UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS VALDIRÉCIA DE REZENDE TAVEIRA REPRESENTAÇÃO DE SUSPEITOS DE HOMICÍDIOS COM NEGATIVA DE AUTORIA EM UMA ABORDAGEM SOCIODISCURSIVA Belo Horizonte 2019 VALDIRÉCIA DE REZENDE TAVEIRA REPRESENTAÇÃO DE SUSPEITOS DE HOMICÍDIOS COM NEGATIVA DE AUTORIA EM UMA ABORDAGEM SOCIODISCURSIVA Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Doutora em Linguística do texto e do discurso. Área de concentração: Linguística do Texto e do Discurso Linha de pesquisa: Análise do Discurso Orientadora: Profª. Drª. Sônia Maria de Oliveira Pimenta Coorientadora: Profª. Drª Clarice Lage Gualberto Belo Horizonte Faculdade de Letras 2019 Ficha catalográfica elaborada pelos Bibliotecários da Biblioteca FALE/UFMG 1. Análise do discurso – Teses. 2. Semiótica – Aspectos sociais – Teses. 3. Homicídio – Teses. 4. Multimodalidade – Teses. I. Pimenta, Sônia Maria de Oliveira. II. Gualberto, Clarice Lage. III. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Letras. IV. Título. Taveira, Valdirécia de Rezende. Representação de suspeitos de homicídios com negativa de autoria em uma abordagem sociodiscursiva [manuscrito] / Valdirécia de Rezende Taveira. – 2019. 237 f., enc. : il., color. Orientadora: Sônia Maria de Oliveira Pimenta. Co-orientadora: Clarice Lage Gualberto. Área de concentração: Linguística do Texto e do Discurso. Linha de pesquisa: Análise do Discurso. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras. Bibliografia: f. 210-217. Anexos: f. 218-234. T232r CDD : 418 À mulher mais guerreira que já conheci Vera Borges, minha mãe AGRADECIMENTOS Agradeço às minhas orientadoras Sônia e Clarice por terem aceitado o desafio de desenvol- vermos juntas este trabalho. À Sônia por ter me apresentado às pesquisas acadêmicas em Análise do discurso. À Clarice pela presença constante nesta caminhada, intercalando a firmeza de orientadora com o carinho e a amizade. Agradeço ao professor Orlando Vian Jr pela leitura cuidadosa e pelas valiosas observações feitas no exame de Qualificação, pois foram fundamentais para o desenvolvimento e finali- zação da pesquisa; Aos membros da banca de defesa, Zaira, Cláudia e Fátima, pela leitura cuidadosa, amizade e interlocuçoes; à professora Ida Lúcia pelo carinho e atenção que sempre me recebeu, contribuindo ainda ao final com uma leitura atenta desta tese; À minha família pelo apoio incondicional em todos os momentos. À minha mãe por estar sempre presente, com seu amor e vontade de viver. Pelo grande companheirismo e pela força. Sem ela essa trajetória jamais teria começado. Aos meus irmãos, Veluciata e Valber, pelo companheirismo e por sempre me fazerem acreditar que era possível, mesmo quando eu pensava ( e sentia) que não era. E ao meu marido, Clebson, pelo amor incondicional, pela paciência, pelo carinho e pelas interlocuções. Sem ele ao meu lado não teria tido condições de caminhar. Não posso deixar de agradecer àqueles que me ajudaram, dialogaram, discutiram com mui- to cuidado meu trabalho, mesmo sem compreender da área, contribuindo assim para o meu crescimento e para o desenvolvimento do trabalho: Flávia Caiaffa pelas leituras e interlo- cuções quando a pesquisa era apenas uma ideia; Henrique Leoni e Wanderley Wanderson, pelos diálogos “jurídicos” que me ajudaram a elaborar melhor o que era apenas uma ideia; Silmara e Wilson pela amizade, carinho e compreensão durante essa jornada. Aos colegas da PR-RN Marina Vasconcelos, Marta, Ferreira, Rodrigo, Henrique, Fernan- do, e Cleiton pela compreensão nos momentos em que dela precisei. Marcionília, Ronaldo e Andrea, pela amizade, pelo acolhimento e apoio. Enfim, agradeço a todos que, de alguma forma, contribuíram para a realização deste trabalho. Sem vocês nada seria possível. RESUMO Sabemos que a mídia tem papel fundamental na representação de eventos sociais, influen- ciando na formação da opinião pública e, em alguns casos, até mesmo no desencadeamento de certos fatos, como é o caso de certos crimes de homicídio, que são frequentemente noti- ciados. Nesse contexto, discute-se, no meio jurídico, se, em razão de como a cobertura de casos de grande repercussão é feita, já não estariam certos suspeitos condenados pela mídia e, consequentemente, pela sociedade (influenciada pela mídia) antes mesmo do julgamento mediante o devido processo legal e pela autoridade competente. Assim, tendo em vista as discussões acerca da possibilidade de influência da mídia em processos penais, sobretudo, os de atribuição do Tribunal do Júri, como é o caso de homicídios, percebemos a necessi- dade de compreender as diversas representações discursivas presentes no mundo midiático ao relatar a ocorrência de homicídios, em especial, aqueles em que os suspeitos negam a autoria do crime. O objetivo central do nosso trabalho consiste em mostrar como se dá a representação discursiva de suspeitos de homicídios com negativa de autoria, observando se há um direcionamento discursivo de atribuição de autoria do crime, de atribuição de cul- pabilidade e/ou de julgamento prévio. Elegemos para o presente estudo o evento da morte da garota Isabella Nardoni, ocorrido em 2008, e o da ex-modelo Eliza Samúdio, ocorrido em 2010. Nosso corpus é constituído de 9 (nove) textos publicados na revista Veja acerca dos dois eventos durante o período investigativo. Os casos escolhidos tiveram grande re- percussão midiática, motivo pelo qual os elegemos para estudo. Nosso referencial teórico ancora-se na Semiótica Social (HODGE E KRESS, 1988; VAN LEEUWEN, 2005) e em autores e teorias que com ela dialogam, como a abordagem da Multimodalidade (KRESS & VAN LEEUWEN, 1996, 2006) e do Sistema de Avaliatividade (MARTIN & WHITE, 2005; MARTIN & ROSE, 2007), pois se apresentam como teorias sociais do discurso que nos permitem refletir sobre a linguagem e sobre as práticas discursivas na sociedade con- temporânea. Propomos, assim, realizar uma análise sociodiscursiva observando se, a partir dos diversos modos semióticos empregados, insinua-se no discurso um direcionamento à culpabilidade dos envolvidos e/ou condenação prévia. Nossas análises apontam para uma orientação argumentativa em que, mesmo antes da conclusão das investigações e da apreci- ação do evento pelo Poder Judiciário, é atribuída aos suspeitos a autoria dos crimes. Em ambos os casos fica explícito, a partir da orquestração dos diferentes modos e recursos se- mióticos que, nos textos analisados, produzem-se potenciais sentidos que podem ser enten- didos como direcionados a uma representação dos suspeitos como prováveis agentes dos crimes, o que era o foco desta pesquisa. No caso Isabella Nardoni, os suspeitos são repre- sentados a partir de um viés negativo, enfatizando-se comportamentos reprováveis pela so- ciedade. Com isso, permite-se construir uma imagem negativa deles, levando-se com isso, à imagem de assassinos. Da mesma forma, no caso do assassinato de Eliza Samúdio, a in- ter-relação dos recursos semióticos empregados levam à atribuição de autoria de crime, principalmente Bruno Fernandes, principal suspeito desse crime. Nesse caso, os elementos textuais, a partir de forte integração intermodal permitem compreender o sentido potencial de assassino, associando-se o suspeito diretamente ao assassinato. Além disso, observou-se ainda um direcionamento de culpabilidade e punição nos casos, já que um direcionamento argumentativo clama por punição aos suspeitos. Palavras-chave: Representação; Homicídio; Negativa de Autoria; Semiótica Social; Mul- timodalidade; Sistema de Avaliatividade ABSTRACT It is known that the Media plays a fundamental role in representing social events, influenc- ing the construction of public opinion and, in some cases, even triggering certain events, such as certain crimes of homicide, which are often reported. In this context, it is argued in the Legal area if due to the way cases of considerable repercussion are reported, certain suspects of crimes could be already condemned by the media and, consequently, by society (media-influenced) before the legal process. Thus, taking in mind those discussions about the possibility of influence of media in criminal legal proceedings, especially those attrib- uted to the Jury Court, as in the case of homicides, we perceived the need to understand the diverse discursive representations present in media world when reporting the occurrence of crimes, especially those with authorship denial. The main objective of our work is to demonstrate how the discursive representation of suspects of homicides with denial of au- thorship is reported, observing if there is a discursive orientation that attributes the author- ship and the guilty to the suspects before the Legal process. We elected for the present study the death event of the girl Isabella Nardoni, occurred in 2008, and that one of the model Eliza Samúdio, occurred in 2010. Our corpus consists of 9 (nine) texts published in Veja magazine, during the time of investigation about the two events. Our theoretical framework is anchored in Social Semiotics (HODGE E KRESS, 1988; VAN LEEUWEN, 2005) and authors and theories that dialog with it, such as the Multimodality approach (KRESS & VAN LEEUWEN, 1996, 2006) and the Appraisal System (MARTIN & WHITE, 2005; MARTIN & ROSE, 2007) as they are presented as social theories of dis- course that allow us to reflect about language and discursive practices in contemporary so- ciety. We propose, therefore, to carry out a sociodiscursive analysis, observing whether, from the different semiotic modes employed, there is a guilty representation of those in- volved and/or if a previous condemnation is implied in the discourse. Our analysis point to an argumentative orientation in which the suspects, even before the Legal process even started, seem to be prejudged and the authorship of the crimes are attributed to the sus- pects, prior to the conclusion of the investigations. In both cases it is explicit, from the dif- ferent semiotic modes that, in the analyzed texts, potential meanings are produced leading to a representation of the suspects as probable agents of the crimes, which was the focus of this research. In the case of Isabella Nardoni, the suspects are represented by a negative point of view, emphasizing behaviors reprehensible by society, in which the association of the various semiotic modes allows the reader to construct a negative image of them, taking with it, in this image of murderers. In the same way, in the case of the murder of Eliza Samúdio, the interrelationship of the semiotic resources employed lead to the attribution of authorship of crime, especially Bruno Fernandes, the main suspect of this crime. In this case, the textual elements, presents a strong intermodal integration allowing to understand the potential meaning of killer, associating the suspect directly to the murder. In addition, guilt and punishment were also pointed out in cases, since an argumentative approach calls for punishment of the suspects. Key-words: Representation; Homicide, Authorship denial; Social Semiotics; Multimodal- ity; Appraisal System LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 – Recorte do corpus ........................................................................................... 27 FIGURA 2 – Estratificação da linguagem ........................................................................... 33 FIGURA 3 – Dimensões do espaço visual ........................................................................... 51 FIGURA 4 – Sistema em rede: inventário de categorias para análise de layout ................ 52 FIGURA 5 – Letras com serifas e sem serifas ..................................................................... 55 FIGURA 6 – Sistema de Avaliatividade resumido .............................................................. 62 FIGURA 7 – Estrutura da reportagem: exemplo 1 .............................................................. 66 FIGURA 8 – Estrutura da reportagem: exemplo 2 .............................................................. 67 FIGURA 9 – Layout 1: O anjo e o monstro ......................................................................... 70 FIGURA 10 – Imagens no texto 1: vítima e suspeitos ........................................................ 73 FIGURA 11 – Layout 2: Isabella continua a morrer ............................................................ 81 FIGURA 12 - Imagem 1 do texto 2: casal e filhos no supermercado .................................. 82 FIGURA 13 – Imagem 2 do texto 2: Ana Carolina sendo conduzida por policiais ............. 83 FIGURA 14 – Layout 3: Foram eles .................................................................................... 89 FIGURA 15 – Caminho de leitura – texto 3 ........................................................................ 90 FIGURA 16 – Layout 4.1: Frios e Dissimulados ................................................................. 93 FIGURA 17 – Layout 4.2 .................................................................................................... 97 FIGURA 18 – Fotografia da esquerda do layout 4.2 ........................................................... 98 FIGURA 19 – Fotografia da direita do layout 4.2 ............................................................... 99 FIGURA 20 – Layout 4.3 .................................................................................................. 100 FIGURA 21 – Layout 4.4 .................................................................................................. 102 FIGURA 22 – Imagem do infográfico: suspeitos discutindo ............................................ 104 FIGURA 23 – Imagem infográfico: suspeitos telefonando para os pais ........................... 105 FIGURA 24 – Imagem infográfico: simulação da vítima sendo atirada pela janela ......... 107 FIGURA 25 – Layout 5: Ainda mais acuados ................................................................... 115 FIGURA 26 - Box verde .................................................................................................... 119 FIGURA 27 – Layout 6: Agora eles são réus .................................................................... 121 FIGURA 28 – Representação dos suspeitos no caso Isabella Nardoni.............................. 129 FIGURA 29 – Layout 7 ..................................................................................................... 133 FIGURA 30 – Layout 8.1 .................................................................................................. 143 FIGURA 31 – Layout 8.2 .................................................................................................. 151 FIGURA 32 – Fotografia da suspeita Dayanne do Santos ................................................. 154 FIGURA 33 – Layout 8.3 .................................................................................................. 154 FIGURA 34 – Layout 8.4 .................................................................................................. 156 FIGURA 35 – Layout 9.1 .................................................................................................. 174 FIGURA 36 – Layout 9.2 .................................................................................................. 178 FIGURA 37 – Infográfico do layout 9.2 ............................................................................ 180 FIGURA 38 – Layout 9.3 .................................................................................................. 182 FIGURA 39 – Imagem do catavento: o cativeiro .............................................................. 183 FIGURA 40 – Elemento do catavento A disputa por Bruninho ......................................... 184 FIGURA 41 – Imagem do catavento: o suspeito Bola ...................................................... 186 FIGURA 42 – Imagem do catavento: Dayanne ................................................................. 187 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Constituição do corpus ...................................................................................... 29 Quadro 2 – Do ambiente eco-social ao som: perspectiva do falante ................................... 32 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ACD – Análise Crítica do Discurso ALIDI – Associação de Linguagem e Direito GDV – Gramática do Design Visual IAFL – International Association of Forensic Linguistics LSF – Linguística Sistêmico Funcional MMDA – Multimodal Discourse Analysis MP – Ministério Público MPF – Ministério Público Federal OAB – Ordem dos Advogados do Brasil PR – Participante Representado PI – Participante Interactante (ou interativo) SUMÁRIO INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 11 A cobertura midiática e os casos de homicídio: formulando o problema ................................. 12 Do problema às demais delimitações e às razões para a investigação ...................................... 18 CAPÍTULO 1 – PERSPECTIVAS TEÓRICAS E METODOLÓGICAS ......................... 25 1.1 A constituição do corpus .................................................................................................... 25 1.2 Perspectivas teóricas ........................................................................................................... 30 1.2.1 A Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) ....................................................................... 30 A metafunção ideacional ........................................................................................................... 33 A metafunção textual ................................................................................................................ 34 A metafunção interpessoal ........................................................................................................ 35 1.2.2 Relações entre a LSF, o Sistema de Avaliatividade e a GDV .......................................... 36 1.2.3 A Semiótica Social e a Multimodalidade ......................................................................... 37 1.2.4 A Gramática do Design Visual ......................................................................................... 44 A metafunção interpessoal na GDV .......................................................................................... 45 A metafunção ideacional na GDV ............................................................................................ 48 A metafunção textual na GDV .................................................................................................. 49 1.2.5 Layout .............................................................................................................................. 53 1.2.6 Tipografia ......................................................................................................................... 53 1.2.7 Cores ................................................................................................................................ 56 1.2.8 O Sistema de Avaliativiadade .......................................................................................... 59 1.3 Procedimentos de análise .................................................................................................... 63 CAPÍTULO 2: A REPRESENTAÇÃO DOS SUSPEITOS NO CASO ISABELLA NARDONI ............................................................................................................................... 68 2.1 Texto 1 – O anjo e o monstro ............................................................................................. 69 2.2 Texto 2 – Isabella continua a morrer .................................................................................. 80 2.3 Texto 3 – Foram eles .......................................................................................................... 88 2.4 Texto 4 – Frios e dissimulados ........................................................................................... 93 2.4.1 Infográfico – Frios e Dissimulados ............................................................................... 102 2.4.2 Modo verbal – Frios e dissimulados .............................................................................. 109 2.5 Texto 5 – Ainda mais acuados .......................................................................................... 115 2.6 Texto 6 – Agora eles são réus ........................................................................................... 120 2.7 – A representação dos suspeitos no caso Isabella Nardoni: discussão das análises. ........ 124 CAPÍTULO 3: A REPRESENTAÇÃO DOS SUSPEITOS NO CASO ELIZA SAMÚDIO ............................................................................................................................. 131 3.1 Texto 7: Capa 07/07/2010 – Edição 2172 ........................................................................ 131 3.2 Texto 8 – Reportagem de 7/07/2010 ................................................................................. 141 3.2.1 Texto 8: Modos Visuais .................................................................................................. 142 3.2.2 Texto 8: Modo verbal ..................................................................................................... 159 3.3 Texto 9 – Reportagem de 14/07/2010 ............................................................................... 173 3.3.1 Modos Verbais: Imagens, cores, layout no texto 9 ........................................................ 173 3.3.2 Modo verbal no texto 9 .................................................................................................. 187 3.4 A representação dos suspeitos no caso Eliza Samúdio ..................................................... 198 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 206 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................... 211 ANEXOS ................................................................................................................................ 218 INTRODUÇÃO “Quando um jornalista redige uma matéria, materializa um processo ininterrupto de escolhas e de eliminações que acabam formando uma mensagem entre numerosas opções preteridas” (Araújo & Souza, 2008, p. 169). Muito se discute acerca do papel da imprensa na divulgação de fatos do dia a dia. As discussões giram em torno da possível influência das mídias na opinião pública, da sua possível interferência na política e economia do país. Ao retextualizar fatos do dia a dia, a mídia não apenas retrata a realidade informando sobre algo, mas cria uma realidade com seu olhar e marcas próprias. Com isso, exerce um papel fundamental no estabelecimento das relações sociais nas sociedades contemporâneas. Com efeito, é inegável o poder que a mídia – aqui entendida em todos os seus meios: televisivo, jornal, revista, internet – tem de influenciar a opinião pública acerca de diversos acontecimentos. A maneira como os fatos são noticiados pode afetar o modo como o leitor reage aos eventos sociais. Nesse sentido, percebemos a necessidade de promover uma discussão acerca da representação de eventos sociais realizada por parte da mídia para compreender as possíveis implicações decorrentes do modo como se organizam/realizam os textos discutindo os sentidos em potencial veiculados pelo mundo da comunicação. Mais especificamente, nosso interesse recai sobre um assunto bastante explorado pela imprensa, que são crimes ou atos violentos. Todos os dias, é possível encontrar nos jornais – impressos, online ou televisivos – notícias relacionadas a crimes, principalmente homicídios. Percebe-se, inclusive, que a cobertura de fatos policiais tem ganhado cada vez mais espaço na imprensa, haja vista o crescente número de programas televisivos e de jornais sensacionalistas destinados exclusivamente à cobertura de casos policiais. Diante disso, a proposta desta pesquisa é a de se fazer um estudo discursivo acerca da representação, por parte da mídia, de suspeitos de homicídios ou investigados pela polícia em casos de grande repercussão e com negativa de autoria, isto é, em casos em que esses sujeitos negam ter cometido o crime. Essa proposta, por sua vez, ancora-se no arcabouço teórico da Semiótica Social (HODGE & KRESS, 1988; VAN LEEUWEN, 2005; KRESS, 2010) e seus desdobramentos, como a Multimodalidade (KRESS & VAN LEEUWEN, 1996, 2006), além de em autores que com essas perspectivas dialogam, como é o caso da Linguística Sistêmico-Funcional (HALLIDAY & MATTHIESSEN, 2004) e da 12 Teoria da Avaliativiadade (MARTIN & ROSE, 2007; MARTIN & WHITE, 2005). Para atingir nosso objetivo, elegemos dois homicídios que movimentaram os noticiários e chocaram o país: o assassinado de Isabella Nardoni, menina de 5 anos, e o da modelo Eliza Samúdio, escolhas que justificaremos mais adiante. É importante frisar que o interesse pela problemática apresentada vem de uma inquietação pessoal desta pesquisadora, que, além de ligada à área de Letras, é servidora do Ministério Público Federal e, por isso, alguém com algum conhecimento, ainda que raso, em matéria de Direito. Transitando nessas duas áreas, passou a observar com mais atenção certas representações de suspeitos de crimes em jornais, tanto impressos quanto televisivos, o que a fez questionar se não estaria ocorrendo aí violação, ainda que velada, de direitos fundamentais, garantidos pela Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988. Por isso, vislumbramos nos estudos linguísticos, sobretudo no âmbito da Análise do Discurso, uma forma de compreender a cobertura dos eventos sociais, pela mídia, e suas implicações, a partir de outro olhar que não apenas o da lei, sem, porém, com ela deixar de dialogar, quando necessário e/ou possível, contribuindo, assim, com a sociedade. A cobertura midiática e os casos de homicídio: formulando o problema O papel da mídia nas relações sociais é muito discutido e problematizado, pois se acredita que, muitas vezes, a mídia busca controlar a sociedade em função de certos interesses. O fato é que a mídia, a partir de seu trabalho, impõe ao seu interlocutor uma visão de mundo, sendo, portanto, inegável o poder social dos meios de comunicação. Como afirma Charaudeau (2009, p.19), “as mídias não transmitem o que ocorre na realidade social, elas impõem o que constroem do espaço público”. Emediato (2008, p. 75), ao discutir as relações de poder como “algo que existe em todas as relações sociais e comunicativas”, defende que o poder da mídia está, sobretudo, na tematização, pois um assunto ou fato tematizado pela mídia torna-se bastante visível e suscetível de discussão. Ao mesmo tempo, é inegável que, em razão de tematizar os fatos representando-os de formas particulares, a mídia tem o poder de construir a realidade e, com isso, influenciar ideológica e politicamente a sociedade (FAIRCLOUGH, 1995, p. 02). Ocorre, portanto, uma influência da mídia na formação da opinião pública sobre determinado tema ou fato. Por isso mesmo, para Barros (2003, p. 24), dizer que a imprensa é neutra é um engano “porque a neutralidade da imprensa é não mais que um mito, quando muito um 13 ideal, e sua atuação incessante e onipresente nas sociedades contemporâneas induz e condiciona comportamentos individuais e coletivos, cotidianamente gerando fatos novos”. Embora se acredite que o papel da impresa seja o de informar, é preciso lembrar que a informação é justamente o produto que as mídias vendem. Com isso, dificilmente se tem uma atuação de fato informativa sem que se veicule uma posição ideológica, ou seja, uma visão de mundo 1 . Com efeito, segundo Iedema et al (1994, p. 3, tradução nossa), “a forma como os eventos são observados, interpretados e relatados será sempre condicionada pelo contexto social e perspectiva ideológica de jornalistas, editores e gerentes”2. Isso deixa claro que o que é informado pelas mídias acaba por ser condicionado por interesses tanto da instituição (jornal, revista, programa de TV), quando de seus interlocutores. Sobre isso, vale a pena ainda considerar a discussão promovida por Iedema et al (1994) acerca do que seriam textos subjetivos e objetivos na imprensa. O que os autores mostram é que mesmo os textos aparentemente objetivos apresentam algum posicionamento de valor implícito, ou seja, não são totalmente objetivos. Os autores explicam que, no caso do texto subjetivo, [...] pelo menos alguns aspecto de julgamento de valor do autor está explicitamente revelado pela linguagem. Em contraste, o texto estritamente "objetivo" é construído de tal forma que não há evidência linguística explícita dos julgamentos de valor do autor. Todos os julgamentos de valor são fundamentados ou "naturalizados" no sentido de que a forma como o evento é interpretado é apresentada como a única maneira de falar sobre o assunto (IEDEMA et al, 1994, p.4, tradução nossa 3 ). Assim, percebemos nos meios de comunicação um jogo argumentativo no qual valores ideológicos são camuflados pela manipulação discursiva do convencimento e da persuasão para seduzir o leitor/interlocutor. Para se constatar isso, basta observar o atual cenário político no Brasil e a atuação da imprensa, assim como o comportamento da sociedade em relação a essa atuação. Nas redes sociais, ganhou relevo uma cobertura das chamadas mídias independentes, como 1 Tomamos aqui o termo ideologia em sentido amplo, entendendo-o como a visão de mundo de uma classe ou grupo social (cf. FIORIN, 2007). 2 No original: “The way events are observed, interpreted and reported will always be conditioned by the social background and ideological perspective of journalists, editors and management” (IEDEMA et al, p.2, 1994) 3 No original: “In the subjective text, at least some of the author's value judgments are explicitly revealed in the language. In contrast, the strictly "objective" text is constructed in such a way that there is no explicit linguistic evidence of the author's value judgments. All value judgments are backgrounded or "naturalized" in the sense that the way the event is construed is presented as the only way of talking about it” (IEDEMA et al, p.4, 1994). 14 Mídia Ninja e Jornalistas Independentes, as quais divulgam fatos e veiculam certos discursos (e também ideologias) que a imprensa oficialmente instituída – aquela que detém a concessão dos meios de comunicação e está sob o controle de grandes grupos de comunicação – não divulga. Não raro, vê-se também certa rejeição de setores da população à imprensa tradicional, o que deixa claro que o trabalho de divulgar os fatos não é tido como isento ou neutro. Isso também se aplica a um assunto muito abordado atualmente pela imprensa, que são crimes ou atos violentos, questão mais diretamente ligada a este trabalho. Para Flores (2013, p. 452), o crime dificilmente deixará de ser um dos maiores focos da cobertura midiática devido à importância adquirida pelo tema da segurança pública na agenda política internacional. Para Mendonça & Rocha (2015, p. 08), o interesse da mídia por questões penais não é recente, mas se intensificou “com o desenvolvimento dos meios de comunicação em massa no fim do século”. Trata-se de um processo em que, Com a multiplicação dos diários e da imprensa comercial, o crime tornou-se, no século XIX e, depois, nas primeiras décadas do século XX, tanto na Europa como nos Estados Unidos (onde os primeiros diários surgem na década de 1830), na matéria-prima principal dos jornais populares. Com o aparecimento da rádio e da televisão e o desenvolvimento de um mercado cada vez mais concorrencial entre imprensa, rádio e TV na disputa de audiências e recursos publicitários, a situação acentuou-se ao longo de todo o século XX até os dias de hoje. (PINA, 2009 apud MENDONÇA & ROCHA, 2015, p. 08-09) Como se vê, o interesse da mídia por casos criminais não é recente, mas acentuou- se de certo tempo para cá, noticiando-os com frequência e, como já enfatizado, formando opiniões acerca deles. Silveira (2016) defende a ideia de que notícias e reportagens criminais são um produto com grande apelo social. Para o autor, Não é por outro motivo que programas de “jornalismo” investigativo são os que mais possuem audiência, os canais abertos de grande envergadura não os tiram de forma nenhuma de sua grade de programação. Nos jornais o que mais vende é a violência. Nos sites o que mais amplia os “clicks” são os delitos grotescos.” (SILVEIRA, 2016, p.122). A partir da afirmação do autor, fica mais claro que há uma oferta desse tipo de divulgação no “mercado”, o que justifica voltarmos nosso olhar para ele. Além disso, é preciso considerar que algumas vezes o trabalho da imprensa na cobertura desses eventos torna-se exagerada e muitas vezes sensacionalista. Barros (2003), por exemplo, não somente afirma que a cobertura da imprensa em casos criminais é sensacionalista, como também apresenta possíveis efeitos gerados por esse tipo de cobertura. Nas palavras do autor, “[...] o sensacionalismo estimula a violência 15 em virtude da banalização a que os fenômenos da criminalidade são submetidos e porque eleva ao estrelato os criminosos que se veem como figuras públicas de projeção e destaque [...]” (BARROS, 2003, p. 24). É preciso lembrar que o produto que a mídia vende são suas reportagens e matérias que noticiam o dia a dia. Oliveira (2001) afirma que “o assunto e a linguagem utilizados em notícias de crime nos jornais procuram atender necessidades humanas e desejos, através da oferta de produto (a notícia), para se obter um dado valor (satisfação do cliente)”. No entanto, na busca pelo seu leitor e na “comercialização” de seu produto, o que se vê é, na verdade, uma espetacularização dos fatos e, não raro, uma transformação do evento social em uma verdadeira novela, em que, a cada dia, uma nova informação divulgada pelas equipes investigativas é explorada. Criam-se, assim, novos capítulos, especulando-se os próximos passos ou “achados” das investigações, como se fossem cenas do próximo capítulo, na ânsia de manter o interesse do interlocutor pelo caso. É preciso também considerar um crescente interesse da população em consumir esse tipo de notícia. Segundo Azevedo (2013, p.44), o interesse popular sobre crimes, tragédias penais e delitos passionais pode ser identificado pelos acessos e comentários aos links e portais que tratam destes temas, pela vendagem de revistas e jornais e em razão da audiência de programas de televisão que acompanham o desfecho de famosos processos penais. Além disso, é preciso ainda considerar o estrelato repentino de autoridades em função de sua atuação em casos de grande repercussão. É o que ocorreu, por exemplo, com o promotor do caso do assassinato de Isabella Nardoni, promotor que, à época das investigações e do julgamento dos acusados, ganhou o status de celebridade, passando a ser cercado por diversas pessoas em locais públicos para tirar fotos e dar autógrafos, conforme noticiado pelo jornalista Daniel Salles 4 . Sobre esse caso, Teixeira (2011, p. 115) defende que houve uma extrapolação do trabalho pelas autoridades envolvidas, já que “vimos delegados, advogados, promotores, juízes e desembargadores dando entrevistas a todo o momento, nos mais variados meios de comunicação”, talvez não prezando pelo sigilo e pela discrição. Diante desse cenário, é preciso discutir uma possível influência da mídia na opinião da população acerca desses acontecimentos e consequentemente nos processos penais que os envolvem. Dominguez (2009) afirma que essa influência é “ilimitada em todos os aspectos do processo penal”, mas que é ainda maior nos crimes da competência do 4 https://vejasp.abril.com.br/cidades/francisco-cembranelli-paulistanos-do-ano/ 16 Tribunal do Júri, uma vez que os crimes de homicídio noticiados pela imprensa são, de modo geral, extremamente “polêmicos e bárbaros destes (sic), que chocam a opinião pública”. O Tribunal de júri é composto por pessoas da sociedade, escolhidas por meio de sorteio para compor o chamado conselho de sentença. É esse conselho, formado por cidadãos, que decide, após o devido processo legal, se houve crime e se o(s) reú(s) é ou não culpado. Trata-se do conselho de sentença responsável por julgar os crimes dolosos contra a vida, como é o caso de homicídios. Ocorre que, não raras vezes, esse tipo de crime é tão explorado pela imprensa, que o criminoso acaba por se tornar uma pessoa “famosa”. Frequentemente nesses casos os suspeitos de um crime são demonizados pela imprensa e pela sociedade antes mesmo de se concluírem as investigações. Para Cruvinel Neto (2013), isso traz consequências por ocasião do julgamento. O autor afirma que: A mídia expõe o então acusado bem como o crime que cometeu, causando a ira da população. O juiz, tentando acalmar a sede de justiça por parte da sociedade, acaba por dosimetrar o máximo previsto da pena para o então condenado, que, além de ter de pagar a mais do que realmente deveria, terá, ao sair da prisão, de enfrentar a discriminação da sociedade que viu seu rosto em revistas e telejornais. No meio jurídico, por isso, há uma discussão acerca da interferência que a imprensa possa ter no julgamento de crimes, sobretudo daqueles que ganham grande destaque midiático, como o caso que envolveu Suzane Von Richthofen – que foi condenada por ter mandado matar os pais, em 2005 –; o assassino da garota Eloá – que foi sequestrada e morta pelo ex-namorado em 2018, caso que chegou a ter horas de cobertura televisiva ao vivo, enquanto durou o sequestro –; o assassinato de Isabella Nardoni e o assassinato de Eliza Samúdio, para citar alguns exemplos. Nesse debate, uma das questões levantadas é se, em casos como os apontados, os suspeitos já não estariam condenados pela mídia e, consequentemente, pela sociedade (influenciada pela mídia) antes mesmo do julgamento mediante o devido processo legal e pela autoridade competente – o juiz. Por isso mesmo, para Calixto (2012, p.02), “[...] o diálogo entre juristas e jornalistas, entre Direito e Comunicação, torna-se cada vez mais necessário e, a partir de seus ruídos, criam-se conflitos de grande relevância para os atuais arranjos democráticos”. No mesmo sentido, Menuci et al (2016, p. 196) afirmam que, “a partir do momento em que a mídia, diária e incessantemente, transmite notícias relacionadas a crimes, os receptores, além de imediatamente já formarem sua opinião, criam, ainda que 17 inconscientemente, a figura do estereótipo, que, certamente, influenciará o julgamento.” Já Teixeira (2011, p.22) afirma que […] “com a ânsia de punir os culpados de determinando crime, por exemplo, os meios de comunicação utilizam de estratégias sensacionalistas para comover o seu público e também provocar nele a sensação de punição dos acusados”. Isso mostra o impacto social do modo como a mídia atua na divulgação dos fatos em questão. Esse impacto pode ser observado ainda pela atenção que a questão tem recebido no âmbito da investigação acadêmica. Em pesquisa bibliográfica realizada no Portal de Teses e Dissertações da Capes 5 , encontramos número expressivo de trabalhos acadêmicos dedicados em alguma medida à questão aqui apresentada – qual seja, estudos de alguma forma interdisciplinares ou de diálogo entre Direito e Mídia. Considerando-se apenas a área do Direito, por exemplo, são listados cerca de 11 mil trabalhos 6 . Embora nosso foco não seja nos aspectos jurídicos propriamente ditos, esse interesse de juristas pelo diálogo entre essas áreas chama nossa atenção e deixa evidente uma preocupação com a atuação da imprensa quando se trata de cobrir certos crimes. Apenas para citar alguns trabalhos, Garcia (2015) apresenta uma discussão acerca da influência da mídia nas decisões do juiz de direito no caso conhecido como Mensalão, Ação Penal nº 470. Já Oliveira (2013) estuda a influência da mídia no tribunal do júri, examinando o caso Eliza Samúdio. Pompeu (2018), por sua vez, propõe uma discussão pautada na relação estabelecida entre o Poder Judiciário e a mídia, discutindo imparcialidade do juiz e possíveis influências de fatores externos, advindos dos meios de comunicação. Freitas (2016), de sua parte, promove uma discussão acerca da influência da mídia em casos do tribunal do júri, algo que deturpa a garantia constitucional deste tribunal. Como se pode ver, há um grande interesse nessa inter-relação entre mídia e direito processual, fazendo-se importante lançar um olhar sobre as representações construídas no discurso jornalístico no contexto de cobertura de crimes de homicídio. Por essa razão, propomos realizar aqui uma análise discursiva que nos permita desvelar como os suspeitos dos crimes são representados pela imprensa. Nosso aporte teórico ancora-se no arcabouço da Semiótica Social (HODGE & KRESS, 1988; VAN LEEUWEN, 2005) e em autores que com ela dialogam, como já afirmamos. Mais especificamente, é nosso objetivo investigar como são representados e significados pela imprensa os indivíduos suspeitos e, por isso, investigados pela polícia quando da cobertura de crimes de homicídio com negativa de 5 Disponível no endereço: https://catalogodeteses.capes.gov.br/catalogo-teses/#!/ 6 Foram pesquisados os termos “mídia” + “influência” + “processo penal”. Acesso em nov/2018. 18 autoria e com grande repercussão. Para isso, serão analisados textos publicados pela Revista Veja na cobertura de dois casos com essas características: o assassinato de Isabella Nardoni e o da modelo Eliza Samúdio, escolhas que justificaremos à frente. Partindo do pressuposto de que há uma espetacularização dos fatos em questão (assassinatos), este trabalho apresenta como problema de pesquisa a seguinte questão: como o discurso jornalístico da Revista Veja 7 representa os suspeitos/investigados envolvidos em cada caso? Há na representação um direcionamento de atribuição de autoria de crime aos suspeitos, ou seja, há na representação veiculada uma tendência de culpabilidade e/ou julgamento prévio (em detrimento do julgamento Legal)? Partimos do pressuposto que a revista em questão, como qualquer enunciador/locutor, é ideológica e deixa transparecer seu posicionamento ideológico em relação aos crimes, a partir das escolhas discursivas. Nossa hipótese é de que, ao fazer isso, o texto direciona à ideia de culpabilidade e autoria para os suspeitos investigados pela polícia, o que pretendemos verificar. Do problema às demais delimitações e às razões para a investigação É importante reforçar um ponto fundamental na escolha do problema de pesquisa: trata-se da negativa de autoria. Quando os crimes envolvem réus confessos, torna-se sem sentido discutir julgamento prévio e atribuição de autoria por parte da sociedade. Por outro lado, quando há negativa de autoria, não pode haver condenação prévia sem o devido processo legal e pela autoridade competente. Vale lembrar aqui um princípio que rege nosso Direito: o Princípio da presunção de inocência, o qual preceitua que o acusado será inocente até a sentença penal condenatória, da qual não caiba recurso. Por isso, nos interessam os casos aqui contemplados, pois eles, além de terem sido objeto de grande repercussão na mídia, se caracterizam pela negativa de autoria dos investigados, o que pode nos ajudar a discutir possíveis sentidos em potencial orientados (ou não) para um julgamento e uma “sentença” de culpabilidade na forma de representar esses investigados. Acreditamos que o trabalho proposto, em função do problema contemplado, apresenta uma relevância política e social, uma vez que atualmente discute-se a influência da mídia também no meio político, o que interferiria inclusive na elaboração ou alteração 7 Utilizaremos nesta pesquisa os termos mídia e imprensa como sinônimos sem entrar em debates sobre o uso das expressões. Usaremos também os termos jornalista, produtor do texto ou escritor para referimo-nos à autoria da produção textual, tendo em vista que a produção de uma reportagem em uma revista envolve diversos profissionais, como repórteres, fotógrafos, editores. 19 das leis. Como exemplo, podemos citar o debate sobre uma possível reformulação do código penal, sobretudo, no que se refere à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, assunto muito discutido em 2015. Campos (2009), que discorre sobre esse tema, a partir da análise das propostas que tramitaram na Câmara dos Deputados, afirma que a divulgação de 2 crimes de 2003 e 2007 8 [...] fez vir à tona, novamente, a discussão sobre a diminuição da idade de responsabilidade penal e o suposto caráter excessivamente liberal do Estatuto da Criança e do Adolescente, fazendo com que diferentes setores da sociedade civil se posicionassem sobre a medida. Esses debates influenciaram a Câmara dos Deputados e a apresentação de propostas favoráveis à redução da inimputabilidade penal nos períodos citados. Veículos de comunicação mobilizaram declarações do presidente da República, de atores políticos e grupos da sociedade civil e, além disso, foram realizadas pesquisas de opinião sobre o tema, bem como foram veiculadas na grande mídia manifestações de atores políticos favoráveis e contrários à medida (CAMPOS, 2009, p.479-480). Assim, para o pesquisador, a partir da divulgação pelas mídias de dois crimes, o assunto tomou corpo nas casas legislativas brasileiras. É importante lembrar que a redução da maioridade penal foi aprovada em 2016 em 2° turno pela Câmara dos Deputados, a PEC 171/93, chamada de PEC da maioridade Penal, estando ainda pendente, no início de 2019, de aprovação pelo Senado. Ainda acerca da influência da mídia nos processos legislativos, podemos mencionar a abordagem do tema da legalização/descriminalização do aborto, tema que ganhou visibilidade em 2018, sobretudo devido às audiências realizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para debater o assunto. Esses exemplos mostram a importância do exame das representações veiculadas pela mídia, dado o alcance que podem ter, influenciando a opinião social e até mesmo resultando em propostas de mudança na sociedade, por meio de suas leis. Ao mesmo tempo, isso mostra a relevância de abordar casos como os contemplados nesta pesquisa, aos quais a imprensa dedica considerável espaço. Na cobertura dos crimes aqui selecionados em específico, a mídia realizou uma extensa cobertura dos fatos, dando amplo destaque não somente às vítimas e aos suspeitos dos crimes, mas também aos investigadores e membros do Ministério Público. Nesses casos, o que se pode perceber – dado que muitos programas de televisão, que muitos jornais e revistas dedicaram muito tempo a esses casos – é que esses fatos foram tratados como verdadeiros espetáculos de entretenimento. 8 Trata-se do o assassinato do casal Liana Friedenbach e Felipe Caffé, em 2003, e o assassinato do menino João Hélio, em 2007. 20 O caso Nardoni, como ficou conhecido o assassinato da menina de 5 anos de idade Isabella de Oliveira Nardoni, ocorreu em 29 de março de 2008, em São Paulo. Isabella foi arremessada da janela do 6º andar do apartamento do pai, em um edifício em São Paulo. O caso ganhou destaque no noticiário nacional e internacional. Para se ter uma ideia, somente a Rede Globo colocou mais de 40 profissionais nas ruas para apurar o caso (CAVALCANTI, 2012). A Rede Record colocou cerca de 50 profissionais nas ruas (TEIXEIRA, 2011, p.14). Além disso, tal foi a repercussão do caso, que o jornalista Roberto Pagnan lançou o livro intitulado O pior dos crimes, apresentando no livro informações que para ele não foram consideradas pela polícia. O jornalista cobriu o caso desde o início das investigações e foi arrolado no processo pela defesa do casal acusado. Acerca do caso Nardoni, Cavalcanti (2012) assim afirma: A ampla exposição deste caso na mídia provocou o clamor popular, eis que antes mesmo da liberação de qualquer laudo da pericia e decisão judicial diversas pessoas amotinadas cercavam o carro dos acusados clamando por justiça e taxando-os de assassinos. A partir daí, as manifestações prosseguiram nas casas dos familiares de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, no cemitério onde o corpo de Isabella está sepultado e também em sites de relacionamento, onde a mãe da menina recebeu 100 mil mensagens de apoio em apenas algumas semanas; revelando nessa atitude de populares a força da mídia como influenciadora. Como se pode ver, o caso teve grande exploração midiática, o que justifica que lancemos nosso olhar nobre ele. Já o caso Eliza Samúdio refere-se ao desaparecimento e assassinato da modelo Eliza Samúdio, em julho de 2010, modelo que era ex-namorada de Bruno Fernandes, então goleiro do Flamengo. A modelo, segundo denúncia do Ministério Público de Minas Gerais, foi sequestrada e morta a mando de Bruno. O corpo da vítima nunca foi encontrado. O caso teve repercussão na imprensa nacional e internacional, tomando os noticiários possivelmente em função do envolvimento de uma pessoa famosa, o ex-goleiro do Flamengo, e da crueldade empregada no crime. Apenas para dar uma ideia da extensão da cobertura da imprensa no caso, só a Revista Veja colocou nas ruas cerca de 18 profissionais para cobrir o crime 9 . Acrescente-se ainda que o assassinato de Eliza Samúdio também foi recontado em forma de livro, de título O Indefensável, escrito pelo jornalista Leslie Leitão. Aqui, é importante destacar as características próximas dos dois eventos eleitos para o estudo. Tanto os suspeitos do assassinato de Isabella Nardoni quanto os do de Eliza 9 Veja, 7/10/2010, p. 7 21 Samúdio negaram a autoria do crime, um ponto chave na nossa escolha, como já explicitado. Com efeito, os dois eventos tiveram, de forma semelhante, uma grande cobertura da imprensa, tomando boa parte dos noticiários; além disso, ambos, devido à grande repercussão que tiveram, culminaram em publicações em forma de livro, o que demonstra, apesar de já se ter passado bastante tempo dos crimes, 8 e 10 anos respectivamente (referência temporal 2018), a importância de se debruçar sobre a cobertura da imprensa nesses casos. É preciso considerar ainda a cobertura dos fatos e suas possíveis implicações. Teixeira (2011, p.14), por exemplo, acredita “que o assassinato da pequena Isabella Nardoni não teria tantos desdobramentos e uma repercussão extraordinária – inclusive internacional – se não houvesse a cobertura excessiva da mídia no desenrolar dos fatos”. A morte de Isabella Nardoni causou na sociedade comoção, revolta, indignação e “sede” de justiça. É preciso lembrar que, por diversas vezes, a frente do imóvel onde Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá se encontravam foi tomada por cidadãos proferindo gritos de assassinos e pedindo a condenação deles. Além disso, a mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, recebeu em cerca de uma semana mais de 100 mil mensagens de apoio nas redes sociais (TEIXEIRA, 2011, p. 15). Esses dados refletem a repercussão do caso na imprensa. Já o caso Eliza Samúdio chocou pela crueldade empregada e pelo envolvimento de uma pessoa famosa. Oliveira (2013, p.114) considera o evento da morte de Eliza como “um conto de terror”. O sumiço de Eliza e seu possível assassinato tomaram os noticiários. Segundo Oliveira (2013, p.116-117), Não havia fato mais transmitido, ou discutido por qualquer que seja o meio de comunicação em massa. Houve uma mobilização geral diante das notícias do suposto acontecido. A impressão que tinha era que o Brasil havia parado para acompanhar as investigações sobre a morte de uma “amante” do goleiro do flamengo (sic) [...]. Todos esses dados demonstram que os casos contemplados neste estudo apresentam de modo bem nítido os elementos que suscitam o debate sobre as consequências sociais e jurídicas da atuação da mídia na cobertura de crimes de homicídio, razão pela qual se mostra importante examiná-los no âmbito da pesquisa científica. A relevância do estudo desses casos se revela ainda maior se considerarmos o fato de que, apesar da dimensão que tiveram e do tempo já decorrido desde a ocorrência deles, tais crimes não foram objetos de estudos similares ao que se propõe aqui. 22 Com efeito, em pesquisa bibliográfica realizada no Portal de teses da capes 10 , foram encontrados poucos trabalhos que se debruçaram sobre o estudo discursivo acerca desses eventos. Buscando estudos na área de Letras/Linguística sobre esses crimes, não encontramos trabalhos que tenham contemplado o caso Eliza Samúdio 11 . Em relação ao caso Isabella Nardoni 12 , encontramos cinco trabalhos que o incluíram em seus estudos, dos quais apenas 1 dedicou-se à analise diretamente da cobertura jornalística do caso. Trata-se da dissertação de mestrado de Barbosa (2010), pesquisadora que analisou apenas uma reportagem de Veja, mostrando como os aspectos linguístico-discursivos deram roupagem de espetáculo ao caso. Os outros trabalhos incluem aspectos linguísticos diversos e se ancoram nesse caso para a investigação. É o caso de Oliveira (2014), que estuda a orientação argumentativa de uma possível antecipação por parte da mídia ao discurso jurídico, sendo um dos casos eleitos o de Isabella Nardoni e Mendes (2013) que estuda o caso Isabella Nardoni a partir de edições do Jornal Nacional, buscando estratégias argumentativas utilizadas para tornar o caso mais extenso para a cobertura midiática. Ressalte-se que, nessa pesquisa bibliográfica, não encontramos em especial trabalhos que abordem os casos aqui contemplados voltando-se para a representação discursiva dos envolvidos, sobretudo dos suspeitos, nosso foco de interesse. Em relação ao principal suspeito do assassinato de Eliza Samúdio, O ex-goleiro do Flamengo à época do crime, Bruno Fernandes, Oliveira (2013, p.128), por exemplo, defende que houve uma condenação prévia pelos meios de comunicação, antes mesmo do julgamento. Para a pesquisadora, isso fez com que no julgamento o réu tenha recebido pena maior que a determinada. O trabalho da autora, no entanto, é feito na área do Direito, sendo realizado por meio de um confronto de diversas publicações acerca do fato em jornais, rádio e TV, a partir dos ensinamentos jurídicos. Isso evidencia o ineditismo desta pesquisa e explicita a validade de se examinarem os casos em questão mesmo depois de decorrido certo tempo desde a ocorrência deles. Acrescente-se a isso que, se, por um lado, ainda há poucos estudos linguísticos, sobretudo em Análise do Discurso, tratando desse tema, como já afirmamos, por outro os estudos interdisciplinares entre Direito e Linguagem têm aumentado atualmente, o que evidencia a relevância do estudo proposto. Esse crescente interesse pode ser confirmado pela criação, no Brasil, da Associação de Linguagem e Direito (ALIDI), em 2012, que reúne pesquisadores não somente do Brasil, como também de demais países da 10 https://catalogodeteses.capes.gov.br/catalogo-teses/#!/ Acesso em dez/2018. 11 Foram pesquisados os termos ‘Eliza Samúdio’ e ‘caso Bruno’ 12 Foram pesquisados os termos ‘Isabella Nardoni’ e ‘caso Nardoni’ 23 comunidade de língua portuguesa, interessados nos estudos da Linguagem em suas interfaces com o Direito, conforme informação publicada no site da Associação 13 . Além disso, nosso trabalho estabelece uma aproximação com a Linguística Forense. A Linguística Forense é uma disciplina acadêmica oriunda dos países de língua inglesa e que vem crescendo no Brasil. É uma disciplina voltada para a interface entre linguagem e direito no âmbito jurídico. No entanto, segundo Colares (2015, p. 16) “A Associação Internacional de Linguistas Forenses (IAFL) (http://www.iafl.org/forensic.php) assegura que, em seu sentido mais amplo, “a linguística forense” abrange todas as áreas onde o direito e a linguagem se entrecruzam e se encontram”. A Linguística Forense vem se desenvolvendo não somente no Brasil, mas por todo o mundo, evidenciando a necessidade de se trabalhar linguagem e direito de forma interdisciplinar. Embora nosso trabalho não tenha como objetivo principal desenvolver análises que possam ser utilizadas como peças nos processos penais nem se relacione diretamente ao ambiente forense, principal foco da Linguística Forense, pois não está relacionado a um ato processual em si, acreditamos que nosso trabalho dialoga de alguma forma com essa área de estudos, sobretudo, se tomarmos a Linguística Forense em sentido amplo, uma vez que, em alguns momentos, faz-se necessário recorrer às leis para desenvolver nossas análises e reflexões. Diante do exposto, fica clara a relevância do estudo aqui proposto, que consiste em investigar se há um direcionamento a uma atribuição de autoria e/ou culpabilidade na forma como são representados, nos textos jornalísticos aqui estudados, os suspeitos dos casos contemplados. Embora sempre que necessário, para explicar termos e também para tecer eventuais questionamentos, o trabalho recorra ao campo jurídico, o foco aqui, como procuramos realçar nesta introdução, é linguístico-discursivo. Nele, serão analisados, com base no arcabouço teórico da Semiótica Social, os diferentes modos semióticos de que se valem os textos selecionados na representação dos suspeitos aí envolvidos. Isso deixa claro ao mesmo tempo, vale a pena frisar, que não estamos propondo um julgamento da atuação da imprensa, mas tão somente uma investigação sobre como os sentidos em potencial percebidos a partir das escolhas feitas na construção do texto podem levar (ou não) o leitor a pré-julgar (ou não) os suspeitos/investigados, inclusive porque, do contrário, entraríamos em uma discussão que, apesar de muito relevante para a sociedade, não é o foco do presente trabalho: os limites da liberdade de expressão. 13 http://alidi.com.br/sobre.html 24 Para organizar o estudo aqui apresentado, esta tese foi dividida em 3 capítulos. No capítulo 1, apresentamos o aporte teórico eleito para esta pesquisa, que se baseia nos postulados da Semiótica Social. Cabe dizer neste ponto que, apesar de trabalhamos com essa vertente, não abriremos mão do diálogo com a vertente francesa quando necessário, tendo em vista que esse diálogo com as diferentes abordagens não inviabiliza o trabalho do analista do discurso, mas, pelo contrário, enriquece-o. No capítulo 2 e 3, por sua vez, apresentamos as análises propriamente ditas, abordando respectivamente o caso Nardoni e o caso Eliza Samúdio. Após essas análises, por fim, apresentaremos nossas considerações finais, retomando todo o caminho percorrido neste trabalho. CAPÍTULO 1 – PERSPECTIVAS TEÓRICAS E METODOLÓGICAS “A Análise do Discurso tem sua própria diversidade; desde sua origem, várias hipóteses e dados teóricos surgiram, sem que qualquer uma delas se possa pretender superior às demais. Pretender uma tal superioridade seria uma questão de poder e não de cientificidade. Se os modelos se tornam dominantes a ponto de ocultar os demais, é a ciência que perde. É preciso defender a diferença em nome da liberdade do pesquisador e da democracia científica. O que conta é que um campo disciplinar se abriu – denominado ‘discurso’ – e no qual há espaço para diferentes hipóteses”(CHARRADEAU, 1996, apud RUCHYKYS & ARAÚJO, 2001, p. 207) Neste capítulo apresentaremos os pressupostos teóricos que norteiam esta pesquisa e forneceremos seus dispositivos de análises. Vale ressaltar que, apesar de não necessariamente empregar todos os aspectos das teorias aqui apresentados, já que as análises mobilizarão aqueles mais relevantes na abordagem do corpus, faremos uma descrição mais ampla do aporte teórico escolhido para a presente pesquisa de forma que o leitor possa compreender a teoria como um todo, o que julgamos importante. 1.1 A constituição do corpus Como já mencionado, elegemos para o presente trabalho a abordagem pela Revista Veja de dois homicídios em que os investigados negaram a autoria do crime e que, além disso, tiveram grande repercussão na imprensa brasileira: o assassinato de Isabela Nardoni e o da modelo Eliza Samúdio. Considerando esses casos, reunimos todas as publicações da Revista Veja sobre os dois homicídios, divulgadas durante o período de investigações, chegando a um total de nove textos pertinentes para a presente investigação. Cabe frisar que nessa organização do corpus levamos em conta ainda um recorte temporal em função do nosso objetivo de avaliar uma possível atribuição de autoria de crime nas matérias, o que faz sentido apenas se considerarmos as produções anteriores à sentença judicial. Por isso, foram selecionados todos os textos publicados pela revista sobre os dois assassinatos desde o evento social em questão até a primeira publicação após o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público. Ou seja, restringimos a escolha às publicações ocorridas durante a fase de investigação. Ressaltamos que a fase de investigação é aquela em que são colhidos os elementos para formação de convicção quanto às circunstâncias em que ocorreu o fato delitivo, tendo em vista que a prática da conduta ainda está em apuração, não tendo havido ainda, nesse 26 momento, o reconhecimento da presença de provas mínimas da ocorrência do crime e de sua autoria por parte do Ministério Público ou por parte de um Juiz. A coleta dos elementos em questão compreende a fase de inquérito policial, procedimento preparatório de conteúdo informativo e necessário em alguns casos criminais, mas não obrigatório para oferecimento de Denúncia. Trata-se, pois, de uma fase preliminar ao processo penal, fase essa em que a polícia judiciária (geralmente Polícia Civil ou Polícia Federal) buscará reunir provas da existência de um crime, a fim de demonstrar a presença da tecnicamente denominada materialidade delitiva, bem como de determinar quem foi o autor do crime ou, em outras palavras, quem cometeu o crime. Após a conclusão das investigações é que o órgão responsável por pedir a instauração de processo, o Ministério Público, solicita – ou em termos jurídicos, oferece denúncia – ao juiz a instauração do processo penal para julgar os acusados do crime. Tendo em vista que a organização do nosso corpus obedece a uma cronologia do processo penal, faz-se necessário ainda esclarecer outros termos e procedimentos relacionados à área jurídica. No curso do inquérito policial, os possíveis autores de um delito, para o qual se buscam elementos que confirmem ou refutem a responsabilidade ou a participação de alguém, são considerados suspeitos ou investigados. Caso entenda que foram reunidos indícios e provas que atestem que aquele sujeito investigado cometeu a infração penal, a autoridade policial formaliza o seu indiciamento, tornando-o um indiciado, conforme art. 2º, § 6º, da Lei nº 12.830/2013. Após o indiciamento, o inquérito policial é remetido ao Ministério Público (estadual ou federal), que é o órgão que, após a conclusão das investigações, possui a atribuição de formar o convencimento quanto à presença dos elementos necessários para propor a instauração de processo criminal. A propositura de instauração de um processo penal contra autor de delito se dá por meio do oferecimento da petição inicial da ação penal, denominada denúncia. Na denúncia o Ministério Público apresenta ao Poder Judiciário uma descrição dos fatos que podem ser entendidos como infração penal, descrição que é acompanhada das provas da materialidade (ocorrência do crime) e de indícios suficientes da autoria, com o requerimento da condenação do agente do delito (autor ou partícipe) nas penas previstas em lei. Após o oferecimento de denúncia pelo Ministério Público, o juiz, caso entenda haver justa causa para a instauração da ação penal, realiza o recebimento da denúncia, quando é proferida decisão que reconhece a presença dos requisitos legais para que seja instaurado um processo contra o denunciado (artigos 395 e 396 do Código de Processo Penal, Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941). Apenas a partir desse momento é 27 que o investigado ou indiciado, que foi denunciado pelo Ministério Público, torna-se réu de uma ação penal, figurando no polo passivo de um processo, razão pela qual passa também a ser denominado acusado. Esclarecemos ainda que os crimes tratados nesta pesquisa são considerados delitos de ação penal pública (ação que somente pode ser promovida por ato do Ministério Público, diferentemente dos crimes de ação penal privada, cuja ação penal é ajuizada pela própria vítima através de queixa). Além disso, por se tratar de fatos enquadrados como crimes dolosos contra a vida, esses crimes implicam regras especiais de processamento e julgamento pelo tribunal do júri, conforme art. 5º, inciso XXXVIII, alínea “d”, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, e art. 74, § 1º, do Código de Processo Penal. Considera-se o crime doloso “quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo”, conforme preceitua o art. 18, inciso I, do Código Penal. O tribunal do júri é composto por cidadãos comuns, “pessoas do povo”, que são os jurados encarregados de examinar se há provas de que a pessoa cometeu o crime, se foi intencional, entre outras circunstâncias. Após essas explicações mais técnicas, fica mais fácil entender o necessário recorte considerado na organização do corpus, que reúne matérias publicadas desde a notícia da ocorrência do crime até a primeira publicação após o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público, fases, portanto, anteriores à instauração da Ação Penal propriamente dita. Trata-se, portanto, de um recorte temporal e está representado na figura 1. FIGURA 1 – Recorte do corpus Fonte: a autora Esse recorte, frisamos aqui, é importante para responder ao problema de pesquisa, tendo em vista que contemplamos textos de um período em que se busca, a partir das 28 evidências do crime, coletar provas e apontar a autoria. Como os casos contemplados no nosso trabalho envolvem negativa de autoria por parte dos suspeitos, julgamos ser de extrema relevância o período delimitado para a coleta dos textos, pois acreditamos que isso nos permite apurar com acuidade se a forma como eles são representados pode ter o sentido potencial de culpabilidade e até mesmo de um pré-julgamento condenatório a esses sujeitos, antes que lhes seja oportunizada a defesa por meio do devido Processo Legal. Sobre isso, é importante esclarecer que tecnicamente na área Jurídica culpabilidade pode ter dois sentidos: 1) alguém comete um ato criminoso, mas pode não ser culpável, porque a culpabilidade é um juízo de reprovabilidade da conduta/necessidade de aplicar pena. Como exemplo, podemos citar uma situação em que um menor de idade comete um crime, mas, por ser menor, não pode ter culpa atribuída a ele, sendo considerado inimputável, e, por isso, sua conduta não tem culpabilidade. Em outras palavras, a pessoa praticou um fato típico [previsto como crime] e ilícito [proibido por lei], mas por algum motivo não é “culpável”; 2) culpabilidade pode ainda ser um critério utilizado pelo juiz para a fixação da pena: nível de censurabilidade que a conduta merece, grau de censura ou reprovação que alguém merece. Diferente do dolo, que é a intenção de violar a lei, a “culpa”, para o Direito Penal, ocorre quando se age com imprudência, negligência ou imperícia (não queria o resultado, mas acabou causando). Diante do exposto, esclarecemos que tecnicamente no processo penal não se fala que alguém é “culpado” do crime, mas sim que foi comprovada a autoria, a participação em fato típico [crime], ilícito e culpável. Entretanto, utilizamos neste trabalho o termo culpabilidade em seu sentido amplo, do senso comum, ou seja, em sentido não técnico juridicamente. Com ele nos referimos a uma possível antecipação de julgamento ou condenação prévia, o que seria juridicamente o reconhecimento antecipado de sua responsabilidade penal. Assim, considerando o recorte temporal apresentado, o corpus, para o caso Isabella Nardoni, abarca matérias veiculadas no período de 30/03/2008 a 14/05/2008, uma vez que o crime ocorreu em 29/03/2008 e a denúncia do Ministério Público foi oferecida em 08/05/2008. Já para o caso Eliza Samúdio, a seleção dos textos corresponde ao que foi publicado entre 04/06/2010, data de desaparecimento da modelo, e 10/08/2010, data da primeira publicação posterior à denúncia do Ministério Público ocorrida em 04/08/2010. Para a coleta do corpus, acessamos o portal da revista Veja, em acervo digital, buscamos os termos “Isabella Nardoni”, “Caso Nardoni” e “Caso Isabella”, para a cobertura do primeiro crime, e “Eliza Samúdio” e “caso Bruno”, para a cobertura do segundo crime a ser contemplado. Para a primeira busca, foram listados 10 textos e, para o 29 segundo, 7 textos, totalizando possíveis 17 textos para o corpus. Desse montante, alguns foram retirados, porque eram textos das Seções de Cartas do Leitor e do colunista JR Caruzzo. Ainda que tais textos sejam selecionados pela redação, eles não derivam diretamente do núcleo de produtores da Revista Veja. Dessa forma, selecionamos apenas as capas e as reportagens que tratam dos eventos sociais eleitos para estudo. Após esses passos, nosso corpus ficou, então, composto por 9 textos, sendo seis do caso Iabella Nardoni e 3 do caso Eliza Samúdio, conforme quadro que segue: Caso Isabella Nardoni Texto Edição Data de publicação Descrição Título Referência nesta pesquisa 1 Edição 2055 09/04/2008 Reportagem páginas 96/97 O Anjo e o Monstro Anexo A 2 Edição 2056 16/04/2008 Reportagem páginas 94/95 Isabella continua a morrer Anexo B 3 Edição 2057 23/04/2008 Capa Foram eles Anexo C 4 Edição 2057 23/04/2008 Reportagem Páginas 84 a 91 Frios e Dissimulados Anexo D 5 Edição 2058 30/04/2008 Reportagem páginas 84/85 Ainda mais acuados Anexo E 6 Edição 2060 14/05/2008 Reportagem página 104 Agora, eles são réus Anexo F Caso Eliza Samúdio Texto Edição Data de publicação Descrição Título 7 Edição 2172 7/07/2010 Capa Traição, orgias e horror Anexo G 8 Edição 2172 7/07/2010 Reportagem páginas 78 a 85 O suspeito número 1 Anexo H 9 Edição 2173 14/7/2010 Reportagem páginas 84 a 89 Frieza, Crueldade e Selvageria Anexo I Quadro 1 – Constituição do corpus Fonte: a autora 30 Todos os textos analisados constam da seção Anexos ao final deste trabalho, conforme indicado na última coluna do quadro 2. Procuramos reproduzi-los da forma como foram publicados, para dar maior fidelidade às análises. 1.2 Perspectivas teóricas Como já mencionado, elegemos como base teórica a Semiótica Social, teoria discursiva mais ampla. A partir dos postulados dessa teoria, empregaremos em nossas análises os pressupostos da Multimodalidade, no que diz respeito aos modos semióticos visuais, e a Teoria da Avaliatividade, no que concerne ao modo verbal. A escolha deste aporte teórico se justifica por serem teorias que permitem analisar fatos sociais “discursivizados”, isto é, modos particulares de representar, por meio das diferentes linguagens (modos semióticos), fatos da sociedade. Por essa razão nos permitem observar como são retextualizados pela imprensa, em termos de experiência, de interação e de avaliação, os fatos aqui contemplados: os homicídios em que os suspeitos – sujeitos investigados pela polícia – negaram a autoria do crime. Além disso, as teorias escolhidas apresentam similaridades, na medida em que tomam a linguagem enquanto fenômeno social e consideram a relação dialética entre sociedade e linguagem, questão fundamental neste estudo. Isso dito, partiremos à apresentação propriamente dita do referencial teórico, começando com uma visão geral da Linguística Sistêmico-Funcional (doravante, LSF), que serviu de base para as demais teorias e abordagens que utilizaremos e cuja relação gostaríamos de deixar mais clara aqui. Em seguida, apresentaremos os pressupostos da Semiótica Social, teoria que servirá de base principal para o presente estudo, seguida de seus desdobramentos como a Multimodalidade e a Gramática do Design Visual (doravante, GDV), além de o Sistema de Avaliatividade. 1.2.1 A Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) A LSF, desenvolvida por Michael Halliday e por seus seguidores (HALLIDAY, 1978; EGGINS, 1994; THOMPSON, 2003; MARTIN & ROSE, 2003; HALLIDAY & MATTHIESSEN, 1994), é uma abordagem teórico-metodológica de estudo da linguagem que está centrada na noção de ‘função’, porque considera a gramática em termos de como ela é usada para produzir significados. 31 Segundo Halliday, quando tomamos a língua numa perspectiva funcional da linguagem, isso significa que “[...] estamos interessados no que a linguagem pode fazer, ou melhor, naquilo que o falante, criança ou adulto, pode fazer com ela; e que tentamos explicar a natureza da linguagem, sua organização interna e padronização, em termos das funções que ela evoluiu para servir”14(HALLIDAY, 1978, p. 16, tradução nossa). Dessa forma, na proposta de Halliday, as línguas são da forma que são devido à evolução que sofrem para servir às pessoas (HALLIDAY, 1978, p.4). Isso leva a perceber um dos principais postulados da LSF: a língua é um fator social, usada e moldada de acordo com o contexto social. Nesse sentido, Halliday afirma que A língua surge na vida do indivíduo através de uma troca contínua de significados com outros significantes. Uma criança desenvolve, primeiro a sua língua infantil, depois a sua língua materna, em interacção com aquele pequeno grupo de pessoas que constituem o seu grupo de significação. Nesse sentido, a linguagem é um produto do processo social 15. (HALLIDAY, 1978, p.1, tradução nossa) A LSF nos oferece meios de estudar os significados da língua relacionando o seu uso ao contexto social, contribuindo, assim, para nossa compreensão da língua na vida social (SCHLEPPEGRELL, 2013, p.21). O texto é entendido, na LSF, como um fenômeno social, e como tal, é condicionado a outros sistemas sociais. A língua é, por sua vez, um sistema no qual o indivíduo faz escolhas de uso segundo o contexto social no qual está inserido, tendo a gramática como função auxiliar na análise de textos. A LSF baseia-se no fato de que a gramática da língua é representada como um sistema de redes e não como um inventário de estruturas prontas e a gramática é entendida como uma gramática de escolhas, não uma gramática de regras (HALLIDAY, 1978, p.4). Assim, a LSF é uma teoria de escolhas no nível do significado, pois compreende um conjunto de significados inter-relacionados que servem de base para outros sistemas e subsistemas. Cada sistema da rede representa as escolhas feitas pelo locutor em diferentes níveis em sua comunicação. As escolhas feitas são então compreendidas (instanciadas) em contraposição àquelas que poderiam ter sido feitas e não foram (potencialidade). 14 No original: “We are interested in what language can do, or rather in what the speaker, child or adult, can do with it; and that we try to explain the nature of language, its internal organization and patterning, in terms of the functions that it has evolved to serve”. (HALLIDAY, 1978, p. 16) 15 No original: “Language arises in the life of the individual through an ongoing exchange of meanings with significant others. A child creates, first his child tongue, then his mother tongue, in interaction with that little coterie of people who constitute his meaning group. In this sense, language is a product of social process”. (HALLIDAY, 1978, p.1) 32 Na LSF, “o sistema da língua é instanciado em forma de texto” (HALLIDAY & MATTHIESSEN, 2004, p. 26). Tendo em vista a relação entre texto, significado e contexto, Halliday entende a linguagem como uma estrutura estratificada em diferentes níveis: o gráfico e o fonológico, o léxico-gramatical e o semântico discursivo. O estrato fonológico, no texto oral, refere-se à composição sonora. No mesmo nível, o autor considera também o estrato grafológico, para o texto escrito, que se refere à composição gráfica. O estrato léxico-gramatical compreende as opções gramaticais e lexicais que o falante/escritor utiliza na construção do significado. O vocabulário se enquadraria no estrato gramatical, não havendo, portanto, distinção entre gramática e léxico, já que ambos pertenceriam a um mesmo continuum; por isso é comum a adoção do termo léxico-gramática na Linguística Sistêmico-Funcional (HALLIDAY & MATTHIESSEN, 2004, p.26). A oração é a unidade central da léxico-gramática e também onde os significados de diferentes tipos são mapeados em uma integrada estrutura gramatical. Assim, da perspectiva do falante, podemos compreender o texto a partir da relação entre cada estrato, num processo de relacionar um estrato ao outro, conforme ilustra a tabela que segue: Do contexto ao significado Interface via receptor Semântica Do significado à nomeação Organização interna Léxico-gramática Da nomeação à composição Organização interna Fonologia Da Composição ao som Interface motor Fonética Quadro 2 – Do ambiente eco-social ao som: perspectiva do falante Fonte: Halliday & Matthiessen (2004, p. 26; adaptado) O último estrato, o semântico-discursivo, aborda o potencial significativo da palavra e da oração; ocupa-se do significado além da sentença, isto é, do significado no texto. É nesse estrato que se manifestam as escolhas do produtor do texto em relação às suas Atitudes, sendo, portanto, nele que o Sistema de Avaliatividade pode ser percebido. Esse sistema, que será empregado nas análises da presente pesquisa, será discutido mais adiante. A estratificação da linguagem pode ser compreendida por meio do gráfico que segue: 33 FIGURA 2 – Estratificação da linguagem Fonte: Halliday & Matthiessen (2004, p. 25; adaptado) Assim, a LSF busca explicitar que quaisquer construções no nível sintagmático e escolhas no nível paradigmático geram sentidos diferentes, dependendo da situação comunicativa na qual se concretizam. Assim, a LSF trata a linguagem como uma prática social, sendo considerada, mais que um processo de representação, uma construtora da realidade (LIMA & SANTOS, 2009, p. 38). Halliday & Mathiessen (2004, 2014) apresentam três estruturas do uso da língua, sendo que cada uma expressa um diferente tipo de organização semântica. Essas três estruturas expressam simultaneamente diferentes significados, chamados pelos autores de metafunções: metafunção textual, metafunção interpessoal e metafunção ideacional. É importante mencionar que esses três significados não ocorrem isoladamente, mas se associam uns aos outros em uma mesma oração (HALLIDAY & MATHIESSEN, 2004, p. 60). A metafunção ideacional A metafunção ideacional evidencia o significado representacional dos processos que ocorrem na experiência humana, seja no mundo interior ou exterior dos participantes; representando a realidade específica a que o texto está relacionado. Em outras palavras, se ocupa da representação das experiências. A metafunção ideacional 34 possui dois componentes: o experiencial – relacionado com as opções dentro de um Sistema de Transitividade – e o lógico – relacionado a inter-relações das orações que estão amparadas pelos processos (HALLIDAY & MATHIESSEN, 2004). O Sistema de Transitividade permite ao analista considerar como as escolhas de transitividade feitas pelo falante/escritor constroem as experiências presentes no texto (SCHLEPPEGRELL, 2013, p. 22). Podemos compreender esse sistema por meio do próprio léxico: significa transitar de um estado ao outro. O Sistema de Transitividade é composto pelo processo ou evento; pelos participantes, aqueles envolvidos no processo; e pelas circunstâncias. Processos ou eventos são os elementos centrais do sistema de transitividade. São expressos pelos verbos ou grupos verbais; trata-se das experiências relativas aos participantes. Estes, por sua vez, são os que fazem parte dos eventos, seja vivenciando, possuindo, revelando uma identidade ou atributo, seja participando de alguma forma da ação (diretamente ou não); são, por isso, normalmente expressos pelos grupos nominais. As circunstâncias são elementos no Sistema de Transitividade que dizem respeito, de modo simplificado, a como, quando, onde o evento ocorre; estão associadas às “condições de realização dos processos, podendo ocorrer livremente em todos eles.” (MENDES, 2012, p. 276). A metafunção textual A metafunção textual trata da organização semântica da oração enquanto mensagem. Trata-se da forma de organização da sentença para transmitir o que se deseja. A metafunção textual analisa, então, a sentença como uma mensagem, verificando qual tipo de informação é o ponto de partida, ou seja, o que é colocado em evidência. Escritores e falantes precisam manter seus interlocutores bem informados a respeito do que falam, e daquilo que irão falar. Assim, a metafunção textual é aquela que cria relevância para o contexto em questão (HALLIDAY & MATTHISSEN, 2004, p.61). Dizemos, então, que a metafunção textual é usada “para organizar os significados interpessoais e experienciais de forma linear e coerente” (TAVEIRA & AZEVEDO, 2009, p.59). No significado textual os elementos são escolhidos pela ordem, ou seja, aquilo que vem primeiro é o que se quer colocar em evidência. Halliday & Matthiessen (2004) seguem a terminologia da Escola de Praga na identificação dos elementos na metafunção textual, dividindo a sentença em Tema e Rema. 35 Tema é o elemento que vem primeiro, que serve de ponto de partida para a mensagem; já Rema é o restante; é a parte onde o tema é desenvolvido. De forma resumida (e não taxativa), podemos dizer que o Tema de uma sentença é o primeiro elemento que tem alguma função na metafunção experiencial (HALLIDAY & MATTHISSEN, 2004, p. 66). “No tema encontra-se a informação dada, ou seja, a informação que é familiar para o ouvinte/leitor e no rema a informação nova, instruções orientadas para o ouvinte no sentido de como interpretar o que é dito/escrito e como relacionar isso com o que o ouvinte/leitor já sabe” (OLIVEIRA, 2001, p. 45). A metafunção interpessoal A metafunção interpessoal cuida dos significados relativos às relações sociais entre falante e ouvinte (ou escritor e leitor) representadas na oração e das modalizações existentes em um evento comunicativo. A oração não é apenas uma representação de experiências, ela é também uma proposição na qual informamos ou questionamos algo, damos uma ordem ou oferecemos algo, apresentamos nossas avaliações ou atitudes em relação àquele a quem dirigimos a mensagem ou sobre o que falamos (HALLIDAY & MATTHIESSEN, 2004, p. 29). Nessa perspectiva, tomando a sentença como um lugar de interações sociais, Halliday e Mathiessen (2004, p.106) postulam que o significado interpessoal organiza a sentença como um evento interativo que envolve o falante 16 , o ouvinte e o público. Dessa forma, a metafunção Interpessoal permite verificar quais interlocutores estão envolvidos no texto, fazendo com que criem e mantenham relações sociais, uma vez que o falante pode expressar suas opiniões, julgamentos e atitudes através da linguagem. A estrutura interpessoal da linguagem é composta pelo MOOD e pelo Resíduo (Residue). A estrutura gramatical mais importante na metafunção interpessoal é o MOOD ou modo oracional, que indica o modo da sentença. Trata-se do componente semântico que carrega o argumento da sentença e que é composto de dois elementos: o Sujeito (Subject) e o Finito (Finite). O sujeito normalmente é expresso por grupos nominais, ao passo que o finito é uma parte do grupo verbal que compõe o processo na dimensão experiencial da linguagem. O MOOD determina o modo da sentença, que pode ser indicativo ou imperativo. O modo indicativo é realizado por sentenças declarativas ou interrogativas. O elemento Finito 16 Por falante consideramos o produtor da mensagem (falante, escritor/autor, locutor). 36 pode indicar: i) o tempo verbal (presente, passado ou futuro), ii) a modalidade, que está associada à probabilidade ou obrigação de se realizar algo, iii) a polaridade (negativa ou positiva). O Resíduo, por seu turno, é composto pelos elementos Predicador (Predicator), Complemento (Complement) e Adjuntos (Adjunct). 1.2.2 Relações entre a LSF, o Sistema de Avaliatividade e a GDV Como vimos nas seções anteriores, por meio da metafunção textual, podemos perceber a informação que é colocada em destaque na mensagem; por meio da metafunção interpessoal, podemos perceber as interações que ocorrem no discurso; e, por fim, por meio dos diferentes processos da metafunção ideacional, podemos analisar os participantes, bem como o que ocorre no mundo interior e exterior deles. Podemos dizer, então, que a LSF aborda os sistemas linguísticos e as funções que eles realizam, revelando a maneira como os atores sociais se relacionam e constroem suas experiências. Cabe explicar aqui que nesta pesquisa não vamos nos ater às metafunções propostas por Halliday, pois nosso principal enfoque, para a análise do texto escrito, recai sobre o Sistema de Avaliatividade, que será apresentado ainda neste capítulo. De todo modo, a LSF se faz importante para a presente pesquisa, na medida em que tem servido de base para o desenvolvimento de propostas de análises que vão além do nível oracional, levando ao desdobramento das metodologias aqui empregadas. Esse é o caso dos trabalhos de Kress & Van Leeuwen (2006), que desenvolvem a GDV, e de Martin & Rose (2003; 2007) e Martin & White (2005), que trabalham com o Sistema de Avaliatividade (Appraisal System), ambas as perspectivas adotadas na presente pesquisa. A proposta de Martin & Rose (2003, 2007) é direcionada à análise do modo verbal enquanto a GDV é voltada para a análise dos outros modos e recursos semióticos, como cores, imagens e layout. As propostas apresentam semelhanças, primeiro por, na esteira de Halliday, considerarem a análise de textos social e contextualmente situados; segundo, por seguirem as perspectivas das metafunções propostas por Halliday, como mostraremos adiante. Porém, diferentemente dos trabalhos de Halliday, voltados apenas aos estudos da língua em uso, essas abordagens expressam a perspectiva de que os textos não são compostos apenas de elementos verbais. Assim, desdobram-se da LSF os estudos que elegemos para a presente pesquisa, como a Semiótica Social, a GDV e o Sistema de Avaliatividade. A Semiótica Social 37 funciona como o principal aporte teórico para as análises que realizaremos à frente, razão pela qual a apresentamos na seção seguinte. 1.2.3 A Semiótica Social e a Multimodalidade O termo semiótica social foi introduzido nos estudos linguísticos inicialmente por Halliday, em seu livro Language as Social Semiotics, publicado em 1978. Posteriormente, uma teoria com essa designação vem sendo desenvolvida a partir dos estudos de Hodge & Kress (1988), a partir da publicação do livro Social Semiotics. Antes, porém, de seguirmos à apresentação dos postulados da Semiótica Social propriamente dita, faz-se necessário, para uma melhor compreensão da teoria que servirá de base para nossas análises, falarmos do conceito de semiótica e suas implicações. Para uma compreensão do que é semiótica, é preciso ter em mente que esse termo vem dos estudos de Saussure e seus seguidores, cujo ponto central está na noção de signo. Saussure apresenta a noção de signo linguístico como sendo a união entre um conceito linguístico e uma imagem acústica, em que ambos dependem um do outro (SAUSSURE, 2012, p. 107). Em outras palavras, o signo pode ser compreendido como sendo a fusão de uma forma com um sentido, ou um significante e um significado. Para Pimenta (2001, p. 186), [A SEMIÓTICA] Está ligada à produção e interpretação de signos. A semiótica baseia-se na capacidade inata do cérebro de produzir transformações mentais a partir das nossas experiências corporais e codificá-las em forma de signos ou sistemas de signos. Os signos são, pois, a base do pensamento humano e da comunicação. Tendo em vista a compreensão de semiótica como uma área de estudos que observa os eventos a partir da noção de signo, a Semiótica Social é uma teoria que procura compreender como as pessoas se comunicam a partir de uma variedade de modos semióticos em contextos sociais específicos. Segundo Hodge & Kress (1988), a Semiótica Social refere-se ao processo de significação como parte da construção social, considerando a circulação de significados com origens, funções, contextos e efeitos, cultural, histórica e ideologicamente localizados. Assim, descrever a maneira como os recursos semióticos são utilizados em diferentes contextos constitui uma das principais contribuições da Semiótica Social. Neste sentido, Van Leeuwen (2005) afirma que: 38 A Semiótica Social não é ‘pura’ teoria, não é um campo fechado em si mesmo. Ela somente se torna exata e própria quando aplicada a problemas específicos, e sempre requer uma imersão própria não somente em conceitos e métodos semióticos como tal, mas também em algum outro campo (p. 1, tradução nossa 17 ). Enquanto a Semiótica tradicional assume que o significado está fixado no próprio texto, a Semiótica Social entende que o discurso deve ser estudado a partir de uma ação social, com seus efeitos de produção e significado sobre o texto (HODGE & KRESS, 1988, p.12). Assim, a Semiótica Social preconiza que o signo é produzido, não utilizado. Diante disso, podemos dizer que a Semiótica Social busca estudar os processos de comunicação e produção de sentido a partir de uma perspectiva social. Isso porque as escolhas que fazemos para produzir e interpretar textos nos processos de comunicação humana são motivadas por interesses. Em outras palavras, ao produzir um texto, o falante elabora uma representação de algo a partir de seus interesses no objeto comunicado. É preciso ter em mente que, para a Semiótica Social, a menor forma semiótica é a mensagem. A mensagem possui direção: tem uma fonte e um objetivo, um contexto social e um propósito (HODGE & KRESS, 1988, p. 5). No entanto, o campo semiótico não pode ser considerado um acumulado de mensagens. Assim, faz-se necessário conceituarmos texto e discurso. Hodge & Kress (1988, p. 5) definem texto como objeto material concreto produzido pelo discurso, o qual se refere, por sua vez, ao processo social no qual o texto está inserido. Os autores apresentam, assim, “uma conceituação semiótica extensa para texto para se referir à estrutura de mensagem ou partes de mensagem que têm uma unidade socialmente atribuída” (HODGE & KRESS, 1988, p. 6, tradução nossa18). A partir dessa visão, como se vê, o texto é concebido na semiótica social como a junção de todos os modos e recursos semióticos empregados na comunicação para elaboração da mensagem. Para Kress & Van Leeuwen (2001), o termo discurso inclui conhecimentos dos eventos que constituem a realidade: quem está envolvido, o que acontece, onde e quando, assim como avaliações, objetivos, interpretações e legitimação do evento. Além disso, os autores afirmam que as pessoas têm diferentes discursos disponíveis em relação a um aspecto particular da realidade. Assim, discursos são conhecimentos da realidade 17 No original: “Social semiotics is not ‘pure’ theory, not a self-contained field. It only comes into its own when it is applied to specific instances and specific problems, and it always requires immersing oneself not just in semiotic concepts and methods as such but also in some other field” (VAN LEEUWEN, 2005, p. 1). 18 “We will use ´text´in an extended semiotic sense to refer to a structure of messages or message traces which has a socially ascribed unit” (HODGE & KRESS, 1988, p. 6) 39 construídos socialmente. Isso significa que tais conhecimentos são desenvolvidos em contextos sociais específicos de maneira que são apropriados aos interesses dos atores sociais neles envolvidos. Segundo Santos (2013, p. 162), A impossibilidade de apreciar os textos sem desconsiderar a política de escolhas na produção de significados aponta para a necessidade de trabalhar e compreender o texto tecido por diversos fios semióticos, os quais são escolhidos por uma motivação do seu produtor na veiculação de significados dentro de um contexto social. Diante disso, fica evidente que a Semiótica Social (HODGE & KRESS, 1988) busca não só analisar o uso da linguagem numa perspectiva crítica, mas também passa a se interessar pelo uso dos diversos modos semióticos utilizados na produção de sentido nos textos. Nessa perspectiva, a linguagem verbal é tomada como um modo semiótico entre outros, os quais, para efeito de análise dos recursos empregados na construção do texto, são colocados no mesmo nível. Uma vez que o texto é compreendido a partir de toda a sua forma, incluindo imagens, paisagem semiótica (layout), cores, tipografia, escrita, percebemos que vários modos semióticos estão sendo utilizados na produção do sentido e na comunicação. A partir dessa definição, chegamos a outro conceito que será abordado na presente pesquisa, que é o de multimodalidade. A grande quantidade de informação que as pessoas recebem diariamente, sobretudo em função do desenvolvimento tecnológico, tem gerado um aumento do interesse pela multimodalidade, na qual estamos mergulhados nos dias de hoje. Com isso, os estudos em multimodalidade vêm crescendo nas duas últimas décadas entre os pesquisadores de diversas áreas. É importante frisar que, quando falamos em multimodalidade, temos que ter em mente que estamos nos referindo a um campo de aplicação, e não necessariamente a uma teoria (JEWITT, 2011, p. 02). Adotar a noção de multimodalidade implica considerar, como já mencionamos, que a língua é apenas um entre outros meios de produção de sentido (KRESS, 2012, p. 38). De fato, usamos diferentes modos semióticos para produzir nossos textos. Segundo Kress (2012, p. 37, tradução nossa), Uma abordagem multimodal pressupõe que a linguagem, seja oral ou escrita, é um meio entre muitos disponíveis para representação e para construção de sentido. Isso pressupõe que os significados revelados pelas formas de Análise do Discurso que dependem de uma análise da escrita ou da fala são apenas 40 significados "parciais". Os significados da construção de um texto residem como um todo nos significados feitos em conjunto por todos os modos em um texto 19 Se é verdade que atualmente estamos em contato constante com a multimodalidade, não podemos dizer que antes, conforme nos lembra Jewitt (2011), não nos comunicávamos de forma multimodal. Sempre nos utilizamos de diversos modos semióticos para nos comunicar, no entanto essa questão passou a despertar mais o interesse dos pesquisadores contemporaneamente, devido ao desenvolvimento da tecnologia, como já dito. No sentido do que já se disse anteriormente aqui, Jewitt (2011, p.14), ao introduzir uma discussão sobre multimodalidade, enfatiza que fazer uso desse conceito é pressupor que a comunicação vai além da língua, incluindo, assim, todos os modos semióticos, ou todas as formas, todas as maneiras que as pessoas usam para se comunicar. A autora salienta que várias disciplinas e perspectivas teóricas, como a psicologia, a antropologia, os estudos da linguagem e os estudos da mídia, têm realizado pesquisas em multimodalidade para explorar as diferentes formas empregadas na comunicação (JEWITT, 2011, p.14). Assim, como já afirmamos, em termos amplos, a multimodalidade fornece ferramentas que permitem ao analista perceber as relações entre as diversas manifestações semióticas de um texto e a sociedade na qual este se insere (KRESS, 2012, p. 46). Diante do exposto até aqui, podemos, então, definir a Semiótica Social como o campo de estudos que tem como foco principal o processo de produção dos sentidos. Para promover esse estudo, ela aborda o texto a partir de uma perspectiva multimodal, compreendendo os sentidos como o resultado da interação de todos os recursos empregados na materialização do texto, ou seja, a parte escrita, as imagens, cores, fontes empregadas (tipografia) e qualquer outro recurso empregado na construção do texto. Tendo em vista o caráter abrangente da teoria, abordaremos os conceitos primordiais mobilizados neste trabalho, começando pelas noções de signo e modo semiótico. Os signos são organizados no texto multimodal como complexos de signos, entendidos como um conjunto coerente de elementos que estabelecem um entrelaçamento entre si, criando assim uma cadência entre vários signos utilizados numa interação social. 19 No original: “A multimodal approach assumes that language, whether as speech or as writing, is one means among many available for representation and for making meaning. That assumes that the meanings revealed by forms of DA relying on an analysis of writing or speech are only ever ‘partial’ meanings. The meanings of the maker of a text as awholereside in the meanings made jointly by all the modes in a text” (KRESS, 2012, p. 37). 41 Segundo Santos (2011, p.4), “na Semiótica Social, a construção dos discursos e a escolha dos signos estão relacionadas ao contexto social, a partir do qual o sujeito, movido por seus interesses, seleciona significados.” Essa citação nos remete à concepção de signo motivado, postulada pela Semiótica Social, que compreende que o signo é motivado pelos interesses e escolhas do produtor do texto. É importante esclarecer que, embora estejamos utilizando os termos produtor do texto e sign-maker, não desconsideramos o fato de que, na construção das publicações da revista Veja, sejam capas ou reportagens, o produtor do texto compreende um coletivo de pessoas envolvidas na construção da reportagem, como repórteres, fotógrafos, editores, desenhistas, etc. Sabemos que a reportagem, por exemplo, não reflete escolhas de um produtor, mas de várias pessoas envolvidas, na busca dos interesses da Revista enquanto agente de representação de eventos sociais. Para melhor compreensão da teoria, podemos pensar no corpus eleito para análise na presente pesquisa. Trabalhamos basicamente com 2 gêneros: capa de revista e reportagem. Para elaborar a capa de revista, o produtor do texto – que, como já falamos, envolve uma multiplicidade de sujeitos, como editor, fotógrafos, repórteres, etc – deve selecionar as fotografias que serão publicadas; deve decidir como elas serão publicadas (se colorida, preto e branco, se haverá algum outro efeito, etc); deve decidir como a capa ou a reportagem será organizada; deve decidir se será segmentada em partes ou se o texto será linear; deve decidir qual a disposição do texto e que informações acerca do caso serão levadas à publicação, entre outros. Como se vê, a partir das escolhas feitas pelos designers é que o texto é construído e que os signos se constituem como tal. Os textos, por isso, refletem as escolhas do seu produtor, escolhas que, por sua vez, são determinadas pelos seus interesses, o que explica por que a Semiótica Social traz a ideia de signo motivado. Além disso, nessa perspectiva, todo signo (significante e significado) é produzido e interpretado com base nos interesses dos sujeitos envolvidos em determinada comunicação (produtor e leitor), sendo, portanto, moldados cultural e historicamente. Da mesma forma, a interpretação depende dos interesses do interlocutor. Com efeito, a Semiótica Social coloca o leitor como “designer” do sentido na medida em que considera o receptor sujeito ativo na produção de sentido. Assim, o leitor/receptor/destinatário também seleciona os aspectos da mensagem a serem interpretados. 42 Compreendida a ideia segundo a qual o signo é motivado, faz-se necessário falar então de modos semióticos. De forma geral, modo semiótico pode ser definido como recursos semióticos socialmente moldados e culturalmente dados para criar um possível significado. Significados são produzidos a partir de diferentes modos semióticos e normalmente por mais de um deles (BEZEMER & KRESS, 2008, p. 6). Assim, diferentes modos semióticos oferecem diferentes potenciais para construção dos sentidos. Para se constituir como tal, um modo semiótico precisa necessariamente apresentar três significados: ideacional, interpessoal e textual. Nesse sentido, Kress (2010) explica que Formalmente, o que conta como modo é uma questão do que uma teoria social- semiótica do modo requer que um modo seja e faça. Nesta, eu adoto a abordagem semiótica de Michael Halliday, a saber, que uma teoria completa da comunicação precisará representar significados sobre ações, estados, eventos no mundo - a função ideacional; representar significados sobre as relações sociais dos envolvidos na comunicação - a função interpessoal; e tem a capacidade de formar textos, isto é, entidades semióticas complexas que podem projetar um mundo (social) completo, que pode funcionar como entidades de mensagem completa, que tenha coerência interna e com seu ambiente - a função textual (p.87, tradução nossa 20 ). Podemos entender com isso que tipografia, cores e imagens podem ser consideradas modos semióticos se exprimirem os três significados da linguagem postulados por Halliday (1978). Mais à frente, quando falarmos de cada modo semiótico abordado neste trabalho, mais especificamente cores, tipografia e imagens, discutiremos brevemente a possibilidade de cada um ser um modo semiótico. Por ora, cabe explicar que os modos semióticos se valem de recursos semióticos, outra noção-chave na semiótica social. Na escrita, por exemplo, o modo semiótico verbal pode apresentar como recursos semióticos, além de escolhas lexicais e estrutura gramatical, as cores e a tipografia da fonte. Na oralidade, por sua vez, o mesmo modo pode apresentar como recursos tom de voz, aumento de voz em alguns casos para marcar o discurso. É preciso, então, diferenciarmos modo e recurso, embora em alguns casos o primeiro possa equivaler ao segundo, como explicaremos mais à frente. 20 No original: “Formally, what counts as mode is a matter of what a social-semiotic theory of mode requires a mode to be and to do. In this, I adopt the semiotic approach of Michael Halliday, namely that a full theory of communication will need to represent meanings about actions, states, events in the world – the ideacional function; to represent meanings about the social relations of those engaged in communication – the interpersonal function; and have the capacity to form texts, that is, complex semiotic entities which can project a complete (social) world, which can function as complete message-entities which cohere internally and with their environment – the textual function” (KRESS, 2010, p. 87). 43 A noção de recurso semiótico, segundo Van Leeuwen (2005, p. 3), tem origem nos trabalhos de Michael Halliday, para quem a gramática de uma língua não é um conjunto de regras, um conjunto de estruturas prontas, como já afirmamos anteriormente, mas de recursos para construir significados. A partir dos postulados de Halliday, o autor define recurso semiótico como: as ações e artefatos que usamos para comunicar, se eles são produzidos fisiologicamente - com o nosso aparato vocal; com os músculos que usamos para criar expressões faciais e gestos, etc. - ou por meio de de tecnologias - com caneta, tinta e papel; com hardware e software de computador; com tecidos, tesouras e máquinas de costura, etc (VAN LEEUWEN, 2005. p. 3). 21 Isso permite melhor observar as relações entre modos e recursos semióticos na perspectiva da Semiótica Social. Segundo Bezemer & Kress (2008, p. 6), “[...] modos podem ser usados para fazer diferentes tipos de trabalho ou para fazer trabalho similar com diferentes recursos de diferentes maneiras. Isso significa que os modos possuem diferentes fontes de recursos (affordances) para a construção dos sentidos em potencial 22.” Como podemos perceber, os recursos são então fontes de significados para o modo semiótico, ao mesmo tempo em que, dependendo do contexto de uso de determinados textos, um recurso pode ser empregado como um modo. Essa perspectiva da Semiótica Social, como “uma teoria que lida com os sentidos em todas as suas aparências, em todas as ocasiões sociais e todas as culturas 23” (KRESS, 2010, p. 2), nos remete à já apresentada multimodalidade enquanto característica de qualquer texto. A multimodalidade, nessa perspectiva, é o nome do campo no qual trabalhos semióticos se inserem (KRESS, 2012, p. 38, tradução nossa). Em termos amplos, a multimodalidade fornece ferramentas que permitem ao analista perceber as relações entre as diversas manifestações semióticas de um texto e a sociedade na qual este se insere 24 (KRESS, 2012, p. 46, tradução nossa). 21 No original: “(…) as the actions and artefacts we use to communicate, whether they are produced physiologically – with our vocal apparatus; with the muscles we use to create facial expressions and gestures, etc. – or by means of technologies – with pen, ink and paper; with computer hardware and software; with fabrics, scissors and sewing machines, etc”. (VAN LEEUWEN, 2005. p.3) 22 No original: “[…] modes can be used to do different kinds of semiotic work or to do broadly similar semiotic work with different resources in different ways. That is, modes have different affordances – potentials and constraints for making meaning.” (BEZEMER & KRESS, 2008, p. 6) 23 No original: “[...] a theory that deals with meaning in all its appearances, in all its social occasions and in all cultural sites”. (KRESS, 2010, p. 2) 24 No original: “In broad terms, the aim of MMDA is to elaborate tools that can provide insight into the relation of the meanings of a community and its semiotic manifestations” (KRESS, 2012, p.46). 44 Assim, a análise a partir da Semiótica Social envolve por si só uma interdisciplinaridade, já que essa teoria não estabelece categorias específicas para o estudo de cada modo, mas pontos de partida, que são também os pontos de chegada, para a análise de cada texto. Percebe-se, com isso, a necessidade de desenvolvimento de ferramentas de análises para os diversos modos semióticos que compõem os textos e participam da produção dos sentidos. Entre essas ferramentas, encontramos a GDV, e o Sistema de Avalitiavidade, que serão empregadas nesta investigação. De modo mais específico, nossas análises incluem como modos semióticos: layout (KRESS & Van Leeuwen, 1996; 2006; Van Leeuwen, 2005); imagens (KRESS & Van Leeuwen, 1996; 2006); tipografia (Van Leeuwen, 2006); e cores (KRESS & Van Leeuwen, 2002). Além desses, há, naturalmente, a escrita, que chamamos de modo verbal e que será estudada, sobretudo, a partir dos pressupostos do Sistema da Avaliatividade. Essas noções serão apresentadas nas seções seguintes, juntamente com os pressupostos da GDV, que deram origem aos estudos dos outros modos semióticos. 1.2.4 A Gramática do Design Visual Com o objetivo de desenvolver uma metodologia para a análise de textos multimodais, Kress & Van Leeuwen (2006) propõem a “Gramática do Design Visual” (doravante, GDV), voltada para o estudo da comunicação visual das culturas ocidentais, apresentando, com isso, uma teoria multimodal. Segundo Lima & Santos (2009, p. 42), os autores acima criam a GDV a partir das concepções da Análise Crítica do Discurso (ACD) e de uma expansão da Semiótica Social. Kress & Van Leeuwen (2006) hesitam em usar o termo ‘gramática’, uma vez que a ideia expressa por essa palavra geralmente inclui regras a serem seguidas, o que não faz parte da proposta deles. Dessa forma, apesar de chamar gramática do design visual, a proposta consiste em analisar o conteúdo da imagem de maneira a identificar o tipo de relação que se estabelece com o leitor, quais os critérios utilizados e intenções do produtor daquela imagem, a disposição do texto e das imagens, bem como as cores utilizadas. Longe de um conjunto de regras, a GDV nos fornece instrumentos necessários para a análise da semântica e da sintaxe visual, na medida em que procura descrever a maneira como os elementos presentes no texto visual, como pessoas, objetos e lugares, se combinam criando “sentenças visuais” e seus significados. 45 É importante ressaltar que a proposta de Kress & Van Leeuwen (1996; 2006) relaciona as noções metafuncionais de Halliday à análise de imagens. Não se trata aqui de uma proposta de relacionar estruturas visuais a estruturas linguísticas, mas sim a de descrever como as imagens podem gerar significados em termos de relações interpessoais, como podem representar o mundo (significados ideacionais) e como podem estar organizados em termos de coerência e coesão (significados textuais). É isso que explicamos a seguir. A metafunção interpessoal na GDV Da mesma forma que uma oração, no modo verbal, estabelece uma relação com o leitor/interlocutor demandando dele algo ou ofertando, sejam produtos ou serviços, seja uma ação, nos modos visuais, como nas imagens, na tipografia ou no sistema de cores também se observa a interação entre produtor do texto e leitor. Como já explicamos, a metafunção interpessoal refere-se aos significados interacionais do texto e que, por meio dela, relações de poder são observadas. Nesse sentido, Kress & Van Leeuwen (2006, p. 114) introduzem as noções de participante representado (PR) – que seriam as pessoas, lugares e objetos representados nas imagens – e participante interactante ou interativo (PI) – que seriam as pessoas com as quais nos comunicamos por meio das imagens, ou seja, o observador, o leitor da imagem. Essas noções são fundamentais na compreensão das relações estabelecidas nos textos, uma vez que, a partir da metafunção interpessoal, os significados são entendidos como uma troca. Na esteira dos ensinamentos de Halliday, Brito & Pimenta (2009, p. 95) explicam que: [...] o produtor de uma mensagem adota para si próprio um ato de fala em particular, e, ao fazer isso, ele espera que o seu ouvinte siga esse ato em seu turno: seja o de responder a uma pergunta, aceitar um pedido, etc. Esses atos de fala estão basicamente divididos em oferta e demanda. Do ponto de vista do ouvinte, este pode aceitar ou rejeitar a oferta, e obedecer ou não a um comando. Da mesma forma, imagens podem ofertar ou demandar algo de seu leitor. Do ponto de vista interpessoal, Kress & Van Leeuwen (2006) afirmam que as imagens podem ser observadas a partir de três dimensões: o olhar, o enquadramento e a perspectiva. O contato, analisado a partir do recurso semiótico do olhar, estabelece a interação entre PR e PI, considerando-se que há diferença de significado quando o PR olha diretamente (ou não) para o leitor. Quando o PR tem o olhar direcionado diretamente para 46 o leitor, o contato entre PR e PI é estabelecido, ainda que seja um contato imaginário, pois o olhar do PR cria um vetor em direção ao PI, endereçando um “você” visual. Nesse caso, dizemos que se trata de um olhar de demanda em que o PR demanda algo do PI. Segundo Kress & Van Leeuwen (2006, p. 118), “o olhar do participante (e os gestos, se presentes) exige algo do espectador, exige que o espectador entre em algum tipo de relação imaginária com ele ou com ela 25”. Por outro lado, quando o olhar do PR não é direcionado diretamente ao PI, dizemos que o PR é representado como um item para observação, como objeto de contemplação. Trata-se, assim, de um olhar de oferta. Outra característica a ser observada nas imagens diz respeito ao enquadramento. Essa dimensão é observada a partir da distância social entre PR e PI. A partir da dimensão da distância social, é possível observar, segundo Kress & Van Leeuwen (2006), que, quanto menor o distanciamento entre o participante representado (PR) – aquele que está na imagem, podendo ser pessoas ou objetos – e o participante interativo (PI) – leitor ou observador da imagem –, maior será a proximidade com o leitor. Os PRs que aparecem a uma distância maior são considerados objetos de contemplação. O enquadramento pode ser observado por diversos planos. Utilizaremos, neste trabalho, basicamente três planos: close shot, que seria um plano mais próximo, em que se retrata o PR focalizando sua face; medium shot, que é um plano de média distância, em que se visualiza parte do corpo do PI; e long shot, que é distância maior, em se retrata o PR de corpo inteiro. A última dimensão proposta por Kress & van Leuween (2006) é aquela das atitudes presentes na imagem, algo observado pela perspectiva. Trata-se da observação do ângulo a partir do qual a imagem se apresenta, ângulo que permite compreendê-la como subjetiva ou objetiva. Nesta, o ângulo permite revelar tudo o que existe para ser visto ou tudo o que o produtor julga necessário; naquela, o PR pode ser visto por apenas um ângulo específico. Segundo os autores, é nessa dimensão que se colocam as relações de poder, permitindo-se, então, observar as relações sociais que podem ser estabelecidas entre PR e PI por meio do discurso. Outro aspecto observado pelos significados interpessoais são os relativos à Modalidade, que se refere ao grau de credibilidade que uma informação pode ter. Segundo Kress & Van Leeuwen (2006, p. 154-155, tradução nossa), 25 No original: “[…] the participant’s gaze (and the gesture, if present) demands something from the viewer, demands that the viewer enter into some kind of imaginary relation with him or her”. (KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p. 118) 47 Uma teoria semiótica social não pode estabelecer a verdade absoluta ou a inverdade de representações. Só pode mostrar se uma dada "proposta" (visual, verbal ou não) é representada como verdadeira ou não. Do ponto de vista da semiótica social, a verdade é uma construção da semiose e, como tal, a verdade de um determinado grupo social surge dos valores e crenças desse grupo. Considerando-se esse postulado, as imagens são classificadas como de alta ou baixa Modalidade e representam o grau de afinidade entre PR e PI. Assim, as imagens podem ser entendidas como mais próximas ou mais distantes da realidade. Cabe frisar que “realidade” é algo demarcado socialmente, por grupos sociais, o que quer dizer que as “realidades” não são iguais para cada indivíduo ou grupos de indivíduos. De fato, como explicam Kress & Van Leeuwen (2006, p. 163, tradução nossa), “modalidade no modo visual repousa em padrões, do que é real e o que não é, que são determinados cultural e historicamente”26. Assim o que pode ser determinado como mais real ou menos real “é baseado em convenções dominantes e tecnologias de representação visual” (KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p. 159, tradução nossa) 27 . A modalidade corresponde ao estrato semântico-discursivo e é compreendida a partir de marcadores de modalidade. Os marcadores de modalidade representam então os recursos de que o sign-maker lança mão para expressar suas opiniões e pontos de vista. Kress & Van Leeuwen (2006) apresentam oito escalas que funcionam como marcadores de modalidade, em que nos basearemos aqui seguindo a tradução de Brito & Pimenta (2009): a) saturação de cores, que é o uso de cores em uma escala que vai de mais realçadas até uma possível ausência de cores; b) modulação de cores, que envolve a iluminação e o uso de tom mais claro ou mais escuro; c) diferenciação de cores, na qual se observa a gradação de cores, do monocromático ao colorido; d) contextualização, que se refere à possibilidade de se perceber ou não o plano de fundo (background) da imagem; e) representação (detalhamento), que compreende uma escala que vai de detalhes bem perceptíveis à ausência de detalhamento; f) profundidade, que vai numa escala de ausência de profundidade a uma percepção total dessa característica; g) iluminação, que varia numa escala de presença de luz à ausência dela; e h) brilho, que varia numa escala de diferentes graus de brilho a apenas duas possibilidades: branco e preto. 26 No original: “So visual modality rests on culturally and historically determined standards of what is real and what is not”(KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p. 163) 27 No original […] “it is based on currently dominant conventions and technologies of visual representation”. (KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p. 159). 48 Brito & Pimenta (2009) lembram que as escalas de alta modalidade (mais próximas do real) e baixa modalidade (mais distantes do real) dependem da situação, do contexto social, do tipo de texto e do público a que ele se destina. Como já mostramos, Kress & Van Leeuwen (2006, p. 163) afirmam que o que é considerado real está baseado em padrões sociais. No entanto, os autores ressaltam que esses padrões podem ser ultrapassados, levando a imagem a tornar-se “[...] 'mais do que real' – um efeito que pode ser alcançado não só na arte [...], mas também por meio de técnicas, materiais e equipamentos especiais de estúdio fotografia”28 (KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p. 163, tradução nossa). Assim, certo padrão naturalístico depende do que as práticas tecnológicas podem fazer a partir dele. A metafunção ideacional na GDV As representações em termos do que está acontecendo são percebidas por meio dos significados ideacionais. Kress & Van Leeuwen (2006) definem a metafunção ideacional como a capacidade dos sistemas semióticos para representar os objetos e suas relações em um mundo representacional exterior ou em sistemas semióticos de uma cultura. Para os significados ideacionais, os autores propõem duas categorias representacionais: narrativa e conceitual. Segundo Brito & Pimenta (2009, p. 89), “nas representações narrativas, os participantes estão sempre envolvidos em ações e eventos”. Nas conceituais, por outro lado, os participantes são tratados em termos de sua essência: de sua classe, estrutura ou significado. Explicaremos primeiramente o que envolve a representação narrativa, para em seguida passar à conceitual. No modo verbal, as ações são representadas pelos sintagmas verbais. Já no campo visual, o que caracteriza uma proposição narrativa é a presença de (pelo menos) um vetor, isto é, um traço que indica direção. Dessa forma, o que na língua é realizado pelos sintagmas verbais, na comunicação visual é realizado por vetores; o que na língua pode ser realizado por preposições locativas, nas imagens é representado por características que criam um contraste entre a frente e o fundo da imagem. Cabe lembrar, porém, que nem tudo aquilo que pode ser representado linguisticamente pode ser representado visualmente e vice-versa, razão pela qual diferentes escolhas são feitas. 28 No original: “[…] an image becomes ‘more than real’ – an effect which can be achieved not only in art […], but also by means of the special techniques, materials and equipment of studio photography. (KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p. 163) 49 Kress & Van Leeuwen (2006) propõem para a análise de figuras narrativas o uso dos mesmos termos usados na Gramática Sistêmico-Funcional (HALLIDAY & MATHIESSEN, 2004), que são ator, meta e transação. Isso é possível porque se trata de termos semântico-funcionais e não termos formais, o que não significa que as imagens funcionam da mesma maneira que o modo verbal, mas sim que podem “dizer” as mesmas coisas (ou quase as mesmas coisas) que ele. Assim temos na imagem a estrutura de algo feito por um ator a uma meta. De acordo com o tipo de vetor e os participantes, podemos distinguir vários tipos de processos, assim como ocorre na análise da linguagem verbal. É nesse sentido, portanto, que entendemos que as narrativas representacionais “contam” algo dos participantes que realizam algum tipo de processo. Explicada a representação narrativa, cumpre destacar aquela denominada conceitual, representação que envolve imagens que não apresentam nenhum tipo de evento. Nessa representação não há vetores, e os participantes são representados em termos de sua essência, em relação ao lugar que ocupam no espaço (na sociedade, numa cultura, etc). Em outras palavras, apresentam os participantes da imagem em categorias mais gerais, enfatizando seja a classe, estrutura ou significado. Kress & Van Leeuwen (2006) afirmam que as imagens conceituais podem ser analíticas ou classificacionais. “As estruturas analíticas”, dizem os autores, “representam os participantes como parte de uma estrutura” (KRESS & VAN LEEUWEN 2006, p. 87; tradução nossa) 29 , envolvendo normalmente dois tipos de participantes: o portador (Carrier) e um ou mais atributos (Attribute); já as estruturas conceituais apresentam os participantes em termos de sua essência, numa relação taxonômica. De modo geral, as estruturas analíticas e classificacionais relacionam-se, respectivamente, aos processos relacionais e existenciais no modo verbal. A metafunção textual na GDV Vimos anteriormente que a metafunção textual é aquela que organiza o texto de forma coesa e coerente, organização partir da qual os significados ideacionais e interpessoais podem ser comunicados. Quando se trata da GDV, o termo usado é composicional, e não textual como na LSF, pois a imagem é analisada de acordo com a colocação de seus elementos. Como explica Royce (2007, p. 67), “o termo composicional 29 No original: “Analytical processes relate participants in terms of a part–whole structure” (KRESS & VAN LEEUWEN 2006, p. 87) 50 tem sido usado no lugar do termo textual de Halliday, porque parece capturar melhor o completo sentido de dois modos semióticos interagindo um com o outro em uma mesma página para promover uma mensagem intersemiótica coerente”. Inicialmente, a GDV é apresentada como uma proposta para análise de imagens. No entanto, Kress & Van Leeuwen (2006) afirmam que a proposta de análise da composição textual pode ser aplicada não apenas a imagens, mas também a composições visuais que combinem texto e imagem e, até mesmo, outros elementos gráficos, seja em uma página, seja em uma tela de televisão ou de computador, seja ainda em um layout. Nesse sentido, os autores propõem que a organização textual seja observada a partir de três sistemas inter-relacionados e fundamentais: valor da informação, saliência e moldura. Valor da informação refere-se à disposição dos elementos no texto, que podem ser posicionados mais à direita, à esquerda ou podem ficar centralizados. Dependendo da zona de localização no texto, esses elementos recebem valores diferentes e, portanto, significados diferentes. O texto pode ser organizado numa estrutura esquerda/direita, polarizando, assim, os dois lados. Nesse caso, na GDV, o lado esquerdo da imagem é considerado o lugar da informação já conhecida pelo leitor ou observador, ao passo que o lado direito é considerado o espaço da informação nova, ou seja, da informação que é desenvolvida. Outra estrutura possível é a do top/bottom, que envolve margem superior e margem inferior. Nesse caso, o espaço superior é destinado a mostrar uma idealização no que diz respeito àquilo de que se fala, enquanto o plano inferior traz a realidade sobre aquilo de que se fala. O ideal tende a ser generalizado e idealizado enquanto o real tende a trazer informação mais naturalística, mais factual. O centro, por fim, é o núcleo, e aquilo que está à sua margem lhe dá suporte. Quando um elemento textual é posicionado no centro, é apresentado como núcleo da informação, ao qual os demais elementos são subordinados. Com a finalidade de permitir uma melhor compreensão das dimensões de localização de elementos no texto, Kress & Van Leeuwen (2006) apresentam a seguinte representação simbólica: 51 FIGURA 3 – Dimensões do espaço visual Fonte: Kress & Van Leeuwen (2006, p. 197; adaptado) Apresentados os valores que as informações podem assumir de acordo com sua disposição no texto, podemos falar agora da Saliência, que se refere ao destaque conferido a certos elementos textuais, captando a olhar do leitor em diferentes escalas. “Independentemente de onde eles são colocados, saliência pode criar uma hierarquia de importância entre os elementos [...]” (Van Leeuwen & Kress, 1995, p. 33, tradução nossa) 30 . A esse respeito, Vian Júnior & Dias (2017) abordam a construção do layout no texto multimodal, tecendo considerações acerca dos diferentes modos semióticos, como verbiagem 31 e imagens e, assim, afirmam: [verbiagem e imagens] Se ocupam espaço de tamanho semelhante, não há proeminência de uma sobre a outra e pode-se dizer que ambas são importantes e devem ser igualmente consideradas durante a sua compreensão. Porém, se uma delas ganha relevância por deter mais espaço na página impressa, a mensagem é mais especificamente expressada por meio dela (VIAN JÚNIOR & DIAS, 2017, p. 185). Outro aspecto relacionado à metafunção textual, ao lado dos já comentados valor da informação e saliência, é a moldura, que se refere à presença ou ausência de traços ou marcas que podem conectar os desconectar os elementos textuais. Bordas e margens podem desconectar os elementos textuais fazendo com que possam ser compreendidos de certa forma separadamente; já vetores, repetição de cores ou formas podem conectar os elementos. 30 No original: “Regardless of where they are placed, salience can create a hierarchy of importance among the elements […]” (VAN LEEUWEN & KRESS, 1995, p. 33). 31 Os autores se referem à parte escrita como verbiagem, o que neste trabalho chamamos de modo verbal 52 A esse respeito, optamos pelas contribuições de Van Leeuwen (2005), que apresenta um inventário de categorias que podem ser utilizadas na análise do layout de páginas. As duas principais categorias propostas pelo autor são a conexão e a desconexão. A conexão entre os elementos textuais pode ocorrer por integração imagética ou integração intermodal 32 (textual). A desconexão, por sua vez, pode ocorrer por meio de: a) rimas visuais – que é a similitude de certas características dos elementos textuais, como cores ou formas; b) contraste visual – quando os elementos apresentam características que se contrastam em termos de formas, cores, qualidade; c) segregação – quando os elementos ocupam territórios bem diferentes, demarcando pertencerem a diferentes ordens ou categorias, podendo ocorrer por sobreposição ou por ausência de sobreposição dos elementos textuais; e d) separação, percebida pela presença de espaços vazios entre os elementos. De forma resumida, Van Leeuwen (2005) apresenta o inventário de categorias para análise de layout como um sistema em rede, que é reproduzido na figura 3. Nela, as chaves com linhas retas significam que ocorre uma ou outra opção, enquanto as chaves em linhas curvas indicam que as opções podem ocorrer simultaneamente. FIGURA 4 – Sistema em rede: inventário de categorias para análise de layout Fonte: Van Leeuwen (2005, p. 13; traduzido para o português) Outro conceito importante na análise da composição textual é o de “caminhos de leitura” (reading paths). Kress & Van Leeuwen (2006, p. 204-205) afirmam que, em páginas impressas, com textos escritos, os caminhos de leitura possíveis são geralmente 32 Van Leeuwen (2005) apresenta os termos em inglês pictorial integration e textual integration. O primeiro, traduzimos como integração imagética, o que não parece gerar controvérsias. Já a segunda expressão merece algumas considerações. Uma tradução literal corresponderia a integração textual, no entanto, seguindo os postulados da Semiótica Social, preferimos o termo integração intermodal a fim de não causar confusão entre texto enquanto objeto de estudo e texto enquanto Modo verbal. 53 lineares, devendo o texto ser lido da esquerda para a direita e de cima para baixo. Nesse sentido a própria leitura já seria codificada. No entanto, alguns textos são menos codificados, e os caminhos de leitura podem ser variados, como na leitura de uma revista, em que o leitor pode passar por várias páginas “lendo” imagens, títulos ou mesmo partes das reportagens. Nesses casos, como explicam Kress & Van Leeuwen (2006, p. 205), os caminhos de leituras possíveis vão dos elementos textuais mais salientes aos menos salientes. Com isso, as trajetórias de leitura “não são necessariamente semelhantes às da página impressa densamente escrita, direita-esquera e superior-inferior, mas pode se mover em círculo [...]” (KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p. 205, tradução nossa)33. 1.2.5 Layout O layout, no âmbito da teoria, está mais diretamente relacionado à metafunção textual, já apresentada quando falamos da GDV. Entretanto, tomamos o layout aqui como modo semiótico, por entender que ele veicula as três funções da linguagem: experiencial, interpessoal e textual. Isso porque, além de o layout ajudar a organizar o texto de forma coerente e coesa, a organização dos blocos informacionais que ele promove pode veicular uma representação, criando com isso uma narrativa. Além disso, se pensarmos nos valores interacionais, percebemos que a organização do texto pode levar a uma oferta ou demanda, pois, dependendo da forma como se dispõem as imagens, o olhar pode passar a demandar algo do leitor, pode estabelecer com ele uma relação, além de representar as relações de poder estabelecidas num texto. As análises do layout enquanto modo semiótico englobam, principalmente, moldura, saliência e valor da informação, tal como já apresentado quando falamos da metafunção textual na GDV. 1.2.6 Tipografia A tipografia configura mais um importante recurso semiótico. Machin (2007, p. 86) nos lembra que diferentes grafias de letras sempre foram usadas para produzir diferentes significados. No entanto, os tipos de fontes se mostram cada vez mais elaborados com o desenvolvimento tecnológico, surgindo, com isso, a necessidade de metodologias de abordagem dos possíveis sentidos do emprego desse modo semiótico. 33 No original: […] are not necessarily similar to that of the densely printed page, left– right and top–bottom, but may move in a circle. (KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p. 205) 54 Van Leeuwen (2006) propõe um estudo de tipografias a partir dos pressupostos da GDV. Trata-se de um estudo ainda incipiente, deixando aberta a leitores e pesquisadores a possibilidade de contribuição para o desenvolvimento dos estudos de tipografia enquanto modo semiótico. Mesmo assim, acreditamos que os postulados do autor podem contribuir e ser aplicados neste trabalho. Van Leeuwen (2006, p. 142) propõe que a tipografia apresenta dois níveis de significados: um relacionado ao verbal, à escrita em si, e outro ligado à tipografia enquanto imagem. O autor postula ainda que a tipografia pode ser tomada como um modo semiótico, uma vez que pode veicular os três sentidos das mensagens, ou seja, pode realizar as três metafunções anteriormente apresentadas, na esteira da já apresentada exigência defendida por Kress (2010). Como ele explica, a tipografia pode ser e é usada para representar ações e qualidades, a exemplo das letras mais finas, que podem ser usadas para expressar sofisticação, enquanto letras corridas podem expressar movimento, apresentando, portanto, uma função ideacional (VAN LEEUWEN, 2006, p. 143). A tipografia pode ainda ser empregada “para encenar interações e expressar atitudes em relação ao que está sendo representado” (VAN LEEUWEN, 2006, p. 143, tradução nossa34). É o caso do uso de letras grandes, que podem ser empregadas para chamar a atenção, em contextos de chat, por exemplo; ou letras grafadas em maiúsculas, que costumam ser empregadas para representar “gritos” ou “tom alto de voz”, apresentando, dessa forma, uma função interpessoal. Além disso, a tipografia pode apresentar uma função textual, pois “[...] pode demarcar os elementos, as "unidades", de um texto e expressar seu grau de similaridade ou diferença como elementos textuais, e pode destacar elementos-chave de um texto e elementos menos importantes (VAN LEEUWEN, 2006, p.143; tradução nossa) 35”. Fica claro, assim, que a tipografia pode ser empregada como um modo semiótico, razão pela qual ela será examinada neste trabalho. Além de tomar como base a proposta pioneira de Van Leeuwen (2006), vamos recorrer aqui a Gualberto (2016), que traduz os termos propostos por aquele autor para a análise do emprego de tipografias. O primeiro aspecto mencionado pelo autor para a análise da tipografia é espessura ou peso (weight). O emprego de letras mais espessas, como, por exemplo, pelo uso do recurso negrito, é normalmente para dar saliência a um termo. Além disso, a espessura 34 No original: “Typography can also enact interactions and express attitudes to what is being represented” (VAN LEEUWEN, 2006, p. 143). 35 No original: “Typography can demarcate the elements, the ‘units’, of a text and express their degree of similarity or difference as textual elements, and it can foreground key elements of a text and background less important elements” (VAN LEEUWEN, 2006, p. 148). 55 pode ser empregada para transmitir a ideia de ousadia, assertividade, solidez ou substancialidade, o que estaria relacionado à metafunção ideacional. Pode ainda, se essas características indicam atitudes do designer (ousadia, assertividade etc) em relação àquilo que está sendo representado, veicular um significado interpessoal (VAN LEEUWEN, 2006, p. 148). Outro aspecto a se considerar no exame da tipografia é a expansão (expansion), cujo potencial significado relaciona-se a um continuum, à nossa experiência de espaço (VAN LEEUWEN, 2006, p. 148). Assim, as letras podem ser grafadas mais espaçadas ou mais imprensadas. Segundo Machin (2007, p. 96; tradução nossa) 36, “fontes altamente condensadas ocupam pouco espaço. Isso pode ter o significado de que elas são precisas, econômicas e humildes. Letras mais espaçadas ocupam mais espaço. Elas se espalham com confiança, até mesmo com arrogância, mas, dependendo do contexto, esse significado pode ser revertido”. É preciso lembrar ainda, com Carvalho (2009, p. 03), que “este recurso influencia diretamente na questão da legibilidade da página, bem como na oferta de espaço para a sistematização e reflexão acerca das informações.” Outro aspecto a ser considerado na análise de tipografia diz respeito à conectividade (connectivity) entre as letras. A conexão das letras pode sugerir integração, enquanto a desconexão pode sugerir fragmentação. Uma forma de conexão pode se dar pelo emprego de fontes que sugerem escrita manual ou ainda, considerando-se os textos impressos, pelo emprego de serifas, que são os prolongamentos que ocorrem na base das letras, como ilustram as imagens a seguir. FIGURA 5 – Letras com serifas e sem serifas Fonte: http://tutano.trampos.co/12742-infografico-tipografia-serifa/ Acesso em Nov 2018. 36 No original: “Highly condensed typefaces take up little space. This can have the meaning that they are precise, economical, humble even. Wide typefaces take space. They spread themselves around confidently, even arrogantly, but depending on the context this meaning might be reversed” (MACHIN, 2007, p. 96). 56 Outro aspecto a ser observado é a orientação (orientation) dos caracteres. Essa característica relaciona-se à grafia de letras em uma dimensão mais horizontal ou mais vertical. Os possíveis significados estão relacionados à gravidade, ou seja, com alto e baixo. Assim, a orientação horizontal poderia sugerir peso, solidez, mas também inércia e autos- satisfação, enquanto a orientação vertical poderia sugerir leveza, aspiração para cima, mas também instabilidade (VAN LEEUWEN, 2006, p.149). Curvatura (curvature) é outro aspecto tipográfico apontado pelo autor em destaque aqui, aspecto que se refere à angularidade e circularidade dos caracteres. Letras mais circulares podem significar naturalidade, suavidade e fluidez, ao passo que letras mais angulares podem significar abrasividade e masculinidade. (VAN LEEUWEN, 2006, p.149). O formato (slope) é outra característica apontada no trabalho de Van Leeuwen (2006), que com o termo se refere à diferença entre tipo de letra cursiva e tipo vertical (impressa). Os sentidos em potencial dependem do contexto e “podem significar um contraste entre orgânico e mecânico, pessoal e impessoal, formal e informal, industrial e artesanal, novo e velho etc”.37 (VAN LEEUWEN, 2006, p.148; tradução nossa). A regularidade (regularity) refere-se à manutenção de certas características das letras, como angularidade, tamanho, peso, inclinação, etc. Segundo Van Leeuwen (2006, p, 150) alguns tipos de letra apresentam irregularidades deliberadas, por meio de uma distribuição aparentemente aleatória de características específicas, por exemplo, a curvatura. Ainda segundo o autor, um possível significado para as irregularidades em caracteres pode ser relacionado a uma possível rebeldia em relação ao meio escolar, em que somos ensinados a escrever as letras da forma mais regular possível. Apresentamos, assim, as características a serem observadas num estudo de tipografia como modo semiótico. Cabe frisar que não necessariamente empregaremos em nossas análises todas as categorias apresentadas acima, mas aquelas que se mostrarem mais relevantes ao que nos propomos aqui, que é examinar a representação dos suspeitos dos crimes eleitos para esta pesquisa. 1.2.7 Cores 37 No original: Depending on the context, it might signify a contrast between the ‘organic’ and the ‘mechanical’, the ‘personal’ and the ‘impersonal’, the ‘formal’ and the ‘informal’, the mass-produced’ and the ‘handcrafted’, the ‘new’ and the ‘old’, and so on. (VAN LEEUWEN, 2006, p.148) 57 Para a análise do emprego de cores como modo semiótico, nos baseamos em Kress & van Leewen (2002). Da mesma forma que nos outros casos, considerar o emprego de cores enquanto modo semiótico é assumir que nele podem se expressar sentidos relativos às três metafunções já apresentadas. Com efeito, ideacionalmente, cores podem indicar pessoas, lugares e coisas, assim como classes de coisas, lugares e pessoas (KRESS & VAN LEEUWEN, 2002, p. 347). A título de exemplo, podemos considerar o que ocorreu nas eleições presidenciais de 2018, no Brasil, em que as cores verde e amarelo, geralmente associadas à seleção brasileira de futebol, foram utilizadas socialmente como marcas de eleitores de determinado candidato. As cores podem ainda ser empregadas para atrair a atenção do leitor, assumindo uma função interpessoal (MACHIN, 2007, p.66), a exemplo do que ocorre na entrada de restaurantes que, com cores específicas, podem comunicar um “sejam bem-vindos” ou “sofisticação” (MACHIN, 2007, p.66). Textualmente, por sua vez, as cores podem ser empregadas para conferir coerência e coesão ao texto, como em uma reportagem sobre morte, por exemplo, que dificilmente irá usar cores suaves. Se podem funcionar de forma metafuncional, as cores apresentam certas restrições como modo semiótico. De fato, as cores podem desempenhar as três metafunções ao mesmo tempo, mas não necessariamente desempenham todas elas, pois, diferentemente de imagens, da língua e da música, cores não funcionam como modo semiótico de forma isolada. “As cores podem se combinar livremente com outros Modos, na arquitetura, tipografia, design, design de documentos, etc, mas não existem sozinhas. Podem sobreviver apenas em um ambiente multimodal” (KRESS & VAN LEEUWEN, 2002, p. 351, tradução nossa) 38 . Assim, apesar de as cores apresentarem características de um modo semiótico, somente existem como tal num ambiente multimodal, dependendo, portanto, dos outros modos para funcionar. Kress & Van Leeuwen (2002) apontam dois tipos de affordances, ou seja, duas fontes de sentido para o emprego de cores. O primeiro diz respeito à associação, que tem a ver com associações culturais que uma cor pode suscitar. No contexto brasileiro, por exemplo, o preto pode remeter à morte, o branco à paz. Já em um contexto mais específico, se pensarmos em times de futebol, em Minas o preto e branco normalmente remetem ao Clube Atlético Mineiro, enquanto o azul, ao Cruzeiro Esporte Clube. 38 No original: “It can combine freely with many other modes, in architecture, typography, product design, document design, etc., but not exist on its own. It can survive only in a multimodal environment” (KRESS & VAN LEEUWEN, 2002, p. 351). 58 A segunda fonte de recursos refere-se às características (features), fonte que “está relacionada a uma escala de cores que vai do mais claro ao mais escuro, a uma saturação maior ou menor” (MACHIN, 2007, p. 355; tradução nossa) 39. Kress & Van Leeuwen (2002) baseiam-se nos trabalhos de Jakobson e Hale, que desenvolvem características distintivas para a fonologia. De modo semelhante, aqueles autores propõem características distintivas para o emprego de cores, que para eles é a base de sentidos em potencial. Segundo os autores, Mais uma vez, de maneira que forneçam ecos de Jakobson e Halle, vemos essas características não como meramente distintivas, como meramente servindo para distinguir cores diferentes umas das outras, mas também como potenciais de significado. Qualquer instância específica de uma cor pode ser analisada como uma combinação de valores específicos em cada uma dessas escalas – e, portanto, também como um potencial de significado complexo e composto, como demonstraremos agora (KRESS & VAN LEEUWEN, 2002, p. 355, tradução nossa) 40 . O emprego de cores enquanto modo semiótico será analisado aqui a partir das seguintes escalas: a) Valor: característica que utiliza a escala de cinza como padrão, indo do mais claro (branco) para o mais escuro (preto); b) Saturação: escala que vai da cor intensamente saturada (ou pura) passando a uma mais pálida, digamos, diluída, até a ausência total de saturação, pendendo para o preto ou branco. Alta saturação tende a representar algo positivo, enquanto baixa saturação pode remeter a algo negativo. Seu ponto chave “reside na sua possibilidade de expressar temperaturas emotivas e tipos de afeto” (KRESS & VAN LEEUWEN, 2002, p. 354, tradução nossa) 41 ; c) Pureza: escala vai da cor pura à hibridização de cores. Cores nomeadas como verde, amarelo, marrom, tendem a ser consideradas cores puras. Cores como ciano, verde-mar, azul-turquesa, por outro lado, tendem a ser consideradas cores misturadas; d) Modulação: escala de modulação da cor. Segundo Kress & Van Leeuwen (2002, p. 357), a cor lisa é genérica, enquanto a cor modulada é mais específica; e) Diferenciação: escala que vai do monocromático ao policromático; e f) Nuances: escala que vai do azul ao vermelho, relacionando-se a uma escala de cores frias a cores quentes (KRESS & VAN LEEUWEN, 2002, p. 357). 39 No original: “One such is the scale that runs from light to dark, another the scale that runs from saturated to de-saturated, from high energy to low energy, and so on” (MACHIN, 2007, p. 355). 40 No original: “Again, in ways that provide echoes of Jakobson and Halle, we see these features not as merely distinctive, as merely serving to distinguish different colours from each other, but also as meaning potentials. Any specific instance of a colour can be analysed as a combination of specific values on each of these scales – and hence also as a complex and composite meaning potential, as we now demonstrate” (KRESS & VAN LEEUWEN, 2002, p. 355). 41 No original: “Its key affordance lies in its ability to express emotive ‘temperatures’, kinds of affect” ( KRESS & VAN LEEUWEN, 2002) 59 Apresentamos acima o inventário de categorias propostas pelos autores para o exame das cores como modo semiótico. Cabe frisar, entretanto, que nem todas as categorias serão produtivas às nossas análises, tendo em vista que não estamos interessados nas cores em si, mas naquilo que, no exame delas, contribua especificamente para os possíveis sentidos produzidos na representação dos suspeitos, escopo principal deste trabalho. 1.2.8 O Sistema de Avaliativiadade Para a Semiótica Social, as escolhas do produtor de sentido (autor, escritor, enunciador) são de extrema importância na construção dos significados. Nesta pesquisa, as escolhas contempladas dizem respeito à forma como os suspeitos dos crimes são significados pela Revista Veja a partir do discurso gerado por suas publicações, no caso as capas e reportagens com as quais trabalharemos. Percebemos, assim, a importância da utilização do Sistema de Avaliatividade, teoria que propõe mecanismos para analisar a expressão de opiniões do produtor do texto em sua produção textual. O Sistema de Avaliatividade pode ser considerado uma teoria recente, desenvolvida a partir da metafunção interpessoal dos estudos sistêmico-funcionais e ligada ao estrato semântico discursivo da linguagem, o que, entretanto, não minimiza sua importância para o presente trabalho. Grosso modo, essa teoria considera a forma como falantes/escritores emitem sua opinião no discurso, expressando seus sentimentos em relação a coisas e pessoas no mundo. Trata-se de uma proposta de análise textual, desenvolvida, principalmente, a partir dos trabalhos de Martin & White (2005) e Martin & Rose (2007), entre outros. Segundo Vian Júnior (2009, p. 114), o Sistema de Avaliatividade está “na interface entre semântica do discurso e léxico-gramática, da (sic) realização dos significados no texto através dos recursos disponíveis na semântica do discurso”. A Appraisal System foi traduzido para o português de diversas formas, como valoração e avaliatividade. Adotamos neste trabalho o termo Sistema de Avaliatividade, em sintonia com Vian Júnior (2009, p.124), que nesse sentido argumenta: Argumentamos, ainda, em relação à não-utilização dos termos valoração e apreciação para o sistema como um todo. O termo valoração por estar relacionado, em um primeiro momento, apenas ao ato de atribuir valor, embora, certamente, podem agregar-se a ele outros aspectos, mas trata-se de um sentido restrito que não abarca todo o potencial de significados imbricados no potencial de significados disponível para avaliarmos, uma vez que fatores como afeto, 60 contato social, crenças, representações, valores, elementos culturais e tantos outros interpenetram a avaliatividade. O Sistema de Avaliativiadade desenvolvido inicialmente por Martin & White (2005) constitui-se, pois, como um dos principais aspectos dos significados interpessoais no nível semântico-discursivo da linguagem. Permite-nos observar diversos aspectos de organização do discurso, revelando, por exemplo, como pessoas, lugares e coisas são apresentados e trabalhados no texto; como eventos e acontecimentos são ligados um ao outro em termos de tempo, contraste ou similaridade; como participantes são representados como parte de um todo (MARTIN & WHITE, 2005). Trata-se de considerar um recurso que funciona como aspecto retórico e também ideológico (WHITE, 2006, p. 37). Para Vian Júnior (2009, p. 100), “a maneira como o produtor de um texto oral ou escrito se posiciona em relação ao seu leitor ou a seu interlocutor e a forma como julga o mundo concebido no texto que produz traz à tona diferentes tipos de avaliação”. A Teoria da Avaliatividade permite, assim, observar nos textos analisados marcas de avaliação, como emoções, julgamentos e afeto; “[...] muito mais do que servir como recurso de expressão de opinião, é um instrumento de construção e negociação de valores socialmente compartilhados” (OLIVEIRA, 2014, p. 248). O Sistema de Avaliatividade, como já mencionado, está localizado no componente semântico-discursivo da estratificação da linguagem e é realizado no estrato léxico- gramatical por unidades lexicais de carga semântica avaliativa, como adjetivos, verbos modalizados, adjuntos modais, pela modalidade de polaridade (positiva/negativa), intensificação (advérbios) e repetição. O Sistema de Avaliatividade é composto de três subsistemas: Atitude, Gradação e Engajamento. A Atitude está relacionada às emoções, incluindo reações, julgamento de comportamentos e avaliações de coisas ou situações. Como explica Natividade (2012, p. 63), “tomadas em seu nível discursivo, as atitudes expressam nossos valores, posicionamentos éticos, opiniões sobre pessoas e coisas, nossos afetos, ou seja, nossas formas de relacionamento com o mundo, considerando o nível da intersubjetividade”. No modo verbal, ou seja, no texto escrito, a Atitude pode ser percebida, mais prototipicamente, por verbos como amar, odiar, gostar, ou por adjetivos, como triste e feliz, podendo referir- se ainda a julgamentos do comportamento, como honesto, desonesto. O engajamento “revela o comprometimento do falante/escritor com o que está sendo exprimido, explorando um jogo de vozes utilizado na expressão da opinião” (SOUSA & SOARES, 2012, p.135). O engajamento permite observar de onde vêm as 61 avaliações, trazendo ao texto outras vozes, evidenciando-se a polifonia da representação que se constrói no texto. Com efeito, trata-se dos significados do estrato semântico- discursivo que trazem para o texto diversos pontos de vista (MARTIN & ROSE, 2007). Diferentemente das Atitudes, que se encontram no eixo das opiniões, o engajamento, como explica Balocco (2010 apud VASCONCELOS, 2013, p. 30), encontra-se no eixo das negociações. Já a Gradação abarca o fenômeno de classificação em que os sentimentos e emoções são amplificados (ou não) e as categorias desfocadas (MARTIN & WHITE, 2005, p.34). Em outras palavras, por meio da gradação, podemos perceber o quanto sentimos, apreciamos, julgamos aquilo que estamos representando, sejam coisas, pessoas, eventos ou lugares. No subsistema gradação, consideram-se, em uma escala, como os escritores/falantes amplificam suas avaliações, ou suas atitudes e engajamento. Por isso, ele opera por meio de duas escalas: de um lado, intensidade ou quantidade e, de outro, prototipicalidade (MARTIN & WHITE, 2005, p.136-137). O subsistema de Atitude, que será mais trabalhado em nossas análises, é dividido em três outros subsitemas que são tradicionalmente relacionados a três dimensões semânticas de significado: emoção, ética e estética (MARTIN & WHITE, 2005, p.42). São os subsitemas Afeto, Julgamento e Apreciação. O primeiro está relacionado ao registro de emoções positivas ou negativas, à avaliação de como o falante/escritor se relaciona emocionalmente com as pessoais, coisas, ou acontecimentos (MARTIN & WHITE, 2005, p. 45). O segundo está relacionado às atitutes que representam comportamento, que pode ser de admirar ou criticar, louvar ou condenar, estando, por isso, diretamente ligado à moral e à ética, como avaliações do comportamento humano que tipicamente fazem referência a regras ou convenções de comportamento (MARTIN & WHITE, 2005, p. 42). O subsistema de Julgamento é subdividido em estima social e sanção social. Julgamentos de estima social estão relacionados a valores socialmente compartilhados, que podem fazer com que um indivíduo seja admirado ou criticado, elevado ou rebaixado socialmente; podem ser positivos, como considerar um profissional bem-sucedido, ou negativos, como considerar um profissional malsucedido. Normalmente não envolvem questões legais, mas éticas. Já julgamentos de sanção social estão relacionados à legalidade, remetendo a regras socialmente compartilhadas. Da mesma forma, podem ser positivos ou negativos, incluindo questões como honestidade/desonestidade. Por fim, o terceiro, a apreciação, é o subsistema que envolve avaliações de fenômenos naturais ou semióticos (MARTIN & 62 White, 2005, p. 42-43). O subsistema de Apreciação está relacionado a avaliações relativas à forma e à aparência, por referência à estética e a outros sistemas de valor social. O Sistema de Avaliativade pode ser resumidamente representado da seguinte forma: FIGURA 6 – Sistema de Avaliatividade resumido Fonte: Martin & Rose (2007, p. 28, adaptado e traduzido) É preciso frisar que nesse sistema a valoração por meio de Atitude, gradação e engajamento ocorre ao mesmo tempo, ou seja, quando se expressa Atitude ela pode ser ao mesmo tempo amplificada por meio da gradação, podendo isso se dar ainda pela inserção de outras vozes. Já as opções do sistema de Atitude não ocorrem simultaneamente. (MARTIN & ROSE, 2007, p. 28). Além de poder ser observado pelos itens lexicais explicitamente postos, o Sistema de Avaliatividade pode também ser evidenciado por enunciados capazes de carregar uma avaliação implícita. Nesse caso, são enunciados que carregam “sinais” (tokens) de avaliação, no dizer de Sousa & Soares (2012, p.135). A partir da explanação do Sistema de Avaliatividade, fica claro que o designer do texto expressa suas opiniões, sentimentos e julgamentos por meio de suas escolhas em um nível discursivo. Isso se mostra ainda mais importante no caso do discurso midiático, que tem uma importante responsabilidade social. Nesse sentido, a abordagem da avaliatividade no exame das matérias selecionadas para este estudo pode nos auxiliar a compreender como a revista expressa suas avaliações acerca dos crimes com negativa de autoria, sobretudo na representação dos suspeitos. É importante salientar que nossa proposta não é a de fazer um mapeamento das atitudes, gradações e engajamentos presentes no texto, mas a de observar os aspectos valorativos presentes nos textos analisados que possam nos levar a compreender como os 63 suspeitos dos crimes com negativa de autoria são representados nas publicações da Revista Veja que serão aqui analisadas. 1.3 Procedimentos de análise Para investigar como o jornalismo da Revista Veja representa em seu discurso homicídios com negativa de autoria ocorridos em nossa sociedade e, principalmente, como os suspeitos/investigados são representados, o tratamento dos dados seguiu inicialmente uma análise linguística e visual realizada a partir da superfície textual. Essa análise está ancorada nos postulados da Semiótica Social, observando-se, portanto, todos os modos e recursos semióticos empregados na elaboração do texto. Para não perder de vista o objetivo desta pesquisa, que é a forma como os sujeitos suspeitos de cometer os assassinatos são representados nos textos publicados pela Revista Veja, nossa análise foi feita a partir de uma leitura global, buscando, na superfície textual ou, nos termos de Halliday (2004), no estrato léxico-gramatical, pistas e informações que nos permitam compreender como os textos que compõem nosso corpus representam os sujeitos suspeitos dos crimes eleitos para estudo. Isso significa que não analisamos oração por oração, nem cada elemento dos textos, mas nos concentramos naqueles que nos permitam atingir nossos objetivos. Separamos a explicação dos procedimentos de análise apenas por uma questão didática, pois cada texto do corpus foi trabalhado da melhor forma para construir uma análise que nos permitisse compreender os significados potenciais dos textos a partir das escolhas feitas. Em resumo, o que queremos dizer é que partimos da superfície textual para o discurso, ou seja, seguimos do estrato léxico-gramatical para o semântico-discursivo, lembrando, mais uma vez, que a superfície textual nos postulados da Semiótica Social contempla toda a materialidade, compreendida por modos e recursos semióticos, empregada na construção dos textos. Assim, na análise do modo verbal demos especial atenção às valorações presentes nos textos, amparando-nos, para tanto, no Sistema de Avaliatividade (MARTIN & WHITE, 2005). No entanto, quando possível e/ou necessário recorremos à Gramática Sistêmico- Funcional de Halliday, quando essa se mostrou imprescindível para a compreensão da análise, embora nosso enfoque seja mesmo nos aspectos do Sistema de Avaliatividade. 64 A análise dos modos visuais – cores, layout, tipografia e imagens – foi feita, quando possível, separadamente. Assim, analisamos em cada modo semiótico os recursos empregados que contribuem para a compreensão da representação dos suspeitos. Em geral, trabalhamos primeiramente o layout, já que esse se refere à organização do texto como um todo, onde foram observados, sobretudo, os aspectos de valor de informação, saliência e moldura, conforme já explicado na seção anterior. As cores, por sua vez, foram analisadas levando-se em consideração as duas fontes (affordances) mencionadas por Kress & Van Leeuwen (2005), quais sejam: associação e características, sendo que nesta observaremos saturação, suavidade, nuances, etc. Já a tipografia foi analisada quando distintiva, sobretudo em títulos e subtítulos, onde nos pareceu apresentar sentidos mais produtivos em nossa busca, diferentemente do que ocorre no corpo da reportagem, em que a fonte (tipo de letra) empregada é em geral a mesma. As imagens, por fim, foram observadas e analisadas a partir dos pressupostos da GDV, destacando-se os significados ideacionais e interacionais, já que os significados textuais foram mais diretamente explorados nas análises do layout. Vale ressaltar que não se trata de fazer uma análise separada de cada modo aqui mencionado, mas uma análise que leve em consideração todos esses aspectos, já que o texto só faz sentido quando tomado como um todo. Além disso, esses diferentes aspectos são considerados em nossas análises sem nos deixar perder de vista o enfoque deste trabalho, que é a representação dos suspeitos. Para melhor compreensão das análises, sobretudo no que se refere ao layout, reproduzimos os textos agrupando-os de duas em duas páginas, o que preserva a forma como foram publicados na revista e evita interferência na análise do layout. Ao fazer isso, foi preciso proceder à redução dos textos, o que prejudica a resolução de visualização e compromete em alguma medida a leitura do modo verbal. Todos os textos, porém, foram inseridos nos Anexos deste trabalho em tamanho o mais próximo possível do original, permitindo que todos os dados analisados fiquem acessíveis ao leitor. Além disso, tendo em vista que algumas reportagens são longas, em alguns momentos, apenas para facilitar a leitura, reproduzimos as imagens isoladamente ou destacamos trechos do modo verbal. No caso das reportagens, aliás, foi preciso estabelecer ainda uma metodologia mais específica, a fim de tornar a análise mais didática. Tendo em vista que uma reportagem de revista é, em geral, um texto longo, composto de várias “partes” ou, nos termos de Van Leeuwen & Kress (1995), composto de diferentes blocos de informação, é preciso se ater à estrutura e ao modo de composição desses textos para melhor abordá-los. Por isso, faremos 65 uma breve descrição da estrutura das reportagens a serem analisadas e explicaremos como elas foram tratadas aqui. A reportagem, apesar de não apresentar estrutura rígida, emprega alguns elementos mais prototípicos. Segundo Koche & Marinello (2012), a reportagem pode apresentar as seguintes partes: título, subtítulo, resumo da matéria, corpo e síntese. É comum no jornalismo a atribuição de diferentes “nomes” às partes que compõem a reportagem. Na sua composição, o jornalista 42 , não raro, se vale de outras ferramentas que servem para ilustrar, para enriquecer, para explicar algo na reportagem. Essas ferramentas muitas vezes geram outros textos, de outros gêneros, no interior da reportagem. Trazendo isso para os postulados da Semiótica Social, que toma o texto como um tecido composto pelos diversos modos semióticos, consideraremos a reportagem como um texto único, composto de diversos elementos, mesmo que esses elementos sejam em alguns casos outros gêneros textuais. Assim, entendemos que a orquestração de todos os componentes da reportagem contribui para a construção do sentido. Em função disso, para fins didáticos, foi necessário nomear alguns blocos informacionais. Para lidar com isso, adotamos a nomenclatura da área de comunicação em nossas análises. Consideramos a reportagem aqui como composta por um corpo, que em nossas análises chamamos de corpo da reportagem (destacado em vermelho nas Figuras 7 e 8). Trata-se da parte mais linear da reportagem e, é preciso frisar, composta em geral pelas imagens e pelo texto escrito. Segundo o Dicionário de Comunicação, corpo do texto refere-se à “parte mais desenvolvida do texto de uma notícia.” (BELTRÃO, 2001, p.192- 193). Van Leeuwen (2006), ao discutir sobre a moldura dos elementos textuais, diz que “o molduramento” pode ser usado também para outros fins e de outras formas, para separar imagens de texto – ou caixas de texto do texto principal – no layout de uma revista, por exemplo. Observe-se que o autor menciona os termos ‘texto principal’ e ‘caixas de texto’, o que nos mostra que há uma tendência em “separar” partes de textos mais longos, como reportagens. No entanto, decidimos utilizar o termo corpo do texto para não criar uma hierarquia prévia entre os blocos informacionais, tendo em vista que usar texto principal poderia sugerir que um elemento do texto seria mais importante que outro, o que não ocorre neste trabalho. Compreendemos que todos os elementos textuais exercem seu papel 42 Reforçamos mais uma vez que utilizamos o termo “jornalista” no singular, mas entendemos que a produção de uma reportagem, assim como a de uma capa da revista, é uma atividade coletiva e polifacetada, já que envolve diversos profissionais. 66 na construção do sentido do texto, conforme postulados da Semiótica Social já discutidos, não havendo com isso motivo para uma hierarquização. Em nosso corpus, como ferramentas de enriquecimento empregadas pelo produtor do texto, encontramos entrevista, infográficos e outros textos informativos que aparecem em moldura diferenciada, ficando claro o não pertencimento deles ao chamado corpo da reportagem, o que nos leva a “nomeá-los” quando necessário. Outro elemento da reportagem relevante para nossas análises é o chamado “olho”, que é em geral um enunciado destacado do corpo da reportagem. Em algumas publicações da área de jornalismo, como em Manual da Folha de S. Paulo (1981), o chamado “olho” é entendido como um enunciado que vem antes do título, ou seja, refere-se ao antetítulo. No entanto, em outras publicações, é apresentado como “[...] pequeno trecho destacado da matéria [...]” (RABAÇA & BARBOSA, 2001, p. 291). Decidimos, por isso, utilizar o termo “olho” para designar as partes indicadas em azul, nas figuras 7 e 8, pois nos pareceu interessante por nos permitir deixar claro para o leitor a que elemento textual estamos nos referindo. Em geral, em nosso corpus, o chamado “olho” funciona como uma legenda para diversas fotografias. FIGURA 7 – Estrutura da reportagem: exemplo 1 Fonte: a autora 67 FIGURA 8 – Estrutura da reportagem: exemplo 2 Fonte: a autora As figuras 7 e 8 ilustram, portanto, a metodologia que adotamos para a análise dos textos do gênero reportagens, de forma a permitir ao leitor identificar a que parte estamos nos referindo. Em nossas análises observamos, portanto, como modos semióticos: layout, cores, tipografia, imagens (desenhos e fotografias) e escrita (modo verbal). Para a análise do modo verbal nossas análises contemplaram mais especificamente escolhas lexicais, assim como escolhas que evidenciam valorações presentes no texto, aplicando-se, portanto, o Sistema de Avaliatividade. Para os demais modos semióticos, empregamos os postulados de Kress & Van Leeuwen (1996, 2006), CITAR OS AUTORES DE CADA MODO SEMIÓTICO Apresentados os procedimentos metodológicos e o referencial teórico desta pesquisa, apresentaremos, nos próximos capítulos, as análises propriamente ditas. CAPÍTULO 2: A REPRESENTAÇÃO DOS SUSPEITOS NO CASO ISABELLA NARDONI Neste capítulo, apresentamos as análises dos textos referentes ao assassinato de Isabella Nardoni. Para tornar a exposição mais didática, apresentamos a análise de cada texto do corpus separadamente, procurando enfatizar os aspectos que julgamos/encontramos mais importantes na construção da representação dos suspeitos/investigados no caso em questão. Cada texto será brevemente contextualizado antes da respectiva análise, na qual, por sua vez, reproduziremos trechos dos textos com os dados nela mobilizados, sendo usado, para o modo verbal, negrito ou sublinhado para destacar os aspectos considerados relevantes. Entendemos por bem ainda organizar a análise por modo semiótico, examinando inicialmente os modos visuais, como layout e imagens, e, posteriormente, o modo verbal, que é o texto escrito. Isso não quer dizer, convém ressaltar, que abordamos todas as categorias presentes em cada modo semiótico e em todos os textos analisados, mas sim que daremos destaque, em cada análise, àqueles modos que permitam desvelar como os suspeitos dos crimes eleitos para análise são representados pela revista Veja. Após a análise da cada texto, na última seção deste capítulo, apresentamos uma compilação dos dados, destacando a representação evidenciada por nossas análises. Ao final desses procedimentos, elencaremos os resultados das análises, buscando explicitar uma representação mais global construída no conjunto de textos analisados e apresentar de modo sistematizado os elementos que possam responder à nossa questão maior na pesquisa, que procura saber se a forma de representar os suspeitos já os apresenta como autores dos crimes. É importante lembrar que nosso recorte temporal para o corpus contempla a etapa investigativa, que antecede o processo penal, ou seja, trata-se de um período em que a polícia busca as informações e provas necessárias para apontar o autor (ou autores) do crime. Por isso os textos selecionados abrangem o período que vai desde o crime até a publicação da primeira reportagem após o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público. Dessa forma, nesse período Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, que negam a autoria do crime, são considerados suspeitos e/ou investigados. Convém lembrar brevemente ainda aquilo que envolve o caso aqui contemplado, antes de seguirmos para as análises propriamente ditas. No dia 29 de março de 2008, a polícia foi chamada para atender à ocorrência em que Isabella Nardoni, 5 anos, tinha sido encontrada, ainda com vida, no jardim do condomínio em que morava seu pai, Alexandre 69 Nardoni, em São Paulo. A menina viria a morrer ao dar entrada no hospital no sábado 29 de março de 2009. Inicialmente, pensava-se ter havido um acidente, mas logo a polícia suspeitou do pai da criança, Alexandre Nardoni, e da esposa dele, Anna Carolina Jatobá, madrasta de Isabella, passando a tratar o evento como assassinato. Para a polícia, Isabella Nardoni teria sido agredida pelo casal e posteriormente arremessada do 6º andar do prédio onde seu pai morava. No dia 07 de abril de 2008, a Revista Veja publicou a primeira reportagem sobre o caso, que passamos a analisar. 2.1 Texto 1 – O anjo e o monstro Iniciando o exame dos textos relativos à morte de Isabella Nardoni, nesta seção analisaremos a reportagem publicada pela Revista Veja em 09/04/2008, cujo título é “O anjo e o monstro”. Esse primeiro texto acerca da morte de Isabella (doravante, texto 1) foi publicado pela revista Veja dez dias após o evento social. Analisaremos inicialmente o texto a partir dos modos visuais, como layout e imagens, e em seguida passaremos ao modo verbal. Começando pelo layout, é importante lembrar que esse modo implica uma análise que integra todos os modos semióticos utilizados no texto, permitindo examinar como os elementos textuais são organizados e quais significados potenciais essa organização pode gerar. No nosso exame do layout, por isso, observaremos como são realizados, a partir da organização composicional, os sistemas de valor da informação, saliência e moldura. Em outros termos, nossas análises abordarão a distribuição dos elementos nas páginas, considerando-se o posicionamento das informações (valor da informação); as conexões (ou desconexões) entre os elementos observados pelo sistema de moldura (framing); e a quais elementos são conferidos destaque (saliência). Esse exame, não é demais frisar, procurará identificar que representação dos suspeitos de assassinarem Isabella Nardoni o arranjo das páginas constrói. Assim, serão discutidos possíveis sentidos produzidos a partir das escolhas feitas pelos designers relacionadas ao layout. A reportagem que será analisada nesta seção é composta por duas páginas, que são apresentadas na Figura 9, a seguir, e no Anexo A, ao final deste trabalho. 70 FIGURA 9 – Layout 1: O anjo e o monstro Fonte: Veja, 09/04/2008, pág. 96-97 Em relação à composição do texto, observam-se na parte superior três fotos: uma de Isabella, bem à esquerda; uma foto de Anna Carolina Jatobá, centralizada, na divisão das duas páginas; e, por fim, mais à direita, uma foto do pai da criança, Alexandre Nardoni. A partir disso, constata-se que o texto é organizado numa estrutura top/bottom, levando a um possível caminho de leitura de cima para baixo. Além disso, em termos de saliência informacional, pode-se observar que a reportagem emprega maior destaque às imagens, levando o olhar do leitor diretamente para elas. Com isso, o modo verbal, disposto na região central e inferior do texto, ocupa posição secundária (frise-se, porém, não menos importante). Por meio do sistema de moldura, é possível notar que as imagens estão desconexas, tendo em vista a demarcação por espaços em branco entre os elementos textuais. Isso significa que é possível observar as imagens separadamente. Entretanto, as fotografias de Alexandre Nardoni e de Anna Carolina Jatobá formam rimas visuais, uma vez que apresentam características semelhantes, como o ambiente sombrio (que analisaremos adiante), em função da quantidade de policiais em volta dos PR-suspeitos e, também, da expressão facial dos suspeitos, marcada por uma indiferença (que analisaremos adiante). Em oposição às fotografias dos PR-suspeitos, a imagem da vítima, Isabella Nardoni, 71 estabelece uma desconexão por contraste visual, já que a menina foi representada por meio de olhar de demanda e expressando sorriso. Em relação ao valor da informação, inicialmente é possível constatar que a reportagem em análise instancia a informação a partir de uma configuração visual cuja estrutura é Dado/Novo, na qual a informação dada fica do lado esquerdo da página e remete a uma informação já conhecida pelo leitor, ao passo que o domínio do novo, do lado direito da página, apresenta uma informação não conhecida, logo, informação nova. Assim, do lado esquerdo, temos a imagem de Isabella, recebendo o valor de informação dada. Essa informação, uma vez que apresenta uma sorridente criança, pode ser relacionada à ideia de ingenuidade e fragilidade. Já do lado direito, as fotografias de Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni recebem o valor de informação nova. É importante esclarecer que a imagem de Anna Carolina está centralizada, mas, por criar uma rima visual com a de Alexandre Nardoni, podemos considerar que ambas se situam no domínio da informação nova. É preciso, ainda, observar outro bloco informacional, o título da reportagem, pois a relação entre título e organização das imagens é o que facilita a compreensão da análise. Essa relação, aliás, é prova da importância de uma análise ancorada na Multimodalidade e que considere a orquestração dos diferentes modos semióticos na produção do sentido do texto. Veja-se que as imagens na parte superior recebem destaque, pois ocupam boa parte do espaço textual. Além disso, as imagens vêm seguidas do título “O anjo e o monstro”, outro elemento textual que recebe saliência, neste caso, pelo tamanho das letras. Assim, a expressão “o anjo” refere-se à informação dada, mesmo valor informacional da imagem de Isabella. Isso permite inferir que “o anjo” refere-se à vítima. “O monstro”, em contrapartida, refere-se à informação nova, ou seja, inicialmente a Anna Carolina Jatobá. Entretanto, embora esteja no singular, o termo pode ser associado às duas fotografias dos dois suspeitos, pois, como já dissemos, as fotografias dos suspeitos formam rimas visuais e estão em contraste com a imagem da vítima. Além disso, o título e as imagens formam “rimas semântico-visuais”, já que a relação entre título e imagens é bastante clara. Sobre as rimas visuais convém lembrar que Van Leeuwen (2005) apresenta uma rede de significados composicionais usada normalmente na Semiótica Social para representar sentidos em potencial da organização textual; entre esses significados, está a rima visual, que afirmamos ocorrer no texto em análise. O autor explica que a rima visual ocorre quando dois elementos, embora separados, apresentam uma qualidade ou 72 característica em comum, como cor, forma ou angularidade (VAN LEEUWEN, 2005, p.13). No texto ora analisado, porém, aquilo que estabelece a rima visual não é uma característica comum relativa à forma, mas ao sentido, dando-se o que então nomeamos de rima semântico-visual. Desse modo, acreditamos ser possível aqui expandir a noção do autor. Isso porque, no texto ora analisado, nos parece clara a relação entre o título e a imagem, já que uma criança normalmente costuma ser associada a um anjo, principalmente com um sorriso e olhar meigo como o de Isabella nessa imagem, similar, portanto, a uma informação possivelmente já conhecida do leitor ou, nos termos da GDV, a informação dada. Já o domínio do Novo, do lado direito, apresenta uma informação contestável, não conhecida e até surpreendente para o que é socialmente esperado e aceito: o monstro como sendo pessoas tão próximas à criança, no caso, pai e madrasta. Convém analisar ainda mais detalhadamente o título, examinando como o produtor do texto expressa nele uma valoração em relação aos suspeitos. Como já afirmamos no Capítulo 1, a valoração é entendida como um recurso retórico e ideológico, pois registra no texto as Atitudes do produtor do texto em relação ao que se representa. Por isso, é preciso analisar o estrato léxico-gramatical deste bloco informacional. “Monstro”, não é difícil constatar, é uma palavra de valor semântico negativo. Desse modo, ao representar os suspeitos dessa forma, associando-os verbal e visualmente a um monstro, o texto faz emergir a forma como a reportagem mostra o casal. Percebemos, assim, a atitude do produtor do texto em relação aos PR-suspeitos, por meio de um Julgamento de Estima Social Negativo. O Julgamento, como já explicitado no Capítulo 1, pode ser de Estima Social ou Sanção Social. Estima Social aborda avaliações em que o participante pode ser elevado ou rebaixado socialmente, enquanto Julgamento de Sanção Social são avaliações relacionadas a conjuntos de regras definidos culturalmente de ordem moral ou legal (SILVEIRA, 2012, p. 91-92). Voltaremos a essa questão à frente, em nossas análises do modo verbal, quando a representação explicitada ficará mais evidente. Por ora, passamos a examinar outro elemento textual que pode levar o leitor a fazer a inferência sobre “o monstro” em questão: o “olho”, texto empregado logo abaixo da fotografia de Alexandre Nardoni, com o título “os suspeitos”. Essa escolha lexical empregada próxima à imagem dos suspeitos, explicando serem as fotografias referentes ao momento da prisão do casal, também permite ao leitor inferir que o “monstro” refere-se ao assassino. Assim, cria-se um potencial sentido de que “monstro” refere-se ao assassino; e, tendo em vista que o casal está sendo preso, pode também permitir que se entenda que o 73 “monstro” refere-se ao casal. Em suma, é possível constatar que se constrói a representação de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá como monstros, sugerindo-se, assim, a ideia de que o casal seria o autor do crime. Passaremos agora a analisar as imagens. Reproduzimos a seguir, na figura 10, apenas as fotografias 43 que foram empregadas na reportagem. FIGURA 10 – Imagens no texto 1: vítima e suspeitos Fonte: Veja, 09/04/2008, pág. 96-97 Em relação às fotografias presentes no texto, é possível notar que Isabella é representada em uma posição como se estivesse acuada, apesar de estar sorrindo. Isso pode levar o leitor a relacionar a imagem à fragilidade da vítima (o anjo) diante dos agressores (o monstro). Já Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni são representados a partir de expressões faciais “fechadas” e olhares distantes, direcionados a lugares incertos, o que demonstra uma indiferença com o interlocutor. Além disso, é preciso levar em consideração que, na fotografia de Alexandre Nardoni, o que está em primeiro plano são as costas do policial com destaque à palavra polícia. Isso pode revelar um possível sentido de criminoso para o pai de Isabella. A esse respeito, é digno de nota ainda a própria quantidade de policiais que conduzem os PR-suspeitos. Veja-se que ambos são conduzidos e cercados por diversos policiais, o que pode sugerir ao leitor que os escoltados são de alta periculosidade, reforçando a ideia de que se trata aí de criminosos. A partir dessas observações, a associação das imagens ao título da notícia fica ainda mais evidente, com a relação de “o monstro” com o pai e a madrasta da criança. 43 A fim de permitir uma melhor compreensão das análises, sempre que possível e/ou necessário reproduziremos parte do texto analisado, como imagens, por exemplo, para que o leitor possa recuperar o recurso ou modo que está sendo analisado. 74 Além disso, é importante observar que o fundo (background) das fotografias de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá privilegia a cor preta, remetendo a um ambiente sombrio, como adiantamos anteriormente. Soma-se a isso que esses PR, os suspeitos do assassinato, são apresentados com olhares de oferta, enquanto a foto da vítima é apresentada com olhar de demanda. Ao utilizar um olhar de demanda, quando o PR olha diretamente para o leitor, como é o caso da fotografia de Isabella, o produtor do texto cria uma aproximação com o leitor, endereçando um “você” visual por meio da imagem. Por outro lado, o olhar de oferta cria um distanciamento do leitor, pois o PR lhe é apresentado como um objeto. Observe-se que o enquadramento das fotografias reforça ainda mais uma ideia de aproximação com Isabella e de distanciamento em relação ao casal, uma vez que Isabella é fotografada mais de perto, de corpo inteiro, enquanto o casal é fotografado de longe. Isso permite dizer que os suspeitos são apresentados ao leitor em posição de contemplação, de observação, enquanto Isabella é representada numa posição de interação com o leitor, demandando engajamento de sua parte. A posição de contemplação, convém frisar, tem a ver não com admiração, mas com um possível julgamento social. Em resumo, é possível constatar, portanto, que, sem interação entre os PR-suspeitos e os PI, promove-se pela imagem um distanciamento entre eles, tornando o leitor um mero observador (e possível julgador) desses PR. Em relação ao enquadramento, pode-se observar que a foto de Isabella é tirada de corpo inteiro, sendo, por isso, uma imagem mais objetiva. Trata-se de mais um elemento que reforça a proximidade com o leitor, ao lado do fato de a garota estar sorrindo e olhando para o leitor, com olhar de demanda, como já mencionamos. Já as imagens do casal, são tiradas de meio corpo, com olhares indefinidos, como se não estivessem “nem aí” para o leitor, como se estivessem indiferentes em relação ao que está acontecendo, causando, assim, um distanciamento entre PR e PI. Como se vê, essa forma de representar tanto a vítima – mais próxima do leitor e sorridente – quanto os suspeitos – mais distantes, com imagem de meio corpo, olhares vagos e olhar de oferta – faz com que se crie uma imagem negativa do casal. Essa imagem será também constatada nas análises do modo verbal, para os quais nos voltamos agora no exame deste primeiro texto. Nesse sentido, vamos privilegiar o estrato semântico- discursivo, explicitando os efeitos de sentido a partir do Sistema de Avaliatividade, examinado a partir do estrato léxico-gramatical. 75 Inicialmente chamamos a atenção para o fato de que, para a representação dos suspeitos, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, o texto ora analisado apresenta uma narrativa de vida dos investigados, recurso que convém contextualizar aqui. Essa noção é empregada neste trabalho com base nos estudos de Machado (2015), que a incorporou aos seus trabalhos, a partir dos anos 2010, agregando-a à teoria Semiolinguística da linguagem (CHARAUDEAU, 2001), foco dos estudos da pesquisadora ao longo de mais de 20 anos de trajetória na área. Embora a autora explore a noção de narrativa de vida no estudo de biografias e autobiografias, consideramos válida a sua aplicação no exame do nosso corpus, que é composto de reportagens jornalísticas. Isso porque, apesar de não ser objetivo da reportagem fazer uma biografia dos suspeitos, há uma “contação” da vida dos investigados a fim de apresentá-los ao leitor, o que, a nosso ver, corresponde a uma estratégia discursiva de caráter retórico, sendo na Semiótica Social, um recurso semiótico do modo verbal. Sobre a narrativa de vida Machado (2015, p.95-96), afirma que As narrativas contam histórias, mas fazem mais que isso: elas detêm uma maneira de persuasão poderosa e que pode ser mais forte que a de muitas argumentações lógicas. [...] No domínio da análise do discurso sabe-se que nenhum ato de linguagem é aleatório e todos contêm um fim comunicativo preciso. No caso das narrativas, suas visadas buscam também influenciar os sujeitos-receptores, sua maneira de pensar ou de aceitar determinado relato; assim, elas vão levar tais sujeitos – leitores ou ouvintes – um pouco hipnotizados, a aceitar as estratégias que elas contêm. (MACHADO, 2015, p.95- 96). Podemos perceber, assim, que as ideias da autora apresentam certa afinidade com a Semiótica Social, teoria que ampara nosso estudo, na medida em que, ao abordar as narrativas de vida, ela reafirma que nenhum ato de linguagem é aleatório, ou seja, que o ato de linguagem é motivado pelo interesse do designer. Dessa forma, encontramos nessa noção empregada nos trabalhos de Machado (2015) um elemento relevante, que enriquece nossa análise, tendo em vista que a reportagem apresenta informações da vida pessoal do casal suspeito da autoria da morte de Isabella Nardoni. Além disso, entendemos ser possível o uso dessa noção em nossas análises, uma vez que estamos trabalhando em um domínio do saber mais abrangente, que é o da Análise do Discurso. Por isso, consideramos que o fato de trabalharmos com uma vertente diferente daquela na qual os trabalhos da autora supracitada se inserem não inviabiliza o diálogo desta pesquisa com os trabalhos da pesquisadora, mas, pelo contrário, torna possível enriquecer as pesquisas em Análise do Discurso como um todo. 76 Isso exposto, podemos nos voltar à narrativa de vida construída na reportagem em análise, que é utilizada, como já afirmamos, como recurso argumentativo, a que se somam outros aspectos valorativos observados no texto. Isso porque a “contação” da vida do casal vem carregada de aspectos valorativos que mostram a Atitude do produtor do texto em relação aos investigados. A valoração será analisada a partir dos pressupostos da Teoria da Avaliatividade, como temos afirmado, sob a perspectiva de White (2006, p.37), que entende que a valoração dos participantes funciona não somente como aspecto retórico, mas também ideológico. Assim, temos dois aspectos linguísticos a serem observados enquanto recursos argumentativos: a narrativa de vida e a valoração da vida dos investigados. Como veremos adiante, o uso da narrativa de vida nas reportagens evidencia, sobretudo, aspectos negativos da vida do casal, permitindo perceber a construção de uma representação dos investigados a partir de comportamentos tidos socialmente como negativos. Assim, o produtor do texto, por meio da narrativa de vida, apresenta sua avaliação em relação aos investigados, construindo sentidos e (re)significando suas atitudes, que serão analisadas por meio da Avaliatividade. Como já afirmamos no Capítulo 1, buscamos analisar os textos da forma como se apresentam, considerando-os como um todo, ou seja, nossa análise contempla uma perspectiva descendente (SILVEIRA, 2012, p.123), tomando o texto tal como é apresentado e construindo para ele uma interpretação semântico-discursiva. Nessa análise, por sua vez, buscamos os elementos mais pertinentes com aquilo que nos propusemos a analisar, que é como são representados os sujeitos suspeitos/investigados de casos de assassinato em que esses sujeitos negam a autoria do crime. Assim, buscamos observar nos textos, sobretudo em termos de Avaliatividade, como os elementos referentes a Afeto, Apreciação e Julgamento podem ser relacionados, a partir do estrato léxico-gramatical, à representação dos suspeitos, observando se essa representação pode direcionar a um significado potencial de culpabilidade, de atribuição de autoria, e, até mesmo, de uma condenação antecipada em relação ao julgamento Legal. É o que passamos a destacar. Em nossas análises no modo verbal, observamos que a narrativa da vida de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá traz aspectos negativos da vida do casal. Alexandre Nardoni é representado, no texto ora analisado, como uma pessoa violenta e desequilibrada emocionalmente, desvelando, pois, o Julgamento de Sanção Social Negativa, conforme pode ser percebido no trecho (1). 77 (1) Alexandre Nardoni é tido como uma pessoa violenta. Das quinze testemunhas ouvidas até agora pela polícia, dez afirmaram ter tido conhecimento de que ele agredia fisicamente a mulher. (Veja, 9/4/2008, p. 97, grifos nossos) Em (1) temos um Julgamento de Sanção Social que pode ser percebido pelo enunciado “Alexandre é tido como uma pessoa violenta”. O Julgamento é apresentado de forma suavizada pela uso da voz passiva “é tido”, mas não deixa de expressar uma opinião do produtor do texto em relação ao sujeito suspeito do crime. Soma-se a isso, a expressão final em que se afirma que ele “agredia fisicamente a mulher”. O emprego dessa expressão evidencia ainda mais o emprego de um Julgamento do comportamento de Alexandre Nardoni. Essa representação de Alexandre como uma pessoa violenta pode ser analisada como um Julgamento de sanção social negativa, porque se trata aí de um comportamento culturalmente imoral e mesmo ilegal, algo, por isso que, o rebaixa socialmente. Acrescente-se ainda que as valorações do produtor do texto, por meio do Julgamento de Sanção Social, pode criar um distanciamento desse sujeito ora representado em relação ao PI. Outro aspecto avaliativo do produtor do texto, em relação a Alexandre e Anna Carolina, pode ser percebido pelo emprego de sua Apreciação relativamente ao relacionamento do casal. O dia a dia da família, representado por meio do texto 1, é marcado por brigas, ciúmes e agressões, o que é percebido nitidamente pelo emprego das expressões “brigas frequentes e ruidosas” e “relação tensa”; importantes escolhas que contribuem para a construção de uma imagem negativa do casal, como demonstram os trechos de (2) a (4). (2) No prédio em que Nardoni e Anna Carolina residiam antes de se mudar para o atual apartamento, moradores contam que as brigas eram tão frequentes e ruidosas que já haviam resultado em quatro advertências por parte da administração do condomínio. (Veja, 9/4/2008, p. 97, grifos nossos) (3) Amigos de Anna Carolina afirmaram que a relação do casal era tensa desde o início do namoro. “Eles tinham muito ciúme um do outro. A Carol nem nos cumprimentava quando estava com o Alexandre”, conta um amigo que estudou com ela desde o colégio até a faculdade. (Veja, 9/4/2008, p. 97, grifos nossos) (4) Anna Carolina, disseram testemunhas à polícia, tinha particular ciúme da mãe de Isabella, a bancária Ana Carolina oliveira, que Nardoni namorou por cerca de um ano. (Veja, 9/4/2008, p. 97, grifos nossos) Analisando-se os recursos de Avaliatividade empregados nos excertos, pode-se constatar a Apreciação do produtor do texto em relação ao relacionamento do casal: trata- se, para o sign-maker, de uma relação tensa, tumultuada e marcada por ciúmes e brigas. 78 Além disso, percebem-se, também, marcas de Afeto intensificadas por elementos de Gradação, como na expressão “Muito ciúme”, que marca uma avaliação de afeto (ciúme) amplificada pelo advérbio “muito”. Ao mesmo tempo, isso pode ser considerado um Julgamento de Estima social negativa, já que se se enfatiza aí um comportamento que é visto de forma negativa. Lembramos que, no sistema de Afeto, os sentimentos são apresentados como reações humanas a um determinado estímulo (SILVEIRA, 2012, p. 93). Assim, consideramos que ciúme é uma reação emocional atribuída ao casal (em 2) e a Anna Carolina (em 3). Já o Julgamento de Estima Social se constrói pela representação negativa do comportamento de uma pessoa ciumenta, que não cumprimenta os amigos, como teria afirmado um amigo de Anna Carolina, conforme destacado pelo recurso sublinhado, no trecho (3). Além disso, observa-se, ainda, a ocorrência do sistema de Afeto intensificado por uma certa Gradação, que pode ser percebida pela expressão “Particular ciúme”, em que a palavra “particular” dá ênfase ao ciúme. Com isso, faz-se referência àquilo que Anna Carolina Jatobá, a madrasta, sentiria em relação à mãe de Isabella. Ressalte-se que essa Avaliação vem pré-ancorada no sistema Engajamento, a partir da voz do outro, o que comentaremos adiante. Outro aspecto da vida do casal presente na narrativa de vida está relacionado a insucessos profissionais, com o destaque para o fato de Ana Carolina Jatobá não ter terminado a faculdade e Alexandre Nardoni não ter sido aprovado na prova da OAB, conforme mostra o trecho (5): (5) O casal se conheceu em uma universidade de Guarulhos, onde ambos cursavam direito. Anna Carolina não chegou a se formar. Nardoni graduou-se em 2006, mas falhou em diversas tentativas de passar no exame da OAB , o que o impedia de advogar. (Veja, 9/4/2008, p. 97, grifos nossos) Veja-se que o que chama a atenção, mais imediatamente, no trecho (5) é a escolha lexical “falhou” para representar o insucesso de Alexandre Nardoni na prova da OAB. Ressalte-se que não se trata de uma reprovação, mas de uma falha. Assim, a escolha de uma palavra de valor semântico negativo desvela mais uma vez a Atitude do sign-maker em relação ao suspeito, Alexandre Nardoni, correspondendo, pois, a um Julgamento de Estima Social negativa. A partir do Sistema de Avaliatividade, percebemos também uma Atitude de Julgamento em relação a Alexandre Nardoni quando de seus depoimentos e prisão. O pai 79 de Isabella, segundo a reportagem, não chorou ao prestar depoimento, o que se pode observar no trecho que segue: (6) Os policiais que investigam o caso contam que o pai de Isabella não se abateu. “Ele não chorou durante o depoimento”, disse um investigador. “Só chorou quando o colocaram dentro da viatura que o levaria à detenção”. (Veja, 9/4/2008, pag 96-97, grifos nossos) O trecho (6) tende a causar estranheza no leitor ao representar um pai que não chora em razão da morte da filha, o que pode ser considerado também uma forma de distanciar o leitor desse sujeito, pois se espera que a morte de um filho, principalmente uma criança, cause profunda tristeza nos pais, sendo o choro, em nossa sociedade, uma forma de expressar esse tipo de emoção. Assim, estamos diante de um Julgamento de Estima Social Negativa relativa ao comportamento apresentado por Nardoni, que se revela um sujeito que não se comove, que não se emociona com a morte da criança. Isso cria para Alexandre Nardoni, sobretudo, a imagem de uma pessoa fria e sem sentimentos, o que pode produzir um potencial significado de um “monstro”, como empregado no título, levando, dessa forma, o leitor a tomá-lo como possível autor da morte da própria filha. Com efeito, trata-se da construção da ideia de uma pessoa fria, capaz, portanto, de cometer tal crime, o que implica que as escolhas feitas pelo produtor do texto podem levar o leitor a construir a imagem de um assassino. Além disso, o significado potencial de pessoas frias e assassinas é construído pelo texto a partir da Apreciação do evento, representado como um mistério: (7) A reação de Nardoni é apenas mais um elemento do mistério que reveste o assassinato cruel de Isabella, dona de um lindo e Angelical sorriso. (Veja, 9/4/2008, pag. 97, grifos nossos) Observando o estrato léxico-gramatical, percebemos em (7) que o uso da palavra “mistério” pode permitir duas inferências: primeiro, relacionar o vocábulo à autoria do crime, que ainda estava por ser esclarecida; segundo, compreender que “mistério” refere-se ao comportamento de Alexandre Nardoni. Em outros termos, a palavra mistério é empregada de modo dúbio, referindo-se ao assassinato e à autoria do crime, mas também podendo ser relacionada ao comportamento de Alexandre Nardoni. Isso porque um pai que perde uma filha e não chora ao falar do crime, pode ser, no mínimo, estranho e misterioso. Diante disso, o leitor tende a se posicionar contra o casal, em função das Atitudes do produtor do texto, apresentadas por meio de aspectos valorativos (negativos). 80 Nesse contexto, percebe-se que o contraste do fazer/não fazer representado por chorar/não chorar, associado às circunstâncias 44 que marcam o quando foi ou não feito isso (não chorou quando prestou depoimento logo após a morte da menina, mas tão somente quando foi colocado na viatura), sugere que o pai não se importa com a filha, mas apenas consigo mesmo. Isso porque Alexandre Nardoni, pai da vítima, não chorou ao prestar depoimento sobre a morte da filha, contrariando o que seria socialmente esperado, mas apenas ao ser colocado na viatura que o levaria para o local onde ficaria detido, informações que constroem para Alexandre uma representação de pessoa com uma preocupação centrada em si, além de uma pessoa fria, como já afirmamos. Assim, a partir das análises apresentadas, podemos dizer que o leitor é “convidado” a compreender o casal a partir de comportamentos negativos, associando-os ao “monstro” que matou Isabella. Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são representados, por meio do modo verbal a partir de características negativas, como pessoas violentas, ciumentas e fracassadas, reforçando o distanciamento deles em relação ao leitor, como evidenciado na análise dos modos visuais, sobretudo imagens, e permitindo ao leitor criar a imagem de pessoas frias. Concluída essa primeira análise, passaremos agora ao exame do segundo texto, a reportagem da edição nº 4122 da Revista Veja. 2.2 Texto 2 – Isabella continua a morrer Nesta seção analisaremos a reportagem publicada por Veja em 16/04/2008, que denominaremos texto 2. Trata-se de uma reportagem de duas páginas apresentadas na Figura 11, cujo título é Isabella continua a morrer. É importante lembrar que, quando esse texto é publicado, as investigações ainda estão em curso, sendo o casal, portanto, ainda suspeito do crime. À semelhança do que fizemos no texto 1, iniciaremos a análise do texto 2 pelos modos layout e imagens, passando, em seguida, ao modo verbal. Como veremos, o texto parece apresentar as informações a partir do ponto de vista da polícia, baseando-se nas 44 Conforme explicado no capítulo 1, a metafunção ideacional evidencia o significado representacional dos processos que ocorrem na experiência humana, seja no mundo interior ou exterior dos participantes. Essa metafunção é analisada a partir do sistema de transitividade composto pelo processo ou evento, pelos participantes – que são aqueles envolvidos no processo – e as circunstâncias. As circunstâncias são elementos no sistema de transitividade que dizem respeito, de modo simplificado a como, quando, onde o evento ocorre e estão associadas às “condições de realização dos processos, podendo ocorrer livremente em todos eles.” (MENDES, 2012, p. 276). Em outras palavras, indicam o local do processo no espaço e tempo, a extensão temporal, o modo como o processo se realiza, a causa do processo, entre outros. 81 informações prestadas pela Polícia Civil de São Paulo, de acordo com o andamento das investigações. O texto 2 está reproduzido a seguir na Figura 11 e no Anexo B, ao final deste trabalho. FIGURA 11 – Layout 2: Isabella continua a morrer Fonte: Veja, 16/04/2008, p.95-96 Primeiramente, observando o layout, percebemos que a reportagem instancia a informação privilegiando uma configuração cuja estrutura principal é Dado/Novo, semelhante à estrutura da reportagem anteriormente analisada. No entanto, o texto 2 remete a um possível caminho de leitura da esquerda para a direita, diferentemente do texto 1 que reforça, como vimos, um caminho de leitura de cima para baixo (top/down). Na composição do texto, é possível notar que a imagem de Isabella Nardoni é apresentada do lado esquerdo, domínio de informação dada, enquanto as imagens do casal são apresentadas do lado direito, no domínio de informações novas. A imagem de Isabella é apresentada em tamanho muito maior que os outros blocos de informação, o que confere saliência máxima a ela, atraindo, portanto, o olhar do leitor para a vítima. A saliência empregada na imagem da vítima pode fazer com que se crie uma aproximação dela com o leitor. 82 Em termos de enquadramento, pode-se perceber que a imagem de Isabella é apresentada a partir de um ângulo frontal em que a PR-vítima olha diretamente para o leitor. O ângulo frontal sugere envolvimento entre PR e PI, e as representações por meio desse ângulo remetem a algo do mundo do expectador, àquilo com que ele já está familiarizado, ao contrário do ângulo oblíquo, que sugere distanciamento. Portanto, Isabella é representada a partir de olhar de demanda, endereçando um “oi” visual para o PI, o que promove interação e cria afinidade com o leitor. Além disso, a vítima é apresentada com semblante tranquilo, sorrindo, apresentando um olhar terno e feliz, o que pode levar a uma sensibilização do leitor em relação a morte dela. No que se refere à distância social estabelecida entre PR e PI, a imagem de Isabella revela-se bastante próxima do leitor, tirada em plano médio, o que cria uma distância social curta entre os dois participantes. Além disso, o sorriso constante da vítima nas reportagens analisadas e a representação como uma criança doce reforçam esta aproximação com o PI, ou seja, o leitor. Quanto à moldura do layout, ela permite perceber que foram empregados diversos blocos informacionais desconexos, tendo em vista a existência de espaços em branco, delimitando bem cada um deles, como o título, a imagem de Isabella, as duas fotografias dos suspeitos e o modo verbal. Passando a analisar as imagens nas quais aparecem os suspeitos, observamos que há duas fotografias no centro da página: uma, que chamaremos de imagem 1, e está reproduzida a seguir na Figura 12, aparece um pouco desfocada, mas permite que se veja claramente o casal; a outra, que chamaremos de imagem 2, que para uma melhor compreensão do texto está reproduzida na Figura 13, é a de Anna Carolina possivelmente sendo conduzida. FIGURA 12 - Imagem 1 do texto 2: casal e filhos no supermercado Fonte: Veja, 16/04/2008, p.95-96 Como podemos observar, na imagem 1 aparecem o casal e três crianças no carrinho de supermercado, que são Isabella e os outros dois filhos do casal suspeito. A imagem é representada por meio de uma estrutura narrativa em que os PR parecem estar andando. Nela tanto Alexandre Nardoni quanto Anna Carolina olham para lugares não conhecidos 83 pelo PI, para fora da cena narrativa, o que faz com que sejam apresentados em posição de oferta e contemplação, não havendo estabelecimento de interação entre eles e o leitor. Além disso, a cena narrativa é representada por meio de um ângulo superior, o que confere poder ao leitor por torná-lo conhecedor de toda a cena narrativa. Do mesmo modo, na imagem 2, reproduzida na Figura 13, para melhor compreensão da análise, Anna Carolina é representada por meio de olhar de oferta, em que a PR, suspeita e investigada pelo crime, olha para um lugar não conhecido do leitor. FIGURA 13 – Imagem 2 do texto 2: Ana Carolina sendo conduzida por policiais Fonte: Veja, 16/04/2008, p.95-96 Acrescente-se ainda que Anna Carolina está cercada de outras pessoas, parecendo ser conduzida, evidenciando, com isso, uma representação narrativa em que ela parece ser a Meta dessa condução. Cabe destacar que, na cena, a madrasta de Isabella é representada como se fosse um animal domado pelas mãos de uma mulher que segura seu pescoço por trás, como se o tivesse empurrado para baixo, e de um homem, ao seu lado, que parece segurar uma de suas mãos. Em termos de valoração, por isso, o emprego dessa fotografia representa uma atitude negativa em relação ao PR, pois foi escolhida uma imagem que leva o leitor a pensar que a madrasta de Isabella é uma pessoa de alta periculosidade e feroz, que precisa ser dominada e imobilizada. Soma-se a isso que a imagem que vem centralizada, contribuindo para sua saliência, o que atrai o olhar do leitor para ela. Pode-se notar ainda que o fundo da imagem é escuro, em geral devido à presença de policiais em volta dos suspeitos, à semelhança do que vimos no texto 1, o que cria uma atmosfera negativa e sombria em torno dos PR. Pode-se destacar agora o contraste de cores preto/branco utilizado no título. O título da reportagem foi grafado com fundo preto, o que sugere obscuridade no caso. Esse bloco informacional é bem demarcado pela moldura e recebe saliência por, primeiro, ser o título, o que normalmente já lhe confere destaque; segundo, a moldura, que lembra um papel rasgado, com fundo preto e grafado em branco, contribui para o destaque conferido ao título da reportagem. Acrescente-se que o fundo escuro do título cria uma rima visual com 84 a imagem de Anna Carolina Jatobá sendo conduzida, pois nela também prevalece fundo escuro. A rima visual mencionada permite relacionar a madrasta de Isabella à morte da criança, tendo em vista que o papel rasgado transmite a ideia de obscuridade, morte, pista, mistério, agressividade e terror. Ademais, as palavras do título vêm bem delimitadas: na página em que está a foto de Isabella, há apenas o nome dela, ao passo que, na outra página, fica a parte relacionada à morte, bem como as imagens dos suspeitos, com destaque para a fotografia de Anna Carolina. Isso nos permite inferir que, de alguma forma, a morte da menina está relacionada ao casal ali representado. Encerradas as análises dos modos visuais, passaremos agora à análise do modo verbal, ou seja, do texto escrito. Ressaltamos, mais uma vez, que, para não perder de vista o objetivo principal desta pesquisa, que é como são representados os sujeitos suspeitos/investigados do assassinato de Isabella Nardoni, nossa análise privilegiará os aspectos do texto que contribuam de maneira mais evidente para essa representação. Inicialmente convém ressaltar que o enunciador emprega no texto 2 mais informações sobre o andamento das investigações, ao contrário do texto 1, que traz informação acerca da vida do casal por meio da narrativa de vida. A partir do Sistema do Engajamento, em que o produtor do texto traz outras vozes a fim de dar credibilidade ao que diz, é possível observar que o texto 2 faz ecoar em especial a voz das instituições investigativas do nosso ordenamento jurídico: a Polícia Civil, que investiga, e o Ministério Público, que investiga e denuncia os acusados no caso de um crime doloso contra a vida 45 . Assim, a partir da voz dessas instituições, o andamento das investigações vai sendo informado ao leitor, como mostram os trechos (8) e (9): (8) Algumas das recentes revelações da polícia: Alguém tentou modificar a cena do crime: no dia da morte de Isabella, peritos que acompanharam os policiais ao apartamento em que Nardoni vive com Anna Carolina e os dois filhos do casal notaram vestígios de sangue em diversos lugares. Dois dias depois do assassinato, quando a equipe voltou ao local para novas coletas, percebeu que os vestígios que eram mais visíveis – e que estavam localizados na maçaneta da porta de entrada do apartamento e no parapeito da janela do quarto de onde Isabella caiu – haviam sido removidos. A presença anterior das marcas pôde ser constatada por meio da aplicação de produtos químicos. (Veja, 16/4/2008, p. 94- 95, grifos nossos) (9) Ainda de acordo com policiais, Alexandre e Anna Carolina só desceram para acudir Isabella depois de ligar para seus pais. (Veja, 16/4/2008, p. 95, grifos nossos) 45 Crimes dolosos contra a vida são aqueles previstos nos artigos 121 a 126 do Código Penal, Decreto-lei nº 2.848/1940, quais sejam: homicídio; induzimento, instigação ou auxílio por terceiro a suicídio; infanticídio; e alguns casos de aborto. 85 Analisando o texto a partir do estrato léxico-gramatical, é preciso destacar o emprego do pretérito perfeito do indicativo, que permite dar às ações apresentadas uma dimensão factual/real: em (8), afirma-se que alguém tentou modificar a cena do crime; policiais notaram vestígios de sangue; a equipe percebeu que os vestígios de sangue haviam sido removidos. Isso mostra também um posicionamento ideológico em relações às instituições “polícia” e “ministério público”: trata-se de instituições detentoras de autoridade e, consequentemente, de razão. Assim, a essas instituições se dá voz, e, como já afirmamos, suas falas e informações são tratadas como ações acabadas, dando um sentido de verdade ao que é narrado. Neste ponto, evidenciamos os ensinamentos de Fairclough (2001, p.144), segundo os quais se pode “considerar que a mídia de notícias efetiva o trabalho ideológico de transmitir as vozes do poder.” Essa ação de dar voz ao poder é perceptível no texto ora analisado. Assim, constatamos que o texto 2, embora se construa mais com informações relacionadas ao andamento das investigações, retrata o casal, quando se volta para ele, sempre de forma a relacioná-lo ao crime como seus prováveis autores por meio alguma informação repassada pela polícia sobre o curso das investigações, como se pode notar no trecho que segue: (10) Segundo o rastreamento das ligações telefônicas feitas por Anna Carolina e Alexandre logo depois do crime, eles não telefonaram para a polícia nem para o resgate. Quem acionou o socorro foi um vizinho, alertado pelo porteiro sobre a queda da criança. Ainda de acordo com policiais, Alexandre e Anna Carolina só desceram para acudir Isabella depois de ligar para seus pais. (Veja, 16/4/2008, p.95, grifos nosso) No trecho (10), há o emprego de uma crítica ao comportamento do casal ante a queda de Isabella feita por meio de um Julgamento de Estima Social negativa. Veja-se que o excerto em questão representa o casal de forma negativa ao afirmar que não foram eles que ligaram para o socorro, mas um vizinho. Nele não há descrição da reação do casal frente à queda da criança, mas é possível inferir que há (re)ações que talvez não fossem esperadas, como ligar primeiro para os pais para depois descer para socorrer Isabella. Embora não viole regras, esse comportamento foge ao esperado, rebaixando os sujeitos perante a sociedade, fazendo com o que leitor duvide de suas (re)ações. Isso faz com que se crie, em suma, uma imagem negativa dos suspeitos, permitindo que o leitor vá tecendo a ideia de pessoas ruins, e relacioná-los aos assassinos da criança. Além disso, é preciso lembrar que apresentar essas informações é uma escolha do produtor do texto na sua representação do evento, escolha que permite que o casal seja apresentado 86 a partir de um ponto de vista negativo, que ressalta comportamentos estranhos para a situação. Seguindo com a análise do modo verbal, pode-se destacar agora o subtítulo, no qual há um posicionamento do designer em relação ao evento social em função de um direcionamento à ideia de punição. O subtítulo apresenta o enunciado: “Revelações aumentam a suspeita em torno do pai e da madrasta de Isabela, mas até agora, a morte da criança permanece um crime sem culpados” (Veja, 16 de abril de 2008, p. 95, grifo nosso). Assim, o emprego da expressão um “crime sem culpados” permite inferir que é necessário um culpado para o crime. Veja-se que, com isso, não se busca necessariamente nem entender o que aconteceu nem conhecer o autor das agressões a Isabella, mas culpar alguém. Podemos dizer, então, que o texto ora analisado encerra um posicionamento discursivo de culpabilidade 46 . Acrescente-se a isso que o texto apresenta um posicionamento voltado para a busca por punição, o que pode ser percebido no trecho “[…] seu assassino continua desconhecido e impune” (Veja, 16/4/2018, p. 94). Assim, a partir do estrato léxico-gramatical, percebemos um posicionamento ideológico punitivista, construindo-se a seguinte representação: houve um crime, por isso o autor, responsável deve ser conhecido (descoberto) e punido. Trata-se de um posicionamento que pode influenciar negativamente o leitor na busca por punição. Ademais, isso pode ainda ser relacionado ao título da matéria: “Isabella continua a morrer”, ou seja, se não forem encontrados e punidos os culpados, ela continua a morrer (ou sofrer), e isso só terá fim com a punição aos culpados, reforçando-se um posicionamento de culpabilidade. Assim, nota-se que as escolhas verbais conduzem para uma representação de busca por culpados, como se isso fosse aliviar o sofrimento de Isabella. Cabe, ainda, examinar algumas unidades lexicais utilizadas no texto. Lembramos que, quando a reportagem foi publicada, a polícia, apesar de seguir a linha de investigação segundo a qual o casal seria de fato o autor do crime, ainda não afirmava isso. Isso explica a recorrência da palavra “permitir” para relacionar o casal ao acontecido: 46 É importante esclarecer que no sistema jurídico, o indivíduo somente é considerado culpado após o trânsito em julgado da sentença condenatória, que já explicamos anteriormente. Na fase investigativa, o que a polícia busca é evidenciar a ocorrência do crime e apontar os possíveis autores para tal crime. Assim, como já explicamos, após o inquérito, o sujeito é indiciado e se torna réu na Ação Penal, ou oficialmente acusado. Somente após a ação penal é que poderá ser considerado culpado. Neste caso, após ser julgado pelo Tribunal do Júri e a pena definida por um juiz. Além disso, ressaltamos mais uma vez que não empregamos o termo culpabilidade de acordo com o sentido jurídico do mesmo, mas em um sentido amplo, como já explicado. 87 (11) O promotor afirmou que “informações preliminares dos laudos do Instituto de Criminalística permitem vincular Alexandre e Anna Carolina às agressões sofridas pela menina antes de ser jogada do 6º andar”. Disse ainda que os laudos “também permitem vincular pai e madrasta ao que ocorreu na cena do crime”. (Veja, 16/4/2008, p. 95, grifos nossos) As escolhas lexicais em (11) mostram uma probabilidade de o casal ser o envolvido, pois “permite vincular”, cujo sentido é diferente do emprego do verbo “vincular” apenas. Ou seja, trata-se de uma hipótese interpretativa das provas e dos indícios. Daí inclusive a importância de se obedecer ao ordenamento jurídico e de permitir aos suspeitos, que no curso do processo penal passam à condição de acusados, o direito ao contraditório e à ampla defesa. No entanto, ao final da reportagem, o posicionamento do produtor do texto em relação a Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá é mais claro, ao relacionar o casal à morte da criança e deixar implícito que eles estariam mentindo. A reportagem finaliza com o enunciado “Até lá, a brutalidade que atingiu Isabella continuará ecoando em forma de dissimulação, mentira e covardia” (Veja, 16 de abril de 2008, p. 96), retomando, por meio de referenciação, toda a reportagem que diz, mesmo usando a voz do outro, que os autores do crime, pai e madrasta, continuam mentindo, já que todas as informações da Polícia, do Ministério Público ou da perícia permitiriam vincular o casal à autoria do crime. Assim, percebe-se a Apreciação do produtor do texto em relação ao evento social e a Atitude, por meio de Julgamentos, em relação aos que são tidos como autores do crime: trata-se, em suma, de uma brutalidade causada por mentirosos e covardes. Diante do exposto, nossas análises mostram que o texto tende a representar a morte de Isabella Nardoni como um assassinato. Os suspeitos, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, por sua vez, são representados por meio de Julgamentos de Estima social negativa, o que faz com que se crie uma imagem negativa deles. Além disso, ao criar uma representação negativa do casal e ao encerrar uma apreciação de culpabilidade em relação ao crime, buscando-se culpados, pode levar o leitor a compreender o casal como os mentirosos e covardes que mataram Isabella. Vê-se que se projeta um potencial sentido de atribuição de autoria ao casal suspeito. Ressaltamos mais uma vez que não estamos avaliando o trabalho da imprensa, tendo em vista principalmente que não houve outra linha investigativa por parte da polícia, mas estamos apontando significados possíveis que possam nos mostrar como o casal foi representado. Até aqui, nossas análises têm mostrado que o casal vem sendo representado de forma negativa, de maneira a criar uma imagem ruim deles que vai levar a uma 88 conclusão muito comum na sociedade: somente dois monstros, duas pessoas ruins, como eles são representados, poderiam matar brutalmente uma criança meiga como Isabella. 2.3 Texto 3 – Foram eles Analisaremos nesta seção a capa da Revista edição nº 4123, publicada em 23/04/2008, quase um mês após a morte da menina. O texto analisado nesta seção será denominado como texto 3 e será analisado separadamente da reportagem publicada na mesma edição, que será analisada na seção seguinte. O texto 3 pode ser consultado em tamanho próximo ao original no Anexo C e foi reproduzido, em tamanho menos, na Figura 14. Antes de apresentar nossa análise, é preciso tecer algumas considerações acerca da capa de revista. Segundo Gomes (2010), a capa de revista é um gênero discursivo que tem como propósito inicial vender a revista, servindo, portanto, de chamariz para captar a atenção do leitor para a compra da revista. A capa de revista é, dessa forma, caracterizada “enquanto um gênero multimodal capaz de combinar variadas semioses significativas, em sua composição, tais como: cores, imagens gráficas, textos verbais” (GOMES, 2010, p. 303). Diante das afirmações da pesquisadora, nossa análise nos leva a perceber que o produto que se pretende vender é a ideia de que o casal foi responsável pela morte de Isabella Nardoni. Para tanto, o sign-maker emprega diferentes recursos semióticos, como demonstraremos. 89 FIGURA 14 – Layout 3: Foram eles Fonte: Revista Veja, 23/04/2008, Capa No que se refere à construção do espaço visual da capa de revista, é possível perceber que diversos recursos semióticos foram usados para passar ao leitor a ideia de que pai e madrasta assassinaram a menina. Isso é uma característica das capas de revista, pois seriam o chamariz para venda, ou talvez pudéssemos chamar de a publicidade própria da revista. Em função disso, observamos que a leitura da capa é mais imagética que escrita. Por isso, na análise do texto 3, contemplaremos o layout, o uso da tipografia, do sistema de cores e as imagens, sobretudo a perspectiva do olhar, a partir da metafunção interpessoal. Iniciando pelo layout, pode-se notar que se confere destaque ao enunciado “Foram Eles”, para o qual é levado o olhar do leitor depois de ver as imagens. O molduramento dos elementos textuais, porém, mostra que os blocos informacionais estão conexos, constituindo uma integração imagética e intermodal, ou seja, modo verbal e modos visuais estão integrados, fazendo com o que os blocos informacionais sejam lidos como um único elemento. Assim, o texto é organizado de forma que o caminho de leitura tende a ser circular, levando o olhar do leitor da imagem para o enunciado e novamente para a imagem, podendo ser resumido e ilustrado da seguinte forma: 90 FIGURA 15 – Caminho de leitura – texto 3 Fonte: a autora Ressalte-se que, na imagem, apenas o olhar dos suspeitos recebe iluminação, o que confere saliência a esse elemento textual, enquanto nos demais elementos prevalece o preto. Assim, a imagem, e mais especificamente o olhar dos PR, forma uma rima visual com a escrita “Foram Eles”, que também é a única parte do modo verbal grafada em branco. Essa rima visual reforça o caminho de leitura circular. Em relação ao valor conferido aos blocos de informação em função da posição no texto, por sua vez, pode-se perceber que o modo verbal é empregado no domínio do real. A inclusão de tal informação do domínio do real apresenta a chamada como um elemento específico, sugerindo que a informação seja verdadeira. É importante destacar que o enunciado é realizado não somente por modo verbal, mas também por tipografia enquanto recurso semiótico, razão pela qual ambos serão considerados nesta parte da análise. Tendo em vista a forte conexão entre os elementos textuais, vamos analisar primeiro o uso da tipografia, que se constitui importante recurso semiótico na construção dos possíveis sentidos no texto ora analisado, passando posteriormente ao sentido depreendido no modo verbal. Como lembram Van Leeuwen & Djonov (2015), teorias acerca dos significados de diferentes tipografias em textos estão em desenvolvimento. Isso não nos impede de fazer aqui algumas considerações sobre o uso da tipografia como um recurso semiótico visual no texto em análise. A tipografia foi explorada pelo produtor do texto em questão de modo a dar ênfase ao enunciado “Foram eles”. É possível observar que se emprega fonte menor para uma parte da afirmação, introduzida por meio do sistema do Engajamento, a expressão “para a polícia”, de tal forma que o que fica mais evidente para o leitor é o enunciado “Foram eles”. Com efeito, as letras grafadas em tamanho maior e em maiúsculo no enunciado “Foram eles” conferem saliência a esse enunciado, o que, em termos ideacionais, leva o leitor a associar o casal à autoria do assassinato de Isabella Nardoni. 91 Além disso, quando em um texto certas palavras recebem saliência, como ocorre no enunciado ora analisado, isso pode significar que nesse elemento destacado estão as ideias mais importantes (MACHIN, 2007, p.94). Acrescente-se a isso, ainda, o fato de que a ausência de serifas 47 na tipografia empregada confere objetividade ao título (CARVALHO, 2009, p.7). Todas essas características fazem com que a autoria do crime seja associada ao casal. Frise-se ainda o que já foi afirmado sobre o caminho de leitura. Trata-se de um caminho circular que vai do enunciado para a imagem e deste de volta àquele, o que deixa explícita a atribuição de autoria ao casal. É importante ainda mencionar, a ênfase conferida ao enunciado “Foram eles” funciona como forma a captar a atenção do leitor, já que o tamanho da letra maior pode ser usado para persuadi-lo (MACHIN, 2007, p.92). Além disso, se pensarmos em termos textuais, o tamanho mostra uma inversão de significados, trazendo como Tema o que está em letra maior e como Rema o que está em letra menor, ou seja, como informação mais importante e destacada, como já afirmamos. Convém contextualizar aqui e emprego de Tema/Rema ainda não aplicado neste trabalho. Halliday & Matthiessen (2004) seguem a terminologia da escola de Praga para identificar os elementos na metafunção textual, dividindo a sentença em Tema e Rema. Tema é o elemento que vem primeiro, que serve de ponto de partida da mensagem, enquanto Rema é o restante, é onde o tema é desenvolvido. Dessa forma, os elementos são escolhidos pela ordem, ou seja, aquilo que vem primeiro é o Tema. Isso nos permite observar que, por meio do emprego de letras maiores para o segundo enunciado, conferindo saliência a ele, cria-se uma inversão na organização Tema/Rema. Dessa forma, título e imagem se conectam, levando o leitor a construir uma imagem desfavorável do casal, atribuindo a eles a autoria do assassinato de Isabella Nardoni. Convém esclarecer que, quando o texto em análise foi publicado, o casal acabara de ser indiciado pela polícia, ou seja, a fase de investigação fora encerrada, tendo a polícia concluído que havia indícios e provas suficientes de que o casal era o responsável pela morte de Isabella Nardoni. De todo modo, seguindo os objetivos desta pesquisa, cumpre- nos analisar se há um direcionamento de pré-julgamento ou pré-condenação, considerando a organização textual em análise. Nesse sentido, vamos abordar outros elementos que nos permitem compreender como o casal é representado por Veja a partir no texto em análise. Esse é o caso do sistema de cores empregado como recurso semiótico no texto analisado. Kress e Van Leeuwen (2002) discutem os tipos de significados que o uso de 47 Na tipografia, as serifas são os pequenos traços e prolongamentos que ocorrem no fim das hastes das letras. 92 cores, enquanto recursos semióticos, pode desempenhar nas práticas sociais atuais, lembrando que elas não existem isoladas de outros modos semióticos. Assim, levaremos em consideração os postulados desses autores acerca do sistema de cores. No texto 3, podemos observar que é usado o preto, como cor de fundo, mais precisamente cobrindo na imagem a cabeça dos suspeitos, deixando visível apenas seus olhos. Com esse predomínio de cores mais escuras, com pouca iluminação, cria-se uma atmosfera negativa. Acrescente-se a isso que a cor preta empregada encobre a cabeça dos PR, o que pode passar a ideia de que se trata aí de mentes sombrias, construindo, mais uma vez, uma imagem negativa dos PR-suspeitos. Além disso, o contraste claro/escuro também é empregado no título do texto 3. Veja-se que o enunciado “Foram Eles” é grafado em cores mais claras, ganhando destaque em contraste com o fundo escuro. Soma-se a isso que o único ponto iluminado na página está no olhar de Alexandre e Anna Carolina, ou seja, é possível perceber que a parte clara refere-se a eles, reforçando a atribuição de autoria do crime ao casal. O contraste de cores preto e branco pode permitir ainda que se faça uma relação das cores com o desnudamento de um assassinato, a saber: o que ocorreu, quem o fez e o crime estão ligados ao escuro (preto); já o claro, representado pelo rosto dos investigados, parece iluminar e revelar o que estava escondido, ou seja, os assassinos. Analisando-se com acuidade as imagens, mais especificamente o rosto de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, observa-se ainda que os PR são representados a partir do olhar de oferta, o que acarreta um distanciamento do leitor, pois é possível notar que ambos olham para um lugar incerto e desconhecido, para fora da cena narrativa. Tanto o olhar de Anna Carolina quanto o de Alexandre Nardoni são representados em close shot, bem de perto, permitindo ao leitor a construção de significados desses sujeitos pelo olhar que é mostrado. O casal figura, em suma, em uma posição de contemplação e passível, portanto, de julgamentos, de tal modo que o leitor tende a inferir que os PR são pessoas frias, algo reforçado pela expressão facial de indiferença. Observamos, portanto, que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são representados como prováveis autores da morte de Isabella. Em outras palavras, a autoria do assassinato de Isabella Nardoni é atribuída ao casal no texto analisado. A representação deles é construída, no que diz respeito ao do sistema de cores, por meio de contraste claro/escuro, criando uma atmosfera sombria. Além disso, a tipografia utilizada promove uma inversão nos enunciados de tal modo que atribui a autoria da morte da criança ao casal. Da mesma forma como já observado nos outros textos, o casal é representado a 93 partir de olhar de oferta, criando um distanciamento do leitor. Esses dados evidenciam que, pela tipografia, pela conexão dos blocos informacionais e pela relação entre modos semióticos, a autoria do crime é atribuída ao casal. 2.4 Texto 4 – Frios e dissimulados Continuando nossas análises acerca do caso Isabella Nardoni, passaremos nesta seção à reportagem publicada por Veja no dia 23 de abril de 2008, à qual nos referiremos como texto 4. Trata-se da mais longa reportagem publicada pela Revista sobre o caso, contendo ao todo oito páginas, que podem ser consultadas no Anexo D desta tese. No texto 4, analisaremos o layout, as imagens, a tipografia e o modo verbal. Para ficar mais didática nossa exposição, os modos visuais serão analisados em dois momentos: inicialmente analisaremos as duas primeiras páginas, abordando layout, título e imagens; em seguida, analisaremos o layout e as imagens relativos a cada duas páginas. Feito isso, seguiremos, por fim, à análise do modo verbal da reportagem como um todo. Exposta nossa metodologia de análise para o texto 4, observem-se as duas primeiras páginas, apresentadas na Figura 16. FIGURA 16 – Layout 4.1: Frios e Dissimulados Fonte: Revista Veja, 23/04/2008, pag. 84-85 94 Considerando a composição dessas duas primeiras páginas da reportagem, observamos, na parte superior, o Título – Frios e Dissimulados – seguido de imagens (desenhos e fotografias) do casal investigado e da vítima e o modo verbal, ou seja, o texto escrito, empregado entre o título e as imagens, funcionando como um mediador. Iniciando nossa análise pelo layout, que chamamos de layout 4.1, é possível observar que o texto é organizado a partir de uma demarcação horizontal, ou seja, a informação é instanciada em uma estrutura top/bottom. O sistema de moldura nos leva a compreender que as imagens estão conexas, formando, assim, um grande bloco informacional por meio de uma integração imagética, já que as imagens estão bem juntas, sobrepostas, marcadas por ausência de espaços em branco entre elas. Além disso, as imagens de Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni formam rimas visuais pela semelhança da expressão facial, ao mesmo tempo em que se mostram em contraste com a imagem de Isabella, que sorri. Ademais, o título também forma uma rima semântioco- visual com as imagens dos suspeitos, por meio do sentido das palavras nele empregadas, como explanaremos a seguir e conforme postulado por nós na seção 2.1. No layout 4.1, confere-se saliência ao título e às imagens, levando a um possível caminho de leitura circular que leva o olhar do leitor do título para as imagens e destas ao título novamente, de modo semelhante ao que explicitamos em relação ao texto 3. A saliência conferida a esses elementos, assim como o caminho de leitura mencionado, permite associar o enunciado do título ao casal suspeito da morte de Isabella. Assim, frios e dissimulados são adjetivos atribuídos a Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni. Quando se confere saliência a determinado elemento no texto, destacando-o, isso sugere que a ideia principal do texto está naquele elemento. Diante disso, faz-se necessário analisarmos com mais cuidado o título e as imagens. Para tanto, iniciaremos pelo título, destacando primeiro os possíveis sentidos veiculados por meio da tipografia empregada e, em seguida, por meio dos recursos verbais. O título é apresentado a partir do uso de uma tipografia que confere saliência à chamada da reportagem, a fim de captar a atenção do leitor: ele é grafado em negrito, em tamanho maior e com contornos grossos. O uso do negrito já é um fator que confere saliência ao texto (VAN LEEUWEN, 2006), além de conferir peso aos caracteres, transmitindo a ideia de solidez e assertividade à mensagem. Além desse recurso, o título ocupa toda a extensão horizontal superior das páginas, o que mostra que o texto de Veja busca persuadir o leitor por meio da chamada da reportagem. 95 Analisando-se possíveis significados veiculados pelos recursos verbais, no título da reportagem, pode-se observar, a partir do Sistema de Avaliatividade, que o produtor do texto expressa uma valoração em relação aos suspeitos, empregando os adjetivos “frios” e “dissimulados” diretamente associados ao casal. Em outros termos, o produtor do texto emprega um Julgamento de Estima Social negativo, tendo em vista que frieza e dissimulação são comportamentos comumente rejeitados socialmente. Convém ainda considerar que frieza, se relacionada a um possível suspeito de homicídio, permite fazer a inferência de pessoas sem sentimentos, que não expressam emoções, característica, não raro, associada a psicopatas. Embora não haja no texto em análise nenhum direcionamento para uma representação do casal como pessoas com traços de psicopatia, uma inferência assim é possível a partir dos sentidos potenciais das escolhas feitas pelo produtor do texto. Acrescente-se ainda que o emprego desses adjetivos no título “Frios e Dissimulados” evidencia a Atitude do designer em relação aos suspeitos. Tratam-se de Julgamentos de Estima Social negativos, que podem permitir ao leitor atribuir um potencial significado de mentira aos depoimentos do casal. Associando-se os depoimentos dos PR-suspeitos a possíveis mentiras, por sua vez, pode-se levar o leitor a concluir que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são os autores do crime, criando-se, assim, a representação deles como assassinos. Fechada a análise do título, é preciso analisar as imagens, que misturam desenhos e fotografias, característica que abordaremos adiante, e que ocupam quase toda a página. Veja-se que as imagens são apresentadas em tamanho desproporcional em relação ao texto, o que evidencia a saliência conferida a elas, sugerindo que os possíveis sentidos do texto podem ser observados por meio das imagens. Considerando os significados interpessoais, é possível perceber nas imagens que a PR-vítima é representada com um sorriso, por meio de olhar de demanda, direcionado para o leitor, com o qual se aproxima, estabelecendo interação. Os PR-suspeitos, Anna Carolina e Alexandre Nardoni, por outro lado, são mais uma vez representados com olhar de oferta, em que olham para lugares incertos. A representação de um PR por meio do olhar de oferta, já dissemos aqui, cria um distanciamento do leitor, já que aquele fica numa posição de oferta de informação. Nesse sentido, o olhar de oferta, no contexto da representação de homicídios, pode criar um sentido potencial de frieza e dissimulação, deixando evidente que os adjetivos do título podem ser direcionados a Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni. 96 Isso é reforçado ainda pelo fato de que tanto Alexandre Nardoni quanto Anna Carolina Jatobá foram fotografados com face séria e semblante fechado, não expressando simpatia ou traços de emoção. Diante disso, pode-se perceber que possíveis significados produzidos pelas imagens vão ao encontro do significado produzido pelo título, reforçando a representação do casal como pessoas insensíveis e dissimuladas. É preciso analisar ainda o retângulo que parece um vidro destacando o rosto dos PR. Antes, porém, cumpre-nos tecer uma breve diferenciação entre desenhos e fotografias enquanto recursos semióticos. Bezemer & Kress (2009) fazem uma distinção entre fotografia e desenho, afirmando que: As fotografias e desenhos são crucialmente diferentes em termos do sentido do "real" que invocam. A maioria das fotos mostra instantâneos de pessoas "reais" e objetos "reais", em preto e branco. A maioria dos desenhos mostra um mundo "imaginado", com pessoas imaginadas, animais, objetos, em cores (p.254, tradução nossa) 48 . O trabalho de Kress & Bezemer (2009) se insere em um contexto de análises de livros didáticos e das imagens neles presentes. No entanto, podemos trazer essa reflexão também para a presente pesquisa, pois, quando se escolhe representar algo por meio de uma fotografia e não por meio de um desenho, produz-se um sentido diferente. Tomando os ensinamentos dos autores, podemos dizer que fotografias são mais próximas do real, enquanto os desenhos são mais distantes. Assim, entendemos que os desenhos foram criados pela revista Veja para representar uma realidade, a realidade que os designers enquanto produtores do sentido desejam representar. As fotos, por seu turno, retextualizam uma realidade, uma vez que foram tiradas em certo contexto, mas, ao serem colocadas nas reportagens, retextualizam a realidade, recriando-a. Pode-se compreender, portanto, que diferença está mais centrada na proximidade ou distancia do real, sendo que a fotografia é mais realística, ou seja, mais próxima da realidade, enquanto o desenho é menos realístico e, portanto, mais distante da realidade. Nesse sentido, a face dos PR representada por meio de fotografias cria um sentido de realidade para o texto, em contraposição ao restante da imagem que é composta por meio de desenhos. Analisadas as páginas 84-85, apresentamos na figura 17, a seguir, as páginas 86-87 da reportagem do dia 23/04/2008. Seguindo com as análises dos modos visuais, 48 No original: “The photographs and drawings are crucially different in terms of the sense of the ‘real’ they invoke. Most photos show snapshots of ‘real’ people and ‘real’ objects, in black and white. Most drawings show an ‘imagined’ world, with imagined people, animals, objects, in full colour” (BEZEMER E KRESS, 2009, p.254). 97 analisaremos o layout, que para fins didáticos chamamos de layout 4.2, e as imagens das páginas em questão. FIGURA 17 – Layout 4.2 Fonte: Revista Veja, 23/04/2008, pag. 86-87 O texto observado na figura 17 está, em relação à composição textual, organizado verticalmente, tendo em vista o emprego de um bloco informacional na parte superior e outro na parte inferior. Assim, por meio do sistema de moldura, verificam-se dois grandes blocos informacionais: o infográfico, na parte superior, e o texto que dá corpo à reportagem, na parte inferior, que apresenta imagens e texto escrito. Tendo em vista que o infográfico é empregado das páginas de 86 a 90, estando presente, além de no layout 4.2, nos layouts 4.3 e 4.4, vamos analisar esse bloco informacional separadamente, após apresentar todas as seis páginas. Por ora, analisaremos o bloco informacional inferior da figura 17. Na composição do texto, há duas fotografias dos suspeitos, uma mais à direita e outra mais à esquerda. Assim, na parte inferior do layout 4.2, a informação foi organizada em uma estrutura margem-centro, já que as imagens recebem saliência pelo tamanho que ocupam na página. Além disso, as páginas foram organizadas composicionalmente semelhante a um espelhamento, já que há uma fotografia em cada margem, enquanto no centro há o emprego do modo verbal. 98 Além disso, a moldura indica, a partir do emprego de espaços em branco entre os elementos textuais, que há uma desconexão entre eles. Entretanto, tendo em vista que as duas fotografias representam a mesma narrativa, qual seja, a detenção de Alexandre Nardoni e de Anna Carolina Jatobá, é possível afirmar que formam rimas visuais, por meio da narrativa empregada na imagem. Na fotografia da esquerda, reproduzida na figura 18, os suspeitos são conduzidos por outras pessoas, possivelmente policiais. Assim, a narrativa visual é transacional construída por meio dos PR, com foco nos PR-suspeitos, que se destacam. Os PR-suspeitos são colocados em ação, pois se percebe que estão sendo conduzidos. Assim, é importante notar que ambos são amparados pelas duas mãos daqueles que os conduzem, permitindo inferir que tentam controlar seus movimentos. FIGURA 18 – Fotografia da esquerda do layout 4.2 Fonte: Revista Veja, 23/04/2008, pag. 86-87 Levando em consideração o sistema de olhar, observamos que os PR-suspeitos não interagem com o leitor, promovendo-se, assim, uma relação de afastamento entre ambos. O olhar dos PR-suspeitos é direcionado para fora cena narrativa, não sendo possível identificar os alvos desses olhares. A ausência de interação com o leitor cria um distanciamento entre PR e PI, tornando o leitor observador e, ao mesmo tempo, julgador daquela narrativa. É preciso ainda considerar na construção da representação do casal o “olho” que acompanha imediatamente a fotografia à esquerda, cujo título é “Assassinos”. O emprego desse item lexical direciona ao casal o rótulo de assassinos, tendo em vista que esse termo é empregado com destaque – por meio dos recursos letra maiúscula e negrito – o que, como já afirmamos, pode sugerir que a mensagem principal esteja aí. Além disso, é preciso 99 considerar o texto como um todo, relacionando todos os recursos utilizados pela reportagem na representação dos suspeitos. Assim, o emprego desse item lexical na mesma página que o infográfico, que apresenta a possível sequência de agressões sofridas por Isabella, leva a inferir que o casal seja autor da morte da criança, que os suspeitos em questão sejam seus assassinos. A análise completa do infográfico será apresentada na próxima seção. Diante disso, pode-se construir uma representação voltada para a atribuição da autoria do assassinato ao casal. Isso porque, no momento em que a reportagem é publicada, o casal ainda não havia sido oficialmente acusado. Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá oficialmente (e legalmente) ainda eram suspeitos e indiciados pelo crime. Em relação à fotografia da direita, reproduzida novamente na Figura 19, pode-se notar uma representação a partir de um ângulo visto de cima, superior, o que confere poder ao leitor, tornando-o conhecedor da cena narrativa, além de poder representar uma fragilidade dos PR. Na imagem em questão, Nardoni olha para fora da cena narrativa, não estabelecendo interação com o leitor. Trata-se de um olhar de oferta, mas ao mesmo tempo parece um olhar desafiador. É como se ele olhasse para alguém específico, mas desconhecido para o leitor. Quanto à estrutura narrativa visual, constrói-se na imagem uma narrativa transacional, tendo em vista a direção do olhar de Alexandre Nardoni para fora da cena narrativa. Entretanto, não é possível identificar, por meio da fotografia, o alvo deste olhar, o fenômeno. Dessa forma, Alexandre Nardoni olha para algo que está fora da moldura da cena. FIGURA 19 – Fotografia da direita do layout 4.2 Fonte: Revista Veja, 23/04/2008, pag. 86-87 100 Nessa imagem, Anna Carolina passa quase despercebida no meio de tantos policias que conduzem o casal. Alexandre destaca-se pela cor da roupa e pelo movimento, como se estivesse olhando para alguém, como já comentamos. A quantidade de policias que conduzem o casal, segurando-os, como que os imobilizando, pode gerar um sentido em potencial de pessoas perigosas, o que justificaria a quantidade de pessoas para imobilizá- los. Pode-se inferir, com isso, que o casal é representado como criminoso. Adicionalmente, isso pode ainda ser relacionado à representação de pessoas violentas e desequilibradas, representação que será reforçada nas análises do modo verbal. Cumpre-nos ainda analisar os possíveis sentidos produzidos pelo “olho” da imagem da direita, em que se afirma que sete viaturas da polícia foram utilizadas para conduzir Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá à delegacia. Possivelmente esse número de viaturas e policiais envolvidos na prisão do casal deve-se à grande repercussão do caso pela imprensa. No entanto, essa informação não consta do texto. Assim, ao representar o casal por meio de imagens em que eles são imobilizados e conduzidos por policiais e afirmar que foi necessário elevado número de agentes das forças de segurança, o texto tende a levar o leitor a compreender que se tratam mesmo de pessoas perigosas. Concluídas as análises do layout e imagens referentes às páginas 86 e 87, apresentamos a seguir as páginas 88-89, na figura 20. FIGURA 20 – Layout 4.3 Fonte: Revista Veja, 23/04/2008, pag. 88-89 101 Na figura 20, é possível observar que o layout é semelhante àquele observado na figura 17. Na parte superior, consta o infográfico e, na parte inferior, o texto principal da reportagem composto por texto escrito e fotografias. Como já mencionamos, analisaremos o infográfico na próxima seção, concentrando nossa análise, neste momento, no texto principal. Observando-se o texto a partir do sistema valor informacional, é possível notar que ele é instanciado a partir de uma estrutura centro-margem. Isso porque as imagens estão centralizadas, chamando a atenção do leitor para elas. Assim, as fotografias da vítima e de sua mãe são empregadas como forma de sensibilizar o leitor para o assassinato da criança. Ao mesmo tempo, relacionando as fotografias aos desenhos do infográfico, o leitor pode fazer inferências ainda mais negativas sobre Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. Os desenhos do infográfico, que serão detalhadamente analisados na próxima seção, apresentam contraste com a foto de Isabella, pois os suspeitos são desenhados de forma a serem representados como pessoas agressivas e violentas, com expressões faciais “fechadas”, sem traço de “alegria”. Em contraste, Isabella é representada sorrindo. A fotografia de Ana Carolina de Oliveira, mãe de Isabella, sensibiliza o leitor para a situação, já que ela é representada por meio de uma imagem em que aparece chorando e com uma camiseta com a foto da menina. O contraste da representação da vítima, a partir do sorriso meigo e doçura, com a representação dos suspeitos no infográfico, apresentados com caras fechadas, vai permitindo ao leitor inferir uma representação do casal como assassinos. Isso porque, como temos mostrado, vai-se contrastando a vítima com os possíveis assassinos por meio de representações que podem levar a compreender contrastes como bondade versus maldade, fragilidade versus agressividade. Alem disso, o destaque do “olho” da fotografia, com o enunciado “amor incondicional”, permite relacionar esse enunciado à mãe da criança, cuja fotografia está estampada no texto, e ao mesmo tempo, permite contrastá-la com Nardoni. Isso porque a imagem de Anna Carolina Oliveira representa uma mãe que sofre com a morte da filha, enquanto a de Alexandre é a de um agressor, um monstro que é capaz de matar a própria filha. Assim percebe-se um contraste entre a mãe e o pai de Isabella. A seguir, na figura 21, apresentamos as duas últimas páginas do texto 4. 102 FIGURA 21 – Layout 4.4 Fonte: Revista Veja, 23/04/2008, pag. 90-91 O layout acima, que será aqui chamado de layout 4.4, apresenta estrutura bastante parecida com os anteriormente analisados, com a continuação do infográfico na parte superior e o texto principal na parte inferior. O destaque é destinado ao infográfico, que ocupa metade da página e vem na parte superior, atraindo o olhar do leitor para ele. O texto principal, organizado numa estrutura margem-centro, emprega de forma centralizada uma fotografia do pai, da irmã e de uma amiga da irmã de Nardoni, não trazendo elementos que colaborem na representação dos suspeitos. Isso nos permite fechar a análise dos layouts e imagens das 8 (oito) páginas da reportagem e seguir para o infográfico empregado nos layouts 4.2, 4.3 e 4.4. 2.4.1 Infográfico – Frios e Dissimulados Analisaremos nesta seção o infográfico empregado nas páginas de 86 a 91 da publicação de Veja do dia 23/04/2008, texto 4 nesta pesquisa. Antes, porém, cumpre-nos fazer uma breve explanação acerca do infográfico. É importante lembrar que o jornalista utiliza-se de diversas ferramentas para ilustrar, para complementar uma reportagem, sendo o infográfico uma dessas ferramentas. Assim, como já explicamos, o gênero reportagem é 103 composto de um texto principal que dá corpo à reportagem e de outros textos que podem trabalhar como suporte para ela. Podemos definir infográfico como sendo um tipo de representação gráfica composta, de acordo com o dicionário Aurélio, da “combinação de desenhos, fotos, gráficos, etc., para a apresentação visual dramatizada de dados e informações”. Portanto, são normalmente (mas não necessariamente) textos multimodais. Cairo (2011 apud HERRERO & RODRIGUEZ) define infográfico como sendo: “uma representação diagramática de dados e uma porção informativa realizada com elementos icônicos e tipográficos que facilitam a compreensão dos acontecimentos, ações ou coisas, ou algum de seus aspectos significativos, que igualmente podem acompanhar ou substituir o texto”49. Nas palavras de Paiva (2009, p. 26), “O infográfico jornalístico é utilizado para complementar a informação veiculada em uma notícia ou reportagem e geralmente explica um fato trazido nesses textos com propósito de explicar como ele funciona, como aconteceu ou age.” Diante dessas afirmações, consideramos que o bloco informacional da parte superior dos layouts 4.2, 4.3 e 4.4 se encaixa nas definições apresentadas, configurando, portanto, um infográfico. Na reportagem aqui analisada, o infográfico é utilizado para reconstituir o evento social: morte de Isabella Nardoni, complementando toda a reportagem. É preciso lembrar que ele é empregado em 6 das 8 páginas da reportagem ora analisada, o que faz com que o leitor “tenha que passar” por essas páginas, sendo levado a percorrer praticamente toda a reportagem. Nessas 6 (seis) páginas, o infográfico é empregado na parte superior das páginas, recebendo valor informacional de idealização. Lembramos, mais uma vez, que a parte superior do texto é, normalmente, relacionada ao imaginário. Nas palavras de Kress & Van Leeuwen (2006, p. 186, tradução nossa 50), “a parte superior tende a fazer algum tipo de apelo emotivo e a nos mostrar ‘o que pode ser’; a parte inferior tende a ser mais informativa e prática, mostrando-nos ‘o que é’”. Como procuraremos mostrar, o infográfico, sobretudo por meio dos desenhos, é bastante apelativo, de forma a sensibilizar o leitor para as agressões que Isabella teria sofrido. 49 No original: “[…] una representación diagramática de datos y una aportación informativa realizada con elementos icónicos y tipográficos que facilitan la comprensión de los acontecimientos, acciones o cosas, o alguno de sus aspectos significativos, que igualmente puede acompañar o sustituir al texto". (HERRERO & RODRÍGUEZ DOMÍNGUEZ, 2015, p.2) 50 No original: “The upper section tends to make some kind of emotive appeal and to show us ‘what might be’; the lower section tends to be more informative and practical, showing us ‘what is’ ” (KRESS; VAN LEEUWEN, 2006, p.186) 104 O infográfico empregado no texto 4 é composto por modo verbal e imagens, sendo empregados desenhos como recurso semiótico. Como já mencionamos, é importante diferenciar desenhos de fotografias. Ambos podem ser compreendidos como imagens, no entanto, os desenhos costumam criar uma realidade, já que são produzidos pelo produtor do texto e podem, portanto, expressar suas Atitudes em relação ao que está sendo representado. Os desenhos são, normalmente, criados no contexto da reportagem e direcionados ao propósito do texto. Já as fotografias, podem ser consideradas retextualizações da realidade, uma vez que são produzidas em diferentes momentos e escolhidas pela equipe responsável pela elaboração/construção do texto. Feita essa diferenciação, analisaremos primeiramente os desenhos e, em seguida, o modo verbal do infográfico. Apresentaremos uma análise dos desenhos, discorrendo sobre as características mais relevantes para aquilo que é o foco deste estudo, qual seja, a representação dos suspeitos de matar Isabella Nardoni. Lembramos que, nas imagens, os recursos podem ser tamanho, cores, formas e que são esses recursos, orquestrados, que irão permitir a construção dos sentidos. Assim, percebemos que, no infográfico em análise, os desenhos são constituídos por meio de traços retos e pontiagudos, na construção não somente do ambiente, mas também dos PR. O emprego de traços retos e pontiagudos confere agressividade aos PR e à cena narrativa, representando, dessa forma, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá como pessoas agressivas. Para melhor visualização, reproduzimos nas Figuras 22 e 23 algumas imagens do infográfico presente no texto 4, para melhor explanação da análise. FIGURA 22 – Imagem do infográfico: suspeitos discutindo Fonte: Revista Veja, 23/04/2008, pag. 88 105 FIGURA 23 – Imagem infográfico: suspeitos telefonando para os pais Fonte: Revista Veja, 23/04/2008, pag. 90 É importante discutir o emprego desses traços em detrimento de traços mais arredondados, por exemplo. Acreditamos que a representação dos PR por meio de traços retos e pontiagudos em todo o infográfico é algo que reforça a ideia de aspereza, sugerindo agressividade e violência, o que promove inclusive um afastamento em relação ao leitor. Os traços mais arredondados, ao contrário, poderiam conferir um pouco mais de suavidade e leveza, criando uma aproximação com o leitor. Isso evidencia que o casal é representado como pessoas agressivas. Um detalhe que reforça essa representação reside no desenho das sobrancelhas. Veja-se que esse elemento facial dos PR-suspeitos está desenhado para dentro, dando a impressão de que os PR-suspeitos estão sempre de “cara fechada”, séria, “carrancuda”. Com efeito, Nardoni e Anna Carolina são representados com caras feias, com feições e traços brutos ou como se fizessem careta, o que permite construir um potencial significado de pessoas nervosas, ruins, agressivas, violentas, reforçando a representação explicitada. Essa representação poderá ser verificada ainda no modo verbal, que será analisado na próxima seção. A sequência de desenhos no infográfico representa o evento como se os suspeitos estivessem enfurecidos e brigando o tempo todo, haja vista que estão em vários desenhos apontando os dedos um para o outro e em posição como se estivessem discutindo. Reforça essa ideia o fato de que, nos desenhos, os sujeitos estão em geral com a boca aberta, como se estivessem gritando. 106 Além disso, os traços empregados nos desenhos para a representação dos PR tornam os suspeitos altamente caricaturais, na medida em que se cria um certo exagero na agressividade atribuída a eles. Esse uso de traços exagerados acaba, por sua vez, remetendo o leitor a padrões psicológicos já associados aos PR. Em suma, a representação dos PR no infográfico como pessoas violentas torna-se caricatural e faz com que o leitor associe as características negativas aos investigados ali representados. A respeito de representações caricaturais, Royce (2003 p.103, tradução nossa) assim discorre: No modo semiótico visual, os elementos visuais também podem ser interpretados em termos da verdade, credibilidade e probabilidade do que eles representam para o (s) espectador (es). A caricatura de esboço, como uma visão naturalista, tenta representar objetos, entidades, cenas, personagens ou ações familiares que são facilmente reconhecíveis para os espectadores, mas são abstraídos via caricatura. Estas não são representações totalmente precisas, mas são uma forma de desenho ainda persistente em que as principais características foram enfatizadas para apresentá-las de um ponto de vista atitudinal particular, que o desenhista deseja transmitir ao espectador (es) potencial. 51 Tomando os ensinamentos de Royce (2003), podemos afirmar que, no infográfico apresentado, estamos diante de uma imagem não-naturalística, distante, portanto, do real, por se tratar de imagem (desenho) criado para um fim específico. Assim, da forma como são apresentados, como já falamos, os desenhos parecem transmitir ao leitor um significado potencial de pessoas violentas, representando, dessa forma, o casal suspeito da morte de Isabella Nardoni. Ademais, a forma caricatural como são os PR representados expressa para o leitor as Atitudes do produtor do texto em relação ao PR, tendo em vista que aí se enfatizam características a partir de um ponto de vista particular do desenhista (ROYCE, 2003, p.103). Assim, da mesma forma que se escolhem os itens lexicais, criando os significados potenciais no modo verbal, também nos modos visuais a Avaliatividade pode ser empregada. Tendo em vista que as imagens foram criadas pelo jornalismo de Veja, acreditamos que podemos afirmar ser um aspecto do Sistema de Avaliatividade presente no texto, pois os desenhos apresentam a forma como o produtor do texto escolhe representar o casal. Em outros termos, entendemos que, ao desenhar o casal a partir de traços retos que 51 No original: “In the visual semiotic code visuals can also be interpreted in terms of the truth, credibility and probability of what they represent to the viewer(s). The sketch caricature, as a naturalistic visual, attempts to represent familiar objects, entities, scenes, characters or actions which are easily recognizable to the viewers, but are abstracted via caricature. These are not totally accurate representations, but are a stylistic drawing form in which the main features have been emphasized to present them from a particular attitudinal viewpoint, ones which the drawer(s) hold and wish to convey to any potential viewer(s)” (ROYCE, 2003, p.103). 107 conferem agressividade e aspereza, o produtor do texto está emitindo uma opinião, e não apenas apresentando a possível sequência de ações. A forma como a sequência de ações é posta pelo jornalismo da Revista Veja revela duas pessoas agressivas e num momento de desequilíbrio emocional. Quanto ao leitor, vale lembrar, ele conhece os suspeitos por meio da representação feita por meio dos desenhos empregados no texto. Convém ainda analisar outras partes do infográfico mais detalhadamente, naquilo que colabora para a compreensão da representação dos suspeitos no texto ora analisado. Considerando-se o layout do infográfico, é possível observar que, na figura 17, é conferida saliência ao desenho que retrata a possível esganadura que Isabella teria sofrido. A saliência é percebida em virtude de o desenho ser em tamanho maior que o dos outros. O destaque conferido a essa ação na sequência de agressões permite ao leitor inferir um sentido em potencial de crueldade, representando, dessa forma, os agressores como pessoas perversas. Destaque-se, ainda, o último desenho, no layout 4.3, reproduzido na Figura 24, que retrata o momento em que Isabella teria sido atirada pela janela. FIGURA 24 – Imagem infográfico: simulação da vítima sendo atirada pela janela Fonte: Revista Veja, 23/04/2008, pag. 89 Observe-se que o rosto do sujeito que joga a menina janela abaixo está apagado, não foi representado, deixando, talvez, para o leitor uma dúvida quanto ao assassino, apesar de os traços faciais, em todos os outros desenhos, estarem presentes e se referirem a Alexandre. Além disso, apesar da ausência de traços na face do desenho, esse é acompanhado da escrita: “Alexandre jogou a filha pela janela”, o que não deixa dúvidas ao leitor de quem é o sujeito social que está sendo representado no desenho. 108 Além disso, essa imagem é maior que os outros desenhos do infográfico, o que evidencia a saliência dessa representação, que chama a atenção do leitor. Da forma como é empregada no texto, ela pode servir para sensibilizar o leitor para a frieza com que ocorreram as ações que teriam culminado com a morte de Isabella. Como temos mostrado, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são claramente representados como agressores e assassinos de Isabella Nardoni a partir do infográfico, não somente pelos desenhos, mas também pela integração entre os modos semióticos. Faz-se necessário, então, analisar a conexão intermodal presente no infográfico entre modo verbal e modos visuais. Se em todo o texto que envolve diversos recursos semióticos na construção do sentido é preciso analisar a orquestração dos significados produzidos a partir de todos os recursos empregados, no infográfico isso é bem mais forte e evidente, já que a inter-relação entre os modos semióticos torna ainda mais claras as representações apontadas. As imagens são acompanhadas de parte escrita que narra em palavras a possível sequência de ações do crime. No entanto, o texto publicado por Veja representa essas ações a partir do emprego da palavra “fatos”. Essa escolha lexical constitui importante item para nossa análise, uma vez que cria um efeito de verdade, induzindo o leitor a inferir que o evento aconteceu mesmo daquela maneira. Além disso, a sequência de ações é apresentada por sentenças afirmativas, e o tempo verbal escolhido é o pretérito perfeito do modo indicativo, o que confere à narrativa um efeito de realidade e factualidade, pois apresenta as ações por meio de um aspecto verbal acabado, como ilustram os trechos (12) e (13). (12) Já no carro, de volta para casa, Nardoni e Anna Carolina começaram a espancar Isabella. A madrasta asfixiou-a a ponto de a menina desmaiar. Quando chegaram ao prédio Isabella sangrava. O casal embrulhou a menina em uma fralda de pano para evitar que o sangue pingasse no trajeto até o apartamento. (Veja, 23/4/2008, p.86, grifos nossos) (13) Anna Carolina e Nardoni iniciaram uma feroz discussão. Decidiram, então, simular um crime cometido por um suposto invasor. A polícia não encontrou indício nenhum da presença de um terceiro no apartamento. (Veja, 23/4/2008, p. 88, grifos nosso) Como se pode perceber, a narrativa é empregada no pretérito perfeito, com ações representadas, portanto, como iniciadas e acabadas, como evidenciado pelos termos destacados em (12) e (13). Isso faz com o leitor compreenda aquela sequência de ações como reais, mesmo que os suspeitos ainda não tenham sido nem denunciados nem julgados pela Justiça. 109 Adicionalmente, as escolhas lexicais usadas para narrar os “fatos” vão permitindo inferir pessoas violentas e desequilibradas emocionalmente. Nesse aspecto, convém destacar em (13) a Apreciação do produtor do texto no que concerne ao relacionamento de Anna Carolina e Alexandre. Veja-se que é empregada a expressão “feroz” discussão, o que permite desvelar um Julgamento de Estima Social negativa, pois poderia ser uma discussão comum de casal. No entanto, ao empregar o adjetivo “feroz”, o texto remete a algo descontrolado, desvelando, com isso, a representação de pessoas emocionalmente instáveis. Acrescente-se a isso que o adjetivo “feroz” entra numa mesma representação semântica que a dos desenhos, que a partir de traços retos e pontiagudos conferem ao casal a característica de agressividade. É preciso ainda comentar o emprego da palavra “espancar” em (12), escolha que sugere que Isabella fora agredida sem trégua. Essa escolha faz com que se crie uma atmosfera de crueldade, algo já observado na análise dos desenhos do infográfico. A forma como o crime e os suspeitos são representados por meio dos textos publicados pela Revista Veja, portanto, sugere para o leitor que a reconstituição do evento, nele retextualizada, é verdadeira e que segue fielmente os acontecimentos. Nessa retextualização, a imagem construída para Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá é extremamente negativa, de pessoas marcadas pela agressividade, violência e brutalidade, algo reforçado ainda pelo uso de traços retos e pontiagudos nos desenhos produzidos pelo sign-maker para representar o casal. Tudo isso faz com que se permita desvelar potenciais sentidos que levem à compreensão da representação dos suspeitos na reportagem aqui analisada como os assassinos de Isabella Nardoni. Fechadas as análises dos modos visuais, como layout e imagens, assim como a análise do infográfico, que engloba modo verbal e visual, podemos passar à análise do modo verbal presente nas 8 (oito) páginas da reportagem ora analisada, o que faremos na próxima seção. 2.4.2 Modo verbal – Frios e dissimulados Considerando que o texto 4 é bastante extenso, composto ao todo por oito páginas, para melhor desenvolvimento do texto, separamos em seções os modos visuais do modo verbal. Assim, nesta seção apresentaremos as análises do texto escrito, abordando o que chamamos de texto principal da reportagem. Tendo em vista que no texto multimodal é a relação entre os recursos semióticos empregados que leva à construção dos sentidos 110 potenciais do texto, é importante, antes de começarmos, retomar, em linhas gerais, o que já foi analisado por meio dos modos visuais e do infográfico. De forma resumida, por meio dos modos visuais (imagens, layout) e do infográfico, demonstramos que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são representados como pessoas frias e violentas. Trata-se de representações percebidas nas imagens por meio do emprego de olhar de oferta, o que leva a um distanciamento do leitor, e principalmente pelos desenhos do infográfico. Além disso, já mostramos que o produtor do texto projeta a morte de Isabella como um assassinato e atribui a autoria do crime ao casal. O que veremos é que esses dados estão presentes também no modo verbal, que passamos a analisar. Assim como vimos no texto 1, o produtor do texto empregou no texto 4, como recurso argumentativo, a narrativa de vida, apresentando, a partir dessa estrutura argumentativa, Julgamentos em relação aos investigados. Como naquele texto, no texto 4 Alexandre é representado como ciumento, violento, fracassado e emocionalmente instável; já Anna Carolina Jatobá é retratada como ciumenta e desequilibrada emocionalmente, como demonstraremos a seguir, começando com a representação de Alexandre Nardoni. A representação desse suspeito se dá a partir do emprego de Julgamentos de Estima Social negativa, como veremos nos trechos que seguem: (14) Em determinado momento, como disseram à polícia testemunhas presentes à festa, a menina fez algo que enfureceu o pai. Nardoni, então, gritou com ela e lhe deu um safanão. Isabella caiu no chão e começou a chorar. Nesse momento, Nardoni, segundo as testemunhas ouvidas pela investigação, disse à filha: “Você vai ver quando chegar em casa. A ameaça começou a ser cumprida já no carro. No assoalho e no banco de trás do Ford Ka de Nardoni, a polícia encontrou marcas de sangue compatíveis com o de Isabella. ” (Veja, 23/04/2008, p. 85. grifos nossos) (15) Um ex-empregado de uma loja de carros que Jatobá teve em Guarulhos descreve o ex-patrão como "um homem muito nervoso" (Veja, 23/04/2008, p. 88, grifo nosso) Primeiro, é importante observar, em (14) e (15), o estrato léxico-gramatical. Pode- se notar que as escolhas lexicais como “enfureceu”, “gritou”, “deu um safanão” são palavras/expressões de conteúdo semântico negativo, que remetem a um comportamento agressivo. A partir do emprego dessas palavras no texto, o designer expressa suas Atitudes em relação ao PR-suspeito por meio do emprego de Julgamentos de Estima Social Negativa, uma vez que se referem a comportamentos imorais e até mesmo ilegais. Adicionalmente, em (14), pode-se depreender a representação de Alexandre Nardoni como uma pessoa agressiva ou intimidadora, representação que pode ser 111 percebida pelo emprego do enunciado “Você vai ver quando chegar em casa” (Veja, 23/04/2008, p. 85), que sugere que Alexandre Nardoni tenha feito uma ameaça à filha. Trata-se, portanto, de mais um elemento que permite compreender Alexandre não somente como uma pessoa violenta, mas também como alguém que apresenta instabilidade emocional. Convém ainda comentar o emprego da afirmativa de que o pai teria ameaçado a filha e teria “cumprido a promessa”, como se pode observar no excerto (14). O produtor do texto ainda afirma que a ameaça que Alexandre supostamente fez à filha foi cumprida ainda no carro, antes de chegarem em casa, tendo em vista que foi encontrado sangue no carro. Isso mostra que o sign-maker empregou um Julgamento do comportamento de Alexandre, por meio de uma afirmativa, apresentando, dessa forma, um comportamento negativo do suspeito, que se refere, na verdade, a um Julgamento de Sanção Social negativa. Isso pode levar o leitor a tomar a informação como verdadeira e inferir uma representação de Alexandre Nardoni como uma pessoa violenta. Além disso, a possível ameaça à filha pode levar o leitor a entender que as agressões (se ocorreram) foram premeditadas, o que, no julgamento legal, poderia inclusive agravar a pena do réu, caso condenado. A representação de Alexandre como pessoa agressiva pode ainda ser percebida no trecho (15), a partir do depoimento de um ex-funcionário do investigado, que o aponta como “um homem muito nervoso”. A representação de Alexandre Nardoni por meio do atributo “nervoso” amplificado pelo advérbio “muito” pode levar ainda a compreender o pai de Isabella como uma pessoa que apresenta desequilíbrio emocional. Outro aspecto valorativo presente na narrativa de vida contida no texto 4 refere-se aos insucessos na vida profissional de Alexandre Nardoni, algo já visto no texto 1. Isso pode ser visto no trecho (16): (16) Apesar de ter se formado em direito em 2006 pelas faculdades integradas em Guarulhos, Nardoni ainda está impedido de exercer a advocacia, já que fracassou nas três tentativas de passar no exame da OAB: em abril e em agosto de 2007 e em janeiro deste ano. Em todas as ocasiões foi reprovado ainda na primeira fase das provas (Veja, 23/04/2008, p. 87, grifos nossos) É importante analisar o emprego da escolha lexical “fracassou” para representar os insucessos de Alexandre Nardoni na prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). À semelhança do que vimos no texto 1, há aqui uma amplificação do insucesso de Alexandre Nardoni na prova em questão, pois, na escolha do sign-maker, não se trata de uma 112 reprovação, mas de um fracasso. Se pensarmos num continuum para representar o insucesso de Alexandre, podemos considerar que a palavra “fracassou” se posiciona em sua parte mais negativa possível, o que evidencia que o texto emprega palavras que permitem compreender Alexandre Nardoni a partir de um viés negativo. Mais especificamente, os insucessos de Alexandre, representados como fracassos, levam à representação do estereótipo de playboy, entendido aqui como um adulto que não trabalha, mas que usufrui de conforto proporcionado pelos pais, normalmente pessoas de bom padrão econômico. Com efeito, além de ser representado como fracassado, Alexandre Nardoni também é representado a partir do estereótipo de “filinho de papai”, que é negativamente visto pela sociedade. Ele é representado como uma pessoa que não trabalha, mas que é financeiramente mantida pelo pai, esse sim bem sucedido. O texto emprega, assim, mais uma vez, um Julgamento de Estima Social Negativa. Essa representação pode ser mais bem depreendida a partir de escolhas lexicais e de informações apresentados na narrativa de vida que levam ao estereótipo explicitado, como se pode ver no trecho (17) que segue: (17) Alexandre Nardoni, de 29 anos, sempre teve uma vida confortável. Quando era estudante da faculdade tinha um Vectra último modelo comprado pelo pai e uma moto esportiva Honda CBR 900 RR (hoje avaliada em 60 000 reais). Era dono de uma concessionária de motos e fazia estágio no escritório do pai, o advogado tributarista, Antônio Nardoni. Apesar de ter se formado em direito em 2006 pelas faculdades integradas em Guarulhos, Nardoni ainda está impedido de exercer a advocacia, já que fracassou nas três tentativas de passar no exame da OAB: em abril e em agosto de 2007 e em janeiro deste ano. Em todas as ocasiões foi reprovado ainda na primeira fase das provas. Nardoni se apresentava como “consultor jurídico” e dizia trabalhar no escritório de Antônio Nardoni, localizado no Bairro de Santana, zona norte de São Paulo. Mas tanto funcionários do prédio onde fica um escritório quanto um vizinho de porta do advogado afirmaram nunca ter visto Alexandre Nardoni por lá. Amigos dizem que o sustento do rapaz e de sua família ainda provinha do pai. O apartamento da zona norte de São Paulo em que Nardoni morava com a mulher e os dois filhos – com três quartos, piscina, sauna, quadra poliesportiva e sala de ginástica avaliado em 250 000 reais – também foi presente de Antônio Nardoni. (Veja, 23/04/2008, p. 86-87, grifos nossos) Como se pode ver, o trecho (17), que retrata a vida profissional de Alexandre Nardoni, apresenta elementos que levam a uma representação negativa do pai de Isabella. Segundo o trecho, desde a época da faculdade, Alexandre já tinha um carro e uma moto, o que normalmente não é muito comum entre universitários, e o apartamento em que morava com a família tinha sido presente do pai, que também era responsável pelo seu sustento e de sua família. Essas informações permitem construir a imagem de uma pessoa dependente financeiramente do pai ou, para usar o estereótipo já explicitado, de “filhinho de papai”. Há uma informação de que Alexandre Nardoni “era dono de uma concessionária”, 113 entretanto esse assunto não é desenvolvido no texto. Em realidade, a progressão do texto leva à ideia de ser o suspeito sustentado pelo pai, pois as informações que seguem são relacionadas ao fato de Alexandre não trabalhar, não se fazendo mais menção à suposta loja. Diante do exposto, percebemos que Alexandre Nardoni é representado como uma pessoa de posses, mas que não trabalhava, ou seja, sustentado pelo pai, criando-se, portanto, o estereótipo de “filhinho de papai” ou playboy, como já afirmamos. Ele também é retratado como um sujeito incapaz ou fracassado, pois o texto dá ênfase aos insucessos do pai de Isabella na prova da OAB. Anna Carolina Jatobá, por sua vez, é representada como uma pessoa agressiva e com distúrbios emocionais. Tal representação é marcada por comportamentos de ciúmes, tal qual Alexandre Nardoni, somando-se a isso a relação familiar da madrasta de Isabella com seu próprio pai. Para essa representação, a reportagem de Veja foi buscar na vida Anna Carolina elementos que pudessem corroborar a ideia de desequilibro emocional e, sobretudo, de família desestruturada, representando-a, assim, como naturalmente complicada, tendo em vista vir de uma família “não harmoniosa”. O texto informa inclusive que a própria Anna Carolina teria prestado queixa contra o pai, conforme ilustra a narrativa de vida do trecho (18) que segue: (18) Anna Carolina, ela própria, não vinha de uma família que se poderia chamar de harmoniosa. O pai, Alexandre Jatobá, responde a nove processos na Justiça (a maioria por não pagamento de dívidas e um por furto de energia). Em duas ocasiões, em 2004 e 2005, a própria Anna Carolina prestou queixa à polícia contra o pai por lesão corporal, injúria e ameaça (Veja, 23/04/2008, p. 88, grifos nossos) No excerto (18), é possível observar que o produtor do texto emprega sua Apreciação em relação à família de Anna Carolina Jatobá. Veja-se que a família da madrasta de Isabela é representada como uma família não harmoniosa. Essa representação sugere, então, que Anna Carolina Jatobá é uma pessoa emocionalmente desequilibrada, conforme temos afirmado e demonstrado. Ademais, da mesma forma como mostrado na análise do texto 1, a Atitude do produtor do texto em relação a Alexandre e Anna Carolina pode ser percebida também pela Apreciação do sign-maker em relação ao relacionamento do casal. O dia a dia da família é mais uma vez representado pela Revista Veja como conturbado, não harmônico, como demonstram os excertos (19) e (20) que seguem: 114 (19) Com a madrasta de Isabella, Nardoni sempre teve uma relação tumultuada. Amigos e vizinhos relatam episódios de ciúme e agressão entre os dois. Se Nardoni tem fama de briguento, Anna Carolina é frequentemente descrita como “esquentada”. (Veja, 23/04/2008, p.88, grifos nossos) (20) Algumas vezes, era ela quem começava a bater no marido, segundo afirmaram à polícia vizinhos do prédio em que o casal morou antes de se mudar para o edifício em que Isabella morreu (Veja, 23/04/2008, p.88, grifos nossos). Observe-se, no estrato léxico-gramatical, as palavras empregadas acima para representar a relação de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá: trata-se de uma “relação tumultuada”, com episódios de “ciúme e agressão”. O emprego dessas expressões evidencia a Apreciação do produtor do texto no que concerne à relação do casal suspeito, mostrando-a como não harmoniosa. Adicionalmente, é importante destacar como é a representação do casal nesses trechos. Observe-se que o produtor do texto emprega um Julgamento de Estima Social negativa, já que Alexandre é descrito como “briguento” e Anna Carolina como “esquentada”. O emprego desses itens lexicais para descrever o casal também permite compreendê-los como pessoas com problemas emocionais. Os adjetivos usados para caracterizar Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá delineiam Julgamentos de Estima Social negativa, ou seja, comportamentos que os rebaixam perante a sociedade, já que não são comportamentos reprováveis. Ao mesmo tempo, podemos considerar isso como um Julgamento de Sanção Social Negativa, tendo em vista ser a agressão um comportamento punido legalmente. O que é certo é que se trata de comportamentos que são condenados na sociedade, o que significa dizer que o comportamento do casal é culturalmente imoral e mesmo ilegal, levando o leitor a criar desprezo e aversão por esses sujeitos representados. Em suma, como procuramos demonstramos, a partir da análise dos infográficos, por meio dos desenhos, Alexandre e Anna Carolina são representados como sujeitos furiosos, violentos, emocionalmente desequilibrados, o que vai ao encontro do que se vê no Modo verbal analisado. Acrescenta-se a isso, ainda, a análise das fotografias, que aponta para a representação do casal como pessoas frias. O título da reportagem analisada, por sua vez, sugere o mesmo comportamento do casal frente ao assassinato de Isabella, o que demonstra que a reportagem apresenta uma construção e uma integração coerente dos significados representacionais, interativos e textuais, possibilitando ao leitor a criar um potencial significado de pessoas frias e dissimuladas e, portanto, responsáveis pelo assassinato da criança. É importante frisar que, se fossem representados a partir de Julgamentos positivos, por exemplo, essa inferência seria menos comum ou provável. A imagem de um casal feliz 115 e a representação dos suspeitos como pessoas calmas, por exemplo, muito provavelmente lançariam dúvidas sobre a autoria, diferentemente da imagem de pessoas agressivas e emocionalmente desequilibradas, como se vê no texto 4. Não se pode perder de vista que, exceto as pessoas que convivem com o casal, a sociedade de modo geral os conhece a partir das informações veiculadas pela imprensa. Finalizadas integralmente as análises do texto 4, passaremos, na seção seguinte, à análise do próximo texto, a reportagem publicada em 30 de abril de 2008. 2.5 Texto 5 – Ainda mais acuados Nesta seção analisaremos a reportagem cujo título é “Ainda mais acuados”, publicada por Veja no dia 30/04/2008, ou seja, pouco mais de 1 mês após a morte de Isabella Nardoni. O texto que analisaremos nesta seção, apresentado na Figura 25, foi publicado uma semana antes de o MP oferecer denúncia contra o casal ao Tribunal de Justiça de São Paulo, sendo que o casal já havia sido indiciado pela polícia. FIGURA 25 – Layout 5: Ainda mais acuados Fonte: Veja 30/04/2008, pág. 84-85. Nossa análise irá contemplar o layout, o emprego das fotografias e o modo verbal. Composicionalmente, observa-se, centralizada na parte superior do texto, uma imagem do 116 casal; à esquerda o título; e na parte inferior, na base do texto, uma espécie de infográfico, resumindo acontecimentos. O modo verbal foi empregado ao redor da fotografia do casal. Iniciando, então, a análise do layout, pode-se observar que os blocos de informação estão desconexos entre si devido ao emprego de espaços em branco entre eles, o que significa que podem ser compreendidos separadamente. No entanto, apesar da desconexão, podemos dizer que a fotografia do casal e o título formam uma rima visual por meio do sentido, tendo em vista que o casal parece “acuado” ali naquele sofá, como discutiremos adiante. Além disso, o infográfico, na parte mais inferior do texto, é moldurado com background em cinza, fazendo com que seja lido separadamente dos demais blocos de informação. É preciso ainda considerar o valor informacional e a saliência conferida aos elementos textuais. A fotografia do casal está centralizada na parte superior das duas páginas, em tamanho significativo, o que confere a ela saliência e faz com que se capte, portanto, a atenção do leitor para a imagem. Da mesma forma, o título, grafado em negrito, recebe destaque e consequentemente atrai a atenção do leitor. A fotografia do casal, por sua vez, está na parte superior, portanto, na parte destinada ao Ideal, ao espaço do imaginário. Observando-se mais cuidadosamente a fotografia, percebe-se que o casal apresenta expressão facial mais tranquila, se comparada com as demais imagens já analisadas nos outros textos. Em realidade, não se trata de tranquilidade propriamente dita, mas de uma expressão facial menos agressiva que aquela representada nos outros textos já analisados, já que os suspeitos estariam “acuados” ali naquele espaço. Observe-se, ainda, que o fundo da fotografia privilegia o tom mais claro, o que contrasta com as demais fotografias analisadas nos outros textos, que privilegiaram o tom escuro. Passando ao título e sua relação com a fotografia do casal, pode-se perceber que esses dois elementos textuais formam uma rima visual. Embora o molduramento evidencie elementos desconexos, eles se relacionam pelo sentido, criando, assim, uma rima semântico-visual. A composição do texto permite compreender que o título deixa o casal acuado no espaço visual. Analisando mais cuidadosamente essa relação, vemos que o emprego da expressão de Gradação “ainda mais”, que amplifica o sentido de “acuados”, e projeta a Julgamento de Estima Social Negativa. Isso sugere que Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni já estariam acuados, tendo aumentado a pressão sobre eles. Além disso, a fotografia reforça o título da matéria, já que o casal, principalmente Anna Carolina, parece estar mesmo acuada e espremida naquele sofá. Veja-se que uma de suas mãos está entre as pernas e a outra, sobre o sofá, como se ela não tivesse mais como se deslocar, 117 estando mesmo espremida e limitada naquele espaço. É preciso frisar ainda que a fotografia do casal é empregada em tamanho destacado e centralizado, ganhando mais saliência, chamando, assim, a atenção do leitor para o casal investigado. Analisando a imagem mais especificamente a partir da metafunção interpessoal, podemos observar que, semelhantemente ao já visto nos outros textos, o olhar do casal é para um lugar incerto, sendo, portanto, representado a partir do olhar de oferta, o que leva a um distanciamento do leitor. Aqui, percebemos que estão olhando para alguém que não aparece na imagem, que está fora da cena narrativa. Quanto ao distanciamento e ao enquadramento das imagens, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são representados a partir de plano médio, o que resulta no estabelecimento de uma relação social com o PI. O ângulo horizontal selecionado retrata os PR no mesmo nível do olhar do observador, estabelecendo, assim, uma relação de igualdade entre PR e PI, o que também é uma inovação nessa imagem em comparação com as demais empregadas nos textos 1 a 4, já analisados. Retomando o sistema de valor da informação, é possível notar que há uma polarização esquerda/direita entre o título e a imagem. O título mais à esquerda recebe valor de informação dada, enquanto a foto do casal, vindo mais à direita do título, ganha status de informação nova. Pela análise apresentada do título, compreende-se que já seria conhecida do leitor a informação de que o casal estaria acuado pelo encaminhamento das investigações. Já a informação nova a cargo da imagem fica por conta de certa suavidade empregada na representação dos suspeitos, que, como já afirmamos, contrasta com as imagens empregadas nos outros textos, em que a representação do casal é marcada pela agressividade. Passando agora ao modo verbal, destacaremos, inicialmente, a Atitude do produtor do texto em relação ao evento. Ao contrário do que observamos nos textos 1 e 4, em que a os textos da Revista Veja, além de falar do evento morte de Isabella, buscaram, por meio da narrativa de vida, apresentar informações da vida do casal, no texto analisado nesta seção, a reportagem limitou-se a informar o andamento das investigações apresentando elementos divulgados pela polícia. Nessa apresentação, o modo verbal é empregado para mostrar críticas do produtor do texto à atuação da polícia, que teria feito a divulgação de informações que seriam falsas. Afirma-se que os policiais teriam divulgado boatos e hipóteses como se fossem informações verdadeiras ao serem pressionados pela imprensa. Isso reforça a análise que fizemos do texto 2, em que o sign-maker aponta uma série de ações como “fatos”, fatos 118 que, no texto 5, são apresentados como sendo informações falsas. Entre os possíveis boatos, estaria, por exemplo, a afirmação que consta no texto 2 de que Alexandre teria agredido a filha numa festa realizada no prédio onde moravam os pais de Anna Carolina Jatobá, festa que se afirma agora não ter acontecido, como pode-se constatar no excerto (21): (21) “Pressionados pela imprensa, delegados e investigadores andaram divulgando boatos e meras hipóteses como se fossem informações verdadeiras. Alguns equívocos que resultaram desse comportamento: Dois investigadores ouvidos por VEJA relataram que, horas antes de sua morte, Isabella teria recebido um safanão de Nardoni, durante uma festa no salão do prédio onde moram os pais de Anna Carolina. Essa festa não ocorreu e as investigações não confirmaram se Nardoni repreendeu ou agrediu a filha antes do crime.” (Veja, 30/04/2008, p. 84-85, grifos nossos) Isso reforça os postulados da Semiótica Social em relação à escolha. Como se vê, fez-se a escolha de representar o evento e os suspeitos daquela forma como foi feito no texto 2. Trata-se, portanto das escolhas dos designers e, uma vez que o texto já foi publicado, já circulou socialmente, já produziu sentidos e desencadeou (re)ações na sociedade. Apesar de o texto ora analisado fazer pouca referência ao casal suspeito, observando-se cuidadosamente o modo verbal, percebe-se que Alexandre Nardoni é representado, a partir de um Julgamento de Estima social negativa, como mentiroso. O trecho que segue explicita essa representação, pois nele o produtor do texto analisa o depoimento do suspeito e emite juízo de valor sobre ele, colocando em dúvida a versão de Nardoni à polícia: (22) Nesse segundo depoimento, ao ajeitar a versão, Nardoni afirmou que Isabella teria ficado sozinha por dezenove minutos e não mais quatro. Ocorre que isso também é impossível, já que, entre o horário de chegada da família revelado pelo rastreador (23h36) e o instante em que um vizinho telefonou para o resgate depois de ser avisado da queda de Isabella (23h49), passaram-se apenas treze minutos. Ao ser informado de que a conta não fechava, Nardoni tentou, novamente, retificar a informação. Saiu da delegacia ainda mais suspeito do que quando entrou.(Veja, 30/04/2008, p.84, grifos nossos) Observando-se o estrato léxico-gramatical em (22), é preciso destacar 2 pontos: primeiro, que é possível perceber que texto questiona o depoimento de Nardoni ao afirmar que ele “ajeitou” a versão dada à polícia; segundo afirma-se aí que a versão apresentada por Nardoni “também é impossível”. Isso sugere que Nardoni estaria mentindo. Veja-se que o emprego de “ajeitou a versão” cria esse sentido, pois é diferente de dizer que o 119 investigado mudou sua versão, por exemplo. Além disso, o emprego da expressão “também é impossível”, para referir-se à versão apresentada por Nardoni, pode levar o leitor a inferir que ele estaria mesmo mentindo. Cumpre-nos, ainda, analisar o infográfico, que vem na base do texto, ou seja, na posição do real, zona que normalmente recebe informações mais específicas, menos genéricas, mais reais (KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p.187). Inicialmente a chamada empregada no título “Tempo curto demais” também reforça a ideia de que o casal estaria mentindo, pois a amplificação do tempo vista aí gera, na verdade, uma ideia de “impossível”. Acrescente-se a isso que o infográfico dialoga diretamente com o modo verbal no sentido de permitir desconstruir o depoimento de Alexandre Nardoni, reforçando a representação de que o pai de Isabella mentira em seus depoimentos. Veja-se que o designer apresenta no infográfico com destaque, por meio de um Box verde – reproduzido, a seguir na figura 26 – uma série de ações que teriam acontecido em apenas 4 minutos, afirmando ser esse o tempo que “o suposto invasor teria tido para” realizar as agressões a Isabella. FIGURA 26 - Box verde Fonte: Veja 30/04/2008, pág. 85. É importante frisar as escolhas lexicais empregadas no infográfico. Primeiro há expressão “suposto invasor”, que coloca em dúvida a presença de um terceiro no local do crime. Segundo, a forma verbal “teria tido” cria um sentido de ficção, de possibilidade, levando à dúvida sobre a possível ação do invasor. Acrescentem-se, ainda, as ações que teriam acontecido em 4 minutos, listadas na caixa moldurada em verde. Todas essas escolhas sugerem ao leitor que Alexandre Nardoni estaria mentindo em seus depoimentos. Em suma, no texto 5, Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni são representados a partir de um distanciamento com o leitor, observado, sobretudo, a partir do sistema do olhar da metafunção interpessoal. Além disso, Alexandre Nardoni é projetado no texto 120 como mentiroso, levando o leitor a ter dúvidas em relação à inocência dele e, mais que isso, deixando mais suscetível de se compreender o casal como o autor do crime, já que a possibilidade de outra pessoa ter realizado as agressões a Isabella é apresentada como ficta. Na próxima seção, analisaremos o último texto de nosso corpus referente à morte de Isabella Nardoni. 2.6 Texto 6 – Agora eles são réus Analisaremos nesta seção a reportagem publicada por Veja na edição nº 2060, do dia 14/05/2008, intitulada “Agora eles são réus”, à qual nos referiremos neste trabalho como texto 6. Trata-se do último texto de nosso corpus sobre a morte de Isabella Nardoni, tendo em vista que o ajuizamento de Ação Penal pelo Ministério Público de São Paulo ocorreu em 08/05/2008. Lembramos que nosso recorte engloba publicações ocorridas desde o evento até a primeira reportagem publicada após o oferecimento de denúncia pelo Ministério Público. A reportagem é publicada em uma única página e está reproduzida na Figura 27 e no Anexo F. 121 FIGURA 27 – Layout 6: Agora eles são réus Fonte: Revista Veja, 14/05/2008, pág. 104. É importante ressaltar que, quando essa reportagem acima foi publicada, o casal já havia sido oficialmente acusado do assassinato da menina Isabella Nardoni. Para não perder de vista o objetivo central desta pesquisa, que é a representação dos suspeitos/investigados, nossa análise referente ao texto 6 será mais focada nos modos visuais, uma vez que o modo verbal foi empregado mais para transmitir ao leitor informações dos próximos passos do processo penal que, posteriormente, levou a julgamento o casal, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. Além disso, é preciso considerar o tempo transcorrido entre o evento e a publicação da reportagem que analisaremos nesta seção, o que pode explicar a pouca informação referente a Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá e predomínio da informação sobre os próximos acontecimentos, que seria o Julgamento, no curso de uma Ação Penal. Assim, exploraremos, em nossa análise, mais precisamente o layout e as imagens, além do sistema de cores. 122 Composicionalmente, o layout, ou seja, a organização dos elementos no espaço textual, nos mostra que o texto foi estruturado a partir de uma organização top/bottom, levando, assim, a um possível caminho de leitura de cima para baixo, tendo em vista que temos, na parte superior do texto, uma fotografia de Alexandre Nardoni e outra de Anna Carolina Jatobá e, na parte inferior, o modo verbal com o título: “Agora eles são réus”. Observa-se, a partir do sistema de moldura (framing), que os elementos textuais estão desconexos, por isso percebemos claramente um caminho de leitura de cima para baixo. Entretanto, é preciso ressaltar que as imagens dos suspeitos formam rimas visuais, pois se assemelham pela forma como os PR são representados e pelo background escuro das fotografias. Em relação ao valor da informação, as fotografias ocupam a posição do Ideal, enquanto o texto escrito ocupa a posição do Real. Além disso, observa-se que as fotografias dos dois acusados estão centralizadas, o que confere saliência às imagens. Acrescente-se a isso que as imagens estão em tamanho maior, ocupando meia página, o que atrai a atenção do leitor para elas. Diante disso, é possível perceber que a representação dos suspeitos, enfoque principal desta pesquisa, está mais explícita nos modos visuais. Considerando-se uma leitura de cima para baixo, que é a normal na cultura ocidental, o leitor vai olhar primeiramente para a imagem e depois para o texto escrito. Como já afirmamos, a disposição da imagem no texto interfere na composição textual e, consequentemente, nos sentidos construídos. Dessa forma, isso pode constituir um potencial significado de representar o casal, agora formalmente acusado de um crime, como troféus para contemplação, o que será corroborado pela análise das imagens, às quais passamos agora. Nelas, no que se refere à distância social estabelecida entre PR e PI, Alexandre Nardoni é fotografado de perto, não permitindo ao leitor acessar muitas informações sobre ele, criando, portanto, um distanciamento entre PR e PI. Quanto à estrutura narrativa, nota- se que o texto constrói uma narrativa transacional, uma vez que um vetor é formado a partir do olhar do PR que é direcionado a um alvo. No entanto, esse alvo está fora da cena narrativa, não sendo possível identificá-lo. Assim, emprega-se olhar de oferta na representação desse PR. Ademais, a expressão facial do suspeito passa a ideia de que ele está assustado, como se algo que estivesse imediatamente atrás dele o assustasse, evidenciado assim a estrutura narrativa. Além disso, é importante ainda analisar o plano de fundo da fotografia. 123 Assim como já visto em outros textos, o background privilegia um tom escuro, conferindo saliência ao PR, que está em primeiro plano, ao mesmo tempo em que confere uma atmosfera sombria e negativa em torno dele. Essa representação de Alexandre Nardoni, por meio de face assustada, olhar direcionado a um lugar desconhecido e ambiente sombrio, causa um distanciamento em relação ao PI. Anna Carolina também é representada por meio de uma narrativa transacional. Entretanto, no caso dela, a narrativa é percebida pelas mãos que parecem puxar sua blusa, como se ela estivesse se debatendo e sendo imobilizada. Essa representação é semelhante àquela já observada na análise do texto 2, destacada na Figura 13, em que se vê Anna Carolina sendo conduzida por policiais, com uma mão no seu pescoço, como que imobilizando-a. A madrasta de Isabella também é representada por olhar de oferta, não se estabelecendo interação com o PI. Além disso, assim como na imagem de Alexandre, o plano de fundo da fotografia é escuro, o que confere ao ambiente uma atmosfera sombria e negativa. Assim, nota-se que ambos suspeitos parecem agitados e sendo contidos, sendo possível observar que estão com as mãos amarradas. Poderíamos até mesmo dizer que parecem ser representados como animais ferozes que estão sendo domados. A forma como são representados pode levar o leitor a fazer uma interpretação maior: a de assassinos. Isso porque as fotografias empregadas passam uma impressão negativa deles, construindo a imagem de pessoas perigosas que, por isso, precisam ser imobilizadas. O sistema de cores mais evidente apresenta tons escuros, conferindo ao texto uma atmosfera densa e sombria em torno do casal, sendo esse mais um elemento que confere um distanciamento do PR em relação ao leitor. Diante do exposto, observamos, nesse último texto que o casal é projetado principalmente a partir de um distanciamento do leitor, reforçado pelo olhar de oferta, pelo tom escuro no plano de fundo e pela narrativa transacional. O casal é, então, representado como pessoas ou animais agitados e domados, imobilizados, a partir de uma atmosfera escura e tenebrosa, assim como já visto nas análises dos textos 1 e 3, sendo apresentados com destaque no texto ora analisado. Em relação ao modo verbal convém destacar o posicionamento do produtor do texto em relação ao evento. Assim como já destacado em outros textos, o sign-maker emprega sua Apreciação em relação ao evento. No entanto, observa-se aqui não somente a Apreciação, mas também uma antecipação de julgamento, ainda que não explícita. Isso 124 porque, ao final do texto, emprega-se o enunciado “Até lá a morte de Isabella continuará sendo um crime sem condenados” (Veja, 14/8/2008, p.104), em que a expressão “até lá” refere-se ao julgamento do casal. Com isso, parece ser antecipada a condenação, pois o “até lá” remete a um lugar no tempo em que a condenação chegará e, sendo eles os réus, serão condenados. Isso deixa claro que há não somente a atribuição de autoria do crime ao casal, mas também um direcionamento argumentativo de culpabilidade e, consequentemente, de condenação, previamente ao julgamento Legal. A seguir faremos uma discussão dos dados obtidos nas análises dos textos de 1 a 6, buscando explicitar de modo mais detalhado como Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, suspeitos da morte de Isabella Nardoni, foram representados no conjunto de textos da Revista Veja e observando se há neles um direcionamento que sugira um prejulgamento e condenação prévia. 2.7 – A representação dos suspeitos no caso Isabella Nardoni: discussão das análises. Nas seções anteriores analisamos de maneira detalhada cada texto que compõe nosso corpus, observando com acuidade a representação dos suspeitos de assassinarem Isabella Nardoni, em textos publicados pela revista Veja. Nesta seção, nos propomos a recuperar os dados obtidos nas análises dos textos em questão, discutindo os possíveis sentidos do modo como é feito o emprego dos diversos modos semióticos mobilizados, observando se podem revelar um direcionamento de culpabilidade ao casal ou um pré- julgamento, foco principal desta pesquisa. A partir das análises realizadas, vimos que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são representados nos textos da revista de forma a serem relacionados diretamente à autoria da morte de Isabella. O casal é representado a partir de um viés negativo, o que sugere serem eles os autores da morte de Isabella, ou seja, os assassinos da criança. Isso mostra um direcionamento argumentativo de culpabilidade, em que os sentidos potenciais convergem para uma antecipação de julgamento (social) em detrimento do julgamento legal, o que pode ser observado pelos diferentes modos e recursos semióticos apontados em nossas análises. É o que buscaremos explicitar e sistematizar aqui. Um elemento que permite perceber essa representação é o modo como as imagens são empregadas na composição das matérias em jogo. Como vimos nos textos 1, 2, 4 e 6, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são representados por meio de fotografias em que eles aparecem conduzidos por policiais. Observe-se que esse recurso é predominante 125 nos textos analisados, já que em apenas 2 dos 6 textos analisados não foi verificada essa característica nas fotografias dos suspeitos. Essa forma de representá-los, sendo acompanhados (e algumas vezes imobilizados) por policiais, pode sugerir ao leitor serem os suspeitos sujeitos violentos e de alta periculosidade e, portanto, autores do crime. Neste ponto, é possível questionar se, a partir dessa representação, já não estariam eles tendo sua liberdade cerceada. Isso porque mesmo que não fossem posteriormente condenados, possivelmente não conseguiriam sair às ruas com tranquilidade. Mas é possível observar mais elementos nessa forma de emprego das imagens dos suspeitos. Nos textos 2 e 6, Anna Carolina está não somente sendo acompanhada de policiais, mas parece estar sendo imobilizada, reforçando a projeção de uma pessoa agressiva e perigosa. Essa representação da madrasta de Isabella como uma pessoa perigosa, imobilizada por policias parece pertinente com um sentido de criminosa. Isso, considerando-se o contexto da divulgação de informações sobre um homicídio, projeta um sentido de autoria ao crime, levando a um sentido potencial de ser ela, Anna Carolina Jatobá, autoria do crime. É importante ressaltar que sabidamente por diversas vezes uma multidão foi à porta da casa do casal Nardoni pedindo o linchamento do casal, conforme divulgado pelos noticiários, o que em boa medida explica o número elevado de policiais em torno deles. No entanto, essa informação não consta dos textos analisados, o que faz com que as imagens empregadas tendam a direcionar-se preferencialmente para os sentidos aqui apontados, deixando evidente a escolha dos designers em representar esses suspeitos como pessoas perigosas, mesmo que essas escolhas sejam inconscientes. Além disso, a recorrência de policiais nas fotografias de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá gerou nas imagens um fundo escuro, criando-se uma atmosfera sombria e tenebrosa em torno dos suspeitos. Isso permite criar sentidos próprios de um assassinato, já que o tom sombrio causa sensações negativas no leitor, e o tom preto é associado à morte e a coisas/situações ruins. Mesmo que inconscientemente, a atmosfera sombria vai permitindo criar uma falta de empatia entre PR e PI. Outro elemento dos planos visuais obtido em nossas análises e que remete a uma representação dos PR-suspeitos como pessoas agressivas é o desenho, no infográfico do texto 4. Como vimos, para a caracterização dos suspeitos, foram empregados traços retos e pontiagudos, reforçando a projeção de pessoas violentas. Essa forma de representá-los tende a fazer com que o leitor atribua a autoria do crime a eles, sem deixar o benefício da dúvida. 126 Seguindo a discussão sobre a representação dos suspeitos, podemos abordar agora os significados interpessoais do modo visual. É possível constatar, pelas análises realizadas, que os PR-suspeitos são, em geral, representados por olhar de oferta, não estabelecendo, por isso, nenhum tipo de contato visual com o PI. Com efeito, observamos que os PR são representados em geral por olhares vagos, distantes e direcionados a lugares incertos. O sistema do olhar evidencia, assim, que os PR são representados como objetos de observação e contemplação, o que, nesse caso, não se relaciona com admiração, mas com um possível julgamento por parte do PI. Há aí uma ausência de conexão por meio do olhar entre os PR-suspeitos e PI, de tal modo que os textos analisados sugerem um distanciamento e desvinculação com Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá e, consequentemente, um distanciamento do mundo e valores dos PR em relação ao PI. Ainda em relação às imagens, podemos destacar a expressão facial do casal, que, nas fotografias empregadas, sugere ausência de emoções. De fato, como pudemos observar em vários momentos das análises, não se observa, nas imagens dos suspeitos empregadas nos textos, expressão de tristeza, arrependimento, de dor, de angústia. As expressões são, de modo geral, de indiferença, o que sugere serem pessoas frias e insensíveis, levando, também, a um distanciamento do PI. Outro aspecto que pode ser ressaltado aqui é o fato de, na representação dos suspeitos, o produtor dos textos analisados utilizar-se, a partir do modo verbal, da Narrativa de Vida (MACHADO, 2015) para apresentar aspectos da vida cotidiana do casal. Essa narrativa de vida, como pudemos ver ao longo das análises, ressalta de modo geral características negativas de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá e parece ter sido empregada como recurso argumentativo para “apresentar” o casal ao leitor. Veja-se, sobre esse ponto, que informações particulares da vida do casal que aparentemente não teriam relação com o crime em questão são empregadas nos textos analisados, contribuindo, assim, para a construção da representação discursiva e semiótica dos suspeitos. O que observamos de modo geral nesse exame é que as informações narradas por meio desse recurso extrapolaram o evento reportado, cumprindo papel fundamental na representação dos suspeitos, busca principal desta pesquisa. Quando analisamos o modo verbal, o fizemos principalmente a partir do Sistema de Avaliatividade, por meio do qual se evidenciou o emprego de Julgamentos negativos na representação do casal. Por meio do Sistema de Avaliatividade, no modo verbal, é possível constatar que Alexandre Nardoni é projetado nos textos como uma pessoa violenta – representação já observada nas imagens –, fria e emocionalmente desequilibrada. 127 Essas representações foram percebidas a partir do emprego de Julgamentos negativos, tanto de Estima Social quanto de Sanção Social. Os Julgamentos de Estima Social estão relacionados a demonstrações de ciúmes e ao quadro profissional dos investigados. Já os Julgamentos de Sanção Social se manifestam nas diversas menções a atitudes de agressão dos dois suspeitos, tanto em relação um ao outro, quanto em relação aos filhos. Nos textos analisados projeta-se a imagem de Alexandre Nardoni como uma pessoa ciumenta. A isso, soma-se a representação do pai de Isabella como uma pessoa agressiva, representação percebida não somente no modo verbal, por meio do Sistema de Avaliatividade, como também pelo modo imagens, a partir dos desenhos no infográfico, como já afirmamos. Ambas as representações, de pessoa ciumenta e agressiva, sugerem a representação de uma pessoa com desequilíbrio emocional. Acrescente-se a isso que, por meio da narrativa de vida, observamos também Julgamentos de Estima Social em relação ao status profissional de Alexandre Nardondi. Nos textos analisados, enfatizam-se os insucessos profissionais do pai de Isabella, o que permite construir a representação de Alexandre Nardoni como um sujeito sustentado pelo pai, levando, portanto, à representação de “playboy” ou “filhinho de papai”. Trata-se, em suma, da construção de uma imagem negativa de Alexandre Nardoni. Outro Julgamento de Estima Social negativa em relação a Alexandre Nardoni está nas avaliações do seu comportamento quando do depoimento no dia da morte de Isabella. Nelas enfatizam-se reações que demonstram sobretudo frieza por parte do pai da criança. Anna Carolina Jatobá, por seu turno, foi representada como uma pessoa ciumenta e agressiva, sendo esses os principais Julgamentos de Estima e Sanção Social em relação a ela, respectivamente. É importante destacar que ambas as representações mencionadas (ciumenta e agressiva) levam à projeção de uma pessoa emocionalmente desequilibrada, da mesma forma que vimos em relação a Alexandre Nardoni. Soma-se a isso a projeção de Anna Carolina como oriunda de uma família desestruturada, o que pode contribuir para a construção da imagem de uma pessoa complicada e emocionalmente instável. É importante ressaltar que a relação de Anna Carolina com sua família (no caso o pai) não tem relação direta com a morte de Isabella. Mesmo assim, essa informação é empregada na construção da representação psicossocial da suspeita. Isso reforça nossa afirmação de que os textos analisados criaram representações do casal a partir de um ponto de vista específico, evidenciando 128 comportamentos que criam uma imagem negativa, contribuindo para a projeção deles como pessoas frias, insensíveis e dissimuladas. Além disso, por meio da narrativa de vida, observamos a Apreciação do produtor do texto em relação ao relacionamento do casal, que foi caracterizado como tenso, marcada por ciúmes e agressões. Como se vê, mais uma vez, foram enfatizados aspectos da vida de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá que constroem para eles uma imagem negativa junto ao leitor. Assim, por meio do Sistema de Avaliatividade, nossas análises demonstraram que o casal é representado a partir de uma visão negativa, desvelando, dessa forma, a Atitude do produtor do texto em relação ao casal investigado. Essas escolhas, de trazer informações pessoais, de um ponto de vista negativo, contribuem pra informar a sociedade sobre o crime? Ora, um dos potenciais sentidos que isso traz é uma possibilidade de se traçar um perfil psicológico dos suspeitos. Como afirmarmos, projeta-se um perfil negativo deles. Esse perfil negativo seria para explicar o crime e convencer o leitor de que seriam eles os assassinos? Acreditamos que essa representação negativa permite que o casal seja associado diretamente aos assassinos da criança. Esses questionamentos se dão em virtude de estarmos trabalhando com textos publicados durante o período investigativo, em que o casal era ainda suspeito do crime. Acreditamos, assim, que a representação dos suspeitos de forma negativa já constitui elemento capaz de permitir que se associem esses sujeitos à autoria do crime, evidenciando-se um direcionamento de culpabilidade e até mesmo de condenação prévia. Dando sequência a esta discussão sobre as representações destacadas em nossas análises, podemos salientar ainda o emprego de diversos recursos que tratam como factual a versão segundo a qual Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá teriam agredido e matado Isabella Nardoni, versão que mais tarde seria a sustentada no processo judicial. Mais especificamente, a sequência de possíveis agressões foi apresentada como “fatos”, não se deixando espaço para dúvidas quanto à autoria do crime. Isso porque, na narrativa das possíveis agressões que teriam antecedido o assassinato de Isabella Nardoni, foi empregado o modo indicativo, com a predominância do pretérito perfeito, recursos verbais que conferem à narrativa um aspecto de factualidade e realidade. Esses empregos sugerem, portanto, que Anna Carolina e Alexandre Nardoni são os autores da morte de Isabella. Além disso, nos textos 3 e 4, mais especificamente, a autoria do crime é explicitamente atribuída ao casal, por meio do modo verbal e da tipografia empregados, sendo, nesses casos, o casal representado explicitamente como assassino. No texto 3, esse sentido potencial evidencia-se a partir do enunciado “Foram eles”, conforme 129 demonstramos na seção 2.3; já no texto 4 a atribuição de autoria se dá mais explicitamente a partir do emprego do pretérito perfeito e também no infográfico em que as possíveis agressões sofridas por Isabella são apresentadas ao leitor como “fatos”. Percebemos, assim, que os textos analisados neste trabalho, ao abordarem a morte de Isabella Nardoni, constroem modos particulares de se perceber os fatos e, sobretudo, de representar os suspeitos. Apesar de termos apresentado as análises separadas por modo semiótico, é possível perceber que os diferentes modos semióticos empregados se complementam na construção dos sentidos possíveis dessa representação. Fica evidente que as escolhas nos planos verbal e visual mostram os sentidos convergindo para uma similaridade quanto à representação dos PR-suspeitos, no sentido de atribuir a eles a autoria do crime. Em suma, podemos dizer que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são representados a partir de ideias que sugerem sujeitos violentos e agressivos, frios e dissimulados, ciumentos e emocionalmente desequilibrados. Essas representações negativas, associadas ao contexto de um homicídio, levam à atribuição de autoria do crime ao casal, permitindo-se compreender os suspeitos em questão como assassinos. A representação de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá percebida por meio das análises apresentadas dos textos 1 a 6 pode ser resumida conforme figura 28 a seguir: FIGURA 28 – Representação dos suspeitos no caso Isabella Nardoni Fonte: a autora 130 Discutidos os dados das análises dos textos do caso Isabella Nardoni, podemos nos perguntar se as representações aqui verificadas não estariam, uma vez que estão direcionadas à atribuição de autoria do crime ao casal, violando outros direitos fundamentais, como a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, e da imagem das pessoas 52 . São questões para as quais não temos respostas, mas que acreditamos ser necessário colocar aqui como forma de acender essa discussão na sociedade. Outra questão a se pensar é: haveria meio de informar sobre um homicídio, sem direcionar o leitor a um pré-julgamento dos suspeitos? É preciso refletir sobre isso, pois, como explicam Menuci et al (2016, p. 196), “o modo como a mídia transmite suas informações influência diretamente o público, que tende a julgar por culpado o indivíduo que está sendo investigado criminalmente”. Esse modo de que falam os autores é o que, no caso em análise, permite criar o sentido em potencial de pré-julgamento. A liberdade de imprensa está respaldada pela Constituição Federal de 1988. No entanto, direitos e garantias fundamentais também são previstos aos indivíduos na Carta Magna. Ademais, é preciso lembrar que esse é um dos casos de grande comoção nacional que ocupou por muito tempo os noticiários. Alexandre Nardoni e Anna Carolina por várias vezes foram ameaçados de linchamento devido à grande repercussão do caso. Isso já não seria indício de que houve por parte da sociedade uma condenação prévia? E por quais meios, que não a imprensa, a sociedade se informou sobre o caso e formou sua opinião de que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá eram os assassinos de Isabella Nardoni? Teria essa cobertura e o modo como o casal foi representado interferido na decisão posterior do tribunal do júri, que é composto por pessoas da sociedade? Teriam eles tido a vida privada violada? Houve dano à imagem deles? É legítimo perguntar ainda: se tivessem sido posteriormente absolvidos no julgamento, haveria como reparar os possíveis danos causados à imagem desses sujeitos? Caso não se confirmasse que esses suspeitos eram os autores do crime, como ficaria a vida deles? Seria possível uma reparação por parte da imprensa? E a sociedade? Permitiria ao casal restaurar sua imagem socialmente? São questões para as quais não temos respostas, mas acreditamos ser preciso suscitar uma discussão a respeito. 52 Conforme Art. 5º, X, da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988. CAPÍTULO 3: A REPRESENTAÇÃO DOS SUSPEITOS NO CASO ELIZA SAMÚDIO Neste capítulo serão analisados os textos jornalísticos selecionados para o exame da representação dos suspeitos/investigados da morte de Eliza Samúdio. Para este caso, selecionamos 3 textos, sendo 1 capa e 2 reportagens. O caso Eliza Samúdio, como já explicado no capítulo 1, é como ficou conhecido o sumiço e assassinato da modelo que teve um filho com o goleiro do Flamengo à época do crime, Bruno Fernandes. Eliza Samúdio desapareceu em junho de 2010 e não foi mais encontrada. Segundo as investigações da polícia, Eliza teria sido atraída por Bruno e seus comparsas para uma emboscada que teria tido como resultado, sua morte. Bruno e mais 8 pessoas foram denunciadas acusadas da morte de Eliza Samúdio, mesmo sem o corpo da modelo ter sido encontrado. Eliza Samúdio desapareceu entre os dias 5 e 9 de junho. O último contato dela com amigos teria sido no dia 9 de junho de 2010. Por isso, a polícia acredita que a modelo tenha sido morta no dia 10 de junho. Em 7 de julho a revista Veja publicou a primeira reportagem sobre o caso que passamos a analisar. 3.1 Texto 7: Capa 07/07/2010 – Edição 2172 A capa da edição nº 2172, de 7 de julho de 2010, traz uma representação do evento morte de Eliza Samúdio, assim como uma reportagem de 08 (oito) páginas sobre esse evento. Inicialmente iremos analisar a capa, identificada neste trabalho como texto 7, e em seguida analisaremos a referida reportagem, identificada neste trabalho como texto 8, na próxima seção. Nesta seção analisaremos a capa da edição nº 2172. Antes, porém, de iniciar a análise, vale a pena levar em consideração aqui aquilo que Gomes (2010) pontua acerca da capa de revista. Para a pesquisadora em questão, a capa de revista é um gênero discursivo que tem como propósito comunicativo servir de “embalagem” para vender a revista, daí a riqueza de informações para “aguçar” o leitor a comprar um “produto”. Nas palavras da autora, “Pode-se dizer que o gênero capa de revista se configura enquanto uma vitrine, ou seja, é produzido para não só chamar a atenção do leitor, mas para vender a revista: é por meio dela que se seduz ou convence o leitor a comprar a edição e levá-la para casa” (GOMES, 2010, p. 303). Essas considerações da autora estão em sintonia com aquilo que aponta o nosso estudo, pois no texto em exame, 132 como procuraremos demonstrar ao longo da análise, o emprego de recursos semióticos que serviram de chamariz para a revista e, ao mesmo tempo, que se mostraram importantes recursos discursivos na representação desse evento social, assim como dos sujeitos sociais nele envolvidos, funcionam como verdadeira embalagem e chamariz para a reportagem que vem na edição da revista. Além disso, pelo fato de funcionar, no dizer de Gomes (2010), como uma embalagem, a capa de revista tende a tornar-se mais imagética. Por isso, nossa análise para o texto 7 contemplará mais significativamente os significados visuais, tendo em vista o fato de eles terem maior evidência na produção de sentido e consequentemente na representação do evento social aqui estudado. A partir da capa, que é rica em recursos semióticos, vamos mostrar como foi representado o acusado da morte de Eliza Samúdio, Bruno Fernandes, único suspeito/investigado que aparece nesse texto. O texto 7 está reproduzido na Figura 29 e no anexo G. Inicialmente observamos que no texto em exame foi utilizada uma configuração visual que explora diversos recursos semióticos na representação do evento social. No texto em análise há uma foto, uma imagem de Eliza, do lado esquerdo, numa cor acinzentada, ao passo que a de Bruno vem em tamanho maior, ocupando quase toda a página. Somam-se a essas imagens os dizeres: “Traição, orgias e horror: O mundo do goleiro do Flamengo, ídolo da maior torcida do Brasil, ameaça ruir”, conforme Figura 29 a seguir: 133 FIGURA 29 – Layout 7 Fonte: Revista Veja, 07/06/2010, Capa Para examinar em mais detalhes esses diferentes recursos semióticos de que se vale o texto acima, vamos analisá-lo a partir da composição do layout, das imagens e do modo verbal. Da mesma forma que fizemos nas análises do caso Nardoni, tentaremos trabalhar cada modo semiótico separadamente, para fins didáticos, sempre que possível. O modo layout, é importante lembrar, considera que a maneira como os elementos são dispostos no texto cria relações entre os elementos, conferindo coerência e ordem de importância a eles (MACHIN, 2007, p. 129), ou seja, o layout nos fornece as conexões e coerências do texto. Considerando isso, observamos a partir dos três principais recursos semióticos do layout – valor informacional, moldura e saliência – que ele foi elaborado/disposto de forma a chamar a atenção do leitor ao PR-suspeito, Bruno Fernandes. Isso é o que procuraremos explicar em mais detalhes nas próximas linhas. Analisando-se a organização do texto, em relação ao valor informacional, observa- se que se instancia a informação de forma bastante imagética a partir de uma estrutura textual que apresenta polarização entre os lados esquerdo e direito, ou seja, que organiza os elementos em uma estrutura Dado/Novo. Isso porque temos no lado esquerdo do texto em 134 análise basicamente dois elementos: uma imagem de Eliza Samúdio e o enunciado “Traição, orgias e horror: O mundo do goleiro do Flamengo, ídolo da maior torcida do Brasil, ameaça ruir”; ao passo que, do lado direito, há uma imagem em tamanho maior do suspeito, Bruno Fernandes. É importante lembrar que por dado entende-se a informação que o leitor já conhece, enquanto o novo corresponde à informação tida como desconhecida para o leitor. A instanciação da informação na estrutura Dado/Novo é a estrutura principal do texto em análise. Entretanto, é importante observar outros elementos importantes para a construção das representações no texto. Esse é o caso da posição da imagem de Eliza, que ocupa o canto superior esquerdo do texto. Trata-se da posição destinada ao campo do ideal, que é aquele que estabelece uma relação mais emotiva com o leitor, remetendo ao imaginário, aos sonhos, como explicam Brito e Pimenta (2009. p. 109). Essa área do layout se opõe à parte inferior, que costuma apresentar informações mais específicas, mais próximas da realidade. Essas explicações são relevantes para a compreensão dos sentidos construídos no texto em análise, pois nos permite verificar a oposição criada na forma de representar a vítima e o então suspeito. A imagem da vítima, como já tínhamos dito, está no canto superior/direito, isto é, numa posição que corresponde ao Dado/Ideal. Trata-se, portanto, de uma informação dada, porém na confluência com uma idealização, algo mais distante do real. Além disso, cabe observar que o PR-suspeito, Bruno Fernandes, diferentemente do que ocorre com a vítima, está representado ocupando mais da metade do espaço textual. Com efeito, ele ocupa todo o lado direito do texto e também em grande escala da porção central. Isso evidencia o valor informacional conferido a esse elemento textual, ou seja, há uma ênfase maior dispensada ao PR-suspeito, em torno do qual se cria uma moldura. A esse respeito, merece destaque outro aspecto do layout: a saliência. A saliência dada a alguns recursos semióticos por meio do espaço maior, cores e brilho mostra a importância dada à representação e serve de “moldura” para a organização textual. Além disso, é importante lembrar que existe no layout uma subordinação entre os elementos textuais: o elemento em destaque é aquele ao qual os demais elementos ficam subordinados. Nesse sentido, é possível observar que os três principais elementos do texto – imagem de Eliza, imagem de Bruno e enunciado – se sobrepõem, criando, assim, uma integração imagética na qual a imagem de Bruno é mais nítida e se sobrepõe aos demais elementos. Em resumo, essa configuração do layout deixa claro que ele foi elaborado de forma a levar os diferentes elementos aí apresentados a serem lidos e analisados de forma 135 conjunta, não separadamente, já que constituem um bloco de informação, com destaque para o PR-suspeito. Fechado o exame das três dimensões do layout, podemos passar agora à análise das imagens e também do sistema de cores utilizado. Tendo em vista que esses dois modos semióticos estão intimamente relacionados, vamos abordá-los conjuntamente, o que passamos a fazer. No texto em análise o PR-suspeito é representado a partir de uma saturação de cores diferentes daquelas empregadas nos demais elementos do texto, conferindo-lhe maior destaque em relação aos outros, em sintonia com o que já dissemos quando do destaque do layout. Isso, juntamente com o tamanho maior da imagem, confere saliência a esse elemento textual, além de evidenciar que se trata de informação importante na construção do sentido do texto e, consequentemente, das representações sociais. Percebe-se que foi bastante explorado no texto o sistema de cores, principalmente a saturação, que se apresenta em diferentes graus nas imagens aí utilizadas. Convém lembrar aqui duas informações sobre essa questão: primeiro que o recurso da saturação de cores é um recurso que pode ser usado como marcador de Modalização, o que tem a ver com quão próxima ou distante da realidade uma imagem pode ser; em segundo lugar que, enfatizamos mais uma vez, “os critérios para se avaliar algo como real ou não variam de acordo com cada grupo social” (BRITO & PIMENTA, 2009. p. 102). No texto jornalístico, texto eleito para análise, o código textual tende a ser mais orientado para imagens de naturalísticas, tendo em vista que essas transmitem a ideia de maior proximidade da visão real de algo. Voltando à nossa análise, observamos que a imagem de Bruno é apresentada em primeiro plano, em cores vívidas e sólidas, conferindo destaque a ela – como já falamos quando observamos a saliência a partir do modo layout – e permitindo, por isso, ao leitor observar a riqueza de detalhes do rosto desse PR. Já a imagem da vítima é trabalhada na escala de cinza, em tom monocromático, sem possibilidade de se observarem detalhes. Nela o aspecto é o de uma transparência, parecida com uma marca d’água, impressa sobre o papel para servir de fundo para a imagem principal, deixando visível a imagem da vítima, Eliza Samúdio. Com esses recursos, cria-se sobretudo um sentido potencial em que a imagem da vítima se reveste um aspecto fantasmagórico. Considerando as imagens e a forma como elas estão organizadas pode-se constatar o contraste significativo na representação dos dois participantes representados, Bruno e Eliza Samúdio. O primeiro foi representado por meio de cores mais vívidas, numa escala 136 de cores mais colorida, podemos dizer que a imagem de Bruno está numa representação mais próxima do real, configurando-se, portanto, de alta modalidade, considerando-se um código naturalístico. Já a representação de Eliza está em segundo plano, em baixa modalidade, tendo em vista ter sido representada por uma quase ausência de cores, mais voltada para o cinza, numa escala monocromática. Considerando o exame das modalizações, pode-se inferir que as representações parecem explorar, para os dois envolvidos, uma oposição ligada a vida e morte. No caso de Bruno, prevalece a vida e o real, o que pode inclusive ser relacionado ao auge da sua carreira, como ficará mais claro à frente, quando falarmos do cromatismo. Em contrapartida, Eliza parece estar relacionada à morte, como vimos também na análise do layout e que será reforçado pelo sistema de cores, que confere a modalização explicada. Nesse sentido, o aspecto transparente e fantasmagórico da imagem de Eliza Samúdio nos leva a elaborar pelo menos dois significados: o primeiro remete à ideia de que ela estivesse morta, já que justamente a possível morte dela é que motivou a publicação da reportagem sobre esse assunto por parte da revista. Lembramos que, quando a reportagem foi publicada, o inquérito policial ainda não havia sido encerrado, sendo a morte da modelo tratada ainda como uma suspeita. O segundo significado está associado às afirmações de Bruno de que Eliza o pressionava a assumir a paternidade de um filho do qual ele acreditava não ser o pai e de que ela tinha uma obsessão por ele – elementos que serão tratados em nossa análise do Modo verbal –, remetendo, assim, à ideia de um fantasma na vida dele, de uma figura que o perturbava. É preciso lembrar ainda que as modalizações estão ligadas às relações de poder emanadas em um texto. Nesse sentido, alta modalidade indica que há afinidade entre os PRs, ou entre PR e PI; já baixa modalidade indica pouca (ou ausência de) afinidade entre os participantes ou relação de poder existente entre eles (HODGE & KRESS, 1988, p.123). Esse raciocínio nos faz concluir que há uma relação de poder representada nas imagens. Com efeito, representar o suspeito com uma alta modalidade significa lhe conferir certo poder em relação à vítima. Em outras palavras, o texto parece instanciar a informação aproximando do real o sujeito masculino, famoso, de relevante poder econômico, que contrasta com a instanciação da vítima: mulher, sem poderio econômico. Outro elemento que remete ao poder é a escala de cores na imagem de Bruno. Seu rosto, como se pode observar no texto, é apresentado numa cor quase dourada. O tom dourado em si já nos remete à ideia de poder, pois pode ser relacionada à riqueza e a posses. Além disso, considerando o contexto à época, a cor empregada pode ainda remeter 137 à relação de Bruno com a seleção brasileira de futebol, já que ele era cotado para ser o goleiro da copa de 2014, realizada do Brasil. Trata-se de algo francamente superior à cor acinzentada da imagem de Eliza, que, como já dissemos, pode remeter ao fato de ela estar morta, ou como dizem popularmente “ter virado cinzas”. Diante do exposto, evidencia-se que parece haver no texto um duplo jogo de poder entre vítima e suspeito: o dela em relação a ele, sobretudo, pela pressão para que o então jogador assumisse a paternidade do filho e o dele, preponderante, pelo seu prestígio profissional e pelo fato de poder ter selado a morte da modelo, o que parece ser mais evidente pelas modalizações já mencionadas. Esse duplo jogo de poder pode ser percebido por meio de nossas análises que mostram que Eliza foi representada na parte superior da página, acima do PR-suspeito, o que permite revelar o exercício de certo poder da vítima em relação ao ex-goleiro. No entanto, a imagem do ex-goleiro é a que é representada em alta modalidade, como já demonstrado, em primeiro plano, em tamanho maior, logo com maior destaque, revelando que nessa relação o poder é estabelecido a ele. Trazendo isso para o social, de fato, quem ganha nesse jogo é ele, já que ela no texto aparece retratada como morta, foi transformada em fantasma e em cinza. Fechada a questão das cores e da modalização, faz-se importante ainda analisar a interação e outras marcas de relações de poder presentes nesse texto. Para isso, vamos abordar as imagens da vítima e do suspeito a partir da metafunção interpessoal da GDV, metafunção para a qual são propostas três dimensões de significado: o olhar, o enquadramento e a perspectiva. Considerando o texto a partir da dimensão Perspectiva, observa-se que a foto do suspeito principal, o goleiro do Flamengo à época do evento, é apresentada em primeiro plano, em ângulo frontal, criando, assim, maior empatia entre PR e PI. Soma-se a isso que a partir da dimensão do enquadramento, observa-se que a fotografia foi tirada em close shot, ou seja, a distância social é curta e, com isso, cria-se uma relação social imaginária com maior grau de proximidade com o PI. Soma-se a isso que tanto o ângulo frontal quanto a curta distância social observada permitem expressar uma maior riqueza de detalhes no rosto do PR, o que em termos textuais, como vimos na análise do layout, confere uma saliência informacional máxima ao PR. Analisando agora o texto a partir da dimensão do olhar, observa-se que a imagem do suspeito é apresentada em olhar de demanda, estabelecendo contato com o leitor a partir de um vetor direto, o que sugere uma aproximação com ele. Essa aproximação poderia 138 também ser estabelecida pela distância social, que é pequena, já que Bruno foi “clicado” a uma curta distância, de modo que ele aparece em tamanho maior e com focalização basicamente sobre o rosto. Assim, o leitor tem apenas uma única visão do PR-suspeito, o que torna a imagem subjetiva. Entretanto, apesar de o PR-suspeito olhar diretamente para o leitor, buscando uma aproximação, pode-se não estabelecer empatia. Isso porque ele é representado com expressão facial fechada, com seriedade, sem demonstrar qualquer tipo de expressão ou emoção, o que pode, na verdade, levar a um distanciamento do leitor. A imagem do PR- suspeito demanda algo do leitor, seja uma aproximação, seja um julgamento, seja uma admiração. Acrescente-se que como se trata de uma representação mais próxima da realidade, como já explicado, essa seriedade poderia estar relacionada ao evento social em questão que poderia fazer desmoronar a carreira do então goleiro, como posto no enunciado (que será analisado adiante) presente no texto, o que posteriormente acabou acontecendo, tendo em vista que Bruno foi condenado e permanece ainda hoje (em 2019) preso sem poder exercer sua profissão. Em suma, a partir das três dimensões da metafunção interpessoal, podemos observar que há uma tentativa de aproximação entre PR-suspeito e PI, já que pelo ângulo frontal, no nível dos olhos, o que se cria é uma equidade entre esse PR e o PI. O próprio ângulo frontal sugere certo envolvimento entre o participante representado e o leitor. Isso naturalmente pode estar relacionado ao fato de se tratar aí de um sujeito conhecido do mundo do leitor, alguém com quem o leitor já esteja familiarizado, já que estamos nos referindo a uma pessoa famosa e, à época do crime, o goleiro de um dos times de futebol mais conhecidos no Brasil. Por outro lado, apesar de olhar diretamente para o leitor, o que, como dissemos, criaria uma aproximação, é possível observar que não há interação, o que pode ser afirmado a partir de outros traços, como a ausência de um sorriso mais natural, por exemplo, já que o semblante do PR-suspeito é de seriedade. Por essa razão, embora pareça haver uma aproximação desse PR com o leitor, que ele conhece bem, não se estabelece aí uma relação de simpatia. Pelo contrário, a expressão de seriedade do suspeito parece promover a construção da identidade de uma pessoa fria, que não expressa emoções. Diante disso, pode-se entender essa imagem de Bruno como a representação de uma frieza perante o cenário em que se transformou sua vida, uma frieza de quem com uma carreira de sucesso prestes a desmoronar não expressa reações emotivas. Com efeito, a relação do 139 PR-suspeito com o leitor reside mais no fato de ser uma pessoa famosa, um ídolo esportivo, que uma interação criada a partir da imagem. Eliza Samúdio, por seu turno, é também representada com olhar de demanda, já que ela olha direto para o leitor. Embora tenha sido fotografada com o rosto de lado, meio que de perfil, é possível observar que o enquadramento mostra uma curta distância social, já que foi fotografada de perto, mostrando o rosto. Trata-se, assim, de uma imagem subjetiva, já que está visível de apenas um ângulo para o leitor, que não tem acesso a outras informações senão aquelas que se podem inferir por sua face. Já a partir da perspectiva, nossa análise observa que a vítima é fotografada a partir de um ângulo oblíquo, o que lhe confere certo empoderamento, já que ela olha de cima para baixo e, como demonstramos, ela está no canto superior esquerdo da página. Soma-se a isso o fato de que o ângulo oblíquo sugere distanciamento entre PI e PI. Isso pode ser explicado pelo fato de ser uma pessoa, um PR com o qual o leitor não tem envolvimento; trata-se de alguém desconhecido, pelo menos até então, ao mundo do leitor. Cabe observar ainda que o sorriso de Eliza parece ser mais natural se comparado com a expressão facial de Bruno. O contraste da expressão facial de ambos é outro aspecto que pode ser relacionado à ideia de ser vivo (Bruno) em oposição ao ser fantasmagórico (Eliza). Isso porque a imagem de Eliza remete a uma sensação de tranquilidade, comum quando nos lembramos de pessoas que morreram, que passaram a outro plano da existência. Já Bruno passa a sensação de preocupação, já que a carreira dele está ameaçada pela (possível) morte da modelo. Analisados os modos visuais, analisaremos agora o modo verbal presente nesse texto. Analisando-se o texto a partir do modo verbal, verifica-se que esse ficou restrito a um único enunciado, já mencionado: “Traição, orgias e horror: O mundo do goleiro do Flamengo, ídolo da maior torcida do Brasil, ameaça ruir”. A primeira parte do enunciado, apresentada em cor branca, letras em caixa alta e tamanho maior, busca chamar a atenção do leitor. Já a segunda parte do enunciado, construído em letras menores e em cor preta, confere saliência aos substantivos. Considerando o Sistema de Avaliatividade, percebe-se que o sign-maker expressa sua Atitude em relação à vida (ou ao mundo) do ex-goleiro, por meio da Apreciação desse mundo. Trata-se de um universo de “traição”, “orgias” e “horror”, ou seja, um mundo com características negativas e possivelmente não admiradas socialmente. Assim, faz-se importante ressaltar que são palavras de conteúdo semântico negativo, que revelam, portanto, um Julgamento de Estima Social negativa em relação ao comportamento do 140 goleiro. Veja-se que se exprime uma Apreciação em relação à vida do suspeito e, ao mesmo tempo, um Julgamento do comportamento dele. Bruno é, dessa forma, representado como uma pessoa de comportamentos reprováveis, que levam à construção do mundo dele como um ambiente negativo, o que parece resultar no aparecimento de um fantasma – um fantasma atrás dele, que seria Eliza Samúdio. Essa ideia pode ser relacionada às falas de Bruno de que as festas que frequentava, no mundo do futebol, eram fora dos padrões morais da sociedade, informação empregada na reportagem que será analisada na próxima seção, texto 8. Nossa análise leva, portanto, a um possível sentido de que ao que parece a vida desregrada resulta no fantasma que vai persegui-lo. Além disso, o texto orienta-se para uma leitura de que o evento social sumiço de Eliza Samúdio (e sua possível morte, neste momento da publicação da revista) poderia fazer desmoronar a carreira de Bruno, o que de fato aconteceu nos anos que se seguiram à morte dela, tendo em vista a sua condenação judicial e o seu consequente afastamento dos gramados e interrompendo seu sonho de defender a seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Percebemos, assim, que, inicialmente, a reportagem de Veja representa o evento social de forma a relacionar Eliza a uma possível ameaça à carreira de Bruno. Além disso, as palavras de valor semântico negativo mostram como o produtor do texto avalia a vida de Bruno: uma vida fora dos “bons costumes”, uma vida de horrores. Apesar de haver palavras positivas relacionadas a ele como ídolo, ele é, na verdade, representado como alguém que vive em um mundo negativo. Trata-se, assim, de um Julgamento de Estima Social em relação à vida (ou estilo de vida) do suspeito. Essa forma de representar o goleiro, ao reduzir a morte da vítima a um risco à carreira dele, guarda relação com a própria imagem de pessoa fria sem emoções que se constrói para ele, como demonstramos, o que se liga ao bloco informacional composto de modo verbal que acompanha a imagem, conforme discutimos. Com isso, fechamos a análise da forma como o suspeito da morte de Eliza Samúdio é representado na capa da edição 2172 da Revista Veja. Em síntese, vimos que o produtor do texto relaciona a vida de Bruno a um estilo de vida reprovável socialmente. Soma-se a isso que Eliza é representada como um fantasma, o que se pode relacionar a duas situações: uma ao fato de ela ser dada como possivelmente morta e outra ao fato de ela “perturbar” Bruno, quando o pressionava em vida para que assumisse a paternidade do filho e depois por ameaçar fazer desmoronar sua carreira. Bruno foi ainda representado como uma pessoa sem emoções. A representação do suspeito, Bruno Fernandes, foco deste trabalho mostra 141 que há um direcionamento de relacionar a possível morte de Eliza Samúdio a ele. Considerando-se que quando a revista é publicada o caso era tratado a partir de uma investigação do sumiço da modelo, não tendo naquele momento informações públicas (oficiais) de que ela havia sido morta. Na próxima seção analisaremos a reportagem de 8 páginas, denominada neste trabalho como texto 8, publicada na mesma edição do texto 7. 3.2 Texto 8 – Reportagem de 7/07/2010 Analisaremos nesta seção, dando continuidade ao exame do caso envolvendo o ex- goleiro Bruno, a reportagem da Veja publicada em 7/7/2010, páginas 78 a 85, que pode ser consultada no Anexo H. Tendo em vista que estamos trabalhando o texto em sua perspectiva multimodal e considerando que a reportagem completa é um texto complexo, composto por 8 (oito) páginas, sendo que cada duas páginas recebe composição textual diferente, faremos nossa análise em diferentes momentos. Nossa análise do texto 8 será desenvolvida, então, da seguinte forma: inicialmente abordaremos as duas primeiras páginas, 78-79, que serão analisadas separadamente das outras 06 que compõem a reportagem. Para essa primeira parte da análise, contemplaremos o layout, as imagens e o modo verbal. Isso porque essas páginas apresentam-se como uma unidade relativamente independente da reportagem como um todo, não dependendo da sequência de leitura do resto da reportagem para a construção dos significados, embora, evidentemente, a relação dos significados por ela produzidos com aqueles produzidos nas demais páginas seja parte do significado da reportagem como um todo. Essas duas primeiras páginas da reportagem funcionam, a nosso ver, como uma capa da reportagem (não se confundindo com a capa da revista). Já para o caso das demais páginas, de 80 a 85, adotaremos o seguinte procedimento: o modo layout e o modo imagens serão analisados a cada duas páginas, ao passo que o modo verbal será analisado conjuntamente, para as 6 páginas. Como já enfatizamos, nossa análise focará, sobretudo, nos aspectos que nos levem à representação dos suspeitos da morte de Eliza Samúdio. Tendo em vista que o caso em questão, apesar de envolver muitas pessoas investigadas, tomou grande notoriedade por envolver uma pessoa famosa, o ex-goleiro do Flamengo Bruno Fernandes, as análises são mais centradas na representação desse sujeito, sem, no entanto, perder de vista a discussão 142 que temos proposto em relação a uma possível atribuição prévia de autoria e culpa aos investigados. Para fins didáticos, dividiremos a análise em duas subseções: modos visuais, que contemplará tanto as análises do layout enquanto modo semiótico quanto às análises das imagens, e modo verbal. Ressalte-se, mais uma vez, que essa divisão serve apenas para uma melhor apresentação dos dados, contribuindo para a clareza e a fluidez da exposição, uma vez que, como estamos trabalhando com o texto multimodal, muitas vezes faz-se necessário analisar os modos conjuntamente. Isso dito, passemos, pois, à análise dos modos visuais. 3.2.1 Texto 8: Modos Visuais Como mencionado anteriormente, analisaremos nesta Seção as páginas 78-79 como um todo e em seguida os modos visuais nas páginas 80-81, 82-83 e 83-84. Iniciando pelo layout, que denominaremos layout 8.1, procuraremos analisar os sistemas de significado – valor da informação, moldura e saliência –, mostrando como a partir deles a representação do PR-suspeito leva a uma possível leitura de autoria do crime atribuída a Bruno pela morte da modelo Eliza Samúdio. A reportagem completa refere-se ao anexo H deste trabalho e as duas primeiras páginas da reportagem são apresentadas na Figura 30, a seguir: 143 FIGURA 30 – Layout 8.1 Fonte: Veja, 7/7/20014, páginas 78/79. Em termos de estrutura composicional, é possível observar que o layout em questão é organizado a partir de uma polarização esquerda/direita. Logo, a sua estrutura textual principal é Dado/Novo. À semelhança do que apresentamos na análise do texto 7, na organização do layout 8.1, temos do lado esquerdo uma imagem de meio corpo de Eliza Samúdio, assim como dois blocos de informação compostos por Modo verbal; enquanto à direita, mais saliente, temos a imagem de Bruno. Além disso, há um caminho de leitura secundário que vai de cima para baixo, pois há na, parte inferior dessas duas páginas, um bloco de informação, moldurado por um recurso semiótico de papel rasgado, que, como procuraremos demonstrar, está desconexo dos demais blocos de informação. Nossa análise a partir do sistema de moldura (framing) evidencia que há blocos de informação conexos, constituindo-se assim tanto uma integração imagética quanto uma integração intermodal, já que mesmo os blocos de informação constituídos por modo verbal estão conexos às imagens na composição do layout. Essa conexão, como procuraremos evidenciar no decorrer de nossa análise, dá-se por meio do sistema de cores e pela sobreposição de blocos de informação (imagens, linguagem escrita, etc.). Isso mostra que os elementos devem ser lidos e analisados juntos, como um bloco único de 144 informações. Os blocos de informação conexos são: as imagens de Eliza Samúdio (que são três), dois blocos de informação compostos por modo verbal e a imagem de Bruno. Diante dessa forte conexão entre os elementos textuais, vamos comentar um por um. É possível ver, nas páginas 78-79, três imagens de Eliza: uma de meio corpo, atrás do número 1 (algarismo em tamanho maior), do lado esquerdo de Bruno; outra somente de rosto, no canto superior direito, ao lado da cabeça do suspeito; e outra, também focalizando somente o rosto, sobreposta à primeira, do lado inferior esquerdo, próxima ao queixo de Bruno. Ainda do lado esquerdo, há dois blocos de informação compostos por modo verbal: um bloco posicionado no canto esquerdo superior, composto por um parágrafo (doravante, bloco 1), e outro bloco, meio centralizado, sobrepondo as imagens de Eliza, com os dizeres: “O suspeito número 1” (doravante, bloco 2). Do lado direito, a imagem do rosto do suspeito, destacando-se em relação aos demais. Considerando o valor informacional dos elementos, observa-se que tanto a imagem maior de Eliza Samúdio quanto o bloco informacional 2: “O suspeito número 1” são informações que correspondem ao valor dado, já que vêm do lado esquerdo, com o bloco de informação 2 sobreposto a uma imagem maior de Eliza Samúdio. Já a imagem de Bruno ocupa a posição de valor informacional novo, já que vem do lado direito. A imagem do PR-suspeito é apresentada em tamanho maior que os outros elementos do texto, ocupando quase metade do espaço textual, o que confere destaque a ela. Isso significa dizer que a atenção do leitor é direcionada primeiramente ao PR- suspeito, Bruno Fernandes. Um segundo caminho de leitura é aquele que conduz, o olhar do leitor ao bloco de informação 3, que chamaremos de “papel rasgado”. Trata-se de uma representação na parte inferior do texto codificada via modo verbal, modo esse que será analisado mais adiante. Por ora, faz-se importante frisar que esse bloco de informação “papel rasgado”, uma vez que ocupa a posição inferior da página, está mais próximo do real, que traz em geral informações mais específicas, em oposição ao ideal, que traz informações mais genéricas. Observa-se, portanto, que a imagem de Bruno e o bloco informacional 3 estão em primeiro plano, com maior destaque e saliência, sendo que as informações contidas no elemento “papel rasgado” funcionam quase que como um caminho para a realidade. Passando à análise das imagens, nota-se que Bruno é fotografado a partir de uma distância social muito curta, já que o rosto dele aparece em primeiro plano em tamanho muito maior em relação aos outros elementos do texto e com maior saliência. Com isso, a imagem de Bruno apresenta maior riqueza de detalhes, permitindo ao leitor ver de modo 145 mais nítido o seu rosto, como vimos no texto 7, com a diferença que aqui há menor grau de iluminação. A imagem de Bruno, portanto, em comparação com as demais imagens (no caso as de Eliza), é mais nítida e detalhada. Quando se trata da vítima, ocorre igualmente aqui algo similar ao que vimos na análise do texto 7. De fato, no texto ora analisado, a vítima é representada a partir de imagens em segundo plano, imagens que lembram uma marca d’água, pois apresentam transparência, podendo levar à ideia de imagens fantasmagóricas. No entanto, no texto 8, ao invés de apenas uma, são apresentadas 3 imagens de Eliza ao redor de Bruno, como já mencionamos. Como a imagem do PR-suspeito se sobrepõe aos outros elementos que vêm mais ao fundo: as imagens de Eliza Samúdio e o bloco 2 (o elemento textual “o suspeito número 1”), se pensarmos numa perspectiva de dimensões, estaria em uma dimensão mais à frente, enquanto os outros elementos, numa dimensão mais atrás, ao fundo. Apesar de o texto não ser tridimensional, a sobreposição dos elementos textuais passa a ideia de várias dimensões a partir da saliência dada a cada elemento, pois a imagem de Bruno é mais saliente, mais sólida que os demais elementos, ao passo que o bloco 2 sobrepõe-se à imagem de Eliza, que, por sua vez, passa a sensação de ser a mais translúcida de todos os blocos de informação, constituindo uma espécie de plano de fundo do texto como um todo. É possível observar que esse plano de fundo, nessas páginas, começa na esquerda com um tom preto, numa gradação bastante sólida e vai raleando, translucidando à medida que se olha para a direita. Em outras palavras, à medida que se aproxima de Bruno, o texto fica mais iluminado. De todo modo, apesar dessa iluminação no rosto do PR-suspeito, prevalece no texto o tom escuro, permitindo um potencial significado de uma atmosfera sombria. Essa atmosfera pode estar relacionada à morte de Eliza, já que em nossa cultura, não raro, o preto é associado a coisas ruins e também à morte. Já a iluminação no rosto do suspeito, deixando o mais nítido, pode ser relacionada ao enunciado “o suspeito número 1”, ou seja, o principal suspeito desse ambiente sombrio e relacionado à morte é o que está iluminado e mais claro, logo evidente que ele, Bruno,é o principal suspeito da morte de Eliza Samúdio. Neste ponto de nossa análise, faz-se necessário analisar com mais cuidado a escala de cores utilizada. Como já explicitamos, a escala de cores privilegia um tom monocromático, a partir da escala de cinza, mais voltada para o preto, configurando um ambiente sombrio, remetendo, portanto, a um ambiente negativo. Textualmente, a gradação de cores dentro da escala de preto/cinza confere ao texto coerência, uma vez que o 146 contraste preto/cinza vai criando uma atmosfera negativa e sombria, normalmente associada à morte. Além disso, os elementos do texto estão sobrepostos, respeitando-se a gradação de cores na escala de cinza, o que dá coesão aos elementos como um todo. Essa sobreposição dos elementos leva o leitor, como já adiantado, a uma leitura não linear, mas simultânea, já que os elementos estão todos conectados e inter-relacionados. A forte relação de moldura entre os elementos do texto, evidenciada ainda pelo monocromatismo, mostra que os elementos são apresentados de modo a compor uma unidade, em consonância com o que foi analisado no layout. Nesse sentido, mais que elementos conexos por integração imagética, poderíamos expandir o conceito dizendo que formam mesmo uma unidade de sentido, tornando-se um único bloco complexo, no qual os elementos apontados se juntam e se misturam na construção do sentido. Em constaste ao tom que permeia toda a página, tanto a imagem de Bruno quanto o bloco informacional papel rasgado fogem da escala de cores utilizada nos demais elementos. Com efeito, enquanto o texto como um todo é construído numa escala preto/cinza, Bruno é apresentado numa coloração não monocromática, mais natural, e o papel rasgado aparece destacado em branco, em contraste ao preto do fundo do restante do texto. Essa relação de cores nos leva a dois sentidos: o primeiro, em relação a Bruno, nos revela uma imagem de alta modalidade, portanto, mais próxima do real, se considerada uma orientação de código naturalística; o segundo, relacionado ao contraste do papel rasgado, sugere a ideia de que os dizeres desse papel, que é branco e claro, esclarecem o que se acha representado por meio das imagens escuras, do ambiente sombrio. Essa relação será retomada adiante. Cabe ressaltar que as imagens das páginas de todo o texto 8 obedecem a um código mais naturalístico, sendo que, no layout 8.1, páginas ora analisadas, a imagem de Bruno é de alta modalidade, mais próxima, portanto, do real. Já a imagem de Eliza aparece bem ao fundo, diríamos quase que em terceiro plano, já que outros elementos se sobrepõem à imagem dela e já que em segundo plano estão os dizeres: O suspeito número 1. A imagem da vítima é, portanto, representada por uma imagem de baixa modalidade, na orientação de código naturalístico. Podemos acrescentar a isso que a imagem de Eliza está num código voltado para o sensorial, capaz de provocar no leitor a sensação de se tratar aí de um fantasma, algo que é reforçado pelo fato de a imagem aparecer multiplicada em volta do rosto de Bruno. Em suma, o que se vê é que a imagem de Bruno apresenta maior riqueza de detalhes que a imagem de Eliza. Trata-se de uma imagem sólida, mais colorida e que, por isso, está mais 147 próxima da realidade, ao contrário das imagens dela que são translúcidas e em coloração na escala de preto. Da mesma forma que observado no texto 7, essa oposição pode nos levar a dois significados: primeiramente pode-se pensar nela enquanto ser vivo, mas que o pressionava a assumir um filho, ideia que pode ser reforçada pelas várias imagens dela ao redor dele, causando certa pressão na cabeça do ex-goleiro; em segundo lugar, como já afirmamos na análise do texto7, pode significar que ela esteja morta, sendo uma espécie de fantasma que poderia, pela morte sofrida, “atormentar” o ex-goleiro Bruno, suspeito de assassinato. Veja-se que é justamente isso que anuncia o bloco 2, com o dizeres “o suspeito número 1, tendo em vista ser uma expressão normalmente relacionada a crimes. Além disso, é importante observar que o algarismo 1 vem em tamanho maior grafado por cima da imagem dela, como se apontasse Eliza como um alvo a ser atingido ou, na verdade, já atingido. Acrescente-se a isso a dimensão do olhar nas imagens tanto de Bruno quanto de Eliza. Bruno apresenta olhar de oferta, para lugar incerto, causando distanciamento em relação ao leitor. Além disso, à semelhança do que foi analisado no texto 7, sua expressão facial aqui não demonstra traços de emoção, passando a ideia de uma pessoa fria. A vítima, por outro lado, é representada com olhar de demanda. Ela olha para o leitor, estabelecendo com ele uma aproximação e interação. Além disso, Eliza está sorrindo. As três imagens do rosto dela são idênticas, se diferenciando apenas pela posição na composição do texto e pela iluminação. Fechadas as análises do layout e das imagens, passaremos agora ao modo verbal nessas duas páginas, tendo em vista que os blocos informacionais que trazem a escrita como recurso semiótico estão em conexão com os demais blocos, constituindo com eles uma forte integração intermodal. Analisaremos os recursos escritos nos três diferentes elementos que chamamos de blocos. Iniciando pelo bloco informacional 1, observamos que Bruno é explicitamente representado como o “goleiro do Flamengo” e “ídolo e capitão do time mais popular do Brasil”. Esses itens, que podem ser observados diretamente na superfície textual, seguem transcritos no trecho (23), dispensando mais explicações, pois já é sabido pelo leitor que Bruno era o goleiro do Flamengo, time de futebol no Brasil, à época do desaparecimento/assassinato de Eliza Samúdio. (23) “Ídolo e capitão do time mais popular do Brasil, o goleiro Bruno, do Flamengo, é investigado pelo desaparecimento da ex-amante que o pressionava a assumir um filho. A polícia está convencida de que ela foi assassinada. 148 Informações obtidas por VEJA indicam que Bruno mentiu em seu depoimento.” (Veja, 7/7/2010, p. 78, grifos nossos) A escolha de se representar Bruno dessa maneira chama a atenção do leitor por se tratar de uma pessoa importante, nesse caso, trata-se do ídolo de um time de futebol. Estamos diante, portanto, de Julgamentos de Estima Social positiva, pois é uma escolha do produtor do texto referir-se a Bruno dessa forma. De todo modo, vamos analisar, a partir no estrato semântico-discursivo e de outras relações, os potenciais significados atribuídos ao suspeito. É possível depreender outras representações do suspeito a partir do trecho destacado em (23). Veja-se que o emprego da palavra “pressionava” reforça a conexão entre os elementos textuais, evidenciando uma integração intermodal, pois pode ser relacionada diretamente às várias imagens de Eliza Samúdio em volta da cabeça de Bruno, passando essa ideia de que ela o estava pressionando. Além disso, faz-se importante analisar a partir do modo verbal como o evento social é representado pelo texto de Veja. Observe-se que o desencadeamento textual leva à representação do evento numa escala de vai de um desaparecimento a um assassinato. Entretanto, devido à integração dos modos semióticos, como explicitamos, há uma representação de assassinato, sendo o ex-goleiro representado pelo texto de Veja como o principal suspeito, ou o suspeito número 1. Passando à análise do bloco informacional 2, mais especificamente o enunciado “o suspeito número 1”, faz-se necessário analisar a relação desse bloco com os demais elementos textuais. O modo verbal do bloco em questão apresenta uma polissemia, que pode permitir a associação de dois significados: ao mesmo tempo que remete ao trabalho de Bruno, que era goleiro de um famoso clube de futebol e vestia, portanto, a camisa número 1 do time nos jogos, o representa como o principal suspeito da morte de Eliza Samúdio. Isso reforça a conexão entre os blocos de informação (imagem de Bruno e o bloco 2), como já afirmamos. Além disso, Eliza está “marcada” com o número 1, permitindo construir um possível significado de “marcada para morrer”. Cabe ressaltar também, como já afirmamos, que a expressão “o suspeito número 1” está diretamente relacionada a Bruno e vem grafada em letras maiores. Isso reforça o destaque dado a Bruno não apenas como um sujeito social, mas também (e primordialmente) como o principal suspeito da morte da modelo. Passando nossa análise ao bloco informacional papel rasgado, bloco 3, observa-se que ele aparece sobreposto a todo o texto. É destacado em cor sólida, branco ao fundo, enquanto, como já falamos, os outros elementos apresentam certa transparência. Essa 149 sobreposição do papel rasgado se dá justamente na altura da imagem de Eliza mais abaixo, como que rasgando sua boca, o que pode levar a um possível significado de que os dizeres ameaçadores de Bruno levaram (ou deveriam levar) a moça a se calar. O elemento escrito está transcrito a seguir em (24): (24) “EU NÃO QUERO ESSE FILHO, E SOU CAPAZ DE TUDO PARA VOCÊ NÃO TER ESSA CRIANÇA. VOCÊ NÃO ME CONHECE E NÃO SABE O QUE SOU CAPAZ POIS EU VENHO DA FAVELA” que depois deste dia na data que...” (Veja, 7/7/2010, p. 78-79). Importante se faz lembrar primeiramente o valor informacional conferido a esse elemento textual: ele vem na parte inferior, portanto, na posição do real. Lembramos, mais uma vez, que a parte inferior normalmente é compreendida como a parte que traz informações mais específicas, em oposição ao ideal que traz informações mais genéricas. Vale destacar que a fala de Bruno é grafada em caixa alta, o que confere destaque a ela. Analisando-se mais especificamente o modo verbal, por meio do Sistema de Avaliatividade, observa-se nesse bloco de informação um Julgamento de Estima Social, uma vez que traz o estereótipo segundo o qual quem vem da favela é perigoso, pois é capaz de qualquer coisa, não estando submetido às leis. Veja-se que dessa forma o produtor do texto traz não somente uma representação de Bruno, mas um estereótipo de uma classe social. A representação desse estereótipo, sobretudo de pessoa que não respeita a lei, relaciona-se ao layout 8.4 e será retomada quando analisarmos as páginas 84-85. A partir dessa representação, cria-se uma imagem negativa do PR-suspeito, trazendo o significado potencial de pessoa perigosa, relacionando-o diretamente ao desaparecimento e possível morte de Eliza Samúdio. Acrescenta-se a isso que o elemento papel rasgado é apresentado em branco, contrapondo-se ao restante do texto, que é majoritariamente construído a partir de uma gradação de preto e que, por isso, ganha um aspecto sombrio. O efeito disso é a ideia de se estar descobrindo o que estava sombrio, obscuro, associando a pessoa da favela como aquele que não segue as leis, portanto, como se desmascarasse Bruno como assassino de Eliza Samúdio. Diante disso, evidencia-se que o texto direciona argumentativamente para uma atribuição prévia de autoria ao PR, mesmo que não ocorra de forma explícita. Vale lembrar que Bruno Fernandes, que é inicialmente representado pela Revista Veja como o principal suspeito do assassinato de Eliza Samúdio, é apresentado com uma imagem de rosto, como analisamos, que não expressa emoções, o que cria o sentido potencial de uma pessoa perigosa e fria. Agora, do mesmo modo, no papel rasgado, suas emoções e sua periculosidade são abordados, já que ninguém “sabe do ele é capaz”, 150 segundo o enunciado do bloco informacional 3. Assim, a associação desses recursos semióticos leva à representação de Bruno como um sujeito frio e perigoso. Além disso, nossa análise permite construir o significado potencial de forte relação do suspeito com a vítima e com o evento social: a morte dela. Com efeito, como vimos anteriormente os diferentes elementos que compõem as páginas em análise estão fortemente conexos, seja pela ausência de espaços em branco; seja pela gradação de cores; seja pela sobreposição de blocos de informação; seja, ainda, pela relação dos recursos semióticos analisados. As imagens fantasmagóricas reforçam a ideia de Eliza estar morta. Além disso, o enunciado “suspeito número 1” em equilíbrio com esquema de cores – escala de cinza mais voltado para o preto –cria uma atmosfera sombria, uma atmosfera de um crime cujo suspeito aí se desvela. Ressalte-se que, em pelo menos dois momentos, pode-se associar a iluminação e a cor clara à revelação do que aconteceu com Eliza: a escala de cores, que começa na esquerda com um tom mais sólido e vai translucidando à medida que se aproxima de Bruno, e o papel rasgado, que vem quase como que descortinando o que está por trás do tom preto, com dizeres de Bruno ameaçando a vítima. Somam-se a isso a representação do preto como morte, as imagens de Eliza como fantasma e principalmente, o mais explícito, os dizeres “o suspeito número 1”, como demonstramos. Pode-se, portanto, afirmar que, com a forte relação entre os elementos textuais, em que se associa Bruno Fernandes com a autoria do assassinato de Eliza Samúdio, o leitor pode ser induzido a criar uma possível antecipação de julgamento antes mesmo do devido processo legal. Nota-se aí não uma culpabilidade, é preciso frisar, mas uma atribuição de autoria. Ressalta-se mais uma vez que este trabalho não tem pretensão de defender os suspeitos dos crimes, inclusive porque os dois casos eleitos para estudo já foram julgados pela Justiça. Nosso objetivo é tão somente o de evidenciar como esses sujeitos, suspeitos dos crimes, são representados pelo jornalismo da Revista Veja, discutindo se há um direcionamento a uma possível atribuição prévia de autoria e/ou de culpabilidade. Por isso mesmo, não se trata tampouco de julgar o trabalho da imprensa, mas de discutir os significados (possivelmente) produzidos nos textos selecionados. Isso frisado, passaremos a partir de agora a analisar as 06 páginas seguintes da matéria selecionada, páginas 80-85. Para examinar essa parte da reportagem, vamos apresentar cada duas páginas e em seguida analisar os principais modos semióticos visuais 151 delas. Tendo em vista que os modos visuais cumprem importante papel na construção do sentido e cada página apresenta layout específico, implicando diferentes significados, vamos analisá-los separadamente. O modo verbal das 6 páginas, por sua vez, será analisado em conjunto na seção 3.2.2.2. Apresentamos a seguir as páginas 80-81 (Figura 31), para analisarmos o seu layout, que denominaremos layout 8.2. FIGURA 31 – Layout 8.2 Fonte: Veja, 7/7/2010, p. 80-81 Iniciando nossa análise pelo layout, em relação à composição do texto, nota-se que os caminhos de leitura levam a atenção do leitor a diferentes elementos composicionais, o que nos mostra que diferentes formas de leitura são possíveis. Podemos considerar um caminho de leitura mais comum na sociedade ocidental: da esquerda para a direita e de cima para baixo. Observam-se nessas páginas diversos recursos semióticos utilizados na construção do texto: modo verbal (entendido como recurso do layout), imagens e cor para destacar um bloco informacional da parte inferior. Temos aí 4 blocos de informação bem delimitados: as fotos de Eliza (entendidas como um único elemento textual), a foto de Dayanne – esposa de Bruno –, parte escrita (modo verbal) e a entrevista de Bruno (esta, destacada na parte inferior das páginas). Esse último bloco informacional vem moldurado como um elemento à parte dos demais, já que é possível perceber a clara desconexão dele com os demais, pois vem enquadrado com uma cor de fundo diferente dos outros blocos de 152 informação. Além disso, todos os outros elementos estão desconexos, já que é possível observar espaços em branco entre eles, o que significa que podem ser lidos separadamente. É importante esclarecer que não estamos dizendo que são textos diferentes, mas sim partes do texto multimodal como um todo, ou seja, partes que, podendo ser observadas separadamente, se inter-relacionam para construir o sentido global. A desconexão dos blocos de informação nos leva, como já afirmamos, a diversos caminhos de leitura possíveis. Isso porque temos mais de um bloco ao qual é dado destaque e ao qual é levada a atenção do leitor. É possível perceber que o bloco de informações composto pelas fotos da vítima recebe maior saliência em relação à parte escrita, por exemplo, pois são imagens que ocupam vasta área textual. Já ao lado direito, a imagem de Dayanne também recebe destaque, nesse caso, devido à posição: canto superior direito. Considerando a leitura ocidental da direita para a esquerda e de cima para baixo essa é a informação que será lida primeiro pelo leitor. Além disso, o tamanho da imagem é considerável, trazendo-lhe certo destaque. Na primeira metade da Figura 31, observamos diversas fotos de Eliza Samúdio ocupando boa parte da página na região mais central, atraindo, com isso, a atenção do leitor à vítima, a quem é conferido destaque. Na parte inferior há uma entrevista de Bruno com o título “Era uma orgia só”. As imagens de Eliza, como dissemos, recebem maior saliência na página. São apresentadas cinco fotografias da vítima, todas ao lado de famosos jogadores de futebol. Essas imagens estão conexas constituindo uma integração imagética. É importante ressaltar as informações representadas no “olho” desse bloco informacional, transcrito em (25): (25) “Eles é que vêm atrás de mim. Eliza colecionava fotos com jogadores de futebol.” (Veja, 7/7/2010, p.80) A escrita parece apenas explicar as fotos apresentadas da vítima. Entretanto, percebe-se que essas fotografias podem ser relacionadas ao bloco informacional da parte inferior da página, a entrevista. Um recurso utilizado pelo jornalismo para enriquecer a reportagem é trazer outros textos com informações sobre o assunto reportado. Nesse caso, observamos o uso da entrevista que vai trazer informações que complementem aquelas da reportagem. A entrevista ocupa a porção inferior da página, ou seja, ocupa a posição do texto destinada a informações mais precisas e relacionadas com a realidade. O título da entrevista “Era uma orgia só”, apesar de se referir a falas do suspeito durante sua 153 entrevista, pode ser relacionado, num primeiro momento, pelo leitor com as fotos de Eliza, já que a vítima aparece ao lado de diversos homens – jogadores de futebol. Nessa leitura, isso sugere sobretudo um desvio de conduta da vítima, levando inclusive o leitor a inferir aí um Julgamento de Estima Social, já que em nossa sociedade esse é comportamento moralmente reprovável 53. Reforça essa ideia o “olho” das imagens apresentado em (25), que afirma que Eliza “colecionava” fotos de jogadores. Isso será analisado com maior acuidade quando tratarmos do modo verbal, em que, como veremos, Eliza é representada como uma pessoa fanática por futebol. No entanto, é preciso ainda acrescentar que ao colocar várias fotos dela com jogadores, associado à representação da vítima pelo modo verbal – que será apresentada mais adiante – permite-se construir para Eliza a figura de uma mulher que se relacionava com vários homens, ou mesmo a figura de uma garota de programa. Cabe lembrar que a reportagem é um produto da Revista Veja e, portanto, ela visa a um público específico, que possivelmente compartilha um pensamento conservador em relação à mulher. Isso tem relação com a representação construída pela Revista Veja no modo verbal, que analisaremos mais adiante, pois o mundo do futebol é representado como um mundo de homens rodeados de mulheres. Além disso, reforça-se aí a ideia de que o jogador de futebol, rico e famoso, pode ter quantas mulheres desejar, ao passo a mulher não é bem vista quando se relaciona com diversos homens (ao mesmo tempo ou não). Passando a analisar a entrevista, observa-se no lado esquerdo uma imagem de Bruno com as mãos no rosto. Trata-se da única imagem, dentre aquelas que compõem nosso corpus, em ele demonstra algum tipo de emoção (ou talvez reação). A imagem é tirada de lado, de forma que não há interação com o leitor. O modo verbal dessa entrevista será analisado quando trabalharmos o modo verbal como um todo. Na parte direita superior da Figura 31, ou seja, na parte do ideal, observa-se uma foto de Dayanne, esposa de Bruno à época do crime e também acusada de envolvimento no sumiço da modelo, reproduzida na Figura 32 a seguir, apenas para melhor compreensão da análise. 53 É sabido que moralmente na sociedade brasileira a mulher que sai com vários homens é comumente apontada como uma pessoa de comportamento reprovável. Para o homem não há problema em sair com várias mulheres, já a mulher é apontada de forma negativa. Embora muito desse comportamento em relação à mulher venha mudando, é preciso lembrar o leitor a quem o texto de Veja é direcionado. Parece dirigir-se a uma classe com maior poder aquisitivo e, em sua maioria, conservadora. 154 FIGURA 32 – Fotografia da suspeita Dayanne do Santos Fonte: Veja, 7/7/2010, p. 80-81 Dayanne é fotografada em posição de contemplação, já que ocupa a parte central da imagem, apresentando-se meio corpo da PR, com uma distância social média. O seu olhar é de oferta, já que não olha direto para o leitor, não havendo aproximação nem interação. A imagem dessa suspeita é mesmo apenas para apresentar ao leitor mais uma envolvida no caso. O restante da página foi destinado ao modo verbal, que, como já dissemos, será analisado mais adiante. Passaremos agora a analisar o layout das duas próximas páginas da reportagem, páginas 82-83, apresentadas na Figura 33. FIGURA 33 – Layout 8.3 Fonte: Veja, 7/7/2010, p. 82-83 155 Passaremos mais rápido pela análise visual destas páginas, tendo em vista que trazem pouca informação que contribua com a representação dos suspeitos do desaparecimento e morte de Eliza Samúdio, foco principal deste trabalho. Iniciando pelo layout, que chamaremos layout 8.3, observamos que o texto foi orientado para uma leitura de cima para baixo, trazendo basicamente 3 blocos de informação: a sequência escrita da reportagem (modo verbal, que será analisado na próxima seção); uma imagem do pai da vítima com o neto no colo; e, na parte inferior, uma sequência cronológica da relação de Bruno e Eliza, bloco informacional com título “Sexo, ameaças e mistério”. Observando-se o layout, podemos ver centralizada na parte superior uma fotografia do pai de Eliza Samúdio com o filho dela no colo. Observa-se que o background dessa imagem está desfocado, mostrando que a saliência é dada aos PRs. O emprego dessa imagem no texto pode servir para sensibilizar o leitor para o sumiço da mãe da criança. Na parte inferior, ou seja, na posição do real, há uma cronologia da relação 54 de Eliza com Bruno. Essa cronologia foi nomeada como “Sexo, ameaças e mistério”. É importante ressaltar o valor semântico dessas palavras. Como falar de sexo é um tabu em nossa sociedade, extrai-se, portanto, que o título remete a algo negativo. Da mesma forma que o emprego da palavra “ameaças”. Nesse contexto, mistério também acaba remetendo a algo negativo, portanto, estranho. O emprego da palavra mistério, aliás, pode ser relacionado à análise que apresentamos do elemento papel rasgado do layout 8.1, e ao esquema de cores. Ou seja, o mistério pode ser revelado à medida que se aproxima de Bruno, como já analisamos. Passaremos agora à analise do layout das últimas páginas do texto, conforme ilustra a Figura 34, que denominaremos layout 8.4. 54 Relativizamos o termo aqui, pois, pelas informações da imprensa, Eliza teria saído com Bruno apenas 3 vezes, sendo que teria engravidado na primeira delas. Não parece que os dois tenham tido uma relação amorosa de fato, apesar de a mídia ter se referido a ela como amante de Bruno. 156 FIGURA 34 – Layout 8.4 Fonte: Veja, 7/7/2010, p. 85-86 As páginas 84-85, figura 34, retratam o mundo de Bruno, anunciado na Capa da revista (texto 7), analisada na seção anterior deste trabalho. Como procuraremos demonstrar, as informações são organizadas de modo a construir uma ideia de riqueza e poder em torno do principal suspeito, Bruno Fernandes. Nas páginas ora analisadas, a informação é organizada numa estrutura centro- margem, pois temos em tamanho maior, em destaque uma foto da casa de Bruno, onde Eliza teria sido mantida em cativeiro. Os outros elementos que compõem o layout 8.4 são: o modo verbal, que será analisado na seção seguinte, e outro texto, na parte inferior da página, que funciona como um elemento textual desconexo. A moldura desses elementos (framing) evidencia que eles, embora relacionados aos demais elementos, estão desconexos em relação a estes, já que espaços em branco marcam cada um desses blocos de informação. Retornando ao valor da informação, como já dissemos, o texto apresenta uma estrutura centro-margem, já que apresenta centralizada em maior saliência uma imagem da casa de Bruno. Isso porque a foto da casa vem em uma imagem proporcionalmente maior, ocupando um vasto espaço no território textual. Convém lembrar que, quando um texto apresenta um elemento na região central, isso significa que esse elemento está representado como núcleo da informação à qual os outros elementos são subordinados (VAN LEEUWEN & KRESS, 1995, p.30). Isso significa que a casa no centro subordina os outros 157 elementos a ela, ou seja, a simbologia de riqueza e poder é o que rege as informações nessas páginas. A materialidade dessa imagem em tamanho maior reforça ainda mais a ideia de poder relacionada a Bruno. Um segundo caminho de leitura possível leva a uma estrutura top/down. Isso porque na parte inferior há outro bloco informacional, que chamaremos de minirreportagem, acerca do envolvimento de outros atletas com o crime. Vale ressaltar aqui que o modo verbal desta minirreportagem, que será analisado mais adiante, figura na porção inferior na construção do layout, ocupando, portanto, a porção do real. Isso permite atribuir um possível significado de realidade relacionado ao envolvimento de jogadores de futebol em questões policiais, assunto da minirreportagem. Por outro lado, observa-se que, na minirreportagem, há uma imagem de dois homens que seguram armas. Essas armas, de sua parte, apontam para a casa, na parte superior das páginas, criando um vetor, que leva o olhar do leitor novamente para a casa. Essa relação reforça a ideia de poder e está relacionado ao modo verbal destacado nesta minirreportagem, algo de que falaremos mais adiante. A imagem da casa, por sua vez, mostra que se trata de imóvel de alto padrão, o que permite inferir que o proprietário é detentor de posses, de bom poder aquisitivo, o que, no Brasil, significa uma pessoa de poder social. Ainda analisando o layout 8.4, podemos relacionar o texto da parte inferior da página, do real, com a reportagem que é sobre o desaparecimento de Eliza Samúdio. Embora o caso de Eliza Samúdio não seja o foco da minirreportagem, ele foi empregado na composição do texto e colabora na construção da representação de Bruno Fernandes, participante que nos interessa. Isso porque o assunto da minirreportagem, colocado junto a essa reportagem, serve para ilustrá-la e reforçar alguns pontos dela, nos permitindo desvelar a representação do PR-suspeito. Uma questão que merece atenção reside no título “Famosos e acima da lei”. A palavra “acima” pode ajudar na inferência daquilo que está acima naquele espaço textual: a casa de Bruno, que, como já dissemos, remete a riqueza e poder. Assim, essas inferências permitem desvelar o sentido em potencial que o leitor pode construir a partir dos elementos do layout 8.4, que relaciona as armas e a casa a um exercício de poder. Além disso, esses elementos podem ser relacionados ao título da minirreportagem, sobretudo à expressão “Acima da lei”, pois permite criar um significado potencial de que aquela casa, na parte superior do texto, está acima da lei, ou seja, o que aconteceu na casa afronta a lei: o cativeiro de Eliza. 158 Cabe explicar que as representações dessas duas páginas complementam a representação evidenciada no layout 8.1, sobretudo por meio da expressão “O suspeito número 1”, além da representação revelada no papel rasgado, que representa Bruno como sujeito perigoso, “da favela” capaz de qualquer coisa. O comportamento de pessoa da favela – aqui representada como uma pessoa perigosa e capaz de qualquer coisa – associado à representação dos famosos como pessoas acima da lei deixa mais evidente que a revista vai atribuindo autoria ao crime, ainda que não seja de forma explícita. É importante lembrar mais uma vez que, quando a reportagem é publicada, o assassinato da modelo ainda era tratado como hipótese pela polícia. Apesar de estarmos trabalhando os modos visuais, neste ponto de nossa analise seria importante contemplar o modo verbal da minirreportagem das páginas 84-85. Isso porque ele está fortemente ligado aos elementos visuais e ao layout 8.4 como um todo. A minirreportagem fala de jogadores do Flamengo que se envolveram em ações ilegais. A partir desse texto de Veja, vai-se construindo a ideia de que jogadores de futebol se envolvem frequentemente em questões ilegais, mas, por serem famosos, tanto os clubes quanto as forças de segurança pública fazem “vista grossa” para isso, como ilustra o trecho (26). (26) “Apesar da gravidade dos episódios, tanto Love quanto Adriano foram tratados com a complacência habitualmente reservada aos jogadores famosos pegos em flagrante desvio de conduta.[...] a diretoria rubro-negra também deu de ombros, argumentando que não podia proibir os artilheiros de voltar ao lugar de onde vieram.[comunidades pobres]. Diante de tanta naturalidade perante comportamentos que beiram o banditismo, parece natural que alguns craques ajam como vêm agindo – como se estivessem acima da lei.” (Veja, 7/7/2010, p. 85-86, grifos nossos) De certa forma, a imagem construída a partir de casos de outros jogadores reforça a imagem construída de Bruno: famoso, inconsequente e que se acha acima da lei, dialogando inclusive com o próprio título do texto. Essa representação dialoga ainda com o recurso verbal contido no já analisado papel rasgado, no qual se lê o que Bruno teria dito em tom de ameaça a Eliza Samúdio: “você não sabe do que eu sou capaz”. Assim, embora esse pequeno texto não se refira diretamente ao desaparecimento e morte da modelo, ele está relacionado ao caso por uma questão temática, já que Bruno é jogador de futebol, famoso e está no centro de uma investigação de assassinato. A minirreportagem apresenta, assim, a ideia de que casos de desvio de conduta por parte de jogadores de futebol são tratados com naturalidade, como se esses sujeitos não se 159 sujeitassem às leis. Veja-se que, mesmo quando eles são pegos em atitudes contrárias à lei, o sign-maker designa isso como “desvios de conduta”. Com isso, parece que estamos diante de uma explicação para o comportamento do suspeito Bruno. Além disso, como demonstraremos mais profundamente, a vítima é representada a partir de uma visão negativa a respeito dela, já que leva à percepção de uma pessoa com transtornos psiquiátricos. Essas representações serão destacadas quando apresentarmos nossa análise do modo verbal, fazendo uma conexão com os dizeres do texto 7 e também do título da entrevista de Bruno (presente no layout 8.2), que relaciona também Eliza Samúdio ao mundo de orgias e horror. Em resumo, até aqui, considerando os modos semióticos visuais, sobretudo layout e imagens, nossa análises já evidenciam as possíveis representações de Bruno Fernandes: trata-se do principal suspeito da morte de Eliza Samúdio, rico e poderoso, pessoa perigosa, capaz, portanto, de assassinar uma pessoa, ou seja, a modelo que o estaria pressionando. Analisados os modos visuais nas 6 (seis) páginas da reportagem, passaremos agora à análise do modo verbal. 3.2.2 Texto 8: Modo verbal Nesta seção apresentaremos nossa análise do modo verbal referente ao texto 8, que irá mostrar a representação de Bruno Fernandes e de Eliza Samúdio, assim como a representação do evento em jogo (possível assassinato) pela Revista Veja. Além dos PR já mencionados, trabalharemos também com a representação de Dayanne, esposa de Bruno à época do crime e também suspeita, e Macarrão, amigo e funcionário de Bruno, suspeito de ter participado no sumiço da moça, suspeitos que aparecem em menor escala, mas que também foram julgados pela morte da modelo. Enfatizamos mais uma vez que o principal foco desta pesquisa reside na compreensão de como os suspeitos do crime são representados pelo jornalismo da Revista Veja. Inicialmente, analisaremos como a vítima, Eliza Samúdio, é representada nesta reportagem, em seguida analisaremos a representação do evento e, por fim, dos suspeitos. Eliza Samúdio é representada pela revista como uma jovem sonhadora, obsecada por futebol e que apresenta transtornos psiquiátricos. Para construir essa representação, o texto de Veja emprega como estratégia argumentativa a Narrativa de Vida, cuja noção já foi contextualizada na seção 2.1.1 deste trabalho. No texto ora analisado, a Narrativa de Vida de Eliza foi limitada a relacionar a vítima ao mundo do futebol, construindo uma 160 representação de alguém fanático por futebol. Para isso, buscou-se contar ao leitor as “peripécias” de Eliza nesse mundo esportivo. Inicialmente, convém ressaltar a escolha da palavra “peripécias” para representar essa possível relação (trecho 25 apresentado adiante). Trata-se de uma avaliação do produtor do texto no que concerne a relação da vítima com o mundo do futebol, ao decidir caracterizar essa relação como peripécias. Para nos auxiliar na compreensão da escolha desse termo, analisamos as possibilidades de significado que o dicionário nos apresenta para o termo: S. f. 1. Lance de narrativa, peça teatral, poema, etc., que altera a face das coisas, e modifica a ação e a situação dos personagens: "É verdade que à primeira vista parece estranho que um poema, que nasceu nos braços da alegria e da festividade, exija de sua natureza uma peripécia sanguinolenta" (Correia Garção, Obras Poéticas e Oratórias, p. 434). 2. Fam. Sucesso imprevisto; incidente; aventura: "Interessou-me aquele rosto enrugado e macilento, em que julguei descobrir vestígios de um passado cheio de peripécias e vicissitudes." (Artur Azevedo, Contos Cariocas, p. 152) (Aurélio Eletrônico). Diante delas, pode-se dizer que o sentido que mais se aproxima do caso em questão seria “aventuras”. Com isso, o sign-maker emite sua opinião, por meio da Apreciação, em relação à vida de Eliza Samúdio, permitindo ao leitor construir um significado de que a vida de Eliza e sua relação com o mundo do futebol eram na verdade aventuras de uma jovem sonhadora. Seguindo com o exame da representação da vítima, é possível notar que Eliza é representada como uma pessoa fanática por futebol. Isso porque se narram alguns episódios da vida dela relacionados a esse mundo, como, por exemplo, ter saído de casa aos 19 anos para ir atrás de um namorado que seria jogador de futebol amador, trabalhar em eventos esportivos e participar de um concurso que elegeria a musa do São Paulo (clube de futebol), conforme ilustram os trechos (27) a (30). (27) “Ela uma jovem sonhadora ávida por ingressar num mundo que desde pequena a deslumbrava. “Criança ela sabia a escalação de todos os times de cor” conta a ex-madrasta, Dulce Pilger, que ajudou a criar Eliza em Foz do Iguaçu (PR) depois de ela ter sido abandonada, aos 5 anos, pela mãe.” (Veja, 7/7/2010, p.81, grifos nossos) (28) “O goleiro do Flamengo não foi o primeiro atleta com quem Eliza se relacionou. Em festas organizadas por jogadores, do Rio e de São Paulo, a jovem era presença constante. “Na página que mantinha num site de relacionamentos da internet, Eliza colocou fotos suas ao lado de sete diferentes jogadores”. (Veja, 7/7/2010, p.81, grifos nossos) 161 (29) “Suas peripécias no mundo da bola começaram aos 19 anos, quando deixou Foz do Iguaçu para ir a Curitiba atrás de um namorado – um jogador de futebol amador.”(Veja, 7/7/2010, p.81, grifos nossos) (30) “Fez a assinatura de uma TV a cabo só para assistir aos jogos do Flamengo. Escolheu como fundo de tela do computador uma foto de Bruno e ainda pendurou na porta do quarto um quadro com uma bola de futebol e o nome do jogador pintado a mão. “Não sei dizer se ela estava realmente apaixonada ou se só alimentava uma espécie de obcessão pelo Bruno”.diz a enfermeira que a hospedava. (Veja, 7/7/2010, p.82, grifos nossos) Como se podem observar, nos trechos ora destacados, as narrativas da vida de Eliza relacionam-na de alguma forma ao mundo do futebol, mundo em cujas festas a presença da vítima era constante conforme se verifica em (27). Essa escolha lexical e também essa descrição de Eliza podem ser relacionadas às imagens dela na página 80 da reportagem, já analisada no layout 8.2, em que ela aparece ao lado de diversos jogadores. Isso, na verdade, nos remete a um Julgamento de Estima Social negativa, pois mais se parece uma crítica à vítima por se relacionar com jogadores de futebol. Convém destacar ainda que, além de fanática por futebol, Eliza é também representada como uma jovem com transtornos psiquiátricos. Essa representação é construída a partir da primeira. Para uma melhor elucidação daquela, convém antes comentar mais especificamente o trecho (27), pois o trecho citado traz avaliações do produtor do texto em relação à vítima que permitirão fazer ver a representação de uma pessoa com transtornos psiquiátricos. No trecho em questão, Eliza é representada a partir da expressão uma “jovem sonhadora” e “ávida” por embarcar no mundo do futebol. Veja- se que “jovem sonhadora” e “ávida por adentrar esse mundo”, escolhas lexicais para retratar a vítima, permitem criar um sentido em potencial de que Eliza não tinha “os pés no chão”, o que se soma ao emprego da palavra “peripécias”, já analisada, que vai reforçar uma ideia de pessoa que vivia como se estivesse “no mundo da lua”. Trata-se, portanto, de Julgamentos de Estima Social, uma vez que são opiniões acerca do comportamento de Eliza. A partir desses Julgamentos, vai-se permitindo ao leitor construir a representação da vítima, como dissemos, como pessoa não apenas fanática pelo mundo do futebol, mas também com transtornos psiquiátricos. As duas representações da vítima aqui evidenciadas estão inter-relacionadas. Nesse sentido, faz-se importante destacar que o comportamento em relação à primeira leva à construção da segunda representação. Essa inter-relação pode ser desvelada pelo fato de que o possível fanatismo de Eliza por futebol seria algo que vinha desde a infância. Essa informação é trazida pela reportagem por meio do subsistema Engajamento, em que, a partir da voz da ex-madrasta de Eliza, afirma-se que desde os 5 anos de idade a vítima já se 162 interessava pelo mundo do futebol, conforme destacado no trecho (27). Isso pode levar ao reforço da representação de uma pessoa com transtornos psiquiátricos, pois se constrói a ideia de que o fascínio por futebol era algo já percebido na infância. Kress (2010, p. 62, tradução nossa 55 ) nos lembra que, “no processo de representação, os criadores de signos refazem os conceitos e o "conhecimento" em uma nova modelagem constante dos recursos culturais para lidar com o mundo social”. Diante disso, como temos mostrado, as escolhas do produtor do texto para a Semiótica Social são de extrema importância, o que faz que os sentidos sejam construídos socialmente. Retornando à análise, observa-se que o trecho (30) evidencia a possível obsessão de Eliza por Bruno, tendo em vista a ênfase no fato de que ela buscava tê-lo “perto” de si de várias formas, seja assistindo aos seus jogos, seja pendurando o nome dele na porta, seja utilizando uma foto dele como tela de fundo do computador. Acrescente-se a isso ainda que a vítima é explicitamente representada por meio do discurso de Veja como uma pessoa com problemas psiquiátricos, como já adiantado aqui. Para isso, a reportagem recorre ao subsistema do Engajamento, de forma a dar credibilidade ao seu discurso, trazendo a voz de outrem, conforme trecho (31): (31) “[...] Especialistas enxergam no comportamento da jovem traços de um mal conhecido como transtorno de personalidade dependente. Explica o psicólogo Antônio de Pádua Serafim, do hospital das Clínicas, em São Paulo: “A pessoa passa a ser dominada por pensamentos obsessivos pautados pela ameaça da perda. E tenta, a todo custo, reconquistar o objeto de desejo” (Veja, 7/7/2010, p.82, grifos nossos) O uso do recurso em questão reforça a representação que Veja constrói de Eliza, nessa reportagem, como uma pessoa com transtornos psiquiátricos. Soma-se a isso a ideia de que esses transtornos se refletiam no comportamento dela em relação ao mundo do futebol e, consequentemente, em relação a Bruno, além daquelas já apresentadas nas imagens em que, como demonstramos, Eliza é representada a partir de comportamento reprovável. A escolha de apresentar Eliza Samúdio ao lado de diversos jogadores de futebol permite, como se viu no exame da página 80 da reportagem, construir um potencial significado de que Eliza era mesmo fanática por jogadores de futebol, algo corroborado aqui pelas análises do modo verbal. Acrescente-se ainda, à construção dos significados dessas imagens, o enunciado do “olho” da reportagem que acompanha as imagens dela na página 80: “Eliza colecionava fotos com jogadores de futebol”, algo que ajuda a reforçar a 55 No original: “In the process of representation sign-makers remake concepts and ‘knowledge’ in constant new shaping of the cultural resources for dealing with social world.” (KRESS, 2010, p.62) 163 ideia da obsessão da jovem por jogadores de futebol. Além disso, como já analisamos, a essas imagens e aos significados do modo verbal ora analisado, relaciona-se o enunciado “Era uma orgia só”, empregado no título da entrevista (Layout 8.2) que remete às fotos e, logo, ao comportamento de Eliza, o que reforça essa representação de uma jovem “louca” pelo mundo do futebol. No entanto, esse não é o único possível sentido. É possível ainda se depreender a representação de uma garota de programa. A respeito dessa relação entre os modos semióticos, convém ressaltar que, embora esses elementos não estejam na mesma página fazem parte do mesmo texto. Além disso, cada um desses blocos de informação está inter-relacionado ao outro, ou seja, eles apresentam conexão por integração intermodal, permitindo ao leitor construir os significados em potencial que esses elementos imbricados podem refletir, como temos demonstrado. Em resumo, essas análises nos conduzem à ideia de que o texto busca construir uma imagem de Eliza como uma mulher com problemas psiquiátricos, obsecada por Bruno, relacionando-se à ideia de que ela o perseguia de alguma forma. No entanto, isso não é tudo. Também há uma representação do mundo de Eliza, que é construído como um mundo de orgias, como um mundo de promiscuidade. Essas representações podem ser percebidas a partir das imagens com diversos jogadores, já comentadas, mas também pela menção ao fato de ela ter feito um filme pornográfico cujo nome, segundo o texto analisado, “é impublicável”, remetendo a algo imoral, sujo e promíscuo. Essa simplificação na representação de Eliza pode levar o leitor a entender que Bruno apenas “perdeu” a cabeça, já que ela não era uma mulher “direita”, mas alguém que vivia na promiscuidade e que, além disso, o perseguia. Lembramos que a ideia de perseguição foi analisada nos modos visuais, o que foi representado pelas diversas imagens da vítima ao redor do suspeito. Além da representação da vítima e dos suspeitos, observamos também a representação do mundo do futebol construído discursivamente pelo jornalismo de Veja. O mundo do futebol é o mundo tanto da vítima quanto do suspeito principal, o que nos permite desvelar a representação deles a partir da representação de um “mundo social”. Dessa representação, conforme já mencionamos quando analisamos o layout 8.4, referente às páginas 84-85 da reportagem ora analisada, participa uma minirreportagem que traz uma caracterização do mundo do futebol. Para além dessa, há outra representação que pode ser percebida. Para isso, vamos observar os trechos (32) e (33) a seguir. 164 (32) “Num ambiente em que traição, orgias e sexo irresponsável são considerados “muito comuns” – como declarou o goleiro do Flamengo, Bruno Fernandes, a Veja – é certo que algo vai dar errado.”(Veja, 7/7/2010, p.80, grifos nossos) (33) “Sua ascensão precoce veio acompanhada do pacote que costumam usufruir os craques do esporte: fama, dinheiro e claro, amantes. (Veja, 7/7/2010, p.81, grifos nossos) A partir do estrato léxico-gramatical, observa-se que por meio da Apreciação, o sign-maker retrata o mundo de Bruno como um mundo promíscuo, de fama, dinheiro e muitas mulheres. Percebe-se nos trechos (32) e (33) a Atitude do sign-maker em relação a esse mundo, o que pode ser visto a partir das escolhas lexicais empregadas para representar o mundo dos craques do futebol. Primeiro, destaque-se o uso da palavra “claro” amantes, dando a entender que isso é óbvio no mundo do futebol. Isso permite, então, inferir que se trata de um mundo machista em que é normal o jogador famoso e com dinheiro ter várias mulheres. Somam-se a isso as afirmações de que Bruno, um atleta de sucesso, estava “mais que disponível” para “aventuras fora do casamento”, como ilustra o trecho (34). (34) “O encontro de Bruno com Eliza Samúdio, de 25 anos, foi praticamente uma consequência das forças de atração física. Ele, um atleta de sucesso, mais do que disponível para aventuras fora do casamento e com um fraco por belas morenas.” (Veja, 7/7/2010, p.81) Essas escolhas permitem construir um sentido em potencial de que Bruno era mulherengo, que tinha muitas mulheres. É importante ressaltar que a Avaliação em relação ao comportamento de Bruno vem com o emprego de uma Gradação: “mais que disponível” para aventuras fora do casamento, traçando-se assim o perfil do PR-suspeito como mulherengo. Além disso, o produtor do texto emprega um Julgamento de Estima Social negativo, ao afirmar que Bruno tinha um “fraco por belas morenas”. Isso pode potencialmente indicar que Eliza morreu por uma circunstância do destino ou, como representado pela reportagem, “por força da atração física”. Veja-se que a reportagem associa o encontro de Eliza e Bruno à casualidade, encontro esse que é tratado como “consequência das forças de atração física”, sugerindo que Eliza, por ser sonhadora e querer entrar no mundo do futebol, permitiu essa situação. O que fizemos até aqui foi depreender a representação de Bruno a partir da representação conferida ao mundo do futebol, que é retratado como um mundo de orgias e horror, como o próprio ex-goleiro afirma. Ao mesmo tempo, essa representação analisada reforça a ideia de que Eliza era pessoa de comportamento também reprovável, tendo em vista que vivia igualmente nesse mundo de orgias. 165 Dito isso, passaremos agora efetivamente à representação dos suspeitos, seguindo com a representação de Bruno e passando em seguida à de Dayanne e, finalmente, à de Macarrão. Assim como vimos no caso Nardoni, na reportagem que analisamos agora, o texto ora analisado emprega a narrativa de vida para representar o suspeito. A narrativa de vida que é aqui limitada à sua relação com o futebol, além de menos extensa, se comparada à do caso Nardoni. Em relação a esse recurso argumentativo, observa-se uma construção marcada por aspectos valorativos, que, apresentando a Atitude do produtor do texto em relação a Bruno, enfatizam a passagem do atleta da pobreza para a fama e a riqueza. Por meio da narrativa de vida, Bruno é representado de forma positiva, sendo essa representação relacionada à sua carreira no futebol, conforme ilustra o trecho (35) a seguir. (35) “Assediado por clubes europeus como Milan e Porto, o goleiro Bruno, de 25 anos, ídolo e capitão do Flamengo, seguiu o percurso clássico do menino talentoso que saiu da pobreza para o estrelato. Sem completar o ensino básico, assinou seu primeiro contrato como jogador profissional aos 18 anos, com o atlético Mineiro[...]” (Veja, 7/7/2010, p.78) Em relação a esse trecho, convém destacar que o produtor do texto apresenta a trajetória de Bruno no futebol como algo comum, como um percurso clássico. Assim, destaca-se a trajetória de um menino talentoso que sai da pobreza para o estrelato, de um percurso de um menino pobre que conseguiu “dar a volta por cima” e “vencer na vida”, sendo digno, portanto, de admiração. Assim, inicialmente, configura-se uma representação positiva, um Julgamento de Estima Social positiva, já que se trata de uma avaliação relacionada a algo que faz com que Bruno seja reconhecido socialmente. Isso pode ser destacado ainda a partir das escolhas lexicais do produtor do texto para representar o suspeito: “ídolo e capitão do Flamengo” e “menino talentoso”. Cabe salientar que se trata da única avaliação positiva do produtor do texto em relação a Bruno verificada em nossas análises, pois, como já demonstrado nas análises dos modos visuais, a representação construída como um todo para ele é negativa, relacionando Bruno a uma pessoa fria e possivelmente responsável pela morte de Eliza. A caracterização de Bruno como alguém sem estudos, pois “ele nem sequer completou o ensino básico” (Veja, 7/7/2010, p.78) e que chega de forma rápida à fama pode levar a compreender que possivelmente, por ter tido uma ascensão precoce, o goleiro não soube lidar com a nova vida nem com pressões. Além disso, essa imagem positiva compreendida, sobretudo, a partir do estrato léxico gramatical, ou seja, a partir da superfície textual, está diretamente relacionada a Bruno enquanto sujeito social, tendo em 166 vista que o caracteriza a partir do seu lugar na sociedade: famoso jogador de futebol que naquele momento era socialmente reconhecido como ídolo do Flamengo. No entanto, como já mencionamos, apesar de haver uma representação positiva de Bruno, o produtor do texto constrói de forma mais evidente uma representação negativa do ex-goleiro. O produtor do texto vai revelando suas atitudes em relação a Bruno por meio de Julgamentos negativos, tanto de Estima quanto de Sanção Social, levando o leitor a perceber a representação de uma pessoa fria e de comportamento reprovável. Esses Julgamentos são percebidos em diversas passagens do modo verbal. Destacaremos aquelas mais evidentes que contribuam com a representação desse suspeito, para não perdermos de vista o objetivo principal da presente pesquisa. Além disso, não se pode perder de vista a representação já analisada de Bruno que é veiculada por Veja a partir dos Modos Semióticos Visuais. Tendo em vista que a representação do suspeito, a partir do Modo verbal, é analisada, sobretudo, a partir do Sistema de Avaliatividade e que o sistema de Julgamento é o mais recorrente aqui, cumpre lembrar, mais uma vez, que Julgamento de Estima Social relaciona-se a comportamentos, ao passo que Julgamento de Sanção Social é algo que está ligado à ética e à obediência às leis. Retomando, assim, nossa análise, observa-se que Bruno é representado como um sujeito descontrolado emocionalmente. Isso pode ser percebido a partir das descrições da revista para as reações do goleiro quando da notícia da gravidez de Eliza Samúdio. A esse respeito, destacam-se três enunciados: (36) “Eliza afirmou a amigas que engravidou naquele mesmo dia. A notícia deixou bruno transtornado”. (Veja, 7/7/2010, p. 81, grifo nosso) (37) “Quando Eliza procurou os jornais para anunciar a gravidez o atleta teve acessos de fúria.” (Veja, 7/7/2010, p. 81, grifo nosso) (38) Diz uma amiga da jovem, Milena Barone: Vi Bruno arremessar Eliza contra a cama, aos berros: Você vai dizer a todo mundo que esse filho não é meu. Mais tarde, o goleiro teria intimidado a ex-amante de arma em punho. (Veja, 7/7/2010, p. 81, grifo nosso) A respeito dos trechos destacados em (36), (37) e (38), é importante destacarmos as escolhas lexicais feitas para representar o comportamento de Bruno. Veja-se a informação de que, em razão da notícia da gravidez de Eliza, o suspeito ficou transtornado, teve acessos de fúria e berrou com a vítima. Veja-se que as escolhas lexicais destacadas evidenciam Por meio de Julgamentos de Estima Social negativa por parte do produtor do texto e permitem construir a representação de uma pessoa com sistema emocional em 167 desequilíbrio. Isso porque a palavra transtornado passa uma ideia de que ele ficou mais que perturbado ou incomodado, ou seja, transmite a ideia de um sentimento mais forte que incômodo, por exemplo, e que pode ser relacionada ao descontrole emocional. Da mesma forma, a escolha da expressão acesso de fúria também permite fazer uma relação com descontrole, já que expressa mais que uma mera irritação, evidenciando mais um Julgamento de Estima Social. Além disso, “fúria” pode levar o leitor a associar o que se diz do goleiro a um comportamento violento. No mesmo sentido, há ainda o emprego da expressão “berrou com a vítima”, que cria um potencial significado de fúria, revelando, dessa forma, um comportamento marcado por descontrole emocional. Veja-se que, caso a escolha lexical fosse outra, como gritou, essa associação com fúria não seria algo tão forte. As escolhas lexicais analisadas, portanto, configuram Avaliações do produtor do texto em relação a Bruno, expressando, assim, Julgamentos negativos sobre seu comportamento e, portanto, Julgamentos de Estima Social Negativa. Em resumo, essas escolhas estão em conexão, permitindo criar um sentido em potencial de uma pessoa emocionalmente descontrolada, passível, portanto, de cometer um crime. Além disso, há indícios no texto de que Bruno teria também um comportamento violento. Para essa representação, a reportagem de Veja utiliza novamente do sistema do Engajamento, empregando a fala de outrem de forma a dar credibilidade à informação veiculada e apresentar Julgamentos a respeito do suspeito. Entretanto, não deixa de ser uma escolha da reportagem colocar essa fala no texto e não deixa, portanto, de ser uma Atitude do produtor do texto em relação a Bruno. Sobre essa representação, a reportagem informa que Bruno teria arremessado Eliza contra a cama, conforme ilustra o trecho (38), revelando, portanto, um sujeito violento. Reforçam ainda essa representação as afirmações de que Bruno ameaçava e agredia Eliza, tendo inclusive usado uma arma para isso, conforme ilustra o trecho (39) a seguir. (39) “Mesmo ameaçada e agredida, Eliza se comportava como uma mulher apaixonada. [...] Mais tarde o goleiro teria intimidado a ex-amante com arma em punho”. (Veja, 7/7/2010, p.81) Observa-se em (39) o emprego de um Julgamento tanto de Sanção Social negativa quanto de Estima Social negativa, já que ameaçar e agredir constituem comportamentos socialmente condenáveis e são contra as leis. Soma-se a essas características negativas de Bruno, sua representação por meio de comportamentos reprováveis – representando, portanto, Julgamentos tanto de Estima 168 Social quanto de Sanção Social – relacionados ao fato de ele (não) assumir o filho que Eliza esperava. O trecho (40) ilustra essa representação: (40) “Eliza e Bruno saíram juntos pelo menos mais duas vezes, ocasiões em que ele insistiu com ela para que abortasse o bebê. [...] “Ele chegou a prometer que daria 40.000 reais a quem conseguisse convencer a menina a fazer um aborto” conta uma pessoa próxima ao goleiro.” (Veja, 7/7/2010, p. 81, grifo nosso) Observando-se o trecho (40) destacado acima, convém comentar o possível e reiterado comportamento de Bruno na tentativa de que a vítima realizasse um aborto. Ressalte-se que socialmente a ideia de abortar pelo simples fato de não querer um filho é um comportamento reprovável, sendo a prática, além disso, considerada crime 56 . Convém salientar que o último período destacado em (40) permite compreender Bruno como uma pessoa que agia como se pudesse simplesmente pagar para conseguir o que queria. Isso revela uma pessoa que se sente imponente em razão de sua condição econômica. Neste ponto, note-se que essa representação é similar àquela verificada na análise da imagem da casa do ex-goleiro, quando analisamos o layout 8.4. Assim, é importante frisar que, embora não seja explícita a atitude do produtor do texto, já que esse Julgamento não está marcado no extrato gramatical, trata-se aqui, sem dúvida, do componente do subsistema de Julgamento do Sistema de Avaliatividade, pois, como explica Martin & White (2005, p. 10), a avaliatividade pode percebida por meio de diferentes categorias gramaticais. Além disso, como temos pontuado, para a Semiótica Social as escolhas são importantes e não aleatórias. Dessa forma, ao escolher incluir esta informação na reportagem, criando uma representação de Bruno por meio da apresentação de comportamentos, escolhe-se emitir uma opinião, ou expressar suas Atitudes, tendo em vista que essas escolhas é que foram feitas e não outras. A representação de Bruno é ainda acompanhada da ideia de que ele não queira assumir a criança, o que pode revelar uma pessoa egoísta. Além disso, a partir de outros elementos do texto, evidencia-se a representação de Bruno a partir de sua frieza. Veja-se que no trecho (38) fica claro que Bruno queria que Eliza dissesse que o filho não era dele. Acrescenta-se a essa ideia o fato de que ele a atraiu possivelmente para uma armadilha, com a promessa de fazer o teste de DNA, revelando, assim, sua frieza. 56 É importante deixar claro que não se está criminalizando nem descriminalizando o aborto, mas que quando da elaboração desta pesquisa o aborto era considerado crime, conforme tipificado pelo Código Penal Brasileiro, nos artigos 124 a 126. Acerca do assunto, o Supremo Tribunal Federal (STF) realizou em 2018 audiências públicas com diversos seguimentos sociais, como médicos, cientistas, religiosos e ativistas, a fim de debater o assunto. 169 Diante disso, nota-se que além de ser representado como uma pessoa emocionalmente desequilibrada e possivelmente violenta, Bruno é ainda representado como uma pessoa fria. A partir do trecho (41), apresentado a seguir, analisaremos com mais acuidade como se dá essa representação. (41) “Afável ele a convidou para fosse ao Rio. Disse que estava disposto a submeter-se ao teste de DNA para comprovar a paternidade do bebê e, se o resultado fosse positivo, acertar o pagamento de uma pensão. Alojou Eliza num flat e, em meados de maio, foi conhecer a criança. Pegou-a no colo e disse que era “a cara do pai”. “Quando crescer, vai ser um garanhão”, afirmou. Embora feliz, Eliza seguia apreensiva”[...]” (Veja, 7/7/2010, p. 82-83, grifos nossos) Em um primeiro momento, como vimos, Bruno tratava Eliza de forma agressiva e empregava artimanhas para tentar evitar que ela tivesse a criança, sugerindo para tanto que ela realizasse um aborto. Retrata-se agora em (41) uma clara mudança de comportamento da parte do goleiro, o que nos leva a analisar então a avaliação do produtor do texto em relação a esse novo comportamento de Bruno. Veja-se que se emprega aí a expressão “mudança súbita” para referir-se a isso. O emprego da palavra “súbita” revela que o produtor do texto entende que Bruno mudou seu comportamento de forma repentina, o que significa dizer que se lançou dúvida sobre a sinceridade do suspeito. Isso porque Bruno foi primeiro retratado a partir de um comportamento agressivo com Eliza em função da notícia da gravidez de modelo, mas passa a mostrar-se agora “afável”, ou seja, agradável e delicado com a vítima. Essas escolhas lexicais, sobretudo pelo emprego da expressão “mudança súbita” para caracterizar o comportamento de Bruno, direcionam para um sentido de que ele a atraiu para uma armadilha, que, teria culminado no assassinato dela. Diante disso, constrói- se a ideia de um sujeito frio, indo no mesmo sentido da representação desvelada por nossas análises do Modo imagens, sobretudo as imagens de Bruno presentes no texto 7, capa da revista, e nas páginas 78-79 do texto 8.A frieza do suspeito revela-se em suas atitudes de mudar seu comportamento com a vítima, de forma a se aproximar dela, uma vez que essa mudança de comportamento fez com que ela fosse com ele do Rio de Janeiro para Belo Horizonte, terminando com a morte dela. Isso permite ao leitor criar o potencial sentido de que a morte de Eliza Samúdio foi planejada. Nesse ponto, nossa análise nos leva a observar a representação de outro elemento do texto, que é a narrativa dos acontecimentos relacionados ao sumiço da modelo. Observa-se em (41) que o texto ora analisado narra os eventos sem modalizações, no tempo do pretérito perfeito, ou seja, a narrativa é apresentada a partir de um aspecto 170 factual, apresentando as ações como iniciadas e acabadas. Isso significa que aquilo que é narrado pela reportagem pode ser entendido pelo leitor como fato, como verdadeiro, portanto. Convém ainda mencionar que inicialmente o evento social em questão é representado como sumiço, mas depois passa a ser tratado como assassinato. Para essa representação, o produtor do texto utiliza-se do sistema do Engajamento, trazendo, principalmente, falas do delegado responsável pelas investigações, como ilustram os trechos (42) a (44). (42) “Tudo indica que Eliza foi assassinada. E Bruno é o primeiro e único suspeito da nossa lista.” Afirma Edson Moreira, delegado-chefe do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa de Minas Gerais.”(Veja, 7/7/2010, p. 81) (43) “Trabalhamos com a hipótese de Eliza ter sido friamente atraída para uma emboscada”( Veja, 7/7/2010, p. 83) (44) “No dia 24 [de julho de 2010] a polícia recebeu uma denúncia anônima dando conta de um crime brutal: uma moça teria sido espancada até a morte pelo goleiro Bruno e outros dois homens na casa em Esmeraldas.”( Veja, 7/7/2010, p. 84) Observa-se que o desaparecimento de Eliza Samúdio é explicitamente representado pelo jornalismo da revista Veja como assassinato. Inicialmente nas primeiras páginas da reportagem, a partir do modo verbal, nota-se uma referência ao avento como sumiço, entretanto, no desenvolver do texto, por meio do recurso escrito, o evento passa a ser representado como assassinato. Lembramos que no modo Visual, como vimos na análise do layout 8.1, a morte de Eliza é representada desde as primeiras páginas da reportagem, além de já ser anunciada na capa daquela edição, texto 7 analisado na seção anterior. O trecho (42) relaciona-se diretamente à expressão “O suspeito número 1”, que ocorre nas páginas 78-79 (layout 8.1). Além disso, ao representar o sumiço de Eliza como assassinato e ao destacar nas primeiras páginas a expressão mencionada, o texto induz a pensar na autoria do crime, inclusive porque isso é sinalizado a partir da mudança “súbita” de comportamento de Bruno com Eliza, conforme já mencionamos. Para finalizar essa parte, faz-se ainda importante destacar as valorações presentes no texto em relação ao evento, conforme trecho (45): (45) “O desaparecimento da jovem Eliza Samúdio supera em gravidade quaisquer aventuras, dessas com um pé na bandidagem e outro na sordidez, que certos astros do futebol nacional já protagonizaram.(Veja, 7/7/2010, p.80)” 171 Ressaltem-se nesse trecho as escolhas lexicais percebidas no estrato léxico- gramatical. Veja-se que o produtor do texto considera algo sórdido e de bandidos as aventuras que alguns astros do futebol já protagonizaram. No entanto, o desaparecimento da modelo é tomado amplificado por meio do subsistema de Gradação, pois “supera em gravidade” essas aventuras enfatizando, assim a crueldade envolvida no caso e indicando que se trata de um crime bárbaro. Diante disso, tendo em vista que o texto já relaciona os suspeitos, sobretudo Bruno, ao desaparecimento e possível morte da modelo, permite inferir um possível significado de julgamento (legal) antecipado. Além disso, é possível ainda depreender a representação dos suspeitos como bandidos. Essas representações, dos suspeitos como bandidos e do evento como algo bárbaro, são portanto avaliações do produtor do texto. O evento social “assassinato de Eliza Samúdio” é, então, representado no texto ora analisado como um evento mais que sórdido, ou bárbaro, e protagonizado por bandidos. Essa representação é importante, pois, como temos visto, Bruno é representado como suspeito e em alguns momentos como autor desse crime. Essa ideia é ainda reforçada pelas representações feitas na minirreportagem do layout 8.4, já analisada, que fala do envolvimento de jogadores de futebol em atos ilícitos. É possível, portanto, concluir que essas relações levam à representação de Bruno como bandido. Fechada a análise da representação do suspeito principal, passaremos agora à analise da representação de outra suspeita do crime. Trata-se de Dayanne dos Santos, apontada como esposa de Bruno. Dayanne, na época do crime, era casada com Bruno, embora as informações veiculadas indicam que eles já não tinham mais uma vida conjugal 57 . Dayanne foi acusada de participar das ações que levaram Eliza Samúdio à morte. Na reportagem ora analisada, por meio do emprego da narrativa de vida, Dayanne é representada como uma pessoa traída pelo marido, mas que tem devoção por Bruno, conforme ilustra o trecho (46) destacado a seguir: (46) “Dayanne e Bruno estão juntos há onze anos e têm duas filhas. Apesar das flagrantes traições do goleiro, ela tem o nome dele tatuado no braço e fala do marido com devoção”(Veja, 7/7/2010, p.84, grifo nosso) Destaque-se nesse trecho a escolha lexical “devoção”, de extrema importância na construção da representação dessa suspeita. Observe-se que devoção no contexto empregado remete a um sentimento que extrapola um afeto. Assim, ao fazer essa escolha 57 As reportagens ora se referem a Dayanne como esposa, ora como ex-esposa. Como só conhecemos esses “personagens” pela imprensa, decidimos nos referir a ela aqui como esposa de Bruno. 172 lexical, para representar o sentimento de Dayanne por Bruno, o produtor do texto vai permitindo ao leitor desvelar uma representação de veneração dela pelo ex-marido. Isso porque devoção é um termo que remete a algo muito mais forte que simplesmente afeto, além de ter uma conotação religiosa. Assim, a indicação de uma devoção pelo marido leva a pensar que ela o apoiaria em qualquer circunstância, o que sugere que ela seria capaz, por ele, de se envolver em um crime bárbaro como esse. Se por um lado essa escolha lexical nos leva a uma representação de Dayanne – que, descrita em apenas uma frase, é caracterizada por sua forte (e anormal) admiração pelo marido; por outro, ela reforça uma representação de Bruno Fernandes já vista em outros elementos: um cara admirado, capaz de levar os que o cercam a fazer o que ele quer, ou seja, um cara manipulador. Fora o fato de ser caracterizada como alguém que nutre devoção por Bruno, Dayanne é representada ainda por uma fotografia que pouco nos ajuda em nossa investigação, fotografia essa já analisada quando falamos do layout 8.3. Por isso importa destacar que Dayanne é sobretudo representada como a esposa traída e que, ainda assim, nutre grande afeto e admiração pelo ou ex-marido. Outro investigado que aparece na reportagem é Luiz Henrique Romão, o Macarrão. Ele é citado por Bruno na entrevista que deu à Veja (figura 31), sendo aí representado, a partir do estrato léxico-gramatical, apenas como “amigo de infância” e “funcionário” de Bruno. Além disso, Macarrão é ainda representado por meio de uma imagem (fotografia), de meio corpo e com olhar de demanda, cujo backgroud está desfocado, sendo, portanto, o lugar da fotografia incerto. Apenas esses elementos visuais não nos permitem desvelar a representação desse sujeito, da forma como nos propomos. O importante neste momento é perceber que Macarrão é representado com uma pessoa próxima a Bruno. Em resumo, por meio de nossas análises, evidenciamos que a reportagem de Veja representa o sumiço de Eliza Samúdio como assassinato, o que é percebido por meio tanto do modo verbal quanto dos modos visuais. Essa representação é depreendida, sobretudo, por meio do sistema do Engajamento em que o produtor do texto emprega as falas do delegado responsável pelas investigações e por meio de imagens associadas ao sistema de cores, que sugere a representação da vítima como um fantasma. Por meio da utilização de diversos recursos semióticos associados entre si, como escrita e imagens, a vítima por sua vez é representada como uma pessoa obcecada pelo mundo do futebol e, em função de seus comportamentos em relação a esse mundo, como uma pessoa com transtornos psiquiátricos. Acrescente-se a isso, ainda, que, por meio da representação do mundo do futebol como um mundo de fama e de orgias, Eliza, ainda que 173 em menor escala, é representada com comportamentos reprováveis, por possivelmente se relacionar com diversos homens e frequentar ambientes muito negativos (como aqueles relacionados ao futebol). Bruno, por sua vez, é representado como um sujeito de posses e de poder. Além disso, o ex-goleiro do Flamengo é representado ainda como uma pessoa fria, capaz, por isso, de premeditar a morte de uma pessoa, como fez com Eliza, mudando inclusive de comportamento para atraí-la para uma armadilha. Nesse sentido, Bruno, para quem ainda é possível depreender uma representação própria de bandido, é claramente representado como responsável pela morte da modelo. Por fim, Macarrão e Dayanne, outros suspeitos/investigados do crime, são representados, respectivamente, como pessoa próxima a Bruno e pessoa devota dele. Encerrada a análise do texto 8, analisaremos na próxima seção o último texto de nosso corpus, a reportagem publicada em 14/7/2010 . 3.3 Texto 9 – Reportagem de 14/07/2010 Nesta seção analisaremos o último texto de nosso corpus. Trata-se de reportagem publicada por Veja em 14/7/2010 e composta por 6 (seis) páginas. Lembramos que o recorte do nosso corpus compreende o período que vai desde a notícia do desaparecimento (e possível morte de Eliza Samúdio), ocorrido oficialmente em 06/06/2010, até o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público, que se deu em 03/08/2010. Como não houve publicações pela revista Veja a respeito do caso após 14/07/2010, a reportagem desse dia acaba sendo o último texto do nosso corpus, ainda que bem antes do ajuizamento da Ação Penal. Como temos organizado nossas análises por modo semiótico, também para o texto 9, vamos dividi-las em dois diferentes momentos. À semelhança do que fizemos no texto 8, analisaremos os modos visuais das 6 páginas, agrupando-as de duas em duas. Dessa forma, a cada duas páginas, analisaremos o layout e as imagens, passando em seguida ao modo verbal como um todo. Lembramos mais uma vez que essa separação é apenas para fins de melhor organização do texto, o que não nos impede de tratar os modos semióticos de forma conjunta quando for imprescindível para a depreensão dos significados em potencial. Passemos, assim, à análise dos modos visuais na seção seguinte. 3.3.1 Modos Verbais: Imagens, cores, layout no texto 9 174 Nesta subseção apresentaremos nossas análises para os Modos visuais do texto 9, contemplando, principalmente, o layout – que chamaremos layout 9.1 –, as imagens e o sistema de cores. Para iniciar o exame, vamos apresentar as duas primeiras páginas da reportagem a serem analisadas, páginas 84-85 da edição 2173, apresentadas na Figura 35. FIGURA 35 – Layout 9.1 Fonte: Veja, 14/7/2010, p. 84-85 Vamos nos ater num primeiro momento ao modo layout, passando pelas imagens e explorando também o sistema de cores, que marca consideravelmente os potenciais significados nesse layout. Inicialmente cumpre-nos analisar o valor informacional conferido aos elementos textuais, ou seja, como o posicionamento de cada um dos elementos no texto confere a eles valores específicos. Veja-se que os blocos informacionais no layout 9.1 estão organizados de forma a conceber uma estrutura centro/margens em que o elemento central subordina os demais elementos. Diante dessa subordinação, veremos que os elementos das margens esquerda e direita estão em estrutura Dado/Novo, na qual a imagem de Bruno e dos cachorros – à esquerda – está posta como informação dada, enquanto o modo verbal – à direita – ocupa a posição com valor de informação nova. No centro, uma imagem do rosto de Eliza Samúdio funciona como um mediador entre os elementos das margens esquerda e direita. 175 Analisando-se o sistema de moldura (framimg) dos elementos, observa-se que eles estão em conexão criando uma integração imagética e intermodal. Isso porque, como se pode observar, as imagens da esquerda para a direita, as imagens de Bruno e de um cachorro, vão se misturando e se (con)fundindo, sobrepondo-se uma à outra, sem espaços em branco entre elas. Da mesma forma, esse bloco de imagens se sobrepõe também à imagem de Eliza, que, por sua vez, vai se sobrepondo ao modo verbal. Isso implica uma forte conexão entre esses elementos textuais, contribuindo, assim, para a integração entre eles. Essa integração dos blocos informacionais pode ser percebida ainda por meio do sistema de cores. É possível perceber o forte emprego da cor vermelha, que começa mais forte do lado esquerdo e, à medida que se aproxima da vítima e do modo verbal, vai ficando mais clara, até prevalecer o branco, no plano de fundo do modo verbal. Dessa forma, o vermelho empregado nas páginas une as imagens contribuindo para essa integração imagética e intermodal ao conectar os elementos textuais. Além disso, é importante observar que esse grande bloco informacional recebe maior saliência, pois o olhar do leitor é levado a ele como um todo. Analisando-se agora o sistema de cores, nota-se que a cor vermelha empregada na página pode, por um lado, ser associada à ideia de um derramamento de sangue e, como vem cobrindo boa parte do texto, pode-se construir um sentido em potencial do derramamento de sangue causado pelos agressores na morte de Eliza. Por outro lado, essa cor pode ser empregada para sensibilizar o leitor para a crueldade a que foi submetida a modelo, além de conferir ao texto coerência, já que a tonalidade vermelha misturada às imagens de Eliza, Bruno e do cachorro une esses elementos em um único bloco, ou seja, que deve ser lido como um todo. Torna-se coerente também por relacionar Bruno diretamente à morte da modelo, além de expor toda a brutalidade desse crime. Essas representações se repetem também no modo verbal, como procuraremos demonstrar à frente, sendo, portanto, a tônica representacional do texto. Além disso, as imagens, cobertas pela cor vermelha, representando sangue, podem estar remetendo ao esquartejamento do corpo de Eliza, já que faltam limites na imagem do seu rosto, se misturando tanto texto escrito quanto às outras imagens. Essa falta de limites pode ainda ser associada à imagem da fragmentação do corpo dela, já que segundo as investigações, Eliza teve o corpo esquartejado. Além disso, o lado da vítima que está mais próximo de Bruno recebe mais o tom vermelho, ou seja, o derramamento de sangue está ligado a ele. Veja-se que, quanto mais a imagem de Eliza Samúdio se aproxima dele, mais 176 forte é o sangue, isto é, mais ela se aproxima da frieza, crueldade e selvageria, adjetivos empregados no título da reportagem. À medida que ela se afasta dele (para o lado direito), a representação do sangue vai ficando mais translúcida, vai clareando, até que se chega, por fim, ao modo verbal, que vai revelar a frieza, crueldade e selvageria a que ela foi submetida. Nesse sentido, o sistema de cor escolhido se mostra extremamente apelativo, já que, apontando para uma extrema crueldade pela referência ao derramamento de sangue, pode causar sensações (negativas) no leitor. Passaremos agora a analisar as imagens e os seus significados em potencial com mais acuidade. Como já falamos, a imagem de Bruno e dos cachorros é apresentada por meio de uma integração imagética. Veja-se que há a imagem de um cachorro sobreposta ao corpo de Bruno, o que pode fazer com que se compreenda que ele incorporou um cachorro raivoso. É como se Bruno tivesse um cachorro dentro dele. Ressalte-se também que o tipo de cachorros empregado na imagem remete a cães bravos e possivelmente ferozes. Essa representação pode ser diretamente relacionada ao título da reportagem, pois Bruno, ao incorporar o cão raivoso, apresentaria um comportamento selvagem. Além disso, há, mais em primeiro plano, a imagem de outro cachorro, mais nítida, numa posição como se olhasse para a vítima. Isso pode ser relacionado à selvageria atribuída aos cães, além de remeter à fragilidade da vítima. A imagem do rosto da vítima foi empregada entre a imagem de Bruno e dos cachorros, integrada a elas, e vai se misturando à escrita. A imagem de Eliza funciona, desse modo, como um mediador entre os elementos do texto, relacionando as informações dadas (Bruno, o derramamento de sangue e os cachorros) ao que é representado pelo Modo verbal (informação nova), o que está, de certa forma, resumido no título: "frieza, crueldade, selvageria", escolhas lexicais que serão mais bem trabalhadas no decorrer das análises do modo verbal. O que convém frisar por ora é que, a partir dessa configuração textual, pode-se compreender que o modo verbal traz as informações novas em que o crime será elucidado. Veja-se que, considerando a estrutura centro-margem, observamos que Eliza é o elemento central dessa representação e aquele que recebe mais saliência, já que o rosto da vítima está em tamanho bem maior que os outros elementos. Assim, a partir da vítima, tanto para o lado direito quanto para o lado esquerdo, nota-se que a representação é a mesma (de frieza, crueldade e selvageria), porém representada por modos e recursos semióticos diferentes. Como veremos, toda a representação construída pela reportagem ora analisada gira em torno da representação empregada no título: Frieza, Crueldade e Selvageria. 177 A imagem de Eliza funciona, assim, como um mediador entre Bruno e a selvageria a que ela foi submetida, sendo aquela por meio de quem Bruno está sendo desnudado perante a sociedade. Observando mais cuidadosamente as imagens, percebe-se que o rosto de Eliza é apresentado em close shot, ou seja, de uma distância social muito curta e, por isso, em tamanho maior que os demais elementos, ganhando destaque. Já o olhar da vítima é direcionado para lugar incerto, configurando, portanto, um olhar de oferta, sem estabelecer interação com o PI. Além disso, a expressão facial da vítima parece ser de preocupação e tensão, representação que leva a inferir a fragilidade da vítima. Bruno, por sua vez, é focalizado de uma distância social média, já que está quase de corpo inteiro. Entretanto, como as imagens de Bruno e de um cachorro se misturam e como a cor vermelha derrama-se por quase toda a imagem, a imagem torna-se subjetiva. Além disso, a imagem de um cachorro se (con)fundindo com o corpo de Bruno sugere a incorporação de um cão, ou a junção de um cão com Bruno. Bruno é representado ainda com olhar de oferta, pois olha para lugar incerto, o que significa que não demanda nada do leitor e está representado ali apenas para ser observado por ele, sem, portanto, estabelecer interação. Neste ponto, ressalte-se que até mesmo o próprio sistema de cores, o vermelho – representando sangue –, já afasta o leitor, por remeter à crueldade, ao “mar de sangue” que envolveu a morte da modelo. Destaca-se, ainda, a expressão facial do suspeito, que, juntamente com o cachorro que se (con)funde com seu corpo, dá a impressão de que ele desafia a sua vítima (ou até mesmo o próprio leitor). Essa imagem de desafio pode em alguma medida ser associada à ideia apresentada no texto 8 de que famosos jogadores de futebol estão acima da lei, conforme analisamos. Fechadas as análises das duas primeiras páginas do texto 9, passaremos agora à análise das páginas 86-87 da reportagem ora analisada, apresentadas na figura 36. 178 FIGURA 36 – Layout 9.2 Fonte: Veja, 14/7/2010, p. 86-87 Passando à análise dos modos visuais nas páginas 86-87, observa-se que a estrutura textual leva a um caminho de leitura de cima para baixo. Na parte superior há o texto principal da reportagem, composto por Modo verbal e imagem, e na parte inferior, um infográfico, evidenciando que o layout, que chamaremos layout 9.2, apresenta uma estrutura top/bottom. Essa estrutura pode ainda ser percebida pelo sistema de moldura, que evidencia a separação dos blocos de informação, por meio de espaços em branco e do fundo em escala de cinza do infográfico, demarcando claramente essa organização composicional do texto. Analisaremos inicialmente a parte superior e após a parte inferior. Na parte superior, nota-se destaque em uma fotografia de Bruno e Macarrão, fotografia que está posicionada da parte do ideal, do imaginário. Nota-se que o colorido da fotografia deles contrasta com o restante do espaço textual que está em preto e branco e em escala de cinza, atraindo a atenção do leitor para a imagem. Além disso, como já vimos em outros layouts, o fato de a imagem deles estar no centro das duas páginas, sendo divida por elas, mostra o destaque conferido a essa imagem, chamando a atenção do leitor para os PR. Além disso, por ser empregada no meio das duas páginas, faz com que o olhar do leitor seja dirigido às duas páginas e não somente a uma. Na fotografia, vê-se Bruno e Macarrão, ambos suspeitos (e posteriormente condenados) da morte de Eliza Samúdio, representados por olhar de demanda, endereçado 179 diretamente ao leitor, o que pode criar uma possível proximidade com o PI. Observa-se que o cenário da imagem, embora não muito visível, retrata um lugar reservado ao laser, pois nota-se ao fundo natureza, com água e vegetação, além de ser possível perceber que eles estão em barco ou uma lancha. Essa fotografia expressa, portanto, uma relação de proximidade entre Bruno e Macarrão, além de remeter a um padrão de vida economicamente elevado, sugerindo serem os PR pessoas de posses. Essa relação pode ser feita porque, como descrevemos o cenário, não se trata de um lugar comum, popular. A presença de possíveis embarcações ao fundo denotam um espaço particular, reservado a pessoas com alto poder aquisitivo, representando também certo poder social. Já a relação de proximidade entre os PR pode ser inferida porque normalmente patrões não levam seus empregados 58 juntos para esse tipo de estrutura de laser, senão para trabalhar. Assim, o cenário, embora um pouco desfocado, reforça uma possível representação de poder em relação a Bruno e reforça uma relação de proximidade entre Bruno e Macarrão. Além disso, convém ressaltar o relevo que é dado à tatuagem de Macarrão, que aparece como que ampliada por uma lupa no retângulo em destaque na imagem. Veja-se que, nesse elemento textual, destaca-se a tatuagem de Macarrão com dizeres que evidenciam não somente uma relação de proximidade, mas, sobretudo, uma relação afetiva entre os dois, reforçando ainda mais a ideia de que se trata de uma relação diferente da relação patrão/funcionário. Ao destacar a tatuagem de Macarrão, o designer explora, portanto, a relação próxima de Bruno com aquele a quem ele chama de funcionário. Esse destaque, convém ressaltar, ocorre ainda por meio da representação feita no “olho” da imagem: que descreve o que se vê como “Amor verdadeiro”. Já na parte inferior da página, o sign-maker representa o crime por meio de um infográfico. Isso significa pensar que o infográfico representa toda a crueldade a que Eliza foi submetida, já que vem na parte do texto cujo valor informacional é o real, que traz informações mais específicas ou mais práticas (VAN LEEUWEN & KRESS, 1995, p.28). Lembramos mais uma vez que Infográficos são textos, em geral compostos por recursos verbais e visuais, que acompanham o texto jornalístico. Conforme já afirmamos, o jornalista se utiliza de diversas ferramentas para ilustrar e/ou enriquecer uma reportagem 58 Tomando aqui uma visão conservadora e exclusiva, já que infelizmente, no Brasil, é perceptível que socialmente há uma diferenciação patrão/empregado. 180 ou mesmo apenas para melhor organizar as informações de determinado texto jornalístico 59 , sendo o infográfico uma dessas ferramentas. O infográfico usado nas páginas em análise tem o título “o passo a passo do crime”, sendo composto por imagens e modo verbal, como é comum aos infográficos. Apenas para contextualizar, lembramos novamente que, por ser um texto com desenhos elaborados pela equipe de Veja para ilustrar o crime, os desenhos são de baixa modalidade e expressam a percepção dos designers sobre o evento social e os participantes desse evento. Para melhor compreensão da análise, o infográfico do layout 8.2 está reproduzido na Figura 37. FIGURA 37 – Infográfico do layout 9.2 Fonte: Veja, 14/7/2010, p. 86-87 Analisando os desenhos, observa-se uma representação de fragilidade da vítima que se opõe à agressividade dos algozes, pois, em geral, a vítima é representada a partir de um ângulo inferior, ao passo que os agressores aparecem como se estivessem por cima dela, ou acima, passando a impressão de força e domínio sobre ela. Além disso, observa-se, por exemplo, que as sobrancelhas de Eliza são curvas, denotando tranquilidade e suavidade. Já as dos agressores são representadas por traços mais retos, o que lhes confere agressividade à expressão facial, semelhante ao que vimos nas análises do infográfico no caso Nardoni. É importante perceber ainda que os riscos firmes meio que como um plano de fundo aparecem nos desenhos que ilustram as agressões a Eliza, passando a ideia de movimento e ao mesmo tempo de agressão. Dessa 59 Teixeira (2007) discute uma proposta de tipologia para classificação do infográfico a partir das noções de tipo textual e gênero textual/discursivo. Levando em consideração a discussão no meio (ou ausência dela) de se o infográfico seria um gênero ou não, a autora afirma que “[...] um infográfico pressupõe a inter-relação indissolúvel entre texto (que vai além de uma simples legenda ou título) e imagem que deve ser mais que uma ilustração de valor exclusivamente estético.[...] O infográfico, enquanto discurso, deve ser capaz de passar uma informação de sentido completo, favorecendo a compreensão de algo e, neste sentido, nem imagem, nem texto deve se sobressair a ponto de tornar um ou outro indispensável. (cf. TEIXEIRA, 2007, p. 113). Diante das afirmações da autora, consideramos em nossa pesquisa os textos com o passo a passo dos crimes como infográficos sem entrar nessa discussão sobre se tratar ou não de gêneros textuais/discursivos, por não ser parte do escopo da presente pesquisa. 181 forma, conforme falamos, as imagens representam, sobretudo, a agressividade dos algozes de Eliza Samúdio. O modo verbal, no infográfico, por sua vez, representa, como diz o título, o passo a passo das ações que culminaram com a morte da modelo. É interessante observar que os passos foram narrados pelo texto de Veja a partir de sentenças afirmativas e no modo indicativo, ou seja, que apresentam o aspecto verbal factual, o que levam o leitor a tomar como verdade a narrativa apresentada. As ações do relato contido no infográfico são então descritas por expressões como “Eliza e o filho que estavam na casa de Bruno”, “entraram no jipe Land Rover”, “O adolescente saltou em direção a Eliza”, “num movimento brusco ela derrubou a pistola e conseguiu pegá-la”, “O grupo chegou à casa de campo de Bruno, em Minas, na madrugada do dia 06”. Assim, é importante perceber que o produtor do texto escolhe representar o evento a partir de um modo verbal que apresenta uma ideia acabada, dando veracidade às ações, permitindo ao leitor a tomar aquela sequência de ações como reais. Cabe ressaltar que o texto emprega a afirmação de que a polícia vinha trabalhando nessa versão, conforme ilustra o trecho (47). (47) “Os principais episódios que ocorreram entre os dias 5 e 9 de junho [de 2010] e culminaram no assassinato de Eliza Samúdio, ex-amante do goleiro Bruno, segundo a versão com a qual a polícia mineira trabalhava até a última sexta-feira”. (Veja, 14/7/2010, p. 86) Entretanto, não se percebe o emprego do Engajamento, mas uma assertiva afirmativa conferindo à polícia a versão apresentada. Ressalte-se, assim, que o emprego de sentenças afirmativas, a ausência de modalização e o aspecto verbal factual representam como real a narrativa do infográfico. Isso é reforçado ainda pelo fato de o infográfico usado ocupar a posição inferior da pagina, reforçando a proximidade com o real. Concluídas as análises dos modos visuais na figura 37, analisaremos agora os modos visuais nas páginas 88-89, apresentadas na Figura 38. 182 FIGURA 38 – Layout 9.3 Fonte: Veja, 14/7/2010, p. 88-89 Iniciando pelo layout, que nominaremos de layout 9.3, percebe-se que a composição textual privilegiou a variedade de bloco informacionais desconexos. Isso porque os espaços em branco ao redor das imagens e do modo verbal, por exemplo, evidenciam o molduramento (framing) desses elementos. Nota-se que a saliência é conferida às imagens, levando o olhar do leitor a elas. Considerando a saliência das imagens, os caminhos de leitura possíveis apontam para a uma leitura circular, já que as imagens são organizadas de forma que lembra um catavento, levando o olhar do leitor a girar, seguindo uma imagem após a outra. Assim, ele vai da imagem do cativeiro de Eliza passando pelo bloco informacional que leva à disputa pela criança, que leva aos suspeitos, que leva novamente ao cativeiro que leva à disputa pela criança e assim por diante. Por isso, a maior carga de informação está nas imagens. É importante não perder de vista os ensinamentos de Van Leeuwen e Kress (1995, p. 39) no que concerne aos caminhos de leitura e ao valor informacional, que não podem ser confundidos. Sobre isso, os autores afirmam que “os valores de Dado e Novo, Ideal e Real, Centro e Margem não são dependentes da ordem de leitura”60. Em outras palavras, isso quer dizer que não é o caminho de leitura de determina o valor informacional, mas a organização do texto. 60 No original: “The values of Given and New, Ideal and Real, Centre and Margin are not dependent on an order of reading.” (VAN LEEUWEN e KRESS, 1995, p. 36) 183 Assim, analisaremos as imagens separadamente, iniciando pela imagem central, o possível local onde Eliza Samúdio foi morta. Inicialmente cabe observar que se trata de uma imagem centralizada dividida nas duas páginas, e na parte superior. Essa localização da imagem pode fazer com que o leitor, de certa forma, olhe para as duas páginas. Além disso, essa fotografia cria uma rima visual com os desenhos da Figura 37, pois foi tirada de um ângulo superior, mostrando ao leitor tudo o que se pode ver naquele local, por meio, portanto, de uma imagem objetiva. Isso estabelece uma relação com o leitor por meio de uma de sensação de poder ser conhecedor daquele lugar. Convém ressaltar ainda o ambiente representado por essa imagem, reproduzido na Figura 39. FIGURA 39 – Imagem do catavento: o cativeiro Fonte: Veja, 14/7/2010, p. 88-89 Trata-se de um lugar que parece descuidado ou até mesmo abandonado, desarrumado, dando mesmo a ideia de um lugar sujo, o que pode transmitir a ideia de um ambiente negativo. A negatividade percebida pode ser relacionada também a uma possível impotência da vítima em relação a seus agressores e à pouca probabilidade de reação por parte dela. Acrescente-se ainda que o “olho” das fotografias, localizado no centro desse layout, apresenta em destaque a palavra “matadouro” seguida de pontos de interrogação. Mesmo que haja a interrogação, o leitor pode vir a associar o local a um matadouro, pela descrição do lugar que já apresentamos. Além disso, essa imagem vem na parte superior da página, ou seja, no espaço do imaginário. O bloco informacional Disputa por Bruninho constitui-se em outro elemento textual, bem delimitado pelo sistema de moldura do Modo Layout, já que está bem enquadrado, pois tanto modo verbal quanto modos visuais, foram delimitados com fundo cinza, diferentemente dos outros blocos informacionais, que têm fundo branco, destacando 184 que se trata de outro bloco de informação e evidenciado a sua desconexão com os outros elementos. Para melhor compreensão da análise, reproduzimos esse bloco informacional na figura 40. FIGURA 40 – Elemento do catavento A disputa por Bruninho Fonte: Veja, 14/7/2010, p. 89 Embora esse bloco informacional seja composto por diferentes modos semióticos, trata-se de um bloco a ser compreendido “separado” dos demais. Como já afirmamos outras vezes, o jornalista utiliza-se de diversas ferramentas para ilustrar e enriquecer uma 185 reportagem, tratando de assuntos conexos ou afins. Assim, a disputa pela guarda do filho de Eliza está diretamente relacionada ao crime, tendo em vista que justamente a morte de Eliza levou a essa disputa, motivando o texto. Esse bloco informacional Disputa por Bruninho, além de trazer outros elementos que nos ajudam na representação de Bruno e de Eliza, pode ainda levar o leitor a uma forte indignação, pois traz um apelo à inocência de uma criança afetada por essa barbárie. Além disso, pode ainda ser relacionado a contestações ao comportamento negativo atribuído pelo sign-maker a Bruno, tornando ainda mais repugnante o comportamento dele por ter matado uma mulher com quem possivelmente teve um filho. Convém destacar que Disputa por Bruninho está numa proporção grande na página e no lado direito, no lado do novo, reforçando a ideia de um apelo emocional para sensibilizar o leitor para a situação. O modo verbal desse bloco informacional busca mostrar que os pais de Eliza já apresentavam desvios de conduta. Ao informar que, na infância, Eliza tinha sido abandonada pela mãe e que o seu pai responde a processos na justiça, evidencia-se aí um núcleo familiar desconstituído, esfacelado, levando a uma representação de Eliza como proveniente de um família sem uma base familiar forte, consolidada. (48) “Sônia revelou que o ex-marido é alvo de um processo em que é acusado de ter estuprado uma menina de 10 anos de idade, que seria filha do empreiteiro com uma cunhada. [...] Ele, por sua vez, acusou Sônia de ter abandonado Eliza aos 5 meses de idade.” (Veja, 14/7/2010, p. 89) Além disso, o modo verbal traz informações da família de Bruno. Ao fazer isso, representa Bruno como uma pessoa que não teve uma “educação” adequada, tendo em vista que tanto a mãe quanto o pai envolveram-se em ilicitudes. Além disso, a mãe também o teria abandonado com poucos dias de vida, já tendo inclusive respondido a um processo por tentativa de homicídio. O pai de Bruno, já falecido à época do crime, teve pedido de prisão decretado por sete vezes. (49) “Se o critério para a definição da guarda de Bruninho for o prontuário judicial do candidato, a mãe do goleiro Bruno tampouco pode ser considerada uma opção.” (Veja, 14/7/2010, p. 89) Essas informações apresentadas permitem inferir uma representação do ex-goleiro como uma pessoa vinda de um núcleo familiar desestruturado, assim como o de Eliza, mostrando que ele não teve uma boa base familiar, o que pode sugerir que o crime ocorreu por falta de família. 186 Outro suspeito representado na reportagem ora analisada, texto 9, é Bola. Esse PR é representado nesse texto tanto pelo modo verbal quanto pelo modo imagem. Analisaremos neste ponto apenas a imagem, reproduzida na Figura 41, deixando a representação do modo verbal para ser abordado na próxima seção. FIGURA 41 – Imagem do catavento: o suspeito Bola Fonte: Veja, 14/7/2010, p. 88 Observa-se que Bola é representado em posição de contemplação. O olhar parece ser de demanda, pois o PR parece olhar diretamente para o leitor. Entretanto, embora olhe para o leitor, ele não se estabelece relação com PI. Isso porque o PR-suspeito porta óculos escuros, o que impede essa interação. Além disso, os óculos escuros criam um efeito de intimidação. Com o uso do acessório, o PR não é representado em sua essência ao PI, causando a impressão de desafio por parte do PR-suspeito. Soma-se a isso, a exposição do PR-suspeito sem camisa, deixando à mostra para o leitor o seu corpo físico. Isso reforça o poder e a força que exerceram sobre a vítima. Esse sentido pode ainda ser relacionado à fotografia de Bruno/Macarrão. Essas duas imagens formam uma rima visual pelo background, já que em ambas o fundo é um cenário relacionado a lazer e os PR aparecem deixando visível o físico, demonstrando força e causando intimidação. Além disso, relaciona-se com os desenhos do infográfico por meio de uma desconexão por contraste, já que, no infográfico, os desenhos representaram a fragilidade da vítima. Diante do exposto, de forma resumida, já podemos inferir que o modo imagens representa a relação de fragilidade da vítima versus força dos agressores. Dayanne, esposa de Bruno, é representada por meio de uma imagem pouco informativa para nossa busca, conforme Figura 42, reproduzida a seguir. 187 FIGURA 42 – Imagem do catavento: Dayanne Fonte: Veja, 14/7/2010, p. 89 É representada por meio de olhar de oferta, olhando para cima, como se estivesse rezando, sem se estabelecer, portanto, interação com o leitor. Analisados os blocos informacionais do nosso “catavento”, podemos observar a imagem da avó com o menino no colo, que pode sensibilizar o leitor para a brutalidade da situação. A avó olha para baixo, cabisbaixa, representando o sofrimento. Ao mesmo tempo o lugar onde Eliza foi morta, de acordo com a polícia, a casa de Bola, passa a sensação de um lugar ruim, como já falamos, e, principalmente, a foto de Bola estilo “todo poderoso” exibindo o corpo físico, com um olhar desafiador e em lugar “bacana”, vai chamando a atenção do leitor para essa situação, sensibilizando e chocando ao mesmo tempo. A partir dessas relações, percebe-se que o texto vai tecendo elementos que permitem compreender os PR-suspeitos como autores da morte de Eliza Samúdio. 3.3.2 Modo verbal no texto 9 Nesta seção analisaremos a representação da vítima, dos suspeitos Bruno, Bola, Macarrão e Dayanne, além da representação acerca do evento social, a partir do modo verbal. Mais uma vez, esclarecemos que trabalharemos com a representação do evento, pois acreditamos que a Apreciação do evento leva a uma possível representação dos envolvidos. Ressaltamos que para nossa análise escolhemos apenas os trechos que melhor ilustram a interpretação que vem sendo construída, não sendo necessário, a nosso ver, analisar sentença por sentença. 188 Iniciando pelo suspeito principal, percebe-se que Bruno é representado de forma negativa, percebido, a partir Sistema de Avaliatividade, por meio de Julgamentos. Uma representação evidenciada, da mesma forma que já vimos nas análises dos outros textos, é a imagem de uma pessoa fria. Essa representação pode ser construída a partir de relações do estrato léxico-gramatical com as imagens, além de percebidas a partir de descrições do comportamento dele. Isso significa que a sua representação como pessoa fria pode ser depreendida a partir de Julgamentos de Estima Social Negativa, conforme ilustra o trecho (50). (50) “Quase tão chocante quanto o crime tem sido o comportamento do goleiro Bruno. Em nenhuma de suas aparições públicas, o jogador não apresentou qualquer traço de emoção. Sua única manifestação de preocupação, captada num vídeo feito na delegacia carioca em que ele se apresentou, referia-se a ele próprio – e à sua agora naufragada esperança de jogar na Copa do Mundo de 2014. “Acho que não vai dar para participar, lamentava como se a tragédia não fosse outra” (Veja, 14/7/2010, p. 85-86, grifos nossos) Inicialmente cumpre-nos destacar a valoração do comportamento de Bruno e também do evento, que será analisado mais adiante, ambos representados por meio da expressão “tão chocante”. A representação do comportamento de Bruno como algo “chocante” leva a perceber um Julgamento de Estima Social negativa, pois remete a algo surpreendente e estarrecedor, além de já evidenciar como o sign-maker se posiciona em relação ao evento, pois o comportamento de Bruno é “quase tão chocante” quanto o crime, ou seja, o crime é muito chocante, na opinião do produtor do texto. Destaque-se ainda que esse Julgamento é amplificado, pois percebemos o sistema de Gradação empregado, por meio da palavra “tão”. Esse emprego amplifica também a percepção do comportamento de Bruno. Trata-se, inicialmente, de um comportamento não esperado. Adicionalmente, o sign-maker permite ao leitor inferir a frieza de Bruno destacando que ele “não apresentou qualquer traço de emoção”. O produtor do texto permite ao leitor inferir que se trata aí de uma pessoa fria ao escolher representar Bruno dessa forma, a partir dessa expressão, pois o esperado é que uma pessoa que está prestes a responder a um processo por assassinato demonstre alguma reação a isso, seja expressando preocupação, afirmando inocência ou até mesmo arrependimento. Além disso, é possível inferir ainda a representação de uma pessoa egocêntrica, que só pensa em si, pois a única expressão de preocupação que ele demonstrou, segundo a reportagem, foi consigo mesmo: uma preocupação relacionada a um possível prejuízo em seus planos profissionais. Isso reforça a frieza desse suspeito ao mesmo tempo em que desvela uma pessoa egocêntrica. 189 Acrescente-se que o produtor do texto deixa sua Avaliação acerca do comportamento egoísta, evidenciando que a tragédia se refere à morte da modelo e não à possibilidade de risco à carreira dele, já que a única manifestação do ex-goleiro em relação ao caso foi sua preocupação, já na delegacia, de não poder participar da Copa do Mundo de 2014, que seria realizada no Brasil. Todas essas representações são feitas a partir de Julgamentos de Estima Social negativa, tanto a representação de frieza quanto de egocentrismo. Essa marca de avaliação é percebida a partir do emprego da expressão “como se a tragédia não fosse outra”, mostrando um Julgamento de Estima Social, pois se trata claramente de uma crítica ao comportamento de Bruno. Além disso, o produtor do texto emite sua Apreciação do evento como uma tragédia, palavra empregada na superfície textual que permite inferir que a tragédia refere-se à morte de Eliza Samúdio. Outro elemento do texto que permite inferir a representação de Bruno como uma pessoa fria, que não expressa emoções ou sentimentos é o seu comportamento em sua vida social. Analisando-se o estrato léxico-gramatical, extraem-se as informações de que Bruno continuou a agir normalmente, promovendo e frequentando festas, mostrando-se não somente egocêntrico, mas também cínico ao promover uma festa em sua casa enquanto Eliza era ali mantida em cativeiro, além de comparecer com Macarrão a uma festa no dia seguinte ao que possivelmente Eliza foi morta, conforme destacado no trecho a seguir. (51) “Um dia antes do assassinato de Eliza, Bruno promoveu uma pelada e um churrasco na sua casa em Esmeraldas (MG) onde Eliza era mantida cativa. No dia seguinte à morte, surgiu de novo tranquilo e sorridente, num churrasco ao som de funk na casa do atacante Vagner Love, seu colega no Flamengo.” (Veja, 14/7/2010, p.86, grifos nossos) Assim, ao detalhar o comportamento de Bruno durante o crime, o processo que levou Eliza Samúdio à morte (já que tudo começa com o aprisionamento da modelo), o sign-maker apresenta Julgamentos de Estima Social negativa, de diversas formas. Primeiramente, vê-se no extrato léxico-gramatical que Bruno surgiu “tranquilo e sorridente”, em uma festa, um dia após o assassinato de Eliza. Isso demonstra a Atitude do sign-maker em relação a Bruno. Essa descrição reforça a frieza no comportamento desse suspeito, que nem sequer expressa preocupação de o crime ser descoberto. Toda a representação de Bruno, como pessoa fria e egoísta, que frequenta festas, que promove festas no momento em que espanca e mantém uma pessoa refém, vai findar numa representação maior: trata-se de um psicopata. Essa representação vai sendo construída, mas finda a partir do emprego do sistema de Engajamento, em que se traz a voz de outrem para empregar uma Avaliação. 190 (52) “Veem-se nele altas doses de narcisismo, egoísmo e frieza. Tudo indica que ordenou um assassinato para eliminar o que era para ele um obstáculo”, avalia o psiquiatra. Trata-se, sem dúvida alguma, de um psicopata.”(Veja, 14/7/2010, p.88) Neste ponto, é importante destacar que, ao trazer a voz de um especialista, o produtor do texto legitima a representação que vem construindo de Bruno. Ressaltem-se as escolhas lexicais feitas para essa representação: trata-se de alguém com “altas doses de narcisismo, egoísmo e frieza”. A representação, compreendida aqui pela valoração a partir do Julgamento de Estima Social Negativa e expressa a partir do Engajamento, vai ao encontro da representação analisada a partir do trecho (52). Assim, de forma simplificada, pode-se dizer que Bruno é representado a partir da análise do modo verbal desse texto como uma pessoa fria e egoísta, representações que levam a compreendê-lo como um psicopata. Abarcando em nossa análise os outros envolvidos representados na reportagem, vamos analisar a representação de Luiz Henrique Romão, o Macarrão. Esse sujeito é representado no texto ora analisado como coordenador da morte de Eliza. Além disso, por meio do estrato léxico-gramatical, notam-se várias marcas de Avaliação do designer na representação de Macarrão, que é muito direcionada à relação dele com Bruno. Assim, Macarrão é representado, em linhas gerais, como jogador de futebol frustrado e alguém que tinha adoração por Bruno, sendo, por isso, presença constante na vida do ex-goleiro, participando de suas festas e inclusive assistindo aos treinos do Flamengo. O trecho (53) exemplifica essas asserções: (53) “Melhor amigo do jogador desde a infância pobre em Ribeirão das Neves (MG), Macarrão, segundo colegas, de “goleiro frustrado” tornou-se o braço direito de Bruno. Nos últimos dois anos morava no Rio, na casa do goleiro, por quem teria “adoração”. Colecionava suas camisetas oficiais e era presença constante nos treinos do Flamengo.” (Veja, 14/7/2010, p.86, grifos nossos) A partir do trecho destacado é possível discutir as escolhas do produtor do texto para representar Macarrão. Inicialmente tem-se que se trata do “melhor amigo do jogador desde a infância”. O emprego dessa expressão reforça a representação da relação de proximidade dos dois suspeitos, evidenciando que há uma relação de amizade duradoura, como já analisamos nos modos visuais, sobretudo, no layout 9.2. Além disso, o produtor do texto representa Macarrão a partir da expressão “braço direito de Bruno”, ou seja, trata-se de pessoa de extrema confiança de Bruno, tanto que passou a morar na casa do goleiro. 191 Essas escolhas permitem inferir a representação de amizade entre os dois suspeitos, desvelando que não se tratava de uma relação apenas de patrão e empregado, como Bruno afirmava. Convém destacar ainda que Macarrão é representado como alguém que teria adoração por Bruno. Mais uma vez faz-se necessário observar com maior profundidade uma escolha lexical. Isso porque, ao afirmar que Macarrão tinha “adoração” por Bruno, o texto leva o leitor a criar não somente uma imagem de Macarrão, mas também de Bruno. Primeiramente, vamos observar o que nos diz o dicionário acerca dessa palavra: “Adoração [Do lat. adoratione.] S. f. 1. Ato de adorar. 2. Culto a uma divindade. 3. P. ext. Culto, reverência, veneração. 4. Amor excessivo; idolatria. 5. Gosto imoderado de alguma coisa. 6. Quadro que representa a veneração dos Reis Magos ao Menino Jesus.” (Aurélio eletrônico). Pelo que podemos perceber pelas definições do dicionário, adoração remete a uma divindade, a um amor excessivo. Diante disso, pode-se inferir a representação de Macarrão como uma pessoa que idolatra Bruno, que o ama em excesso. Essa representação é reforçada a partir da análise da fotografia da Figura 36, sobretudo, pelo bloco informacional que destaca como numa lupa a tatuagem de Macarrão fazendo uma homenagem a Bruno e afirmando essa amizade e amor. Diante disso, nota-se que modo verbal e modo visual estão em plena sintonia no que diz respeito à representação de Macarrão, confirmando-a. Faz-se agora necessário apontar a representação de Bruno, percebida por essa escolha lexical. Primeiro é preciso lembrar que, no texto 8, Dayanne, esposa de Bruno, é representada como uma pessoa com devoção por Bruno; no texto 9, agora também Macarrão é representado como tendo adoração pelo ex-goleiro. Essas escolhas, devoção e adoração, relacionam-se a significados de fascínio e poder. Diante disso, essas representações podem levar o leitor a compreender Bruno como uma pessoa capaz de agir sobre o outro de maneira que elas façam o que ele, Bruno, deseja, ou seja, uma pessoa manipuladora, o que inclusive poderia explicar o envolvimento de Macarrão e Dayanne num crime tão bárbaro. Essas representações de Dayanne e Macarrão como pessoas que adoravam e idolatravam Bruno reforçam também a representação de Bruno como um psicopata. A esse respeito, Jorge Elói (2012) afirma que “Os psicopatas,(sic) possuem lábia e sedução, capaz de manipular as pessoas que os rodeiam. Possuem um encanto inicial, que seduz a maioria das pessoas. Usam essas competências como meio de atingir os seus fins”. Diante da 192 afirmação do autor, nota-se que a representação de Macarrão e Dayanne levam à representação de Bruno como um psicopata. Outro suspeito representado por meio do modo verbal na reportagem ora analisada é Marcos Aparecido dos Santos, conhecido nesse caso, como Bola. Bola é representado explicitamente como o executor do crime e como alguém marcado por desvios de conduta, o que pode ser percebido a partir do estrato léxico-gramatical, conforme ilustra o trecho a seguir. (54) “[...] O ex-policial Marcos Aparecido dos Santos – ex-segurança de Bruno, dono da casa em que Eliza morreu e apontado como seu executor – responde a um inquérito em que é acusado de pertencer a quadrilhas de extermínio. [...] reservava às suas vítimas o mesmo destino que a polícia supõe ter sido o de Eliza: levadas à casa do ex-policial, onde foram encontradas caixas de armas de munição, elas eram esquartejadas e tinham pedaços de seus corpos lançados aos cães.”(Veja, 14/7/2010, p.85) Veja-se que Bola é relacionado, como dissemos acima, a desvios de conduta, já que as palavras empregadas no enunciado podem ser relacionadas a ações ilegais – como a possibilidade de ser relacionado a grupos de extermínio, o fato de terem encontrado armas e munição em sua casa, e menção ao esquartejamento de vítimas. Ou seja, há somente escolhas que o ligam a desvios de comportamento, o que evidencia, portanto, a Atitude do produtor do texto em relação a ele, expressa por meio de Julgamentos de Sanção Social negativa. Lembramos mais uma vez que, para a Semiótica Social, os possíveis significados do texto se constroem a partir das escolhas de que o sign-maker lança mão em seu texto. Assim, o produtor do texto opta por representar Bola a partir de escolhas relacionadas a comportamentos ilegais, logo por Julgamentos de Sanção Social. Isso, no contexto de um homicídio, toma contornos de verdade, permitindo ao leitor relacionar a representação ao homicídio e fazer a relação do PR mais facilmente como autor do crime. Além da representação individual dos suspeitos, o texto ora analisado em alguns momentos o texto refere-se aos agressores de forma generalizada e não especificamente a cada um deles. Nessa perspectiva, uma escolha que merece destaque é o emprego da palavra “algozes”, como ilustra o trecho (55). (55) “Na casa em Esmeraldas, ficou 4 dias em cativeiro com o filho. Lá, foi vigiada por Macarrão e surrada sem trégua, a ponto de seus algozes terem providenciado um aparelho de som ligado no volume máximo para abafar seus gritos de socorro.” (Veja, 14/7/2010, p.86, grifos nossos) 193 O Dicionário Aurélio Eletrônico traz as seguintes definições para algoz “1. carrasco, 2. Pessoa cruel, desumana, que mata ou aflige outra.” Assim, diante dessas definições, vê-se que os suspeitos são representados a partir da violência a que submeteram Eliza Samúdio, sendo representados como carrascos, evidenciando a crueldade anunciada no título da reportagem. Ressalte-se que a ideia de carrascos é reforçada pela expressão “surrada sem trégua”, evidenciando o alto grau de violência física empregado. Soma-se a isso a informação sobre a vítima ter sido “vigiada” o tempo todo. A crueldade e a frieza do grupo são evidenciadas ainda quando o produtor do texto afirma que um aparelho de som era ligado para abafar os pedidos de socorro da vítima. Assim, como afirmamos no início de nossa análise, o título da reportagem resume a representação do evento e dos suspeitos, ao passo que, em especial pelo modo verbal, como temos demonstrado, vai se evidenciando a representação anunciada no título. Como temos afirmado, a narração dos eventos contém várias marcas de valoração, como, por exemplo, o emprego da expressão “surrada sem trégua”, no trecho (55). É importante perceber que o emprego dessa expressão em detrimento de outra, como dizer que ela foi agredida, por exemplo, leva a uma percepção de que batiam sem parar, levando a um potencial sentido de tortura. Esse possível sentido não somente se revela nesse recurso, mas é também explicitado em outras partes do texto, como demonstraremos no trecho (59) destacado mais adiante. É importante ressaltar que as escolhas do produtor do texto para reportar, para informar sobre esse evento social são escolhas que remetem a uma escala negativa para crimes. Nessa escala, a morte de Eliza é representada como um crime do mais alto grau de crueldade. Soma-se a essas representações dos suspeitos o fato de que todas as valorações expressas pelo produtor do texto em relação ao evento são, em geral, expressas a partir de palavras e expressões muito negativas. Destacaremos a seguir a Apreciação do sign-maker em relação ao evento, pois acreditamos que a Apreciação do evento leva a uma possível representação dos envolvidos. Como falamos no capítulo 2, Apreciação é um subsistema do Sistema de Avaliatividade, que se refere à avaliação do sign-maker a respeito de coisas e de como reagimos a elas; de quão complexas são e dos valores que lhes damos. (Martin e White, 2005, p. 56). Veja-se que a reportagem não apresenta informação direta dos suspeitos, não os caracteriza de forma clara. À exceção das representações de Bola e de Macarrão, já 194 analisadas, é possível observar que não se adjetivam muito os suspeitos. No entanto, ao representar o evento como bárbaro, destacando, sobretudo, a crueldade e selvageria (no título), a reportagem está ao mesmo tempo criando uma representação dos autores do crime. Como vimos no caso Nardoni, o posicionamento da reportagem de Veja é um posicionamento punitivo, de acordo com o qual deve haver punição aos culpados. Alguém precisa ser culpabilizado pelo crime e, consequentemente, punido. No caso ora analisado, o posicionamento do sign-maker em relação ao evento está mais no sentido de mostrar a crueldade do caso, mas, como veremos mais adiante, também direciona para uma possível incriminação. Assim, é preciso analisar a forma como o evento é representado e a que possível representação dos envolvidos isso pode nos levar a inferir. Para tanto, vamos primeiro observar o trecho (56) destacado a seguir. (56) “É monstruoso que você programe a destruição do corpo de uma pessoa com quem manteve uma história afetiva, retirando dela a sua dignidade e, da família, a possibilidade de realizar os ritos de morte”. Diz o filósofo Roberto Romano.” (Veja, 14/7/2010, p. 88) Importante mencionar no trecho destacado o emprego da palavra “monstruoso”. Essa escolha lexical permite fazer duas inferências: a de que o termo se refere ao evento ou a de que se refere ao comportamento dos envolvidos. Percebemos, assim, que em uma palavra o produtor do texto expressa uma Apreciação do evento e ao mesmo tempo um Julgamento do comportamento dos suspeitos envolvidos. Essas relações são possíveis tendo em vista que a ideia que se passa é de monstruosidade pelo fato de que os envolvidos não apenas matam a vítima, mas também não permitem à família a possibilidade de realizar os ritos de morte, como velório e enterro. Ao mesmo tempo, revela-se um Julgamento de Estima Social negativa. Como temos afirmado, para a Semiótica Social, as escolhas são importantes na compreensão dos sentidos em potencial de cada signo, signos que são construídos socialmente, a partir do seu uso. No caso aqui analisado, a partir do emprego de uma palavra, dois sentidos coerentes são possíveis na compreensão. Essa análise pode ser evidenciada também pela relação com o título da reportagem, já que, se compreendermos a monstruosidade apenas como Apreciação do evento, ela pode ser relacionada à crueldade e selvageria, ao passo que, se a compreendermos como característica do comportamento dos suspeitos, isso nos remete à frieza, termos constantes do título, como já mencionamos. Além disso, podemos observar que essa avaliação, seja apreciação e/ou julgamento, é ancorada no sistema do Engajamento, trazendo avaliações 195 acerca do comportamento de quem comete os atos descritos na reportagem, fortalecendo o sentido potencial da monstruosidade do evento a partir da voz de outrem. A partir do Sistema de Avaliatividade, é possível observar, por meio da Apreciação do evento, como o produtor do texto se posiciona em relação ao crime. O assassinato de Eliza Samúdio é representado no texto ora analisado a partir de adjetivos de forte valor negativo, como já afirmamos, o que pode suscitar indignação no leitor, como ilustram os trechos (57) a (59). (57) “Quando alguém mata, o que já é repulsivo, e ainda profana o corpo da vítima, o crime se afigura como mais chocante por ferir aquilo também nos torna humanos. A morte de Eliza Samúdio é um desses episódios.” (Veja, 14/7/2010, p. 85, grifos nossos) (58) “Morta, teve o corpo esquartejado e atirado a cães ferozes. Reside aí outro detalhe repugnante de um crime que parece ultrapassar os limites conhecidos da crueldade.” (Veja, 14/7/2010, p. 85, grifos nossos) Observamos nos trechos destacados a Apreciação do produtor do texto em relação ao evento. Ressaltem-se as escolhas lexicais para representá-lo: é algo “chocante”, “repulsivo” e “repugnante”. Como se pode ver, o designer emprega palavras de valor semântico negativo. Acrescente-se que somente as palavras não foram suficientes para essa representação, sendo empregado ainda o sistema de Gradação para amplificar o quão horrível foi esse evento social. Assim o crime é não somente chocante, mas “mais chocante”. Além disso, a Gradação foi ainda empregada para amplificar a crueldade, que é uma representação recorrente nessa análise. Essa amplificação foi realizada a partir do emprego da expressão “ultrapassar os limites conhecidos da crueldade.” Ou seja, a crueldade vem amplificada sobretudo pelo emprego da palavra “ultrapassar”, que pode ser entendida neste contexto como “mais que cruel”. A partir do trecho (57), é possível notar que, ao afirmar que matar e profanar o corpo da vítima fere a nossa condição de humanos, o sign-maker está representando os autores do crime como pessoas desumanas. Além disso, o texto afirma que a morte de Eliza configura-se como um episódio repugnante e repulsivo, conforme ilustrado pelo trecho (57). Acrescente-se que a representação dos suspeitos como desumanos pode ainda ser evidenciada a partir da descrição dos últimos dias de vida de Eliza. A expressão “seus últimos dias” já pode causar aversão ao leitor. Além disso, a descrição desses dias emprega adjetivos que demonstram o quão violento foi o episódio. 196 (59) Seus últimos dias foram de sofrimento excruciante. Atraída para uma emboscada, Eliza foi mantida em cativeiro, seguidamente espancada e psicologicamente torturada. Experimentou o terror de pressentir a aproximação da própria execução e chegou a ouvir a sua sentença de morte – antes de ser sufocada até perder a vida. (Veja, 14/7/2010, p. 85, grifos nossos) Observe-se, no trecho acima, o grupo de palavras que resumem esse episódio: emboscada, cativeiro, torturada, sofrimento excruciante. Assim, em resumo, após ser atraída para uma emboscada, Eliza foi mantida em cativeiro e torturada. Ressalte-se a Apreciação do produtor do texto em relação ao que aconteceu a Eliza. A partir das escolhas do enunciador, a partir desse grupo de palavras ora destacado, e da expressão sofrimento excruciante, promove-se a ideia de que a modelo foi submetida a um sofrimento extremo. Diante disso, como se vê, todas essas escolhas permitem a compreensão de um crime bárbaro, que como o produtor do texto mesmo coloca “ultrapassa os limites da crueldade” (Veja, 14/7/2010, p. 85). Toda essa representação relaciona-se diretamente ao título da reportagem. Assim, percebe-se não somente a representação do evento em si e dos últimos dias de Eliza, mas também a representação dos suspeitos. Acrescente-se ainda que o evento social que selou a morte da modelo é narrado no pretérito perfeito, como ações acabadas, a partir de sentenças afirmativas e, em geral, sem modalizações. Isso leva a um sentido potencial de verdade em relação ao que está sendo narrado, como mostra o já analisado trecho (59) e o (60), a seguir. (60) “Macarrão convenceu a jovem a entrar no carro [...] . No lugar do apartamento foi conduzida para a morte. [...] Ao ver-se diante de Bola, a jovem implorou “Não aguento mais apanhar” àquela altura, Eliza já tinha hematomas no corpo, resultado dos espancamentos sofridos, e uma ferida na cabeça, provocada por três coronhadas, que J.R. confessou ter desferido nela durante a viagem em que a jovem foi levada do Rio para Minas.” (Veja, 14/7/2010, p.86, grifos nossos) Em (59), ocorrem as expressões: foi mantida em cativeiro, Experimentou o terror , chegou a ouvir a sua sentença de morte , para destacar algumas; já no trecho (60) há os verbos convenceu, implorou, foi conduzida, formas verbais que indicam ações acabadas. Assim, o emprego desse tempo verbal confere ao texto um potencial sentido de ações realizadas, portanto de verdade, evidenciando-se que o produtor do texto dá efeito de verdade à versão publicada dos fatos. A partir da narrativa dos eventos e das referências ao comportamento de Bruno durante os dias que Eliza esteve desaparecida, percebe-se que o produtor do texto se posiciona de forma a representar o evento como um assassinato. Adicionalmente, deve-se considerar que o sign-maker representa o evento como crime, explicitamente perceptível no estrato léxico-gramatical, pelo emprego das palavras 197 crime e assassinato, como ilustram os trechos por nós destacados (50), (51) e (58), para citar alguns. Isso permite que o leitor construa a representação desse evento social como um crime que se afigura como cruel e selvagem. Reiteramos mais uma vez que não estamos discutindo a atuação da imprensa, nem mesmo contestando. Nossa proposta é apenas de evidenciar como um evento social tão chocante como esse foi representado por meio dos textos jornalísticos publicamos pela revista Veja, observando se há um direcionamento de uma antecipação de julgamento. Mesmo porque matar uma pessoa é mesmo um crime previsto no Código Penal. Nota-se, desse modo, que há um direcionamento discursivo na construção do crime, em que o produtor do texto toma como verdade que Eliza Samúdio foi morta e que Bruno foi o mandante. Diante disso, percebe-se a atribuição de autoria e um direcionamento para um possível sentido de pré-julgamento. Acrescente-se, ainda, que é possível depreender uma representação dos envolvidos no crime como bandidos, como já mencionamos, direcionando com isso o leitor para um possível sentenciamento de culpa em relação a Bruno. Além disso, o sign-maker emprega um Julgamento de Sanção Social negativa e aponta diretamente uma punição prévia, conforme ilustra o trecho a seguir. (61) “No caso de Bruno, a atitude do clube foi ainda pior. Na última segunda- feira, quando já era o principal suspeito do assassinato, o goleiro continuou a treinar e a contar com a defesa do diretor jurídico do clube, Michel Assef Filho – hoje fora do caso. Até agora, o Flamengo não apenas deixou de demitir o jogador (ele só foi suspenso), como não se pronunciou sobre o ocorrido – nem para anunciar medidas para manter seus atletas afastados da bandidagem.” (Veja, 14/7/2010, p. 88, grifos nossos) Veja-se que o produtor do texto emite uma crítica, por meio de um Julgamento de Estima Social negativa, ao Flamengo por deixar Bruno continuar a treinar “quando já era o principal suspeito do assassinato”. Além disso, o produtor do texto sugere que Bruno deveria ser demitido pelo clube em que trabalhava e que o Flamengo deveria emitir nota sobre o ocorrido e “anunciar medidas para manter seus atletas afastados da bandidagem” (Veja, 14/7/2010, p. 88). Essa crítica relaciona-se com o posicionamento do jornalismo de Veja no já analisado texto 8 em relação ao envolvimento de atletas famosos e mais especificamente de jogadores do Flamengo com o crime. Lembramos que, como explicamos no Capítulo 1, o processo penal possui uma fase investigatória, que é a fase de inquérito policial. Nessa fase, os possíveis envolvidos são considerados suspeitos ou investigados por poderem ter cometido uma conduta delitiva. 198 Concluídas as investigações, a polícia envia o inquérito policial para o Ministério Público, indiciando os suspeitos. Assim, nesta fase, diz-se que os suspeitos foram indiciados. O Ministério Público, por meio de seu Promotor de Justiça ou Procurador da República 61 , se convencido da ocorrência do crime, irá oferecer denúncia ao Tribunal de Justiça. O juiz, por sua vez, decidirá se instaura ou não a ação penal. Instaurada a ação penal, é nesse momento que os denunciados tornam-se réus. Após o julgamento, eles são então sentenciados pelo juiz, que é a autoridade competente para tanto no Brasil, sendo considerados culpados 62 ou inocentes e, consequentemente, absolvidos ou condenados. Feita essa explanação, compreende-se, assim, que, no momento em que a reportagem é publicada, Bruno é ainda investigado pela polícia, sendo, portanto, suspeito do assassinato de Eliza Samúdio, já que nem mesmo a denúncia do Ministério Público havia chegado à Justiça, o que só ocorreu em 03/08/2010 . Diante dessas explicações, percebe-se um direcionamento por parte do produtor do texto de uma representação de Bruno como autor da morte de Eliza Samúdio e sentido em potencial de punição, antes mesmo do processo judicial, como demonstramos, o que configura uma condenação previamente ao processo Legal. Além disso, o sign-maker ainda responsabiliza o Flamengo pelo envolvimento de atletas com o crime. Em resumo, por meio dos diversos modos e recursos semióticos mostramos como os suspeitos de assassinar Eliza Samúdio são representados pela reportagem de Veja. Inicialmente ressaltamos que o crime é representado a partir de Apreciações, que o caracterizam como repugnante, bárbaro e cruel. Os suspeitos são representados como pessoas violentas. Bruno, o principal suspeito e o que mais nos interessa, é representado no texto como uma pessoa fria e egoísta, resumindo-se num psicopata. Além disso, verificamos que o texto ora analisado não somente representa Bruno como autor da morte de Eliza Samúdio, como também se posiciona a partir de um direcionamento de punição, mesmo antes dos ritos processuais cabíveis. 3.4 A representação dos suspeitos no caso Eliza Samúdio 61 A diferenciação no nome se dá apenas em relação à esfera de atuação. No Ministério Público Federal (MPF), o membro do MP é denominado Procurador(a) da República e atua nos casos de matéria federal, definidas pela Constituição da República. Nos Ministérios Públicos Estaduais e do Distrito Federal, o membro do MP é chamado de Promotor(a) de Justiça e trabalha nos demais casos, excluídos os de atuação do MPF. 62 Lembramos, mais uma vez, que empregamos o termo culpados ou culpabilidade em sentido genérico, não se relacionando ao sentido jurídico do termo. 199 Nesta seção apresentaremos de modo mais sistemático como os suspeitos da morte de Eliza Samúdio são representados nos textos aqui analisados. Discutiremos, por isso, os resultados encontrados nas seções anteriores, observando, da mesma forma que fizemos no caso Isabella Nardoni, possíveis direcionamentos de culpabilidade aos suspeitos nos textos da revista Veja. Neste capítulo, nossas análises mostram que, para a representação do caso em questão, recursos voltados para a percepção visual são mais explorados que recursos verbais, se comparado com o primeiro caso analisado, sobressaindo o emprego de cores, iluminação e imagens. Por meio da inter-relação entre os modos e recursos semióticos empregados, os suspeitos são representados como os prováveis autores da morte da modelo. Já o evento social em si é representado não somente como crime, mas também como um evento bárbaro e marcado pela crueldade. Cabe lembrar que oito pessoas foram oficialmente acusadas do assassinato de Eliza Samúdio. No entanto, apenas quatro suspeitos foram representados no conjunto de textos analisados: Bruno Fernandes; Dayanne dos Santos; Luiz Henrique Romão, conhecido como Macarrão; e Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola. Considerando que o suspeito mais representativo foi Bruno Fernandes, por ser uma pessoa famosa e por ser o suspeito de ser o mandante do crime, daremos mais destaque à representação dele. Bruno Fernandes, o principal PR desse evento social, da mesma forma que vimos no caso Nardoni, é representado nos textos analisados a partir de um viés negativo. No exame do modo verbal, por exemplo, demonstramos que a representação desse suspeito ocorre por meio de Julgamentos tanto de sanção social quanto de estima social negativos. Isso se dá a partir da insinuação de comportamentos de Bruno que seriam reprováveis socialmente, como o pedido para que Eliza abortasse, a negação do reconhecimento da paternidade da criança e o possível exercício de poder (financeiro), já que Bruno teria oferecido dinheiro a quem convencesse Eliza a abortar. Essas representações projetam, como demonstramos ao longo das análises, a imagem de um sujeito frio, manipulador e que usa seu poder econômico para impor sua vontade à revelia da lei. Bruno é ainda representado como um sujeito frio, representação que é projetada não somente pelo modo verbal, mas também por imagens. Apesar de ser representado por olhar de demanda, o que estabeleceria uma relação com PI, Bruno é representado por expressão facial fechada e séria, o que parece projetar uma pessoa que não expressa emoções. Essa representação, associada ao contexto da representação de um homicídio em que se é um dos principais suspeitos, parece projetar, com isso, a imagem de um sujeito frio e, portanto, 200 passível de ser autor do crime. Essa representação assemelha-se à do caso anterior, o do caso Isabella Nardoni, em que a expressão facial dos suspeitos denota ausência de emoções, remetendo a essa frieza no comportamento. Além disso, a representação de um sujeito frio pode ser percebida nos Julgamentos de Estima Social negativa, que emitem valorações acerca do comportamento do suspeito. Projeta-se aí uma pessoa não somente fria, mas também cínica, tendo em vista a informação de que ele frequentava festas concomitantemente ao período em que a vítima era agredida e mantida em cativeiro, conforme demonstramos na análise do texto 9. Acrescente-se a isso a representação de Bruno como uma pessoa egoísta. O modo verbal nos textos 8 e 9 evidencia essa representação por meio de Julgamentos de Estima Social em que Bruno se mostra mais preocupado consigo mesmo. A única preocupação que os textos revelam que ele teve em relação à morte de Eliza é com um possível prejuízo à sua carreira como jogador. Acrescente-se ainda a representação de Bruno como uma pessoa descontrolada emocionalmente e agressiva, projetada por meio do modo verbal a partir do emprego tanto de Estima quanto de Sanção Social, uma vez que Bruno teria agredido Eliza exigindo que ela negasse que o filho seria dele e teria ficado “descontrolado” com a notícia da gravidez. Neste ponto, é importante comentar que todas as representações convergem para a projeção de uma imagem extremamente negativa do suspeito. Com efeito, as representações como um todo permitem construir uma representação maior do ex-goleiro do Flamengo, que é a de um psicopata, capaz, portanto, de orquestrar as ações que teriam culminado com a morte de Eliza. Da mesma forma que vimos no caso Nardoni, a representação do suspeito a partir de um ponto de vista negativo permite que o leitor associe esse sujeito ao assassino, muito embora os textos analisados tenham sido publicados na fase de investigação. Isso, como temos afirmado, parece direcionar a uma prévia atribuição de autoria e culpabilidade. É preciso destacar que há uma representação positiva do ex-goleiro do Flamengo, sobretudo no que diz respeito a sua trajetória para chegar à fama. Nesse ponto, o sign- maker utiliza-se da narrativa de vida como estratégia argumentativa. Por um lado, essa representação pode ter como sentido potencial um esclarecimento para o leitor sobre de quem se está falando: trata-se de uma pessoa famosa. Por outro, por meio da narrativa de vida, projeta-se a caracterização de Bruno como alguém sem estudos e que chega repentinamente à fama. Isso permite que se depreenda a representação de um sujeito 201 imaturo, representação que pode ser entendida como direcionada a explicar as ações de Bruno, ou seja, o assassinato de Eliza Samúdio. Além disso, como já mencionamos, nossas análises destacaram ainda a representação de Bruno como uma pessoa de elevada classe econômica. Essa representação direciona a um significado de poder, como visto no texto 8 – em que Bruno teria oferecido dinheiro a quem a fizesse Eliza abortar e na minirreportagem do layout 8.4, que trata do envolvimento de astros do futebol com o crime, como se estivesse acima da lei. Esses dados nos levam à representação de Bruno como uma pessoa famosa, mas inconsequente e que se acha acima da lei. É preciso pensar com mais cuidado nessa representação e nos possíveis sentidos que ela pode criar. Parece que, ao formular essa representação, o texto jornalístico acaba por mostrar, mesmo que não seja de uma forma muito explícita, talvez o que seja um problema social no Brasil: justamente que possivelmente classes mais favorecidas economicamente exercem certo poder sobre os mais pobres. Embora esse não seja um objetivo de nossa pesquisa, é um dado que chama a atenção. Relacionado a isso, ainda que não diretamente, está a representação do mundo do futebol, que segundo os textos analisados era também o mundo da vítima. Esses textos representam o meio do futebol a partir de um estilo de vida que sugere ser socialmente reprovável, de orgias e horror, como o próprio Bruno afirma na entrevista presente no texto 8. Percebe-se, então, que o mundo do futebol é projetado como um mundo promíscuo, de fama, de dinheiro e muitas mulheres. A representação do mundo do futebol é interessante no contexto do evento em análise, já que ela também direciona a uma representação do ex- goleiro do Flamengo. Assim, o mundo do futebol representado também chama nossa atenção, já que parece projetar um ambiente ruim, no qual Eliza estava também envolvida. É preciso, então, pensar nos sentidos dessa representação. Embora a representação do mundo do futebol fuja ao escopo desta pesquisa, entendemos importante destacá-lo, já que se refere diretamente ao suspeito, contribuindo para a representação dele e também da vítima. Como demonstramos, o mundo do futebol é representado como um mundo de comportamentos negativos em que seus “astros” parecem se relacionar com o crime sem se preocupar com alei. Isso projeta uma representação de Bruno, enquanto jogador de futebol e que se acha acima da lei, como autor do assassinato de Eliza Samúdio. É preciso considerar ainda que a orquestração dos modos visuais, como layout, imagens e cores, direcionam uma representação de Bruno à autoria do crime. Nos três 202 textos analisados, o emprego das imagens e cores cria uma forte conexão entre os elementos textuais levando a uma forte integração imagética e intermodal. Essa intensa integração evidencia a forte relação de Bruno com a morte de Eliza Samúdio. Percebemos então que, ao representarem Bruno a partir de uma forte conexão imagética, ao sugerir o assassinato e a morte de Eliza, os textos investigados direcionam a compreensão de Bruno como autor do crime. O texto 9 vai até mesmo mais além, ao relacionar Bruno ao assassinato graças a uma série de recursos visuais. Nesse texto, vale a pena lembrar, por meio das cores, por exemplo, o vermelho, remete-se ao sangue derramado no esquartejamento, ao que se soma a expressão facial do suspeito sem estabelecimento de interação com o leitor, imagem que revela não somente um sujeito frio, mas também o autor do assassinato de Eliza. Podemos observar, portanto, que a atribuição de autoria do crime a Bruno ocorre pelo jogo de significados percebidos por meio dos diversos recursos semióticos empregados, especialmente as cores e imagens. Em razão desses recursos, Bruno é, em suma, representado, nesse momento em que é tido como o principal suspeito da morte de Eliza Samúdio, como rico e poderoso, pessoa perigosa e fria, capaz, portanto, de assassinar uma pessoa. Tendo em vista que a morte da modelo é representada pelos textos analisados como assassinato, direciona-se a representação de Bruno para o significado de assassino. Faz-se importante ainda comentar a representação do evento morte de Eliza nos textos analisados. Neles, o evento social “sumiço e morte de Eliza Samúdio” é representado como um evento mais que sórdido ou bárbaro e protagonizado por bandidos, como vimos no texto 9. A representação do evento é importante para nossa investigação, pois, como temos visto, os textos analisados, ao associarem os suspeitos à autoria do crime, projetam para eles a representação de bandidos, o que recai em especial sobre Bruno Fernandes. Além disso, a representação do evento vai numa escala que o retrata inicialmente como sumiço e termina com um crime bárbaro. Além de destacar a representação do evento social, cumpre destacar os outros suspeitos do crime, suspeitos que aparecem em menor escala nos textos aqui analisados, tendo em vista que aquilo que pode ter levado a história à imprensa é o fato de Bruno ser famoso à época do crime. Comecemos com Luiz Henrique Romão, conhecido como Macarrão. Ele é representado como uma pessoa frustrada profissionalmente e muito próxima a Bruno: seu amigo de infância e braço direito do ex-goleiro do Flamengo. Além disso, é representado como alguém que o admirasse muito. Ao representá-lo assim, como melhor amigo de 203 Bruno, principal suspeito; como adorador desse amigo; como braço direito, os textos podem suscitar sentidos potenciais de que o suspeito em questão seria mesmo capaz de se envolver em crime pelo amigo. Acrescente-se a isso ainda que essas representações tendem a fazer com que o leitor entenda que se trata de uma morte planejada, já que envolveu amigos. Outro integrante do grupo suspeito do sumiço e morte de Eliza Samúdio é Dayanne dos Santos, esposa de Bruno à época do crime. Como vimos, ela é representada como a esposa traída, mas adoradora de Bruno. Embora tenha sido mencionada poucas vezes nos textos analisados, inclusive porque não se trata de um corpus extenso, a representação de Dayanne pode ser comparada à de Macarrão no que diz repreito à adoração por Bruno. Essa representação se mostra importante, como já afirmamos, pois cria o sentido em potencial de que se trata de alguém que se sujeitaria a participar do crime. Como ocorre com o caso de Macarrão, a representação de Dayanne pode sugerir no leitor um crime premeditado, inclusive porque as representações não são isoladas, mas sim relacionadas em um mesmo contexto. Cabe lembrar que posteriormente, em seu julgamento, Macarrão afirmou que a morte de Eliza fora planejada por Bruno, informação que aparece sugerida nos textos analisados em função dos dados apontados. Além dos suspeitos acima, outro investigado à época era Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola. Se Macarrão e Dayanne são representados mais a partir do relacionamento do Bruno, a representação de Bola ganha contornos negativos por uma relação direta com o crime. Com efeito, ele é caracterizado como alguém com desvios de conduta, sendo representado, sobretudo, como o executor de Eliza. Esse suspeito aparece em apenas um dos textos analisados e sua representação se dá no sentido de explicitar as agressões que Eliza teria sofrido. No caso de Bola, portanto, a atribuição de autoria é explícita, já que ele é apontado como o “executor”. Nesse sentido, os textos, tendo em vista os dados apontados para as representações dos suspeitos, constroem uma representação de um crime efetivamente praticado, crime que provavelmente foi planejado por Bruno, teve o apoio de Dayanne e Macarrão e a execução de Bola. Nesse caso, o executor é explicitamente indicado nos textos, ao passo que a autoria do mando do crime, cujas suspeitas recaem sobretudo sobre o ex-goleiro do Flamengo, é atribuída aos suspeitos em questão por meio dos recursos anteriormente apontados. Os dados demonstram, assim, que, para o caso em análise, os textos direcionam o leitor à atribuir culpabilidade dos suspeitos. 204 Discutidas as representações dos suspeitos, foco principal desta pesquisa, convém ressaltar a representação da vítima. Embora não seja o foco da nossa investigação, a representação da vítima nos textos analisados é um dado que merece atenção. Como vimos, nossas análises mostram que Eliza Samúdio é representada como um fantasma na vida de Bruno, caracterizando-a, dessa forma, como uma possível ameaça à carreira dele. A ideia de fantasma, percebida por meio das análises dos modos visuais, como layout, cores, iluminação e imagem, permite depreender nos textos analisados dois possíveis significados, que convém lembrar aqui. Um está relacionado à pressão que ela possivelmente fazia para que o ex-goleiro do Flamengo assumisse o filho, que ela dizia ser de Bruno. Podemos pensar que se projeta o sentido de que, porque o perturbava como um fantasma que andava atrás dele, ela acabou assassinada. O outro remete à possibilidade de ela estar morta, anunciando, assim, seu assassinato. Em ambos os casos, os possíveis sentidos associados à ideia de fantasma podem ser considerados como ameaça à carreira de Bruno Fernandes. Nesse sentido, observamos que os textos analisados relacionam essa pressão da modelo ao assassinato com certa naturalização. Outra elemento da representação de Eliza que pode ser destacado aqui reside no seu interesse por futebol. Ela foi representada como uma pessoa fanática por futebol e também obcecada por Bruno, representações observadas, sobretudo, nas análises do modo verbal. Essas características permitem depreender uma representação mais forte, que é a de uma pessoa com problemas psiquiátricos. Além disso, as imagens de Eliza apresentadas são comumente aquelas em que ela figura ao lado de jogadores de futebol, remetendo ao que pejorativamente se chama de “maria chuteira”. Ora, isso aponta para uma representação de mulher que saía com diversos homens e que se oferecia sexualmente a jogadores por interesse, algo que tende a ser levado em conta na cobertura do crime. Essas considerações, embora não façam parte do escopo desta pesquisa, se fazem pertinentes e necessárias, tendo em vista ser esta pesquisadora uma mulher que, ao se deparar com os textos, percebe no caso algo, não raro, mobilizado para justificar crimes contra mulheres. Embora os suspeitos sejam representados de forma negativa e tenham a autoria do crime atribuída a eles e embora o evento social seja representado como algo que ultrapassa a barbárie, a representação da vítima, como uma mulher que saía com vários homens, fanática por futebol e que parecia “perseguir” o ex-goleiro do Flamengo, parece direcionar, em termos de possíveis sentidos, à ideia de que Eliza Samúdio teve o fim que teve em função de suas ações. Com efeito, a representação da vítima parece, em suma, criar um sentido em potencial de que foi ela morta por ter procurado ou, até mesmo, 205 merecido. Assim, o que parece é que o crime é representado como bárbaro pelas agressões sofridas pela vítima, com requintes de crueldade, mas parece ser tratado como um caso natural de agressão a uma mulher que não soube se comportar. A partir dos dados aqui apresentados, como já afirmamos, é preciso pensar nos efeitos sociais dessas representações. É preciso lembrar que a imprensa veicula não informações acerca de um caso, de um evento social, mas discursos constitutivos dos próprios eventos, fazendo com que o evento por ela constituído possa ser tomado como verdade. Assim, embora nosso foco seja na representação dos suspeitos, a representação da vítima chama muito a atenção por parecer veicular, de forma naturalizada, um discurso machista, quase que justificando o assassinato da moça. CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao final deste trabalho, em que nos dedicamos ao estudo da representação, pelo discurso jornalístico, de suspeitos de homicídios com negativa de autoria em publicações da Revista Veja. Cumpre-nos, nesta seção, fazer, por isso, um breve balanço de nossa pesquisa, levando em consideração os objetivos e questões apresentados inicialmente. Em resumo, tentaremos expor o que pode ficar de nosso trabalho a título de contribuição em relação tanto ao objeto de estudo quanto ao nosso campo de investigação. Ao longo do trabalho, buscamos primordialmente discutir a representação de sujeitos que negaram a autoria de crimes em que eram tidos como suspeitos, no caso o assassinato de Isabella Nardoni e de Eliza Samúdio, observando se nos textos se insinuavam direcionamentos discursivos de atribuição de autoria e culpa. Isso foi feito a partir da seleção e análise de textos publicados pela Revista Veja durante o período de investigações por parte da polícia, antes, portanto, do ajuizamento de ação penal. Com esses procedimentos, procuramos explicitar os diferentes recursos semióticos empregados na representação dos suspeitos, discutindo se a representação por meio deles construída poderia levar à compreensão de uma atribuição de autoria, de culpabilidade ou de julgamento prévio dos suspeitos antes do julgamento Legal. Nossa pesquisa foi guiada pelas seguintes perguntas: como o discurso jornalístico da Revista Veja representa os suspeitos/investigados envolvidos em cada caso? Há na representação um direcionamento de atribuição de autoria aos suspeitos? Há na representação veiculada uma tendência de culpabilidade e/ou julgamento prévio (em detrimento do julgamento Legal)? Acreditamos que os objetivos foram atingidos, uma vez que os dados obtidos ao longo deste trabalho nos mostraram que os suspeitos dos casos em jogo são representados, nos textos analisados, a partir de um ponto de vista que permite relacioná-los à autoria do crime. Essa representação foi explicitada por meio da descrição e destaque dos modos e recursos semióticos que se mostraram mais evidentes para essa percepção. Com efeito, demonstramos que, por meio da orquestração de diferentes modos e os recursos semióticos, os sentidos em potencial, no conjunto de textos analisados, induzem a um pré- julgamento dos suspeitos antes mesmo do curso do processo penal, ainda que, nos dois casos analisados, a representação ocorra de forma diferente. No caso de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, essa representação ocorre majoritariamente por meio do modo verbal, a partir do uso da narrativa de vida enquanto recurso semiótico (e argumentativo) e das diversas marcas de avaliatividade presentes no texto, como demonstramos. De modo geral, o casal Nardoni é representado a partir de uma 207 atribuição de características e comportamentos negativos, o que vai permitindo ao leitor construir uma representação de pessoas marcadas por fracassos pessoais e profissionais e, sobretudo, por desequilíbrio emocional, algo que pode levar ao sentido em potencial de assassinos. Já no caso do assassinato de Eliza Samúdio, mais especificamente, foram mais explorados os modos visuais, sobretudo cores e imagens. Bruno, principal suspeito à época da morte de Eliza Samúdio, é representado mais a partir de sua frieza perante a situação. Assim, por meio de uma exploração de imagens e jogo de cores e por meio de fortes integrações intermodais, os textos explicitaram toda crueldade a que Eliza Samúdio fora exposta. Em ambos os casos, portanto, fica evidente o emprego de diferentes modos semióticos que, nos textos analisados, produzem sentidos em potencial que podem ser entendidos como direcionados a uma representação dos suspeitos como prováveis agentes dos crimes, o que era o foco desta pesquisa. O que é importante frisar, de todo modo, é que as análises demonstram que, nos dois casos, os suspeitos são representados de forma a serem associados aos assassinatos, permitindo, assim, compreender a atribuição de culpa e autoria a eles. Isso, aliás, explica o posicionamento argumentativo presente nos textos que denominamos de punitivista, isto é, um posicionamento ideológico segundo o qual é necessário punir e, para punir, é preciso ter culpados. No caso da morte de Isabella Nardoni, o discurso é direcionado à busca de punição aos culpados, como destacamos na análise do texto 2. Ao representar o casal a partir de descrições de comportamentos negativos, salientados pela explicitação de muitos Julgamentos, tanto de Sanção Social quanto de Estima Social Negativos, ao longo das análises, os textos vão permitindo se construir uma imagem negativa dos suspeitos, compreendidos, então, como os prováveis assassinos. No caso da morte de Eliza Samúdio isso é ainda mais evidente, uma vez que, como se viu na análise do texto 8, chega-se a cobrar do empregador de Bruno è época (o time do Flamengo) uma atitude em relação ao suspeito, sugerindo-se a demissão dele, por exemplo, sem que tivesse ainda ocorrido o devido processo legal para considerá-lo culpado. Essa constatação nos leva a uma necessária reflexão: podemos, então, nos questionar se essas representações não levariam a um direcionamento de julgamento prévio e condenação? Já não estariam os suspeitos aí tendo sua liberdade cerceada antes de uma condenação legal? E a eles foi dado o direito de se posicionarem? E as questões podem 208 continuar: a atribuição de autoria verificada em alguns textos e a narrativa das ações que culminaram com a morte de Isabella dadas como “fatos”, no infográfico do texto 4, assim como a narração das agressões sofridas por Eliza Samúdio, a partir de afirmativas, não interferiria na posterior avaliação do júri, tendo em vista a imagem de pessoas violentas e cruéis que se construiu para os suspeitos nos textos jornalísticos analisadas? É preciso lembrar que ambos os casos estudados aqui foram de competência do Tribunal do Júri, e, portanto, foram julgados por júri popular, que é composto por pessoas da sociedade civil. Não temos o objetivo de apresentar respostas a esses questionamentos, que fogem ao escopo da pesquisa. Também não estamos julgando o trabalho da imprensa, como frisamos em diversos momentos, nem o das instituições de segurança e judiciais. Esses questionamentos têm por finalidade mostrar a necessidade de se refletir sobre a retextualização desses tipos de eventos sociais pela imprensa e seus possíveis impactos na sociedade e, claro, na opinião pública. É preciso ainda discutir o posicionamento que a imprensa assume em relação a esses crimes de grande repercussão que ela noticia. Embora não seja o escopo desta pesquisa, esse é um dado decorrente do trabalho realizado e algo que merece atenção. Na cobertura dos casos analisados, os textos apresentam, como vimos, um viés acusatório e punitivista, dando enfoque à busca de culpados para o crime. Esse posicionamento associado à representação bastante negativa dos suspeitos, nos dois casos estudados, parece levar, mesmo que de forma velada a uma forma de julgamento prévio que fragiliza o princípio da presunção de inocência, podendo causar danos irreparáveis à imagem de possíveis suspeitos julgados inocentes ou enviesar o julgamento promovendo injustiça. Com efeito, em caso de posterior absolvição, poderia haver reparação à imagem dos suspeitos? Por quem? Estaria a imprensa apenas cumprindo seu papel de informar ou estaria alimentando o leitor com questões sensacionalistas, explorando o caso pelo seu viés emocional? Isso não faria com que os envolvidos já fossem previamente julgados (e condenados)? Em que medida, em casos como esses, que tanto repercutiram, a percepção para o julgamento pelos membros do júri não estaria já influenciada pela imagem que a imprensa cria dos suspeitos, prejudicando o julgamento? É preciso lembrar que a imprensa veicula não informações acerca do caso, mas discursos constitutivos do próprio evento. Machin (2007, p. 14, tradução nossa) ao afirmar que o discurso do ‘terrorismo mundial’ pode influenciar na forma como organizamos nossas forças policiais, nossos sistemas de transporte, os tipos de práticas 209 religiosas que serão permitidas, que tipos de livros podem ser impressos e que tipos de pessoas podem ser bombardeadas legitimamente na defesa da liberdade 63 mostra que determinados discursos podem influenciar ações sociais. A partir dessa ideia, podemos relacionar a citação acima aos casos em análise, para considerar os possíveis impactos sociais do discurso. Os textos aqui analisados, ao trazer um viés acusatório e punitivista, construindo discursivamente a culpabilidade dos suspeitos (ao trazer na capa, por exemplo, o enunciado “foram eles”, associando-os assim aos assassinos da menina), ainda que relativizem isso, podem (e acreditamos que isso tenha ocorrido) ter colaborado para levar a sociedade a considerar culpados os suspeitos antes do devido julgamento pelo judiciário com o direito ao contraditório e à ampla defesa, direitos garantidos por nossa Constituição. Como bem lembra Machin (2007, p. 14, tradução nossa), “uma vez que o discurso se torna dominante e começa a ser realizado por diferentes modos de comunicação, toma efeito de verdade”64. Em outros termos, quando o discurso é estabelecido, quando uma realidade é discursivizada, quando uma realidade é representada, desencadeia-se uma série de outras ações e realizações na sociedade (MACHIN 2007, p.14). É preciso, por isso, refletir sobre essa (re)construção (ou, retextualização) da realidade pela mídia. É preciso pensar numa atuação que garanta a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, o direito à informação, mas também que se assegurem princípios fundamentais no Estado Democrático de Direito, como o princípio da presunção de inocência e direitos fundamentais como a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. Assim, tendo em vista os resultados obtidos e a reflexão a que eles nos levam, acreditamos que esta pesquisa deixa uma contribuição, ainda que modesta, não apenas para o campo dos estudos da linguagem, mas também para os estudos da Comunicação e, por que não dizer, do Direito. Isso porque, como mostramos, a forma como os suspeitos são representados nos textos aqui analisados permite compreender que há um direcionamento de culpabilidade e condenação prévia. Embora não seja de modo geral explícito, esse direcionamento pode ser percebido nos sentidos em potencial da orquestração dos modos e recursos semióticos empregados na construção do texto. Essa constatação, por sua vez, mostra que é preciso discutir não o cerceamento do direito à liberdade de expressão (ISSO 63 No original: “The discourse of ‘world terrorism’ can influence the way that we organise our Police forces, our transport systems, the kinds of religious practices that are permitted, what kinds of books can be printed, and which kinds of people can be legitimately bombed in defence of ‘freedom’” (MACHIN, 2007, p.14). 64 No original: “Once discourses become dominant and become realised in different modes of communication they take on a quality of truth”.(MACHIN, 2007, p.14) 210 JAMAIS), mas os limites éticos e constitucionais do trabalho da mídia, pois, como mostramos, uma representação excessivamente negativa dos suspeitos pode violar outros dispositivos de nossa Constituição. Além disso, como afirmamos, nosso trabalho apresenta uma aproximação com a Linguística Forense. Em um direcionamento futuro, acreditamos ser possível ampliar o campo de atuação do analista do discurso. Caso um suspeito entenda que teve sua imagem, sua vida privada violada, poderia ele recorrer ao Judiciário para buscar reparo a esse dano? Com certeza sim. Para isso, ele teria que provar os danos. Nesse ponto, acreditamos que os trabalhos em Análise do Discurso podem se desenvolver e futuramente serem usados em peças processuais desse tipo de Ação, uma vez que se poderiam apresentar análises, a partir de teorias linguísticas cientificamente reconhecidas, na intenção de desvelar certas representações para efeito de convencimento do juiz quanto à violação de direitos. Com efeito, os sentidos potenciais ou os efeitos de sentido produzidos no discurso podem ser evidenciados em processos, deixando-se, no entanto, a cargo do juiz decidir se houve ou não o dano. Como afirma Olsson (2008, p. 14), “o trabalho do linguista [em um julgamento] é apresentar uma opinião e explicar aquela opinião”. Mais uma vez reiteramos que não estamos julgando o trabalho da imprensa, nem estamos defendendo que não se possa veicular informações sobre acusados em qualquer crime que seja, nem que, se considerados culpados, não devam ser punidos. O que buscamos enfatizar é a necessidade de não perder de vista, quando da informação sobre possíveis crimes, outras garantias constitucionais, como o direito ao devido processo legal, julgado pela autoridade competente – o juiz –, além de outros direitos garantidos pela nossa Constituição, como o direito ao contraditório e à ampla defesa 65 , assim como o direito à inviolabilidade da imagem da vida privada 66 . Nesse sentido, acreditamos que nosso trabalho deixa uma contribuição não somente ao lançar luz sobre representações sociais ligadas a posições ideológicas na representação de suspeitos de homicídios com negativa de autoria, mas também ao alertar sobre a naturalização de práticas sociais, como a atribuição de autoria de um crime e possíveis julgamentos prévios, sem que os envolvidos possam se defender e sem aguardar o julgamento pelo Judiciário. 65 Cf. Art. 5º LV, CF/88 66 Cf. Art. 5º, X, CF/88 REFERÊNCIAS Adoração. In.: FERREIRA. A. B. H. Dicionário Aurélio Eletrônico. Século XXI. Versão 3.0. Leixkon informática Ltda. Ed. Nova Fronteira, Nov. 1999. Algoz. In.: FERREIRA. A. B. H. Dicionário Aurélio Eletrônico. Século XXI. Versão 3.0. Leixkon informática Ltda. Ed. Nova Fronteira, Nov. 1999. ARAÚJO, E. R.; SOUZA, E. C. Obras Jornalísticas: uma síntese. Brasília: Vestcon, 2008. AZEVEDO, I. A escritura do processo penal e as influências da mídia em caso de repercussão nacional. Dissertação (Mestrado em Cognição e Linguagem) – Centro de Ciências do Homem, Universidade Estadual do Norte Fluminense, 2013. BARBOSA, H. H. A. L. Uma proposta de leitura da linguagem verbo-visual: relações dialógicas em uma capa e respctiva reportagem da revista Veja. Mestrado (Dissertação). Universidade de Taubaté, 2010. BARROS, L.F. de. O sensacionalismo da imprensa na cobertura de crimes de natureza psicopatológica e suas consequências. Revista CEJ, Imprensa Investigativa, Brasília, v.5, n. 20, p. 23-29, jan./mar. 2003. BELTRÃO. L. Corpo do texto. In.: RABAÇA. C.A.; BARBOSA, G.G. Dicionário de comunicação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2001. BEZEMER, J; KRESS, G. Writing multimodal texts: A social Semiotic Account of Designs for learning. Written Communication, v. 25,Sage publications p.166-195, 2008. ______. Visualizing English: a social semiotic history of a school subject. Visual Communication. v.8. n.3, 2009. BRASIL. Lei nº 12.830/2013. Dispõe sobre a investigação criminal conduzida pelo delegado de polícia BRASIL. Decreto-lei nº 3.689/1941. Código de Processo Penal. BRASIL. Decreto-lei nº 2.848/1940. Código Penal. BRASIL. Constituição Federal da República, 1988. BRITO, R. C. L.; PIMENTA, S. M. D. O. A Gramática do Design Visual. In: PIMENTA, S.; AZEVEDO, A.; LIMA, C. Incursões semióticas: teoria e prática de GSF, multimodalidade, semiótica social e ACD. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2009. P.87-117 CALIXTO, C. C. Direito e mídia: linguagem e poder no mercado de discursos públicos. In.: 1º Congresso Internacional de Direito e Contemporaneidade: Midias e direitos da sociedade em Rede. 30, 31 mai, 01 Jun/2012. Santa Maria/RS UFMS. Anais (on line). Disponível em: < http://coral.ufsm.br/congressodireito/anais/2012/18.pdf> Acesso em 10 out 2018. CAMPOS, M. S. Mídia e Política: a construção da agenda nas propostas de redução da maioridade penal na Câmara dos Deputados. Opinião Pública. Vol 15(2) p. 478-509. 2009 212 CARVALHO, F. F. Linguística Sistêmico-funcional e Semiótica Visual: Contribuições da abordagem multimodal para a análise dos significados (re) produzidos pelo design da impresna escrita e eletrônica. Anais do SILEL. Volume 1. Uberlândia: EDUFU, 2009. CAVALCANTI. P. Análise introdutória sobre a imprensa investigativa na cobertura do caso Isabella Nardoni. Web artigos. 2012. Disponível em: https://www.webartigos.com/artigos/analise-introdutoria-sobre-a-imprensa-investigativa- na-cobertura-do-caso-isabella-nardoni/98230#ixzz59S21cfyP. Acesso em: 11 mar 2018. CHARAUDEAU. P. Por uma teoria dos sujeitos da linguagem. In.: MARI. H.; MACHADO I. L.; MELLO. R. Análise do Discurso: fundamentos e práticas.Belo Horizonte: Núcleo de Análise do discurso – FALE/UFMG, 2001. CHARAUDEAU. P. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2009 COLARES, V. Apresentação. In.: Coulthard, M.; COLARES, V.; SOUSA-SILVA, R. (Orgs). Linguagem & Direito: os eixos temáticos [e-book]. Recife: ALIDI, 2015. Disponível em http://alidi.com.br/media/filer_public/87/2e/872e6e8e-f834-4232-874c- f1901dbe9b65/linguagem_e_direito_-_eixos_tematicos.pdf. Acesso em 17 nov 2017. CRUVINEL NETO, Pedro Nunes. A influência midiática nas sentenças criminais: a relevância da atenuação na dosagem da pena. In: ÂMBITO JURÍDICO, Rio Grande, XVI, n. 108, jan 2013. Disponível em: http://www.ambito- juridico.com.br/site/index.php/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12649&revista_ caderno=3. Acesso em 22 jul 2014. D'OLIVEIRA, M. C. D'OLIVEIRA, M.C; CAMARGO, M.A.S. A midiatização no Direito Penal: Uma conjuntura pragmática sensacionalista. Anais do 1º Congresso de Direito e contemporaneidade: mídia e direitos da sociedade em Rede. UFMS, 2012. Disponível em: http://coral.ufsm.br/congressodireito/anais/2012/1.pdf. Acesso em 15 set 2017 DOMINGUEZ, D. M. M. A influência da mídia nas decisões do juiz penal. Revista do Curso de Direito UNIFACS. Nº 101, fev 2009. Disponível em: http://www.revistas.unifacs.br/index.php/redu/article/view/507/349. Acesso em: 7 jul 2014. ELÓI, J. Psicopata: 7 Características Centrais. Disponível em: http://www.psicologiafree.com/conselhos_praticos/psicopata-7-caracteristicas-centrais/. Acesso em 11 out 2018. EMEDIATO, W. Os lugares sociais do discurso e o problema da influência da regulação e do poder nas práticas discursivas. In.: LARA, G. MACHADO, I. EMEDIATO, Wander. Análises do discurso hoje, volume 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Pag. 71-92 FAIRCLOUGH, N. Media Discourse. Londres, E. Arnold, 1995. FAIRCLOUGH, N.; MAGALHÃES, I. (Trad) Discurso e mudança social. Brasília: Ed. Unb, 2001. FIORIN, J.L. Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 2007. FLORES, M. P. O discurso midiático entre a construção da justiça e a desconstrução do direito. Anais do 2º Congresso Internacional de Direito e Contemporaneidade: mídias e 213 direitos da sociedade em rede. Disponível em http://coral.ufsm.br/congressodireito/anais/2013/3-12.pdf. Acesso em 22 jul 2014. FREITAS, P. C. de. Pós-modernidade penal: a influência da mídia e da opinião pública nas decisões do tribunal do júri. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal de Uberlândia, 2016. GARCIA, N. D. A mídia versus o poder judiciário: a influência da mídia no processo penal brasileiro e a decisão do juiz. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Direito do Sul de Minas, 2015. GOMES, M. C. A Ação Social Midiatizada: Analisando a recontextualização de um evento social. Linguagem em (Dis)curso, Palhoça, SC, v. 10, n. 2, p. 293-313, maio/ago. 2010 GOUVEIA, C. A. M. Texto e Gramática: Uma introdução à linguística sistêmico- funcional. Matraga, Rio de Janeiro, v.16 n. 24/jan.jun. 2009. p. 13-47. GUALBERTO, C. L.; PIMENTA, S.M.O.; KRESS, G. Multimodalidade em livros didáticos de língua portuguesa: uma análise a partir da semiótica social e da gramática do design visual. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras, 2016 HALLIDAY, M. A. K. (Michael Alexander Kirkwood). Language as social semiotic: the social interpretation of language and meaning. Londres: Edward Arnold, 1978 HALLIDAY, M. A. K; MATTHIESSEN, C. M. I. M. An Introduction to Functional Grammar. ed. London, Melbourne: Edward Arnold, 2004. HERRERO S. V. F.; RODRÍGUEZ DOMÍNGUEZ, A. M. Periodismo de datos, infografía y visualización de la información :un estudio de El País, El Mundo, Marca y El Correo. BiD: textos universitaris de biblioteconomia i documentació, n. 34, 2015. Disponível em http://bid.ub.edu/es/34/herrero.htm. Acesso em 29 jun 2019. HODGE, B.; KRESS, G.. Social semiotics. Cambridge: Polity Press, 1988. IEDEMA, R.; FEEZ, S.; WHITE, P.R.R.. Appraisal and Journalistic Discourse. In.: IEDEMA, Rick; FEEZ, Susan & WHITE, Peter .R.R.. 1994. Media Literacy, Sydney, Disadvantaged Schools Program, NSW Department of School Education. Infográfico. In.: FERREIRA. A. B. H. Dicionário Aurélio Eletrônico. Século XXI. Versão 3.0. Leixkon informática Ltda. Ed. Nova Fronteira, Nov. 1999. JEWITT, C. The Routledge Handbook of Multimodal Discourse. Londres: Routledge, 2011 KOCHE. V.S.; MARINELLO. A.F. O Gênero textual reportagem e sua aplicação no ensino da leitura e escrita. Revista Trama - Volume 8 - Número 16 - 2º Semestre de 2012 - p. 139- 152. KRESS, G.. Multimodality: A Social semiotic approach to contemporary communication. London; New York: Routledge, 2010. _____. Multimodal Discourse Analisys. In.: GEE, J.P.; HANDFORD, M. The Routledge handbook of discourse analysis. Routledge, 2012. 214 KRESS, G..; VAN LEEUWEN, T. Multimodal discourse: the modes and media of contemporary communication. London: Arnold; New York: Oxford University Press, 2001. ______. Colour as a semiotic mode: notes for a grammar of colour. Visual Communication. October 1: 343-368, 2002. _____. Reading Images: The Grammar of Visual Design. Second Edition, London: Routledge, 2006. _____. Reading Images: The Grammar of Visual Design. London: Routledge, 1996. LIMA, C..H.P. e SANTOS, Z..B. Contextualizando o contexto: um conceito fundamental na Semiótica Social. In: LIMA. C.H.P.; PIMENTA, S.M.O e AZEVEDO, A.M.T. (Orgs.), Incursões Semióticas. Rio de Janeiro: Livre expressão, p. 30-47, 2009. MACHADO, I. L. A narrativa de vida como materialidade discursiva. Revista da ABRALIN, v. 14, p. 95-108, 2015. MACHIN, D. Introduction to multimodal analysis. London; New York: Oxford University Press, 2007. MARTIN, J. R. Close reading: functional linguistics as a tool for critical discourse analysis. In: Unsworth Len (Org.) Researching Language in schools and communities. London: Cassel, 2000, p.275 -302. MARTIN, J.R. WHITE, P.R.R. The Language of evaluation: Appraisal in English. Hampshire; Palgrave Macmillan, 2005. MARTIN, J. R; ROSE, D. Working with discourse: meaning beyond the clause. Londres: Continuum, 2007. MENDES, W. V. As circunstâncias do modelo sistêmico-funcional. In: SOUZA, Medianeira et al (Orgs.) Sintaxe em foco. Recife: PPGL/UFPE. 2012, p.271-302. MENDONÇA, T. C.; ROCHA, A.F. O. A deturpação do princípio da publicidade pela mídia durante a investigação policial: perspectivas críticas. Anais do 3º Congresso Internacional de Direito e Contemporaneidade: mídias e direitos da sociedade em rede. UFMS 2015. Disponível em: http://coral.ufsm.br/congressodireito/anais/2015/2-15.pdf Acesso em 10 jan 2016. MENUCI, J. M.; FERREIRA, L.P.; MENEGAT, I.G.C. A influência da mídia no processo penal. Ano XII, n. 03. NAMID/UFPB, 2016. Disponível em http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica. Acesso em 15 nov 2018. NATIVIDADE, C.; PIMENTA, S.M.O. Semióticas da(s) masculinidade(s) em um grupo de homens que exercem violência contra as mulheres. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras, 2012. OLIVEIRA, A. A. A interferência da mídia no animus dos jurados em decisões proferidas pelo tribunal do júri: um estudo do caso Eliza Samúdio. PUC-RJ, Departamento de direito, 2013. 215 OLIVEIRA. D. M. O Sistema de Avaliatividade: aspectos teóricos e práticos. Revista Fórum identidades. v. 15. 245-264. jan-jun 2014. OLIVEIRA, G. G. . Progressão temática e posição tema/rema em relato de crimes de morte em dois jornais distintos. Acta Scientiarum, Maringá, 2001, p.43-51. OLSSON, J. Forensic Linguistics. Londres e Nova York: Continuum, 2008. PAIVA, F. A. A leitura de infográficos da revista Superinteressante: procedimentos de leitura e compreensão. (2009) Dissertação. Universidade Federal de Minas Gerais – Faculdade de Letras. 205p. Peripécias. In.: FERREIRA. A. B. H. Dicionário Aurélio Eletrônico. Século XXI. Versão 3.0. Leixkon informática Ltda. Ed. Nova Fronteira, Nov. 1999. PIMENTA. S. M. O. A Semiótica Social e a Semiótica do Discurso de Kress. In.: MAGALHÃES, C.M. Reflexões sobre a Análise Crítica do Discurso. Belo Horizonte: Faculdade de Letras, UFMG, 2001. POMPEU, I. M. R. Mídia e atividade judicial: o princípio da imparcialidade do juiz e a presunção de inocência no contexto da sociedade da informação. Mestrado (Dissertação). Universidade de Fortaleza, 2018. RABAÇA. C. A.; BARBOSA, G.G.Olho. In.: RABAÇA. C.A.; BARBOSA, G.G. Dicionário de comunicação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2001. ROYCE, T. D. Intersemiotic Complementarity: A framework for multimodal discourse Analysis. In.: ROYCE, T. D.; BOWCHER, W. L. New Directions in the Analysis of Multimodal Discourse, Lawrence Erlbaum & Assoc: Mahwah, New Jersey, 2007. RUCHKYS, A. A.; ARAUJO, M. A. O. M. Análise do Discurso: em busca das in)congruências entre a vertente francesa e a anglo-saxã. In: MAGALHÃES, C. (Org.). Reflexões sobre a Análise Crítica do Discurso. Belo Horizonte: Faculdade de Letras, UFMG, 2001, p. 207-225. Disponível em: https://goo.gl/I69UEo SANTOS. Z. B. A concepção de texto e discurso para a semiótica social e o desdobramento de uma leitura multimodal. Revista Gatilho (PPGL/ UFJF. Online), v. 13, p. 8, 2011. SANTOS, Z. B..; PIMENTA, S.M.O. A representação e a interação verbal e visual: uma análise de capas e reportagens de revistas na perspectiva da gramática sistêmico-funcional e da gramática do design visual. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras, 2013. SAUSSURE. F. Curso de Linguística Geral. Trad. Antônio Chelini, José Paulo Paes, Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix, 2012. SCHLEPPEGRELL, M. J. Systemic functional linguistics. In.: GEE, J.P.; HANDFORD, M. The Routledge handbook of discourse analysis. Londres: Routledge, 2013. SILVEIRA, F. V. R. Ressignificando a ansiedade na aprendizagem e uso de línguas estrangeiras através das crenças: um estudo exploratório. Tese (Doutorado em Estudos da Linguagem) – Departamento de Letras do Centro de Teologia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio De Janeiro, 2012. 216 SILVEIRA, A. P. S. L. O papel da mídia na expansão do medo e consolidação da demanda punitiva. Dissertação (Mestrado em Ciências Criminais) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2016. SOUSA, S. C. T.; SOARES, M.E. O potencial retórico da avaliatividade em resenhas não acadêmicas. Veredas on-line. Atemática. PPG Linguística/UFJF – Juiz de Fora, 2012. P.133-149. TAVEIRA, V. R.; AZEVEDO, A. M. T. de. A metafunção intertextual. In.: LIMA. C.H.P.; PIMENTA, S. M. O e AZEVEDO, A. M. T. (Orgs.) Incursões Semióticas. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2009. TEIXEIRA, T. A presença da infografia no jornalismo brasileiro – proposta de tipologia e classificação como gênero jornalístico a partir de um estudo de caso. 2007. Revista Fronteiras – estudos midiáticos. Vol. IX. Nº 02, maio/agosto de 2007. Disponível em http://revistas.unisinos.br/index.php/fronteiras/article/view/5847. Acesso em 15 de outubro de 2018. TEIXEIRA. M. R.; WAINBERG,J.A. As propriedades do jornalismo sensacionalista: uma análise da cobertura do caso Isabella Nardoni. Dissertação (mestrado em comunicação) Faculdade de Comunicação Social, PUCRS, 2011. Veja. 9/4/2008. Editora Abril. Veja. 16/4/2008. Editora Abril. Veja. 23/4/2008. Editora Abril. Veja. 30/4/2008. Editora Abril. Veja. 14/5/2008. Editora Abril. Veja. 7/7/2010. Editora Abril. Veja. 14/7/2010. Editora Abril. VAN LEEUWEN , T. Introducing Social Semiotics. London: Routledge, 2005 _______________. Towards a semiotics of typography. Information Design Journal. London, Vol. 14, n. 2, p.139-155, 2006. VAN LEEUWEN, T.; DJONOV, E. Notes Towards a semiotics of kinetic typography, Social Semiotics. Guest Editors, 2015. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/10350330.2015.1010324. Acesso em 10 mar 2017. VAN LEEUWEN, T.; KRESS, G. Critical Layout Analysis. Internationale Schulbuchforschung. Vol 17, nº 1, Berghahn Books, Frankfurt: 1995, p. 25-43 VIAN JUNIOR, O. O Sistema de Avaliatividade e os recursos para gradação em Língua Portuguesa: questões terminológicas e de instanciação. DELTA. Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, v. 25:1, p. 99-129, 2009. 217 VIAN JUNIOR. O.; DIAS, R. Análise do Discurso Multimodal Sistêmico-Funcional de Livros Didáticos de Inglês do Ensino Médio da Educação Pública. SIGNUM: Estud. Ling., Londrina, n. 20/3, p. 176-212, dez. 2017. WHITE, P. Evaluative Semantics and Ideological Positioning in Journalistic Discourse. In: LASSEN, I. Image and Ideology in the Mass Media, Ed. Amsterdam/Philadelphia, John Benjamins, 2006. ____________ Appraisal: An overview. Appraisal Website Homepage. Disponível em: http://www.grammatics.com/appraisal/appraisalguide/framed/frame.htm . Acesso em 15 jul 2017. Anexo A 218 Anexo B 219 Anexo C 220 Anexo D 221 NEXO E Anexo 222 Anexo 223 Anexo 224 Anexo E 225 Anexo F 226 Anexo G 227 Anexo H 228 229 230 231 Anexo I 232 233 234