artísticas: expressões humanas Correção das atividades sobre a música: Deus lhe pague, de Chico Buarque. Interpretação do texto: Inferno, de Graciliano Ramos. África: conjuntos regionais Adverbs of frequency: always, often, som etimes, never, etc. Construção de frases. Teorema de Tales Exercícios 5* > n 2 Livro didático Livro didático Livro didático Caderno Caderno Livro didático Resumo no quadro Resinno no quadro; atividades xerocopiadas; livro didático Livro didático Livro didático Atividades xerocopiadas Atividades xerocopiadas; Música; Livro didático M apa Atividade xerocopiada Livro didático z R ir O Não Não ! Z o Não z c O Não Não o Não O z O Não Não si 3 Q (Co ntJ inia ) PÍÍ OD IÇ ÃO D El EX IO Nã o Nã o Nã o Nã o Nã o Nã o Nã o Nã o O Z O KZ Z Nã o t Nã o i ; N ão 1 Liv ro di dá tic o 1 Ca de rno o P Z ^ •Si Al ivi da de s x er oc ad as Re su mo n o qu ad ro Ca de rno At ivi da de x er oc op iad a At ivi da de x er oc op iad a At ivi da de x er oc op iad a \v\ v\v .br itis hc ou nc il.o rg/ kid s-s tor ies -m y- da d Ca de rno At ivi da de x er oc op iad a Liv ro di dá tic o Ca de rno At ivi da de x er oc op iad a At ivi da de x er oc op iad a Liv ro di dá tic o l a be la pe rió dic a At ivi da de x er oc op iad a At ivi da de x er oc op iad a Ca de rno \va lia çã o da ap ren diz ag em de Ci ên cia s ^ Se gu nd a G ue rr a M un dia l Ro tei ro n o qu ad ro A int erv en çã o do lis tad o n a Cr ise de 29 Ro tei ro de es tu do bs tud os lin gü íst ico s: O ra çõ es su bo rdi na da s Pr ofe sso r dá v ist o n o ca de rno do s alu no s Co rre çã o de llx erc ici os Av ali aç ão da A pr en diz ag em de M at em áti ca 1 .e itu ra da H ist ór ia cie Lo ilie Es tud o di rig ido Co rre çã o do R ot eir o de K stu do so bre a Áf ric a Av ali aç ão da A pre nd iza ge m de G eo gr afi a Kx erc íci o de int eip ret aç ão do te xt o so bre a Po es ia n iat en jáfi ca, de M ill òr Fe rn an de s. Co mp os içã o de ce ná rio ar tís tic o Co rre çã o da av ali aç ão da ap ren diz ag em Le itu ra e di scu ssã o do te xt o pr od uz ido Ca pit ulo 5: O s ele me nto s qu ím ico s F.x erc íci o so bre o ca pít ulo . Av ali aç ão da ap ren diz ag em de 1 lis tór ia Re ton io da av ali aç ão da ap ren diz ag em e co m en tár ios so bre o de se m pe nh o da tu rm a. Pe sq uis a bi og ráf ica . A m éri co V es pú cio . A nt on io Ca rlo s. B er na rdo V as co nc elo s. Co rre çã o da s at ivi da de s so bre o ra çõ es su bo rdi na da s. D IS Ci riJ NA Ci ên cia s / Hi stó ria j Hi stó ria Po rtu gu ês M ate má tic a Ing lês Ge og raf ia Po rtu gu ês Ar tes Po rtu gu ês 1 Ci ên cia s Hi stó ria 2 1/5 Po rtu gu ês v x v a v m v 99 20 /04 /07 10 0 20 /04 /07 101 25 /04 /07 10 2 25 /04 /07 10 3 25 /04 /07 10 4 25 /04 /07 10 5 26 /04 /07 10 6 107 26 m m 108 27 /04 /07 10 9 27 04 /07 11 0 27 /04 /07 111 02 /05 /07 11 2 02 /05 /07 126 18/05/07 125 17/05/07 124 17/05/07 123 16/05/07 122 16/05/07 121 16/05/07 120 11/05/07 119 11,/05/07 118 11/05/07 117 10/05/07 116 10/05/07 115 10/05/07 114 02/05/07 113 02/05/07 AULA DATA História Português Geografia Inglês Português História Ciências Português História Artes Português Geografia M atemática Português DISCII'I.INA Trabalho em dupla/trios Construção do roteiro de estudo sobre a Segunda Guerra Mundial Aula de Francês - Estagiários da FaE/UFMG Dinâmica. 0 que eu sei em Francês? Palavras do Português oriundas do Francês, cumprimentos. Orientação da pesquisa sobre Globalização, m ultinacionais e transnacionais. Texto: A fragmenlação ílo processo proiJiilivo c/us imihiiuicionais e nacionais Answer and questions in englisli Texto: Apelo, de Dalton Trevisan. Fxercicios de análise do texto. Devolução das Avaliações corrigidas. segunda tuierra Mundial Trabalho em dupla Roteiro de Estudo Apresentação da pesquisa: Componentes químicos do cigarro Os m alefícios do fumo Atividade de ortografia Produção de texto com roteiro: padrões de escrita segunda tmerra Mundial Trabalho em dupla Roteiro de Estudo Técnica: Perspectiva: linha do horizonte e ponto de fuga. l.eitura do texto O bicho, de Manuel Bandeira e A atração, de João Cabral de Melo Neto. Atividade: Correspondência Retorno da avaliação da aprendizagem e com entários sobre o desempenho da turma. Correção da avaliação ua aprendizagem Correção de exercícios sobre variações lingiiísticas 3» > 2 Atividade xerocopiada Paradidático Resumo no quadro Atividade xerocopiada [,ivro didático Pesquisa escolar l.ivro didático l.ivro didático Caderno e atividade xerocopiada Paradidático Pesquisa escolar l-ivro didático Caderno Paradidático Atividade em folha A4 Livro didático C aderno Atividade xerocopiada Atividade xerocopiadas <" Cl. Si- ri' O K s X (-■ rs X z CM O z c» o 1 [ z Z O 1 z Não Sim Sim z O Não Não z SM o í z o Z z:» O 2 3 o 3c (Co lUi nua ) pr od uç A o DE l EX IO Sim Nã o Nã o Nã o Nã o Nã o 1 c KZ c Z Nã o O KZ 2 4 Nã o Nã o 1 i Nã o Nã o GÊ NE RO E/ Ol l SU PO RT E TE X TI U L Liv ro di dá tic o At ivi da de s x er oc op iad as Ta be la Pe rió dic a Li vro di dá tic o Re su mo n o qu ad ro At ivi da de x er oc op iad a At ivi da de s x er oc op iad as Liv ro di dá tic o At ivi da de s n o qu ad ro Ca de rno Liv ro di dá tic o Ca de rno Liv ro di dá tic o At ivi da de x er oc op iad a Re su mo n o qu ad ro At ivi da de x er oc op iad a Ca de rno Liv ro di dá tic o At ivi da de x er oc op iad a Vi de o Ca de rno 4 At ivi da de x er oc op iad a Ca de rno TE IM A ^ ro du çâ o de te xt o co m ba se n o an ún cio de Jo rn al pn bli ca do n a Fo lha de S. Pa ulo ;:r ité rio s: o rie nta çõ es bá sic as pa ra pr od uç ão do te xt o. " ap ilu lo 6; O rg an iza nd o o s ele me nto s - a cla ssi fic aç ão pe rió dic a. Au la de Pr an cc s - Es ta giá rio s da Pa E/ Ul "M G Di nâ mi ca , ü qu e eii se i en i fra nc ês. ' Pa lav ras do po rtu gu ês o riu nd as do fra nc ês, cu m pri me nto s. O R ra sil n a Se gu nd a G ue rr a M un dia l Ro tei ro de es tu do Hs tud os lin gü íst ico s Or aç õe s su bs tan tiv as Eq ua çã o do 2" gr au Co rre çã o co let iva Qu est ion s an d an sw er in en gli sli Ca pit ulo 3: Fl ux os po pu lar es - o u so da s m igr aç õe s int ern as Au la ex po sit iva di alo ga i Au la de fra nc ês - Es tag iár ios da l-a E/ UF M G Le s jou rs de Ia se m ain e Le s m ois de Pa nn ee A bo m ba at ôm ica e a re nd içã o jap on esa Ro tei ro de es tu do An áli se do te xt o A pe lo, de D alt on Tr ev isa n Co rre çã o co let iva da s qu es tõe s. Co rre çã o do s ex er cíc ios so bre o s ele me nto s da Ta be la Pe rió dic a. Cu ida do s co m a sa úd e - dr og as e o se xo n a n os sa v ida Le itu ra e di scu ssã o de te xt o. Ro tei ro de es tu do so bre lli ro sli im a Ví de o: H iro sh im a M ara ton a de ra ize s: fu nç õe s qu ad rát ica s DI SC IP LI NA Po rtu gu ês J Ci ên cia s ( Po rtu gu ês 1 l ist ór ia Po rtu gu ês M ate má tic a 1 Ing lês - Ge og raf ia Po rtu gu ês Hi stó ria Po rtu gu ês Ci ên cia s 1 l ist óri a M ate má tic a AU LA DA TA 12 7 18 /05 /07 12 8 18 /05 /07 12 9 24 /05 /07 13 0 30 /05 /07 131 30 /05 /07 13 2 30 /05 /07 13 3 1 30 /05 /07 13 4 31 /05 /07 13 5 31 /05 /07 13 6 01 /06 /07 13 7 01 /06 /07 138 01 /06 /07 13 9 06 /06 /07 14 0 06 /06 /07 347 ANEXO 6 Evento dc letramento'^'* - Aula de Português,'^' 8" série do Ensino Fundamental (Continua), N°. HORA EVENTO 1, 8:10 ((Pesq.;Alunos entram na sala conversando, excesso de ruído, fala conjunta. O Professor Mateus começa a entregar os livros para os alunos)) 2. 8 11 ((Pesq.: 0 Professor Mateus pára na frente da sala e pede silêncio e solicita organização da turma. 0 professor espera o silêncio dos alunos em seguida escreve no quadro: mapeamento da sala)) 3. 8 12 ((Pesq.; Aos poucos, a conversa vai diminuindo)) 4, 8 12 Prof.; Muito bem. f...] Da atividade que eu passei ontem, quem já terminou? 5. 8 12 Marta: eu não. 6. 8 12 André: eu! 7. 8 12 ((Pesq.: Pedro mostra o livro para os alunos)) 8. 8 12 Celso: Peca ai pra gente... fazer. 9. 8 13 ((Pesq.: Alunos abrem o livro numa pagina onde há unia notícia e foto de um garoto de rua deitado no colo de um escultura. Na página ao lado a foto de Pietá)) _ 10. 8 13 Prof.: Pácina 55. _ 11. 8 13 César: Página 55! Um. dois... _ 12. 8 15 Prof.: Veja a foto! f...] Este menino no colo [,..1 0 que está simbolizando? Cristina, leia a noticia ao lado. _ 13. 8 15 Cristina: Mais de cem milhões de crianças vivem nas ruas em todo o mundo e pelo menos metade delas consome drogas. Essa constatação é da Organização Mundial da Saúde (OMS). [...] Uma das constatação mais importantes do levantamento é que o problema das crianças de rua não se restringe aos países pobres ou em desenvolvimento.Fonte: 0 Estado de São Paulo. Foto extraída do Livro de Gilberto Dimenstein. Cidadão de Papel, da Editora Ática. 1993. páaina 125 _ 14. 8:15 (íPesq.: Pedro orienta aluna nas atividades de interpretação das fotos propostas no livro didático)) _ 15. 8:15 Roberto: 0 lessor, faz o favor! 16. 8:15 (ÍPesq.: Pedro vai ao encontro do aluno que o chamou)) 17. 8:15 Prof.: Você vai imaginar essa foto aqui com o menino e a foto da mesma estátua sem o menino. Essa foto aqui, com o menino faz diferença? Qual é a diferença? E pra surtir efeito. Quando você vê essa foto com o menino, você pensa assim: "Nossa, es.se menino é um menino de rua. Ele não tem ninguém pra dar colo pra ele. Então, onde foi que ele achou colo? 18. 8 15 Vera: Õ professor! Eu tô precisando de você aqui de novo! ^ 19. 8 16 ((Pesq.: Pedro ri e vai em direção a Vera e Lilian. Pára do lado de Ruth e conversa com ela)) 20. 8 16 VA: Professor, isso tudo aqui é pra responder? 21. 8 16 (ÍPesq.: 0 Professor Mateus se aproxima da aluna e dá orientações. Duas alunas conversam sobre cis questões do livro)) 22. 8 17 Vera: Professor, es.se ano não vamos ganhar agenda, não? Eu tô crente que vai dar... ■ 23. 8 18 ANI: E... eu \ ou ter que comprar uma agenda pra mim... 24. 8 18 ííPesq.: Muitos alunos estão fazendo os exercício, alguns conversam)) 25. 8 18 Prof.: Atenção para a chamada! Alan! ^ 26. 8 18 Robson: Presente! - 27. 8 18 Prof.: Andresa! 28. 8 18 Lilian: Presente! 29. 8 18 Prof.: Anderson? 30. 8 18 Anderson: Tô aqui. ^ 31. 8 19 Prof.: Gleison! Inarid! 32. 8 19 Célia: Presente! 33. 8 19 ííPesq.: 0 professor continua a chamar até o ultimo aluno. Celso levanta a mão e pede algo para o professor. Outra aluna vai até a mesa do Professor com o livro didático na mão e conversa com ele sobr^ algo dos exercícios)) 34. 8:19 Prof.: Quem iá acabou aí? Para essa transcrição foram adotadas as seguintes convenções: Prof.: = professor; VA= vários alunos: ((Pes(].))= informações contextuais e pistas de contextualização fornecidas pela pesquisadora; T= turma; l-l = pausa e ANI = aluno não identificado. Data: 07/02/2007 - Aula de Língua Portuguesa, Interpretação de Fotos: Menino de Rua dormindo no cola da estátua e a Escultura de Pietá de Michelangelo entre 1496 e 1501. 348 N" HOR — (Comiiuia) A EVENTO 35. 8; 19 Vera; Eu já acabei. 36. 8:19 Prof.: Bom! í...] 0 que você escreveu? Deixa eu ver? 37. A.N.!: Qual é lessor? 38. 8:20 ((Fesq.: ü Professor Maieus solicita à aluna que está orieiilamlo para que cia niosirc o que escreveu lui questão. A aluna entrega para o Professor uma folha de fíchário. Ele lê)) 39. 8:21 V.A: (ri so si 40. 8:21 (íPesq.: Risos.)) 41. 8:21 Prof.: Pessoal! Psiiiu! Vamos corriair? Quem já lerminou? 42. 8:21 \'.A: Eu... eu... 43. 8:21 (ÍPesq.; Alf^uns alunos levantam a mão)) 44. 8:21 ANI: Espera mais dar... uns vinte minutos? 45. 8:21 Lilian; Nossa! 46. 8:21 ANI; Não! Quinze! 47. 8:22 César; Dez minutos! 48. 8:22 Mara; Pode corrigir, sô f...] Deixa de onda menino. 49. 8:22 (íPesq.: Alguns alunos agora se empenham na realização da atividade. Dá para perceber que eles estão lendo e respondendo as atividades. 0 Professor Mateus anda pela sala e ohserva as respostas dos alunos)) 50. 8:22 Prof.; Bom. vamos começar? Vamos conversar sobre as respostas dessas questões ai. Quem não terminou? Infelizmente eu não vou esperar mais. 51. 8:22 César: Eu tô na última. 52. 8:22 Prof.; Sem contar os que faltaram ontem, todos tiveram tempo pra fazer. 53. 8:22 Débora; Eu já terminei. 54. 8:22 César: Então, vamos lá? 55. 8:23 Prof.: Questão 01. Psiiiu! Descreva o que se vê na foto ao lado. 56. 8:23 ANI: Eu... 57. 8:24 Prof.; Quem pode. por favor, ler a resposta pra mim? 58. 8:27 ífPesq.: Um aluno está com a mão levantada)) 59. 8:27 Robson: L'ma criança deitada no colo da estátua. 60. 8:27 Prof.: E.xato. 61. 8:27 VA: Não foi isso que eu coloquei não... Nem eu. 62. 8:27 ANI: Eu coloquei... 63. 8:27 Lucas: Eu coloquei o abandono. 64. 8:27 Prof.; 0 abandono já é uma interpretação que você faz. Mas f... ] o que você pode ver? 65. 8:27 Roberto; Ah. o que se vê é o menino no colo da estátua. 66. 8:27 Prof.; porque o abandono ê uma coisa ab.strata. não ê? 67. 8:27 Fernando: Ah. mas fica mostrando o abandono! 68. 8:27 Prof.: Não tem um conceito feito para o abandono. Apesar de que... Eu concordo com você. Essa loto aqui mostra o abandono realmente [...]. Mas o que se vê objetivamente na foto c uma criança deitada no colo da estátua. E dai você chega à conclusão de que ê um menino de rua.Esta folo mostra a realidade de muitas crianças no Brasil e no mundo. Que vivem nas ruas. abandonadas, u.sando drocas. 69. 8:28 Silvia; É isso que eu coloquei; é um menino de rua. Ele usou drogas para amenizar a fome. 70. 8:28 ((Pesq.: Alguns aluitos comentam as suas respostas)) 71. 8:28 Prof.; Bom ...Quem pode ler pra mim? 72. 8:28 Cristina: Eu! 73. 8:28 ((Pesq.: Aluna levanta a mão pedindo ao professor pra ser chamada)! 74. 8:28 Prof.: Primeiro, lê a pergunta. 75. 8:28 Cristina: questão 2: "Compare essa foto com uma das mais famosas esculturas de todos os tempos. Letra "A": que semelhanças podem ser apontadas? 76. 8:29 ( (Pesq ■ Alguns alunos comentam e trocam informações sobre a questão)) 77. 8:29 ( Zristina: Que há uma pessoa no colo de uma delas. 78. 8:29 I »rof • Que há uma pessoa no colo de outra nas duas esculturas. 79. 8:29 (' (Pesq : Um aluno dá a sua opinião. Pedro escuta)) 80. 8:29 F A e 'rof • Psiiiu' "0 nome da escultura ê "Pietá" significa piedade. 0 anista procurou capiar o momenio em que 'faria recolhia da cruz o seu filho Jesus. 0 seu filho morto, .lesus Cristo. Você acha que essa esculiura nfatizou mais o lado divino, ou o lado humano das pensonagens?" 81. 8:29 r'C Pesq ■ Alí;uns alunos respotídem juntamente )) 82. 8:29 V A: Mais o lado humano... 83. 8-29 P rnf. Pr^r qnè fni pnfatizado mais 0 lado humano nesta tolo >. 84. 8-''9 C ésar: Porque eu não .sei não. 85. 8:29 S ilvia; Por que tem sofrimento. 349 N". (Conlirma), HORA EVENTO 86. 8:29 ((Pesq.: Uma aluna levanta a mão e Pedro olha para ela. A aluna responde. Inaudivel)) 87. ;:29 Mara: É o lado humano. 88. 8:29 Prof.; O amor de mãe e filho. O sofrimento pela morte. Enquanto seres sagrados e divinos, eles têm uma vida eterna. Mas aqui. o problema é a morte, a morte como lado humano, tá? questão 4. [...] questão 4: Imaeine uma foto da mesma estátua sem o menino. Qual a diferença de eleito entre uma e outra imagem? _ 89. 90. 91. 8:.30 ((Pesq.: Vários alunos dão a sua opinião para Mateus. Fala conjunta)) 8:30 Prof.: Oh! quem quiser falar levanta a mão. 8:30 Robson: Eu acho que não ia passar o mesmo efeito. 92. 93. 94. 95. 96. 97. 98. 8:30 Prof.: Tá bom. Você está dando uma resposta oral. 8:31 César: Como é que é? 8:31 Prof.: Você acha que não ia dar o mesmo efeito. E qual o efeito que tá dando com o menino? 8:31 ((Pesq.: Alunos comentam juntos, liú varias opiniões nesse momento)) 8:31 Prof.: Tristeza? 8:31 Fernando: De piedade! 8:31 Prof.: Sim. Então, se a foto com o menino dá o efeito de que ele é abandonado, então dá pra ter percebido o abandono. Anne! 99. 8:31 Mara: Com o menino, a imaaem fica mais comovente. 100. 3:31 Roberto: Ai. ai. ai. 101. 8:31 V.A: F^i.sos 102. 8:31 ((Pesq.: Uma aluna responde. Fala baixa, inaudivel)) 103. 8:31 Débora: A diferença que dá é que as crianças abandonadas [...]. E um problema social. 104. 8:31 Prof.: Não retrataria se tivessem abandonadas? Sim. Essa foto com o menino é o retrato do abandono... O abandono das crianças nas cidades. E reparem que é uma estátua, é uma escultura que está em uma praç2 pública. [...] Questão 5: "Qual é o sonho do menino da foto?" ^ 105. 8:31 ((Pesq.: Alfíuns alunos comentam juntos. Cristina levanta a mão e pede a fala para o professor)) 106. 8:31 Teresa: Eu acho que ele está sonhando com uma família, comida... 107. 8:31 Prof.: Uma família, comida, etc. 108. ANI: Com um mundo melhor. 109. :32 VA: Com uma vida melhor. 110. :32 ((Pesq.: l'ários alunos falam juntos)) 11. 3:32 César: Com uma televisão! 112. 8:32 Vera: Deixa de ser besta Caio! 113. 8:32 Prof.: É. Não existe uma única resposta. Na verdade as pessoas sonham sobre diferentes coisas [...]. Não s só porque ele é um menor abandonado que ele sonha sempre com as coisas que faltam na vida dele. A tendência que tem é pensar nisso. Mas, o quê que você pensou. Ruth? ^ 114. 8:32 Vera: Nada a ver... 115. 3:32 Prof.: Pra essa pergunta nâo tem uma única resposta. É uma pergunta que ... O importante é a sua opinião e' sua criatividade. Anne! 116. 8:32 Mara: Uma vida melhor, uma casa, uma família, uma cama quentinha e muito amor e carinho. 117. 8:32 Pedro: Ele quer o que a sociedade não dá: amor e carinho. 118. 3:32 Prof.: Muito amor e carinho. Gostei. Gostei da resposta [fala acelerada]. Amor e carinho. 119. 8:33 Lilian: Professor! 120. .:33 Mara: Eu pus jogar futebol também. 121. 8:33 Prof.: Hum? 122. i:33 André: Eu pus jogar futebol, também. Ele quer viver a infância. Prof.: Tudo bem. Pode [...] pode sonhar em jogar futebol, pode estar sonhando com outras coisas [...J.Psi''"' questão 6: Leia Vera. 123. 3:33 Vera: "Observe para onde se dirige o olhar da escultura. Imagina que esteja falando com alguma autorid Quem é essa autoridade? 124. 8:33 125. 8:33 Prof.: Então, vamos responder! Quem é es.sa autoridade? 126. 3:33 Débora: E o prefeito! 127. 3:33 ((Pesq.: Alguns alunos falam juntos}) 128. 8:33 Prof.: Pode ser o prefeito, pode ser o governador, pode ser... 129. 8:33 Mara: Eu pus o Lula! 130. 8:34 ((Pesq.: Mateus levanta o braço)) 131. 8:34 Prof.: Pode ler. Vera. 132. 8:34 Vera: "Que palavras você colocaria na boca da escuItura?" 133. 3:34 ((Pesq.: I arios alunos falam juntos do presidente)) 350 N° HOR ——^— (<-onliiuia) A ENENTO 134. 8;34 Prof.: Ouem yostaria de ler o que escreveu nessa dai? .lúlia! 135. 8:34 Silvia: Eu coloquei que a autoridade era um policial... 136. 8:34 Prof.; Ah. sim... 137. 8:34 João Vítor: Eu coloquei que a autoridade era um policial |...|E ele está falando: l)ei.\a. deixa o menino dormir aqui. E o ijnico colo que ele tem. 138. 8:34 César: Hum! (risos). 139. 8:34 Prof.: "Não acorda esse menino não. vai acordar o menino à toa?"". 140. 8:34 Silvia: É... "deixa ele donnir aqui. E depois, arrume um luüar para ele llcar"". 141. 8:34 (ÍPesq.: Ruth levanta a mão pedindo a Pedro para falar li 142. 8:34 Prof.: Fala Ruth. 143. 8:35 Nina: Olha o que eu escrevi: "Que país e esse com tanto menino abandonado, cheirando cola e você vê isso e não faz nada""? 144. 8:35 (ÍPesq.: Mateus balança a cabeça afirmativamenteH 145. 8:35 Prof.; One pais é esse? 146. 8:35 Fernando: "Que pais é es.se? Que pais é e.s.se?"" 147. 8:35 ffPesq.; Carlos canta refrão da música "Que pais é esse? "do Cazuza!! 148. 8:36 Cristina: Olha o meu: "Eu darei um kir a es.sa criança. Porque o Senhor Prefeito não é capa/ dc dar uin abrigo, um prato de comida e escola pra ele..."" 149. 8:36 Fernando: Lecal! 150. 8:36 VA: Risos 151. 8:36 Prof.; Que lecal! 152. 8:36 (ÍPesq.: Pedro bate palmas para a resposta de Bárbarall 153. 8:37 Prof.; Questão 6: Qual que é a autoridade? 154. 8:37 Mara: 0 Lula. Eu coloquei que a autoridade era o Lula. 155. 8:37 Prof.: 0 Lula? 156. 8:37 ÍÍPesq.; Risosll 157. 8:37 César: E. [...] Olha a minha resposta: Você acha Justo esse menino viver aqui? Deitado no meu colo com frio e com fome ao invés de estar em uma cama macia, debaixo do cobertor?""Elc tem direito de ter um a vida melhor. Onde está a família dele? Na rua também? 0 pai e a mãe dele e.stão de.sempregados? Ele não está feliz com essa vida! 158. 8:37 Lilian; E. ele deve estar com fome. ele deve e.star .sofrendo muito. 159. 8:38 César: E mesmo... 160. 8:38 Mara: Eu ainda acrescentei: Enquanto o senhor tem 100% de uma vida conl'ortável? Você acha isso Justo? Justo no Brasil o abandono de tantas crianças? 161. 8:38 ÍÍPesq.: Um aluno bate palmas para a resposta de Anne)) 162. 8:38 Prof.: Muito bom. 163. 1 8:38 Mara; E isso que eu acho. 164. 8:38 Prof.; Mais alauém quer ler o que escreveu? 165. 8:38 Débora: Mateus, a Lilian colocou assim: "Seu lllho da puta. tira esse menino daqui. Hle tá pe.sado demais!"" 166. 8:38 ÍÍPpsq. ■ Risos na turma. O professor não se manifesta!) 167. 8:38 Cristina: Veja as idéias de.sse povo f...) 168. 8:38 Prof.: Psiiiu! 169. 8:39 Vera: Deixa eu ler a 7. Pedro? 170. 8:39 Prof.: Podemos passar para a questão 7? Leia Marcos. 171. 8:39 Roberto: Crie um título para a foto. Ju.stifique a sua resposta. 172. 8:39 1'era: Eu vou ler! 173. 8:40 íPesq ■ Pedro está parado na frente da sala esperando silencio dos alunos)! 174. 8:41 Vina: Como o mundo está hoje? Porque existem crianças e adultos abandonados? 1 or que exi.ste lome. niséria e exclusão? Esse menino quer ser feliz. 175. 8:42 í 'edro: Então, a noticia .seria: "Como o mundo e.stá hqie . [...] Cerlo 176. 8'43 ÍPesq ■ 0 Profecsor faz o sinal de tmindo com o polesar da mao esquet da. 177. 8-43 F Loberto' Aeora liga o som pra eente ou\'ir a música Comida do Titãs^ 178. 8:43 P rof • Mais alguém'' Não sei se vai dar tempo de ouvir a musica não. Vamos tentar. 179. 180. 181. 8:43 ^ 8:43 P 8'43 IV Iara: Eu pus dormindo com o an)0. — rof.: Você pôs o que? Iara- Dormindo com o anio. [...]£ poraue a mulher parece com um an|0. 182. 183. 184. 185. 8:44 r( 8:44 V 8:44 rr P S:44 M Pesq ■ Alguns alunos riem da resposta de Anne!) Um aluno chega perto do Projessor e mostra o caderno. O ■ofessor orienta o aluno )) — ara: Mas parece, sente! I aiece um anjch 351 (Continua) HORA EVENTO 8:45 Pedro: Pessoal! Psiiiu! Apesar de estar dificil conversar com a turma, a gente está com uma aula dialogada. Eu peço atenção. Na verdade, de quê a gente precisa na vida? 8:45 Mara: Ah. um tanto de coisa! 8:45 ANI: Estudo. 8:45 VA: Saúde! 8:45 ((Pesq.: O Professor Mateus se vira para o quadro e começa a anotar)) 8:45 Fernando: Dicnidade. 8:45 VA: Dinheiro! 8:45 ((Pesq.; O Professor escreve no quadro: Dinheiro)) 8:45 César: Saúde! 8:45 Nina: Eu acho que... eu acho que são as coisas básicas. 8:46 ((Pesq.: Anne levanta a mão pedindo ao Professor a palavra)) 8:47 Mara: Eu acho que a coisa básica ali é a... i:48 Prof.: Você já falou uma coisa que eu ia dizer: a gente tem necessidades básicas[...]. Por exemplo [...] Ter um celular é uma necessidade? 8:48 ((Pesíf.: O professor escreve no quadro a palavra "básicas ")) 8:48 VA: E! 8:48 ANI: Não! ?:48 Vera: E sim! 8:48 Prof.: E básico? 8:48 T: E! 8:48 Lilian: E de necessidade sim! :48 Mara: Eu acho que a necessidade básica é felicidade. Porque você tá feliz, é porque você deve ter tudo que você quer, né? - 8:48 César: Uai! Aí você morre de fome? 8:48 Prof.: Adianta ser feliz sem ter o que comer? Será que tem Jeito? 8:48 T: Não! 8:48 Mara: Uai, mas se você tá feliz, é porque tá bom! 8:49 Prof.: Vamos dizer então que a felicidade é uma conseqüência de ter as necessidades atendidas. 8:49 Mara: Comida! ::49 Roberto: Arroz com feijão! 8:49 ((Pesq.: O professor começa a anotar no quadro algumas palavras)) 8:49 Vera: Dianidade! ::49 Cristina: Moradia! 8:49 Prof.: Moradia e... [Pedro segura em sua camisa e mostra aos alunos]. :50 VA: Roupa! :50 Fernando: Casa, comida e roupa lavada! E tudo que eu quero! Money no bolso, rê.rê! ((Pesq.: Risos)) í:51 Prof.: Vamos fazer o seguinte: Eu quero que a gente pense as necessidades básicas. [...] Básicas mesmo- para qualquer ser humano, independente da sociedade em que ele vive. Mara: Aaua. :51 Celso: Alimento. Anne! 8:53 Robson: Família. :53 Prof: Psiiiu [...] Vocês falaram aí: família mesmo assim, elas sobrevivem. A gente precisa? Nem sempre as pessoas têm família, nias :53 T: E. é I e mesmo. :53 Prof.: Mas uma coisa é certa: a gente precisa [...] :53 César: De uma pessoa pra cuidar de nós. 8:54 Robson: Dos outros. :54 Mara: Saúde? :54 Prof.: Não. A saúde é uma coisa que você tem ou não tem. :54 Mara: Ah. tá. 8:54 Vera: Eu tenho saúde de sobra. :54 Débora: Ah tem sim... de sobra, ui! :54 Prof.: Não é uma necessidade externa. E uma coisa que está em você. :55 Teresa: Amor e carinho. :55 Nina: Uai, e também, tipo assim: a gente precisa do outro. :56 Silvia: Carinho, compreensão, justiça. :56 Roberto: Essa daí vai .ser... Governadora. 352 N°. HOR. — (( oncliisilo) \ E\ENTO 240. 8:56 Prof.: Gente, vamos voltar aqui: quais sao as necessidades básicas que a gente piecisa? Dos oulros. i: |...| é uma coisa que as pesquisas em Biologiajá provaram e tudo mais: é necessário aleto. Afeto é uma coi.sa mais objetiva que o amor. Afeto é contato corporal com os outros e respeito. (...| .Sabe como é que os cientistas descobriram isso? Quando nasce um filhote de qualquer tipo de ruminante: .seja um be/.erro. seia o fillnile do cervo? Você sabe o que é cervo? 241. 8:56 VA: não! 242. 8:56 Vera: Sei. eu sei! 243. 8:56 Prof.: E a cria de um veado. 244. 8.56 1 Roberto: Que veado, é viado! 245. 8:57 Prof.: Quando esses animais nascem, a mãe lambe o filhote. 246. 8:57 VA: Ercht. eca! 247. 8:57 Prof.: Pesquisadores Já conlirmaram que se por algum motivo o filhote náo recebe es.se primeiro banho de língua que a mãe dá. ele .se torna um filhote deprimido e anti-.social. Ele não .socializa com os outros do meio. Então, a falta de afeto, a falta de toque faz diferença no desenvoK imento de um maniifero. Então, es.sas necessidades .são básicas pra qualquer ser humano. Agora, essas necessidades, dependem da .sociedade. Por exemplo, que nece.ssidades vocês acham que .são as primária.s. as que nós mais precisamos'' 248. 8:57 ((Pesq.: 0 Professor escreve no quadro. Vários alunos comemam. 0 Professor escreve no quadro a palavra respeito)) 249. 8:57 Lilian: Mas .se você não tiver dinheiro, como você vai ter arroz e feijão? 250. 8:58 Prof.: Geralmente, você pode consecuir plantando e colhendo. 251. 8:58 1 VA; Ai. ai. ai! 252.. 8:58 Fernando: Vai demorar demais, uai! 253. 8:58 Roberto: Demora demai.s. fes.sor! 254. 8:58 Gustavo: Aí você morre de fome! 255. 8:58 Prof.: imagina o seguinte: .se tivesse uma guerra. |...]. Qu então, tivesse um problema ambiental sério. E na cidade não tivesse mais água e nem luz. [...]. As pessoas teriam que sobreviver mais em contato com a natureza. Não é? 256. 8:59 ((Pesq.: Pedro escreve no quadro: tocé tem sede de quê? 1'ocê tem fome de quê? Trecho da Música de Titãs: Comida)) 257. 8:59 ANI: Coloca a mtísica. professor! 258. 8:59 Prof.: A aula está terminando, então quero que vocês retomem as questões que discutimos na .seqüência e em .seguida escreva uma carta para uma autoridade pedido solução para este problema. Pode .ser para o prefeito, o governador, ou mesmo o presidente. Na próxima aula a cente e.scuta a mtísica. ok? 259. 8:59 Fernando: E a miisica? Coloca aí professor! Não vai dar tempo de e.screver amira não. 260. 8:59 Robson: Eu vou por a boca no trombone. 261. 9:00 VIarta: Quantas linhas tem que ter essa carta? 262. 9:00 'rof.: Eu não vou olhar o tamanho não. Eu vou olhar o conteúdo. 263. 9:02 VIarta: Então eu vou fazer pequena mesmo. 264. 9:02 'rof.: Veja bem. eu pedi uma carta. Você Já sabe o que uma cana tem que ler. E lembrem-se que ê uma carta ara uma autoridade. Cuidado com a linguagem. 265. 9:02 / kndré: Tá bom. fessor. 266. 9:02 í fPesq.: Os alunos começam a guardar o material para trocar de sala. Toca o sinal para o recreio)) [fim da ravaçõoj. Fonte: Notas de campo etnográficas, Caderno I, p. 25-29, 2007 e gravação, fita 1 e 2. 7/2/2007. j5J ANEXO 7 Relação de livros didáticos - Escola 2 Português: SARGENTIM, H. G. Palavras - 8= série. 1. ed. São Paulo: IBEP, 2002. (PNLD 2005) FARACO. C. E; MOURA, F. M. Linguagem nova. São Paulo: Ática. 2002. (PNLD 2002) Inglês: AMOS, E.; PRESCHER, E. Longman: Pearson Education do Brasil. New Ace. 2003. v. 3, HOLLANENDER. A. The land mark dictionaiy: English/Portuguese, Portuguese/English. 3 ed. São Paulo. Moderna, 2005. Geografia: BOLIGIAN, L. (Org.). Geografia: espaço e vivência. A dinâmica do espaço global: o mundo descoberto. 8^ série. São Paulo: Atual. 2001. (PNLD 2005) BOLIGIAN, L. (Org.). África. In: BOLIGIAN, L; MARTINEZ, R.; GARCIA, W.; ALVES, A. O espaço geográfico mundial: o mundo subdesenvolvido. T série. São Paulo: Atual, 2001. (PNLD 2005) SIMIELLI, M. E. Geoatlas. São Paulo: Ática. 2003. História: PILETTl, N.; PILETTI, C. História e vida integrada. São Paulo: Ática, 2002. (PNLD 2005) SCHMIDT, M. F. Nova história crítica. T série. Ed. Nova Geração. 2005. (PNLD 2002) BRENER. Jayme. Retrospectiva do século XX: a segunda guerra mundial. O planeta em chamas. Ed. Ática, 2002. Ciências: GEWANDSZNAJDER. F. Ciências: matéria e energia - 8" série. 2^ ed. 2" reimpressão: Ática. 2005. (PNLD 2005) Matemática: GIOVANNI, J. R. A conquista da matemática - 8" série. A + nova. São Paulo: FTD, 2002. (PNLD 2005) ANEXO 8 Técnica entrevista/Questionário aluno 354 Aluno (a) Idade; I. Dados sobre a trajetória escolar 01. Você entrou na EMPEP na 5"'' série? () Sim () Não Entrei na: 02. Você já foi reprovado? () Sim () Não Em que série? 03. Total de reprovações na trajetória escolar: 04. Você participou de alaum projeto da escola de intervenção pedaíjóízica? () Sim () Não Qual? 05. Você participa do Projeto Escola Integrada oferecido por sua escola? () Sim () Não Que tipo de atividades são desenvolvidas nesse projeto? 06. Pense na sua trajetória escolar e destaque algumas capacidades adquiridas na escola. 355 II. Relacionamento com os professores, colegas e conhecimento escolar 07. De tudo o que você faz na escola, de que você mais gosta? 08. Dentre as disciplinas que você estuda, qual a de que você mais gosta? Por quê? 09. E de que você menos gosta? Por quê? 10. Quais as "coisas" que você gostaria que seus professores fizessem? 356 11. Você tem alguma dificuldade em ler? Escrever? Falar? Fazer exercícios? Por quê? III. Letramento 12. O que você faz no horário complementar (após) a escola? 13. Que tipo de gênero textual você utiliza fora da escola? () Livros () Revistas () Jornal () Quadrinhos () Folheto religioso () Outros. Citar; 14. Você gosta de ler? () Sim () Não 15. De que tipo de leitura você mais gosta? () Policial () Romance () Suspense () Bíblia e/ou religioso () Gibi () Revistas () Contos () Livros de autoajuda () Outros. Citar: 16. Como você consegue esse material? 17. Você tem acesso à internet? () Sim () Não Onde? () Na escola () Em Lan house () Em casa 357 18.0 que você faz quanto usa o computador? () Faço pesquisas e trabalhos () Jogar/brincar () Uso MSN/Orkut () Navego na internet em vários sites () Outros. Citar: ^ 19. Você gosta de escrever? () Sim () Não 20. Você acha difícil ou fácil produzir um texto? Por quê? 21. Como você utiliza a escrita fora da escola? 22. A partir da sua experiência com a leitura e a escrita você se considera: () um bom leitor e escritor () um leitor e escritor mediano O um leitor e um escritor com dificuldades () um leitor e um escritor com muitas dificuldades 358 ANEXO 9 Técnica entrevista/Questionário professor Professor(a): Disciplina: I. Dados sobre a formação e experiência profissional 1.1. Graduação em: 1.2. Pós-graduação/Especialização; 1.3. Tempo de atuação profissional: 1.4. Tempo profissional nesta escola: II. Dados sobre a prática docente 2.1. Quais são as dificuldades que os alunos revelam na sua disciplina? 2.2. O que você faz para sanar e/ou minimizar as dificuldades? 359 2.3. Qual a importância do livro didático nesse trabalho que você desenvolve? E como ele foi escolhido? 2.4. Que capacidades você considera importante na leitura e produção de texto? Seus alunos apresentam essas capacidades? 2.5. Quando você considera que o seu aluno compreendeu um texto, atividade ou proposta da sua disciplina? 2.6. Que expectativas você tem em relação ao desempenho dos alunos na sua disciplina? 360 TÉCNICA: ENTREVISTA PROFESSOR Tipo de entrevista: Semiestmtrurada Escola MPEP Professor(a): Data da entrevista: I. Prática docente 01. Fale da sua proposta de trabalho e das atividades desenvolvidas em sala de aula. 02. Aponte e comente os resultados positivos da sua prática. 03. Aponte e comente os desafios enfrentados em sala de aula na sua disciplina. 04. Fale da turma e do desempenho dela em sua disciplina. 05. Fale das capacidades e competências que você almeja desenvolver nos alunos em sua disciplina. II. Espaço para livre expressão.. 361 ANEXO 10 Evento de letramento - Aula de Ciências, 8" série do Ensino Fundamental (Conlinua) N". HORA EVENTO !. 8:10 (íPesq.: Os alunos estão na sala. excesso de ruído, fala conjunta. Conforme planejamento da Professora Rosana essa aula será um seminário para discussão do tema Drogas. Em aulas anteriores os alunos leram 0 texto de divulgação científica "Drogas: cuidando da saúde participaram de aula expositiva e ao final tiveram tempo de produzir um texto síntese sobre o que aprenderam sobre o tema drogas.)) 2, 8:11 Prof.; [inaudívelj [...] Para poder colocar em pauta na discussão, está bom? Então a redação vai ser um incentivo para começar uma discussão sobre o assunto, que nós. na verdade não chegamos a debater muito, não é? 3. 8:10 Vera: Debatemos. Já, fcssora. 4. 8:10 Prof.: E 1...] Mas cada hora de um jeito diferente. Então agora, talvez, possa fluir mais o assuntof...] 5. 8:10 Vera: E quem não quiser ler a dela? 6. 8:10 Prof.: Oi? 7. 8:10 Vera: E quem não quiser ler a dela? 8. 8:10 Prof.: Quem não quiser ler? 9. 8:10 Vera: Isso. 10. 8:10 Prof.: Tudo bem. não é? 11. 8:10 Vera: Porque a minha não ficou muito boa não. 12. 8:10 ((Pesq.: .'\lunos falam juntos. Alguns fazem comentários sobre os seus textos)) 13. 8:11 Nina: Vai ter que ler lá na frente? 14. 8:11 Lilian: Ah. eu não queria ler não [..,] 15. 8:11 Prof.: A Nina vai ler aqui na frente! Vamos fazer um círculo, então? 16. 8:12 ANI: Todo mundo vai levantar? 17. 8:12 Prof.: Quem está na frente faz assim ((A professora gesticula com os braços o formato de um círculo)) 18. 8:12 Fernando: Um círculo! 19. 8:12 a8;13 ((Pesq.: .4lunos começam a arrastar carteiras. Alguns deles se levantam e carregam as próprias cadeiras e carteiras. Outros, assentados, arrastam as cadeiras e as carteiras para os cantos da parede, [ruído excessivo]. Professora coordena os alunos para a montagem do círculo.)) 20. 8:13 Prof.: Bom. então vamos começar (...] 21. 8:13 ((Pesq.: 0 barulho de carteiras arrastando ainda é bastante alto. A Professora Rosana se levanta e obseixa os alunos, esperando que os mesmos terminem a movimentação e façam silêncio.)) 22. 8:13 Prof.: Vamos pensar um pouco, refletir a partir da leitura do colega [...] Porque às vezes, você pensa de um jeito e 0 seu colega pensa de outro. E quando a gente troca essas informações, essas idéias, a gente enriquece a nossa forma de pensar. Então muitas vezes esse debate aqui ele se faz necessário pra gente crescer mais. Crescer mais para fazermos iuntos. Então, quem vai ler primeiro? _ 23. 8:13 T: Fala Nina! 24. 8:13 Nina: Ah. eu não [...] 25. 8:13 ((Pesq.: Alunos conversam. Roberto levanta a mão e pede a palavra para a professora.)) 26. 8:13 Prof.: Pode ler Roberto. Bem alto. 27. 8:14 ((Pesq.: Roberto começa a ler)) 28. 8:14 Roberto: "A droga. E um trem muito ruim pra gente [...]" Para essa transcrição foram adotadas as seguintes convenções; Prof.: = professora; VA= vários alunos; ((Pesq.))= informações contextuais e pistas de contextualização fornecidas pela pesquisadora; T= turma; [..-l = pausa e ANL = aluno não identificado. Data; 3/8/2007 - Aula de Ciências, leitura e discussão de textos produzidos pelos alunos sobre o tema Drogas. 362 (Conlimi;!) N°. HOIM EVENTO 29. 8:14 \'.A: Trem? 30. 8:14 KPesq.: Alguns alunos começam a rir da leitura de Roberto)) 31. 8:14 Prof.: Sem riso.s. penie, Porque a jzcnte está üizendo uma análise dos lexlos ajiora. 32. 8:14 ((Pesq.: Roberto retorna à leitura)) 33. 8:14 Roberto: "A droga é um trem muito ruim porque quando você entra nilo consegue parar mais. Você uào consegue parar de fumar. E ela também causa cansaço e estresse. A droga interfere no funcionanienlo do organismo. Substancias como maconha e cocaína são muito prejudiciais. Antigamenle a maioria dos medicamentos eram feitos a base de vegetais. Alguns foram considerados prejudiciais, |,.,| I' |,..| Ah. isso não pode não. Prejudica a saúde dele. faz mal ao pulmão. A pe.ssoa Ilea cansada e Ilea estressada. Não agüenta ficar sem fumar porque virou um dependente. A melhor atitude é evitar o vicio, Superar as dificuldades e sair do mundo das drogas é muito difícil. Por isso o melhor é não se envolver com elas, " 34. 8:15 Prof.: Olha que interessante [...] Ele falou de duas coisas que eu percebi, não é? 'l alvez vocês viram mais coisas. Quem gostaria de falar? É comigo? 35. 8:15 ((Pesq.; Alguém abre a porta da sala e chama a professora. A mesma se levanta para atender e pede um tempo para os alunos. Aumenta o volume da conversa.)) 36, 8:15 Prof.: Um minuto cente. já volto. 37. 8:15 Vera: Eu não quero ler a minha não! 38. 8:16 ((Pesq.: A professora retorna a sala. Os alunos agora falam menos e mais baixo. O aluno ipw fez a leitura do seu texto conversa com um colega ao seu lado)) 39. 8:16 Prof.: Eu observei dois pontos importantes. Que muitas vezes o adolescente, ele se envolve com as drogas por curiosidade, ((professora se levanta e põe a mão no ombro do aluno que fez a leitura do texto, ü menino se cala imediatamente)) [...] Então, ele deu aqui a sugestão [...] Ele acabou dando uma sugestão de ler força e resistir à curiosidade. E outro [...], Outra coisa que eu obser\ei na redação dele c que ele falou muito sobre a dependência, que o lado negativo da droga é provocar a dependência do indivíduo, não c? Do organismo, e daí então, a pessoa fica escravo daquela substância. Não é? Foram duas coisas que eu observei. C você.s? 0 quê vocês observaram de importante na redação dele. nas palavras dele? 40. 8:17 Célia: Eu não consecui prestar muita atenção não. 41. 8:17 Prof.: Não? 42. 8:17 Célia: Entendi que a drosza vicia. 43. 8:17 Prof.: E. Vocês têm que concentrar mais. não é? Não pode brincar tanto.'] em que concentrar para ob.servar 0 quê está sendo colocado ali como fator relevante. [...] Então, pode pas.sar pra frente? 44. 8:17 T: Pode. 45. 8:17 Prof.: Alguém quer fazer alguma colocação? f..,] ((A turma permanece em silêncio,)) Tudo bem? 46, 8:17 ((Pesq.: A professora cutuca o aluno que fez a leitura do texto e pergunta algo para ele. 0 aluno balança a cabeça negativamente.)) 47. 8:17 Prof.: Então vamos pa.ssar pra frente. Nina. você quer ler agora? 48. 8:18 Nina: Eu não! Eu estou olhando aqui. eu estou com vergonha (...| 49. 8:18 Fernando: Vai lá. sô. você é boba? Ninsuém vai te zoar não! 50. 8:18 ((Pesq.: Nina muda de idéia e pega seu texto e se prepara para ler)) 51. 8:19 Roberto: Olha que leaal. a Nina faz tudo. '52 8:19 ((Pesq.: A ahma começa a ler o seu texto. Fala acelerada.)) 53. 8:19 Nina: Tá bom. "Drogas [.,.]. Drogas são substâncias capazes de modificar o luncionamenlo do organismo. Algumas das muito faladas são maconha, crack, êxtase, cocaína e álcool. Muitas pe.s.soas. geralmente jovens, começam a usar drogas por inlluência dos amigos ou brigas na família. Começam a usar para relaxar, falam que não vão viciar e muitas vezes, em apenas uma única vez depois de ter usado. Já viciam e se tornam dependentes. Não conseguem controlar a vontade de usar a substância. A pessoa começa a mudar de comportamento, a se isolar, a ficar agressiva e tem várias outras reações que as drogas lhes causa |„.|. llá [rês catecorias de drogas: as depressora.s. as alucinógenas e as e.stimulantes. As drogas .só trazem coi.sas ruins". — 54. 8-19 ANI: 0 quê? — 55. 8:19 Nina- ■'[ ] E muitas das vezes, a maioria delas causa situações de aboriecimemo. iiisiezas. biigas. acidentesrdoenças e infelizmente, mortes. Os fumantes têm mais chance de adquirir doenças cardíacas. Os que consomem álcool têm várias reações no organismo. Agora, fala sério. Que bobagem e essa? No mundo ias ^ro"a- v.vin. dependências, eu quero é distancia! Dois pontos". 56 819 Prof.: Interessante demais! 57. 58. 59. 60. 61. 62. 63. 8:19 8:19 8:19 8:20 8:20 8:20 ( 8:20 I 'ÍPesq ■ IA batem palmas para a leitura de h ma. Ela sorri um tamo envei gonhada.)) Crof.: Você colocou aí dados importantes, não é?^ iiinn- F„ nrhei. nrofessora. que ela tem razão aroga so traz coisasmms, ^^ k'era- Eu achei que ela. assim, tudo o aue ela falou é verdade, porque a maioria das ve/es e brij^a na lamilia, ara: É isso mesmo! (Pesq.: Nina olha paia os lados e soifi.)) 'rof.: Briaa na família? (Continua) N°. HORA EVENTO 64, 8:20 Vera: E, Muitas vezes a pessoa tenta esqueeer os problemas usando droeas. 65, 8:20 Fernando; Ah! Mas não é bem isso não. 66, 8:20 Prof.: Escapar dos problemas, refugiar, mascarando com o uso das drogas? 67, 8:20 ((Pesq.: Alunos comentam entre si a fala da professot-a)) 68, 8:20 César: E veio. muita coisa interfere na decisão do cara. 69, 8:20 Débora: Foi interessante o que ela leu, imagina o pulmêo de quem fuma todo dia? 70, 8:20 Roberto: Ainda bem que eu nunca me.\i com isso! Graças a Deus! 71. 8:20 Prof.: 0 uso das drogas [,,,] 0 que leva uma pessoa a entrar no mundo das drogas, não é? Os efeitos das dro2as no organismo e as conseqüências. Então, ela tocou em vários pontos, importantes, não foi? 72, 8:20 ((Pesq.: Nina está com a mão no rosto e olha para a professora. Enquanto isso, l era está anotando algo em seu caderno)) 73, 8:20 Professora: Um dos fatores que eu não peguei no início da redação, que eu não consegui concentrar muito não, Mas a parte que eu peguei foi a que você falou ((professora se dirige a Nina)) sobre brigas na família, como a Vera lembrou bem aqui, Tem então problemas familiares que levam as pes.soas. às vezes, a bu.scar as drogas, ((professora gesticula com as mãos» 74, 8:20 ((Pesq.: A professora se dirigi a Nina. gesticula/ido com as mãos.)) 75, 8:21 Prof.: Então, não é só a curiosidade, não é? 0 que mais [,..] Você colocou mais alguma coisa? 0 que leva a pessoa a buscar as drogas? 76, 8:21 Nina: E f...| influência dos amigos também. 77, 8:21 Prof.: A influência dos amieos. não ê? E depois [...1 78, 8:21 Mônica: Também, pode ser outros problemas. A pessoa não fala com ninguém, fica nervoso, sei lá [.,.| 79, 8:21 Iara: Tem gente que usa pra relaxar também. 80. 8:21 Débora: Acho que ninguém vai fazer i.sso não. 81, 8:21 Lucas: Ah. pra relaxar? Faz sim. 82, 8:21 ((Pesq.; I'A comentam sobre usar drogas para relaxar. Fala conjunta.)) 83. 8:21 Vera: E [,,,1 eu conheço uma pessoa perto de casa. 84. 8:21 Célia: Ah. eu sei quem é. 85. 8:21 ((Pesq.: Alunos comentam entre si as suas opiniões. Professora gesticula com as mãos. Fala conjunta.)) 86. 8:21 Celso: Eu acho que o efeito da droga é outro. 87. 8:21 Prof.: Agora, psiiiu f...l Vamos concentrar aqui! 88. 8:21 ((Pesq.: Alunos conversam sobre o tema. excesso de ruído na sala.)) 89, 8:22 Prof.: Vamos colaborar, por gentileza [...] Então, depois ela falou de quê ? [...] 0 que a droga vai causar no organismo, a dependência, não foi isso oh Nina? Além da dependência o que mais você acrescentou [.-.1? 90, 8:22 ((Pesq.: A lunos se calam um pouco.)) 91, 8:22 Nina: Foi. Eu falei .sobre as categorias de droeas. E dos problemas que ela cau.sa na vida das pessoas. 92, 8:22 ((Pesq.: l arios alunos observam o debate em silêncio outros estão fazendo anotação no caderno.)) 93, 8:22 a 8:23 Prof.: As conseqüências são várias. É [...]. Você falou da dependência dos componentes químicos, não é? E depois você foi nas conseqüências. Você classificou as drogas, não é? Ela classificou conforme os nossos estudos. Além disso, ela citou algumas das conseqüências das drogas: tristeza agressão, violência é [...] as doenças. Você tratou das drogas em geral, não foi [...] você também falou do álcool, do cigarro. Tem o problema do álcool no trânsito. Isso é .sério demais. _ 94, 8:23 ((Pesq.: Enquanto fala. a professora dirige seus comentários a Nina. Nina tampa o rosto com uma das mãos coberta pela manga da blusa de frio que está vestida.)) _ 95, 8:24 Prof.: Eu acho que ficou bom, Você tratou das drogas em geral, Muitos pontos nós comentamos nas aulas, E assim, você pegou um pouquinho de cada coisa não foi? Você quer comentar? Quer acrescentar aleo? _ 96, 8:24 Nina: Eu acho que é isso aí mesmo, que a gente já falou, 97, 8:24 ((Pesq.: Fernando sorri.)) _ 98, 8:24 Professora: Então aaora. quem vai ler? _ 99, 8:24 ANI: Eu acho que f..,] 100, 8:24 Prof.: Você quer ler? Iara? 101, 8:24 Iara: Eu leio. 102, 8:24 ((Pesq.: Iara dá um sorriso e pega o seu texto e se prepara para ler. Alguns alunos conversam.)) , 103, 8:24 César: Espera aí. espera aí! 0 texto tem duas folhas? . 104, 8:24 ((Pesq.: Aluno faz esse comentário ao ver o texto da colega.)) 105, 8:24 Iara: Que duas folhas, meu filho? 106, 8:24 ((Pesq.: Alí;uns alunos conversam antes de Iara iniciar a leitura.)) 107, 8:24 a 8:25 Iara: "As drogas fazem parte do nosso cotidiano. As pessoas usam drogas para ficarem acordadas ou dormindo, para emagrecer ou engordar, para buscar mais inspiração ou ficar mais sociáveis, para aliviar dores ou angústias, para imitar outras pessoas, ou para atender as suas expectativas. Em geral quem usa drogas está tentando re.solver algum tipo de problema, experimentar prazer ou evitar o desprazer, Muitos permanecem como meros usuários sem estabelecer com a droga uma relação problemática, 364 N°. HOR. (I. imlimia) EVENTO 107 8:24 a 8:25 Iara: (...] Ilá drogas perturbadoras, estimulantes, depressoras, llá também o álcool. 0 álcool c considerado uma droga psico [,„] psicotrópica. tipo a cerveja, por exemplo, é uma bebida produzida por rermemavao. com baixo teor alcoólico, cerca de 8%, .lá os destilados como o uísque, a pinga e a vodka apresentam leores mais altos, que podem chegar a 45%. 0 consumo do álcool traz conseqüências graves, como: doenças em todos os órgãos do corpo humano, em especial no estômago, o figado. o coração e o cérebro. Doenças de cirrose, anemia, pelagra ((fala acelerada)) E o álcool afeta ainda parte do cérebro que controla a freqüência respiratória e cardíaca durante a gravidez. 0 álcool pode causar .sérias dellciências físicas ou mentais no feto. como uma predisposição ao consumo de álcool na vida adulta. 0 crack é uma mi.stura de cocaína em forma de pa.sta não refinada com bicarbonato de sódio. Es.sa droga se apresenta na forma de pequenas pedras que pode ser até cinco vezes mais poderosa do que a cocaína. 0 eleito do crack dura em média, dez minutos. Sua principal forma de consumo é a inalação da fumaça consumida pela queima da pedra. H a heroína |.,.|, A heroína é uma variação de morfina, que por sua vez é uma variação de ópio. obtida pela planta denominada papoula", baixa e acelerada)} 108. 8:26 Prof.: Você se inspirou aonde? De onde você tirou a inspiração desse texto? Comenta pra gente de onde vieram as idéias f...] 109. 8:26 Iara: Fiz uma pesquisa na internet e no material que você deu. no. 8:26 a 8:27 Prof.: Ah. tá. Então você fez uma pesquisa? Hum [...],Você falou assim, não e? Hcm detalhado. 1'oi super interessante o que você leu aí. não é? Você quer comentar alguma coisa? Quem quer comentar, gente? 0 que achou de interessante da leitura dela? Pode falar f...] 111. 8:27 Débora: Ah. eu quero comentar uma coisa, Ela falou que as drogas fazem parte do nos.so cotidiano, Mas eu acho que não de todo mundo, assim. Entendeu? 112. 8:27 Roberto: É. fuma uma pedra pra você ver. 113, 8:27 Prof.: Na verdade, eu acho que as drogas tão bem di.sseminadas sim. Elas estão espalhadas. Elas estão muito próximas das pessoas, sabe? 114. 8:27 Débora: Mas não de todo mundo. 115. 8:27 a 8:28 Prof.: Mas não é todo mundo que é seduzido, graças a Deus. não é? Então, ainda bem que as pessoas tem discernimento, .sabem escolher, não é? 0 quê é melhor pra si, Mas que as drogas e.stão muito próximas, estão. Estão no cotidiano sim. estão no dia a dia, Muitos de vocês mesmos deram depoimento aqui dentro da sala de aula sobre alguém da família f,.,] 116, 8:28 Roberto: Eu tinha. 117. 8:28 Prof.: Não é? Então alguém da família é alguém muito próximo, gente! Isso é muito triste porque l.,,| Eu. na minha época de adolescência, eu via as drogas, assim, mais distante, Moje. como adulta, eu estou vendo as drogas muito mais próxima, sabe? E aí. é um fator preocupante, que a gente tem que discutir ba.stante. refletir, Porque vocês, como eu Já disse, vocês estão numa fase. assim, de começar a descobrir o mundo e de começar a aprender a fazer as suas escolhas. Então, vocês têm que formar a sua per.sonalidade. saber o quê que você quer da vida pra depois você não cair em uma escolha dessas, não é? É assim a minha forma de pensar, 0 quê vocês acham? 118. 8:28 Fernando: E. eu também acho. 119. 8:28 (fPesq.: Alunos escutam calados, mtiilos deles com as mãos no rosto, ouvindo, alguns debruçados sohre as mesas.)) 120. 8:29 Prof.: É um momento de formação da personalidade de vocês, e de fazer as escolhas, |...J Aeora \ amos ver aquele cantinho ali. 121. 8:29 ((Pesq.: Professora aponta para o seu lado esquerdo no circulo de carteiras. Alguns alunos estão cumulos sohre as carteiras, um deles sorri e outra aluna está com a mão no rosto, pensativa.)) 122. 8:29 Prof.: Quem se habilita a ler? Célia, quer ler? 123, 8:29 Fernando: Sorria. Célia! 124, 8:29 Prof.: A Célia gosta de ler. 125. 8:29 ((Pesa.: Célia sorri, pega o seu texto e se prepara para a leitura.)J 126. 8:29 Prof.: Douclas! 127. 8:29 '(Pesq.: Alunos conversam bastante. Excesso de ruído.)) 128. 8:29 Prof: Psiiiu' Pessoal, ela vai começar a leitura, f,..] Dá licença, por favor. 129. 8:29 (Pesq • Célia sorri e se^tirando a folha, espera para começar sua leitura.» 130. 8:29 I "élia: Eu acho que ninguém deve entrar no mundo das drogas, quem entra é porque quer. ({fala acelerada)) -u acho que os usuários ficam sem perceber o que realmente e.stão fazendo." ((fala acelerada)) 131. 8:29 I 'rof.: Célia, leia um pouco mais devagar. 132. 8:29 (Pesq.; Célia pára a leitura. Ela sorri por causa das brincadeiras de alguns colegas. Em seguida ecomeçar a leitura.)) 133. 8-30 I c ■^élia- "Eu acho que nineuém deve entrar no mundo das drogas, quem entra e porque quer, Aciio que para se vrardo problema, os usuários ficam fora da realidade, sem perceber que mundo é o deles. Eu vejo as drogas omo uma coisa ruim eu acho que ouem as utiliza está se suicidando, e.stá acabando com a própria vida". 134. 8:30 V ''era: Eu também f...] 135. 8:30 C élii* "Eu acho que drogas nüo levam nineuóm à nada. pois é um produto químico que vicki quando sc 365 (Coiuinua) N°. HORA EVENTO 135. 8:30 a 8:31 Célia: [...] utiliza e vai destruindo o próprio corpo e a própria vida. Uma droga estimulante relacionada ao funcionamento do cérebro aumenta a atividade cerebral, tal como a cocaína, ((fala acelerada e baixa)) As drogas diminuem a velocidade de funcionamento do cérebro e a capacidade de pensar, tais como o álcool, solventes. E por último as mais perturbadoras alteram o funcionamento do cérebro, fazendo funcionar fora do normal, como a LSD. a maconha e o êxtase. As drogas sempre viciam logo para causar dependência. Os dependentes fazem de tudo para manter o vicio. Alguns roubam, outros matam e outros se [...]"((fala acelerada e baixa)) 136. 8:31 Fernando: E outros o quê? 137. 8:31 Célia: Outros se tomam traficantes. 138. 8:31 ((Pesq.: Caio tenta bater palmas para a leitura sorrindo para Célia.)) 139. 8:31 Prof.: Eu observei que ela também falou de forma bem geral, classificou as drogas. Então, pra não ficar muito repetitivo, vou pegar alguns pontos bons pra gente debater. Porque no início, ela falou assim: "as drogas são ruins e as pessoas entram porque querem".Não é isso? E aí. é a opinião de todos? 140. 8:31 Vera: Não! 141. 8:31 Lucas: E! 142. 8:31 Dou^zlas: Não. As vezes a pessoa é obrigada a entrar nesse mundo. 143. 8:31 Prof.: Então, vamos de.senvolver isso. 144. 8:31 Vera: Professora, ninguém teria entrado na vida. porque [...1 Entendeu? 145. 8:31 Prof.: Não. 146. 8:31 Fernando: Como assim? Explique melhor. 147. 8:31 ((Pesq.: Vários alunos riem da resposta dada por Fernando para i'era. fera tampa o rosto com as mãos)) 148, 8:31 Vera: E porque ela falou f...] Ah! Deixa pra lá. não vou falar mais não! 149. 8:31 Prof.: Oh Vera! Eu quero entender, vamos! 150. 8:32 Vera: É. tipo assim, oh [...] uma pessoa sabe uma coisa da outra e fala. "Ah. eu vou contar pra fulano." E aí 0 outro diz: "Ah. não [...]'" "Só não conto se você provar [...]" E aí a pessoa prova. Uma vez aconteceu isso f...1 151. 8:32 César: E chantagem? Que ridículo! 152. 8:32 Vera: Aconteceu isso na minha família. 153. 8:32 Nina: E mesmo? (dnaudivel)) 154. 8:32 a 8:33 Prof.: Eu agora estou tentando pegar outros pontos pra não ficar muito repetitivo, não é? Senão vai tocar sempre na mesma questão. Então estou pegando algo que a gente possa de.senvolver aqui no debate. Achei interessante ela falar que as pessoas entram porque querem no mundo das drogas. Aí. eu coloquei isso no debate, qual é a opinião de vocês? A Vera deu a opinião dela. para ela as pessoas são influenciadas, então muitas vezes não é porque a pessoa quer. No final ela colocou um caso de chantagem que eu não entendi muito bem. 155. 8:33 Vera: Uma pessoa sabe uma coisa da outra. Aí. eu vou e falo assim: " Se você não e.xperimentar, eu vou contar pra fulano". Aí. a pessoa com medo vai e experimenta pra que a outra não conte nada. É assim. 156. 8:33 Prof.: Sei [...1. Uma situação de chantaeem faz com que a outra pes.soa use e aprove. _ 157. 8:33 Vera: E. _ 158, 8:33 César: Sim. talvez. _ 159. 8:33 Lilian: Entendi! A pessoa fica nas mãos da outra. E começa esse jogo de empurra, não é? _ 160, 8:33 ANl: E. eu acho que isso acontece mesmo. 161, 8:33 ((Pesq.: larios alunos fazem comentários sobre a questão colocada em discussão pela professora.)) _ 162. 8:34 Prof.: Quem mais? Quem discorda? Quem concorda? _ 163. 8:34 Eli: Eu acho que é por influência dos amigos que usam e ele pode querer experimentar, e tal, e ficar dependente. 164. 8:34 Prof.: Então, se foi influência, você acha que ele tem maturidade suficiente? Você acha que ele teve capacidade para poder fazer essa escolha? 0 menor, por exemplo, pode ser responsabilizado pela escolha que ele fez? 165. 8:34 João Carlos: Eu acho que sim. Todo lugar que a gente vai hoje está falando de droga. Ele sabe que não pode. que é errado usar. Então por que entra nessa? 166. 8:34 Roberto: Ah! Tem menino de 7 anos aí que está mexendo com drogas. 167. 8:34 Prof.: 0 adolescente tem discernimento suficiente? Ou será que tem outros responsáveis que também tem o seu lado aí nessa história? 168. 8:35 Nilo: E. a família também. 169. 8:35 Prof.: 0 adolescente é influenciado, não é? Será que ele é só influenciado pelo lado negativo? Será que a família pode influenciar pelo lado positivo? 0 que vocês acham? 170. 8:35 ((Pesq.: A turma fica em silêncio por um momento.)) 171. 8:36 Roberto: Pode sim! A minha família faz isso. 172. 8:36 Prof.: E aí então? Se ele não tem o apoio da família o que fazer? Será que ele também não pode escolher algo positivo, saudável? 366 (C'dlllilllKl) N°. HORy! ^ EVENTO 173. 8:36 Marcelo: E o caminho mais fácil, inielizmenle. 174. 8:36 Roberto: E. eu ia faiar isso. 175. 8:36 Vera: E lambem, fessora. as pessoas pegam o lado mais lacil, Você acha que eles querem o dincil. Esuidar. trabalhar, fazer não sei o quê? Eles querem o fácil, dinheiro fácil. 176. 8:36 Roberto: Nossa que doideral 177. 8:36 a 8:37 Prof.: Eu achei interessante, eu estava ouvindo uma reportagem com um psicanalista, ele falou assim que os nossos desejos, aquilo que a gente deseja, não é aquilo que a gente quer. Nós somos condicionados a de.sejar algo. Eu vou tentar explicar, por exemplo: você vai numa loja. olha um sapato bacana e tal. você deseja ler aquele sapato, aquele tênis da moda. Mas. no fundo, no fundo, aquele desejo que você tem de ler aquele lénis não é 0 seu desejo. 178. 8:37 André: Ah. entendi! 179. 8:37 Vera: Talvez usa só por usar. Porque tá com vontade, assim f...] 180. 8:37 Prof.: Porque está na moda. 181. 8:37 Vera: E. 182. 8:37 ((Pesq.: l era olha pra Lilian, levanta a mão e as duas batem as mãos no ar após a resposta positiva da professora para o comentário delas.)) 183, 8:37 Lilian: Huhu! 184. 8:37 Vera: Porque, tipo assim, ele acha legal. Eu acho. né? Tô supondo. 185. 8:37 Roberto: Pra chamar a atenção dos outros! 186. 8:37 Prof.: Ah [...] Olha que interessante: para chamar a atenção. Por quê? Porque ele quer ser o que? 187. 8:37 Roberto: Reconhecido. 188. 8:37 Prof.: Reconhecido. Será que é mais fácil ele ir por aí? 189. 8:37 Vera: Isso aí que eu ia falar. Doideira. nossa? 190. 8:38 Prof.: Bom. então vamos tentar concentrar aqui em uma pessoa porque senão a genie não entende nada. Quem mais eostaria de ler? Você leu? 191. 8:38 César: 0 da Débora e.stá cem por cento dez. 192. 8:38 Débora: Mentira! 0 meu está horrível. 193. 8:38 Prof.: Quem quer ler? Quem mais gostaria de apresentar o .seu [...]? 194. 8:39 ({Pesq.; Professora olha para os lados procurando alguém que gostaria dc ler o texto.)) 195. 8:39 Prof.: Então vamos ouvir o André. Você quer ler? 196. 8:39 ((Pesq.: André começa a leitura do texto.)) 197. 8:39 a 8:40 André: "Nesse estudo eu pude entender que drogas, pelo menos a maioria delas, são naturais e outras sintéticas. Você sabe que essas drogas irão fazer com o seu organismo? E acabar com cie lentamente. Até que você chegue a um ponto que Já está tão debilitado que não agüenta mais e acaba morrendo. Na minha opinião, as pessoas usam drogas quando tem problemas na sua família e por não agüentarem mais esses problemas. Usam também quando acham que essas drogas lhes farão bem. Mas como você pode perceber, isso não é verdade. É Justamente o contrário. Eu tenho a .sorte de não ter esses casos na minha família, masjá vi pessoas usando esses tipos de coisas nas ruas. em jornais e telejomais. Essa é a minha discussão". 198. 8:40 Prof.: Essa é o quê? 199. 8:40 André: Minha discussão. 200. 8:40 Roberto: Oh! Parabéns pro menino aí. oh! 201. 8:40 ((Pesq.: Colegas balem palmas para .André.)) 202. 8:40 Prof.: André, comenta also para nós sobre o seu texto í...| 203. 8:40 André: Porque o usuário, tipo assim, as pessoas que u.sam. elas acham que e.stão fazendo um bem pra elas. Mas na verdade elas estão acabando com o oreanismo delas lentamente, entendeu? 204. 8:41 Prof.: Será que as pessoas que usam drogas têm conhecimento do mal que a droga laz no oiganismo? Porque às vezes a pessoa conhece o lado prazeroso, mas será que o mal provocado ela conhece? 205. 8:41 ((Pesq • Vários alunos trocam idéias sobre a questão levantada pela Prof Rosana.)) 206. 8-41 Vera: Depende da pessoa, aí vai de cada um. 207. 8:41 Iara* É tem sente que sabe que laz mal e mesmo assim usa. 208. 8:41 Nina: Tem eente que não está nem aí para a saúde. 209. 8:41 César- Ah mas eu acho que a informação não chepa assim sabe. completa pra todos nao. 210. 841 RnhprtnrOh vou dar um exemplo pra vocês. 211 8-41 Prof.: Então dá um e.xemplo. — 212. 8:41 Roberto- 0 meu tio [ 1 ele usa drosza todo tipo. Ele não esta agüentando nem laiar. ivias coniuumJ^J 213. 214. 215. 216. 217. 218. 8:41 8:41 8:41 8:41 > 8:41 I 8:41 \ ínhprtn- F noia O dia inteiro! Fernando: Fessora. fica eu. ele e os meus colegas num lugar assim perto da nos.sa casa. Ai tem um p.ssoal mpvp rnm is.so [...1. aí quando oassa perto da gente eles perguntam se a gente e usuano [...] Roberto- Oferece, pereunta se a gente vende, porque a gente sempre esta por ah. .sabe [...j /era: Se vende? ^— loberto: É. Se vende e se tem. /era: É a porta do CEASA.' 367 (Continua) N°. HORA EVENTO 219. 8:41 Prof.: 0 quê? 220. 8:42 Roberto: Porque nós estamos naquele meio ali. A gente vive ali. 221. 8:42 Prof.: Está vendo? Está muito próximo, nüo é? Está no cotidiano de vocês. 222. 8:42 Fernando: Mas só que ali. o que mais tem é noiado. 223. 8:42 Prof.: Noiado? 224. 8:42 César: É dropado! É viciado, farinha do mesmo saco. 225. 8:42 (fPcsq.: Alfium alunos riem.)) 226. 8:42 Prof.: Então vamos continuar [...] Quem é aeora? 227. 8:42 Débora: Eu. 228. 8:44 César: Vai que c lua Débora! 229. 8:44 Prof.: Vamos ouvir a Débora, pente. Por favor. 230. 8:44 ((Pesq.: Débora sorri com a mão no rosto. Em sef;uida inicia a leitura do seu texto.)) 231. 8:44 Débora: "Bom. eu vejo as dropas como uma coisa muito ruim. o próprio nome Já diz f...!" 232. 8:44 Vera: E uma dropa mesino! 233. 8:44 Débora: "As drogas põem em risco a vida das pessoas. De várias pessoas. Quem usa drogas está pondo em risco a .sua vida [...]" 234. 8:44 Prof.: Tira a mão do rosto, minha filha. 235. 8:44 ((Pesq.: V.A conversam. Débora interrompe a leitura um tanto envergonhada. Em seguida reinicia a leitura do seu texto.)) 236. 8:45 a 8:46 Débora: "Ela prejudica muito a saúde, como maconha, que age sobre o cérebro[...]. A maconha é obtida do cânhamo. uma planta arbustiva de cerca de dois metros de altura, que cresce em zonas tropicais e temperadas. Já o êxtase ((aluna gagueja)) deixa a pessoa com alucinações e excitação. provoca elevação da temperatura do corpo, desidratação, aumento do ritmo dos batimentos cardíacos e da pressão sangüínea, podendo levar á morte. E outra: as drogas não levam ninguém a nada. só traz vários problemas à saúde, mas também traz vários problemas para a vida das pessoas. 0 fumo prejudica muito a saúde. Álcool e fumo constitui a dupla de drogas mais consumidas em todo o mundo e é responsável por atividades econômicas que movimentam milhões de dólares. 0 fumo também é uma planta e dele é extraída a nicotina. 0 consumo de cigarros se expandiu por todo o mundo depois da 1° guerra mundial. Usamos o termo "droga" para classificar substâncias como maconha e cocaína, por exemplo. Enfim, acho as drogas uma coisa muito ruim que faz mal e prejudica a saúde, destrói a vida e não leva ninguém á nada." 237. 8:47 Prof.: Muito bem! E vocês, o que chamou atenção? 238. 8:47 Marcelo: Eu li no Estado de Minas uma reportagem falando sobre o consumo do fumo entre os jovens no Brasil. Do lado tinha um gráfico mostrando o crescimento nos últimos 3 anos. E eles colocaram uma fota pra mostrar o que o fumo faz no pulmão. 239. 8:47 Prof.: Você tem essa matéria? Podia trazer na próxima aula. 240. 8:47 Marcelo: Vou procurar lá em casa. 241. 8:47 Liian: E fessora. e passou no fantástico também. 242. Fernando: Mas não é só no Brasil não. 0 problema do fumo está no mundo inteiro. 243. 8:47 ProP: Olha o que o Fernando está falando! 244. 8:48 Paulo: E porque o consumo do fumo está alto em muitos países. Nos Estados Unidos, Canadá e China. Tem outros que eu não estou lembrando agora. 245. 8:48 Lilian: Você viu as fotos que eles estão colocando nos cigarros? 246. 8:48 Roberto: E. eu vi! E pra pessoa olhar e não fumar. 247. 8:48 ((Pesq.; Fala conjunta. Excesso de ruído. VA cometitam o texto de Débora e a questão do fumo gerada a partir dele. César cantarola parte de uma mtisica relacionada com o tema.)) 248. 8:48 César: " E proibido fumar ! Diz o aviso que eu li. E proibido fumar 249. 8:48 Professora: E a sua redação? 250. 8:48 Vera: Fessora, lá perto de casa tem uns meninos [...] São muitos. E eles [...] Ficam pensando, eles estipulam um valor. Eles devem ter uns sete anos. 251. 8:48 Roberto: São uns pequenos? E sim [...] são aqueles meninos ali de cima. só! 252. 8:48 Fernando: E mesmo sô! Eles estudam aqui. 253. 8:48 Vera: E. Eu sei. f...) Eles estudam com a Mariana. 254. 8:48 ((Pesq.: Alunos comentam sobre o grupo.)) 255. 8:49 Vera: Quem vai ler agora? 256. 8:49 Prof.: Agora é o Luis. Depois nós vamos ouvir a Vera. 257. 8:49 ((Pesq.: lera tampa o rosto com as mãos e abaixa a cabeça na carteira. Luís começa a leitura do seu texto.)) 258. 8:49 Luís: "Apesar das drogas ser uma prática proibida na sociedade atual de venda e consumo, ela pode ser comprada [...j. " ((fala acelerada)) 259. 8:49 Vera: Lê devagar menino, credo! 368 (Concliisào) N". HOR.\ EVENTO 260. 8:49 ((Pesq.: Luís sorri. Alunos brincam com Luís e fazem sons de freios de carro. Em seguida. Luís continua a leitura mais lentamente.)! 261. 8:50 Luís; '■[...] A droga está em lodo lugar, basta abrir os olhos para enxergar. A realidade das ruas muitas vezes nao é mencionada nos meios de comunicação, dei.xando uma parte da população desorientada e confusa em relação ao assunto. Existem hoje cm dia. inúmeros tipos de substancias nocivas ao corpo humano: algumas estimulantes, que fazem o corpo sair da realidade, outras perturbadoras, as deprcssoras e também o álcool. Todas elas atinszem o Sistema Nervoso Central - (SNC)." 262. 8:51 César: Oh! Isso aí eu não sabia não. 263. 8:51 (íPesq.: César expressa admiração e espanto ao ouvir a informação que o Luís dá em seu texto.)! 264. 8:52 Luís: '■ 0 principal problema hoje. eu acho que não é as drogas, mas sim. a falta de informações sobre elas. a influência e o acesso fácil a esse tipo de substância. Muitos entram nessa por falta de coragem de enfrentar a vida como ela é ou por influência de amigos ou estranhos. Quando a pessoa entra nis.so ela fica perturbada e a família pa.s.sa a viver um drama. É horrível quando isso acontece na sua família. Diga não as drogas." 265. 8:53 Vera: Acabou? [...] Ficou muito bom. Ficou que nem o meu. 266. 8:53 ((Pesq.: J'A riem do comentário de Vera. Luís dobrou o papel e sorriu para lera. Em seguida olhou para a professora.» 267. 8:53 Prof.: Você colocou várias coi.sas importantes também. 268. 8:53 Luís: Eu tô ligado. 269. 8:54 Prof.: Você falou da falta de informações adequadas, da influência [...J. Eu perdi um pouquinho. Mas se você quiser que eu veja. me dá aí? 270. 8:54 ((Pesq.: A Prof Rosana estica o braço e pede ao Luís que lhe envie o seu texto. 0 texto vem passando de mão em mão até chegar nas mãos da professora.)! 271. 8:54 Prof.: Alguém quer comentar algum ponto do texto do Luís? 272. 8:55 Saulo: Eu não concordo muito com ele não. 273. 8:55 ProP: Como assim? Explique melhor. 274. 8:55 Saulo: É que ele disse que a realidade das ruas não é mencionada nos meios de comunicação. Eu acho que é. 275. 8:56 Luís; Mas eu queria dizer é que tem muita informação e as pessoas ficam confusas. 276. 8:56 Nilo: É isso, 0 jornal mostra o problema, tipo assim, o que aconteceu com a pessoa, o local. Mas não resolve 0 problema do cara. sabe. 277. 8:56 Prof: Então tem muita informação na mídia sobre o problema pro\ocado pelas drogas. Mas falta orientação adequada e serviços de apoio para quem vive o problema. 278. 8:57 Luís: E isso que eu queria dizer. 279. 8:57 ((Pesq.: Luís anota algo no seu caderno. Alunos conversam sobre o texto do Luís. Excesso de ruído. 280. 8:57 Prof.: Você falou também da influência, não foi? Das pessoas, às vezes são até os amigos mesmo. 281. 8:57 Vera; Amigo? [...l Eu não sei que amigo? 282. 8:57 Lilian: Pra mim não é amigo não. 283. 8:57 ((Pesq.: Alunos conversam entre si. Fala conjunta. Excesso de ruído.)) 284. 8:58 Prof.: [...] E os problemas que elas trazem dentro de ca.sa. para os familiares, não é? A pessoa pratica um crime e passa a praticar outros, não é? [...1 Então, são problemas seríssimos, não é? 285. 8:58 ((Pesq.: Alunos fazem comentários inaudíveis. Fala conjunta. Excesso de ruído. Alguns alunos começama a guardar o material.)) 286. 8:59 Pedro: Você viu o Documentário? 287. 8:59 Josué: Cidade de Deus? 288. 8:59 ((Pesq.: Vera escreveu algo no caderno. Os alunos conversam entre si. Fala conjimta. Fim da gravação.)) Fonte: Notas de campo etnográficas. Caderno 2, p. 08-10b, 2007 e gravação, fita 52, 3/8/2007. 369 ANEXO 11 Evento de letramento'^* - Aula de Geografia,'^' 8" série do Ensino Fundamental (Continua) N". HORA EVENTO I. 7:10 (íPesq.; Os alunos estão assentados enfileirados. A Prof Marta entra na sala. Os alunos conversam entre si. Excesso de ruído)) 2. 7:10 Prof: Oi pessoal, tudo bem? Lembrando pra vocês [...J Nessa etapa são (03) três aulas de Geografia por semana. 3. 7:10 (íPesq.: I'A continuam a conversar paralelamente)) 4. 7:10 César: Três aulas por semana, cara! 5. 7:10 Prof.: Quem não veio na 2" feira? 6. 7:10 ANI: l-u! 7. 7:10 ProP: Nessas três aulas leremos um trabalho de final de etapa. 8. 7:10 Roberto: Trabalho? 9. 7:10 Fernando: Ah não Marta! 10. 7:11 André: Ah. pára! 11. 7:11 ProP: Vocês terão (04) quatro meses pra fazer o trabalho. Pode ser em dupla também. E quem quiser fazer individual pode fazer, ok? 12. 7:11 César: Oba. em dupla, demorou! 13. 7:11 ProP: Moje. nós vamos continuar a leitura do Capítulo sobre Consumo e Meio Ambiente. 14. 7:11 ((Pcsq.: Fala conjunta dos alunos com Marta. l'A levantam questões sobre o trabalho. Excesso de ruido.)) 15. 7:11 ProP: Oh Roberto! Me aiuda aí filho!? 16. 7:11 Fernando: Eu nem tenho o livro. Não tem como ler não. 17. 7:11 Lilian: Tem sim. a pente dá um jeito viu? 18. 7:11 Vera: Deixa de preguiça menino! 19. 7:11 (ÍPesq.: Fernando sorri para as colegas.)) 20. 7:11 ProP: Eu quero avaliar a leitura de vocês. Não só a leitura, mas também a interpretação. Então nós vamos continuar a aula de T feira onde nós começamos o capítulo f...l. Qual é mesmo o capítulo? 21. 7:12 Célia: Quatro! 22. 7:12 ProP: E 0 Capítulo 4: "Consumo, meio ambiente e desigualdades no espaço global". 23. 7:12 ÍÍPesq.: Os alunos abrem o livro didático na páfiina 40. capítulo 4.)) 24. 7:12 ProP: E. [...1 e nós paramos na página 43. 25. 7:12 Iara: Não falei, viu só! 26. 7:12 ProP: A gente chegou a ler "0 desperdício na embalagem", esse item aí do capítulo? Ou não? 27. 7:12 T: Não. 28. 7:12 ProP: .lá sei. a gente estava conversando sobre o texto e bateu o sinal, não foi? E também, a gente falta ler e discutir esse texto azul aí sobre o lixo e a parte de baixo sobre o desperdício das embalagens, está bom assim? 29. 7:12 Teresa: Tá ótimo. 30. 7:12 ((Pesq.: 1 'A abaixam a cabeça e procuram no livro o tópico do capítulo que a Prof Marta está falando.)) 31. 7:12 ProP: Gente, abram aí na pagina 42. 32. 7:12 ((Pesq.: I'A conversam entre si enquanto a Prof Marta espera para iniciar a leitura do texto.)) 33. 7:12 Vera: Eu quero ler. viu? 34. 7:12 Cristina: Eu também quero ler. 35. 7:12 ProP: Algumas pessoas já leram. Quem já leu? 36. 7:12 Viviane: Eu! A Nina. a Lilian [...] 37. 7:12 ProP: Miriam |...|. 0 Eli. Carla. Elso e Saulo. 38. 7:12/ 7:13 ((Pesq.: Alguns alunos conversam entre si. Excesso de ruído. Nina e Carla entram carregando as mochilas e passam na frente da sala. Algumas alunos brincam com o atraso delas.)) 39. 7:13 João: Cadê o bilhetinho? 40. 7:13 ((Pesq.: Nina Já se encontra em seu lugar e. de pé. conversa com a Prof Marta.)) 41. 7:13 Prof.: Afasta um pouco para trás aí por favor. 42. 7:14 ((Pesq.: Depois de algum tempo os alunos resolvem arrastar as carteiras e Nina se assenta )) 43. 7:14 ProP: Pronto, sente? Para essa transcrição foram adotadas as seguintes convenções; Prof.: = professor; VA= vários alunos; ((Pesq.))= informações contextuais e pistas de contextualização fornecidas pela pesquisadora; T= turma; l—l = pausa e ANI = aluno não identificado. Data: 09/08/2007 - Aula de Geografia, Leitura e Discussão de Capítulo 4 - Livro Didático: "Consumo, meio ambiente e desigualdades no espaço global". 370 (Continua) N". HORA EVENTO 44. 7;14 Letícin: Oh meu Deus! 45. 7:14 Roberto: Qual é. Leticia? 46. 7:14 Pror: Vamos lá? Capitalismo e sociedade de consumo, vamos lá? 47. 7:14 ((Pesq.: A T faz silêncio, escuta as orientações da professora e se prepara para ler o tópico proposto por ela. A Prof Marta se dirige a um aluno.)) 48. 7:15 ProP: Você quer ler a.aora? 49. 7:15 Paulo: Em que página mesmo? [...] Leio. mas em que página? 50. 7:15 Prof: Psiiiu. gente [...1 "0 desperdício na embalagem" na página 42. 51. 7:15 Paulo: Estou abrindo o livro, espera aí. calma! [...]"0 desperdício na embalagem.Você sabia que a embalagem de um produto, um chocolate, por exemplo, pode custar ate 20% do preço total dele? Será mesmo que tantos produtos precisam das embalagens ""especiais" em que são acondicionados? ((fala acelerada.)) Tomemos o caso dos sanduíches vendidos por certas cadeias de lanchonetes. Você acha que é realmente necessário que os sanduíches venham em sacos de papel ou caixinhas de isopor? Por que essas lanchonetes não usam pratos de louça, copos de vidro, talheres de metal, toalhas e guardanapos de tecido, que podem ser reaproveitados? 52. 7:15 ((Pesq.: A turma se mantém em silêncio durante a leitura de Paulo.)) 53. 7:15 Prof.: Paulo, está bom. Depois do Paulo. Denise. quer ler? Então vamos. 54. 7:15 Denise: "0 motivo alegado para o u.so de tanto material descartável é a ""higiene". Esse argumento é discutível. Será que a louça e as toalhas da sua casa são menos limpas do que os produtos de papel e o plástico desses estabelecimentos? E claro que não. Usar material descartável simplesmente torna o produto vendido mais atraente, mais moderno, mais vendável, em suma". 55. 7:16 ((Pesq.: Denise termina a leitura do trecho indicado pela professora.}) 56. 7:16 ProP: Veja bem essa notícia aí. [...] E de 1998. Nós estamos em 2007. o texto é de 98. 10 anos. não é? E continua atual, não é? 57. 7:16 César: E mesmo! 58. 7:16 Josué: Então, quer dizer que não mudou nada? 59. 7:16 Pedro: Eu acho que piorou, A gente tá usando mais esse tipo de material. 60. 7:16 ProP: Olha a foto gente! Vamos ler o que está debaixo aí dessa foto. por favor. Pode ler. Denise. 61. 7:16 Nina: Jogando computador fora? Nossa, que tanto no lixo! 62. 7:16 Denise: ""A foto acima mostra uma lixeira na cidade de Los Angeles nos Estados Unidos, repleta de computadores inutilizados. Em diversos países desenvolvidos, muitos aparelhos se tornam rapidamente ultrapassados, devido ao aceleramento processo de desenvolvimento tecnológico". tíA aluna leu rapidamente e trocou acelerado por aceleramento.)) 63. 7:16 Prof": Acelerado processo f...l Você está correndo demais Denise. 64. 7:16 Fernando: E lasqueira! 65. 7:16 Denise: "ü alto custo do conserto desses aparelhos também leva os consumidores a descartá-los em vez de reutilizá-los". Agora pensem: descartar produtos que poderiam ser reaproveitados também se caracteriza como uma forma de consumismo? 66. 7:16 Prof: Gente, nós temos um problema muito sério nessa questão do desperdício aí. Primeiro, que existem produtos, bens de consumo que estão sendo descartáveis. É [...] como o carro, a geladeira, que a gente pode usar por muitos anos e muitas vezes são descartados, não é? 67. 7:16 IMônica: Roupa também f...] Tem gente que descarta roupa que dá pra ser usada. 68. 7:17 ProP: Ah. esqueci a palavra. [...] E tem bens de consumo que a gente usa e que são descartáveis mesmo, nào é? A gente tem que usar imediatamente ou dentro de um prazo. E o que a sociedade de consumo faz com a gente, atualmente? Faz com que a gente cada vez mais, no mundo modemo. a gente queira trocar os nossos produtos que poderiam ser usados 30. 40 anos. Uma geladeira pode ser usada 40 anos. Apo.sto que alguns de vocês aqui conhecem geladeira antiga do tempo da avó. Quem conhece geladeira antiga? 69. 7:17 Fernando: Ah! Igual a da minha avó! 70. 7:17 ((Pesq.: ^ílcuns alunos comentam sobre as geladeiras antigas que conhecem.)) 71. 7:17 Vera: Uma aeladeira velha puxa muita luz! 72. 7:17 ((Pesq.: Lilian ri do comentário de l era)) 73. 7:17 Prof: É. tudo bem. mas ela pode ser usada, não pode? 74. 7:17 Celso: A lá de casa é desse jeito [...1 75. 7:17 Vera: Nossa, a lá de casa tem 2 anos que a gente está usando e eu nem sei quando vai trocar. 76. 7:17 ((Pesq.: A Tea Prof Marta riram do comentário de 1 'era.)) 77. 7:17 Prof: Então, o quê que a sociedade de consumo vem e fala com a gente? Que a gente (em que trocar a eeladeira por causa da cor. 78. 7:17 Roberto: É só você pintar ela. Não precisa não. Ela tá boa. 79. 7:17 ((Pesq.: VA conversam paralelamente. Lilian cobre o rosto e ri do comeittário de Roberto.)) 80. 7:17 Vander: E por que tem que trocar? 81. 7:17 Prof: É por causa do tamanho, por causa do design, não é? 82. 7:17 Douglas: 0 que é designei 371 (Continua) N". HORA EVENTO 83. 7:18 Pror: É 0 desenho dela. a forma que a geladeira lein. 84. 7:18 Mara: .Ah. não! Eu não acredito. 85. 7:18 Roberto: Ah. você está brincando comigo? 86. 7:18 Eli: Isso é consumismo cara. 87. 7:18 ((Pesq.: A questão colocada pela professora provoca discussão na 7 e o som de ruído na sala aumenta.)) 88. 7:18 Pror: Psiiiu pente [...1 Com a televisão é a mesma coisa f...] 89. 7:18 dPesq.: \ 'A continuam conversando a respeito da questão do consumo.)) 90. 7:18 ProP: A televisão, não é? Todo mundo está aí vendo os modelos novos, que são chamativos para a Copa do Mundo e todos os eventos esportivos, não é? É um tal de comprar televisão, de trocar televisão [...] E agora, quanto maior, melhor, não é? Ninguém está sossegado com uma televisão de 20 polegadas. 91. 7:18 Fernando: Ah. eu não. eu quero mais! 92, 7:18 Lilian: Ah é. [...] mais? 93. 7:18 Fernando: Ah não, eu quero mais |...l 42, menina! 94. 7:18 ((Pesq.: 1/1 comentam sobre tamanho das televisões.)) 95. 7:19 César: No meu quarto vai ter uma de 42 e um DVD só pra mim. 96. 7:19 .Annc: Ai. meu Deus |...| Sonha, menino! 97. 7:19 Prof": Psiiiu! Oh. levanta a mão quem tem em casa mais de uma televisão. 98. 7:19 ííPcsq.: 5 alunos levantam a mão.)) 99. 7:19 Prof: Mais de uma televisão. 100. 7:19 ((Pesq.; I'A comentam sobre a quantidade de televisões que tem em casa.)) 101. 7:19 César: Lá em casa tem duas mas não estão funcionando não. 102. 7:19 Eli: Lá em casa tem uma no meu quarto e outra na sala. 103. 7:20 Roberto: Até no meu quarto tem! 104. 7:20 Prof: Quern não tem nenhuma televisão em casa? 105. 7:20 ((Pesq.: 2 alunos levantam a mão.)) 106. 7:20 Vander: Olha não tem televisão na ca.sa do Roberto. Essa não! 107. 7:20 Saulo: Ah! Adorei essa! 108. 7:20 ((Pesq.: 1 'A disparam a sorrir do comentário de 1 attder e Saulo.)) 109, 7:20 ProP: Na sua casa tem quantas, Roberto? 110. 7:20 Roberto: Oh lá em casa não tem mesmo não f...] 111. 7:20 Nina: Mentira! 112. 7:21 João: Ele só escuta radinho de pilha. 113. 7:21 {(Pesq.: I'A continuam rindo dos comentários sobre a falta de televisão na casa do Roberto.)) 114. 7:21 Prof: Olha aí, essa foto[...] Essa foto aqui é ilustrativa desse problema. Vocês sabiam que tem gente que sae dos países menos desenvolvidos e vão pra lá, para os países desenvolvidos e montam as suas casas com o material do lixo. esse material aqui. olha só. 115. 7:21 ((Pesq.: A Prof Marta aponta para a foto do livro e mostra para os alunos.)) 116. 7:21 Prof: Lá o lixo não é igual ao nosso li.xo, não. 0 nosso lixo é orgânico. 117. 7:22 César: Podre, nossa! 118. 7:22 Gustavo: E, a gente joga comida fora, por isso. 119. 7:22 Carla: Pelo amor de Deus! 120. 7:22 ProP: Nós não deveríamos jogar, mas Está passando uma série de reportagens na televisão sobre o lixo.Vocês sabiam que o Brasil desperdiça 40% do total dos alimentos que poderiam ser consumidos? 121. 7:22 César: E, eu vi. 122. 7:22 Silva: E, muita gente está passando fome, infelizmente. 123. 7:22 Nícias: No Nordeste a coisa tá feia. 124. 7:22 Teresa: No Norte tem muita miséria também. 125. 7:22 ProP: Então a gente coloca no prato muito mais do que a gente deveria comer [...]. Estou falando de modo geral, viu gente? E joga fora 40%. E, paralelamente a isso, tem pessoas que passam fome. Tem outro problema também. Às vezes, a pessoa não guarda o alimento corretamente na geladeira. Ou guarda por muito tempo para comer depois. Tem o prazo de validade. É preciso ficar atento a isso. E ficar atento na hora de comprar as coisas também. A gente tem que reclamar. Se você comprou um suco, ele está ruim, tem que devolver. 126. 7:22 ((Pesq.: A T conversa sobre a questão levantada pela Prof Marta. Fala conjunta de VA. comentando os casos conhecidos do cotidiano.)) 127. 7:23 Prof: No Brasil, não temos esse hábito, infelizmente. E quem reclama é considerado o chato, o encrenquinha. E vocês, o que pensam sobre isso? 128. 7:23 Vera: Eu I'eclamo quando está estragado. 129. 7:23 Prof": Vocês podem observar que nos supermercados, as embalagens estão bem menores. Os produtos, por exemplo, o iogurte diminuiu dez gramas na quantidade no potinho. Vocês perceberam? 130. 7:23 Nícias: E o preço continua o mesmo? 372 (Comimiii) N°. HOR.4 E\ENTO 131. 7:23 Josué: Não. subiu. 132, 7;23 Lilian: Mas eles nào podem fazer isso com a eente naò. uai ? 133. 7:24 Vera: Um dia eu comprei iogurte e estava vencido. Aí a minha mãe falou assim: "Troca não. boba. ainda dá pra comer". Aí eu falei: "Não! Eu vou trocar." Fui lá e troquei. Aí. eu cheguei lá e falei pra dona: "Troca aí. por favor". Aí ela disse pra mim que não podia trocar porque eu não tinha a notinha. Aí eu disse para cia: "Ah é. não vai nào? Então, espera aí!" Aí. eu fui lá em cima e chamei o gerente do mercado. Aí eu recebi outro iogurte. 134. 7:24 Roberto: Nossa, que barraco! 135. 7:24 ((Pcsq,: 1 'À conversam sobre a situação vivida por 1 'era no supermercado.)) 136. 7:24 César: Por causa de um iogurte, velho? 137. 7:25 João: Ah. barraqueira! 138. 7:25 Prof: Ela nào é barraqueira nào. Ela está certa. 139. 7:25 Vera: Eu vou tomar o trem velho? Eu nào! 140. 7:25 Roberto: Exacerada. 141. 7:25 Eli: Mas nem todo mundo tem coragem de reclamar. E aí o que fazer. 142. 7:25 ProP: Gente, olha o que o Eli disse. E aí? 143. 7:25 Lilian: Eu reclamo também. E direito. 144. 7:25 Vera: Isso que eu ia falar. E direito do consumidor. 145. 7:26 Prof: Espera aí! 0 meu foi com o leite. Eu comprei uma caixa de leite no EPA. 146. 7:26 Carlos: liiih f...] Azeda? 147. 7:26 Prof.: 0 leite estava dentro do prazo de validade, mas [...1 148. 7:26 ((Pesq.; Um aluno faz uma gargalhada macabra enquanto a Prof Marta conta o caso do leite.)) 149. 7:26 Prof: Mas estava estragado, viu? E o leite está muito caro. 0 leite que era [...] Tinha promoção de R$1.09 ou R$ 1.18. Esse mesmo leite subiu de preço e foi para RS2.48. Eu estou falando do leite de caixinha. \ iu. Tem que tomar cuidado também, reclamar, ir lá e recorrer. Eu liguei, fui lá e devolvi a caixa. Eu nào ia deixar passar de jeito nenhum. 150. 7:28 ((Pesq.: Os alunos da T trocam comentários sobre os casos relatados na sala.)) 151. 7:28 Prof: Outra coisa que está aqui no texto, é o desperdício na embalagem. 0 nosso lixo. o lixo do mundo moderno tem muita embalagem mesmo, nào é? 0 plástico é um problema. A maioria das embalagens são de plástico. E aí. 0 que fazer? 0 que fazer com esse plástico que demora zilhões de anos pra [...| 152. 7:28 André: Decompor. 153. 7:28 Prof": Isso para decompor. Vocês sabem o que a gente pode fazer? 154. 7:28 César: Reciclar. 155. 7:28 ProP: Reciclar, ótimo. Mas nào é todo plástico que tem condições de ser reciclado não. Se você não lavar o plástico para colocar no lixo nào tem jeito nào. Plástico sujo nào pode ser reciclado. 156. 7:29 Roberto:Você lava o plástico? 157. 7:29 Prof: Claro! Você tem que lavar. 158. 7:29 Lilian: E depois põe no lixo? 159. 7:29 ProP: E ponho no lixo. 160. 7:29 Lilian: Ah nào! 161. 7:29 Roberto: Por que eu vou gastar água? Se ele já vai direto pro lixo. uai! 162. 7:29 ((Pesq.: A turma acompanha atenta a discussão entre a Prof Marta, Roberto e Lilian sobre a lavagem do plástico com 0 objetivo de reciclar.)) 163. 7:29 ProP: Mas tem que lavar, gente! Pra ser reciclado o material tem que estar limpo. 164. 7:29 Roberto: Olha a idéia da outra [...1 Vou lavar pra depois misturar tudo lá no lixo? 165. 7:29 Lilian: Eu vou lavar o negócio pra depois jogar o troço fora? 166. 7:29 Pror: Isso é falta de [...1 167. 7:29 Iara: De respeito. 168. 7:29 Nina: De ética. 169. 7:29 Débora: Isso mesmo, é falta de conhecimento. 170. 7:29 ((Pesq.: A T conversa sobre a questão da reciclagem. Roberto e Lilian se posicionam contrários. Mna. Débora e Iara concordam com a Pro f Marta e cortversam com Célia sobre isso.)) 171. 7:29 a 7:30 Prof: É falta de conhecimento mesmo. Agora tem alguns tipos de embalagem que não dá pra reciclar, por exemplo, o isopor. [...] Lá no meu prédio nào tem como reciclar. A gente tem lá os contêineres para colocar 0 lixo. Mas não dá para reciclar isopor. Eu fico injuriada, porque o isopor vem. em geral, em muitas caixas, protegendo as coisas e ocupa um lugar muito grande, vocês já observaram? Além disso, tem também as próprias embalagens de produtos do supermercado que vem com carne, queijo. Sào as bandejinhas de isopor e mais um plástico por cima. E o que a gente vai fazer com isso? 172. 7:30 Carla: Nossa, é mesmo. 173. 7:30 Robson: É um exagero. Por isso que no final a gente acaba pagando muito mais. 174. 7:30 Prof: Outro dia eu vi uma coisa muito doida também na televisão, que foi o lixo espacial. Eles estaxam descartando uma parte de um satélite no espaço, você ficaram sabendo disso? 373 íCominua) N°. HORA EVENTO 175. 7:30 ((Pesq.: I A conversam sobre lixo espacial.)) 176. 7:30 Nilo.: Olhem só o que o homem está fazendo f...| Jogando lixo no espaço. 177. 7:30 César: Oh. nossa! .locando lixo no espaço! 178. 7:30 Prof": Alguns disseram que isso desintegra daqui a um lempo, mas, olha se lem cabimento. Pense no que a gente produz, nüo é? Até isso a gente está fazendo. [...] jogando lixo no espaço. 179. 7:30 Paulo: Isso é doido demais. 180. 7:31 Prof: Cuidado, viu gente? Fica olhando pro céu ai [...]. Podia cair uma coisa dessas na cabeça do Nicias. não é? 181. 7:31 ((Pesq.: A Prof Marta faz uma brincadeira com um dos alunos. A turma acha engraçado e sorri bastante.)) 182. 7:31 Prof": Agora vamos continuar |...| 183. 7:32 ProP: Vamos para um novo tópico: "A sociedade de consumo e a degradação do meio ambiente".\}mdi coisa e.stá ligada a outra, é isso que nós estamos falando.Vamos lá Celso agora é você. 184. 7:33 Celso: Aonde'.' 185. 7:33 Prof.: Lá em cima. na página 43. 186. 7:33 ((Pesq.: A T faz silêncio. Celso se prepara para a leitura e imediatamente começa a ler.)) 187. 7:33 Celso: "A sociedade de consumo e a degradação do meio ambiente." [...] "A saiide das pessoas e de outros seres aqui na terra pode ser afetada pelo desenvolvimento tecnológico da sociedade de consumo? 0 te.xto a seguir fala sobre isso 188. 7:33 ((Pesq.: A T fica em silencio e acompanha a leitura de Celso.)) 189. 7:33 Celso: "0 excessivo crescimento tecnológico criou um ambiente no qual a vida .se tornou física e mentalmente doentia, ((fala baixa)) Ar poluído, ruídos irritantes, congestionamento de tráfego, poluentes químicos, riscos de radiação e muitas outras fontes de estresse físico e psicológico passaram a fazer parte da vida cotidiana da maioria das pessoas, ((fala baixa)) Esses múltiplos ri.scos para a saúde não sâo apenas subprodutos casuais do progresso tecnológico; são características integrantes de um sistema econômico obcecado com o crescimento e a expansão e que continua a intensificar sua alta tecnologia numa tentativa de aumentar a produtividade. [...] A tecnologia humana está desintegrando ((gaguejou, fala baixa)) e perturbando seriamente os processos ecológicos que sustentam nosso meio ambiente natural e que são a própria base de nossa existência ((fala acelerada)) 190. 7:33 ProP: Leia aí no livro do lado azul. a esquerda. 191. 7:34 ((Pesq.: Celso lê silenciosamente o quadradinho indicado pela Prof Marta e dirige-lhe uma pergunta.)) 192. 7:34 Celso: 0 que é isso? 193. 7:34 Prof.: E 0 nome do cara. Pode ler do jeito que está escrito. 194. 7:34 ((Pesq.: Celso lê o qiiadrinho em destaque no livro com informações sobre o autor do texto.)) 195. Celso: "Fritjof Capra. ((fala baixa, gaguejou)) fisico austríaco, é hoje um dos principais pensadores que atuam em favor de um novo paradigma científico, ou seja. um novo padrão de pensamento e uma nova forma de abordar os problemas do mundo contemporâneo" ((fala acelerada)) 196. 7:35 Prof.: Pronto, gente? Agora é a Débora, [...j Vamos. Débora? 197. 7:35 ((Pesq.: Débora inicia a leitura do texto.)) 198. 7:35 Débora: ""0 texto acima menciona os prejuízos causados à vida e ao meio ambiente pela sociedade de consumo. Você pode citar algum exemplo desse tipo de prejuízo no lugar onde vive? Descreva-o para a sua professora e para seus colega.s". 199. 7:35 Prof: Olha gente, nós vamos deixar essas perguntas do livro para serem respondidas depois, tudo bem? Vamos priorizar a leitura do capítulo agora. Vamos aproveitar o tempo. Continue a leitura Débora. 200. 7:35 Débora: "Com o crescimento da sociedade de consumo, o ritmo das atividades econômicas tomou-se muito mais intenso, o que fez ampliar de maneira considerável a interferência do ser humano sobre a natureza e, indiretamente, atingir a própria saúde humana. Para atender ao grande aumento da produção, foi preciso explorar uma quantidade cada vez maior de recursos. Desse modo. a natureza passou a ser vista apenas como fonte de matérias-primas, o que deflagrou um intenso processo de degradação". 201. 7:35 ProP: Muito bem. Depois da Débora é a Iara. 202. 7:36 ((Pesq.: A Prof Marta faz sinal para a aluna ler. Iara começa a leitura. 203. 7:36 Iara: "A e.xploração desenfreada na natureza alcançou níveis sem precedentes em toda a história, ocasionando profundas mudanças nas paisagens terrestres, ((fala baixa)) As florestas e matas são devastadas para ceder lugar às lavouras e pastagens ou apenas para a retirada de madeira, levando um grande número de seres vivos à beira da extinção, como acontece no Brasil e em muitos outros países do mundo: os solos de muitas regiões, como o do Sahel, na África, tornam-se improdutivos devido ao manejo inadequado; ((fala acelerada)) a poluição aumenta a cada dia, seja nas águas continentais e oceânicas, seja na atmosfera de grandes cidades como São Paulo. Los Angeles e Santiago do Chile, ((fala baixa» Além disso, o lixo acumula-se cm quantidades imensas nos maiores centros urbanos, e muitos recursos, sobretudo os energéticos de origem fóssil, já mostram sinais de esgotamento. 204. 7:37 Prof: Agora é o Douglas. 205. 7:37 Douglas: Onde é pra ler? 374 (Coiiliiuia) N°. HOR.4 ENENTO 206. 7;37 Prof: Em baixo, veja aí na página 43 207. 7:37 ((Pesq.: Douglas começa a leitura.)) 208. 7;37 a 7:38 Douglas: "0 aumento vertiginoso de todos esses problemas pode comprometer a manutenção da vida no planeta. Para muitos estudiosos, o modelo de desenvolvimento capitalista, baseado cm inovações tecnológicas, na busca do lucro e no aumento contínuo dos níveis de consumo, precisa ser substituído por outro, que leve em consideração os limites suportáveis da natureza e da própria vida. Em muitas regiões do planeta, como nas grandes cidades, o nível de poluição atmosférica é tão elevado que. por isso. niuilos habitantes acabam adquirindo diverssos problemas no aparelho rc.spiratório, Sobre a cidade do México (foto), a maior aglomeração urbana do globo, paira quase constantemente uma camada de fumaça, chamada smo;S'. 209. 7:37 ((Pesq.: Douglas leu o trecho lenlamenie e baixo. Em alf^uns momentos chegou a soletrar palavras.)) 210. 7:38 Pror: Não é .só lá. não. gente? Aqui em Belo Horizonte também tem essa questão da fumaça. 211. 7:38 César: E. eu sei. Eu Já vi também. 212. 7:38 Fernando: De ozônio? 213. 7:38 Prof": E quando está na época que não chove e o tempo fica seco é horrível. 214. 7:38 Roberto: 0 ar fica carregado. 215. 7:38 ProP: Fica uma camada cinza mesmo de fumaça nas áreas onde pas.sa muitos carros. São Paulo também é assim. Aí. é aquela quantidade de doenças respiratórias que ataca lodo mundo, mas principalmente crianças e adultos. Os hospitais ficam lotados de pessoas passando mal. 216. 7:38 Celso: Mas tem sempre um que polui o ar. 217. 7:38 Nina: E. tem. infelizmente. 218. 7:38 Prof: E já existem estudos e produção de carros menos poluentes. 0 objetivo é diminuir a quantidade de poluentes no ar. vocês sabiam? 219. 7:38 Vera: 0 elétrico? 220. 7:38 Roberto: Seria melhor mesmo, eu acho. 221. 7:38 Prof : Sim [...] e tem outros tipos também de combustíveis, inclusive os combustíveis orgânicos que o Brasil está estudando. Essa tecnologia é considerada a mais moderna do mundo, mas ainda está em estudo. Se fosse o álcool, por exemplo, é menos poluente, está certo? Se todos os carros do mundo usassem álcool, seria melhor, sabiam? 222. 7:38 Fernando: Mas ele polui, não polui? 223. 7:38 Prof: Carro a álcool? Polui gente? Olha a pergunta do Fernando. 224. 7:38 ((Pesq.; Alguns alunos comentam sobre o carro a álcool.)) 225. 7:38 César: E lógico, mas a poluição é menor. 226. 7:38 ((Pesq.: VA conversam na sala. Conversas paralelas sobre a questão do álcool.)) 227. 7:38 Prof: Agora, eu tenho uma esperança. Todo mundo está consciente da situação. Esse texto foi escrito há 8 anos atrás f...] Olhem aí no livro nas referências. E o assunto está muito atual, vocês concordam? 228. 7:38 Roberto: Está. [...] Bem atual, olha só? 229. 7:38 ((Pesq.: Roberto e Fernando se olham e sorriem, ironizando a atualidade da noticia.)) 230. 7:38 a 7:39 Prof: Então, por um lado é ruim. Porque tem 8 anos que a gente está com esse texto aqui. mas as pessoas há 8 anos atrás Já pensavam nisso, e hoje. eu acho que estão pensando mais e melhor do que há 8 anos atrás. Eu acho que sim. E vocês? 231. 7:39 Nina: Ah. não está não f...] 232. 7:39 Prof: Você não tem esperança não? 233. 7:39 Nina: Eu não. Eu acho que esse texto Já está velho. 234. 7:39 Lilian: Pra mim o texto está novo porque a gente não resolveu o problema da poluição. 235. 7:39 Prof: Mas você não acha que a gente já está sentindo na pele algumas mudanças? 236. 7:39 Nina: Ele é até bonitinho. mas não está batendo com a realidade, não. Eu acho. 237. 7:39 Vera: Oh. Marta [...) Um dia eu fui ao mirante do palácio, sabe? E lá que o meu pai paga promessa. Aí. na hora que a gente estava olhando assim, oh [...], tudo prelo, assim, em volta. Daqui não dá pra ver não. mas lá do alto dá pra ver tudo escuro. 238. 7:40 Prof: É mesmo, do alto dá pra ver. É verdade f...] 239. 7:40 ((Pesq.: I'A comentam a fala de lera. E em seguida, se calam.)) 240. 7:40 Prof: Então está bom. f...! Vamos lá para a página 44. "0 desafio energético: a escassez do Petróleo". 241. 7:40 ((Pesq.: A T vira a página do livro.)) 242. 7:40 Prof: Depois do Douelas. vou chamar a Mònica. Você pode ler? 243. 7:40 ((Pesq.: Mônica inicia imediatamente a leitura do trecho indicado pela Prof Marta.)) 244. 7:41 Mônica: "Atualmente, muitos dos recursos naturais que vêm sendo dilapidados pela sociedade capitalista industrial, como os recursos energéticos fósseis, apresentam reserva limitada na natureza. A intensa exploração desses recursos levará a um rápido esgotamento, pois a exemplo do petróleo, esses não são renováveis", ((fala acelerada)) Hoje o petróleo é fonte de onde provém cerca de Wo de toda a energia consumida no planeta, mas estima-se ((gaguejou)) que as reservas conhecidas serão suficientes para atender ao consumo mundial por apenas mais 70 anos. Assim, levanta-se uma questão: como suprir a crescente demanda energética, se o petróleo é um recurso não-renovável?" 375 (Continua) N°. HORA EVENTO 2-15. 7:41 ((Pesq.: Mônica manifesta dificuldades na leitura do trecho e acompanha a leitura com os dedos.)) 246. 7:41 Mônica: Ah. eu não quero ler mais não! 247. 7:41 ProP: Só mais um pouquinho. 248. 7:41 ((Pesq.: Mônica concorda e continua a leitura.)) 249. 7:41 Mônica: "Os conhecimentos tecnológicos que a sociedade dispõe atualmente permitiriam que grande parte do petróleo consumido fosse substituído ((gaguejou)) por outras fontes de energia. Até o final da década de 1990, por exemplo, já haviam sido inventados diferentes tipos de automóveis movidos por fontes alternativas de energia, como o hidrogênio, ((gaguejou)) a energia solar e alguns tipos de óleos vegetais. Entretanto, o problema como o seu alto custo de produção e comercialização ainda impedem sua fabricação em série." 250. 7:42 ((Pesq.: Mônica leu todo o trecho, acompanhando o mesmo com os dedos. Em alguns momentos ela leu silahando as palavras. Ela concluiu sua leitura um tanto desconcertada. 251. 7:42 Prof: Ok. Mônica. está bom. Depois da Mônica f...l é o César! 252. 7:42 ((Pesq.: César inicia imediatamente a sua leitura.)) 253. 7:42 César: "0 fato de o petróleo ser uma das maiores fontes de poluição [...] ((fala baixa)) 254. 7:42 Prof.: Mais alto! 255. 7:42 ((Pesq.; César iniciou a leitura muito baixo. Após o pedido da Prof Marta ele aumenta o tom de voz.)) 256. 7:42 César: "■[...] do planeta já seria motivo para a sociedade substituí-lo por fontes energéticas menos poluidoras. No entanto, o alto custo do desenvolvimento de novas tecnologias e o desinteresse político e empresarial, entre outros motivos, não permitem, ainda, a utilização em larga escala de fontes alternativas de energia. Veja, no quadro abaixo, algumas dessas fontes energéticas. Existem diferentes fontes alternativas de energia para a substituição de combustíveis fósseis. Grande parte delas causa um irnpacto ambiental muito pequeno, como as energias eólica e solar, que têm seu problema mais relevante ligado à poluição vi.sual. Outras fontes, no entanto, podem causar maior impacto, como as hidrelétricas." 257. 7:42 Prof.: Pode ler as alternativas. Vocês já ouviram falar da energia eólica? Ei Nícias? 0 que é energia eólica? 258. 7:42 Nícias: E energia pelo vento. 259. 7:42 Lilian: Oh! 260. 7:42 ((Pesq.; Lilian dá um grito de admiração pela resposta correia do colega.)) 261. 7:42 Pedro: Na Bahia tem. 262. 7:42 Eli: Só é possível em lugar com muito vento. 263. 7:42 ProP: Então vocês já ouviram falar? Que bom. 264. 7:42 Nícias: Ela é muito mais econômica só que é dificil de conseguir. 265. 7:42 Míriam: E, tem que captar o vento. Se não tiver vento não tem energia. 266. 7:43 Prof: Então, gente, eu lembro de ter discutido isso com vocês na 5" série. Sempre que aparecia algo relacionado com energia a gente discutia isso. Quem se lembra? A energia eólica é a energia obtida pelo vento. A energia solar é mais divulgada atualmente e mais utilizada. Agora eles já estão começando a usar a energia solar em várias casas. Quando ela surgiu era muito cara. Ela era utilizada em edifícios para aproveitar o sol que batia. Só que agora, as pessoas estão mais criativas, graças a Deus, e estão criando outras formas mais baratas. 267. 7:43 César: E [...] e tem programa na televisão mostrando isso. 268. 7:43 Viviane: 0 Globo Rural. E f...] de manhã. Pequenas Empresas. Grandes Neeócios. 269. 7:43 Roberto: Passou no Fantástico também. 270. 7:43 Nícias: Eu vi no Globo Ecologia. 271. 7:43 ProP: E mesmo, o Globo Ecologia mostra formas alternativas de baratear esses projetos. 272. 7:43 Nícias: Tem até com garrafa pet. Você já viu? 273. 7:43 ProP: Então. Nícias. fala para nós sobre o que você já viu sobre enereia alternativa. 274. 7:43 André: De garrafa pet? 275. 7:43 Vera: Eu também já vi. 276. 7:43 Nícias: Eu já vi casa construída com garrafa pet. E vi também um hotel que por cima dele tinha aarrafas pet. 277. 7:43 ((Pesq.; Í'A fazem comentários sobre diferentes formas alternativas de energia solar.)) 278. 7:43 Nina: De garrafa pet eu não vi não. Eu vi foi com caixinha de leite. 279. 7:43 Carlos: E. de caixinha de leite! Tem também. 280. 7:43 Teresa: Eu vi um projeto de casa construída com caixinha de leite porque o material que tem dentro dela é alumínio, plástico e papel. 281. 7:43 ((Pesq.; I'A comentam sobre diferentes possibilidades para a criação de sistema de energia solar )) 282. 7:43 Luís: Eu vi janela de garrafa. 283. 7:43 Prof*: Então está bom gente, vamos continuar. Vocês agora não vão mais esquecer. 0 que é mesmo energia eólica? 284. 7:43 Lilian: Energia pelo vento, não é isso? 285. 7:43 Mônica: Isso. pelo vento. Energia através do vento. 286. 7:43 Vera: Eu nunca mais vou esquecer. Foi o Nícias que falou! 287. 7:43 ((Pesq.; I A brincam com o Nícias e sorriem por causa do comentário da 1 era.)) 288. 7:44 Prof": Então vamos lá. Quem vai ler agora? É o Edimar. 376 (ConliiHia) N". HOR.A EVENTO 289. 7:44 ANI: Não veio não. fessora. 290. 7:44 ProP: Roberto! Você pode ler? 291. 7:44 Roberto: Sim. 292. 7:45 Prof": Então vamos. Roberto. Estamos na energia solar. 293. 7:46 Roberto: "A forma mais utilizada para produzir energia elétrica a partir da luz do sol é por meio de painéis de células fotovoltaicas. ((gaguejou)) Essas células, quando aquecidas, geram uma corrente de energia e são capazes de transformar em eletricidade cerca de um barra três (1/3) da luz solar captada pelo painel". 294. 7:46 ((Pesq.: A Prof Marta corrige a leitura de Roberto. Alguns alunos riem e conversam. Roberto fez uma leitura muito soletrada. Em alguns momentos foi difícil entender o que ele leu.)) 295. 7:46 Prof: Um terço. [...] 1'siiiu! Luís. .losué. são as mesmas pessoas atrapalhando. Podemos continuar Pedro?Agora lê a energia eólica aí. 296. 7:46 Pedro: "As usinas que utilizam energia eólica para gerar eletricidade são compostas por grandes torres com pás. parecidas com helices ((gaguejou)) de aviões. 0 vento movimenta as pás. que geram a energia elétrica. As torres são instaladas em locais de ventos fortes e contínuos. 297. 7:46 ProP: Héiices! ((VA repetem: helices)) Nós vamos mudar o nome. Batizar. A eólica é a do Nícias. 298. 7:46 ((Pesq.: I'A riem da brincadeira da Prof Mana.)) 299. 7:48 a 7:49 Prof: Nós temos energia eólica lá no litoral do Ceará, se não estou enganada. No nordeste, tem também em alguns estados nordestinos porque cies ficam no litoral por causa do vento. Para aproveitar, não é? Nos Estados Unidos também é muito utilizada, por exemplo, no estado da Califórnia. Normalmente é próximo de planaltos, por causa da quantidade de vento. E é o tempo todo. \ iu? Tem que ficar ventando o tempo todo para produzir energia. Então depende muito do lugar. 0 íinico problema é a poluição visual. Mas já tem tanta poluição visual por aí. 300. 7:49 ((Pesq.; \ 'A e a Prof Marta conversam sobre a energia eólica. Fala conjunta e evce.v.ço de ruido.)) 301. 7:49 ProP: E preferível ter poluição visual do que outro tipo de poluição, não é? Eu acho. [...] Bom. então vamos lá. Depois do Roberto, é o Marcelo. 302. 7:49 Marcelo: "".As usinas hidrelétricas |...l 303. 7:49 ProP: Hidrelétricas. Que é o nosso maior meio de f...] 304. 7:49 Carlos: Fonte elétrica! 305. 7:51 ((Pesq.; .Marcelo reinicia a leitura do trecho. Alimos fazem silêncio e acompanham a leitura.)) 306. 7:51 Marcelo: "As usinas hidrelétricas utilizam a força das águas para gerar energia. As águas dos rios. represadas, passam por turbinas que ao girar, acionam o gerador de eletricidade. Embora sejam uma fonte de energia ((fala acelerada)) não poluente, as hidrelétricas interferem no meio ambiente, principalmente quando as água represadas inundam áreas agrícolas ou trechos de mata com grande biodiversidade. A utilização do lixo como Ibnte de energia é possível por meio do aproveitamento do gás metano, liberado no processo de decomposição da matéria orgânica. Os sistemas de e.xtração desse gás podem ser instalados nos aterros sanitários. Em alguns países, como a Suécia, por exemplo, o lixo é utilizado como fonte de energia para o aquecimento doméstico." 307. 7:51 ((Pesq.; .Marcelo termina a sua leitura.)) 308. 7:51 Prof": E agora, depois do Marcelo é o Nilo. 309. 7:52 Vera: Você lê bem. Marcelo, 310. 7:52 ((Pesq.; Marcelo faz pergunta para a Prof Marta sobre a leitura que ele realizou.)) 311. 7:52 Nilo: E 0 álcool, é? 312. 7:52 Prof": E 0 álcool, sim. 313. 7:52 ((Pesq.; Nilo inicia imediatamente a sua leitura.)) 314. 1:51 Nilo: "0 álcool é um combustível derivado da cana-de-açúcar. Desde a colheita, até a obtenção do álcool, essa planta passa por muitos processos, como a trituração, a purificação e a destilação. 0 álcool é um substituto da gasolina como fonte de energia. No entanto, as monoculturas ((gaguejou)) do açúcar podem interferir no ambiente, devido, por exemplo, ao desmatamento para formar novas áreas de plantio". 315. 7:52 ((Pesq.; Nilo termina a sua leitura.)) 316. 7:52 Prof: Para casa! 317. 7:52 ((Pesq.; .4 Tmanifesta descontentamento com o alerta da Prof Marta e \'A protestam.)) 318. 7:52 Fernando: Ah, pára Marta, credo! 319. 7:52 Roberto: Se for pra ler, não conte comigo! 320. 7:52 César: Uuuuuh! 321. 7:52 ProP: É para amanhã de manhã! No primeiro hoi"ário, entendeu? 322. 7:52 Fernando: Ah. tá ioia f...] Pode deixar [...1 323. 7:52 ProP: Vocês vão copiar essas "Fontes alternativas de energia." 324. 7:52 Fernando: Onde está isso? 325. 7:53 Prof: Você acabou de ler! 326. 7:53 ((Pesq.; Lilian manifesta espanto com a tare fa dada pela Prof Marta.)) 377 (Conclusão) N°. HORA EVENTO 327. 7:53 Lilian: Isso tudo aqui!? 328. 7:53 ((Pesí/.: ]'A prolestani contra a atividade proposta.)} 329. 7:53 Lilian: Ah. pára. Marta, não lem como não! 330. 7:53 Roberto: Não pode tirar xerox não. IVIarta? 331. 7:56 ((Pesq.: A Prof Marta atende alguns alunos na sua mesa. I'A começam a guardar o material e se preparam para trocar de sala. Toca o sinal de término da aula. Fim da gravação.)) Fonte: Notas de campo etnográficas, Caderno 2, p. I0b-I3b, 2007 e gravação, fita 52/53, 09/08/2007. 378 ANEXO 12 Evento de letramento"'"' - Aula de Inglês,''" 8" série do Ensino Fundamental (Continua) N°. HORA EVENTO 1. 8:12 ((Pesq.: Os alunos entraram na sala de aula de Inglês e ocuparam os seus lugares. Excesso de ruído, fala conjunta. A Professora Cormem separou alguns dicionários de lnglês 'Português em sua mesa. Em seguida, a mesma parou e aguardou o silêncio dos alunos. Aos poucos a conversa diminuiu.. Nessa aula a Prof" Carmem propôs a entrada no site Kidlink para leitura de depoimentos de adolescente de diferentes países. O Kídiink é uma organização sem fms lucrativos que pretende ajudar os adolescentes a compreender suas possibilidades, estabelecer objetivos para a vida e a desenvolver diferentes habilidades. Criado em 1990. o Kidlink abrange 176 países e seus programas educacionais motivam a aprendizagem e ajudam professores do Ensino Fundamental a desenvolverem atividades curriculares que incentivem a prática da cidadania e a construção de um mundo melhor. Para facilitar o acesso e o manuseio do site. em aula anterior, a Prof Carmem distribuiu folha xerocopiada. com informações sobre o conteúdo do site.)) 2. 8 12 Prof": Hi Class! 3. 8 12 Turma: Hi teacher! 4. 8 13 Prof": How are vou? 5. 8 13 Turma: I'm fine thanks, and vou? 6. 8 13 Prof: I'm fine. too. 7. 8 13 ((Pesq.: I'era se levanta e conversa com a Prof Carmem. Aluna volta para sua carteira feliz e faz um breve comentário.)) 8. 8:13 Vera: Hu hu! 9. 8 8 13 a 15 Prof: Oitava "F"! Hoje. nós vamos continuar o trabalho no site Kidlink. Vocês vão conhecer os internautas de várias partes do mundo e ler os depoimentos deles sobre as questões que nós já discutimos antes: 1. Who 1 am? 2. What do 1 want to be when I grow up? 3. How do 1 want the world to be better when 1 grow up? 4. What can you do today, while still being a child, to make this happen sometime in the future? Vocês se lembram da folha que eu dei com o esquema do site? 10. 8 15 Nina: Sim. é para pegar essa folha? 11. 8 15 ProP: Nós vamos para a sala de Informática, ela está livre agora. Vai ser uma ótima oponunidade pra geme continuar o trabalho. 12. 8 15 Roberto: Eba. demorou! 13, 8 15 César: Eu vou nessa! 14. 8 15 Fernando: Nossa, ate que enfim cara! 15. 8 15 Vera: Lilian, eu estou com você. viu. 16. 8 15 ((Pesq.: Os alunos guardam o material pessoal na mochila e saem da sala em direção ao Laboratório de Informática. E visível o entusiasmo dos mesmos com relação ao uso do computador e entrada no site. .\'o laboratório, os alunos se organizam em duplas a frente de um computador. Cada dupla liga o seu computador conforme instrução afixada na parede. A Prof Carmem retoma com os alunos a tarefa. 1) 17. 8:20 Prof: Ei gente, pronto? Cada um com sua dupla. Nós vamos entrar no site e ler as re.spostas dos internautas. Lembrem-se hoje vocês vão ler e anotar idéias interessantes. Depois cada um vai construir o seu depoimento. Lembra aquele esquema que eu dei? Então, a gente vai entrar no nome das pessoas, e nós vamos ver lá qual é a resposta que ela deu para as questões: Quem sou eu? 0 que eu quero ser quando crescer? Como eu quero que 0 mundo seja? E a última [...] 0 que eu estou fazendo agora para no futuro o mundo ser melhor? Quem precisar de dicionário pegue aqui comigo. 18, 8:21 ((Pesq.; Ruído, fala conjunta, risos. Nina. Carla e Mõnica estão de pé e conversam com a Prof Carmem. Alguns alunos pegam o dicionário disponibilizado pela professora.)) 19. 8:21 Prof: É isso mesmo, nós vamos pesquisar sobre o que a gente vai escrever na próxima aula. Entenderam? Leiam e procurem entender a opinião deles, Se tiver alguma dúvida consulte o dicionário, Eu posso ajudar também. Nos dez minutos finais, eu deixo entrar no Orkut. Só nos dez finais, entendeu? 20. 8:21 ((Pesq.: Nina faz sinal para a ProJ" Carmem que se aproxima da mesma. Nina e Denise não conseguiram ligar 0 computador. A Prof" Carmem aponta para outro computador livre e dirige a palavra a Nina.)) 21. 8:21 ProP: Tenta aqui de novo! Tenta de novo! Para essa transcrição foram adotadas as seguintes convenções: Prof.; = professor; VA= vários alunos; ((Pesq.))= informações contextuais e pistas de contextualização fornecidas pela pesquisadora; T= turma; |...| = pausa e ANl = aluno não identificado. Data: 20/09/2007 - Aula de Inglês, Leitura e Interpretação de Depoimentos de Internautas adolescentes sobre Who I am? What do I want to be when I grow up? How do I want the world to be better when I grow up? What I can do now to make this happen? 379 (Continua) N". HORA EVENTO 22, 8:21 ((Pesq.: Nina se abaixa perlo do computador e lenta lif;á-lo de novo. A Prof C.armetn ajuda outra dupla)) 23. 8:22 João: Não abre não! Eu já desisti do meu. 24. 8:22 Pror; 0 sente! Já tem cravado aí o link. é só entrar! 25. 8:22 Nina e Dcnise; Ah. consecuimos! llu... hu! 26, 8:22 ((Pesq.: Os alunos acessaram o site: hltp://\vwM\kidliiik.or2'endish/voice/index.hlml Logo na página inicial é possível ver depoimentos de vários adolescentes de diferentes países do mundo. Entre eles Nevena. Kevin. Katie e Michelle. A Pro f Carmem percebe o engano de algumas duplas e dá novo esclarecimento. 27. 8:23 ProP: 0 eente. não é ponto gov. não. E ponto ora. Por isso que vocês ai não entraram. Tenta de novo! 28, 8:23 Edimar e Vancler: Falô. fessora! 29, 8:23 ((Pesq.: A Prof Carmem passa pelas duplas e ajuda os alunos que ainda estão com dificuldade de acessar o site. A dupla Nina e Denise estão lendo e trocando informações sobre a página inicial do site que contêm trechos dos depoimentos de Nevena. Kevin. Katie e Michele.)) 30, 8:24 a 8:29 Nina e Denise: Making our world better: Be friends, no more poverty, no more war. animal's rights, no violence, a clean world and protect our nature, no crime, no gambling, no more racism, no abuse of alcohol, no smoking, recycle and other dream. How do 1 want our future better? Nevena (from Yugoslavia): Less crimes, violence, garbage and more clean air. nature surrounding us and many polite people. It wouldn't be so good everything to be absolute!}' perfect, but the mentioned things would make this world much better! That is the world 1 would like to see in the future. Kevin (from United States): 1 think governments need to stop giving people necessities for living. Histor> has shown that when people don't have to work they do NOTHING. 1 think government paid education is good but welfare is useless. Why should we pay other people to do nothing? Katie (from Canada): We can make the world better by starting to make the environment we live in better, not just meaning "no polluting", but also no: bullying, fighting, racism etc. We can start small and expand. Michcle (from Brazil): People should love more each other. The basis to make our world better it to love! How do 1 want our future better? Telling everybody how you want our future better may help change the world the way you want. We suggest that you should do this is by answering this four Kidlink registration questions: l.Who am I? 2. What do 1 want to be when I grow up? 3. How do I want the world to be better when 1 grow up? 4. What can I do now to make this happen? Your answers will end up in a database w ith all others having the same dream. Now. you and others can count and publish information about all those to influence politicians and others who hold the key to a better future. 31, 8:31 Prof: 0 gente, não é para entrar só no retrato não. Clica no nome deles. viu. Aí vai aparecer a resposta deles. Leia com atenção o que eles responderam para depois pensar como você vai fazer o seu depoimento. 32. 8:31 ANl: Ah. então é isso? 33. 8:31 Prof": Alguém Já escreveu um depoimento? Como se escreve um depoimento? Como é que nós vamos enviar esse depoimento? Para que serve? Vocês se lembram da nossa discussão na aula passada? 34. 8:31 Vera: Eu .sei! E falar um pouco da gente e das coisas que a gente go.sta. 35. 8:31 Nina: Também é contar o que a gente quer ser quando crescer. 36. 8:31 Roberto: E uma rede. não é? Os meninos vão entrar e ler o depoimento da gente e nós vamos ler o deles. 37. 8:32 ProP: Muito bem! E por aí. 38. 8:32 ((Pesq.: lera e Lilian estão lendo o depoimento de Kevin (from United States). Lilian abre o dicionário de Inglês/Português para consultar a palavra hvpocritical.)) 39. 8:32 Vera e Lilian: Kevin (from United States) ^Vlio am I ? Well. 1 make origami during math class (It's a boring class). That ma}' not tell you anything about me but you can tell. 1 like computers and video games lots more than sports. This is hypocritical perhaps, but 1 play tennis at school. No thanks to me, (I'm ranked last) but we haven't lost yet. What do I want to be when I grow up? I haven't really decided what 1 want to do. Maybe 1 could be one of those computer guys at NASA. 1 like to fly (I've been up about 5 times). I could do something with that (heck. I'd go into space and tend to jelly fish). How do I want the world to he better when I grow up? 1 think we need to allow and encourage economic growlh while not compromising natural resources. What can 1 do now to make this happen? 1 think we need people to argue about the environment while other people argue for the economv. 40. 8:32 Vera: Achou aí. entendeu? Ei Carmem. por favor. 41. 8:33 Prof: Essa palavra pode ler diferentes sentidos, não é? Pode consultar o dicionário mas veja o sentido dela no texto. 42. 8:33 Lilian: Ele gosta de computador, vídeo games e pratica tênis. Ele não decidiu ainda o que ele quer ser. Talvez faça computação. Eu acho que é isso mesmo. 43. 8:34 ((Pesq.: lera e Lilian anotam na folha algumas informações sobre Kevin. A dupla troca impressões sobre as escolhas de. Kevin)} 44, 8:34 Prof: Gente, esta é uma atividade eolaborativa. Quem tem mais habilidade com internet ajuda o outro. Quem lem mais facilidade com o Inglês tira a dúvida do outro. Se precisar me chame também. 380 (Continua) N°. HORA EVENTO 45. 8:34 Vander: Ei Carmem. ô fessora! Você pode vir aqui. 46. 8;35 Edimar: Eu acho que é isso. vamos ver com a Carmem. 47. 8:35 ((Pcsq.: lander e Edimar estão tendo o depoimento de Michelle, uma adolescente brasileira.)! 48. 8:35 Edimar e Vander; Michelc (from Brazil) Who am / .' 1 am Michele. I'm Inleresled in making new friends. 1 am concerned about violence. 1 am ver\' humble and love pels, specially my dogs Drika and Luk. What do I want to he when 1 <,'row up? 1 want lo be a teacher. 1 want to study at a public university and become a teaciier there. I want the world lo be free of violence. I believe that God will help people to find a wa\ to quit violence. [...] What can 1 do now to make this happen? 1 can start doing m\' best to help anvone who needs me. including poor children. 49. 8:35 Prof; 01. pode falar. 50. 8:35 Edimar: 0 que é humble? 51. 8:36 Pror: E uma característica da pessoa. Ela se considera modesta. 52. 8:36 Vander: Tem outra coi.sa aqui. Veja se a gente entendeu direito. [...J Quando ela diz: 1 am concerned about violence. Sicnifica que ela está preocupada com a violência. E isso? 53. 8:36 Pror: Isso. muito bem! 54. 8:36 ((Pesq.: Edimar e Vander comemoram a aprovação da Prof Carmem com gestos e expressões.)) 55. 8:36 Edimar: Yes! 56. 8:36 Vander; Valeu, fes.sora. 57. 8:36 Prof.: Vocês já leram o depoimento da Shinjinee? ,A indiana. 58. 8:36 Nina: Cadê. eu não vi ainda não. 59. 8:36 Fernando: Nossa, mais que nome! Coitada dessa menina. 60. 8:36 ((Pesq.: Edimar e I'anderfecham o depoimento de Kevin e entram no depoimento de Shinjinee. da índia. Eles trocam informações sobre o depoimento da adolescente indiana)) 61. 8:36 Cesar e Fernando: Shinjinee (from India) Who am / .' 1 am an 11 year old girl who loves reading, watching news programmers, taking pan in debates and elocution; 1 am concerned about the threat of war and terrorism that always seems to loom large over our world. 1 have a dog and cat as my pets and watching them comfortabh' together makes me wonder wh_\- we humans cannot do the same. What do / want to be when 1 grow up? 1 would like to be a lawyer and fight for the rights of the underprivileged: alternately. I might be a human rights activist or a politician as these people can rcall\' make a difference to our world. How do I want the world to he better when 1 grow up? 1 would like to see more tolerance among people; they should be appreciative of others viewpoints. I would like to see more participation of elderlx people towards environmental conservation as they can show youngsters that even though the former's days are numbered they are trying to leave a cleaner environment for us - this message will filter down to the younger generation more potenth. ^^'hat can I do now to make this happen? I can organize street-plays with my friends to make people more aware of environmental issues. 1 would also like to travel to different countries lo spread a message of peace and tolerance to one and all. 62. 8:36 Fernando: 0 delaé grande demais. 63. 8:36 César: Nossa, meu! Ah não! Que isso. vai demorar. 64. 8:36 Fernando: Vamos ver o que ela quer. 65. 8:36 ((Pesq.: Fernando e César decidem ler o depoimento de Shinjinee da Índia. Sônia chega perto da Prof Carmem faz um comentário baixinho e fica parada esperando a resposta dela. A Pro f Carmem dá uma informação para toda a classe.)) 66. 8:36 Prof: Gente, com relação ao cuidado com o planeta tem tanta coisa pra dizer, não é. Pensa um pouco. Pode ser. por exemplo, preservação da natureza, preservação da água, viver melhor sem violência. Cada um tem que pensar como gostaria que o mundo fosse. E então você vai escrever isso. 67. 8:36 ((Pesq.: Sônia põe a mão no braço da Prof Carmem e lhe chama novamente. A Prqf Carmem acompanha Sônia até o computador e se abaixa para ver o que a dupla estava fazendo.)) 68. 8:38 ProP: Muito bem. é isso mesmo. 69. 8:37 Sônia e Débora: Hu ... Mu! 70. 8:37 ((Pesq.: Sônia e Débora comemoram o retorno da Prof Carmem com palmas. Algumas duplas, após leitura de alguns depoimentos começaram a produzir o seu. A Prof Carmem sai para atender outra dupla. Com o apoio do dicionário e trabalhando em dupla dá para perceber que os alunos compreendem em linhas gerais os depoimentos dos internautas. .4 leitura é histrumental Alguns alunos traduzem para o Português o que o internauta escreveu em Inglês. Outros pedem ajuda a Prof Carmem ou a colegas na sala com maior desenvolvimento em Inglês. .Apenas uni aluno nessa turma faz Curso de Inglês em escola particular e tem um desempenho melhor na leitura e na escrita em Inglês. )) 71. 8:37 Prof: Ei 8F. vamos lá senão não vai dar tempo. Anote aquilo que você acha importante de cada internauta. Consulte o dicionário. Eu vou ajudar também. Lembre-se que você vai montar o seu depois. 72. 8:37 Nina: Eu quero ser enfermeira. Como eu coloco então. Como é que é? 381 (Continua) N°. HORA EVENTO 73. 8:37 Vera: E com o verbo to be. 74. 8:37 Pror: Como assim? [...1 To be a nurse. Olha aqui! ((apontando para o quadro)) 75. 8:37 ((Pesq.; A Prof Carmem escreveu no quadro a frase: 1 wish to be a nurse e mostrou para Nina.VA chegam perto da ProP Carmem e solicitam ajuda. Em geral querem confirmar tradução de termos do Inglês para o 1'ortucucs.)) 76. 8:37 ANI: Õ fessora. me ajuda aqui! 77. 8:37 ((Pesq.: A dupla formada por Carla e Iara está lendo o depoimento de Sophie, da Irlanda. As duas fazem comentários sobre o depoimento. Iara demonstra maior habilidade no uso do computador. Já Carla, demonstra ter compreendido o texto de Sophie e esclarece o sentido de alguns termos. Ela faz algumas anotações no caderno sobre o que achou importante. Incentiva Iara a tomar notas também do que gostou. Iara e Carla trocam informações sobre o que gostariam de escrever no próprio texto.)) 78. 8:37 a 8:42 Carla c Iara: Sophie (from Irland) Who am / 1 am a 13 year old girl from Ireland. 1 have a generally positive outlook on life. 1 love reading, writing and learning about the peoples of the world. 1 love children and schools very much. 1 would consider myself a peaceful Republican (that means 1 support the reunification of Ireland, but only through peaceful means). H'liat do I want to he when I grow up? When I reach adulthood. I wish to become a primary school teacher, and anthropologist and a writer of children's fiction and non-fiction. I also hope to do some political activism and humanitarian work. How do I want the world to he better when I grow up? When I grow up 1 would like to travel to Africa and Asia and teach in schools there. 1 would also like to set up many children's homes and schools all over the world. What can 1 do now to make this happen? I believe that emotions create an energy which blows around the world like wind and affects every person. Therefore I always put others before myself, and treat others as 1 would like to be treated. 79. 8:42 lara: A Sophie quer ser tanta coisa: professora, antropologista e escritora. Vai ter que estudar muito. 80. 8:42 Carla: Ela quer dar aulas para crianças da Africa e da Asia. Muito legal, gostei. Eu também quero ser profes.sora. Estou pensando o que vou colocar no meu depoimento. 81. 8:42 lara: Quero o meu bem legal! f...l Olha aí o que é blows? 82. 8:43 Carla; Soprar, encher, inflamar. Fica melhor contagiar. Energia que contagia. 83. 8:43 ((Pesq.; A Prof" Carmem passa pelas duplas e continua ajudando. Fernando levanta do seu lugar, mexe com lara e sorri. Em seguida pega um dicionário na mesa.)) 84. 8:43 Carla: Ei Fernando você já se decidiu? 0 que você quer fazer quando crescer? 85. 8:44 Fernando: Quando eu crescer? Ah. [...] eu quero ser um homem. Um homem bom. Eu quero um mundo de paz e de amor. 86. 8:45 ProP: Ó gente, não pode traduzir ao pé da letra não. Como seria: "Eu tenho 13 anos"? 87. 8:45 VA: Fm thirteen vears old. 88. 8:45 ((Pesq.: A Prof" Carmem enfatiza as perguntas e olha atentamente para a turma, esperando a resposta deles. Em seguida ela escreve no quadro a resposta dada pelos alunos.)) 89. 8:46 Prof: Outra questão aqui: "Eu sou aluno da EIVIPEP". 90. 8:46 VA: Fm a student at EMPEP. 91. 8:46 Lilian: Carmem. como eu escrevo: "Eu amo você demais"? 92. 8:46 ProP: 1 love you ver)' much. [...] Ah. outra coisa, como eu digo: "Eu gosto de jogar futebol"? 93. 8:46 ((Pesq.: Algumas duplas estão conversando alto. Há barulho dentro e fora da sala.)) 94. 8:47 VA: 1 like pla\' soccer! 95. 8:47 Prof": Ó 8F. psiiiu. por favor. Ó gente, vamos colaborar aí. É para falar mais baixo! Você releu o que foi escrito? Quem ler o seu depoimento vai entender? 96. 8:47 ((Pesq.: Ao transitar pela sala e acompanhar o trabalho dos alunos, a Prof Carmem viu que algumas duplas após ler depoimentos de alguns internautas começaram a escrever o seu depoimento. Ela então chamou atenção para alguns pontos a serem considerados na escrita.)) 97. 8:47 Prof": Vamos ver outro exemplo aqui: Como eu digo: "Eu odeio jogar peteca"? 98. 8:48 V.A: I hate to plav peteca! 99. 8:48 ((Pesq.: A dupla André e Luís estão lendo o depoimento da internauía Olga - de Norway. André lembra que a Pror Carmem havia trabalhado esse texto numa aula de Inglês)) 100. 8:49 André: Esse texto aqui a Carmem já deu pra gente ler. Eu tenho certeza. Foi ele mesmo. 0 nome da menina era Olea. Você lembra? 101. 8:49 Luís: Sei não. |...l Eu acho que não li não. 102. 8:49 André: É ela mesmo. Ela toca piano e gosta de Chopin. 103. 8:49 Luís: Chopin, quem é esse cara? 104. 8:49 André: É um compositor famoso no mundo inteiro. 105. 8:49 Luís: E mesmo? 382 (Conchisüo) N°. HORA EVENTO 106. 8:49 a 8:52 André e Luís: Olga (from Norway) Who am I ? Hi! M_\' name is Olga and 1 live in Norwas'. 1 am a girl that likes to pla_\' the piano, read books and swim. 1 go to two sehools. one music school and one international school. 1 like lo participate in piano competitions and my favorite composer is Chopin. 1 play and listen to classical music only. 1 can speak and write English. Norwegian and Polish. 1 know a little bit of French too. but onl_\ the standard words. What do I want to he when I grow up? 1 am not sure what 1 will be. but 1 have thought of becoming a concert pianist and my big dream is to participate and win the Chopin competition in Warsaw in 2010. How do I want the world to he better when I grow up? 1 want the world lo be a better place to live. 1 w ant every single person to feel happy and satisfied with their lives. 1 hope that the world will be better for all people that the)' have enough food, water, education and health service. I think we on Earth should treat nature with respect and lake care of the animals, plants and other things that live on our planet. What can I do now to make this happen? 1 can save mone\' from m\' piano concerts and send it to poor children. 1 have done that before and 1 am thinking of doing it aeain. 107, 8:52 Luis; Anota ai pra gente procurar: standard. 108, 8:52 André: Acho que não precisa não. Aqui ela e.stá falando que sabe um pouquinho de francês também. 109. 8:52 Luís: Pelo jeito, essa menina é abonada. 110. 8:52 André: Com essa crise garantir comida, água. educação e saúde para todos não vai .ser fácil não. 111. 8:52 Luís: Primeiro mundo, meu! 112. 8:52 André: E. mas ela e.stá pensando nos países pobres também. 113. 8:52 {(Pesq.: André é o único aluno da 8F que tem a oportunidade de cursar Inglês no ICBEU. uma das conceituadas escolas de cursos de língua da capital, duas vezes por semana após o turno escolar. Sônia sai do seu lugar e vai até a Prof Carmem para tirar uma dúvida. A Proj" Carmem escreve no quadro as seguintes expressões: first name, last name. Em seguida, continua orientando a mesma sobre como montar a sua apresentação.)) 114. 8:53 ProP: [...] Você leu vários depoimentos, não foi? Agora você vai escrever o seu. Vai falar sobre você mesma. Por exemplo, você é uma menina, tem tantos anos. gosta de fazer determinadas ati\idades. entendeu? Você vai escrever sobre o que gostaria que as pessoas soubessem. 115. 8:53 Sônia: Açora entendi, está bom. 116. 8:53 Prof: Viu como é fácil? 117. 8:53 Sônia: Tem que escrever tudo? 118. 8:53 Prof: Não. escreva o que você quiser sobre as suas experiências, sonhos e desejos. H9. 8:53 Sônia: Já sei asora. 120. 8:53 Fernando: Ei Carmem. a gente pode entrar agora? 121. 8:53 Prof: 0 quê ? E.spera aí. 122. 8:54 Fernando: Entrar no Orkut. 123. 8:55 Roberto: Ah não. ela prometeu, .lá deu o tempo. 124. 8:55 ProP: Pode 125. 8:56 Fernando: Oba. demorou! 126. 8:57 Prof: 0 gente, deixa eu falar do dicionário. [...] 0 dicionário é uma fen-amenta muito importante. Só que tem horas que não dá certo retirar a palavra e pronto. Tem que ver se a palavra procurada ficará adequada na frase. Tem que olhar o contexto. Então, troque idéias com os colegas, me chama se não tiver fazendo sentido, viu? 127. 8:57 ((Pesq.: Alguns alunos começam a guardar o material. Outros estão no Orkut. MSS contonne prometido pela Prof Carmem. Nina e Vera recolhem os dicionários utilizados na aula pelas duplas.)) 128. 8:58 Elso: Opa! Espera aí eu estou usando ainda, menina. 129. 8:58 Vera: E mesmo, deixa de ser chato, anda logo. 130. 8:58 ProP: Deixa eu lembrar uma coisa aqui. Cada um tem que adiantar em casa a sua apre.sentação. Na próxima semana nós vamos terminar essa atividade, viu? 131. 8:58 Douglas: Falou, fessora! 132. 8:58 Nina: Eu estou terminando. 133. 8:59 Lilian: É. deixa eu ler o seu? 134. 8:59 Nina: Não. vou passar a limpo ainda. 135. 8:59 ((Pesq.: Alguns alunos saem em direção a sala de Ciências. Risos, fala conjunta, excesso de ruído. Outros alunos ainda estão no computador navegando em outros sites. Fim da gravação.)) Fonte: Notas de campo etnográficas, Caderno 2, p. 83-84, 2007 e gravação, fita 69, 20/9/2007.