LUCIANO DANILO SILVA MARGINALIDADE LITERÁRIA: UM OLHAR SOBRE A ESCRITA DE DOIS AUTORES LATINO- AMERICANOS Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG 2008 LUCIANO DANILO SILVA MARGINALIDADE LITERÁRIA: UM OLHAR SOBRE A ESCRITA DE DOIS AUTORES LATINO-AMERICANOS Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Letras: Estudos Literários da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Letras: Estudos Literários. Área de concentração: Teoria da Literatura Linha de pesquisa: Literatura e Expressão da Alteridade Orientador: Prof. Dr. Marcos Antônio Alexandre Belo Horizonte Faculdade de Letras da UFMG 2008 II Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Letras Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários Dissertação intitulada Marginalidade literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanas, de autoria do Mestrando Luciano Danilo Silva, aprovada pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores: __________________________________________________________ Prof. Dr. Marcos Antônio Alexandre – FALE/UFMG – Orientador __________________________________________________________ Profa. Dra. Sara del Carmen Rojo de la Rosa – FALE/UFMG __________________________________________________________ Prof. Dr. Ary Pimentel – UFRJ __________________________________________________________ Profa. Dra. Elisa Maria Amorim Vieira – FALE/UFMG __________________________________________________________ Profa. Dra. ANA MARIA CLARK PERES Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários da UFMG Belo Horizonte, 14 de março de 2008 III Dedico este trabalho a minha avó Alcina Rocha. IV AGRADECIMENTOS Agradeço à minha família pelo apoio, respeito, carinho e compreensão. Ao estimado orientador Marcos Alexandre pelos ensinamentos transmitidos, paciência, alegria e apoio constante. Às professoras Sara Rojo e Graciela Ravetti por fortificarem o meu gosto pela literatura por meio de suas aulas. Aos professores da Área de Língua Espanhola e Literaturas Hispânicas da FALE - UFMG do período em que cursei a graduação em espanhol. Ao colega José Maria Lopez Júnior. Aos professores do Pós-Lit da FALE – UFMG. A todos aqueles que, de alguma forma, colaboraram para a realização desta pesquisa. V RESUMO Este trabalho propõe uma discussão sobre o conceito de marginalidade literária e seu sentido operativo a partir da análise de elementos estéticos, temáticos, técnicos, estilísticos, sociais e culturais de duas obras: O rei de Havana do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez e Feliz ano novo do brasileiro Rubem Fonseca. Percorremos um caminho que parte de um primeiro emprego e funcionalidade do termo “literatura marginal” em relação aos poetas marginais, passando pela aplicabilidade do conceito, em função de uma estética que não pode ser entendida como proveniente de um estereótipo de literatura, até a aplicabilidade desse conceito nas obras estudadas. Nesta pesquisa analisamos também, sobretudo à luz da indagação de Antoine Compagnon: “O que é valor literário?” e do texto de Yvancos e Sánchez: “Teoría del canon y literatura española”, quais são os empregos possíveis do conceito “marginal” articulados especificamente ao de “cânone literário”. O estudo das obras dos dois autores latino- americanos, em seus aspectos mencionados anteriormente, articulados à Teoria da Literatura, à Crítica Literária e à perspectiva de repercussão no mercado editorial nos fornece um panorama sobre o quadro de recepção e representatividade de suas escritas levando em consideração os seus lugares de enunciação VI RESUMEN Este trabajo propone una discusión acerca del concepto de marginalidad literaria y su sentido operativo a partir del análisis de elementos estéticos, temáticos, técnicos, estilísticos, sociales y culturales de dos obras: El rey de Habana del escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez y Feliz ano novo del brasileño Rubem Fonseca. Recorrimos un camino que parte desde un primer empleo y funcionalidad del término “literatura marginal’ con relación a los poetas marginales, pasando por la aplicabilidad del concepto en función de una estética que no se puede entender como proveniente de un estereotipo de literatura, hasta la aplicabilidad de ese concepto a las obras estudiadas. En esta investigación analizamos también, sobre todo a la luz de la indagación de Antoine Compagnon: “¿Qué es valor literario?” y del texto de Yvancos y Sánchez: “Teoría del canon y literatura española”, cuáles son los empleos posibles del concepto “marginal” articulados específicamente al de “canon literario”. El estudio de las obras de los dos autores latinoamericanos, en los aspectos mencionados anteriormente, articulados a la Teoría de la Literatura, a la Crítica Literaria y a la perspectiva de repercusión en el mercado editorial nos provee un panorama del cuadro de recepción y representatividad de sus escrituras considerando sus lugares de enunciación. VII SUMÁRIO RESUMO ................................................................................................................... VI RESUMEN ................................................................................................................ VII ILUSTRAÇÃO ........................................................................................................... 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 2 Origem da pesquisa .................................................................................................... 3 Estudos iniciais sobre Crítica Literária ................................................................... 5 Dos conceitos ............................................................................................................... 16 CAPÍTULO 1 – A DOMESTICAÇÃO DO MARGINAL: O VALOR LITERÁRIO E O MERCADO COMO ELEMENTOS DE REDENÇÃO DA OBRA ............................................................... 22 1 – Considerações iniciais ......................................................................................... 23 2 – A literatura marginal e o escritor marginal ...................................................... 28 CAPÍTULO 2 – A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE NACIONAL EM O REI DE HAVANA ..................................................................... 43 2.1 – Sobre a identidade ............................................................................................. 44 2.2 – Literatura, memória, identidade e estudos culturais .................................... 51 VIII CAPÍTULO 3 – A RELAÇÃO ENTRE A ESCRITA DE PEDRO JUAN GUTIÉRREZ E A DE RUBEM FONSECA ............................... 62 3.1 – A escrita “outra” ............................................................................................... 63 3.2 – A questão política em o Rei de havana e Feliz ano novo ................................ 68 3.3 – Aproximações estéticas e temáticas entre Pedro Juan Gutiérrez e Rubem Fonseca ............................................................................................. 80 3.4 – O sexo “sujo” e despido de sentimento em Feliz Ano Novo e em O Rei de Havana ......................................................................................................... 95 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 100 REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 106 IX Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 1 Ilustração (Malecón – Havana) Fonte de inspiração para o autor cubano Pedro Juan Gutiérrez, que estrutura seus personagens baseando-se nas histórias que ouve dos cubanos que vivem nos arredores de Habana Vieja e que de noite pululam o Malecón.1 1 Imagem extraída do site: . Acesso: 23/01/2008. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 2 INTRODUÇÃO Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 3 ORIGENS DA PESQUISA Durante o período em que fui aluno do curso de Letras tive a oportunidade de entrar em contato com a obra de Rubem Fonseca logo no primeiro semestre, quando ainda fazia a disciplina “Teoria da Literatura I”. Já, naquele momento, chamou-me muito a atenção o modo peculiar de escrever desse autor e, também, os temas por ele abordados como a violência, o sexo, a morte, os ambientes decadentes dos grandes centros urbanos e os personagens com trejeitos animalescos, que, em suas relações, muitas vezes, agiam por instinto. Enquanto fazia a leitura da obra de Rubem Fonseca me surgiram algumas perguntas sobre a aceitação daquele tipo de literatura no meio acadêmico e a sua recepção por parte da Crítica Literária, quando da época da publicação de seus livros e a repercussão dos mesmos no mercado editorial. Ainda, dentro desta perspectiva, indagava-me se havia existido algum órgão social coercitivo que tinha estabelecido qualquer impedimento de veiculação da obra do referido autor, já que pelo conhecimento que possuía da história brasileira, sabia que alguns expoentes da música brasileira, naquele contexto, tinham sido exilados por apresentarem idéias, canções e outras manifestações artísticas que iam contra os preceitos da ditadura militar no Brasil.2 Depois de uma pequena pesquisa, pude comprovar que o livro Feliz ano novo havia sido censurado por incentivar a violência. Logo, atentei-me ao fato de que também em Cuba existia um órgão censor que realizava um trabalho semelhante ao que era feito no Brasil. A partir dessa constatação, vi que existiam particularidades que tornariam possível trabalhar com textos que nasceram em meio a uma atmosfera opressora, 2 Podemos assinalar neste contexto histórico o período que correspondente ao decreto do Ato Institucional Número Cinco, em 13 de dezembro de 1968, que viabilizou ao Regime Militar poderes absolutos e que, entre outras medidas, propunha recrudescimento da censura, determinando a censura prévia, que se estendia ao teatro, à música, ao cinema e a outras manifestações culturais. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 4 vigilante e punitiva que, de certo modo, tratavam de por à margem do sistema operante manifestações artísticas que expunham uma perspectiva da Nação que o Estado não aceitava. No que diz respeito aos trabalhos dissertativo-acadêmicos realizados sobre a obra fonsequiana tais como: Agosto e o discurso marginal fonsequiano de Osmar Pereira Oliva, A lógica do mundo marginal na obra de Rubem Fonseca de Maria Lidia Lichtscheidl Maretti, Literatura e marginalidade: o escritor como falsário, de Maria das Graças Fernandes Nogueira e No fio do texto: a obra de Rubem Fonseca de Maria Antonieta Pereira, todos desenvolvidos pelo Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários – POS-LIT da Faculdade de Letras da UFMG, pude observar que a maioria deles discorria sobre os aspectos construtivos de diferentes livros que constituem a obra do escritor carioca. De um modo determinante, esses trabalhos me ofereceram um universo teórico importante para que eu identificasse outros autores que se assemelham a Rubem Fonseca no que diz respeito ao tipo de escrita, às abordagens temáticas, à transposição do que se entende por real, à perspectiva ficcional literária e ao componente histórico como pano de fundo para o desenvolvimento das obras. Alguns semestres depois, fiz uma disciplina que recebia o nome de “Literatura de Minorias”, ministrada pela professora Sara Rojo, e, à medida que pesquisava sobre autores que produziam a partir de uma perspectiva que retratava a realidade de subjugação à qual estavam inseridos os países subdesenvolvidos, acabei por descobrir o escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez. Autor que me fez recuperar, por meio da leitura de seus textos, muitos daqueles aspectos temáticos retratados na obra de Rubem Fonseca, o que me levou a observar que, de modo análogo, além dos dois autores fazerem parte de um mesmo lugar de enunciação — escritores de países subdesenvolvidos latino-americanos —, ambos estruturam suas narrativas em ambientes Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 5 de classes marginalizadas. A partir desse momento, constatei que, diferentemente de Rubem Fonseca, não podia encontrar nenhum texto crítico sobre o escritor cubano. Nesse momento, surgiu-me novamente o questionamento sobre o porquê de uma provável resistência por parte da crítica literária — e, em um âmbito mais específico, no meio acadêmico, em relação a textos que tratavam de temas não tão convencionais e como, de certo modo, essas produções, muitas vezes, são consideradas “menores” e marginais em relação a um cânone vigente. ESTUDOS INICIAIS SOBRE CRÍTICA-LITERÁRIA Segundo alguns estudiosos da nossa literatura, as produções artísticas ditas marginais e menos valorizadas em termos estéticos e temáticos, sobretudo por abordarem sexo, violência e a vida daqueles que fazem parte de uma minoria sem perspectiva nos grandes centros urbanos, não podem ser entendidas como algo totalmente novo e nem de menor importância. Isso porque tais aspectos são uma realidade da vida humana. Nas palavras de Afrânio Coutinho, “o erotismo e a pornografia presentes em determinadas obras não são invenção do autor, pertencem à vida que o cerca e a todos nós”.3 Essa visão é bastante coerente se se entende que nos livros de Rubem Fonseca e de Pedro Juan Gutiérrez o que há em relação a esses conceitos pré-existentes é uma abordagem a partir de uma perspectiva do Dirty Realism — Realismo Sujo — surgido na década de 70 nos EUA e que, de algum modo, causa certo constrangimento aos leitores “menos afeiçoados” a alguns níveis de análise que se pode fazer de uma determinada obra literária, e que sentem certo desconforto quando, 3 COUTINHO, 1979, p. 77. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 6 no ato da leitura, entram em contato com os temas, em muitos casos abjetos, que compõem a estética do Realismo Sujo.4 Quando Bataille expõe que “o erotismo dos corpos tem de qualquer maneira algo de pesado, de sinistro”5 talvez esse fato já revelasse um pouco da dificuldade de abordar um tema que de um modo ou outro causa certo incômodo a muitos leitores. Ainda em relação ao caráter erótico, muito recorrente nas obras de Rubem Fonseca e Pedro Juan Gutiérrez, pode-se dizer que é uma contradição apostarmos na esperança de um controle da libido, pois Freud a definiu como “o demoníaco, isto é, aquilo que é animado por um impulso constante, não conhece dia ou noite, e é, por conseguinte, rebelde a qualquer operação de corte que sobre ela se queira exercer”.6 Se a libido, em termos psicanalíticos, faz presente em muitos segmentos e esferas da existência de um indivíduo e é inerente a ele, de onde vem o estranhamento quando determinados desdobramentos dessa libido aparecem, por exemplo, nas obras literárias? Como o intuito de responder a esse questionamento, aproximamo-nos dos dizeres de Octavio Paz que argumenta que “O erotismo em sua raiz é sexo [...] Uma das finalidades do erotismo é domar o sexo e inseri-lo na sociedade. Sem sexo não há sociedade, pois não há procriação; mas sexo também ameaça a sociedade. [...] É instinto: tremor, pânico, explosão vital, é um vulcão, e cada um de seus estalos pode cobrir a sociedade com uma erupção de sangue e sêmen. O sexo é subversivo: ignora classes e hierarquias, as artes e as ciências, o dia e a noite; dorme e só acorda para fornicar e voltar a dormir.”7 4 O termo ‘Dirty Realism’ (realismo sujo) foi usado pela primeira vez na revista literária britânica ‘Granta’, no número 8, em 1983, que publicou os americanos Raymond Carver, Richard Ford e Michael Herr, entre outros. Conforme o dicionário Larousse (2003, p. 859), “Tendência da narrativa norte- americana, surgida nos anos setenta e oitenta, que se caracteriza por uma descrição dos ambientes urbanos sem diminuir os aspectos humanos mais sórdidos”. 5 BATAILLE, 1987, p. 18. 6 FREUD apud COTTET, 1990, p. 125. 7 PAZ, 1994, p. 17. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 7 No conto “Intestino Grosso”, que faz parte do livro Feliz Ano Novo, objeto desta dissertação, o narrador faz um comentário relevante em relação ao caráter pornográfico que aparece em sua obra, quando dá algumas respostas a um entrevistador, “O ser humano, alguém já disse, ainda é afetado por tudo aquilo que o relembra inequivocadamente de sua natureza animal.”8 Daí, podemos captar que há um determinado constrangimento de também levar-se tal representação da condição humana — especificamente erótica — ao universo literário de um modo instintivo e animalesco. Não raro, observam-se tendências no discurso da crítica literária que apontam para um desprestígio desse tipo de escrita, pelo fato de retratar e construir um mundo diferente daquilo que é convencionalizado, isto é, uma caracterização de ambientes decadentes, imorais e sujos que o tempo todo se procura ignorar. Conforme argumenta Silviano Santiago, como veremos mais adiante, algumas destas obras estão mais para textos jornalísticos que propriamente arte. Diz-se, ainda, do surgimento de uma mudança no panorama da Teoria da Literatura, ou especificamente de uma crise, pois, como enfatiza José María Pozuelos Yvancos9, há uma incerteza quanto aos caminhos que serão traçados pela Teoria, justamente pelas novas tendências relacionadas aos estudos culturais, os estudos gay e a literatura produzida nos países subdesenvolvidos. Não obstante, a inclusão de novas perspectivas no campo da Teoria da Literatura não é aceita de tão bom grado, já que há uma tentativa, sobretudo da crítica literária norte- americana, de reafirmar os cânones como um meio de contenção das formas de representação cultural subversiva e, no mínimo, diferente do comumente aceito. 8 FONSECA, 2000, p. 167. 9 YVANCOS apud SEDLMAYER et. alli, 2005. É interessante trabalhar aqui com os aportes deste teórico espanhol para que tenhamos um ponto de vista de quem produz e lida com o campo da teoria a partir de uma perspectiva que se afasta dos grandes centros de produção teórico-literários já convencionais como o dos americanos ou mesmo o dos franceses. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 8 No intuito de discorrer sobre essa temática, as obras Feliz ano novo, do escritor brasileiro Rubem Fonseca, e O rei de Havana, do cubano Pedro Juan Gutiérrez, foram eleitas como corpus de análise para o desenvolvimento desta dissertação. Podemos dizer que essas obras partem de uma perspectiva marginal por apresentarem elementos que não respondem nem estruturalmente nem semanticamente ao discurso hegemônico e cada uma delas é considerada “literatura marginal por estar à margem da literatura dominante.”10 Seligmann-Silva quando analisa a questão do sublime e do abjeto em seu texto “Do delicioso horror sublime ao abjeto e à escrita do corpo” — que será retomado mais adiante quando for tratada a questão estética das obras aqui estudadas —, ressalta que um pouco antes do final do século XVII havia o domínio da tríade Verdade-Bom-Belo nas artes, porém, no final desse mesmo século essa crença — renascentista — começou a ser posta em questão11. Se levarmos em conta a máxima de que uma obra para alcançar determinado êxito literário, como já foi dito na perspectiva de Compagnon, tem que imitar de maneira fecunda as obras já canonizadas12, podemos dizer então, que há um movimento de busca pelos parâmetros renascentistas, e como o projeto literário de Rubem Fonseca e o de Pedro Juan Gutiérrez não correspondem efetivamente a um modelo pré-existente a partir de um ponto de vista da tríade renascentista, as obras desses autores são consideradas “menores” em relação à literatura dominante. Segundo Maria Lídia Lichtscheidl Maretti, “o espaço da marginalidade se origina da contravenção constante às normas estabelecidas e como uma reação aos valores do mundo “burguês” que buscando condenar, eliminar, só consegue ficar na 10 PONGE. In: FERREIRA, 1981, p. 138. 11 SELIGMANN-SILVA, 2005, pp. 33-34. 12 COMPAGNON, 2001, p. 226. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 9 tentativa de ignorar essa existência”.13 Esse fato corrobora o que comenta Yvancos sobre a existência de uma tentativa de se reafirmar as obras que fazem parte do cânone como uma estratégia de conter as dimensões dos estudos culturais: La retórica de la crisis ha generado una idealizada imagen de los clásicos, de los grandes autores de la tradición literaria, como si la literatura clásica fuese una garantía de estabilidad y de unidad frente al caos o pueda ajustar cuentas contra ese caos oponiéndole un espacio de valores comunes que sustentan ideológicamente una posición conservadora en los estudios literarios.14 A ênfase em contrariar os padrões literários canônicos é uma característica marcante da escrita de Pedro Juan Gutiérrez, o que o torna um escritor duplamente marginalizado. Primeiramente por ir contra as convenções estabelecidas por uma determinada corrente da crítica literária que o classifica como “inadequado”15. Há, então, um preconceito em relação ao que se produz fora de um círculo conceituado e reconhecido às vistas dessa vertente da crítica. Aquele que não seguir “as obras modelo, destinadas a serem imitadas de maneira fecunda”16 será considerado como marginal em relação a um cânone vigente. Entretanto, esse não deve funcionar como um instrumento regulador, uma vez que é mutável e que “até o próprio cânone dos grandes escritores é instável”17. O segundo fator está intrinsecamente relacionado à origem, isto é, por ser latino-americano, supostamente, mero consumidor da cultura de massas que se origina 13 MARETTI, 1986, p. 133. 14 YVANCOS, 2000, p. 66. “A retórica da crise tem gerado uma imagem idealizada dos clássicos, dos grandes autores da tradição literária, como se a literatura clássica fosse uma garantia de estabilidade e de unidade perante o caos ou possa ajustar contas contra esse caos opondo-lhe um espaço de valores comuns que sustentam ideologicamente uma posição conservadora nos estudos literários”. (tradução minha) 15 Podemos considerar que Pedro Juan Gutiérrez reage a determinados modelos literários como o de Laidi Fernández de Juan, escritora cubana considerada uma das vozes mais talentosas dentro do discurso narrativo cubano, uma vez que essa autora defende a idéia de que o mercado fora de Cuba exerce uma tentação sobre os escritores e que esse mercado deprecia a imagem dos cubanos a custa de um efêmero êxito editorial (cf. www.cubanet.org/CNews/y07/ago07/20a9htm). Pedro Juan Guitérrez estilisticamente está mais próximo de um projeto literário representado por uma nova safra de narradores dos anos 90. Nesse contexto, podemos destacar Ena Lucía Portela e Leonardo Padura, que, de certo modo, demonstram por meio de suas narrativas a realidade em que vivem e na qual é difícil desvencilhar a paisagem cercada de escombros, os palavrões e a asfixia. 16 COMPAGNON, 2003, p. 33. 17 COUTINHO, 1979, p. 17. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 10 no Norte, pois a “América Latina não seria capaz de desenvolver sua própria indústria da cultura.”18 Essa suposição pode ser descartada quando tomamos como referência, por exemplo, o movimento antropofágico inaugurado por Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Raul Bopp, que diz respeito a uma devoração simbólica da cultura estrangeira, aproveitando dela suas inovações artísticas, porém sem perder nossa própria identidade. Corroborando essa perspectiva antropofágica, os dizeres de Nelly Richard são imprescindíveis para um melhor entendimento sobre a recepção e comportamento do latino-americano diante do que vem de fora: El esquema iluminista y culturizador de la modernidad histórica ha operado mediante cadenas de transmisión y relevos que suelen ordenar las manifestaciones culturales de los países dependientes según una lógica principalmente reproductora, pero lo que hay es un gesto consistente en la reconversión de lo ajeno a través de una manipulación de códigos que readecua los préstamos a la funcionalidad local de un nuevo diseño crítico.19 De certo modo, a análise comparativa das obras desses dois autores latino- americanos reforça a idéia de semelhança da cultura da América de língua portuguesa com a de língua espanhola, viabilizando, dessa maneira, o reconhecimento de raízes comuns que constituem uma “identidade”20 latino-americana. Quando mencionamos raízes comuns, pretendemos fazer referência aos aspectos que aproximam culturalmente Brasil e Cuba e aos que concernem à realidade difícil a qual estão submetidos. Ambos os países compartilham uma realidade de pobreza, desigualdade social, discriminação 18 http://www.periodismo.uchile.cl/talleres/teoriacomunicacion/archivos/globalizacion.htm. 19 RICHARD, 1989, p. 55. O esquema iluminista e culturalizador da modernidade histórica tem operado mediante cadeias de transmissão e relevos que costumam ordenar as manifestações culturais dos países dependentes segundo uma lógica principalmente reprodutora, porém o que existe é um gesto consistente na reconversão do estrangeiro por meio de uma manipulação de códigos que readequa os empréstimos à funcionalidade local de um novo desenho crítico. (grifo da autora; tradução minha). 20 Quando usamos o conceito de “identidade” comum queremos fazer referência ao caráter do hibridismo cultural, às origens afrodescendentes do povo e suas manifestações, também o aspecto político que nos permitiu fazer um recorte aproximativo do contexto histórico da ditadura militar no Brasil e modelo político comunista ainda vigente em Cuba. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 11 racial, dependência cultural e outros aspectos incluídos nos estudos da alteridade e/ou culturais. Ainda que possamos destacar semelhanças entre os dois países é importante fazer menção ao fato de que em relação ao contexto histórico-político, Cuba apresenta um caudal de governos ditatoriais que não pode ser reconhecido de igual maneira ao Brasil, se levamos em consideração o período do regime militar brasileiro. Cuba, desde a sua independência em 1902, teve a frente de seu governo o ditador Gerardo Machado, que seguiu no posto até 1933 quando foi retirado por Fulgêncio Batista por meio de um levante popular em 1944. O governo do também ditador Fulgêncio Batista teve duração até o dia 1º de janeiro de 1959, quando Fidel Castro e um grupo rebelde tomaram Havana e a partir daí estabeleceu seu governo. Fidel seguiu no poder até 2006 quando teve que se afastar da vida pública devido a graves problemas de saúde. Mas, em igual proporção, podemos identificar órgãos sensores e cerceadores das liberdades democráticas e também de respostas violentas e coercitivas em relação a toda oposição ao regime militar no Brasil como também no contexto do regime comunista cubano. Outros fatores que levam a reconhecer a possibilidade de se estabelecer um paralelo entre o tipo de escrita e o “lugar de enunciação”21 dos referidos autores latino- americanos são apontados por Marcos Nunes, em Visões da América: Rubem Fonseca e Pedro Juan Gutiérrez nos colocam nesse território de aflitos, de poucos vencedores e inúmeros perdedores. Território muito vasto em seus países, um eternamente condenado à pecha de país em desenvolvimento, país do futuro, que nunca corresponde às idealizações. Outro, por um regime condenado por um embargo econômico insuperável até a submissão a um modelo-padrão de democracia, sem esquecer da própria hediondez característica de políticas que restringem, censuram e condenam, às vezes até a morte, seres humanos, seja por “delito de opinião”, seja às condições sub- 21 O termo “lugar de enunciação” aqui utilizado foi tomado de empréstimo da Profª Dra. Sara del Carmen Rojo de la Rosa, à época da apresentação do seminário Topografias da cultura: representação, espaço e memória. Convênio Bologna – UFMG, 2006. Neste trabalho, como naquele seminário, o lugar de enunciação é visto como o local de onde o indivíduo constrói seu discurso, formula sua identidade e carrega as características do meio do qual ele faz parte. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 12 humanas de uma carência material que encontra paralelo nas grandes massas alijadas do processo produtivo na maior parte do continente, mas que só em Cuba tem sua expressão em uma resistência política cujo caráter Pedro Juan pretende revelar como mera vontade de manutenção de poder por uma classe dirigente privilegiada.22 No momento em que surgem as obras de Pedro Juan Gutiérrez e Rubem Fonseca, pode-se dizer que são rechaçadas por parte da crítica literária, pois as suas “escritas” são consideradas “outras” e não aquelas do discurso convencional, que prima por reconhecer como textos legítimos aqueles que podem ser facilmente reconhecidos como provenientes de um modelo estético já canonizado. No entanto, é importante ressaltar que não é somente a Crítica que identifica o caráter de transgressão dessas obras. Para corroborar esse ponto de vista, aludimos ao fato de que Feliz ano novo foi proibido pelo ministro da Justiça Armando Falcão, do então Presidente Ernesto Geisel, com a alegação de atentar contra a moral e os bons costumes. Um senador da Arena, o partido do Governo, chegou a dizer que se tratava de “pornografia pura” e defendeu a prisão do autor. Com o objetivo de corroborar a leitura comparativa das obras dos dois autores pesquisados, vejamos, a título de exemplo, os seguintes trechos que retratam de modo comparativo a realidade social a qual estão submetidos os personagens, a sua linguagem áspera e repleta de palavrões e expressões vulgares e, desse modo, o meio social que serve como pano de fundo para o desenvolvimento das narrativas dos dois escritores: Numa passagem, entre o bar e o outro prédio, saiu um dos atendentes e jogou restos de comida num balde. Eram restos para os porcos. Fedendo comida podre. Naquele caldo asqueroso, boiavam uns pedaços de pão, restos de croquete, cascas de manga. Pegou tudo e saiu para a rua, engolindo aquela porcaria.23 22 www.geocities.com/soHo/Den/9103/texto13c.html. 23 GUTIÉRREZ, 1999, p. 27. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 13 As madames granfas tão todas de roupa nova, vão entrar o ano novo dançando com os braços pro alto. Já viu como as branquelas dançam? Levantam os braços pro alto, acho que é pra mostrar o sovaco, elas querem mesmo é mostrar a boceta mas não têm culhão e mostram o sovaco. Todas corneiam os maridos. Você sabia que a vida delas é dar a xoxota por aí?24 Tal atitude de colocar as obras no terreno da marginalidade literária se deve, segundo Cornejo Polar, “pelo afastamento dos paradigmas consagrados ou que não coincidem com o modelo promovido de determinado momento.”25 Segundo Paulo Oliveira, Rubem Fonseca representa aquilo que fica às margens da sociedade, aquilo que muitos discursos literários não consideram como relevante para ser representado. A estética de Fonseca, portanto, é a estética do feio, do grotesco e do violento, tudo aquilo que, segundo a estética do clássico, seria considerado indigno de representar.26 Ainda no que concerne ao conceito de grotesco, Marcos Alexandre afirma que ele geralmente “aparece associado à mistura do animalesco com o humano”27. Tal consideração é aplicável às obras dos referidos autores: seus personagens, freqüentemente, são seres que agem por instinto, que buscam a satisfação das necessidades físicas, começando pelo alimento e pelo sexo, tendo como cenário uma atmosfera de desigualdade social, fome, miséria, discriminação racial, ou seja, um mundo de deserdados e desvalidos sem perspectivas. Outro fator importante quando se pretende descobrir por que determinadas obras são consideradas literatura marginal é o caráter de transitoriedade dessa denominação. Em um dado momento, um escritor pode ser considerado marginal e maldito, em outro pode haver uma mudança na perspectiva da aceitação de sua obra e ela pode aparecer, 24 FONSECA, 2000, p. 13. 25 POLAR, 2000, p. 27. 26 OLIVEIRA, 1999, p. 35. 27 ALEXANDRE, 2004, p. 71. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 14 então, não mais como subversiva aos padrões pré-estabelecidos. Nesse contexto de mudança de perspectiva de aceitação da obra do escritor, podemos afirmar que o caso de Rubem Fonseca no período pós-ditadura no Brasil é um exemplo constatável dessa realidade; pois durante a ditadura, o autor e o seu livro Feliz ano novo representavam um modelo de “criador e criatura” inadmissíveis aos padrões sociais e literários da época. Já em um segundo momento histórico, no final da década de 80, o ato antes proibitivo serve como mola propulsora para converter seu livro em um fenômeno de vendas no mercado editorial. A partir do exposto é que argumentamos que estudar as obras de Pedro Juan Gutiérrez e Rubem Fonseca em seus aspectos temáticos, técnicos e estilísticos, articulados à Teoria da Literatura e à Crítica Literária, justificam-se na medida em que se faz necessário realizar um estudo sobre os desdobramentos que podem ser atribuídos ao conceito de “literatura marginal”, que ora é relacionado diretamente à “poesia marginal” e ora é pouco abordado pelos teóricos da literatura, dado à escassez de textos publicados sobre o assunto. No que diz respeito à abordagem do tema “marginal”, buscamos a ampliação do entendimento desse conceito, partindo do pressuposto de que as obras analisadas recebem essa nomenclatura também devido à sua constituição estética, isto é, uma “estética do feio” que Alexandre trata “não apenas como oposto ao “belo”, mas tudo aquilo que foge aos padrões estéticos pré-estabelecidos socialmente e culturalmente”.28 É importante salientar que o escritor brasileiro Rubem Fonseca, na atualidade, não pode ser considerado marginal, uma vez que suas obras têm um alcance muito grande no mercado editorial e, além disso, alguns de seus livros já foram adaptados para o cinema. Entre eles podemos destacar Relatório de um homem casado, de 1973, filme 28 ALEXANDRE, 2004, p. 74. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 15 no qual se fez uma adaptação do conto “Relatório de Carlos” presente no livro A coleira do cão; A grande arte, de 1991 e Bufo & Spallanzani, de 2001. A partir dessa perspectiva, não se poderia chamá-lo de escritor marginal como foram chamados aqueles poetas marginais da década de 70, que se valiam do mimeógrafo29 para que pudessem divulgar o trabalho em portas de bares, teatros e cinemas de grandes cidades brasileiras, já que o mercado editorial pouco se interessava pelos seus textos. Um dos desdobramentos sobre o conceito “marginal” proposto por Saer permite que se afaste Rubem Fonseca da leitura de um autor que produz a partir de uma perspectiva marginal: “É portanto marginal um escritor que não escreve livros que correspondam ao gosto dominante, que não alcança tiragens elevadas ou uma produção abundante e regular e cujos livros não servem para a adaptação teatral, televisiva ou cinematográfica.”30 Sob ótica do argumento exposto por Saer, o escritor carioca não poderia ser considerado marginal. Tal fato, no entanto, não exclui que boa parte de sua obra apresente elementos estéticos que podem ser reconhecidos como componentes de uma literatura marginal. Além dessa constatação, quando se faz um recorte sincrônico das décadas de 60 a 80, no Brasil, época da ditadura militar, podemos entendê-lo como marginal em muitos sentidos desse adjetivo. No desenvolver desta dissertação são tratados os níveis de marginalidade que podem ser identificados em uma obra e os desdobramentos desse adjetivo chegando até categorias como “marginal estético” e “contextual”, como veremos no capítulo 1. O estudo do contexto histórico em que a obra Feliz ano novo de Rubem Fonseca e as obras de Pedro Juan Gutiérrez (proibidas em Cuba) foram produzidas evidencia que 29 Uma antiga máquina à base de álcool e papel carbono velha conhecida dos professores antes da chegada do xérox. 30 SAER, 1997, p. 109. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 16 as mesmas cumprem uma tendência subversiva, em termos estéticos, e vão contra ao discurso político ditatorial. A partir desses aspectos se justifica a adequação desta dissertação à área de concentração “Teoria da Literatura” e da linha “Expressão da Alteridade”. Entendemos que as obras dos dois autores aqui trabalhados fogem ao que se espera de um estereótipo literário em determinado contexto histórico e pensamos, por esse motivo, que é importante e necessário compreender melhor como o discurso do “outro”, do “diferente”, se manifesta nas obras literárias que constituem nosso corpus de análise, ressaltando como se dão os processos de coerção por parte dos poderes ditatoriais em relação às obras de Pedro Juan Gutiérrez e de Rubem Fonseca, autores que em seus livros deixam vir à tona, por meio dos seus personagens, as vozes dos grupos excluídos que vivem à margem da sociedade. DOS CONCEITOS Os conceitos que permeiam esta pesquisa são a literatura marginal, a constituição do cânone literário e os Estudos Culturais, na perspectiva da criação da identidade nacional. No desenvolvimento desta dissertação, são revisados os tópicos mencionados à luz da indagação de Antoine Compagnon: “O que é valor literário?”31 e Literatura e Valor, texto proveniente de um debate entre os teóricos Beatriz Sarlo e Roberto Schwarz. O texto de José María Pozuelo Yvancos e Rosa María Aradra Sánchez: “Teoría del canon y literatura española” se revela como de grande valia para que sejam analisadas questões relativas ao estudo do cânone e a importância dos Estudos Culturais no panorama atual da Teoria Literária.32 Ainda dão suporte ao estudo 31 COMPAGNON, 1999, p. 128. 32 Segundo a perspectiva de José María Pozuelos, autor do livro Teoría del canon y literatura española (publicado em Madrid, em 2000, e ainda não lançado aqui no Brasil), a emergência dos Estudos Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 17 crítico desses conceitos, as concepções e as reflexões, principalmente aquelas discutidas por Stuart Hall, sobre a constituição da identidade, por Michael Focault, no que se refere aos mecanismos de poder ditatorial nas obras dos autores latino-americanos e também por Bataille e Lacan, quando da análise de elementos que dizem respeito ao desejo, ao erótico e à libido presentes na estética das obras analisadas. Ainda em relação ao contexto estético, é relevante salientar a abordagem sobre o termo Dirty Realism (Realismo Sujo) que propicia um reconhecimento dos elementos que compõem a estética das narrativas dos dois autores e sua relação com outros escritores tais como Charles Bukowski e Henry Miller. Com base nos conceitos anteriormente apresentados, esta dissertação é dividida em três capítulos. No primeiro capítulo, analisamos e questionamos, em termos gerais, como acontece o processo de marginalidade literária a partir de uma perspectiva acadêmico-crítico-literária e, ao mesmo tempo, procuramos definir qual o sentido operativo do conceito “marginal” articulado ao de “cânone literário”. Com o exposto, procuramos enfatizar que ainda que uma determinada obra apresente uma veiculação mercadológica considerável — como é o caso dos livros do escritor Paulo Coelho —, não quer dizer que essa venha a ter uma repercussão a partir de uma perspectiva dos estudos acadêmicos e teóricos. Neste sentido, estaria implícito nessa constatação um tipo de marginalização? Poder-se-ia falar em uma “marginalidade acadêmica”? Para analisar essa questão, termos como o “valor literário” e “o mercado” são abordados na tentativa de esclarecer qual é função deles para que haja uma redenção de uma obra considerada em um primeiro momento como constituinte de um ponto de vista marginal. Culturais, a Crítica Feminista e os Estudos Pós-Coloniais cumprem o papel de expandir o campo da Teoria literária e de nenhum modo tais estudos destronariam os Estudos Literários. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 18 Silviano Santiago quando analisa o fenômeno de vendas Paulo Coelho que, em outubro de 2003, entrou para o Livro dos Recordes Guinness, como o escritor que, em um mesmo dia, assinou o maior número de traduções de obra sua, faz a seguinte ressalva: “A inscrição do nome próprio no livro dos recordes serve basicamente para legitimar a qualidade pelo viés da quantidade”.33 A partir daí, já temos uma idéia de como um autor e sua obra podem conseguir um alcance muito grande junto ao público não-acadêmico e por cair tanto nesse gosto popular pode até chegar algum dia a ser estudado, quem sabe no intuito de analisar quais são os fatores que fazem com que livros como os de Paulo Coelho sejam tão procurados. Alguns fatores — como o de ser classificado como autor de textos de auto-ajuda (gênero que representa uma parcela grande de vendas no mercado editorial do Brasil) e possuir por trás um esquema massivo de propaganda — permitem entender a razão pela qual as obras desse autor brasileiro se tornam best sellers ou mesmo fenômeno de vendas. No segundo capítulo, buscamos com o auxílio dos Estudos Culturais, sobretudo a partir das abordagens de Stuart Hall, explicar como se dá o processo de constituição da identidade nacional em O rei de Havana, analisando questões relativas à memória, já que esse conceito se faz muito presente no decorrer da narrativa de Pedro Juan Gutiérrez. Podemos dizer ainda que a memória é um elemento estruturador nas relações entre os personagens e serve para entendermos, a partir das relações entre esses, um sentido particular de identidade do indivíduo que denota a Nação e a identidade de um modo geral. Desse modo, a “memória” apresenta-se como um conceito importante para analisarmos a representação dos grupos minoritários na literatura. 33 SANTIAGO, 2004, p. 71. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 19 Aludimos sinteticamente também a outros textos de autores como Plínio Marcos34 e João Antônio35 (retomado no capítulo 1), no intuito de ressaltar o caráter de inserção de personagens marginais nas obras e o papel da censura, ou obras cinematográficas como Cidade de Deus e Tropa de Elite (no capítulo 3), para destacar a relação de proximidade entre leitor/espectador e a violência que o rodeia. Nesse contexto, também a obra literária Feliz ano novo, na qual as camadas marginalizadas da sociedade são retratadas e a violência é enfocada de modo mais aproximativo à realidade, adquire uma repercussão no mercado editorial brasileiro e nos abre a um questionamento: Por que obras que põem em evidência os estratos mais baixos da sociedade repercutem tanto? Para fundamentação de nossa argumentação, serão relevantes as abordagens de teóricos como Silviano Santiago e Michael Focault36. Santiago nos diz que, Por um lado, o leitor estrangeiro tende a buscar entre os livros de literatura que pretende ler aqueles que denunciam despudoradamente a condição miserável de grande parte da população brasileira. São em geral livros de literatura que pouco se preocupam em satisfazer os mínimos requisitos que transformariam em obra de arte o fato bruto socioeconômico37. No que diz respeito aos Estudos Culturais, Ana Rosa Neves comenta que Há uma impossibilidade de concordância com uma definição essencial ou uma única narrativa para os Estudos Culturais visto que, eles precisam permanecer abertos ao inesperado, ao imprevisto, assim sendo, é impossível controlar o seu desenvolvimento 38. 34 Deste autor podemos destacar o romance Uma reportagem maldita – Querô, publicado em 1976, adaptada para o teatro, em 1979, e para o cinema, em 2007, sob a direção de Carlos Cortez. 35 João Antônio, escritor paulista que foi considerado intérprete do submundo e da marginalidade. A maioria de seus personagens, assim como os do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez e também muitos dos que aparecem na obra de Rubem Fonseca, são indivíduos que vivem na periferia dos grandes centros urbanos. Entre esses personagens figuram, prostitutas, operários, biscateiros, soldados, homossexuais, crianças abandonadas, pedintes, jogadores de sinuca e desempregados. Um livro desse escritor paulista que podemos fazer menção é Malagueta, Perus e Bacanaço, de 1963, obra que retrata bem as classes marginalizadas da sociedade. 36 Esse autor é retomado no capítulo 2 quando tratamos do caráter indissociável da delinqüência/marginalidade em relação à sociedade, ali representada em trechos de O rei de Havana. 37 SANTIAGO, 2004, p. 69. 38 NEVES. In: ANDRADE et alli. (Org.), 1999, p. 207. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 20 Diante de tamanha abertura em relação ao que podemos abordar nos Estudos Culturais, faz-se necessário ressaltar que a utilização desta corrente teórica nesta dissertação está direcionada especificamente à definição que Ana Rosa Neves dá aos Estudos Culturais, ou seja, “aquela na qual as formas de produção cultural devem ser estudadas em relação a outras práticas culturais e em relação às estruturas históricas e sociais”39. Portanto, é, sobretudo, a partir dessas últimas estruturas — históricas e sociais — que fazemos um recorte conceitual e teórico para analisar a constituição da identidade nacional em O rei de Havana. No terceiro capítulo, analisamos a relação entre a escrita dos dois autores latino- americanos e buscamos os elementos estruturais que nos permitem realizar uma leitura da obra de Pedro Juan Gutiérrez a partir da perspectiva dos Estudos Culturais e fazer um recorte diacrônico na história da literatura brasileira para demonstrar que se pode também fazer uma aproximação do livro Feliz ano novo de Rubem Fonseca desse contexto. Em um primeiro momento, analisamos Feliz ano novo, destacando o momento histórico, o espaço e os personagens. Sucessivamente, estabelecemos uma análise teórica do livro O rei de Havana, de Pedro Juan Gutiérrez, demonstrando as aproximações temáticas em relação à obra de Rubem Fonseca, focalizando a constituição de seus personagens e a separação entre o real e o ficcional. Se por um lado se pode fazer uma aproximação entre os dois autores que têm como lugar de enunciação países subdesenvolvidos e que entre outros aspectos coincidentes apresentam abordagens temáticas e estéticas semelhantes em suas obras, por outro, podem ser levantados pontos que os distanciam. Dentre eles, o fato de o autor cubano, por exemplo, ter que sair de seu país para poder publicar os seus textos, 39 Ibidem. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 21 enquanto que, na época da ditadura no Brasil, o livro Feliz ano novo foi publicado e só depois censurado. Por fim, à guisa de conclusão, estabelecemos algumas considerações sobre a pesquisa e sobre os autores que constituíram o corpus desta dissertação. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 22 CAPÍTULO 1 A DOMESTICAÇÃO DO MARGINAL: O VALOR LITERÁRIO E O MERCADO COMO ELEMENTOS DE REDENÇÃO DA OBRA Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 23 1 – CONSIDERAÇÕES INICIAIS Há mais de um quarto de século, ou seja, em meados de 1981, já se levantavam dúvidas sobre os meios eficientes e especificamente científicos que fossem capazes de denominar uma literatura como constituinte de uma perspectiva marginal ou não. Um livro de ensaios relevante e abridor de águas em relação ao tema é Crítica Literária em nossos Dias e Literatura Marginal que tem como organizador João Ferreira. Muitos anos se passaram e foram realmente poucas obras de caráter crítico-literário que surgiram até os dias atuais que aprofundassem a questão sobre o conceito de literatura marginal ou mesmo dos desdobramentos do conceito “marginal” no contexto da literatura. Quando muito, podem-se encontrar algumas obras como a já citada anteriormente, ou outras que tocam superficialmente a questão da literatura marginal, como é o caso de Agosto e o discurso marginal fonsequiano, de Osmar Pereira Oliva, e A lógica do mundo marginal na obra de Rubem Fonseca, de Maria Lidia Lichtscheidl, que tratam da estética de criação de Rubem Fonseca, das classes marginalizadas na construção do cenário das narrativas e se fala pouco da escrita desse autor numa perspectiva marginal em relação a outros autores que já fazem parte de um cânone literário reconhecido. Logo, é possível fazermos o seguinte questionamento: se uma obra apresenta no seu enredo grupos marginalizados da sociedade, a partir do ponto de vista minuciosamente descritivo dos personagens, de sua maneira não convencional de se comunicar (uso de gírias, vocabulário de baixo calão etc.), ela pode ser, necessariamente, considerada marginal? Do conto “Intestino Grosso” do livro Feliz ano novo de Rubem Fonseca, destacamos um trecho para que se possa ter uma idéia do que seja o ofício de ser escritor. Apesar do caráter de ficcionalidade, podemos trazê-lo para uma perspectiva de Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 24 reflexão sobre o cânone, isto é, aqueles textos ou autores que servem como modelo para outros que têm a pretensão de também serem escritores. Vejamos o fragmento em que o escritor-personagem responde e discursa sobre o tema e que, de certo modo, já introduz inicialmente a questão sobre aqueles textos que são produzidos fora de um padrão convencional e que, nesse sentido, vão ser considerados à margem da literatura vigente: “Quando foi que você foi publicado pela primeira vez? Demorou muito?” “Demorou. Eles queriam que eu escrevesse igual ao Machado de Assis, e eu não queria, e não sabia.” “Quem eram eles?” “Os caras que editavam os livros, os suplementos literários, os jornais de letras. Eles queriam os negrinhos do pastoreio, os guaranis, os sertões da vida.”40 Como dito anteriormente, os poetas marginais se valiam de meios alternativos para que pudessem viabilizar a difusão de seus trabalhos, uma vez que o mercado editorial não se interessava pelo tipo de literatura que eles se propunham a realizar. E no caso de Rubem Fonseca que já tinha o respaldo de uma editora e já havia vendido milhares de unidades de seu livro? De que maneira pode-se dizer que esse é um autor marginal? A resposta a esses questionamentos se esclarece justamente pelo descontentamento do órgão censor do Estado ditatorial vigente no Brasil. Entende-se que o caráter marginal da obra Feliz ano novo e o de seu autor não tiveram, necessariamente, uma má aceitação por parte do mercado editorial, mas sim uma ação de caráter proibitivo por parte do poder estatal por entender que o livro atentava contra a imagem do país, uma vez que Rubem Fonseca expunha de modo direto e sem rodeios, questões como a explosão da violência nos grandes centros urbanos, a miséria da população e as “obscenidades” desses marginalizados sociais. No campo cultural, muitas foram as manifestações artísticas que tiveram que purgar sob pena dos censores do Estado ditatorial que marcou a história do Brasil. No teatro, por exemplo, podemos 40 FONSECA, 2000, p. 164. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 25 citar Plínio Marcos, autor que trazia em suas obras dramáticas personagens que permeavam os ambientes miseráveis e expunham seus conflitos de modo agressivo e envoltos por uma atmosfera pessimista e, muitas vezes, sem saída.41 No campo da música, podemos destacar Geraldo Vandré, com a canção que se tornou hino de resistência ao governo militar Pra não dizer que não falei de flores.42 Muitos são os exemplos que poderíamos dar em relação a esta passagem obscura que teve lugar nos anos que se seguiram de governo militar, 1964/1985, com destaque aos “Anos de Chumbo” momento mais repressivo que teve lugar no fim de 1968, com a criação do AI-5 até o ano de 1974, fim do governo Médice. Nesse contexto, ou seja, o período histórico em que o governo ditatorial praticou de modo severo o caráter coercitivo em relação às manifestações artísticas que se chocavam contra os preceitos estabelecidos pelos censores, encontramos Rubem Fonseca, em função de sua obra Feliz ano novo, no patamar de “marginal contextual.”43 Sobre a perspectiva do aparecimento do contexto dos marginalizados sociais que citamos anteriormente, o seguinte trecho do conto Feliz ano novo, que dá nome ao livro de Rubem Fonseca, exemplifica de forma bastante eficaz essa última assertiva: Pereba, você não tem dentes, é vesgo, preto e pobre, você acha que as madames vão dar pra você? Ô Pereba, o máximo que você pode fazer é tocar uma punheta. Fecha os olhos e manda brasa. 41 A título de exemplo podemos citar duas obras de Plínio Marcos que podem ser inseridas nesse contexto. Elas são Dois perdidos numa noite suja, de 1978, e A mancha roxa, de 1988. A nosso ver, essas peças retratam de modo direto os conflitos vividos por personagens que estão à margem do sistema e que em situações desesperadoras, muitas vezes, chegam a perder a “sanidade”. De maneira aproximativa, os personagens de Rubem Fonseca e Pedro Juan Gutiérrez também cometem atos violentos e brutais em relação a outros personagens. 42 Pra não dizer que não falei das flores ganhou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1968. Esse festival durou de 1966 a 1972. Pouco depois de ser premiada, essa música de Geraldo Vandré foi censurada e acusada de “ofender” à Instituição, uma vez que trazia versos como “Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam antigas lições / de morrer pela pátria e viver sem razão”. Outras músicas que foram censuradas na época da ditadura no Brasil foram: Apesar de você (1970), de Chico Buarque de Holanda e Cálice, interpretado por Chico Buarque e Gilberto Gil (1973). 43 Desse modo, entendemos que Rubem Fonseca pode ser considerado “marginal contextual” pelo fato de seu livro ter sido considerado impróprio, segundo os censores, para aquele contexto histórico em que foi veiculado. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 26 Eu queria ser rico, sair da merda em que estava metido! Tanta gente rica e eu fudido.44 Mais adiante veremos que somente o aparecimento dos grupos marginalizados e suas relações com outras camadas da sociedade não são suficientes para perceber uma obra como constituinte de uma abordagem marginal. Esse caráter estaria associado, ao nosso entendimento, ao desenvolvimento de um projeto literário que não se vincula, por exemplo, à ideologia dominante45, porém, desde já, podemos inferir que esta realidade faz parte de um contexto geral que posteriormente justificará o caráter “marginal estético” da obra. Atualmente, o termo marginal ainda está muito relacionado à poesia marginal, o que pode ser visto como positivo se observamos quais os mecanismos que propiciaram tal adjetivo ao segmento da poesia brasileira na década de 70, quando o regime militar atuava no Brasil. A seguir, temos uma constatação de que além de estarem inseridos em uma perspectiva marginal de publicação no mercado editorial no Brasil, os poetas marginais expunham uma suspeita em relação ao sistema político vigente, posicionamento esse não presente na abordagem de Rubem Fonseca. Segundo Clélia Simeão Pires, a linguagem brutalista de Rubem Fonseca ─ que se apresenta, na maioria dos casos, em primeira pessoa ─, apesar de refletir um ceticismo em relação à condição humana, em termos políticos, não representaria um posicionamento de desconfiança com relação ao sistema ou às linguagens do poder como fizeram os poetas marginais.46 44 FONSECA, 2000, p.14. 45 Utilizamos o termo “ideologia dominante” para nos referirmos ao conjunto de idéias relativas ao Estado militar e seu alcance sobre a produção cultural de um determinado espaço e momento histórico. 46 PIRES, 2006, p. 38. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 27 Tal assertiva pode ser, se não parcialmente desconsiderada, pelo menos, insuficiente para que entendamos o contexto histórico daquela época, uma vez que Rubem Fonseca, segundo João Luiz Lafetá, expõe que “a violência mostrada nos contos era a violência na qual o Brasil estava mergulhado pelo regime. Logo, as estórias contadas por Rubem Fonseca funcionavam como verdadeiras zombarias das afirmações oficiais.”47 Assim sendo, podemos dizer que tanto Rubem Fonseca quanto os poetas marginais dispunham de elementos dentro de suas composições artísticas que funcionavam como contestadores da realidade política do país e traziam à tona aspectos do momento histórico do qual faziam parte. Entre os poetas marginais que escreviam a partir dessa postura de contestação e insatisfação em relação ao momento histórico- político-social e repressivo da ditadura militar no Brasil, podemos destacar, entre outros, Antônio Carlos Brito — Cacaso, Jorge Mautner, Torquato Neto, Charles, Chacal, Waly Salomão Geraldo Carneiro, Antônio Risério, Tite de Lemos, Ronaldo Bastos, Ronaldo Santos e Bernardo Vilhena. A título de exemplo, vejamos um fragmento do poema intitulado Perpétuo socorro do poeta Charles, que de certo modo evidencia “o clima de desilusão e de crítica a esse discurso em certa medida populista”48 O operário não tem nada com a minha dor Bebemos a mesma cachaça por uma questão de gosto ri do meu cabelo minha cara estúpida de vagabundo dopado de manhã no meio do trânsito torrando o dinheirinho miúdo a tomar cachaça pelo que aconteceu pelo que não aconteceu por uma agulha gelada furando o peito49 47 LAFETÁ, 2004, p. 389. 48 BARROS. http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas_sesc/pb/artigo.cfm?Edicao_Id=234&breadcrumb=1&Artigo_ID=3 672&IDCategoria=4018&reftype=1. 49 Idem. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 28 Podemos perceber um distanciamento entre o eu-lírico e o operário, que estando de lados opostos se aproximam em relação ao álcool, visto aqui como um signo que dá margem a “válvula de escape” se levamos em consideração o momento histórico no qual eles estão inseridos, ou seja, um período em que há censura, repressão e perseguição. A diferença entre os mundos dos dois é percebida na forma como eles se vêem, um cumprindo a rotina do trabalho, o outro parecendo só pensar em desfrutar a vida. Um bebendo o que restou do dinheiro, mas ambos pensando no que aconteceu e naquilo que não aconteceu. Naquele momento histórico, os acontecimentos, prisões, perseguições, manifestações chegavam a todas as classes. A “agulha gelada furando o peito” podemos associar à figura da repressão do Estado ditatorial, que acorda o intelectual ou o operário no meio da noite sob a mira do fuzil com sua baioneta na ponta. Maria Antonieta Pereira ressalta que existem duas abordagens sobre a obra de Rubem Fonseca nas décadas de 80 e 90. Primeiro “enfatizava-se a relação entre literatura e as questões sociais, numa tentativa de ler a ficção via realidade”50, já na década de seguinte “a crítica propõe uma leitura mais centrada nos próprios artifícios fundadores da narrativa.”51 Neste capítulo, buscamos especificamente as abordagens que estejam mais direcionadas à perspectiva dos anos 90, na qual os elementos estéticos serão analisados e postos como características de uma obra marginal a partir de um ponto de vista estético. 2 – A LITERATURA MARGINAL E O ESCRITOR MARGINAL 50 PEREIRA, 2000, p.14. 51 PEREIRA, 2000, p.14. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 29 Sobre o conceito de literatura marginal pode-se dizer que essa denominação desempenha uma designação funcional, dada a dificuldade de autores como Robert Ponge, Sérgius Gonzaga52, entre outros, de encontrar e estabelecer uma univocidade de características do porquê de uma obra ou autor serem considerados marginais. Segundo Ponge, “A literatura marginal seria a literatura à margem da literatura oficial, isto é, da literatura da classe dominante”53. Esta classificação desempenha um papel importante para começarmos a entender o lugar dessa literatura marginal em uma perspectiva da literatura que é considerada nacional. Nesse sentido, tudo que foge aos parâmetros estará à margem. Veremos tal perspectiva na própria experiência da poesia marginal, que, entre outras renovações, transgredia a linguagem e contestava as posturas conservadoras. Segundo Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto Pereira, A poesia marginal, literariamente falando, consiste no estilo coloquial encontrado na maioria dos autores da geração mimeógrafo, caracterizado pelo emprego de um vocabulário baseado na gíria e no chulo, e de uma sintaxe isenta de regras de gramática, tal como no linguajar falado.54 Porém, para distinguir objetivamente a literatura marginal da não-marginal teríamos que passar pelo crivo de perguntas como: Seria o número de livros que definiria? Seriam os temas tratados? Seria a classe social do autor? Mesmo depois de respondermos essas perguntas, ainda assim, seria grande a possibilidade de se incorrer em uma denominação não satisfatória, pois surgiriam outros questionamentos sobre o que constitui ou não o caráter marginal da literatura. No ano de 2005, o escritor Reginaldo Ferreira da Silva, mais conhecido como Ferréz, organizou uma coletânea de contos e poemas de dez autores, alguns provenientes da periferia de São Paulo e de outras partes do Brasil. Esse livro recebeu o 52 Autor de artigo que trata sobre literatura marginal e que aparece na coletânea já citada, Crítica literária em nossos dias e literatura marginal, organizada por João Francisco Ferreira. 53 PONGE. In FERREIRA, 1981, p. 139. 54 BUARQUE DE HOLLANDA e PEREIRA. In: MATOSO, 1982, p. 32. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 30 nome de Literatura Marginal: Talentos da Escrita Periférica.55 Nessa obra, são expostos de maneira explícita os problemas e a realidade difícil dos moradores da favela e, de um modo geral, viabiliza-se o caráter de poder dar voz aos grupos excluídos da sociedade. Se analisarmos quais eram as camadas sociais que os poetas marginais ocupavam nas décadas de 60 e 70 e as que ocupam os escritores que figuram no livro organizado por Ferréz, podemos constatar que, a partir de um ponto de vista econômico e de inserção social, há uma enorme disparidade entre eles. No entanto, o que está em questionamento é o que eles — escritores, poetas, contistas — têm a dizer a partir daquilo que produzem. Diante dessa constatação, poderíamos indagar sobre o possível surgimento de uma nova literatura marginal? É importante salientar, como foi dito anteriormente, que o caráter marginal não pode ser entendido como diretamente relacionado à origem social do autor, mas fica evidente que tal ponto também é relevante para que se possa classificar uma obra ou um autor como marginal. Logo, entende-se que o conceito de literatura marginal não está fechado a uma ou duas características. Por exemplo, se levamos em conta o caráter de recepção das obras pelo mercado editorial e pela mídia tanto das manifestações artísticas dos poetas marginais quanto dos escritores que puderam veicular os seus contos no livro acima citado, observamos pontos convergentes, uma vez que os contos do livro Literatura Marginal assim como os poemas marginais fogem ao padrão formal, ou seja, apresentam uma linguagem própria do gueto. Especificamente podemos salientar o uso recorrente de gírias e uma ortografia bastante diferente, retratando o seu cotidiano, suas experiências, reconhecendo-se em sua comunidade, fazendo com que ela se reconheça na sua escrita, e fazendo com que essa chegue a seu mundo que, muitas vezes, nos surpreende pela sua riqueza de vivências. 55 Nessa coletânea encontramos talentos como Alessandro Buzo (Itaim Paulista), Dona Laura, moradora de uma colônia de pescadores de Pelotas, Eduardo que é vocalista e letrista do grupo de rap Facção Central, entre outros. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 31 O que dizer depois que livros como aqueles que são reconhecíveis dentro da perspectiva da literatura dita marginal, isto é, que têm como objetivo dar a conhecer a voz dos excluídos que vivem à margem da sociedade, caem no gosto das grandes editoras e viram fenômenos de venda? Estas escritas perdem o seu caráter de marginalidade? Elas passam de uma abordagem marginal para a de um novo tipo de cânone? Seria viável dizer da formação de um cânone marginal? Podemos afirmar de antemão que o fato de “cair no gosto das editoras” funciona como um veículo mediador que é capaz de promover uma transformação, ainda que pequena, de um tipo de literatura menos conhecido, obscuro e marginal, a uma categoria de reconhecível, constituinte de uma realidade, de relevante valor literário e, por isso, agora, mais aceita ou “domesticada”. Contudo, podemos inferir também que, em relação ao cânone ou às obras de escritores já consagrados e representantes da literatura nacional — como as de José de Alencar, Machado de Assis, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa —, os textos que se constituem como objeto desta pesquisa, perante o olhar dos críticos literários, ainda seguirão representando um tipo de literatura “menor”. Nas palavras de Saer, “La característica principal del marginal es la de no ser negociable. Si es marginal cuando no se escribe sobre temas exigidos por la demanda, cuando no se adoptan las formas y los géneros probados y aceptados por el consumidor.”56 Diante dessa assertiva, podemos, desde já, reconhecer na escrita de Pedro Juan Gutiérrez alguns aspectos como o de não adotar as formas convencionais e o fato de não ser negociável, pois ele poderia, por exemplo, evitar nas suas narrativas os elementos que dão margem a uma leitura crítica sobre Cuba, porém não elege essa alternativa. Daí 56 SAER, 1997, p.109. “A característica principal do marginal é a de não ser negociável. Se é marginal quando não se escreve sobre temas exigidos pela demanda, quando não se adotam as formas e os gêneros provados e aceitos pelo consumidor”. (tradução minha). Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 32 a possibilidade de que possamos também aproximá-lo da “função subversiva” que propõe Compagnon. Mas se a literatura pode ser vista como contribuição à ideologia dominante, “aparelho ideológico do Estado”, ou mesmo propaganda, pode-se, ao contrário, acentuar sua função subversiva, sobretudo depois da metade do século XIX e da voga da figura do artista maldito.57 Nesse sentido, poderíamos dizer que o escritor cubano estaria em consonância com a proposição do escritor argentino e do teórico Antoine Compagnon, pois ainda que tivesse como referência em Cuba, escritores como Miguel Barnet, Pablo Armando Fernández, Antón Arrufat58, entre outros, ele segue o seu propósito de desenvolver seu Novo Realismo Sujo, alternando poucas vezes, como é o caso de seu livro A melancolia dos Leões lançado em 2000, que foi escrito sobre a perspectiva do Realismo Fantástico. Levando ainda em consideração as proposições de Saer e Compagnon, talvez a única incoerência que poderíamos encontrar no projeto literário de Pedro Juan Gutiérrez, aqui analisado na perspectiva marginal, seria o fato de “ser aceito pelo consumidor” representar algo de grande relevância, já que podemos observar um certo padrão em sua produção literária, como podemos constatar ao realizarmos a leitura de textos como Animal tropical (2000), Trilogia suja de Havana (2003), O insaciável Homem Aranha (2004), entre outros. Para Saer, “la verdadera literatura es la que manifiesta o modifica los aspectos más oscuros y complejos de la condición humana, y que esa literatura es como el 57 COMPAGNON, 2001, p. 37. 58 Miguel Barnet (1994), Pablo Armando Fernández (1996) e Antón Arrufat (2000) são autores que receberam o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba, premiação criada pelo Ministério da Cultura em 1983. Esse prêmio é concedido anualmente ao conjunto da obra de um escritor cubano, residente na Ilha, que tenha realizado contribuições significativas ao auge das letras cubanas. Entre os livros desses escritores cubanos publicados no Brasil, podemos destacar Memórias de um Cimarron: testemunho, de Miguel Barnet. A única publicação brasileira em que podemos encontrar algo de Pablo Armando Fernández é Vinte poetas cubanos do século XX; seleção, prefácio e notas de Virgilio López Lemus. Trad. Alai Garcia Diniz, Luizete Guimarães Barros. Florianópolis: Editora de UFSC, 1995. Entre as obras mais conhecidas de Antón Arrufat, podemos citar La noche del Aguafiestas, prêmio Alejo Carpentier, 2000 e Los siete contra Tebas, de 1968, ambas ainda sem publicação no Brasil. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 33 contrario simétrico de la literatura oficial”59, isto é, aquela em que a tradição oficial é a responsável pela criação dos marginais, assim como a Igreja cria os hereges. Ainda que não haja uma classificação unívoca sobre o que é literatura marginal, é importante ressaltar quais são os elementos que a definem. Anteriormente, já foram levantadas algumas características tais como a não aceitação por parte do mercado editorial das obras, que de um modo ou de outro, fogem de um determinado padrão de literatura pré-estabelecido e também da censura que é capaz de inviabilizar a reprodução e venda de uma obra, pelo fato de a mesma atacar ideologicamente as idéias do Estado. Para que possamos entender um pouco mais sobre os constituintes de uma literatura marginal, passemos agora à análise de alguns aspectos da obra do escritor cubano. A literatura de Pedro Juan Gutiérrez tem como imperativo o projeto de criação de um novo tipo de Realismo, que ele mesmo dá o nome de “sujo”. O entendimento desse adjetivo fica evidente já nas páginas que principiam a obra O Rei de Havana, de 1990. Para exemplificar vejamos um trecho que demonstra uma face descritiva do referido Realismo Sujo: “Rey ficou com vontade de cagar. Agüentou. Não se podia cagar. Ficou com mais vontade ainda. Ah. Apertou bem o cu e agüentou. Sentiu que ia cagar nas calças. Claro que não usava cueca. Nunca tinha usado cueca.” 60 Não seria essa nova perspectiva de abordagem sobre o mundo que o cerca e, por sua vez, a maneira como o descreve, uma nova vertente do Realismo? Essa proposição é condizente com a concepção que o autor cubano tem em relação à serventia da arte. Segundo suas palavras, A arte só serve para alguma coisa se é irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta, grosseira, pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver, para evitar incômodos a nossa consciência.61 59 SAER, 1997, p. 102. “a verdadeira literatura é a que manifesta ou modifica os aspectos mais obscuros e complexos da condição humana, e que essa literatura é o oposto da literatura oficial.” (tradução minha) 60 GUTIÉRREZ, 2001, p. 132. 61 Revista Bravo! Setembro, 1999, p. 90-97. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 34 No entanto, quais seriam os elementos constatáveis que nos levam à percepção de que as formas de representação da realidade desenvolvidas por Pedro Juan Gutiérrez são diferentes daquelas já propostas por outros escritores? Esses elementos são suficientes para corroborar a existência de outra forma de Realismo? Ainda que sejam partes de obras de diferentes autores, o seguinte exercício de aproximação de trechos servirá como um método comparativo para que possamos notar, pelo menos brevemente, se a escrita e/ou o método de um autor condiz com o do outro e se se pode dizer da existência de uma nova perspectiva de Realismo no trabalho dos dois autores. Vejamos os seguintes fragmentos: — Não grite, porra, senão enterro a faca. Já estou com vontade de enfiar até o cabo... vou enterrar nessa barrigona gorda... diga onde está o dinheiro. — Ai, não, não tenho dinheiro! 62 Por favor, o sujeito disse, bem baixinho. Fica de costas para a parede, disse Zequinha. Carreguei os dois canos da doze. Atira você. O coice dela machucou meu ombro. Apóia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula. Vê como esse vai grudar. Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito, como se ele tivesse dado um salto para trás. 63 A partir do citado, podemos ressaltar a temática da violência, a crueldade por parte dos personagens e o abjeto advindo de suas ações, ou seja, um indivíduo que dá um tiro em uma pessoa só para ver se ela fica pregada na parede. Outros dois trechos que possibilitariam uma aproximação ainda maior em termos estéticos e temáticos em relação a atos de extrema violência são, respectivamente, extraídas dos livros O rei de Havana do escritor cubano e do já citado Feliz ano novo de Rubem Fonseca, O velho acertou uma boa pazada na cabeça do outro. E jogou-o no chão. Não perdeu tempo. Bateu mais, com o canto da pá. Sempre na 62 GUTIÉRREZ, 2003, p. 229. 63 FONSECA, 2000, p. 20. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 35 cabeça. Até espatifar-lhe o crânio. Era um velho retorcido e pequeno, mas forte. Uma pasta de sangue e massa encefálica se derramou no chão. 64 Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone. 65 Podemos observar, portanto, que não há tanta novidade com relação à escrita do autor cubano, e que seu método, temática e abordagens têm muito em correspondência não só com o referido escritor brasileiro, mas também com outros escritores como Bukowski e Henry Miller. Em termos aproximativos inclusive podemos dizer que as temáticas que giram em torno da tríade, “sexo, violência e erotismo” estão também presentes nas narrativas desses dois outros autores que também possuem uma escrita com características das quais compartilham Pedro Juan Gutiérrez e Rubem Fonseca. De certo modo, Pedro Juan Gutiérrez com seu projeto de literatura, assim como Bukowski, é considerado um desconstrutor do sonho americano. O autor cubano, também por meio de suas narrativas, vai irrompendo com o estereótipo de seu país que parece estar a princípio em um processo de transição, mas na sua abordagem o que podemos observar na Ilha é a miséria, o sofrimento e, de uma forma geral, as mazelas sociais que de modo profundo são expostas aos leitores. Bukowski, por meio das obras Notas de um velho safado e Cartas na rua, expõe outro lado do american dream66 que, na sua perspectiva, mais se assemelha a um pesadelo. Nessas duas obras podemos identificar um olhar negativo sobre o trabalho, um dos elementos importantes no qual se apóia a ideologia do american way of life em 64 GUTIÉRREZ, 2001, p. 73. 65 FONSECA, 2000, p. 19. 66 Refere-se ao período pós-guerra no qual os E.U.A se destacam como a grande nação vencedora, mais importante politicamente e economicamente em relação às demais. Nos quinze anos que se seguiram ao final da 2ª Guerra Mundial, essa nação presenciou um período de crescimento econômico sem dimensões, alimentado pelo crescimento do consumo e pela expansão das indústrias aliada a um forte esquema de estímulo à economia, o que levou os norte-americanos a um período de euforia e construção do mito ao redor do “sonho americano”. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 36 vigor no contexto histórico norte-americano dos anos 50 e 60. “o relógio estava funcionando, velho despertador, deus o abençõe, quantas vezes olhei para ele às 7 e meia da manhã, manhãs de ressaca, e disse, foda-se o trabalho? FODA-SE O TRABALHO!”67 O trabalho na perspectiva do american dream representaria uma espécie de dignificação para o homem e o colocaria em uma posição de relevância na sociedade, porém, o que podemos perceber nas narrativas de Bukowski é que o trabalho significa uma atividade imposta para a sobrevivência e que a mesma exerce nos trabalhadores uma mutilação física e espiritual. Podemos dizer que Bukowski retratava em suas obras uma parcela da sociedade — prostitutas, bêbados, desempregados, vagabundos e viciados — que não poderia ser incorporada ao mito do “sonho americano”. Outra questão que podemos ressaltar ainda em Notas de um velho safado é a contestação em torno ao patriotismo inerente ao norte-americano, pois Bukowski por meio da narrativa procura mostrar o aspecto falso da democracia partidária, excluindo-se daquele tipo de ideologia falsa. “[...] bem, eu sei que você não vai morrer na frente de nenhuma maldita metralhadora.” “Você ta certo pra caralho, cara, não vou mesmo. A não ser que seja uma das do Tio Sam.” “Ora, vá se foder! Eu sei que você ama o seu país, eu posso ver nos seus olhos! É amor de verdade!” Foi então que eu bati nele pela primeira vez.”68 Podemos inclusive fazer aproximações sobre o plano individual e biográfico dos dois autores, uma vez que, assim como Bukowski69, o escritor Pedro Juan Gutiérrez, também com seu alter-ego Pedro Juan, figura em diversos contos de Trilogia suja de Havana e Animal tropical. Nesses textos o sexo e a bebida se constituem como 67 BUKOWSKI, 2002, p. 13. (grifo do autor) 68 BUKOWSKI, 2002, p. 16-17. 69 Autor que se torna personagem de seus próprios livros, utilizando-se do seu alter ego Henry Chinaski, que, inclusive, recebe o primeiro nome do autor, que é Henry Charles Bukowski, cujo eu lírico, é igualmente viciado em mulheres, bebidas e corridas de cavalos. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 37 subterfúgios para suportar a vida. Podemos ainda afirmar que, com exceção do gosto pelas apostas em corridas de cavalos, Bukowski tem grandes afinidades com o escritor cubano. Porém, o olhar, as percepções e o universo trazido por meio do seu lugar de enunciação, Cuba, nos abrem uma possibilidade de explorar teoricamente e demonstrar o que de distinto o faz tão singular. Se observarmos a produção literária de Pedro Juan Gutiérrez sobre um enfoque do escritor que escreve a partir de uma perspectiva marginal, pois parte de sua obra não lhe foi permitido publicar em Cuba70, ou se fizermos uma leitura na qual se percebe uma ferrenha crítica ao regime político cubano imposto por Fidel Castro, nesse sentido pode- se vislumbrar que o projeto literário do escritor cubano ultrapassa o imediatismo das relações de seus personagens e os problemas passam a ser enfocados não mais sobre uma perspectiva “micro”, mas sim em uma perspectiva “macro estrutural” que evidencia a nação cubana em ruínas. Segundo Saer, “la literatura es un medio ineficaz de agitación”71 e a partir dessa assertiva pode-se entender que se o escritor se vincula a um partido ou uma corrente ideológica, sua obra não alcançará grande repercussão, a não ser aquela de um sentimento de “heroísmo confortável”. A afirmação de Saer vem ao encontro do projeto literário de Pedro Juan, isto é, o de não se encaminhar ao partidarismo pró ou contra o sistema político de seu país, opção que inclusive seria perigosa, já que o escritor vive em um país em que o governo ditatorial emprega meios coercitivos violentos àqueles que não seguem as regras ou, de certo modo, se expõem ao ponto de serem censurados. 70 É interessante ressaltar a esse respeito que nos últimos anos parece haver um movimento lento e gradual de abertura do mercado editorial cubano em relação aos livros de Pedro Juan Gutiérrez. A publicação de livros como Melancolía de los leones (2000), Nuestro GG en la Habana (2006)  publicados por Editorial Unión  e Animal Tropical (2002)  publicado por Letras Cubanas , atestam tal realidade. No entanto, os textos mais polêmicos e que podem representar uma leitura política como é o caso de O rei de Havana, Trilogia suja de Havana e O insaciável homem aranha ainda continuam sem publicação na Ilha. 71 SAER, 1997, p. 123. “A literatura é um meio ineficaz de agitação.” (tradução minha) Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 38 O autor, com o seu próprio discurso, diz: “Não gosto de falar de política por uma razão: ela é circunstancial. O que hoje é branco pode ser negro amanhã e vice-versa. Pretendo fazer uma literatura universal, atemporal.”72 São dois momentos históricos que permitem uma aproximação ainda mais estreita entre Cuba e Brasil e que nos permitirá remeter à condição em que o povo se encontra nesse contexto político e social e que invariavelmente aparece nas narrativas dos dois autores trabalhados nesta dissertação. No ano de 1961, Fidel Castro anuncia a adesão de Cuba ao marxismo-leninismo, porém Cuba só conhece grandes mudanças econômicas no ano de 1972, quando entra no mercado comum do bloco comunista. Nesse período, o país passa a exportar açúcar e a importar petróleo a preços subsidiados. O país alcança grandes avanços econômicos e sociais, especificamente na área educacional, de saúde e médica. Esse momento de êxito que experimentou Cuba é muito semelhante àquele no qual o Brasil também desfrutou do “milagre econômico” época de crescimento ocorrido durante a ditadura militar, especialmente entre 1969 e 1973, no governo Médici. De 1968 a 1973, o PIB brasileiro cresceu a uma taxa média acima de 10% ao ano, a inflação oscilou entre 15% e 20% ao ano e a construção civil cresceu, em média, 15% ao ano. Pode-se dizer que, em igual proporção, os dois países tiveram o seu ponto alge no momento histórico de seus governos ditatoriais e também o lado inverso desse momento áureo. O fim do “milagre econômico” no Brasil se deu a partir de 1973 quando o crescimento da economia brasileira começou cair, e no final dessa década a inflação chegou a 94,7% ao ano. Segundo Paul Singer, Ocorreu, durante todo o período do “Milagre Brasileiro”, um dos maiores fluxos migratórios de nossa história com os trabalhadores rurais. Parte considerável desse enorme contingente migratório habitou as favelas no entorno das grandes cidades, onde sua situação econômica, que já era precária, piorou ainda mais em relação à baixa 72 Playboy, 2001, p. 53. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 39 escolaridade média e à estrutura ineficiente (quando não total ausência) dos serviços públicos. 73 Cuba, como mencionado anteriormente, conheceu seu pior momento econômico a partir de 1991 com a dissolução da URSS. Portanto, é justamente nesses momentos de derrocada da situação econômica dos dois países que podemos identificar o estado em que se encontra a população: miserável, faminta e marginalizada. Essa realidade é retratada nos livros dos dois autores. As gerações futuras não necessitarão de muito tempo para desvendar como era o regime militar cubano. A relação do autor e sua obra e o que nela é descrito tem uma vinculação com o presente, com o imediato. Pode-se dizer que o projeto literário de Pedro Juan Gutiérrez não segue uma vertente especificamente documental do mundo que o cerca, porém, a partir de seus personagens, é possível constatar a atmosfera político-social-econômica em que estiveram e que parece seguir até os dias atuais. No trecho a seguir, evidenciamos essa posição: “Um jardineiro regava os canteiros de flores, com uma linda mangueira branca e vermelha. [...] — Rapaz será que tem trabalho aqui pra mim? [...] aqui tem que ter requisito. Ter diploma universitário, ser militante, ter menos de trinta anos, falar outra língua. [...] — Engenheiro cuidando de jardim? Isso eu consigo fazer.”74 A partir desse fragmento, podemos observar que o autor deixa transparecer que até mesmo aqueles que possuem uma formação acadêmica não conseguem melhores colocações no mercado de trabalho, tampouco alguma ascensão social. Essa passagem nos remete ao fato de que muitos textos do autor cubano carregam uma perceptível aproximação de sua realidade ou, melhor dizendo, de sua própria biografia, isto é, de um jornalista que antes de se tornar conhecido por sua obra literária trabalhava em uma 73 SINGER, 1972, p. 65. 74 GUTIÉRREZ, 2001, p.152. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 40 revista e ganhava um salário de 3 dólares por mês. O que se percebe nesse trecho do livro O rei de Havana se ajusta muito bem ao que defende Saer: “[...] el escritor escribe siempre desde un lugar, y al escribir, escribe al mismo tiempo ese lugar, por que no se trata de un simple lugar que el escritor ocupa con su cuerpo […] sino de un lugar que está más bien adentro del sujeto, que se ha vuelto paradigma del mundo y que impregna, voluntaria o involuntariamente, con su sabor peculiar, lo escrito.”75 Porém, o nível de impregnação do mundo real do autor nos seus livros é tão grande que ele torna personagem dos mesmos. Como citado anteriormente, as críticas contra o regime de Fidel Castro não são feitas diretamente, porém, a exposição das mazelas legadas pela Revolução Cubana em seus livros, ainda que tratadas com um tom de humor e esperança, acabam por denegrir a imagem que os velhos socialistas querem transmitir. Pedro Juan Gutiérrez não está interessado exclusivamente em trazer aos olhos do leitor o momento das grandes lutas sociais de seu tempo ou, melhor dizendo, da grande Revolução Cubana e suas seqüelas. A luta está focada no presente, no imediato, na satisfação dos desejos, da fome, do corpo, está no ato do personagem que precisa, a qualquer custo, arrancar uns dólares de um gringo para que possa tomar algumas cervejas ou sorver alguns tragos de um rum barato com gosto de óleo diesel. Beatriz Sarlo e Roberto Schwarz, quando discorrem sobre os critérios de valorização de obras literárias, fazem ressalvas a partir das quais podemos encontrar aspectos que, em uma primeira perspectiva, parecem ser opostos quando analisamos a questão do “valor”, mas também servem como pontos de apoio para entendermos como se dá, por exemplo, o questionamento relacionado à proposição de se uma obra é mais 75 SAER, 1997, p.104. “[...] o escritor escreve sempre a partir de um lugar, e ao escrever, escreve ao mesmo tempo esse lugar, porque não se trata de um simples lugar que o escritor ocupa com seu corpo, […] senão de um lugar que está na verdade no interior do sujeito, que se transformou paradigma do mundo e que impregna, voluntariamente ou não, com seu sabor peculiar, o escrito.” (tradução minha) Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 41 ou menos densa que outra, ou se o fato de a obra ser recebida no mercado editorial faz com que ela perca sua qualidade de alta literatura. Segundo Sarlo, há uma dificuldade ou uma ausência de fundamentos para definir o que se constitui como alta literatura, e que, de certo modo, as escolhas que se pode fazer passam pelo caráter valorativo pelo qual ele pode reconhecer e agregar qualidade a determinada obra. Na opinião dessa crítica, obras de autoras como Isabel Allende ou Laura Esquivel, por terem um entrosamento maior com o mercado editorial, por si mesmas não oferecem uma profundidade em termos de valor. Já Schwarz ressalta que “o artista para o qual a sociedade de mercado não existe, não existe ele mesmo, e uma boa parte dos artistas consideráveis fazem consideráveis cálculos de mercado, evidentemente.”76 As colocações desses dois críticos são pertinentes para a nossa análise, pois trazem, de certo modo, o debate sobre o que se constitui como “alta literatura” e qual a importância do mercado para que se possa agregar ou não valor a algumas obras literárias. Quando analisamos a repercussão da obra de Pedro Juan Gutiérrez sobre a perspectiva da aceitação do mercado editorial, podemos constatar que ele também é um fenômeno de vendas, sendo publicado em muitos países, assim como é Paulo Coelho. Mas o caráter marginal que encontramos emparelhado à obra do autor cubano, aspecto importante de se ressaltar, primeiramente está associado ao caráter social e institucional, dada a proibição de veicular a maior parte de seus livros em Cuba. Também podemos nos aproximar de uma visão de que o mercado editorial funciona como um mecanismo redentor e também punitivo das obras. É por meio dele ou dessa “sociedade de mercado”, que Schwarz propõe é que começamos a fazer reflexões sobre o fato de se todas as obras que caem no gosto popular deixam de fazer parte da “alta literatura” para 76 SARLO e SCHWARZ. In: ANDRADE et alli. (Org.), 1999, p. 290. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 42 se encaixar em uma perspectiva marginal de atribuição de valor ou se a sua repercussão, por si, já descaracteriza a importância que lhe poderia ser atribuída. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 43 CAPÍTULO 2 A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE NACIONAL EM O REI DE HAVANA Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 44 2.1 – SOBRE A IDENTIDADE Más recuerdos tengo yo solo que los que habrán tenido todos los hombres desde que el mundo es mundo. (Borges). Antes de dar início ao desenvolvimento do caráter da constituição da identidade nacional, faz-se relevante que ressaltemos mais uma vez que, para realizar essa abordagem, os Estudos Culturais servirão como guia na denominação e desdobramentos sobre o que se entende por “identidade(s)”, a partir de um enfoque dos grupos minoritários e de sua representatividade dentro da nação. Os Estudos Culturais se constituem como os representantes de primeira ordem no que diz respeito ao estranhamento de objetos literários entre os estudos da Crítica Literária. Essa questão talvez possa ser explicada pelo caráter da interdisciplinaridade. No entanto, com os devidos direcionamentos e enfoques a serem desenvolvidos se constatará, por conseguinte, que na essência do tema sobre o estranhamento estarão as diferentes leituras (política, cultural e social) que, em um primeiro momento, causam um determinado “desnorteamento” quanto à delimitação do que é especificamente literário. Segundo Yúdice, “Os fundadores dos Estudos Culturais já não viam mais a cultura com uma realização de civilizações, mas como estratégias e meios pelos quais a língua e valores de diferentes classes sociais refletem um senso particular de comunidade”.77 Esse fato reflete bem o caráter político ou micro-político que é delegado aos Estudos Culturais, sobretudo no que se refere à representatividade das minorias. 77 YÚDICE, 2004, p.126. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 45 Quando se ressalta, por exemplo, que tudo é margem e se perdeu o fio condutor que tratava particularmente da obra, “que é o texto literário”, nota-se algo em evidência, ou seja, as produções culturais passam a ser estudadas, como já foi dito anteriormente, em relação a outras estruturas, sejam elas históricas, políticas ou sociais. Nas palavras de Stuart Hall, “a formação de uma cultura nacional contribuiu para criar padrões de alfabetização universais, generalizou uma única língua vernacular como meio dominante de comunicação em toda a nação, criou uma cultura homogênea e manteve instituições culturais nacionais.”78 E diante dessa assertiva surge a seguinte pergunta: É a nação realmente representada por essa “homogeneidade cultural”? Se fosse sim a resposta a essa pergunta, não teríamos com tanto vigor e efervescência o surgimento dos Estudos Culturais, pois desse modo não se tornariam aparentes os problemas de identificação e representatividade dos sujeitos e grupos que constituem os países pós-coloniais subdesenvolvidos. Sobre a unificação da cultura, completa Hall: “As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre a ‘nação’, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades.”79 Porém, podemos construir dois ou mais tipos de identidade nacional. Uma pelo Estado e outra pelos grupos minoritários que se sentem à margem do processo de representação político-cultural. A título de exemplo, analisemos a representação nacional exposta pelo Estado cubano e a exposta nas obras de Pedro Juan Gutiérrez. Na verdade, podemos afirmar que essas representações são muito divergentes entre si. É interessante buscar a perspectiva de polifonia de vozes de Bakhtin80 para colocar em evidência a possibilidade de virem à tona os discursos das minorias e, ao 78 HALL, 1999, p. 49. (grifo do autor) 79 HALL, 1999, p. 51. 80 Bakhtin quando analisa a obra de Dostoievski, formula o conceito de romance polifônico, entendido como uma nova forma literária, na qual as vozes do autor e das personagens estão representadas em sua Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 46 mesmo tempo, refutar o pensamento da construção de imagem da nação representada de modo homogêneo, ou seja, um coletivo com um passado e representação cultural comuns. No momento em que adotamos o conceito de polifonia de Bakhtin, podemos perceber uma perspectiva monológica de representação discursiva da nação por parte do Estado e outra heterogênea que surge a partir dos discursos dos grupos minoritários. Nesse sentido, não é difícil explorar a máxima de que existe uma Cuba cujo Estado socialista se auto-intitula operário, popular, veiculador da igualdade entre seus cidadãos e defensor dos direitos desses e outra que aparece na obra de Pedro Juan Gutiérrez como uma nação conduzida por um regime socialista “caduco”, cujo Estado é incapaz de estar atento à realidade do povo que luta pela sobrevivência em uma ilha “caindo aos pedaços”, na qual a maioria dos cidadãos só consegue ver uma possibilidade de viver dignamente em outros países e não na ilha de Fidel Castro. No trecho a seguir, podemos contemplar o tratamento que o Estado tem em relação a alguns contraventores da lei imposta pelo regime castrista: Outros três policiais faziam a mesma coisa ao acaso, com qualquer transeunte. Revistavam bolsas e pacotes e indagavam a origem disto e daquilo. Se encontravam qualquer anormalidade, detinham o cidadão e levavam preso. Por “anormalidade” se entendia carne de vaca, ovos, leite em pó, queijos, atum, lagosta, café, cacau, manteiga, sabão, enfim, uma quantidade de produtos que circulava no mercado negro a preço menor que nas lojas de dólar e que não existia nas de pesos cubanos81. No livro Microfísica do Poder, especificamente no capítulo “Sobre a Prisão”, Michel Focault, respondendo questões relativas à necessidade da delinqüência em uma sociedade industrial do século XIX, expõe um ponto interessante que serve como pano autonomia ideológica. Usamos o conceito de polifonia nesta dissertação no sentido de demonstrar uma heterogeneidade de vozes, isto é, a presença de outras vozes dentro de uma voz. 81 GUTIÉRREZ, 2001, p. 111. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 47 de fundo para analisarmos também a situação do povo cubano a partir de uma leitura política de Rei de Havana. “A sociedade sem delinqüência foi um sonho do século XVIII que depois acabou. [...] Sem delinqüência não há polícia. O que torna a presença policial, o controle policial tolerável pela população se não o medo do delinqüente? [...] Esta instituição tão recente e tão pesada que é a polícia não se justifica senão por isto. Aceitamos entre nós esta gente de uniforme, armada enquanto nós não temos o direito de o estar, que nos pede documentos, que vem rondar nossas portas. Como isso seria aceitável se não houvesse os delinqüentes?” 82 Como ressaltado anteriormente, quando abordada a questão sobre a possibilidade de constatar a existência de duas Cubas, uma pela perspectiva do socialismo cubano e outra que aparece nos livros de Pedro Juan Gutiérrez, poderia ser possível e aceitável pelos cidadãos constituintes da Cuba ditatorial socialista, e, portanto, aquela dos partidários e militantes dos ideais da Revolução Cubana, que tal intervenção policial poderia ser aceitável e compreensível. Esse fato se justifica, sobretudo por se ter a convicção de que quando a polícia, ou mesmo o Estado que é quem regulamenta tal instituição coercitiva e punitiva, intervém para que não haja um comércio de gêneros alimentícios que estão previamente proibidos, o cidadão militante possivelmente entenderá que quem foge à regra (tendo acesso ilícito a determinados produtos que estão na cartilha de racionamento), certamente está contrariando um regulamento que zela pela igualdade entre o povo cubano, ou seja, uma igualdade entre os cidadãos que o Estado quer resguardar. Porém, quando analisamos o trecho mencionado anteriormente, percebe-se, com a existência do mercado negro de gêneros alimentícios, que o povo quer ter acesso à comida e desfrutar daqueles benefícios somente destinados aos turistas. Portanto, quando fazemos uma aproximação do trecho extraído de O rei de Havana em relação ao que propõe Focault, observamos que a instituição policial nesse contexto, seguindo os propósitos de conter os atos que afrontam o regime ditatorial 82 FOUCAULT, 2003, p. 137. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 48 cubano, cria uma nova classe de delinqüentes. Com isso, aqueles cidadãos que venderem ou comprarem alimentos que somente o Estado detém o monopólio e faz um rígido controle por meio de uma cartilha de racionamento estarão passíveis de sofrer sanções punitivas. Quando se analisa uma obra, é importante fazer uma separação do “real” e do “ficcional”. Pelo menos essa é uma premissa da qual se valem alguns escritores como é o caso do próprio Pedro Juan Gutiérrez, que ora assume um caráter autobiográfico, ora tenta se desvencilhar da tentativa de busca do “real” que expõem os seus livros. Contudo, tal prerrogativa de separação entre o real e o ficcional tem funcionado muito bem a partir dos preceitos platônicos de que a escrita não consegue levar à verdade e que no cerne da questão o que opera realmente são as interpretações. No entanto, tentar desvencilhar uma obra do contexto social e histórico no qual ela foi concebida é algo difícil, inclusive quando se analisa o livro O rei de Havana. Permeia essa obra de Pedro Juan Gutiérrez, além do sincretismo religioso83 que aparece em diversas partes do livro, uma característica do “ser forte e persistente” do povo cubano, o que faz com que tenhamos uma determinada afinidade com sua obra e os personagens nela descritos, pois em geral o latino-americano é um povo sofrido e está inserido em uma atmosfera de muitos contratempos, tais como desigualdade social, fome e outros aspectos que o lança à categoria de povo subdesenvolvido ou em desenvolvimento. Essa visão é destoante daquela veiculada pela mídia cubana que põe em evidência somente a questão do embargo econômico dos EUA e que tudo vai muito bem, inclusive a educação que é uma das melhores da América Latina e dos índices de analfabetismo que são insignificantes. 83 Apesar de não ser o foco de nossa pesquisa, podemos observar em diversas passagens do livro a questão religiosa na formação coletiva do povo cubano. As igrejas com suas imagens (que na visão do protagonista são bonecos grandes), a senhora negra que coloca uma oferenda em uma encruzilhada, a cigana que quer ver o futuro do protagonista e a cena em que a/o amante de Rey recebe uma entidade. Esses trechos demonstram o sincretismo existente e o bom convívio entre os diferentes segmentos. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 49 Corroborando ainda a idéia de uma visão das duas Cubas, é interessante ressaltar que além do caráter restritivo que o povo cubano tem em relação a determinados benefícios que são destinados respectivamente aos turistas, como foi ressaltado anteriormente, outro aspecto importante é o próprio território da Ilha que está também divido e restrito a determinados cidadãos cubanos. No trecho a seguir, esse aspecto é abordado de um modo visível quando o personagem Rey sai de Varadero (um complexo turístico com praias exclusivas para turistas) em direção a Havana. Rey saiu andando para a ponte levadiça. Atravessou para o outro lado. Os policiais estavam ocupados com alguém que queria entrar. Nem olharam para ele. O problema era entrar. Continuou andando pela beira do canal e deixou para trás o Red Coach, o Oásis, anoiteceu. 84 Quando o personagem chega à Havana, o aspecto da divisão territorial (ou mesmo das duas Cubas) torna-se ainda mais perceptível: “Que bom. Varadero era limpo e bonito demais, tranqüilo e silencioso demais. Não parecia Cuba. “O gostoso é aqui, isto aqui é que é meu”, disse a si mesmo. O Rei de Havana, outra vez em seu ambiente.”85 O que podemos perceber no sistema socialista cubano é algo semelhante ao que propõe Stuart Hall, quando trata da questão do impulso da unificação nas culturas nacionais, ou seja, “[...] não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá- los numa identidade cultural, para representá-los todos como pertencendo à mesma grande família nacional.”86 Se o conceito de identidade para Hall passa por uma crise nos tempos modernos, para Bhabha, o caráter de ambivalência da nação (a negociação entre o pedagógico e o performático87), sobretudo a partir do performático, já introduz o contexto de 84 GUTIÉRREZ, 2001, p. 156. 85 GUTIÉRREZ, 2001, p. 157. 86 HALL, 1999, p. 59. 87 Entendemos, a partir do que propõe Bhabha, que o caráter pedagógico são os discursos formais que participam da constituição de identidades na qual os indivíduos se reconhecem sobre uma perspectiva Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 50 fragmentação de uma identidade nacional unívoca dita em um primeiro momento como una e vertical. Sobre a problemática em torno da formação da identidade cultural Hall expõe que A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar ao menos temporariamente.88 Nesse sentido, a partir das considerações feitas por Hall e levando em conta a proposição de Bhabha sobre a ambivalência da identidade, ressaltando o caráter mesmo de completude e negociação que há entre o caráter pedagógico e performático, podemos ir ao encontro de uma perspectiva sobre o conceito de identidade que acreditamos que deve ser reformulado, ou seja, devemos nos referir a identidades. O plural em relação a esse conceito define bem o caráter heterogêneo do que se pode chamar de “identidade”. A pergunta que faz Benedict Anderson diante da linguagem do pertencimento nacional é de grande valia para entender um pouco mais sobre a questão. “Mas por que as nações celebram sua antiguidade, não sua surpreendente juventude?”89 O questionamento de Anderson se adequa bem à questão de como é o processo de formação de identidade fora dos moldes europeus e pós-coloniais e a referida juventude seria a representatividade que os grupos minoritários adquiriram com a emergência dos Estudos Culturais. homogênea e institucional, já o caráter performático não está diretamente relacionado a uma homogeneidade, ou mesmo a uma perspectiva rígida e estática, mas está em constante movimento. 88 HALL, 1999, p. 13. 89 ANDERSON apud BHABHA, 1998, p. 9. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 51 2.2 – LITERATURA, MEMÓRIA, IDENTIDADE(S) E ESTUDOS CULTURAIS Outro aspecto relevante para entender a constituição da(s) identidade(s) são os desdobramentos que surgem a partir da abordagem dos Estudos Culturais e que, de certo modo, altera a percepção sobre a Literatura. Tal fato pode ser justificado quando se constata que agregada aos Estudos Culturais surge a negação do cânone europeu motivada pelo processo de descolonização para que se possa dar uma maior evidência ao caráter performático da nação, já que por meio da sua história, pode-se recuperar facilmente o elemento pedagógico, que se entende a partir do conceito de ambivalência de Bhabha, quando se refere a parte que representa a figura do colonizador. Podemos entender que há uma tentativa de fuga da assertiva de que a literatura no século XIX foi um veículo, no qual os países americanos defendiam uma visão do passado comum para a cultura. Na nossa contemporaneidade, há uma preocupação quanto a essa mencionada negação por parte da crítica literária, pois a partir do momento em que já não se tem o cânone representando os grandes relatos, surge a seguinte indagação: O que preencherá as lacunas deixadas por essa ausência? Serão lançados às chamas Shakespeare, Camões, Gôngora e outros mais? As previsões não podem ser tão apocalípticas, o que se viabilizará com o crescimento e alcance dos Estudos Culturais no campo da Teoria é justamente a releitura dos clássicos a partir de uma perspectiva distinta, ou seja, aquela que diz respeito a um lugar de enunciação singular, isto é, a dos países do terceiro mundo. Yúdice, quando discute a questão sobre certos estereótipos folclóricos que foram incorporados à representação do popular e a criação de um realismo mágico inerente e com ares de essencialismo, afirma que Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 52 Os literatos promoveram esse imaginário do transcultural e híbrido para valorizar, e, assim, legitimar as misturas contraditórias típicas das formações culturais latino-americanas. Isso não implica que os literatos tenham se equivocado acerca das formações culturais da América Latina; elas são, de fato, híbridas. 90 Esse caráter híbrido apontado por Yúdice nas formações culturais vai ao encontro de uma perspectiva interessante sobre o caráter anfíbio da literatura proposto por Silviano Santiago, que veremos mais adiante. Mas já nos antecipando um pouco, pode-se dizer que, na literatura e nas manifestações culturais, de um modo geral, o aspecto da mistura de pontos e posições díspares, como vimos, quando discorríamos sobre o caráter pedagógico (colonizador) e o performático (colonizado), que não são antagônicos, mas se completam na formação da identidade, também ressalta e fortalece a idéia do caráter híbrido sobretudo da literatura. Essa que, em um primeiro momento, recebeu um influxo direto da metrópole, do colonizador e depois também com parte dessa influência desenvolveu o seu próprio segmento, sem deixar de fora uma análise crítica do primeiro e inclusive de si e sua própria formação, isto é, de uma literatura nacional. Um aspecto interessante sobre o que se produz nos países que um dia foram colonizados é que os elementos de valorização da cultura, especificamente as produções de escritores latino-americanos, estão permeadas por questões políticas. Dentro dessa perspectiva, podemos citar as palavras de Jameson: Os textos do Terceiro Mundo necessariamente projetam uma dimensão política na forma de alegoria nacional: isto é, a história do destino individual e privado é sempre uma alegoria da situação de luta da cultura e sociedade públicas do Terceiro Mundo91. 90 YÚDICE, 2004, p. 130-131. 91 JAMESON, 1992, p. 28-36. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 53 A partir da década de 1970, começa a se evidenciar o debate, hoje irreversível nos meios políticos e acadêmicos, em torno da questão da “alteridade”. No plano político e social, esse debate ganha terreno a partir dos movimentos anti-coloniais, étnicos, raciais, de mulheres, de homossexuais e ecológicos que se consolidam como novas forças políticas emergentes. Porém, antes mesmo de aprofundarmos na questão da representatividade, consideramos importante ressaltar que quando se está disposto a trabalhar sobre os temas abordados pelos Estudos Culturais se faz necessário que retomemos o conceito de memória, pois essa está implícita desde os primeiros textos de fundação92 de uma nação, isto é, ela está presente na constituição da identidade nacional, dos grupos que a compõem e na própria perspectiva do indivíduo. A temática sobre memória tem sido fonte constante de debates culturais e políticos e se verifica como um elemento recorrente na literatura e outras manifestações da arte. Nessas, percebe-se o viés da resistência contra as políticas de esquecimento promovidas pelos regimes pós-ditatoriais. Nesse contexto se insere a emergência dos Estudos Culturais, pois é no âmbito desses estudos que se tem percebido uma análise política e social de grupos com menor representatividade. Dentre esses discursos destacam-se, por exemplo, o do feminismo, dos negros, dos gays e dos índios. A representação desses grupos minoritários está baseada, sobretudo, em instrumentos como o testemunho e relatos que funcionam como veículos de manutenção da memória e, no mínimo, arquivo traumático93 que deixou marcas de um passado não tão remoto até os dias atuais. Esse é digno de ser recuperado por meio da memória para fazer-se 92 Nesse contexto podemos citar a “Carta de Cristóvão Colombo a D. João II”, a “Carta de Pero Vaz de Caminha” e, por sua vez, os livros de relatos Popol Vuh e Dioses y Hombres de Huarochirí. 93 O termo arquivo traumático aqui mencionado se refere ao que o indivíduo carrega, inclusive por meio de sua memória involuntária e corporal, o que experienciou e sofreu ao longo de sua história até o momento de recuperar o passado e fazer uso desse arquivo como forma de exteriorizar uma parte inseparável dele. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 54 escutar, de forma que outros possam tomar conhecimento daquele que quer falar e de algum modo fazer-se respeitar pela sua história, pelo seu valor e a sua luta. Segundo Huyssen, “A memória se tornou uma obsessão cultural de proporções monumentais em todos os pontos do planeta”94. Mas é interessante atentar também a quais elementos são resguardados quando se faz o referido exercício de recuperar o passado para legitimar, por exemplo, a identidade nacional. A idéia de recuperação do todo, ou seja, de tudo que se viveu no passado é algo impossível, porém percebe-se que o personagem principal de O rei de Havana recupera o passado por meio de outros tipos de memória, isto é, “a involuntária, a memória corporal, e a coletiva”95. Em relação à primeira, podemos destacar o seguinte trecho: “Caralho, não tenho que lembrar de nada, de nadaaaaa!, gritou muito alto, protegido pelo estrondo torrencial do aguaceiro”.96 Podemos perceber que o ato de recordar é um sofrimento e, por sua vez, pode ser interpretado como algo que lhe impõe uma total condição de desprotegido, de solitário; sendo que essa memória, muitas vezes, sobrevém como algo inconsciente. O personagem Reinaldo diz: “O que está acontecendo comigo? Eu quero esquecer e não consigo.”97 A memória também se apresenta de modo corporal quando Rey sente um estado de fome tão intenso (a fome como um tigre) que se recorda de sua mãe e de seus outros familiares, todos em um estado deplorável de fome e miséria. Sobre a memória coletiva, podemos retomar, por exemplo, a personagem que é a avó de Rey. Ela, como matriarca da família, pode ser definida como um signo que corresponde a essa forma de memória. 94 HUYSSEN, 2004, p. 16. 95 Os termos memória involuntária, corporal e coletiva foram tomados de empréstimo de um estudo realizado no livro História, memória, literatura: o testemunho na era das catástrofes (2003), cujo organizador é Márcio Seligmann-Silva. Esses aspectos também são trabalhados pelo filósofo Paul Ricceur no seu livro La memoria, la historia, el olvido (2004). 96 GUTIÉRREZ, 1998, p.33. 97 GUTIÉRREZ, 1998, p.34. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 55 Calada, inerte, suja, esfarrapada, ruindo ao poucos, como parte individual e de todo o conjunto. É a decadência, a inércia que sobrecai nas personagens (povo): Sua mãe vivia junto com eles. Tinha uns cem anos, ou mais, ninguém sabia. Todos num quarto em ruínas de três por quatro, e um pedaço de pátio ao ar livre. A velha não tomava banho fazia anos. Muito magra de tanta fome. Uma longa vida de fome e miséria permanente. Já estava cascuda. Não falava. Parecia uma múmia silenciosa, esquelética, coberta de sujeira. Mexia-se pouco ou nada. Sem falar jamais. Só olhava a filha meio tonta e os dois netos que se estapeavam e se ofendiam mutuamente em meio ao cacarejar das galinhas e ao latir dos cachorros. 98 Fizemos alusão à citação do texto de Borges como epígrafe deste capítulo com o intuito de estabelecer uma reflexão acerca de qual tipo de memória devemos nos ater quando temos por discutir questões concernentes à(s) identidade(s) e também ao próprio exercício de recuperar o que realmente é relevante para a constituição dessa(s) identidade(s). Funes, personagem de Jorge Luis Borges, podia recordar de tudo sem o auxílio da escrita, pode-se dizer inclusive que era uma enciclopédia ambulante, e, de um modo ou de outro, ele podia recorrer sempre a um exercício mnemônico para dar conta de tudo quanto tinha visto. Ele poderia se valer da escrita para registrar, mas não o fez. Ele também poderia fazer uma observação menos superficial daquilo que observava, mas também não optou por fazê-la. Dessa maneira, podemos tecer os seguintes questionamentos: O que era relevante naquilo que ele memorizava? E por que não registrava? E de um modo analógico podemos propor mais dois questionamentos em relação à memória e sua importância para a identidade: Será que a memória a qual devemos nos ater é a que se refere à da nação aqui entendida como aquela de reminiscência européia trazida pelos europeus? Ou é necessária a perda dessa memória para a criação de uma própria, desvinculada do resgate da identidade nacional com 98 GUTIÉRREZ, 1998, p. 8. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 56 traços europeus? A analogia que faz Silviano Santiago99 de que quando o memorioso Funes — ou por que não a América Latina? — cai do cavalo e perde a memória é importante para tratar sobre a questão da relevância da memória para os países do terceiro mundo e o Pós-Colonialismo. Uma vez que, como Funes, se for valorizado ou feito um exercício de busca de uma memória superficial dos fatos que dizem respeito e são importantes para a construção da identidade nacional, essa última será tão superficial quanto recordar qual era a cor da farda do Príncipe Regente D. Pedro, quando às margens do Ipiranga bradou “Independência ou Morte”, em 7 de setembro de 1822. Os Estudos Culturais e a construção da(s) identidade(s) de grupos minoritários estão intimamente ligados à temática da memória, pois é por meio de um exercício de reflexão sobre o passado que esses grupos encontram os elementos para constituírem seus discursos, ora o refuta como constituinte de sua(s) identidade(s) e reconhecimento, ora o aceita com ressalvas, pelo fato desse passado não corresponder integralmente à sua realidade. Seligmann argumenta que “A memória só existe ao lado do esquecimento100”, e o resultado desta afirmação é que nossa cultura, obcecada pela memória, tem medo do esquecimento e tal fato se reflete nas produções acerca das ditaduras, testemunhos e relatos. No seguinte fragmento, podemos ter uma visão particular sobre o contexto histórico, político e social, que, se entendido como um texto reivindicativo, pode ser reconhecido como parte de uma obra com um suporte altamente testemunhal. Quando começou a crise de 1990, ela perdeu o emprego de faxineira. Então fez como muita gente: arranjou galinhas, um porco e umas 99 SANTIAGO, 2004, p. 218. 100 SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 53. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 57 pombas. Construiu uma gaiola de tábuas podres, pedaços de lata, sobras de barras de aço, arames. Comiam alguns e vendiam outros. 101 A partir do citado, é possível perceber qual foi a situação em que ficaram os cubanos com a dissolução da União Soviética e, com isso, o fim dos consideráveis incentivos econômicos vindos de fora que possibilitavam que o país se mantivesse apesar do bloqueio americano. Outro trecho que também ressalta de maneira aparente tal realidade é a seguinte passagem: “Ninguém trabalhava, ninguém tinha horários, ninguém tinha de levantar cedo. Não havia emprego e todos viviam assim milagrosamente, sem pressa”.102 Por meio das intervenções do narrador de O rei de Havana são oferecidas partes de uma visão interna de modo explícito, quase que um “raio-x” daquilo que constitui a realidade do povo cubano em meio à crise econômica que provocou o declínio do PIB em 35% entre os anos de 1990 e 1994. O tempo dos pobres era diferente. Não têm dinheiro, e por isso não têm carro, não podem passear e viajar, não têm bons aparelhos de som, nem piscina, não podem ir aos sábados ao hipódromo, nem entrar nos cassinos. O pobre num país pobre só pode esperar o tempo passar e chegar a sua hora. E nesse intervalo, desde que nasce até morrer, o melhor é tratar de não arrumar encrenca. 103 Um ponto de vista relevante para aprofundarmos sobre a crise da Teoria e a repercussão dos Estudos Culturais é o do teórico espanhol Yvancos, que de modo perceptível se afasta da litania chorosa daqueles que acreditam que a emergência dos Estudos Culturais (e a Desconstrução, a Crítica Feminista e os Estudos Pós-Coloniais) obrigatoriamente destronaria os Estudos Literários. Percebemos por suas colocações que se trata de um teórico afastado das ressonâncias pós-estruturalistas francesas e dos apelos orgânicos dos Blooms americanos. A teoria para ele seria, portanto, o espaço de ressonância e amplificação dos gritos de quem nunca teve voz. Além de oferecer à crise 101 GUTIÉRREZ, 2001, p. 7. 102 GUTIÉRREZ, 2001, p. 120. 103 GUTIÉRREZ, 2001, p. 37. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 58 um sentido positivo e optar por historicizá-la, Yvancos conclui que a teoria deve ser uma espécie de cenário onde as crises não só acontecem, mas também podem encontrar melhor espaço para o seu desenvolvimento. A questão da solidariedade com relação à viabilização das obras de determinados escritores latino-americanos é algo que está em voga nas discussões dos estudos de alteridade. O reconhecimento e atribuição do Prêmio Nobel da Paz à obra Me llamo Rigoberta Menchú y así me nació la consciencia (1985) da ativista política indígena guatemalteca Rigoberta Menchú funciona como motivador para abrir precedentes para o levantamento da questão da solidariedade. João Camillo Penna, em relação ao tema, diz que “o interesse da crítica proveniente dos EUA deve ser entendido no contexto de um movimento de solidariedade internacional em face das atrocidades cometidas nas guerras civis na América Central e da repressão na Argentina”104. Com isso, parece existir, de um modo generalizado, a tentativa de atribuir um reconhecimento dos grandes líderes de classes minoritárias dos países subdesenvolvidos, como um meio de redenção pelos anos e anos de indiferença por parte dos países desenvolvidos em relação aos grupos que vivem à margem da sociedade. A eleição de Evo Morales em 2006 como o primeiro presidente de origem indígena a assumir o poder na Bolívia e a candidatura da ativista indígena Rigoberta Menchú à presidência da Guatemala são mostras de que há realmente um movimento generalizado de busca pela maior representação dos grupos minoritários. Que existem convenções no que diz respeito à recepção das produções literárias de escritores latino-americanos não há dúvida. Uma delas, por exemplo, é a de ter uma boa receptividade crítica quando determinada obra segue tendências do realismo mágico, isto é, aquele estilo que há tempos fez com que escritores latino-americanos 104 PENNA apud SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 302. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 59 recebessem um reconhecimento da crítica no exterior e que, segundo Mignolo “se tornou a marca da produção de alta cultura do Terceiro Mundo”.105 Alberto Moreiras afirma que “[...] as condições globais matam a possibilidade de reconstituição daquelas tradições nacionais de acordo com os padrões antigos, (conseqüentemente) a escrita literária perde [...] a hegemonia cultural, e os críticos precisam começar a reconhecer a possibilidade de uma morte atrasada da (alta) literatura.”106 Porém, diante do surgimento e reconhecimento de suportes literários como o do testemunho, vem o questionamento se esse poderia ter um reconhecimento de igual importância a dos textos canonizados e se tal fato não agravaria mais a questão de se pensar que só se produzem textos voltados para questões da micro política e representação da nação. Sobre o conceito de nação é interessante retomar o que diz Bhabha: A nação não é mais o signo de modernidade sob o qual diferenças culturais são homogeneizadas na visão “horizontal” da sociedade. A nação revela, em sua representação ambivalente e vacilante, a etnografia de sua própria historicidade e abre a possibilidade de outras narrativas do povo e sua diferença.107 Diante dessa consideração podemos constatar, por exemplo, como um escritor latino-americano como Pedro Juan Gutiérrez desvincula-se ou tenta, por suas próprias palavras, negar que sua literatura tenha qualquer aproximação com aquela que diz respeito ao boom da literatura latino-americana. A maioria dos personagens de Pedro Juan Gutiérrez, sobretudo os que figuram em O Rei de Havana, estão inseridos num ambiente aterrorizante de fome, medo repreensão e punição por seus atos muitas vezes condenáveis. Por exemplo, comércio 105 MIGNOLO, 2001 p. 165. 106 MOREIRAS, 2001 p. 252-253. 107 BHABHA, 1998, p. 22. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 60 ilegal de comida e outras pequenas modalidades de contravenção, segundo as convenções da lei prevista pela cúpula comunista e ditatorial de Fidel Castro. A memória nacional aparece desde os primeiros parágrafos e reaparece muitas vezes durante a narrativa de o Rei de Havana. No trecho “Aquele pedaço de cobertura era o mais porco do edifício inteiro”108, desde o início, recuperamos a idéia de uma nação, cidade, bairro, casas e edifícios em ruínas, tudo está em constante declínio, inclusive os personagens, eles vão definhando com o passar do tempo. A fome, a miséria e as dificuldades são os fatores naturais colaboradores para a decadência, assim como a ação do tempo vai destruindo os edifícios de Habana Vieja. E os personagens, assim como o autor, agora propondo uma relação com o estudo biográfico do mesmo, são como esses antigos e corroídos edifícios que resistem até ao mais violento furacão, isto é, não desabam. Um trecho em que o protagonista conversa com outro personagem retrata bem essa questão: — Aonde é que eles foram? — Rey perguntou. — Pra fora, rapaz. Pra fora. Pra onde vai todo mundo. — Por que não foi junto com eles? — Nããão... eu não tenho que ir embora. Eu nasci em Cuba, morro em Cuba.109 Diante da possibilidade de realizar um projeto de análise do panorama geral da crítica no século XX, José Maria Yvancos Pozuelo propõe que seja feita uma análise positiva sobre os novos textos que surgem no contexto da teoria atual. Nas palavras desse crítico: “Lo que emergen no son únicamente nuevos textos, sino nuevos sujetos interpretativos, nuevas identidades culturales, una vez se declara rota la idea de la “identidad cultural” consensuada por la tradición liberal centro-europea”.110 A partir 108 GUTIÉRREZ, 1998, p. 07. 109 GUTIÉRREZ, 1998, p. 41. 110 YVANCOS, 2000, p. 24. “O que emerge não são unicamente novos textos, mas sim novos sujeitos interpretativos, novas identidades culturais, uma vez que se declara quebrada a idéia da identidade cultural acordada pela tradição liberal centro-européia.” (grifo do autor, tradução minha) Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 61 desta perspectiva, podemos realizar um estudo crítico e analítico da obra de Pedro Juan Gutiérrez ressaltando a heterogeneidade cultural encontrada em sua obra, levando em conta, por sua vez, que esse autor pode ser considerado como representante de um novo sujeito interpretativo, pois seu olhar não coincide com o de outros autores cubanos. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 62 CAPÍTULO 3 A RELAÇÃO ENTRE A ESCRITA DE PEDRO JUAN GUTIÉRREZ E A DE RUBEM FONSECA Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 63 3.1 – A ESCRITA “OUTRA” A violência é tão fascinante E nossas vidas são tão normais Baader-Meinhof Blues- Legião Urbana (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá) Ao depararmos com a escrita dos autores Pedro Juan Gutiérrez e Rubem Fonseca nos damos conta de que algumas semelhanças podem ser encontradas quase que de imediato. Assim como a semelhança no que diz respeito ao lugar de enunciação, o tipo de escrita desses autores, como já mencionamos, coloca em evidência as relações dos grupos minoritários por meio da exposição das camadas marginalizadas da sociedade (bandidos, prostitutas, homossexuais, gigolôs etc.). Há ainda semelhança no caráter de opressão com relação à veiculação das obras desses dois autores, fazendo a ressalva de que a obra Rubem Fonseca só pode figurar nessa perspectiva se considerada a censura que existiu em relação ao livro Feliz ano novo na época da ditadura militar no Brasil. Podemos começar abordando alguns dos aspectos temáticos relevantes que esses dois autores desenvolvem em suas obras, isto é, a tríade sexo, erotismo e violência. Esse último componente da tríade talvez seja um dos aspectos que permitam uma aproximação mais imediata e reconhecível, a nosso ver, das obras analisadas nesta dissertação. A maneira direta como os narradores colocam o leitor em contato com determinados tipos de situações, ou seja, um mundo que não lhe é de todo alheio, mas que ainda o choca, seguramente, causa-lhe certo desconforto, pela crueldade e frieza com que os atos violentos aparecem nas narrativas. Como dito há pouco, o mundo retratado nas narrativas não é destoante da realidade do leitor, esse aspecto se justifica Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 64 pelo fato de esse mesmo leitor acompanhar nos noticiários e jornais de grande circulação os desdobramentos em relação à violência que, muitas vezes, ganha ares de banalizada. A violência retratada na obra desses dois autores latino-americanos, ainda que faça parte do cotidiano de muitos leitores, seja por meio dos noticiários ou da mídia em geral111, pode-se dizer que também exerce um determinado “fascínio”112 por ser uma realidade brutal, comovente, que não é a sua, mas está muito próxima. Ainda que ressaltada a importância que têm os meios de comunicação no processo de divulgação da violência, podemos dizer que o modo como esses autores trabalham essa temática permite que o leitor fique, muitas vezes, “pasmado” com a descrição e exposição do ato violento. Nas palavras de Lafetá, quando analisa a mudança do lirismo à violência em Rubem Fonseca, o que se pode observar em alguns contos desse escritor carioca é a transposição “do equilíbrio da ação e subjetividade à brutalidade do ato realizado sem hesitações, com crueldade fria e deliberada”113. O autor ainda expõe que um livro essencial para começarmos a ver a mudança é Lúcia MacCartney114, onde é salientado que, a partir daí, Rubem Fonseca vai deixar cada vez mais evidente a violência em seus textos. A título de exemplo, vejamos uma passagem de O rei de Havana que, de modo similar, traz essa questão da violência que impacta o leitor pela maneira como é descrita pelo narrador: 111 Nesse contexto podemos destacar filmes como Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite (2007) e recentemente 174, baseado no documentário Ônibus 174 (2002) do diretor José Padilha, que têm como pano de fundo a violência e a guerra entre bandidos e policiais nos grandes centros urbanos do país. 112 Apesar de não ser objeto direto desta dissertação analisar os efeitos da leitura e a relação do texto com o leitor, vale ressaltar a importância do ensaio de Seligmann-Silva (2005, p. 31-44), que, além de fazer menção às reações do leitor diante das obras que tematizam situações de terror e nas quais aparecem elementos relacionados ao abjeto, expõe de uma maneira histórica a teorização sobre o abjeto e o sublime e a mudança do enfoque atual na observação sobre os componentes desses dois conceitos. 113 Segundo Lafetá (2004, p. 372-393), pode-se perceber na obra de Rubem Fonseca uma transição de seus primeiros contos que continham uma vertente lírica na qual se podia identificar um herói romântico sonhador a uma perspectiva demoníaca e cruel desse mesmo herói. Tudo isso na tentativa de mimetizar a crescente violência da sociedade brasileira e torná-la central em sua literatura. 114 Nesse livro publicado em 1967 pela Editora Olivé encontramos 19 narrativas do escritor carioca, que tem entre seus protagonistas um boxeador em uma luta de vida ou morte, a prostituta ingênua que se apaixona por um cliente, entre outros. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 65 No meio da briga, a gozação da putinha o machuca ainda mais. Dá um forte empurrão na mãe e a joga de costa contra o galinheiro. De um canto da gaiola, projeta-se uma ponta de cabo de aço que se crava em sua nuca até o cérebro. A mulher nem grita. Abre os olhos com horror, leva as mãos ao ponto onde entrou o aço. E morre apavorada. Em segundos, forma-se uma poça de sangue grosso e de líquidos viscosos. Nelson vê aquilo e de repente desaparece o ódio que sente pela mãe.115 Em termos de recorte teórico, pode-se inclusive contestar o porquê da seleção do livro O Rei de Havana e não Trilogia Suja de Havana116, já que Feliz Ano Novo do escritor brasileiro Rubem Fonseca, assim como Trilogia suja de Havana é um livro de contos. Essa escolha justifica-se pelo fato de que para uma melhor abordagem sobre os personagens do conto Feliz ano novo, que é um dos textos centrais de nossa análise, podemos dizer que o personagem principal de O rei de Havana, levando-se em conta algumas semelhanças que podem ser encontradas entre eles, representa um tipo de marginal que pode ser considerado menos violento, sádico e perverso em relação aos de Rubem Fonseca. Nesse sentido, o personagem Reinaldo poderia representar um ponto inicial do desdobramento até chegar à equivalência de um personagem como Pereba ou Zequinha. Partimos do pressuposto de que o conto de Rubem Fonseca funciona como um estágio otimizado daquilo que virá a ser o personagem Reinaldo, depois de passar algumas experiências que contribuíram para torná-lo um assassino como os demais são. Além dos aspectos que aproximam as obras desses dois autores latino- americanos, é interessante ressaltar também os pontos em que elas se distanciam. Um aspecto sobre a produção artística do escritor cubano será trazido mais adiante quando da abordagem sobre a manifestação cultural que tem lugar fora de seu local de origem, isto é, que é publicada fora do seu lugar de enunciação. 115 GUTIÉRREZ. 2001, p. 13. 116 Trilogia suja de Havana foi lançado, em 1998, pelo Editorial Anagrama de Barcelona, Espanha. Foi publicado no Brasil, em 2003, pela Companhia das Letras. Nesse livro, estão reunidos três conjuntos de contos que deveriam ser lançados separadamente, “Ancorado em Terra de Ninguém”, “Nada a Fazer” e “Sabor a Mí”. No entanto, por fim, dado o caráter de continuidade que demonstra o conjunto, o autor reuniu todos os textos em uma coletânea que recebeu o nome Trilogia suja de Havana. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 66 Quando analisa a publicação do livro O ninho da serpente, memórias do filho do sorveteiro117, de autoria de Pedro Juan Gutiérrez, Oswaldo Martins faz a seguinte ressalva sobre o escritor cubano: “Ao mesmo tempo elege o estrangeiro como um não lugar e o lugar como estrangeiro, o sujeito nem aqui nem ali é mais sujeito da história, senão boneco de um teatro de líderes sem cara.”118 Nesse sentido, podemos entender que a resistência em sair da ilha, que o autor demonstra em muitas de suas narrativas, faz com que tenhamos a idéia de que o exterior, o estrangeiro, o estar fora é uma alternativa, mas o seu lugar de origem também é outra possibilidade, ainda que não corresponda totalmente às suas expectativas. Então, Pedro Juan Gutiérrez fica em um ponto de intercessão ou em um não-lugar que não é nem um nem outro, em um contexto de mudança de território com intuito de se fazer escutar ou mesmo divulgar a sua obra e expor a sua visão sobre o seu país. Podemos utilizar o conceito de “diáspora” empregado por Stuart Hall para entender esse movimento realizado por Pedro Juan Gutiérrez na maioria das vezes que tem que lançar um livro. Vejamos alguns trechos que dão conta de que a perspectiva do estar fora é uma realidade, muitas vezes, atraente àqueles que habitam Cuba, e o mesmo entendemos que pode funcionar também para a perspectiva do autor: — E sua filha? — Melhor não falar disso. — Por quê? — Uhmm.... está na Itália. — É? — Casou com um italiano. — Bom, ela se virou bastante por aqui, lembra? Agora, pelo menos, está vivendo bem. 119 117 O ninho da serpente, memórias do filho do sorveteiro, lançado em 2005 no Brasil pela Companhia das Letras, é um romance autobiográfico em que o autor inclusive faz ao início uma ressalva dizendo que é uma obra ficcional. Nessa narrativa, podemos tomar contato com o alter-ego do autor, o narrador Pedro Juan que tem quinze anos e que no decorrer do romance nos mostra suas percepções acerca do momento político e social que se seguiu após a Revolução Cubana, juntamente com o descobrimento e desenvolvimento sexual obsessivo do narrador. 118 MARTINS. http://aguarras.com.br/2006/11/01/pedro-juan-gutierrez/. 119 GUTIÉRREZ. 2001, p. 45. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 67 Olhe, Rey, a gente tem que se projetar, eu agora estou colado numa norueguesa. Ela vem em fevereiro pra casar comigo e eu vou me mandar. — Pra onde? — Pra Noruega. 120 Segundo Hall, “O conceito fechado de diáspora se apóia sobre uma concepção binária de diferença. Está fundado sobre a construção de uma fronteira de exclusão e depende da construção de um “Outro” e de uma oposição rígida entre o dentro e o fora”121. Um dos livros de Pedro Juan Gutiérrez que mais ressalta esse caráter de deslocamento é Animal Tropical122, publicado em 2000. Nele, podemos perceber o olhar do autor em uma perspectiva meta literária e o seu afastamento do seu local de origem. Consideramos interessante para a nossa análise esse distanciamento do seu lugar de procedência e, ao mesmo tempo, a constatação de um movimento diaspórico em função da viabilidade da publicação dos livros, pois esse aspecto se relaciona muito ao que propõe Hall: Essencialmente, presume-se que a identidade cultural seja fixada no nascimento, seja parte da natureza, impressa através do parentesco e da linhagem dos genes, seja constitutiva de nosso eu mais interior. É impermeável a algo tão “mundano”, secular e superficial quanto uma mudança temporária de nosso local de residência123. Dessa maneira, a transposição de um lugar a outro funciona inclusive para reforçar esses traços próprios do povo cubano. Ainda que venha a ocorrer uma mudança para outro lugar que não é o seu país de origem e que tal fato signifique a possibilidade de se desfrutar de uma condição melhor, mesmo assim surgirá uma espécie de 120 GUTIÉRREZ. 2001, p. 113. 121 HALL, 2003, p. 33. 122 Animal tropical, 2002, Companhia das Letras, romance de ficção e de caráter autobiográfico, narrado em primeira pessoa e que traz por meio das percepções do narrador a contraposição de se viver em Cuba diante de tantas limitações e a Suécia, isto é, da possibilidade de usufruir de um bem estar diferente daquele de seu país de origem. As contraposições e eleições ocorrem também entre o sexo pálido e normal com a amante sueca Agnes ou o sexo caloroso, despudorado e explosivo da prostituta cubana Gloria. 123 HALL, 2003, p. 28. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 68 incompletude, pois como se pode perceber a partir do livro anteriormente mencionado, a volta ao lugar de origem cumpre a função de fazer com que haja um encontro consigo mesmo, com o povo cubano, com o jeito de ser desse povo. Há um trecho no final de Animal Tropical em que transparece essa questão do retorno, que é enriquecedora e, ao mesmo tempo, a importância que cumpriu o distanciamento que o narrador teve em relação às suas origens e que, por fim, o fez aproximar de seu eu verdadeiro. En el monte, hacia Campo Florido, hay dos vallas de gallos, cladestinas pero sin problemas. Y venden ron barato y tabacos de un peso. ¿Qué más necesito? No quiero computadoras, ni e-mail, ni Internet, ni quiero que me jodan más. Que me dejen en paz y no me molesten.124 3.2 – A QUESTÃO POLÍTICA EM O REI DE HAVANA E FELIZ ANO NOVO É importante ratificar que, a partir de nossa visão crítica, consideramos difícil a possibilidade de separação do conteúdo de uma obra do momento histórico em que ela foi concebida e por isso sustentamos a assertiva de que fica ainda mais difícil a separação do ficcional e do real, quando se tem para observar e analisar duas narrativas como as de Rubem Fonseca e Pedro Juan Gutiérrez. As obras desses autores trazem ao leitor uma aproximação muito condizente com a realidade dos grupos minoritários que se encontram à margem do processo econômico tanto do Brasil quanto de Cuba. Porém, o que acontece quando um autor, um artista, expõe algo que não era para ser revelado? Ainda que muitos tenham conhecimento dessa realidade, para que ela não transpareça, o melhor é ignorá-la e/ou, até mesmo, escondê-la? É justamente nesse contexto que entra o Estado, o discurso oficial, como aquele que não deixa transparecer 124 GUTIÉRREZ, 2000, p. 294. “No monte, em direção a Campo Florido, há duas rinhas de galos, clandestinas, porém sem problemas. E vendem rum barato e cigarros de um peso. De que mais necessito? Não quero computadores, nem e-mail, nem Internet, nem quero que me encham o saco mais. Que me deixem em paz e não me incomodem.” Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 69 as mazelas sociais. Um caso que podemos ressaltar nesse contexto foi a prisão do jornalista e poeta cubano Raúl Rivero, em março de 2003. Ele foi condenado a vinte anos de detenção pela sua oposição a Fidel Castro, evidenciada essa oposição por meio do incentivo que dava à prática do jornalismo independente em seu país. Foi libertado, em novembro de 2004, depois de forte pressão internacional e agora vive na Espanha. Apesar de Pedro Juan Gutiérrez dizer na maioria de suas entrevistas que política seja um tópico não tratado por ele, podemos perceber em sua obra o caráter de uma “literatura anfíbia”125 que, segundo Silviano Santiago, é aquela na qual se pode identificar política e arte juntas. No caso de O Rei de Havana a visão política está implícita ao longo da narração. Talvez, para alguns leitores, esse romance funcione como um veículo de crítica explícita e profunda ao governo cubano. Porém, quando fazemos uma análise levando especificamente em conta a leitura política, esse fato por si provocaria um direcionamento, quando na verdade seria muito mais enriquecedor se abríssemos a novas perspectivas ou horizontes de leituras tais como: cultural, identitária, religiosa ou se poderia também explorar a questão do gênero. Todas essas possibilidades poderiam nos dizer muito sobre uma mesma obra, partindo de perspectivas heterogêneas de leituras possíveis126. Uma leitura a partir de uma perspectiva de gênero poderia ser feita se levássemos em conta, por exemplo, qual é o papel da mulher frente à postura machista e 125 SANTIAGO, 2004, p. 66. 126 Não é nosso objetivo desenvolver neste trabalho o tema relacionado ao caráter cultural. Porém, podemos destacar que, em relação aos aspectos cultural e identitário, é possível buscar elementos que fortalecem uma característica que o autor cubano ressalta em muitas de suas entrevistas, ou seja, como a mestiçagem do povo cubano relegou como herança genética a paixão que eles têm, por exemplo, pela música, pelo sexo, fato que, de um modo geral, justifica até sua alegria de viver. O sincretismo religioso seria outro aspecto importante para entender melhor as formações culturais e a própria constituição da identidade. Esse sincretismo aparece em várias passagens de O rei de Havana, demonstrando a riqueza da cultura e sua diversidade, seja nos rituais de oferendas, que aparecem diante do olhar desatento e disperso do personagem principal, que inclusive as ignora, seja no aparecimento de entidades como Ogum, Iemanjá e Oxum, manifestadas em personagens adeptos da Santería, ou mesmo de santos católicos como é o caso de Santa Bárbara, São Lázaro e a Virgen de la Caridad. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 70 falocêntrica que aparece manifestada em grande parte de O rei de Havana, tanto do ponto de vista do narrador quanto das atitudes do personagem Reinaldo em relação a Magda, a Daysi e outras mulheres com quem ele se relaciona ao longo da narrativa. Em se tratando de gênero, poderíamos explorar também a questão do travesti Sandra, sua relação com o protagonista e dado o desdobramento da relação dos dois personagens teríamos nesse sentido, por exemplo, outro aspecto sobre o estudo de gênero, que ultrapassaria o estereótipo homem/mulher, abrindo dessa forma uma perspectiva para analisar a questão genérica, a partir de uma classificação hetero ou bissexual do personagem protagonista. Em “Feliz ano novo” podemos destacar também a questão do gênero, uma vez que a condição masculina de um dos personagens é colocada em questionamento. O personagem se chama Lambreta, dono das armas que Pereba e o resto do bando vão tomar emprestadas para praticar o assalto. Vejamos o trecho em que esse aspecto é evidenciado: Já trabalhou em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Niterói, para não falar aqui no rio. Mais de trinta Bancos. É, mas dizem que ele dá o bozó, disse Zequinha. Não sei se dá, nem tenho peito de perguntar. Pra cima de mim nunca veio com frescuras. Você já viu ele com mulher?, disse Zequinha. Não, nunca vi. Sei lá, pode ser verdade, mas que importa? Homem não deve dar o cu. Ainda mais um cara importante como o Lambreta, disse Zequinha. 127 Mas outra questão que deve ser evidenciada é que um dos integrantes do bando tem a pretensão de redimir o comparsa que tem a sua hombridade contestada, por essa condição ser, a partir de sua perspectiva, uma característica inferior para um indivíduo que já possui um alto conceito no meio em que atua, isto é, a categoria de bandido de grande competência e experiência. A tentativa de redenção e aceitação aparece nas seguintes frases dos personagens: 127 FONSECA, 2004, p. 16. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 71 Cara importante faz o que quer, eu disse. É verdade, disse Zequinha. Ficamos calados, fumando. 128 O próprio silêncio dos personagens indica que o melhor a se fazer no caso do comparsa, suspeito de ser homossexual, fornece-nos uma pista de que essa pausa e mudança para outro assunto logo em seguida, mostra-se como uma forma de preservar a imagem do Lambreta. Nesse contexto, o poder e/ou o respeito que o personagem representa, no universo do crime, está acima de sua opção ou tendência sexual, ou seja, ninguém terá coragem de duvidar da sua “hombridade”, que, aqui, não se relaciona apenas com a opção sexual. Trata-se de uma questão pautada em um tipo de “exercício de poder” e respeito que possui o personagem. Essa forma de poder, que se dá inclusive quando Lambreta não se faz presente, está relacionada também com o saber, ou seja, a experiência que o bandido possui, o que nos permite associar à seguinte colocação de Focault: “tenho a impressão de que existe [...] uma perpétua articulação do poder com o saber e do saber com o poder”129. Em O rei de Havana, quando o personagem Reinaldo se vê envolvido com o travesti Sandra, ele também tem a pretensão de redimir a si próprio e conter o desejo que surge nele pelo travesti: “Rey olhou e ficou muito excitado com aquele contraste tão atraente, mas na mesma hora entendeu que tinha de se dominar, e rechaçou a idéia: “Eu sou homem, porra”, pensou.”130 Mas o seu instinto fala mais alto e seduzido pelas características tão femininas de Sandra, além de suas condições materiais que também se mostram como um atrativo a ele, pois com Magda, não tinha tanto conforto como ao lado de Sandra, Reinaldo logo entra por completo na relação. Vejamos alguns trechos que atestam sobre 128 FONSECA, 2004, p. 16. 129 FOCAULT, 2003, p. 141. 130 GUTIÉRREZ, 2001, p. 91. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 72 caráter de fascínio que exerce a beleza andrógena de Sandra sobre Reinaldo e o seu deslumbre pela condição confortável em que o travesti vive. Rey observou os peitos de Sandra e pensou que eram bonitos, mas mordeu a língua. Sandra percebeu o olhar de Rey: — Está vendo que não me falta nada. Na-da. E pelo menos sou mais divertida que essa mulher. Ela devia se chamar Angústia.131 Rey ia empurrá-la, mas é sabido que a carne é intensamente fraca e pecadora. E deixou que ele fizesse. Sandra, ajoelhada na sua frente, tirou o bustiezinho e mostrou os peitos lindos, perfeitos, firmes. Rey tocou os bicos, que ficaram duros. Sandra parou um pouco o que estava fazendo. Subiu até ele. Beijou-o.132 Quando Rey entrou no quarto ficou assombrado. Tinha de tudo ali dentro! Desde luz elétrica até televisão, geladeira, cortinas de renda, uma cama de casal como bichos de pelúcia em cima, uma penteadeira coberta de potes de creme e perfume. Tudo limpo, imaculado, sem um grão de poeira, as paredes pintadas de branco, enfeitadas com grandes pôsteres coloridos de belíssimas mulheres nuas.133 Analisando a questão do homossexual em “Feliz ano novo”, podemos constatar que “o ser bandido” é uma característica ou posição inconciliável à condição de homossexual, e essa questão parece ter uma importância maior do que em O rei de Havana, uma vez que, mesmo o personagem apresentando resistência em relação à Sandra, e reforçando para si mesmo sua masculinidade, ao final, entrega-se ao relacionamento homossexual. Nesse momento, Rey se utiliza de sua relação com Sandra para saltar de uma condição econômica e, dessa forma, constitui e reforça sua característica de cafetão, macho potente e rei que é atendido por seu subjugado, que lhe provém de dinheiro, comida e também lhe proporciona a satisfação sexual. — Sandra, não está com fome? — Vou fazer um almocinho, papi. Só para você e para mim. Vai ver que gostoso... toma... Deu-lhe vinte pesos. Rey trouxe cerveja. Quando voltou, Sandra estava cozinhando arroz com frango. — Você vive bem mesmo. Sandrita. Sabe viver. — Eu sei. 131 GUTIÉRREZ, 2001, p. 64. 132 GUTIÉRREZ, 2001, p. 67. 133 GUTIÉRREZ, 2001, p. 64. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 73 — Ontem arrumei um pouco de arroz e feijão-preto. Espere que vou trazer um pouco para você... — Não, não. Deixe para a bruxa. Você aqui não tem de trazer nada, papi. Nada. Eu sustento você, meu amor... ei... Por que não toma um banho? 134 A homossexualidade aparece retratada também em Feliz ano novo no conto “Botando pra Quebrar”. Nesse conto, o gerente de uma boate passa a recomendação de que o leão- de-chácara não deixe entrar no recinto “bicha louca, crioulo e traficante”. Porém, em seguida, chama-lhe a atenção por haver cumprido a recomendação dizendo: Porra, disse o dono, aonde foi que você aprendeu o serviço? / Será que você não sabe que existem bichas nos altos escalões e que esses a gente não barra?135 Podemos observar que nos dois casos em que figura a homossexualidade nos contos de Rubem Fonseca que compõem o livro Feliz ano novo, a condição de inferioridade do homossexual, apesar de ser estigmatizada por outros personagens, torna-se relativamente branda. Quando o indivíduo homossexual tem uma importância pelo que faz e representa para o seu grupo, como é o caso do conceituado bandido Lambreta ou da “bicha louca”, que ocupa um lugar privilegiado na sociedade. Neste caso, sua hierarquia social ou o seu dinheiro o torna imperceptível aos olhos do dono da boate que havia passado recomendações claras ao seu empregado, que não consegue entender bem porque, especialmente, aquela “bicha louca” poderia entrar na boate. Ainda nos referindo ao caráter político, pode-se notar que a forma literária anfíbia que propõe Santiago também é intrínseca à obra O Rei de Havana, pois nas palavras desse autor, “A forma literária anfíbia requer a lucidez do criador e também a do leitor, ambos impregnados pela condição precária de cidadãos numa nação dominada pela injustiça.”136 134 GUTIÉRREZ, 2001, p. 89. (grifo do autor) 135 FONSECA, 2000, p. 56. 136 SANTIAGO, 2004, p. 69. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 74 Pedro Juan Gutiérrez em suas próprias palavras se define com um ser apolítico, ou quando muito, diz-se alguém que já sofreu todas a desilusões em relação ao regime socialista cubano, diferentemente de Raúl Rivero que é um engajado assumido, e que por isso sofreu as sansões do regime castrista. Pedro Juan Gutiérrez prefere não levantar nenhuma bandeira e segue fazendo um movimento da diáspora137 para se fazer escutar em outros lugares que não aquele de sua origem. Quando perguntado diretamente sobre sua relação com o regime ou se teme por sua segurança, esquiva-se e, inclusive, dá uma amenizada na situação real da seguinte maneira: “Cuba não é um ditadura policial, onde vão te dar um tiro se você criticar o governo. Mas podem tornar as coisas difíceis para você. Eu, por exemplo, fui banido da profissão de jornalista.”138 Como foi dito no capítulo anterior, é possível fazer uma leitura de O rei de Havana em que aparecem duas Cubas, e uma delas a partir de uma visão política que se pode observar, por meio da narrativa, o esmaecimento de um sonho que seria a mudança proporcionada pela chegada do comunismo ao poder em Cuba, à época da revolução cubana, quando Fidel Castro toma o poder de Fulgêncio Batista. Ao contrário do que se supõe, os discursos da nação não refletem um estado unificado já alcançado. Seu intuito é forjar ou construir uma forma unificada de identificação a partir das muitas diferenças de classe, gênero, região, religião ou localidade, que na verdade atravessam a nação.139 O próprio pano de fundo que é a crise demonstra a derrocada final da possibilidade de uma política justa que faça garantir o direito dos cidadãos. No caso do Brasil, à época da ditadura militar, o Ato Institucional Número Cinco, o quinto de uma sequência de decretos emitidos pelo regime militar nos anos 137 No nosso trabalho, estamos utilizando o termo diáspora para nos referir ao movimento que o escritor cubano faz em direção a outros países, levando assim, por meio de suas obras, uma descrição pormenorizada do cotidiano cubano. No entanto, devemos evidenciar que esse movimento em direção ao exterior, especificamente no caso de Gutiérrez, há sempre o regresso à pátria. 138 Playboy, 2001, p. 76. 139 HALL, 2003, p. 78. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 75 seguintes ao Golpe militar de 1964, redigido pelo Presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968, recrudesceu a censura, determinando que a mesma, de modo prévio, se estendia à música, ao teatro e ao cinema. Foi sobre os alcances desse ato institucional, que Rubem Fonseca teve o seu livro Feliz ano novo censurado. Segundo Deonísio da Silva, O livro tinha vendido cerca de 30.000 exemplares quando Armando Falcão, ministro da Justiça (governo Ernesto Geisel, 1974-1978), assinou a portaria 8.401-B, em 15 de dezembro de 1976, proibindo sua publicação e circulação em todo o território nacional, determinando ainda a apreensão dos exemplares postos à venda, sob a alegação de que exteriorizava matéria contrária à moral e aos bons costumes.140 Para entender um pouco mais sobre o contexto histórico em que foi publicado o livro Feliz ano novo, recorremos às palavras de Lafetá: O livro de Rubem Fonseca foi publicado quando a propaganda da ditadura militar ainda falava em “milagre brasileiro”, desenvolvimento econômico acelerado, ingresso do país no clube das potências internacionais, necessidade de fazer crescer o “bolo” da riqueza para depois dividi-lo com os pobres etc. 141 Nesse momento histórico o que vinha à tona nas narrativas de Rubem Fonseca funcionava com uma afronta ao discurso do Estado e sua incapacidade de conter as proporções que atingiam os índices de criminalidade e violência daquele período histórico do país. Desse modo, a leitura política de Feliz ano novo é mais veiculada por uma reação do Estado ditatorial ao que era exposto nos contos que compunham o livro, do que propriamente a uma possível escrita engajada de Rubem Fonseca. Segundo Florencia Garramuño, “Apesar do que se pudesse prever — uma vez que se trata da intervenção de um regime ditatorial —, a razão para censurar o livro de Fonseca não é política, senão moral [...] De fato, outros textos mais políticos em um sentido tradicional são eximidos da censura, como o caso, por exemplo, de Em Liberdade (1981), um romance de Silviano 140 SILVA. http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/iq300120023.htm. 141 LAFETÁ, 2004, p. 388. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 76 Santiago que, com caráter reconhecido por todos, narra a tortura e assassinato do jornalista brasileiro Wladimir Herzog.”142 Dessa maneira, pode-se dizer que os elementos que propiciam uma leitura pessimista sobre a sociedade e o governo vigente, estão mais visíveis no livro do escritor cubano do que em Feliz ano novo de Rubem Fonseca. Porém, é mister salientar que a visão pessimista da sociedade é perceptível também em Feliz ano novo. Quando observamos, por exemplo, que a explosão da violência nos grandes centros urbanos não é exclusiva nas classes marginalizadas, como mencionado anteriormente, já temos um arquétipo de que esse enfoque pessimista aborda a sociedade e o seu lado obscuro de um modo geral. Primeiramente, vejamos um trecho de O rei de havana em que podemos corroborar tal abordagem: — Ah, sai dessa, Sandra, ter filho pra quê? Aqui? Pra sofrer e passar fome os dois? Não, pra mim eu passando fome já dá e sobra. Se algum dia tiver filho vai ter de ser de um homem muito especial, e fora de Cuba. 143 No diálogo do personagem se percebe um caráter político muito forte e relevante para entender a situação em que se encontram os moradores da ilha de Fidel Castro, ou seja, um ambiente arruinado pela escassez, onde as mulheres têm que se prostituir para conseguir se manter ou mesmo ter acesso a algo básico como alimentação. Em Feliz ano novo, especificamente no conto “Intestino Grosso”, por meio da entrevista que o narrador faz ao escritor, podemos constatar algumas questões que podem ser diretamente relacionadas à escrita de Rubem Fonseca, inclusive como autor de Feliz ano novo. No fragmento a seguir, podemos perceber algo relacionado à exposição das mazelas sociais daquela época no Brasil, aqui tratadas de maneira sarcástica. “Já ouvi acusarem você de escritor pornográfico. Você é?” 142 GARRAMUÑO, 2003. http://www.revistatodavia.com.ar/todavia04/notas/Garramuno/txtgarramuno.html. 143 GUTIÉRREZ, 2001, p. 77. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 77 “Sou, os meus livros estão cheios de miseráveis sem dentes”. “Os seus livros são bem vendidos. Há tanta gente assim interessada nesses marginais da sociedade? Uma amiga minha, outro dia, dizia não se interessar por histórias de pessoas que não têm sapatos”. Sapatos eles têm, às vezes. O que falta, sempre, é dentes.144 Outra parte do conto “Intestino Grosso” que podemos relacionar ao momento histórico em que Feliz ano novo foi lançado e que, de modo perspicaz, faz uma crítica ao Estado ditatorial é a seguinte: Outro perigo na repressão da chamada pornografia é que tal atitude tende a justificar e perpetuar a censura. A alegação de que algumas palavras são tão deletérias a ponto de não poderem ser escritas é usada em todas as tentativas de impedir a liberdade de expressão.145 Se levarmos em conta o citado para analisar o conto que leva o nome do livro, “Feliz ano novo”, podemos identificar nele muitas dessas palavras “deletérias” que, como foi ressaltado anteriormente, funcionam inclusive para uma melhor constituição dos personagens e para torná-los, a partir de um ponto de vista literário, mais críveis. O próprio conto “Intestino Grosso” traz alguns palavrões como “vá pra puta que pariu” e “foder”, e o personagem, que é um escritor, dá, inclusive, de maneira cômica e sarcástica, a idéia da criação do Dia Internacional do Palavrão, visto que, segundo seus argumentos, o palavrão é muito importante para que as pessoas possam exteriorizar o que sentem. Se fizermos uma análise mais profunda do contexto histórico da ditadura militar no Brasil e especificamente da censura, poderemos chegar a uma conclusão condizente com as colocações de Florencia Garramuño, recém citadas, que defende a idéia de uma censura que parte pela reprovação moral e não propriamente pelo aspecto estético da obra. Podemos destacar nos textos que compõem Feliz ano novo, sobretudo no conto “Feliz ano novo”, personagens que praticam toda classe de contravenções — porte de 144 FONSECA, 2000, p. 164. 145 FONSECA, 2000, p. 168. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 78 armas, uso desenfreado da violência, uso de entorpecente, vandalismo, homicídios —, e que, ao fim, saem ilesos. O mesmo acontece em “Passeio Noturno I” e “Passeio Noturno II”. Portanto, podemos afirmar que a escrita do autor carioca expõe algo que, moralmente, ia contra os preceitos do Estado, que entendeu que a obra fazia uma espécie de apologia ao crime, pois, de certo modo, os vilões saíam impunes enquanto a sociedade era desestruturada por essa classe de marginais e perturbados psicologicamente. Devemos destacar que, diferentemente de Pedro Juan Gutiérrez, Rubem Fonseca veiculou a explosão da violência urbana tanto nas camadas socias mais baixas quanto nas de nível econômico superior. É o caso de “Passeio Noturno I” e “Passeio Noturno II”, em que o protagonista sai à caça de mulheres para atropelá-las com seu jaguar esportivo. Nesses dois contos o protogonista é um sujeito aparentemente normal, que tem um trabalho de executivo em uma companhia, tem filhos e esposa, e que, sem nenhum motivo aparente, sai de casa durante à noite para atropelar pessoas com seu carro e volta à casa como se nada tivesse acontecido. Nesse contexto, poderíamos apontar a violência desse executivo como algo banal. Em sua concepção, o ato de atropelar, esmagar, quebrar e matar outras pessoas funcionaria como um mero mecanismo de escape de suas tensões, uma forma encontrada para “ficar relaxado”. Como recomenda a sua esposa, ele decide fazer algo que lhe dê satisfação e essa sensação de descanso depois de um longo e tão cansativo dia de trabalho. “Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar. [...] Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.”146 146 FONSECA, 2000, p. 61-63. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 79 Uma diferença marcante entre Feliz ano novo e O rei de Havana em relação ao aparecimento e manifestação da violência nas camadas sociais é que, no livro do escritor cubano, ela aparece de modo mais explícito e de maneira recorrente nas camadas mais pobres e miseráveis da sociedade. Isto não exclui, por exemplo, uma vez ou outra, o fato de ela aparecer fora desse contexto de pobreza. É o caso da filha da personagem Fredesbinda, que enganada por um estrangeiro, assina um contrato e viaja ao exterior e, quando volta para o seu país, retorna sem poder enxergar, pois lhe tiram as córneas. Uma parte de O rei de Havana em que podemos constatar também um certo ar de banalidade em relação à violência e uma incógnita sobre as razões que levam um indivíduo a causar tamanha dor a outro, pode ser observada no seguinte fragmento: — Nunca tive um homem grosso desse jeito. Nunca! O cara, sem abrir a boca, continuou protegendo como podia, até que em algum momento pegou seu braço, torceu-o bruscamente e, num acesso de raiva terrível, quebrou seus ossos, que se partiram facilmente ao se chocarem com o joelho dele. Ficou satisfeito, observando, sarcástico, sua obra: o de braço quebrado, no chão, olhando para ele em estado de choque, transido de dor. Sentia tanta dor que perdeu a fala. Várias pessoas que assistiam ficaram igualmente mudas.147 O que chama a atenção, em relação a Rubem Fonseca, é o fato de o Estado brasileiro se preocupar em escamotear uma realidade que aparecia, via ficção, no livro do autor carioca, o que demonstra também um tipo de violência em não permitir a liberdade de expressão daqueles que, como o autor, representa um agente cultural do país. Um inovador que, além de incorporar o jargão da subcultura urbana marginal pela primeira vez na literatura brasileira, conseguiu “associar de modo singular a cidade com o crime e a violência”.148 147 GUTIÉRREZ, 2000, p. 116. 148 GARRAMUÑO, 2003. http://www.revistatodavia.com.ar/todavia04/notas/Garramuno/txtgarramuno.html. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 80 Devemos ressaltar que a realidade, que aparece via ficção em Feliz ano novo, possibilita uma visão antecipadora do que veio a se tornar aparente ou mesmo se consolidar como algo factível desde a década de 70 até os dias atuais não só no Rio de Janeiro, mas na maioria dos grandes centros urbanos. “A barra ta pesada. Os homens não tão brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo. Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! Crescemos juntos em Caxias [...] — pegaram ele e jogaram dentro do Guandu, todo arrebentado. Pior foi com o Tripé. Tacaram fogo nele. Virou torresmo. Os homens não tão dando sopa, disse Pereba.”149 A partir do descrito, podemos observar os meios dos quais se valia a polícia para desaparecer com os bandidos, o que anos mais tarde ficou caracterizado como grupos de extermínio. Esses foram responsáveis, inclusive, por alguns episódios obscuros como a chacina da Candelária — que ocorreu na madrugada de 23 de julho de 1993, no centro do Rio, onde sete meninos e um jovem, todos moradores de rua, foram assassinados a tiros — e o episódio do seqüestro do ônibus da linha 174150, no dia 12 de Junho de 2000, também no Rio de Janeiro, que teve como resultado a morte de uma refém, e o fim do seqüestrador. Final semelhante ao do personagem fonsequiano — o bandido Vevé —, que também foi morto estrangulado pela polícia. 3.3 – APROXIMAÇÕES ESTÉTICAS E TEMÁTICAS ENTRE PEDRO JUAN GUTIÉRREZ E RUBEM FONSECA 149 FONSECA, 2000, p. 14; 15. 150 Esse episódio desastroso na história da polícia carioca deu origem a um documentário chamado Ônibus 174, dirigido e produzido por José Padilha, o mesmo diretor de Tropa de elite, um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional em 2007. Lançado no Brasil em 2002, Ônibus 174 foi premiado em festivais no mundo todo, como na Mostra de Cinema de São Paulo, em Havana, no Festival de Munique e Roterdã. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 81 No conto “Feliz Ano Novo” de Rubem Fonseca, três marginais, o narrador, Pereba e Zequinha, cada um vivendo de um modo pior e mais degradante que o outro em pequenos e fétidos barracos em zonas periféricas, saem em uma ronda violenta e sangrenta para invadir a festa de réveillon dos abastados financeiramente (aí chamados de grã-finos), no intuito de roubá-los, matá-los e se divertir um pouco à custa da desgraça alheia. O narrador, também comum aos dois outros marginais, relata minuciosamente o quadro social, moral e econômico no qual se encontram e o lado oposto dessa miséria, isto é, as madames com jóias, comida farta e todos desfrutando, de um modo feliz, os prazeres que lhes pode proporcionar o acesso ao dinheiro. Logo, é demonstrado que há uma necessidade de cobrança e acerto de contas por parte desses “condenados sociais” a quem lhes foi tirada a possibilidade de usufruir ou de pelo menos ter acesso a uma parte daquilo que não tiveram e que eles consideram que nunca terão acesso, se não por meio da violência. A partir desse viés, o assassínio de pessoas se constitui como um mero divertimento ou um fato que ocorre em meio a uma ação que tem como objetivo roubar e conseguir algum dinheiro com os objetos e jóias que eles conseguem levar dos ricos. A violência que resulta no assassinato de outros indivíduos constitui-se como um divertimento para os marginais, pois eles violentam, destroem e desprezam as vidas de outros indivíduos de uma maneira inescrupulosa que, de certo modo, lhes trazem um sentimento de satisfação em ver a desgraça do outro. Podemos perceber que a violência é um mecanismo e o meio pelo qual os marginais têm acesso ao sexo, e por sua vez, o seu alcance pode também ser expandido ao caráter “de poder usufruir” daquilo que não se possui (comida, dinheiro, jóias, sexo) e, ainda, satisfazer também à idéia de um caráter “lúdico”, que eles experimentam quando atiram nas pessoas. Tudo isso constitui uma lógica sobre a ação dos assaltantes: para que uns se divirtam (ou se sintam em um Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 82 estado de satisfação, prazer e alegria), outros têm que morrer. Logo, a vida de uns segue em harmonia, enquanto repousa na desgraça e morte de outros. Segundo Lafetá, A mola desencadeadora da violência, aquilo que move os personagens, parece estar aquém (ou talvez além) de qualquer busca de sentindo: para esses parias da sociedade brasileira o sentido acabou, e o vazio de suas vidas só pode ser preenchido pelo ódio sangrento, que aliás, de tão rotinizado, parece menos ódio do que frieza psicótica.151 Das ruínas da “Habana Vieja” o narrador de O rei de Havana propicia desde suas páginas iniciais, um raio-x da situação de miséria e abandono em que se encontra o povo cubano. Essa população se vê obrigada a amontoar-se em casebres minúsculos, fétidos e castigados pela ação do tempo e que a qualquer momento podem desabar sobre suas cabeças. Nesse ambiente, é que acompanhamos a história de Reinaldo, um garoto que é acusado pela morte da mãe, do irmão e da avó, todos de uma só vez. É mandado para uma instituição de menores infratores, consegue fugir depois de alguns anos e volta a perambular de um canto a outro da ilha, no intuito de encontrar algo que comer, muitas vezes usando o poder de persuasão sexual, já que depois de algumas aventuras sexuais se auto-intitula o rei de Havana. Esse codinome se justifica pelo fato de Rey possuir um instrumento — o falo — que é capaz de lhe dar acesso a muitas coisas, sobretudo comida, rum e, ainda, a satisfação sexual. Assim como na obra fonsequiana Feliz ano novo, em O Rei de Havana, Pedro Juan Gutiérrez expõe, de maneira direta, o afloramento da violência social, que aparece mais especificamente no abandono das Instituições em relação às classes mais desprovidas da sociedade. Neste sentido, a violência aparece no livro do escritor cubano de diferentes modos. Na separação e destruição da unidade familiar do personagem principal, quando 151 LAFETÁ, 2004, p. 387. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 83 seu irmão acidentalmente empurra sua mãe em direção a uma viga metálica que lhe atravessa o crânio, seguida do imediato suicídio do mesmo por haver matado a mãe e, por fim, a avó que, diante de toda desgraça, decide terminar de morrer também, já que há muito tempo se mostrava imóvel, inexpressiva e inerte a qualquer tipo de situação. Outro tipo de violência que se dá é a sexual. Quando o personagem Reinaldo está na instituição de recuperação para infratores e um companheiro de reclusão quer lhe abusar: Foi chegando perto dele abanando aquele bichão com a mão direita: — Olhe, mulatinho, o que você acha deste bicho aqui? Que bundinha linda você tem. Rey não deixou que terminasse. Partiu para cima dele aos socos. Mas o desgraçado do negro estava ensaboado e os socos escorregavam.152 Por último, destacamos a violência que brota de modo inesperado e brutal de seu interior e desencadeia a morte de uma das pessoas por quem ele mais nutria afeto, como veremos adiante. A violência e, sobretudo, o atuar com rigores de crueldade parece ser um modus operandi de Pereba e Zequinha e o narrador, protagonistas do conto “Feliz ano novo”, já em O rei de Havana o personagem principal tem que passar por um processo para que essa crueldade venha à tona. Vejamos um trecho de “Feliz ano novo” e em seguida outro do livro O rei de Havana para que possamos corroborar essa última afirmação: Zequinha pegou a Magnum. Jóia, jóia, ele disse. Depois segurou a doze, colocou a culatra no ombro e disse: ainda dou um tiro com esta belezinha nos peitos de um tira, bem de perto, sabe como é, pra jogar o puto de costas na parede e deixar ele pregado lá. 153 De todo jeito, apontou e afiou uma escova de dentes que guardava escondida no colchonete. Às vezes, pegava a escova e testava sua ponta. Com aquilo conseguiria atravessar o coração de quem aparecesse para abusar dele. Tinha vontade de enfiar no pescoço do 152 GUTIÉRREZ, 2001, p. 15-16. 153 FONSECA, 2000, p. 16. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 84 negro e escarafunchar bem até cortar todas as veias e acabar com o sangue dele. Tinha ódio do negro. 154 Nos dois fragmentos, podemos constatar a idéia do agir com rigores de violência e crueldade e, inclusive, até uma determinada premeditação do ato brutal, mas se realizarmos uma leitura completa das narrativas, podemos constatar que no primeiro trecho, que se refere a “Feliz ano novo”, não há uma motivação direta, ou mesmo particular em relação ao personagem Zequinha, como é o caso do personagem Rey que estava na iminência de ser abusado sexualmente por outro interno da prisão em que ele se encontrava. Zequinha parece querer atirar no policial por puro divertimento, sem nenhuma piedade, é como se essa ação fosse algo corriqueiro como sair de casa com guarda-chuva para não se molhar. Os autores, cada um a seu modo, deixam suas características autobiográficas em suas narrativas. Pedro Juan Gutiérrez com sua pegada jornalística (profissão que exerceu durante 26 anos), digna de um tipo de jornalismo policial, aquele que segura o leitor, manipulando a cada parte do texto uma pequena dose daquilo que se constituirá, talvez, em um desfecho surpreendente. Rubem Fonseca, colocando em prática o que pôde sorver durante os anos em que esteve trabalhando como comissário na polícia do Rio de Janeiro, ou seja, um indivíduo que esteve em contato, direta ou indiretamente por meio dos relatos de seus companheiros de profissão, com as diversas classes de malandros, prostitutas e indigentes de todo o Rio de Janeiro. Ainda em relação aos atos de brutalidade e violência extrema que aparecem nas narrativas, podemos dizer que no caso do romance de Pedro Juan Gutiérrez, não há um acerto de contas do marginal, do excluído, do morto de fome em relação à determinada parcela abastada da sociedade. No decorrer da narrativa, não aparecem pistas desse ódio 154 GUTIÉRREZ, 2001, p. 17. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 85 em relação àqueles que têm acesso a determinados privilégios e regalias. O que ocorre no desfecho do romance do autor cubano é o que traz Bataille em seu livro O erotismo, ou seja, “A posse do ser amado não significa a morte; ao contrário, a sua busca implica a morte. Se o amante não pode possuir o ser amado, algumas vezes pensa em matá-lo: muitas vezes ele preferiria matar a perdê-lo. Ele deseja em outros casos sua própria morte”155. Essa citação ilustra bem o final do romance O rei de Havana, no momento em que Reinaldo depreende vários golpes com um objeto afiado e põe fim à vida de sua amante. Vou ter mais um filho dele! Ao ouvir isso, Rey ficou totalmente louco. Pegou a faquinha e de um só golpe lhe rasgou a face esquerda, da orelha até o queixo. Um corte tão profundo que pôs à vista os ossos, os tendões, os dentes. Gostou de vê-la assim, desfigurada, com o rosto rasgado e o sangue correndo pescoço abaixo: Está vendo, puta, eu é que sou homem. Viu? Ela aterrorizada, levou as mãos à ferida e continuou gritando para ele: — Veado, filho-da-puta! Esse negro vai matar você! Vou botar ele na sua cola pra matar você! Rey, já sem controle, acertou-lhe outro corte no pescoço. Cortou-lhe a carótica. De um só golpe. Um jorro de sangue voou e ensopou ambos. Magda abriu os olhos desmesuradamente. Outro jorro de sangue, com força. O bombear do coração. Outro mais, muito mais fraco. Magda desmaiou. Caiu no chão. Brotou muito sangue daquela ferida. E morreu em questão de segundos. 156 Quando o personagem é colocado diante de si mesmo por meio das palavras duras de Magda, a realidade torna-se pesada demais para ele, que se julga superior, seja por sua destreza sexual ou por sua habilidade em construir coisas só com sua faquinha de aço e um pedaço de ferro que usava como martelo. O narrador inclusive ressalta nesta parte da narrativa que “Era mesmo o Rei de Havana!”157 E diante de se ver diminuído, humilhado, lançado à categoria de menino incapaz de corresponder às expectativas de uma mulher, e levando em consideração a possibilidade de perder a pessoa que amava, 155 BATAILLE, 1987, p. 19. 156 GUTIÉRREZ, 2001, p. 218; 219. 157 GUTIÉRREZ, 2001, p. 216. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 86 ele prefere vê-la morta a ter que presenciar a sua partida (ainda que ela o deixe não por não amá-lo, mas pensando em uma forma de se proteger) para ficar com outro, que ela inclusive faz questão de ressaltar: “Esse, sim, é homem. Que cuida de mim, me dá roupa, comida, dinheiro, me leva pra passear. Esse negrão sim é que é homem!”158 No conto “Feliz ano novo”, Rubem Fonseca expõe cruamente o contraste existente entre a classe marginalizada, “miserável, preta, feia e desdentada” e a classe de nível econômico superior, “limpa, feliz, sorridente” e satisfeita por gozar dos privilégios que proporcionam o dinheiro: Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem no réveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque. Pereba, vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros.159 Essas diferenças tão marcantes de status econômico fazem com que transpareçam nos personagens, que quase nada têm, um sentimento de inveja e revolta por aqueles que, diferente deles, têm comida na mesa, roupa limpa, perfumes e outros utensílios raros em um meio tão miserável como é o do personagem Pereba e dos seus comparsas. Segundo Bataille, Com seu trabalho o homem edificou o mundo racional, mas sempre subsiste nele um fundo de violência. A própria natureza é violenta e, por mais comedidos que sejamos, uma violência pode nos dominar de novo, que não é mais a violência natural, a violência de um ser racional que tentou obedecer, mas sucumbe ao movimento que ele mesmo não pôde reduzir à razão.160 Os dizeres de Bataille servem para ilustrar o quanto o personagem principal de O rei de Havana se aproxima da categoria animal. Como argumentamos na introdução desta dissertação ou quando da abordagem do conceito de grotesco, muitas vezes os personagens aparecem com características animalescas e humanas propiciando assim a 158 GUTIÉRREZ, 2001, p. 217. 159 FONSECA, 2000, p. 13. 160 BATAILLE, 1987, p. 37. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 87 adequação do uso desse conceito. “Rey seguiu seu rumo: ‘Que trabalhar a puta que pariu. Nunca mais vou trabalhar na minha vida’ pensou”.161 Uma característica comum entre O rei de Havana e o conto “Feliz ano novo” é que nas páginas dessas narrativas aparecem personagens cujas falas não respeitam os padrões lingüísticos ditos cultos ou correspondentes a uma determinada norma padrão do idioma em que esses personagens se expressam. Vejamos fragmentos de “Feliz ano novo” e de O rei de Havana em que aparece tal situação: Puta que pariu, disse Zequinha. E vocês montados nessa baba tão aqui tocando punheta? Esperando o dia raiar para comer farofa de macumba, disse Pereba.162 Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de flozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as jóias.163 — E você, puta de merda, faz isso só para foder, porque é uma puta. Não provoque mais, senão eles acabam morrendo. Sem comer e tocando punheta o dia inteiro! Vai matar eles, droga de puta! Vai matar eles! — Escuta aqui, tonta, não me amola, eu estou na minha casa e faço o que bem entendo. — Você é uma bela de uma puta. — Sou, mas com minha boceta. E vivo vinte vezes melhor que você, que é tonta e imunda. Sua porca!164 Com isso, poderíamos então salientar o intento dos autores de aproximar ao máximo do que se pode chamar de “real” a constituição de seus personagens e suas histórias, que, ainda que ficcionais, poderiam ser os discursos que nelas aparecem, passíveis de ocorrer no mundo real, em um meio marginalizado como é o dos personagens, onde facilmente podem aparecer palavras de baixo calão como “deu” no sentido de se entregar ao bandido, “fudida”, “puta de merda”, “punheta” e boceta”. 161 GUTIIÉRREZ, 2001, p. 34. 162 FONSECA, 2000, p. 15. 163 FONSECA, 2000, p. 18. 164 GUTIÉRREZ, 2001, p. 12. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 88 Pedro Juan Gutiérrez afirma em entrevista: Trato de reduzir um pouco a realidade, de transformá-la em algo mais leve, para fazê-la possível de se acreditar. Isso acontece em meus livros: tenho que traduzir os fatos para que as pessoas acreditem neles. Esse é o principal problema da literatura: ela precisa ser crível. 165 Podemos notar nas palavras do autor cubano, que há uma preocupação em tornar crível o que ele escreve. Esse argumento vem em consonância da assertiva de que quando há a preocupação de colocar na narrativa o modo como os personagens marginais se comunicam, nós leitores, podemos chegar a uma idéia de como se constitui o universo dos personagens que estão sendo retratados neste trabalho. O realismo de Pedro Juan Gutiérrez segue algumas reminiscências de origem naturalista, ou seja, aquelas características em que os personagens são indivíduos que trazem dentro de si instintos hereditários, que explodem repentinamente em manifestações de tara, luxúria e violência. Podemos tomar como exemplo o personagem central de O rei de Havana, um indivíduo que apesar do convívio social com outros personagens de melhor esclarecimento e situação econômica, como é o caso da viúva Daysi, que tinha como trabalho ler a mão das pessoas, ainda assim não consegue se ajustar socialmente. Uma força interior o impele ao universo das “anormalidades” e vícios e ele segue o seu destino como “um animal” indiferente que não sabe sequer o que lhe espera no dia posterior. O seu universo é aquele das satisfações imediatas, não se importando com o que ocorre com quem está a sua volta. — Rey, pelo amor de Deus, não vá embora assim. Eu nunca perguntei quem você era, nem de onde saiu. Nada... — Nem é da sua conta. — Eu sei que não é da minha conta. Nunca vou perguntar nada. Mas deixa eu cuidar de você, Rey. Não beba mais. — Me deixa em paz e não me encha mais o saco, velha de merda.166 165 Playboy, 2001, p. 77. 166 GUTIÉRREZ, 2001, p. 184. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 89 Em O rei de Havana, o personagem principal se vale do sexo para ter acesso a determinadas “vantagens” que provavelmente não teria se não conquistasse as mulheres com as quais tem relação. Logo, podemos dizer que, assim como os personagens do conto “Feliz ano novo” fazem uso irrestrito da violência como mecanismo que lhes propiciam bens e objetos que almejam, Rey aproveita, de modo similar, o sucesso que consegue fazer e o fato de impressionar todas que querem que ele prove que é realmente o “Rei de Havana” — o que se comprova realmente com o seu desempenho. Isso nos permite defender a idéia de que também Rey faz uso do sexo como um mecanismo possibilitador. Porém, ele não sabe aproveitar da sua condição de macho viril e potente para sair ou se mover por muito tempo da situação miserável e degradante em que se encontra, pois sempre volta à estaca zero, sem dinheiro, sem trabalho, sem comida e também sem sexo. Porém, o uso da violência de modo brutal também acontece em O rei de Havana. O seu uso desmedido se dá quando Rey agride Magda, no intuito de aplacar a sua humilhação por ter sido chamado de “morto de fome, inútil e veado”. Nesse momento, o ato de violência funciona como um mecanismo capaz de fazer desaparecer toda humilhação vinda de uma pessoa por quem inclusive ele nutria sentimentos. Assim, observamos que o sexo, no caso de O rei de Havana, e a violência, em Feliz ano novo, podem ser caracterizados como mecanismos pelos quais os personagens viabilizam, desde a aquisição de bens materiais e satisfação sexual até uma sensação de apaziguamento interno, como é o caso dos contos “Passeio Noturno” e “Botando pra quebrar” do livro Feliz Ano novo. Nesses textos o uso da violência serve aos personagens como uma válvula de escape, pois a agressividade traz uma determinada satisfação àqueles que a empreendem. No conto “Botando pra quebrar”, o narrador, um homem sustentado por Mariazinha, que é uma costureira, consegue um emprego de leão-de-chácara em uma boate no mesmo dia em que ela decide abandoná-lo. Para Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 90 liberar seus demônios internos e se vingar do dono da boate que o havia repreendido e que certamente o dispensaria do trabalho, ele decide arrumar confusão e dar uns socos e pontapés para se livrar um pouco da sensação de estar sendo “sacaneado” ou enganado por todo mundo. De lucro consegue destruir uma parte da boate e ainda ganha um dinheiro do seu patrão. Em “Passeio Noturno I” e “Passeio Noturno II”, contos em que as causas que levam o personagem a matar outras pessoas atropelando e as esmagando com seu possante veículo parecem ainda bem menos claras que aquelas de “Botando pra quebrar”. Entretanto, pode-se dizer que é por meio do ato descomedido de violência e ausência de remorso que o personagem protagonista encontra uma satisfação interior que o faz voltar para casa mais relaxado e pronto para continuar sua rotina normal no dia seguinte. De acordo com Oswaldo Martins167, “o erotismo de Pedro Juan Gutiérrez é o erotismo do nojo, do gosto pelo nojo, ou ainda, da consciência do sujeito como ser viscoso e repelente. O submundo se redesenha pela impossibilidade e pelo desejo desglamourizado”. Nenhum se incomodava com a sujeira do outro. Ela tinha uma xota um pouco ácida e a bunda cheirando a merda. Ele tinha uma nata branca e fedida entre a cabeça do pau e a pele que a rodeava. Ambos cheiravam a bodum nas axilas, a rato morto nos pés, e suavam. Tudo isso os excitava. Quando não agüentaram mais foi porque estavam extenuados, desidratados, e anoitecia.168 O fragmento citado vai ao encontro das duas assertivas de Freud que consideramos pertinentes para analisarmos o processo de desglamourização do desejo que ocorre em O rei de Havana. A imprecisão dos limites do há de chamar-se de vida sexual normal em diferentes raças e em épocas diversas já deveria acalmar os que dão provas de tanto zelo. Tampouco deveríamos esquecer que a mais depreciável, para nós, destas perversões, o amor sexual entre homens, 167 MARTINS, 2006. http://aguarras.com.br/2006/11/01/pedro-juan-gutierrez/, Acesso em 04/11/2007. 168 GUTIÉRREZ, 2001, p. 55. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 91 num povo que tanto se nos avantajava em cultura como foram os gregos, não só era tolerada como a ela eram atribuídas importantes funções sociais. E cada um de nós, em sua própria vida sexual, ora nisso, ora naquilo, transgride um pouquinho os estreitos limites do que se julga normal.169 Cabe lembrar que o sentido principal dos animas (também no tocante à sexualidade) é o olfato, que se reduziu nos seres humanos. Enquanto predomina o olfato (ou o paladar), a urina, as fezes e toda a superfície do corpo, inclusive o sangue, têm um efeito sexualmente excitante.170 Se enxergarmos a relação entre o personagem Rey e o travesti Sandra sobre essa perspectiva, isto é, da imprecisão dos limites, podemos inclusive levantar a hipótese de que ele consegue atingir parcialmente seu objetivo, que é o de ser um cafetão, de viver sem trabalhar, de ser considerado um perito na arte do sexo e que o fato de gostar de alguém do mesmo sexo, não altera em nada sua masculinidade. No fundo o que importa é a satisfação dos instintos que, muitas vezes, o torna quase um animal, e a relação que, em princípio, pode ser apresentada como transgressora é relegada a um segundo plano. Em relação à aproximação do personagem Rey ao caráter animalesco, a partir da segunda colocação de Freud, podemos destacar as seguintes partes: “Cheirou as axilas. Gostava daquele cheiro. Cheirava a si mesmo várias vezes por dia. Ficava excitado de se cheirar. Sentiu uma leve ereção. [...] Ele tinha se excitado cheirando a si próprio, como fazem os macacos e muitos outros animais, inclusive o homem.”171 Ele pôs a mão no sexo dela. E sem abrir os olhos se acariciaram. Ele chegou mais perto. Essa era Magda. Com cheiro de sujeira, igual a ele. Lambeu seu pescoço. Cheirou suas axilas fétidas. Isso o excitava muito. Subiu em cima dela, penetrou-a, e se sentiu muito bem. Realmente bem.172 Consideramos relevante destacar ainda, no que diz respeito às aproximações entre as obras aqui analisadas, que esse processo de desglamourização do desejo está também 169 FREUD, 2001, p. 58. 170 FREUD, IN: MASSON, 1986, p. 224. 171 GUTIÉRREZ, 2001, p. 162. 172 GUTIÉRREZ, 2001, p. 74. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 92 presente em “Feliz ano novo”, ainda que de certo modo deteriorado em relação àquele que aparece em O rei de Havana como vimos anteriormente. Zequinha entrou na sala, viu Pereba tocando punheta e disse, que é isso Pereba? Michou, michou, assim não é possível, disse Pereba. Por que você não foi para o banheiro descascar sua bronha?, disse Zequinha. No banheiro tá um fedor danado, disse Pereba.173 Não vais comer uma bacana destas?, perguntou Pereba. Não estou a fim. Tenho nojo dessas mulheres. Tô cagando pra elas. Só como mulher que eu gosto. E você Inocêncio: Acho que vou papar aquela moreninha. A garota tentou atrapalhar, mas Zequinha deu uns murros nos cornos dela, ela sossegou e ficou quieta, de olhos abertos, olhando para o teto, enquanto era executada no sofá.174 Nesses fragmentos, o desejo aparece relacionado a algo solitário, pessimista, sendo ainda associado à violência, também de modo brutal, em que o querer e o desejo pelo outro só cumprem a função de satisfazer a si próprio e nada mais que isso. Em O rei de Havana, ainda que as relações entre os personagens cheguem à equivalência do mundo animal, o caráter exótico, a atração pelo outro, a admiração, o querer-se estão em uma atmosfera em torno ao erotismo e conseqüentemente nos parece uma relação menos derruída. “Na porta de um prédio, na Animas, uma velha muito muito muito gorda tomava a fresca. Quase nua. [...] Dava para ver suas tetas enormes, os bicos grandíssimos, a barriga extraordinária, quem sabe debaixo daquela massa gelatinosa, suada, ácida, calorenta, houvesse um monte-de-vênus com uma vagina úmida e palpitante e tudo o mais. [...] Ela olhou para Rey e sorriu provocante.”175 Uma diferença que poderíamos levantar entre as obras é como se dá “o chegar ao ato sexual”. Enquanto que em Feliz ano novo, para se chegar ao sexo os personagens têm que se dispor da brutalidade e da ação violenta em O rei de Havana parece existir 173 FONSECA, 2000, p. 14. 174 FONSECA, 2000, p. 20. 175 GUTIÉRREZ, 2001, p.111. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 93 primeiramente um jogo erótico, de sedução antes do ato em si. Também por esse motivo é que ressaltamos anteriormente que nos parece haver uma desglamourização mais aparente na obra do escritor carioca do que na de Pedro Juan Gutiérrez, como buscamos demonstrar a partir dos trechos citados. Outra característica que podemos observar na obra de Pedro Juan Gutiérrez e que não é tão aparente na de Rubem Fonseca, com exceção do conto “Intestino Grosso”, do livro Feliz Ano Novo, é a problematização da questão do sujeito autoral. Nas palavras de Daiana Irene Klinger, Tal problematização aparece na obra inteira de Pedro Juan Gutiérrez, estruturada como saga autobiográfica, na qual se mantém o mesmo narrador em vários romances, retornam uma e outra vez às mesmas histórias pessoais e familiares sob diferentes pontos de vista.176 Algumas pistas autobiográficas aparecem, por exemplo, nas seguintes intervenções que faz o narrador de O rei de Havana: Se acariciavam, se desejavam com cada pedacinho dos sentidos. Depois, quando esfriava a sensualidade, dava pena sentir tanto amor. A sutileza do amor é um luxo. Desfrutá-lo é um excesso impróprio dos estóicos177. O ser humano se acostuma com tudo. Se todos os dias nos derem uma colherada de merda, primeiro a gente reage, depois a gente mesmo pede ansiosamente a colherada de merda e faz de tudo para comer duas colheradas e não só uma.178 Era um bom lugar aquele. Sujo, destruído, arruinado, tudo despedaçado, mas as pessoas pareciam invulneráveis. Viviam e agradeciam aos santos cada dia de vida e gozavam. Entre os escombros e a sujeira, mas gozando.179 176 KLINGER, 2007, p. 23. 177 GUTIÉRREZ, 2001, p. 75. 178 GUTIÉRREZ, 2001, p. 85. 179 GUTIÉRREZ, 2001, p. 161. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 94 O que de certo modo faz com que pensemos que uma característica que as obras têm em comum é a presença do autor empírico180 nos textos que são ficcionais. Como já fizemos menção, o conto “Intestino Grosso” fornece algumas partes que dão testemunho de questões pertinentes à escrita de Rubem Fonseca, entre as quais, destacamos, a título de exemplo, a fala do personagem, que, no conto, tem como ofício o ato da escrita. Há pessoas que aceitam a pornografia em toda parte, até, ou principalmente, na sua vida particular, menos na arte, acreditando, como Horácio, que a arte dever ser dulce et utile. Ao atribuir à arte uma função moralizante, ou, no mínimo, entretenedora, essa gente acaba justificando o poder coativo da censura, exercido sob alegações de segurança ou bem-estar público.181 Segundo Klinger, “os elementos que permitem a identificação entre autor e personagem aparecem precisamente nos lugares em que o narrador se interroga sobre o eu”182. Em O rei de Havana podemos vislumbrar essa perspectiva. No fim, pensava, não tenho nada para fazer nem aqui fora, nem lá dentro. Para que a gente nasce? Para morrer depois? Se não tem nada pra fazer. Não entendo para que passar por todo esse trabalho. Viver, disputar com os outros pra não foderem você, e no fim de tudo a merda. Ahh, tanto faz estar aqui como lá fora.183 Outro trecho que de certo modo expõe o que pensa o autor empírico por meio do narrador é o seguinte, “Quem sabe, um dia, tivesse de tomar a mesma decisão e se atirar de cabeça quando não agüentasse mais”.184 Nele, o narrador se pergunta se o destino do velho alcoólatra que lhe pediu para ser levado até a sacada de um prédio destruído de cinco andares e de lá saltou para dar fim a sua vida, não seria a saída para um universo 180 Usamos o conceito de autor empírico aqui no sentido de sujeito civil que assina a obra ou aquele que o leitor consegue identificar pelas marcas deixadas na obra produzida. Não entraremos no mérito sobre a discussão sobre intencionalidade ou não-intencionalidade do autor, para essa abordagem recomendamos o capítulo IV, que leva o título de “O autor”, do livro O demônio da teoria: literatura e senso comum, de Antoine Compagnon. 181 FONSECA, 2000, p. 170. 182 KLINGER, 2007, p. 61. 183 GUTIÉRREZ, 2001, p. 23. 184 GUTIÉRREZ, 2001, p. 43. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 95 tão miserável e desesperante que era o de Cuba no final dos anos 80 e início dos 90 quando a crise atingira o seu ápice. Corroborando as palavras de Klinger, podemos observar que a interrogativa do narrador sobre a possibilidade de dar a si mesmo fim igual ao do velho que se atirou da sacada, traz à tona algo muito próximo da realidade do autor empírico. Podemos corroborar o nosso argumento a partir de uma entrevista dada por Pedro Juan Gutiérrez a uma revista respondendo sobre o caráter de verdade sobre o conteúdo das narrativas de Trilogia Suja de Havana. O livro foi escrito nos anos 90, período difícil para mim e para o país. Eu estava no meio de uma situação horrorosa. Tinha três filhos, dois dentro do casamento e um fora. Ao mesmo tempo, Cuba mergulhou em uma crise. Em setembro de 1990, a imprensa sofreu uma intervenção. Revistas e jornais foram fechados. Das 157 publicações que havia no país, não restam mais do que quatro ou cinco. Em 1991 começamos a passar fome. Não havia água, gás, sapatos, nada. Então acumularam-se duas crises: a cubana, dura, e a minha, ainda pior. De repente, fiquei sozinho em casa, sem uma cadeira sequer, sem carro, sem comida185. Há em O rei de Havana um momento em que o personagem principal se encontra preocupado com o tempo, especialmente pela aproximação de seu aniversário e ele não sabe ao certo a quanto tudo corria. “Quando chegou a Regla, havia uma festa no parque. Uma grande faixa dizia: ‘Feliz Ano-Novo’, e em outra leu: ‘Bem-vindo 1998, com maior empenho defenderemos nossas conquistas’”186. Essa última frase talvez seja uma das passagens do livro em que aparece algo explícito e direcionado ao Estado cubano e que tem uma relação muito direcionada ao recorte da entrevista que citamos há pouco, pois se pode perceber o caráter propagandista do governo para que os cidadãos cubanos tenham a pretensão de estar fazendo conquistas no intuito de superar a crise pela qual o país está passando naquele momento. E o silêncio do personagem em relação ao que 185 Playboy, 2001 p. 77. 186 GUTIÉRREZ, 2001, p. 104. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 96 estava escrito naquela faixa mostra que essa não serviu de nada para ele, e, apesar de fazê-lo lembrar de seu aniversário, tem o valor de um signo que, de certo modo, revela o valor nulo que “as conquistas” têm para Rey. 3.4 – O SEXO “SUJO” E DESPIDO DE SENTIMENTO EM FELIZ ANO NOVO E EM O REI DE HAVANA Como ressaltamos anteriormente, o realismo de Pedro Juan Gutiérrez apresenta algumas peculiaridades de caráter naturalista em sua escrita, que podem, sem exageros, fazer com que o aproximemos dos textos do Marquês de Sade. Por esse viés, podemos fazer um paralelo entre a escrita de Rubem Fonseca e a de Bukowski, que expõe a sexualidade de uma maneira crua, revelando muitas vezes aspectos recônditos e obscuros da condição humana, sem eufemismos e de modo intenso. A seguir, apresentamos dois trechos de Bukowski que atestam a nossa proposição: Depois voltei para a cama. Virei-a para mim e comecei a mexer-lhe no sexo. Sempre que estou com ressaca fico cheio de apetite — não para comer, mas para foder. Foder é o melhor remédio para ressacas. Põe tudo para funcionar de novo.187 Eu tinha cinqüenta anos e há quatro que não ia para a cama com uma mulher. Não tinha amigas. Quando passava por elas, na rua ou onde quer que as via, olhava, mas olhava sem desejo e com desinteresse. Masturbava-me regularmente, e a idéia de ter uma relação com uma mulher — mesmo em termos não sexuais — estava muito longe da minha imaginação.188 Nesses fragmentos, podemos observar por meio da postura do personagem que o sexo oposto só representa um objeto que serve para satisfazer e, quando muito, amenizar o incômodo causado por uma ressaca. A partir daí, podemos notar um aspecto menor do que se constitui uma relação. Também é possível notar que o personagem está despido 187 BUKOWSKI, 2003, p. 34. 188 BUKOWSKI, 2003, p. 2. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 97 de qualquer pudor ou constrangimento para revelar sua precária condição afetiva e angústia em relação ao desejo, que só se concretiza em sua solidão. Nesse sentido, podemos identificar os aspectos recônditos do indivíduo. A escrita sobre o sexo, em princípio, apresenta-se como um elemento comum e bastante recorrente tanto em O rei de Havana quanto em Feliz ano novo, mas se analisamos com um olhar mais minucioso percebemos que ele aparece de modo distinto nas duas obras. Em O rei de havana, o personagem principal está envolto em um emaranhado de situações que parecem, todas, levar à concretização do ato sexual. Os dois já tinham pentelhos na pélvis e no cu, o pau já havia crescido e engrossado, tinha pêlos nas axilas e aquele cheiro de suor forte dos homens, e a voz um pouco mais rouca e grossa. Se masturbavam, escondidos no meio das gaiolas dos frangos, olhando a menina vizinha da cobertura ao lado189. Logo se enganchou numa negrinha bem preta, com um bom rabo e boas tetas. Muito alegre e sorridente, e com muito pó de quina espalhado nas costas para espantar todo o mal. Quando Rey tirou trinta dólares para pagar a cerveja, a negrinha olhou com o rabo dos olhos e disse para si mesma: Ganhei a noite. Mas Rey mostrou as notas e pensou: Mordeu a isca, puta, vai levar ferro esta noite até na orelha. As perlonas estão pedindo carne.190 No primeiro trecho, o narrador faz uma descrição pormenorizada de como estão constituídos fisicamente os dois jovens que, de certo modo, parece que tem a pretensão de ressaltar que esses estão habilitados para sair transando com todas as prostitutas de Cuba, assim como um soldado está apto a ir à guerra com seu fuzil, seu corpo forte e robustecido, isto é, preparado e o com desejo de lutar, (utilizando a linguagem retratada) de “trepar” até o fim. Esse fragmento também demonstra uma das primeiras passagens da narrativa que pode ser classificada com pertencente a uma perspectiva do realismo sujo. Por sua vez, o segundo trecho expõe, de maneira direta, as pretensões sexuais do personagem sem eufemismos, tampouco romantismo, revelando mais uma vez o 189 GUTIÉRREZ, 2001, p. 10. 190 GUTIÉRREZ, 2001, p. 104-105. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 98 aspecto instintivo das relações, em que a busca do prazer é um objetivo primordial e também despido de sentimento onde há o predomínio da pulsão do desejo. Outras partes que parecem ter sido escritas levando em consideração uma estética erótica e/ou pornográfica e que inclusive aproxima a escrita de Pedro Juan Gutiérrez da perspectiva do Realismo Sujo, ou mesmo de alguns dos elementos que compõem a estética deste tipo de realismo são as seguintes: Os olhos da velha brilharam, seu rosto ficou alegre e pareceu retroceder instantaneamente dos cinqüenta e dois para gloriosos vinte anos: — Ah, que pau mais lindo! Pegou-o com as duas mãos, apertando. Apalpou-lhe o saco. Era um cacete esplêndido e grosso de vinte e dois centímetros, de uma cor de canela bem escura, com pentelhos negros e brilhantes. Havia tempo que fazia sexo. Tinha comido o cu de alguns veados no reformatório.191 Deram uns amassos. Rey comprou mais uma cerveja para ela. Depois a levou para uma ruela atrás da igreja, e naquela escuridão fez ela chupar e soltou a primeira porra, ensopando-lhe as tetas. Tinha sêmen de dois dias. Muito sêmen. E disse para ela: — Não limpe, não. Deixe secar aí. Essa é a marca do Rei de Havana.192 O conteúdo relacionado ao abjeto também se faz presente em O rei de Havana e em igual proporção em Feliz ano novo. O susto lhe deu vontade de cagar, mas o carro passou velozmente por ele. Respirou aliviado. Dois segundos depois, a polícia interceptou os caminhões. Ele se enfiou no meio do mato para cagar. Estava um pouco constipado e seu cu doeu. Fazia dias que não cagava, de forma que o susto valeu. Limpou-se com um pedaço da camisa.193 O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.194 191 GUTIÉRREZ, 2001, p. 47. 192 GUTIÉRREZ, 2001, p. 105. 193 GUTIÉRREZ, 2001, p. 25. 194 FONSECA, 2000, p. 18. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 99 Nesses fragmentos apresentados, os personagens aparecem em situações em que as descrições de suas ações pelos narradores nos fornecem os mínimos detalhes que normalmente não são tão enriquecedores para a narrativa desde um ponto de vista literário, pois o ato de defecar que aparece, não está associado a outra coisa senão ao caráter de abjeto. O segundo trecho, que faz parte do conto “Feliz ano novo”, ressalta inclusive outro aspecto que tratamos anteriormente que diz respeito ao realismo sujo, ou seja, o fato de um dos personagens defecar em cima da colcha, de certa maneira, possibilita que o relacionemos a um ser com características animalescas. Traçar de maneira objetiva quais são os elementos que entram na composição do que se possa chamar de “realismo sujo”, ao nosso entendimento, se constitui como um exercício no qual “inferir” cumpre um papel importante, haja vista a dificuldade que tivemos para encontrar textos teóricos que discorriam sobre essa temática. Sendo assim, no decorrer deste trabalho, mais especificamente neste capítulo, buscamos inferir sobre quais os aspectos que constituem o conceito de “realismo sujo” e, por sua vez, buscamos delimitar os seus usos, com base, inclusive, na autodenominação que o próprio autor cubano dá ao seu estilo e que, como conseqüência, aplicamos para leitura dos textos fonsequiano. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 100 CONSIDERAÇÕES FINAIS Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 101 Este trabalho procurou identificar os elementos estéticos, temáticos, sócio- econômicos e culturais que permitissem e comprovassem a abordagem das obras Feliz ano novo e O rei de Havana a partir de uma perspectiva marginal. Como ponto de partida, tratamos da questão do mercado e valor literário. Em seguida, analisamos as obras no contexto em que elas foram produzidas e sua repercussão negativa, o que desencadeou, por exemplo, o caráter proibitivo do livro de Rubem Fonseca à época da ditadura militar no Brasil e que proíbe, até os dias atuais, a publicação de O rei de Havana em Cuba assim como um número considerável de livros de Pedro Juan Gutiérrez. Nesse sentido, pudemos ampliar o conceito de marginalidade, agregando a ele o adjetivo “contextual”, pois as obras foram proibidas dentro de um contexto histórico e de um lugar de enunciação específicos. Também empregamos o termo “marginal estético”, uma vez que a escrita de Pedro Juan Gutiérrez e Rubem Fonseca, levando em consideração os estudos relacionados às obras que constituem o cânone, encaixa-se nesse conceito. Como premissa para a nossa pesquisa, foi elaborada a hipótese de trabalho, segundo a qual, poderíamos situar a questão da marginalidade literária tanto na escrita de Pedro Juan Gutiérrez quanto na de Rubem Fonseca. Suas narrativas apresentaram, como é o caso de Rubem Fonseca com Feliz ano novo, e apresentam ainda no caso do escritor cubano, uma literatura outra, que não aquela que segue um padrão ou que esteja de acordo com o que propõe um estereótipo, que se constitui como cânone ou referência. Fizemo-nos alguns questionamentos acerca da possibilidade de criação de um “cânone marginal” para nos referir aos autores que foram foco da pesquisa e de outros como Bukowski e Henry Miller. Chegamos à conclusão de que para se constituir como cânone, as obras e os autores têm que ultrapassar não só a categoria de fenômeno Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 102 de vendas no mercado editorial como têm que ganhar também o caráter de literatura nacional. Acreditamos que o que as escritas de Pedro Juan Gutiérrez e de Rubem Fonseca apresentam são mais que pontos em comum, sobretudo quando levamos em consideração de que se trata de dois autores latino-americanos que beberam da fonte de uma literatura de caráter naturalista e cada um, ao seu modo, desenvolve uma nova roupagem para os seus próprios projetos literários. Identificamos a questão da metaliteratura no conto “Intestino Grosso” para colocar em evidência uma discussão importante a respeito do ofício do que representa ser um autor e também das questões relativas ao valor de obras que têm como referência outras para poder alcançar relevância no mercado editorial e a própria questão da pornografia na literatura. Nesse sentido, exploramos também, por meio das colocações de Klinger, as pistas deixadas nas narrativas ficcionais pelos autores empíricos. Vimos que o contexto histórico, que é difícil de desvincular das obras, se faz presente e é capaz de nos remeter de modo direto às realidades nas quais essas obras foram produzidas. Como observado ao longo do trabalho, pudemos chegar à conclusão também, com o auxílio de Lafetá e Garramuño, que não foram especificamente as questões estéticas que levaram à censura de Rubem Fonseca durante o período do regime militar, mas o conteúdo de sua obra que, de certo modo, expunha o tema da explosão da violência nos grandes centros urbanos. Além disso, o escritor carioca também trazia em suas narrativas personagens fora-da-lei, que praticavam atos hediondos, mas que ao final de suas histórias não sofriam nenhuma repreensão pelo dano que causaram. Tal fato, aos olhos dos censores, constituiu-se como uma forma de apologia ao crime. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 103 Por meio da análise das obras tomamos contato com o caráter inovador de Rubem Fonseca ao incorporar o jargão da subcultura urbana marginal pela primeira vez à literatura brasileira. Ele conseguiu ainda relacionar a imagem dos grandes centros urbanos ao crime e à violência, de modo a não eleger estratos específicos da sociedade para que ela possa se manifestar. Outra perspectiva foi a reflexão sobre as possíveis leituras que podemos realizar de O rei de Havana, abrindo novos horizontes de interpretação e enriquecimento das possibilidades e pontos de vistas que podem surgir por meio da narrativa do escritor cubano. Como conseqüência das aproximações feitas em relação à escrita dos dois autores, chegamos à conclusão de que eles sustentam suas narrativas sobre uma tríade comum, ou seja, “violência, sexo e erotismo” e que cada um desses elementos que compõe essa tríade apresenta-se como mecanismo por meio dos quais seus personagens estruturam suas relações uns com os outros. No capítulo dois, no qual tratamos sobre a constituição da identidade nacional, foi possível encontrar uma nova perspectiva para discorrer sobre a violência e seus usos. Pudemos identificar, por exemplo, a violência que ocorre em relação aos sujeitos por parte das instituições ou mesmo do Estado. Conforme se procurou mostrar a partir da apresentação da questão política tratada no terceiro capítulo, foi-nos possível identificar nas obras analisadas uma heterogeneidade das identidades que compõem a nação e que o Estado tem, como exemplificamos por meio de uma leitura política de O rei de Havana, a pretensão de unificar todos sobre a égide de uma identidade unívoca. Utilizamo-nos dos conceitos de Stuart Hall e a polifonia de Bakhtin para tratar da heterogeneidade em relação à(s) identidade(s) presentes na obra do autor cubano. Atentamo-nos ao caráter dúbio que podemos identificar no conceito de identidade nacional, sobretudo, quando nos propusemos a fazer uma leitura a partir da existência Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 104 de duas Cubas, uma proposta pelo caráter unificador da identidade em relação ao Estado e a outra, a partir da diversidade encontrada na representatividade dos personagens, que passa, por sua vez, pelo viés múltiplo do caráter cultural. Pudemos constatar certa contestação em relação ao caráter político nos dois textos, porém de maneira mais direta no conto “Intestino Grosso”. Esse conto além de trazer temas importantes para que fosse discutido o ofício de escritor, levantou questões concernentes à escrita de Rubem Fonseca (daí o caráter metaliterário), autor que foi taxado de pornográfico e que propõe uma análise sarcástica sobre o aspecto da censura em relação a textos que abordam determinados assuntos considerados impróprios. Além dos elementos aproximativos em relação à escrita de Pedro Juan Gutiérrez e Rubem Fonseca, buscamos também demonstrar por meio da análise entre seus personagens como esses autores se distanciam quando desenvolvem suas narrativas a partir de elementos comuns como o sexo e a violência — aspectos representativos nas duas obras que se constituíram como o foco de análise e desenvolvimento da nossa pesquisa. Pudemos identificar em relação ao caráter erótico que, em Rubem Fonseca, esse tema aparece de modo ainda mais desglamourizado do que na narrativa do escritor cubano. Buscamos justificar essa assertiva por meio de fragmentos de O rei de Havana nos quais percebemos uma representação do desejo menos deteriorada do que aquela que identificamos nos personagens fonsequianos. Os tipos trabalhados na obra do escritor carioca, além de fazer uso recorrente da violência como mecanismo que lhes possibilita o acesso à satisfação sexual, entre outras “vantagens”, também a empregam de modo brutal e, muitas vezes, injustificável em relação a outros personagens. Dessa maneira, concluímos que o conceito de marginalidade literária pode agrupar, naqueles elementos que o compõem, outras características que ultrapassam a Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 105 questão do mercado editorial. Em um primeiro momento, o conceito de marginalidade literária serve para caracterizar os poetas que não podiam publicar e veicular suas obras. Com o desenvolvimento de nossas proposições, também constatamos que tal conceito funciona como base analítica das obras de Rubem Fonseca e Pedro Juan Gutiérrez. Entre as características que podem ser agregadas ao conceito, pudemos identificar a repercussão da crítica no contexto histórico em que as obras foram concebidas, o lugar de enunciação dos autores, a representatividade de seus livros e o caráter de aproximação de escritores já conhecidos e convencionalizados como malditos e marginais que têm em suas obras características encontradas na escrita de Pedro Juan Gutiérrez e Rubem Fonseca. Por fim, sobre a questão do mercado, devemos ressaltar que essa sociedade de mercado, como classifica Schwarz, cumpre um papel importante. Ela pode funcionar inclusive como mecanismo redentor ou punitivo daquelas obras que um determinado leitor pode trazer para sua antologia particular como constituintes de um cânone, como referência de alta cultura ou não. Marginalidade Literária: um olhar sobre a escrita de dois autores latino-americanos | Luciano Danilo Silva, 2008 106 REFERÊNCIAS ALEXANDRE, Marcos Antônio. Juan Radrigán e Plínio Marcos: contextos e textos dramáticos/espetacular. 2004 388 f., enc. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais. ANTÔNIO, João. Malagueta, Perus e Bacanaço. 6ª ed. São Paulo: Círculo do livro, 1980. ÁVILA, Francisco de. Dioses y hombres de Huarochirí. Narración quechua recogida por Francisco de Ávila [¿1598?]. Tradução José María Arguedas. Estudo bibliográfico Pierre Duviols. Lima: Museo Nacional de Historia / Instituto de Estudios Peruanos, 1966. BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000. BARNET, Miguel. Memórias de um Cimarron: testemunho. São Paulo: Marco Zero, 1966. BARROS, Carlos Juliano. 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